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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O VIKING FUJITIVO / Sandra Hill
O VIKING FUJITIVO / Sandra Hill

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O VIKING FUJITIVO

 

Um museu Viking existe realmente em York, tal como foi representado neste romance. Ele comemora a grande escavação arqueológica de Coppergate, onde foram desenterrados muitos tesouros relacionados à Idade dos Vikings na Inglaterra (800—1000 d.C.), dando uma nova luz aos orgulhosos e ferozes escandinavos.

Entretanto, a maciça pintura a óleo da Batalha de Brunanburh, que terminou de maneira brutal com a dominação dos Vikings na Inglaterra, com meu herói devastado pela guerra, Selik, no centro, é pura ficção.

Ou não?

Os cientistas modernos apenas começam a entender a memória genética e, verdade seja dita, minha árvore genealógica pelo lado de meu pai pode ser remontada diretamente de volta aos tempos dos Vikings por trinta e três gerações ao grande Cilindro Viking (ou Hrolf o Ganger).

Talvez as cenas que descrevo na Inglaterra Viking sejam apenas invenções de uma imaginação hiperativa baseada em uma atração inata por esta magnifica raça que é uma parte biológica de mim. A lógica diria certamente isso.

Por outro lado, podiam eles não ser mais que isto?

Talvez, em algum lugar em um castelo antigo desmoronado ou um corredor de museu por muito tempo descuidado, esteja pendurado apenas um retrato da história de um Viking. Eu gosto de pensar nisso.

Coisas mais estranhas aconteceram.

 

 

                   York, Inglaterra

— Mamãe, afaste a senhora alta. Não consigo ver.

Thoraine Jordan sentiu que seu rosto estava consumido por chamas de vergonha ante o ruidoso choramingar do menininho que estava atrás dela. Sentiu como as pessoas ao seu redor se viravam para olhar o objeto digno daquela observação, e logo viu como tinham a necessidade de esticar seus pescoços.

Alta! Era a palavra chave.

Rain gemeu. Depois de todos esses anos, essa cruel palavra não deveria machucá-la, mas sempre acontecia.

Suspirando cansada, olhou para sua mãe, Ruby, cujos lábios formavam uma linha fina de cólera suprimida. Rain apertou sua mão de modo tranqüilizador, não queria que sua mãe super-protetora dissesse algo que criasse alguma cena.

Dando a volta para olhar o menino que tinha feito o comentário com cortante inocência, Rain disse:

— Passe na nossa frente, querida. Não temos pressa alguma.

— Ah, não, Madame — protestou rapidamente a mãe do menino. — Ele não fez por mal. Está só cansado por esperar tanto tempo.

A multidão acompanhou o bate-papo com curiosidade, e Rain desejou desaparecer ali mesmo.

— Está bem. Não nos incomodou — disse à jovem.

Depois de a senhora e o menino se colocarem envergonhados na frente delas na longa fila que se estendia diante o museu Viking, a mãe de Rain sussurrou:

— Você é muito amável. Deveriam ensinar as crianças pequenas que certos comentários são completamente inadequados.

—Ah, mamãe! Ele apenas comentou um fato óbvio. Tenho um metro e oitenta e três de altura. Não há como fugir disso.

Sua mãe dispensou suas palavras com um seco gesto da mão.

— Doçura, você é uma mulher bonita. Pensei que já tinha superado o problema da sua altura, pois já faz muito tempo. Não tem nenhuma razão para se sentir mal.

Rain pôs um braço em torno do ombro de sua mãe e lhe deu um beijo rápido na face.

— Tenho trinta anos, e ainda se preocupa com meus sentimentos quando me magoam. Isto é lindo.

— Humph! Para mim, você ainda é meu bebê. Não me importa que seja médica ou que tenha trazido ao mundo alguns bebês. Sempre pensarei em você como minha garotinha.

Rain lançou sua longa e loira trança sobre o ombro e olhou seu corpo significativamente.

— Pequena? Com certeza!

A boca de sua mãe se franziu indignada.

— Você é muito amável, só é um pouquinho alta, Rain, como seu pai. Nunca foi muito gorda.

Mudando de assunto, para um já velho e usado, Rain brincou:

— Que pai, mamãe?

Um enigmático sorriso se esboçou no rosto de sua atraente mãe. Isso fora uma brincadeira de família durante os anos em que sua pouco ortodoxa mãe afirmava ter realizado uma viagem no tempo trinta anos atrás, quando ela tinha encontrado Thork Haraldsson, uma versão viking de tamanho muito grande do seu marido, Jack Jordan. De fato, sua mãe afirmava que Rain fora concebida no passado e nascera no presente. Ainda pior, sua mãe insistia que, quando seu pai Viking, Thork, morrera antes de Ruby voltar ao futuro, ela partira deixando lá os meio-irmãos Vikings de Rain, Eirik e Tykir.

Uau!

— Não comece, senhorita — sua mãe a repreendeu, balançando um dedo indicador na sua frente com fingida severidade. — De certa forma, Thork e Jack são ambos seus pais. Eles eram muito altos e aparentemente idênticos, mas seu pai Viking tinha mais músculos.

Rain revirou os olhos diante aquela imagem tão atraente. Seu pai fora um homem bonito. Com um corpo musculoso, teria sido de matar.

Sua mãe pegou o broche antigo de dragão que Rain levava na gola de sua blusa branca de seda.

— Gosto disso, ver você usar o broche que Thork me deu.

— Só o uso porque combina com o vestido, mas isso não significa que eu acredite em você.

Sua mãe puxou seu queixo brincalhonamente.

— Sei disso, sua tola. — ela acariciou o broche com amor, uma sonhadora expressão nublava seu rosto. — Pergunto-me o que aconteceu ao outro broche com que faz par, Thork o usava sobre a ombreira de sua capa.

Rain riu ante a expressão voluntariosa que o rosto de sua mãe apresentava, logo hesitou antes de dizer as seguintes palavras:

—Nunca acreditei em todas essas suas tolices. Ainda não acredito, mas ultimamente... realmente estive confusa e bem... não sei.

Sua mãe levantou uma sobrancelha interrogativamente.

— O pesadelo voltou.

Um suave ofego de consternação saiu dos lábios de sua mãe.

— Ah, querida, sinto muito. Eu não sabia. Estive tão preocupada desde a morte de seu pai.

Rain dispensou a preocupação de sua mãe com um gesto de mão, lhe explicando:

— O sonho não é nada novo. Tive-o regularmente desde que era cariança, já que Eddie morreu naquele bombardeio libanês. — Rain tinha só doze anos quando seu irmão mais velho, um marinheiro, morreu em Beirut, mas isso tinha mudado sua vida para sempre. —Não tenho o sonho há muito tempo, mas voltou como se fosse uma vingança.

— O mesmo sonho?

— Sim, mas... mais gráfico e intenso. Às vezes parece que estou presa em um canto do desenho de algo ou alguém com necessidades terríveis ou dores. Esse é meu caminho, é por isso que decidi me tornar médica, já sabe disso. Os quadros de morte e desespero que vi em meus sonhos foram interpretados como uma espécie de chamado à profissão de médica.

— Isso e seu maldito pacifismo.

Rain riu, sabia que sua liberal mãe não compartilhava suas opiniões sobre a não-violência.

— O que tampouco ajuda é o fato de você trabalhar nesse hospital desse bairro, já sabe disso. Falando todos os dias sobre uma dose diária de violência desnecessária!

Rain decidiu dirigir a conversa para longe daquele tema. Sua mãe preferia que sua filha exercesse o cargo de cirurgiã residente a salvo, em um bairro agradável, mais perto de casa.

— De qualquer maneira, mamãe, os sonhos acontecem agora quase todas as noites. Odeio adormecer. Acordo a maioria das vezes com uma cruel enxaqueca. Pergunto-me se…

Suas palavras se detiveram quando um grupo de turistas saiu do Museu Viking Jorvik e a fila na qual Rain estava começou a desfilar alguns centímetros para frente. Depois de a mãe de Rain ter lido na Coppergate Arqueológico que havia escavações ali fazia anos, tinha devorado a revista e seus artigos, que detalhavam os milhares de artefatos encontrados nas jazidas, que davam uma nova idéia a respeito da raça indomável e orgulhosa que tinha prosperado ali sob uma série de reis Vikings de 850 a 954 Depois de Cristo. Ela tinha desejado voltar de novo a viajar no tempo.

Após pagar suas entradas, entraram no edifício, e os guias as fizeram entrar em “carros do tempo” que as levariam mil anos atrás através da reconstrução de uma rua real no Jorvik, Viking Velha York. Estava cheia de figuras de tamanho natural dos primitivos escandinavos. Seus sons e cheiros eram os mesmos do mercado de uma cidade no período da Alta Idade Média.

Para comentar os dioramas tão maravilhosamente feitos, Rain olhou para sua mãe e se alarmou ao ver sua face branca e as mãos apertadas no peito.

— Mamãe! O que está acontecendo com você? — a médica que havia em Rain surgiu imediatamente. Sua mãe tinha sessenta e oito anos de idade e lhe preocupava que sofresse dores no peito.

— É do mesmo jeito que era — sussurrou Ruby agitada.

— O que é do mesmo jeito que era?

— Esta rua de Coppergate. Viu os tetos de palha, as casas de barro e a lama? Ah, Rain, isto me transporta de volta com tanta nitidez!

Rain deu um suspiro de alívio já que sua mãe não estava doente. Pessoalmente, considerava as casas bastante ordinárias e não compartilhava o entusiasmo de sua mãe, mas guardou seus pensamentos para si mesma.

Seguiram adiante e contemplaram um corpulento ferreiro que fabricava as estimadas espadas Vikings. Trabalhava com cinco barras de metal em cordas fortemente torcidas, então as martelava, limava-as e soldava outra vez até que estivesse forjada a arma mortal. Explicaram-lhes que o processo inteiro para forjar aquele modelo durava umas cem horas somente para uma espada e que os Vikings as valorizavam tanto que davam nomes a elas, como Corta-pernas ou Víbora.

O vagão se movia ao longo das instalações devagar, atormentando com música medieval que impregnava o ar, flutuando docemente através de um primitivo berrante esculpido que um rapaz de cabelo loiro tocava. De fato, todas as figuras que estavam expostas tinham os cabelos claros, cheios de matizes luminosos que iam da platina ao vermelho ardente. Os homens eram enormes, com cheias e bem cuidadas barbas, bigodes, e os cabelos lhes chegavam abaixo dos ombros. A maior parte das mulheres e moças usavam tranças, algumas roçando a cintura, e outras usavam debaixo de limpas toucas de tecido.

Laboriosos artesãos trabalhavam diante das casas, esculpindo boliches de madeira, polindo pedras de âmbar, ou trabalhando o cobre. Desmentiam com seu trabalho a imagem tradicional dos vikings como aves de rapina, ferozes e saqueadores de gente pacífica.

Rain inalava profundamente, percebendo os aromas de palha fresca, aparas de madeira, fumaça das brasas das lareiras, brisas procedentes do mar e alguns aromas desagradáveis que tinham existido em uma cidade primitiva daquele tamanho.

Depois de completar a viagem de uma hora pelo museu Viking, deram um passeio de braços dados ao redor do hall, vendo os desenhos e fotos da escavação arqueológica.

— Ah! — exclamou sua mãe, parando bruscamente.

Estavam paradas na frente de um mural que representava a Batalha do Brunanburh, em 937 Depois de Cristo, que tinha terminado para sempre com o predomínio viking na Nortúmbria, conforme estava no pequeno cartão sob o quadro. Os cavaleiros do Século do Obscurantismo lutavam sobre uma colina vulcânica perto do Rio Solway. A enorme pintura detalhava artisticamente os milhares de guerreiros cansados, incluindo cinco reis Vikings e sete jarls, um filho do Rei escocês Constantine, dois primos, dois condes, e dois bispos do Rei saxão de Athelstan.

A voz arrastada de sua mãe vinha até Rain, mas ela não a ouvia. Uma frieza percorria seu corpo, e uma terrível dor de cabeça fez seus olhos se fecharem de repente. Lágrimas caíam, derramadas em um silencioso caminho por seu rosto.

O pesadelo de Rain tinha revivido.

Durante anos, como pedaços de palavras cruzadas, ela tinha visto as partes dessa cena de batalha em seus sonhos : a terra ensopada pelo sangue, feridas profundas, corpos cortados em diferentes lugares, cavalos relinchando assustados e bramando pela matança. Não era de se assombrar que se tornara pacifista, havia se oposto a todas as insensatas guerras depois de ver aquela tragédia humana vezes sem conta.

Até o homem que estava no centro da pintura lhe era familiar. Um gigante loiro em pé com as pernas estendidas e cobertas com botas de couro. Muitos dos homens que estavam ao seu redor usavam elmos de couro ou de metal com protetores de nariz, mas os cabelos compridos platinados do formoso viking balançavam livremente ao vento. O sangue ensopava sua curta túnica de couro e gotejava da espada e do escudo que ele segurava em seus braços, contemplando em prece o sombrio e cinza céu, como se chamasse Odin em sua angústia. Seu rosto devastado, desesperado se apresentava a Rain, e quase pareceu atirá-la no quadro, no meio do horrível torvelinho.

Rain se distanciou bruscamente para evitar o puxão magnético da cena. O quadro a assustava.

O rosto de sua mãe se mostrava esgotado, exangue, e seus lábios tremiam quando exclamou:

— Ah, meu Deus! Este é Selik.

— Selik? — sussurrou Rain, mal podendo conter a crua emoção que a embargava. — Quem é Selik?

— Não lembra que te falei que ele era um jovem cavaleiro de Jomsviking, com seu pai Thork?

Ah, não! Não a viagem no tempo outra vez!

Mas Rain apertou os olhos, tentando ver melhor o desenho central do quadro.

— Não era aquele que seduzia todas as mulheres, que sempre fletava com você e brincava com as crianças?

— Esse mesmo. Era tão bonito, como um deus nórdico. E encantador! Ele apenas sorria, e as mulheres se derretiam.

— Não sei — disse Rain com ceticismo. — Este homem parece muito severo e tem muitas cicatrizes de batalha para ser a mesma pessoa. Deve estar se confundindo.

Sua mãe a olhou fixamente, pensando com o rosto franzido.

— Talvez tenha razão. Selik era um amante, não um assassino.

Rain tremeu.

— Vamos, mamãe. Já tive muitos vikings por hoje.

Sua mãe riu, e andaram de volta a seu hotel, só alguns quarteirões além.

Nessa noite o pesadelo de Rain voltou, mas agora todos os pedaços do quebra-cabeças vieram juntos em uma batalha horrível e espantosa, com os sons e cheiros da guerra. Quando ela viu seu guerreiro solitário levantar sua espada e escudo ao céu e o grito cheio de agonia por seus companheiros cansados, Rain gritou também, acordando sua mãe e provavelmente metade do hotel. Depois de se acalmar e enviar sua mãe de novo à cama, Rain se aconchegou em uma poltrona na frente da varanda e olhou a rua fixamente às cegas, sabendo que não voltaria a dormir outra vez nessa noite.

Depois do amanhecer, vestiu-se e partiu, deixando um bilhete para sua mãe, e percorreu as vazias ruas de York durante horas. Era a primeira da fila quando as portas do museu se abriram às nove.

Foi direto ao hall onde estava o quadro a óleo. Uns andaimes foram erguidos durante a madrugada, e havia pessoas trabalhando ruidosamente, reparando o alto teto de gesso. Rain não se incomodou com a barreira posta para manter os turistas longe da área de trabalho e se colocou tão perto da imagem como possível. Então tirou uma pequena sacola de papel da mochila que levava sobre ao ombro. Desempacotou a lupa que tinha acabado de comprar em uma loja de presentes turísticos e examinou cuidadosamente o irresistível soldado viking Selik, assim o tinha chamado sua mãe. Ela fez girar o nome suavemente sobre sua língua.

Rain não tinha dúvidas agora. Selik era o espectro que a atormentara em seus sonhos durante anos. Ela franziu a testa, confusa. O que significava isso? Possuía uma espécie de habilidade telepática? O sonho era uma mensagem ou uma advertência de algum tipo?

— Ei! Senhora, olhe…

Rain olhou o homem que lhe gritava do andaime. Ao mesmo tempo, ouviu um forte ruído. Não teve tempo de sair do caminho do bloco de pesado gesso do teto que caía sinistramente em sua direção.

Rain não sentiu uma dor aguda sobre sua cabeça, nada. A médica que havia nela tinha compreendido imediatamente que era um golpe fatal. Então, milagrosamente, Rain se moveu como um espírito sobre o enorme montão de escombros que cobria seu corpo, contemplando a cena desinteressada. Os trabalhadores tentavam desesperadamente chegar a ela, mas Rain não se preocupou.

Uma brilhante luz branca se aproximou, e Rain riu, sentindo que uma paz incrível a envolvia.

O quanto morrer é maravilhoso!

Mas então a formosa luz branca formou uma nebulosa imagem, em formato de corpo, e a cabeça que se movia levemente de um lado para o outro, parando seu progresso. Sua mão apontou para outra direção.

Rain reconheceu o engano, o cheiro a deixando imediatamente mal. Ela estivera em muitas emergências no hospital e em salas de operações alagadas pela força da vida de incontáveis vítimas, que se ia, para permanecer ignorando o cheiro da morte.

Ela sentiu a umidade sobre seu rosto e o sufocante peso do gesso caído. Ao que parecia, não tinha morrido, afinal de contas. Levantou o pesado objeto de seu peito e rosto, então devagar abriu os olhos para ver melhor.

— Socorro! — gritou Rain horrorizada ante a visão. Não era o gesso o que a colava à terra, mas sim um homem muito grande que estava sobre ela. Não tinha reparado que outro turista tinha estado junto a ela no museu antes do acidente. Ou era um trabalhador? E a pegajosa umidade que cobria seu rosto e seu casaco de linho era seu sangue ou o dele?

Gritou outra vez enquanto a tristeza e o desespero abriam caminho com agudas garras em sua garganta. Sentia como se a tivessem enterrado viva. Quando não veio nenhuma ajuda, Rain forçou firmemente seus pés sobre a terra, dobrou seus joelhos, e colocou sua palmas sobre o peito do homem. Com um poderoso impulso, levantou o corpo de cima dela e o sacudiu.

Atordoada, alcançou às cegas sua mochila e pegou alguns lenços para limpar o sangue seco e o rosto. Olhou ao redor, e rapidamente fechou os olhos para evitar o horror esmagador que a rodeava.

Devagar, a contragosto, com uma dor embotada de maus presságios, os abriu outra vez, temendo o que veria. Algum caminho, algum louco e intrincado caminho humanamente impossível, e ela tinha aterrissado no meio de seu sonho — na Batalha de Brunanburh em 937 Depois de Cristo, há mais de mil anos, bem no lugar que ela tinha visto no quadro do museu.

Olhou para baixo e viu que o homem vestia uma couraça que cobria seu rosto e peito, tinha a cabeça meio cortada no pescoço. Isso considerando todo o sangue. Havia outro homem perto de seus pés, com uma formosa juventude, cujo corpo estava protegido só por um elmo fortemente embutido e um grosso espartilho de couro sobre uma túnica que lhe chegava às coxas, e que ainda estava junto a seu peito. Seus olhos abertos, de um pálido azul, olhavam fixamente por cima dela.

As náuseas rebelaram o estômago de Rain e se elevaram até sua garganta. Inclinando-se, vomitou repetidamente até que a amarga bílis se esgotou. Lançou seu casaco manchado de sangue ao chão e usou o resto de seus lenços para limpar a boca, e logo se voltou estoicamente para ver o que havia em torno.

Milhares de homens estavam caídos, mortos ao redor dela sobre a planície. Weondun, o cartão do museu a tinha denominado assim, como uma planície composta por pedras vulcânicas, ou “A Colina Santa”. Melhor “A Colina Impiedosa,” pensou Rain, recordando que em algum momento tinha sido o lugar onde se erguia algum templo pagão.

Se alguma vez se sentiu justificada por sua tendência pacifista, era agora. Para todo lado que olhava via provas da desumanidade dos homens ao chegar àquilo. Alguns soldados tinham sucumbido imediatamente sob os rápidos ataques de uma espada ou uma lança de batalha; os outros estavam mutilados de forma grotesca e lhes faltavam diferentes partes do corpo, braços, pernas, cabeças.

Rain olhou outra vez, então pegou sua mochila e se moveu com cautela entre os guerreiros caídos. Escorregou freqüentemente no lodaçal que se compunha de enormes quantidades de sangue e vísceras humanas.

Embora a batalha aparecesse como uma vitória clara dos saxões, a julgar pelo número desproporcional de grandes soldados vikings que jaziam sobre o campo, vestidos com seus elmos cónicos e suas curtas túnicas, a morte tinha cobrado seu pedágio sem critério entre os milhares de guerreiros naquele dia. Escandinavos loiros, saxões que falavam inglês, galeses de olhos negros, escoceses em suas capas de viagem com as cores de seu clã, e irlandeses com suas túnicas cor de açafrão, todos tinham caídos costas contra costas.

Rain quis desesperadamente acreditar que isso era tudo um sonho... um pesadelo, mas a dura realidade que a rodeava falava outra história. Apesar de sua resistência, começava a acreditar que tinha viajado atrás do tempo tal qual sua mãe tinha proclamado todos aqueles anos.

A miséria de Rain caía pesadamente sobre seus ombros. Por que tinha sido enviada ali? O ela que podia fazer?

A distância que a separava do selvagem corpo a corpo entre combatentes, que ainda estava acontecendo entre centenas de soldados sobre o lado mais afastado do que fora uma planície verde, era considerável. Rain podia ver as tropas saxãs com suas paredes de escudo movendo-se com uma força mortal para seus inimigos. As fileiras vikings lutavam corajosamente compondo uma formação de cunha defensiva, com chefes na frente e as fileiras inferiores estendendo-se de forma parecida a um leque atrás deles.

Por razões que não compreendia não estava assustada, mas repugnada.

Um suave som chamou sua atenção, e deu a volta para ver um enorme cavalo que estava à margem do campo, sua sela vazia e suas rédeas arrastando sobre a terra. O cavalo deu uma batidinha no sangrento peito, vestido com a couraça, de um cavaleiro que estava caído na frente dele, logo levantou seus emotivos olhos até Rain, como se ela pudesse ajudá-lo a fazer seu amo subir.

Rain limpou o nariz e olhou de novo o campo de batalha com um soluço. Necessitavam de suas habilidades médicas, muito mais do que qualquer médico pudesse dirigir. E as feridas requeriam muito mais que os poucos artigos médicos que ela levava em um compacto estojo de primeiro socorros em sua mochila. Sacudiu a cabeça, desesperada.

Com um profundo suspiro, Rain começou a mover-se pouco a pouco pela margem do campo de batalha, parando em qualquer lugar onde sentisse que podia ser de alguma ajuda. Aplicou um torniquete no braço de um suplicante cavaleiro escocês que tinha um profundo corte no cotovelo, usando uma tira do cordão de couro de seus sapatos. Ela não sabia se    aquilo serviria. Ele tinha perdido muito sangue.

Rain seguiu adiante entre as dúzias de homens, ignorando sua nacionalidade, cuidando de feridas, tirando espadas, segurando uma mão, fechando os olhos dos mortos. Finalmente ficou de pé, aliviando suas doloridas costas. O desespero de seus esforços a afligiu. Começou a ir longe do campo, logo gemeu quando bateu contra um corpo duro. Ela riu tolamente, quase histericamente, quando compreendeu que o cavalo a tinha seguido em torno do campo de batalha. Rain passou seus braços ao redor do pescoço dele e pôs seu rosto contra a espessa crina branca.

—Ah, cavalinho, o que devo fazer?

Como em resposta, ouviu-se um rugido de ruidosas maldições e metal se entrechocando, estalando atrás dela, e Rain compreendeu que inconscientemente se moveu para mais perto da luta.

Então viu Selik.

Ah, por Deus! Um pobre viking abandonado que estava sozinho e excedido em número, tentando se defender contra uma dúzia de saxões armados como cavaleiros com a intenção de matá-lo.

Muitas facções ainda lutavam em combate corpo a corpo pelo campo, guiando espadas e machados de batalha, e longas lanças. Selik estava sozinho entre os vikings caídos de sua tropa, bramando de raiva aos atacantes saxões. Segurando seu escudo com a mão esquerda, balançava destramente sua espada com a outra, destruindo um por um os soldados saxões que tentavam alcançá-lo. Finalmente, exasperado pela lentidão de seus esforços, tirou o elmo de sua cabeça, soltando seus longos cabelos loiros. Lançou seu escudo à terra e pegou uma lança e um machado de batalha para o combate final.

Com uma raiva fanática, ele tomou a ofensiva. Desatendendo sua própria mortalidade, Selik perseguiu os saxões restantes até que tiveram um final sangrento, esquecendo-se da matança que ele colhia. Alguns dos soldados fugiram para longe, os olhos cheios de medo, mas Selik não deu mostras de piedade. Usando ambas as mãos, seguiu adiante, cortando com o braço direito e criando um limpo caminho até chegar ao garoto saxão que levava uma bandeira cujo brasão era um dragão de ouro. Cortou o cabo da bandeira com um corte rápido de seu machado, então o matou lançando a lança no seu pescoço. O sangue fervia da artéria talhada do pobre rapaz.

Rain estremeceu com horror ante a carnificina de Selik. Esse homem tinha atormentado seus sonhos durante anos. Algum elo os tinha conectado através dos séculos , mas como podia estar unida a uma besta tão brutal?

Finalmente, só um inimigo permanecia de pé, o príncipe saxão que estava perto de Selik, com um belo escudo extremamente frágil e um elmo em relevo com a mesma insígnia que decorava a bandeira que estava a seus pés.

— Faça suas orações, vira-lata saxão. Hoje vai se encontrar com seu deus — grunhiu Selik com uma voz áspera, enquanto ele e o cavaleiro saxão começavam a trocar golpes com suas armas. Pareciam estar nivelados na mestria com que guiavam suas armas.

Um golpe entrou na perna do saxão, mas esse não fez caso da ferida.

— Melhor, pagão ofensivo, você vai se unir a Odin, embora o mais provável seja que um caldeirão ardente espere sua negra alma!—Ao golpe seguinte Selik escorregou e chego a cortar um pedaço da armadura do saxão bem acima da cintura.

— Diga a seu deus que hoje foi Selik, o Proscrito, quem o enviou a sua viagem final.

Um severo sorriso aparecia cruelmente nos lábios de Selik, como se ele desfrutasse dessa mortal atividade.

O saxão empalideceu, como reconhecendo o nome do tão notório viking. Então um sorriso ladino se estendeu por seu rosto.

— Você é o filho da puta de quem meu irmão Steven matou a esposa e o filho?— zombou maliciosamente. — A carne dela era tão suave quando Steven a reclamou, abrindo suas coxas antes de sua morte e…

Suas palavras morreram em seus lábios quando Selik, explodindo com uma força sobre-humana que crescia por sua fúria, enfiou sua lança claramente no peito do saxão, levantando-o no alto sobre a lança. Então pregou a base do cabo na terra de modo que o nobre jovem morresse sobre a lança à vista de todos seus horrorizados companheiros.

Selik cambaleou ao pegar seu escudo e sua espada, limpando a folha ensangüentada nas suas roupas. Parecendo momentaneamente atordoado, ele passeou o olhar ausente à dor da matança que havia ao seu redor, compreendendo pela primeira vez que estava sozinho. Explorou o campo solenemente com torturada incredulidade, reconhecendo a esmagadora derrota.

Então, em pé sobre suas pernas abertas, levantou sua espada e escudo ao céu, seus braços abertos, gritando sua desolação de uma maneira crua e primitiva. Seus claros cabelos voavam suavemente ao vento enquanto seus músculos duros pela tensão se enrijeciam sob sua túnica.

— Odin! Pai! — gritou. — Me leve a Valhalla. Não me abandone.

Rain ouviu um ruidoso estalo e compreendeu que alguns saxões zangados tinham abandonado as escaramuças que ainda continuavam do outro lado da planície e tinham juntado forças para vir até Selik. Ele necessitava de sua ajuda desesperadamente.

Engolindo um áspero soluço, Rain gritou:

— Selik! — mas ele não a ouviu, mesmo ela estando somente a algumas jardas. — Selik!

Ainda nenhuma resposta.

Rain se voltou procurando desesperadamente algum meio de fuga, e viu o fiel cavalo atrás dela. Meu Deus, obrigada! Ela se precipitou para trás e pegou as rédeas.

Não montava um cavalo há vinte anos, desde os dias no acampamento do verão, e aquele não era um pony. O desespero lhe deu coragem.

— Venha, vamos, doçura — cantarolou ela para o volúvel animal. — Tem que me ajudar — depois de várias tentativas fracassadas e algumas opções diferentes nas palavras dirigidas ao cavalo quando se movia, subiu torpemente na enorme garupa e o guiou com cuidado até Selik.

— Selik, venha comigo. Depressa! — ordenou-lhe.

A princípio, ele somente baixou seu escudo e espada e a olhou fixamente, confuso. Seus olhos refletiam toda a extensão de sua torturada alma depois de uma luta furiosa.

— Depressa! Temos que escapar — disse Rain, lhe oferecendo sua mão.

De repente o alarme soou na cabeça de Selik ao vislumbrar como se aproximavam os guerreiros inimigos, e cautraseirou o perigo com um olhar. Com a agilidade de um relâmpago subiu bem atrás dela, pegou as rédeas e pôs o cavalo rapidamente a galope. Eles logo se afastaram dos saxões que os perseguiam a pé, mas Rain sabia que havia outros saxões a cavalo, implacáveis e cruéis, que seguiriam-nos logo. Não tinham muito tempo.

Durante mais de uma hora, galoparam rapidamente em silêncio. Quando passaram por outros soldados em sua fuga ao longo do caminho, a maioria a pé, Selik gritou em todas as direções com sua voz brusca, profunda e de bom timbre o lugar onde se reuniriam eventualmente.

A dura viagem machucou o traseiro de Rain e roçou a pele do interior de suas coxas estendidas dentro de suas calças de linho, mas uma parte dela se deleitava ante a ímpar comodidade de estar entre os braços de Selik. Uma auréola de paz caiu sobre ela, irradiada pela força do corpo de Selik, e seu desespero diminuiu no sentimento indefinível de estar no lugar certo. Apesar da horrenda crueldade que acabava de vê-lo mostrar, Rain sentiu este feroz Viking como a chave de seu futuro e a razão de sua viagem através do tempo.

Rain tentou falar várias vezes, mas sua voz saía rouca e sem fôlego devido às sacudidas do galope do cavalo e sua incapacidade de dar a volta e perguntar a Selik sobre suas inquietações. Já fazia um tempo considerável agarrada à crina do cavalo. O silêncio de Selik ergueu outra barreira a mais para manter uma conversação.

Então Rain se deixou cair contra o forte peito maciço do viking, sentindo os batimentos de seu forte coração até pelas faixas de pele flexível de sua armadura. Uma sensação de inexplicável orgulho a percorreu quando olhou os fortes músculos de seus antebraços flexionando-se quando movia as rédeas para guiar o caminho pelo aparentemente impenetrável bosque que agora atravessavam.

Selik finalmente deixou descansar seus arreios. Seu enorme corpo deslizou facilmente do cavalo, que deixou à beira de um regato. Então habilmente tirou o espartilho de pele, sob o qual usava uma túnica ensopada de suor. Caindo de joelhos, bebeu com gula a água clara antes de molhar seu rosto, sacudindo sua cabeça como um cão peludo. Então molhou seus antebraços até a túnica. Rain olhava, fascinada, como seus músculos se ondulavam atraentemente pelas costas de suas roupas fortemente apertadas. Seu pulso se acelerou quando ele ficou de pé e estendeu seu poderoso corpo, então se sentou graçiosamente sobre a terra. Ele apoiou sua cabeça contra um amplo tronco, fechando os cansados olhos.

Nenhuma só vez olhou para Rain ou lhe ofereceu ajuda para descer do cavalo, que pastava prazerosamente à margem da água. Ela bem podia ser invisível. Rain desmontou torpemente com uma maldição suave e se ajoelhou. A água gelada que levou à boca entre suas mãos em concha tinha gosto de néctar dos deuses. Ela bebeu até encher, lavou o rosto e as mãos, e se dedicou a tirar algumas manchas de sangue da gola de sua blusa com um cachecol umedecido com água. Então deu a volta para olhar para Selik.

Apesar de seu esgotamento, Selik irradiava uma magnética vitalidade. Sua complacência por ele desafiava toda razão, mas Rain entendia perfeitamente sua atração física. Ele tinha aproximadamente trinta anos, sua própria idade, mas era ao menos uns oitenta centímetros mais alto. E que musculatura! Aparentava um certo ar criminoso como se fosse um ladrão de bancos. Seus cabelos compridos e claros estavam suados sob suas omoplatas, mas Rain sabia que seriam lindos quando estivesse limpos.

A dor tinha esculpido ásperas linhas em seu rosto. O nariz parecia que tinha se quebrado tempos atrás. Feias cicatrizes e contusões arroxeadas, velhas e também recentes, danificavam seu bronzeado rosto, seus braços e pernas, qualquer lugar onde sua carne estivesse exposta, incluindo uma linha particularmente espantosa, curada há muito tempo, branca e ziguezagueante do olho direito ao queixo. Grandes braceletes primorosos brilhavam em seus fortes braços, mal visíveis sob as mangas de sua túnica, indicando alguma riqueza ou posição.

Ele levantou uma mão para tirar o cabelo molhado do rosto, e Rain ofegou quando notou a palavra “Raiva” esculpida em seu antebraço. As brancas cicatrizes deviam ter sido feitas com uma afiada faca há muito tempo. O que significava aquilo?

Rain o olhou no rosto. Sua beleza a aprisionou totalmente, mesmo reconhecendo que muitas mulheres modernas o considerariam muito rude e musculososo para ser esteticamente bonito.

Selik pareceu sentir seu olhar. Abriu os olhos preguiçosamente, e Rain facilmente poderia ter se afogado em suas mutantes profundidades cinzentas e verdes. Mas nenhuma emoção emanou de seu rosto, exceto uma desalmada ausência de interesse.

— Quem diabos é você?

Que boas-vindas!

Mas ao menos Rain entendia sua língua. Tinha se preocupado de não ser capaz de se comunicar com aquelas pessoas primitivas. Na realidade, Selik deveria falar alguma forma de inglês medieval, Rain franziu o cenho. Inferno, ele provavelmente o fazia, mas Deus, ou quem quer que fosse o cérebro daquele fiasco, tinha adicionado a seu cérebro algum tradutor. Se aquilo fosse um sonho, a ausência de barreiras idiomáticas seria compreensível, raciocinou Rain. Se aquilo fosse uma viagem no tempo, a língua seria a menor de suas preocupações.

Ela sacudiu a cabeça para esclarecer a mente e respondeu à pergunta sobre seu nome:

— Rain¹. Rain Jordan

— “Chuva”?[1] Que tipo de nome é esse? — zombou com desdém enquanto a olhava devagar, insultantemente, da cabeça aos pés várias vezes. — Por que não Neve ou Água de Neve ou Lama? — Então ele acrescentou com desdém — Ou Árvore?

Árvore! Eh!, isso era uma coisa permissível para uma criança que não sabia o que dizer para insultá-la por causa de sua altura, mas para aquele viking a quem faltava um parafuso, degenerado, e ao qual acabava de salvar a vida, não era permissível!

— Seu bastardo ingrato! Apenas salvei sua vida — ela piscou para conter as lágrimas que vinham a seus olhos.

Selik se levantou e estendeu seus braços amplamente para tirar as torções causadas por sua longa cavalgada.

— Não me fez nenhum favor, moça — comentou ele secamente. — Seria melhor que eu tivesse morrido. Esta vida não significa nada para mim.

Rain o olhou iradamente encarando-o embora ele pudesse humilhá-la se visse suas lágrimas.

— Como valoriza sua vida tão pouco? Sabe quantos homens matou hoje?

— Muito bem. Quantos, não? — perguntou ele com um tom chateado de voz pondo de novo a couraça. — Contou todas as mortes?

Rain sentiu como se o sangue chegasse com pressa a seu rosto.

— Não, mas com certeza são centenas. Não sente algum remorso por essa carnificina?

— Muito bem. Por que deveria sentir? Eles mereciam tudo aquilo e muito mais.

— Como pode dizer isso, sobretudo pelo jovem rapaz da bandeira que matou perto do final?

— Matei um rapaz? — Selik inclinou a cabeça de maneira inquisitiva, obviamente tentando recordar o incidente. Como podia alguém matar outro ser humano e não lembrar?, perguntou-se Rain tristemente. Finalmente, Selik sacudiu a cabeça como se aquilo não importasse. — Cada saxão é meu inimigo, homem ou rapaz. Isso é o que dizem as palavras rúnicas sobre o poste do desprezo eregido contra o Rei Athelstan há muito tempo — então ele a olhou com desconfiança. — Por acaso é uma das amiguinhas de Athelstan?

—Amiguinha! — as faces de Rain se cobriram com um rubor inoportuno. —Não, não sou uma prostituta ou um saxão. — Rain de repente compreendeu que Selik montou no cavalo e se dispunha a partir. Sem ela!

—Espere! Não pode me abandonar aqui.

Selik arqueou uma sobrancelha e a olhou com atitude arrogante, e começou a girar o cavalo.

—Não posso?

—Esse cavalo é meu —inventou ela rapidamente.

—Mentirosa —respondeu ele com uma risada que a enfureceu.

—Volte aqui!

—Pois bem, não o farei, bruxa, harpia —Ele sorriu abertamente. —Mas não tenha medo, outros passarão por aqui. Talvez um daqueles soldados será mais fácil de persuadir do que eu, e te ofereça sua proteção em troca de uma cama quente para sua diversão que a mim, com a sede de sangue pela batalha, não interessa.

Diversão! Rain se arrepiou com indignação.

—Está me insultando, porco. Eu não me ofereceria a prestar diversão a homem algum, quanto mais um maldito bárbaro como você.

Selik somente riu, lhe fazendo uma deslumbrante demonstração de dentes retos e brancos, um grande contraste com sua pele profundamente bronzeada.

O choque de sua deserção iminente a paralisou durante um momento. Então Rain sentiu pânico quando Selik se dispôs a deixar a clareira. Os dedos gelados do desespero acabaram com sua calma.

O que faria ela naquele tempo e lugar estranhos sem Selik como seu asqueroso protetor, como ele era naquele momento? Ela torturou o cérebro procurando uma solução e lhe chegou apenas uma idéia.

—Selik! —gritou ela desesperadamente a suas costas. —O que pensaria seu velho amigo Thork se abandonasse sua filha?

Ele parou imediatamente.

Ah! O coração de Rain começou a martelar desordenadamente quando Selik se voltou na sela e a perfurou com aqueles gelados olhos cinzas. Ele começou a girar lentamente de volta para ela, e Rain sentiu a necessidade de se voltar e fugir.

Tinha dúvida de que seus intintos protetores fossem seguros, porque Selik a olhava como se fora matá-la. Seus músculos se ressaltaram com tensão em seus braços, seus punhos apertados, seus ombros retesados. Seus lábios cheios eram uma linha apertada de pálida fúria. Seus olhos brilhavam ameaçadores. Pegando a adaga de seu cinturão, Selik deslizou do cavalo suavemente e andou diretamente até ela. Rain, então realmente assustada, deu a volta e correu por sua vida.

 

Amaldiçoando com ira, Selik perseguiu a alta mulher pelo bosque, correndo para ficar a seu lado. Pelo sangue de Cristo! Ele estava perdendo um tempo precioso com essa moça irritante.

— Alto lá!

O duende gigante de madeira respondeu lançando um galho para trás e o bateu no rosto dele enquanto ria estridentemente, com uma nota de agudo histerismo em sua voz. Sem parar, ela continuou lançando-se rapidamente pela área densamente cheia de árvores, correndo com suas longas pernas cobertas por inadequadas calças masculinas.

— Provoca muito ao reivindicar Thork como pai —gritou ele exasperado. — Será um prazer arrancar sua pele a tiras, mulher mentirosa. — Quando ela não respondeu e ainda o evitou, ameaçou-a — Tirarei sua língua mentirosa de sua boca e a comerei crua.

Selik ouviu seu ofego ante suas últimas e ridículas palavras, ao dizer algo tão incoerente como aquilo tinha soado — Eca ! Uma risada lenta estendeu seus lábios. Então pensava que ele era um bárbaro? Hah! Bem, ele lhe mostraria.

— Se parar agora — bajulou-a, cortando a distância — será uma morte rápida. Talvez tão somente um limpo corte na cabeça. Desista dessa inútil perseguição, ou me forçará a prolongar sua dor — aquilo deveria causar algumas imagens muito vivas à moça.

— Vá para o diabo! — gritou a imprudente raposa.

Condenada impertinência! Aquela tola mulher não sabia o perigo que enfrentava ao despertar sua índole? Ele tinha matado muitos homens por menos.

— Talvez ache que seus olhos de ouro ficariam bem sem cílios — disse Selik suavemente, enquanto respirava ofegante pelo esforço da busca e o cansaço pelas seqüelas da batalha.

Ele franziu a testa. Olhos de ouro? Sagrado Thor, quando tinha notado a cor de seus olhos? Sacudiu a cabeça para limpar a inoportuna imagem e distribuiu golpes a direita e a esquerda sem piedade.

— Malditos sejam seus olhos! Talvez também poderia arrancá-los.

A mulher arfou com desdém, ou incredulidade, e outro galho se lançou para trás, lhe batendo dessa vez no abdômen, abrindo a ferida de espada que tinha recebido antes.

Agora sim estava realmente zangado.

O sangue gotejava do corte, e doía como o inferno, outra razão para bater na impudência daquela amotinada idiota, descerebrada. Pela saliva de Odin! estava esbanjando valiosos minutos perseguindo aquela tola criatura quando precisava pôr tanta distância quanto pudesse entre ele e seus inimigos saxões.

Havia uma ameaça adicional naquilo, também. Selik tinha reconhecido o homem que tinha matado antes, tão nobremente empalado sobre sua lança. Aquele era Elwinus, primo de Athelstan. O rei tinha oferecido uma recompensa pela cabeça de Selik antes da batalha; agora aquele bastardo saxão iria o querer vivinho e abanando o rabo para torturá-lo o mais lentamente possível.

E pior ainda, Elwinus reivindicava ser irmão de Steven de Gravely. Inferno maldito! Ele e Steven tinham muitíssimas razões para matar um ao outro sem necessidade desse último combustível acrescentado à fogueira de seu ódio mútuo. Steven estivera na batalha? perguntou-se Selik de repente e pensou em voltar para terminar seu combate sanguinário de uma vez por todas.

Mas então Selik olhou para a louca moça que corria na frente dele. Não podia desprezar a vergonhosa reivindicação da ardilosa moça. Sabia que não era saxã. Sua estatura, os cabelos de claro tom de mel, seus finos traços contavam a verdade sobre sua herança nórdica. Mas ela tampouco podia ser a filha de seu amigo morto, Thork, e pagaria caro por desviar a verdade e pelo desnecessário atraso.

— Basta! — rugiu Selik finalmente. A bruxa já o tinha incomodado muito. Com uma poderosa investida, ele a abordou por trás. Ela caiu na terra com um ruidoso “plaft” e ele conseguiu se pôr em cima dela.

A queda roubou o fôlego de Selik. Ele ficou imóvel durante vários segundos com seu rosto enterrado nos cabelos brilhantes de ouro da garota, que caíam frouxos de sua trança. Sua fragrância doce, sedutora, uma mistura ímpar de flores e especiarias, oprimiu seus sentidos, fazendo-o esquecer momentaneamente a brutalidade e o vazio de sua vida e lhe fazendo recordar um tempo quando tinha gostado de ter tempo de sobra para apreciar as pequenas coisas da vida. Como o aroma de uma mulher. Ou a sensação de voluptuosas curvas femininas amoldando-se perfeitamente nos ângulos de seu corpo.

O congelado coração de Selik degelou durante um segundo, com sentimentos que fazia muito tempo se obrigara a desprezar. Ah, Astrid, pensou de repente, e uma dor tão feroz que não podia suportar explodiu em seu coração e ameaçou arrebentar de dor as paredes de seu peito. Sentia tanta falta. Surgiu rasgando sua lembrança a última vez que viu sua esposa ensangüentada, e a incrivel imagem o atormentava sem parar. Alguma vez ela iria embora?

Um toque suave o tirou de seu inoportuno sonho. O cavalo o tinha seguido pelo bosque.

Pelo sangue de Thor! grunhiu com silenciosa auto-repugnância por seu impressionável estado de sonho acordado. Fazia anos desde a última vez que se permitiu tal extravagante auto-indulgência acerca de sua esposa morta.

Levantando-se sobre seus erguidos cotovelos, Selik compreendeu que a mulher não se movia embaixo dele. Tinha morrido pela força de sua queda sobre ela com seu peso substancial?

— Humph!

— O quê?

A moça levantou a cabeça e se queixou,

— Saia de cima, seu grande mal-educado. Deve pesar tanto quanto esse cavalo, meu cavalo, a propósito. Quer me esmagar até a morte antes de poder comer minha língua?

Com um sorrisinho suave, pouco disposto, Selik lhe permitiu voltar sobre suas costas, mas a manteve presa à terra com a metade inferior de seu corpo.

— Sua língua rabugenta excede sua sensatez, moça. Acho que seria muito ácida para meu gosto.

A erva e a sujeira cobriam seu rosto e lábios. Pedaços de ervas e raminhos estavam presos a seus cabelos despenteados e a sua estragada camisa macia. Ela cuspiu vulgarmente para limpar sua boca.

Selik momentaneamente esqueceu a razão de sua cólera, tão enfeitiçado que estava pelo encanto da mulher que estava debaixo dele. Afastou várias mechas frouxas de cabelos dourados de seu ombro. Eram como seda âmbar. Ele esfregou os fios sensualmente entre seus calosos dedos.

Erguendo seus olhos, notou que tinha uma terrível contusão sobre a testa, seus tons violetas se destacavam completamente contra sua pele cor de creme. Selik não pôde evitar tocá-la com cuidado com seu indicador, e seus lábios cheios, como pétalas de rosas esmagadas, separaram-se inconscientemente com um suspiro sufocado de dor, mostrando extraordinários dentes brancos.

Os olhos de mel escuro da moça sustentaram seu olhar, interrogando-o silenciosamente, provavelmente se perguntando o que ele faria depois, e durante uns longos momentos Selik não pôde evitar olhá-la fixamente cheio de desejo. O enorme vazio dentro dele de repente estava cheio e quente. Quando havia se sentido assim? Astrid, pensou imediatamente e se repreendeu com menosprezo outra vez.

De repente, Selik viu a insensatez de seu ato. Comportava-se como um louco que se demorava com uma moça enquanto os cães sabujos saxões lhe pisavam os calcanhares. Tirou a adaga de seu cinturão e segurou o gume da navalha contra o pescoço dela.

— O que faz aqui, moça?

— O que me deixa fazer? Não posso me mover — resmungou ela.

— Deliberadamente confunde minhas palavras? Deve tomar sua situação mais seriamente. — Ele pressionou a lâmina brilhante de modo mais apertado e desenhou uma fina linha de sangue como um chuvisco de vinho na neve recém caída. — Sua vida desprezível não significa nada.

—Ah, realmente! Não acha que é um pouco dramático?— disse a bruxa tola com indiferença, como se não lhe temesse. — Além disso, seria menos asqueroso se não cortasse minha jugular. Eu sugeriria aqui, no rim, ou aqui, no diafragma.

Ela indicou dois lugares em seu corpo que Selik sabia que lhe trariam a morte imediata, assim como o grande ponto de bombeamento de sangue no seu pescoço. Como uma simples mulher sabia de tais coisas? E o que era um diafragma?

Rain viu a confusão no rosto de Selik.

Uma voz se repetia em sua cabeça, salve-o

Surpreendentemente sem medo então, olhou para o endurecido guerreiro que estava sobre ela.

— Realmente me mataria, Selik?

—Rapidamente.

—Não acho que você faria isso — afirmou Rain com mais confiança do que sentia. — E além disso, mesmo que aja como um urso, não tenho medo de você.

— Então te garanto que é realmente tola.

Rain se encolheu, tentando não fazer caso das palavras que se continuavam se repetindo em sua cabeça, Salve-o, Salve-o, Salve-o,…

Selik franziu o cenho, parecendo desnorteado ante seu corajoso semblante. Podia o idiota não ouvir o tiritar de seus dentes?

— Como sabe meu nome? Por que estava em Brunanburh?

— Não tenho certeza — admitiu Rain hesitante. —Acho... Acho que Deus me enviou.

Selik arfou alto, incrédulo.

— Por que Deus faria isso?

— Para te salvar— propôs Rain de maneira débil.

— Eu? Deus não se preocupa em nada comigo — ele a inspecionou com os olhos apertados enquanto embainhava sua faca, logo lhe perguntou a contragosto, como se não pudesse acreditar nas palavras. —Me salvar de quê?

— De você mesmo.

Selik levou as mãos à cabeça com incredulidade. Ainda ajoelhado sobre ela, jogou a cabeça para trás e gargalhou.

Rain sabia que Selik não acreditava. Quem o faria, dadas as circunstâncias? Ela baixou seus cílios rapidamente para ocultar sua decepção, então esperou pacientemente que Selik se recuperasse de seu ataque de risos.

Finalmente, ele limpou os olhos e sacudiu a cabeça maravilhado ante a arrogância de suas reivindicações.

— Isto é demais! Essa moça se declara meu anjo da guarda. Doce Freya! A batalha de hoje deve ter transtornado minha mente. Talvez bateram na cabeça da moça também — ele olhou de forma significativa o hematoma na testa dela.

Ele mal sabia que ela havia se transportado mil anos para aquele lugar desde um museu Viking. Ou aquilo tinha sido essa manhã? perguntou-se Rain franzindo o cenho.

Selik continuou rindo em silêncio.

Rain estalou a língua, irritada agora pelo prolongamento de sua zombaria. Meu deus!! Suas palavras não eram engraçadas.

Mas Rain realmente não estava irritada. Apesar do perigo pela perseguição dos saxões e as ameaças de Selik, seu inquieto espírito estava tranqüilo, e ela sentia uma estranha paz, que tinha muito a ver com aquele desumano viking, como se finalmente tivesse encontrado seu lugar na vida.

E, além disso, racionalizou ela, Selik tinha passado por um inferno inteiro aquele dia... e provavelmente vivia assim há vários anos. As cicatrizes e as mal curadas fraturas e seus olhos vazios mostravam isso. Não importava quanto ela odiasse sua brutalidade, Rain não podia deixar de admirar Selik, aquele homem, que era como um animal ferido com um pedigree fino que tinha sido maltratado, mas que ainda conservava sua beleza inata.

Salve-o.

Rain quase gemeu em voz alta ante a persistente voz interior. Como poderia alguma vez ser capaz de penetrar o completo vazio que existia no fundo de seus solitários olhos? Ele lhe deixaria alcançar aquela meta?

— Minha mãe tinha razão sobre você — sussurrou Rain com voz rouca, ainda presa à terra pelo corpo dele.

Selik levantou uma sobrancelha.

— Você é magnífico.

Selik arfou de maneira grosseira.

— Isso não importa. E não se atreva a tentar empenhar seus desprezíveis encantos sobre mim. Não funcionará. No mínimo, perdi qualquer beleza já faz vários anos — então ele hesitou, como se considerasse algo. — Mencionou sua mãe. A conheço?

— Sim. Seu nome era Ruby... Ruby Jordan... antes de se casar.

— Argh! — Selik se levantou de um salto deixando Rain no chão.

Então ele a puxou até deixá-la em pé, notando algo pela primeira vez. Seus olhos se estreitaram com desconfiança, apontou o broche que brilhava em sua gola e perguntou:

— Onde furtou isso?

— Minha mãe me deu.

— Isso é impossível — ele pôs uma mão sobre o rosto e o tocou, obviamente preocupado. — Nem pensar, não de Ruby. Não pode ser sua filha. Ou de Thork.

Ele a olhou no rosto fixamente, procurando então quaisquer semelhanças, que Rain sabia que reconheceria tão logo as visse. De repente, Selik pareceu recordar algo. Antes de ela ter alguma possibilidade de reagir, ele tomou sua blusa pelas lapelas e a rasgou, ignorando os rasgões ou os botões que arrebentou.

— Como se atreve? — fuzilou Rain e tentou inutilmente manter as bordas da camisa unidas. Selik bateu em suas mãos para afastá-las.

Ele olhou fixamente seus seios com incredulidade, mas não com luxúria.

— Pelo amor de Freya! Usa as estranhas roupas íntimas de Ruby. Roupas íntimas, sutiã, ela a chamou.

— Esse não é o sutiã de minha mãe — Rain se abraçou e fechou sua mandíbula insolentemente, logo exigiu saber —Como viu alguma vez as roupas íntimas de minha mãe?

— Hah! Cada homem que esteve no tribunal do Rei Sigtrygg viu essas roupas escandalosas quando tirou a couraça de cobre do traidor Brass Balls. Ela até entrou no negócio fabricando roupas leves enquanto viveu entre nós.

Cristo! Selik repetia a mesma ridícula história que sua mãe tinha contado durante anos. E ninguém tinha acreditado em Ruby, inclusive ela mesma. Talvez isso não fosse um sonho, afinal de contas. Rain tapou a boca com ambas as mãos, horrorizada.

Ah, meu Deus! Realmente as viagens no tempo eram possíveis?

— Escute, te asseguro que Ruby é minha mãe, e ela sempre dizia que Thork era meu pai — Rain decidiu não lhe dizer, ao menos não agora, que sua mãe também dizia que Jack Jordan também era seu pai. — Posso te dar todas as explicações que quiser, mas não acha que deveríamos escapar daqui primeiro? Se os saxões nos capturarem, não lhes importarão quem sou.

Selik maneou a cabeça a contragosto e assobiou entre dentes. O cavalo veio andando até ele como um cisne doente de amor. Como Selik fazia isso? Provavelmente era uma fêmea, decidiu Rain com aversão, perguntando-se se teria o mesmo efeito sobre as mulheres em geral.

Selik pôs sua mão esquerda sobre a sela e saltou sobre o cavalo, então olhou para ela inexpressivamente enquanto ela tentava reparar os estragos de sua blusa o melhor que podia e fazia uma nova trança nos cabelos.

— Te levarei comigo, por hora, mas preste atenção, moça— disse finalmente — se brincar comigo ou der um passo em falso, não hesitarei em te matar — então se abaixou e a segurou por um cotovelo. Com um rude movimento, ele a levantou em seus braços, como se ela não pesasse nada, e a colocou comodamente em seu colo.

Rain esfregou o cotovelo desgostosa, mas decidiu não brincar com sua sorte se queixando. Vaca sagrada! Além de sua desnecessária brutalidade, Rain se impressionou por Selik poder levantá-la tão facilmente. Ela não podia recordar a última vez que alguém a tinha levantado. Ela era muito alta. Ou não era?

— E não meneie seu traseiro como fez antes — ordenou Selik insolentemente quando o cavalo começou a mover-se. — Suas indecentes brincadeiras não lhe farão ganhar nada. Mesmo se eu tivesse tempo, não teria ciúmes de alguém como você.

Rain não pôde permanecer calada dessa vez.

— Sua arrogância me revolta. Não tenho nenhum interesse, mas nenhum interesse mesmo em fazer amor com você.

— Hah! O amor não tem nada a ver com sexo. Quando um homem sente a necessidade de aliviar-se entre as pernas de uma mulher, é transa, pura e simples. A maioria das vezes é mais simples fazer sozinho…

O lábio superior de Rain se levantou com aversão, e olhou para o céu.

— Tenho pena de você se vê o ato de fazer amor como uma função fisiológica.

— Na verdade, no máximo é como urinar — persistiu ele.

Rain percebeu uma nota de humor na voz de Selik e se voltou para olhá-lo. Seu rosto sem expressão não lhe dizia nada, mas um leve puxão em seus lábios traía um sorriso mal reprimido.

— Humph! Bem, certamente é um homem totalmente diferente do que minha mãe descreveu. Posso ouvi-la dizendo que tinha reputação de ser um grande amante.

— Que tolice! Bom, talvez — admitiu ele pensando bem —Realmente eu tive certo prestígio como amante uma vez, mas isso foi há muito —ele deu de ombros. — Já não me importa.

Apesar de tudo, Rain riu tolamente.

— Não tem nem idéia do quanto essa conversa é estranha para mim. Com minha lista de fracassos nas relações sexuais, não sou ninguém para criticar outra pessoa.

— O que significa isso? Lista de fracassos? Não tem companheiro ou marido?

— Não sou casada.

— Aaah.

— O que significa isso?

— Isso significa que agora entendo. É uma mulher solteira que transa com homens.

— Pare, machista. Não faça nenhum julgamento imprudente. Não sou promíscua, se isso é o que quer dizer.

— Não disse nada. Você é quem fala de transas ruins com homens com quem não está casada.

— Quero que pare de usar essa palavra feia.

— Que palavra?

—Transa. Transar é para animais. Se não pode se referir a isso como fazer amor, ao menos chame de sexo.

Selik riu outra vez, profundo e gutural, e o som ondulou melodiosamente nos ouvidos de Rain.

— Com quantos homens fez sexo? — perguntou-lhe com um sorrisinho, seus braços se apertaram ao redor dela imperceptivelmente como um casulo quente.

— Não é da sua conta — Rain retesou as costas com indignação.

— Acho que não teve nenhum homem, moça, com essa língua afiada. Nenhum homem arriscaria seu membro a ficar na beira de sua “lâmina de barbear”.

Rain levantou seu queixo indignada.

— Não ache que só porque sou alta nenhum homem me desejou alguma vez.

O bruto emitiu um pequeno som sufocado atrás de seu pescoço.

— Bom, agora que chamou minha atenção sobre isso, você é bem... grande. Na verdade, alguns homens se sentiriam persuadidos por sua magnitude...

Me diga algo novo sobre isso.

— Tão poucos foram os homens que te desejaram?

Caramba! Ele tinha uma mente de uma só via. Ah, mas ela ia lhe fazer a diferença, decidiu Rain.

— Quando eu tinha dezoito anos, tive uma experiência sexual realmente ruim, só durou uma desafortunada noite. Nos doze anos seguintes, tive tão somente dois casos sérios de amor. Eles não acabaram muito bem.

Selik permaneceu calado durante vários momentos, considerando suas palavras.

— Então, você viu trinta invernos. Não acreditei que fosse tão velha.

— Não sou mais velha que você — replicou ela com veemência.

— Bem, então, ambos devemos ser velhos, doçura — concluiu ele com um sorriso suave. Ele pressionou a face dela contra seu peito, sinalizando o final da conversa, e destramente pôs o cavalo a um passo mais rápido.

Doçura! Rain se aconchegou mais perto e pôs seus braços ao redor de sua cintura para equilibrar-se. O cansaço a atacou. Aquele tema de viagem no tempo a tinha esgotado...

Antes de ela adormecer, de algum modo acreditou que Selik a protegeria de qualquer perigo, Rain se perguntou como poderia ser alguma vez capaz de salvar aquele selvagem escandinavo que se referia a fazer amor como transar, que matava homens tão facilmente como se pisasse em formigas, e que logo se mataria. Rain fez a promessa de ajudá-lo, Deus tinha decidido assim, e de algum modo, durante o processo, ela esperava recuperar sua própria vida também. Mas a pergunta era, estaria no passado ou no futuro?

Rain dormia placidamente até sentir que o cavalo subia por uma aguda inclinação. O caminho seguia por uma impenetrável selva e videiras, que Selik cortava quando era necessário com sua espada. Soldados ferozes, primitivos estavam passando o tempo silenciosamente ao longo do caminho, agitando-se e levantando-se quando reconheciam Selik, e logo foram seguindo seus passos imediatamente depois. Logo surgiu diante eles um acampamento no alto do topo da colina. Dali podiam ver várias milhas ao redor, obviamente era uma posição muito boa e vantajosa para descobrir qualquer inimigo que os perseguisse.

Rain se surpreendeu ao ver centenas de Vikings e seus aliados, incluindo escoceses e galeses, que tinham evitado a investida saxã. Muitos dos homens ainda usavam as roupas de batalha, enquanto outros se cobriam com peles de lobo e outros animais enquanto a fresca tarde de outono se aproximava. Só umas poucas mulheres estavam presentes, cozinhando sobre dispersos fogos acesos.

Algumas tendas tinham sido erguidas, mas a maior parte dos homens estavam deitados sobre a terra nua, descansando ou tratando as feridas. Ao menos ela poderia ser de alguma ajuda como médica.

Rain girou para oferecer suas habilidades médicas e notou o jeito orgulhoso, e arrogante dos ombros de Selik. Mesmo no meio de uma multidão, sua presença era irresistível, mas boas-vindas algumas de seus espancados companheiros saudaram Selik. Um ar de isolamento cercou seu solitário viking, como se fosse um pária de alguma espécie.

Selik desmontou e ajudou Rain a descer do cavalo. Um número de homens a olharam fixamente com curiosidade. Valha-me Deus, pelo aspecto geral, feroz e barbárico deles, tinha aterrissado em um refúgio de chefes militares no Século do Obscurantismo.

— Vá ajudar às mulheres — ordenou-lhe Selik de maneira cortante.

— Huh? Cozinhar? Eu?

— Meus ouvidos estão me enganando? Já está questionando minhas ordens? — assobiou Selik apertando os dentes.

— Não, é só que pensei que precisaria de minhas habilidades médicas.

— Vá para as brasas da cozinha — explodiu ele com uma voz sufocada. Alguns homens riram disimuladamente ante o interrogatório às suas ordens.

— Sou uma médica, pelo amor do céu — resmungou Rain irritada.

Selik agarrou sua trança e a puxou com força, puxando bruscamente suas costas para trás.

— Ai! O que fiz agora? — ela sacudiu de um puxão sua trança das mãos dele e ergueu insolentemente seus ombros, apesar do rosto tempestuoso dele.

— Sua língua provocadora desafia a razão, e te adverti a respeito de mascarar a verdade. Primeiro, reivindica ser meu anjo da guarda. Agora, uma curandeira. E depois o quê? A deusa Freya?

Rain fechou os olhos durante um momento e suspirou profundamente.

— Sou médica. Passei muitos anos estudando para ser uma doutora. Sou cirurgiã no Hospital da Sagrada Trindade.

Rain ouviu os sons de incredulidade e de risadas ao redor dela, mas Selik esfregou seu queixo e a olhou especulativamente.

— Uma médica!— queixou-se ele com uma sacudida resignada de sua cabeça. — Inferno maldito! Os deuses certamente mostraram seu descontentamento por mim vertendo essa praga feminina sobre mim nesse dia — antes de que ela pudesse protestar, ele a agarrou pelo pulso e a puxou para a tenda mais próxima, lhe exigindo —Me mostre.

Rain logo descobriu que as três tendas continham guerreiros feridos em uma classificação baseada na severidade de seus ferimentos. Ainda trazia sua mochila que continha um estojo de primeiro socorros, ela entrou na tenda onde se encontravam os mais penosamente feridos. Durante horas, trabalhou como uma autômata o melhor que podia, dados seus ferimentos e suas limitadas provisões, suturando feridas, tratando golpes, e tentando evitar a infecção em qualquer parte onde fosse possível.

