Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O VINGADOR / Frederick Forsyth
O VINGADOR / Frederick Forsyth

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O VINGADOR

 

                 O OPERÁRIO

O HOMEM QUE CORRIA SOZINHO AGACHOU-SE NA LADEIRA e mais uma vez lutou contra sua inimiga, a dor. Aquele esporte era uma tortura e uma terapia, e era justamente por isso que o praticava.

Os especialistas dizem que, dentre todas as disciplinas esportivas, o triatlo é a mais brutal e impiedosa. O decatleta precisa dominar um número maior de habilidades, e possuir mais força bruta para as provas de arremesso, mas no que diz respeito a vigor e capacidade de suportar a dor, existem poucas provações como o triatlo.

O homem que corria sob o sol nascente de Nova Jersey havia, como sempre, iniciado o treinamento muito antes da alvorada. Dirigira sua picape até o lago e largara a bicicleta de corrida no caminho, acorrentando-a a uma árvore como medida de segurança. Às 05:02, pusera o cronômetro no pulso, abaixando a manga da roupa de mergulho de neoprene para cobri-lo, e entrara na água gelada.

Praticava o triatlo olímpico, com distâncias medidas no sistema métrico. Primeiro, 1.500 metros de natação; saindo da água, despir-se rápido para camiseta e bermudas e montar na bicicleta de corrida. Depois, quarenta quilômetros curvado sobre o guidom, o tempo todo pedalando o mais depressa possível. Há tempos medira os 1.600 metros ao redor do lago de ponta a ponta, e sabia exatamente que árvore na margem oposta marcava o ponto em que deixara a bicicleta. Ele tinha marcado seus quarenta quilômetros pelas estradas do campo, sempre naquela hora vazia, e sabia que árvore era o ponto para abandonar a bicicleta

e começar a correr. Dez quilômetros correndo e então alcançava a porteira de fazenda que indicava mais dois quilômetros até o fim do percurso. Naquela manhã tinha

acabado de passar pela porteira. Os dois últimos quilômetros eram ladeira acima, e representavam o desafio final, o trecho excruciante.

Doía tanto porque os músculos necessários eram todos diferentes. Os ombros, peito e braços poderosos de um nadador não costumam ser requeridos por um ciclista ou um maratonista. São apenas quilos extras a ser carregados.

Os movimentos acelerados das pernas e do quadril de um ciclista são diferentes dos tendões e músculos que conferem ao corredor o ritmo e a cadência para engolir os quilômetros com os pés. A repetição dos ritmos de um exercício não combina com a do outro. O tri-atleta precisa de todos eles, e depois tenta combinar os desempenhos de três atletas especializados, um após o outro.

Aos 25 anos isso é um evento cruel. Aos 51 é uma tortura que merecia indiciação sob a Convenção de Genebra. O corredor tinha passado dos 51 em janeiro último. Arriscou olhar o pulso e fez uma careta. Nada bom: estava vários minutos abaixo de seu recorde. Ele se esforçou mais para combater sua inimiga.

Os atletas olímpicos buscavam realizar aquele percurso em menos de duas horas; o corredor de Nova Jersey tinha conseguido chegar a duas horas e meia. Ele estava quase alcançando esse tempo agora, e ainda faltavam dois bons quilômetros.

As primeiras casas de sua cidade natal despontaram numa curva da Rodovia 30. Pennington era uma aldeia muito antiga, anterior à Revolução. Era cortada pela Rodovia 30, que se projetava da Interestadual 95, que começava em Nova York e cruzava o estado até Delaware, Pensilvânia e Washington. Dentro da cidade, a Rodovia 30 era chamada de Main Street.

Não tem muita coisa em Pennington, uma das milhares de cidadezinhas limpas e aconchegantes que compõem o coração ignorado e subestimado dos Estados Unidos da América.

Um único cruzamento principal no centro onde a West Delaware Avenue cruza a Main Street, várias igrejas das três congregações cristãs, um First National Bank, algumas lojas, e residências afastadas da rua espalhadas ao longo das vias duplas arborizadas.

O corredor seguiu até a encruzilhada. Ainda faltava meio quilômetro. Era cedo demais para tomar uma xícara de café no Cup of Joe, ou um desjejum completo no Vitos Pizza - mas mesmo se estivessem abertos, o corredor não teria parado.

A sul da junção o corredor passou por uma casa de tábuas brancas e teto de telhas vermelhas, uma relíquia da época da Guerra Civil com uma tabuleta que indicava que ali era o escritório do Sr. Calvin Dexter, advogado. Ele atendia nessa casa, exceto nas ocasiões em que viajava para cuidar de sua outra carreira. Os clientes e vizinhos aceitavam que ele viajasse para pescar de vez em quando, sem nada saber sobre o pequeno apartamento que ele tinha sob outro nome em Nova York.

Ele forçou suas pernas doloridas pelos últimos 450 metros para alcançar a entrada da Chesapeake Drive, no lado sul da cidade. Ele morava ali, e a esquina marcava o fim de seu Calvário auto-infligido. Diminuiu a velocidade, parou e abaixou a cabeça, debruçando-se contra uma árvore para sugar oxigênio para seus pulmões murchos. Duas horas e 36 minutos. Muito longe do seu melhor. O fato de que provavelmente não havia ninguém num raio de centenas de quilômetros, com 51 anos ou não, capaz de chegar sequer perto disso, estava fora de questão. A questão, que ele não ousava explicar aos vizinhos que o aplaudiam e o animavam, era usar a dor para combater a outra dor, a dor perene, a dor que nunca ia embora, a dor da criança perdida, do amor perdido, da vida perdida.

O corredor entrou em sua rua e caminhou os últimos 180 metros. À sua frente viu o entregador de jornais arremessar um embrulho pesadíssimo em sua varanda. O garoto acenou enquanto passava de bicicleta e Cal Dexter acenou de volta.

Mais tarde ele montaria em sua scooters, iria resgatar a caminhonete com a scooter na carroceria, dirigiria de volta para casa, pegando a bicicleta de corrida ao longo da estrada. Mas primeiro precisava de um banho, algumas barras energéticas e o conteúdo de várias laranjas.

Pegou o embrulho e o abriu. Conforme esperava, ali estavam o jornal local, outro de Washington, o grosso Sunday Times de Nova York e, embrulhada em plástico, uma revista técnica.

Calvin Dexter, o advogado magro, de cabelos claros e sorriso amistoso de Pennington, Nova Jersey, não havia nascido para ser nenhuma dessas coisas,embora tivesse realmente nascido no estado.

Foi criado numa favela de Newark, infestada de baratas e ratos, e veio ao mundo em janeiro de 1950, fruto da união de um operário de construção com uma garçonete da lanchonete local. Seus pais, segundo a moralidade daquela época, não haviam tido qualquer escolha senão casar-se depois que um encontro num baile e alguns copos a mais de bebida barata fizeram a situação sair do controle e resultará na concepção de Calvin.

No começo, ele não sabia nada disso. Bebês jamais sabem como ou por meio de quem chegaram aqui. Eles precisam descobrir e, às vezes, da maneira mais difícil.

O pai era um homem bom, ao seu jeito. Depois de Pearl Harbor fora voluntário para as forças armadas, mas revelara-se mais útil como operário de construção, trabalhando em território americano, onde o esforço de guerra envolvera a criação de milhares de novas fábricas, docas e escritórios federais na área de Nova Jersey.

Era um homem rude, rápido com os punhos, a única lei em muitos trabalhos operários. Mas tentava viver na linha, trazendo para casa o envelope com seu salário fechado, tentando educar seu filho pequeno a amar a bandeira, a Constituição e Joe DiMaggio.

Mais tarde, depois da Guerra da Coréia, as oportunidades de trabalho desapareceram. Apenas a desgraça industrial permanecia, e os sindicatos estavam à mercê da Máfia.

Calvin tinha cinco anos quando sua mãe foi embora. Era jovem demais para entender o motivo. Não sabia nada sobre o casamento sem amor de seus pais, e aceitava com a resistência filosófica dos muito jovens que os adultos sempre gritavam e discutiam daquela forma. Não sabia nada sobre o caixeiro-viajante que tinha prometido a ela luzes mais brilhantes e vestidos mais bonitos. Ele simplesmente recebeu a notícia de que sua mãe tinha "ido embora".

Ele havia aceitado que agora seu pai ficasse em casa todas as noites, cuidando dele ao invés de tomando algumas cervejas depois do trabalho, olhando melancólico para a televisão. Só quando chegou à adolescência ele soube que sua mãe, depois de ter sido abandonada pelo caixeiro-viajante, tinha tentado voltar, mas fora rejeitada pelo pai zangado e amargurado.

Estava com sete anos quando seu pai teve uma idéia para resolver ao mesmo tempo o problema de moradia e a necessidade de buscar trabalho em lugares distantes. Saíram do bairro pobre em Newark e compraram um trailer de segunda mão. O trailer foi sua casa por dez anos.

Pai e filho mudaram de trabalho em trabalho, morando no trailer, o garoto freqüentando qualquer escola local que o aceitasse. Era a época de Elvis Presley, Del Shannon, Roy Orbison, os Beatles, vindos de um país de que Cal jamais tinha ouvido falar. Era a época de Kennedy, da Guerra Fria, do Víetnã.

Os trabalhos apareciam e eram completados. Eles se moveram através das cidades ao norte de East Orange, Union e Elizabeth. Depois foram trabalhar nos arrabaldes de New Brunswick e Trenton. Durante algum tempo moraram em Pine Barrens enquanto Dexter Senior era capataz num projeto modesto. Depois seguiram para o sul, em direção a Atlantic City. Entre seus oito e dezesseis anos, Cal freqüentou nove escolas em muitos anos. Sua educação formal daria para preencher um selo de correio.

Mas ele aprendera muitas outras coisas, além da educação formal das escolas. Sabia o linguajar e o jeito dos malandros de rua, e brigar também. Como sua mãe, não era alto, tendo parado de crescer com 1,64m. Também não era pesado e musculoso como o pai, mas seu corpo esguio era cheio de vigor e os punhos eram velozes e poderosos.

Certa vez desafiou um lutador numa feira circense, nocauteou o sujeito e levou para casa o prêmio de vinte dólares.

Um homem que cheirava a pomada barata procurou seu pai e sugeriu que o garoto passasse a freqüentar seu ginásio com vistas a se tornar um boxeador, mas eles se mudaram para uma nova cidade e um novo trabalho.

 

Não havia dinheiro para viagens, e assim, quando o ano letivo acabava, o garoto simplesmente ia para o canteiro de obras com o pai. Ali ele fazia café, entregas,

e trabalhos estranhos. Um desses trabalhos envolveu um homem que usava uma pala verde acima dos olhos. Ele ofereceu-lhe um serviço que consistia em levar envelopes a vários endereços através de Atlantic City e ficar de bico calado. Assim, durante as férias de verão de 1965, Cal foi entregador de apostas.

Mesmo estando na base da pirâmide social, um garoto esperto pode olhar para cima. Cal Dexter sabia entrar de graça nos cinemas e se maravilhar com o glamour de Hollywood, os cenários panorâmicos do Velho Oeste, o deslumbre dos musicais, as palhaçadas de Dean Martin e Jerry Lewis.

Ele também via nos comerciais de televisão apartamentos elegantes com cozinhas em aço inoxidável, famílias sorridentes nas quais os pais pareciam amar um ao outro.

Via as limusines e carros esportivos nos outdoors na rodovia.

Cal não tinha nada contra os operários nas obras. Eles eram rudes e brutos, mas todos gentis com ele, ou pelo menos quase todos. Nas obras ele também usava um capacete de proteção, e o consenso geral era que depois que saísse da escola iria seguir os passos do pai. Mas ele tinha outras idéias. Qualquer que fosse a vida que ele tivesse, Cal jurou, seria longe do ruído e da poeira de cimento que infestavam as obras.

Então compreendeu que não tinha nada a oferecer em troca dessa vida melhor, mais endinheirada e confortável. Ele pensou no cinema, mas presumiu que todos os astros eram homens muito altos, sem saber que a maioria tinha exatamente sua altura. Este pensamento só lhe ocorreu porque alguma garçonete disse que ele parecia um pouco com James Dean, mas os operários morreram de rir quando ouviram isso, e então abandonou a idéia.

Esportes e atletismo podiam tirar um jovem das ruas e colocá-lo na estrada para a fama e a fortuna, mas ele sempre havia trocado de colégios tão rápido que nunca

tivera a chance de participar de nenhum time escolar.

Qualquer coisa que envolvesse uma educação formal, quanto mais qualificações, estava fora de questão. Assim, restavam outros tipos de empregos de classe trabalhadora: garçom, carregador, garagista, motorista de furgão de entregas. A lista era interminável, mas, considerando as perspectivas oferecidas pela maioria, era melhor que ele continuasse com construção. A brutalidade pura e os riscos apresentados pelo trabalho tornavam a atividade mais bem remunerada que a maioria das outras.

Outra opção era o crime. Qualquer pessoa criada nas docas ou nos canteiros de obras de Nova Jersey estava ciente de que o crime organizado, e a participação em gangues, poderia conduzir a uma vida de apartamentos grandes, carros velozes e mulheres fáceis. E todo mundo sabia que isso quase nunca dava em cadeia. Ele não era ítalo-americano, e portanto jamais poderia aspirar à aristocracia da Máfia, mas havia anglo-saxões brancos e protestantes que se davam bem.

Aos dezessete anos largou os estudos e no dia seguinte começou a trabalhar com o pai num canteiro de obras nas cercanias de Camden. Um mês depois, o operador da motoniveladora ficou doente. Não havia quem o substituísse. Era um trabalho especializado. Cal olhou para o interior do veículo. Parecia fazer sentido.

- Posso operar esse negócio - disse Cal.

O capataz ficou indeciso. Era contra as regras. Se algum inspetor visse, seu emprego viraria fumaça. Em contrapartida, todos os operários estavam de braços cruzados, esperando que montanhas de terra fossem movidas.

- Tem um montão de alavancas nesse aparelho.

- Confie em mim - disse o garoto.

Ele levou cerca de vinte minutos para descobrir para que servia cada alavanca. Começou a mover areia. Isso significava um adicional em seu salário, mas ainda assim não era uma carreira.

Em janeiro de 1968 fez vinte anos e os vietcongues lançaram a ofensiva do Tet. Cal estava vendo televisão num bar em Camden. Depois dos noticiários entraram vários comerciais e então um pequeno filme de recrutamento feito pelo exército. Ele mencionava que, se você se apresentasse como voluntário, o exército lhe daria uma educação.

No dia seguinte, foi até o posto das forças armadas em Camden e disse:

- Quero ingressar no exército.

Naquela época, todo jovem americano era, salvo em algumas circunstâncias muito incomuns ou exílio voluntário, suscetível ao recrutamento compulsório logo depois de seu 18.° aniversário. O desejo de quase todo adolescente, e do dobro desse número de pais, era se livrar disso. O primeiro-sargento atrás da mesa estendeu a mão para que o jovem lhe desse seu cartão de recrutamento.

- Eu não tenho - disse Cal Dexter. - Sou voluntário. E isso atraiu a atenção de todos os presentes.

O primeiro-sargento deslizou um formulário até ele, olhando fixamente em seus olhos, como um furão que não quer deixar escapar um coelho.

- Bem, isso é muito bom, rapaz. É uma atitude muito inteligente. Quer um conselho de um veterano?

- Claro.

- Inscreva-se para três anos, ao invés de para os dois requeridos. Assim, terá chances de posicionamentos melhores e escolhas de carreira mais interessantes. – Ele se inclinou à frente, como se fosse compartilhar de um segredo de estado. - Inscrito para três anos, você pode até escapar de ir pro Vietnã.

- Mas eu quero ir pro Vietnã - disse o rapaz de calças jeans desbotadas.

O primeiro-sargento pensou sobre isso e disse, lentamente:

- Certo. - Ele sentiu vontade de acrescentar "gosto não se discute", mas disse simplesmente: - Levante a mão direita...

Trinta e três anos depois, o ex-operário colocou quatro laranjas no liqüidificador, enxugou de novo a testa suada, e levou a pilha de jornais e o suco até a sala de estar.

Primeiro ele abriu a revista técnica. Vintage Airplane é um periódico de circulação restrita, e em Pennington só podia ser obtida através de um pedido especial.

A revista é dedicada aos apaixonados por aviões clássicos e da Segunda Guerra Mundial. O corredor correu as páginas até a pequena seção de classificados e estudou os anúncios de requisição. Ele parou o copo de suco a meio caminho da boca, pousou-o na mesinha e leu o anúncio de novo. Ele dizia:

"VINGADOR. Precisa-se. Oferta séria. Sem limite de preço. Favor ligar."

Não havia nenhum modelo de Grumman Avenger, um avião torpedeiro-bombardeiro da guerra do Pacífico, à venda em lugar nenhum. Todos estavam em museus. Alguém tinha descoberto o código de contato. Havia um número. Devia ser um celular. A data era 13 de maio de 2001.

 

                   A VÍTIMA

RICKY COLENSO NÃO NASCEU PARA MORRER AOS VINTE ANOS

numa fossa na Bosnia. Sua vida não deveria ter acabado assim. Ele nasceu para tirar um diploma universitário e levar sua vida nos Estados Unidos da América, com uma esposa, crianças e uma chance decente de prosperidade, liberdade e felicidade. Tudo acabara tão mal apenas porque ele tinha um coração bom demais.

Em 1970, um matemático jovem e brilhante chamado Adrian Colenso foi admitido como professor de matemática na Georgetown University, nas cercanias de Washington.

Ele tinha 25 anos, notavelmente jovem para o posto.

Três anos depois, deu um seminário de verão em Toronto, Canadá. Entre os participantes, ainda que entendesse muito pouco do que ele estava dizendo, havia uma estudante belíssima chamada Annie Edmond. Ela ficou enamorada pelo professor e providenciou um encontro às cegas através de amigos íntimos.

Adrian Colenso nunca tinha ouvido falar do pai dela, o que deixou Annie a um só tempo intrigada e deliciada. Ela já tinha sido perseguida por meia dúzia de caçadores de dotes. No carro, de volta para o hotel, ela descobriu que além de possuir uma capacidade extraordinária para o cálculo quântico, o professor de matemática também beijava muito bem.

Uma semana depois, ele voou de volta a Washington. A Srta. Edmond não era do tipo que se deixava derrotar. Ela abandonou seu trabalho, obteve uma sinecura no consulado canadense, alugou um apartamento perto da Wisconsin Avenue e chegou com dez malas. Dois meses depois, os dois se casaram. O matrimônio foi realizado numa linda cerimônia

em Windsor, Ontario, e a lua-de-mel do casal foi em Cancel Bay, ilhas Virgens.

Como presente de casamento, o pai da noiva deu ao casal uma grande casa de campo em Foxhall Road, perto da Nebraska Avenue, numa das mais rústicas e, portanto, mais procuradas áreas de Georgetown. Ficava no seu próprio terreno florestal de quase meio hectare, com piscina e quadra de tênis. A mesada da moça cobriria a manutenção da propriedade, enquanto o salário do noivo daria justamente para o resto. Assim, eles se estabeleceram numa amorosa rotina doméstica.

O bebê Richard Eric Steven nasceu em abril de 1975 e logo foi apelidado Ricky.

Cresceu como milhões de outros jovens americanos, num lar seguro e amoroso, fazendo todas as coisas que os meninos fazem, passando tempo em acampamentos de verão, descobrindo e explorando as emoções das garotas e dos carros esportivos, preocupando-se com as provas escolares.

Ele nunca foi nem idiota nem brilhante como o pai. Herdou o sorriso matreiro do pai e a boa aparência da mãe. Todos que o conheciam o classificavam como um rapaz adorável. Se alguém lhe pedia ajuda, ele faria tudo que fosse possível. Mas jamais deveria ter ido à Bosnia.

Completou o ensino médio em 1994 e foi aceito para Harvard no outono seguinte. Naquele inverno, assistindo na televisão o sadismo da limpeza étnica, a conseqüente miséria dos refugiados e os programas de assistência social naquele lugar longínquo chamado Bosnia, decidiu que queria ajudar de alguma forma.

A mãe rogou que continuasse nos Estados Unidos. Havia programas assistenciais em seu próprio país, caso ele quisesse exercitar sua consciência social. Mas as imagens que vira de aldeias incendiadas, órfãos chorando e refugiados em desespero haviam-no afetado profundamente, e ele precisava ir para a Bosnia. Ricky implorou por permissão para se envolver.

com alguns telefonemas seu pai apurou que a principal organização de assistência social era a UNHCR, United Nations High Comission For Refugees (Suprema Comissão para Refugiados das Nações Unidas), com um grande escritório em Nova York.

No começo da primavera de 1995, três anos de guerra civil enquanto a velha federação da Iugoslávia se dividia, haviam arrasado a província da Bosnia. A UNHCR estava lá em peso, com uma equipe de cerca de 400 "internacionais" e vários milhares de funcionários locais. A unidade era comandada no próprio local por um ex-soldado britânico, o barbudo e enérgico Larry Hollingworth, que Ricky vira na televisão. Ricky foi a Nova York para inquirir sobre procedimentos para alistamento.

O diretor da unidade de Nova York foi gentil mas não se entusiasmou. Ofertas amadoras chegavam aos borbotões, e as visitas pessoais eram de dezenas ao dia. Esta era a ONU; havia procedimentos, seis meses de burocracia, um número imenso de formulários a ser preenchidos, e, como Ricky teria de estar em Harvard no outono, provavelmente uma recusa no fim.

O rapaz rejeitado estava descendo de elevador no começo da hora do almoço quando uma secretária de meia-idade lhe dirigiu um sorriso gentil.

- Se você realmente quer ajudar lá, terá de ir até o escritório regional em Zagreb - disse a secretária. - Eles aceitam voluntários localmente. É muito mais fácil se você já estiver no lugar.

A Croácia também já fizera parte da Iugoslávia, mas tinha conseguido sua separação e agora era um novo estado, com muitas organizações baseadas na segurança de sua capital, Zagreb. Uma delas era a UNHCR.

Ricky teve uma longa conversa por telefone com os pais, obteve sua permissão relutante, e voou Nova York-VienaZagreb. Mas a resposta ainda foi a mesma: formulários para preencher, apenas compromissos de longo prazo eram desejados. Amadores de temporada de férias eram uma grande responsabilidade, e representavam uma contribuição pequena demais.

- Você devia ingressar numa das ONGs - sugeriu o controlador regional, tentando ser útil. - Eles se reúnem bem aqui ao lado, no restaurante.

A UNHCR podia ser a mais importante organização de assistência internacional, mas não era nem de perto a única. O auxílio em desastres é uma indústria inteira e, para muitos, uma profissão. Fora da ONU e dos esforços governamentais individuais, havia as organizações não-governamentais. Havia trezentas ONGs envolvidas na Bosnia.

Os nomes de várias eram reconhecidos pelo grande público: Save the Children (inglesa), Feed the Children (americana), Age Concern, War on Want, Médecins Sans Frontières... todas estavam lá. Algumas eram baseadas em conceitos religiosos, outras eram seculares, e muitas das menores simplesmente haviam nascido para a guerra civil bósnia, impelidas pelas imagens de TV transmitidas incansavelmente no Ocidente. No outro extremo estavam os caminhões dirigidos através da Europa por alguns rapazes corpulentos que tinham levantado fundos em seu bar local. Os pontos de partida para o coração da Bósnia eram Zagreb ou o porto adriático de Split.

Ricky encontrou o restaurante, pediu um café e um uísque para combater o vento frio de março, e olhou em torno, procurando por um possível contato. Duas horas depois, um homem corpulento e barbudo, usando um casaco de lã curto, mais parecendo um caminhoneiro, entrou no restaurante. Pediu café e conhaque num sotaque que Ricky identificou como oriundo da Carolina do Norte ou do Sul. Ricky caminhou até ele e se apresentou. Teve sorte.

John Slack era um despachante e distribuidor de prestação de assistência para uma pequena organização de caridade americana conhecida como Loaves"n" Fishes, uma dissensão recém-formada do Salvation Road, ela própria a manifestação corporativa num mundo pecaminoso do reverendo Billy Jones, teleevangelista e salvador de almas (mediante uma doação apropriada) da boa cidade de Charleston, Carolina do Sul. Ele ouviu Ricky como alguém que já tinha ouvido tudo aquilo antes.

- Sabe dirigir um caminhão, garoto?

- Sei.

Isso não era exatamente verdade, mas ele considerava que um off-road grande devia ser bem parecido com um caminhão pequeno.

- Sabe ler um mapa?

- Claro.

- E quer um salário gordo?

- Não. Recebo uma mesada do meu avô. John Slack piscou para ele.

- Você não quer nada? Apenas ajudar?

- Exatamente.

- Certo, você está dentro. A minha operação é muito pequena. Compro alimentos, roupas, cobertores, qualquer coisa que possa ser útil. Então levo essas coisas de caminhão até Zagreb, reabasteço e sigo para a Bosnia. Estamos baseados em Travnik. Há milhares de refugiados lá.

- Para mim, está ótimo - disse Ricky. - Pagarei todos

os meus gastos.

Slack tomou o que restava de seu conhaque.

- Vamos nessa, garoto.

O caminhão era um Hanomag alemão de dez toneladas, e Ricky pegou o jeito dele antes que chegassem à fronteira. Levaram dez horas até Travnik, revezando-se ao volante.

Era meia-noite quando chegaram ao complexo Loaves"n" Fishes, bem na beira da cidade. Slack jogou vários cobertores para Rick.

- Passe a noite na boléia - disse ele. - De manhã a gente encontra uma barraca para você.

A operação Loaves"n" Fishes era realmente pequena. Envolvia um segundo caminhão que estava prestes a partir para o norte para coletar mais suprimentos com um sueco monossilábico ao volante; um complexo pequeno e cercado com arame farpado para afastar saqueadores; um pequeno escritório composto de uma cabine portátil para uma pessoa; um barraco que chamavam de armazém e no qual ficavam os alimentos desembarcados mas ainda não distribuídos; e três funcionários bósnios recrutados. Isso, mais dois Landeruisers Tovota pretos para distribuição de cargas pequenas. Slack apresentou Ricky ao lugar e à tarde ele tinha conseguido um quarto na casa de uma viúva bósnia na cidade. Para locomover-se entre a cidade e o complexo, Ricky comprou uma bicicleta caindo aos pedaços, pagando com dinheiro da reserva que mantinha numa pochete. John Slack notou a pochete.

- Se importa de me dizer quanto você guarda aí?

- Trouxe mil dólares - disse Ricky, confiando absolutamente em Slack. - Apenas para casos de emergências.

- Merda! Não fique espalhando isso, se não, vai ter uma emergência. Esses caras podem se aposentar com esse dinheiro.

Ricky prometeu ser discreto. Serviços postais, logo descobriu, eram inexistentes, visto que não existia nenhum estado bósnio, que nenhum correio bósnio fora instaurado, e que os antigos serviços iugoslavos tinham sido extintos. John Slack disse que os motoristas subindo para a Croácia ou para a Áustria sempre levavam cartas e cartões-postais para todos. Ricky pegou um cartão-postal do bolo que comprara no aeroporto de Viena, escreveu uma mensagem rápida e o deu ao sueco. O sueco levou o cartão para o norte, e a Sra. Colenso o recebeu uma semana depois.

Travnik já tinha sido uma próspera cidade comercial, habitada por sérvios, croatas e muçulmanos bósnios. Sua presença podia ser discernida pelas igrejas. Havia uma igreja católica para os croatas que tinham partido, uma ortodoxa para os sérvios que tinham partido, e uma dúzia de mesquitas para a maioria muçulmana, os ainda chamados de bósnios.

Com a chegada da guerra civil a comunidade triétnica que vivera em harmonia por anos se dilacerou. Quando massacres e mais massacres foram relatados pelo país, toda confiança interétnica evaporou.

Os sérvios desistiram e recuaram para o norte da cordilheira Vlasic sobranceira a Travnik, através do vale do rio Lasva e até Banja Luka, no outro lado.

Os croatas também foram forçados a sair e a maioria desceu a estrada por dezesseis quilômetros até Vitez. Assim, fortalezas triétnicas foram formadas. A cada uma delas afluíram refugiados desse grupo étnico particular.

A imprensa mundial retratava os sérvios como os perpetradores dos massacres étnicos, embora comunidades sérvias também tenham sido chacinadas quando isoladas e em minoria. A razão era que na velha Iugoslávia os sérvios tiveram o controle dominante do exército; quando o país ruiu, eles simplesmente se apoderaram de 90% dos armamentos pesados, obtendo uma vantagem insuperável.

Os croatas, que também não eram ineficazes no que dizia respeito a chacinar minorias não-croatas em seu meio, tinham recebido um reconhecimento irresponsavelmente imaturo da parte do chanceler alemão Kohl; dessa forma eles puderam comprar armas no mercado mundial.

Os bósnios, em sua grande maioria, estavam desarmados, e foram mantidos dessa forma sob conselho dos políticos europeus. Conseqüentemente, sofreram a maior parte das brutalidades. No primeiro semestre de 1995 seriam os norte-americanos que, fartos e cansados de ficar de braços cruzados sem fazer nada, usariam seu poder militar para dar um corretivo nos croatas e forçar todas as partes a se sentarem à mesa de conferência em Dayton, Ohio. O Acordo de Dayton seria implementado em novembro daquele ano. Ricky Colenso não iria vê-lo.

Quando Ricky chegou a Travnik, o lugar já tinha sido atingido por disparos de pelotões sérvios nas montanhas. A maioria dos prédios estava envolvida por tábuas encostadas nas paredes. Se atingidas por disparos, as tábuas seriam reduzidas a farpas, mas poupariam a casa em si. Os vidros de quase todas as janelas tinham sido quebrados e substituídos por plástico. A mesquita principal, pintada em cores vivas, de alguma forma havia sido poupada de um impacto direto. Os dois maiores prédios na cidade, a escola de ensino médio, e a Escola de Música, que já fora mundialmente famosa, estavam abarrotados com refugiados.

Virtualmente sem nenhum acesso à região circundante e, portanto, nenhum acesso a campos de plantio, os refugiados, cerca de três vezes a população original, dependiam das agências de assistência para sobreviver. Era aí que entrava a Loaves"n" Fishes, juntamente com uma dúzia de outras ONGs menores na cidade.

Mas os dois Landeruisers podiam ser enchidos com 220 quilos de alimentos não perecíveis e chegar a diversos vilarejos e aldeias circundantes, onde a necessidade era ainda maior do que no centro de Travnik. Ricky concordou alegremente em colocar os sacos de comida nos off-roads e levá-los para as montanhas ao sul.

Quatro meses depois de estar em Georgetown, vendo pela TV as imagens da miséria humana que o levariam até ali, Ricky se sentia feliz. Estava fazendo o que viera fazer. Sentia-se tocado pela gratidão dos aldeões e suas crianças morenas e de olhos tristes quando descarregava sacos de trigo, milho, leite em pó e concentrados de sopa para o centro de uma vila isolada que estava uma semana sem comer.

Acreditava que estava de alguma forma pagando por todos os benefícios e confortos que um Deus bondoso, no qual acreditava piamente, concedera-lhe ao nascer simplesmente fazendo-o um norte-americano.

Não falava uma palavra de servo-croata, a linguagem comum em toda a Iugoslávia, nem o dialeto bósnio. Não tinha nenhum conhecimento da geografia local, para onde as estradas de montanha conduziam, onde estaria seguro e onde seria perigoso.

John Slack colocou Ricky em dupla com um dos funcionários bósnios, um rapaz com inglês razoável, aprendido na escola.

Seu nome era Fadil Sulejman, e ele atuava como guia, intérprete e navegador de Ricky.

Em cada semana de abril e na primeira quinzena de maio Ricky despachou uma carta ou cartão para seus pais, com atrasos maiores ou menores, dependendo de quem estava seguindo para o norte em busca de suprimentos. As cartas chegavam a Georgetown portando selos croatas ou austríacos.

Foi na segunda semana de maio que Ricky se viu sozinho e no comando do posto inteiro. Lars, o sueco, teve um problema sério com seu motor numa estrada solitária na Croácia, a norte da fronteira mas bem perto de Zagreb. John Slack pegou um dos Landeruisers para ajudar o sueco a colocar o caminhão de volta no serviço.

Fadil Sulejman pediu um favor a Ricky.

Como milhares de pessoas em Travnik, Fadil tinha sido forçado a fugir de sua casa quando a guerra a havia alcançado. Explicou que a casa de sua família tinha sido um sítio num vale elevado na cordilheira Vlasic. Ele estava desesperado para saber se restava alguma coisa da propriedade. Teria sido ou incendiada ou poupada? Ainda estava em pé? Quando a guerra começou, seu pai tinha enterrado tesouros de família debaixo de um celeiro. Ainda estariam lá? Em uma palavra, ele poderia visitar a casa de seus pais pela primeira vez em três anos?

Ricky alegremente deu-lhe uma folga, mas essa não era a questão. com as trilhas montanha acima úmidas por causa da chuva primaveril, apenas um off-road conseguiria chegar até lá. Isso significava pegar emprestado o Landeruiser.

Ricky se viu num dilema. Ele queria ajudar, e pagaria pela gasolina. Mas será que a montanha era segura? Patrulhas sérvias já tinham se estabelecido nela para usar sua artilharia contra Travnik.

Isso tinha sido um ano atrás, insistiu Fadil. As ladeiras do sul, onde ficava a casa de seus pais, estavam perfeitamente seguras agora. Ricky hesitou, mas comovido pelo apelo de Fadil, e imaginando como seria perder sua casa, concordou. com uma condição: ele também iria.

Na verdade, ao sol primaveril, o percurso foi muito agradável. Deixaram a cidade para trás e subiram a estrada principal até Donji Vakuf por dezesseis quilômetros antes de virar à direita.

A estrada subia, desviou para uma trilha, e continuou subindo. Faias, freixos e carvalhos floridos os envolviam. Era, pensou Ricky, quase como Shenandoah, aonde certa vez havia acampado com um grupo de colégio. Começaram a derrapar nas curvas e Ricky admitiu que jamais conseguiriam sem tração nas quatro rodas.

Os carvalhos cederam lugar às coníferas e a 1.500 metros eles emergiram num vale elevado, invisível da estrada lá embaixo, uma espécie de esconderijo secreto. No coração do vale, acharam a casa de fazenda. Sua chaminé de pedra havia sobrevivido, mas o resto tinha sido queimado e saqueado. Vários celeiros, que não haviam sido incendiados, continuavam de pé depois dos velhos currais de gado. Ricky olhou para o rosto de Fadil e disse:

- Sinto muito, muito mesmo.

Saltaram do veículo perto da chaminé enegrecida. Ricky esperou enquanto Fadil caminhava pelas cinzas molhadas, chutando aqui e ali pedaços que restavam do lugar onde fora criado. Ricky seguiu-o enquanto passava pelos currais e pela fossa, ainda cheia até a borda com seu conteúdo nauseante, intumescido pelas chuvas, até os celeiros onde seu pai teria enterrado os tesouros de família para poupá-los dos saqueadores. Foi quando ouviram o farfalhar e o choramingo.

Os dois os acharam debaixo de um toldo molhado e fedorento. Havia seis deles, pequenos, trêmulos, aterrorizados, com idades entre quatro e dez anos. Quatro menininhos e duas meninas, a mais velha aparentemente a mãe provisória e líder do grupo. Ao ver os dois homens, as crianças ficaram paralisadas de pavor. Fadil começou a falar baixinho com elas. Depois de algum tempo, a garota respondeu.

- Eles vieram de Gorica, uma cidadezinha a cerca de seis quilômetros daqui, seguindo pela montanha. Gorica significa "morrinho". Já estive lá.

- O que aconteceu?

Fadil conversou mais um pouco no dialeto local. A garota respondeu, e então explodiu em lágrimas.

- Vieram homens, sérvios, paramilitares.

- Quando?

- Na noite passada.

- O que aconteceu? Fadil suspirou.

- Era uma aldeia muito pequena. Quatro famílias, vinte adultos, talvez vinte crianças. Todos estão mortos agora. Quando os tiros começaram, os pais gritaram para eles fugirem. E correram para a escuridão.

- Órfãos? Todos eles?

- Todos eles.

- Meu Deus, que país - disse o norte-americano. - Temos que colocá-los no caminhão e descer para o vale.

Eles conduziram as crianças, cada uma segurando a mão da seguinte mais velha, para fora do celeiro e para o dia claro. Pássaros cantavam. Era um vale muito bonito.

Os homens estavam no limite do bosque. Eram dez homens e dois jipes russos GAZ em camuflagem de exército. Os homens também estavam camuflados. E armados até os dentes.

Passaram-se três semanas. Depois de abrir a caixa de correio mais uma vez e não encontrar nenhum cartão, a Sra. Annie Colenso discou um número para Windsor, Ontario.

O telefone foi atendido ao segundo toque. Ela reconheceu a voz da secretária particular de seu pai.

- Oi, Jean. É a Annie. Papai está aí?

- Está sim, senhora Colenso. Vou transferir para ele.

 

                   O MAGNATA

HAVIA DEZ PILOTOS JOVENS NO GALPÃO DA TRIPULAÇÃO DE vôo "A", e mais oito ao lado, no galpão da tripulação "B". Lá fora, na grama verde do campo de pouso, havia dois ou três Hurricanes com sua aparência característica de corcundas, devido à proeminência atrás da carlinga. Não eram novos e remendos de tecido revelavam que tinham sofrido ferimentos de combate ao sobrevoarem a França, na quinzena anterior.

Dentro dos galpões o clima não poderia estar em contraste maior com o verão ensolarado de 25 de junho de 1940 no aeródromo Coltishall, Norfolk, Inglaterra. O moral dos homens da esquadrilha 242 da RAF, conhecida simplesmente como Esquadrilha Canadense, nunca havia estado tão baixo, e com razão.

A 242 estava em combate praticamente desde o primeiro tiro disparado na Frente Ocidental. Tinha lutado e perdido a batalha pela França na fronteira leste na costa do Canal. Enquanto a blitzkrieg az Hitler prosseguia, afugentando o exército francês para um lado, os pilotos que tentavam deter o avanço alemão encontravam suas bases evacuadas e tinham de se mover ainda mais para trás, mesmo no ar. Faltava-lhes comida, acomodações, peças sobressalentes e combustível. Qualquer um que já participou de um exército em retirada sabe que o adjetivo mais adequado a essa situação é "caótico".

Do outro lado do Canal, eles haviam travado a segunda batalha acima das areias de Dunquerque, enquanto abaixo o exército inglês tentava salvar seus equipamentos, pegando tudo que pudesse flutuar para remar de volta para a Inglaterra, cujos cumes brancos eram visíveis sobre o mar plano e sereno.

Quando o último soldado inglês foi evacuado daquela praia horrível e os últimos defensores do perímetro passaram para cativeiro alemão por cinco anos, os canadenses estavam exaustos. Eles tinham sofrido uma derrota terrível: nove mortos, três feridos, três abatidos e aprisionados.

Três semanas depois, ainda estavam em terra no aeródromo de Coltishall, sem peças sobressalentes nem ferramentas, completamente abandonados na França. Seu comandante, o líder de esquadrilha "Papa" Gobiel, estava doente há semanas e não voltaria ao comando. Ainda assim, os britânicos tinham-lhes prometido um novo comandante, que era esperado a qualquer momento.

Um carrinho esportivo sem capota emergiu de trás dos hangares e estacionou perto dos dois galpões de madeira que alojavam as tripulações. Um homem saltou do carro, com alguma dificuldade. Ninguém saiu para saudá-lo. Ele capengou desajeitadamente até a tripulação "A". Alguns minutos depois, saiu de lá e se dirigiu até o galpão da "B". Os pilotos canadenses observaram-no pelas janelas, intrigados pela forma como caminhava com os pés afastados. A porta se entreabriu e ele apareceu na brecha.

Seus ombros revelaram sua patente de líder de esquadrilha. Ninguém se levantou.

- Quem está no comando aqui? - inquiriu, furioso.

Um canadense gordinho se empertigou, a alguns metros de onde Steve Edmond estava esparramado numa cadeira, e examinou o recém-chegado através de uma névoa azul.

- Acho que sou eu - disse Stan Turner.

Eram os primeiros dias. Stan Turner já tinha dois abates confirmados a seu crédito, mas até o fim da guerra colecionaria mais quatorze medalhas.

O oficial inglês com os olhos azuis zangados girou nos calcanhares e avançou em direção a um Hurricane estacionado. Os canadenses saíram de seus galpões para observar.

- Não acredito no que estou vendo - murmurou Johnny Latta para Steve Edmond. - Aqueles filhos da puta nos mandaram um comandante aleijado!

Era verdade. O recém-chegado estava capengando sobre duas próteses. Ele subiu para a carlinga do Hurricane, despertou o motor Rolls Royce Merlin para a vida, virou para o vento e decolou. Durante meia hora ele conduziu o caça através de cada acrobacia conhecida e em algumas que ninguém ali jamais tinha visto.

Era tão bom em parte por ter sido um ás acrobático antes de perder ambas as pernas num acidente, antes da guerra, e em parte justamente por não ter pernas. Quando um piloto de caça faz uma manobra fechada ou levanta de um mergulho veloz, duas atividades vitais no combate aéreo, ele recebe o impacto de muitas forças G. O efeito faz o sangue descer da parte superior do corpo para baixo, até gerar um desmaio. Como este piloto não tinha pernas, o sangue precisava ficar na parte superior do corpo, mais perto do cérebro, e sua esquadrilha iria aprender que ele podia virar em ângulos mais fechados do que eles. Finalmente ele aterrissou o Hurricane, saltou e capengou até os canadenses calados.

- Meu nome é Douglas Bader - disse a eles. - E vamos ser a melhor esquadrilha desta merda de força aérea.

Ele fez valer sua palavra. com a Batalha da França perdida e a batalha das praias de Dunquerque a um passo disso, o maior de todos os conflitos se aproximava: Hitler recebera de Goering, o chefe de sua força aérea, a promessa de dominar os céus para possibilitar a invasão da Grã-Bretanha. A Batalha da Grã-Bretanha foi a luta por esses céus. Quando ela acabou, os canadenses da 242, sempre liderados em combate por seu comandante sem pernas, tinham estabelecido o recorde de abates.

No final do outono, a Luftwaffe alemã já estava enfraquecida e recuou para a França. Hitler repreendeu Goering e voltou sua atenção para leste: a Rússia.

Em três batalhas, França, Dunquerque e Grã-Bretanha, ocorridas durante seis meses do verão de 1940, os canadenses confirmaram 88 abates, 77 deles apenas na Batalha da Grã-Bretanha. Mas eles tinham perdido dezessete pilotos, os mortos em ação, e todos, menos três, eram canadenses.

Cinqüenta e cinco anos depois, Steve Edmond ergueu-se de trás de sua escrivaninha e atravessou o escritório, conforme fizera tantas vezes com o passar dos anos, até a foto na parede. Ela não continha todos os homens com quem tinha voado; alguns haviam morrido antes dos outros chegarem. Mas mostrava os dezessete canadenses em Duxford num dia quente e sem nuvens do final de agosto, no auge da batalha.

Praticamente todos já tinham partido. A maioria deles mortos em ação durante a guerra. Os rostos dos garotos de 19 a 22 anos olhavam da foto, vitais, alegres, esperançosos, no começo da vida, mas ainda assim a maioria não estava destinada a prossegui-la.

Steve olhou mais de perto. Benzie, que voava ao seu lado, abatido e morto sobre o estuário do Tâmisa em 7 de setembro, duas semanas depois da foto. Solanders, o rapaz da Terra Nova, morto no dia seguinte.

Johnny Latta e Willie McKnight, de pé lado a lado, morreriam emparelhados em algum lugar sobre a baía de Biscaia em janeiro de 1941.

- Willie, você foi o melhor de todos nós - murmurou o velho.

McKnight era o ás do grupo: nove abates confirmados em seus primeiros dezessete dias de combate, tendo acumulado 21 vitórias aéreas até morrer, dez meses depois de sua primeira missão, com parcos vinte anos.

Steve Edmond sobrevivera para se tornar muito velho e extremamente rico, certamente o maior magnata da mineração em Ontario. Mas durante todos esses anos ele manteve aquela foto na parede, quando morava num barraco tendo uma picareta por companhia, quando fez seu primeiro milhão de dólares, quando (especialmente quando) a revista Forbes declarou-o bilionário.

Guardou a foto para nunca esquecer da terrível fragilidade da coisa a que chamamos vida. Muitas vezes, ao pensar no passado, ele se perguntava como havia sobrevivido.

Na primeira vez em que foi abatido, ficou no hospital quando a esquadrilha partiu, em dezembro de 1941, para o Extremo Oriente. Ao sair do hospital, foi posicionado no Comando de Treinamento.

com seu orgulho ferido, bombardeou as autoridades superiores com requisições para voar em combate novamente. Por fim teve sua vontade satisfeita a tempo dos desembarques na Normandia, quando pilotou o Typhoon, o novo caça-bombardeiro de ataque a solo muito rápido e poderoso, um temível matador de tanques.

A segunda vez em que foi abatido foi perto de Remagen, quando os americanos invadiram através do Reno. Ele estava entre uma dúzia de Typhoons britânicos que lhes davam cobertura para avançar. Um impacto direto no motor lhe garantiu alguns segundos para ganhar altura, soltar a capota da carlinga e se ejetar do aeroplano condenado antes que ele explodisse.

O salto foi baixo e o pouso difícil. Steve quebrou ambas as pernas. Ficou imerso numa névoa de dor na neve, vagamente cônscio dos capacetes de metal redondos correndo em sua direção, mais ciente de que os alemães tinham um ódio particular dos Typhoons e que as pessoas que ele tinha explodido pertenciam à divisão Panzer das SS, que não era conhecida por sua tolerância.

Uma figura difusa parou e olhou para ele.

- Ora, ora, vejam só - disse, ao longe, uma voz com o sotaque carregado do Mississippi. Steve deixou escapar um suspiro de alívio. Afinal, que homem de Hitler falaria desse jeito?

Os americanos o levaram de volta através do Reno entorpecido com morfina, e ele foi enviado de avião de volta para a Inglaterra. Quando suas pernas foram adequadamente engessadas, julgaram que ele estava ocupando uma cama necessária para acomodar recém-chegados da Frente. Assim, foi mandado para uma casa de convalescença em South Coast, onde ficaria até ser repatriado para o Canadá.

Passou algum tempo na Mansão Dilbury, uma morada em estilo Tudor, parada na história, com gramados verdes como feltro de uma mesa de bilhar e algumas enfermeiras bonitas. Fez 25 anos naquela primavera e obteve o posto de comandante de esquadrilha.

Cada quarto era ocupado por dois oficiais, mas levou uma semana até que seu companheiro chegasse. Tinha aproximadamente a mesma idade que Steve, era americano, e não usava uniforme. O braço e o ombro esquerdos tinham sido esmagados num tiroteio no norte da Itália. Isso significava operação secreta, atrás das linhas inimigas.

Forças Especiais.

- Oi - disse o recém-chegado. - Peter Lucas. Joga xadrez?

Steve Edmond saíra dos campos de mineração de Ontario e ingressara na força aérea canadense em 1938 para fugir ao desemprego da indústria de mineração quando o mundo não tinha uso para seu níquel. Mais tarde, esse níquel seria parte de cada motor que o mantinha no ar. Lucas viera da mais alta camada social da Nova Inglaterra, e tivera de tudo desde o dia de seu nascimento.

Os dois jovens estavam sentados no gramado, com um tabuleiro de xadrez entre eles, quando o som do rádio atravessou a janela do refeitório, no sotaque impossivelmente elegante dos locutores da BBC daquela época, dizendo que o marechal-decampo von Rundstedt tinha acabado de assinar em Luneberg Heath os instrumentos da rendição incondicional. Era 8 de maio de 1945.

A guerra na Europa havia acabado. O americano e o canadense ficaram sentados ali, lembrando de todos os amigos que jamais voltariam para casa, e mais tarde cada um deles lembraria dessa como a última ocasião em que haviam chorado em público.

Uma semana depois, eles partiram e retornaram para seus respectivos países. Mas naquela casa de recuperação na costa inglesa eles formaram uma amizade que duraria por toda a vida.

Era um Canadá diferente quando Steve Edmond voltou para casa, e ele era um homem diferente, um herói de guerra condecorado retornando para uma economia em ascensão.

Ele procedia da bacia de Sudbury. E para lá ele voltou. Seu pai tinha sido minerador, e seu avô também. Os canadenses extraíam cobre e níquel nas cercanias de Sudbury desde 1885. E os Edmond tinham sido parte da ação durante a maior parte desse tempo.

Steve Edmond descobriu que a força aérea lhe devia uma gorda quantia em salários atrasados. Usou esse dinheiro para cursar a faculdade, e foi o primeiro de sua família a fazer isso. Naturalmente escolheu engenharia de mineração como sua disciplina e também se inscreveu num curso de metalurgia. Formou-se em ambos praticamente como o primeiro da classe em 1948 e foi contratado pela Inco, a International Nickel company, principal empregadora da região.

Formada em 1902, a Inco tinha ajudado a fazer do Canadá o principal fornecedor de níquel para o mundo e a principal fonte de renda da companhia era a imensa jazida nas cercanias de Sudbury, Ontario. Edmond ingressou na companhia como gerente de mineração em treinamento.

Steve Edmond teria permanecido um gerente de mineração vivendo numa casa modesta mas confortável num subúrbio de Sudbury, se a sua mente incansável não lhe dissesse o tempo todo que devia haver um caminho melhor.

A faculdade lhe havia ensinado que o mineral básico do níquel, que é a pentlandita, também abriga outros elementos. Platina, paládio, irídio, rutênio, ródio, telúrio, selênio, cobalto, prata e ouro também ocorrem na pentlandita. Edmond começou a estudar os raros metais terrenos, seus usos e o mercado potencial para eles. Ninguém mais se importava com esses metais, e eles acabavam em pilhas de escória. Isso ocorria porque as percentagens eram tão pequenas que sua extração era antieconômica.

Pouquíssimas pessoas sabiam o quanto os metais terrenos eram raros.

Praticamente todas as grandes fortunas são baseadas numa idéia genial e na coragem para persegui-la. Trabalho duro e sorte também ajudam. A idéia genial de Steve Edmond foi voltar para o laboratório quando os outros jovens gerentes de mineração estavam ajudando os plantadores de cevada, bebendo cerveja.

O que ele desenvolveu foi um processo hoje conhecido como "lixiviação por pressão ácida".

Basicamente, o processo consistia em dissolver os pequenos depósitos de metais raros para fora da escória, e depois reconstituí-los de volta para o metal. Se tivesse levado isto para a Inco, Steve teria recebido um tapinha nas costas, talvez até um convite para um jantar fino. Em vez disso, pediu demissão de seu cargo e embarcou na terceira classe de um trem para Toronto e o Departamento de Patentes. Tinha trinta anos e estava encaminhado na vida.

Claro que pediu um empréstimo ao banco, mas não muito, porque o que tinha em mente não custaria muito. Quando as jazidas de minério de pentlandita se esgotavam, ou pelo menos haviam sido exploradas até um ponto em que era antieconômico prosseguir, as companhias de mineração deixavam para trás imensas pilhas de escória chamadas de "refugo mineral". Os refugos minerais eram lixo, ninguém os queria. Steve Edmond queria. Ele comprava pilhas por centavos.

Steve fundou a Edmond Metals, conhecida no mercado de ações de Toronto simplesmente como Emmys, e o preço não parou de subir. Ele nunca vendeu, a despeito das ofertas, e nunca aceitou as arriscadas manobras de investimento que lhe foram propostas por bancos e consultores financeiros. Assim, atravessou incólume por todos os períodos de crise. Aos quarenta anos era um multimilionário e aos 65, em 1985, detinha o enganoso título de bilionário.

Ele não ostentava seu dinheiro, jamais esquecia de onde viera, contribuía muito para caridade, evitava os políticos embora ao mesmo tempo fosse afável com todos eles, e era conhecido como um bom homem de família.

No correr dos anos realmente apareceram alguns tolos que, julgando o exterior calmo e bem-educado pelo homem inteiro, tentaram enganá-lo ou roubá-lo. Todos eles descobriram, freqüentemente tarde demais de seu ponto de vista, que havia tanto aço em Steve Edmond quanto em qualquer avião que ele pilotara.

Casou uma vez, em 1949, pouco antes de sua grande descoberta. Ele e Fay eram feitos um para o outro e continuaram dessa forma até que ele a perdeu para a doença degenerativa do neurônio motor em 1994. Eles só tiveram uma filha, Annie, nascida em 1950.

Em sua idade avançada, Steve Edmond amava-a como sempre, aprovava fortemente o professor Adrian Colenso, o acadêmico da Universidade de Georgetown com quem ela se casara aos 22 anos, e morria de amores por seu único neto, Ricky, de vinte anos, que no momento estava em algum lugar na Europa, antes de iniciar a universidade.

Durante a maior parte do tempo Steve Edmond era um homem feliz com todo o direito de sê-lo, mas havia dias em que se sentia inquieto. Nesses momentos ele atravessava o seu escritório numa cobertura bem acima da cidade de Windsor, Ontario, e olhava novamente para os rostos jovens na foto. Rostos de tempos e lugares distantes.

O interfone tocou. Ele caminhou de volta até sua mesa.

- Sim, Jean.

- E a senhora Colenso, ligando da Virgínia.

- Ótimo. Ponha ela na linha. - Enquanto a conexão era feita, ele se recostou na cadeira giratória estofada. - Oi, querida. Como vai?

O sorriso caiu de seu rosto enquanto escutava. Inclinou-se a frente em sua cadeira até ficar debruçado sobre a mesa.

- O que quer dizer com "desaparecido"? Já tentou telefonar? Bosnia? Sem linhas? Annie, você sabe que os jovens de hoje em dia não escrevem... talvez esteja preso no correio de lá... sim, acredito que ele prometeu de coração que... tudo bem, deixe comigo. Para quem ele estava trabalhando?

Steve pegou uma caneta e anotou num caderninho o que ela ditava.

- Loaves"n" Fishes. Esse é o nome? É uma ONG de assistência? Comida para refugiados? Tudo bem, então ela estará registrada. Todos eles precisam se registrar. Deixe por minha conta, meu bem. Sim, tão logo eu saiba de alguma coisa.

Quando desligou, Steve pensou por um momento, e então chamou seu diretor executivo.

- Entre todos aqueles rapazes turcos que você emprega, dispõe de algum que saiba pesquisar na Internet? - perguntou.

O executivo ficou estarrecido.

- Claro. Um montão.

- Quero o nome e o número particular do chefe de uma organização americana de caridade chamada Loaves"n" Fishes. Não, só isso. E quero rápido.

Em dez minutos recebeu o nome e o número. Uma hora depois efetuou um telefonema longo com um edifício deslumbrante em Charleston, Carolina do Sul, quartel-general de um daqueles tele-evangelistas, o tipo que ele desprezava, angariando doações imensas dos ingênuos em troca de garantias de salvação.

A Loaves"n" Fishes era o braço de caridade do tele-evangelista, que pedia fundos para os refugiados da Bosnia, naquele momento em meio a uma guerra civil violenta.

Ninguém sabia quanto dos dólares doados iam para os desabrigados e quanto ia para a frota de limusines do reverendo. A voz de Charleston informara Steve que, se Ricky Colenso tinha trabalhado como assistente social para a Loaves"n" Fishes na Bosnia, devia ter sido em seu centro de distribuição, num lugar chamado Travnik.

- Jean, lembra de que, alguns anos atrás, um homem em Toronto perdeu algumas pinturas de antigos mestres num assalto em sua casa de campo?

Deu nos jornais. Depois elas reapareceram. Alguém no clube disse que ele tinha usado uma agência muito discreta para descobrir o paradeiro dos quadros e então reavê-los. Preciso do nome dele. Ligue para mim assim que conseguir.

Essa informação definitivamente não constava na Internet, mas certamente estaria em outras redes. Jean Searle, sua secretária particular de tantos anos, usou a rede das secretárias, e uma de suas amigas era secretária do chefe de polícia.

- Rubinstein? Muito bem. Entre em contato com o Sr. Rubinstein em Toronto ou em qualquer lugar.

Isso levou meia hora. O colecionador de arte foi encontrado visitando o Rijksmuseum em Amsterdã para admirar, mais uma vez, a Ronda noturna de Rembrandt. Ele foi retirado da sua mesa de jantar, devido à diferença de fuso horário de seis horas. Mas foi muito prestativo.

- Jean, ligue para o aeroporto - Steve Edmond disse após desligar o telefone. Prepare o Grumman. Agora. Quero ir para Londres. Antes do pôr-do-sol.

Era 1O de junho de 1995.

 

                   O SOLDADO

CAL DEXTER MAL TERMINARA o JURAMENTO DE ALIANÇA E já estava a caminho do quartel para o treinamento básico. Não precisou ir muito longe; Forte Dix fica bem ali em Nova Jersey.

Na primavera de 1968 dezenas de milhares de jovens americanos estavam ingressando no exército, 95% deles à força. Os sargentos de treinamento não estavam nem aí para isso. Seu trabalho era transformar esta massa de recos em alguma coisa semelhante a soldados antes de transferi-los, apenas dali a três meses, para seu próximo posto.

