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O Testamento / Nora Roberts
O Testamento / Nora Roberts

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O Testamento

 

     O fato de que tivesse morrido não significava que Jack Mercy fosse menos filho de puta. Uma semana de morto não apagava sessenta e oito anos de viver como um cretino. Muitas das pessoas reunidas ao redor de sua tumba estariam encantadas de poder dizê-lo.

     O certo é que, funeral ou não, Bethanne Mosebly sussurrou essas palavras ao ouvido de seu marido enquanto permaneciam de pé em meio da erva enchente do cemitério. Ela sozinho estava ali pelo afeto que tinha a jovem Willa e o repetiu nesse momento ao ouvido a seu cansado marido, como o tinha estado dizendo durante todo o trajeto até o Ennis.

     Depois de ter escutado a tagarela de sua esposa durante quarenta e seis anos, Bob Mosebly só respondeu com um grunhido que apagou de uma vez a voz de sua mulher e as palavras do pregador.

     Não porque Bob tivesse boas lembranças do Jack. Odiava a esse velho cretino, quão mesmo o odiavam quase todos os que viviam no estado de Montana.

     Mas os mortos, mortos estão, pensou Bob, e sem dúvida deviam ter chegado em multidão para enviar ao inferno a esse jodido.

     Nesse rincão pacífico do Rancho Mercy, localizado-se à sombra das grandes montanhas Belt, perto das bordas do Misuri, reunia-se nesse momento uma multidão composta por rancheiros e jeans, comerciantes e políticos. Ali, nas colinas onde pastava o gado e os cavalos corcoveavam em pastos banhados pelo sol, havia gerações da família Mercy, enterradas sob a erva ondulante.

     Jack era o último. Ele mesmo encarregou a reluzente gaveta de madeira de castanho, mandou-o fazer a medida com a MS que era a marca do rancho, inscrita em ouro. A gaveta estava forrada de cetim branco e nesse momento Jack se encontrava dentro, com seus melhores botas de pele de víbora, seu chapéu Stetson mais velho e preferido e com o látego na mão.

     Jack tinha prometido morrer tal como viveu. Com um estilo impressionante.

     Corria a voz de que Willa já tinha encarregado a lápide, de acordo com as instruções de seu pai. Seria de mármore branco, nada de granito ordinário para o Jack Mercy, e as palavras que teria inscritas eram de sua própria autoria.

    

     Aqui jaz Jack Mercy.

     Viveu como queria, morreu da mesma maneira.

     Ao demônio com qualquer a quem não lhe tenha gostado.

    

     A lápide se colocaria uma vez que a terra se afirmou, para unir-se com todas as outras que se destacavam sobre o chão rochoso, desde o Jebidiah Mercy, quem vagou pelas montanhas e reclamou a terra, até a última das três esposas do Jack; quão única morreu antes de que ele tivesse tempo de divorciar-se dela.

     Não é interessante, pensou Bob, que cada uma das esposas do Mercy lhe tenha dado uma filha quando ele estava empenhado em ter um filho varão? Ao Bob gostava de acreditar que era uma pequena brincadeira que Deus jogou a um homem que, em todos outros aspectos da vida, não fez mais que pisotear costas... e corações, com tal de conseguir o que queria.

     Recordava bastante bem a cada uma das mulheres do Jack, embora nenhuma delas lhe durou muito. Eram todas impactantes, pensou, e as filhas a quem deu a luz tampouco estavam mau. Bethanne esteve pendurada do telefone desde que se inteirou de que as outras duas filhas do Jack voavam para ali para assistir ao enterro. Nenhuma delas tinha posto seus pés em terras do Mercy desde que tiveram idade para caminhar.

      E, se tivessem querido fazê-lo, não teriam sido bem recebidas.

     Solo Willa permaneceu ali. Foi algo que Mercy não pôde evitar, considerando que a mãe morreu quase antes de terminar de amamentar à criatura. Como não tinha parentes a quem carregar com a garota, a passou a sua ama de chaves, e Bess a criou o melhor que pôde.

     Cada uma das moças tem um pouco do Jack, pensou Bob, enquanto as observava com dissimulação. O cabelo escuro e o queixo bicudo. E embora as três nem sequer se conheciam, não cabia dúvida de que eram irmãs. O tempo indicaria como foram se levar, e o tempo diria se Willa tinha nela bastante do Jack Mercy para ser capaz de dirigir um rancho de doze mil hectares.

     Ela estava pensando no rancho, e no trabalho que terei que levar a cabo. A manhã era clara e resplandecente, e os Montes estavam tintos de cores tão atrevidas e formosos que quase machucavam os olhos. As montanhas e o vale talvez tivessem sido pintados com esses tons para o outono, mas o vento do oeste soprava caloroso, seco e espesso. A princípios de outubro fazia suficiente calor para trabalhar em mangas de camisa, mas isso era algo que ao dia seguinte podia trocar. Já tinha nevado nas terras altas, e ela alcançava a ver que entre os picos negros e cinzas, a neve cobria solapadamente de branco os bosques. Era necessário juntar a fazenda, revisar e reparar as alambradas, voltá-los para revisar. Era necessário semear o trigo de inverno.

     A partir desse momento, dependia dela. Tudo dependia dela. «Jack Mercy já não é o Rancho Mercy -recordou-se Willa-. Sou-o eu.»

     Escutou ao pregador que falava da vida eterna, do perdão e da entrada ao céu. E pensou que Jack Mercy cuspiria a qualquer que pretendesse lhe dar a bem-vinda em um lugar que não fosse dele. Montana tinha sido dele, essa larga terra de montanhas e de pradarias, de águias e de lobos.

     Seu pai seria tão desgraçado no céu como poderia sê-lo no inferno.

     Permaneceu tranqüila, na aparência, enquanto baixavam a gaveta reluzente à última cicatriz da terra. A pele da Willa era dourada, tanto um legado da mãe e de seu sangue Pés Negros como da vida ao ar livre. Os olhos, quase tão negros como a trança que apressadamente se fez para assistir ao enterro, permaneciam fixos na gaveta que continha o corpo de seu pai. Não levava chapéu e o sol brilhava como fogo em seus olhos. Mas não permitiu que lhe enchessem de lágrimas.

     Tinha um rosto orgulhoso, maçãs do rosto altos, uma boca larga e altiva, olhos escuros e exóticos, de pálpebras pesadas e pestanas espessas. Aos oito anos se quebrado o nariz ao cair de um potro selvagem. A Willa gostava de acreditar que o nariz um pouco torcido para a esquerda, adicionava caráter a sua cara.

     A Willa Mercy importava muito mais o caráter que a beleza. Sabia que os homens não respeitavam a beleza. Utilizavam-na.

     Permaneceu muito quieta, enquanto o vento fazia ondear algumas mechas soltas de seu cabelo. Uma mulher de estatura média, esbelta, que luzia um vestido negro que não ficava bem e um par de sapatos de salto alto que, até essa manhã, nunca estiveram fora de sua caixa. Uma mulher de vinte e quatro anos, com a cabeça cheia de pensamentos de trabalho e o coração transbordante de dor.

     Porque, apesar de tudo, queria ao Jack Mercy. E não lhes disse nada, nenhuma só palavra, a essas duas mulheres, quão desconhecidas compartilhavam seu sangue e que acabavam de chegar para presenciar o enterro de seu pai.

     Por um instante, solo um instante, deixou vagar o olhar e a deteve na tumba da Mary Wolfchild Mercy. A mãe, a quem não recordava, estava enterrada sob um maciço de flores silvestres que resplandeciam como jóias sob o sol de outono. Obra do Adam, pensou enquanto olhava a seu meio irmano. Saberia o que ninguém mais podia suspeitar: que Willa tinha o coração alagado em lágrimas que nunca conseguiria derramar.

     Quando Adam tomou a mão, Willa enlaçou os dedos com os dele. Em sua mente e seu coração, agora era o único familiar que ficava.

     -Viveu como gostava -murmurou Adam com voz serena. De ter estado sozinhos, Willa teria se tornado para apoiar a cabeça sobre seu ombro e encontrar consolo.

     -Sim, assim o fez. E agora terminou.

     Adam olhou às outras duas mulheres, as filhas do Jack Mercy, e pensou que algo mais acabava de começar.

     -Tem que falar com elas, Willa.

     -alojam-se em minha casa e se alimentam de minha comida. -Dirigiu um olhar deliberado à tumba de seu pai-. Com isso basta.

     -São de seu sangue.

     -Não, Adam, você é de meu sangue. Elas não significam nada para mim.

      afastou-se e se preparou para receber as condolências dos pressente.

    

     Os vizinhos levavam comida para o funeral. Era uma tradição muito arraigada, assim como que Bess tivesse cozinhado durante três dias para preparar o que ela chamava «a comida do duelo». E isso, para a Willa, não era mais que uma imbecilidade. Ali o duelo não existia. Curiosidade, sim. Alguns dos que se amontoavam na casa principal tinham estado antes nela. Mas a maioria não. A morte do Jack lhes abria a porta da casa e aproveitavam para conhecê-la.

     A casa principal era um lugar de exibição, ao estilo do Jack Mercy. Em um tempo ali se elevava uma cabana de troncos e de tijolo cru, mas isso foi mais de cem anos antes. Agora a casa era uma ampla estrutura de madeira, de pedra e de vidro resplandecente. Sobre os chãos encerados de madeira de pinheiro ou de cerâmica se estendiam tapetes importados de todas partes do mundo. Ao Jack Mercy gostava de colecionar. Quando chegou a ser o dono do Rancho Mercy, dedicou cinco anos a converter o que era uma formosa casa de campo em seu palácio pessoal.

     Os ricos vivem como ricos, estava acostumado a dizer.

     E ele o fez. Colecionou quadros e esculturas, adicionou habitações onde poder exibir suas obras de arte. A entrada da casa era um átrio imenso com chão de azulejos em tons safira e rubi nos que se repetia a forma da marca do Rancho Mercy. A escada que subia ao primeiro piso era de carvalho lustrado, brilhante como o cristal e rematada por um poste esculpido com a forma de um lobo lhe uivem.

     E nesse momento ali se reunia uma multidão de pessoas, muitas das quais olhavam tudo com os olhos fora das órbitas, enquanto balançavam seus pratos de comida. Outros se amontoavam na sala de estar com sua meia hectare de chão de madeira e a ampla curva de não sofá estofado em couro cor nata. Sobre a pedra alisada da parede que rodeava a enorme chaminé, pendurava um quadro de tamanho natural do Jack Mercy montando um cavalo escuro. Tinha a cabeça inclinada, o chapéu jogado para trás, um látego enrolado em uma mão. Muitos sentiam que esses duros olhos azuis deviam estar amaldiçoando-os por estar ali sentados, bebendo seu uísque e brindando por sua morte.

     Para o Lily Mercy, a segunda das filhas a quem Jack concebeu e rechaçou, tudo era apavorante. A casa, a gente, o ruído. A habitação que o ama de chaves lhe destinou no dia anterior, a sua chegada, era uma verdadeira beleza. Tão tranqüila, pensou enquanto se aproximava dos passamanes do alpendre do flanco da casa. A cama formosa, a bonita madeira dourada contra as paredes cobertas de seda.

     A solidão.

     Era o que queria nesse momento. O que mais queria, ao olhar para as montanhas. E que montanhas!, pensou. Tão altas, tão ásperas. Não se pareciam em nada às bonitas colinas de sua casa da Virginia. E todo esse céu, esse azul interminável que se curvava sobre mais terra da que era possível que existisse.

     As planícies, que se estendiam ondulantes, e o vento, que parecia não deixar nunca de sopro. E as cores, dourado-los e bermellones, os bronzes e quão vermelhos em montanhas e planícies exploravam no outono. E esse vale, onde se estendia o rancho em um lugar de uma beleza e uma força quase impossíveis. Essa manhã tinha visto pela janela veados bebendo em um arroio que brilhava como prata à luz do amanhecer. E ouviu cavalos, vozes de homens, o canto de um galo e o que acreditava, esperava, que fora o grito de uma águia.

     perguntou-se se, no caso de reunir a coragem suficiente para caminhar pelo bosque que cobria o pé das montanhas, chegaria a ver os alces, os antes, as raposas a respeito dos que tinha lido com tanta ansiedade no vôo para ali.

     perguntou-se se lhe permitiriam ficar um dia mais.., e aonde iria, o que faria, se lhe pediam que se fora.

     Não podia voltar para este; ainda não. tocou-se com acanhamento o moretón que tratava de esconder com maquiagem e óculos escuros. Jesse a tinha encontrado. Ela teve muito cuidado, mas de todos os modos a encontrou e as ordens judiciais não lhe impediram de usar os punhos. Nada lhe impedia de usar esses punhos. Não o impediu a sentença de divórcio e tampouco o impediram as mudanças e fugas do Lily.

     Mas aqui, pensou, talvez aqui, a milhares de quilômetros de distância, em um lugar tão enorme, talvez pudesse voltar a começar. Sem medo.

     A carta do advogado em que lhe informava da morte do Jack Mercy e lhe pedia que viajasse a Montana foi como um presente do céu. Embora lhe pagaram a viagem, Lily devolveu a passagem de primeira classe em um vôo direto e reservou vários vôos zigzagueantes com o passar do país e baixo três nomes distintos. Desejava com desespero que ali Jesse Cooke não a pudesse encontrar.

      Estava tão cansada de fugir, de ter medo!

     perguntou-se se poderia mudar-se ao Billings ou a Helena e encontrar um trabalho. Qualquer trabalho. Não carecia de habilidades. Tinha seu diploma de professora e sabia informática. Talvez pudesse encontrar um apartamento pequeno para ela sozinha, embora fosse de uma só habitação, para poder começar até que conseguisse voltar a ficar de pé.

     Poderia viver aqui, pensou enquanto contemplava o espaço vasto, apavorante e glorioso. Talvez até pertencesse a esse lugar.

     Saltou quando uma mão lhe tocou o braço e logo que pôde conter um grito. O coração lhe subiu à garganta.

     Não é Jesse, compreendeu, com a sensação de ser uma parva. O homem que estava a seu lado era moreno, enquanto que Jesse era loiro. Esse homem tinha a pele bronzeada e o cabelo lhe chegava até os ombros. Olhos bondosos, escuros, muito escuros, em um rosto tão arrumado que parecia um quadro.

     Mas Jesse também era boa moço. Lily sabia quão cruel podia ser a beleza.

     -Sinto muito. -Adam lhe falava com voz tranqüilizadora, como se acabasse de assustar a um cachorrinho ou a um potro doente-. Não quis sobressaltá-la. Traga-lhe um pouco de chá gelado. -Agarrou-lhe a mão, notando como tremia e a envolveu ao redor do copo-. Hoje o dia está muito seco.

     -Obrigado. O que acontece é que não o ouvi aproximar-se. -Seguindo um costume da que ela nem sequer tinha consciencia, Lily deu um passo ao flanco para pôr distância entre eles. Espaço para poder fugir-. Solo estava... olhando. Isto é tão formoso!

     -Sim, é-o.

     Ela bebeu um gole de chá, que lhe refrescou a garganta ressecada, e se ordenou permanecer tranqüila e ser amável. Quando uma se mostrava tranqüila, a gente fazia menos pergunta.

     -Você vive perto?

     -Muito perto. -Sorriu, aproximou-se dos passamanes e assinalou para o este. Gostava da voz dessa mulher, seu deixe sulista lento e quente-. Vivo nessa casita pequena do outro lado das cavalariças.

     -Sim, vi-a. Sua casa tem persianas azuis e um jardim no que dormia um perrito negro. -Lily recordava o caseiro que lhe pareceu o lugar, muito mais acolhedor que a casa principal.

     -Esse é Beans. -Adam voltou a sorrir-. Refiro-me ao cão. adora as ervilhas fritas. Eu sou Adam Wolfchild, o irmão da Willa.

     -Ah! -Durante um instante estudou a mão que lhe oferecia, logo se obrigou a estreitá-la. Nesse momento notou o parecido entre os irmãos; os maçãs do rosto altos, os olhos-. Não sabia que ela tivesse um her... Isso nos converte em...

     -Não. -A mão do Lily parecia muito frágil e Adam a soltou com suavidade-. Você e Willa compartilharam um pai. Willa e eu compartilhamos uma mãe.

     -Compreendo. -deu-se conta do pouco que tinha pensado no homem a quem enterraram esse dia, e se sentiu envergonhada-. Você estava muito unido a ele... a seu padrasto?

     -Ninguém estava unido ao Jack. -Disse-o com simplicidade e sem amargura-. Tenho a impressão de que você não se sente cômoda aqui. -Notava que se mantinha se separada dos grupos, que evitava a outros, como se o contato casual com um ombro pudesse machucá-la. assim como também tinha notado as marcas de violência sobre seu rosto, que ela tentava ocultar.

     -Não conheço ninguém.

     Feriram-na, pensou Adam. Sempre se sentia atraído pelos seres feridos. Era formosa e estava machucada. Vestia com esmero um singelo traje negro e sapatos de salto alto e tão solo devia medir um par de centímetros menos que o metro setenta e cinco que media ele. Além disso estava muito magra para sua estatura. O cabelo escuro com reflexos avermelhados lhe caía em ondas suaves que lhe recordavam as asas dos anjos. Não alcançava a lhe ver os olhos ocultos pelos óculos escuros, mas se perguntava de que cor seriam e que mais poderia ler neles.

     Notou que tinha o queixo de seu pai, mas a boca era suave e mas bem pequena, como a de uma criatura. E quando se esforçou por lhe sorrir, junto a essa boca havia uma covinha. Tinha a pele muito branca; um frágil contraste com os moretones que ela não alcançava a dissimular.

     Está sozinha, pensou, e tem medo. Talvez lhe levaria algum tempo suavizar o coração da Willa para essa mulher, sua irmã.

     -Devo ir examinar um cavalo -disse Adam.

     -Ah! -lhe surpreendeu sua própria desilusão. Queria estar sozinha. Quando estava sozinha se sentia melhor-. Não o vou reter.

     -Gostaria de me acompanhar? Ver alguns exemplares?

     -Os cavalos? Eu... -Não seja covarde! Este homem não te vai fazer mal, ordenou-se-. Sim, eu gostaria. Mas não quero lhe resultar uma moléstia.

     -Nenhuma moléstia.

     Como sabia que era tímida, não lhe ofereceu a mão nem a tirou do braço, mas sim simplesmente baixou com ela a escada e lhe indicou o tosco caminho pelo atalho de terra.

    

     Várias pessoas os viram afastar-se e começaram os comentários de sempre. depois de tudo, Lily Mercy era uma das filhas do Jack embora, como vários assinalaram, não tinha obtido nada de particular na vida. Algo que nunca foi o problema da Willa... não, sem dúvida. Essa era uma garota que dizia muito, o que fora e quando lhe dava a vontade.

      Quanto à outra, bom, era farinha de outro costal. Altiva, luzindo-se em seu vestido elegante e olhando a todos com ar desdenhoso. Qualquer que tivesse olhos pôde notar sua maneira de permanecer junto à tumba, fria como o gelo. Sem dúvida era uma beleza, uma verdadeira pintura. Jack tinha tido filhas formosas e essa, a maior, herdou os olhos do pai. Duros, agudos e azuis.

     Não cabia dúvida de que se considerava melhor que as outras, com seu brilho de Califórnia e seus sapatos caros, mas não eram poucos os que recordavam que sua mãe tinha sido uma corista de Las Vegas, com uma risada forte e uma maneira grosseira de falar. E aqueles que a recordavam, sem dúvida alguma preferiam à mãe e não à filha.

     Ao Tess Mercy não podia lhe importar menos. Estaria ali, nesse lugar afastado da mão de Deus, tão solo até que se pudesse ler o testamento. Então tomaria o que fora dele, que seria menos do que lhe devia esse velho cretino, e se sacudiria o pó de seus Perragamos.

     -na segunda-feira como muito tarde estarei de volta.

     passeava-se com o telefone na mão, seus movimentos rápidos e bruscos, esparramando energia nervosa a seu redor. Fechou a porta do que supôs devia ser o despacho, com a esperança de poder gozar pelo menos de alguns momentos de intimidade. Teve que fazer um esforço para ignorar as cabeças dissecadas de animais que povoavam as paredes.

     -O guia está terminado. -Sorriu apenas e se passou os dedos pelo cabelo negro e murcho que se ondulava por debaixo de suas orelhas-. Obviamente é brilhante e o terá em suas mãos na segunda-feira. Não me dê pressa, Ira -advertiu a seu representante-. Eu te farei chegar o guia e você te encarregará de vendê-lo. Minhas economias diminuíram que uma maneira alarmante.

     Sujeitou o auricular com um ombro e se serve uma taça de conhaque do botellón que havia sobre a mesa. Ainda escutava as promessas e as súplicas de Hollywood quando viu passar pela janela ao Lily com o Adam.

     Interessante, pensou, enquanto bebia. A tanta e o Nobre Selvagem.

     antes de iniciar a viagem a Montana, Tess se encarregou de levar a cabo algumas rápidas averiguações. Sabia que Adam Wolfchild era filho da terceira e última esposa do Jack Mercy. Que tinha oito anos quando a mãe se casou com o Mercy. Wolfchild era Pés Negros, ou pelo menos em sua major parte. A mãe tinha ascendência italiana. Fazia vinte e cinco anos que esse homem vivia no Rancho Mercy e quão único tinha conseguido era uma pequena casita e a tarefa de atender os cavalos.

     Tess tinha intenções de obter muito mais. Quanto ao Lily, quão único pôde averiguar era que estava divorciada, que não tinha filhos e que viajava o bastante. Possivelmente porque seu marido a usa como usam o saco de areia os boxeadores, pensou Tess e se obrigou a evitar uma sensação de lástima. Nesse lugar não se podia permitir o luxo de ter reações emocionais. Não era mais que uma questão de negócios.

     A mãe do Lily era uma fotógrafa que viajou a Montana para fotografar o verdadeiro oeste. E conquistou ao Jack Mercy... embora isso não a deveu ter beneficiado muito, pensou Tess.

     Depois estava Willa. Ao pensar nela, Tess endureceu o rictus. A que ficou, a que o velho cretino conservou.

     «Bom, suponho que a partir deste momento ela deve ser proprietária do lugar», pensou Tess encolhendo-se de ombros. E o merecia. Sem dúvida o tinha ganho. Mas Tess Mercy não pensava ir-se dali sem um bom maço de bilhetes.

     Pela janela, à distância, alcançava a ver as planícies ondulantes, planícies ondulantes e intermináveis, desertas como a lua. Com um estremecimento, deu-lhe as costas à paisagem. Deus! Ela queria estar em Rodeio Drive.

     -na segunda-feira, Ira -disse com tom cortante, molesta pela voz de seu representante que lhe zumbia nos ouvidos-. Estarei em seu escritório às doze em ponto. Assim me poderá convidar a almoçar. -E com essa frase como despedida, pendurou o telefone.

     Três dias como máximo, prometeu-se, e levantou a taça de conhaque para brindar com uma cabeça de cervo. Depois sairia do Dodge como alma que leva o diabo e retornaria à civilização.

    

     -Não deveria ter que te recordar que tem hóspedes abaixo, Will. Bess Pringle pôs os braços em jarras e se dirigiu a Willa com o mesmo tom com que lhe falava quando tinha dez anos.

      Willa seguiu ficando-os jeans; Bess não acreditava em detalhes como a intimidade e logo que tinha chamado antes de entrar em dormitório. Willa lhe respondeu do mesmo modo que lhe teria respondido aos dez anos.

     -Então não me recorde isso. -sentou-se para ficá-las botas.

     -Não seja grosseira!

     -Trabalhar não é uma grosseria e ainda fica muito trabalho por fazer.

     -E tem muitos peões neste rancho como para que se encarreguem de tudo por um dia. Hoje não sairá a nenhuma parte. Tão solo hoje! Não corresponde.

     O que correspondia ou não correspondia constituía a base do código social do Bess. Era uma mulher com aspecto de pássaro, todos ossos e dentes, embora fora capaz de preparar uma montanha de bolos e gostasse tão dos doces como a uma menina de dez anos. Tinha cinqüenta e oito anos, e tinha modificado a data de seu certidão de nascimento para poder demonstrá-lo. Também tinha uma cabeleira intensamente vermelha que tingia em segredo e que penteava tirante e para trás para indicar que não gostava das tolices.

     Sua voz era arruda como a casca do pinheiro, seu rosto terso como o de uma jovencita, seus formosos olhos verdes e o nariz arrebitado era típico dos irlandeses. Tinha mãos pequenas, rápidas e habilidosas, e um gênio vivo.

     Sem apartar as mãos dos quadris, aproximou-se da Willa e a olhou.

     -Baixa de uma vez essa escada e atende a suas visitas.

     -Tenho um rancho e devo dirigi-lo. -Willa ficou de pé. Não tinha importância que com as botas postas medisse ao redor de doze centímetros mais que Bess. O equilíbrio do poder sempre passava alternativamente de uma à outra-. E não são meus convidados. Eu fui a que não tinha nenhum interesse em que viessem.

     -vieram a te oferecer seus respeitos. É o que corresponde.

     -vieram a bisbilhotar e a passear-se pela casa. E já é hora de que se vão.

     -Talvez essa tenha sido a intenção de alguns -respondeu Bess, assentindo com a cabeça-. Mas são mais os que estão aqui por ti.

     -Eu não os quero. -Willa deu a volta, tomou seu chapéu e logo ficou olhando pela janela, enquanto espremia a asa deste. A janela dava às montanhas, a esse escuro cinturão de árvores, os picos do Big Belt que continham toda a beleza e o mistério do mundo-. Não os necessito. Não posso respirar com tanta gente a meu redor.

     Bess vacilou antes de apoiar as mãos sobre os ombros da Willa. Jack Mercy não quis que sua filha fosse criada como um ser débil e suave. Nada de mímicos, nem de malcrianzas nem de carícias. Esclareceu-o quando Willa ainda usava fraldas. De maneira que Bess solo a mimou, malcriou-a e a acariciou quando estava segura de que Jack não a descobriria e a afastaria dali como tinha feito com suas algemas.

     -Querida, tem direito a sentido.

     -Está morto e enterrado. Não ganho nada me lamentando. -Mas levantou uma mão e a apoiou sobre quão pequena tinha sobre o ombro-. Nem sequer me disse que estava doente, Bess. Nem sequer foi capaz de me dar de presente essas últimas semanas de vida para que eu pudesse tratar de cuidá-lo, ou para que me pudesse despedir dele.

     -Era um homem orgulhoso -disse Bess. Mas pensou, Cretino! Cretino egoísta!-. Foi melhor que o câncer o levasse rápido em lugar de fazê-lo sofrer durante muito tempo. Isso lhe teria resultado odioso e teria sido muito mais duro para ti.

     -De uma maneira ou de outra, já está. -Alisou a asa larga do chapéu e o pôs-. Neste momento tenho animais e gente que depende de mim. Os peões têm que saber, agora mesmo, que eu estou a cargo do rancho. Que à frente do Rancho Mercy ainda há uma Mercy.

     -Então faz o que tenha que fazer. -Anos de experiência lhe tinham ensinado que o que correspondia não tinha muita importância quando estava o rancho de por meio-. Mas deve estar de volta na hora de comer. Sentará-se à mesa e comerá como Deus manda.

     -Farei-o sempre que jogar a essa gente da casa.

     Saiu em direção à escada de atrás que lhe permitiria passar pelo quarto dos casacos sem que ninguém a visse. Mas até ali alcançava para ouvir o zumbido das conversações que surgia dos outros quartos e as ocasionais gargalhadas. Furiosa com tudo isso, saiu dando uma portada e se deteve em seco ao ver dois homens que fumavam amigablemente no alpendre do flanco.

     Entrecerró os olhos ao olhar à major dos duas e a garrafa de cerveja que balançava entre seus dedos.

     -te divertindo, Ham? -perguntou.

     O sarcasmo da Willa não fez racho no Hamilton Dawson. O foi quem a montou em seu primeiro poni, quem lhe enfaixou a cabeça depois da primeira queda. Ensinou-lhe a usar o laço, a disparar um rifle, a açoitar um veado. Nesse momento só se meteu o cigarro na boca rodeada por um espesso bigode e lançou um anel de fumaça.

      -É... -formou outro anel de fumaça-, uma bonita tarde.

     -Quero que revisem as alambradas do limite noroeste do campo.

     -Já o fizemos -respondeu ele com placidez enquanto continuava apoiado contra o passamanes, um homem corpulento com as pernas totalmente curvadas. Era o capataz do rancho e acreditava saber tanto como Willa o que terei que fazer-. Enviei a um grupo de homens com a ordem das reparar. Mandei ao Brewster e ao Pickles às terras altas. Lá encima perdemos um par de cabeças. Parece que foi um puma. -Voltou a inalar uma baforada de fumaça e a exalar pela boca-. Brewster se encarregará disso. Gosta de caçar.

     -Quero falar com ele assim que volte.

     -Supus que o quereria. -endireitou-se, apartando do passamanes e ficou bem o chapéu-. É época de desmame.

     -Sim, sei.

     Ham supôs que saberia e voltou a assentir.

     -irei vigiar o grupo que está arrumando as alambradas. Lamento o de seu pai, Will.

     Ela sabia que essas singelas palavras unidas à frase anterior sobre os trabalhos do campo eram mais sinceras que as dúzias do Ramos de flores e de coroas enviadas por desconhecidos.

     -Mais tarde irei a cavalo a me reunir contigo.

     O assentiu em direção a ela, em direção ao homem que tinha a seu lado e se encaminhou a seu jipe.

     -Como se sente, Will?

     Ela se encolheu de ombros, frustrada ao compreender que não sabia o que fazer.

     -Quero que chegue o dia de amanhã -respondeu-. Amanhã todo será mais fácil, não o crie, Nate?

     Como ele não queria lhe dizer que a resposta era não, bebeu um gole de cerveja. Estava ali por ela, como amigo, como vizinho, como camarada rancheiro. Também estava ali em qualidade de advogado do Jack Mercy e sabia que pouco depois destroçaria a essa mulher que estava a seu lado.

     -Proponho-te que caminhemos um pouco. -Deixou a garrafa de cerveja sobre o passamanes e tomou a Willa do braço-. Preciso estirar as pernas.

     E suas pernas não eram pouca coisa. Nathan Torrence era alto. Chegou a medir um metro oitenta e oito aos dezessete anos e seguiu crescendo. Nesse momento, aos trinta e três, media um metro noventa e três. O cabelo moreno lhe encrespava sob o chapéu. Seus olhos eram tão azuis como o céu de Montana e tinha o arrumado rosto curtido pelo vento e torrado pelo sol. Braços largos que terminavam em mãos grandes. Pernas largas que acabavam em grandes pés. Mas apesar de tudo, era surpreendente a graça com que se movia.

     Tinha aspecto de vaqueiro, e se movia como um vaqueiro. Quando se tratava de assuntos de família, de seus cavalos ou da poesia do Keats, seu coração era tão suave como um travesseiro de plumas. Mas em assuntos de leis, de justiça, pelo que simplesmente estava bem e estava mau, sua mente era dura, como uma pedra.

     Abrigava um afeto profundo e grande para a Willa Mercy. E lhe resultava odioso não ter mais alternativa que afundá-la no inferno.

     -Nunca perdi a um ser querido -começou dizendo Nate-. Não posso dizer que sei o que sente.

     Willa seguiu caminhando e passaram frente ao edifício da cozinha, a casa dos peões e o galinheiro.

     -O nunca permitiu que ninguém lhe aproximasse. A verdade é que não sei o que sinto.

     -O rancho... -Era um tema perigoso que Nate decidiu tratar com cuidado-. Dirigi-lo não vai ser assunto fácil.

     -Temos boa gente, bons animais e boa terra. -Não lhe resultou difícil lhe sorrir ao Nate. Nunca lhe custava fazê-lo-. E bons amigos.

     -Pode me chamar em qualquer momento, Will. A mim ou a qualquer do condado.

     -Já sei. -Olhou além dele, para as cavalariças, os currais, os celeiros, a casa dos peões, e ainda mais à frente, onde a terra se estendia até unir-se com o céu-. Faz mais de cem anos que um Mercy dirigiu este lugar. Criando ganho, semeando cereais, perseguindo cavalos. Sei o que terá que fazer e como deve fazer-se. Em realidade, nada troca.

     Tudo troca, pensou Nate. E o mundo do que ela falava estava a ponto de sofrer uma mudança drástica por causa da dureza de coração de um homem morto. Seria melhor fazê-lo em seguida, antes de que ela montasse um cavalo ou subisse a um jipe e se afastasse.

     -Será melhor que leiamos o testamento quanto antes -decidiu.

    

     O despacho do Jack Mercy, localizado-se no primeiro piso da casa, era do tamanho de uma sala de baile. As paredes estavam cobertas de madeira de pinheiro amarela, procedente de árvores de suas próprias terras, cujo brilho dava um resplendor dourado à habitação. Enormes ventanales proporcionavam vistas do rancho, da terra e do céu. Ao Jack gostava de dizer que alcançava a ver tudo o que um homem podia querer ver desde esses ventanales, sem cortinas mas com o Marcos cuidadosamente lavrados.

     O estou acostumado a aparecia talher por parte dos tapetes que ele colecionava. As poltronas estavam estofos em couro, como lhe gostava, em distintos tons de marrons.

     Das paredes penduravam seus troféus: cabeças de alces e de ovelhas de largas hastes, de ursos e de veados machos. Escondido em um rincão, como preparado para o ataque, havia um enorme urso cinza, com as presas expostas, os olhos negros cheios de fúria.

     Em armários com portas de vidro se exibiam algumas de suas armas favoritas. O rifle Henry e o Colt Peacemaker de seu avô, a escopeta Browning com que liquidou ao urso, o Mossberg 500 que ele chamava seu espanador contra as pombas, e a Magnum 44 que preferia quando saía a caçar com armas curtas.

     Era uma habitação masculina, com aroma de couro e a madeira e com um sotaque fugaz do tabaco cubano que lhe gostava de fumar.

     O escritório, que mandou fazer por encargo, era um lago de madeira resplandecente, com múltiplos gavetas, todos com atiradores de bronze muito brilhante. Nesse momento Nate estava sentado detrás dele, estudando papéis para que todos os pressente tivessem tempo de colocar-se.

     Tess pensou que parecia tão desconjurado como um barril de cerveja em uma reunião organizada pela paróquia. O vaqueiro advogado, pensou com um leve sorriso, que vestia seu melhor traje dominguero. E não porque não fosse atrativo, de uma maneira arruda e camponesa. Parece um Jimmy Stewart jovem, pensou, todo braços e pernas e uma tranqüila sexualidade. Mas os homens altos e fracos que usavam botas com seus trajes de gabardina não eram seu tipo.

     E o único que ela queria era terminar de uma vez com esse maldito assunto e voltar para Os Anjos. Olhou o urso cinza, a cabeça de uma cabra de montanha e o conjunto de armas com que lhes tinha dado morte. Que lugar!, pensou. E que gente!

     Junto ao advogado vaqueiro estava o ama de chaves fraca, sentada em uma cadeira de respaldo reto, com os joelhos muito apertados uma contra a outra e modestamente cobertas com uma horrível saia negra. Depois vinha o Nobre Selvagem, com seu rosto emocionante e formoso, seus olhos enigmáticos e o leve aroma de cavalos que se desprendia de seu corpo.

     A nervosa Lily, pensou Tess, continuando seu percurso, com as mãos apertadas uma contra a outra como se as tivesse atarraxadas, e com a cabeça encurvada, como se com isso pudesse ocultar os moretones de seu rosto. Formosa e frágil como um ave perdida rodeada de abutres.

     Quanto Tess notou que começava a emocionar-se, voltou-se com toda deliberação a estudar a Willa.

     A vaqueira Mercy, pensou franzindo o nevoeiro. Áspera, possivelmente estúpida e silenciosa. Pelo menos a mulher ficava melhor em jeans e uma camisa de flanela que com esse vestido amplo que se pôs para o enterro. Em realidade, Tess decidiu que era um verdadeiro quadro, sentada em uma grande poltrona estofada em couro, com uma bota apoiada sobre o joelho da outra perna e o rosto extrañamente exótico, duro como se estivesse esculpido em pedra.

     E como não tinha visto deslizar uma só lágrima desses olhos escuros, Tess decidiu que Willa não lhe devia ter tido mais carinho que ela ao Jack Mercy.

      Isto é sozinho um assunto de negócios, pensou, enquanto fazia tamborilar os dedos com impaciência sobre o braço da poltrona. Será melhor ir ao grão em seguida.

     No instante em que Tess o pensava, Nate levantou a vista e os olhares de ambos se encontraram. Durante um incômodo momento, teve a sensação de que o vaqueiro advogado sabia exatamente o que estava pensando. E a desaprovação que lhe merecia, que lhe merecia tudo o que a ela se referisse, era tão clara como o céu que se via suas costas pela janela.

     «Pensa o que te dê a vontade», decidiu Tess, e lhe manteve o olhar com uma frieza equivalente a dele. Quão único quero é que me entregue o dinheiro.

     -Podemos fazer isto de dois modos distintos -começou dizendo Nate-. De um modo formal, quer dizer, lendo o testamento do Jack, palavra por palavra e lhes explicando depois que diabos quer dizer toda essa terminologia legal. Ou lhes posso explicar primeiro os significados, os términos do testamento e as opções. -Olhou com deliberação a Willa. Ela era a que mais lhe importava-. De ti depende.

     -Faz o da maneira mais fácil, Nate.

     -Bom, está bem. Bess, te deixou mil dólares por cada ano que tenha estado no Mercy. Isso soma trinta e quatro mil dólares.

     -Trinta e quatro mil! -exclamou Bess com os olhos abertos de assombro-. Deus Santo, Nate! O que se supõe que vou fazer com tanto dinheiro?

     Nate sorriu.

     -Bom, pode gastá-lo, Bess. E se quer investir parte, posso-te dar uma mão nesse sentido.

     -meu deus! -Sem poder repor-se da surpresa olhou a Willa, olhou-se as mãos e voltou a olhar ao Nate-. Meu deus!

     E então Tess pensou: «Se o amar de chaves recebe trinta e quatro mil, me deve tocar pelo menos o dobro», e sabia muito bem o que faria com essa importante soma.

     -Adam -continuou dizendo Nate-, de acordo com um convênio que Jack fez com sua mãe quando se casaram, você receberá uma soma total de vinte mil, ou um interesse de dois por cento do que renda o rancho Mercy. O que prefira. Posso-te adiantar que a percentagem significa mais que o dinheiro, mas a decisão é tua.

     -Não é o bastante! -exclamou Willa, sobressaltando ao Lily e fazendo que Tess elevasse uma sobrancelha-. Não é justo! Dois por cento? Adam trabalhou neste rancho desde que tinha oito anos. O há...

     -Willa. -De onde se encontrava, atrás da poltrona que ocupava sua meia irmana, Adam apoiou uma mão sobre seu ombro-. É mais que suficiente.

     -Uma mierda se o for! -A fúria que lhe provocava a injustiça contra Adam, obrigou-a a lhe apartar a mão com rudeza-. Temos uma das melhores manadas de éguas do estado. Isso é obra do Adam. Agora os cavalos deveriam ser deles, e também a casa onde vive. Deveria ter herdado terras e o dinheiro necessário para as trabalhar.

     -Willa. -Com paciência, Adam voltou a lhe apoiar a mão sobre o ombro e ali a manteve-. É o que nossa mãe pediu. E é o que ele me deu.

     Ela se calou porque havia estranhos que os observavam. E por que já se encarregaria de reparar essa injustiça. antes de que terminasse o dia, faria que Nate redigisse os papéis necessários.

     -Sinto muito. -Apoiou as mãos com tranqüilidade sobre os amplos braços da poltrona-. Continua, Nate.

     -O rancho e tudo o que possui -voltou a começar Nate-, o gado, as equipes, veículos, os direitos sobre bosques e plantações... -Fez uma pausa e se preparou para a difícil tarefa de destruir esperanças-. O negócio do Rancho Mercy deve continuar como sempre, pagando os gastos, os salários, depositando ou reinvirtiendo as lucros contigo como empresaria, Willa, e sob a supervisão dos testamentos, durante o prazo de um ano.

     -Espera -disse Willa, elevando uma mão-. O quis que você fiscalizasse a direção do rancho durante um ano?

     -Baixo determinadas condições -adicionou Nate, com uma expressão de desculpa no olhar-. Se essas condições se cumprirem durante o curso de um ano, a partir de não mais de quatorze dias da leitura deste testamento, o rancho e tudo o que possui se converterá em propriedade dos beneficiários.

     -Quais são essas condições? -perguntou Willa-. O que é isso de beneficiários? Que diabos é tudo isto, Nate?

     -Jack deixou a cada uma de suas filhas um terço do rancho. -Notou que a cor desaparecia do rosto da Willa e, amaldiçoando em seu interior ao Jack Mercy, continuou com o resto-. Mas para herdar, vocês três terão que viver no rancho, podendo abandonar a propriedade durante um período não superior a uma semana em um ano inteiro. Ao finalizar esse tempo, e se as condições se cumpriram, cada uma das beneficiárias será proprietária de um terço do rancho. E durante um período de dez anos, essa herança só poderá ser vendida ou transferida por alguma das beneficiárias a uma das outras dois.

      -Espere um momento! -exclamou Tess, depositando seu copo sobre uma mesa auxiliar-. Está dizendo que sou proprietária de um terço de um rancho boiadeiro de um lugar esquecido da mão de Deus, Montana, e que para cobrá-lo tenho que me mudar aqui? Viver aqui? Renunciar a um ano de minha vida? Nem por todo o ouro do mundo! ficou de pé com um movimento cheio de graça-. Não quero seu rancho, moça -disse a Willa-. Com gosto te dou de presente cada hectare poeirento e cada vaca. Isto não tem validez legal. Solo quero que me entreguem minha parte em efetivo e não me voltarei a cruzar no caminho de nenhum de vocês.

     -Desculpe-me, senhorita Mercy -interrompeu-a Nate, estudando-a desde seu assento frente ao escritório. Está furiosa como uma galinha de duas cabeças, pensou, e é o suficientemente fria para ocultá-lo-. Este testamento tem total validez legal. As condições e os desejos do Mercy foram muito bem pensados e estão muito bem apresentados. Se vocês não estiverem de acordo com as condições, o Rancho será integralmente doado a uma sociedade de Conservação da Natureza.

     -Doado?

     Surpreendida, Willa se levou as mãos às têmporas. Em seu interior havia uma mescla de dor, de fúria e de um medo horrível. De algum jeito devia vencer essas sensações e pensar.

     Compreendia a condição dos dez anos. Era para impedir que as terras fossem loteadas ao preço de mercado e tivessem que pagar impostos de acordo com esse preço. Jack odiava ao governo como se fosse veneno e nunca esteve disposto a lhe ceder um solo centavo. Mas não tinha sentido que ameaçasse lhes tirando tudo para entregá-lo a uma dessas organizações de cujos integrantes se burlava chamando-os apaixonados pelas árvores ou das baleias.

     -Se não cumprir com esses requisitos -disse, enquanto lutava por manter a calma-, ele pode simplesmente dar de presente o rancho? Estaria disposto a dar de presente as terras que foram que a família Mercy durante mais de um século, se estas dois não cumprirem com as condições que estabelece o testamento? Se não as cumprir eu?

     Nate respirou fundo, odiando-se.

     -Sinto muito, Willa. Não houve maneira de raciocinar com ele. Essa foi sua vontade. Se alguma de vocês três se vai daqui, quebranta as condições e o rancho será confiscado. Nesse caso, cada uma de vocês três receberia cem dólares. E isso é tudo.

     -Cem dólares? -O absurdo da cifra golpeou ao Tess quem se voltou a deixar cair na poltrona, rendo-. Que filho de puta!

     -te cale a boca! -A voz da Willa estalou como um látego quando ficou de pé-. Te cale a boca de uma vez! Podemos lutar contra isto, Nate? Tem sentido tratar de anulá-lo?

     -Se quiser minha opinião como advogado, diria-te que não. O julgamento se atrasaria durante anos, exigiria muito dinheiro e o mais provável seria que o perdierais.

     -Eu ficarei. -Lily lutou por respirar com tranqüilidade. Um lar, a segurança. Tinha-o tudo ali, na ponta dos dedos, como um brilhante presente-. Sinto muito. -ficou de pé quando Willa se voltou para ela-. Não é justo para ti. Não está bem. Não sei por que terá feito isto, mas eu ficarei. Quando tiver passado o ano, venderei-te minha parte pelo que você diga que é justo. É uma maravilha de rancho -adicionou tratando de sorrir enquanto Willa seguia olhando-a fixamente-. Aqui todo mundo sabe que já te pertence. depois de tudo não é mais que um ano.

     -É muito amável de sua parte -disse Tess-. Mas maldita seja se estiver disposta a ficar aqui durante um ano! Amanhã pela manhã retorno aos Anjos.

     Com a mente feita um torvelinho, Willa lhe dirigiu um olhar. Embora morrera de vontades de que ambas se fossem, o que mais lhe interessava era o rancho. Muito mais que qualquer outra coisa.

     -Nate, o que aconteceria se uma das três morrera repentinamente?

     -Que gracioso! -disse Tess, voltando a agarrar seu copo-. Essa é uma amostra do tipo de humor de Montana?

     -No caso de que uma das beneficiárias morrera durante o ano da transição, as duas beneficiárias restantes herdariam o rancho por metades, mas sob as mesmas condições.

     -Então o que pensa fazer? me matar enquanto durmo? me enterrar na planície? -Tess fez um gesto definitivo-. Não pode me ameaçar para que fique vivendo aqui.

     Talvez não, pensou Willa, mas para certo tipo de gente o dinheiro é muito importante.

     -Eu não te quero aqui. Não quero aqui a nenhuma das duas, mas farei tudo o que seja necessário para conservar este rancho. Nate, talvez a senhorita Hollywood tenha interesse em saber quanto valem seus poeirentos hectares.

     -Um preço estimado do valor atual do mercado pelas terras e as construções sozinhas, sem ter em conta o gado nem as maquinarias... eu diria que entre dezoito e vinte milhões.

      A mão do Tess se estremeceu até o ponto de que esteve por derrubar o conteúdo da taça de conhaque.

     -Deus santo!

     A exclamação lhe valeu um assobio de desagrado do Bess e um sorriso malvado da Willa.

     -Supus que esse argumento te chegaria -murmurou Willa-. Quando foi a última vez que ganhou seis milhões em um ano... irmã?

     -Poderia beber um pouco de água? -perguntou Lily, atraindo a atenção da Willa.

     -Sente-se antes de que te caia -disse, lhe dando um pequeno empurrão para que voltasse a instalar-se na poltrona. Em seguida começou a passear-se pela habitação-. depois de tudo, Nate, eu gostaria que lesse o documento, palavra por palavra. Quero ter tudo isto claro na cabeça. -aproximou-se do bar laqueado e fez algo que jamais teria feito em vida de seu pai. Abriu sua garrafa de uísque e bebeu.

     Bebeu em silêncio, permitindo que o líquido o fora queimando a garganta com lentidão enquanto escutava as palavras do Nate. E se empenhou em não pensar em todos os anos durante os que lutou com tanto denodo para ganhar o amor de seu pai, ou pelo menos seu respeito. Ou sua confiança.

     E ao final quão único conseguiu foi que a cravasse com as filhas a quem ele nem sequer conhecia. Porque isso significa que, em definitiva, pensou, não tinha interesse em nenhuma das três.

     Um nome que Nate acabava de murmurar, fez-lhe arder as orelhas.

     -Um momento! Solo um maldito momento! Disse Ben McKinnon?

     Nate trocou de postura e se esclareceu garganta. Tinha esperanças de que, pelo menos no momento, isso passasse desapercebido. Willa já tinha sofrido muitos sobressaltos para um só dia.

     -Seu pai designou ao Ben e a mim para que fiscalizássemos a marcha do rancho durante o ano de prova.

     -Quer dizer que esse pombinho de corvo vai estar olhando sobre meu ombro durante todo um maldito ano?

     -Não amaldiçoe nesta casa, Will -ordenou Bess.

     -Amaldiçoarei até jogá-la abaixo se me der a vontade. por que mierda escolheu ao McKinnon?

     -Seu pai considerava que, depois do Mercy, Three Rocks é o melhor rancho da zona. Queria que te apoiasse alguém que conhecesse todos os detalhes do negócio.

     Nate recordou que Mercy lhe havia dito: «McKinnon pode ser desprezível como uma víbora e não permitirá que nenhuma maldita mulher se o em frente».

     -Nenhum dos dois estará olhando sobre seu ombro -tranqüilizou-a Nate-. Temos que dirigir nossos próprios ranchos. Isto não é mais que um detalhe sem importância.

     -Mentira! -Mas Willa controlou sua fúria-. McKinnon está informado disto? Não o vi no enterro.

     -Tinha que fazer uns trâmites no Bozeman. Retornará esta noite ou amanhã. E sim, está informado.

     -E suponho que se riu a gargalhadas, verdade?

     Em realidade McKinnon esteve a ponto de afogar-se de risada, recordou Nate, mas fez um esforço por não perder a sobriedade.

     -Isto não é uma brincadeira, Will. São negócios, e passageiros, além disso. Quão único terá que fazer será superar quatro estações. -Esboçou um sorriso-. É o que teremos que fazer todos.

     -Superarei-as. Mas só Deus sabe se estas dois conseguirão as superar. -Estudou a suas irmãs e meneou a cabeça-. por que treme? -perguntou ao Lily-. Não te enfrenta com um pelotão de fuzilamento, a não ser com milhões de dólares. Por amor de Deus, bebe um pouco disto! -E pôs o copo de uísque em mãos do Lily.

     -Não siga maltratando-a! -Tess se interpôs entre as duas, em um movimento instintivo por proteger ao Lily.

     -Não a estou maltratando, e não lhe aproxime isso!

     -Estarei perto teu durante um maldito ano, assim será melhor que vá acostumando.

     -Então será melhor que vá acostumando à maneira em que se vive aqui. Se ficar, não ficará sentada sobre seu gordo culo, terá que trabalhar.

     Para ouvir isso de «gordo culo», Tess respirou fundo. Tinha suado tinta e se matou de fome para perder todos os quilogramas de mais que arrastou durante a universidade, e estava orgulhosa dos resultados.

     -Recorda isto, bruxa: se for, você perde. E se crie que vou receber ordens de uma vaqueira ignorante com cara de pão, é muito mais parva do que pensava.

     -Fará exatamente o que eu diga -corrigiu-a Willa-. Porque em caso contrário, em lugar de ter uma cama cômoda dentro da casa, terá-te que passar um ano em uma carpa, à intempérie.

      -Tenho tanto direito como você a viver baixo este teto. Talvez mais, porque ele se casou primeiro com minha mãe.

     -O único resultado disso é que é mais velha -replicou Will e teve o prazer de comprovar que seu dardo tinha dado no branco-. E sua mãe era uma corista com mais tetas que cérebro.

     O que Tess tivesse sido capaz de responder ou de fazer ficou em suspense quando Lily rompeu a chorar.

     -Está contente agora? -perguntou Tess, pegando um empurrão a Willa.

     -Basta! -Farto de ser uma testemunha muda, Adam as conteve a ambas com um olhar-. Deveria dados vergonha! -inclinou-se e lhe falou em murmúrios ao Lily enquanto a ajudava a ficar de pé-. Faz-te falta tomar um pouco de ar fresco -disse em tom bondoso-. E deve comer algo. Então se sentirá melhor.

     -Leva-a a caminhar um pouco -disse Bess ficando pesadamente de pé. Doía-lhe muitíssimo a cabeça-. irei preparar a comida. E me envergonho de vocês -adicionou, dirigindo-se ao Tess e a Willa-. Conheci suas mães e estou convencida de que elas tivessem esperado um comportamento melhor de suas filhas. -Aspirou ar pelo nariz com expressão desdenhosa. Logo se voltou para o Nate com ar digno-. Se quer ficar a comer, será bem-vindo, Nate. Há comida mais que suficiente.

     -Obrigado, Bess, mas... -Pensava sair dali o antes possível; não queria que o esfolassem vivo-. Tenho que voltar para casa. -Reuniu seus papéis sem deixar de vigiar às duas mulheres que seguiam olhando-se com ar turvo-. Vos sotaque três cópias de todos os documentos. Se tiverem alguma pergunta ou alguma dúvida, já sabem onde me encontrar. E se não ter suas notícias, passarei por aqui dentro de um par de dias para ver… Para ver -finalizou. Tomou seu chapéu e suas pastas e se afastou do campo de batalha.

     Já controlada, Willa respirou fundo.

     -Desde dia em que nasci não tenho feito mais que pôr suor e sangue neste rancho. Isso te importa um nada e me dá igual. Mas não penso perder o que é meu. Supõe que isso me converte em um ser débil ante ti, mas não o cria, porque estou convencida de que não irá daqui deixando atrás mais dinheiro de que viu em toda sua vida, mais do que tenha sonhado tendo. Assim temos os mesmos interesses.

     Tess assentiu, sentou-se sobre o braço de uma poltrona e cruzou as pernas embainhadas em meias de seda.

     -De maneira que devemos definir as condições para viver durante o ano que vem. Você crie que para mim não tem importância abandonar durante um ano minha casa, meus amigos e meu estilo de vida. Mas não é assim.

     Tess não pôde menos que pensar sentimentalmente em sua casa, seu clube, Rodeio Drive. Mas apertou os dentes.

     -Mas não, tampouco penso abandonar o que é meu.

     -Teu? Que descarado!

     Tess inclinou a cabeça.

     -Nós gostemos ou não, e duvido que a nenhuma de nós dois nós gostemos, sou tão filha dele como você. Não cresci no rancho porque ele se desfez de minha mãe e de mim. É um fato e te advirto que depois de ter estado aqui um dia, começo a agradecer-lhe Mas agüentarei um ano neste lugar.

     Pensativa, Willa tomou o copo de uísque que Lily não havia meio doido.

     A ambição e a avareza eram motivações excelentes. Não cabia dúvida de que Tess ficaria.

     -E quando o ano termine?

     -Pode comprar minha parte. -A só idéia de uma quantidade tão grande de dinheiro lhe produziu um enjôo-. E em caso de que não seja isso o que queira, poderá-me mandar os cheques de meus lucros aos Anjos. Que é onde estarei ao dia seguinte de vencer o ano.

     Willa provou o uísque e se recordou que nesse momento devia concentrar-se.

     -Sabe montar?

     -Montar o que?

     Willa bufou e bebeu outro gole de uísque.

     -É lógico. Provavelmente tampouco saiba a diferença que há entre uma galinha e um galo.

     -Ah, não! Asseguro-te que conheço um passarinho quando o vejo -respondeu Tess e lhe surpreendeu ouvir a gargalhada da Willa.

     -A gente que vive neste lugar, trabalha. Isso é um fato. Eu já tenho bastante que fazer dirigindo aos peões e o gado, de maneira que você aceitará as ordens que te dê Bess.

     -Pretende que aceite as ordens que me dê um ama de chaves?

     Nos olhos da Willa houve um reflexo resistente.

     -Receberá ordens da mulher que te dará de comer, que preparará sua roupa e que limpará a casa onde viverá. E a primeira vez que a trate como a um servente, será a última. Prometo-lhe isso. Agora não está em Los Anjos, Hollywood. Aqui cada um faz algo útil.

     -Mas acontece que eu tenho uma carreira.

     -Sim, escreve guias de cinema. -Possivelmente houvesse trabalhos menos úteis, mas a Willa não lhe ocorria nenhum-. Bom, o dia tem vinte e quatro horas. É algo que descobrirá com muita rapidez. -Cansada, Willa se aproximou da janela, atrás do escritório-. Que mierda vou fazer com esse bichinho assustado?

      -Mas bem diria que é uma flor que foi esmagada.

     Surpreendida pelo tom compassivo de sua irmã, Willa a olhou, logo se encolheu de ombros.

     -Fez-te algum comentário sobre os moretones?

     -Não falei com ela mais que você. -Tess lutou para não sentir-se culpado. É importante não comprometer-se, recordou-se-. Esta não é exatamente uma reunião familiar.

     -O dirá ao Adam. cedo ou tarde, todo mundo conta ao Adam o que lhe dói. Pelo menos no momento, deixaremos em suas mãos a ferida do Lily.

     -Muito bem. Amanhã pela manhã voltarei para Os Anjos. A empacotar minhas coisas.

     -Um dos homens te levará de carro até o aeroporto.

     Como despedindo do Tess, Willa se voltou para a janela.

     -Aconselho-te que te faça um favor Hollywood. Compra roupa interior de lã e calções largos. Necessitará-os.

     Willa saiu a cavalo ao anoitecer. O sol sangrava ao cair detrás dos picos do oeste e tingia o céu de um vermelho intenso. Ela tinha necessidade de pensar, de tranqüilizar-se. Sob seu corpo, a égua grafite bailoteaba e mordia o freio.

     -Está bem, Moon, nos tiremos tudo isto de cima com um bom galope.

     Com um movimento das rédeas, Will trocou de direção e logo lhe deu rédea solta a sua cavalgadura. afastaram-se das luzes, dos edifícios, dos sons do rancho, rumo ao terreno aberto pelo que ziguezagueava o rio.

     Seguiram o bordo do rio, para o este onde já brilhavam as primeiras estrelas e onde os únicos sons eram o da água que corria e o retumbar dos cascos. O gado pastava e as chotacabras voavam em círculos. Ao chegar ao topo de um monte, Willa pôde ver quilômetros e quilômetros de silhuetas e sombras, árvores que se elevavam, a erva de uma pradaria balançada pelo vento e a linha interminável das alambradas. E à distância, no ar claro da noite se refletiam as luzes leves de um rancho vizinho.

     As terras do McKinnon.

     A égua sacudiu a cabeça e deu coices quando Willa a freou.

     -Não nos conseguimos tirar isso de cima, verdade?

     Não, a irritação ainda bulia em seu interior, quão mesmo a energia bulia em sua cavalgadura. Willa queria superar essa fúria amarga que a destroçava e a dor que fervia debaixo. Não a ajudaria a superar o ano seguinte. Tampouco me ajudará a superar a hora seguinte, pensou, e fechou os olhos com força.

     prometeu-se que não choraria. Não choraria pelo Jack Mercy, nem por sua filha menor.

     Respirou fundo e gozou do aroma de erva, a noite e a cavalo. Nesse momento, o que o fazia falta era controle, um controle calculado, irredutível. Encontraria a maneira de dirigir às duas irmãs que lhe acabavam de impor, a maneira das manter em linha e no rancho. Por mais que lhe custasse, asseguraria-se de que elas vivessem ali esse ano.

     Encontraria a maneira de arrumar-lhe com os supervisores que lhe tinham imposto. Enquanto punha ao Moon ao passo, decidiu que Nate era irritante mas que não lhe conduziria problemas. Não faria nada mais nem nada menos que o que considerasse que era seu dever legal. Coisa que, em opinião da Willa significava que se manteria afastado dos problemas diários do rancho e que desempenharia seu papel a grandes rasgos.

     No fundo de seu coração, até lhe tinha lástima. Conhecia-o desde fazia muito tempo e muito bem para acreditar por um instante que desfrutaria da posição em que o acabavam de pôr. Nate era justo, honesto, e gostava de ocupar-se de seus próprios assuntos.

     Ben McKinnon, pensou Willa, e a irritação amarga voltou a agitar-se em seu interior. Essa era farinha de outro costal. Não lhe cabia dúvida de que Ben desfrutaria de cada minuto de seu novo trabalho. Colocaria o nariz em tudo, e ela não teria mais remedeio que agüentá-lo. Mas, pensou com um sorriso sombrio, não tinha necessidade de agüentar o de bom modo, e de maneira nenhuma lhe facilitaria a tarefa.

     Por certo que sabia o que se propunha Jack Mercy e isso o fazia ferver o sangue. Ao olhar a silhueta e as luzes do Three Rocks sentiu que o calor lhe abrasava a pele a pesar do afresco da noite.

     Desde fazia gerações, as terras do McKinnon e as do Mercy partiam lado a lado. Alguns anos depois de que os Sioux fizeram um trato com o Custer, dois homens que caçavam nas montanhas e vendiam suas peles em Telhas, compraram ganho barato e o tocaram juntos para o norte, a Montana como sócios. Mas a sociedade se rompeu e cada um deles reclamou suas próprias terras, suas próprias cabeças de gado e edificou seu próprio rancho.

      Assim, a partir de então, existiram o Rancho Mercy e o Rancho Three Rocks, e cada um deles se expandiu, prosperou, lutou e sobreviveu.

     E Jack Mercy vivia desejando as terras do McKinnon. Terras que não se podiam comprar, nem roubar nem obter com nenhuma classe de truque. Mas se poderiam unir, pensou Willa nesse momento. Se as terras do Mercy e do McKinnon se unissem, o resultado seria um dos ranchos maiores e, sem dúvida, mais importantes do oeste.

     Quão único Jack tinha que fazer era vender a sua filha. Para que outra coisa servia uma mulher?, pensou Willa. Negociá-la, como se negociaria uma vitela linda e gorda. Pô-la frente ao touro as vezes necessárias e a natureza se encarregaria do resto.

     De maneira que, como Jack não teve filhos varões, estava fazendo o que pareceu mais conveniente. Punha a sua filha frente a Ben McKinnon. E todo mundo se dará conta, pensou Willa enquanto se obrigava a relaxar as mãos com que aferrava as rédeas. Não pôde levar a cabo o negócio em vida, de maneira que segue tratando de obtê-lo da tumba.

     E se por acaso a filha que esteve a seu lado durante toda a vida, a que trabalhou a seu lado, a que suou e sangrou nessa terra não era tentação suficiente... bom, tinha outras dois.

     -Maldito seja, papai! -Com mãos trementes se voltou a pôr o chapéu-. O rancho é meu e seguirá sendo-o. E maldita seja se penso abrir as pernas para o Ben McKinnon ou para nenhum outro.

     Alcançou a ver um relâmpago de luzes de faróis, falou-lhe em murmúrios à égua para tranqüilizá-la. Não chegava a distinguir bem o veículo, mas notou com claridade a direção que tomava. Esboçou um leve sorriso ao ver que as luzes giravam para a casa principal do Three Rocks.

     -Assim tornou do Bozeman, verdade?

     Instintivamente se ergueu na arreios, levantou o queixo. O ar era tão limpo que alcançou para ouvir o ruído que fazia a porta do veículo ao fechar-se, os latidos de bem-vinda dos cães. perguntou-se se Ben levantaria a cabeça e olharia em direção ao monte. Nesse caso veria a sombra escura de cavalo e cavaleiro. E Willa pensou que saberia quem o observava do limite de suas terras.

     -Já veremos o que acontecerá agora, McKinnon .-murmurou-. Quando tudo isto termine, já veremos quem dirige o Rancho Mercy.

     ouviu-se o uivo de um coiote que lhe cantava à lua em quarto crescente. E Willa voltou a sorrir. Existe toda classe de coiotes, pensou. Por bonito que seja seu canto, não por isso deixam de ser animais que se alimentam de carniça.

     Ela não permitiria que nenhum desses animais entrasse em sua terra.

     Fez girar à égua e se encaminhou a sua casa à luz do anoitecer.

    

     -Que filho de puta! -exclamou Ben, inclinando-se sobre a arreios e meneando a cabeça sem deixar de olhar ao Nate. Em seus olhos, protegidos pela asa larga de um chapéu cinza escuro, relampejava um verde frio-. Lamento me haver perdido seu enterro. Meus pais me comentaram que foi todo um acontecimento social.

     -Sim, foi.

     Nate golpeou distraído com uma mão o flanco do cavalo escuro que montava. Tinha conseguido alcançar ao Ben instantes antes de que seu amigo partisse rumo às terras altas.

     Do ponto de vista do Nate, Three Rocks era um dos lugares mais bonitos de Montana. A mesma casa principal era um exemplo excelente de eficiência e estética. Não era um palácio, como o do Mercy, a não ser uma casa atrativa forrada em madeira e com alicerces de pedra e distintos ângulos de teto que lhe adicionavam encanto. Também contava com abundantes alpendres para sentar-se a contemplar as montanhas.

     A família McKinnon tinha um rancho prolixo, ativo mas tranqüilo.

     Alcançava para ouvir os protestos bovinos que surgiam de um curral. O desmame dos bezerros que eram separados de suas mães, não era tarefa agradável. Os machos serão ainda mais desgraçados, pensou Nate, porque os castrarão e os descornarão.

     Era um dos motivos pelos que ele preferia trabalhar com cavalos.

     -Já sei que está ocupado -continuei dizendo Nate-. Não quero te fazer perder o tempo, mas supus que devia vir a te explicar como estão as coisas.

