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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O VALE DO SILÊNCIO Nora Roberts
O VALE DO SILÊNCIO Nora Roberts

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

Havia figuras no fogo. Dragões e demônios e guerreiros. As crianças os viam, assim como ele. O ancião sabia que os muito jovens e os muito mais velhos freqüentemente eram capazes de ver coisas invisíveis para outros. Ou que estes não queriam ver.

Ele já lhes tinha contado grande parte da história. Sua narração tinha começado com o feiticeiro que foi chamado pela deusa Morrigan. Os deuses disseram a Hoyt dos Mac Cionaoith que devia viajar para outros mundos, para outros tempos, e formar um exército para enfrentar à rainha dos vampiros. A grande batalha entre humanos e demônios se livraria as vésperas de Samhain, no Vale do Silêncio, na terra de Geall.

Tinha-lhes falado do irmão do feiticeiro Hoyt, assassinado e transformado em vampiro pela arteira Lilith, a qual já levava existindo a milhares de anos antes de converter a Cian em mais um de sua espécie. Teriam que passar quase mil anos mais antes que Cian pudesse unir-se a seu irmão Hoyt e à bruxa Glenna para iniciar o círculo dos seis. Os seguintes membros do mesmo foram dois geallianos: o shifter e a erudita, que viajaram entre os mundos para reunir-se com eles naqueles primeiros dias. E a última a chegar ao círculo foi a guerreira, uma caçadora de vampiros do sangue dos Mac Cionaoith.

As histórias que lhes tinha contado eram relatos de batalhas e coragem, de morte e amizade. E também de amor. O amor que tinha florescido entre o feiticeiro e a bruxa, e entre o shifter e a guerreira, tinha fortalecido o círculo assim como faz a verdadeira magia.

Mas havia muito mais a contar. Triunfos e derrotas, medo e valor, amor e sacrifício... e tudo isso acompanhado da luz e da escuridão.

Enquanto as crianças esperavam a continuação da história, o ancião se perguntou qual seria a melhor maneira de começar a relatar o final da mesma.

—Eles eram seis —disse, sem afastar a vista do fogo, enquanto as crianças deixavam de sussurrar e de moverem-se, antecipando o que se aproximava.— E cada um deles tinha a possibilidade de aceitar ou recusar a missão. Porque inclusive quando os mundos estão em suas mãos, pode se escolher entre te enfrentares àquilo que quer destruí-los ou escapar. E segundo essa escolha —continuou ele— muitas outras escolhas devem ser feitas.

—Eles eram valentes e leais —exclamou um dos meninos.— Escolheram lutar.

O ancião esboçou um sorriso.

—Sim, isso eram. Mas mesmo assim, cada dia, cada noite do tempo que lhes tinham concedido, essa escolha devia ser renovada, tinha que voltar a fazer-se. Um deles, como recordarão, já não era um ser humano, e sim um vampiro. Cada dia, cada noite do tempo que lhes tinham concedido, ele recordava que já não era humano. Não era mais que uma sombra nos mundos que tinha escolhido proteger.

—E então —disse o ancião— o vampiro sonhou.

 

 

 

 

                                     CAPÍTULO 1

Sonhou. E, em seu sonho, era ainda um homem. Jovem, amalucado talvez, sem dúvida imprudente. Mas então viu o que acreditou que era uma mulher; enormemente bela e fascinante.

Levava um bonito vestido vermelho intenso, mais elegante do que merecia aquele pub no campo, de mangas largas e amplas. Como um bom rose, atava-se a suas formas realçando sua pele branca e brilhante. Seu cabelo era dourado e seus cachos destacavam-se em contraste com o penteado.

O vestido, seu porte, as jóias que resplandeciam em seu pescoço, em seus dedos, confirmavam-lhe que era uma dama acomodada e com estilo.

À luz tênue do pub, ele pensou que aquela mulher era como uma chama que ardia na escuridão.

Dois criados tinham disposto uma habitação privada para que ela jantasse e, quando chegou, só sua presença tinha silenciado as conversas e a música. Mas seus olhos, azuis como o céu do verão, se encontraram com os seus. Só com os seus.

Quando um dos criados tinha saído do reservado e se dirigiu a ele para lhe dizer que a dama solicitava que a acompanhasse durante o jantar, ele não tinha duvidado nem por um instante.

Por que deveria ter feito?

Estava passando bem escutando os comentários bem humorados dos homens com os quais estava bebendo, mas partiu da mesa sem pensar duas vezes.

Ela estava de pé em uma habitação iluminada pela luz das velas e as lenhas acesas e servia vinho em meias taças.

—Estou contente de que tenha aceitado te reunir comigo —disse ela.— Detesto jantar sozinha, você não? —aproximou-se dele com uns movimentos tão elegantes que quase parecia flutuar no ar.— Me chamo Lilith.

E lhe estendeu uma taça cheia de vinho.

Em sua forma de falar havia algo exótico, uma cadência de sons que remetia a areia quente e videiras exuberantes. Só de ouvi-la, ele estava já meio seduzido e completamente enfeitiçado.

Ambos compartilharam a simples comida, embora o jovem não tinha apetite precisamente de comida. Eram suas palavras as quais ele devorava. Lilith lhe falou das terras às que tinha viajado, lugares sobre os quais ele só tinha lido. Tinha passeado entre as pirâmides, explicou-lhe que, sob a luz da lua, tinha subido as colinas de Roma e contemplado os templos em ruínas da Grécia.

Ele nunca tinha viajado além da Irlanda, e suas palavras, as imagens que evocavam, resultavam quase tão excitantes como ela.

Pensou que ela era muito jovem para ter feito tantas coisas, mas quando o disse, a mulher se limitou a sorrir por cima da borda da taça.

—Para que servem os mundos se não os usarmos? —perguntou ela.— Eu desfruto de muitas coisas. Vinho para beber, comida para saborear, terras para explorar. É muito jovem —acrescentou com um sorriso lento e provocador— para te conformar com tão pouco. Não sente desejos, ou curiosidade, de ver o que há além do que viu?

—Quando puder, pensei possivelmente em tomar um ano para ver mais do mundo.

—Um ano? —Ela fez estalar os dedos com um sorriso —Isto é um ano. Nada, uma piscada. O que faria se tivesse uma eternidade de tempo? —Seus olhos pareciam dois insondáveis mares azuis quando se inclinou para ele.— O que faria com ele?

Sem esperar a que lhe respondesse, ela se levantou, deixando um rastro de perfume enquanto se aproximava da pequena janela.

—Ah, a noite, é tão suave. Como o roce da seda sobre a pele. —voltou-se com um brilho especial em seus grandes olhos azuis.— Eu sou uma criatura noturna. E acredito que você também o é. Nós, os que são como nós, encontramo-nos melhor na escuridão.

Ele se tinha posto de pé quando ela o fez e quando Lilith retornou à mesa, seu perfume e o vinho que tinha bebido lhe alagaram os sentidos. E algo mais, havia algo denso e brumoso que ofuscava sua mente como uma droga.

Ela elevou a cabeça, jogou-a para trás e logo aproximou sua boca a dele.

—E por que, quando mais a gosto encontramos na escuridão, deveríamos passar essas horas sozinhos?

E no sonho, tudo era como em um sonho, brumoso e confuso. Ele estava na carruagem de Lilith, com seus peitos brancos e voluptuosos nas mãos, sua boca quente e ávida sobre a sua. Ela se pôs a rir quando ele começou a jogar com sua saia, e abriu as pernas em um gesto de sedutor convite.

—Mãos fortes —murmurou.— Um rosto agradável. É o que necessito, e o que necessito, tomo. Obedecerás minhas ordens? —Com outra risada ligeira, lhe mordeu brandamente a orelha.— O fará? Fará, jovem e atrativo Cian de fortes mãos?

—Aye, é obvio. Aye.

Não podia pensar em outra coisa que não fosse enterrar-se nela. Quando o fez, com a carruagem balançando-se furiosamente, a cabeça de Lilith caiu para trás em um completo abandono.

—Sim, sim, sim! Tão duro, tão quente. Me dê mais e mais! E te levarei além de tudo o que conhece.

Quando ele se afundou profundamente nela, e estava quase sem fôlego ao aproximar-se do clímax, Lilith levantou novamente a cabeça.

Seus olhos já não eram azuis e limpos, e sim vermelhos e selvagens. A comoção que experimentou fez que tentasse apartar-se dela, mas seus braços lhe rodearam o corpo subitamente como algemas de ferro. Suas pernas se fecharam ao redor de sua cintura, lhe mantendo dentro dela, apanhado. Enquanto Cian lutava contra uma força implacável, Lilith sorria, e umas grandes presas brilharam na escuridão.

—O que é você? —Não havia preces em sua cabeça; o medo não deixava espaço para elas.— O que é você?

Os quadris de Lilith continuaram subindo e baixando, levando-o inexoravelmente perto do ponto culminante. Então lhe agarrou uma mecha de cabelo obrigando-o assim a jogar a cabeça para trás para deixar exposta sua garganta.

—Magnífica —respondeu ela.— Eu sou magnífica, e você também o será.

Então atacou e suas presas perfuraram a carne. Cian ouviu seu próprio grito; em alguma parte, em meio da loucura e da dor.

A queimadura que sentiu foi indescritível, rasgou-lhe a pele, alcançou o sangue e até o osso. E mesclada com essa sensação, deslizando-se junto com ela, experimentou um terrível, terrível prazer.

Ejaculou, em meio da sonora e envolvente escuridão, traído por seu corpo enquanto se precipitava para a morte. Debateu-se, entretanto; uma parte dele se aferrava à luz e fazia um enorme esforço para sobreviver. Mas a dor, o prazer, arrastavam-no cada vez mais profundamente para o abismo.

—Você e eu, meu belo moço. Você e eu. —Ela voltou a afundar os dentes nele, agora embalando-o entre seus braços. Com a unha, fez-se um pequeno corte no peito de modo que o sangue começou a brotar igual ao fazia, horrivelmente, de seus lábios.— Agora beba. Bebe de mim e viverá para sempre.

Não. Sua boca não pôde formar a palavra, mas a gritou através de sua mente. Ao sentir que a vida lhe escapava, lutou fracamente para aferrar-se a essa negativa. Inclusive quando Lilith lhe atraiu a cabeça para seu peito, ele resistiu com as poucas forças que ficavam.

Então a provou, o sabor rico e embriagador que fluía dela. A vida que pulsava nela. E, como se fosse um bebê sugando o peito de sua mãe, ele bebeu sua própria morte.

 

O vampiro despertou em meio de uma escuridão absoluta, de um silêncio total. Assim tinha sido desde que o transformaram, fazia já tanto tempo; despertava ao pôr-do-sol sem nem sequer o som dos batimentos de seu próprio coração agitando o ar.

Embora tinha tido esse sonho em inumeráveis ocasiões ao longo de inumeráveis anos, perturbava-o voltar a precipitar-se de novo a esse precipício. O fato de ver-se como tinha sido, ver a seu próprio rosto —um rosto que desde aquela noite não tinha podido ver estando acordado—, punha-o nervoso e irritável.

Ele não meditava a respeito de seu destino. Era uma ocupação absolutamente inútil. Aceitava e usava o que era e, através de sua eternidade pessoal, tinha acumulado riquezas, mulheres, bem-estar, liberdade. Que mais podia desejar um homem?

Carecer de pulsação era um pequeno preço que devia pagar por isso no grande esquema das coisas. Um coração que pulsava envelhecia e se debilitava e, em qualquer caso, e com o tempo acabava por parar-se, como um relógio quebrado.

Quantos corpos tinha visto deteriorar-se e morrer em seus mais de novecentos anos? Não podia contá-los. E, embora não podia ver o reflexo de seu próprio rosto, sabia que era exatamente o mesmo que tinha a noite em que Lilith o tinha levado. Seus ossos ainda eram fortes, e a pele que os cobria seguia sendo firme, elástica e sem rugas. Tinha uma vista excelente e seus olhos não tinham perdido sua cor. Em seu cabelo não havia, nem haveria jamais, nenhum vestígio cinza, nem rugas em seu pescoço.

Às vezes, na escuridão, em privado, utilizava os dedos para apalpar o rosto. Ali estavam os maçãs do rosto, altas e pronunciadas, a fenda do queixo, os olhos afundados que sabia que eram intensamente azuis. Seu nariz reto, a firme curva dos lábios.

O mesmo. Sempre o mesmo. Mas mesmo assim, concedia-se a pequena indulgência de uns momentos para recordar como era.

Levantou-se da cama na escuridão, o corpo nu, esbelto e musculoso, e virou para trás o cabelo negro que emoldurava seu rosto. Tinha nascido como Cian Mac Cionaoith, embora depois tinha tido muitos nomes. E agora havia voltado a chamar-se Cian... graças ao seu irmão. Hoyt não o chamaria de nenhum outro modo e, posto que essa guerra em que tinha acessado a participar podia acabar com ele, Cain decidiu que era justo que levasse o nome que lhe tinham posto ao nascer.

Certamente, preferiria não morrer na luta. Em sua opinião, só os loucos ou os muito jovens consideravam a morte como uma aventura. Mas se esse era seu destino, nesse momento e esse lugar, ao menos desapareceria com estilo. E se havia alguma justiça em algum mundo, levaria a Lilith com ele ao pó.

Sua visão era tão fina como o resto de seus sentidos, de modo que podia mover-se facilmente na escuridão, e se aproximou de uma cômoda em busca de uma das bolsas de sangue que havia trazido consigo da Irlanda. Pelo visto, os deuses tinham decidido permitir que o sangue, assim como o vampiro que a necessitava como alimento, viajassem através das ginjeiras desde seu círculo de pedras.

Por outra parte, tratava-se de sangue de porco. Fazia séculos que Cian não se alimentava de seres humanos. Uma escolha pessoal, refletiu enquanto abria a bolsa e vertia o conteúdo em uma taça. Uma questão de vontade, e também de boas maneiras o tinham levado a isso. Ele vivia entre os humanos, fazia negócios com eles, dormia com eles quando estava de ânimo para fazê-lo. Parecia-lhe descortês alimentar-se deles.

Em qualquer caso, tinha descoberto que lhe resultava mais simples viver como gostava de fazê-lo, mantendo-se fora de foco, se não matava alguma alma desafortunada todas as noites. A alimentação com seres vivos acrescentava uma excitação e um sabor que nada podia igualar, mas era por natureza um assunto desagradável.

Pouco a pouco tinha se acostumando ao sabor mais anódino do sangue de porco e à comodidade de tê-lo ao alcance da mão, em lugar de ver-se obrigado a sair e caçar algo cada vez que tinha fome.

Tomou o sangue do mesmo modo em que um humano o faria com seu café da manhã... por hábito e pela necessidade de um estímulo ao despertar. O sangue lhe clareava mente e punha em funcionamento seu sistema.

Enquanto se lavava, não se preocupou com o fogo nem as velas. Não podia dizer que estivesse encantado com as comodidades que lhe brindava Geall. Com castelo ou sem ele, sentia-se totalmente deslocado naquela atmosfera medieval, o mesmo que Glenna e Blair.

Ele já tinha vivido nessa época uma vez, e uma vez era mais que suficiente para qualquer um. Ele preferia — preferia muito — a comodidade cotidiana dos encanamentos internos, da eletricidade e da fodida comida Chinesa que lhe levavam a domicílio.

Sentia falta de seu carro, sua cama, o maldito microondas. Tinha saudades da vida e dos sons da cidade e tudo o que esta oferecia. O destino lhe daria um bom chute no traseiro se morria ali, na mesma época em que sua vida tinha começado.

Uma vez vestido abandonou seu quarto para dirigir-se às cavalariças em busca de seu cavalo.

Havia gente lá fora —criados, guardas, cortesãos—, todos os que viviam e trabalhavam dentro do castelo. A maioria o evitou, esquivando seu olhar ou acelerando o passo. Alguns faziam o sinal contra o diabo a suas costas. Mas isso Cian não se preocupava absolutamente.

Todos sabiam o que era... e tinham sido testemunhas do que eram capazes as criaturas como ele desde que Moira, a gladiadora erudita, tinha lutado contra um deles no campo de jogos.

Tinha sido uma boa estratégia, pensou agora, que Moira lhe pedisse que, junto a Blair e Larkin, caçasse aos dois vampiros que tinham matado a sua mãe, a rainha. Moira tinha entendido a importância, o valor de trazer os vampiros com vida para que as pessoas pudessem ver o que realmente eram. E para que vissem a ela própria.

Moira lutaria contra um deles e lhe mataria, demonstrando assim era uma combatente.

Ao cabo de umas semanas, ela conduziria o seu povo à guerra. E quando uma terra como Geall que viveu em paz tanto tempo, necessita de um líder forte e decidido para converter em soldados aos camponeses e comerciantes, a damas da corte e a decrépitos assessores.

Ele não estava seguro de que Moira estivesse à altura da tarefa a qual devia enfrentar-se. Mas era uma moça valente, pensou enquanto se deslizava fora do castelo e atravessava um pátio empedrado em direção às cavalariças. Além de muito inteligente. E não cabia dúvida de que tinha aperfeiçoado uma considerável habilidade para o combate ao longo dos dois últimos meses. Por outra parte, era evidente que tinha sido instruída desde seu nascimento em questões de Estado e protocolo, e sua mente era engenhosa e aberta.

Imaginou que, em tempos de paz, Moira seria capaz de governar muito bem seu pequeno e bonito mundo. Mas em tempos de guerra, um governante tinha que ser um general além de um líder decorativo.

Se dele tivesse dependido, teria deixado a Riddock, seu tio, a cargo do governo. Mas havia muito poucas coisas em todo aquele assunto que dependessem dele.

Ouviu-a antes de vê-la e percebeu seu aroma inclusive antes de ouvi-la. Cian esteve a ponto de dar a volta e retornar por onde tinha vindo. Era um chateio topar-se com uma mulher em que alguém tinha estado pensando.

O problema era que, com muita freqüência, pensava só nela.

Evitar a Moira não era algo factível, do momento em que estavam inexoravelmente unidos naquela guerra. Entretanto, afastar-se naqueles momentos sem ser visto seria muito simples. E um gesto covarde. O orgulho, como sempre, lhe impediu de escolher o caminho mais fácil.

Os moços de quadra tinham agasalhado seu cavalo no extremo do estábulo, separado do resto dos cavalos por duas cavalariças. Cian entendia e tolerava que os moços de quadra e os ferradores se mostrassem resistentes a atender o cavalo de um demônio. Do mesmo modo que sabia que Larkin ou Hoyt eram quem se encarregavam de assear e alimentar a seu temperamental Vlad todas as manhãs.

Por outra parte, tudo parecia indicar que Moira tinha assumido a tarefa de mimar ao animal. Sustentava um molho de cenouras em uma mão, comprovou Cian, e balançava uma ante o focinho do cavalo, tentando-o para que a agarrasse.

—Você sabe que a quer —murmurou Moira.— É tão apetitosa. A única coisa que tem que fazer é agarrá-la.

Ele pensava o mesmo a respeito da mulher, refletiu Cian.

Ia vestida com uma túnica sobre uma simples saia de linho, por isso deduziu que qualquer treinamento que tivesse estado realizando esse dia já tinha terminado. Seu traje era extremamente simples para tratar-se de uma princesa; de um azul discreto, com apenas um indício de renda no peito. Em seu pescoço brilhava a cruz de prata, uma das nove cruzes que Glenna e Hoyt tinham encantado. Levava o cabelo solto, uma sedosa cascata cor castanha que lhe caía sobre as costas e lhe chegava à cintura, e estava coroada com o fino símbolo de seu cargo.

Não era linda. Cian o recordava a si mesmo freqüentemente, quase tão freqüentemente como pensava nela. Moira era, no melhor dos casos, uma garota bonita. Pequena, magra, de características também pequenas. Só seus olhos eram grandes. Cor cinza claro quando estava tranqüila e pensativa, escutando. Como fumaça do inferno quando estava excitada.

Ele podia escolher entre grandes belezas... como o faria qualquer homem com certo sentido e habilidade que já levasse uns quantos séculos nas costas. Moira não era linda, mas apesar de todos os esforços que fazia, não podia afastá-la de sua mente.

Sabia que podia tê-la se dedicava um pouco de esforço a seduzi-la. Moira era jovem e curiosa, e inocente e, portanto, muito vulnerável. Que era a razão pela qual, por cima de todo o resto, ele sabia que, se procurava entretenimento, companhia e alívio a suas necessidades, seria muito melhor que seduzisse a qualquer uma de suas damas.

Cian se tinha fartado de inocência fazia já muito tempo, do mesmo modo que se fartou de beber sangue humano.

Seu cavalo, entretanto, parecia ter muita menos força de vontade. Só demorou um momento em inclinar a cabeça e morder a cenoura que Moira lhe oferecia.

Ela se pôs-se a rir e acariciou as orelhas de Vlad enquanto este mastigava.

—Vê? Não era tão difícil, verdade? Você e eu somos amigos. Sei que se sente sozinho de vez em quando. Não nos passa isso a todos?

Estava levantando outra cenoura quando Cian saiu de entre as sombras.

—Conseguirá convertê-lo em um cachorrinho mimado, e então que tipo de cavalo de guerra será Vlad quando chegar o Samhain?

Moira deu um coice e logo ficou rígida. Mas quando se voltou para Cian seu rosto se serenou.

—Não te incomoda, verdade? Ao Vlad gosta de desfrutar de um pequeno presente de vez em quando.

—Não nos passa isso a todos? —murmurou ele.

Apenas um leve rubor em suas bochechas delatou sua confusão ao ter sido ouvida sem dar-se conta.

—O treinamento esteve muito bem hoje. Está chegando gente de todo Geall. São tantos os que desejam lutar que decidimos que instalaremos uma segunda zona de treinamento nas terras de meu tio. Tynan e Niall trabalharão ali.

—E o alojamento?

—Sim, esse aspecto se está convertendo em um problema. Alojaremos no castelo a todos os que possamos, e também na casa de meu tio. Além disso, contamos com a estalagem, e muitos dos camponeses e agricultores já estão albergando a familiares e amigos. Ninguém será dispensado. Encontraremos uma maneira de fazê-lo.

Moira brincava com sua cruz enquanto falava. Não porque lhe temesse, pensou Cian, mas sim como uma espécie de tic.

—Também terá que pensar na comida. São muitos os que têm que abandonar seus cultivos e seu gado para vir aqui. Mas nos arrumaremos. Comeste?

Moira se ruborizou intensamente logo que as palavras tiveram saído de sua boca.

—O que queria dizer é que haverá janta no salão se...

—Sei o que quiseste dizer. Não. Pensava lhe jogar uma olhada ao cavalo primeiro, mas parece estar bem cuidado e alimentado. —Assim que ele acabou de dizer essas palavras, Vlad golpeou com sua cabeça o ombro de Moira.— E estragado —acrescentou Cian.

Moira franziu o cenho, um gesto que Cian sabia que fazia quando estava zangada ou pensativa.

—Só são cenouras e lhe fazem bem.

—Falando de comida, dentro de uma semana necessitarei de sangue. Poderia te encarregar de que não se desperdice a dos próximos porcos que vão ser sacrificados?

—É obvio.

—É muito amável.

Agora um ligeiro gesto de irritação cruzou o rosto de Moira.

—Pode pegar do porco tudo o que necessite. Quero dizer que ninguém desprezaria uma boa fatia de bacon, não?

Deixou a última cenoura em mãos de Cian e começou a afastar-se, mas se deteve a poucos passos.

—Não sei por que me irrita com tanta facilidade. Nem se o faz ou não a propósito. —Levantou uma mão.— E não, não acredito que queira saber a resposta por agora. Em troca eu gostaria de falar contigo quando tiver um momento a respeito de outro assunto.

Evitá-la não era possível, recordou-se a si mesmo.

—Tenho um momento.

Ela jogou uma olhada ao redor. Ali não só os cavalos tinham orelhas.

—Pergunto-me se poderia dedicar esse momento a dar um passeio comigo. Eu gostaria que isto fosse em privado.

Cian se encolheu de ombros e, dando a Vlad a última cenoura, reuniu-se com Moira e saíram juntos das cavalariças.

—Segredos de Estado, sua alteza?

—Por que tem que te burlar de mim?

—Em realidade não estava me burlando. Está um pouco suscetível esta noite, não achas?

—É possível que o esteja. —virou-se para trás o cabelo que caía sobre seus ombros.— Com tudo isto da guerra e o fim dos dias, além das questões práticas relacionadas com a lavagem da roupa e a provisão de mantimentos para um exército, é possível que esteja um tanto irritável.

—Pode delegar.

—Delego. Mas mesmo assim requer tempo e atenção pôr as tarefas em outras mãos, encontrar as mais adequadas, explicar como devem levar-se a cabo. Mas não era disto do que queria falar contigo.

—Sente-se.

—O que?

—Sente-se. —Agarrou-a pelo braço, ignorando a maneira em que seus músculos se esticaram contra sua mão, e a obrigou a sentar-se em um banco.— Sente-se, deixe ao menos descansar um pouco os pés já que ao que parece não quer apagar durante cinco minutos esse cérebro inquieto que tem.

—Não posso recordar quando foi a última vez que tive uma hora só para mim e um livro. Bom, em realidade sim posso recordá-lo. Foi quando estávamos na Irlanda, em sua casa. Sinto falta de... dos livros, a quietude que há neles.

—Tem que tomar essa hora para ti de vez em quando. De outro modo te esgotará, e isso não será bom para ti e tampouco para outros.

—Sinto as mãos tão cheias que me doem os braços. —olhou as mãos, que descansavam em seu colo, e suspirou.— Já estou de novo com o mesmo. O que é o que diz Blair? Merda, merda, merda.

Surpreendeu-se para ouvir a risada de Cian e voltou a cabeça para não rir.

—Certamente que Geall nunca teve uma rainha como você.

O sorriso de Moira se desvaneceu.

—Não, tem direito a pensá-lo. Embora logo veremos se sou a rainha ou não. Amanhã, quando amanhecer, iremos à pedra.

—Entendo.

—Se consigo tirar a espada dela, como o fez minha mãe em sua época, e seu pai na sua, Geall terá uma rainha como eu. —Olhou para as portas do castelo por cima dos arbustos.— Nesse caso, Geall não terá outra alternativa. E eu tampouco.

—Desejaria que fosse de outra maneira?

—Não sei o que é que desejaria, de modo que não desejo nada absolutamente... exceto que termine o quanto antes. Então poderei fazer, bom, o que seja necessário fazer a seguir. Lhe queria dizer isso —Ela afastou a vista do que fosse que visse em sua mente e voltou a lhe olhar aos olhos.— Teria gostado que encontrássemos alguma maneira de celebrar a cerimônia de noite.

Olhos doces, pensou ele, e tão sérios...

—É muito perigoso celebrar qualquer tipo de cerimônia depois do pôr-do-sol além das muralhas do castelo.

—Eu sei. Todos os que desejem presenciar o ritual podem assistir. Você não pode, sei. E lamento que seja assim. Parece-me errado. Acredito que nós seis, nosso círculo, deveríamos estar juntos em um momento como esse.

Sua mão voltou a procurar a cruz que pendurava de seu pescoço.

—Geall não é teu assunto, isso também sei, mas esse momento será importante pelo que passe depois. Há mais do que imaginava. Mais do que nunca poderia ter imaginado.

Moira inspirou profundamente com um ligeiro estremecimento.

—Eles mataram a meu pai.

—O que está dizendo?

—Tenho que seguir caminhando. Não posso ficar sentada.

Levantou-se rapidamente, esfregando os braços para esquentar-se ante o frio súbito no ar e em seu sangue. Atravessou o pátio em direção a um dos jardins.

—É algo que não contei a ninguém, e tampouco tinha intenções de contar isso a ti. Que sentido tem? Além disso, não tenho nenhuma prova, só se trata de algo que eu sei.

—O que é que sabe?

Moira se deu conta de que falar com Cian, explicar a ele, era mais fácil do que tinha pensado, porque também lhe incumbia.

—Um dos dois vampiros que mataram a minha mãe, os que trouxeram aqui. O vampiro contra o qual lutei. —Levantou uma mão e ele observou como recuperava a compostura.— Antes que o matasse, disse algo a respeito de meu pai e da forma em que morreu.

—Provavelmente estava tratando de conseguir que perdesse a calma, romper sua concentração.

—Fez um bom trabalho nesse sentido, mas havia algo mais. Sei, em meu interior. —Olhou-o fixamente e levou a mão ao coração.— Soube quando olhei a esse vampiro. Não só minha mãe, mas sim também meu pai. Acredito que Lilith os enviou para matar a minha mãe porque já tinha tido êxito antes. Quando eu era uma menina.

Moira continuou caminhando, a cabeça inclinada pelo peso de seus pensamentos, sua fina coroa brilhando à luz das tochas.

—Todos acreditaram que tinha sido um urso. Meu pai estava caçando nas montanhas. Mataram a ele e ao irmão mais novo de minha mãe. Meu tio Riddock não os tinha acompanhado nessa ocasião porque minha tia estava a ponto de dar a luz. Eu...

Moira voltou a interromper-se para ouvir passos perto deles, e se manteve em silêncio até que o som das pegadas se perdeu na distância.

—Os que os encontraram e trouxeram os corpos ao castelo acreditaram que tinha sido obra de animais. E assim foi —afirmou com voz acerada.— Mas esses animais caminham como um homem. Lilith lhes enviou para que matassem a meu pai, para que eu fosse a única filha.

Nesse momento, voltou-se para ele, a luz da tocha tingia de vermelho seu rosto intensamente pálido.

—Talvez, naquela época, ela só soubesse que o soberano de Geall seria um dos integrantes do círculo. Ou, possivelmente fosse mais fácil matar a ele e não a mim naquele momento, já que eu era pouco mais que um bebê e estava muito protegida. Tinha muito tempo pela frente para enviar aos assassinos em minha busca. Mas em troca mataram a minha mãe.

—Os que o fizeram estão mortos.

—Acaso é isso um consolo? —perguntou-se em voz alta, e pensou que, por parte dele, provavelmente fosse uma maneira de oferecê-lo —Não sei o que pensar. Mas sei que Lilith levou os meus pais do meu lado. Os levou para deter algo que não pode deter-se. Quando chegar Samhain nos encontraremos cara a cara no campo de batalha, porque assim está escrito. E lute eu como rainha ou não, lutarei. Quer dizer, matou-os por nada.

—E não há nada que pudesse ter feito para impedi-lo.

Sim, consolo, pensou ela outra vez. Estranhamente, sua concisa afirmação lhe dava precisamente isso.

—Rezo para que isso seja verdade. Mas sei que, devido ao que se fez, ao que não se fez, ao que devia fazer-se, o que aconteça amanhã é muito mais importante que um mero ritual. Quem quer que sustente amanhã essa espada, dirigirá esta guerra, e a empunhará com o sangue de meus pais assassinados. Ela não pôde impedi-lo e não poderá impedi-lo. —Moira retrocedeu uns passos e assinalou para cima.— Vê essas bandeiras? O dragão e o claddaugh. Os símbolos de Geall desde o começo de sua existência. Antes que isto comece, pedirei que seja içada uma bandeira com um novo símbolo.

Cian pensou em todos os símbolos entre os quais ela podia escolher: uma espada, uma estaca, uma flecha. Mas então soube. Não seria uma arma, um instrumento de guerra e morte, e sim um símbolo de esperança e resistência.

—Um sol. Para que estenda sua luz sobre o mundo —disse ele.

A surpresa mesclada com o prazer que a percorreu iluminou o rosto da Moira.

—Sim. Você é capaz de entender meu pensamento, e a necessidade. Um sol dourado em uma bandeira branca para que represente a luz, os manhãs pelos que lutaremos. Esse sol, dourado como a glória, será o terceiro símbolo de Geall, um que eu trago para meu mundo. E maldita seja Lilith. Malditos sejam ela e o que ela trouxe aqui.

Moira, agora com o rosto ruborizado, inspirou profundamente.

—Sabe escutar... e eu falo muito. Entremos. Outros devem estar já se reunindo para o jantar.

Cian lhe tocou um braço para detê-la.

—Antes acreditava que não seria uma rainha adequada para tempos de guerra. Acredito que é uma das poucas vezes em que me equivoquei.

—Se a espada for minha —disse ela.— De momento não sou a rainha, ainda não sabe se te equivocastes.

Quando puseram-se a andar para as portas do castelo, a Cian lhe ocorreu pensar que Moira e ele acabavam de manter a conversação mais larga das sustentadas nos dois meses que tinham transcorrido desde que se conheceram.

—Tem que dizer aos outros. Tem que lhes dizer o que acha que aconteceu a seu pai. Se isto for um círculo, não deveriam existir segredos que pudessem debilitá-lo.

—Tem razão. Sim, tem razão.

Ao entrar no castelo, tinha a cabeça erguida, e seus olhos eram cor cinza claro.

 

                                     CAPÍTULO 2

Ela não dormiu. Como podia dormir uma mulher em que era, na mente de Moira, a última noite de sua vida? À manhã seguinte se converteria na nova rainha de Geall se seu destino era que conseguisse liberar a espada de sua bainha de pedra. E, como rainha, deveria governar e reinar, tarefas ambas para as quais tinha sido preparada desde o nascimento. Mas como rainha, nesse iminente amanhecer e nos seguintes, conduziria a seu povo à guerra. Se não era seu destino que extraíra a espada da pedra, ela seguiria a outro, de boa vontade, à batalha.

Podiam acaso semanas de intenso treinamento preparar a alguém para semelhante ação, tamanha responsabilidade? De modo que essa noite era a última em que podia ser a mulher que ela tinha acreditado que seria, inclusive a rainha que tinha esperado chegar a ser algum dia.

Moira sabia que nada voltaria a ser igual, não importava o que o amanhecer trouxesse consigo.

Antes da morte de sua mãe, tinha acreditado que esse amanhecer que agora estava a ponto de despontar se encontrava a anos de distância. Sempre tinha suposto que desfrutaria durante muitos anos da companhia, o consolo e o conselho de sua mãe, anos de paz e estudo de modo que, quando chegasse o momento, não só estaria preparada para levar a coroa mas também seria digna dela.

Em parte, Moira tinha suposto que sua mãe reinaria durante várias décadas e que ela mesma se casaria. No nebuloso e distante futuro, um de seus filhos levaria a coroa em seu lugar.

Tudo isso tinha mudado na noite em que sua mãe morreu. Não, Moira se corrigiu, tinha mudado antes, muitos anos antes, quando seu pai tinha sido assassinado.

Possivelmente nada tinha mudado absolutamente, mas sim se tratava simplesmente de passar as páginas à medida que o livro do destino se escrevia.

Agora só podia desejar ter a sabedoria de sua mãe e procurar em seu próprio interior o valor para levar tanto a coroa como a espada.

Estava de pé, em uma das torres mais elevadas do castelo, sob uma pequena lua. Quando voltasse a estar cheia, já estaria longe daqui, na fria terra de um campo de batalha.

Moira tinha subido às torres porque dali podia ver as tochas que ardiam no campo de jogos. Observar o treinamento noturno e ouvir os sons que produzia. Cian, pensou, empregava horas de sua noite em ensinar a homens e mulheres como lutar contra algo que era mais forte e rápido que os humanos. Ele os pressionaria, estava segura disso, até que estivessem preparados para matar. Como a tinha pressionado a ela e a outros membros do círculo, noite pós noite durante as semanas que tinham permanecido na Irlanda.

Nem todos confiavam nele, isso era algo que Moira também sabia. Alguns lhe temiam sem dissimulá-lo, mas isso talvez fosse positivo. Ela entendia que Cian não estava ali para fazer amigos, e sim guerreiros. Em realidade, grande parte de sua formação de guerreira devia a ele.

Moira acreditava entender por que Cian lutava junto a eles ou, ao menos, tinha um indício da razão pela qual ele arriscava tanto pela humanidade. Em parte era por orgulho, de que sabia que Cian tinha de sobra. Ele não se inclinaria ante Lilith. Em parte, admitisse Cian ou não, era por lealdade a seu irmão. E o resto, bom, tinha a ver com a coragem e suas próprias emoções em conflito.

Porque ela sabia que Cian tinha emoções. Era incapaz de imaginar como, depois de mil anos de existência, lutavam e se enfrentavam em seu interior. As dela estavam tão confusas e alteradas depois de só dois meses de morte e sangue que nem era capaz de reconhecer-se. Como seria para ele, depois de tudo o que tinha visto e feito, de tudo o que tinha ganhado e perdido? Cian sabia do mundo muito mais que qualquer um deles; de seus prazeres, de suas dores, de suas possibilidades. Não, Moira era incapaz de imaginar o que significava saber tudo o que Cian sabia e mesmo assim arriscar a própria sobrevivência.

Que ele o fizesse, que agora inclusive estivesse dedicando seu tempo e sua habilidade para treinar tropas, merecia todo o seu respeito. Ao tempo que o mistério que o rodeava, os como e os por que, continuavam fascinando-a.

Moira não podia estar segura do que Cian pensava dela. Embora a tivesse beijado —esse único ardente e desesperado momento—, não sabia com segurança. E nunca tinha podido resistir de meter-se na medula das coisas.

Ouviu passos que se aproximavam, e ao voltar-se viu que era Larkin.

—Deveria estar em sua cama —disse ele.

—Ali só estaria olhando o teto. A vista é melhor daqui. —Procurou a mão de seu primo, seu amigo, e se sentiu imediatamente confortada.— E por que não está você na tua?

—Vi-te. Blair e eu fomos a dar uma mão a Cian —assim como tinha feito o de Moira, o olhar de Larkin passeou pelo campo que se estendia debaixo deles— e te vi aqui, sozinha.

—Esta noite não sou boa companhia, nem sequer para mim mesma. Só queria que isto já tivesse acabado, então viria o seguinte. De modo que decidi vir aqui para refletir sobre essas coisas. —Apoiou a cabeça em seu ombro.— Ajuda a passar o tempo.

—Poderíamos baixar sala de jantar familiar. Deixarei-te ganhar no xadrez.

—Me deixar? Oh, lhe escutem. —Lhe olhou. Os olhos de Larkin eram de um castanho dourado, com pestanas largas, como os seus. O sorriso que dançava neles não alcançava a mascarar sua preocupação.— E suponho que me deixaste ganhar as centenas de partidas que disputamos todos estes anos.

—Pensava que seria bom para te dar confiança.

Ela se pôs-se a rir ao tempo que lhe dava um pequeno empurrão.

—Estou segura de que posso ganhar no xadrez nove de cada dez vezes que joguemos.

—Então o comprovaremos.

—Não, não o faremos. —Lhe deu um beijo na bochecha e lhe separou da cara uma mecha de cabelo castanho.— Você irá a sua cama e a sua dama, e não passará estas horas me distraindo de meu estado de ânimo desanimador. Vamos, entremos. Depois de tudo, talvez a limitada vista do teto de minha habitação me aborreça ao ponto de fazer que durma.

—Se quiser companhia, só tem que chamar a minha porta.

—Eu sei.

Do mesmo modo que Moira sabia que tentaria descansar até a primeira luz do dia.

Mas não dormiu.

Conforme mandava a tradição, Moira seria vestida e atendida por suas damas na última hora prévia ao amanhecer. Apesar de que lhe insistiram para que o pusesse, rechaçou o vestido vermelho. Ela sabia muito bem que o vermelho não era uma cor que a favorecesse, não importava quão régio pudesse ser. Escolheu, em troca, vestir-se com as cores do bosque, verde escuro sobre uma saia verde pálido.

Aceitou a levar jóias, depois de tudo, eram as jóias de sua mãe. De modo que permitiu que as pesadas pedras de citrino fossem colocadas ao redor do pescoço. Mas sob nenhuma circunstância tiraria a cruz de prata.

Levaria o cabelo solto e descoberto, e permaneceu sentada, deixando que o bate-papo das mulheres a rodeasse, enquanto Dervil lhe escovava o cabelo uma e outra vez.

Ceara, uma de suas damas, voltou a insistir em que comesse um prato de bolos de mel.

—Depois —lhe disse Moira.— Me sentirei mais tranqüila mais tarde.

Moira se levantou e sentiu um profundo alívio ao ver que Glenna entrava no quarto.

—Que maravilhoso aspecto tem!

Moira estendeu ambas as mãos. Ela tinha escolhido pessoalmente o traje que levariam Blair e Glenna, e agora comprovava que sua escolha tinha sido acertada. Por outra parte, pensou, Glenna era uma mulher tão atrativa que não havia nada que não a favorecesse.

Mesmo assim, a escolha do veludo azul escuro contribuía para realçar sua pele cremosa e o fogo de seu cabelo.

—Sinto-me como se fosse uma princesa —disse Glenna.— Muito obrigada. E você, Moira, parece uma rainha.

—De verdade? — voltou-se para seu espelho, mas só se viu si mesma. Sorriu quando Blair entrou no quarto. Para ela tinha escolhido um vestido cor cobre em pó, com sobre-saia dourado pálido.— Nunca te tinha visto com um vestido.

—E que vestido! —Blair estudou a suas amigas e logo seolhou.— Me parece que tudo isto é como um conto de fadas.

Penteou-se com os dedos o cabelo curto e escuro.

—Não te importa então? A tradição exige o traje mais formal.

—Eu gosto de ser uma garota. Não me incomoda me vestir como uma, inclusive como uma que não vai na moda de meu tempo. —Blair descobriu os bolos de mel e agarrou um.— Nervosa?

—Muito. Eu gostaria de estar a sós um momento com Blair e Glenna —disse Moira a suas damas. Uma vez que estas partiram do quarto, Moira se deixou cair na poltrona que havia diante da lareira acesa.— Levam dando voltas a meu redor há uma hora. É cansativo.

—Parece cansada. —Blair se sentou no braço da poltrona.— Não dormiste nada.

—Minha mente estava inquieta.

—Não bebeu a poção que te dei. —Glenna suspirou.— Tem que estar descansada para isto, Moira.

—Precisava pensar. Não é a maneira habitual de fazê-lo, mas quero que vocês duas, junto a Hoyt e Larkin, caminhem a meu lado até a pedra onde está a espada.

—Acaso não era esse o plano? —perguntou Blair com a boca cheia.

—Vocês formarão parte da comitiva, claro, e, segundo manda a tradição, eu devo caminhar sozinha, diante de todos, como sempre se tem feito. Atrás de mim, só deveriam estar os membros de minha família: meu tio, minha tia, Larkin e meus outros primos. E atrás deles, segundo seu grau e posição, outros. Mas eu quero que Vocês caminhem com minha família, porque são minha família. Faço isto por mim, mas também pelo povo de Geall. Quero que eles vejam o que são. Ciam não poderá estar na cerimônia, como me teria gostado.

—Não pode fazer-se de noite, Moira. —Blair apoiou a mão sobre seu ombro.— É um risco muito grande.

—Eu sei. Mas embora o círculo não se encontre completo no lugar onde está a pedra, Cian estará em meus pensamentos. —levantou-se e foi até uma das janelas.— Já está amanhecendo —murmurou.— E lhe seguirá o dia. —voltou-se enquanto se apagavam as últimas estrelas.— Estou preparada para o que venha.

Sua família e suas damas já estavam reunidas abaixo. Moira aceitou a capa que lhe oferecia Dervil e ela mesma se ajustou o broche com o dragão.

Quando elevou a vista, viu Cian. Supôs que devia haver-se detido um momento de caminho a sua habitação, até que comprovou que levava posta a capa que Glenna e Hoyt tinham encantado para que impedisse o passo dos, para ele, mortais raios do sol.

Moira se afastou do lado de seu tio e se aproximou de Cian.

—Pensa em vir? —perguntou-lhe.

—Raras vezes tenho oportunidade de dar um passeio pelas manhãs.

Apesar do desenvolto de suas palavras, Moira percebeu o que se escondia debaixo delas.

—Agradeço-te que tenha escolhido esta manhã para dar seu passeio.

—Já amanheceu —disse Riddock.— As pessoas esperam.

Moira se limitou a assentir brevemente, logo se levantou o capuz como mandava o costume antes de sair à brumosa luz do dia.

O ar era frio e nebuloso, e nem corria uma brisa que agitava os dedos da bruma. Através dessa cortina de névoa, Moira cruzou sozinha o pátio até chegar às portas do castelo, com seu séquito caminhando atrás dela. No amortecido silêncio, ouviu o canto dos pássaros e o leve sussurro do ar úmido.

Pensou em sua mãe, que uma vez tinha percorrido esse mesmo caminho em uma manhã fria e brumosa. E em todos aqueles que o tinham feito antes que ela, cruzando as portas do castelo, através do caminho de terra, sobre a erva verde tão carregada de rocio que era como estar vadeando um rio. Sabia que muitos a seguiam, comerciantes e artesãos, harpistas e bardos. Mães e filhas, soldados e filhos.

O céu se tingia de rosa no este e a neblina que cobria a terra lançava brilhos chapeados.

Moira podia cheirar o rio e a terra e continuou subindo pela suave colina, com o rocio lhe molhando a borda do vestido.

O lugar da pedra se encontrava em uma colina em que havia um pequeno bosque. Sobre as rochas que havia perto do poço sagrado, cresciam o musgo e o líquen amarelo pálido e verde. Quando chegasse a primavera apareceria o vivaz alaranjado dos lírios, as cabeças dançantes dos ranúnculos e, mais tarde, as formosas campainhas das dedaleiras, todas elas crescendo no lugar que lhes correspondia.

Mas no momento as flores permaneciam dormidas e as folhas das árvores tinham essa primeira pincelada de cor que pressagiava sua morte.

A pedra onde estava a espada era grande e branca, como um altar sobre um antigo dólmen de pedra lisa e cinza.

Os raios do sol atravessavam as folhas e a névoa, alcançando essa pedra branca e arrancando reflexos de prata do punho da espada enterrada nela.

As mãos de Moira estavam frias, muito frias. Ela conhecia a história desde que era pequena. Como os deuses tinham forjado a espada com um raio, com o mar, a terra e o vento. Como Morrigan tinha levado a espada e o altar de pedra até esse lugar, e tinha enterrado ali a espada até o punho, e gravado as palavras na pedra com seu dedo ardente.

 

             FINCADA PELA MÃO DOS DEUSES

             LIBERADA PELA MÃO DE UM MORTAL

             COM ESTA ESPADA

             ESSA MÃO GOVERNARÁ GEALL

 

Moira se deteve na base da pedra para ler novamente as palavras. Se os deuses assim o dispunham, essa mão seria a sua.

Com a capa agitando-se sobre a erva coberta de rocio, caminhou através do sol e a névoa até o topo da colina mágica. E ocupou seu lugar atrás da pedra.

Pela primeira vez olhou e viu. Centenas de pessoas, seu povo, com o olhar posto nela, ocupavam os campos, o atalho de terra do caminho. Se a espada ficava em suas mãos cada um deles seria sua responsabilidade. Estremeceu-se e acreditou desfalecer.

Conseguiu tranqüilizar-se enquanto examinava os rostos e esperava a que o trio de homens Santos ocupassem seus lugares atrás dela. Alguns ainda continuavam subindo a costa da colina, apressando-se para não perder esse momento. Moira desejava soar acalmada quando lhes falasse, de modo que esperou um pouco mais e deixou que seu olhar se posasse nos olhos daqueles a quem mais amava.

—Minha senhora —disse um dos homens Santos.

—Sim. Um momento.

Abriu lentamente o broche do dragão, tirou-se a capa e a entregou atrás dela. O amplo vôo das mangas do vestido ondeou para trás quando levantou os braços, mas não sentiu o frio na pele. Ao contrário, sentia calor

—Sou uma serva do Geall —exclamou.— Sou uma criatura dos deuses. Vim a este lugar para me inclinar ante a vontade de ambos. Por meu sangue, por meu coração, por meu espírito. —Deu o último passo que a separava da pedra. Não havia um só som no ar. Era como se a própria natureza estivesse contendo o fôlego. Moira estendeu a mão e curvou os dedos ao redor do punho de prata.

«OH —pensou, ao sentir seu calor, enquanto em algum lugar de sua mente ouvia o suave murmúrio de sua música.— É obvio, sim, é obvio. É minha e sempre foi.»

Com o sussurro do aço contra a pedra, Moira liberou a espada e a elevou apontando ao céu.

Sabia que seu povo a aclamava e alguns choravam. Sabia que, como um só homem, todos tinham fincado o joelho em terra. Mas seus olhos estavam fixos na ponta da espada e no raio de luz que chegava do céu para incidir nela.

Moira sentiu essa luz em seu interior, uma quebra de onda de calor e cor e força. Notou uma súbita queimadura no braço e, como se os próprios deuses o tivessem gravado, o símbolo do claddaugh se formou nele para assinalá-la como rainha de Geall. Transportada, emocionada e humilde, olhou a seu povo. E seus olhos encontraram os de Cian.

Todo o resto pareceu desaparecer então, por um momento. Só estava ele, o rosto escurecido pelo capuz da capa, e seus olhos brilhantes e azuis.

Como podia ser, perguntou-se, que ela estivesse sustentando o destino de todos eles na mão e só o visse ele? Como era possível que, ao olhar seus olhos, fosse como estar olhando mais e mais profundamente em seu próprio destino?

—Sou uma serva de Geall —repetiu, incapaz de apartar seus olhos de Cian.— Sou uma criatura dos deuses. Esta espada e tudo o que ela protege me pertence. Sou Moira, rainha guerreira de Geall. Levantem-se e saibam que vos amo.

Ela permaneceu de pé, tal como estava, a espada ainda apontada para o céu enquanto as mãos do homem santo colocavam a coroa em sua cabeça.

A magia não era algo que lhe resultasse estranho, já fosse branca ou negra, mas Cian pensou que jamais em sua vida tinha visto nada mais poderoso. O rosto de Moira, que se via tão pálido quando tirou a capa, tinha florescido quando sua mão tinha arrancado a espada da pedra. Seus olhos, tão preocupados, tão sombrios, eram agora tão brilhantes como a folha da espada. E tinham atravessado os seus de parte para parte, afiados como uma espada, quando o tinha colocado.

Ali estava, pensou ele, leve e magra, e tão magnífica como qualquer amazona. Subitamente régia, subitamente ardente, subitamente bonita.

O que moveu dentro dele não tinha espaço ali, naquele momento.

Retrocedeu uns passos e se voltou para partir. Hoyt o agarrou de um braço.

—Deve esperar por ela, pela rainha.

Cian arqueou uma sobrancelha.

—Esquece que eu não tenho nenhuma rainha. E já estive suficiente tempo debaixo desta fodida capa.

Moveu-se depressa. Queria afastar-se da luz, do aroma de humanidade. Afastar do poder daqueles olhos cinzas. Necessitava o frio e a escuridão, e o silêncio.

Estava apenas a uma légua de distância quando Larkin se aproximou trotando para ele.

—Moira me há dito que te pergunte se queria que te leve a cavalo até o castelo.

—Estou bem, mas obrigado de todos os modos.

—Foi algo assombroso, não acha? E Moira estava... bom, brilhante como o sol. Sempre soube que seria ela a escolhida, mas vê-lo quando acontece é algo completamente diferente. Converteu-se em rainha no momento de tocar a espada. Você também o viu.

—Se Moira quer seguir sendo rainha, ter a alguém a quem governar, será melhor que use essa espada.

—E o fará. Vamos, Cian, este não é um dia para a tristeza e a fatalidade. Ganhamo-nos umas quantas horas de alegria e celebração. E comida. —Com outro sorriso, Larkin deu a Cian uma leve cotovelada no flanco.— Ela é a rainha, mas posso te prometer que, hoje, o resto de nós comerá como reis.

—Bom, os exércitos viajam sobre o estômago.

—Sim?

—Isso disse ao menos... alguém. Podem desfrutar de sua celebração e seu banquete. Será melhor que amanhã rainha, reis e camponeses se preparem por igual para a guerra.

—É como se não tivéssemos estado fazendo outra coisa. Não me queixo —continuou Larkin antes que Cian pudesse falar.— Suponho que a questão é que estou cansado de me preparar para a guerra, e que quero que chegue o quanto antes.

—É que não tiveste suficiente atividade ultimamente?

—Tenho que lhes fazer pagar pelo que fizeram a Blair. Ainda tem as costelas doloridas, e se cansa mais depressa do que está disposta a admitir. —Sua expressão era dura e sombria enquanto recordava.— Suas feridas curam rapidamente, mas não esquecerei o dano que lhe fizeram.

—É muito perigoso entrar em batalha levando nas costas assuntos pessoais.

—Ah, tolices. Todos nós temos algo pessoal que arrumar, ou que sentido tem se não? E não me dirá agora que uma parte de ti não irá combater tendo na mente e no coração o que essa cadela fez a King.

Cian não podia negá-lo, de modo que trocou de tema.

—Está... me escoltando de retorno ao castelo, Larkin?

—De fato, alguém mencionou que devo me lançar sobre ti para te proteger da luz do sol em caso de que a magia de sua capa se esgote.

—Isso estaria bem. Ambos arderíamos como tochas.

Cian disse quase com indiferença, mas teve que reconhecer que se sentiu aliviado quando chegou às sombras que projetava o castelo de Geall.

—Também me pediram que vá ao salão familiar se não te encontrar muito cansado. Teremos um café da manhã privado ali. Moira se sentiria agradecida se pudesse ficar uns poucos minutos.

A Moira teria gostado de desfrutar de uns instantes para ela sozinha. Mas estava rodeada. O caminho de volta ao castelo era uma mancha de movimento e vozes envoltas na névoa. Sentia o peso da espada na mão, a coroa na cabeça apesar de que era levada quase em voando por sua família e seus amigos. As aclamações de alegria ressonavam sobre as colinas e os campos, uma celebração da nova rainha de Geall.

—Terás que te exibir —lhe disse Riddock.— Do balcão real. É o que se espera que faça.

—Sim. Mas não sairei sozinha. Sei que é a forma em que sempre se fez —continuou dizendo antes de que seu tio pudesse protestar.— Mas estes são tempos diferentes. Meu círculo estará comigo. — Agora olhou a Glenna, logo a Hoyt e Blair.— As pessoas não só verão sua rainha, mas também àqueles que foram escolhidos para dirigir esta guerra.

—É você quem deve decidi-lo e fazê-lo —disse Riddock com uma ligeira reverência.— Mas em um dia assim, Geall deveria estar livre da sombra da guerra.

—Até que Samhain tenha passado, Geall estará sempre sob a sombra da guerra. Cada gealliano deve saber que, até esse dia, eu governarei com a espada. E que formo parte de um círculo de seis escolhidos pelos deuses.

Apoiou uma mão sobre a de seu tio quando atravessaram as portas.

—Agora teremos uma celebração e comeremos e beberemos. Valorizo seu conselho, como sempre o tenho feito, e me mostrarei ante meu povo e falarei para todos eles. Mas hoje os deuses escolheram em mim à rainha e à guerreira. E isso é o que serei. Isso é o que entregarei a Geall, até meu último fôlego. Não te envergonharei.

Riddock agarrou a mão que ela tinha apoiado em seu braço e a levou aos lábios.

—Minha doce menina. Você só me trouxe orgulho e é o que sempre fará. E, desde este dia e até que a vida me abandone, sou um homem da rainha.

Os criados estavam todos reunidos, e se ajoelharam quando o cortejo real entrou no castelo. Moira conhecia seus rostos, seus nomes. Muitos deles tinham servido a sua mãe antes que ela nascesse.

Mas já nada era igual. Agora ela não era a filha da casa, e sim, sua senhora. E a de todos eles.

—Levantem-se —disse Moira— e saibam que me sinto profundamente agradecida por sua lealdade e seus serviços. E quero que saibam também que Vocês e toda Geall contam com minha lealdade e entrega enquanto seja sua rainha.

Mais tarde, enquanto subia a escada, disse a si mesma que falaria com cada um deles individualmente. Era importante que o fizesse. Mas agora tinha outras obrigações a cumprir.

No salão familiar, o fogo na lareira. Os floreiros e terrinas transbordavam de flores frescas cortadas nos jardins e na estufa. A mesa estava posta com a melhor baixela e cristaleria, com vinho que esperava a que o círculo íntimo de Moira brindasse pela nova rainha.

Inspirou uma vez profundamente, logo uma segunda, tratando de encontrar as palavras que diria, suas primeiras palavras como rainha, a aqueles a quem mais amava.

Então Glenna simplesmente a envolveu em seus braços.

—Estiveste magnífica. —Beijou a Moira em ambas as bochechas.— Luminosa.

A tensão que lhe atendia os ombros se afrouxou.

—Eu me sinto a mesma de sempre, mas distinta, sabe?

—Só posso imaginá-lo.

—Bom trabalho. —Blair se aproximou de Moira e a abraçou brevemente.— Posso vê-la?

De guerreira a guerreira, pensou Moira, e entregou a espada a Blair.

—Excelente —disse esta baixinho.— Bom peso para ti. Esperava que estivesse engastada em jóias ou o que fosse. É bom que não seja assim. É bom e adequado que seja uma espada de guerra, não somente um símbolo.

—Sinto como se o punho tivesse sido desenhada para minha mão. logo que a hei tocado, hei sentido que era... minha.

—Ela é. —Blair a devolveu.— É tua.

Moira deixou a espada sobre a mesa durante um momento para receber o abraço de Hoyt.

—O poder que emana de ti é quente e estável —lhe sussurrou ao ouvido.— Geall é afortunada ao te ter como sua rainha.

—Obrigada.

Logo se pôs a rir quando Larkin a levantou do chão e a fez girar três vezes no ar.

—Te olhe. Majestade.

—Burla-te de minha dignidade real.

—Sempre. Mas nunca de ti, a stór.

Quando Larkin voltou a depositá-la no chão, Moira se voltou para Cian.

—Obrigada por ter vindo. Significa muito para mim.

Cian não a abraçou, nem tampouco a tocou, mas sim se limitou a inclinar a cabeça.

—É um momento que não teria perdido por nada do mundo.

—Um momento mais importante para mim porque vieste. Porque todos vieram —continuou dizendo, e começou a girar olhando-os a todos, quando sua pequena prima lhe puxou a saia.— Aideen. —Elevou à pequena e aceitou seu beijo úmido.— Está muito bonita hoje.

—Bonita —repetiu Aideen, elevando a mão para tocar a adornada coroa de Moira. Logo voltou a cabeça para Cian com um sorriso tímido.— Bonito —disse outra vez.

—Uma mulher ardilosa —observou Cian, e viu que a pequena fixava a vista no pendente que ele levava no pescoço e, com gesto distraído, elevou-o para que ela pudesse tocá-lo.

Quando Aideen estirava a mão, sua mãe praticamente voou através do salão.

—Aideen, não o faça!

Sinann afastou à menina de Moira e a apertou com força contra seu ventre, volumoso pelo terceiro filho que estava esperando.

No incômodo silêncio que seguiu à cena, Moira não pôde mais que sussurrar o nome de sua prima.

—Nunca gostei de crianças —disse Cian com voz gelada.— Se me desculparem.

—Cian. —depois de lançar um olhar recriminatório para Sinann, Moira correu atrás de Cian.— Por favor, espera um momento.

—Já tive suficientes momentos por esta manhã. Quero ir à cama.

—Quero me desculpar. —Agarrou-o pelo braço e o sujeitou com força até que Cian se deteve e se voltou para ela. Seus olhos eram duas pedras azuis.— Minha prima Sinann é uma mulher simples. Eu falarei com ela.

—Não se incomode por mim.

—Senhor. —Com o rosto pálido como a cera, Sinann se aproximou deles.— Vos rogo que me perdoem, sinceramente. Insultei-lhes, a você, a minha rainha e a seus nobres convidados. Peço-lhes que desculpem a estupidez de uma mãe.

Ela lamentava o insulto, pensou Cian, mas não o ato. A menina se encontrava agora no extremo mais afastado do salão, nos braços de seu pai.

—Aceito suas desculpas. —despediu-se dela com apenas um olhar.— Agora, se tiverem a bondade de me soltar o braço, majestade.

—Um favor —começou a dizer Moira.

—Estás acumulando-os —disse ele.

—E estou em dívida contigo —replicou ela brandamente.— Tenho que sair lá fora, ao balcão. As pessoas precisam ver sua rainha, e acredito que também a todos aqueles que formam seu círculo. Agradeceria-te se me concedesse uns minutos a mais de seu tempo.

—Sob o implacável sol.

Ela conseguiu esboçar um sorriso e se relaxou ao reconhecer que a frustração em sua voz significava que faria o que lhe tinha pedido.

—Um instante tão somente. Logo pode ir em busca de um pouco de solidão, com a satisfação de saber que te estarei invejando por isso.

—Então faça que seja rápido. Eu gostaria de desfrutar de um pouco de solidão e de satisfação.

Moira o dispôs assim de maneira deliberada: Larkin a um lado dela —uma figura que era respeitada e amada em todo Geall— e Cian ao outro. O estrangeiro ao que muitos deles temiam. Esperava que o fato de que ambos a flanqueassem, servisse para mostrar a seu povo que lhes considerava iguais, e que ambos contavam com sua confiança.

A multidão começou a lançar aclamações e a fazer coro seu nome, com os gritos de júbilo convertidos em um rugido ensurdecedor quando Moira elevou a espada. Também foi um gesto deliberado de sua parte passar a espada a Blair para que a sustentara enquanto ela pronunciava seu discurso. As pessoas tinham que ver que a mulher com a qual Larkin se comprometeu para casar-se merecia sustentar a espada.

—Povo de Geall!

Moira gritou com todas suas forças, mas os gritos de júbilo não se apagaram. Chegavam em sucessivas quebras de onda que não diminuíram até que ela não se aproximou da balaustrada de pedra e levantou as mãos.

—Povo de Geall, venho a Vocês como rainha, como cidadã, como protetora. Apresento-me ante Vocês como o fez minha mãe, como o fez seu progenitor, e como o fizeram todos os reis anteriores até os primeiros dias. E estou ante Vocês formando parte de um círculo que foi escolhido pelos deuses. Não só um círculo de governantes de Geall, mas também um círculo de guerreiros.

Agora abriu os braços para abranger aos cinco que a acompanhavam.