A princípio, Selik montou guarda sobre ela, observando cada movimento. Ele a deteve quando tentou dar pílulas a vários homens, mas a deixou continuar quando lhe assegurou que só eram aspirina e Tylenol, analgésicos suaves, quase a mesma coisa que as ervas que seus próprios curandeiros usavam. Deu Darvon a alguns homens que necessitavam de um medicamento mais forte.

Quando terminou com todos os pacientes de sua tenda, Rain foi para fora e estendeu as costas para tirar os torcicolos. Sabia que só tinha tratado algumas das muitas vítimas. Ela ouvia gemidos ruidosos e gritos de outras tenda, onde só Deus sabia que tipo de médicos primitivos torturavam as necessitadas vítimas.

Selik estava sozinho, apoiado contra o tronco de uma árvore do outro lado da clareira, além de seus companheiros militares. Seus olhares se encontraram durante um segundo, e Rain se perguntou a respeito do que ele tinha estado pensando, ali ao ar gélido da noite.

Ele necessita de você, disse a voz interior.

Hah! Ele necessita de um bom tiro de pacifismo. Isso é do que ele necessita.

Então Selik a olhou com um ar inquisitivo, como se lhe perguntasse por que estava descansando quando tantos necessitavam de sua ajuda. Grosseiro!

Rain entrou de mau humor na tenda seguinte e olhou fixamente horrorizada um jovem que estava deitado sobre uma longa mesa, protestando audivelmente ante a contenção de vários homens que o mantinham preso. Rain não podia acreditar no que estava vendo. Então, a vítima girou seu rosto para ela, Rain gritou com horror. Era seu irmão Dave que estava sobre a mesa, e um açougueiro do Século do Obscurantismo tinha uma faca do tamanho da folha de um sabre, dispondo-se a lhe amputar a perna. O pior de tudo era o sangue contaminado de outros pacientes que cobria o instrumento do curandeiro e seu traje tradicional de clérigo, até sua tonsurada cabeça. Ao que parecia, tinha usado a faca várias vezes sem limpá-la ou desinfetá-la.

— Pare! — todo mundo que havia no quarto girou para olhá-la quando ela se atreveu. — Não se atreva a tocar meu irmão, açougueiro ultrajante — com uma força alimentada pelo bombardeio da adrenalina, Rain afastou o curandeiro, dando-se conta do problema médico imediatamente. A profunda ferida em cima do joelho era ruim, e provavelmente teria algum dano permanente no músculo, mas ela achou que seria capaz de lhe salvar a perna. Certamente, tinha perdido muito sangue, e ela não tinha plasma, mas valia a pena correr o risco. Não era certo?

— Não se preocupe, Dave, não deixarei que cortem sua perna.

O jovem ergueu seus olhos esperançosos e agarrou fortemente sua mão. Evitando relaxar seu aperto, ele tentou falar, mas ela lhe disse que economizasse suas forças. Certamente, esse não era Dave. Seu verdadeiro irmão mais velho tinha quarenta e dois anos e provavelmente estava jogando golfe agora, já que era sábado. Esse homem não podia ter mais de vinte. Ele devia ser um de seus meio-irmãos da Idade Viking dos quais sua mãe lhe tinha falado.

— Você é Eirik ou Tykir?

— Tykir — falou com voz áspera.

— Bem, Tykir, sou sua meio-irmã Rain, e não deixarei que cortem sua perna.

— Jura para mim? — perguntou ele, ainda agarrando sua mão.

— Prometo fazer todo o possível para salvar sua perna.

Ouvindo uma rajada de ruídos atrás dela, Rain girou para ver Selik furioso, seus olhos ardiam com veemência. Ele estava em pé na entrada da tenda, ao lado do curandeiro e dos homens que tinham estado prendende Tykir.

— Que tipo de problema está causando agora? — grunhiu ele, dirigindo-se para ela, obviamente tinha a intenção de levá-la da tenda. Rain manteve sua postura corajosamente, seus braços abertos de maneira protetora diante de sua recém descoberta família.

Rain tremia pela cólera e o medo, mas sabia que tinha que falar rapidamente.

— Eles o matarão se lhe amputarem a perna, sobretudo com essa lâmina suja. Não deixarei que façam isso a meu irmão.

— Irmão? Que tolices está soltando agora?

— Tykir. Eles querem amputar sua…

Com um forte golpe, Selik jogou Rain no chão. O curandeiro riu disimuladamente com a satisfação de ficar por cima dela.

Selik se inclinou ante o paciente com preocupação.

— Tykir? Ah, por tudo quanto é sagrado, rapaz, eu não sabia que estava na batalha. Pensei que estava seguro na Noruega com seu Tio Haakon. Maldito Ubbi por desobedecer minhas ordens.

— Não culpe Ubbi —sussurrou Tykir. — Foi idéia minha.

Rain ficou em pé e limpou a parte traseira das calças. Fascinada, olhou o feroz Viking acariciar o rosto de Tykir com notável suavidade. Essa era a maior demonstração de compaixão que tinha visto no frio escandinavo até então. Talvez houvesse esperança para ele, afinal de contas.

— Deixe a mulher me curar — suplicou Tykir, elevando-se sobre seus cotovelos. — Não me diga que não, Selik. Prefiro brincar com a morte com a moça a perder um membro. Por meu pai, me conceda este favor.

Selik se voltou friamente para Rain.

— Realmente pode salvar sua perna?

— Acredito que sim... Se nos apressarmos. E contanto que obtenha toda a ajuda e materiais que precise — ela olhou de forma significativa o zangado curandeiro e os hostis homens.

Selik fez uma pausa, dividido entre o ultraje de seus companheiros e as urgentes exortações de Tykir. Ergueu uma mão para deter as zangadas sugestões dos homens.

— Calma! — bramou e deu a volta com decisão para Rain. —O que necessita?

Rain poderia ter beijado o obstinado cavaleiro por seu apoio, tão necessitado que era. Ela deixou de lado suas emoções, e exigiu:

— Muita água fervendo, agulhas, panos limpos. Ponham tudo na água para esterilizar; então ponham os panos em algum lugar para secá-los onde não toque nada infectado.

Ela deu ordens como um sargento de treinamento aos homens em torno dela, querendo a mesa esfregada a fundo e dúzias de tochas acesas para ter melhor visibilidade. Quando a mesa de operações estava preparada, tirou toda a roupa de Tykir, para vergonha deste e consternação do clérigo, que proclamou de mau humor:

— Isto é impróprio para uma mulher.

— Escute, irmãozinho, o que tem ou não abaixo da cintura é de pouca importância aqui. Quer salvar a perna, não é?

Ele aquiesceu fracamente.

Rain acariciou sua cabeça de modo tranqüilizador. Senhor, era só um jovem. Deveria estar desfrutando da vida, não lutando em uma guerra inútil. Ela suspirou com cansada resignação. No décimo século ou na vida de nossos dias, algumas coisas nunca mudavam. Uma guerra sem sentido depois de outra.

Rain decidiu não tirar o torniquete da ferida até o momento antes da cirurgia, mas examinou a ferida mais de perto para determinar a profundidade do corte. O dano do músculo poderia não ser muito ruim, mas algumas veias tinham que ser unidas de novo o quanto antes para conseguir o fornecimento de sangue outra vez antes que a perna atrofiasse. Aquilo levaria horas na melhor das circunstâncias. Como Tykir poderia suportar a prolongada dor?

Rain revolveu seu estojo médico de primeiros socorros. Com certeza, ela não tinha nenhum tipo de anestésico. E os calmantes mais fortes que tinha era Darvon e Codeína, e só tinha uns poucos daqueles. Melhor usá-los depois da cirurgia. Poderia acreditar que o álcool embotaria os sentidos de Tykir? Cristo! Ela mataria seu irmão só ao sondar em volta daquela horrenda ferida.

Mas havia outro caminho, compreendeu Rain de repente. Ela teria a coragem de tentar?

O Doutor Chin Lee, um colega de hospital, ensinara acupuntura durante os anos passados como uma alternativa aos analgésicos e anestésicos tradicionais, mas ela nunca tentara o procedimento sozinha. Inalou profundamente e tomou uma decisão.

— Selik, pode me encontrar algumas agulhas longas com as pontas muito afiadas?

Ele assentiu.

— Traga tantas quanto possa encontrar, e se assegure de pô-las na água fervendo, também — ele a olhou com o cenho franzido por seu tom ditatorial, mas teve a gentileza de esperar até mais tarde para repreendê-la. Quando tudo estava preparado, ela exigiu — Todo mundo para fora dessa tenda.

— Não. Ficaremos para testemunhar suas atrocidades — protestou o curandeiro.

— O rapaz terá que ser segurado — debateu um homem.

— Talvez ela pratique bruxaria — dispôs outro...

— Selik — suplicou Rain — se tudo for bem, Tykir não terá que ser segurado.

— Hah! estará morto — declarou estridentemente o curandeiro, e outros afirmaram sua acusação com muitas queixas.

Selik considerou suas palavras, logo tomou uma decisão:

— o Padre Cedric e eu permaneceremos para testemunhar seu trabalho. Outros ficarão fora da tenda no caso de serem necessários.

— Bem, então, ambos têm que lavar as mãos.

— A moça exige demais — choramingou o Padre Cedric.

— Selik, meu irmão corre mais perigo pela infecção que pela ferida em si mesma. A sujeira e o sangue infectado levam bactérias, uma assassina mortal em feridas abertas.

A princípio, Selik a olhou irada e obstinadamente, mas então ele contemplou o rosto suplicante de Tykir. E disse ao curandeiro em caráter definitivo:

— Faremos como a moça diz por hora.

Abandonaram a tenda para lavar bem as mãos, murmurando maldições quando ela acrescentou que deviam lavar sob as unhas também. Rain se voltou para Tykir, que mal estava consciente.

— Carinho, vou fazer algumas coisas para diminuir a dor. Se sentirá melhor em seguida, e até não deverá ser capaz de notar quando sondar sua ferida para reparar o dano. Confia em mim?

— Preciso confiar em você — disse ele de modo incerto.

— Há uma coisa, Tykir... o modo que pararei a dor envolve agulhas cravadas em sua pele em ao menos dez lugares diferentes.

Seus olhos se arregalaram, mas então ele esboçou uma débil risada, cheia de dor, e riu em silêncio.

— Melhor me espetar antes de Selik voltar, a não ser que que queira que ele arranque sua pele a tiras. Ele tem uma temível aversão às agulhas.

Agradecendo a Deus sua memória quase fotográfica, Rain mentalmente repassou as lições do Doutor Lee sobre a antiga medicina chinesa. Imaginou os meridianos que dividiam o corpo humano e os trezentos e sessenta e cinco “fronteriras” ou pontos de alfinetadas onde os meridianos supostamente surgiam à superfície. Mesmo o Doutor Lee, com toda sua mestria, não tinha certeza de como trabalhar a acupuntura como anestésico natural, mas afirmava que quando uma agulha era inserida com precisão no ponto correto isso enviava uma mensagem ao cérebro que liberava opiáceos naturais, como endorfinas e enquefalinas, para mascarar a dor.

Tykir estava assustado mortalmente, mas o rapaz valente apenas pressionou seus lábios fortemente e fechou os olhos quando ela introduziu várias das longas agulhas em diferentes partes de seu corpo, incluisive sua cabeça. Então ele elevou os olhos maravilhado.

— É um milagre. Não sinto nenhuma dor.

Rain fechou os olhos durante um segundo. Obrigado, Deus!

— Não! — Selik e o curandeiro gritaram quando ambos entraram na loja e viram o que ela tinha feito com as agulhas. A princípio, Selik se contorceu de um lado para outro, seu enorme corpo ameaçava cair desmaiado ao ver as agulhas. Então ele a levantou, suavemente sussurrando várias obscenas torturas que lhe infligiria por fazer mal a seu amigo ferido, mas Tykir falou fracamente — Incrível, Selik, as agulhas matam a ofensiva dor. Dei minha permissão para fazer assim.

Selik olhou Tykir com receio e finalmente disse ao balbuciante curandeiro,

— Feche a boca, homem, ou vá embora.

A operação levou horas, com um pálido Selik segurando a lupa que ela tinha comprado àquela manhã cedo para examinar o quadro do museu.

Fora realmente naquela manhã, ou há uma vida?

Apesar da acupuntura, Tykir compasivamente desmaiou no meio do procedimento. Ao final, os dedos de Rain tremiam de tensão e de esgotamento quando completou as suturas finais, enfaixou a perna, e lhe pôs as talas.

Sacudindo a cabeça, o Padre Cedric abandonou a tenda, resmungado:

— Bruxa! Feto do Diabo! Magia Negra!

Mas Selik só a olhou firmemente, profundamente abstraído em seus pensamentos, quando ela recolheu suas parcas provisões. Ele deu um passo fora e falou com alguém, logo voltou e a ajudou. Finalmente, ele a afastou relutantemente do lado de Tykir, lhe assegurando que um homem faria guarda durante a noite e a chamaria se houvesse qualquer mudança. Conduziu-a a uma pequena tenda próxima e a empurrou a seu interior.

— É o melhor que pude fazer — desculpou-se ele, lhe indicando as peles que estavam sobre a terra e a bacia com água para se lavar. Um cálice de água e um prato de madeira com um pedaço de pão e várias fatias de carne assada ao fogo que estavam sobre um pequeno tamborete. A consideração de Selik a surpreendeu. Ela se voltou para lhe agradecer mas ele já partira.

 

Depois engolir avidamente a desagradável comida sem gosto e beber toda a água fresca, Rain tirou a roupa e se lavou rapidamente o melhor que pôde com a escassa provisão de água. O que não daria por um desodorante!

Voltou a pôr as calças e olhou sua blusa suja e rasgada com desagrado. Então viu a grande mancha marrom-avermelhada sobre as costas da blusa.

Sangue! Como podia ser? Tocou-se, examinando em torno de si e sentiu sua pele. Não havia corte algum ali. E não podia ser o sangue de Tykir em suas costas. Então a compreensão se abateu sobre ela quando lembrou que a espada do saxão tinha cortado a armadura de Selik. A viagem se sacudindo sobre o cavalo devia ter aberto a ferida, e aquele estúpido viking não tinha a sensatez de reclamar.

O maldito Selik ia ser bem mais difícil do que tinha pensado. Rain vestiu de novo a blusa e saiu com seu estojo médico de primeiros-socorros, andando atrevidamente diante os guardas vigilantes e passou sobre guerreiros adormecidos quando ia até a tenda de Selik. Ele tinha tirado a couraça e as botas de couro. Estava em pé, descalço, vestido com uma túnica que lhe chegava à altura das coxas, e bebia profundamente de um grande cálice. Ante o som da respiração sufocada de Rain, Selik girou a cabeça e a olhou por cima do ombro. Seus olhos sonolentos fixaram os dela com uma carícia interrogativa durante longos segundos até que perguntou com voz divertida:

— A que devo esta honra? Por acaso me traz uma mensagem divina?

Rain engoliu em seco ao ver a audácia com que os olhos de Selik a percorriam. Senhor, o quanto aquele homem era incrivelmente bonito! Até seus pés eram bonitos, altos, arqueados e muito alinhados. Embora sua túnica cobrisse uma boa parte de seu corpo, os olhos de Rain se fixaram na estreita cintura, nos quadris, nos amplos ombros, e nos músculos desenvolvidos em todos os lugares.

Ela tomou nota mental para continuar precavida. Para uma mulher de um metro oitenta, um homem de mais de dois metros parecia terrivelmente delicioso. Sacudiu a cabeça para desanuviar os sentidos, e ruborizou ao ver o sorriso convencido que havia no rosto de Selik quando ele se voltou.

— Mudou de idéia quanto a fazer sexo? — perguntou com um sorriso zombeteiro um pouco torto, com uma risada que não alcançou seus olhos.

— Ah! — ofegou ela, enquanto seu sangue começava a ferver a fogo lento. — Não, bode rude. Vim por causa do sangue. Seu sangue. — ela deu a volta e lhe mostrou as costas de sua blusa. — Por que não me disse nada sobre sua ferida?

Ele deu deu de ombros.

— Não tinha importância... O curandeiro pode tratar minha insignificante ferida amanhã.

— Ele não vai fazer! — declarou Rain veementemente. — Não deixaria aquele açougueiro perto de você. Agora tire a túnica.

Selik arqueou uma sobrancelha ante seu tom protetor, mas andou até ela com graça lenta, sensual, erguendo a túnica sobre a cabeça quando se aproximou. Usava apenas um pedaço de tecido embaixo.

Rain mordeu o lábio inferior para conter uma exclamação ante a magnificência de seu magro corpo. Então olhou a profunda punhalada de vinte e cinco centímetros que percorria seu abdômen e o repreendeu bruscamente:

— Perdeu a razão? Um ferimento como esse é sério. Precisa de limpeza, anti-séptico, e ao menos cinqüenta pontos.

— Não se atreva a pensar em por aquelas longas agulhas em minha cabeça ou qualquer outra parte de meu corpo — advertiu-a Selik e começou a retroceder. — Nunca permitiria algo semelhante.

Rain riu suavemente.

— Então, o grande e valente guerreiro teme uma pequena agulha? Não se preocupe. Me deleitarei ao observar você se retorcer de dor, será um grande prazer para recompensar por ter me perseguido no bosque essa manhã.

Ela o empurrou em direção às peles de sua cama, e quando ele se deitou de costas, ajoelhou-se ao seu lado. Trabalhando rapidamente, logo suturou a ferida e enfaixou-a com panos limpos. Ele não articulou nenhum gemido de dor, somente olhava cada movimento como se tentasse resolver um quebra-cabeças em sua mente. Recusou sua oferta de um analgésico, alegando que outros precisavam mais.

Quando ela terminou, Selik sorriu aberta e lupinamente e em um movimento rápido a derrubou e a colocou ao seu lado.

— Talvez deva dormir aqui esta noite.

— Esqueça. Lhe disse antes que não faria sexo com você. Além disso, não está em condições de ter relações sexuais.

— Hah! Me deixe decidir sobre essa condição em particular. Já esqueceu que seus ossos frágeis não estimulam como parceira sexual?

— Ah.

— Agora, feche a boca, assim como os olhos, e durma, doce Água de Neve.

— Água de Neve? — ela se eriçou indignada. — Meu nome é Rain. E não gosto que ria de mim.

— Para mim Rain não é um nome que combina com você. Fala de suavidade, mansidão, de renascimento da primavera, e a esperança de...

Rain soltou um longo suspiro ante as profundas palavras de Selik. Realmente, não era por isso que tinha sido enviada àquele feroz guerreiro, para devolver a suavidade à sua dura vida, lhe mostrar que até a alma mais negra podia renascer outra vez, e sobretudo, que a esperança poderia ser uma primavera eterna?

O longo silêncio de Selik dizia muito. Rain sabia que analisava cuidadosamente seus pensamentos, mas então ele falou

— Na verdade Lama seria um nome melhor para você. A Lama é cinza e pesada, facilmente pode ser empurrada para um lado, diferente de você, enquanto a chuva vem rapidamente, sem advertência prévia açoitando a pele de um homem antes que ele possa se proteger de sua espetada, freqüentemente causando estragos em seu rastro. Sim, com certeza te chamarei de Lama. Ou Nevisco

— Ah, você é impossível — Rain mudou de posição fazendo exagerados esforços para ficar confortável. Selik estendeu a mão e a imobilizou sobre as peles com um braço abandonado sobre seus seios e sua perna direita sobre as coxas dela.

— Saia de cima de mim.

— Não, poderia fugir.

— Fugir ?Para onde iria?

— Sua reputação como curandeira sem dúvida se estenderá como a Fogueira de Santo Antonio. Os saxões colocarão sua cabeça a prêmio, tal como a minha, mas eles vão te querer viva. Os bons curandeiros não têm preço, sobretudo ante o tribunal saxão.

Rain sentiu um onda de prazer ante o óbvio elogio de Selik às suas habilidades médicas.

— Bem, se vou dormir aqui, ao menos tire seu corpo de cima do meu.

Rindo, Selik tirou seu braço e a perna. Rain girou suas costas para ele e ajeitou seu corpo em uma posição mais confortável. Ela sentiu um abatimento meditativo ante o calmo comportamento de Selik.

— Algo está te acontecendo?

— Sim, hoje me enganei terrivelmente. Tantos homens... tantos amigos... mortos, hoje, sem um enterro apropriado, nem os últimos rituais da igreja cristã, nem o ritual nórdico do fogo para começar a viagem ao Valhalla. Um homem deveria proteger aqueles sob sua proteção. Hoje eu falhei.

— Pode ver o quanto as guerras são inúteis para ambos os lados? Como todas as guerras, quando terminam, as vidas perdidas não servem para nada.

— A guerra não acabou para mim. Continuarei matando cada saxão que cruze meu caminho até que finalmente eu esteja vingado... ou no Valhalla.

— Ah, Selik — sussurrou Rain, seu coração estremeceu ante sua dor e sua inútil busca por vingança.

Houve uns instantes de silêncio, logo Selik falou.

— Já é o bastante, sobre mim. Me conte algo mais a respeito de sua lista de fracassos, Nevisco.

— Anh?

— Seus fracassos sexuais.

— Ah, não há nada realmente para contar. É só que eu posso fazer ou não fazer sexo, é isso — Rain franziu o cenho. Por Deus!! Por que estava revelando a um praticamente desconhecido algo tão íntimo? Mas Selik não era um estranho, compreendeu; sentia como se o conhecesse por toda a vida. Também, falando sobre ela, talvez pudesse afastar o tormento da mente de Selik.

— Pelo sangue de Thor! É uma idiota.

— Você perguntou — disse ela na defensiva.

— Quando foi a última vez que teve um homem entre suas coxas?

— Você também é um pouco idiota, senhor — riu Rain, logo pensou durante um momento. — Dois anos.

— Mesmo? Me custa acreditar, mas os jogos sexuais realmente causam repulsa em algumas mulheres. De alguma maneira, embora acho que é mais apaixonada que isso. Talvez não teve um homem com as habilidades apropriadas.

— Ah, por favor, economize o ego masculino. Não é que eu não goste de sexo, e posso chegar ao orgasmo como qualquer mulher. Afinal de contas, há cinqüenta e sete pontos eróticos sobre o corpo de uma mulher. Se um homem não pode encontrar ao menos um deles, precisa de uma lanterna e um manual de sexualidade.

Vaca Santa! Realmente ela dissera todas aquelas coisas? O cansaço e o sono deviam ter deixado sua língua ou sua mente frouxas. Ela esperava que Selik apreciasse seus esforços para afastar da mente dele as preocupações mais sérias.

Selik sufocou com o riso.

— Só cinqüenta e sete? — perguntou secamente. — E os homens tem os mesmos, ou mais?

Rain sabia que zombava dela. Bem, ela lhe demonstraria. Deu uma aula a ele com o melhor da Educação Sexual, uma aula clínica tirada diretamente da faculdade de medicina. Quando terminou, o peito de Selik sacudia-se de riso.

— Muito bem! O que é tão engraçado?

— Conhece todos esses detalhes sobre a cópula entre um homem e uma mulher. Como um livro, não como uma mulher. Não, nunca se sentiu como uma verdadeira mulher nos braços de um homem, eu aposto. E ainda mais, não sabe o que quer de um homem.

— Hah! Vou te dizer uma coisa, Sr. Sabe-tudo. O melhor sexo que jamais tive não teve... não teve... bem, penetração — dando-se conta da imagem que estava evocando com sua língua frouxa, Rain praticamente sussurrou a última palavra.

Mas ele percebeu.

Com um sorrisinho surdo, ela acrescentou com falsa ostentação:

— É claro o suficiente para você?

— Parece que deliberadamente tenta me impressionar. Não sabe as coisas indecorosas que diz.

— Sim, eu sei. Quero dizer, não, não sei.

— Volta atrás agora, moça?

— Não! E não ache que não sei que está me induzindo a dizer coisas estúpidas.

— Está dizendo que eu faço com que diga mentiras?

Rain se eriçou.

— Que mentiras?

— As coisas que disse sobre penetração...

— Ah —gemeu Rain. Então bocejou com intensidade exagerada. — Estou farta dessa conversa. Acho que irei dormir.

— Isso é o que as mulheres fazem o tempo todo.

— O que?

— Fugir. Disfarçar. Tenta mascarar sua mentira quando foi pega em suas próprias armadilhas.

— Com certeza está fazendo de uma tempestade copo d’água. Disse a verdade. Muitas mulheres lhe dirão que o melhor sexo que tiveram foi quando eram adolescentes e se acariciavam durante horas e horas com seus namorados.

— Beijando-se?

Rain suspirou com auto-recriminação diante o buraco que ele tinha cavado para ela tão habilidosamente.

— Claro, beijando-se, cada rumo possível feito com inocência, profundamente, de maneira molhada, com a língua, já sabe, tudo surte efeito. Contrastando com a emoção que implica o toque, geralmente sobre as roupas, mas nunca com relações sexuais reais.

— Línguas? — Selik ofegou.

— Sim, beijos franceses.

— Francês? Hah! Um francês ultrajante desafia a reivindicar para si a invenção do beijo profundo? Os escandinavos beijam com língua anos antes deles.

Rain riu ante o orgulho dos homens, de todas as nacionalidades, não importava a linha do tempo na história.

Então Selik bufou com desagrado.

— E esses beijos durante horas as satisfazem mais que a cópula?

— Pode ser. Ah, em uma situação ideal, o sexo seria o resultado final. Mas, como disse, pergunte a qualquer mulher se preferiria ser seduzida com horas e horas de beijos, ou preferiria uma sessão de zás! te pego e te mato — Selik não disse nada, e Rain compreendeu que estivera divagando. Provavelmente o tinha aborrecido demais. Ou o tinha alarmado tanto que ficara mudo.

— Está dormindo?

Ele permaneceu calado durante muito tempo antes de responder com voz suave:

— Não.

— O que está fazendo?

Ele riu de maneira gutural.

— Dando prazer a mim mesmo.

Rain ofegou ante sua vulgaridade e deu a volta para repreendê-lo quando viu à débil luz das tochas que ele estava de costas com os braços cruzados atrás da cabeça. Seus lábios estavam puxados num sorriso, e ele piscou um olho, malicioso.

O bruto estava brincando! Lhe deu as costas, mau-humorada.

— Rain?

— O que é?

— O que é um orgasmo?

Rain sentiu seu rosto arder de vergonha, e evitou lhe responder. Além disso, provavelmente ele já sabia e somente queria continuar enchendo seu saco.

Selik ficou em pé e apagou a tocha, logo voltou a se deitar, puxando as peles sobre eles.

— Durma, doçura.

Doçura! O coração de Rain cantarolou ante um carinho tão terno. Ele provavelmente achava isso. Nevisco. Ah, ok.

Quando estava meio adormecida, ela disse, suavemente:

— Selik?

— Hmmm?

— Estou feliz que Deus tenha me enviado para te salvar.

Ela achou que o ouviu praguejar e dizer algo mais ou menos assim:

— Seu deus deve ter um estranho senso de humor — mas estava muito cansada para pedir que ele repetisse as palavras.

Rain despertou tarde na manhã seguinte, totalmente descansada e sozinha. Espreguiçou-se morososamente embaixo das quentes peles, perguntando-se onde estaria Selik.

De repente se deu conta de que tinha dormido profundamente durante a noite. Nenhum sonho. Nenhum pesadelo. Riu.

Bem, o que esperava, disse a si própria, arrependida. Estava vivendo dentro de seu pesadelo.

Tykir. A lembrança sacudiu Rain, e ela se levantou de um salto, frenética para verificar como estava seu paciente. Usando uma pequena tigela de água, lavou o rosto e enxaguou a boca. Sem um espelho, pôde apenas alisar as mechas frouxas de cabelo que tinham escapado da trança.

Seu meio-irmão estava onde o tinha deixado na noite anterior, o tinha vigiado um jovem soldado que respondeu a suas perguntas sobre o progresso do paciente durante a noite. Rain soltou um suspiro de alívio quando sentiu a pele de Tykir fresca ao toque. Não havia febre, graças a Deus. Seu pulso era fraco, mas regular, para estar se recuperando de uma cirurgia traumática, e os batimentos de seu coração eram fortes.

Enquanto ela abria suas ataduras, Tykir despertou bocejando.

— Estou vivo? Ou morto? Você é uma enviada dos deuses?

Rain riu suavemente.

— Está muito vivo, jovenzinho, e espero te manter assim. E embora Selik tenha se referido a mim como um anjo da guarda, sou uma simples mortal, como você.

Tykir tentou rir mas seus lábios palidos se comprimiram pela dor.

— Pegue — disse Rain tirando um pacote de Darvon. —Só tenho seis desses comprimidos, teremos que fazer com que dure o máximo que pudermos. Isto ajudará com a dor.

— Não, não preciso de nenhuma bolinha mágica para a dor.

— Tome — ordenou Rain severamente e empurrou a pílula em sua boca. Então o segurou até beber água de um cálice de madeira.

— Você é uma bruxa? Não lembro da furada em minha ferida ontem e não tenho nenhuma dor.

— Não, sou médica. Uma cirurgiã — respondeu Rain, examinando sua perna procurando uma possível infecção, logo substituiu as ataduras por outras de linho limpo.

— Sério? Nunca soube que uma mulher fizesse tal coisa. E as agulhas? Com certeza eram instrumentos de bruxaria.

— Não, é muito antigo, a acupuntura é uma ciência legítima realizada por médicos peritos. Devo admitir, que não é minha especialidade, mas não tive outra opção em seu caso.

Tykir franziu o cenho.

— Eu estava sonhando ou você disse que era minha irmã?

Rain deu os últimos retoques sobre a bandagem, logo se voltou rindo de sua formosa juventude.

— Sou sua meio-irmã, Thoraine Jordan. Mas me chamam de Rain para encurtar.

Tykir inclinou a cabeça confuso.

— Como pode ser?

— Temos o mesmo pai — explicou ela, cruzando os dedos ante a meia verdade. — Minha mãe era Ruby Jordan. Lembra dela?

Rain não podia acreditar que, depois de trinta anos não acreditando nas histórias da viagem no tempo de sua mãe, ela agora as aceitasse tão facilmente. Bem, que outra explicação poderia haver? Era uma viagem no tempo ou um maldito sonho muito vívido.

— Não! Isso é impossível — Tykir ficou inquieto e tentou se sentar no cama de armar, mas ela e o guarda conseguiram convencê-lo a voltar a se deitar. — É cruel de sua parte faltar à verdade — acusou-a Tykir fracamente.

— Ah, Tykir, eu não mentiria para você sobre algo assim.

As lágrimas turvaram os olhos de seu meio-irmão.

— Eu gostava de Ruby, mas partiu antes de eu ter a possibilidade de dizer isso a ela. Eu só tinha oito anos, então. Por que nos abandonou?

— Não teve opção. Forçaram-na a voltar para seu próprio mundo depois da... da morte de Thork... de nosso pai. Mas ela sabia que a amava, Tykir. Ela falava disso freqüentemente.

— Mas Ruby e meu pai se casaram apenas há doze anos. Como puderam ter uma filha de sua idade?

— Nem eu mesma entendo, mas acho que o tempo deve se mover mais rápido no futuro — Rain não tinha nenhuma outra explicação de por que trinta anos no futuro eram apenas doze no passado.

— Tem que me contar mais... mas, mais tarde... não agora — disse Tykir, pronunciando levemente mal as palavras. — Sua bolinha é realmente mágica. Sinto-me maravilhoso. Acho... — um suave ronco saiu de seus lábios, e Rain riu, apartando as mechas de cabelo loiro escuro de seu rosto com carinhoso cuidado.

Quando abandonou a tenda, deu-se conta de que mais homens tinham chegado durante a noite. Aproximadamente quinhentos soldados lotavam a planície, e faziam uma reunião de alguma espécie. No frente, meia dúzia de líderes dirigia a assembléia, cada um vestido tão obviamente que representavam seus diferentes países ou culturas. Rain estava muito longe para ouvir suas palavras, então andou até as cozinhas, onde um grupo de mulheres trabalhava febrilmente para preparar a comida.

Ela deu um passo até uma delas, onde uma enorme caldeira com guisado fervia, levando deliciosos aromas ao fresco ar matutino.

— O que está fazendo? — perguntou Rain à mulher mais próxima, uma mulher Viking de meia-idade com os cabelos loiros trançados e enrolados formando uma coroa em cima da cabeça. Sua túnica tinha aparência de babador de criança e a usava sobre um vestido pregueado e preso aos ombros com dois broches de cobre. Estava surpreendentemente limpa, considerando o seu redor.

A mulher saltou surpresa ante as palavras de Rain, deixou cair a concha de sopa e dirigiu um rápido olhar cauteloso à outra mulher mais jovem, vestida de modo similar, mas que usava tranças loiras que caiam até a cintura. Eram simpatizantes? Ou as mulheres daqueles combatentes?

— Meu nome é Rain Jordan.

— Sigrid, esposa de Cnut — disse a mulher mais velha hesitando, pôs a palma da mão no peito e indicando à mulher mais jovem disse — E esta é minha filha, Gunvor.

— Estou faminta — disse. — Podem me dar um pouco desse guisado?

A mulher mais velha lhe ofereceu uma tigela de madeira cheia de caldo grosso no qual flutuavam pedaços de carne com cebolas e cenouras. Rain tomou um gole com uma simples colher de madeira, experimentando, então fechou os olhos de êxtase, seu estômago estrondava com o conteúdo. Não tinha comido virtualmente nada há mais de vinte e quatro horas, e provavelmente a água de faxina teria lhe parecido com a arte culinária mais fina.

Gunvor a olhou fixamente boquiaberta.

— Realmente ontem à noite se deitou com o Proscrito? — ela estremecia visivelmente horrorizada ante tal pensamento.

— Anh?

Rain tinha pensado que a olhavam fixamente devido a sua altura, embora não se destacasse tanto entre mulheres mais altas que a média, ou devido a suas estranhas roupas, ou até devido a suas insólitas habilidades médicas. Mas, não, era sua relação com Selik o que as preocupava. O açougueiro, lembrou agora que também se referiram a Selik como o Proscrito, no dia anterior.

Rain franziu o cenho confusa, devolvendo sua tigela vazia a Sigrid. Mais mulheres se aproximaram para escutar disimuladamente sua conversa.

— Sim, dormi ao lado de Selik ontem à noite — admitiu Rain, evitando explicar mais.

— Ah, como pôde suportar que aquela besta te tocasse? — exclamou Gunvor. — Se diz que é tão furioso na cama como é na batalha.

— Furioso?

— Enlouquecido de luxúria.

Rain levantou uma sobrancelha duvidando. Ele certamente não estivera desesperado de paixão por ela.

— Só vê-lo já me revolta o estômago— acrescentou outra mulher com um estremecimento. — Como pode tolerar olhá-lo? É tão feio.

— Feio? Selik? — perguntou Rain incrédula. — Acho que falamos de homens diferentes. Selik é bruto e muito propenso a matar e guerrear, mas feio? Nunca! De fato, é provavelmente o homem mais atraente que jamais encontrei.

As mulheres deram um passo ligeiramente para longe dela, como se ela estivesse louca.

— As cicatrizes, o nariz quebrado, a crueldade de seus olhos, suas maneiras odiosas. Se diz até que não pode tolerar crianças em sua presença, e que as esmaga como insetos sob seus pés. Essas coisas não lhe nauseiam mesmo? — perguntou Gunvor com incredulidade.

Rain tentou imaginar Selik em sua mente. Sim, havia cicatrizes, montões delas, e um nariz imperfeito, mas aquilo não arruinava a totalidade de um homem com suas finas características, traços clássicos, seu corpo bem desenvolvido, musculoso. E a crueldade em seus olhos estava lá, mas aquelas mulheres não reconheciam que mascaravam uma dor mais profunda? Com certeza, ela nunca poderia amar um homem como Selik. Ele era muito vulgar, muito obstinado, muito bélico, mas ela tampouco podia negar sua inata beleza.

Ela começou simplemente a dizer isso àquelas tolas mulheres, mas Selik se aproximou, murmurando horríveis palavrões, e as mulheres se dispersaram como ratos assustados.

— Tinha que assustar as mulheres?

— Talento de mentes fracas — ele se queixou. Inclinando-se no caldeirão que cozinhava a fogo lento, cheirou profundamente, logo se serviu de uma tigela transbordante de guisado. Sentou-se ao lado dela sobre uma rocha grande e engoliu de uma vez o alimento, vorazmente, ignorando sua presença.

Sua fome a tocou de maneira que a surpreendeu. Embora usasse a mesma túnica manchada, Rain notou que se banhara e barbeara. Seus cabelos platinados brilhavam como fios de prata até as pontas. Analisando-o mais detidamente depois da dura apreciação das mulheres, Rain notou muitas cicatrizes, velhas e novas. Especialmente horripilante era uma velha cicatriz que ia do seu olho direito até seu queixo, uma pálida linha dentada em seu rosto profundamente bronzeado. E diante a pálida malha de cicatrizes em seu antebraço que formava a palavra “raiva”, Rain tremeu pensando que horrendos acontecimentos tinham incitado Selik a esculpir a palavra em sua própria pele. Ao menos, ela supôs que ele tinha feito.

— Mantenha seus errantes olhos longe de minha carne, Nevisco.

— O quê? — Rain se sacudiu com força devido a estar em apuros por ter sido pega examinando-o profundamente. — Eu admirava suas cicatrizes de batalha.

— Mentirosa — seus olhos empalaram os dela desdenhosamente então deu a volta com aversão. — Tenha cautela, moça, não estou com humor para te seguir da maneira habitual hoje. Vá embora e me deixe sozinho — ele usou os dedos de ambas as mãos para esfregar os olhos fatigadamente.

A dispensa brusca de Selik ofendeu Rain, mas persistiu de maneira tola.

— Como conseguiu essa cicatriz no rosto? Estava no meio de alguma absurda batalha onde matava a torto e a direito? Ou o marido de uma dessas mulheres com quem esteve foi atrás de você? Não, me deixe adivinhar. Com certeza tropeçou e caiu quando…

— Não moça, não foi nenhuma dessas opções — os gelados olhos cinzas de Selik fixaram os dela friamente, falando de horrores dos quais Rain de repente soube que não queria se inteirar. Ela ficou em pé para partir, mas Selik a empurrou rudemente a fazendo se sentar de novo na rocha. — Você perguntou, bruxa tola. Agora vai ficar e saber. Seu pai Thork e eu éramos ambos cavaleiros de Jomsviking. Quando Thork era um menino, seu irmão Eric — Eric Bloodaxe, assim o chamam — perseguia-o de forma sanguinária. Até lhe cortou o dedo mínimo da mão direita quando Thork tinha apenas cinco anos. Quando pôde, Thork escapou para se fazer um Jomsviking, o único caminho para poder evitar as ambições de seu desumano irmão.

— Selik, pare. Sinto muito. Não tinha a intenção de trazer à tona essa série de dolorosas lembranças.

Mas Selik continuou com sua explicação como se fosse um castigo.

— No fim de Jomsviking, a batalha antes da morte de seu pai, nosso inimigo Ivar — Ivar, o Vicioso — cortou os dedos restantes da mão de seu pai e chutou sua cabeça quando a espada o cortou de lado a lado. E isso, doce amante da paz, depois de cortar de um só golpe as cabeças de uma dúzia de nossos companheiros.

As lágrimas escorreram pelas faces de Rain. Ela não queria saber esses horríveis detalhes da vida de seu pai ou de Selik. Ela não queria sentir que havia qualquer justificativa para a violência em seus modos de vida. Não havia nenhuma desculpa para a luta, ou as guerras. Aquilo era no que sempre tinha acreditado. Ainda o fazia. Tinha que fazê-lo.

Os lábios de Selik se franziram cinicamente ante as variadas emoções que devia ter visto refletidas em seu rosto.

— Eu fui mais afortunado que ele naquele dia. Ivar tentou arrancar meus olhos e só teve êxito em me honrar com esta lembrança, — disse, tocando a longa cicatriz.

Rain estendeu sua mão tocando seu antebraço para consolá-lo, mas ele a evitou de maneira defensiva.

— Economize sua compaixão.

— Somente tento te entender e a esse estranho tempo no qual aterrissei, Selik. Sei que pareço estar te condenando, mas...

— Economize suas explicações, moça. Não me preocupo absolutamente com o que você ou qualquer outro pense de mim. Minha cabeça esteve a tábua de decapitação esse dia, e nunca temi a face da morte depois. Na verdade, dou as boas-vindas a ela.

— Sua cabeça estava sobre a tábua de decapitação? — Rain conseguiu dizer de maneira sufocada.

— Sim — uma risada cruel esticou seus lábios tristemente. — Quer ouvir como acaba a história? — quando Rain o olhou fixamente, horrorizada, Selik continuou morbidamente — Eu era bonito naquele tempo, tal como sua mãe disse, e orgulhoso como um galo. Quando me tocava , zombei de Ivar, lhe pedindo que segurassem meus cabelos durante a decapitação para não manchar os maravilhosos fios com o sangue de minha vida — ele passou os dedos sensualmente por seus longos cabelos, recordando.

— Selik, não quero me inteirar de nada mais. Pare.

Ele não fez caso de suas súplicas.

— A multidão que devia assistir a execução dos célebres cavaleiros de Jomsviking admiraram meu atrevimento e impulsionaram Ivar a conceder meu desejo. Ele chamou um nobre soldado, um de seus hesirs mais valente, para que ficasse na minha frente e segurasse meus cabelos em um rabo na frente, deixando apenas meu pescoço para a lâmina do carrasco. No último momento, me joguei para trás deliberadamente, e o machado cortou as mãos do hesir de Ivar.

Rain ofegou e apertou uma mão contra sua boca, horrorizada. Ouviu o eco da exclamação das mulheres atrás dela que se aproximaram para escutar as palavras de Selik. Selik não pareceu dar-se conta disso, tão perdido estava em seu horrendo sonho.

— Em vez de zangar-se, a multidão aclamou minha coragem e exigiu que Ivar perdoasse minha vida e as vidas dos cavaleiros do Jomsviking que restavam e que esperavam sua execução, inclusive seu pai — voltando ao presente, Selik ergueu o queixo com orgulho e escarneceu — Agora já conhece a história da minha cicatriz. Te faz feliz saber, Nevisco, que suas espinhosas palavras fazem com que minhas lembranças sangrem?

— Não, Selik, não fico feliz. Às vezes falo precipitadamente. Você parece fazer isso comigo — disse ela fatigadamente, então tocou a palavra “raiva” esculpida em seu robusto antebraço. — Por isso se mutilou com esta cicatriz?

Um profundo trovão, como o bramido de um urso enfurecido, começou no peito de Selik, subiu a sua garganta, e surgiu em sua boca como um rugido de cólera. Ele ficou em pé, e agarrou Rain pelos braços, levantando-a até que seus pés ficaram separados da terra e seus olhos ficaram ao mesmo nível dos dele, seus narizes virtualmente se tocando. Ela podia sentir o hálito dele contra seus lábios enquanto a levantava com fúria,

— Nunca, nunca volte a me perguntar sobre esta cicatriz. Se valoriza sua vida, feto tolo de Loki, não o faça, ou te juro que torcerei seu pescoço como o frango fraco que é — ele a sacudiu até que o cérebro dela estava virtualmente agitado. — Me entendeu, moça?

Rain não podia abrir sua boca que falava demais, mas maneou a cabeça num imperceptível assentimento.

— Amo, amo! — Selik paralisou quando a gritante saudação penetrou sua fúria.

— Inferno maldito! — amaldiçoou, deixando Rain cair no chão sem lhe dar atenção, dando a volta para confrontar um homem parecido com um gnomo que corria para eles parecendo um caranguejo sobre pernas inclinadas. Suas mãos nodosas e seus ombros inclinados indicavam sua condição de artrítico. Poderia ter não mais de quarenta anos, apesar de seu aspecto envelhecido.

— Agradeço aos deuses, por finalmente te alcançar, amo — disse o homem-duende ofegando quando alcançou Selik.

— Ubbi, que diabos faz aqui? Não te ordenei que ficasse em Jorvik?

Ub-bi, Ub-bee. Rain fez deslizar o estranho nome sobre sua língua silenciosamente.

— Mas, amo, me inteirei sobre batalha e pensei que poderiam precisar de mim.

— Não sou seu amo, Ubbi. Te disse isso infinitas vezes até hoje.

— Sim, amo. Eu sei, meu senhor. Ah, sabem minha condição, amo, — tropeçou. Selik gemeu e levantou os olhos fatigadamente aos céus. —Simplesmente o que eu precisava, um criado que nem quero nem preciso e um anjo da guarda.

Ubbi olhou pela primeira vez para Rain, e seus olhos se arregalaram de surpresa.

— Sério, amo, ela é um anjo da guarda?

Os olhos de Selik mostravam aborrecimento, mas cintilaram com rendida diversão, pegando Rain de surpresa.

— Sim, ela diz que seu Deus cristão a enviou para me salvar.

Os remelentos olhos de Ubbi passaram de Rain a Selik e voltaram para Rain.

— Do quê? — perguntou com receio, ao que parecia imaginando que uma mera mulher não seria de muita ajuda a Selik na batalha.

— De mim mesmo — respondeu Selik terminantemente.

Mas Ubbi surpreendeu a ambos movendo a cabeça com sabedoria e a frase feita:

— Já era tempo.

Selik ergueu ambas as mãos para o ar, como se perdesse as esperanças com eles dois. Então se voltou para Rain.

— Mostre a Ubbi minha tenda.

— E onde devo pôr Fury? — perguntou Ubbi envergonhado.

— Fury! Trouxe Fury aqui?

— Sim. Pensei que poderia precisar de seu cavalo.

— Fury! Naturalmente. Só você daria a um cavalo um nome tão mórbido — comentou Rain.

Selik a olhou depreciativamente e ao mesmo tempo desafiante.

— Vá cravar uma agulha no olho de alguém, preferivelmente de algum saxão.

— Não cravei uma agulha no olho de Tykir — afirmou ela na defensiva — mas eu gostaria de cravar uma no seu. E em outros lugares especiais. Já ouviu falar de uma vasectomia? — perguntou com inocência. Ante seu olhar atônito, Rain lhe explicou simplesmente o que uma vasectomia significava. Teve o prazer de ver o rosto de Selik pálido ante a idéia de agulhas cravando sua preciosa virilidade.

— Agulhas? Olho? —gritou Ubbi, girando a cabeça de Rain para Selik enquanto eles trocavam insultos.

— As fincou em toda parte, menos em seus olhos — acusou-a Selik.

— Ele está vivo, não é?

— Humph! Sem dúvida você agitou as asas de anjo sobre ele.

— O que acontece é que não pode admitir que uma simples mulher seja médica.

— Não seja ridícula.

— Ridícula! Ridícula! Hah! Te direi o que é ridículo. Vocês e todos esses outros guerreiros do Século do Obscurantismo — gritou ela, estendendo amplamente o braço para indicar os soldados maltratados que alagavam os enormes campos. — Pensa que a guerra e tirar vidas humanas solucionam seus problemas. Isso sim que é ridículo.

Ubbi, Sigrid, Gunvor, e todos os outros espectadores que se juntaram perto ficaram boquiabertos, incrédulos de que ela se atrevesse a gritar ao feroz cavaleiro proscrito, mas havia uma raridade suspeita nos cantos dos crispados lábios de Selik. Cristo! Ela tinha caído outra vez diretamente em uma de suas armadilhas. Rain se repreendeu indignada.

— Ah, me rendo — disse ela, baixando as mãos resignada. Girou, voltou à tenda de Selik e chamou o criado dele — Bem, não fique aí como um nabo, Ubbi. Vai vir?

— Eu? — gritou Ubbi boquiaberto.

Selik sorriu arrogantemente.

— Sim, você — grunhiu ela e agarrou seu braço com tanta força que quase levantou seu pequeno corpo da terra. — Vamos conversar sobre nomes ridículos. Quem alguma vez ouviu um nome como Ubbi?

— Não gosta de meu nome? — perguntou Ubbi fracamente, correndo para se manter ao seu lado apesar de seus longos passos.

— Parece com uma canção estúpida de Motown. Sua-abelha, doo-abelha, doo.

Ubbi riu alegremente ante as palavras suavemente cantadas por Rain.

— Ah, anjo, agradeça a Deus por ter te enviado para salvar a vida do amo. Só espero que faça o necessário para aliviar sua dura vida.

Depois de Ubbi cuidar do cavalo de Selik, Fury, um magnífico garanhão negro com um temperamento que combinava com o de seu dono, foram à tenda de Selik, onde Ubbi guardou seu triste e pequeno pacote de pertences.

Ubbi olhou de maneira óbvia as peles da cama.

— Achou as peles suaves para sua delicada pele, miladi?

Rain riu ante a clara curiosidade de Ubbi sobre se ela e seu amo tinham dormido juntos.

— Não, Ubbi, não fiz amor com Selik ontem à noite.

Ubbi bateu ruidosamente uma mão nodosa no peito.

— Ah, anjo, mil perdões. Sei que não fez companhia ao amo.

— Sabe?

— Sim, estaria de melhor humor, se ele tivesse se aliviado entre suas coxas — disse Ubbi sem pudor, com um brilho travesso cintilando em seus nublados olhos.

Rain riu e sacudiu a cabeça. Gostava desse ardiloso rapaz.

Andaram devagar pela clareira, onde grandes grupos de homens apressadamente juntavam suas armas, dispondo-se a partir. Os saxões deviam estar por perto.

— Aonde vão?

Ubbi deu de ombros. Maneou a cabeça na direção de um gigante de cabelos grisalhos que usava o que parecia um pedaço longo de tecido como manta de viagem caído sobre o ombro.

— Constantine e seus escoceses voltarão para o norte, sem dúvida, com seu sobrinho Eugenius e o galês Strathclyde — os dois guerreiros corpulentos em seu esplendor primitivo dispunham seus homens em filas. Os olhos de Constantine estavam vermelho e desesperados. Ubbi lhe disse que o rei escocês tinha perdido seu filho, o Príncipe Ceallagh, na batalha do dia anterior.

Então Ubbi indicou Anlaf Guthfrithsson, o rei Viking de Dublín, comandante de todos os Escandinavos na batalha de Brunanburh. Espantada, Rain não tinha percebido que estava entre tais personagens históricos.

Ela olhou para trás e viu Selik discutir com ferocidade com Anlaf. Ubbi seguiu seu olhar e comentou:

— Quanto a esse nobre cão vira-lata, é difícil dizer. Talvez voltará para Jorvik e tentará recuperar seu Império da Nortumbria, mas mais provavelmente irá a Dublin com o rabo entre as pernas — Ubbi cuspiu sobre a terra ao seus pés para mostrar sua aversão, logo continuou, —Se diz que Anlaf tem centenas de navios ancorados sobre Humber, esperando sua rápida retirada. Uma coisa é segura, ele não tem muitos soldados sobreviventes para ir a suas barcaças.

Rain analisou o homem alto com os cabelos loiros muito bem trançados. A crueldade delineava suas feições bem marcadas, e Rain tremeu com aversão, compartilhando o desdém de Ubbi para com o Rei Anlaf.

— Para onde iremos?

— Nós? — perguntou Ubbi com uma sobrancelha arqueada.

— Você, eu, e Selik. E qualquer dos homens de Selik que tenha sobrevivido. Há algum aí, e pelo caminho?

Ubbi sacudiu a cabeça devastado.

— Não, todo seu exército de fiéis seguidores foi tomado na Grande Batalha, mas haverá outros para segui-lo. Sempre há quem conheça seu verdadeiro valor, aqueles vão encarar a ira de Athelstan. Mas lamentavelmente serão poucos agora — o homemzinho suspirou cansado.

— Então aonde iremos? Para a Escócia? Ou ao País do Gales?

Ubbi lhe dirigiu um incrédulo olhar.

— Não, Constantine e Eugenius dão as boas-vindas à poderosa mão de meu amo na batalha, mas não as darão em suas terras agora. Eles fogem de casa para proteger suas próprias costas.

— O que você acha?

— O escocês e o rei Gales jurarão sua traidora lealdade ao chefe saxão agora que perderam a Grande Batalha, antes de que se satisfaça de outra maneira. Não seria a primeira vez. Mas Selik é um homem marcado que eles não podem se arriscar a abrigar.

— E o rei Viking? — perguntou Rain, indicando Anlaf, que ainda discutia com Selik. — Ele lhe dará as boas-vindas?

Os lábios de Ubbi se ergueram sardonicamente.

— As boas-vindas, não. Mas ele não pode mantê-lo a distância. Com certeza é por isso que estão discutindo agora. Ele provavelmente tenta convencer Selik a tomar seu navio e esconder-se como um habitante da Nortúmbria e não se destacar mais.

Anlaf finalmente partiu para longe de Selik, seu rosto púrpura de raiva. Irado chamou seus homens para que o seguissem.

Os olhos de Selik analisaram a área, suas costas erguidas, seu obstinado queixo levantado insolentemente, sabendo que a multidão o via como um pária até entre sua própria raça. Seus olhos de aço encontraram Rain e se entrecerraram em um silencioso desafio.

Acaso esperava que ela o abandonasse como todos os outros? Ela elevou o queixo com orgulho, retribuindo seu gesto, esperando que entendesse que ela o apoiaria, custasse o que custasse.

Ubbi estendeu sua disforme mão e apertou fortemente a de Rain.

— Ah, anjo — disse ele suavemente.

Sem romper seu abraço visual com ela, Selik finalmente moveu a cabeça solenemente, indicando sua aceitação a sua silenciosa promessa de lealdade. Vários guerreiros se moveram então para seu lado, também. Os olhos úmidos de Rain acariciaram Selik, e seu coração retumbava em seu peito com um desejo esmagador de aliviar a dor daquele homem solitário.

Rain desejava poder apagar a desolação dos olhos de Selik e de algum modo sabia que teria que entrar em seu inferno emocional para ajudar a arrancá-la. Mas qual seria seu destino então? Alguma vez poderia voltar para seu próprio tempo? E que cicatrizes ela levaria eternamente?

 

Rain observou com desilusão como cada vez mais e mais soldados desmontavam suas tendas, recolhiam suas peles de dormir, e deixavam o acampamento com enérgica eficácia. Alguns foram sob o mandato militar dos Reis Constantine e Anlaf. Outros foram sozinhos ou em grupos, gritando promessas de se reunir depois nas terras do norte de Ardia, ou em Dublin onde reinavam os noruegueses, ou em Jorvik, Rain não ouviu nada sobre York.

Em poucas horas, a parte superior da planície estava quase deserta.

Ubbi cuidava das brasas para cozinhar abandonadas pelas mulheres que tinham escapado com seus maridos. Uma dúzia de desarranjados guerreiros que tinham escolhido ficar com Selik limpavam os escombros e ajudavam Selik a ocultar os rastros dos guerreiros que partiam.

— Por que nós não partimos também? — perguntou Rain a Ubbi.

— O amo nunca abandonaria Tyker, e transcorrerão uns dias antes de que ele esteja bom o bastante para viajar.

— Vai ficar seguro aqui?

— Está louca? — perguntou-lhe Ubbi com um zombeteiro bufo. — Nunca é seguro para meu senhor quando os saxões estão por perto. O rei Atherstan pôs um grande preço sob sua cabeça faz muito tempo, mas agora sem dúvida também vai quer seus olhos e língua.

— Por que?

— Vocês estiveram na Grande Batalha. Não viram o saxão que atravessou com uma lança no fim, o que elevou em sua lança e o enterrou de modo que o príncipe balançasse sobre ela?

Rain assentiu com a cabeça ansiosamente.

— Um príncipe saxão?

Ele sacudiu a cabeça com tristeza.

— Era o próprio primo do rei Athelstan, Elwinus — nervoso, apertou as mãos. — E ainda pior, Elwinus é o irmão daquele bastardo, desculpe meu vocabulário, milady, mas aquele miserável Steven de Gravely, odeia Selik apaixonadamente.

—Oh, meu Deus! Então Selik deve partir agora. Ficarei e me encarregarei de Tyker enquanto ele se recupera. Até sermos descobertos aqui, os saxões não têm nenhuma razão para me ferir.

Os remelentos olhos de Ubbi lhe dispararam um olhar incrédulo.

— E o que acha que fariam a Tykir? O mimariam com caldo de galinha e vinho doce? Hah! Rapidamente cortariam todos seus membros e o deixariam morrer sangrado.

— Não me digam que também há um preço pela cabeça de Tykir.

— Não, ao menos isso não, mas luta do lado errado nesta batalha.

— Ainda acho que Selik deveria nos deixar aqui e escapar enquanto puder.

— Oh, querida, você não entende. Ainda se não fora por Tykir, meu senhor não a abandonaria aqui. Agora lhe pertence.

Rain se eriçou.

— Eu? Pertencer a ele? Não!

— Agora, querida, não é da minha conta. O amo a capturou em combate, e você é o butim, como se pode dizer. Me parece que ainda não a declarou como refém, não?

—Não me capturou. De fato, o salvei. E vamos deixar uma coisa clara, não sou prisioneira de ninguém. Nem preciso do amparo de um maldito viking sedento de sangue.

— Se você diz — disse Ubbi duvidando — Mas o amo leva a sério suas obrigações. Pelo menos, faz suas melhores tentativas de proteger seus homens e mulheres sob seu escudo, sobretudo desde que Astrid… — as palavras de Ubbi acabaram num múrmurio e ele olhou Selik culpadamente através do acampamento como se se desse conta muito tarde de que tinha falado demais.

— Astrid? Quem é Astrid?

Ubbi gemeu.

— Por minha vida, milady, não mencione a milord seu nome. Por favor, se aprecia minha vida.

Rain franziu o cenho.

— Me diga quem é ela, e prometo não dizer nenhuma só palavra a Selik — e adicionou — Por outra lado, se não quer me dizer sempre posso perguntar a Selik.

O terror fez com que o rosto de Ubbi empalidecesse. A curiosidade de Rain tirou o melhor dela, e exigiu com voz dura:

— Quem é Astrid?

— Sua esposa — respondeu Ubbi com desagrado, depois partiu rapidamente antes de que ela pudesse fazer mais perguntas

Sua esposa! O coração de Rain falhou um batimento e seus ombros cairam bruscamente. Sua esposa! por que não tinha considerado a possibilidade de que Selik fosse casado? E por que deveria lhe importar? Era apenas uma visitante naquele primitivo período de tempo, uma viajante do tempo que certamente voltaria para o futuro quando sua missão fosse cumprida, fosse ela qual fosse.

Não, não tinha importância para ela se Selik era casado ou não, disse Rain a si mesma com desenvoltura, recusando-se a escutar seu dolorido coração, que contava uma história diferente. Sua esposa!

Selik se aproximou nesse momento, mas ela esqueceu a dor e a raiva quando percebeu que usava seu equipamento completo de batalha. O alarme a percorreu enquanto pressionava a mão aberta sobre o peito para tranqüilizar seu coração que pulsava rapidamente.

Não usava a cota de malha, como no dia anterior, mas usava uma capa de couro grosso e protetor. A coisa de manga curta, com as laterais abertas, de couro o protegia até a metade do pescoço e usava por cima uma túnica de lã até os joelhos e calças negras e justas. Um cinturão largo de prata engastado com uma fivela central enorme destacava sua cintura deliciosamente estreita, atraindo seus olhos a seus quadris. O cinturão de metal devia pesar ao menos quatro quilos e meio, pensou ela, e devia custar uma fortuna. Os braceletes de prata combinando mostravam os músculos da parte superior de seus braços.

Trançara os cabelos, de um loiro escuro, em uma única trança que caía sobre suas costas. Segurava entre as mãos um elmo de couro cónico e impacientemente mudava o peso de um pé para o outro enquanto Ubbi lhe levava Fury selado.

Ele era totalmente violento e sombrio, e o lado pacifista de sua mente odiava isso no homem. E era completamente sedutor e fazia seus hormônios cantarem, o que desejava o lado ilógico de sua mente, embora fosse só durante esse período de tempo.

Sem pensar, inclinou-se para ele, ansiando tocar sua pele aquecida pelo sol, até que se deu conta de que os cantos de seus lábios se elevavam em um sorriso conhecedor. Cambaleou para trás.

— Mudou tão rápido de idéia? Deseja agora… fazer sexo?

— Não, não desejo.

Em um minuto de Nova Iorque, querido.

— Sério? Me olhava como um gato faminto no inverno que repentinamente se vê na frente de uma tigela de leite.

— Você se ama demais.

Lambendo? Bem, isso apresentava algumas possibilidades interessantes.

— Imagino que podemos discutir sobre isso depois, quando… — suas palavras se interromperam quando alguns de seus homens se aproximaram à cavalo e esperaram suas ordens.

— Encarregue-se de Tykir e dos outros homens feridos enquanto não pode se encarregar deste — a sedosa sedução tinha desaparecido de sua voz, substituída por uma ordem fria.

Concordou, percorrendo com o olhar a única tenda que sobrava como “hospital”. Depois as palavras de Selik penetraram em sua mente, e seus olhos dispararam até ele ansiosamente.

— Vai nos deixar?

Ele inclinou a cabeça.

— Precisamos esconder melhor os rastros da montanha. E trazer comida se pudermos encontrar algum animal insensato o bastante perto deste acampamento. Senão seremos convertidos em pele e ossos pela fome.

Seus frios olhos percorreram seu corpo, como se a tivesse imaginando transformada em pele e ossos, criticamente analisando-a dos pés à cabeça duas vezes seguidas, enfatizando exageradamente seu tamanho.

Achou ter visto um brilho de admiração em seus olhos, e ruborizou. Deus! Tenho trinta anos e ele me faz ruborizar como uma adolescente virgem.

— Vai estar aqui quando eu voltar — pediu em voz baixa, rouca.

— E para onde eu iria? — explodiu ela zangada, tão irritada consigo mesma quanto com ele por se deixar cair tão facilmente em sua sedutora armadilha. — Vai voltar?

— Já sente minha falta, moça?

Salve-o, disse uma vez dentro de sua cabeça.

Rain não podia ter certeza de ser sua voz interior falando com ela ou um ser sobrenatural. Mas não gostava disso.

— Por que se sobressaltou? — Selik lhe pergunto-lhe suavemente enquanto dava um passo se aproximando, de maneira que ela pôde sentir o cheiro do couro de sua camisa e seu aroma masculino pessoal. Seu hálito quente lhe acariciou o rosto enquanto ele se aproximava ainda mais — Não é por estar nervosa?

— Não. Só acho que Deus falou comigo — sussurrou assustada — e me assustei.

— Não ouvi nada — seus olhos dispararam para o céu antes de baixarem para olhá-la com ceticismo. — Você fala com Deus freqüentemente?

Ela negou com a cabeça.

— Não, nunca fiz antes de depertar aqui…

— ...para me salvar — terminou ele por ela, movendo a cabeça negativamente arrependido. Em seus olhos havia um brilho quase imperceptível de esperança, depois ficaram indiferentes. — Por que está insistindo nessa história tola? Não acredito mais em Deus, e com certeza ele mal me suporta.

— Você é cristão? — perguntou surpresa.