     -Sim.

     Em realidade Ben tinha muito trabalho por diante. Outubro deixava passo a novembro e esse limite duvidoso anterior ao inverno não durava muito. Nesse momento, o sol brilhava como um anjo sobre o Three Rocks. Os cavalos pastavam na pradaria mais próxima e os peões trabalhavam em mangas de camisa. Mas era necessário examinar os alambrados e levar a cabo a colheita fina. O gado que não passaria o inverno no rancho devia ser reunido e embarcado.

     Mas levantou o olhar sobre pradarias e pastos e a fixou no rancho Mercy. Supôs que essa manhã, Willa Mercy teria mais trabalho que nunca na mente.

     -Não tenho nada contra sua capacidade como advogado, Nate, mas suponho que todas essas mentiras legais são insustentáveis, não é certo?

     -Os términos do testamento são claros e muito precisos.

     -Seguem sendo estupidezes de advogados.

     Fazia muito tempo que se conheciam para que Nate se sentisse ofendido.

     -Willa poderia impugná-lo em um julgamento para tratar de anular o testamento, mas lhe resultaria costa acima e nada fácil de ganhar.

     Ben voltou a olhar para o sudoeste, imaginei a Willa Mercy e meneei a cabeça. sentava-se com tanta comodidade sobre uma arreios como qualquer outro homem em uma poltrona fofa. depois de trinta anos de vida de rancho, esse era seu meio de vida natural. Não era tão alto como Nate mas media um metro oitenta e três e seu corpo magro era particularmente musculoso. Tinha o cabelo de um castanho dourado, desbotado por muitas horas sob o sol, e o bastante largo como para que lhe chegasse ao pescoço da camisa. Seus olhos eram agudos como os de um falcão e pelo general tão frios como os dessa ave, em um rosto arrumado e torrado pelo sol, típico do homem que se sente cômodo na vida ao ar livre. Uma cicatriz horizontal lhe marcava o queixo, uma lembrança de sua juventude e de uma queda enquanto jogava com seu irmão.

     Nesse momento Ben se passou a mão pela cicatriz, um gesto distraído e habitual nele. O dia que Nate lhe informou sobre os términos do testamento, sua primeira reação foi sentir-se divertido. Mas agora que era uma realidade, já não lhe resultava tão cômico.

     -E ela como o está tomando?

     -É duro.

     -Mierda! Não sabe quanto o lamento. Willa queria a esse velho cretino, só Deus sabe por que. -tirou-se o chapéu, passou-se os dedos pelo cabelo e o voltou a pôr-. E o que mais rabia lhe deve dar é que eu figure no assunto.

     Nate sorriu.

     -Bom, sim. Mas acredito que também lhe daria raiva que fora qualquer outro.

     Não, pensou Ben, não tanta. perguntou-se se Willa estaria inteirada de que em uma ocasião seu pai lhe ofereceu cinco mil hectares de terras baixas da melhor qualidade se se casava com ela. Como se fora um rei de porcaria, pensou Ben, que tratava de unir seu reino com outro.

     Mercy seria capaz do dar de presente tudo, pensou entrecerrando os olhos para olhar o sol. Preferia mil vezes o dar de presente antes de soltar as rédeas.

     -Willa não nos necessita dois para dirigir o rancho -disse Ben-. Mas farei o que o testamento diz que devo fazer. E, demônios... -Seu sorriso se estendeu lenta, arrogante e quase modificou as facções de seu rosto-. Será entretido que tenhamos um enfrentamento cada cinco minutos. E que tal são as outras dois?

     -Distintas. -Pensativo, Nate se apoiou contra o pára-choque de seu Land Rover-. A do meio, Lily, assusta-se com facilidade. Dá a sensação de que seria capaz de sair de um salto de sua própria pele se a gente fizesse um movimento rápido. Tinha a cara cheia de moretones.

     -Teve um acidente?

     -Mas bem diria que chocou por acidente contra os punhos fechados de algum tipo. Tem um ex-marido. E a justiça emitiu uma ordem judicial que o obriga a manter-se afastado dela. Prenderam-no várias vezes por pegar a sua mulher.

     -Filho de puta! -Se existia algo pior que o homem que pegava a seu cavalo, era o que pegava a sua mulher.

     -Ela se mostrou encantada ante a possibilidade de poder ficar -seguiu dizendo Nate e, a sua maneira tranqüila e metódica, começou a atar um cigarro-. Tenho a sensação de que considera que o rancho é um bom lugar para ocultar-se. A maior é mais elegante. Típica de Los Anjos, vestido italiano, relógio de ouro. -Voltou a colocar a bolsa de tabaco em um bolso e acendeu um fósforo-. Escreve guias de cinema e está espantada ante a idéia de ter que viver um ano na solidão e a selva. Mas quer o dinheiro que isso lhe dará. Vai caminho de volta a Califórnia para empacotar seus pertences.

      -Ela e Willa devem levar-se como um par de gatas em zelo.

     -Já se encetaram -informou Nate, exalando a fumaça com ar comtemplativo-. Devo admitir que foi entretido presenciar esse enfrentamento. Adam as acalmou.

     -É virtualmente o único capaz de acalmar a Willa. -Com um rangido de couro, Ben trocou de posição na arreios. Spook, seu cavalo, estava-se impacientando e demonstrava com movimentos de cabeça suas vontades de ficar em marcha de uma boa vez-. Já me encarregarei de falar com a Willa. Agora devo ir examinar a um grupo de peões a quem mando às terras altas. Açoitam-nos algumas tormentas. Mamãe tem café preparado na casa principal.

     -Obrigado, mas devo voltar. Eu também tenho trabalho que fazer. Veremo-nos dentro de um dia ou dois.

     -Sim. -Ben chamou a seu cão e observou ao Nate subir a seu Land Rover-. Nate, suponho que não permitirá que ela perca esse rancho.

     Nate se acomodou o chapéu e tirou as chaves do carro.

     -Não, Ben. Não permitiremos que o perca.

    

     Cruzar o vale e subir até o pé das montanhas exigia um bom galope. Ben tomou com tranqüilidade, observando a terra enquanto avançava. O gado estava gordo; teria que escolher alguns exemplares do Angus para terminá-los em currais de engorda antes do inverno. A outros iriam rodando de um pasto a outra e os conservariam durante outro ano.

     Desde fazia quase cinco anos, a seleção e a venda era responsabilidade dela porque seus pais pouco a pouco foram deixando a direção do Three Rocks em mãos dele e de seu irmão.

     A erva estava alta e ainda verde, e resplandecia contra o verde mais escuro das árvores. Ouviu um zumbido sobre sua cabeça e levantou o olhar, sorridente. Zack, seu irmão, estava voando. Ben se tirou o chapéu e o saudou. Charlie, o border collie de cabelo comprido, começou a ladrar e a correr em círculos. O avião de pequeno porte respondeu à saudação com um balanço das asas.

     Ao Ben ainda lhe custava pensar em seu irmão menor como um homem casado e pai de família. Mas assim eram as coisas. Assim que Zack viu o Shelly Peterson, caiu apaixonado a seus pés. menos de dois anos depois o converteram em tio. E, pensou Ben, isso o fazia sentir incrivelmente velho. Começava a sentir que em lugar de ser três anos maior que Zack, levava-lhe trinta.

     ajustou-se o chapéu à cabeça e guiou a seu cavalo monte acima por entre um bosquecito de pinheiros amarelos. O ar era mais fresco, quase frio. Viu rastros de cervos e em alguma outra ocasião teria cedido ao impulso de lhes seguir os rastros, para lhe levar carne fresca a sua mãe. Charlie olisqueaba o chão, esperançado, e de vez em quando olhava para trás, para pedir permissão para sair a caçar. Mas Ben não tinha vontades de caçar.

     Cheirava a neve. Ainda estava por debaixo da linha da neve, mas alcançava a cheirá-la no ar. Já tinha visto bandos de gansos canadenses voando para o sul. O inverno chegava cedo e possivelmente fosse duro. Até a queda de água do arroio que descia da montanha fazia um ruído frio.

     À medida que as árvores eram mais espessas, a terra ficava mais dura. Ben seguiu o curso de água. O bosque lhe resultava tão familiar como o pátio traseiro de sua casa. Ali estava o alerce a cujos pés uma vez ele e Zack cavaram em busca de um tesouro enterrado. E ali, no claro pequeno, matou seu primeiro gamo, com seu pai de pé a seu lado. Ali pescavam, tirando trutas da água com a mesma facilidade com que se arrancam bagos de um arbusto.

     Nessas rochas, uma vez escreveu o nome de seu amor. As palavras se desbotaram e se foram lavando com os anos. E a bonita Susie Boline escapou a Helena com um violonista, rompendo o coração do Ben aos dezoito anos.

     A lembrança ainda o estremecia, apesar de que preferiria sofrer os torturas do inferno antes de confessar que era um sentimental. Cavalgou além das rochas e das lembranças e seguiu subindo, mantendo-se no atalho que ziguezagueava por entre árvores de cores tão brilhantes como os vestidos das mulheres em um baile de sábado de noite.

     O ar se fazia cada vez mais leve e frio e o aroma de neve era cada vez mais forte, Ben assobiava entre os dentes. Sua viagem ao Bonzeman foi produtivo, mas sentiu falta de todo isso. O espaço, a solidão, a terra. Embora se disse que levava consigo um saco de dormir tão solo como precaução, já planejava acampar durante a noite. Talvez durante duas noites.

      Podia caçar um coelho, fritar um pouco de pescado e possivelmente até ficar a passar a noite em companhia dos peões. Ou acampar afastado deles. Os peões levariam o gado aos campos baixos. Tanto aroma de neve no ar significava que talvez tivessem uma tormenta, uma nevada forte, um desastre para quão animais estivessem pastando nas pradarias altas. Mas Ben acreditava que ainda teriam tempo de evitá-lo.

     deteve-se um instante para olhar um potrero das alturas: uma pradaria salpicada de vacas, bordeada por um rio; para desfrutar das flores silvestres outonais e do canto dos pássaros. perguntou-se como era possível que alguém pudesse preferir a aglomeração das ruas das cidades, os edifícios lojas de comestíveis de gente e de problemas.

     O ruído de um disparo espantou a seu cavalo e esclareceu mente do Ben, obrigando-o a esquecer seus ensoñaciones. Apesar de que era um país onde um tiro pelo general significava a caça de algum animal, Ben entrecerró os olhos. Ao escutar o disparo seguinte, em um movimento automático atirou das rédeas para dirigir ao cavalo para ali e o esporeou para que começasse a trotar.

     O primeiro que viu foi a égua. A grafite do Will ainda tremia, as rédeas sobre um ramo. O sangue tinha um aroma forte e adocicado e, ao percebê-lo, Ben sentiu que lhe revolvia o estômago. Depois a viu ela, com uma escopeta na mão e a menos de três metros de distância de um urso cinza cansado. Lançando um grunhido, o cão se adiantou e só se deteve o ouvir a ordem do Ben.

     Ben não desceu do cavalo até que Willa teve tempo de voltar-se e olhá-lo por cima do ombro. Notou que estava pálida e que seus olhos pareciam mais escuros que nunca.

     -Está completamente morto?

     -Sim. -Ela tragou com força. Odiava matar, odiava derramar sangue. Até ver depenar uma galinha para o jantar lhe revolvia o estômago-. Não pude evitá-lo. Atacou-me.

     Ben assentiu, tirou o rifle da capa e se aproximou.

     -Que besta! -Não queria nem pensar no que poderia ter acontecido se a Willa tivesse falhado a pontaria; o que um urso desse tamanho poderia haver feito a um cavalo e a seu cavaleiro-. É uma fêmea -informou em voz baixa-. É provável que tenha crias pelos arredores.

     Willa voltou a colocar a escopeta em sua capa.

     -É o que supus.

     -Quer que lhe esfole isso?

     -Eu sei esfolar animais.

     Ben só assentiu e foi em busca de sua faca.

     -De todos os modos te darei uma mão. É um animal enorme. Lamento o de seu pai, Willa.

     Ela tirou sua própria faca, um muito parecido ao do Ben.

     -Você o odiava.

     -Mas você não, de maneira que o lamento. -Começou a esfolar a vas, evitando o sangue quando era possível, aceitando-a quando não ficava mais remédio-. Esta manhã andou Nate por aqui.

     -Arrumado a que sim.

     O sangue fumegava no ar gelado. Enquanto movia a cauda com entusiasmo, Charlie comia as vísceras com delicadeza. por cima do corpo da vas, Ben olhou a Willa aos olhos.

     -Se quer estar furiosa comigo, adiante. Eu não redigi esse maldito testamento, mas farei o que terei que fazer. E o primeiro que devo fazer será te perguntar o que fazia aqui acima, a cavalo e sozinha.

     -Suponho que quão mesmo você. Tenho peões nas terras altas e gado que é necessário tocar para baixo. Eu posso dirigir meu negócio tão bem como você dirige o teu, Ben.

     O esperou uns instantes em silêncio, com a esperança de que ela dissesse algo mais. Sempre lhe tinha fascinado a voz da Willa. Era rouca e soava extremamente sensual. mais de uma vez Ben tinha pensado que era uma pena que uma mulher de campo tivesse uma voz de tão atrativo sexual.

     -Bom, temos um ano para averiguá-lo, não é certo? -Ao ver que ela não respondia, Ben se passou a língua pelos dentes-. Pensa fazer dissecar a cabeça deste animal?

     -Não. Aos homens fazem falta os troféus para assinalá-los e gabar-se. Não é meu caso.

     Então Ben sorriu.

     -Sim, é certo, nós gostamos dos troféus. E você poderia te converter em um troféu interessante. É bonita, Willa. E acredito que é a primeira vez que lhe digo isso a uma mulher por cima das vísceras de um urso.

     Willa se deu conta do esforço que fazia Ben por mostrar-se encantador, e se negou a deixar-se enganar. Ao longo dos dois últimos anos, sua decisão de não sentir-se atraída pelo Ben McKinnon tinha adquirido proporções inusitadas.

     -Não necessito sua ajuda com o urso nem com o rancho.

     -Mas a tem, para as duas coisas. Podemo-lo fazer em paz ou como adversários. -O cão Charlie se sentou a seu lado e ele o acariciou distraído-. De todos os modos não me importa muito qual das duas formas escolhe.

     Notou que Willa tinha profundas olheiras. Eram como moretones sobre a pele dourada. E sua boca, que sempre lhe resultou particularmente atrativa, estava convertida em uma linha dura e magra. Ben preferia vê-la resmungando e acreditava saber como obtê-lo.

      -Suas irmãs são tão bonitas como você? -Ao ver que ela não respondia, teve que lutar para conter um sorriso-. Mas arrumado a que serão mais amistosas que você. Terei que ir de visita, para comprová-lo pessoalmente. por que não me convida a comer, Will? Assim nos poderemos sentar a conversar sobre os planos futuros para o rancho. -Willa o olhou, jogando faíscas pelos olhos, e ele sorriu sem dissimulação-. Sabia que com isso o obteria! Por amor de Deus! Nada fica melhor que essa expressão da mais pura teima.

     Ela não queria que lhe dissesse que era bonita, se disso se tratava. Era algo que sempre lhe produzia um estranho desconforto na boca do estômago.

     -por que não economiza suas forças para levantar este corpo para que termine de sangrar-se?

     Apoiado sobre os talões, ele a estudou.

     -Poderíamos nos tirar tudo isto de em cima de uma vez por todas. Se nos casássemos terminaríamos com o assunto.

     Embora aferrou com força a faca ensangüentada, Willa respirou fundo três vezes. É obvio que a estava provocando e nada no mundo gostaria mais que vê-la gritar e ficar de pé, presa de uma rabieta. Mas em lugar disso, inclinou a cabeça e lhe falo com uma voz tão fria como a água do arroio próximo.

     -Há tantas possibilidades de que isso aconteça como as de que este urso se eleve sobre suas patas e te remoa o traseiro.

     Ao ver que ela ficava de pé, ele a imitou, rodeou-lhe as bonecas com os dedos e ignorou seu rápido movimento de protesto.

     -Não te desejo mais do que você me deseja . Pensei que seria mais fácil para todo mundo se tirássemos este assunto do caminho. A vida é larga, Willa -adicionou com mais suavidade-. Um ano não é muito tempo.

     -Às vezes um dia é muito tempo. me solte, Ben. -Levantou o olhar com lentidão-. O homem que vacila em escutar à mulher que empunha uma faca, merece o que lhe aconteça.

     O poderia lhe haver arrancado a faca das mãos em menos de três segundos, mas decidiu deixar as coisas como estavam.

     -Você gostaria de me dar uma punhalada, não é certo? -O fato de que soubesse que era certo o irritava e excitava de uma vez. Mas não era estranho, Willa estava acostumada lhe provocar essas reações-. Coloque-lhe o de uma vez na cabeça: não quero o que é teu. E, quão mesmo você, não me entusiasma a idéia de carregar com mais terras nem com mais ganho. -Para ouvi-lo ela empalideceu, e Ben assentiu-. Já sabemos em que posição estamos, Will. Talvez alguma de suas irmãs seja de meu gosto, mas até então isto não é mais que uma questão de negócios.

     A humilhação que sentia era tão crua como o sangue que lhe tingia as mãos.

     -Filho de puta!

     Como medida de prudência, lhe sustentou a mão com a que empunhava a faca.

     -Eu também te quero, meu amor. Agora pendurarei o urso. Você vá lavar te.

     -Eu o cacei. Posso...

     -A mulher que vacila em escutar ao homem que empunha uma faca, merece o que lhe aconteça. -Voltou a sorrir com lentidão-. por que não tratamos de obter que este assunto seja tranqüilo para os dois?

     -Porque é impossível. -Toda a paixão e a frustração que buliam em seu interior se fundiram nessas três palavras. Consta-te que é impossível. Como lhe tomaria você se estivesse em meu lugar?

     -Mas não o estou -respondeu ele com simplicidade-. vá lavar te esse sangue. Hoje ainda fica muito por cavalgar.

     voltou-se a esconder para deixá-la ir, consciente de que ela seguia de pé a seu lado, lutando por controlar-se. Ben não se relaxou por completo até que Willa se afastou para o arroio com o cão correndo atrás dela com felicidade. Então Ben lançou um bufido e baixou a vista para contemplar as presas expostas da vas.

     -Não há dúvida de que ela preferiria tua dentada a uma palavra amável minha -murmurou-. Malditas mulheres!

     Enquanto terminava a desagradável tarefa, admitiu para seus adentros que tinha mentido. Em realidade a desejava. O incrível do assunto era que, por menos que quisesse que fora assim, mais crescia seu desejo.

    

     Transcorreu quase uma hora antes de que ela voltasse a falar. Ambos se tinham posto jaquetas de pele de ovelha para proteger do frio e do vento, e os cavalos avançavam através de perto de trinta centímetros de neve, com o Charlie seguindo-os.

     -Fica com a metade da carne do urso. É o que corresponde -disse por fim Willa.

     -Agradeço-lhe isso.

     -O agradecimento é um problema, verdade? Nenhum dos dois tem vontades de lhe estar agradecido ao outro.

      «Compreendo-a melhor do que lhe gostaria que a compreendesse», pensou Ben.

     -Às vezes não fica mais remedeio que tragá-lo que um não pode cuspir.

     -E às vezes um se afoga. -Nesse momento se abriu uma das feridas de seu coração-. Ao Adam virtualmente não deixou nada.

     Ben lhe estudou o perfil.

     -Jack era um tipo duro. -E Adam Wolfchild não era de seu sangue, pensou Ben. Isso deveu ser o que mais pesou na mente do Jack.

     -Adam deveria receber mais. -Terá mais, prometeu-se Willa.

     -Não penso estar em desacordo contigo no que ao Adam se refere. Mas se conhecer alguém capaz de cuidar-se só e de ganhar sua própria fortuna, é seu irmão.

     «É o único que fica», pensou. Esteve a ponto de dizê-lo, mas se conteve quando recordou que seria um engano abrir parte de seu coração diante do Ben.

     -Como está Zack? Esta manhã vi seu avião de pequeno porte.

     -Anda revisando alambrados. Considerando que não faz mais que andar sonriendo dia e noite como um parvo, eu diria que está feliz. O e Shelly estão loucos por esse bebê.

     «Estamo-lo todos», pensou Ben, mas nem louco confessaria que não podia deixar de acariciar a sua pequena sobrinha.

     -É um bebê precioso. Mas ainda me resulta difícil ver o Zack McKinnon tendo sentado cabeça e convertido em um homem de família.

     -Shelly sabe quando deve lhe cortar as rédeas. -Sem poder resistir, Ben lhe sorriu-. Suponho que não seguirá apaixonada por meu irmão menor, verdade Willa?

     Divertida, ela se voltou e lhe sorriu com doçura. Houve um tempo muito breve, quando eram adolescentes, durante o que ela e Zack se sentiram atraídos.

     -Cada vez que penso nele, palpita-me o coração. Quando Zack McKinnon beijou a uma mulher, esta não pode já pensar em nenhum outro.

     -Querida... -Estirou uma mão e lhe aconteceu a trança sobre o ombro, deixando-a cair a suas costas-. Isso é porque nunca te beijei eu.

     -Antes preferiria beijar a uma raposa de duas caudas.

     Rendo, Ben fez mover a seu cavalo o suficiente para que seu joelho me chocasse contra a dela.

     -Zack seria o primeiro em confessar que lhe ensinei tudo o que sabe.

     -Talvez seja assim, mas acredito que posso viver sem nenhum dos moços McKinnon. -Elevou um ombro e logo moveu apenas a cabeça-. Fumaça. -Era um alívio esse sinal da presença de gente e de que se aproximava o fim de sua solitária rodeio com o Ben-. É provável que os peões estejam na cabana. Já é hora de jantar.

     Com outra mulher, com qualquer outra mulher, pensou Ben, tivesse estirado um braço, a teria aproximado para beijá-la até deixá-la sem fôlego. Solo por princípio. Mas como se tratava da Willa, acomodou-se na arreios e manteve quietas as mãos.

     -Tenho vontades de comer. vou organizar um rodeio dos animais para baixá-los. vai nevar mais.

     Ela sozinho lançou um grunhido. Alcançava a cheirá-lo. Mas havia algo mais no ar. Ao princípio se perguntou se seria um ressaibo do vas e do sangue que teve nas mãos, mas persistia e parecia aumentar.

     -Há algo morto -murmurou.

     -O que?

     -Há algo morto. -ergueu-se na arreios e esquadrinhou as colinas e as árvores. Reinava um silêncio de morte, uma enorme quietude-. Não o cheira?

     -Não. -Mas não lhe cabia dúvida de que ela sim o cheirava e voltou seu cavalo quando ela o fez. Já sobre o rastro, Charlie se adiantava-. É sua parte de sangue a Índia. Suponho que algum dos peões caçou algo para o jantar.

     Era sensato. Deviam ter levado provisões consigo, e a cabana sempre estava bem provida, mas era difícil resistir à carne fresca. Entretanto isso não explicava o terror que sentia no estômago nem o frio que lhe percorria a coluna vertebral.

     Ouviram no alto o grito de uma águia, o eco selvagem e estremecedor desse grito, logo o silêncio absoluto das montanhas. O sol se refletia, enceguecedor, na neve. Seguindo seu instinto, Willa abandonou o agreste atalho e conduziu ao cavalo sobre terreno duro e acidentado.

     -Não temos muito tempo para andar dando voltas -recordou-lhe Ben.

     -Então, você segue.

     O lançou uma maldição e se voltou para comprovar que tinha o rifle a seu alcance. Ali também havia ursos. E pumas. Pensou no acampamento a apenas dez minutos de distância e no café quente que ferveria sobre a cozinha.

      Então o viu. Talvez seu olfato não fora tão agudo como o dela, mas sua vista o era. Havia sangue salpicado por toda parte e formando pequenos atoleiros sobre a neve. O couro negro da cabeça de gado estava talher de sangue. O cão deixou de dar voltas ao redor do novilho mutilado e correu para os cavalos.

     -Vá, mierda! -exclamou Ben, desmontando.

     -Lobos? -Para a Willa era mais que o preço que o novilho teria obtido no mercado. Era o desperdício, a crueldade.

     Ben começou a assentir, logo se deteve em seco. Um lobo não matava para depois deixar a carne. Um lobo não esfaqueava. Solo existia um depredador capaz disso.

     -Um homem.

     Willa exalou com força ao aproximar-se e ver os danos. O novilho estava degolado, tinha o ventre esmigalhado e os intestinos fora dele. Charlie se apertou contra suas pernas, tremendo.

     -Esquartejaram-no. Mutilado.

     agachou-se e pensou no urso. Nesse caso não ficou mais alternativa que matar e o esfolaram com eficiência e com os elementos que tinham à mão. Mas isso... isso era algo selvagem, malvado e sem propósito.

     -Quase à vista da cabana -comentou-. O sangue está congelado. É provável que o tenha feito faz horas, antes da saída do sol.

     -É um dos teus -disse Ben, depois de examinar a marca.

     -Não interessa de quem seja. -Mas notou o número que figurava no cartão amarelo da orelha. Teria que registrar a morte. ficou de pé e observou o fio de fumaça que se elevava-. O que importa é por que. perdeste ganho desta maneira?

     -Não. -Ben se ergueu para ficar de pé ao lado da Willa-. E você?

     -até agora, nunca. Não posso acreditar que seja um de meus homens. -Respirou-. Nenhum dos teus. Deve haver alguém acampando por aqui acima.

     -Talvez. -Ben olhava o chão com o sobrecenho franzido. Nesse momento estavam ombro contra ombro, unidos por esse espanto que tinham a seus pés. Ela não se apartou quando lhe aconteceu a mão pela trança nem quando a apoiou amigablemente sobre seu braço-. Tivemos mais neve e muito vento. O estou acostumado a está bastante pisoteado, mas acredito que há um rastro que se dirige ao norte. Procurarei alguns homens e o seguirei.

     -Era meu novilho.

     O a olhou.

     -Não importa de quem fora -repetiu-. Temos que fazer um rodeio de seus animais e de meus e devemos apresentar a denúncia do que aconteceu. Suponho que posso contar contigo para isso.

     Ela abriu a boca e a voltou a fechar. Ben tinha razão. Era bastante inútil quando se tratava de seguir um rastro, mas podia organizar um rodeio. Assentiu e se voltou para sua égua.

     -Falarei com meus homens.

     -Will. -Nesse momento apoiou uma mão sobre a dela, pele sobre pele, antes de que Willa pudesse montar-. Te cuide.

     Ela saltou à arreios.

     -São meus homens -disse com simplicidade enquanto ficava em marcha rumo à fumaça que se elevava para o céu.

    

     Ao entrar na cabana, encontrou a seus homens a ponto de almoçar. Pickles estava junto à pequena cozinha, as pernas abertas, o estômago amplo que lhe caía sobre o cinturão. Logo que tinha quarenta anos e sua calvície avançava com rapidez, coisa que ele compensava com um bigode ruivo que era cada ano mais largo. Tinha adquirido o apelido por seu amor obsessivo pelos pickles, e por sua personalidade, igualmente amarga.

     Ao ver a Willa grunhiu uma bem-vinda e se voltou a ocupar do presunto que estava fritando.

     Jim Brewster estava sentado com as botas sobre a mesa e gozando das últimas baforadas de um Marlboro. Tinha apenas trinta anos e um rosto particularmente arrumado. Uma covinha em cada bochecha e o cabelo escuro que lhe ondulava até o pescoço. Sorriu a Willa e lhe dedicou uma piscada pedante com os olhos azuis chisporroteantes.

     -Temos companhia para o almoço, Pickles.

     Pickles lançou outro grunhido surdo, arrotou e deu a volta ao presunto.

     -Quase não há bastante carne para dois. Levanta seu traseiro preguiçoso e abre uma lata de ervilhas.

     -A neve se aproxima -disse Willa, pendurando seu casaco de um gancho e encaminhando-se a rádio.

     -Falta pelo menos outra semana.

     Ela voltou a cabeça e seu olhar se encontrou com os olhos marrons zangados do Pickles.

     -Não acredito. Hoje mesmo começaremos o rodeio.

     Esperou, sustentando o olhar do Pickles. Ele odiava receber ordens de uma mulher e ambos sabiam.

     -A fazenda é dela -murmurou ele derrubando o presunto sobre um prato.

      -Sim, assim é. E um de meus animais foi esquartejado ao meio quilômetro ao leste desta cabana.

     -Esquartejado? -Jim fez uma pausa no momento em que alcançava ao Pickles uma lata aberta de ervilhas-. Um puma?

     -Não a menos que hoje em dia os gatos andem armados de facas. Alguém esquartejou um de meus novilhos, fez-o pedaços e o deixou ali atirado.

     -Mentira! -Pickles se adiantou com os olhos entrecerrados-. Isso não é mais que mierda. Will, perdemos um par de animais por causa dos pumas. Algum deles deve ter andado dando voltas para caçar um novilho, nada mais.

     -Conheço a diferença entre as garras e uma faca. -Inclinou a cabeça- vá ver o você mesmo. Justo para o este, mais ou menos ao meio quilômetro daqui.

     -É obvio que o farei! -exclamou Pickles agarrando seu casaco enquanto lançava impropérios contra as mulheres.

     -Está segura de que não pode ter sido um felino? -perguntou Jim assim que Pickles saiu dando uma portada.

     -Sim, estou segura. me sirva um pouco de café, quer, Jim? vou chamar ao rancho por rádio. Quero lhe comunicar ao Ham que baixamos.

     -Os homens do McKinnon estão aqui acima, mas...

     -Não. -Willa meneou a cabeça e apartou uma cadeira da mesa-. Não conheço nenhum vaqueiro capaz de fazer isso.

     comunicou-se com o rancho, escutou os ruídos de estática, esperou a que desaparecessem. O café, e o rangido do fogo afugentaram o pior do frio enquanto ela fazia os preparativos necessários para o rodeio. Já estava bebendo a segunda taça de café quando passou a informação ao rancho do McKinnon.

     Pickles entrou dando outra portada.

     -Cretino filho de puta!

     Aceitando essas palavras como a única desculpa que receberia, Willa se aproximou da cozinha e encheu seu prato.

     -Vim a cavalo com o Ben McKinnon. O decidiu seguir uns rastros. Nós ajudaremos a baixar seu rodeio junto com o nosso. Algum de vós viu a alguém pelos arredores? Gente acampando, caçadores, idiotas do este?

     -Ontem, enquanto seguíamos os rastros do puma, cruzamo-nos com um lugar onde houve um acampamento. -Jim se voltou a sentar com seu prato na mão-. Mas estava frio. Tinha pelo menos dois ou três dias de antigüidade.

     -Deixaram uma grande quantidade de latas de cerveja. -Pickles comia de pé-. Como se isto fora seu próprio pátio traseiro. Deveriam-nos acribillar a balaços.

     -Estão seguros de que a esse novilho não o mataram de um tiro? -perguntou Jim, olhando ao Pickles para receber uma confirmação, feito que Willa se esforçou por não considerar ofensivo-. Já sabem como são esses moços de cidade: gostam de atirar contra algo que se mova.

     -Não o mataram de um tiro. Não é obra de nenhum turista. -Pickles se meteu uma colherada de ervilhas na boca. Devem ter sido esses malditos adolescentes. Esses malditos adolescentes loucos e drogados.

     -Talvez. Se for assim, Ben os encontrará com toda facilidade.

     Mas não acreditava que fora obra de uns adolescentes. Do ponto de vista da Willa faziam falta muitos anos mais para encher-se de uma fúria tão grande.

     Jim empurrava as ervilhas ao redor do prato.

     -Ah! Inteiramo-nos como estão as coisas. -esclareceu-se garganta-. Ontem à noite falamos por rádio e Ham supôs que devia nos contar o que acontecia.

     Willa afastou seu prato e ficou de pé.

     -Então lhes direi exatamente como estão as coisas. -Falava com voz muito fria, muito baixa-. O rancho Mercy segue funcionando como sempre. O velho está enterrado e agora a que o dirige sou eu. Vós receberão minhas ordens. -Jim intercambiou um rápido olhar com o Pickles, logo se arranhou a bochecha.

     -Quis dizer outra coisa, Willa. O que nos perguntávamos era como obteria que as outras, suas irmãs, ficassem no rancho.

     -Elas também acatarão minhas ordens. -Arrancou o casaco do gancho-. E agora, se tiverem terminado de almoçar, será melhor que selemos.

     -Mulheres de mierda! -murmurou Pickles assim que a porta se fechou detrás a Willa-. Não conheço nenhuma que não seja uma puta mandona.

     -Isso te acontece porque não conhece muitos mulheres. -Jim foi em busca de seu casaco-. E essa é a patrã.

     -No momento.

     -É a patrã hoje. -Jim ficou o casaco e as luvas-. E hoje é tudo o que temos.

 

     Quando devia haver-lhe com sua mãe, e Tess sempre considerava que os contatos com sua mãe significavam haver-lhe com ela, preparava-se com uma dose suplementar do Excedrin. Sabia que seria uma dor de cabeça, de modo que para que suportar a dor?

     Decidiu que iria ver a no meio da amanhã, convencida de que era a hora do dia em que teria maiores probabilidades de encontrar a Louella em seu apartamento do Bel Air. A meio-dia já teria saído rumo à barbearia, ou à manicura ou a alguma sessão de compras.

     Às quatro, Louella estaria em seu clube fazendo brincadeiras com o barman ou entretendo às garçonetes com histórias de sua vida e seus amores na época em que era corista em Las Vegas.

     Tess fazia todo o possível por evitar o clube da Louella. Embora ir a seu apartamento tampouco a fazia feliz.

     Era uma formosa casa pequena construída em estuque, estilo californiano espanhol, com teto de telhas, e graciosos arbustos. Podia, e devia, ter sido um lugar para exibir. Mas como Tess afirmou em reiteradas ocasiões, Louella Mercy era capaz de converter o Palácio do Buckingham em um lugar vulgar.

     Quando chegou, exatamente às onze, tratou de ignorar o que Louella alegremente chamava seu jardim artístico. O jóquei com o sorriso grande e tolo, os leões em duas patas, a resplandecente lua enche azul sobre seu pedestal de cimento, e a fonte da moça serena que vertia água da boca de um peixe de aspecto surpreso.

     As flores cresciam profusas, em uma variedade de cores contrastantes que machucavam os olhos. Não existiam ritmo, motivo, nem plano algum para os acertos florais. Qualquer planta que chamasse a atenção a Louella, plantava-se no lugar que à proprietária da casa lhe desejava muito. E não cabe dúvida de que Louella tem muitos desejos, pensou Tess.

     Em meio de um trabalhador de pedreira de flores escarlates e alaranjadas, encontrava-se o último agregado: o torso sem cabeça da deusa Niké.

     Tess meneou a cabeça e tocou o timbre que fazia soar os primeiros compases do The Stripper.

     Louella mesma abriu a porta e envolveu a sua filha em mares de seda, um pesado perfume e a fragrância dos cosméticos. Louella jamais saía além da porta de seu dormitório a menos que estivesse completamente maquiada.

     Era uma mulher alta, de físico exuberante, com cujas largas pernas ainda podia executar toda classe de passos de baile. E o fazia. Fazia muito tempo que a verdadeira cor de seu cabelo tinha cansado no esquecimento. Fazia anos era loiro, de um tom tão estridente como a risada da Louella, e o levava muito crespado ao estilo mais admirado pelos evangelistas da televisão. face à quantidade de capas de base, de pó e de rubor que ficava, seu rosto era lhe impacte, com ossos fortes e lábios generosos, que destacava um lápis labial carmesim. Os olhos eram de cor celeste clara, quão mesmo a sombra que decorava suas pálpebras. Às sobrancelhas, arrancadas sem piedade, supria-as um fino risco de lápis negro.

     como sempre lhe acontecia, Tess se sentiu tironeada por conflitivas quebras de onda de amor e de intriga.

     -Mamãe! -Sorriu ao devolver o abraço de sua mãe, mas elevou os olhos ao céu ao ver os dois cães pomerania a quem Louella adorava e que nesse momento ladravam como enlouquecidos, fascinados pela excitação de ter visitas.

     -De maneira que tornaste do selvagem oeste? -A toada da Louella, típica do leste de Telhas tinha a ressonância das cordas do banjo. Beijou a bochecha do Tess e lhe limpou a mancha de rouge com a ponta de um dedo molhado com saliva-. Bom, entra e conta-me o tudo. Espero que tenham enterrado com uso a esse velho cretino.

      -Foi... interessante.

     -Não me cabe dúvida. Proponho-te que tomemos um pouco de café, querida. É a manhã livre do Carmine, assim que nos teremos que servir nós mesmas.

     -Eu o prepararei. -Resultava-lhe mil vezes preferível preparar ela mesma o café que ter que enfrentar-se ao criado de sua mãe. Tess tratou de não imaginar o resto dos serviços que esse homem proporcionava a Louella.

     Cruzou a sala de estar decorada em vermelhos e dourados, rumo a uma cozinha tão branca que cegava a vista. Como era habitual, não havia nenhuma miolo fora de seu lugar. Além do resto de obrigações que Carmine assumisse nessa casa, não cabia dúvida de que era prolixo como uma monja.

     -me prepare um pouco de café também a mim. Estou faminta como um urso.

     Com os cães dando voltas ao redor de seus pés, Louella abriu os armários e a geladeira. Aos poucos instantes, a cozinha era um caos. Tess deveu esforçar-se por conter um sorriso. O caos seguia a sua mãe com tanta fidelidade como seus perritos, Mimí e Maurice.

     -conheceste a suas irmãs no rancho?

     -Se referir a meu meio irmana, sim.

     Sobressaltada, Tess contemplou o bolo de café que sua mãe acabava de tirar. Louella a estava cortando em porções enormes com uma faca de cozinha. A parte que serve em um prato decorado com enormes rosas devia ser o equivalente de dez trilhões de calorias.

     -Bom, que tal são? -Com idêntica generosidade, cortou uma parte de bolo para seus cães e colocou o prato de porcelana no piso. Os cães começaram a comer e a grunhir-se.

     -A filha da esposa número duas é calada, nervosa.

     -Essa é a divorciada de um tipo a quem gostava de usar os punhos. -Estalando a língua, Louella depositou seus quadris amplos sobre o banquito da cozinha-. Pobrecita! Uma de minhas garotas teve um problema parecido. O marido lhe pegava até deixá-la feita um trapo. Por fim conseguimos interná-la em um asilo. Agora vive em Seattle. de vez em quando me envia uma postal.

     Tess fez um gesto de assentimento. As garotas de sua mãe eram todas as que trabalhavam para ela, das garçonetes até as encarregadas do bar, as que se dedicavam ao striptease e as cozinheiras. Louella as abraçava a todas, emprestava-lhes dinheiro, dava-lhes conselhos. Tess sempre pensava que o bar da Louella era em parte um clube e em parte um lar para bailarinas de torso nu.

     -E a outra? -perguntou Louella enquanto atacava seu bolo de café-. A que tem sangue a Índia.

     -Ah! Essa é uma verdadeira vaqueira. Dura como o couro, sempre anda caminhando por toda parte meio-fio com botas sujas. Suponho que é capaz de deprimir de um golpe a uma vaca. -Divertida pela idéia, Tess serve o café-. Não se incomodou em ocultar que não gostava que nós estivéssemos ali. -encolheu-se de ombros, sentou-se e provou um trocito do bolo-. Tem um meio irmano.

     -Sim, já sei. Conheci a Mary Wolfchild... pelo menos andava por ali. Era uma beleza de mulher e tinha um filho de rosto muito doce. Cara de anjo.

     -cresceu, mas ainda tem cara de anjo. Vive no rancho e trabalha com os cavalos ou algo assim.

     -Acredito recordar que seu pai se encarregava de tocar as cabeças de gado.

     -Louella colocou a mão no bolso de sua bata tinta e tirou um pacote da Virginia Slims-. E o que me diz do Bess? -Soltou a fumaça junto com uma sonora gargalhada-. Deus, que mulher! Com ela não tive mais remedeio que andar com cuidado. Não pude menos que admirá-la: dirigia essa casa à perfeição e tampouco aceitava nenhuma tolice do Jack.

     -Por isso cheguei a ver, segue dirigindo a casa.

     -Uma casa esplêndida. Um rancho esplêndido. -Ao recordá-lo, Louella sorriu-. E um lugar esplêndido. Embora não posso dizer que lamente ter tido que passar sozinho um inverno ali. A gente vivia com essa maldita neve até os sovacos.

     -por que te casou com ele? -Ao ver que Louella arqueava uma sobrancelha, Tess se moveu, incômoda-. Já sei que nunca lhe perguntei isso, mas lhe pergunto isso agora. Eu gostaria de saber por que te casou com ele.

            -É uma pergunta muito singela e tem uma resposta muito singela. -Louella verteu uma avalanche de açúcar em seu café-. Era o filho de puta mais sexualmente atrativo que conheci em minha vida. Tinha uns olhos fantásticos e uma maneira incrível de te brocar com o olhar. Inclinava a cabeça e sorria como se soubesse exatamente o que faria mais tarde e queria te levar consigo.           

     Recordava-o tudo até o último detalhe. O aroma de suor e a uísque, as luzes que a cegavam. E a maneira como Jack Mercy entrou nesse clube noturno quando ela estava no cenário, só coberta por um par de plumas e um enorme meio doido.

      Sua forma de fumar o charuto enquanto não lhe tirava os olhos de cima. De algum jeito supôs que a estaria esperando depois de sua última atuação da noite. E foi com ele sem duvidá-lo, de um cassino a outro, bebendo, jogando, com o Stetson do Jack sobre a cabeça.

     Em menos de quarenta e oito horas estava de pé a seu lado em uma capillita dessas com música de disco e flores de plástico. E tinha uma aliança de ouro no dedo.

     Tampouco lhe surpreendeu não ter conservado mais que dois anos essa aliança.

     -O problema foi que não nos conhecíamos. Foi uma questão de quentura e de febre de jogo. -Com filosofia, Louella apagou o cigarro no prato vazio-. Eu não estava feita para viver em um maldito rancho boiadeiro de Montana. Talvez poderia havê-lo tentado. Quem sabe? Estava apaixonada por ele.

     Tess tragou um bocado de bolo antes de que ficasse pega em à garganta.

     -Queria-o?

     -Durante um tempo, sim. -Louella se encolheu de ombros com a tranqüilidade que davam os anos e a distância-. Uma mulher não podia seguir muito tempo apaixonada pelo Jack, a menos que lhe faltassem células cinzas. Mas por um tempo o quis. E desse amor te tirei ti. além de cem mil dólares. Não teria a minha filha e tampouco teria meu clube se Jack Mercy não tivesse entrado essa noite ao bar de Las Vegas e se não se houvesse encaprichado comigo. Assim estou em dívida com ele.

     -Está em dívida com o homem que tirou patadas de sua vida a ti e a sua filha? Que te arrumou com cem mil dólares de mierda?

     -Faz trinta anos, cem mil dólares valiam muito mais que agora. -Louella tinha aprendido de um nada a ser mãe e empresaria. E estava orgulhosa de havê-lo obtido-. E desde meu ponto de vista, fiz um trato muito conveniente.

     -O rancho Mercy vale vinte milhões. Segue acreditando que fez um bom acerto?

     Louella franziu os lábios.

     -O rancho era dele, querida. Eu sozinho estive um tempo ali de visita.

     -O tempo suficiente para ter uma filha e que jogassem a patadas dali.

     -Eu quis ficar com minha filha.

     -Mamãe! -Ante essas palavras grande parte da fúria do Tess diminuiu, mas a injustiça seguia ardendo em seu coração-. Tinha direito a receber mais. Eu tinha direito a mais.

     -Talvez, e talvez não. Mas nesse esse momento foi o trato que fizemos. -Louella acendeu outro cigarro e decidiu chegar tarde a sua entrevista no instituto de beleza. Pressentia que em toda essa conversação havia algo mais-. A vida segue seu curso. Jack terminou tendo três filhas, e agora morreu. Quer-me dizer o que deixou a ti?

     -Um problema. -Tess tirou o cigarro a Louella e inalou uma rápida baforada de fumaça. Fumar era um hábito que não passava. Que pessoa sensata podia aprová-lo? Mas devia escolher entre essa baforada de fumaça e os milhões de calorias que ainda tinha no prato-. Deixou-me uma terceira parte do rancho.

     -Uma terceira parte do...! Deus santo, Tess, querida, isso é uma fortuna!

     Louella ficou de pé de um salto. Talvez solo medisse um metro sessenta e seu peso fosse mais que generoso, mas tinha sido treinada como bailarina e sabia mover-se. E nesse momento se moveu com rapidez. Rodeou a mesa e abraçou a sua filha com entusiasmo.

     -O que estamos fazendo aqui, bebendo café? Devemos conseguir um pouco de champanha francês. Carmine tem algumas garrafas guardadas em alguma parte.

     -Espera, mamãe, espera. -Quando Louella voltou a abrir a geladeira, Tess o tironeó a bata-. Não é tão singelo.

     -Minha filha a milionária! A magnata da fazenda! -Louella desarrolhou a garrafa e as banhou em champanha.

     -A condição é que devo viver ali durante um ano. -Tess suspirou enquanto Louelia, feliz, levava-se a garrafa à boca e bebia a gargalo-. As três devemos viver ali durante um ano, juntas. Porque em caso contrário não nos deixa nada.

     Louella se lambeu o champanha dos lábios.

     -Deve viver um ano em Montana? No rancho? -Começou a lhe tremer a voz-. Com as vacas? Você com vacas?

     -Essa é a condição. Eu e as outras dois. Juntas.

     Sustentando a garrafa com uma mão e com a outra apoiada sobre a mesa, Louella começou a rir. Riu tanto e durante tanto momento que lhe correram lágrimas pela cara, lhe danificando a maquiagem.

     -meu deus! Esse filho de puta sempre soube me fazer rir!

     -Alegra-me que te pareça tão gracioso -disse Tess com tom gélido-. Você pode rir tudo o que queira em Los Anjos, mas eu tenho que olhar crescer o pasto.

     Com um floreio, Louella verteu champanha nas taças.

     -Querida, sempre pode mandá-lo ao diabo e seguir como até agora.

     -E renunciar a vários milhões? Não me parece.

     -Não. -Louella ficou séria ao estudar a sua filha, esse mistério ao que de algum jeito tinha dado a luz. É tão bonita, pensou, tão fria, tão segura de si mesmo-. Não, não poderia fazer isso. Agüentará esse ano, Tess. -E se perguntou se sua filha não tiraria mais deles que a terceira parte do valor de um rancho boiadeiro. Esse ano conseguirá suavizá-la, limar suas arestas?

     Elevou as taças e lhe entregou uma a sua filha.

     -Quando vai?

     -Amanhã a primeira hora. -Soltou um comprido e profundo suspiro-.

     Terei que ir comprar me umas malditas botas -murmurou e logo, com um pequeno sorriso, brindou por si mesmo-. Que diabos! Não é mais que um ano.

    

     Enquanto Tess bebia champanha na cozinha de sua mãe, Lily estava de pé ao bordo de uma pradaria, observando pastar aos cavalos. Jamais tinha visto algo tão formoso como o vento que soprava através de suas crinas, com essas montanhas detrás, todas azuis e brancas.

     Pela primeira vez em muitos meses tinha dormido toda a noite, sem soníferos, sem pesadelos, arrulhada pelo silêncio.

     E nesse momento reinava o silêncio. À distância, alcançava para ouvir o ruído das maquinarias. Era sozinho um zumbido no ar. Essa manhã ouviu a Willa falando com alguém a respeito da necessidade de colher, mas ela não quis ser um estorvo. Podia estar sozinha ali, com os cavalos, sem incomodar a ninguém, e sem que ninguém a incomodasse a ela.

     Durante três dias a deixaram viver a seu desejo. Ninguém dizia nada quando vagava pela casa ou quando saía a explorar o rancho. Se passavam a seu lado, os peões a saudavam levando-a mão ao chapéu, e Lily imaginava que fariam comentários e que haveria falações. Mas não lhe importava.

     Ali o ar tinha um gosto a doce. De onde estivesse alcançava a ver algo formoso: a água de um arroio que caía sobre umas rochas, o relâmpago do vôo de um pássaro no bosque, cervos que cruzavam o caminho.

     Pensou que um ano nesse lugar seria o paraíso.

     Adam permaneceu um momento observando-a, estropie em mão. Sabia que Lily ia ali todos os dias. Tinha-a visto afastar-se da casa, do celeiro, das cavalariças e encaminhar-se a essa pradaria. E ali ficava, junto ao alambrado, muito quieta, em silêncio.

     Muito sozinha.

     Esperou, convencido de que precisava estar sozinha. Pelo general, cicatrizar as feridas era uma questão solitária. Mas também acreditava que Lily devia necessitar um amigo. Assim nesse momento caminhou para ela, com cuidado de fazer bastante ruído, para não sobressaltá-la. Quando ela se voltou, seu sorriso foi lenta e vacilante, mas sorriu.

     -Sinto muito. Aqui não estou em seu caminho, verdade?

     -Não está no caminho de ninguém.

     Como ela já se estava acostumando a relaxar-se com ele, voltou a olhar os cavalos.

     -eu adoro olhá-los.

     -Pode olhá-los mais de perto.

     Não o fazia falta o balde cheio de cereal para atrair aos animais para o cerco. Qualquer deles lhe aproximaria se o chamasse. Entregou o balde ao Lily.

     -Quão único tem que fazer é sacudi-lo.

     Ela obedeceu e notou, fascinada, que vários pares de orelhas se levantavam. Os cavalos se aproximaram do trote ao cerco. Sem pensar no que fazia, ela colocou a mão dentro do balde, tirou-a cheia de grão e alimentou a uma formosa égua bago.

     -Vejo que não é o primeiro contato que tem com cavalos.

     Ante o comentário do Adam, Lily retirou a mão.

     -Sinto muito. Deveria lhe haver perguntado antes de alimentá-la.

     -Não se preocupe. -Lamentava havê-la sobressaltado, ter apagado seu sorriso. Essa luz veloz que lhe refletiu em uns olhos que eram de um tom que estavam entre o cinza e o azul. Como a água de um lago quando reflete as sombras do anoitecer, pensou Adam-. Vêem, Molly.

     Para ouvir seu nome, a ruana percorreu o arame ao trote até chegar a tranquera. Adam a conduziu ao curral e lhe pôs uma cabeçada.

     De novo com acanhamento, Lily se limpou o pó do grão dos jeans e avançou com passo vacilante.

     -chama-se Molly?

     -Sim. -Adam manteve o olhar fixo na égua para dar tempo ao Lily de voltar a tranqüilizar-se.

     -É bonita.

     -É uma boa égua de passeio. Bondosa. Tem um galope um pouco duro, mas ela faz tudo o que pode, verdade, moça? Sabe montar a cavalo em monturas do oeste, Lily?

     -Se eu... o que?

     -É provável que tenha aprendido em monturas inglesas. -Adam fez um esforço para manter um tom de conversação ligeiro enquanto punha o avental ao Molly-. Se o preferir, Nate tem monturas inglesas. Podemo-lhe pedir alguma emprestada.

      Ela entrelaçou as mãos, como o fazia cada vez que ficava nervosa.

     -Não compreendo.

     -Tem vontades de montar, não é certo? -perguntou ele enquanto deslizava uma das monturas velhas da Willa sobre o lombo do Molly-. Me ocorreu que poderíamos subir um trecho aos Montes. Talvez vemos algum cervo.

     Ela se sentiu tironeada entre as vontades e o medo.

     -Faz muito que não monto. Muito tempo.

     -É algo que um nunca esquece. -Adam calculou o comprido das pernas do Lily para acomodar os estribos-. Uma vez que conheça os arredores, poderá ir sozinha se quiser. -Então se voltou e notou que a cada momento ela olhava para a casa principal. Como se medisse a distância-. Não deve me ter medo.

     Lily lhe acreditou. Isso era o que lhe dava medo: que resultasse tão fácil lhe acreditar. Quantas vezes acreditou no Jess?

     Mas isso terminou, recordou-se. Se ela mesma o permitia, poderia começar uma nova vida.

     -Eu gostaria de dar uma volta curta, se você estiver seguro de que não há inconveniente.

     -Que inconveniente pode haver? -Lhe começou a aproximar, mas se deteve instintivamente antes de que ela se deixasse vencer pelo acanhamento-. Não é necessário que se preocupe com a Willa. Tem bom coração, um coração generoso. O que passa é que neste momento lhe dói.

     -Já sei que está angustiada. E tem todo o direito do mundo. -Sem poder resistir, Lily levantou uma mão e acariciou a cara do Molly-. E deve estar mais angustiada depois de encontrar a esse pobre novilho. Não compreendo quem pôde fazer algo assim. Willa está muito zangada. E muito ocupada. Sempre tem algo que fazer e em troca eu... bom, simplesmente estou aqui.

     -Quer ter algo que fazer?

     Com a égua entre eles, resultou-lhe fácil sorrir.

     -Não se se trata de castrar bezerros. Ouvi-os esta manhã. -estremeceu-se, logo conseguiu rir de si mesmo-. Saí da casa antes de que Bess pudesse me obrigar a tomar o café da manhã. Acredito que não tivesse podido agüentar nada no estômago.

     -É uma dessas coisas às que alguém se acostuma.

     -Não acredito. -Lily exalou sem dar-se conta do perto que estava sua mão da do Adam sobre a cabeça da égua-. Para a Willa todo isso é natural. É tão segura e tem tanta confiança em si mesmo! Invejo-lhe isso de saber exatamente quem é um. Para ela eu não sou mais que um estorvo e por isso não pude reunir a coragem suficiente para lhe falar, para lhe perguntar se houver algo que possa fazer para ajudar.

     -Tampouco deve lhe ter medo a Willa. -Passou a gema dos dedos sobre os dela e, quando Lily apartou a mão, continuou acariciando a cabeça da égua-. Mas enquanto isso, me poderia perguntar isso . Faz-me falta um pouco de ajuda. Com os cavalos -adicionou, ao ver que ela ficava olhando-o fixo.

     -Quer que o ajude com os cavalos?

     -É muito trabalho, sobre tudo quando chega o inverno. -sabendo de que acabava de semear a semente, retrocedeu-. Pense-o. -Depois uniu as mãos e voltou a lhe sorrir-. Ajudá-la a montar. Enquanto eu selo você pode dar voltas com ela pelo curral, assim começam a conhecer-se.

     Ela tinha a garganta tão fechada que teve que tragar com força para esclarecê-la.

     -Você nem sequer me conhece.

     -Mas suponho que também nos chegaremos a conhecer. -Permaneceu onde estava, com as mãos unidas para ajudá-la a montar, olhando-a com paciência aos olhos-. Solo tem que apoiar um pé sobre minhas mãos, Lily, não a vida.

     Lily se sentiu tola, assim aferrou a arreios e permitiu que ele a ajudasse a montar. Uma vez acima, olhou-o, os olhos solenes no rosto maltratado.

     -Adam, minha vida é uma confusão.

     O solo assentiu enquanto lhe revisava a altura dos estribos.

     -Terá que começar a desenredá-la. -Apoiou-lhe um instante a mão sobre o tornozelo, para que ela se acostumasse a seu contato-. Mas hoje, quão único tem que fazer é dar uma volta pelos Montes.

    

     A putita, permitindo que esse meio índio a manuseasse. A puta chorã que acreditava que poderia livrar-se do Jesse Cooke, que pensava que poderia fugir sem que ele a alcançasse. Que o fez perseguir pela polícia. O faria pagar.

     Jesse observava a cena através dos binoculares enquanto lhe fervia de raiva o sangue. perguntou-se se esse mestiço que se dedicava a cuidar cavalos já teria conseguido pôr de costas ao Lily. Bom, o cretino também as pagaria. Lily era a mulher do Jesse Cooke e muito em breve o voltaria a recordar.

      A pequena imbecil se acreditou muito lista ao fugir a Montana. Mas o dia em que Jesse não pudesse ganhar em inteligência a uma mulher, seria o primeiro dia em que o sol não sairia pelo este.

     Sabia que ela não faria nada sem antes ficar em contato com sua querida mamãe. De maneira que solo teve que montar guarda frente à pequena casa da Virginia. E dedicar todas as manhãs a revisar a correspondência em busca de uma carta do Lily.

     A perseverança lhe deu excelentes resultados. Tal como imaginava, a carta chegou. Jesse a levou a sua habitação do hotel e abriu o sobre ao vapor. Ah, sim! Jesse Cooke não era nenhum parvo. Leu a carta, inteirou-se do lugar aonde ela se dirigia e do que pensava fazer.

     vai cobrar uma herança, pensou com amargura. E queria impedir que seu próprio marido obtivera sua porção do bolo. Isso nem louco, pensou Jesse.

     Assim que voltou a fechar o sobre e o colocou na rolha da mãe do Lily, dirigiu-se a Montana. E nesse momento sábia que chegou dois dias antes que a imbecil de sua mulher. Com o tempo suficiente para que um tipo tão inteligente como ele estudasse o terreno e conseguisse trabalho no Three Rocks.

     Um trabalho de mierda e miserável, pensou nesse momento, como mecânico encarregado de reparar os motores. Bom, arrumava-se bem com os motores e sempre havia um jipe que necessitava uma posta a ponto. E quando não estava trabalhando com motores, tinham-no dia e noite revisando alambrados.

     Mas isso lhe resultava útil, muito útil, como nesse momento. Um homem que saía a revisar os alambrados sobre quatro rodas, bem podia desviar-se um pouco para inteirar-se do que acontecia.

     E acabava de ver mais que suficiente.

     Jesse se passou os dedos sobre o bigode que se deixou crescer e que tingiu, quão mesmo o cabelo, de um castanho claro. Não é mais que uma precaução, pensou, um disfarce passageiro se por acaso Lily chegava a falar dele. Se o fizesse, estariam atentos para ver aparecer a um homem loiro com a cara perfeitamente barbeada. Também se deixou crescer o cabelo e seguiria deixando-o crescer. Como uma bicha de mierda, pensou, furioso ante a necessidade de renunciar a seu severo corte de infante de Marinha.

     Mas em definitiva, tudo valeria a pena. Quando recuperasse ao Lily, quando lhe recordasse quem era o chefe. Quem mandava ali.

     Até que chegasse esse dia feliz, manteria-se perto. E observaria.

     -te divirta, puta -murmurou entrecerrando os olhos detrás dos binoculares enquanto via o Lily sair a cavalo ao passo, junto ao Adam-. Já chegará o momento em que me pagará isso tudo.

    

     Quando Willa retornou à casa do rancho, o dia quase chegava a seu fim. Descornar e castrar o gado era um trabalho desagradável, miserável e exaustivo. Sabia que se estava obrigando a fazer muito e também sabia que seguiria fazendo-o. Queria que os peões a vissem em todos seus aspectos, capaz de levar a cabo todos os trabalhos. Ainda nas circunstâncias mais favoráveis, trocar de patrão era uma transição difícil. E as deles estavam longe de ser as circunstâncias mais favoráveis.

     Por isso interveio quando um rebanho de alces derrubou um alambrado causando estragos: liderou pessoalmente aos peões para afugentá-los e reparar os alambrados.

     Nesse momento, com o trabalho do dia terminado, e quando os homens se instalavam para comer e para jogar às cartas na casa dos peões, ela morria por dar um bom banho e por comer algo quente. Estava a metade de caminho da escada para dirigir-se ao banho, quando ouviu que alguém batia na porta. Como sabia que Bess devia estar ocupada na cozinha, baixou a abrir.

     Recebeu ao Ben com o sobrecenho franzido.

     -O que quer?

     -Uma cerveja fria me cairia muito bem.

     -Isto não é um bar. -Mas enquanto o dizia se voltou para a sala de estar e se dirigiu à geladeira que havia atrás do bar-. Date pressa, Ben, porque eu ainda não comi.

     -Eu tampouco. -Tomou a garrafa que lhe aproximava-. Mas suponho que não me convidará a te acompanhar.

     -Tenho vontades de estar sozinha.

     -Em realidade nunca te vi com vontades de estar acompanhada. -Jogou atrás a cabeça e bebeu da garrafa-. Não nos vimos desde que estivemos nas terras altas. Acreditei que devia te dizer que não pude encontrar nada. Me perdeu o rastro. Asseguro-te que quem tem estado lá encima conhecia o lugar e sabia ocultar seu rastro.

      Ela tomou outra garrafa de cerveja e, como lhe doíam os pés, deixou-se cair no sofá, junto ao Ben.

     -Pickles acredita que foi obra de alguns meninos. Drogados e loucos.

     -E você?

     -Eu não acredito. -encolheu-se levemente de ombros-. Embora isso parece a melhor explicação.

     -Talvez. Não tem muito sentido que voltemos a subir. Já baixamos o gado. Sua irmã tornou de Los Anjos?

     Willa deixou de mover a cabeça para afrouxar a tensão de seus ombros e o olhou.

     -Vejo que está muito interessado nos assuntos do Mercy, McKinnon.

     -Agora isso é parte de meu trabalho. -Gostava de recordar-lhe o mesmo que gostava de olhá-la, com o cabelo que lhe escapava da trança e as botas apoiadas ao lado das suas-. tiveste notícias dela?

     -Chegará amanhã, de maneira que se com isso termina seu interesse em te colocar em meus assuntos, pode...

     -Me vais apresentar isso? -deu-se o gosto de estender uma mão para brincar com o cabelo da Willa-. Talvez me caia bem, em cujo caso a manterei ocupada e fora de seu caminho por um tempo.

     Lhe apartou a mão com impaciência, mas Ben a voltou a aproximar.

     -As mulheres sempre caem rendidas a seus pés?

     -Todas menos você, querida. E isso devido a que não encontrei a maneira correta de te fazer perder o equilíbrio. -Passou-lhe a gema de um dedo pela bochecha e a olhou entrecerrar os olhos-. Mas me estou esmerando nesse assunto. E o que me diz da outra?

     -O que outra?

     Willa estava desejando afastar-se um pouco dele, mas sabia que se o fazia ficaria como uma parva.

     -Sua outra irmã.

     -Anda por aí.

     Ben sorriu com lentidão.

     -Estou-te pondo nervosa. Não te parece interessante?

     -Vejo que de novo faz falta que alguém te baixe o ego.

     Começou a ficar de pé. Ben lhe apoiou uma mão no ombro para impedi-lo.

     -Bom, bom! -exclamou ao perceber que ela vibrava sob o contato de sua mão-. Parece que não te estive emprestando bastante atenção. Vêem aqui.

     Willa se concentrou em manter uma respiração uniforme e trocou com lentidão sua maneira de sustentar a garrafa de cerveja. «Que arrogante é! -pensou-. Que pedante! Está convencido de que se apura o botão indicado eu me derreterei ante ele.»

     -Quer que me acurruque contra ti -ronronou enquanto notava que Ben abria os olhos surpreso pela calidez de seu tom-. E silo faço, o que acontecerá?

     Ben poderia haver-se qualificado de tolo... se ficasse sangue na cabeça para lhe permitir pensar. Nesse momento quão único pôde fazer foi perceber a luxúria que despertava nele essa voz rouca.

     -Diria que já é hora de que o averiguássemos.

     Agarrou-lhe a camisa e a atraiu para si. Se não tivesse afastado o olhar dos olhos da Willa para fixá-la em sua boca, o teria visto vir. Mas em troca de repente se encontrou longe dessa boca e' banhado na cerveja que lhe tinha vertido sobre a cabeça.

     -É tão tolo, Ben! -Orgulhosa de si mesmo, inclinou-se para depositar a garrafa de cerveja vazia sobre uma mesa-. Crie que teria podido viver a vida inteira em um rancho, rodeada de homens luxuriosos sem prever a muita distância uma atitude como a tua?

     O se passou com lentidão uma mão sobre o cabelo molhado.

     -Suponho que não. Mas por outro lado...

     moveu-se com rapidez. Quando se encontrou apanhada sob o corpo do Ben, Willa pensou que até uma víbora atrai antes de atacar. E nesse momento a ela sozinho ficava o desgosto que sentia para si mesmo por encontrar-se apertada contra os almofadões do sofá com um homem com os olhos injetados em sangue em cima.

     -Não o viu vir. -Tomou as bonecas e a obrigou a levantar os braços por cima da cabeça. Willa estava tinta, mas ele não acreditou que solo fora por efeito da raiva. A fúria não a fazia tremer, nem teria posto esse repentino olhar feminino em seus olhos-. Dá-te medo permitir que te beije, Willa? Tem medo de que você goste?

     o coração lhe pulsava com muita força, até o ponto de que teve medo de que lhe atravessasse as costelas. Ardiam-lhe os lábios, como se seus nervos se preparassem para o que estava por acontecer.

     -Quando queira que me beije, direi-lhe isso.