—O círculo está formado por estas pessoas que se encontram a meu lado. São as pessoas mais queridas por mim e em quem mais confio. Como cidadã, peço-lhes para eles sua lealdade, sua confiança e seu respeito, igual aos têm para mim. Como sua rainha, ordeno-lhes isso.

Moira teve que interromper-se várias vezes até que os gritos e as expressões de júbilo cessassem.

—Hoje o sol brilha sobre Geall. Mas nem sempre será assim. O que se aproxima busca a escuridão e enfrentaremos a isso. E o derrotaremos. Hoje celebraremos, comeremos e agradeceremos. Amanhã continuare-mos com nossos preparativos para a guerra. Todo aquele gealliano que possa dirigir uma arma, o fará. Logo partiremos todos a Ciunas. Partiremos todos para o Vale do Silêncio. Alagaremos esse lugar com nossa força e nossa vontade, e acabaremos com aqueles que querem nos destruir.

Estendeu a mão em busca da espada e voltou a elevá-la no ar.

—Esta espada, como aconteceu desde os primeiros tempos, não permanecerá fria e imóvel durante meu reinado. Arderá e cantará em minhas mãos enquanto luto por Vocês, por Geall, e por toda a humanidade.

Os rugidos de aprovação ascenderam como uma corrente. Então se ouviram gritos quando uma flecha atravessou o ar. Antes que Moira pudesse reagir, Cian a lançou ao chão. Entre a gritaria e o caos, Moira pôde ouvir suas maldições em voz baixa. E sentiu seu sangue cálido na mão.

—Oh, meu Deus, meu Deus, estás ferido.

—Não me alcançaram no coração.

Cian falou com os dentes apertados. Ela podia ver a dor refletida em seu rosto enquanto se afastava para sentar-se.

Quando agarrou a flecha com intenção de arrancar-lhe do flanco, Glenna se agachou a seu lado e lhe afastou a mão.

—Deixa que lhe jogue uma olhada.

—Não me alcançaram no coração —repetiu Cian, e voltou a agarrar a flecha entre os dedos. Puxou-a até extraí-la de sua carne.— Malditos! Malditos sejam!

—Pra dentro. —Glenna se moveu depressa.— Levem-no pra dentro.

—Esperem. —Embora sua mão tremia ligeiramente, Moira agarrou a Cain de um ombro.— Pode te levantar?

—É obvio que posso me levantar. Por quem me toma?

—Por favor, deixa que eles lhe vejam. —Sua outra mão roçou sua bochecha apenas durante um instante, como o roce de umas asas.— Deixa que nos vejam, por favor.

Quando entrelaçou seus dedos com os dele, Moira acreditou ver que algo se agitava nos olhos de Cian, e sentiu que o mesmo se agitava dentro de seu coração.

Logo, a sensação desapareceu e a voz de Cain irrompeu brusca pela impaciência.

—Então me deixe um pouco de fodido espaço.

Moira voltou a ficar de pé. Abaixo reinava o caos. O homem que supôs que era o frustrado assassino, era golpeado e chutado por cada mão e pé que podia chegar até ele.

—Se detenham! —gritou com todas suas forças.— Lhes ordeno isso! Se detenham! Guardas, levem a esse homem ao grande salão. Povo de Geall! Viram que inclusive em um dia como hoje, inclusive quando o sol brilha no céu, a escuridão trata de nos destruir. E fracassa. —Agarrou a mão de Cian e a levantou junto com a sua.— Fracassa porque neste mundo há paladinos que arriscam suas vidas por outros.

Apoiou a mão no flanco ferido de Cian e sentiu que este se encolhia de dor. Logo elevou a mão coberta de sangue.

—Ele sangra por nós. E por este sangue que está derramando por mim, por todos Vocês, eu o nomeio sir Cian, Lorde de Oiche.

—Oh, pelo amor de Deus —murmurou Cian.

—Silêncio —disse Moira brandamente, com firmeza e com os olhos fixos na multidão.

 

                                       CAPÍTULO 3

—Meio vampiro —anunciou Blair quando retornou ao salão.— Múltiplas cicatrizes de mordidas. A multidão lhe moeu a pauladas —acrescentou.— Depois da surra que recebeu, um ser humano estaria morto. Embora não se sente muito bem.

—Podemos lhe tratar depois de que tenha falado com ele—disse Moira.— Cian precisa ser atendido primeiro.

Blair olhou por cima do ombro de Moira para onde Glenna estava enfaixando o flanco ferido de Recuam.

—Como vai?

—Está zangado e pouco cooperativo, de modo que eu diria que bastante bem.

—Todos podemos estar agradecidos a seus reflexos. Você soubeste como dirigir muito bem a situação —acrescentou Blair olhando a Moira.— Não perdestes a calma, mantivestes o controle. Um primeiro dia de trabalho muito duro; quase lhe assassinam inclusive, mas o tem feito francamente bem.

—Não o bastante para ter antecipado que se produziria um ataque em plena luz do dia; para recordar que nem todos os cães de Lilith necessitam de um convite para entrar dentro destas muralhas. —Pensou em como se derramou o sangue de Cian sobre sua mão, quente e vermelho.— Não voltarei a cometer esse engano.

—Nenhum de nós o fará. Agora o que precisamos é obter informação deste bastardo enviado por Lilith. Embora haja um problema. O cara não fala ou não quer falar inglês. Ou gaélico.

—É mudo?

—Não, não. Pode falar, mas nenhum de nós é capaz de entender o que diz. Soa a algum idioma do Leste da Europa. Tcheco, possivelmente.

—Entendo.

Moira olhou a Cian. Estava nu até a cintura, o torso coberto só com a vendagem. Seu rosto estava escurecido, mais pelo desgosto que pela dor, enquanto bebia de uma taça que ela supôs que continha sangue. Embora não parecia ter um de seus melhores dias, Moira estava a ponto de lhe pedir um novo favor.

—Me permita um momento —disse a Blair. Logo se aproximou de Cian, ordenando a si mesma a não encolher-se ante seu olhar azul e irado.— Há alguma outra coisa que possamos fazer por ti, para que se sinta mais cômodo?

—Paz, silêncio, intimidade.

Embora cada uma das palavras teve nela o efeito de uma chicotada, Moira manteve um tom tranqüilo e agradável.

—Sinto muito, mas esses artigos escasseiam neste momento. Ordenarei que subam isso à habitação logo que esteja em minha mão fazê-lo.

—Espertinha —murmurou ele.

—Efetivamente. O homem cuja flecha interceptaste com seu corpo fala um idioma estranho. Em uma ocasião, seu irmão me disse que falava várias línguas.

Cian bebeu um longo gole com os olhos deliberadamente fixos nos dela.

—Não foi suficiente que interceptasse a flecha? Agora pretende que interrogue a seu assassino?

—Sentiria-me muito agradecida se o tentasse ou, ao menos, se atuasse como intérprete. Embora seja provável que haja algumas coisas no mundo que você ignore, de modo que talvez não me seja de nenhuma ajuda.

A diversão bateu as asas fugazmente em seus olhos azuis.

—Agora está sendo desagradável.

—Vá o um pelo outro.

—Está bem, está bem. Glenna, querida, deixa já de revoar.

—Perdeste muito sangue —começou a dizer ela, mas Cian se limitou a levantar a taça.

—O estou recuperando enquanto falamos. —Com um leve sorriso, levantou-se da cama.— Necessito uma fodida camisa.

—Blair —disse Moira em um tom aprazível—, quer procurar uma fodida camisa para Cian?

—Isso parece.

—Converteste em costume isso de me salvar a vida —lhe disse Moira a Cian.

—Isso parece. Estou pensando em deixá-lo.

—Não poderia te culpar se o fizer.

—Aqui tem, campeão. —Blair deu a Cian uma camisa branca limpa.— Acredito que esse cara é tcheco ou, possivelmente, búlgaro. Sabe algo de um desses idiomas?

—Dá a casualidade de que sim.

Todos foram ao grande salão onde estava o assassino, ferido, sangrando, encadeado e fortemente vigiado. A guarda incluía a Hoyt e Larkin. Quando entrou Cian, Hoyt se afastou de seu posto.

—Estás bem? —perguntou-lhe a Cian.

—Estarei. E me reconforta grandemente que ele se encontre malditamente pior que eu. Afasta aos guardas —disse a Moira.— Não irá a nenhuma parte.

—Podem se retirar. Sir Cian se fará cargo agora.

—Sir Cian, uma ova. —Mas só foi um sussurro enquanto se aproximava do prisioneiro.

Cian caminhou ao redor dele, medindo o terreno. O homem era de compleição magra e enchia as roupas grosseiras de um camponês ou um pastor. Tinha um olho completamente fechado devido aos golpes recebidos no rosto, e o outro já estava adquirindo uma tonalidade negra e azul. Tinha perdido um par de dentes.

Cian lhe deu uma ordem em tcheco. O homem deu um coice e seu único olho são se abriu com um gesto de surpresa.

Mas não abriu a boca.

—Entendeste perfeitamente o que hei dito —continuou Cian no mesmo idioma.— Te perguntei se havia outros contigo. Não voltarei a perguntá-lo.

Quando o prisioneiro se manteve em silêncio, Cian o golpeou com força suficiente para enviá-lo contra a parede, junto com a cadeira a qual estava encadeado.

—Por cada trinta segundos de silêncio, causarei-te dor.

—Não lhe temo à dor.

—Oh, temerá. — Cian elevou ao homem junto com a cadeira e manteve seu rosto a escassos centímetros do seu.— Sabe o que sou?

—Sei o que é. —O homem fez um gesto depreciativo com a boca ensangüentada.— Um traidor.

—Esse é um ponto de vista. Mas o verdadeiramente importante que deve recordar é que posso te infligir uma dor mais intensa que a alguém como você é capaz de suportar. Posso te manter vivo durante dias ou semanas, já postos. E em constante agonia. —Baixou o tom de voz até convertê-lo em um vaio.— Eu gostaria. De modo que comecemos outra vez.

Cian não se incomodou em repetir a pergunta, já que lhe tinha advertido que não o faria.

—Poderia usar uma colher —comentou com tom quase indiferente.— Esse olho esquerdo parece estar em muito mal estado. Se tivesse uma colher à mão, poderia arrancá-lo de sua concha por ti. Também poderia, é obvio, usar meus dedos —continuou quando o olho começou a girar de forma enlouquecida.— Mas então me deixaria as mãos feitas um asco, não achas?

—Faça o que queira —cuspiu o homem, mas tinha começado a tremer ligeiramente.— Nunca trairei a minha rainha.

—Tolices. —Os tremores e o suor lhe indicaram a Cian que se quebraria rápida e facilmente.— Antes que tenha acabado contigo não só terá traído a sua rainha, mas também o fará ao som de uma gaita de fole se eu lhe ordenar isso. Mas sejamos rápidos e diretos, porque temos melhores coisas a fazer.

Quando Cian se moveu, o homem jogou a cabeça para trás. Mas em lugar de ir atrás de seu rosto, como sua presa antecipava, Cian baixou a mão e lhe agarrou o pênis com força. Começou a apertar até que o salão se encheu de gritos.

—Não há ninguém mais! Estou sozinho, estou sozinho!

—Será melhor que seja verdade. — Cian aumentou a pressão.— Se mentes, descobrirei-o. E então começarei a te cortar isto, centímetro a centímetro.

—Ela me enviou só. —Agora o homem soluçava, as lágrimas e os mucos lhe escorregavam pela cara.— Só a mim.

Cian afrouxou ligeiramente a pressão.

—Por que?

A única resposta foram uns ofegos afogados, e Cian voltou a fechar a prensa de seus dedos.

—Por que?

—Um só podia deslizar-se com maior facilidade dentro do castelo, sem ser detectado. In... inadvertido.

—A lógica do que diz impediu, ao menos no momento, que te converta em um eunuco. — Cian procurou uma cadeira. Depois de colocá-la diante do prisioneiro, sentou-se escarranchado nela. E começou a falar em um tom informal enquanto o homem não deixava de gemer de dor.— Bem, assim está melhor, verdade? Mais civilizado. Quando tivermos acabado com isto, jogaremo-lhe uma olhada a essas feridas.

—Quero água.

—Estou seguro de que sim. Iremos procurar um pouco... depois. Mas agora quero que falemos de Lilith.

Levou-lhe trinta minutos —e outras duas sessões de dor— para dar-se por satisfeito em relação ao que o homem podia lhe contar. Cian o pôs em pé.

Agora o aspirante a assassino chorava desconsoladamente. Possivelmente a causa da dor, pensou Cian. Talvez por acreditar que tudo tinha terminado.

—O que foi antes que ela te convertesse?

—Professor.

—Tinha esposa, uma família?

—Eles não serviam mais que como alimento. Eu era pobre e débil, mas a rainha viu algo mais em mim. Deu-me forças e um propósito. E quando ela te matar, e a estas... formigas que estão contigo, eu serei recompensado. Terei uma formosa casa e todas as mulheres que deseje, riqueza e poder.

—Ela te prometeu que teria tudo isso, verdade?

—Isso e mais. Há dito que podia beber um pouco de água.

—Sim, hei-o dito. Deixa que te explique uma coisa a respeito de Lilith. —moveu-se atrás do homem, cujo nome jamais lhe tinha perguntado, e lhe falou em voz muito baixa ao ouvido—: Mente. E eu também.

Sujeitou-lhe com força a cabeça entre as mãos e, com um movimento rápido, partiu-lhe o pescoço.

—O que tem feito? —Moira, terrivelmente impressionada, correu para ele.— O que tem feito?

—O que teria que fazer. Ela enviou só a um de seus esbirros... desta vez. Se isto afeta sua sensibilidade, possivelmente queira dizer a seus guardas que o levem daqui antes de que analisemos a situação.

—Não tinha direito. Nenhum direito. —Seu estômago queria rebelar-se do mesmo momento em que Cian tinha começado a tortura do interrogatório.— O assassinaste. No que te diferencia dele depois de lhe haver matado sem julgamento nem sentença?

—A diferença? — Cian arqueou as sobrancelhas friamente.— Ele era humano em sua major parte.

—É tão pouco para ti? A vida? É tão pouco?

—Ao contrário.

—Moira, Cian tem razão. —Blair se colocou entre ambos.—Tem feito o que teria que fazer.

—Como pode dizer isso?

—Porque eu teria feito exatamente o mesmo. Ele era o cão de Lilith e, se tivesse conseguido escapar, o teria tentado outra vez. Se não tivesse conseguido chegar até ti, teria matado a qualquer um.

—Um prisioneiro de guerra... —começou a dizer Moira.

—Nesta guerra não há prisioneiros —a interrompeu Blair.— De nenhum dos dois bandos. Se o tivesse encerrado, teria que ter afastado homens do treinamento e das patrulhas para que lhe vigiassem. Era um assassino, um espião enviado atrás das linhas inimigas em tempos de guerra. E humano em sua major parte é uma maneira generosa de descrevê-lo —acrescentou olhando a Cian.— Ele nunca teria voltado a ser humano. Se nessa cadeira tivesse estado sentado um vampiro, você lhe teria cravado uma estaca no coração sem duvidá-lo um segundo. Isto não é diferente.

«Um vampiro não deixa seu corpo quebrado —pensou Moira—, encadeado ainda à cadeira.»

Moira se voltou por volta de um dos guardas.

—Tynan, leve o corpo do prisioneiro. Se encarregue de que seja enterrado.

—Majestade.

Moira advertiu o rápido olhar que Tynan dirigiu a Cian... nesse olhar reconheceu uma inconfundível aprovação.

—Retornaremos ao salão —continuou ela.— Ninguém comeu. Podemos falar enquanto tomamos o café da manhã.

—Um pistoleiro solitário —disse Cian e desejou quase com saudades uma xícara de café.

—Isso tem sentido —conveio Blair enquanto se servia ovos e uma grossa fatia de presunto frito.

—Por que? —Moira dirigiu a pergunta a Blair.

—Pois verá, eles têm a alguns meio vampiros treinados para o combate. —Fez um gesto por volta de Larkin.— Como os que Larkin e eu enfrentamos naquele dia nas covas, mas isso implica tempo e esforço. E exige muito trabalho e vontade mantê-los em estado de servidão.

—E se essa servidão se rompe?

—Demência —respondeu Blair brevemente.— Um colapso mental total. Ouvi histórias de meio vampiros que comeram suas próprias mãos para libertarem-se e retornar a seu criador.

—Ele estava condenado antes que o enviassem aqui —murmurou Moira.

—Do momento em que Lilith lhe pôs as mãos em cima. Minha opinião é que se supunha que devia ser um golpe relâmpago, uma missão suicida. Para que desperdiçar a mais de um? Se as coisas saíssem bem, com um é suficiente.

—Sim, um homem, uma flecha. —Moira pensou nisso.— Se for o bastante hábil e afortunado, o círculo fica quebrado, e Geall fica sem governante durante um tempo. Teria sido um golpe certeiro e eficaz.

—Exato.

—Mas por que esperou até que retornemos ao castelo? Por que não tentar me matar quando estava na pedra?

—Não chegou a tempo —disse Cian simplesmente.— Calculou mal a distância que devia percorrer e chegou depois de que a cerimônia tinha concluído. Quando retornou ao castelo, estava rodeada pela multidão e ele não podia fazer um disparo limpo. De modo que decidiu unir-se ao desfile, por dizê-lo de algum jeito, e esperar sua oportunidade.

—Coma algo. —Hoyt serviu um pouco de comida no prato de Moira.— Ou seja, que Lilith sabia que Moira iria hoje à pedra.

—Ela tem espiões em todas partes —confirmou Cian.— Não sabemos se já tinha planejado enviar a alguém para tentar interromper o ritual e o resultado do mesmo antes que Blair se enfrentasse com Lora, mas o que é seguro é que, depois disso, Lilith estava furiosa —disse.— Fora de si, segundo nosso defunto e não chorado arqueiro. Como já lhes hei dito, a relação que Lilith mantém com Lora é estranha e complicada, mas muito profunda, muito sincera. Escolheu a um arqueiro para esta missão enquanto ainda estava meio louca de raiva. Enviou-o a cavalo para que chegasse mais rápido... e eles dispõem de um número muito limitado de cavalos.

—E como está seu pequeno pãozinho francês? —perguntou Blair.

—Quando o homem partiu, ferida e gritando de dor, e atendida pessoalmente por Lilith.

—O que é mais importante agora —interrompeu Hoyt— é onde está Lora e onde está o resto deles?

—Nosso informante, embora destro no manejo do arco, não era um homem particularmente observador ou ardiloso. O máximo que pude obter dele foi que a base principal de Lilith se encontra a poucos quilômetros do campo de batalha. Há descrito o que aparentemente seria um pequeno assentamento, dominado por uma granja de grande tamanho com numerosas cabanas e uma grande mansão de pedra, onde eu diria que viviam os donos das terras. Lilith está instalada na mansão.

—Ballycloon. —Larkin olhou a Moira e viu que tinha o rosto muito pálido e os olhos muito escuros.— Tem que ser Ballycloon e as terras de O'Neill. A família a qual ajudamos no dia que Blair e eu estávamos comprovando as armadilhas, quando Lora lhe tendeu uma emboscada, vinha da zona de Drombeg, e isso fica ao oeste de Ballycloon. Teríamos continuado mais para o oeste para comprovar a última armadilha, mas...

—Eu estava ferida —concluiu Blair a frase.— Chegamos tão longe como foi possível. E fomos afortunados. Se Lilith já tivesse estabelecido sua base quando nós chegamos a essa zona, nos teriam superado amplamente em número.

—E estariam amplamente mortos —acrescentou Cian.— Eles chegaram a noite anterior a seu enfrentamento com Lora.

—Ali ainda devia haver gente, ou no caminho. —Larkin sentiu um nó no estômago ao pensar nisso.— E os O'Neill. Conseguiriam ficar a salvo? Como podemos saber quantos deles...

—Não podemos —o cortou Blair categoricamente.

—Você, Cian e você —interveio Moira—, Vocês, pensaram que devíamos tirar todo mundo das aldeias e as granjas que rodeiam o campo de batalha, obrigá-los a irem se fosse necessário. Queimar as casas e as cabanas vazias para que Lilith e seu exército não tivessem onde encontrar refúgio. Pensei que era cruel e frio de sua parte. Desumano. E agora... Mas isso já não se pode mudar. E eu não teria ordenado, não poderia ter ordenado —se corrigiu Moira— que queimassem suas casas. Possivelmente teria sido mais inteligente, e valente, fazê-lo. Mas as pessoas cujos lares teríamos destruído teriam perdido o ânimo que necessitam para lutar. De modo que não o fizemos desse modo.

Ela não sentia nenhum apetite pela comida que tinha no prato, mas agarrou a xícara de chá para esquentar as mãos. Prosseguiu dizendo:

—Vocês, Blair e Cian sabem de estratégia, Hoyt e Glenna sabem de magia, mas Larkin e eu conhecemos Geall e a sua gente. Lhes teríamos quebrado o coração e o espírito.

—Eles queimarão o que não queiram ou necessitem —lhe recordou Cian.

—Sim, mas não terão sido nossas mãos as que acenderiam as tochas. Isso é importante. Assim, acreditam saber onde estão. Sabemos quantos são?

—O assassino começou dizendo que eram multidões, mas estava mentindo. Não sabia—informou Cian.— Embora Lilith utilize a mortais, nunca os incluirá em seu círculo íntimo, e tampouco lhes confiará nenhuma informação importante. Só são comida, serventes, entretenimento.

—Podemos jogar uma olhada. —Glenna falou pela primeira vez.— Hoyt e eu, agora que dispomos de uma área concreta, podemos realizar um conjuro de localização. Poderíamos obter dados mais confiáveis. Alguma idéia a respeito de quantos são. Pela viagem de Larkin às covas e pela inspeção que pôde fazer do arsenal sabemos que dispõem de armas para mais de mil de soldados.

—O faremos. —Hoyt apoiou a mão sobre a de Glenna.— Mas o que acredito que Cian não nos está dizendo é que, qualquer que seja o número de nossos inimigos, e qualquer que seja o número de nossas forças, ao final eles serão mais. E terão mais armas. Lilith teve décadas, possivelmente séculos, para planejar este momento. Nós só dispusemos que uns meses.

—E mesmo assim ganharemos.

Cian arqueou uma sobrancelha ante o comentário de Moira.

—Porque vocês são o bem e eles representam o mal?

—Não, as coisas não são tão singelas. Você mesmo é a prova, porque não é como ela, mas tampouco como nós, e sim algo completamente diferente. Nós triunfaremos porque seremos mais inteligentes e mais fortes. E porque Lilith não tem a seu lado a ninguém como nós seis.

Voltou-se para o irmão de Cian.

—Hoyt, você é o primeiro de nós. Você nos uniu.

—Morrigan nos escolheu.

—Ela, ou o destino, selecionou-nos —conveio Moira.— Mas foi você quem começou o trabalho. Foi você quem acreditou nisso, quem teve o poder e a força para criar este círculo. Isso é assim. Eu governo Geall, mas não dirijo esta companhia.

—Tampouco eu.

—Não, nenhum de nós o faz —conveio Moira.— Temos que ser um, apesar de todas nossas diferenças. De modo que cada um deve procurar nos outros o que lhe falta. Eu estou muito longe de ser o guerreiro mais forte aqui, e minha magia não é mais que uma sombra. Não possuo as habilidades de Larkin e tampouco a solidez mental para matar a sangue frio. Mas disponho de conhecimento e autoridade, ou seja, que isso é o que ofereço.

—Você tem mais que isso —comentou Glenna.— Muito mais.

—Terei mais antes que tudo isto tenha acabado. Há algumas coisas que devo fazer. —levantou-se.— Voltarei ao trabalho logo que possa.

—Bastante régia —comentou Blair depois de que Moira abandonasse a habitação.

—É um cargo que supõe um peso muito grande. —Glenna se voltou para Hoyt.— Ordem do dia?

—Será melhor que vejamos tudo o que possamos do inimigo. Logo estou pensando em fogo. Segue sendo uma de nossas armas mais formidáveis, de modo que deveríamos encantar mais espadas.

—É bastante arriscado pôr espadas em algumas das mãos que estamos treinando —interveio Blair.— E muito mais se tratar-se de espadas flamejantes.

—Tem razão. —Hoyt considerou a questão durante um momento e assentiu.— Então dependerá de nós a quem dá essa aula de arma. Os melhores combatentes deveriam ocupar as posições que se encontrem as mais próximas possíveis à base de Lilith. E necessitarão um refúgio seguro para depois de se pôr o sol.

—Refere-se a barracões? Há choças e cabanas, é obvio. —Larkin entrecerrou os olhos enquanto pensava.— Se for necessário, podemos construir outros refúgios durante o dia. Entre sua base e a seguinte aldeia há também uma estalagem.

—Por que não jogamos uma olhada? —Blair afastou o prato.— Glenna e você podem olhar com seus meios, e Larkin e eu podemos efetuar um reconhecimento aéreo. Está preparado para te converter em dragão?

—Estou. —Larkin lhe sorriu.— Especialmente quando te tenho montada em meu lombo.

—Sexo, sexo, sexo. Este cara é uma máquina.

—Com esse último comentário —disse Cian secamente— vou à cama.

Glenna apertou brevemente a mão de Hoyt e este disse:

—Um momento. —E logo seguiu a seu irmão.

—Tenho que falar contigo.

Cian o olhou.

—Já tive minha quota de palavras por esta manhã.

—Pois terá que te tragar umas quantas mais. Minha habitação está mais perto, eu gostaria que isto fosse privado.

—Considerando que me perseguiria até a minha e me chatearia até que me desse vontade de te arrancar a língua, sua habitação está bem.

Os criados trabalhavam em excesso entre o salão e os aposentos privados. Preparativos para o banquete, pensou Cian, e se perguntou se tinha sido o fato de que Hoyt falasse do fogo o que havia trazido para sua mente a Nerón e sua lira.

Hoyt entrou em seu quarto e imediatamente estendeu o braço para impedir a entrada de Cian.

—O sol —foi tudo o que disse, e logo se moveu rapidamente para cobrir as janelas com as cortinas.

A habitação ficou em penumbra. Sem transição, Hoyt assinalou um grupo de candelabros. As velas se acenderam imediatamente.

—É um recurso muito eficaz —comentou Cian.— Eu perdi a prática de acender isqueiros.

—É uma habilidade básica, que você também possuiria se alguma vez tivesse dedicado tempo e concentração a aperfeiçoar seu poder.

—Muito aborrecido. É uísque o que tem ali? — Cian foi diretamente a um grande frasco cheio de líquido e se serviu um copo.— Oh, quanta sobriedade e desaprovação. —Viu claramente a expressão de seu irmão enquanto bebia o primeiro gole quente.— Te recordo que é o final de meu dia... bastante mais tarde do final de meu dia, para falar a verdade.

Cian jogou uma olhada ao redor e começou a vagar pela estadia.

—Cheira a mulher. As mulheres como Glenna sempre deixam para trás algo de si mesmas para que um homem não as esqueça. —Logo se deixou cair em uma poltrona e estirou as pernas.— Bem, o que é isso com o que está decidido a me aborrecer?

—Houve um tempo em que desfrutava de minha companhia, inclusive a buscava.

Os ombros de Cian se moveram de um modo tão preguiçoso que nem sequer podia dizer-se que os tinha encolhido.

—Suponho que isso significa que novecentos anos de ausência não fazem que o coração se volte mais carinhoso.

Uma expressão de pena se refletiu no rosto de Hoyt antes que se voltasse para acrescentar um pouco de carvão ao fogo que ardia na lareira.

—É que temos que voltar a estar enfrentados?

—Diga-me isso você.

—Queria falar a sós contigo a respeito do que tem feito ao prisioneiro.

—Mais humanidade. Sim, sim, teria que lhe haver dado uns tapinhas na cabeça a esse assassino e deixar que se apresentasse a julgamento, ou ante o tribunal, ou como é o fodido nome da justiça neste lugar. Teria que ter respeitado a maldita Convenção de Genebra. Bom, a merda com isso.

—Não conheço essa convenção, mas não estou falando de julgamentos nem tribunais. Isso é o que estou tratando de te explicar, maior e maldito idiota. Executaste a um assassino, como eu o teria feito... só que eu com mais tato e, bom, discrição.

—Ah, de modo que você teria se deslizado até a cela onde o teriam encerrado e lhe teria parecido uma faca entre as costelas. — Cian arqueou as sobrancelhas ―Isso está muito bem.

—Não, não está bem. Nada disto está bem. É um maldito pesadelo, isso é o que é, e todos nós o estamos tendo. O que estou dizendo é que tem feito o que era necessário. E porque tratava de matar a Moira, a quem amo como amei a minhas irmãs, e por te haver cravado uma flecha a ti, eu também o teria matado. Nunca matei a um homem, porque essas coisas que destruímos nestas últimas semanas não eram homens e sim demônios. Mas eu teria matado a este assassino se você não tivesse adiantado isso. —Hoyt fez uma pausa e recuperou o fôlego, embora não a compostura.— Queria te dizer estas coisas para que soubesse quais eram meus sentimentos a respeito. Mas, ao parecer, ambos perdemos o tempo, já que isso não te importa absolutamente.

Cian não se moveu. Sua única mudança foi desviar a vista do rosto furioso de seu irmão para o copo de uísque que sustentava na mão.

—Dá a casualidade de que me importa quais sejam seus sentimentos. Agitaste dentro de mim muitas coisas que tinha conseguido acalmar faz já muito tempo para recordá-lo. Tornaste a fazer aparecer a família ante mim, uma família que eu já tinha enterrado.

Hoyt cruzou a habitação e se sentou em uma poltrona diante de seu irmão.

—Você é minha família.

Quando Cian elevou a vista para seu irmão, essa vez seus olhos estavam vazios.

—Eu não sou a família de ninguém.

—Talvez não o eras desde que morreu até que te encontrei. Mas isso já não é verdade. De modo que se te importa algo o que digo, sinto-me orgulhoso do que está fazendo. Estou dizendo que fazer isto é muito mais difícil para ti que para qualquer um de nós.

—Obviamente, como ficou demonstrado, matar vampiros ou humanos para mim não é difícil.

—Achas que não me dou conta de como desaparecem alguns dos criados quando você está perto? Que não vi a Sinann quando correu para agarrar a sua filha como se fosses partir-lhe o pescoço do mesmo modo que o tem feito com esse assassino? Esses insultos que recebe não passam inadvertidos.

—A alguns os teme sem necessidade de lhes insultar. Não tem importância. Não a tem —insistiu quando Hoyt o olhou fixamente.— Isto, para mim, é apenas uma fração de tempo. Menos que isso. Quando tudo tiver acabado, a menos que uma estaca afortunada me atravesse o coração, seguirei meu caminho.

—Espero que, de vez em quando, seu caminho te leve a nos visitar a Glenna e a mim.

—É possível. Eu gosto de olhar a sua esposa. —O sorriso de Cian se fez maior.— E, quem sabe, possivelmente ela recupere finalmente o sentido comum e descubra que escolheu ao irmão equivocado. Tempo é a única coisa que tenho.

—Glenna está louca por mim. —Com um tom novamente distendido, Hoyt estirou a mão, agarrou o copo de uísque de Cian e bebeu um gole.

—Louca devia estar, certamente, para compartilhar seu destino contigo, mas as mulheres são criaturas estranhas. É afortunado de ter a Glenna, Hoyt, se não lhe havia dito isso antes.

—Ela é a magia agora. —Devolveu-lhe o copo.— Sem ela não tenho nada que realmente importe. Meu mundo se transformou quando Glenna entrou nele. Quem dera você...

—Isso não está escrito em meu livro do destino. O poeta pode dizer que o amor é eterno, mas eu posso te dizer que a coisa varia completamente quando você é eterno e a mulher não.

—Amaste a uma mulher alguma vez?

Cian contemplou novamente o copo de uísque e pensou nos séculos passados.

—Não do modo em que você pensa. Não como se amam Glenna e você. Mas me preocupei por alguma o suficiente para saber que não é uma opção para mim.

—O amor é uma opção?

—Tudo o é. — Cian bebeu o resto de uísque que ficava no copo e logo o deixou sobre a mesa.— Agora escolho ir à cama.

—Esta manhã escolheu receber essa flecha em lugar de Moira —disse Hoyt quando Cian já partia para a porta. Seu irmão se deteve e, ao voltar-se, seus olhos se viam cansados.

—Assim é.

—Acredito que essa foi um tipo de escolha muito humana.

—Isso achas? —E as palavras foram acompanhadas de um encolhimento de ombros.— Para mim foi simplesmente um impulso, e muito doloroso por certo.

Partiu e se encaminhou para sua habitação, na parte norte do castelo. Um impulso, pensou novamente, e, agora podia admiti-lo, um instante de medo puro. Se ele tivesse visto a flecha um segundo mais tarde, ou se tivesse movido a menor velocidade, nesse momento, Moira estaria morta. E nessa fração de segundo de impulso e medo, Cian a havia visto morta. A flecha ainda tremendo cravada em sua carne, a vida escapando dela com o sangue que emanava sobre o vestido verde escuro e as lajes do chão, duras e cinzas.

Ele tinha temido isso: o final de Moira; ela longe dele. Moira em um lugar onde ele não poderia vê-la nem tocá-la. Com essa flecha, Lilith lhe teria arrebatado uma última coisa, uma que ele jamais poderia recuperar.

Porque Cian tinha mentido a seu irmão. Sim, tinha amado a uma mulher, apesar de suas melhores —ou piores— intenções, ele amava a recém coroada rainha de Geall.

Algo que era ridículo e impossível, algo que conseguiria superar com o tempo. Dentro de uma ou duas décadas já nem sequer seria capaz de recordar o tom exato de seus grandes olhos cinzas. Aquele aroma aprazível já não excitaria seus sentidos. O teria esquecido o som de sua voz, o aspecto de seu sorriso lento e sério. Essas coisas se desvaneciam, recordou. Só tinha que permitir que assim fosse.

Entrou em seu quarto, fechou a porta e correu o ferrolho. As janelas estavam cobertas e não havia nenhuma luz acesa. Moira, sabia, tinha dado ordens muito específicas quanto à forma em que teria que tratar essa habitação. Do mesmo modo em que a tinha escolhido pessoalmente; a certa distância das demais, de frente para o norte. Menos luz solar, pensou. Uma anfitriã realmente considerada.

Despiu-se na escuridão, pensou fugazmente na música que gostaria de escutar antes de dormir, ou ao despertar. Música, pensou, que enchesse o silêncio. Mas nesse lugar e nessa época não havia cd players nem rádio nem nada fodidamente parecido.

Deitou-se nu na cama. E na absoluta escuridão, o absoluto silêncio, dispôs-se a dormir.

 

                               CAPÍTULO 4

Moira roubou o tempo que necessitava. Se escapuliu de suas damas de companhia, de seu tio, de suas obrigações. Já se sentia culpada, já estava preocupada pensando que seria um fracasso como rainha por causa de seu enorme desejo de solidão.

Teria trocado a comida de dois dias, ou o sono de duas noites, para poder passar uma hora a sós com seus livros. Egoísta, disse-se enquanto se afastava rapidamente do ruído, da gente, das perguntas. Egoísta por desejar sua própria comodidade quando havia tantas coisas em jogo.

Mas embora não se permitiria o luxo de entregar-se à leitura em algum rincão ensolarado, sim se tomaria seu tempo para fazer uma visita.

Nesse dia em que seria coroada rainha, ela queria e necessitava de sua mãe. De modo que, elevando as saias, baixou velozmente a colina e logo atravessou a pequena abertura no muro de pedra que contornava o pátio. Quase imediatamente, sentiu que seu coração se apaziguava. Primeiro se aproximou da lápide que tinha ordenado gravar e colocar quando retornou a Geall. Tinha colocado já uma para King na Irlanda, junto à tumba que guardava os restos dos antepassados de Cian e Hoyt. Mas tinha jurado que haveria uma também ali, em Geall, em honra de um amigo.

Depois de ter deixado um buquê de flores sobre a terra úmida, ergueu-se e leu as palavras que tinha ordenado que gravassem na pedra polida.

 

               King

               Este bravo guerreiro que não jaz aqui,

               e sim em uma terra longínqua,

               entregou sua vida por Geall

               e por toda a humanidade

 

—Espero que você goste, da lápide e das palavras. Parece que passou muito tempo desde a primeira vez que te vi. Tudo parece tão longínquo e, entretanto, logo que transcorreu mais que uma piscada. Lamento te dizer que hoje Cian resultou ferido por minha causa. Mas se está recuperando bem. Ontem à noite ele e eu falamos quase como se fôssemos amigos. E hoje, bom, não de todo amigavelmente. É difícil de dizer. —Apoiou uma mão sobre a lápide.— Agora sou a rainha de Geall. Isso também é difícil de dizer. Espero que não te incomode que tenha colocado este monumento aqui, no lugar onde jaz minha família. Porque isso é o que foi para mim durante o pouco tempo que compartilhamos. Você foi minha família. Espero que agora esteja descansando.

Afastou-se uns passos e logo retornou rapidamente.

—Oh, quase o esqueci, mantenho a esquerda levantada, como você me ensinou. —Adotou uma pose de boxe elevando ambos os braços junto à tumba.— Assim, por todas as vezes que não recebi um murro na cara, obrigada.

Com o resto das flores entre os braços se dirigiu às tumbas de seus pais através das lápides e a erva crescida.

Deixou umas flores na base da lápide de seu pai.

—Sir. Apenas me lembro de você, e acredito que as lembranças que tenho, a maior parte delas, são as que me transmitiu minha mãe. Ela lhe amava com todo seu coração e falava freqüentemente de você. Sei que fostes um homem bom, porque se não ela não lhe teria amado. E todos aqueles que falam de ti dizem que fostes forte e bondoso, e de risada fácil. Eu gostaria de poder recordar o som dessa risada. —Seu olhar se dirigiu além das lápides, para as colinas e as longínquas montanhas.— Soube que não morrestes, como sempre pensamos, mas sim fostes assassinado. Você e seu irmão mais novo. Assassinados pelos demônios que agora se encontram em Geall preparando-se para a guerra. Eu sou tudo o que fica de você e espero que seja suficiente.

Logo se ajoelhou entre as tumbas para deixar o resto das flores sobre a tumba de sua mãe.

—Sinto falta de ti todos os dias. Tive que viajar muito longe, como sabe, para poder voltar mais forte. Mathair.

Fechou os olhos com a palavra e com a imagem que esta lhe trazia, clara como a vida.

—Não pude impedir o que lhe fizeram e ainda posso ver aquela noite como coberta de um véu nebuloso. Os que lhe mataram foram castigados, um por minha própria mão. É tudo o que pude fazer por ti. A única coisa que posso fazer é lutar, conduzir a meu povo ao combate. A alguns deles à morte. Levo a espada e a coroa de Geall. Não as rebaixarei.

Permaneceu sentada durante uns minutos, acompanhada só pelo som da brisa através das altas ervas e os cambiantes raios de sol.Quando se levantou e se voltou para o castelo, viu que a deusa Morrigan estava no muro de pedra. Esse dia, a deusa se vestia de azul, suave e pálido, adornado com tons mais intensos. Sua cabeleira de fogo estava solta e lhe caía livremente sobre os ombros. Com as mãos já vazias de flores e o coração triste, Moira caminhou através da erva para reunir-se com ela.

—Minha senhora.

—Majestade.

Desconcertada pela reverência de Morrigan, Moira entrelaçou as mãos para as manter quietas.

—Os deuses reconhecem aos reis?

—É obvio. Nós criamos este lugar e decidimos que os de seu sangue reinariam nele e o serviriam. Estamos satisfeitos contigo. Filha —Morrigan apoiou ambas as mãos ligeiramente sobre os ombros de Moira e a beijou nas bochechas—, conta com nossas bênçãos

—Eu preferiria que benzessem a meu povo e o mantivessem a salvo.

—Isso corresponde a ti. A espada está fora de sua bainha. Já quando estava sendo forjada se sabia que um dia cantaria em meio da batalha. Isso também corresponde a ti.

—Lilith já derramou sangue de Geall.

Os olhos de Morrigan eram profundos e tranqüilos como um lago.

—Minha menina, o sangue que Lilith derramou poderia formar um oceano.

—E meus pais são só duas gotas nesse oceano?

—Cada gota é preciosa e cada gota serve a um propósito. Você eleva a espada só pelos de seu sangue?

—Não. —Moira mudou de posição e fez um gesto.— Aqui há outra lápide, colocada para um amigo. Eu levanto a espada por ele e seu mundo, e por todos os mundos. Todos somos uma parte de outros.

—Saber isso é muito importante. O conhecimento é um grande dom, e a sede de buscá-lo é outro ainda maior. Usa o que sabe e Lilith jamais te derrotará. Cabeça e coração, Moira. Não deve conceder mais peso a um que ao outro. Sua espada lançará chamas, prometo-lhe isso, e sua coroa brilhará. Mas o verdadeiro poder é o que se aloja em sua cabeça e em seu coração.

—Parece que ambos estão invadidos pelo medo.

—Não há coragem sem medo. Tenha confiança e conhecimento. E mantenha sempre a espada a seu lado. É sua morte o que Lilith mais deseja.

—A minha? Por que?

—Ela não sabe. E o conhecimento é seu poder.

—Minha senhora —começou a dizer Moira, mas a deusa tinha desaparecido.

O banquete supunha outro vestido e outra hora de gente revoando a seu redor. Com tantas coisas entre as mãos, Moira tinha deixado a cargo de sua tia a questão do vestuário, e adorou descobrir que o vestido era formoso, e que a cor azul pálida lhe sentava muito bem. Gostava dos vestidos bonitos e tomar um pouco de tempo para tentar luzir seu melhor aspecto.

Mas lhe parecia que lhe punham um novo cada vez que se dava a volta, e que estava submetida ao bate-papo de suas damas de companhia a metade do dia. Reconhecia que sentia falta da liberdade que lhe conferiam os jeans e as camisas amplas que tinha usado na Irlanda. Ao dia seguinte, não importava a comoção que provocasse nas mulheres, ficaria o traje mais conveniente para um guerreiro que se dispõe à batalha.

Mas durante esse dia levaria ainda veludos, sedas e jóias.

—Ceara, como estão seus filhos?

—Muito bem, minha senhora, obrigada.

De pé atrás dela, Ceara continuou fazendo finas e sedosas tranças com o cabelo da Moira.

—Suas obrigações e seu treinamento te afasta deles mais do que eu queria —disse Moira.

Seus olhos se encontraram no espelho. Ela sabia que Ceara era uma mulher sensata, a mais centrada, em sua opinião, das três que a serviam.

—Minha mãe se encarrega de cuidar deles e se sente muito feliz de poder fazê-lo. O tempo que me tomei é tempo bem empregado. Prefiro perder essas horas deles a vê-los sofrendo.

—Glenna me há dito que é muito aguerrida no combate corpo a corpo.

—Sou. —O rosto da Ceara se esticou com um sorriso turvo.— Não sou muito hábil em troca com a espada, mas ainda há tempo. Glenna é uma boa professora.

—Rigorosa —interveio Dervil.— Não tanto como a senhora Blair, mas igualmente exigente. Cada dia corremos e lutamos e damos cambalhotas e esculpimos estacas. E cada dia acabamos com as pernas cansadas, com machucados e com lascas cravadas.

—É melhor estar cansada e machucada que morta.

Dervil se ruborizou ante o comentário categórico de Moira.

—Não era minha intenção lhe faltar o respeito, majestade. Aprendi muito.

—E, conforme me hão dito, está-te convertendo em um demônio com a espada. Estou orgulhosa. E você, Isleen, parece que tem muito boa mão com o arco.

—Assim é. —Isleen, a menor das três, ruborizou-se intensamente ante as palavras de Moira.— Eu gosto mais do arco que brigar com os punhos e os pés. Ceara sempre me derruba.

—Quando chia como um camundongo e faz revoar as mãos, qualquer um pode te derrubar —assinalou Ceara.

—Ceara é mais alta, e seus braços são mais compridos que os teus, Isleen. De modo que —continuou Moira— tem que aprender a ser mais rápida e escorregadia. Estou orgulhosa de todas vocês, de cada machucado. Amanhã, e todos os dias posteriores, treinarei com vocês ao menos durante uma hora.

—Mas majestade —começou a dizer Dervil—, você não pode...

—Sim, posso —a interrompeu Moira.— E o farei. E espero que cada uma de vocês, e o resto das mulheres, façam todo o possível para me derrubar. Não lhes resultará fácil. —levantou-se quando Ceara retrocedeu.— Eu também aprendi muito. —Agarrou a coroa e a colocou na cabeça.— Podem me acreditar quando lhes digo que posso lhes derrubar às três, e a qualquer outra que venha, e lhes fazer morder o pó. —Moira se voltou, esplêndida com seu vestido de veludo azul.— Qualquer uma que me faça morder o pó, ou me derrote com as mãos nuas ou com a arma que dita usar, receberá uma das cruzes de prata que Glenna e Hoyt encantaram. Este é meu melhor presente. Digam às demais.

 

Era como entrar em uma representação teatral, pensou Cian. O grande salão era o cenário, adornado com bandeiras e flores e iluminado com velas e o fogo da lareira. Damas e cavalheiros luziam seus melhores ornamentos. Casacos e vestidos, jóias e ouro. Viu que muitos homens e mulheres levavam sapatos de ponteiras largas e levantadas e recordou que estavam na moda quando ele estava vivo.

«Ou seja —pensou—, que inclusive os estilos deploráveis se estendiam de um mundo a outro.»

A comida e a bebida eram tão abundantes que imaginou que a enorme mesa gemia debaixo das bandejas e as jarras. Havia também um harpista que tangia uma música alegre e festiva. As conversas, com os temas mais diversos, enchiam o salão: moda, política, fofocas sexuais, romances e finanças.

Não era tão diferente, refletiu, pelo que ocorria em seu clube noturno em Nova Iorque. Naturalmente, ali as mulheres levavam menos roupa e a música era mais estridente, mas a essência não tinha mudado muito ao longo dos séculos. Às pessoas ainda gostavam de reunir-se em torno da comida, a bebida e a música.

Voltou a pensar em seu clube noturno nova-iorquino, e se perguntou se o sentia falta. O ambiente da noite, os sons, a gente. E se deu conta de que não o sentia falta absolutamente. O mais provável era que, cedo ou tarde, tivesse acabado aborrecido do clube e começado a sentir-se intranqüilo, e que se mudasse depois de pouco tempo. Só tinha sido necessário que seu irmão se transladasse através do tempo e o espaço, ter a terra de Hoyt —mais ou menos— ante sua porta, para acelerar a decisão.

Mas sem Hoyt e sua missão encarregada pelos deuses, transladar-se teria suposto uma mudança de nome e lugar, um transpasse de recursos. Algo sem dúvida complicado, que exigia tempo... e que era interessante. Cian tinha tido mais de uma centena de nomes e uma centena de casas e ainda lhe excitava todo o processo.

Aonde poderia ter ido? Perguntou-se. A Sydney, talvez, ou ao Rio do Janeiro. Ou talvez Roma ou Helsinki. Era essencialmente uma questão de cravar uma agulha em um mapa. Havia muito poucos lugares nos quais não teria estado e nenhum onde não tivesse podido estabelecer sua base de operações se quisesse fazê-lo. Em seu mundo, em qualquer caso. Geall era uma história completamente distinta. Ele já tinha vivido uma vez nessa moda e nessa cultura, e não tinha nenhum desejo de repetir a experiência. Sua família tinha sido gente acomodada e ele já tinha tido sua ração de festas pomposas.

Em realidade, o que gostava de era uma taça de brandy e um bom livro. Não tinha intenções de ficar muito tempo e só tinha ido à celebração porque, do contrário, sabia que alguém teria ido buscá-lo. Embora estava seguro de que poderia ter evitado a qualquer encarregado dessa missão, o que não poderia economizar-se seria o sermão de Hoyt no dia seguinte. De modo que era mais fácil aparecer pelo salão, brindar pela nova rainha e logo escapulir-se.

Quanto ao traje e os acessórios formais que lhe tinham subido a sua habitação, deixava-o claro. Podiam havê-lo metido em uma época medieval, mas não pensava colocar essa roupa. Assim, vestiu-se de negro. Calças e pulôver. Não tinha incluído em sua bagagem um traje e uma gravata para essa peculiar viagem.

Em que pese a tudo, sorriu com certa calidez a Glenna quando se aproximou dele com um vestido verde esmeralda, com o qual em uma época Cian acreditava que se denominou une robe deguisée. Muito formal, muito elegante e com um decote baixo e arredondado que exibia seus muito encantadores seios.

—Vá, vá, hei aqui uma visão que prefiro a de qualquer deusa.

—Quase me sinto como uma delas. —Glenna estendeu os braços de modo que as amplas mangas campanadas se balançaram no ar.— Pesado, entretanto. Deve pesar uns quatro quilos. Vejo que te decidiste por um conjunto mais leve.

—Acredito que eu mesmo me cravaria uma estaca antes que me embainhar outra vez em um desses trajes.

Glenna se pôs-se a rir.

—Não te culpo, mas eu estou encantada de ver Hoyt vestido desse jeito. Para mim, e talvez também para ti, depois de todo este tempo, é como um baile de fantasia. Moira escolheu um traje em ouro e negro para o feiticeiro da casa. Senta-lhe maravilhosamente, como a ti sua escolha mais contemporânea. Não obstante, todo o dia foi como um sonho muito estranho.

—Eu estava pensando melhor em uma peça de teatro.

—Sim, isso também. De todos os modos, a festa desta noite é uma breve e colorida pausa. Hoje Hoyt e eu nos arrumamos isso para conseguir uma pequena exploração através da magia, e Blair e Larkin o têm feito do ar. Te poremos a par dos detalhes quando...

Glenna se interrompeu quando começaram a soar as trombetas.

Moira fez sua entrada, arrastando a cauda do vestido atrás dela e sua coroa brilhando à luz de uma centena de velas. Resplandecia como devem fazer as rainhas, como podem fazê-lo as mulheres.

Enquanto seu coração imóvel se encolhia dentro de seu peito, Cian pensou: «Maldito, fodido inferno».

Não ficava mais remédio que unir-se aos outros na mesa principal para o banquete. Abandonar o lugar antes do tempo teria sido considerado como um grave insulto. Não era que isso lhe preocupasse muito, mas teria chamado a atenção. De modo que outra vez estava apanhado.

Moira ocupava o centro da mesa, flanqueada por Larkin e seu tio. Cian, ao menos, tinha a Blair ao seu lado, que era uma companheira entretida e, de uma vez, informativa.

—Lilith ainda não queimou nada, o que não deixa de ser uma surpresa —lhe comunicou ela.— Provavelmente se encontra muito ocupada cuidando de Fifi. Oh, uma pergunta. Essa puta francesa esteve dando voltas por aí durante uns quatrocentos anos, verdade? E você quase o dobro desse tempo. Como é que os dois conservam o acento?

—E por que os norte-americanos acreditam que todo mundo deve falar como eles?

—Boa observação. Isto é veado? Sim, acredito que é carne de veado. —levou-se uma parte à boca.— Não está ruim.

Blair levava um vestido vermelho vivo que deixava ao descoberto uma generosa porção de seus fortes e bem torneados ombros. No cabelo curto não levava adorno algum, mas de suas orelhas pendiam uns medalhões de ouro quase tão grandes como o punho de um bebê.

—Como faz para manter a cabeça erguida com esses brincos?

—Sofrendo —respondeu ela com tom ligeiro.— Além disso, têm cavalos —continuou.— Um par de dúzias repartidos em vários currais. É provável que haja mais nas cavalariças. Me ocorreu descer com Larkin e espantar aos animais. Já sabe, nos pôr um pouco pesados, e, possivelmente, acender alguns fogos se podia convencê-lo. Se os vampiros ficavam dentro da cabana se queimariam. Se saíam, queimariam-se.

—Bem pensado. A menos, é obvio, que Lilith teria guardas com arcos postados dentro.

—Bom, sim, também pensei nisso, por isso lancei umas quantas flechas acesas para chamar sua atenção. O alvo escolhido foi uma cabana próxima ao curral maior. Estava segura de que ali deviam estar alojados uns quantos soldados, era o mais lógico. Imagina minha surpresa e desgosto quando as flechas ricochetearam no ar como se houvesse uma parede.

Cian se voltou para ela com os olhos entreabertos.

—Está falando de um campo de força? O que é isto, a fodida Star Trek?

—Isso é o que me hei dito. —Em harmonia com ele, deu-lhe um ligeiro murro no ombro.— Lilith tem com ela a esse mago, esse tal Midir, trabalhando horas extras. E seu acampamento de apoio está dentro de uma bolha protetora. Larkin desceu para que pudéssemos jogar uma olhada de mais perto, e ambos recebemos uma sacudida. Como uma descarga elétrica. Muito desagradável.

—Sim, me imagino.

—Então, o tal Midir em pessoa saiu que a casa grande, a mansão? Um cara com um aspecto inquietante, deixa que lhe diga isso. Uma ampla túnica negra e uma mata de cabelo cinza. E ficou ali, de modo que nós o olhávamos e ele nos olhava. Finalmente o entendi. Um ponto morto. Nós não podíamos atravessar essa barreira e eles tampouco. Quando o escudo está colocado, ficam presos dentro e ficamos fora. É como uma fodida fortaleza. Melhor.

—Lilith sabe como tirar o melhor proveito da gente que tem a suas ordens —disse Cian.

—Isso parece. De modo que descemos e lhes temos feito alguns gestos obscenos, para que não fosse uma total perda de tempo. Lilith terá que tirar o escudo de noite, não achas?

—Possivelmente. Embora tenham comida suficiente, a natureza da besta é caçar. Ela não quererá que suas tropas estejam muito inativas ou fiquem muito nervosas.

—Ou seja, que talvez possamos realizar uma incursão noturna. Não sei. É algo no qual devemos pensar. Isso é haggis[1] verdade? —Franziu o nariz.— Acredito que acontece. —inclinou-se um pouco mais para ele e sussurrou—: Larkin diz que se correu a voz sobre como tratou ao cara que tentou matar a Moira. Agora tem aos guardas do castelo e aos cavalheiros de seu lado.

—Não me importa muito.

—Você sabe muito bem que não é assim. Sabe o importante que é que a primeira linha deste exército não só te aceite, mas sim que também te respeite. Sir Cian.

Ele se removeu em seu assento.

—Não comece com isso.

—A mim seu flamejante título soa bem. Esta espécie de gelatina é um pouco arenosa. Sabe o que é?

Deliberadamente, Cian esperou a que ela tivesse comido uma segunda parte.

—Órgãos internos gelatinosos... provavelmente de porco.

Quando Blair se engasgou, ele pôs-se a rir.

Era um som tão estranho, pensou Moira. Lhe ouvir rir. Estranho, um tanto perverso, e muito atrativo. Ela tinha dado um passo em falso com a roupa que lhe tinha enviado a sua habitação. Cian era uma criatura muito de sua época —ou o que tinha chegado a ser sua época— para levar a roupa que ela tinha escolhido.

Mas tinha ido à celebração; não estava segura de que o fizesse. Cian não lhe havia dito uma só palavra. Nenhuma. Tinha matado por ela, pensou, mas não lhe falava. De modo que o apagaria de seus pensamentos, do mesmo modo em que ele, obviamente, tinha apagado a ela dos seus.

Moira só desejava que a noite acabasse de uma vez. Queria ir-se a sua cama, queria dormir. Queria tirar-se aquele pesado vestido de veludo e deslizar-se felizmente —por uma noite— para a escuridão.

Mas tinha que mostrar que comia apesar de sua falta de apetite. Tinha que fingir, ao menos, que prestava atenção às conversas, embora seus olhos pugnavam por fechar-se.

Tinha bebido muito vinho, sentia-se muito acalorada. E ainda faltavam horas para que pudesse apoiar a cabeça no travesseiro.

Ela, é obvio, tinha que levantar-se, sorrir e beber cada vez que um dos cavalheiros decidia propor um brinde em sua honra. E ao ritmo que se aconteciam os brindes, o mais provável era que de um momento a outro, a cabeça lhe caísse rodando.

Com um enorme alívio, anunciou finalmente que o baile podia começar.

Ela teve que levantar-se para o primeiro baile, tal como se esperava da flamejante rainha. E descobriu que se sentia melhor ante a perspectiva de mover-se, da música.

Ele, é obvio, não dançava, mas sim seguia em seu assento. Como um rei despótico, pensou ela, bobamente irritada porque queria dançar com ele. Suas mãos sobre as dela, os olhos dele nos seus. Mas Cian seguia ali sentado, observando à multidão e bebendo seu vinho. Ela girou com Larkin, saudou seu tio e chocou as palmas com Hoyt.

E quando voltou a olhar, Cian se tinha ido.

Ele desejava ar, e mais ainda, desejava a noite. A noite seguia sendo seu momento. O que vivia atrás de sua máscara humana sempre a desejaria, e sempre a buscaria.

Subiu a sua habitação e logo se foi a um dos parapeitos, onde a escuridão era densa e a música que chegava do salão era apenas um eco suave. As nuvens haviam coberto a lua, e apagado as estrelas. Choveria antes do amanhecer; podia cheirá-lo.

Abaixo havia tochas que iluminavam os pátios e guardas postados nas portas e nos muros.

Ouviu que um deles tossia e cuspia, e também o batido das asas das bandeiras em cima de sua cabeça ante uma súbita rajada de vento. Se afinava o ouvido, podia ouvir o rangido dos ratos em sua toca, escondida em uma greta entre as pedras, ou o sussurro das asas de um morcego voando na escuridão.

Ele podia ouvir o que outros não podiam.

Podia farejar aos humanos, o sal na pele e o rico discorrer do sangue debaixo dela. Havia uma parte dele que sempre vibrava de necessidade. De caçar, de matar, de comer.

O estalo de sangue na boca, na garganta. A vida que esse fluido continha e que jamais poderia saborear-se nas frias bolsas de plástico. Quente, recordava-o, o primeiro sorvo sempre quente. Esquentava todas as partes frias e mortas, e durante um momento, a vida —ou sua sombra— se agitava no interior desse frio e dessa morte.

De vez em quando era bom recordar o indescritível prazer que havia nisso. Era bom recordar contra o que enfrentava sua vontade. Era vital recordar o que ansiavam aqueles contra quem lutava.

Os humanos não o entendiam, não podiam fazê-lo. Nem sequer Blair, que entendia mais que a maioria. Mesmo assim, eles lutariam e morreriam. Atrás deles viriam outros a lutar e a morrer. Alguns fugiriam, é obvio... alguns sempre o faziam. Outros seriam presas do terror e simplesmente ficariam imóveis e os matariam, como se fossem lebres apanhadas na luz de um farol.

Mas a maioria não fugiria, não se esconderia, não ficaria paralisada pelo terror. Em todos os anos que levava vendo viver e morrer aos humanos, Cian sabia que, quando estavam contra a espada e a parede, lutavam como demônios.

Se triunfavam, alguém acabaria escrevendo canções e histórias que explicariam sobre todo o assunto. Os anciões se sentariam junto ao fogo e falariam daqueles gloriosos dias ao tempo que exibiam suas cicatrizes. E outros despertariam com um suor frio em todo o corpo ao reviver em seus sonhos o horror da guerra. Se conseguia seguir com vida, como seria para ele? Perguntou-se. Dias de glória ou de pesadelos? Nenhuma das duas coisas, pensou, porque ele não era o bastante humano para dedicar tempo ao que já tinha terminado.

Se Lilith conseguisse acabar com ele, bom, a verdadeira morte era uma experiência que ainda não tinha tido. Podia ser interessante. E como podia ouvir o que outros não ouviam, percebeu os passos nos degraus de pedra. Eram os passos de Moira; conhecia seu andar tanto como seu aroma.

Esteve a ponto de confundir-se com as sombras e logo se amaldiçoou por ser tão covarde. Não era mais que uma mulher, só uma mulher. Ela não podia ser, e não seria, nada mais para ele.

Quando Moira saiu ao ar livre, ele a ouviu suspirar uma vez. Um suspiro comprido e profundo, como se acabasse de tirar um enorme peso de cima. Viu-a aproximar-se da borda, apoiar as mãos na pedra e jogar a cabeça para trás e fechar os olhos. Inspirou.

Tinha o rosto avermelhado devido ao calor do fogo da lareira e o exercício do baile, mas havia sombras de fadiga debaixo de seus olhos.

Alguém tinha elaborado finas tranças em sua larga cabeleira, confeccionando uma trama com finos fios de ouro que brilhavam entre seu cabelo castanho sedoso.

Cian percebeu o momento em que ela se deu conta de que não estava sozinha. A súbita tensão nos ombros e o movimento da mão entre as dobras do vestido.

—Se tivesse uma estaca aí oculta —disse ele— preferiria que não a apontasse em minha direção.

Embora seus ombros não se relaxaram, Moira deixou cair a mão a um flanco ao tempo que se voltava para ele.

—Não te tinha visto. Queria tomar um pouco o ar. Dentro faz muito calor e bebi muito.

—Mais do que comeste. Deixarei-te que tome o ar.

—Oh, fique. Ficarei só um momento, logo pode recuperar o maldito ar outra vez para ti sozinho.

Moira jogou o cabelo para trás e ergueu a cabeça.

Agora ele podia ver seu rosto, seus olhos, e pensou: «Sim, não cabe dúvida, a pequena rainha está preparada para perder sua flor».

—Vieste aqui para ter pensamentos profundos? —perguntou ela.— Não sei se os pensamentos profundos requerem um espaço como este, ou é melhor pensá-los em lugares fechados. Imagino que você deve ter muitos pensamentos com tudo o que viu.

Moira se cambaleou ligeiramente e pôs-se a rir quando Cian a agarrou pelo braço. Soltou-a imediatamente.

—É tão cuidadoso de não me tocar —comentou ela.— A menos que me esteja salvando da morte ou de ser machucada. Ou me golpeando durante o treinamento. Penso que isso é muito interessante. É um homem interessante, o que opina você?

—Não o faço.

—Exceto em uma ocasião —continuou ela como se ele não tivesse falado, e se aproximou um pouco mais.— Aquela ocasião em que me tocou muito bem. Aquela vez em que me pôs as mãos em cima, e a boca. Perguntei-me a respeito disso.