— Não. Oh, eu fui uma vez. Ao menos, o arcebispo Hrothweard me batizou na igreja romana de Jorvik, como muitos noruegueses que praticam o cristianismo com uma mão e as antigas tradições com a outra. De fato, sou um covarde.

— Um covarde? — Rain tremeu ante o desprezo absoluto por si mesmo que havia em sua voz.

Selik deu de ombros.

— A palavra mais ofensiva. É o maior insulto para qualquer homem, viking ou saxão. Uma pessoa sem redenção.

Rain moveu a cabeça com energia.

— Agora é você quem se equivoca, Selik. Não estou completamente segura do porque de Deus me mandar aqui, mas sei de uma coisa com certeza. Deus acha que você pode se redimir.

Por apenas um segundo, Rain viu um brilho de esperança em seus olhos prateados, mas a luz se extinguiu quase imediatamente deixando seus desolados olhos cinzas indiferentes. E Rain soube que tinha que trabalhar aquilo.

— Não acredito na eternidade — disse ele, percorrendo com os nódulos de sua mão direita a linha de sua mandíbula em uma carícia leve — mas ainda aprecio momentos de prazer. Agora que vejo seus méritos como curandeira, talvez te mantenha ao meu lado por mais tempo. E talvez compartilhemos um desses momentos. Ou dois. Na verdade, faz muito tempo que não sinto esses… desejos.

Uma emoção doce percorreu Rain diante as arrogantes palavras de Selik. Antecipação. Imaginação. Fantasia. Lutou com todas as forças pelo controle, e a lógica ganhou.

— Não há como ser um prazer momentâneo — especialmente com uma esposa envolvida. — Melhor reprimir esses desejos.

Selik simplesmente riu, depois teve o decaramento de dar um tapa em seu traseiro que parecia querer dizer “espere e verá”. Indignada pela liberdade que ele tomou, tentou bater em sua mão, mas ele já estava além do seu alcance. Tomando as rédeas que Ubbi lhe dava, Selik colocou o pé esquerdo no estribo e de um salto, montando na sela com a graça de um atleta.

— Aqui está Fúria — disse Ubbi, dando a ele uma espada impressionante, a mesma com que Selik tinha lutado no campo de batalha. — A amolei para você.

— Fúria! Pôs um nome na sua espada? Isso é um crime! Seria a mesma coisa de eu dar um nome a meu bisturi. Na verdade pensei nisso algumas vezes — disse ela sem cansar, tentando entender suas emoções turbulentas. — O paciente teria que ser muito agradável, não acha?

Selik a ignorou completamente.

— Obrigado, Ubbi, por amolar a lâmina. Você é meu braço direito.

Ubbi resplandesceu como se Selik tivesse lhe dado o mundo com esses poucos elogios, e Rain passou a acreditar que podia haver um lado terno naquele viking feroz.

— Mantenha as peles de minha cama quentes para mim — disse depois a Rain, a tirando de qualquer espécie de elogios que tivesse guardado para ele. Então ele segurou seu olhar e lhe piscou um olho malevolamente.

Rain disse uma palavra extremamente vulgar, uma que nunca tinha usado antes, mas que de certo modo parecia apropriada agora. Pelo visto, era um termo anglo-saxão que tinha persistido através dos séculos porque os olhos de Selik se abriram com surpresa e compreensão perfeitas, e Ubbi exclamou em estado de choque:

— Milady?

Selik riu sufocadamente enquanto punha o elmo de couro.

— Lembrarei desse sentimento, doçura.

Doçura!

Rain observou zangada como Selik partia, rindo, com seus homens. Apesar da irritação e o fato de que esse guerreiro miserável e provocador tinha esposa, o som da palavra, doçura, esquentou durante muito tempo seu coração.

Durante o resto do dia, Rain atendeu Tykir e uma dúzia de soldados feridos que tinham ficado para trás. Seu trabalho terminou com uma dúzia de homens mortos antes dos exércitos partiram aquela manhã. Levaram seus feridos com eles em trenós e grosseiras tipóias. Logo ficou evidente por que os escoceses e noruegueses tinham deixado seus soldados feridos com eles. Nenhum tinha alguma possibilidade de sobreviver.

Entretanto, Rain trabalhou desesperadamente para aliviar a morte deles, se inclinando finalmente para a acupuntura quando o Davon e as aspirinas terminaram. Três deles morreram antes do anoitecer. Um quarto não veria a manhã chegar.

A escuridão já tinha descido quando Rain abandonou a tenda, sabendo que Tykir dormiria durante toda a noite. Colocara nele várias agulhas de acupuntura em lugares estratégicos do corpo para aliviar a dor, e como precaução ordenara a um dos soldados de Selik que ficara prender Tykir firmemente à mesa para que não as movesse acidentalmente enquanto dormia.

Quando caiu cansada no chão perto da fogueira usada para cozinhar, Ubbi deu a ela uma tigela do guisado que tinha sobrado da manhã e um pedaço de pão preto seco. Para Rain, estavam deliciosos, e teve que se refrear para não lamber a terrina de madeira.

— Quer mais?

Ela negou com a cabeça.

— Não, guarde o resto para quando Selik e seus homens voltarem — repentinamente se deu conta de quanto tempo fazia que tinham partido e olhou em volta do acampamento, inquieta. Mais duas pequenas fogueiras ardiam intensamente onde os homens tinham colocado suas peles de dormir, e onde alguns soldados vigiavam lugares-chave ao longe. Exceto Selik. — Selik já não devia ter voltado?

Ubbi encolheu os ombros.

O que faria se Selik não voltasse? perguntou-se Rain, dando-se conta de que, apesar da natureza vulgar e violenta, Selik era sua âncora naquele salto através do tempo. Sem ele, com certeza mergulharia no… no quê? A morte? O limbo? A reencarnação? De todas as escolhas possíveis, em nehuma momento Rain considerou a possibilidade de voltar para o futuro. De alguma maneira, suspeitava que tinha sido enviada a essa época do tempo com um propósito.

Para salvá-lo.

Rain gemeu por causa da voz em sua cabeça, duvidando até que fosse seu subconsciente quem falava ou qualquer outra coisa. Oh, Senhor!

Te escuto.

Rain andou cambaleando e seus olhos se lançaram em torno da fogueira onde Ubbi trabalhava esforçadamente, pondo as brasas em um canto e limpando os utensílios.

— Não acho que é engraçado, Ubbi. Nem caí nessa.

— Anh?

— Oh, não se faça de inocente. Sei que estava se fazendo passar por Deus, falando com aquela voz profunda.

— Deus? — disse Ubbi com um ofego. — O que te disse, anh, Deus?

Ela se levantou zangada e lhe lançou um olhar enquanto ele a olhava estupidamente através da fogueira, boquiaberto e incrédulo. Era óbvio que ele não dissera nenhuma maldita palavra.

— Devo ter me enganado — resmungou ela enquanto se afastava da fogueira, dando a volta depois abruptamente e voltando. — Onde dormirei essa noite?

Ele encolheu os ombros.

— Na tenda de campanha de milord, é obvio.

— Humph! Ele não tem idéias geniais. Na verdade, se você o vir antes de mim, diga a ele que ponha suas mantas de dormir aqui, ao lado da fogueira. Não tenho intenção de voltar a compartilhar sua cama.

— Mas por que? — perguntou Ubbi, aparentemente aturdido por alguma mulher considerar menos que uma honra compartilhar a cama de Selik.

— Nunca durmo com homens casados.

Ubbi moveu a cabeça de um lado para outro como se tentando entender as palavras estranhas.

— Homens casados? Mas quem… querida, parece que não compreendeu minhas palavras antes.

— Oh, as entendi perfeitamente, mas não se preocupe com isso. Esse problema é meu, e pode ter certeza de que o resolverei.

— Mas quer que eu diga ao meu amo que durma aqui, no lado de fora, e no chão? — perguntou completamente assombrado, depois zombou — Me esmagaria com seu escudo por essa sugestão.

— Falarei com ele sobre isso amanhã — o reconfortou ela. — Mas enquanto isso, somente lhe diga... —agitou a mão no ar, procurando as palavras adequadas. — Oh, somente lhe diga que ronca muito e não quero ser incomodada.

Voltou a mudar de direção, sorrindo, apesar de si mesma, pelo baixo som sufocado que Ubbi fez atrás dela enquanto ia para a tenda de campanha.

Um soldado lhe falou sobre um pequeno lago alimentado pela primavera na extremidade mais afastada da clareira, há um quarto de milha de distância. Procurou no baú de Selik até encontrar uma túnica verde de lã velha e limpa, um pouco de sabão, e tecidos que serviriam como toalhas. Meia hora mais tarde, apesar da água e do ar frio, sentou-se molhada com a água até os joelhos, depois de ter ensaboado e enxaguado os cabelos e o corpo várias vezes e ter lavado suas roupas íntimas, suas calças e sua blusa. Depois de se secar, pôs um pouco de um vidrinho de amostra de “Paixão” atrás das orelhas e na base do pescoço. Era incrível o que um bom perfume podia fazer pela auto-estima de uma mulher. E era uma ligação com o futuro que de alguma forma precisava nesse momento.

Quando voltou para a tenda de campanha de Selik, ele ainda não tinha voltado. Mordeu o lábio inferior com inquietação enquanto punha suas roupas molhadas sobre o baú de madeira. Resmungou sem parar enquanto andava pela pequena tenda de campanha, pegando objetos, arrumando outros, esperando que seu viking proscrito voltasse.

Finalmente, bocejou amplamente e decidiu que era uma idiota por continuar esperando. Tirou a túnica quente de Selik e a dobrou cuidadosamente aos pés da cama, usando sua calcinha e seu sutiã delicados, que já tinham secado. Deslizando sensualmente entre as peles, rapidamente adormeceu.

Como na noite anterior, dormiu profundamente. Nenhum guerreiro primitivo lutou violentamente em seus sonhos, mas logo seu sono ficou inquieto.

Como em um vídeo de Michael Jackson no qual os rostos se passavam se misturando fantasiosamente de uma personalidade a outra, o herói do sonho de Rain tinh alternadamente o rosto de Daniel Day Lewis, Kevin Costner e Selik. Principalmente a imagem de Selik, mas era um Selik que ainda tinha que conhecer.

Nem as cicatrizes ou o nariz quebrado prejudicavam a pureza de seu rosto. Tinha desaparecido as linhas que a dor e a fúria tinham gravado sem piedade nos cantos de sua boca sensualmente cheia e seus olhos com íres prateadas. Este era o viking maravilhosamente belo que sua mãe lhe tinha descrito antes de que as tragédias da vida o transformassem.

Em seu sonho, o homem Daniel/Kevin/Selik se ajoelhou no chão ao lado da cama de peles cheia de palha, usando apenas uma rudimentar tanga. Ele se deitou sobre ela, sussurrando palavras suaves, e extranhamente ela era incapaz de se mover, com os braços imobilizados nas laterais. Com cuidado, ele se curvou e seus compridos cabelos loiros, como uma malha de fios suave como teias de aranha, roçaram-lhe o braço nu. Ela estremeceu pelo choque elétrico que tinha sentido com a simples carícia em sua pele nua.

— Tão bela — sussurrou ele enquanto os dedos calosos de suas fortes mãos roçavam seus braços, dos pulsos aos ombros.

Todos os rostos e corpos se juntaram nesse instante e se converteram em um, seu viking proscrito.

Rain ronronou levemente, o que causou um sorriso de aprovação em seu amante. Sentiu-se bela, provavelmente pela primeira vez na vida. Nem muito alta ou ossuda ou pouco feminina. Simplesmente perfeita. Podia ver a admiração, e algo mais, nos ardentes olhos de Selik quando se travaram nos seus em uma arquejante pulsação. A terra se inclinou embaixo dela e pareceu se deter.

As pontas de seus dedos roçaram as bordas suaves de sua clavícula, delicadamente, depois avançaram até a linha de seus lábios entreabertos. Ela desejou se erguer e beijar aqueles lábios firmes, sensualmente sublimes, que sem parar se moviam sobre ela, mas não conseguia se mover. Só sentir.

Ele afastou a mão um pouco e Rain choramingou:

— Por favor. Não me deixe.

Seus olhos cinzas se encheram de ternura, e com uma voz que parecia chegar de longe, sussurrou suavemente:

— Nunca. Até o fim dos tempos, meu amor.

Em seu sonho a pele de seu amante brilhou com vislumbres palidamente dourados à luz trêmula da vela. Os músculos ondearam em seus ombros fortes e em seu peito enquanto movia as mãos para explorar seu corpo tenso. E, Oh, Amado Deus, o sangue corria em cada um dos lugares que ele tocava com a leveza de uma pluma, acendendo pequenas fogueiras de desejo que despertavam seu interior.

As mãos dele deslizaram por seu rosto, por seu pescoço, através do vale entre seus seios presos pelo laço do sutiã cor de carne, queimando no caminho até seu abdômen. As palmas abertas de suas grandes mãos acariciaram os planos macios de seu ventre, desenhando círculos invisíveis de vertiginoso prazer.

Depois voltou a subi-las, muito lentamente, e suavemente tocou seus rígidos mamilos, fazendo-a gritar alto ao chegar ao topo do prazer.

— Shhh, doçura. Devagar. Devagar.

Mas Rain estava muito além do pensamento racional, além de poder frear sua paixão acelerada ao máximo, muito além de tudo o que já tinha experimentado ou acreditado possível que uma mulher respondesse. Com algumas carícias, aquele homem a tinha transformado em uma contorsionante e choramingante massa de carne desesperada para se unir-se àquele viking de sonho, àquele guerreiro proscrito.

Ela baixou o olhar e viu sua ereção através do tecido da tanga. E seu desejo por Rain a excitou ainda mais. Desejou tocá-lo, mas seus braços permaneciam nos lados, no sonho.

Como se suspeitasse que ela não tinha o suficiente, Selik roçou os suaves montes de seus seios até o v em suas coxas. Colocando a palma de sua mão contra a fenda sedosa, com os dedos indicadores entre suas pernas, pressionou uma vez, duas, mais, ritmicamente, até que seu corpo explodiu em um milhão de pedaços, no clímax mais intenso que ela já tinha experimentado.

Quando sua respiração finalmente se acalmou, Rain disse em um receoso sussurro ao homem cujo rosto já não variava, mas era o de Selik, somente o de Selik:

— Estive te esperando por toda minha vida. Agora sei porque fui mandada para aqui.

Repentinamente os olhos de Selik se encheram de um intenso desejo.

— Nunca esperei voltar a te ver, Astrid.

Ao princípio, a mente de Rain se negou a captar o significado das palavras de Selik. Mas então, através do rugido em seus ouvidos, escutou uma só palavra, repetidas vezes, ecoando em seu cérebro atordoado pela paixão:

— Astrid! Astrid! Astrid!

A esposa dele.

Selik se levantou e deixou cair o tecido, extremamente confiante em sua masculinidade. Se dispunha a se unir a ela nas peles da cama, para fazer amor com ela. Não, não com ela, Rain se deu conta… com sua esposa.

Seus trêmulos olhos cinzas vidrados e nublados chamaram sua atenção, e percebeu a desorientação, quase idêntica a de ontem, quando o vira no campo de batalha depois de seu louco ataque de violência.

Oh, não! Rain despertou rapidamente e logo se deu conta de que não era um sonho.

Seus olhos examinaram a área da tenda de campanha e viram a razão de seu estranho comportamento. Sua túnica ensangüentada e sua espada estavam onde ele as tinha deixado na terra, ainda molhadas com o sangue dos que sem dúvida tinha destruído esse dia. Era o desejo de morte o que o levou a ela, não a luxúria por seu corpo. E certamente não o amor. Isso aparentemente reservava para a esposa que prendia seu coração.

Rendera-se por completo à sedução magistral de Selik, deixando todas suas defesas cairem como nunca fizera antes, mas ele não a queria. Pensara que ela era sua esposa. Sua garganta doía pela derrota, e não podia falar sobre seu intenso senso de perda.

Bruscamente, Rain se levantou e se afastou de Selik. Seu rosto ardia de vergonha por sua fácil capitulação. Consciente do humilhante escrutínio de Selik, soube o instante em que a violência e a fúria substituíram sua paixão por causa do vermelho intenso.

— Esse é o tipo de jogos que faz com os homens, os que mencionou ontem, esses das paixões ruins? Fica quente, depois fria, com todos seus homens? Ou só comigo? É uma dessas mulheres que sente prazer ao brincar com os homens?

—Não — negou ela, encontrando finalmente a voz. — Estava dormindo… sonhando. Você se aproveitou de mim.

Ele bufou grosseiramente, pondo calças frouxas, e erguendo uma sobrancelha zombeteiramente.

— Lady, seu calor de mulher virtualmente queimou todos os pelos de meu corpo.

Rain ergueu o queixo com rebeldia, não se escondendo atrás de falsa modéstia.

— Você está certo. Eu te quis. Por um momento de loucura. Até que me lembrei.

— Lembrou o que?

— Que é casado, bastardo trapaceiro — explodiu ela, chegando a seu limite. — Que tem uma esposa, Astrid, que provavelmente está em uma casa em algum lugar rodeada por um montão de crianças. Que não quis fazer amor comigo. Pensou que eu era sua esposa.

Rain afastou com um tapa as lágrimas que ardiam em seus olhos e tentou dar meia volta, sem querer que Selik continuasse presenciando sua humilhação.

—Vá embora. Apenas me deixe só.

Se seguiu um longo silêncio, no qual Rain não ouviu o sussurro de tecido que indicaria que Selik deixara a tenda. Finalmente, começou a girar levemente para ver o que ele estava fazendo.

Estava no mesmo lugar de antes, cravando simplesmente seus olhos nela, horrorizado.

—O que sabe sobre Astrid?

Selik estava confuso e desorientado. Estivera fora durante todo o dia. Tanto sangue. E assassinatos. Os prisioneiros. Os gritos. Seu cérebro zumbia por todo aquele horror, pela violência com a qual estava incomodado, intranqüilo após todos aqueles anos.

Ele passou as mãos pelos cabelos e os puxou, duramente, para clarear a cabeça.

A alta mulher loira se elevava ante ele como uma deusa majestosa, com seus cabelos de ouro desarrumados, caindo por suas costas, sobre seus ombros, acariciando os montes sob a peça íntima da cor de carne. E o fita que combinava com o material mal ocultava sua feminilidade claramente delineando a suave curva de seus quadris e sua cintura estreita e atraindo a visão para as pernas que eram extremamente longas e atraentes.

Aquela não era Astrid, sua esposa pequenina com ossos pequenos e delicadas formas, tímida. Não, Astrid tinha morrido, e aquela mulher, aquela mensageira dos deuses, ou era o que ela dizia, era escultural, com músculos firmes, voluntariosa… uma mulher que estaria ao lado de um homem, não atrás de seu escudo. Era magnifica.

— Não, não é Astrid — disse ele, dando-se conta muito tarde de que havia dito as palavras em voz alta.

A dor que tinha nublado seus belos olhos doces se transformou rapidamente em afronta. Encolerizada, ela se abaixou para pegar uma túnica dele que estava perto de seus pés, lhe dando por um breve momento, antes que se endireitasse, uma visão melhor de seus tentadores seios que pendiam seguros nas taças de seu sutiã. E sentiu que sua virilidade ficava mais rija.

— Não me olhe assim, sapo luxurioso.

Sua boca se fechou de repente, e vestiu bruscamente a túnica. Sem cinturão, a roupa de lã de mangas curtas caía até seus cotovelos e o meio do quadril. Por alguma estranha razão, ele gostava da idéia de que ela usasse sua túnica. Poderia cheirar seu perfume no tecido? Gostava da idéia de usar algo que também havia tocado sua pele?

Pelo sangue de Thor! De onde vinham aquelas idéias? Essa moça estranha, ou qualquer outra, não me importa em nada.

— Vejo que esteve fora saqueando e voltando a saquear — grunhiu ela, apontando para sua espada e suas roupas ensangüentadas perto da entrada da tenda.

— Não saqueando — sorriu ele aberta e zombeteiramente.

— E acha que isso desculpa sua violência? Maldito militar! Assassino! Você…

— Como ousa me provocar me condenando? Simplesmente tenho razões para matar. Não faço nada que não tenha sido feito repetidas vezes ao meu povo.

— Oh, como odeio a guerra e a luta e os homens que perpetuam o princípio de que se têm que fazer as coisas pela força!

Selik não podia evitar ver as lágrimas que nublavam seus luminosos olhos, embora ela piscara repetidamente, tentando ocultá-las de sua vista, como se o ato de chorar para uma mulher fosse uma fraqueza. Que moça estranha!

— Vá dormir. Sua língua ferina faz minha cabeça doer — disse ele enfim. Aquele tinha sido um longo dia, e sua cabeça, de fato, martelava. Um toque de defuntos, pensou arrependido. Por ele, ou pelos outros teve que matar nesse dia? Esfregou o rosto com a mão. Pelo martelo de Thor! A moça enche meu saco com sua conversa sarcástica.

— Não passarei a noite na mesma cama que você — declarou veementemente ela, elevando seu queixo em desafio. — Se esqueça disso, destruidor, se acha que vai poder continuar de onde parou.

— O que te faz pensar que te desejo? — ele disse com voz dura. Sua ousadia não tinha mais graça.

— Vá para o inferno. Melhor, vá para sua esposa, seu… adúltero.

A moça o pressionava muito. Não gostava de falar sobre sua esposa.

— Te perguntei antes, quem te falou sobre Astrid?

— Você falou.

Ele arqueou uma sobrancelha incrédulo.

O rosto dela ficou corado.

— Disse seu nome quando… quando… Oh, sabe muito bem quando.

O rosado de suas faces tinha se aprofundado.

— Só que nunca mencionei que era… minha esposa.

— Oh, que importa? Ubbi me contou.

Selik fico rígido de cólera.

— Ele não fez bem — disse com uma voz gelada que prometia vingança.

Dando-se conta de que poderia ter posto Ubbi em perigo, acrescentou rapidamente:

— Não foi culpa dele. O chantagiei para que me contasse. E não haja com ares de superioridade comigo… ou com Ubbi. É o único que engana sua esposa.

— Nunca enganei minha esposa.

— Hah! Então tem uma estranha definição sobre enganar. Eu chamo o que fez de enganar, e sem dúvida digo que o que teve intenção de fazer era enganar. Onde desenha a linha fronteiriça, senhor?

— Neste momento desenho a linha em sua língua afiada — disse ele, cansado das imprudentes recordações a respeito de sua amada esposa. — Deite nas peles da cama. Agora.

De novo, o desafiou tolamente. Quanto mais ele se aproximava, mais ela se afastava, pelos limites da pequena tenda. Espreitando com um sorriso feroz o animal indefeso, a presa que ela era. Quando ela estava junto à entrada da tenda, a ponto de saltar para fora, ele saltou num bote, agarrando-a pela cintura e levantando-a facilmente em seus braços.

Durante um momento, ela não lutou enquanto sua boca se abria em um claro assombro.

— Você me levantou.

— Que inteligente de sua parte ter se dado conta.

— Mas sou muito grande. Nunca ninguém me levantou.

— Olhe de novo, doçura. Seus pés fazem cócegas em minhas coxas.

Voltou a lutar contra ele, chutando, arranhando, empurrando, em vão. Com um braço sob suas longas pernas, apertou-a contra seu corpo com uma pressão de aço. O outro braço envolvia seus ombros, imobilizando-a contra seu peito com o rosto firmemente metido no vão de seu pescoço. Inalou com força a essência de flores sedutora que emanava de seu pescoço, o mesmo aroma que tinha notado no dia anterior quando a tinha perseguido pelo bosque.

Com três passos longos, andou até as peles de cama, abaixou-se com agilidade sem soltá-la, depois a obrigou a se deitar junto a ele. Cobriu a ambos com as peles da cama.

Com um grunhido, pôs uma perna sobre as dela. Obrigou-a a pôr a cabeça sobre seu braço esquerdo e pôs seu braço direito sobre seu busto.

Quando finalmente deixou de lutar depois de chamá-lo com um nome estranho, “Imbecil!”, o que suspeitava não ser um elogio, começou a saborear a doçura de apenas segurar entre seus braços uma mulher outra vez.

— Que perfume é esse? — sussurrou ele, lhe acariciando o pescoço com o nariz.

— Talvez seu aroma corporal — explodiu ela.

Ele riu sufocadamente.

— Não, é um aroma doce. Parecido com o das flores. É especialmente forte aqui — percorreu com a língua o longo caminho até onde se movia seu pulso, na base de seu pescoço.

Ela arquejou, e Selik sorriu contra seu pescoço, dando-se conta de sua involuntária resposta. Como aquela mulher podia dizer que não desejava ser parceira de nenhum homem quando respondia tão rapidamente ao toque de um?

— “Paixão”.

— O quê?

— É “Paixão”, tolo.

— Aah, agora entendo. Algumas mulheres exalam um almíscar de paixão quando seus corpos se preparam para transar. Só que nunca ouvi falar de alguma que cheirasse a flores.

— Oh, imbecil! Na verdade você é um egoísta. “Paixão” é o nome de meu perfume.

Durante um momento, Selik não entendeu. Depois riu.

— Realmente, você é impressionante. Zomba de mim por eu pôr um nome em minha espada, e põe um nome em seu perfume.

Rain lhe deu uma cotovelada nas costelas e se meteu nas peles da cama, bocejando amplamente.

— Todos os perfumes têm um nome em meu tem… país. Não é o mesmo que pôr um nome em uma arma ou bomba… ou uma estúpida espada — explicou ela, bocejando.

— Deixe de se mexer assim — sorriu ele, sabendo que ela se indignaria pelas coisas impiedosamente maravilhosas que fazia a sua virilidade. — E tente não se incomodar com meus roncos. Isso é o que disse a Ubbi, não?

— Ubbi fala demais.

— Realmente, ele fala.

Quando ela passou muito tempo quieta, Selik disse suavemente:

— Rain?

— Hmmm?

— Está acordada?

— Mais ou menos.

— Astrid está morta.

Ao princípio, seu corpo ficou tenso e silencioso. Não teve certeza de que ela lhe tivesse ouvido. Na verdade, não soube porque havia sentido a necessidade de lhe dizer a verdade, para se redimir ante seus olhos.

Por fim, ela girou entre seus braços e o olhou através da luz trêmula da vela. Parecia procurar em seu rosto as respostas que ele não podia dar.

— Oh, Selik — sussurrou com uma voz tão suave que mal a escutou. Depois ela pôs o rosto contra seu peito e pôs seus braços ao seu redor. — Oh, Selik.

Pela primeira vez depois de doze anos, sentiu as brumas das lágrimas em seus olhos, e adormeceu, curiosamente consolado.

 

Quaisquer sentimentos por Selik que Rain pudesse ter desfrutado após descobrir que sua esposa estava morta se desvaneceram no segundo em que ela saiu de sua tenda na manhã seguinte. Quinze prisioneiros se sentavam no chão, trêmulos, perto da grande fogueira feita para cozinhar, com os pés e mãos atados, cada um unido ao outro por uma longa trela de corda, como contas de um colar.

Vários dos soldados de Selik os guardavam de perto com letais espadas preparadas. Não que algum dos prisioneiros parecesse capaz de oferecer perigo. Estavam esquálidos, mal vestidos para a fria manhã outonal, machucados, e até bem feridos. Com razão o sangue tinha manchado a espada e as roupas de Selik na noite anterior. Aparentemente, não tinha estado caçando unicamente algo para comer.

E, Oh, meu Deus, havia três mulheres atadas na trela de corda também.

Eu o matarei. Juro, jamais tive um pensamento violento em minha vida, mas matarei esse maldito viking por isso.

Rain examinou o acampamento inteiro, mas não havia sinal de Selik nem dos soldados que tinha levado com ele ontem em sua expedição de “caça”. Os lábios de Rain se franziram de desprezo, e apertou iradamente os punhos em seus quadris.

— Ubbi, onde está seu senhor? — Rain exigiu saber imperiosamente quando investiu sobre o fiel servo, que estava mexendo uma bebida horrivelmente mau-cheirosa sobre o fogo. Fosse o que fosse cheirava como se tivesse grudado no fundo do caldeirão, e uma grande quantidade de óleo flutuava na parte de cima. Maravilhoso! Guisado de animal esquartejado.

Ubbi ergueu o olhar e lhe perguntou agradavelmente:

— Dormiu bem ontem à noite, minha senhora?

Rain grunhiu impaciente ante sua incapacidade de responder sua pergunta.

— Voltou ao campo de batalha — manifestou a contragosto.

Essa não era a resposta que Rain esperava.

— Para quê?

— Para sepultar seus mortos.

Rain bufou ruidosamente, exasperada.

— Ele está completamente louco? Seus homens estão mortos. Não há mais nada que possa fazer por eles.

Ubbi deu de ombros.

— O amo se culpa por levar os homens ao combate quando não tinha visto corvos antes.

Rain se esforçou para permanecer calma.

— Ubbi, do que está falando?

— Bem, é algo sabido que quando há corvos por perto, os vikings serão vitoriosos. E não se viu um só corvo durante todo o dia anterior nem durante o Grande Combate — bateu no peito, como se estivesse compartilhando uma grande sabedoria.

Rain bufou desdenhosamente.

— Que monte de superstições tolas!

— É verdade — insistiu ele obstinadamente.

— Isso não tem importância. Como pôde deixar que Selik voltasse ao campo de batalha? Não estava preocupado com ele? Com certeza os Saxões ainda guardam aquele lugar. Poderia ser assassinado — Rain não tinha certeza por que ainda se importava com esse assunto. Afinal de contas, com certeza ela mesma o tinha procurado com instinto assassino há pouco.

— É desonroso para um Viking deixar que os abutres façam um banquete com as vísceras de seus companheiros caídos — lhe assegurou.

— E é honrável tomar prisioneiros? E maltratá-los tão horrivelmente? — grunhiu Rain, fazendo um gesto com a mão para os presos próximos, que a olhavam silenciosamente através da fogueira.

Os olhos nublados de Ubbi se ergueram para ela com surpresa.

— Não há desonra em tomar escravos depois da batalha. Os Saxões, com toda certeza, pegaram uma quantidade eqüivalente de escoceses e Vikings depois do Grande Combate. Pode ter certeza disso.

— Mas o que fará com eles?

Ubbi curvou seus ombros cheios de erupções.

— Talvez possam valer algum resgate para os Saxões, embora eu duvide, é um lote sem valor.

Rain ergueu as mãos enojada.

— Oh, só me dê sua faca para eu mesma poder libertar os prisioneiros.

Ubbi retrocedeu um pouco, mantendo fora de seu alcance a afiada lâmina que vinha usando para cortar o que pareciam ser vários coelhos esfolados.

— Não, não posso.

Um guardião ruivo, um homem com um enorme peito que parecia um barril e que cestia uma túnica de couro e um desalinhado manto de peles, olhou ameaçadoramente para ela.

— Qual é seu nome? — exigiu-lhe saber com mais auto-confiança da que sentia.

— Gorm — grunhiu ele, erguendo-se ominosamente sobre ela, com uma espada muito afiada em uma mão. O fétido aroma de carne sem lavar e o mau fôlego assaltaram Rain, mas resistiu a retroceder nem um passo.

— Solte essas pessoas imediatamente.

O gigante com forma de urso sorriu zombeteiro.

— Não é condenadamente provável.

— Estou lhe dizendo isso, Worm[2].

— Não é Worm, mas Gorm — a corrigiu com voz gelada, e deu um passo se movendo para mais perto, tocando a lâmina com a mão.

— Sim, bem, Gorm, quero que esses prisioneiros sejam libertados. E quero que seja agora mesmo.

Ele riu sufocadamente com zombaria e lhe deu um rude empurrão.

— Volte para a tenda de seu amo e mantenha as peles do leito quentes. Você mesma é pouco mais que uma escrava. São apenas suas habilidades na cama que a impedem de estar no mesmo lote que essas pessoas.

Rain olhou para Ubbi em busca de ajuda.

— Diga a esse imbecil que não sou uma escrava.

Para sua consternação, Ubbi baixou a cabeça, culpado, e murmurou:

— Bem, é mais uma refém que uma escrava.

— Ubbi! Pensei que fosse meu amigo.

Seus olhos se arregalaram como se estivesse se perguntando de onde ela tinha tirado tal idéia. Afinal de contas, só a conhecia desde o dia anterior.

— Escrava ou refém, não importa para mim — declarou com desprezo Gorm, lhe dando outro tranco, dessa vez mais forte. — Eu mesmo posso arar seu traseiro magro.

— Não se atreveria.

— Não? Melhor que permaneça fora de meu caminho ou vai descobrir. De qualquer modo, vá à tenda de seu amo, ou te prenderei com os outros prisioneiros até seu senhor retorne.

— Não será preciso — argumentou Rain desafiante. — Eu mesma o farei.

Rain andou orgulhosamente até a linha de prisioneiros e se sentou no fim, atando a extremidade da corda em seus tornozelos em um simbólico nó de prisão. Ubbi ofegou e Gorm ficou boquiaberto, revelando que lhe faltava um dente da frente. Rain não pôde evitar se sentir nobre, era como a vez em que ela e seus companheiros pacifistas se prenderam à grade da Casa Branca para protestar contra o incremente dos gastos militares.

— Gawd! É uma maldita idiota? — A corpulenta mulher próxima a ela se moveu para tão longe dela como a corda permitiu.

— Não, sou médica e… — o tom amarelado da pele da mulher atraiu sua atenção então, e lhe perguntou com interesse — Durante quanto tempo está se sentindo doente? Talvez possa ajudá-la — Rain sabia que a cor da pele podia indicar algo tão sério como um tumor ou um transtorno do fígado, ou apenas uma deficiência em vitamina K, facilmente curável.

Os olhos da mulher se arregalaram horrorizados.

— Me afastem dela. Uma curandeira! Oh, Senhor, deve ser uma bruxa ou uma feiticeira. Me ajudem! Provavelmente tem o olho do demônio.

Gorm se plantou firmemente e bateu nos dois lados da cabeça da mulher, fazendo com que caísse fracamente no chão, onde gemeu alto.

Rain começou a protestar, mas ele sacudiu um imundo dedo diante seu rosto.

— Se comporte, moça. Pode divertir o amo até que seu membro caia, mas se não fechar a boca, te prenderei sobre a fogueira como a bruxa que essa feia velha te acusa de ser.

Ubbi a estava olhando, com os olhos arregalados de consternação.

— Senhora, volte à tenda. O amo não gostará disso.

— Não. Se eu sou uma prisioneira, não quero ser tratada diferente de todo o resto.

Ubbi ergueu os olhos para o céu.

Durante quase meia hora, Rain se sentou entorpecidamente em rigoroso silêncio no chão frio, tremendo a cada vez que o vento soprava. Mesmo com a túnica de lã de Selik jogada sobre suas calças e blusa de seda, começou a sentir calafrios.

Enfim, aborrecida, seus olhos começaram a vagar por seus companheiros prisioneiros. Inalou com força quando se depararam com um jovem Saxão, que estava caido totalmente inconsciente contra a mulher que estava ao seu lado. Gotejava-lhe sangue de uma profunda ferida do ombro onde sua armadura de couro tinha sido cortada.

— Ubbi, venha e ajude a esse homem — gritou alarmada. — Precisa que suas feridas sejam curadas.

Ubbi deliberadamente a ignorou, continuou com o olhar sobre a carne dos coelhos mortos. Seu rosto vermelho delatava o fato de tê-la ouvido e escolhido não lhe responder.

— Gorm, solte esse homem da corda e leve-o à tenda hospital para que seja atendido.

Gorm, o insolente bastardo, lançou para seu lado um feio sorriso e cuspiu no chão perto de seus pés.

Rain mordeu o lábio inferior, incapaz de ignorar um paciente que precisava de sua ajuda tão desesperadamente. Finalmente, ficou em pé, irritando a mulher que estava a seu lado, que ainda se encolhia de medo, e se queixou:

— Bem, se ninguém mais vai ajudá-lo, eu o farei — desamarrou as cordas dos tornozelos e foi à tenda pegar seu exíguo estojo de primeiros-socorros.

Ubbi sufocou a duras penas uma risadinha de diversão ante a estranha interpretação de prisão dela. Ela o olhou até ele baixar a cabeça, mas não antes de que a sacudisse admirando suas bobagens.

Rain afrouxou as cordas do jovem, que mal parecia ter saído da adolescência, e o ajudou a caminhar para a tenda. Apesar dos protestos do guarda do hospital, logo ele teve o ferimento de espada limpo e suturado. Não era tão grave como tinha pensado no começo.

Tentou acalmar seu paciente enquanto costurava o corte de dez centímetros de comprimento.

— Como se chama?

— Edwin.

— De onde é, Edwin?

— De Winchester — respondeu ele cautelosamente.

— Lutou na batalha do Rei Athelstan?

Assentiu lentamente, como se não tivesse a certeza de poder confiar nela.

— Por que não voltou para Wessex com o rei e suas tropas?

— Porque fui um maldito imbecil — grunhiu. — Voltei para o acampamento e por minha mulher, e ela não queria viajar no escuro. O escuro! Agora temos muito mais a temer que a escuridão.

— Tenho certeza que tudo vai ficar bem assim que Selik voltar — lhe assegurou ela.

— É a mulher do Proscrito? — perguntou, afastando-se um pouco dela.

— Não, o ajudei a escapar do campo de batalha e…

— Ajudou aquela besta a escapar?

Rain enrijeceu.

— Não chame Selik de besta. Eu não gosto.

O lábio superior do homem se curvou desdenhosamente.

— Falo sério, Edwin. Ele não é mais besta que você ou qualquer outro homem.

Os olhos do Edwin se entrecerraram especulativamente enquanto a estudava quando prendeu o fio e cobriu sua sutura com uma atadura limpa de linho.

— Viu alguma vez um homem depois de um gentil Viking lhe arrancar o couro cabeludo? Só uma besta arrancaria o couro cabeludo de um homem. E te garanto que um homem tão cruel como o Proscrito não é diferente de outro maldito Viking.

A princípio, Rain não podia entender o que Edwin queria dizer. Logo ofegou e as lágrimas se acumularam em seus olhos.

— Está mentindo. Selik nunca faria algo tão desumano.

— Sério? — a fúria fez com que o imundo rosto de Edwin se transformasse em uma feia máscara. — Quero que saiba, minha senhora, que será melhor que a besta me mate, e logo, porque prefiro morrer a ser um escravo dele.

O guarda, cujos limites de tolerânica já tinha sido ultrapassados há muito, não permitiria que o prisioneiro permanecesse na tenda com outros homens feridos. Aturdida, Rain o guiou de volta ao seu lugar na cadeia de corda. Quando ia voltar a prendê-lo a pedido de Gorm, Edwin a agarrou e lhe torceu o corpo para puxar seus braços para trás das costas e com os dedos da mão direita lhe agarrou a garganta, a estrangulando.

— Não se mova, mulher — advertiu, lhe apertando a traquéia até que ela caiu de joelhos por falta de ar. — Não hesitaria em te matar imediatamente, se não fosse porque ao meu entender seu amo te deve um favor. Talvez me libere em troca de sua vida.

— E a sua mulher? — perguntou-lhe, baixando o olhar para a jovem que ainda estava amarrada perto de seus pés, olhando com horror Edwin e ela.

— As do tipo de Blanche se safam por elas mesmas. É uma moça ardilosa com talento para a cama. Não duvido que logo terá outro protetor — disse depreciativamente, ignorando o grito de protesto de Blanche.

— E chama Selik de besta?

Edwin apertou de novo, e Rain perdeu durante um segundo os sentidos. Um momento depois, escutou um agudo grito atrás dela, e Edwin soltou as garras de seu pescoço. Mas teve só um momento para perguntar por que, quando ele caiu sobre suas costas, arrastando-a ao chão. Quando Rain o afastou de um empurrão e baixou o olhar viu um machado de batalha incrustado na nuca de Edwin. Emanava sangue da ferida, e era óbvio mesmo antes de tomar seu pulso que morrera imediatamente.

Clamou em voz alta

— Por Deus! Aterrissei em um manicómio da Idade das Trevas.

Olhou para trás de si para ver quem tinha lançado o machado, e se surpreendeu ao ver Ubbi com as pernas separadas em posição de batalha e as mãos nos quadris. O gentil duende se transformara em um feroz guerreiro. O rosto do homenzinho estava nublado pela fúria, mas perguntou com gentileza:

— Senhora, está ferida? — ela sacudiu a cabeça, confusa e desorientada por tudo o que lhe tinha acontecido momentos antes. Sangue fora derramado por sua culpa, e precisava aceitar esse horrível pensamento.

— Foi sua maldita culpa — comunicou iradamente Gorm a Ubbi. — Nunca devia ter soltado esse bastardo. Todos os saxões são iguais, desonestos até a medula.

— O que esperava que fizesse, seu bruto? — lhe censurou Rain. —Estava desesperado, e era sua única oportunidade de fugir.

Tanto Gorm quanto Ubbi a olhavam como se estivesse louca.

— Ele teria te matado — disseram ambos ao mesmo tempo.

— Isso não é desculpa — argumentou Rain, suas palavras soando pouco convincentes mesmo para ela.

— Bem, graças aos deuses, você está a salvo — replicou Ubbi. —por que não volta agora à tenda e descansa depois dessa dura experiência?

Rain viu que os prisioneiros a contemplavam com temor reverencial e sacudiu a cabeça.

— Não, não posso.

Para mortificação de Ubbi, voltou a se sentar e prendeu de novo cordas frouxamente em torno de seus pulsos. Gorm murmurou:

— Maldita fulana — enquanto arrastava o corpo de Edwin para além das árvores, ordenando a alguns homens que o enterrassem — além disso, o mau-cheiro do sangue Saxão arruína meu apetite.

Isso fez Rain lembrar que não tinha comido desde o dia anterior. Olhou o heterogêneo grupo que compartilhava sua corda e compreendeu que provavelmente eles tampouco tinham comido, e há muito mais tempo.

— Tem que alimentar essas pessoas — gritou para Ubbi, que tinha voltado para o fogão. Este continuou assobiando despreocupadamente enquanto fazia suas tarefas domésticas como se não tivesse acabado de matar um homem.

Sem levantar o olhar, contestou:

— O amo não deixou instruções para que os prisioneiros fossem alimentados.

— Isso é ridículo. E se ele não retornar? — o coração de Rain se afundou ante a recordação de suas anteriores preocupações por Selik. Tinha um montão de recriminações para ele e muitas perguntas que precisavam de respostas, mas não podia se imaginar vivendo sem ele. Que incrível, pensou, inclinando a cabeça impressionada, que pudesse ter sentimentos tão intensos por um homem que acabava de conhecer. Forçando-se a se concentrar no presente, acrescentou —Quero dizer, e se não voltar até a noite?

Ubbi encolheu os ombros com indiferença.

Rain sacudiu a cabeça chateada ante sua difícil situação, logo murmurou uma obscenidade em voz baixa, se soltou de novo de suas amarras e irrompeu na área da fogueira usada para cozinhar.

As sobrancelhas de Ubbi se elevaram com diversão enquanto comentava secamente.

— É assim como tomam prisioneiros em suas terras? Os prisioneiros podem se prender e se soltar à sua vontade?

— Feche a boca, idiota.

Ele soltou uma risadinha e continuou cortando os ossudos coelhos, logo os jogou formando uma pilha a seus pés

— É isso tudo o que tem? — perguntou, franzindo o nariz com desgosto quando se inclinou sobre o caldeirão.

— Sim — respondeu timidamente. — Não sou muito bom na cozinha, mas ninguém mais se encarrega da tarefa. Talvez você pudesse…

— Impossível! Eu não cozinho.

— Bom, que assim seja então — disse Ubbi, apontando o pestilento caldeirão de sopa. — Queimou o fundo quando o fogo ficou muito forte.

— Cheira como o inferno.

Ele lhe sorriu.

— Sabe por acaso como o inferno cheira, já que vem do céu?

Rain fez um vulgar som de desgosto.

— Só perguntei. Não há necessidade de ser grosseiro. Talvez pudesse dar essa lama aos prisioneiros para que possa de alguma maneira limpar a panela para o jantar — apontou para a pilha de carne e ossos de coelhos a seus pés.

Sem outra escolha, Rain repartiu parcamente o conteúdo da panela em duas terrinas de madeira e as levou alternadamente aos prisioneiros que eram forçados a segurá-las com as mãos amarradas e beber nelas. Nenhum se queixou da horrivel gororoba, estando muito famintos para se importarem e perguntando-se se provavelmente seria sua última refeição.

Quando terminou, Rain ajudou Ubbi a esfregar o caldeirão perto do lago com areia grossa. Logo voltou aos prisineiros e se aproximou de Blanche, a mulher que estivera com Edwin.

— Sabe cozinhar? — perguntou-lhe gentilmente, sensível à tristeza da jovem. Mas Blanche não parecia nem um pouco dolorida pela morte de seu amante quando percebeu a possibilidade de um momento de alívio em sua prisão.

— Sei, sim, senhora — respondeu de boa vontade. — E o coelho é minha especialidade. Se me deixa colher algumas ervas naquelas árvores, sob guarda, é obvio, posso fazer uma saborosa panela de guisado que agradaria até um rei.

Rain sinceramente duvidava, mas preferia tudo à culinária de Ubbi. Quase não lhe custou convencer Ubbi que estivesse de acordo em dar a Blanche uma oportunidade.

Rain ficou agradavelmente surpresa várias horas depois ao descobrir que Blanche não tinha mentido. O guisado de coelho era espesso e saboroso, com cebolas selvagens, cenouras e cogumelos, para não mencionar umas poucas especiarias que não reconheceu. Blanche se aliviou, sabendo que ao menos por um tempo sua pele estava a salvo.

Os olhos de Gorm brilharam com interesse lascivo quando Blanche se inclinou sobre a fogueira. Rain lhe lançou um olhar que dizia claramente, Não se atreva. Ele fez uma careta e lhe rebateu com um desafiante olhar lascivo desafiando-a silenciosamente, Tente me deter.

Selik voltou ao acampamento tarde da noite, cansado de corpo e alma. Se esquivar do guarda saxão que patrulhava o campo de batalha tinha requerido um estado de alerta que Selik e seus esgotados companheiros não tinham, ainda estando sem descanso da batalha.

Tinham enterrado tantos amigos ou conhecidos quanto puderam localizar, uma tarefa horrível sob as melhores circunstâncias, uma tortura para a mente quando tinham que lutar com os abutres carniceiros por suas presas. Os olhos dos mortos eram a primeira coisa a serem devorados, algo particularmente delicioso para os bestiais pássaros, sem dúvida, e Selik e seus valentes homens se detiveram para vomitar numerosas vezes ante a visão de tantos corpos cegos. Sem mencionar a carne meio devorada. Ou o mau-cheiro. Oh, Deus, o mau-cheiro! Todo o tempo, lobos e outros predadores circundavam o campo, esperando que partissem.

Por isso, Selik não estava em seu melhor aspecto quando entrou em sua tenda, tirou suas botas de couro trançado e a armadura, e se deixou cair nas peles do leito sem tirar a túnica. Levou apenas um minuto para se dar conta de que a estranha mulher que tinha proclamado ser seu anjo da guarda tinha sumido.

— Ubbi!

O homenzinho abriu a porta da tenda tão logo suas pequenas pernas conseguiram atravessar o acampamento, onde tinha posto as peles de seu leito.

— Me chamou, senhor?

Selik soltou um palavrão e Ubbi se encolheu.

— Onde ela está?

— Quem? — Ubbi trocou o peso do corpo de uma perna para outra, incômodo, sem querer confrontar seu olhar interrogativo.

— Sabe condenadamente bem de quem falo.

— Com os prisioneiros, meu senhor. Mas não por minha culpa. Nem pela de Gorm — acrescentou rapidamente.

Selik suspirou alto e se forçou a não sacudir seu fiel servo. Cuidadosamente, espaçou cada palavra ao falar.

— Por que ela está com os prisioneiros?

— Porque diz que é uma pacifista

— Pacifista?

— Sim, os pacifistas são contra todas as lutas, até…

— Malditos sejam os pacifistas!

Ubbi lhe lançou um enviesado olhar condenando a interrupção, e continuou.

— Disse que era uma pacifista, e que se eu ou Gorm não soltássemos os prisioneiros, então ela também queria ser uma prisioneira.

— Ela é uma prisioneira.

Ubbi levantou o queixo desafiante.

— Não, ela é uma hóspede. Isso é o que disse a ela. E há uma diferença, meu senhor.

— Sim, é uma valiosa hóspede por suas habilidades médicas. Quero-a de volta à tenda, onde possa guardá-la para que não fuja.

Ubbi ergueu uma sobrancelha com incredulidade ante seus motivos.

— Não me deitei com a garota — disse, curiosamente na defensiva.

— Eu disse que fez? — replicou imediatamente Ubbi, levantando as mãos no ar, contestando.

— Bom, sei o que está pensando.

— Bom! Deus também fala com você? Está agindo tão mal como a moça — disse Ubbi com uma trejeito convencido que irritou Selik ainda mais.

— Traga a donzela aqui — grunhiu.

Ubbi se afastou dele dando um passo atrás.

— Não, eu não, senhor. Ela já ameaçou me bater hoje. Melhor que a traga você mesmo.

Olhando com o cenho franzido, Selik se dirigiu aos prisioneiros presos.

— Por que te ameaçou com danos físicos se é tão pacifista?

— Porque matei um dos prisioneiros, aquele rapaz arisco que estava fazendo aquelas ameaças ontem à tarde.

Selik parou e olhou seu servo, que raramente se envolvia em lutas. Sabia que Ubbi devia ter tido boas razões para matar um valioso escravo.

— Por quê?

— Estava estrangulando a senhora.

— Rain? — um terror gelado atravessou Selik ante as palavras ditas despreocupadamente por Ubbi. Por que se sentia desolado ante a perspectiva de perder uma simples donzela que tinha conhecido apenas no dia anterior?

Ubbi assentiu.

— É melhor que se prepare para a maior surra verbal de sua vida. Está imensamente zangada com você.

— Bem, não estou com humor para ouvir suas reclamações irritantes sobre o tema da escravidão essa noite. Talvez devesse encher sua boca mordaz com um trapo e me aliviar em seu corpo até que esteja muito cansada para se queixar de mais nada.

Ubbi fez um som que parecia cético, questionando a sabedoria de tal plano.

A lua cheia e as fogueiras do acampamento forneciam suficiente luz para Selik ver os prisioneiros, que estavam na terra, a maioria deles dormindo. Alguns o olharam com atemorizados olhos arregalados enquanto ele passava. Teria que encontrar algumas roupas mais protegidas para o sarnento grupo pela manhã ou nunca poderiam fazer a árdua viagem a Jorvik. E comida, seus homens teriam que encontrar mais caça para engordar suas ossudas figuras, ou não conseguiriam nada dos traficantes de escravos.

Selik achou finalmente a problemática moça no final da fila, encolhida como uma bola, tremendo de frio mesmo enquanto dormia. Notou que tinha furtado uma de suas túnicas de lã, embora não servisse de proteção contra os ventos outonais. Em vez de estar zangado por seu roubo, sentiu uma estranha satisfação de saber que sua túnica acariciava sua carne, como um pobre substituto de seus braços.

— Maldição! — murmurou em voz alta. — A moça está me fazendo tão idiota como um rapaz inexperiente ansioso por sua primeira transa.

Os olhos de Rain se abriram lentamente quando a voz de Selik entrou em sua consciência. Ainda desorientada pelo sono, não protestou a princípio, quando ele se inclinou e desatou os frouxos nós em seus pulsos.

— Pelos ossos de Deus! Grande prisioneira é, quando pode entrar e sair de seus nós com tanta facilidade.

— São simbólicas — disse sonolentamente, e bocejou amplamente, esquecendo de cobrir a boca com educação. Mas então se deu conta do sorriso dele e franziu o cenho, tentando afastá-lo.

— São símbolos de quê? — perguntou, endireitando-se e olhando-a quando ela se sentou e moveu os ombros. Sem dúvida, tinha conseguido algumas dores por dormir sobre a dura terra. Um castigo bem merecido por sua cabeça-dura, decidiu

— De meu protesto por seu feito bárbaro — seu rosto endureceu de repente, quando pareceu totalmente acordada.

Ele elevou uma sobrancelha interrogativamente e cruzou os braços sobre o peito. Até sua dura carne estava começando a sentir o frio.

— Que feito bárbaro?

— Capturar escravos, é obvio — gemeu. — Como pôde? Apesar de eu ódiar a violência, posso entender que algumas pessoas podem justificar como autodefesa. Mas tomar escravos fora do calor da batalha, bem, isso não é civilizado.

— Não tenho que me defender diante você nem qualquer pessoa. E não entende a civilização, harpia, se acha que os Vikings são os únicos que consideram os prisioneiros um butim da guerra. É universal. Não sei de nenhum país nem de ninguém que condene a prática.

— Mas, o que sabe dentro de seu coração?

Sua pergunta deixou Selik perplexo. Devia ter uma resposta simples, mas não pôde formar as palavras que o defenderiam.

Um som sussurrante desviou então sua atenção, e Selik se deu conta de que sua conversa tinha despertado todos os prisioneiros, que escutavam atentamente o que devia parecer uma estranha conversa. Com um grunhido de desgosto, inclinou-se e levantou a problemática moça.

Rain ofegou abruptamente pela surpresa de seu rápido movimento, mas antes que pudesse protestar, ele colocou o rosto dela contra seu pescoço, envolveu com um braço de aço suas agora esperneantes pernas, apertando-as contra seu quadril, e lhe imobilizou ambos os braços contra o corpo circundando-a com seu braço direito.

Selik sabia que Rain se considerava muito grande para que qualquer homem a levantasse do chão, e estava encantado de que continuasse se enganando. Fingiu dar um passo em falso e quase cair. Ela parou de lutar imediatamente.

— Se não comesse tanto, poderia deixar de crescer.

— Argh! Me desça.

— Não, acho bom o exercício depois de um longo dia cavalgando. É quase como levar meu cavalo.

Ela parou de repente, e lhe perguntou com voz fraca:

— Selik, onde está seu cavalo?

Surpreso por sua pergunta, respondeu hesitante:

— Está cercado com os outros cavalos perto do lago. Por quê?

— Me levaria para ver Fury? Por favor. É importante para mim.

Selik deu de ombros. Não via mal em deixá-la ver o animal. Além disso, poderia aproveitar para tomar um banho rápido no lago. Pois lembrava, que seu alforje com sabão e tecidos, estava no chão perto dos cavalos, onde o tinha deixado. Mas não queria ceder tão logo.

— E por que o faria? O que me dará em troca desse favor?

Sentiu-a enrigecer imediatamente.

— Não tenho nada para dar.

— Oh? Não acho. Pode prometer calar sua língua de harpia. Ou jurar não fugir — lhe ocorreu um imobilizante pensamento delicioso. — Ou...

— Ou?

— Ou poderia me beijar por vontade própria — sussurrou roucamente enquanto lhe acariciava os cabelos com o nariz. Ainda cheirava a “Paixão”, o perfume que usara no dia anterior. E ao seu próprio e doce aroma.

— Ora! Te dei muito mais do que beijos ontem à noite.

— Sim, mas não realmente por sua própria vontade, já que estava adormecida. E, segundo minha lembrança, não houve beijos — com certeza lembrava muito mais que aquilo.

Como era estranho, pensou, que a houvesse tocado tão intimamente e não a tivesse beijado. Se houvesse realmente pensado que era sua esposa morta com quem fazia amor em seu louco estado, por que não tinha provado seus lábios? Talvez não estivera tão confuso quanto ambos pensavam. Podia ser que soubesse exatamente quem estava em suas peles, mas subconscientemente quisesse negar a traidora atração.

— Um beijo? Um beijo é tudo o que você quer?

Ele assentiu, soltando sua presa agora que tinham chegado ao lago. Ela deslizou sensualmente para baixo em seu rígido corpo até que ficou em pé encarando-o, à distância de apenas uma respiração, mas sem tocá-lo.

— E então vamos conversar?

Ele assentiu uma vez mais em silêncio, incapaz de se mover diante o feitiço de sua prisioneirante proximidade. Devia ser mesmo uma feiticeira para enfeitiçá-lo desse modo.

Rain pôs as mãos em seus ombros e se ergueu. Ele sentiu seu doce hálito sobre os lábios antes que ela fechasse os olhos e roçasse seus lábios gentilmente contra toda a extensão dos dele, como se saboreando aquela leve carícia. Mas o efeito foi poderoso, aflitivo.

Ela gemeu.

Ele se conteve rigidamente, lutando contra o rugir do sangue em sua cabeça, contra o selvagem batimento de seu coração. Era apenas um beijo.

— Selik — sussurrou implorante contra sua boca.

Moveu as mãos de seus ombros à nuca, acariciando os tensos músculos. E se aproximou mais. Peito contra peito. Coxas contra coxas. Quadris contra quadris. Masculinidade contra feminilidade.

Selik gemeu. Não pôde conter-se.

E ela moveu de novo os lábios, com mais firmeza desta vez, modelando, encaixando. Mordeu levemente seu lábio inferior, e a seguir o sugou suavemente. Ele ofegou de puro e absoluto prazer, e ela aproveitou a oportunidade para deslizar a ponta da língua entre seus lábios. Uma breve incursão. Tão rápida que podia pensar que tinha sonhado

E ela lhe dizia que não desfrutava particularmente dos assuntos ligados à cama! O que faria se estivesse realmente excitada?

Selik se sentiu enrijecer e aumentar contra seu suave corpo. Bastava de jogos e brincadeiras! Envolveu-a com os braços e a apertou com mais força contra seu corpo. E tomou o controle do beijo.

Logo, colocando uma mão de cada lado de seu rosto, inclinou o rosto dela para cima, à brilhante luz da lua, e notou com extrema satisfação os olhos sonolentos e entrecerrados, os lábios úmidos e levemente entreabertos. Com abandono delicioso, percorreu o contorno de seus lábios com a polpa do polegar, e logo fez o mesmo com a ponta da língua.

Ela separou os lábios ainda mais, e parou seu coração. Esfregou-se sedutoramente para frente e para trás contra ele, deixando ambos escorregadios com os sumos de seu mútuo desejo. Pressionou com força, querendo tudo dela, logo suavizou para um beijo leve como uma pluma, e com força de novo. Não tinha o suficiente dela. Seu sabor era um afrodisíaco ao qual não podia resistir.

Quando o desejo inundou suas veias, não pôde resistir mais e deslizou a língua na acolhedora bainha que era sua boca. A sugou, e sua rigidez sofreu um espasmo como ato reflexo contra ela.

Uma maçante voz interior advertia Selik de que as coisas estavam progredindo muito rápido. Esse intenso e maravilhoso desejo que não sentia há tantos anos, talvez nunca, terminaria abruptamente quando derramasse sua semente se não fizesse mais lento aquele jogo amoroso. retirou-se lentamente, com relutância, e disse com áspera voz:

— Rain, vai me devorar com seu doce calor. Devemos nos acalmar um pouco para que possamos saborear mais o prazer — ela se moveu contra ele em protesto, e ele a reteve com firmeza. —Não, carinho, quero te amar por toda a noite, e não suportarei um momento mais se não parar de me torturar.

— Eu? Te torturar? Não, não sou eu quem está ardendo — sussurrou roucamente.

E Selik quase chegou ao clímax.

Pôs as mãos em seus ombros, e a manteve firmemente afastada. Logo fez um áspero som nas profundezas de sua garganta quando notou a turva sensualidade de seus olhos meio entreabertos e a inchada vermelhidão de seus lábios. Lábios devorados por seus beijos, pensou com desmesurada satisfação. Pelo sagrado Thor!

Obrigou-se a se inclinar e pegar seu alforje, que tinha deixado perto do lago antes, e empurrou o aturdido e obviamente excitado corpo dela para a borda do lago. Antes que ela pudesse adivinhar suas intenções, deixou a bolsa cair, levantou-a do chão, e entrou no lago até que suas águas geladas chegaram à metade das coxas. Então se sentou com ela ainda entre seus braços.

Ela arquejou.

Segurou-a com firmeza.

— Fique sentada, carinho. Nós dois precisamos esfriar nosso sangue quente para a longa noite que temos pela frente. Além disso, estou cheirando como Fury, e sem dúvida te impregnei com meu aroma.

— Selik, está gelada.

— Shh. Eu sei. Apenas agüente.

Quando fez o que lhe pedia sem seus habituais questionamentos nem desafio, tirou-lhe a túnica, a camisa e os calções, os sapatos e a sensual roupa íntima que tinha uma abotuadura secreta entre os seios. Ela ficou nua e tremendo diante ele. Magnífica. Os cabelos dourados até a cintura. Longas pernas. Quadris esbeltos. Seios altos e firmes. Como todas as suas fantasias de como seria uma deusa Viking.

— Não se mova — ordenou asperamente, achando difício conservar o fôlego. Deve ser o frio, disse a si mesmo.

Rapidamente, voltou ao alforje e tirou um pedaço de sabão e alguns panos de linho, e a seguir tirou todas as roupas. Quando voltou, ela ficou no mesmo lugar, escrutinando seu corpo tão intensamente como ele tinha feito com o seu.

— É tão formoso — sussurrou.

— Não, não mais. Deve estar cega — mas não pôde evitar que um sorriso lhe suavizasse a boca.

— Minha mãe tinha razão. Parece um deus nórdico.

Selik maneou a cabeça diante a coincidência de seus pensamentos.

— Pode ser que o destino tenha decidido então que você seja a deusa para este deus. Venha — ele a encorajou, e lhe ensaboou então todo o corpo dos ombros às pontas dos pés, parando aqui e ali para mostrar sua apreciação em cada lugar delicioso que descobria. Quando ensaboou as mãos e massageou as duras pontas das esferas de seus seios, pressionando-as contra sua palmas, ela ofegou guturalmente.

— Jamais, jamais, desejei um homem tanto como a você.

Selik queria zombar de suas palavras, mas o inexplicável prazer que elas lhe trouxeram paralisou sua garganta. Sem palavras, estendeu-lhe o sabão, e ela lhe devolveu o favor, ensaboando seu corpo. Suas delicadas mãos de cirurgiã aliviaram gentilmente seus músculos e deram calidez a sua pele, mesmo às partes geladas. Quando começou a fazer brincadeiras em sua masculinidade, ele a parou a contragosto.

— Não, não posso suportar tanta pressão.

O sabão caiu entre eles, e Selik a atraiu uma vez mais para seus braços. Seus corpos encharcados em sabão se moveram sensualmente um contra o outro, e ambos sorriram.

— Oh — disseram em uníssono, e sorriram de novo.

Selik esfregou seu torso contra seus seios ensaboados e se regozijou quando ela arqueou o pescoço, fechou os olhos, e se apertou com major força contra ele.

— Perco as forças por você — sussurrou.

— Basta! — deixou-se cair na água, arrastando-a com ele e enxaguou impulsivamente o sabão de seus corpos, então a empurrou para as margens, onde pegou um manto de pele que tinha deixado ali fazia pouco tempo, e a envolveu nele, mas não antes de morder e beijar todas as sensíveis curvas de seu delicioso corpo.

Ela suportou docilmente, erguendo o olhar para ele, excitada ao ponto da inconsciência. Ele não estava em melhores condicões.