De onde vinham, quem eram seus pais, qual era seu nível de educação, tudo isso era de gloriosa irrelevância. O campo de treinamento era o maior nivelador, depois da morte. Ela viria mais tarde. Para alguns.

Dexter era um rebelde natural, mas também era mais esperto que a maioria. A comida era simples, porém melhor do que a da maioria dos canteiros de obras, e ele a devorava com prazer.

Ao contrário dos garotos ricos, ele não tinha nenhum problema com o dormitório, o chuveiro coletivo, ou a exigência de manter todos os seus objetos muito, muito bem arrumados, dentro de um pequeno guarda-roupa. E o que lhe era mais útil: nunca tivera alguém para arrumar e limpar suas coisas, e assim não esperava nada semelhante no quartel. Alguns outros, acostumados a ser paparicados, passavam muito tempo correndo em torno da praça de armas ou fazendo flexões de braço sob o olho atento de um sargento furioso.

Verdade seja dita, Dexter não via o menor sentido em quase todas as regras e rituais, mas era esperto o bastante para não dizer isso. E não entendia por que os sargentos sempre estavam certos e ele sempre errado.

O benefício de ser voluntário para três anos ficou claro bem depressa. Os cabos e sargentos, que eram a coisa mais parecida com Deus no campo de treinamento básico, souberam imediatamente de seu status e passaram a tratá-lo com certa condescendência. Ele estava, afinal de contas, perto de ser "um deles". Eles eram mais rigorosos com os filhinhos-de-papai.

Depois de duas semanas, ele sofreu sua primeira avaliação. Consistia em aparecer diante de umadaquelas criaturas quase invisíveis, um oficial. Neste caso, um major.

- Alguma habilidade especial? - perguntou o major pelo que provavelmente era a milésima vez.

- Aprendi a operar escavadeiras, senhor.

O major correu os olhos pela ficha e então olhou para ele.

- Quando foi isto?

- Ano passado, senhor. Entre o período em que saí da escola e o que me alistei.

- Seus documentos dizem que você tem apenas dezoito anos. Isso deve ter sido quando você tinha dezessete.

- Sim, senhor.

- Isso é ilegal.

- Meu Deus! Senhor, desculpe, eu não tinha a mínima idéia.

Com o canto do olho, Dexter viu o cabo em prontidão ao lado do major, fazendo força para não rir. Mas o problema do major estava resolvido.

- Então acho que para você é engenharia, soldado. Alguma objeção?

- Não, senhor. Poucos diziam adeus a Forte Dix com lágrimas nos olhos.

Quartel não é colônia de férias. Mas eles saíram, a maioria deles empertigados, queixo empinado, trajado com uniforme de recruta, carregando uma mochila de itens básicos e um passe de viagem para seu próximo posto. No caso de Dexter, era o Forte Leonard Wood, Missouri, para Treinamento Avançado Individual.

O treinamento foi em engenharia básica; não apenas operar escavadeiras, mas dirigir praticamente qualquer coisa com rodas ou lagartas, consertar motores, fazer a

manutenção de veículos e, sobrando tempo, mais cinqüenta cursos paralelos. Três meses depois, ele obteve seu certificado de Habilidade Operacional Militar e foi designado para Forte Knox, Kentucky.

A maior parte do mundo só conhece o Forte Knox como o depósito da reserva de ouro dos EUA, alvo da fantasia de todo assaltante de banco e assunto de inúmeros livros e filmes.

Mas também é uma imensa base aérea e lar da escola de veículos blindados. Em qualquer base desse tamanho sempre há alguma construção sendo realizada, ou poços de tanques a serem cavados, ou uma vala para ser aterrada. Cal Dexter passou seis meses como um dos engenheiros de posto em Forte Knox antes de ser convocado ao gabinete de comando.

Acabara de comemorar seu 19.° aniversário; portava o posto de recruta de primeira classe. O comandante parecia melancólico, como se estivesse prestes a dar uma notícia de falecimento. Cal pensou que alguma coisa teria acontecido a seu pai.

- É o Vietnã - disse o major.

- Ótimo - disse o recruta de primeira-classe.

O major, que se pudesse passaria o resto de sua carreira com a família em sua casa na base de Kentucky, piscou várias vezes.

- Bem, então está tudo certo.

Quinze dias depois, Cal Dexter fez sua mochila, despediu-se dos amigos que tinha feito na base e subiu a bordo do avião enviado para pegar alguns transferidos. Uma semana depois, desceu a rampa de um C5 Galaxy e entrou no saguão quente e sujo do Aeroporto de Saigon, o lado militar.

Ao sair do aeroporto, foi na frente do ônibus, ao lado do motorista.

- O que você faz? - perguntou o cabo enquanto conduzia o ônibus da tropa entre os hangares.

- Opero escavadeiras.

- Bem, acho que você vai ser um SRFP, como o resto de nós aqui.

- SRFP? - inquiriu Dexter. - Essa era uma sigla militar que ele jamais tinha ouvido.

- Soldado de Retaguarda Filho da Puta - informou o cabo.

Dexter estava conhecendo a pirâmide social do Vietnã. Nove décimos dos GIs que foram ao Vietnã jamais puseram os olhos num vietcongue, jamais dispararam uma arma com raiva, e raras vezes escutaram tiros. Os cinqüenta mil nomes de mortos no Memorial Hall em Washington, com poucas exceções, vêm dos outros dez por cento. Mesmo com um segundo exército de cozinheiros, lavadeiros e limpadores de garrafas vietnamitas, ainda eram precisos nove GIs na retaguarda para manter um na selva tentando vencer a guerra.

- Qual é o seu posto? - perguntou o cabo.

- Primeiro Batalhão de Engenharia, Big Red One.

O motorista soltou um assobio agudo, como um pássaro moribundo.

- Desculpe - disse o cabo. - Falei cedo demais. Isso aí é em Lai Khe. Borda do Triângulo de Ferro. Melhor você que eu, companheiro.

- É ruim?

- É a visão do Inferno de Dante.

Dexter nunca tinha ouvido falar de Dante e presumiu que ele era de uma unidade diferente. Deu com os ombros.

Realmente existia uma estrada de Saigon para Lai Khe; era a Rodovia 13, que passava através de Phu Cong, subia a borda leste do Triângulo até Ben Cat e depois mais 25 quilômetros. Mas era insensato segui-la, a não ser que houvesse uma escolta blindada, e mesmo assim jamais à noite. Este era um país de florestas densas e fervilhando de emboscadas vietcongues. Quando Cal Dexter entrou no perímetro altamente defendido que abrigava a Primeira Divisão de Infantaria, a Big Red One, foi de helicóptero.

Jogando a mochila mais uma vez sobre o ombro, ele perguntou como chegava ao QG do Primeiro Batalhão de Engenharia.

No caminho passou pelo estacionamento de veículos e viu uma coisa que lhe tirou o fôlego. Ele parou um GI e perguntou:

- Que diabos é aquilo?

- É o "boca de porco" - disse lacônico o soldado. - Para limpeza de solo.

Juntamente com a 25a. Divisão de Infantaria "Tropic Lightning" do Havaí, a Big Red One tentava lidar com o que parecia ser a área mais perigosa da península inteira, o Triângulo de Ferro. A vegetação era tão densa, tão impenetrável para o invasor e um labirinto tão protetor para a guerrilha, que a única forma de tentar nivelar o campo de jogo era limpando a selva.

Para fazer isto, duas máquinas assombrosas foram desenvolvidas. Uma era a Escavadeira-tanque, um tanque M-48 médio com uma pá de escavadeira encaixada na frente.

com a pá abaixada, o tanque empurrava enquanto a torreta blindada protegia a tripulação em seu interior. Porém ainda maior era o Arado de Roma, ou Boca de Porco.

Este era um gigante temível, caso você fosse arbusto, árvore ou pedra. Um veículo de sessenta toneladas movido por lagartas, o D7E, era dotado de uma pá curva, especialmente forjada, cuja beira de aço inferior, pontuda e de aço endurecido, podia destroçar uma árvore com um tronco de um metro de diâmetro.

O motorista-operador solitário ficava sentado lá no topo em sua cabine protegida por um "vergalhão contra dor de cabeça" para impedi-la de ser esmagada pelos destroços que caíssem, e blindada para rechaçar balas de atiradores camuflados ou ataques de guerrilha.

O "Roma" no nome não tinha nada a ver com a capital da Itália, mas com Roma, Geórgia, onde o gigante era fabricado. E o objetivo do Arado de Roma era tornar cada pedaço de território que recebesse sua atenção integral eternamente inutilizável como santuário para os vietcongues.

Dexter caminhou até o escritório do batalhão, bateu continência e se apresentou.

- bom dia, senhor. Recruta de primeira classe Calvin Dexter apresentando-se para o dever, senhor. Sou o seu novo operador de Boca de Porco, senhor.

O tenente atrás da mesa exalou um suspiro cansado. Ele estava perto do final de sua missão de um ano. Havia se recusado terminantemente a prolongá-la. Ele odiava o país, os vietcongues invisíveis mas letais, o calor, a umidade, os mosquitos e o fato de que mais uma vez tinha uma irritação séria envolvendo suas partes íntimas e as nádegas.

A última coisa que ele precisava, com a temperatura subindo para 32 graus centígrados, era de um piadista.

Mas Cal Dexter era um jovem tenaz. Ele insistiu sem parar. Duas semanas depois de chegar ao posto, já tinha seu Arado de Roma. Na primeira vez, um motorista mais experiente tentou oferecer-lhe alguns conselhos. Ele ouviu, subiu até a cabine e durante o dia inteiro ele dirigiu o veículo numa operação combinada com o suporte de infantaria. Ele operava a máquina imensa da sua maneira, de forma diferente, e melhor.

Era observado com freqüência cada vez maior por um tenente, também engenheiro, mas que parecia não ter nenhuma obrigação para atrapalhá-lo; um rapaz jovem e calmo que falava pouco mas observava muito.

- Ele é duro na queda - disse o oficial para si mesmo uma semana depois. - É ousado, solitário e talentoso. Vamos ver se ele se acovarda fácil.

Não havia nenhum motivo para que o artilheiro, que era grandão, implicasse com o motorista de arado, que era bem menor, mas foi o que ele fez. Na terceira vez em que provocou o recruta de primeira classe de Nova Jersey, a coisa acabou em sopapos. Não à vista dos oficiais mais graduados. Era contra o regulamento. Mas havia um pedaço de campo aberto atrás do refeitório. Os dois concordaram em acertar suas diferenças, punhos nus, depois que escurecesse.

Encontraram-se à luz de faróis, com uma centena de colegas soldados formando um círculo, fazendo apostas contra o homem menor. A expectativa geral era de que testemunhassem uma repetição do duelo lento entre George Kennedy e Paul Newman em Rebeldia Indomável. Não foi o que aconteceu.

Como ninguém mencionou as Regras de Queensberry, o homem menor caminhou direto até o artilheiro, agachou-se sob o primeiro golpe de remoção de cabeça e chutou com força o adversário debaixo do joelho. Circulando seu oponente agora perneta, o motorista de escavadeira desferiu-lhe dois socos nos rins e um chute na virilha.

Quando a cabeça do grandão desceu até seu nível, ele dirigiu o nó médio do punho direito contra a têmpora esquerda, e as luzes se apagaram para o artilheiro.

- Você não luta limpo - disse o corretor de apostas quando Dexter estendeu a mão para receber sua parte.

- Não, e também não perco - ele disse.

Fora do anel de luzes, o oficial acenou com a cabeça para os dois PMs que estavam com ele, que então avançaram para empreender a prisão. Mais tarde, o artilheiro capenga recebeu os vinte dólares que lhe tinham sido prometidos.

A pena anunciada foi de trinta dias na solitária, sendo tão longa porque ele se negara a dizer o nome de seu oponente. Dexter dormiu perfeitamente bem na laje sem colchão de sua cela e ainda não tinha acordado quando alguém começou a correr uma colher de metal pelas barras. Tinha amanhecido.

- De pé, soldado - disse uma voz.

Dexter se levantou, deslizou para fora da laje e se colocou em posição de sentido. O homem tinha uma única divisa de prata de tenente na gola.

- Trinta dias aqui é realmente muito chato - disse o oficial.

- Vou sobreviver, senhor - disse o ex-recruta de primeira-classe, agora rebaixado para recruta.

- Ou você poderia sair agora.

- Acho que então haveria uma contrapartida, senhor.

- Há, sim. Você deixa para trás seus brinquedos grandes e vem comigo, juntar-se à minha unidade. Depois vamos descobrir se você é tão durão quanto pensa que é.

- E qual é a sua unidade, senhor?

- Eles me chamam de Rato Seis. Podemos ir?

O oficial assinou a liberação do prisioneiro e eles fizeram o desjejum no menor e mais privativo refeitório em toda a 1.a Divisão. Ninguém podia entrar ali sem permissão.

No momento a unidade tinha apenas quatorze membros. com Dexter eram quinze, mas o número cairia para treze dali a uma semana, quando mais dois fossem mortos.

Havia um emblema estranho na porta do "barraco", como eles chamavam seu pequeno clube. Ele mostrava um roedor em pé com cara raivosa, língua fálica, uma pistola numa mão e uma garrafa de bebida na outra. Dexter tinha se juntado aos Ratos de Túnel.

Durante seis anos, numa mudança constante de homens, os Ratos de Túnel realizaram os serviços mais sujos, mais mortais e, de longe, mais assustadores na Guerra do Vietnã, e mesmo assim suas ações eram tão secretas e seu número tão pequeno que a maior parte das pessoas de hoje em dia, até norte-americanos, pouco ou nada ouviu sobre eles.

Provavelmente não houve mais de 350 durante o período: uma pequena unidade entre os engenheiros da Big Red One, uma unidade equivalente recrutada da Tropic Lightning (25.a) Divisão. Uma centena jamais voltou para casa. Cerca de outros cem foram arrastados, gritando, nervos em frangalhos, de sua zona de combate e consignados a terapia de traumas, para jamais lutar novamente. O resto voltou para os Estados Unidos e, sendo por natureza solitários taciturnos e lacônicos, raramente mencionavam

o que tinham feito.

Nem mesmo os Estados Unidos, que não costumam ser tímidos quanto aos seus heróis de guerra, lhes concedeu medalhas ou placas. Eles vieram de lugar nenhum, fizeram o que fizeram porque precisava ser feito, e voltaram para o limbo. E sua história só começou por causa da bunda dolorida de um sargento.

Os EUA não foram os primeiros invasores do Vietnã, apenas os últimos. Antes dos americanos foram os franceses, que colonizaram as três províncias de Tonkin (norte), Annan (centro) e Cochinchina (sul), anexando-as ao seu império, juntamente com Laos e Camboja.

Mas os japoneses invasores expulsaram os franceses em 1942 e depois da derrota em 1945, os vietnamitas acreditaram que finalmente ficariam unidos e livres da dominação estrangeira. Os franceses não pensavam assim e retornaram. O principal combatente pela independência (houve outros no começo) era o comunista Ho Chi Minh. Ele formou o exército de resistência e os vietnamitas voltaram à selva para lutar. E continuaram lutando, enquanto foi necessário.

Um foco de resistência era a zona de florestas densas a nordeste de Saigon, subindo a fronteira com o Camboja. Os franceses dedicaram a esse lugar sua atenção especial (como mais tarde fariam os americanos) com uma expedição punitiva atrás da outra. Para buscar santuário, os fazendeiros locais não fugiam; eles cavavam.

Eles não tinham tecnologia, apenas uma capacidade de formiga para o trabalho duro, paciência, conhecimento local e astúcia. Eles também tinham picaretas, pás e cestas de vime. Jamais foi calculado quantos milhões de toneladas de terra eles removeram. Mas eles cavavam e removiam. Quando os franceses partiram depois de sua derrota de 1954, todo o Triângulo de Ferro era uma rede de poços e túneis. E ninguém sabia a respeito deles.

Os americanos chegaram, impondo um regime que os vietnamitas consideraram que iria torná-los mais uma vez fantoches de uma potência colonial. Eles voltaram para a selva e retomaram sua guerrilha. E voltaram a cavar. Em 1964 eles tinham cavado 321 quilômetros de túneis, câmaras, passagens e esconderijos, e todos sob o solo.

Quando finalmente começaram a compreender o que havia lá embaixo, os americanos ficaram assombrados com a complexidade do sistema de túneis. Os poços de entrada eram disfarçados com tanta competência que eram invisíveis a poucos centímetros de distância do nível do chão da selva. Embaixo havia até cinco níveis de galerias, os mais inferiores a quinze metros, ligados por passagens estreitas e serpentinas que apenas um vietnamita ou um caucasiano bem magro poderia percorrer engatinhando.

Os níveis eram ligados por alçapões, alguns conduzindo para cima, outros para baixo. Esses alçapões também eram camuflados para parecerem paredes vazias de fim-de-túnel.

Havia pavimentos, cavernas, dormitórios, oficinas, refeitórios e até hospitais. Em 1966 uma brigada completa de combate poderia ficar escondida lá embaixo, mas até a Ofensiva do Tet esse número jamais foi necessário.

A penetração da parte de um agressor era desencorajada. Se um poço vertical fosse descoberto, poderia também haver uma armadilha no fundo. Disparar contra o fundo dos túneis não adiantava de nada; eles mudavam de direção a cada poucos metros, de modo que as balas paravam na parede do fundo.

Dinamitar também não adiantava; havia um sem-número de galerias alternativas dentro do labirinto escuro como breu lá embaixo, mas eram conhecidas apenas pelos vietcongues.

Gás não funcionava; eles instalavam vedações hidráulicas, como a curva em U num encanamento.

A rede corria debaixo da selva desde os subúrbios de Saigon, nas proximidades da fronteira com o Camboja. Havia diversas outras redes em outros lugares, mas nada como os Túneis de Cu Chi, que recebeu esse nome em referência à cidade mais próxima.

Depois da monção o solo de barro ficava maleável, fácil de cavar e ser transportado em cestas. Quando seco, ficava duro como concreto.

Depois da morte de Kennedy, os americanos chegaram em números significativos e não mais como instrutores, mas para combate, começando na primavera de 1964. Eles tinham seu grande número, armas, máquinas, poder de fogo - e não acertavam nada. Eles não acertavam nada porque não achavam nada; apenas um cadáver ocasional de vietcongue, se dessem sorte. Mas sofriam baixas, e a contagem de corpos começou a aumentar.

No começo era conveniente presumir que os vietcongues eram camponeses durante o dia, perdidos entre os milhões de homens vestidos em pijamas pretos, e colocavam suas roupas de guerrilheiros à noite. Mas por que tantas mortes de dia, e ninguém contra quem disparar? Em janeiro de 1966 o Big Red One decidiu demolir o Triângulo de Ferro de uma vez por todas. Chamaram a isso Operação Prensa.

Começaram em uma extremidade, dispersaram, e avançaram à frente. Tinham munição suficiente para varrer a Indochina. Eles alcançaram a outra extremidade e não encontraram ninguém. Atiradores escondidos começaram a disparar e os GIs tiveram cinco mortos. Quem estava atirando devia ter apenas carabinas velhas, de carregamento manual, mas uma bala no coração sempre é uma bala no coração.

Os GIs recuaram, cobriram o mesmo terreno. Nada, nenhum inimigo. Sofreram mais fatalidades, sempre no fundo, ties descobriram alguns buracos de raposa, uma fileira de abrigos antiaéreos. Vazios, sem oferecer nenhuma cobertura. Mais disparos de atiradores, mas nenhum homem de preto correndo pelo mato.

No quarto dia, o sargento Stewart Green, farto de tudo aquilo, como a maioria dos seus colegas, sentou para descansar. Em dois segundos estava em pé, massageando a bunda. Formigas-de-fogo, escorpiões, cobras: o Vietnã tinha tudo isso. Estava convencido de que havia sido picado ou mordido. Mas tinha sido uma cabeça de prego.

O prego fazia parte de uma moldura, e a moldura era o alçapão oculto para um poço que descia direto para a escuridão. Os soldados americanos tinham descoberto para onde os atiradores iam. Os americanos estavam marchando em cima das cabeças deles há dois anos.

Não havia como lutar contra vietcongues que viviam e se escondiam na escuridão do subsolo por controle remoto. A sociedade que dali a três anos enviaria dois homens para caminhar na lua não tinha tecnologia para os Túneis de Cu Chi. Havia apenas uma maneira de levar a luta até o inimigo invisível.

Alguém precisava se vestir apenas com calças finas de tecido de algodão e, munido de revólver, faca e tocha, descer até aquele labirinto escuro, fedorento, abafado, desconhecido, não mapeado, infestado de armadilhas, mortal e terrivelmente claustrofóbico de passagens escuras, sem saída conhecida, e lutar contra o inimigo invisível.

Alguns homens foram encontrados, um tipo especial de homem. Homens grandes, fortes e esquentados seriam inúteis. Os 95% que sofriam de claustrofobia seriam inúteis.

Os contadores de vantagens, vaidosos e exibicionistas seriam inúteis. Aqueles que serviam eram os dotados de personalidades calmas, introvertidas e meditativas,

que freqüentemente eram solitários em suas próprias unidades. Eles precisavam ser muito calmos, até frios. Deviam possuir nervos de aço e ser praticamente imunes ao pânico, o verdadeiro inimigo debaixo do solo.

A burocracia do exército, que nunca deixa de usar dez palavras quando duas bastariam, chamaram esses homens de "Equipe de Exploração de Túneis". Os homens chamavam a si próprios de Ratos de Túnel.

Quando Cal Dexter chegou ao Vietnã eles já existiam há três anos, e eram a única unidade cuja taxa de Corações Púrpuras (feridos em ação) era de 100%.

O comandante do momento era conhecido como Rato Seis. Cada um tinha um número diferente. Ao se juntar ao grupo, eles se afastavam do restante dos soldados, e todos os tratavam com o respeito que as pessoas demonstram na companhia de condenados à morte.

Rato Seis tinha acertado seu palpite. O rapaz valente dos canteiros de obras de Nova Jersey, com seus punhos e pés mortais, olhos de Paul Newman e nervos de aço, tinha nascido para o serviço.

Ele desceu com o rapaz para os Túneis de Cu Chi e, em uma hora, percebeu que o recruta era um grande guerreiro. Fizeram-se parceiros debaixo do solo, onde não havia patentes nem tratamentos de "senhor", e durante quase dois períodos lutaram e mataram na escuridão, até Henry Kissinger encontrar-se com Le Due Tho e concordar que os EUA deixariam o Vietnã. Depois disso não houve motivo para continuar.

Para o resto da Big Red One a dupla tornou-se uma lenda, comentada em sussurros. O oficial era conhecido como "Texugo e o sargento recém-promovido como "Toupeira".

 

                   O RATO DE TÚNEL

NO EXÉRCITO UMA DIFERENÇA DE IDADE DE MEROS SEIS ANOS entre dois homens jovens pode parecer uma geração. O homem mais velho quase representa uma figura paternal.

Assim era com Texugo e Toupeira. Aos 25, o oficial era seis anos mais velho. Além disso, provinha de um nível social diferente, com uma educação muito melhor.

Seus pais eram profissionais muito requisitados. Depois do ensino médio passara um ano viajando pela Europa, conhecendo a Grécia antiga e Roma, a Itália histórica, Alemanha, França e Grã-Bretanha.

Cursara quatro anos de faculdade para se formar em engenharia civil e mecânica, antes de ser recrutado. Também ele optara pela comissão de três anos e fora direto para a escola de oficiais em Forte Belvoir, Virgínia.

Nessa época Forte Belvoir vomitava cerca de cem sub-oficiais ao mês. Nove meses depois de ingressar, Texugo emergiu como segundo-tenente, ascendendo a primeiro quando foi enviado ao Vietnã para juntar-se ao Primeiro Batalhão de Engenharia da Big Red One. Ele também tinha sido co-optado para os Ratos de Túnel, e devido ao seu posto, tornou-se rapidamente Rato Seis quando seu predecessor voltou para casa. Ele tinha nove meses de sua missão de um ano no Vietnã para completar, dois meses menos do que Dexter.

Mas depois de um mês ficou claro que quando os dois homens desciam aos túneis, os papéis se invertiam. Texugo obedecia a Toupeira, aceitando que o rapaz, com anos nas ruas e em canteiros de obras em Nova Jersey, possuía uma espécie de sentido para o perigo, a ameaça silenciosa depois da próxima curva, o cheiro de uma armadilha.

Eram aptidões desenvolvidas sem nenhum grau universitário, aptidões que mantinham os dois vivos.

Antes que cada um dos homens tivesse chegado ao Vietnã, o alto comando norte-americano compreendeu que tentar explodir o sistema de túneis era um desperdício de tempo. A mudança contínua de direção nos túneis significava que as forças explosivas podiam chegar apenas a até uma certa distância, que não era suficiente.

Tentativas foram realizadas para inundar os túneis, mas a água simplesmente era absorvida pelas paredes. Devido às vedações hidráulicas, o gás também falhava. Decidiu-se que a única forma de levar o inimigo à batalha era descendo e tentando encontrar a rede de quartéis-generais de toda a Zona C da guerra vietcongue.

Ela, acreditava-se, estava lá embaixo em algum lugar, entre a ponta sul do triângulo de ferro na junção dos rios Saigon e ThiTinh e a floresta Boi Loi na fronteira com o Camboja. Encontrar esse QG, varrer todos os escalões superiores, obter a maior quantidade possível de informações privilegiadas que pudesse haver lá embaixo - esse era o objetivo e, se fosse alcançado, um tesouro de valor incalculável.

Na verdade o QG ficava debaixo da floresta Ho Bo, que se alcançava subindo o rio Saigon, e nunca foi encontrado. Mas sempre que os tanques-escavadeiras ou os Arados de Roma descobriam outra entrada de túnel, os Ratos desciam ao inferno para continuar a procura.

As entradas eram sempre verticais e isso representava o primeiro perigo. Descer primeiro com os pés era expor a parte inferior do corpo a qualquer vietcongue esperando no túnel lateral. Este ficaria feliz em enfiar uma lança de bambu na virilha ou nas entranhas do soldado americano antes de mergulhar de volta na escuridão. Depois que o americano moribundo tivesse sido puxado para cima, com a haste da lança roçando nas paredes e a ponta envenenada rasgando seus intestinos, suas chances de sobrevivência seriam mínimas.

Descer primeiro com a cabeça significava correr o risco de receber a lança, baioneta ou bala à queima-roupa através da base da garganta.

A forma mais segura parecia ser descer lentamente até o último metro e meio, depois cair depressa e disparar contra o mais leve movimento dentro do túnel. Mas a base do poço poderia ser de galhos e folhas, ocultando um poço de lanças de bambu. Cada uma delas era envenenada e podia trespassar a sola de uma bota de combate e atravessar o pé até o outro lado. Sendo curvadas como anzóis e farpadas, as pontas das lanças geralmente não podiam ser retiradas. E poucos sobreviviam a elas.

Uma vez dentro do túnel e engatinhando à frente, o perigo seria o vietcongue esperando depois da próxima curva, mas a possibilidade de cair numa arapuca era ainda mais provável. Era grande o número de arapucas, todas realizadas com grande astúcia. Os americanos precisavam desarmá-las antes de avançar mais.

Alguns horrores não precisavam de nenhum vietcongue. Tanto o morcego do néctar quanto o morcego barba-preta de tumba habitavam as cavernas e dormiam durante o dia nos túneis

até serem perturbados. O mesmo valia para as imensas aranhas-caranguejeiras, que infestavam as paredes em tal número que as próprias paredes pareciam se mover.

Ainda mais numerosas eram as formigas-de-fogo.

Nenhuma dessas criaturas era letal; essa honra cabia à víbora de bambu, cuja mordida significava morte em meia hora. A armadilha costumava ser um metro de bambu encaixado no teto, salientado para baixo e em ângulo de menos de três centímetros.

A cobra ficava dentro do tubo, cabeça para baixo, encarcerada e furiosa, sua fuga bloqueada com uma rolha de paina de sumaúna na ponta inferior. Através da rolha passava uma extensão de linha de pesca, correndo por um buraco numa caviIha na parede em um lado, e dali para uma cavilha ao longo do túnel. Se o soldado americano que vinha engatinhando tocasse a linha, puxaria a rolha para fora do bambu sobre ele e a víbora cairia em sua nuca.

E havia ratos, ratos de verdade. Nos túneis eles tinham descoberto seu paraíso particular e ali reproduziam-se ardorosamente. Assim como os soldados americanos jamais deixariam um homem ferido ou mesmo um cadáver nos túneis, os vietcongues odiavam deixar uma de suas baixas acima do solo para que os americanos achassem o cadáver e o adicionassem à sua querida "contagem de corpos". Vietcongues mortos eram trazidos para baixo e sepultados nas paredes em posição fetal, antes de ser cobertos com barro molhado.

Mas uma camada de barro não detém um rato. Assim, os ratos dispunham de uma fonte interminável de alimento e cresciam até o tamanho de gatos. Ainda assim, os vietcongues viviam lá embaixo por semanas ou mesmo meses a fio, desafiando os americanos a descer ao seu domínio, encontrando-os e lutando com eles.

Os que faziam isso e sobreviviam ficavam tão acostumados ao fedor quanto às formas de vida repugnantes. Ali sempre era quente, pegajoso, apertado e escuro como breu.

E fedia. Os vietcongues precisavam executar suas funções corporais em potes de barro; quando cheios, eles eram enterrados no chão e cobertos com um tampão de barro.

Mas os ratos abriam esses tampões com facilidade.

Vindos do país mais bem armado do planeta, os GIs que se tornaram Ratos de Túnel precisaram abrir mão de toda tecnologia e voltar a ser homens das cavernas. Uma faca de campanha, uma pistola, uma lanterna, um pente de balas sobressalente e duas pilhas de reserva: isso era tudo que levavam lá para baixo. Ocasionalmente usavam uma granada de mão, mas elas eram perigosas, e às vezes fatais, para o arremessador. Em espaços apertados, a explosão podia estourar tímpanos, mas, pior, a explosão sugaria todo o oxigênio por centenas de metros. Um homem podia morrer antes que mais ar entrasse nas galerias.

Para um Rato de Túnel, usar o revólver ou a lanterna significava revelar sua posição e anunciar sua chegada, sem jamais saber quem estava agachado na escuridão, aguardando em silêncio. Neste sentido, os vietcongues sempre tinham a vantagem. Tudo que precisavam fazer era ficar em silêncio e aguardar o homem que vinha se arrastando até eles.

O mais assustador de tudo, e a fonte de muitas mortes, era a tarefa de penetrar os alçapões que conduziam de nível para nível, em geral para baixo.

Muitas vezes um túnel dava num beco sem saída. Mas seria mesmo um beco sem saída? Se era, por que fora escavado? Na escuridão, com as pontas dos dedos sentindo nada à frente além de uma parede de barro, nenhuma galeria lateral para a esquerda ou a direita, o Rato de Túnel precisava usar a lanterna. Isto geralmente revelava um alçapão camuflado na parede, no assoalho ou no teto. Então a missão era abortada ou o alçapão era aberto.

Mas quem estaria esperando do outro lado? Se o GI entrasse com a cabeça primeiro e houvesse um vietcongue esperando, a vida do americano terminaria com uma garganta cortada de lado a lado ou estrangulada por uma corda ou um fio fino. Se ele descesse com os pés na frente, poderia ser uma lança perfurando a barriga. Então morreria em agonia, a parte superior do corpo gritando num nível, a parte inferior dilacerada no outro.

Dexter encomendara aos armeiros granadas pequenas, do tamanho de tangerinas, com cargas explosivas menores que a do modelo padrão, mas com um número maior de metais de fragmentação. Por duas vezes em seus primeiros meses ele levantou um alçapão, arremessou para o outro nível uma granada com um fuso de três minutos, e puxou de novo o alçapão para baixo. Quando abriu a porta uma segunda vez e subiu com a lanterna acesa, encontrou na câmara seguinte um açougue de corpos destroçados.

Os complexos eram protegidos de ataques de gás por armadilhas de água. O Rato de Túnel que viesse engatinhando poderia encontrar uma poça de água fétida à frente.

Isso significava que o túnel continuava do outro lado da água. A única forma de atravessar a poça era ficar de costas no chão, fincar as pontas dos dedos no teto para impulsionar o corpo e deslizar para dentro da água. A esperança era de que a água terminasse antes do ar nos pulmões. Do contrário morreria afogado, de cabeça para baixo, na escuridão, a quinze metros de profundidade. A forma de sobreviver era confiando no parceiro.

Antes de entrar na água, o homem na frente amarraria uma corda nos pés e a passaria para o parceiro atrás dele. Se noventa segundos depois de entrar na água ele não desse um puxão na corda, confirmando que achara ar no outro lado da armadilha, seu parceiro teria de puxá-lo sem atraso porque ele estava morrendo lá na frente.

Em meio a todo esse sofrimento, desconforto e medo, ocasionalmente havia um momento em que os Ratos de Túnel descobriam um veio de ouro. Isso seria uma caverna, às vezes recém-esvaziada às pressas, que tinha sido claramente um sub-QG importante. Então caixas de documentos, provas, pistas, mapas e outros prêmios seriam levados para os especialistas em inteligência do G2.

Duas vezes Texugo e Toupeira encontraram uma dessas cavernas de Aladim. Os oficiais de alta patente, sem saber ao certo como lidar com esses homens jovens e estranhos, conferiam-lhes medalhas e palavras calorosas. Mas o pessoal de relações públicas, sempre ávido para contar ao mundo como a guerra estava indo bem, foi aconselhado a não aparecer. Um oficial do departamento de relações públicas chegou a fazer uma visita às instalações, mas o "convidado" desceu treze metros por um túnel "seguro" e entrou em pânico. Depois disso, os relações-públicas não voltaram a se manifestar.

Mas havia longos períodos de nenhum combate, para os Ratos assim como para todos os outros GIs no Vietnã. Alguns passavam suas horas de folga dormindo, ou escrevendo cartas, torcendo pelo fim de sua missão e a volta para casa. Alguns passavam esse tempo bebendo, ou jogando carteado ou dados. Muitos fumavam, e nem sempre Marlboro.

Alguns se tornavam viciados. Outros liam.

Cal Dexter foi um deles. Conversando com seu oficial-parceiro, ele percebeu o quanto sua educação formal era falha, e recomeçou do zero. Ele descobriu um fascínio por história. O bibliotecário da base ficou deliciado e impressionado, e preparou uma longa lista de livros obrigatórios que ele mandou buscar em Saigon.

Dexter estudou Grécia e Roma, aprendeu sobre Alexandre, que aos 31 anos chorou porque havia derrotado o mundo conhecido e não havia mais mundos a conquistar.

Aprendeu sobre o declínio e a queda de Roma, a Idade Média e a Europa medieval, o Renascimento e o Iluminismo, a Idade da Elegância e a Idade da Razão. Ficou particularmente fascinado pelos primeiros anos do nascimento das colônias americanas, a Revolução e porque seu próprio país tivera uma guerra civil violentíssima apenas noventa anos antes que ele nascesse.

Ele fez uma outra coisa naqueles longos períodos, quando a monção ou as ordens o mantinham confinado na base. com a ajuda dos vietnamitas idosos que varriam e limpavam as acomodações da base, aprendeu vietnamita coloquial até se fazer compreender e entender ainda mais do que isso.

Nove meses de sua primeira jornada no Vietnã tinham se passado quando duas coisas aconteceram. Ele recebeu seu primeiro ferimento em combate e Texugo terminou seu período de doze meses.

A bala veio de um vietcongue que estivera escondido num dos túneis enquanto Dexter descia o poço da entrada. Para confundir esse tipo de inimigo tocaiado, Dexter desenvolvera uma técnica. Jogava uma granada pelo poço, e então entrava depressa, braços na frente. Se a granada não explodisse a porta falsa do POÇO, era porque não havia uma armadilha de lanças de bambu lá embaixo. Se explodisse, Dexter tinha tempo para parar antes de bater nas lanças.

A mesma granada esfrangalharia qualquer vietcongue que tivesse esperando escondido. Nesta ocasião o vietcongue estava lá embaixo, empunhando uma AK47 Kalashnikov, posicionado a uma certa distância da passagem. Ele sobreviveu ao impacto, mas se feriu, e disparou um tiro contra o Rato de Túnel que vinha caindo depressa. Dexter pousou com o revólver em punho e respondeu com três tiros. O vietcongue desceu, saiu engatinhando, mas depois foi encontrado morto. Dexter foi acertado no braço superior esquerdo, um ferimento superficial que cicatrizou bem, mas o manteve acima do solo por um mês. O problema do Texugo foi mais sério.

Os soldados admitem, e os policiais confirmam: não há substituto para um parceiro em quem você pode confiar completamente. Desde que formaram sua parceria naqueles primeiros dias, Texugo e Toupeira não queriam descer aos túneis com mais ninguém. Em nove meses, Dexter tinha visto quatro Ratos sendo mortos lá embaixo. Em um caso, o Rato de Túnel sobrevivente voltou à superfície gritando e chorando. Ele jamais desceu um túnel novamente, mesmo depois de semanas sob tratamento psiquiátrico.

Mas o corpo do que não sobreviveu ainda estava nos subterrâneos. Texugo e Toupeira desceram com cordas para encontrar o homem e arrastá-lo para cima, para então ser repatriado e desfrutar de um funeral cristão. Sua garganta tinha sido cortada. Nada de caixão aberto para ele.

Dos treze originais, mais quatro haviam desistido no final de seu período. Restavam oito. Seis recrutas se alistaram. O contingente da unidade voltou a ser de onze homens.

- Não quero descer até lá com outra pessoa - disse Dexter ao seu parceiro quando Texugo foi visitá-lo na clínica da base.

- Nem eu, se fosse o contrário - retrucou Texugo.

Eles concordaram que se Texugo se oferecesse para um segundo período de um ano, Toupeira faria o mesmo dali a três meses. Assim foi feito. Ambos aceitaram um segundo período e voltaram para os túneis. O general-comandante da Divisão, embaraçado com sua própria gratidão, deu-lhes mais duas medalhas.

Havia certas regras lá embaixo nos túneis que jamais eram quebradas. Uma era: jamais desça sozinho. Devido ao seu notável radar para perigos, Toupeira costumava ir na frente com Texugo vários metros atrás. Outra regra era: nunca dispare todos os seis tiros ao mesmo tempo. Isso diz ao vietcongue que você agora está sem munição, e é um alvo indefeso. Em maio de 1970, depois de dois meses de seu segundo período, Cal Dexter quase quebrou ambas as regras, e teve a sorte de sobreviver.

A dupla havia entrado num poço recém-descoberto nas florestas de Ho Bo. Toupeira estava muito à frente e engatinhara 270 metros através de um túnel que tinha mudado de direção quatro vezes. Ele sentira com as pontas dos dedos duas armadilhas e as desconectara. Dexter não percebeu que Texugo tinha se defrontado com sua fobia pessoal, dois morcegos de tumba que tinham caído em seus cabelos, e então parará, incapaz de falar ou prosseguir.

Toupeira estava engatinhando sozinho, quando viu ou pensou ter visto um brilho muito leve vindo da próxima esquina. Estava tão escuro que ele pensou que sua retina estava lhe pregando peças. Deslizou silenciosamente até a esquina e parou, revólver na mão direita. O brilho também permaneceu imóvel, logo depois da esquina. Esperou ali por dez minutos, sem saber que seu parceiro paralisado estava muito atrás dele e fora de vista. Então decidiu sair da imobilidade. Ele contornou a esquina com seu torso.

A três metros dali esperava um vietcongue, de gatinhas. Entre eles estava a fonte de luz, uma lamparina de óleo de coco com um pavio grosso flutuando nela. O vietcongue evidentemente a vinha empurrando ao longo do piso para cumprir sua missão, checando as armadilhas. Durante meio segundo, os dois inimigos se fitaram. Então ambos reagiram.

Com as costas dos dedos o vietnamita jogou o prato de óleo de coco quente no rosto do americano. A luz foi abafada imediatamente. Dexter levantou a mão esquerda para proteger os olhos e sentiu o óleo ardente esparramar-se pelas costas de sua mão. com a mão direita disparou três vezes enquanto ouvia um som de retirada frenética túnel abaixo. Ficou profundamente tentado a usar as outras três balas, mas não sabia se havia outros vietcongues ali.

Sem que Texugo e Toupeira soubessem, eles tinham engatinhado em direção ao QG de toda a Zona de Comando dos vietcongues. E cinqüenta vietcongues o protegiam.

Durante todo esse tempo havia, lá nos Estados Unidos, uma pequena unidade secreta chamada Laboratório de Guerra Limitada. Durante toda a Guerra do Vietnã eles conceberam idéias esplêndidas para ajudar os Ratos de Túnel, embora nenhum desses cientistas jamais tenha descido um túnel. Eles enviavam suas idéias ao Vietnã para que os Ratos, que realmente desciam os túneis, as experimentassem, descobrissem que elas eram gloriosamente ineficazes e as remetessem de volta.

No verão de 1970, o Laboratório de Guerra Limitada inventou um novo tipo de arma para disparos a curta distância num espaço confinado. E finalmente eles acertaram em cheio. Era uma Magnum calibre 44 modificada com um cano de apenas sete centímetros e meio para facilitar o manuseio, mas com munição especial.

A bala muito pesada desta Magnum 4 foi dividida em quatro segmentos. Eles eram mantidos como um só pelo cartucho, mas ao emergir do cano separavam-se para se transformarem em quatro balas ao invés de uma. Os Ratos de Túnel acharam a arma muito boa para operações à queima-roupa. A arma era muito mortal nos túneis porque se disparada duas vezes enchia o ambiente à frente com oito projéteis ao invés de dois. Agora as chances de acertar o vietcongue eram bem maiores.

Apenas 75 dessas armas foram fabricadas. Os Ratos de Túnel as usaram durante seis meses, e depois elas foram retiradas de circulação. Alguém descobriu que elas provavelmente infringiam a Convenção de Genebra. Assim, os 74 revólveres localizáveis Smith and Wesson foram enviados de volta para os Estados Unidos e jamais voltaram a ser vistos.

Os Ratos de Túnel tinham uma oração curta e simples:

"Se eu tiver de receber uma bala, que seja. Se eu tiver de tomar uma facada, azar meu. Mas por favor, Senhor, não permita que eu jamais fique enterrado vivo lá embaixo."

Foi no verão de 1970 que Texugo foi enterrado vivo.

Ou os GIs não deveriam estar nos subterrâneos ou os bombardeiros B-52 que decolaram de Guam não deveriam estar bombardeando lá de cima. Mas alguém ordenou os bombardeios e esse alguém deixou de avisar os Ratos de Túnel.

Acontece. Não muito, mas todo mundo que já esteve nas forças armadas conhece algum caso de um pelotão que foi prejudicado por uma operação da aeronáutica.

Era a nova forma de pensar: destruir os complexos de túneis cavando-os com explosões maciças largadas pelos B-52. Em parte isso foi causado pela mudança na psicologia.

Lá nos EUA a opinião pública agora era em sua maior parte contra a Guerra do Vietnã.

Agora os pais estavam se juntando aos seus filhos nas manifestações contra a guerra.

Na zona de guerra, a Ofensiva do Tet, realizada treze meses antes, não tinha sido esquecida. O moral estava simplesmente escoando pelo chão da selva. Ainda não se falava sobre isso no comando, mas os soldados começavam a acreditar que esta guerra não seria vencida. Ainda faltavam três anos para que o último GI embarcasse no último avião para fora do Vietnã, mas no verão de 1970 o alto comando decidiu destruir os túneis nas "zonas de ataque livre" com bombas. O Triângulo de Ferro era uma zona de ataque livre.

Como toda a 25.a Divisão de Infantaria era baseada lá, os bombardeiros tinham instruções para que nenhuma bomba caísse a menos do que três quilômetros da unidade norte-americana mais próxima. Mas naquele dia o alto comando esqueceu de Texugo e Toupeira, que estavam numa divisão diferente.

Eles se encontravam num complexo nas cercanias de Bem Sue, no segundo nível, quando sentiram, mais do que ouviram, o primeiro baque das bombas acima deles. Esquecendo os vietcongues, engatinharam freneticamente em direção ao túnel que subia para o nível um.

Toupeira conseguiu e estava a nove metros do último poço para a superfície quando o teto caiu. Foi atrás dele. Ele gritou "Texugo", mas não houve resposta. Sabia que havia uma pequena alcova dezoito metros adiante porque tinham passado por ela na vinda. Empapado em suor, ele se arrastou até ela e usou a largura extra para se virar e retornar de cabeça para a frente.

Encontrou a pilha de terra com as pontas dos dedos. Então sentiu a mão, depois outra, mas nada além disso, exceto terra caída. Começou a cavar, jogando a terra para trás, mas bloqueando sua saída ao fazer isso. Levou cinco minutos para liberar a cabeça de seu parceiro, mais cinco para liberar o torso. O bombardeio havia cessado, mas lá em cima destroços bloquearam as passagens de ar. Eles começaram a ficar sem oxigênio.

- Cai fora daqui, Cal - sibilou Texugo na escuridão. - Volte depois com ajuda. Vou ficar bem.

Dexter continuou cavando terra com as pontas dos dedos. Tinha perdido duas unhas inteiramente. Ele calculou que levaria mais de uma hora para conseguir ajuda. Seu parceiro não sobreviveria metade desse tempo com as passagens de ar bloqueadas. Ligou a lanterna e enfiou o cabo na mão do seu parceiro.

- Segure isto. Dirija o facho para trás, sobre o ombro.

À luz amarela viu a massa que cobria as pernas de Texugo. Soltá-las levou mais meia hora. Depois os dois tiveram de engatinhar de volta até a luz do dia, espremendo-se entre os cascalhos que tinham jogado para trás ao cavar. Os pulmões de Toupeira doíam, sua cabeça girava, e agora seu parceiro estava semiconsciente. Toupeira dobrou a última esquina e sentiu o ar.

Em janeiro de 1971 Texugo chegou ao fim de seu segundo período. Prolongamento para um terceiro era proibido, mas já tinha suportado muita coisa. Na noite antes de voar de volta para os Estados Unidos, Toupeira conseguiu permissão para acompanhar o parceiro até Saigon e dizer adeus. Eles foram até a capital com um comboio blindado.

Dexter tinha certeza de que conseguiria uma carona de volta num helicóptero no dia seguinte.

Os dois jantaram e depois fizeram uma ronda pelos bares. Evitaram as hordas de prostitutas, mas se concentraram seriamente em seu processo de alcoolização. Às duas da manhã acordaram, sem sentir nenhuma dor, em algum lugar em Cholon, o bairro chinês de Saigon do outro lado do rio.

Havia uma loja de tatuagem ainda aberta, e o tatuador estava disposto a fazer negócio, especialmente em dólares. O chinês estava sabiamente contemplando um futuro fora do Vietnã.

Antes de saírem da loja e pegarem o barco de volta através do rio, os rapazes americanos tinham criado uma tatuagem que agora decorava o antebraço esquerdo de cada um deles.

O desenho de um rato, não o rato agressivo na porta dos alojamentos em Lai Khe, mas um rato sapeca.

Estava de costas para o espectador, olhando sobre o ombro, piscando com um sorriso cúmplice.

E estava de calças arriadas, mostrando a bunda. Eles riram até ficarem sóbrios. Mas então já era tarde demais.

Texugo voou de volta para os Estados Unidos na manhã seguinte. Dez semanas depois foi a vez do Toupeira, em meados de março. Em 1 de abril de 1971 os Ratos de Túnel formalmente deixaram de existir.

Esse foi o dia em que Cal Dexter, a despeito do estímulo em contrário da parte de vários oficiais, pediu baixa do exército e retornou para a vida civil.

 

                   RASTREADOR

HÁ POUCAS ORGANIZAÇÕES MILITARES MAIS SECRETAS DO que o regimento British Special Air Service, mas se existe alguma que faz a discretíssima SÃS parecer o programa de Jerry Springer, é a Det.

A 14.a Independent Intelligence Company, também chamada de I4.a Int, ou Detachment, ou Det, é uma unidade militar que arregimenta recrutas de todas as categorias, com (e ao contrário da SÃS, que é completamente masculina) uma boa proporção de mulheres.

Embora possa, em caso de necessidade, lutar com eficiência letal, as tarefas principais da Det são localizar, seguir, pesquisar e espionar os maus elementos. Eles jamais são vistos e seus dispositivos de escuta plantados são tão avançados que raramente se consegue encontrá-los.

Uma operação bem-sucedida da Det envolveria seguir um terrorista até seu esconderijo, entrar secretamente à noite, plantar uma escuta e ouvir as pessoas más falarem durante dias ou semanas a fio. Desta forma, os terroristas acabam por revelar sua próxima operação.

Alertada, a ligeiramente mais barulhenta SÃS pode então montar uma emboscada e, assim que o primeiro terrorista disparar uma arma, mandar bala em todos eles. Legalmente.

Autodefesa.

A maioria das operações da Det até 1995 foram na Irlanda do Norte, onde obtiveram secretamente informações que conduziram a algumas das piores derrotas do IRA. Foi a Det que teve a idéia de entrar numa funerária onde um terrorista, de motivação republicana ou unionista, estava deitado num caixão, e inserir uma escuta na madeira do caixão.

Por que a Det fez isso? Porque os patrocinadores do terrorista, sabendo que estavam sob vigilância, raramente se encontravam para discutir planos. Mas num funeral eles se encontravam, debruçavam-se sobre o caixão e, cobrindo as bocas dos leitores de lábios por trás de telescópicos na colina acima do cemitério, realizavam uma conferência de planejamento. As escutas no caixão captavam tudo. O estratagema funcionou durante anos.

Nos anos seguintes, seria a Det que realizaria o "Reconhecimento Próximo de Alvo" dos assassinos em massa da Bosnia, possibilitando à SÃS seqüestrar pelotões para levá-los a julgamento em Haia.

A companhia cujo nome Steve Edmond descobrira com o Sr. Rubinstein, o colecionador de arte de Toronto que havia recuperado misteriosamente suas pinturas, era chamada de Hazard Management, uma agência muito discreta baseada no distrito de Victoria, em Londres.

A Hazard Management era especializada em três coisas e seu quadro de funcionários era formado principalmente por exmembros das Forças Especiais. A divisão mais lucrativa da companhia era a Proteção a Bens, que como seu nome implica, era a proteção de propriedades extremamente caras em benefício de pessoas muito ricas que não queriam ser separadas delas. Isto era realizado apenas em ocasiões especiais, por períodos de tempo limitado, não de forma permanente.

A segunda divisão mais lucrativa era a Proteção Individual. Isto também era realizado apenas por períodos de tempo limitado, embora houvesse uma pequena escola em Wiltshire onde os guarda-costas pessoais de um homem rico poderiam ser treinados, por uma taxa substancial.

A menor das divisões da Hazard Management era conhecida como L&R, Localização e Recuperação. Tinha sido este o serviço usado pelo Sr. Rubinstein: alguém para localizar suas obras-primas desaparecidas e negociar seu retorno.

Dois dias depois de receber o telefonema de sua filha frenética, Steve Edmond teve uma reunião com o executivo da Hazard Management e explicou o que queria.

- Encontre meu neto. Este não é um empreendimento com teto orçamentário.

O ex-diretor das Forças Especiais, agora aposentado, sorriu. Até os soldados tinham filhos para educar. O homem para quem ele ligou em sua casa de campo no dia seguinte foi Phil Gracey, ex-capitão do Regimento de Pára-quedismo e veterano de dez anos da Det. Dentro da companhia, ele era conhecido apenas como "Rastreador".

Gracey teve sua própria reunião com o canadense e seu interrogatório foi extremamente detalhado. Se o menino ainda estava vivo, queria saber tudo sobre seus hábitos pessoais, gostos, preferências, até vícios. Ele tomou posse de duas boas fotografias de Ricky Colenso e o número do celular pessoal do avô- Então se despediu com um aceno de cabeça e saiu.

Rastreador passou quase dois dias continuamente ao telefone- Não pretendia agir antes que soubesse exatamente para onde estava indo, como, por quê, e por quem estava procurando. Passou horas lendo materiais escritos especiais sobre a guerra civil da Bosnia, os programas de ajuda e a presença militar não-bosniana no solo. Deu sorte com a última.

Os Estados Unidos tinham criado uma força militar de "manutenção da paz", a loucura habitual de enviar uma força para manter a paz onde não havia paz a manter, e depois proibi-la de criar a paz, dando-lhe ordens de assistir aos massacres sem interferir. Os militares foram chamados de Unprofor e o governo inglês supriu um

grande contingente. Estava baseado em Vitez, apenas a dezesseis quilômetros de Travnik.

O regimento reunido lá em 1995 era recente; seu predecessor fora dispensado apenas dois meses antes. Rastreador encontrou o coronel que comandara o regimento anterior em Pirbright. Ele foi um manancial de informações. No terceiro dia depois de sua conversa com o avô canadense, o Rastreador voou para os Bálcãs; não direto para a Bosnia (impossível) mas até o balneário adriático Split, na costa da Croácia. Dizia a todos que era jornalista free-lance, que é um disfarce muito útil. Mas também incluiu uma carta de um jornal importante pedindo por uma série de artigos sobre a eficácia da assistência social prestada por organizações internacionais naquela região. Só por precaução.

Em 24 horas em Split, desfrutando de uma agitação inesperada no principal ponto de transferência para o interior da Bosnia, ele havia adquirido um veículo off-road de segunda mão mas muito resistente, e um revólver. Só por precaução. Foi um percurso longo e difícil através das montanhas da costa até Travnik, mas ele tinha confiança de que suas informações eram precisas; ele não entraria em nenhuma zona de combate, e não entrou.

Era um combate estranho, aquela guerra civil da Bosnia. Não havia realmente exércitos, ou algo digno desse nome, e jamais uma batalha verdadeira. Apenas uma manta de retalhos de comunidades mono-étnicas vivendo com medo, centenas de vilarejos incendiados e etnicamente "purificados" e, vagueando entre eles, bandos de soldados, em sua maioria pertencentes a um dos exércitos "nacionais" circundantes, mas também incluindo grupos de mercenários, vagabundos e paramilitares psicóticos posando de patriotas.

Esses eram os piores.

Em Travnik, Rastreador deparou com seu primeiro revés. John Slack tinha partido. Uma alma amistosa da Age Concern disse que acreditava que o americano tinha se juntado à Feed the Children, uma ONG muito maior, e estava baseado em Zagreb. Rastreador passou a noite em seu saco de dormir na traseira do 4X4 e partiu no dia seguinte para mais um percurso torturante para o norte até Zagreb, a capital croata. Ali encontrou John Slack no armazém da Feed the Children.

Ele não pôde ajudar muito.

- Não tenho a menor idéia do que aconteceu, para onde ele foi ou por quê - protestou John Slack. - Olha, amigo, a operação Loaves"n" Fishes fechou no mês passado, e ele foi um dos responsáveis por isso. Desapareceu com um dos meus Landeruisers novinhos em folha; ou seja, cinqüenta por cento dos meus meios de transporte. Além disso, ele levou um dos meus três ajudantes locais. Charleston não ficou nada feliz com isso. com a paz finalmente em andamento, eles não quiseram recomeçar tudo do zero. Tive sorte de achar um bico aqui.

- E quanto ao bósnio?

Fadil? Nenhuma chance dele estar por trás disso. Era um sujeito decente. Passava a maior parte do tempo enlutado por sua família. Se ele odiava alguém, eram os sérvios, não os americanos.

Algum sinal da pochete com dinheiro?

Rapaz, aquilo era uma estupidez. Avisei a ele. Era dinheiro Demais para deixar para trás ou carregar por aí. Mas eu não creio que Fadil o tivesse matado por isso.

- Onde você estava, John?

- A questão é exatamente essa. Se eu tivesse estado lá, nada disso teria acontecido. Eu teria vetado a idéia, fosse ela qual fosse. Mas estava numa estrada de montanha no sul da Croácia tentando desatolar um caminhão e rebocá-lo até a cidade mais próxima. Sueco imbecil. Consegue imaginar dirigir um caminhão com o óleo baixo e não notar?

- O que descobriu?

- Quando voltei? Bem, ele tinha chegado ao complexo, entrado, pegado um Landeruiser e partido. Um dos outros bósnios, Ibrahim, viu os dois, mas eles não falaram nada. Isso foi quatro dias antes da minha volta. Fiquei ligando para o celular dele, mas ninguém respondeu. Eu estava puto da vida. Achava que os dois estavam farreando.

No começo estava mais zangado que preocupado.

- Alguma idéia da direção que tomaram?

- Bem, Ibrahim disse que seguiram para o norte. Ou seja, direto para a cidade central de Travnik. Do centro da cidade as estradas seguem em todas as direções. Ninguém na cidade lembra de nada.

- Tem algum palpite, John?

- Sim. Acredito que ele recebeu um pedido de ajuda. Ou mais provavelmente Fadil recebeu um pedido de ajuda e contou a Rick. Ele tinha coração mole. Se recebeu um pedido de ajuda sobre alguma emergência médica numa das aldeias no interior, deve ter dirigido até lá para tentar ajudar. Era impulsivo demais para deixar uma mensagem.