Cian esteve a ponto de retroceder um passo, e isso o mortificou.

—Só queria te dar uma lição.

—Sou uma estudiosa e eu adoro as lições. Me dê outra então.

—O vinho te faz dizer tolices. —Irritou-o o som pomposo e afetado de sua própria voz.— Deveria entrar e fazer que suas damas de companhia lhe levem para a cama.

—Sim, faz-me dizer tolices. Amanhã o lamentarei, mas bom, isso será amanhã, verdade? Oh, longo dia. —Deu um pequeno giro que fez que sua saia ondeasse sobre as pedras.— Foi esta manhã quando fui até a pedra? Sinto-me como se tivesse carregado com a espada e a pedra durante todo o dia. Agora as estou deixando descansar; até manhã, estou-as deixando descansar. Sou um desastre para a bebida, e o que? —Moira se aproximou um pouco mais, e o orgulho impediu que ele retrocedesse.— Esperava que esta noite dançasse comigo. Esperava e me perguntava como seria que me tocasse fora do treinamento ou por boa educação ou por engano.

—Não estava de ânimo para dançar.

—Oh, e sem dúvida você tem muitos estados de ânimo. —Lhe observou o rosto atentamente, estudando-o, pensou Cian, como o faria com as páginas de um livro.— E eu também. Quando me beijou naquela ocasião, eu estava irritada. E também um pouco assustada. Agora não estou irritada nem assustada. Mas acredito que você sim o está.

—Está acrescentando o ridículo às tolices.

—Demonstra-o então. —Ela cobriu a mínima distância que os separava e elevou o rosto para ele.— Me ensine uma lição.

Dificilmente poderiam condená-lo por isso. Ele já tinha sido condenado fazia muito tempo. Ele não foi suave; não foi tenro, mas sim a atraiu contra si e quase a elevou do chão antes que sua boca descesse para cobrir a dela.

Degustou o vinho e o calor... e algo que não tinha antecipado. Esse, soube nesse momento, foi seu engano.

Dessa vez, ela estava preparada para lhe receber. As mãos de Moira se enredaram no cabelo dele, sua boca estava aberta e ávida. Ela não se rendeu em atitude de entrega, e tampouco se estremeceu ante sua furiosa investida. Queria mais.

A necessidade o rasgava, outro demônio enviado para torturá-lo.

Ela se perguntou por que o ar entre eles estava fumaçando, como era possível que ambos simplesmente não estalassem em chamas. Aquilo era fogo, no sangue, nos ossos.

Como tinha podido viver toda sua vida sem isso?

Inclusive quando Cian a soltou, quando a empurrou afastando-a de seu corpo, permaneceu dentro dela como uma febre.

—Há sentido? —Seu sussurro estava cheio de admiração.— Há isso sentido?

O sabor de Moira agora estava em seu interior e tudo nele ansiava mais dela. De modo que não lhe respondeu, não disse absolutamente nada. Deslizou-se na escuridão e desapareceu antes que ela pudesse recuperar o fôlego.

 

                                       CAPÍTULO 5

Moira despertou cedo e cheia de energia. Tudo no dia anterior tinha arrastado um enorme peso, como se o tivesse carregado preso à perna. Agora a cadeia estava quebrada. Não importava a chuva que caía de um céu cinza escuro e apagava até o mínimo vestígio de sol. Voltava a ter a luz em seu interior.

Vestiu-se com o que chamava suas roupas da Irlanda: jeans e uma camiseta. O tempo da cerimônia e o recato tinham passado, e ao diabo com as suscetibilidades até que pudesse dedicar tempo de mitigá-las outra vez.

Ela podia ser uma rainha, pensou enquanto se penteava fazendo uma larga trança, mas seria uma rainha trabalhadora. Seria uma guerreira. Atou-se as botas e sujeitou a espada à cintura. Reconheceu e aprovou a essa mulher que via refletida no espelho. Era uma mulher com um propósito, poder e conhecimentos.

Voltou-se e estudou o quarto. A câmara da rainha, pensou. Em uma época tinha sido o santuário de sua mãe, e agora era o seu. A cama era grande e estava belamente adornada com tapeçarias de veludo azul escuro e renda branca, porque a sua mãe tinha gostado de tudo suave e formoso. As colunas eram grossas, de carvalho de Geall envernizado, e profusamente esculpidos com símbolos do reino. As pinturas que cobriam as paredes também representavam Geall, seus campos e colinas e bosques.

Em uma mesinha junto à cama, havia um pequeno retrato emoldurado em prata. O pai de Moira tinha velado por sua mãe todas as noites... agora velaria por sua filha.

Olhou para as portas que davam ao balcão de sua mãe. As cortinas ainda estavam corridas e Moira as deixaria assim. Ao menos no momento. Não estava preparada para abrir essas portas e pisar nas pedras onde sua mãe tinha sido assassinada. Recordaria, em troca, todos os momentos felizes que tinha vivido junto a ela nessas habitações.

Saiu do quarto e se dirigiu para o aposento que ocupavam Hoyt e Glenna, e chamou. Ao cabo de uns poucos minutos, caiu na conta da hora que era. Estava a ponto de retirar-se, esperando que não tivessem ouvido o golpe na porta, quando esta se abriu.

Hoyt ainda se estava vestindo. Tinha desgrenhada sua larga cabeleira escura e os olhos ainda cheios de sono.

—Oh, perdão —disse Moira.— Não pensei...

—Aconteceu algo?

—Não, não, nada. Não me dei conta do cedo que é. Por favor, volta para a cama.

—O que ocorre? —Glenna apareceu atrás de Hoyt.— Moira? Há algum problema?

—Só com minhas maneiras. Despertei-me e levantei muito cedo, e não tive em consideração que outros ainda estariam na cama, especialmente depois da celebração de ontem à noite.

—Não se preocupe. —Glenna apoiou uma mão no braço de Hoyt para lhe indicar que se afastasse.— O que necessitava?

—Só falar um momento contigo. A verdade é que pensava te perguntar se queria tomar o café da manhã comigo nas habitações de... em minha sala de estar, para poder te comentar um assunto.

—Me dê dez minutos.

—Está segura? Não me importa esperar até mais tarde.

—Dez minutos —repetiu Glenna.

—Obrigada. Encarregarei-me de que preparem o café da manhã.

—Moira parece... preparada para algo —comentou Hoyt quando Glenna foi lavar-se.

—Pode ser.

Glenna colocou as mãos na água, concentrada. Ali não existiam duchas e, certamente, não pensava banhar-se em água fria.

Fez o que pôde com o que tinha à mão, enquanto Hoyt se encarregava de avivar o fogo. Logo, cedendo à vaidade, permitiu-se um pequeno conjuro.

—Pode ser que só deseje falar do programa de adestramento previsto para hoje. —Glenna se colocou uns brincos que teria que recordar tirar-se quando começassem a se exercitar.— Te expliquei que Moira ofereceu um prêmio, uma de nossas cruzes, à mulher que consiga derrubá-la hoje em um combate.

—Foi muito esperta ao oferecer um prêmio, mas me pergunto se for o melhor uso que lhe pode dar à cruz.

—Havia nove cruzes —lhe recordou Glenna enquanto se vestia.— Cinco para nós, e a do King, é obvio, que fazia a sexta. Logo as duas que convimos em lhes dar à mãe e à irmã grávida de Larkin. Há um propósito para a nona. Possivelmente seja este.

—Já veremos o que nos proporciona o dia. —Hoyt sorriu enquanto colocava um pulôver cinza pela cabeça.— Como é, a ghrá, que parece mais encantada cada manhã?

—Você tem amor nos olhos. —refugiou-se entre seus braços quando Hoyt se aproximou dela... e olhou a cama com saudade.— Manhã chuvosa. Seria agradável ficarmos abraçados durante uma hora e fazer o que quisesse contigo. —Elevou a cabeça para que ele a beijasse.— Mas ao parecer tomarei o café da manhã com a rainha.

Quando Glenna entrou, Moira, como era costume nela, estava sentada junto ao fogo com um livro nas mãos. Elevou a vista e sorriu envergonhada.

—Sinto te haver separado de seu marido e de sua cama quente a uma hora tão temprana.

—É o privilégio da rainha.

Moira se pôs-se a rir e assinalou uma poltrona.

—O café da manhã chegará em um momento. Um dia, se as sementes que trouxe e plantei consigam desenvolver-se, poderei ter suco de laranja cada manhã. Sinto falta desse sabor.

—Eu mataria por um café —admitiu Glenna.— E, já postos, por um café, um bolo de maçã, o TiVo[2] e todas as coisas humanas. —sentou-se na poltrona e estudou a Moira.— Tem bom aspecto —disse.— Descansada e, como disse Hoyt, preparada.

—Estou-o. Ontem tinha tantas coisas no coração e a cabeça que tudo me resultava muito pesado. A espada e a coroa eram de minha mãe e agora são minhas só porque ela está morta.

—E não tem tempo para o luto.

—Não, não o tenho. Apesar de tudo, sei que ela teria querido que fizesse as coisas como as tenho feito, por Geall, por todos, e que não me encerrasse em mim mesma em alguma parte para chorar sua morte. E também tive medo. Que tipo de rainha serei, e em um momento como este. —Moira olhou com sua satisfação gastas calças e suas botas.— Bom, sei que tipo de rainha tentarei ser. Forte, inclusive impetuosa. Não há tempo para sentar-se no trono e discutir questões de Estado. A política e o protocolo terão que esperar, não acha? Já tivemos nossa cerimônia e nossa celebração, e eram necessárias. Mas agora chegou o momento do suor e a imundície.

Levantou-se quando chegou o café da manhã. Falou com o moço que o havia trazido —que ainda tinha os olhos sonolentos— e com a criada que estava com ele.

Moira conversava com soltura, observou Glenna. Chamava-os ambos por seus nomes enquanto colocavam os pratos e serviam a comida. E, embora os dois pareciam desconcertados pelo traje que tinha escolhido sua rainha, Moira ignorou essa circunstância, agradeceu-lhes e lhes disse que podiam retirar-se e que sua hóspede e ela não deviam ser incomodadas.

Quando se sentaram, Glenna advertiu que Moira, que durante dias nem tinha bicado a comida, comia agora com um apetite capaz de rivalizar com o de Larkin.

—Estou pensando que hoje será um dia de treinamento duro e lamacento —começou Moira— e isso está bem. Uma boa disciplina. Queria te dizer que, embora eu também participarei dos exercícios, e provavelmente o faça todos os dias desde hoje, Blair e você seguem estando a cargo de tudo. Quero que todos vejam que estou me preparando igual ao resto deles. Que me sujarei e me golpearão.

—Parece-me que é o que está procurando.

—Os deuses sabem que sim. —Moira colheu com uma colher os ovos que lhe tinha indicado à cozinheira que preparasse como freqüentemente o fazia Glenna. Misturados com partes de presunto e rodelas de cebola.— Recorda o dia em que Larkin e eu chegamos a Irlanda através do Baile dos Deuses? Podia colocar uma flecha onde quisesse, nove de cada dez vezes, mas qualquer de vocês me podia atirar ao chão sem esforço apenas.

—Você sempre se levantava.

—Sim, eu sempre me levantava. Mas agora já não é tão fácil me derrubar. E isso é algo que também quero que todos vejam.

—Já lhes demonstrou que era uma guerreira quando lutou com esse vampiro e o matou.

—É verdade. E agora mostrarei a um soldado que agüenta todo o necessário. E há algo mais que quero de ti.

—Isso imaginava. —Glenna serve mais chá para ambas .— Dispare.

—Nunca explorei a magia que possuo. Não é grande coisa, como todos puderam ver. Um ligeiro dom para curar e uma espécie de poder que pode ser trabalhado e estendido por outros que possuem mais. Como Hoyt e você. Sonhos. Estudei os sonhos e li livros a respeito de seus significados. E, é obvio, livros sobre a própria magia. Mas me parecia que não havia um propósito real no qual eu tinha, salvo oferecer um pouco de alivio a quem sofria dor. Ou uma forma de saber que direção tomar para encontrar um cervo quando saio de caça. Coisas pequenas. Questões sem importância.

—E agora?

—Agora —repetiu Moira assentindo— acredito que há um propósito e também uma necessidade. Acredito que necessito tudo o que tenho, tudo o que sou. Quanto mais conheça o que há dentro de mim, melhor poderei usá-lo. Quando toquei a espada, quando apoiei a mão no punho, derramou-se sobre mim a certeza de que era minha, de que sempre tinha sido minha. E um poder associado a ela, como um vento forte soprando para mim. Mais através de mim, acredito. Entende-o?

—Perfeitamente.

Moira voltou a assentir e continuou comendo.

—Neguei esse aspecto porque não tinha um interesse particular nele. Eu queria ler e estudar, sair a caçar com Larkin, montar a cavalo.

—Todas as coisas que desfruta uma moça —a interrompeu Glenna.— Por que não deveria ter feito o que você gostava? Não sabia o que te esperava.

—Não, não sabia. Pergunto-me se o teria sabido se tivesse prestado mais atenção.

—Não poderia ter salvado a sua mãe, Moira —disse Glenna brandamente.

Moira elevou a vista com os olhos muito claros.

—Pode ler meus pensamentos com muita facilidade.

—Acredito que é porque, se estivesse em seu lugar, eu teria os mesmos. Não poderia havê-la salvado. E, além disso...

—Não estava escrito que eu devesse salvá-la. —Moira acabou a frase.— Estou começando a aceitá-lo em meu coração. Mas se eu tivesse explorado o que tenho, poderia ter sido capaz de ver algo do que se estava aproximando. Não importa qual teria podido ser a diferença. O mesmo que Blair, eu também vi o campo de batalha em meus sonhos. Mas, a diferença dela, eu não enfrentei a isso. Voltei-lhe as costas. Isso também terminou. Já não vou... espera. —Moira procurou a expressão correta.— A me torturar com isso? Sim?

—Sim, isso.

—Já não me torturo com isso. Estou tratando de mudá-lo. De modo que te peço se pode dedicar algo de seu tempo a me ajudar a aperfeiçoar qualquer dom que possa ter, assim como aperfeiçoei minhas habilidades para o combate.

—Posso fazê-lo. Eu adoraria.

—Agradeço-lhe por isso.

—Não me agradeça nada ainda. Terá que trabalhar muito. A magia é uma arte e um ofício. E um dom. Mas se o comparamos com seu treinamento físico não é muito diferente. Também é, bom, como um músculo. —Glenna lhe deu umas palmadas nos bíceps.— Tem que exercitá-la e construí-la. A magia que praticamos é como a medicina, quer dizer, que nunca se sabe suficiente.

—Cada arma que leve ao campo de batalha será outro golpe contra o inimigo. —Moira flexionou o braço com as sobrancelhas arqueadas.— De modo que construirei o da magia igual a este, convertendo-o em tão forte como posso. Quero esmagá-la, Glenna. Mais que derrotá-la, quero esmagá-la. Por muitas razões. Meus pais, King, Cian —acrescentou depois de uma breve pausa.— Isso não gostaria de nada a Cian, verdade, saber que penso nele como uma vítima?

—Ele não se vê a si mesmo dessa maneira.

—Não, não o vê, nega-se a fazê-lo. Essa é a razão pela qual prospera, a sua maneira. Ele construiu sua... Não posso dizer paz, já que não é do tipo pacífico, verdade? Mas aceitou sua sorte. Suponho que, de algum modo, Cian a abraçou.

—Eu diria que o conhece tanto como é possível conhecê-lo.

Agora Moira duvidou um momento, atrasando-se enquanto brincava com a comida que tinha ficado em seu prato.

—Ele me beijou outra vez.

—Oh. Oh. —E depois de uma pausa—: Oh.

—Eu fiz que me beijasse.

—Não é que pretenda menosprezar seu encanto ou seus poderes, mas não acredito que ninguém possa conseguir que Cian faça nada que realmente não deseje fazer.

—Poderia ser que ele o desejasse, mas não o teria feito se eu não o tivesse pressionado. Eu estava um pouco bêbada.

—Hmmm.

—Mas estar bêbada não foi o pior —disse Moira com uma risada que mostrava algum nervosismo.— Em realidade, não. Isso só foi um pouco de relaxamento de maneiras, por dizer, e maior decisão. Necessitava de ar e um pouco de tranqüilidade, de modo que subi e saí a uma das bancadas. E ali estava Cian.

Ela voltou a representar a cena em sua mente.

—Ele poderia ter ido a qualquer parte e, sem dúvida, eu poderia ter ido a outra parte, mas nenhum dos dois o fez, de modo que ambos coincidimos no mesmo lugar ao mesmo tempo. Na noite —disse tranqüilamente.— Com música e luz tênue.

—Romântico.

—Sim, suponho que o era. Com a chuva anunciando-se e que começava a perfumar o ar, e a fina foice da lua muito branca contra o céu. Cian está rodeado de um mistério que quero seguir estudando até encontrar todas suas peças.

—Não serias humana se não o encontrasse fascinante —comentou Glenna. Ambas sabiam o que ela não havia dito. Ele não o era. Cian não era humano.

—Ele se estava comportando de um modo muito afetado, como está acostumado a fazê-lo comigo, e me resultava irritante. E, bom, reconheço-o, provocador. Às vezes me ocorre quando estou com ele. O mesmo que me passa com o conhecimento ou a magia. É algo que vai aumentando.

Moira apoiou com força uma mão sobre o ventre e logo foi subindo até o coração.

—Algo que... vai subindo do centro de mim mesma. Nunca tinha tido sentimentos tão intensos, desse tipo, por nenhum homem. Pequenos indícios deles, sabe? Sentimentos confortáveis e interessantes, mas não fortes e quentes. Há algo nele que me atrai de um modo irresistível. É tão...

—Sexy —acabou Glenna a frase.— A um nível incrível.

—Eu queria saber se seria igual à vez anterior, a única vez, quando os dois estávamos tão furiosos e ele me beijou. Disse-lhe que voltasse a fazê-lo e que não aceitaria um não como resposta. Agora —Moira elevou a cabeça, como se estivesse resolvendo uma adivinhação.— Sabe? Acredito que o pus nervoso. Vi que estava ligeiramente perturbado, e tratando de demonstrar que não o estava, foi tão embriagador como o tinha sido o vinho.

—Oh, Deus, sim. —Glenna respirou profundamente e levantou sua xícara de chá.— É claro que sim que teve que sê-lo.

—E quando ele me beijou, foi como a vez anterior, só que mais. Porque eu o estava esperando. Nesse momento ele estava tão cativado como eu. Soube.

—O que está procurando dele, Moira?

—Não sei. Talvez só esse calor, só esse poder que ele possui. Esse prazer. Está errado?

—Não posso dizê-lo. —Mas lhe preocupava.— Cian nunca poderia te dar mais. Tem que entendê-lo. Ele não ficaria aqui e, embora o fizesse durante um tempo, você nunca poderia ter uma vida com ele. Está pisando em um terreno muito perigoso.

—Cada dia a partir de agora até Samhain será um terreno perigoso. Sei que o que está dizendo é bom e tem sentido, mas eu o sigo desejando em meu coração e em minha mente. Necessito que ambos se assentem um pouco antes de saber o que deveria fazer com este assunto. Mas sei que não quero entrar em combate tendo deixado isto de lado só porque temo o que possa chegar ou não a ser.

Depois de um momento de reflexão, Glenna suspirou.

—Talvez o que diz tenha sentido, e duvido muito que eu seguisse meu próprio conselho se estivesse em seu lugar.

Moira se aproximou dela e lhe agarrou a mão.

—Ajuda poder falar com outra mulher. Ser capaz de dizer a outra mulher o que há em minha mente e meu coração.

Em outra parte de Geall, em uma casa protegida inclusive contra a luz débil e brumosa, outras duas mulheres estavam sentadas e falavam.

Era o final de seu dia, não o começo, mas estavam compartilhando uma tranqüila comida.

—Tinha razão. —Lora se reclinou para trás, limpando-se delicadamente o sangue dos lábios com um guardanapo de linho. O homem estava encadeado à mesa, entre elas. Lilith tinha insistido em que sua companheira ferida se sentasse e comesse em lugar de ficar na cama, bebendo o sangue de uma taça.— Me levantar e desfrutar de uma matança civilizada era o que necessitava.

—Vê?

Lilith sorriu agradada.

O rosto de Lora ainda estava gravemente queimado. A água benta que lhe tinha arrojado a maldita assassina de vampiros lhe tinha causado um dano terrível. Mas estava curando-se, e a comida fresca a ajudaria a recuperar as forças.

—Mas eu gostaria que comesse um pouco mais.

—Farei-o. Foste tão boa comigo, Lilith. E eu te falhei.

—Não, não falhou. Era um bom plano, e esteve a ponto de dar resultado. É você quem teve que pagar um preço muito alto por isso. Não posso suportar pensar na dor que sofreu.

—Teria morrido se não fosse por ti.

As duas tinham sido amantes e amigas, rivais e adversárias. Tinham sido tudo para a outra durante quatro séculos. Mas as feridas de Lora, a proximidade de seu fim, tinha-as unido mais que nunca.

—Até que não lhe feriram, não sabia quanto te amava e te necessitava. Aqui tem, querida, um pouco mais.

Lora obedeceu, agarrando o braço flácido do homem e afundando profundamente as presas na munheca.

Antes de sofrer as queimaduras no rosto, Lora tinha sido muito bonita, uma loira jovem e fresca, elegante. Agora tinha o rosto esfolado e vermelho, prejudicado pelas queimaduras quase curadas. Mas o brilho frágil de dor tinha desaparecido de seus grandes olhos azuis e sua voz voltava a exibir a força de antes.

—Foi maravilhoso, Lilith. —recostou-se novamente na poltrona.— Mas sou incapaz de beber uma só gota mais.

—Então ordenarei que levem o resto e nos sentaremos um momento junto ao fogo antes de nos deitar.

Lilith fez soar uma campainha de ouro e fez gestos a um dos criados para que levasse o que ficava na mesa. Sabia que os restos de comida não seriam desperdiçados.

Levantou-se para ajudar a Lora a cruzar a habitação para onde já tinha disposta almofadas e uma manta leve sobre um sofá.

—É mais confortável que as covas —comentou Lilith.—Mas, não obstante, alegrará-me abandonar este lugar e dispor de um alojamento adequado.

Acomodou a Lora no sofá antes de sentar-se, régia com seu vestido vermelho e seu cabelo dourado recolhido para acrescentar um toque de glamour à velada.

Sua beleza não tinha diminuído nem um ápice desde sua morte, fazia mais de dois mil anos.

—Dói-te? —perguntou a Lora.

—Não. Quase me sinto eu mesma outra vez. Lamento haver me comportado como uma menina ontem pela manhã, quando essa cadela voou por cima de nós nesse ridículo homem-dragão. Quando a vi, tudo voltou como uma maré, todo o medo, a agonia.

—Mas lhe demos uma surpresa, verdade? —Lilith alisou a manta, envolvendo a Lora com ela.— Imagina sua confusão quando suas flechas se chocaram contra o escudo de Midir. Teve razão ao me convencer de que não o matasse.

—Na próxima vez que veja essa cadela, não me porei a chorar nem me esconderei debaixo das mantas como uma menina assustada. Na próxima vez que a veja, matarei-a com minhas próprias mãos. Juro-o.

—Ainda sente o desejo de transformá-la e convertê-la em uma companheira para ti?

—Nunca concederei semelhante presente a essa puta. —Os lábios de Lora se esticaram com um grunhido.— Ela só receberá de mim a morte. —Logo, com um suspiro, apoiou a cabeça no ombro de Lilith.— Nunca teria sido o que você é para mim. Pensava me divertir um tempo com ela. E também pensei que poderia nos servir como entretenimento na cama; toda essa energia e essa violência que tem em seu interior resultavam muito atrativas. Mas nunca poderia havê-la amado como amo a ti.

Agora inclinou a cabeça e seus lábios se uniram em um beijo comprido e doce.

—Sou tua, Lilith. Eternamente.

—Minha doce menina. —Lilith a beijou na têmpora.— Na primeira vez que te vi, sentada só nas escuras e úmidas ruas de Paris, chorando, soube que me pertenceria.

—Eu pensava que amava a um homem —sussurrou Lora.— E que ele também me amava. Mas me utilizou, desprezou-me e me deixou por outra mulher. Pensei que me tinha quebrado o coração. E então apareceu você.

—Recorda o que te disse naquele momento?

—Nunca esquecerei essas palavras. Disse: «Minha doce e triste menina, está sozinha?». Disse-te que minha vida se terminou, que na manhã seguinte estaria morta de pena.

Lilith se pôs-se a rir e acariciou o cabelo de Lora.

—Tão dramática. Como podia resistir a ti?

—Ou eu a ti. Estava tão formosa, como a rainha que é. Foi vestida de vermelho, como esta noite, e tinha o cabelo brilhante, cheio de cachos. Levou-me a sua casa e me deu pão e vinho, escutou minha triste historia e enxugou minhas lágrimas.

—Foi tão jovem e encantadora... Parecia tão segura de que esse homem que te tinha desprezado era tudo o que podia desejar na vida...

—Já não recordo seu nome. Tampouco seu rosto.

—Veio gostosamente aos meus braços —murmurou Lilith.— Te perguntei se queria seguir sendo jovem e bela para sempre, se você gostaria de ter poder sobre homens como o que te tinha feito tanto dano. Respondeu-me que sim, uma e outra vez. Inclusive quando te provei, apertou-te para mim e voltou a repetir, sim, sim.

O branco dos olhos de Lora se tingiu levemente de vermelho ao recordar aquele maravilhoso momento.

—Nunca havia sentido uma excitação tão profunda. E quando voltei a viver, você me trouxe a ele para que eu pudesse ter como minha primeira presa ao homem que se burlou de mim. E o compartilhamos, como compartilhamos tantas coisas desde aquele momento.

—Quando chegar Samhain, compartilharemos tudo o que existe.

 

Enquanto os vampiros dormiam, Moira se encontrava no campo de jogos. Estava suja e empapada. O quadril lhe doía por causa de um golpe que se penetrou através de sua guarda e ofegava depois do último assalto.

Sentia-se maravilhosa.

Estendeu- a mão a Dervil para ajudá-la a levantar do chão.

—Tem-no feito muito bem —disse Moira.— Quase o consegue.

Dervil se esfregou suas amplas nádegas.

—Acredito que não.

Com as mãos apoiadas nos quadris e a cabeça coberta com um chapéu de couro de asa larga agora empapada, Glenna observava a ambas.

—Esta vez agüentaste de pé mais tempo e te levantaste mais rápido do chão. —Fez um gesto de aprovação para Dervil.— Está progredindo. Por isso me hão dito, no outro extremo deste campo há vários homens aos que poderia derrotar.

—No outro extremo do campo há muitos homens aos quais ela já derrotou —disse Isleen, e seu comentário provocou um coro de risadas obscenas.

—E sei o que fazer com eles quando isso ocorre —replicou Dervil.

—Te ocupe de pôr algo dessa energia em seu próximo combate —sugeriu Glenna— e poderá ganhá-lo em lugar de acabar no barro. Terminemos o dia com um pouco de prática de arco e flecha.

Embora as mulheres responderam com gestos de alívio ao feito de que a sessão se desse por acabada, Moira agitou uma mão.

—Ainda não enfrentei a Ceara corpo a corpo. Estive reservando para o final a quem me hão dito que é a melhor. Desse modo, poderei me retirar do campo como a campeã.

—Arrogante. Eu gosto disso —disse Blair enquanto avançava através da chuva e o barro.— A fabricação de armas segue adiante —acrescentou.— Aumentamos a produção um nível. —Jogou a cabeça para trás.— Me deixem que lhes diga uma coisa, esta chuva senta maravilhosamente bem depois de um par de horas com a bigorna e a forja. E bem, qual é o marcador aqui?

—Moira derrotou a todas com a espada e em combates corpo a corpo. Agora desafiou a Ceara a um assalto antes que acabemos a sessão com os arcos.

—Muito bem. Posso levar a um grupo até os alvos enquanto vocês terminam aqui.

Produziu-se um sonoro protesto por parte das mulheres, ansiosas como estavam por presenciar o último combate.

—Sedentas de sangue. —Blair mostrou sua aprovação.— Isso também eu gosto. Muito bem, senhoras, deixem espaço. Por quem apostas? —perguntou a Glenna enquanto as duas mulheres se dispunham a lutar.

—Moira está quente e motivada. Ela trabalhou hoje duramente. Eu apostaria por ela.

—Eu me inclino pela Ceara. É muito manhosa e não teme aos golpes. Vê? —acrescentou quando Ceara caiu de bruços no barro e se levantou rapidamente para atacar a Moira.

Fez uma finta, girando no último momento, logo lançou o pé para cima e alcançou a Moira no peito. A rainha saiu em disparada para trás por causa do forte impacto, conseguiu manter o equilíbrio e esquivou o seguinte golpe. Investiu com força e lançou a Ceara por cima do ombro. Mas quando se deu a volta, Ceara não estava caída de costas no barro, mas sim se tinha apoiado nas mãos para lançar ambos os pés para frente e derrubar a Moira.

Esta se levantou rapidamente e com os olhos brilhantes.

—Vá, vejo que sua reputação não é exagerada.

—Vou pelo prêmio. —Ceara se agachou e começou a girar ao redor de Moira.— Estas advertida.

—Venha buscá-lo então.

—Boa briga —comentou Blair enquanto voavam os punhos e os pés.— Ceara, mantenha os cotovelos levantados!

Glenna golpeou a Blair no flanco com o seu.

—Não se pode dar instruções do galinheiro.

Mas estava sorrindo, não só porque era um bom combate, mas sim porque o resto das mulheres gritavam e aconselhavam às duas opositoras.

Converteram-se em uma unidade.

Moira caiu para trás, lançou as pernas para frente em uma chave de tesoura e varreu a Ceara. Mas quando rodou sobre si mesma para imobilizar a sua rival, Ceara a agarrou e a lançou por cima de sua cabeça.

Ouviram-se numerosas expressões de compaixão quando Moira aterrissou com um ruído seco. E antes que pudesse voltar a levantar-se, Ceara estava sentada escarranchada em cima dela, com um cotovelo no pescoço de Moira e um punho apoiado à altura do coração.

—Estás estacada.

—Mas que droga, estou. Te afaste, pelo amor de Deus, está-me esmagando os pulmões.

Moira respirou profundamente enquanto fazia um esforço para colocar em posição sentada seu corpo ainda tremente. Ceara se sentou no barro junto a ela, e as duas permaneceram ofegando e olhando-se mutuamente.

—É uma fodida cadela no combate —disse Moira finalmente.

—O mesmo lhes digo, com todo respeito, minha senhora. Agora tenho machucados em cima dos machucados e vultos em cima destas.

Moira se tirou um pouco de barro da cara com o antebraço.

—Não estava descansada —disse.

—Isso verdade, mas também poderia lhes derrotar se o estivessem.

—Acredito que tem razão. Ganhaste o prêmio, Ceara, e em boa lide. Sinto-me orgulhosa de ter sido derrotada por ti.

Ofereceu-lhe a mão e, depois de estreitar-lhe a elevou no ar.

—Aqui está a campeã do combate corpo a corpo.

Houve vivas e abraços à maneira das mulheres. Mas quando Ceara lhe estendeu a mão para ajudá-la a que se levantasse, Moira a rechaçou.

—Ficarei sentada um momento até recuperar o fôlego. Vá procurar seu arco. Disparando não podem me vencer nem você nem ninguém.

—Não poderíamos consegui-lo nem em mil anos. Majestade?

—Sim? Oh, Deus, não poderei me sentar em uma semana —acrescentou, esfregando o quadril dolorido.

—Nunca estive mais orgulhosa de minha rainha.

Moira sorriu para si, logo ficou sentada, fazendo um inventário de seus machucados e dores. Continuando, seu olhar se dirigiu para a bancada onde tinha estado com Cian na noite anterior.

E ali estava ele, de pé em metade da penumbra e a chuva, olhando-a. Ela podia sentir sua força através da distância, a fascinação que exsudava, pensou, como nenhum outro homem.

—O que é o que está olhando? —perguntou-lhe em voz baixa.—Te divertes ver-me com o traseiro no barro? —Provavelmente, decidiu, e quem podia lhe culpar? Imaginou que tinha devotado um bom espetáculo.

—Cedo ou tarde, combateremos você e eu. Então veremos quem vence a quem —resmungou.

Ficou em pé e apertou os dentes para não coxear. De modo que pôde afastar-se erguida e sem voltar a vista para trás.

 

                                   CAPÍTULO 6

Depois de tirar de cima vários quilos de barro, Moira se reuniu com o resto do grupo para uma sessão de estratégia. Entrou no salão nesse ponto pela metade entre a discussão e o raciocínio.

—Não estou dizendo que você não possa dirigi-lo. —O tom de Larkin enquanto se dirigia a Blair tinha adquirido um áspero matiz de impaciência.— Estou dizendo que Hoyt e eu podemos nos encarregar disso.

—E eu estou dizendo que três poderiam fazê-lo mais depressa que dois.

—E o que seria isso? —perguntou Moira.

A resposta lhe chegou de várias fontes e com vozes altissonantes.

—Não consigo entender muito do que dizem. —Elevou uma mão pedindo tranqüilidade enquanto ocupava seu lugar na mesa.— Estão dizendo que vamos enviar a um grupo para que estabeleça uma base próxima ao campo de batalha e que explorem o terreno à medida que avançam?

—Com as primeiras tropas partindo atrás deles pela manhã —disse Hoyt.— Marcamos alguns pontos onde se pode encontrar refúgio. Aqui —prosseguiu, assinalando no mapa que tinham estendido em cima da mesa.— Um dia de marcha para o este. Logo outro, a um dia de marcha do primeiro.

—O fato é que Lilith está entrincheirada aqui. —Blair apoiou o punho sobre o mapa.— Ela aproveitou as melhores posições e instalações. Nós podemos entrecruzar nossas bases, estabelecer uma espécie de linha de frente dentada, mas é necessário que comecemos a mover as tropas, e devemos assegurar bases para elas antes de enviá-las. Não só com o passar do caminho, mas também nos pontos mais adequados perto do vale.

—Em efeito. —Moira estudou o mapa. Pôde ver de que maneira devia funcionar o plano, com saltos de uma posição a outra durante o dia.— Larkin pode cobrir essa distância mais rapidamente que ninguém, estamos de acordo nisso?

—Assim é. Mas se incluirmos a outros dragões...

—Blair, já te hei dito que isso é impossível.

—Dragões? —Moira elevou novamente a mão para silenciar a interrupção de Larkin.— A que te refere?

—Quando Larkin muda de forma pode comunicar-se, ao menos a um nível rudimentar, com aquilo no que se converteu —começou a dizer Blair.

—Sim. E?

—De modo que se ele chamar a outros dragões quando assumir essa forma, por que não poderia convencer a alguns deles para que o seguissem... com cavaleiros?

—Os dragões são criaturas amáveis e pacíficas —a interrompeu Larkin.— Não deveríamos mesclá-los em algo assim, onde poderiam sair machucados.

—Espera, espera. —Com a idéia dando voltas em sua cabeça, Moira se apoiou no respaldo de sua cadeira.— Poderia fazer-se? Vi que algumas pessoas têm um dragão como mascote de vez em quando, mas nunca ouvi que ninguém que monte em um dragão adulto, exceto nos contos. Se pudesse fazer-se, permitiria-nos viajar mais depressa e inclusive de noite. E na batalha... —Moira se interrompeu ao ver a expressão de Larkin.— O sinto, Larkin, de verdade. Mas não podemos nos pôr sentimentais nesta questão. O dragão é um símbolo de Geall, e Geall necessita de seus símbolos. Pedimos ao nosso povo, a nossas mulheres, aos jovens e aos mais velhos, que lutem e se sacrifiquem. Se isso pode fazer-se, devemos fazê-lo.

—Não sei se pode fazer-se.

Moira sabia muito bem quando Larkin estava sendo teimoso como uma mula.

—Pois terá que tentá-lo. Nós amamos também a nossos cavalos, Larkin —lhe recordou Moira.— Entretanto, os levaremos conosco à guerra. Agora, Hoyt, quero que me diga isso sem rodeios, é melhor que Larkin e você vão sozinhos, ou que o façam os três?

Hoyt parecia causar pena.

—Bom, puseste-me entre a espada e a parede, não acha? A Larkin preocupa que Blair não esteja totalmente recuperada do ataque.

—Estou bem para ir a essa missão —insistiu ela, e logo golpeou, não muito brandamente, a Larkin no ombro.— Quer brigar comigo, vaqueiro, e averiguá-lo?

—As costelas ainda lhe doem ao acabar o dia e o ombro ferido ainda o deixa débil.

—Eu te ensinarei o que é estar débil.

—Vamos, vamos, meninos. —Glenna as engenhou para soar frívola e sarcástica.— Eu acredito que Blair está em condições de fazê-lo. Sinto muito, carinho —disse a Larkin— mas não podemos nos permitir mantê-la na lista de inválidos.

—Seria melhor que ela viesse conosco. —Hoyt olhou a Larkin compassivamente.— Com três, não seria necessário estar fora mais de um dia. As primeiras tropas poderiam sair ao amanhecer e avançar até o primeiro posto.

—Isso deixa a três de nós aqui para seguir trabalhando, treinando e nos preparando. —Moira assentiu.— Isso seria o melhor. Larkin, acha que Tynan deveria dirigir essas primeiras tropas?

—Pergunta-o como um bálsamo para meu orgulho ferido ou porque realmente quer saber minha opinião?

—Ambas as coisas.

Moira conseguiu lhe arrancar um sorriso desconfiado.

—Então, sim, Tynan seria o homem indicado para esse trabalho.

—Deveríamos nos pôr em marcha. —Blair passeou o olhar ao redor da mesa.— Com a velocidade que Larkin pode alcançar por ar, podemos ter instalado a primeira base, possivelmente as duas primeiras, antes que caia a noite.

—Levem tudo o que necessitem —lhes disse Moira.— Eu falarei com Tynan e lhe direi que saia ao comando das primeiras tropas ao amanhecer.

—Ela lhes estará esperando. —Cian falou pela primeira vez desde que Moira tinha entrado no salão.— Se Lilith não pensou nesse movimento, um de seus conselheiros o terá feito. Terá soldados postados para lhes interceptar e estender-lhes uma armadilha.

Blair assentiu.

—É o que tinha suposto. Por isso é melhor que sejamos três e cheguemos do ar. Eles não nos agarrarão por surpresa, mas possivelmente nós a eles sim.

—Terão mais possibilidades de consegui-lo se o fazem assim. —Cian se levantou para aproximar-se do mapa e mostrar o que dizia.— Dando um rodeio e chegando à primeira posição pelo oeste ou o norte. Levará mais tempo, é obvio, mas o mais provável é que estejam vigiando em direção ao castelo.

—Bom ponto —reconheceu Blair, e logo franziu o cenho olhando a Larkin.— Hoyt e eu podemos baixar a terra fora de vista desses monstros e enviar a nosso menino para inspecionar a toca. Possivelmente como um pássaro ou algum outro animal do que não suspeitem ao vê-lo por essa zona. Terá que levar provisões extras —acrescentou— tendo em conta a quantidade de combustível que queima cada vez que muda de forma, mas é melhor estarem seguros.

—Que seja algo pequeno —lhe advertiu Cian a Larkin.— Se aparecer como um veado ou qualquer tipo de animal de caça, poderiam te matar por diversão ou para conseguir comida extra. Imagino que já devem estar bastante aborrecidos. Se ali fizer o mesmo tempo que está fazendo aqui, o mais provável é que estejam dentro ou resguardados em alguma parte. Nós não gostamos de estar empapados mais que aos humanos.

—Muito bem, já resolveremos. —Blair se levantou.— Se tiver algum truque que levar na manga —disse a Hoyt—, não se esqueça de incluí-lo.

—Tome cuidado.

Glenna acomodou a capa de Hoyt enquanto se despedia dele às portas do castelo.

—Não deve preocupar-se.

—Vem com o cargo. —Glenna lhe apoiou ambas as mãos no peito enquanto o olhava aos olhos.— Você e eu estivemos juntos desde que começou tudo isto. Eu gostaria de ir contigo.

—Aqui lhe necessitam. —Hoyt tocou a cruz que Glenna levava no pescoço e logo repetiu o gesto com a sua.— Saberá onde estou e como estou. Serão dois dias no máximo. Retornarei a ti.

—Te assegure de que assim seja. —Atraiu-o para si e o beijou larga e intensamente enquanto seu coração se estremecia.— Te amo. Te cuide.

—Amo-te. Deve ser forte. Agora vai pra dentro, se proteja da chuva.

Mas Glenna esperou enquanto Larkin se transformava em um dragão e logo Hoyt e Blair carregavam as armas e os embornais. Esperou a que ambos montassem no lombo do dragão e se elevassem, voando através da cortina de água cinza.

—É duro ser a que espera —disse Moira a suas costas.

—Horrível. —Glenna se voltou e apertou com força a mão de Moira.— De modo que tem que me manter ocupada. Iremos pra dentro e daremos nossa primeira aula. —Ambas se afastaram das portas.— Recorda quando foi a primeira vez que soube que tinha poder?

—Não. Não foi nada definido, como o de Larkin. Ocorria que, às vezes, eu sabia coisas. Onde encontrar algo que se perdeu. Ou onde se escondeu alguém se estávamos jogando. Mas sempre parecia que podia dever-se tanto à boa sorte, ou ao sentido comum, como a qualquer outra coisa.

—Sua mãe também tinha um dom?

—Sim. Mas mais suave, já me entende. Uma espécie de empatia poderia dizer-se. Um dom para cultivar coisas. —Afastou a trança e a jogou para as costas.— Os jardins que rodeiam o castelo são todos obras dela. Se ajudava em um parto ou a um doente, dava-lhes consolo e alívio. Sempre pensei no que ela tinha e o que eu tenho, como uma espécie de magia feminina. Empatia, intuição, cura.

Atravessaram a galeria coberta em direção à escada.

—Mas desde que comecei a trabalhar contigo e com Hoyt, senti-o com maior intensidade. Como uma comoção. Parecia-me que era uma espécie de eco ou um reflexo do poder mais forte que tendes vocês. Logo tomei posse da espada.

—Um talismã ou um condutor —especulou Glenna.— Ou, mais simplesmente, uma chave que abria uma porta que já estava em ti.

Glenna entrou primeiro na habitação onde trabalhavam ela e Hoyt. Não era muito diferente à habitação da torre que tinham na casa da Irlanda. Maior, pensou Moira, e com uma porta em forma de arco que levava a um dos numerosos balcões do castelo.

Mas os aromas eram os mesmos, ervas e cinza, e algo que era uma mescla entre floral e metálico. Havia vários dos cristais de Glenna colocados em mesas e arcas. Moira supôs que era tanto uma questão estética como com fins mágicos.

Havia também terrinas, frascos e livros.

E cruzes —prata, madeira, pedra, cobre— penduradas em cada abertura ao exterior.

—Isto está frio e úmido —comentou Glenna.— Por que não acende o fogo?

—Oh, sim, é obvio.

Mas quando Moira se dirigia para a ampla lareira de pedra, Glenna pôs-se a rir e lhe agarrou a mão.

—Não, assim não. Fogo. É algo elementar, uma das habilidades básicas. Para praticar a magia utilizamos os elementos, a natureza. Respeitamo-los. Acende o fogo daqui, comigo.

—Não saberia como começar.

—Contigo mesma. Mente, coração, estômago, osso e sangue. Visualiza o fogo, suas cores e formas. Sinta seu calor, cheire a fumaça e a turfa ardente. Logo tira isso de sua mente, de seu interior, e ponha na lareira.

Moira fez o que Glenna lhe dizia, e lhe pareceu que algo a percorria sob a pele, embora a turfa permanecesse imóvel e fria.

—Sinto muito.

—Não. Necessita de tempo, energia e concentração. E fé. Recorda quando deu seus primeiros passos, te levantando do chão a agarrar às saias de sua mãe ou aos pés de uma mesa, ou quantas vezes caiu antes de ser capaz de te manter em pé? Dá seu primeiro passo, Moira. Estende a mão direita. Imagina que o fogo se acende dentro de ti, quente, brilhante. Flui para fora, desde seu estômago, através de seu coração, te percorrendo o braço até as pontas dos dedos. Visualiza-o, sente-o. Envia-o aonde deseje.

Era quase um estado hipnótico, a voz tranqüila de Glenna e o aumento de calor em seu interior. Nesses momentos a sensação era mais intensa, debaixo da pele, em cima dela. E uma débil língua de fogo brotou em uma parte de turfa.

—Oh! Foi como um resplendor dentro de minha cabeça. Mas você tem feito a maior parte.

—Só um pouco —a corrigiu Glenna.— Só um pequeno empurrão.

Moira deixou escapar o ar.

—Sinto-me como se tivesse escalado uma montanha.

—Logo te resultará mais fácil.

Moira assentiu enquanto observava como o fogo cobrava força.

—Ensine-me.

 

Ao cabo de duas horas, Moira não só se sentia como se tivesse escalado uma montanha, mas sim como se despencasse por uma... de cabeça. Mas tinha aprendido a flamejar e, de algum jeito, controlar dois dos quatro elementos. Glenna lhe tinha dado uma lista de pequenos conjuros e feitiços para que os praticasse a sós. «Tarefas escolares», assim as tinha chamado Glenna, e a estudiosa que havia em Moira estava ansiosa por aplicar a elas.

Mas havia outras questões das quais devia ocupar-se. Colocou um traje mais formal, colocou-se a coroa de seu cargo na cabeça e foi reunir-se com seu tio para falar de finanças.

As guerras não eram grátis.

—Muitos tiveram que deixar as colheitas sem colher —lhe disse Riddock.— Os rebanhos desatendidos. Alguns deles certamente perderão seus lares.

—Ajudaremos a eles a reconstruí-los. Durante dois anos não haverá impostos nem arrecadações.

—Moira...

—O tesouro poderá suportá-lo, tio. Não posso me sentar sobre ouro e jóias, não importa qual seja sua história, enquanto nosso povo se sacrifica. Primeiro fundirei a coroa real de Geall. Quando o tiver feito, semearei cinqüenta hectares de grão. E outras cinqüenta para pastos. E o que delas se obtenha se devolverá a aqueles que lutaram, às famílias de qualquer um que tenha morrido ou a quem têm se ferido gravemente servindo a Geall.

Riddock se esfregou a dolorida cabeça.

—E como fará para saber quem serviu a Geall e quem se escondeu?

—Acreditaremos neles. Vocês pensam que sou ingênua e compassiva. Talvez o seja. Algo do qual será necessário que seja uma rainha quando tudo isto tenha terminado. Agora, em troca, não posso ser ingênua nem compassiva, e devo pressionar e estimular e pedir a meu povo que siga entregando-se. E peço muito de vocês. Estão aqui enquanto uns desconhecidos convertem seu lar em uns barracões.

—Não é nada.

—É muito, e não será a última coisa que lhes pedirei. Oran parte amanhã.

—Ele falou comigo. —Na voz de Riddock havia uma tintura de inocultável orgulho, embora em seus olhos se percebia a tristeza.— Meu filho mais novo é já um homem, e deve ser um homem.

—Não cabia esperar menos sendo seu filho. E enquanto as tropas começarem a partir, o trabalho aqui deve continuar. Terá que forjar armas e a gente deve ser alimentada e alojada. Treinada. Tem minha autorização para gastar tudo o que seja necessário. Mas... —Moira sorriu brevemente... se algum comerciante ou artesão procurar obter um benefício excessivo de seus produtos, terá uma audiência com a rainha.

Riddock lhe devolveu o sorriso.

—Muito bem. Sua mãe estaria orgulhosa de ti.

—Espero que sim. Penso nela todos os dias. —levantou-se e esse gesto fez que Riddock a imitasse.— Devo ir ver minha tia. Ela foi muito boa ao aceitar representar o papel de proprietária e senhora do castelo durante estas semanas.

—Desfruta-o.

—Maravilha-me que possa fazê-lo. As cozinhas, o tanque, a limpeza, as tarefas de costura. Estaria completamente perdida sem ela.

—Estará encantada de ouvi-lo. Mas me conta que vais falar com ela todos os dias, a percorrer as cozinhas e o tanque. Do mesmo modo que me contam que visitas os ferreiros e aos jovens que estão esculpindo as estacas. E hoje estiveste, além disso, treinando com as outras mulheres.

—Nunca pensei que meu cargo fosse ocioso.

—Não, mas precisa descansar Moira. Tem olheiras.

Disse-se a si mesma que devia pedir a Glenna que lhe ensinasse a fazer um conjuro.

—Já haverá tempo para descansar quando tudo isto tenha terminado.

 

Passou uma hora em companhia de sua tia, repassando as contas e as tarefas domésticas, logo outra falando com alguns dos que levavam a cabo essas tarefas.

Quando se dirigia para o salão com a idéia de tomar uma comida leve e um pouco de chá, ouviu a risada de Cian.

Aliviou-lhe saber que estava com Glenna, mas se perguntou se ela tinha a energia suficiente para vê-lo depois de um dia tão largo.

Surpreendeu-se afastando do salão, e sentiu um leve arrebatamento de cólera. Acaso precisava beber várias taças de vinho para poder estar na mesma habitação que ele? Que tipo de covarde era? Erguendo as costas, entrou no salão, e encontrou a Glenna e a Cian sentados junto ao fogo, desfrutando de frutas e chá.

Ambos pareciam tão cômodos em sua mútua companhia, pensou Moira. Glenna encontrava estranho ou reconfortante que Cian se parecesse tanto a seu irmão? Havia pequenas diferenças, é obvio. Aquela fenda no queixo de Cian que seu irmão não tinha. E seu rosto era mais magro que o de Hoyt, e levava o cabelo mais curto que ele.

E também estavam sua postura e seus movimentos. Cian sempre parecia sentir-se cômodo, e caminhava com uma fluidez quase animal.

Ela gostava de olhá-lo quando se movia, admitiu Moira. Cian sempre a fazia pensar em algo exótico, belo a sua maneira, e deste modo letal.

Sabia que ela estava ali, estava segura. Ainda não tinha visto que nada nem ninguém se aproximasse de Cian sem que ele soubesse. Mas, entretanto seguiu ajeitado no sofá enquanto que a maioria dos homens se teria levantado porque uma mulher —sobre tudo uma rainha— entrava na habitação.

Era como quando encolhia os ombros, pensou. Uma espécie de indiferença deliberada. Esperava não encontrar atrativo também nesse rasgo de sua personalidade.

—Interrompo algo? —perguntou enquanto atravessava a habitação.

—Não. —Glenna se voltou para lhe sorrir.— Pedi suficiente comida para três esperando que tivesse um pouco de tempo. Cian me estava entretendo me contando histórias das façanhas de Hoyt quando era pequeno.

—Senhoras, vos deixo para que desfrutem do chá —disse Cian.

—Não, por favor. —antes que pudesse levantar-se, Glenna o agarrou pelo braço.— Te esforçastes muito para afugentar minhas preocupações.

—Se sabia que estava fazendo isso, é que não me esforcei o suficiente.

—Deste-me uma pausa, e quero que saiba que o aprecio. Agora, se tudo for conforme o planejado, deveriam estar já na base prevista. Preciso jogar uma olhada. —Tinha o pulso firme quando serviu o chá a Moira.— Acredito que seria melhor se todos jogássemos uma olhada.

—Pode lhes ajudar se...? —Moira deixou que a pergunta ficasse em suspense.

—Hoyt não é o único que tem magia na manga. Mas poderei ver com maior claridade e ajudar se for necessário se vocês trabalharem comigo. Sei que tiveste um dia muito comprido, Moira.

—Eles também são minha família.

Glenna assentiu e se levantou.

—Trouxe o que pensei que necessitaríamos. —Tirou sua bola de cristal, alguns cristais menores e umas ervas.

Logo o dispôs tudo sobre a mesa. Continuando, tirou-se a cruz e rodeou a bola de cristal com a corrente.

—Muito bem —disse com tom ligeiro e as mãos sobre a bola de cristal.— Vejamos o que estão fazendo.

 

Chovia em todo Geall, o que lhes tinha feito bastante incômodo a viagem. Os três haviam descrito um amplo círculo até aterrissar aproximadamente a meio quilômetro ao leste da granja que tinham intenção de utilizar como base de operações. Sua localização era excelente, quase a meio caminho entre a terra ocupada por Lilith e o campo de batalha. A hipótese de Cian, de que estariam desdobrados para lhes estender uma emboscada, resultou ser correta.

Blair e Hoyt desmontaram do lombo do dragão e logo procederam a descarregar as armas e os fornecimentos. Ali dispunham de certo amparo, com o muro baixo de pedra que separava os campos e o punhado de árvores dispersas que discorria junto a ele. Nada se movia sob a chuva.

Convertido novamente em homem, Larkin passou ambas as mãos pelo cabelo molhado.

—Um dia de cão. Pudestes ver bem nosso objetivo?

—Uma cabana de dois pisos —respondeu Blair.— Três construções anexas, dois pastos. Ovelhas. Não há fumaça nem sinais de vida, tampouco cavalos. Se estiverem na casa, certamente postaram guardas, provavelmente um par deles em cada cabana. Vigiam por turnos enquanto outros dormem. Necessitam de comida, de modo que devem ter prisioneiros. Ou, se viajarem leves de bagagem e armamento, certamente levam tudo o que necessitam em cantis... quero dizer em peles.

—Poderia me arriscar a jogar uma olhada —disse Hoyt.— Entretanto, se Lilith tiver enviado a alguém com poder, poderia senti-lo, e também nossa presença.

—Seria mais simples que eu me desse uma volta por ali. —Larkin fez uma pausa para lhe dar uma dentada a uma maçã. A comprida viagem lhe tinha aberto o apetite.— Certamente não levantaram um escudo, como têm feito ao redor da base principal. Não esperam apanhar a alguns de nós quando nos aproximarmos, se é que o fazemos.

—Pode ir, mas na forma de animal pequeno —lhe recordou Blair.— Cian tem feito uma boa observação nesse sentido.

—Sim, está bem. —meteu-se uma parte de pão na boca.— Um camundongo é o bastante pequeno, e já deu resultado antes. Demorarei um pouco mais que se tratasse de um lobo ou de um cervo. —tirou-se a cruz que levava a pescoço.— Terá que me guardar isto.

—Odeio esta parte. —Blair agarrou a cruz.— Odeio que entre ali sem um escudo ou uma arma.

—Deve ter um pouco de fé.

Larkin agarrou o queixo de Blair entre os dedos e a beijou nos lábios. Logo retrocedeu uns passos antes de converter-se em um pequeno camundongo de campo.

—Não posso acreditar que tenha beijado isso —murmurou Blair, e logo aferrou com força sua cruz enquanto o camundongo se afastava através da erva.— Agora devemos esperar.

—Será melhor que tomemos precauções. Riscarei um círculo —disse Hoyt

 

Larkin estava perto da primeira construção anexa quando viu o lobo. Era um animal grande e negro, escondido em um matagal de bagos. Não lhe prestou atenção enquanto seus olhos vermelhos examinavam o campo e o caminho que discorria para o oeste. Mesmo assim, Larkin deu uma ampla volta antes de deslizar-se sob a porta.

Era um estábulo simples e havia dois cavalos nas quadras. E dois vampiros sentados no chão, jogando uma partida de jogo de dados.

O camundongo elevou a cabeça com certa surpresa. A Larkin nunca lhe tinha ocorrido que os vampiros jogassem a nada. O lobo, deduziu, era seu sentinela. Um sinal do animal e ambos entrariam em ação. Mas no momento estavam muito concentrados no jogo de dados para reparar em um pequeno camundongo.

No estábulo havia espadas e duas aljavas cheias de flechas. Em um rapto de inspiração, Larkin correu para onde estavam os arcos, apoiados contra uma das quadras, e começou a roer as cordas.

Quando Larkin abandonou o estábulo, um dos vampiros estava amaldiçoando a sorte de seu companheiro.

Encontrou disposições similares em cada uma das construções, com o grosso principal de soldados na cabana. Embora podia cheirar o sangue, não viu nenhum humano. Na cabana, quatro vampiros dormiam no palheiro enquanto outros cinco montavam guarda.

Fez tudo o que podia fazer um camundongo para cometer sabotagem, e logo voltou a sair rapidamente.

Encontrou a Blair e Hoyt onde os tinha deixado, sentados sobre uma manta molhada, dentro de um círculo que brilhava tenuamente.

—Contei quinze deles —lhes disse.— E um lobo. Terá que fazer algo com esse animal se quisermos ter alguma possibilidade de surpreender aos outros.

—Temos que avançar em silêncio então. —Blair agarrou um arco.— E contra o vento. Hoyt, se Larkin pode me dar a posição exata, há alguma possibilidade de que me ajude a vê-lo.

—Posso te dar a posição exata —interveio Larkin antes que Hoyt pudesse lhe responder— porque agora iremos juntos. Ganhaste o primeiro assalto vindo a esta missão, mas não entrará sozinha nesse ninho de vampiros.

—Não, não o fará. De nós três, você é a melhor com o arco, de modo que te encarregará de disparar —disse Hoyt a Blair.— Mas nós protegeremos seu flanco enquanto o faz. Eu farei o que possa para te ajudar a que tenha um tiro limpo.

—Tem sentido discutir que alguém se move mais depressa e mais silenciosamente que três? Não acredito —concluiu Blair, topando-se com um silêncio inflexível.— Nos ponhamos em marcha então.

Tiveram que dar uma ampla volta para manter-se fora de vista e impedir que o vento levasse seu aroma. Mas quando apareceram atrás do lobo, Blair meneou a cabeça.

—Não acredito que possa lhe dar no coração desta distância. Moira possivelmente pudesse, mas eu não sou tão boa como ela. Necessitarei de mais de um disparo.

Pensou-o um momento, tratando de ver qual era a melhor maneira de fazê-lo.

—Você fará o primeiro disparo —sussurrou a Larkin.— Te aproxime tanto como possa. Se retroceder ou se voltar posso lhe alcançar. Um, dois —acrescentou usando os dedos.— Tem que ser rápido, tem que ser silencioso.

Larkin assentiu, tirou uma flecha da aljava e a segurou na corda de seu arco. Para ele era um tiro comprido e o ângulo era escasso.

Mas apontou, respirou profundamente e disparou a flecha. Alcançou ao lobo entre as omoplatas e seu corpo deu um coice. A flecha de Blair deu no alvo exato.

—Bom trabalho —disse, enquanto voavam cinzas e fumaça negra.

Hoyt foi dizer algo, e então a voz de Glenna ressonou em sua cabeça tão nitidamente como se tivesse estado de pé junto a ele.

Atrás de Vocês!

Hoyt se deu a volta rapidamente. Um segundo lobo se equilibrou sobre eles, seu corpo se chocando contra o de Hoyt e lançando-o a terra enquanto caía em cima de Larkin. Homem e lobo lutaram corpo a corpo só durante um instante. Quando Blair havia tocado a espada e Hoyt a sua, o lobo estava rodando sob um urso.

As garras do urso sulcaram o ar e cortaram profundamente o pescoço do lobo. Brotou um jorro de sangue. O urso se derrubou sobre as cinzas negras antes de converter-se novamente em homem.

Blair se deixou cair de joelhos e passou as mãos freneticamente sobre o corpo de Larkin.

—Mordeu-te? Mordeu-te?

—Não. Só uns arranhões aqui e lá. Nenhuma mordida.

—Oh, grande fedor desprende esse animal! —apoiou-se sobre os cotovelos ofegando e olhou sua camisa ensangüentada com uma careta de desgosto.— Me arruinou uma boa túnica de caça. —Olhou a Hoyt.— Está bem?

—Poderia não estar. Foi Glenna. Devia estar vigiando. Ouvi sua voz em minha cabeça. —Hoyt estendeu a mão a Larkin para ajudá-lo a levantar-se.— Se levar essa túnica nos cheirarão de um quilômetro de distância. Necessitará... espera, espera. —E seu sorriso se abriu passo, lenta e sinistra.— Tenho uma idéia.

O lobo negro se escondeu sobre uma figura ensangüentada e,da parte traseira do estábulo, lançou um uivo rouco. Um momento depois, um vampiro armado com uma tocha abriu a porta.

—O que é o que temos aqui? —Olhou por cima do ombro.— Um dos lobos nos trouxe um presente.

Estendido de barriga para baixo, Hoyt deixou escapar um leve gemido.

—Ainda está vivo. Lhe levemos dentro. Não há necessidade de compartilhá-lo com outros, verdade? Poderíamos comer algo fresco, para variar.

Quando o segundo vampiro saiu do estábulo olhou ao lobo com um sorriso.

—Sim, bom cão. Agora teremos...

Antes de acabar a frase, explodiu convertido em uma nuvem de cinza quando Blair lhe cravou a estaca nas costas lhe atravessando o coração. Seu companheiro não teve tempo de levantar a tocha antes que Hoyt saltasse sobre ele e lhe cortasse o pescoço com sua espada.

—Sim, bom cão. —Blair imitou ao vampiro, e fez uma rápida carícia sobre a espessa pele de Larkin.— Eu digo que sigamos com o cavalo vencedor e empreguemos a mesma tática na seguinte cabana.

Em sua segunda incursão, tiveram uns resultados quase idênticos, mas na terceira cabana só um dos vampiros saiu para ver o que ocorria. Pela forma em que olhou sub-repticiamente por cima do ombro para o interior da construção, resultava evidente que sua intenção era ficar para ele sozinho essa comida chegada de forma fortuita. Quando deu a volta a Hoyt, a inesperada comida lhe atravessou o coração com uma estaca.

Blair, fazendo agora gestos com as mãos, indicou que ela entraria primeiro com Hoyt lhe cobrindo as costas. «Rápida e silenciosa», pensou, enquanto se deslizava dentro da cabana. Viu que o outro guarda havia feito um confortável ninho com mantas e estava desfrutando de uma sesta vespertina no que supôs que era um pombal. De fato, estava roncando.

Teve que reprimir meia dúzia de comentários engenhosos que formigavam em sua língua e, simplesmente, acabou com ele enquanto dormia.