     Ben só sorriu e se inclinou mais para ela.

     -por que não me diz que não quer? Vamos, diga-me isso A voz lhe pôs rouca quando lhe beijou o queixo com suavidade-. Me diga que não quer que você goste. Uma só vez.

     Não podia dizer-lhe Teria sido uma mentira, mas as mentiras não a preocupavam. Simplesmente tinha a garganta tão seca que lhe resultava impossível pronunciar uma só palavra. De modo que se decidiu pela outra opção, e levantou o joelho com força e rapidez.

     Teve o prazer de vê-lo ficar pálido como um morto antes de desabar-se sobre ela.

     -te levante de cima meu. te levante pedaço de idiota! Não me deixa respirar.

     Desesperada-se por inalar um pouco de ar, arqueou-se e o fez lançar um gemido. Willa conseguiu respirar uma baforada de ar antes de lhe aferrar uma mecha de cabelo e atirar com força.

     Rodaram do sofá e foram dar sobre o chão. Ela viu as estrelas quando seu cotovelo golpeou contra uma mesa. A dor e a fúria a levaram a atacá-lo. Algo se rompeu no chão enquanto lutavam em cima do que fora, grunhindo e lançando maldições.

     Ben tratava de defender-se, mas não cabia dúvida de que ela ia em busca de sangue. E o demonstrou lhe mordendo o braço justo debaixo do ombro. Ben uivou, convencido de que lhe ia arrancar um pedaço e conseguiu lhe aferrar o queixo e apertá-lo. Com a pressão, Willa afrouxou a dentada.

     Rodaram entre ruído de botas, pegando cotoveladas, tratando de aferrar ao outro com as mãos. Willa não se deu conta de que estava rendo até que ele conseguiu imobilizá-la. E seguiu rendo, incapaz de deter-se sequer para respirar, enquanto ele a olhava fixo.

     -Parece-te gracioso? -Ben entrecerró os olhos e logo soprou para tirar o cabelo da cara. Mas em definitiva, agradecia que ela não tivesse podido arrancar-lhe a molhos-. Mordeste-me.

     -Já sei. -Falava com dificuldade e se passava a língua pelos dentes-. Acredito que tenho parte de sua camisa na boca. me solte, Ben.

     -Para que me possa voltar a morder ou me pegar um chute nas Pelotas? -Como ainda lhe doíam, e muito, entrecerró os olhos e riu com ar depreciativo-. Lutas como uma garota.

     -E o que? Dá resultado.

     O estado de ânimo do Ben voltava a trocar. Alcançava a perceber essa cálida transição que ia da irritação à luxúria, do insulto ao interesse. Tal como tinham ficado no chão, o peito da Willa estava agradavelmente apertado contra o seu e tinha as pernas abertas, com as dele entre elas.

     -Sim, dá resultado. O fato de que seja mulher parece convir à situação.

     Agitada entre o pânico e o desejo, ela notou a mudança do olhar do Ben.

     -Não o faça! -Nesse momento ele tinha a boca a apenas dois centímetros da dela, e Willa voltava a respirar com dificuldade.

     -por que não? Não lhe fará mal a ninguém.

     -Não quero que me beije.

     Ben elevou uma sobrancelha e sorriu.

     -Mentirosa!

     E ela se estremeceu.

     -Sim.

     A boca do Ben estava quase sobre a sua quando ouviram o primeiro grito de desespero.

    

     Ben rodou sobre si mesmo e ficou de pé. Essa vez, enquanto corria atrás dele, Willa não pôde menos que admirar sua velocidade. Os gritos ainda ressonavam quando ele abriu a porta de entrada.

     -Deus! -sussurrou enquanto saltava sobre a confusão sanguinolenta para tomar ao Lily em seus braços-. Está bem, querida.

     Em um movimento automático se moveu para impedir que seguisse vendo o desagradável espetáculo, começou a lhe acariciar as costas com suavidade e seu olhar se encontrou com a da Willa.

     Em seus olhos advertiu o impacto que sofria, mas não era o horror desesperado da mulher a quem tinha em braços. Esta é frágil, pensou, enquanto que Willa sempre será forte.

     -Deveria entrar -disse, dirigindo-se a Willa.

     Mas Willa meneava a cabeça e seguia com o olhar cravado no corpo destroçado, mutilado e sanguinolento que tinha a seus pés.

     -Deve ser um dos gatos do celeiro.

     Ou foi, pensou com ar sombrio, antes de que alguém o decapitasse, abrisse-lhe o ventre, tirasse-lhe os intestinos e deixasse tudo esparramado na porta de sua casa, como um presente.

     -Leva-a dentro -insistiu Ben.

     Os gritos tinham atraído a outros. Adam foi o primeiro em chegar ao alpendre. Viu o Lily soluçando em braços do Ben. E o nó que lhe formou na boca do estômago teve tanto que ver com isso como com o que viu sobre o alpendre.

     Com um movimento instintivo, aproximou-se, apoiou uma mão sobre o braço do Lily e, quando ela se sobressaltou, tratou de tranqüilizá-la.

     -Está bem, Lily.

     -Adam, eu vi... -Teve um acesso de náuseas.

     -Já sei. Agora entra. me olhe -adicionou afastando-a com cuidado do Ben e conduzindo-a para a porta. Deu um rodeio para não pisar no corpo sanguinolento que havia sobre o piso-. Willa te levará dentro.

     -Olhe, tenho que...

     -Cuida de sua irmã, Will -interrompeu Adam e tomando a mão da Willa a colocou com firmeza sobre o braço do Lily.

     Willa perdeu a batalha ao perceber que Lily tremia. Murmurou uma maldição e a tironeó para dentro.

     -Vêem. Deve te sentar.

     -Eu vi...

     -Sim, já sei o que viu. Esquece-o.

     Willa fechou a porta com decisão deixando que os homens se encarregassem do corpo sem cabeça do gato.

     -Por amor de Deus, Adam! Isso é um gato? -perguntou Jim Brewster, passando uma mão pela boca-. Não cabe dúvida de que alguém se entreteve com ele.

     Adam se voltou e estudou por turno a cada um dos homens: Jim, pálido, com a maçã do Adão movendo-se; Ham, com os lábios apertados; Pickles com um rifle ao ombro. Também estavam Billy Vincent, de apenas dezoito anos, com olhos ansiosos, e Wood Book quem se acariciava a negra barba sedosa.

     O primeiro que falou foi Wood, com tom tranqüilo.

     -Onde está a cabeça? Não a vejo por aqui.

     aproximou-se. Wood se encarregava de semear, atender e colher os grãos e sua esposa, Nell, era quem cozinhava para os peões. Wood cheirava ao Old Spice e a pastilhas de hortelã. Adam sabia que era um homem sensato, tão implacável como o peñón de Gibraltar.

     -Talvez a quem tem feito isto goste dos troféus.

     As palavras do Adam interromperam os murmúrios. O único que não podia deixar de falar era Billy.

     -Por amor de Deus! Alguma vez viram algo semelhante? Esparramou as vísceras do gato por toda parte, verdade? Quem pode ser capaz de lhe fazer isso a um gato estúpido? O que acreditam que...?

     -te cale a boca, pedaço de imbecil! -A ordem com tom de cansaço foi repartida pelo Ham. Lançou um suspiro e tirou seu pacote de cigarros-. Voltem todos para comer. Aqui não têm nada que fazer, além de ficar olhando com a boca aberta como umas velhas em um desfile de modelos.

     -Não tenho muito apetite -murmurou Jim, mas outros se afastaram.

     -Não cabe dúvida de que isto é uma confusão -disse Ham-. Suponho que poderia ser obra de um menino. Os filhos do Wood são um pouco selvagens mas não desalmados. Se me perguntarem isso, terá que ser desalmado para fazer uma coisa assim. Mas de todos os modos lhes falarei.

     -Ham, importa-te se te pergunto o que estiveram fazendo os peões durante a última hora?

     Ham estudou ao Ben por entre uma cortina de fumaça.

     -andaram por aqui e por lá, lavando-se para a comida e coisas pelo estilo. Mas se isso é o que me pergunta, não os estive vigiando. Os homens que trabalham neste rancho não andam esquartejando um gato por divertir-se.

     Ben só assentiu. Não correspondia que fizesse mais perguntas, e ambos sabiam.

     -Tem que ter acontecido na última hora. Faz um momento que estou aqui e quando cheguei isto não estava.

     Ham aspirou uma baforada de fumaça e assentiu.

     -Falarei com os meninos do Wood. -Dirigiu um último olhar ao que havia no chão do alpendre-. Não cabe dúvida de que é uma verdadeira confusão -repetiu, e em seguida se afastou.

     -Esquartejaram-lhes dois animais em uma semana, Adam.

     Adam ficou de joelhos e apoiou os dedos sobre a pele ensangüentada do gato.

     -chamava-se Mike. Era velho, estava quase cego de um olho e deveria ter morrido enquanto dormia.

     -Sinto muito. -Ben compreendia bem o afeto e até a intimidade que alguém podia ter com um animal e apoiou uma mão sobre o ombro do Adam-. Acredito que têm um verdadeiro problema.

     -Sim. Isto não foi obra dos meninos do Wood. Não são malvados. E tampouco estiveram acima nas montanhas quando alguém esquartejou esse novilho.

     -Não, não acredito que andassem por ali. Conhece bem a seus homens?

     Adam levantou o olhar. Sua dor era forte, direto.

     -Os peões não são minha responsabilidade. Os cavalos, sim. -Ainda está morno, pensou enquanto acariciava a pele do gato. esfriava-se com rapidez, mas ainda estava morna-. Mas os conheço bastante bem. Além do Billy, faz anos que estão todos aqui, e o contrataram o verão passado. Terá que perguntar-lhe a Willa, ela deve saber mais que eu. -Voltou a olhar os restos e se condolió por esse gato velho e quase cego a quem ainda gostava de caçar-. Lily não deveu ter visto isto.

      -Não, não deveu havê-lo visto. -Ben suspirou e pensou no perto que tinha estado essa moça de ver o autor do fato-. Ajudarei-te a enterrá-lo.

     No interior da casa, Willa se passeava pela sala de estar.

     Como mierda se supunha que devia cuidar dessa mulher? E por que lhe teria encomendado Adam uma tarefa tão inútil? Quão único Lily fazia era permanecer feita um nó em um rincão do sofá, tremendo.

     Tinha-lhe dado uísque, verdade? E, por falta de algo melhor, até lhe chegou a aplaudir a cabeça. Tinha um problema entre mãos, por amor de Deus! e o último que precisava era que o piorasse uma debilucha do este.

     -Sinto muito. -Foram as primeiras palavras que Lily pôde pronunciar desde sua entrada na casa. Respirou fundo e voltou a tentá-lo-. Sinto muito. Não devi ter gritado dessa maneira. Nunca tinha visto nada... estava com o Adam, ajudando-o com os cavalos e então eu... simplesmente.

     -te beba esse maldito uísque, quer? -pediu Willa com tom cortante, mas se amaldiçoou ao ver que Lily se encolhia e obediente, levava-se o copo aos lábios. Furiosa consigo mesma, Willa se passou as mãos pela cara-. Suponho que qualquer teria gritado ao encontrar-se com algo assim. Não estou zangada contigo.

     Lily odiava o uísque, o ardor que produzia, o aroma que tinha. Ao Jess gostava do Seagram'S. E à medida que descendia o nível do líquido da garrafa, seu humor piorava. Sempre. Mas nesse momento ela simulou que bebia.

     -Era um gato? Pareceu-me que era um gato. -Lily se mordeu os lábios com força para que não lhe tremesse a voz-. Era seu gato?

     -Os gatos são do Adam. E os cães também. E os cavalos. Mas me fizeram isso . Não o deixaram no alpendre da casa do Adam. Fizeram-me isso .

     -Igual a... igual ao novilho.

     Willa deixou de passear-se pelo quarto e a olhou por cima do ombro.

     -Sim. Igual ao novilho.

     -Aqui têm uma linda bandeja com chá -disse Bess entrando apressada, bandeja em mão. Assim que a apoiou sobre uma mesa, começou a queixar-se-. Como te ocorre lhe dar uísque a essa pobre garota, Willa? Quão único ganhará será uma decomposição de estômago. -Com suavidade tirou o copo das mãos do Lily e o depositou sobre um móvel-. Bebe um pouco de chá, querida, e descansa. sofreste um impacto muito forte. Will, deixa de caminhar de um lado para o outro e sente-se.

     -te encarregue você de cuidá-la. Eu vou sair.

     Apesar de servir o chá com emano segura, Bess dirigiu um olhar duro à costas da Willa que nesse momento iniciava a retirada.

     -Essa garota nunca escuta.

     -Está angustiada.

     -Não crie que o estamos todos?

     Lily tomou a taça com as duas mãos, ao beber se sentiu alagada por uma agradável calidez.

     -Para ela é mais angustiante. trata-se de seu rancho.

     Bess inclinou a cabeça.

     -Também é teu.

     -Não. -Lily voltou a beber e pouco a pouco se foi acalmando-. Sempre será dele.

     O gato tinha desaparecido mas o chão de madeira do alpendre ainda estava talher de sangue. Willa voltou a entrar na casa, em busca de um cubo com água saponácea e de uma escova. Sabia que era algo que Bess teria feito, mas não se tratava do tipo de coisa que gostava de lhe pedir a outro.

     De joelhos e sob a luz do alpendre, lavei os sinais de violência. A morte acontecia. Tinha acreditado que era algo que aceitava e compreendia. Os vacunos se criavam por sua carne e uma galinha que deixava de pôr terminava na panela. Os cervos e os alces se caçavam e se comiam.

     Assim eram as coisas.

     A gente vivia e morria.

     Nem sequer a violência lhe era desconhecida. Ela mesma tinha disparado sobre um ser vivo e logo esfolado o animal com suas próprias mãos. Seu pai insistiu em que o fizesse, ordenou-lhe que aprendesse a caçar, a observar ao veado que caía sangrando. Exigiu-lhe que soubesse viver com isso.

     Mas essa crueldade, esse desperdício, essa maldade que acabavam de deixar frente a sua porta, não formava parte desse ciclo. Limpou cada gota de sangue. E com o balde cheio de um líquido sanguinolento a seu lado, ficou de cuclillas e levantou o olhar ao céu.

      Enquanto observava, caiu uma estrela, atravessando a noite com sua branca cauda e afundando-se no esquecimento.

     Desde algum lugar próximo gritou uma coruja e soube que os animais em perigo de ser caçados estariam correndo a procurar refúgio. Porque era uma noite com lua de caçadores, enche e brilhante. Essa noite haveria morte... nos Montes, nos bosques, no pasto. Não existia maneira de negá-lo.

     Mas isso não deveu lhe dar vontades de chorar.

     Ouviu passos e recuperou com rapidez sua compostura. No momento em que ficava de pé, Ben e Adam chegavam do outro lado da casa.

     -Eu me teria encarregado de fazer isso, Will -disse Adam, tomando o balde-. Não era necessário que o fizesse você.

     -Já parece. -Estirou um braço e lhe acariciou a cara-. Sinto o do Mike, Adam.

     -Gostava de tomar o sol na rocha atrás do celeiro. Enterramo-lo ali. -Olhou para a janela-. E Lily?

     -Está com o Bess. Ela a ajudará mais do que poderia ajudá-la eu.

     -Atirarei isto e logo irei ver como está.

     -Está bem. -Mas manteve outro instante a mão sobre a bochecha do Adam, murmurando algo no idioma da mãe de ambos.

     Fez-o sorrir, não pelas palavras de consolo mas sim pelo idioma em que as pronunciava. Poucas vezes o usava, e só em momentos muito importantes. afastou-se e a deixou com o Ben.

     -Tem um problema nas mãos, Will.

     -Diria-te que tenho vários.

     -que tenha feito isso, fez-o enquanto nós estávamos dentro. -Brigando como um par de meninos tolos, pensou-. Ham vai falar com os filhos do Wood.

     -Com o Joe e Pete? -Will lançou um bufido, logo se balancei sobre os talões para reconfortar-se-. De maneira nenhuma puderam ser eles, Ben. A esses meninos gosta de mover-se como loucos por toda parte, e de vez em quando brigam como se desesperados, mas seriam incapazes de torturar a um gato velho.

     Ele se arranhou a cicatriz do queixo.

     -Notou como estava, verdade?

     -Tenho olhos, não crie? -Teve que voltar a respirar fundo para não decompor-se-. Foi cortando a pedacinhos e também tinha um pouco parecido a queimaduras, possivelmente feitas com um cigarro. Não foram os meninos do Wood. A primavera passada Adam deu de presente um par de gatinhos. Malcriam-nos como se fossem bebês.

     -Ultimamente Adam tem feito algo que possa ter enfurecido a alguém?

     Ela não o olhou.

     -Não o fizeram ao Adam. Fizeram-me isso .

     -Está bem. -Como estava de acordo não pôde menos que assentir. E se preocupou-. Fez enfurecer a alguém ultimamente?

     -Além da ti?

     Ben sorriu apenas, subiu um degrau e se colocou à mesma altura que ela.

     -Você me estiveste enfurecendo e afugentando toda a vida. Assim que isso não conta. E lhe digo isso a sério, Willa. Fechou uma mão sobre a dela e entrelaçou os dedos de ambos-. Te ocorre que pode haver alguém que queira te fazer danifico?

     Surpreendida pela união de sua mão com a do Ben, ela as olhou.

     -Não. Talvez ao Pickles e ao Wood possa lhes resultar um pouco molesto que eu esteja a cargo do rancho. Sobre tudo Pickles. Porque sou mulher. Mas não têm nada pessoal em meu contrário.

     -Pickles estava nas terras altas -assinalou Ben-. Crie-o capaz de fazer algo como isto para te danificar? Para assustar a uma mulher?

     Essas palavras despertaram todo seu amor próprio.

     -Pareço-te assustada?

     -Sentiria-me melhor se o estivesse. -Mas se encolheu de ombros-. Crie que pode havê-lo feito ele?

     -Faz um par de horas haveria dito que não. Agora não estou segura. -Compreendeu que isso era o pior de tudo. Não saber com segurança em quem confiar, ou até que ponto confiar neles-. Mas não acredito. Tem gênio rápido e gosta de falar e gabar-se, mas não me imagino matando sem motivo.

     -Eu diria que em tudo isto existe um motivo. É o que devemos tratar de descobrir.

     Ela elevou o queixo.

     -Você crie?

     -Sua terra é vizinha à minha, Will. E durante no próximo ano, forma parte de minhas responsabilidades. -Quando ela tratou de retirar sua mão, ele a reteve com mais força-. É uma realidade e suponho que, com o tempo, os dois acostumaremos a ela. Estou decidido a te cuidar e a cuidar do que é teu.

     -Não te aproxime muito, Ben, corre o risco de terminar com um olho negro.

     -Correrei esse risco. -Mas no caso de, tomou a outra mão e as manteve a ambas aos flancos do corpo da Willa-. Tenho a sensação de que este ano me resultará interessante. Extremamente interessante. Não tinha lutado contigo em... perto de vinte anos. Está agradavelmente rellenita.

     sabendo de que ele tinha mais força que ela, Willa permaneceu quieta.

     -É muito hábil com as palavras, Ben. Como com a poesia. Deveria ouvir como me pulsa o coração.

     -eu adoraria, querida, mas se o fizesse aproveitaria para tratar de me derrubar pelo chão.

     Ela sorriu ao fazê-lo-se sentiu melhor.

     -Não, Ben. Sem dúvida te derrubaria pelo chão. E agora vete. Estou cansada e quero comer.

     -Já irei. -Mas não ainda, pensou Ben. Deslizou as mãos até as bonecas da Willa e lhe intrigou perceber que também lhe galopava o pulso. Um nunca o teria adivinhado pela expressão de seus olhos, tão frios e escuros. Há muitas coisas que um não saberia com solo olhar a Willa Mercy, decidiu-. Não vai dar um beijo de boa noite?

     -Quão único conseguiria seria te arruinar para todas essas outras mulheres com as que você gosta de brincar.

     -Também arriscarei a isso. -Mas retrocedeu. Não era o momento nem o lugar. Entretanto teve a sensação de que muito em breve andaria em busca do momento e o lugar adequados-. Voltarei.

     -Sim. -Colocou as mãos nos bolsos enquanto o observava subir ao jipe-. Já sei.

     Esperou até que as luzes do veículo desaparecessem pelo comprido caminho de terra. Depois olhou por cima de seu ombro a casa, as luzes. Estava desejando dar-se esse banho, comer algo quente e dormir uma noite inteira. Mas todo isso teria que esperar. O rancho Mercy era dele e devia falar com os peões.

     Em seu papel de proprietária, tratava de manter-se afastada da casa dos peões. Estava convencida de que os homens necessitavam sua privacidade, e esse edifício revestido de madeira, com as cadeiras de balanço no alpendre era a casa deles. Ali dormiam e comiam, liam se a leitura lhes resultava um prazer. Jogavam às cãs e discutiam sobre o jogo, ali viam televisão e se queixavam da patrã.

     Nell cozinhava as comidas na cabana que compartilhava com o Wood e os filhos de ambos, e logo a transportava até ali. Mas não servia aos peões, e cada semana um dos homens se encarregava de fazer a limpeza. Dessa maneira podiam comer como mais gostassem. depois de trabalhar, podiam sentar-se à mesa talheres de pó ou em roupa interior. E podiam mentir e fanfarronear contando histórias sobre suas mulheres e sobre o tamanho de seus pênis.

     Depois de tudo, para eles esse era o lar.

     De maneira que Willa golpeou e esperou até que a fizeram passar. Estavam todos ali com exceção do Wood, que comia em sua casa, com sua família. Os peões estavam sentados ao redor da mesa, Ham na cabeceira, com a cadeira arremesso para trás, dado que acabava de terminar de comer. Billy e Jim continuavam devorando frango e massa fervida como se fossem um par de lobos se desesperados por comer carne. Pickles bebia cerveja, com o sobrecenho franzido.

     -Lamento lhes interromper a comida.

     -Já quase terminamos -disse Ham-. Billy, te dedique a lavar os pratos. Se comer mais, explorará. Quer uma taça de café, Will?

     -Não me viria mau. -aproximou-se ela mesma à cozinha, serve-se uma taça e não lhe adicionou leite. Compreendia que esse era um assunto delicado e que teria que tratá-lo de uma vez com tato e de uma maneira direta-. Não entendo quem pôde ter esquartejado a esse velho gato. -Bebeu um sorvo de café-. A alguém lhe ocorre uma idéia?

     -Eu investiguei aos meninos do Wood. -Ham ficou de pé para servir-se café-. Nell diz que estiveram quase toda a tarde dentro da casa, com ela. Bom, os dois têm canivete e Nell lhes pediu que os buscassem e me mostrassem isso. Estavam completamente limpos. -Sorriu enquanto bebia-. Pete, o mais jovem, ficou a chorar quando se inteirou do que lhe tinha acontecido ao velho Mike. Pete é um menino alto. Alguém se esquece de que solo tem oito anos.

     -ouvi histórias de meninos que faziam porcarias como essa -adicionou Pickles olhando sua cerveja com ar sombrio-. Depois, quando crescem se convertem em assassinos em série.

     Willa decidiu não olhá-lo sequer. Se existia alguém capaz de piorar as coisas, era Pickles.

     -Não acredito que seja o caso dos filhos do Wood.

     -Pôde ter sido McKinnon -disse Billy enquanto colocava os pratos na pia, desejando que Willa notasse sua presença. Sempre tinha a esperança de que o notasse; seu amor para ela era tão grande como todo Montana-. Estava aqui. -Moveu a cabeça para tirar o cabelo loiro dos olhos. Esfregou com a bucha os pratos com mais força da necessária para que lhe notassem os músculos dos braços-. E seus homens estavam nas terras altas quando mutilaram ao novilho.

      -Deveria pensar antes de abrir a boca, pedaço de imbecil -disse Ham sem irritação. Desde seu ponto de vista, qualquer homem de menos de trinta anos era, potencialmente, um imbecil. E Billy com seu olhar ansioso e seu excesso de imaginação, tinha um potencial maior que o de nenhum outro-. McKinnon não é o tipo de homem capaz de destroçar um maldito gato.

     -Bom, mas estava ali -insistiu Billy com tozudez, enquanto olhava de esguelha para saber se Willa o escutava.

     -Sim, estava ali -demarcou ela-. Mas estava dentro, comigo. Eu mesma lhe abri a porta e nesse momento não havia nada no alpendre.

     -Quando o velho andava por aqui nada disto acontecia -disse Pickles bebendo outro gole de cerveja e olhando de soslaio a Willa.

     -Vamos, Pickles! -Incômodo, Jim se moveu em sua cadeira rangente-. Não é possível que culpe a Willa de uma coisa como esta.

     -Não faço mais que estabelecer um fato.

     -É certo -disse Willa assentindo com tranqüilidade-. Nada disto aconteceu enquanto o velho andava por aqui. Mas agora está morto e a patrã sou eu. E quando averiguar quem fez isto, farei-me cargo pessoalmente dele. Depositou a taça sobre a mesa-. Eu gostaria que todos pensassem no assunto, para ver se alguém recorda algo ou viu algo. Se lhes ocorre alguma idéia, já sabem onde me encontrar.

     Quando a porta se fechou atrás dela, Ham lhe pegou um chute à cadeira do Pickles e esteve a ponto de fazê-lo cair.

     -por que tem que ser tão idiota? Essa garota nunca tem feito nada que não fora o melhor.

     -É mulher, não é certo? -E desde seu isso ponto de vista fechava a discussão-. A gente não pode confiar nas mulheres, e muito menos depender delas. Quem nos pode assegurar que o que tenha destroçado um novilho e logo um gato não tentará logo fazê-lo com um homem? -Bebeu outro gole de cerveja enquanto permitia que se afundasse nas mentes a semente que acabava de semear-. ides depender dela para que lhes cubra as costas? Eu lhes asseguro que não o farei.

     Billy deixou cair um prato. Tinha o olhar cheia de excitação.

     -Crie que alguém trataria de lhe fazer isso a um de nós? Que tentaria nos matar e nos destroçar com uma faca?

     -por que não te cala a boca! -exclamou Ham depositando com força sua taça sobre a mesa-. Pickles só trata de nos pôr nervosos porque lhe arrebenta que sua patrã seja uma mulher. Matar um novilho e um gato pulgoso não é o mesmo que matar a um homem.

     -Ham tem razão. -Mas Jim teve que tragar com força e perdeu interesse no resto da comida que tinha no prato-. Embora talvez seria prudente que durante um tempo estivéssemos cuidadosos. Agora há duas mulheres mais no rancho. -Apartou o prato e ficou de pé-. Talvez deveríamos as cuidar.

     -Eu cuidarei do Will -disse Billy com rapidez e Ham lhe dirigiu um olhar de desprezo.

     -Você fará seu trabalho, como sempre. Não tolerarei que um punhado de covardes se assustem das sombras por culpa de um gato. -Voltou a tomar a taça de café-. Pickles, se não ter nada inteligente que dizer, aconselho-te que te cale a boca. Gesso serve também para outros. -tomou uns instantes para olhá-los um a um e logo assentiu, satisfeito-. vou ver a televisão.

     -Direi-lhes uma coisa -disse Pickles em voz baixa-. Eu penso ter o rifle à mão e o facão dentro da bota. E se chegar a ver alguém com atitudes estranhas por aqui, encarregarei-me dele. E cuidar de mim mesmo. -Tomou seu copo de cerveja e saiu.

     Jim rechaçou o café e se decidiu por uma cerveja. Enquanto abria a garrafa olhou o rosto pálido do Billy. Pobre menino!, pensou. Seguro que terá pesadelos.

     -Pickles solo fanfarroneaba, Billy. Já sabe como é.

     -Sim, mas... -secou-se a boca com uma mão. Não era mais que um gato, repetiu-se. Um gato velho e sarnento-. Sim, já sei como é Pickles.

    

     Willa teve pesadelos. Despertou banhada em suor frio, com o coração palpitante e com um grito encerrado na garganta. Lutou por liberar do enredo de lençóis, e por respirar um pouco de ar fresco. Só e tremendo, sentou-se em meio da cama, enquanto a luz da lua entrava pela janela e uma pequena brisa golpeava contra o vidro.

     Não recordava bem o pesadelo que acaba de ter. Sangue, medo, pânico. Facas. Um gato sem cabeça que a acossava. Tratou de tomá-lo a risada, apoiou a cabeça sobre os joelhos levantados e tentou rir de si mesmo. O som que surgiu de sua boca foi perigosamente parecido a um soluço.

     Quando saltou da cama, sentiu que as pernas não a sustentavam, mas se obrigou a caminhar até o banho, acendeu a luz, baixou a cabeça até o lavabo e se lavou a cara com água geada. Então se sentiu melhor, já desaparecido esse suor frio. Levantou a cabeça e se estudou no espelho.

     O rosto seguia sendo o mesmo. Isso não tinha trocado. Em realidade, nada tinha trocado. Simplesmente acabava de viver uma noite infernal. Não tinha direito a estar um pouco estremecida por todo o acontecido? A preocupação pesava como um chumbo sobre seus ombros e devia lhe fazer frente sozinha. Não tinha a quem passar-lhe nem com quem compartilhá-la.

     Eram suas irmãs, e também o rancho e o que o estivesse fazendo perigar. Ela teria que encarregar-se de tudo.

     E se se chegava a produzir uma mudança em seu interior, algo molesto, algo que reconhecia como essencialmente feminino, também se encarregaria disso. Não tinha tempo nem o temperamento necessário para andar jogando com o Ben McKinnon.

     De todos os modos, ele sozinho tratava de irritá-la. escovou-se o cabelo para trás para apartar o de suas bochechas molhadas e se serve um copo de água fria. Ben nunca teve interesse nela. E se o tinha nesse momento, era sozinho porque lhe divertia. Algo típico do Ben. Quase sorriu enquanto bebia a água fria.

     Pensou que, depois de tudo, talvez o beijasse. Solo para tirar o assunto de cima. uma espécie de prova. Possivelmente então conseguiria dormir melhor. Um beijo talvez afugentaria ao Ben de seus sonhos e de seus pesadelos. E uma vez que deixasse de perguntar-se como seria, uma vez que deixasse de pensar nisso que ardia em seu interior, poderia-se concentrar por completo no rancho.

     Olhou a cama e se estremeceu. Precisava dormir mas não queria voltar a ver o sangue, nem os corpos destroçados, mutilados. De maneira que não os voltaria a ver.

     Respirou fundo antes de voltar a deitar-se. Apartaria essas imagens com solo sua força de vontade. Pensaria em outra coisa. Na primavera, ainda tão longínqua. Em flores cobrindo as pradarias e em uma brisa cálida que descia das montanhas.

     Mas quando sonhou, voltou a sonhar com sangue, e medo e terror.

    

     Do jornal do Tess Mercy:

     depois de dois dias de vida no rancho, decidi que odeio Montana, ódio as vacas, os cavalos, os jeans e sobretudo, os frangos. Bess Pringle, quão déspota dirige a casa onde me retêm prisioneira, encarregou-me que me ocupe do galinheiro. Ontem, depois de comer, inteirei-me desta nova carreira que devo iniciar. Quero esclarecer que a comida consistia em carne de urso assada. Parece que a mesma Danielle Boom subiu às montanhas e matou pessoalmente um urso cinza. Estava delicioso.

     Em realidade me pareceu rico basta que me inteirei do que estava comendo. Devo informar que, em que pese a que se diga o contrário, a carne de urso não se parece no mais mínimo a de frango. Apesar de tudo o que possa dizer sobre o Bess, e poderia dizer bastante considerando a maneira em que me olhe, essa mulher cozinha como os deuses. Terei que me cuidar para não voltar a cair no estado de gordura de minha juventude.

     Enquanto eu estava de retorno no mundo real, houve bastante excitação em La Ponderosa. Pelo visto alguém esquartejou um novilho no que eles chamam terras altas. Quando comentei que acreditava que isso era o que se fazia com o gado vacino, Annie Oakley fez o possível por me matar com o olhar. Devo admitir que tem algumas costure boas. Se não fosse tão altiva e sabichão, acredito que até chegaria a me gostar de.

     Mas tenho cansado em uma disgresión.

     Ao novilho não o mataram como corresponde mas sim mas bem o mutilaram, coisa que causou certa preocupação entre os personagens desta terra. A noite antes de minha volta, um dos gatos do celeiro foi decapitado e colocado sobre o chão de alpendre de entrada. Encontrou-o a pobre Lily.

      Não sei se deve me preocupar saber que este não é um acontecimento habitual nestas latitudes ou simular que o é e me assegurar de que minha porta esteja bem fechada de noite. Mas a reina das jeamas parece preocupada. Sob outras circunstâncias, isso me produziria uma pequena e cálida satisfação. Willa realmente me põe nervosa. Mas dado como estão as coisas e pensando, ou tratando de não pensar, nos largos meses que tenho por diante, sinto-me incômoda.

     Lily passa grande parte de seu tempo com o Adam e seus cavalos. Os moretones vão desaparecendo, mas segue com os nervos de ponta. Acredito que nem sequer se imagina que o esplêndido Nobre Selvagem se está apaixonando por ela. É bastante divertido observá-los. Não posso menos que lhe ter simpatia ao Lily, porque é indefesa e está muito perdida. E, depois de tudo, as dois estamos no mesmo navio, por assim dizê-lo.

     Os outros caracteres do guia incluem o Ham; é perfeito, parece saído de um filme. O típico vaqueiro patizambo, de olhos brilhantes e mãos calosas. Saúda-me levando-a mão ao chapéu mas fala pouco.

     Depois está Pickles. Não tenho nem idéia de se o indivíduo tiver outro nome. É um tipo mal-humorado, de rosto amargo, botas bicudas e quase completamente calvo, salvo um enorme bigode avermelhado. Quase sempre anda com o sobrecenho franzido, mas o vi trabalhar com o gado e se vê que sabe o que faz.

     Está a família Wood. Nell cozinha para os peões e tem um rosto doce e caseiro. Ela e Bess se reúnen para conversar e para levar a cabo as coisas das mulheres do rancho, das que prefiro não me inteirar. O marido é Wood, que conforme tenho descoberto é Woodrow, cortado. Tem uma formosa barba negra, um sorriso e um modo de ser agradáveis. Chama-me senhora e sugeriu com muita amabilidade que deveria me conseguir um chapéu como a gente para não me queimar a cara quando estou ao sol. Têm dois filhos varões de ao redor de oito e dez anos, a quem adoram andar dando voltas por aí e lutando a braço partido. São tão arrumados que eu os qualificaria como bonitos. Vi-os fazendo uma competição de escupitajos detrás de um dos edifícios. Parecem muito hábeis.

     Depois está Jim Brewster, que parece um desses homens buenazos. Do tipo larguirucho cujo modo parece dizer: «Já estou chegando. Serei patrão». Me resulta muito atrativo, em seu jeans com essa pequena redondez no bolso de atrás que, estou segura, esconde algo asqueroso, como tabaco para mascar. Dedicou-me algumas sorrisos pretensiosos e algumas piscadas. até agora me pude resistir.

     Billy é o mais jovem. Por seu aspecto um diria que logo que tem idade suficiente para conduzir um carro e seus olhos de cachorrinho não se separam de nossa vaqueira favorita. É um grande conversador e, qualquer que se encontra perto dele, não faz mais que lhe dizer que se cale a boca. O não se ofende e pelo general não faz conta. Quase me atreveria a dizer que me inspira sentimentos maternais.

     Desde minha volta não vi ao vaqueiro advogado e ainda nem sequer conheço infame Ben McKinnon do Three Rocks, quem pelo visto é a causa de todas as aflições da existência da Willa. Estou segura de que, solo por isso, terei-lhe uma enorme simpatia. Acredito que deverei encontrar a maneira de suavizar ao Bess para que me dê todos os dados da família McKinnon, mas enquanto isso tenho uma entrevista com o galinheiro.

     Tratarei de pensar nisso como em uma aventura.

 

     Ao Tess não importava levantar-se cedo. De todos os modos sempre se levantava às seis. Uma hora no ginásio, talvez uma reunião durante o café da manhã e logo se dedicava a trabalhar até as duas da tarde. Depois se dava um mergulho de cabeça na piscina, ou tinha outra reunião ou saía a fazer compras. Possivelmente tivesse uma entrevista ou possivelmente não, mas sua vida lhe pertencia e se desenvolvia tal como lhe gostava.

     Levantar-se cedo para haver-lhe com uma série de galinhas era algo que tinha um gosto totalmente distinto.

     O galinheiro era enorme e sem dúvida parecia limpo. Aos olhos pouco treinados do Tess, as cinqüenta galinhas das que se vangloriava o rancho pareciam uma legião de depredadoras ominosas com olhos como contas.

     Deu-lhes a comida tal como o indicou Bess, encheu-lhes os recipientes de água fresca, depois se tirou o pó das mãos e olhou à primeira das galinhas que estava sentada.

     -supõe-se que devo juntar os ovos. Acredito que deve estar sobre um deles, assim se não te importa... Estendeu a mão, vacilante, sem deixar de olhar à galinha. Imediatamente resultou evidente que esta era a mais forte. Tess lançou um uivo ante o bicada que recebeu na mão, e saltou para trás-. Olhe, irmã, devo cumprir as ordens que me deram.

      Foi uma batalha desagradável. Voaram as plumas, acenderam-se os maus humores. No galinheiro inteiro houve uma erupção de cacarejos e de chiados quando as galinhas vizinhas se uniram à luta. Tess conseguiu agarrar um ovo morno com a mão e em seguida retrocedeu, ofegante e tinta.

     -Tem uma técnica estranha.

     Para ouvir a voz a suas costas, Tess soltou o ovo, que caiu ao chão.

     -Maldita seja! depois de todo o trabalho que me há flanco.

     -Assustei-te. -A comoção do galinheiro tinha atraído ao Nate. Assim em lugar de ir em busca da Willa fez um rodeio e se encontrou com a conexão californiana, que luzia seu jeans de alta costura e seus reluzentes expulsa novas, e que nesse momento lutava a braço partido contra as galinhas. Quão único Nate pôde pensar foi que era um verdadeiro quadro-. Procurava ovos para o café da manhã?

     -Mais ou menos. -apartou-se o cabelo da cara-. E você o que anda procurando?

     -Tenho que falar de negócios com o Will. Sangra-te a mão -adicionou.

     -Já sei. -Mal-humorada, chupou-se a ferida do dorso da mão-. Esse maldito pássaro me atacou.

     -O que passa é que não o está fazendo bem. -Ofereceu-lhe um lenço para que se enfaixasse a mão e logo se aproximou da seguinte galinha arremesso. E Tess notou que conseguia fazer a tarefa com graça, apesar de que teve que inclinar-se e dobrar-se em dois para que sua cabeça não me chocasse contra o teto-. Tem que fazê-lo como se fora algo natural. Faz-o rápido mas sem movimentos bruscos. -Fez-lhe uma demonstração: colocou a mão debaixo da galinha arremesso e a tirou com um ovo. O ave nem sequer moveu uma pluma.

     -É meu primeiro dia neste trabalho. -um pouco mal-humorada, elevou o cubo-. eu adoro encontrar os frangos no setor de geladeira que lhes corresponde, envoltos em celofane. -Enquanto Nate avançava pelo galinheiro, recolhendo ovos, ela o seguia-. Suponho que você também tem galinhas.

     -Sim, antes tinha. Agora não me entretenho com isso.

     -Vacas?

     -Não.

     Tess elevou uma sobrancelha.

     -Ovelhas? Não é um risco? Vi uma quantidade de filmes do oeste onde se destaca que é perigoso mesclar ovelhas com ganho vacino.

     -Tampouco pirralho ovelhas. -Colocou um ovo no cubo-. Só cavalos. Quarto de milha. Você monta?

     -Não. -tornou-se atrás o cabelo enquanto se encolhia de ombros-. Embora me hão dito que me conviria aprender. E suponho que me daria algo que fazer aqui.

     -Adam te poderia ensinar. Ou te ensinaria eu.

     -Sério? -Esboçou um lento sorriso enquanto piscava para luzir suas largas pestanas-. E por que se incomodaria em fazer isso, senhor Torrence?

     -Como uma prova de boa vizinhança. -Tem um perfume delicioso, pensou. Algo um poquito escuro, um poquito perigoso. E muito feminino. Pôs outro ovo dentro do cubo-. E me chamo Nate.

     -Está bem. -A voz do Tess era cálida e parecia um ronrono. Dirigiu-lhe um olhar furtivo-. Somos vizinhos, Nate?

     -Bom, é uma maneira de falar. Meu rancho está ao leste daqui. Por tratar-se de alguém que esteve empenhada em uma batalha campal com galinhas, desprende um aroma riquíssimo senhorita Mercy.

     -Meu nome é Tess. Está flertando comigo, Nate?

     -Só respondo a seu flerte. -O sorriso do Nate foi lenta e sincera-. Era o que estava fazendo, não é verdade?

     -De algum jeito. Por hábito.

     -Bom, se quiser que te dê um conselho...

     -Os advogados estão cheios de conselhos -interrompeu ela.

     -É certo. Meu conselho seria que te refreie um poquito. por aqui os moços não estão acostumados a mulheres com tanto estilo como o teu.

     -Ah! -Não sabia com segurança se acabava de receber uma adulação ou um insulto, mas decidiu que lhe concederia o benefício da dúvida-. E você está acostumado a mulheres com estilo?

     -Não posso dizer que o esteja. -Dirigiu-lhe um largo e pensativo olhar de seus tranqüilos olhos azuis-. Mas pelo menos as reconheço. No prazo de uma semana haverá os tornado loucos a todos e estarão dispostos a matar-se entre eles.

     Bom, isso é um completo, decidiu Tess.

     -Isso daria vidilla ao rancho.

     -Por isso me contaram, não é que tenham estado aborrecidos.

     -Gatos e novilhos mortos. -Sorriu-. Um assunto desagradável. Me alegro de não ter estado aqui.

     -Mas agora está aqui. Bom, parece que não há mais ovos -adicionou Nate enquanto ela olhava o conteúdo do cubo.

     -São muitos. E vá se estiverem sujos! -Era possível que durante um tempo não tivesse vontades de comer uma omelete.

      -Lavarão-os. -Tirou-lhe o cubo e começou a sair do galinheiro-. Está-te adaptando a este lugar?

     -Sim, o melhor possível. Não é meu meio, meu modo habitual de viver.

     Nate se passou a língua pelos dentes.

     -A gente de você, como se diz?, de seu ambiente vem por aqui a todas as horas. Embora não fica. -Em um movimento automático, baliu a cabeça para não golpeá-la contra a soleira da porta do galinheiro-. Essa gente de Hollywood chega cheia de entusiasmo, compra terras e derruba casas que valem mais que a terra mesma.

     Acreditam que vão criar búfalos ou salvar da extinção aos potros selvagens ou Deus sabe o que outra coisa.

     -Você não gosta da gente de Califórnia?

     -A gente de Califórnia não se sente cômoda em Montana. Por regra general. Muito em breve voltam correndo a seus restaurantes e a seus clubes noturnos ou o que seja. -voltou-se e a estudou-. Que é o que fará você quando se vencer o ano.

     -Pode apostar a que sim. Vos presente seus amplos espaços, companheiro. Eu fico com a Beverly Hills.

     -E o smog, os deslizamentos de barro, os terremotos.

     Ela sozinho sorriu.

     -Por favor, está-me fazendo que o tenha saudades!

     Supôs que sabia de cor o tipo de homem que era esse. Nascido e criado em Montana, um pensador lento mas profundo, a quem gostava da cerveja geada e as mulheres modestas. O tipo de homem que no último cilindro de um filme de série B do oeste, beijaria a seu cavalo.

     Mas Deus, OH, Deus! Era encantador.

     -por que estudou Direito, Nate? Alguém mandou a julgamento de seus cavalos?

     -Ultimamente não. -Seguiu caminhando, mas com mais lentidão para que ela pudesse manter-se a seu lado-. Interessava-me. O sistema. E ajuda a manter o rancho em marcha. Chegar a ter uma manada de éguas sólida, exige tempo e dinheiro. O mesmo acontece com a reputação do criador.

     -De maneira que foi à universidade para ajudar a manter o rancho. Aonde estudou? Na Universidade de Montana? -Em sua boca havia uma expressão zombadora e divertida de uma vez-. Porque suponho que em Montana haverá universidade, não é certo?

     -Sim, hão-me dito que sim. -Reconheceu o sarcasmo do Tess e a olhou aos olhos-. Não, estudei no Yale.

     -Em... -Como se deteve em seco, ele estava vários passos adiante quando Tess conseguiu repor-se. Teve que fazer um esforço por alcançá-lo-. Vale? Foi ao Yale e voltou para este lugar para jogar advogado vaqueiro em benefício de uma série de jeans e de peões?

     -Eu não jogo com a lei. -Saudou-a com o chapéu em um gesto de despedida e se encaminhou a um curral junto ao celeiro.

     -Yale -repetiu Tess. Fascinada, tomou o cubo que Nate tinha deixado e correu atrás dele para alcançá-lo-. Escuta, Nate...

     deteve-se. Havia muita atividade no curral. Dois peões e Willa lhe estavam fazendo algo a um bezerro. Algo que pelo visto o bezerro não gostava. Tess supôs que o estariam marcando e teve vontades de ver como se fazia. Além disso, queria voltar a falar com o Nate e ele parecia decidido a intervir na ação.

     Levantou o cubo, aproximou-se da porta feita com trancas e a cruzou. Ninguém se incomodou em olhá-la. Estavam enfrascados em seu trabalho e o bezerro atraía a atenção de todos. Com vos lábios franzidos, Tess se aproximou e se inclinou sobre o ombro da Willa para ver do que se tratava.

     Quando viu o Jim Brewster quem, com rapidez, prolijidad e eficiência castrava ao animal, lhe puseram os olhos em branco e se deprimiu sem emitir um só som. Foi o ruído da queda do cubo e da ruptura dos ovos o que fez que Willa olhasse para trás.

     -Por amor de Deus! O que passou?

     -Tem cansado deprimida, Will -informou Jim e por toda resposta recebeu um gesto de impaciência de sua patrã.

     -Isso sei. lhes encarregue do bezerro. -levantou-se, mas Nate já tinha ao Tess em braços-. É um peso pesado.

     -Bom, não te digo que seja um peso-pena -respondeu ele, sonriendo-. Sua irmã está muito bem formada, Willa.

     -Pode desfrutar desse pequeno benefício enquanto a leva a casa. Maldição! -exclamou, levantando o cubo-. Tem quebrado quase todos os ovos. Ao Bess dará um ataque. -Desgostada, voltou a olhar ao Jim e ao Pickles-. Vós dois sigam com o trabalho. Eu terei que me ocupar dela. Como se não tivesse nada que fazer além de ir procura de sai aromáticas para uma tola mulher de cidade!

     -Não deve ser tão dura com ela, Will -disse Nate enquanto cruzava o caminho de terra para levar ao Tess à casa principal. Custou-lhe sufocar um sorriso-. Está fora de seu ambiente.

      -Oxalá voltasse para seu ambiente e me deixasse em paz! Esta me deprime e a outra anda a meu ao redor de puntillas, como se fora a lhe pegar um tiro entre os olhos se me olhasse.

     -É uma mulher lhe atemorizem, Will. -Baixou o olhar quando Tess se estremeceu em seus braços-. Acredito que está voltando em si.

     -Deixa-a cair em alguma parte -sugeriu Willa abrindo de um puxão a porta da casa-. irei procurar um pouco de água.

     Nate teve que admitir que lhe resultava agradável levar em braços ao Tess. Não era uma dessas mulheres ossudas e fracas típicas de Califórnia, a não ser uma moça suave e arredondada com o peso distribuído nos lugares justos. Tess lançou um gemido e pestanejou enquanto ele a levava a um sofá. Olhou-o, como sem compreender, com seus olhos muito azuis.

     -O que? -foi tudo o que conseguiu dizer.

     -Tome o com calma, querida. Deprimiu-te, nada mais.

     -Que me deprimi? -Demorou um instante em compreender o significado da palavra-. Diz que me deprimi? Que ridicularia!

     -E devo te advertir que caiu com muchísima graça. -Recordava que tinha cansado como uma árvore, mas não acreditou que lhe gostasse da analogia-. Suponho que não te terá golpeado a cabeça, verdade?

     -A cabeça? -Ainda enjoada, levou-se uma mão à cabeça-. Não acredito. Eu... -E então recordou-. OH, Deus, esse bezerro! O que lhe estavam fazendo a esse bezerro? por que sorri?

     -Imagino o que deve ter sentido ao ver pela primeira vez converter a um bezerro em novilho. Suponho que é algo que não se deve ver com freqüência na Beverly Hills.

     -Nós guardamos o gado na casa de hóspedes.

     O assentiu.

     -Bom, vejo que te está recuperando.

     Assim era, sem dúvida. estava-se recuperando o suficiente para dar-se conta de que ele a embalava contra seu peito, como se fosse uma criatura.

     -por que me tem em braços?

     -Bom, porque me pareceu uma atitude de bom vizinho não te trazer até a casa te arrastando pelo cabelo. Está recuperando a cor.

     -Ainda segue com ela em braços? -perguntou Willa entrando em quarto com um copo de água na mão.

     -Eu gosto de tê-la assim. Tem muito bom aroma.

     O exagerado acento de Montana com que o disse fez que Willa lançasse uma risita e meneasse a cabeça.

     -Basta de jogar com ela, Nate, e tende-a na poltrona. Tenho que seguir trabalhando.

     -Não posso ficar a Will? Não tenho nenhuma mulher no rancho. E às vezes me sinto sozinho.

     -São o cúmulo! -Lutando por recuperar certa dignidade, Tess se apartou o cabelo da cara-. Baixa me, pedaço de idiota!

     -Sim, senhora.

     De uma altura considerável, deixou-a cair sobre o sofá estofado em couro. Tess ricocheteou uma vez, franziu o sobrecenho e se ergueu.

     -Bebe isto. -Com muito pouca simpatia, Willa pôs um copo de água em mãos do Tess-. E te aconselho que te mantenha longe dos currais.

     -Asseguro-te que o farei. -Furiosa consigo mesma e com o fato de que seguia estando tremente, Tess bebeu-. O que estavam fazendo ali era repugnante, bárbaro e cruel. Se mutilar um animal indefeso não é ilegal, deveria sê-lo. -Apertou os dentes ao ver que Nate lhe sorria-. E não siga sonriendo quando me olha, pedaço de tolo. Não acredito que você gostasse que lhe cortassem as Pelotas com um par de tesouras de podar.

     Nate se esclareceu garganta.

     -Não senhora, não acredito que eu gostasse.

     -por aqui não castramos aos homens até ter terminado com eles -disse Willa com secura-. Olhe, Hollywood, o desmame e a castração são parte da vida de um rancho. O que crie que aconteceria se deixássemos inteiros a todos os bezerros? Teríamos touros saltando por toda parte.

     -E orgias de gado todas as noites -adicionou Nate, mas logo retrocedeu ao ver o olhar que lhe dirigiam ambas as mulheres.

     -Não tenho tempo para te explicar as realidades da vida -continuou dizendo Willa-. O que te aconselho é que te reponha e que durante os próximos dois dias te mantenha afastada dos currais. Bess te encontrará trabalho dentro da casa.

     -Ah! Que alegria!

     -Não sei para que mais pode servir. Nem sequer é capaz de juntar ovos sem rompê-los todos. -Ao ver que Tess lhe dirigia um olhar assassino, voltou-se para o Nate-. Queria falar comigo?

     -Sim, por isso vim. -Não esperava passar uma manhã tão divertida-. Em primeiro lugar queria saber se estava bem. Inteirei-me do problema que têm.

     -Estou bastante bem. -Willa lhe tirou o copo de água ao Tess e bebeu a que ficava-. Pelo visto não posso fazer muito com respeito a esse assunto. Os peões estão um pouco espantados e mantêm os olhos bem abertos. Depositou o copo vazio sobre uma mesa e se tornou atrás o chapéu-. Não ouviste que a algum outro tenha acontecido um pouco parecido?

      -Não. -E isso lhe preocupava-. Não sei o que posso fazer por ajudar, mas sim te ocorre algo, peça-me isso      -Te lo agradezco. -Willa le cogió la mano y la apretó, un gesto que hizo que Tess frunciera los labios con aire pensativo-. ¿Pudiste encargarte de ese otro asunto del que hablamos?

     -Agradeço-lhe isso. -Willa lhe agarrou a mão e a apertou, um gesto que fez que Tess franzisse os lábios com ar pensativo-. Pôde te encarregar desse outro assunto de que falamos?

     Seu testamento, pensou Nate, no que nomeava beneficiário ao Adam. E os papéis nos que, transcorrido o ano, transferia a seu nome os cavalos, a casa em que vivia e a metade de seus interesses no Mercy.

     -Sim, terei um rascunho preparado para lhe mostrar isso no fim de semana. -Obrigado. -Soltou-lhe a mão e ficou o chapéu-. Se tiver tempo que perder, pode ficar a conversar com ela. -Dirigiu- um sorriso malvado ao Tess. Eu tenho que seguir castrando bezerros.

     Enquanto Willa saía, Tess cruzou os braços sobre o peito e tratou de conter seu mau humor.

     -Poderia aprender a odiá-la. Não me custaria nenhum trabalho.

     -O que passa é que não a conhece.

     -Sei que é fria, grosseira, pouco amistosa e que está empenhada em lutar pelo poder. Com isso me basta e me sobra. -Não, compreendeu ao ficar de pé, seu mau humor não lhe aconteceria logo-. Não tenho feito nada para merecer que me trate assim. Não pedi que me obrigassem a me instalar aqui, e te asseguro que tampouco pedi estar aparentada com uma bruxa como ela.

     -Ela tampouco o pediu. -Nate se sentou no braço de uma poltrona e começou a atar metodicamente um cigarro. Tinha um pouco de tempo e considerava que algumas costure deviam ser sortes-. Me permita que te pergunte algo. Como se sentiria se se inteirasse de repente que lhe poderiam tirar sua casa, seu lar, sua vida, tudo o que alguma vez quiseste?

     Seus olhos tinham uma expressão tranqüila quando acendeu o cigarro com um fósforo.

     -Para conservá-lo, teria que confiar em desconhecidos, e até no caso de que obtivesse não perdê-lo, não ficaria mais que uma parte. Mas outra boa parte passaria à mãos desses desconhecidos. Pessoas a quem não conhece, que nunca teve oportunidade de conhecer e que neste momento vivem em sua casa e têm tanto direito a isso como você. Não pode fazer nada a respeito. além disso, tem toda a responsabilidade sobre seus ombros porque essas desconhecidas não sabem absolutamente nada sobre campo nem sobre dirigir um rancho. Assim de ti depende mantê-lo em marcha. Quão único elas têm que fazer é esperar, e se esperarem, receberão o mesmo que você, embora tenha sido a que trabalhou, a que suou, a que se preocupou.

     Tess abriu a boca e a voltou a fechar. Assim, dito com tanta simplicidade, trocavam por completo as coisas.

     -Mas eu não tenho a culpa -disse em voz baixa.

     -Não, é obvio que não tem a culpa. Mas ela tampouco. -Voltou a cabeça e estudou o quadro do Jack Mercy que pendurava sobre a chaminé-. E você tampouco teve que viver com ele.

     -Como era...? -interrompeu-se e se amaldiçoou. Não queria perguntar. Não queria sabê-lo.

     -Como era Jack Mercy? -Nate exalou uma baforada de fumaça-. Direi-lhe isso. Era duro, frio, egoísta. Sabia como levar um rancho melhor que ninguém a quem eu conheça. Mas não sabia criar uma criatura. -A lembrança disso o acalorou. A partir desse momento falou com tom cortante-. Nunca lhe deu uma só amostra de afeto nem, por isso eu sei, nunca disse uma só palavra de fôlego, embora ela se rompesse a alma por ele. Willa nunca era o bastante hábil, nem o bastante rápida, nem o bastante inteligente para conformá-lo.

     Não vou permitir que me afogue a sensação de culpa, pensou Tess. Nate não conseguiria que se sentisse culpado nem que tomasse simpatia a Willa.

     -Pôde haver-se ido.

     -Sim, pôde haver-se ido. Mas amava este lugar. E queria a seu pai. Você não tem que chorar a seu pai, Tess, perdeu-o faz muitos anos. Mas Willa o está chorando. Não importa que ele não o mereça. Não a quis, quão mesmo não lhes quis a ti nem ao Lily, mas Willa não teve a sorte de ter uma mãe.

     «Está bem, deixarei-me levar pela culpa. um pouco», pensou.

     -Sinto muito. Mas isso não tem nada que ver comigo.

     Nate inalou com lentidão a fumaça de seu cigarro, logo o apagou com cuidado enquanto ficava de pé.

     -Tem todo que ver contigo. -Estudou-a e, de repente, seu olhar foi fria, longínqua e incômoda como a de um advogado-. Se não compreender o que te acabo de dizer, é muito parecida com o Jack Mercy. E agora vou. -levou-se a mão ao chapéu em um gesto de despedida e saiu.

     Durante comprido momento, Tess permaneceu onde estava, olhando fixamente o retrato desse homem que tinha sido seu pai.

    

      A quilômetros de distância, em terras do Three Rocks, Jesse Cooke assobiava entre dentes enquanto trabalhava no motor de uma velha pickup Ford. sentia-se muito bem, animado pela conversação que mantiveram durante o café da manhã, a respeito dos animais mortos e mutilados no Mercy. E o mais reconfortante e perfeito, era que foi Lily a que encontrou ao gato decapitado.

     Tivesse-lhe gostado de vê-la nesse momento.

     Mas Legs Monroe ouviu de boca do Wood Book do Mercy, que a pequena mulher de cidade do olho arroxeado gritou até ficar rouca.

     Vá se isso o reconfortava!

     Jesse assobiou uma canção country enquanto com dedos hábeis arrumava o motor do Ford. Sempre lhe tinha resultado odiosa essa música, com mulheres que choravam por seus homens, e homens pouco viris que choravam por suas mulheres. Mas se estava acostumando. Todos os peões, seus companheiros n! rancho, voltavam-se loucos por essas canções e eram quão únicas escutavam. Mas ele se estava acostumando. Em realidade, começava a pensar que Montana era o lugar onde lhe correspondia viver.

     Decidiu que era uma terra para verdadeiros homens. Homens que sabiam comportar-se e manter a raia a suas mulheres. depois de haverensinado uma boa lição ao Lily, estabeleceriam-se ali. Porque Lily ia ser rica.

     De solo pensá-lo começou a marcar um ritmo próprio com o pé, enquanto ria em voz baixa. Quem houvesse dito que essa parva do Lily herdaria a terceira parte de um dos ranchos mais importantes do estado! Um rancho que valia uma autêntica fortuna. E o único que lhe custaria seria esperar um ano.

     Jesse apareceu a cabeça que tinha colocada sob o capô do automóvel e olhou a seu redor. As montanhas, a terra, o céu.., eram todos duros. Duros e fortes, quão mesmo ele. De maneira que esse era seu lugar e Lily teria que aprender que seu lugar era estar com ele. O divórcio não importava uma mierda ao Jesse Cooke. Essa mulher lhe pertencia e se era necessário que de vez em quando utilizasse os punhos para recordar-lhe bom, era seu direito.

     Tudo o que devia fazer era ter paciência. Mas enquanto se passava uma mão engordurada pela cara, teve que admitir que essa era a parte mais difícil. Se ela chegava a inteirar-se de que ele estava perto, fugiria. E ele não podia permitir que fugisse até que tivesse transcorrido o ano.

     O qual não queria dizer que não pensasse vigiá-la, não por descontado que não. Vigiaria a inútil de sua mulher.

     Era fácil fazer-se amigo de um par dos peões imbecis do Mercy. Beber umas quantas cervejas, jogar um pouco às cartas e lhes surrupiar informação. Além disso podia vagar pelo rancho vizinho quando lhe desse a vontade, sempre que Lily não o visse.

     E o dia em que Jesse Cooke, ex-infante de marinha, deixasse que uma mulher pudesse mais que ele, equivaleria ao fim do mundo.

     Voltou a agachar-se sob o capô e retomou o trabalho. Enquanto isso começou a preparar seus planos para a seguinte visita que faria ao Mercy.

    

     Sarah McKinnon pôs massa sobre a prancha da cozinha, encantada de que seu filho maior estivesse ali frente à mesa, bebendo seu café. Na atualidade, o mais habitual era que se preparasse seu próprio café em suas habitações se localizadas sobre a garagem.

     E ela o sentia falta de.

     Em realidade tinha saudades não ter já a seus dois filhos na casa, discutindo e brigando como quando eram pirralhos. Deus era testemunha de que às vezes acreditou que a voltariam louca, que nunca voltaria a ter um momento de paz.

     E agora que eram homens e ela desfrutava dessa paz tão desejada, tirava o chapéu tendo saudades as brigas, o ruído, os maus humores.

     Sempre quis ter mais filhos. Desejo de todo coração poder ter uma mujercita a quem mimar nessa casa cheia de homens. Mas ela e Stu nunca puderam engendrar um terceiro filho. De maneira que se conformou ao pensar que tinha dois varões sãs e formosos e isso era tudo.

     Agora tinha uma nora a quem queria e uma neta a que adorava. E sem dúvida teria mais netos. Solo desejava poder incitar ao Ben para que se casasse com a moça indicada.

     Mas esse menino é muito estranho, pensou lhe dirigindo um olhar de reojo enquanto ele seguia enfrascado na leitura do periódico. E não se tratava de que seguisse solteiro aos trinta anos por falta de oportunidades. Deus era testemunha de que não eram poucas as mulheres que tinham entrado e saído de sua vida.., e também de sua cama, embora esse era um tema no que preferia não pensar.

     Mas Ben nunca deu um passo em falso com uma mulher, e Sarah supunha que era melhor assim. A gente sempre dava um tropeção antes de cair, e apaixonar-se era um assunto sério. Pelo general quando um homem escolhia com cuidado, elegia bem.

      Mas, maldita seja, ela queria mais netos.

     Com um prato cheio de tortas fritas em uma mão, deteve-se um momento frente à janela da cozinha. Amanhecia no este e ela observou a chegada do novo dia, rosado, cheio de luz e de nuvens baixas.

     Na casa dos peões, os homens já estariam levantados e tomando o café da manhã. dentro de poucos instantes escutaria os passos de seu marido no primeiro piso. Ela sempre se levantava antes que ele, para desfrutar desses primeiros momentos do dia no coração da casa. Depois baixava. Stu, recém barbeado, com aroma de sabão e com o cabelo úmido. Dava-lhe um enorme beijo de bom dia, aplaudia-lhe o traseiro e bebia sua primeira taça de café como se nisso o fora a vida.

     Ela o amava por ser tão previsível.

     E amava a terra do rancho por ser tão pouco previsível.

     Amava a seu filho, esse homem que, de algum jeito, tinha surto dela, da combinação dela e seu marido.

     Enquanto apoiava o prato sobre a mesa, passou uma mão sobre o cabelo espesso do Ben. E com repentina e estranha claridade, recordou a primeira vez que fez que se cortasse o cabelo, aos sete anos.

     Que orgulhoso estava Ben! E que parva foi ela quando lhe caíram as lágrimas ao ver que os cachos de seu filho foram dar ao chão da barbearia!

     -se preocupa algo, moço?

     -Hummm? -Apartou o periódico. Em sua casa lhes permitia ler o periódico na mesa até que se servia a comida-. Nada importante, mamãe. E você, no que pensa?

     Ela se sentou e tomou a taça de café entre ambas as mãos.

     -Conheço-te Benjamin McKinnon. Estava pensando em algo em particular.

     -Em trabalhos do rancho, em realidade. -Para ganhar tempo, começou a dar boa conta de seu café da manhã. As tortas fritas eram tão livianas que pareciam flutuar no ar e o toucinho estava rangente-. Ninguém cozinha como minha mãe disse, sonriéndole.

     -Ninguém come como meu Ben -replicou ela. sentou-se a esperar.

     Durante um momento ele não falou. Desfrutava da comida, dos aromas, da luz que entrava pela janela à medida que amanhecia. Desfrutava estando com sua mãe. É tão previsível como a saída do sol, pensou. Sarah McKinnon, com seus bonitos olhos verdes e seu resplandecente cabelo loiro avermelhado. Tinha esse tipo de pele irlandesa muito branca que desafiava ao sol. Agora tinha rugas em seu rosto, pensou Ben, mas eram tão suaves, tão naturais, que um nem sequer as notava. Mas em troca era impossível deixar de ver esse sorriso, tão cálida e confiada.