Já viu aquela região? Já dirigiu por ela? Montanhas, vales, rios. Acho que devem ter escorregado por um precipício e caído num vale. Quando o inverno chegar e as folhas caírem, acho que alguém vai ver os destroços lá embaixo, entre as rochas. Olha, preciso ir. Boa sorte, viu? Ele era um garoto muito bom.

Rastreador voltou para Travnik, estabeleceu um pequeno QG que combinava moradia e escritório e recrutou Ibrahim como seu guia e intérprete.

Ele levava um telefone portátil com várias baterias sobressalentes e um dispositivo de codificação para impedir que suas conversas fossem monitoradas. Isso era apenas para os contatos com a sede em Londres. Eles tinham recursos que ele não dispunha.

Rastreador acreditava que havia quatro possibilidades, variando entre ridículo, possível e provável. A mais ridícula das quatro era de que Ricky Colenso tinha decidido roubar o Landeruiser, dirigido para o sul até Belgrado, na Sérvia, vendido o veículo, abandonado toda sua vida anterior e passado a viver como um mendigo. Ele rejeitou essa idéia. Isso simplesmente não era Ricky Colenso. E por que ele roubaria um Landeruiser se o seu avô poderia lhe comprar a fábrica?

A possibilidade seguinte era de Sulejman ter persuadido Ricky a levá-lo para passear, e depois matado o jovem americano para ficar com a pochete de dinheiro e o veículo. Possível. Mas sendo um muçulmano bósnio sem passaporte, Fadil não chegaria muito longe na Croácia ou na Sérvia, ambos territórios hostis para ele, e um novo Landeruiser no mercado chamaria atenção.

Três, eles tinham se deparado com uma ou mais pessoas desconhecidas e sido mortos pelas mesmas riquezas. Entre os assassinos eventuais fora de controle que vagueavam pela região estavam alguns grupos de mujahedin, fanáticos muçulmanos do Oriente Médio, vindo "ajudar" seus companheiros muçulmanos perseguidos na Bosnia. Era sabido que eles já tinham matado dois mercenários europeus, ainda que supostamente estivessem do mesmo lado, mais um assistente social e um dono de posto de gasolina muçulmano que se recusou a doar combustível.

Mas no topo das probabilidades estava a teoria de John Slack. Dia após dia, Rastreador, auxiliado por Ibrahim, seguiu cada estrada que saía de Travnik por quilômetros até o interior. Enquanto o bósnio dirigia lentamente atrás dele, Rastreador vasculhava as margens da estrada em busca de cada possível desfiladeiro para os vales abaixo.

Estava fazendo o que fazia melhor. Lenta, pacientemente, sem deixar nada ao acaso, Rastreador procurou por marcas de pneus, marcas de derrapagem, vegetação esmagada, grama achatada por rodas. Três vezes, com uma corda amarrada ao off-road lada, desceu até as ravinas onde um amontoado de vegetação poderia ocultar um Landeruiser acidentado. Nada. com binóculos, sentou-se em bordas de estradas e perscrutou os vales em busca de um brilho de metal ou vidro lá embaixo. Nada. Ao fim de dez dias exaustivos, se convenceu de que Slack estava errado. Se um off-road daquele tamanho tinha saído da estrada e caído num desfiladeiro, teria deixado um rastro, por menor que fosse, mesmo quarenta dias depois. E ele teria visto esse rastro. Não havia nenhum veículo acidentado naqueles vales nas cercanias de Travnik.

Ele ofereceu uma recompensa por informações grande o bastante para dar água na boca. A notícia sobre o prêmio se espalhou pela comunidade de refugiados e pretendentes se apresentaram. Mas a melhor informação que conseguiu foi de que o carro tinha sido visto atravessando a cidade naquele dia. Destino desconhecido. Rota tomada, desconhecida.

Depois de duas semanas, fechou sua operação e se mudou para Vitez, quartel-general do recém-chegado contingente do exército britânico.

Encontrou um lugar para ficar na escola que fora convertida numa espécie de albergue para a imprensa inglesa. Era numa rua conhecida como Beco da TV, bem próxima do complexo do exército, mas suficientemente segura em caso de conflito.

Sabendo o que a maioria dos militares pensa da imprensa, não usou seu disfarce de "jornalista, free-lance", mas pediu uma reunião com o coronel tendo por base o que ele realmente era: ex-membro dos Serviços Especiais.

O coronel teve um irmão no Paras. Antecedentes comuns, interesses comuns. Sem problema, havia alguma coisa em que pudesse ajudar?

Sim, ele tinha ouvido falar do rapaz americano desaparecido. Coisa triste. Seus soldados haviam procurado por ele, mas nada conseguiram. O coronel ouviu a oferta de Rastreador de uma doação substancial ao Fundo Beneficente do Exército. Um exercício de reconhecimento foi montado, uma aeronave leve do pessoal de artilharia.

Rastreador foi com o piloto. Voaram sobre montanhas e ravinas durante uma hora. Nenhum sinal.

- Acho que você deve começar a pensar na possibilidade de assassinato.

- Os mujahedin!

- Possivelmente. São uns desgraçados, você sabe. Eles te olham, e se vêem que você não é muçulmano, te matam. Ou então se você for muçulmano, mas não for fundamentalista o bastante. Quinze de maio? Estamos aqui há apenas duas semanas. Ainda estamos sentindo o terreno. Mas já chequei o diário de Incidentes. Não aconteceu nenhum na área.

Você poderia tentar os relatórios de situação da ECMM. São bem inúteis, mas tenho uma pilha no escritório. Devem cobrir o dia 15 de maio.

A ECMM, a missão de monitoração da comunidade européia, era uma tentativa da União Européia baseada em Bruxe de arbitrar numa situação sobre a qual não tinha nenhuma influência. A Bósnia foi uma situação da ONU até que finalmente foi tomada e resolvida pelos Estados Unidos. Mas Bruxelas queria um papel, e assim uma equipe de observadores foi criada para dar um a eles. O resultado foi a ECMM. Rastreador folheou a pilha de relatórios do dia seguinte.

Os monitores da UE eram principalmente oficiais das forças armadas americanas emprestados pelos ministros de Defesa da UE que não tinham nada melhor a fazer. Estavam espalhados pela Bosnia, onde tinham um escritório, um apartamento, um carro e recebiam uma pensão. Alguns dos relatórios de situação pareciam mais com um diário social. Rastreador se concentrou em qualquer coisa acontecida em 15 de maio ou nos três dias seguintes. Sua atenção foi despertada por um caso em Banjaj Luka datado de 16 de maio.

Banja Luka era uma fortaleza servia a norte de Travnik e através da cadeia de montanhas Vlasic. O oficial da ECMM lá era um major dinamarquês chamado Lasse Bjerregaard.

Ele dis que na noite anterior, isto é, 15 de maio, estava num bar de Bosna Hotel quando testemunhou uma briga entre dois sérvios em uniforme de camuflagem. Um estava claramente furioso com o outro e gritando impropérios em sérvio. Ele esbofeteoul o rosto do outro homem várias vezes, mas a parte ofendida não reagiu, indicando a superioridade óbvia do primeiro.

Quando a cena acabou, o major tentou conseguir uma explicação com o barman, que falava um inglês claudicante, língua que o dinamarquês falava com fluência, mas o barman deu de ombros e se afastou de forma muito rude, o que não lhe era habitual. Na manhã seguinte, os homens uniformizados tinham saído e o major nunca mais os viu.

Rastreador pensou que esse talvez fosse o maior chute de sua vida, mas telefonou para o escritório da ECMM em Banja Luka. Mais uma troca de posto; um grego entrou na linha. Sim, o dinamarquês tinha voltado para casa na semana anterior.

Rastreador telefonou para Londres sugerindo que perguntassem ao ministro da Defesa da Dinamarca. Londres respondeu em três horas. Felizmente o nome não era tão comum assim. Tensen teria um problema. O major Bjerregaard estava de licença e seu número de telefone era em Odense.

Rastreador conseguiu falar com o major naquela noite, depois que ele tinha voltado de um dia na praia com sua família. O major Bjerregaard foi extremamente prestativo.

Ele lembrava da noite de 15 de maio com muita clareza. Afinal, havia muito pouco que um dinamarquês pudesse fazer em Banja Luka; tinha sido um posto muito solitário e tedioso.

Como em todas as noites, ele tinha ido ao bar por volta das sete e meia para tomar uma cerveja antes de jantar. Cerca de meia hora depois, um pequeno grupo de sérvios em uniformes de camuflagem entrou no bar. Ele não achou que fossem do exército iugoslavo porque não tinham emblemas de unidade nos ombros.

Pareciam muito cheios de si. Todos pediram drinques de conhaque com cerveja, uma combinação mortal. Várias rodadas de bebida depois, o major estava prestes a passar para a sala de jantar adjacente, porque o ruído estava se tornando ensurdecedor, quando outro sérvio entrou no bar. Ele parecia o comandante, porque os outros se aquietaram.

O comandante falou com eles em sérvio e deve ter-lhes ordenado para seguir com ele. Os homens começaram a esvaziar suas cervejas e a colocar seus maços de cigarro e isqueiros nos bolsos dos uniformes. Então, um deles se ofereceu para pagar.

O comandante ficou furioso. Começou a gritar com seu subordinado. Os outros ficaram calados. Os demais clientes também. E o barman.

O sermão continuou, acompanhado por dois tapas no rosto. Ainda assim, ninguém protestou. Friamente, o líder se calou e saiu do bar. Cabisbaixos e subservientes, os outros o seguiram. Ninguém se ofereceu para pagar pelas bebidas.

O major tentara obter uma explicação do barman que, após atendê-lo durante várias semanas, tornara-se seu camarada. Mas o homem estava pálido. A princípio, o dinamarquês achou que pudesse ser raiva por causa do escândalo no bar, porém mais parecia medo. Quando o dinamarquês perguntou do que se tratava tudo aquilo, o barman deu de ombros e caminhou até a outra extremidade do bar, agora vazio, e permaneceu olhando na outra direção.

- O comandante gritou com mais alguém? - perguntou Rastreador.

- Não, apenas com o homem que tentou pagar - disse a voz vinda da Dinamarca.

- Por que apenas com ele, major? Não há menção no seu relatório quanto a uma razão possível?

- Ah, eu não coloquei? Sinto muito. Creio que foi porque o homem tentou pagar com uma nota de cem dólares.

 

                     O VOLUNTÁRIO

RASTREADOR FEZ AS MALAS E DIRIGIU PARA O NORTE DE Travnik. Estava passando de território bósnio (muçulmano) para domínio sérvio.

Mas uma bandeira inglesa adejava de um mastro sobre o Lada e, com sorte, isso impediria disparos a longa distância.

Se fosse parado, ele planejava confiar em seu passaporte, a carta que provava que estava escrevendo sobre a prestação de serviço social,

e generosos presentes de cigarros de tabaco da Virgínia que comprara na cantina do quartel de Vitez.

Se tudo isso falhasse, sua pistola estava carregada e à mão. E ele sabia como usá-la.

Foi parado duas vezes, a primeira por uma patrulha de milícia bósnia enquanto deixava a região controlada pelos bósnios, e Depois por uma patrulha do exército iugoslavo a sul de Banja Luka. Nas duas vezes sua explicação, seus documentos e seus presentes funcionaram. Entrou em Banja Luka cinco horas depois.

com certeza o Bosna Hotel jamais tiraria o Ritz do ramo, mas era praticamente tudo que a cidade tinha. Ele se hospedou.

Havia muitos quartos. Exceto pela equipe de TV francesa, ele julgou que era o único estrangeiro lá. Às sete daquela noite entrou no bar. Havia três outros clientes, todos sérvios e todos sentados a mesas, e um barman. Sentou-se na banqueta do bar.

- Oi. Você deve ser Dusko.

Rastreador foi cortês e amistoso. O barman apertou a mão oferecida.

- Já esteve aqui antes?

- Não, primeira vez. Belo bar. Muito aconchegante.

- Como sabe meu nome?

- Um amigo meu trabalhou aqui recentemente. Um oficial dinamarquês. Lasse Bjerregaard. Ele me pediu para dizer que lhe mandou um abraço.

O barman relaxou consideravelmente. Não havia nenhuma ameaça aqui.

- Você é dinamarquês?

- Não, inglês.

- Exército?

- Deus, não. Jornalista. Estou fazendo uma série de artigos sobre agências de assistência social. Toma uma bebida comigo?

Dusko se serviu de seu melhor conhaque.

- Eu queria ser jornalista. Um dia. Viajar. Ver o mundo.

- Por que não? Consiga alguma experiência no jornal local, depois vá para a cidade grande. Foi o que fiz.

O barman deu de ombros, desanimado.

- Aqui? Banja Luka? Sem chance.

- Então tente Sarajevo. Até Belgrado. Você é sérvio. Pode sair daqui. A guerra não vai durar para sempre.

- Sair daqui custa dinheiro. Sem trabalho, sem dinheiro. Sem dinheiro, sem viagem, sem trabalho.

Ah, sim. Dinheiro. Sempre é um problema. Ou talvez não.

O inglês mostrou um maço de dólares americanos, tudo em notas de cem, e as contou no bar.

Sou antiquado - disse Rastreador. - Acredito que as pessoas devem ajudar umas às outras. Isso torna a vida mais fácil, mais agradável. Vai me ajudar, Dusko?

O barman olhava para os milhares de dólares a alguns centímetros de seus dedos. Não conseguia desviar os olhos. Sua voz caiu para um sussurro.

- O que você quer? O que está fazendo aqui? Você não é repórter.

- Bem, de certo modo sou. Faço perguntas. Mas sou um perguntador rico. Quer ser rico como eu, Dusko?

- O que você quer? - repetiu o barman. Ele correu o olhar na direção dos outros clientes, que os estavam fitando.

- Você já viu uma nota de cem dólares antes. Em maio passado. Quinze de maio, não foi? Um jovem soldado tentou pagar a conta do bar com a nota. Isso gerou um rebu danado. Meu amigo Lasse estava aqui. Ele me contou. Explique-me exatamente o que aconteceu e por quê.

- Não aqui. Não agora - sibilou o amedrontado sérvio.

Um dos homens das mesas tinha se levantado e vinha caminhando até o bar. Espertamente, o barman cobriu o dinheiro com um pano de pratos e disse ao homem:

O bar fecha às dez, sinto muito.

As dez e meia, com o bar fechado, trancado e quase escuro, dois homens sentaram-se a uma mesa de canto para conversar.

Não eram do exército iugoslavo, nem eram soldados, disse o barman. - Eram paramilitares. Pessoas muito más. Eles ficaram aqui três dias. Os melhores quartos, a melhor comida, muita bebida. Foram embora sem pagar.

- Um deles tentou pagar a conta.

- Verdade. Só um. Ele era um rapaz decente. Diferente dos outros. Não sei o que estava fazendo com eles. Tinha educação. Os outros eram bandidos.

- Você não reclamou quando eles não pagaram por uma estada de três dias?

- Reclamar? Reclamar como? O que eu diria? Aqueles animais têm armas. Eles matam, até mesmo compatriotas sérvios. São todos assassinos.

- Então quando o rapaz decente tentou pagar. Quem foi que o esbofeteou?

Mesmo na penumbra, ele sentiu o sérvio estremecer.

- Não tenho idéia. Ele era o chefe, líder do grupo. Mas sem nome. Eles só o chamavam de Chefe.

- Todos esses paramilitares têm nomes, Dusko. Arkan e seus Tigres. Os Rapazes de Frankie. Eles gostam de ser famosos. Dizem seus nomes para todos.

- Não esse. Juro.

Rastreador sabia que era mentira. Fosse lá quem fosse, o assassino franco-atirador inspirava medo em seus compatriotas sérvios.

- Mas o rapaz decente... ele tinha nome?

- Nunca ouvi.

- Estamos falando sobre muito dinheiro aqui, Dusko. Você nunca vai vê-lo novamente, nunca vai me ver novamente, e tem o bastante para recomeçar em Sarajevo depois da guerra. O nome do garoto.

- Ele pagou no dia em que saiu. Parecia que estava com vergonha das pessoas em sua companhia. Ele voltou e pagou em cheque.

- O cheque voltou? Você o tem?

- Não, o cheque tinha fundos. Dinares iugoslavos. De Belgrado.

Então você não tem o cheque.

Está no banco de Belgrado. Em algum lugar, mas a essa altura provavelmente já foi destruído. Mas anotei o número da identidade dele, para o caso do cheque voltar.

Onde? Onde você anotou?

No verso de um bloco de comandas.

Rastreador achou o bloco. Usado para anotar pedidos de bebidas longos e complicados que não poderiam ser decorados, só tinha mais duas folhas. Mais um dia e teria sido jogado fora. Escrito com uma caneta esferográfica na contracapa de papelão havia um número de sete algarismos e duas letras de imprensa. Escrito há oito semanas, ainda legível.

Rastreador doou mil dos dólares do Sr. Edmond e se retirou. O caminho mais curto para fora dali era ir para o norte da Croácia e então pegar um avião no aeroporto de Zagreb.

A república federal das antigas sete províncias da Iugoslávia tinha se desintegrado em sangue, caos e crueldade por cinco anos. No norte, a Eslovênia foi a primeira a ir, por sorte sem derramamento de sangue. Ao sul, a Macedonia tinha escapado para a independência separada. Mas no centro, o ditador sérvio Slobodan Milosevic estava tentando usar toda brutalidade em seu manual para segurar a Croácia, Bosnia, Kosovo, Montenegro e sua própria Sérvia nativa. Ele tinha perdido a Croácia, mas seu apetite por poder e guerra permanecia inabalável.

A Belgrado à qual Rastreador chegara em 1995 ainda estava intocada. Sua desolação seria provocada na guerra de Kosovo, ainda por vir.

O escritório de Londres avisara que havia uma agência de detetives particulares em Belgrado, dirigida por um ex-oficial e polícia que tinham usado antes. Ele batizara sua agência com nome, não muito original, de Chandler, e era fácil de ser encontrada.

Rastreador disse a Dragan Stojic, o investigador:

- Preciso encontrar um rapaz cujo nome desconheço. Tudo que sei dele é o número de sua carteira de identidade.

Stojic grunhiu. E perguntou:

- O que ele fez?

- Nada, até onde sei. Ele viu uma coisa. Ou melhor, talvez tenha visto.

- E você quer o nome dele.

- Depois quero falar com ele. Não tenho carro nem falo servo-croata. Ele talvez fale inglês, talvez não.

Stojic grunhiu novamente, o que parecia ser sua especialidade. Ele aparentemente lera cada romance de Philip Marlowe e vira cada filme. Parecia imitar Robert Mitchum em A arte de matar na versão feita para televisão, mas, careca e com menos de 1 ,60m, não estava chegando nem perto.

- Meus termos... - começou.

Rastreador deslizou mais dez notas de cem sobre a mesa.

- Preciso da sua atenção completa - murmurou. Stojic ficou encantado. Sua resposta pareceu sair diretamente de O último dos valentões:

- É toda sua.

Para dar o crédito a quem de direito, o desajeitado ex-inspetor não perdeu tempo. Arrotando fumaça preta, seu Yugo, com Rastreador no banco do carona, conduziu-os através da cidade até o distrito de Konjarnik, onde a esquina da rua Ljermontova é ocupada pela central de polícia de Belgrado. Era, e continua sendo, um prédio grande e feio em marrom e amarelo, como uma vespa enorme deitada de lado.

- É melhor você ficar aqui - disse Stojic.

Ficou lá dentro durante meia hora e deve ter desfrutado da cordialidade de um velho colega, porque voltou com bafo de conhaque. Mas também com um pedacinho de papel.

A carteira de identidade pertence a Milan Rajak, - disse o detetive. - Vinte e quatro anos. Listado como estudante de direito. O pai é um advogado bem-sucedido, família de classe média alta. Tem certeza de que é o homem certo?

A não ser que ele tenha um sósia maligno. Ele e uma carteira de identidade com sua fotografia estavam em Banja Luka a dois meses atrás.

- Mas o que estava fazendo lá, afinal?

- Estava uniformizado. Num bar.

Stojic pensou na ficha que tinha visto, embora não tivesse recebido permissão para tirar uma cópia.

- Ele prestou serviço militar nacional. Todos os jovens iugoslavos precisam fazer isso. Dos dezoito aos vinte e um.

- Soldado de combate?

- Não. Corpo de Sinaleiros. Operador de rádio.

- Nunca viu combate. Talvez quisesse ter visto. Talvez tenha se juntado a um grupo indo para a Bosnia para lutar pela causa servia. Um voluntário desiludido?

É possível?

Stojic deu de ombros.

- É possível. Mas esses paramilitares são uma escória. São todos bandidos. O que este estudante de direito estaria fazendo com eles?

- Férias de verão? - disse Rastreador.

- Mas com que grupo? Podemos perguntar a ele? Stojic consultou seu pedaço de papel.

O endereço é em Senjak. Fica a menos de uma hora daqui.

Então vamos. encontraram o endereço sem problemas. Uma vila de classe média na rua Istarska. Anos servindo o marechal Tito e agora Slobodan Milosevic não tinham feito nenhum mal ao pai de feito nenhum mal ao pai de Milan. Uma mulher de aparência pálida e nervosa, provávelmente na casa dos quarenta, porém parecendo mais velha, atendeu à porta.

Houve um diálogo em servo-croata.

- A mãe de Milan - disse Stojic. - Sim, ele está. Ela está perguntando o que você deseja.

- Conversar com ele. Uma entrevista. Para a imprensa britânica.

Visivelmente desnorteada, a Sra. Rajak deixou-os entrar e chamou seu filho. Em seguida, os conduziu até a sala de estar. Houve um som de passos e um rapaz apareceu no corredor. Ele teve uma conversa sussurrada com a mãe e entrou. Seu ar era perplexo, preocupado, quase aterrorizado. Rastreador dirigiu-lhe seu sorriso mais amigável e apertou sua mão. A porta ainda estava entreaberta. A Sra. Rajak estava ao telefone, falando rapidamente. Stojic lançou um olhar de alerta para o inglês, como se dissesse: "Seja lá o que quiser dizer, diga rápido. A artilharia está a caminho."

O inglês estendeu um bloquinho de um bar do norte. As duas folhas remanescentes nele traziam o cabeçalho "Hotel Bosna". Ele virou o bloquinho e mostrou a Milan Rajak os sete números e as duas iniciais.

- Foi muito decente da sua parte pagar a conta, Milan. O barman ficou muito grato. Infelizmente, o cheque voltou.

- Não. Não é possível. Ele ba...

Ele se calou e ficou branco como um lençol.

- Ninguém está culpando você por nada, Milan. Apenas me diga: o que estava fazendo em Banja Luka?

- Visitando.

- Amigos?

- Sim.

- Em camuflagem? Milan, é uma zona de guerra. O que aconteceu naquele dia, há dois meses?

Não sei do que está falando. Mamãe...

Então ele começou a falar em servo-croata e Rastreador não conseguiu entender mais nada. Rastreador levantou uma sobrancelha para Stojic.

Papai está vindo - murmurou o detetive.

Você estava com um grupo de mais dez pessoas. Todos uniformizados. Todos armados. Quem eram eles?

Milan Rajak estava coberto de suor e parecia prestes a se derramar em lágrimas. Rastreador julgou que este era um rapaz com sérios problemas de nervos.

- Você é inglês? Mas você não é da imprensa. O que está fazendo aqui? Por que está me perseguindo? Não sei de nada.

Ouviram o som de um carro freando diante da casa, e então pés correndo pela calçada. A Sra. Rajak abriu a porta e seu marido entrou correndo. Ele apareceu na porta da sala de estar, esbaforido e zangado. Uma geração mais velho que seu filho, ele não falava inglês. Em vez disso, gritou em servo-croata.

- Está perguntando o que você faz na casa dele, por que está assediando seu filho - traduziu Stojic.

- Não estou assediando - disse Rastreador, muito calmo. - Estou apenas fazendo perguntas. O que este rapaz esteve fazendo oito semanas atrás em Banja Luka e quem eram os homens com ele?

Stojic traduziu. O Sr. Rajak tornou a gritar.

Ele disse que o filho dele não sabe de nada e não esteve lá.

- Ele esteve aqui o verão inteiro e, se você não sair de sua casa, ele vai chamar a polícia. Se quer minha opinião, acho que deveríamos sair. Este é um homem poderoso.

- Tudo bem - disse Rastreador. - Só mais uma pergunta.

A seu pedido, o ex-diretor das Forças Especiais, que agora dirigia a Hazard Management, tivera um almoço muito discreto com um contato no Serviço Secreto de Inteligência. O diretor do departamento dos Bálcãs fora muito prestativo.

Aqueles homens eram os Lobos de Zoran? O homem que o esbofeteou era o próprio Zoran Zilic?

Stojic tinha traduzido mais do que a metade antes de ver que podia se calar. Milan tinha entendido tudo em inglês. O efeito veio em duas partes. Durante vários segundos houve um silêncio estarrecido, glacial. A segunda parte foi como a explosão de uma granada.

A Sra. Rajak emitiu um único grito e saiu correndo da sala. Seu filho deixou-se cair numa cadeira, colocou a cabeça nas mãos e começou a tremer. O rosto do pai foi do branco ao vermelho. Ele apontou para a porta e começou a gritar uma única palavra que Gracey presumiu significar "fora". Stojic caminhou até a porta. Rastreador seguiu-o.

Enquanto passava pelo rapaz trêmulo, parou e enfiou um cartão no bolso superior de seu casaco.

- Se por acaso mudar de idéia - murmurou. - Telefone para mim. Ou escreva. Eu virei.

O silêncio pesou no carro durante o percurso para o aeroporto. Dragan Stojic claramente sentia que havia merecido cada centavo de seus mil dólares. Enquanto se aproximavam do setor de partidas internacionais, Stojic falou acima do ruído do motor do carro para o inglês:

- Se voltar algum dia a Belgrado, meu amigo, eu o aconlselho a não mencionar aquele nome. Nem mesmo de brincadeira. Especialmente de brincadeira. Os eventos de hoje nunca aconteceram.

Em 48 horas Rastreador completara e arquivara seu relatório para Stephen Edmond, juntamente com sua lista de gastos. O parágrafo final dizia:

Temo que seja preciso admitir que os eventos que conduziram à morte do seu neto, a forma dessa morte, ou o local de repouso do corpo provavelmente jamais serão iluminados.

E estaria levantando falsas esperanças se dissesse que existe uma chance de seu neto ainda estar vivo. Durante o presente e o futuro próximo o único parecer será: desaparecido e presumivelmente morto.

Não acredito que ele e o bósnio que o acompanhava tenham saído de uma estrada e caído num desfiladeiro. Examinei pessoalmente cada estrada que permitisse isso. Também não acredito que o bósnio o tenha assassinado pelo caminhão, pela pochete com dinheiro ou por ambas as coisas.

Acredito que entraram inadvertidamente em terreno perigoso e tenham sido assassinados por uma pessoa ou por gente desconhecida. Há uma chance de que essas pessoas sejam um bando de criminosos paramilitares sérvios que podem ter estado naquela área. Mas sem provas, identificação, confissão ou testemunho, não há possibilidade de levar essas suspeitas à justiça.

É com o mais profundo pesar que lhe comunico estas notícias, mas acredito que correspondam quase completamente à verdade.

Tendo a honra de permanecer seu obediente servo,

Philip Gracey.

22 de julho de 1995.

 

               O ADVOGADO

O PRINCIPAL MOTIVO PARA CALVIN DEXTER TER DECIDIDO deixar o exército foi um que não explicou, porque não queria que zombassem dele. Havia decidido que queria ingressar

na universidade, formar-se e se tornar um advogado.

Quanto aos fundos, tinha economizado vários milhares de dólares no Vietnã e poderia buscar mais ajuda sob os termos da Lei do GI.

Existem alguns "sês" e "senãos" sobre a Lei do GI; se um soldado americano deixar o exército por qualquer motivo que não seja dispensa com desonra, então seu governo pagará a melhor educação universitária possível para ele. A pensão paga, que tem subido nos últimos trinta anos, pode ser gasta pelo estudante como ele quiser, contanto que a universidade confirme que ele é um estudante de tempo integral.

Dexter deduziu que uma faculdade rural provavelmente seria mais barata, porém queria uma universidade com curso de direito e, se iria ser advogado, teria mais oportunidades no estado de Nova York do que em Nova Jersey. Depois de ler alguns catálogos, ele se candidatou à Fordham University, na cidade de Nova York.

Ele enviou seus documentos no final da primavera, juntamente com o Documento de Dispensa, o DD214 com o qual todo GI deixa o exército. Fez isso na hora certa.

Na primavera de 1971, embora os sentimentos contra a guerra do Vietnã ainda estivessem exaltados, principalmente no meio acadêmico, os GIs não eram vistos como culpados; eram vistos como vítimas.

Depois da retirada caótica e indigna de 1973, ocasionalmente referida como uma fuga, o clima mudou. Embora Richard Nixon e Henry Kissinger tenham tentado mostrar a situação sob o melhor ângulo possível, e embora um distanciamento do desastre que o Vietnã havia se tornado fosse quase universalmente desejado, o caso ainda foi visto como uma derrota.

Se há uma coisa com a qual o americano médio não deseja ser associado é com a derrota. O próprio conceito é anti-americano, mesmo na esquerda liberal. Os GIs que voltaram para casa depois de 1973 acharam que seriam bem recebidos, porque tinham dado o melhor de si, sofrido e perdido bons amigos. Porém esbarraram com um muro de indiferença, até de hostilidade. A esquerda estava mais preocupada com My Lay.

No verão de 1971, os documentos de Dexter foram considerados, juntamente com os de todos os outros candidatos, e ele foi aceito para um curso de quatro anos em História Política - Na categoria de "experiência de vida" seus três anos na Big vJne foram considerados positivos, o que não teria acontecido 24 meses depois.

O jovem veterano do Vietnã encontrou um apartamento, um quarto barato no Bronx, não muito distante do campus, porque naquela época Fordham ficava numa série de prédios de tijolos aparentes naquela vizinhança. Ele calculou que se caminhasse ou usasse transporte público, comesse frugalmente e usasse as longas férias de verão para voltar à construção civil, ele poderia ganhar o suficiente para sobreviver até se formar. Entre os canteiros de obras em que trabalhou durante os três anos seguintes estava a nova maravilha do mundo, elevando-se muito lentamente: o World Trade Center.

O ano 1974 foi marcado por dois eventos que iriam mudar sua vida. ele conheceu e se apaixonou por Angela Marozzi, uma garota ítalo-americana bonita e vigorosa que amava a vida e trabalhava numa floricultura na Bathgate Avenue. Eles se casaram naquele verão e com sua renda conjunta mudaram-se para um apartamento maior.

Naquele outono, ainda faltando um ano para se formar, ele se candidatou à admissão na Fordham Law School, uma faculdade dentro da universidade, mas separada em suas dependências e administração, do outro lado do rio em Manhattan. Era mais difícil ingressar nela, porque tinha menos vagas e era bem mais procurada.

A faculdade de direito significaria mais três anos de estudo depois da formatura em 1975, para obter o diploma de direito, depois o exame da Ordem dos Advogados e, finalmente, a licença para praticar como advogado no Estado de Nova York.

Não houve nenhuma entrevista pessoal, apenas uma massa de papéis a ser submetidos ao Comitê de Admissão para sua avaliação e julgamento. Essas incluíam registros escolares desde o segundo grau, que eram péssimos, notas mais recentes em história política, uma auto-avaliação por escrito e referências de professores atuais, que foram excelentes. Escondido nessa massa de documentos estava seu velho DD214.

O Comitê de Admissões se reuniu para fazer a seleção final. Eram seis membros na banca, liderados pelo professor Howard Kell, que aos 77 já tinha passado há muito da idade de se aposentar, mas ainda possuía uma inteligência viva, era professor emérito e o patriarca do resto do grupo.

A última vaga disponível ficou entre dois candidatos. Um deles era Dexter. Houve um debate acalorado. O professor Kell se levantou de sua cadeira na frente da mesa e caminhou até a janela. Olhou para o céu azul de verão. Um colega foi juntar-se a ele diante da janela.

- Essa é difícil, hein, Howard? Quem você prefere?

O velho cutucou um papel em sua mão e o mostrou ao tutor sênior. O tutor leu a lista de medalhas e emitiu um assobio baixo.

- Ele recebeu tudo isso antes de fazer vinte e um anos.

- O que diabos ele fez?

- Ele ganhou o direito de receber uma chance nesta faculdade, foi o que ele fez - disse o professor.

Os dois homens retornaram à mesa e votaram. Teriam sido três contra três, mas o voto do presidente da mesa contava em dobro numa contingência como essa. Ele explicou por quê. Todos olharam para o DD214.

- Ele pode ser violento - objetou o politicamente correto reitor de estudos.

- Oh, espero que seja - disse o professor Kell. - Eu odiaria pensar que hoje em dia estamos dando nossas vagas a uns bobalhões.

Cal Dexter recebeu a notícia dois dias depois. Ele e Angela deitaram-se na cama; ele acariciou sua barriga cada vez maior e falou sobre o dia em que seria um rico

advogado e teriam uma bela casa em Westchester ou Fairfield County.

Sua filha Amanda Jane nasceu no começo da primavera de 1975, mas houve complicações. Os cirurgiões se esforçaram ao máximo, mas o diagnóstico foi unânime. O casal poderia adotar, claro, mas não haveria mais gravidezes normais. O padre da família de Angela disse a ela que aquela tinha sido a vontade de Deus e ela aceitou Sua vontade.

Cal Dexter formou-se entre os cinco melhores de sua classe naquele verão e no outono iniciou o curso de três anos em direito. Era difícil, mas a família Marozzi ajudava. A mãe de Angela cuidava de Amanda Jane para que Angela pudesse trabalhar como garçonete. Cal queria continuar estudando de dia ao invés de transferir-se para a escola noturna, o que estenderia o curso de direito em mais um ano.

Ele trabalhou nas férias de verão dos dois primeiros anos, mas no terceiro conseguiu encontrar trabalho com a altamente respeitável firma de Manhattan de Honeyman Fleischer.

A Fordham Law School sempre teve uma rede vigorosa de ex-alunos influentes, e Honeyman Fleischer tinha três sócios sêniores que haviam se formado lá. Mediante uma intervenção pessoal de seu tutor, Dexter conseguiu um estágio como assistente jurídico.

Naquele verão de 1978 seu pai morreu. Eles tinham perdido quase todo o contato depois da volta de Dexter do Vietnã, porque o pai nunca entendeu por que seu filho não podia retornar aos canteiros de obras e ser feliz com um capacete de proteção para o resto de sua vida.

Mas ele e Angela tinham pedido emprestado o carro do Sr. Marozzi e foram visitar o pai de Dexter. Assim, o Sr. Dexter conheceu a única neta. Quando o fim chegou, foi repentino. Um ataque cardíaco fulminante atingiu o operário enquanto trabalhava. Seu filho compareceu sozinho ao funeral humilde. Ele havia esperado que seu

pai pudesse comparecer à sua cerimônia de formatura e se orgulhar de seu filho educado, mas isso não iria acontecer.

Ele se formou naquele verão com a promessa de que, se passasse no exame da Ordem dos Advogados, obteria um posto baixo mas de tempo integral na Honeyman Fleischer, seu primeiro emprego profissional desde o exército, sete anos antes.

A Honeyman Fleischer se orgulhava de suas impecáveis credenciais liberais, evitava os republicanos e, para provar sua consciência social, mantinha um departamento de assistência jurídica gratuita para os pobres e vulneráveis.

Dito isso, os sócios sêniores não viam necessidade de exagerar e mantinham em seu time de atendimento gratuito a alguns de seus recém-chegados com menores salários.

Naquele outono de 1978, Cal Dexter era tão baixo na hierarquia da Honeyman Fleischer quanto isso é possível.

Dexter não reclamava. Precisava do dinheiro, gostava do trabalho, e ajudar os desamparados deu-lhe um amplo espectro de experiência, ao invés de limitá-lo a uma única especialidade. Ele podia defender em acusações de pequenos crimes, alegações de negligência e uma variedade de outras disputas que acabavam indo para uma corte de apelação.

Foi naquele inverno que uma secretária enfiou a cabeça pela brecha da porta de seu cubículo e balançou uma ficha para ele.

- Que é isso? - perguntou.

- Apelo de imigração - ela disse. - Roger falou que não vai poder cuidar disso.

O chefe do pequeno departamento de atendimento gratuito escolhia a nata, se é que alguma nata aparecia, para si mesmo. Os assuntos de imigração definitivamente eram a nata dos trabalhos de atendimento gratuito.

Dexter suspirou e se enterrou nos detalhes do novo caso. A audiência estava marcada para o dia seguinte.

Era 20 de novembro de 1978.

 

               O REFUGIADO

NAQUELA ÉPOCA HAVIA UMA INSTITUIÇÃO DE CARIDADE EM Nova York chamada Refugee Watch (Vigília de Refugiados), cujos membros se descreviam como "cidadãos preocupados", mas que poderiam muito bem ser definidos como idealistas.

Sua tarefa auto-incumbida era de manter os olhos abertos para indivíduos que tendo chegado ao litoral dos Estados Unidos da América, levavam ao pé da letra as palavras escritas na base da Estátua da Liberdade e queriam ficar.

Na maioria das vezes esses indivíduos eram miseráveis e oprimidos, refugiados de climas quentes, geralmente com um domínio muito fragmentado da língua inglesa e

que tinham gasto suas últimas economias no esforço de sobreviver.

A pasta que foi jogada na mesa de Cal Dexter naquele começo de inverno de 1978 dizia respeito a um casal fugitivo do Camboja, o Sr. e a Sra. horn Moung.

Numa longa declaração do Sr. Moung, que parecia falar pelos dois, traduzida do francês, que era a segunda linguagem dos cambojanos, sua história emergiu.

Desde 1975, um fato já bem conhecido nos Estados Unidos, e que mais tarde seria melhor divulgado pelo filme Gritos do silêncio, o Camboja estava dominado por um tirano louco e genocida chamado Pol Pot e seu exército fanático, o Khmer & Vermelho.

Pot tinha um sonho maluco de devolver seu país a um tipo de Idade da Pedra agrária. A realização de sua visão envolvia um ódio patológico das pessoas urbanas e de qualquer indivíduo com alguma educação. Essas pessoas eram exterminadas.

O Sr. Moung afirmava ter sido diretor de uma escola secundária na capital, Phnom Penh, e sua esposa enfermeira numa clínica particular. Ambos se enquadravam firmemente na categoria do Khmer Vermelho para execução.

Quando as coisas ficaram impossíveis, entraram na clandestinidade, movendo-se de um esconderijo para outro entre amigos e colegas de profissão, até que estes últimos fossem todos presos.

O Sr. Moung afirmou que ele jamais teria sido capaz de alcançar as fronteiras do Vietnã ou da Tailândia porque no campo, infestado de militantes do Khmer Vermelho e de informantes, não poderia passar-se por roceiro. Ainda assim, subornou um caminhoneiro para levá-los de Phnom Penh até o porto de Kampong Son. com suas últimas economias, persuadiu o capitão de um cargueiro sul-coreano a tirá-los do inferno que sua terra natal havia se tornado.

Não se importava nem sabia para onde o Inchon Star estava. fim das contas, era o porto de Nova York, com uma carga de teca. Ao chegar, não tentou fugir das autoridades; muito Pelo contrário, apresentou-se imediatamente e pediu permissão Para ficar.

Dexter passou a noite antes da audiência debruçado sobre a mesa da cozinha enquanto sua esposa e filha dormiam a alguns metros na sala. A audiência era sua primeira apelação de qualquer tipo, e ele queria dar ao refugiado a melhor defesa possível. Depois da declaração, o Sr. Moung ouviu a resposta do Immigration and Naturalization Service (serviço de imigração e naturalização), ou INS. Foi uma resposta muito severa.

O todo-poderoso local em qualquer cidade americana é o diretor de distrito, e seu gabinete é o primeiro obstáculo. O colega do diretor encarregado do caso rejeitou o pedido de asilo sob a estranha alegação de que, antes de fugir, os Moungs deveriam ter-se apresentado à embaixada da ONU ou ao consulado e aguardado na fila, de acordo com a tradição americana.

Dexter não achava que seria um grande problema derrubar esse argumento; toda a equipe da ONU tinha fugido da capital cambojana anos antes, quando o Khmer Vermelho tomara conta da cidade.

A recusa na primeira instância colocou os Moungs no procedimento de deportação. Foi nessa altura que o Refugee Watch ouviu falar de seu caso e se propôs a ajudá-lo.

Segundo o procedimento, um casal cuja entrada tenha sido recusada pelo gabinete do diretor de distrito na audiência de exclusão poderia apelar à próxima instância acima, uma audiência administrativa diante de um oficial de audiências de asilo.

Dexter notou que na audiência de exclusão o segundo argumento do INS para a recusa fora de que os Moungs não se qualificavam nos cinco requisitos necessários para provar perseguição: raça, nacionalidade, religião, crenças políticas e/ou classe social. Ele achava que agora poderia demonstrar que na condição de fervoroso anticomunista - e tencionava aconselhar o Sr, Moung a tornar-se um imediatamente - e diretor de escola, ele se qualificava pelo menos nos últimos dois requisitos.

Seu objetivo na audiência da manhã seguinte seria apelar ao oficial de audiência por uma atenuação conhecida como Suspensão de Deportação, sob a Seção 43(h) da Lei de Imigração e Nacionalidade.

Em letras miúdas no fundo de um dos documentos havia uma anotação de alguém do Refugee Watch dizendo que o oficial da audiência de asilo seria um certo Norman Ross.

O que ele descobriu foi interessante.

Uma hora antes da audiência, Dexter chegou ao prédio do INS na Federal Plaza, 26, para conhecer seus clientes. Ele próprio não era um homem alto, mas os Moungs eram menores, e a Sra. Moung parecia uma bonequinha. Ela via o mundo através de lentes que pareciam ter sido cortadas de fundos de garrafas. Os documentos diziam que eles tinham 48 e 45 anos, respectivamente.

O Sr. Moung parecia calmo e resignado. Como Cal Dexter não falava francês, a Refugee Watch tinha providenciado uma intérprete.

Dexter passou a hora de preparação repassando a declaração original, mas não havia nada a acrescentar ou subtrair.

A audienciação não seria num tribunal de verdade, mas num escritório grande com cadeiras trazidas para a ocasião. Cinco minutos antes da audiência, eles foram conduzidos para dentro.

O representante do diretor de distrito reapresentou os argumentos usados na audiência de Exclusão para recusar o pedido de asilo. Não havia nada a acrescentar ou retirar. Por trás de sua mesa, o Sr. Ross seguiu os argumentos que já estavam diante dele no arquivo, e então levantou uma sobrancelha para o novato enviado pela Honeyman Fleischer.

Atrás dele, Cal Dexter ouviu o Sr. Moung murmurar para SUa esposa:

Devemos torcer para que este jovem faça bem seu trabalho, se não seremos mandados de volta para morrer. ele disse isso em sua própria linguagem nativa.

Dexter lidou com o primeiro argumento do DD: não havia nenhuma representação diplomática ou consular em Phnom Penh desde o início dos campos de extermínio. O mais próximo teria sido Bangkok, Tailândia, um alvo impossível que os Moungs jamais conseguiriam alcançar. Ele notou uma insinuação de sorriso no canto da boca de Ross quando o rosto do homem do INS ficou vermelho.

Seu objetivo principal era mostrar que, diante do fanatismo letal do Khmer Vermelho, qualquer anticomunista notório como seu cliente estava destinado a ser capturado, torturado e morto. Inclusive, o fato de ser diretor de escola com nível universitário teria garantido a execução.

O que descobrira na noite anterior foi que Norman Ross nem sempre tinha sido Ross. Seu pai chegara por volta da virada do século como Samuel Rosen, procedente de uma pequena comunidade judia na Polônia moderna, fugindo dos pogroms do czar, levados a cabo pelos cossacos.

- É muito fácil rejeitar aqueles que chegam aqui sem nada, desejando não muito além da chance de viver. É muito fácil dizer não e dar-lhes as costas. Não custa nada declarar que esses dois orientais não têm lugar aqui e devem voltar para serem presos, torturados e colocados contra a parede de execução. Mas pergunto ao senhor, supondo que nossos pais fizeram a mesma coisa, e seus pais antes deles, quantos disseram, na época em que o solo de sua terra natal foi lavado em sangue: "Fui para a terra da liberdade, pedi uma chance de liberdade, mas eles fecharam suas portas e me mandaram de volta para morrer." Quantos, Sr. Ross? Um milhão? Quase dez. Eu lhe peço, não como uma questão de lei, não como triunfo para a semântica astuta de advocacia, mas como uma vitória para aquilo que Shakespeare chamava de qualidade de misericórdia, que decrete que neste nosso imenso país há espaço para um casal que perdeu tudo menos a vida e que pede apenas por uma chance.

Norman Ross fítou-o especulativamente por vários minutos. Então bateu seu lápis na mesa como se fosse um martelo e pronunciou:

- Deportação suspensa. Próximo caso.

A intérprete da Refugee Watch contou em francês aos Moungs o que havia acontecido. Ela e sua organização poderiam lidar com os procedimentos daquele ponto em diante.

Seriam questões administrativas, mas nenhuma advocacia. Os Moungs agora poderiam permanecer nos Estados Unidos sob a proteção do governo, e futuramente obter uma permissão de trabalho, asilo e, no devido tempo, naturalização.

Dexter sorriu para a intérprete e disse que ela podia ir. Então se virou para o Sr. Moung e disse:

- Agora, vamos até a lanchonete, e poderá me dizer quem vocês são realmente e o que estão fazendo aqui.

Ele falou na língua nativa do Sr. Moung, o vietnamita. A uma mesa de canto na lanchonete de subsolo, Dexter examinou os passaportes e documentos de identidade cambojanos.

- Já foram examinados por alguns dos maiores especialistas do Ocidente e considerados genuínos. Como vocês os conseguiram?

O refugiado olhou para sua pequena esposa.

- Ela fez. Ela é do Nghi.

Existe um clã no Vietnã chamado Nghi, que durante séculos sustentou a maior parte dos eruditos da região do Hue. Sua habilidade particular, passada de geração em geração, era de uma caligrafia excepcional. Eles criavam os documentos da corte para imperadores.

Com a chegada da idade moderna, e especialmente quando a guerra contra os franceses começou em 1945, sua dedicação absoluta à paciência, detalhe e desenho significava que o Nghi poderia transmutar-se para alguns dos maiores falsificadores do mundo.

A mulherzinha com óculos de fundo de garrafa tinha arruinado sua visão porque passara toda a guerra do Vietnã agachada numa oficina subterrânea criando passes e identificações tão perfeitos que agentes vietcongues haviam passado sem o menor esforço por cada cidade do Vietnã do Sul sem jamais serem pegos.

Cal Dexter devolveu-lhes os passaportes.

- Como eu disse lá em cima, quem vocês são realmente, e por que estão aqui?

A mulher começou a chorar baixinho e seu marido segurou-lhe a mão.

- Meu nome é Nguyen Van Tran. Estou aqui porque, depois de três anos num campo de concentração no Vietnã, eu escapei. Pelo menos essa parte é verdade.

- Então por que fingir que são do Camboja? Os Estados Unidos aceitaram muitos sul-vietnamitas que lutaram conosco naquela guerra.

- Porque fui major nos vietcongues. Dexter assentiu lentamente.

- Isso poderia ser um problema - admitiu. - Contém-me tudo.

- Nasci em 1930, no extremo-sul, perto da fronteira com o Camboja. É por isso que tenho fluência em khmer. Minha família nunca foi comunista, mas meu pai era um

nacionalista dedicado. Ele queria ver nosso país livre do domínio colonial dos franceses. Ele me criou com esse mesmo espírito.

- Não vejo o menor problema nisso. Por que se tornou comunista?

- Esse é o meu problema. Foi por causa disso que estive num campo. Eu não me tornei comunista. Fingi isso.

- Continue.

- Quando era garoto, antes da Segunda Guerra Mundial, fui criado sob o jugo dos franceses, torcendo para ficar velho o bastante para me juntar à luta pela independência.

Em 1942 os japoneses chegaram, expulsando os franceses, embora a França de Vichy estivesse tecnicamente do seu lado. Então nós lutamos contra os japoneses.

"Os líderes dessa luta foram os comunistas sob as ordens de Ho Chi Minh. Eles eram mais eficientes, mais habilidosos, mais implacáveis que os nacionalistas. Muitos mudaram de lado, mas meu pai não. Quando os japoneses partiram derrotados em 1945, Ho Chi Minh era um herói nacional. Eu tinha quinze anos, já parte da luta. Então os franceses voltaram.

"Depois vieram mais nove anos de guerra. Ho Chi Minh e o movimento de resistência comunista Vietminh simplesmente absorveram todos os outros movimentos. Qualquer um que resistisse era liquidado. Também estive nessa guerra. Fui uma das formigas humanas que carregaram as peças da artilharia até os picos montanhosos nas cercanias de Dien Bien Phu, onde os franceses foram esmagados em 1954. Depois vieram os Acordos de Genebra, e também um novo desastre. Meu país estava dividido. Norte e sul.

- Vocês voltaram para a guerra?

- Não imediatamente. Houve um breve período de paz. esperamos pelo plebiscito que fazia parte dos Acordos. Quando ele foi negado, porque a dinastia Diem que regia o Sul sabia que iria perdê-lo, voltamos à guerra. A escolha era revoltante:

lem e sua corrupção no Sul, ou Ho e o General Giap no Norte.

Eu tinha lutado sob as ordens de Giap. Eu o tinha como meu herói. Escolhi os comunistas.

Você ainda era solteiro?

- Não, eu tinha casado com minha primeira esposa. Tivemos três filhos.

- Ainda estão lá?

- Não, todos mortos.

- Doença?

- Bombardeios.

- Prossiga.

- Então os primeiros americanos vieram. Sob as ordens de Kennedy. Supostamente como conselheiros. Mas, para nós, o regime Diem tinha simplesmente se tornado mais uma marionete, como os governos impostos pelos japoneses e pelos franceses. Assim, mais uma vez, metade de meu país foi ocupada pelos estrangeiros. Voltei à selva para lutar.

- Quando foi isso?

- Mil novecentos e sessenta e três.

- Mais dez anos?

- Mais dez anos. Quando acabou, eu tinha quarenta e dois e havia passado metade da minha vida vivendo como um animal, submetido a fome, doenças, medo e a ameaça constante de morte.

- Mas depois de 1972 você deve ter se sentido triunfante - comentou Dexter.

O vietnamita balançou a cabeça.

- Você não entende o que aconteceu depois que Ho morreu em 1968.O partido e o governo caíram em mãos diferentes. Muitos de nós ainda lutávamos pelo sonho de um país com alguma tolerância. Os homens que tomaram o lugar de Ho não tinham essa intenção. Patriotas e mais patriotas foram presos e executados. Quem estava no poder era Lê Duan e Lê Due Tho. Eles não tinham a força interna de Ho, que toleraria uma abordagem humana. Eles tinham de destruir e dominar. O poder da polícia secreta foi imensamente aumentado. Lembra da Ofensiva do Tet?

- Lembro bem demais.

- Vocês americanos parecem achar que foi uma vitória para nós. Isso não é verdade. Foi planejada em Hanoi, erradamente atribuída ao general Giap, que na verdade

era impotente sob Lê Duan. Foi imposta aos vietcongues como uma ordem direta. A ofensiva nos destruiu. Essa era a intenção. Quarenta mil de nossos melhores oficiais destruídos em missões suicidas. Entre eles estavam todos os líderes naturais do Sul. com eles mortos, Hanoi reinou supremo. Depois do Tet, o exército norte-vietnamita assumiu o controle, bem a tempo para a vitória. Fui um dos últimos sobreviventes dos nacionalistas do Sul. Eu queria um país livre e reunido; sim, mas também com liberdade cultural, um setor privado, fazendeiros donos de suas propriedades. Isso se revelou um erro.

- O que aconteceu?

- Bem, depois da última conquista do sul em 1975, os extermínios de verdade começaram. Os chineses. Dois milhões foram despojados de tudo que possuíam. Eles foram forçados ao trabalho escravo ou expulsos, o Povo dos Barcos. Eu objetei e disse isso. Então os campos começaram, para dissidentes vietnamitas. Dois mil vietnamitas agora estão nos campos, principalmente sulistas. No fim de 1975, a Cong Ang, a polícia secreta, veio me pegar. Eu havia escrito muitas cartas de críticas, dizendo que, para mim, tudo pelo qual eu tinha lutado estava sendo traído. Eles não gostaram disso.

- O que você pegou?

- Três anos, a sentença padrão para "reeducação". Depois disso, três anos de vigilância diária. Fui mandado a um campo na província de Hatay, a cerca de sessenta quilômetros de Hanoi. Eles sempre mandam você para algum lugar a muitos quilômetros da sua casa; isso desencoraja as fugas.

- Mas você conseguiu?

- Minha esposa conseguiu. Ela é realmente uma enfermeira, além de falsificadora. E realmente fui diretor de escola durante os poucos anos de paz. Eu e ela nos conhecemos no campo. Ela estava na clínica. Eu tinha desenvolvido abscessos em ambas as pernas. Conversamos e nos apaixonamos. Ela me contrabandeou para fora de lá. Possuía algumas jóias, escondidas, não confiscadas. Essas jóias pagaram por uma passagem num cargueiro. Então agora você sabe.

- E acha que devo acreditar na sua história? - perguntou Dexter.

- Você fala nossa língua. Esteve lá?

- Sim, estive.

- Lutou?

- Sim.

- Então é uma conversa de um soldado para outro. Você deve conhecer a derrota quando a vê. Está olhando agora para derrota completa e absoluta. E então, podemos ir?

- Para onde você está pensando em ir?

- De volta ao pessoal da Imigração, claro. Você terá de nos denunciar.

Cal Dexter terminou seu café e se levantou. O major Nguyen Van Tran tentou se levantar também, mas Dexter o pressionou de volta à cadeira.

- Duas coisas, major. A guerra acabou. Ela aconteceu num lugar distante, muito tempo atrás. Tente desfrutar do resto de sua vida.

O vietnamita pareceu em estado de choque. Ele meneou a cabeça tolamente. Dexter virou-se e se retirou.

Enquanto descia os degraus para a rua, alguma coisa atormentava Dexter. Alguma coisa quanto ao oficial vietcongue, seu rosto, sua expressão estarrecida.

No fim da rua transeuntes viraram-se para olhar para o jovem advogado que jogou a cabeça para trás e riu da loucura do destino. Distraidamente, esfregou a mão esquerda onde o inimigo que ele encontrara no túnel tinha-lhe arremessado óleo quente.

Era 21 de novembro de 1978.

 

               O ESQUISITO

EM 1985 CAL DEXTER SAIU DA HONEYMAN FLEISCHER, MAS não para um trabalho que levaria àquela sua bela casa em Westchester. Ele se juntou ao gabinete do defensor público, tornando-se o que é conhecido em Nova York como um advogado de auxílio jurídico. Não era glamouroso nem lucrativo, mas dava-lhe uma coisa que ele não teria conseguido trabalhando para empresas. Chamava-se satisfação.

Angela aceitara bem sua decisão, melhor do que ele imaginara. Na verdade, ela não chegou realmente a se importar com isso. A família Marozzi era unida como uva à vinha e tinha raízes profundas no Bronx. Amanda Jane estava numa escola da qual gostava, cercada por suas amigas. Eles não precisavam de que Cal tivesse um emprego mais rentável.

O novo emprego exigia trabalhar uma quantidade impossível de horas por dia e representar pessoas que tinham entrado por um buraco na rede do Sonho Americano. Significava defender no tribunal aqueles que não podiam arcar com as despesas de uma representação legal.

Para Cal Dexter, o fato de um indivíduo ser pobre e ignorante não significava que ele era culpado. Era sempre uma grande satisfação quando conseguia libertar um "cliente" que, a despeito de suas inadequações, não havia cometido o crime do qual era acusado. Numa noite quente do verão de 1988, Cal Dexter conheceu Washington Lee.

A ilha de Manhattan, sozinha, registra mais de 110 mil casos de crimes por ano, e isso excluindo os processos civis. O sistema jurídico parece permanentemente à beira de uma sobrecarga e de um curto-circuito, mas de alguma forma parece sobreviver. Naquela época, parte do motivo era o sistema contínuo de audiências que ocorria 24 horas ao dia no grande bloco de granito no número 100 da Center Street.

Como um bom espetáculo de vaudeville, o prédio do tribunal de processos criminais poderia ostentar um letreiro com os dizeres "Estamos sempre de portas abertas para você". Provavelmente seria um exagero apregoar que "todo mundo vem aqui", mas com certeza a escória de Manhattan sempre estava presente.

Naquela noite de julho de 1988 Dexter estava de plantão como advogado reserva, podendo a qualquer momento receber, de um juiz hiperatarefado, a incumbência de defender um cliente. Eram duas da manhã e estava tentando escapulir dali quando uma voz o convocou de volta a Corte AR2A. Ele suspirou, sabendo muito bem que não adiantava de nada discutir com o juiz Hasselblad.

Cal Dexter aproximou-se do banco para juntar-se a um promotor público adjunto que já estava parado ali, segurando uma Pasta de processo.

" Você está cansado, Sr. Dexter.

Acho que todos estamos, meritíssimo.

- Isso não se discute, mas há mais um caso que eu gostaria que assumisse. Não amanhã, agora. Pegue a pasta do acusado. Este rapaz parece estar com problemas sérios.