Logo deixou escapar ar devagar.

—Não pretendo me queixar, mas isto é quase embaraçoso e um tanto aborrecido.

—Decepciona-te que não devamos lutar por nossas vidas? —perguntou Hoyt.

—Bom, sim. Um pouco.

—Te anime. —Larkin entrou no pombal e estudou a área.— Há nove na cabana grande, ou seja, que nos superam amplamente em número.

—Ah, obrigado, carinho. Sempre sabe o que dizer para me alegrar. —Levantou a tocha que tinha recolhido depois de matar ao primeiro vampiro.— Vamos chutar alguns traseiros.

Arrastando-se por trás de um bebedouro, Blair e Hoyt estudaram a cabana. O estratagema do lobo/homem ferido não funcionaria nesse caso, e a alternativa que concordaram era muito perigosa.

—Larkin já mudou que forma várias vezes —comentou Blair.— Começa a lhe trazer conseqüências.

—Comeu quatro bolos de mel —disse Hoyt.

Blair assentiu, esperando que fosse energia suficiente, enquanto o dragão se posava brandamente sobre o teto de palha. Larkin recuperou sua forma humana e logo desembainhou a espada e tirou a estaca. Fez-lhes um gesto a Blair e Hoyt antes de se desprender do teto para espionar através de uma das janelas do segundo piso.

Ao parecer, pensou Blair, não tinha que transformar-se em um macaco para subir como um deles. Larkin elevou quatro dedos.

—Quatro acima, cinco abaixo. —Blair se escondeu.— Está preparado?

Hoyt e ela se dirigiram rapidamente para ambos os lados da porta da cabana mantendo-se agachados. Tal como tinham convencionado, Blair contou até dez. Logo chutou a porta.

Com a tocha decapitou ao vampiro que tinha a sua direita, logo utilizou a manga para bloquear o golpe de uma espada. Com a extremidade do olho, viu que uma bola de fogo aparecia na mão de Hoyt. Algo gritou.

Larkin e um dos vampiros caíram do feno e golpearam duramente contra o chão. Blair tratou de abrir passo para eles, mas recebeu uma forte patada nas doloridas costelas. A dor e a violência do golpe a lançaram sobre uma mesa, que se rompeu sob seu peso.

Usou a perna estilhaçada da mesa para converter em pó ao vampiro que a tinha atacado. Logo lançou a improvisada estaca e alcançou a outro monstro que se lançava contra Hoyt por trás. Não lhe acertou no coração. Amaldiçoando em voz baixa, levantou-se quase sem fôlego.

Hoyt contra-atacou com uma patada lateral que fez cantar de alegria a seu coração de guerreira. Quando o vampiro caiu, Larkin acabou com ele de um certeiro talho no pescoço.

—Quantos? —gritou Blair.— Quantos?

—Eu acabei com dois —respondeu Hoyt.

—Quatro eu — disse Larkin. Embora sorria, agarrou a Blair pelo braço.— Está mau?

—Não muito bem. Golpearam-me nas costelas. Só pude liquidar a dois deles. Ainda fica um.

—Escapou por uma das janelas de cima. Vem, sente-se, vamos, sente-se. Também te sangra o braço.

—Merda. —olhou-se e viu um corte que não havia sentido antes.— Merda. E te sangra o nariz e também a boca. Hoyt?

—Uns quantos cortes. —aproximou-se coxeando para eles.— Não acredito que devamos nos preocupar muito pelo que conseguiu escapar. Mas farei um feitiço para revogar qualquer convite. Me deixe ver o que posso fazer por seu braço.

—O primeiro feitiço. —Respirando através dos dentes, Blair olhou a Larkin.— Quatro, né?

—Bom, dois deles estavam emparelhando-se e isso tem feito que se distraíssem quando entrei pela janela. De modo que acabei com os dois de um só golpe.

—Talvez deveríamos contá-los como um.

—Oh, não, disso nada. —Larkin acabou de lhe fazer uma bandagem no braço ferido e limpou o sangue que tinha no próprio nariz.— Jesus, morro de fome.

O comentário fez rir a Blair e, apesar da dor que sentia nas costelas, deu-lhe um abraço.

 

—Estão bem. —Glenna deixou escapar um suspiro tremente.— Um pouco golpeados, um pouco ensangüentados, mas estão bem. E a salvo. Sinto muito, sinto muito. Mas observar desta maneira, sem ser capaz de lhes ajudar... Parece-me que vou sofrer um ligeiro ataque de nervos.

Tal como tinha anunciado, Glenna afundou a cara entre as mãos e rompeu a chorar.

 

                                         CAPÍTULO 7

Cian saiu de cena pelo fórum e deixou a Glenna em companhia de Moira. Segundo sua experiência, as mulheres sabem lidar melhor com as lágrimas de outras mulheres. Sua própria reação ante o que tinham visto na bola de cristal não tinha sido medo ou alívio, e sim, simples e pura frustração.

Tinha sido relegado ao papel de espectador enquanto outros lutavam. Instalado comodamente no fodido salão com mulheres e xícaras de chá, como se fosse o venerável avô de alguém.

Embora as sessões de treinamento lhe supunham certo nível de entretenimento, ele não tinha podido desfrutar de uma boa briga desde que abandonaram a Irlanda. E não tinha tido uma mulher desde muito antes disso. Duas maneiras muito satisfatórias de liberar tensão e energia lhe tinham sido negadas... ou ele as estava negando a si mesmo.

Não lhe surpreendia que assim fosse, pensou, quando estava atado com uns nós detestáveis a um par de serenos olhos cinzas.

Podia seduzir a uma das criadas, mas isso suporia um montão de complicações, e provavelmente não merecesse nem o tempo nem o esforço. Tampouco podia lutar contra nenhum dos humanos que tinha ao seu redor, o que era malditamene ruim.

Se saía de caçada, era provável que pudesse assustar ao menos a um par de soldados de Lilith. Mas não podia arriscar-se a sair sob a chuva com a esperança de conseguir uma presa.

Ao menos em sua época, em seu mundo, tinha um trabalho que o mantinha ocupado. É obvio, também mulheres, se é que queria de estar com uma, mas o trabalho o ajudava a passar o tempo. O infinito tempo.

Ao não ter nada disso ao seu alcance, encerrou-se em seu quarto, comeu e dormiu. E sonhou como não o tinha feito em décadas e mais décadas de caçar humanos. O aroma forte e salubre destes saturava o ar, cada vez mais intensamente, até o ponto de que até seus débeis e desenfreados instintos lhe advertiam que se tratava de uma presa. Era um perfume primitivo e sedutor que estimulava a necessidade que sentia no estômago e no sangue.

Tratava-se de uma prostituta que percorria os sórdidos becos de Londres. Jovem, entretanto, e bela apesar de seu ofício, o que lhe fez pensar que provavelmente não levasse muito tempo fazendo a rua. Soube que a moça tinha tido alguns clientes essa noite, porque cheirava a sexo.

Podia ouvir o som de uma música estridente e a risada ébria e áspera que saía de algum pub, assim como o trote do cavalo de uma carruagem que se afastava. Tudo distante, muito distante para que os ouvidos humanos da jovem pudessem percebê-lo. E muito distante para que suas pernas humanas pudessem alcançá-lo correndo, se o tentava.

A moça se apressava através da névoa espessa e amarelada, apurando o passo com nervosos olhares por cima do ombro enquanto ele permitia deliberadamente que ressonassem suas pegadas a suas costas.

O aroma de seu medo lhe resultava embriagador... tão fresco, tão vivo.

Foi muito fácil agarrá-la, cobrir o chiado de sua boca com a mão... os batimentos do coração de animalzinho assustado de seu coração com a outra.

Foi muito divertido ver como seus olhos percorriam seu rosto, jovem e atrativo —a roupa cara e elegante— e sua expressão se voltava tímida, coibida, enquanto ele retirava a mão de sua boca.

—Senhor, assustastes a uma pobre garota. Pensei que fosse um ladrão.

—Nada disso. —O cultivado acento que utilizou contrastava vivamente com o acento vulgar dos baixos recursos de Londres da moça.— Simplesmente procuro um pouco de prazer e estou disposto a pagar o preço que peça.

Com um risinho tolo e um bater de pestanas, ela disse uma cifra que ele sabia que devia ser o dobro de sua tarifa habitual.

—Por esse dinheiro, acredito que deveria me dar muito prazer.

—Lamento lhe pedir dinheiro a um cavalheiro tão fino e atrativo, mas devo ganhar a vida. Tenho um quarto perto daqui.

—Não o necessitaremos.

—Oh! —Ela se pôs-se a rir quando lhe levantou a saia.— Aqui?

Com a mão livre, lhe baixou o sutiã e lhe cobriu o peito. Precisava sentir seu coração, pulsando, pulsando, pulsando. Entrou nela investindo com força, de modo que suas nádegas nuas golpeavam contra a parede de pedra úmida do beco. E viu a surpresa e a comoção em seus olhos ao descobrir que ele podia lhe dar prazer.

O batimento do coração debaixo de sua mão se acelerou e a respiração da moça se agitou, brotando de seus lábios entre gemidos e ofegos.

Ele deixou que alcançasse o clímax —um pequeno gesto— e permitiu também que seus olhos sonolentos e aturdidos se encontrassem com os seus antes de exibir as presas.

A moça gritou, um som breve e agudo que ele interrompeu quando afundou os dentes em seu pescoço. O corpo dela se agitou violentamente, lhe provocando um orgasmo muito satisfatório enquanto se alimentava de seu sangue. Enquanto matava. Os batimentos do coração sob sua mão se foram voltando mais lentos, mais silenciosos, até que cessaram.

Saciado e satisfeito, deixou-a no beco com os ratos, e o dinheiro que lhe tinha pedido arrojado com indiferença junto a seu corpo imóvel. Logo se afastou até ser engolido pela névoa densa e amarelada.

Despertou no momento presente lançando uma maldição. O sonho lhe tinha despertado apetites e paixões longamente reprimidos. Quase tinha podido saborear o sangue da moça na boca, quase tinha podido cheirar sua rica fragrância. Na escuridão, seu corpo tremeu ligeiramente, um viciado com síndrome de abstinência; de modo que se obrigou a levantar-se da cama e beber aquilo que se permitia a si mesmo em lugar do sangue humano.

Isso nunca te satisfará. Nunca te encherá. Por que segue lutando contra o que é?

—Lilith —pronunciou o nome fracamente. Reconheceu a voz em sua cabeça e compreendeu quem e o que tinha criado esse sonho em sua mente. Era sequer uma de suas lembranças? Agora que estava mais tranqüilo lhe parecia falso, como se fosse uma peça de teatro com a qual tivesse tropeçado acidentalmente. Entretanto, ele tinha matado sua porção de prostitutas nos becos. Tinha matado a tantas, quem podia recordar os detalhes?

Lilith brilhou na escuridão. Os diamantes refulgiam em seu pescoço, nas orelhas, nos pulsos, inclusive em sua frondosa cabeleira. Levava um vestido azul adornado com a marta cibelina, e um decote pronunciado que destacava as generosas turgidezes de seus peitos.

Tomou algo de trabalho com seu vestido e aparência, pensou Cian, para aquela visita ilusória.

—Aqui está meu bonito moço —murmurou ela.— Mas parece tenso e cansado. Não me surpreende, tendo em conta o que estiveste fazendo. —Agitou o dedo com gesto zombador.— Menino travesso. Mas é minha culpa. Não pude estar a seu lado durante os anos de sua formação e te dobrou como um ramo.

—Você me abandonou —assinalou ele. Embora não as necessitasse, acendeu algumas velas. Logo se serviu um copo de uísque.— Me matou, transformou-me em um dos teus, lançou-me contra meu próprio irmão e logo me deixou ferido gravemente ao pé dos escarpados.

—Onde permitiu que seu irmão te arrojasse. Mas foi jovem e imprudente. O que podia fazer eu? —baixou-se ainda mais o decote para que ele pudesse ver a cicatriz em forma pentagonal que tinha no peito.— Ele me queimou. Marcou-me. Eu não era boa para ti.

—E depois? Os dias e meses e anos depois daquilo? —Era estranho, pensou, estranho dar-se conta de que albergava esse ressentimento, inclusive essa ferida, enterrada dentro dele. Como um menino desprezado por sua mãe.— Você me fez, Lilith, pariu-me, e logo me deixou com menos sentimento com o que uma gata de rua abandona a um gatinho disforme.

—Tem razão, tem razão. Não lhe posso discutir isso —Começou a passear pela habitação com um andar majestoso e indolente que fez que suas saias roçassem a mesa.— Fui descuidada contigo, meu querido moço. E descarreguei sobre ti a ira que sentia por seu irmão. Envergonho-me disso!

Seus belos olhos azuis pestanejaram com alegria e a curva de seus lábios era encantadoramente feminina.

—Mas você conseguiu arrumar isso tão bem sozinho... a princípio. Imagina qual foi minha surpresa quando Lora me confirmou que os rumores que eu tinha ouvido eram certos e que tinha deixado de caçar. Ah, por certo, ela te envia suas saudações.

—De verdade? Imagino que neste momento, sua cara deve ser algo digno de contemplar.

O sorriso de Lilith se desvaneceu e em seus olhos apareceu um indício de vermelho.

—Cuide de sua língua, ou quando chegar o momento não será somente a essa fodida assassina de vampiros a quem lhe arranque a pele a tiras.

—Achas que pode fazê-lo? —acomodou-se na poltrona com o copo de uísque na mão.— Apostaria contigo, mas não estaria em condições de me pagar já que, ao final desta história, não será mais que um montão de cinzas.

—Vi o final desta história, na fumaça. —aproximou-se dele e se inclinou sobre a poltrona... tão real que quase podia cheirá-la.— Este mundo arderá. Não terei nenhuma necessidade dele. Cada humano desta estúpida ilha será massacrado, gritará e se afogará em seu próprio sangue. Seu irmão e seu círculo morrerão da forma mais horrível. Vi-o.

—Seu mago dificilmente poderia te mostrar outra coisa —replicou Cian encolhendo-se de ombros.— Sempre foi tão crédula?

—Ele me mostra a verdade! —Lilith se afastou, e sua saia descreveu um furioso arco.— Por que insiste nesta aventura que está condenada ao fracasso? Por que se opõe a quem te concedeu o mais prezado dos dons? Vim aqui a te oferecer uma trégua, um acordo privado e pessoal, só entre você e eu. Te afaste disto, querido, e terá não só meu perdão, mas também um lugar a meu lado quando chegar o dia. Tudo aquilo que deseja e negaste a ti mesmo, colocarei aos seus pés... como amostra de arrependimento por te haver abandonado quando mais me necessitava.

—Ou seja, que retorne a meu tempo, a meu mundo e tudo está perdoado?

—Tem minha palavra. Mas te darei mais, muito mais, se vier para mim. A mim. —Lilith ronronou como uma gata, ao tempo que amassava seus peitos com as mãos.— Recorda o que compartilhamos aquela noite? A faísca, o calor?

Cian a olhou enquanto ela se acariciava o corpo, branco sobre vermelho.

—Recordo-o muito bem.

—Podemos voltar a ter isso, e mais. Será um príncipe em minha corte. E um general, ao comando de exércitos em lugar de caminhar pela lama com os humanos. Terá o melhor dos mundos e todos seus prazeres. Uma eternidade de desejos satisfeitos.

—Lembro que em uma ocasião me prometeu algo parecido. Então estava sozinho, destroçado e perdido, com a terra da tumba apenas retirada de meu corpo.

—E agora o cumprirei. Vem comigo. Aqui não há lugar para ti, Cian. Você deve estar com os de sua própria espécie.

—Interessante. —Fez tamborilar os dedos no flanco do copo.— Ou seja, que a única coisa que tenho que fazer é aceitar sua palavra de que me recompensará em lugar de me torturar antes de acabar comigo.

—Por que teria que destruir minha própria criação? —respondeu ela com tom razoável.— Alguém que demonstrou ser um valente guerreiro?

—Por despeito, é obvio, e porque sua palavra é tão ilusória como sua presença aqui. Mas eu te darei minha palavra em uma questão vital, Lilith, e minha palavra é tão dura e brilhante como esses diamantes que leva. Serei eu quem vai atrás de ti. Serei eu quem o vou.

Agarrou uma faca e se fez um corte na palma da mão.

—Juro-lhe isso por meu sangue. Meu rosto será a última coisa que verão seus olhos.

A fúria esticou as feições de Lilith.

—Condenaste a ti mesmo.

—Não —murmurou Cian quando a imagem se desvaneceu.— Você me condenou.

Era noite fechada e já não seguiria dormindo. Ao menos, a essa hora, podia vagar por onde gostasse sem topar-se com criados, cortesãos ou guardas. Esse dia já tinha tido suficiente companhia, tanto de vampiros como de humanos. Mesmo assim, necessitava de distração, movimento, algo que o ajudasse a eliminar os amargos restos do sonho e a visita que o tinha seguido.

Admirou a arquitetura do castelo com mais interesse de que houvesse sentido quando estava vivo. Parecia tirado de um livro de contos, fantástico por dentro e por fora, pensou; com as luzes cambiantes das tochas elevando-se desde seus adornos de parede em forma de dragão, as tapeçarias com imagens de fadas e confie, o mármore gentil brilhando como uma jóia.

Não tinha sido construído como uma fortaleza, é obvio, mas sim, mas como um lar esplêndido e luxuoso. Digno sem dúvida de uma rainha. Até a chegada de Lilith, Geall tinha existido em paz e, desse modo, tinha podido concentrar suas energias e talentos na arte e na cultura.

No meio do silêncio e a escuridão, Cian podia levar seu tempo para estudar e admirar as manifestações dessa arte: as pinturas e as tapeçarias, os murais e as talhas. Podia vagar pelos corredores escuros com o perfume das flores de estufa adoçando o ar ou entrar na biblioteca para examinar as altas estantes.

Do momento de sua criação, Geall tinha sido mais um lugar para a arte, os livros e a música que para a guerra e as armas. Que apropriado, que arrepiante, que tanto deuses como demônios tivessem escolhido esse lugar para enfrentar-se em uma sangrenta guerra.

A biblioteca, como Moira tinha assinalado quando se apaixonou pela que ele tinha na Irlanda, era uma silenciosa catedral de livros.

Cian já tinha passado parte de seu tempo com alguns deles, e se havia sentido interessado e de uma vez surpreso pelo fato de que as histórias que tinha encontrado ali não fossem tão diferentes das que tinham sido escritas em sua própria época. Seria capaz Geall, se sobrevivia, de produzir seus próprios Shakespeare, Yeats, Austen? Atravessaria sua arte períodos de renascimento até oferecer sua versão de Monet e Degas?

Um pensamento fascinante.

Mas no momento, estava muito inquieto, muito intranqüilo para sentar-se com um livro entre as mãos, de modo que continuou seu percurso. Havia habitações que ainda não tinha explorado e, de noite, podia ir ali onde gostasse.

Enquanto caminhava através das sombras, a chuva seguia tamborilando fora brandamente. Atravessou uma estadia que supôs que tinha sido uma espécie de salão e agora servia como depósito de armas. Levantou uma espada, comprovando seu peso, seu equilíbrio, seu fio. Possivelmente os artesãos de Geall se dedicaram antes às artes, mas certamente, sabiam muito bem como forjar uma espada. O tempo se encarregaria de dizer se era suficiente. Sem um rumo definido, voltou-se e entrou no que viu que era uma sala de música.

Em uma esquina, repousava com elegância uma harpa dourada. Um parente menor, com forma de uma harpa tradicional irlandesa, ocupava um cavalete a seu lado. Também havia um monocórdio —um cedo antepassado do piano— cuja caixa de ressonância estava belamente esculpida. Pulsou uma corda ociosamente e gostou de seu som, claro e afinado.

Um pouco mais à frente, descansava uma sanfona, e quando fez girar o mastro e deslizou o arco sobre as cordas, o instrumento cantou com a música lastimosa de uma gaita de fole.

Havia alaúdes e gaitas de fole, todos belamente construídos. Os assentos eram cômodos e a lareira era feita com o mármore local. Uma formosa sala, pensou, para os músicos e para todos os que apreciassem essa arte.

Então viu outro instrumento. Elevou-o. Seu corpo era maior que o do violino ao que daria origem e tinha cinco cordas. Quando esses instrumentos tinham sido populares, ele não tinha mostrado nenhum interesse por eles. Não, o seu tinha sido matar prostitutas nos becos. Mas quando um homem tem toda a eternidade pela frente necessita de passatempos e ocupações, e dispõe de anos para aprender.

Sentou-se com o instrumento sobre o colo e começou a tocar.

Tudo voltou para ele, as notas, os sons; e o tranqüilizaram, como se diz que a música pode fazê-lo. Com a chuva como acompanhamento, deixou-se levar pela música e flutuou à deriva com seus lamentos.

Em outras circunstâncias, jamais teria podido aproximar-se de Cian sem que ele o advertisse. Enquanto levava a cabo suas próprias vagabundagens pelo castelo, tinha ouvido o cometido soluço da música. E a tinha seguido como uma criança segue a um flautista; quando o viu ficou no vão da porta, assombrada e encantada. «Ou seja, que este é seu aspecto quando está realmente sereno e não está fingindo está-lo», pensou Moira. Assim deveu ter sido antes que Lilith o levasse, um pouco sonhador, um pouco triste, um pouco perdido.

Tudo o que se havia agitado e despertado por ele em seu interior pareceu unir-se dentro de seu coração quando o viu sem sua máscara. Sentado sozinho, procurando o consolo da música. Nesse momento, desejou ter a habilidade de Glenna com as pinturas ou o giz para poder desenhá-lo tal como o via. Como muito poucos, estava segura, tinham-no visto.

Tinha os olhos fechados, sua expressão parecia apanhada em um brumoso intermédio entre a melancolia e a satisfação. Quaisquer que fossem seus pensamentos, seus dedos, compridos e finos, eram hábeis sobre as cordas, extraindo do instrumento uma música nostálgica.

Então, a música cessou tão abruptamente que Moira deixou escapar um leve protesto ao tempo que avançava com seu vela.

—Oh, continue tocando, por favor, queres? Era uma melodia linda.

Cian teria preferido que ela se aproximasse com uma adaga na mão em lugar de com aquele sorriso inocente e ansioso. Só levava posta a bata de noite, tão branca e pura, com o cabelo solto, caindo como chuva sobre os ombros. A luz da vela oscilava ante seu rosto, envolvendo-a em mistério e fantasia.

—Os chãos estão frios para caminhar descalça —foi a única coisa que disse ele, e se levantou para deixar o instrumento onde estava.

A expressão sonhadora tinha desaparecido de seus olhos, de modo que seu olhar voltava a ser frio. Moira, frustrada, deixou a vela.

—São meus pés afinal de contas. Nunca há dito que sabias tocar um instrumento.

—Há muitas coisas que nunca hei dito.

—Eu não tenho nenhuma aptidão para isso, para desespero de minha mãe e de todos os professores que contratou para que me ensinassem música. Qualquer instrumento que caía em minhas mãos acabava soando como um gato que pisaram na cauda.

Moira se aproximou do que ele tinha estado tocando e deslizou os dedos por cima das cordas.

—Em suas mãos parecia magia.

—Tive mais anos dos que você tem para aprender tudo aquilo que me interessava. Muitas vezes mais anos.

Ela elevou a vista para olhá-lo aos olhos.

—É verdade, mas o tempo não reduz a capacidade artística,verdade? Você tem um dom, assim, por que não aceitar um elogio com um pouco de elegância?

—Majestade —se inclinou profundamente fazendo uma reverência—, honram meus pobres esforços.

—Oh, e uma merda —replicou ela, e provocou uma risada afogada em Cian.— Não sei por que sempre procura algum modo de me insultar.

—Um homem deve ter alguma diversão. E agora, boa noite.

—Por que? Este é seu tempo, verdade? E não vai à cama. E eu não posso dormir. Algo frio... —abraçou-se os cotovelos e se estremeceu—, algo frio que havia no ar me despertou. —Pôde ver uma leve mudança em seus olhos porque o estava olhando.— O que? O que é que sabe? Ocorreu algo? Larkin?

—Não tem nada a ver com isso. Que eu saiba, tanto Larkin como os outros estão bem.

—E o que é então?

Cian refletiu um momento. Seu desejo pessoal de afastar-se dela não podia importar mais que o que devia saber.

—Aqui faz muito frio para as confissões noturnas.

—Então acenderei o fogo. —dirigiu-se por volta da lareira e agarrou o isqueiro.— Naquele armário sempre há uísque. Eu também beberei um pouco.

Não teve necessidade de olhá-lo para saber que Cian tinha arqueado uma sobrancelha, um claro gesto de sarcasmo, antes de cruzar a habitação para o armário.

—Acaso sua mãe alguma vez te ensinou que se consideraria indecoroso que compartilhasse um uísque junto ao fogo a sós com um homem, muito mais com alguém que nem sequer é um homem, em plena noite?

—O decoro não é uma preocupação imediata para mim. —agachou-se um momento para assegurar-se de que a turfa tinha acendido. Logo se levantou para ir sentar-se em uma poltrona e estendeu a mão para receber o uísque.— Obrigada. —Bebeu um gole.— Algo ocorreu esta noite. Se concernir a Geall, preciso sabê-lo.

—Concerne a mim.

—Era algo relacionado com Lilith. Pensei que se tratava só de meus temores, que me assaltavam enquanto dormia, mas era mais que isso. Uma vez sonhei com ela e era algo mais que um sonho. Você despertou dele. E depois tinha sido muito amável com ela, recordou. Distante, mas amável.

—Foi algo parecido —continuou dizendo Moira—, mas não estava sonhando. Só hei sentido... —interrompeu-se e abriu muito os olhos.— Não, não só o hei sentido. Ouvi-te. Ouvi que falava. Sua voz ressonou em minha cabeça e era fria. «Serei eu quem o faça.» Ouvi-te dizer essas palavras com absoluta claridade. Quando me despertei, pensei que morreria se me falasse com essa frieza.

E se havia sentido empurrada a sair da cama, pensou. E tinha seguido o rastro da música até ele.

—Quem era?

Mais tarde, decidiu Cian, trataria de descobrir como podia Moira ouvi-lo, ou sentir algo em respeito a ele em seus sonhos.

—Lilith.

—Sim. —Com os olhos fixos no fogo, Moira se esfregou os braços com as mãos.— Sabia. Havia algo escuro nesse frio. Não foi você.

—Como pode estar segura?

—Você tem um matiz... diferente —explicou ela.— Lilith é negra. Densa como o breu. Você, bom, não é brilhante. É cinza e azul. Em ti há penumbra.

—O que é isto, um assunto de aura?

A tênue burla de seu tom de voz fez que a Moira subisse pelo pescoço uma quebra de onda de calor.

—Trata-se da forma em que vejo algumas vezes. Glenna me disse que persistisse nisso. Ela é vermelho e dourado, como seu cabelo... se te interessar. Era um sonho? Lilith?

—Não. Embora me enviou um sonho que pode ser que seja uma lembrança. De uma prostituta com quem fodi e a quem matei entre o lixo de um beco de Londres. —A forma em que levantou seu copo e bebeu um gole de uísque foi um calculado sublinhado de suas palavras.— E se não foi essa prostituta em particular, fodi e assassinei a muitas outras, de modo que não tem muita importância.

O olhar de Moira não se afastou em nenhum momento de seus olhos.

—Pensa que isso me escandaliza. Ao dizê-lo, e fazê-lo dessa forma, tenta instalar crueldade entre nós.

—Há muita crueldade entre nós.

—O que fez antes daquela noite no clarão do bosque na Irlanda, quando me salvou a vida pela primeira vez, não está entre nós. Está atrás de ti. Achas que sou tão imatura e ingênua que não sei que teria todo tipo de mulheres e que mataste a todo tipo delas também? Ao trazê-las para o presente, não faz mais que insultar a mim e às mulheres com as quais estiveste.

—Não te entendo.

E ele habitualmente tratava de desentranhar aquilo que não entendia. O conhecimento era outra classe de sobrevivência.

—Certamente não é minha culpa, não achas? Eu sempre fui clara na maioria das questões. Se Lilith te enviou esse sonho, verdadeiro ou não, foi para te inquietar.

—Me inquietar —repetiu Cian e se aproximou do fogo.— É a mais estranha das criaturas. O sonho me excitou. E me desconcertou, a falta de um termo melhor. Esse era o propósito de Lilith, e não cabe dúvida de que teve êxito.

—E uma vez conseguido seu propósito, alcançada uma parte vulnerável de ti, apresentou-se como uma aparição. O mesmo que fez Lora com Blair.

Cian se voltou, sustentando o copo de uísque frouxamente na mão.

—Obtive uma desculpa, com vários séculos de atraso, por seu abandono quando só tinha acontecido uns dias desde minha transformação e estive a ponto de morrer por que Hoyt me lançou de um escarpado.

—Talvez o atraso seja algo relativo, considerando a duração de sua existência.

Agora Cian pôs-se a rir a gargalhadas sem poder-se conter. Era uma risada rápida e rica e cheia de reconhecimento.

—Sim, a mais estranha das criaturas, com um agudo engenho enterrado em alguma parte. Lilith me ofereceu um trato. Interessa-te conhecer seus termos?

—Sim, interessa-me e muito.

—Só tenho que me afastar de tudo isto. De ti e dos outros, e do que acontecerá em Samhain. Se o fizer, Lilith dará por terminadas todas as nossas diferenças. Melhor ainda, se me afastar de vocês e passar ao seu bando, serei generosamente recompensado. Tudo o que possa desejar e um lugar ao seu lado. A sua cama também. E todas as mulheres que possa levar a minha.

Moira franziu os lábios e logo bebeu outro gole de uísque.

—Se acha isso, então é mais imaturo do que você me considera.

—Nunca fui tão imaturo como você.

—Não? Bom, quem dos dois foi o bastante para jogar com um vampiro e permitir que lhe cravasse as presas?

—Vá. Bom argumento. Mas você nunca foi um moço luxurioso.

—Porque as mulheres, é obvio, não temos nenhum interesse pelas questões carnais. Nós preferimos nos sentar com nossos bordados e nossas rezas.

Cian se fechou antes de menear a cabeça.

—Outro bom argumento. Em qualquer caso, não sendo já um moço luxurioso e sem que fique uma só folha verde, sou totalmente consciente de que Lilith me encerraria e me torturaria. Conservaria-me com vida... para sempre. E com uma dor indescritível.

Cian considerou a situação, com os pensamentos estimulados por sua breve discussão com Moira.

—Ou, mais provavelmente, ela manteria sua palavra, quanto ao sexo e outras recompensas, durante todo o tempo que lhe conviesse. Sabe que eu lhe resultaria útil, ao menos até o Samhain.

Moira assentiu.

—Lilith se deitaria contigo, encheria-te de presentes, daria-te posição e categoria. Logo, quando tudo tivesse terminado, encerraria-te e submeteria a toda classe de torturas.

—Exato. Mas não tenho intenção de permitir que me torturem por toda a eternidade, ou de servir a seus propósitos. Lilith matou a um bom homem por quem eu sentia afeto. Embora só fosse por isso, o devo ao King.

—Lilith certamente não deve ter se sentido contente com sua negativa.

Cian a olhou com expressão imperturbável.

—Esta noite é a rainha do entendimento.

—Então me permita que seja também a rainha da intuição e diga que sua resposta a Lilith foi que sua missão seria destruí-la.

—Jurei-o por meu próprio sangue. Dramático —disse, olhando a ferida quase curada na palma de sua mão.— Mas me sentia histriônico.

—Você não lhe leva a sério, mas eu o encontro revelador. Precisa matá-la com suas próprias mãos mais do que é capaz de reconhecer. Ela não o entende, e você tampouco. Necessita sua morte não só como justo castigo e sim para fechar uma porta. —Quando ele não respondeu, Moira elevou a cabeça.— Acha que é estranho que eu possa te entender melhor que ela? Te conhecer melhor do que Lilith pode fazê-lo?

—Acredito que sua mente sempre está trabalhando —respondeu ele.—Quase posso ouvir girar as engrenagens. Não me surpreende que não possa conciliar o sono nestes dias, com tudo esse fodido ruído que deve haver dentro de sua cabeça.

—Tenho medo. —Os olhos de Cian se estreitaram ao olhá-la, mas ela desviou o olhar.— Medo de morrer antes de ter vivido realmente. Medo de falhar a meu povo, a minha família, a ti e aos outros. Quando sinto esse frio e essa escuridão, como me aconteceu esta noite, sei o que será Geall se Lilith triunfar nesta guerra. Um enorme espaço, queimado, desentranhado, vazio e negro. E só o feito de pensá-lo me aterra até me impedir de conciliar o sono.

—Então a resposta tem que ser que Lilith não pode ganhar.

—Sim. Essa deve ser a resposta. —Moira deixou o copo de uísque.— Deve dizer a Glenna o que me explicaste. Acredito que será mais difícil achar as respostas que necessitamos se houver segredos entre nós.

—Se não o conto eu, o fará você.

—É obvio. Mas deveria ouvi-lo de ti. É bem-vindo a tocar qualquer instrumento que goste de quando quiser fazê-lo. Ou pode levar isso ao seu quarto, se prefere desfrutar da música em privado.

—Obrigado.

Moira sorriu ligeiramente enquanto se levantava.

—Acredito que agora poderia dormir umas horas. Boa noite.

Cian ficou onde estava enquanto Moira recuperava seu vela e abandonava a sala de música. E assim permaneceu várias horas mais, na sala iluminada pela luz do fogo.

Ao amanhecer, chuvoso e rude, Moira estava junto a Tynan enquanto ele e as tropas escolhidas se preparavam para a marcha.

—Será uma marcha passada por água.

Tynan lhe sorriu.

—A chuva é boa para a alma.

—Então nossas almas devem estar muito saudáveis depois destes últimos dias. Podem mover-se sob a chuva, Tynan.—Apoiou os dedos levemente sobre a cruz que ele levava pintada sobre o peitilho de sua armadura.— Me pergunto se deveríamos esperar até que estie antes que comecem esta viagem.

Tynan meneou a cabeça e olhou além da Moira, a seus soldados.

—Minha senhora, os homens estão preparados. Preparados até o ponto de que qualquer atraso afetará a sua moral e lhes roerá os nervos. Necessitam de ação, embora só seja um comprido dia de marcha sob a chuva. Treinamo-nos para lutar —continuou antes que ela pudesse lhe responder.— Se alguém vier a enfrentar-se conosco, estaremos preparados.

—Confio em que o estarão. —Tinha que confiar nisso. Se não o fazia com Tynan, a quem conhecia de toda a vida, com quem o faria?.— Larkin e os outros lhes estarão esperando. Espero sua volta pouco depois de que se pôs o sol com a confirmação de que chegastes sem problemas e ocupastes o posto.

—Podem contar com isso, e comigo, minha senhora.

Tynan lhe agarrou ambas as mãos. Porque eram amigos, e porque ele era o primeiro a quem ela enviava longe do castelo, elevou-se nas pontas dos pés para lhe beijar.

—Conto com isso. —Apertou-lhe os dedos.— Mantenha aos meus primos afastados dos problemas.

—Isso, minha senhora, pode escapar a minha capacidade. —Seu olhar se separou de seu rosto.— Lorde. Senhora.

Com suas mãos ainda entre as de Tynan, Moira se voltou para Cian e Glenna.

—Um dia chuvoso para viajar —comentou Cian.— É provável que tenham postados em alguns de seus soldados com o passar do caminho para que façam um pouco de exercício.

—Isso é o que esperam os homens. —Tynan olhou para onde esperava perto de uma centena de homens despedindo-se de seus familiares e namoradas, logo se voltou para olhar a Cian.— Estamos preparados?

—São adequados.

Antes que Moira pudesse responder ao insulto, Tynan se pôs-se a rir ruidosamente.

—É um grande elogio vindo de você —disse, e estreitou a mão de Cian.— Obrigado pelas horas e os machucados.

—Façam um bom uso delas. Slán leat[3].

—Slán agat[4]. —Lançou a Glenna um olhar arrogante enquanto montava.— Lhe devolverei a seu homem, senhora.

—Não o esqueça. Bendito seja, Tynan.

—Em seu nome, majestade —disse a Moira, e logo fez girar a seu cavalo.— Se alinhem!

Moira observou enquanto os homens formavam filas. E olhou como seu primo Oran e outros dois oficiais se afastavam a cavalo sob a chuva, ao comando de seus soldados de infantaria; o primeiro contingente que partia para a guerra.

—Já começa —sussurrou ela.— Que os deuses os protejam.

—Será melhor que eles sejam quem se protejam a si mesmos—respondeu Cian.

E permaneceu imóvel junto à Moira até que o primeiro batalhão do exército de Geall se perdeu de vista.

 

                                 CAPÍTULO 8

Glenna franziu o cenho por cima de sua xícara de chá enquanto Cian, com o estímulo de Moira, relatava seu interlúdio com Lilith. Os três tinham decidido tomar o café da manhã em privado.

—É similar ao que aconteceu com Blair, e a mim em Nova Iorque. Esperava que Hoyt e eu tivéssemos podido bloquear esse tipo de coisas.

—Possivelmente o tenham conseguido com humanos —disse Cian.— Pode ser que de vampiro a vampiro seja algo completamente diferente. Em especial...

—Quando quem intervém é o criador. —Glenna acabou a frase por ele.— Sim, entendo-o. Mesmo assim, teria que haver alguma forma de deixá-la fora.

—Não vale a pena que gaste seu tempo e suas energias nisso. Não é um problema para mim.

—Isso diz, mas te perturba.

Cian olhou a Moira.

—«Perturbar» é uma palavra muito forte. Em qualquer caso, Lilith partiu, poderíamos dizer que de péssimo humor.

—Algo bom se pode deduzir de tudo isto —continuou Glenna.— O fato de que Lilith tenha vindo a ver-te, tratando de chegar a um acordo contigo, indica que não deve estar tão segura como gostaria.

—Ao contrário, ela está absolutamente convencida de que ganhará. Seu mago se encarregou de mostrar-lhe.

—Midir? Ontem à noite não disse nada disso —interveio Moira.

—Não surgiu o tema —replicou Cian tranqüilamente. —Em realidade, tinha pensado muito nisso antes de decidir se devia contá-lo.— Ela afirma que Midir lhe mostrou sua vitória e, em minha opinião, Lilith está convencida de que assim será. Sejam quais sejam as baixas que até agora lhe tenhamos causado, têm pouca importância para ela. Contratempos momentâneos, bofetadas no orgulho. Nada mais.

—Nós construímos o destino com cada oportunidade, com cada escolha. —Moira sustentou o olhar de Cian.— Esta guerra não está ganha até que não tenha sido ganha, por ela ou por nós. Seu mago não tem feito mais que lhe dizer, lhe mostrar, o que ela quer ouvir, o que quer ver.

—Estou de acordo com a Moira —disse Glenna.— De que outro modo, se não, ia conservar sua pele?

—Não direi que estão equivocadas nenhuma das duas. —Encolhendo-se de ombros como nele era habitual, Cian agarrou uma pêra.— Esse tipo de certeza absoluta pode ser uma arma muito perigosa. E as armas podem voltar-se contra quem as sustenta. Quanto mais profundo cravemos debaixo da pele de Lilith, mais imprudente pode voltar-se.

—E o que podemos utilizar a modo de agulha? —perguntou Moira.

—Estou trabalhando nisso —respondeu Cian.

—Eu tenho algo que poderia funcionar. —Glenna entreabriu os olhos enquanto removia o chá.— Se seu Midir pode abrir a porta para que ela entre em sua cabeça, Cian, eu também posso fazê-lo. Pergunto-me se Lilith gostaria de receber uma visita.

Cian se apoiou no respaldo de sua poltrona e mordeu a pêra.

—Vá, é uma garota inteligente.

—Sim, sou. Necessitarei de ti. A ambos. Por que não acabamos o café da manhã com um pequeno e agradável feitiço?

Não era pequeno nem tampouco agradável. Glenna levou mais de uma hora para preparar seus utensílios e ingredientes. Moeu fluorita e turquesa e as deixou a um lado. Juntou ancião e azevinho e raminhos de tomilho. Marcou velas com amarelo ou arroxeado. Logo acendeu o fogo debaixo de seu caldeirão.

—Estes ingredientes vêm da terra, e agora se mesclarão com a água. —Começou a jogar os ingredientes dentro do caldeirão.— Para palavras sonhadoras, para a visão, para a memória. Moira, poderia colocar as velas formando um círculo ao redor do caldeirão?

Ela continuou trabalhando enquanto Moira fazia o que lhe tinha indicado.

—De fato, estive pensando nisto desde o que aconteceu a Blair. Estive tratando de resolver como fazê-lo.

—Ela te sacudiu com dureza cada vez que utilizaste a magia para jogar uma olhada dentro de suas bases —lhe recordou Cian.— De modo que deve estar segura do que faz. Eu não gostaria que Hoyt tentasse me lançar outra vez do topo de um escarpado por permitir que algo te acontecesse.   

—Não serei eu... ao menos não em primeira linha. —Glenna jogou o cabelo para trás ao tempo que o olhava fixamente.— Será você.

—Vá, isso é perfeito.

—É uma decisão arriscada, assim é você quem deve estar seguro.

—Bom, trata-se de todo esse negócios dos instintos e da glória, não? —aproximou-se de jogar uma olhada dentro do caldeirão.— E o que é que devo fazer?

—A princípio, só observar. Se decides estabelecer contato... dependerá só de ti. E necessito que me dê sua palavra de que romperá o contato se as coisas ficarem feias. De outro modo, traremos-lhe de volta... e não será uma experiência agradável. É provável que sofra a mãe de todas as enxaquecas e umas incontáveis náuseas.

—Muito divertido.

—A diversão é só o princípio.

Glenna abriu uma caixinha. Logo tirou dela uma pequena figura esculpida em cera.

Cian elevou as sobrancelhas com um gesto de surpresa.

—Uma grande semelhança. És preparada.

—A escultura não é meu forte, mas sou capaz de fazer uma boneca. —Glenna fez girar a figura de Lilith para que Moira pudesse vê-la.— Geralmente não estou acostumada a fazê-las... é algo intrusivo e perigoso para a pessoa que capturaste. Mas a regra de não-machucar-a-ninguém não se aplica aos mortos vivos. Com exceção dos presentes.

—Agradece-se —disse Cian.

—Só há uma pequena coisa que necessito de ti.

—O que?

—Sangue.

Cian se mostrou resignado.

—Naturalmente.

—Só umas gotas, depois fecharei a boneca. Não tenho nada dela... cabelo, unhas cortadas. Mas vocês dois mesclaram o sangue uma vez. Acredito que isso será suficiente. —Duvidou um momento enquanto girava entre os dedos a corrente de seu medalhão.— Possivelmente esta seja uma má idéia depois de tudo.

—Não o é. —Moira colocou a última vela ao redor do caldeirão.— É hora de que entremos em sua mente, o mesmo que Lilith o tem feito nas de todos nós. Isso será uma boa e ardente agulha debaixo de sua pele, se querem saber minha opinião. E Cian merece poder lhe dar um pouco de seu próprio remédio.

Moira se levantou.

—Poderemos olhar?

—Sedenta de um pouco de vingança? —perguntou Cian.

Os olhos de Moira eram duas pequenas nuvens de fumaça fria.

—Muito sedenta. Poderemos ver o que está acontecendo?

—Sim, se tudo sair como deveria. —Glenna respirou profundamente.— Está preparado para um pouco de projeção astral? —perguntou a Cian.

—Como sempre.

—Entrem os dois no círculo de velas. Cian, precisará alcançar um estado meditativo. Moira e eu seremos suas vigilantes e as observadoras. Manteremos seu corpo neste plano enquanto sua mente e sua imagem viajam pelo espaço.

—É verdade —lhe perguntou Moira— que a um espírito velho ajuda a manter-se na segurança de seu mundo levar consigo algo de uma pessoa desse mundo?

Glenna se virou novamente o cabelo para trás.

—É só uma teoria.

—Então leva isto contigo. —tirou-se a cinta de couro e contas que mantinha sujeita sua trança.— Para o caso de que a teoria resulte ser certa.

Depois de franzir o cenho com gesto dúbio, Cian guardou a cinta no bolso.

—Bem, vou armado com quinquilharias para o cabelo.

Glenna agarrou uma pequena terrina de bálsamo.

—Te concentre, abra seus chakras —disse enquanto lhe esfregava a pele com o bálsamo.— Relaxa o corpo e abra a mente.

Glenna olhou a Moira.

—Agora criaremos o círculo. Visualizemos luz, uma luz suave e azul para proteção.

Enquanto criavam o círculo, Cian se concentrou em uma porta branca. Era o símbolo que escolhia sempre que meditava. Quando estivesse preparado, a porta se abriria. E ele a atravessaria.

—Tem uma mente forte —disse Glenna a Moira.— E muita prática. Contou-me que estudou no Tíbet. Ora, não me faça caso —acrescentou com um gesto da mão.— Estou ganhando tempo. Estou um pouco nervosa.

—O mago de Lilith não é mais forte que você. O que ele possa fazer, também pode fazê-lo você.

—Isso é malditamente certo. Apesar de tudo, devo dizer que espero que Lilith esteja dormindo. Deveria estar, realmente deveria estar. —Glenna olhou a tênue chuva através da janela.— O averiguaremos muito em breve.

Tinha deixado um oco na boneca de cera e se dispôs a preenchê-lo com grãos de terra do cemitério, romeiro, artemisa e ametista e quartzo moídos.

—Tem que controlar suas emoções para a ligação, Moira. Afasta seu ódio e seus temores. Nós desejamos justiça e visão. Lilith pode ser ferida e podemos empregar a magia para consegui-lo, mas Cian será só um condutor. Não quiseres que nada negativo o afetasse.

—Justiça então. É suficiente.

Glenna fechou o oco da boneca com um tampão de cera.

—Convocamos a Maat, a deusa da justiça e do equilíbrio, para que guie nossa mão. Com esta imagem, enviamos a magia através do ar, através da terra. —Colocou uma pluma branca sobre a boneca e envolveu esta com uma cinta negra.— Concede à criatura cuja imagem sustento sonhos e lembranças antigas.

Entregou a adaga ritual a Moira e assentiu.

—Selada pelo sangue que ela derramou, ligada agora com estas gotas de vermelho.

Cian não demonstrou reação alguma quando Moira lhe fez um corte na palma com a faca.

—Mente e imagem da vida que ela arrebatou se unem a ela para que ele possa olhar. E enquanto nós observamos, o mantemos a salvo com mão e coração até que ele dite partir. Através de nós e para ela dirigimos estes feitos de magia. Leva a nosso mensageiro dentro de seu sono. Abre as portas para que possamos ver. Que assim seja.

Glenna sustentou a boneca em cima do caldeirão e, ao soltá-la, esta ficou suspensa com sua vontade no ar.

—Agarra a mão de Cian —disse a Moira.— E aperte-a com força.

Assim que Moira estreitou sua mão, Cian não atravessou a porta, mas sim saiu propulsado através dela. Enquanto voava através de uma escuridão que nem sequer seus olhos podiam abranger, Cian sentiu a mão da Moira apertando a sua. Ouviu sua voz em sua mente, suave e tranqüila.

—Estamos contigo. Não lhe soltaremos.

Havia luz da lua, titilando através da escuridão e lhe aproximando manchas brumosas de forma e de sombra. Havia aromas, flores e terra, água e mulher. Humanos.

Fazia calor. A temperatura significava muito pouco para Cian, mas podia sentir sua mudança com respeito ao frio úmido que tinha deixado para trás. Um calor abrasador, atenuado só por uma brisa que chegava da água.

Do mar, corrigiu. Era um oceano com ondas que lambiam a areia. E havia altas colinas que se elevavam da praia. As oliveiras se estendiam por suas ladeiras, e no topo de uma delas —a mais alta— havia um templo, branco como a luz da lua, com suas colunas de mármore dominando o oceano, as árvores, os jardins e os lagos.

Dominando também ao homem e a mulher que jaziam juntos sobre uma manta branca debruada em oro sobre a resplandecente areia, e perto de onde se formava a espuma da água. Ouviu a risada da mulher, o som rouco de uma mulher excitada. E soube que era Lilith, soube que era a lembrança de Lilith, ou o sonho no qual ele tinha caído. De modo que permaneceu ali e observou como o homem deslizava a túnica branca desde seus ombros e inclinava a cabeça para seus peitos.

Doce, tão maravilhosamente doce, seus lábios sobre ela. Em seu interior, igual à maré, tudo era fluxo e refluxo. Como podia estar proibida semelhante beleza? Seu corpo tinha sido criado para aquilo. Seu espírito, sua mente, sua alma tinham sido criados pelos deuses como par dos dele.

O corpo dela se arqueou, oferecendo-se sem reparos, enquanto seus dedos se deslizavam com suavidade pelo cabelo de seu companheiro, clareados pelo sol. Ele cheirava a oliveiras e a esse mesmo sol que fazia que seus frutos maturassem.

Seu amor, seu único amor. Sussurrou essas palavras em seu ouvido antes que seus lábios voltassem a encontrar-se de novo. Uma vez e outra, com um desejo que superava todo o tolerável. Seus olhos estavam cheios dele quando, finalmente, seu corpo se uniu ao dela. A onda de prazer fez que os olhos se enchessem de lágrimas brilhantes, converteu seus suspiros em ofegos necessitados. O amor a inundou, golpeou seu coração com milhares de punhos de seda. Estreitou ao homem com força contra ela, expressando sua sorte com um abandono que se atreveu inclusive a que os deuses a escutassem.

—Cirio, Cirio. —Ela embalou sua cabeça entre seus peitos.— Meu coração. Meu amor.

Ele elevou a cabeça, roçando sua cabeleira dourada.

—Até a lua empalidece ante sua beleza, Lilia, minha rainha da noite.

—As noites são nossas, mas também quero ter o sol contigo; o sol que doura seu cabelo e sua pele, que te toca quando eu não posso fazê-lo. Quero caminhar a seu lado, orgulhosa e livre.

Cirio se limitou a rodar sobre suas costas.

—Olhe as estrelas. Elas são nossa tocha esta noite. Deveríamos nadar sob sua luz. Nos tirar este calor no mar.

Uma careta de instantâneo desgosto endureceu a sorte sonolenta de seu rosto.

—Por que não quer falar disso?

—É uma noite muito calorosa para falar e preocupar-se—disse ele quase com indiferença, enquanto agarrava um punhado de areia e deixava que se escorresse entre seus dedos.— Seremos como golfinhos e jogaremos entre as ondas.

Mas quando foi agarrar a das mãos para levantá-la da areia, ela as afastou com um gesto brusco.

—Mas devemos falar. Devemos fazer planos.

—Querida, fica tão pouco tempo esta noite.

—Poderíamos ter a eternidade, todas as noites se quiséssemos. Só temos que ir daqui, fugir juntos. Poderia ser sua esposa, te dar filhos.

—Ir embora? Fugir? —Ele jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada.— Que tipo de tolice é essa? Venha, vamos, só resta uma hora. Nademos um momento e te cavalgarei entre as ondas.

—Não é nenhuma tolice. —Agora ela afastou a mão de repente.— Poderíamos nos embarcar daqui, viajar a qualquer lugar que gostasse. Estar juntos sem nos esconder; em plena luz do dia. Quero algo mais que umas horas na escuridão contigo, Cirio. Você me prometeu mais.

—Fugir daqui, como se fôssemos ladrões? Meu lar está aqui, minha família. Meu trabalho.

—Suas arcas —acrescentou ela com maldade.— Ou melhor, as de seu pai.

—O que tem que mau nisso? Achas por acaso que mancharia o nome de minha família fugindo com uma sacerdotisa do templo, vivendo como mendigos em qualquer terra estranha?

—Disse que poderia viver só com meu amor.

—As palavras brotam facilmente nos momentos de paixão. Deve ser razoável. —Com gesto adulador, deslizou um dedo sobre seus peitos nus.— Nos damos prazer mutuamente. Por que tem que haver mais?

—Eu quero mais. Amo-te. Tenho quebrado meus votos por ti.

—Voluntariamente —lhe recordou Cirio.

—Por amor.

—O amor não alimenta o estômago, Lilia, e tampouco se compra no mercado. Não quero que esteja triste. Comprarei-te um presente. Algo dourado como seu cabelo.

—Não quero nada que possa comprar. Só a liberdade. Quero ser sua esposa.

—Não pode. Se cometêssemos semelhante loucura e nos descobrissem, matariam a ambos.

—Preferiria morrer contigo que viver sem ti.

—Pelo visto eu valorizo mais minha vida que você as nossas. —Parecia a ponto de bocejar, tão preguiçosa era sua voz.— Posso te dar prazer e a liberdade que este suporta. Mas quanto a ser minha esposa, você sabe muito bem que já escolheram uma para mim.

—Você me escolheu. Disse...

—Basta, basta! —Cirio elevou as mãos, mas parecia mais aborrecido que zangado pela conversação.— Eu te escolhi para isto, igual o fez você. Estava desejosa de que alguém te tocasse. Pude vê-lo em seus olhos. Se tiver tecido uma fantasia em que ambos fugimos navegando através do mar, é só sua própria criação.

—Você me deu sua palavra.

—Meu corpo. E não cabe dúvida de que tem feito um bom uso dele. —Ao levantar-se, ajustou-se o cinturão da túnica.— Teria sido feliz de te conservar como amante, mas não tenho tempo nem paciência para as ridículas exigências de uma rameira do templo.

—Rameira. —O rubor da ira desapareceu, deixando seu rosto branco como as colunas que se elevavam na ladeira da colina—Você tomou minha inocência.

—Você me entregou isso.

—Não pode estar falando a sério. —Ela se ajoelhou com as mãos entrelaçadas como se estivesse rezando.— Está zangado porque te pressionei. Não falaremos mais disso esta noite. Nadaremos, como há dito, e esqueceremos todas estas palavras duras.

—Já é tarde para isso. Acaso achas que não sou capaz de ler o que há em sua mente neste momento? Chateará-me até a morte por algo que nunca poderá ser. Dá no mesmo. Já desafiamos aos deuses durante muito tempo.

—Não pode estar dizendo a sério que vais deixar-me. Eu te amo. Se me deixar, irei ver sua família. Contarei-lhes...

—Se disser uma só palavra disto, eu jurarei que está mentindo. Queimarão-lhe por isso, Lilia. —Cirio se inclinou e deslizou um dedo pela curva de seu ombro.— E sua pele é muito suave, muito doce para o fogo.

—Não me abandone. Tudo será como você disser, como você gostar. Nunca voltarei a falar de fugir daqui. Não me deixe.

—Implorar só serve para danificar sua beleza.

Ela pronunciou seu nome com a voz quebrada pela comoção e a tristeza, mas Cirio se afastou como se não a ouvisse.

Lilia se deixou cair sobre a manta, chorando desconsoladamente e golpeando a areia com os punhos. A dor que sentia nesse momento era como o fogo que ele tinha mencionado, queimando-a tão profundamente que seus ossos pareciam haver-se convertido em cinzas. Como poderia viver com essa dor?

Seu amante a tinha traído, utilizado e jogado a um lado. O amor a tinha convertido em uma estúpida. E, entretanto, seu coração estava cheio dele.

Lançaria-se ao mar e se afogaria. Subiria ao topo do templo e se jogaria no vazio. Poderia morrer ali mesmo de vergonha e dor.

     —Mas antes o matarei —balbuciou em meio de sua fúria —Primeiro o matarei e logo me matarei eu. Sangue; o seu e o meu juntos. Esse é o preço do amor e da traição.

Ouviu um movimento, apenas um sussurro na areia, e se levantou cheia de alegria. Ele tinha voltado para seus braços!

—Meu amor.

—Sim. Serei-o.

Seu cabelo era negro e lhe caía sobre os ombros. Levava uma larga única negra como a noite. Seus olhos eram da mesma cor, tão escuros que pareciam brilhar.

Ela agarrou sua túnica e se cobriu os seios com ela.

—Sou uma sacerdotisa deste templo. Não têm permissão para caminhar por aqui.

—Eu caminho por onde goste. És tão jovem... —sussurrou enquanto seu negro olhar se deslizava sobre seu corpo seminu.— Tão fresca...

—Deveis partir daqui.

—Quando for o momento. Estive lhes observando estas três últimas noites, Lilia, a ti e a esse moço com quem te murcha.

—Como te atreves!

—Você lhe deu amor, ele só mentiras. Ambos são valiosos. Diga-me, como você gostaria de te desforrar do presente que te tem dado?

Ela sentiu que algo se agitava em seu interior, os primeiros sucos da vingança.

—Ele não merece nada de mim, nem ele nem nenhum outro homem.

—Isso é muito certo. Por isso me entregará o que nenhum homem merece.

O medo a fez estremecer e se afastou correndo. Mas, não soube como, ele estava de novo frente a ela, com um sorriso gelado nos lábios.

—O que sois vós?

—Ah, é muito perceptiva. Sabia que minha escolha tinha sido acertada. Sou o que era antes que seus deuses débeis e antiquados fossem vomitados fora do paraíso.

Ela pôs-se a correr outra vez, com um grito afogado na garganta. Mas ali estava ele de novo, lhe bloqueando o passo. Seu medo se converteu em autêntico terror.

—Tocar a uma sacerdotisa do templo significa a morte.

—E a morte é um começo fascinante. Estou procurando uma companheira, uma amante, uma mulher, uma aluna. E essa é você. Tenho um presente para ti, Lilia.

Esta vez, quando ela correu, ele pôs-se a rir. Seguia rindo quando a levantou no ar e a lançou ao chão.

Ela lutou, arranhou, mordeu, implorou, mas ele era muito forte. Agora tinha a boca sobre seu peito, e ela soluçou de vergonha enquanto afundava as unhas em sua bochecha.

—Sim. Sim. É melhor quando lutam. Já o aprenderá. Seu medo é um perfume; seus gritos são música para os ouvidos.

Agarrou-lhe o rosto entre as mãos e a obrigou a olhá-lo.

—Agora me olhe aos olhos. Dentro deles.

Ele a penetrou. O corpo de Lilia se estremeceu, vibrou, corcoveou, pela comoção. E pela indescritível excitação.

—Levou-te ele alguma vez até estas alturas?

—Não. Não.

As lágrimas começaram a secar-se em suas bochechas. Em lugar de golpear e cravar as unhas, suas mãos se afundaram na areia, procurando um ponto de apoio. Apanhada em seus olhos, seu corpo começou a mover-se ao compasso do dele.

—Toma mais. Quer mais —lhe disse ele.— A dor é tão... excitante.

E a penetrou com mais força, tão profundamente que Lilia temeu partir-se em duas. Mas seu corpo continuava movendo-se ao ritmo do dele, seus olhos seguiam apanhados nos dele.

Quando viu que lhe punham vermelhos, seu coração deu um tombo com renovado temor e, entretanto, esse medo estava contido por um punho de terrível excitação. Ele era tão bonito... Seu amante humano empalidecia ante aquela beleza escura e mortal.

—Entrego-te o instrumento de sua vingança. Entrego-te seu começo. Só tem que me pedir isso. Me peça meu presente.

—Sim. Me dê seu presente. Me dê a vingança. Me dê...

Seu corpo se agitou violentamente quando suas presas se afundaram em sua carne. E todo o prazer que tinha conhecido ou imaginado se voltou insignificante frente ao que então corria por seu interior. Ali, ali estava a glória que jamais tinha encontrado no templo, o florescente poder negro que sempre tinha sabido que existia, começava justo nas gemas de seus dedos.

Ali estava o proibido que tinha desejado durante tanto tempo.

Contorsionando-se nesse prazer e poder, levou-o a ele ao clímax. E, sem que ninguém o dissesse, elevou a cabeça para beber o sangue que tinha feito brotar de sua bochecha com suas unhas. Sorrindo com seus lábios ensangüentados, Lilia morreu. E despertou em sua cama dois mil anos depois do sonho. Sentia o corpo brando, como golpeado, e a mente brumosa. Onde estava o mar? Onde estava o templo?

—Cirio?

—Uma romântica? Quem o haveria dito. —Cian saiu dentre as sombras.— Chamas ao amante que te desprezou e te traiu.

—Jarl? —Era o nome com o qual tinha chamado a seu criador. Mas quando o sonho se separou da realidade, ela viu que se tratava de Cian.— Vá, depois de tudo vieste. Minha oferta...

Mas não estava muito claro.

—O que aconteceu com o garoto?

Como se estivesse se preparando para um bate-papo agradável, Cian se sentou em um flanco da cama.

—Que garoto? Davey?

—Não, não, não o cachorrinho que criaste, e sim seu amante, que teve quando estava viva.

Os lábios de Lilith tremeram ao compreender o sentido das palavras de Cian.

—De modo que brincas com meus sonhos? Bom, o que pode me importar isso? —Mas estava profundamente emocionada.— Chamava-se Cirio. O que achas que aconteceu com ele?

—Acredito que seu amo dispôs que ele fosse sua primeira vítima.

Ela sorriu com uma de suas lembranças mais doces.

—Cirio se urinou em cima quando Jarl o arrastou até mim, e choramingou como uma criança enquanto implorava por sua vida. Eu estava recém transformada e, entretanto tinha controle para mantê-lo com vida durante horas... muito depois de que implorasse por sua morte. Contigo o farei muito melhor. Darei-te anos de dor.

Lançou um tapa e amaldiçoou quando suas unhas afiadas passaram através dele.

—Divertido, verdade? E Jarl? Quanto tempo passou antes que o liquidasse?

Ela se recostou na cama, levemente ressentida. Logo se encolheu de ombros.

—Quase trezentos anos. Tinha muito que aprender dele. Jarl começou a me temer, porque meu poder crescia cada vez mais. Podia cheirar o medo que me tinha. Se não o tivesse matado eu antes, ele teria acabado comigo.

—Chamava-te Lilia... Lily.

—O patético ser humano que era, sim. Ele me pôs Lilith quando despertei. —enroscou-se uma mecha de cabelo no dedo enquanto olhava fixamente a Cian.— Têm acaso a absurda esperança de que conhecendo meu começo descobrirá qual será meu final?