Selik retirou a água de seus cabelos, sacudindo-se como um cão peludo, e logo pôs um braço em torno dos ombros de Rain, empurrando-a contra seu flanco. Começou a caminhar para a tenda, sem se preocupar com sua nudez, levando-a com ele.

Quase tinham passado pela zona onde os cavalos estavam cercados quando Rain parou subitamente e sacudiu a cabeça como se quisesse clareá-la.

— O cavalo — disse com voz repentinamente fria. — Prometeu que eu poderia ver seu cavalo.

Confuso por sua repentina mudança de humor, Selik assentiu com a cabeça e a guiou até Fury, que relinchou suavemente em boas-vindas quando Selik lhe acariciou a crina.

— Onde está a sela? — perguntou-lhe com voz estranhamente aguda.

— O que te preocupa, querida? — perguntou-lhe Selik, alarmado de repente.

— Só me mostre sua sela.

Ele apontou para um lugar próximo e olhou com os olhos entrecerrados como achava sua sela, inclinava-se para examiná-la, e logo se deixava cair de joelhos. Pôde ver que estava chorando pelo sacudir de seus ombros.

Inclinando com espanto a cabeça, se aproximou.

— Me diga — urgiu ele, se deixando cair ao seu lado. Apesar de sua pele nua, não sentia frio.

— Isso — disse ela sufocadamente. — Você os arrancou?

Viu a meia dúzia de couros cabeludos pendurada no arção da sela de montaria e ficou rígido. Por todos os infernos! Tivera a intenção de destruir aquelas coisas vis. Na verdade, nem sequer se tinha dado conta de que as pegara durante sua desenfreada fúria daquele dia até quase estarem de volta ao acampamento. Embora muitos de seus companheiros vikings pegassem couros cabeludos depois de cada batalha, ele nunca tinha feito antes. O horror da carnificina que presenciara devia ter revoltado sua mente. Mas recusou se justificar ante a moça santarrã.

— Sim, é o behaettie, um nobre costume nórdico para evitar que nossos inimigos entrem nas portas do céu.

Ela sacudiu a cabeça, em negação, e balançou para frente e para trás sobre seus calcanhares, soluçando silenciosamente.

— Não é uma visão bonita, eu sei, mas não é pior que os troféus saxões. Eles esfolam os Vikings vivos e prendem suas peles nas portas de suas Igrejas.

— Os homens violentos sempre encontram desculpas para sua bestialidade — disse cansadamente, o olhando agora diretamente nos olhos. A tristeza de sua condenação o gelou como nem a água gelada nem o ar frio conseguiram fazer.

Ele tiritou e a dor sempre presente em sua alma perdida se abateu sobre ele como uma nuvem de inverno.

 

Desanimada, Rain cambaleou sobre seus pés, segurando com força o pedaço de pele ao redor de seu corpo nu. Tremeu, mas não de frio. Sua mente titubeou diante o choque do horrível espetáculo dos couros cabeludos humanos pendurando na sela de Selik.

Oh, Deus! Esse homem... Esse homem que de algum modo estava se voltando tão importante para mim; não só toma vidas humanas, mas também guarda lembranças de sua depravação.

Selik ficou em pé diante ela, nu e sem demonstração de arrependimento, com sua cabeça inclinada de maneira inquisitiva. As tranças molhadas de seus cabelos voaram levemente enquanto secavam na brisa da noite. Mesmo com a luz da lua, ela podia ver que sua horrorizada reação diante os couros cabeludos tinham transformado seus formosos olhos, que momentos antes estavam luminosos de paixão, e retornavam à sua habitual expressão cruel.

Brevemente, seus olhos examinaram seu corpo de amplos ombros, além das mãos apertadas em punhos sobre os estreitos quadris, seu estômago plano, seus bem formados genitais, suas robustas coxas e pantorrilhas e seus pés nus. Sacudiu a cabeça sobressaltada por sua beleza e pelo fato de que não se importasse que ele fosse um animal magnífico. Porque essa era a palavra-chave, animal. Ele era, de fato, um animal ferido.

— Sim, sou uma besta. Te preveni do fato, mas insistiu que poderia me salvar — a voz de Selik soou densamente com desdém e auto-reprovação.

Rain não se dera conta de que dissera as palavras em voz alta, mas talvez fosse melhor que Selik soubesse exatamente como ela se sentia. Não que isso mudasse algo. Um homem que podia fazer uma coisa tão horrível era irredimível.

Quem é você para atirar pedras? Perguntou uma voz na cabeça de Rain. Fechou os olhos com cansaço, temendo vacilar à beira de um colapso nervoso.

Há algo bom em cada homem, somente tem que querer ver.

A mente de Rain oscilou ante a confusão. Aquela perfeita experiência de viagem no tempo era provavelmente apenas uma invenção de sua imaginação. Estava certamente sentada em algum Monty Python[3] do tipo instituição mental com uma clássica camisa-de-força. Com um psiquiatra do tipo de Jack Nicholson ao alcance da mão. Sim, tinha sentido. Toda aquela coisa Viking era só uma fantasia. Não, um pesadelo. Pôs uma mão sobre sua boca para sufocar uma tola risadinha histérica.

Selik suspirou com desgosto ante sua estranha distração. Ela lhe dirigiu um olhar furioso que esperava ter a mesma dose de repugnância. Logo começou a andar na frente dele, de volta para a linha de prisioneiros. Tinha que se afastar do bárbaro para pensar.

Selik a agarrou pelo antebraço quando ela passou, detendo-a.

— Aonde pensa que vai?

— Não... me... toque — apertou os dentes ao dizer as palavras espaçadamente. — Nunca... mais... me... toque.

Ele liberou seu braço e voltou um pouco para trás. Os músculos se esticaram em sua mandíbula, sobressaindo-se, e disse com voz de aço:

— Os reféns não dão ordens.

Rain de de ombros abatida.

— Eu era uma tola por pensar que era algo mais. Era uma tola por pensar que poderia te mudar.

Oh, um pouco de confiança!

— Pare — lançou um grito, pondo uma mão em sua dolorida cabeça enquanto mantinha unidas as bordas da pele com a outra mão.

— Parar o que?

— Não me dirigia a você — resmungou. — É a maldita voz em minha cabeça.

Selik quase pareceu divertido, mas o sorriso não alcançou seus frios e impassíveis olhos.

— Deus outra vez?

— Sim. Não. Oh, não sei. É só provavelmente minha consciência ou algo assim.

— Guarde sua consciência para pessoas que importam. — Comentou desdenhosamente. — Ou para alguém que seja redimível. Eu não sou.

— Oh, cale-se. Não pode ver que tive bastante por um dia? — não fazendo caso dele intencionadamente, começou a andar para os prisioneiros, logo parou de repente e se dirigiu para a tenda de Selik. Acabava de se dar conta de que precisava de roupas mais abrigadas.

Quando seus pés nus entraram em contato com a terra fria do caminho, resmungou.

— Por Cristo! Serei a única médica no mundo com calos nas plantas dos pés.

Um breve tempo depois, estava plantada ao lado de uma das arcas de Selik, procurando uma túnica e umas perneiras “calças”, como Selik as chamou. As usaria até que suas roupas secassem. Quando ergueu o olhar o viu se apoiando contra a abertura da tenda, apesar de tudo seus olhos se arregalaram, o coração deixou de pulsar, ao vê-lo gloriosamente nu.

Rain mal suprimiu um gemido. Me dê paz, Deus. Você não joga limpo.

— Agora rouba? — ele perguntou com secura, olhando as roupas em suas mãos.

— Preciso de algumas roupas secas. Você pode ser insensível ao frio, mas eu não vou dormir com o traseiro ao relento aí fora, sobre a terra fria.

— Tem razão. Você não vai dormir lá fora, sobre a terra fria.

Quando a implicação de suas palavras foi assimilada, Rain virou a cabeça e ergueu os olhos para ele incredulamente.

— Não pode pensar que eu dormiria com você agora. Tem alguma idéia de como me zanga? De fato, eu mesma me zango por ter permitido que suas mãos me tocassem tão intimamente quando... quando… — ofendeu, incapaz encontrar palavras para descrever suas atrocidades. Finalmente, esclareceu com um dar de ombros cansado. — Sinto-me desonrada.

Rain o viu apertar fortemente a mandíbula, mas seus olhos não deixaram revelar nenhuma emoção.

— Desonrada ou não, vai compartilhar minha cama de peles.

Ficou em pé furiosamente, mantendo seu manto de pele unido com uma das mãos e uma túnica e um par de calças na outra.

Ergueu uma mão para fazê-la se calar.

— Não, não pense em me desafiar nisto. E, escute isso, moça, não tenho nenhum desejo de ficar excitado esta noite. Mas se alguma vez o ardente desejo me atingir em um momento de loucura, será minha decisão que vai ganhar, não a sua.

— Então seria um estupro. Mas por que isso deveria te incomodar, com a besta que é? Isso é só um pecado a mais a acrescentar a sua lista, e um menor, acho, em vista de suas outras atrocidades.

Ele deu de ombros com desdém.

— Ah! — disse ela finalmente com exasperação, sabendo que era inútil discutir com um bruto insensível. — Vire-se para que possa me vestir.

Não moveu um músculo, só cravou os olhos na parte de trás insolentemente.

— Não, vai continuar a maneira Nórdica. Não usamos roupas na cama. Pode usar minhas roupas pela manhã, mas não na cama de peles.

Com um grunhido incrédulo, deixou cair a capa de pele e deslizou para baixo das peles da cama que estava sobre a terra, mas não antes de notar como os olhos de Selik devoravam seus frios e erguidos mamilos. Uma leve contração ao lado de sua boca anunciava, alto e claro, que sua nudez o afetava.

Castigando-se mentalmente por um rubor de prazer momentâneo diante seu escrutínio apreciativo, Rain se afundou profundamente sob as peles, ocultando seu ruborizado rosto do olhar muito observador de Selik.

Quando ele apagou a vela e deslizou para dentro, atrás dela, Rain se moveu tão longe quanto pôde para que seus corpos não chegassem a se tocar. De qualquer maneira, ela sentiu o calor de seu corpo e imaginou que seu hálito quente fazia cócegas em suas omoplatas.

Despertou um pouco antes da alvorada e descobriu que girara e que estava agradavelmente deitada em seus braços, sua face pressionava os pêlos sedosos de seu peito; uma de suas pernas cruzada intimamente por cima das dele. Durante um longo momento, ficou imóvel, sentindo o batimento de seu estável coração contra seu ouvido, e em meio a sua letargia admitiu algo que não poderia estando totalmente acordada. Não odiava aquele homem, não importava o que ele fizesse ou planejasse fazer. Ela somente não podia odiá-lo.

Tinha que ajudá-lo, mas como?

Quando os raios de luz começaram a delizar pela abertura da tenda, Rain se afastou com cuidado dos braços de Selik e saiu da cama de peles. Rapidamente se vestiu com as malhas de Selik, indiferente ao fato de que eram uns quinze centímetros mais longas e faziam volumes nos tornozelos. A túnica de lã era muito grande, mas parecia quente e cheirava fracamente a uma nem um pouco desagradável pele masculina, a mesma que aspirara a noite inteira.

Gorm estava postado perto dos prisioneiros, sentado dormindo com a parte de tras de sua cabeça apoiada contra um tronco de árvore. sentou-se mais reto, mas não a interrompeu quando ela procurou algo dentro dos utensílios que Ubbi usava para cozinhar perto da fogueira. Quando finalmente encontrou o que procurava, deu a volta estoicamente e se dirigiu aos cavalos.

Deveria conseguir dois pares daquelas asas de anjo, Senhor.

Selik dormiu a manhã até passar a alvorada, os ferimentos dos últimos dias em seu corpo e mente finalmente o alcançando. A problemática moça estava ausente de sua cama, mas aquilo realmente não o surpreendeu. A insensata feiticeira não prestava nenhuma atenção a suas ordens e despreocupadamente fazia o que gostava.

Selik se arrepiou quando pensou na dura condenação de Rain sobre sua posse de cabeleiras na noite anterior. Ela o tinha chamado de Besta. Bem, de fato ela tinha razão. Mas afinal de contas, a moça era crítica em tudo o que fazia. Agia como se ele fosse um gatinho travesso e ela sua proprietária. Ah! Melhor faria se tomasse cuidado ou descobriria que tinha um tigre em seus domínios que ela seria o delicioso pedaço que ele jantaria. Selik riu de sua própria brincadeira mental.

De fato poderia repetir a ela mais tarde, mas tinha dúvidas de que entenderia a piada. Sobretudo se seu humor não tivesse melhorado durante a noite. Selik emergiu da cama de peles, imaginando que ainda conseguia cheirar a tentadora “Paixão” de Rain. Sacudiu a cabeça admirado com a estranha mulher que tinha entrado em sua vida. Fazia só três dias? Parecia que sempre conhecera. E que criatura tão estranha ela era! Imagine, pôr nome em um perfume! Punha nome em seus sabões também? Perguntou-se, sorridente. Ou em seus pentes?

Selik bocejou enormemente e coçou o peito enquanto vestia um malhas limpas e uma túnica azul escura. Colocou um cinto amplo engastado em prata na cintura e uns braceletes grossos que Astrid lhe dera uma vez sobre a parte superior de seus braços, acariciando afetuosamente com o indicador o fino trabalho gravado.

Ele se aproximou da fogueira da cozinha onde a jovem moça saxã que tinha feito prisioneira mexia uma panela. Ela tirou várias fornalhas de pão chato para fora das brasas e as pôs em uma rocha para que esfriassem. Por ter ignorado as cãibras de fome de seu estômago vazio durante muito tempo, pegou um dos pães e o jogou de uma mão a outra para esfriá-lo mais rapidamente.

Não disse nenhuma palavra à criada que trabalhava silenciosamente. Tampouco comentou sobre sua liberação da corda dos prisioneiros. Assumiu que Ubbi tinha deixado de boa vontade suas tarefas de cozinha a ela.

Separando um pedaço do excelente pão branco, comeu avidamente enquanto se dirigia aos cavalos, onde Ubbi repartia em pequenas quantidades a preciosa comida que ele havia trazido a noite passada.

— Encontraram Sveinn? — perguntou Ubbi, elevando a vista para ele enquanto trabalhava.

Selik assentiu com a cabeça.

— E Ragnor?

— Sim, e Tostig, Jogeir e Vigi, também— respondeu cansadamente.

— Foram todos enterrados?

— Estão todos enterrados. Era o melhor que podíamos fazer. A cerimônia do fogo teria atraído muitos saxões sobre nossas cabeças. Como se fosse... — suas palavras morreram, mas não precisava terminar. Ubbi tinha estado com ele tempo suficiente para saber que muitos saxões tinham vindo e morrido em suas mãos mais de uma vez.

— Com todo respeito, meu senhor, isto tem que parar.

— Homem tolo, sou o senhor de ninguém. Sou um covarde manchado de sangue.

Ubbi inspirou bruscamente ante o choque desse auto-insulto extremo. E, bom Senhor, as lágrimas brilharam nos olhos de Selik. Lágrimas! Estavam todos perdendo o juízo?

— Não me importa o que digam — disse Ubbi com veemência. —Você é tão nobre quanto o melhor deles. É uma luta em que se equivocou ao jogar uma pedra fundamental cheia de ressentimento em seu caminho. Embora se fará da melhor maneira. Apenas lamento.

— Pedras cheias de ressentimento! Melhor, penhascos! — depois olhou em torno. — Onde se esconde meu anjo guarda até agora?

Ubbi lhe lançou um olhar culpado, logo evitou seus olhos.

— Ah, divino Thor! Agora o que foi?

— Acho que deveria reprimir melhor o braço direito da Fúria[4], mestre. Me parece um carrapato irritado.

— Onde está?

— Quem?

— A serva de Deus! Quem demônios acha?

— Realmente pensa que o Senhor a enviou?

— Não, penso que Loki está me fazendo uma grande brincadeira ao enviar Rain para que me incomode.

Ubbi pareceu ferido, logo jogou um olhar em todas as direções para se assegurar de que não fossem ouvidos por acaso antes de lhe contar em um sussurro cheio de pavor.

— Achei uma pena em sua cama de peles ontem quando arrumei sua tenda.

Selik franziu o cenho ao pensar. Não podia ver a relação entre a descoberta de Ubbi e Rain.

— Não vê, mestre? Sem dúvida veio de suas asas, que esconde de nossos olhos mundanos.

— Ah, pelo amor de Freya — Selik gargalhou, incapaz de acreditar na ingenuidade de Ubbi.

Quando estava enxugando a as lágrimas de riso de seus olhos um momento mais tarde, Selik notou que Rain se ajoelhava sob uma árvore no outro lado do pequeno manancial; parecia cavar um buraco.

Ubbi pôs uma mão no braço de Selik quando se dispunha a ir.

— Mestre, não seja duro com ela. Não entende nossos costumes.

Selik olhou o rosto preocupado de seu leal criado e se retesou. Rain tinha tramado algum problema outra vez, sem dúvida, e o homem tolo tentava protegê-la de sua ira.

Sem outra palavra, Selik girou sobre seus calcanhares e abriu caminho até o corpo que se ajoelhava. Quando ficou mais perto, viu que sua cabeça estava inclinada em uma atitude piedosa e que resmungava algumas palavras em voz alta; algo sobre que o Senhor era seu pastor e que se deitava em seus pastos. Um monte de sujeira recente estava diante ela.

Era uma espécie de ritual religioso? Ou tinha roubado algum objeto de valor de sua tenda para escondê-lo até sua fuga?

Exasperado, Selik a agarrou pelo antebraço e a atirou a seus pés. A pequena pá de suas mãos soou com estrépito na terra ante o brusco movimento. A boca de Rain se abriu pela surpresa.

— Ah! Me assustou.

Então, como se houvesse voltado a memória a lembrança do persistente aborrecimento contra ele, lutou para evitar seu apertão.

— Que demônios está fazendo?

Ela ergueu o queixo de modo desafiante e evitou responder.

— Te fiz uma pergunta — disse ele com frieza, apertando seu aperto na parte superior do braço até um ponto doloroso.

— Responda ou juro que quebrarei seu braço.

Viu as lágrimas brotarem em seus olhos, uma mescla de dor e orgulho ferido, mas não se preocupou. O tinha pressionado além dos limites de sua resistência.

— Planejava fugir ?

Seus olhos se arregalaram de surpresa.

— O quê?

— Eram minhas moedas de ouro o que enterrava, ou uma faca afiada, para te ajudar em sua fuga?

— Não, estúpido bruto, estava enterrando seus mortos.

Seu suspiro saiu com rapidez em uma sonora exalação, e Selik a liberou. As impressões de seus dedos já tinham machucado sua suave carne.

— Que mortos? — disse sufocadamente. — Certamente meus homens enterraram o prisioneiro que Ubbi matou ontem.

Lhe lançou um olhar incrédulo.

— É o homem mais idiota que jamais encontrei. Pensa seriamente que poderia ter cavado um buraco grande o bastante para sepultar um homem do tamanho de Edwin com esta pequena pá?

Ele olhou a pequena escavação terminada e se deu conta de que, na realidade, não pensara com clareza. Se freie, disse a si mesmo. Não permita que suas emoções controlem sua cabeça. Pense.

— Me diga então — disse mais tranqüilamente.

Ela sustentou fixamente seu olhar, seus doces olhos cintilantes com o desafio.

— Estava enterrando os... —engoliu em seco várias vezes antes de continuar — Os couros cabeludos que pegou ontem. — seus olhos cintilaram de modo desafiante enquanto esperava sua habitual explosão de zanga.

Os couros cabeludos. A maldita bruxa está tentando se opor ao behaettie. Deus, ela não deixa nunca de me surpreender.

— Ah, sério, feche a boca, Selik. É realmente deselegante.

Fechou seus frouxos lábios de uma vez com desgosto ao ser pego olhando estupidamente.

— Essas palavras que estava recitando... Eram um encantamento? — perguntou ainda cético.

A princípio, suas sobrancelhas se franziram de desconcerto. Logo ela riu; um claro som surpreendentemente agradável que se transmitiu através do espaço aberto. Ele viu Ubbi erguer esperançosamente a vista de seu trabalho com os cavalos, como se agradecesse que ainda não tivesse lhe cortado a cabeça. Maldito Inferno!

— Estava fazendo algumas orações, Selik — finalmente explicou com suavidade. — Orações cristãs para o enterro.

— Rezaria pela salvação de meus inimigos? — perguntou glacial.

— Rezaria por qualquer um, Selik. Até por você. Sobretudo por você.

— Guarde suas orações. Não tinha nenhum direito de pegar o que me pertence. Ou enterrar sem minha permissão.

Por Thor! A mulher devia ter a coragem de um guerreiro experiente para ter manejado os objetos sangrentos. E enfrentar sua temível fúria.

— Fiz o que tinha que fazer. Vai me castigar?

— Quer ser castigada?

— É obvio que não. Mas tive muito tempo para pensar sobre tudo isso do princípio ao fim enquanto roncava a noite inteira.

— Não ronco — Mesmo? Ninguém jamais o fizera notar antes.

Seus formosos lábios se moveram nervosamente nos cantos quando tentou sem êxito esconder um amplo sorriso.

— Como um urso.

Afastando-se da estranha tumba, com a mão Rain indicou a Selik que a seguisse.

Surpreso de que lhe desse ordens, estava igualmente incrédulo de tal maneira que a seguiu como um manso cachorrinho. O passo seguinte seria lhe lamber o rosto. Aaah! Agora levantava algumas possibilidades interessantes. Sorriu abertamente, apesar de sua irritação. Depois balançarei meu rabo. Prorrompeu em uma risada sufocada de auto-mordacidade ante essa esperança.

— O que é tão engraçado?

— Você. Eu. Minha vida.

Rain inclinou sua cabeça de forma inquisitiva e se deixou cair de todo perto do pequeno lago. Deslizou suas longas pernas sedutoramente delineadas pelas malhas em toda seu glorioso comprimento, de modo que seu queixo descansava em seus joelhos e seus braços estavam envolvendo suas pantorrilhas.

Ele teve dificuldade para engolir com sua seca garganta.

Deslizando para baixo ao lado dela, descansou suas costas contra uma árvore. Não muito perto. Sua proximidade o desarmava poderosamente e devia permanecer alerta com a moça ardilosa.

— Selik, parece que não tenho outro remédio a não ser estar aqui com você , mas temos que chegar a um acordo.

Esperou que se explicasse.

Ela lambeu os lábios com a ponta da língua como se cogitasse suas idéias; e ele lembrou como se sentira dentro de sua boca ontem noite. Involuntariamente, seu corpo traidor se sacudiu em um premente conhecimento.

— Quero que me prometa que nunca, jamais tirará o couro cabeludo de outra pessoa outra vez.

Sentou-se reto.

— Não tem nenhum direito de me fazer exigências.

— Não estava exigindo — o corrigiu. — Observe que pedi. Mas com mais amabilidade, acho.

— Por que eu deveria parar?

— Bem, desejo que pare só porque te pedi, mas é óbvio que minha opinião não é o bastante importante para você.

Ela ruborizou quando ele deixou passar aquela impressão. Na realidade, ela estava se voltando muito importante.

— Selik, praticava semelhante barbárie quando Astrid estava viva?

Atirou-se imediatamente sobre ela, permanecendo em cima de seu corpo. Ela não fez uma pequena careta de dor.

— Não, não fiz, mas eu era um homem diferente naquele tempo. Tinha uma alma. E um coração. Agora não tenho nenhum dos dois. Tampouco os quero.

Ela pareceu ferida por suas palavras. Maldito Inferno! Por que ela se preocupava tanto?

— Selik, eu gostaria de fazer um pacto com você.

— Espero sua petição. Mal posso esperar para ouvir o que tem a oferecer.

— Se você prometer que jamais escal... escal... bem, voltará a fazer essa coisa horrível outra vez, prometo que nunca tentarei fugir.

Ele a observou com receio.

— Então estava planejando fugir?

— Não, isso não é o que eu disse — explodiu com impaciência —Mas eu poderia se quisesse; ao final das contas — disse, movendo seus cílios — tenho Deus ao meu lado.

— Pensei que negou ser um anjo.

Ela afastou o olhar com ar de culpa.

— Sim, bem, jamais saberá, não é?

Estava mentindo através de seus dentes. E tão mediocremente que não podia olhá-lo nos olhos ou esconder o rubor de vergonha em suas formosas faces.

— Ubbi encontrou sua pena na cama de peles — indicou com humor seco.

— Minha pena?

— Ele pensa que é de suas asas. Já sabe, as asas que pode abrir ou esconder sob sua pele à sua vontade.

Ele sorriu abertamente ante a surpresa de seu rosto intrigado.

Então ambos puseram-se a rir.

—Bem, concorda com minha oferta? —perguntou finalmente.

Selik realmente odiava o behaettie, e sempre o deixava doente. Mas mais ainda, detestava sua fúria enlouquecida da manhã do dia anterior quando tinha visto os corpos meio corrompidos, cego aos corpos de seus bons amigos caídos no campo de batalha como se fossem lixo.

— De fato, o que promete exatamente?

— Nunca tentarei fugir.

— E se divergir de algo que faça no futuro? — perguntou ceticamente.

Ela ergueu uma sobrancelha tristemente.

— Baterei em sua cabeça ou te darei algo de minha mentalidade, mas não partirei.

— Isso é importante para você, não é?

— Sim. Oh, sim — disse, fechando os olhos brevemente antes de falar. — Quando era uma menininha, meu irmão Eddie era um soldado. Foi assassinado em uma luta que mais tarde até o governo admitiu que foi inútil.

— E foi quando se tornou uma paci... pacifista?

Concordou com a cabeça.

— Mais tarde me tornei médica e comecei a trabalhar em um hospital do centro da cidade. Os assassinatos e as mutilações que esses jovens de gangues inflingiam uns aos outros é um poderoso argumento contra a violência.

— Mas algumas confrontações não podem ser evitadas — discutiu ele.

— Pode ter razão sobre isso. Não sei. Mas voltando ao tema da fuga. Se fizer isso por mim, ao menos sentirei que dei um pequeno passo para te ajudar. É importante para mim, Selik.

— Então concordo. Enquanto estiver comigo, não pegarei mais behaettie.

Rain apertou os lábios outra vez pensativamente.

— Sobre os prisioneiros...

— Não brinque com sua sorte.

A envergonhada moça só deu de ombros, como se não devesse culpá-la por fazer a tentativa.

— Bem, temos um trato então. — sorriu amplamente, e o coração de Selik se comprimiu de forma estranha em seu peito, logo pareceu expandir-se rapidamente. Não gostou da sensação.

Ela levantou-se e lhe ofereceu sua mão de lado, a palma aberta. Ele contemplou-a, aturdido. Queria que a segurasse?

Ela pareceu entender seu desconcerto e explicou:

— Em meu tem... meu país, estreitamos as mãos quando fechamos um acordo. Como este — colocou sua palma direita contra a dele e fechou os dedos de ambos levemente no aperto, logo lhe mostrou como sacudir vivamente para cima e para baixo. Mas tudo em que Selik podia se concentrar era no intenso choque de prazer gerado por sua pele contra a dele. Nunca queria que se fosse.

Ofegou bruscamente sem poder romper o contato com seus luminosos olhos, que mostravam com muita clareza que ela estava igualmente afetada.

Rapidamente deixou cair sua mão, como se sua carne de repente tivesse se queimado. Murmurou sob seu fôlego:

— A bruxa me enfeitiçou.

Mas Rain escutou as palavras pronunciadas audivelmente.

— Se há um encantamento, então sou uma escrava também — respondeu ela roucamente.

Maravilhoso! Podemos deixar perplexa esta vida de pesadelo que dirijo sob a maldição desse bagunceiro deus Loki. Ou o próprio Deus cristão de Rain. Ou o diabo, por tudo que eu saiba. Maldito Inferno!

Sentindo-se muito contente consigo mesma pelo resto do dia, Rain cantarolava quando trabalhava com os feridos na tenda de campanha de hospital. Não se enganava pensando que Selik fazia algum salto gigantesco para sua reforma repentina. Aquilo era uma pequena vitória, mas cada viagem começa com o primeiro passo, lembrou-se.

 

— Por que está sorrindo? — perguntou Tykir de onde estava apoiado em sua maca de hospital. Estivera consciente o dia inteiro e sua saúde melhorava rapidamente, para o prazer de Rain. Teria tanto que contar ao doutor Lee quando voltasse.

— Estou sorrindo porque hoje ganhei uma pequena batalha de Selik. De fato, isto não é totalmente certo. É um acerto. Ambos somos ganhadores neste luta particular.

Tykir ergueu uma sobrancelha bastante incrédulo.

— Selik? Custa-me acreditar que se dobre à vontade de qualquer um. A tentação deve tê-lo seduzido poderosamente.

Rain deu um tapa de brincadeira no braço de Tykir.

— Se comporte bem, irmão caçula. Ainda está fraco, e estou em situação de tornar sua vida muito incômoda.

— Legal, agora a pacifista revela sua verdadeira identidade.

Rain sorriu, sabendo que Tykir se referia aos discursos sobre pacifismo que estivera lhe fazendo o dia inteiro.

— Ah, há formas não violentas de castigo para uma pessoa com imaginação. Por exemplo, poderia fazer Ubbi prepar todas as suas refeições.

Tykir gemeu de maneira exagerada.

— Oh, por favor, isso não. Melhor a tortura da água.

Rain riu da atitude alegre de Tykir. Era bom vê-lo sentindo-se melhor, comportando-se mais ou menos igual ao seu clone moderno  — seu irmão Dave.

— Quanto tempo passará até que possa viajar? — perguntou, de repente sério. — Devo retornar a Ravenshire antes que os saxões confisquem a propriedade.

— Uma semana — disse Selik antes que Rain pudesse responder. Ele tinha aparecido atrás dela sem que se desse conta e ficara em pé prestando atenção ao fácil diálogo entre ela e seu irmão com uma expressão confusa no rosto.

— Ah, não, ele não estará bastante bem então — protestou Rain. — Ao menos duas semanas mais, Talvez até três.

— Partiremo em sete dias, embora tenhamos que levar Tykir sobre um trenó.

— Não me arrastarão como se fosse um ancião — se queixou Tykir indignadamente. — Começarei amanhã, exercitarei minha perna a cada dia. Montarei a cavalo em uma semana mesmo que isso me mate.

— Mal pode fazer isso — comentou Rain com preocupação, desviando um olhar condenatório a Selik.

— Cada dia de demora, tão perto de Brunanbur, traz o perigo para mais perto — explicou Selik. —Mesmo agora, os saxões poderiam reunir forças para vir atrás de nós. Tykir entende que não podemos esperar mais tempo.

— Sim, é verdade, Selik, e estou agradecido que tenha ficado tanto tempo comigo — lançou um gentil olhar a Rain e apertou sua mão com tranqüilidade — Provenho de uma forte raça. Tenho a intenção de sobreviver durante um aceitável e longo tempo. De fato, dançarei em seu casamento — sacudiu suas sobrancelhas em brincadeira.

— Meu casamento! — exclamou Rain, confusa. — O que te faz pensar que tenho a intenção me casar alguma vez?

Tykir piscou para o céu.

— Um pequeno anjo me disse isso.

Selik parecia como se fosse ficar doente.

Essa tarde Rain se sentou com as pernas cruzadas no chão da tenda de Selik, uma pele sob seus pés e outra jogada sobre seus ombros para se proteger do frio. Preocupava-se com os prisioneiros que dormiam lá fora sobre a terra. Mesmo que Selik tivesse encontrado de algum jeito roupa limpa e peles para todos eles — e só o céu sabia onde as tinha roubado, provavelmente de cadáveres de algum lugar — a noite de outono se tornou notavelmente fria.

Queria lhe perguntar se podia encontrar tendas para eles também, mas seu semblante ficava exasperadamente teimoso cada vez que tocava no tema dos prisioneiros. Determinou-se a escolher suas batalhas com cuidado e vencê-lo com doçura.

Rain verteu o conteúdo de sua mochila sobre a terra diante ela, decidindo que era hora de fazer um pequeno inventário de tudo o que havia trazido para o passado em sua inesperada viagem.

Além de seu pequeno estojo de primeiro socorros, tinha uma pequena quantidade de cosméticos, um espelho compacto, rímel, ruge, e um batom com sabor de morangos, que oferecia algumas possibilidades interessantes se alguma vez beijasse Selik de novo. O que, é obvio, não farei, disse a si mesma com teimosia. Depois se corrigiu imediatamente, a quem pretendo enganar?

Além de um pente e uma escova, sua carteira e talão de cheques, uma coisa realmente prática para se ter no século vinte, e dez mil dólares no banco e nenhuma moeda de dez centavos para gastar. Tudo o que Rain tinha era um Cubo de Rubik, que freqüentemente usava para liberar tensões durante os intervalos na sala de cirurgia; e dois pacotes de balas de sabores variados e frutas tropicais. Pôs uma bala de cor verde em sua boca e pôs de volta seus pertences na mochila.

Estava brincando nervosamente com o Cubo de Rubik; a ponta da língua presa entre seus lábios pela concentração, quando Selik entrou depois de um breve tempo esfregando vigorosamente seus braços nus contra o frio. Perguntou:

— Por que sua língua está verde?

Estendeu a língua mais para fora, lhe mostrando a pequena bolinha que ainda estava lá.

— Estou chupando um salva-vidas.

— É um remédio?

— Não — disse com uma risada. — É uma bala. Um doce. Quer uma ou o quê?

Ele parecia cético, mas tomou a amarela que lhe deu. Seu rosto se iluminou de prazer quando começou a mastigá-la, triturando-a ruidosamente.

— Não a mastigue. Apenas a deixa sobre sua língua — lhe repreendeu. — É de se supor que assim ela dura.

— Sou muito bom nesse tema — se gabou, lhe brindando uma rápida piscadela. — Igualmente elaborando prazeres, ultimamente.

Com um bufo de chateação ante seu ego exagerado, deu-lhe outra, embora fosse de sua cor favorita, vermelha. Para ficar satisfeito, insistiu que pegasse mais duas, uma laranja e outra verde. Ela negou-se a desistir da outra vermelha.

— Quantos desses salva… bolinhas você tem?

— Salva-vidas — o corrigiu com um sorriso, guardando o pacote meio vazio em seu lugar. — Isso é tudo— mentiu, tocando a madeira atrás de suas costas. Por que deveria compartilhar suas frutas tropicais com o bruto? Talvez desse uma a Tykir, entretanto.

— O que é isto? — perguntou, caindo junto a ela sobre a pele.

— Um Cubo de Rubik. Uma tipo de quebra-cabeças.

— Me deixe tentar.

O restabeleceu e lhe deu, sorrindo interiormente com antecipação. Ele não fez nenhum comentário hora alguma mais tarde quando se deitou na cama de peles, completamente vestida. Estivera preparada para discutir com ele o costume Viking de dormir nu, e o bruto insensível ainda não percebera.

Muito mais tarde, depois que dormira durante ao menos três horas, abriu os olhos para vê-lo ainda sentado ao lado da vela, mordendo seu lábio inferior de maneira pensativa, tentando solucionar o maldito quebra-cabeças.

Perto do amanhecer, sentiu-o deslizando atrás dela, procurando seu calor corporal. Afastou seus cabelos de seu pescoço e acariciou com o nariz a sensível curva, então sussurrou:

— Amanhã me ensinará como solucionar o quebra-cabeças.

— ah-han — disse com voz sonolenta.

— E eu te ensino algo em troca.

Seus olhos se abriram de repente nesse momento.

 

— Ubbi–doobie–doo. Dá dá dá–dá dá. Ubbi doo–doobie. Dá dá dá… dá dá.

— Ubbi, deixe de cantar essa repetitiva letra, ou juro que cortarei sua maldita língua — grunhiu Tykir sobre seu cavalo. — Pela fé! Começo a escutá-la agora em meus sonhos.

— Agora, Tykir, não desate seu mau-humor sobre Ubbi — o repreendeu Rain de brincadeira enquanto puxava o cavalo para seu irmão.

Depois de dois dias montando a cavalo, Rain realmente começava a se sentir bem sobre a sela de Godsend, nome que tinha dado ao cavalo que a tinha salvado e a Selik no campo de batalha. Quando Rain havia dito pela primeira vez o nome de seu cavalo a Selik, este tinha protestado:

— O nome é tão louco como você.

Ubbi, por outra parte, tinha brilhado, afirmando que o nome de Godsed era perfeito.

Rain olhou com preocupação o pequeno homem que também montava outro dos cavalos que Selik e seus homens tinham trazido do campo de batalha durante a última semana. Estava contente que Selik tivesse insistido que Ubbi montasse, em vez de caminhar com os escravos. Obviamente sua artrite doía muito.

Com a luz brilhante da lua, podia ver Ubbi olhando suas costas disfarçadamente, um forte hábito, que fazia a cada vez que achava que ela não via.

— Ubbi, há algo de errado com minhas costas?

Ele se agitou pela atenção.

— Me perdoe, milady. Estava admirando as árvores ao longe.

Rain arqueou uma sobrancelha ceticamente, sabendo que todos estariam tensos com simples árvores, sobretudo na escuridão. Selik só os deixava viajar depois do anoitecer e antes do amanhecer para evitar qualquer tipo de encontro com patrulhas saxãs.

Ela começou a girar os ombros e disse com um gemido exagerado:

— Ubbi, meus ombros estão doendo! Sinto como se sob minha pele houvessem mil abelhas tentando sair — a boca dele boca formou um “O” perfeito. Pondo uma mão sobre a boca, acrescentou. — Minhas costas esta tão tensas. Acha que poderia masagear minhas costas na próxima vez que paremos?

— Eu? — sufocou-se ele.

— Pelo caminho, Ubbi, parece que perdi algo. Viu um anel fino de ouro? — ela levantou as mãos das rédeas para mostrar com os dedos estendidos um círculo do tamanho de sua cabeça.

Ele quase se engoliu os dentes e sussurrou com voz baixa aterrorizada, sem tentar ser escutado:

— Um halo! O bendito anjo perdeu seu halo.

Rain ainda se impressionava por entender o idioma dessa povo e eles a entenderem. Mas então, tudo nessa experiência da viagem através do tempo a assombrava.

Montado, Selik se aproximou nesse momento enquanto a lua cheia saía de trás de uma nuvem. Vestido com suas roupas de batalha de couro, o corpo forte de Selik se moveu sobre o corpo de seu cavalo com graça simples. Seus dedos seguravam as rédeas enquanto guiava o cavalo com os músculos flexionados de suas pernas, evidenciando-se através das apertadas malhas.

Rain lambeu os lábios repentinamente secos e se obrigou a subir o olhar.

Com um movimento de cabeça para Tykir, Selik perguntou:

— Como está? Precisa que paremos de novo antes do amanhecer?

— Não, não vamos nos deter por mim — afirmou Tykir, ouvindo a pergunta de Selik involuntariamente.

Rain sabia que seu irmão estava atormentado pela dor, mas o teimoso jovem se negava a qualquer possibilidade de usar um trenó e montava na sela com a perna em uma braçadeira delicada que ela e Selik tinham improvisado para ele.

— Podem obrigar à teimosa de minha irmã a ensinar a Ubbi outra canção? — urgiu lamentosamente Tykir a Selik, mudando de assunto deliberadamente para desviar a atenção de si mesmo. — Meus dentes estão começando a doer por todos esses “doobie-doobie”.

A diversão brilhou brevemente nos olhos escuros de Selik enquanto encontrava os dela em uma ardente carícia.

— Hah! O que te faz pensar que de repente sua irmã seria benevolente comigo?

— Bem, pelo menos, a obrigue a lhe ensinar outra canção. Uma sacudida aos sentidos menor.

Rain ergueu a cabeça imediatamente.

— Não! — disseram Selik e Tykir rapidamente com vozes horrorizadas antes que ela pudesse falar.

— Não pense em começar outra dessas coisas de achy—breaky—breaky—heart — ordenou Selik com um gemido. — Meu deus, não há em seu país melodias suaves?

— Talvez seja a estridência dela — acrescentou Tykir. — Digo isso com bondade, irmã, você têm uma voz que poderia esfolar uma árvore.

— Que agradável de sua parte dizer que não posso acompanhar uma melodia, Tykir. Lembrarei quando te trocar as ataduras esta noite.

Selik jogou a cabeça para trás e riu, grave e gutural, zombando da conversa entre irmã e irmão. Sua diversão suavizou as linhas de fúria e dor em seu rosto por um momento, e pareceu anos mais jovem.

Quando ao fim se detiveram ao amanhecer para acampar em uma garganta com muitas árvores, Tykir já não brincava, e Rain tirou as braçadeiras da perna com cuidado. Seus pontos continuavam intactos e não havia inflamação, mas sua boca se apertou em uma linha de dor. Com os punhos fortemente apertados, mal poderia se mover do cavalo à cama de palha que lhe tinham preparado.

Rain ordenou a Ubbi que esterelizasse as agulhas na fogueira de cozinhar, e em uma hora, Tykir dormia pacificamente, as agulhas de acupuntura colocadas em pontos estratégicos de seu corpo para aliviar a dor. Um guarda se sentou perto para vigiar Tykir para que não movesse as agulhas enquanto dormia.

Selik, por outro lado, tinha observado todo o procedimento com horror. Sua pele bronzeada dourada ficou pálida e seus nódulos tinham ficado brancos quando ele apertou os punhos.

Rain não tinha outras obrigações médicas a cumprir, de modo que foi à fogueira de cozinhar e ofereceu ajuda a Blanche para preparar a refeição.

Enquanto Rain mexia os grandes pedaços de veado que assavam sobre o fogo, observou Blanche se movendo com enérgica eficácia, preparando a massa para o pão de manchet que assaria nas brasas. A garota saxã tinha feito uma boa limpeza. Muito boa, admitiu Rain com inveja, enquanto prestava atenção aos homens do acampamento que entre um pretexto ou outro se aproximavam para oferecer sua ajuda. Um pretendente recolhia ervas. Outro, água. Até Gorm se converteu em um Dom Juan, penteando completamente seus cabelos vermelhos e úmidos em uma única trança e fazendo sua barba grisalha. Se não sorrisse e mostrasse o dente que lhe faltava, quase poderia ser bonito, tinha que admitir Rain.

Mas a nojenta jovem ignorava todos. Tinha seus olhos em algo maior. Selik.

Rain tentou ignorar o monstro de olhos vermelhos que rastejava sob sua pele a cada vez que via Blanche lançando seus ardentes olhos ou movendo os quadris cada vez que passava ao lado de Selik, muitas vezes sem motivo. Rain tinha que manter em mente que a Lolita saxã provavelmente não tinha mais de dezesseis anos, realmente uma menina. Ah! corrigiu-se ela imediatamente, os olhares conhecedoras da morena davam indícios de artimanhas femininas que não tinha idade, que Rain ainda não tinha aprendido. E ela tinha trinta anos!

O pior era o fato de que Selik “viking revoltante” parecia feliz. Rain observou com ciúmes como os olhos prateados de Selik brilharam intensamente com humor e seus sensuais lábios se curvaram em um sorriso deslumbrante quando Blanche se elevou ante ele e se exibiu em uma linguagem corporal antiquísima que manifestava o que desejava dele, enquanto perguntava simplesmente:

— Onde guardam o sal, mestre?

Não em suas calças ordinárias, puta! Rain dirigiu a Selik um olhar com desejo de afogá-lo enquanto este seguia o movimento da curva viçosa do traseiro da jovem enquanto se inclinava em uma cesta com verduras que tinha recolhido. Uma coelhinha Playboy não poderia ter posado mais tentadoramente.

Criminoso! Se eu fizesse isso, certamente meu traseiro pareceria o de um cavalo.

Ela dirigiu um olhar de lado para Selik e com desgosto viu que seu olhar continuava no mesmo lugar, o traseiro de Blanche. Perdeu as estribeiras nesse momento e rápido e impulsivamente antes de poder controlar sua ciumenta língua:

— Procurando um chão para sua raiz?

Devolveu-lhe um sorriso aberto e lhe piscou um olho. Imediatamente, ela lamentou recordar a Selik seu primeiro encontro, quando este tinha tentado se desfazer dela, lhe dizendo que facilmente poderia encontrar outro protetor entre os soldados mais interessados em encontrar um buraco onde aninhar suas raízes.

Selik riu, sem se preocupar-se por ter sido pego olhando fixamente a garota.

— Se oferece?

— Não, bode velho.

— Ah, bem, realmente não teria acreditado que você notaria isso… ainda.

— Notar? Desde quando aprendeu uma expressão tão moderna?

— Sua mãe. Tinha muita sorte com as mulheres naqueles dias, mas Rubi me ensinou muitas palavras úteis. Como notar, ter sorte, e dar um fora.

Rain assentiu com a cabeça entendendo. Parecia tanto com sua escandalosa mãe.

— Se considera “dar um fora”.

Lhe dirigiu um sorriso conhecedor que dizia:

— Este é apenas o primeiro assalto.

Depois outra palavra de Selik a deprimiu.

— Como “ainda”? Melhor se meter em sua cabeça dura, Selik, que não vai acontecer nada entre nós.

— Seu corpo diz outra coisa — Selik cruzou os braços diante o peito com preguiçoso desafio.

— Isso era antes de descobrir o quanto você é brutal.

Ele se endireitou com orgulho, e seu rosto se obscureceu pela cólera.

— Não prometi mais benevolência.

— Sim, mas até tem prisioneiros. E até pensa matar tantos saxões quanto puder.

— Realmente, faço, amável pacifista. Mas isso não tem nada haver com as peles da cama.

— Oh, sim, tem.

A tempestade nos olhos de Selik se atenuou e ele estreitou os olhos astutamente enquanto a estudava. Ela quase podia ouvir as engrenagens de seu cérebro girando em seu ardiloso cérebro.

— Ouvi uma voz ontem à noite enquanto dormia. A moça deveria fazer sexo com você — disse. — Parece que seu Deus falava comigo.

— Mentiroso — disse Rain, incapaz de deter o sorriso que nasceu em seus lábios ante sua clara tentativa de sedução.

Senhor, era um homem devastadoramente atraente quando o aspecto sinistro abandonava seu rosto. Com sua cabeça levemente inclinada para o lado, Rain não podia ver a cicatriz esbranquiçada que ziguezagueava do seu olho direito ao seu queixo, nem o nariz quebrado. Os ângulos cortantes de seu perfil pareciam se derreter, deixando apenas a imagem de um homem seguro de si mesmo, viril. Seus olhos mantinham o silêncio carregado, e ela sentiu que uma parte de si mesma que nunca tinha sido tocada por homem algum se aproximava dele.

— Ah, bem, valeu a tentativa — depois ele voltou a olhar para Blanche com os olhos brilhantes. — Por outro lado, talvez a voz falasse dessa moça.

Blanche eguia os braços para alcançar com as pontas dos dedos os pequenos ramos de uma árvore próxima a sua fogueira. Cada vigoroso homem em um raio de cento e cinquenta metros olhava seus grandes mamilos bem visíveis delineados contra o esticado tecido de sua túnica.

Rain viu tudo vermelho. E se virou para ocultar seus ciúmes do perceptivo Selik.

— Rain? — perguntou suavemente Selik a suas costas. Ela voltou o olhar sobre o ombro, assombrada ao ver que ele estava tão perto. Amavelmente, penteou os cabelos dela que tinham escapado da trança, afastando-os de seu rosto. Ela começou a encará-lo e quase cambaleou sob o opressor puxão do calor de seu corpo e perfume. — Sabe quanto tempo se passou desde que fiz “sexo” com uma mulher?

Alarmada pela pergunta, Rain negou com a cabeça lentamente, incapaz de falar, seus olhos presos pelos luminosos e cinzas dele.

— Dois anos.

— O qu… quê?

— E sabe quanto faz desde que quis fazer amor com uma mulher? — ele fazia uma diferença entre fazer sexo e fazer amor.

Fascinada, os olhos de Rain passearam sobre seu rosto, incapaz até de falar. Desejou seguir com o dedo indicador os planos das afiladas maçãs de seu rosto, saborear a doçura de seus lábios entreabertos, ver seus olhos fechando na lenta rendição do êxtase. Oh, valha-me Deus!

Quando ela não falou, ele respondeu sua pergunta.

— Dez anos. Dez malditos anos, morto em alma.

Rain ficou sem fôlego.

— Oh, transei com mulheres, já que acreditei que era o que um homem devia fazer, porque pensei que me faria esquecer. Mas me cansei das cópulas sem significado há dois anos.

— Mas insinuou que poderia fazer com Blanche — interrompeu ela.

Selik negou com a cabeça cansadamente.

— Houve cem Blanches em minha vida. Mas na verdade não desejava uma mulher há tempo. Até dez dias. Até encontrar um anjo louco, feroz, sustentando que veio do futuro, que virou minha vida de cabeça para baixo.

— Oh, Selik.

— Não me venha com “Oh, Selik” — ele a avisou. — Não dou as boas-vindas aos desejos suaves. Reprovo sentir isso de novo… — ele começou a dizer outra coisa, mas parou abruptamente, girando e se afastando dela.

Aturdida, Rain apenas olhou boquiaberta como ele se afastava. Depois saiu como uma trombeta atrás dele. Ele estava dando a direção das explorações a Gorm quando ela finalmente o alcançou.

Sem pensar em sua indelicadeza por interromper outra conversa, Rain pôs uma palma contra o peito de Selik e o afastou com um empurrão. Era óbvio, ele não se movera nada, somente cravou os olhos na mão, incrédulo. Gorm a olhou estupidamente como se ela tivesse duas cabeças.

— Escute, não pode dizer a uma mulher algo maravilhoso como isso e depois ir dando meia volta quando quiser.

Ele avaliou com mordacidade e em silêncio a mão que empurrava seu peito muito duro. Arqueando uma sobrancelha, comentou secamente.

— Parece que tem um lado sombrio, afinal de contas, para ser uma pacifista

Baixando o olhar e se dando conta de que, certamente, tinha adquirido algumas características violentas, Rain deixou cair a mão como se seu peito queimasse de repente. O insuportável homem realmente desprendia um calor tentador. Oh, valha-me Deus!

Depois Selik inclinou a cabeça perplexo.

— Que coisa maravilhosa eu disse?

Rain sentiu como seu rosto avermelhava.

— Disse… — vacilou quando viu que Gorm ainda estava ali, escutando atentamente cada palavra dela e com um amplo sorriso em seu rosto. Ela o olhou furiosamente até que ele bufou com desgosto e se afastou caminhando e resmungando.

Voltando a olhar para Selik, continuou:

— Disse que não quis fazer amor com nenhuma mulher durante dez anos, até que me encontrou.

— E?

— E!? não há “e”, imbecil. Disse deliberadamente para me tentar? E depois…

— Está tentada?

— Não! — exclamou ela muito rápido e soube pelo sorriso lento que ele formou que não o tinha enganado nem um pouco. — De qualquer forma, é verdade?

— O quê? — ele, inclusive, nem tentava esconder seu sorriso, e o coração de Rain pulsou furiosamente contra seu peito em reação. — Que te desejo? Que estive dois anos sem me deitar com uma mulher? Que realmente não desejei uma mulher concretamente após, bem, dez anos?

— Sim. Tudo isso — assentiu rapidamente ela. Por fim o maravilhoso tolo chegava a algum lugar.

Ele pensou por um momento, esfregou com a ponta do dedo as rugas da testa, depois moveu a cabeça lentamente, sem falar. Apenas a olhou fixamente.

Ela esperou calada, mas ele só se manteve silencioso como uma maldita estátua. Erguendo-se como um torvelinho pela exasperação, finalmente rompeu o silêncio:

— Maldição! Sei o que é que está fazendo. Minha mãe me falo de você. Deveria tê-la escutado. O último sedutor, dessa forma foi como te descreveu. Oh, é ardiloso, te concedo isso. Aposto que essa conversa funcionou com mil mulheres.

— Mil! — a risada, intensa e rica, borbulhou por sua garganta. — Está sobrevalorizando meus talentos, meu doce.

Ela se aproximou um passo, disposta a lhe dar outro empurrão, mas Selik pôs as duas mãos sobre seus ombros e a conteve. Um ardente fogo a percorreu desde a ponta dos dedos e disparu por cada nervo de seu corpo. Instintivamente, ela se aproximou mais.

— Não, mantenha distância, moça. Meu autocontrole foi testado limite. Te desejo. Maldição. E a menos que tenha a intenção de compartilhar as peles de minha cama no verdadeiro sentido da palavra, vai se manter longe de mim.

Rain não podia negar que a idéia a atraía. De fato, nada teria gostado mais do que se render naquele momento a todos os loucos impulsos que pulsavam por seu corpo. Mas Rain nunca se comportara com impetuosidade no passado, e seu cérebro pragmático delineava outra idéia, a dúvida sobre se poderia comprometer todos seus princípios fazendo amor com um homem que era tudo o que ela detestava. Gemeu sob o peso de suas emoções em luta.

— Selik, simplesmente vai libertar os prisioneiros e deixar a luta?

— Não, não posso — ele negou com a cabeça tristemente, depois lhe dirigiu um olhar desafiante. — Mas te ensinarei coisas que seus livros nunca mencionaram, te darei prazeres que seus amantes modernos nunca sonharam. Farei com que seu sangue cante e seus ossos se derretam. Nunca vai querer outro homem depois de mim.

Rain deveria ter se sentido insultada por sua presunção. Não estava.

Lambeu os lábios com nervosismo, tentando manter seus hormônios sob controle.

— E você? — perguntou ela suavemente. — Vai querer outra mulher depois de me tomar ?

Selik estudou seu rosto de perto, a paixão em seus olhos refletindo-se nos dela, antes de responder:

— Provavelmente não.

O coração de Rain se agitou esperançosamente.

— Selik, a menos que esteja disposto a deter esse derramamento de sangue, não acho que possamos ter um futuro — ela lamentou, segurando suas mãos, tentando fazer com que compreendesse.

— Temos o presente.

— Mas isso não é suficiente — disse enquanto suas esperanças afundavam. — Não pode ver? Oh, Selik, estou tão assustada.

— Com o quê?

— Com você. Conosco. Há um forte desejo entre nós. Se fizermos amor, sei que será incrível. Simplesmente sei. Não tem que me seduzir com falsos elogios ou provocações sexuais tentadoras. Já te desejo.

Ele se aproximou mais, pondo as mãos sobre seus ombros. Rain levou os braços para trás, irritada por sua proximidde. Tinha que fazê-lo entender.

— Não posso me envolver com um homem dessa maneira, intimamente, sabendo que esta comprometido com uma vida de violência. É contrário a tudo o que quero, a todas minhas crenças. Não pode considerar abandonar sua vingança?

O rosto de Selik ficou rígido e ele ergueu o queixo com altivez enquanto se recusava a se dobrar aos seus desejos ou suplicar por seus favores.

— Então não há esperança para nós — sussurrou suavemente ela, fechando os olhos para evitar que as lágrimas se derramassem. Mas falhou. — Mas que saiba isso, viking teimoso, não quero te ferir.

Selik cravou com impotência os olhos nas lágrimas que deslizavam pelo rosto dela. Depois de um momento, seu rosto relaxou enquanto sua ira se desvanecia.

— Não chore por mim — disse ele, obrigando-se a dar um tom leve a suas palavras. — Sobrevivi a coisas muito piores que a perca de uma moça. Muito, muito piores.

O coração de Rain quase se quebrou pela falta de emoção na voz dele. Perguntou-se quem o teria machucado tanto, por que tinha começado semelhante caminho de derramamento de sangue.

Dessa vez, quando ele se voltou e se foi, suas costas rígidas e inquebrantáveis, Rain não compreendeu.

— Querido Deus, alguma vez entenderei este homem? — perguntou ela em voz alta.

Ele precisa de você, menina.

— O que ele precisa é de um boa descarga de pacifismo.

O que ele precisa é de amor.

Se não deixasse de escutar vozes, começaria a aceitar a crença de Ubbi de que ela realmente era um anjo enviado por Deus. Verificando, para ver se ninguém olhava, tocou suas costas. Yup! Tal como tinha pensado. Seus ombros estavam lisos. Maneou a cabeça decpcionada por sua idiotice.

Quando voltou para a fogueira de cozinhar, Blanche estava fervendo algumas hortaliças, acrescentando o que pareciam ser alho e cebolas silvestres fritas. Uma dúzia de barras de pão de manchet douradas esfriando sobre uma rocha plana. A carne de veado perfeitamente assada crepitava sobre o fogo, exalando um aroma incrivelmente delicioso.

A mulher era impressionante . Rain começava a odiá-la.

— Onde aprendeu a cozinhar assim? — ela lhe perguntou docemente.

Os inteligentes olhos cor avelã de Blanche se moveram, avaliando Rain e sua pergunta, provavelmente perguntando-se o quanto era seguro revelar informaççoes pessoais.

— Meu pai era um Lorde da Região Montanhosa e minha mãe uma tecedora do torreão. O Lorde não tinha muito carinho por mim, mas me permitiu trabalhar nas cozinhas em vez de nos campos.

— Como acabou comprometida a Edwin depois?

— A esposa de meu pai — a cadela — me odiou desde o dia em que nasci. Enquanto eu crescia e me parecia mais com meu pai, seu ódio cresceu — Blanche deu de ombros. — Não restou mais que usar meus outros talentos, em minhas costas, para evitar sua fúria.

Rain maneou a cabeça entristecida, recordando o quanto era bruto o período do tempo em que ela caíra.

— Em meu te… país, as coisas são diferentes. A ilegitimidade não é realmente um estigma, e as mulheres têm direitos. Com sua óbvia inteligência, poderia fazer qualquer trabalho que desejasse e se manter sem precisar depender de um homem… seja como esposa ou prostituta.

Blanche afastou a concha de sopa e pregou os olhos Rain, incrédula.

— Mesmo?

Rain assentiu com a cabeça.

— Como chego a esse país?

Rain riu. Oh, se simplesmente fosse tão fácil!

— É um caminho longo, longo. Nem sequer tenho certeza de poder voltar.

Blanche a estudou com interesse renovado.

— Bem, então, me deixe lhe perguntar algo. Selik é seu homem?

Um lento calor subiu pelo pescoço de Rain até seu rosto, e se moveu com inquietação.

— Não. Digo, não dessa maneira. Não somos amantes.

— Pensa em tomá-lo como homem?

Rain inclinou a cabeça para um lado.

— Por que pergunta?

— Porque se você não o quer, eu quero.

O coração de Rain gelou ante a idéia de Selik com Blanche. De Selik com qualquer mulher que não fosse ela. Oh, em que cachorro da horta[5] se converteu, sem aceitá-lo como amante, mas sem querer que nenhuma outra mulher o tivesse, de qualquer maneira.

Mas a atração que Blanche sentia por Selik a deixava perplexa.

— As mulheres que deixaram o acampamento, foram embora antes de você chegar, estavam enojadas pelo aspecto cheio de cicatrizes de Selik, e sua violência. O chamaram de besta.

Blanche bufou.

— Estavam cegas.

Sim, estavam, Rain concordou silenciosamente. O quanto Blanche era perceptiva para se dar conta disso. E como era alarmante.

 

Quando Selik deslizou nas peles ao lado dela essa noite, como insistia em fazer todas as noites, Rain viu Blanche os observando especulativamente. Nada escapava ao discernimento dessa mulher. Ela sabia que Selik compartilhava suas peles de cama e nada mais e simplesmente esperava seu momento. Mas por hora, Rain adorava a proximidade de Selik, o calor de seu corpo contra suas costas, seu quente hálito contra seu pescoço.

— Está pronta para abrir seu buraco, meu doce? — brincou Selik. Acariciou com o nariz seu pescoço, e ela sentiu como o prazer vertia até a ponta dos dedos de suas mãos e pés.

Rain disse uma palavra vulgar, moderna. Ele riu, compreendendo perfeitamente. Pelo visto, algumas palavras não precisavam ser explicadas.

Rain mentalmente se recriminou pela piora de seu comportamento. Em outras duas semanas e já ameaçaria, como Selik fazia normalmente, e usaria uma linguagem que nunca tinha usado antes. Era por completo culpa de Selik, decidiu ela irracionalmente. Em vez de ela mudá-lo, ele a fazia descer ao seu nível.

Talvez precisse descer de seu pedestal.

Oh, grande.

— O que disse? — perguntou Selik, seu hálito quente brincando com os cabelos de sua nuca.

Ela gemeu.

— Nada.

— Deus outra vez?

Quando ela se negou a responder, Selik riu.

— Pois bem, dê ao seu ser divino boa noite pela parte de ambos.

 

Durante outra semana viajaram escondidos durante a noite. Surpreendentemente, só toparam com alguns soldados saxões, e puderam evitar a luta. Aparentemente, estavam tão cansados pela batalha quanto os noruegueses e os escoceses e tinham voltado para suas casas. Alguns soldados que fugiram disseram a Tykir que os homens do rei Athelstan o caçavam na Cúmbria, achando que tinha fugido com o rei Constantine.

Um dia, quando se detiveram em uma granjinha para os cavalos desacansarem, Rain conseguiu seu primeiro vislumbre da obsessiva aversão de Selik pelas crianças, sobre a qual as mulheres lhe tinham falado antes. Dois garotinhos e uma menina, nenhum com mais de cinco anos, brincavam no barro ao lado de um poço enquanto sua mãe saxã pegava o balde para colocar água. Quando Selik viu as crianças, ordenou a todos que saíssem do curral, negando-se a descer e saciar a sede. Não se desculpou por sua falta de consideração, apesar de ter levado outras duas horas para voltar a encontrar água. Foi a última vez que se detiveram em uma propriedade que tinha casa e terras durante o dia.

Apesar da relativa segurança, viajavam lentamente por culpa dos escravos, que tinha que caminhar, embora alguns dos homens concordaram em servir Selik para se libertarem e montavam com seus soldados. Bertha, a mulher corpulenta que tinha chamado Rain de louca quando voluntariamente ela se uniu à cadeia de corda, ajudava Blanche, queixando-se sem parar. Rain tinha o prazer de ver que o leve caso de ictérica de Bertha tinha regredido, graças ao novo regime que ela tinha lhe receitado, que incluía grandes quantidades de verduras e fígado, quando fosse possível. Uma terceira mulher, Eadifu, preguiçosa, de uns trinta anos, mulher de lábios grossos, gastava quase todo seu tempo no bosque, favorecendo qualquer homem com inclinação de saborear seus duvidosos encantos.

Quando finalmente chegaram a Ravenshire, a ancestral casa de Tykir, Rain a olhou com excitação, apesar de seu cansaço. Ouvira tanto sua mãe falar daquela casa, mas aquele torreão desmoronado não podia ser a mesma fazenda próspera. Não só os terrenos estavam não-arados e descuidados, mas também as cabanas dos servos, mais parecidas com barracões, estavam vazias e se desmoronando. O primitivo castelo de pedra e madeira parecia mais com um forte do oeste americano, com sua alta paliçada sobre uma colina, chamada Motte. Rain maneou a cabeça pela súbita desilusão ante a negligência e a destruição.

Ela perguntou a Tykir, cuja expressão triste refletia seu pesar.

— O que aconteceu?

Ele deu de ombros.