     Era uma mulher magra que vestia jeans e camisa vincada. Mas Ben conhecia sua enorme fortaleza. Não só em um sentido físico, apesar de que muitas vezes o tinha levantado pelo ar lhe colocando uma mão no traseiro, era capaz de montar incansavelmente a cavalo ou estar horas sobre um trator no meio do frio mais intenso ou o calor mais tremendo, e também podia carregar com uma bolsa de grão de vinte e cinco quilogramas como se se tratasse de um bebê.

     Mas por dentro, que era o que mais contava, parecia de aço. Nunca vacilava. Em toda sua vida, jamais a tinha visto lhe dar as costas a um desafio, ou a um amigo.

     Se ele não encontrava uma mulher igualmente forte, boa e generosa, preferia seguir solteiro toda a vida.

     Uma idéia que teria estremecido o coração do Sarah.

     -estive pensado na Willa Mercy.

     Sarah elevou as sobrancelhas, movida pela esperança.

     -Ah, sim?

     -Não dessa maneira, mamãe. -Mas também tinha pensado assim nela. E muito-. Está passando um mau momento.

     A luz dos olhos do Sarah se extinguiu.

     -Sinto-o muito. É uma boa garota e não merecia esta dor. Pensei ir até lá a cavalo, para lhe fazer uma visita. Mas me consta que neste momento deve estar muito ocupada. -Sarah sorriu-. E morro de curiosidade por conhecer as irmãs. Não tive muito tempo para as observar bem no funeral.

     -Acredito que Will te agradeceria que lhe fizesse uma visita. -Para ganhar tempo, comeu outra torta frita-. Aqui nós temos tudo sob controle. Acredito que poderia dedicar um pouco de tempo a ajudar no Mercy. Não porque considere que ao Will faria graça, mas acredito que ter um homem mais por ali de vez em quando, facilitaria-lhe as coisas.

     -Se você não a acossasse tanto, levariam-lhes melhor.

     -Talvez. -Elevou um ombro-. O que me preocupa é não saber até que ponto dirigia o rancho antes da morte do velho. Suponho que deve ser capaz de fazer frente ao que seja, mas com o Mercy morto, deve-lhe faltar um homem. E não ouvi dizer que pense contratar a outro peão.

      -Houve especulações a respeito da possibilidade de que contratasse a alguém da universidade como administrador. Assim corriam as intrigas de um rancho ao outro: através das linhas telefônicas-. Um moço agradável com experiência em cria e cruzamento de animais. Não porque Ham não conheça seu trabalho, mas se está fazendo velho.

 

     -Isso é algo que Willa não fará. Está decidida a demonstrar o que vale e além tem muito carinho ao Ham. Eu posso lhe dar uma mão -continuou dizendo-. Não porque ela tenha muita fé em meu título universitário. Estava pensando em que me daria uma volta por ali esta manhã para medir o assunto.

     -Acredito que é muito bondoso de sua parte, Ben.

     -Não o faço por bondade. -Sorriu-lhe por cima do bordo de sua taça e o seu era o mesmo sorriso travesso que tinha da infância-. Dará-me uma oportunidade de voltar a cortejá-la.

     Sarah riu e ficou de pé para ir em busca da cafeteira. Acabava de ouvir os passos de seu marido no piso de acima.

     -Bom, isso a ajudará a não pensar tanto em seus problemas.

    

     Lhe teria vindo bem uma distração. Os meninos do Wood se acabavam de meter no piquete dos touros para jogar aos toureiros com o avental avermelhado da mãe. Puderam sair vivos e só um deles terminou com um entorse em um tornozelo. Ela mesma os salvou, jogando em um Pete enjoado e talher de suor por sobre o alambrado e deixando atrás um touro furioso que jogava faíscas pelos olhos.

     A bronca que teve que lhes jogar aos dois meninos não produziu o menor prazer... e tampouco lhe deu prazer o medo cerval que o incidente lhe produziu. E terminou ajudando-os a ocultar a travessura ao apoderar do avental e prometer que o lavaria ela mesma antes de que Nell se desse conta de que lhe faltava.

     Isto ganhou a admiração se desesperada e incomensurável dos culpados. E, esperava Willa, inspirou-lhes o temor suficiente para lhes impedir de gritar «touro» frente a um negro Angus por um tempo.

     A um dos tratores lhe acabava de romper uma peça e teve que enviar ao Billy à cidade a procurar uma de recâmbio. Os alces haviam tornado a destroçar os alambrados do setor noroeste e agora não ficava mais remedeio que reparar uma parte.

     Bess estava resfriada. Pela terceira vez na semana, Tess tinha quebrado a maioria dos ovos e Lily, a ratita, no momento estava a cargo da cozinha.

     E para acabar de arrumar as coisas, os peões discutiam entre eles.

     -Se um homem jogar uma partida de pôquer e tem uma rajada de boa sorte, eu digo que tem a obrigação de lhe dar ao resto dos jogadores a oportunidade de ressarcir-se.

     Pickles sujeitou a cabeça do bezerro na armadilha da manga e lhe cortou os chifres ao som de uma música com fundo de balidos.

     -O que passa é que não sabe perder -replicou Jim-, nem sequer sabe jogar.

     -Um homem tem direito a recuperar o que é dele.

     -E um homem tem direito a deitar-se quando lhe der a vontades Não é certo, Will?

     Ela vacinou ao animal, cravando a agulha com rapidez e eficácia,

     Esse dia fazia mais fresco. O outono se aproximava com rapidez. Mas a jaqueta que tinha posta ao começar o trabalho pendurava agora de um poste e tinha a camisa suada.

     -Não penso intervir em suas discussões.

     Pickles franziu o sobrecenho até o ponto de que lhe formaram rugas verticais entre as sobrancelhas e lhe tremeu o bigode.

     -Entre o Jim e esse trapaceiro do Three Rocks, tiraram-me duzentos.

     -JC não é um trapaceiro. -Mais para incomodar ao Pickles que por outra coisa, Jim saiu em defesa de seu novo amigo-. Solo que jogou melhor que você. Você nem seria capaz de enganar a um cego galopando a cavalo. E além disso está furioso porque arrumou o jipe do Ham e o deixou como novo.

     Como todo isso era completamente certo, Pickles adiantou o queixo.

     -Não me faz falta que um imbecil do Three Rocks deva arrumar nossos jipes e a ganhar dinheiro às cartas. Eu mesmo tivesse arrumado esse jipe assim que tivesse tempo.

     -Faz uma semana que o diz.

     -Mas me teria chegado o momento de fazê-lo. -Pickles apertou os dentes e ficou de pé-. Eu não gosto que venha um intruso e se faça cargo de tudo. Arrebenta-me que esse tipo pretenda trocar as coisas. Em maio fará dezoito anos que trabalho neste rancho. Não necessito que um recém-chegado me diga o que tenho que fazer.

     -A quem está chamando imbecil? -Acalorado, Jim ficou de pé de um salto e se enfrentou ao Pickles-. Quer brigar comigo, velho? Vamos, não lhe pares.

     -Já basta! -Quando os peões elevaram os punhos, com os nódulos brancos, Willa se interpôs entre eles-. Pinjente que basta. -Utilizando ambas as mãos apartou aos homens. Com um olhar fez que descartassem sua intenção de começar uma briga-. Por isso vejo, neste momento aqui há dois imbecis que não têm a sensatez necessária para pensar no trabalho que estão fazendo.

     -Eu posso cumprir com meu trabalho -respondeu Pickles com os dentes fechados e jogando faíscas pelos olhos-. E não necessito que ele ou você me digam o que tenho que fazer.

     -Parece-me bem. E eu não necessito que vós comecem a discutir no momento em que estamos descornando e castrando. Você vá tranqüilizar te. E quando estiver mais tranqüilo, agarra seu jipe e vá jogar uma olhada ao que está fazendo a equipe que repara os alambrados.

     -Ham não necessita que ninguém revise o que está fazendo e eu tenho trabalho aqui.

     Willa lhe aproximou e mediu suas forças com as dele.

     -Disse-te que te tranqüilizasse. Depois sinta seu culo no jipe e vá examinar os alambrados. Fará-o, e o fará já mesmo ou começará a preparar suas coisas para passar a procurar seu último cheque.

     Pickles estava cada vez mais avermelhado, em parte de fúria e em parte pela humilhação que significava ter que receber ordens de uma mulher da metade de sua idade.

     -Crie que pode me despedir?

     -Sei que posso te despedir e você também sabe. -Assinalou a porta com a cabeça-. E agora começa a te mover. Aqui está em meu caminho.

     Durante uns segundos permaneceram olhando-se fixamente. Depois ele se fez a um lado, cuspiu no chão e começou a caminhar para a porta. De pé junto à Willa, Jim deixou escapar o fôlego entre os dentes fechados.

     -Não lhe convém perdê-lo, Will. Deus sabe que é intratável, mas é um excelente vaqueiro.

     -Pickles não se irá a nenhuma parte. -De ter estado sozinha, teria se levado uma mão ao estômago tremente. Mas em troca se ajoelhou e preparou a seguinte injeção-. Uma vez que lhe aconteça a rabieta, estará bem. Não teve intenção de te agredir, Jim. Tem-te tanta simpatia como a qualquer outro.

     Já sorridente, Jim tocou um bezerro para a manga.

     -Isso não é muito dizer.

     -Suponho que não. -Sorriu a pesar dele-. Quanto ganhou ontem à noite?

     -ao redor de setenta. Joguei-lhes o olho a umas botas de pele de víbora esplêndidas.

     -É um pirralho, Brewster.

     -Eu gosto de me vestir bem para as damas. -Lhe piscou os olhos um olho e continuaram com a rotina-. Ao melhor alguma vez a convidarei a sair a dançar comigo, Will.

     Era uma velha brincadeira e fez desaparecer a tensão. Willa Mercy não sabia dançar.

     -E talvez esta noite ele te volte a ganhar os setenta. -secou-se o suor que lhe cobria a frente e perguntou com tom indiferente, Quem é esse vaqueiro do Three Rocks?

     -JC. É um bom tipo.

     -Trouxe alguma notícia desse rancho?

     -Não disse muito. -Enquanto seguiam trabalhando, Jim recordou que JC parecia mais interessado pelo que acontecia no Mercy-. Contou-nos que a garota do John Conner rompeu com ele e que John se embebedou tanto que perdeu o conhecimento no banheiro.

     A partir desse momento foi mais fácil. Acabavam de retomar a rotina. Velhas intrigas, nomeie familiares.

     -Sissy rompe com o Conner cada quinze dias e ele sempre se embebeda.

     -Nada mais que para que a gente saiba que as coisas seguem como sempre.

     sorriram-se, duas pessoas afundadas em sangue e excrementos, com a brisa fresca que disseminava o aroma por toda parte.

     -Aposto-lhe vinte a que lhe comprará um presente e que na segunda-feira ela haverá tornado a aceitá-lo.

     -Não penso apostar. Não sou nenhuma parva.

     Trabalharam juntos durante outros vinte minutos, comunicando-se com grunhidos e por gestos com as mãos. Quando se detiveram o tempo necessário para refrescar as gargantas ressecadas, Jim trocou de postura, nervoso.

     -Olhe Will, Pickles tampouco quis ofendê-la. Sente falta de ao velho, isso é tudo. Pickles lhe tinha muito respeito.

     -Já sei.

     Entrecerró os olhos e ignorou a dor que lhe espremia o coração. A linha de terra que se via no caminho significava que Billy estava de volta. Pensou que iria procurar ao Pickles, que tranqüilizaria seu amor próprio ferido e lhe encarregaria que se fizesse cargo de reparar o trator.

      -vá almoçar, Jim.

     -Essas são minhas palavras favoritas.

     Willa tinha levado sua própria comida. Subiu ao assento do Land Rover e começou a comer o sándwich de rosbife sustentando-o com uma mão, enquanto com a outra dirigia o volante e avançava pelo caminho de terra ressecada cheia de marcas de pneumáticos e de rastros de cascos de cavalos. O atalho discorria através de pastos, até um monte, depois subia e lhe oferecia uma vista fascinante das cores do outono.

     O outono já está acabando, pensou, as folhas se murcham e caem das árvores. Mas alcançava para ouvir a chamada alta e insistente que fazia um de seus homens para reunir o gado quando baixou o vidro do guichê para deixar entrar o vento. Essa música tão familiar deveu tranqüilizá-la. Queria que a tranqüilizasse e não compreendia por que não o fazia.

     Com olhar cuidadoso foi estudando os alambrados junto aos que acontecia, satisfeita ao comprovar que, no momento, estavam bem reparados. O gado pastava com placidez, de vez em quando um animal levantava a cabeça para observar com total desinteresse o passado do jipe e seu ocupante.

     Para o oeste, o céu ficava escuro e mal-humorado, arrojando sombras e uma luz espectral sobre os picos. Supôs que antes da noite nevaria nas montanhas e choveria no vale. Deus era testemunha de que a chuva lhes viria bem, mas duvidava que caísse essa chuva suave e serena que necessitavam e que empapava bem a terra. O mais provável seria que caísse com gotas grandes e duras, que arruinariam as colheitas e ricocheteariam como balas contra a terra.

     Já estava desejando ouvi-la açoitar o teto como se fora o golpe de punhos furiosos, para estar a sós durante algumas horas com esse som violento e com seus próprios pensamentos. E para olhar pela janela, pensou, e ver uma parede de chuva que o mascarava tudo e a todos.

     «Talvez seja a proximidade da tormenta o que tanto me inquieta», pensou ao dar-se conta de que olhava pela quarta vez o espelho retrovisor. Ou talvez fosse porque a zangava ter encontrado provas do trabalho da equipe de reparação de alambrados, mas não aos homens mesmos.

     Nenhum jipe, nem o som de marteladas, nem homens que percorriam os alambrados na distância. Nada mais que terra, caminho, e montanhas que se elevavam para um céu ferido.

     sentia-se muito sozinha. E isso não tinha sentido para ela. Gostava de estar sozinha em sua própria terra. Até nesse momento estava desejando poder ter tempo para estar sozinha e sem que ninguém lhe fizesse perguntas, exigisse-lhe respostas ou lhe apresentasse queixa.

     Mas os nervos seguiam saltando como trutas dentro de seu estômago, arrastando-se por sua nuca como formigas laboriosas. tirou o chapéu jogando a mão para trás, apoiando os dedos sobre a culatra da escopeta. Depois, com muita deliberação, deteve o jipe para descer dele e percorrer a terra com o olhar em busca de sinais de vida.

    

     Era perigoso. Sabia que era perigoso, mas agora tinha um prazer especial pelo assunto e não se podia deter. Pensou que tinha eleito bastante bem o momento e o lugar. preparava-se uma tormenta e a equipe de reparação de alambrados tinha terminado de trabalhar nesse setor. Supôs que já deviam estar de volta no pátio do rancho, esperando a comida.

     A visibilidade não era a melhor, mas sabia como aproveitar o que via. Tinha eleito um dos melhores novilhos do pasto, um novilho gordo que teria proporcionado bastante dinheiro no mercado.

     Escolheu seu lugar com muito cuidado. Uma vez que tivesse terminado, voltaria para galope comprido e estaria muito em breve de retorno no pátio do rancho ou em algum ponto longínquo das terras do Mercy. Um lado do caminho subia pelas serras e se voltava rochoso sob uma série de árvores.

     Ninguém se aproximaria desde essa direção.

     A primeira vez que o fez, a primeira olhada do sangue lhe revolveu o estômago. Até então, nunca tinha fundo a faca em um ser tão vivo e tão grande. Mas depois, bom, foi tão... interessante. Esquartejar um ser vivo muito pesado, perceber o batimento do coração do pulso, cada vez mais lento até que se esfumava como um relógio que se ia detendo.

     Observar a vida que se sangrava.

     O sangue era quente e pulsava. Pelo menos pulsava ao princípio, depois solo surgia, vermelha e molhada, como um lago.

     O novilho não resistiu. Atraiu-o com grão, logo o atou com uma soga. Queria levá-lo a cabo no mesmo centro do caminho do rancho. cedo ou tarde alguém passaria por ali e OH, OH, que surpresa! Os pássaros voariam em círculos, atraídos pelo aroma da morte.

      Talvez também baixassem os lobos, atraídos pelo mesmo aroma.

     Antes ignorava quão sedutor podia ser o aroma de morte. Até que a provocou.

     Sorriu ao ver que o novilho comia o grão do cubo, passou-lhe uma mão sobre a pele dura e negra. Depois se envolveu completamente no impermeável de plástico para estar seguro de que o cobria bem e com um movimento firme afundou a faca na garganta do animal. Não cabia dúvida de que melhorava com a prática. E riu encantado ao ver surgir sangue a torrentes.

    

     -Vete, perrito -cantarolou ao ver que o novilho se desabava no chão.

     Logo iniciou o trabalho que lhe resultava realmente interessante.

    

     Pickles estava dedicado a desfrutar de seu mau humor. Enquanto viajava ao longo da linha dos alambrados, ensaiava em sua mente diferentes conversações. Entre ele e Jim. Entre ele e Willa. Depois ensaiou as palavras que diria ao Ham quando se queixasse de que Willa ameaçava despedindo.

     Como se essa cria pudesse fazê-lo.

     Tinha-o contratado Jack Mercy e, do ponto de vista do Pickles, ninguém mais que Jack Mercy podia despedi-lo. E Jack estava morto, que Deus tivesse piedade de sua alma. Assim assunto terminado.

     Talvez simplesmente renunciaria. Tinha economias em um banco do Bozeman que lhe davam rendimentos interessantes. Podia comprar seu próprio rancho, começar com pouca coisa e chegar a convertê-lo em algo que valesse a pena.

     Gostaria de saber o que faria essa mulher mandona se chegasse a perdê-lo. Nunca conseguiria passar o inverno, pensou com amargura, e muito menos um maldito ano inteiro.

     «E talvez me leve comigo ao Jim Brewster», pensou Pickles, esquecendo que estava furioso com o Jim. O menino era um bom peão e trabalhava duro, embora sempre fora um idiota.

     Talvez o fizesse, compraria um pouco de terra ao norte e criaria alguns Herefords. E também poderia levar-se ao Billy, nada mais que para jorobar. E manter o rancho puro, pensou para gozar mais de suas fantasias. Nenhuma maldita galinha, nem grãos de colheita fina, nada de porcos, nem de cavalos, além dos que um homem necessita como ferramenta de trabalho. Essa diversificação de porcaria não era mais que isso. Uma porcaria. Desde seu ponto de vista, era o único engano que cometeu Jack Mercy.

     Permitir que esse moço índio criasse cavalos em terras boiadeiras.

     Não porque tivesse nada contra Adam Wolfchild. Esse tipo se ocupava de seu trabalho, mantinha-se à margem de outros e treinava alguns esplêndidos cavalos de cadeira. Mas era uma questão de princípios. Se a garota se saía com a sua, entre ela e o índio dariam a volta ao Mercy como se se tratasse de uma luva.

     E em opinião do Pickles, levariam-no a uma ruína total.

     As mulheres, disse-se, devem permanecer na maldita cozinha e não fora, lhes dando ordens aos homens. Jogá-lo? Nem morto! pensou com um bufido e dobrou pelo desvio da esquerda para ver se Ham e Wood tinham terminado.

     prepara-se uma tormenta, pensou distraído, depois viu o jipe detido no caminho. Fez-o sorrir.

     Se se tinha chateado um jipe, ele tinha sua caixa de ferramentas no assento de atrás. Demonstraria a todo mundo do sudoeste de Montana que tivesse bastante sentido comum para arranhar o traseiro, que sabia mais sobre motores que ninguém em cem. quilômetros à redonda.

     Deteve o jipe, meteu-se os polegares nos bolsos dos jeans e se aproximou.

     -Tem algum problema? -perguntou. Logo se deteve em seco.

     O novilho estava aberto em dois e havia bastante sangre para banhar-se nela. O aroma de sangue o enojou no momento que se aproximou quase sem olhar ao homem escondido junto ao animal morto.

     -Outro mais? Por todos os Santos, o que está acontecendo aqui? -aproximou-se mais-. Está fresco... -Começou a dizer, e então viu.., a faca, o sangue que corria pela folha. E os olhos do homem que tinha a faca na mão-. Santo Deus! Você? por que o fez?

     -Porque posso. -Notou nos olhos do Pickles que acabava de compreender a verdade e também notou que dirigia um rápido olhar para seu jipe-. Porque eu gosto -adicionou com suavidade. Como lamentando-o, levantou a faca e o afundou no ventre brando do Pickles-. até agora nunca tinha dado morte a um homem -disse, e empurrou a faca para cima com emano segura, sem rastros de nervosismo-. É interessante.

      Interessante, pensou, observando os olhos do Pickles que passavam do horror à dor, a inexpresividad. Seguiu avançando para cima com a faca, para o coração. inclinou-se quando o corpo caiu, logo ficou escarranchado.

     Esqueceu por completo a fascinação que lhe causava o novilho. Compreendeu que essa era uma caça maior, muito major. Um homem tem cérebro, pensou enquanto tirava a faca da carne com um som úmido. O gado era imbecil. E o gato, embora inteligente, era uma coisa pequena.

     tornou-se atrás, pensativo, perguntando-se como obter que esse momento, esse novo passo, fosse algo especial. Algo do que a gente falaria em todas partes e durante muito, muito tempo.

     Depois sorriu, riu tanto que se teve que apertar a boca com a mão ensangüentada. Sabia exatamente como obtê-lo.

     Fez girar a faca em sua mão e se dedicou alegremente a trabalhar.

 

     Quando Willa viu o cavaleiro que galopava sobre sua pradaria, deteve o jipe. Reconheceu o escuro de grande elevada que montava Ben e ao cão Charlie que andava saltando junto ao Spook, como se fosse sua sombra. Sua primeira reação foi de alívio, e não gostou. Mas havia algo fantasmal no ar e teria agradecido ver o diabo mesmo aproximando-se o      -¿Te has equivocado de camino, McKinnon?

     Embora era um espetáculo impressionante, franziu o nariz ante a maneira em que o padrillo escuro e seu cavaleiro voaram sobre o alambrado.

     -Equivocaste-te de caminho, McKinnon?

     -Não. -Deteve o cavalo junto ao jipe. Charlie, em sinal de feliz bem-vinda, levantou uma pata e urinou sobre o pneumático dianteiro da Willa-. Fez arrumar esse alambrado? -Sorriu ao ver que ela o olhava fixo-. Esta manhã, quando Zack o sobrevoou no avião de pequeno porte, viu que estava cansado. Este ano os alces foram uma verdadeira tortura.

     -Sempre o são. Suponho que Ham já terminou que levantar os alambrados. ia revisar o trabalho.

     Ben desmontou e apareceu pelo guichê.

     -Isso que vejo ali é um sándwich?

     Willa olhou a segunda metade de seu almoço.

     -Sim. por que?

     -Lhe vais comer isso?

     Ela lançou um suspirou e o aproximou.

     -vieste a me buscar para conseguir um almoço grátis.

     -Esse não é mais que um benefício acessório. vou embarcar ganho para o curral de engorda de Avermelhado, mas pensei que talvez queria me tirar umas duzentas cabeças das mãos e as terminar. -Com ar generoso, rompeu uma esquina do sándwich e a jogou no cão que o olhava esperançado.

     Willa observou ao cão que devorou o pão e a carne e logo sorriu. O sorriso desse cão, pensou ela, não é muito distinta da de seu dono. O sorriso de um ser arrogante, satisfeito consigo mesmo.

     -E quer que discutamos o preço aqui mesmo?

     -Pensei que o poderíamos fazer de uma maneira mais amistosa. Mais tarde, e com uma taça na mão. -Colocou uma mão pelo guichê para brincar com uma mecha do cabelo da Willa que o vento tinha separado da trança-. Ainda não apresentaste a sua irmã maior.

     Will pôs em marcha o jipe.

     -Não é seu tipo. Refinada. Passa por casa se quiser. -Observou-o comer a última parte do sándwich-. Mas depois de comer.

     -Quer que também leve minha própria garrafa?

     Willa só sorriu e apertou o acelerador. depois de pensá-lo um momento, Ben voltou a montar e a seguiu ao trote. Ambos sabiam que ela avançava devagar para que ele pudesse manter-se ao mesmo tempo.

     -Adam estará ali? -perguntou Ben, elevando a voz para que ela o ouvisse por sobre o ruído do motor-. Tenho interesse em comprar um par de cavalos de cadeira.

     -Pregúntaselo a ele. Eu estou muito ocupada para me dedicar à vida social, Ben. -Para irritá-lo, acelerou, lhe enchendo a cara de pó. Mas apesar de todo se sentiu desiludida quando dobrou pelo desvio da esquerda e ele tomou pelo lado contrário.

     Desejou ter brigado com ele a respeito de algo, havê-lo enfurecido até o ponto de que voltasse a aferrá-la. Não podia esquecer a maneira em que Ben tomou em seus braços poucos dias antes.

     Não pensava muito em homens... pelo menos nesse sentido. Mas era sem dúvida divertido pensar no Ben dessa maneira. Mesmo que estivesse decidida a não fazer nada a respeito.

     A menos que trocasse de idéia.

     Sorriu. Talvez trocasse de idéia, nada mais que para inteirar-se de como era todo isso. Tinha a sensação de que Ben poderia lhe ensinar melhor que ninguém exatamente o que podia fazer um homem com uma mulher.

      Talvez essa mesma noite o irritaria até que ele a beijasse. A menos que o distraíra a pechugona do Tess e seu perfume francês. Ante essa idéia acelerou, mas freou ao ver o jipe do Pickles estacionado na curva do caminho.

     -Bom, mierda, encontrei-o.

     «E agora terei que aplacá-lo», pensou. Desceu do jipe olhando o alambrado e a pradaria a cada lado. Não via sinais do Pickles, nem motivo algum para que tivesse deixado o jipe cruzado no caminho.

     -Deve ter ido a alguma parte para lhe dar corda a seu mau humor -murmurou e se aproximou do jipe para tocar a buzina.

     Então o viu, a ele e ao novilho, tendidos diante do jipe, lado a lado e em um rio de sangue. Não compreendeu por que não a teria cheirado, sobre tudo quando no ar flutuava um forte e espesso aroma de morte. Mas nesse momento o aroma lhe subiu pelo nariz e chegou às vísceras. Trastabilló até o flanco do caminho e vomitou com violência o almoço.

     Seguia fazendo arcadas quando pôde aproximar-se com muita dificuldade a seu próprio jipe no que apertou a buzina. Manteve a mão sobre a buzina e a cabeça apoiada contra o marco do guichê enquanto tratava de recuperar o fôlego.

     Voltou a cabeça e tratou de cuspir o gosto a vômito que conservava na garganta, logo se passou as mãos pela cara suada. Quando lhe obscureceu a visão e sentiu que se enjoava, mordeu-se os lábios com força. Mas não pôde obrigar-se a caminhar pelo atalho, a voltar a olhar. deu-se por vencida, cruzou os braços e baixou a cabeça. Nem sequer a levantou o ouvir o ruído de cascos de cavalo e o agudo latido do Charlie.

     -Né! -Ben desmontou com o rifle ao ombro-. Willa.

     Um gato montês em pleno ataque não o teria surpreso tanto como lhe surpreendeu ela ao voltar-se e enterrar a cara em seu peito.

     -Ben. OH, Deus! -Rodeou-lhe o pescoço com os braços-. OH Deus!

     -Está bem, querida. Agora está tudo bem.

     -Não -respondeu ela fechando os olhos com força-. Não. Diante do jipe. Do outro jipe. Há... OH, Deus, o sangue!

     -Está bem, menina, sente-se. Eu me encarregarei de tudo. -Com expressão sombria a sentou no assento do jipe e franziu o sobrecenho ao ver que ela enterrava a cabeça entre seus joelhos e se estremecia-. Fica sentada aqui, Will.

     Pela expressão da Willa e pelos latidos frenéticos do cão, Ben pensou que devia ser outro novilho, ou talvez algum dos cães do rancho. Já estava furioso antes de aproximar-se do jipe abandonado. antes de ver que era mais, muito mais que um novilho.

     -meu deus!

     Poderia não ter reconhecido ao homem, sobre tudo depois do que lhe tinham feito. Mas reconheceu o jipe, as botas, o chapéu coberto de sangue junto ao cadáver. Lhe revolveu o estômago de fúria e também ele se sentiu chateado. Um pensamento lhe cruzou no momento em que ordenava ao Charlie que ficasse quieto.

     Quem quer que tivesse feito isso não era simplesmente um louco; era um ser malvado.

     voltou-se com rapidez para ouvir um som a suas costas, logo estendeu um braço para impedir o passo a Willa.

     -Não -ordenou com voz dura e apoiando uma mão firme sobre o braço dela-. Não pode fazer nada e não há nenhuma necessidade de que volte a ver isso.

     -Já estou bem. -Colocou uma mão na do Ben e se aproximou-. Era meu e o olharei. -passou-se o dorso das mãos sobre os olhos-. Arrancaram-lhe o couro cabeludo, Ben Por amor de Deus! Cortaram-no em pedaços e lhe arrancaram a cabeleira.

     -Já basta! -Obrigou-a a voltar-se com rudeza e a jogar a cabeça para atrás até que os olhos de ambos se encontraram-. Já basta, Willa. Volta para seu jipe e chama por radio à polícia.

     Ela assentiu, mas ao ver que não se movia, Ben a envolveu em seus braços e voltou a enterrar o rosto da Willa contra seu peito.

     -Espera um minuto até te repor -murmurou-. Te agarre a mim.

     -Eu o mandei aqui, Ben. -aferrava-se a ele com todas suas forças-. Pu-me furiosa com ele e lhe disse que tomasse o jipe e viesse para aqui ou que empacotasse suas coisas e passasse a procurar seu cheque. Eu o mandei aqui.

     -Basta! -Alarmado pela maneira em que a Willa lhe quebrava a voz com cada palavra, apertou os lábios contra seu cabelo-. Você sabe que não tem a culpa disto.

     -Trabalhava para mim -repetiu ela, depois se estremeceu e se apartou-. Cobre-o, Ben. Por favor! Necessita que o cubram.

     -Eu me encarregarei disso. -Tocou-lhe uma bochecha desejando poder lhe devolver a cor-. Fica no jipe, Will.

     Esperou até que ela esteve de volta no veículo, depois tirou a velha manta que havia na caixa do jipe do Pickles. Era o único que tinha para cobri-lo.

    

     Da janela da cozinha, Lily alcançava a ver o bosque e as montanhas que se elevavam até o céu. À medida que outubro dava passo a novembro, a noite caía mais cedo. Da janela podia observar o sol que se ia aproximando dos picos. Fazia quase duas semanas que estava em Montana, mas já sabia que uma vez que o sol se escondia detrás desses picos sombreados, a noite chegaria com rapidez e o ar ficaria frio.

     A escuridão ainda a assustava.

     Sempre estava desejando que chegassem os amanheceres. Os dias. Havia tanto que fazer que não ficava um minuto livre. sentia-se agradecida por ter podido voltar a ser útil, por sentir-se parte de um lugar. Em tão pouco tempo já tinha chegado a depender da paisagem desse céu largo, essas altas montanhas, esse mar de terras. Contava escutando o ruído dos cavalos, do gado e dos peões. E o aroma de todo isso.

     adorava sua habitação, a intimidade que lhe oferecia, e a casa espaçosa onde abundava a madeira encerada. A biblioteca estava cheia de livros e podia ler as noites que tinha vontades de fazê-lo, ou escutar música ou deixar a televisão acesa e murmurando.

     A ninguém importava o que fizesse com suas noites. Ninguém criticava seus pequenos enganos nem lhe elevava uma mão ameaçadora.

     Ainda não.

     Adam era tão paciente! E era suave como uma mãe com os cavalos. E devia admitir que com ela também. Quando lhe guiava a mão ao longo da pata de um cavalo para lhe ensinar a descobrir se existia meu entorse, não a apertava. Ensinava-lhe a escovar os cavalos, a curar um casco partido e a mesclar vitaminas para lhe dar a uma égua prenhe.

     E quando a descobriu lhe dando uma maçã a um potro, não a repreendeu. Solo sorriu.

     As horas durante as que trabalhavam juntos eram as melhores de sua vida. Esse novo mundo que se abria ante lhe oferecia esperança, a possibilidade de um futuro.

     E a partir desse momento todo isso podia chegar a seu fim. Acabava de morrer um homem.

     estremeceu-se ao pensá-lo, ao ver-se obrigada a admitir que o assassinato acabava de introduzir-se em seu resplandecente mundo novo. Um golpe malvado acabou com a vida de um homem e ela era outra vez incapaz de controlar o que podia acontecer no futuro.

     Envergonhava-lhe saber que pensava mais em si mesmo e no que poderia lhe acontecer que no morto. É certo que não o conhecia. Com a habilidade dos perseguidos, Lily evitava todo contato com os peões do rancho. Mas esse homem formava parte de seu novo mundo e era um egoísmo não pensar nele acima de tudo.

     -Deus, que confusão!

     Lily pegou um salto quando Tess entrou na cozinha e esticou o pano de cozinha que tinha nas mãos.

     -Preparei café. Fresco. Estão...? Todos seguem ali?

     -Will segue falando com a polícia, se a isso refere. -Tess se aproximou da cozinha e franziu o nariz frente à cafeteira-. Eu tratei de não estar no caminho, de maneira que não sei com exatidão o que está acontecendo. -aproximou-se da despensa e começou a abrir e fechar os armários com movimentos nervosos-. Não há nada mais forte que café por aqui?

     Lily retorceu o pano entre suas mãos.

     -Acredito que há vinho, mas me parece que não deveríamos incomodar a Willa perguntando-lhe      -Hace un rato vi uno. -Se obligó a soltar el paño. Ya había limpiado dos veces la mesa de la cocina. Abrió un cajón, sacó un sacacorchos y se lo pasó a Tess-. ¡Ah! Preparé un poco de sopa -dijo, señalando una cacerola-. Bess todavía tiene fiebre, pero consiguió comer un plato de sopa. Creo, espero que mañana ya se sienta mejor.

     Tess levantou os olhos ao céu e abriu a geladeira.

     -Esta adequada embora levemente inferior garrafa do Chardonnay é tão nossa como dela. -Tirou-a da geladeira e perguntou-: Tem um saca-rolha?

     -Faz um momento vi um. -obrigou-se a soltar o pano. Já tinha limpo duas vezes a mesa da cozinha. Abriu uma gaveta, tirou um saca-rolha e o passou ao Tess-. Ah! Preparei um pouco de sopa -disse, assinalando uma caçarola-. Bess ainda tem febre, mas conseguiu comer um prato de sopa. Acredito, espero que manhã já se sinta melhor.

      -Estraguem. -Tess procurou as taças de vinho e o serve-. Sente-se, Lily, acredito que devemos falar.

     -Talvez eu deveria lhes levar um pouco de café.

     -Por favor, sente-se. -Tess se instalou no banco de madeira da mesa do café da manhã e esperou.

     -Está bem. -Lily se sentou frente a ela, com a mesa brilhante entre ambas, e cruzou as mãos sobre a saia.

     Tess lhe aconteceu uma taça de vinho e elevou a sua.

     -Suponho que, com o tempo, teremos que nos contá-la história de nossas vidas, mas este não me parece o momento indicado. -Tirou de um bolso o único cigarro que tinha separado dos que, secretamente, reservava para emergências e o fez girar entre seus dedos antes de agarrar a caixa de fósforos-. É um assunto bastante feio.

     -Sim. -Em um movimento automático, Lily ficou de pé e foi em busca de um cinzeiro que colocou sobre a mesa-. Esse pobre homem! Não sei qual deles era mas...

     -O calvo com um grande bigode e um ventre ainda maior -disse Tess, e com um esforço de vontade, acendeu o cigarro.

     -Ah! -Agora que tinha um rosto para enfocar, sua vergonha aumentou-. Sim, vi-o. Esfaquearam-no, verdade?

     -Acredito que foi pior que isso, mas não conheço os detalhes. Solo sei que Will o encontrou em um desses caminhos que percorrem todo o rancho.

     -Deve ter sido terrível para ela.

     -Sim. -Tess fez uma careta e tomou a taça de vinho. Talvez não lhe tivesse muita simpatia a sua meia irmana menor, mas a sua era uma experiência que não podia lhe desejar a ninguém-. Ela saberá levar o assunto. Aqui os criam duros. De todos os modos... -Bebeu e se deu conta de que o vinho não era tão mau como supunha-. O que pensa fazer? Irá ou ficará?

     Mais por necessidade de fazer algo com as mãos que por vontades de beber vinho, Lily tomou sua taça.

     -Em realidade, não tenho aonde ir. Suponho que você voltará para Califórnia.

     -Estive-o pensando. -Tess se tornou atrás e estudou à mulher que tinha diante. Mantém os olhos baixos e as mãos ocupadas, pensou. Tinha a segurança de que a tímida Lily já teria reservada passagem para voar a algum lugar longe de ali-. Eu o analiso desta maneira. Nos Anjos, cometem-se assassinatos todos os dias. Os meninos se matam a golpes por pintar grafitis em lugares que não lhes correspondem. Cada vez que alguém pestaneja se produzem problemas de drogas. Tiroteios, gente apunhalada, roubos, intimidações, cachiporrazos. -Sorriu-. Deus, como eu gosto dessa cidade!

     Ao ver a expressão espantada do Lily, Tess jogou atrás a cabeça e riu.

     -Sinto muito -disse um instante depois, enquanto se apertava o peito com uma mão-. O que quero dizer é que por terrível que seja isto, por perto de nós que tenha acontecido, não é mais que um assassinato. Comparativamente não é nada tão tremendo e sem dúvida não basta para me fazer fugir e perder o que é meu.

     Lily voltou a beber e lutou por esclarecer seus pensamentos.

     -Assim que fica. Te vais ficar.

     -Sim, ficar. Nada trocou.

     -Eu acreditei... -Lily fechou os olhos e permitiu que a percorresse o alívio e, ao mesmo tempo, a vergonha-. Estava segura de que não ficaria e então eu não teria tido mais remedeio que ir. -Abriu os olhos suaves, de cor celeste com reflexos cinzas-. É terrível! Esse pobre homem morreu e em quão único penso é na forma em que me pode afetar .

     -Isso é ser sincera. Não o conhecia. Vamos! -Como havia algo no Lily que a emocionava, Tess tomou a mão de sua irmã-. Não te torture por este assunto. Aqui todas temos muito em jogo. Temos direito a pensar no que nos pertence.

     Lily baixou o olhar e observou as mãos unidas de ambas. as do Tess são tão bonitas, pensou, com o brilho de anéis e essa invejável força e confiança que tinham seus dedos. Levantou a vista.

     -Eu não fiz nada por merecer este lugar. E você tampouco.

     Tess só assentiu e, retirando sua mão, voltou a tomar a taça.

     -Não fiz nada para ser ignorada durante toda minha vida. E você tampouco.

     Nesse momento entrou Willa e se deteve em seco ao ver as duas mulheres frente à mesa. Ainda estava pálida e seus movimentos eram nervosos. depois de tantas perguntas, de repassar e voltar a repassar as circunstâncias em que descobriu o corpo, sentiria-se mais que feliz quando a polícia se fora.

      -Mas bom, que cena tão caseira! -Ao aproximar-se da mesa, meteu-se as mãos nos bolsos. Ainda lhe tremiam-. Supus que estariam fazendo sua bagagem em lugar de lhes encontrar mantendo um bate-papo amável.

     -estivemos falando a respeito disso. -Tess elevou uma sobrancelha mas não fez nenhum comentário quando Willa se apoderou de sua taça de vinho e o bebeu-. Não iremos a nenhuma parte.

     -Sério?

     Como o vinho lhe pareceu uma boa idéia, Willa se aproximou até um armário e tirou outra garrafa. Depois ficou ali parada, incapaz de mover-se, quase sem poder pensar.

     Em nenhum momento alcançou a considerar a fundo a perda do rancho. Mas ali, no trasfondo de sua mente, teve a segurança de que as mulheres que lhe tinham sido impostas, fugiriam. E com elas se iria sua própria vida. Mas nesse preciso momento, ao saber que ficariam, recebeu o impacto. E foi um impacto muito forte.

     deu-se por vencida, apoiou a cabeça contra o armário e fechou os olhos.

     Pickles. Deus bendito! Alguma vez conseguiria esquecer o que lhe fizeram, o que ficou dele? E tudo esse sangue, que se cozia ao sol. A maneira em que o olhar desse homem se cravou nela, o horror congelado nesses olhos.

     Mas no momento, o rancho estava a salvo.

     -OH Deus! OH Deus! OH Deus!

     Não se deu conta de que pronunciou o gemido em voz alta até que Lily apoiou uma mão sobre seu ombro. Willa se ergueu em seguida, apartando-se de seu meio irmana.

     -preparei sopa -disse Lily, com a sensação de que a sua era uma frase bastante tola, mas sem saber que mais dizer-. Deveria comer algo.

     -Neste momento te asseguro que não poderia comer nada.

     Willa retrocedeu, atemorizada com que tanta calidez conspirasse contra sua fortaleza. Voltou para a mesa e, ante os olhos fascinados do Tess, encheu de vinho um botellón.

     -Isso me parece bem -murmurou Tess admirada, ao ver que Willa bebia vinho como se fora água-. Parece-me muito bem. Durante quanto tempo pode fazer isso e permanecer de pé?

     -Teremos que averiguá-lo. -voltou-se para ouvir que se abria a porta da cozinha e lançou um suspiro ao ver entrar no Ben.

     Não queria envergonhar-se por haver-se apoiado nele, por desmoronar-se em seus braços, por permitir que ele fizesse todo o trabalho enquanto ela permanecia sentada como uma espectadora, muito decomposta para funcionar. Mas era um gole difícil.

     -Senhoras. -Com um gesto que imitava o da Willa, tirou-lhe a taça das mãos e bebeu-. Brindo pelo fim de um dia espantoso.

     -Eu o acompanharei nesse brinde -disse Tess, enquanto o estudava. O vaqueiro de ouro, pensou. E lhe fez a boca água-. Sou Tess. E você deve ser Ben McKinnon.

     -Me alegro de conhecê-la. Lamento que não tenha sido em circunstâncias mais agradáveis. -Tomou o queixo da Willa com uma mão e a obrigou a voltar-se para olhá-lo-. vá deitar te.

     -Tenho que falar com os peões.

     -Não, nada disso. O que deve fazer é te deitar e esquecer isto por um momento.

     -Não penso esconder a cabeça como uma avestruz porque...

     -Não há nada que possa fazer -interrompeu-a ele. Willa estava tremendo. Ele percebia a força que fazia para não deixar-se levar por esses tremores, mas os percebia através da ponta de seus dedos-. Está doente e cansada, e acaba de ter que reviver uma dúzia de vezes uma experiência realmente desagradável. Adam vai levar aos policiais à casa dos peões para que os interroguem, e o único que você tem que fazer é tratar de dormir um pouco.

     -Meus homens são...

     -Quem os vai sustentar amanhã, e o dia seguinte, se você te desabar agora? -Ben inclinou a cabeça ao ver que ela fechava a boca-. Pode subir a te deitar por seus próprios meios, Will, ou te levarei eu mesmo. De uma maneira ou de outra, é o que fará. Agora mesmo.

     As lágrimas lhe ardiam nos olhos, buliam-lhe na garganta. Muito orgulhosa para permitir que fluíram diante do Ben, apartou-lhe a mão, girou sobre seus talões e saiu.

     -Estou impressionada -disse Tess quando a porta da cozinha se fechou de uma portada-, não acreditei que existisse ninguém capaz de obrigá-la a fazer algo.

     -Ela me teria feito frente, mas sabia que ia se desmoronar. E Will nunca se permitirá desmoronar-se. Franziu o sobrecenho com o olhar cravado no vinho, enquanto lamentava não ter sido capaz de convencê-la com suavidade em lugar de ter que ameaçá-la-. Não conheço muitas pessoas capazes de ter vivido o que ela viveu hoje, sem desmoronar-se.

     -Parece-lhe que convém que esteja sozinha? -Lily se levou os dedos aos lábios-. Poderia subir a acompanhá-la mas... não sei se isso gostará.

     -Não, está melhor sozinha. -Mas Ben sorriu, contente de que Lily se ofereceu-. Este não foi exatamente um fim de semana agradável para nenhuma de vocês, mas de todos os modos quero lhes dar a bem-vinda a Montana.

      -eu adoro este lugar. -Assim que o disse, Lily se ruborizou e se apressou a ficar de pé enquanto Tess lançava uma risita-. Gostaria de comer algo? preparei sopa e há a suficiente quantidade de ingredientes para preparar sándwiches.

     -Se isso que cheiro é sopa, eu adoraria tomar um pouco.

     -Perfeito, Tess?

     -É obvio, por que não? -Como Lily parecia ansiosa por lhes servir, Tess permaneceu sentada fazendo tamborilar os dedos sobre a mesa-. A polícia acredita que foi obra de alguém do rancho?

     Ben se sentou frente a ela.

     -Suponho que acima de tudo concentrarão suas investigações aqui. Não existe acesso público ao rancho, mas isso não quer dizer que alguém de fora não tenha podido entrar e chegar até o lugar do crime. A cavalo, em jipe. -encolheu-se de ombros e se passou uma mão pelo cabelo-. O acesso desde o Three Rocks ao Mercy é bastante fácil. Diabos, se eu mesmo estava ali.

     Levantou uma sobrancelha ante o olhar especulativo do Tess.

     -É obvio que posso lhe dizer que eu não o fiz, mas você não me conhece. Também se pode chegar até esse lugar através do rancho Rocking R, ou do rancho do Nate, ou pelas terras altas.

     -Bom -Tess se serve mais vinho-, isso decididamente reduz as possibilidades, não é certo?

     -Só lhes direi uma coisa: qualquer que conheça as montanhas, as terras dos arredores, poderia permanecer oculto durante meses e ir mais ou menos aonde lhe desse a vontade. E seria muito difícil encontrá-lo.

     -Agradecemo-lhe que nos tenha tranqüilizado tanto. -Dirigiu um rápido olhar ao Lily, quem nesse momento colocava pratos de sopa fumegantes sobre a mesa-. Não é certo, Lily?

     -Eu prefiro saber a verdade. -Lily se instalou no bordo do assento junto ao Tess e voltou a unir as mãos-. Se a gente souber, pode tomar precauções.

     -Assim é. Eu diria que uma boa precaução seria que, no momento, nenhuma de vocês dois se afastasse muito só da casa.

     -Eu não sou muito propensa a me afastar. -Embora de repente tinha o estômago um pouco revolto, Tess ficou uma colherada de sopa na boca-. E Lily sempre anda muito perto do Adam. -Olhou ao Ben-. Adam é um dos suspeitos?

     -Não sei o que pensa a polícia, mas lhes posso assegurar que seria mais provável que ao Adam Wolfchild crescessem asas que pensar sequer na possibilidade de que pudesse apunhalar e lhe arrancar o couro cabeludo a um homem. Levantou O olhar quando a colher do Tess se estrelou contra a mesa. Se com isso tivesse ganho algo, teria se amaldiçoado-. Sinto muito. Acreditei que conheciam os detalhes.

     -Não. -Tess decidiu dedicar-se ao vinho em lugar da sopa-. Não os conhecíamos.

     -E ela viu isso? -Lily se retorceu as mãos sobre a saia-. Isso foi o que descobriu?

     -E com isso terá que viver. -Os dois teremos que viver com isso, pensou Ben, porque estava seguro de que era uma imagem que jamais lhe apagaria da mente-. Não quero as assustar, mas lhes peço que tomem cuidado.

     -Asseguro-lhe que no que a mim respeita pode estar tranqüilo -prometeu Tess-. Mas e ela? -Assinalou o céu raso com o polegar-. Não vai poder mantê-la encerrada na casa, a menos que a ate.

     -Adam a vigiará. E eu também. -Com a esperança de aliviar a tensão, tomou um pouco mais de sopa-. E andar por aqui com freqüência não vai ser um sacrifício se este for o tipo de comida que me oferecerão.

     Ambas as mulheres se sobressaltaram quando se abriu a porta do frente. Entrou Adam, junto com uma rajada geada.

     -por agora terminaram comigo.

     -te una à festa -convidou-lhe Tess-. Esta noite nosso menu consiste em sopa e vinho.

     Adam lhe dirigiu um olhar solene antes de observar ao Lily.

     -Acredito que preferiria um pouco de café. Não, não te levante -adicionou ao ver que Lily começava a ficar de pé-. Me posso servir isso eu mesmo. Devi ver como estava Willa.

     -Ben conseguiu que subisse a deitar-se. -Os nervos e o alívio fizeram que, antes de que pudesse impedi-lo, Lily estalasse em uma fervura de palavras-. Ele fazia falta descansar. Posso-te servir um pouco de sopa. Deve comer algo e há ensopa de sobra.

     -Eu me posso servir isso. Sente-se.

     -Também há pão. Esqueci-me de tirar o pão. Deveria...

     -Deveria ficar sentada -interrompeu Adam com muita suavidade enquanto servia a sopa-. E tratar de te relaxar. Encheu um segundo prato e pôs ambos sobre a mesa-. E também deve comer. Eu irei procurar o pão.

     Ela o olhou, surpreendida, enquanto ele se movia com ar competente pela cozinha. Nenhum dos homens que conhecia se dignou tomar um prato a menos que fora para pedir que lhes servissem mais. Olhou ao Ben, convencida de que observaria a cena com ar zombador, mas ele seguiu comendo como se o fato de que um homem servisse a comida não tivesse nada de particular.

      -Quer que fique aqui, Adam, e que lhes dê uma mão durante um par de dias?

     -Não. Mas obrigado de todos os modos. Teremos que tomá-lo pouco a pouco. -sentou-se frente a Lily e a olhou aos olhos-. Está bem?

     Ela assentiu, tomou a colher e tratou de comer.

     -Pickles não tinha família -continuou dizendo Adam-. Entretanto, acredito que tinha uma irmã lá em Wyoming. Suponho que trataremos de encontrá-la se ainda anda por ali, mas acredito que nos encarregaremos de fazer os acertos uma vez que recuperemos o corpo.

     -Deveria lhe pedir ao Nate que se faça cargo disso. -Ben partiu uma parte de pão-. Se o sugere, Willa lhe encarregará esse trabalho.

     -Está bem, farei-o. Não acredito que tivesse podido passar por este mau gole sem sua ajuda. E quero que saiba.

     -Deu a casualidade que eu andava por ali. -Ainda o desconcertava a maneira em que ela se jogou em seus braços. E a maneira em que calçou neles-. Uma vez que se sobreponha do impacto, suponho que lamentará que tenha sido eu o que estava ali.

     -Equivoca-te. Estará agradecida e eu também. -Voltou a mão, com a palma para cima em que se via uma cicatriz larga e magra entre as linhas da cabeça e do coração-. Irmão.

     Ben sorriu ao olhar uma cicatriz idêntica em sua própria mão. E recordou o dia em que dois jovencitos, de pé na borda do rio, iluminados pela meia luz do canhão, mesclaram com solenidade seu sangue em uma promessa de permanente irmandade.

     -Ah! chegou o momento dos rituais masculinos. -Com uma emoção absurda, Tess acotovelou ao Lily para que lhe permitisse levantar-se da banqueta-. Este é o momento em que devo sair de cena e deixá-los a vocês, cavalheiros, com seu oporto e seus charutos, enquanto eu subo a fazer algo excitante como me pintar as unhas dos pés.

     Ben sorriu, apreciando seu senso de humor.

     -E arrumado a que devem ser unhas muito bonitas.

     -São espantosas, meu amor. -Era singelo decidir que Ben gostava. E a partir de ali não faltava muito para que decidisse confiar nele-. Acredito que unirei ao Adam e direi que me alegra que tenha estado ali. boa noite.

     -Eu também irei. -Lily estirou uma mão para tomar o prato de sopa quase cheio do Tess.

     -Não vá -pediu Adam, colocando uma mão sobre a dela-. Não comeste nada.

     -Vocês dois querem conversar. Posso subir o prato de sopa a meu dormitório.

     -Não fuja por minha causa. -Bastante seguro do que estava acontecendo entre eles dois, Ben se levantou-. Devo voltar para casa. Agradeço-lhe a comida, Lily. -Estirou uma mão para lhe acariciar a bochecha e percebeu o instintivo gesto de defesa que fazia ela. Com tranqüilidade, Ben deixou cair a mão como se nada tivesse acontecido-. Tome essa sopa enquanto esteja quente -aconselhou-. Amanhã me darei uma volta por aqui, Adam.

     -boa noite, Ben. -Adam manteve a mão sobre a do Lily e a apertou, para que se voltasse a sentar. Depois tomou a outra mão, entrelaçou seus dedos com os dela e esperou até que levantasse o olhar-. Não tenha medo. Não permitirei que te aconteça nada.

     -Sempre tenho medo.

     Tratou de apartar as mãos, mas ele considerou que era tempo de correr o risco, de maneira que seguiu as sustentando.

     -Veio a um lugar desconhecido, onde estava rodeada de desconhecidos. E ficou. Isso significa ser valente.

     -Só vim a me esconder. Você não me conhece, Adam.

     -Conhecerei-te quando me permitir isso.

     Então lhe soltou uma mão, levantou a sua e lhe aconteceu o polegar sobre o moretón já desbotado que tinha sob o olho. Ela permaneceu muito quieta e o olhou com desconfiança enquanto Adam baixava o polegar até as marcas de seu queixo.

     -Quando estiver preparada, quero te conhecer, Lily.

     -por que?

     Os olhos do Adam sorriram e a emocionaram.

     -Porque compreende aos cavalos e rouba sobras da cozinha para dar-lhe a meus cães. -Quando ela se ruborizou, Adam sorriu abertamente-. E porque prepara uma sopa riquíssima. E agora, come -disse, lhe soltando a mão-. antes de que se esfrie.

     Olhando-o desde debaixo de suas pestanas, Lily tomou a colher e começou a comer.

     Vamos, armada com um livro eleito na biblioteca e uma garrafa de água mineral que tirou do bar, Tess se encaminhou a seu quarto. Tinha decidido ler até ficar vesga, com a esperança de que isso lhe conduziria um sonho tranqüilo e sem pesadelos.

      «Minha imaginação é muito vívida», pensou. E justamente esse era o motivo de que começasse a destacar-se como escritora de guias para cinema. E o motivo pelo que os detalhe proporcionados pelo Ben girassem e girassem em sua mente até formar quadros horripilantes.

     Tinha grandes esperança de que o grosso dramalhão romântico que tinha na mão, e cuja tampa prometia abundante paixão e aventuras, trocasse o curso de seus pensamentos.

     Então passou frente à porta do dormitório da Willa e escutou os soluços amargos. Vacilou, desejou ter subido pela escada de atrás. Mais ainda, desejou que esses soluços indefesos não tocassem uma corda de ternura em seu interior. Quando uma mulher forte chora, pensou, as lágrimas surgem dos rincões mais profundos e escuros do coração.

     Levantou uma mão para bater na porta, mas logo solo apoiou uma palma sobre a madeira. Talvez se se conhecessem, ou se fossem completas desconhecidas, poderia ter entrado. Se entre elas não houvesse fantasmas, nem ressentimentos, teria aberto essa porta para oferecer... algo.

     Mas sabia que não seria bem recebida. Não era possível que ali houvesse consolo de mulher a mulher, e muito menos de irmana a irmã. Compreendeu que o lamentava, que o lamentava muitíssimo e seguiu caminhando até chegar a seu próprio dormitório, onde fechou com cuidado a porta a suas costas e jogou a chave com sigilo.

    

     Na escuridão, em meio da noite, quando o vento açoitava ameaçador e a chuva caía a correntes, ele estava deitado, sorridente. Revivia cada instante do assassinato, segundo a segundo, e lhe produzia uma curiosa excitação.

     deu-se conta de que, enquanto acontecia, era como se ele fosse outro. Alguém com a visão tão clara, com os nervos tão tranqüilos que logo que parecia humano.

     Não sabia que tinha isso dentro.

     Não sabia que lhe ia gostar tanto.

     Pobre velho Pickles! Para não rir em voz alta, teve que apertar ambas as mãos contra sua boca, como esses meninos que têm um ataque de risada na igreja. Não tinha nada contra o pobre velho, mas se apresentou no momento mais inoportuno e a necessidade o obrigou a atuar.

     «A necessidade me obrigou a atuar», pensou uma vez mais, rendo entre as mãos. Isso era o que sempre dizia sua querida velha. Até estando bêbada gostava de dar de presente essas homilias. A necessidade obriga. Um ponto a tempo. Deitar-se cedo e economizar uma moeda. O sangue atira.

     Recuperado, respirou fundo e apoiou uma mão sobre seu estômago. Recordava a forma em que a faca se deslizou dentro do ventre do Pickles. Todas essas capas de graxa, pensou aplaudindo o próprio ventre. Foi como cravar uma faca em um travesseiro. Além disso se ouviu esse som como de sucção, o tipo de som que um para quando dava a uma mulher um bom golpe para marcá-la. Mas o melhor, o melhor de tudo, foi levantar o que ficava do cabelo do Pickles. Não porque fora um troféu muito importante, um cabelo muito finito e enredado, mas a maneira em que a faca o cortou lhe resulto fascinante.

     E o sangue.

     Deus santo, como sangrou!

     Desejou ter podido lhe dedicar mais tempo ao assunto, talvez para fazer uma pequena dança da vitória. A vez seguinte...

     Teve que sufocar outra risita. Porque haveria outra vez. Já não lhe interessavam o gado e os animais pequenos. Os seres humanos eram um desafio muito major. Teria que tomar cuidado e seria necessário esperar. Se matava a outro com muita rapidez, arruinaria seu sentido de expectativa.

     E queria escolher a próxima vítima, em lugar de que fora alguém com quem se tropeçasse.

     Talvez devesse ser uma mulher. Poderia-a levar a esse lugar entre as árvores, onde ocultava seus troféus. Cortaria-lhe a roupa enquanto lhe rogaria que não a machucasse. Depois poderia violá-la até voltá-la louca.

     De solo pensá-lolhe endureceu o membro e começou a acariciar-lhe enquanto o planejava. Sem dúvida adicionaria uma emoção mais o fato de poder tomar-se seu tempo, de observar a sua vítima, observar esses olhos que lhe sairiam das órbitas de terror enquanto lhe explicava até o mais pequeno detalhe do que pensava lhe fazer.

     Assim seria ainda melhor. Quando estivessem inteirados.

     Mas lhe faria falta prática. Uma mulher seria a etapa seguinte, uma etapa que ainda não tinha aperfeiçoado.

     Não há pressa, disse-se, sonhador, enquanto começava a masturbar-se com entusiasmo. Nenhuma pressa.

    

     Nem sequer o assassinato podia deter o trabalho. Os homens estavam nervosos, mas aceitavam as ordens que lhes repartiam. Agora que lhe faltava outro peão, Willa se obrigou a encher o vazio. Percorria alambrados, saía ao campo a revisar as colheitas, abria e fechava ela mesma a porta da manga, e de noite se desvelava sobre os livros de contas.

     O clima trocou e trocou com rapidez. O ar frio ameaçava com o inverno, e todas as manhãs a erva amanhecia coberta de geada. O gado que não permaneceria outro ano no campo, devia ser enviado aos currais de engorda para terminá-lo, currais de engorda próprias do rancho nos subúrbios do Ennis ou em Avermelhado.

     Quando não estava a cavalo ou conduzindo um veículo de quatro rodas, sobrevoava o campo em companhia do Jim. Em determinado momento Willa pensou em obter uma licença de piloto, mas se deu conta de que não gostava de viajar por ar. Ensurdecia-a o ruído do motor e os poços de ar e as voltas lhe afetavam o estômago.

     A seu pai adorava percorrer o rancho no pequeno Cessna. A primeira vez que o acompanhou se decompôs e se sentiu muito desgraçada. Foi a última vez que ela convidou a voar.

     Nesse momento o único piloto com que podia contar era Jim, e ele tinha tendência a fazer piruetas e a expor-se muito... assim Willa teria que reconsiderar o assunto. Um rancho do tamanho e a importância do Mercy necessitava um piloto, e ao melhor, com o passo dos anos, ela já não se sentiria enjoada nem a atacariam as náuseas.

     -daqui acima tudo é uma beleza. -Sorridente, Jim baixou uma asa e Willa sentiu que o café da manhã lhe subia à garganta-. Parece que temos outro alambrado cansado. -Com alegria, perdeu altura para poder estudá-lo melhor.

     Willa apertou os dentes e tomou nota mental da localização em que se encontravam. obrigou-se a olhar o gado, a fazer uma recontagem aproximada.

     -Temos que rodar a esses animais antes de que a erva esteja muito baixa. -Quando Jim inclinou o avião de pequeno porte, lhe disse entre dentes-: Não pode fazer que este maldito aparelho voe direito?

     -Perdão. -apoiou-se a língua contra a bochecha para sufocar uma gargalhada. Mas ao olhar o tom esverdeado da cara da Willa, nivelo o avião de pequeno porte com suavidade-. Não deveria voar, Will, e muito menos sem tomar alguma dessas pastilhas contra o enjôo.

     -Tomei essas malditas pastilhas.

     concentrou-se em sua respiração, desejou poder apreciar a beleza da paisagem, da terra, dos verdes pastos que resplandeciam com a geada, as serras cobertas de árvores, os picos brancos de neve das montanhas.

     -Quer que aterrissemos?

     -Não, estou-o tolerando. -Apenas-. Devemos terminar de fazer o percurso.

     Mas quando voltou a olhar para baixo, alcançou a ver o caminho onde encontrou o corpo. A polícia retirou o que ficava do Pickles e até os restos do novilho mutilado. Pentearam a zona, procurando e reunindo provas. E a chuva se encarregou de lavar quase tudo o sangue.

     Apesar de tudo lhe pareceu ver zonas mais escuras na terra, lugares que absorveram maior quantidade de sangue. Não podia apartar os olhos do lugar e quando sobrevoaram o seguinte pasto ainda seguia vendo o caminho e esses manchones mais escuros.

     Jim mantinha os olhos cravados no horizonte.

     -Ontem à noite veio de novo a polícia.

     -Sei.

     -Não encontraram nada. Já faz quase uma semana, Will. Não têm nada.

     A voz de irritação do Jim esclareceu visão da Willa, que se obrigou a apartar os olhos do campo para olhá-lo.

      -Suponho que a vida real não se parece com os programas de televisão, Jim. Às vezes simplesmente não podem capturar ao malvado.

     -Não posso deixar de pensar na forma em que ganhei esse dinheiro a noite antes de que o assassinassem. Oxalá não lhe tivesse ganho, Will. Já sei que não tem importância, mas preferiria não haver ganho.

     Ela estendeu uma mão e lhe apertou o ombro.

     -E eu preferiria não ter discutido com ele. Isso tampouco tem importância, mas preferiria não havê-lo feito.

     -Maldito velho! Isso era: um velho maldito. -Tremeu-lhe a voz e Jim se esclareceu garganta-. Eu... inteiramo-nos de que talvez o enterrarão no cemitério do Mercy.

     -Nate não pôde localizar à irmã nem a nenhum outro familiar. Enterraremo-lo em terras do Mercy. Suponho que Bess diria que é o que corresponde.

     -É-o. É muito generoso de sua parte permitir que descanse em um lugar onde solo há tumbas familiares. Voltou a esclarecê-la garganta-. Os moços e eu estivemos falando. Pensamos que talvez poderíamos nos encarregar de carregar o féretro e que pagaríamos a lápide. -ficou avermelhado ao ver que Willa o olhava-. Foi idéia do Ham, mas todos estivemos de acordo. Sempre que te pareça bem.

     -Então assim se fará. -Voltou a cabeça e olhou pela janela-. Aterrissemos, Jim. Por hoje vi o bastante.

    

     Ao entrar no pátio do rancho, Willa viu estacionados o jipe do Ben e o do Nate. Com toda deliberação, deteve o seu diante da casita branca do Adam. Necessitava tempo antes de enfrentar-se a ninguém. Não tinha as pernas muito mais firmes que o estômago. Além disso lhe doía a cabeça, supôs que a causa do zumbido permanente do motor do avião de pequeno porte.

     Desceu do jipe, passou a grade do cerco de madeira e se deu o gosto de ficar em cuclillas para acariciar ao Beans. O cão estava gordo como uma salsicha, as largas orelhas quedas e as patas enormes. Fascinado de vê-la, ficou de costas para que lhe arranhasse a barriga.

     -Velho gorducho! Pensa ficar aí tendido e dormir todo o dia? -O cão moveu a cauda como respondendo que sim, e ela não pôde menos que sorrir-. Seu culo é do largo de um celeiro.

     Para lhe ouvir a voz apareceu Nosey, o cachorro perdigueiro do Adam. Com as orelhas levantadas e movendo a cauda como se fosse uma bandeira, lhe aproximou trotando e colocou a cabeça debaixo do braço da Willa.