Lilith afastou as mantas e se levantou para caminhar nua para uma jarra de prata.

Ao verter o sangue em uma taça, suas mãos tremiam.

—Falemos francamente —sugeriu Cian.— Só estamos você e eu... o qual é bastante estranho. É que hoje não dorme com Lora ou o menino ou alguma outra escolha?

—Inclusive eu, ocasionalmente, procuro a solidão.

—Muito bem. Para te ser franco, é estranho, não achas? É desconcertante voltar a ser humano em sonhos. Ver seu próprio final, seu próprio começo, como se acabasse de acontecer. Sentir-se humano outra vez ou, no melhor dos casos, recordar o que se sente ao ser humano.

Quase como se lhe acabasse de ocorrer, Lilith se cobriu com uma bata.

—Eu voltaria para ser humana.

Cian arqueou as sobrancelhas.

—Você? Sério? Agora me surpreende.

—Eu gostaria de ter novamente esse momento de morte e renascimento. A maravilhosa e estremecedora excitação desse momento. Voltaria a ser débil e cega só pela possibilidade de experimentar o dom outra vez.

—É obvio. Segue sendo previsível. — Cian se levantou—Agora quero que saiba uma coisa. Se você e seu mago voltem a perturbar meus sonhos, eu te devolverei o favor multiplicado por três. Não terá descanso de mim, nem de ti mesma.

Cian se desvaneceu, mas ainda não retornou com Moira e Glenna. Embora podia sentir os puxões da mente de Moira, da vontade de Glenna, decidiu atrasar a volta. Queria ver o que Lilith faria a seguir.

Esta estrelou contra a parede a taça com o resto de sangue que ficava nela. Esmagou uma caixa cheia de bagatelas e golpeou a parede até que lhe sangraram os punhos.

Logo gritou para que acudisse um guarda.

—Quero que traga a esse mago inútil ante mim. E quero que o traga encadeado. Traga-o... Não, espera. Espera. —afastou-se uns passos em um óbvio esforço por controlar sua fúria.— Neste momento o mataria se se cruzasse comigo, e o que ganharia então com isso? Me traga para alguém para comer. —voltou-se de cara ao guarda.— Um homem. Jovem. Vinte e tantos. Loiro, se tivermos um. Vá!

Quando voltou a ficar só se esfregou a têmpora.

—Matarei-o outra vez —disse.— Então me sentirei muito melhor. Chamarei-o Cirio e voltarei a matá-lo.

Agarrou seu precioso espelho da cômoda. E ao ver refletido seu rosto no cristal, recordou por que devia manter a Midir com vida. Lhe tinha dado esse presente.

—Aqui estou —disse Lilith brandamente.— Tão bela. A lua empalidece ante minha beleza, sim, sim, empalidece. Estou justo aqui. Sempre estarei aqui. O resto são fantasmas. E eu estou aqui.

Agarrou uma escova e começou a pentear-se, e a cantar. Com os olhos cheios de lágrimas.

—Beba isto.

Glenna aproximou uma taça aos lábios de Cian, mas ele a afastou imediatamente.

—Estou bem. Não necessito de uísque, como se me tivesse desvanecido.

—Estás pálido.

Cian torceu os lábios.

—Forma parte do pacote dos mortos vivos. Bem. Eu diria que foi toda uma viagem.

Embora ele o tinha dispensado, Glenna bebeu um pequeno sorvo de uísque e logo passou o copo a Moira.

—Ela não nos percebeu —disse a Moira.— Gostaria de acreditar que meus bloqueios e ligação foram suficientes, mas penso que, em grande medida, há-se devido a que Lilith estava muito alterada para sentir nossa presença.

—Ela era tão jovem. —Moira se sentou.— Tão jovem e apaixonada por esse inútil. Não sei em que idioma falavam, mas podia entender o que diziam. Embora pareça estranho, não conhecia a língua que usavam. —Grego. Ela começou sendo sacerdotisa do culto de alguma deusa. A virgindade forma parte dos requisitos do trabalho.

Cian queria beber sangue, mas procurou água.

—E podem lhes economizar sua piedade. Estava amadurecida para o que lhe aconteceu.

—Como o estava você em seu momento? —replicou Moira.— E não finja que não há sentido nada por ela. Estávamos conectados. Eu percebi sua compaixão. Seu coração estava destroçado e, um momento depois, é violada e capturada por um demônio. Posso desprezar o que é Lilith e sentir compaixão pela Lilia.

—Lilia já estava meio louca —declarou Cian rotundamente.— Possivelmente a transformação seja o que a manteve relativamente lúcida todo este tempo.

—Estou de acordo contigo. Sinto-o —disse Glenna a Moira.— Embora não sinto nenhum prazer ao ver o que lhe aconteceu. Mas havia algo em seus olhos, no tom de sua voz... e Deus, na forma em que acabou respondendo ante o Jarl. Ela não estava muito bem, Moira, já então.

—Mas poderia ter morrido por sua própria mão, ou ter sido executada por matar ao homem que a usou para logo abandoná-la. Então teria tido uma morte limpa. —Moira suspirou.— E nós não estaríamos aqui discutindo este assunto. Tudo isto te provoca uma enxaqueca se de pensar atentamente. Tenho uma pergunta muito delicada que responde mais que nada a minha própria curiosidade.

Moira se clareou garganta antes de interrogar a Cian.

—A forma em que ela respondeu ante o Jarl, como há dito Glenna, é algo incomum?

—A maioria luta ou fica paralisada de medo. Ela, em troca, participou depois da... a delicadeza não é meu forte —admitiu Cian.— Depois que começou a sentir prazer ao ser violada. Foi uma violação, disso não cabe dúvida, e nenhuma mulher em seu são julgamento sente prazer quando é forçada e tratada com brutalidade.

—Já lhe pertencia antes que a mordesse —murmurou Moira.— Ele sabia que seria sim, pôde percebê-lo. Ela sabia, além disso, o que tinha que fazer para transformar-se... beber o sangue de Jarl. Tudo o que tenho lido afirma que a vítima deve ser forçada ou terá que lhe dizer o que lhe vai ocorrer. É algo que lhe oferece. Em troca ela tomou. Entendia o que estava passando e o desejava.

—Agora sabemos mais que antes, algo que sempre resulta muito útil —comentou Cian.— E o episódio a alterou profundamente, um benefício acrescentado. Depois de ter conseguido isso, dormirei melhor. Já é hora de que vá à cama. Senhoras.

Moira lhe olhou enquanto se afastava.

—Ele sente. Por que acha que chega a tais extremos para fingir que não é assim?

—Os sentimentos causam dor a maior parte do tempo. Acredito que quando tem feito e visto tantas coisas, os sentimentos podem ser como uma dor constante. —Glenna apoiou uma mão sobre o ombro de Moira.— A negação é outra forma de sobrevivência.

—Reprimir os sentimentos pode ser um bálsamo ou uma arma.

Como seriam os sentimentos de Cian, perguntou-se, se os deixasse completamente livres?

 

                                      CAPÍTULO 9

A chuva se converteu em um crepúsculo saturado de umidade que estendeu uma neblina brumosa a escassos centímetros do chão. Quando chegou a noite, a lua e as estrelas não puderam atravessar a escuridão com sua luz.

Moira se meteu entre o manto de névoa que cobria o pátio para reunir-se com Glenna.

—Já estão perto de casa —murmurou Glenna.— Mais tarde que o que esperávamos, mas já quase chegaram.

—Mandei que acendessem a lareira em sua habitação e na de Larkin, e também lhes preparassem o banho. Chegarão empapados e com muito frio.

—Obrigada. Não tinha pensado nisso.

—Quando estávamos na Irlanda, foi você a que se encarregava de todos os detalhes relacionados com o conforto. Agora me corresponde fazê-lo. —Moira, assim como Glenna, elevou a vista ao céu.— Ordenei que levem comida ao salão familiar, a menos que queira jantar a sós com Hoyt.

—Não. Não. Certamente quererão nos informar imediatamente do que viram. Logo já teremos tempo de estar a sós. —Elevou a mão para agarrar sua cruz e o amuleto que usava com ela.— Não sabia que fosse estar tão preocupada. Vimos-nos metidos em brigas nas quais nos superavam em número, e nunca estive tão obcecada.

—Porque estava com ele. Amar e esperar é pior que uma ferida.

—Essa é uma das lições que aprendi. Houve muitas. Você esteve preocupada com Larkin, eu sei. E agora por Tynan. Ele tem sentimentos por ti.

Moira entendeu que Glenna não se estava referindo a Larkin.

—Eu sei. Nossas respectivas mães esperavam que pudéssemos formar um casal.

—Mas?

—Algo que se necessite para isso, eu não a tenho. E ele é um grande amigo. Talvez não ter nenhum amante a quem esperar, nenhum amante a quem perder, faz que me resulte mais fácil suportar esta carga.

Glenna esperou um momento.

—Mas?

—Mas —prosseguiu Moira com um meio sorriso.— Invejo a tortura que significa para ti esperar ao teu.

De onde se encontrava, Moira viu Cian, sua forma aproximando-se através da penumbra. Vinha das cavalariças, advertiu. Em lugar das capas que usavam os homens de Geall para proteger do frio e a chuva, ele levava uma similar a de Blair. Larga, negra e de couro.

A capa formava redemoinhos na névoa enquanto Cian se aproximava delas, fazendo apenas ruído com suas botas contra as úmidas lajes de pedra do pátio.

—Não chegarão antes porque vocês estejam esperando à intempérie —disse Cian.

—Já estão perto de casa. —Glenna voltou a olhar o céu como se assim pudesse conseguir que se abrisse e Hoyt caísse das alturas.— Ele saberá que lhe estou esperando.

—Ruiva, se você estivesse esperando a mim, em primeiro lugar, não te teria deixado.

Com um sorriso, Glenna inclinou a cabeça até apoiá-la no ombro de Cian. Quando ele a rodeou com o braço, Moira viu nesse gesto o mesmo afeto que ela sentia por Larkin, o tipo de afeto que nasce do coração através do parentesco.

—Ali —disse Cian brandamente.— Para o oeste.

—Vê-os? —Glenna se estirou para frente.— Pode vê-los?

—Dentro de um minuto você também poderá.

Assim que o fez, sua mão apertou a de Moira.

—Graças a Deus. Oh, graças a Deus.

O dragão atravessou a densa atmosfera; um resplendor de ouro com cavaleiros em seu lombo. Enquanto se posava em terra, Glenna correu sobre as lajes de pedras do pátio. Assim que desmontou, Hoyt abriu os braços para recebê-la.

—É um bonito espetáculo —sussurrou Moira olhando a Hoyt e Glenna abraçarem-se.— Foram tantos os que se despediram esta manhã e os que o farão amanhã —prosseguiu em voz mais alta—, que é bonito ver que alguém retorna aos braços que o estavam esperando.

—Antes que ela aparecesse em sua vida, Hoyt sempre tinha preferido retornar à solidão. As mulheres mudam as coisas.

Moira o olhou.

—Só as mulheres?

—A gente então. Mas as mulheres? Elas alteram universos inteiros só pelo fato de serem mulheres.

—Para bem ou para mau?

—Isso depende da mulher, não acha?

—E do prêmio, ou o homem, sobre quem têm posto os olhos.

Uma vez dito isto, separou-se de seu lado para correr para Larkin.

Abraçou-o com força apesar de que estava empapado.

—Tenho comida, bebida, água quente, tudo o que possa desejar. Me alegro tanto de ver-te! A todos vocês.

Mas quando foi dar a volta para dar a bem-vinda aos outros, seu primo lhe apertou a mão com força.

Moira sentiu que o alívio lhe convertia em medo.

—O que? O que passou?

—Deveríamos entrar. —A voz de Hoyt era controlada mas tensa.— Deveríamos entrar e nos proteger desta umidade.

—Me diga o que ocorreu.

Moira se separou de Larkin.

—As tropas de Tynan foram atacadas; na metade do caminho do ponto mais próximo —explicou ele.

Moira sentiu que todo seu interior se congelava.

—Oran, Tynan?

—Estão vivos. Tynan resultou ferido, mas não gravemente. Outros seis homens...

Ela cravou os dedos no braço de Larkin.

—Mortos ou capturados?

—Cinco mortos, um feito prisioneiro. Vários mais feridos, dois gravemente. Fizemos o possível por eles.

A sensação de frio não a abandonou, como se tivesse o coração coberto de gelo.

—Sabe seus nomes? Dos mortos, os feridos, do que levaram?

—Sim, temos seus nomes. Moira, levaram ao jovem Sean. O filho do ferreiro.

O estômago lhe deu um tombo ao pensar que esse jovem se enfrentaria a algo que era pior que a morte.

—Eu falarei com suas famílias. Não diga nada a ninguém até que o tenha feito.

—Irei contigo.

—Não. Isto é algo que me corresponde fazer. Você precisa se secar, se esquentar e comer. Devo fazê-lo eu, Larkin. É meu dever.

—Escrevemos os nomes. —Blair tirou um pedaço de papel do bolso.— O sinto, Moira.

—Sabíamos que isto aconteceria. —Guardou o papel dentro de sua capa.— Irei ao salão logo que me seja possível para que me contem todos os detalhes. Agora as famílias precisam ouvir isto de meus lábios.

—Uma grande responsabilidade —comentou Blair quando Moira se afastou.

—Ela o suportará. — Cian a seguiu com o olhar —Isso é o que fazem as rainhas.

 

      Moira pensou que esse peso a esmagaria, mas conseguiu suportá-lo. E o fez, enquanto mães e esposas choravam em seus braços. Não sabia nada sobre o ataque, mas a todos e cada um, disse-lhes que seu filho ou marido ou irmão tinha morrido como um valente, como um herói.

Era o que precisavam ouvir.

Foi pior com os pais de Sean, pior ver a esperança refletida nos olhos do ferreiro, as lágrimas dessa esperança empanando os de sua esposa. Moira não se via capaz de tirar-lhe de modo que os deixou com ela, e com as preces para que seu filho conseguisse escapar logo de algum jeito e retornar pra casa.

Quando tinha terminado sua penosa tarefa, subiu a suas habitações para guardar o papel com os nomes dentro de uma caixa grafite que desde esse momento conservaria junto a sua cama. Sabia que haveria outras listas. Essa era somente a primeira. E o nome de cada um dos que dessem sua vida ficaria escrito e guardado nessa caixa.

Junto com a lista, colocou um raminho de romeiro para a memória e uma moeda como tributo.

Depois de fechar a caixa, enterrou sua necessidade de solidão, de luto, e baixou ao salão para ouvir os detalhes do que tinha passado.

A conversação se interrompeu quando ela entrou, e Larkin se levantou rapidamente.

—Meu pai acaba de partir. Irei lhe buscar se o desejar.

—Não, não. Deixa que fique com sua mãe e sua irmã.

Moira sabia que o marido de sua prima, que estava grávida, estaria ao comando das tropas que partiriam ao dia seguinte.

—Esquentarei-te um pouco de comida. Vais comer —disse Glenna a Moira quando esta abriu a boca para protestar.— Considera-o um remédio.

Enquanto Glenna colocava comida em um prato, Cian serviu uma generosa quantidade de licor de maçã em um copo e o deu também a Moira.

—Beba isto primeiro. Está pálida como a cera.

—Com isto terei cor, mas também uma cabeça que me dará voltas.

Entretanto, encolheu-se de ombros e bebeu o licor como se fosse água.

—Tenho que admirar a uma mulher que pode beber um gole dessa maneira.

Impressionado, Cian agarrou o copo e voltou a sentar-se.

—Foi horrível. Ao menos aqui, ante vocês, posso admiti-lo. Foi horrível. —Moira se sentou à mesa e logo se pressionou as têmporas com os dedos.— Lhes olhar à cara e ver transformar-se sua expressão, e saber que o que lhes hei dito vai mudá-las para sempre. Pensar no que lhes arrebatei...

—Você não tem feito nada. —A ira tingiu a voz de Glenna ao tempo que apoiava com força um prato diante de Moira.— Você não lhes arrebatou nada.

—Não me referia à guerra, ou à morte, e sim ao que lhes tirei com as notícias delas. O mais duro foi dar as do jovem que foi capturado. O filho do ferreiro, Sean. Seus pais ainda têm esperanças. Como podia lhes dizer que seu filho está pior que morto? Não podia cortar esse último fio de esperança, mas me pergunto se não teria sido melhor que o fizesse.

Deixou escapar o ar lentamente e logo se ergueu em sua cadeira. Glenna tinha razão, devia comer.

—Me contem o que sabem.

—Estavam clandestinamente —começou a explicar Hoyt— como quando emboscaram a Blair. Tynan diz que não eram mais de cinqüenta, mas seus homens foram agarrados de surpresa. Acrescentou que a esses monstros parecia não lhes importar se lhes liquidavam, que seguiam atacando e lutando como animais enlouquecidos. Dois de nossos homens têm caído quase imediatamente e, na confusão da batalha, ficaram com três de nossos cavalos.

—Quase um terço dos cavalos que levavam.

—Quatro, possivelmente cinco deles agarraram ao filho do ferreiro, com vida, conforme contaram os homens que trataram de salvá-lo.

O levaram nesta direção, enquanto o resto mantinha as linhas e lutava. Os nossos mataram a mais de vinte deles, o resto se dispersou e fugiu ao mudar sua sorte.

—Foi uma vitória. Têm que vê-lo assim —interveio Blair.— Têm que fazê-lo. Seus homens acabaram com vinte de seus inimigos no primeiro enfrentamento. Suas baixas foram poucas em comparação com as suas. Não estou dizendo que uma morte não seja importante —acrescentou rapidamente.— O é. Mas esta é a realidade. O treinamento dos homens deu seus frutos.

—Sei que tem razão —disse Moira—, e eu me hei dito o mesmo. Mas também foi uma vitória para eles. Queriam um prisioneiro. Não há nenhum outro motivo para que se levassem a um dos nossos. Sua missão devia consistir em apanhar a um vivo, não importava o preço que tivessem que pagar por isso.

—Tem razão, não vou discuti-lo —conveio Blair.— Mas eu não o vejo como uma vitória de sua coluna. Foi uma ação estúpida, e também um desperdício. Vinte deles por um prisioneiro. Se esses vampiros tivessem ficado e lutado, poderiam haver-se levado a mais dos nossos, vivos ou mortos. Minha opinião é que Lilith ordenou esse ataque porque estava furiosa, ou foi um impulso. Em qualquer caso, uma péssima estratégia.

Moira mastigou um bocado que não podia saborear enquanto pensava no que Blair havia dito.

—A forma em que enviou a King de volta a nós, na Irlanda, foi algo desprezível e perverso. Mas divertido para ela. Lilith pensa que estas coisas minarão nossa moral, que debilitarão nosso espírito. Como pode nos conhecer tão pouco? Você viveu a metade do tempo que ela — disse a Cian.— O que pode nos dizer?

—Eu encontro aos humanos interessantes. Ela os encontra... apetitosos no melhor dos casos. Não precisa conhecer a mente de uma vaca para conseguir dela uns bons files.

—Especialmente se tiver a toda uma turma para que se encarregue de enlaçar e conduzir o gado —disse Blair.— Eu fiz mal a sua garota, de modo que necessita que alguém pague por isso. Ontem destruímos três de suas bases e esta manhã explodimos as segundas duas convocações.

—Estavam vazios —interveio Larkin.— Lilith não se incomodou em colocar armadilhas ali e tampouco tinha deixado de guarda a nenhum de seus soldados. Além disso, Glenna nos explicou que estivestes jogando com ela enquanto estávamos fora.

—O resumo é que foi um empate. Mas ela perde mais que nós. Embora isso não é nenhum consolo para as famílias dos que morreram —acrescentou Blair.

—E amanhã enviarei mais homens. A Phelan. —Moira olhou a Larkin.— Não posso lhe reter. Falarei com Sinann, mas...

—Não, eu o farei. Espero que nosso pai já tenha falado com ela, mas irei vê-la de todos os modos.

Moira assentiu.

—E Tynan? Como vai?

—Tem um corte no quadril. Hoyt tratou aos feridos. Tynan estava bem quando nos partimos. Estão seguros e protegidos para passar a noite.

—Muito bem então. Rezaremos para que amanhã faça sol.

 

Moira tinha outra obrigação a atender.

Suas damas de companhia tinham uma sala de estar junto a suas habitações onde podiam descansar, ler, fazer seus trabalhos ou fofocar. A mãe de Moira tinha convertido essa estadia em um lugar alegre e prazenteiro, intensamente feminino, com tecidos de cores suaves, muitas almofadas e plantas de flor.

Ali, o fogo se acendia habitualmente com madeira de macieira para perfumar o ambiente, e também havia candelabros de parede em forma de bonitas fadas aladas.

Quando foi coroada, Moira autorizou a suas damas de companhia a que mudassem o que gostasse. Mas a habitação estava como a recordava de sempre.

As mulheres estavam ali então, esperando a que ela se retirasse a suas habitações até o dia seguinte ou que, simplesmente, desse-lhes permissão para irem descansar.

Todas se levantaram e fizeram uma pequena reverência quando entrou.

—Nada de reverências, nesta sala, agora somos todas só mulheres.

Abriu os braços para Ceara.

—Oh, minha senhora. —Os olhos de Ceara, vermelhos e inchados já pelo pranto, transbordaram-se enquanto corria aos braços de Moira.— Dwyn está morto. Meu irmão está morto.

—Sinto muito. Sinto tanto. Vem, sente-se.

Acompanhou a Ceara até uma das poltronas sem deixar de abraçá-la. E chorou junto com ela como o tinha feito com a mãe de Ceara e com todos os outros que tinham perdido a um de seus entes queridos na batalha.

—Enterraram a Dwyn ali mesmo, em um campo junto a estrada. Nem sequer puderam trazê-lo de volta pra casa. Não teve velório.

—Faremos que um homem santo consagre essa terra. E levantaremos um monumento para honrar a todos os que hoje têm caído.

—Ele estava ansioso por ir, por lutar. Virou-se e me acenou com a mão antes de partir.

—Agora beberão um pouco de chá. —Com os olhos também avermelhados pelo pranto, Isleen deixou o recipiente sobre a mesa.— Beberá um pouco de chá, Ceara, e você também, minha senhora.

—Obrigada. —Ceara passou a mão pelas bochechas para secar as lágrimas.— Não sei o que teria feito sem Isleen e Dervil nestas últimas horas.

—É bom que tenha a suas amigas. Mas agora beberá o chá e logo irás reunir-te com sua família. Necessitarão-se mutuamente. Tem minha permissão para te ausentar todo o tempo que queira.

—Há algo mais que quero, sua majestade. Algo que lhe peço que me dêem, em nome de meu irmão.

Moira esperou, mas Ceara não disse nada mais.

—Pediria-me que te concedesse algo sem saber o que é que estou concedendo?

—Meu marido parte amanhã.

Moira sentiu que lhe afundava o estômago.

—Ceara. —Moira se aproximou dela e lhe passou a mão pelo cabelo.— O marido de Sinann também partirá ao amanhecer. Ela leva em seu ventre a seu terceiro filho e, mesmo assim, não posso evitar que parta com o resto dos homens.

—Não lhes peço que impeçam que parta. Peço-lhes que me permitam ir com ele.

—Ir... —Moira, atônita, deixou-se cair na poltrona.— Ceara... seus filhos.

—Eles ficarão com minha mãe, tão bem e seguros como podem está-lo aqui. Mas meu homem parte à guerra e eu treinei na luta tanto como ele. Por que devo ficar sentada esperando? —Ceara estendeu as mãos.— Me inquietar enquanto bordo, passear pelo jardim enquanto ele parte para combater. Vocês disseram que todos tínhamos que estar preparados para defender Geall e os mundos que há mais à frente. Eu me preparei. Sua majestade, minha senhora, vos rogo que amanhã me permitas partir junto a meu marido.

Moira se levantou sem dizer nada. Foi até uma das janelas para olhar para a escuridão. A chuva, finalmente, tinha cessado, mas a névoa se estendia como se fossem nuvens.

—Falaste com ele disto? —perguntou Moira ao fim.

—Sim, falei, e seu primeiro pensamento foi para minha segurança. Mas entende que minha decisão está tomada e por que.

—Por que?

—Ele é meu coração. —Ceara se levantou e apoiou uma mão em seu peito.— Não deixaria a meus filhos desprotegidos, mas confio em que minha mãe faça tudo o que possa por eles. Minha senhora, acaso nós, as mulheres, treinamo-nos e se revirado na lama todo este tempo só para nos sentar junto ao fogo?

—Não. Não foi para isso.

—Não sou a única mulher que deseja ir lutar.

Moira se voltou.

—Falaste com outras mulheres? —Olhou a Dervil e Isleen.— Vocês também querem? —Assentiram.— Vejo que estava equivocada ao lhes reter aqui. Farão-se os acertos necessários então. Sinto-me orgulhosa de ser uma mulher de Geall.

Por amor, pensou Moira enquanto se sentava para fazer outra lista de combatentes. Por amor tanto como por dever. As mulheres partiriam com os homens e lutariam por Geall. Mas era por seus maridos e namorados, pelas famílias que deixavam ali por quem queria empunhar a espada.

E ela por quem lutava? O calor de quem procuraria na noite anterior à batalha, quem era sua razão para lutar?

Os dias passavam, e Samhain espreitava como uma tocha ensangüentada pendendo sobre sua cabeça. E ali estava ela, sentada sozinha, como cada noite. Procuraria outro livro, outro mapa, outra lista? Ou vagaria de novo pela habitação, pelos jardins e os pátios, desejando...

Desejando a ele, pensou. Desejando que voltasse a pôr as mãos sobre seu corpo e a fizesse sentir plena, viva, radiante. Desejando que compartilhasse com ela o que tinha visto na noite em que tocou aquele instrumento e cujo som agitou seu coração tanto como ele tinha agitado seu sangue.

Ela tinha lutado e sangrado e voltaria a lutar e sangrar. Entraria no combate como rainha, com a espada dos deuses na mão. Mas nesses momentos ali estava, sentada só em sua habitação, desejando, como uma donzela ruborizada, a carícia e o calor da única coisa que tinha feito que seu pulso se acelerasse.

Aquilo era absurdo e uma perda de tempo. E também um insulto para qualquer mulher de qualquer parte.

Levantou-se e começou a passear pelo quarto enquanto refletia sobre isso. Sim, era insultante e mesquinho. Ela ficava ali sentada, desejando, pelas mesmas razões pelas quais se absteve de enviar às mulheres à marcha. Porque o tradicional era que o homem viesse à mulher. O tradicional era que o homem se encarregasse da proteção e da defesa.

Mas as coisas tinham mudado, verdade?

Acaso não tinha passado semanas em um mundo e um tempo nos que as mulheres, como Glenna e Blair, mantiveram-se firmes sem ceder terreno —ou algo mais— em cada ocasião?

De modo que se ela desejava as mãos de Cian sobre seu corpo, devia encarregar-se de que ele as pusesse ali, e não havia mais o que falar.

Quando estava a ponto de abandonar a habitação, lembrou-se do assunto de sua aparência. Podia fazê-lo melhor. Se estava a ponto de embarcar-se na aventura de seduzir a um vampiro, devia ir bem armada.

Tirou-se o vestido. Teria desejado tomar um banho —ou mas bem a ducha de água maravilhosamente quente da Irlanda—, mas o supriu lavando-se com a água perfumada que havia na bacia.

Cobriu sua pele com creme, e imaginou que eram os largos dedos de Cian os que a pulverizavam por seu corpo. O calor já estava formando uma bola de fogo em seu estômago e pulsando ao longo de seus nervos enquanto escolhia sua melhor bata de noite. Enquanto se escovava o cabelo, desejou por um momento haver pedido a Glenna que lhe ensinasse a fazer um simples feitiço. Pareceu-lhe que suas bochechas começavam a ruborizar-se, e seus olhos brilhavam. Mordeu-se os lábios até que lhe doeram, mas pensou que se haviam inchado e avermelhado muito bem.

Separou-se do grande espelho e se estudou cuidadosamente desde cada ângulo. Esperava ter um aspecto desejável.

Agarrou uma vela e abandonou a habitação com a firme determinação de não retornar a ela sendo virgem.

 

Em sua habitação, Cian estudava com atenção vários mapas. Era o único membro do círculo ao que lhe tinha negado uma visão do campo de batalha, já fosse na realidade ou em sonhos. Mas ele ia corrigir essa situação.

O tempo era um problema, cinco dias de marcha, embora ele podia percorrer essa distancia em dois, possivelmente em menos. Mas isso significava que necessitaria um lugar seguro onde pudesse acampar durante o dia.

Uma das bases que os outros tinham instalado serviria para esse propósito. Uma vez que tivesse feito sua inspeção do terreno, poderia instalar-se em uma dessas bases e esperar a chegada de Samhain.

Largar-se assim do fodido castelo e afastar-se de sua tentadora rainha.

Haveria objeções a seu plano... o que resultaria irritante, mas não iam encerrá-lo em uma masmorra e obrigá-lo a ficar quieto. Outros partiriam ao cabo de aproximadamente uma semana. Ele se largaria antes.

Podia partir com as tropas que iam sair pela manhã, se o sol estivesse oculto. Ou, simplesmente, esperar o por do sol.

Sentou-se e bebeu um gole de sangue que tinha misturado com uísque, sua própria versão de um coquetel para ajudá-lo a dormir. Inclusive podia ir naquele mesmo instante, verdade? Assim economizaria as discussões com seu irmão e os outros; simplesmente saindo do castelo.

Supôs que teria que deixar um bilhete. Era estranho que houvesse gente que realmente se preocupasse com seu bem-estar, e de algum jeito também era agradável, embora lhe acrescentava algumas responsabilidades.

Deixando a bebida a um lado, decidiu que sim, que prepararia suas coisas e partiria. Sem ruído. E assim não teria que voltar a ver Moira até que eles o alcançassem.

Agarrou a cinta de couro com contas que não lhe havia devolvido a sua proprietária e brincou com ela. Se partia essa noite, não teria que vê-la, cheirá-la, ou imaginar como seria tê-la debaixo dele na escuridão.

E tinha uma imaginação fodidamente boa.

Levantou-se para decidir que equipamento resultaria mais útil para a viagem e franziu o cenho quando alguém bateu na porta.

«Provavelmente seja Hoyt», pensou. Certamente, não lhe falaria de seus planos; desse modo se evitaria um comprido e irritante debate sobre o assunto. Considerou a possibilidade de não abrir a porta, mas o silêncio e uma porta fechada não deteriam seu irmão o feiticeiro.

Soube que era Moira no momento em que sua mão tocou o ferrolho. E amaldiçoou para si. Abriu a porta com intenções de fazer que seguisse rapidamente seu caminho, de modo que ele pudesse seguir o seu.

Moira vestia branco, um branco fino e vaporoso, com algo por cima quase do mesmo cinza de seus olhos. Cheirava como a primavera... jovem e cheia de promessas.

A necessidade se enroscou dentro dele como se fossem serpentes.

—É que nunca dormes? —perguntou ele.

—E você?

Moira entrou em sua habitação, e Cian ficou tão surpreso pelo gesto, que não atinou a lhe bloquear o passo.

—Bom, entre, faça de conta de que está em sua casa.

—Obrigada.

Moira o disse educadamente, como se as palavras de Cian não tivessem destilado sarcasmo. Logo deixou a vela sobre a mesa e se voltou para a lareira, cujos lenhos ele não se incomodou em acender.

—Vejamos se posso fazê-lo. Pratiquei até que estiveram a ponto de me sangrar as orelhas. Não fale. Distrairia-me.

Estendeu uma mão para a chaminé. Concentrou-se, imaginou. Empurrou. Uma chama pequena e débil apareceu na turfa, de modo que entreabriu os olhos e empurrou com mais força.

—Olhe!

Sua voz soou absolutamente encantada quando do fogo se acendeu.

—Olhe, agora estou rodeado de fodidos magos.

Quando Moira se voltou, seu cabelo ondeou e a delicada bata se abriu como um leque.

—É uma habilidade muito útil, e pretendo aprender mais.

—Pois aqui não encontrará um tutor em feitiçaria.

—Não. —Moira se jogou o cabelo para trás.— Mas estou pensando em outras coisas. —Retornou à porta e passou novamente o ferrolho. Logo se voltou para ele.— Quero que me leve pra cama.

Cian piscou já que, se não, os olhos lhe teriam saído das órbitas.

—O que?

—Não tem nenhum problema de audição, de modo que me ouviste perfeitamente. Quero me deitar contigo. Tinha pensado que podia tratar de me mostrar reservada e sedutora, mas logo me pareceu que sentiria mais respeito pelas palavras diretas e francas.

As serpentes que estavam enroladas dentro dele começaram a retorcer-se. E morder.

—Aqui tem uma palavra franca e direta: saia.

—Vejo que te surpreendi. —passeou-se pela habitação deslizando um dedo sobre uma pilha de livros.— Isso não é algo fácil de conseguir, assim, como diz Blair, pontos para mim. —voltou-se outra vez e sorriu.— Sou uma novata nestas coisas, de modo que me diga uma coisa, por que se zangaria um homem se uma mulher queria deitar-se com ele?

—Não sou um homem.

—Ah. —Moira levantou um dedo reconhecendo esse ponto para ele.— Mas tem necessidades, desejos. Você me desejou.

—Um homem poria sua mão sobre qualquer mulher.

—Você não é um homem —replicou ela, e logo sorriu.— Mais pontos para mim. Está-te atrasando.

—Se tiver estado bebendo outra vez...

—Não bebi nada. Sabe que não estive bebendo. Mas estive pensando. Irei à guerra, entrarei em combate. É possível que não saia dele com vida. Possivelmente nenhum de nós o faça. Hoje morreram homens bons, entre o barro e o sangue, e deixaram muitos corações destroçados atrás deles.

—E o sexo reafirma a vida. Conheço a psicologia dessa situação.

—Isso é bastante certo. Mas a um nível mais pessoal, estarei condenada, juro-o, se morrer virgem. Quero saber o que é isso. Quero senti-lo.

—Então, majestade, escolha a um semental entre seus súditos. Eu não estou interessado.

—Não quero a ninguém mais. Nunca quis a ninguém antes de ti, e não quis a ninguém desde a primeira vez que te vi. Estremeceu-me poder albergar esse tipo de sentimentos por ti sabendo o que és. Mas estão dentro de mim e não desaparecerão. Tenho necessidades, como qualquer um. E muitos estratagemas acredito, para vencer sua resistência se for necessário... embora já tenha deixado de ser um jovem luxurioso.

—Encontraste seus pés, verdade? —murmurou ele.

—Oh, sempre os tive. Só que sou muito prudente até saber bem onde piso. —Enquanto o olhava, medindo-o, deslizou a mão por um dos pilares da cama.— Diga-me, que diferença poderia supor para ti? Uma hora ou duas. Acredito que não estiveste com uma mulher há algum tempo.

Cian se sentia como um idiota. Tenso, estúpido e necessitado.

—Isso não é de sua incumbência.

—Poderia sê-lo. Tenho lido que quando um homem não esteve com uma mulher durante um tempo, essa circunstância pode afetar a seu rendimento. Mas não deveria preocupar-se por isso, já que não tenho nada com o que compará-lo.

—Grande sorte para mim! Ou o seria se eu te desejasse.

Moira elevou a cabeça e a única coisa que ele pôde ver em seu rosto foi curiosidade e confiança.

—Acha que me insultando conseguirá que vá embora. Aposto-me o que queira a que neste momento está duro como uma pedra. —aproximou-se dele.— Desejo tanto que me toque, Cian. Estou cansada de sonhar com isso e quero senti-lo.

A terra se estava desmoronando sob seus pés. E o tinha estado fazendo, ele sabia, desde que ela tinha posto o pé em seu quarto.

—Não sabe o que está pedindo, o que está arriscando. As conseqüências desse ato lhe escapam.

—Um vampiro pode deitar-se com um humano. Não me fará mal.

Moira elevou os braços, passou a corrente da cruz por cima de sua cabeça e a deixou sobre a mesa.

—Alma cândida.

Cian tentou ser sarcástico, mas o gesto de Moira o tinha comovido.

—Confiante. Não necessito nem quero um escudo contra ti. Por que alguma vez pronuncia meu nome?

—O que? É obvio que o faço.

—Não, não o faz. Dirige-te a mim, mas nunca me olha nem diz meu nome. —Seus olhos tinham agora a cor da fumaça e estavam cheios de sabedoria.— Os nomes têm poder, tomado ou concedido. Acaso teme o que eu poderia te tirar?

—Não há nada que possa tomar.

—Então, diga meu nome.

—Moira.

—Outra vez, por favor.

Ela lhe agarrou uma mão e a apoiou no coração.

—Não faça isto.

— Cian. Esse é seu nome pronunciado por mim. Cian. Acredito que se não me tocar, se não me tomar, uma parte de mim morrerá antes de entrar em batalha. Por favor. —Emoldurou o rosto dele com suas mãos e viu, finalmente, o que precisava ver em seus olhos.— Diga meu nome.

—Moira. —Perdido, agarrou-lhe a munheca e lhe beijou a palma da mão.— Moira. Se não estivesse já condenado, isto me enviaria diretamente ao inferno.

—Eu tratarei de te levar primeiro ao céu, se me ensinar como fazê-lo.

Ficou nas pontas dos pés e o atraiu para ela. Tremeu quando os lábios de Cian se uniram aos seus.

 

                                     CAPÍTULO 10

Ele tinha acreditado que sua vontade poderia impedir aquilo. Mil anos, pensou, e se afundou nela; e o macho seguia enganando-se ao acreditar que podia controlar à fêmea.

Era ela quem o guiava e, a sua maneira, tinha-o estado fazendo do primeiro instante. Agora tomaria o que lhe oferecia, o que estava exigindo dele, não importava quão egoísta fosse o ato. Mas empregaria a experiência de uma dúzia de vidas para lhe dar em troca o que ela desejava.

—És imprudente e néscia ao entregar sua inocência a alguém como eu. —Deslizou brandamente um dedo por sua clavícula.— Mas agora não te partirá até que o tenha feito.

—A virgindade e a inocência não são sempre o mesmo. Eu perdi minha inocência antes de te conhecer.

A noite em que sua mãe tinha sido assassinada, pensou. Mas as lembranças daquele momento não eram para essa noite.

Essa noite era para conhecê-lo.

—Deveria me despir para ti ou isso é algo que deve fazer você?

Ele emitiu uma risada breve e quase enferma antes de apoiar a testa sobre a dela em um gesto que a Moira pareceu surpreendentemente tenro.

—Não há pressa —murmurou ele.— Algumas coisas, especialmente na primeira vez em que são provadas, é melhor as saborear e não tragá-las de um bocado.

—Vê? Já aprendi algo. Quando me beija, há coisas que despertam dentro de mim. Coisas que eu ignorava que estivessem dormindo aí. Não sei o que é que sente você.

—Mais do que eu gostaria. —Afundou os dedos em seu cabelo, como tinha estado desejando fazer desde fazia semanas.— Mais do que seria bom para qualquer dos dois. Isto... —beijou-a brandamente— é um engano. —E voltou a beijá-la, agora mais profundamente.

Assim como acontecia com seu aroma, ela tinha sabor da primavera, a sol brilhante e a juventude. Cian ansiava por esse sabor, encheu-se dele e de seu fôlego entrecortado enquanto roçava brandamente com os dentes seu lábio inferior.

Deixou que suas mãos se afundassem entre seus cabelos, na larga e sedosa juba, e acariciando-a por debaixo desta para despertar seus nervos ao longo da coluna vertebral.

Quando Moira começou a tremer, apoiou-lhe as mãos nos ombros para que a bata se deslizasse para baixo e despir assim para seus lábios aquela pele tão suave. Ele podia sentir a entrega nela, o mesmo que seu estremecimento, e quando sua boca lhe percorreu a garganta, o excitante batimento do coração do sangue sob a pele.

Moira não se sobressaltou quando seus dentes a roçaram, mas ficou rígida quando lhe acariciou um peito.

Ninguém a havia tocado jamais de um modo tão íntimo. A onda de calor provocado por suas mãos foi um choque para ela, como o fato de saber que entre a palma dele e sua pele só havia uma magra capa de tecido.

Logo também isso desapareceu, e a bata de noite caiu ao redor dos seus pés. Sua mão se elevou instintivamente para cobrir-se, mas ele a agarrou e lhe passou brandamente os dentes pela munheca enquanto a olhava fixamente.

—Tem medo?

—Um pouco.

—Não te morderei.

—Não, não disso. —Girou a mão que ele sustentava para cobrir com a palma a bochecha de Cian.— Dentro de mim estão ocorrendo tantas coisas. Tantas coisas novas. Ninguém me há tocado nunca desta maneira. —Fazendo provisão de todo seu valor, agarrou a outra mão dele e a levou a peito.— Me mostre mais.

Ele passou a gema do polegar sobre o mamilo e observou a comoção de prazer que se refletia no rosto dela.

—Apaga de uma vez essa mente buliçosa, Moira.

Mas era como se um manto de névoa houvesse coberto já sua mente. Como podia pensar quando seu corpo estava nadando em meio de sensações tão novas?

Ele a elevou do chão de modo que, de repente, sua cara ficou ao mesmo nível que a de Cian. Logo sua boca a inundou novamente na onda de calor.

A cama estava debaixo dela? Tinha cruzado ele a habitação? Como o havia... mas sua mente voltou a nublar-se enquanto as mãos e a boca de Cian percorriam seu corpo como veludo ardente.

Ela era um festim e ele tinha jejuado muito. Mas mesmo assim a degustou lentamente, atrasando-se nos sabores e texturas. E com cada estremecimento, com cada gemido ou ofego, ela alimentava a excitação de Cian.

Quando suas mãos curiosas chegaram muito perto de romper o controle de Cian, ele as agarrou entre as suas, sujeitando-lhe ao tempo que assolava seus seios lentamente, sem piedade.

Ela se estava transformando debaixo dele; Cian podia sentir como o poder a enchia cada vez com mais força, com maior plenitude. E quando ele a levou ao topo do prazer, Moira arqueou o corpo, acompanhando-o de um grito afogado.

Pareceu derreter-se, e suas mãos ficaram flácidas debaixo das dele.

—Oh —disse com uma prolongada expulsão de fôlego.— Oh, entendo.

—Você acha que entende.

A língua de Cian percorreu o potente batimento do pulso em sua garganta e, enquanto Moira gemia, deslizou-lhe a mão entre as pernas e, penetrando nesse calor úmido, ensinou-lhe mais.

Tudo se encheu de luz. O resplendor a cegava, quase lhe queimava os olhos, a pele, o coração. Agora ela era só sensação, uma multidão de prazeres além de qualquer possibilidade. Era a flecha do arco e ele a tinha disparado para cima em um vôo interminável.

Suas mãos a dominavam até convertê-la em refém dessa necessidade sem fim. Meio enlouquecida, lutou com a camisa dele.

—Necessito... quero...

—Eu sei.

Cian tirou a camisa para que ela, a sua vez, pudesse tocá-lo e saboreá-lo. E se deixou levar pelo prazer que lhe produziam suas ansiosas explorações. O fôlego dela sobre sua pele, quente e agitado, os dedos percorrendo e acariciando. Quando as mãos de Moira chegaram a seus quadris, permitiu que o ajudasse a tirar o resto da roupa.

E não estava seguro de devia sentir-se divertido ou adulado quando ela arregalou os olhos.

—Eu... eu não sabia. Tinha visto um pênis antes, mas...

Agora ele pôs-se a rir.

—Oh, viu-o?

—É obvio. Os homens se banham no rio e, bom, sentia curiosidade...

—Espiava-os. O orgulho de um homem não se encontra em seu, digamos, esplendor depois de um banho nas frias águas de um rio. Não te farei mal.

Mas ele teria que fazer-lhe, não? Pensou. Ela tinha lido a respeito dessas coisas e, além disso, tinha ouvido as mulheres falarem disso. Entretanto não lhe temia à dor. Já não temia a nada.

De modo que voltou a estender-se e o abraçou. Mas ele começou a tocá-la outra vez, a excitá-la de novo, a desatá-la como se fosse um nó em uma corda.

Queria que estivesse empapada, embriagada, além dos pensamentos e dos nervos. Aquele corpo tenso e magro que ela tinha endurecido antecipadamente, voltou a afrouxar-se. Uma vez mais quente e relaxado, com essa erótica corrente de sangue que bulia sob sua pele.

—Me olhe. Moira mo chroi[5]. Me olhe. Olhe dentro de mim.

Aquilo era algo que ele podia fazer, com vontade e controle. Ele podia lhe fazer mais fácil o momento, mitigar a rajada de dor e lhe proporcionar só prazer. Quando aqueles grandes olhos cinzas se empanaram, ele a penetrou. Encheu-a.

Os lábios da Moira tremeram e o gemido que emitiram foi rouco e profundo. Cian a manteve capturada em seus olhos enquanto começava a mover-se em seu interior com investidas profundas e lentas que fizeram que a excitação percorresse o rosto e o corpo dela.

Inclusive quando ele a libertou de sua sujeição, quando ela começou a mover-se com ele por sua conta, seus olhos continuaram fixos nos de Cian. O coração de Moira pulsava furiosamente, um tambor selvagem golpeando em seu peito, algo tão vital que, por um momento, pareceu que pulsava dentro dele.

Moira gozou com um grito de admiração e abandono. Ao fim, ele permitiu que sua própria necessidade se liberasse nela.

Ela se aconchegou contra ele como uma gata que tivesse comido até a última gota de nata. Cian estava seguro de que, mais tarde, amaldiçoaria-se pelo que acabava de fazer, mas no momento estava contente de podê-lo desfrutar.

—Não sabia que pudesse ser assim —murmurou ela.— Tão enorme.

—Ao estar tão bem dotado, poderia te haver arruinado para qualquer um outro homem.

—Não me referia ao tamanho de seu orgulho, como o chamaste.—pôs-se a rir e pelo sorriso indolente dele, compreendeu que tinha entendido perfeitamente o que havia dito.— Tenho lido sobre o ato, é obvio. Livros de medicina, livros de contos. Mas a experiência pessoal é muito mais satisfatória.

—Sinto-me feliz de ter contribuído para sua investigação.

Moira rodou na cama até colocar seu corpo em cima do dele.

—Estou pensando que precisarei fazer uma investigação muito mais exaustiva antes de aprender tudo o que terá que saber. Estou ávida de conhecimentos.

—Mas que droga, Moira —disse ele com um suspiro enquanto jogava com sua larga cabeleira.— És perfeita.

—Sou? —Suas bochechas já brilhantes se ruborizaram de prazer—Não lhe discutirei isso porque neste momento me sinto perfeita. Embora bastante sedenta. Tem um pouco de água por aqui?

Ele a afastou brandamente e logo se levantou para procurar a jarra. Moira se sentou na cama enquanto Cian servia a água e seu cabelo escorregou sobre seus ombros e seus peitos. Ele pensou que, se tivesse um coração que pulsasse, vê-la tal como a estava vendo nesses momentos poderia detê-lo.

Estendeu-lhe o copo e logo se sentou frente a ela na cama.

—Isto é uma loucura e você sabe.

—O mundo se tornou louco —respondeu Moira.— Por que não poderíamos sê-lo nós um pouco? Não estou sendo imprudente ou despreocupada —acrescentou rapidamente, apoiando uma mão sobre a dele—Tenho que fazer tantas coisas, Cian, tantas coisas obrigatoriamente. Esta foi minha escolha. Minha própria escolha.

Bebeu um pouco de água e lhe passou o copo para compartilhá-la com ele.

—Lamentará ter feito algo que nos deu prazer e que não tem feito mal a ninguém?

—Pensaste no que pensarão de ti por ter compartilhado a cama comigo?

—Terá que te ouvir, preocupando-se por minha reputação. Eu sou proprietária de mim mesma e não preciso explicar a ninguém com quem compartilho a cama.

—Sendo a rainha...

—Isso não me faz menos mulher —o interrompeu Moira.— Uma mulher de Geall, e somos conhecidas por tomar nossas próprias decisões. Esta mesma noite se encarregaram de me recordar isso.

Moira se levantou e agarrou a bata para cobrir-se.

Ele pensou que era como se cobrisse-se com névoa.

—Uma de minhas damas de companhia, Ceara, sabe de quem falo?

—Ah, alta, cabelo loiro escuro. É a mulher que te derrubou no combate corpo a corpo.

—Exatamente. Mataram seu irmão hoje na marcha. Era muito jovem, nem sequer tinha dezoito anos. —Isso voltou a lhe machucar o coração.— Fui à sala onde se reúnem minhas damas e a encontrei ali, quando teria que lhe haver dado permissão para que estivesse com sua família.

—Ela é leal e pensa em seu dever para contigo.

—Não só para comigo. Perguntou-me se eu lhe concederia uma coisa em nome de seu irmão. Uma coisa. —A emoção tremeu em sua voz antes que pudesse contê-la.— E era partir amanhã pela manhã junto a seu marido. Deixar isto, a seus filhos, a segurança, e enfrentar-se aos perigos que pudessem espreitá-la no caminho. E não é a única mulher que o tem feito. Não somos débeis. Não nos sentamos e esperamos, ou não queremos seguir fazendo-o. Recordaram-me isso esta noite.

—Permitirá que parta?

—A ela e a qualquer outra mulher que o deseje. Afinal, algumas das que possivelmente não queiram ir também deverão fazê-lo. Não vim a ver-te porque seja débil, porque necessitasse consolo ou proteção. Vim porque queria a ti. Queria isto. —Levantou a cabeça e, com um leve sorriso, deixou cair a bata.— E agora parece que te desejo outra vez. Preciso te seduzir?

—É muito tarde para isso.

O sorriso de Moira se fez mais amplo enquanto se aproximava da cama.

—Ouvi dizer, e tenho lido, que um homem necessita um pouco de tempo entre um assalto e outro.

—Obriga-me a me repetir: eu não sou um homem.

Agarrou-a pela mão, lançou-a em cima da cama... e debaixo dele.

Ela se pôs-se a rir e lhe puxou o cabelo com um gesto divertido.

—Isto é algo que resulta muito útil, dadas as circunstâncias.

Mais tarde, pela primeira vez em muito tempo para poder recordá-lo, Cian não dormiu em silêncio, e sim acompanhado pelo ritmo sereno do coração de Moira.

E foi esse coração o que o despertou. Ouviu o batimento súbito e acelerado inclusive antes que ela se agitasse violentamente no meio do sono.

Amaldiçoou ao recordar só então que ela não levava posta a cruz, e que ele tampouco tinha adotado nenhuma das precauções de Glenna contra a intrusão de Lilith.

—Moira. —Agarrou-a pelos ombros e a levantou.— Acorda.

Estava a ponto de sacudi-la para que o fizesse quando seus olhos se abriram de repente. Em lugar da expressão de medo que Cian esperava encontrar em seu olhar, viu aflição.

—Era um sonho —disse ele com cautela.— Só um sonho. Lilith não pode te tocar em sonhos.

—Não era Lilith. Lamento te haver despertado.

—Estás tremendo. Toma. —Agarrou uma das mantas e lhe cobriu os ombros.— Reacenderei o fogo.

—Não é necessário. Não se preocupe —disse Moira quando ele se levantou.— Deveria ir. Não falta muito para que amanheça.

Entretanto, ele se agachou e colocou umas partes de turfa na lareira.

—Não confia em mim para me contar isso.

—Não é isso. Não o é. —Deveria haver-se levantado e haver-se ido assim que despertou. Porque agora sentia como se não pudesse mover-se.— Não era Lilith, só era um mau sonho. Só...

Mas sua respiração começou a agitar-se.

Em lugar de ir para ela, Cian acendeu a turfa e logo percorreu a habitação acendendo as velas.

—Não posso falar disso. Não posso.

—É obvio que pode. Possivelmente não comigo, mas sim com Glenna. Irei despertá-la.

—Não. Não. Não.

Moira se cobriu o rosto com as mãos.

—Já vejo. —Posto que estava levantado, e que provavelmente já não pudesse seguir dormindo, serviu-se uma jarra de sangue.— As mulheres de Geall não são débeis.

Moira baixou as mãos e os olhos que tinha estado ocultando brilharam com o insulto.

—Maldito bastardo.

—Exatamente isso. Retorna correndo a sua habitação se não for capaz de te enfrentar a isso. Mas se fica, deve te liberar de algo que esteja atada em seu interior. Você decide. —Agarrou uma cadeira.— É boa para as escolhas, de modo que toma uma.

—Quer ouvir minha dor, minha aflição? Por que não lhe explicar isso então? Possivelmente para ti não tenha muita importância. Estava sonhando, como o faço uma e outra vez, com o assassinato de minha mãe. E, cada vez, o sonho é mais claro que o anterior. A princípio tudo era pálido e confuso, como se estivesse olhando através de uma mancha de lodo. Resultava mais fácil de agüentar.

—E agora?

—Agora pude vê-lo.

—E o que é que viu?

—Estava dormindo. —Seus olhos estavam muito abertos e cheios de dor.— Tínhamos jantado e estavam meu tio, Larkin e o resto da família. Uma pequena festa familiar. Minha mãe desfrutava-as celebrando várias vezes ao ano. Depois houve música e baile. A ela, a minha mãe, adorava dançar. Quando fomos à cama já era muito tarde, e eu fiquei dormida assim que apoiei a cabeça no travesseiro. Então a ouvi gritar.

—Ninguém mais a ouviu?

Moira meneou a cabeça.

—Não. Ela não gritou. Não em voz alta. Não acredito que minha mãe gritasse em voz alta. O fez dentro de sua cabeça e eu pude ouvir esse grito na minha. Uma vez. Só uma vez. Pensei que o tinha imaginado, não podia ser de outra maneira. Mas de todos os modos me levantei e fui ao seu quarto. Só para me tranqüilizar.

Podia ver a cena como se fosse então. Não se tinha incomodado em agarrar uma vela porque seu coração pulsava depressa e ressonava em seu peito. Simplesmente tinha abandonado sua habitação e deslocado para a porta de sua mãe.

—Não chamei. Ia dizendo a mim mesma que não a despertaria. Só me deslizar em seu quarto e comprovar que estava dormindo. Mas quando abri a porta, minha mãe não estava em sua cama, não estava dormindo. Então ouvi uns sons horríveis. Como animais, como lobos mas pior. Oh, muito pior.

Fez uma pausa, tratou de fazer passar saliva através de sua garganta seca.

—As portas do terraço estavam abertas e as cortinas se moviam ao impulso da brisa. Chamei-a. Queria correr para as portas do balcão, mas não pude. Sentia as pernas como se fossem de chumbo. Nem era capaz de pôr um pé diante do outro. Não, não posso seguir.

—Sim pode. Foi até as portas, as portas do terraço.

—E vi... Oh, Deus, Oh, Deus, Oh, Deus. Vi-a estendida no chão. E o sangue, tanto sangue. Essas coisas estavam... vou vomitar.

—Não o fará. —Cian se levantou e se aproximou dela.— Não vomitará.

—Essas coisas a estavam despedaçando. —E as palavras saíram bruscamente de sua boca.— Estavam rasgando seu corpo. Eram demônios, coisas saídas de um pesadelo, despedaçando a minha mãe. Queria gritar, mas não podia. Queria me equilibrar sobre eles e lhes jogar dali. Um deles me olhou. Tinha os olhos vermelhos e a cara coberta com o sangue de minha mãe. Lançou-se contra a porta e eu retrocedi. Afastei-me dela quando teria que ter deslocado a seu lado.

—Sua mãe estava morta, Moira, e você sabia. Se tivesse atravessado essas portas, lhe teriam matado.

—Deveria ter ido para ela. Essa coisa saltou e eu gritei e gritei e gritei. Inclusive quando esse monstro caiu para trás como se tivesse se chocado contra uma parede, eu segui gritando. Logo tudo se voltou negro. A única coisa que fiz foi gritar enquanto minha mãe jazia no chão, sangrando.

—Você não é estúpida —disse Cian.— Você sabe que estava emocionada. Sabe que o que viu era como ter recebido um terrível golpe físico. Nada do que pudesse ter feito teria salvado a sua mãe.

—Como pude deixá-la ali, Cian? Simplesmente deixá-la ali. —As lágrimas brotaram de seus olhos e rodaram por suas bochechas.— A amava mais que a ninguém no mundo.

—Ocorreu porque sua mente não podia aceitar o que viam seus olhos, aquilo que para ti era impossível. Antes que você entrasse em sua habitação, ela já estava morta. Sua mãe estava morta, Moira, do momento em que ouviu seu grito em sua cabeça.

—Como pode estar tão seguro? Se...

—Eram assassinos. Deveram matá-la imediatamente. O que veio depois só foi complacência, mas a morte era o objetivo.

Agora Cian agarrou suas mãos entre as suas para esquentar-lhe.

—Deve ter sido apenas um momento para sentir medo, para sentir a dor. Quanto ao resto, ela já estava mais à frente do resto.

Moira ficou imóvel e o olhou fixamente aos olhos.

—Poderia me jurar que acha isso?

—Não é questão do que o ache ou não o ache, é que sei. Lhe posso jurar isso. Se sua intenção tivesse sido torturá-la, a teriam levado a alguma parte e levariam seu tempo para fazê-lo. O que você viu foi uma forma de encobrimento. Animais selvagens haveriam dito. O mesmo que aconteceu com seu pai.

Moira deixou escapar o ar ao compreender a horrível lógica que havia nas palavras de Cian.

—Punha-me doente só de pensar que minha mãe poderia ter estado viva quando cheguei ali. Ainda com vida enquanto aqueles dois monstros a despedaçavam. Agora, de algum jeito, resulta-me mais fácil saber que não o estava.

Moira se enxugou uma lágrima.

—Lamento te haver chamado de bastardo.

—Eu te tenho feito zangar.

—Com total determinação. Antes desta noite não tinha falado com ninguém de tudo isto. Não era capaz de tirá-lo pra fora e falar disso.

—Agora o tem feito.

—Talvez agora que o tenho feito, já não a veja mais como a vi aquela noite. Possivelmente consiga vê-la como quando estava viva e era feliz. Todas essas imagens que tenho dela, em lugar de só a última. Abraçaria-me um momento?

Cian se sentou, rodeou-a com o braço e quando ela apoiou a cabeça sobre seu ombro lhe acariciou o cabelo.

—Sinto-me melhor agora que lhe contei isso. Foste muito amável ao fazer que me zangasse para que falasse.

—Quando quiser.

—Eu gostaria de poder ficar aqui, sentada em silêncio e na escuridão. Ficar contigo. Mas devo voltar para meu quarto e trocar de roupa. Devo ver as tropas quando empreenderem a marcha ao amanhecer. —Moira elevou a cabeça.— Me dá um beijo de bom dia?

Cian uniu seus lábios aos dela e prolongou o beijo até que sentiu uma pontada no estômago.

Ela abriu uns olhos sonolentos.

—Pude senti-lo até as plantas dos pés. Espero que isso signifique que hoje caminharei mais leve.

Levantou-se e agarrou sua roupa.

—Pode sentir falta de mim nas próximas horas —disse ela.— Ou, em todo caso, mentir quando voltar a ver-te, e me dizer que assim foi.

—Se te disser que senti falta de ti não será uma mentira.

Moira, já com a bata posta, agarrou o rosto de Cian entre suas mãos para um novo beijo.

—Então, conformarei-me com algo que seja a verdade.

Logo agarrou sua vela e se dirigiu à porta. Depois de lhe oferecer um último sorriso por cima do ombro, correu o ferrolho.

E abriu a porta um segundo antes que Larkin golpeasse para chamar.

—Moira?

Seu sorriso foi breve e desconcertado ao encontrá-la ali. E se esfumou por completo quando viu a cama revolta e a Cian que se envolvia a cintura com uma manta.

Com um ataque de fúria selvagem fez com que Moira se separasse de seu caminho e atacou a Cian.

Este não se incomodou em parar o golpe, e o recebeu em pleno rosto. Deteve o segundo punho uns centímetros antes que voltasse a impactar em seu rosto.

—Tens direito a um, mas não mais.

—Ele não tem direito a nada disso. —Moira teve a presença de ânimo necessária para fechar a porta e correr novamente o ferrolho.— Se voltar a lhe golpear, Larkin, eu mesma te chutarei o traseiro.

—Fodido safado. Responderá por isso.

—Disso não cabe dúvida. Mas não diante de ti.

—Será diante de mim, prometo-lhe isso.

Quando Larkin voltou a fechar os punhos, Moira teve que reprimir o impulso de lhe golpear com um candelabro.

—Lorde Larkin, como sua rainha, ordeno-lhe que retrocedas.

—Oh, não coloque o cargo neste assunto —disse Cian.— Deixa que o moço trate de defender a honra de sua prima.

—Deixarei-te fodidamente inconsciente.

Moira, com a paciência esgotada, interpôs-se entre ambos.

—Me olhe. Maldito seja seu duro crânio, Larkin, me olhe. Em que quarto estamos?

—No quarto do fodido safado.

—E acha que ele me arrastou até aqui agarrada pelo cabelo para me forçar? Um bronco, isso é o que é. Eu vim aqui e bati na porta de Cian. Meti-me em seu quarto e em sua cama porque era o que eu queria.

—Não sabe o que está...

—Se te atrever, se te atrever a me dizer que não sei o que quero, serei eu quem deixe a ti fodidamente inconsciente. —Golpeou-lhe o peito com um dedo para enfatizar suas palavras.— Tenho direito a minha vida privada, e você não tem voz nela.

—Mas ele... você. Não é correto.

—Tolices.

—Não é de se estranhar que seu primo se oponha a que te deite com um vampiro. — Cian se afastou deles e voltou a agarrar sua taça. Introduziu deliberadamente um dedo no sangue e logo o chupou.— Oh, um hábito detestável.

—Não permitirei que... —começou Moira.

—Espera. —Larkin interrompeu a irada corrente de palavras de Moira.— Um momento. Eu gostaria de falar com Cian em particular. Só falar —acrescentou antes que sua prima abrisse de novo a boca.— Te dou minha palavra.

Ela passou a mão pelo cabelo.