— Meu avô Dar e minha avó se mantiveram firmes contra a invasão saxã por tantos anos quanto puderam sem meu pai ou Eiriz ou a mim para ajudar. Ambos estão mortos agora.

— Ainda é seu?

— Sem dúvida, ou pelo menos de Eirik. Sendo o mais velho, mantém os direitos da herança, e desfruta dos favores do rei Athelstan. Os saxões não se atreveriam a roubar sua herança. Agora a mim — acrescentou com um sorriso aberto — esse é outro caso. Se pudesse, o rei saxão destruiria a mim e ao torreão.

— Oh, Tykir. Toda esta luta e ódio! Por quê?

— Não tem que existir uma razão, irmã. Logo aprenderá isso. Os saxões odeiam os pagãos noruegueses. Os noruegueses odeiam os sangrentos saxões. É a natureza das coisas, e sempre será assim até que um ou outro desapareça da face da terra.

Rain maneou a cabeça com tristeza. Poderia dizer a Tykir que os vikings perderiam aquela batalha contra os saxões, mas não era seu dever intervir na história.

— Estará a salvo aqui?

— Por um tempo. Até que esteja completamente recuperado.

— E depois?

— Talvez visite meu primo Haakon. É o rei da Noruega agora e sempre pode utilizar bons soldados na retaguarda ainda enquanto seu irmão Eric Bloodaxe cobice o trono. Ou talvez me converta em uns dos guardas Varangian do imperador bizantino. Não, melhor, posso me unir a Selik para enviar mais alguns saxões para o túmulo.

Rain ficou sem fôlego.

— Tykir! Não, você também?

Ele descartou sua preocupação com um movimento da mão, depois acrescentou com um rápido movimento de seus travessos olhos cor de café:

—Por outro lado, poderia visitar sua terra. Se as mulheres dali forem tão intrigantes como você e sua mãe, sem dúvida posso me convencer a deixar de lutar por um feitiço.

Agora essa era uma imagem arrebatadora, Tykir mostrando seus encantos escandinavos às mulheres modernas, liberadas. De fato, Rain tinha algumas amigas que comeriam o viking em um segundo. Ou vice-versa.

Mas por suas anteriores conversas com Tykir sabia que não acreditava que viesse do futuro, somente de uma terra longínqua.

— Não, não pode ir a meu país, Tykir. Por desgraça, não tenho nenhuma orientação de como desfazer a viagem.

— Então como chegou aqui? Não, não me diga. Temo que me dirá que voou até aqui com asas de anjo.

Rain sorriu e lhe deu um beliscão de brincadeira nas costelas.

— Ubbi esteve balbuciando de novo, pelo que vejo.

— Como um retardado — Tykir lhe devolveu o sorriso com calor fraternal.

Montaram pelo pátio deserto e Selik ajudou Tykir a descer do cavalo, lhe dando uma muleta de madeira. Selik deu ordens para cuidarem dos cavalos e pôs alguns homens para caçar e procurar entre os restos penso para os animais.

Quando entraram no grande vestíbulo do torreão, Rain soube que ela e os escravos teriam trabalho. Os morcegos penduravam das vigas, compartilhando o espaço com ninhos de aves. A palha do chão estava tão suja que se aglomerara. Ela estremeceu sob o horrível aroma de mofo e de decomposição.

Embora preferisse comer e dormir ao ar livre, vira o olhar angustiado no rosto de Tykir ante o deplorável estado de sua mansão. E na verdade também era sua herança. Rain tinha que ajudá-lo.

Decidiu que a cozinha e os dormitórios viriam primeiro. Acompanhou Blanche através do corredor fechado que dava na cozinha depois de ordenar a Berhta e Eadifu que levassem todos os colchões e lençois ao pátio para lavá-los.

Os antigos habitantes tinham desmantelado completamente a cozinha. Nenhuma panela, concha de sopa, cadeira ou um pouco de comida tinha sido deixado para trás pelos servos quando abandonaram o Castelo. Apenas uma grande mesa com cavaletes ficara no centro da cozinha, e uma dúzia de duras barras de sabão na despensa. A mesa, por provavelmente ser muito grande para que os ladrões a levassem. E pela experiência de Rain com as pessoas do século X, o sabão não era um artigo muito apreciado.

Rain passou duas cansativas e penosas horas esfregando o chão e a mesa, e tirando as teias-de-aranha das paredes e do teto, enquanto Blanche trazia as provisões e utensílios que levaram com eles de Brunanburh. Logo tinham a cozinha em um estado razoavelmente limpo e o último pedaço de carne de veado assando sobre o fogão da cozinha.

Ela saiu ao pátio da cozinha para ver como iam Bertha e Eadifu, que ferviam os poucos lençois que tinham encontrado, junto com a roupa suja de todos, em grandes caldeirões com sabão.

— Isto está errado — se queixou Bertha enquanto Eadifu levantava uma ensopada peça da água com sabão com uma longa vara, jogando-a descuidadamente em um caldeirão com água limpa, criando um atoleiro de dois metros de barro em torno, depois o pendurando em um arbusto próximo. — Deve espremer a maldita peça, estúpida. Acha que temos uma semana para secá-las?

— As enfie em seu traseiro, velha musaranha — replicou Eadifu.   — Tenho coisas melhores com que ocupar meu tempo — olhou para o final do pátio onde um soldado esperava, um brilho lascivo em seus olhos e uma horrível protuberância em suas calças.

Bertha notou a presença de Rain e saiu em sua ajuda.

— Querida, diga a alcoviteira que mantenha suas pernas no chão, em vez de erguidas.

— Edifu — avisou friamente Rain — se você se atrever a abandonar o pátio antes de que todas as peças estejam lavadas, juro que te prendo na masmorra — tinham masmorras? perguntou-se preguiçosamente antes de continuar. — E não comerá durante uma semana.

Aquela era uma que Rain começava a pensar que não lhe incomodaria se fosse vendida como escrava.

Edifu resmungou algo que soava como “maldita cadela”, mas voltou mal-humorada ao trabalho.

— E faça o trabalho bem, da maneira que Bertha te ordenar.

Bertha brilhou como a lua cheia ao ser posta no comando.

— Se diverte tolamente a cada vez que um homem esteja vestido de couro e cheirando — ela escutou como Bertha insultava Eadifu enquanto se dirigia à cozinha.

— Essa é a causa de você não ter valor — se recuperou rapidamente Eadifu.

Rain escutou um forte som de água se espalhando e esperou que Bertha houvesse jogado a prostituta no buraco da água fria. E isso sendo pacifista. Quando se apartava a ajuda a empurrões, parecia que seus princípios se mostravam flexíveis.

Mais tarde, depois do jantar básico, Selik entrou na cozinha e lhe disse que ele, Tykir e os homens iriam a um lago próximo se banharem.

— A menos que queira que te espere, e possamos ir de mãos dadas — lhe ofereceu com voz grave, rouca ao ouvido.

O olhar de águia de Blanche observava com interesse da outra ponta do cômodo.

— Não — respondeu rapidamente Rain, sua pele ardendo quando recordou a última vez que se banharam.

Os olhos cinzas de Selik ficaram enevoados quando também lembrou a paixão, e os cantos de seus lábios cheios, sensuais se ergueram em um aberto sorriso perceptivo.

— Ah, bem, talvez da próxima vez.

Naquela noite quando Rain subiu os degraus que davam no corredor do segundo andar, todos os músculos que tinha doendo, não pensava na Escola de Medicina. Tykir já dormia em seu quarto, exausto pela viagem e a ferida ainda cicatrizando.

Selik estava no cômodo, despindo-se quando ela abriu a porta. Ela pensou em fechar a porta imediatamente e descer as escadas ante a visão de seu magnífico corpo semi-vestido. Engolindo em seco, tentou não cravar os olhos em seus cabelos limpos que caiam sobre os ombros, suas costas nuas, musculosas, e sua cintura ressaltada pelas calças baixas até os quadris. Bendito Céu!

— Feche a porta — pediu ele, já a tendo visto. — Isso está mais frio que o peito de uma bruxa.

Sem olhar para os lençois da cama, Selik tinha jogado as mantas sobre o chão na frente do fogo da lareira. O ventilado dormitório só estava quente na frente da lareira, e Rain já tremia por seu banho recente. Mas ainda se mantinha em pé diante a porta.

— Se aproxime.

Rain arrastou os pés até o fogo… e Selik. Tinha dormido ao lado daquele homem durante as duas semanas anteriores, conhecia o aroma de sua pele, o som de sua respiração, o calor de sua carne. E apesar disso, estar no pequeno cômodo com ele era diferente. Mais íntimo.

Até o ar do quarto se fechava, enchendo-se de tensão.

Ela podia ver nas ardentes profundidades dos olhos cinza que observavam cada movimento seu com a intensidade de um falcão, seus lábios abertos sedutoramente, e a excessiva excitação em seu corpo.

Ele deixou cair as calças e se manteve diante ela, as mãos nos quadris, as pernas levemente separadas, completamente nu. Rain não podia afastar o olhar. Doce Senhor! O homem não jogava limpo.

Fechou os olhos para ganhar forças. A luz do fogo criava sombras oscilantes em seus cabelos loiro-platinados, e um brilho dourado nos planos duros como uma tábua em seu peito e abdômen. Ele exsudava energia e poder.

— Dispa-se, querida — disse com voz crua.

Rain o olhou horrorizada.

Ele deslizou a língua pelos lábios e riu.

— Não vou te forçar. Apenas dormiremos… se esse é seu desejo.

— Hah! — disse Rain com voz trêmula, apreciando intensamente sua enorme ereção. Ele cresceu ainda mais sob seu olhar.

— Oh— gemeu suavemente ela, sentindo como suas defesas se debilitavam.

E Selik se aproximou mais, tentando alcançá-la.

Ela foi para trás.

Ele ergueu as palmas da mão em sinal de rendição, repetindo:

— Não vou te forçar.

Depois se abaixou nas peles da cama para demonstrar suas boas intenções, cobrindo-se.

— Deite-se, Rain. Foi um longo dia, e ambos estamos cansados.

Rain não acreditou nem por um minuto que estivesse tão cansado.

— Selik, não é boa idéia durmirmos juntos.

— Isso é algo que disse várias vezes antes.

— Acho que eu deveria descer as escadas e dormir junto a Blanche.

— O que te faz pensar que Blanche dorme sozinha?

— O quê?

Selik deu de ombros.

— Aproximou-se de mim várias vezes. Não posso acreditar que seja o único que convida para sua cama.

Pode acreditar, pensou Rain com o coração encolhido, perguntando-se quanto tempo seria necessário antes de Selik renunciar ao celibato ante a insistente tentação de Blanche. Oh, maldição!

— Não há escolha. Deite-se comigo — ele declarou firmemente, dando palmadas nas peles a seu lado. — É minha refém.

Ela gemeu.

— Selik, não vou fazer amor com você. Por que se tortura?

— E a você também? — ergueu a sobrancelha esquerda em um segundo de dúvida.

— E a mim também.

Ele sorriu com irritante satisfação ante sua admissão.

Dando-se por vencida, começou a se abaixar para as peles mais próximas do fogo.

— Não. Se dispa antes.

Rain deu um passo atrás e lhe disse com fúria:

— Passei as noites com minhas roupas nos acampamentos durante nossa viagem até aqui.

— Aquilo era então. Isto é agora. Tanto vindo do futuro, como declara, quanto da maldita lua, adotará nossos costumes enquanto estiver vivendo entre nós.

Selik se endireitou e cruzou os braços sobre seus joelhos elevados, observando-a fixamente quando ela começou a se despir.

Rain sentiu como seu rosto ardia, mas não o deixou ver seu nervosismo acerca de se despir diante um homem arrogante. Meu deus, era muito alta, também grande e grosseira. Nas únicas vezes em que estivera com um homem no passado, despira-se no escuro para ocultar a vergonha de seu desajeitado corpo. Não tinham prestado atenção.

Os únicos sons no quarto eram o crepitar do fogo e a ofegante respiração de Selik enquanto ela se erguia ante ele usando apenas seu sutiã cor de carne e sua calcinha. Seus olhos extremamente ardentes faziam sua pele arder. Quando cruzaram com os dela, ela cambaleou ante a descarga de calor elétrico que transmitiam.

Mas Selik não zombava dela. Seus olhos acariciavam cada centímetro de seu corpo. Em qualquer parte que seus olhos tocavam, Rain sentia um formigamento quente que começava a arder e esquentar sua pele. Pela primeira vez em sua vida, sentiu-se atraente.

— É a mulher mais bela que jamais vi — sussurrou ele com receio.

As lágrimas emanaram dos olhos de Rain.

— Não faça isso, Selik. Não zombe de mim.

Ele inclinou a cabeça interrogativamente, depois levantou as peles da cama a seu lado, insistindo para ela se unir a ele.

Quando ela estave deitada, tendo certeza que seu corpo não a tocava, Selik lhe disse suavemente:

— Os homens de seu tempo devem estar loucos para te fazer se envergonhar de seu corpo. Realmente, Rain, você é bela — muito docilmente, afastou algumas mechas de seu rosto.

— Acho que você deve estar louco — disse ela com uma risada nervosa, contente apesar de que provavelmente ele somente tentava seduzi-la. Realmente, queria ser bela para Selik. — Além disso, me comparou a uma árvore e um cavalo algumas vezes, se recorda.

Selik riu sufocadamente, seguindo com um dedo a linha de seu ombro. Rain estremeceu ante o doce prazer que a percorreu, tão intenso que era insuportável.

— Ah, pois bem, é um fato sabido que tenho apego aos cavalos e às majestosas árvores.

Ela começou a bater nele por atiçá-la. Um engano fatal! Seus seios rasparam o braço dele, e ele inalou fortemente ante o contato eletrizante. Rain imediatamente voltou o olhar e o afastou dele, olhando o fogo para silenciar o efeito daquele simples contato sobre seus sensíveis mamilos.

Repentinamente, Rain não podia evitar as silenciosas lágrimas que deslizavam por seu rosto. Desejava tanto Selik, e estava cansada de lutar consigo mesma.

— Rain, porque está chorando? Não farei amor com você, se não deseja.

Homem tolo, não sabe que é isso precisamente o que quero que faça?

Ele deslizou carinhosamente uma mão por seu braço, os calafrios dirigindo-se a cada lugar erótico de seu corpo.

— Tem medo de engravidar? Te asseguro que não receberá minha semente — ele lhe ofereceu suavemente enquanto beijava a linha de seus ombros até sua nuca. Com cada rítmico fôlego que tomava, seu pênis roçava contra a separação de seu traseiro.

Rain riu trêmula.

— Agora isso é algo original. Como pode garantir? Tem um preservativo?

— Não, não utilizo nenhuma dessas ridículas capas que sua mãe mencionou — ela o sentiu sorrir contra seu pescoço. — Sigo o método do bíblico Onan… verter a semente fora do corpo — quando ela bufou incrédula, ele riu. — Está a ponto de fazer um bate-papo sobre o controle da natalidade, como sua mãe fez com as mulheres do rei Sigtrygg?

— Minha mãe fez o quê? — exclamou Rain, começando a ver o sorriso no rosto dele. — Oh, não importa — realmente ela tinha ouvido suficientemente sobre a conduta escandalosa de sua mãe — mas não vejo como pode ter certeza de que nunca teve filhos… usando esse método, digo.

— Te animo, senhora, não tenho filhos vivos.

— Pois bem, pode ser verdade, mas é simples sorte, se têm praticado tirar antes do clímax.

Selik fez um som sufocado de incredulidade.

— Que espécie de mulher você é que fala tão diretamente?

— Médica, pelo amor de Deus. E te digo, Selik, que alguns momentos antes do sêmen sair de seu pênis…

Selik fez um ruído do fundo de sua garganta, e arqueou as sobrancelhas admirado, provavelmente por sua atenção aos detalhes.

— De qualquer modo, se fez amor com uma mulher depois, mesmo quando saiu de seu interior e chegou ao clímax fora de seu corpo, ela ainda pode ficar grávida.

— Devo supor que o homem e o pênis fazem isso? — perguntou secamente ele. Inclinando a cabeça, continuo: — Mas como se pode conceber se a semente fica fora do corpo da mulher?

— Porque se engana, simplesmente a mínima quantidade que cai no corpo da mulher é suficiente para deixá-la grávida.

— São histórias. Isso não é verdade.

— Sim, é, Selik. Como médica, te digo isso, vi a prova várias vezes.

Horrorizado, cravou os olhos nela com incredulidade, que logo se converteu em alarme.

— Nunca soube — sussurrou ele, concluindo com aversão. — Tenho sorte de não ter tido mais bebês.

Para o desgosto de Rain, Selik lhe voltou as costas então.

 

— Me escute bem, Rain. Ficará aqui em Ravenshire com Tykir até que eu volte — ordenou Selik na manhã seguinte em seu dormitório enquanto empacotava suas coisas em uma bolsa de couro.

Rain se rebelou, não estava de bom humor depois de uma inquieta noite de pouco sono, estimulada, sem dúvida, pela frustração sexual, um problema que Rain nunca tivera antes. E a incomodava escutar Selik falar tão serenamente, e seu comportamento não afetado enquanto pegava seus pertences.

Usando apenas uma brynja, a fina túnica que protegeria seu peito de irritações sob o metal da armadura, e um par de calças de grossa lã que se uniam a suas musculosas coxas, Selik fazia uma tentativa de ignorá-la.

— Por quê? Por que devo ficar aqui? Aonde você vai? Quando vai retornar? Ouça, não está pensando em se desfazer de mim aqui? De modo algum!

Selik pôs as duas mãos nos ouvidos com asco.

— Pelas tetas de Freya! Se tornou uma megera com suas perguntas intermináveis. Simplesmente aceite minhas ordens e fique tranqüila, ao menos uma vez.

— Eu? Megera? Hah! E, a propósito, não aprecio essas suas cruéis expressões Vikings. Nem sua mordacidade.

Os olhos cinzas de Selik se abriram com exagerada surpresa.

— Desaprova minhas vulgaridades quando você me disse faz só alguns dias atrás, com um mau-gosto mesmo para mim, exatamente o que eu poderia fazer comigo mesmo? Para te lembrar, muito claramente você me mandou tomar...

— Não tem que lançar minhas palavras na minha cara como um maldito papagaio — Rain ergueu o queixo atrevidamente e tentou demonstrar que seu rosto quente não era por um rubor, que não se envergonhava de sua língua cada vez mais afiada, e algumas vezes vulgar. Meu deus! Estava se convertendo em uma mulher que não era capaz de reconhecer. — Pois bem, você me provocou.

Sua desculpa soou fraca incluso ao seus próprios ouvidos.

— Tem uma resposta para tudo, moça.

Não para tudo, Rain pensou desolada. Observou com total desamparo como Selik dobrava várias tiras de tecido que usava como tanga. Repentinamente, uma imagem brilhou em sua mente, uma imagem tentadora de Selik de cuecas. Hey, Selik com boxers não ficaria tão mal, tampouco, pensou Rain.

— Por que está sorrindo abertamente? Está tramando alguma travessura para atrapalhar minha vida?

— Não — disse Rain com um sorriso. — Somente te imaginava com roupas íntimas modernas, do tipo que usam os homens em meu país — descreveu todos os diferentes estilos a Selik, mas ele não ficou impressionado.

— Por que um homem se preocuparia em usar isso ou uma tanga de linho? Ou usarem etiquetas de marcas desse homem Calvin? — zombou ele.

— Porque querem impressionar às mulheres.

— É o que está dentro da tanga o que importa, moça — afirmou Selik, lhe piscando um olho com grande arrogância.

— Sim, bem, até digo que você ficaria melhor que Jim Palmer nas bermudas de jóquei. Ouça, ainda melhor — acrescentou ela, abanando o rosto dramaticamente — em roupas íntimas comestíveis.

Selik deixou de guardar coisas e pregou os olhos nela. Ela tinha toda sua atenção.

— Agora sei que está brincando comigo. Pessoas comendo roupas íntimas?

— Use sua imaginação, Selik. Você, o suposto deus do sexo da Idade das Trevas, deveria ter uma idéia de como se utilizariam.

Rain soube o momento em que Selik a entendeu. Seu pescoço se tingiu e o rubor subiu lentamente por seu rosto. Amava-o! Depois seus lábios se moveram com um aberto sorriso juvenil.

— Um deus do sexo! Nunca pretendi ser algo semelhante.

— De qualquer forma, nunca provei roupas íntimas comestíveis, mas pelo que entendo vem em diferentes sabores, como morango ou limão. Aposto que há algumas que têm sabor de cerejas Salva-vidas.

— Mesmo?

— Você gostaria disso? — perguntou ela rindo.

Selik negou com a cabeça, convencido de que ela mentia agora.

— Realmente, me assombra, mulher. Fica a noite toda inventando esses contos escandalosos para me escandalizar?

— Está escandalizado?

— Não. Me desconcerta, e esse é, sem dúvida, seu propósito. Não permitirei que tire o sarro de mim, entretanto. Preste atenção em mim, ao menos em uma coisa. Jurou não fugir, e cumprirá seu juramento. Fique em Ravenshire com Tykir.

— Vai voltar?

Selik a olhou carrancudo, evitando responder.

— Mas aonde…

— Aonde eu vá ou se voltarei é da minha conta. Simplesmente siga minhas ordens. E permaneça perto do torreão. Há saxões por perto, aposto, e os bastardos cortariam sua formosa cabeça em um abrir e fechar de olhos, sem te perguntar por que está viajando com O Fugitivo. Será suficiente que pensem que eu gosto de sua companhia. Atribuí a Gorm velar por você…

— Não se atreveria. Não quero aquele balde de lodo nem a uma milha de distância de mim.

O rosto de Selik ficou rígido pela ameaça.

— Todos meus homens têm ordens de te proteger. Gorm fez algo para te machucar? Juro que esfolarei vivo o cão sem valor se houver tocado sequer um cabelo de seu formoso corpo.

Formoso? Rain guardou esse irrelevante elogio despercebido. Selik a tinha chamado de bonita aquela noite, mas ela tinha duvidado de sua sinceridade. Era possível que esse não fosse seu estilo? Ele podia cuidar dela? A emoção que ele demonstrava nesse momento era um sinal de sentimentos mais profundos?

Mas depois o coração de Rain se afundou ante suas outras palavras, esfolar vivo a um homem.

— Selik, por favor, me diga que não esfola as pessoas.

Ele sorriu abertamente.

— Era simplesmente uma expressão, meu doce. Ainda desenho uma linha em algum lugar.

Ela riu tremulamente.

— Pois bem, sei disso.

Ele lhe dirigiu um olhar de divertida incredulidade.

— Admite alguma vez estar equivocada?

 

Pouco tempo depois, Rain observou com súbita desilusão os passos que conduziam até o grande vestíbulo e Fury montado por Selik. Aquele era um Selik de campo de batalha, o guerreiro pintado de Brunanburh, o homem que enfeitiçou seus pesadelos durante anos, trazendo-a através do túnel do tempo.

Usando apenas uma túnica à altura das coxas de cota de malha flexível sobre uma túnica de lã e malhas apertadas, Selik manipulou destramente as rédeas do cavalo enquanto se exibia nervosamente perto do muro exterior do castelo esperando a meia dúzia de homens que viajariam com ele. Embainhou sua letal espada, Fúria, ao seu lado, e pendurou a lança e seu casto na cela de montaria.

Seus olhos, distantes e frios, estavam centrados em Rain. Agora não havia um laço emocional. Rain se deu conta, com pressentimento, de que seu lado louco tinha tomado o controle.

— Tenha cuidado — sussurrou Rain com voz suave, trêmula.

Selik não pareceu ouvir suas palavras enquanto ficava com o olhar fixo e inexpressivo à frente, ignorando-a, mas então ela notou o movimento de seu pomo de adão várias vezes como se ele tentasse, mas fosse incapaz de falar. A impressionou inclinando a cabeça. Depois, sem falar, se foi.

Observando-o partir, Rain se deu conta de que ele levara uma parte dela. Era incompreensível para ela como um homem que tinha conhecido há tão pouco podia tê-la tocado tão profundamente. Começava a pensar que nunca poderia retornar ao futuro se isso significasse deixar Selik para trás.

No momento em que Selik desapareceu de sua vista, Rain foi em busca de Tykir, decidida a conseguir respostas para algumas de suas perguntas. Como podia ajudar Selik, se não sabia nada sobre ele?

Encontrou Tykir em seu dormitório com Ubbi exercitando sua perna. Os homens tinham improvisado uma primitiva forma de fisioterapia atando um pequeno saco de farinha ao tornozelo de Tykir. Deitado sobre a cama, ele movia a perna para cima e para baixo em lentas repetições.

— Nadar é um bom exercício para fortalecer os músculos da perna também, Tykir. E a massagem. De fato, poderei trabalhar em seus músculos quando tiver terminado com as elevações.

Tanto Tykir quanto Ubbi a olharam enquanto se aproximava da cama, arqueando uma sobrancelha com ceticismo.

— Nadar nesta época do ano? Acho que não, irmã. Parece que a perna somente teria cãibras.

— Poderia te servir de maneira maravilhosa, fazendo mais rápido o processo de cicatrização, sério. E para você, também, Ubbi — disse ela, voltando sua atenção para o pequeno homem. — Tive a intenção de falar com você a respeito de sua artrite. Depois de terminar com Tykir, quero te examinar. Acho que posso te ajudar.

Ubbi se afastou dela.

— Ar… tri… te? — depois se levantou e arqueou os ombros para trás com desafio. — Me examinar? Não, não tocará meu corpo. É até impróprio para uma moça pensar algo semelhante.

— Oh, Ubbi, vi centenas de homens nus, e seu corpo não é diferente, acredite em mim.

— Centenas de homens nus! — exclamaram ao mesmo tempo Ubbi e Tykir.

— Senhorita, que vergonha! Você não deveria faltar com a verdade. Uma dama de sua virtude nunca teria compartilhado a cama com centenas de homens.

Tykir somente sorriu abertamente enquanto soltava o peso de farinha de seu tornozelo. O tolo se divertia com a idéia de uma irmã tão promíscua.

— Não seja tolo, Ubbi. Queria dizer que como médica, examinei muitos, muitos homens em meu hospital.

— Hmmm. Há um hospitium em Jorvik. Seu “hospital” é o mesmo? — perguntou cautelosamente Ubbi.

— Há uma faculdade médica em Jorvik? — perguntou Rain excitada.

— Sim, no monastério de São Pedro. Interessam os doentes moribundos de seu hospitium aos curandeiros, os monges.

— Oh, isso é maravilhoso. Quando poderemos ir? É perto?

— É a um dia daqui, mas não pode sair até que Selik retorne — explicou Tykir, seus longos cabelos caindo para frente quando se apiou na muleta de madeira, tentando se levantar da cama. — Selik deu algumas ordens, e terá minha cabeça, como também a sua, se desobedecer.

— Não, não se levante — disse ela a Tykir, o pressionando para que voltasse a se deitar. Começou a massagear sua coxa através das calças. A princípio, seu toque íntimo o fez passar vergonha. Depois a amaldiçoou enquanto trabalhava cada doloroso tendão.

— Oh, querida mãe de Thor! Salvou minha vida só para me mandar para o túmulo?

— Não seja bebê.

Mais tarde, ele disse suspirando de prazer ante a perita manipulação dela, seus cílios escuros se fechando um pouco sobre seus grandes olhos cor de café como os do irmão dela, Dave:

— De verdade, você tem dedos mágicos, irmã.

De repente, Rain notou como Ubbi ia avançando pouco a pouco e com dificuldade para a porta aberta.

— Não te dei permissão para se ausentar do exame. Terminei o tratamento de Tykir por hoje, e agora é sua vez.

Ubbi começou a dirigir seus olhos suplicantes para Tykir, mas seu irmão só riu.

— Deixe a bruxa trabalhar suas coisas em você, Ubbi. Quem sabe? Talvez suas mãos deixarão sua carne boa.

Tykir coxeou saindo do quarto com sua muleta provisória, rindo sufocada e divertidamente pelo aparente desconforto de Ubbi de ficar sozinho com Rain. Ela teve que adular, ameaçar e subornar Ubbi para que tirasse as roupas, mas ainda assim ele apenas ficaria com a tanga. Ela mal reprimiu um ofego de horror pelo estado deformado de seu corpo.

— Ubbi, durante quanto tempo teve artrite? — ante seu olhar confuso, ela rapidamente perguntou com outras palavras. — Que idade tinha quando sentiu o primeiro encavalamento dos tendões? É mais doloroso algumas vezes que outras?

Enquanto lhe fazia perguntas, Rain analisou cada polegada de seu corpo explorando com os dedos, dos seus ombros aos seus pés nodosos, excetuando, é claro, sua área genital. Sabia que Ubbi nunca permitiria que ela examinasse ali.

Finalmente, obrigou Ubbi a se deitar de barriga para baixo sobre a cama, apesar de seus protestos e sua óbvia humilhação. Alternando firmeza e suavidade nas pressões e dobradura dos dedos, logo relaxou seus músculos dolorosamente nodosos.

— Oh, senhorita, não me sinto tão bem desde que era um menino — disse Ubbi com um suspiro, sua voz transbordando adoração.

Rain sorriu, feliz de ajudar o agradável homem.

— A partir de amanhã, farei as massagens duas vezes ao dia. Seria genial se pudéssemos encontrar algum óleo. Também, te darei alguns exercícios para fazer. E até poderíamos pegar algumas ervas para aliviar a dor. Oh, e acho que talvez… a argila quente no corpo.

Ubbi gemeu, mas seus remelentos olhos deram indícios de seus sinceros agradecimentos.

— Pensa de verdade que podem fazer melhorar?

— Não, não posso te curar, Ubbi — disse Rain, lhe batendo amavelmente no ombro. — Não se pode corrigir a artrite, mas há coisas que podem ajudar uma pessoa para que fique mais flexível e livre da dor.

— É um milagre — declarou Ubbi, e Rain soube que seu estado como anjo ante os olhos de Ubbi somente tinha subido outro grau. Ele virtualmente saltou do quarto.

Repentinamente, Rain se deu conta de que tinha esquecido a razão de subir ao dormitório de Tykir em primeiro lugar, conseguir respostas para suas perguntas sobre Selik. Indo outra vez a procura de Tykir, encontrou-o no vestíbulo, levando alguns dos prisioneiros para dentro para limpar os juncos sujos e esfregar a fundo as mesas.

— Tykir, tinha a intenção de te perguntar algo antes. Aonde Selik foi?

— Ele não lhe disse?

— Não. É um segredo?

— Não — respondeu cuidadosamente sob seu atento escrutínio. — Ele está viajando através das terras do norte para as terras do Alvorada do Rei Constantino.

— Escócia? Mas Ubbi disse que não era bem recebido ali.

Tykir deu de ombros.

— Realmente, os escoceses somente o empurrariam para outro lugar, mas ele foi um bom camarada. Com boa consciência não podem afastá-lo de suas portas.

— Então por que ele vai para lá?

— Para me proteger, e a Ravenshire.

— O quê ?! — nunca tinha ocorrido a Rain que Selik pudesse ter uma causa nobre para agir. O que isso dizia sobre ela? E sua fé no homem que tinha sido enviada para salvar? Rain não gostou dela mesma nesse momento.

Tykir baixou seu corpo a um banco próximo, esfregando a perna dolorida, e Rain se abaixou a seu lado.

— Me diga — lhe urgiu ela.

— Quando voltávamos ontem pela manhã, encontrei uma mensagem de Eirik escondida em um esconderijo especial que tínhamos quando crianças. Advertia-me que o Rei Athelstan planeja uma caça maciça de homens em busca de Selik e que assolará Ravenshire até os alicerces se descobrir Selik em qualquer lugar dos arredores.

O sangue de Rain gelou em suas veias e seu coração foi até O Fugitivo, que realmente não tinha casa, não era, de fato, bem-vindo em lugar algum.

— Por favor, continue — ela respirou tremulamente.

— Selik acreditou que se mostrsse seu rosto na terra dos escoceses, até agora aqui, o Rei Athelstan dirigirá suas forças para lá. Os saxões não terão razões para invadir Ravenshire. Não sou uma presa o suficientemente grande para que enviem uma tropa de soldados.

— Então ele tem a intenção de mostrar seu corpo como uma maldita bandeira diante seus inimigos para te salvar — disse Rain, consternada.

— Nos salvar — corrigiu Tykir, seu rosto avermelhando ante o velado insulto. — Se os saxões viessem aqui, não somente destruiriam a propriedade, mas quem está nela. Isso me inclui , a você , a Ubbi, todo mundo.

— Mas podíamos ter saído com ele — protestou Rain. — Por que que não nos deu uma escolha?

Tykir maneou a cabeça tristemente.

— Quis que ficássemos. Eu lhe disse que seria assim. Acha que me importa um pedaço de pedras desmoronando e uma parcela? Mas Selik tem costumes arraigados.

— E eu que o considerava uma besta brutal e só interessado em sua violência! — Rain começou a pensar que ela tinha muitíssimo que aprender sobre o mal e o bem. Talvez aquelas pessoas primitivas poderiam ensinar a ela, com toda sua avançada educação, algumas lições que de algum modo, estavam equivocadas em sua vida moderna.

— Ele é brutal, minha irmã. Nunca ache que não seja. A verdade de seu louco comportamento não pode ser adoçada, mas é um bom homem no fundo.

— Por que ele é assim, Tykir? Por favor, me diga o que lhe aconteceu para que mudasse de um jovem despreocupado como minha mãe o descreveu a esta casca atormentada de homem?

Tykir ficou rígido e seu rosto ficou inexpressivo.

— Não, não discutirei sobre o passado de Selik. É algo que ele deve revelar, ou se apoiar em sua alma, se ele escolher.

— Mas se não o detiver, se alguém não ajudá-lo logo, certamente morrerá.

— Sem dúvida, fará. Durante muito tempo, Selik tem corrido para o Valhalla rapidamente, sem se preocupar com sua mortalidade, desejando apenas levar tantos saxões quanto possa com ele.

— Que triste ter como meta uma vida de violência!

Tykir deu de ombros e se levantou, apoiando-se em sua pessoa.

— É isto, para os saxões Selik pode ser apenas um berserker. Um louco demônio banhado em sangue, limpando a Nortúmbria como eles tentam limpar todo os noruegueses de seu território. Mas para um bom número de noruegueses, Selik é um valente cavaleiro em busca de nobre vingança. Faria bem lembra disso.

— Mas…

Tykir ergueu uma mão para deter suas seguintes palavras.

— Não, isso é tudo o que direi sobre o tema. Pergunte a Selik quando ele voltar.

Mas ele voltaria? Pergunto-se com inquietação Rain quando os dias, depois as semanas, se passaram sem notícias de seu primitivo companheiro de alma. Cada vez mais, enquanto ela, os prisioneiros e os soldados de Selik que ficaram trabalhavam para limpar o lugar desmoronado (uma batalha quase perdida por seus escassos recursos) Rain reviveu em sua mente suas noites juntos. Se ele morresse — Oh, por favor, Deus, não deixe que acontecça! — Rain soube que sempre se arrependeria de não ter tido uma noite de amor com ele.

Quando se passou um mês e não houve nenhum sinal de Selik, o pânico se estabeleceu. Rain começou a roer as unhas, um hábito nervoso que achava que tinha dominado. Opondo-se a seu fraco apetite, perdeu peso, e não menos de quatro quilos e meio. Tykir e Ubbi, e mesmo Blanche e Bertha, evitavam sua companhia porque estavam loucos de suas intermináveis perguntas sobre a segurança de Selik e sua volta.

— Maldição! Acho que vomitarei se ouvi-la perguntar uma vez mais quando o sangrento Fugitivo vai voltar — se queixou Bertha com uma voz de lamento enquanto ajudava Blanche a preparar o cervo morto em uma caçada recente. Gorm, um dos mais fervorosos pretendentes de Blanche, o havia trazido de uma caçada diária e o tinha colocado aos pés de Blanche no pátio como se fosse uma dúzia de rosas. Mulher sábia, a ardilosa Blanche tinha agido devidamente impressionada e piscado seus cílios para Gorm com tácita promessa.

Quando Rain disparou um desaprovador olhar para Blanche, que preferia lançar sua rede na direção de Selik, a criada deu de ombros, sem culpa, e tinha comentado:

— Uma mulher deve cobrir todas as opções. Vai superar o que pensar sobre isso, também, minha senhora, no caso de O Fugitivo não voltar.

Rain estudou Bertha depois, muito contente com a cor melhorada de sua pele, graças ao regime alimentício que lhe tinha prescrito. Graças aos céus era apenas uma falta de vitaminas e não um tumor ou enfermidade do fígado o que tinha causado aquele tom amarelado em sua pele.

— Assegure-se de guardar um pedaço do fígado para você. Ainda precisa de ferro.

Bertha assentiu com a cabeça para Rain, sem protestar pelos conselhos médicos desde que presenciou sua melhoria de saúde.

— Quer que te ajude a cortar isso? — perguntou, engolindo em seco ante a perspectiva desagradável de manejar a res morta e sangrenta. Não era vegetariana, mas com tantas vezes fazendo operações em corpos humanos, resistia a tocar a carne crua de um animal. Provavelmente uma associação infantil com Bamby, ela decidiu.

— Não, vá e continue desgastando as táboas das muralhas, esperando a volta de seu amante — explodiu Bertha com um comentário suavemente sarcástico. Blanche apenas sorriu para a descarada criada.

— Selik não é meu amante.

— Não por culpa dele, aposto. Nem por falta de vontade — disse sarcástica e sabiamente Bherta.

— Você é grosseira!

— Não use esse tom comigo, milady — afirmou a impertinente criada. — Posso ser uma criada de nível baixo, mas é tão simples como a verruga no nariz de uma bruxa, que você é como uma égua no cio. E o Fugitivo, pois bem, ele é a serpente para você, esperando o momento certo para dar o bote.

— Bertha! — exclamaram Rain e Blanche.

Rain não pôde ajudar mas riu com a imagem.

— É isso de verdade o que pareço, uma égua no cio? Bom Deus!

— Não — respondeu Bertha, mais amavelmente. — É que é sabido no mundo a maneira de ser dos dos homens e das mulheres e suas naturezas luxuriosas. Vejo os sinais melhor que a maioria, afirmo.

Rain maneou a cabeça com incredulidade ante o fato de estar em pé ali escutando a pequena mulher gordinha com dentes podres lhe dando conselhos sobre o amor.

— Pelo menos, não posso compreender porque você não simplesmente agita as asas e vai voando ajudar seu amante, se está tão preocupada — acrescentou Bertha, gargalhando de sua própria piada.

Blanche sorriu zombeteiramente, acrescentando:

— Oh, e pode perguntar a Deus se pode mandar uma vaca e galinhas poedeiras para eu poder fazer um pudim para o jantar?

Aparentemente, Ubbi espalhara suas histórias sobre o anjo outra vez, mas ninguém mais acreditava nelas.

Rain deixou a cozinha zangada, sabendo que suas dúbias artes culinárias não eram desejadas. Foi, certamente, às muralhas, onde observou o horizonte.

— Oh, Selik, onde você está? Querido Deus, por favor envie de volta meu seguro. Prometo fazer uma tentativa mais dura para ajudá-lo.

Sua oração foi respondida imediatamente pelo trovejar dos distantes cascos, seguido pelo contorno pouco definido dos cavaleiros no horizonte de uma colina perto de uma milha de distância. Rain revirou os olhos para o céu, dando um silencioso obrigado quando virtualmente voou para baixo pela escada de madeira do muro externo do castelo.

 

Selik viu a moça em pé sobre as muralhas, olhando, depois saindo rapidamente quando reconheceu seu estandarte. Seu coração se moveu e expandiu em seu peito, fazendo com que inspirasse agudamente para recuperar o fôlego. Maldição ultrajante! Tinha passado quatro semanas forjando-se contra sua atração de sereia, tentando manter sua determinação de um único propósito para sua vida, a morte dos saxões, mas em particular, a morte de seu inimigo mais odiado, Steven de Grevely.

Mas todos seus esforços não serviram para nada. Oh, tinha matado mais saxões que o suficiente para satisfazer sua sedenta busca de sangue por vingança desde que tinha deixado Ravenshire, mas em silêncio Selik não podia negar o imediato prazer enquanto via mais de perto a expressão de boas-vindas no rosto de Rain. Ela o esperava ansiosa no muro externo do castelo em um corredor que conduzia ao grande vestíbulo.

Selik baixou a viseira do elmo para ocultar a suavização de seus traços. Devia evitar particularmente essas perigosas emoções. Talvez devesse girar Fury e voltar para o norte.

Pensou, realmente poderia ter uma vida com a moça? Não, admitiu imediatamente. Era impossível.

Era o que queria, entretanto? Sim, Selik deu-se conta alarmado. Permitiu-se se deixar vencer pela atração, e era um caminho perigoso que não devia, não podia, percorrer.

Selik viu os olhos cor mel de Rain procurar algo em sua sela de montaria, depois se desviar com culpa. Ela estava procurando os escalpos. Malditos fossem seus reveladores olhos! Apesar de sua promessa de não voltar a fazer, a moça não confiava nele. Por alguma razão que não podia compreender, a injustiça de seu gesto o feriu profundamente.

Selik certamente endureceu seu coração depois disso. Não havia nada ali, em Ravenshire, para ele. Não havia nada em lugar algum, em relação a ele, salvo a destruição e a morte. Sua morte, ao final. Era o destino. Pois bem, descansaria essa noite em Ravenshire, depois iria embora ao amanhecer. Não levaria ninguém com ele, nem sequer Ubbi. Era melhor desse modo.

Com essa determinação, Selik guiou Fury, passando por Rain, Tykir e Ubbi e quantos soldados tinha deixado para trás. Selik desceu de seu cavalo no outro lado do pátio e conduziu o ofegante animal às dependências que alojavam os cavalos. Blindando-se do olhar ferido que nublava os olhos dourados de Rain, ignorou suas tímidas boas-vindas.

Tinha tirado a sela de montaria e posto água e feno fresco para Fury quando escutou os suaves passos de Rain às suas costas.

— Selik, o que está errado?

— O quê?

Ela fez um som baixo de exasperação.

— Sabe o que quero dizer, por que está me evitando?

Selik se voltou e a olhou depois, forçando seu rosto a permanecer impassível e insolente ante seus olhos suplicantes e os suaves lábios entreabertos.

— Evitando? Não. Talvez não me bate mais o desejo. Não estou mais interessado em você.

Pelos ossos de Deus! Acrescento a mentira a meus pecados agora?

Rain gemeu, seu rosto sincero demonstrando claramente a dor de seu insulto, como uma bofetada.

— Estive preocupada com você.

— Minha senhora, sobrevivi os dez anos passados sem uma irritante mulher preocupada, se desgastando. Agora não acho que dou as boas-vindas à sua preocupação entrometida.

Rain inclinou a cabeça interrogativamente.

— E quem foi a mulher que se preocupou com você?

Seu pegunta sobressaltou Selik, e por um momento seu rosto revelou dor.

— Vá embora, Rain — disse ele com voz cansada. — Sua preocupação está mal colocada.

— Tykir me disse porque você é assim, Selik, e apenas quero dizer que lamento ter te chamado de animal antes. Estou tentando te entender, realmente estou, mas…

— Tykir não fez bem em intervir em minha vida, e direi isso a ele. E a última coisa que quero é que você me entenda.

— O que quer de mim então?

Ele ergueu o queixo e cravou os olhos nela, impassível.

— Nenhuma bendita coisa.

O rosto de Rain se ruborizou, mas ela insistiu.

— Tive muito tempo para pensar enquanto esteva fora, e me dou conta de que é um bom homem.

— E quem te nomeou meu juiz, seu Deus ou qualquer homem?

Rain se encolheu de medo sob a castigadora valorização de suas faltas, mas ainda seguiu tenazmente:

— Preciso lembrar que, sem importar as coisas ruins que você faça, são equilibradas pelos crimes feitos contra você no passado.

— E Tykir fez a tolice de derramar esses acontecimentos para você, Rain? — perguntou ele friamente.

— Não, ele disse que eu te perguntasse.

Selik se apiou contra uma viga e olhou para Rain desdenhosamente. A moça estúpida o incitava e não reconhecia o perigo de sua cólera.

— Não peguei couros cabeludos desta vez. Sei que observou.

Ela assentiu com a cabeça a contragosto, sem dúvida reconhecendo a sedosa ameaça em sua voz.

— E acha que repentinamente virei pacifista?

— Claro que não. Mas tem que ser um sinal…

— Sinal? Procura uma marca, é? Senhor, é perigosa com suas idéias! — ele a agarrou pelos antebraços e a sacudiu, como se esse movimento pudesse colocar algum sentido em sua cabeça dura. — Quantos homens acha que matei essas semanas passadas? Dez? Vinte? Cinqüenta? Cem?

Com cada número maior, seus olhos se abriam mais e mais com súbita desilusão. As lágrimas emanaram de seus olhos cor de mel e deslizaram, gotejando sobre suas mãos nuas como se fosse um líquido queimante.

— Selik, acho que te amo — gritou ela. — Que Deus me ajude, mas te amo.

O coração de Selik pulsou rapidamente ante sua declaração completamente inesperada. Levou toda sua força de vontade não puxá-la para seus braços e saborear o momento, e as preciosas palavras. Te amo. Não, não podia ser verdade.

Te amo. Por que ela brincava assim? Por que Deus o atormentava assim? Seus sentidos se embaralhavam pela fúria. Não havia sentido nada tão forte desde que encontrara o corpo de sua esposa, destroçado e mutilado. Ou quando vislumbrara pela primeira vez o crânio de seu bebê na lança de um soldado saxão.

Te amo. Selik a afastou e bateu com seu punho na parede de madeira que separava as baias dos cavalos. A madeira podre se desmoronou com o impacto, e ele a afastou de um chute com cólera. Com um grunhido de frustração, deu a volta.

Te amo. Não, gritou Selik silenciosamente. Não queria seu amor. Não poderia suportar tanta dor de novo.

Segurando suas mãos contra seu peito, Selik se lançou através do pátio, ignorando os chamados de Ubbi e Tykir. Sem saber aonde ir, rodeou a muralha e foi ao bosque e a um lago próximo que os habitantes de Ravenshire usavam para se banharem. Com estupefação, deixou cair suas roupas ao chão e entrou nas águas geladas, continuando depois em uma saliência que dava em um pronunciado aclive. Procurando o bálsamo do duro exercício, começou a nadar de um lado a outro através das águas silenciosas.

Mas não podia esquecer. Não o passado. Nem o presente, com as palavras involuntariamente cruéis do fundo do coração de Rain. E, sobretudo, não seu vazio futuro, desesperado.

Tinham passado dez anos, dez anos atormentadores, e as imagens ainda permaneciam em sua mente como se tivesse acontecido ontem mesmo.

Selik maneou a cabeça encolerizado enquanto continuava nadando com raiva, tentando esquecer suas horrendas lembranças. Mas as lembranças de Astrid e seu pequeno filho arrebatavam cada momento de sua vida.

Esses acontecimentos de dez anos atrás marcaram o começo da vingança de Selik contra os saxões, e ele a tinha empreendido sanguinariamente. O esquivo Graveley até se livrara de sua espreita, mas Selik tinha tomado centenas de vidas saxãs em seu caminho com o objetivo final de destruir o demoníaco Conde de Greveley.

Não podia se afastar de seu objetivo de vingança por um anjo amante da paz vindo do futuro. Não, Selik não seria afastado do caminho escolhido.

Mas as tranqüilas palavras de Rain ressoaram em sua cabeça. Te amo. Te amo. Te amo...

 

Quieta no estábulo, Rain ficou com o olhar fixo, aturdida, na porta pela qual Selik tinha saído, suas palavras resmungadas ecoando em seu cérebro. Duvidava que ele soubesse até que tinha falado em voz alta.

O corpo de sua esposa violado e mutilado. O crânio de seu filho em uma lança saxã.

Todas as peças do quebra-cabeças que constituía a tortura de Selik se juntaram com compreensão horripilante no cérebro entorpecido de Rain. Não era estranho que ele se tornara cruel, firmemente decidido em sua vingança.

E ela, que sempre estivera orgulhosa de sua sensibilidade como médica e humana, atrevera-se a julgá-lo e achá-lo deficiente. O quanto ela era moralmente arrogante! Por um momento cegante, perguntou-se qual era a besta à vista, e a resposta não foi Selik.

Ubbi entrou no primitivo estábulo depois, guiando um dos cavalos dos soldados. Imediatamente começou a partir dando a volta quando viu o olhar dela o confrontando.

— Não saia — pediu ela, levantando-se e apoiando o pequeno homem contra a parede do edifício com um dedo pressionado no seu peito. Nervosamente, Ubbi deixou cair as rédeas e o cavalo perambulou de volta ao exterior.

— Miladi, tenho tarefas…

— Eu sei, Ubbi. Sei sobre Selik.

— O que quer dizer?

— Sei sobre sua esposa e seu bebê. Agora vai me dizer o resto dos detalhes.

— O amo te falou de como Astrid e o bebê morreram… Oh, Senhor… ele falou também de Thorkel?

Rain inclinou a cabeça sinistramente.

— Oh, querida, o que fez para obrigá-lo a revelar tanto? — Ubbi se afundou no piso sujo e colocou seu rosto entre as mãos nodosas. Quando finalmente voltou a olhá-la, seus olhos nublados estavam cheios de lágrimas. Maneou a cabeça cansadamente. — Essas não são boas notícias. Não, só pode significar problemas, se ele lembrou os horrores de seu passado.

Rain se afundou ao lado de Ubbi e pegou uma de suas deformadas mãos nas dela.

— Me conte.

Ubbi engoliu em seco visivelmente.

— Já se passaram mais de dez anos. Selik já não era um cavaleiro viking, e tinha se casado com Astrid havia dois anos. Ah, ela era uma doce donzela. Bonita como a primavera. E jovem… sem ter visto mais de dezoito invernos.

Rain sentiu o derramamento de macabros ciúmes através de suas veias pela mulher e sua relação com Selik.

— Os dois eram inseparáveis. Sempre tocando um ao outro. Nunca indo embora e deixando o outro sozinho. Mesmo quando ela estava grávida, e depois do bebê nascer. Para que compreenda, Selik nunca teve uma casa, ou uma família com quem falar. De modo que amou muito Astrid, e a seu filho ainda mais. Mas Selik finalmente fez uma viagem a Hedeby. Deixou Astrid e Thorkel na elegante casa que construiu para eles em Jorvik, eles estavam seguros, mas…

— Os saxões chegaram — terminou Rain por ele. Ubbi inclinou a cabeça, seu amável rosto ficando horrível pela cólera suscitadas pelas lembranças que o mantinham escravizado.

— Você estava com Selik? — perguntou Rain suavemente enquanto acariciava tensamente sua mão.

— Sim — a única palavra cheia de horror disse tudo. Engoliu em seco com dificuldade várias vezes, depois continuou. — A casa estava queimada até os alicerces, mas encontramos o corpo de Astrid no jardim. Ela estava nua, e suas pernas estavam abertas e cobertas de sangue da parte superior de suas coxas até os tornozelos. O sangue e a semente de todos os homens que a tinham violentado.

Rain pôs um punho contra seus lábios para reprimir seus soluços.

— Nunca esquecerei, até o dia de minha morte, a imagem de meu amo embalando Astrid em seus braços, roçando os traços ensangüentados de seu rosto, repetindo seu nome docemente várias vezes. Com certeza, foi a última vez que o vi chorar.

O rosto de Ubbi se obscureceu com uma aguda cólera enquanto recordava outras coisas.

— Quando colocou de novo o corpo de Astrid na terra, depois vi… — as palavras de Ubbi se desvaneceram enquanto tentava controlar suas emoções. Finalmente, acrescentou. — E em seu peito o saxão tinha gravado suas siglas, uma em cada seio, S e G… Steven, Conde de Grevely.

Rain não quis escutar mais. Não podia compreender como um ser humano deliberadamente torturaria outra pessoa dessa maneira. Então algo dentre outras coisas que Ubbi dissera começou a penetrar.

— Steven de Gravely? Não era o irmão de Elwinus, o nobre que Selik matou em Brunanburth?

Ubbi assentiu com a cabeça.

— E é por isso que a vingança entre os dois continua sem parar.

— Como começou tudo isso primeiro?

— Steven de Grevely não precisa de desculpas para fazer suas maldades. Realmente é um homem cruel. Mas acusa Selik da morte de seu pai, o velho lorde.

— E Selik matou seu pai?

— Talvez. Houve uma batalha. Muitos saxões e normandos morreram nesse dia. Pode ter sido Selik, ou qualquer outro, mas Steven precisava um alvo para seu ódio, e escolheu Selik.

— Mas o que ele fez à esposa de Selik… Oh, Ubbi! Não é estranho que Selik seja tão amargurado!

O pequeno homem se voltou para ela depois e a apunhalou com seus desafiantes olhos.

— Certamente ele está amargurado, e com razão. Mas isso não é tudo o que o utrajante demônio fez naquele dia. Deixou o corpo esmagado, sem cabeça do bebê sobre o terreno perto do corpo de sua mãe. Foi preciso semanas para que Selik descobrisse onde estava a cabeça.

Rain então lembrou as palavras de Selik.

— Este Grevely levava a cabeça de Thorkel em sua lança, não?

— Certamente esperava levar Selik à morte. Finalmente, conseguimos recuperar a cabeça purulenta do pobre bebê e a enterramos com o corpo, mas Selik ainda tem que capturar o esquivo Steven… e qualquer outro sangrento saxão que se cruze seu caminho.

Rain baixou o olhar e viu uma mancha escura no frente de sua túnica e se deu conta de que estivera chorando e suas lágrimas tinham caído num fluxo constante por seus seios — a túnica de Selik — como sangue, pensou ela.

Oh, querido Deus. Agora sei porque me enviou aqui.

— Então agora que sabe — disse por fim Ubbi com desafio enquanto se levantava e tentava se endireitar. — Poderá ajudar o rapaz?

— Não sei, Ubbi. Simplesmente não sei, mas vou fazer uma tentativa.

Ele sorriu então, um sorriso que não chegou aos seus tristes olhos.

— Vai fazer, se alguém puder, te asseguro — a observou se levantar e passar as mãos pels roupas para tirar a sujeira. — O amo foi ao lago. O encontre, moça. Parece que ele necessita de você.

 

Selik estava dando braçadas enérgicas do começo ao fim do lago, várias vezes. Seu rosto estava submerso na água gelada, movia seus poderosos braços experientemente em um bonito nado de peito, deslizando através da calma superfície com precisão.

Rain deslizou sobre a terra perto das margens do lago e ergueu suas pernas, envolvendo seus braços ao redor delas e descansando seu queixo sobre os joelhos. Esperou pacientemente até que ele dispersasse sua raiva através do brutal exercício.

O coração de Rain foi até Selik, sabendo que suas palavras de amor tinham de algum jeito desencadeado lembranças dolorosas de sua horrível tragédia. Agora entendia completamente a tortura diária que ele sofria e como tinha sido preso em uma maldita espiral de violência. Quando a voz dentro de sua cabeça fazia referências sobre salvar Selik, era aquilo a que devia ter se referido.

Finalmente Selik saltou para cima como um belo golfinho. Aspergiu gotas de água, depois sacudiu seus cabelos compridos para longe de seu rosto. Depois nadou para águas menos profundas, levantou-se e suas pernas, fracas pela enérgica natação, quase se dobraram. Rain queria se aproximar para ajudá-lo, mas em seu devido tempo, não queria sobressaltar seu viking fugitivo. Sua doce, implacável alma gêmea

Ele tropeçou para frente através das águas pouco profundas, ainda sem ter visto Rain. Amplos ombros que se estreitavam em uma fina cintura e quadris, proporcionando uma moldura perfeita para genitais graciosamente formados e depois, poderosas coxas e pantorrilhas.

Seus olhos estavam nublados por uma tormenta interior, e seus lábios tensos em uma dura linha de determinação. Estava lutando contra seus demônios a sua maneira usual. Sozinho.

Esse é o homem que amo, ela pensou com sentimento de certeza. Surpresa e orgulho a encheram quase até transbordar, enquanto seus olhos deslizavam por ele como uma carícia.

Selik se deteve repentinamente quando a viu, depois se inclinou para baixo para pegar suas roupas do chão.

Descarado e sem vergonha de sua nudez, vestiu-se lentamente com as malhas e a túnica. Depois de firmar sua cintura com um amplo cinturão de pele, ele perguntou com uma voz vazia:

— Por que me segue?

Rain só olhou fixamente para ele, insegura de quanto revelar, mas a compreensão deve ter se mostrado em seu rosto.

Selik exalou bruscamente com desgosto.

— Quem lhe contou isso?

— Você contou.

Selik franziu o cenho, pareceu dar-se conta de que, em sua fúria, havia dito seus pensamentos em voz alta.

— E Ubbi encheu todos os espaços em branco.

— Eu deveria cortar a língua do homem — Selik comentou cansadamente enquanto se deixava cair no chão junto a ela e começava a secar seus cabelos com uma manta em seus ombros. Depois declarou firmemente — Não vou discutir meu passado com você, Rain. Só por uma vez, ponha um cadeado em sua língua.

Rain começou a falar, mas decidiu que ele tinha razão. Agora não era tempo. Selik tinha sofrido o suficiente naquele dia. Depois. Por hora, pensou, ela queria iluminar sua vida, não aumentar sua miséria. Ajudá-lo a esquecer um pouco da agonia que deveria palpitar insistentemente em seu cérebro.

Ela começou a lhe contar a respeito de todas as coisas cotidianas que tinham acontecido em Ravenshire em sua ausência. Quando ela finalmente chegou a Gorm e sua perseguição a Blanche, viu que os músculos de seu rosto começaram a relaxar. Ele de fato sorriu quando lhe contou sobre o conselho de amor perdido de Bertha para ela e Blanche. Até mesmo riu, seus olhos cinzas brilharam com diversão, quando lhe relatou como Bertha o comparou a um garanhão e a ela a uma égua no cio.

— Está no cio? — perguntou Selik finalmente, vendo-se sentindo prazer com o rubor que suas provocativas palavras trouxeram ao rosto dela.

— Dificilmente.

— Ah, persiste com essa coisa de repugnância pelo exercício sexual, pelo toque de um homem? Não, nem pense erguer seu arrogante queixo em defesa dessa mentira. Tenho provas que testemunham sua verdadeira luxúria.

— Não menti — protestou Rain. — E nunca disse que o sexo me repugnava. Só disse que tanto faz praticá-lo ou não.

Ao menos, em minha outra vida.

— Essa não é a impressão que tive quando… — Selik deixou que suas palavras deixassem pistas, dando de ombros.

— É diferente com você, Selik.

— Agora quem está rechaçando as linhas?

Rain sorriu ante a recordação de suas expressões modernas.

— É diferente com você. Oh, não vá se pavonear como um galo febril — ela acrescentou, fazendo com que ele deixasse sair assobios de riso. — Não é como se você tivesse uma técnica maravilhosa. É somente isso, bem, é somente porque é você. Há este tipo de luminosidade celestial sobre nós como um casal.

— Isso foi um elogio ou um insulto? — ele perguntou secamente. Felizmente, o humor negro de Selik passara.

Sua mãe sempre dizia que o caminho para o coração de um homem, “para o coração de um amante”, era a habilidade de uma mulher em fazê-lo rir. E Selik não sorria muito freqüentemente. Ela pensou por um segundo, logo se iluminou.

Ela sabia como derrubar o arrogante e complacente ego masculino e fazê-lo rir no processo. Oh, sim, ela sabia.

— Sabe, Selik… — disse ela com uma voz exageradamente doce, fazendo com que o rosto dele se inclinasse com uma suspeita de alerta. Oh, tem o direito de ser desconfiado.

— … sabe, se alguma vez fizermos amor…

Um sorriso aberto se moveu nervosamente em seus lábios tensos.

Isso, carinho, sorria. Relaxe suas defesas.

— …se alguma vez fizermos amor, te aposto que finalmente encontrarei meu ponto G — Aí tem. Toma isso em seu cachimbo machista e fume.

— Sei que vou lamentar perguntar isso, mas não posso resistir. Te imploro que me diga, o que no maldito inferno é um ponto G?

Achei que nunca perguntaria.

— Bem, existem algumas controvérsias sobre isso em meu tempo, mas muitas autoridades sexuais…

— Autoridades sexuais? Certamente não são fraudes os que reivindicam ser peritos em tais assuntos?

Rain assentiu com um sorriso.

— Sem dúvida alguma eles são francos — assegurou ele de brincadeira. — Os homens da terra franca sempre acreditaram ser os melhores amantes do mundo. Aposto que eles têm escrito alguns desses livros que você continua citando sem fim.

— Centenas.

— Hah! Sei muito mais que qualquer dessas autoproclamadas autoridades, te garanto.

Sem dúvida, você sabe, bebê.

— De qualquer maneira, antes de você me interromper, estava te dizendo que muitas autoridades sexuais estão em desacordo sobre o tema de se o ponto G em uma mulher realmente existe. Muitas mulheres asseguram tê-lo, entretanto. — Rain começou a dar a Selik uma lição muito detalhada sobre anatomia feminina e uma descrição gráfica do ponto G e que poderia aumentar o prazer de uma mulher.

A princípio, ele só a olhou fixamente, pasmo pelo quanto suas palavras eram explícitas. Depois explodiu em risadas.

— De verdade, nunca conheci uma mulher como você antes. Sabe tantos detalhes sobre a cópula entre homem e mulher. Como um condenado livro, é assim. Mas acho que não sabe de nada. Sim, é tão inocente como uma virgem quando chega à transa, me atrevo a dizer.

— Não sou!

Ele explodiu em gargalhadas outra vez enquanto a punha de pé e a levava para longe do lago, beliscando seu traseiro uma vez quando ela não se moveu o suficientemente rápido. Enquanto caminhavam de volta ao refúgio, ele murmurou uma vez ou outra, entre explosões de riso:

— Ponto G! Maldito inferno! Ponto G!

Quando Rain viu Ubbi aguardando ansiosamente sua volta, o fiel servo olhou do rosto sorridente de Selik para o chateado dela enquanto esfregava seu traseiro dolorido, e de volta para Selik. Então sorriu amplamente e inclinou sua cabeça em agradecimento para ela.

Para a mente de Ubbi, Rain havia, sem dúvida, realizado outro milagre angelical.

E Selik a surpreendeu voltando seu rosto para o dele e sussurrou suavemente:

— Obrigado.

Aparentemente, ele tinha compreendido completamente seus motivos de tentar iluminar o humor dele.

Vários dias depois, Selik lançou seus alforjes sobre a garupa de Fury e saltou na sela, preparando-se para deixar Ravenshire.

Rain se pôs ao seu lado com seu mal-nomeado cavalo, Godsend[6]. Ele grunhiu interiormente, perguntando-se que maldade ela tinha desejado para repreendê-lo agora.

— Obrigada, Selik, por me consentir ir com você a Jorvik.

Seus olhos se abriram com surpresa ante as suaves palavras ditas. Sem dúvida ela queria um favor.

— A razão pela que supliquei que me levasse com você a Jorvik foi por que poderia ser capaz de entender melhor porque fui enviada aqui. Se puder parar no mesmo ponto onde o museu estará no futuro, talvez poderia…

Selik fez um forte grunhido de incredulidade.