     -Não andaste dedicado a nada bom, verdade, Nosey? Crie que não sei que tem o olho posto em minhas galinhas?

     Com uma expressão parecida com o sorriso, o cão tratou de lhe lamber as mãos, a cara e pisou a seu companheiro. Quando os dois cães começaram a jogar, Willa aproveitou para ficar de pé. sentia-se melhor. Talvez solo fora porque estava no pátio do Adam, onde as flores do outono seguiam em plena floração e onde os cães não tinham nada melhor que fazer que jogar.

     -terminaste que jogar com esses dois cães inúteis?

     Ela olhou por cima do ombro. Do outro lado da grade estava Ham, com um cigarro pendurando dos lábios. Tinha a jaqueta abotoada e se pôs luvas de couro, coisa que fez que Willa pensasse que talvez já sentisse mais o frio.

     -Suponho que sim.

     -E terminaste que dar voltas pelo campo nessa armadilha de morte que é o avião de pequeno porte?

     Ela se passou a língua sobre os dentes enquanto lhe aproximava. Em seus sessenta e cinco anos, Ham jamais tinha subido a nenhuma classe de avião. E estava orgulhoso disso.

     -Acredito que sim. Temos que rodar o gado, Ham. E há outro alambrado cansado. Quero que hoje mesmo tirem esses animais do pasto do sul do campo.

     -O encarregarei ao Billy. Solo demorará o dobro do tempo em fazer o do que demoraria qualquer com o meio cérebro. Jim pode fazer-se carrego do alambrado. Wood tem as mãos enche com os semeados e eu tenho que embarcar quão animais enviaremos aos currais de engorda.

     -É sua maneira não muito sutil de me dizer que nos faz falta mais gente?

     -Quero falar contigo disso. -Esperou até que ela tivesse saído do pátio do Adam e desfrutou de do cigarro que estava fumando-. Viria-nos bem outro peão, e dois seriam ainda melhor. Mas acredito que deve esperar, pelo menos até a primavera, antes de contratar a ninguém.

     Arrojou a bituca do cigarro e a olhou voar pelo ar. A suas costas, Nosey e Beans choramingavam junto à grade, reclamando maior atenção.

     -Pickles sempre foi um problema. Protestava se brilhava o sol e também protestava se o chegava a cobrir uma nuvem. Gostava de queixar-se. Mas era um bom vaqueiro e entendia bastante de mecânica.

      -Jim me disse que você e outros lhes querem encarregar de comprar a lápide.

     -Parece-nos justo. Trabalhei quase vinte anos com esse velho cretino mal-humorado. -Seguia com o olhar fixo na distância. Já a tinha cuidadoso à cara, sabia o que havia ali-. Não ajuda a ninguém te culpando pelo que lhe aconteceu.

     -Eu lhe ordenei que saísse ao campo.

     -Isso é uma tolice, e sabe. Talvez seja uma mulher temperamental, mas não é tola.

     Willa só sorriu.

     -Não me posso tirar isso da cabeça, Ham. Resulta-me impossível.

     Ham sabia e o entendia, porque a conhecia. Compreendia-a.

     -Havê-lo encontrado como o encontrou, é algo que te vai angustiar durante muito tempo. E contra isso não pode fazer muito, solo esperar que vá passando. -Voltou-a a olhar e trocou de lugar seu chapéu indescritível para proteger do sol-. E trabalhar até ficar morta não fará que te passe mais logo.

     -Temos dois peões menos -começou a dizer Willa, mas ele meneou a cabeça.

     -Will, não está dormindo muito e come menos. -Sob a barba cinza, esboçou um sorriso-. Agora que Bess está de novo em pé, inteiro-me de muitas notícias da casa principal. Essa mulher fala tanto que seria capaz de ensurdecer a um coelho. E embora ela não me falasse sem parar cada vez que nos encontramos, há coisas que eu mesmo não posso por menos que ver.

     -Tenho muitas preocupações.

     -Já sei. -A voz lhe pôs rouca, uma maneira muito própria de expressar seu afeto-. Só trato de te dizer que não é necessário que você te encarregue de cada centímetro deste rancho. estive aqui desde antes de que nascesse, e se não crie que sou capaz de cumprir com meu trabalho, bom, acredito que na primavera não deveria procurar dois a não ser três peões mais.

     -Consta-te que confio em ti. Não é isso... -interrompeu-se e respirou fundo-. foi um golpe baixo, Ham.

     O sorriu, satisfeito consigo mesmo. Sim, é obvio que a conhecia bem. Compreendia-a.

     E a queria.

     -Não importa, com tal de que te faça te deter pensar. Podemos passar o inverno tal como estamos. O menino maior do Wood está resultando excelente. dentro de pouco fará doze anos e já pode elevar coisas que pesem tanto como ele. O menor é um maldito granjeiro. -Desconcertado por isso, Ham tirou outro cigarro que acabava de atar essa manhã-. Prefere enfardar erva que ir a cavalo, mas é um bom trabalhador, pelo menos é o que diz Wood. Podemos passar bem o inverno com o que temos.

     -Está bem. Algo mais?

     Ham voltou a tomar-se seu tempo. Mas já que Willa lhe estava emprestando atenção, supôs que seria melhor terminar com tudo o que lhe tinha que dizer.

     -Com respeito a essas irmãs tuas, poderia lhe dizer a de cabelo curto que compre alguns jeans que não lhe ajustem ao corpo como se fossem sua própria pele. Cada vez que passa, esse parvo do Billy fica com a boca aberta. O dia menos pensado não poderá fechá-la.

     Willa riu pela primeira vez em muitos dias.

     -E suponho que você não a miras, verdade, Ham?

     -Sim, é obvio que Miro. -Exalou uma baforada de fumaça-. Mas sou o suficientemente velho como para que não me faça mal. A outra subida realmente bem a cavalo. -Entrecerró os olhos e fez um gesto com o cigarro-. Bom, pode vê-lo por ti mesma.

     Willa olhou o caminho e viu os cavaleiros que avançavam para o este. Adam montava seu Pinto preferido, sem chapéu e flanqueado por dois amazonas. Willa teve que admitir que Lily levava bem a ruana, acompanhando com suavidade seu passo. Ao outro lado, Tess andava aos saltos sobre a arreios de um formoso alazão. Levava os saltos em alto nos estribos, ao reverso do que correspondia, e seu traseiro golpeava com tanta força contra o couro da arreios, que devia lhe doer. Era evidente que se aferrava à arreios como se nisso o fora a vida.

     -Deus, que dolorida vai estar esta noite! -Divertida, Willa se apoiou sobre a grade-. Quanto faz que andam nisso?

     -Um par de dias. Parece que decidiu aprender a montar. Adam esteve tratando de lhe ensinar. -Meneou a cabeça ao ver que Tess estava a ponto de deslizar-se da arreios e cair-. Acredito que nem sequer seu irmão será capaz de obter algo com ela. Poderia selar ao Moon e alcançá-los.

      -Não lhes faço falta.

     -Não é isso o que hei dito. Um largo rodeio te faria bem, Will. Sempre te tem feito bem andar a cavalo.

     -Talvez. -Pensou na possibilidade de um bom galope, com o vento lhe golpeando a cara e esclarecendo sua mente-. Talvez mais tarde. -Durante alguns instantes ficou olhando aos três cavaleiros e invejou a fácil camaradagem que reinava entre eles-. Talvez mais tarde -repetiu, e voltou a montar no jipe.

    

     Willa não se surpreendeu ao encontrar ao Ben e ao Nate na cozinha, desfrutando da carne assada preparada pelo Bess. Para que Bess não a repreendesse por não comer, ela também tomou um prato e se instalou frente à mesa.

     -Já era hora de que voltasse. -um pouco desiludida por não lhe haver podido ordenar que comesse, Bess se conformou repreendendo-a por outra coisa-. Já aconteceu a hora de comer.

     -A comida ainda está quente -respondeu Willa, obrigando-se a provar o primeiro bocado-. Já que está ocupada alimentando ao meio condado, não acredito que me tenha sentido falta.

     -É mais mal educada que um peão. -Bess depositou uma taça de café junto à Willa e lançou um bufido-. Estou muito ocupada para ficar aqui parada tratando de te ensinar bons maneiras. -Saiu, limpando-as mãos com um trapo ralo.

     -Durante a última meia hora não tem feito mais que te observar. -Nate afastou seu prato vazio e tomou sua taça de café. Preocupa-a.

     -Não faz falta que se preocupe comigo.

     -Fará-o enquanto siga saindo ao campo sozinha.

     Willa olhou ao Ben.

     -Então terá que acostumar-se. me passe o sal.

     Ben o fez, depositando-a com força frente à moça. No outro extremo da mesa, Nate se passou uma mão pela nuca.

     -Me alegro de que haja tornado, Will. Traga-te os papéis que me pediu.

     -Estupendo. Lerei-os mais tarde. -Pôs sal a sua carne-. Isso explica por que está aqui -adicionou olhando desafiante ao Ben.

     -Tinha que falar de negócios com o Adam. De negócios de cavalos. E fiquei um momento mais em minha função de supervisor. E para conseguir um almoço grátis.

     -Eu pedi ao Ben que ficasse -esclareceu Nate antes de que Willa pudesse dizer algo desagradável-. Esta manhã falei com a polícia. Amanhã nos entregarão o corpo. -Esperou um momento para que Willa assentira, aceitasse-. Alguns dos papéis que te trouxe se referem ao funeral. Também há alguns aspectos financeiros. Pickles tinha uma pequena conta de economias e uma caderneta de cheques. Entre ambas as coisas, solo falamos de ao redor de três mil e quinhentos. É quase o que devia pelo jipe.

     -Os assuntos de dinheiro não me preocupam. -A partir desse momento não poderia ter tragado bocado embora a ameaçassem com uma arma-. Agradeceria-te que te encarregasse de todos os detalhes e lhe carregasse a conta ao rancho. Por favor, Nate.

     -Está bem. -Tirou uma folha da pastas que tinha a seus pés e tomou algumas nota-. Respeito a seus efeitos pessoais, não tem família nem herdeiros e nunca fez testamento.

     -De todos os modos não devem ser grande coisa. -Sentiu que sobre ela caía uma enorme capa de tristeza-. Sua roupa, suas arreios, suas ferramentas. Se te parecer bem, eu o deixaria tudo aos peões.

     -Acredito que é o que corresponde. Eu me encarregarei dos aspectos legais. -Apoiou uma mão sobre a dela e a manteve ali um instante-. Se te ocorre algo mais ou tem alguma pergunta, me chame.

     -Agradeço-lhe isso.

     -Não faz falta que me agradeça isso. -ficou de pé-. Se não te importar, te vou pedir emprestado um cavalo e seguirei ao Adam para, isto...

     -Se o que quer é correr detrás de uma mulher, terá que pensar a desculpa com mais rapidez -disse Ben.

     Nate só sorriu e agarrou o chapéu que pendurava do gancho detrás da porta.

     -Agradeça a comida ao Bess. Veremo-nos.

     Willa olhou com o sobrecenho franzido a porta que se fechou detrás o Nate.

     -Correr detrás de que mulher?

     -Sua irmã maior usa um perfume muito bom.

     Willa lançou um bufido, tomou seu prato e o levou até a mesa.

     -Hollywood? Nate é muito sensato para interessar-se por ela.

     -O perfume adequado pode acabar com a sensatez de qualquer homem. Não comeste nada.

     -perdi o apetite. -Curiosa, voltou-se e se apoiou contra a mesa-. Isso é o que te atrai, Ben? Um bom perfume?

     -Nunca está de mais. -recostou-se contra o respaldo da cadeira-. É obvio que sabão e couro sobre a pele indicada podem obter exatamente o mesmo. Ser mulher é algo cheio de poder e de mistério. -Tomou a taça de café e a estudou por sobre o bordo-. Mas suponho que já deve sabê-lo.

     -Em um rancho o sexo não tem importância.

     -Como não vai ter importância! Cada vez que te aproxima de um metro e meio do Billy, o pobre moço fica vesgo.

      Willa não pôde menos que sorrir, porque sabia que era certo.

     -Tem dezoito anos e é um tipo muito sensual. Se a gente pronunciar a palavra «assumo» perto dele, fica pálido como um morto. Mas já lhe passará.

     -Se tiver sorte, não lhe passará.

     Willa se sentiu mais sociável e cruzou as pernas à altura dos tornozelos.

     -Não compreendo como o toleram, vós os homens. Ter esse ego, essa personalidade e essa idéia do romance pendurando entre as pernas.

     -É um verdadeiro sacrifício. Te vais sentar a terminar seu café?

     -Tenho que trabalhar.

     -É o que há dito durante o último par de dias, cada vez que eu me aproximei de um metro e meio de onde estava. -Tomou a taça de café da Willa, ficou de pé e a aproximou-. Se segue trabalhando assim e não come, Will, terminará de cara contra o chão. -Tomou o queixo entre as mãos e lhe dirigiu uma larga, muito largo olhar-. E te arruinaria essa cara que não tem nada de mau.

     -Eu diria que ultimamente te está aferrando a ela bastante freqüentemente. -Jogou atrás a cabeça e tratou de não alterar-se quando os dedos do Ben lhe seguiram sujeitando o queixo-. Qual é seu problema, McKinnon?

     -Não tenho nenhum problema. -Para pôr a prova a ambos aconteceu um dedo por sobre a boca. Embora esteja zangada, é uma boca tão linda, pensou ele, que um tem vontades de mordê-la-. Em troca você parece ter um problema. notei que fica nervosa cada vez que ando perto. Antes, solo foi desagradável comigo.

     -Talvez te custe reconhecer a diferença entre uma coisa e a outra.

     -Sim, é obvio que reconheço a diferença. -Trocou de posição e a encerrou entre a mesa e seu corpo-. Sabe o que acredito, Will?

     Tinha ombros largos, pernas largas. Ela tinha muita consciência do tamanho e a forma desse homem.

     -Não me interessa o que cria.

     Como era um homem cauteloso e de boa memória, ele se apertou contra ela para evitar que levantasse um joelho com sua habitual pontaria.

     -Direi-lhe isso de todos os modos. -Apartou a mão do queixo da Willa e tirou o sarro que essa manhã ela levava solto-. Agora que está o suficientemente perto como para que me dê conta, é certo que cheira a sabão e a couro.

     -Se te aproximar um centímetro mais, terá passado ao outro lado de meu corpo.

     -E depois está todo este cabelo, pelo menos um metro de cabelo. Murcho como um alfinete e suave como a seda. Mantinha o olhar fixo na dela e lhe jogou um pouco mais atrás a cabeça-. O coração te palpita com força. E também te palpita, aqui, uma veia no pescoço. -Usou a mão que tinha livre para segui-la-. Salta-te tanto o coração que me surpreende que não te atravesse a pele e me golpeie a mão.

     Ela não estava de todo segura de que não aconteceria se não lhe dava espaço para respirar.

     -Está-me irritando, Ben. -Teve que fazer um enorme esforço para manter um tom de voz tranqüilo.

     -Estou-te seduzindo, Willa -disse-o quase em um ronrono, as palavras cheias de doçura, como o mel. E quando ela tremeu, o sorriso do Ben foi lenta e cheia de força-. Desde meu isso ponto de vista é o que te dá medo. Que posso te seduzir e que o farei e maldita seja se poderá fazer nada por impedi-lo.

     -me deixe em paz! -Sua voz não era tranqüila, nem o estavam as mãos que apoiou contra o peito do Ben.

     -Não. -O tironeó o cabelo-. Esta vez não.

     -Não faz muito, você mesmo disse que não me desejava mais do que pudesse te desejar eu a ti. -«O que estará acontecendo em meu interior?», perguntou-se, presa do pânico. Os tremores e os estremecimentos, essas largas e líquidas sensações, e o atrativo que sentia em seu interior-. Não tem sentido andar brincando, quando o faz sozinho para me fazer rabiar.

     -Estava equivocado. O que devia haver dito é que te desejo tanto como me desejas você . Mas acontece que era uma realidade que me irritava. te assusta.

     -Eu não tenho medo.

     O que lhe acontecia em seu interior a atemorizava. Mas não por causa dele. Willa se prometeu que não era por causa dele.

     -demonstre-me isso Esses olhos, de um verde brilhante, iluminados pelo desafio-. Aqui mesmo. Agora mesmo.

     -Perfeito.

     Aceitando o desafio, temerosa de não fazê-lo, tomou uma mecha de cabelo e tironeó para que a boca do Ben se apoiasse sobre a sua.

      Tem a boca típica dos McKinnon, descobriu. Igual a do Zack, uma boca generosa e firme. Mas ali terminava o parecido. Nenhum dos beijos sonhadores que compartilhou com o Zack tantos anos antes se podia comparar com esse estalo, esse impacto. Com a sensação de que os lábios experimentados de um homem a devorassem. Ou a maneira impaciente e acalorada em que ele utilizava língua e dentes para sobressaltá-la, para enfocar todo pensamento, todo sentimento, toda necessidade nesse lugar onde as bocas de ambos se encontravam. A aresta da mesa lhe cravou nas costas. Os dedos que Willa tinha entrelaçado no cabelo do Ben se crisparam enquanto o primitivo aroma de homem a invadia. Nem sequer lhe tinha dado um momento para defender-se.

     Não tinha intenções de fazê-lo. Sentiu que o corpo da Willa se convulsionava, endurecia-se ante a investida. E se perguntou se o que sentia em seu interior seria em um pouco parecido ao que sentia ele dentro de si. Ben esperava paixão ou' frieza. Nela encontrou ambas as coisas. Esperava força, porque Willa era algo menos débil. Esperava encontrar prazer e a boca dessa moça parecia ter sido criada para dá-lo e recebê-lo.

     Nunca imaginou que o encontraria tudo, a fúria junto com tantas sensações que o investiam como um punho nu e o deixavam enjoado e fora de combate.

     -Maldito seja! -Apartou a boca e a olhou aos olhos, esses olhos tão grandes, escuros e surpreendidos-. Deus santo!

     E voltou a apoiar a boca sobre a dela.

     Ela emitiu um gemido, um som apanhado dentro de sua garganta; um som que ele alcançava a perceber quando fechava a mão sobre esse pescoço suave e o apertava com delicadeza. Queria saborear esse lugar, o lugar exato onde pulsava o pulso e ressonava o gemido, mas por mais que o tentasse não conseguia saciar-se da boca da Willa. E nesse momento ela também o abraçava com força, movia-se contra ele.

     Ben fechou uma mão sobre seu peito, tão firme através da camisa de flanela. Logo lhe tirou de um puxão a camisa dos jeans e colocou a mão debaixo para lhe tocar a pele.

     Ao sentir a mão do Ben, forte, calosa e firme, sobre seu corpo, os músculos das coxas da Willa se afrouxaram, a tensão de seu estômago se converteu em um pouco parecido à dor. Ben lhe acariciou um mamilo com o polegar e um calor explosivo percorreu o corpo da Willa.

     Ficou lassa, poderia haver-se deslizado ao chão se ele não tivesse trocado a posição de seus braços. Essa rendição repentina e total o excitou mais que tudo o fogo anterior.

     -Temos que chegar ao final. -Agarrou-lhe um peito com a mão e o acariciou enquanto esperava que ela abrisse os olhos e os olhares de ambos se encontrassem-. E embora esteja tentado de seguir adiante aqui mesmo, talvez Bess se indignaria se entrasse e nos encontrasse atirados no chão.

     -te aparte. -Lutou por recuperar o fôlego-. Não posso respirar, te aparte.

     -Também me custa bastante respirar. Respiraremos mais tarde. -Baixou a cabeça e lhe mordiscou o queixo-. Vêem casa comigo, Willa, me deixe te possuir.

     -Nem louca! -Lutou por liberar-se, tropeçou com a mesa sobre a que se acabava de apoiar para recuperar o equilíbrio. Tinha que pensar! Era necessário que pensasse. Mas o único que podia fazer era sentir-. Não te aproxime -ordenou com maus modos, quando ele tentou fazê-lo-. Fique longe e me deixe respirar.

     Foi o som de um verdadeiro pânico que percebeu em sua voz o que obrigou ao Ben a apoiar-se contra a mesa.

     -Está bem. Respira. Não modificará nada. -Estirou uma mão para agarrar a taça de café que havia a seu lado e, ao comprovar que as mãos lhe tremiam, deixou-a onde estava-. Não sei se eu tampouco estou muito contente com isto.

     -Maravilhoso! Simplesmente maravilhoso! -Já mais tranqüila, ergueu-se e lhe fez frente-. Crie que como convenceste a uma dúzia de mulheres de que se deitem contigo, pode chegar a esta casa e fazer o mesmo comigo. E sem dúvida te pareceu que seria muito fácil, considerando que nunca tenho feito isto antes.

     -Eu não conto mais de dez mulheres -respondeu ele com tranqüilidade-. E não tive que... -interrompeu-se, com expressão de assombro e a boca aberta-. Que alguma vez fez o que, exatamente?

     -Sabe de cor ao que me refiro.

     -Alguma vez? -meteu-se as mãos nos bolsos-. Mas alguma vez?

     Ela ficou olhando-o, convencida de que riria. Então teria a desculpa perfeita para matá-lo.

     -Mas acreditei que você e Zack... -Voltou a deixar a frase inconclusa, ao compreender que isso não teria falado muito bem dele.

     -Alguma vez te disse que o fizemos? -Willa entrecerró os olhos enquanto se preparava para atacar.

     -Não, ele nunca... não. -Confuso, Ben tirou uma mão do bolso e lhe passou pelo cabelo-. Me imaginei, isso é tudo. Imaginei que em algum momento ou em outro você haveria... Bom, diabos, Willa, é uma mulher adulta. É obvio que imaginei que haveria...!

     -Que me teria andado deitando por aí?

     -Não, não exatamente. -«Que alguém me alcance uma pá. Estou cansado de cavar minha própria fossa com as mãos», pensou-. É uma mulher bonita -começou a dizer e vacilou, compreendendo que poderia haver-se explicado melhor. E o teria feito, sem dúvida, se não tivesse a língua tão travada-. Solo supus que teria alguma experiência no assunto.

     -Bom, não é assim. -A irritação ia acalmando o suficiente para deixar entrever frestas de desconforto-. E de mim depende querer modificar essa realidade e a pessoa com quem dita modificá-la.

     -É obvio! Se me tivesse dado conta não teria insistido... -Não podia lhe tirar os olhos de cima, não podia deixar de olhá-la, ali, toda ruborizada e desgrenhada, com essa boca tão atrativa torcida por seus beijos-. Ou talvez teria insistido, mas de outra maneira. Faz tempo que estive pensando em ti nesse sentido.

     Nos olhos da Willa se pintou uma expressão de total desconfiança.

     -por que?

     -Maldita seja se sei. Mas é assim. E agora que te pus as mãos em cima, não tenho mais remedeio que dizer que o estarei pensando mais. Produz-me sensações maravilhosas, Willa. -Recuperou o humor e sorriu apenas-. E por ser uma principiante, asseguro-te que fez um excelente trabalho com esses beijos.

     -Não é o primeiro homem a quem beijei e não será o último.

     -Isso não quer dizer que não possa praticar comigo... quando sentir a necessidade. -aproximou-se dos cabides da porta para desprender sua jaqueta e seu chapéu. Se algum dos dois notou que lhe tinha deixado uma ampla possibilidade, não fizeram comentário algum-. Para que são os amigos?

     -Não me custa nada controlar minhas necessidades.

     -Não faz falta que me diga isso -respondeu Ben com certa tristeza enquanto ficava o chapéu-. Mas me ocorre que eu vou ter um trabalho terrível em controlar as minhas no que se refere.

     Abriu a porta e lhe dirigiu um último olhar muito largo.

     -Tem uma boca maravilhosa, Willa. Maravilhosa!

     Fechou a porta e ficou a jaqueta. Enquanto rodeava a casa rumo a seu jipe, exalou ar com força. Acreditou que fazer-se alguns carinhos na cozinha lhes faria esquecer os problemas que se abatiam sobre o Mercy. Obteve muitíssimo mais que isso.

     passou-se a mão sobre o estômago, convencido de que os nós que lhe incomodavam demorariam para ir-se. Willa lhe acabava de colocar sob a pele, e de uma maneira definitiva. E o fato de que ela ignorasse o que cada um podia lhe fazer ao outro na escuridão, solo convertia o assunto em um pouco mais aterrador.

     E excitante.

     Sempre tinha eleito mulheres que as sabiam todas, que compreendiam os prazeres, as regras e as responsabilidades. Mulheres, admitiu, que não esperavam mais que um queda bom e saudável no que ninguém resultava ferido, no que ninguém ficava apanhado.

     Olhou a casa enquanto se colocava atrás do volante e punha em marcha o motor. Com a Willa não ia ser tão singelo, sobre tudo considerando que seria o primeiro homem de sua vida.

     afastou-se do Mercy sem saber o que faria com respeito a ela. Quão único sabia com segurança era que Willa teria que aceitar que Ben McKinnon seria o homem com quem modificaria o estado de coisas de sua vida.

     Ao passar olhou por volta da casa dos peões e pensou em tudo o que ela tinha devido sofrer durante as últimas semanas. Bastante para que qualquer se desmoronasse, pensou. Qualquer menos Willa.

     Lançou um comprido suspiro e se encaminhou para suas terras. Estaria a seu lado, quisesse-o ela ou não. E no que se referia ao pessoal, andaria devagar. Com pés de chumbo. Até trataria de ser suave.

     Mas ali estaria.

    

     A neve chegou com força, com rapidez e antes de tempo. Enterrou os pastos e os homens trabalhavam dia e noite para conseguir que o gado, muito parvo para cavar na neve em busca de erva, estivesse bem alimentado e atendido.

     Novembro demonstrou não ser um limite válido contra o inverno e, antes de que tivesse chegado a seu fim, o vale estava talher de água e de névoa.

     Os esquiadores chegaram em bandos ao Big Sky e a outros lugares turísticos para baixar pendentes e beber conhaque junto a fogos rugientes. Tess pensou na possibilidade de unir-se a eles durante um dia ou dois. Não porque alguma vez lhe tivesse fascinado esquiar, mas o assunto do conhaque lhe caía bem. Em todo caso haveria gente, conversações, talvez flertes e sem dúvida civilização.

     Possivelmente lhe valesse a pena atar-se a um par de madeiros e cair pela ladeira de uma montanha. Falava a cada momento com seu representante, utilizando a Ira mais como uma ponte com sua vida verdadeira que como um elemento de seu trabalho. Escrevia, adiantando um novo guia de cinema e além disso seguia levando um jornal no que detalhava dia a dia a vida no rancho.

     Não porque considerasse que a rotina do rancho fosse uma vida que valesse a pena.

     Seguia fazendo-se carrego do galinheiro e estava bastante orgulhosa de ser capaz de fazer o trabalho; já podia lhe tirar o ovo a uma galinha arremesso sem que nem sequer a bicasse.

     Um dia teve um mau momento, um péssimo momento quando, caminhava atrás do galinheiro e se topou com o Bess quem, com rapidez e competência nesse instante lhe retorcia o cangote a uma das aves que estavam a seu cuidado.

     Então houve muito cacarejo.., embora não por parte das galinhas. Duas delas estavam tendidas no chão, mortas, enquanto as mulheres se gritavam por sobre os cadáveres.

     Essa noite Tess se saltou a comida, bolo de frango, mas o incidente lhe ensinou que não devia cair no engano de pôrnomes a suas emplumadas amigas matinais.

     Todas as tardes fazia uso da banheira baixo teto com sua parede de vidro curvo que dava ao sul. E decidiu que não era desagradável olhar a neve enquanto, rodeada de vapor, utilizava seu lago pessoal.

     Mas todas as manhãs se levantava, olhava pela janela o espetáculo da neve e sonhava com palmeiras e com almoços no Morton.

     Seguia andando a cavalo por pura tozudez. Por certo que já não descia da arreios choramingando por causa dos dores musculares. Tinha-lhe tomado certo afeto ao Mazie, a égua que Adam lhe tinha atribuído. Entretanto sair a cavalo no meio do frio e do vento não era sua idéia de um grande entretenimento.

     -meu deus! -Tess saiu, abrigada com uma grosa jaqueta de couro e desejou haver ficado dois pares de calções largos de casaco-. Isto é como respirar vidro moído. Como é possível que alguém o tolere?

     -Adam diz que depois de um inverno tão duro um aprecia mais a primavera.

     Para proteger do vento, Lily se cobriu melhor o pescoço com o cachecol. Entretanto gostava do inverno, sua força, seu majestuosidad, a maneira em que a neve parecia congelar os picos como baixo releve contra a parede do céu. O escuro cinturão de árvores que se aferravam aos pés das montanhas ficava muito bonito talher de neve, e o prateado das rochas e os penhascos formava sombras e contrastes, como dobras de uma surpreendente manta.

     -É tudo tão formoso! Centenas e centenas de quilômetros de branco. E os pinheiros! O céu é tão azul que quase machuca os olhos. -Sorriu ao Tess-. Não se parece em nada à neve de uma cidade.

      -Não tenho muita experiência em neve, mas diria que isto não se parece em nada. -Flexionou os dedos dentro das luvas enquanto se dirigiam às cavalariças.

     Pelo menos os arredores da casa do rancho são passáveis, pensou Tess. Os atalhos que levavam às cavalariças e os currais estavam limpos de neve. E também se limparam os caminhos com uma cuchilla sujeita a um dos veículos. Recordou que era obra do jovem Billy. Enquanto o fazia, o moço parecia divertidísimo.

     Viu que sua respiração flutuava diante dela como fumaça e se sentiu tentada de voltar a queixar-se. Mas era bonito, de uma gélida beleza. O céu era de um azul tão duro que alguém esperava que em qualquer momento se rachasse, e as montanhas, que davam a impressão de brocá-lo, estavam tão bem definidas no ar claro, que pareciam pintadas. O sol bailoteaba sobre os campos talheres de neve que pareciam despedir faíscas e quando soprava vento, levantava essa neve e esses raios pelos ares.

     Palmeiras, praias calorosas, e os may tailandeses pareciam com anos luz de distância.

     -A que se dedica ela hoje? -perguntou Tess, ficando-as óculos escuros.

     -Willa? Saiu cedo em uma de seus pickups.

     Tess apertou os lábios.

     -Sozinha?

     -Quase sempre sai sozinha.

     -Procurando problemas -murmurou Tess e se meteu as mãos nos bolsos-. Deve acreditar-se invencível. Se o que tenha assassinado a esse homem ainda andasse por aqui...

     -Mas não o crie, verdade? -Alarmada, Lily começou a percorrer as pradarias com o olhar, como se delas em qualquer momento pudesse surgir um louco como um gnomo sorridente-. A polícia não tem descoberto nada. Eu acredito que sem dúvida deve ter sido alguém que acampava nas montanhas. E com este clima, não é possível que siga aqui. Além disso, já faz semanas desde que... desde que aconteceu.

     -Isso é certo. -em que pese a estar longe de sentir-se convencida, Tess não acreditou que valesse a pena lhe pôr os nervos de ponta ao Lily-. Ninguém vai acampar com este frio, e menos ainda um maníaco itinerante. Suponho que o que acontece é que Willa sempre me põe nervosa. -Entrecerró os olhos para olhar o veículo que se aproximava do rancho do caminho do oeste-. Falando do demônio...

     -Talvez se você... -Lily se interrompeu e meneou a cabeça.

     -Não, segue. Se eu o que?

     -Talvez se não fizesse todo o possível por irritá-la.

     -Não cria que faço todo o possível. -Tess sorriu-. Ao contrário, faço-o naturalmente. -Trocou de direção ao ver que o jipe lhes aproximava-. andaste percorrendo suas posses? -perguntou quando Willa baixou o vidro do guichê.

     -Segue aqui? Eu acreditei que pensava ir ao Big Sky para te dar um banho em um jacuzzi e atrair aos homens.

     -Estou-o pensando.

     Willa fixou sua atenção no Lily.

     -Se Adam for sair a cavalo, contigo, saiam quanto antes e que não seja um rodeio muito largo. vai nevar. -Dirigiu o olhar para o céu onde se foram amontoando grosas capas de nuvens-. Lhe diga que vi uma manada de cariacús ao noroeste daqui, a uns dois quilômetros de distância. Talvez você gostaria de vê-los.

     -eu adoraria. -Lily se aplaudiu o bolso-. Levo minha câmara. Não pode vir conosco? Bess nos deu café mais que suficiente.

     -Não, tenho coisas que fazer. E mais tarde virá Nate.

     -Ah, sim? -Tess elevou uma sobrancelha e fez um esforço por mostrar-se indiferente-. Quando?

     -Mais tarde -respondeu Willa pondo a alavanca de mudanças em primeira-. Mais tarde -repetiu enquanto se dirigia à casa.

     Sabia de cor que Tess lhe tinha jogado o olho ao Nate e não pensava respirar esse assunto. Desde seu ponto de vista, Nate não faria pé em seu trato com uma piranha de Hollywood.

     E talvez ele também tivesse posto nela seu olhar, mas isso era sozinho porque os homens ficavam parvos com as mulheres formosas e de figura escultural. Willa tomou o recipiente térmico de café que levava sobre o assento e desceu do jipe. Tess é formosa e tem uma figura escultural, teve que admitir com um sotaque de inveja. Além disso tem uma enorme confiança em si mesmo e é de língua rápida. Uma mulher muito segura de si mesmo e do controle que tem sobre sua própria feminilidade. E do poder que exerce sobre os homens.

     Willa se perguntou se ela não seria também assim de ter tido uma mãe que a guiasse. Se tivesse crescido em um ambiente distinto, com mulheres que lançavam risitas e faziam comentários sobre seus penteados e o comprido de seus vestidos, sobre lápis de lábios e perfumes.

      «Não porque me tivesse gostado de ser assim», assegurou-se, enquanto entrava e se tirava as luvas. Não lhe interessavam todas essas tolices, mas começava a acreditar que eram coisas que aumentavam a confiança da mulher em seu trato com os homens.

     E ela não se tinha tanta confiança como teria querido. Pelo menos no que a determinado homem se referia.

     tirou-se o casaco e o chapéu e logo tomou o recipiente térmico e o levou acima, ao despacho. Ainda não tinha modificado nada nesse quarto. Seguia sendo o domínio do Jack Mercy, com suas paredes cobertas de troféus e seus botellones de bebidas. E ao entrar e sentar-se ante o escritório a Willa sempre lhe formava um nó na boca do estômago.

     Será dor?, perguntou-se. Ou temor. Já não estava segura. Mas o despacho em si lhe provocava uma série de emoções e de lembranças desagradáveis e pouco felizes.

     Escassas vezes entrou ali em vida de seu pai. Se ela mandava chamar, se lhe ordenava que se sentasse em uma cadeira ao outro lado do escritório, sempre era para criticá-la ou para trocar seus deveres no rancho.

     Parecia-lhe vê-lo, sentado aonde estava ela nesse momento. Com um charuto entre os dedos, e se o dia de trabalho tinha chegado a seu fim, com um copo de uísque sobre o secante.

     Garota, chamava-a. Poucas vezes pronunciava seu nome. «Garota, miúdo ofensivo tem feito esta vez!»

     «Garota será melhor que comece a te esforçar neste rancho.»

     «Será melhor que te busque um marido, garota, e que comece a ter filhos. Não serve para nada em nenhum outro sentido.»

     Alguma vez terá ressonado uma palavra bondosa nesta habitação?, perguntou-se, enquanto se esfregava com força as têmporas. Tinha uma desesperada necessidade de recordar um instante sequer, um incidente, alguma vez que tivesse entrado nesse quarto para encontrar a seu pai sentado atrás do escritório e sonriendo. Uma vez, uma só vez, que lhe houvesse dito que estava orgulhoso do que ela fazia. De algo que tivesse feito.

     Mas não recordava nenhuma. Os sorrisos e as palavras bondosas não estavam dentro do estilo do Jack Mercy.

     «E o que diria neste momento? -perguntou-se-. Se entrasse no despacho e me visse, se se inteirasse do acontecido em suas terras, a um de seus homens, enquanto eu estou a cargo do rancho.»

     «Mandaste-o tudo a mierda, garota.»

     Willa apoiou um momento a cabeça entre as mãos, desejando encontrar uma resposta. Em seu interior estava segura de não ter feito nada para provocar um assassinato tão malvado. Mas dentro de seu coração, a responsabilidade lhe resultava muito pesada.

     -Bom, acabou-se -murmurou.

     Abriu uma gaveta e tirou um livro de registros. Queria voltar a examiná-lo, o detalhe cuidadoso do número de cabeças, do peso dos animais. As rotações dos pastos, os fertilizantes e os grãos. Queria estar segura de que não houvesse uma só cifra desconjurada quando os supervisores de seu pai chegassem a revisar suas contas.

     Enterrou o ressentimento que lhe provocava saber que eles, ou qualquer outro, pudesse ter poder sobre o Mercy, e ficou a trabalhar.

    

     A quase três quilômetros de distância da casa do rancho, feliz, Lily tomou fotografias dos cariacús. Deu-lhe risada vê-los com seus hirsutos couros de inverno e seus olhos aborrecidos. Era provável que as fotografias estivessem desfocadas, sem dúvida ela não herdou a habilidade que tinha sua mãe com a câmara, mas de todos os modos lhe daria prazer as ter.

     -Sinto muito -disse com a câmara pendurando de uma correia ao redor do pescoço-. Sei que me estou entretendo muito. Mas estou fascinada.

     -Ainda temos um pouco de tempo. -depois de efetuar um rápido estudo das nuvens, Adam se voltou na arreios e se dirigiu ao Tess-. Subidas bem. Aprende com rapidez.

     -É uma questão de autodefesa -respondeu ela, mas sentiu uma pontada de orgulho-. Não quero que me volte a doer o corpo como me doeu esses primeiros dias. E preciso fazer exercício.

     -Não, está-o desfrutando.

     -Está bem, sim, desfruto-o. Mas se chegar a fazer mais frio que agora, não voltarei a desfrutá-lo até a primavera.

     -Fará mais frio que agora. Mas seu sangue será mais espesso. E sua mente mais dura. -inclinou-se para acariciar o cangote de seu cavalo-. E cada dia que não Montes se sentirá frustrada.

     -Sinto-me frustrada cada dia que não posso caminhar pelo Sunset Alameda. E me as acerto.

     Adam lançou uma gargalhada.

     -Quando retornar ao Sunset Alameda, pensará neste céu, nas montanhas. E então voltará.

     Intrigada, Tess se baixou os óculos sobre o nariz e o olhou por cima da arreios.

     -O que é isto? Misticismo índio ou me está adivinhando o futuro?

     -Não. Psicologia pura. Empresta-me a câmara, Lily? Eu gostaria de lhes tirar uma fotografia a ti e ao Tess. Bom. Não te importa, verdade? -perguntou ao Tess.

     -Jamais fujo uma câmara. -Fez que sua égua rodeasse o cavalo do Adam e a aproximou da do Lily. Com muita habilidade, pensou-. Assim te parece bem?

      -Bárbaro. -Levantou a câmara, enfocou-a-. Duas mulheres formosas em um mesmo marco. -E apertou o disparador, duas vezes-. Quando virem estas fotografias, darão-lhes conta do muito que compartilham. A forma da cara, o colorido e até a maneira de sentar-se na arreios.

     Em um gesto automático, Tess quadrou os ombros. Sentia o que ela mesma considerava um leve afeto pelo Lily, mas estava muito longe de sentir por ela o carinho de uma irmã.

     -me dê a câmara, Adam. Farei-lhes uma foto. A Magnólia da Virginia e o Nobre Selvagem.

     Assim que o disse, arrependeu-se.

     -Sinto muito. Tenho o costume de considerar às pessoas como personagens. Não quis lhes ofender.

     -Ninguém se ofendeu. -Adam lhe aconteceu a câmara. Tess gostava, caía-lhe bem sua maneira de conseguir o que queria, de dizer o que pensava. Duvidava muito que lhe sentasse bem que lhe dissesse que eram as duas qualidades que mais gostava na Willa-. O que pensa de ti mesma?

     -Que sou superficial. Por isso se vendem meus guias. Sonreíd.

     -Eu gosto de seus filmes -disse Lily quando Tess baixou a câmara-. São excitantes e entretidas.

     -E se dirigem ao denominador menos comum. O qual não tem nada de mau. -Devolveu- a câmara ao Lily-. Terá que escrever para as massas, e fazer que o argumento seja singelo.

     -Não te está dando bastante crédito a ti mesma nem a seus espectadores. -Adam olhou as árvores, os arredores.

     -Talvez não, mas... -Tess deixou a frase inconclusa quando um movimento atraiu seu olhar-. Há algo ali atrás, entre as árvores. Algo se moveu.

     -Sim, já sei. Foi contra o vento. Alcanço a cheirá-lo. -Com gesto indiferente apoiou uma mão sobre a culatra de seu rifle.

     -Neste momento os ursos estão hibernando, não é certo? -Tess se umedeceu os lábios com a língua e tratou de não pensar em um homem e uma faca-. Suponho que não será um urso.

     -Às vezes despertam. por que não lhes adiantam e voltam para casa? Eu irei jogar um olhar.

     -Não pode subir sozinho até lá encima. -Com um movimento instintivo, Lily estirou o braço e tomou as rédeas do Adam. Ante o movimento abrupto, o cavalo corcoveou despedindo neve a seu redor-. Não deve! Poderia ser algo! Poderia ser...

     -Nada -disse ele com toda sua calma, enquanto tranqüilizava a seu cavalo. Alguns inocentes flocos de neve bailoteaban no ar. Adam não acreditava que seguiriam sendo inocentes durante muito tempo-. Mas será melhor ver do que se trata.

     -Lily tem razão. -Tremendo, Tess mantinha o olhar fixo nas árvores-. E está começando a nevar. Será melhor que vamos. Agora mesmo.

     -Não posso fazer isso -respondeu Adam cravando no Lily o olhar de seus olhos escuros e tranqüilos-. Possivelmente não seja nada. -Estava seguro de que não era assim pela forma em que tinha começado a tremer seu cavalo-. Mas a apenas um quilômetro daqui assassinaram a um homem. Devo ir ver. Vocês iniciem a volta e eu lhes alcançar. Já conhecem o caminho.

     -Sim, mas...

     -Peço-lhes por favor que o façam por mim. Em seguida estarei com vocês.

     Como sabia que discutir era inútil. Lily voltou seu cavalo.

     -Não lhes separem em nenhum momento -aconselhou- Adam ao Tess e em seguida se dirigiu para as árvores.

     -Não se preocupe pelo Adam, estará bem -disse Tess embora enquanto falava começaram a lhe tagarelar os dentes. Diabos, Lily, o mais provável é que tenha sido um esquilo. -«Muito movimento para um esquilo», pensou-. Ou um alce ou algo assim. Teremos que lhe fazer brincadeiras por ter salvado às mulheres de um alce.

     -E se não fora assim? -A voz tranqüila e sulina do Lily se quebrava como o vidro-. E se a polícia e todos outros se equivocaram e o que matou a esse homem ainda seguisse aqui? -Deteve sua égua-. Não podemos deixar sozinho ao Adam.

     -O é o que vai armado -começou a dizer Tess.

     -Eu não posso deixá-lo sozinho.

     Apesar de que lhe aterrorizava a idéia de desobedecer uma ordem, Lily fez que sua égua desse a volta e começou a seguir ao Adam.

     -Ouça, não! Diabos! Esta sim que seria uma cena maravilhosa para um guia -murmurou Tess enquanto trotava detrás o Lily-. Asseguro-te que se ele chegar a disparar contra nós por engano, arrependerá-te disto.

     Lily só meneou a cabeça e se separou do caminho. internou-se entre as árvores, seguindo os rastros do Adam.

     -Saberia voltar se tivesse que fazê-lo com rapidez?

      -Sim, acredito que sim, mas... Deus, isto é uma loucura. por que não...?

     O disparo cortou o ar e ressonou como um trovão. antes de que Tess pudesse fazer outra coisa que tratar de tranqüilizar a sua égua espantada, Lily galopava diretamente para as árvores.

    

     Nate não chegou sozinho. Justo detrás dele chegou Ben, com sua cunhada e sua sobrinha. Shelly entrou na casa falando e em seguida começou a desabrigar a sua filha.

     -Já sei que devi ter chamado, mas quando Ben me disse que vinha, simplesmente tomei a Abigail e saltei o jipe. Estamos desejando ver gente. Estou segura de que deve ter trabalho, mas Abigail e eu podemos ficar a conversar com o Bess enquanto vós trabalham. Espero que não te importe.

     -É obvio que não me importa! Me alegro muito de verte.

     Era agradável ver o Shelly, com sua conversação animada e seu sorriso alegre. Willa sempre considerou que era a mulher perfeita para o Zack. Eram como o pão e a manteiga, os dois alegres e entretidos.

     Deixando a sua filha que esperneava feliz sobre o sofá, Shelly se tirou o chapéu e se alisou o cabelo loiro. O cabelo curto ficava bem com seu rosto de duende e sua curta estatura, e tinha olhos da cor da névoa na montanha.

     -Bom, não dava muitas alternativas ao Ben, mas juro que me manterei fora do caminho até que tenham terminado.

     -Não seja tola! Faz semanas que não jogo com o bebê. E cresceu tanto! Não é certo, querida? -Willa se deu o gosto de elevar ao Abby e levantá-la por cima de sua cabeça-. Os olhos lhe estão pondo verdes.

     -Sim, vai ter os olhos dos McKinnon -coincidiu Shelly-. A gente diria que deveria ser um pouco agradecida e parecer-se em algo a mim, já que a tive em meu interior durante nove meses, mas é idêntica a seu pai.

     -Não sei, acredito que tem suas orelhas -disse Willa aproximando do Abby para lhe beijar a ponta do nariz.

     -Parece-te? -perguntou Shelly, encantada-. Tenho-te que dizer que já dorme toda a noite. E só tem cinco meses. depois de todas as horríveis historia que me contaram a respeito da necessidade de tê-la em braços e balançá-la-a noite inteira Y... -Levantou ambas as mãos para indicar-se que devia calar-. Lá vou, e isso que prometi não incomodar. Zack diz que falo tanto que seria capaz de fazer cair a casca de uma árvore à força de palavras.

     -Zack também fala sem parar -interveio Ben-. O que me surpreende é que com vós como pais, Abby não tenha nascido falando. -Estendeu um braço para acariciar a cara da pequena e sorriu a Willa-. Não te parece bonita?

     -E doce, o qual demonstra que não é totalmente McKinnon. -Com pena, Willa a devolveu a sua mãe-. Bess está lá na cozinha, Shelly. Sei que estará encantada de lhes ver ti e ao Abby.

     -Espero que quando tiver terminado tenhamos tempo de falar um momento, Will. -Shelly apoiou uma mão sobre o braço da Willa-. Sarah também queria vir, mas não pôde deixar seus quehaceres. estivemos pensando muito em ti.

     -Baixarei muito em breve. Talvez possa convencer ao Bess de que te deixe provar o bolo que está preparando para a comida. Tenho tudo acima, no despacho -disse a outros, e começou a subir a escada.

     -Suponho que compreenderá que isto não é mais que uma formalidade, Will -começou a dizer Nate-. Solo para que não caiba dúvida de que cumprimos com o que nos impõe o testamento.

     -Sim, não há problema. -Mas os conduziu ao despacho com as costas muito rígida.

     -Não vi por aqui a suas irmãs.

     -Saíram a cavalo com o Adam -respondeu Willa enquanto se colocava atrás do escritório-. Não acredito que demorem para voltar. Hollywood tem o sangue muito líquido para poder tolerar o frio muito mais de uma hora.

     Nate se sentou e estirou suas largas pernas.

     -Vejo que vocês dois seguem lhes levando muito bem.

     -Mantemo-nos uma fora do caminho da outra. -Aproximou-lhe um livro de registro-. Dá bons resultados.

     -vai ser um inverno comprido -comentou Ben, apoiando um quadril contra o bordo do escritório-. Deveriam pensar em fazer as pazes ou em lhes matar a tiros e terminar de uma vez com o assunto.

     -A segunda opção não me parece justa. Ela não conhece a diferença entre um Winchester e uma pá de ponta.

     -Terei que acostumar-lhe comentou Nate enquanto olhava as cifras por cima-. Além disso tudo anda bem por aqui?

     -Bastante bem. -Incapaz de permanecer sentada, Willa afastou a cadeira do escritório-. Por isso eu sei, os homens estão convencidos de que quem quer que tenha assassinado ao Pickles faz tempo que se foi daqui. A polícia não pôde provar outra coisa. Não encontraram rastros, nem armas, nem um móvel.

     -Isso é o que você pensa? -perguntou Ben.

     Ela o olhou aos olhos.

     -É o que quero acreditar. E é o que não tenho mais remedeio que acreditar. Já transcorreram três semanas.

     -Isso não quer dizer que deva baixar o guarda -murmurou Ben, e ela baixou a cabeça.

     -Não tenho a menor intenção de baixar o guarda. Em nenhum sentido.

     -Parece-me que tudo está perfeitamente em ordem -disse Nate, lhe passando o livro de registro ao Ben-. De acordo com as cifras, parece-me que tiveste um bom ano.

     -Espero que o que vem seja melhor. -Willa fez uma pausa. Não se esclareceu garganta, mas tinha vontades de fazê-lo-. Durante a primavera penso semear pastos naturais. É algo no que meu pai e eu não estávamos de acordo, mas acredito que deve haver um motivo pelo que determinados pastos crescem naturalmente nesta zona, de maneira que voltaremos para isso.

     Intrigado, Ben lhe dirigiu um olhar. Nunca a tinha ouvido falar de mudanças no que se referia ao Mercy.

     -Fizemo-lo no Three Rocks faz mais de cinco anos, e com excelentes resultados.

     Ela voltou a olhar ao Ben.

     -Já sei. E uma vez que resembremos, poderemos rodar mais seguido o gado. Não o deixaremos mais de três semanas em cada pasto. -Começou a passear-se pelo quarto e não se deu conta de que Ben fazia a um lado o livro de registros para estudá-la-. Não me preocupa tanto como a papai produzir cabeças de gado de maior tamanho. O único que me interessa é produzir o melhor gado. Durante os últimos anos têm tido muitos problemas nos partos porque os bezerros eram muito grandes. Talvez ao principio o que estou disposta a fazer diminua algo as lucros, mas estou pensando a longo prazo.

     Abriu o recipiente térmico que estava sobre o escritório e serve café, embora já estava morno.

     -falei com o Wood a respeito das terras de semeia. O tem algumas ideia a respeito, que a papai não interessavam. Mas acredito que vale a pena as experimentar. Temos pouco mais de trezentas hectares dedicados à colheita fina e lhe penso dar ao Wood a responsabilidade das explorar. Se não dar resultado, má sorte, mas acredito que Mercy pode permitir o luxo de fazer alguns experimentos durante um ano ou dois. Wood quer construir um silo. Fermentaremos nossa própria alfafa.

     encolheu-se de ombros. Sabia o que algumas pessoas diriam a respeito das mudanças que pensava fazer, de seu interesse em colheitas finas e em silos, e de seus planos de lhe pedir ao Adam que aumentasse o número de cavalos. Diriam que se estava esquecendo o gado, que se esquecia do que Mercy tinha sido durante gerações.

     Mas não esquecia nada. Olhava para o futuro.

     Depositou sua taça de café sobre o escritório.

     -Em qualidade de supervisores, algum de vós dois se opõe a meus planos?

     -Diria-te que por minha parte, não. -Nate ficou de pé-. Mas recorda que não sou boiadeiro. Acredito que baixarei a ver se ficar uma parte de bolo e lhes deixarei aos dois para que discutam este assunto.

     -E? -perguntou Willa quando esteve a sós com o Ben.

     -E-repetiu ele tomando a taça que ela acabava de deixar-. Maldição, Willa, este café está frio!

     -Não te pedi sua opinião sobre o café.

     O permaneceu onde estava, apoiado contra o escritório e a olhou aos olhos.

     -De onde tira todas essas idéias?

     -Tenho um cérebro, verdade? E opiniões próprias.

     -Muito certo. Nunca te tinha ouvido falar sobre a possibilidade de trocar um só pasto deste rancho. É curioso.

     -Não tinha sentido que falasse do assunto. O não tinha interesse no que eu pensasse ou dissesse. Fiz alguns estudos -adicionou, metendo-as mãos nos bolsos-. Talvez não tenha ido à universidade, como você, mas não sou uma imbecil.

     -Nunca acreditei que fosse. E não sabia que te teria gostado de ir à universidade.

     -Não tem importância. -Com um suspiro, aproximou-se da janela e olhou para fora. Vem uma tormenta, pensou. Esses pequenos flocos de neve não eram mais que o princípio-. O que importa é agora, e amanhã e o ano que vem. O inverno é a época ideal para fazer planos. E eu penso planejar, isso é tudo. -ficou rígida quando Ben lhe apoiou as mãos sobre os ombros.

     -Tranqüila, não te vou violar. -Fez-a girar para que o olhasse-. Se te interessar, direi-te que acredito que tem razão.

     Importava-lhe, e isso já lhe resultou uma surpresa.

     -Espero que esteja no certo. estive recebendo chamadas dos abutres.

      Ben sorriu levemente.

     -Dos urbanizadores?

     -Os cretinos não perderam o tempo. Oferecem-me a lua e o sol com tal de que os atadura as terras para as dividir e criar um lugar de recreio para malditos californianos aspirantes a jeans de Hollywood. -De ter tido presas, nesse momento os da Willa resplandeceriam-. Enquanto eu esteja aqui, nunca porão seus gordos dedos sobre um só metro quadrado do Mercy.

     Em um gesto automático, ele começou a lhe acariciar os ombros.

     -E os mandou a mierda, verdade querida?

     -Um deles me telefonou a semana passada. Disse-me que o chamasse Arme. Respondi-lhe que o faria esfolar e atirar como comida para os coiotes se chegava a pôr seus pés em minhas terras. -Sorriu-. Não acredito que me aproxime.

     -Assim eu gosto!

     -Sim. Mas houve outros dois. -De novo se voltou a olhar a neve e a terra e as montanhas-. Não acredito que elas compreendam ainda a quantidade de dinheiro envolta, o que esses imbecis estariam dispostos a pagar por apoderar-se de um rancho como este. Mas cedo ou tarde Hollywood imaginará. E então estaremos dois a uma, Ben.

     -O testamento exige que durante dez anos a terra não se enfaixa a estranhos.

     -Já sei o que diz o testamento. Mas as coisas trocam. E com suficiente dinheiro e suficiente pressão, podem trocar ainda mais rápido. -«E em definitiva, dez anos não são nada», pensou Willa. Sobre tudo para seu plano de converter ao Mercy não em um dos melhores ranchos a não ser no melhor-. Quando se tiver completo o ano, eu poderia comprar sua parte. Entretanto, calculei-o que todas as maneiras possíveis e me dei conta de que não poderei. É obvio que há dinheiro, mas está quase tudo investido na terra e no gado. Quando se tiver completo o ano serão proprietárias de duas partes e eu sozinho de uma.

     -Não tem sentido que se preocupe pelo que não pode modificar, nem pelo que talvez não aconteça. -Passou-lhe a mão pelo cabelo uma vez, logo outra-. Talvez o que te faça falta é uma distração, embora seja uma pequena distração.

     Voltou-a de novo, logo meneou a cabeça.

     -Nada de acanhamentos! Do outro dia estive pensando muito nisto. -Roçou-lhe os lábios com os seus, com muita doçura-. Vê? Nem sequer te doeu.

     A Willa vibravam os lábios, mas não podia dizer que fora doloroso.

     -Não quero que voltemos a começar. Estão acontecendo muitas coisas para que eu me distraia.

     -Querida. -Ben se inclinou e voltou a beijá-la com suavidade-. É justamente quando mais o necessita. E estou disposto a apostar que isto nos faz muito bem aos dois.

     Seguiu olhando-a fixamente, abraçou-a, aproximou-a de seu corpo e apoiou seus lábios sobre os dela.

     -Já me está dando resultado -murmurou. E logo, com a rapidez do raio, intensificou o beijo.

     A surpresa, o paixão e o desejo se fundiram para girar na mente da Willa, para bulir em todo seu corpo. E quando as sensações fizeram presa dela, esqueceu-se de suas preocupações, de seu cansaço e de seus medos. Era fácil apoiar-se nele, aproximar-se o e permitir que todo o resto desaparecesse.

     E difícil, muito mais difícil do que supunha, resultou-lhe tornar-se atrás e recordar.

     -Talvez eu também o tenha estado pensando. -Levantou uma mão para manter a distância que os separava-. Mas ainda não terminei que pensar no assunto.

     Os cavaleiros que chegavam a toda velocidade atraíram a atenção do Ben. Com uma mão apoiada sobre o ombro da Willa, aproximou-se da janela.

     -Acaba de chegar Adam com suas irmãs.

     Ela os viu e intuiu:

     -Algo anda mau. aconteceu algo.

     O notou a forma em que Adam ajudava a desmontar ao Lily e logo a sustentava contra seu corpo.

     -Sim, aconteceu algo -confirmou-. Baixemos a ver o que é.

     Estavam a metade da escada quando a porta de entrada se abriu de um puxão. Tess foi primeira em entrar. O frio lhe coloria as bochechas, mas tinha os olhos enormes, os lábios muito brancos.

     -Era uma cierva -disse-. Nada mais que uma cierva. A mãe do Bambi -conseguiu articular enquanto lhe deslizava uma lágrima pela bochecha. Nesse momento Nate saiu da cozinha-. Por amor de Deus! por que lhe vai fazer alguém isso à mãe do Bambi?

     -Sshhh. -Nate lhe aconteceu os braços sobre os ombros-. Vêem te sentar, querida.

     -Entremos com o Tess, Lily.

     Ela meneou a cabeça e seguiu obstinada à mão do Adam.

     -Não, estou bem. Sério, estou bem. irei preparar um pouco de chá. Seria melhor que tomássemos um pouco de chá. me desculpem uns minutos.

     -Adam -disse Willa enquanto olhava ao Lily desaparecendo na cozinha-. Que demônios aconteceu? Matou um antílope durante o rodeio?

     -Não, mas alguém o tinha feito. -Enojado, tirou-se o casaco e o jogou sobre uma poltrona-. Deixaram-no ali, feito pedaços. Não o fizeram por caçar, nem sequer para obter um troféu, a não ser solo pelo prazer de matar. Os lobos já estavam ali. -passou-se as mãos pela cara-. Disparei para afugentá-los e ver melhor o acontecido, mas Lily e Tess se aproximaram. Eu queria que voltassem para casa.

     -irei procurar meu casaco.

     Mas antes de que Willa chegasse a dá-la volta, Adam a deteve.

     -Não tem sentido. Já não deve ficar muito desse pobre animal, e eu vi mais que suficiente. Tinham-lhe disparado na cabeça. Depois o abriram, esparramaram suas vísceras, esfaquearam-no, mutilaram-no e o deixaram ali. que o fez lhe cortou a cauda. Suponho que por esta vez isso lhe terá resultado um troféu suficiente.

     -Então foi quão mesmo os outros.

     -Igual aos outros.

     -Crie que lhe poderíamos seguir a pista? -perguntou Ben.

     -Desde que o fez, faz mais ou menos um dia, esteve nevando. E nevará mais. Talvez se eu tivesse podido sair para buscá-lo assim que o encontramos, teria tido sorte. -Adam se encolheu de ombros em um gesto de frustração e de uma vez de aceitação-. Mas não podia segui-lo e deixar que elas dois voltassem sozinhas a casa.

     -De todos os modos eu gostaria que jogássemos uma olhada. -Ben já agarrava seu chapéu-. Lhe peça ao Nate que leve ao Shelly a casa em seu jipe, Willa.

     -Eu irei com vós.

     -Não tem sentido que o faça, e sabe. -Ben tomou pelos ombros-. Não tem nenhum sentido.

     -Mas de todos os modos irei. vou procurar meu casaco.

    

     A neve caía a torrentes, branca, selvagem e malvada. Ao obscurecer, já não se via nada das janelas, além dos espessos flocos que erigiam uma parede entre o vidro e o resto do mundo.

     Lily olhou fixamente o vidro, tratou de ver algo através dele, enquanto que o calor das chamas da chaminé lhe esquentavam as costas e a preocupação lhe carcomia os nervos.

     -Quer te sentar? -perguntou Tess e odiou o tom nervoso e quase histérico de sua voz-. Nós não podemos fazer nada.

     -Mas faz muito que se foram.

     Tess sabia quanto tempo fazia que saíram. Exatamente noventa e oito minutos.

     -Como te acabo de dizer, não podemos fazer nada.

     -Faria-te bem um pouco mais de chá. Este está frio.

     No momento em que Lily se voltava para tomar a bandeja, Tess ficou de pé de um salto.

     -Quer ficar aquieta? Não siga me servindo, nos servindo a todos! Nesta casa não é uma faxineira. Por amor de Deus, sente-se!

     estremeceu-se, apertou as mãos sobre seus olhos e respirou fundo, muito fundo.

     -Sinto muito -murmurou enquanto Lily permanecia onde estava, as mãos entrelaçadas, os olhos inexpressivos-. Não tenho direito a te gritar. Nunca vi nada como isso! Nunca vi nada como isso!

     -Está bem. -A empatia afrouxou a tensão de seus dedos-. Foi horrível. Sei. Horrível.

     sentaram-se uma em cada extremo do comprido poltrona de couro e permaneceram em silêncio não menos de trinta segundos enquanto selvagens rajadas de vento açoitavam os vidros das janelas. Tess descobriu que estava contendo uma necessidade doentia de rir.

     -Que demônios! -Soprou com força, e repetiu-: Que demônios! No que nos colocamos aqui, Lily?

     -Não sei. -O vento lançou um uivo diabólico pelo cano da chaminé-. Está assustada?

     -É obvio que estou assustada! Você não?

     Com expressão muito séria, Lily franziu os lábios enquanto o considerava. Levantou um dedo com o que se esfregou o lábio inferior. Sabia que cada vez que tinha medo lhe tremiam os dedos.

     -Não acredito que tenha medo. E em realidade não o entendo, mas não tenho medo, pelo menos no sentido em que deveria o ter. Solo o lamento e estou triste. E preocupada -adicionou enquanto seus olhos voltavam a cravar-se na janela e se riscava uma imagem mental de três cavaleiros perdidos em um redemoinho de brancura-. Estou preocupada com o Adam, pela Willa e pelo Ben.

     -Eles devem estar bem. Vivem aqui.

     Com os nervos de ponta, Tess ficou de pé e começou a passear-se pela habitação. O rangido agudo de um lenho da chaminé a fez saltar. Lançou uma maldição.

     -Eles sabem o que fazem -assegurou. E se não sabem eles, pensou, quem mierda vai ou seja?-. Talvez esse seja o motivo pelo que estou tão assustada neste momento. Não sei que diabos estou fazendo. E sempre sei. É uma de minhas maiores virtudes. Proponho-me uma meta, descida a maneira de chegar a ela, dou os passos necessários. Mas esta vez não sei o que estou fazendo.

     voltou-se e olhou ao Lily com expressão pensativa.

     -Em troca você sim. Você sabe o que faz com suas bandejas de chá, e quando prepara sopa e acende o fogo.

     Lily meneou a cabeça e se obrigou a manter o olhar se separada da janela.

     -Essas não são coisas importantes.

     -Talvez o sejam -disse Tess com suavidade e em seguida ficou tensa ao ver um brilho de luzes por entre a cortina de neve-. chegou alguém.

     Posto que uma vez mais não sabia o que fazer (fugir, ocultar-se?), Tess se voltou com deliberação e se dirigiu ao vestíbulo de entrada e abriu a porta do frente. Instantes depois apareceu Nate, talher de neve.

     -Entra, nem sequer apareça -ordenou empurrando-a para tirá-la do caminho enquanto fechava a porta a suas costas-. Já tornaram?

     -Não. Lily e eu... -assinalou a sala de estar-. E o que faz você aqui?

     -É uma tormenta muito crua. Consegui levar de volta ao Shelly e a sua filhinha, mas logo que pude voltar. -tirou-se o chapéu e lhe sacudiu a neve que o cobria-. Já faz duas horas que se foram. Darei-lhes uns minutos mais e logo sairei para buscá-los.

     -Pensa voltar a sair? Com essa tormenta? -Jamais tinha conhecido uma tempestade de neve, mas estava segura de estar vivendo uma nesse momento. E as tempestades de neve matavam-. Está louco?

     O simplesmente lhe aplaudiu o ombro com ar ausente... um homem que sem dúvida estava pensando em outra coisa.

     -Têm um pouco de café quente? Faria-me bem uma taça. E um recipiente térmico para levá-lo comigo.