—Não tenho tempo para nenhum de vocês e esta tolice. Se comportem como homens e discutam sobre o que não é de sua incumbência como se eu fosse tola. Por minha parte, vou vestir-me; tenho que me despedir dos soldados que partem hoje.

Moira foi para a porta.

—Confio em que não se matem um ao outro por minhas relações privadas.

Logo abandonou a habitação com uma sonora portada.

—Date pressa —disse Cian.— Me sinto subitamente cansado dos humanos.

O pior do mau humor de Larkin tinha desaparecido de seu rosto.

—Você achas que te peguei, que estou zangado contigo pelo que é. Mas eu teria tido a mesma reação e feito exatamente o mesmo com qualquer homem a quem tivesse encontrado com Moira desta maneira. Ela é minha garota, depois de tudo. Embora não pudesse ser para mim o que eu queria, já que de todos os modos eu não tinha pensado em nada concreto.

Deixou escapar o ar enquanto mudava o peso do corpo de um pé a outro.

—E agora que o penso, isso acrescenta uma nova e complicada capa a tudo isto. Mas não quero que aches que te golpeei porque é um vampiro. O fato é que não penso em ti desse modo, bom, a menos que pense nisso. Para mim é um amigo. Você é um de nós seis. —Enquanto falava, sua voz voltou a tingir-se de ira.— Mas lhe digo isso claramente, aqui e agora, o que quer que estivesse pensando ao te aproveitar de minha prima, não tem nada a ver com que tenha ou não um fodido coração.

Cian esperou um momento antes de falar.

—Acabaste já com essa parte do discurso?

—Sim, até que tenha uma resposta.

Cian assentiu, sentou-se e agarrou novamente sua taça.

—Puseste-me em um dilema, não acha? Ao dizer que sou seu amigo e um dos seus. Posso ser a primeira coisa, mas nunca serei a segunda.

—Tolices. Essa é uma forma de evitar a questão. Confiava em ti tanto como nos outros. E agora você seduziste a minha prima.

Cian pôs-se a rir.

—Parece-me que não concede a sua prima suficiente mérito. Esse foi também meu engano. — Cian passou um dedo pela cinta de couro que lhe tinha dado Moira.— Ela me desfiou como se eu fosse um novelo de lã. Certamente, isso não me desculpa de não lhe haver dito que partisse do quarto, mas Moira é uma mulher persuasiva e obcecada. Não pude... não resisti.

Jogou uma olhada aos mapas que tinha ignorado desde que Moira bateu na porta.

—Mas isso não será um problema, porque penso partir esta mesma noite. Mais cedo inclusive se o tempo o permitir. Quero inspecionar pessoalmente o campo de batalha. De modo que Moira está a salvo de mim, e eu dela, até que tudo isto tenha acabado.

—Não pode fazê-lo. Não pode fazê-lo —repetiu Larkin enquanto Cian se limitava a elevar uma sobrancelha.— Se partir deste modo, Moira pensará que ela foi a causa. Fará-lhe mal. Se eu for o responsável por que tenha decidido ir...

—Já o tinha decidido antes que Moira viesse ao meu quarto. Em parte porque esperava me manter afastado dela.

Obviamente frustrado, Larkin passou as mãos pelo cabelo.

—Já que não foste o bastante rápido para que isso não ocorresse, agora terá que esperar. Eu te levarei até o campo de batalha, pelo ar, dentro de uns dias ou quando puder. Mas os seis devem permanecer unidos. —Larkin, agora mais tranqüilo, estudou o rosto de Cian.— É preciso que sigamos sendo um círculo. Isto é muito maior que o fato de deitar-se ou não com alguém. Isso, agora que meu sangue se esfriou, é algo que compete somente a vocês dois. Não me corresponde interferir. Mas maldita seja —continuou— vou te pedir uma coisa. Vou te perguntar isso como amigo e como seu familiar de sangue representando a seu pai. Tem sentimentos por ela? Sentimentos autênticos?

—Joga a carta da amizade habilmente, não achas?

—Você é meu amigo, preocupo-me contigo como o faria por um irmão. Essa é a verdade.

—Mas que droga. — Cian deixou com força a taça sobre a mesa e logo franziu o cenho ante as gotas de sangue que tinham salpicado os mapas.— Vocês os humanos me curvam com os sentimentos. Empurram-os para mim e dentro de mim sem pensar por um momento como posso sobreviver a eles.

—Como pode sobreviver sem eles? —perguntou Larkin a sua vez.

—Com toda comodidade. Que diferença pode supor para ti o que eu sinta? Ela necessitava de alguém.

—De alguém não. A ti.

—Esse é seu engano —replicou Cian tranqüilamente.— E minha condenação. A amo, de outro modo a teria tomado antes só por diversão. A amo, se não, a teria jogado de meu quarto ontem à noite. Como? Não estou seguro, mas a amo, porque se não fosse assim, não me sentiria tão fodidamente desesperado. E se contar a alguém o que acabo de te dizer, amigo ou não amigo te arrancarei a cabeça dos ombros.

—De acordo. —Larkin assentiu, levantou-se e lhe tendeu a mão.— Espero que lhes façam mutuamente tão felizes como são capazes, durante todo o tempo em que possam fazê-lo.

—Está bem. — Cian lhe estreitou a mão.— E que demônios está fazendo aqui a estas horas?

—Oh, tinha-o esquecido por completo. Pensava que ainda não te teria deitado. Queria te perguntar se permitiria que nós, minha família, cruzássemos a seu cavalo com uma de nossas éguas. Está no cio, e seu Vlad seria uma boa escolha.

—Quer usar a meu cavalo como semental?

—Sim, eu gostaria de fazê-lo, se não representar um problema para ti. Ordenaria que trouxessem a égua esta manhã.

—Vá em frente. Estou seguro de que Vlad o desfrutará.

—Agradeço-lhe isso. Pagaremos-lhe a tarifa habitual.

—Não. Nada de dinheiro. Consideraremos um gesto entre amigos.

—Entre amigos então. Obrigado. Agora irei ver a Moira e deixarei que me rompa a crisma como mereço. —Larkin se atrasou na porta.— Oh, a égua que tenho em mente para seu cavalo é encantadora.

O sorriso breve, a piscada rápida de Larkin quando este partiu do quarto, fizeram que Cian pusesse-se a rir apesar da confusão dessa manhã.

 

                                       CAPÍTULO 11

Seguindo ordens de Moira, as bandeiras ondearam a meia haste e os gaiteiros tocaram um réquiem à luz do amanhecer. Ela faria mais, se os deuses o queriam, por todos aqueles que tinham entregado suas vidas naquela guerra. Mas no momento isso era tudo o que se podia fazer em reconhecimento dos mortos.

De pé no meio do pátio, sentia-se rasgada entre a aflição e o orgulho enquanto observava aos homens e mulheres —os guerreiros— que se preparavam para empreender a larga marcha para o oeste. Ela já se despediu de suas damas de companhia, e de Phelan, o marido de sua prima.

—Majestade. —Niall, o corpulento guarda que agora era um de seus fiéis capitães, quadrou-se diante dela.— Ordeno que abram as portas?

—Espera um momento. Sei que desejaria partir hoje.

—Eu lhe sirvo com complacência, minha senhora.

—Seus desejos lhe pertencem, Niall, e os entendo. Mas te necessito aqui um pouco mais. Logo chegará o momento em que você também devas partir. —Esse momento chegaria para todos eles, pensou.— Como estão seu irmão e sua família?

—A salvo, graças ao lorde Larkin e a senhora Blair. Embora a perna de meu irmão está curando bem, não poderá combater de pé.

—Nesta guerra haverá mais coisas a fazer além de usar uma espada no campo de batalha.

—Sim. —Sua mão aferrou o punho da espada que lhe pendurava do flanco.— Mas eu estou preparado para usar a minha.

Moira assentiu.

—A usará. —Deixou escapar o ar.— Abram as portas.

Pela segunda vez, contemplou a sua gente abandonar a segurança que lhes brindava o castelo. Seria uma cena repetida, sabia, até que ela também atravessasse essas portas, deixando para trás aos muito velhos, os muito jovens, os doentes e os inválidos.

—É um dia luminoso —disse Larkin a seu lado.— Deverão poder chegar à primeira base sem contratempos.

Moira não disse nada e desviou o olhar para onde se encontrava Sinann, com um filho nos braços, outro dentro de seu ventre e a um mais pego de suas saias.

—Sinann não chora —comentou Moira.

—Ela nunca se despediria de Phelan com lágrimas nos olhos.

—E, entretanto, as lágrimas devem ser como uma inundação dentro dela, mas nem sequer neste momento permitirá que seus filhos a vejam chorar. Se a coragem do coração for uma arma, Larkin, varreremos a nossos inimigos.

Quando ela se voltou para partir, Larkin caminhou ao seu lado.

—Eu gostaria de falar contigo antes —disse ele.— Ou depois.

—Antes da cerimônia —agora sua voz era fria como a manhã—, ou depois de que invadisse minha vida privada?

—Eu não invadi sua vida privada. Estava simplesmente ali, no que resultou ser um momento muito incômodo para todos nós. Cian e eu resolvemos a questão entre nós.

—Oh, resolveram? —Suas sobrancelhas se elevaram enquanto o olhava fixamente.— Não me surpreende, já que os homens sempre resolvem as questões entre eles de um modo ou outro.

—Não empregue esse tom superior comigo. —Agarrou-a pelo braço e a levou por volta de um dos jardins, onde poderiam ter maior privacidade.— Como, pergunto-te, esperava que reagisse quando vi que te tinha deitado com ele?

—Suponho que tivesse sido muito pedir que tivesse sido o bastante cortês para te desculpar e partir do quarto.

—Isso é fodidamente certo. Quando penso que um homem de uma fodida e quase eterna experiência te seduz...

—Foi justamente o contrário. Completamente.

Larkin se ruborizou, coçou-se a cabeça e caminhou em círculos com evidente frustração.

—Não quero saber os detalhes, se não te importar. Já me desculpei com Cian.

—E o que acontece comigo?

—O que quer que faça, Moira? Eu te amo.

—Espero que entenda que sou uma mulher adulta e capaz de tomar minhas próprias decisões quanto a ter um amante. Não te sobressalte ao escutar essa palavra —disse ela com impaciência.— Posso governar, posso lutar, posso morrer se for necessário, mas sua sensibilidade se sente ferida ante a idéia de que possa ter um amante?

Larkin o pensou.

—Sim. Mas minha sensibilidade conseguirá superá-lo. Eu só quero, mais que qualquer outra coisa, não ver-te nunca ferida. Nem na batalha, nem nas questões do coração. É isso suficiente?

Moira aplacou sua ira e seu coração se serenou, como sempre lhe acontecia com seu primo.

—Deve sê-lo, já que eu quero o mesmo para ti. Larkin, você diria que tenho uma mente boa e forte?

—Eu diria que há momentos nos quais tem muito de ambas as coisas.

—Pois em minha mente, eu sei que não posso ter uma vida com Cian. Em minha cabeça posso entender que o que tenho feito, um dia me trará aflição, dor e tristeza. Mas em meu coração necessito o que agora posso ter com ele.

Moira roçou com os dedos as folhas de um arbusto florescido. As folhas cairiam, com a primeira geada, pensou. Muitas coisas cairiam então.

—Quando junto minha mente e meu coração eu sei, em ambos, que Cian e eu somos melhores pelo que nos damos um ao outro. Como pode amar e te afastar?

—Não sei.

Moira voltou o olhar para o pátio onde as pessoas haviam voltado novamente a suas ocupações, a sua rotina. A vida continuava, refletiu, caísse o que caísse. Eles se encarregariam de que a vida continuasse.

—Sua irmã viu a seu homem afastar-se dela, e sabe que poderia não voltar a vê-lo vivo. Mas não chorou diante dele ou de seus filhos. Quando Sinann chora, faz a sós. São suas lágrimas as que derrama. E assim serão também as minhas quando tudo isto tenha acabado.

—Fará-me um favor?

—Se puder...

Larkin lhe tocou a bochecha.

—Quando tiver lágrimas, te lembrará de que tenho um ombro para ti?

Agora Moira sorriu.

—Lembrarei.

Quando se separaram, ela se dirigiu ao salão, onde encontrou a Blair e Glenna discutindo o programa para esse dia.

—E Hoyt? —perguntou Moira enquanto se servia um pouco de chá.

—Está concentrado em seu trabalho. Ontem fabricamos um montão de armas novas. —Glenna se esfregou os olhos cansados.— As encantaremos durante vinte e quatro horas do dia os sete dias da semana. E trabalharei com alguns dos que ficarão no castelo quando o resto de nos tenhamos partido. Precauções básicas, aulas de defesa e ataque.

—Ajudarei-te nisso. E você, Blair?

—Logo que Larkin acabe de brincar de alcoviteiro, vamos a...

—Perdoa, o que há dito?

—Tem uma égua que está no cio e lhe pediu permissão a Cian para que Vlad a cubra. E ela nem sequer vai poder desfrutar primeiro de um jantar e umas taças. Pensava que Larkin lhes havia dito isso.

—Não, tínhamos outros assuntos a tratar e certamente lhe passou por cima. De modo que Larkin utilizará o cavalo de Cian como semental. —Sorriu lentamente. Sim, a vida continuava.— Isso está muito bem. Forte e prometedor... e fodidamente ardiloso também; poderia estar iniciando uma brilhante linhagem. De modo que isso era o que estava tramando ao bater na porta da habitação de Cian antes do amanhecer.

—Larkin pensou que se Cian lhe dava o visto bom, poderia... Espera um momento. —Blair levantou a mão.— Rebobinemos. Como sabe que Larkin bateu na porta de Cian antes do amanhecer?

—Porque eu estava saindo do quarto quando Larkin chegou.

Moira bebeu seu chá tranqüilamente enquanto Blair olhava a Glenna e logo inchava as bochechas.

—Perfeito.

—É que não pensam amaldiçoar e recriminar a Cian por ter seduzido a uma garota inocente?

Blair se passou a língua pelos dentes.

—Estava em seu quarto. Não acredito que seja o estilo de Cian te atrair com enganos para que jogasse uma olhada a suas gravuras.

Moira golpeou a mesa com a palma da mão e um gesto de satisfação.

—Sim! Eu sabia que uma mulher demonstraria mais sentido comum... e um pouco mais de respeito por meus próprios ardis. E você? —Olhou a Glenna arqueando as sobrancelhas.— Não tem nada a dizer a respeito?

—Ambos sairão feridos, mas isso é algo que os dois já sabem. De modo que direi que espero que sejam capazes de dar e tomar qualquer felicidade que se vos apresente enquanto possam fazê-lo.

—Obrigada.

—Está bem? —perguntou Glenna.— Freqüentemente, a primeira vez é difícil ou um tanto decepcionante.

Agora Moira exibiu um amplo sorriso.

—Foi bonito e emocionante, e melhor do que eu tinha imaginado. Nada do que tinha pensado se aproximava sequer à realidade desse momento.

—Já vejo, para ser bom nesse assunto, um cara necessita uns quantos séculos de prática —especulou Blair.— Esperançoso. E Larkin entrou no quarto quando... deve ter ficado furioso.

—Golpeou a Cian na cara, mas agora já o solucionaram. Como só sabem fazer os homens quando se demolem a golpes. Com o Larkin concordamos que minha escolha de um companheiro de cama é minha e continuamos com nossas coisas.

Houve um momento de silêncio enquanto as três mulheres punham os olhos em branco.

—Fica muito pouco tempo antes que abandonemos a segurança do castelo. E esperemos que muito tempo depois de Samhain para discutir a respeito de minhas preferências.

—Então eu também seguirei com minhas coisas —disse Blair.— Larkin e eu, depois de um considerável aborrecimento por parte desta servidora, decidimos que sairemos dentro de um par de horas para ver se podemos conseguir a ajuda de alguns dragões. Larkin ainda não está convencido da idéia, mas aceitou a que o tentemos.

—Se fosse possível contar com eles, seria uma grande vantagem para nós. —Apoiando o queixo no punho, Moira deu voltas à idéia em sua cabeça.— Me ocorre que poderíamos selecionar aqueles guerreiros que criamos que não serão tão fortes no campo de batalha. Se forem capazes de montar os dragões, teríamos arqueiros no ar.

—Flechas incendiárias —acrescentou Blair.— Não será ruim que tenham uma pontaria excelente.

—Sempre que não disparem à equipe de casa —disse Glenna.— Não fica muito tempo para treinar, mas vale a pena tentá-lo.

—Fogo, sim —conveio Moira.— É uma arma muito poderosa e muito mais vinda do ar. É uma lástima que não possa encantar o sol na ponta de uma flecha, Glenna, desse isto modo estaria acabado.

—Verei se posso fazer que Larkin se ponha em marcha. —Blair se levantou e duvidou um momento.— Sabem? Minha primeira vez foi aos dezessete anos. O cara tinha muita pressa e, ao acabar, deixou-me pensando: isso é tudo? Há que reconhecer que é bom ter sido iniciada por alguém que sabe o que está fazendo e tem estilo.

—Sim, estou de acordo. —O sorriso de Moira foi lento e satisfeito.— Não cabe dúvida de que sim.

Notou como Blair e Glenna intercambiavam um olhar por cima de sua cabeça, de modo que quando Blair abandonou a habitação, seguiu bebendo seu chá como se nada acontecia.

—Você o ama, Moira? —perguntou ao fim Glenna.

—Acredito que há uma parte de mim, dentro de mim, que esteve esperando toda a vida sentir o que sinto por ele. O que minha mãe sentiu por meu pai no pouco tempo em que estiveram juntos. O que sei que você sente por Hoyt. Achas que só estou imaginando que é amor por causa do que Cian é?

—Não, não acredito. Eu também albergo sentimentos profundos e autênticos por ele. E têm tudo a ver com quem é Cian. Mas Moira, você sabe que não poderá ter uma vida a seu lado. E precisamente pelo que Cian é. Algo que nenhum dos dois pode mudar, do mesmo modo que o sol não pode voar em uma flecha.

—Escutei tudo o que Blair e ele nos explicaram a respeito de... digamos, sua espécie. —E lido, pensou Moira, inumeráveis livros que falavam de feitos e crenças populares.— Sei que ele jamais envelhecerá. Cian permanecerá para sempre tal como era antes de ser convertido em um vampiro. Jovem, forte e vital. Eu em troca me voltarei velha, débil, enrugada e grisalha. Sofrerei enfermidades que ele nunca padecerá.

Levantou-se e foi até uma janela por onde começava a filtrar a luz do sol.

—Embora ele me amasse como eu o amo, não é vida para nenhum dos dois. Ele não pode ficar aqui, onde eu estou agora, e sentir a calidez do sol sobre o rosto. A única coisa que teríamos é a escuridão. Ele não pode ter filhos, de modo que nem sequer poderia ficar grávida dele. Poderia pensar só um ano juntos, ou cinco, ou dez. Só isso. Poderia pensar e desejar isso —sussurrou.— Mas não importa quão egoístas pudessem ser minhas próprias necessidades, tenho uma obrigação a cumprir. —Moira se voltou.— Ele nunca poderia ficar aqui e eu não posso partir.

—Quando me apaixonei por Hoyt e pensava que jamais poderíamos estar juntos, meu coração se fazia em pedaços todos os dias.

—Mas mesmo assim você o amava.

—Mas mesmo assim eu o amava.

Moira permaneceu junto à janela, com o sol acariciando suas costas e brilhando em sua coroa.

—Morrigan disse que este é um tempo de conhecimento. Eu sei que minha vida seria menos vida se não o amasse. Quanto mais vida haja, mais tempo e mais duramente lutaremos para conservá-la. De modo que tenho outra arma dentro de mim. E a usarei.

 

Moira descobriu que um comprido dia dedicado a ensinar aos meninos e aos anciões a defender a si mesmos e a outros dos monstros era mais exaustivo que horas de intenso treinamento físico. Não tinha imaginado quão difícil seria ensinar a uma criança que, depois de tudo, os monstros eram reais.

A cabeça lhe doía por causa das perguntas que lhe tinham feito, e sentia o coração ferido pelo medo que tinha visto nos pequenos.

Saiu ao jardim a tomar um pouco de ar e elevou novamente a vista ao céu esperando a volta de Larkin e Blair.

—Eles retornarão antes que se oculte o sol.

Voltou-se para ouvir a voz de Cian.

—O que faz? Ainda é de dia.

—As sombras são muito densas aqui a esta hora. —Mesmo assim, apoiou-se contra o muro de pedra, bem afastado da luz direta.— É um lugar agradável, tranqüilo e silencioso. E, cedo ou tarde, você sempre acaba vindo aqui para desfrutar de uns minutos a sós.

—Ou seja, que estiveste estudando meus hábitos.

—Ajuda-me a passar o tempo.

—Glenna e eu estivemos com as crianças e os anciões, lhes ensinando como defender-se se produz-se um ataque depois de que nos tenhamos partido. Não podemos prescindir de muitos dos homens fortes e sãos para que protejam o castelo.

—As portas permanecem fechadas. Hoyt e Glenna acrescentarão uma barreira de proteção. Aqui estarão bastante seguros.

—E se perdermos a batalha?

—Então não haverá nada que possamos fazer.

—Eu acredito que sempre há algo, se puser vontade e uma arma nas mãos de alguém. —aproximou-se dele.— Vieste aqui a me esperar?

—Sim.

—E agora que estou aqui, o que quer fazer?

Cian permaneceu onde estava, mas ela pôde ver a luta que se livrava em seu interior. Embora de repente o ar pareceu agitar-se com essa luta, ela guardou a compostura, com o olhar sombrio e paciente.

Cian a colheu com ambas as mãos, um movimento rápido e violento, e estreitou seu corpo contra o seu. Sua boca era voraz.

—Uma agradável escolha —alcançou a dizer ela quando pôde voltar a falar.

Logo, os lábios de Cian assaltaram novamente sua boca, lhe roubando o fôlego e a vontade.

—Tem idéia do que desencadeaste? —perguntou ele.

Antes que Moira pudesse responder, ele se voltou e lhe agarrou ambas as mãos para carregá-la a suas costas.

—Cian, o que...?

—Será melhor que te segure bem —lhe aconselhou ele, interrompendo sua risada desconcertada.

Cian saltou para cima. Os braços de Moira se aferraram ao seu pescoço enquanto ofegava boquiaberta. Ele tinha se elevado mais de três metros no ar do chão, e agora escalava a parede.

—O que faz? —Moira se arriscou a olhar para baixo e sentiu que o estômago lhe dava um tombo.— Poderia me haver avisado de que tinha perdido o juízo.

—Perdi-o quando entrou ontem à noite em meu quarto. — Cian se lançou através da janela, correu as cortinas atrás dele e ambos se inundaram na escuridão —Este é o preço que deve pagar por isso.

—Se o que queria era voltar a entrar, há portas...

Ela proferiu um leve grito de alarme quando Cian a levantou. Era como se estivesse voando pelo ar, cega em meio da escuridão. Seu seguinte grito foi de excitação e atordoamento ao encontrar-se debaixo dele na cama, enquanto suas mãos lhe afastavam a roupa para acariciar a carne.

—Espera. Espera. Não posso pensar. Não posso ver.

—É muito tarde para ambas as coisas.

Sua boca a silenciou e suas mãos a guiaram para uma cúpula dura e violenta.

Seu corpo se esticou debaixo do de Cian e ele soube que ela estava chegando ao extremo ardente dessa cúpula de prazer. O fôlego de Moira soluçava contra seus lábios quando alcançou finalmente o clímax e seu corpo ficou flácido.

Então Cian lhe agarrou ambas os pulsos com a mão e lhe sujeitou os braços por cima da cabeça. Ela estava entregue e ele a penetrou.

Moira teria gritado outra vez, mas não tinha voz. Não tinha vista e, com ambas a mão imobilizada tampouco tinha um ponto de apoio. Não podia fazer nada salvo sentir como Cian se afundava dentro dela, agitando seu corpo com um prazer escuro e desesperado, até que começou a contorcionar-se para elevar-se logo e, finalmente, seguir temerariamente o ritmo de cada uma de suas investidas.

Esta vez, o prazer a esvaziou por completo.

Ficou estendida, pele abrasada sobre ossos derretidos, incapaz de mover-se nem sequer quando ele se levantou da cama para acender a lareira e as velas.

—A vontade não é sempre uma saída —disse Cian, e ela acreditou ouvir o som de um líquido ao ser vertido em uma taça.— E tampouco uma arma.

Moira sentiu que a taça golpeava sua mão, e conseguiu abrir as pesadas pálpebras. Emitiu um som e agarrou a taça, mas não estava absolutamente segura de que pudesse tragar nada.

Então viu a marca vermelha de uma queimadura na mão de Cian. Levantou-se rapidamente, quase derramando a água pela borda da taça.

—Queimaste-te. Me deixe ver. Eu... —E viu que a marca tinha a forma de uma cruz.

—Me teria tirado isso.

Ocultou rapidamente a cruz e a corrente dentro do vestido.

—Um preço muito pequeno a pagar. —Cian levantou a munheca de Moira e apalpou o leve machucado.— Tive contigo menos controle de que teria desejado.

—Eu gosto que tenha menos controle. Me dê a mão. Tenho certa habilidade para as curas.

—Não é nada.

—Então me dê a mão. Para mim é uma boa prática.

Moira estendeu suas mãos com atitude espectadora. Um momento depois, Cian se sentou ao seu lado e colocou sua mão entre as dela.

—Eu gosto que tenha menos controle —repetiu ela atraindo seu olhar.— Eu gosto de saber que posso ser desejada dessa maneira, que há algo em mim que faz que dentro de ti algo se estique até quase romper-se.

—Algo bastante perigoso quando está tratando com um humano. Quando um vampiro perde o controle, as coisas morrem.

—Você nunca me faria mal. Você me ama.

O rosto de Cian se voltou cuidadosamente inexpressivo.

—O sexo não tem que ver com...

—O fato de não ter experiência não me converte em uma estúpida ou em uma ingênua. Está melhor?

—O que?

Ela lhe sorriu.

—Sua mão. A irritação diminuiu.

—Está bem. —Retirou-a. De fato, já não havia rastros da queimadura.— Aprende depressa.

—Assim é. Aprender é uma paixão para mim. Direi-te o que aprendi de ti com respeito a mim. Você me ama. —Seus lábios estavam ligeiramente curvados enquanto lhe acariciava o cabelo.— Ontem à noite poderia me haver tomado, de fato o teria feito com menos resistência, se tivesse sido só pelo sexo. Se unicamente se tratou de necessidade, só disso, nunca teria sido tão cuidadoso, ou confiado o bastante em mim para dormir um momento ao meu lado.

Moira levantou um dedo antes que ele pudesse lhe replicar.

—E ainda há mais.

—Contigo sempre tende a haver mais.

Ela se levantou e se alisou o vestido.

—Quando Larkin entrou esta manhã no quarto, você não fez nada para impedir que te golpeasse. Ama-me, de modo que se sentia culpado de me haver arrebatado o que considerava minha inocência. Ama-me, de modo que me seguiste o tempo suficiente para saber qual é um de meus lugares favoritos. Esperaste-me ali, e logo me trouxeste aqui porque me necessitava. Você me atrai, Cian, assim como eu atraio a ti.

Ela o observou enquanto bebia um gole de água.

—Ama-me, como eu te amo.

—É perigoso para ti.

—E para ti —disse ela assentindo.— Vivemos tempos perigosos.

—Moira, isto não pode ser nunca...

—Não me diga nunca. —A paixão vibrou em sua voz, e converteu em fumaça a cor de seus olhos.— Eu sei. Sei tudo a respeito de nunca. Me diga hoje. Que entre você e eu só exista hoje. Eu devo lutar pelo amanhã, e o dia seguinte e todos os outros. Mas com isto, contigo, é só hoje. Todo o presente que possamos ter.

—Não chore. Prefiro a queimadura antes que as lágrimas.

—Não chorarei. —Fechou os olhos um instante e se obrigou a manter sua palavra.— Quero que me diga o que me ensinaste. Quero que me diga o que eu vejo quando me olha.

—Amo-te. —aproximou-se dela e lhe acariciou brandamente o rosto com as pontas dos dedos.— Este rosto, estes olhos, tudo o que há dentro deles. Amo-te. Em mil anos nunca amei a outra mulher.

Moira lhe agarrou a mão e apertou os lábios contra ela.

—Oh! Olhe. A queimadura desapareceu. O amor te curou. A magia mais poderosa que existe.

—Moira. —Ele reteve sua mão entre as suas e logo a apoiou em seu peito.— Se pulsasse, pulsaria por ti.

A lágrimas voltaram a aparecer em seus olhos.

—Seu coração pode estar parado, mas não está vazio. Não está silencioso, ele fala a mim.

—E isso é suficiente?

—Nada será nunca suficiente, mas alcançará. Venha, agora...

Interrompeu-se para ouvir gritos que vinham de fora. Correu para a janela e afastou a cortina. Levou-se a mão à garganta.

—Cian, vem ver isto. O sol já está bastante baixo. Vem jogar uma olhada.

O céu estava cheio de dragões. Esmeralda e rubi e ouro, seus corpos lisos e brilhantes voavam sobre o castelo como jóias cintilantes sob a tênue luz do crepúsculo. E suas chamadas eram como uma canção.

—Alguma vez tinha visto algo tão bonito?

Quando Cian apoiou uma mão sobre seu ombro, ela a colheu com força.

—Escuta como os aclama a gente. Olhe como correm e riem as crianças. É o som da esperança, Cian. O som, a visão.

—Trazê-los aqui é uma coisa, conseguir que sejam montados e respondam como cavalos de guerra na batalha outra muito diferente, Moira. Mas sim, é um bonito espetáculo e um som esperançoso.

Ela observou enquanto os dragões começavam a tocar a terra.

—Em todos seus anos imagino que há muito poucas coisas que não tenha feito.

—Muito poucas —conveio ele com um sorriso.— Mas não, nunca montei em um dragão. E sim, quero fazê-lo. Desçamos.

Ainda havia suficiente luz solar, por isso necessitava a maldita capa para os espaços abertos. Mas apesar disso, ao olhar o olho dourado de um jovem dragão, Cian descobriu que ainda podia sentir se encantado e surpreso.

Seus sinuosos corpos estavam cobertos com grandes escamas da cor das pedras preciosas e eram suaves como o cristal quando alguém as tocava. Suas asas eram como gaze e as mantinham pegas ao corpo quando estavam em terra. Mas eram os olhos o mais cativante de tudo. Pareciam estar vivos e mostrar interesse e inteligência, inclusive humor.

—Pensei que os mais jovens seriam mais fáceis de treinar —comentou Blair enquanto Cian e Moira os contemplavam.— Larkin é o que melhor se comunica com eles, inclusive em sua forma humana. Confiam nele.

—E isso está fazendo que lhe resulte mais difícil utilizá-los na batalha.

—Sim, meu homem é um sentimental; estivemos dando voltas a essa questão. Larkin esperava poder lhes convencer a todos de que os empregássemos só como um meio de transporte. Mas esses dragões poderiam supor uma fodida diferença sobre o terreno. Ou em cima dele. Mesmo assim, tenho que admitir que essa idéia também me remói a consciência.

—São bonitos... e não estão corrompidos.

—Teremos que mudar a segunda parte. —Blair suspirou.— Tudo é uma arma —murmurou.— De todos os modos, queres subir?

—Pode apostar que sim —respondeu Cian.

—O primeiro vôo é comigo. Sim, sim —acrescentou ao ver a objeção pintada em seu rosto.— Você pilota seu próprio avião, monta cavalos e salvas edifícios altos de um salto. Mas nunca viajaste a lombos de um dragão, de modo que ainda não pode fazê-lo sozinho.

Blair caminhou lentamente para um dragão cor rubi e prateado. Era o que ela tinha montado para retornar ao castelo, e estendeu a mão para que pudesse farejar seu aroma.

—Adiante, deixa que ela te conheça.

—Ela?

—Sim, comprovei os encanamentos. —Blair sorriu.— Não pude evitá-lo.

Cian apoiou a mão no flanco do dragão e foi deslizando lentamente até sua cabeça.

—Vá, vá, é uma criatura linda —começou a lhe sussurrar em irlandês. Ela lhe respondeu com o que só podia interpretar-se como um coquete movimento da cauda.

—Hoyt faz com eles o mesmo que você. —Blair assinalou para onde Hoyt estava acariciando as escamas cor safira de outro dos dragões.— Deve ser um traço familiar.

—Hmmm. Por que sua majestade está montando sozinha em um destes dragões?

—Ela viajou antes em lombos de um dragão. Quer dizer, montou a Larkin convertido em dragão, de modo que conhece todos os truques. Embora não é a única coisa que esteve montando ultimamente.

—Perdão?

—Só dizia que vocês dois parecem estar muito mais relaxados que ontem. —Ofereceu-lhe um amplo sorriso e logo montou no dragão.— Acima!

Cian subiu a ele do mesmo modo que escalava as paredes. Com um salto simples e ágil.

—Assombroso —comentou logo.— Mais cômodos do que aparentam. Não muito diferente de ir a lombos de um cavalo.

—Sim, se está falando do Pegasus. De todos os modos, não deve lhe dar um ligeiro golpe no flanco para esporeá-lo. A única coisa que tem que fazer é...

Blair fez a demonstração inclinando-se sobre o pescoço do dragão e passando uma mão por sua garganta. Com um som como o roce da seda, o dragão estendeu as asas e se elevou para o céu.

—Vive o tempo suficiente —disse Cian atrás de Blair—, e poderá fazer qualquer fodida coisa.

—Esta deve ser sem dúvida uma das melhores. Ainda ficam algumas questões lógicas a resolver. O cuidado e a alimentação, os excrementos.

—Aposto que fazem florescer as rosas.

Blair jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada.

—Poderia ser. Temos que treiná-los, e também a seus cavaleiros. Mas estas belezas aprendem depressa. Observa.

Blair se inclinou para a direita e o dragão girou brandamente para seguir nessa direção.

—É algo como montar numa motocicleta.

—O princípio é similar. Inclinar-se nas curvas. Olhe a Larkin. É um espetáculo.

Larkin montava um enorme dragão dourado e estava fazendo vôos e giros com ele.

—O sol já quase se ocultou —comentou Cian.— Dêem-me uns minutos para que não me torre e nos divertiremos um pouco.

Blair o olhou por cima do ombro.

—De acordo. Ia te dar uma opinião.

—E quando não o tem feito?

—Ela suporta o peso da droga do mundo. Se o que vocês dois têm alivia um pouco essa carga, parece-me fantástico. Estar com Larkin aliviou algo da minha, de modo que espero que funcione para vocês dois.

—Surpreende-me, caçadora de vampiros.

—Eu me surpreendo a mim mesma, vampiro, mas é o que há. O sol já se ocultou. Preparado para te balançar um pouco?

Cian tirou o capuz da capa com enorme alívio.

—Mostre a este vaqueiro como terá que mover-se.

 

                                     CAPÍTULO 12

Davey tinha sido de Lilith durante quase cinco anos. Ela tinha matado a seus pais e a sua irmã pequena na Jamaica, uma tranqüila noite. A viagem de férias fora de temporada —bilhetes de avião, hotel e café da manhã continental incluído— tinha sido um presente surpresa do pai de Davey a sua esposa por seus trinta anos. Em sua primeira noite ali, aturdidos pelo espírito festivo e os copos de rum gratuitos, tinham concebido a seu terceiro filho.

Eles, é obvio, ainda não eram conscientes desse fato, e se as coisas tivessem seguido um curso diferente, a perspectiva de um novo membro na família lhes teria impedido de desfrutar de umas férias tropicais durante algum tempo.

Aquelas seriam as últimas férias da família.

Tinha sido durante uma das breves e apaixonadas separações de Lilith e Lora. Lilith tinha escolhido a Jamaica seguindo um impulso, e se entretinha escolhendo entre os habitantes da ilha e o turista ocasional. Mas se tinha cansado do sabor dos homens que vagavam pelos bares.

Queria algo diferente... algo um pouco mais fresco e doce. E nessa jovem família encontrou precisamente o que estava procurando.

Tinha acabado com as risadas da mãe e de sua pequena filha de um modo rápido e cruel durante um passeio pela praia à luz da lua. Tinha-a impressionado a luta aterrada e inútil da mulher, e seu movimento instintivo para proteger a sua filha. Uma vez satisfeito seu apetite, Lilith teria podido deixar ao homem e ao menino, que jogavam um pouco mais longe com a espuma das ondas, ignorantes do que tinha ocorrido. Mas quis ver se o pai lutaria também por seu filho. Ou se imploraria, do mesmo modo que o tinha feito a mãe.

O homem o tinha feito... e lhe tinha gritado a seu filho que corresse. «Corre, Davey, corre!», havia dito. E o terror que sentia pelo menino tinha enriquecido seu sangue, fazendo que a caçada fosse muito mais saborosa.

Mas o menino não tinha se posto a correr. Ele também tinha lutado, e isso a tinha impressionado ainda mais. Tinha chutado e mordido, inclusive tinha tratado de subir a suas costas para salvar a seu pai. Tinha sido o selvagem de seu ataque, combinado com seu rosto de características angélicas, o que a decidiu a convertê-lo em um vampiro em lugar de lhe esvaziar o sangue e seguir seu caminho.

Quando pressionou a boca do pequeno contra o sangue que emanava do corte praticado em seu peito, Lilith tinha sentido em seu interior algo que jamais havia sentido antes por ninguém. Essa sensação quase maternal a tinha fascinado e encantado.

De modo que Davey se converteu em seu mascote, seu brinquedo, seu amante.

E lhe agradou a forma tão rápida e natural em que Davey tinha encaixado a transformação. Quando ela e Lora se reconciliaram, como sempre acabavam fazendo, Lilith lhe disse que Davey era seu Peter Pan vampírico. Um menino que sempre teria seis anos.

Não obstante, como qualquer menino dessa idade, Davey precisava ser atendido, entretido e ensinado. Só que mais, posto que, em opinião de Lilith, seu Davey era um príncipe. Como tal, ele tinha um grande privilégio e uma grande obrigação.

Ela considerava que esta caçada específica reunia ambas as condições.

Davey tremia de excitação enquanto ela o vestia com as roupas grosseiras de um menino camponês. Lilith soltou uma gargalhada ao ver seus olhos brilhantes quando lhe manchou a cara com barro e sangue para completar o disfarce.

—Posso olhar? Posso olhar em seu espelho mágico e ver-me? Por favor, por favor!

—É obvio.

Lilith lançou a Lora um olhar rápido e divertido... de um adulto a outro adulto. Seguindo o jogo, Lora se estremeceu ao agarrar o prezado espelho.

—Tem um aspecto aterrador —disse Lora a Davey.— Tão pequeno e débil. E... humano!

O menino agarrou com cuidado o espelho mágico e contemplou sua imagem refletida no cristal. E despiu suas presas.

—É como um disfarce —disse e pôs-se a rir.— Poderei matar a um deles eu sozinho, verdade, mamãe? Eu sozinho.

—Já veremos. —Lilith agarrou o espelho e se inclinou para beijar sua bochecha suja.— Tem que interpretar um papel muito importante, querido. O papel mais importante de todos.

—Eu sei o que devo fazer. —balançou-se sobre as pontas dos pés.— Pratiquei e pratiquei.

—Eu sei. Trabalhaste muito duro. Estou muito orgulhosa de ti.

Lilith deixou o espelho a um lado, de barriga para baixo, obrigando-se a não olhar-se ela também. As queimaduras de Lora ainda estavam em carne viva e seu reflexo era tão perturbador que Lilith só se olhava no espelho encantado quando Lora não estava adiante.

Voltou-se quando bateram na porta.

—Deve ser Midir. Lhe faça passar, Davey, e logo sai e espera fora com o Lucio.

—Iremos logo?

—Sim. Em uns minutos.

Davey correu para a porta e logo se deteve, com os ombros muito retos, enquanto o feiticeiro o saudava com uma pequena reverência. Davey abandonou a habitação, o pequeno soldado de Lilith, deixando que Midir fechasse a porta atrás dele.

—Majestade. Minha senhora.

—Se levante. —Lilith fez um gesto indiferente com a mão.— Como pudeste ver, o príncipe está preparado. Está-o você?

Midir se levantou, e suas habituais roupas negras sussurraram ao roçar-se com o movimento. Seu rosto era duro e atrativo, emoldurado por sua juba chapeada. Os olhos, negros e intensos, encontraram-se com os frios e azuis de Lilith.

—Ele estará protegido. —Midir desviou o olhar para a grande arca que havia ao pé da cama e o pote prateado que estava aberto em cima.— Aplicastes-lhe a poção, como lhes indiquei?

—Sim, tenho-o feito, e se falha pagará com sua vida, Midir.

—Não falhará. A poção, e o feitiço que utilizarei, protegerão-o do aço e a madeira durante três horas. Davey estará tão seguro como se estivesse entre seus braços, majestade.

—Se não for assim, eu mesma te matarei, e do modo mais desagradável possível. E para me assegurar, você nos acompanhará nesta caçada.

Por um instante, Lilith advertiu uma expressão de surpresa e chateio no rosto de Midir. Logo inclinou a cabeça e falou com humildade.

—Como vocês ordenem.

—Te apresente ante o Lucio. Ele te conseguirá uns arreios.

Lilith se voltou, dando assim por terminada a conversação.

—Não deveria preocupar-se. —Lora se aproximou dela e a rodeou com seus braços.— Midir sabe que sua vida não vale nada se algo ocorrer a nosso doce menino. Davey necessita isto, Lilith. Necessita o exercício, a diversão. E também exibir-se um pouco.

—Sei, sei. Está inquieto e aborrecido, não posso lhe culpar por isso. Tudo sairá bem —disse para tranqüilizar-se a si mesma.— Eu estarei ali com ele.

—Deixe-me ir. Muda de opinião e me deixe ir contigo.

Lilith meneou a cabeça e roçou com os lábios a bochecha queimada de Lora.

—Ainda não está preparada para uma caçada. Ainda está débil, querida, e não quero que corra nenhum risco. — Agarrou os braços de Lora e os sujeitou com força.— Te necessito em Samhain, lutando, matando, te saciando. Essa noite, quando tivermos inundado o vale de sangue e pego o que é nosso por direito, quero que Davey e você estejam ao meu lado.

—Odeio a espera quase tanto como Davey.

Lilith sorriu.

—Trarei-te um presente da pequena diversão desta noite.

 

Davey montou junto com Lilith à garupa do cavalo e cavalgaram através da noite iluminada pela lua. Ele tinha querido montar em seu pônei, mas sua mãe lhe tinha explicado que não era o bastante veloz. E lhe gostava de viajar velozmente, sentindo o ar na cara, voando para a caça e a matança. Era a noite mais excitante que podia recordar.

Era inclusive melhor que o presente que lhe tinha feito para seu terceiro aniversário, quando o tinha levado através da noite estival a visitar um acampamento dos Escoteiros. E isso tinha sido tão divertido! Os gritos, as corridas, os prantos.

Era melhor que caçar aos humanos dentro das covas, ou que queimar a um vampiro que se portou mau. Era melhor que algo que pudesse recordar.

As lembranças que tinha de sua família humana eram muito vagas. Havia momentos nos que despertava de um sonho e, por um instante, parecia-lhe que estava em uma habitação com fotos de corridas de carros nas paredes e cortinas azuis nas janelas.

No armário da habitação havia monstros, e ele gritava até que ela vinha.

Ela tinha o cabelo e os olhos castanhos.

Às vezes, ele também vinha; o homem alto com o rosto que provocava. Ele afugentava aos monstros, e ela se sentava na cama e lhe acariciava o cabelo até que voltava a dormir.

     Se o tentava com todas suas forças, podia recordar o chapinhar na água, e a sensação da areia úmida sob os pés, e ao homem rindo enquanto as ondas os salpicavam.

Depois o homem já não ria, gritava. E gritava: «Corre! Corre, Davey, corre!».

Mas ele não tentava lembrar-se com todas suas forças, e tampouco muito freqüentemente.

Era mais divertido pensar em caçar e jogar. Se se comportava muito bem, sua mãe lhe deixava ter a um dos humanos como brinquedo.

Ele gostava, sobretudo, como cheiravam quando tinham medo, e os sons que faziam quando começava a comer-lhes.

Ele era um príncipe, e podia fazer qualquer coisa que gostasse. Quase.

Esta noite demonstraria a sua mãe que já era um menino crescido. Então já não haveria mais quase.

Quando frearam os cavalos, ele estava quase doente de emoção pelo que viria. Agora continuariam a pé dali... e então seria seu turno. Sua mãe o tinha pego com força pela mão e ele desejou que não o fizesse. Ele queria partir, como Lucio e os outros soldados. Queria levar uma espada em lugar daquela pequena faca oculta debaixo da túnica.

Mesmo assim, era divertido ir tão depressa, mais rápido que qualquer humano, atravessando os campos em direção à granja.

Voltaram a deter-se, e sua mãe se agachou para lhe agarrar o rosto entre as mãos.

—Faça-o da forma em que o praticamos, meu doce menino. Estará maravilhoso. Eu estarei muito perto de ti, cada minuto.

Davey inchou o peito.

—Não lhes temo. Só são comida.

Atrás dele, Lucio sorriu.

—Pode ser que seja pequeno, sua majestade, mas é um guerreiro até os ossos.

Lilith se levantou e sua mão continuou apoiada no ombro de Davey ao tempo que se voltava para olhar a Midir.

—É sua vida —lhe recordou tranqüilamente.— Começa.

Midir estendeu os braços cobertos pela túnica negra e começou seu feitiço.

Lilith fez gestos para que seus homens se desdobrassem. Logo Lucio, Davey e ela avançaram para a granja.

Uma das janelas mostrava o brilho oscilante de um fogo aceso para a noite. No ar se percebia o aroma de cavalos encerrados no estábulo e os primeiros indícios de presença humana. Isso fez que a fome e a excitação se agitassem no estômago de Davey.

—Se prepare —disse Lilith a Lucio.

—Minha senhora, eu daria minha vida pelo príncipe.

—Sim, eu sei. —Apoiou brevemente a mão sobre o braço de Lucio.— Por isso está aqui. Muito bem, Davey. Faça que me sinta orgulhosa de ti.

 

Dentro da casa, Tynan e outros dois homens montavam guarda. Já era quase a hora de despertar para sua substituição, e estava mais que preparado para desfrutar de um par de horas de sono. O quadril lhe doía por causa da ferida recebida durante o ataque dos vampiros, o primeiro dia de marcha. Esperava que, quando por fim pudesse fechar seus olhos cansados, não voltassem a assaltá-lo novamente as lembranças do ataque.

Bons homens perdidos, pensou. Assassinados sem piedade.

Mas chegaria o momento em que vingaria sua morte no campo de batalha. Só esperava, se tinha que morrer ali, ter lutado antes com valor e decisão, e destruído a um número similar de inimigos.

Foi mover-se para ordenar a substituição do guarda, quando um som fez que levasse a mão ao punho da espada.

Sua vista e seus ouvidos se aguçaram. Poderia haver-se tratado de um pássaro noturno, mas tinha soado tão humano...

—Tynan.

—Sim, ouvi-o —disse a outro dos homens que montavam guarda.

—É como se alguém chorasse.

—Permaneçam alerta. Ninguém deve... —interrompeu-se ao advertir que algo se movia.— Ali, perto do extremo do pasto. Vê? Ah, no nome de todos os deuses, é um menino.

Um menino, pensou, embora não podia estar seguro. Tinha a roupa rasgada e coberta de sangue, e avançava cambaleando-se, soluçando e com o polegar metido na boca.

—Deve ter escapado de uma incursão dos vampiros perto daqui. Acorda à substituição e permaneçam todos alerta. Eu irei procurar ao menino.

—Advertiram-nos que não abandonássemos a casa depois de pôr-do-sol.

—Não podemos deixar a um menino só aí fora, e ferido pelo que parece. Acorda à substituição —repetiu Tynan.— Quero um arqueiro postado nessa janela. Se algo se mover aí fora além do menino ou de mim, disparem ao coração.

Esperou a que os homens estivessem em suas posições e viu que o menino caía. Um menino, agora estava quase seguro, e o pobre pirralho gemia e chorava lastimedamente enquanto se encolhia no chão.

—Podemos lhe vigiar até que amanheça —sugeriu outro dos homens de guarda.

—Acaso os homens de Geall lhe temem tanto à escuridão que se amontoam dentro de uma casa enquanto um menino chora e sangra fora?

Tynan abriu a porta. Queria mover-se depressa e levar ao menino dentro para protegê-lo. Mas se viu obrigado a deter sua precipitada carreira quando o pequeno elevou a cabeça e seu rosto redondo ficou paralisado de medo.

—Não te farei mal. Sou um dos homens da rainha. Levarei-te dentro da casa —disse brandamente.— Lá está quente e há comida.

O menino engatinhou até levantar-se, e então começou a gritar como se Tynan lhe tivesse dado um talho com uma espada.

—Monstros! Monstros!

Logo pôs-se a correr, coxeando pesadamente da perna esquerda. Tynan foi atrás dele. Era melhor assustá-lo que permitir que se afastasse e, provavelmente, convertesse-se em um aperitivo para algum demônio. Tynan o alcançou justo antes que conseguisse saltar o muro de pedra que separava o campo contíguo.

—Tranqüilo, tranqüilo, está a salvo. —O menino chutou e se revolveu e gritou, provocando novas dores no quadril ferido de Tynan.— Tem que vir pra dentro. Ninguém te fará mal. Ninguém...

Pensou que tinha ouvido algo —como um canto— e agarrou ao menino com mais força. Voltou-se, preparado para sair correndo de retorno à casa, quando ouviu algo mais, algo que procedia do que sustentava em seus braços. Era um grunhido rouco e selvagem.

O menino sorriu horrivelmente, e se lançou para sua garganta. Era algo que estava além da agonia, e que fez que Tynan caísse de joelhos. Não era um menino, não era um menino absolutamente, pensou enquanto tratava de livrar-se dele. Mas aquela coisa o estava rasgando como se fosse um lobo.

Ouviu fracamente gritos, alaridos, o som das flechas, o choque das espadas. E a última coisa que percebeu foi o espantoso som de seu próprio sangue ao ser bebido com avidez.

Usaram fogo aceso nas pontas das flechas, mas mesmo assim quase uma quarta parte de seus homens resultaram mortos ou feridos antes de que os vampiros se retirassem.

—Agarrem a esse com vida. —Lilith se limpou delicadamente o sangue dos lábios.— Prometi a Lora que lhe levaria um presente.

Sorriu a Davey, que estava em cima do soldado que tinha matado. Enchia-a de orgulho que seu menino continuasse alimentando-se mesmo que as tropas tinham arrastado o cadáver do soldado, com o pequeno príncipe agarrado a ele, fora do campo de batalha.

Os olhos de Davey estavam vermelhos e brilhantes, e suas sardas ressaltavam como o ouro contra o tom rosado que o sangue tinha conferido a suas bochechas.

Ela o elevou e o sustentou por cima de sua cabeça.

—Contemplem a seu príncipe!

Os soldados que não tinham sido destruídos na breve batalha se ajoelharam.

Lilith o baixou para beijá-lo profundamente na boca.

—Quero mais —disse Davey.

—Sim, meu amor, e terá mais. Muito em breve. Lhe joguem sobre um cavalo —ordenou com um gesto indiferente, assinalando o corpo sem vida de Tynan.— Tenho pensado em algo para ele.

Montou em seu cavalo e logo estendeu os braços para que Davey pudesse saltar a eles. Com sua bochecha esfregando-se contra o cabelo do menino, Lilith olhou a Midir.

—Tem-no feito bem —lhe disse.— Pode escolher os humanos que deseje para os propósitos que te gostem.

A luz da lua brilhou sobre sua cabeça chapeada quando se inclinou ante ela.

—Obrigado.

 

 

Um vento fresco açoitava a Moira enquanto contemplava aos dragões e cavaleiros que davam voltas por cima de sua cabeça. Era um espetáculo assombroso, pensou, e em outras circunstâncias teria alegrado seu coração. Mas aquelas eram manobras militares.

Apesar de tudo, podia ouvir como as crianças gritavam e aplaudiam, e mais de um aparentavam ser um dragão ou um cavaleiro.

Saudou com um sorriso ao seu tio quando este se aproximou para contemplar o espetáculo junto a ela.

—Não te sentes tentado de voar? —perguntou-lhe.

—Deixo-o para os jovens... e os ágeis. Mas é uma vista maravilhosa, Moira. E prometedora.

—Os dragões animaram o espírito da gente. E nos proporcionarão uma grande vantagem na batalha. Vê a Blair? Monta como se tivesse nascido nos lombos de um dragão.

—É difícil não vê-la —murmurou Riddock enquanto Blair guiava a seus arreios para baixo a uma velocidade vertiginosa e logo voltava a remontar-se.

—Faz-lhe feliz que Larkin e ela vão casar-se?

—Larkin a ama, e não me ocorre nenhuma outra pessoa que seja mais conveniente para ele. De modo que sim, sua mãe e eu estamos encantadas. E sentiremos falta deles todos os dias, mas deve ir com ela —acrescentou Riddock antes que Moira pudesse falar.— É sua escolha, e eu sinto, em meu coração, que é a escolha correta para ele. Mas sentiremos falta dele.

Moira apoiou a cabeça no braço de seu tio.

—Sim, sentiremos falta dele.

Ela seria a única que ficaria, pensou enquanto voltava a entrar no castelo. O único membro do primeiro círculo que permaneceria em Geall depois de Samhain. Perguntou-se como seria capaz de suportá-lo.

O castelo já se notava vazio. Muitos já se partiram, e outros estavam ocupados realizando as distintas tarefas que lhes tinham atribuído. Logo, muito em breve, ela também empreenderia a marcha. De modo que tinha chegado o momento, decidiu, de pôr por escrito seus desejos para o caso de que não retornasse.

Encerrou-se em sua sala de estar e se sentou, disposta a afiar a pluma de ave que utilizava para escrever. Logo mudou de parecer e agarrou um dos tesouros que havia trazido com ela da Irlanda.

Redigiria aquele documento, decidiu Moira, com um instrumento de outro mundo.

Usaria uma pluma de caneta tinteiro.

O que era que tinha ela de valor, perguntou-se, que não pertencesse por direito ao seguinte a quem lhe correspondesse governar Geall?

Algumas das jóias de sua mãe, sem dúvida. E começou às distribuir mentalmente entre Blair, Glenna, sua tia, suas primas e, finalmente, suas damas de companhia.

A espada de seu pai seria para Larkin, decidiu, e a adaga que um dia levou com ele seria para Hoyt. A miniatura de seu pai seria para seu tio se ela morresse antes que ele, já que seu pai e seu tio tinham sido íntimos amigos.

Havia outras coisas, é obvio. Diferentes objetos que também queria legar.

A Cian lhe deixava seu arco e a aljava, e as flechas que tinha fabricado com suas próprias mãos. Esperava que ele compreendesse que, para ela, eram algo mais que simples armas. Eram seu orgulho, e uma prova de amor.

Deixou-o tudo escrito com muito cuidado e logo selou o papel. Entregaria-lhe o documento a sua tia para que o guardasse.

Uma vez que o tinha feito, sentiu-se melhor. Com a mente mais clara e ligeira, deixou o papel a um lado e se levantou para confrontar a seguinte tarefa. Retornou ao dormitório e se dirigiu às portas do terraço. As cortinas ainda estavam corridas, bloqueando a luz, impedindo de ver o exterior. Abriu-as, permitindo que a cálida luz entrasse na habitação.

Em sua imaginação voltou a vê-lo tudo, a escuridão, o sangue, o corpo destroçado de sua mãe e os monstros que a tinham mutilado. Entretanto, essa vez abriu a porta e se obrigou a sair fora.

O ar era frio e úmido e, por cima de sua cabeça, o céu estava cheio de dragões. Linhas e redemoinhos de cor atravessavam o pálido azul. Como sua mãe teria gostado dessa vista, como tivesse desfrutado do som das asas, as risadas das crianças no pátio.

Moira se aproximou da balaustrada, apoiou as mãos sobre ela e sentiu a pedra firme. E elevando a cabeça como sua mãe tinha feito tantas vezes, olhou para Geall e jurou fazer todo o possível por seu povo.

 

Possivelmente lhe teria surpreendido saber que Cian tinha dedicado grande parte de seu inquieto dia a fazer o mesmo que ela. Suas listas de doações e instruções eram grandemente mais largas que as dela e muito mais detalhadas. Mas ele tinha vivido muito mais tempo que ela, e tinha acumulado, portanto, muito mais coisas.

Cian não via razão para que nenhuma delas se desperdiçasse.

Durante a redação do documento, tinha amaldiçoado uma dúzia de vezes a pluma de ave e desejado ferozmente a facilidade e conveniência de um computador. Mas persistiu em sua tarefa até que pensou que tinha distribuído suas posses de um modo satisfatório.

Não estava seguro de que todo o disposto pudesse levar-se a cabo, já que parte disso dependeria de Hoyt. Falariam sobre o assunto, pensou Cian. Se com algo podia contar, era com que seu irmão faria tudo o que estivesse em seu considerável poder para cumprir com a obrigação que ele tinha intenções de lhe deixar.

Contudo, esperava que não fosse necessário. Mil anos de existência não significavam que estivesse disposto a render-se. E não tinha a menor intenção de ir ao inferno sem enviar a Lilith ali antes dele.

—Sempre foi bom para os negócios.

Levantou-se de um salto, tirando sua adaga com um movimento rápido ao tempo que se voltava para o som da voz. Logo, a adaga caiu ao chão, deslizando-se de entre seus dedos flácidos.

Inclusive depois de um milênio, havia situações difíceis de assimilar.

—Nola.

Sua voz soou rouca ao pronunciar o nome.

Ela era uma menina, sua irmã, e estava exatamente igual à última vez que a tinha visto. O cabelo escuro, comprido e liso, os olhos profundos e azuis. E sorria.

—Nola —repetiu.— Meu Deus.

—Pensava que você não tinha nenhum Deus.

—Nenhum que queira me reclamar. Como pode estar aqui? Está aqui?

—Pode vê-lo por ti mesmo.

Nola estendeu os braços e logo deu um pequeno giro.

—Viveu e morreu. Sendo uma mulher mais velha.

—Não conheceu a mulher, de modo que sou como você me recorda. Senti falta de ti, Cian. Busquei-te, mesmo que sabia que não devia fazê-lo. Durante anos esperei e busquei a ti e a Hoyt. Você nunca veio.

—Como poderia havê-lo feito? Você sabe o que era. O que sou. Agora o entende.

—Teria-me feito mal? Ou a qualquer um de nós?

—Não sei. Espero que não, mas não via nenhuma razão para me arriscar. Por que está agora aqui?

Cian tentou tocá-la, mas ela elevou uma mão e negou com a cabeça.

—Não sou de carne e osso. Só sou uma aparição. Estou aqui para te recordar que possivelmente não seja o que foi quando foi meu irmão, mas tampouco é o que ela quis fazer de ti.

Necessitava um momento para pensar, de modo que se inclinou para recolher a adaga e o guardou em sua bainha.

—Que importância tem isso?

—Tem importância. Terá. —Aparição ou não, os olhos de Nola eram doces enquanto o olhavam.— Tive filhos, Cian.

—Eu sei.

—Fortes, hábeis, dotados. De seu sangue, também.

—Foi feliz?

—Oh, sim. Amei a um homem e ele me amou. Tivemos esses filhos e uma boa vida. Mas, entretanto, meus irmãos deixaram um vazio em meu coração que nunca pude preencher. Uma pequena dor dentro de mim. Via-te, e a Hoyt, às vezes. Na água, ou na névoa, ou no fogo.

—Fiz coisas que é melhor que não tivesse visto.

—Vi-te matar e comer. Vi-te caçar humanos do mesmo modo que uma vez caçou veados. E te vi junto a minha tumba, sob a luz da lua, deixando flores sobre ela. Visto-te lutar junto ao irmão que ambos amamos. Vi a meu Cian. Recorda como subia a seu cavalo e cavalgávamos sem parar?

—Nola. —esfregou-se a testa com os dedos. Tudo aquilo lhe doía muito para pensar nisso.— Nós dois estamos mortos.

—E nós dois vivemos. Uma noite, ela veio a minha janela.

—Ela? Quem? —Em seu interior tudo se voltou frio como o inverno.— Lilith.

—Nós dois estamos mortos —lhe recordou Nola—, mas suas mãos se convertem em punhos e seus olhos se voltam afiados como sua adaga. Pretende seguir me protegendo?

Cian se aproximou da lareira e chutou ociosamente a turfa que ardia lentamente.

—O que ocorreu?

—Tinham passado mais de dois anos desde que Hoyt nos deixasse. Pai tinha morrido, e nossa mãe estava doente. Eu sabia que ela nunca voltaria a ficar bem, que morreria. Eu estava muito triste, muito assustada. Despertei na escuridão e vi que havia um rosto em minha janela. Um rosto bonito. Tinha o cabelo dourado e um sorriso muito doce. Ela me sussurrou e chamou por meu nome. «Me convide a entrar», disse-me, e me prometeu um presente.

Nola jogou o cabelo para trás, e em seu rosto se desenhou uma expressão de desprezo.

—Ela pensou que como eu não era mais que uma menina, a mais nova de nós, seria uma parva fácil de enganar. Levantei-me, fui até a janela e a olhei aos olhos. Havia poder neles.

—Hoyt devia te dizer que não corresse esses riscos. Ele devia...

—Hoyt não estava ali, e você tampouco. Mas em mim também havia poder. Esqueceste-o?

—Não. Mas eras uma menina.

—Eu era vidente, e o sangue dos caçadores de demônios corria por minhas veias. Olhei-a aos olhos e lhe disse que seria minha linhagem o que acabaria com ela. Minha linhagem que liberaria aos mundos de sua presença. E que para ela não haveria eternidade no inferno nem em qualquer outro lugar. Sua condenação seria o final de tudo. Ela se converteria em pó, e seu espírito não sobreviveria.

—Certamente não se sentiu encantada com suas palavras.