— O quê? Receber uma mensagem de Deus?

— Você é impossível!

Ele se voltou e a olhou, sacudindo sua cabeça incredulamente.

— O roto falando do esfarrapado... [7]

Rain sorriu, e seu coração pareceu se expandir no peito, quase asfixiante.

— Oh, Selik, eu te…

Ele levantou uma mão para deter suas palavras seguintes, sabendo que ela tentaria de novo lhe dizer que o amava. E que Selik não podia permitir. Olhou a tentadora moça, sendo difícil para ele resistir às suas palavras tentadoras. Tivera êxito até agora, desde aquele dia no lago, evitando lhe permitir repetir aquelas preciosas palavras. Enquanto ele não escutasse aquelas palavras ditas em voz alta, de alguma maneira ele poderia negar o crescente vínculo entre eles, poderia se enganar que não lhe importava. Cerrou os olhos cansadamente só por um momento.

Oh, Deus, ou Odin, ou qualquer ser que se encontre aí fora, por favor, não me torture assim. Não posso suportar amar de novo. E perder. É mais do que um homem pode suportar.

Ele endireitou seus ombros com determinação.

Confie em mim.

— O que disse? — perguntou Selik alarmado.

— Quando?

— Bem agora, algo a respeito de confiar — ainda enquanto falava, Selik sabia que não tinha sido a voz de Rain em sua cabeça. Oh, maldito inferno! Ela realmente o estava virando ao avesso e o deixando sensível como um idiota.

Seus maravilhosos olhos dourados se arregalaram e pareciam brilhar com encantamento.

— Escutou a voz, também, não é?

— Não. Não escutei nada.

— Mentiroso.

— Homens morreram por insultos menores que esse.

— Não tenho medo de você.

— Deveria.

— Por quê?

— Argh!

— Selik, realmente deveria ter cuidado em perder seu temperamento forte. A cada vez que se zanga comigo, uma veia pulsa de repente em sua testa. Pode ter um ataque.

Ele grunhiu.

— O único ataque que vai ocontecer será o de minha espada quando cortar sua língua solta.

Ubbi guiou seu cavalo para frente.

— Meu senhor, gostaria que eu amordace a dama para que assim não o incomode mais? — perguntou Ubbi a Selik com enjoativa consideração. Ele havia virtualmente dançado com prazer desde que Selik lhe havia dito na véspera anterior que poderia acompanhá-lo a Jorvik.

Selik ergueu uma sobrancelha ante a tentadora imagem.

— Valeria uma fortuna em ouro ver você tentar. E valeria o dobro da fortuna ter você dois com as bocas fechadas e costuradas, dando ao mundo um pouco de paz.

Os ombros de Ubbi caíram e seus lábios baixaram com aflição pelo insulto, mas Selik pôde jurar que viu o traidor piscar de olho conspirativo para Rain. Maravilhoso! Os dois bobos são cúmplices.

— Todos estão preparados para partir — anunciou Ubbi então.

Selik olhou ao redor consternado para o variado grupo de criados e parasitas que ele tinha conseguido acumular. Embora tivesse ordenado a uma meia dúzia de capitães permanecer com Tykir, junto com Bertha para cozinhar para eles, Selik ainda tinha duas dúzias de soldados e seis prisioneiros em seu grupo de viajantes. Sete dos homens escravos tinham optado por se unir às linhas de seus seguidores. Todos viajariam a cavalo, inclusive Blanche. De algum jeito seus homens tinham encontrado cavalos suficientes no campo para roubar.

Selik estava a ponto de dar o sinal para sair da muralha quando seus olhos se congelaram na última pessoa do séquito. Pessoas, melhor dizendo, imediatamente se corrigiu. Uma moça carregando um bebê em seus braços viajava montada no último cavalo.

— Tire-os de minha vista — ordenou Selik a Gorm através dos dentes cerrados.

— Mas, amo — interveio Ubbi — seu marido foi um trabalhador em Ravenshire por muitos anos. Morreu ontem pela manhã de febre, e ela deve encontrar sua família em Jorvik.

— Não me importa se seu marido era o maldito Rei. Não quero um be… — suas palavras se acalmaram por um momento enquanto procurava controlar a instabilidade em sua voz; depois se corrigiu — Não quero outra irritante e rabugenta mulher que só diga disparates, em minha companhia. Tenho mais que suficiente com essas duas — disse, ondeando uma mão para Rain e Blanche. — Graças aos deuses terminarei com elas quando chegar a Jorvik.

— Mas, amo, é cruel deixá-la aqui sem um companheiro que a proteja e lhe dê o sustento.

— Permita que ajude Bertha na cozinha. Ou permita que se vá ao maldito inferno. Não é problema meu — Selik levantou sua cabeça para Gorm, que seguiu suas ordens arrancando rudemente a mulher e seu choroso bebê de cima do cavalo. Selik ignorou as lágrimas se derramando pelo jovem rosto da mulher e voltou seu cavalo para a entrada, liderando a fila de cavalos sobre a ponte. Costas rígidas, nem uma vez se voltou para olhar o choroso bebê ou sua soluçante, abandonada mãe.

E Selik se negou olhar para Rain, sabendo a condenação que veria em seu rosto.

Acaso sua própria mulher procurou escapar antes de os saxões chegarem? E se lhe foi negada ajuda, como a essa mulher? disse a voz.

Selik engoliu em seco fortemente, sob o nó em sua garganta. O que estava lhe acontecendo? Um mês antes, um ano antes, ele não teria titubeado em enviar a mulher e seu maldito bebê fora para que se arrumassem por si mesmos. De fato, ele mesmo os teria arrancado do cavalo.

Sem olhar para Ubbi, que montava a seu lado, procurou na sua túnica e puxou um pequeno saco de moedas. O lançando ao sobressaltado servo, lhe ordenou com voz áspera:

— Dê à criada e que ela organize depois seu transporte.

Os olhos nublados de Ubbi se iluminaram, e voltou seu cavalo para a Ravenshire, sem perguntar uma só vez a que criada se referia, nem seus motivos. Mas Selik pensou que ouviu Ubbi murmurar:

— Sabia que faria. Realmente sabia que faria.

Selik não gostava do rumo que sua vida tinha tomado ultimamente. Faltava controle. Muitas pessoas estavam se unindo por si mesmas a ele. Decidiu ele mesmo se desfazer completamente do montão de sanguessugas quando chegassem a Jorvik.

Uma vez fora ele poderia ir outra vez em sua busca de vingança contra seus inimigos saxões. E Steven de Gravely.

Sozinho. Esse era o caminho que tinha escolhido muito tempos atrás. Não havia volta, nem desvio para ele em seu caminho pela vida. Não permitiria.

Hah! A simples palavra ecoou em resposta a seus pensamentos.

Selik desprezou a maldita voz em sua cabeça. Maldito inferno! Se era Deus, então tinha uma malvada e sarcástica língua. Voltou-se rapidamente para ver se alguém tinha falado perto dele, mas seus companheiros olhavam diretamente para frente, concentrando-se no difícil caminho. Deu de ombros, negando-se a acreditar no impossível, sem dúvida ele tinha falado em voz alta. Sim, foi isso. Não podia aceitar que aquela voz estivesse em sua cabeça de novo. Nunca poderia acreditar que fora Deus, que todos os Santos conservassem sua prudência!

Melhor seria que acreditasse.

Grunhiu e Ubbi olhou para ele, levantando uma sobrancelha interrogativamente. Selik disse uma palavra obscena e esporeou seu cavalo para diante, sentindo a necessidade de um bom galope para clarear seus sentidos.

Rain quase não podia conter sua emoção quando chegaram a Jorvik na manhã seguinte. Os homens de Selik os rodeavam e mantinham um estranho olhar sobre os soldados saxões enquanto cruzavam a ponte sobre o rio Ouse, depois seguiram o trânsito movendo-se na rua que Ubbi a identificou como Micklegate ou Grande Rua.

A mãe de Rain lhe havia dito não fazia muito que Jorvik, o nome de York no século X , era o portal entre a Escandinávia e a Inglaterra anglo-saxã. Suas rotas comerciais chegavam até a Irlanda, as Shetlands[8], as Rhineland[9], o Báltico e ainda mais longe.

Sua cabeça girava sobre o pescoço enquanto ela tentava absorver tudo dos maravilhosos lugares enquanto se moviam através das estreitas ruas para o mercado do povo, sombreadas pelos beirais de palha sobressalentes dos edifícios de adobe[10].

As antigas paredes romanas, com suas oito maciças torres que rodeavam a cidade, e alguns dos edifícios, permaneciam em ruínas, graças ao ataque saxão dos anos recentes, mas Ubbi lhe disse que nenhum Rei Norueguês governava no momento, e onde um ar de reconstrução e prosperidade prevalecia, a rápida mistura do novo com o velho. Como as pessoas, pensou Rain, uma grande variedade de noruegueses, ingleses, islandeses, normandos, francos, germanos, russos, inclusive comerciantes de culturas orientais.

A divergência em suas musicais, e algumas vezes guturais, línguas trazia um fundo discordante como os sons de uma cidade populosa. Comerciantes e marinheiros praguejavam fluidamente em várias línguas enquanto descarregavam artigos exóticos das amplas barrigas dos navios de carga que afluiam dos rios Ouse e Foss, artigos que Ubbi identificou como vinhos finos da Frísia[11], âmbar, peles e ossos de baleia do Báltico, Soapstone[12] da Noruega, lava querns[13] de Rhineland e sedas das cores do arco-íris do Oriente.

Artesãos ofereciam suas mercadorias de onde estavam sentados em postos na frente de suas primitivas casas, vendendo seus artesanatos (pentes de marfim, patins de gelo de osso, broches de bronze, fivelas para cinturões e braceletes, cordões de cristal e contas negras, tigelas de madeira e utensílios de cozinha, jóias de prata e ouro incrustadas de pedras preciosas). Curiosamente, cada uma das ruas — ou entradas como os noruegueses as chamavam — parecia conter o comércio de um produto em particular; havia uma rua de carpinteiros, outra de joalheiros, até outra de fazedores de vidro.

— Isso é como um festival gigante de artesanato — disse Rain impressionada enquanto se detinha perto de Selik, ele a estivera ignorando desde o dia anterior, mas não se afastou agora.

— Sim, os artesãos impressionaram sua mãe, também — recordou ele, parecia se divetir com sua fascinação pelo encanto das ruas da cidade. — Isso é Coppergate, a rua onde muitas das oficinas estão situadas.

Captando sua atenção, Rain olhou a artéria principal que cruzava ao longo da cidade do século X, sabendo que em algum ponto daquela via pública estava o lugar onde depois se encontraria o museu Viking.

— Selik, este foi o ponto de partida de minha viagem no tempo.

Ele grunhiu ante sua menção da viagem no tempo, a qual aceitava a contragosto, mas não queria discutir com ela.

— Sem dúvida espera se deter em Coppergate no minuto em que eu der as costas e então voar através do ar com suas asas de anjo para seu próprio tempo. Por favor, minha senhora, espero que me convide para ser testemunha desse assombroso evento.

— Não seja sarcástico. Não disse que queria voltar para casa — Poderia ter pensado em algum momento, mas não mais, não se você é o que quero agora.

Seu séquito fez uma paradada repente enquanto uma carroça de burros passava em frente a eles. Os soldados de Selik, que montavam guarda antes e depois do grupo de viajantes, observavam alertas procurando sinais de perigo.

— Eu adoraria ter um cordão dessas contas de âmbar — comentou Rain casualmente sobre as pedras amarelo-alaranjadas citrinas que estavam sendo cortadas e polidas por um altamente habilidoso joalheiro que estava sentado perto em um tamborete. Depois riu. — Acha que aceitariam um cheque?

Selik sorriu analisando-a com o que somente poderia se chamar de carinho, e o coração de Rain saltou. Ela se deleitou com o raro momento de companheirismo e desejou poder se inclinar-se através do pequeno espaço que os separava e roçar seus soltos e belos cabelos, afastando-os de seu rosto. Ou riscar o contorno de seus lábios firmes, curvados agora em um encantador sorriso, mas ele provavelmente repeliria seu gesto ou faria algum comentário sarcástico.

Mas Selik a surpreendeu com um rápida piscadela de conhecimento e se voltou para o artesão. Lançando uma moeda ao jovem homem que abriu muito os olhos, indicou a gargantilha de âmbar que tinha nas mãos. O joalheiro a lançou, agradecendo com um gesto de cabeça.

Encantada, Rain estendeu a mão para a gargantilha, murmurando:

— Oh, obrigada, Selik. É preciosa.

Mas ele a manteve fora de seu alcance e exigiu zombeteiramente:

— Quero uma daquelas salva-vidas em pagamento.

Um pedaço de doce em troca de uma gargantilha sem preço? Não era um trato ruim.

— Te disse que acabaram.

— Mas mentiu.

Rain riu.

— Está bem, mas só uma — ela pegou sua mochila e sacou um tubinho fechado de Frutas Tropicais, depois deu a ele uma amarela.

— O que é isso? Prefiro a vermelha.

— Dei as últimas de cereja a Tykir e Ubbi. Esse é de abacaxi, acho.

Selik lançou um olhar de desgosto para ela como se ela tivesse se desfeito de seus pertences pessoais. Depois ceticamente pôs o círculo de doce em sua língua. Um momentâneo olhar de surpresa cruzou seu rosto ante o que tinha sido um exótico sabor novo para ele.

— É boa, mas prefiro a vermelha — assegurou provando, depois pegou e deslizou a gargantilha sobre a cabeça dela, ajustando-a sob sua simples trança. — Combina com seus olhos dourados, doçura.

Ele gosta de meus olhos.

— Te disse o que me faz quando usa essa palavras de amor? — disse ela roucamente, inclinando-se para mais perto.

Mas ele a empurrou de novo para seu cavalo.

— Palavras de amor? Que palavras de amor?

— Doçura, carinho.

— Hah! Essas não são palavras de amor. São apenas… — ele se deteve.

A carroça tinha liberado a rua, e Selik moveu seu cavalo para frente.

Ela urgiu seu cavalo para seguir Selik na frente e logo o alcançou.

— Selik, obrigada. Vou cuidar da gargantilha. Sempre — porque veio de você.

— É somente uma bagatela. Ter te dado de presente não significa nada.

— Oh! Você dá com uma mão e tira com a outra. Por que continua me afastando de você?

— Por que continua se aproximando de meu rosto?

— Por que fui enviada…

— Por Deus para me salvar — ele terminou por ela com uma sacudida de irritação da cabeça. — Por favor, me deixe, moça, e seja o anjo da guarda de mais alguém por um momento. Melhor ainda, por que não voa e pousa nos telhados de uma dessas Igrejas cristãs — disse, ondeando sua mão para indicar as numerosas casas das oficinas que passavam. — Seu grasnido poderia combinar muito bem com todos os pombinhos.

Rain começava a lhe dar a língua, mas se deteve a tempo. Em lugar disso, franziu o nariz para ele, zombando.

— De fato, não posso acreditar em quantas Igrejas há por aqui. Acho que passamos ao menos por uma dúzia. Aí está São Pedro, que tem um hospício junto?

Selik indicou a alta agulha à distância.

— Me levaria lá?

— Poderia ser… sim, levarei.

— Eu poderia ser capaz de praticar a medicina lá.

Ele sorriu.

— Isso seria digno de ver, eu irrompendo dentro da catedral e oferecendo seus serviços para os Santos companheiros de Deus. Falando de veias sobressalentes. Poderia causar um broto lotado de copos sangüíneos.

Rain sorriu.

— Bem, melhor que se una a eles que a mim — disse Selik bruscamente. — Você se converteu em minha maldita sombra. Você e esse maldito do Ubbi.

O coração de Rain se quebrou com as palavras de Selik. Por acaso aquele homem que ela estava começando a amar a considerava nada mais que um grande aborrecimento? Ela esperava que não.

— Hoje? Vai me levar hoje?

Ele sacudiu sua cabeça, rindo ante sua pressão.

— Devo descarregar todos esses prisioneiros hoje e me liberar de Ubbi e dos soldados.

— Descarregar? Quer dizer vender? — queria perguntar Rain. E eu? Mas temia sua resposta.

— Aonde vai?

Deu de ombros.

— Pode ser ao sul, até Wessex.

Rain esteve a ponto de repreendê-lo uma vez mais por sua contínua busca de vingança quando o mas horrível dos aromas assaltou seus sentidos.

— Oh, meu Deus, o que é esse cheiro?

— É pavimento, a rua um não será esquecida logo. Você está, sem dúvida, recebendo o cheirinho dos açougueiros e curtidores. Olhe para lá — Selik indicou alguns edifícios onde todo tipo de animais mortos penduravam de ganchos gigantes, as vísceras e o sangue estavam sendo lançados dentro de sarjetas ou afluindo para o rio que se movia lentamente atrás deles.

Trabalhadores industriais despojavam a pele dos cadáveres com restos de osso, depois as cobriam com o que parecia ser bastante esterco de frango. Tranqüilamente outros trabalhadores estavam curtindo as peles, que já tinham apodrecido em algum momento nas crescentes filas de frangos atirados, molhando-os com o que parecia um fermentado suco de bagos. Finalmente, viu o produto terminado sendo estirado nas molduras de madeira e transfomado em sapatos, casacos e cinturões.

Pelas mulheres e crianças que ela podia ver nos pátios de trás, os edifícios deveriam combinar lares e oficinas. O aroma não parecia incomodá-los nem um pouco. Gansos e frangos rondavam à vontade nas propriedades cercadas, enquanto porcos grunhiam ruidosamente em pequenos currais. Várias crianças sentadas brincavam com flautas de Pan feitas de madeira[14].

Na totalidade, os artesãos, mercados e famílias se combinavam para formar um quadro de pacífico folclore. Não como a imagem que as pessoas modernas tinham dos vikings ou saxões da Idade das Trevas.

Aquela não era a impressão que tampouco ela tivera, desde sua exposição da batalha de Brunanburh, e Selik. Sua mente começava a trabalhar um tempo extra, tentando encaixar seu viking fugitivo dentro daquela tranqüila cena doméstica.

— Selik, o que você seria se não fosse um guerreiro?

— Anh?

— Quero dizer, quando minha mãe te conheceu, você não era forçado a uma vida sanguinária, ou era?

Ele sorriu ante suas escolhidas palavras.

— Eu já era um Jomsviking[15], mesmo nesse tempo.

— Sim, sim, eu sei, mas não foi alguma coisa você que tentaria fazer pelo resto de sua vida. De fato, uma vez você me disse que deixou de fazer algo, antes de… bem, disse que deixou de fazer algo.

— Um comerciante.

— Um comerciante? Quer dizer, como essas pessoas que vendem suas mercadorias ao longo das ruas?

Ele sacudiu a cabeça.

— Não, eu tinha cinco navios comerciais. Viajava várias vezes por ano para Hedeby e até para Micklegaard, comprando e vendendo.

Um terrível pensamento ocorreu a Rain. Oh, por favor Deus, isso não.

— Que tipo de produtos transportava?

Ele deu de ombros.

— Tudo — ele a estudou de perto e pareceu entender seu susto. — Não, minha moça desconfiada, não era um comerciante de escravos.

Rain suspirou de alívio.

— Sim, posso te ver em um navio Viking, viajando de um centro comercial a outro.

— Fico tão contente que você aprove — disse ele com uma inclinação zombeteira de cabeça. — Mas realmente era um tipo de artesão naquele tempo. Fazia… — ele se deteve bruscamente, seu rosto se tingiu de vermelho enquanto de repente parecia se dar conta do quanto revelara.

— O quê? Não se atreva a parar agora. O que fazia?

— Animais — admitiu ele cortantemente. — Esculpia animais de madeira, mas raramente os vendia. Geralmente só os dava às crianças da família ou amigos que os admiravam.

Crianças. Ele dava seu trabalho manual para crianças. Hmmm. Outra pista.

— Eu gostaria mesmo de vê-los alguma vez. Tem algum com você?

Seu rosto então se endureceu.

— Não. Não tenho nenhum. Destruí todos. E já não me incomodo mais com passatempos frívolos — a olhou direto nos olhos. — Minhas mãos estão muito ensangüentadas.

Moveram-se para fora da parte mais congestionada da cidade naquele momento e foram para os subúrbios, onde as casas eram maiores e mais afastadas umas das outras, mais prósperas. Ubbi levou seu cavalo junto ao dela, e Selik o empurrou para trás para falar com Gorm. Rain podia dizer pela maneira cansada como Ubbi mantinha seus ombros que a longa viagem desde Ravenshire tinha cobrado um doloroso pedágio à artrite do pequeno homem.

— Ubbi, notei quando viajávamos através do pavimento que os açougueiros estavam matando gado. Acha que poderia me trazer aqui amanhã para falar com eles?

— Por quê? Está com fome?

Rain riu.

— Não, mas se eu pudesse conseguir algumas glândulas suprarenais, poderia ser capaz de fazer um tipo primitivo de cortisona. Isso faria maravilhas absolutas para sua artrite.

A princípio, o rosto dele se iluminou com esperança, mas rapidamente a expressão mudou para horror quando Rain explicou o que era suprarenal.

— Quer pôr vísceras de vaca em meu corpo?

— Não, homem tolo, teria que receber internamente.

Ele pensou por um momento, pesando suas palavras.

— Por internamente, não está querendo dizer que tenho que comer pedaços ensangüentados.

— Sim, mas…

— Nunca! Minha senhora, permito-lhe massagear meu corpo da maneira mais indecorosa. Me fez do bobo de Ravenshire ao me lubrificar com argila quente, e não protestei. Bem, não muito. Até nadei na água gelada do lago para satisfazer seus caprichos, sem mencionar os banhos ferventes que me forçou a suportar. Mas me nego a comer vísceras cruas de vaca. Até eu tenho meus limites.

Rain explodiu em gargalhadas pelo longo e irado discurso de Ubbi.

— Ubbi, não estava querendo dizer que as comesse cruas. Ao menos, não acho que trabalhem dessa maneira. Embora…hmmm. Em qualquer caso, estava pensando em uma mistura de glândulas frescas com algo mais, depois comprimi-las em uma pílula. Não tenho certeza de que isso pode ser feito.

— Hah! Mas me faria ser o… como me chamou quando estávamos experimentando com diferentes exercícios? Jenny Pig!

— Porco da Índia — Rain o corrigiu com um sorriso. Ela alcançou Ubbi para dar uma palmada na mão torta. Realmente ele tinha sido mais que cooperativo em suas várias tentativas para aliviar sua condição. E algumas delas tinham ajudado, também.

— Selik!

Rain e Ubbi se voltaram para ver uma pequena mulher de cabelos cinzentos gritando calorosamente para Selik da porta da grande casa. Estava separada dos vizinhos por uma ampla extensão lateral de jardim e cercas de madeira, sua forma retangular seguia o estilo viking com tetos de palha. Finalmente símbolos nórdicos esculpidos decoravam a grande porta de carvalho e as molduras das janelas. Vários homens armados montavam guarda na entrada, e Rain viu ainda mais um lado e atrás da casa.

— Mãe! — Selik saudou a mulher com uma voz cálida enquanto desmontava e entregava as rédeas a Gorm.

— Mãe? — Rain perguntou a Ubbi. — Pensei que Selik tinha dito que não tinha parentes.

— Ela é Gyda, a mãe de Astrid. Ele é como um filho para ela.

— Estávamos tão preocupados. Especialmente quando ouvimos sobre a Grande Batalha. Por que não nos enviou notícias sobre seu estado, seu miserável? — a mulher repreendeu Selik antes de lançar-se em seus braços. Ele a levantou da terra em um abraço de urso enquanto ela o apertava calorosamente, seus braços gordinhos se envolvendo em torno de seu pescoço.

— Selik, meu filho — disse ela suavemente enquanto deslizava de volta levemente e examinava seu rosto amorosamente, sem dúvida procurando novas cicatrizes. — Me desça agora, grande casca-grossa, e me deixe alimentá-lo. Não está nada mais que pele e ossos.

Selik riu calorosamente, pondo-a gentilmente na terra, e lançando seu braço direito sobre o ombro de Gyda. Ela mal lhe chegava ao peito.

— Quero que conheça alguém — ele fez um gesto para que Rain desmontasse e se aproximasse.

Quando Rain parou perto de Selik, se destacando sobre a diminuta mulher, Selik disse:

— Lembra de Ruby Jordan? A esposa de Thork?

— Sim, é claro — disse Gyda vacilando, suas sobrancelhas se franziram com mistério pela estranha pergunta.

— Esta… convidada… é sua filha, Thoraine. Seu outro nome é Água de Neve, quero dizer Rain.

Rain lhe lançou um olhar de desgosto ante sua brincadeira, a qual ela não achava em nada divertida.

— E seu outro nome é imbecil — murmurou ela em um tom mais baixo para Selik.

Mas Gyda levantou a cabeça, seu rosto alegremente iluminado com compreensão.

— Conheço essa palavra. Imbecil. Sua própria mãe me ensinou ela. — Ela se voltou para Selik, meneando um dedo em seu rosto. — E chegou a ser muito útil, devo te dizer, Selik, em algumas ocasiões com todos estes guardas que você insiste em deixar aqui comigo. Pelo sangue de Deus! Não posso dar um passo fora da latrina sem tropeçar com um ou outro deles. Mas uma filha nascida de Ruby! Depois da morte de Thork? Como, ela é muito velha! É incrível! É tão gigante!

Rain tentou escutar o longo irado discurso de Gyda, mas a mulher norueguesa falava muito rápido.

— O que ela está dizendo? — perguntou Rain a Ubbi.

— Parece que sua mãe ensinou a palavra imbecil a Gyda, que Selik deixou muitos guardas, que Gyda tropeça com eles, e que ela acha difícil de acreditar que sua mãe desse a luz a um bebê de Thork depois de morto.

— E ela me chamou de gigante, também, ou não? — perguntou Rain, sentindo que Ubbi estava protegendo seus sentimentos.

— Sim, chamou — admitiu ele — mas qualquer um mais alto que um bezerro é um gigante para ela.

Gyda se aproximou e estendeu sua mão em boas-vindas para Rain. Falando mais devagar, disse:

— Bem-vinda, Rain. Qualquer filho de Thork e Ruby é amigo desta casa.

Os olhos de Rain procuraram os de Selik, que a ignorou estudadamente enquanto levava seu cavalo para o estábulo, mas qualquer palavra cortante que ela quisesse lhe dizer foi impedida pela chegada da mais formosa e jovem mulher que Rain vira em toda sua vida.

— Selik! — gritou a beleza loira, perto dos dezessete anos, como boas-vindas antes de se lançar entusiasticamente nos braços abertos de Selik. Ele a girou no ar formando um círculo enquanto a abraçava com igual entusiasmo.

O imbecil!

— Tyra — ele exclamou admiradamente quando finalmente a desceu de novo, observando-a com audácia da sua loira cabeça até seu voluptuoso e redondo busto, logo sua diminuta cintura e estreitos quadris, até seus irritantemente deliciosos e pequenos sapatos. — Você se converteu em uma mulher durante minha ausência. Uma formosa mulher.

Tyra pôs uma delicada mão no peito dele, lhe oferecendo um sensual olhar através de seus asquerosamente longos cílios, e anunciou:

— Então já é tempo para nosso casamento.

 

— Sua pequena descarada — exclamou Selik contra os luxuriosos cabelos de Tyra ao ouvir seu revoltante comentário. Riu e a apertou uma vez mais antes de pô-la em pé com um tapa em seu tentador traseiro.

Logo ergueu a vista e parou em seco ante o surpreso e dolorido olhar no rosto de Rain. Perplexo, inclinou a cabeça, percebendo que Rain devia ter ouvido o comentário de Tyra sobre casamento e assumido que ele realmente estava comprometido com a jovem moça. Bendito Thor, Tyra era como uma irmã. Isso era óbvio para qualquer um que tivesse olhos no rosto.

Mas não para Rain, como podia ver. Ela mordia seu trêmulo lábio inferior e piscava para conter as lágrimas que fluíam em suas profundidades douradas.

Instintivamente, começou a dizer a Rain a verdade, para apagar a expressão de dor em seus traços, para acalmá-la com doces palavras de explicação. Mas se deteve. Talvez a equivocada idéia de Rain sobre seu casamento poderia beneficiá-lo. Deixara que aquela atração entre eles chegasse muito longe. Por todos os Santos! Se ficava duro o dia todo, evitando apenas que seus homens percebessem. Poderia resistir à tentação de sua carne por muito mais tempo? Devia fazê-lo, sobretudo sabendo que poderia engravidá-la. Melhor uma pequena dor agora que uma maior e que chegaria indevidamente.

Ele se obrigou a ficar longe do olhar acusativo de Rain. Inclinando-se para Tyra, cuja cabeça mal roçava seu queixo, sussurrou o bastante alto só para que ela ouvisse:

— Tome cuidado, moça. Esteve me dizendo isso desde que tinha apenas cinco anos e eu era um mundano homem de dezoito. Um dia desses, posso aceitar sua oferta, e o que fará então?

Ela lhe dirigiu um sorriso encantador e respondeu rapidamente:

— Aceitar, é claro.

— Hah! Isso é o que diz agora, mas todos os pretendentes que pedem sua mão?

Selik sabia que Rain não podia ouvir nenhuma de suas palavras de onde estava em pé, congelada e rígida de dor, mas certamente veria as brincadeiras leves entre eles como um jogo amoroso. Até Ubbi franziu o cenho para ele com silenciosa condenação.

Tyra interpretou seu papel perfeitamente. Fazendo uma atraente careta, a malcriada diabinha pôs a ponta do dedo em seu queixo como se refletisse com toda seriedade sobre a idéia de deixar todos seus pretendentes por ele.

— Hmmm. Isso é algo a considerar.

— Tyra! Pare, que vergonha! — interveio Gyda finalmente, empurrando sua filha e Selik amavelmente para a casa e fazendo gestos para que Rain e outros a seguissem.

Selik se obrigou a olhar fixamente para frente e não olhar para trás, para Rain. Ele temia ceder ante seus impulsos mais suaves e admitir sua farsa. Fazendo tudo para apagar a dor que via atormentá-la ante sua suposta traição. Traição! Agora de onde saíra aquele pensamento? perguntou-se Selik. Ele não tinha nenhuma obrigação com a bruxa de alguma terra remota.

Ela salvou sua vida.

— Sim, mas eu a compensei muito mais escutando suas chatas reprimendas, não? — Selik perguntou a Ubbi.

— Enh? — Ubbi o olhou com receio, como se lhe houvesse de repente nascido dois narizes.

Com paciência forçada, ele explicou:

— Você me disse que Rain salvou minha vida.

— Eu disse?

— Com certeza disse.

— Quando?

— Agora mesmo.

Ubbi olhou para o céu e sorriu, logo lançou um olhar curioso em sua direção.

— O que mais eu disse?

Selik parou em seco, pondo as mãos nos quadris, e grunhiu de auto-irritação por se permitir ser arrastado àquelas conversas irritantes com Ubbi. Finalmente, ele ergueu as mãos com aversão.

— Você disse que era um cavalo, e eu, o traseiro do cavalo.

— Nunca disse isso!

Selik lhe enviou um olhar sardônico.

— Sem dúvida pensou, entretanto.

Para sua surpresa, Ubbi assentiu energicamente.

— Sim, quando trata a milady da maneira como fez lá atrás, bem, se posso ser o suficiente corajoso para expressar minha humilde opinião, então não se comportou melhor que o traseiro de um cavalo.

Selik estava mais assombrado que zangado. Seu criado de confiança raramente lhe falava dessa maneira.

— Ela apanhou ou foi privada de comida? Ameaçada com danos corporais? Não. Acho que se esquece, Ubbi, de que ela é uma mera prisioneira, como todos outros.

— Hah! Acredite nisso, e saberei com certeza que perdeu todo seu juízo. Talvez ele esteja metido nessa haste que vem mantendo a meio mastro desde a semana passada — Ubbi olhou significativamente a união das calças de Selik e bufou grosseiramente, se afastando para longe dele.

Selik então sentiu a presença de Rain a seu lado, ou talvez cheirou sua “Paixão”. Mas quando deu uma olhada de lado, viu que o olhar dela pousava em Tyra, que ajudava Gyda a preparar uma refeição rápida para os inesperados convidados.

Inferno maldito! Ela acha que é Tyra que meu corpo deseja. Como pode ser tão cega? Hmmm. Deveria lhe permitir que continue pensando? Sim, devo.

Selik deliberadamente andou até a lareira erguida no centro do grande cômodo e pôs uma mão sobre o ombro de Tyra. Inclinou-se e sussurrou umas palavras sem sentido em seu ouvido, e a risada escapou da garganta da jovem moça.

Ouviu o grito sufocado de Rain atrás dele. Apertou os punhos para se impedir de dar a volta e estender a mão para ela.

Nunca, nunca na vida moderna de Rain ela esperara que pudesse sentir tal dor por um homem. Um trapaceiro, que a enganava com outra, um mentiroso, e sua baba caía por um homem assim!

Ele ama Tyra, pensou.

Não, Rain devia ser honesta. Selik não lhe fizera nenhuma promessa. Ela tinha declarado seu amor por ele, e ele não tinha feito mais que sinceramente não dar as boas-vindas ao seu afeto. No melhor dos casos, sentia luxúria por ela.

Ele ama Tyra.

Sim, devia admitir, ela era a tola naquela representação. De algum jeito tinha pintado um panorama de si mesma como a maravilhosa salvadora vinda do futuro para resgatar o primitivo guerreiro. Hah! Ela tinha salvado apenas sua própria pele até agora.

Ele ama Tyra.

Oh, Senhor, como ela viveria sem ele? Não tinha se dado conta até agora do quanto sua vida se tornara complicada. Mesmo embora tivesse reconhecido seu amor florescente por ele, ela tinha pensado que poderia controlá-lo, como todo o resto em sua vida moderna (sua educação, sua carreira, sua família, suas emoções, sua vida amorosa). Tudo em seu pequena gaveta ordenada, tirado e guardado em seu lugar à sua vontade.

Ele ama Tyra.

Os ombros de Rain caíram, e se afastou para longe dos grupos felizmente falantes das pessoas que lotavam o grande cômodo de Gyda. Selik e Ubbi estavam em pé bem dentro do cômodo, comandando os soldados para cuidarem dos cavalos e dos prisioneiros. Gyda se dirigia a seus criados perto dos fogões, enquanto Tyra preparava as grandes mesas de cavalete com pratos e copos de madeira.

Consumida em uma névoa de lágrimas, Rain girou nos calcanhares, sentindo esmagador impulso de evitar o espaço que tinha tanto Selik quanto noiva dele. Ninguém notou sua saída.

Voltando na direção que acabavam de viajar, Rain andou sem rumo fixo ao princípio. Então, lhe ocorreu uma idéia.

Coppergate.

Se pudesse voltar a Coppergate, o lugar do futuro Museu do Viking, talvez descobrisse a chave para a porta das viagens no tempo.

Ele ama Tyra.

Rain não podia pensar direito, certamente não sobre sua abortadada missão no passado. Ela, que sempre estava obcecada com a perfeição, devia agora admitir o fracasso. Aquela era uma pílula amarga de engolir.

Tampouco podia pensar em Selik e em como reagiria a sua ausência. Provavelmente com alívio. Até ela reconhecia que se convertera ultimamente em uma harpia, santarrã rabugenta.

Sobretudo, não podia se permitir pensar em viver outra vez em seu mundo estéril, moderno, onde uma vez tinha pensado ser feliz — não, contentara-se — em seu posto como médica respeitada. Mas como poderia aquela vida, que sempre lhe tinha parecido tão satisfatória, de repente fazer com que sua pele ardesse com temor? O que falhava no quadro?

Amor, respondeu a voz em sua cabeça.

Mas Selik não me ama, gritou seu coração.

E se amasse? Ficaria com ele?

Sim... não... Não sei.

Apesar das lágrimas que nublavam os olhos de Rain, encontrar seu caminho pelo sistema de ralo organizado das ruas de Jorvik demonstrou ser fácil. Logo reconheceu as lojas dos artesãos que Selik lhe tinha indicado antes. Reduzindo a marcha de seu passo rápido para um passeio lento, Rain olhou da direita para esquerda, tentando reconhecer o ponto exato onde o museu estaria em pé mais tarde.

De repente, sentiu que todos os finos pêlos em seu corpo se arrepiavam, quase como se estivessem eletrificados. Com agitação, aproximou-se do que parecia ser um edifício abandonado. Quanto mais perto estava, mais forte era a aura. Quase sentiu como se vacilasse no borda externa da espiral de um tornado. Se caminhasse para frente através da porta funda da estrutura que estava caindo, de algum jeito sabia que seria atraída ao vórtice, para o nada do tempo.

Rain rodeou o edifício, as lágrimas fluíam por seu rosto, alternadamente caminhava mais perto e saltava para trás quando o puxão magnético aumentava. A cada vez que sentia a necessidade obsessiva de saltar sobre a borda, um impulso ainda mais forte a continha. Ela franziu o cenho, não entendendo por que vacilava.

— Não vá. Não ainda.

Rain se estremeceu com a surpresa, logo se voltou.

Selik estava a alguns centímetros dela, seu rosto no geral bronzeado estava pálido pelo que parecia ser medo e preocupação. Por mim? Rain engoliu através do nó em sua garganta com força, mal capaz de distinguir seus traços através do delicado véu de lágrimas.

Silenciosamente, ele ofereceu uma mão, seus olhos de prata lhe suplicavam que fosse com ele. Ele evitou andar para frente, como se sentisse o poder da aura que rodeava a cena e o tão perto do abismo do tempo no qual ela estava em pé.

Rain tentou se lembrar que Selik amava outra mulher, que ela não tinha nenhum futuro no passado. A lógica, a parte cientificamente treinada de seu cérebro lhe falou sobre prioridades, sobre direitos e opções incorretas, e racionais. A outra, a parte mais suave, feminina de seu cérebro triunfou, entretanto, quando ela se moveu passo a passo lenta e inexoravelmente para longe da aura e para perto de sua brilhante estrela polar do passado.

Quando apenas se moveu uns passos, Selik a tomou em seus braços, e Rain sentiu como se tivesse chegado em casa. Ele a abraçou contra seu peito, seus braços se enlaçaram ao redor de suas costas, seus longos dedos alternadamente acariciavam seus ombros, costas, cintura e quadris, até suas nádegas. Então a pressionou mais fortemente contra ele, como se tivesse medo de que fugisse outra vez.

Finalmente, afastou-se um pouco e a segurou por ambos os ombros, seus dedos se cravavam dolorosamente em sua pele, seu rosto já não estava pálido de preocupação, mas sim vermelho de cólera. Com voz áspera, ele a acusou:

— Mentiu para mim, Rain. Me prometeu que se eu não fizesse mais behaettie, não tentaria fugir.

Os formosos olhos de Selik cintilavam furiosamente, como fragmentos de gelo cinzento. A cicatriz dentada em sua face se destacava branca contra seu rosto furiosamente avermelhado. Ele mal podia sibilar sua venenosa acusação por entre seus dentes apertados.

— Não quebro minhas promessas à toa, Selik, mas estava desgostosa ao te ver com Tyra.

— Se eu estiver com Tyra, ou Blanche, ou outras cem mulheres, essa não é desculpa alguma para quebrar seu juramento. Falaremos sobre isso mais tarde, quando retornarmos à casa de Gyda

Com essas palavras entrecortadas, a puxou atrás dele para Fury, que mordiscava contente as ervas próximas da rua. Em um movimento duro, ele pôs ambas as mãos em sua cintura e a levantou de lado no dorso de Fury. Ele então saltou para subir na sela atrás dela.

Rain o analisou atentamente, impressionada por sua veemência.

— Selik, eu achava que estaria aliviado por eu ter ido embora. Sei que te zanguei ultimamente. Por quê? Por que se preocupa se eu ficar ou ir? É por meu valor como refém?

Os olhos estreitados de Selik a avaliaram audazmente, como se pesasse seus méritos. Pelo visto, ela estava muito abaixo em sua escala, decidiu quando ele a olhou, a espetando:

—Não te devo nenhuma explicação. Na verdade você foi tratada muito suavemente no passado. Isso vai mudar agora que não se pode mais confiar em sua palavra.

Rain ergueu o olhar para ele, tentando reconciliar aquela feroz cólera com o óbvio medo que ele tinha mostrado havia tão só uns minutos quando tinha pensado que ela estava a ponto de abandoná-lo. Quando o cavalo acelerou seu passo pelas estreitas ruas, ela se agarrou a sua cintura para manter o equilíbrio.

Ele prendeu a respiração.

Ela decidiu provar mais as águas profundas e deslizou seus quadris para mais perto.

A borda da coxa de Rain roçou contra a rígida ereção entre suas pernas. Ele se sacudiu como se ela acabasse de fazer com que entrasse em curto-circuito. E um pensamento repentino que lhe ocorreu iluminou seu coração. Talvez fosse ela, e não a formosa Tyra, quem o acendia.

—Se mova.

Rain olhou para cima e viu os dentes de Selik se apertarem, seus lábios apertados numa linha.

— O que...

— Se mova, agora, ou juro perante todos os deuses nórdicos e os Santos cristãos, que te voltarei na sela montada em meu colo e te tomarei aqui e agora, em cima de meu cavalo, no meio de Coppergate. — Rain considerou a atraente possibilidade durante um momento, a achando nem um pouco tão espantosa quanto Selik indubitavelmente pensava que ela fazia. Mas entretanto se afastou ligeiramente.

— Por que me trouxe para Jorvik se sabia que Tyra te esperava aqui? — perguntou ela tristemente.

—Já respondi muitas de suas perguntas. Quero que saiba isto, moça, não há como caucular ainda os problemas que me causou hoje.

— Vai me açoitar? — brincou ela, acariciando com o nariz e a face seu peito quente, apesar de enrijecer seu corpo.

— Talvez.

— Talvez recorrerá ao behaettie outra vez e vai cortar meu cabelo.

Ele fez um baixo e profundo som de zombaria em sua garganta.

— Mas, não, não acredito que faça isso. Uma vez me disse que meus cabelos pareciam fios de ouro. Ninguém nunca me disse nada tão agradável antes, Selik. Sabia? — ela esfregou sua face, como um gato, contra a lã quente de sua túnica na parte exposta entre os cordões de seu colete de couro. Com satisfação, ela notou uma rápida aceleração de seu coração.

— Não esteja tão segura de si mesma, moça — grunhiu ele.

— Bem, há provavelmente algumas torturas Vikings especialmente insuportáveis que empregaria. Como... ah, fazer cócegas em uma pessoa até a morte. Mas não sou suscetível, de modo que não funcionará. Embora, se usasse uma pluma, e você e eu estivéssemos nus…

Selik fez um baixo som duro em sua garganta e pôs uma mão contra a boca dela.

— Basta, moça! Não pense que vai me iludir com todas essas palavras provocadoras. O que poderia fazer se persistir é encontrar esse seu maldito ponto G, desnudá-lo e apertá-lo em sua frente para que todo mundo veja o quanto você é provocadora e dissoluta.

Rain esperou até que ele baixou a mão de sua boca um curto espaço de tempo mais tarde e comentou com uma voz deliberadamente inocente:

— Então acha que sabe onde está localizado?

— O quê?

— Meu ponto G.

Rain ouviu um som curto, estrangulado; então Selik a surpreendeu comprimindo o ápice de sua feminilidade, através do tecido de linho de suas calças, e apertando o polegar contra a área acima do osso púbico.

— Sim. Está aproximadamente aqui. No interior, é obvio.

Rain ergueu a vista para ele com surpresa, surpreendida de que ele entendesse a anatomia feminina tão bem e que, com toda sua conversa sobre manuais sexuais modernos e satisfação feminina, ele tivesse entendido muito bem cada palavra que ela havia dito. Apesar de seus traços ainda severos, lhe piscou um olho com suprema vaidade masculina.

— Algumas coisas um homem apenas sabe, sem livros.

Foi Rain então quem fez um som estrangulado.

Quando retornaram à casa de Gyda, todos se sentavam nas mesas longas para comer a refeição, aqueles de mais importância, como Gyda e sua família, na cabeceira e, no outro extremo, os criados de Selik, em particular os prisioneiros convertidos em soldados. Com um movimento enfurecido, Selik agarrou Rain pelo pescoço e a empurrou para frente com um passo rápido para a mesa principal, como se desejasse mostrar sua autoridade sobre um escravo errante.

Selik se sentou na alta cadeira com respaldo indicada por Gyda forçando Rain a se sentar em um tamborete mais baixo a seu lado que ele indicou a um criado que trouxesse para frente. Como um cachorro, pensou ela, virtualmente rangendo os dentes. Quando abriu a boca para protestar, Selik pôs um pedaço de veado assado dentro dela. Ela tentou ficar em pé, mas ele pôs uma palma grande firmemente sobre sua cabeça e a manteve no lugar.

Através da neblina vermelha de cólera e humilhação que se erguia, Rain mal escutou a conversação amistosa ao redor da mesa.

Gyda dirigiu um olhar de condenação a Selik pela maneira como a tratava, mas não o repreendeu. Ao contrário, perguntou:

— Quando vão se deter os enfrentamentos, Selik? Tudo são conversas nas ruas sobre a Grande Batalha e os tantos bons Escandinavos mortos ou entrevados.

— Isto nunca vai parar, Mãe. Você sabe — disse Selik cansadamente — Não antes de que cada homem da península nórdica se for da Northumbria — Rain sentiu a tensão das palavras de Selik transmitidas pela pressão de seus dedos em seu couro cabeludo.

Depois de se assegurar de que todos tinham bastante alimento e ale, Gyda se voltou para Selik.

— Então não está seguro aqui em Jorvik. Inclusive hoje vi alguns da guarda real de Athelstan perto do porto.

—E eles, sem dúvida, procuravam Anlaf, que faz muito tempo que se foi a seu domínio de Dublin. Mas, sim, devo cuidar de minhas escassas necessidades também.

— E os prisioneiros saxões que trouxe com você? — Gyda sacudiu a cabeça para o outro final do corredor, onde Blanche ajudava seus criados no fogão. Eadifu, que supostamente esfregava potes, falava, ao contrário, com os três prisioneiros machos restantes.

Selik deu de ombros.

— Você pode ter qualquer um que deseje, inclusive os soldados. Todos os outros serão vendidos — o sangue de Rain gelou ante aquela perspectiva, sem saber se ele queria inclui-la também. Antes que ela tivesse uma possibilidade de perguntar, a mão dele escorregou de seus cabelos para sua boca em uma advertência silenciosa.

— A moça, Blanche, serviria para ajudar dentro de casa, mas a outra porca deve ir — disse Gyda. — Na verdade você deixou tantos homens da última vez para cuidar de mim e de Tyra que chocávamos uns com outros o tempo todo. E não desejo mais bocas para alimentar.

Parecendo alertar Rain então, Gyda perguntou:

— E a filha de Thork e de Rubi? Deseja vendê-la também?

Ele permaneceu em silêncio um tempo exasperadamente longo, e Rain tentou ficar em pé para lhe dizer o que pensava de seu processo de pensamento. Mas Selik tinha os dedos em seus cabelos e puxou com força para mostrar seu domínio naquela situação.

— Não, não venderei a irritante moça. De qualquer modo, não ainda. A estou guardando para a possível permuta com o Rei Athelstan.

Tyra riu alegremente, como se Selik houvesse dito algo muito engraçado.

— Ah, Selik! Está brincando, é obvio. Quem alguma vez iria querer tal giganta como mulher?

— Tem razão nisso, pequena — comentou Selik em um tom seco de voz, puxando os cabelos de Rain com ênfase. O bruto!

Gyda mordia o lábio inferior pensativamente, seus olhos foram de lá para cá entre a expressão furiosa de Rain e o brilho arrogante do sorriso de Selik.

— Certamente não venderia a filha de Thork aos comerciantes de escravos.

— Ela é extraordinariamente rabugenta, Gyda.

— Ainda não entendo como ela poderia ser filha de Thork e de Rubi. Eles estavam juntos há apenas doze anos, e ela é certamente muito mais velha que isso.

— Ela diz que vem do futuro e esse tempo se move mais rápido lá, ou alguma tolice similar.

A boca de Gyda se afrouxou, e fez um som cacarejante de incredulidade.

— Mas...

Selik evitou suas preocupações.

— Isso não tem nenhuma importância agora. Quanto aos mercados de escravos, inclusive se decidisse vendê-la, quem compraria uma mulher rabugenta de tal altura, sobretudo sendo tão velha?

Tanto Gyda quanto Tyra o contemplavam com receio agora, provavelmente entendendo que deliberadamente tentava provocar sua refém.

— Por outro lado — continuou Selik — Rain é uma médica com estranhas habilidades de cura. Na verdade, ela salvou a perna de Tykir depois de Brunanburh — Rain se mexeu para olhá-lo com surpresa ante seu estranho elogio.

— E todo mundo sabe como o rei de Wessex valoriza os bons curadores — concluiu Gyda por ele.

— Talvez você gostasse de um escravo para lavar suas roupas e pentear seus cabelos, Tyra — ofereceu Selik com pouca sinceridade. Rain pôs ambas as mãos na cabeça, cravando suas unhas na mão de Selik, obrigando-o a liberar seus cabelos. Ficando em pé orgulhosamente, curvou-se para Selik, queixo com queixo, e declarou:

— Preferiria cravar agulhas em uma parte de seu corpo que valoriza muito, bárbaro sanguinário.

— Tsk, tsk, tsk! — cacarejou Selik. — Fala como uma verdadeira pacifista! Mas não com uma linguagem parecida com a de um escravo, receio. Terei que idealizar algum método de castigo.

Rain pensou então em seu comentário mais cedo sobre o ponto G. Com tanta intensidade enquanto tentava pensar em algo mais não pôde deter o revelador rubor que esquentou seu rosto.

— Não fique envergonhada, Rain. Gyda e Tyra entendem a necessidade de disciplina entre criados e escravos.

— Argh! — Rain se sufocou, lançando-se para sua garganta com um impulso mortal.

— Elas entendem a necessidade das mulheres de assassinar os autoritários, homens insuportavelmente arrogantes?

Com uma risada, Selik a evitou e a agarrou pela cintura, jogando-a sobre seus ombros como um saco de batatas.

— Onde nos pôs para dormir esta noite, Gyda? Acho que devo falar com minha escrava sobre sua inconstante língua em particular.

Tyra riu outra vez. Se Rain pudesse tê-la alcançado da sua posição ao contrário, teria tentado estrangulá-la também.

— Em cima da escada. Em seu quarto habitual — disse Gyda com uma risada. — Farei subir água para o banho. Ambos parecem precisar de uma boa lavagem.

— Se assegure de que a tina seja bastante grande, então — disse Selik, dando palmadas com uma grande mão sobre o traseiro de Rain para manter quieto seu corpo que se retorcia no lugar — para dois.

— Ai! — exclamou Selik enquanto ela mordia a parte inferior de suas costas. Ele tropeçou, quase caindo nos degraus de madeira que levavam ao segundo andar.

Quando Selik lhe deu um beliscão no traseiro exposto, Rain disse com voz entrecortada:

— Oh! Você é um animal — a ponta de seu sapato quase não falhou nas genitálias de Selik, então, e ele estendeu os dedos de uma grande mão no interior de sua coxa esquerda, longa, com o dedo médio pressionado contra um ponto estratégico.

— Se mova só mais um pouco — declarou ele com gelada ameaça, — e juro que encontrará um novo sentido para a palavra humilhação

Rain decidiu não lutar mais.

Quando chegaram ao paqueno quarto no final do corredor, Selik a lançou sobre a única cama contra a parede e imediatamente a seguiu. Rindo, pressionou-a contra o fino colchão com seu corpo, suas mãos seguravam as dela por cima da cabeça, palma com palma, e suas pernas estavam entrelaçadas ao redor das dela, imobilizando-a totalmente.

— Se levante, enorme tolo. Mal posso respirar — cuspiu ela.

— Bom. Talvez sua língua rabugenta descanse agora.

— Morta, não conseguirá muito resgate por mim.

— Sim, mas poderei ter finalmente um pouco de bendita paz.

— Hah! Você não esteve em paz durante anos, e sabe. Por isso me enviaram aqui, estúpido idiota.

— Pelo que diz, acho que Deus, se tal ser existe, coisa que duvido poderosamente, quer me castigar por todas minhas maldades. Que melhor castigo! Um verdadeiro inferno na terra, a praga de uma mulher rabugenta, presumida, santarrã e de língua grande!

— Isso é tudo? — espetou-lhe Rain sarcasticamente, tentando com força não se ofender por seus comentários depreciativos. Ela tentou resistir a ele empurrando seus quadris bruscamente para longe. Aquilo foi um engano. Tudo que conseguiu foi uma nova mudança de seus corpos de modo que parte dele estivesse melhor alinhada com aquela parte dela. E o sentiu ficar maior contra seu corpo.

Selik rangeu os dentes, e Rain viu o brilho de paixão acender-se em seus olhos prateados antes que ele baixasse seus longos cílios escuros. E quando ela olhou de lado, viu os músculos robustos de seus braços, que ainda seguravam suas mãos prisioneiras, ficarem rígidos com a tensão.

O prazer e a consternação varreram Rain ante a resposta imediata de Selik. Aquela química existira entre eles desde o começo, bastando apenas um olhar casual para acender o fogo do desejo que ardia sem chamas. Se ela fosse absolutamente honesta, teria que confessar que sua atração por ele tinha começado muito antes de seu primeiro encontro. Durante anos, ele tinha freqüentado seus sonhos, chamando-a através do tempo.

— Selik, o que quer de mim?

— Lealdade. Mas você mostrou hoje que não se pode confiar em você. Sua palavra se converteu em cinzas quando traiu seu voto de não fugir.

— Eu te disse por que eu...

— Não, não me dê desculpas. Quando jurou, era sem condições. Não tente pôr condições em sua palavra agora. É muito tarde.

— Bem, então, sinto muito.

Ele a contemplou por muito tempo, parecendo procurar alguma verdade escondida.

— Me pergunto... — ele vacilou e não continuou, inclinando sua cabeça levemente com a pergunta.

— O quê?

— Me pergunto quem você é realmente.

— Não menti para você, Selik — ela sustentou seu olhar, achando muito importante que ele acreditasse, logo acrescentado — sobre nada. — ela pensava em suas palavras de amor. Embora não dissesse seus pensamentos em voz alta, Selik pareceu entender, e a tensão em sua mandíbula se abrandou. Seus olhos se obscureceram com um pouco de emoção, e pela primeira vez, Rain notou manchas de azul por entre a cor cinza.

— Já não posso confiar em sua palavra, e ainda assim me encontro na posição singular de não poder deixar você ir... ainda.

— Por causa do Rei Athelstan e de meu valor como refém?

Um pequeno sorriso levantou os cantos de seus lábios, deixando-o tão formoso que quase roubou o fôlego de Rain. Que estranho, pensou ela, que raramente notava a cicatriz que danificava um lado de seu rosto. Ou as imperfeições em seu nariz. Moveu a cabeça ligeiramente de um lado para o outro pela maravilha que a encheu, a visão filtrada de Selik.

— Sobrevivi até agora sem você como talismã, moça. O que te faz pensar que preciso de você para assegurar minha segurança ante o rei bastardo?

Rain não tinha pensado antes naquilo. Franziu o cenho.

— Pelo dinheiro, então. Poderia usar o dinheiro que eu te renderia em troca de uma nova curadora para o rei.

Selik riu completamente então, mostrando uma série formosa de dentes absolutamente brancos.

— Ah, doçura, tenho cofres de ouro e tesouros armazenados aqui com Gyda e nas terras nórdicas. A miséria que você renderia não mudaria as circunstâncias de minha vida

— Você tem riquezas? — perguntou Rain, completamente surpreendida.

— Te disse que eu fui um próspero comerciante por um tempo.

— Mas pensei… seu mentecapto! — exclamou ela, tentando outra vez, em vão, afastá-lo de seu corpo — Eu pensava que não tinha nenhuma casa porque era pobre. Suas roupas não combinam, e além desses braceletes, não vi nenhuma prova de riqueza. Oh, realmente deve ter desfrutado me fazendo pensar que era pouco mais que um mendigo.

Os olhos de Selik brilharam furiosamente.

— É assim como se julga um homem em seu país, por sua riqueza?

— Não, bem algumas pessoas o fazem, mas eu não. Oh, não me olhe por debaixo do nariz tão ceticamente. Eu não disse que te amava, mesmo pensando que não tinha nada mais que o cavalo chamado estupidamente de Fury?

— Sim, é mesmo — respondeu Selik com uma voz rouca — embora lembre de ter te ordenado não dizer as pouco aconselháveis palavras de amor outra vez. Devo idealizar um castigo conveniente por seu desafio e por sua tentativa de escapar.

Ele se inclinou para mais perto, acariciando com o nariz seu pescoço.

— Ah. Posso cheirar sua paixão.

— Não pus “Paixão” hoje.

— Sei — com a ponta de sua língua, ele riscou um caminho ao longo da curva onde seu pescoço encontrava os ombros e sussurrou — É outra paixão da qual falo, doçura.

Rain gemeu pelo doce prazer daquelas nuas carícias.

— Você gosta assim, Rain ? — Selik se arqueou para trás, seus braços se estenderam para cima, entrelaçando seus dedos com os dela.

Ela maneou a cabeça devagar, levando sua língua aos seus lábios secos, logo olhou, hipnotizada, quando Selik imitou sua ação com sua própria língua em seus próprios lábios, sustentando seu olhar o tempo todo.

— Acho que já decidi seu castigo...

Com um movimento hábil, ele moveu suas pernas entre as dela e as estendeu mais, as expondo. Devagar se pressionou contra ela várias vezes até encontrar seu broto mais vulnerável, sensível e logo pressionou suavemente contra ela.

Rain fez um som baixo de relutante prazer.

Selik sorriu com ar satisfeito.

— Não, essas baixas e melosas súplicas de amor não funcionarão comigo. Não vou me deitar com você, doce bruxa. Não deposite suas esperanças nisso. E não me olhe com um cenho tão feroz. Apesar de tudo seus protestos em contrário, este pode absolutamente não ser um castigo.

Rain tentou se enroscar em sua presa, não sendo bastante tola para resistir a ele outra vez. Mas era ruim quando seus seios, mesmo cobertos pelo sutiã, a blusa de seda e a túnica de lã, roçavam contra sua armadura de couro, ficando imediatamente erguidos e doendo pelo toque dele.

Selik ofegou então, e antes que ela tivesse tempo para aproveitar a oportunidade de escapar, ele liberou suas mãos e deu de ombros sob sua túnica de couro e lã hauberk. Em menos de um piscar de olhos, as mãos de Selik estavam de volta em cima dela, fixando-a na cama, e ele estava com o peito nu, usando apenas suas apertadas calças negras e suas botas curtas de couro.

Da direita para a esquerda, de lá para cá, ele esfregou seu peito pelo dela, mal roçando a superfície, só o bastante para torturá-la, atormentá-la e fazê-la desejar mais.

— Oh.

— Você diz “Oh” agora, mas o que dirá quando eu terminar com você, moça tola?

— O que quer dizer?

Selik riu entre dentes.

— Não quer saber qual será seu castigo?

Rain maneou a cabeça insegura.

— Lembra a primeira vez que falamos, e você conversou tolamente, como geralmente é seu costume?

 

— Pensa que me beijar seria um castigo? — perguntou Rain incredulamente, logo riu. — Não esteve me escutado muito bem. Eu te disse que te a…

Selik apertou uma mão sobre a boca dela, e destramente moveu sua outra mão de modo que segurasse as mãos dela unidas sobre a cabeça. Não lhe permitiu terminar sua declaração. Que tolo era ao acreditar que poderia negar seu amor se nunca escutasse as palavras!

— Quer carinho? — perguntou Selik, um sorriso travesso apareceu em seus lábios, enquanto arrastava sensualmente as palavras — acredito que seria um castigo apropriado realizar sua fantasia. E te demonstrar que se engana porque de fato sei que esta não é a melhor fantasia.

— A minha é.

Rain ofegou.

— Sim, melhor respirar fundo anjo. Vai precisar antes que esta noite termine. Preciso te dar uma boa lição.

Mantendo ainda sua mão direita sobre a boca dela, ele se inclinou e esfregou seus lábios pela sua testa.

— Esta é a maneira, doce megera. Peça e desvaneça esse cenho franzido — ela imediatamente franziu o cenho ainda mas e ele riu entre dentes apreciando seu desafio. — Vamos seguir adiante então. Se desgasta no começo com estas pequenas lutas. Qualquer bom guerreiro sabe guardar sua energia para a grande batalha.

— Maldição, maldição, me deixe!

— O que foi isso, carinho? Pede mais? Ah, pois nunca seria eu quem negaria os direitos a um amante.

Seus lábios deslizaram sobre suas pálpebras, através das maçãs do rosto, passando pela borda da mandíbula; os lábios de Rain se separaram involuntariamente sob a palma de Selik. Como podiam aqueles lábios que pareciam tão firmes ser tão suaves? Ela tentou pensar em alguma coisa para evitar se arquear mais (pedrinhas de gelo... tonsilectomias... árvores... vasectomias). Mas não podia evitar a deliciosa sensação de seus lábios molhados, quentes que roçavam sua carne fresca. Ou eram lábios frescos que roçavam sua carne quente? Ela não podia distinguir um do outro no frenesi de perturbadoras sensações que ele acendia em qualquer lugar que seus lábios a tocassem.

— Se liberar minha mão de sua boca, promete não falar? — sussurrou Selik, seu hálito embaraçava os fios de cabelo em seu pescoço que vinham se soltando da trança. — Já está fora de sua mente, carinho? Não? Ah, pois terei que direcionar meus beijos a outro lugar então.

Selik esfregou pequenos e suaves beijos ao longo da curva de seu pescoço com pequenas mordidas e beijos como asas de borboleta. Quando chegou ao pulso atrás de sua orelha direita, ele sugou suavemente a doce carne até que indubitavelmente ergueu um sinal de paixão, logo soprou suavemente como se quisesse secar a pele.

Quando seu hálito quente por descuido soprou em sua orelha extra-sensível, os olhos de Rain se arregalaram com alarme, seu corpo ficou rígido com tensão. Ela não podia deixá-lo saber que o quanto suas orelhas eram eroticamente sensíveis. Aquela brecha em sua armadura podia ser sua perdição.

Mas Selik sabia. Rain viu como brilhava o conhecimento em seus tormentosos olhos cinzentos e no lento sorriso, sedoso que se abriu em seu rosto.

— De modo que são as orelhas para você, carinho. Talvez este seja um daqueles cinqüenta e sete pontos eróticos no corpo de uma mulher de que se gabou uma vez. Só afirme com a cabeça se eu tiver razão.

Rain sacudiu a cabeça veementemente. Meu Deus! O homem tinha memorizado cada tolice que ela alguma vez dissera?

Selik riu entre dentes com prazer, sem acreditar nem um pouco.

— Sim, para algumas mulheres, o ponto mais doce é atrás dos joelhos, diretamente nas curvas. Para outras, é entre as coxas. Também podem ser as pontas dos seios. Inclusive os arcos dos pés. Mas acho que começarei minha exploração em suas orelhas, carinho. O que diz disto?