- O seu desejo é uma ordem, meritíssimo. O rosto de Hasselblad se abriu num sorriso.

- Como eu gosto de reverência! - deleitou-se. Dexter pegou a ficha com o promotor público adjunto e os dois saíram juntos do tribunal. A capa da pasta de processo dizia: "O Povo do Estado de Nova York Contra Washington Lee".

- Onde ele está? - perguntou Dexter.

- Aqui mesmo, numa sala de detenção - disse o promotor público adjunto.

Conforme já imaginava desde que vira a foto de prisão na pasta, seu cliente era um garoto magricela com o ar de desesperança que caracteriza os jovens pobres que

são sugados, mastigados e cuspidos por qualquer sistema judicial do mundo. A julgar por seu jeito, não era muito inteligente.

O acusado tinha dezoito anos, era cidadão daquele distrito encantador conhecido como Bedford Stuyvesant, uma parte do Brooklyn que é virtualmente um gueto de negros.

Esse detalhe despertou o interesse de Dexter. Por que ele estava sendo julgado em Manhattan? Dexter presumiu que o garoto tivesse atravessado o rio e roubado um carro, ou batido a carteira de alguém.

Mas não, a acusação era de fraude bancária. Então, passar cheque falsificado, tentativa de uso de um cartão de crédito roubado, ou até o velho truque de realizar saques simultâneos em diferentes caixas do balcão a partir de uma conta fajuta? Não.

A acusação era estranha, inespecífica. O promotor público adjunto fizera uma acusação "simples" alegando fraude de mais de dez mil dólares. A vítima era o East River Bank, com sede no centro de Manhattan, o que explicava por que a acusação estava sendo realizada na ilha, não no Brooklyn. A fraude tinha sido detectada pela equipe de segurança e o banco queria agir com vigor máximo, de acordo com a política da empresa.

Dexter sorriu encorajador, apresentou-se, sentou-se e ofereceu cigarros. Ele não fumava, mas 99% dos seus clientes sugavam alegremente aqueles bastõezinhos brancos.

Washington Lee fez que não com a cabeça.

- Isso aí faz mal pra saúde, cara.

Dexter ficou tentado a dizer que sete anos na penitenciária estadual também não faziam nada bem, mas se conteve. O Sr. Lee, ele notou, não era apenas desprovido de atrativos, era decididamente feio. Então, como tinha conseguido levar na conversa um funcionário de banco a lhe dar tanto dinheiro? com sua aparência e seu jeito de andar curvado, ele não teria nem recebido permissão para atravessar o saguão de mármore italiano do prestigioso East River Bank.

Calvin Dexter não dispunha do tempo necessário para dar ao caso a atenção que ele merecia. A preocupação imediata era atravessar a formalidade da autuação e ver se havia ao menos uma possibilidade remota de fiança. Ele duvidava.

Uma hora depois, Dexter e o promotor público adjunto estavam de volta à corte. Washington Lee, parecendo completamente perdido, foi devidamente autuado.

- Estamos preparados para prosseguir? - perguntou o Juiz Hasselblad.

Preciso requerer uma postergação - disse Dexter. Aproximem-se - ordenou o juiz.

Os dois advogados obedeceram e então o juiz perguntou: Tem um problema, Sr. Dexter?

Este é um caso mais complexo do que parece à primeira vista, meritíssimo. Não se trata de furto de calotas. A acusação se refere a mais de dez mil dólares, subtraídos de um banco de classe alta. Preciso de mais tempo de estudo.

O juiz olhou para o promotor público adjunto. Este deu de ombros, indicando que não objetava.

- Este mesmo dia na próxima semana - disse o juiz.

- Quero pedir fiança - disse Dexter.

- Protesto, meritíssimo - disse o promotor público adjunto.

- Estou estabelecendo a fiança na soma mencionada na acusação, dez mil dólares - disse o juiz Hasselblad.

Todos sabiam que aquilo estava fora de questão. Washington Lee não tinha nem dez dólares para pagar uma fiança. Foi encaminhado de volta para uma cela. Enquanto saíam do tribunal, Dexter pediu um favor ao promotor público adjunto.

- Seja um bom camarada, mantenha ele na Tumba, não na Ilha.

- Tudo bem. Agora tente dormir um pouco, tá?

Havia duas prisões de temporada curta que o sistema judicial de Manhattan usava. A Tumba podia soar como uma coisa subterrânea, mas na verdade era um prédio logo ao lado do tribunal, sendo muito mais conveniente para advogados em visita aos seus clientes do que a ilha Riker, lá para cima do East River. Apesar do conselho do promotor público adjunto para que dormisse um pouco, a pasta do acusado provavelmente impediria isso. Se queria entrevistar Washington Lee na manhã seguinte,

Dexter precisava estudar seu histórico.

Ao olho treinado de Dexter, o maço de papéis contava a história da detenção e da prisão de Washington Lee. A fraude tinha sido detectada internamente e atribuída a Lee. O diretor de segurança do banco, um tal Dan Witkowski, era ex-detetive da polícia de Nova York e tinha pedido a alguns de seus antigos colegas que fossem até o Brooklyn e prendessem Washington Lee.

Inicialmente Lee tinha sido levado até uma prisão no centro da cidade. Porém, quando a prisão lotava, os prisioneiros eram encaminhados até o prédio do tribunal de processos criminais e ali tratados com uma dieta invariável de sanduíches de mortadela com queijo.

Então a justiça moveu suas engrenagens implacáveis. O histórico de Washington Lee revelou uma série curta de pequenos crimes de rua: roubos de calotas, arrombamento de máquinas de venda automática, furtos de loja. com essa formalidade completa, Washington Lee estava preparado para ser processado. Foi nesse momento que o juiz Hasselblad exigiu que o jovem fosse representado.

A julgar pelas aparências, este era um jovem nascido com uma mão na frente e outra atrás, destinado a evoluir dos pequenos delitos para grandes crimes e uma vida de períodos freqüentes como convidado dos cidadãos do Estado de Nova York em uma de suas penitenciárias. Então, como diabos conseguira convencer o East River Bank, que nem mesmo tinha uma filial em Bedford Stuyvesant, a dar-lhe dez mil dólares? Nenhuma resposta. Não na pasta. Apenas uma acusação simples e um urioso e vingativo banco de Manhattan. Furto maior em terceiro grau. Sete anos de cadeia.

Dexter dormiu durante três horas, deixou Amanda Jane na escola, deu um beijo de despedida em Angela e voltou para a Center Street. Foi numa sala de interrogatório na Tumba que ele conseguiu arrancar a história do garoto negro. Na escola, Washington Lee não havia brilhado em nada.

Suas notas eram desastrosas. O futuro não oferecia nada além da estrada para a vadiagem, o crime e a prisão. E então um dos professores da escola, talvez mais inteligente que os outros ou apenas mais gentil, havia permitido ao garoto acesso ao seu computador Hewlett Packard. (Aqui, Dexter estava lendo entre as linhas da narrativa hesitante.)

Foi como oferecer ao jovem Yehudi Menuhin uma chance de segurar um violino. Washington Lee olhou para o teclado, correu os olhos pela tela, e começou a fazer música.

O professor, claramente um aficionado de computação quando as máquinas pessoais eram a exceção e não a regra, ficou intrigado. Isso tinha acontecido há cinco anos.

Washington Lee começara a estudar. Também começara a economizar. Quando arrombava máquinas de venda automática, não vestia, fumava, bebia ou injetava no braço o dinheiro recolhido. Ele economizou até conseguir comprar barato um computador de segunda mão.

- Então, como você roubou o East River Bank?

- Invadi o computador central deles.

Durante um momento Cal Dexter achou que tinha ouvido mal e pediu que o rapaz explicasse o que queria dizer. Pela primeira vez o garoto ficou animado. Estava falando sobre a única coisa da qual entendia.

- Cara, você não sabe como os sistemas de defesa que eles usam para proteger seus bancos de dados são fracos?

Dexter reconheceu que aquele não era um assunto sobre o qual entendesse. Como a maioria dos leigos, sabia que os projetistas de sistemas de informática criavam "barreiras" para impedir acesso não autorizado a bancos de dados hipersensíveis. Ele não tinha a menor idéia como faziam essas barreiras, e se era possível derrubá-las. Atiçou Washington Lee a contar a história com detalhes.

O East River Bank tinha armazenado cada detalhe de cada correntista num banco de dados imenso. Como a maioria dos clientes considera suas situações financeiras como um assunto altamente confidencial, o acesso a esses detalhes exigia que os funcionários do banco digitassem uma série de códigos. Se esses códigos não fossem absolutamente corretos, a tela de computador simplesmente exibiria a mensagem "Acesso negado". Uma terceira tentativa errada de digitar os códigos acionaria alarmes no escritório central.

Washington Lee tinha penetrado os códigos sem acionar os alarmes, e o computador central enterrado debaixo do QG em Manhattan começou a obedecer às suas instruções.

Em resumo, ele tinha praticado coito não-interrompido com uma peça de tecnologia caríssima.

Suas instruções foram simples. Ele ordenou ao computador que identificasse cada poupança e conta corrente de clientes do banco e os juros mensais pagos a essas contas.

Em seguida ordenou ao computador que deduzisse um quarto de cada pagamento de juros e transferisse essa quantia para sua própria conta.

Como não tinha conta, abriu uma na filial local do Chase Manhattan. Se soubesse o bastante para transferir o dinheiro para as Bahamas, provavelmente teria se safado.

Determinar o valor dos juros em sua conta corrente é um cálculo muito difícil, porque depende das taxas de juros durante o período, que são flutuantes. A maioria das pessoas não tem tempo para fazer esse cálculo. Elas confiam em que o banco fará as contas direito.

Não o Sr. Tolstoy. Ele podia ter oitenta anos, mas sua mente era afiada como uma agulha. Seu problema era o tédio. Ele Precisava encontrar coisas para matar o tempo em seu apartamentozinho na rua 108 Oeste. Tendo trabalhado a vida inteira como contador de uma seguradora, achava que até os centavos eram importantes, se multiplicados um número suficiente de vezes. Assim, seu passatempo era tentar achar erros do banco.

Um dia, ele achou.

Ficou convencido de que os juros para o mês de abril tinham sido reduzidos em um quarto. Ele checou as cifras de março. Mesma coisa. Verificou mais dois meses. Então se queixou.

O gerente local preferiria ter dado a ele o dólar que faltava, mas regras eram regras. Ele registrou a queixa. O escritório central achou que era apenas uma falha

em uma única conta, mas empreendeu checagens em mais uma dúzia de contas escolhidas aleatoriamente. A mesma situação foi verificada em todos os casos. Então os técnicos

de informática foram convocados.

Os técnicos deduziram que o computador central tinha feito isto com todas as contas do banco, e que o vinha fazendo há vinte meses. Eles perguntaram ao computador por quê.

- Porque vocês mandaram - disse o computador.

- Não, nós não mandamos - disseram os técnicos.

- Bem, então alguém mandou - disse o computador.

Foi nesse ponto que ligaram para Dan Witkowski. Não demorou muito. As transferências de todas essas miudezas tinham sido para uma conta no Chase Manhattan Bank, no Brooklin. Nome do cliente: Washington Lee.

- Diga-me, quanto foi o montante de tudo isso? - perguntou Dexter.

- Pouco menos de um milhão de dólares.

O advogado mordeu a extremidade de seu lápis. Não era de admirar que a acusação fosse tão vaga. "Mais de dez mil dólares", de fato. O tamanho do roubo deu-lhe uma idéia.

O Sr. Lou Ackerman adorava o café da manhã. Para ele, era a melhor refeição do dia; jamais apressada como os almoços, jamais pretensiosa como os jantares requintados.

Gostava do choque do suco gelado, do crepitar dos flocos de cereais, da fofura dos ovos bem batidos, do aroma do café feito com grãos moídos. No terraço de sua cobertura na Central Park West, no frio de uma manhã de verão antes que o calor realmente forte chegasse, essa refeição era um deleite. Pena que o Sr. Calvin Dexter tivesse aparecido para acabar com ela.

Quando seu criado filipino trouxe o cartão de visitas até sua cobertura, ele olhou para a palavra "advogado", franziu o cenho e tentou adivinhar quem seria seu visitante.

O nome parecia-lhe familiar. Ele estava prestes a mandar seu criado pedir ao visitante que aparecesse no banco um pouco mais tarde naquela mesma manhã, quando uma voz atrás do filipino disse:

- Sei que é impertinência, Sr. Ackerman, e peço desculpas por isso. Mas se me conceder dez minutos, garanto que ficará satisfeito por não realizarmos esta reunião em seu escritório, à vista de todos.

Ele deu de ombros e fez um gesto para que o advogado se sentasse numa cadeira do outro lado da mesa.

- Diga à Sra. Ackerman que estou numa reunião à mesa - ordenou ao filipino. E então, a Dexter: - Vá direto ao ponto, Sr. Dexter.

- Eu Vou. O senhor está processando o meu cliente, o Sr. Washington Lee, sob a alegação de ter roubado quase um milhão de dólares das contas de seus clientes. Acho que seria uma boa idéia retirar a acusação.

O diretor-executivo do East River Bank teve vontade de dar um chute em si mesmo. Você demonstra um pouco de gentileza e o que recebe? Um penetra arruinando seu café da manhã.

- Esqueça, Sr. Dexter. Acabou a conversa. De jeito nenhum. O rapaz será processado. Coisas assim devem ser punidas. Política do banco. Tenha um bom dia.

- É uma pena. Veja bem, a forma como ele fez é fascinante. Ele invadiu o seu computador central. Passou por suas barreiras de proteção, seus guardas dentro do computador.

Todo mundo achava que isso era impossível.

- O seu tempo acabou, Sr. Dexter.

- Mais alguns segundos. Haverá outros cafés da manhã. O senhor tem cerca de um milhão de clientes de contas correntes e poupanças. Eles pensam que seus fundos estão seguros em seu banco. No final desta semana um rapazinho negro do gueto vai se levantar diante do júri e dizer que, se ele conseguiu fazer, qualquer especialista de computador de meia-tigela poderia esvaziar as contas de seus clientes depois de algumas horas de sondagem eletrônica. O que acha que os seus clientes vão pensar disso?

Ackerman pousou seu café na mesa e desviou os olhos para o parque.

- Isso não é verdade. E por que haveriam de acreditar nisso:

- Porque as mesas da imprensa estão cheias de repórteres, e a TV e o rádio estarão diante do prédio. Acho que até um quarto dos seus clientes decidirá mudar de banco.

- Vamos anunciar a instalação de um sistema de segurança novo. O melhor do mercado.

- Mas foi isso que fizeram antes. E um garoto de Bedford Stuyvesant sem educação superior invadiu o sistema. Vocês deram sorte. Recuperaram todo o milhão de dólares.

Suponha que aconteça novamente, mas que o invasor agora retire dez milhões de dólares num único fim de semana, e então fuja do país. O banco teria de declarar isso ao público. Imagine a humilhação que a sua diretoria iria sofrer.

Lou Ackerman pensou em sua diretoria. Alguns dos acionistas institucionais eram homens como Pearson-Lehman e Morgan Stanley. O tipo de gente que odiava ser humilhada.

O tipo de gente que tiraria o emprego de um homem.

- É tão ruim assim?

- Temo que sim.

- Muito bem. Vou telefonar para o gabinete do promotor público e dizer que não temos mais nenhum interesse em processar, porque recuperamos todo o dinheiro. Você sabe que o promotor público ainda pode continuar o processo, se quiser?

- Então o senhor terá de ser persuasivo. Tudo que precisa dizer é: "Golpe? Que golpe?" Assim, ele ficará de braços amarrados.

Dexter se levantou para sair. Ackerman era um bom perdedor.

- Sempre temos lugar em nossa empresa para um bom advogado, Sr. Dexter.

- Tenho uma idéia melhor. Ponha Washington Lee na folha de pagamento. Acho que cinqüenta mil dólares anuais será de bom tamanho.

Ackerman se levantou subitamente, derramando café de qualidade no pano da mesa.

- Mas por que cargas d'água Vou querer aquele verme na minha folha de pagamento?

- Porque no que diz respeito a computadores, ele é o melhor. E já provou isso. Ele penetrou um sistema de segurança que custou uma fortuna para ser instalado, e fez isso com um caco velho que comprou por cinqüenta dólares. Ele poderia instalar para você um sistema totalmente impenetrável. Você poderia até fazer publicidade com isso: o banco de dados mais seguro a oeste do Atlântico. Ele é muito mais seguro dentro da tenda, mijando para fora.

Washington Lee foi libertado 24 horas depois. Ele nem soube direito por quê. O promotor público adjunto também não.

Mas o banco havia tido uma crise de amnésia corporativa e a Promotoria pública decidiu que não valia a pena insistir.

O banco mandou uma limusine até Tombs para pegar seu novo funcionário. Ele nunca tinha andado numa antes. Sentou-se no banco de trás, olhando para a cabeça de seu advogado enfiada pela janela.

Cara, não sei o que você fez nem como fez. Um dia desses te pago.

- Certo, Washington. Quem sabe, um dia.

Era 20 de julho de 1988.

 

                 O MATADOR

QUANDO GOVERNADA PELO MARECHAL TITO, A IUGOSLÁVIA era uma sociedade praticamente desprovida de crime. Molestar um turista era impensável, as mulheres caminhavam em segurança pelas ruas e a corrupção inexistia.

Isto era estranho, considerando que as sete províncias que compunham a Iugoslávia, reunidas pelos Aliados ocidentais em 1918, haviam tradicionalmente produzido alguns dos gângsteres mais violentos e perversos da Europa.

O motivo era que o governo iugoslavo pós-1948 estabeleceu um pacto com o sub-mundo da Iugoslávia. O acordo era simples: vocês podem fazer o que bem entenderem e faremos vista grossa sob uma condição: façam lá fora. Belgrado simplesmente exportou todo seu mundo criminal.

Os alvos principais para os chefões iugoslavos do crime eram Italia, Áustria, Alemanha e Suécia. O motivo era simples. Em meados da década de 1960 os turcos e os iugoslavos tinham se tOrnado a primeira onda de "trabalhadores convidados" em Países mais ricos ao norte, significando que eram encorajados a ir até lá se candidatar a trabalhos inferiores que os nativos não queriam mais realizar.

Cada grande movimento étnico traz seu próprio mundo criminal com ele. A Máfia chegou a Nova York com os imigrantes italianos. Os criminosos turcos logo se juntaram às comunidades de "trabalhadores convidados" espalhadas pela Europa. com os iugoslavos aconteceu a mesma coisa, mas em seu caso o acordo era mais estruturado.

Belgrado se beneficiou com isso. Os milhares de iugoslavos trabalhando no exterior mandavam dinheiro para casa todas as semanas; como um estado comunista, a Iugoslávia sempre estava em crise econômica, mas o influxo regular de dinheiro escondia o fato.

Como Tito repudiava Moscou, os EUA e a Otan permaneciam bem relaxados em relação ao que ele fazia. Ele até foi considerado um dos líderes dos países não-alinhados durante a Guerra Fria. A bela costa dálmata ao longo do Adriático se tornou uma meca de turismo, trazendo ainda mais dinheiro estrangeiro, e o sol brilhava.

Internamente, Tito conduzia um regime brutal no que dizia aos dissidentes e oponentes, mas mantinha a discrição. O pacto com os gângsteres era supervisionado não tanto pela polícia civil, mas principalmente pela polícia secreta, conhecida como Segurança Estatal ou DB.

Era a DB que impunha os termos. Os gângsteres que operavam nas comunidades iugoslavas no exterior voltavam para casa em busca de impunidade, e a obtinham. Eles construíam para si mesmos mansões na costa e mansões na capital. Faziam suas doações aos fundos de pensão dos chefes da DB e ocasionalmente eram encarregados de um trabalho sujo para o governo. A mente por trás desse arranjo cômodo era o chefe da inteligência, o gordo e temível esloveno Stane Dolanc.

Dentro da Iugoslávia havia um pouco de prostituição, mas era mantida sob o controle da polícia local. Ocorria também um pouco de contrabando, também auxiliado por funcionários do governo. Mas violência, a não ser a empreendida pelo governo, era proibida. Permitia-se aos jovens participar de gangues de rua, roubar carros (mas não de turistas) e brigar. Se quisessem fazer qualquer coisa mais séria que isso tinham de enfrentar as conseqüências. Os que faziam ouvidos de mercador podiam acabar num campo de prisioneiros remoto.

O marechal Tito não era idiota, mas era mortal. Ele morreu em 1980 e as coisas começaram a degringolar.

No distrito operário de Zemun, em Belgrado, um mecânico de garagem chamado Zilic teve um filho em 1956 e deu a ele o nome Zoran. Desde a mais tenra idade Zoran deixou claro que sua natureza era profundamente violenta. Quando tinha dez anos seus professores já tremiam ao ouvir falar dele.

Mas ele tinha uma coisa que mais tarde o diferenciaria dos outros gângsteres de Belgrado como Zeliko Raznatovic, vulgo Arkan. Ele era inteligente.

Começou a matar aulas a partir dos quatorze anos para se juntar a gangues adolescentes envolvidas nos prazeres usuais de roubar carros, brigar, beber e cantar as garotas locais. Depois de uma briga entre duas gangues, três adversários ficaram tão espancados com correntes de bicicleta que ficaram entre a vida e a morte durante vários dias. O chefe de polícia decidiu que já bastava.

Zilic foi preso, levado para o porão da delegacia por dois Policiais com pedaços de borracha de mangueira, e espancado até não mais conseguir ficar em pé.

Depois o chefe de polícia deu ao jovem um conselho, ou vários. Era 1972, o rapaz tinha quinze anos e, uma semana depois saiu do país. Mas já tinha planos. Na Alemanha, juntou-se à gangue de Ljuba Zemunac - seu sobrenome era adotado, tirado do subúrbio de seu nascimento.

Ele também vinha de Zemun.

Zemunac era um gangster impressionantemente violento que mais tarde seria morto a tiros no saguão de um tribunal alemão, mas Zoran Zilic permaneceu com ele por dez anos, conquistando a admiração do homem mais velho como o capanga mais sádico que já havia contratado. No negócio de venda de proteção, a habilidade de inspirar terror é vital. Zilic podia fazer isso e apreciar cada momento.

Em 1982 Zilic partiu e formou sua própria gangue aos 26 anos. Isto poderia ter causado uma guerra interna com seu antigo patrão, mas Zemunac morreu logo depois.

Zilic permaneceu como chefe de sua gangue na Alemanha e na Áustria durante os cinco anos seguintes. Ele há muito tempo já falava alemão e inglês com fluência. Mas em sua terra natal as coisas estavam mudando.

Não havia ninguém para substituir o marechal Tito, cujo histórico de guerra na luta contra a Alemanha e a força de sua personalidade tinham mantido a federação das sete províncias unida por tanto tempo.

A década de 1980 foi marcada por uma série de governos de coalizão que subiram e caíram, mas o espírito da secessão e independência separatista estava se disseminando pela Eslovênia e pela Croácia, ao norte, e pela Macedonia, ao sul.

Em 1987, Zilic se aproximou de um ex-membro do partido comunista que outros tinham ignorado ou subestimado. Esse homem possuía duas qualidades das quais Zilic gostava: uma inclemência absoluta na perseguição ao poder e um talento para deixar os rivais à vontade até que fosse tarde demais. Ele notou que o homem estava em ascensão.

A partir de 1987 Zilic se ofereceu para "dar cabo" dos oponentes de Slobodan Milosevic. Não houve recusa nem cobrança.

Em 1989 Milosevic notara que o comunismo estava morrendo. O cavalo a ser montado agora era o do ultranacionalismo sérvio. Na verdade, ele trouxe não um, mas quatro cavaleiros para seu país, os do Apocalipse. Zilic o serviu quase até o fim. A Iugoslávia estava se dilacerando. Milosevic posava como o homem capaz de salvar a união, mas não mencionou que tencionava fazer isso através do genocídio, conhecido como purificação étnica. Dentro da Sérvia, a província nos arredores de Belgrado, sua popularidade provinha da crença de que ele salvaria os sérvios da perseguição por parte dos não-sérvios.

Para isso, eles primeiro tinham de ser perseguidos. Se os croatas ou os bósnios demoravam a compreender, isso precisava ser providenciado. Um pequeno massacre local normalmente provocaria a maioria residente a inflamar os sérvios entre eles. Então Milosevic poderia mandar o exército para salvar os sérvios. Foram os gângsteres, transformados em "patriotas" paramilitares, que agiram como seus agentes provocadores.

Enquanto até 1989 o estado iugoslavo manteve seu submundo criminoso sob suas rédeas mas fora de seu território, Milosevic fez dos gângsteres seus sócios e os reteve em casa.

Como tantos capachos elevados ao poder de estado, Milosevic ficou fascinado pelo dinheiro. O tamanho das somas envolvidas atuava nele como a flauta de um encantador atua numa cobra. O que o encantava não era o luxo que o dinheiro podia comprar. No nível pessoal, Milosevic permaneceu frugal até o fim. Era o dinheiro como outra forma de poder que o hipnotizava. Quando Milosevic caiu, o novo governo iugoslavo calculou que ele e seus comparsas tinham desviado Para suas contas pessoais no exterior cerca de vinte bilhões de dólares.

Nem todos os associados de Milosevic eram frugais como ele. Esses incluíam sua mulher pálida e esquálida e sua filha igualmente cadavérica. O lar dos Milosevic fazia a família de Os monstros parecer a de Os pioneiros.

Entre os "sócios" de Milosevic estava Zoran Zilic, que se tornou o assassino pessoal do ditador. As recompensas oferecidas por Milosevic jamais eram em dinheiro.

Seus homens eram premiados com licenças para esquemas de corrupção particularmente lucrativos, acompanhados de uma garantia de imunidade absoluta. Os comparsas do tirano podiam roubar, torturar, estuprar, matar e a polícia normal não podia fazer absolutamente nada a respeito. Ele estabeleceu um regime que favorecia a criminalidade mas posava de patriota, e os sérvios e os políticos do oeste europeu engoliram essa mentira durante anos.

Em toda essa brutalidade e banho de sangue, ele não poupou nem a federação iugoslava ou mesmo seu sonho de uma Sérvia maior. A Eslovênia se retirou, e em seguida a Macedonia e a Croácia. Segundo o Acordo de Dayton firmado em novembro de 1995, a Bosnia se retirou. Em julho de 1999 ele não tinha apenas perdido Kosovo, mas também provocado sua destruição parcial com bombas da Otan da própria Sérvia.

Como Arkan, Zilic também formou um pequeno pelotão de paramilitares. Havia outros, como os sinistros e brutais Rapazes de Frankie, o grupo de Frankie Stamotovic - surpreendentemente nem mesmo um sérvio, mas um croata renegado da Istria. Ao contrário do ostentoso Arkan, assassinado no saguão do Belgrade Holiday Inn, Zilic conduzia suas atividades e as de seu grupo com um nível de discrição que beirava a invisibilidade. Mas em três ocasiões durante a guerra da Bosnia ele levou seu grupo para o norte e avançou estuprando, torturando e assassinando por aquela província miserável até a intervenção americana colocar um fim nessas atrocidades.

A terceira ocasião foi em abril de 1995. Enquanto Arkan havia batizado seu grupo de Tigres e tinha algumas centenas de homens, Zilic satisfazia-se em manter seus

Lobos de Zoran com um contingente pequeno. No terceiro ataque ele não contava com mais de uma dúzia de homens. Todos eram bandidos que já haviam atuado antes, menos um. Zilic estava sem operador de rádio e um de seus colegas, cujo irmão caçula estava na faculdade de direito, deu uma sugestão. Ele disse que seu irmão tinha um amigo que havia sido operador de rádio no exército.

Contactado através do seu colega universitário, o recém chegado concordou em abrir mão de suas férias e juntar-se aos Lobos.

Zilic perguntou como era o rapaz. Já tinha participado de algum combate? Não, ele tinha prestado serviço militar na tropa de Sinaleiros, e era por causa disso que

estava disposto a um pouco de "ação".

- Se nunca atiraram no garoto, então ele nunca matou ninguém - disse Zilic. - Assim sendo, esta expedição vai ser uma tremenda curva de aprendizagem para ele.

O grupo partiu para o norte na primeira semana de maio, mas foi atrasado por problemas técnicos em seus jipes de fabricação soviética. Atravessaram Pale, a pequena estância de esqui agora estabelecida como capital da auto-intitulada Republika Serbska que, agora que um terço da Bosnia havia sido "purificado", era unicamente servia. Contornaram Sarajevo, que um dia havia sido a anfitriã orgulhosa das Olimpíadas de Inverno, mas que agora estava arrasada pela guerra, e entraram na Bosnia propriamente dita, formando sua base em Banja Luka.

A partir de sua base, Zilic excursionava, evitando os perigosos mujahedin, procurando por alvos mais fáceis entre as comunidades muçulmanas que por acaso não contassem com proteção armada.

Em 14 de maio, encontraram uma aldeiazinha na cordilheira Vlasic, tomaram-na de surpresa e chacinaram seus habitantes, passaram a noite na floresta e voltaram para Banja Luka na noite do dia 15.

O novo recruta deixou-os no dia seguinte, gritando que queria retornar para seus estudos, afinal de contas. Zilic deixou-o ir, depois de avisá-lo que, se algum dia abrisse a boca, cortaria pessoalmente seu pênis com um copo de vinho quebrado e depois enfiaria ambos por sua garganta, nessa ordem. Zilic não gostava nem um pouco do rapaz; achava-o estúpido e covarde.

O Acordo de Dayton colocou um fim no esporte na Bosnia, mas Kosovo estava entrando na temporada, e em 1998 Zilic também estava operando lá, alegando enfrentar o Exército de Libertação de Kosovo, mas na verdade concentrando-se em comunidades rurais e em saques muito interessantes.

Mas ele nunca negligenciou seu verdadeiro motivo para aliar-se a Slobodan Milosevic. Seu serviço ao déspota rendera ricos dividendos. Sua recompensa era a autoridade de um chefão do crime, o direito a fazer o que todo mafíoso deseja fazer, mas com imunidade presidencial.

Entre seus negócios, que rendiam dividendos de várias centenas por cento estava o contrabando de cigarros e perfumes, conhaques e uísques, e todos os tipos de alimentos requintados. Esses negócios ele dividia com Raznatovic, o único outro gangster de importância comparável, e alguns outros. Mesmo pagando rios de dinheiro por "proteção" policial e política, ele já era milionário em meados dos anos noventa.

Nessa época ingressou em ramos como prostituição, narcotráfico e venda ilegal de armas. com seu domínio de alemão e inglês, estava melhor gabaritado para lidar com o crime internacional do que os outros que falavam uma só língua.

Narcóticos e armas eram especialmente lucrativos. Sua fortuna em dólares alcançou oito dígitos. Ele também entrou nos arquivos da DEA, CIA, Defense Intelligence

Agency (contrabando de armas) e FBI.

Os comparsas de Milosevic, entupidos de dinheiro, poder, corrupção, ostentação e luxo, ficaram preguiçosos e descuidados. Acreditavam que a festa não acabaria nunca.

Mas Zilic sabia que tudo tinha um fim.

Zilic evitou os bancos óbvios usados pela maioria dos corruptos para estocar ou exportar suas fortunas. Quase cada centavo que ganhava era depositado no exterior, mas através de bancos sobre os quais ninguém no estado sérvio tinha conhecimento. E se mantinha atento para as primeiras rachaduras no gesso. Cedo ou tarde, acreditava, até os políticos e diplomatas da Grã-Bretanha e da União Européia, por mais cegos que fossem, veriam a verdadeira face de Milosevic e diriam "basta". Isso tinha acontecido em Kosovo.

Uma província fundamentalmente agrária, Kosovo colocavase ao lado de Montenegro como tudo que restara dos domínios feudais sérvios dentro da Federação da Iugoslávia.

Ela abrigava cerca de 1 milhão e 800 mil kosovares, que são muçulmanos e quase indistinguíveis de seus vizinhos albaneses, e 200 mil sérvios.

Milosevic estava perseguindo deliberadamente os kosovares por uma década quando o Exército de Libertação de Kosovo, que parecia moribundo, ressuscitou das cinzas.

A estratégia de Milosevic seria a de sempre. Perseguir implacavelmente; aguardar pela indignação local; denunciar os "terroristas"; entrar à força para salvar os sérvios e "restaurar a ordem". Então a Otan disse que não ficaria mais de braços cruzados. Milosevic não acreditou. Grande erro. Desta vez a Otan falava sério.

Na primavera de 1999, o processo de purificação étnica começou, realizado principalmente pelo Terceiro Exército de Ocupação, assistido pela Polícia de Segurança e pelos paramilitares: Tigres de Arkan, Rapazes de Frankie e Lobos de Zoran. Conforme previsto, mais de um milhão de kosovares fugiram aterrorizados pelas fronteiras para a Albânia e a Macedonia. Esperava-se que fizessem isso. Esperava-se que o Ocidente aceitasse a todos como refugiados.

Mas o Ocidente não fez isso. O Ocidente começou a bombardear a Sérvia.

Belgrado resistiu por 78 dias. Aparentemente, a reação local era anti-Otan, mas os sérvios começavam a falar discretamente que tinha sido o louco Milosevic o causador de toda esta tragédia. Sempre é educativo notar como a febre da guerra baixa quando o teto cai. Zilic ouviu os murmúrios do povo.

Em 3 de junho de 1999, Milosevic aceitou negociar com a Otan. Essa foi aversão oficial. Para Zilic foi rendição incondicional. Ele decidiu que era o momento de preparar sua partida.

A luta terminou. O Terceiro Exército, que sofreu pouquíssimas baixas no bombardeio de Kosovo pela Otan, retirou-se com seu equipamento intacto. Os aliados da Otan ocuparam a província. Os sérvios remanescentes começaram a fugir para a Sérvia, levando sua raiva com eles. O alvo dessa raiva moveu-se da Otan para Milosevic à medida que os sérvios contemplavam seu país dilacerado.

Zilic começou a transferir os últimos vestígios de sua fortuna para locais fora do alcance, e a se preparar para deixar o país. Durante o outono de 1999 os protestos contra Milosevic cresceram cada vez mais.

Num encontro com Milosevic em novembro de 1999, Zilic implorou ao ditador que observasse a vontade do povo, conduzisse seu próprio coup d'etat enquanto tinha um exército leal para fazê-lo, e extirpasse qualquer pretensão à democracia ou a partidos de oposição. Mas Milosevic a essa altura estava em seu próprio mundo particular, onde sua popularidade não havia sido abalada.

Zilic deixou a presença do ditador pensando mais uma vez no fenômeno de que, quando homens que já detiveram poder supremo começam a perdê-lo, eles desmoronam em todos os sentidos. Coragem, perseverança, percepção, decisão, até a habilidade de reconhecer a realidade: todas essas coisas desaparecem debaixo do castelo de areia desabado. Em dezembro Milosevic não mais exercia o poder; agarrava-se a ele. Zilic completou seus preparativos.

Sua fortuna era de cerca de 500 milhões de dólares; ele tinha um lugar para ir onde ficaria seguro. Arkan estava morto, executado por falhar para com Milosevic.

Os principais purificadores étnicos da Bosnia, Karadzic e o general Mladic, do massacre de Srebrenitsa, eram caçados como animais por todos os locais da Republika

Serbska onde buscavam refúgio. Outros já tinham sido presos pelo novo tribunal de crimes de guerra em Haia. Milosevic tinha os dias contados.

Para efeitos de registro, Milosevic decretou em 27 de julho de 2000 as próximas eleições presidenciais para 24 de setembro. A despeito de uma campanha poderosa e uma recusa feroz de aceitar a realidade, ele perdeu. Multidões invadiram o Parlamento e instalaram o sucessor. Entre os primeiros atos do novo regime estiveram o começo da investigação sobre o período Milosevic: os assassinatos, os vinte bilhões de dólares desaparecidos.

O ex-tirano entocou-se em sua mansão no subúrbio de Dedinje. Em 1.° de abril de 2001 o presidente Kostunica ordenou sua prisão.

A essa altura, Zoran Zilic já partira há muito tempo. Em janeiro de 2000 ele simplesmente desapareceu. Não disse adeus a ninguém nem levou qualquer bagagem. Ele deixou o país para começar uma vida nova num mundo diferente, onde seus velhos badulaques não teriam uso. Assim, deixou tudo que tinha Para trás.

Não levou nada nem ninguém com ele, exceto seu guardacostas pessoal e ultraleal, um gigante chamado Kulac. Dentro de uma semana havia se instalado num novo esconderijo, que há um ano vinha sendo preparado para recebê-lo.

Ninguém na comunidade de inteligência prestou atenção à sua partida, exceto uma pessoa. Um americano discreto e misterioso notou a nova fortaleza do gangster com considerável interesse.

 

                   O MONGE

ERA O SONHO, SEMPRE O SONHO. NÃO CONSEGUIA LIVRAR-SE do sonho e o sonho não o abandonava. Toda santa noite acordava gritando, molhado de suor, e sua mãe vinha correndo para abraçá-lo e tentar trazer-lhe conforto.

Era um enigma e uma preocupação para os pais, porque não podia e não queria descrever o pesadelo, mas sua mãe tinha certeza de que nunca tivera sonhos como esses antes de voltar da Bosnia.

O sonho era sempre o mesmo. Era o rosto no lodo, um disco pálido pontuado por montículos de excremento, alguns bovinos, alguns humanos, gritando por misericórdia, implorando para viver. Ele podia entender o inglês, Zilic também, e palavras como no, no, please, don"t são internacionais.

Mas os homens com as varas riam e empurravam novamente. E o rosto voltava, até Zilic enfiar sua vara na boca aberta e empurrar para baixo até que o garoto estava morto em algum lugar lá embaixo. Então ele acordava, gritando e chorando, até sua mãe envolvê-lo nos braços, dizendo-lhe que estava tudo bem, que ele estava em casa, no seu quarto em Senjak.

Mas ele não podia explicar o que havia feito, do que havia participado, quando pensou que estava realizando seu dever patriótico para com a Sérvia.

Seu pai dava-lhe menos apoio, argumentando que ele era um homem que trabalhava arduamente e precisava dormir. No outono de 1995, Milan Rajak teve sua primeira sessão com um psicoterapeuta.

Ele comparecia duas vezes por semana ao hospital psiquiátrico da rua Palmoticeva, o melhor em Belgrado. Mas os especialistas do Laza Lazarevic também não podiam ajudar, porque ele não ousava confessar.

Disseram-lhe que o alívio vem com o expurgo, e que a catarse requer a confissão. Milosevic ainda estava no poder, mas era bem menos assustador que os olhos ferozes de Zoran Zilic naquela manhã em Banja Luka quando ele disse que queria desistir e voltar para sua casa em Belgrado. Muito mais aterrorizante eram as palavras sussurradas de mutilação e morte, caso ele viesse a abrir a boca.

Seu pai era um ateu ferrenho, criado sob o regime comunista de Tito e um servo leal do partido durante toda sua vida. Mas sua mãe conservara a fé na igreja ortodoxa servia, parte da comunhão oriental com as igrejas grega e russa. Ouvindo zombarias do marido e do filho, ela ia diariamente à missa há anos. No fim de 1995, Milan começou a acompanhá-la.

Passou a encontrar algum conforto em meio ao ritual e à litania, os cânticos e o incenso. O horror parecia se dissolver na igreja diante do campo de futebol, a apenas três quarteirões de onde moravam, e que sua mãe freqüentava.

Em 1996 foi reprovado nos exames de direito, para o ultraje e o desespero de seu pai, que passou dois dias xingando e resmungando. Se a notícia da vida acadêmica do filho não lhe agradara, o que o jovem lhe disse algum tempo depois foi um choque.

- Não quero ser advogado, pai. Vou entrar para a Igreja.

O pai precisou de algum tempo para se acalmar e tentar mudar seu filho. Ao menos o sacerdócio era um tipo de profissão. Não trazia riquezas, mas pelo menos impunha respeito. Um homem podia dizer de queixo erguido: "Meu filho é da Igreja, você sabe."

Ele logo descobriu que o sacerdócio seria alcançado apenas depois de anos de estudo, a maior parte do tempo num seminário, mas o filho tinha outras idéias. Queria viver em reclusão e sem demora. Queria tornar-se monge, repudiando todas as coisas materiais e abraçar uma vida simples.

Quinze quilômetros a sudoeste de Belgrado ele descobriu o que queria: o pequeno monastério de Santo Estevão na aldeia de Slanci. Ele continha não mais que doze monges sob a autoridade do abade. Eles trabalhavam nos campos e celeiros de sua própria fazenda, cultivavam seus próprios alimentos, aceitavam donativos de alguns turistas e peregrinos, meditavam e oravam. Havia uma lista de espera para se afiliar e nenhuma chance de evitá-la.

O destino interveio na reunião com o abade Vasilije. Ele e Rajak Pai olharam um para o outro assombrados. A despeito da barba preta cheia, salpicada de branco, Rajak reconheceu o mesmo Goran Tomic com quem estudara quarenta anos antes. O abade concordou em receber o filho de Rajak e conversar com ele sobre a possibilidade de uma carreira na Igreja.

A inteligência arguta do abade percebeu que o filho de seu antigo colega de escola era um jovem dilacerado por algum tormento interno e que não conseguia encontrar paz no mundo externo. Já tinha visto casos assim. O abade disse que não Podia criar uma vaga para um monge instantâneo, mas ocasionalmente homens da cidade eram aceitos para um "retiro" religioso.

No verão de 1996, com a Guerra da Bosnia terminada, Milan Rajak chegou a Slanci para um retiro prolongado durante o qual iria cultivar tomates e pepinos, meditar e rezar. E ele parou de ter o sonho.

Depois de um mês, o abade Vasilije gentilmente sugeriu ao rapaz que se confessasse, e ele aceitou. Sussurrando à luz de velas diante do altar, observado pelo homem de Nazaré, Milan Rajak contou ao abade o que tinha feito.

O abade se benzeu fervorosamente e rezou: pela alma do rapaz na fossa e pelo penitente ao seu lado. Ele estimulou Milan a procurar pelas autoridades e denunciar os responsáveis.

Mas o poder de Milosevic ainda era absoluto, assim como o terror inspirado por Zoran Zilic. Era inimaginável que as "autoridades" levantassem um dedo contra Zilic.

E essas mesmas autoridades faziam vista grossa para a vingança do assassino, quando fosse executada. Assim, o rapaz continuou calado.

A dor começou no inverno de 2000. Milan notou que a dor aumentava a cada movimento corporal. Depois de dois meses consultou seu pai, que presumiu que o rapaz havia contraído alguma moléstia passageira. Ainda assim, ele providenciou exames no Hospital Geral de Belgrado, o Klinicki Centre.

Belgrado sempre se vangloriara de que seus padrões hospitalares encontravam-se entre os mais elevados na Europa. E de fato, o Hospital Geral era tido como um dos melhores. Milan Rajak foi submetido a uma série de exames, que foram vistos por especialistas em proctologia, urologia e oncologia. Foi o professor que chefiava o terceiro departamento quem finalmente pediu a Milan Rajak para visitá-lo em seu consultório na clínica.

- Soube que você é um monge em treinamento.

- Sim.

- Então acredita em Deus?

- Sim.

- Às vezes também gostaria de acreditar. Não acredito. Mas você precisa testar a sua fé agora. As notícias não são boas.

- Conte, por favor.

- É o que chamamos de câncer colorretal.

- Operável?

- Lamento, não.

- Reversível? Quimioterapia?

- Tarde demais. Lamento. Lamento imensamente.

O rapaz olhou pela janela. Ele acabara de ser sentenciado à morte.

- Quanto tempo, professor?

- Essa é uma pergunta que é sempre feita, e que é sempre impossível de responder. com precauções, cuidados, dieta especial, um pouco de radioterapia... um ano. Possivelmente

menos, possivelmente mais. Não muito mais.

Era março de 2001. Milan Rajak voltou para Slanci e contou ao abade. O homem mais velho chorou pelo rapaz a quem agora amava como o filho que nunca tivera.

Em 1.° de abril a polícia de Belgrado prendeu Slobodan Milosevic. Zoran Zilic havia desaparecido; a pedido de seu filho, o intrigado pai de Milan tinha usado seus contatos na força policial para confirmar que o gangster mais bem-sucedido e poderoso da Iugoslávia havia desaparecido há mais de um ano e agora vivia em algum lugar no exterior, localização desconhecida. Sua influência havia desaparecido com ele.

Em 2 de abril de 2001, Milan Rajak procurou entre seus papéis por um antigo cartão de visita. Ele pegou uma folha de Papel e, escrevendo em inglês, endereçou uma carta para Londres. Todo o conteúdo da carta estava na primeira linha.

Mudei de idéia. Estou preparado para testemunhar."

Dali a três dias, 24 horas após o recebimento da carta e de um telefonema rápido para Stephen Edmond em Windsor, Ontario, Rastreador retornou a Belgrado.

O depoimento foi tomado em inglês, na presença de um intérprete e tradutor juramentado. Foi assinado e testemunhado.

Em 1995, os jovens sérvios estavam acostumados a acreditar no que lhes era dito, e eu não era exceção. Hoje é de conhecimento geral que atos horríveis foram realizados na Croácia e na Bosnia, e mais tarde em Kosovo, mas a nós era dito que as vítimas eram comunidades isoladas de sérvios nessas ex-províncias, e eu acreditava. A ideia de que nossas próprias forças armadas estavam assassinando velhos, mulheres e crianças era inconcebível. Apenas croatas e bósnios faziam esse tipo de coisa; pelo menos era o que nos diziam. As forças sérvias estavam preocupadas apenas em proteger e resgatar as minorias nas comunidades sérvias.

Quando, em abril de 1995, um colega de faculdade me disse que seu irmão e outros rapazes estavam indo para a Bosnia com a missão de proteger os sérvios lá em cima, e precisavam de um operador de rádio, não suspeitei de nada.

Eu havia prestado o serviço militar como operador de rádio, mas isso a quilômetros de qualquer combate. Concordei em abrir mão de minhas férias para ajudar meus companheiros sérvios na Bosnia.

Quando me juntei aos outros doze, percebi que eles eram rudes, mas creditei seu embrutecimento à guerra, e me senti culpado por ser tão mimado e preguiçoso.

A coluna de quatro off-roads continha doze homens, incluindo o líder, que se juntou a nós no último minuto. Apenas então eu soube que ele era Zoran Zilic, de quem ouvira falar muito vagamente, e que possuía uma reputação assustadora, mas misteriosa. Nós dirigimos durante quatro dias para o norte, através da Republika Serbska. Entramos na Bosnia Central e chegamos a Banja Luka. Firmamos nossa base ali, mais especificamente no Bosna Hotel, onde nos alojávamos, comíamos e bebíamos.

Fizemos três patrulhas para norte, leste e oeste de Banja Luka, mas não encontramos nenhum inimigo ou aldeia ameaçada. Em 14 de maio percorremos a cordilheira Vlasic.

Sabíamos que depois da cordilheira ficavam Travnik e Vitez, ambos territórios inimigos para nós, sérvios.

No fim da tarde estávamos dirigindo por uma trilha no meio da floresta quando deparamos com duas menininhas. Zilic saltou do veículo para conversar com elas. Fez isso sorrindo. Pensei que ele estava sendo gentil com elas. Uma das meninas disse que seu nome era Laila. Eu não entendi. Era um nome muçulmano. Ela havia assinado a sentença de morte dela própria e de seu vilarejo.

Zilic levou as garotas para o jipe da frente e elas apontaram a direção de sua aldeia. A comunidade ficava num vale na floresta; não era muito, cerca de vinte adultos e uma dúzia de crianças, sete cabanas, alguns celeiros e galinheiros. Quando vi a lua crescente sobre a pequena mesquita compreendi que eles eram muçulmanos. Porém, era absolutamente claro que não representavam qualquer ameaça.

Os outros saltaram dos jipes e reuniram todas as pessoas da aldeia. Não suspeitei de nada quando eles começaram a vasculhar as cabanas. Eu tinha ouvido falar de fanáticos muçulmanos, mujahedin do Oriente Médio, Irã e Arábia Saudita, que também percorriam a Bosnia e matavam cada sérvio que viam. Talvez houvesse alguns escondidos ali, pensei.

Quando a busca terminou, Zilic caminhou de volta até o jipe da frente e assumiu posição a uma metralhadora montada num tripé atrás dos bancos. Ele gritou para seus homens se espalharem e abriu fogo contra os aldeões aglomerados diante do curral.

Aconteceu quase antes que eu pudesse acreditar que havia acontecido. Os aldeões pularam e dançaram enquanto eram atingidos pelas balas pesadas. Os outros soldados abriram fogo com suas submetralhadoras. Alguns dos aldeões tentaram salvar seus filhos, jogando seus corpos sobre eles. Algumas das crianças menores escaparam dessa forma, correram entre os adultos e alcançaram as árvores antes que as balas as alcançassem. Mais tarde, soube que seis crianças haviam escapado.

Vomitei compulsivamente. Um fedor de sangue e entranhas impregnava o ar. Nos fdmes de Hollywood a gente não sente o cheiro. Eu nunca tinha visto pessoas morrerem antes, mas essas não eram nem mesmo soldados ou guerrilheiros. A única arma encontrada tinha sido uma velha espingarda, talvez para matar coelhos e corvos.

Depois que tudo havia acabado, a maioria dos atiradores ficou desapontada. Eles não encontraram bebidas alcoólicas nem nada de valor. Assim, queimaram as cabanas e os celeiros. Eles estavam ardendo quando saímos.

Passamos a noite na floresta. Os homens tinham levado sua própria slivovitz e quase todos ficaram bêbados. Tentei beber, mas não conseguia parar de pensar no que havia acontecido. Estava no meu saco de dormir quando compreendi que cometera um erro terrível. Aqueles homens não eram patriotas; eram bandidos que matavam porque gostavam de fazer isso.

Na manhã seguinte dirigimos por uma série de trilhas montanhosas, quase todas à beira do desfiladeiro. Nosso destino era a passagem entre montanhas que nos levaria de volta a Banja Luka. Então encontramos a casa de fazenda. Ficava isolada em outro pequeno vale entre as florestas. Vi Zilic levantar do assento de seu jipe e fazer um sinal de "parem". com outro gesto, mandou que os motores fossem desligados. Os motoristas obedeceram, e tudo ficou silencioso. Então escutamos vozes.

Descemos silenciosamente dos jipes, empunhamos armas e nos arrastamos até a beira da clareira. A cerca de noventa metros estavam dois homens adultos conduzindo seis crianças para fora de um celeiro. Os homens não estavam armados nem uniformizados. Atrás deles havia uma casa de fazenda incendiada, e a um lado, um Tovota Landeruiser preto novo em folha com as palavras "Loaves"n" Fishes" na porta. Ambos se viraram e tomaram um susto quando nos viram. A criança mais velha, uma menininha com cerca de dez anos, começou a chorar. Eu a reconheci por seu lenço de cabelo. Era Laila. Zilic caminhou até o grupo com sua arma em riste, mas nenhum deles fez qualquer menção de lutar. O restante de nós se posicionou formando o desenho de uma ferradura em torno dos cativos. O homem mais alto falou e reconheci o sotaque americano.

Zilic também. Nenhum dos outros falava uma palavra sequer de inglês. O americano disse: "Quem são vocês?"

Zilic não respondeu. Ele caminhou até o Landeruiser para examiná-lo. Nesse momento a menina Laila saiu correndo. Um dos homens tentou agarrá-la mas não conseguiu.

Zilic deu as costas para o off-road, sacou seu revólver, apontou, disparou e explodiu a parte de trás da cabeça da menina. Ele se orgulhava muito de sua perícia com a pistola.

O americano estava a três metros de Zilic. Ele deu dois passos largos, fechou o punho e, com toda sua força, desferiu um soco no lado da boca de Zilic. Se ele tinha

alguma chance de sobreviver, ela acabou ali. Zilic foi pego de surpresa, o que era de esperar, porque ninguém em toda a Iugoslávia teria ousado fazer isso.

Passaram-se dois segundos de descrença completa enquanto Zilic caía, sangue jorrando de seu lábio rachado. Então seis de seus homens avançaram contra o americano, golpeando-o com suas botas, punhos e coronhas de revólveres. O americano foi reduzido a uma massa ensangüentada. Acho que os homens queriam bater nele até a morte.

Mas Zilic interveio. Ele estava em pé novamente, enxugando o sangue da boca. Ele mandou que os homens interrompessem o espancamento.

O americano estava vivo, camisa rasgada, torso vermelho devido aos chutes, rosto já inchado e cortado. A camisa aberta revelou uma enorme pochete de dinheiro em sua cintura. Zilic fez um gesto e um dos homens abriu a pochete. Estava recheada com notas de cem dólares, pelo menos dez delas. Zilic examinou o homem que havia ousado bater nele.

"Coitado, ficou todo ensangüentado", disse ele. "Amigo, você precisa de um banho frio para se refrescar um pouco.

Zilic se virou para seus homens. Estavam pasmos com sua aparente preocupação com o americano. Mas Zilic tinha visto outra coisa na clareira. A fossa estava cheia

até a borda, em parte com estrume animal, mas também com dejetos humanos. Ela já tinha servido a ambos os propósitos. Se o correr dos anos havia solidificado a mistura, as chuvas recentes a tinham liqüefeito de novo. Sob ordens de Zilic, o americano foi jogado na fossa.

O choque do frio deve tê-lo despertado. Seus pés encontraram o fundo do fossa e ele começou a se debater. Ali perto havia um curral. A cerca estava toda quebrada, mas algumas de suas varas ainda estavam inteiras. Vários homens pegaram uma vara cada um e começaram a empurrar o americano para o fundo da fossa.

O americano gritou por misericórdia cada vez que seu rosto aflorou da piscina de dejetos. Estava implorando por sua vida. Na sexta, ou talvez sétima vez, Zilic pegou uma vara e a enfiou pela boca aberta do americano, quebrando a maioria de seus dentes. Então empurrou para baixo e continuou empurrando até ter certeza de que o rapaz estava morto.

Caminhei até as árvores e vomitei a salsicha e o pão preto que havia comido de manhã. Sentia vontade de matar todos eles, mas eram muitos e eu tinha medo demais.

Enquanto melhorava mal escutei vários tiros. Eles haviam matado as outras cinco crianças e o assistente social bósnio que levara o americano até ali. Todos os corpos foram jogados na fossa. Um dos homens descobriu que as palavras "Loaves"n" Fishes" em cada porta da frente do Landeruiser eram apenas decalques que saíram com facilidade.

Quando saímos não deixamos qualquer sinal da carnificina, exceto pelas manchas brilhantes de sangue das crianças na grama, e alguns cartuchos vazios. Naquela noite Zoran Zilic dividiu os dólares. Ele deu cem dólares para cada homem. Eu me recusei a aceitar o dinheiro, mas ele insistiu que eu aceitasse pelo menos uma nota para continuar sendo "um dos rapazes".

Naquela noite tentei me livrar da nota no bar, mas Zilic me viu e perdeu a cabeça. No dia seguinte disse que ia voltar para minha casa em Belgrado. Ele me ameaçou dizendo que se eu dissesse uma palavra sobre o que havia acontecido, iria me achar, mutilar e matar.

Como sei há muito tempo, não sou um homem corajoso. Foi o medo que sinto dele que me manteve calado por todos esses anos, mesmo quando o inglês me procurou para fazer perguntas no verão de 1995. Mas agora estou em paz, e preparado para testemunhar em qualquer tribunal na Holanda ou na América, enquanto o Todo-Poderoso me der forças para continuar vivo.

Juro por Deus que tudo que disse é verdade e nada mais do que a verdade.

Escrito de próprio punho no distrito de Senjank, Belgrado, no sétimo dia de abril de 2001.

Milan Rajak.

Naquela noite Rastreador enviou uma mensagem longa para Stephen Edmond em Windsor, Ontario, e as instruções que retornaram não deixaram margem para dúvidas:

"Vá até onde precisar, faça o que for preciso, mas encontre meu neto ou o que resta dele, e traga-o de volta a Georgetown, Estados Unidos da América."

 

                    A FOSSA

O ACORDO DE DAYTON DE NOVEMBRO DE 1995 TROUXE A paz à Bosnia, mas cinco anos depois as cicatrizes da guerra não estavam nem mesmo disfarçadas, quanto mais curadas.

O lugar nunca fora uma província rica. Não tinha um litoral dálmata para atrair turistas; não possuía reservas minerais; apenas agricultura de baixa tecnologia nas fazendas entre as montanhas e as florestas.

Ainda se passariam anos para que a região se recuperasse dos danos econômicos. Porém, os danos sociais eram bem piores. Poucos acreditavam que em menos de uma ou duas gerações sérvios, croatas e muçulmanos bósnios aceitariam viver lado a lado novamente, ou mesmo a quilômetros de distância, salvo em complexos vigiados por homens armados.

Os órgãos internacionais desfiavam a ladainha de sempre sobre reunificação e restauração da crença mútua, desta forma justificando suas tentativas fracassadas de colar os pedaços de Humpty Dumpty ao invés de enfrentar a necessidade da divisão.