—Sua beleza permanece inclusive quando mostra seu verdadeiro ser. Esse é outro poder. Eu levantei a cruz de Morrigan que sempre levava ao redor do pescoço. A luz brotou dela como um raio de sol. Lilith gritava enquanto fugia.

—Sempre foi uma menina valente —disse ele.

—Ela nunca retornou enquanto eu estive viva, e só o fez quando Hoyt e você voltaram para casa juntos. É mais forte do que foi sem ele, e ele é mais contigo. Ela teme isso, odeia isso. Inveja isso.

—Poderá Hoyt sobreviver a isto?

—Não posso sabê-lo. Mas se cair, o fará como viveu. Com honra.

—A honra é um frio consolo quando está morto no campo de batalha.

—Então, por que mantém a tua ? —perguntou ela com um indício de impaciência na voz.— A honra é o que te trouxe até aqui. A honra que levará para batalha junto com sua espada. Ela não lhe pôde arrebatar isso tudo, e o pouco que te deixou foi suficiente para que você o recuperasse. Você escolheu. E ainda terá que escolher mais vezes. Te lembre de mim.

—Não. Não se vá.

—Te lembre de mim —repetiu ela.— Até que voltemos a nos ver.

Quando ficou sozinho, Cian se sentou e escondeu a cabeça entre as mãos. E recordou muitas coisas.

 

                                  CAPÍTULO 13

Em geral, Cian evitava a salão da torre onde Hoyt e Glenna trabalhavam em sua magia. Seus acessos freqüentemente incluíam uma luz considerável, chamas, fogo e outros elementos nocivos para os vampiros.

Mas de um modo em que não o tinha feito —ou não tinha admitido em séculos— necessitava a seu irmão.

Antes de bater na porta, advertiu que um ou ambos de seus parentes com inclinações mágicas tinha tomado a precaução de colocar símbolos de amparo na porta da torre para manter afastados aos curiosos. Cian teria preferido ficar fora, mas não obstante chamou.

Quando Glenna abriu, ele pôde ver que tinha a pele coberta por una uma capa de suor. Levava o cabelo recolhido e tirou a roupa até ficar só com um top e calças de algodão. Cian arqueou uma sobrancelha.

—Interrompo algo?

—Nada físico, infelizmente. É só que aqui faz um calor espantoso. Estamos trabalhando com elementos mágicos de explosões e fogo. Sinto muito.

—Não me preocupam muito as temperaturas elevadas.

—Oh. De acordo. —Glenna fechou a porta atrás dele.— Fechamos e cobrimos completamente as janelas, para ter a tudo contido, de modo que não deve preocupar-se pela luz.

O sol já quase se ocultou. Cian olhou para onde estava Hoyt junto a uma enorme artesa de cobre. Este tinha as mãos estendidas sobre ela e dele emanava uma sensação, inclusive através da salão, de mais calor, de poder e de energia.

—Hoyt está carregando as armas com fogo —explicou Glenna.— E eu estive trabalhando em, bom, uma espécie de bomba. Algo que sejamos capazes de lançar do ar.

—Ao Departamento de Segurança Nacional adoraria te ter em lista de funcionários.

—Eu poderia ser algum tipo de agente secreto. —Enxugou-se a testa com o dorso da mão.— Quer uma visita guiada?

—De fato... eu queria... isto, falarei com o Hoyt quando não estiver tão ocupado.

—Espera. —Era a primeira vez que Glenna recordava ter visto Cian confuso. Não, confuso não, pensou, perturbado.— Necessita de um descanso. E eu também. Se puder suportar o calor, espera uns minutos. Já quase terminou. Eu irei tomar um pouco de ar.

Cian lhe agarrou a mão antes que se desse a volta para partir.

—Obrigado. Por não perguntar.

—Não há problema. E se for um problema, estarei perto.

Quando Glenna se foi, Cian se apoiou contra a porta. Hoyt permaneceu tal como estava, com as mãos estendidas sobre a fumaça prateada que saía da artesa. Seus olhos estavam obscurecidos, como sempre que exercia seu poder com força e firmeza.

Sempre tinha sido assim, pensou Cian, desde que eram meninos.

Assim como Glenna, Hoyt se tinha despido para trabalhar e só levava uma camiseta branca e uns jeans desbotados. Era estranho, inclusive depois dos últimos meses que tinham passado juntos, ver seu irmão vestido na moda do século XXI. A Hoyt nunca tinha importado a moda, recordou Cian. Só a dignidade e os objetivos. Apesar do muito que se pareciam, ambos tinham enfocado a vida de pólos muito diferentes. Hoyt se tinha exposto à solidão e ao estudo, enquanto que ele o tinha feito à sociedade e os negócios... já os prazeres que ambos lhe proporcionavam.

Apesar de tudo, tinham estado unidos e se entendiam um ao outro a um nível que muito poucos irmãos estavam acostumados a conseguir. Amaram-se, pensou Cian nesses momentos, de um modo que era tão forte e firme como o poder de Hoyt com a magia.

Logo o mundo, e tudo o que havia nele, tinha mudado.

O que estava fazendo então ele ali? Procurando respostas, procurando consolo quando sabia que não encontraria nem um nem outro? Nada do acontecido podia mudar-se, nem um só ato, nem um só pensamento, nem um só momento. Estar ali era uma estúpida perda de tempo e energia em todos os sentidos.

O homem que estava ali de pé, como uma estátua no meio da fumaça, não era o homem que ele tinha conhecido, assim como ele já não era o homem que tinha sido alguma vez. Ou nem sequer um homem, para ser mais preciso.

Todo o tempo passado junto com aquelas pessoas, aqueles sentimentos, aquelas necessidades, tinham-lhe feito esquecer o que jamais poderia ser alterado. Separou-se da porta.

—Espera. Só um momento.

A voz de Hoyt o deteve em seco... e lhe irritou dar-se conta de que seu irmão tinha sabido que ele não estava simplesmente mudando de postura, e sim a ponto de partir da sala.

Hoyt baixou as mãos e a fumaça se dissipou.

—Estou seguro de que iremos à batalha bem armados —disse.

Colocou as mãos na artesa e levantou uma espada agarrando-a pelo punho. Voltou-se e apontou para a lareira e disparou um raio de fogo.

—Usará uma destas espadas? —perguntou-lhe a Cian, fazendo girar a arma em sua mão para examinar o fio.— És o bastante hábil para não te queimares.

—Usarei algo que me seja útil para o combate... e farei todo o possível para me manter afastado dos que levem suas armas e sejam grandemente menos hábeis que eu em seu manejo.

—Não foi a preocupação pela escassa habilidade dos espadachins o que te trouxe aqui.

—Não.

Posto que já estava ali, faria o que tinha ido fazer. Mas antes se passeou pela habitação, enquanto esperava que Hoyt tirasse o resto das armas da artesa. O lugar cheirava a ervas e fumaça, a suor e esforço.

—Eu afugentei a sua mulher.

—Voltarei a encontrá-la.

—Aproveitando que não está aqui, perguntarei-lhe isso: tem medo de perdê-la nisto?

Hoyt deixou a última espada sobre a mesa de trabalho.

—É meu último pensamento antes de dormir e o primeiro quando me acordo pela manhã. O resto do tempo trato de não pensar nisso... ou mantenho sob controle a parte de mim que queria encerrá-la em um lugar seguro até que tudo isto tenha terminado.

—Glenna não é o tipo de mulher a qual se poderia encerrar, nem sequer com suas habilidades.

—Não, mas saber disso não serve para eliminar o medo. Você teme pela Moira?

—O que?

—Achas acaso que não sei que está com ela? Que seu coração está com ela?

—Não é mais que uma loucura temporária. Já passará. —Ante o olhar fixo e silencioso de seu irmão, Cian meneou a cabeça.— Não tenho nenhuma opção, e ela tampouco. O que sou não tem tendência a viver com cercas de madeira branca e perdigueiros dourados. —Fez um gesto com a mão ao ver o olhar desconcertado de Hoyt.— A lareira e lenhos acesos, irmão. Não posso lhe dar uma vida, no caso de que queria fazê-lo; e o que seria da minha continuará muito depois de que ela tenha morrido. Mas não é isso o que vim a te dizer.

—Primeiro responde a uma pergunta. Você a ama?

A verdade disso chegou a ele girando como um redemoinho através de seu coração e se refletiu em seus olhos.

—Ela é... Ela é para mim como uma luz, depois de ter vivido sempre na escuridão. Mas a escuridão é meu elemento, Hoyt. Sei como sobreviver nela, como estar contente, ser produtivo e estar entretido ali.

—Não diz feliz.

A frustração se fez evidente em sua voz.

—Eu era bastante feliz antes que aparecesse. Antes que o mudasse tudo outra vez, como antes o fez Lilith. O que é que quereria? Que desejasse o que você tem e o que terá com a Glenna se sobreviver? Que bem me faria isso? Faria que meu coração voltasse a pulsar? Acaso sua magia pode conseguir isso?

—Não. Não encontrei nada que possa te devolver sua antiga condição. Mas...

—Deixa-o. Sou o que sou, estou bem. Não estou me queixando. Moira é uma experiência. O amor é uma experiência e eu sempre escolhi vivê-las. —passou as mãos pelo cabelo.— Deus. Há algo de beber neste lugar?

—Há uísque. —Hoyt assinalou um armário com o queixo.— Eu também tomarei um.

Cian verteu duas generosas medidas em seus copos e logo cruzou a habitação para onde Hoyt tinha colocado dois tamboretes de três pernas. Sentaram-se e ambos beberam em silencio durante um momento,

—Redigi um documento, uma espécie de testamento, para o caso de que minha sorte se acabe no Samhain.

Hoyt levantou os olhos de seu uísque e olhou a Cian.

—Entendo.

—Em todo este tempo acumulei uma quantidade considerável de bens e propriedades, de objetos pessoais. Espero que você te ocupe disso segundo minhas instruções.

—Farei-o, é obvio.

—Não será uma tarefa simples, já que está repartido por todo mundo. Nunca guardo muitos ovos na mesma cesta. Em meu apartamento de Nova Iorque há passaportes e outros documentos de identidade, e também em caixas de segurança de diferentes lugares. Se algo de tudo isso te resultar útil, podes utilizá-lo.

—Obrigado por isso.

Cian fez girar o uísque em seu copo sem afastar o olhar do líquido.

—Há algumas coisas que eu gostaria que Moira conservasse, se é que pode as trazer até aqui.

—Trarei-as.

—Pensava em deixar o clube e o apartamento de Nova Iorque a Blair... e a Larkin. Acredito que lhes virão melhor que a ti.

—Sim, eu também acredito. Estou seguro de que se mostrarão muito agradecidos.

O aborrecimento tingiu o tom prático e moderado de seu irmão.

—Bom, não deixe que o sentimento te embargue, já que é mais provável que eu celebre um velório por ti que você por mim.

Hoyt inclinou a cabeça.

—Isso achas?

—É obvio que sim. Você não viveu sequer três décadas, enquanto que eu levo quase um milênio. E você nunca foi tão bom como eu no combate, apesar de todos os truques que possa ocultar na manga.

—Por outra parte, como há dito, já não somos o que fomos, verdade? —Hoyt sorriu afavelmente.— Estou decidido a que ambos saiamos bem disto, mas se não o consegue, bom... levantarei minha taça por ti.

Cian deixou escapar uma leve gargalhada enquanto Hoyt elevava o copo.

—E também quererás tambores e gaitas de fole?

—Oh, o que lhe dê. —Agora, um olhar malicioso apareceu nos olhos de Cian.— Eu, por minha parte, farei que toquem alguns flautins por ti e logo consolarei a sua penalizada viúva.

—Pois eu ao menos não terei que cavar um buraco para ti, tendo em conta que só será um montão de pó, mas te farei as honras encarregando que gravem em uma lápide:

AQUI NÃO JAZ CIAN, JÁ QUE O LEVOU O VENTO. VIVEU E MORREU, LOGO PERMANECEU COMO O ÚLTIMO CONVIDADO QUE NÃO SE DECIDE A ABANDONAR O BAILE.

— Parece-te bem?

—Estou pensando em mudar alguns desses legados, só por princípio, dado que logo estarei cantando Danny Boy sobre sua tumba.

—O que é Danny Boy?

—Um clichê. —Cian agarrou a garrafa que tinha deixado no chão e serviu mais uísque nos copos.— Vi a Nola.

—O que? —Hoyt baixou o copo que acabava de levar-se aos lábios.— O que é que há dito?

—Em meu quarto. Vi a Nola e falei com ela.

—Sonhaste com a Nola?

—É isso o que hei dito? —perguntou Cian com irritação.— Hei dito que a vi, que falei com ela. E estava tão acordado então como o estou agora, te olhando e falando contigo. Ela era ainda uma menina. Porra, no mundo não há suficiente uísque para isso.

—Ela foi a ver-te —murmurou Hoyt.— Nossa Nola. O que te há dito?

—Que me amava, e a ti também. Que tinha sentido falta de nós. Que esperava que ambos retornássemos pra casa. Mas que droga. Mas que droga. —levantou-se e começou a passear pela sala.— Era uma menina, exatamente como a última vez que a vi. Era uma mentira, é obvio. Nola cresceu e se fez mais velha. Morreu e seus ossos se converteram em pó.

—E por que teria que apresentar-se ante ti como uma mulher adulta ou uma anciã? —perguntou Hoyt.— Ela foi a ti tal como você a recordava, como pensa nela. Tem-te dado um presente. Por que está zangado?

Agora Cian sentia uma intensa fúria, uma que lhe servia para sujeitar com força a dor.

—Como pode saber o que foi sentir isto, sentir que te rasga por dentro? Ela era a mesma e eu não o sou. Falou-me de como a subia em meu cavalo e a levava pra passear. E era como se tivesse ocorrido ontem. Não posso ter esse ontem em minha cabeça e permanecer são. — Cian se voltou.— Para no final de toda esta história, você saberá que fez o que pôde, o que lhe pediram que fizesse... por ela, por todos eles. Se sobreviver, qualquer que seja a dor que sinta ao ter tido que deixá-los pra trás, estará compensado por essa certeza, e pela vida que terá junto à Glenna. Eu em troca tenho que retornar onde estava. Devo fazê-lo. Não posso levar isto comigo e viver com isso.

Hoyt permaneceu um momento em silêncio.

—Nola estava sofrendo, sentia medo por algo, dor?

—Não.

—E não é capaz de levar isso contigo e viver com isso?

—Não sei, essa é a pura verdade. Mas sei que um sentimento leva a outro até que acaba te afogando neles. Agora estou meio afogado com o que sinto por Moira. —Cian se tranqüilizou e voltou a sentar-se.— Nola levava a cruz que você lhe deu. Há dito que sempre a levava consigo, como você lhe disse. Pensei que deveria sabê-lo. E também que deveria saber que Nola me contou que Lilith foi vê-la, e que tratou de tentá-la para que a deixasse entrar na casa.

Hoyt fechou os punhos como o tinha feito Cian.

—Essa cadela do inferno foi procurar a nossa Nola?

—Sim, fez-o, e levou um bom chute no traseiro... metaforicamente falando. — Cian explicou a Hoyt o que Nola lhe tinha contado, e observou que o rosto de seu irmão se relaxava ligeiramente com uma expressão de orgulho e satisfação.— Logo colocou a cruz que lhe deu diante dela e Lilith saiu em disparada. Segundo Nola, ela nunca retornou até que o fizemos nós.

—Vá, vá. Isso sim que é interessante. A cruz não só protegia a Nola, mas também assustou a Lilith o suficiente para obrigá-la a fugir. Isso e a predição de que acabaríamos com ela.

—Que pode ser que seja a razão do por que está tão decidida a nos liquidar.

—Sim. A ameaça de Nola poderia ter contribuído a isso. Imagina o que deve ter significado para Lilith ser aterrorizada por uma menina.

—Ela quer vingar-se, não cabe nenhuma dúvida. Quer ganhar esta guerra, é obvio. Lilith deseja converter-se em uma espécie de deus, mas por baixo disso estamos nós. Os seis e a conexão que existe entre nós. Ela quer nos destruir.

—Até agora não teve muita sorte nesse sentido, não achas?

—E o que pensa disso? Os deuses dispõem, verdade? Todos nós tomamos uma decisão, e lutaremos por ela, mas todos nós, incluindo Lilith, estamos sendo levados para uma época e um lugar. A verdade é que não me importa se forem os deuses ou os demônios quem me levam pelo nariz.

Hoyt arqueou as sobrancelhas.

—Que alternativa temos?

—Todos falam de alternativas e escolhas, mas quem de nós seria capaz de abandonar agora? Depois de tudo, não só os humanos têm orgulho. Bem, o tempo passa. —levantou-se.— Já veremos o que terei a ver esse dia em que arrumaremos as contas. O sol já se pôs. Sairei pra tomar um pouco de ar. — Cian se dirigiu à porta, deteve-se e olhou por cima do ombro.— Ela não pôde me dizer se sobrevivestes.

Hoyt se encolheu de ombros e acabou de beber seu uísque. Logo sorriu.

—Danny Boy, verdade?

 

Cian foi ver seu cavalo. Logo, embora sabia que era um risco, selou a Vlad e saiu através das portas do castelo. Necessitava da velocidade e a noite. Talvez também necessitava do risco.

A lua estava quase cheia. Quando esse círculo se completasse, o sangue —de humanos e vampiros— empaparia a terra.

Ele não tinha combatido antes em outras guerras, não lhes tinha visto sentido. Guerras pela terra, por riquezas e recursos. Guerras liberadas em nome da fé. Mas aquela luta tinha chegado a ser sua.

Não, não somente os humanos tinham orgulho, ou inclusive honra. Ou amor. De modo que, por tudo isso, aquela luta lhe pertencia. Se a sorte o acompanhasse, um dia voltaria a cavalgar pelos campos da Irlanda... ou em qualquer lugar que escolhesse fazê-lo. E pensaria em Geall, com suas encantadoras colinas e seus frondosos bosques. Recordaria os campos verdes e as cascatas de água.

Pensaria em sua rainha. Moira, com seus grandes olhos cinza e seu aprazível sorriso, de cérebro inteligente e mente aberta, e com um coração rico e profundo. Quem tivesse acreditado que, depois de todos aqueles séculos, se veria seduzido, enfeitiçado, afogado em semelhante mulher?

Com Vlad salvou pequenos muros de pedra, galopou através de campos onde soprava doce e fresco o ar da noite. A luz da lua banhava as pedras do castelo da Moira, e as janelas brilhavam com velas e candis. Ela tinha mantido sua palavra, pensou Cian, e tinha içado essa terceira bandeira, de modo que agora estavam o claddaugh, o dragão e o sol dourado e brilhante.

Desejou, com todas suas forças, que ela pudesse proporcionar a Geall, e a todos os mundos, o sol depois do sangue derramado.

Talvez não pudesse levar com ele todos esses sentimentos, esses desejos e necessidades e viver com isso. Mas sim queria levar seu amor por ela. Quando retornasse às trevas, queria levar isso, e ter essa luz tênue e vacilante através de todas suas noites.

Retornou ao castelo e a encontrou esperando-o, com seu arco nas mãos e a espada de Geall sujeita a um flanco.

—Vi-te quando saía para cavalgar.

Cian desmontou.

—Estava me cobrindo as costas?

—Tínhamos convencionado que nenhum de nós sairia sozinho do castelo, especialmente depois do anoitecer.

—Necessitava-o.

Foi tudo o que disse antes de levar o cavalo ao estábulo.

—Isso parecia, pela forma em que cavalgava. Não vi nenhum mastim do inferno, mas ao que parece você sim. Poderia confiar em alguns dos moços de quadra para que atenda a Vlad e o prepare para a noite? Ajuda-lhes ter trabalho e manterem-se ocupados, tanto como ajudou a ti uma galopada selvagem.

—Debaixo desse tom complacente percebo uma admoestação, majestade. O fazes muito bem.

—Aprendi-o de minha mãe.

Moira agarrou as rédeas de Vlad e logo as passou junto com várias instruções ao moço de quadra que tinha chegado correndo das cavalariças.

Quando teve terminado, olhou a Cian.

—Está de humor?

—Sempre.

—Deveria ter perguntado se estava de mau humor, mas a resposta a essa pergunta poderia ser também «sempre». Se não o estiver, mais do habitual quero dizer, esperava que jantasse comigo. Em privado. Esperava que ficasse comigo esta noite.

—E se estiver de mau humor?

—Então uma comida e um pouco de vinho poderiam te adoçar o suficiente para que te deitasse e ficasse comigo. Ou, bem poderíamos discutir durante o jantar e logo ir à cama.

—Teria que ter pego um prego de ferradura do Vlad e me cravar isso no cérebro para rechaçar semelhante oferecimento.

—Bem. Estou faminta.

E furiosa, pensou ele com certo ânimo divertido.

—Por que não soltas já o sermão? Do contrário, é provável que te provoque indigestão.

—Não tenho nenhum sermão, e se o tivesse soltado não seria o que me satisfaria. —Ela caminhou, com porte real, pensou ele, através do pátio.— O que eu gostaria de te dar é um boa e forte chute na bunda por te haver arriscado dessa maneira. Mas... —Moira respirou profundamente um par de vezes quando entraram no castelo.— Eu sei o que significa a necessidade de escapar, de desaparecer por um momento. Como sente que a pressão que tem dentro vai acabar te destroçando se não o fizer. Eu posso abrir um livro e recuperar minha paz mental. Você precisava sair pra cavalgar, a velocidade. E acredito que há momentos nos que só necessita a escuridão.

Cian não disse nada até que chegaram ante a porta da habitação da Moira.

—Não sei como pode me entender dessa maneira.

—Fiz um estudo sobre ti. —Ela sorriu ligeiramente, elevou a vista e o olhou aos olhos.— Sou boa para isso. E, além disso, agora está em meu coração. Está dentro de mim, de modo que sei.

—Eu não te ganhei —disse ele—, me ocorre agora. Eu não te ganhei.

—Cian, não sou uma aposta e tampouco um prêmio. Não me importaria ser ganha.

Moira abriu a porta de sua sala de estar.

Fez com que suas damas acendessem o fogo e as velas. O jantar frio e o bom vinho já estavam na mesa, acompanhados de flores gastas das estufas.

—Vejo que te tomaste trabalho. —Fechou a porta atrás de si.— Obrigado.

—Era para mim, mas me alegra que você goste. Queria uma noite, só uma, em que unicamente estivéssemos nós dois. Como se nada de tudo isto estivesse ocorrendo. Em que pudéssemos nos sentar, falar e comer. E eu pudesse me passar um pouco com o vinho.

Moira deixou o arco e a aljava no chão e se desenganchou a espada da cintura.

—Uma noite em que não falemos de batalhas, armas e estratégia. Você me diria que me ama. Ou nem sequer teria que dizê-lo, porque eu o veria em seus olhos quando me olhasse.

—Eu te amo. Enquanto cavalgava, tornei a vista para o castelo e vi o resplendor das velas nas janelas. Assim é como penso em ti. Como em um resplendor sereno.

Moira se aproximou dele e lhe agarrou o rosto entre as mãos.

—E se eu pensar em ti como a noite, é pelo mistério que há nela, e pela excitação. Já nunca voltarei a sentir medo da escuridão, porque vi o que contém.

Cian lhe beijou a testa, as têmporas, logo os lábios.

—Deixa que te sirva o primeiro copo de muito vinho.

Ela se sentou à pequena mesa e o observou. Ele era seu amante, pensou. Aquele homem estranho e exigente que levava guerras em seu interior. E ela passaria essa noite junto a ele, toda a noite; umas poucas horas de paz para ambos.

Moira escolheu um pouco de comida para o prato de Cian, consciente de que se tratava do gesto próprio de uma esposa. Também teria isso, por essa só noite. Quando Cian se sentou frente a ela, Moira elevou a taça.

—Sláinte.

—Sláinte.

—Falará-me dos lugares que viu? De aonde viajaste? Quero ir a esses lugares com minha imaginação. Estudei os mapas que tinha em sua biblioteca na Irlanda. Seu mundo é tão grande... me fale das coisas maravilhosas que viram seus olhos.

Ele a levou a Itália durante o Renascimento, ao Japão na época dos samurais, ao Alaska durante a febre do ouro, à selva amazônica e às savanas africanas.

Tratava de descrever rápidas fotos instantâneas com palavras, de modo que Moira pudesse apreciar a variedade, os contrastes, as mudanças. E quase podia ver como se abria sua mente para absorver a tudo. O fazia dúzias de perguntas, sobretudo quando algo que ele explicava ampliava ou contradizia o que ela tinha lido em sua biblioteca na Irlanda.

—Perguntava-me o que haveria ao outro lado do mar. —Moira apoiou o queixo no punho enquanto se servia mais vinho.— Outras terras, outras culturas. Ao parecer, se uma vez fomos uma parte da Irlanda, também pode haver aqui, neste mundo, partes da Itália e dos Estados Unidos, da Rússia, de todos esses lugares maravilhosos. Um dia... eu gostaria de ver um elefante.

—Um elefante.

Ela se pôs-se a rir.

—Sim, um elefante. E uma zebra e um canguru. Eu gostaria de ver as pinturas dos artistas que você viu, e dos artistas que descobri em seus livros. Miguelangelo e Da Vinci, Van Gogh, Monet, Beethoven.

—Beethoven era um compositor. Não acredito que soubesse pintar.

—Sim, é verdade. A Sonata do claro da lua e todas essas sinfonias com números. É o vinho, que me confunde um pouco as coisas. Eu gostaria de ver um violino e um piano. E um violão elétrico. Tocas algum desses instrumentos?

—Em realidade, é um fato pouco conhecido que os Beatles originais eram seis. Mas não importa.

—Sei quem são: John, Paul, George e Ringo.

—Tens a memória como o elefante que queres ver.

—Quando é capaz de recordar uma coisa, essa coisa te pertence. É provável que nunca chegue a ver um elefante, mas um dia terei laranjeiras. As sementes estão germinando na estufa. —Elevou o indicador e o polegar apenas separados.— Este trocinho de verde surgindo da terra. Glenna me disse que as flores são muito perfumadas.

—Sim, são.

—E também colhi outras coisas.

A Cian lhe divertia o tom de confissão que se advertia em sua voz.

—De modo que tem os dedos compridos, verdade?

—Pensei, se eu não lhes levar a Geall, nunca irão. Peguei um galho de suas roseiras. Está bem, de acordo, três galhos. Fui ambiciosa. E uma fotografia que Glenna fez a Larkin e a mim. E um livro. Confesso-o, peguei um livro de sua biblioteca. Sou uma ladra.

—Que livro?

—Um livro de poemas de Yeats. Queria ter esse livro em particular porque dizia que o autor era irlandês e me pareceu importante que trouxesse para casa alguma coisa escrita por um irlandês.

«Porque você era irlandês —pensou ela.— Porque o livro era seu.»

—E os poemas eram tão bonitos e intensos —continuou.— Me disse que lhe devolveria isso uma vez que os tivesse copiado, mas eu sabia que era mentira. Fiquei pra mim.

Ele pôs-se a rir e sacudiu a cabeça.

—Considere-o um presente.

—Obrigada, mas te pagarei encantada por ele. —levantou-se e se aproximou onde estava Cian.— E você pode determinar o preço. —sentou-se em seu colo e lhe rodeou o pescoço com os braços.— Ele escreveu algo, seu Yeats, que me fez pensar em ti, e no que temos esta noite. Yeats escreveu: Estendo meus sonhos a seus pés. Anda com suavidade porque está caminhando sobre meus sonhos. —Ela lhe passou os dedos pelo cabelo. —Pode me dar seus sonhos, Cian. Eu caminharei sobre eles com suavidade.

Profundamente comovido, ele apoiou sua bochecha na dela.

—És tão diferente de todos.

—Contigo sou mais do que nunca fui. Sairá um momento ao terraço comigo? Eu gostaria de olhar a lua e as estrelas.

Ele se levantou, mas quando se voltou para o balcão, ela o deteve.

—Não, no terraço do dormitório.

Cian pensou na mãe de Moira, no que ela tinha visto nesse terraço.

—Está segura?

—Estou. Hoje estive ali, sozinha. E agora quero estar contigo, em meio da noite. Quero que me beije ali para que possa recordá-lo toda a vida.

—Precisará abrigar-se. Faz frio.

—As mulheres de Geall são muito fortes.

E quando ela se dirigiu para o terraço, quando sua mão agarrou a dele com força enquanto abria as portas do mesmo, ele pensou que sim, que em efeito ela o era.

                                 CAPÍTULO 14

Cian a beijou no balcão e ela nunca esqueceria nada de tudo aquilo. Não esqueceria a aprazível música da noite, o frio no ar, a maestria de seus lábios.

Essa noite, ela não pensaria na saída do sol e nas obrigações que traria o novo dia. A noite era o tempo de Cian e, enquanto estivesse com ele, também ele seria dela.

—Você beijou a muitas mulheres.

Ele sorriu levemente e voltou a roçar seus lábios com os seus.

—Assim é.

—A centenas de mulheres.

—Como mínimo.

Ela entreabriu os olhos.

—A milhares?

—É muito provável.

—Hmmm. —separou-se dele e logo se deu a volta, apoiando-se na balaustrada de pedra.— Acredito que farei um decreto que diga que todos os homens de Geall devem beijar a sua rainha. Assim poderei me pôr a sua altura. E, ao mesmo tempo, poderia me servir para uma espécie de estudo, uma comparação. Poderia ver qual é seu nível nesta habilidade em particular.

—Interessante. Mas me temo que encontraria a seus compatriotas tristemente deficientes.

—Oh! E como pode estar tão seguro? Beijaste alguma vez a um homem de Geall?

Ele se pôs a rir.

—Muito esperta.

—Isso me dizem. —Não se moveu quando Cian se aproximou dela, quando a aprisionou, colocando ambas as mãos sobre a balaustrada, uma a cada lado de seu corpo.— Seu gosto se inclina pelas mulheres inteligentes?

—Sim, quando seus olhos são como a névoa noturna e seu cabelo é da cor do carvalho brunido.

—Cinza e castanho. Sempre pensei que eram duas cores muito apagadas, mas nada do que há em mim se sente apagado quando estou contigo. —Apoiou uma mão sobre o coração de Cian. Embora não pulsasse, ela pôde ver o pulso em seus olhos.— Não me sinto tímida quando estou contigo, tampouco nervosa. Antes sim, até que me beijou. —Moira apertou os lábios no lugar onde tinha estado sua mão.— Logo pensei que deveria havê-lo sabido. Uma cortina se abriu em meu interior, e acredito que jamais voltará a fechar-se.

—Você trouxe a luz dentro de mim, Moira.

O que Cian não disse, nem a ela nem a si mesmo, era que, quando ele partisse, essa luz voltaria a apagar-se.

—A lua está muito clara esta noite, e as estrelas brilham no céu. —Apoiou as mãos sobre as de Cian.— Deixaremos as cortinas abertas até que seja o momento de dormir.

Entrou novamente com ele na habitação, iluminada pela luz da lua e das velas. Moira sabia que seria então quando a calidez se converteria em calor, e o calor em fogo. Com todas as emoções e sensações que acompanhariam essa transformação.

De alguma parte chegou a chamada de uma coruja. «Reclama a seu parceiro», pensou ela. Era o momento de desejar intensamente ao parceiro.

Tirou-se a fina coroa, deixou-a a um lado e logo elevou as mãos para tirar os brincos. Quando viu que Cian a estava observando, compreendeu que aqueles pequenos atos, aquele prelúdio antes de despir-se, podia ser excitante para ele.

De modo que tirou os brincos lentamente, olhando a Cian enquanto este olhava a ela. Tirou-se a cruz que tinha ocultado sob seu vestido, elevando-a por cima da cabeça. Aquilo, ela sabia, era um ato de confiança.

—Não tenho aqui a minhas damas de companhia. Poderia me ajudar com as cintas?

Voltou-se de costas para ele e se levantou o cabelo com a mão.

—Acredito que tentarei que fabriquem zípers. É algo realmente simples e faz que vestir-se seja mais fácil.

—E um enorme encanto se perderá em nome da comodidade.

Moira lhe sorriu por cima do ombro.

—É fácil para ti dizê-lo. —Mas por outro lado, sentir como lhe afrouxava aquelas cintas, provocava-lhe uma batida de asas no estômago.— Que invento é o que mais te impressionou em todo este tempo?

—As instalações sanitárias interiores.

A rapidez de sua resposta fez que Moira pusesse-se a rir.

—Larkin e eu nos viciamos, e sinto muitíssima falta dessas comodidades. Estudei os depósitos de água e os encanamentos. Acredito que poderia idealizar algo parecido a sua ducha.

—Rainha e encanadora. —Apoiou os lábios sobre seu ombro enquanto afastava as cintas.— Suas habilidades não têm fim.

—Pergunto-me se também seria boa como ajuda de câmara de um cavalheiro. —voltou-se para ele.— Eu gosto dos botões —acrescentou, ao tempo que começava a lhe desabotoar a camisa.— São bonitos e sensíveis.

Igual a ela, pensou Cian enquanto Moira continuava eficazmente sua tarefa. Logo passou uma mão pelo cabelo.

—Acredito que deveria cortar isso como Blair. Você gostaria disso? —perguntou ela.

—Não. Não o faça. —Seu ventre se estremeceu quando seus dedos fizeram uma pausa sobre o botão metálico de seu jeans. Os seus se deslizaram através de sua cabeleira castanha, desde sua cabeça até sua cintura.— São bonitos. Eu gosto de como caem sobre seus ombros e se estendem por suas costas. Quase brilham contra sua pele.

Moira, fascinada, olhou para o grande espelho que tinha diante. E se sobressaltou ao ver-se meio nua. E sozinha.

Afastou a vista rapidamente e lhe sorriu com doçura.

—Mesmo assim, ter o cabelo tão comprido é um problema e...

—Te assustaste?

Não tinha nenhum sentido fingir que não tinha entendido o que lhe perguntava.

—Não. É um pouco impressionante, nada mais. É difícil para ti? Não poder ver seu reflexo nos espelhos?

—É o que há. Se adapta a isso. É só uma ironia mais. Conseguiste a juventude eterna, mas nunca será capaz de vê-la. Entretanto...

Ele a fez voltar-se, de modo que ambos ficaram frente ao espelho. Logo elevou sua cabeleira e a deixou cair. Quando Moira pôs-se a rir ao ver que seu cabelo parecia mover-se sozinho, ele apoiou as mãos sobre seus ombros.

—Sempre há maneiras de divertir-se —disse Cian.

Voltou a lhe levantar o cabelo e esta vez lhe passou os lábios —e apenas os dentes— ao longo da nuca.

Ouviu a súbita inalação de ar e viu como os olhos dela se abriam.

—Não, não —murmurou, quando ela começou a voltar-se.— Só observa. —E deslizou os dedos sobre sua pele... sobre seus ombros nus, descendo para onde o vestido pendia levemente ante seus peitos.— Só sinta.

—Cian.

—Sonhaste alguma vez com um amante que chegava a ti no meio da noite, na escuridão? —Baixou-lhe o vestido até a cintura e logo deslizou brandamente as gemas dos dedos sobre seus peitos nus.— Te surpreendendo. Suas mãos e seus lábios esquentando sua pele.

Ela elevou as mãos para as de Cian porque precisava senti-las. Logo se ruborizou intensamente e as afastou ao ver que o reflexo do espelho a mostrava acariciando seus próprios peitos.

Atrás dela, invisível, Cian sorriu.

—Disse-me que eu não te tinha arrebatado a inocência. Talvez tinha razão, mas acredito que o farei agora. És... suculenta, e o que sou a deseja com veemência.

—Não sou inocente —disse ela, mas se estremeceu.

—Mais do que crê. —Começou a acariciar seus peitos, riscando círculos com as gemas dos polegares, movendo-se lentamente até roçar os mamilos eretos.— Tem medo?

—Não. —E se voltou a estremecer.— Sim.

—Um pouco de medo pode aumentar a excitação. —Deixou cair o vestido ao chão e apoiou os lábios em sua orelha.— Te afaste do vestido —sussurrou.— Agora olhe. Olhe seu corpo.

O medo se unia à excitação, de modo que lhe resultava impossível separá-los. Seu corpo estava indefeso e sua mente paralisada. Umas mãos e uns lábios que não podia ver a percorriam inteira, eroticamente íntimos, languidamente possessivos. Podia ver como sua figura se estremecia no espelho, e contemplar o assombrado prazer que alagava seu rosto.

Um véu de rendição em seus olhos.

Seu amante fantasmagórico deslizava suas mãos sobre ela, seus dedos brincavam, exploravam, deixando um rastro de carne trêmula.

Esta vez, quando lhe agarrou de novo os peitos, ela cobriu suas mãos com as suas sem pudor algum.

Moira gemeu, mas seus olhos não se separaram do reflexo. Suas pálpebras nunca se fechavam ante uma nova experiência, um novo saber. Cian podia sentir como se estremecia e viu o movimento instintivo de seus lábios quando o prazer se apoderou completamente dela. A luz das velas brincava sobre sua pele nacarada e as sensações a acendiam, de modo que florescia como uma rosa.

Quando ele deslizou os dedos por seu ventre, Moira voltou a lançar um gemido, e fundindo-se com Cian, enlaçou o braço ao redor de seu pescoço.

Ele só tateava, roçando o interior de suas coxas por sua parte mais sensível, insinuando, apenas insinuando o que viria, até que a respiração de Moira se converteu em um ofego.

—Tome —murmurou ele.— Tome o que deseje.

Agarrou a mão de Moira e a apertou com força sobre a suas entre as coxas dela, deixando-lhe ali prisioneira.

Moira sentiu que se sacudia violentamente contra Cian, contra sua própria mão enquanto ele a acariciava para levá-la a um novo e intenso prazer. Sentia o sólido corpo dele atrás dela, e sua voz lhe sussurrava palavras que não entendia, mas no cristal do espelho só se refletia sua forma, perdida agora em suas próprias e urgentes necessidades.

A liberação do prazer a deixou sem fôlego, esgotada e assombrada.

Ele a fez girar tão depressa que perdeu o equilíbrio, e o teria perdido outra vez de todos os modos quando a boca dele se apoderou da sua com uma urgência verdadeiramente selvagem. Moira só pôde aferrar-se a ele, só pôde entregar-se enquanto seu coração golpeava como uma bigorna contra o peito de Cian.

Apesar de tudo o que ele tinha tido e tomado e provado, jamais tinha experimentado um apetite semelhante. Uma espécie de necessidade demente que só ela era capaz de satisfazer. Até com toda sua destreza, com toda sua experiência, sentiu-se indefeso quando Moira o atraiu para si. Tão entregue e disposto como ela, estendeu-a no chão e se inundou em seu interior para forjar esse vínculo primitivo e desesperado.

Cian fez que voltasse o rosto uma vez mais para o espelho enquanto a penetrava, enquanto o corpo de Moira se movia grosseiramente debaixo das investidas de seus fortes quadris. E quando ela alcançou o clímax, tremendo de prazer, ele encadeou a necessidade com a vontade até que os olhos de Moira se abriram para encontrar-se com seu olhar. Até que ela viu quem a tinha tomado.

E Cian voltou a fazê-lo até que a necessidade de Moira adquiriu o mesmo ritmo que a sua. Então, afundando o rosto em seu cabelo, esvaziou-se em seu interior.

Moira poderia haver ficado ali tendida, esgotada, durante o resto de sua vida, mas Cian a elevou. Deu-se conta de que simplesmente a tinha levantado do chão e agora estava de pé, sustentando-a entre seus braços, tudo em um só movimento, sem esforço aparente.

E seu coração dançou dentro de seu peito.

—É uma tolice —ela disse enquanto lhe acariciava o pescoço— e acredito que deve ser algo feminino, mas eu adoro que seja tão forte e que, por um momento, enquanto fazemos amor, eu te faça sentir débil.

—Quando se trata de ti, há uma parte de mim, mo chroi, que sempre é débil.

Ele a tinha chamado meu coração, e tinha feito que o seu voltasse a dançar em seu peito.

—Oh, não o faça —lhe pediu ela quando Cian a tendeu na cama e se voltou para correr as cortinas.— Ainda não. Ainda fica muito da noite. —Girou na cama e agarrou sua bata.— Vou procurar o vinho. E o queijo —acrescentou.— Tenho fome outra vez.

Quando Moira partiu, ele se aproximou da lareira e lançou outra parte de turfa ao fogo. Fechou sua mente à parte de si mesmo que lhe perguntava que demônios estava fazendo. Cada vez que estava com Moira, somava uma nova cicatriz a seu coração, pelo dia em que já não estaria com ela nunca mais.

Moira sobreviveria a aquilo, recordou-se. E ele também o faria. A sobrevivência era algo que humanos e vampiros tinham em comum. Ninguém morria realmente por causa de um coração destroçado.

Ela retornou trazendo uma bandeja.

—Podemos comer e beber na cama, completamente decadentes.

Deixou a bandeja sobre o leito e logo voltou a deitar-se.

—Sem dúvida te dei suficiente decadência —disse Cian.

—Oh! —Moira jogou o cabelo para trás e sorriu lentamente.— E eu que esperava que houvesse mais. Mas se já me ensinaste tudo o que sabia, suponho que não há problema em começar a repetir.

—Fiz coisas que nem sequer podes imaginar. Coisas que não quereria que imaginasse.

—Agora estás alardeando.

Moira tratou de lhe subtrair importância.

—Moira...

—Não o sinta por nós, ou pelo que acha que não pode ser, ou não deveria ser. —Seu olhar era claro, direto.— Não sinta, quando me olha, o que possa ter feito no passado. Tenha sido o que tenha sido, cada vez que ocorria, não era mais que um passo para te trazer até aqui. Aqui é necessário. Eu te necessito aqui.

Ele se aproximou da cama.

—Entende que não posso ficar?

—Sim, sim. Sim. E não quero falar disso; esta noite não. Não podemos ter uma ilusão só por uma noite?

Ele lhe acariciou o cabelo.

—Não posso lamentar o que há entre nós.

—Isso é suficiente então.

Tinha que ser suficiente, recordou-se ela, embora a cada minuto que passava havia algo em seu interior que se voltava louco, e mais ainda com a aflição que sentia.

Elevou uma das taças e a ofereceu com mão firme. Quando ele viu que era sangue, arqueou uma sobrancelha.

—Pensei que o necessitaria. Para recuperar a energia.

Ele meneou a cabeça e se sentou na cama junto a ela.

—Bem, quer que falemos de encanamento?

Ela não estava segura da que se referia Cian, mas fosse o que fosse, teria ocupado o último lugar em qualquer lista confeccionada por ela.

—Encanamento.

—Você não é a única que estudou coisas. Somado ao feito de que eu estava presente quando esse tipo de melhoras foram incorporadas à vida cotidiana. Tenho algumas idéias a respeito de como poderia instalar algumas tubulações básicas.

Ela sorriu e bebeu um pouco de vinho.

—Me instrua.

Ambos dedicaram um tempo considerável a esse tema, com Moira procurando papel e tinta para poder desenhar uns diagramas básicos. O fato de que ele demonstrasse tanto interesse por algo que imaginava que para a gente de seu tempo estava normal, mostrava-lhe outra faceta de Cian.

Mas, de repente, deu-se conta de que esse fato não deveria se estranhar, não se pensava no tamanho de sua biblioteca em sua casa da Irlanda. Em uma casa, recordou, que Cian só visitava uma ou duas vezes ao ano.

Moira compreendeu também que Cian poderia ter sido qualquer coisa que se tivesse proposto. Tinha uma mente rápida e curiosa, mãos hábeis e, pela maneira em que interpretava a música quando ela o escutou tocar, a alma de um poeta. Além de um dom para os negócios, recordou-se a si mesma.

Em Geall, em seu tempo, Cian teria sido um homem próspero, Moira estava segura disso. Respeitado, famoso inclusive. Outros homens lhe teriam aproximado em busca de conselho e ajuda. As mulheres teriam flertado com ele à mínima oportunidade.

Mas ele e ela se teriam conhecido e cortejado e amado, disso também estava segura. E Cian teria reinado a seu lado sobre uma terra rica e pacífica.

Teriam tido filhos, com os bonitos olhos azuis dele. E um varão —ao menos um— com sua fenda no queixo.

E em noites como aquela, tardias e tranqüilas, eles falariam de planos para a família, para seu povo, para sua terra.

Moira piscou e voltou para a realidade quando os dedos dele roçaram sua bochecha.

—Precisas dormir.

—Não. —Moira meneou a cabeça e tratou de concentrar-se novamente nos diagramas... de postergar aqueles minutos que se levavam o tempo que tinha para compartilhar com ele.— Minha mente estava vagando.

—Teria começado a roncar dentro de um minuto.

—Vá, isso não é verdade. Eu não ronco. —Mas não discutiu quando ele recolheu os papéis. Apenas podia manter os olhos abertos.— Talvez será melhor que descansemos um pouco.

Moira se levantou para apagar as velas enquanto Cian se aproximava das cortinas. Mas quando ela se voltou para retornar à cama, viu que ele estava abrindo as portas para partir.

—Pelo amor de Deus, Cian, estás quase nu! —Agarrou sua camisa e correu atrás dele.— Ao menos te ponha isto. Talvez não te importe o frio, mas sim me importa que um de meus guardas te veja completamente nu. Não é decoroso.

—Aproxima-se um cavaleiro.

—O que? Onde?

—Pelo este.

Moira olhou para ali, mas não viu nada. Não obstante, não duvidava de sua palavra.

—Um só cavaleiro?

—Dois, mas o segundo é guiado pelo primeiro. E se aproximam a galope.

Moira assentiu, retornou à habitação e começou a vestir-se.

—Os guardas têm instruções precisas de não permitir a entrada de ninguém. Irei jogar uma olhada. Pode tratar-se de camponeses atrasados. Se for assim, não podemos lhes deixar fora do castelo e desprotegidos.

—Não deixe que entre ninguém —ordenou Cian enquanto colocava os jeans.— Embora os conheça.

—Não o farei, e tampouco nenhum dos guardas.

Com uma leve pontada de pesar, colocou a coroa e voltou a converter-se em rainha. E, como rainha, agarrou a espada.

—Deve tratar-se de atrasados —repetiu.— Em busca de comida e refúgio.

—E se não o são?

—Então percorreram um comprido caminho para morrer.

 

Quando chegou ao posto de guarda, no alto da muralha, pôde ver os cavaleiros, ou melhor, sua forma. Eram dois, tal como Cian havia dito, e o primeiro levava pelas rédeas o segundo cavalo. Não vestiam capas de casaco apesar do ar frio e da insinuação de uma primeira geada.

Moira olhou a Niall, a quem os guardas tinham despertado ao divisar aos dois cavaleiros.

—Quero um arco.

Niall fez um gesto a um dos homens e este lhe entregou seu arco e seu aljava.

—Parece inútil que o inimigo cavalgue diretamente para nós. Dois deles contra nós? E sem nenhuma possibilidade de atravessar as portas a menos que o permitamos —comentou Niall.

—É provável que não sejam inimigos, mas as portas não devem levantar-se até que não estejamos seguros disso. Dois homens —sussurrou ela quando os cavaleiros estiveram o bastante perto para distingui-los.— O que monta o segundo cavalo parece que esteja ferido.

—Não —disse Cian um momento depois.— Está morto.

—Como podes...? —Niall se interrompeu.

—Está seguro? —perguntou Moira.

—Ataram-no ao cavalo, mas está morto. E também o primeiro cavaleiro, mas o converteram em vampiro.

—Muito bem então. —Moira suspirou.— Niall, diga aos homens que mantenham a vigilância se por acaso há mais. Não devem fazer nada até que não lhes ordene. Veremos o que é que quer este cavaleiro. Um desertor? —perguntou-lhe a Cian e logo desprezou a idéia antes que lhe respondesse.— Não, um desertor se teria dirigido mais para o oeste ou o norte possivelmente, e se teria mantido oculto.

—Pode ser que ache que tem algo com o que negociar —sugeriu Niall.— Nos fazer acreditar que o outro cavaleiro está vivo para que lhes permitamos a entrada no castelo. Ou possivelmente possua informação que pense que é valiosa para nós.

—Não nos fará mal escutar o que tenha que nos dizer —começou a dizer Moira e logo aferrou a mão de Cian.— O cavaleiro. É Sean. É Sean, o filho do ferreiro. Oh, Deus. Está seguro de que lhe hão...?

—Conheço os de minha espécie. —Com uma visão mais aguda que a da Moira, ele reconhecia aos mortos.— Lilith o enviou, pode permitir-se ao luxo de perder a alguém a quem acaba de transformar em um morto vivo. Enviou-o porque você o reconheceria e sentiria pena por ele. Não o faça.

—Era apenas um menino.

—Pois agora é um demônio. Ao outro cavaleiro lhe economizaram esse gole. Me olhe, Moira. —Agarrou-a pelos ombros e a fez girar até ficar frente a ele.— O sinto. É Tynan.

—Não. Não. Tynan está na base. Recebemos notícias de que tinha chegado ali sem problemas. Ferido, mas vivo e a salvo. Não pode ser Tynan.

Separou-se de Cian e se inclinou sobre o parapeito de pedra, aguçando o olhar. Agora podia ouvir os murmúrios, logo os gritos quando os homens começaram a reconhecer a Sean. Havia esperança naqueles gritos e palavras de bem-vinda.

—Já não é Sean. —Ela elevou a voz e interrompeu os gritos dos homens.— Eles mataram ao Sean que vocês conheciam e enviaram a um demônio com sua cara. As portas devem permanecer fechadas e ninguém passará através delas. É uma ordem.

Voltou-se. Cada osso de seu corpo pareceu quebrar-se quando viu que Cian estava certo. O segundo cavaleiro era Tynan, ou o corpo maltratado de Tynan, amarrado ao segundo cavalo.

Moira queria chorar, queria refugiar-se contra o peito de Cian e lamentar-se, e chorar. Queria afundar-se nas pedras e gritar sua fúria e sua pena.

Permaneceu muito erguida, sem sentir já o vento que agitava sua capa e sua cabeleira. Colocou uma flecha no arco e esperou a que o vampiro apresentasse seu maligno presente.

—Ninguém deve lhe falar —disse friamente.

O que tinha sido Sean elevou o rosto, levantou uma mão para saudar os que se congregaram no alto da muralha.

—Abram as portas! —gritou.— Abra as portas! Sou Sean, o filho do ferreiro. É possível que ainda me persigam. Tenho a Tynan comigo. Está gravemente ferido.

—Não passarão —respondeu Moira.— Ela te matou só para te enviar para que morrestes aqui outra vez.

—Majestade. —O menino as engenhou para fazer uma torpe reverencia ao tempo que freava os cavalos.— Você me conhece.

—Sim, conheço-te. Como morreu Tynan?

—Está ferido. Perdeu muito sangue. Eu consegui escapar desses demônios e retornei à granja, à base. Mas também estava ferido e me sentia débil, e Tynan, bendito seja, saiu para me ajudar. Os demônios nos atacaram. Pudemos salvar a vida por milagre.

—Mentes. Matou-o você? No que ela te converteu te transtornou ao extremo de matar a um amigo?

—Minha senhora. —interrompeu-se quando ela elevou o arco e apontou a flecha diretamente a seu coração.— Eu não o matei. —Levantou as mãos para mostrar que não estava armado.— Foi o príncipe. O menino. —Lançou um risinho tolo e logo se levou a mão à boca para atenuar a risada, com um gesto tão parecido ao de Sean que lhe destroçou o coração.— O príncipe o enganou para que saísse da casa e o matou. Eu só o trouxe de retorno ante vocês, como me ordenou a verdadeira rainha. Ela vos envia uma mensagem.

—E qual é essa mensagem?

—Se se renderem e a aceitarem como rainha deste mundo e de todos os outros, se colocarem a espada de Geall em sua mão e a coroa em sua cabeça, salvarão-lhes. Poderão viver aqui como os goste, já que Geall é um mundo muito pequeno e de escasso interesse para ela.

—E se não aceitarmos sua proposta?

Sean tirou uma faca e cortou as cordas que sujeitavam a Tynan ao cavalo. Um chute indiferente fez que o corpo inerte caísse pesadamente ao chão.

—Então seu destino será o dele, como o será o de cada homem, cada mulher e cada criança que se oponha a ela. Serão torturados.

Abriu-se a túnica, e a luz da lua iluminou as queimaduras e os cortes que ainda não tinham cicatrizado em seu torso.

—Qualquer um que sobreviva ao Samhain será capturado. Violaremos a suas mulheres, mutilaremos a seus filhos. Quando tudo tenha acabado, não ficará um só coração humano pulsando em Geall. Nós viveremos para sempre. Jamais poderão nos deter. Me dêem sua resposta e eu a levarei a rainha.

—Esta é a resposta da autêntica rainha de Geall. Depois do Samhain, quando o sol apareça no horizonte, você e todos os que são como você serão pó que o vento se levará ao mar. Em Geall não ficará nem rastro de vocês.

Devolveu a Niall o arco.

—Já têm sua resposta.

—Ela virá atrás de você! —ele gritou.— E atrás do traidor de sua espécie que está ao seu lado!

Logo esporeou seu cavalo e partiu a galope.

Na muralha, Moira elevou sua espada e, estendendo-a para frente, lançou um jorro de fogo. O vampiro gritou uma vez quando as chamas o alcançaram, logo a bola de fogo em que se converteu caiu ao chão e se desfez em cinzas.

—Ele era de Geall —murmurou Moira— e merecia morrer com sua espada. Tynan... —Lhe fez um nó na garganta.

—Eu entrarei com ele. — Cian tocou o ombro de Moira e olhou aos olhos de Niall por cima da cabeça dela.— Era um bom homem, e um amigo para mim.

Sem esperar resposta, Cian saltou por cima do muro e pareceu flutuar até o chão.

Niall golpeou com o dorso da mão o braço do guarda que estava junto a ele quando viu o homem fazer o sinal contra o demônio.

—Não aceitarei ao meu lado a nenhum homem que insulte sir Cian.

Uma vez abaixo, Cian agarrou a Tynan em seus braços e, levantando-o, elevou o olhar e encontrou o de Moira.

—Abram as portas —ordenou ela.— Para que sir Cian possa trazer a Tynan de volta pra casa.

Moira se encarregou pessoalmente do corpo de Tynan, lhe tirando as roupas rasgadas e sujas.

—Deixa que eu me encarregue disto, Moira.

Ela meneou a cabeça e começou a lavar o rosto de Tynan.

—Devo fazê-lo eu. Fomos amigos desde pequenos. Preciso fazer isto por ele. Não quero que Larkin lhe veja até que não esteja limpo.

Suas mãos tremiam enquanto alisava brandamente o tecido sobre os rasgões e as mordidas, mas não vacilou em nenhum momento.

—Larkin e Tynan eram companheiros de jogos. Acha que é verdade o que há dito Sean, de que foi o menino quem fez isto a Tynan?

Quando viu que ele não respondia, Moira o olhou.

—Esse pirralho é como seu filho —disse Cian finalmente.— Certamente é um ser malvado. Deixa que ao menos desperte a Glenna.

—Ela sentia muito afeto por Tynan. Todos o amavam. Não, não há necessidade de chamar a Glenna agora, já é muito tarde. Eles destroçaram a minha mãe da mesma maneira. Pior que isto, inclusive pior. E eu lhe voltei as costas. Não posso voltar as costas também a ele.

—Quer que eu saia?

—Crês acaso que porque vejo estas terríveis feridas, estes cortes e mordidas, como se tivesse sido atacado por um animal selvagem, poderia chegar a pensar que é igual ao que fez isto? Achas que sou tão fraca de mente e de corpo, Cian?

—Não. Acredito que a mulher a que vi esta noite, a mulher a que ouvi, possui a mente e o coração mais fortes que jamais conheci. Eu jamais fiz isto a um ser humano.

Cian se tranqüilizou enquanto ela voltava a olhá-lo com os olhos devastados pela dor.

—Necessito que ao menos saiba disso. De todas as coisas que tenho feito, e algumas foram de uma crueldade difícil de imaginar, jamais fiz a ninguém o que têm feito a Tynan.

—Você matava de um modo mais limpo. Mais eficaz.

Cian sentiu que essas palavras lhe cortavam como uma faca.

—Sim.

Moira assentiu.

—Lilith não te treinou, mas sim te abandonou, de modo que tem muito pouco dela em ti. Ao contrário que esse menino. E acredito que conservaste uma parte da forma em que lhe criaram. Do mesmo modo em que pude ouvir o tom de Sean, ver seus gestos nessa coisa esta noite, algumas de suas características permaneceram tal como eram antes que ela te convertesse no que é. Sei que não és humano, Cian, assim como também sei que não é um monstro. E sei que há algo de ambos em ti que te faz sustentar uma luta permanente para conservá-los equilibrados.

Moira lavou o corpo de Tynan com a mesma suavidade com a qual teria lavado a uma criança. Uma vez que tinha terminado, começou a vesti-lo com as roupas que tinha enviado a procurar em suas habitações.

—Deixe que eu faça isso, pelo amor de Deus, Moira.

—Sei que suas intenções são boas. Sei que o faz pensando em mim, mas eu preciso fazer isto por ele, Cian. Tynan foi o primeiro que me beijou. —Sua voz titubeou ligeiramente antes de apertar os dentes e acabar o trabalho.— Eu tinha quatorze anos e Tynan dois mais. Foi algo muito doce, muito tenro. Tímido para ambos, como deve ser um primeiro beijo na primavera. Eu o amava. Acredito que do mesmo modo em que você amava a King. Ela nos tirou isso, Cian. Tirou a eles, mas não o amor.

—Juro ante o deus que você queira, que acabarei com ela por ti.

—Um de nós o fará.

Moira se inclinou e roçou a fria bochecha de Tynan com os lábios.

Logo se separou dele.

Sentou-se no chão e lançou um profundo gemido. Quando Cian se ajoelhou junto a ela, Moira se aconchegou contra seu corpo e chorou desconsoladamente, com o coração destroçado.

 

                                   CAPÍTULO 15

Enterraram a Tynan numa manhã luminosa, com as sombras das nuvens dançando sobre as colinas e uma cotovia cantando alegremente, pousada no ramo de um sorveira. O homem santo benzeu a terra antes que baixassem o corpo, ao ritmo de um tambor e um flautim tocando um canto fúnebre.

Todos os que conheciam a Tynan, e muitos outros que não, estavam ali, de modo que os presentes no enterro se estendiam por todo o cemitério banhado pelo sol e até a ladeira da colina para o castelo. As três bandeiras de Geall ondeavam a meia haste.

Moira se encontrava junto a Larkin com os olhos secos. Embora ouvia o pranto da mãe de Tynan, ela sabia que seu momento para derramar lágrimas já tinha passado. O resto dos membros do círculo estavam atrás dela e podia senti-los, encontrar certo consolo em sua presença.

Agora, haveria ali duas lápides que representariam a amigos, junto com as que indicavam as tumbas dos pais de Moira. Todos eles vítimas de uma guerra que se iniciou muito antes que ela soubesse sequer de sua existência, e a que poria término de um modo ou outro.

Finalmente, Moira se afastou para permitir à família uns últimos momentos de intimidade. Quando Larkin lhe agarrou a mão, ela a aferrou com força. Logo olhou a Cian, e apenas pôde ver seus olhos sob a sombra do capuz. Logo olhou aos outros.

—Temos trabalho a fazer. Larkin e eu devemos falar um momento com a família de Tynan, e logo nos reuniremos todos no salão.

—Nós vamos entrando —disse Blair. Logo se adiantou e apoiou a bochecha na de Larkin.

Moira não pôde ouvir as palavras que Blair lhe sussurrou ao ouvido, mas Larkin lhe soltou a mão e atraiu a Blair para abraçá-la com força.

—Em seguida iremos —assegurou Larkin a Blair. Continuando, separou-se dela e voltou a agarrar a Moira pela mão. Esta poderia jurar que era capaz de sentir a dor dele através da pele.

Antes que Moira pudesse voltar-se para a família de Tynan, a mãe deste se separou de seu marido e abriu passo para onde estava Cian. Seus olhos ainda velados pelas lágrimas.

—É vossa espécie a que fez isto. Sua espécie matou a meu filho.

Hoyt tentou adiantar-se, mas Cian se moveu para lhe bloquear o passo.

—Sim.

—Vocês deveriam estar no inferno em lugar de meu filho sob a terra.

—Sim —repetiu Cian.

Moira se aproximou e apoiou uma mão sobre o ombro da mulher, mas ela a sacudiu de cima.

—Vocês, todos vocês. —Girou lentamente, elevando um dedo acusador.— A todos lhes importa mais esta coisa que meu filho. E agora ele está morto. Não têm nenhum direito de permanecer aqui, junto a sua tumba.

Logo cuspiu aos pés de Cian.

Enquanto cobria o rosto com as mãos e chorava inconsolável, seu marido e suas filhas a levaram dali.

—Sinto-o —disse Moira.— Eu falarei com ela.

—Não passa nada. Ela não está equivocada.

Sem acrescentar nada mais, Cian se afastou da tumba fresca e das filas de lápides que assinalavam o lugar onde repousavam os mortos.

Niall lhe alcançou quando chegava às portas do cemitério.

—Sir Cian, preciso trocar umas palavras com você.

—Pode me dizer todas as palavras que queira, mas uma vez que tenha saído debaixo deste maldito sol.

Não sabia por que tinha ido ao cemitério. Já tinha visto mais que suficientes mortos em seu tempo, ouvido mais que suficiente pranto por eles. A mãe de Tynan não era a única que o olhava com medo e ódio, e ali estava ele, em pleno dia e com um tecido basta e um conjuro como única proteção ante aquele sol assassino.

Seu sangue se esfriou no mesmo instante em que entrou no castelo, afastado da luz.

—Diga o que tenha que dizer.

Cian se virou para trás o odiado capuz da capa.

—Isso farei. —Niall, um homem corpulento de semblante habitualmente alegre e agora tenso e sombrio, assentiu abruptamente. Sua larga mão descansava no punho da espada enquanto olhava com dureza a Cian aos olhos.— Tynan era um amigo, e um dos melhores homens que conheci.

—Não me diz nada que não tenha ouvido antes.