     -Não sairá com uma tormenta como esta! -Em um gesto que no momento de fazê-lo ela mesma soube que era tolo, interpôs-se entre o Nate e a porta-. Ninguém vai sair com esta tormenta.

     Nate sorriu e lhe aconteceu a ponta de um dedo pela bochecha. Não considerava que o gesto do Tess fora parvo a não ser doce.

     -Está preocupada comigo?

     Aterrorizada teria sido um término mais exato, mas o pensaria depois.

     -Congelamento, hipotermia. Morte -pronunciou as palavras como chicotadas-. Preocuparia-me com qualquer que não tivesse o sentido comum necessário para ficar dentro com uma tormenta como esta.

     -Três de meus amigos estão lá fora, em meio dessa tormenta -disse-o em voz baixa mas com uma decisão inamovible-. O café seria de grande ajuda, Bess. Negro e bem quente. -Mas antes de que Bess pudesse responder, Nate elevou uma mão e inclinou a cabeça-. Ali estão. Devem ser eles.

     -Eu não ouvi nada.

     -chegaram -assegurou Nate com simplicidade. ficou o chapéu e saiu a recebê-los.

    

     Tinha razão, motivo pelo que Tess decidiu que Nate tinha agudos ouvidos como os de um gato. Saíram do vento lhe ululem talheres de neve. Reunidos na sala de estar, enquanto bebiam o café que Bess não demorou para preparar, mostraram-se frustrados.

      -Havia tanta neve que não se via nada. -Ben se afundou em uma poltrona, enquanto Adam se sentava de pernas cruzadas diante do fogo-. Chegamos até ali. Mas já havia como cinco centímetros mais de neve. Nenhuma possibilidade de seguir um rastro.

     -Mas puderam ver... -disse Tess, instalada sobre o braço de uma poltrona-. Viram o que havia ali.

     -Sim. -depois de dirigir um rápido olhar ao Adam, Willa se encolheu de ombros, não lhe pareceu que tivesse sentido adicionar que haviam tornado os lobos-. Pela manhã falarei com os peões a respeito disto. Neste momento têm bastante que fazer.

     -Bastante que fazer neste momento? -perguntou Tess.

     -Estão no campo, dando um rodeio para pôr os animais a resguardo. Encontrarei ao Ham.

     -Esperem. -Convencida de ser a única pessoa sensata do grupo, Tess elevou uma mão-. Pensa voltar a sair com esta tormenta? Por umas vacas?

     -Morreriam com esta tormenta -respondeu Willa sem vacilar.

     Enquanto Tess os olhava assombrada, todos, menos ela e Lily se voltaram a abrigar e saíram. Meneando a cabeça, Tess se serve uma taça de conhaque.

     -Por umas vacas! -murmurou-. Por um grupo de vacas estúpidas!

     -Quando voltarem terão fome. -Esta vez Lily não tentou olhar pela janela, nem escutou com atenção para ver se ouvia o motor de um jipe-. irei ajudar ao Bess a preparar a comida.

     «Tenho duas opções -pensou Tess-: me irritar ou me resignar.» Decidiu que resignar-se afetaria menos seu sistema nervoso.

     -Não penso ficar aqui, sozinha. -Mas se levou consigo a taça de conhaque e alcançou ao Lily-. No este há tormentas como esta? -perguntou.

     Distraída, Lily meneou a cabeça.

     -Na Virginia temos nossa cota de neve, mas nunca vi nada parecido a isto. Chega com tanta rapidez, com tanto vento! Não imagino o que deve ser estar fora com esta neve, ter que trabalhar com este clima. Suponho que Nate ficará a passar a noite, não crie? Terei que lhe perguntar ao Bess se houver um quarto preparado.

     Abriu a porta da cozinha e se encontrou com o Bess já frente à cozinha aos cuidados de uma panela enorme que despedia um aroma delicioso.

     -Guisado -anunciou Bess, provando-o com uma colher de madeira-. preparei bastante para um exército. Mas ainda necessita uma hora ou duas de cocção para que esteja a ponto.

     -tornaram a sair.

     De forma automática, Lily se encaminhou à despensa e desprendeu um avental de cozinha. Tess elevou uma sobrancelha ao ver a naturalidade com que o fez. Já se converteu em uma rotina, compreendeu.

     -Imaginei-me isso -disse Bess-. vou preparar um bolo de maçãs. -Olhou ao Tess e olisqueó o conhaque que tinha na mão-. Tem vontades de ser útil?

     -Não de maneira especial.

     -As lenheiras estão quase vazias -informou-lhe Bess enquanto tirava da despensa uma cesta cheia de maçãs-. Os homens não têm tempo de entrar combustível.

     Tess fez girar o conhaque de sua taça.

     -Pretende que eu saia a entrar lenha?

     -Se se apagar o motor, moça, quererá ter o traseiro quente, quão mesmo o resto de nós.

     -O motor. -Ante a possibilidade de que se apagasse o motor, de congelar-se, de ficar toda a noite na escuridão, Tess empalideceu.

     -Temos um gerador. -Bess começou a cortar maçãs-. Mas não podemos gastá-lo em esquentar os dormitórios quando não têm bastante combustível. Se quer dormir abrigada, entra! lenha. Você poderia lhe dar uma mão, Lily. Ela tem mais necessidade de: ajuda que eu. Há uma soga que leva da porta até a pilha de lenha. Sigam a soga e vão entrando os lenhos à mão. Não poderão empurrar o carrinho de mão pela neve, e não tem sentido limpar o atalho até que deixe de nevar. lhes abrigue bem e levem uma lanterna.

     -Está bem. -Lily olhou a expressão de irritação do Tess-. Posso-a entrar eu sozinha. por que não espera dentro e vai subindo a lenha aos dormitórios?

     Era tentador. Muito tentador. Até nesse momento Tess alcançava para ouvir o gélido uivo do vento que ameaçava as janelas da cozinha. Mas a expressão zombadora do Bess a decidiu a fazer a um lado a taça de conhaque.

     -Entraremos lenha as duas.

     -Não com essas luvas de senhora elegante -gritou Bess ao as ver sair-. depois de lhes abrigar bem, ides procurar umas luvas de trabalho à oficina.

      -Transportando lenha -murmurou Tess enquanto se dirigia ao vestíbulo-. É provável que dentro já haja bastante para uma semana. Bess faz isto para me chatear.

     -Não nos pediria que saíssemos se não fora necessário.

     Tess ficou o casaco e logo se encolheu de ombros.

     -Não lhe pediria isso a ti-decidiu, logo se sentou na base da escada para ficá-las botas-. Vocês dois parecem muito amigas.

     -Considero-a uma grande mulher. -Lily se rodeou o pescoço duas vezes com o cachecol tecido antes de abotoar o casaco cobrindo-a-. foi muito boa comigo. E também seria boa contigo se você não...

     Enquanto embainhava a cabeça dentro de uma boina de esqui, Tess assentiu.

     -Não, não tenha medo de ferir meus sentimentos. Se eu o que?

     -Bom, é sozinho que é um pouco brusca com ela. Abrupta.

     -Talvez não o seria se não andasse sempre me encarregando algum trabalho idiota, para logo protestar dizendo que não o cumpri de acordo com suas instruções. Congelarei-me entrando essa maldita lenha e verá que dirá que não a amontoei como é devido. Já o verá.

     Suscetível, encaminhou-se de novo ao vestíbulo, cruzou a cozinha sem pronunciar palavra e entrou em oficina em busca de um par de grossas luvas de trabalho que ficavam grandes.

     -Lista? -Lily agarrou uma lanterna e se preparou para seguir ao Tess.

     Assim que Tess abriu a porta, o vento lhes arrojou neve e gelo à cara. olharam-se com os olhos muito abertos e foi Lily quem se adiantou primeiro para o açoite do vento.

     Aferraram a soga e se empurraram para diante, enquanto o vento as fazia retroceder um passo cada três que davam. As botas lhes afundavam até os joelhos na neve, e a luz da lanterna subia e descia na escuridão como um feixe de lua bêbado. Tess apertou os dentes.

     -O inferno não tem nada que ver com o fogo -gritou-. O inferno é o inverno de Montana.

     Lily sorriu apenas e começou a enchê-los braços de lenha.

     -Uma vez que estejamos dentro e bem quentes, com as chaminés acesas, olharemos para fora e nos parecerá bonito.

     -Mentira! -murmurou Tess enquanto lutavam por voltar para a casa com o primeiro carregamento de lenha-. Não morre de vontades de estar em uma cama quente?

     Lily olhou para a cozinha e logo se voltou a contemplar a tormenta.

     -Sim, eu adoraria.

     -Sim. -Tess suspirou e moveu os ombros-. A mim também. Vamos, à tarefa.

     Repetiram três vezes a rotina e Tess começou a desfrutá-lo. Até que perdeu pé e caiu na neve. Com o golpe a lanterna se enterrou.

     -Está bem? Tem-te feito mal?

     Em sua pressa por ajudá-la, Lily se inclinou, perdeu o equilíbrio e caiu de culo com força na neve. Sem fôlego, permaneceu onde estava, afundada até a cintura enquanto Tess rodava sobre si mesmo e cuspia neve.

     -Mierda! Mierda! Mierda! -Enquanto lutava por ficar de pé, Tess entrecerró os olhos para ouvir a risada do Lily-. O que te resulta tão gracioso? Em qualquer momento ficaremos enterradas nesta porcaria de neve e não nos encontrarão até o degelo da primavera. -Mas ela mesma logo que conseguia conter a risada ao ver o Lily sentada em um profundo trono de neve como se fora uma rainha da neve em miniatura-. E parece uma idiota.

     -Você também. -Lançando uma gargalhada, Lily se levou uma mão enluvada ao peito-. E além disso tem barba.

     Com gesto filosófico, Tess se limpou a neve que lhe cobria o queixo e a jogou na cara do Lily. Foi tudo o que necessitaram. Apesar da força do vento, fizeram bolas de neve com as que se atacaram. Rendo a gargalhadas, iniciaram a luta. Estavam sozinho a trinta centímetros uma da outra, de maneira que a pontaria não era problema. Enquanto a neve lhe açoitava a cara e lhe corria sob o pescoço do casaco, Tess teve que admitir que nisso Lily ganhava. Talvez seu aspecto fora delicado, mas seus braços eram como balas.

     Só existia uma maneira de igualar os tantos.

     Tess lhe atirou em cima e lhe agarrou ambas as pernas, fazendo que ambas caíssem e rodassem pela neve. Rendo como hienas, brancas como bonecos de neve, tenderam-se de costas para recuperar o fôlego. Os flocos caíam sobre elas, grandes e pesados.

     -Quando era uma menina, nós gostávamos de fazer anjos de neve -disse Lily e, para demonstrar o significado de suas palavras, estendeu os braços e as pernas sobre a neve-. E uma vez nevou tanto que durante dois dias não pudemos ir ao colégio. Construímos um forte de neve e um exército de soldados de neve. Minha mãe saiu de casa para fotografá-los.

      Tess piscou olhando para cima e tratou de ver o céu negro através da cortina branca.

     -A única vez que fui esquiar, decidi que a neve e eu não fomos compatíveis. -Imitou os movimentos do Lily-. Em realidade suponho que não é tão malote como eu acreditava.

     -É uma maravilha! -Depois riu-. Estou-me congelando.

     -Convidarei a um enorme tigela de café enfeitado com conhaque.

     -Aceito!

     Ainda sorridente, Lily se sentou. Então lhe subiu o coração à boca, lhe impedindo de gritar. Fechou uma mão sobre a do Tess enquanto a sombra se movia, convertia-se em um homem. aproximava-se.

     -cansado-se as duas?

     Tess voltou a cabeça com rapidez enquanto o coração lhe galopava dentro do peito. «Estamos sozinhas -pensou presa do pânico-, muito longe da casa para que nos ouçam gritar em meio deste vento.» A lembrança do veado morto a petrificou. «A lanterna», pensou, enquanto olhava com desespero a direita e esquerda. O homem tinha um com um feixe de luz o suficientemente forte para as cegar enquanto o conservava nas sombras, uma mera silhueta. Tinha vontades de sair correndo, ordenou-se que devia correr e arrastar consigo ao Lily, mas não conseguia mover-se.

     -Não deveriam estar fora na escuridão -disse o homem, aproximando-se mais.

     Nesse momento Tess se moveu, o instinto de sobrevivência surgiu nela, livre como o gato que escapa de uma jaula. ficou de pé de um salto, agarrou um lenho da pilha e se preparou a golpear.

     -Não se aproxime! -Apesar de que lhe tremiam as mãos repartiu a ordem com voz forte e firme-. Te levante, Lily. te levante, maldita seja!

     -Perdão, não quis as assustar. -Moveu a lanterna para que o feixe de luz iluminasse a neve-. Sou Wood, senhorita Tess. Billy e eu acabamos de chegar e minha esposa pensou que talvez vocês necessitassem que alguém as ajudasse por aqui.

     Fala com tom tranqüilo, nada ameaçador e até um pouco divertido, pensou Tess. Mas estavam sozinhas, indefesas e ele era um homem forte cujo rosto ainda mantinha nas sombras. «Não devo confiar em ninguém», decidiu, e aferrou o lenho com mais força.

     -Estamos perfeitamente. Lily, vê dentro e lhe diga ao Bess que Wood está aqui. Diga-lhe vaiou e Lily por fim ficou em movimento.

     -Não é necessário incomodar ao Bess. -Wood iluminou a pilha de lenha e logo o atalho pisoteado que levava a casa-. Minha esposa me está preparando o jantar, mas enquanto isso posso lhes entrar um pouco de lenha. Não acredito que o motor siga trabalhando muito tempo mais.

     Já completamente a sós com o Wood, Tess rezou pedindo que Lily estivesse dentro e alertando ao Bess. O medo lhe subia pela coluna vertebral. Retrocedeu um passo, logo outro.

     -Já entramos um pouco de lenha.

     -Nunca sobra em uma tormenta como esta. -Tendeu-lhe a lanterna e ela pegou um salto, convencida de que se tratava de uma faca-. Será melhor que você sustente a lanterna -adicionou Wood com suavidade-. Eu carregarei a lenha.

     Ainda preparada para sair correndo. Tess estirou a mão e agarrou a lanterna. Wood se inclinou para a lenha no momento em que Lily retornava correndo.

     -Bess está preparando café. -Sua voz subia e baixava como um arpejo-. Diz que se Wood quiser uma taça, há mais que suficiente.

     -Bom, o agradeço muito -respondeu ele enquanto seguia colocando lenhos em um braço dobrado-. Mas em casa me darão café. Vocês entrem. Iluminem o caminho com a lanterna. Eu o conheço de cor e não necessito luz.

     -Sim, entremos. Entremos na casa, Tess. -Tremente, Lily tironeó o braço do Tess-. Obrigado, Wood.

     -De nada -murmurou ele meneando a cabeça enquanto se afastavam-. Mulheres! -disse em voz baixa.

     -Tive tanto medo! -confessou Lily. Assim que entraram na casa lhe arrojou os braços ao pescoço ao Tess-. Você foi muito valente.

     -Não fui valente. Estava aterrorizada. -Então, ao dar-se conta da situação, aferrou o braço do Lily e começou a tremer com violência-. Como é possível que nos tenhamos esquecido? Como pudemos nos pôr a jogar lá fora como um par de idiotas depois de tudo o que aconteceu? Deus! Deus, poderia ser qualquer. por que demoramos tanto em nos dar conta disso? -Retrocedeu e olhou ao Lily aos olhos-. Pode ser qualquer.

     -Adam não. -depois de tirá-los luvas, Lily se esfregou as mãos transidas-. O seria incapaz de machucar a ninguém, ou a nada. E estava conosco hoje quando... quando o encontramos.

     Tess abriu a boca e a voltou a fechar. Que sentido tinha especular sobre a possibilidade de que Adam tivesse saído antes do amanhecer para fazer o que encontraram, e que depois as levasse para ali, para que vissem o que queria que vissem?

      -Não sei, Lily. Simplesmente não sei. Mas se formos ficar aqui e viver este inverno, será melhor que comecemos a pensar e que comecemos a vigiar nossas costas. -tirou-se o casaco e o chapéu-. Não posso imaginar ao Adam fazendo isso. Nem ao Ben. Ou ao Nate. Diabos! Não posso imaginar a ninguém fazendo-o, e nisso estriba o problema. Temos que começar a imaginar.

     -Aqui estamos a salvo. -Lily lhe deu as costas e pendurou seu casaco com cuidado-. Estamos a salvo. Faz muito tempo que não me sentia a salvo e não vou permitir que ninguém me arruíne isso.

     -Lily -disse Tess, apoiando uma mão sobre o ombro de sua irmã-. Estar a salvo significa tomar cuidado. As duas procuramos algo neste lugar -continuou dizendo quando Lily se voltou a olhá-la-. E o queremos até o ponto de nos arriscar a permanecer aqui. Tal como eu o vejo, devemos nos cuidar uma à outra. Se chegar a ver algo estranho, direi-lhe isso e você fará o mesmo comigo. Algo que a uma pareça que não está bem, qualquer que não atue como corresponde. De acordo?

     -Sim, direi-lhe isso. E também o direi a Willa. -Meneou a cabeça antes de que Tess pudesse protestar-. Merece-o, Tess. Ela arrisca tanto como nós. Diria-te que arrisca mais que nós.

     Exatamente, pensou Tess. Depois se encolheu de ombros.

     -Está bem, faremo-lo como você diz. Ao menos no momento. E agora quero esse café.

    

     Beberam café. E esperaram. Comeram guisado. E esperaram.

     O vento uivava e açoitava as janelas, o fogo chispava na chaminé e o relógio de pé do estudo ia marcando as horas que transcorriam.

     Quando Willa entrou já era mais de meia-noite, e entrou sozinha.

     Tess deixou de passear-se pela sala de estar e a estudou. O rosto de seu meio irmana estava branco pela extenuação, e os olhos escuros e exóticos marcados por grandes olheiras. encaminhou-se diretamente para a chaminé deixando detrás de si um rastro de água e de neve sobre os deliciosos tapetes e o estou acostumado a encerado.

     -Onde estão outros? -perguntou Tess.

     -Tiveram que voltar. Têm suas próprias preocupações.

     Tess assentiu e se aproximou do botellón de uísque para servir em um copo uma dose generosa. Tivesse preferido ter ao Ben e ao Nate em casa, mas estava aprendendo que Montana estava cheia de pequenas desilusões. Alcançou- o copo a Willa.

     -O gado está a talher para passar a noite?

     Sem incomodar-se em responder, Will bebeu um grande gole de uísque e logo se estremeceu com violência.

     -Prepararei-te um banho quente.

     Muito cansada para compreender nada, Willa olhou ao Lily.

     -O que?

     -Te vou preparar um banho quente. Está congelada e extenuada. Além disso, deve estar esfomeada. Há guiso na panela. Tess, serve um prato a Willa.

     A Willa apenas ficava a energia suficiente para sentir-se divertida. Desconcertada e sorridente, olhou sair ao Lily.

     -Me vai preparar um banho. Não te parece incrível?

     -É nossa perita doméstica residente. De todos os modos, viria-te bem um banho. Cheira.

     Willa olisqueó e fez um gesto de desagrado.

     -Suponho que sim. -Como o primeiro gole de uísque a tinha feito sentir um leve enjôo, fez a um lado o copo-. Estou muito cansada para comer.

     -Mas te faz falta comer algo. Poderia fazê-lo enquanto te banha.

     -Na banheira? Comer na banheira?

     -E por que não?

     Willa a olhou com assombro.

     -Sim, por que não? -disse e subiu a escada com esforço, disposta a despir-se.

     Lily tinha a banheira cheia de água quente e coberta de espuma. Nua, Willa ficou olhando durante alguns instantes. Um banho de espuma, pensou. Não recordava a última vez que tinha podido dar um banho assim. A grande banheira tinta foi uma das indulgências de seu pai e ela estranha vez a usava. E só quando ele não estava no rancho.

     Agora já não está no rancho, recordou-se. morreu.

     Colocou uma perna na banheira e vaiou quando a água quente entrou em contato com a pele geada. Depois lançou um enorme suspiro e se afundou na água até o queixo.

     jazeu-se a mente de neve, de vento, da tremenda escuridão, da luta brutal para conseguir fazer um rodeio do gado. Sem dúvida deviam ter salteado alguns animais e perderiam outros. Era inevitável. A tormenta se formou com muita rapidez e com tanta brutalidade que foi impossível impedi-lo. Mas fizeram tudo o que puderam.

     Seus músculos uivaram quando jogou atrás a cabeça e fechou os olhos. Não posso pensar, compreendeu ao notar que o cérebro lhe funcionava por momentos e por momentos deixava de funcionar. «Tenha que pensar. Quero pensar.>' Todo movimento, toda tarefa, toda decisão que se tomasse pela manhã, seria instintiva. Sabia o que terei que fazer. Não era sua primeira tormenta de neve. Nem seria a última.

      Mas assassinato.., assassinato e mutilações.

     O que fazer?

     -Se ficar dormida ali dentro te afogará -disse Tess da porta.

     Willa se sentou com o sobrecenho franzido. Não era particularmente pudica. Franzia o sobrecenho pela intromissão, apesar de que o aroma do guisado lhe parecia celestial.

     -Alguma vez te ocorre chamar antes de entrar?

     -Deixou a porta entreabierta, campeã. -Bastante divertida por seu papel de servidora, Tess colocou a bandeja em forma transversal sobre os borde da banheira-. Quero falar contigo.

     Willa só suspirou. ergueu-se o' suficiente para poder comer, colocou a colher no guisado enquanto as borbulhas exploravam sobre seus peitos.

     Tess se instalou no largo bordo da banheira. Vá banho! pensou. Era tão elegante como a fantasia de qualquer estrela de cinema, com seus azulejos de tons rubi, safira e branca, sua selva de samambaias em recipientes de cobre e de bronze. A ducha estava separada em um receptáculo formado por vidros e tinha meia dúzia de duchas colocadas a diferentes alturas e ângulos. E a banheira onde se banhava Willa era o bastante grande como para uma pequena orgia de bom gosto.

     Distraída, Tess colocou uma mão na espuma e a cheirou.

     -Devem ser do Lily.

     -Quer que falemos sobre banhos de espuma? -Willa se ia erguendo mais à medida que aumentava seu entusiasmo pela comida. Tivesse sido capaz de comer uma tonelada desse guisado.

     -Deixaremos para depois os temas femininos. -Tess voltou a cabeça quando Lily apareceu na soleira, com o olhar modestamente fixo uns centímetros por cima da cabeça da Willa-. Trouxe-te a bata, para quando terminar. Deixarei-lhe isso aqui, pendurada na porta.

     -Passa e sente-se -convidou-a Willa com um movimento da mão-. Tess quer falar. -Ao ver que Lily vacilava, Willa levantou os olhos ao céu-. Aqui todas temos tetas, Lily.

     -E de todos os modos, as dela apenas lhe notam -adicionou Tess com um sorriso-. Sente-se -ordenou-. Você foi a que quis colocá-la a ela em tudo isto.

     -No que? -perguntou Willa com a boca enche.

     -Digamos simplesmente que Lily e eu estamos um pouco nervosas. Está de acordo com isso, Lily?

     Ruborizada, Lily baixou a tampa do inodoro e se sentou.

     -Sim.

     A pesar do calor da água, Willa sentiu que lhe congelava a pele.

     -Estão pensando em ir ?

     -Não somos covardes. -Tess inclinou a cabeça-. Nem tolas. As três temos o mesmo interesse em poder superar este ano. E suponho que todas temos idêntico interesse em sobreviver inteiras. Alguém, muito possivelmente alguém deste rancho é... digamos que afeto à faca. Como devemos fazer frente ao assunto?

     Na boca da Willa apareceu uma expressão de tozudez.

     -Conheço meus homens.

     -Mas nós não -assinalou Tess-. Talvez a maneira de começar seria que você nos falasse deles. Que nos dissesse o que sabe de cada um. Por atrativo que pareça, as três não podemos ir ligadas as vinte e quatro horas do dia durante os próximos nove ou dez meses.

     -Tem razão.

     Ante a rápida aceitação da Willa, Tess ficou com a boca: aberta.

     -Bom, bom! Devo marcar este dia em meu calendário! Willa Mercy está de acordo comigo.

     -Sigo sem te poder tolerar. -Willa apurou o resto do guisado que ficava no prato antes de seguir falando-. Mas estou de acordo contigo. Se queremos seguir adiante com isto, as três devemos cooperar. Até que a polícia, ou nós, descubra quem matou ao Pickles, não acredito que nenhuma de vocês dois deva sair sozinha.

     -Eu sei me defender. recebi classes.

     O anúncio do Tess arrancou um bufido da Willa.

     -Em dez segundos te poderia pôr de costas ao chão. E vendo as estrelas. Mas esse é outro cantar. -Tinha vontades de fumar um cigarro e se prometeu que muito em breve se daria o gosto-. Diria que é impossível que Lily e eu nos atemos pela cintura.

     -Eu estou quase todo o dia com o Adam. Trabalhando com os cavalos.

     Willa assentiu e se voltou a afundar na água.

     -Podem confiar no Adam. E no Bess. E no Ham.

     -por que Ham? -quis saber Tess.

     -Ham me criou -explicou Willa com tom cortante-. De todos os modos, durante um tempo o clima lhes vai manter dentro da casa.

     -E o que me diz de ti? -perguntou Lily.

     -Eu me preocuparei comigo mesma. -Willa se inundou, manteve a cabeça balo a água contendo o fôlego e ao voltar a sair, de novo se sentia quase humana-. Não tenho a vantagem de ter seguido os cursos de autodefesa de Hollywood, mas conheço os homens e conheço o terreno. Se alguma de vocês duas está nervosa, pode selar e sair a trabalhar comigo. E agora, a menos que alguém queira me lavar as costas, eu gostaria de ter um pouco de intimidade.

     Tess ficou de pé e em seguida, como se lhe acabasse de ocorrer, inclinou-se a tomar a bandeja.

     -Ser petulante não é muita amparo contra uma faca.

     -Mas um Winchester, sim. -E, satisfeita com isso, Willa agarrou o sabão.

    

     Dormiu mau. A extenuação, por capitalista que fora, não lhe impedia de ter pesadelos. Willa se movia inquieta e se voltava na cama, lutando por dormir enquanto por sua cabeça passavam imagens de sangue e de facas.

     Quando a leve luz do inverno penetrou por entre o muro de neve que caía incessante, estremeceu-se e desejou que houvesse algo, alguém, em quem pudesse apoiar-se. Solo por um ratito.

 

     Outra pessoa despertou a essa luz débil com idênticas imagens correndo como um rio por sua cabeça. Mas o fizeram sorrir.

    

     Do jornal do Tess:

     Começa-me a gostar da neve. Ou talvez me esteja voltando louca. Cada manhã, ao olhar pela janela de meu dormitório, ali está, branca e brilhante. Quilômetros de neve. Não posso dizer que eu goste do frio. Ou o maldito vento. Mas a neve, sobre tudo quando estou dentro e Miro para fora, tem certo atrativo. Ou talvez eu esteja começando a me sentir a salvo de novo.

     Falta uma semana para Natal e não aconteceu nada que interrompa a rotina. Nenhum homem assassinado, nenhum animal esquartejado. Solo o silêncio espectral dos dias talheres de neve. Talvez depois de todo a polícia tenha razão e o que matou a esse pobre velho calvo tenha sido um psicótico que passava por aqui. Quão único podemos fazer é nos aferrar a essa esperança.

     Lily desfruta de do espírito das festas. É uma mulher estranha e doce. Reage como uma criatura com o Natal, esconde pacotes em seu dormitório, envolve presentes, cozinha doces com o Bess. Doces maravilhosos o qual significa que terei que adicionar quinze minutos mais a minha ginástica matinal.

     Fizemos uma viagem até o Billings, um povo que não vale nada, para fazer algumas compra natalinas. O presente do Lily me resultou fácil. Encontrei um bonito passador em forma de cavalo encabritado, muito delicado e feminino. Supus que teria que lhe dar algo à amargurada do Bess e me decidi por um livro de receitas culinárias. Lily esteve de acordo, de maneira que suponho que não corro perigo de me haver equivocado. A vaqueira é outra questão. Ainda não consigo defini-la.

      Essa mulher é temerária ou tola?

     Sai todos os dias e, quase sempre, sozinha. Trabalha a arrebentar, vai todas as tardes à velha casa dos peões para conversar com eles. E quando está na casa, pelo general se enterra até os olhos em cadernos de anotação e em informe boiadeiros.

     Temo-me que começo a admirá-la e não sei se isso eu gosto. Comprei-lhe um suéter de cachemira, não sei por que. Nunca usa nada que não seja de flanela. Mas o suéter é de um vermelho brilhante, muito suave e feminino. O mais provável é que ela termine ficando o sobre os calções largos de lã para castrar animais. Ao diabo com o assunto

     Para o Adam, porque me atrai em um sentido completamente fraternal, encontrei uma formosa aquarela das montanhas. Recorda a ele.

     depois de grandes debates comigo mesma decidi que também lhes compraria um presente ao Ben e ao Nate, considerando que eles passam aqui tanto tempo. Ao Ben comprei um vídeo de Rio Vermelho, uma espécie de brincadeira que espero saiba aceitar.

     E depois de alguns dissimulados interrogatórios, descobri que Nate tem debilidade pela poesia. lhe darei um volume do Keats. Já veremos como reage.

     Entre as compras, os aromas que surgem da cozinha e as decorações, estou-me contagiando do espírito das festas. Acabo de lhe enviar uma tonelada de presentes a mamãe. Com ela não é questão de qualidade mas sim de quantidade, e sei que a fará feliz desfazer pacotes durante horas inteiras.

     O mais insólito de tudo é que a sinto falta de.

     Apesar de todo este ambiente de Papai Noel, estou inquieta. Acredito que porque devo passar muitas horas encerrada na casa. Utilizo esse tempo extra, porque aqui os dias de inverno estão cheios de tempo já que obscurece antes das cinco da tarde, para jogar com a idéia de um livro. Solo para me divertir e passar o tempo nestas noites incrivelmente largas.

     E falando de noites largas... Como tudo parece tranqüilo, penso tirar um dos jipes e ir a casa do Nate a lhe dar seu presente. Ham me deu a direção do... como chamá-lo? campo do Nate. Faz semanas que espero que convide a sua casa, e que ele dê o primeiro passo. Mas suponho que terei que ser eu a que ponha em marcha o assunto.

     Não posso decidir até que ponto devo ser sutil para conseguir levá-lo a cama, de maneira que não terei mais remedeio que interpretar de ouvido. Ao passo que anda ele, chegará a primavera antes de que nos deitemos juntos.

     Ao diabo com isso também!

 

     -Vai a alguma parte? -perguntou Willa no momento em que Tess descia pela escada.

     -Em realidade, sim -respondeu ela olhando a Willa que luzia sua habitual uniforme de camisa de flanela e jeans-. E você?

     -Eu acabo de chegar. Algumas de nós não temos tempo para nos passar uma hora inteira diante do espelho. -Willa franziu o sobrecenho-. Puseste-te um vestido.

     -Sério? -Fingindo surpresa, Tess olhou a singela saia ajustada de lã que chegava aos joelhos-. Bom, como terá acontecido isso? -encaminhou-se ao vestíbulo-. Tenho que entregar um presente de Natal. Recorda que se aproxima o Natal, verdade? Até com seu amontoado de trabalhos e de obrigações deve ter ouvido falar do Natal.

     -Sim, ouvi rumores. -Vestido atrativo, saltos altos, perfume, pensou Willa, entrecerrando os olhos-. Para quem é o presente?

     -vou visitar o Nate. -Tess se voltou para luzir sua capa-. Espero que tenha à mão alguma bebida cerimoniosa.

     -Devi imaginá-lo -murmurou Willa-. Romperá-te o pescoço caminhando até o jipe sobre o gelo com esses saltos altos.

     -Tenho um excelente equilíbrio. -Com uma saudação descuidada da mão, Tess saiu-. Não me espere levantada, hermanita.

     -Sim. Feliz equilíbrio -repetiu Willa enquanto observava ao Tess aproximar-se graciosamente ao jipe-. Espero que Nate também tenha bom equilíbrio.

     voltou-se, encaminhou-se à sala de estar e se tendeu no sofá. depois de dirigir um largo olhar ao alta árvore elaboradamente decorado que se erguia diante de uma janela, enterrou a cara no estofo de couro.

     Para ela Natal sempre foi uma época desgraçada do ano. Sua mãe morreu um mês de dezembro. Não o recordava, mas sabia e era algo que sempre empanava as festas. Deus era testemunha de que, com doces e decorados, presentes tolos e canções, Bess tentou repará-lo. Mas nunca houve uma família reunida ao redor do piano, nenhuma família sentada ao redor da árvore, abrindo presentes durante a manhã de Natal.

     Ela e Adam sempre intercambiaram seus presentes a véspera de Natal. depois de que o pai da Willa estivesse bêbado como uma Cuba e roncando em sua cama.

      Sempre havia presentes sob a árvore com seu nome neles. Bess se encarregava disso e durante anos os assinou com o nome do Jack. Mas ao fazer dezesseis anos, Willa deixou de abrir esses presentes. depois de tudo eram uma mentira e logo depois de um par de intentos infrutíferos, Bess abandonou o simulacro.

     As manhãs de Natal significavam ressacas e maus humores e, a única vez que ela teve a valentia de protestar, uma forte bofetada.

     Assim fazia muito tempo que Willa não esperava com ânsias as festas.

     E agora estava cansada, tão cansada! O inverno chegou muito logo e com um excesso de brutalidade. Tinham perdido mais ganho do que esperavam e ao Wood preocupava que não tivessem semeado bastante logo o trigo de inverno. O preço do novilho tinha cansado no mercado... não o suficiente para deixar-se levar pelo pânico, mas sim o necessário para preocupar-se.

     E descobriu que esperava, dia a dia, encontrar-se com algo ou alguém, morto de novo na porta de sua casa.

     «Não tenho com quem falar», pensou. De maneira que se guardava suas preocupações. Não queria que Lily e Tess estivessem aterrorizadas cada minuto do dia, mas tampouco podia relaxar-se e ignorar o que acontecia. assegurou-se de que ela, Adam ou Ham as vigiassem a ambas cada vez que saíam da casa.

     E agora Tess se foi em um jipe, e Willa não teve a energia nem a sabedoria necessária para detê-la.

     Chama o Nate, disse-se. te levante, chama o Nate e lhe avise que ela vai para lá. O a cuidará. Mas Willa não se moveu; era como se não pudesse mover as pernas para sentar-se. Para sentar-se e fazer frente a essa árvore alegre, lastimosamente alegre, cheio de presentes.

     -Se for dormir, seria melhor que te deitasse.

     Ouviu a voz do Ben, resignou-se a isso.

     -Não estou dormindo. Solo estou descansando um momento. Vete.

     -Não entendo; quando venho não me diz que vá. -De modo que se sentou no meio do sofá-. Está-te cansando muito, Willa. -Com uma mão lhe voltou a cara que ela mantinha enterrada no sofá. Ao ver as lágrimas que lhe corriam pelas bochechas, deixou cair a mão como se se queimou-. Está chorando!

     -Não, não estou chorando. -Humilhada, voltou a afundar a cara no couro da poltrona-. Estou cansada, isso é tudo. Mas a voz lhe quebrou e a encheu de vergonha-. Me deixe sozinha! me deixe sozinha! Estou cansada.

     -Vêem aqui, querida. -Embora tinha pouca experiência com mulheres chorosas, supôs que seria capaz de dirigir a situação. Elevou-a com a facilidade com que teria elevado a uma criatura, colocou-a sobre seus joelhos e a embalou-. O que te passa?

     -Nada. É sozinho que... Tudo -conseguiu responder Willa, deixando cair a cabeça sobre o ombro do Ben-. Não sei o que me passa. Mas não estou chorando.

     -Está bem. -Decidiu que aos dois convinha simular que não chorava, de maneira que solo a abraçou com mais força-. De todos os modos, permaneçamos um momento aqui sentados. É muito cômodo te abraçar, considerando que é uma mulher tão ossuda.

     -Ódio o Natal.

     -Não, não a odeia. -Beijou-lhe a cabeça-. Solo está extenuada. Sabe o que deveria fazer, Will? Você e suas irmãs deveriam tomar uns dias de férias e ir a um desses elegantes centros de águas termais. Deixar que lhe mimem e tomar banhos de barro.

     Willa lançou um bufido, mas se sentiu melhor.

     -Sim, claro! As garotas e eu cobertas de barro e intercambiando intrigas. Esse é justo meu estilo.

     -Melhor ainda, poderia ir comigo. Agarraríamos uma habitação que tivesse uma dessas enormes banheiras cheias de borbulhas e uma cama em forma de coração com um espelho no céu raso. Assim poderia ver o que acontecesse enquanto fizéssemos o amor. Dessa maneira aprenderia mais rápido.

     A proposta tinha certo atrativo decadente, mas ela se encolheu de ombros.

     -Não tenho nenhuma pressa.

     -Mas eu estou começando a ter pressa -murmurou Ben e logo lhe jogou a cabeça para trás-. Faz momento que não fazemos isto. -E apoiou sua boca contra a dela.

     Willa não simulou resistir nem protestar, sobre tudo considerando que era exatamente o que o fazia falta. A calidez, a mão segura, a boca hábil. Assim em lugar de resistir passou os braços ao redor do pescoço do Ben, voltou-se para ele e deixou que se apagassem todas suas dúvidas, suas preocupações e suas más lembranças.

     Ali encontrava consolo e, além de todo o resto, Ben era uma pessoa disposta a escutá-la e que talvez até lhe tivesse um pouco de afeto. afundou-se nisso, nessa necessidade que era tão forte como o desejo que Ben depenava nela.

     Ele sentiu que a necessidade que com tanto cuidado reprimia, vencia todas suas resistências. A inesperada doçura da Willa, sua surpreendente e excitante docilidade, esses pequenos ardores que falavam de paixão e que se ocultavam atrás de sua inocência.

     A combinação esteve a ponto de romper todos seus freios.

      De maneira que foi ele quem se tornou atrás, ela a que protestou. Lutando por moderar seus instintos à força de sentido comum, Ben a voltou a trocar de posição e apoiou novamente a cabeça da Willa sobre seu ombro.

     -Proponho-te que fiquemos um momento simplesmente aqui sentados.

     Ela sentiu que, sob sua mão, o coração do Ben pulsava desordenadamente. Sentiu que os batimentos do coração de seu próprio coração lhe ressonavam dentro da cabeça.

     -Sempre me agita e me perturba. Não sei por que é sempre você o que me perturba, Ben. Não me posso explicar isso.

     -Bom, agora me sinto muito melhor. -Ben lançou um suspiro e logo apoiou a cabeça contra a dela-. Isto não é tão desagradável.

     -Não, suponho que não.

     Assim que se sentou na saia do Ben enquanto suas inquietações se acalmavam. Observou o reflexo das luzes da árvore, e a neve que caía, apenas um sussurro de brancura que se via sobre a janela.

     -Tess foi a casa do Nate -disse por fim.

     Ben percebeu seu tom e já a conhecia bastante bem para interpretá-lo.

     -E isso se preocupa?

     -Suponho que Nate saberá arrumar-se. -Fez um movimento inquieto, logo se deu por vencida e se permitiu fechar os olhos.

     -se preocupa Tess?

     -Talvez. um pouco. Sim. Faz semanas que não acontece nada, mas... -Exalou uma baforada de ar-. Não a posso vigiar todos os instantes do dia e da noite.

     -Não, não pode.

     -Ela crie sabê-lo tudo. A Senhorita da Grande Cidade com seus cursos de defesa pessoal e sua roupa extravagante. Mierda! Aqui está tão perdida como um camundongo em um quarto cheio de gatas famintas. E se lhe danifica o jipe ou se sai do caminho? -Respirou fundo antes de dizer o que mais a preocupava-. E se o que matou ao Pickles ainda anda por aqui, à espreita?

     -Como bem disse, faz semanas que não aconteceu nada. O mais provável é que esse indivíduo se foi faz tempo.

     -Se isso for o que crie, por que vem quase todos os dias e utiliza as desculpas mais parvas para passar por aqui?

     -Não são tão tolas -respondeu ele e em seguida se encolheu de ombros-. Está você. -Não se incomodou em franzir o sobrecenho quando a ouviu bufar-. Está você -repetiu-. E está o rancho. E, sim, penso no assunto. -Voltou-lhe a levantar a cabeça e a beijou com rapidez e com força-. Direi-te o que faremos; passarei por casa do Nate para ver se Tess chegou bem.

     -Ninguém te pede que te faça cargo de meus problemas.

     -Não, ninguém me pede isso. -Levantou-a, sentou-a a seu lado e logo ficou de pé-. Talvez chegue o dia em que me peça algo, Willa. É possível que te desmorone e me peça ajuda. Enquanto isso, farei as coisas a minha maneira. vá deitar te -ordenou--. Faz-te falta uma noite decente de sonho. Eu me encarregarei de sua irmã.

     Ela o olhou sair franzindo o sobrecenho e se perguntou o que seria o que ele esperava que lhe pedisse.

    

     Tess chegou a casa do Nate. Considerou que era uma esplêndida isso aventura de conduzir sob uma leve nevada na profunda escuridão do campo. Tinha a rádio acesa a todo volume, e milagrosamente, encontrou uma emissora que emitia rock. Cantou a gritos junto com o Rod Stewart enquanto se aproximava das luzes do rancho do Nate.

     Prolixo como um quadro do Currier e Eves, decidiu. O caminho de entrada limpo de neve e apenas talher pelos últimos flocos cansados, os edifícios próximos à casa principal, os retângulos de cercos e a crescente sombra das árvores.

     Os faróis deveram despertar aos cavalos, porque três deles saíram trotando das cavalariças e se detiveram olhá-la passar do curral.

     Eles também são bonitos como um quadro, pensou Tess, com suas caudas ao vento e seus cascos movediços. Um deles se aproximou tanto ao alambrado que reduziu a velocidade para poder estudá-lo melhor.

     Seguiu avançando, tomou a curva suave do caminho que conduzia à casa principal. A casa também era bonita. Pouco pretensiosa, decidiu Tess, uma casa de dois pisos, com um alpendre generoso, persianas brancas contra madeira escura, duas chaminés das que se elevava fumaça para o céu. Singela, pensou, despretensioso. Igual ao homem que ali vivia.

     Sorria quando tomou a carteira, o pacote do presente, e desceu do jipe. E logo que conseguiu conter um grito ao ver o gato montês.

     Retrocedeu três passos e se chocou com força contra o jipe. Os olhos do gato estavam cravados nos dela. Estava morto, frio como a pedra e pendurado sobre o poste. Mas lhe fez acontecer um muito mau momento.

      As presas e as unhas eram afiados e letais e lhe indicaram com exatidão o que podia lhe acontecer a uma mulher o suficientemente descuidada para topar-se com um desses animais vivos. Não estava mutilado e a falta de sangue a tranqüilizou. «Simplesmente pendura do poste, como se fora um tapete», pensou Tess, surpreendida. Em seguida se estremeceu e afastando-se todo o possível do animal, subiu os degraus que conduziam à entrada da casa.

     Que classe de gente é capaz de pendurar o corpo de um gato montês morto perto da fachada da casa?, perguntou-se. Com uma risada nervosa, olhou o presente que levava na mão. E depois essa mesma pessoa lia poesias do Keats?

     Deus, que território!

     No momento em que levantava a mão para chamar, a porta se abriu. No estado de ânimo em que se encontrava, Tess se alegrou de haver-se solo sobressaltado, conseguindo sufocar um grito de medo.

     Uma mulher moréia, de baixa estatura, estudou-a com ar solene. Era quase tão larga como alta, e estava envolta em um casaco negro e em uma série de cachecóis. Tinha o cabelo negro metido dentro de outro cachecol, mas Tess alcançou a notar que estava salpicado de cãs.

     -Senhorita -disse, com seu cálida voz-. No que posso lhe ser útil?

     A atrativa voz que surgia dessa cara pequena e enrugada fascinou ao Tess, quem imediatamente decidiu utilizá-la em um personagem de seus guias. Seu sorriso foi mais ampla e brilhante.

     -Olá! Sou Tess Mercy.

     -Sim, senhorita Mercy. -Ante o sobrenome Mercy, a mulher retrocedeu e abriu por completo a porta como convidando-a a passar.

     -Eu gostaria de ver o senhor Nate. Se não estar ocupado.

     -Está em seu escritório. Ali no extremo do vestíbulo. Acompanharei-a.

     -Você ia sair. -E Tess não queria que ninguém anunciasse sua chegada-. Eu mesma encontrarei o despacho, senhora...?

     -Cruz. -Piscou um instante ao ver que Tess lhe oferecia sua mão, logo tomou e a estreitou com força-. O senhor Nate se alegrará de vê-la.

     «Alegrará-se?», pensou Tess, mas continuou sonriendo.

     -Trouxe-lhe um regalito -explicou, assinalando o pacote envolto em papel de brilhantes cores-. Uma surpresa.

     -É você muito generosa. É a terceira porta à esquerda. -O leve sorriso da mulher indicou ao Tess que o pretexto de sua visita era muito óbvio. Pelo menos para outra mulher-. boa noite, senhorita Mercy.

     -boa noite, senhora Cruz.

     E Tess riu para seus adentros quando a porta se fechou atrás dela e ficou sozinha no silencioso vestíbulo.

     Alegres atapeta de desenhos geométricos sobre chãos de madeira escura, excelentes desenhos a pluma sobre paredes de cor marfim. Formosos acertos de flores secas em vasos de bronze... Esse deve ser o toque da senhora, disse-se Tess enquanto percorria o lugar.

     Um fogo crepitava na chaminé de pedra da sala de estar que tinha um suporte também de pedra sobre a que havia candelabros de estanho e uma coleção de estranhos pisapapeles. Os móveis eram amplos e muito masculinos, com almofadões profundos. Cores escuras para que contrastassem com paredes claras e tapetes brilhantes.

     Uma combinação interessante, decidiu Tess. Singela, masculina e entretanto agradável à vista.

     Ao aproximar-se da porta aberta do despacho escutou os tons baixos de um concerto do Mozart.

     E ali estava ele, magro, atrativo e com aspecto do Jimmy Stewart instalado em uma cadeira de respaldo alto detrás de um grande escritório de carvalho. O abajur do escritório lhe iluminava as mãos e ele fazia notas sobre um bloco de papel de papel amarelo. Tinha o sobrecenho franzido, a gravata solta, o cabelo, tão loiro e abundante, despenteado. Despenteado de tanto mesarse o cabelo, pensou Tess.

     «Bom, bom -pensou-. O coração começa a me palpitar com força.» Divertida, observou-o alguns instantes mais, contente de poder estudá-lo enquanto ele trabalhava, ignorante de sua presença.

     A habitação estava cheia de livros, sobre o escritório tinha uma taça de café e trabalhava com essa formosa música de fundo.

     «Nate -decidiu Tess, enquanto se alisava o cabelo-, te considere perdido.»

     -Boa tarde advogado Torrence.

     Consciente de que estava admiravelmente se localizada na porta, sorriu com lentidão quando ele levantou a cabeça surpreso e de seus olhos desapareceu toda preocupação pelo trabalho.

     -Bom, tudo bem, senhorita Mercy? -ficou tenso ao vê-la ali, com um toque de neve sobre o cabelo e a capa. A tensão aumentou quando viu o secreto sorriso feminino de seus lábios, mas se reclinou contra o respaldo da cadeira, como um homem perfeitamente cômodo e tranqüilo-. Esta sim que é uma agradável surpresa!

      -Isso espero. E também espero não estar interrompendo algo de vital importância.

     -Nada de vital importância. -As notas que estava fazendo lhe tinham apagado por completo da mente.

     -A senhora Cruz me abriu. -Começou a aproximar-se do escritório pensando no puma. Arrancaria uma página do livro dos felinos e jogaria com sua vítima antes de preparar-se para a caça-. Sua ama de chaves.

     -Minha ama de chaves. -Estava confundido. O que devia fazer? Ficar de pé, lhe oferecer uma taça ou permanecer onde estava? por que diabos o estaria olhando como se já se lambesse com o que ficava de seus despojos?. María e Miguel, seu marido, mantêm este rancho em movimento. Esta é uma visita social, Tess, ou anda em busca de um advogado?

     -Social no momento. Solo social. -tirou-se a capa e notou que Nate piscava. Sim, decidiu, não cabe dúvida de que este vestido é um êxito total-. Se quiser que te seja franco, me fazia falta sair dessa casa. -Deixou a capa sobre o respaldo de uma poltrona, logo apoiou um quadril sobre o bordo do escritório, permitindo que a saia lhe levantasse até a coxa-.! Sofri uma espécie de sensação de fechamento.

     -Está acostumado a acontecer. -Não tinha esquecido as pernas do Tess, mas fazia tempo que solo as via embainhadas em jeans ou em grossas calças de lã. E assim, à vista, bem por cima dos joelhos, secavam-lhe a boca-. Posso te oferecer uma taça?

     -Seria maravilhoso. -Cruzou as pernas com lentidão-. O que tem no bar?

     -Isto... -Não o recordava e se sentiu como um verdadeiro parvo.

     «Isto vai cada vez melhor», pensou Tess, enquanto se deslizava do escritório ao chão.

     -Quer que eu mesma o constate? -encaminhou-se para os botellones que estavam sobre uma mesa no! outro extremo do quarto e se decidiu por um vermut-. Acompanha-me?

     -É obvio! Obrigado. -Fez a um lado a taça de café. Não cabia dúvida de que a cafeína não o ajudaria a superar esse momento-. Faz um par de dias que não hei, podido ir ao Mercy. Como andam as coisas?

     -Tranqüilas. -Serve dois copos e os levou a escritório. depois de aproximar um ao Nate, voltou a sentar-se sobre o bordo do escritório, esta vez a seu lado-. Embora festivas. -inclinou-se apenas e entrechocó seu copo com o dele-. Feliz Natal. Em realidade... -bebeu um pequeno sorvo de vermut- esse é um dos motivos pelos que passei por aqui. -Agarrou o pacote que tinha deixado sobre o escritório-. Feliz Natal, Nate!

     -Trouxeste-me um presente? -Olhou o pacote com os olhos entrecerrados, como esperando que se tratasse de uma brincadeira.

     -Só um tolice. foste um bom amigo e conselheiro. -Sorriu-. O vais abrir agora ou prefere esperar até a manhã de Natal? -tocou-se o lábio superior com a ponta da língua e tudo o sangue do Nate foi da cabeça a entrepierna-. Se quiser, posso voltar.

     -Eu morro pelos presentes -explicou Nate, enquanto abria pressuroso o pacote. Ao ver o livro, sentiu de uma vez um pouco de vergonha e uma suave emoção-. Também sou um parvo quando se trata do Keats -murmurou.

     -É o que me disseram. Pensei que enquanto o lia, talvez te lembrasse de mim.

     Ele elevou a vista para olhá-la.

     -Penso em ti sem necessidade de incentivos.

     -Sério? -Lhe aproximou mais e se inclinou para poder tomar a gravata que levava frouxa ao redor do pescoço-. E o que pensa?

     -Neste momento, que está tratando de me seduzir.

     -Vejo que é muito rápido, muito inteligente. -Pegou-lhe um puxão à gravata e a boca do Nate se apoiou sobre a sua.

     Igual à casa, igual ao homem em si, sua fome era singela e despretensiosa. Nate fechou as mãos sobre os peitos do Tess, percebendo seu peso e seu calidez.

     E quando ela se moveu para sentar-se escarranchado, Nate lhe agarrou as nádegas com as mãos.

     antes de que ele tivesse tempo de respirar, ela já tinha afastado a gravata e começava a lhe desabotoar a camisa.

     -Se tivesse tido que suportar outra semana sem que me acariciasse, acredito que teria gritado. -Mordeu-lhe o pescoço-. Prefiro gritar nesta postura.

     Nate ainda não tinha tido tempo de respirar, mas não cabia dúvida de que suas mãos estavam muito ocupadas, levantando essa saia curta e apertada por cima dos quadris do Tess e encontrando a delícia da carne firme coberta por meias de seda.

     -Não podemos... aqui. -Voltou a dedicar-se a seus peitos, sem poder decidir o que era o que precisava acariciar primeiro-. Vamos -conseguiu balbuciar enquanto a beijava com paixão-. Levarei-te acima.

     -Aqui. -Jogou atrás a cabeça e os lábios do Nate lhe percorreram o pescoço. Tinha uma boca maravilhosa. Era o que ela supunha-. Aqui e agora. -Já a ponto de explorar, atirou-lhe do cinturão-. Te apresse. A primeira vez, rápido. Depois já nos ocuparemos dos refinamentos.

      Nisso ela também estava de acordo. Duro como o aço, dolorido, desesperado. Lutou com a cremalheira da saia enquanto ela lutava com a de suas calças.

     -Não me pus nenhuma... OH, Deus! Que maravilhosa é!

     Baixou-lhe o vestido o necessário para topar-se com esses formosos peitos cheios que caíam sobre um sutiã negro de encaixe. Arrancou-lhe o sutiã com os dentes e logo se dedicou a ela.

     Foi um impacto. Quando essa boca que se ocupava de seu corpo a fez cair das alturas sem nenhuma rede que detivera sua queda, lhe estremeceu o corpo, a mente lhe girou como enlouquecida.

     -Deus! OH, Meu deus! -Deixou cair a cabeça para trás e absorveu esse primeiro orgasmo delicioso-. Mais. Agora.

     Acabava de explorar em cima dele, de uma maneira selvagem e fabulosa e o obnubilaba por completo. Com as mãos cheias do Tess, Nate apoiou os lábios sobre os dela e tratou de pensar.

     -Devemos subir, Tess. Pelo general eu não me dedico ao sexo em meu escritório. Não estou preparado para isso.

     -Está bem. -Apoiou a frente contra a do Nate e respirou fundo três vezes. Estava tremente como uma colegiala. Mas eu sim o estou.

     Jogou um braço para trás e jogou no piso as coisas apoiadas sobre o escritório, enquanto ele aproveitava a posição para lhe chupar um peito. Tess ouviu sua própria respiração ofegante, tivesse podido jurar que ficava vesga enquanto estirava a mão para trás para tomar sua bolsa. Abriu-o, atirou-o a um flanco e de seu interior surgiu uma série de preservativos.

     Nate piscou. Um cálculo rápido lhe indicou que deviam ser pelo menos uma dúzia. De maneira que se esclareceu garganta.

     -Não sei se me assustar ou me sentir adulado.

     Fez-lhe graça. Sentada ali, médio nua, excitada como o demônio, não pôde menos que lançar uma gargalhada rouca.

     -Considera-o um desafio.

     -Boa resposta. -Mas quando Nate estirou a mão para tomá-los, ela os pôs fora de seu alcance.

     -Ah, não! me permita.

     Com o olhar cravado nos olhos dele, extraiu um preservativo. A música do Mozart seguia ressonando quando lhe tirou as calças, lançou uma exclamação felina de expectativa e com lentidão, com uma lentidão lhe torturem, protegeu a ambos.

     Nate tinha os pulmões obstruídos, os dedos cravados nos braços da poltrona. Os movimentos do Tess com as mãos eram inteligentes, delicados como uma rosa. E de repente Nate teve medo de desgraçar-se como um adolescente virgem.

     -Maldita seja! Que hábil é!

     Ela sorriu e trocou de posição.

     -Não tenho feito mais que pensar nisto desde que te vi pela primeira vez.

     Nate tomou os quadris assim que ela se elevou por cima dele e a manteve ali enquanto ambos se estremeciam.

     -Sim? Bom então fomos dois.

     Lhe apoiou as mãos sobre os ombros e afundou os dedos em sua carne.

     -Então, para que esperar tanto tempo?

     -Maldito silo sei!

     Com lentidão, cravou os olhos nos dela, baixou-a, penetrou-a, encheu-a. Ela se estremeceu uma vez, lançou um comprido gemido rouco e não moveu um só músculo. Fechou os olhos. Logo os abriu.

     -Sim -disse, e voltou a sorrir.

     -Sim.

     Manteve as mãos sobre os quadris do Tess, enquanto ela o montava, com dureza, com rapidez e bem.

    

     Mais tarde, quando ficou flácida em seus braços, Nate conseguiu alcançar o telefone. Ela se queixou apenas quando ele se moveu para marcar um número.

     -Will? Sou Nate. Tess está aqui... Sim, ficará a passar a noite em casa. -Voltou a cabeça, mordiscou-lhe o ombro nu e se deu conta de que ainda não lhe tinha tirado o vestido por completo. Já haverá tempo mais que suficiente para isso, pensou, e escutou o que dizia Willa-. Não, está muito bem. É uma maravilha. Voltará pela manhã. Adeus.

     -Isso foi muito considerado de sua parte -murmurou Tess.

     Em algum momento lhe tinha arrancado vários botões da camisa e nesse instante desfrutava de do contato da pele nua do peito do Nate sob seus dedos preguiçosos.

     -Ela se teria preocupado. -Conseguiu subir o vestido enrugado mais acima da cintura e o tirou pela cabeça. Nesse momento só luzia um par de meias, atrativos saltos altos e um sorriso satisfeito-. Como se sente?

     -Maravilhosamente bem. -tornou-se atrás o cabelo e entrelaçou as mãos detrás da cabeça do Nate-. E você?

     O lhe deslizou as mãos sob as nádegas para levantá-la enquanto ele mesmo ficava de pé.

      -Afortunado -respondeu, e voltou a deitá-la sobre o escritório. Demorou um instante em jogar no chão o bloco de papel que ainda ficava junto à cabeça do Tess-. E disposto a ser ainda mais afortunado.

     Surpreendida, interessada, ela sorriu.

     -Bom, bom! Já começamos o segundo assalto?

     -te agarre a mim, querida. -Passou-lhe as mãos por todo o corpo, fascinado ao ver que ela tremia-. E te aferre com força.

     Tess não demorou muito em tomar a sério sua advertência.

    

     A véspera de Ano Novo subiu a temperatura. Uma das mudanças incríveis de tempo provocados pelo El Niño, que solo podia ter sentido para Deus, trouxe-lhes um céu azul brilhante, sol e ar quente. em que pese a que significaria barro e sujeira, além de gelo quando voltasse para sopro o vento, era um momento que terei que desfrutar.

     Willa percorreu alambrados vestindo uma jaqueta liviana de tecido vaqueiro e assobiava enquanto reparava os danos. Os picos das montanhas estavam talheres de neve e também suas dobras e terrenos baixos. Nas pradarias, o vento quente do oeste tinha deixado ao descoberta partes de terra e de pasto através da neve, enquanto os montões de neve empilhada a ambos os flancos dos caminhos do rancho ainda eram mais altos que os veículos que por eles transitavam. Mas os álamos, já sem seu bordo de arminho, elevavam-se nus e negros pela água, enquanto os pinheiros cresciam de um verde profundo.

     Willa pensou que a singela felicidade do Lily era o que estava influenciando seu estado de ânimo. A felicidade natalina de sua irmã era ainda forte e resultava irresistível.

     «O que outro motivo -pensou Willa-, me teria levado a aceitar o vacilante pedido do Lily de que oferecêssemos uma festa de vésperas de Ano Novo?» Receber tanta gente na casa, ter que vestir-se de festa, manter conversações. Com todas as preocupações que já tinha, seria uma verdadeira tortura.

     Mas não teve mais remedeio que confessar-se que lhe alegrava ter aceito a proposta. Lily, Bess e Nell viviam na cozinha preparando a festa. A casa estava impecável, escovada, lustrada e tão brilhante que cegava, e Willa tinha a ordem de estar banhada e vestida às oito da noite em ponto. E compreendeu que o faria, pelo Lily.

     Ao longo desses meses, em algum momento se afeiçoou, quase apaixonado por essa desconhecida que era sua irmã.

     Quem pode resistir a querê-la?, perguntou-se enquanto montava ao Moon e seguia seu caminho. Lily era doce, boa e paciente. E vulnerável. Por mais que Willa fez o impossível por manter distância entre elas, cada vez estavam mais unidas, até o ponto de que já não podia imaginar ao Mercy sem o Lily.

     Ao Lily gostava de juntar ramitas, que metia em velhas garrafas. e; de algum jeito conseguia que ficassem alegres e encantadoras. Procurava velhos recipientes nos armários, enchia-os de frutas ou adornava canastos com abacaxis. Tirava novelo do estufa e as distribuía por toda a casa.

     Ao ver que ninguém se queixava, foi mais à frente. Procurou candelabros nos armários, comprou velas perfumadas que acendia pela tarde, obtendo que a casa tivesse aroma de baunilha, limão ou só Deus sabia a que outra coisa.

     Mas era agradável. Willa soube o que significava converter a casa em um lar.

     E qualquer que tivesse olhos se dava conta de que Adam estava apaixonado por ela. um pouco atemorizado por quão vulnerável era Lily, mas de todos os modos apaixonado em silêncio dela. Com tempo e com cuidado, esse amor florescerá, pensou Willa. Duvidava que Lily se desse conta de quão profundos eram os sentimentos do Adam para ela. Desde seu ponto de vista, Lily só supunha que Adam a tratava com bondade.

     Desmontou para reparar outro lance de alambrado quebrado.

     Depois estava Tess. Willa não podia dizer que a senhorita Hollywood a fascinasse, mas talvez lhe incomodasse menos que antes. Para começar, Tess se mantinha fora de seu caminho, encerrava-se várias horas ao dia para escrever ou falar por telefone com seu representante. Cumpria com os trabalhos que lhe atribuíam. Não com alegria e, com freqüência não muito bem, mas cumpria com eles.

      Willa tinha plena consciencia do que acontecia entre o Tess e Nate. Solo que preferia não pensar no assunto. «Isso nunca chegará a nada -decidiu-. Quando terminar o prazo durante o que o testamento as obriga a permanecer no rancho, Tess voará aos Anjos e jamais voltará a pensar no Nate.»

     Quão único esperava era que Nate estivesse preparado para viver esse momento.

     «E o que me diz de ti, Will?», perguntou-se. apoiou-se contra um poste, olhou as montanhas e desejou poder montar ao Moon e subir e subir e subir até perder-se na neve, as árvores e o céu. No silêncio que ali reinava. Nessa paz. Na música da água que saltava de rocha em rocha e se abria caminho por entre o gelo, no som do vento entre os pinheiros, e nesse perfume glorioso que era a respiração da terra.

     Não ter responsabilidades, embora fosse por um dia. Nenhum peão a quem dar ordens, nenhum alambrado que reparar, nem ganho que alimentar. Solo um dia dedicado a não fazer nada mais que olhar o céu e sonhar.

     Sonhar no que?, perguntou-se, meneando a cabeça. Com todo o amor e os desejos e o sexo que a rodeavam, sonharia com isso? permitiria-se ter uma pequena fantasia a respeito do que seria deixar que Ben lhe ensinasse o que um homem podia lhe fazer a uma mulher? E o que podia fazer por uma mulher?

     Ou sonharia com sangue e com morte, com fracasso e com sensações de culpa? Montaria rumo a essas montanhas e encontraria algo ou a alguém mais, assassinado porque ela decidiu baixar o guarda?

     Não podia correr o risco.

     voltou-se para o Moon, apoiou uma mão sobre a culatra do rifle, lançou um suspiro e montou.

     Viu o cavaleiro e desejou que fosse Ben que galopava para ela, com o Charlie correndo a seu lado. E se envergonhou ao compreender que, embora fora por um instante, desiludiu-a comprovar que o que lhe aproximou foi Adam.

     Que esplêndido é!, pensou. E que firme!

     -Faz tempo que não te vejo montando a cavalo sozinho -gritou-lhe.

     Adam sorriu e freou ao cavalo.

     -Deus, que dia! -Respirou fundo e levantou a cara para o céu-. Lily está ocupada com a festa e até conseguiu embarcar ao Tess no assunto.

     -De maneira que teve que te conformar comigo. -Olhou-o e riu ao ver a expressão surpreendida e culpado de seu irmão-. É uma brincadeira, Adam. E embora saiba que fazê-lo não te resultou um sacrifício, agradeço-te que as cuide.

     -Lily se esqueceu que assunto. De tudo. -Fez girar a seu cavalo para avançar junto à Willa-. Suponho que foi assim como as arrumou com seu matrimônio. Não sei se for uma atitude saudável, mas pelo visto lhe dá paz.

     -É feliz aqui. Você a faz feliz.

     Adam compreendeu que era natural que Willa conhecesse seus mais íntimos sentimentos. Sempre o fazia.

     -Ainda lhe faz falta tempo para poder sentir-se completamente a salvo. Para confiar em que eu possa querê-la e não feri-la por causa disso.

     -Há-te dito algo a respeito de seu ex-marido?