A tarefa de governar aquela entidade dilacerada foi designada ao alto comissário da ONU, uma espécie de pro cônsul com poder quase absoluto, apoiado por soldados da Unprofor. De todas as tarefas ingratas que caíam nas mãos das pessoas que não tinham tempo para se impor no palco político mas que realmente faziam as coisas acontecerem, as menos charmosas iam para a ICMP - a International Commission on Missing Persons (Comissão Internacional sobre Pessoas Desaparecidas).

A entidade era gerida com discrição e eficácia surpreendente por Gordon Bacon, um ex-policial inglês. A ICMP ouvia as dezenas de milhares de parentes de "desaparecidos", coletava testemunhos e localizava e exumava as centenas de pequenos massacres que tinham acontecido a partir de 1992. O trabalho final era tentar combinar os testemunhos com os restos mortais, e encaminhar o crânio e os ossos aos parentes para serem sepultados de acordo com seus credos.

O processo de identificação seria completamente impossível sem o exame de DNA. Para produzir uma prova irrefutável precisava-se de uma amostra de sangue do parente e uma farpa de osso do cadáver. Em 2000, o laboratório de DNA mais rápido e eficaz da Europa não ficava em alguma capital ocidental rica, mas em Sarajevo, fundada e administrada com recursos modestos por Gordon Bacon. Foi para encontrá-lo que Rastreador dirigiu até a cidade bósnia, dois dias depois que Milan Rajak havia assinado seu nome.

Ele não precisou levar o sérvio. Rajak revelara que, antes de morrer, o assistente social bósnio Fadil Sulejman contara aos seus assassinos que a fazenda já tinha sido o lar de sua família. Gordon Bacon leu a declaração de Rajak com interesse, mas sem demonstrar qualquer surpresa.

Ele já lera centenas de depoimentos como aquele, mas sempre de sobreviventes, jamais de um dos perpetradores, e jamais envolvendo um americano. Ele compreendeu que o mistério daquilo que conhecia como Arquivo Colenso finalmente seria elucidado. Contatou o comissário da ICMP para a zona de Travnik e pediu cooperação completa para o Sr. Gracey quando ele chegasse. Rastreador passou a noite no quarto de hóspedes da casa de seu conterrâneo e na manhã seguinte dirigiu para o norte.

O percurso até Travnik levava menos de duas horas, e ele chegou ao meio-dia. Havia conversado com Stephen Edmond, e uma amostra do sangue dos avós estava vindo de Ontario.

Em 11 de abril a equipe de exumação saiu de Travnik e subiu as colinas, com o auxílio de um guia local. Algumas perguntas na mesquita logo esclareceram que dois homens haviam conhecido Fadil Sulejman, e um deles disse que sabia onde ficava a fazenda, num vale elevado. Agora esse homem estava no veículo líder.

A equipe de escavação levou trajes protetores, dispositivos de respiração, pás, escovas macias e repositórios de provas, todas as ferramentas de sua funesta profissão.

A fazenda não devia estar muito diferente de seis anos antes, mas fora um pouco coberta pela vegetação. Ninguém aparecera para reclamá-la; a família Sulejman parecia ter deixado de existir.

Não tiveram a menor dificuldade para encontrar a fossa. Naquela primavera as chuvas tinham sido mais amenas que as de 1995, e o conteúdo da fossa endurecera até formar uma massa fedorenta. Usando roupas parecidas com as de criadores de abelhas, os cavadores pareciam imunes ao cheiro.

Rajak testemunhara que no dia do assassinato a fossa estivera cheia até a borda, mas se os pés de Ricky Colenso haviam tocado o fundo, devia ter cerca de 1 ,80m de profundidade. Sem chuva, a superfície tinha diminuído para sessenta centímetros de largura.

Depois que noventa centímetros de excrementos tinham sido retirados com pás de cabos compridos, o comissário da ICMP ordenou aos seus homens que as largassem e prosseguissem com pás manuais. Uma hora depois, os primeiros ossos estavam visíveis e após mais uma hora de trabalho com espátulas e escovas de pêlo de camelo, o sítio do massacre estava exposto.

Nenhum ar penetrara o fundo da fossa, de modo que nenhum verme operara ali. Vermes dependem de ar. A decomposição ocorrera unicamente por obra de enzimas e bacilos.

Cada fragmento de tecido desaparecera, e quando foi esfregado com um pano úmido, o primeiro crânio emergiu limpo e branco. Não havia fragmentos de couro, das botas ou cintos dos dois homens. Porém, foram encontrados uma fivela de cinto, decerto americana, e botões metálicos de uma jaqueta de brim.

Um dos homens ajoelhado no fundo chamou pelos outros e passou um relógio para cima. Setenta meses não haviam afetado a inscrição nas costas do relógio: "Ricky, da mamãe. Formatura. 1994".

As crianças tinham sido todas jogadas lá dentro mortas e afundadas umas por cima das outras. O tempo e a decomposição reduzia os seis cadáveres a uma pilha de ossos, mas os tamanhos dos esqueletos provaram quem tinham sido.

Sulejman também fora atirado ali morto; seu esqueleto jazia de costas, braços e pernas abertos, do jeito que seu corpo havia afundado. O amigo de Sulejman olhou

para o fundo da fossa e rezou para Alá. Ele confirmou que seu ex-colega de classe medira cerca de 1,72m.

O oitavo corpo era o grande, mais de 1,80m. Estava de lado, como se o rapaz moribundo tivesse tentado arrastar-se pelo pretume até a parede lateral. O esqueleto jazia de lado, abraçado em posição fetal. O relógio viera dessa pilha, assim como a fivela de cinto. Quando o crânio foi passado para cima, constatou-se que os dentes da frente tinham sido esmagados, o que conferia com o testemunho de Rajak.

O sol estava se pondo quando o último ossinho foi recuperado e embalado. Os dois adultos ficaram em bolsas separadas, mas as crianças dividiram uma só; a remontagem dos seis pequenos esqueletos poderia ser feita na funerária da cidade.

Rastreador passou a noite em Vitez. Como o exército britânico já tinha partido há muito tempo, ele se alojou numa pensão que já conhecia. De manhã ele retornou ao escritório da ICMP em Travnik.

De Sarajevo, Gordon Bacon autorizou o comissário local a liberar os restos mortais de Ricky Colenso ao major Gracey, para serem transportados até a capital.

A amostra de sangue chegou de Ontario. Em apenas dois dias os testes de DNA estavam completos. O diretor da ICMP em Sarajevo atestou que o esqueleto realmente pertencia a Richard "Ricky" Colenso, de Georgetown, Estados Unidos da América. Ele precisava de uma autorização formal da família para liberar os restos mortais aos cuidados de Philip Gracey de Andover, Hampshire, Inglaterra. A autorização levou dois dias para chegar.

Enquanto isso, sob instruções de Ontario, Rastreador comprou um caixão na melhor casa funerária de Sarajevo. O agente funerário combinou o esqueleto com outros materiais para conferir peso e equilíbrio ao caixão, de modo a aparentar que ele contivesse um cadáver real. Em seguida o caixão foi lacrado para sempre.

Foi em 15 de abril que o Grumman IV do magnata canadense chegou com a carta de autorização. Rastreador entregou o caixão e a pasta gorda de documentos ao comandante e voltou para os campos verdes da Inglaterra.

Stephen Edmond estava no aeroporto Dulles em Washington para receber seu próprio jato executivo quando ele pousasse na tarde do dia 16, depois de uma parada de reabastecimento em Shannon. Um elegante carro fúnebre conduziu o esquife até uma casa funerária onde ficaria por dois dias, até que os arranjos finais para o funeral fossem completados.

No dia 18a cerimônia foi realizada em Oak Hill, um cemitério para os muito ricos na R Street, nordeste de Georgetown. Foi uma cerimônia pequena e íntima, segundo os ritos católicos apostólicos romanos. A mãe do rapaz, Sra. Annie Colenso, cujo nome de solteira era Edmond, ficou abraçada ao marido, chorando baixinho. O professor Colenso enxugava os olhos e ocasionalmente olhava para seu sogro como se não soubesse o que fazer e quisesse orientação.

Do outro lado da sepultura, o canadense de 81 anos, vestido num terno preto rezava enquanto olhava fixamente para o caixão de seu neto. Ele não havia mostrado o relatório de Rastreador para sua filha ou seu genro, e certamente nem o testemunho de Milan Rajak.

Tudo o que disse aos dois foi que uma testemunha tardia afirmara ter visto o Landeruiser preto num vale, e como resultado, os dois corpos haviam sido encontrados.

Mas ele teve de conceder que ambos tinham sido assassinados e enterrados. Não havia outra forma de explicar a lacuna de seis anos.

A cerimônia terminou. Os participantes se retiraram para deixar os técnicos funerários fazerem seu trabalho. A Sra. Colenso correu até o pai e o abraçou, pressionando o rosto contra o tecido de sua camisa. Ele olhou para baixo e gentilmente acariciou o topo de sua cabeça, como fizera tantas vezes quando ela era uma menininha e alguma coisa a assustara.

- Papai, não sei quem fez isso ao meu bebê, mas quero que ele seja capturado. Não assassinado de forma limpa e rápida.

Quero que acorde na cadeia todas as manhãs pelo resto de sua vida sabendo que jamais sairá de novo. E quero que saiba que está passando por tudo isso porque matou o meu filho a sangue-frio.

O velho já havia se decidido.

- Moverei céus e terra para fazer isso. E se precisar mover o inferno, também o farei.

Soltou a filha, meneou a cabeça para o professor e caminhou até sua limusine. Enquanto o motorista subia a ladeira até o portão para a R Street, o velho pegou seu telefone no painel e discou um número. Em algum lugar do Capitólio, uma secretária atendeu.

- Quero falar com o senador Peter Lucas - disse ele.

O rosto do velho senador por New Hampshire se iluminou quando recebeu a mensagem. Amizades nascidas no calor da guerra podem durar uma hora ou uma vida com Stephen Edmond e Peter Lucas, fazia 56 anos desde que eles sentaram num gramado inglês numa manhã de primavera e choraram pelos jovens de seus dois países que jamais voltariam para casa. Mas a amizade havia amadurecido, como acontece entre irmãos.

Ambos sabiam que seriam capazes de caminhar sobre fogo um pelo outro. Bastava pedir. E o canadense estava prestes a pedir.

Um dos aspectos do gênio de Franklin Delano Roosevelt foi que embora se tratasse de um democrata convicto, estava completamente preparado para usar talento onde o encontrasse. Foi logo depois de Pearl Harbor que ele convocou um republicano conservador que por acaso estava num jogo de futebol americano e o convidou para formar o Office of Strategic Services, ou OSS.

O homem que convocou era o general William "Wild Bill" Donovan, filho de imigrantes irlandeses que comandara o 69.°

Regimento na Frente Ocidental da Primeira Guerra Mundial. Depois disso, como advogado, ele se tornara procurador-geral suplente sob o comando de Herbert Hoover.

Depois passara anos como consultor jurídico em Wall Street. Não era sua perícia jurídica que Roosevelt queria; era sua combatividade, a qualidade necessária para criar a primeira organização de inteligência estrangeira e unidade de Forças Especiais dos EUA.

Sem muita hesitação o velho soldado reuniu em torno de si um pelotão de jovens brilhantes e com excelentes ligações sociais e políticas. Entre eles estavam Arthur Schlesinger, David Bruce e Henry Hyde, que chegariam todos a altas esferas.

Nessa época Peter Lucas, criado para a riqueza e o privilégio entre Manhattan e Long Island, era segundanista em Princeton, e decidiu no dia do ataque a Pearl Harbour que também queria ir para a guerra. Seu pai proibiu.

Em fevereiro de 1942, o rapaz desobedeceu o pai e largou a faculdade, tendo perdido completamente o gosto pelos estudos. Pesquisou bastante, tentando encontrar alguma coisa que realmente gostasse de fazer. Considerou tornar-se piloto de caça, e tomou lições de vôo particulares até descobrir que invariavelmente sentia enjôos.

Em junho de 1942 a OSS foi estabelecida. Peter Lucas ofereceu-se imediatamente e foi aceito. Ele se via com o rosto pintado de preto, saltando à noite por trás das linhas alemãs. Em vez disso, compareceu a muitas festas. O general Donovan queria um auxiliar de campo de primeira classe, eficiente e bem educado.

Ele acompanhou de perto os preparativos para os pousos na Sicília e em Salerno nos quais os agentes da OSS estiveram plenamente envolvidos, e implorou para agir.

Seja paciente, disseram-lhe. Era como levar um menino para uma loja de doces mas deixá-lo preso numa caixa de vidro. Ele podia ver, mas não tocar.

Finalmente procurou o general e apresentou-lhe um ultimato:

- Ou eu luto sob suas ordens, ou me demito e ingresso na força aérea.

Ninguém dava ultimatos a "Wild Bill" Donovan, mas ele fitou o rapaz e talvez tenha visto alguma coisa de si mesmo um quarto de século antes.

- Faça as duas coisas, em ordem inversa - disse ele - com as bênçãos de Donovan todas as portas se abriram. Peter Lucas despiu seu odiado terno civil e foi a Forte Benning tornar-se uma "maravilha de noventa dias", uma comissão expressa para emergir como segundo-tenente na força aérea.

Ele perdeu os desembarques na Normandia do Dia-D porque ainda estava na escola de pára-quedismo. Quando se formou, retornou até o general Donovan. - O senhor prometeu.

Peter Lucas ganhou seu salto de pára-quedas com rosto pintado de preto. Foi numa noite fria de outono, nas montanhas frias por trás das linhas alemãs no norte da Itália. Ali ele encontrou os partigiani italianos, que eram comunistas dedicados, e os soldados das Forças Especiais Britânicas, que pareciam desorganizados demais para ser dedicados a qualquer coisa.

Dentro de algumas semanas, já sabia que a "desorganização" dos ingleses era um fingimento. O grupo de Jedburgh ao qual se juntara continha alguns dos assassinos mais habilidosos da guerra.

Sobreviveu ao frio cortante do inverno de 1944 nas montanhas e quase chegou intacto ao fim da guerra. Era março de 1945, quando ele e cinco outros depararam com um esquadrão de homens da SS que recusavam se render. Houve um combate feroz. Ele levou duas balas de uma submetralhadora Schmeisser no braço esquerdo e no ombro.

Estavam a quilômetros de qualquer lugar, sem morfina, e foi preciso uma semana de marcha agonizante para encontrar uma unidade avançada britânica. Ali foi submetido a um remendo de emergência. Então foi embarcado, entorpecido por morfina, num Liberator para voar até Londres e ser reconstruído com muito mais competência.

Quando estava se sentindo bem o bastante para sair do hospital, foi mandado a uma clínica de convalescença na costa de Sussex. Dividiu um quarto com um piloto de caça canadense com as duas pernas quebradas. Eles jogavam xadrez para se distrair enquanto os dias se arrastavam.

Quando voltou para casa, o mundo era seu para conquistar. Ingressou na empresa de seu pai em Wall Street. com o tempo, assumiu a empresa, tornou-se um gigante na comunidade financeira, e concorreu a um cargo público aos sessenta anos. Em abril de 2001 estava em seu quarto e último mandato como senador republicano por New Hampshire e acabara de ver um presidente republicano ser eleito.

Quando ouviu quem estava na linha, disse à sua secretária para segurar todos seus telefonemas. Sua voz encheu a limusine em movimento a dezesseis quilômetros dali:

- Steve! Como é bom falar com você novamente. Onde

você está?

- Bem aqui em Washington. Peter, preciso falar com você.

É sério.

Ao perceber o estado de espírito do amigo, o senador assumiu um tom solene.

- Claro, companheiro. Quer me dizer do que se trata?

- Durante o almoço. Você pode?

- Vou cancelar meus compromissos. No Hay Adams. Peça para ser conduzido até a minha mesa de canto habitual. Lá é bem tranqüilo. Uma da tarde.

Encontraram-se quando o senador entrou no saguão. O canadense estava esperando lá.

- Você parece sério, Steve. Algum problema?

- Estou chegando de um funeral em Georgetown. Acabo de enterrar o meu único neto.

O rosto do senador enrugou-se, compartilhando da dor do amigo.

- Meu Deus. Sinto muito. Não consigo nem imaginar. Doença? Acidente?

- Vamos conversar à mesa.Tem uma coisa que quero que você leia.

Quando estavam sentados, o canadense respondeu à pergunta de seu amigo.

- Foi assassinado. A sangue-frio. Não, não aqui, e não agora. Há seis anos. Na Bosnia.

Ele explicou resumidamente a idade do garoto, seu desejo em 1995 de ajudar a aliviar a dor dos bósnios, sua odisséia através das capitais até a cidade de Travnik, sua tentativa de ajudar seu intérprete a encontrar o lar da família dele. Então ele passou a confissão de Rajak para que o amigo lesse.

Martinis secos chegaram. O senador pediu salmão defumado, pão integral, Meursault gelado. Edmond fez que sim com a cabeça, significando: o mesmo.

O senador Lucas estava acostumado a ler depressa, mas na metade do relatório ele emitiu um assobio baixo e reduziu a velocidade.

Enquanto o senador beliscava o salmão e lia as últimas páginas, Steve Edmond olhou em torno. Seu amigo escolhera bem: uma mesa pessoal logo depois do piano de cauda, diante de uma janela através da qual divisava-se parte da Casa Branca. O Lafayette em Hay Adams era único, mais como uma casa incrustada no coração de uma propriedade de campo do século XIX do que um restaurante no meio de uma esfuziante capital.

O senador Lucas levantou a cabeça.

- Steve, não sei o que dizer. Este provavelmente é o documento mais repulsivo que li na minha vida. O que você quer que eu faça?

Um garçom removeu os pratos e trouxe para cada um deles uma xícara de café preto e um copinho de licor. Ficaram calados enquanto o rapaz estava diante da mesa.

Steve Edmond baixou os olhos para as quatro mãos pousadas sobre o pano branco. Mãos de velho, enrugadas, estriadas de veias, marcadas por manchas. Mãos que tinham conduzido um caça Hurricane direto contra uma formação de bombardeiros Dornier; mãos que haviam esvaziado uma carabina M-1 numa trattoria cheia de homens da SS nos arrabaldes de Bolzano; mãos que haviam lutado, acariciado mulheres, segurado recém-nascidos, assinado cheques, criado fortunas, alterado políticas, mudado o mundo.

Uma vez.

Peter Lucas flagrou o olhar de seu amigo e compreendeu o que ele estava pensando.

- Sim, estamos velhos, mas ainda não estamos mortos. O que você quer que eu faça?

- Talvez possamos fazer uma última coisa boa. Meu neto era cidadão americano. Os Estados Unidos têm o direito de requerer a extradição desse monstro, onde quer que ele esteja. Para cá. Para ser julgado por assassinato em primeiro grau. Isso significa o Departamento de Justiça. E o Estado. Agindo em conjunto contra qualquer governo que esteja abrigando esse suíno. Você pode levar o caso até eles?

- Meu amigo, se este governo de Washington não pode lhe dar justiça, então ninguém pode.

Ele levantou seu copo.

- Uma última coisa boa. Mas ele estava errado.

 

                   O PAI

FOI APENAS UMA BRIGA DE FAMÍLIA E DEVERIA TER TERMINAdo com um beijo de reconciliação. Mas ocorreu entre uma filha de sangue italiano passional e um pai teimoso.

No verão de 1991, Amanda Jane Dexter tinha dezesseis anos e era bonita de parar o trânsito. Os genes de descendência napolitana dos Marozzi deram-lhe uma silhueta capaz de fazer um bispo abrir com um chute um buraco num vitral. A linhagem loura, anglo-saxônica de Dexter, brindou-a com um rosto que lembrava o da jovem Brigitte Bardot. Os rapazes da vizinhança cercavam-na como moscas, e seu pai precisava aceitar isso. Mas não gostava de Emílio.

Não tinha nada contra hispânicos, mas Emilio tinha um ar matreiro, até predatório e cruel, por trás de sua aparência de ídolo das matinês. Mas Amanda Jane caiu de quatro por ele.

A coisa esquentou durante as férias de verão. Emilio se propôs a levá-la para passar férias no litoral. Ele contou uma boa história. Haveria outros jovens, adultos para supervisionar, esportes de praia, ar fresco e as belezas do Atlântico. Mas quando Cal Dexter tentou fitar o rapaz, ele evitou seu olhar. O instinto de Cal disse-lhe que havia alguma coisa errada.

- Não - sentenciou.

Uma semana depois, Amanda fugiu. Deixou um bilhete para os pais, dizendo para não se preocuparem, que tudo ia correr bem, mas que ela era agora uma mulher crescida e que se recusava a ser tratada como uma criança. Amanda nunca voltou.

As férias escolares terminaram. Amanda não apareceu. Tarde demais, sua mãe, que havia aprovado o pedido da menina, deu ouvidos ao marido. Eles não tinham o endereço da casa de praia, nenhum conhecimento dos antecedentes de Emilio, parentesco, ou endereço de sua casa. O endereço no Bronx que dera acabou revelando ser de uma pensão.

Seu carro tinha placa de Virgínia, mas uma checagem com Richmond disse a Dexter que fora vendido em julho. Até o sobrenome, Gonzalez, era tão comum quanto Smith.

Através de seus contatos, Cal Dexter consultou um sargento do Departamento de Pessoas Desaparecidas da polícia de Nova York. O policial foi simpático, mas resignado.

- Hoje os jovens de dezesseis são como adultos. Eles dormem juntos, viajam juntos, moram juntos...

O departamento só poderia emitir uma ordem geral de busca se houvesse evidências de ameaça, violência, remoção forçada da casa dos pais, abuso de drogas, qualquer coisa assim.

Dexter teve de admitir que haviam recebido uma mensagem em sua secretária eletrônica. Tinha sido numa hora em que Amanda Jane sabia que seu pai estaria trabalhando e sua mãe ausente.

Disse que estava bem, muito feliz, e que eles não deviam preocupar-se. Estava vivendo sua própria vida e se divertindo. Ela entraria em contato com eles quando se sentisse pronta.

Cal Dexter rastreou o telefonema. Viera de um telefone celular de cartão, o que impedia a identificação de seu proprietário. Ele tocou a fita para o sargento e o homem deu de ombros. Como todo agente do Departamento de Pessoas Desaparecidas de qualquer unidade policial dos Estados Unidos, ele estava sobrecarregado. Isto não era uma emergência.

O Natal chegou, mas foi melancólico. O primeiro em dezesseis anos que os Dexters passaram sem seu bebê.

Quem achou o corpo foi um corredor matutino. Seu nome era Hugh Lamport. Ele dirigia uma pequena companhia de consultoria, era um cidadão honesto tentando ficar em forma. Para ele isso significava uma corrida de cinco quilômetros entre as seis e meia e mais perto das sete da manhã que conseguisse, e isso até incluía manhãs frias e sombrias como a de 18 de fevereiro de 1992.

Ele estava correndo ao longo do canteiro gramado da Indian River Road, que era onde morava. A grama maltratava menos os calcanhares que a calçada de concreto. Mas quando chegava a uma ponte sobre um pequeno escoadouro de esgoto, ele tinha uma escolha. Atravessar pela ponte de concreto ou saltar o escoadouro. Ele saltou.

Notou alguma coisa passar por baixo dele enquanto saltava, uma coisa pálida à luz do amanhecer. Depois de pousar, virouse e olhou para o escoadouro. Ela jazia na pose estranhamente desconjuntada da morte, metade dentro e metade fora da água.

O Sr. Lamport olhou freneticamente em torno e viu, a cerca de 305 metros dali, através de algumas árvores, uma luz tênue; outro madrugador preparando seu café. Agora correndo realmente depressa, ele alcançou a porta e bateu com força. O madrugador espiou pela janela, escutou a explicação gritada e o deixou entrar.

O telefonema 911 foi recebido pela despachante noturna na central de telefonia da delegacia central de Virginia City, na Princess Anne Road. Ela pediu que o carro-patrulha mais próximo entrasse em contato urgentemente. A resposta veio do único carro do primeiro distrito, que estava a um quilômetro e meio do escoadouro. Ele fez esse percurso em um minuto, para encontrar um homem vestido num conjunto de malha e outro de pijamas marcando o local.

Os dois patrulheiros não levaram mais de dois minutos para chamar pelos detetives da Homicídios e uma equipe de perícia completa. O dono da casa ofereceu café, que foi gratamente aceito, e todos aguardaram.

O setor inteiro do leste da Virgínia é ocupado por seis cidades com fronteiras contíguas, um aglomerado que se estende por quilômetros em ambas as margens do rio James e das Hampton Roads. É uma paisagem repleta de bases da marinha e da força aérea, pois aqui as estradas dão na baía de Chesapeake e portanto no Atlântico.

Das seis cidades, Norfolk, Portsmouth, Hampton (com Newport News), James City, Chesapeake e Virginia Beach, a de longe maior é Virginia Beach. Cobre quinhentos quilômetros quadrados e contém 430 mil cidadãos de um total de um milhão e meio de pessoas.

De seus quatro distritos, o Segundo, o Terceiro e o Quarto cobrem as áreas urbanas, enquanto o Primeiro Distrito é grande e quase completamente rural. Seus 313 quilômetros quadrados seguem direto até a fronteira da Carolina do Norte e são cortados pela Indian River Road.

As equipes dos departamentos forense e de Homicídios chegaram ao escoadouro aproximadamente ao mesmo tempo, trinta minutos depois. O legista chegou cinco minutos depois. O dia clareou, ou quase, e começou a chuviscar.

O Sr. Lamport foi levado de carro até sua casa para tomar um banho e prestar um depoimento completo. O dono da casa de onde fora dado o telefonema prestou uma declaração, que, em resumo, foi simplesmente que não vira nem ouvira nada durante a noite.

O legista estabeleceu rapidamente que a vida estava extinta, que a vítima era uma jovem fêmea caucasiana, que a morte quase certamente ocorrera em algum outro lugar e o corpo fora desovado, presumivelmente de um carro. Ele requisitou uma ambulância para conduzir o cadáver até o necrotério estadual em Norfolk, uma instalação que serve a todas as seis cidades.

O detetive do departamento local de Homicídios deduziu que se os perpetradores, que pareciam ter um código moral no nível do umbigo de uma cobra e um QI equivalente, tivessem seguido de carro mais cinco quilômetros, e entrado no pântano. Ali, um corpo amarrado a um peso poderia desaparecer para sempre sem que ninguém percebesse.

Mas eles aparentemente tinham perdido a paciência e jogado sua carga funesta num lugar onde seria descoberta com facilidade, suscitando uma perseguição aos criminosos.

Em Norfolk, duas coisas aconteceram em relação ao cadáver; uma autópsia para estabelecer causa, hora e, se possível, local da morte, e uma tentativa de garantir

a identificação.

O corpo em si não oferecia muitos indícios: roupas de baixo pequenas e não mais provocantes, um vestido colante bastante rasgado. Nenhuma medalha, bracelete, tatuagem ou bolsa.

Antes que o patologista forense iniciasse seu trabalho, o rosto, que portava lesões e contusões compatíveis com um espancamento selvagem, foi restaurado da melhor forma possível com suturas e maquiagem, e então fotografado. A foto seria distribuída pelos esquadrões de costumes de todas as seis cidades, porque o estilo de vestuário do cadáver parecia indicar um envolvimento com o que costuma-se chamar de "vida fácil".

Os outros dois detalhes que os caçadores de identidade precisavam e conseguiram foram digitais e grupo sangüíneo. Então o patologista começou. Suas esperanças eram as digitais.

Nenhuma das seis cidades identificou as digitais. Os detalhes foram encaminhados para a capital em Richmond, onde armazenavam-se digitais cobrindo todo o estado da Virgínia. Dias se passaram. A resposta era sempre a mesma. Desculpem. O passo seguinte é o FBI, que cobre todos os Estados Unidos. Eles usam o sistema de identificação de digitais IAFIS.

O relatório do patologista deixou enjoados até os tarimbados detetives da Homicídios. A garota aparentava não ter mais de dezoito anos. Ela tinha sido bonita, mas alguém, além de seu estilo de vida, pusera um fim nisso.

A dilatação anal e vaginal era tão exagerada que ela tinha claramente sido penetrada, e repetidamente, por instrumentos bem maiores que um órgão masculino normal.

O espancamento terminal não tinha sido o único; outros aconteceram antes. E havia indícios claros de aplicação de heroína, provavelmente datando de não mais de seis meses.

Tanto para os detetives de Homicídios quanto para o de costumes em Norfolk, o relatório dizia "prostituição". Não era novidade para nenhum deles que o recrutamento para a atividade muitas vezes vinha por meio de uma dependência de narcóticos, sendo o cafetão a única fonte para a droga.

Qualquer garota que tentasse escapar do domínio desse tipo de quadrilha certamente seria punida. Essas "lições" poderiam envolver participação forçada em exibições de perversões brutais e bestialismo. Havia criaturas preparadas para pagar por essas coisas, e portanto criaturas preparadas para supri-las.

O corpo pós-autopsiado seguiu para a sala refrigerada enquanto a busca pela identidade continuou. Ela ainda era uma "ninguém". Então um detetive da delegacia de costumes de Portsmouth pensou que havia reconhecido a fotografia, apesar dos danos e da descoloração. Ele achou que ela podia ser uma prostituta que atuava sob o nome Lorraine.

Inquéritos revelaram que "Lorraine" não era vista há semanas. Antes disso ela trabalhava para uma quadrilha hispânica notoriamente violenta, que recrutava usando seus membros mais bonitos para aliciar meninas nas cidades ao norte e traze-las para o sul com promessas de casamento, uma linda viagem, qualquer coisa que fosse necessária.

A Delegacia de costumes de vícios de Portsmouth investigou a quadrilha, mas sem resultados. Os cafetões afirmaram que nunca souberam qual era o nome verdadeiro de Lorraine, que ela já era uma profissional quando chegara, e que tinha partido voluntariamente para voltar para a Costa Oeste. A fotografia simplesmente não era clara o bastante para provar o contrário.

Mas Washington obteve resultados. Eles conseguiram uma identificação firme com base nas impressões digitais. Amanda Jane Dexter tentara burlar a segurança de um supermercado local e furtar um produto. A camera de segurança funcionara. O juiz da corte juvenil aceitou sua história, apoiada por cinco colegas de classe, e deixou-a ir com um aviso. Mas suas impressões digitais foram tiradas. Elas estavam com a polícia de Nova York, e tinham sido passadas para a lafis.

- Acho que finalmente Vou conseguir pegar aqueles sacanas - murmurou, ao ouvir as notícias, o sargento Austin, da Delegacia de costumes de Portsmouth.

Era outra detestável manhã invernal quando o telefone tocou no apartamento no Bronx, mas talvez uma boa manha para pedir a um pai que viajasse cinco mil quilômetros para identificar sua filha única.

Cal Dexter sentou-se na ponta da cama e desejou ter morrido nos Túneis de Cu Chi em vez de sofrer esta espécie de dor. Ele finalmente contou a Angela, e a abraçou enquanto ela chorava. Em seguida telefonou para sua sogra e pediu para que ela fosse até lá imediatamente.

Ele não podia esperar pelo avião que sairia do La Guardiã para Norfolk International; ele não podia sentar e esperar se houvesse um atraso devido a neblina, chuva, granizo, congestionamento. Ele pegou seu carro e botou o pé na estrada. Saiu de Nova York, cruzou a ponte para Newark e atravessou a região que conhecia tão bem por ter passado de um canteiro de obras para outro. Saiu de Nova Jersey, atravessou um pedaço da Pensilvânia e outro de Delaware, e então rumou para o sul e ainda mais para o sul, passando por Baltimore e a extremidade da Virgínia.

No necrotério de Norfolk ele olhou para baixo e viu o rosto que já tinha sido tão lindo, tão amado. Torpe, fez que sim com a cabeça para o detetive da Homicídios ao seu lado. Os dois subiram as escadas. Enquanto tomava café, ouviu as linhas gerais do caso. Fora espancada por pessoa ou pessoas desconhecidas. Morrera devido a uma severa hemorragia interna. Tudo indicava que os perpetradores tinham colocado o corpo no bagageiro de um carro, seguido até a parte mais rural do Primeiro Distrito, Virginia Beach, e se livrado dele. A investigação está em andamento, senhor. Ele sabia que isso era uma fração da verdade.

Ele prestou um longo depoimento, contou aos detetives tudo sobre "Emílio", mas eles não acharam o nome familiar requisitou o corpo de sua filha. A polícia não fazia objeções quanto a isso, mas a decisão cabia ao Instituto Médico Legal.

Levava tempo. Formalidades. Procedimentos. Ele levou seu carro de volta para Nova York, retornou de avião e esperou. Finalmente embarcou no carro fúnebre e acompanhou o corpo da filha de volta para o Bronx.

O caixão foi lacrado. Ele não queria que sua esposa ou qualquer um dos Marozzis visse o que estava dentro. O funeral foi local. Amanda Jane foi sepultada a apenas três dias de seu 17.° aniversário. Uma semana depois, ele voltou para a Virgínia.

O sargento Austin estava em seu escritório no QG da polícia de Portsmouth na Crawford Street 711 quando o recepcionista telefonou para dizer que um tal Sr. Dexter

queria falar com ele. O sargento não lembrou do nome. Ele não o relacionou com seu reconhecimento de um rosto espancado numa fotografia como a prostituta falecida, Lorraine.

Ele perguntou o que o Sr. Dexter queria e ouviu que o visitante talvez tivesse uma contribuição a fazer numa investigação em andamento. Nesse caso, então, disse ele, o visitante podia subir.

Portsmouth é a mais antiga das seis cidades. Foi fundada pelos ingleses muito antes da revolução. Hoje ela acompanha a margem sudeste do rio Elizabeth. É composta principalmente por prédios baixos em tijolos aparentes, olhando sobre a água para a exuberância moderna de Nolfork, no outro lado. Mas é o lugar onde muitos dos militares iam quando queriam se divertir depois que escurecia. O sargento Austin da Delegacia de Costumes não estava ali para decoração.

O visitante não parecia muito impressionante, comparado com o corpanzil musculoso do ex-jogador de futebol americano transformado em detetive de polícia. Ele simplesmente parou diante da mesa do detetive e disse:

- Lembra da adolescente desviada para a heroína e a prostituição, estuprada por uma gangue e espancada até a morte, quatro semanas atrás? Sou o pai dela.

Um alarme soou dentro da cabeça do sargento. Ele tinha se levantado e estendido a mão. Ele a recolheu. Cidadãos zangados e vingativos tinham toda sua simpatia, mas não podiam esperar mais do que isso. Para qualquer policial eles eram cansativos e podiam ser perigosos.

- Sinto muito sobre isso, senhor. Posso assegurar que todos os esforços...

- À vontade, sargento. Só quero saber uma coisa. Depois Vou deixar você em paz.

- Sr. Dexter, entendo como está se sentindo, mas não estou em posição...

O visitante enfiara a mão no bolso do casaco e agora estava tirando alguma coisa. Será que a segurança da recepção tinha feito bobagem? Será que o homem estava armado?

A arma do sargento estava a desconfortáveis três metros de distância, dentro de uma gaveta.

- O que está fazendo, senhor?

- Colocando alguns pedaços de metal na sua mesa, sargento Austin.

Ele continuou até terminar. O sargento Austin prestara serviço militar, porque eles tinham mais ou menos a mesma idade, mas jamais saíra dos Estados Unidos.

Ele se descobriu olhando para duas Estrelas de Prata, três Estrelas de Bronze, a Medalha de Comenda do Exército e quatro Corações Púrpuras. Ele nunca tinha visto nada como aquilo.

- Num lugar distante, muito tempo atrás, paguei pelo direito de saber quem matou minha filha. Paguei por esse direito com meu sangue. Você me deve esse nome, Sr.

Austin.

O sargento caminhou até a janela e olhou para Norfolk. Era irregular, completamente irregular. Podia custar seu emprego na polícia.

- Madero. Benjamin "Benny" Madero. Líder de uma gangue de latinos. Muito violento.

- Obrigado - disse o homem atrás dele, coletando seus pedaços de metal.

- Mas caso esteja pensando em fazer uma visitinha a ele, devo dizer que já é tarde. Tarde demais. Todos nós chegamos muito tarde. Ele foi embora. Voltou para sua

terra natal, o Panamá. Sei que foi ele quem fez aquilo com sua filha, mas não tenho provas suficientes para apresentar a um tribunal.

A mão empurrou a porta do pequeno empório de arte oriental na rua 28, em Manhattan. Um sino repicou quando a porta se mexeu.

O visitante olhou em torno para as prateleiras repletas de peças de jade, mármore, porcelana, marfim e cerâmica. Viu elefantes e semideuses, painéis, quadros e incontáveis estátuas de Buda. No fundo da loja uma figura emergiu.

- Preciso ser outra pessoa - disse Calvin Dexter. Fazia quatorze anos desde que dera o dom de uma nova vida

ao ex-combatente do Vietnã e sua esposa. O oriental não hesitou um segundo. Ele curvou a cabeça.

- É claro. Por favor, venha comigo. Era 15 de março de 1992.

 

                   AJUSTE DE CONTAS

POUCO ANTES DO AMANHECER, O VELOZ BARCO DE PESCA Chiquita deslizou do cais do balneário turístico de Golfito e desceu o canal rumo a mar aberto.

Ao leme estava o proprietário e capitão Pedro Árias, e se tinha reservas sobre o americano que alugara sua embarcação, guardou-as para si.

O homem aparecera no dia anterior numa motocicleta de enduro com placa local costa-riquenha. Na verdade, a moto fora comprada, de segunda mão porém em excelente estado, na Panamerican Highway, em Palmar Norte, onde o turista chegara num vôo local vindo de San José.

O homem ficara durante algum tempo andando de um lado para o outro pelo cais, inspecionando os diversos barcos de pesca antes de fazer sua escolha e sua abordagem.

com a moto acorrentada a um poste próximo, e a mochila no ombro, o homem parecia um mochileiro maduro.

Mas não havia nada de "mochileiro" no maço de dólares que ele pousou na mesa da cabine. Esse era o tipo de dinheiro que pegava muitos peixes.

Mas o homem não estava interessado em peixes, motivo pelo qual as varas de pescar estavam todas guardadas em seus encaixes no teto da cabine enquanto o Chiquita saía do continente em Punta Voladera e emergia no golfo Dulce. Árias rumou para o sul durante uma hora até passar por Punta Banco.

O que o gringo realmente queria exigira os dois barris plásticos de combustível extra amarrados na área de pesca da popa. Ele queria sair das águas costa-riquenhas, contornar o promontório em Punta Burica e adentrar o Panamá.

A explicação do homem, de que sua família planejava tirar férias na Cidade do Panamá, e que ele queria ver "um pouco do campo panamenho" a partir da costa, pareceu a Pedro Árias tão sólida quanto a névoa marinha que agora se dissolvia ao sol nascente.

Ainda assim, se um gringo queria desembarcar numa praia vazia e entrar no Panamá numa motocicleta de enduro sem submeter-se a certas formalidades, Árias era um homem amplamente tolerante, especialmente no que dizia respeito ao vizinho Panamá.

Na hora do café da manhã, o Chiquita, um Bertram Moppie de 31 pés, cruzando alegremente a doze nós por águas calmas, passou de Punta Banco e emergiu no oceano Pacífico.

Árias virou-o em quarenta graus para seguir a costa por mais duas horas até a ilha de Burica e a fronteira sem marcos.

Eram dez da manhã quando eles viram a ponta do farol da ilha de Burica salientando-se sobre o horizonte. Meia hora depois, contornaram a ilha e seguiram para nordeste.

Pedro Árias movimentou o braço num gesto que abarcou a terra à esquerda deles, a costa leste da península de Burica.

- Agora tudo isto é o Panamá - disse ele.

O americano fez que sim com a cabeça para agradecer e estudou o mapa. com seu indicador, apontou para o mapa.

- Por aqui - disse ele.

A área indicada era uma extensão da costa onde não havia cidades nem estâncias turísticas marcadas, apenas um local que teria algumas praias abandonadas e algumas trilhas que adentravam a selva. O capitão fez que sim e alterou o curso para desenhar uma linha reta e curta através da baía de Charco Azul. Quarenta quilômetros,

pouco mais de duas horas.

Chegaram à uma da tarde. Os poucos barcos pesqueiros pelos quais tinham passado na baía não os tinham notado.

O americano quis seguir a noventa metros da costa. Cinco minutos depois, a leste de Chiriqui Viejo, viram uma praia arenosa com algumas cabanas de palha, o tipo que os pescadores locais usam quando querem passar a noite ali. Isso significaria uma trilha seguindo para dentro do litoral. Ela não poderia ser percorrida por

um veículo, nem mesmo um off-road, mas por uma motocicleta, sim.

Foi preciso um bocado de esforço físico para descer com a motocicleta para a praia. Depois o americano levou sua mochila e os dois se despediram. Cinqüenta por cento em Golfito e cinqüenta por cento na entrega. O gringo pagou.

Que sujeito estranho, pensou Árias. Mas seus dólares eram tão bons quanto quaisquer outros quando era preciso alimentar quatro crianças famintas. Empurrou o Chiquita para fora da areia e seguiu de volta para o mar. A um quilômetro e meio da costa esvaziou os dois barris em seus tanques de combustível e seguiu para o sul, de volta para casa.

Na praia, Cal Dexter pegou uma chave de fenda, desenroscou os parafusos das placas de Costa Rica e as jogou no mar. De sua mochila retirou as placas que uma motocicleta panamenha portaria e as aparafusou.

Seus documentos estavam perfeitos. Graças à Sra. Nguyen ele tinha um passaporte americano, mas não em nome de Dexter, que já portava um carimbo de entrada aparentemente emitido alguns dias antes no aeroporto da Cidade do Panamá. Mais uma carteira de motorista.

Seu espanhol claudicante, aprendido nos tribunais e centros de detenção de Nova York, onde 20% de seus clientes eram hispânicos, não era bom o bastante para passar por panamenho. Mas um americano visitante tem permissão para subir o país para procurar por uma estância de pesca.

Tinham se passado apenas dois anos desde que, em dezembro de 1989, os EUA transformaram partes do Panamá num cinzeiro para derrubar e capturar o ditador Noriega, e Dexter suspeitava que a maioria dos policiais panamenhos não tinha esquecido a mensagem básica.

O caminho estreito seguia a partir da praia através de uma densa floresta tropical para se tornar, dezesseis quilômetros ilha adentro, uma trilha. Esta se transformou numa estrada de barro com fazendas ocasionais. Ele sabia que seguindo por ali acharia a Rodovia Panamericana, aquela façanha de engenharia que corre do Alasca até a ponta da Patagônia.

Em David City encheu o tanque novamente e entrou na rodovia para iniciar o percurso de quinhentos quilômetros até a capital. A noite chegou. Ele jantou numa parada de caminhoneiros, abasteceu novamente e seguiu viagem. Cruzou a ponte para a Cidade do Panamá, pagou o pedágio em pesos, e seguiu até o subúrbio de Balboa enquanto o sol nascia. Ali encontrou um banco de praça, acorrentou a moto e dormiu durante três horas.

A tarde foi dedicada a reconhecimento. O mapa de escala grande da cidade, que comprara em Nova York, deu-lhe a localização da favela de Chorillo, onde Noriega e Madero haviam crescido, a alguns quarteirões um do outro.

Mas os vermes bem-sucedidos preferem a boa vida, e os esconderijos reportados de Madero eram duas propriedades das quais era proprietário parcial na elegante Paitilla, que ficava voltada para as favelas da Cidade Velha, no outro lado da baía.

Eram duas da manhã quando o bandido repatriado decidiu que estava cansado do Papagavo Bar e Discoteca e quis ir embora. A porta preta anônima com uma discreta placa de bronze e um olho-mágico, se abriu e dois homens saíram primeiro: guarda-costas extremamente musculosos, seus seguranças pessoais.

Um entrou na limusine Lincoln parada no meio-fio e ligou o motor. O outro correu os olhos pela rua. Sentado no meiofio, corpo curvado à frente, pés na sarjeta, o mendigo se virou e abriu um sorriso de dentes podres ou banguelas. Cachos de cabelos cinzentos e engordurados caíam aos seus ombros; uma capa de chuva fétida envolvia seu corpo.

Lentamente o mendigo enfiou a mão direita dentro de um saco de papel pardo e o puxou para perto do peito. O segurança enfiou a mão debaixo da axila enquanto seu corpo se retesava. O mendigo lentamente tirou a mão do saco, segurando uma garrafa de rum vagabundo. Tomou um gole e, com a generosidade dos muito bêbados, ofereceu-a ao segurança.

O homem fez uma careta, cuspiu na calçada, retirou sua própria mão vazia de baixo do paletó, relaxou e se virou. A não ser o bêbado, a calçada estava vazia e segura.

Ele bateu na porta preta.

Emilio, que recrutara a filha de Dexter, foi o primeiro a sair, seguido por seu chefe. Dexter esperou até a porta se fechar e trancar sozinha, e só então se levantou.

A mão que saiu da bolsa de papel uma segunda vez empunhava uma magnum Smith Wesson calibre 44, cano serrado.

O segurança que tinha cuspido na calçada jamais soube o que o atingiu. A bala se partiu em quatro partes voadoras. Disparadas a três metros de distância, as quatro partes da bala penetraram o torso, realizando um estrago considerável em seu interior.

Emílio, o latino bonitão, tinha aberto a boca para gritar quando o segundo disparo o acertou no rosto, pescoço, um ombro e um pulmão simultaneamente.

O segundo segurança estava saindo do carro quando encontrou seu Criador graças a quatro fragmentos de metal que penetraram a lateral de seu corpo exposta ao atirador.

Benyamin Madero tinha voltado até a porta dos fundos, e gritava para que alguém a abrisse, quando a quarta e a quinta bala foram disparadas. Algum espírito corajoso

lá dentro havia aberto a porta cinco centímetros quando um fragmento atravessou seus cabelos ondulados e a porta foi fechada às pressas.

Madero caiu, ainda implorando que a porta fosse aberta, deslizando pela madeira lustrosa, deixando sobre ela rastros vermelhos e compridos de sua camisa tropical empapada em sangue.

O mendigo caminhou até ele, não demonstrando pânico ou pressa, parou, deitou-o de costas, e fitou seu rosto. Madero ainda estava vivo, mas arfante.

- Amanda Jane, mi hija - disse o atirador e usou a sexta bala para dilacerar as entranhas.

Os últimos noventa segundos de vida de Madero não foram nem um pouco divertidos.

Mais tarde, uma dona-de-casa no segundo andar do outro lado da rua contou à polícia que viu o mendigo dobrar correndo uma esquina, e em seguida escutou o motor de uma lambreta se afastando. Foi tudo.

Antes do nascer do sol, a motocicleta estava encostada contra uma parede a duas vilas dali, sem corrente, chave na ignição. Ela não sobreviveria mais de uma hora antes de entrar na cadeia alimentar.

A peruca, os dentes alvos e a capa de chuva foram embolados e jogados numa lata de lixo num parque público. A mochila, aliviada de suas últimas roupas, foi dobrada

e jogada num canteiro de obras.

Às sete da manhã, um executivo americano usando sapatos de camurça, camisa pólo e uma jaqueta esportiva, segurando uma mala de viagem, fez sinal para um táxi diante do Miramar Hotel e pediu para ser levado ao aeroporto. Três horas depois, o mesmo americano embarcou na primeira classe de um vôo regular da Continental Airlines com destino a Newark, Nova Jersey.

E a pistola, a Smith & Wesson adaptada para disparar balas que se partiam em quatro fragmentos letais para operações a curta distância, foi largada numa sarjeta em algum lugar da cidade, que agora se curvava debaixo da asa do avião.

A arma podia não ter sido permitida nos Túneis de Cu Chi, mas vinte anos depois funcionou como um sonho nas ruas do Panamá.

Dexter sabia que havia alguma coisa errada quando introduziu a chave em sua porta no Bronx. A porta abriu sozinha para revelar o rosto de sua sogra, a sra. Marozzi, suas faces raiadas com lágrimas.

Junto com a dor, havia culpa. Angela Dexter aprovara Emílio como namorado para sua filha; ela concordara com a "viagem" até a casa de praia que o jovem panamenho propusera. Quando seu marido disse que ia viajar por uma semana para cuidar de assuntos inacabados, ela presumiu que se tratava de atividades jurídicas.

Devia ter ficado. Devia ter contado a ela. Devia ter compreendido o que se passava na mente de sua esposa. Depois de sair da casa dos pais, onde ficara alojada desde o funeral da fílha, Angela Dexter retornara ao apartamento com um suprimento de barbitúricos e pusera fim à própria vida.

O ex-operário, soldado, estudante, advogado e pai, entrou numa depressão profunda. E finalmente chegou a duas conclusões. A primeira era que ele não tinha mais vontade de continuar no escritório da Defensoria Pública, correndo sem parar entre tribunais e centros de detenção. Ele entregou seus casos, vendeu o apartamento, despediu-se dolorosamente da família Marozzi que fora tão boa para ele, e retornou a Nova Jersey.

Descobriu a cidadezinha de Pennington, satisfeita com sua paisagem arborizada, mas sem nenhum advogado local. comprou um pequeno escritório e pendurou sua tabuleta.

Comprou uma casa de madeira na Chesapeake Drive e trocou seu carro de cidade por uma picape. E começou a treinar a disciplina brutal do triatlon para afugentar a dor.

Sua segunda decisão foi de que Madero morrera com muita facilidade. Seu destino justo deveria ter sido apresentar-se a uma corte americana e ouvir um juiz sentenciá-lo

à prisão perpétua sem fiança; acordar todos os dias e jamais ver o céu; saber que teria de pagar até o fim de seus dias pelo que fizera a uma menina.

Calvin Dexter sabia que o exército americano e dois períodos no inferno fedorento debaixo da selva de Cu Chi tinham lhe conferido talentos perigosos. Silêncio, paciência, semiinvisibilidade, a habilidade de um caçador, a implacabilidade de um rastreador.

Soube pela imprensa de um homem que perdera seu filho para um assassino que desaparecera no exterior. Ele fez contato, obteve os detalhes, saiu das fronteiras de sua terra nativa e trouxe o assassino de volta. Depois sumiu, voltando a ser o pacato advogado de Pennington, Nova Jersey.

Por três vezes em sete anos ele havia pendurado a placa de "Saí para viagem" em seu escritório em Pennington e partido para o exterior para achar um assassino e trazê-lo de volta para o "devido processo". Por três vezes ele alertara o Federal Marshals Service e sumira na obscuridadade.

E cada vez que o Vintage Airplane chegava à sua casa, ele olhava os classificados da revista, o único meio pelo qual os poucos que sabiam de sua existência podiam

fazer contato.

Ele fez isso de novo naquela manhã ensolarada de 13 de maio de 2001. O anúncio dizia: "VINGADOR. Precisa-se. Oferta séria. Sem limite de preço. Favor ligar."

 

                   O ARQUIVO

O SENADOR PETER LUCAS ERA RAPOSA VELHA NO CAPITÓLIO.

Ele sabia que se quisesse conseguir alguma ação oficial como resultado do arquivo sobre Ricky Colenso e a confissão de Milan Rajak, teria de subir alto; direto ao

topo.

Operar com chefes de seções ou departamentos não adiantaria. A forma de pensar dos funcionários públicos naquele nível era passar a responsabilidade para outro departamento.

Sempre era o trabalho de outra pessoa. Apenas uma instrução direta vinda do topo geraria algum resultado.

Como senador republicano e amigo de longa data de George Bush Pai, Peter Lucas podia chegar ao secretário de Estado, Colin Powell, e ao novo procurador-geral, John Ashcroft. Isso cobriria Estado e Justiça, os dois departamentos presumivelmente capazes de fazer qualquer coisa.

Mesmo assim, não era nada simples. Secretários de gabinete não queriam ouvir problemas nem perguntas; eles preferiam ouvir problemas e soluções.

Extradição não era sua especialidade. Precisava descobrir o que os Estados Unidos podiam e queriam fazer numa situação como aquela. Isso requeria pesquisa, e ele tinha uma equipe de recém-formados precisamente para esse propósito. O membro mais brilhante dessa equipe era uma moça de Wisconsin, e ela voltou com a resposta uma semana depois.

- Este animal, Zilic, é passível de prisão e transferência para os Estados Unidos sob a Lei de Controle Abrangente de Crimes de 1984 - informou.

A passagem que ela descobrira vinha da Audiência do Congresso em Inteligência e Segurança de 1997. O orador tinha sido Robert M. Bryant, diretor-assistente do FBI, dirigindo-se ao Comitê Interno sobre Crimes.

- Sublinhei as passagens relevantes, senador - disse ela. Ele agradeceu e olhou para o texto que ela colocou à sua frente.

"As responsabilidades do FBI remontam a meados dos anos oitenta, quando o Congresso aprovou leis autorizando o FBI a exercer jurisdição federal no exterior quando um cidadão americano é assassinado", dissera o Sr. Bryant, quatro anos antes.

Por trás da linguagem branda havia uma lei que o resto do mundo havia ignorado, assim como a maior parte dos cidadãos americanos. Antes da Lei de Controle Abrangente de Crimes de 1984, a crença global era de que se um assassinato era cometido, fosse na França ou na Mongólia, apenas os governos francês ou mongol possuíam jurisdição para perseguir, prender e julgar o assassino. Isso se aplicava fosse a vítima francesa, mongol ou americana em visita.

Os EUA haviam simplesmente arrogado a si o direito de decidir que matar um cidadão americano em qualquer parte do mundo é o mesmo que matá-lo na Broadway. Significando que a jurisdição americana cobre o planeta inteiro. Nenhuma conferência internacional concedeu isso; os EUA simplesmente disseram que era assim. Então o Sr. Bryant prosseguira.

"... e a Lei Universal de Segurança Diplomática e Antiterrorismo de 1986 estabeleceu um novo estatuto extraterritorial pertinente a atos terroristas conduzidos no exterior contra cidadãos americanos."

Isso não é nenhum problema, pensou o senador. Zilic não é soldado do exército iugoslavo nem policial. Ele é franco-atirador e o título de terrorista lhe cai como uma luva. Ele é extraditável aos EUA sob ambos os estatutos.

Ele continuou lendo:

"Sob a aprovação do país anfitrião, o FBI possui a autoridade legal para enviar funcionários do FBI para conduzir investigações extraterritoriais no país anfitrião

onde o ato criminoso foi cometido, possibilitando apenas aos EUA julgar terroristas por crimes cometidos no exterior contra cidadãos americanos."

O senador franziu o semblante. Isto não fazia sentido. Estava incompleto. A frase principal ali era "sob a aprovação do país anfitrião". Mas cooperação entre forças policiais não era novidade. É claro que o FBI poderia aceitar um convite de uma força policial estrangeira para voar até lá para ajudá-los. Isso acontecia há muitos anos. E por que essas duas leis foram necessárias, em 1984 e 1986?

A resposta, que ele não tinha, era de que a segunda lei avançava quilômetros adiante da primeira, e a frase, "sob a aprovação do país anfitrião", tinha sido apenas

uma forma do Sr. Bryant confortar o comitê. O que ele estava insinuando mas não ousava dizer (ele estava falando durante a era Clinton) era a palavra "apreensão".

Na lei de 1986 os Estados Unidos premiaram-se com o direito de pedir educadamente que o assassino de um americano fosse extraditado de volta aos Estados Unidos.

Se a resposta fosse "não", ou um atraso aparentemente interminável, os Estados Unidos deixariam de ser bonzinhos. Os Estados Unidos tinham se dado o direito de enviar uma equipe secreta de agentes para capturar o perpetrador e trazê-lo de volta para ser julgado.

Quando a lei foi aprovada, um caçador de terroristas chamado John O'Neill declarou:

- De agora em diante, a aprovação do país anfitrião não vale merda nenhuma.

Uma captura conjunta da CIA/FBI de um suposto assassino de um americano é chamada de "apreensão". Desde que a lei foi aprovada sob o governo de Ronald Reagan, ocorreram dez operações muito secretas, e tudo isso começara por causa de um navio de cruzeiro italiano.

Em outubro de 1985 o Achille Lauro, de Gênova, estava navegando ao longo da costa norte do Egito, com paradas previstas na costa israelense, e carregando uma carga mista de turistas, incluindo alguns americanos.

A bordo haviam subido secretamente quatro palestinos da Frente de Libertação da Palestina, um grupo terrorista associado à Organização de Libertação da Palestina de Yasser Arafat, então exilado na Tunísia.

O objetivo dos terroristas não era capturar o navio, mas desembarcar em Asdod, uma parada em Israel, e tomar reféns israelenses ali. Mas em 7 de outubro, entre Alexandria e Port Said, eles estavam numa de suas cabines, checando suas armas, quando um camaroteiro entrou, viu as armas e começou a gritar. Os quatro palestinos entraram em pânico e seqüestraram o navio.

Seguiram-se quatro dias de negociações tensas. Abu Abbas veio de avião da Tunísia, alegando ser o negociador de Arafat. Tel Aviv negou isso, frisando que Abu Abbas era chefe do FLP, não um mediador benigno. No fim, chegou-se a um acordo: os terroristas teriam permissão para descer do navio e embarcar num avião de passageiros egípcio de volta para a Tunísia. O capitão italiano confirmou, sob mira de revólver, que ninguém tinha sido ferido. Ele foi forçado a mentir.