—Bom, não me tinham ouvido dizê-lo, não? Vi o que eles fizeram a Sean, que tinha sido um moço indefeso e freqüentemente tolo. Vi como chutava o corpo de Tynan e o fazia cair do cavalo como se não fosse mais que lixo que se joga em uma sarjeta.

—Para ele não era mais que isso.

Niall assentiu novamente, e seus dedos se fecharam sobre o punho.

—Sim, isso foi o que fizeram dele. E de você. Mas eu observei como levantavas o corpo de Tynan do chão, vi como o levavas pra dentro do castelo; como levaria um homem a um amigo morto. Não vi nada em ti do que era Sean. A mãe de Tynan está desesperada. Ele era seu primogênito e está louca de dor. Não é certo o que há dito de você junto à tumba. E a Tynan não teria gostado que ninguém de seu sangue lhe insultasse, de modo que te estou dizendo isto como amigo. E também te digo que qualquer homem que luta a meu lado, também luta ao seu lado. Têm minha palavra.

Afastou a mão direita do punho da espada e a estendeu a Cian.

Os humanos nunca deixavam de surpreendê-lo. Irritavam-no, chateavam, divertiam e, ocasionalmente, instruíam-no. Mas, sobretudo, assombravam-no sem cessar com as curiosas voltas de suas mentes e corações.

Cian supunha que essa era uma das razões pela quais tinha sido capaz de viver entre eles durante tanto tempo e manter o interesse.

—Agradeço-te suas palavras. Mas antes que estreite minha mão é necessário que saiba que o que havia em Sean também está em mim. Só há uma pequena diferença.

—Não é pequena segundo minha medida. E penso que usarão isso que há em você para lutar contra esses demônios. Eu lutarei cotovelo com cotovelo junto a você, sir Cian. E minha mão ainda está estendida.

Cian a estreitou.

—Sinto-me agradecido —disse.

Mas quando subiu a escada o fez sozinho.

 

Moira, desconsolada, retornou andando ao castelo. Havia muito pouco tempo para o luto, ela sabia, pouco tempo para o consolo. O que Lilith tinha feito a Sean, a Tynan, tinha-o feito para lhes destroçar o coração. E tinha acertado no alvo.

De modo que agora os combateriam com ação, com movimento.

—Podem utilizar os dragões? Já estão o bastante treinados para transportar os homens?

—São espertos e complacentes —lhe disse Larkin.— Fáceis de montar por qualquer um que tenha boas nádegas e não tema à altura. Mas até agora foi como uma espécie de jogo para eles. Não posso dizer como se comportarão na batalha.

—Por agora se trata mais de uma questão de transporte. Você e Blair são os que melhor os conhecem. Necessitaremos... —interrompeu-se quando sua tia cruzou o pátio.— Deirdre. —Beijou a sua tia na bochecha e a abraçou. Sabia que as mães de Larkin e Tynan eram muito amigas.— Como ela está?

—Está prostrada. Inconsolável. —Os olhos de Deirdre, inchados por suas próprias lágrimas, fixaram-se no rosto de Larkin.— Como o estaria qualquer mãe.

Ele a abraçou.

—Não se preocupem comigo, ou por Oran.

—Pede-me o impossível. —Apesar de tudo, conseguiu esboçar um sorriso. Mas este se desvaneceu quando olhou novamente a Moira.— Sei que estes são tempos muito difíceis, e que tem muitas coisas na cabeça, no coração. Mas queria falar contigo. Em particular.

—É obvio. Reunirei-me com vocês em um momento —disse aos outros, e logo passou o braço pelos ombros de Deirdre.— Iremos a minha sala de estar. Beberemos chá.

—Não é necessário que te incomodes.

—Fará-nos bem às duas.

Quando entraram no hall, chamou um dos criados e lhe disse que lhes subissem o chá à sala de estar.

—E Sinann? —continuou Moira enquanto subiam a escada.

—Fatigada e cheia de pena por Tynan, de preocupação por seu marido, por seus irmãos. Não podia permitir que hoje fosse ao cemitério, hei-lhe dito que devia descansar. Estou preocupada com ela, pelo filho que leva em seu ventre e por seus outros filhos.

—Sinann é forte, e tem a você para cuidar dela.

—Será suficiente ter a mim se Phelan cair como o fez Tynan? Se Oran já há...

—Deve ser assim. Não temos alternativa neste assunto. Nenhum de nós.

—Nenhuma alternativa salvo a guerra.

Deirdre entrou na sala de estar e se sentou. Seu rosto, emoldurado pela touca, via-se mais envelhecido que nas semanas anteriores.

—Se não lutarmos contra eles, matarão a todos como têm feito com Tynan. Ou nos farão o que fizeram ao pobre Sean.

Moira se aproximou da lareira para acrescentar umas partes de turfa ao fogo. Apesar do brilhante sol de outono, estava gelada até os ossos.

—E ao lutar contra eles, quantos morrerão? Quantos serão assassinados sem piedade?

Moira se ergueu e se voltou para sua tia. Ela não era a única que perguntava, que procurava em sua rainha a resposta impossível.

—Como posso dizê-lo? O que queriam que fizesse? Você, que fostes a confidente de minha mãe antes que fosse rainha e durante todo seu reinado, o que terias querido que fizesse ela?

—Os deuses lhe encarregaram desta tarefa. Quem sou eu para dizê-lo?

—Meu sangue.

Deirdre suspirou e se olhou as mãos, que tinha apoiadas no colo.

—Estou cansada, até o fundo de minha alma. Minha filha teme por seu marido, como o faço eu pelo meu. E também por meus filhos. Minha amiga enterrou hoje a seu filho. E sei que não há escolha nisto, Moira. Esta praga chegou a nós e devemos combatê-la.

Uma criada entrou trazendo o chá.

—Pode deixá-lo ali —disse Moira.— Eu mesma o servirei. Haveis enviado comida ao salão?

A jovem fez uma reverência.

—Sim, sua majestade. O cozinheiro estava se encarregando disso quando saí com o chá.

—Obrigada. Isso é tudo então.

Moira se sentou e serviu a infusão.

—Também há bolachas. É bom desfrutar de pequenos prazeres nos tempos difíceis.

—É precisamente dos pequenos prazeres nos tempos difíceis do que quero te falar.

Moira lhe passou uma xícara.

—Há algo que eu possa fazer para aliviar seu coração? O de Sinann e dos meninos?

—Sim, há. —Deirdre bebeu um pouco de chá antes de deixar a xícara a um lado.— Moira, sua mãe foi minha amiga mais querida neste mundo, e eu estou aqui em seu lugar, e te falo como o faria com minha própria filha.

—Eu sei.

—Quando falou desta guerra que nos ameaça, disse que não havia outra escolha. Mas há outras escolhas que você tem feito. Escolhas de mulher.

Moira, ao entender o sentido das palavras de sua tia, apoiou-se no respaldo de sua cadeira.

—Sim, tenho-o feito.

—Como rainha, uma que se chama a si mesma de guerreira, uma que demonstrou ser uma guerreira, tem o direito, inclusive a obrigação, de utilizar todas e cada uma das armas a sua disposição para proteger a seu povo.

—Assim o faço e o farei.

—Este Cian chegou aqui de outro tempo e outro lugar. Você acha que os deuses o enviaram.

—Eu sei que é assim. Ele lutou por seu filho. Salvou-me a vida. Sentarás aqui e me olharás, e lhe amaldiçoarás como tem feito a mãe de Tynan?

—Não. —Deirdre inspirou profundamente.— Nesta classe de guerra, ele é uma arma. Usando a ele podes te salvar a ti, a meus filhos, a todos nós.

—Equivocas-te —disse Moira brandamente.— O que Cian tem feito, e o que fará para acabar com esta praga, fará por sua própria vontade.

—A vontade de um demônio.

Os olhos de Moira se gelaram.

—Como queiras.

—E levaste a esse demônio a sua cama.

—Levei a Cian a minha cama.

—Como pode fazer algo assim? Moira, Moira. —Estendeu as mãos.— Não é humano e, entretanto, se entregou a ele. O que pode ter que bom nisso?

—Para mim já houve muito.

Deirdre se apoiou um momento no respaldo da cadeira antes de continuar e pressionou os olhos com os dedos.

—Crês acaso que os deuses o enviaram a ti para isto?

—Não posso sabê-lo. Fizeram-lhe essa mesma pergunta quando escolhestes ao meu tio?

—Como podes compará-lo? —exclamou Deirdre.— Acaso não tem vergonha, orgulho?

—Nenhuma vergonha e considerável orgulho. Amo-o e ele me ama.

—Como pode amar um demônio?

—Como pode um demônio arriscar sua vida, uma e outra vez, para salvar à humanidade?

—Não é sua valentia o que estou questionando, e sim seu juízo. Crês que esqueci o que significa ser jovem, estar excitada, fazer loucuras? Mas você é a rainha, e tem responsabilidades para com a coroa, para com seu povo.

—Vivo e respiro essa responsabilidade a cada momento, cada dia.

—E de noite te deita com um vampiro.

Moira, incapaz de seguir sentada um momento mais, levantou-se e foi até a janela. O sol ainda brilhava, dourado e luminoso. Sua luz se estendia sobre a erva, sobre as águas do rio, nas asas dos dragões que descreviam ociosos círculos ao redor do castelo.

—Não lhes peço que o entendam. Exijo-lhes respeito.

—Fala-me como minha sobrinha ou como a rainha?

Moira se voltou, sua figura emoldurada pela janela e a luz do sol.

—Os deuses me hão considerado ambas as coisas. Viestes a mim movida pela preocupação e eu o aceito. Mas também viestes para condenar a alguém, e isso não posso aceitá-lo. Eu confiaria minha vida a Cian. É meu direito, minha escolha, confiar nele com meu corpo.

—E o que acontece com seu povo? O que acontece com aqueles que se perguntam como é possível que sua rainha tenha podido tomar como amante a uma destas criaturas das trevas?

—Acaso todos os homens são bons, tia? São todos bons e generosos e fortes? Somos como nos criaram ou como escolhemos nos fazer a nós mesmos daí adiante? Direi isto a respeito de meu povo, a respeito daqueles a quem defenderei com minha vida: têm melhores coisas das quais preocuparem-se, nas quais pensar, das quais falar, do que o que faz sua rainha na intimidade de seu dormitório.

Deirdre ficou em pé.

—E quando esta guerra tenha terminado, seguirá com isso? Sentará a esta coisa que ama a seu lado no trono?

O sol ainda brilhava no céu, pensou Moira, ainda quando ela sentia o coração triste e sombrio.

—Quando tudo isto tenha acabado, se conseguimos sobreviver, Cian retornará a seu mundo e a seu tempo, já não voltarei a lhe ver nunca mais. Se somos derrotados nesta guerra, eu entregarei minha vida. Se obtivermos a vitória, perderei meu coração. Não me falem, por favor, de escolhas e responsabilidades.

—O esquecerás. Quando isto tenha acabado, esquecerá a ele e também esta loucura momentânea.

—Me olhe —disse Moira brandamente.— Sabes que não o farei.

—Não. —Os olhos de Deirdre se encheram de lágrimas.— Não o fará. Eu queria te economizar esse momento.

—Eu não. Nem um só momento do que vivi com Cian. Estive mais viva com ele do que o estive antes ou o voltarei a estar. De modo que não, nem um só momento.

 

Estavam todos reunidos no salão principal do castelo, sentados ao redor da grande mesa e da comida, quando Moira entrou. Glenna tirou uma tampa que cobria o prato na cabeceira da mesa.

—Ainda deve estar quente —disse a Moira.— Não o desperdice.

—Não o farei. Precisamos comer, conservar as forças.

Mas observou a comida que havia em seu prato como se fosse um remédio amargo.

—Bem. —Blair a olhou com um brilhante sorriso nos lábios.— Como foi seu dia até agora?

A risada, embora breve e carente de humor, afrouxou alguns dos nós que Moira sentia no estômago.

—Uma merda. Essa seria a expressão, verdade?

—Nunca melhor dito.

—Bom. —obrigou-se a comer um bocado.— Ela nos golpeou, como é seu costume, tentando estimular o medo e minar a moral e a confiança. Alguns acreditarão o que Sean veio a nos dizer de sua parte. Que se nos rendemos, ela nos deixará em paz.

—As mentiras são freqüentemente mais atrativas que a verdade —observou Glenna.— Em qualquer caso, o tempo se acaba.

—Sim. Os seis teremos que fazer preparativos para abandonar o castelo e partir para o campo de batalha.

—De acordo —assentiu Hoyt.— Mas antes que o façamos, precisaremos estar seguros de que as bases que estabelecemos ainda estão em nosso poder. Se Tynan foi assassinado é possível que eles tenham tomado essa praça forte. Só contamos com a palavra de um demônio a respeito de que foi o menino quem o assassinou, e só ele.

—Foi o menino. — Cian bebeu um sorvo de chá que continha aproximadamente a metade de uísque.— As feridas que tinha no corpo —explicou— não foram provocadas por um vampiro adulto. Não obstante, isso não responde à pergunta de se as bases são seguras.

—Hoyt e eu podemos jogar uma olhada —disse Glenna.

—Eu gostaria que o fizessem, mas dar uma olhada não é suficiente. —Moira continuou comendo.— É necessário que reunamos informações dos que tenham conseguido sobreviver.

—Se é que o conseguiram.

Ela olhou a Larkin, e sentiu o mesmo que ele estava sentindo. O constante medo por Oran.

—Se é que o conseguiram —repetiu Moira.

—Se eles destruíram nossa base —prosseguiu Cian —, o mensageiro que Lilith enviou teria alardeado disso, e é provável que ela teria enviado mais cadáveres.

—Sim, entendo-o. Mas para impedir que volte a ocorrer algo parecido, teremos que acrescentar reforços.

—Quer que iremos ao dragão. —Larkin assentiu.— Por isso perguntaste se estavam preparados.

—Tantos como dragões possam ser utilizados para este objetivo. A partir de hoje, todos aqueles que devam ir a pé ou a cavalo serão vigiados do ar por quem monte nos dragões. Se você, Larkin, e você, Blair, podem ir esta mesma manhã, levem com vocês a alguns deles. Voando em dragão poderão viajar a todas as nossas bases, transportar um maior número de armas, ver os informes e propor o que acham que devemos fazer quando comprovarem pessoalmente como estão as coisas. Poderiam estar de retorno antes que anoiteça ou, se não poderem fazê-lo, ficarem em uma das bases até manhã.

—Está reduzindo muito nosso número enviando a dois —interrompeu Cian.— Sou eu quem deveria ir. Eu sozinho.

—Tá. —Blair agitou uma parte de pão.— Por que deve ter você toda a diversão?

—Por questões práticas. Em primeiro lugar, todos salvo Glenna e eu puderam ver o campo de batalha ou suas proximidades. É hora de que também eu lhe jogue uma olhada. Segundo, com essa fodida capa posso começar a viagem durante o dia, e posso viajar mais depressa e com maior segurança que qualquer de vocês durante a noite. E, ao ser um vampiro, posso reconhecer os sinais deles mais rápido inclusive que nossa caçadora de demônios aqui presente.

—É um bom argumento —assinalou Larkin.

—Em qualquer caso, tinha pensado já em ir e farejar um pouco. Deste modo poderemos matar dois pássaros de um tiro. E, por último, acredito que todos estaremos de acordo nisso, aqui os ânimos se acalmarão um pouco se eu não estiver.

—Ela estava fora de si —murmurou Blair.

Cian encolheu os ombros, sabendo que se referia à mãe de Tynan.

—Tudo é questão de perspectiva... e de onde riscas a linha. O tempo se acaba e um de nós deveria estar no campo de batalha, especialmente de noite, quando é provável que a própria Lilith saia a explorá-lo.

—Não tens intenção de retornar —disse Moira lentamente.

—Não tem sentido que o faça. —Seus olhares se encontraram, sustentaram-se, e disseram muito mais que as palavras.— Um dos homens pode retornar com seus informes e todo o resto. E eu me encarregarei de completá-los quando todos vocês tenham chegado.

—Você já decidiu. —Moira estudou o rosto de Cian atentamente— Entendo. Mas somos um círculo, vínculos iguais. Acredito que, tratando-se de uma decisão tão importante, todos teríamos algo a dizer. Hoyt?

—Eu não gosto da idéia de que nenhum de nós parta sem outros, a verdade. Mas é necessário fazê-lo, e o que há dito Cian tem sentido. Podemos observar como o fizemos quando Larkin foi às covas, na Irlanda. Sempre podemos intervir se as circunstâncias o exigem. —Olhou a sua esposa.— Glenna?

—Sim. Estou de acordo. Larkin?

—Eu também. Com uma só observação. Cian, acredito que te equivocas ao dizer que reduziríamos muito nosso número ao enviar dois de nós. Penso que ninguém deveria ir por sua conta. Eu posso te levar ali convertido em dragão. E —continuou antes que Cian pusesse alguma objeção— eu tenho mais experiência que você com os dragões, em caso de que houvesse algum problema com eles ou com o inimigo. De modo que digo que devemos ir juntos, você e eu. Blair?

—Mas que droga. O menino dragão tem razão. Você pode se mover mais depressa se for sozinho, Cian, mas necessitará um vaqueiro de dragões para chegar até ali, especialmente se está dirigindo homens.

—Sim, é mais inteligente —assentiu Glenna.— Totalmente. Tem meu voto.

—E o meu também —disse Hoyt.— Moira?

—Então isso é o que faremos. —levantou-se de sua cadeira sabendo que os dois homens que mais amava no mundo estavam a ponto de afastar-se de seu lado.— O resto de nós dedicaremos a terminar de fabricar as armas e assegurar o castelo, e lhes seguiremos dentro de dois dias.

—Um grande esforço —disse Blair ao tempo que assentia—, mas podemos fazê-lo.

—Então o faremos. Larkin, deixarei que você seja quem escolha aos dragões para isto, e que junto com Cian escolham aos homens que lhes acompanharão. —Moira visualizou em sua mente o quadro geral, os detalhes.— Eu gostaria que Niall ficasse, se lhes parecer bem, para que vá com o resto de nós. Agora irei encarregar-me de que preparem as provisões que necessitarão para a viagem.

 

Quando ela fez tudo o que estava em suas mãos, e confiando em haver-se tranqüilizado, Moira foi ao quarto de Cian. Bateu na porta e a seguir a abriu sem esperar a que ele respondesse. Com as cortinas corridas, apenas havia luz suficiente para ver onde pisava, de modo que agitou a mão ligeiramente, dirigindo seu poder para uma das velas. A forma em que brotou a chama foi um claro indício de que não estava tão tranqüila como tinha esperado.

Cian estava metendo em um saco o que se levaria na viagem.

—Não me havia dito nada destes planos.

—Não.

—Pensava partir no meio da noite, sem uma palavra?

—Não sei. — Cian deixou por um momento o que estava fazendo e a olhou. Havia muitas coisas que ele não podia lhe dar, ou lhe pedir, pensou. Ao menos a honestidade era uma virtude que ambos podiam compartilhar.— Sim —acrescentou—, ao menos a princípio. Mas então, uma noite, chamou a minha porta e meus planos mudaram. Ou foram pospostos.

—Pospostos. —Moira assentiu lentamente.— E quando chegar o Samhain e tudo passe, partirás também sem dizer nada?

—As palavras seriam inúteis, não achas?

—Não para mim. —Ao compreender que se estavam aproximando do final, sentiu o pânico crescer em seu interior. Como pôde não haver-se dado conta de que esse sentimento estava ali, esperando para abrir passagem e afogá-la? —As palavras seriam algo precioso para mim. Queres partir. Posso vê-lo. Queres ir.

—Teria que me haver partido antes. Se tivesse sido mais rápido, teria cruzado essa porta e desaparecido antes que viesse para mim. Teria estado muito melhor para confrontar isto. Isto..., comigo, não é bom para ti.

—Como te atreves? Como te atreves a me falar como se fosse uma menina que quer muitos doces? Estou farta de que me dêem lições a respeito do que deveria pensar, sentir, ter, fazer. Se queres partir, faça-o, mas não me insultes.

—Minha partida não tem nada a ver com o que há entre nós. É só algo que devo fazer. Você mesma estive de acordo, assim como todos os outros.

—Terias partido de todos os modos, embora eles e eu não tivéssemos estado de acordo.

Cian a olhou enquanto se sujeitava a espada à cintura. A dor estava já abrindo as feridas em ambos, como sabia que ocorreria no mesmo instante que pôs suas mãos sobre sua pele.

—Sim, mas deste modo é menos complicado.

—Terminaste comigo então?

—E o que aconteceria se fosse assim?

—Pois teria que combater em duas frentes, bastardo.

Cian pôs-se a rir sem poder evitá-lo. Deu-se conta de que entre eles não havia só dor, e faria bem em recordá-lo.

—Então, é uma sorte para mim que não tenha terminado contigo. Moira, ontem à noite você sabia que tinha que ser a que acabaria com o que uma vez havia sido um menino ao que conhecias, pelo qual sentias afeto. Eu também sabia, de modo que me abstive de fazê-lo eu, de te evitar esse momento. Sei que devo partir e por agora fazê-lo sem ti. Você também o sabes.

—Mas isso não faz que resulte mais fácil. É possível que nunca mais voltemos a estar sozinhos, que nunca mais possamos estar juntos como o estivemos. Quero mais tempo... não tivemos tempo suficiente e necessito de mais. —aproximou-se dele e o abraçou com força.— Nem sequer tivemos nossa noite. Não durou até a manhã seguinte.

—Mas as horas são o importante, cada minuto delas.

—Sou ambiciosa. E estou furiosa porque você partes e eu devo ficar.

«Não só hoje», pensou Cian. Os dois sabiam que ela não estava se referindo só a esse dia.

—As mulheres de Geall seguem a tradição de despedir-se de seus homens com um presente?

—O que você gostaria de te levar?

—Uma mecha de seu cabelo.

O sentimento que havia naquilo o surpreendeu a ele mesmo, e o fez sentir-se ligeiramente incômodo. Mas quando Moira retrocedeu, ele soube que seu pedido lhe tinha agradado.

—Conservará essa parte de mim contigo?

—Faria-o se me desses.

Moira tocou o cabelo e logo elevou a mão.

—Espera, espera, tenho uma coisa. Vou procurá-la. —Nesse momento se ouviu o som das trompetistas chamando os dragões.— Oh, já estão preparados. Levarei-lhe isso fora. Não te vá. Me prometa que esperará até que eu chegue para me despedir de ti.

—Ali estarei.

«Esta vez», pensou Cian enquanto ela abandonava rapidamente o quarto.

 

Fora do castelo, protegido pelas sombras, Cian estudou aos dragões que Larkin tinha escolhido e aos homens que ambos tinham concordado que lhes acompanhariam nessa missão.

Logo franziu o cenho ao ver a bola de barro endurecido que Glenna lhe oferecia.

—Agradeço-lhe isso, mas comi muito no café da manhã.

—Muito engraçado. Mas é uma bomba.

—Ruiva, é uma bola de barro.

—Sim, uma bola de terra... encantada que contém uma bola de fogo em seu interior. Se a lanças do ar... —Glenna moveu as mãos para baixo ao tempo que assobiava, logo fez um ruído com a boca simulando uma explosão.— Em teoria —acrescentou.

—Em teoria.

—Testei-a, mas não de um dragão em vôo. Em algum momento pode testá-la por mim.

Cian voltou a franzir o cenho e fez girar a bola de barro entre as mãos.

—Só devo lançá-la?

—Exato. Em algum lugar seguro.

—E não há nenhuma possibilidade de que me exploda nas mãos e eu me converta em uma bola de fogo?

—Necessita velocidade e força. Conviria que te encontraste a uma boa altura quando explodir. —elevou-se nas pontas dos pés e o beijou em ambas as bochechas.— Tome cuidado. Nos veremos em um par de dias.

Com o cenho ainda franzido, Cian assegurou a bola de barro dentro de um dos bolsos do arnês para armas que Blair tinha idealizado para quando Larkin se convertesse em um dragão.

—Estaremos vigiando. —Hoyt apoiou uma mão no ombro de Cian.— Trata de te manter afastado dos problemas até que volte a reunir-me contigo. E você também —disse a Larkin.

—Já lhe adverti que lhe chutarei o traseiro se se deixa matar. —Blair agarrou a Larkin pelo cabelo, puxou-o para que baixasse a cabeça e o beijou com força na boca. Logo se voltou para Cian.

—Não nos daremos um abraço de grupo.

Blair sorriu.

—Estou de acordo contigo nisso. Mantenha-se afastado dos objetos de madeira bicudos.

—Essa é a idéia.

Olhou por cima do ombro e viu que Moira corria para o estábulo.

—Pensava que seria mais rápida —disse quase sem fôlego.— Vejo que já estão preparados para partir. Larkin, tenha muito cuidado.

Abraçou-lhe com força.

—Você também. —Larkin lhe deu um último abraço.— Montem em seus dragões! —gritou e, com um último sorriso dirigido a Blair, mudou de forma.

—Tenho o que me pediste. —Moira lhe deu a Cian um relicário de prata enquanto Blair ajustava o arnês ao corpo de Larkin.— Meu pai o deu a minha mãe quando nasci para que ela pudesse guardar nele uma mecha de meu cabelo. Tirei o que havia e coloquei outro.

E também toda a magia que tinha podido gerar.

Elevou-se nas pontas dos pés e colocou a corrente ao redor do pescoço de Cian. Para deixar as coisas claras ante qualquer um que estivesse olhando, agarrou o rosto dele entre as mãos e lhe deu um comprido, quente e tenro beijo na boca.

—Terei outro desses te esperando —disse.— De modo que não cometa nenhuma tolice.

Cian colocou a capa, cobrindo a cabeça com o capuz e assegurando-a. Montou sobre Larkin e olhou a Moira aos olhos.

—Em dois dias —disse ele.

Um momento depois, elevava-se para o céu no dragão dourado. Outros dragões foram atrás deles lançando berros.

Enquanto os observava, enquanto esses brilhos de cor se faziam menores com a distância, a Moira sacudiu uma súbita certeza: a segurança de que os seis não retornariam do vale ao castelo como um círculo.

Atrás dela, Glenna fez um gesto a Hoyt para que se afastasse. Logo enlaçou com um braço a cintura de Blair e com o outro a de Moira.

—Muito bem, garotas, vamos nos concentrar em preparar todo o necessário para que possam se reunirem com seus homens.

                                 CAPÍTULO 16

Desejava que chovesse ou, ao menos, que um espesso manto de nuvens atenuasse o calor do sol. A maldita capa era mais quente que o inferno ao que finalmente estava destinado. Não estava acostumado a suportar temperaturas extremas.

O fato de ser um morto vivo, refletiu Cian, acabava estragando a um homem.

Voar nos lombos de um dragão era uma experiência realmente excitante, disso não cabia nenhuma dúvida. Durante os primeiros trinta minutos aproximadamente. E outros trinta mais para admirar a paisagem verde e bucólica que se estendia a centenas de metros debaixo deles.

Mas depois de uma hora em uma fodida sauna de lã, era simplesmente uma tortura.

Se tivesse a paciência e a dignidade de Hoyt, supôs que cavalgaria erguido e decidido até o dia do juízo final. Inclusive com aquele calor insuportável fundindo a polpa de seus ossos. Mas seu irmão gêmeo e ele já se diferenciavam em algumas coisas básicas inclusive antes que Cian se convertesse em vampiro.

Podia dedicar-se a meditar, pensou, mas não parecia um recurso muito inteligente arriscar-se a um transe auto-induzido. Tinha o sol pegando em cima de sua cabeça, à espera de fritá-lo como se fosse um pedaço de bacon, e uma bomba mágica atada ao corpo de Larkin que, pelo que ele sabia, podia explodir em chamas só por diversão.

Por que, exatamente, tinha pensado que podia fazer a idiotice que estava fazendo?

Ah, sim. Dever, honra, amor, orgulho... todos esses pesos emocionais que arrastam a um homem para o fundo do lago, embora lute com todas suas forças para manter a cabeça por cima da superfície. Bom, já não havia como voltar atrás. Nem no vôo nem nos sentimentos que se amontoavam em seu interior.

Meu Deus, amava-a. Moira a erudita, Moira a rainha. A tímida e a valente, a ardilosa e a aprazível. Amá-la era algo estúpido, destrutivo, impossível. Mas era muito mais real que algo que tivesse conhecido em mil anos.

Podia sentir o relicário que lhe tinha colocado ao redor do... outro peso. Ela o tinha chamado bastardo e um minuto depois, tinha-lhe entregue o que ele estava seguro de que era um de seus tesouros mais preciosos.

Em uma ocasião, lhe tinha apontado com uma flecha ao coração, e logo se desculpou com uma plana sinceridade e uma ruborizada mortificação. Provavelmente nesse momento foi quando se apaixonou por ela. Como mínimo um pouco.

Continuou estudando o terreno das alturas enquanto sua mente vagava. Um bom terreno de cultivo, pensou, com uma terra rica e fértil e suaves elevações. Arroios e rios transbordantes de peixes discorrendo entre bosques nos quais abundavam a caça. As montanhas a distância, com suas jazidas de minerais e seus mármores. Profundas restingas com turva para combustível.

Moira havia trazido sementes de laranjeira através do portal de Baile dos Deuses. A quem lhe podia ocorrer algo semelhante?

Teria que plantá-las no sul. Ela sabia? Um pensamento estúpido, Moira sabia tudo, ou tinha alguma forma de descobri-lo.

Sementes de laranja e Yeats. E, pelo que ele tinha visto no escritório de seu quarto, uma caneta tinteiro.

De modo que ela cultivaria suas laranjeiras jovens na estufa e logo os plantaria no sul de Geall. E se prosperassem —e como podiam não fazê-lo?—, um dia teria uma horta de laranjeiras.

Deu-se conta de que gostaria de vê-lo. Gostaria de ver como floresciam suas laranjeiras a partir das sementes que tinha pego de sua cozinha na Irlanda.

Gostaria de ver seus encantadores olhos iluminarem-se com humor e apreço enquanto servia o suco de laranja ao que tanto se havia aficionado.

Se Lilith conseguisse o que queria, ali não haveria hortas, nem flores, nem rastros de vida.

Já podia divisar parte dessa morte, parte da destruição. O que haviam sido cuidadas casas e pequenas cabanas eram agora montões de pedra e madeira queimadas. Vacas e ovelhas seguiam pastando nos campos, mas havia também cabeças de gado mortas apodrecendo-se ao sol sob uma nuvem negra de moscas.

Gado morto por desertores, decidiu. Revolvendo entre a carniça onde e quando podiam.

Teriam que serem caçados e destruídos, até o último deles. Se um só conseguisse sobreviver, alimentaria-se e procriaria. O povo de Geall e sua rainha teriam que mostrarem-se atentos e vigilantes até muito depois de passado Samhain.

Começou a concentrar-se nesse problema em particular até que, por fim, Larkin começou a descer descrevendo amplos círculos.

—Graças a todos seus deuses —murmurou Cian enquanto o faziam.

Era uma granja cuidada e bonita, como estava acostumado a ser habitual. Os soldados estavam fora, treinando, ocupando os postos de guarda. Havia mulheres entre eles, trabalhando ao mesmo tempo em que os homens. A fumaça que escapava da chaminé pulverizava um aroma que lhe disse que havia um guisado no fogo, provavelmente cozendo-se lentamente durante todo o dia.

Desde terra, protegiam-se os olhos com as mãos enquanto olhavam para cima ou saltavam e se agitavam lhes lançando saudações de bem-vinda.

Rodearam-lhes assim que Larkin aterrissou. Cian desmontou e começou a descarregar os fornecimentos. Deixaria que fossem Larkin e os outros homens quem respondessem às perguntas. Ele precisava refugiar-se nas sombras.

 

—Não tivemos nenhum problema.

Isleen lhe serviu uma boa ração de guisado que Cian não queria, mas pensou que seria melhor esperar a ocupar-se de sua provisão de sangue quando tivesse um pouco de privacidade.

Larkin se inclinou sobre sua tigela assim que se sentaram à mesa.

—Obrigado —disse com a boca cheia.— Está muito bom.

—São muito bem vindos. Eu estou me encarregando da cozinha, de modo que acredito que nossos soldados estão comendo melhor que os outros. —Isleen sorriu e lhe formaram umas covinhas nas bochechas.— Têm seguido o treinamento, todos os dias, e nos encerramos sob chave ao pôr do sol. Não vimos a nenhum deles desde que chegamos e enviamos ao resto dos soldados ao outro posto.

—É bom sabê-lo. —Larkin agarrou a jarra que havia junto a sua tigela de comida.— Poderia me fazer um favor então, Isleen querida? Poderia ir procurar a Eogan... o Eogan de Ceara? Temos que falar com ele.

—Sim, é obvio, irei agora mesmo. Ah, e podem se deitar aqui, ou acima, se o preferirem.

—Continuaremos a viagem à segunda base dentro de um momento e deixaremos aqui a três homens dos quais vieram conosco.

—Por certo, vi que trouxestes também ao ruivo Malvin. —Isleen fez o comentário com pretendida indiferença e um esboço de sorriso.— Me pergunto se ele é um dos homens que deixarão aqui.

Larkin sorriu e se serviu mais guisado.

—Isso não seria um problema nenhum. Irás procurar a Eogan agora, verdade, querida?

—Tiveste algo com ela, não é assim? —perguntou Cian.

—Tive... Não. —Logo seus olhos leonados brilharam com humor.— Bom, algo houve, mas poderia dizer-se que nada importante.

—Como quer dirigir isto?

—Eogan é um homem razoável e forte. Os que vieram conosco já devem haver-lhe contado o que aconteceu a Tynan, de modo que eu responderei às perguntas que tenha que fazer a respeito a esse assunto. Eu gostaria que fosse você quem repassasse novamente com ele as ordens e as precauções que devem tomar-se. Logo, se não houver nada mais a informar além do que nos há dito Isleen, deixaremos aqui a Malvin e aos outros dois homens e seguiremos até o outro posto. Não tem fome?

—Sim, de fato sim, mas posso esperar.

—Ah. —Larkin assentiu.— Tem o que necessita nesse aspecto?

—Sim. Os cavalos e as vacas estão a salvo.

—Vi animais mortos nos campos. Não parecia que um exército se alimentou deles, e sim uns poucos carniceiros. Dirias que foram desertores?

—Isso é exatamente o que eu diria.

—Agora é uma vantagem que ela perca tropas aqui e lá —disse Larkin.— Mais tarde será um problema.

—Em efeito.

—Já pensaremos em algo. —Larkin desviou o olhar quando a porta se abriu.— Eogan. Temos muito do que falar e muito pouco tempo para fazê-lo.

 

No seguinte posto de frente não havia muitas novidades, mas no terceiro, Lilith tinha deixado sua marca.

Dois dos edifícios exteriores estavam totalmente queimados e as colheitas tinham sido também pasto das chamas. Os homens lhes contaram de uma noite de fogo e fumaça, e dos horríveis gemidos dos animais ao serem sacrificados.

Cian estudou junto com Larkin a terra calcinada.

—É como disseram Blair e você de que ela arrasaria as granjas e as casas.

—Pedra e madeira.

Larkin meneou a cabeça.

—Gado e colheitas. Suor e sangue. Casas e lares.

—Tudo o qual pode ser criado e cultivado, coberto e construído outra vez. Seus homens resistiram o assédio sem sofrer baixas. Lutaram e não cederam terreno... e enviaram ao inferno parte das forças de Lilith. Seu copo está milagrosamente meio cheio, Larkin.

—Tinhas razão, agora sei, mas espero que se Lilith tratar de beber o que fica no copo, suas vísceras se voltem negras pelo fogo. Continuaremos até a seguinte base.

Quando chegaram, viram que havia tumbas recém cavadas, terra queimada e homens feridos.

O medo que atanazava o estômago de Larkin por fim desapareceu quando viu que seu irmão pequeno, Oran, saía coxeando da casa. Correu para ele e, à maneira dos homens, deu-lhe um golpe no braço e logo um abraço.

—A nossa mãe agradará saber que te encontras entre os vivos. Como estão suas feridas?

—Só uns arranhões. Como estão as coisas em casa?

—Movidas. Vi a Phelan em um dos outros postos e está bem.

—É bom sabê-lo. Mas tenho más notícias, Larkin.

—Sabemos. —Apoiou uma mão sobre o ombro de Oran. Seu irmão era pouco mais que um menino quando ele partiu de casa, pensou. Agora era um homem, com tudo o que isso implicava.— Quantos mais além de Tynan?

—Três. E outro que muito me temo que não passará desta noite. Levaram a dois mais, vivos ou mortos, não posso dizê-lo. Foi um menino, Larkin. Um menino vampiro que matou a Tynan.

—Iremos pra dentro e falaremos disso.

 

Instalaram-se na cozinha e Cian se sentou longe da janela. Entendia por que Larkin escutou todo o relato de Oran, embora seu amigo conhecia ou podia imaginar a maior parte da história. Oran tinha que voltar a contá-lo, tinha que revivê-lo de novo.

—Eu tinha tido o turno de guarda anterior ao de Tynan e estava dormindo quando ouvi o alarme. Já era muito tarde para Tynan, Larkin, já era muito tarde. Ele saiu da casa sozinho, pensando que ali fora havia um menino ferido, perdido e apavorado. O menino o atraiu mediante enganos longe da casa, e embora houvessem homens postados e com os arcos preparados, quando o menino o atacou já era muito tarde.

Oran umedeceu a garganta com um pouco de cerveja.

—Os homens saíram correndo para lhe ajudar. Eu era o segundo ao comando, e devia ter lhes ordenado que não saíssem. Era muito tarde para salvar a Tynan, mas como íamos deixar de tentá-lo? E ao fazê-lo perdemos mais homens.

—Tynan faria o mesmo por ti, por qualquer de vocês.

—Esses monstros levaram seu corpo. —O jovem rosto de Oran estava marcado pela pena e seus olhos pareciam os de alguém muito velho.— O buscamos. À manhã seguinte saímos para lhes buscar, a Tynan e aos outros dois homens, mas só encontramos sangue. Tememos que lhes tivessem convertido em vampiros.

—A Tynan não. —Agora falou Cian, e esperou a que o olhar cansado de Oran se fixasse em seus olhos.— Não podemos saber o que ocorreu com os outros dois, mas a Tynan não o converteram em vampiro. Seu corpo foi levado de volta ao castelo. Foi enterrado esta manhã.

—Ao menos dou graças aos deuses por isso. Mas quem levou seu corpo ao castelo?

Enquanto Larkin o explicava, as feições de Oran voltaram a se endurecer.

—O jovem Sean. Não pudemos lhe salvar quando nos estenderam uma emboscada no caminho. Saíram debaixo da terra como feras. Aquele dia perdemos bons homens, e também a Sean. Está em paz agora? —Oran olhou a Cian.— Agora que o que o levou desapareceu, está em paz?

—Não tenho resposta para essa pergunta.

—Bom, eu acreditarei que o está, igual a Tynan e os outros homens aos quais enterramos. Nem homens nem deuses podem fazê-lo responsável pelo que lhe fizeram.

Ao chegar a noite, dobraram a guarda e, seguindo instruções de Cian, encheram pequenos odres com água benta. Estes odres se segurariam às flechas. Com isso, embora não se alcançasse o coração do vampiro, causariam-lhe um dano considerável, e possivelmente a morte.

Além do mais tinham colocado mais armadilhas. Os homens que não podiam dormir passariam o tempo fabricando estacas.

—Achas que Lilith tentará uma incursão esta noite? —perguntou-lhe Larkin a Cian.

Estavam sentados no que tinha sido um pequeno salão e agora se utilizava como depósito de armas.

—A uma das outras bases, é possível. Aqui não teria muito sentido, a menos que esteja aborrecida... ou queira que alguns de seus soldados treinem. Nesta base já tem feito o que tinha previsto.

Posto que estavam sozinhos, Cian se serviu um pouco de sangue de uma tigela de cerâmica.

—O que faria se fosse ela?

—Enviaria grupos pequenos para que distraíssem e acossassem. Para reduzir gradualmente o número de tropas inimigas e minar sua moral em todas as bases. O problema com esse tipo de estratégia é que seus homens tendem a manter-se firmes e leais, enquanto que sabemos que alguns dos soldados de Lilith desertam. Mas em troca, suas perdas individuais lhes fazem muito dano, embora as de Lilith significam para eles menos que nada.

Cian bebeu outro gole.

—Mas eu não sou ela. Sendo eu, o que eu gostaria seria sair em busca de um de seus grupos de frente, surpreendê-los antes que pudessem chegar ao seu objetivo, e matar a todos.

—É curioso —disse Larkin com um sorriso.— Não sou ela, e você tampouco, mas tinha exatamente o mesmo pensamento na cabeça.

—Muito bem. A que esperamos então?

Deixaram a Oran a cargo da base. Embora houvessem consideráveis discussões e debates sobre a questão, Larkin e Cian se foram sozinhos. Um dragão e um vampiro, segundo o raciocínio de Cian, podiam viajar mais depressa, e sem serem detectados.

Se encontrassem uma cambada de inimigos e decidissem baixar a terra para um enfrentamento corpo a corpo, o arnês de Larkin ia bem provido de armas. Cian prendeu uma aljava à costas e carregou umas quantas estacas mais em seu cinturão.

—Será interessante ver como funciona a idéia da guerra aérea.

—Está preparado então? —Larkin se transformou novamente em dragão e esperou, dourado e sinuoso, a que Cian ajustasse o arnês com as armas.

Ambos convieram que seria uma missão curta e simples. Voariam em círculos progressivamente mais amplos procurando qualquer sinal de uma cambada de vampiros ou de um acampamento. Se descobrissem algum, atacariam: rápido e limpo.

O vôo para uma lua quase cheia foi excitante. A liberdade da noite embargou a Cian. Voava sem capa nem casaco, recreando-se no frio e a escuridão.

Debaixo dele, Larkin voava em silêncio, suas asas de dragão apenas um sussurro no ar, e tão finas que Cian podia ver o brilho das estrelas através delas quando varriam o ar.

As nuvens flutuavam à deriva, delgados farrapos que se deslizavam como gaze sob as estrelas, e navegavam como navios fantasmas sob a lua.

Abaixo, muito mais abaixo, os primeiros dedos de névoa começavam a se arrastar sobre os campos.

O prazer do vôo compensava o sufocante desconforto que Cian tinha suportado na viagem de ida. Como se ele também o sentisse, Larkin começou a elevar-se, descrevendo compridos e preguiçosos giros. Durante um venturoso instante, Cian fechou os olhos e simplesmente desfrutou do momento.

Então o sentiu, como uma suave carícia sobre sua pele. Uns dedos frios e exploradores que pareciam deslizar-se para seu interior e dar voltas em seu sangue. E um sussurro dentro de sua cabeça, um suave canto de sereia chamando o que ele era sob a aparência de um homem.

E quando Cian olhou, viu debaixo deles a paisagem selvagem do campo de batalha.

O absoluto silêncio que reinava nele era um grito de violência. Queimava-lhe como se fosse aço fundido, brilhante e escuro, profundo e primitivo. As folhas de erva eram afiadas e selvagens, as rochas, pontiagudas, letais. Logo, inclusive elas desapareceriam em negros poços de abismos e covas onde nada se atrevia a morar.

Protegido pelas altas montanhas, aquele terreno maldito esperava o sangue.

Cian só tinha que inclinar-se para frente —uma distância tão curta— e afundar os dentes no pescoço do dragão para encontrar ali o sangue de um homem. Humano e rico, aquele jorro de vida, e um sabor que não podia ser igualado por nenhum outro ser vivo. Um sabor que ele se negou durante séculos. E por que? Para viver entre eles, para sobreviver levando a máscara de um deles?

Estavam muito por baixo dele... como as pulgas em um cão.

Não eram mais que carne e sangue, criados para que ele os caçasse. A fome lhe mordeu as vísceras, e o desejo, a excitação primitiva desse apetite bombeava em seu interior como se fossem as batidas do coração.

A lembrança da caça, daquele primeiro jorro de vida quente enchendo sua boca, lhe baixando pela garganta, era maravilhoso.

Tremendo como um viciado em plena síndrome de abstinência, Cian lutou contra isso. Ele não acabaria dessa maneira. Ele não voltaria a ser um prisioneiro de seu próprio sangue.

Era mais forte que isso. Converteu-se em mais que isso.

Seu estômago estava tendo cãibras pela necessidade e a náusea enquanto se inclinava para Larkin.

—Desce aqui. Conserva a forma de dragão. Te prepares para voar outra vez, para me abandonar se for necessário. Saberá.

Aquele terreno maldito o atraía com força enquanto descendiam para ele. Murmurava-lhe, cantava-lhe, prometia-lhe. E lhe mentia.

O calor o envolveu como uma febre quando saltou a terra. Jurou que não se converteria novamente em um vampiro, e que não mataria a um amigo como tinha tentado fazer uma vez com seu irmão.

—É este lugar. É nocivo.

—Hei-te dito que não mudasse de forma. Não me toques!

—Posso senti-lo dentro de mim. —A voz de Larkin era serena.— A ti deve te queimar por dentro.

Cian se voltou, os olhos vermelhos, a pele coberta pelo suor de sua batalha interna.

—És estúpido?

—Não. —Mas Larkin não tinha tirado antes nenhuma arma e não a tirou tampouco então.— Está lutando contra isso e conseguirá derrotá-lo. Seja o que for o que este lugar desperte, em ti há mais. Está o que Moira ama.

—Não tem idéia da força deste desejo. —No fundo de sua garganta se escondia um grunhido. Cantarolava nos ouvidos de Cian e, com ele, podia ouvir o batimento do coração de Larkin.— Posso te cheirar, posso cheirar o humano.

—Acaso cheira medo em alguma parte?

Os tremores percorriam todo seu corpo, tão intensos, que pensou que os ossos lhe quebrariam. Sua cabeça não deixava de gritar, mas era incapaz de bloquear o som, a perversa tentação daquele coração humano que não cessava de pulsar.

—Não. Mas poderia fazê-lo. Poderia fazer que o sentisse. O medo adoça o sangue. Deus, Deus, que mão doente criou este lugar?

Suas pernas se negavam a sustentá-lo, de modo que se sentou no chão e lutou por manter o débil controle sobre sua vontade. Enquanto o fazia, aferrou com força o relicário que Moira lhe tinha pendurado ao redor do pescoço.

A náusea remeteu um pouco, como se uma mão fria se apoiasse sobre uma testa em febre.

—Ela me traz a luz, isso é o que faz. E eu a tomo e me sinto como um homem. Mas não o sou. Este é um doloroso aviso de que não sou um homem.

—Eu vejo um homem quando lhe olho.

—Pois te equivocas. Mas esta noite não beberei, não de ti. Não de um humano. Esta noite não me devorará. E não voltará a me surpreender desta maneira agora que sei.

O vermelho se estava desaparecendo de seus olhos enquanto olhava a Larkin.

—És um estúpido por não ter tirado uma arma.

Por toda resposta, Larkin elevou a cruz de sua corrente.

—Poderia ter sido suficiente —considerou Cian. Secou-se as palmas suarentas nos joelhos dos jeans.— Felizmente para ambos, não tivemos que prová-lo.

—Levarei-te de volta.

Cian olhou a mão que Larkin lhe estendia. Humanos, pensou, confiantes e otimistas. Agarrou-a e ficou de pé.

—Não, seguiremos adiante. Preciso caçar alguma coisa.

Ele tinha ganho a batalha, pensou Cian enquanto voltavam a elevar-se no ar, mas não negaria que se sentia aliviado ao afastar-se daquele lugar.

E se sentiu obscuramente excitado ao avistar movimento em terra.

Uma dúzia de soldados, comprovou, a pé e movendo-se com a veloz agilidade própria dos de sua espécie. Apesar da velocidade que levavam, em suas filas havia uma ordem e uma precisão que lhe confirmaram que se tratava de soldados treinados e veteranos.

Percebeu a mudança no corpo do dragão quando Larkin os viu e, uma vez mais, Cian se inclinou para frente.

—Por que não testamos a nova arma de Glenna? Quando eles cruzem o seguinte campo, quero que voe diretamente por cima do centro do pelotão. Há arqueiros entre eles, de modo que, uma vez que esta coisa exploda, terá que fazer algumas manobras evasivas.

Enquanto Larkin se colocava em posição, Cian procurou no bolso do arnês e tirou a bola de barro.

Que semelhanças guardam um dragão e um avião? Perguntou-se, e aproveitou seus séculos de experiência como piloto para calcular a velocidade relativa, a distância e a altura.

—Bomba lançada —murmurou e deixou cair a bola.

A criação de Glenna se chocou contra o chão, provocando que o desconcertado pelotão se detivera e tirasse a reluzir as armas. Cian estava a ponto de declarar imprestável o experimento de Glenna quando se produziu um violento estalo de fogo. Os que se encontravam mais perto da bomba simplesmente desapareceram, enquanto que vários mais foram alcançados pelas chamas.

Enquanto observava as cenas de pânico e ouvia os gritos, Cian colocou uma flecha em seu arco. Como patos em um lago, pensou, e acabou com os que ficavam.

Larkin voltou a tocar a terra e abandonou sua forma de dragão.

—Bom. —Chutou com indiferença um montão cinzas — Isso foi muito rápido.

—Sinto-me melhor por ter matado algo, embora o tenha feito de maneira longínqua e impessoal. Ao estilo humano. Não produz o mesmo prazer que uma verdadeira caçada. Pela mesma razão que para esta não se usam fuzis ou armamento moderno —acrescentou Cian—, porque não haveria nada de emoção nisso.

—Sinto-o por ti, mas a mim o resultado pareceu muito satisfatório. E a bola de fogo de Glenna muito eficaz, verdade?

Larkin começou a reunir as armas que tinham ficado pulverizadas pelo chão. Quando se agachou, uma flecha assobiou por cima de suas costas e alcançou a Cian no quadril.

—Oh, merda! Um deles deve ter escapado.

—Agarra o arnês. —Larkin o lançou a Cian.— E monte.

Em um instante, converteu-se novamente em dragão, e Cian montou de um salto depois de considerar que a flecha poderia entorpecer sua marcha se continuava a pé. Agarrou a seguinte flecha no ar antes que alcançasse seu alvo. Logo Larkin ascendia e descendia enquanto virava bruscamente para evitar as flechas.

—Ali estão, agora posso vê-los. Um segundo pelotão completo. É provável que se trate de uma frente de caça em busca de humanos atrasados ou de algo que possam encontrar.

Cian voltou a utilizar o arco, e acabou com vários deles enquanto fugiam e procuravam refúgio.

—Assim não é divertido —decidiu. Tirou a espada de sua bainha, saltou do lombo de Larkin e caiu dez metros até tocar terra.

Se os dragões pudessem amaldiçoar, Larkin teria feito que o ar se voltasse azul.

Dois homens e três mulheres se aproximaram de Cian como os vértices de um triângulo. Cortou em duas com sua espada a flecha dirigida a ele e logo fez girar a lâmina para bloquear o ataque.

O sentimento do que tinha sentido no campo de batalha estava dentro dele, e o utilizou. Uma necessidade imperiosa de sangue, se não para bebê-lo, sim para derramá-lo. A princípio, só se dedicou a ferir seus inimigos e, desse modo, poder cheirá-lo... o rico aroma de cobre, e deixar-se levar por ele enquanto golpeava e cortava.

Por diversão, Cian girou e lançou uma violenta porrada contra o rosto de um dos vampiros. Quando este se cambaleou, agarrou-lhe a cabeça ao tempo que se arrancava a flecha do quadril e a cravava no coração de outro vampiro que o atacava pela esquerda.

Deu-se outra vez a volta e viu que Larkin tinha trocado de forma e estava cravando uma flecha no coração do último dos vampiros.

—É tudo? —perguntou Larkin sem fôlego.— Era o último deles?

—Segundo minha conta.

—Já. Porque na última vez contaste muito bem, verdade? —levantou-se e se sacudiu o pó em que se converteram os vampiros.— Maldito pó. Sente-se mais você mesmo agora?

—No topo do mundo, mamãe. — Cian se esfregou com indiferença o quadril ferido. Como brotava sangue, rasgou-se a manga da camisa.— Me dê uma mão, queres? Uma rápida bandagem de campo.

—Quer que te coloque uma bandagem no traseiro?

—Não é no traseiro, idiota.

—Bastante perto. —Mas Larkin se aproximou para dar uma olhada.— Baixe as cuecas então, carinho.

Cian lhe lançou um olhar sombrio, mas obedeceu.

—E qual achas que será o estado de ânimo de Lilith quando nenhum membro de suas frentes de caça ou de ataque retorne a sua base?

—Estará zangada. —Cian girou a cabeça para trás para ver o trabalho que estava fazendo Larkin na zona ferida.— Muito zangada.

—Faz que alguém se sinta bem, verdade? Terá um bonito buraco na nádega durante algum tempo.

—Quadril.

—Me parece seu traseiro. Acredito que é hora de que retornemos e desfrutemos de uma boa comida e umas jarras de cerveja. Tenho bastante fome para comer um burro, com pele e tudo. Bem, isto já está bom. Fizemos um bom serão, não te pareces? —acrescentou, quando Cian voltou a subir as calças.

—Assim vieram as coisas. Poderiam ter sido de outra forma quando estávamos no vale, Larkin.

Este, pensativo, arrancou uns molhos de erva para limpar das mãos o sangue de Cian.

—Não acredito que isso seja verdade. Não acredito que as coisas teriam sido muito distintas a como foram. Agora, se o traseiro não te doer muito, me ajude a juntar todas estas bonitas armas para as acrescentar a nossa provisão.

—Deixe meu traseiro fora disto.

Entre os dois começaram a recolher espadas, arcos e flechas.

—Estou seguro de que essa parte de seu corpo muito em breve estará em condições. Se não for assim, Moira lhe dará um beijo para que se cure quando chegarem aqui.

Cian olhou a Larkin enquanto este assobiava uma melodia e carregava as espadas no arnês.

—És um cara divertido, Larkin. Um cara fodidamente divertido.

 

Em Geall, Moira se separou da bola de cristal para ficar de pé junto à janela, com os braços cruzados.

—Estou equivocada ou lhes dissemos que fossem inspecionar as bases e que não corressem riscos?

—Não obedeceram —conveio Blair—, mas tem que reconhecer que foi uma boa briga. E essa bola de fogo é excelente.

—O atraso na explosão representa um pequeno problema. —Glenna continuou observando enquanto Larkin e Cian voavam de volta para a base.— Trabalharei nisso. Mas estou um pouco mais preocupada com o efeito que teve sobre Cian o campo de batalha.

—Ele conseguiu superá-lo —respondeu Hoyt.— Fosse o que fosse o que queria apanhá-lo, ele o venceu.

—Sim, isso diz muito a seu favor —conveio Glenna.— Mas foi uma vitória muito dura, Hoyt. É algo sobre o que teremos que pensar. Possivelmente possamos fazer um feitiço que o ajude a bloquear essa influência.

—Não. —Moira falou sem voltar-se.— Cian se encarregará de fazê-lo. Precisará fazê-lo. Acaso não é sua vontade que o faça ser como é?

—Suponho que tem razão. —Glenna percebeu os ombros rígidos de Moira.— Do mesmo modo que suponho que ambos precisavam sair esta noite e fazer o que têm feito.

—É possível. Já chegaram a uma zona segura?

—Estão a ponto —respondeu Blair.— E sem novidade no fronte ocidental[6]. Bom, no fronte oriental neste caso, mas isso não tem o mesmo significado literário.

—Sem novidade... no momento. —Moira se voltou para eles.— Acredito que é razoável dizer que esta noite estarão a salvo dentro da base e que é pouco provável que Lilith tente outra incursão. Acredito que todos deveríamos tratar de dormir um pouco.

—Boa idéia.

Glenna agarrou a bola de cristal.

Desejaram-se boa noite e se afastaram em diferentes direções. Mas nenhum deles foi dormir. Hoyt e Glenna se dirigiram à torre, a seguir trabalhando. Blair foi treinar no salão de baile vazio.

Moira, por sua parte, decidiu ir à biblioteca e procurar todos os livros que falassem das lendas e histórias do Vale do Silêncio.

Leu e estudou até que apontou a primeira luz do amanhecer.

Quando finalmente dormiu, acocorada no banco da janela, como tinha feito freqüentemente quando era pequena, sonhou com uma grande guerra entre deuses e demônios. Uma batalha que se esteve liberando durante mais de um século. Uma luta em que derramou sangue de ambos os lados até que esta formou um oceano.

E o oceano se converteu em um vale, e o vale se converteu em Silêncio.

 

                                   CAPÍTULO 17

—Sinann, deverias estar deitada.

Com a mão apoiada no ventre, Sinann olhou a Moira e meneou a cabeça.

—Não podia deixar que meu pai partisse sem me despedir dele. Ou de ti. —Sinann jogou uma olhada ao redor do pátio, onde homens, cavalos e dragões se preparavam para a viagem.— Tudo isto parecerá tão vazio agora, com tão poucos de nós dentro destes muros.

Sinann conseguiu esboçar um leve sorriso ao ver que seu pai elevava a seu neto no ar.

—Voltaremos e o ruído será ensurdecedor.

—Moira, por favor, traga-os de volta ao castelo. —A tensão começava a filtrar-se agora através de seus olhos, de sua voz.— A meu pai, a meus irmãos, faça que voltem para mim.

Moira agarrou os braços de Sinann.

—Farei tudo o que possa para cumprir seus desejos.

Sinann apertou a mão de Moira contra seu ventre.

—Aqui há vida. Pode senti-la? Diga a Phelan que há sentido como se movia seu filho.

—Farei-o.

—Eu cuidarei de tuas plantas na estufa e manterei uma vela acesa até que todos tenham retornado para casa. Moira, como saberemos? Como faremos para saber se vocês...?

—Saberão —prometeu Moira.— Se os deuses não lhes enviarem um sinal de nossa vitória, então o faremos nós. Prometo-lhe isso. Agora vá beijar a seu pai e eu beijarei a todos seus outros homens por ti quando os vir.

Moira se aproximou de sua tia e apoiou a mão sobre o braço de Deirdre.

—Falei com os homens que posso deixar com vocês para que lhes protejam. Minhas ordens são claras e singelas e devem seguir-se ao pé da letra. As portas do castelo devem permanecer fechadas e ninguém deve abandoná-lo, já seja de dia ou de noite, até que se recebam notícias de que a guerra terminou. Conto com você como cabeça de minha família que fica aqui para que essas ordens se cumpram. És minha regente até que eu tenha retornado. Ou no caso de minha morte...

—Oh, Moira.

—No caso de que eu morra, você reinará até que seja escolhido o legítimo sucessor ao trono. —tirou-se um anel que tinha pertencido a sua mãe e o pôs no dedo de Deirdre.— Este é o símbolo de sua autoridade, em meu nome.

—Honrarei seus desejos, suas ordens e esse nome. Juro-lhe isso, Moira. —Agarrou as mãos de sua sobrinha entre as suas.— Lamento que discutíssemos.

—Eu também.

Embora seus olhos estavam úmidos, Deirdre conseguiu esboçar um trêmulo sorriso.

—Embora ambas nos separemos acreditando que tínhamos a razão de nossa parte.

—E assim é. Mas não vos amo menos por isso.

—Minha menina. —Deirdre a atraiu para si.— Minha doce menina. Todas as preces que conheço te acompanharão. Volte para nós. Diga a meus filhos que têm meu coração e meu orgulho.

—Sinto-o —as interrompeu Blair tocando o ombro da Moira.— Tudo está preparado para a marcha.

—Me despeço de você, Blair. —Deirdre avançou uns passos para beijá-la nas bochechas.— E confio em que saiberás manter a meu filho mais velho a salvo.

—Farei todo o possível.

—Será necessário. Larkin é muito difícil de controlar. —Abriu a boca para acrescentar algo mais e, logo, inspirou profundamente.— Ia dizer que tomasse cuidado, mas não é isso o que os guerreiros querem ouvir. De modo que lhes digo que lutem bem.

—Podes contar com isso.

Montaram em cavalos e dragões sem pompa nem cerimônias de nenhuma classe. As crianças estavam reunidas em grupos, controlados por suas mães, que permaneciam atrás deles. Os anciões se apoiavam em bengalas ou nos braços dos mais jovens.

As lágrimas brilhavam nos olhos de todos. Embora através desse úmido véu estivessem olhando aos entes queridos que os deixavam para trás, Moira sabia que também estavam olhando a ela.

Traga-os de volta para mim. Quantos albergavam em seus corações e em suas mentes esse único e desesperado desejo? Nem todos o veriam satisfeito, mas ela, tal como tinha jurado a Sinann, faria todo o possível.

E não lhes deixaria nem os guiaria com lágrimas nos olhos.

Moira fez um sinal a Niall, que se encarregaria de comandar as forças terrestres. Quando ordenou que se elevassem as portas, elevou a espada de Geall para cima, e, à frente das últimas tropas do castelo de Geall, disparou um arco de fogo por volta do pálido céu da manhã.

Os cavaleiros dos dragões foram os primeiros a chegar ao destino e mobilizar às tropas. Estas abandonariam a primeira base para empreender a seguinte etapa da marcha para o campo de batalha. Carregaram fornecimentos e armas, e os homens montaram em cavalos e dragões. Os que partiam a pé eram flanqueados pelos cavaleiros... por ar e por terra.

E assim seguiram viajando através das terras e do céu de Geall.

Ao chegar a seguinte parada, descansaram e deram de beber a suas montarias.

—Aqui têm chá, minha senhora.

Ceara se reuniu com Moira perto de um arroio onde bebiam os dragões.

—O que? Oh, obrigada.

Moira agarrou a taça.

—Nunca vi um espetáculo semelhante.

—Não. —Moira continuou observando aos dragões, e se perguntou se algum dos que ali estava voltaria a ver outra vez esse espetáculo.— Cavalgará junto a seu marido, Ceara.

—Farei-o, minha senhora. Já estamos quase preparados.

—Onde está a cruz que ganhou, Ceara? A que leva é de cobre.

—Eu... —Ceara se levou a mão à cruz de cobre.— A deixei a minha mãe. Majestade, queria que meus filhos estivessem protegidos se...

—É obv