Ela gemeu.

— Ah, bem, não tem que dizer nada. Beijarei cada lugar em sua pele até que descubra cada uma de suas fraquezas eróticas.

— Ohhhhhh!

— Exatamente o que estou pensando — disse Selik enquanto a mordia suavemente no lóbulo da orelha e começava uma exploração lenta, lento e insuportável na borda externa dua orelha. — É como uma concha marinha, carinho, toda de sombras de branco e pálido rosado — sussurrou ele roucamente enquanto beliscava as bordas, dando pequenas mordidas. — Me pergunto, o quanto são deliciosas?

Rain gemeu e tentou afastar a cabeça, em vão. Sua língua iniciou um caminho sensual ao longo das espirais secretas cujos terminais nervosos se uniam a uma quente, palpitante e profunda região de seu corpo.

— Sim, acho que descobri o número um de cinqüenta e sete — disse Selik com uma risada suave e começou a pressioar a ponta de sua língua molhada tão profundamente em seu ouvido como foi possível. Dentro e fora pressionou com golpes lentos, imperiosos, e os quadris de Rain se arquearam para cima por instinto. Embora ela se afastasse imediatamente, esse único contato com sua sempre rija excitação fez que aquele nó de sensações entre suas pernas inchar e doer por seu toque. Ela apertou os olhos fechando-os fortemente, evitando deixá-lo ver que tão pouco bastava para ele trocar sua estupidez por desejo.

Então ele se moveu para sua outra orelha, levando intermináveis minutos beijando, mordiscando e acariciando-a com sua língua. Quando ele começou a repetir seus impulsos, os braços de Rain e suas pernas ficaram rígidos com a resistência, tentando evitar a espiral de agitação, que aumentava os espasmos que ela sentia e a crescente intensidade entre suas pernas.

A humilhação por sua rápida excitação esquentou a carne de Rain. Ela se sentia como uma mulher faminta de amor só ansiando o toque de um homem.

— Abra os olhos — exigiu Selik em um sussurro perto de seu ouvido. Inclusive seu hálito causou pequenas sacudidas elétricas de prazer que dispararam por seu corpo. Rain se negou.

Selik pressionou sua virilidade ligeiramente contra seu inchado centro. E ela perdeu a batalha.

Os olhos de Rain se abriram, fechando-se em seu abraço carnal, e uma espiral girou e girou e explodiu entre suas pernas, e disparou com faíscas incandescentes para acender todas as terminações nervosas de seu corpo.

Selik fez um leve som, gemeu e tirou a mão de sua boca, rapidamente pondo-a sob seu corpo, envolvendo suas nádegas e tocando levemente sua feminilidade com o impulso de seus quadris. Rain não podia parar os gemidos de prazer.

Quando o corpo dela caiu satisfeito, Selik suavemente limpou as lágrimas de seus olhos.

— Por que está chorando? — perguntou ele suavemente.

— Mortificação.

— Está brincando. Te dou prazer e se sente humilhada?

— Fez para me degradar.

— Fiz-o? Ah, agora também ler mentes, como meu anjo da guarda.

Rain procurou seu rosto, só notando o brilho persistente do desejo em seus olhos, os lábios formosos frouxos pela paixão.

— Culminei sozinha. Isso faz eu me sentir barata... lasciva.

— Culminação? Hmmm. Uma palavra boa, acho — disse ele, fazendo suas sobrancelhas erguerem. Então ficou mais sério. — Mas não pense que não ganhei com seu clímax, também. O prazer de uma mulher é o maior presente para um homem no trato sexual. Além disso, acabamos de começar, e me reservo para melhores coisas que estão por vir.

— Selik, não. Não quero isto.

— Nem eu — disse ele cruamente, olhando-a fixa, avidamente quando os dedos longos de sua mão direita envolveram a coluna de seu pescoço, mantendo-a em seu lugar enquanto seus lábios desciam. Sua outra mão ainda mantinha seus braços imóveis sobre sua cabeça. Polegada por polegada agoniadamente lentas, seus lábios baixaram aos dela. Peito contra peito, ela podia sentir o selvagem retumbar de seu coração pelo seu estreito abraço. — É um jogo perigoso o que jogo, e bem sei. Mas não posso me deter.

— Nem eu — sussurrou Rain desesperadamente, seu hálito que afastavam para longe de seus lábios um fio de cabelo. — Nem eu posso.

Ele riscou o contorno de seus lábios com a ponta de sua língua e suspirou suavemente contra ela para secar sua própria umidade em sua carne.

— Seu coração pulsa ferozmente, anjo.

— Como o seu.

— Está assustada, carinho?

— Sim. Excitada e assustada.

Ele assentiu com a cabeça compreendendo.

— E você, Selik? Está tão calmo como parece?

Ele riu, baixo e rouco, enquanto mordiscava seu lábio inferior, logo o roçou bruscamente com a polpa de seu polegar áspero.

— Minha senhora Rain, estou poderosamente excitado, e bem sabe — disse ele bruscamente. — E estou assustado além do que jamais imaginei alguma vez que pudesse estar.

— Você? Assustado? Nunca!

Selik grunhiu em resposta e roçou seus lábios pelos seus, modelando e provando, até moldar seus lábios com a flexibilidade que ele queria. Então sua boca se tornou faminta, ave de rapina com uma necessidade de devorar tudo a sua passagem.

Rain gemeu com suprema satisfação pelo roçar de seus lábios sobre os seus e devolveu seus beijos com igual ardor. Selik a consumiu, usando seus lábios e dentes e língua para devastar sua boca indefesa. Seus lábios já firmes ficaram inchados pelo desejo.

Quando finalmente ele arrancou seus lábios dos dela, ofegante, ela gritou:

— Não, não pare — então fez um som baixo de consternação, quase de dor.

Ele murmurou contra seus lábios:

— Abra seus lábios para mim.

Ela obedeceu.

Ele a queimou com sua língua, inundando-se profundamente em sua boca, enchendo-a, logo abandonando-a, deixando-a vazia e ansiosa.

— Você tem sabor de paixão e juventude, mulher — sussurrou ele rudemente entre carícias.

Ela capturou sua língua e a sugou avaramente, logo respondeu roucamente:

— Seu calor me queima viva.

Quando seus beijos se fizeram mais profundos e não terminavam, quando lhe demonstrou repetidas vezes que nunca a tinham beijado de verdade em sua vida inteira, ele marcou o princípio e o final, e ela se retorceu de um lado para o outro, mas Selik não a deixaria tomar nenhuma iniciativa. A manteve firmemente no lugar. Rain perdeu todo sentido de tempo e espaço. Mas não de pessoa. Não, ela sabia exatamente quem era, e exatamente quem era seu amante. Selik. Seu amor. Sua alma gêmea.

Seus sons suaves de prazer e resistência retumbaram dentro de Selik, e sua ereção cresceu enorme contra ela. Seus olhos prateados arderam por sua apaixonada necessidade.

— Doce bruxa, receio que me tenha me enfeitiçado.

A risada suave, nascida de seu próprio prazer e excitação sobre sua capacidade de agradar aquele homem que ela amava, borbulhou em seus lábios.

— Então te perseguirei para sempre, meu amor.

O desejo, quente e fundido, explodiu em Rain, e os terminais nervosos de sua pele, de seu couro cabeludo e até dos dedos dos pés, estavam sensibilizados ao ponto da explosão. Selik enterrou os dedos de uma mão em seus cabelos e moveu seu rosto para cima para incrementar os impulsos cada vez mais frenéticos de sua língua. Rain já não sabia ou não se preocupava com onde terminavam seus lábios ou começavam os dele. O desejo se intensificou, e roía por seu sangue. Ela enrijeceu seu abdomem e fechou suas pernas em instintiva resistência pela crescente falta de controle que seu corpo exibia.

— Rain. Rain, está me escutando?

Suas pálpebras revoaram abrindo-se, e ela se sentiu atordoada pela completa beleza do rosto de Selik alagada pela liberdade pura de sua paixão por ela.

— Rain, carinho, me olhe. Deixe de lutar contra seus sentimentos. Relaxe. Ah, Senhor... assim, sim, só assim... agora, está me escutando?

Quando ela assentiu com a cabeça, mal capaz de respirar pelas sensações irresistíveis que atormentam seu corpo, ele disse com uma voz baixa, sensual.

— Isto é o mais perto da consumação que vamos chegar. Não, não gema assim. Isto será minha perdição. Um beijo é todo que prometi aqui, hoje.

Ela gemeu, logo riu.

— Se esta for sua idéia de só um beijo, então Deus me livre de sua idéia de fazer amor.

— Sim, bem, me dizem que minhas habilidades para o amor são bastante superiores — disse ele com um sorriso satisfeito. — Agora, me escute, moça, porque quero que faça o que te peço.

— Sim, professor.

Ele sorriu abertamente com diabólica satisfação.

— Está aprendendo, moça. Agora, quando eu puser minha língua em sua boca dessa vez, quero que imagine que minha virilidade entra em sua feminilidade. Pelo sangue de Deus! Adoro a maneira como seus lábios se abrem quando minhas palavras de amor despertam.

Rain lambeu os lábios secos de repente.

— Quando empurrar minha língua dentro de sua boca, você fingirá…

— Por favor, Selik — protestou Rain com um gemido —posso usar minha imaginação.

— Pode? — perguntou ele suavemente, aproximando-se, logo se deteve quando notou a inclinação desafiante de seu queixo. — O que é?

— Me pergunto o que você imaginará?

— Quando?

— Quando te devolver o favor e penetrar em sua boca com minha língua. Quando empurrar dentro e fora de você…

Selik cortou suas palavras com um sibilo de prazer assustado e logo com os lábios lhe mostrou muito bem que ele era um professor naquela arte em particular.

Quando o calor de seus beijos a conduziu quase ao ponto da loucura outra vez, quando se aprofundou dentro das dobras quentes, fundidas de seu corpo lentamente, o ritmo aumentava, a necessidade começou a rasgar, Rain sabia que não importava se Selik viesse de outro tempo. Não importou que ele fosse bestial às vezes. Não importou que freqüentemente a fizesse se zangar ou lhe fizesse mal profundamente. Ele era formoso. E era seu amor para sempre. Mesmo se aquele momento fosse todo o tempo que teriam.

— Você me deixa louco. Nunca, nunca me senti... ah, Doce Freya... Thor santo... — os quadris de Selik martelaram contra ela com um ritmo perfeito junto aos impulsos crescentes de sua língua.

Luzes vermelhas começaram a brilhar e brilhar atrás das pálpebras fechadas de Rain, para logo estilhaçarem-se em um caleidoscópio de um milhão de exóticas cores assim como um novo ponto de pulsação alojado entre suas pernas se convulsionou contra a rigidez de Selik.

Em uma neblina maravilhosa, Rain viu quando Selik puxou seus quadris para fora da cama e contra ele, arqueou seu pescoço para trás e gritou sua dura liberação.

Rain deveu ter perdido o conhecimento durante vários momentos nos ecos dos espasmos que percorriam seu corpo, já que quando se tornou conciente de seu redor outra vez, seus braços estavam livres e Selik estava caído contra seu corpo. Seu rosto contra seu pescoço, Selik respirava regular e profundamente rápido, cochilando.

— Bem, não poderia ter esperado até depois do banho?

— O que disse? — disse Selik tensamente, dando uma volta em seu lado, levando Rain com ele, beijando a curva de seu pescoço.

— Não disse nada.

— Eu disse.

Ambos elevaram a vista para ver Gyda em pé na entrada, com um montão de tecidos de linho em seus braços e vários dos criados estavam em pé atrás dela com uma tina grande e baldes de água, comendo-os com os olhos lascivamente.

Selik se sentou imediatamente. Para triteza de Rain, o humor sensual de Selik se quebrou pela entrada de Gyda. Provavelmente lembrou de sua noiva, Tyra. Assim que ele esteve em pé com irritação indicando os criados aonde colocar a tina, Rain viu que seus olhos cinzentos se tornaram tempestuosos outra vez e os músculos de seus braços tinham nós de tensão.

Gyda e os criados partiram.

O vapor se levantava da enorme tina, Selik se voltou para ela.

— Vai se banhar primeiro?

Rain ergueu o queixo de modo desafiante, seu rosto ardendo.

— Com você aí em pé me observando como um olheiro? Nem em um milhão de anos!

— Ah, bem! Irei primeiro então — esteve de acordo ele facilmente, mas indicou com um dedo de advertência. — Se se mover um pouco que seja dessa cama, vai estar nesta tina comigo. E juro pelo sangue de todos deuses que terá sabão saindo de cada abertura de seu corpo.

— Abusador — resmungou Rain.

— O que disse? — perguntou Selik, movendo-se para ela de modo ameaçador.

— Magnífico. Eu disse, magnífico.

Selik sorriu tristemente.

— Me ocorreu o pensamento mais aterrorizante. Começo a entender suas palavras sem sentido.

Selik deixou cair seus calções então, dispondo-se a se afundar na tina. Apesar de suas melhores intenções, os olhos de Rain acariciaram seus amplos ombros e seus amontoados músculos. Ela desejou riscar as letras, R-A-I-V-A, que ele tinha tatuado em seu antebraço. Movendo-se mais para baixo, admirou sua cintura estreita e quadris e a forte curvatura de suas nádegas.

Ele começou a dar a volta, e Rain esqueceu de respirar, e irrompeu em um ataque de tosse.

Sorindo com satisfação, Selik afundou na água quente, sentindo grande prazer ao tentá-la com seu corpo e com o fato de que ele se divertia enormemente enquanto ela se sentava ali revirando na sujeira da viagem de todo o dia.

Para não ficar sem fazer nada, Rain pegou com cuidado sua mochila de viagem do chão, assegurando-se de que realmente não movia seu corpo, já que os olhos entrecerrados de Selik a olhavam como um falcão. Com petulância infantil, Rain tirou um novo pacote de salva-vidas de cereja e meteu uma na boca.

A boca de Selik se abriu com incredulidade.

— Mentiu — ele a acusou. — Disse que tinham acabado.

— E tinham, mas encontrei outro pacote no bolso traseiro de minhas calças.

— Ah, é uma bruxa enganosa. Primeiro quebra seu juramento; depois mente.

 — Me dê uma pausa, Selik. Isto é só uma imunda bala. — Mas Rain chupou forte, querendo mostrar que achava um prazer especial no sabor.

— Você gostaria de ter um salva-vidas dentro de seu nariz?

— Não seja descortês — Rain sorriu docemente e tirou o Cubo de Rubik. Enquanto Selik ensaboava seu corpo e cabelos, ela solucionou o quebra-cabeças, várias vezes. Pensou que ouvia como ele rangia os dentes antes de inundar a cabeça sob a água e ficar lá durante bastante tempo.

Rain despertou cedo na manhã seguinte, dando-se conta quando explorou o pequeno quarto, que Selik não dormira com ela. Ainda aturdida, aproximou-se da porta. Tentou uma vez, duas, três, até que finalmente aceitou com incredulidade o fato de que estava trancada a chave.

— Matarei o maldito bárbaro — murmurou.

Na noite anterior, depois de tomar seu banho e revelar seu corpo nu ante ela de uma forma que a enfureceu, Selik a tinha deixado surpreendentemente em paz. Quando tinha completado suas abluções privadas e os criados levaram a tina e tecidos de linho molhados, Selik ainda não havia voltado. Cansada depois do longo dia de viagem e a agitação emocional com o casamento de Selik, Oh Senhor, esquecera-se disso, Rain tinha se recostado na cama, só para descansar durante um momento, e tinha dormido por a noite. Mas onde Selink tinha dormido? Mais importante, com quem? E por que a tinha encerrado com chave?

Apesar do cedo da hora, não podia ser muito depois do amanhecer, começou a bater na porta de madeira, gritando por Selik. Depois de pouco tempo, Gyda abriu a porta com um som que desaprovava o comportamento de Rain.

— Tsk, tsk! Todos em Jorvik certamente ouvem seus miados.

— Sinto muito, Gyda. Não pensei em te acordar.

— Hah! Levo há muito tempo nas tarefas do dia.

— Por que fui presa a chave neste quarto?

— Foste confinada a seu dormitório porque ontem tentou fugir. Não se pode confiar em você, e Selik não podia ter mais homens em pé a sua porta.

— De modo que sou uma presioneira agora?

— Era algo além disso? — perguntou Gyda, olhando-a atentamente com olhos muito inteligentes, e exigentes. — Eu acho que Selik se referiu a você como uma refém desde o começo.

Rain sentiu o rubor em seu rosto.

— Sim, mas salvei a vida dele em Brunanburh e…

Gyda soltou um suspiro de consternação e se sentou no banco na frente dela.

— Salvou?

Rain explicou e Gyda escutou atentamente.

— Você o ama? — perguntou Gyda sem rodeios quando ela terminou.

Surpreendida, Rain vacilou, sem sem ter certeza de poder expressar seus sentimentos.

— Acho que sim. Mas, Deus me ajude, nunca houve uma relação mais deigual, condenada ao fracasso no mundo. A vida de Selik é uma total contradição de tudo o que valorizo. O idiota me põe tão irritada que poderia cuspir. Me diz as coisas mais odiosas, rasga meu coração, logo junta todas as peças outra vez com um simples e pequeno sorriso sobre algo tão estúpido como um pedaço de bala de cereja.

Gyda estudou o rosto de Rain atentamente, parecendo entender suas emoções contraditórias.

— Sim, parece amor — concluiu Gyda finalmente, logo juntou suas mãos e as esfrego com entusiasmo. — Agora, precisamos decidir o que devemos fazer a respeito.

Rain inclinou a cabeça de maneira interrogativa, curiosa quanto a por que a mãe de Tyra iria quer ajudá-la, mas sua pergunta foi cortada pelas seguintes palavras de Gyda.

— Sabia que ele pretende partir dentro de pouco tempo para terras saxãs? Steven de Gravely deixou com que ele soubesse que está em Winchester. O conde do demônio espera atrair Selik para sua armadilha mortal. Temo que o ódio de Selik o cegue à malvada tática de Gravely — Rain ofegou e pôs uma mão em seu peito pela consternação, reconhecendo o nome do homem degenerado responsável pela morte da esposa e do bebê de Selik

— Não!

— Sim, e você bem que tem razões para estar preocupada. Selik pode não voltar vivo desta vez.

O pressentimento de Rain ficou frio pelo medo. Selik não podia viajar sem parar por aquele caminho de vingança e permanecer ileso. Um dia certamente morreria, e ela sentiu que seria logo.

— Acho que você pode ser capaz de detê-lo. Tenho uma idéia — ofereceu Gyda incitante.

— Ah, Gyda, o que seja. Eu faria tudo para ajudá-lo.

O rosto de Gyda brilhou e ela se inclinou para tomar as ásperas mãos de Rain.

— Isto é o que acho que tem que fazer...

Depois de ouvir o longo complô de Gyda, Rain a contemplou incredulamente.

— Está louca? Seqüestrar Selik! Retê-lo durante várias semanas até que Gravely tenha ido se ocultar outra vez! Por que eu? Por que não sua filha?

— Hah! Ela é muito pequena e medrosa para se ocupar de tal tarefa.

Pequena! Era tudo o que Rain precisava, outra recordação de seu tamanho e suas deficiências.

— Como espera que eu possa lutar com ele, derrubá-lo e prendê-lo? Posso ser alta, mas Selik pesa mais de quarenta quilos a mais que eu.

— Seu sarcasmo me adoece. Realmente, deveria tentar conter tais arroubos tão pouco femininos.

Rain mal podia conter a risada que queria curvar seus lábios.

— Ponto, parágrafo, mesmo se eu estivesse de acordo com seu louco complô, sou fisicamente incapaz de seqüestrar Selik.

— Poderia saber de algumas ervas que poderiam colocá-lo para dormir antes de ele poder ser retido — sugeriu Gyda com astúcia.

Rain fechou seus olhos cansadamente durante um segundo, logo olhou diretamente o rosto interrogativo da anciã.

— Talvez eu saiba, mas devo estar louca, para até considerar fazer uma coisa tão revoltante. Onde ele seria mantido, a propósito? Aqui?

— Oh, não! — exclamou Gyda, pondo uma mão em sua face pelo horror. — Seria perigoso para Selik estar aqui mesmo. Temo que os homens do rei observem minha casa.

— Tenho certeza que tem alguma idéia, entretanto, onde poderia prendê-lo? Oh, Senhor, não posso acreditar que ainda disse isso.

— Sim, eu pensava que talvez Ella ajudaria.

— Ella?

— Ella era uma amiga de sua mãe. Ella é agora uma comerciante próspera na cidade, graças à ajuda de sua mãe. Iremos vê-la mais tarde.

— Me diga, Gyda, quer que eu faça o trabalho sujo para então poder dar Selik a Tyra em uma bandeja de prata? — perguntou Rain com receio, sem certeza de poder confiar na mulher completamente.

— Talvez — disse Gyda — mas então, se você amá-lo, acho que fará o que puder para salvá-lo, sem interesses — ela observou Rain em expectativa durante vários e longos momentos. — Bem, o que acha?

— Acho que você teria sido uma boa política.

Durante as poucas horas que seguiram, Rain refrescou seus calcanhares sob o atento olhar de dois homens ásperos que vigiavam cada movimento seu, mesmo que ela fosse ao vaso sanitário se aliviar. Era aquilo ou voltar para seu dormitório fechada a chave, informou-lhe Gyda firmemente. Com absolutamente nada para fazer, Rain solucionou o Cubo de Rubik vinte e sete vezes, andou de um lado do corredor ao outro sessenta e três vezes, e recitou o juramento de Hipócrates silenciosamente dezesseis vezes. Aborrecida, tensa, seu humor piorou cada vez mais.

Quando Selik e Tyra entraram passeando alegremente pela porta principal, rindo de alguma brincadeira compartilhada, Rain esqueceu todas as instruções que Gyda lhe tinha dado sobre o grande golpe de mestre para salvar Selik. Pareciam formosos juntos, Selik com uma túnica azul meia-noite sobre calças negras, sua cintura estreita acentuada por uma corrente de ouro, e Tyra com uma túnica de seda verde, fechada com corrente, um tipo de avental que tinha posto sobre uma blusa de camiseira cor de creme que ressaltava perfeitamente seus magníficos e soltos cabelos vermelhos como morangos.

Uma fúria irracional cresceu, e Rain pegou o objeto mais próximo, uma maçã que estava em uma tigela de frutas. Segurando a fruta cuidadosamente, lançou-a diretamente na cabeça de Selik. Mas ele a viu no último instante e se esquivou; a maçã se estralou contra a porta bem atrás dele.

Incrédulo, Selik olhou primeiro para ela, e depois para a maçã da qual mal tinha se esquivado, então olhou de novo para ela. Seus olhos se estreitaram furiosamente quando ele avançou para ela.

— Não acredito absolutamente que seja uma pacifista — grunhiu ele. — E se tivesse atingido Tyra com essa maçã? Poderia ter feito mal a ela.

— Ou poderia ter arruinado minha túnica nova — queixou-se Tyra, arrumando-se com graça ante um quadrado de metal polido que estava pendurado na parede.

— Ou talvez poderia ter te te atingido bem no meio de seu rosto de Viking convencido — murmurou Rain para Selik enquanto retrocedia, pelo lado oposto da mesa.

Seus olhos brilhavam com cólera e seus dedos se flexionavam em seus flancos, provavelmente se doendo de vontade de estrangulá-la.

— Esse “convencido” tem um tom que eu não gosto. Entendo que “convencido” não é um elogio — Selik continuou andando para o outro lado da mesa de forma predadora, mantendo o passo no mesmo ritmo dela, seus olhos vivos olhando-a a cada movimento, esperando seu primeiro escorregão. — Que abelha picou seu traseiro esta manhã para que ficasse tão resmungona? Pensei que tinha te dado uma boa lição ontem. Por acaso está me tentando a te dar outra demonstração de meu domínio?

O rosto de Rain avermelhou por sua vulgaridade e seu aviso da maneira íntima na qual ele tinha decidido castigá-la. Ela pensou que não poderia resistir a outra demonstração de suas habilidades superiores naquele campo.

— Guarde isso para Tyra, sua noiva.

— Noiva? — interrompeu Tyra. — O que é isso?

— Prometida, tola estúpida — replicou Rain. — Quando é o casamento, de qualquer maneira? Talvez eu possa ser a dama de honra — Rain não podia acreditar em sua língua solta. Onde estava o autocontrole que a ajudou a sobreviver em sua péssima adolescência cheia de zombarias, o rigoroso regime acadêmico da faculdade de medicina, relações amorosas falidas, uma vida de insegurança?

Selik sorriu abertamente.

Ela começou a se voltar na direção de onde acabava de vir.

— Eu? Prometida em matrimônio a Selik? — Tyra riu.

— O que é tão engraçado? — perguntou Rain, de repente alerta.

— Você. Selik é como meu irmão, sua tola estúpida. É assim como me chamou, não?

Mas então compreendeu as palavras de Tyra. Selik e Tyra não estavam comprometidos.

Ela olhou para Selik.

Ele deu de ombros com um sorriso sem culpa.

— Deixe de provocá-la, tolo — replicou Tyra rapidamente. — Você não tem absolutamente nenhum interesse desse tipo e nunca teve. De fato, me aborreceu até o cansaço duas horas atrás no porto, enquanto não fez nada mais que falar sobre a formosa moça do futuro.

A boca de Rain se abriu de repente, e olhou fixa e incredulamente a jovem mulher, a maravilhosa moça por quem ela tinha desenvolvido de repente um grande carinho, mas seu lapso na vigilância deu a Selik a oportunidade de saltar sobre a mesa. Ele a agarrou e fixou seu corpo dolorosamente contra a parede, exigindo:

— Desculpe-se.

—Sinto ter jogado a maçã em você — pensando, que lástima por ter falhado.

— Agora a Tyra.

— O quê?

— Pedirá perdão a Tyra por sua falta de gentileza. Esquece que é uma convidada em sua casa?

Depois de uma longa pausa, Rain disse:

— Sinto se te ofendi, Tyra. Se acha que há uma ponte...

— A próxima vez, pense antes de reagir, moça — advertiu Selik enquanto a liberava com um tapa no traseiro. — É uma lição que qualquer guerreiro sabe bem.

— Não deveria ter me fechado a chave em meu quarto.

— Onde não está, a propósito. Quem desobedeceu minhas ordens te liberando?

— Gyda, mas ela atribuiu esses dois guardas para vigiar cada um de meus passos — disse ela, indicando os dois homens que se sentavam em uma mesa próxima olhando a absurda cena com interesse. — Não posso fazer pi-pi sem que eles estejam em pé na porta do banheiro contando cada gota.

Selik sacudiu a cabeça sem acreditar.

— Certamente estou agradecido de que tenha compartilhado essa informação comigo.

— Começo a entender o que quer dizer, Selik — disse Tyra. — Ela diz realmente algumas palavras intrigantes. Mas me custa acreditar que seja uma partidária daquele credo de não-violência que mencionou, pac... pacifismo. Por que é certamente mais violenta que qualquer mulher que já conheci.

Rain gemeu, começando a pensar que Tyra podia ter razão.

— Ainda levará a moça resmungona ao hospital, como tinha planejado? — perguntou Tyra.

— Não, acho que ela se considera muito sã. Seria tolice de minha parte pensar que um prisioneiro apreciaria tal consideração.

— Iria me levar ao hospital? — perguntou ela, totalmente surpreendida.

— Sim, foi uma idéia tola.

— Não, não é.

— Sim, decidi que não me importa não compartilhar sua resmungona companhia esta manhã. Minha cabeça está doendo.

—Te darei uma aspirina.

— Pelos deuses! Finalmente disse uma verdade.

Rain franziu as sobrancelhas.

— Que verdade?

— Você é uma dor de dente[16].

Seus lábios se franziram com desgosto, Rain tentou controlar seu gênio porque realmente queria ver a primitiva instalação médica. Muito tranqüilamente, ela explicou:

— A aspirina é uma pílula moderna, um analgésico.

— Hah! Dá nomes a suas pílulas assim como a seu perfume. Está vendo, Tyra, não é uma moça estranha? E ela critica os escandinavos por darmos nome a nossas espadas.

Rain estava achando muito mais que difícil se impedir de bater na cabeça dele. Apertou os punhos tão fortemente que suas unhas se cravaram na carne suave de suas palmas.

Os olhos de Selik brilharam, sabendo o que acontecia.

Tyra olhava de lá para cá entre Rain e Selik enquanto eles trocavam insultos, parecendo confusa.

— Selik, eu achava que ela era uma refém. Por que permite falar assim com você? Não deveria cortar a língua dela?

— Essa é uma idéia interessante.

— Sei que pensa trocá-la pela liberdade com o Rei Athelstan, se alguma vez ele te capturar, Deus não o permita, mas talvez você deveria se liberar da bruxa agora. Evite a irritação. Não acha que um comerciante de escravos a compraria para um dos haréns do Oriente? Se sabe que eles procuram a singularidade de vez em quando, e talvez seu tamanho não fosse uma desvantagem — Rain começava a odiar a moça nórdica outra vez.

Selik inclinou a cabeça e pareceu considerar seriamente a sugestão de Tyra.

— Sim, agora que menciona, já posso imaginá-la em nada mais que uns leves véus. Talvez recostada em travesseiros de seda ao lado de uma piscina com fundo de mármore à espera do capricho de seu mestre. Inclusive ela poderia até…

— Argh! — grunhiu Rain entre os dentes apertados, achando cada vez mais difícil conter sua língua, sobretudo quando sabia que Selik só a estava testando. Ela pôs suas mãos em seus ouvidos para não escutar as provocativas palavras dele.

— Então, Selik, vai voltar ao porto para vendê-la?

Ele olhou Rain diretamente nos olhos.

— Me diga, moça, promete corrigir suas maneiras grosseiras?

Rain mordeu a língua e afirmou com a cabeça.

— Prometerá, se te levar ao hospital, que só falará quando eu permita e obedecerá cada ordem? — Rain vacilou, mas finalmente concordou com outro movimento de cabeça.

— Assim seja. Mas primeiro, venha comigo. Devo enfaixar seus seios.

Rain o olhou fixamente depois de sua saída. Ele tinha pegado um longo tecido marrom de um banco e estava já na metade de caminho para cima dela quando ela compreendeu suas palavras.

Enfaixar meus seios?

 

Quando Rain alcançou Selik, ele estava no meio do dormitório pondo um tecido marrom sobre a cabeça. Uma vez que ele colocou o tecido no lugar e prendeu um cinturão de corda em sua estreita cintura, Rain percebeu que Selik usava o traje de um monge, completo, com o capuz sobre a cabeça.

— Feche a boca, Rain. É pouco atraente me mostrar o interior de sua garganta.

Rain apertou os dentes fechados.

— O que está planejando agora?

Selik deu a volta devagar para demonstrar o quadro geral de suas roupas

— Comprei isto no porto esta madrugada quando entreguei os prisioneiros ao comerciante de escravos — Rain estremeceu ante sua menção ocasional de venda de escravos. — Preciso ter mais cuidado em público. Um grande número de soldados saxões patrulha as ruas e agora mesmo podem estar vigiando a casa de Gyda.

— Oh, Selik. Como desejaria que deixasse a Grã-Bretanha e fosse a alguma terra onde pudesse começar de novo e ser livre!

A mandíbula dele se sobressaiu para frente firmemente, e Selik declarou bruscamente:

— Não sou algum covarde para fugir de meus inimigos. E a liberdade sempre evita aqueles que se escondem em terras estrangeiras.

Rain desejou discutir com ele, mas ela poderia ver pelo olhar de aço que ele não seria convencido. Ao menos, não agora. Ela decidiu mudar de assunto.

— Realmente vai me levar ao hospitium?

— Prometi, ou não?

— Sim, mas... — Rain deixou o argumento e sorriu com exagerada doçura, desejosa de fazer tudo para visitar o hospital do século X. Ela saudou elegantemente. — Tudo que disser, amo — Grande estúpido!

Selik arqueou uma sobrancelha e sorriu ironicamente, sua cólera se desvaneceu.

— Já é hora de que reconheça quem tem a autoridade aqui, moça. E, se quer saber, vou te levar ao hospitium para que possa encontrar trabalho para encher seus dias quando deixar Jorvik. Suspeito que faria a vida de Gyda miserável metida em sua sala ou ajudando-a a limpar seus vasos sanitários. Ou como criada da senhora Tyra.

Ela começou a lhe dizer o que pensava sobre ser a criada de uma desprezível e mimada senhora Viking, mas Selik levantou uma mão para deter suas palavras antes de que ela tivesse possibilidade de dizê-las.

— Seu bate-papo me zanga, e demoramos muito tempo. Tire a camisa para que possa enfaixar seus seios e se disfarçar.

Rain fez uma espécie de profundo som de gorjeio em sua garganta.

— Por que tenho que fazê-lo?

— Não, não mais perguntas. Já é tarde. Você não pode entrar no hospitium dizendo a todos que é uma médica-mulher. Eles nunca lhe concederiam entrada.

— Oh.

Selik cruzou seus braços em seu peito, batendo com seu sapato de couro com impaciência enquanto esperava que obedecesse suas ordens.

Seu rosto se esquentou enquanto ela considerava suas opções, tirar a blusa e deixá-lo enfaixar seus seios, então poderia fingir ser um macho, ou permanecer encarcerada na casa de Gyda desejando e sentindo falta de estar no hospitium. Decidindo-se rapidamente, ela começou a relaxar.

— O que usará para enfaixá-los?

Selik se inclinou para baixo para um pequeno cofre de madeira no chão e o revolveu, finalmente tirando uma larga tira, parecida com um cachecol de seda.

Ela lhe voltou as costas e tirou a blusa e o sutiã, esperando. Suas contas de âmbar pareciam frias contra sua carne acalorada.

— Estenda os braços.

Selik pegou ambas as suas mãos e lhe mostrou como queria que ela levantasse os braços à altura dos ombros. Sentindo o ar em seus seios expostos e o toque leve dos dedos de Selik sob seus cotovelos, Rain quase deixou seus joelhos se curvarem com a rapidez repentina do erotismo intenso que a envolveu em ondas. Ela fechou os olhos brevemente até recuperar o controle de suas emoções.

— Não se mova — disse Selik roucamente, logo a surpreendeu colocando-se na frente de seu corpo.

Ela começou a protestar, mas ele parecia estar concentrado em sua tarefa, não em seus seios traidores, que tinham alcançado seu ponto máximo ante o primeiro olhar dele. De fato, ele mal olhou seu corpo enquanto com habilidade colocava uma ponta da tira larga sob seu braço esquerdo, através e por cima do topo de seus seios, em torno e atrás, nunca se movendo de seu lugar na frente dela.

Duas vezes, ele repetiu aquele movimento, logo pôs-se a fazer o mesmo na área abaixo de seus seios, que tinham desenvolvido uma necessidade dolorosa de serem tocados. Cada vez que ele ia para diante sob seus braços para estirar o tecido atrás dela, Rain sentia seu hálito quente contra seu ombro e continha um gemido de prazer. Uma vez, seus nódulos roçaram a parte oculta de seu seio direito, e Rain sentiu a comoção da leve carícia ricochetear todo o caminho até seus dedos dos pés.

Quando ele estava preparado para enfaixar os próprios seios, moveu-se atrás dela.

— Terei que puxar com força. Isto pode doer.

Rain pensou que a necessidade de ser tocada era muito mais ardente do que poderia ser qualquer pressão de um simples tecido. Quando ele com cuidado puxou a tira através do meio de seus seios, perguntou, suavemente:

— Está muito apertado?

O comichão do hálito de Selik contra sua nuca foi a primeira pista de Rain de que ele estava muito perto, olhando sobre seu ombro.

— Deve ficar mais apertado, de qualquer maneira, já vejo. Os mamilos ainda estão visíveis.

Rain inalou bruscamente.

— Isto é necessário?

— Sim, é — disse ele, sacudindo o tecido mais apertado, criando uma carícia deliciosa, rápida e abrasiva através de seus seios sensibilizados. Rain mal pôde sufocar um gemido. Então ele enrolou o tecido ao redor dela várias vezes mais, puxando dolorosamente apertado. Finalmente, amarrou as pontas juntas e se moveu em torno e para a frente dela, contemplando os resultados. Ele fez um som suave que cacarejou pela consternação. — É a sarja, ou seus mamilos são sempre tão grandes?

Não brinque, só quando você os contempla e puxa um pedaço de seda sobre eles de modo tão sedutor.

Ela começou a responder, logo notou que os cantos de seus lábios se crispavam com risada suprimida quando ele levantou as contas de âmbar em sua mão, seus nódulos roçaram seu busto. Pelo visto, ele sabia desde o começo quão incômoda ela estava sob seu escrutínio e na borda de suas carícias. E ele desfrutava disso enormemente.

— Oh, você é um bruto — ela pegou sua blusa para vesti-la, mas Selik a segurou.

— Tenho roupas de sacerdote e sapatos para você também.

De algum jeito, Selik tinha encontrado uma versão menor das mesmas roupas que ele usava. Depois que ela estava totalmente vestida e tinha arranhado seu traseiro e trançado seus cabelos sob o capuz, ela plhou primeiro para ele, logo para si mesma.

Com uma tola risada suave, ela comentou:

— Parecemos com Mutt e Jeff.

Selik arqueou uma sobrancelha interrogativa, mas Rain só sacudiu sua cabeça, sabendo que seria impossível explicar os personagens de gibi ao Viking. Rain teve uma imagem repentina, atraente em sua cabeça de Selik deitado em sua cama extragrande num preguiçoso domingo à tarde, com um café em uma mão e os gibis na outra.

Momentos mais tarde, abriam caminho pelas ocupadas ruas de Jorvik. Por causa da distância curta, caminharam. Além disso, Selik temeu que dois sacerdotes montando a cavalo pela cidade chamassem muito a atenção.

— Deve menear tanto seu traseiro? — ele advertiu uma vez. — Lembre, se supõe que você é um monge, não um bolo mole.

— Não meneio.

— Hah! E pare de tocar minha manga quando quer chamar minha atenção para cada bendito acontecimento diário que acontece nas ruas. As pessoas vão pensar que somos sodomitas.

Se ele ao menos soubesse como ela se continha! Rain queria enlaçar seu braço no dele e descansar sua cabeça em seu ombro. Todos seus novos sentimentos por ele borbulhavam dentro dela, ameaçando transbordarem a cada vez que por acaso roçava contra ele ou via alguma visão particularmente interessante na fascinante cidade.

— E te advirto, Rain, não interfira em nada que veja no hospitium. Não me preocupa se existirem melhores métodos de cura em seu país. Não deve dizer aos monges como curar. Ante a menor indireta de talentos pouco naturais, os sacerdotes poderiam te encarcerar por praticar as artes das trevas.

— Selik, devo aprender aqui, mas se posso ajudar...

— Outra coisa, muitos do clero têm desprezo pelas mulheres. Mesmo se você fosse a melhor curadora no mundo, eles cuspiriam ante qualquer conselho que uma fêmea lhes desse. Para eles, as mulheres são as portas que conduzem os homens bons ao inferno.

Rain agora não pôde permanecer silenciosa.

— As portas... Oh, isto é tão injusto! Como se as mulheres tivessem o poder de conduzirem os homens aonde for! E quem é responsável, aos olhos dos sacerdotes, pela perdição de uma mulher?

Selik sorriu abertamente.

— Ninguém, acho, as mulheres, “as filhas da Eva”, nasceram com o pecado da sedução reproduzido nelas.

Rain empurrou o braço de Selik com desgosto, indiferente a se qualquer transeunte visse um sacerdote tocar um outro de uma maneira íntima. Ele a deixava tão louca.

— Não descarregue seu mau-humor em mim. Simplesmente relato o que os sacerdotes pregam nos púlpitos.

— Mas você adora, não é?

— Eu? — disse Selik com uma palma estendida sobre o peito e exagerou a afronta de sua voz.

Rain se voltou longe dele com desgosto. Outra vez, tinha reagido a seu chamariz tal como ele tinha planejado. Ao contrário, decidiu ignorá-lo e captar todas as impressinantes vistas.

Mas logo a maravilha inicial de Rain pela ocupada cidade mercantil se desvaneceu quando começou a ver a gratuita destruição causada pelos assaltos saxões e a miséria resultante disso. Parte das muralhas da cidade tinham sido derrubadas a golpes e as casas, queimadas até o chão. Pior, um grande número de pessoas parecia estar sem lar, pedindo alimento ou moedas.

— Selik, por que há tantas crianças nas ruas?

A mandíbula dele se retesou ante sua pergunta.

— São órfãos, os derivados da carnificina saxã.

— Mas por que não recebem ajuda?

— De quem? — zombou ele.

— De outras pessoas que sobreviveram.

— Muitos deles têm problemas o bastante com sua própria sobrevivência.

— E as Igrejas?

— Estão muito ocupados enchendo seus inchados cofres. Inferno maldito! Há bastante ouro em apenas um de seus finos cálices para alimentar a cidade durante uma semana.

— E o governo?

— Não há nenhum, agora. O rei nórdico foi banido, como sabe, e Athelstan não designou ainda um novo governante saxão — ele deu de ombros. — Ainda assim, o governo não ajudaria tais inúteis cães vira-latas — Ele indicou algumas crianças próximas encolhidos em um beco.

Rain se encolheu ante suas palavras desdenhosas.

— Porque são crianças vikings?

— Em parte. Mas qualquer criança pobre, “aqueles das pessoas comuns”, são de pouco valor. Há muitos mais de onde eles vêm.

— Oh, que crueldade! — mas Rain se perguntou se, realmente, as coisas eram muito melhores em seu tempo, quando a falta de lar e o abuso às crianças tinham alcançado proporções altas absolutas, quando as crianças de países do terceiro mundo eram privadas de comida até a morte, e o aborto ultrapassava de longe um milhão a cada ano.

— Essa vida. Com certeza é a razão pela qual jurei não trazer mais crianças a este mundo.

Mais nehuma criança? O coração de Rain se derreteu ante as palavras suavemente pronunciadas por Selik.

Nunca farei amor com Rain, jurou Selik enquanto olhava a cidade e os lamentáveis órfãos. Agora que compreendo os perigos que ela me explicou tão detalhada e claramente, nunca correrei o risco de fazer outro bebê. Sobretudo, não nela. Não, eu não podia agüentar a dor de trazer outra criança a esta latrina cruel que é o mundo. Mas um bebê de meu sangue, e do dela... Oh, doce Senhor, a perspectiva quase me faz cair de joelhos. Selik se sentiu atormentado tanto com o intenso prazer como com a tortura ante o pensamento proibido.

— Selik, o que está acontecendo? Por que me olha assim?

Ele sacudiu a cabeça para clarear os irritantes pensamentos.

— Não está acontecendo nada. Estamos no hospitium. Puche o capuz mais sobre o rosto.

Selik pôs um dedo em seus lábios lhe fazendo gestos de que se calasse quando entraram pelas enormes portas duplas, arqueadas que conduziam à seção principal da catedral. Com um movimento de cabeça, lhe indicou que o seguisse.

Ele desceu o corredor principal da capela central, fazendo automaticamente uma genuflexão ante o crucifixo como lhe tinham ensinado quando o batizaram anos antes. Rain seguiu seu exemplo, claramente perplexa pela resposta cristã dele. Então ele virou à esquerda, ignorando os monges e outros prelados da igreja ocupados na reza e nos deveres religiosos. Um grupo grande de rapazes da escola da catedral, os filhos dos nobres e comerciantes da área, deram-se cotoveladas uns nos outros e sussurraram maliciosamente enquanto seguiam um pomposamente piedoso sacerdote tonsurado que lhe dava sermões sobre os costumes da igreja.

Finalmente, depois de percorrer para baixo vários corredores e vários pares de portas, chegaram ao hospitium, uma adição de madeira à estrutura da igreja. Um gordo e jovem sacerdote, cujo rosto ainda estava coberto com as chatas espinhas da juventude, olhou-os atentamente da mesa onde estivera trabalhando, enrolando tiras de linho em ataduras.

— Sim? Sou o Padre Bernard. Posso ajudá-los?

— Sou o Irmão Ethelwolf, e…

— Ah, Ethelwolf, “o nobre lobo”, um bom nome para um sacerdote tão grande como você — disse o jovem clérigo com entusiasmo, obviamente não fazia muito tempo que havia feito seus votos finais nas Santas Ordens. Rain lançou um olhar de surpresa para ele. — E este é meu companheiro, o Irmão Godwine.

Ela se sufocou e ele lhe deu palmadas cordialmente nas costas.

— Realmente, é injusto. Godwine foi o nome que escolhi para minha consagração no clero, mas outro na abadia o tinha escolhido primeiro — O jovem sacerdote apertou os lábios e divagou com um sorriso pensativo que mostrou um número atroz de dentes podres para alguém tão jovem.

Amigo de Deus, com efeito! Eu não podia ter escolhido um nome mais apropriado para meu anjo da guarda, pensou Selik, jogando um olhar seco de diversão para as faces de Rain, que já se avermelhavam com aparente consternação ante seu nome de sacerdote para ela.

— Padre Bernard, viemos do Monastério de Frades de São Cristóvão nas montanhas de Frankland. Você ouviu falar do famoso hospitium situado lá, não?

Rain gemeu com indignação pela escandalosa mentira, e ele lhe deu uma cotovelada para que permanecesse em silêncio.

— Não — disse o Padre Bernard desculpando-se — mas sou um sacerdote há apenas um ano, e agora treino para ser um cura. Talvez você gostasse de falar com o diretor do Hospitium de Santa Mater, o Padre Theodric. Ele está na capela agora mesmo, escutando confissões.

— Sim, nós gostaríamos de conhecer tão estimado curador, mas no momento, podemos examinar seu hospitium? — perguntou Selik. — Estamos visitando Jorvik, em uma missão para nossa abadia, e nós gostaríamos de aprender os últimos métodos de cura em todos os hospitiums que encontramos em nossas viagens.

O jovem clérigo levantou as sobrancelhas interrogativamente.

— O irmão Godwine é um curador consumado em Frankland, mas já que não pode ler ou escrever, sou seu tabelião, tomando notas de nossas conclusões para um livro que o Irmão Godwine espera escrever. O Santo Padre o solicitou — Rain jogou um olhar enviesado de desgosto a Selik por retratá-la como analfabeta. Ele só olhou fixamente para trás, para ela, inocentemente.

— Você ouviu falar de Leechbook de Bald, não é? — perguntou Selik ao Padre Bernard, piscando ingenuamente.

— Sim, é obvio.

— Bem, o livro do Irmão Godwine será bastante diferente. Enquanto o livro do Bald estuda o corpo da cabeça aos pés, o livro do Irmão Godwine irá por dentro. E ele tem a intenção de chamá-lo de manual médico.

A boca do Padre Bernard se abriu, e uma onda de fétido hálito quase a nocaltiou.

— Não é verdade, Irmão God-Friend, quero dizer, Irmão Godwine? — perguntou Selik a ela.

Rain maneou a cabeça a contragosto, e Selik sabia que ouviria mais sobre o assunto mais tarde.

Selik realmente a enfurecia com suas brincadeiras contínuas, e falaria a ele sobre isso quando voltassem para a casa de Gyda. Incapaz de ler ou escrever, com efeito! E escrevendo um manual médico! Mas sentiu sua sabedoria na advertência de empregar a precaução. Ela não devia interferir nas práticas médicas dos curas ou fazê-los perceber que era uma mulher, e certamente não uma mulher que vinha do futuro.

— Você pode nos mostrar o hospitium até que o Padre Theodric volte? — perguntou ela, disfarçando sua voz com uma rouquidão.

O Padre Bernard coçou a axila preguiçosamente e soltou gases fazendo barulho, sem indícios de vergonha ou desculpa. É obvio que pensava que ela era um homem, e Rain supôs que os homens (alguns homens, de qualquer maneira) faziam coisas vulgares assim. Ela viu Selik olhá-la com um maldito sorriso nos lábios, só esperando sua reação desenfreada habitual. Bateu seu pé com impaciência enquanto o jovem sacerdote mordia o lábio inferior com ar vacilante.

— O Padre Theodric, sem dúvida, aprovaria — disse ele hesitantemente.

Rain e Selik se moveram rapidamente para a frente dele no hospitium antes que o Padre Bernard mudasse de opinião. Os olhos de Rain devoraram cada detalhe do grande corredor, que continha mais de vinte macas alinhadas em ambos os lados do chão cheio de correntes de ar. Os Curas, com suas batinas longas e soltas, se ajoelhavam aos lados dos pacientes, freqüentemente concentrados na sangria. Rain tinha visto quadros em textos médicos do procedimento que implicava sanguessugas ou sangrar em copos colocados nos pacientes, mas de qualquer maneira não estava preparada para a visão impressionante.

Cada um dos curas tinha dois potes de cerâmica, um para os vermes chupa-sangue “não alimentados” e o outro para os parasitas inchados de sangue. Os curadores primitivos aplicavam as sanguessugas em praticamente todos os pacientes, sem ter em conta o tipo de enfermidade ou ferida, para tratar tudo, desde ossos quebrados a apoplexias.

Rain sentiu que os dedos de Selik apertavam a parte superior de seu braço como advertência. Ela tentou afastá-lo, mas ele pareceu não notar.

Uma atrás de outra, o diligente Padre Bernard caminhou com eles pelas macas, explicando a condição dos pacientes, freqüentemente apresentando-os aos curas que trabalhavam infatigavelmente com o doente. Além da sangria, Rain não podia criticar realmente os curadores, que faziam tudo o que podiam com os primitivos materiais disponíveis. Afinal de contas, um paciente que sofria de um câncer de estômago só poderia ser mantido tranqüilo e sedado com os efeitos curativos dos remédios modernos e procedimentos médicos.

Agora, a vítima de um ataque cardíaco, por outro lado... ela se perguntou se alguma vez usariam a cirurgia cardíaca.

Perto do final da linha de macas, entretanto, Rain não pôde guardar suas opiniões para ela mesma. Ficou de joelhos ao lado de um cura que tirava sanguessugas inchadas pelo sangue do peito ruidoso de uma moça jovem, de aproximadamente doze anos, que gemia delirantemente por sua condição debilitada. O aroma rançoso que emanava do corpo consumido era muito familiar para Rain ignorar.

— Você sabe o que está acontecendo com ela? — sussurrou ao sacerdote mais velho, que o Padre Bernard apresentou como o Padre Rupert de Rhineland. Ele limpava o sangue do peito fundo da moça com um tecido úmido.

O sacerdote sacudiu sua cabeça tonsurada.

— Nunca vi tal enfermidade antes. Não importa o que tente, ervas, sangrias. nada funciona.

— O mau-cheiro, Padre, é sempre tão forte? E seus vômitos são brancos e contêm grandes quantidades de óleo? Continua perdendo peso embora a alimente com grandes quantidades de mantimentos? — os olhos nublados do ancião aumentaram com surpresa. — Sim, você viu outros casos como este?

— Na verdade, sim. Minha sobrinha foi diagnosticada recentemente com a enfermidade Celiaca, e isto parece notavelmente similar.

— See-leeaca?

— Sim, o corpo desenvolve uma alergia, uma incapacidade de digerir qualquer grão.

— Mesmo? E o que você fez por ela?

— Bem, eu não era seu médico, mas me disseram que pode levar agora uma vida normal, enquanto não comer ou beber nada feito de grãos.

Ele a olhou céticamente, sem dúvida suspeitando de uma cura tão simples.

— Tente, Padre. Que mal faria? Durante uns dias, não deixe ela comer grãos, é Celiaca, você começará a ver uma mudança quase imediatamente.

O ancião inclinou a cabeça pensativamente.

— Vale a pena tentar, acho — ele chamou um criado às suas ordens próximo para que a dieta da paciente fosse mudada imediatamente, logo se voltou para trás, para Rain — Como você disse que era seu nome?

— Irmão Godwine — respondeu ela, então levantou o olhar para ver Selik olhá-la atentamente. Seus olhos brilhavam alegremente com surpresa e o que quase parecia orgulho pelo diagnóstico da moça jovem que ela fizera.

— Você será capaz de ajudá-la? — perguntou Selik quando a ajudou a ficar em pé.

— Acho que sim, mas — ela parou e se dirigiu ao Padre Bernard. — Poderia voltar outro dia e trabalhar com os pacientes? Acho que poderia ajudar, e é obvio, eu poderia aprender muito com você e os outros curadores. Para meu manual médico — acrescentou o último com um olhar pesaroso para Selik.

— A decisão é do Padre Theodric, mas sempre se queixa da carência de bons curadores — então o Padre Bernard a olhou de uma maneira estranha. — Sua voz é... muito alta e melodiosa.

Rain se abaixou, dando-se conta de que se esquecera de baixar a voz.

Então olhos dele se fixaram na mão de Selik, que ainda segurava o braço dela. Como se de repente entendesse a relação entre eles, o Padre Bernard lambeu os lábios secos, perguntando a Selik:

— Desejaria acompanhar o Irmão Godwine se lhe permitirem trabalhar no hospitium?

Selik maneou a cabeça devagar de um lado para outro, com um ar decididamente selvagem em seus olhos cinzas.

O Padre Bernard riu tolamente e lançou um olhar da valorização apreciativa para o rosto e as formas de Rain.

— Agora que penso nisso, tenho certeza que o Padre Theodric dará a boas-vindas a seus serviços.... Sempre podemos usar outro... bom cura, sobretudo se eu recomendo ao bom padre.

De repente entendendo, a boca de Rain se abriu. Oh, Meu Deus! Um sacerdote gay na Idade Média. E pôs seu radar em mim. Depois daquilo, o Padre Bernard lhes ofereceu uma viagem rápida pelo jardim herbarium, onde as plantas medicinais eram cultivadas, e a apoteca primitiva onde outro clérigo tonsurado trabalhava com uma mão de morteiro e misturando em potes de cerâmica poções curativas segundo antigas receitas escritas em uma lista de um livro maior empoeirado. Fascinada, Rain decidiu que definitivamente queria voltar ao hospitium e aprender tudo o que pudesse sobre aquela instalação médica primitiva.

— Quando voltar, assegure-se de se identificar ao sacerdote de serviço. O Padre Ceowulf freqüentemente toma meu lugar. Não podemos ser muito cautelosos. Os soldados saxões estiveram aqui durante o dia todo, procurando algum Viking Proscrito.

O sangue de Rain gelou pelas palavras do Padre Bernard. Poderia ser Selik quem eles procuravam? Estavam perto?

— Mesmo? —perguntou ela com uma voz instável — Por que eles se incomodariam com um Viking?

O Padre Bernard deu de ombros.

— Isso é o que pensei também. Os soldados não têm nada melhor para fazer que procurar um pagão por todas as partes da cidade? Mas é obvio, não disse. O rei Athelstan foi bom com a Santa Igreja. De fato, ele fundou este hospitium bem no ano passado. Então se o rei quer ao dinamarquês deplorável, longe de mim protestar. Eles podem pendurar o Proscrito pelos dedos dos pés e esfolá-lo vivo, pelo tanto que me preocupo.

Rain se encolheu, apenas consciente de agradecer o insensível Padre Bernard por sua hospitalidade e recusar sua oferta de alojamento durante sua permanência em Jorvik. Quando se dirigiram para a entrada, Rain notou um escândalo. Um homem que gritava empurrou um sacerdote grande cujo corpo impedia sua entrada. Ele pedia que um curador fosse ajudar sua esposa, que estava em trabalho de parto de seu primeiro filho há três dias.

— Vá para casa, Uhtred — pediu o sacerdote severamente — Eu te disse antes que deve encontrar uma parteira. Fazemos o trabalho de Deus, aqui. É impróprio para um sacerdote colocar suas mãos nas partes de uma mulher em trabalho de parto.

— Mas Hilde vai morrer. A parteira não virá sem as moedas para pagá-la, e…

— Fora daqui! — gritou o sacerdote, afastando as mãos imundas do homem da manga de sua batina com repugnância — Guarda, venha e expulse este desgraçado da Santa Igreja.

— Maldito, seja condenado ao inferno maldito — blasfemou Uhtred quando viu os guardas da igreja se aproximarem.

— Espere — interveio Rain — Irei com você. Talvez possa ajudar.

Ela ouviu o gemido de Selik a seu lado.

O homem revirou os olhos com tal agradecimento para ela que Rain sabia que o ajudaria, sem importar o que Selik dissesse. Mas surpreendentemente, ele não protestou quando ela começou a seguir o aflito marido. O sacerdote fez um som grosseiro atrás deles e comentou:

— Sacerdotes estrangeiros! Sempre pensando que sabem mais que qualquer outro.

Quando abriram as portas principais da igreja, entretanto, foram incapazes de se moverem. Centenas de pessoas, muitas delas crianças, lotavam cada espaço da catedral, puxando e gritando pelos pães pretos repartidos pelos clérigos.

— É Dia de Esmola — explicou Selik — Os pobres fazem fila por sua miséria de comida, e os sacerdotes dão tapinhas nas costas deles mesmo por sua grande beneficência.

— Você é muito cínico, Selik.

— Você é muito mole — respondeu ele enquanto progrediam devagar pela multidão, atrás de Uhtred.

Rain parou de repente quando viu um garoto e uma garota pequenos, aproximadamente de sete e quatro anos, que estavam em pé perto dela. Eles eram irmãos, óbvio, mesmo com a sujeira que os cobria dos pés nus às cabeças infestadas de piolhos. A menina estava em pé com o polegar firmemente dentro da boca, escutando atentamente tudo o que seu irmão lhe dizia.

— Agora, vai ficar aqui mesmo, Adela, enquanto tento conseguir pão para nós. Promete não se mover?

— Sim, Adam — ela sacudiu a cabeça de cima para baixo, seus olhos estavam arregalados com medo enquanto olhava seu irmão abrir passo astutamente à frente da multidão, beliscando uma nádega aqui, lançando-se entre pernas acolá, finalmente tirando um pequeno pão dos dedos do sacerdote quando ele estava a ponto de dá-lo a uma esfarrapada anciã.

— Volte, sapo maldito — gritou a mulher, em vão. Muitos na multidão se voltaram para olhar o progresso de Adam, houve alguma tentativa de arrebatar seu precioso espólio. Mas não havia nenhuma maneira no mundo de que o diabinho deixasse seu alimento ganhado com tanto esforço. Empurrou-o embaixo da frente de sua túnica suja e correu como se disso dependesse sua vida até sua irmã.

Enquanto Rain se aproximava das crianças, ignorando o protesto zangado de Selik quando a multidão os separou e Uhtred gritou de consternação pela demora dela, Rain viu o garoto rasgar o pão pela metade, e as duas crianças engoliram o pobre pão mofado vorazmente. Obviamente, não comiam há dias.

Rain ficou de joelhos ante a dupla e perguntou à menina:

— Como você se chama, anjo?

Os assustados olhos azuis se voltaram pedindo ajuda a seu irmão.

— Adam — chamou ela, estendendo para ele uma mão, enquanto o polegar da outra foi imediatamente para a boca.

— Por que vocês querem saber? — exigiu o pequeno garoto com os olhos estreitados, pondo suas mãos beligerantemente sobre seus quadris. Rain sentiu a presença de Selik atrás dela, mas ele não falou.

— Vocês dois não deveriam estar nas ruas assim. Onde estão seus pais?

— Não temos.

— Eles... morreram?

— Sim. O que isso importa a você? Vocês, sacerdotes, se preocupam só com seu próprio conforto. Vocês não vieram nem para enterrar a minha mãe.

Rain prendeu a respiração.

— Quando foi isso?

O pequeno rapaz deu de ombros desdenhosamente com orgulho, segurando o cinturão folgado de suas bermudas. Rain acreditou ver um rápido brilho de dor e medo em seus olhos

— O inverno passado.

Um ano!

— E com quem vivem agora?

— Enh!?

— Rain, acabe com isso. Nos demoramos aqui tempo demais — disse Selik, tomando seu braço — Lembre da parturiente.

— Oh, esqueci — disse ela, jogando um olhar de desculpa a Uhtred. Mas primeiro se voltou para o pequeno rapaz.

— Quem disse que cuidava de você?

Ele levantou a cabeça de modo provocador e grunhiu:

— Eu tomo conta de mim mesmo e de minha irmã. Não precisamos que nenhum intrometido sacerdote interfira.

— Só quis ajudar.

— Hah! Bem como Islã.

— O comerciante de escravos? — perguntou Selik com surpresa.

— Sim, o comerciante de escravos. Tentou nos pegar. Mas eu sou muito rápido para o velho gordo repugnante. Ele disse que sabe de um sultão em uma terra longínqua que nos trataria como a seus próprios filhos, nos dando uma casa e boas refeições, mas sei o que ele quer. Sim, eu sei.

— O quê? — perguntou Rain, mesmo enquanto ouvia Selik dizer uma palavra asquerosa atrás dela.

— Ele quer nos sodomizar, ele faz isso, enfiar seu pênis em nossos traseiros — declarou o asqueroso maroto com inocente e explícita sabedoria das ruas — Como vocês, sacerdotes malditos — declarou o pequeno rapaz, cuspindo a seus pés; então pegou a mão de sua irmã e desapareceu entre a multidão.

— Oh, Selik — Rain lançou um grito, quando as crianças já não estavam à vista — Deveríamos ajudá-los.

— Você está fora de sua maldita razão. Não quero criança alguma minha, e com certeza não sentirei carinho por qualquer outra irritante. Coloque isto em sua cabeça dura.

— Mas, Selik, viu os olhos da menina quando olhou para nós sobre o ombro? Eles suplicavam ajuda.

— Você vê e ouve só o que quer, moça. Ouviu o que o asqueroso e esquálido filhote murmurou? Ele não quer ajuda alguma, e acho que o pequeno patife poderia sobreviver em um campo de batalha, imagine nas ruas de uma cidade mercantil.

— Por favor, por favor — pediu Uhtred, puxando a manga de Rain — Minha esposa está morrendo, e você está em pé aqui conversando sobre meninos de rua sem valor.

Rain se voltou então para o aflito homem com cólera.

— E o que faz você pensar que seu filho ainda não nascido merece mais que aquelas duas preciosas crianças?

Uhtred empalideceu, percebendo que suas palavras precipitadas poderiam ter posto em perigo qualquer possibilidade de o curador ajudá-lo.

— Sinto muito. Mas estou tão preocupado com minha Hilde...

Rain maneou a cabeça aceitando sua desculpa, e ela e Selik seguiram rapidamente atrás dele. Rain se surpreendeu pouco tempo mais tarde quando estavam a ponto de entrar em uma choça ordinária. Ela deu a volta no último momento e viu que Adam e Adela os tinham seguido. Apoiavam-se contra uma árvore próxima, olhando enquanto Rain curvava sua cabeça para passar pela entrada baixa. Ela agitou uma mão.

Poderia ter jurado que Adam flexionava o dedo.

 

Várias horas mais tarde, quando Rain e Selik emergiram da atmosfera sufocante da pequena cabana, as crianças tinham ido embora. E o rosto de Selik estava exangue, drenado de toda cor.

— O que aconteceu? — perguntou Rain, pondo uma mão em seu braço com preocupação.

— De verdade, mulher, você me impressiona. Você sozinha pôs sua mão dentro do útero de uma mulher, girou um bebê e o trouxe para a vida e me pergunta o que aconteceu? — ele balançou sua cabeça com incredulidade. — Realiza freqüentemente tais milagres?