Depois que o navio estava livre ficou claro que no terceiro dia os palestinos tinham assassinado um turista americano idoso, Leon Klinghoffer, um nova-iorquino de

79 anos confinado a uma cadeira de rodas. Os terroristas haviam atirado em seu rosto e jogado a ele e à cadeira no mar.

Para Ronald Reagan essa foi a gota d'água. Todos os acordos estavam cancelados. Mas os assassinos já estavam no ar, voltando para casa, num avião de um estado estrangeiro, amistoso aos Estados Unidos, e em espaço aéreo internacional. Ou seja, intocável. Ou talvez não.

Por acaso, o USS Saratoga estava seguindo para sul pelo Adriático, carregando Tomcats F-16. Quando a noite chegou, o avião de passageiros egípcio foi localizado nas proximidades de Creta, seguindo para oeste rumo à Tunísia. No meio da escuridão, os Tomcats subitamente flanquearam o avião. O aterrorizado comandante egípcio requisitou um pouso de emergência em Atenas. Permissão negada. Os Tomcats sinalizaram que o avião deveria acompanhá-los ou encarar as conseqüências. O mesmo EC2 Hawkeye, que também decolou do Saratoga, que tinha encontrado o avião egípcio passou as mensagens entre os caças e o avião de passageiros.

A distração terminou quando o avião de passageiros, com os assassinos e Abu Abbas, seu líder, a bordo, pousou sob escolta na base norte-americana em Sigonella, Sicília.

Então a situação ficou complicada.

Sigonella era uma base compartilhada entre a marinha norte-americana e a força aérea italiana. Tecnicamente ali era território estrangeiro; os EUA apenas pagavam aluguel. O governo em Roma, num alto estado de excitação, alegou o direito de julgar os terroristas. O Achille Lauro era deles, a base era deles.

Foi necessário um telefonema pessoal da parte do presidente Reagan ao destacamento das Forças Especiais em Sigonella para que eles aceitassem voltar e deixar os palestinos com os italianos.

No devido tempo, em genôva, cidade natal do navio de cruzeiro, o pequeno grupo de terroristas foi sentenciado. Mas seu líder, Abu Abbas, voou livre como o ar em 12 de outubro e ainda se encontra em liberdade. Revoltado, o ministro da Defesa italiano pediu demissão. O primeiro-ministro naquela época era Bettino Craxi. Mais tarde ele morreria em exílio, também na Tunísia, procurado por corrupção durante seu governo.

A resposta de Reagan a essa perfídia foi a Lei Universal, apelidada de "Lei do Nunca Mais". No fim, não foi a moça brilhante de Wisconsin, mas o veterano do FBI e famoso caçador de terroristas Oliver "Buck" Revell, aposentado, que desfrutou de um bom jantar pago pelo velho senador e lhe contou sobre "rendições".

Mesmo assim não se considerou que o caso de Zilic exigisse uma "apreensão". A Iugoslávia pós-Milosevic estava preparada para retornar à comunidade de nações civilizadas.

Ela precisava de empréstimos grandes do FMI e reconstruir sua infra-estrutura depois de 78 dias sofrendo bombardeios da Otan. Kostunica, seu novo presidente, certamente consideraria uma bagatela permitir que Zilic fosse preso e extraditado para os Estados Unidos.

Esse certamente era o pedido que o senador Lucas pretendia proferir a Colin Powell e John Ashcroft. Se o pior viesse a acontecer, pediria a autorização de uma apreensão secreta.

Ele mandou sua equipe de redação preparar a partir do relatório completo de 1995 feito pelo Rastreador, uma

sinopse.

Abu Abbas foi capturado pelas Forças Especiais americanas no deserto a oeste de Bagdá Iraque, em abril de 2003 enquanto a 1ª edição deste livro estava sendo impressa

O arquivo de uma página para explicar tudo, desde a partida de Ricky Colenso para a Bosnia para tentar ajudar pobres refugiados, até sua presença num vale solitário em 15 de maio de 1995.

O que aconteceu no vale naquela manhã, conforme descrito por Milan Rajak, foi comprimido em duas páginas, as passagens mais aviltantes fortemente sublinhadas. Acompanhada de uma carta pessoal do próprio senador, o arquivo foi encadernado para facilitar a leitura.

Havia mais uma coisa que ele aprendera sobre o Capitólio. Quanto mais alto o cargo, mais curto deve ser o relatório. No final de abril ele se viu cara a cara com ambos os secretários do Gabinete.

Cada um deles ouviu com uma expressão de grande pesar. Cada um deles pediu para ler o relatório e passá-lo aos setores apropriados dentro de seus departamentos.

E eles fizeram isso.

Os EUA possuem treze agências principais de coleta de inteligência (informação). Combinadas, essas agências provavelmente obtêm 90% de toda a inteligência, lícita, e ilícita colhida no planeta inteiro em qualquer período de 24 horas.

Só o volume dessas informações torna absorver, analisar, filtrar, reunir, armazenar e recuperar um problema de proporções industriais. Outro problema é que essas agências não falam umas com as outras.

Já se ouviu chefes americanos de inteligência murmurarem em bares de madrugada que eles trocariam suas pensões de aposentadoria por alguma coisa como o Joint Intelligence committee britânico.

O JIC reúne-se semanalmente em Londres sob a liderança de um veterano da espionagem para reunir as quatro agências do país: o Secret Intelligence Service (estrangeiro); o Security Service (doméstico); o Government Communications HQ (SIGINT, incumbidos das escutas); e a Scotland Yard s Special Branch.

Compartilhar dados e progressos pode prevenir a duplicação e o desperdício, mas seu principal objetivo é ver se fragmentos de informação obtidos nos diferentes locais por diferentes pessoas poderiam formar o quebra-cabeças que compõe o quadro que todo mundo está procurando.

O relatório do senador Lucas foi para seis das agências e cada uma delas obedientemente vasculhou seus arquivos para descobrir o que, se algo, podia ser aprendido e arquivado a respeito de um gangster iugoslavo chamado Zoran Zilic.

Alcohol, Tobacco and Firearms, conhecido como ATF, não tinha nada. Zilic jamais operara nos EUA e o ATF raramente aventurava-se ao exterior.

Os outros cinco eram a Defence Agency (DIA), que se interessa por qualquer traficante de armas; a National Security Agenct (NSA), a maior de todas, trabalhando a

partir de sua base, a "Câmara Negra", em Annapolis Junction, Maryland, ouvindo trilhões de palavras por dia, faladas ou transmitidas por e-mail ou fax, com tecnologia que quase ultrapassa os sonhos da ficção científica; a Drug Enforcement Agency (DEA), que se interessa por qualquer um que já tenha traficado narcóticos em qualquer parte do mundo; o FBI (claro), e a CIA. As duas ultimas lideram a busca permanente por conhecimento sobre terroristas, assassinos, mercenários, regimes hostis, qualquer coisa do gênero.

Levou uma semana ou mais, e abril virou maio. Mas como a ordem veio de cima, as buscas foram detalhadas.

As agências de defesa e narcóticos apresentaram arquivos bem gordos. Em várias capacidades, todos sabiam a respeiro de Zoran Zilic há anos. A maioria dos registros diziam respeito às suas atividades desde que se tornara um jogador importante na cena de Belgrado; como assassino particular de Milosevic, traficante de drogas e armas e praticante de toda sorte de crimes.

Mas eles não sabiam que Zilic havia assassinado um rapaz americano durante a guerra da Bosnia, e encararam essa informação com seriedade. Essas agências teriam ajudado, se pudessem. Mas todos os seus arquivos tinham uma coisa em comum: os últimos registros haviam sido dezesseis meses antes do inquérito do senador.

Zilic havia sumido, evaporado, desaparecido. Desculpe.

No prédio da CIA, envolvido pela folhagem de verão da Beltway, o diretor passou a requisição para o diretor de operações suplente. Ele consultou cinco subdivisões:

Bálcãs, Terrorismo, Operações Especiais e Tráfico de Armas eram quatro. Ele até pediu informações, mais como formalidade do que qualquer outra coisa, ao pequeno e obsessivo escritório secreto formado menos de um ano antes, depois do massacre de dezessete marinheiros no USS Cole no Porto de Aden, conhecido como Peregrino.

Mas a resposta foi a mesma. Claro que temos arquivos, mas nada depois de dezesseis meses atrás. Nós concordamos com todos os nossos colegas. Ele não está mais na Iugoslávia, mas onde está, não sabemos. Não temos notícias dele há dois anos, de modo que não temos motivos para gastar tempo e verbas investigando-o.

A outra grande esperança era o FBI. Claro, em algum lugar no imenso Edifício Hoover na Pennsylvania Avenue com a rua 9, haveria um arquivo recente descrevendo exatamente onde esse assassino de sangue-frio poderia ser encontrado, detido e trazido à justiça.

O diretor Robert Mueller, o sucessor recém-designado de Louis Freeh, passou o arquivo e o pedido para seus subalternos, com a etiqueta "Ação Sem Demora". E o arquivo encontrou a escrivaninha do diretor-assistente Colin Fleming.

Fleming, que trabalhara a vida toda para o FBI, não conseguia lembrar de nenhum momento, desde que era menininho, que seu sonho não fosse se tornar um G-Man. Ele vinha de uma família da igreja presbiteriana escocesa, e sua fé era tão inabalável quanto seu conceito de lei, ordem e justiça.

No trabalho do FBI ele era um fundamentalista. Compromisso, acomodação, concessão - em termos de luta contra o crime essas não eram desculpas para trégua. Ele detestava tréguas. O que lhe carecia em sutileza ele compensava em tenacidade e dedicação.

Ele vinha das colinas de granito de New Hampshire, onde todos se gabam de que os homens são tão duros quanto as rochas. Era republicano fervoroso e Peter Lucas era seu senador. Ele inclusive fizera campanha local por Lucas, e acabara por conhecê-lo pessoalmente.

Depois de ler o relatório super-resumido, ele telefonou para o gabinete do senador para perguntar se podia ler o relatório completo do Rastreador e a confissão inteira de Milan Rajak. Na mesma tarde, um mensageiro entregou-lhe uma cópia.

Ele leu os arquivos com raiva crescente. Ele também tinha um filho de quem se orgulhar, um aviador da marinha, e só de pensar no que havia acontecido com Ricky Colenso inflamava sua ira. O FBI precisava ser o instrumento para levar Zilic à justiça, fosse por via de extradição ou apreensão. Como o homem responsável pela cobertura de todo o terrorismo de fontes além-mar, ele autorizaria pessoalmente a equipe de apreensão a pegar o assassino.

Mas o FBI não podia autorizar isso. Porque o FBI estava na mesma posição que os outros. Ainda que seu gangsterismo, tranco de drogas e armas tenham lhe valido a atenção do FBI como um homem a ser observado, Zilic jamais fora pego num ato de terrorismo antiamericano. Portanto, quando desapareceu, o FBI não buscou seu paradeiro. Os últimos registros

que tinham sobre ele datavam de dezesseis meses antes.

Foi com profundo pesar que Fleming teve de se juntar aos outros na comunidade de inteligência, admitindo que não sabia onde Zoran Zilic estava.

Sem um local, não poderia haver apelo a um governo estrangeiro por extradição. Mesmo se Zilic agora estivesse protegido num estado "fracassado", onde a vontade de uma autoridade governamental normal não se impunha, uma operação só poderia ser montada se o FBI soubesse onde ele estava. Em sua carta pessoal ao senador, o diretor-assistente Fleming desculpou-se pelo FBI não ter esse conhecimento.

A tenacidade de Fleming vinha de seus genes de escocês das Highlands. Dois dias depois ele convidou Fraser Gibbs para almoçar. O FBI tem dois altos funcionários aposentados de status quase icônico, que enchem as salas de palestra da escola de treinamento do FBI em Quantico sempre que aparecem.

Um deles é um sujeito muito alto, ex-jogador de futebol americano, ex-piloto da marinha, chamado Buck Revell. O outro é Fraser Gibbs, que passou a primeira metade de sua carreira penetrando o crime organizado como agente infiltrado, um dos trabalhos mais perigosos que existem. A segunda metade da carreira de Gibbs foi dedicada a esmagar a Cosa Nostra na Costa Leste. Quando retornou a Washington depois que uma bala deixou-o capengando da perna esquerda, foi incumbido da pasta que cobria franco-atiradores, mercenários e assassinos de aluguel. Ele ouviu a explanação de Fleming com uma expressão preocupada.

- Já ouvi falar de alguém que poderia ajudar - disse Gibbs. - Um caçador de cabeças. Uma espécie de caçador de recompensas. Tem um nome de código.

- Você está falando de outro assassino? Você sabe que o governo proíbe terminantemente relações com esse tipo de gente.

- A questão não é essa - disse o veterano. - O rumor era que ele não mata. Seqüestra os sujeitos e os traz de volta. Caramba, como era mesmo o nome?

- Isso pode ser importante - disse Fleming.

- Ele era extremamente discreto. Meu predecessor tentou identificá-lo. Enviou um agente disfarçado de candidato a cliente. Mas ele deve ter farejado que era uma armadilha, deu uma desculpa, saiu da reunião e desapareceu.

- Por que ele simplesmente não se entrega e fica limpo? - perguntou Fleming. - Se ele realmente não mata ninguém...

- Acho que ele calcula que, como opera no exterior, e como o FBI não gosta de franco-atiradores agindo em seu território, nós pediríamos permissão aos poderes superiores para pegá-lo. E ele provavelmente tem razão. Assim, ele permaneceu nas sombras, e jamas consegui achá-lo.

- O agente deve ter feito um relatório.

- Fez sim. Procedimento padrão. Provavelmente está sob o nome de código do homem. Nunca descobrimos qualquer outro nome. Vingador. Esse é o nome de código. Procure por "Vingador". Veja o que aparece.

O arquivo cuspido pelo computador era muito breve. Um anúncio fora colocado nos classificados de uma revista técnica para fãs de aviões, aparentemente a única forma de comunicação com o homem. Uma história tinha sido contada, e um encontro marcado.

O caçador de recompensas insistira em sentar-se na escuridão, por trás de uma lâmpada forte que brilhava para a frente a partir dele. O agente relatou que o homem era de estatura mediana, tinha corpo levemente musculoso, pesando provavelmente não mais de 72 quilos. Ele nunca viu o rosto, e depois de três minutos o homem suspeitou de alguma coisa. Ele estendeu a mão e apagou a lâmpada, deixado o agente sem visão noturna. Quando o agente acabou de piscar, o homem havia sumido.

Tudo que o agente pôde relatar foi que enquanto a mão do caçador estava pousada na mesa entre eles, sua manga esquerda se levantara, revelando uma tatuagem no antebraço.

Parecera um rato rindo por sobre o ombro enquanto mostrava o traseiro para o espectador.

Nada disto seria do menor interesse para o senador Lucas ou seu amigo no Canadá. Mas o mínimo que Colin Fleming pensou que poderia fazer era passar-lhes o codinome e o método de contato. Era uma chance em cem, mas era tudo que ele tinha.

Três dias depois em seu escritório em Ontario, Stephen Edmond abriu a carta enviada por seu amigo em Washington. Ele já tinha ouvido as notícias das seis agências e perdera todas as esperanças.

Leu a carta suplementar e franziu a testa, preocupado. Acreditara realmente que os poderosos EUA usariam seu poder para requerer a um governo estrangeiro que prendesse o assassino e o mandasse para eles.

Nunca lhe ocorrera que já fosse tarde demais. Que Zilic simplesmente havia desaparecido; que todas as agências com verbas de bilhões de dólares operando em Washington simplesmente não sabiam onde ele estava e portanto nada podiam fazer.

Ele pensou sobre o assunto durante dez minutos. Então deu de ombros e apertou o botão do intercomunicador.

- Jean, quero colocar um anúncio classificado na coluna de "precisa-se" de uma revista técnica americana. Você vai ter de pesquisar um pouco. Nunca ouvi falar dela.

O nome é Vintage

Airplane. Sim, o texto. Escreva assim: VINGADOR. Precisase. Oferta séria. Sem limite de preço. Favor ligar. Em seguida, ponha o número de meu celular e de minha linha particular. Certo, Jean?

Vinte e seis homens nas agências de inteligência de Washington e arredores tinham visto a requisição. Todos haviam respondido que não sabiam onde Zoran Zilic estava.

Um deles havia mentido.

 

                 A FOTOGRAFIA

DESDE A TENTATIVA DO FBI PARA DESMASCARA-LO SEIS ANOS antes, Dexter decidira que não havia necessidade para encontros cara a cara. Em vez disso, ele levantara várias linhas defensivas para mascarar sua localização e sua identidade.

Uma delas era um pequeno apartamento de um quarto em Nova York, mas não no Bronx, onde ele provavelmente seria reconhecido. Dexter alugou-o mobiliado, pagava religiosamente, a cada três meses, e sempre em dinheiro. Isso não atraía atenção oficial, mesmo quando ele estava na residência.

Também usava apenas telefones celulares de cartão pré-pago. Comprava montes desses aparelhos e usava cada um duas ou três vezes, consignando-os ao East River. Até a NSA, com a tecnologia para uma escuta telefônica e rastreá-la até a fonte exata, não podia identificar o comprador desses celulares prépagos, nem direcionar a polícia até o local da chamada se o usuário se mantivesse em movimento, falasse por pouco tempo e se livrasse do aparelho depois de usá-lo.

Outro estratagema era o velho truque da cabine telefônica. Obviamente, números discados a partir de uma cabine podiam ser localizados; mas existem tantos milhões delas que a não ser que uma cabine específica - ou série delas - seja suspeita, é muito difícil captar a conversa, identificar a pessoa que telefonou como o homem procurado, determinar sua localização e mandar um carro de polícia até lá a tempo.

Por último, também usava o tão mal falado correio americano, com suas cartas sendo enviadas para um endereço emprestado, como uma inocente mercearia coreana a dois quarteirões de seu apartamento em Nova York. Não haveria proteção se o endereço emprestado não fosse suspeito e posto sob vigilância, mas não havia motivo para sê-lo.

Dexter contatou a pessoa que colocou o anúncio através do número de celular. Fez isso a partir de um celular de cartão prépago, e antes de fazê-lo, seguiu de carro até bem longe, lá na zona rural de Nova Jersey.

Stephen Edmond identificou-se sem rodeios e em cinco frases descreveu o que havia acontecido ao seu neto. Vingador agradeceu e desligou o telefone.

Havia várias bibliotecas de clippings de jornal nos Estados Unidos, e as mais conhecidas eram aquelas do New York Times, Washington Post e Lexis Nexis. Ele usou a terceira, visitou sua central de dados em Nova York e pagou em dinheiro pelo uso.

Encontrou material suficiente para confirmar quem era Stephen Edmond. Também achou dois artigos a respeito do desaparecimento, anos antes, de seu neto enquanto trabalhava como assistente social na Bosnia, ambos do Toronto Star. Este cliente em potencial parecia genuíno.

Dexter telefonou de volta para o canadense e ditou os termos: consideráveis gastos de operação, uma taxa de serviço em adiantamento e um bônus pago na entrega de Zilic à jurisdição norte-americana, que não deveria ser pago em caso de fracasso.

- É muito dinheiro para um homem com quem não me encontrei e com quem aparentemente não irei me encontrar - argumentou o canadense. -Você poderia pegar esse dinheiro e sumir do mapa.

- E o senhor pode procurar o auxílio do governo norte-americano, o que presumo que já tenha feito.

Silêncio. Então:

- Muito bem. Para onde deve ser enviado?

Dexter deu-lhe um número de uma conta das ilhas Caimãs e um endereço em Nova York.

- O dinheiro para a conta, e cada linha de material da pesquisa já realizada para o segundo - disse ele e desligou.

O banco caribenho passaria o crédito através de uma dúzia de contas diferentes dentro de seu sistema de computação, mas também abriria uma linha de crédito para um banco em Nova York. O favorecido seria um cidadão holandês que se identificaria com um passaporte holandês perfeito.

Três dias depois, um arquivo chegou num envelope gordo para uma mercearia coreana no Brooklyn. Foi coletado pelo endereçado, o Sr. Armitage. Continha uma fotocópia do relatório inteiro de Rastreador, aquela de 1995 e aquela da mesma primavera de 2001, incluindo a confissão de Milan Rajak. Nenhum dos arquivos sobre Zoran Zilic nos arquivos dos diversos grupos americanos de inteligência tinham sido mostrados ao canadense, de modo que seu conhecimento do homem era escasso. Pior de tudo, não havia nenhuma fotografia.

Dexter retornou aos arquivos da imprensa, que hoje constituem a fonte principal de qualquer pessoa que procure por dados históricos recentes. Raros são os eventos ou pessoas que e destacaram de qualquer forma sobre as quais algum jornalista não tenha escrito, ou algum fotógrafo não tenha registrado em imagem. Mas Zoran Zilic quase conseguiu ser uma das exceções.

Ao contrário de Zeliko "Arkan" Raznatovic, que era faminto por publicidade, Zilic abominava ser fotografado. Ele claramente ia a extremos para evitar qualquer tipo de publicidade. Neste sentido ele lembrava alguns dos terroristas palestinos, como Sabri al-Banna, conhecido como Abu Nidal.

Dexter encontrou uma matéria grande da Newsweek remontando à guerra da Bosnia; era sobre todos os "senhores da guerra" sérvios, mas Zilic era mencionado muito pouco, provavelmente devido à falta de material.

Havia uma fotografia de um homem em algum tipo de festa, recortada e ampliada, o que a deixava um tanto enevoada. A outra era de um adolescente; viera dos arquivos policiais de Belgrado, e claramente remontava aos seus dias de gangues de rua em Zemum. Cada um dos homens podia passar direto por Dexter na rua que ele não o reconheceria como o sérvio.

O inglês, Rastreador, mencionou uma agência particular de investigação em Belgrado. Agora era pós-guerra, pós-Milosevic. A capital iugoslava, onde Zilic havia nascido e se criado, e da qual sumira, parecia ser o lugar para começar. Dexter voou de Nova York para Viena e dali para Belgrado, e se hospedou no Hyatt. De sua janela no décimo andar, a cidade balcânica arrasada estendia-se abaixo dele. Ele podia ver, a cerca de um quilômetro, o hotel onde Raznatovic tinha sido morto a tiros no saguão, a despeito de seu cortejo de guardacostas.

Um táxi levou-o até a agência chamada Chandler, ainda dirigida por Dragan Stojic, o imitador de Philip Marlowe. O disfarce de Dexter era de jornalista free-lance, e ele disse que pretendia atender a um pedido do New Yorker por uma biografia de dez mil palavras de Raznatovic. Stojic assentiu e grunhiu.

- Todo mundo conhecia o sujeito. Casou com uma cantora pop, uma dona de parar o trânsito. Então, o que você quer de mim?

- Para ser sincero, já tenho praticamente tudo que preciso para esta matéria - disse Dexter, cujo passaporte americano revelava-o como Alfred Barnes. - Mas tem uma espécie de nota de rodapé que queria expandir. Um contemporâneo de Arkan no submundo de Belgrado. Se chama Zoran Zilic.

Stojic suspirou lentamente.

- bom, esse aí era um sujeito medonho - disse ele. - Zilic jamais gostou que escrevessem sobre ele, nem que o fotografassem. As pessoas que o incomodavam nessa área eram... visitadas. Não há muito material sobre ele.

- Acredito. Diga-me, qual é a principal agência de Belgrado para material escrito?

- Na verdade, só temos uma. Seu nome é VIP. Fica num escritório em Vracar e o editor-chefe é Slavko Markovic.

Dexter se levantou.

- É só isso? - perguntou o Marlowe dos Bálcãs. - Nem fiz valer meus honorários.

O americano pegou uma nota de cem dólares e a pousou na mesa.

- Toda informação tem um preço, Sr. Stojic. Até um nome e um endereço.

Outro táxi o levou até a agência de clippings VIP. Como o Sr. Markovic estava almoçando, Dexter encontrou uma lanchonete, onde beliscou uma refeição leve e bebericou um cálice de vinho tinto local até ele voltar.

Markovic estava tão pessimista quanto o detetive particular. Mas acessou seu banco de dados interno para descobrir de que informações dispunha.

- Um artigo, e por acaso está em inglês - disse ele. Era a Newsweek da guerra da Bosnia.

- Só isso? - perguntou Dexter. - Este homem era poderoso, importante, proeminente. Será que não há nenhum rastro dele?

- A questão é essa - disse Markovic. - Ele era todas essas coisas. E violento. Sob o governo de Milosevic não havia discussões. Ele parece ter apagado cada registro de si mesmo antes de sair do país. Registros policiais, registros jurídicos, TV estatal, imprensa, tudo. Ninguém quer falar sobre ele, nem os parentes, os contemporâneos de escola, ou os antigos colegas. Foram avisados para não fazê-lo. Sr. Sem-rosto, esse é ele.

- Lembra quando foi feita a última tentativa de escrever alguma coisa sobre ele?

Markovic pensou durante algum tempo.

Agora que você mencionou, ouvi um boato de que alguém tentou. Mas não deu em nada. Depois que Milosevic caiu, e que Zilic desapareceu, alguém tentou escrever uma matéria. Acho que foi cancelada.

- Quem foi?

- Um passarinho me disse que foi uma revista daqui de Belgrado chamada Ogledalo. Significa "O Espelho".

O Espelho ainda existia e seu editor ainda era Vuk Kobac. Mesmo sendo dia de impressão, Kobac concordou em conceder ao americano alguns minutos de seu tempo. Quase perdeu o entusiasmo quando ouviu o que ele queria.

- Aquele desgraçado - disse ele. - Preferia nunca ter ouvido falar dele.

- O que aconteceu?

- Era um jornalista free-lance. Um rapaz. bom sujeito. Inteligente, determinado. Queria um emprego na equipe. Eu não tinha uma vaga. Mas ele me implorou por uma chance. Então eu lhe dei uma missão. O nome dele era Petrovic. Srechko Petrovic. Só tinha vinte e dois anos, o coitado.

- O que aconteceu com ele?

- Foi atropelado. Estacionou o seu carro diante do condomínio de prédios onde morava com a mãe e começou a atravessar a rua. Uma Mercedes dobrou a esquina e pegou ele.

- Motorista descuidado.

- Muito descuidado. Tão descuidado que passou por cima do garoto duas vezes. Então sumiu a toda velocidade.

- Uma forma eficiente de desencorajar os jornalistas.

- Eficiente e permanente. Mesmo no exílio, ele ainda pode encomendar e pagar um assassinato em Belgrado.

- Tem o endereço da mãe do rapaz?

- Espere um pouco. Nós mandamos uma carta com nossas condolências. Deve ter sido remetido para o apartamento dela.

Ele achou o endereço e se despediu do visitante.

- Só mais uma pergunta - disse Dexter. - Quando aconteceu isto?

- Há seis meses. Logo depois do Ano-Novo. Um conselho, Sr. Barnes. Escreva apenas sobre Arkan. Ele está morto e não pode machucar ninguém. Deixe Zilic em paz. Ele vai matar você. Agora preciso ir, é dia de impressão.

O endereço dizia Condomínio 23, Novi Beograd. Ele reconheceu Novi Beograd, ou Nova Belgrado, do mapa que tinha comprado na livraria do hotel. Era o bairro sombrio no qual o próprio hotel ficava, numa península flanqueada pelos rios Sava e Dunav, o famoso Danúbio, que definitivamente não era azul. Ficava no centro de Belgrado, de frente para ambos os rios.

Nos dias do comunismo, o gosto tinha sido por condomínios grandes e altos para os trabalhadores. Foram construídos em terrenos baldios em Novi Beograd. Eram enormes colméias de concreto, cada cavidade um apartamento minúsculo com sua porta abrindo para um corredor comprido, açoitado pelos elementos.

Alguns haviam sobrevivido melhor do que outros. Dependia do nível de prosperidade dos habitantes e portanto do nível de manutenção. O Condomínio 23 era um pesadelo infestado de baratas. A Sra. Petrovic morava no nono andar e o elevador não estava funcionando. Dexter era capaz de subir até lá numa só corrida, mas se perguntou como os moradores idosos conseguiam chegar às suas casas, ainda mais considerando que todos eles pareciam ser fumantes.

Não havia muito sentido em subir para vê-la sozinho. Não havia nenhuma chance de que ela falasse inglês, e ele não tinha qualquer domínio de servo-croata. Foi uma das mocinhas bonitas e inteligentes que trabalhavam na recepção do Hyatt que aceitou sua proposta de ajudá-lo. Ela estava economizando para se casar e duzentos dólares por uma hora de trabalho extra no final de seu turno era perfeitamente aceitável.

Chegaram às sete, e bem na hora. A Sra. Petrovic era faxineira de escritório e saía todas as noites às oito para o trabalho noturno nos escritórios do outro lado do rio.

Era uma daquelas pessoas que tinham sido derrotadas pela vida e seu rosto exausto e marcado por linhas contava sua própria história. Ela provavelmente estava no meio da casa dos quarenta, mas podia passar por bem mais velha. Seu marido morrera num acidente industrial sem praticamente nenhuma compensação. O filho tinha sido assassinado debaixo de sua própria janela. Como sempre acontece quando os pobres são abordados pelos aparentemente ricos, sua primeira reação foi de desconfiança.

Ele tinha trazido um grande buquê de flores. Fazia muito tempo desde que ela ganhara flores pela última vez. Anna, a garota do hotel, dispôs as flores em três locais na sala pequena e desarrumada.

- Quero escrever sobre o que aconteceu com Srechko. Sei que não posso trazer seu filho de volta, mas talvez possa expor o homem que fez isso a ele. A senhora irá me ajudar?

Ela deu de ombros.

- Não sei nada - disse a mulher. - Nunca perguntei sobre o trabalho dele.

- Na noite em que seu filho morreu... ele estava carregando alguma coisa?

- Não sei. O corpo foi revistado. Não acharam nada.

- Revistaram o corpo? Bem ali na rua?

- Sim.

- Ele tinha documentos consigo? Tinha algum bilhete que deixou para trás? Aqui no apartamento?

- Sim, ele tinha pilhas de papéis. com sua máquina de escrever e seus lápis. Mas nunca os li.

- Posso vê-los?

- Sumiram.

- Como assim... sumiram?

- Eles levaram os papéis. Levaram todos. Até a fita da máquina de escrever.

- A polícia?

- Não, os homens.

- Que homens?

- Eles voltaram. Duas noites depois. Obrigaram-me a sentar naquele canto ali. Eles vasculharam tudo. Levaram tudo que meu filho tinha.

Não sobrou nenhuma das coisas nas quais ele estava trabalhando para o Sr. Kobac?

Só a fotografia. Eu tinha esquecido dela.

- Por favor, fale-me sobre a foto.

Tudo foi explicado detalhadamente, através de Anna. Três dias antes de morrer, Srechko, o foca, havia comparecido a uma festa de réveillon e sua calça, jeans ficara manchada de vinho tinto. Sua mãe a tinha posto no saco de roupa suja para lavar mais tarde.

Depois que ele estava morto não havia mais sentido em lavar a calça. Ela também esqueceu sobre o saco de roupa suja, e os gângsteres não perguntaram sobre ela. Quando estava fazendo uma pilha com as roupas de seu filho morto, a calça jeans manchada caiu no chão. Ela tateou os bolsos para ver se seu filho havia esquecido algum dinheiro, mas sentiu um objeto plano. Era a fotografia.

- A senhora ainda está com ela? - indagou Dexter. - Posso vê-la?

Ela fez que sim e caminhou a passos lentos até uma caixa de costura num canto da sala. Voltou com a fotografia.

Era a foto de um homem, pego desprevenido, que vira o fotógrafo no último minuto. Ele estava tentando levantar a mão para cobrir o rosto, mas o obturador clicara no momento certo. Aparecia de corpo inteiro, em pé, vestido com uma camisa de mangas curtas e calças folgadas.

A fotografia era em preto-e-branco. Não tinha nitidez profissional, mas depois de ser ampliada e realçada ficaria muito boa. Dexter lembrou da foto do adolescente e da foto da festa que encontrara em Nova York e carregara no forro de sua maleta 007. Todas as três fotos estavam um pouco granuladas, mas eram do mesmo homem.

Zilic.

- Sra. Petrovic, quero comprar a fotografia.

Ela escolheu os ombros e disse alguma coisa em servo-croata.

- Disse que você pode ficar com ela. A fotografia não lhe interessa. Ela nem sabe de quem é - disse Anna.

- Uma última pergunta. Um pouco antes de morrer, Srechko esteve afastado durante algum tempo?

- Sim, em dezembro. Esteve fora uma semana. Não contou onde esteve, mas voltou com uma queimadura no nariz.

Ela acompanhou os dois até a porta e a varanda exposta aos ventos, que conduzia até o elevador quebrado e as escadas. Anna foi na frente. Quando ela estava a uma distância que a impedia de ouvir, Dexter virou-se para a mãe servia que também tinha perdido seu filho, e falou gentilmente em inglês.

- Sei que não pode entender uma palavra .do que eu digo, mas se conseguir trancar esse suíno numa prisão nos Estados Unidos, será em parte graças à senhora. E é por conta da casa.

Claro que ela não entendeu uma palavra, mas respondeu ao sorriso e disse "Hvala". Depois de um dia em Belgrado ele aprendera que isso significava "obrigada".

Dexter instruíra o taxista a esperar. Ele deixou Anna, segurando seus duzentos dólares, em sua casa no subúrbio, e no caminho de volta para o centro estudou novamente a fotografia.

Zilic estava em pé no que parecia uma extensão aberta de concreto ou cimento. Atrás dele havia prédios grandes e baixos, parecidos com armazéns. Sobre um dos prédios adejava uma bandeira, estendida pela brisa, mas parte dela estava fora de quadro.

Havia mais alguma coisa intrometendo-se no quadro, mas não conseguia ver o que era. Ele cutucou o ombro do motorista.

- Tem uma lente de aumento?

O motorista não entendeu, mas uma pantomima esclareceu o mistério. O taxista fez que sim. Guardava uma no porta-luvas para estudar seu mapa de A a Z da cidade.

O objeto longo e achatado entrando no quadro a partir da esquerda ficou nítido. Era a ponta da asa de um aeroplano, porém a não mais de 1,80m do solo. Portanto, não era um avião de passageiros, mas uma pequena aeronave particular.

Então ele reconheceu os prédios no fundo. Não eram armazéns; eram hangares. Não eram as imensas estruturas necessárias para abrigar aviões, mas o tipo necessário para aeronaves particulares, jatos executivos, cujas caudas raramente chegam a mais de nove metros. O homem estava num campo de pouso privado ou na seção executiva de um aeroporto.

Eles o ajudaram no hotel. Sim, havia vários cibercafés em Belgrado, todos abertos até tarde. Ele jantou na lanchonete e pegou um táxi até o cibercafé mais próximo.

Depois de se conectar ao seu programa de busca favorito, pediu por todas as bandeiras do mundo.

A bandeira adejando sobre os hangares na foto do repórter morto estava monocromática, mas claramente possuía três faixas horizontais, das quais a inferior era tão escura que parecia preta. Se não, então um azul muito escuro. Dexter optou por preto.

Enquanto corria os olhos pelas bandeiras do mundo inteiro, notou que quase metade delas tinha algum tipo de logomarca superimposta nas faixas. A que ele procurava não tinha nenhuma. Isso reduziu as opções para a outra metade.

Aquelas que tinham faixas horizontais e nenhuma logomarca não eram mais de duas dúzias, e aquelas com uma faixa inferior preta ou quase preta eram cinco.

As bandeiras de Gabão, Holanda e Serra Leoa tinham três faixas horizontais das quais a inferior era azul-escura, que poderia aparecer como preta numa fotografia monocromática. Apenas duas tinham uma faixa inferior que era definitivamente preta: Sudão e uma outra. Mas a do Sudão tinha um diamante verde no alto, perto do mastro, além das três faixas. A restante tinha uma faixa vertical perto do mastro. Forçando a vista para enxergar melhor a foto, Dexter conseguiu divisar a quarta faixa; não estava muito nítida, mas estava ali.

Uma faixa vermelha vertical perto do mastro; faixas horizontais verde, branca e preta correndo até a borda adejante. Zilic estava em pé num aeroporto em algum lugar dos Emirados Árabes Unidos.

Mesmo em dezembro, um eslavo de pele clara podia ficar com um nariz bem queimado nos Emirados Árabes.

 

                   O GOLFO

HÁ SETE PAÍSES NOS EMIRADOS ÁRABES UNIDOS, MAS APENAS os três maiores e mais ricos, Dubai, Abu Dhabi e Sharjah, costumam ser lembrados. Os outros quatro são bem menores e quase anônimos.

Todos ocupam a península na ponta sudoeste da planície saudita, aquela língua de deserto que separa o golfo Arábico ao norte e o golfo de Orna ao sul.

Apenas um, Al Fujairah, estende-se para sul até o golfo de Omã e, portanto, o mar Arábico; os outros seis sucedem-se numa linha ao longo da costa norte, voltando-se para o Irã sobre a água. Fora as sete capitais, há a cidade-oásis de Al Ain, no meio do deserto, que também possui um aeroporto.

Enquanto estava em Belgrado, Dexter encontrou um estúdio fotográfico que dispunha da tecnologia para reprocessar a fotografia de Zoran Zilic, aumentar sua nitidez e depois ampliála de seu tamanho original, de carta de baralho, até o tamanho de uma folha de livro comum.

Enquanto o fotógrafo trabalhava numa tarefa, Dexter retornou ao cibercafé, fez uma pesquisa sobre os Emirados Arabes Unidos e baixou tudo que conseguiu. No dia seguinte embarcou no vôo regular da JAF via Beirute até Dubai.

Os Emirados Árabes devem sua riqueza basicamente ao petróleo, embora todos tenham tentado ampliar a base de suas economias para incluir turismo e comércio livre de impostos. A maioria de seus depósitos de petróleo fica no mar.

As plataformas de petróleo precisam ser reabastecidas constantemente com alimentos e utensílios, e embora os veículos usados para cargas pesadas sejam navios, todas as viagens pessoais são mais rápidas e fáceis de helicóptero.

As companhias petrolíferas que operam as plataformas possuem seus próprios helicópteros, mas mesmo assim há amplo espaço para empresas de frete, e a Internet revelou três delas, em Dubai. O americano Alfred Barnes tinha se tornado um advogado ao visitar a primeira. Ele escolheu a menor companhia, presumindo que seria a menos interessada em formalidades e a mais interessada em notas de dólar. Estava certo nos dois sentidos.

O escritório da firma era um ambiente modular da Portakabin, e o proprietário e piloto principal revelou-se um ex-piloto inglês da força aérea britânica tentando ganhar a vida. É difícil ser mais informal do que isso.

- Alfred Barnes, advogado - disse Dexter, estendendo a mão. - Tenho um problema, um cronograma apertado e um orçamento amplo.

O ex-capitão inglês ergueu uma sobrancelha. Dexter empurrou a foto sobre a mesa queimada por pontas de cigarro.

- Meu cliente é, ou melhor era, um homem muito rico.

- Ele perdeu tudo? - perguntou o piloto.

- De certa forma. Morreu. Minha firma de advocacia é a executora do testamento. E este homem é o principal beneficiario.

Só que ele não sabe e não conseguimos encontrá-lo.

- Sou um piloto de aluguel, não um funcionário do Departamento de Pessoas Desaparecidas. Em todo caso, nunca o vi mais gordo.

- Não há motivo para ter visto.

O que pode ter visto é o fundo da fotografia. Olhe com cuidado. É um aeroporto ou um campo de pouso, certo? A última coisa que soubemos foi que ele estava trabalhando na aviação civil aqui nos Emirados Árabes Unidos. Se eu conseguisse identificar esse aeroporto, provavelmente poderia encontrá-lo.

O que você acha?

O piloto estudou o fundo da fotografia.

- Os aeroportos aqui têm três seções: militar, linhas aéreas e aviões particulares. Essa asa pertence a um jato executivo. Aqui no Golfo há centenas deles. A maioria ostenta logomarcas de companhias aéreas e pertence a árabes ricos. O que você quer fazer?

O que Dexter queria comprar era o acesso do capitão às seções aeronáuticas de todos esses aeroportos. Ele conseguiu isso a um preço, e levou dois dias. A história

de cobertura era que ele tinha de pegar um cliente. Depois de sessenta minutos dentro do complexo de jatos executivos, quando o cliente fictício não aparecia, o capitão dizia à torre que ele estava cancelando o frete e saindo do circuito.

Os aeroportos em Abu Dhabi, Dubai e Sharjah eram imensos e até o setor aeronáutico privado de cada um deles era bem maior que o fundo da fotografia.

Os emirados de Ajman e Umm al-Qaiwain não tinham aeroportos próprios, ficando muito próximos do aeroporto de Sharjah. Assim, sobrava a cidade de Al Ain, no meio do deserto; Al Fujairah na extremidade da península de frente para o golfo de Omã; e, bem lá no norte, a menos conhecida de todas, Rãs al-Khaimah.

Eles a encontraram na manha do segundo dia. O Jetranger da Bell voou sobre o deserto para pousar no que o britânico chamou de Al K, e ali estavam os hangares com a bandeira adejando por trás.

O prédio de chegada e partida tanto para a linha aérea quanto para o jato particular era limpo, arrumado e pequeno, com ênfase no pequeno. Batizado em homenagem à família do emir, o Al-Quassimi International Airport claramente jamais perturbava as companhias aéreas cujos nomes eram mundialmente famosos.

Na calçada diante do prédio terminal ficavam os Antonovs eTupolevs de fabricação russa. Havia também um velho biplano Yakovlev. Um avião de passageiros ostentava as cores e a logomarca da Tajikistan Airlines. Dexter subiu um andar até a lanchonete e pediu um café.

O mesmo pavimento continha os escritórios administrativos, incluindo o supremamente otimista departamento de Relações Públicas. O único habitante era uma jovem nervosa, paramentada dos pés à cabeça num chador preto, com apenas as mãos e o rosto oval e pálido visíveis. Ela falava um inglês claudicante.

Alfred Barnes agora havia se tornado um executivo de desenvolvimento para projetos de turismo numa grande companhia americana e queria perguntar sobre os recursos que Rãs al-Khaimah poderia oferecer aos executivos em busca de um centro de conferências exótico; particularmente precisava saber se poderiam oferecer serviços de aeroporto para os jatos executivos nos quais eles chegariam.

A moça foi educada, mas inflexível. Todas as requisições relativas a turismo deveriam ser endereçadas ao Departamento de Turismo no Centro Comercial, bem ao lado da Cidade Velha.

Um táxi os levou até lá. Era um pequeno prédio em forma de cubo num sítio de desenvolvimento, a cerca de 450 metros do Hilton e bem na fronteira de um porto de águas profundas novinho em folha. Não parecia estar sob a guarda de pessoas interessadas em promover o turismo.

Se alguém lhe pedisse para definir a si próprio, o Sr. Hussein ai Khoury diria que era um bom homem. Mas isso não fazia dele um homem satisfeito. Para justificar a primeira definição, diria que tinha apenas uma esposa, mas que a tratava bem. Ele tentava educar suas quatro crianças como um bom pai deveria. Ele comparecia à mesquita todas as sextas e dava esmolas a instituições de caridade, de acordo com seus recursos e com as escrituras.

Ele deveria ter subido na vida. Mas aparentemente Alá não lhe sorrira. Permanecera preso em postos intermediários do Ministério do Turismo; especificamente, permanecia preso num pequeno cubo de tijolos num sítio de desenvolvimento nas proximidades do porto de águas profundas, onde ninguém jamais aparecia. Então, um dia, o americano sorridente entrou.

Ele ficou deliciado. Finalmente uma requisição, e a chance de praticar o inglês sobre o qual passara tantas centenas de horas. Depois de vários minutos de cortesias - este americano compreendia que os árabes não gostam de ir direto aos negócios - concordaram que, como o ar-condicionado tinha quebrado e a temperatura lá fora estava em quase quarenta graus, deveriam usar o táxi do americano para seguir até o restaurante do Hilton.

Acomodado no frescor agradável do bar do Hilton, o Sr. ai Khoury estava intrigado com o fato do americano não parecer apressado em falar de negócios. Finalmente o árabe perguntou:

- Em que posso ajudá-lo?

O americano respondeu num tom muito sério:

- Você sabe, meu amigo, minha filosofia de vida é de que nosso Criador nos colocou nesta Terra para ajudarmos um ao outro. E acredito que sou eu quem está aqui para ajudar você.

Quase distraidamente, o americano começou a remexer seus bolsos à procura de alguma coisa. Deles saíram seu passaporte, várias cartas de apresentação dobradas e um bloco de notas de cem que tirou o fôlego do Sr. ai Khoury.

- Deixe-me ver se podemos ajudar um ao outro. O funcionário público olhou para os dólares.

- Se há alguma coisa que eu possa... - murmurou.

- Devo ser honesto com você, Sr. ai Khoury. Meu verdadeiro trabalho na vida é de cobrador de dívidas. Não é um trabalho muito elegante, mas é necessário. Quando compramos coisas, devemos pagar por elas. Não concorda?

- Evidentemente.

- Há um homem que costuma passar pelo seu aeroporto. Em seu próprio jato executivo. Este homem.

O Sr. ai Khoury olhou a foto durante alguns segundos, e então balançou a cabeça. Seu olhar voltou para o maço de dólares. Quatro mil? Cinco? Ajudaria a pagar a universidade de Faisal...

- O fato é que este homem não pagou por seu avião. Portanto, de certa forma, ele o roubou. Ele pagou o depósito e depois saiu voando para nunca mais ser visto. Provavelmente mudou o número de registro. Sabe, esses aparelhos são muito caros. Cada um custa vinte milhões de dólares. Assim, os verdadeiros proprietários ficariam muito gratos, de forma extremamente prática, a qualquer um que pudesse ajudá-los a localizar aeronave.

- Mas se ele está aqui agora, comunique à polícia. Confisque o avião. Nós temos leis...

- A propósito, ele partiu de novo. Mas sempre que ele pousa aqui, há um registro. Ele fica armazenado nos arquivos do aeroporto de Rãs al-Khaimah. Agora, um homem com sua autoridade poderia requerer para ver esses arquivos.

O funcionário público enxugou os lábios com um lenço limpo.

- Quando este aeroplano esteve aqui?

- Em dezembro último.

Antes de sair do Condomínio 23, Dexter descobrira com a Sra. Petrovic que seu filho estivera fora de 13 a 20 de dezembro. Calculando que Srechko havia tirado sua fotografia, sido visto, percebido que tinha sido visto, e partido imediatamente para casa, ele teria estado em Rãs al-Khaimah por volta do dia 18. Como ele tinha descoberto que deveria vir para cá, Dexter não tinha a menor idéia. Ele devia ter sido um repórter muito bom, ou muito sortudo. Kobac deveria ter-lhe dado o emprego.

- Muitos jatos executivos vêm para cá - disse o Sr. ai Khoury.

- Tudo de que preciso são os números de registro e os tipos de cada jato executivo de propriedade privada ou empresarial, estacionado aqui entre os dias 15 e 19 de dezembro último. Agora, quantos terão sido nesses quatro dias? Dez?

Ele rezou para que o árabe não perguntasse como ele, na condição de representante dos vendedores, não soubesse o número de registro do jato. Ele começou a folhear notas de cem dólares.

- Como um símbolo de minha boa-fé. E minha confiança total em você, meu amigo. E os outros quatro mil depois.

O árabe ainda parecia desconfiado, dividido entre o desejo por aquela soma magnífica e o medo de ser descoberto e demitido. O americano insistiu.

- Eu nem sonharia em lhe pedir que fizesse alguma coisa que prejudicasse seu país. Mas este homem é um ladrão. Tirar dele o que roubou certamente só pode ser uma coisa boa. As escrituras não pregam que a justiça deve ser feita?

A mão do Sr. ai Khoury cobriu os mil dólares.

- Vou me hospedar neste hotel - disse Dexter. - Quando estiver pronto, basta pedir para falar com o Sr. Barnes.

Ele recebeu o telefonema dois dias depois. O Sr. ai Khoury estava levando seu novo papel como agente secreto muito a sério. Ele telefonou de uma cabine telefônica num local público.

- Aqui é o seu amigo - disse uma voz arfante.

- Olá, meu amigo, você quer me ver? - perguntou Dexter.

- Estou com a encomenda.

- Aqui ou no escritório?

- Em nenhum dos dois lugares. São públicos demais. O hotel Al Hamra Fort. Almoço.

Suas palavras não podiam ser mais suspeitas, caso alguém estivesse ouvindo, mas Dexter duvidava que o serviço secreto de Rãs al-Khaiman estivesse no caso.

Ele pediu as contas e chamou um táxi. O hotel Al Hamra Fort ficava fora da cidade, a dezesseis quilômetros descendo a costa. Era uma conversão luxuosa de uma velha fortaleza árabe transformada numa estância turística de cinco estrelas.

Chegou ao meio-dia, cedo demais para o almoço no Golfo, mas encontrou uma cadeira reclinável no saguão, pediu uma cerveja e ficou observando o arco da entrada. Era

um pouco mais de uma da tarde quando o Sr. ai Khoury apareceu, suando em bicas devido à caminhada de noventa metros desde seu carro no estacionamento. Dos cinco restaurantes eles escolheram o libanês, com seu bufê frio.

- Algum problema? - indagou Dexter enquanto pegavam seus pratos.

- Não - disse o funcionário público. - Expliquei que meu departamento estava contatando todos os visitantes conhecidos para mandar-lhes um catálogo descrevendo nossas novas instalações no Rãs al-Khaimah.

- Isso é brilhante! - exclamou Dexter com um sorriso. - Ninguém achou estranho?

- Pelo contrário. Os oficiais no Tráfego Aéreo insistiram em me enviar todos os planos de vôo para dezembro.

- Você mencionou a importância dos proprietários europeus?

- Sim, mas há apenas quatro ou cinco deles que não são companhias de petróleo bem conhecidas. Vamos nos sentar.

Eles escolheram uma mesa de canto e pediram duas cervejas. Como muitos árabes modernos, o Sr. ai Khoury não tinha o menor problema com bebidas alcoólicas.

Ele claramente apreciava a comida libanesa. Enchera o prato com mezzah, homus, moutabel, queijo halloumi levemente grelhado, sambousek, quibe e charuto de folhas de uva. Empurrou uma folha de papel para Dexter e começou a comer.

Dexter correu os olhos pelas listas de planos de vôo marcados para dezembro, juntamente com a hora e a duração de permanência antes da partida, até chegar a 15 de dezembro. com uma caneta marca-texto vermelha, sublinhou os que apareciam a partir dali, cobrindo o período até 19 de dezembro. Havia nove.

Dois Grumman Three e um Grumman Four pertenciam a companhias petrolíferas americanas conhecidas internacionalmente. Um French Dassault Mystere e um Falcon pertenciam à Elf-Aquitaine. Restavam quatro.

Sabia-se que um Lear Jet menor pertencia a um príncipe saudita, e um Cessna Citation maior a um empresário multimilionário de Bahrain. Os dois últimos eram um Westwind de fabricação israelense que chegara de Bombaim e um Hawker 1000 que viera do Cairo e voltara para lá. Alguém tinha anotado alguma coisa em escrita árabe ao lado do Westwind.

- O que isso significa? - perguntou Dexter.

- Ah, sim, esse aí é regular. Pertence a um produtor de cinema indiano. De Bombaim. Ele faz escala em seu percurso para Londres, Cannes ou Berlim. Todos os festivais de cinema. O pessoal da torre reconhece o avião de vista.

- Está com a foto?

Al Khouri devolveu-lhe a fotografia emprestada.

- Esse aí, eles acham que é do Hawker.

O Hawker 1000 tinha número de registro P4-ZEM e estava registrado como pertencente à Zeta Corporation, de Bermudas.

Dexter agradeceu a seu informante e pagou os quatro mil dólares prometidos. Era muito por um bolo de papel, mas Dexter achou que agora tinha a pista de que precisava.

Em seu percurso de volta para o aeroporto de Dubai, ele pensou numa coisa que lhe fora dita. Que quando um homem muda sua identidade completamente, ele não consegue resistir à tentação de manter um detalhezinho, pelos velhos tempos.

Por acaso ZEM eram as primeiras três letras de Zemun, o bairro de Belgrado onde Zoran Zilic havia nascido e crescido. E em grego e espanhol, Zeta era a letra z.

Mas Zilic certamente havia escondido a ele e suas empresas de cobertura, para não mencionar seu avião, se o Hawker realmente era dele, por trás de camadas de proteção.

Os registros estavam lá fora em algum lugar, mas estariam armazenados em bancos de dados fora do alcance dos leigos.

Dexter entendia muito de computadores, mas jamais conseguiria penetrar um banco de dados protegido. Mas lembrou-se de alguém que poderia.

 

                   A CONFRONTAÇÃO

NO QUE DIZ RESPEITO A QUESTÕES ÉTICAS, O QUE É CERTO e o que é errado, o diretor-assistente do FBI Colin Fleming jamais desistia. O conceito de "Sem rendição" estava em seus ossos e genes, trazidos através do Atlântico um século antes, das ruas calçadas com paralelepípedos de Portadown. Duzentos anos antes disso, seus ancestrais haviam trazido seu código presbiteriano para Ulster, da costa oeste da Escócia.

No que dizia respeito à maldade, tolerar era aceitar, aceitar era perdoar, perdoar era reconhecer a derrota. Isso era algo que ele era incapaz de fazer.

Quando leu a síntese do relatório de Rastreador e a confissão do sérvio, e quando alcançou os detalhes da morte de Ricky Colenso, ele determinou que o homem responsável deveria, se isso fosse possível, enfrentar o devido processo numa corte de justiça no melhor país do mundo, o dele.

De todas as pessoas nas diversas agências que haviam lido o relatório e o pedido conjunto do secretário Powell e do procurador-geral Ashcroft, ele tomara como quase pessoal o fato de seu departamento não possuir conhecimento corrente sobre Zoran Zilic e não poder ajudar.

Numa última tentativa de fazer qualquer coisa, ele havia circulado uma fotografia do rosto do gangster sérvio para os 38 "delegados" posicionados no exterior.

Era uma foto muito melhor do que a que estava em qualquer arquivo de imprensa, embora não tão recente quanto aquela que uma moradora do Condomínio 23 dera ao Vingador.

A razão para sua qualidade era que fora tirada em Belgrado por uma camera munida de zoom sob ordem do chefe de posto da CIA, cinco anos antes, quando Zilic era uma das pessoas mais importantes da corte de Milosevic.

O fotógrafo pegara Zilic emergindo de seu carro, no ato de se empertigar, cabeça levantada, olhar na direção das lentes que ele não via a quase meio quilômetro de distância. Dentro da embaixada de Belgrado o delegado do FBI obtivera uma cópia de seu colega da CIA, de modo que ambas as agências possuíam a mesma foto.

Falando em termos amplos, a CIA opera fora dos Estados Unidos da América, e o FBI opera dentro. Porém, durante o combate contínuo contra a espionagem, o terrorismo e o crime, o FBI não tem escolha senão colaborar intensiva e extensivamente com países estrangeiros, em especial aliados, e com esse fim mantém adidos legais no exterior.

Pode parecer que o adido legal é algum tipo de posto diplomático, respondendo ao Departamento de Estado. Mas não é. O "delegado" é o representante do FBI dentro da embaixada americana. Cada um deles tinha recebido a fotografia de Zilic do diretor-assistente Fleming com uma instrução para exibi-la na esperança de um golpe de sorte. Imprevisivelmente, esse golpe veio na forma do inspetor bin Zayeed.

Se alguém lhe pedisse para definir a si próprio, o inspetor Moussa bin Zayeed também diria que era um bom homem. Ele servia a seu emir, o xeque Maktoum de Dubai, com absoluta lealdade, não aceitava subornos, honrava seu Deus e pagava seus impostos. Se tinha um segundo trabalho, como informante, passando informações para seu amigo na embaixada americana, isso era simplesmente cooperação com o aliado de seu país e não podia ser confundido com qualquer outra coisa.

E foi assim que ele se encontrou, com a temperatura externa de julho quase chegando aos quarenta graus, abrigado no saguão com ar-condicionado da embaixada, esperando que seu amigo descesse para levá-lo para almoçar. Seu olhar se desviou para o quadro de avisos.

Ele se levantou e caminhou até o quadro. Ali estavam os comunicados usuais de eventos, cerimônias, chegadas, partidas e convites para vários clubes. Em meio a todo aquele lixo havia uma fotografia com a pergunta impressa: "Você viu este homem?"

- Bem, você viu? - perguntou uma voz animada atrás dele, e uma mão segurou seu ombro.

Era Bill Brunton, seu contato, anfitrião para o almoço e adido legal. Eles trocaram cumprimentos amigáveis.

- Vi, sim - disse o oficial da Divisão Especial. - Há duas semanas.

A expressão alegre de Brunton se apagou de seu rosto. O restaurante de frutos do mar em Jumeirah poderia esperar um pouco.

- Vamos dar um pulinho no meu escritório - sugeriu.

- Lembra onde e quando? - perguntou o delegado depois que estavam no escritório.

- Claro. Faz uns quinze dias. Estava visitando um parente em Rãs al-Khaimah. Estava na Faisal Road; você conhece? A estrada que sai da cidade pelo litoral, entre a Cidade Velha e o Golfo.

Brunton fez que sim.