     -Às vezes faz alguns pequenos comentários. -Adam se encolheu de ombros, inquieto. Queria mais, queria-o tudo. E lhe resultava difícil esperar-. Quando o conheceu ela era professora e se casaram muito em breve. Foi um engano. Não me contou quase nada mais que isso. Mas por dentro, ainda tem medo. Se eu me mover com muita rapidez, se me voltar de uma maneira abrupta, sobressalta-se. Destroça-me o coração.

     É obvio que o destroça!, pensou Willa. Os feridos sempre destroçavam o coração do Adam.

     -No curto tempo que aconteceu aqui, vi-a trocar. Mas bem deveria dizer no pouco tempo que esteve contigo. Sorri mais. Fala mais.

     Adam inclinou a cabeça.

     -Vejo que lhe tomaste carinho.

     -Sim.

     O sorriu.

     -E à outra? Ao Tess?

     -Carinho não é a palavra que usaria no caso do Tess -respondeu ela com secura-. Acredito que a palavra indicada é mas bem tolerância.

     -É uma mulher forte, inteligente, concreta. Mais parecida com ti que ao Lily.

     -Por favor! Não me insulte.

     -É assim. Faz frente às coisas, as situações, obtém que saiam como ela quer. Não tem seu sentido do dever e talvez seu coração seja mais duro, mas não cabe dúvida de que tem o conceito do dever e do coração. eu gosto de muito.

     Willa se voltou a olhá-lo, com o sobrecenho franzido.

     -Diz-o a sério?

     -Sim. Quando lhe estava ensinando a montar, caiu várias vezes. Em seguida se levantava, tirava-se o pó dos jeans e voltava a montar. -Olhou-a ao rosto e recordou que isso era o espelho do que fazia Willa quando lutava por vencer um problema-. É algo que exige coragem e decisão. E orgulho. Faz rir ao Lily. Faz-me rir . E te direi algo que ela não sabe.

     -Secretos? -Sorridente, Willa aproximou sua égua ao cavalo do Adam e baixou a voz, embora não houvesse ninguém em quilômetros de distância. O sol caía sobre os picos do oeste, suavizando a luz-. Diga-me isso tudo.

     -Conquistaram-na os cavalos. Não sabe ou talvez não esteja preparada para admiti-lo, mas eu o vejo. Pela forma em que os acaricia, fala-lhes, dá-lhes açúcar às escondidas quando acredita que eu não a vejo.

     Willa franziu os lábios.

     -Muito em breve começarão a nascer os potros. Veremos até que ponto gosta dos partos.

     -Acredito que o fará bem. E Além disso, admira-te.

     -Mentira!

     -Você não está preparada para te dar conta disso, mas eu sim. -Entrecerró os olhos e calculou a distância que faltava para chegar à casa-. Jogo-te uma carreira até o celeiro.

     -Trato feito. -Esporeou ao Moon e ambos voltaram em uma louca carreira.

    

     Entrou na casa com as bochechas coloridas e com brilho nos olhos. Ninguém vencia ao Adam a cavalo, mas ela esteve perto de obtê-lo. Muito perto... e isso lhe levantou o ânimo.., que voltou a decair em seguida quando Tess baixou a escada.

     -Ali está. Vamos, Annie Oakley! É quase a hora da festa e seu perfume a água de suor não é o que corresponde esta noite.

     -Ainda tenho duas horas.

     -Que possivelmente seja um tempo apenas suficiente para te transformar em algo remotamente parecido a uma mulher. Vê te dar uma ducha.

     Era exatamente o que pensava fazer, mas surgiu seu espírito de contradição.

     -Tenho que trabalhar em uns papéis.

     -Ah, não, hoje não pode! -exclamou Lily a suas costas-. Já são as seis.

     -E o que? Não vem ninguém a quem deve impressiona

     -Tampouco vem ninguém a quem deve ofender.

     Tess lançou um suspiro, tirou-a do braço e a empurrou escada acima.

     -Epa!

     -Vêem Lily. Para isto faremos falta as duas.

     Lily se mordeu os lábios mas tomou o outro braço da Willa.

     -Será tão agradável ver gente! estiveste trabalhando muito. Tess e eu queremos que te divirta.

     -Então me tirem as mãos de cima! -liberou-se com facilidade do Lily, mas Tess a aferrou com força e a conduziu ao dormitório-. Se dentro de cinco segundos não me soltaste te atirarei ao chão... -interrompeu-se, olhando fixo o vestido tendido sobre sua cama-. Que mierda é isso?

     -Revisei seu armário e não encontrei nada remotamente parecido a um vestido de festa...

     -Um momento! -Esta vez Willa conseguiu liberar-se e se voltou-. Revisou minha roupa?

     -Não vi nada ali dentro que possa querer ocultar, em realidade em um primeiro momento acreditei que era o armário dos desfeitos, mas Bess me assegurou que, sem lugar a dúvidas, era seu roupeiro.

     Embora os nervos lhe umedeciam as Palmas das mãos, Lily se interpôs entre elas.

     -Arrumamos um vestido do Tess para que lhe ponha isso.

     -Um vestido do Tess? -perguntou Willa olhando com desprezo a sua meia irmana-. Para que ficasse bem teriam que ter atirado a metade do gênero.

     -É bastante certo -replicou Tess-. E tudo no busto. Mas resulta que Bess é uma excelente costureira. Até é possível que apesar de suas pernas que parecem palitos e de seu peito plano, com esse vestido fique extrañamente atrativa.

     -Tess. -Lily vaiou a palavra e apartou a sua irmã maior-. Não te parece que a cor é uma preciosidade? Ficam tão bem os tons bolo! E este parece feito para ti. Tess foi muito generosa ao permitir que o arrumassem para que ficasse bem.

     -Em realidade, devo confessar que nunca eu gostei -disse Tess distraídamente-. Um desses pequenos enganos que alguém comete com a moda.

     Lily fechou os olhos e rezou para que reinasse a paz.

     -Já sei que te estou dando muito trabalho com esta festa, Will. Agradeço-te muitíssimo que me tenha permitido planejá-la e invadir toda a casa durante os últimos dias. Já sei que para ti é um inconveniente.

     Vencida, Willa se passou uma mão pelo cabelo.

     -Não sei qual das duas é mais hábil para me tratar, mas ao diabo contudo! Peço-lhes por favor que me deixem sozinha. Sou capaz de tomar banho e me pôr um vestido por meus próprios meios.

      Tess aceitou a vitória, tomou a mão do Lily e a empurrou para a porta.

     -te lave o cabelo, campeã.

     -Vete a mierda! -exclamou Willa fechando a porta atrás delas de um chute.

    

     Sentia-se uma parva. Uma parva que, antes de que terminasse a velada, sem dúvida lhe congelaria o traseiro nessa desculpa de vestido. De pé frente ao espelho, Willa se tironeó a prega. Esse pequeno movimento baixou o vestido quase dois centímetros enquanto o decote profundo descendia perigosamente para seu umbigo.

     «Tetas ou culo -pensou, enquanto se arranhava a cabeça-. O que me interessa mais tampar?»

     Pelo menos o vestido tinha mangas, o qual já era algo. Mas começavam na metade do ombro e não existia maneira das aproximar um pouco mais ao pescoço. O vestido era feito de um material suave e magro que se aderia ao corpo como uma segunda pele.

     A contra gosto, ficou os sapatos de saltos altos e aprendeu alguns conceitos sobre física. Na medida em que ela ficava mais alta, também se cortava o vôo do vestido.

     -OH, maldição! -aproximou-se do espelho e decidiu que talvez lhe conviria jogar o tudo pelo tudo e usar seus cosméticos. depois de tudo, era a véspera de Ano Novo.

     E o vestido, o que tinha que vestido, era de uma bonita cor. Azul elétrico, supôs. Talvez ela não tivesse muito busto, apesar dos esforços por ocultar o desse decote em e, mas seus ombros não estavam mau. E vá sim suas pernas pareciam palitos. Eram largas, é obvio, mas musculosas e as médias de tom escuro que acabava de ficar ocultavam as duas novas feridas que descobriu ao tomar banho.

     negou-se a fazer-se coisas estranhas com o cabelo. De todos os modos não era hábil para os cachos nem os penteados de estilo complicado, de maneira que o deixou cair murcho sobre as costas. E pelo menos o cabelo lhe manteria um pouco morna a pele das costas que o vestido deixava ao descoberto.

     Recordou os pendentes só porque eram um presente de Natal do Adam, assim que ficou as bonitas estrelas pendentes no lóbulo das orelhas.

     A partir desse momento, se conseguia manter-se de pé durante toda a velada, já que com esse vestido sentar-se era impossível, teve a sensação de que não faria um papelão.

     -OH, está maravilhosa! -foi o primeiro que disse Lily ao vê-la baixar a escada-. Simplesmente maravilhosa -repetiu enquanto se deslizava até o patamar vestindo algo branco e flutuante-. Vêem vê-la, Tess. Willa está fabulosa.

     Por todo comentário Tess lançou um grunhido enquanto saía de seu dormitório vestida de negro, o qual lhe conferia um aspecto perigoso.

     -Não está tão mal -decidiu, secretamente fascinada, enquanto ficava seu colar de pérolas e caminhava ao redor da Willa-. Com um pouco de maquiagem fará um bom papel.

     -Já me maquiei.

     -Deus! A mulher tem os olhos de uma deusa e não sabe usar! Vêem.

     -Não penso voltar a subir para me cobrir a cara com emplastros -protestou Willa enquanto Tess a voltava a arrastar escada acima.

     -Querida, com o que me custa, asseguro-te que é maquiagem da melhor classe. Fique aqui se por acaso chega alguém, Lily.

     -Está bem, mas não demorem muito. -E as olhou sorridente e com o rosto avermelhado de orgulho por suas irmãs.

     «eu adoraria que elas se dessem conta de quão divertido resulta as ver juntas», pensou. Brigando, tal como imaginava que deviam brigar as irmãs. E agora compartilhando roupa, maquiagens, vestindo-se para assistir juntas a uma festa.

     Agradecia tanto poder formar parte de todo isso! deixou-se levar pela emoção e girou alegremente sobre si mesmo, mas se deteve em seco ao ver o Adam na porta.

     -Não te ouvi entrar.

     -Entrei pela porta de atrás. -Poderia haver ficado olhando durante uma eternidade a essa fada moréia que flutuava em um vestido branco-. Está formosa, Lily.

     -Obrigado.

     sentia-se quase formosa. Mas ele... ele era esplêndido, tão perfeito em cada detalhe que ela logo que podia acreditar que fora realidade. Durante os últimos meses, mil vezes teve vontades de tocá-lo. Não só de lhe tocar uma mão, de lhe roçar um ombro, mas sim de tocá-lo a sério. Mas, de algum jeito, estava convencida de que Adam se sentiria ofendido ou divertido, e era algo ao que não queria arriscar.

     -Alegra-me que esteja aqui -adicionou Lily, falando com muita rapidez-. Tess levou de novo acima a Willa para lhe fazer alguns retoques de último momento e em qualquer instante começarão a chegar os convidados. E eu não desempenho bem o papel de proprietária de casa. Nunca sei o que dizer.

      Ela deu um passo atrás no momento em que ele avançava. Logo Lily se obrigou a deter-se. O coração lhe deu um salto dentro do peito quando Adam lhe aconteceu os dedos pelas bochechas.

     -Atuará perfeitamente bem. Assim que lhe olhem, eles tampouco saberão o que dizer. É o que acontece comigo.

     -Eu... -Nesse momento estava segura de que faria o papel de tola, com essa necessidade que tinha de jogar-se em seus braços, e de que ele a abraçasse. Solo para que a abraçasse-. Deveria ir à cozinha, a ajudar ao Bess.

     -Tem-no tudo sob controle. -Adam manteve o olhar cravado na dela e se moveu com lentidão. Tomou uma mão-. por que não escolhemos um pouco de música? Talvez até poderíamos dançar uma peça antes de que cheguem os convidados.

     -Faz muito tempo que não danço.

     -Esta noite dançará -prometeu Adam, e a conduziu ao grande salão.

     Acabavam de fazer a seleção inicial e de encher o CD quando a primeira luz se refletiu nas janelas.

     -me prometa a peça de meia-noite -pediu ele, voltando a entrelaçar os dedos de ambos.

     -É obvio! Estou nervosa -admitiu Lily com um rápido sorriso-. Fique perto de mim, quer?

     -Estarei perto de ti sempre que me necessite.

     Nesse momento baixaram Tess e Willa, discutindo, como era de esperar. Adam lançou um comprido assobio. Tess lhe piscou os olhos um olho. Willa franziu o sobrecenho.

     -vou necessitar uma taça o antes possível -disse Willa com tom sibilante e falando entre dentes, enquanto se aproximava da porta para receber aos primeiros convidados.

    

     Uma hora depois, a casa estava cheia de gente e de vozes e de perfumes contrastantes. Pelo visto ninguém estava muito cansado para assistir a outra festa, nem para beber outra taça de champanha nem muito tranqüilo para não discutir sobre política e religião. Ou sobre seus vizinhos e amigos.

     Willa recordou por que não gostava de ser sociável quando Bethanne Mosebly lhe aproximou e começou a tratar de lhe surrupiar detalhes do assassinato.

     -A todos espantou nos inteirar do que ocorreu ao John Barker. -Entre uma frase e outra Bethanne bebia champanha com tanto ardor que Willa se sentiu tentada de lhe oferecer uma pajita-. Deve ter sido um impacto terrível para ti.

     Apesar de que Willa não se deu conta imediatamente que John

     Barker e Pickles eram uma mesma e única pessoa, os olhos curiosos e excitados do Bethanne o indicaram.

     -Não foi uma experiência da que eu goste de falar. Perdoe vou A...

     Até ali pôde chegar antes de que Bethanne a detivera lhe aferrando um braço.

     -Dizem que estava destroçado, que o tinham talhado em pedaços. -Brindou pelo assunto com outro gole de champanha que lhe deixou úmida a boca pequena e parecida com a de um pássaro-. Que o fizeram migalhas. -Cravou-lhe as unhas com força a Willa-. E que lhe tinham arrancado o couro cabeludo.

     O que mais lhe adoecia era o entusiasmo do Bethanne, ainda mais que a imagem que irrompeu em seu cérebro. Apesar de saber que Bethanne não era uma mulher má, além de seu gosto por 'vos intrigas e os falatórios, Willa teve que lutar para não estremecer-se.

     -Estava morto, Bethanne, e foi brutal. Lamento não ter tido à mão uma videocámara para lhe mostrar isso      -Dormiré más tranquila sabiendo que tú estás preocupada. Se te ha acabado el champán, Bethanne. El bar queda por ahí.

     O desgosto e o sarcasmo da Willa não diminuíram o interesse de sua interlocutora. Bethanne lhe aproximou ainda mais, lhe proporcionando uma desagradável mescla do álcool de seu fôlego com o perfume forte que usava.

     -Dizem que o pôde ter feito qualquer. Que até você poderia ser assassinada em sua própria cama uma destas noites. Justamente durante a viagem até aqui, estive-lhe dizendo ao Bob o que isso me preocupa.

     Willa se obrigou a esboçar um tênue sorriso.

     -Dormirei mais tranqüila sabendo que você está preocupada. Te acabou o champanha, Bethanne. O bar fica por aí.

     Willa lhe afastou e se manteve em movimento. Seu único pensamento era encontrar ar. Como é possível que a gente possa respirar quando são tantos os que consomem o oxigênio?, perguntou-se. abriu-se passo até o vestíbulo e não se deteve até chegar à porta de entrada, abriu-a de um puxão e se encontrou cara a cara com o Ben.

     Ela olhou, boquiaberto e ela se sentiu incômoda. Conseguiu recuperar-se antes que ele e avançou até apoiar-se no corrimão do alpendre. Já fazia bastante frio para que seu fôlego formasse nuvens de vai por; para lhe pôr carne de galinha. Mas ali havia ar fresco e isso era exatamente o que o fazia falta.

      Quando elle apoiou as mãos sobre os ombros e a obrigou a voltar-se, ela apertou os dentes.

     -A festa é dentro.

     -Queria estar seguro de não ter sofrido uma alucinação.

     Não, pensou, é absolutamente real. A pele nua e fria tremia um pouco sob suas mãos. Esses enormes olhos de antílope pareciam ainda mais escuros, maiores. O azul atrevido de seu vestido resplandecia à luz das estrelas e lhe aferrava de uma maneira íntima a cada curva e ângulo do corpo até deter-se em seco sobre as coxas largas e firmes.

     -Deus todo-poderoso, Will, está tão maravilhosa que alguém te comeria em três bocados! E vai se gelar seu precioso culo se ficar aqui fora.

     Ben já se aberto o sobretudo. adiantou-se e o envolveu ao redor da Willa, desfrutando de do benefício acrescentado de poder ter esse pequeno corpo muito apertado contra o seu.

     -me solte! -retorceu-se, mas ele a tinha muito bem arranca-rabo, uma prisioneira-. Saí para poder estar sozinha durante cinco malditos minutos.

     -Bom, deveria-te ter posto um casaco. -Fascinado pela situação, Ben a cheirou. Parecia mais um cão que um apaixonado, e ouviu que Willa continha a risada-. Desprende um perfume riquíssimo.

     -Essa idiota do Tess me banhou em perfume. -Mas começava a relaxar-se e a desfrutar de do calor-. E me borrou a cara.

     -Fica bem estar borrada. -Ben sorriu quando Willa se voltou para ele e o olhou com lástima.

     -Pergunto-me o que acontece com os homens que sempre se fascinam por estas coisas. O que tem de particular a beleza que surge de potes e de frascos?

     -Somos débeis, Will. Débeis e tolos e fáceis de contentar. Você não gostaria que te fizesse um cariñito? -Beijou-lhe o pescoço e a fez rir.

     -te aparte, McKinnon! Pedaço de imbecil! -Mas lhe rodeava a cintura com os braços, sentia-se cômoda e tinha esquecido o motivo de seu mau humor-. Chega tarde -adicionou-. Seus pais, Zack e Shelly faz momento que chegaram. Acreditei que não viria.

     -Entretiveram-me com um assunto. -Beijou-a antes de que ela pudesse esquivá-lo e sorriu quando Willa se esqueceu de protestar-. Me sentiste falta de?

     -Não.

     -Mentirosa!

     -Ah, sim? -Como ele sorria com excessiva presunção, olhou por sobre o ombro do Ben e pela janela viu a multidão que enchia sua casa-. Ódio as festas. Quão único a gente faz é ficar de pé e falar. Que sentido tem?

     -É uma questão de interação social e cultural. Uma oportunidade de ficá-la melhor roupa, beber grátis e paquerar uns com outros. Assim que entremos, estou decidido a paquerar contigo. A menos que prefira que vamos às cavalariças onde sem tardança te tiraria esse bonito vestido.

     Mais interessada na perspectiva do que tivesse desejado, ela elevou uma sobrancelha.

     -Essas são minhas únicas opções?

     -Poderíamos utilizar meu jipe, mas não seria tão acolhedor.

     -por que será que os homens pensam dia e noite no sexo?

     -Porque pensar no sexo é o mais próximo a levá-lo a cabo. Tem um pouco posto debaixo desse vestido?

     -É obvio! Tive que me melar inteira para me poder pôr isso      -No tiene nada de repentino.

     Ben fez uma careta e tratou de não gemer.

     -Mereço o que me acaba de dizer. Proponho-te que entremos, ficaremos de pé e tagarelaremos.

     Quando Ben retrocedeu, o frio assaltou a Willa como uma espécie de bofetada. Tremendo, encaminhou-se à porta. Mas apesar de tudo, deteve-se antes de chegar e perguntou, com a mão sobre o trinco:

     -Ben, por que de repente te deu de me tirar a roupa?

     -Não tem nada de repentino.

     Ele mesmo abriu a porta e a fez passar. Como se estivesse em sua casa, tirou-se o sobretudo e o jogou sobre o poste do corrimão da escada. A diferença da Willa, adorava as reuniões, o ruído, a excitação e os aromas das festas. Algumas pessoas estavam sentadas nos degraus da escada com pratos de comida sobre os joelhos. Outras, do vestíbulo, encaminhavam-se para as portas abertas de distintas habitações. Quase todos o saudaram e intercambiaram umas palavras com ele, enquanto Ben sujeitava com firmeza um dos braços da Willa para impedir que fugisse.

     Sabia que fugir era o que ela pensava fazer mas ele tinha algo que lhe demonstrar. E o demonstraria, a Willa e a todo mundo, incluindo a vários boiadeiros que tinham os olhos postos nela. O fim do ano velho e o princípio do novo com todos seus mistérios e possibilidades parecia o momento perfeito para fazê-lo.

      -Se me soltasse um minuto -murmurou-lhe ela ao ouvido-, eu poderia...

     -Já sei o que faria. Não penso te soltar. Convém que vá acostumando.

     -Que demônios se supõe que significa isso? -Willa só pôde amaldiçoar em voz baixa enquanto ele a conduzia ao grande salão.

     Os convidados tinham retrocedido para deixar lugar aos bailarinos. A seu passo, Ben tomou um copo de cerveja e olhou com satisfação o baile intricado que nesse momento executavam seus pais.

     -podem-se tirar muitas conclusões sobre as pessoas que dançam juntas dessa maneira -comentou.

     Willa o olhou.

     -Que conclusões?

     -conhecem-se por dentro e por fora. E gostam do que vêem em ambas as partes. Agora, note neles -inclinou A cabeça para assinalar ao Nate e ao Tess que se balançavam, porque não se podia dizer que estivessem dançando, enquanto se olhavam sorridentes-. Ainda não se conhecem, pelo menos não de tudo, mas se divertem muito averiguando-o.

     -Ela sozinho o utiliza para ter sexo.

     -E ele parece muito aborrecido pelo assunto, verdade? -Lançando uma risita, gen apartou sua taça-. Vêem.

     Horrorizada, Willa retrocedeu, tratando de afundar no tapete esses saltos altos que tão pouco familiares lhe resultavam, enquanto ela empurrava para a pista de baile.

     -Não posso! Não quero! Não sei dançar.

     -Então aprende. -Apoiou-lhe uma mão firme sobre a cintura, e colocou uma mão da Willa sobre seu ombro.

     -Eu não danço. Todo mundo sabe que não danço.

     Ben solo tomou a mão que ela acabava de deixar cair e a voltou a colocar sobre seu ombro.

     -Às vezes a gente chega muito longe se seguir a alguém que sabe aonde vai.

     Fez-a girar de maneira tal que ela teve que escolher entre mover-se sobre seus próprios pés ou cair de culo ao chão. sentia-se torpe, cheia de acanhamento, tinha a sensação de que todo mundo a olhava. E se manteve rígida como uma tabela.

     -te relaxe -murmurou-lhe Ben ao ouvido-. Não é necessário que lhe aduela. Olhe ao Lily. Bonita como um quadro, com a cara avermelhada e o cabelo cacheado. Brewster se está divertindo como louco lhe ensinando a dançar o two-step.

     -Lily parece feliz.

     -E o está. E Jim Brewster estará virtualmente apaixonado por ela antes de que o baile tenha terminado. Depois tirará dançar a outra mulher e se apaixonará por ela. -Como Willa o estava pensando e se esqueceu de tornar-se atrás, Ben a aproximou um pouco mais a seu corpo-. Essa é a beleza do baile. A gente pode abraçar a uma mulher, apalpá-la, cheirá-la.

     -E depois seguir com a próxima.

     -Sim, às vezes é o que se faz. E às vezes não. me olhe um minuto, Willa.

     Ela o fez, viu o brilho de seus olhos e logo que teve tempo de piscar surpreendida quando os lábios do Ben já estavam sobre os seus. Deu-lhe um beijo lento e profundo, um surpreendente contraste com os velozes movimentos do baile. O coração da Willa girava como enjoado dentro de seu corpo, logo foi como se se desmoronasse e começou a pulsar desaforadamente.

     Quando Ben levantou a cabeça, ela se estava movendo com ele.

     -por que o fez?

     A resposta era singela e ele pensava ser sincero.

     -Para que todos os homens que estão neste salão saibam de quem é a marca que leva. -E a reação da Willa não o desiludiu. Abriu os olhos muito grandes, impactada, e logo os entrecerró, furiosa. A fúria lhe coloriu as bochechas. E enquanto ela vaiava, ele voltou a beijá-la-. E será melhor que também acostume a isto -recomendou-lhe. Logo deu um passo atrás-. Irei te buscar uma taça.

     Tinha a esperança de que quando voltasse com a taça prometida, ela não tivesse decidido arrojar-lhe à cara.

     Willa mas bem estava pensando em lhe rasgar a cara, pedaço a pedaço quando Shelly lhe aproximou, excitada.

     -Você e Ben! Nunca me imaginei! Esse homem é capaz de lhe manter secretos ao mesmo Deus! -Enquanto falava, guiou a Willa para um rincão-. Quando começou tudo? E em realidade, o que há entre vós dois?

     -Nada. Não acontece nada. -Sua fúria crescia perigosamente. Sentia-a crescer de uma maneira física, bulia-lhe sob a pele-. Esse filho de puta! Disse que me estava marcando. Como se eu fosse uma vaca.

      -Isso disse? -Romântica de pés a cabeça, Shelly se levou uma mão ao coração-. Ai! Meu Zack nunca me disse nada parecido.

     -Justamente por isso ainda segue vivo.

     -Está brincando? Me teria encantado. -Lançou uma gargalhada ao ver a expressão de assombro da Willa-. Vamos, Will! Em pequenas dose, a arrogância machista é atrativa. Eu me derreto por dentro cada vez que vejo os músculos do Zack.

     Willa olhou fixamente os olhos do Shelly.

     -Quanto bebeste?

     -Não estou bêbada nem falo em brincadeira. E algumas vezes, Zack me levanta do chão e me coloca sobre seus ombros. Agora que estou grávida, já não resulta tão espontâneo, mas se soubesse o resultado que dá!

     -Talvez seja assim em seu caso. Mas eu não gosto dos homens que avassalam.

     -Já sei. Foi horrível a forma em que todos ficaram olhando enquanto você afugentava ao Ben. -Shelly colocou um dedo no vinho e o lambeu-. A ninguém coube dúvida de que detestava que te beijasse até te deixar inconsciente.

     Willa procurou uma resposta inteligente.

     -te cale a boca, Shelly! -foi o melhor que lhe ocorreu dizer antes de afastar-se dela.

    

     -A vaqueira tem um cardo metido no traseiro -comentou Tess.

     -Ao Ben gosta de irritá-la.

     Tess olhou ao Nate elevando uma sobrancelha.

     -Eu acredito que gostaria de fazer muito mais que isso.

     -Assim parece. E falando de fazer mais que isso... -inclinou-se e lhe fez uma sugestão no ouvido que acendeu o sangue do Tess.

     -Advogado Torrence, devo confessar que tem muita facilidade de palavra.

     -Poderíamos escapar daqui sem que ninguém se desse conta, ir a minha casa e ver chegar o Ano Novo de uma maneira mais... privada. Ninguém sentiria saudades.

     -Um. -voltou-se para apoiar seus peitos contra o do Nate-. Muito longe. Vamos. Cinco minutos.

     O abriu os olhos, surpreso.

     -Com toda esta gente na casa?

     -E uma fechadura muito forte na porta. Ao chegar à parte superior da escada, dobra à esquerda, logo à direita e é a terceira porta à direita. -Passou-lhe a ponta dos dedos pela mandíbula-. Estarei-te esperando.

     -Tess, acredito que...

     Mas ela já se afastava, depois de lhe dirigir um olhar ardente por cima do ombro. Nate tivesse jurado que ouvia morrer as células de sua cabeça. Deu dois passos atrás dela, deteve-se, tratou de ser sensato.

     Ao diabo contudo! Desde que ela entrou em seu escritório com a idéia de sexo metida na cabeça, nunca pôde voltar a ser sensato. Nem sequer importava que ele se estivesse apaixonado pelo Tess como um louco, enquanto que a ela nem sequer lhe passava pela cabeça. Pareciam o um para o outro. Soubesse ela ou não, estava seguro disso.

     Com a esperança de ser discreto, tomou uma garrafa de champanha e duas taças. E chegou até a base da escada.

     -Uma festa privada? -perguntou Ben, quem riu ao ver que Nate se ruborizava com intensidade-. Peço-te que dê ao Tess um beijo de feliz Ano Novo de minha parte.

     -Procura sua própria mulher.

     -É o que penso fazer.

     Mas se tomou seu tempo antes de procurá-la e voltar a aferrar-se a ela. Sua meta consistia em ter a em seus braços à meia-noite. Deu-lhe corda até uns minutos antes, e quando começou a conta a aproximou de si com firmeza.

     -Não volte a começar.

     -Só falta um minuto para a meia-noite -disse ele com tranqüilidade-. Sempre penso nesse minuto entre um ano e outro como um tempo inexistente. -Ao ver que ela franzia o sobrecenho, soube que acabava de obter sua atenção e deslizou os braços a seu redor-. Agora não, então não. Nada. Se estivéssemos a sós poderia fazer o que quero contigo durante esses sessenta segundos. Mas não seria verdadeiro. De maneira que vou esperar até que o seja. me abrace. Ainda não conta. Faltam alguns segundos.

     Willa não alcançava para ouvir mais que sua voz, em sua mente não penetravam o ruído, nem as risadas, nem a excitado recontagem dos segundos que faltavam. Por fim, como em um sonho, levantou os braços e lhe rodeou o pescoço.

     -me diga que me deseja -pediu ele-. Não conta. Ainda não.

     -Desejo-te. Mas eu não...

     -Não há peros que valham. Não importa. -Deslizou uma mão para cima, por suas costas nua, sob seu cabelo-. Me beije. Ainda não é real. me beije, Willa. Por uma vez, me beije.

     Ela manteve os olhos abertos e a mente em branco enquanto o beijava. Os lábios do Ben eram tão quentes, tão acolhedores, tão inesperadamente suaves que se estremeceu. E lhe acabou o tempo.

     No trasfondo de sua mente ouviu exclamações jubilosas. A gente a empurrava em seu apuro por intercambiar desejos de felicidade para o novo ano. E enquanto os segundos se deslizavam do fim ao princípio, sentiu que lhe doía o coração.

     -É real. -Quando ela se afastou, a frase foi tanto uma acusação como uma declaração. Brilharam-lhe os olhos pela verdade recém descoberta-. É-o.

     -Sim. -Surpreendeu-a ao tomar uma mão e levar-lhe aos lábios- A partir deste momento. -Passou-lhe um braço ao redor da cintura e a manteve perto dele-. Olhe isso, querida. -Moveu-a apenas um poquito-. É uma bonita cena.

     Apesar de sua própria confusão, Willa deveu admitir que o era. Adam, com as mãos ao redor do rosto do Lily e Lily, lhe sustentando as bonecas com os dedos.

     Note como se olham aos olhos, disse-se Willa. Como tremem os lábios do Lily, com que suavidade os acaricia Adam com os seus. E como permanecem ali, tão quietos, nesse sussurro que é o beijo.

     -Está apaixonado por ela -murmurou Willa. As emoções palpitavam em seu interior. É muito para poder senti-lo, pensou, levando uma mão ao estômago. Muito para pensá-lo. Era um milagre-. O que está acontecendo? eu adoraria saber o que está acontecendo. Já nada é como antes. Nada é tão singelo como antes.

     -Podem fazer-se felizes. Isso é singelo.

     -Não. -Willa meneou a cabeça-. Não, não será singelo. Não o sente? Há algo... -Voltou a estremecer-se, porque o sentia. Algo frio e maligno e próximo-. Ben, há algo...

     Foi então quando começaram os gritos.

    

     Não havia muito sangue. A polícia chegaria à conclusão de que lhe tinham dado morte em outra parte e logo levado a rancho. Ninguém a reconheceu. Quase não tinha marcas no rosto, solo um moretón debaixo do olho esquerdo.

     Seu cabelo tinha desaparecido.

     A pele estava um pouco azulada. Foi algo que Willa viu pessoalmente quando saiu correndo e encontrou ao jovem Billy tratando de tranqüilizar a Mary Anne Walker com quem estava quando tropeçaram com o cadáver. Estava nua e tinha a pele cheia de navalhadas, que pareciam linhas de um desenho.

     Muito pouco sangue e esta já seca sobre a pele pálida e azulada.

     Mary Anne vomitou ali mesmo, sobre os degraus de entrada. E Billy logo a imitou, lançando sua parte da cerveja que bebeu no jipe enquanto se esforçava por lhe baixar a Mary Anne as calças até os tornozelos.

     Willa os fez entrar na casa e ordenou a todos os que se amontoavam no alpendre, boquiabertos e fazendo comentários, que também entrassem nela. disse-se que mais tarde pensaria na mulher, nessa mulher de pele azulada e sem couro cabeludo que se encontrava morta ao pé dos degraus de entrada.

     Depois pensaria nela.

     -Bess já chamou à polícia. -Adam apoiou uma mão sobre seu braço e esperou até que Willa o olhou. As vozes dos que os rodeavam eram muito fortes, muito aterrorizadas-. Eu devo sair com o Ben para ficar com.., para ficar com ela até que chegue a polícia. Pode-te fazer cargo de tudo isto?

     Willa se voltou e olhou o salão. Stu McKinnon acabava de apagar a música, e utilizava sua voz forte e tranqüilizadora para acalmar aos convidados. Willa permitiu que, no momento, ele se fizesse cargo da situação, enquanto ela permanecia ali, como cravada no chão, olhando o retrato de seu pai que pendurava sobre a chaminé. Os olhos azuis e frios do retrato a olhavam fixamente. Quase alcançava a vê-lo burlando-se dela, culpando-a pelo acontecido.

     Descalça, com o fechamento do vestido não de tudo fechado, Tess baixou correndo pela escada no momento em que Lily entrava em vestíbulo.

     -O que passou? Ouvi que alguém gritava.

     -houve outro assassinato -respondeu Lily, aferrando com força a mão do Tess-. Eu não a pude ver. Adam impediu que saísse, mas sei que é uma mulher. Ninguém parece conhecê-la. Estava simplesmente atirada ali. diante da casa.

     -OH, Meu deus! -Tess se levou a mão livre à boca e fez um esforço por não perder o controle-. Feliz maldito Ano Novo. Está bem. -Respirou fundo-. Agora façamos o que corresponda fazer.

     aproximaram-se da Willa, flanqueando-a em um gesto instintivo. Nenhuma delas tinha plena consciencia de que as três se acabavam de tirar da mão.

     -Não a conheço -conseguiu dizer Willa-. Nem sequer a conheço.

     Tess lhe apertou a mão com mais força.

     -Não pense agora nisso. -Soltou-lhe a mão-. Não pense nisso. Solo devemos tratar de agüentar isto.

    

     Horas depois, quando começava a amanhecer, sentiu que alguém lhe apoiava uma mão sobre o ombro. ficou-se dormida, só Deus sabia como, frente ao fogo da chaminé da sala de estar. Lutou por liberar-se quando Ben tratou de agarrá-la em braços.

     -Levarei-te acima. Deve te deitar.

     -Não. -ficou de pé. Sentia a cabeça liviana, o corpo intumescido, mas o coração voltava a lhe pulsar com rapidez-. Não, não posso. -Olhou a seu redor, como em um sonho. Os restos da festa ainda estavam ali. Copos e pratos, comida que ficava rançosa, cinzeiros transbordantes de bitucas-. Onde...?

     -Todo mundo se foi. O último dos policiais se foi faz dez minutos.

     -Disseram que queriam voltar a falar comigo.

     «me levem a biblioteca de novo -pensou-, me interroguem outra vez. me obriguem a retroceder passo a passo de novo. Uma e outra vez. Retroceder até o momento em que corri para fora e me encontrei com esses dois adolescentes aterrorizados e com uma mulher morta de pele azulada.»

     -O que? -apertou-se uma mão contra a cabeça. A voz do Ben era como um zumbido em seu cérebro.

     -Pinjente que os convenci de que poderiam voltar a falar contigo mais tarde.

     -Ah! Café? Ficará um pouco de café?

     Ben já fazia momento que a observava, enroscada na poltrona, e1 rosto muito branco contrastando com as profundas olheiras. Talvez estivesse de pé nesse momento, mas ele sabia que era por pura força de vontade. Coisa bastante fácil de solucionar. Elevou-a e tomou em seus braços.

     -Irá à cama. Agora mesmo.

     -Não posso. Tenho... coisas que fazer. -Sabia que devia haver dúzias de coisas que fazer, mas não lhe ocorria nenhuma-. Onde... minhas irmãs?

     Ben elevou as sobrancelhas enquanto subia a escada com ela em braços. Compreendeu que estava muito extenuada para compreender que era a primeira vez que se referia ao Lily e ao Tess como suas irmãs.

     -Tess subiu faz uma hora. Lily está com o Adam. Ham se pode encarregar de tudo o que terei que fazer no dia de hoje. Vete a dormir, Will. É o único que deve fazer.

     -Não paravam de me fazer perguntas! -Não protestou, não pôde protestar quando ela tendeu sobre a cama-. Todo mundo fazia pergunta. E a polícia, que levava às pessoas à biblioteca, um a um.

     Olhou-o aos olhos. Neste momento são de um verde frio, pensou. Frios e duros e indecifráveis.

     -Eu não a conhecia, Ben.

     -Não. -Tirou-lhe os sapatos, debateu-se em seu interior e logo, apertando os dentes, fez-a girar sobre si mesmo para lhe abrir o fechamento do vestido-. Revisarão as denúncias de pessoas desaparecidas. Examinarão suas impressões digitais.

     -Quase não havia sangue -murmurou ela, quieta como uma criatura enquanto ele deslizava o vestido para baixo-. Não foi como as outras vezes. Ela não parecia real, não tinha nenhum parecido com um ser humano. Crie que ele a conheceria? Conheceria-o quando lhe fez todo isso?

      -Não sei, querida. -E com a mesma ternura com que teria tratado a uma criatura, agasalhou-a com as mantas-. por agora não pense no assunto. -sentou-se no bordo da cama e lhe acariciou o cabelo-; Deixa o assunto em paz e durma.

     -O me culpa  -disse Willa com voz espessa e como bêbada de extenuação.

     -Quem te culpa?

     -Papai. Sempre me culpou. -Suspirou-. E sempre o fará.

     Ben lhe apoiou a mão sobre a bochecha e a deixou um instante ali.

     -E sempre esteve equivocado.

     Ao ficar de pé e dá-la volta, viu o Nate na porta.

     -dormiu-se? -perguntou Nate.

     -No momento, sim. -Colocou com cuidado o vestido sobre uma cadeira-. Mas conhecendo a Willa, asseguro-te que não dormirá muito tempo.

     -Eu convenci ao Tess de que tomasse um sedativo. -Sorriu-. Não tive que insistir muito. -Assinalou o vestíbulo com a mão. Juntos se encaminharam ao despacho da Willa, entraram e fecharam a porta-. É cedo -disse Nate-, mas eu vou tomar um uísque.

     -Resultaria-me odioso verte beber sozinho. me sirva três dedos. -Durante um instante nenhum dos dois falou. Logo Ben adicionou-: Não acredito que ela tenha sido de por aqui.

     -Não? -O tampouco acreditava, mas queria conhecer os fundamentos da opinião do Ben-. por que?

     -Bom. -Ben bebeu um gole de uísque e lançou um assobio ante o forte que lhe resultava o álcool-. Tinha as unhas das mãos e dos pés pintadas de um vermelho brilhante. Tatuagens no traseiro e em um ombro. Acredito lhe haver visto três pendentes em cada orelha. Tudo indica que era da cidade.

     -Não parecia ter mais de dezesseis anos. Isso me indica que deve ter fugido de sua casa. -Nate bebeu um grande sorvo de uísque-. Pobre criatura! Talvez estivesse viajando fazendo carona ou percorrendo as ruas do Billings ou do Ennis. Em qualquer lugar que a tenha encontrado esse cretino, deve havê-la retido bastante tempo.

     Isso chamou a atenção do Ben.

     -por que o diz?

     -Surrupiei um pouco aos policiais. Sinais abrasivos ao redor das bonecas e dos tornozelos. Esteve atada. Não o podem afirmar com segurança até lhe haver feito as provas necessárias, mas estão quase seguros de que foi violada e de que sua morte se produziu pelo menos vinte e quatro horas antes de que ele a deixasse aqui. E de todo isso se desprende que a manteve oculta em alguma parte.

     Ben se passeou pela habitação durante uns instantes, tratando de afogar sua frustração e seu desgosto.

     -Mas por que aqui? por que deixá-la frente a esta casa?

     -Alguém tem os olhos postos no Mercy.

     -Ou em alguém do Mercy -adicionou Ben, e pela expressão dos olhos do Nate compreendeu que estava de acordo com ele-. Tudo isto começou depois da morte do velho, depois da chegada do Tess e do Lily. Talvez deveríamos as estudar com mais atenção e tratar de descobrir quem pode querer as prejudicar.

     -Assim que desperte, falarei com o Tess. Sabemos que no passado do Lily há um ex-marido. Um homem que a golpeava.

     Ben assentiu e se esfregou a mandíbula, distraído.

     -Mas há muita diferença entre lhe pegar à mulher própria e cortar em pedacinhos a desconhecidos.

     -Talvez a distância não seja tão grande. Eu me sentiria muito melhor se soubesse onde está esse ex-marido e no que anda.

     -Podemos lhe proporcionar seu nome à polícia, contratar a um detetive privado.

     -Estou de acordo com isso. Sabe como se chama?

     -Não, mas Adam deve sabê-lo. -Ben bebeu o resto do uísque e depositou o copo sobre a mesa-. Proponho-te que comecemos em seguida.

    

     Encontraram-no nas cavalariças, examinando a uma égua prenhe. -vai parir dentro de pouco -disse Adam enquanto se endireitava-. Não lhe falta mais que um dia ou dois. -depois de lhe fazer uma última carícia ao animal, saiu da quadra destinada aos partos e fechou a porta a suas costas-. E Will?

     -Dormida -respondeu Ben-. No momento.

     Adam assentiu e avançou para a gaveta dos grãos.

     -Lily ficou dormida em meu sofá. Queria me ajudar a dar as rações da manhã, mas ficou dormida enquanto esperava que eu me trocasse. Me alegro de que não a tenha visto. E Tess tampouco. -A tensão e o cansaço convertiam seus movimentos, pelo general tranqüilos, em espasmódicos-. Lamento que Will a tenha visto.

      -Superará-o. -Ben se aproximou de um fardo de erva-. O que sabe sobre o ex-marido do Lily?

     -Não muito. -Adam seguiu trabalhando, tão pouco surpreso pela ajuda como pela pergunta-. Chama-se Jesse Cooke. conheceram-se quando ela era professora e se casaram um par de meses depois. Mais ou menos um ano mais tarde, ela o deixou. A primeira vez. Não me há dito muito mais, mas eu tampouco o perguntei.

     -Lily sabe onde está esse homem? -Ignorando seu melhor traje, Nate encheu um manjedoura.

     -Acredita que está no este. Pelo menos é o que quer acreditar.

     Durante alguns minutos trabalharam em silêncio, três homens acostumados à rotina, aos aromas, à tarefa. As cavalariças estavam iluminadas pelo sol que entrava em torrentes pela porta aberta do abrigo. Os cavalos se moviam sobre suas camas recém postas, mascavam a ração, de vez em quando relinchavam.

     Do galinheiro se ouvia o canto de um galo e no pátio de chão de terra da casa dos peões se ouviam os passos dos homens que reiniciavam seu trabalho. Essa manhã, nenhuma rádio acesa emitia música, nem as vozes dos peões turvavam a quietude do silêncio invernal. Embora alguns dirigiam olhadas à casa principal, ao alpendre, a um lugar determinado sob os degraus, ninguém fazia comentários.

     ficou em marcha um motor; um jipe saiu para o campo. E retomou o silêncio, o hóspede que permanecia ali depois de uma festa frustrada.

     -Agora talvez convenha que lhe faça algumas pergunta -disse Ben por fim-. depois do acontecido é algo que não podemos ignorar.

     -Já o pensei. Mas primeiro quero que descanse um pouco. Maldita seja! -O pau da pá que Adam tinha na mão se quebrou a causa do movimento brusco que acabava de fazer-. Deveria estar a salvo aqui.

     A fúria que poucas vezes demonstrava, brotou em seu interior tão intensa e tão veloz, que afogava suas palavras. Tinha vontades de golpear algo, de destroçar algo. Mas não tinha nada. Nesse momento até suas mãos estavam vazias.

     -Essa garota era uma criatura. Como é possível que alguém lhe faça algo assim a uma criatura?

     voltou-se para eles, os punhos fechados, os olhos escuros e ardentes de cólera.

     -Onde estava esse indivíduo? Muito perto nosso? Estava fora, nos olhando pela janela? Ou estava dentro conosco? Esse filho de puta haverá meio doido ao Lily, dançado com ela? Se ela tivesse saído a tomar um pouco de ar, teria se topado com ele?

     olhou-se as mãos e as abriu para contemplar as Palmas.

     -Poderia matá-lo eu mesmo; resultaria-me fácil. -Levantou a vista e olhou ao Ben e ao Nate-. Seria tão fácil!

     -Adam.

     A voz do Lily era apenas um sussurro, aterrorizada ante a fúria do Adam. aproximou-se com os braços cruzados sobre o peito e cravando-os dedos nos ombros.

     -Deveria estar dormindo. -Tremeram-lhe 'vos ombros pelo esforço que deveu fazer para conter sua fúria-. Aqui já quase terminamos. Vete a casa a dormir um momento.

     -Tenho que falar contigo. -Teria ouvido o bastante, visto bastante para saber que era o momento-. Sozinhos, por favor. -voltou-se para o Ben e Nate-. Sinto muito. Tenho que falar com o Adam a sós.

     -Leva-a dentro -sugeriu Nate-. Ben e eu podemos terminar com isto. Leva-a dentro -repetiu-. Tem frio.

     -Não deveste sair. -Adam lhe aproximou procurando não tocá-la-. Entremos, assim poderemos tomar um pouco de café.

     -Preparei café antes de sair. -Notou que ele permanecia longe dela e se envergonhou-. Já deve estar preparado.

     Adam saiu com ela por atrás, cruzaram a porta do curral para a porta traseira de sua casa. Por costume, ele se limpou as botas antes de entrar.

     Na cozinha flutuava um agradável aroma de café recém feito, mas a luz era escassa, por isso ele acendeu a luz elétrica.

     -Sente-se -pediu ela-. Eu lhe servirei isso.

     -Não. -Adam se colocou frente a ela quando Lily tendia a mão para o aparador. Mas ainda não a tocou-. Sente-se você.

     -Está zangado. -Odiava o tremor de sua voz, odiava que a irritação de um homem, ainda o de um homem como Adam pudesse lhe fazer tremer os joelhos-. Sinto muito.

     -O que sente? -Disse-o em um impulso, antes de poder conter-se. E mesmo que viu que ela retrocedia, não pôde sossegar toda sua irritação-. por que demônios tem que te desculpar ante mim?

     -Por tudo o que não te hei dito.

     -Não me deve explicações. -A porta do aparador golpeou com força contra a parede quando ele a abriu de um puxão. E, de reojo, Adam a viu retroceder, sobressaltada-. Não retroceda, nem me tenha medo. -Tratou de tranqüilizar sua respiração e manteve o olhar fixo nas taças colocadas em fileiras sobre as prateleiras-. Não o faça, Lily. Preferiria me amputar as mãos antes das usar para te pegar.

      -Sei. -Lhe encheram os olhos de lágrimas, mas piscou até que conseguiu as conter-. Sei dentro de meu coração. Mas é minha cabeça, Adam. E realmente estou em dívida contigo. -aproximou-se da mesa de cozinha redonda com seu singelo recipiente branco cheio de maçãs-. Mais que explicações. foste meu amigo. Meu anda. Desde minha chegada, foste tudo o que necessitei.

     -A amizade não se paga -respondeu ele com cansaço.

     -Você me desejava. -Lily começou a respirar entrecortadamente ao ver que ele se voltava com lentidão para olhá-la-. Acreditei que era sozinho... solo o habitual. -passou-se uma mão nervosa pelo cabelo, pelos lados dos jeans que se pôs essa manhã antes de sair da casa principal-. Mas nunca me tocou dessa maneira, nem me pressionou, nem me fez sentir obrigada a nada. Não pode imaginar o que é sentir-se obrigada a permitir que alguém te possua tão solo para conservar a paz. Não sabe quão degradante é. Tenho coisas que te contar.

     Não podia lhe olhar. Voltou a cara para outro lado.

     -Começarei pelo Jesse. Mas enquanto isso, posso preparar o café da manhã?

     Adam tinha uma taça na mão e a estava olhando fixamente.

     -O que?

     -Resultará-me mais fácil falar se tiver as mãos ocupadas enquanto o faço. Não sei se o poderei dizer aqui, quieta e sentada.

     Já que era o que ela queria, ele deixou a taça, encaminhou-se à mesa e se sentou.

     -Na geladeira há toucinho. E ovos.

     Ela lançou um suspiro comprido e tremente.

     -Bom. -dirigiu-se primeiro à cozinha e lhe serve uma taça de café. Mas não o olhava-. Já te contei um pouco. Enquanto falava se encaminhou à geladeira-. Disse-te que era professora. Nunca fui tão inteligente nem criativa como minha mãe. Ada é surpreendente. Tão forte e tão vital! Até que fiz doze anos, nunca soube quanto a tinha ferido ele. Meu pai. Uma vez a ouvi falar com uma amiga, chorando. Acabava de conhecer meu padrasto e, agora compreendo, tinha medo dos sentimentos que despertava. Dizia que preferia estar sozinha, mas que nunca queria voltar a ser vulnerável ante um homem. E lhe contou que meu pai a tinha jogado e que ela estava muito apaixonada por ele. Disse que a jogou de sua casa porque não lhe tinha dado um filho varão.

     Adam permaneceu em silêncio enquanto ela punha toucinho em uma frigideira negra de ferro e a colocava ao fogo.

     -De maneira que soube que, por minha causa, estava sozinha e tinha medo.

     -Sabe que isso não é assim, Lily. A culpa de todo a teve Jack Mercy.

     -Meu coração sabe. -Sorriu levemente-. Mas o problema está em minha cabeça. De todos os modos, nunca esqueci essa conversação. Dois anos depois, mamãe se casou com meu padrasto. E são muito felizes. Ele é um homem maravilhoso. Foi estrito comigo. Nunca foi duro, mas sim estrito e um pouco distante. A quem queria era a minha mãe e eu formava parte do pacote. Queria o melhor para mim, deu-me tudo o que pôde, mas nunca pôde me brindar esse afeto fácil que deve haver entre um pai e sua filha. Suponho que começamos muito tarde.

     -E você tinha fome desse afeto.

     -Ah, sim! Estava esfomeada. -Começou a bater ovos em um bol-. Descobri muitas destas coisas anos depois, na análise. Agora resulta fácil vê-lo. Nunca tive uma relação cálida e carinhosa com uma figura paterna. Nenhum homem se interessou por mim. E no colégio era tímida, espantosamente tímida com os meninos. Não saía muito, tomava muito a sério meus estudos.

     Seu sorriso era um pouco mais natural quando começou a ralar queijo sobre os ovos.

     -Fui terrivelmente séria. Não via as coisas da mesma maneira que as via minha mãe, de modo que me refugiei em feitos e em números. Levava-me bem com os meninos, de maneira que ensinar me pareceu o mais lógico. Tinha vinte e dois anos e ensinava em quinto grau quando conheci o Jesse. Conhecemo-nos em um café, perto de meu apartamento. Fazia solo um mês que vivia por minha conta. Jesse me pareceu tão encantador, tão boa moço, estava tão interessado em mim, que fiquei deslumbrada.

     Com um movimento automático polvilhou um pouco de pimenta sobre os ovos.

     -Suponho que era muito ingênua. Era uma nova experiência para mim. Essa mesma noite fomos ao cinema. E começou a me chamar por telefone todos os dias, à hora em que eu voltava do colégio. Levava-me flores e pequenos presentes. Era mecânico e arrumou o desastroso carro que eu tinha.

      -Apaixonou-te por ele -foi a conclusão do Adam.

     -Sim, estava cega de amor. Com o Jesse nunca olhei além da superfície, não sabia que devia fazê-lo. Mais tarde descobri a quantidade de mentiras que me disse. A respeito de sua família, seu passado, seu trabalho. Tempo depois me inteirei de que a mãe estava em um asilo. Quando ele era pequeno, lhe pegava, além disso bebia e se drogava. Ele também bebia e se drogava, mas não soube até depois de que nos casássemos. A primeira vez que me pegou...

     Deixou a frase inconclusa, esclareceu-se garganta. Durante um instante só se ouviu o som do toucinho que se fritava lhe chispe, enquanto ela o tirava da frigideira.

     -Foi mais ou menos um mês depois das bodas. Um de meus companheiros do colégio cumpria anos e pensávamos ir todos juntos a um clube noturno. Uma tolice. Um desses clubes onde os homens dançam e as mulheres lhes colocam bilhetes nas cueca. Uma autêntica tolice. Jess também parecia considerá-lo assim, até que comecei a me vestir para ir. Então começou a criticar o que me punha, o vestido, o penteado, a maquiagem. Eu me ri, convencida de que se tratava de uma brincadeira. De repente agarrou minha bolsa, jazeu-o e rompeu em pedaços meu carnê de conduzir. Eu estava tão surpreendida, tão zangada, que lhe tirei a bolsa. E então ele me atirou ao chão de um golpe. E começou a me dar bofetões, a gritar, a me chamar toda classe de coisas. Depois me rasgou a roupa e me violou.

     Com mãos surpreendentemente serenas, derrubou os ovos dentro da frigideira.

     -Depois chorou como um bebê. Com enormes soluços. -Respirou com força porque era muito fácil recordar, voltar a vê-lo tudo-. Jesse tinha estado na Infantaria de Marinha e se sentia orgulhoso disso, de sua força e sua disciplina. Não te pode imaginar o que foi ver chorar assim a alguém a quem eu considerava tão forte. Espantou-me e, de algum jeito, fez-me sentir poderosa.

     A força não tem nada que ver com uniformize nem com bíceps, pensou Adam. Esperava que ela também tivesse aprendido isso.

     -Suplicou-me que o perdoasse -seguiu dizendo Lily-. Disse que se tornou louco de ciúmes de solo pensar que me aproximariam outros homens. Contou-me que sua mãe abandonou a seu pai quando ele era uma criatura. foi com outro homem. Antes a história tinha sido que ela estava morta. As duas coisas eram mentira, mas eu lhe acreditei e o perdoei.

     Não era fácil ser completamente sincera, tal como ela queria ser.

     -Perdoei-o, Adam, porque nesse momento me fez sentir forte. E porque pensei que se tinha perdido o controle dessa maneira devia ser porque me queria. Isso forma parte da armadilha, do ciclo. Durante oito semanas não me voltou a pegar.

     Com lentidão, muito concentrada, revolveu os ovos que começavam a cozinhar-se dentro da frigideira.

     -O motivo não tem importância. Eram umas pautas que eu me negava a ver, não queria me convencer de que era tão responsável como ele do que acontecia. Começou a beber, perdeu seu trabalho e me pegou. Esqueci-me que as torradas -disse, de repente, e se encaminhou para a cesta do pão.

     -Lily...

     Mas ela meneou a cabeça.

     -Deixei que me convencesse de que tudo era minha culpa. Que sempre era minha culpa. Eu não era bastante inteligente, bastante atrativa, bastante silenciosa, bastante pormenorizada. O que a situação exigisse. E assim continuou durante mais de um ano. Duas vezes teve que me internar em um hospital e pinjente que me tinha cansado pela escada. Até que um dia me olhei no espelho. Velo que meus amigos viam desde fazia meses, o que viam quando tratavam de conversar comigo, de me ajudar. Ferida-las, os moretones, o olhar de animal acossado, o corpo que era puro osso porque não conseguia aumentar de peso.

     Voltou para a frigideira para revolver os ovos com suavidade.

     -Deixei-o. Não o recordo com exatidão. Sei que não me levei nada e que voltei para casa de minha mãe. Sei que tinha medo porque ele me havia dito que jamais me deixaria ir. Que se alguma vez o deixava, iria me buscar. Mas sabia que se ficava um só dia mais com ele, me suicidaría. Não era a primeira vez que o pensava, até planejei como ia fazer o. Com pastilhas, porque sou uma covarde.

     Dispôs as torradas, os ovos mexidos e o toucinho em um prato e o aproximou.

     -Seguiu-me -disse, e pela primeira vez olhou ao Adam-. Um dia, quando saí, estava-me esperando e me arrastou até seu carro. Tratou de me estrangular, gritou-me. Arrancou o carro comigo semiinconsciente a seu lado. Então já estava mais tranqüilo e me explicava as coisas como sempre o fazia. por que estava equivocada, por que era necessário me ensinar como devia comportar uma boa esposa. Eu estava mais aterrorizada do que tinha estado nunca na vida. Quando estava tranqüilo tinha mais medo que nunca do que seria capaz de fazer.., de me fazer.

      Fez um instante de silêncio para tranqüilizar-se porque o medo podia voltar em qualquer momento, e anular sua vacilante coragem.

     -Teve que reduzir a velocidade devido ao tráfico e saltei do carro, ainda em marcha. Mas não me caí. Sempre considerei que foi um milagre. Recorri à polícia e consegui que emitissem uma ordem que lhe impedia de aproximar-se me Comecei a me mover de um lugar a outro. Sempre me encontrava. A última vez, justo antes de que viesse aqui, voltou-me a encontrar. Acredito que esta vez me teria matado, mas um vizinho me ouviu gritar e começou a golpear a porta. Em realidade a derrubou. E Jesse fugiu.

     sentou-se, cruzou as mãos sobre a mesa.

     -Eu também fugi. Acreditei que aqui não poderia me encontrar. Quase não me comuniquei com minha mãe por medo de que, através dela, Jesse pudesse inteirar-se de meu paradeiro. Mas falei com mamãe esta manhã, antes de ir às cavalariças. Não o viu nem teve notícias dele. Respirou fundo-. Sei que você, Nate e Ben ides falar disto com a polícia. Estou disposta a responder a qualquer pergunta que me façam a respeito dele. Mas, que eu saiba, ele jamais fez mal a ninguém, além de mim. E sempre usou sozinho as mãos. Parece-me que se me tivesse encontrado, a que teria atacado tivesse sido a mim.

     -Nunca te voltará a fazer mal. -Fez a um lado o prato para poder lhe cobrir as mãos com as suas-. Sejam quais fossem as respostas. Lily, nunca te voltará a tocar. Juro-lhe isso.

     -Se chegasse a ser ele... -Fechou os olhos com força-. Se for ele, Adam, a responsável serei eu. Sou responsável pela morte de duas pessoas.

     -Não, não o é.

     -Se chegasse a ser ele, sim -disse ela com tranqüilidade-. Tenho que assumi-lo e viver com isso- Estive-me ocultando aqui, Adam, usei-lhes a ti, ao Will e a este lugar para manter afastadas todas essas coisas horríveis. Mas não dá resultado. -Suspirou e moveu as mãos entre as dele-. Devo assumi-lo. Essa é outra das coisas que aprendi na terapia. Não tenho valor, esse valor natural que têm Will e Tess. O pouco que adquiri, tive-o que aprender e praticar. Tinha medo de te dizer tudo isto, e agora lhe tivesse preferido haver isso dito de um princípio. O resto seria mais fácil.

     -Há mais?

     -Não com respeito ao Jesse nem com respeito a estas coisas horríveis, mas é difícil.

     -Pode me dizer algo.

     -Com tudo o que aconteceu ontem à noite, solo há um momento que não me posso tirar da cabeça. -Com uma risada nervosa, retirou as mãos que Adam cobria com as suas-. Oxalá comesse. Te vai esfriar.

     -Lily. -Desconcertado, Adam se apertou os olhos com as mãos e logo, obediente, tomou o garfo-. De que momento fala?

     -É sozinho que, como te disse faz um momento, acreditei que me desejava e que era o de sempre. Nunca imaginei que pudesse ser mais que, bom, essa resposta sensual que têm os homens. Uma questão de hormônios. -Olhou-o com desconfiança para ouvir que ele se afogava-. Foi a impressão que tive -adicionou, já à defensiva-. E você nunca disse ou fez nada que indicasse o contrário. Até ontem à noite. Nesse instante em que me agarrou a cara entre as mãos e olhou aos olhos. E tudo desapareceu, salvo você, quando me beijou. Tudo desapareceu com exceção de ti, e então tudo andou mau, mas por um momento, solo um momento, foi uma maravilha.

     ficou de pé com rapidez e se aproximou da cozinha.

     -Já sei que era Ano Novo. Que a gente se beija a meia-noite, e que não significa...

     -Amo-te, Lily.

     As palavras se deslizaram sobre ela como uma esperança. Apertou-as, apertou-as contra si e se voltou. Adam estava de pé, muito perto, o pálido sol do inverno sobre seu cabelo e seus olhos olhando-a solo a ela.

     -Apaixonei-me por assim que te vi. Mas te estive esperando toda a vida. Solo esperava a ti. -Tendeu-lhe uma mão-. Solo a ti.

     O júbilo se deslizou ao longo da esperança, um gêiser quente e borbulhante através de um lago tranqüilo.

     -Em realidade é tão singelo -disse ela, tomando a mão do Adam-. Quando é verdadeiro é muito singelo. -E se jogou em seus braços-. Não quero estar em nenhuma parte mais que contigo.

     -Aqui estamos em casa -respondeu ele, enterrando a cara no cabelo do Lily-. Fica comigo.

     -Sim. -Voltou os lábios para o pescoço dele e o saboreou pela primeira vez-. Não sabe como quis que me acariciasse, Adam. me acaricie agora, por favor.

     Quão mesmo antes, tomou a cara entre as mãos. Beijou-a, igual a antes. Mas esta vez jogou os braços ao pescoço e sua resposta foi suave, doce e tímida. Quando Adam se separou dela não teve nenhuma necessidade de fazer perguntas; saíram da cozinha e se encaminharam ao dormitório, com sua cama feita com esmero e sua janela com cortinas singelas.

      Então lhe acariciou o cabelo e retrocedeu para lhe dar tempo de decidir.

     -Parece-te que é muito logo?

     O desejo tremia dentro do Lily.

     -Não, é perfeito. Você é perfeito.

     Adam se voltou e baixou as persianas para que o sol dourado se escondesse detrás delas e para que dentro do pequeno quarto a manhã se convertesse em anoitecer. Ela deu o primeiro passo, e foi mais fácil do que tivesse podido imaginar. sentou-se no bordo da cama, muito ruborizada, e começou a tirá-las botas.

     O se sentou a seu lado e fez o mesmo; logo a beijou em silêncio.

     -Tem medo?

     Para o Lily era um milagre não o ter. Estava nervosa, sim, mas sem medo. Conhecia bem o gosto do medo e seu amargo ressaibo. Meneou a cabeça, ficou de pé e se levou as mãos aos botões da camisa.

     -Quão único não quero é te desiludir.

     -Estou por lhe fazer o amor à mulher a quem amo. Como crie que vou desiludir me?

     Olhando-o, alerta ante cada reação do Adam, Lily deslizou a camisa sobre seus ombros. Durante um momento a manteve apertada contra seu peito. «Recordarei isto -pensou Lily-, cada instante disto. Cada palavra, cada movimento, cada fôlego.»

     Adam se ficou de pé e lhe aproximou. Primeiro lhe apoiou uma mão sobre o ombro e o acariciou com suavidade, sem deixar de olhá-la aos olhos. Com delicadeza, tirou-lhe a camisa das mãos e a deixou cair ao chão. Baixou o olhar e também as mãos e dirigiu ambas aos peitos do Lily.

     Ela fechou os olhos enquanto ele a percorria, investigava-a com os dedos. Depois os abriu com lentidão para desabotoar a camisa a ele, fazê-la a um lado e observar o contraste da pele pálida de suas mãos contra o acobreado suave da dele.

     -Quero te sentir contra meu corpo -murmurou Adam enquanto lhe desabotoava o sustento e o deixava cair ao chão entre ambos. Abraçou-a com ternura. Percorreu-o um tremor, como o de um lago tranqüilo cujas águas inquieta um dedo preguiçoso-. Não te machucarei, Lily.

     -Não.

     Era algo do que podia estar segura. Adam apoiou os lábios sobre seus ombros, seu pescoço. Ali não existiria a dor, nem sequer o produzido pelo acanhamento. Ali havia confiança e o desejo seria bondoso.

     Não se sobressaltou quando Adam lhe baixou a cremalheira dos jeans. Tremeu, mas não de medo, quando ele os deslizou por suas pernas lhe murmurando palavras de amor enquanto a ajudava a liberar-se deles.