Rain sorriu ante seu elogio.

— Muitas vezes. Não são milagres, mas nascimentos. A obstetrícia não é minha especialidade, mas assisti no parto de pelo menos cinqüenta bebês — ela olhou para Selik afetuosamente — Esta é uma maravilhosa experiência, não é?

— Maravilhosa?! Não há nada de maravilhoso em todos aqueles gritos e sangue.

Rain cacarejou com desaprovação, mas não podia dizer que Selik não era veraz. Testemunhar o nascimento da pequena criança o tinha comovido profundamente. Ela se perguntou se ele estivera com Astrid quando ela deu à luz seu filho e se aquele acontecimento o teria lembrado outra vez de tudo o que tinha perdido.

E, pela primeira vez em seus trinta anos, Rain desejou um bebê próprio. O que sentiria ao ter uma vida crescendo dentro dela, olhar as contrações de seus músculos empurrando uma criança ainda não nascida para frente, para a vida, tocar seu próprio bebê pela primeira vez, recém saído do útero?

E se, Oh, Deus, e se o bebê fosse uma vida, respirando manifestação do amor? Como seria a criança se fosse formada do sangue e genes tanto dela quanto de Selik? Que maravilha que seria!

O vivo desejo ficou tão forte que Rain teve que olhar para longe para que Selik não lesse suas emoções expostas. Este é um território perigoso para que entre, senhora, desejando algo que jamais poderá ter.

Peça, e receberá.

Rain ergueu os olhos para o céu. Agora você me diz isto. E quando eu quis voltar para o futuro? E realmente diz que se eu quiser Selik, posso tê-lo? E a seu bebê? Rain fechou os olhos momentaneamente para saborear aquela atraente imagem.

A resposta está em você. Procure em seu coração.

— Me dê um sinal — resmungou Rain.

— Que tipo de sinal? — perguntou Selik, logo acrescentou — Os bebês sempre põem uma expressão tão sonhadora em seu rosto?

— Sim — especialmente quando penso em ter um com você. Então ela decidiu mudar o assunto para um tema seguro. — Acha que Uhtred limpará aquela choça como o aconselhei?

— Aconselhou? Você se subestima, moça — disse Selik com uma risada seca. — Você dá ordens como um guerreiro endurecido. Ele não se atreveria a desobedecer.

— Bem, eu estava realmente zangada. Depois de todos os problemas para salvar a vida de seu bebê, ele poderia morrer em poucas semanas vivendo naquela sujeira. Como as pessoas podem viver assim?

Selik esteve a ponto de falar quando parou repentinamente, empurrando Rain atrás dele. Estavam a meio quarteirão da casa de Gyda, mas ela podia ver os soldados saxões rodeá-la.

— Matarei esses bastardos se fizerem mal a Gyda ou Tyra — disse ele em um tom gelado de voz.

— Pssst!

Eles deram a volta para ver Ubbi que lhes assobiava escondido entre duas casas, que fazendo gestos para que se aproximassem. Quando retrocederam sem chamar a atenção dos soldados, Selik empurrou ela e Ubbi mais longe entre as casas, então estiveram totalmente fora de vista.

— Os soldados o buscam por ordem do Rei Athelstan — disse Ubbi depressa. — Ele está furioso e triste pelo número de guerreiros saxões perdidos em Brunanburh por sua espada, sobretudo por seu primo Elwinus. Dúzias deles vagam pela cidade e a área do porto. O rei oferece cem mancusos de ouro por você vivo. E só vinte e cinco se estiver morto.

A mandíbula de Selik se apertou.

— Fizeram mal a Gyda ou a Tyra?

— Não. Eles saqueiam a casa e dependências da sua maneira habitual, mas não tocam nas mulheres. Tostir, um dos criados de Gyda, está com um nariz quebrado por não ter respondido o bastante rápido às ordens de um soldado, e o comandante ameaça cortar a língua de Gyda se não deixar de irritá-lo. Mas acho que estão seguras.

— E meus homens e cavalos?

— Todos fora de vista. Gorm conseguiu nos advertir bem a tempo.

— Leve Rain à loja De Ella. Deve ficar segura lá. Então se encontre comigo aqui. Não diga não. Não vá à casa de Gyda. Eles certamente a vigiarão rigorosamente daqui em diante.

— Não, não quero te abandonar — protestou Rain.

O rosto de Selik estava rígido pela determinação.

— Não me contradiga nisto. Sua segurança e a da família de Gyda poderiam ser postas em perigo por um movimento estúpido de sua parte. Me obedecerá ou sofrerá as conseqüências.

— Mas e sua segurança?

Com os olhos mordendo furiosamente, Selik espetou:

— Minha vida é da minha conta, e só da minha. Melhor que entenda isto agora — ele se voltou para Ubbi. — Leve-a para Ella e se assegure de que vai ficar.

Selik desapareceu antes de que ela tivesse a possibilidade de lhe dizer que tomasse cuidado, de lhe dizer que o amava.

Arrastando os pés, Rain seguiu Ubbi pela cidade até que alcançaram a rua onde as lojas mostravam quantidades de tecido em um arco-íris de cores e texturas, desde lã grossa à seda mais fina. Umas inclusive tinham roupas confeccionadas, túnicas, capas e braies.

Finalmente, pararam ante um edifício que parecia mais próspero que os outros. Embora uma moça jovem trabalhasse no posto da frente, Ubbi conduziu Rain em volta do edifício para uma porta traseira. Chamando em voz alta, ele esperou até que um velho criado masculino respondeu, logo exigiu importantemente:

— Temos necessidade de falar com sua ama, Ella. Está aí dentro? — o criado aquiesceu e lhes indicou um corredor grande onde vários trabalhadores cortavam e costuravam várias roupas.

— Rhoda! — gritou Rain quando reconheceu a mulher de meia-idade que se aproximou. — Como chegou aqui? — sem esperar uma reação, agarrou a que tinha sido durante muito tempo a mulher da limpeza de sua mãe e a abraçou carinhosamente. — Você não tem nem idéia de quanto é bom ver alguém de casa.

— Senhor, as tolices de Rubi outra vez, não! Pensava que tinha acabado com aquela tolice quando Rubi desapareceu faz mais ou menos uma década. Meu nome é Ella, não Rhoda.

Rain continuou abraçando Rhoda, apesar de seus protestos e contorcimentos.

— Gawd! Um maldito sacerdote está me acariciando. Terei que ir me confessar agora, provavelmente consiga vinte Pater Noster de penitência. Tendo os joelhos machucados durante um dia inteiro — se queixou Rhoda.

Rindo, Rain percebeu que ainda usava o disfarce de monge e liberou a nervosa mulher de seu abraço de urso. Tirando o capuz, expôs sua trança loira longa e seus traços femininos.

Ella pôs uma palma aberta sobre o peito.

— Senhor, meu coração parece que vai parar em mim garganta. Quem é você, moça? Uma camarada louca de Rubi, sem dúvida. Ela era a única tola que me chamava algumas vezes de Rhoda.

— Filha dela. Rubi é minha mãe, e Thork era meu pai — explicou Rain, cruzando os dedos às costas.

— Não, isso não pode ser — disse a mulher, contemplando Ubbi que ergueu suas mãos em uma atitude de “não me pergunte”.

— Ela e Deus me enviaram para salvar Selik.

A mandíbula de Rhoda caiu.

— Um anjo da guarda? — perguntou Ella a Ubbi com voz maravilhada.

Meu Deus!! Rhoda e Ubbi eram os dois da mesma espécie. Rain podia imaginar Ubbi devorando o National Enquirer de Rhoda no futuro e compartilhando seu apetite insaciável pelas intrigas.

— Sim, e até encontrei uma pluma nas peles de sua cama um dia — revelou Ubbi com presunção.

— Vocês dois, parem de falar de mim como se eu não estivesse aqui. Não sou um anjo. Sou um ser humano, igual a você dois, babuínos.

— “Babuinvos”? — perguntaram ambos simultaneamente, e Rain bufou com irritação, evitando explicar.

Ubbi explicou a perigosa situação na casa de Gyda. Ela consentiu facilmente em que Rain permanecesse com ela até que o perigo passasse.

— Por favor, por favor volte o quanto antes e me diga o que está acontecendo — urgiu Rain a Ubbi quando ele partia. — Estou tão preocupada com Selik. Seu ódio pelos saxões pode fazer com que seja descuidado.

— Não tema, minha senhora. Esta ínfima tropa de cachorrinhos saxões não são nenhum verdadeiro perigo para o amo. Agora, com Steven de Gravely, são outros quinhentos[17]. Ele segue as próprias regras do diabo e das artimanhas. Ao final, Gravely e seus repugnantes artifícios, sem dúvida, causarão a perdição de meu senhor.

Tremendo com apreensão, Rain lembrou as palavras de advertência de Gyda quando Ubbi partiu. Gyda lhe havia dito que Selik tinha a intenção de entrar no coração do território saxão, nas terras de Gravely, esperando matar finalmente seu odiado inimigo. Agora que ela ouvia diretamente de Ubbi como o iminente perigo de Selik era Steven, Rain começou a considerar seriamente o plano impressionante de Gyda de seqüestrar Selik até que o desprezível senhor se ocultasse outra vez.

— Rhoda, quer dizer, Ella, quero te falar sobre esse plano que Gyda tem para salvar Selik

— Plano? Não, não, não! — exclamou Ella, pondo suas mãos sobre os ouvidos. —Igual a sua mãe, se ela for, tentando me enredar em seu “golpe de mestre” para jogar o laço em seu pai.

— Ela fez? — perguntou Rain com um sorriso. Realmente, começava a ver sua mãe até mais escandalosa do que jamais tinha sonhado.

Mas Ella não fez caso de sua pergunta, divagando:

— Não me meta em seus complôs loucos. Depois tentará me implicar, eu sei.

— Bem, realmente, preciso de seu conselho.

Ela gemeu com um suspiro resignado e se afundou em um banco contra a parede quando Rain se lançou ao plano absurdo de Gyda. Quando terminou, Ella exclamou:

— Senhor Bendito, todas vocês perderam o juízo. A menos que eu me engane, Selik pesa tanto quanto um potro. Como planejou vencer um tipo tão grande?

— Com ervas.

— E como o prenderiam?

—Preso a uma cama.

Ela a olhou incredulamente.

— Durante quanto tempo?

Rain avermelhou e se moveu incomodamente ante o interrogatório muito perspicaz de Ella.

— Não tenho certeza. Aproximadamente duas semanas mais ou menos, acho — suas últimas palavras saíram em um sussurro direto, mas Ella a ouviu.

— Louca! Te disse isso antes, todas vocês deveriam ser fechadas em uma casa de loucos.

— Sei que parece uma loucura, mas o que mais podemos fazer? Tentei falar com ele, mas não consegui nada. Ele é tão obstinado e decidiu ir atrás de Steven. Até Ubbi acredita que se ele for às terras de Gravely agora, será capturado e provavelmente… e provavelmente assassinado —a voz de Rain se quebrou, e seus olhos se encheram de lágrimas enquanto se deixava cair ao lado de Ella no banco.

— Ama o tolo, não é?

Rain moveu a cabeça com um soluço, limpando o nariz na manga.

— Bem, me deixe pensar nisso um pouco. Onde estavam planejando manter o garoto prisioneiro, ainda se fossem capazes de seqüestrá-lo? Não é que eu ache que seja possível.

Rain inclinou os olhos com vergonha para Ella, que lhe pareceu quase como se fosse da família, embora acabassem de se conhecer.

— Há alguma possibilidade de que pudéssemos escondê-lo aqui? Os soldados olharão a casa de Gyda.

Ela saltou sobre seus pés indignadamente.

— Eu já sabia. Eu já sabia. Vocês estão me colocando diretamente no meio de seus loucos planos. Durante dez anos estive quebrando o traseiro tentando estabelecer um negócio, e tudo dará em nada se eu fizer o que querem. Oh, Senhor! Oh, Senhor! Eu já sabia que as coisas estavam indo bem demais.

Quando o discurso de Ella parou um pouco, Rain perguntou:

— Pode me ajudar?

Ella revirou olhos.

— Não posso ter Selik preso aqui. Tenho muitos trabalhadores indo e vindo, sempre colocando seus narizes em meus assuntos.

Os ombros de Rain caíram com a desilusão.

— E a fazenda de Selik fora da cidade? A maior parte dela foi queimada por Gravely e seu bando diabólico, mas os alicerces e o corpo do celeiro estão ainda lá, segundo me lembro. Levará só algumas horas de trabalho pôr um novo teto de palha.

O espírito de Rain de repente se iluminou com esperança.

— Novos bancos, as camas e todas as coisas necessárias poderiam ser compradas na cidade. Talvez isto pudesse funcionar. Mas pessoas vivendo na terra de Selik de repente quando está abandonada há uns dez anos chamaria a atenção, por certo. Pode pensar em alguma razão para viver ali?

Uma imagem clara, sem relação, cintilou na mente de Rain, das duas crianças que tinham conhecido naquele dia, Adam e Adela, e do enorme número de crianças sem lar que havia nas ruas.

— Um orfanato — respondeu Rain sem vacilar. — Vou abrir um orfanato — Rain agarrou Ella, então, e a abraçou carinhosamente. — Oh, Ella, obrigada, obrigada. Juro que te compensarei por sua ajuda algum dia.

Ela baixou os olhos de uma maneira extranhamente tímida e ofereceu vagamente:

— Bem, talvez haja alguma coisa que possa fazer por mim.

— O que for. Só fale.

— Poderia por acaso falar bem de mim para Ubbi?

A boca de Rain se abriu de repente com completo assombro. Então começou a rir com tanta força que não podia parar, finalmente se dufocando e bebendo um copo de água que Ella, desgostosa, lhe trouxe.

— Isso não é engraçado.

— Oh, Ella — disse Rain finalmente com voz entrecortada — não é de você que estou rindo. É da estranha roda cômica que a vida inteira tomou. Se você me dissesse há semanas que eu bancaria o Cupido alguma vez com alguém, para não mencionar com dois seres da Idade das Trevas incompatíveis, eu teria dito “De maneira alguma!”.

— Incompatíveis! — disse Ella, acentuando aquela única palavra. — Hah! Não há nada mais incompatível que você e Selik.

— Tem razão sobre isso, Ella. Você tem razão sobre isso.

Rain tentou sem êxito demonstrar algum interesse pelo próspero armarinho que orgulhosamente Ella lhe mostrava, as melhores sedas baudekin de Bagdad, grego Samite, os linhos da qualidade mais fina conhecidos como Sindon, similar à grama delicada, e é obvio, a famosa lã de Yorkshire. Até mesmo o bordado mais delicado e os adornos de marta ou de raposa não conseguiram distrair, chamar a atenção de Rain.

Finalmente, Ella deixou de tentar entreter ou impressionar Rain e a conduziu acima para seu pequeno dormitório, que compartilhariam.

Incapaz de dormir. Rain ficou angustiada pelo destino de Selik e da família de Gyda até que Ubbi foi até ela na tarde seguinte, lhe assegurando que ninguém estava seriamente ferido. Mesmo assim, sua preocupação aumentou quando entrou na casa de Gyda e viu a destruição licenciosa causada pelos soldados saxões em sua busca por Selik.

As mesas de cavalete tinham sido derrubadas e destroçadas com machados. Os barris e os potes de cerâmica, de farinha, de produtos alimentícios, leite, mel, ovos e hidromel, estavam pulverizados por toda parte. As tapeçarias e as cortinas tecidas, que cobriam as paredes para não deixar passar os ventos de outono, estavam jogadas em tiras destroçadas.

Em todas partes que Rain olhou, viu os habitantes trabalharem diligentemente para limpar a confusão conforme às ordens severas de Gyda e Tyra. Uma boa fogueira de bens danificados já ardia alegremente no pátio traseiro e crescia em intensidade quanto mais objetos danificados eram acrescentados.

— Gyda, sinto muito. Isso é horrível.

Gyda elevou a vista de onde limpava um montão de farinha grudenta.

— Sobrevivemos a tal destruição freqüentemente, e em ocasiões piores que esta. Ao menos, ninguém foi assassinado, graças ao Senhor.

Rain viu o homem com o nariz quebrado que Ubbi tinha mencionado, Tostir, e se aproximou para examinar a ferida. Não havia realmente nada que ela pudesse fazer por ele, além de aconselhá-lo a manter compressas frias sobre ele para reduzir o inchaço.

Voltando para o lado de Gyda, Rain pegou outra vassoura e começou a trabalhar junto a ela.

— Onde está Selik? Estive tão preocupada com ele.

— Mantendo-se oculto, espero.

— Oh, não! Ele ainda não deve ter ido atrás de Steven de Gravely já, não é?

— Não, ainda, mas será logo, aposto. Logo que se assegure de nossa segurança, aqui.

Rain pôs uma mão sobre a manga de Gyda.

— Decidi que você tem razão, Gyda. Temos que fazer algo para impedir que Selik se mate. E isto é o que ele faria, se se arriscasse em terras saxãs neste momento.

Gyda deixou de trabalhar e escutou atentamente as palavras de Rain.

— Quer dizer que uma vista de primeira mão da brutalidade saxã te convenceu do perigo que ele confronta?

— Sim, mas mais que isto. Selik sente uma raiva cega ante a mera menção de Steven de Gravely. Nas melhores circunstâncias, ele enfrentaria a morte eventual em sua vingança contra os saxões. Mas Gravely, e qualquer homem que pudesse fazer o que ele fez à sua filha e seu neto, não consigo nem pensar em que tática desviada poderia usar para atrair Selik desprotegido, ou que coisas horrendas poderia lhe fazer se o capturasse.

O rosto de Gyda ficou rígido em uma dura máscara.

— Não invejo Selik pela sua vingança contra Gravely. Mataria o diabo eu mesma com minhas mãos nuas se pudesse. Mas concordo com você em que a raiva de Selik pode diminuir suas capacidades de repelir tal demônio — ela estudou o rosto de Rain com cuidado. — O que fará?

— Ella consentiu em ajudar, mas precisarei de sua ajuda também.

Gyda comcordou e Rain continuou explicando os detalhes do plano. Ambas concordaram em que o tempo tinha importância crítica, já que Selik poderia partir a qualquer momento.

Antes daquela tarde, não só a casa de Gyda estava em uma condição razoavelmente limpa e segura, mas também as preparações iniciais tinham sido completadas para “o seqüestro” de Selik. Ella apareceu por lá, oferecendo algum conselho adicional, e entre as três, fizeram preparativos para fazer enviar uns homens para reparar o celeiro na propriedade de Selik. Gyda enviou um criado para comprar para Rain as ervas especificadas, junto com algumas provisões básicas.

— E cordas — Rain pediu uma corda super grossa e forte.

Mas Selik não voltou naquele dia, nem enviou palavra alguma sobre seu paradeiro. E não voltou no dia seguinte, tampouco. Quando Rain se deitou na noite seguinte, seus nervos estavam tensos e tão retesados que não conseguia dormir. Caminhou até a abertura estreita de uma janela e olhou para a noite iluminada pela lua.

Onde estava Selik? O que ele fazia? Inclusive estaria vivo? Oh, Deus, por favor, proteja-o.

Selik se apoiou contra a moldura da porta, olhando Rain quando ela inconscientemente falou em voz alta. Suas palavras susurrantes lhe chegaram à deriva pelo ar.

Inferno maldito! A moça está rezando por mim, percebeu Selik com um sobressalto. Não tinha certeza de gostar da idéia. Esfregou os dedos sobre os olhos com cansaço. Santo Thor! Não desejava nada mais que se deitar e dormir. Passara o último dia e meio tentando evitar os soldados saxões, conduzindo-os em uma perseguição perigosa para longe de Jorvik, matando um ou mais dos seguidores leais de Athelstan no processo. E devia partir com os primeiros raios de sol, se ia perseguir Steven de Gravely.

Um surdo sentimento de apreensão irritava Selik, diferente de qualquer outro que jamais sentira. Aquilo era uma premonição de que não voltaria vivo desse confronto com Gravely? Ou era algo mais?

— Selik! — Rain tinha se voltado e o vira em pé na entrada. — Onde esteve? Por que não nos avisou onde estava, seu estúpido imbecil?! — a voz chorosa de Rain, cheia de preocupação, contrastava de uma maneira estranha com sua insultante maneira de chamá-lo.

E, mesmo enquanto o castigava, Rain se lançou a seus braços, quase atropelando-o em seu esgotamento. Ela envolveu os braços em torno de seu pescoço e o abraçou fortemente, como se nunca mais quisesse deixá-lo ir. Então beijou seu pescoço, faces, olhos, sobrancelhas, queixo e lábios, tudo com beijos curtos, frenéticos. Ao mesmo tempo, suas mãos o tocaram em todas as partes, como se estivesse provando que ele estava realmente vivo e bem.

Algo novo e intenso flamejou profundamente em sua alma, e durante um breve momento, Selik abraçou as costas dela, saboreando o aroma delicioso de seus cabelos limpos e o calor de sua pele suave. Finalmente, energicamente a separou dele, mantendo-a a distância.

— Sentiu minha falta, não, moça?

— Sim, seu bruto — disse ela, colocando seu braço no dela e conduzindo-o à cama. — Sente-se antes que caia, homem tolo. Dormiu um pouco desde a última vez que te vi?

Ele sacudiu a cabeça, mas obedeceu suas ordens, intrigado pela imagem de Rain se preocupando excessivamente por ele.

— Tire as roupas. Está cheirando como um cavalo.

Suas palavras não tinham nenhuma intenção lasciva, mas apesar disso os lábios de Selik se curvaram para cima quando tirou as asquerosas roupas, exceto o pano de sua virilha. Na verdade, não achava que pudesse se levantar por circunstância alguma. Até seus ossos doíam.

Seu sorriso ficou maior, entretanto, quando ela acendeu uma vela e voltou para a cama. Ajoelhando-se ao lado dele com um tigela de água, ensaboou um quadrado de tecido de linho com o áspero sabão e começou a lavar seu rosto, pescoço e braços com suave cuidado. Até mesmo suas mau-cheirosas axilas e pés cobertos de pó.

A cabeça de Selik martelou levemente, tentando lembrar a última vez que qualquer pessoa tinha cuidado dele o bastante para lavar sua pele. Quando menino, abandonado na corte do rei Harald na Noruega, foi forçado a se virar por si mesmo. E quando se casou com Astrid, ele cuidava dela, sendo mais forte e não sendo necessários tais serviços.

Mas ser cuidado era bom, percebeu Selik. Verdadeiramente bom.

Quando ela terminou e o secou com um tecido de linho suave, perguntou-lhe solicitamente:

— Está com fome? Quer que eu desça pegue alguma comida?

Ele sacudiu a cabeça.

— Não, só quero descansar — ele se deitou na estreita cama de armar, logo mudou seu peso para a borda externa, longe da parede, e lhe fez gestos. — Venha, deite-se comigo. Só durante um momento. Sinto-me tão frio, e preciso do calor de seu corpo — ele ainda usava só a leve roupa íntima, e o ar do outono lhe esfriava a pele.

Surpreendentemente, Rain não protestou à sua maneira rabugenta habitual. Ao contrário, obedeceu sem vacilar, sorrindo timidamente, e se espremeu no espaço estreito que ele tinha deixado para ela, contra a parede. Ele puxou uma manta de lã sobre ambos.

Selik fechou os olhos com um suspiro enquanto ajustava seus corpos, seu peito contra as costas dela, sua virilidade contra as nádegas. A cabeça dela descansou contra o lado interior de seu braço esquerdo, enquanto seu braço direito se curvava ao redor da cintura. Sem pensar, ele moveu a mão para cima e a pôs sobre seu seio esquerdo e a manteve ali. Rain aceitou seu gesto possessivo sem resistência, parecendo prender o fôlego. Ele não se perguntou sobre sua boa sorte, perguntando-se silenciosamente se a moça tinha sofrido um golpe na cabeça. No passado, já lhe teria dado uma bofetada por tal descaramento.

Obrigado, Deus. Ou Odin, sussurrou ele em sua cabeça com humor sardônico.

Você é bem-vindo.

Selik sorriu ante os truques que sua mente estava criando e se aconchegou mais perto de Rain. Na calma da noite, quando todos na casa dormiam, ele sentiu um sentimento esmagador de paz, de estar de bem com o mundo. No momento, não podia pensar em seu passado esbanjado, na confusão dos poucos dias passados, e certamente não no futuro sem vida que o esperava.

Selik saboreou o prazer puro de só segurar Rain em seus braços. Naquele momento fora do tempo, queria experimentar cada um dos sentidos se expandindo e florescendo dentro dele como as pétalas de uma flor delicada.

Retirando a trança sedosa do ombro dela, Selik tirou a tira de couro e penteou com os dedos sensualmente os longos fios até embaixo, além das omoplatas. Levou as pontas até seu rosto e inalou profundamente, deleitando-se com o aroma combinado do áspero sabão caseiro de Gyda e da “Paixão” de Rain.

Expondo sua nuca, Selik levemente remontou com a ponta do dedo a curva delicada onde seu pescoço encontrava os ombros.

— Selik — gemeu Rain.

— Shhh. Só quero te abraçar. É tudo, juro.

Rain riu nervosamente.

— Os homens vêm dizendo isso às mulheres há séculos.

Ele riu entre dentes suavemente.

— Bem, talvez eu tenha dito o mesmo algumas vezes ante a esperança de colher uma certa recompensa, mas não é o que quero dizer agora. Realmente, só quero te tocar — ele vacilou, logo admitiu — Não é isso, não é completamente verdade. Tenho que te tocar.

Rain deu a volta e pôs uma mão de cada lado de seu rosto.

— Tudo bem, Selik. Eu também quero que você me toque.

Selik gemeu e revirou seus olhos. Agora me diz isso! Hah! Onde estavam vocês, deuses, antes que eu soubesse do risco de fazer um bebê? E você, Deus, como pôde pôr esse idiota do Onan em sua Bíblia? Não imaginou que os homens de todas as idades desejariam se proteger da paternidade no “derrame de sua semente”? Oh, essa foi uma brincadeira cruel, você se aproveitou da humanidade!

Rain já o tinha empurrado de costas e se inclinava sobre ele.

— Sua pele é como pedra dura e áspera, como a pedra-pomes, em alguns lugares — disse ela roucamente, roçando seus nódulos pela sua face e mandíbula. — Mas suave e lisa como mármore em outros — ela varreu sua palmas abertas pelos planos de seu peito e abdômen para demonstrar.

Ele respirou abruptamente ante seu delicioso contato.

— Está cega, querida, se pensa isso — sussurrou ele, contente. Entretanto, por seu elogio suavemente dito. — Sou um pedaço derrubado de granito comum, sem dúvida alguma, feio derrubado pelo tempo e os elementos.

Apoiando-se em um cotovelo, Rain alcançou e desenhou com o indicador ao longo das linhas da cicatriz dentada que corria do seu olho direito até a boca, logo o moveu para baixo para a áspera palavra, “Raiva”, que ele esculpira no próprio antebraço.

— Suas cicatrizes se parecem com os grãos em um pedaço de madeira curtida. Elas mostram seu caráter.

Selik sacudiu a cabeça tristemente de um lado para o outro ante suas desarmantes palavras.

— Lamento que não tenha me conhecido antes. Eu teria te agradado então, garanto. E não só pelo aspecto, ou no esporte da cama. Não, de qualquer maneira. Eu era inteiro, então. Um homem.

Rain fez um pequeno som de consternação e se sentou de supetão. Seus olhos cintilaram furiosamente.

— Você é um homem tão tolo. Sim, eu disse homem. Não sabe que jamais encontrei alguém que fosse mais homem do que você?

Um vazio enorme em Selik começou a se encher de repente. Apesar de sua inapetência para aceitar as palavras de Rain, ele quis acreditar nelas seriamente. Durante os dez anos anteriores, desde que falhara em proteger sua esposa e seu filho, Selik se sentira mutilado, menos que um homem. Com suas poucas preciosas palavras, Rain começava a deixá-lo inteiro outra vez, deixando para trás um pequeno pedaço de seu orgulho.

— Obrigado — disse ele com uma voz crua de repente, vencido por aquele novo sentimento de plenitude. Decidiu que tinha que recorrer ao humor ou trairia sua vulnerabilidade. — Isto significa que já não me considera uma besta?

— Bem, às vezes — disse ela provocativamente, contemplando-o com tal aberto desejo nos olhos que Selik não sabia como resistiria a fazer amor com ela. E fazer amor era uma impossibilidade, agora que ele sabia que poderia fecundá-la com apenas a parte mais diminuta de sua semente, mesmo se se retirasse cedo. Sobretudo, já que tinha um presságio sobre essa próxima viagem às terras de Gravely. Com toda a probabilidade, não voltaria. E jamais deixaria outra mulher e criança vulneráveis outra vez.

Mas de qualquer maneira, uma voz da diabrura em sua cabeça sussurrou, poderia brincar um pouco. Sempre pode parar. A quem pode fazer mal isto?

Com um gemido, disse a Rain de repente:

— Parto à alvorada. Posso... posso não voltar.

Rain o surpreendeu assentindo com a cabeça.

— Suspeitava que iria logo. Para Steven de Gravely.

— Destaquei dois guardas para ficar com você e deixarei muitos moedas para pagá-lo durante um ano.

— Um ano! — gritou Rain, logo pareceu fechar qualquer expressão de seu rosto.

— E o que fará quando eu me for? — perguntou ele, incapaz de parar de tocar a suave carne de seu braço enquanto empurrava suavemente a manga de sua túnica. Sorriu quando sentiu como seu pêlo se arrepiava sob sua leve carícia.

Ela tocou seu pulso, de maneira distraída riscando a pulsação que palpitava ali com um movimento circular de seu polegar. Perplexa, ela respondeu:

— Trabalharei no hospitium. Sei que eu poderia ajudar, e poderia aprender muito.

Ele maneou a cabeça.

— Enquanto levar os guardas com você. E seja cautelosa com os ardilosos sacerdotes. São degenerados, alguns deles.

— Há alguma possibilidade de que mude de opinião sobre a saída de amanhã? — ela o contemplou atentamente, como se sua resposta fosse de enorme significado.

Ele sacudiu a cabeça sem vacilar.

— Já demorei muito tempo. Gravely pode já ter ido embora, me evitando outra vez.

Ela mordeu o lábio inferior, como se considerasse alguma decisão transcendental, logo o olhou cautelosamente sob suas pálpebras entreabertas. Ele estreitou os olhos com receio. A moça arquitetava alguma travessura, podia garantir. Ela saltou de repente e se afastou da cama e de seu alcance.

— Vou pegar alguma comida e ale para nós.

— Não quero nenhuma maldita comida ou ale. Volte a se deitar.

— Só vai ser um segundo — disse ela e se foi antes que ele pudesse detê-la. Pouco tempo mais tarde, ela o despertou, tendo voltado com um prato enorme de carne de cordeiro fria, pedaços de queijo duro, fatias de pão e dois copos do ale de Gyda. Embora ele protestasse outra vez que não tinha fome, comeu cada pedaço de comida que ela lhe empurrou.

— Este ale está amargo — queixou-se ele.

— Provavelmente é só o sabor das especiarias que Gyda pôs na carne.

Ela, sem dúvida, estava certa. Gyda tinha realmente uma mão pesada para condimentos em sua comida. Quando terminou cada gota de ale amargo, investiu para Rain e a atraiu para a cama com ele. Acariciando com o nariz seu pescoço, grunhiu:

— Agora, onde estávamos?

Rain riu, logo pretendeu considerar sua pergunta com grande seriedade. Ele aproveitou sua pausa para desatar a corda de sua túnica e levantar a roupa sobre sua cabeça. Ela usava só as leves peças íntimas, de cor de carne, que cobriam absolutamente nada.

Não mostrando nada de seu acanhamento habitual em seu corpo, ela se ajoelhou ante ele, seu rosto estava de repente sombrio.

— Selik, eu te amo. Não, não fique com esse olhar teimoso. Acontece, eu te amo e… e não importa o que acontecer, queria que lembrasse disso.

Suas palavras o tocaram em um lugar frio, há muito tempo escondido profundamente dentro dele, e o mel de seu amor fluiu sobre ele. Seu coração se ampliou quase até o ponto da explosão, e todo ele estava cheio de uma neblina de desejo. Não formando redemoinhos no sangue, com a paixão batendo na parede que havia sentido de vez em quando, quando estava profundamente excitado, mas suave, insuportavelmente intenso, aumentando os sentidos que ameaçavam fragmentar sua alma.

— Me toque — sussurrou ele. — Por favor... apenas me toque.

E ela o fez.

Com lentidão, deliciosamente lenta e cuidadosa, Rain usou as pontas dos dedos e as palmas, os lábios e dentes, seu hálito quente e os dedos dos pés, suas pernas longas e seios seguros para adorar cada polegada de seu corpo. Cada vez que ele tentou tocá-la em troca ou devorar seus lábios em um beijo, ela fugiu de seus esforços.

— Não, me deixe.

Todos os pensamentos de Selik se centraram em sua excitação quando sentiu que sua defesa escorregava mais perto e mais perto da borda. Quando ela começou a tirar totalmente as roupas íntimas dele, ele a parou, finalmente ganhando um pouco de controle.

— Não, querida, não faremos amor.

Rain levantou o queixo com obstinada rebelião.

— Como você chama o que estamos fazemos?

Ele riu de sua rápida percepção.

— Jogo.

— Não pense que pode me distrair me mandando um de seus devastadores sorrisos.

Ele sorriu ainda mais amplamente.

— Meus sorrisos são devastadores? Eu não tinha dado conta. Terei que praticar mais, acho, agora que sei de seus poderes letais.

Rain espetou suas costelas.

— Por que disse que não faríamos amor?

— Quis dizer que não haverá nenhuma consumação — disse ele, de repente sério.

— Por quê?

Oh, Senhor! Agora o que digo? Não posso lhe dizer a verdade. Ela sem dúvida diria que não se preocupa se eu lhe der minha semente. E em um momento de debilidade, eu poderia me abrandar.

Poderia mentir.

O quê? Pensava que mentir era um pecado, um de seus dez mandamentos.

Bem, às vezes tenho em conta um pouco de flexibilidade.

Forçando seu rosto em uma máscara suave, Selik segurou o queixo de Rain em seu aperto, exigindo sua atenção:

— Há uma boa razão pela qual não te penetrarei, Rain. Posso combater amanhã, e não posso me arriscar a debilitar meu corpo com a consumação. Este é o costume de muitos guerreiros — mentiu ele, quase se engasgando com as palavras.

Rain aquiesceu hesitantemente, entendendo.

— Mas isso não quer dizer que um guerreiro não possa saborear um pouco de prazer — disse ele com uma risada. Antes que ela tivesse uma possibilidade de reagir, ele a levantou pela cintura e a pôs montada em seus quadris. Tudo o que separava a bainha de sua espada eram os finos tecidos de sua virilha e as roupas íntimas de renda de sua mulher. Bastante, esperava.

Então ele cruzou suas mãos atrás de sua cabeça e exigiu:

— Agora, quero que crie algumas lembranças para eu levar comigo amanhã — Elas deverão durar para sempre.

Os olhos de Rain se encheram de lágrimas, como se o entendesse. Tudo tomou um resplendor limpo, então. Como uma brisa de verão purificadora, sua essência o rodeava e envolvia. Ele estava morto por dentro, e Rain irradiava uma vitalidade que ele ansiava.

Quando seus lábios se moveram para apenas um fôlego dos dele, ele urgiu em um sussurro áspero:

— Diga as palavras outra vez. Uma vez mais.

Ela sabia, sem lhe perguntar, a que palavras se referia.

— Eu te amo. Seu condenado, doce, enfurecedor, adorável viking, te amo. Te amo. Te amo...

Selik ouviu as palavras que ressonaram de uma maneira estranha em sua cabeça quando seu corpo ficou de repente pesado e letárgico. Não podia manter as pálpebras abertas. Pelo visto, estava mais cansado do pensara. Mas as palavras pareceram maravilhosas quando se estenderam sobre ele como uma carícia.

Antes de dormir, pensou ouvir Rain dizer algo mais.

— Por favor, me perdoe, Selik. Faço isso por seu próprio bem.

 

A primeira coisa que Rain fez pela manhã foi pegar Ubbi e arrastá-lo ao solar privativo de Gyda. Esperava recrutar sua ajuda no transporte do peso morto de Selik da casa de Gyda ao celeiro de Selik fora da cidade.

— Ubbi, tenho uma confissão a fazer. Realmente sou um anjo da guarda enviado por Deus — Rain bateu na madeira atrás de suas costas pela sua deliberada mentira, então cruzou suas pernas também, para desencargo de consciência.

Os olhos turvos de Ubbi se arregalaram com pratos.

— Bem, eu já sabia, senhora. Disse ao amo, repetidas vezes, disse, mas ele não acreditou em mim. Você vem da adição de um país idiota com pessoas idiotas e costumes idiotas, mas eu sabia. Tenho um sentido para tais coisas, tenho.

— Bem, Ubbi... a propósito, você é cristão?

Ele pareceu hesitante.

— Fui batizado, bem quando o amo foi, mas ainda adoro os deuses nórdicos, também — ele abaixou a cabeça com vergonha ante a admissão.

— Está bem — disse ela, acariciando-o no ombro. — Deus o entende.

— Ele entende? — perguntou Ubbi com esperança.

— Sim, e Ubbi, Deus me deu uma mensagem para você — Vou arder no inferno por isso, Deus?

Não.

Rain revirou os olhos e olhou para Ubbi, cuja mandíbula tinha caído praticamente em seu peito.

— Deus me enviou uma mensagem? — perguntou ele, engolindo em seco, temeroso.

— Sim, ele disse que deveria me ajudar a estabelecer um orfanato para todos as crianças pobres, sem lar de Jorvik.

— Realmente? Onde?

— Na velha fazenda de Selik.

Ubbi ofegou e se apoiou contra o braço de uma cadeira próxima, como se suspeitasse que ela estava a ponto de pedir que lhe fizesse algo que não gostaria.

— O amo não vai permitir que ninguém esteja naquela terra. Além disso, a casa foi incendiada.

— Vamos usar o celeiro. Já tem um novo teto desde ontem, e Gyda e Ella vão enviar alguns móveis e provisões para lá hoje.

— E milord Selik esteve de acordo com tudo isso? — perguntou ele, piscando incredulamente.

— Bem, não exatamente.

Ubbi estendeu seu pescoço para cima para conseguir olhar melhor para o rosto dela, logo gemeu e pôs uma palma aberta sobre seu coração.

— Oh, Senhor, Oh, Senhor, Oh, Senhor. O amo não sabe, não é?

Rain sacudiu a cabeça.

— Vai me ajudar?

— O amo me matará, com certeza — gritou ele, puxando desesperadamente seus cabelos rebeldes com ambas as mãos. — Tem certeza de que Deus pediu que eu te ajudasse? Talvez fosse algum outro Ubbi.

Rain sorriu.

— Não, ele expressamente te mencionou. A menos que você negue, é obvio.

— Como posso repudiar um dos próprios anjos de Deus? É uma posição injusta a que está me colocando, senhora.

Se você ao menos soubesse!

— Há até mais, Ubbi, mas tem que me prometer que até se decidir se vai ou não me ajudar, não tentará destruir meus planos.

— De... destruir seus planos — ofegou Ubbi. — Como ainda pode pensar que eu o faria?

— Bem, Ubbi, tenho um artigo muito grande para enviar à granja. Vai me ajudar a subi-lo em uma carroça e logo até o desvão do celeiro?

— Um grande... O que é? — perguntou ele com receio.

— Venha comigo — disse ela, lhe fazendo gestos para cima. Quando chegaram ao dormitório, ela retrocedeu e deixou o pequeno homem entrar primeiro, pondo suas mãos sobre seus ouvidos para amortecer os gritos de alarme de Ubbi.

— Oh, meu Deus! Oh, sagrado Thor! O amo está morto — chorou Ubbi, lançando-se ao corpo de Selik, que ainda estava perfeitamente estendido na cama, inconsciente e gelado.

— Não está morto, Ubbi — assegurou-lhe Rain rapidamente. — Só está dormindo.

Incrédulo, Ubbi sacudiu os ombros de Selik, em vão.

— O amo está morto, o amo está morto. O que você lhe fez você? Aconteceu durante a cópula?

— Ubbi! Tenha vergonha! — disse ela, apontando um dedo para seu rosto. — E Selik só está dormindo, te juro. Eu, bem, dei-lhe algumas ervas para fazê-lo dormir.

— Por quê? — perguntou ele, erguendo os ombros.

— Para salvá-lo.

Ubbi se deixou cair na borda da cama ao lado de Selik.

— Acho que não quero ouvir isso.

— Agora, Ubbi, lembra quando nos encontramos à primeira vez? Você estava agradecido então de que Deus me enviasse para salvar Selik.

— Sim, mas…

— E você sabe o quanto é inseguro para ele viajar pelo território saxão, sobretudo desde que esse desprezível Gravely está lá.

— Sim, mas…

— A raiva que ele tem de Steven o cega aos perigos.

— Sim, mas…

— O ponto fundamental aqui, Ubbi, é que eu realmente, realmente acho que Selik será assassinado se for atrás de Steven de Gravely agora. Quando falei com Selik ontem à noite, acho que ele tinha o mesmo pressentimento. E esta é a verdade honesta de Deus.

Ubbi descansou seus cotovelos em seus joelhos e pôs seu rosto em suas mãos durante muito tempo. Quando finalmente elevou a vista, sustentou seu olhar e perguntou:

— Quanto você acha que ele vai dormir?

— Um dia inteiro. Dei-lhe bastante suco de papoula de ópio para derrubar um elefante.

— Melhor que comecemos, então — disse ele, sacudindo a cabeça com aversão ante a parte que ele ia tomar no plano dela.

 

Selik despertou enjoado, uma dor de cabeça terrível, a boca seca, e um sentimento incômodo em suas mãos e pernas. E ele tinha tanta vontade de urinar que seu membro doía.

Quando devagar abriu os olhos, percebeu que aquela já era a luz do dia. Pelo sangue de Deus! Deveria ter ido embora havia muito tempo, já estar na metade do caminho para Wessex. Como podia ter vadiado tanto tempo na cama?

Rain! Seus olhos se arregalaram ante a lembrança da ardilosa moça que o tinha seduzido com seus doces cuidados na noite anterior. Sem dúvida ela esperava atrasar sua saída permitindo que dormisse tanto.

Começou a se espreguiçar e se levantar quando se deu conta de que não podia se mover. Olhou para baixo e viu que estava preso a uma cama, pelos pés e mãos. E o pior, uma mordaça cobria sua boca, o impedindo de falar. Cheirou profundamente, tentando localizar o aroma que o rodeava. Feno. Estava em um celeiro, não na casa de Gyda, como tinha pensado a princípio.

Oh, maldito, maldito inferno! Selik apertou os dentes em um grito silencioso de agonia. Aquele bastardo do Gravely devia ter entrado na casa de Gyda e tê-lo capturado durante a noite. E sabendo de sua inclinação à crueldade, sem dúvida devia ter matado todos os outros na casa. Ou tê-los torturado.

Rain! Selik de repente lembrou que Rain estava na casa com ele. Oh, querido Deus, se existir, por favor, não a deixe estar nas mãos de Steven. Estaria melhor morta.

Desesperado, retorceu-se e resistiu contra suas ataduras, em vão. Não conseguia se liberar das cordas. Fechou os olhos então contra as imagens atormentadoras que cruzaram sua mente, sabendo muito bem o prazer sádico que Gravely obteria em torturar uma mulher como Rain.

— Bem, finalmente acordou. Já era hora. Esteve dormindo durante dois dias.

Os olhos de Selik se abriram de repente quando reconheceu a voz de Rain. Ela estava retida em algum lugar perto? Mas quando olhou para o lado, viu-a andar livremente até sua cama. Que inferno estava acontecendo? Lutou outra vez, mas não conseguia soltar as cordas. Sacudindo o queixo para cima várias vezes, tentou fazer gestos para que Rain lhe tirasse a mordaça.

Ela se aproximou de sua cama de armar cautelosamente e desatou o tecido em sua boca.

— Se apresse e me desate antes que Gravely ou suas coortes malditas voltem.

— Não posso fazê-lo, Selik — disse Rain suavemente, retrocedendo da cama.

— Por que diabos não?

— Porque não foi Steven de Gravely quem te drogou e te imobilizou.

— Drogar...? —Os olhos de Selik se estreitaram enquanto sua mente aturdida começava a entender. — A quem, rogo que me diga, devo agradecer meu cativeiro, então?

— A mim — sussurrou ela.

— Argh! — Selik se moveu repetidamente de cima para baixo na cama, fazendo a cabeceira tremer, enquanto a palha do colchão voava sobre ele. Mas quem quer que tivesse prendido suas cordas sabia muito sobre nós. Seus olhos esfaquearam os assustados de Rain, então, e ele declarou com uma voz de aço — Você fez, é óbvio que terei que te matar por isso.

— Agora, Selik, uma vez que tenha uma possibilidade de se acalmar, tenho certeza que entenderá que isso era o melhor — sua voz instável traiu sua incerteza.

— Onde estão meus homens?

— Ainda em Jorvik.

— Onde eles pensam que estou?

— Gyda lhes disse que foi a Ravenshire, que estará de volta em umas semanas.

— E quanto planejava me manter aqui? E, a propósito, onde estamos?

— Aproximadamente umas duas semanas, acho. Até que eu saiba com segurança que Gravely deixou Wessex — disse ela, sentando-se na borda de sua pequena cama, perto de seus pés. — E você está no desvão do celeiro em… agora, Selik, não se enfureça quando te disser isso, estamos no celeiro de sua velha granja.

Selik pôde sentir seus olhos se arregalarem de incredulidade.

— Só fará arrebentar uma veia em sua testa. Te disse isso antes, que deve tomar cuidado.

Uma intensa fúria obstruiu sua garganta, então ele não conseguiu falar, mesmo se pudesse encontrar as palavras para expressar sua fúria raivosa. Comprimiu os olhos, os fechou firmemente e contou repetidas vezes até que conseguiu manter seu gênio sob controle.

— Que palavras são essas que está sussurrando? — perguntou Rain casualmente enquanto pegava pedaços da palha de seus braies.

— Conto as formas com que te torturarei quando estiver livre. E quero que saiba, moça, que tenho a intenção de desfrutar do esporte imensamente.

— Quer dizer, como me castigou me beijando sem parar?

Ele lhe disparou um olhar que esperava que lhe dissesse o quanto completamente tola ela era ao brincar com ele outra vez assim.

— O único beijo que sentirá será o de minha faca. Primeiro, acho, vou te esfolar viva, Oh, não totalmente. Eu não desejaria que morresse antes das outras torturas. Talvez, arrancarei seus cílios depois…

Selik parou de repente, a sua cabeça martelando.

— O que é esse ruído?

Várias vozes estridentes, risonhas chegavam de baixo.

Rain olhou para longe com ar de culpa, e Selik se perguntou que outras surpresas ela tinha reservado para ele.

— Me diga — exigiu ele.

— São as crianças.

— Que malditas... crianças...? — perguntou ele, espaçando suas palavras regularmente, tentando controlar sua fragmentada paciência.

— Os órfãos — Rain quase esperou que ele gritasse. Quando ele não disse nada, só a olhou fixamente incrédulo com as unhas cravadas em sua palmas, ela continuou. — Decidi que precisaria de uma cortina de fumaça se por acaso os soldados saxões viessem aqui te procurar; assim, abri um orfanato.

— Me deixe ver se entendo, Rain. Você decidiu que eu não sabia o que era melhor para meu próprio futuro, então me drogou, transportou-me à fazenda que pedi que fosse fechada a todos, prendeu-me, e deu as boas-vindas a crianças em minha propriedade, quando sabe muito bem que detesto a visão dos bastardos cães vadios.

— Trata-se disso — confessou ela com um sorriso débil.

— E quem, rogo me diga, te ajudou a me trazer aqui, ou me levou em suas costas como um cavalo?

— Não há nenhuma necessidade de ser irritante. Ubbi me ajudou.

— Ubbi! Agora, volta meu leal amigo contra mim, também.

— Não foi assim, Selik.

— Tenho que urinar — disse ele com abrupta crueldade. — Me solte para que possa me aliviar.

— Ah, eu deveria ter pensado... — Rain se precipitou rapidamente ao outro lado do desvão e trouxe um pote de cerâmica para o lado dele, e estava a ponto de desatar a corda de seus braies.

— Nem pense — advertiu ele glacialmente.

— Agora, Selik, sou uma médica. Faço essas coisas o tempo todo para meus pacientes.

— Eu prefiro ensopar meus braies como um bebê a ter você atendendo minhas necessidades. Realmente, você ultrapassa os limites de tudo o que é correto em uma mulher. E o que tinha planejado para minhas outras... necessidades?

— Um penico — disse Rain com normalidade. — Fiz um com uma das velhas panelas de cozinhar de Gyda.

— Um pe... um penico — trovejou Selik. — Se alguma vez se atrever a se aproximar de mim com isso, juro… me escute, sua fêmea imbecil, farei você se lamentar por ter nascido.

Ela teve o sentido comum, ao menos, de retroceder ante ele então, sentindo corretamente que o tinha pressionado além dos limites da tolerância por um dia.

— Ubbi! — gritou ele então e ouviu as risadas e vozes agudas de baixo cessarem abruptamente. — Ubbi! Traga sua maldita pele aqui! Agora! Tenho que urinar!

Para Rain, ele disse com uma voz áspera pela irritação:

— Melhor sair de minha vista, moça, já que que só sua visão me faz sentir vontade de vomitar.

Ela retrocedeu ante suas ásperas palavras, e a dor cintilou por seu rosto, tornando seus olhos de ouro nebulosos e fazendo seus lábios tremerem, mas seguiu suas ordens e partiu. Ele não se preocupou. A mulher não o governava, e não podia esperar que ele estivesse agradecido.

Ele voltou seus olhos para cima, de repente com suspeita.

Esta é sua idéia de uma brincadeira, Deus? Se for, por favor, note, não estou rindo.

Mas vai.

 

Selik sentiu que alguém estava aos pés de sua cama, mas manteve os olhos fechados. Senhor, estava cansado de discutir durante os cinco dias anteriores com Rain sobre sua libertação. Se ouvisse lhe dizer mais uma vez que o tinha feito porque o amava, achou que vomitaria. E Ubby — o imbecil — acreditava que Deus lhe tinha enviado uma mensagem pessoal pedindo um orfanato.

O celeiro estava surpreendentemente tranqüilo, embora não fosse ainda o meio-dia. Rain, sem dúvida, partira para o hospitium em Jorvik, onde realizava suas boas ações entre os frades. Hah! Lhe mostraria suas boas ações quando suas mãos estivessem livres, apostava que ela nunca mais leria seus malditos manuais médicos. E Ubbi, que tinha estado cuidando de suas necessidades corporais, com muita humilhação para Selik, teria algumas torções mais em seus músculos nodosos quando terminasse com ele.

Finalmente, ainda sentindo uma presença no quarto, a curiosidade de Selik venceu e ele abriu um olho o bastante apenas para ver quem se atrevia a interromper sua paz, embora fosse pouca. Pelos ossos de Cristo! Aquela era uma dos órfãos a quem Rain tinha dado as boas-vindas em sua propriedade, a menina que eles tinham visto fora do hospitium fazia uns dias.

Embora as roupas da garota pendurassem em farrapos de seu fraco corpo, Rain tinha conseguido de algum jeito banhar a marota de modo que podia ver até as sardas ponteando seu nariz ridiculamente pequeno. E ela trançara seus cabelos loiros em um longo rabo que caía por suas costas.

Selik ergueu uma sobrancelha, tentando lembrar o que o tolo irmão da menina lhes dissera naquele dia. Ah, agora lembrou, algo sobre o comerciante de escravos, Aslam, querendo os irmãos para algum sultão do Oriente. Sim, em suas viagens ele tinha ouvido de muitos homens que praticavam tais perversões. Seria uma vergonha ver aquela menina inocente sujeita a tais coisas, mas aquilo não lhe concernia. Muitos horrores enchiam o mundo, e ele se opôs a ser o cruzado que Rain queria que ele fosse, corrigindo todos os males do mundo.

Avançando pouco a pouco para mais perto, a menina descalça, que não podia ter mais de quatro anos, contemplou-o com grandes olhos celestiais, com seu pequeno polegar dentro da boca o tempo todo.

— Vá embora — grunhiu ele, abrindo ambos os olhos.

A menina se sacudiu com surpresa ante sua voz brusca, mas em vez de escapar com medo, moveu-se ainda para mais perto. O único sinal de seu nervosismo foi ter começado a chupar ritmicamente seu polegar. A garota subiu na cama e se sentou perto de sua cintura, contemplando-o com um olhar que só podia ser de saudades.

Selik fechou os olhos durante um momento, fortificando-se contra o impacto das emoções que começaram a atacá-lo. Sua pele explodiu em um suor frio, e seu coração bateu com um doloroso canto fúnebre como sempre fazia com a proximidade de pequeninos e com a lembrança de tudo o que perdera. Ele não podia se permitir pensar em seu filho morto e em como Thorkel poderia ter sido na idade de cada maldita criança que cruzava em seu caminho.

Sentiu uma pequena mão, não maior que sua palma, pressionar suavemente contra seu peito, e abriu seus olhos de repente com consternação. A imbecil repugnante ainda tinha seu polegar entre seus lábios que faziam bico, mas pusera a outra mão sobre seu peito.

— Tome cuidado, idiota, mordo os pequenos cachorrinhos como você. Mastigo-os ruidosamente e os cuspo para comida de aves — ele obrigou sua voz a parecer profunda e feroz.

Em vez de retroceder com medo, ela riu tolamente.

Senhor, minha vida está se convertendo num pesadelo. Estou orgulhoso da minha fama mundial como um guerreiro valente, mas já não posso assustar nem mesmo um pequeno ácaro irritante.

— Rain! Ubbi! — gritou. — Afastem esta maldita menina repulsiva de mim!

Silenciosamente, a menina se aproximou, colocando sua face em seu peito, chupando alto agora. Ele se balançou de um lado para outro, tentando fazê-la cair, mas ela só agarrou sua túnica fortemente em um punho e o agarrou como se daquilo dependesse sua vida. Ele achou ter ouvido sua risada suave. Sem dúvida ela pensava que ele brincava com ela.

Finalmente, incapaz de desalojar a pequena sanguessuga, ele olhou atentamente para baixo e viu seus olhos piscarem sonolentos. Uma vez, antes de se fecharem completamente, ela sussurrou com adoração:

— Pa — e se aconchegou mais perto.

Sagrado Inferno maldito! A garotinha pensa que sou seu pai.

O aroma de sua pele de bebê envolveu seus sentidos, lhe recordando dias melhores e tempos mais felizes em sua vida, e Selik sentiu as lágrimas molharem seus olhos. Piscou rapidamente para conter o fluxo, praguejando contra Rain outra vez por torturá-lo assim. Ficou tão rígido como uma táboa durante mais de uma hora enquanto a menina dormia profundamente em seu peito.

— Adela! Adela! Onde você está?

Os olhos de Selik se abriram de repente. Devia ter adormecido.

Os passos bateram pela escada que conduzia ao desvão, seguido do rosto imundo do garoto que ele tinha encontrado a um passo da catedral.

— O que está fazendo com minha irmã, sua doninha maldita?

— Adam... — disse a garotinha, despertando devagar de seu sono profundo. Ela se sentou e olhou fixamente para seu irmão, estendendo seus braços para ele, então imediatamente pôs na boca o inevitável polegar quando ele a pegou. Sagrado Thor! O rapaz praticamente cambaleava sob o peso de sua irmã, que tinha posto suas pernas em torno de sua cintura.

— Se fizer mal a mim irmã, pestilento proscrito, juro…

— Cale-se — espetou Selik, já tendo tido bastante de crianças por um dia. — Vós dois saiam de minha vista e não voltem.

— Adela, ele tocou suas partes íntimas? — perguntou-lhe Adam, e a menina sacudiu sua cabeça veementemente de um lado para o outro.

Tocado suas...?

— Faria melhor se tirasse seu corpo asqueroso daqui, seu rato de esgoto — espetou Selik. — E se alguma vez fizer essa acusação outra vez, juro que vou a…

— O quê? — O pequeno sodomita o desafiou, pondo Adela no chão e se pavoneando perto da cama como um galo arrogante. Seus cabelos castanhos, Selik assumiu que eram castanhos sob toda a sujeira, sobressaíam em cinqüenta direções diferentes, de muitos comprimentos devido ao mau corte. O preço dos meses de sujeira e crostas cobria seu rosto e braços, e sua túnica e braies estavam rígidos de gordura e só Deus sabia que outras substâncias. — O que me fará, preso? Não é um guerreiro tão temível agora, não é, meu bravo cavaleiro?

Selik teria rido se não estivesse tão zangado.

— Se afaste, pequena toupeira maldita.

— Hah! Talvez você gostaria de tentar e fazer, sendo um soldado tão feroz e tudo mais — ele zombou.

Com seu rosto ardendo de cólera, Selik resistiu contra suas cordas. Matarei Rain por isso. Juro.

— Nem sempre estarei contido, idiota, e quando estiver livre, melhor que faça muito tempo que você tenha ido, já que quero deixar sua pele cheia de bolhas, de forma que não possa se sentar durante uma semana.

Adela puxou a manga de seu irmão, apontando para Selik.

— Pa — disse ela, e Adam bufou com repugnância.

— Esse desprezível proscrito não é seu pai, Adela. Nosso pai era um feroz soldado, não um indefeso.

— Ubbi! — gritou Selik, pressionado além de seus limites pela boca grosseira daquele esquálido pretexto de garoto.

Seu leal — não, desleal — criado se apressou a subir a escada tão rapidamente como suas curtas pernas podiam. Imediatamente fazendo cargo da situação com as crianças, ele pediu perdão.

— Peço perdão, amo, tive que fazer um monte de pedidos da senhora, e o trabalho que foi, também, arrastar uma dúzia de jovens atrás de mim, e…

— Uma dúzia? — Selik se engasgou. — Tem uma dúzia de órfãos em meu celeiro, em minha propriedade, contra meus desejos? Rain disse que havia só seis.

— Bem, isso foi há dois dias — confessou Ubbi envergonhado. —Cada vez mais e mais desses pobres pequeninos vêm para cá a cada dia quando ouvem falar de nosso orfanato.

Selik gemeu, logo pediu:

— Tire esses dois cachorrinhos irritantes daqui. Agora! E se assegure de que não voltem.

— Sim, amo, tudo o que disser — concordou Ubbi solicitamente, afugentando os jovens para baixo da escada. Então se voltou para Selik. — Talvez precise do penico?

— Arghhhh!

— Eu somente perguntei — queixou-se Ubbi enquanto ele, também, descia a escada.

Rain deliberadamente se afastou de Selik durante os dois dias seguintes, incapaz de enfrentar suas contínuas ordens de que o liberasse, seguidas de suas palavras mórbidas sobre todas as coisas diabólicas que tinha a intenção de fazer a ela qando fosse livre. As emoções conflitantes a rasgavam, a culpa por ter traído seus desejos ao seqüestrá-lo e um medo persistente por sua segurança.

De forma que agora ela o evitava e deixava Ubbi se encarregar de todas suas necessidades físicas, inclusive o banho e a alimentação. Às crianças, ordenou que ficassem embaixo. E as crianças! Oh, Senhor! Seu número só continuava crescendo e crescendo. Rain sabia que teria que começar a enviar alguns deles para longe logo, já tendo diminuído o fornecimento de dinheiro que Gyda e Ella tinham lhe dado. Entrou no hospitium a cada dia para trabalhar, e os monges, como pagamento, a contragosto lhe passavam bolsas de tecido cheias de alimentos para seus órfãos. Mas o faziam da maneira menos caridosa, e muitas vezes, quando Rain chegava em casa, descobria que a carne estava rançosa e o pão, mofado.

Estava sentada na entrada do celeiro, olhando a brincadeira das crianças, quando divisou Adam. Devagar, levantou-se e se aproximou da borda da clareira onde as crianças brincavam de uma forma primitiva de “Seu Rei mandou Dizer”. O asqueroso Adam a tinha evitado durante dias, resistindo a tomar banho, e Rain tivera o bastante de sua boca vulgar também. Quando conseguisse pegá-lo, tinha a intenção de esfregá-lo de dentro para fora.

Adam dava ordens às outras crianças em sua maneira habitual, até àqueles mais velhos e maiores que ele, quando Rain se colocou atrás dele e agarrou o desgraçado mau-cheiroso pelas costas da túnica.

— Me deixe ir, sua bruxa maldita — gritou ele.

Rain mudou seu agarre e lhe passou os braços em torno do peito em um apertão parecido a uma pinça. Mesmo que desse chutes e a chamasse por cada nome ordinário de seu vocabulário vulgar, não o liberaria.

— Ubbi, consiga para mim sabão e tecidos de linho e lave as roupas para o pequeno ranhoso sujo.

Aproximando-se do coxo dos cavalos, que tinha se enchido de água de chuva no dia anterior, deixou Adam cair, logo o manteve sob a água durante um momento para se assegurar de que seus cabelos oleosos se molhavam. Ele saiu chispando da água lhe lançando nomes mais asquerosos que um marinheiro curtido. Ubbi lhe deu um pedaço duro de sabão, e a ajudou a despir o escorregadio maroto e segurá-lo.

Depois de meia hora que pareceu meio-dia, finalmente liberaram o menino brilhantemente limpo da água gelada. Ele sacudiu seus cabelos molhados do rosto, logo pôs as mãos sobre os quadris magros e a fulminou com o olhar, totalmente não coibido por sua nudez.

Rain e Ubbi ambos contemplaram o pequeno garoto com assombro, se voltando um para o outro ao mesmo tempo.

— É bonito — sussurrou Rain com surpresa.

— Você é uma chupa-bacalhau, uma lambe-traseiros, sem tetas, feia harpia como uma cadela — exclamou Adam, empurrando Rain pelo peito — e eu…

— Os soldados saxões estão vindo! Os soldados saxões estão vindo! — uma das crianças gritou, precipitando-se para eles pelo caminho. — Bjorn os viu de cima da colina.

Rain e Ubbi trocaram olhares rápidos de consternação, mas então imediatamente disseram às crianças que seguissem o plano que tinham praticado repetidas vezes para tal emergência. Adam rapidamente pôs suas roupas secas e juntou em manada as crianças dentro do celeiro como um sargento de treinamento, cuspindo ordens a direita e a esquerda, e partiu. Graças a Deus os homens de Selik e seus cavalos estavam ainda em Jorvik. Nunca teriam sido capazes de escondê-los.

Rain e Ubbi se precipitaram para cima.

— Selik — gritou Rain quando ela e Ubbi começaram a puxar feixes do feno perto da cama para cobri-lo. — Os soldados saxões estão vindo — disse ela ofegante. — Temos que te cobrir enquanto eles estiverem aqui.

— Me solte — exigiu ele.

Quando ela só seguiu amontoando o feno sobre a cama, ele mostrou os dentes e grunhiu:

— Me solte, maldita seja! Ao menos me dê a dignidade de eu mesmo me defender se me descobrirem.