- Bem, um caminhão de carga estava tentando manobrar de ré para um canteiro de obras estreito. Ele teve de parar. À minha esquerda estava o terraço de um restaurante.

Ali estavam três homens sentados à mesa. Um deles era esse. Ele apontou para a fotografia que agora estava pousada na mesa do delegado.

- Nenhuma dúvida?

- Nenhuma. Esse era o homem.

- Ele estava com dois outros?

- Estava.

- Você os conhecia?

- Um deles por nome. O outro apenas de vista. O que eu conhecia por nome era Bout.

Bill Brunton respirou fundo. Vladimir Bout dispensava apresentações a praticamente qualquer pessoa do ramo de inteligência no Ocidente ou no Bloco Oriental. Ele era notório. Um ex-major da KGB que se tornara um dos maiores vendedores de armas do mercado negro mundial, um mercador da morte do primeiro time.

O fato de nem sequer ser russo de nascimento, mas um mestiço tadjique de Dushanbe, atestava sua habilidade nas artes funestas. Os russos provavelmente são o povo mais racista da Terra, e a União Soviética costumava referir-se aos cidadãos das repúblicas não-russas como "chorny", que significava negros. E isso não era um cumprimento.

Apenas russos-brancos e ucranianos podiam escapar do termo e ascender na hierarquia em termos de igualdade com um russo étnico. O fato de um mestiço como Bout ter se formado no prestigioso Instituto Militar de Línguas Estrangeiras, uma academia de treinamento da KGB, e chegar ao posto de major, era incomum.

Ele foi designado ao Regimento de Navegação e Transporte Aéreo da Força Aérea Soviética, mais uma "fachada" secreta para envios de armas para guerrilhas antiocidentais e regimes do Terceiro Mundo que se opunham ao capitalismo. Foi ali que pôde usar seu domínio de português na guerra civil angolana. E também fechou contratos formidáveis na força aérea.

Quando a União Soviética ruiu em 1991, o caos reinou por vários anos, e os inventários militares simplesmente foram abandonados enquanto comandantes de unidades vendiam seus equipamentos por praticamente qualquer preço. Bout simplesmente comprou os dezesseis Ilyushin 76 de sua própria unidade por uma bagatela e ingressou no ramo de fretes aéreos e transporte de cargas.

Em 1992 voltou para o sul. A guerra civil afegã havia começado, bem perto da fronteira de sua terra natal, o Tadjiquistão. Um dos principais participantes dessa guerra era seu conterrâneo tadjique, o general Dostum. O único "frete" que o bárbaro Dostum queria eram armas; Bout as forneceu.

Em 1993 ele apareceu em Ostende, Bélgica, um ponto de transição para se mover para a África através da ex-colônia belga, o permanentemente destruído Congo. Sua fonte de suprimentos era ilimitada, os inesgotáveis depósitos da antiga União Soviética, ainda operando em inventários fictícios. Entre seus novos clientes estava a Interahamwe, os açougueiros genocidas de Ruanda/Burundi.

Isto finalmente enfureceu até os belgas, e ele foi tocado para fora de Ostende, aparecendo em 1995 na África do Sul para vender tanto para as guerrilhas da Unita de Angola quanto para seus inimigos no governo do MPLA. Mas com Nelson Mandela ocupando a presidência da África do Sul, as coisas ficaram difíceis para ele ali, e teve de partir às pressas.

Em 1998 ele apareceu nos Emirados e se estabeleceu em Sharjah. Os britânicos e os americanos colocaram o dossiê dele na frente do emir e três semanas antes de Bill Brunton levar o inspetor bin Zayeed ao seu escritório para os dois conversarem, Bout tinha sido escorraçado mais uma vez.

Mas sua reação foi simplesmente mover-se dezesseis quilômetros costa acima e se estabelecer em Ajman, adquirindo uma suíte de salas no prédio da Câmara de Comércio e Indústria, com apenas quarenta mil pessoas, Ajman não tinha petróleo e sua indústria era pouca, não podendo ser tão peculiar quanto Sharjah.

Para Bill Brunton o reconhecimento do homem na fotografia era importante. Ele não sabia por que seu superior, Colin Fleming, estava interessado no sérvio desaparecido, mas o relatório certamente iria lhe valer alguns pontos no Edifício Hoover.

- E o terceiro homem? - perguntou. - Você disse que o conhece de vista. Alguma idéia de onde?

- Claro. Daqui. Ele não é um dos seus colegas?

Se Bill Brunton achou que suas surpresas naquele dia haviam acabado, estava errado. Ele sentiu seu estômago executar algumas acrobacias.

Cuidadosamente, ele retirou uma pasta da última gaveta de sua mesa. Era um compêndio de funcionários da embaixada. O inspetor bin Zayeed hesitou em apontar o rosto do adido cultural.

- Esse aí - disse ele. - Esse era o terceiro homem à mesa. Você o conhece?

Burton o conhecia muito bem. Embora os intercâmbios culturais fossem poucos e escassos, o adido cultural era um homem muito atarefado. Isso porque, por trás da fachada de orquestras visitantes, ele era o chefe de posto para a CIA.

As notícias vindas de Dubai deixaram Colin Fleming fumegando de raiva. Não pelo fato da agência secreta em Langley estar conferenciando com um homem como Vladimir Bout. Isso podia ser necessário durante um procedimento de coleta de informações. O que o deixou furioso foi o fato de que alguém no alto da hierarquia da CIA havia mentido ao secretário de Estado, Colin Powell, e ao seu superior, o procurador-geral. Muitas regras tinham sido quebradas aqui, e ele tinha certeza absoluta de quem as havia quebrado. Telefonou para Langley e requisitou uma reunião urgente.

Os dois já haviam se encontrado antes. Haviam brigado diante da conselheira de Segurança Nacional, Condoleezza Rice, e existia pouco amor entre eles. Ocasionalmente, os opostos se atraem, mas este não era o caso.

Paul Deveraux In era o herdeiro de uma longa linhagem daquelas famílias quase aristocráticas de Massachusetts. Era da alta classe de Boston Brahmin até as raízes dos cabelos.

Ele demonstrou seu brilhantismo intelectual muito antes da idade escolar, e atravessou rapidamente o Boston College High School, a principal unidade provedora para uma das principais academias jesuítas nos Estados Unidos. Quando se formou, suas notas foram summa cum lauãe.

No Boston College os tutores tinham-no marcado como sério candidato a um dia se juntar à Sociedade de Jesus, se não a ocupar um posto alto em algum lugar na Academia.

Ele estudou para um mestrado em humanidades, com fortes componentes em filosofia e teologia. Devorou todos os autores, de Inácio de Loyola, é claro, a Teilhard de Chardin. Varou madrugadas discutindo com seu tutor em teologia sobre o conceito da doutrina do mal menor e do bem maior; que os fins podem justificar os meios e ainda assim não amaldiçoar a alma, desde os parâmetros do ilegítimo não sejam rompidos. Em 1966 tinha dezesseis anos. Foi o pináculo da Guerra quando o comunismo ainda parecia capaz de dominar o Terceiro Mundo e fazer do Ocidente uma ilha sitiada. Foi nesse momento que o papa Paulo VI apelou aos jesuítas e os incumbiu de liderar a missão de combater o ateísmo.

Para Paul Devereaux os dois eram sinônimos: ateísmo nem sempre era comunismo, mas comunismo era ateísmo. Ele serviria ao seu país não na Igreja ou na Academia, mas naquele outro lugar que lhe fora mencionado discretamente no clube de campo por um homem, fumante de cachimbo, que foi apresentado por um colega de seu pai.

Uma semana depois de se formar pelo Boston College, Paul Devereaux foi convocado para as fileiras da Central Intelligence Agency, a CIA. Para ele foi a manhã luminosa e feliz cantada pelo poeta. As tempestades ainda estavam por vir.

com seus antecedentes e contatos patrícios, Paul Devereaux subiu na hierarquia, afiando as farpas de inveja com uma combinação de charme calmo e inteligência arguta.

Também provou que tinha um balde cheio da moeda mais valorizada na CIA naquela época: era leal. Um homem detentor dessa qualidade pode ser perdoado por muitas coisas; às vezes, coisas demais.

Ele passou algum tempo nas três principais divisões: Operações (Ops), Inteligência (Análise) e Contra-Inteligência (Segurança Interna). Sua carreira finalmente se viu ameaçada com a chegada de John Deutsch à direção.

Os dois homens simplesmente não se toleravam. Esse tipo de coisa acontece. Deutsch, que não possuía antecedentes em coleta de informações, era o último numa longa e, considerando agora, tremendamente desastrosa linha de designados políticos. Ele acreditava que Devereaux, fluente em sete linguagens, queria ocupar seu lugar.

E tinha razão.

Devereaux considerava o novo diretor um néscio politicamente correto designado pelo presidente oriundo do Arkansas que, embora fosse um colega democrata, ele desprezava. E isso foi antes de Paula Jones e Monica Lewinsky.

Esses dois não eram feitos um para o outro, e seu casamento quase chegou a um divórcio quando Devereaux apresentouse em defesa de um chefe de divisão na América do Sul acusado de empregar contatos insalubres.

A agência inteira tinha engolido a Ordem Presidencial Executiva 12333, exceto por alguns dinossauros que retroagiam à Segunda Guerra Mundial. Essa foi a Ordem Executiva do presidente Ronald Reagan que proibiu mais "extermínios".

Devereaux tinha reservas consideráveis, mas ocupava um posto baixo demais para ser ouvido. Ele achava que no mundo absolutamente imperfeito ocupado por angariadores de informações sigilosas disfarçados havia ocasiões em que um inimigo na forma de um traidor poderia ser "exterminado" como medida preventiva. Colocando de outra forma, uma vida poderia ser extinta para preservar prováveis dez.

Quanto ao julgamento final num caso como esse, Devereaux acreditava que se o próprio diretor não era um homem de integridade moral suficiente a quem se confiar uma decisão como essa, ele não deveria ser o diretor.

Mas sob o governo de Clinton, na visão do agente agora veterano, a correção política alcançou níveis absurdos com as instruções de que fontes discutíveis não deveriam ser usadas como informantes. Para ele, isso era o mesmo que receber uma ordem de tomar como contatos apenas monges e coroinhas.

Portanto, quando um homem na América do Sul foi ameaçado com a ruína de sua carreira por usar ex-terroristas para informar a respeito de terroristas atuantes, Devereaux escreveu um documento tão sarcástico que circulou por todos os funcionários sorridentes da Divisão de Operações como os samizdat llegais na velha União Soviética.

Nesse momento Deutsch quis requerer a saída de Deveraux, mas seu vice-diretor, George Tenet, aconselhou cautela. No fim das contas, foi Deutsch quem saiu, para ser substituído pelo próprio Tenet.

Uma coisa aconteceu na África naquele verão de 1998 que fez o novo diretor precisar do intelectual mordaz, mas eficiente, a despeito de sua opinião sobre o comandante supremo de ambos. Duas embaixadas americanas explodiram.

Não era segredo para ninguém que desde o final da Guerra Fria, em 1991, a nova guerra fria vinha sendo contra o terrorismo, e que a unidade "da moda" dentro da Divisão de Operações era o Centro de Contraterrorismo.

Paul Devereaux não estava trabalhando no Centro de Contraterrorismo. Como uma de suas línguas era o árabe, e sua carreira incluía três períodos em países árabes, ele era, nessa época, o Número Dois no Oriente Médio.

A destruição das embaixadas tirou-o de lá e o colocou na liderança de uma pequena força-tarefa dedicada a uma única missão. Uma força-tarefa que se reportava apenas ao diretor. A missão era chamada Operação Peregrino, em homenagem ao falcão que paira alto e silencioso sobre sua presa até ter certeza de que poderá fazer uma investida fatal, e só então desce com velocidade e precisão extraordinárias.

Em seu novo cargo, Devereaux tinha acesso ilimitado a qualquer informação de qualquer outra fonte que pudesse querer, e a uma equipe pequena mas especializada. Para seu Número Dois ele escolheu Kevin McBride, que podia não ser nenhum gênio, mas era muito experiente, energético e leal. Foi McBride quem atendeu o telefone e tampou o bocal com a mão.

- O diretor-assistente Fleming do FBI - disse ele. - Não parece nada feliz. Devo me retirar?

Devereaux fez um gesto para que ele ficasse.

- Colin... Paul Devereaux. O que posso fazer por você? Sua testa franziu enquanto escutava.

- Ora, claro, acho que uma reunião seria uma ótima idéia. Era um esconderijo seguro; um lugar sempre conveniente para uma reunião. O lugar era "varrido" diariamente em busca de escutas, cada palavra era gravada com o conhecimento total dos participantes da conferência, e bebidas podiam ser pedidas a qualquer momento.

Fleming empurrou o relatório de Bill Brunton debaixo do nariz de Devereaux e o deixou ler. O rosto do arabista permaneceu impassível.

- E daí?

- Por favor, não me diga que o inspetor em Dubai está enganado - disse Fleming. - Zilic era o maior traficante de armas da Iugoslávia. Um belo dia sumiu do mapa.

Agora é visto conferenciando com o maior traficante de armas no Golfo e na África. Totalmente lógico.

- Eu nem sonharia em desafiar a lógica - disse Devereaux.

- E em conferência com o seu homem que cobre o golfo Arábico.

- O agente da CIA que cobre o golfo Arábico - corrigiu educadamente Devereaux. - Por que eu?

- Porque você virtualmente dirige o Oriente Médio, embora devesse ser o segundo em comando. Porque naquela época todos os agentes no Golfo se reportavam a você.

Porque embora esteja agora em algum tipo de Projeto Especial, essa situação não mudou. Porque duvido muito que aquele dia, duas semanas atrás, tenha sido a primeira vez em que Zilic esteve naquelas bandas. Meu palpite é que você sabia exatamente onde Zilic estava quando a requisição passou por todos canais competentes, ou pelo menos que ele estaria no Golfo e disponível para uma captura num determinado dia. E não disse nada.

- E daí? Mesmo no nosso ramo, suspeita não é prova.

- Isto é mais sério do que imagina, meu amigo. Você e seus agentes estão negociando com criminosos notórios, e do tipo mais imundo. Contra as regras, absolutamente contra as regras.

- E daí? Algumas regras idiotas foram quebradas. Nosso ramo não é para frescos. Até o FBI precisa ter uma compreensão do mal menor para obter o bem maior.

- Não me venha com ares de superioridade - disse Colin Fleming.

- Vou tentar - retrucou o bostoniano. - Muito bem, você está furioso. O que vai fazer quanto a isso?

Não havia mais motivos para ser educado. As luvas tinham sido retiradas e estavam no chão.

- Acho que não posso permitir que isto continue - disse Fleming. - Esse tal Zilic é obsceno. Você deve ter lido o que ele fez com aquele garoto de Georgetown. Mas está negociando com ele. Por procuração, mas negociando. Você sabe o que Zilic pode fazer, o que ele já fez. Está tudo no arquivo e sei que você deve ter lido. Há testemunhos de que quando era gangster, ele flagrou alguém furtando uma loja. Sabe o que fez? Pendurou o infrator pelos calcanhares quinze centímetros acima de um fogo elétrico até seu cérebro ferver. Ele é um sádico. Para que o está usando, afinal de contas?

- Se o estou usando, então é confidencial. Mesmo para um diretor-assistente do FBI.

- Desista daquele porco. Diga onde podemos encontrá-lo.

- Mesmo se eu soubesse, o que não admito, não. Colin tremia de raiva e repugnância.

- Como pode ser tão complacente? - gritou Colin. - Em 1945, depois de ocuparmos a Alemanha, fizemos acordos com nazistas que deveriam ajudar na luta contra o comunismo.

Jamais devíamos ter feito aquilo. Não devíamos ter tocado naqueles porcos nem com um remo de barco. Era errado naquela época, é errado agora.

Devereaux suspirou. Isto estava ficando cansativo e sem sentido.

- Poupe-me da lição de história. Repito: o que você vai fazer quanto a isso?

- Vou levar o que sei para o seu diretor - disse Fleming. Paul Devereaux se levantou. Era hora de agir.

- Deixe-me dizer uma coisa. Em dezembro passado eu era feito de pano. Fui fritado. Agora sou feito de amianto. Não queimo mais. Os tempos mudam.

O que ele estava querendo dizer era que em dezembro de 2000 o presidente era Bill Clinton.

Depois de uma polêmica cansativa nas cabines de contagem de votos na Flórida, o presidente empossado em janeiro de 2001 foi George W. Bush, cujo cabo eleitoral mais entusiasmado tinha sido ninguém outro senão o diretor da CIA, George Tenet.

E os simpatizantes de Dáblio Bush no FBI não deixariam o Projeto Peregrino fracassar apenas porque alguém ignorou a cartilha politicamente correta de Clinton. Eles teriam feito a mesma coisa.

- Isto não acaba aqui - esbravejou Fleming. - Se depender de mim, ele vai ser achado e trazido de volta.

Devereaux pensou no comentário enquanto dirigia seu carro volta para Langley. Ele não tinha sobrevivido ao ninho de cobras da companhia por trinta anos sem desenvolver antenas formidáveis. Acabara de fazer um inimigo, talvez um inimigo feroz.

"Ele vai ser achado", Fleming dissera. Por quem? Como? E o que o moralista do Edifício Hoover poderia fazer "se depender dele"? Ele suspirou. Mais cuidado num planeta cheio de estresses. Ele teria de vigiar Colin Fleming como um gavião... ou melhor, como um falcão peregrino. A piada o fez sorrir, mas não por muito tempo.

 

                     O JATO

QUANDO VIU A CASA, CAL DEXTER TEVE DE APRECIAR AS IRONIAS ocasionais da vida. Ao invés do GI que virou advogado ter comprado uma casa bonita em Westchester, quem o fez foi o garoto magricela de Bedford Stuyvesant. Em treze anos, Washington Lee havia claramente se saído muito bem.

Quando abriu a porta naquela manhã de domingo no final de julho, Dexter notou que ele tinha consertado os dentes, afinado um pouco o nariz e abaixado o cabelo afro para um corte comportado. Este era um empresário de 32 anos com uma esposa e duas filhas pequenas, uma bela casa e uma empresa de consultoria em informática modesta, mas próspera.

Dexter perdera tudo que ele havia conquistado; Washington Lee conquistara tudo com que jamais havia sonhado. Depois de localizá-lo, Dexter ligara para anunciar sua visita.

- Pode entrar advogado - disse o ex-hacker.

Beberam refrigerantes em cadeiras de lona no quintal dos rundos. Dexter ofereceu um folheto a Lee. Sua capa mostrava um avião executivo de duas turbinas pairando sobre um mar azul.

- Isto é domínio público, é claro. Preciso encontrar um avião desse modelo. Um exemplar específico. Preciso saber quem o comprou, quando, quem o possui agora e, principalmente, onde essa pessoa reside.

- E você acha que não querem que você saiba.

- Se o proprietário vive abertamente e sob seu próprio nome, estou errado. Pista falsa. Se estou certo, ele deve estar escondido em algum lugar com um nome falso, protegido por guardas armados e camadas de proteção computadorizada à identidade.

- E você quer que eu derrube essas camadas.

- Isso.

- Coisas assim ficaram muito mais difíceis nos últimos treze anos - disse Lee. - Droga, sou um dos responsáveis por elas estarem mais difíceis agora, pelo menos do ponto de vista técnico. Os legisladores fizeram a mesma coisa do ponto de vista jurídico. O que você está pedindo é uma invasão. Ou três. Completamente ilegal.

- Eu sei.

Washington Lee olhou à sua volta. As duas meninas estavam dando gritinhos enquanto brincavam numa piscina plástica no fundo do gramado. Cora, sua esposa, estava na cozinha preparando o almoço.

- Treze anos atrás eu estava contemplando uma longa temporada na penitenciária. Teria saído e voltado direto para o gueto. Ao invés disso, ganhei uma chance. Quatro anos trabalhando no banco, nove anos como meu próprio patrão, inventando os melhores sistemas de segurança dos Estados Unidos, ainda que seja eu mesmo quem diga.

Agora é hora de pagar essa dívida. Está combinado, advogado. O que você quer?

Primeiro, eles examinaram o avião. O nome Hawker estava na aviação britânica desde a Primeira Guerra Mundial.

Stephen Edmond tinha pilotado um Hawker Hurricane em 1940. O último caça de sua linha foi o ultraversátil Harrier. Nos anos setenta as companhias menores simplesmente não podiam arcar sozinhas com os custos de pesquisa e desenvolvimento de projetar novos aviões de guerra. Só os gigantes americanos podiam fazer isso, e até eles estabeleciam parcerias. Aos poucos a Hawker passou para o ramo de aviação civil.

Nos anos noventa, todas as companhias britânicas de aviação estavam debaixo de um só teto, a BAW ou British Aerospace. Quando a companhia decidiu se reduzir, a divisão Hawker foi comprada pela Raytheon Corporation, de Wichita, Kansas. Eles mantinham um pequeno escritório em Londres e as instalações de serviço em Chester.

O que encheu os cofres da Raytheon foi o bem-sucedido e popular jato executivo de curto alcance HS 125, o Hawker 800 e o modelo Hawker 1000, capaz de percorrer 4.800 km sem reabastecer.

Mas a pesquisa de Dexter em domínio público mostrava que o modelo 1000 tinha saído de produção em 1996, de modo que, se Zoran Zilic possuía um, devia ser de segunda mão. Além disso, apenas 52 haviam sido fabricados, e trinta deles estavam com uma companhia de frete baseada nos Estados Unidos.

Ele estava procurando por um dos restantes 22, que tinham mudado de dono nos últimos dois anos, três no máximo. Havia alguns vendedores de aviões usados que se moviam na atmosfera rarefeita de aviões tão caros assim. Porém, as chances eram de dez para um que durante a mudança de propietário o avião tivesse sofrido uma revisão completa, o que provavelmente significava retornar à divisão de Hawkers da Raytheon. O que tornava provável que tivessem intermediado a venda.

Mais alguma coisa? - perguntou Lee.

- O registro. P4-ZEM. Não é um dos principais registros internacionais de aviação civil. O número se refere à pequena ilha de Aruba.

- Nunca ouvi falar - disse Lee.

- Anteriormente pertencia às Antilhas Holandesas, juntamente com Curaçau e Bonaire. Eles continuaram holandeses. Aruba se separou em 1986. O governo facilita a abertura de contas bancárias secretas, a emissão de registros de companhia fajutos, esse tipo de coisa. É um pé no saco para os reguladores internacionais de fraudes, mas é uma renda fácil para uma ilha quase sem recursos. Aruba tem uma pequena refinaria de petróleo. Fora isso, sua receita vem do turismo, baseado em alguns recifes de coral fantásticos. Considerando a facilidade com que se consegue documentos falsos em Aruba, aposto que meu alvo mudou o número de registro velho para o novo.

- Então a Raytheon não deve ter qualquer registro do P4-ZEM?

- Tenho quase certeza de que não. Além disso, eles não divulgam os detalhes de seus clientes. De jeito nenhum.

- Veremos - murmurou Washington Lee.

Em treze anos o gênio de computador tinha aprendido muita coisa, em parte porque havia inventado muita coisa. A maioria dos gênios de computador americanos está no Vale do Silício, e para os CDFs de lá respeitarem um nativo da Costa Leste, o sujeito tem de ser bom.

A primeira coisa que Lee tinha dito a si mesmo mil vezes: jamais ser pego novamente. Enquanto contemplava sua primeira ação ilegal em treze anos, determinou que não poderia haver nenhuma forma de seguirem seus rastros cibernéticos até uma casa em Westchester.

- Qual é o tamanho do seu orçamento? - perguntou Washington.

- Adequado. Por quê?

- Quero alugar um trailer Winnebago. Preciso de força doméstica completa, mas preciso transmitir, encerrar e sumir. Em segundo lugar, preciso do melhor computador pessoal que puder montar, e quando isto tiver terminado, terei de jogá-lo num rio bem fundo.

- Não tem problema. De que forma você vai atacar?

- Todos os pontos. Primeiro, os arquivos do governo de Aruba. Eles devem me dar algum indício de como o Hawker era identificado quando a Raytheon o viu pela última vez. Segundo, a Zeta Corporation no Registro das Companhias das Bermudas. Escritório central, destino de todas as comunicações, transferências de dinheiro. Tudo.

Terceiro, aqueles planos de vôo que a companhia registrou. Eles devem ter ido para aquele emirado, como foi que você chamou...?

- Rãs al-Khaiman.

- Certo. Ras-qualquer-coisa. Deve ter chegado até lá vindo de algum lugar.

- Cairo. Veio do Cairo.

- Então seu plano de vôo deve estar registrado nos arquivos do Controle de Tráfego Aéreo do Cairo. Terei de fazer uma visitinha a eles. A boa notícia é que duvido que eles tenham muitas barreiras de proteção.

- Você precisa viajar até o Cairo? - perguntou Dexter. Washington Lee olhou para Dexter como quem olha para um louco.

- Viajar até o Cairo? Para quê?

- Você disse que ia visitá-los.

- Quis dizer no ciberespaço. Posso visitar a base de dados do Cairo de um campo de piqueniques em Vermont. Advogado, por que não vai para casa e espera? Este não é o seu mundo.

Washington Lee alugou seu frailer e comprou, seu PC, mais o software de que precisava para o que tinha em mente. Foi tudo em dinheiro, apesar dos olhares desconfiados.

Só não pagou em dinheiro pelo trailer, pois tinha mesmo de apresentar sua carteira de motorista, mas você não precisa necessariamente ser um hacker para alugar um trailer. Washington Lee também comprou um gerador de força, movido a gasolina, para obter o "suco" doméstico padrão de que precisava para entrar na rede.

A primeira coisa e a mais fácil que fez foi invadir o banco de dados do cartório de Aruba, que opera a partir de um escritório em Miami. Em vez de tentar num fim

de semana, quando uma visita não autorizada seria revelada na manhã de segunda, ele invadiu o arquivo num dia de trabalho intenso, quando o banco de dados estava respondendo a muitas perguntas e a sua passou despercebida na multidão.

O Hawker 1000 P4-ZEM já tinha sido VP-BGG e isso significava que fora registrado em algum lugar na zona de registros britânica.

Washington Lee estava usando um sistema projetado para esconder sua identidade e localização chamado PGP, sigla de "Pretty Good Privacy", ou privacidade danada de boa, que é um sistema tão seguro que chega a ser ilegal. Estabeleceu dois chaveamentos, público e privado. Fez as perguntas no chaveamento público porque esse podia apenas codificar. O recebimento das respostas seria no chaveamento privado, porque esse podia apenas decodificar. A vantagem de seu ponto de vista era que o sistema de codificação, criado por algum patriota que usava matemática teórica pura como hobby, era tão impenetrável que dificilmente alguém conseguiria descobrir quem ele era ou onde estava localizado. Se ficasse online por curtos períodos de tempo e mantivesse sua localização móvel, conseguiria entrar.

Sua segunda linha de defesa era muito mais básica: ele comunicaria por e-mail apenas através de cibercafés nas cidades pelas quais passasse.

O Controle de Tráfego Aéreo do Cairo revelou que o Hawker 1000 P4-ZEM, quando parava ali para reabastecer, na terra dos faraós, vinha dos Açores; todas às vezes.

O fato de que a linha através do mundo corria de oeste para leste através das ilhas portuguesas no meio do Atlântico até o Cairo, e de lá para Rãs al-Khaimah, indicava que o P4-ZEM estava iniciando sua jornada em algum lugar na bacia do Caribe ou na América do Sul. Não havia provas disso, mas fazia sentido.

De um ponto neutro na Carolina do Norte, Washington Lee persuadiu o banco de dados do tráfego aéreo português/ açoriano a admitir que o P4-ZEM havia chegado do oeste, mas estava baseado num campo particular cuja proprietária era a Zeta Corporation. Isso colocou a linha de perseguição através dos planos de vôo arquivados num impasse.

A ilha de Bermudas também opera um sistema de discrição bancária e empresarial que beneficia os clientes dispostos a pagar muitos dólares por alta segurança.

O banco de dados em Hamilton acabou sucumbindo a um Cavalo de Tróia introduzido nele por Washington Lee e informou que a Zeta Corporation estava de fato registrada e incorporada nas ilhas. Mas ele só revelou três cidadãos locais como diretores, todos impecavelmente respeitáveis. Não houve menção a nenhum Zoran Zilic, nenhum nome de sonoridade servia.

Enquanto isso, em Nova York, Cal Dexter, armado com a sugestão de Washington Lee de que o Hawker estava baseado em algum lugar na vizinhança do Caribe, contratara um piloto de aluguel. Dexter o havia defendido quando um passageiro enjoara violentamente e tentara processá-lo argumentando que o piloto deveria ter escolhido um tempo melhor.

- Tente os FIRs - disse o piloto. Era a sigla para o Flight Information Registers (arquivos de informações de vôo). - Eles sabem quem está baseado em suas áreas.

O FIR para o sul do Caribe fica em Caracas, Venezuela, e confirmou que o Hawker 1000 P4-ZEM estava baseado bem ali. Por um momento, Dexter pensou que podia estar perdendo seu tempo em todas as outras formas de pesquisa. Parecia tão simples. Pergunte ao FIR e eles lhe dizem.

- Você sabe, ele não necessariamente está lá - disse seu amigo piloto. - Ele apenas está registrado como estando lá.

- Não entendi.

- É fácil - disse o piloto. - Um iate pode ter Wilmington, Delaware, escrito na proa porque está registrado lá. Mas pode passar sua vida inteira velejando pelas Bahamas. O hangar desse Hawker pode ficar a quilômetros de Caracas.

Assim, Washington Lee propôs o último recurso e instruiu Dexter. Dois dias dirigindo quase sem parar levaram Lee até a cidade de Wichita, Kansas. Quando estava pronto, telefonou para Dexter.

O vice-presidente de vendas recebeu o telefonema de Nova York no seu escritório no quinto andar do edifício de sua sede.

- Estou telefonando em nome da Zeta Corporation de Bermudas - disse a voz,. - Você lembra de nos ter vendido há alguns meses um Hawker 1000, registro VP-BGG? Você sabe, o de propriedade inglesa? Sou o novo piloto.

- Claro que lembro, senhor. E com quem estou falando?

- Acontece que o Sr. Zilic não está satisfeito com a configuração interna da cabine e gostaria de reformá-la. Vocês podem oferecer esse serviço?

- Ora, é claro que reformamos cabines em nossas instalações, senhor... senhor...

- E também poderiam aproveitar para proceder à revisão dos motores.

O executivo sentou ereto em sua cadeira. Lembrava muito bem da venda. Tudo tinha sido providenciado para que nenhuma revisão de grande porte precisasse ser realizada por uns dois anos. A não ser que o novo proprietário passasse o tempo inteiro voando, os motores não precisariam de uma revisão por mais de um ano.

- Posso perguntar exatamente com quem estou falando? Não creio que os motores venham a precisar tão cedo de outra revisão - disse ele.

A voz no outro lado da linha perdeu sua confiança e começou a gaguejar.

- Mesmo? Ah, puxa. Desculpe então. Deve ser o avião errado.

A pessoa no outro lado da linha desligou. Agora o vice-presidente de vendas estava extremamente desconfiado. Que se lembrasse, nunca havia mencionado a venda do registro do Hawker de origem inglesa oferecido pela firma de Avtech de Biggin Hill, Kent. Resolveu pedir à segurança que rastreasse esse telefonema e tentasse estabelecer quem o havia feito.

Mas era tarde demais, claro, porque o celular de cartão estava afundando no East River. Porém, nesse ínterim, ele lembrou do piloto de entrega da Zeta Corporation que tinha ido até Wichita para levar o Hawker até seu novo dono.

Um iugoslavo muito agradável, ex-coronel da força aérea desse país, com documentos em perfeita ordem, incluindo todos os registros da escola de vôo americana onde ele convertera sua licença para o Hawker. Ele checou seus registros de vendas: Capitão Svetomir Stepanovic. E um endereço de e-mail.

Ele compôs um e-mail curto para alertar o capitão do Haw a respeito do telefonema estranho e preocupante e o enviou.

No campo que cercava o edifício da sede da empresa, estacionado atrás de um aglomerado de árvores, Washington Lee perscrutou seu monitor de emanações eletromagnéticas e observou o programa interceptar a mensagem. O texto não tinha a menor importância para ele. O que ele queria era o destino.

Dois dias depois, em Nova York, o trailer havia sido devolvido à companhia de aluguel, o disco rígido e o software afundados em algum lugar no Missouri.

Washington Lee se debruçou sobre um mapa e apontou com um lápis.

- É aqui - disse ele. - República de São Martinho. Oitenta quilômetros a leste da Cidade de São Martinho. E o capitão do avião é um iugoslavo. Acho que finalmente encontrou o homem que estava procurando, advogado. E agora, se me permite, tenho uma casa, uma esposa, duas filhas e um negócio para cuidar.

Vingador comprou os mapas com melhor definição que pôde achar e então mandou ampliá-los ainda mais. Bem no fundo da faixa de terra em forma de lagarto que liga as Américas Norte e Sul, a massa larga da América do Sul começa com a Colômbia a oeste e a Venezuela bem no centro.

A leste da Venezuela ficam as quatro Guianas. A primeira é a antiga Guiana Britânica, agora chamada apenas de Guiana. Em seguida vem a antiga Guiana Holandesa, agora

Suriname. Mais a leste fica a Guiana Francesa, lar da ilha do Diabo e da história de Papillon, que agora abriga o Kourou, o complexo europeu de lançamentos espaciais.

Espremido entre os territórios do Suriname e da Guiana Francesa, Dexter encontrou o triângulo de selva que já tinha sido a Guiana Espanhola, que depois de sua independência passou a ser chamada de São Martinho.

Pesquisas adicionais revelaram que ela era considerada a última das autênticas repúblicas de bananas, regida por um ditador militar brutal, ignorada, pobre, esquálida e varrida pela malária. O tipo de lugar onde o dinheiro poderia comprar um balde de proteção.

No começo de agosto, o Piper Cheyenne II voou ao longo da costa a 1.250 pés, alto o bastante para não despertar muita suspeita, aparentando ser não mais do que um executivo em trânsito do Suriname para a Guiana Francesa, mas suficientemente baixo para permitir uma boa fotografia.

Alugado no aeroporto de Georgetown, Guiana, o Piper tinha um alcance de l.960 km que iria levá-lo exatamente até a fronteira da Guiana Francesa e de volta para casa. O cliente, cujo passaporte revelava-o como o cidadão norte-americano Alfred Barnes, agora afirmava estar numa viagem de pesquisa procurando por locais que pudessem ser explorados como estâncias de turismo. O piloto disse com seus botões que ele, pessoalmente, não pagaria por uma viagem para São Martinho, mas quem ele era para recusar um vôo pago em dinheiro vivo?

Conforme pedido, ele manteve o Piper a uma pequena distância do litoral para que seu passageiro, sentado no assento do co-piloto, à sua direita, pudesse manter suas lentes zoom preparadas para serem usadas através da janela, quando a oportunidade se apresentasse.

Depois que o Suriname e sua fronteira, o rio Commini, sumiram de vista, não havia praias arenosas adequadas por quilômetros. A costa era um emaranhado de mangues, arrastando-se através de águas marrons, infestadas de cobras, da selva para o mar. Eles sobrevoaram a capital, a cidade de São Martinho, adormecida debaixo do sol escaldante.

A única praia ficava a leste da cidade, em La Bahia, mas essa era uma estância exclusiva dos ricos e poderosos de São Martinho, basicamente o ditador e seus amigos. No fim da república, a dezesseis quilômetros das ribanceiras do rio Maroni e o começo da Guiana Francesa, estava El Punto.

Uma península triangular, como uma boca de tubarão, saltando da terra para o mar; protegida do lado da terra por uma cordilheira de costa a costa, cortada ao meio por uma trilha solitária margeando uma garganta. Mas era habitada.

O piloto nunca fora tão longe para leste, de modo que a península era, para ele, simplesmente um triângulo costeiro em seus mapas de navegação. Pôde ver que havia uma espécie de fazenda cercada lá embaixo. Seu passageiro começou a tirar fotografias.

Dexter estava usando uma Nikon F5 35mm com um motopropulsor que lhe daria cinco fotos por segundo e rebobinaria o rolo em sete segundos.

Ajustou o obturador para velocidade 500, devido à vibração do avião. Menos do que isso, causaria uma imagem borrada. com um filme de 400 ASA e uma abertura ajustada em f8, era o melhor que podia fazer.

Na primeira passagem pegou a mansão na ponta da península, com seu muro protetor e portão imenso, mais os campos que estavam sendo tratados por funcionários públicos, fileiras de celeiros e casas, e a cerca de arame farpado que separava os campos do aglomerado de cabanas cúbicas que parecia ser a vila dos trabalhadores.

Várias pessoas olharam para cima, e ele viu dois homens uniformizados começarem a correr. O avião sobrevoou a fazenda em direção ao território francês. Na passagem de volta, Dexter instruiu o piloto a voar em direção ao interior da península, de modo que do banco direito pudesse ver a fazenda de frente. Ele estava baixando os olhos dos picos da serra para a fazenda, a mansão e o mar, mas na garganta havia um guarda anotando o número do Piper.

Ele usou seu segundo rolo de filme no campo de pouso particular que corria ao longo da base das colinas, fotografando as residências, oficinas e o hangar principal.

Havia um trator puxando um jato executivo de dois motores para o interior do hangar e para fora de vista. Quase perdeu o número de registro. Dexter o viu de relance antes da cauda do avião ser engolida pelas sombras. O número era P4-ZEM.

 

                   O JESUÍTA

PAUL DEVEREAUX, POR MAIS CONFIANÇA QUE TIVESSE DE QUE o FBI não permitiria o desmantelamento do Projeto Peregrino, ficara perturbado depois da reunião belicosa com Colin Fleming. Ele subestimava a inteligência, influência

e a paixão do outro homem. O que o preocupava era a ameaça de atraso.

Depois de dois anos no comando de um projeto tão secreto conhecido apenas pelo diretor da CIA, George Tenet, e o especialista em contraterrorismo da Casa Branca Richard Clarke, ele estava perto, terrivelmente perto, de armar a arapuca que tinha movido céus e terra para criar.

O alvo era chamado simplesmente de UBL. Isto porque toda a comunidade de inteligência em Washington soletrava o primeiro nome do homem, Usama, usando a letra "U" em vez do "O" preferido pela imprensa.

No verão de 2001 aquela comunidade inteira estava obcecada por e convencida de um futuro ato de guerra de UBL contra os EUA. Noventa por cento acreditavam que o ataque seria contra um interesse principal do país no exterior; apenas dez por cento conseguiam vislumbrar um ataque bem-sucedido dentro do território dos americanos.

A obsessão trespassava todas as agências, mas principalmente os departamentos contraterroristas da CIA e do FBI. Aqui a intenção era descobrir o que UBL tinha em mente e então impedir isso.

A despeito do edital presidencial 1233, proibindo "trabalhos sujos", Paul Devereaux não estava tentando impedir UBL; ele estava tentando matá-lo.

No começo de sua carreira, o intelectual do Boston College havia compreendido que sua promoção dentro da Companhia dependeria de alguma forma de especialização.

Em sua juventude, no calor do Vietnã e da Guerra Fria, a maioria dos debutantes escolhera a Divisão Soviética. Se o inimigo era claramente a URSS, a linguagem a ser aprendida era o russo. Os corredores ficaram congestionados. Devereaux escolheu o mundo árabe e o estudo mais amplo do Islã. Foi considerado doido.

Dedicou seu intelecto formidável ao domínio da linguagem e da cultura árabes. Quando finalmente já podia se passar por um árabe, continuou estudando o Islã até o nível de um acadêmico corânico. Sua vingança chegou no Natal de 1979; a União Soviética invadiu um lugar chamado Afeganistão e a maioria dos agentes dentro do QG da CIA em Langley o estavam procurando por causa de seus mapas.

Devereaux revelou que, além do árabe, ele falava razoavelmente o urdu, a linguagem do Paquistão, e tinha um conhecimento de pashto, falado pelos tribais na fronteira norte do Paquistão e no interior do Afeganistão.

Então, sua carreira decolou de verdade. Foi um dos primeiros a argumentar que a União Soviética havia tentado botar a mão onde não alcançava; que as tribos afegãs não permitiriam nenhuma ocupação estrangeira; que o ateísmo soviético ofenderia seus fanáticos islamitas; que com ajuda material norte-americana uma poderosa resistência poderia ser fomentada nas montanhas, uma resistência que acabaria por derrotar o exército do general Boris Gromov.

Até o fim do conflito, muita coisa mudou. Os mujahedin tinham mandado 15 mil recrutas russos de volta para casa em caixões; o exército de ocupação, a despeito de ter infligido atrocidades nos afegãos, viu seu moral ruir por terra.

Foi uma combinação de Afeganistão com a chegada de Mikhail Gorbachev que colocou a União Soviética no caminho para a dissolução final e o fim da Guerra Fria. Paul Devereaux havia passado do setor de Análise para o de Operação e, ao lado de Milt Bearden, ajudara a distribuir um bilhão de dólares anuais em equipamento norte-americano de guerrilha aos "combatentes das montanhas".

Enquanto vivia duramente, correndo e lutando pelas montanhas afegãs, ele observara a chegada de centenas de jovens idealistas, voluntários anti-soviéticos do Oriente Médio, sem falar nem pashto nem dari, mas preparados para lutar e morrer bem longe de casa, caso fosse necessário.

Devereaux sabia o que ele estava fazendo lá: estava combatendo uma superpotência que ameaçava a sua. Mas o que os jovens sauditas, egípcios e iemenitas estavam fazendo ali? Washington ignorou-os, bem como aos relatórios de Devereaux. Mas eles os fascinavam. Ouvindo durante horas suas conversas em árabe, fingindo que não entendia mais de uma dúzia de palavras de uma língua que falava fluentemente, o homem da CIA compreendeu que eles estavam lutando não contra o comunismo, mas contra o ateísmo.

E mais: também nutriam um ódio e um desprezo igualmente ardorosos pelo cristianismo, o Ocidente e, mais especificamente, os EUA. Entre eles estava o filho de uma família saudita imensamente rica, que distribuía milhões administrando campos de treinamento na segurança do Paquistão, financiava albergues para refugiados, comprava e distribuía alimentos, cobertores e remédios para outros mujahedin. Seu nome era Usama.

Ele queria ser conhecido como um grande guerreiro, como Ahmad Shah Massoud, mas em 1987 ainda não chegava aos pés dele. Milt Bearden chamava-o de fedelho mimado, mas Devereaux observava-o com cuidado. Por trás das infindáveis referências do rapaz a Alá, ardia lentamente um ódio que um dia encontraria um alvo diferente dos russos.

Paul Devereaux voltou para sua casa em Langley e recebeu uma cascata de louvores. Ele optara por não casar-se, preferindo a erudição e seu trabalho às distrações de uma esposa e filhos. Seu pai deixara-lhe uma polpuda herança. Sua casa elegante na velha Alexandria era decorada com uma coleção muitíssimo admirada de arte islâmica e tapetes persas.

Tentou alertar que era uma estupidez abandonar o Afeganistão à guerra civil depois da derrota de Gromov, mas a euforia da queda do Muro de Berlim conduziu a uma convicção de que, com a URRS caótica, os satélites soviéticos amotinando-se por liberdade e o mundo comunista morrendo na praia, as últimas ameaças à única superpotência remanescente evaporavam como névoa ao sol de uma nova manhã.

Devereaux mal tinha voltado para casa quando em agosto de 1990 Saddam Hussein invadiu o Kuwait. Em Aspen, o presidente Bush e Margaret Thatcher, vitoriosos da Guerra Fria, concordaram que não tolerariam tal imprudência. Em 48 horas os primeiros Eagles F-15 voavam para Thumrait, em Omã, e Paul Devereaux foi enviado para a embaixada norte-americana em Riad, Arábia Saudita.

Se o ritmo não fosse tão furioso, e o cronograma tão sufocante, ele talvez tivesse notado alguma coisa. Um jovem saudita, também recém-chegado do Afeganistão, alegando ser o líder de um grupo de guerrilheiros e de uma organização chamada simplesmente "A Base", ofereceu seus serviços ao rei Fahd na defesa da Arábia Saudita contra o vizinho beligerante ao norte.

O monarca saudita provavelmente também não deu importância ao anão militar ou sua oferta. Em vez disso, permitiu a chegada em seu país de meio milhão de soldados e aviadores estrangeiros de uma coalizão de cinqüenta nações para expulsar o exército iraquiano do Kuwait e proteger os campos de petróleo sauditas. Noventa por cento desses soldados e aviadores eram infiéis, significando cristãos, e suas botas de combate marcharam sobre o mesmo solo que continha os Lugares Sagrados de Meca e Medina. Quase 400 mil eram americanos.

Para o fanático religioso, isso era um insulto a Alá e a seu profeta Maomé que simplesmente não podia ser tolerado. Ele declarou sua guerra particular, primeiro contra a casa reinante que permitira tamanha atrocidade. Mais importante, o ódio ardendo lentamente, que Devereaux havia percebido nas montanhas do Hindu Kush, finalmente encontrou seu alvo. UBL declarou guerra à América e começou a planejar.

Se Paul Devereaux estivesse encarregado do contraterrorismo no momento em que a Guerra do Golfo terminou e foi vencida, o curso da história poderia ter sido alterado.

Mas o contraterrorismo era uma prioridade muito baixa em 1992; o poder passou para William Clinton; e tanto a CIA quanto o FBI entraram na pior década de suas existências geminadas. No caso da CIA, isso significou a notícia devastadora de que Aldrich Ames havia traído seu país por mais de oito anos. Mais tarde seria revelado que Robert Hanssen, do FBI, ainda estava fazendo isso.

Naquela que deveria ter sido a hora da vitória, depois de quatro décadas de luta contra a União Soviética, ambas as agências sofreram crises de liderança, moralidade e incompetência.

Os novos mestres adoravam um novo deus: o politicamente correto. Os escândalos do Irãgate e a ajuda ilícita aos contras da Nicarágua induziram os novos mestres a uma crise de nervos. Bons profissionais saíram aos cântaros; burocratas foram elevados a chefes de departamentos. Homens com décadas de experiência de campo foram desprezados.

Em jantares ecléticos, Paul Devereaux sorria educadamente quando congressistas e senadores anunciavam que finalmente o mundo árabe amava os Estados Unidos da América.

Isso significava que eles tinham acabado de receber dez príncipes em visita. O Jesuíta passara anos movendo-se como uma sombra pelas ruas muçulmanas. Dentro dele uma voz sussurrava: "Não, eles nos odeiam até as raízes dos cabelos."

Em 26 de fevereiro de 1993, quatro terroristas árabes dirigiram um furgão alugado até o segundo nível do estacionamento subterrâneo debaixo do World Trade Center.

O veículo continha entre cinco e sete mil quilos de explosivos de fabricação caseira, com base num fertilizante ultra-explosivo chamado nitrato de uréia. Felizmente para Nova York não era nem de perto o explosivo mais poderoso conhecido.

Ainda assim, fez um barulho e tanto. O que ninguém sabia com certeza, e não mais de uma dúzia de pessoas suspeitava, era que o estouro tinha sido a primeira salva de tiros numa nova guerra.

Nessa época Devereaux era subchefe de toda a divisão do Médio, baseada em Langley, mas viajando constantemente.

Foi em parte o que ele viu em suas viagens, e em parte o que lhe chegou na torrente de relatórios dos postos da CIA em todo o mundo islâmico, que fez sua atenção se desviar das chancelarias e palácios do mundo árabe, que eram sua principal preocupação, para outro foco.

Quase como um passatempo, começou a pedir por relatórios suplementares de seus postos; não sobre o que o primeiroministro estava fazendo, mas qual era a atmosfera nas ruas, nos mercados, nos bairros pobres, nas mesquitas e nas madrasas, as escolas que produzem a próxima geração de jovens muçulmanos educados localmente. Quanto mais observava e ouvia, mais alto seu alarme interno tocava.

"Eles nos odeiam até as raízes dos cabelos", sua voz interna continuava dizendo. "Tudo de que eles precisam é de um coordenador talentoso."

Pesquisando em suas horas de folga, tornou a encontrar o rastro do fanático saudita UBL. Descobriu que o homem tinha sido expulso da Arábia Saudita por sua impertinência ao denunciar o monarca por permitir infiéis na terra sagrada.

Descobriu que UBL estava baseado no Sudão, outro estado puramente islâmico, onde o fanatismo fundamentalista estava no poder. Cartum ofereceu entregar o fanático saudita aos Estados Unidos, mas ninguém se interessou. Então ele sumiu, de volta para as montanhas do Afeganistão, onde a guerra civil havia terminado em favor da facção mais fanática, o ultra-religioso Talibã.

Devereaux notou que o saudita chegou com grande generosidade, dando ao Talibã milhões de dólares em presentes pessoais, e rapidamente se tornando uma figura proeminente na região. Ele chegou com quase cinqüenta guarda-costas pessoais e encontrou várias centenas de seus mujahedim estrangeiros (não-afegãos) ainda em seus postos. Pelos bazares das cidades fronteiriças do Paquistão espalhou-se a notícia de que o homem que havia retornado iniciara dois programas frenéticos: a construção de intrincados complexos de cavernas em uma dúzia de locais e a construção de campos de treinamento. Os campos não eram para os militares afegãos; eram para terroristas voluntários. As notícias chegaram até Paul Devereaux. O ódio islâmico contra seu país finalmente havia encontrado seu coordenador.

O massacre dos somalis por tropas americanas, causado por informações equivocadas dos órgãos de inteligência, foi revelado e esquecido. Mas houve mais. Hão apenas havia a oposição do senhor da guerra, Aideed, subestimado, como também havia outros lutando lá; não somalis, mas sauditas mais habilidosos. Em 1996, uma imensa bomba destruiu as torres Al Khobar em Dhahran, Arábia Saudita, matando dezenove soldados americanos e ferindo muitos outros.

Paul Devereaux marcou uma reunião com o diretor George Tenet.

- Deixe-me assumir o contraterrorismo - implorou.

- O CT está cheio e fazendo um bom trabalho - respondeu o diretor.

- Seis mortos em Manhattan, dezenove em Dhahran. É a Al Qaeda. UBL e sua equipe estão por trás disso, mesmo se não tiverem sido eles a plantar as bombas.

- Nós sabemos. Estamos trabalhando nisso. E o FBI também. Não vamos permitir que passe em brancas nuvens.

- George, o FBI não sabe bulhufas sobre a Al Qaeda. Eles não têm domínio de língua e conhecimento da psicologia árabe. Eles são bons com gângsteres, mas eles não distinguiriam o teste de Suez do lado escuro da Lua - Eu posso introduzir perícia nessa área.

- Paul, quero você no Oriente Médio. Preciso mais de você lá. O rei da Jordânia está moribundo. Não sabemos quem vai ser o sucessor dele. Seu filho Abdullah ou seu irmão Hassan? O ditador da Síria está prestes a cair; quem vai tomar o poder? Saddam está tornando a vida cada vez mais intolerável para os inspetores de armas.

E se ele expulsar os inspetores? A situação entre Israel e Palestina está esquentando. Preciso de você no Oriente Médio.

Foi 1998 que garantiu a Devereaux sua transferência. Em 7 de agosto duas bombas enormes foram detonadas diante de duas embaixadas norte-americanas na África: em Nairobi e em Dar-es-Salaam.

Duzentas e trinta pessoas morreram em Nairobi. Quatro mil, setecentos e vinte e duas pessoas foram feridas. Dos mortos, doze eram americanos. A explosão na Tanzânia não foi tão ruim: onze foram mortos, setenta e dois feridos. Nenhum americano morreu, mas dois ficaram aleijados.

A força organizadora por trás de ambos os atentados logo foi identificada como a rede Al Qaeda. Paul Devereaux entregou suas responsabilidades no Oriente Médio a um jovem arabista em ascensão que ele tomara como seu pupilo e se mudou para o contraterrorismo.

Ele obteve o título de diretor-assistente, mas não desalojou o responsável anterior. Não foi um arranjo elegante. Ele pairou sobre o setor de Análise como uma espécie de consultor, mas logo ficou convencido de que a regra clintoniana de apenas empregar fontes de caráter impecável como informantes era uma completa loucura.

Era o tipo de loucura que havia conduzido ao fiasco da reação para a África. Mísseis destruíram instalações farmacêuticas nas cercanias de Cartum, capital do Sudão, porque os Estados Unidos acreditaram que UBL, que há muito partira da região, estava fabricando armas químicas ali. No fim das contas, descobriu-se que se tratava realmente de uma fábrica de aspirinas.

Mais setenta mísseis Tomahawks foram despejados no Afeganistão para matar UBL. Eles transformaram muitas pedras grandes em pedras pequenas, a um custo de vários milhões de dólares por fracasso, mas UBL estava na outra extremidade do país. Foi devido a este fracasso e à defesa do próprio Devereaux que o Projeto Peregrino foi criado.

Quase todos em Langley concordavam que ele devia ter mexido alguns pauzinhos para fazer seus termos serem aceitos. O Projeto Peregrino era tão secreto que apenas o diretor Tenet sabia qual era o propósito de Devereaux. Fora do prédio, o Jesuíta tivera de confiar em outra pessoa: o chefe de contraterrorismo Richard Clarke, que começou sob o governo de George Bush Sênior e continuou sob o de Clinton.

Clarke era odiado em Langley por suas críticas rudes e abrasivas, mas Devereaux queria e precisava de Clarke por diversos motivos. O homem da Casa Branca concordaria com a violência pura daquilo que Devereaux tinha em mente; manteria sua boca fechada quando ele quisesse; além disso, asseguraria a Devereaux as ferramentas necessárias.

Mas, em primeiro lugar, Devereaux recebeu permissão para jogar na lata de lixo toda a conversa de não receber permissão para matar o alvo, ou usar com esse fim "contatos" de conduta questionável. A partir desse momento, Paul Devereaux estava executando seu próprio número particular de corda bamba, e quando olhava para baixo não via nenhuma rede de segurança.

Paul Devereaux obteve o direito de escolher seu próprio escritório e equipe. Escolheu a dedo os melhores homens disponíveis. Jamais tendo sido um construtor de impérios, queria uma unidade pequena e unida, onde cada indivíduo fosse um especialista. Obteve uma suíte de três escritórios no sexto pavimento do prédio principal, de frente para os vidoeiros e salgueiros que emparedam o rio Potomac, que só se revela no inverno, quando as folhas caem.

Precisava de um braço-direito competente e confiável; sólido, leal; um homem que fizesse qualquer coisa que ele lhe pedisse sem uma só pergunta. Escolheu Kevin McBride.

Exceto o fato de que ambos estavam na Companhia desde o início de suas vidas profissionais, tendo entrado no meio da casa dos vinte e servido trinta anos, eles eram como água e fogo. O Jesuíta era magro e atlético, exercitando-se diariamente em seu ginásio particular; McBride havia engordado com o passar dos anos, apreciador de umas cervejinhas no fim de semana, e a maior parte de seus cabelos tinham sumido do topo e do cocuruto da cabeça.

Os relatórios sociais anuais mostravam que ele tinha um casamento estável como pedra com Molly, dois filhos já adultos que tinham acabado de sair de casa, e um lar modesto num conjunto residencial nas cercanias do Beltway. Não tinha qualquer fortuna particular e vivia frugalmente de seu salário.

A maior parte de sua carreira tinha sido em embaixadas estrangeiras, mas jamais chegando a chefe de posto. Ele não era uma ameaça, mas um Número Dois de primeiraclasse. Se você quisesse que alguma coisa fosse feita, ela seria feita. Podia confiar nele. Não era dado a filosofias pseudo-intelectuais. Os valores de McBride eram tradicionais, domésticos,americanos.

Em 12 de outubro de 2000, com vinte meses de Projeto Peregrino, a Al Qaeda atacou novamente. Desta vez os perpetradores foram dois iemenitas e eles cometeram suicídio depois de alcançar seu objetivo. Desde 1983, em Beirute, foi a primeira vez que o conceito de homem-bomba foi evocado contra forças armadas americanas. Nas Trade Towers, Mogadiscio, Dharan, Nairobi e Dar-es-Salaam, UBL não havia exigido os sacrifícios supremos. Em Aden, ele exigiu. UBL estava aumentando suas apostas.

O USS Cole, um destróier classe Burke, estava no porto da velha mina de carvão britânica, que já servira de quartel, na ponta da península saudita. O lêmen era a terra natal do pai de UBL. A presença norte-americana devia ser extirpada.

Dois terroristas numa lancha inflável carregada com TNT passaram em alta velocidade através da flotilha de barcos de suprimento, arremeteram-se entre um casco e o cais e explodiram. Devido à compressão entre o casco e o concreto, um buraco imenso foi aberto. Dentro da nau, 17 marinheiros morreram e 39 ficaram feridos.

Devereaux havia estudado o terror, sua criação e aplicação. Sabia que, seja imposto pelo estado ou por uma fonte não-governamental, o terror sempre se divide em cinco níveis.