     O coração lhe saltou dentro do peito quando ele se tirou seu próprios jeans, mas foram pulsados de alegria, de admiração, de expectativa.

     Era uma maravilha contemplar essa pele dourada sobre músculos fortes e magros, esse cabelo brilhante que lhe caía sobre os ombros. E ele a desejava, queria lhe pertencer. Para o Lily era um milagre incrível.

     -Adam -sussurrou seu nome no momento em que se deixavam cair sobre a cama-. Adam Wolfchild. -Quando o peso dele a apertou contra o colchão, enlaçou os braços ao redor de seu pescoço e lhe baixou a boca para que a apoiasse sobre a sua-. Me ame.

     -Amo-te. Amarei-te.

    

     Enquanto eles celebravam a vida em um quarto de penumbras, outro celebrava a morte a plena luz do dia. No profundo do bosque, só e jubiloso, estudava os troféus que com tanto cuidado conservava em uma caixa de metal. Prêmios de caça, pensou, enquanto acariciava o cabelo comprido e dourado de uma jovencita que se equivocou de caminho.

     chamava-se Traci; o disse quando ele se ofereceu a levá-la. Traci com t latina. Declarava ter dezoito anos, mas ele adivinhou que lhe mentia. Seu rosto ainda conservava essa gordura infantil, mas logo, quando a conduziu à montanha e a despiu, o corpo era bastante amadurecido.

     Foi tão fácil! Uma jovencita que estendia o polegar a um lado do caminho. Uma mochila vermelha pendurada dos ombros, jeans ajustados que mostravam suas pernas curtas. E esse cabelo de um dourado brilhante, tingido, é obvio. Mas de todos os modos atraiu sua atenção porque resplandecia como fogo à luz do sol. Tinha as unhas pintadas de vermelho, que fazia jogo com a cor da mochila.

     Mais tarde viu que também tinha as unhas dos pés pintadas da mesma cor.

     Enquanto lhe acariciava o cabelo, recordou havê-la deixado tagarelar um momento. afastava-se do Dodge, disse. dali era, da cidade do Dodge, Kansas.

     -Mas já não está em Kansas -disse ele e riu de seu próprio engenho.

     Voltou a pensar que a deixou falar um momento a respeito da maneira em que pensava viajar até chegar ao Canadá e ver um pouco de mundo. Tirou um pacote de chicletes da mochila e lhe ofereceu um. Depois, dentro do pacote de chicletes, ele encontrou quatro cigarros de maconha cuidadosamente atados, mas se dignou lhe oferecer um desses? É obvio que não!

     Deprimiu-a de um só golpe, um rápido murro na bochecha que a fez pôr os olhos em branco. E a levou às montanhas, onde reinava o silêncio e havia intimidade e ele podia fazer o que lhe desse a vontade.

     E gostava de fazer muitas coisas.

     Em primeiro lugar a violou Um homem tinha suas prioridades. Atou-a bem forte para que não pudesse utilizar essas unhas afiadas para arranhá-lo. A garota gritou até ficar rouca, e se moveu se desesperada sobre o camastro enquanto o fazia costure, utilizava coisas nela.

     Depois fumou os cigarros que ela levava na mochila e o fez tudo de novo.

     Ela rogou, suplicou-lhe que a soltasse. Depois voltou a rogar e a suplicar quando se deu conta de que pensava deixá-la ali, atada e nua.

     Mas um homem tem responsabilidades e ele não podia ficar.

     Quando retornou, vinte e quatro horas depois, tivesse podido jurar que ela se alegrou de vê-lo pela maneira em que rompeu a chorar. De modo que a voltou' a violar e quando perguntou se lhe tinha gostado dela respondeu que sim. Disse-lhe tudo o que ele queria ouvir.

     Até que viu a faca.

     Demorou mais de uma hora em limpar tudo o sangue, mas valeu a pena. E tanto que valeu a pena! E o melhor de tudo, decididamente o melhor de tudo, foi inspirada idéia que teve de arrojar o corpo do Traci com i latino, da cidade do Dodge, Kansas, frente à porta da casa principal do rancho do Mercy.

     Ah, isso foi uma maravilha!

     Beijou com ternura o cabelo ensangüentado e o voltou a colocar com cuidado dentro da caixa. Agora todos estão morto de medos, pensou enquanto colocava a caixa em seu buraco e o voltava a tampar. Todos tremiam em seus sapatos. Porque temiam a ele. Quando ficou de pé e levantou o rosto' para o frio sol de inverno, soube que era o homem mais importante de Montana.

    

     Se alguém houvesse dito ao Tess que ia passar uma gélida noite de janeiro ajoelhada em uma cavalariça entre sangue e líquido amniótico e além disso desfrutar de cada minuto da experiência, lhe teria dado o nome do psiquiatra de seu representante.

     Mas foi exatamente o que fez. E por segunda noite consecutiva. Tinha visto nascer a dois potros e até pôde colaborar um pouco no parto. E lhe fascinou.

     -Com isto um elimina todas as preocupações da cabeça, não é certo? -Retrocedeu uns passos com o Adam e com o Lily enquanto o recém-nascido lutava por ficar de pé pela primeira vez.

     -Tem uma excelente maneira de tratar aos cavalos, Tess -disse-lhe Adam.

     -Não sei se chegará a tanto, mas isto impede que me volte louca. Todo mundo está tão nervoso! Ontem ao sair do galinheiro, topei-me com o Billy. Não sei qual dos dois se assustou mais.

     -Já aconteceram dez dias. -Lily se esfregou as mãos para as fazer entrar em calor-. Já tudo começa a parecer irreal. Sei que Will falou várias vezes com a polícia, mas ainda não chegaram a nada.

     -Olhe. -Adam lhe apoiou um braço sobre os ombros e a aproximou de si quando o potro começou a mamar-. Isso é real.

     -Tão real como minha dor de costas. -Tess se levou uma mão à costas. Era uma desculpa excelente para deixá-los sozinhos. E além disso pensou que um bom banho quente e umas horas de sonho a preparariam para ir visitar o Nate-. Volto para casa.

     -Ajudaste-nos muito, Tess. Agradeço-lhe isso.

     Sorridente, ela agarrou seu chapéu e o pôs.

     -Deus! Se meus amigos pudessem yerme neste momento!

      A idéia a fez rir enquanto saía das cavalariças e fazia frente ao frio selvagem da manhã.

     O que diriam em seu salão de beleza preferido se ela chegasse a entrar como estava nesse momento, com só Deus sabia o que sob as unhas, jeans e uma camisa de flanela suja de sangue e com o cabelo.., bom, seu cabelo era algo indescritível e além não tinha uma gota de maquiagem na cara.

     Supôs que o senhor Williams, seu estilista, deprimiria-se sobre o tapete rosado do salão.

     «Bom -pensou-, quando voltar aos Anjos, todas estas experiências me darão pé para conversações fascinantes em coquetéis e festas.» imaginou em uma festa na Beverly Hills, dando de presente à proprietária de casa com histórias sobre a maneira de varrer esterco de cavalo, recolher ovos de galinha, castrar bezerros -um aspecto do assunto que trataria de embelezar-, e além disso montar a cavalo.

     Um pouco completamente distinto aos ranchos que algumas estrelas de Hollywood se davam o gosto de ter. E logo adicionaria que também tinha havido um psicopata solto por ali.

     estremeceu-se e se amassou em seu casaco. «Tira-lhe o da cabeça -disse-se-. Não ganha nada pensando-o.»

     Então viu a Willa no alpendre, de pé no segundo degrau e olhando as montanhas. Petrificada, pensou Tess, igual à filha do MIDAS. E não sabe o espetáculo maravilhoso que é. Willa era a única mulher que Tess conhecia que não tinha um verdadeiro conceito de seu poderio como mulher. Para a Willa todo se reduzia ao trabalho, à terra, os animais, os peões.

     Estava preparando um comentário sarcástico quando, ao aproximar-se, alcançou a lhe ver a cara. Destroçada. O chapéu pendurava sobre suas costas sobre uma verdadeira cascata de cabelo solto. Suas costas era direita como um flecha, no queixo tinha uma expressão decidida. Sua aparência deveria ser confiada, até arrogante. Mas a expressão de seus olhos era a de um ser acossado e cego pelo que talvez fosse sensação de culpa ou uma dor crua.

     -O que acontece?

     Willa piscou. Foi o único movimento que fez. Não voltou a cabeça, nem moveu os pés.

     -Acaba de estar a polícia.

     -Agora?

     -Faz apenas um momento. -Já não tinha noção do tempo que fazia que estava ali de pé no frio.

     -Parece-me que precisa te sentar. -Tess subiu um degrau, logo um segundo-. Entremos.

     -averiguaram quem era. -Willa seguia sem mover-se mas seu olhar se dirigiu ao lugar junto aos degraus onde encontraram o corpo da moça-. Chamava-se Traci Mannerly. Tinha dezesseis anos. Vivia na cidade do Dodge com seus pais e seus dois irmãos menores. escapou de sua casa, pela segunda vez, faz ao redor de seis semanas.

     Tess fechou os olhos. Não queria inteirar-se de seu nome, não queria conhecer detalhes. Era mais fácil viver sem sabê-los.

     -Entremos.

     -Disseram-me que quando a encontramos pelo menos fazia doze horas que tinha morrido. Tiveram-na atada pelas bonecas e os tornozelos. Tinha queimaduras produzidas pelas sogas quando lutou por liberar-se.

     -Basta!

     -E a violaram. Dizem que a violaram e sodomizaron repetidas vezes. E estava... grávida de dois meses. Estava grávida, tinha dezesseis anos e era de Kansas.

     -Já basta! -repetiu Tess. Corriam-lhe as lágrimas pelas bochechas e se abraçou a Willa.

     E ali ficaram, balançando-se, sobre o degrau, chorando e abraçando-se quase sem dar-se conta de que o faziam. Um falcão chiou nas alturas. As nuvens se uniram para tampar o sol e ameaçar com neve. E elas seguiam juntas, unidas pelo medo e a dor que solo as mulheres conhecem a fundo.

     -O que vamos fazer? -perguntou Tess em um suspiro, tremente-. OH, Deus! O que vamos fazer?

     -Não sei. Simplesmente já não sei. -Willa não se apartou. Embora se deu conta de que estavam estreitamente abraçadas no vento cada vez mais forte, permaneceu onde estava-. Eu sou capaz de dirigir este lugar. Sou capaz de fazê-lo apesar de tudo isto. Mas não sei se for capaz de pensar nessa garota.

     -Não nos faz bem pensar nisso. Podemos pensar em vos motivos, por que a trouxe até aqui. Podemos pensar nisso. Mas não nela. E podemos pensar em nós. -Retrocedeu e se secou a cara empapada em lágrimas-. Será melhor que comecemos a pensar em nós. Acredito que Lily e eu necessitamos que alguém nos ensine a dirigir uma arma.

      Willa lhe olhou fixamente durante um momento e começou a ver nela algo mais que a resplandecente fachada de uma mulher de Hollywood.

     -Eu lhes ensinarei. -Respirou fundo para tranqüilizar-se e voltou a ficar o chapéu-. Começaremos agora mesmo.

 

     -É um assunto preocupem-se -comentou Ham enquanto comia seu guisado de meio-dia.

     Jim se serve um segundo prato e piscou os olhos um olho ao Billy.

     -A que te refere, Ham?

     A resposta se atrasou e ouviram disparos.

     -Uma mulher armada -disse Ham com seu tom seco e sua maneira de falar lenta-. E ainda mais preocupantes são três mulheres armadas.

     -Direi-te a verdade. -Jim afundou uma parte de pão em seu prato e se ]ou levou a boca-. Considero que Tess resulta muito atrativa com um rifle ao ombro.

     Ham lhe dirigiu um olhar de comiseração.

     -Moço, você não tem bastante trabalho para te manter ocupado.

     -Não há quantidade de trabalho que límpida que um homem olhe a uma mulher bonita. Não é certo, Billy?

     -Tem razão.

     Embora Billy não tinha pensado muito em mulheres da véspera de Ano Novo. Tentar fazer o amor com a Mary Anne no jipe foi fantástico, mas a experiência espantosa de encontrar juntos o cadáver, escureceu todo o acontecimento.

     -Mas me aterroriza -disse, falando com a boca enche-. Faz mais de uma semana que estão praticando e ainda não vi ao Tess dar no branco. Faz que um homem tenha medo de sair enquanto estejam disparando.

     -Direi-lhes o que penso -disse Jim, arrotando e ficando de pé-. Acredito que o que precisam é que um homem lhes ensine a fazê-lo. Eu tenho uns minutos livres.

     -Não é necessário que ninguém ensine ao Will o que se pode fazer com uma arma -disse Ham em seguida com orgulho. depois de tudo foi ele quem lhe ensinou a atirar-. Até com um olho fechada dispara melhor que você ou que qualquer outro em Montana. por que não deixam em paz a essas mulheres?

     -Eu não penso as tocar -disse Jim enquanto ficava o casaco-. A menos que se me presente a oportunidade.

     Saiu e viu o Jesse descendo de um jipe.

     -Olá, JC! -Sonriendo, levantou uma mão-. Faz um par de semanas que não te via.

     -Estive ocupado.

     Sabia que se arriscava, que era um risco enorme estar no Mercy durante as horas do dia. Visitava os peões sempre que podia, mas de noite, nas sombras. Visitava-os com bastante freqüência e sabia que a puta de sua mulher abria as pernas ao Wolfchild.

     Mas isso podia esperar.

     -Estive no Ennis, comprando algumas reposições. Acabavam de receber os que lhes encarregaram vós. -Arrojou- um pacote ao Jim, logo se passou um dedo pelo bigode. Começava-lhe a gostar disso de ter bigode-. Decidi trazê-los.

     -Obrigado -disse Jim, depositando o pacote no piso-. Diria que já é hora de que joguemos uma boa partida de pôquer.

     -Eu estou disposto. por que não vêm esta noite ao Three Rocks? -Esboçou seu mais encantador sorriso-. Asseguro-lhes que lhes mandarei de volta com os bolsos mais ligeiros.

     -Talvez o façamos. -Voltou a cabeça para ouvir os disparos e lançou uma risita-. Temos a nossas três mulheres praticando tiro. Eu estava por lhes dar algumas instruções.

     -As mulheres deveriam manter-se afastadas das armas de fogo. -Jesse tirou um pacote de cigarros e o ofereceu.

     -Estão aterrorizadas. Suponho que estará à corrente de que houve problemas por aqui.

     -É obvio. -Jesse exalou uma baforada de fumaça e se perguntou se se arriscaria a jogar um olhar ao Lily a plena luz do dia-. Um mau assunto. Era uma jovencita, verdade? De Nebraska?

     -Disseram-me que era de Kansas. Que escapou de casa. E a mataram como a um cão.

     -As garotas jovens deveriam ficar em suas casas, como corresponde. -Entrecerrando os olhos, Jesse estudou a brasa de seu cigarro-. Aprender a ser algemas. Se me perguntarem isso, o que acredito é que hoje em dia às mulheres gostaria de ser homens. -Essa vez em seu sorriso houve certa maldade-. É obvio que isso não lhes deve incomodar a vós, considerando que têm a uma mulher por patrão.

      Jim ficou tenso mas conseguiu assentir.

     -Não posso dizer que pelo general isso me incomode muito. Mas Will sabe o que é dirigir um rancho.

     -Talvez. Mas pelo que me hão dito, o próximo outono terão três mulheres por patronas.

     -Já veremos. -Sua agradável expectativa de luzir-se ante as mulheres se desvaneceu. Levantou o pacote-. Obrigado por nos haver trazido isto.

     -Não há problema. -Jesse se voltou para o jipe-. Não deixem de vir esta noite. E tragam dinheiro. Tenho a sensação de que a fortuna me sorri.

     -Sim. -Vexado, Jim se acomodou o chapéu e olhou partir o jipe-. Pedaço de imbecil! -murmurou enquanto voltava a entrar na casa dos peões.

    

     No improvisado campo de tiro, atrás do celeiro, Lily se estremeceu.

     -Tem frio? -perguntou Tess.

     -Não. Foi sozinho um calafrio. -Mas tirou o chapéu olhando por cima do ombro para ver os cromados de um jipe que partia-. Passou um anjo sobre minha tumba -murmurou.

     -Bom, isso sim que é alegre! -Tess voltou a ficar em posição e disparou contra uma lata com uma pequena Smith & Wesson para mulher, o que Willa chamava uma pistola de bolso. E errou. Como por um quilômetro de distância-. Mierda!

     -Sempre fica a possibilidade de lhe pegar com a culatra da arma contra a cabeça -disse Willa, colocando-se detrás do Tess e estudando a posição do braço de sua irmã-. Te concentre.

     -Estava-me concentrando. Mas não é mais que uma bala pequena. Se fosse uma pistola maior, como a tua...

     -Cairia-te de culo cada vez que a disparasse. Utilizará uma arma de pequeno calibre até que saiba o que está fazendo. Vamos, até o Lily dá no branco cinco vezes de cada dez.

     -Ainda não adquiri o costume. -Voltou a disparar, franziu o sobrecenho-. Essa esteve mais perto. Estou segura de que esteve mais perto.

     -Sim, a este passo dentro de um ano poderá balear o flanco do celeiro.

     Willa desencapou uma Colt do exército que levava na cintura. A 45 era uma arma grande, e pesada, mas lhe gostava. Para luzir um poquito, derrubou seis latas com seis disparos.

     -A maldita Annie Oakley -sussurrou Tess, odiando a sensação de admiração e de inveja que sentia-. Como diabos o faz?

     -Concentração, uma mão firme e um olhar fixo. -Sorridente, voltou a deslizar a arma dentro de seu estojo-. Talvez em seu caso te faça falta algo mais. Um apoio psicológico. Odeia a alguém?

     -Além da ti?

     Willa logo que elevou uma sobrancelha.

     -Quem foi o primeiro tipo que te deixou plantada e te destroçou o coração?

     -A mim ninguém deixa plantada, campeã. -Mas em seguida fez uma espécie de panela-. Sim, foi Joey Columbo em sexto grau. O filho de puta me deu corda e depois me deixou por meu melhor amiga.

     -Imagina sua cara nessa pulse sobre o poste do alambrado e lhe coloque uma bala entre os olhos.

     Tess apertou os dentes, e fez pontaria. O dedo lhe tremeu sobre o gatilho. Depois baixou a arma com uma gargalhada.

     -Deus! Não posso disparar contra uma criatura de dez anos.

     -Mas agora é todo um homem, vive no Bel Air e não deixa de rir da tola jovencita a quem deixou plantada em sexto grau.

     -Cretino! -Nesse momento disparou mostrando os dentes-. Dava-lhe! -gritou enquanto bailoteaba feliz, e Willa lhe tirou a arma da mão antes de que se disparasse um tiro no pé-. Moveu-se.

     -Possivelmente tenha sido o vento.

     -O que vai ser o vento! Matei ao Joey Columbo!

     -Não foi mais que uma ferida superficial.

     -Está tendido no piso, observando a vida que passa ante seus olhos.

     -Está começando a desfrutar de muito disto -decidiu Lily-. Eu simplesmente imagino que estou em um desses parques de diversões e que quero ganhar o osito de peluche que dão como prêmio. -ruborizou-se ao ver que suas duas irmãs se voltavam a olhá-la-. Bom, me dá resultado.

     -De que cor? -perguntou Willa depois de uns instantes de silêncio-. De que cor é o osito? -explicou.

     -Rosa. -Ante a gargalhada do Tess, Lily a olhou desafiante-. Eu gosto dos ositos de cor rosa. E ganhei mais de uma dúzia enquanto você atirava ao ar.

     -Ah, agora se está pondo desagradável! Acredito que deveríamos organizar um concurso. Não contigo, assassina -disse Tess, apartando a Willa de uma cotovelada-. Solo eu e a apaixonada pelos ositos. -inclinou-se para o Lily-. Veremos se for capaz de suportar a pressão, irmã.

      -Então, sugiro que carreguem suas armas -disse Willa, inclinando-se para tomar as balas-. As duas têm as pistolas vazias.

     -E que vontade a melhor? -perguntou Tess enquanto voltava a carregar cuidadosamente a pistola-. Além da satisfação do triunfo. Faz-nos falta um prêmio. Eu funciono melhor quando tenho uma meta clara.

     -A perdedora se encarregará de lavar a roupa durante uma semana -decidiu Willa-. Ao Bess virá bem um descanso.

     -Ah! -exclamou Lily, erguendo-se-. Eu gostaria de muito...

     -te cale a boca, Lily! -Willa olhou ao Tess-. De acordo?

     -Lavar a roupa de todo o mundo, incluindo roupa interior?

     -Incluindo suas calcinhas francesas.

     -E à mão. Nada de sedas na máquina de lavar roupa. -Satisfeita com o trato, Tess deu um passo atrás-. Você primeiro -disse ao Lily.

     -Doze disparos cada uma, em duas cargas de seis. Quando quiser, Lily.

     -Está bem.

     Respondeu fundo, recordou tudo o que Willa lhe tinha ensinado a respeito da postura, a respiração. Demorou dias inteiros em não fechar os olhos cada vez que apertava o gatilho, e estava orgulhosa de seus progressos. Disparou com lentidão, com tranqüilidade e viu voar quatro botes.

     -Quatro de seis. Nada mal. Baixem as armas, senhoras -ordenou Willa enquanto se dirigia a recolocar as latas.

     -Eu também posso fazê-lo. -Tess quadrou os ombros-. Sou capaz de lhes dar a todas. Todas são esse cretino sardento chamado Joey Columbo. Arrumado a que já deve andar por seu segundo divórcio.

     Surpreendeu-as às duas inclusive a si mesmo, ao derrubar três latas.

     -Também dava a essa outra. Ouvi que fez «PING».

     -É certo -disse Lily com generosidade-. empatamos.

     -Voltem a carregar suas armas.

     Divertida, Willa se encaminhou a colocar os brancos em seu lugar. Ao voltar-se e ver que Nate lhes aproximava, levantou um braço em um gesto de saudação.

     -Não disparem! -Nate levantou os braços quando Lily e Tess se voltaram para ele-. Não estou armado.

     -Quer te pôr uma maçã sobre a cabeça?

     Piscando para luzir suas largas pestanas, Tess lhe aproximou e o recebeu com um beijo.

     -Nem sequer por ti, Olho Atento.

     -Estamos em pleno concurso de tiro -informou-lhe Willa-. Toca a ti, Lily. Vejo um gigantesco osito de peluche em seu futuro. -Riu e colocou os braços em jarras-. Tinha que estar aqui -disse ao Nate ao ver que Lily dava no branco cinco vezes de seis-. Contrata-a para o Espetáculo do selvagem oeste. Supera isso, Hollywood.

     -Posso fazê-lo.

     Mas tinha as Palmas das mãos suadas. Percebeu essa mescla de colônia e aroma de cavalos tão típica do Nate e moveu os ombros tensos. Apontou, apertou o gatilho e errou os seis tiros.

     -Estava distraída -alegou enquanto Willa aclamava e levantava o braço da vencedora-. Você me distraíste -disse ao Nate.

     -Querida, é uma maravilha. Não todo mundo pode errar seis tiros, um atrás do outro.

     Com cautela Nate lhe tirou a arma da mão, apesar de que estava descarregada, e tratou de consolá-la com um beijo.

     Willa riu.

     -Não esqueça separar a roupa branca, lavadeira. E recolhe os casquilhos.

     Quando Lily e Tess começaram a recolher os casquilhos, Lily se aproximou de sua irmã com dissimulação.

     -Ajudar-te -sussurrou.

     -Nem o sonhe! Uma aposta é uma aposta. -Tess inclinou a cabeça-. Mas a próxima vez lutaremos com os punhos.

     -Vou ao Ennis a comprar alguns comestíveis -comunicou Nate enquanto fazia se desesperados esforços por não olhar fixamente o traseiro do Tess que lhe marcava enquanto recolhia os casquilhos-. Devi ver se vos fazia falta algo.

     «O que vais vir para isso!», pensou Willa ao notar a direção do olhar de seu amigo.

     -Obrigado, mas Bess esteve ali faz um par de dias e comprou uma quantidade de provisões.

     Tess se ergueu.

     -Quer que te acompanhe?

     -eu adoraria.

     Tess não apartou o olhar da do Nate enquanto deixava cair um punhado de casquilhos na mão da Willa.

     -irei procurar minha bolsa. -Enlaçou seu braço com o do Nate e olhou a suas irmãs por cima do ombro-. Avisem ao Bess de que não voltarei a comer.

     -O único importante é que volte o dia da lavagem -gritou-lhe Willa-. Não há dúvida de que o tem agarrado pelas Pelotas -comentou logo em voz baixa.

     -me parece que fazem um bom casal -respondeu Lily-. Nate é boa moço e tranqüila. E cada vez que vá ao Tess não pode menos que sorrir.

     -Porque sabe que terminará com as calças enredadas ao redor dos tornozelos. -Riu ante o olhar de desaprovação do Lily-. Me alegro por eles. O que passa é que a mim o sexo não entusiasma.

     -Tem-lhe medo?

     Considerando de quem vinha, pergunta-a foi tão inoportuna, que Willa ficou com a boca aberta.

     -Como?

     -Eu lhe tinha pânico. antes do Jesse, com ele, e também depois. -De forma automática, Lily se dirigiu a juntar os brancos-. Acredito que é natural ter medo antes, sabe? Quando uma não sabe como serão as coisas, e teme fazer algo mal ou o papel de tola.

     -É uma questão bastante singela. O que se pode fazer mau?

     -Um montão de coisas. Eu fiz mal muitas costure. Ou acreditei que as fazia. Mas com o Adam não tive medo. Pelo menos do momento em que me dava conta de que me queria. Com o Adam não tive nada de medo.

     -Quem pode ter medo com o Adam?

     Lily sorriu timidamente, e em seguida ficou séria.

     -Não há dito nada a respeito de... Já sei que está inteirada de que estou... com ele. -Exalou uma baforada de ar, viu-a converter-se em névoa no frio e logo desaparecer-. Que me deito com ele.

     -Sério? -perguntou Willa com um leve tom de brincadeira-. Acreditava que te esperava todas as noites na porta lateral, e que logo te acompanhava de retorno ao amanhecer porque participavam de um torneio de cesta em segredo. Quer dizer que fazem o amor? Que têm sexo? Escandaliza-me!

     Lily recuperou seu sorriso.

     -Adam disse que não enganaríamos a ninguém.

     -E por que íeis querer enganar a alguém?

     -Adam... Adam me pediu que mudasse a sua casa, mas eu não sei se te parecerá bem. É seu irmão.

     -Faz-o feliz.

     -É o que quero. -Vacilou, logo tirou uma cadeia que levava debaixo da camisa e manteve os dedos fechados sobre algo que pendurava dela-. Quer... Deu-me isto.

     Willa se aproximou de olhar o que tinha Lily na palma da mão. Era um anel singelo, de oro com um desenho de diamantes.

     -Era de minha mãe -sussurrou Willa, e sentiu que lhe fechava a garganta-. O deu o pai do Adam o dia que se casaram. -Levantou a vista para olhar ao Lily-. Adam te pediu que te case com ele.

     -Sim. -E o fez de uma maneira maravilhosa, recordava Lily, com palavras singelas e silenciosas promessas-. Eu ainda não pude lhe dar uma resposta. Antes arruinei tanto as coisas que... -interrompeu-se e se amaldiçoou-. Estive em uma confusão tão grande antes -corrigiu-se-. E faz muito poucos meses que estou aqui. Senti que tinha que falar primeiro contigo.

     -Não tem nada que ver comigo. Absolutamente nada -insistiu Willa ao ver que Lily começava a protestar-. Isto é sozinho entre você e Adam. fica a alegria de ser muito feliz. Saca esse anel da cadeia, Lily, ponha o e vá buscá-lo. Não, não chore -inclinou-se para beijar a bochecha do Lily-. Adam acreditará que algo anda mau.

     -Estou apaixonada por ele. -Deslizou a cadeia sobre sua cabeça e desenganchou o anel-. Quero-o com toda a alma, adoro-o. Fica bem -informou quando ficou o anel no dedo-. O disse que me caberia.

     -Perfeitamente -conveio Willa-. vá dizer se o Eu terminarei com isto.

    

     Enquanto avançavam a tombos pelo caminho de acesso, Tess se desperezó.

     -Tem bom aspecto para ser alguém que acaba de perder um concurso de tiro.

     -É que estou contente. Não sei por que. -Baixou os braços, observou a paisagem, as montanhas cobertas de neve, a impressionante extensão de terra-. A vida é um desastre. Ainda há um louco assassino solto e faz dois meses que não vou à manicura. Estou absolutamente fascinada com a possibilidade de ir a um pueblecito de má morte para olhar vidraças. Deus me ajude!

     -Suas irmãs você gosta. -Nate se encolheu de ombros ante o olhar indiferente dela-. Apesar de vocês mesmas, conheceste-lhes e lhes têm simpatia. Observei-lhes às três juntas ali fora, e te digo que vi uma unidade.

     -Uma meta comum, isso é tudo. Estamo-nos protegendo e protegemos nossa herança.

     -Mentira!

     Ela franziu o sobrecenho, cruzou os braços.

     -vais arruinar meu bom humor, Nate.

      -Acabo de ver as mulheres do Mercy. Trabalho em equipe, afeto.

     -As mulheres do Mercy! -Riu com descuido, logo franziu os lábios. «Soa a certo, não é assim?», perguntou-se-. Talvez já não pense que Will é tão grotesca como acreditava. Mas é porque se está adaptando.

     -E você não?

     -por que me vou ter que adaptar eu? Nunca tive nada de mau. -Passou-lhe um dedo pela coxa-. Ou crie que sim?

     -Além de ser orgulhosa, ingovernável e cabeça dura, nada. -Vaio entre dentes quando os dedos do Tess subiram por sua perna, encontraram seu ponto débil e o beliscaram.

     -E você adora. -Inspirada, tirou-se o casaco.

     -Tem calor? -De maneira automática, Nate subiu o ar condicionado.

     -O vou ter -respondeu Tess enquanto se tirava o suéter por cima da cabeça.

     -O que faz? -A surpresa fez que Nate perdesse o domínio do veículo-. Volta a te pôr isso em seguida!

     -Uh, uh. Estaciona. -E se desabotoou o sustento de modo tal que os peitos lhe derramaram sobre o corpo.

     -Estamos em um caminho público. E em pleno dia.

     Ela estirou uma mão, baixou-lhe o fechamento da calça e o encontrou preparado.

     -E isso o que?

     -Tornaste-te louca? Pode vir qualquer Y... Deus santo, Tess! -conseguiu dizer quando ela baixou a cabeça e apoiou a boca sobre seu pênis-. Não posso conduzir assim. Mataremo-nos!

     -Estaciona -repetiu ela, mas já não em tom de brincadeira. Nesse momento era presa de uma necessidade urgente e lhe abriu a camisa de um puxão-. OH Deus, quero-te dentro de mim! Dentro por completo. Rápido. Agora.

     O jipe patinou, as rodas desestabilizadas, mas Nate conseguiu chegar até a calçada sem que derrubassem. Pisou no freio com força, tirou-se o cinto de segurança. Com um movimento rude a pôs de costas enquanto lutava com os jeans do Tess.

     -Prenderão-nos -ofegou.

     -Estou disposta a me arriscar. Date pressa.

     -Nós... OH, Deus! -Debaixo do vaqueiro não havia nada mais que o corpo do Tess-. Poderia-te ter congelado. por que não te pôs um pouco de casaco?

     -Devo ser psíquica. -Mas nesse momento estava simplesmente se desesperada e arqueou o corpo. Seu gemido foi profundo e se confundiu com o do Nate quando ele a penetrou.

     Então solo teve gemidos e ofegos. Os guichês se cobriram de vapor, o couro do assento chiava, e acabaram quase ao uníssono depois de menos de uma dúzia de embates.

     -Deus santo! -De ter tido espaço, teria se desmoronado sobre ela-. Devo estar louco.

     Tess abriu os olhos e começou a rir. Ria a gargalhadas até o ponto de que começaram a lhe doer as costelas.

     -Nate, o respeitado advogado e sal da terra, como diabos vais explicar as marcas de minhas botas sobre o teto de seu jipe?

     Nate levantou o olhar, estudou-as e lançou um suspiro.

     -Mais ou menos como vou ter que me esmerar em explicar por que não conservo um só botão desta camisa.

     -Comprarei-te uma nova. -Tess se sentou, conseguiu localizar seu sustento e o pôs. arrumou-se um pouco o cabelo e recolheu o suéter-. vamos fazer a compra.

    

     Tem um minuto, Will?

     Willa levantou o olhar dos papéis que cobriam o escritório e fez um esforço para não pensar em cifras. Deus! Que cara era a semente forrageira; mas se pensavam resembrar queria começar em seguida. Os pesos dos animais nascidos e dos desmamados giravam em sua cabeça quando fechou o livro maior.

     -Perdão. É obvio, Ham. Algum problema?

     -Não exatamente.

     sentou-se com o chapéu na mão. O inverno tinha sido duro com seus ossos. A idade é dura com os ossos, corrigiu-se, e com cada inverno que passava começava a sentir mais os anos.

     -Fui ao curral de engorda, tal como queria. Parece que vai bem. Conhece o Beau Radley do rancho High Springs?

     -Sim, lembro-me do Beau.

     ficou de pé para adicionar outro lenho ao fogo. Conhecia os ossos do Ham tanto como os conhecia Ham mesmo.

     -meu deus, Ham! Deve ter oitenta anos.

     -Disse-me que esta primavera cumpriu oitenta e três. E te asseguro que conversando com ele é difícil colocar vaza.

     Ham depositou o chapéu sobre seus joelhos e tamborilou os dedos sobre o braço da poltrona.

     Resultava estranho estar sentado ali, onde tinha estado tantas vezes, e ver a Willa atrás do escritório com uma taça de café a seu lado, em lugar do velho com um copo de uísque na mão.

     Santo Deus, como bebia esse homem!

     Willa lutava por conter sua impaciência. Quando Ham queria chegar a alguma parte, tomava seu tempo e o de todos outros. Ela muitas vezes pensava que falar com ele devia parecer-se com ver o movimento de uma geleira. Nasciam e morriam gerações inteiras antes de que alguém chegasse ao fim da questão.

     -Beau Radley, Ham?

     -A-já. Suponho que saberá que o filho se mudou ao Scottsdale, Arizona. Faz mais ou menos vinte ou vinte e cinco anos. Esse é Beau júnior.

     Quem, segundo os cálculos da Willa, devia ter como sessenta.

     -E?

     -Bom, a esposa do Beau, é Heddy Radley. É a que faz esses pickles de melão que sempre ganham o primeiro prêmio na feira do condado. Parece que tem uma artrite muito forte.

     -Lamento me inteirar disso.

     Se o inverno cedia logo, refletiu Willa deixando vagar seus pensamentos, averiguaria se Lily não tinha vontades de semear um pomar. Um verdadeiro pomar.

     -O inverno foi duro -comentou Ham-. Não parece querer afrouxar e nos aproximamos da época dos partos.

     -Já sei. Estou pensando em adicionar outro estábulo para partos.

     -Poderia ser uma idéia -respondeu Ham sem comprometer-se, logo tirou a bolsa de tabaco e começou a atar um cigarro-. Beau vai vender e se mudará a viver com seu filho no Scottsdale.

     -Sério?

     Willa emprestou toda sua atenção. High Springs tinha excelentes pastos.

     -Doe lhe propôs que fizesse negócio com um desses urbanizadores. -Ao dizê-lo Ham tinha a língua apoiada sobre o papel e cuspiu com suavidade. Willa não teria podido dizer se o gesto estava dirigido ao tabaco ou aos urbanizadores-. vão subdividir o terreno, erigir algum rancho falso e criar esses malditos búfalos.

     -O trato está fechado?

     -Disse-me que sim, que lhe pagaram três vezes o que vale o terreno para um rancho boiadeiro. Esses chacais da cidade!

     -Bom, então já não há remédio. Nunca poderíamos lhe oferecer a mesma quantidade de dinheiro. -passou-se as mãos pela cara, mas as baixou quando lhe ocorreu outra idéia-. E o que pensa fazer com suas equipes, seu gado, seus cavalos?

     -A isso queria chegar.

     Ham exalou uma baforada de fumaça e a olhou subir até o céu raso. Willa imaginou a criação de novas cidades, a terra aplanada, o nascimento de novas estrelas.

      -Tem uma enfardadora nova. Apenas a usou três temporadas. Estou seguro de que ao Wood gostaria de tê-la. Não valoro muito seus cavalos, mas Beau é um bom criador de gado. -Fez uma pausa e seguiu fumando-. Disse-lhe que acreditava que pagaria cinqüenta por cabeça de quão animais tem no curral de engorda. Não pareceu aborrecido pelo preço.

     -Quantas cabeças?

     -ao redor de duzentos excelentes Herefords.

     -Está bem. Fecha o trato.

     -Bom. Mas há mais. -Ham golpeou o cigarro para que caísse a cinza e se recostou contra o respaldo da poltrona. O fogo da chaminé era agradável, a poltrona, brando-. Beau tem dois peões. A gente é um estudante que acaba de chegar do Bozeman. Um desses tipos que são especialistas em gado. Beau diz que tem idéias grandiosas, mas que é muito inteligente. Sabe tudo o que terá que saber sobre cruzes e transplante de embriões. Ao Ned Tucker, o outro, conhece-o faz mais de dez anos. Bom vaqueiro, excelente trabalhador.

     -Contrata-os -disse Willa sem vacilar-. Com o mesmo salário que recebem no High Springs.

     -Disse ao Beau que supunha que reagiria assim. Gostou da idéia. Tem- carinho ao Ned. Quer deixá-lo instalado em um bom rancho. -Começou a ficar de pé, mas se voltou a sentar-. Tenho que te dizer outra coisa.

     Willa elevou as sobrancelhas.

     -Então dava-a.

     -Talvez cria que eu já não sou capaz de fazer meu trabalho.

     A expressão da Willa foi de surpresa, da mais pura surpresa.

     -por que vou acreditar isso? E por que suspeita você que acredito?

     -Tenho a impressão de que está fazendo seu trabalho e além disso a metade do meu, e um pouco do de todos outros. Quando não está aqui colocada, estudando os papéis, está a cavalo revisando alambrados, examinando pastos, controlando a equipe, curando animais.

     -Agora estou a cargo do rancho e sabe perfeitamente que sem ti não poderia dirigi-lo.

     -Talvez sim. -Mas era apenas o princípio do que queria dizer e acabava de obter a plena atenção da Willa-. E talvez me tenha estado perguntando que demônios quer lhe demonstrar a um morto.

     Ela abriu a boca, fechou-a, tragou com força.

     -Não sei de que diabos está falando.

     -É obvio que sabe! -A irritação apurou suas palavras e a obrigou a levantar da poltrona-. Crie que não vejo, que não sei? Crie que alguém que te curou quando lhe fazia falta e que te enfaixou as feridas não sabe o que acontece dentro de sua cabeça? me escute moça, porque já é muito grande para que ponha sobre meus joelhos, como o fazia antes. Pode-te romper a alma daqui à eternidade e ao Jack Mercy não importará um carajo.

     -Agora este rancho é meu -respondeu ela com tranqüilidade-. Pelo menos a terceira parte das terras são minhas.

     Ham assentiu, satisfeito de ouvir um ressaibo de ressentimento em seu tom.

     -Sim, e ele te golpeou também com isso, o mesmo que te golpeou durante toda a vida. Não fez por ti o que correspondia, o que teria estado bem. Talvez agora eu tenha uma melhor opinião dessas duas moças da que tinha quando chegaram, mas não se trata disso. Jack te fez o que te fez porque podia e isso é tudo. E além disso trouxe gente alheia ao Mercy para que inspecionasse o que fazia.

     Apesar de que se estava enfurecendo, Willa se deu conta de algo que tinha passado por cima.

     -Deveu ter sido você -disse em voz baixa-. Sinto muito, Ham. Nem sequer me passou pela cabeça. O supervisor do rancho durante este ano deveu ter sido você. Devi pensá-lo antes, devi compreender até que ponto te tem que ter resultado insultante.

     Era insultante, mas com insultos, alguns insultos, ele era capaz de viver.

     -Não te estou pedindo que pense nisso. Além disso não me sinto especialmente insultado. Era típico dele.

     -Sim. -Willa suspirou-. Era típico dele.

     -Não tenho nada contra Ben e Nate. São bons homens. Justos. E terei que ser um imbecil para não saber o que se propunha Jack trazendo para o Ben para que andasse perto do rancho. Perto de ti. Mas não estou falando disso. -Fez-lhe um gesto com a mão ao ver que ela tinha o sobrecenho franzido-. Não tem nada que lhe demonstrar ao Jack Mercy e já é hora de que alguém lhe diga isso à cara. -Assentiu com rapidez-. Assim que lhe estou dizendo isso.

     -É que não posso esquecê-lo. Era meu pai.

      -Extraímos esperma de um touro e o injetamos a uma vaca e isso não convém ao touro em pai.

     Surpreendida, Willa ficou de pé.

     -Jamais te ouvi falar assim dele. Acreditei que foram amigos.

     -Respeitava-o como boiadeiro. Nunca disse que o respeitasse como homem.

     -Então por que ficou aqui tantos anos?

     Ele a olhou e meneou a cabeça com lentidão.

     -Essa sim que é uma pergunta tola!

     «Por mim», pensou ela, e se sentiu de uma vez tola e humilhada. Incapaz de olhá-lo à cara, voltou-se para a janela.

     -Ensinou-me a montar.

     -Alguém tinha que fazê-lo. -Lhe pôs rouca a voz e teve que esclarecê-la garganta-. antes de que te rompesse o pescoço como uma parva subindo a um cavalo quando ninguém via.

     -Aos oito anos, quando me caí e me rompi o braço, você e Bess me levaram a hospital.

     -A mulher estava muito nervosa para te levar reveste e, toda via menos, para conduzir. O mais provável é que tivesse destroçado o jipe. -moveu-se inquieto e fez tamborilar seus dedos gordinhos.

     Se sua mulher tivesse vivido em lugar de morrer antes dos dois anos de casados, talvez teriam tido filhos próprios. Mas deixou de pensar nisso e na carência que lhe provocava, porque estava Willa a quem tinha que cuidar.

     -E não estou falando de todo isso. Falo deste momento. Tem que baixar um pouco o ritmo de seu trabalho, Will.

     -É que acontecem tantas coisas, Ham! Não posso me esquecer dessa garota e do Pickles. Se ficar quieta, vejo-os.

     -Não pode fazer nada para modificar o acontecido, verdade? E não fez nada para que acontecesse. Esse cretino está fazendo o que faz, porque pode fazê-lo.

     Era muito parecido ao que havia dito de seu pai e, ao compreendê-lo, Willa se estremeceu.

     -Não quero ter outra morte em minha consciência, Ham. Acredito que não poderia suportá-lo.

     -Maldita seja! por que não escuta? -O grito furioso a obrigou a voltar-se e olhá-lo-. Não as tem na consciência e silo crie, é uma parva de capirote. O que aconteceu, aconteceu, e isso é tudo. E a este rancho tampouco faz falta que ande percorrendo cada metro de terreno as vinte e quatro horas do dia. Já é hora de que trate de ser mulher durante um momento.

     Willa ficou com a boca aberta. Ham não tinha o costume de gritar, a menos que alguém lhe fizesse perder por completo a paciência. E não recordava que jamais se referiu a seu sexo.

     -E isso exatamente o que significa?

     -Quando foi a última vez que te pôs um vestido e saiu a luzir seus saltos altos? -perguntou ele, embora se ruborizou ao ter que dizê-lo-. E não conto a festa de Ano Novo e essa coisa que te pôs e que obteve que a todos os moços lhes fizesse a boca água.

     Willa não pôde menos que rir ante essa frase e, intrigada, instalou-se sobre um rincão do escritório.

     -Sério?

     -Se eu tivesse sido seu pai, te teria mandado acima em seguida para que pusesse um vestido como a gente. E te teria dado uma boa bronca. -Envergonhado pelo exabrupto, ficou o chapéu-. Mas isso já passou, também. O que te estou perguntando neste momento é por que não faz que esse menino McKinnon te convide a comer ao povo ou a ver um filme ou algo pelo estilo, em lugar de te passar a vida com as pernas embainhadas em um par de botas cheias de barro. Isso é o que te estou perguntando.

     -E não cabe dúvida de que esta tarde tiveste muito que perguntar. -O qual quer dizer que são reflexões que se esteve guardando, pensou-. Exatamente o que te faz acreditar que me interessaria sair a comer com o Ben McKinnon?

     -Até um cego teria visto quão pegos estavam quando simulavam estar dançando. -Decidiu não comentar que durante a partida de pôquer de na semana anterior no Three Rocks, Ben se dedicou a lhe surrupiar informação a respeito dela. As conversações que se mantinham durante uma partida de pôquer eram tão sagradas como o segredo de confissão-. É tudo o que tenho que dizer do assunto.

     -Seguro? -perguntou ela com doçura-. Não tem nenhuma observação que fazer sobre minha dieta alimentaria, minha higiene pessoal, minha capacidade social?

     «É uma insolente», pensou Ham, contendo um sorriso.

     -Não come nem sequer o necessário para satisfazer a um coelho, mas é poda. E, por isso vejo, não tem a menor capacidade social. -alegrou-se de havê-la feito franzir de novo o sobrecenho-. Tenho que trabalhar. -Começou a sair e de repente se deteve em seco-. Comentaram-me que Stu McKinnon não anda bem.

      -O senhor McKinnon está doente? O que lhe passa?

     -Só um pouco de gripe, mas parece que não se sente nada bem. Bess acaba de fazer um bolo de batata-doces. Seria agradável que o levasse. lhe encantam as batata-doces e adora você. Seria uma amostra de boa vizinhança.

     -E poderia tratar de adquirir um pouco de capacidade social. -Olhou o escritório, os papéis, o trabalho que tinha. Depois voltou a olhar ao homem que lhe tinha ensinado tudo o que valia a pena saber-. Está bem, Ham. irei ver o.

     -É uma boa garota, Will -disse ele e saiu.

    

     Tinha-lhe dado bastante no que pensar durante o trajeto até o rancho do McKinnon. Dois peões novos, duzentas cabeças mais de ganho. Sua própria e teimosa necessidade de demonstrar do que era capaz, ante um homem a quem nunca lhe importou.

     E, talvez, sua falta de sensibilidade por volta de um homem que sempre a quis e que sempre esteve ali quando o necessitou.

     teria se estado entremetendo no terreno do Ham durante os últimos meses? Era provável. Isso, pelo menos, podia-o solucionar. Mas o que disse do assassino, por sensato que fora, não conseguia apagar seu sentido de responsabilidade.

     Nem seu medo.

     estremeceu-se e subiu o ar condicionado do jipe. O caminho estava firme, não apresentava dificuldades. A neve estava amontoada aos lados, de maneira que era como avançar através de um túnel branco com picos brancos que se elevavam para o céu de um azul profundo.

     Ao noroeste tinha havido uma avalanche que enterrou a três esquiadores. E alguns caçadores que acampavam nas terras altas foram surpreendidos por uma tormenta de neve e terá que tirá-los dali com um helicóptero e sofrendo um princípio de congelamento. Um rancho vizinho perdeu alguns de seus melhores animais, mortos por pumas famintos. E dois moços que tentavam escalar o Bitterroots se perderam.

     E em alguma parte, apesar da brutal inclemência do tempo, espreitava um assassino.

     A zona de esqui do Big Sky estava fazendo um negócio fabuloso. Os caçadores mais afortunados asseguravam que esse ano a caça era tão abundante que quase não fazia falta ter armas de fogo. Já começavam a nascer os potros e o gado engordava em currais de engorda e nos pastos dos vales.

     Apesar da vida e a prosperidade, a morte se abatia muito perto.

     Lily estava radiante de felicidade e ela e Adam planejavam casar-se durante a primavera. Tess tinha convencido ao Nate de que fossem passar um fim de semana em um elegante hotel de uma estação de esqui. E Ham queria que ela ficasse suas sapatilhas de baile.

     Estava aterrorizada.

     E apertou os freios com todas suas forças para não atropelar a um cervo de enorme gargalhada. O jipe patinou, girou sobre si mesmo e terminou cruzado sobre o caminho enquanto o cervo só elevava a cabeça e contemplava o espetáculo com olhos aborrecidos.

     -Ah! É uma beleza, verdade?

     Rendo de si mesmo, Willa apoiou a cabeça sobre o volante enquanto o coração pouco a pouco lhe saía da garganta e voltava a ocupar sua posição lógica no peito. Mas voltou a lhe saltar quando alguém golpeou o vidro do guichê.

     Não conhecia esse homem. Tinha cara de boa pessoa, angélico, arrumado, emoldurado por um arbusto de cabelo entre dourado e castanho semioculto sob um chapéu marrom. Os lábios, rodeados de um bigode brilhante, esboçavam um sorriso. Willa colocou a mão sob o assento para tomar seu Ruger 38.

     -Está bem? -perguntou o homem quando ela baixou apenas uns centímetros o vidro-. Eu vinha detrás de você, vi que patinava. golpeou-se a cabeça ou algo assim?

     -Não, estou bem. Solo me sobressaltei. Devi estar mais atenta.

     -Que enorme é, verdade? -Jesse voltou a cabeça para observar ao cervo que se dirigiu a um lado do caminho e, de um só salto, transpôs a montanha de neve-. Oxalá tivesse meu rifle. Uma cabeça como a desse inseto ficaria muito bem na casa dos peões. -voltou-se a aproximar, divertido ao ver a expressão de desconfiança e de medo da Willa-. Seguro que está bem, senhorita Mercy?

     -Sim. -Ela fechou os dedos sobre a culatra de sua arma-. Conheço-o?

     -Não acredito. Mas eu a vi aqui e lá. Sou JC, e faz alguns meses que trabalho no Three Rocks.

     Ela se relaxou um pouco, mas não baixou o vidro do guichê. O campeão de pôquer.

     Lhe dedicou um sorriso que era uma arma tão contundente como a pistola da Willa.

     -Assim já me ganhei a fama de campeão? Devo dizer que é um prazer ficar com seu dinheiro. Refiro-me a fazê-lo indiretamente, por intermédio de seus peões. Ainda a noto um pouco pálida.

      perguntou-se como seria ao tato a pele da Willa. Recordou que tinha sangue a Índia e lhe notava. Nunca havia poseído a uma mulher de sangue a Índia. E não seria uma boa vingança para o Lily que ele se deitasse com sua própria irmã?

     -Deveria tomar um minuto para recuperar o fôlego. Se não tivesse bons reflexos, neste momento estaria desenterrando a da neve acumulada ao lado do caminho.

     -Asseguro-lhe que estou bem. -Tem uns olhos maravilhosos, pensou Willa. Frios mas maravilhosos. Não tinha sentido que a pusessem tão à defensiva-. É uma casualidade, mas vou ao Three Rocks -continuou dizendo ela, decidida a trabalhar por aumentar sua sociabilidade-. Hão-me dito que o senhor McKinnon não anda muito bem.

     -Tem gripe. Esteve bastante mal durante um par de dias, mas agora se sente um pouco melhor. E vocês tiveram seus próprios problemas no Mercy.

     -Sim. - Instintivamente se tornou atrás-. Será melhor que volte para seu jipe. Faz muito frio para estar de pé à intempérie.

     -Sim, não cabe dúvida que o vento é bravo. Quão mesmo uma mulher saudável. -Lhe piscou os olhos um olho e retrocedeu-. Irei detrás de você. E lhe diga ao velho Jim que estou disposto a lhe desafiar a uma partida em qualquer momento.

     -Farei-o. Obrigado por haver-se detido.

     -De nada. -Rendo por dentro, levou-se a mão ao chapéu-. Senhora.

     Riu em voz alta ao subir a seu jipe. De maneira que essa era a médio irmana mestiça do Lily. Apostaria a que lhe daria trabalho ao homem que a montasse. Talvez teria que averiguá-lo por si mesmo. Cantarolou durante todo o trajeto de volta ao Three Rocks e quando Will dobrou para a casa principal, tocou buzina e a saudou com a mão.

     Shelly abriu a porta, com o bebê em braços.

     -Que surpresa, Will! Bolo!

     -É para seu sogro -disse Willa mantendo-o fora do alcance de seu amiga-. Como se sente?

     -Melhor. Está voltando louca ao Sarah. Por isso estou aqui em lugar de estar em casa. Trato de lhe dar uma mão. te tire o casaco e vêem a cozinha. -Aplaudiu as costas do bebê-. Se quiser que te diga a verdade, Will, tenho medo de ficar reveste em casa. Já sei que é uma tolice, mas tenho a sensação de que alguém me observa. Que vigiam a casa, que olham pelas janelas. Esta semana tenho feito levantar o Zack três vezes para que se assegure de que as portas estão fechadas com chave. Antes nunca nos ocorria jogar a chave sequer.

     -Já sei. No Mercy acontece o mesmo.

     -Não tivestes mais notícias da polícia?

     -Não, nada interessante.

     -Melhor que não falemos disso agora. -Shelly baixou a voz quando se aproximaram da cozinha-. Não tem sentido angustiar ao Sarah. Olhe a quem encontrei! -anunciou abrindo a porta.

     -Willa! -Sarah deixou as batatas que estava cortando para preparar um guisado e se limpou as mãos-. É uma maravilha verte! Sente-se. Há café preparado. Um bolo!

     Embora nunca sabia como responder às demonstrações espontâneas de afeto, Willa sorriu quando Sarah lhe deu um beijo na bochecha.

     -Para o inválido. É um dos famosos bolos de batata-doce que faz Bess.

     -Talvez isso o mantenha ocupado e me deixe um momento em paz. lhe diga ao Bess que o agradeço muitíssimo. E agora, sente-se, te sirva um pouco de bolo com esse café e nos fale. Shelly e eu já quase nos ficamos sem tema. Juro que com cada ano que passa o inverno se faz mais largo e ruim.

     -Beau Radley vende suas terras e se muda ao Arizona.

     -Não! -Sarah se equilibrou sobre a notícia como um camundongo morto de fome sobre uma parte de queijo-. Essa sim que é uma novidade!

     -Vendeu-lhe as terras a uns promotores. A vão utilizar para criar um lugar de esportes de inverno. Um rancho para gente da cidade. E para criar búfalos.

     -meu deus! -Sarah lançou um assobio enquanto servia um café a sua visita-. Ao Stu dará um ataque quando se inteirar.

     -Quando se inteirar do que? -Stu entrou na cozinha com o cabelo prateado despenteado, luzindo um batín cômodo e gasto-. Assim temos visitas e ninguém me avisa? -Piscou os olhos um olho a Willa e lhe aplaudiu a cabeça-. E há bolo? Temos bolo e me deixam lá encima desmoronado na cama?

     -Nunca fica na cama o tempo suficiente para te desmoronar. Bom, sente-se, então. Em lugar de bolo, acompanharemos o café com bolo.

     Stu aproximou uma cadeira e olhou a sua nora.

     -Ainda não me permitirá ter em braços a minha neta?

     -Não. Não até que esteja livre de gérmenes. Olhe mas não toque.

     -As mulheres me controlam a vida -disse o dono da casa, dirigindo-se a Willa-. Se chegar a espirrar um par de vezes, atam-lhe à cama e lhe enchem de medicamentos.

      -Tinha febre. E alta. -Com uma risita, Sarah lhe colocou uma parte de bolo debaixo do nariz-. Come e deixa de te queixar. Quando estão doentes, os bebês dão muito menos trabalho que nenhum dos homens adultos que conheço. Não poderia contar as vezes que tive que subir e baixar as escadas durante os últimos três dias.

     Mas enquanto o dizia, tomou em suas mãos o queixo de seu marido e lhe estudou o rosto.

     -Tem melhor cor -murmurou deixando uns instantes a mão sobre o queixo de seu marido-. Pode comer seu bolo e desfrutar de sua visita, mas logo deve voltar para a cama e dormir um pouco.

     -Vê? -disse Stu, fazendo um gesto com o garfo-. Está desejando que não me sinta bem para poder começar a me dar ordens. -Lhe iluminou a cara quando se abriu a porta dando passo ao Zack-. Agora estaremos mais parecidos. Entra moço, mas nem sonhe com que lhe demos uma parte de meu bolo.

     -Bolo do que? Olá, Will!

     Zack McKinnon era um homem magro a quem quase se podia denominar fraco. Tinha o cabelo ondulado da mãe e o queixo quadrado do pai. Seus olhos eram verdes, como os do Ben, mas mais sonhadores. Era um homem a quem gostava de passar seus dias nas nuvens. Assim que se tirou o casaco e o chapéu, beijou a sua mulher e elevou a sua filhinha.

     -Limpou-te os pés antes de entrar? -perguntou a mãe.

     -Sim. É bolo de batata-doces?

     -É meu -respondeu Stu com tom sombrio enquanto aproximava o bolo ao lugar da mesa onde ele estava. Nesse momento se voltou a abrir a porta.

     -Acredito que a égua grafite está... -Nesse momento Ben viu a Willa e sorriu com lentidão-. Olá, Will!

     -trouxe um bolo -informou Zack, olhando-o com expressão faminta-. Mas papai se nega a compartilhá-lo.

     -Bolo do que? -Ben se deixou cair em uma cadeira junto à Willa e começou a brincar com seu cabelo.

     -que gosta a seu pai -respondeu ela, lhe apartando a mão.

     -E me trouxe isso ! -exclamou Stu metendo-se na boca outra parte de bolo. Olhou ofendido a sua mulher ao ver que acabava de cortar dois pedaços-. Acreditei que o doente era eu.

     -Adoecerá se lhe come isso tudo. Passe a menina ao Shelly, Zack, e te sirva café. Ben, não incomode ao Will e deixa-a comer tranqüila.

     -Ordena, ordena, ordena. Não faz mais que dar ordens -murmurou Sim. Mas sorriu quando Willa lhe piscou os olhos um olho e deslizou sua parte de bolo ao prato do dono de casa.

     -Deveria te dar vergonha, Stuart McKinnon!

     Sarah pôs os braços em jarras ao ver que seu marido começava a comer uma segunda parte.

     -Deu-me isso ela, não é certo? Como estão suas bonitas irmãs, Will?

     -Muito bem. Ah!... -Nem Lily nem Adam lhe tinham pedido que guardasse o segredo. De todos os modos, Willa supunha que já se devia estar falando do assunto-. Lily e Adam estão comprometidos. vão se casar em junho.

     -Umas bodas! -Shelly saltou, tão feliz como sua filhinha-. Ah! Parece-me maravilhoso!

     -Assim Adam vai se casar... -Sarah lançou um suspiro e os olhos lhe encheram de lágrimas. Era uma mulher sentimental-. Se me parecer que foi ontem quando ele e Ben escapavam a pescar ao rio. -enxugou-se os olhos-. Ajudaremo-lhe a organizar a despedida de solteira, Willa.

     -Despedida?

     -A festa da noiva em que todas seus amigas lhe levam algo para sua futura casa. -Shelly estava cada vez mais entusiasmada-. Morro de vontades de que chegue o momento! Suponho que viverão nessa encantadora casita do Adam, verdade? Pergunto-me que classe de vestido quererá usar para a cerimônia. Terei que lhe falar dessa loja maravilhosa do Billings onde eu comprei o meu. E ali também têm fantásticos vestidos para o cortejo. Espero que queira que você ponha algo de uma cor brilhante.

     Willa depositou a taça sobre a mesa antes de afogar-se.

     -Eu?

     -Estou segura de que você e Tess formarão seu cortejo. Às duas ficam bem as cores fortes. Azul e rosa escuro.

     -Rosa?

     Ao ver o olhar de desespero da Willa, Ben gritou:

     -Está-a espantando, Shelly! Não se preocupe, Will, eu te cuidarei. Eu serei o padrinho. -Brindou com ela com sua taça de café-. Justamente esta manhã falei do assunto com o Adam. Adiantaste-lhe isso. Deu a notícia antes que eu.

     depois de ter terminado sua parte de bolo, Zack se decidiu a falar.

     -Será melhor que fale com o Adam. Ainda conservo as cicatrizes do dia de minhas bodas. -Ao ver que Shelly entrecerraba os olhos, sorriu-. Recorda esses trajes ridículos que tivemos que nos pôr, Ben? Acreditei que me estrangularia antes de poder responder «Sim, quero». -Inclinou-se quando Shelly lhe golpeou a cabeça-. É obvio que me formou um nó na garganta quando olhei a nave da igreja e vi esta visão que me aproximava. O mais formoso que um homem vê em sua vida.

      -Boa escapatória, filho -comentou Stu-. Tampouco me incomodam as bodas, embora Sarah e eu decidimos fazer o da maneira mais fácil e fugimos juntos.

     -Mas solo porque meu pai estava decidido a te pegar um tiro. Willa, lhe diga ao Lily que nos avise se podemos fazer algo por ajudá-la.

     De solo pensar em umas bodas um sente que a primavera se aproxima com mais rapidez.

     -Farei-o. E sei que ela estará muito agradecida. E agora, devo voltar para casa.

     -Não vá ainda! -pediu Shelly, lhe agarrando a mão-. Se acabar de chegar! Posso-lhe pedir ao Zack que vá até casa e procure minha coleção de revistas de vestidos de noiva e o álbum de fotos. Talvez Lily possa tirar algumas ideia.

     -Estou segura de que lhe gostará de vir pessoalmente a falá-lo contigo. -A idéia das bodas começava a lhe provocar ardência-. Se pudesse ficaria, mas já está obscurecendo.

     -Tem razão -murmurou Sarah, olhando com apreensão a janela-. Não é momento para que uma mulher ande sozinha de noite pelo caminho. Ben...

     -Acompanharei-a. -Ignorando os protestos da Willa, ficou de pé e foi em busca de seu casaco e seu chapéu-. Um de seus peões me pode trazer de volta ou pedirei emprestado um jipe.

     -Ficarei mais tranqüila -disse Sarah antes de que Willa pudesse seguir protestando-. O que aconteceu é uma vergonha. Todos estaremos mais tranqüilos sabendo que Ben te acompanha.

     -Então, de acordo.

     Uma vez que se despediram e que o resto dos McKinnon a acompanhou até a porta, Willa se instalou frente ao volante.

     -É um homem de sorte, McKinnon.

     -por que?

     Ela meneou a cabeça e permaneceu em silêncio até que deixaram atrás a casa do rancho.

     -Não o pode saber, não é possível que compreenda quão afortunado é, porque sempre foi assim para ti. Sempre o foi e sempre o será.

     Confuso, ele trocou de posição para lhe olhar o perfil.

     -Do que está falando?

     -De família. De sua família. Estive sentada nessa cozinha. estive ali antes, mas acredito que nunca o compreendi. Até hoje. A familiaridade, o carinho, a história, o laço que lhes une. Não te pode imaginar o que é não ter nada disso. Porque é algo que solo pertence a ti.

     Era verdade, e Ben não sabia se alguma vez o tinha analisado a fundo.

     -Agora tem irmãs, Willa. Há um laço entre vocês e se vá à légua.

     -Talvez seja o princípio de algo, mas não há história. Não há lembranças compartilhadas. Vi-te começar a contar um conto e que Zack o termine. ouvi rir a sua mãe por uma estupidez que vós dois fizeram na infância. Nunca ouvir rir a minha mãe. Não é que me haja posto muito sensível -esclareceu com rapidez-. Solo que hoje, sentada na cozinha, impactou-me lhes ver ti e a sua família. Assim é como se supõe que deve ser, verdade?

     -Sim, diria que sim.

     -O nos roubou isso. Começo a compreender tudo o que roubou às três. Não só a mim. vou fazer um desvio.

     Quando chegaram ao limite das terras do Mercy, Willa pôs a tração nas quatro rodas e dobrou ao caminho de acesso coberto de neve. Ben não lhe perguntou para onde se dirigia. Adivinhava-o.

     As tumbas estavam cobertas de neve que ocultava as lápides e afogava a erva e as novelo de flores. Willa pensou que parecia uma postal, tão perfeita, onde solo a lápide do Jack Mercy, mais alta e brilhante que o resto, elevava-se na neve para o céu cada vez mais escuro.

     -Quer que te acompanhe?

     -Não, prefiro que não. me espere aqui. Não demorar.

     -Tome seu tempo -murmurou ele enquanto ela descia do jipe.

     Afundada na neve até os joelhos, Willa avançou com dificuldade. Era um lugar frio, amargo, açoitado pelo vento que levantava redemoinhos de neve. Viu um pequeno rebanho de cervos que, de pé no alto de uma colina, pareciam sentinelas dos mortos.

     Não havia mais som que o vento e este era igual às primeiras estrelas que se queixavam enquanto ela se abria caminho para a tumba de seu pai.