No topo estão os tramadores, os planejadores, ou autorizadores, os inspiradores. Abaixo ficam os intermediários, os facilitadores, sem os quais nenhum plano pode funcionar. Eles ficam encarregados do recrutamento, treinamento e suprimento. Em terceiro lugar vêm os executores: aqueles indivíduos privados de pensamentos morais normais, que empurram as cápsulas de Zyklon-B nas câmaras de gás, plantam a bomba, puxam os gatilhos. No quarto nível estão os colaboradores ativos: aqueles que guiam os assassinos, denunciam o vizinho, revelam o esconderijo, traem um antigo colega de escola. No rundo fica amassa: bovina, estúpida, saudando o tirano, aplaudindo os assassinos.

No terror contra o Ocidente em geral, e os EUA em particular, a Al Qaeda cumpria as duas primeiras funções. Nem UBL nem seu Número Dois ideológico, o egípcio Ayman Kawaheri, nem seu chefe de operações, Mohamed Atef, nem seu emissário internacional, Abu Zubaydah, precisariam plantar uma bomba ou dirigir um caminhão.

As mesquitas-escolas, as madrassas, fornecem um fluxo contínuo de fanáticos adolescentes, já impregnados com um ódio profundo do mundo inteiro que não era fundamentalista, mais uma visão distorcida de algumas passagens do Alcorão. A eles podiam ser somados outros convertidos maduros, convencidos a acreditar que o assassinato em massa abre as portas do paraíso prometido pelo Alcorão.

Portanto, à Al Qaeda cabia simplesmente planejar, recrutar, treinar, equipar, direcionar, patrocinar e vigiar.

Enquanto retornava na limusine de sua reunião inflamada com Colin Fleming, Devereaux mais uma vez examinou a moralidade do que estava fazendo. Sim, aquele sérvio nojento havia matado um americano. Em algum lugar lá fora havia um homem que havia matado cinqüenta, e ainda mataria outros.

Ele lembrou do padre Dominic Xavier, que o tinha testado com um problema moral.

- Um homem se aproxima de você, com a intenção de matá-lo. Ele tem uma faca, o alcance total dele é de um metro e vinte centímetros. Você tem o direito da autodefesa.

Não tem escudo, mas tem uma lança. Seu alcance é de dois metros e setenta centímetros. Você avança ou aguarda?

O padre colocou pupilo contra pupilo, cada um incumbido de contestar o ponto de vista oposto. Devereaux não hesitou um segundo. O bem maior contra o mal menor. O homem com a lança havia procurado a luta? Não. Então ele tinha o direito de avançar. Não de empreender contra-ataque, que só poderia ser realizado depois de sobreviver ao ataque inicial. Mas um ataque preventivo. No caso de UBL ele não tinha qualquer dúvida. Para proteger seu país, Devereaux iria matar; e não lhe importava a imoralidade dos aliados que havia arregimentado. Fleming estava errado. Ele precisava de Zilic.

Para Paul Devereaux havia um antigo enigma em relação ao seu próprio país e seu lugar no afeto do mundo, e ele acreditava que o havia elucidado.

Por volta de 1945, um pouco antes de seu nascimento, e na década seguinte na Guerra da Coréia e o início da Guerra Fria, os EUA não eram simplesmente o país mais rico e militarmente mais poderoso do mundo; era também o mais amado, admirado e respeitado.

Depois de cinqüenta anos, as duas primeiras qualidades haviam permanecido. Os EUA eram mais ricos e poderosos do que nunca, a única superpotência remanescente, aparentemente senhora de tudo o que via.

E, em grandes faixas do mundo, na África negra, na Europa esquerdista, eram odiados fervorosamente. O que havia acontecido de errado? Essa era uma charada que desafiava o Capitólio e a imprensa.

Devereaux sabia que seu país estava longe de ser perfeito; ele havia cometido erros, provavelmente erros demais. Mas em seu coração havia a certeza de que os EUA eram bem-intencionados e melhores que a maioria dos países. Durante décadas de viagens, ele tinha visto boa parte do mundo bem de perto. E vira coisas bem feias.

A maioria dos norte-americanos não consegue compreender a metamorfose entre 1951 e 2001, de modo que fingem que ela não aconteceu, aceitando a máscara educada do Terceiro Mundo para seu sentimento interior.

Tio Sam não tentara pregar contra a tirania? Não gastara Um trilhão de dólares com ajuda? Não gastara cem bilhões de Dólares por ano para proteger a Europa Ocidental durante cinco décadas? O que justificava as manifestações antiamericanas, as embaixadas saqueadas, as bandeiras queimadas, os cartazes com palavras de ódio?

Tinha sido um velho chefe de espionagem inglês que - num clube londrino no fim dos anos sessenta, enquanto a opinião pública contra a Guerra do Vietnã ficava cada vez mais forte - apresentara-lhe uma explicação.

- Esse ódio não existe porque o seu país ataca os países deles. Ele existe porque o seu país mantém os países deles seguros. Jamais procure popularidade. Você pode ter a supremacia ou ser amado, mas jamais as duas coisas. O que é sentido contra vocês é dez por cento desagrado genuíno, e noventa por cento inveja. Jamais esqueça duas coisas. Nenhum homem é capaz de perdoar seu protetor. O ódio mais intenso que o homem é capaz de nutrir é aquele por seu benfeitor.

O velho espião tinha morrido há muito tempo, mas Devereaux vira a verdade de seu cinismo em meia centena de capitais. Gostasse ou não, seu país era o mais poderoso do mundo. Houve um tempo em que os romanos desfrutaram dessa honra dúbia. Eles haviam respondido ao ódio com a força bruta das armas.

Cem anos atrás, o Império Britânico tinha sido o galo do terreiro. Eles haviam respondido ao ódio com desprezo lânguido. Agora era a vez dos americanos, e suas consciências os faziam perguntar o que tinham feito de errado. Há muito tempo o Jesuíta e agente secreto havia encontrado sua resposta. Na defesa de seu país ele faria o que acreditava que devia ser feito, e um dia se apresentaria ao Criador e pediria seu perdão. Até lá, retribuiria na mesma moeda tudo que os antiamericanos fizessem.

Quando chegou ao seu escritório, Kevin McBride o aguardava, uma expressão preocupada no rosto.

- Nosso amigo esteve em contato - disse ele. - Morrendo de raiva. Acha que está sendo vigiado.

Devereaux pensou, não sobre o queixoso, mas sobre Fleming e o FBI.

- Aquele desgraçado. Não achava que ia fazer mesmo, e com toda certeza, não achava que ia fazer tão depressa.

 

                   A PENÍNSULA

HAVIA UMA CONEXÃO SEGURA DE COMPUTADOR ENTRE UM encrave fortemente guardado na praia da República de São Martinho e uma máquina no escritório de McBride. Como o computador de Washington Lee, este usava o sistema PGP de códigos para impedir que suas comunicações fossem captadas por curiosos; a diferença era que este tinha autorização para isso.

Devereaux estudou o texto completo da mensagem chegada do sul. Estava na cara que tinha sido escrito pelo chefe da segurança de estado, o sul-africano van Rensberg.

O inglês era excessivamente formal, como se fosse a segunda linguagem de redator.

O significado era suficientemente claro. Descrevia o Piper Cheyenne da manhã anterior; sua passagem dupla, seguindo para leste na direção da Guiana Francesa e então de volta vinte minutos depois. Relatava o brilho emitido pelas lentes de uma câmara fotográfica na janela direita, e até o número de registro que tinha sido anotado quando a aeronave passara voando baixo sobre a garganta na escarpa.

- Kevin, identifique essa aeronave. Quero saber quem é o proprietário, quem a opera, quem a pilotou ontem, e quem era o passageiro. E depressa.

Em seu apartamento anônimo no Brooklyn, Cal Dexter havia revelado suas 72 fotos e as ampliado tanto quanto possível antes de perder muita definição. Dos mesmos negativos originais ele também fizera slides que poderiam ser projetados na tela na parede, para um estudo mais atento.

A partir das fotos tinha criado um mapa que cobria toda a extensão de uma parede da sala de estar, do chão ao teto. Passou horas sentado, olhando para a parede, conferindo ocasionalmente um detalhe pequeno com o slide apropriado. Cada slide conferia um detalhe melhor e mais nítido, mas apenas a parede oferecia o alvo inteiro.

O encarregado desse projeto gastara milhões para fazer de uma península vazia uma fortaleza aparentemente inexpugnável.

A cordilheira. A península era muito diferente da selva abafada que compunha a maior parte da pequena república. Salientava-se da costa principal como a lâmina triangular de uma adaga, a parte que a ligava à terra protegida pela cadeia de montanhas que alguma força primordial vomitara milhões de anos atrás.

A cadeia de montanhas corria de mar a mar, e em cada extremidade afundava na água azul em penhascos verticais. Não era possível contornar as extremidades para passar da selva para a península.

No lado da terra, as montanhas subiam gentilmente da planicie litorânea até cerca de trezentos metros, com ladeiras cobertas em vegetação densa. Sobre os cumes, no lado da terra, a ladeira era uma escarpa vertiginosa, desnuda de qualquer fohagem, fosse pela natureza ou pela mão de homem. Da fazenda qualquer pessoa munida de binóculos, olhando para a escarpa lá em cima, facilmente veria qualquer coisa que tentasse descer para o lado proibido.

Havia um único desfiladeiro, ou garganta, na cadeia de montanhas. Uma trilha estreita subia até ele a partir do interior da península, e então contorcia-se e descia a escarpa até alcançar a propriedade lá embaixo. Na garganta havia uma barreira e uma guarita, que Dexter vira tarde demais quando brilhara ao sol abaixo de sua janela.

Dexter começou a fazer uma lista dos equipamentos de que precisaria. Entrar não seria problema. Sair, levando o alvo e enfrentando um pequeno exército de guardas, é que seria quase impossível.

- Pertence a uma firma de frete de um avião e um piloto, baseada em Georgetown, Guiana - disse Kevin McBride naquela noite. - Lawrence Aéreo Services. O dono e gerente é George Lawrence, cidadão guiano. Parece perfeitamente legítima, o tipo de companhia que os estrangeiros contratam para voar até o interior... ou ao longo da costa, neste caso.

- Temos o telefone desse Sr. Lawrence? - indagou Devereaux.

- Claro. Está aqui.

- Tentou entrar em contato com ele?

- Não. A linha teria de ser aberta. E por que ele haveria de falar a respeito de um cliente com um completo estranho por telefone?

- Tem razão. Você precisa ir até lá. Use vôos programados. Mande Cassandra colocá-lo no primeiro vôo. Localize o Sr. Lawrence. Suborne o sujeito, se for preciso.

Descubra quem era o nosso amigo xereta com a camera, e por que estava lá. Temos uma estação em Georgetown?

- Não. Mas temos bem ao lado, em Caracas.

- Use Caracas para realizar uma comunicação segura. Vou tratar de tudo com o chefe do posto.

Estudando a montagem fotográfica que cobria sua parede, os olhos de Cal Dexter moveram-se da escarpa para a península conhecida simplesmente como El Punto. Correndo ao longo da base da parede da escarpa havia uma pista de pouso, ocupando dois terços dos 1.300 metros disponíveis. No lado da fazenda da pista havia uma cerca de argolas de arame que fechava todo o campo de pouso, o hangar, as oficinas, o depósito de combustível, e a usina de força.

Usando um compasso e estimando o comprimento do hangar em trinta metros, Dexter conseguiu calcular e marcar distâncias entre pontos. Isso colocava a parte cultivada da fazenda em cerca de 12.000 quilômetros quadrados. Séculos de poeira trazida pelo vento e dejetos de passarinho criaram um solo rico, a julgar pela colheita variada e abundante. Quem havia criado El Punto tinha em mente uma auto-suficiência absoluta naquela clausura formada por águas e montanhas.

O problema de irrigação foi resolvido por um córrego que nascia na base das colinas e fluía através da fazenda antes de tombar em catarata no mar. Ele podia apenas originar-se no planalto e fluir através da cadeia de montanhas por um canal subterrâneo. Dexter anotou: "Nadável?" Mais tarde riscaria essa palavra. Sem um ensaio,seria loucura tentar uma passagem através de um túnel subterrâneo desconhecido. Lembrou do terror que sentira ao rastejar pelos túneis submersos de Cu Chi, e eles tinham poucos metros de comprimento. Essa passagem subterrânea poderia estender-se por quilômetros, e ele nem mesmo sabia onde começava.

Na base da pista de pouso, do outro lado do muro de arame ele podia ver umacomunidade de provavelmente quinhentos cubos brancos, claramente unidades habitacionais de algum tipo. Havia ruas escuras, alguns prédios maiores para refeitórios e uma igrejinha. Era uma espécie de vilarejo; mas era estranho que, mesmo com os homens longe nos campos e celeiros, não houvesse mulheres nem crianças nas ruas. Nem jardins, nem animais de fazenda.

Parecia mais uma colônia penal. Talvez aqueles que serviam o homem por quem ele procurava tivessem pouca escolha quanto a isso.

Dexter voltou sua atenção para o corpo principal da fazenda agrícola. Este continha os campos cultivados, rebanhos, estábulos, celeiros, e um segundo grupo de prédios brancos. Mas um homem uniformizado posicionado no portão indicava que esse era o quartel dos seguranças, guardas e supervisores. A julgar pela aparência, número e tamanho dos estabelecimentos, e pela taxa de ocupação provável, Dexter calculou que apenas os guardas seriam cerca de cem. Havia mais cinco vilas substanciais, com jardins, aparentemente para os executivos e os tripulantes do avião.

As fotografias e slides estavam servindo aos seus propósitos, mas Dexter precisava de mais duas coisas. Uma era um conceito tridimensional; a outra um conhecimento de rotinas e procedimentos. A primeira exigiria um modelo em escala da península inteira; a segunda requereria dias de observação silenciosa.

Na manhã seguinte Kevin McBride voou de Washington-Dulles diretamente para Georgetown, Guiana, com a BWIA, pousando às duas da tarde. As formalidades no aeroporto eram simples e, carregando apenas uma maleta de mão, logo estava num táxi.

Não foi difícil achar a Lawrence Aero Services. Era um pequeno escritório num beco da Waterloo Street. O americano bateu várias vezes, mas ninguém respondeu. O calor começava a empapar de suor a sua blusa. Espiou pela janela empoeirada e bateu de novo.

- Não tem ninguém aí, amigo - disse uma voz prestativa às suas costas.

Kevin se virou para ver um homem velho e enrugado, sentado a algumas portas de distância num pedacinho de sombra, abanando-se com um leque de folhas de palmeira.

- Estou procurando por George Lawrence - disse o americano.

- Você é britânico?

- Não. Americano.

O velho pensou sobre isso, como se a disponibilidade do piloto de frete Lawrence estivesse condicionada à nacionalidade.

- Amigo seu?

- Não. Estou pensando em alugar seu avião para um vôo. Isto é, se eu puder encontrá-lo.

- Não está aqui desde ontem - disse o velho. - Não desde que levaram ele.

- Quem levou ele?

O velho deu de ombros, como se o seqüestro de vizinhos fosse algo corriqueiro.

- A polícia?

- Não. A polícia não. Eles eram brancos. Vieram num carro alugado.

- Turistas... clientes? - perguntou McBride.

- Talvez - admitiu o ancião. - Você podia tentar o aeroporto. Ele guarda o avião lá.

Quinze minutos depois, um Kevin McBride coberto de suor voltava para o aeroporto. Na mesa de recepção para aviação particular, perguntou por George Lawrence. Em vez dele, foi recebido por Floyd Evans. O inspetor Floyd Evans do Departamento de Polícia de Georgetown.

Foi levado de volta para o centro mais uma vez, agora num carro-patrulha, e conduzido a um escritório cujo ar-condicionado pareceu um banho frio muito atrasado e delicioso. O inspetor Evans examinou seu passaporte.

- Sr. McBride, o que está exatamente fazendo na Guiana?

- Estava querendo fazer uma pequena visita com o propósito de trazer minha esposa para passar as férias aqui depois - disse o agente.

- Em agosto? As salamandras se abrigam aqui em agosto. Conhece o Sr. Lawrence?

- Não. Tenho um amigo em Washington. Ele me deu o nome. Disse que eu gostaria de voar para o interior. Disse que o Sr. Lawrence era um dos melhores pilotos de carreira.

Eu apenas fui ao escritório dele para ver se o seu avião estava disponível para um frete. Só isso. Fiz alguma coisa errada?

O inspetor fechou o passaporte e o devolveu a Kevin.

- O senhor chegou de Washington hoje. Isso parece muito claro. As suas passagens e carimbos de entrada confirmam isso. O Meridien Hotel confirma que o senhor fez uma reserva para esta noite.

- Veja inspetor, ainda não entendo por que fui trazido aqui. Sabe onde posso encontrar o Sr. George Lawrence?

- Claro que sei. Ele está no necrotério do nosso hospital geral. Aparentemente, foi tirado de seu escritório ontem por três homens num 4x4 alugado. Eles devolveram o carro ontem à noite e então sumiram. Esses três nomes significam alguma coisa para o senhor?

O inspetor deslizou uma folha de papel sobre a mesa. McBride olhou para os três nomes e soube que eram falsos, porque ele os havia emitido.

- Não, desculpe. Não significam nada para mim. Por que o Sr. Lawrence está no necrotério?

- Porque hoje de manhã bem cedo um vendedor de verduras o achou enquanto entrava no mercado. Morto, numa vala à margem da estrada, nos arredores da cidade. O senhor ainda estava voando, é claro.

- Isso é terrível. Eu nunca o encontrei, mas sinto muito.

- Sim, é lamentável. Perdemos nosso piloto de carreira. O Sr. Lawrence perdeu sua vida e, pelo que parece, oito de suas unhas. Seu escritório foi revirado e todos os registros de clientes antigos removidos. O que acha que os seqüestradores queriam dele, Sr. McBride?

- Não tenho a menor idéia.

- Claro, esqueci. O senhor é apenas um executivo em viagem, não é? Então sugiro que volte para os Estados Unidos, Sr. McBride. Está livre para ir.

- Eles são uns animais! - protestou McBride a Devereaux através da linha segura do posto de Caracas para Langley.

- Volte para casa, Kevin - disse seu superior. -Vou perguntar ao nosso amigo no sul o que ele descobriu, se é que descobriu alguma coisa.

Paul Devereaux há muito havia cultivado um contato dentro do FBI sob a alegação de que nenhum homem em seu ramo jamais tinha fontes de informação demais, e que o FBI dificilmente compartilharia com ele seus maiores tesouros.

Ele tinha pedido ao seu "contato" que checasse o banco dedados em busca de arquivos retirados pelo diretor-assistente (Divisão de Investigação) Colin Fleming desde a requisição que ele circulara a respeito de um rapaz assassinado na Bosnia. Entre as retiradas estava uma marcada simplesmente como "Vingador".

Kevin McBride, cansado e sofrendo de desorientação de vôo, chegou em casa na manhã seguinte. Paul Devereaux estava em Seu escritório, cedo como de costume e impecavelmente limpo.

Ele passou uma ficha para seu subordinado.

- É ele - disse Paul Devereaux. - Nosso invasor. Falei com nosso amigo no sul. Obviamente, foram três assassinos dele que massacraram o piloto de frete. E você tinha razão. Eles são animais. Mas neste momento são animais vitais. É lamentável, mas inevitável.

Ele apontou para a ficha.

- Nome de código Vingador. Cerca de cinqüenta anos. Altura, constituição física... está tudo aí na ficha. Há uma descrição breve. Agora está disfarçado como o cidadão americano Alfred Barnes. Esse foi o homem que contratou o serviço do pobre Sr. Lawrence para voar sobre a hacienda de nosso amigo. E não há nenhum Alfred Barnes cuja descrição combine nos arquivos do Departamento de Estado como um detentor de passaporte americano. Kevin, encontre esse homem e o detenha.

- Espero que não queira dizer com isso "eliminar".

- Não, isso é proibido. Estou mandando que você o identifique. Se ele usa um nome falso, deve ter outros. Encontre aquele que ele vai tentar usar para entrar em

São Martinho. Depois informe ao assustador mas eficiente coronel Moreno, de São Martinho. Tenho certeza de que podemos confiar nele para levar a cabo o que precisa ser feito.

Kevin McBride retirou-se para seu próprio escritório e leu a ficha. Ele já conhecia o chefe da polícia secreta da República de São Martinho. Qualquer oponente do

ditador que caísse em suas mãos iria morrer, provavelmente bem devagar. Ele leu a ficha de Vingador com seu cuidado habitual.

A dois estados de distância, em Nova York, o passaporte de Alfred Barnes foi jogado às chamas. Dexter não tinha a menor pista ou farpa de prova de que fora visto.

Mas enquanto ele e o piloto de frete Lawrence tinham voado sobre a garganta, Dexter tinha se assustado ao ver um rosto olhando para ele; perto o bastante para anotar o número de código do Piper. Assim, só por precaução, Alfred Barnes deixou de existir.

Feito isso, começou a construir seu modelo da fortaleza. Do outro lado da cidade, no centro de Manhattan, a Sra. Nguyen Van Tran estava curvada sobre três novos passaportes, seus olhinhos míopes concentrados nas nuances do trabalho.

Era 3 de agosto de 2001.

 

                   A VOZ

SE NÃO ESTA DISPONÍVEL EM NOVA YORK ENTÃO PROVAVELmente não existe. Cal Dexter encomendou numa serraria um cavalete horizontal com tampo dobrável que quase encheu sua sala de estar.

Lojas de artes forneceram tintas suficientes para criar o mar e a terra em dez tons. Feltro de mesa de bilhar, comprado numa loja de tecidos, compôs os campos e ravinas. Blocos de construção de madeira foram usados para as fileiras de casas e os estábulos. Em lojas de modelismo Dexter conseguiu pau-debalsa, cola de secagem rápida e decalques em padrões de tijolos, portas e janelas.

A mansão do fugitivo, na ponta da península, foi feita com Lego adquirido numa loja de brinquedos. Os detalhes restantes da paisagem foram comprados numa loja dedicada a entusiastas de trenzinhos elétricos, do tipo que oferece colinas, vales, túneis, fazendas e animais de pasto.

Em três dias Dexter tinha toda a propriedade em escala dentro de sua sala. O que não podia ver era o que ficara fora do alcance de sua camera: armadilhas, poços, trabalhadores, travas de segurança, cercas de arame, a força total do exército privado, equipamento e todos os interiores.

Era uma lista longa e quase todos os seus itens só podiam ser resolvidos com dias de observação paciente. Ainda assim, decidiu como seria sua entrada, seu plano de batalha e sua saída. E então começou a fazer compras.

Botas, roupas de selva, rações, ferramentas de corte, os binóculos mais poderosos do mundo, um celular novo... Ele encheu um saco de compras da Bergen que acabou pesando cerca de 35 quilos. E ainda havia mais coisas a comprar. Para algumas teve de sair do estado para ir a lugares em seu próprio país, onde as leis eram mais condescendentes; para outras teve de mergulhar no submundo; e também havia as coisas perfeitamente legais, mas que despertavam suspeitas. Em 10 de agosto estava pronto, e seus primeiros documentos de identidade também.

- Tem um momentinho, Paul?

O rosto do assessor de Kevin McBride apareceu na brecha entre a porta e a parede, e Devereaux fez um gesto para que ele entrasse. O assistente de Devereaux trouxe um mapa de escala ampla da costa norte da América do Sul, do leste da Venezuela até a Guiana Francesa. Devereaux abriu o mapa e cutucou o triângulo entre os rios Commini e Maroni, a República de São Martinho.

- Deduzo que ele irá pela rota terrestre - disse McBride. Veja a rota aérea. A Cidade de São Martinho tem o único aeroporto e ele é pequeno. Funciona duas vezes por dia e atende apenas a linhas aéreas locais oriundas de Caiena, ao leste ou de Paramaribo, a oeste.

Seu dedo apontou para as capitais da Guiana Francesa e do Suriname.

- É um lugar tão pavoroso politicamente que quase nunca recebe empresários ou turistas. Nosso homem é branco, americano, e temos sua altura e porte aproximados, ambos da ficha e do que o piloto de aluguel descreveu antes de morrer. Os asseclas do coronel Moreno pegariam ele minutos depois que desembarcasse. Mais importante, ele teria de ter um visto de entrada válido, o que significa visitar os únicos dois consulados de São Martinho: Paramaribo e Caracas. Acho que ele não irá tentar o aeroporto.

- Não discordo. Mas Moreno ainda assim deve colocá-lo sob vigilância dia e noite. Ele pode tentar um avião privativo - disse Devereaux.

- Vou falar com ele sobre isso. Em seguida, o mar. Só há um porto: mais uma vez, Cidade de São Martinho. Nenhuma embarcação de turismo aporta lá, apenas cargueiros, que mesmo assim não são muitos. Os tripulantes são lascares, filipinos ou crioulos. Ele seria notado facilmente se tentasse se passar por tripulante ou passageiro.

- Ele poderia chegar por mar numa lancha inflável.

- É possível, mas ele teria de alugá-la ou comprá-la na Guiana Francesa ou no Suriname. Ou pode saltar de um cargueiro, cujo capitão tenha subornado. Pode seguir até trinta quilômetros da costa, e então furar o inflável e deixá-lo afundar. Mas e aí?

- E aí o quê? - murmurou Devereaux.

- Acho que ele precisaria de equipamento, uma carga bem pesada. Como nadaria com tudo isso até a costa? Não há praias ao longo da costa de São Martinho, exceto aqui na baía. Mas há muitas mansões de ricos, ocupadas em agosto, com guardacostas, vigias noturnos e cães. Fora isso, a costa é um mangue denso e infestado de cobras e crocodilos. Como ele vai conseguir marchar através de tudo isso? Se chegar até a estrada principal leste-oeste, o que vai fazer? Acho que ninguém seria capaz disso, nem um Boina Verde.

- Ele poderia chegar pelo mar bem na península do nosso amigo?

- Não, Paul, ele não poderia. A península é cercada por todos os lados marítimos por penhascos e correntes poderosas. Mesmo se ele escalasse os penhascos com equipamento de alpinismo, os cães de guarda escutariam o barulho e o pegariam.

- Então, ele chega por terra. Por que extremidade? McBride usou novamente o dedo indicador.

- Acho que pelo oeste, do Suriname, no navio de passageiros pelo rio Commini, e depois direto no posto de fronteira de São Martinho, em quatro rodas, com documentos falsos.

- Ele ainda precisaria de um visto de entrada de São Martinho, Kevin.

- E que lugar melhor para conseguir um do que bem ali no Suriname, um dos dois únicos consulados que eles dirigem? Acho que esse é o lugar lógico para ele adquirir seu carro e seu visto.

- Então, qual é o seu plano?

- A embaixada do Suriname aqui em Washington e o consulado em Miami. Ele vai precisar de um visto para chegar lá também. Quero botar ambos em alerta total. Vou instruí-los

a me passar os detalhes de cada candidato a um visto de entrada desde uma semana atrás e a partir de agora. Depois Vou checar cada visto com a seção de passaportes.

- Você está apostando tudo numa só parada, Kevin.

- Na verdade, não. O coronel Moreno e seus Ojos Negros podem cobrir a fronteira leste, o aeroporto, as docas e a costa. Eu gostaria de apostar em meu palpite de que nosso invasor tentará levar todos os seus equipamentos para São Martinho de carro a partir do Suriname. É longe e a travessia mais movimentada.

A tentativa de McBride de pronunciar corretamente as palavras em espanhol fez Devereaux sorrir. A polícia secreta de São Martinho era conhecida como "olhos negros" porque eles e seus óculos de sol pretos instilavam o terror nos camponeses locais.

Ele pensou em toda a ajuda que os EUA prestavam a essa região. Não havia dúvida de que o Suriname iria cooperar plenamente.

- Certo, eu gosto. Vamos então. Mas depressa. McBride ficou intrigado.

- Temos um prazo, chefe?

- Mais apertado do que você imagina, meu amigo.

O porto de Wilmington, Delaware, é um dos maiores e mais movimentados na Costa Leste dos Estados Unidos da América. Bem no alto da longa baía Delaware que conduz do rio para o Atlântico, há quilômetros de água protegida, que, além das grandes embarcações oceânicas, também recebe milhares de cargueiros costeiros.

A Carib Coast Ship and Freight Company era uma agência que lidava com cargas para miríades de navios bem menores, de modo que a visita do Sr. Ronald Proctor não foi motivo de surpresa. Ele era amistoso, encantador, convincente, e sua picape U-Haul alugada estava bem lá fora, carregada com um caixote.

O atendente de frete que lidou com o pedido não teve motivo para duvidar de sua autenticidade, ainda mais quando, em resposta à pergunta "Está com todos os documentos?", o Sr. Ronald Proctor apresentou precisamente isso.

Seu passaporte não apenas estava em perfeita ordem, como era um passaporte diplomático. Cartas de apoio e ordens de movimento do Departamento de Estado provavam que Ronald Proctor, um diplomata profissional norte-americano, tinha sido designado para a embaixada de seu país em Paramaribo, Suriname.

- Temos todas nossas despesas pagas, é claro, mas com a paixão de minha esposa por colecionar coisas em nossas viagens, temo que estejamos com um caixote acima do limite. Tenho certeza de que sabe como as esposas são. Rapaz, como elas gostam de colecionar coisas!

- Nem me diga - concordou o atendente. Poucas coisas uniam homens estranhos mais do que reclamar sobre suas esposas. - Temos um cargueiro seguindo para Miami, Caracas e Parbo em dois dias.

Ele chamou a capital do Suriname por seu nome mais curto e comum. A tarifa foi acertada e paga. O caixote estaria no mar dentro de dois dias, e num armazém nas docas de Parbo no dia 20. Sendo carga diplomática e portanto isenta de impostos, o caixote não teria de passar pela alfândega quando o Sr. Proctor ligasse para pegá-lo.

A embaixada do Suriname em Washington fica no 4301 da Connecticut Avenue e foi ali que Kevin McBride mostrou sua identidade como agente superior da CIA e sentou-se com um impressionadíssimo funcionário consular encarregado da seção de vistos. Aquele provavelmente não era o gabinete diplomático mais movimentado em Washington, um homem cuidava de todos os pedidos de vistos.

- Acreditamos que ele trafique drogas e negocie com terroristas- disse o homem da CIA. -Até agora não sabemos muito sobre ele. Seu nome não é importante porque ele certamente pedirá o visto sob identidade falsa. Mas acreditamos que possa tentar entrar no Suriname como uma forma de atravessar até a Guiana e dali juntar-se aos seus comparsas na Venezuela.

Vocês tem uma foto dele? - perguntou o oficial.

- Também não temos ainda- disse McBride. - É nesse ponto que esperamos que possa nos ajudar se ele vier aqui. Precisamos de uma descrição dele.

Ele deslizou uma folha de papel branco sobre a mesa com uma descrição curta, de duas linhas, de um homem com cerca de cinqüenta anos e 1,72m de altura. Compacto, musculoso, olhos azuis, cabelos claros.

McBride saiu com fotocópias dos noventa pedidos por vistos para o Suriname que tinham sido arquivados e concedidos na semana anterior. Em três dias todos foram considerados cidadãos americanos, porque os detalhes e fotos de passaporte apresentados ao consulado do Suriname batiam completamente com aqueles arquivados no Departamento de Estado.

Se o escorregadio Vingador, cujo arquivo Devereaux tinha-lhe ordenado a decorar fosse aparecer, ainda não o tinha feito.

Na verdade, McBride estava no consulado errado. O Suriname não é grande e certamente não é rico. Mantém consulados em Washington e Miami, mais Munique (mas não na capital alemã de Berlim), e dois na antiga potência colonial da Holanda. Um é em Haia, mas o escritório maior fica na De Cuseertraat número 11, Amsterdã.

Foi neste escritório que a Sra. Amelie Dykstra, uma senhora holandesa recrutada localmente e paga pelo Ministério das Relações Exteriores da Holanda, estava sendo tão prestativa ao candidato a visto à sua frente.

- É britânico, Sr. Nash?

O passaporte que tinha em mãos mostrava que o Sr, Henry Nash era realmente britânico e que sua profissão era de empresário.

- Qual é o propósito de sua visita ao Suriname? perguntou a Sra. Dykstra.

- Minha companhia desenvolve novos trajetos turísticos, principalmente hotéis em áreas costeiras - disse o inglês. - Estou torcendo para encontrar novos pontos turísticos em seu país, bem, o Suriname, antes de seguir para a Venezuela.

- O senhor deveria procurar o Ministério do Turismo - disse a holandesa, que nunca estivera no Suriname.

Pelo que Cal Dexter pesquisara sobre aquela região castigada pela malária, um ministério como esse seria um exercício em otimismo sobre a realidade.

- É precisamente a minha intenção, assim que chegar lá, cara dama.

Ele pediu uma passagem num avião no Aeroporto de Schiphol, pagou os 35 florins, pegou seu visto e saiu. Na verdade seu avião não ia para Londres, e sim para Nova York.

McBride seguiu novamente para o sul, para Miami e Suriname. Um carro de São Martinho pegou-o no aeroporto de Parbo e seguiu para leste até a barca que atravessava o rio Commini. O Ojos Negros que o escoltava furou a fila e os dois atravessaram sem pagar até a margem de São Martinho.

Durante a travessia, McBride saltou do carro para observar o líquido marrom passando lentamente em direção ao mar. Mas, a nuvem de mosquitos e o calor impeliram-no de volta ao interior da Mercedes e seu ar-condicionado. Os policiais secretos enviados pelo coronel Moreno permitiram-se trocar sorrisos Matreiros para comentar

tamanha estupidez. Mas por trás dos óculos negros, seus olhos mantiveram-se inexpressivos.

Eram sessenta quilômetros por uma antiga estrada colonial cheia de saliências e buracos até a fronteira de São Martinho. A estrada corria pela floresta em ambos

os lados. Em algum lugar à esquerda da estrada, a selva daria lugar aos pântanos, os pântanos ao mangues e finalmente ao mar inacessível. À direita a densa floresta tropical estendia-se para o interior, subindo levemente, até a confluência dos rios Commini e Maroni, e dali para o Brasil.

Um homem, pensou McBride, poderia perder-se ali depois de andar menos de um quilômetro. Ocasionalmente ele via uma trilha saindo da estrada e entrando no mato, sem dúvida para alguma pequena fazenda ou plantação não muito distante da estrada.

Ao longo da rodovia, passaram por alguns veículos, em sua maioria picapes ou Land Rovers maltratados, claramente usados por fazendeiros mais afortunados, e ocasionalmente um ciclista com uma cesta de vegetais e frutas sobre a roda traseira, indo ganhar seu pão de cada dia no mercado.

Havia aproximadamente uma dezena de aldeias menores ao longo do caminho, e o homem de Washington ficou pasmo em ver como o tipo étnico dos camponeses de São Martinho era diferente daquele de uma república atrás. Havia um motivo para isso.

Todos os outros poderes coloniais, conquistando e tentando ocupar paisagens virtualmente vazias, plantaram suas fazendas e então procuraram por uma força de trabalho.

Os índios locais viram o que lhes aguardava e sumiram na selva.

A maioria dos colonialistas importou escravos africanos das propriedades que já possuíam, ou com que negociavam, ao longo da costa africana. Os descendentes desses escravos, normalmente misturando os genes com os índios e brancos, criaram as populações modernas. Mas o Império Espanhol ficava quase totalmente no Novo Mundo, e não africano. Não tinha uma fonte fácil de escravos negros, e sim milhões de camponeses mexicanos sem terra; e a distância de Yucatan para a Guiana Espanhola era bem menor.

Os camponeses de beira de estrada que McBride estava vendo pelas janelas da Mercedes tinham feições acastanhadas devido ao sol, mas não eram negros, nem mesmo crioulos. Eram hispânicos. A força de trabalho inteira de São Martinho ainda era genericamente hispânica. Os poucos escravos negros que escaparam dos holandeses entraram na floresta para se tornar os bushneger, que eram muito difíceis de ser encontrados, e mortais quando eram.

Quando o César de Shakespeare expressou o desejo de ter homens gordos à sua volta, presumiu que eles seriam alegres e amistosos. Ele não estava pensando no coronel Hernan Moreno. O homem supostamente responsável por manter o aparatoso presidente Munoz no palácio na colina atrás da capital desta última república de bananas, era gordo como um sapo prenhe, mas não era alegre nem amistoso.

Os tormentos que infligia nos suspeitos de sedição ou de posse de detalhes sobre tais pessoas, eram comentados apenas em sussurros nas esquinas mais escuras.

Havia um lugar, diziam que no alto do país, para se fazer essas coisas, e ninguém voltava de lá. Não era necessário jogar cadáveres no mar, como a polícia secreta de Galtieri na Argentina. Não era necessário cavar buracos com pás e picaretas. Um corpo nu amarrado em estacas na floresta atraía formigas-defogo, e sob essas formigas a carne macia sofre os efeitos que a natureza normal levaria anos para causar.

Ele sabia que o homem de Langley estava vindo e optou por oferecer-lhe um almoço no Iate Clube. Era o melhor restaurante da cidade, certamente o mais privativo, e localizado no porto de frente para um mar azul reluzente. Mais importante, a brisa marítima abafava o fedor que pairava nas ruas.

Ao contrário de seu empregador, o chefe da polícia secreta evitava ostentação, uniformes e medalhas; seu corpanzil era vesudo com camisa e terno pretos. Se houvesse algum sinal de nobreza em suas feições, pensou o homem da CIA, o chefe da polícia secreta lembraria Orson Welles um pouco antes de morrer. Mas o rosto lembrava mais o de Hermann Goering.

Não obstante, o poder que exercia sobre o país pequeno e pobre era absoluto. Assim, o homem de Langley escutou sem interrompê-lo. Ele sabia exatamente qual era o relacionamento entre o refugiado da Iugoslávia que buscara santuário em São Martinho - e agora morava numa mansão invejável na beira de uma propriedade que o próprio Moreno ambicionava um dia adquirir - e o presidente.

Ele conhecia a imensa riqueza do refugiado e a taxa anual que pagava ao presidente Munoz por santuário e proteção, ainda que essa proteção fosse na verdade provida por ele próprio.

O que não sabia era por que um membro elevado da hierarquia de Washington escolhera reunir o refugiado e o tirano. Isso não importava. O sérvio gastara mais de cinco milhões de dólares construindo sua mansão, e mais dez na sua propriedade. A despeito das inevitáveis importações para realizar tal feito, metade desse dinheiro tinha sido gasto dentro de São Martinho, com pequenas percentagens para o coronel Moreno em cada contrato.

Mais diretamente, Moreno recebia honorários para prover a força de trabalho escravo, e manter números equiparados com novas prisões e desterros. Contanto que nenhum trabalhador rural escapasse ou voltasse vivo, era um arranjo lucrativo e seguro. O homem da CIA não precisava implorar por sua cooperação.

- Se ele puser um pé em São Martinho, Vou pegá-lo - garantiu. - Você não o verá novamente, mas cada fiapo de informação que divulgar lhe será passado. Quanto a

isso, tem minha palavra.

Em seu caminho de volta para a travessia pelo rio e o avião que o aguardava em Parbo, McBride pensou na missão que o caçador de recompensas tinha assumido; pensou nas defesas, e no preço do fracasso: morte nas mãos do coronel Moreno e nos seus especialistas em dor. McBride estremeceu, e não foi por causa do ar-condicionado.

Graças às maravilhas da tecnologia moderna, Calvin Dexter não precisou retornar para Pennington para recolher mensagens deixadas na secretária eletrônica ligada ao telefone de seu escritório. Podia ouvi-las a partir de uma cabine telefônica no Brooklyn. Ele fez isso em 15 de agosto.

A série de recados era principalmente de vozes que ele reconhecia antes que a pessoa se identificasse. Vizinhos, clientes de advocacia, comerciantes locais; quase todos desejando-lhe boas férias e perguntando quando estaria de volta.

Foi a penúltima mensagem que quase o fez largar o telefone, e fitar, sem nada ver, o tráfego que corria do outro lado do vidro da cabine. Colocou o telefone de volta no gancho e caminhou por uma hora tentando adivinhar como aquilo acontecera, quem vazara seu nome e atividade profissional e, mais importante de tudo, se a voz anônima pertencia a um amigo ou a um traidor.

A voz não se identificara. Era desprovida de qualquer entonação, e abafada como se tivesse passado por muitas camadas de lenços de papel. Ela dissera simplesmente:

- Vingador, cuidado. Eles sabem que você está indo.

 

                       O PLANO

QUANDO O PROFESSOR MEDVERS WATSON SAIU, O CÔNSUL surinamês estava levemente tonto; tanto que quase excluiu o acadêmico da lista de requisitantes de visto que estava enviando para Kevin McBride num endereço particular na cidade.

- Callicore maronensis - disse com um sorriso o professor, quando lhe foi perguntado o motivo para seu desejo de visitar o Suriname.

O cônsul fitou-o, perplexo. Percebendo sua confusão, o Dr. Watson abriu sua pasta 007 e retirou a obra-prima de Andrew Neild: As borboletas da Venezuela.

- Ela já foi avistada, você sabe. O tipo "V". Inacreditável.

Abriu a obra de referência numa página de fotografias coloridas de borboletas que, para o cônsul, pareciam muito similares, portando apenas leves variações de marcas nas asas.

- Uma das Limenitidinae, sabe. Subfamília, claro. Como a Charaxinae. Ambas derivadas da Nymphalidae, como você provavelmente sabe.

O atordoado cônsul descobriu-se sendo educado sobre a ordem decrescente de família, subfamília, gênero, espécie e subespécie. - Mas o que quer fazer a respeito delas? - indagou o cônsul.

O professor Medvers Watson fechou ruidosamente seu almanaque.

- Quero fotografá-las, meu caro. Quero encontrá-las e fotografá-las. Aparentemente houve um avistamento. Até agora Agrias narcissus era raríssima nos seus sertões, mas a Callicore maronensis? Encontrá-la e fotografá-la seria um marco histórico. É por causa disso que preciso ir até lá sem demora. É a monção de outono, você sabe.

Está bem próxima.

O cônsul fitou o passaporte norte-americano. Carimbos para a Venezuela eram freqüentes. Havia outros para o Brasil e Guiana. Ele desdobrou a carta com o cabeçalho do Instituto Smithsonian. O Professor Watson era endossado calorosamente pelo chefe do Departamento de Entomologia, Divisão Lepidóptera. Ele assentiu lentamente.

No mundo moderno, não era costumeiro negar pedidos a cientistas, ambientalistas e ecologistas. Ele carimbou o visto e devolveu o passaporte.

O professor Watson não pediu pela carta, de modo que ela permaneceu na mesa.

- Então, boa caçada - disse o cônsul.

Dois dias depois, Kevin McBride entrou no escritório de Paul Devereaux com um sorriso enorme no rosto.

- Acho que achamos - disse McBride.

Ele colocou na mesa um requerimento completo do tipo emitido pelo consulado surinamês para os solicitantes de visto. Havia uma foto de passaporte na página.

Devereaux leu os detalhes.

- E daí?

McBride pousou uma carta ao lado do formulário. Devetambém a leu.

- E?

- E ele é um farsante. Não há nenhum portador de passaporte norte-americano chamado Medvers Watson. O Departamento de Estado garante isso. Ele devia ter escolhido um nome mais comum. Este se destaca na multidão. Os acadêmicos do Instituto Smithsonian nunca ouviram falar dele. Ninguém no mundo do estudo de borboletas jamais ouviu falar de Medvers Watson.

Devereaux olhou para a foto do homem que tentara arruinar sua operação secreta e que portanto se tornara, mesmo sem saber, seu inimigo. Os olhos por trás dos óculos pareciam tolos, e a barbicha na ponta do queixo enfraquecia, ao invés de fortalecer, o rosto.

- bom trabalho, Kevin. Estratégia brilhante. Passe cada detalhe imediatamente para o coronel Moreno em São Martinho. Ele deve agir o quanto antes.

- E para o governo surinamês em Parbo.

- Não, para eles não. Não quero chamar sua atenção.

- Paul, eles podem prendê-lo no momento que ele entrar no aeroporto de Parbo. Nossos rapazes na embaixada podem confirmar que o passaporte é falsificado. Os surinameses irão detê-lo por fraude de passaporte e colocá-lo no próximo avião de volta com dois fuzileiros nossos como sua escolta. Nós iremos prendê-lo assim que ele pisar no aeroporto.

- Kevin, escute com atenção. Eu sei que é duro. Estou a par da reputação de Moreno. Mas se nosso homem tiver um maço de dólares bem gordo, ele pode evitar ser preso no Suriname. E aqui ele vai poder pagar sua fiança e sumir do mapa.

- Paul, Moreno é um animal. Você não mandaria o seu pior inimigo para as garras...

- E você não sabe o quanto o sérvio é importante para todos nós. Nem sua paranóia. Ele precisa saber que o perigo contra sua pessoa foi completamente eliminado. Se não souber, ele vai deixar-me de ser útil.

- E você ainda não pode me dizer qual é a utilidade dele?

- Desculpe, Kevin. Ainda não.

Seu assistente deu de ombros, insatisfeito mas obediente.

- Certo, a consciência é sua, não minha.

E esse era o problema, pensou Paul Devereaux quando estava mais uma vez sozinho em seu escritório, olhando para a folhagem densa e verde entre ele e o Potomac. Ele podia aplacar sua consciência? Ele precisava. O mal menor, o bem maior.

O homem desconhecido com passaporte falso não iria morrer facilmente e sem dor. Mas ele tinha escolhido nadar em águas traiçoeiras, e sabia o que podia lhe acontecer.

Naquele dia, 18 de agosto, os Estados Unidos assavam sob o calor do verão, e metade do país buscava conforto nos mares, rios, lagos e montanhas. Na costa norte da América do Sul,

100% de umidade, levantando-se das selvas vaporosas atrás da costa, acrescentavam mais dez graus aos 37 causados pelo sol.

No porto de Parbo, a dezesseis quilômetros do mar ao longo do rio Suriname, o calor parecia um cobertor tangível, deitado sobre os armazéns e docas. Os cães tentavam encontrar as sombras mais densas para se abrigar até o pôr-do-sol. Os humanos sentavam-se debaixo de ventiladores de velocidade lenta que meramente moviam um pouco o ar desconfortável.

Os idiotas bebiam refrigerantes açucarados, que apenas pioravam a sede e a desidratação. Os experientes preferiam chá Quente, o que pode parecer loucura mas, conforme foi descoberto pelos construtores do Império Britânico dois séculos antes, era a bebida mais reidratante.

O cargueiro de 1.500 toneladas, Tobago Star, arrastou-se rio acima, aportou em seu píer designado e esperou pela escuridão.

- Nas sombras frias o cargueiro desembarcou sua carga, que incluía um caixote no nome do diplomata norte-americano Ronald Proctor. Este foi para uma seção cerceada por correntes do armazém, onde ficaria até ser recolhido.

Paul Devereaux passara anos estudando terrorismo em geral, e os tipos que emanavam do mundo árabe e muçulmano não eram necessariamente iguais.

Há muito tempo ele concluíra que o senso comum do Ocidente, de que o terrorismo era derivado do poder e da privação daqueles que Fanon chamara de "os desafortunados da Terra", era apenas uma besteira conveniente e politicamente correta.

Desde os anarquistas da Rússia czarista até o IRA de 1916, desde o Irgun e a gangue Stern, o EOKA em Chipre, o grupo Baader-Meinhof na Alemanha, o CCC na Bélgica, o Action Directe na França, as Brigadas Vermelhas na Itália, a Facção do Exército Vermelho na Alemanha novamente, o Renko Skkigun no Japão, o Sendero Luminoso no Peru, o moderno IRA no Ulster, o ETA na Espanha, todas essas organizações terroristas tinham uma coisa em comum: haviam nascido das mentes dos afortunados e bem-educados teóricos de classe média dotados de uma imensa vaidade pessoal e um egoísmo igualmente proeminente.

Tendo estudado todos eles, Devereaux finalmente se convencera de que o mesmo se aplicava a todos os seus líderes, os auto-arrogados líderes das classes trabalhadoras.

O mesmo se aplicava tanto no Oriente Médio quanto na Europa Ocidental, a América do Sul ou o Extremo Oriente. Imad Mugniyan, George Habash, Abu Awas, Abu Nidal e todos os outros Abus que nunca tinham perdido uma refeição em suas vidas. A maioria deles possuía diplomas universitários.

Na teoria de Devereaux, aqueles que podiam ordenar a outros que plantassem uma bomba num restaurante e se gabar das imagens resultantes tinham uma coisa em comum. Eles possuíam uma capacidade extraordinária para odiar. Isto era uma herança genética. O ódio vinha primeiro; o alvo vinha depois.

O motivo também era secundário à capacidade de odiar. Podia ser a revolução bolchevique, a libertação nacional ou mil variações, da congregação à secessão; podia ser fervor anti -capitalista; podia ser exaltação religiosa.

Mas o ódio vinha primeiro, depois a causa, depois o alvo, então os métodos e finalmente a autojustificativa. E os "inocentes" de Lenin sempre engoliam isso.

Devereaux estava convencido de que a liderança da Al Qaeda correspondia precisamente a esse modelo. Seus fundadores eram um milionário da indústria de construção da Arábia Saudita e um médico qualificado do Cairo. Não importava se seu ódio contra americanos e judeus era pagão ou religioso. Não havia nada, absolutamente nada, que os Estados Unidos ou Israel pudessem fazer, além da auto-aniquilação, que os satisfizesse.

Para ele, nenhuma dessas pessoas dava a mínima para os palestinos, a não ser como veículos e justificativas. Eles odiavam seu país não pelo que ele tinha feito, mas pelo que ele era.

Devereaux lembrou do velho chefe de espionagem inglês com quem havia jantado no White's enquanto manifestantes de esquerda passavam diante da janela do restaurante.

Descontando os socialistas britânicos de cabelos brancos que jamais haviam se recobrado da morte de Lenin, eles eram rapazes e moças ingleses que um dia comprariam uma casa a prazo e votariam conservadoramente, e torrentes de estudantes do Terceiro Mundo.

- Eles jamais perdoarão vocês, meu rapaz - disse o velho.

- Não espere isso, se não quiser ficar desapontado. Eles Pré condenarão todas as atitudes do seu país. É rico enquanto eles são pobres, forte enquanto eles são fracos, vigoroso enquanto eles são ociosos, empreendedor enquanto eles são reacionários, engenhoso enquanto eles são estúpidos, democrático enquanto eles são autoritários.

O velho tinha feito uma pausa antes de prosseguir:

- Tudo que é preciso é de um demagogo que se levante e grite: "Tudo que os americanos têm foi roubado de vocês", e eles acreditarão. Como o Caliban de Shakespeare, seus fanáticos olham no espelho e rugem com o que vêem. Essa raiva se torna ira, e a ira precisa de um alvo. A classe trabalhadora do Terceiro Mundo não odeia vocês.

São os pseudo-intelectuais do Terceiro Mundo que odeiam vocês. Se perdoarem vocês, estarão condenando a si mesmos. Até agora seu ódio carece de armas. Um dia eles conseguirão as armas. Então você terá de lutar ou morrer. Não em grupos de dez, mas em grupos de dez mil.

Trinta anos depois, Devereaux achava que o velho inglês, morto há muito tempo, estava absolutamente certo. Depois da Somália, Quênia, Tanzânia e Aden, seu país estava numa nova guerra e nem sabia. A tragédia era ainda maior devido ao fato de que a própria sociedade pisava em ovos.

Durante muito tempo o Jesuíta pedira para ir para a linha de frente. Agora estava nela. Agora tinha de fazer alguma coisa com seu comando. Sua resposta era o Projeto Peregrino. Ele não tencionava negociar com UBL, nem mesmo reagir depois de seu próximo ataque. Ele tencionava destruir o inimigo de seu país antes desse ataque.

Na analogia do padre Xavier, ele tencionava usar sua lança para avançar, antes que a ponta da faca se aproximasse. O problema era: onde? Nem "aproximadamente", nem "em algum lugar do Afeganistão", mas "onde em termos de metros e "quando" em termos de minutos.

Ele sabia que um ataque se aproximava. Todos sabiam. Dic Clarke na Casa Branca, tom Pickard no QG do Edifício ver, George Tenet um andar acima de sua cabeça em Langley. Todos os sussurros nas ruas diziam que um "grande ataque" estava sendo preparado. Era o onde, quando, o que e como que eles não sabiam, e graças às regras loucas quê os proibiam de perguntar a pessoas malvadas, não havia a menor chance de descobrir. Isso, mais a recusa de reunir o que eles já sabiam.

Paul Devereaux estava tão desencantado com seus colegas que preparava seu plano Peregrino e não dizia a ninguém do que se tratava.

Em sua leitura de dezenas de milhares de páginas sobre o terrorismo em geral e a Al Qaeda em particular, um tema se destacara em meio à névoa. Os terroristas islâmicos não ficariam satisfeitos com alguns norte-americanos mortos de Mogadiscio a Dar-es-Salaam. UBL queria centenas de milhares. A predição do velho inglês estava se concretizando. Para alcançar esses números, a liderança da Al Qaeda precisaria de uma tecnologia que eles não possuíam ainda, mas que tentavam incessantemente adquirir.

Devereaux sabia que nos complexos cavernosos do Afeganistão, que não eram simplesmente buracos nas rochas, mas labirintos subterrâneos que incluíam laboratórios, já se havia iniciado experimentos com germes e gases. Mas eles ainda estavam a quilômetros dos métodos de disseminação em massa.

Para a Al Qaeda, assim como para todos os grupos terroristas do mundo, havia um prêmio maior do que todos os outros: material fissionável. Qualquer um dentre pelo menos uma dúzia de grupos assassinos daria seus olhos e dentes, assumiria riscos absurdos, para adquirir o elemento básico de um dispositivo nuclear.

Não precisava ser uma supermoderna ogiva "limpa". Na verdade, o tipo mais básico, mais "sujo" em termos de radiação, a mais cobiçada. Os cientistas dos terroristas sabiam que elementos fissionáveis suficientes, envoltos em material plástico suficiente, criariam radiação letal suficiente para tornar uma cidade do tamanho de Nova York inabitável por uma geração. E isso sem contar com o meio milhão de pessoas que morreriam prematuramente devido a câncer induzido por radiação.

A guerra subterrânea já durava uma década e vinha sendo onerosa e intensa. Até agora, o Ocidente assistido mais recentemente por Moscou, tinha vencido e sobrevivido a essa guerra. Enormes somas haviam sido gastas comprando todos os fragmentos de urânio ou plutônio que se aproximaram do mercado privado. Países inteiros, ex-repúblicas soviéticas, haviam entregado cada grama deixado para trás por Moscou, e os ditadores locais, sob as provisões da Lei Num Lugar, tinham ficado muito ricos. Mas havia uma quantidade, grande demais, que simplesmente desaparecera.

Logo depois que tinha fundado sua própria seçãozinha de Contraterrorismo em Langley, Devereaux notou duas coisas. Uma foi que 45 quilos de urânio 235 puro estavam armazenados no Institute Vinca, no coração de Belgrado. Assim que Milosevic caiu, os Estados Unidos começaram a negociar sua aquisição. Apenas um terço dessa quantidade, quinze quilos, bastaria para uma bomba.

A outra coisa era que um gangster sérvio violento e íntimo da corte de Milosevic fugira antes do navio afundar. Ele precisava de "cobertura", novos documentos, proteção e um lugar para onde desaparecer. Devereaux sabia que esse lugar jamais poderia ser os EUA. Mas uma república de bananas... Devereaux fechou um acordo e impôs o preço. O preço era colaboração.

Antes de sair de Belgrado, o ex-braço-direito de Milosevic roubara uma amostra de urânio 235 do Institute Vinca, e os registros foram mudados para mostrar que na verdade quinze quilos tinham desaparecido.

Seis meses antes, apresentado pelo fabricante de armas, Vladimir Bout, o sérvio fugitivo entregara sua amostra e as provas documentais de que possuía os quinze quilos restantes.

A amostra tinha ido para o químico e físico da Al Qaeda, Abu Khabab, outro egípcio altamente educado e fanático. Ele precisara sair do Afeganistão e viajar discretamente para o Iraque para conseguir o equipamento de que precisava para testar adequadamente a amostra.

No Iraque, outro programa nuclear estava em andamento. Ele também tentava produzir armas com urânio 235, mas estava fazendo-o lentamente, à moda antiga, com dispositivos de separação isotópicos como os usados em 1945 em Oak Ridge, Tennessee. A amostra causou grande agitação. Apenas quatro semanas antes da veiculação daquele maldito relatório compilado por um magnata canadense a respeito da morte de seu neto, chegara-lhe a notícia de que a Al Qaeda queria fazer negócio. Devereaux tivera de se forçar a permanecer muito calmo.

Para sua máquina de matar, Devereaux quisera usar um dispositivo não-tripulado de alta elevação chamado Predator, mas ele caíra nos arredores do Afeganistão. Seus destroços haviam sido trazidos de volta para os Estados Unidos, e o dispositivo, até agora desarmado, estava sendo "armado" mediante a afixação de um míssil Hellfire, de modo que no futuro poderia não apenas ver um alvo da estratosfera, mas também reduzi-lo a pó.

Mas a conversão demoraria muito tempo. Paul Devereaux repensou seu plano, mas teve de aguardar enquanto armas diferentes eram instaladas. Apenas quando as armas estivessem Prontas o sérvio aceitaria o convite de viajar até Peshawar, aciuistão, para ali encontrar-se com Kawaheri, Atef, Zubaydah e o rísico Abu Khabab. Ele levaria consigo quinze quilos de urânio 10, mas não em níveis de armas. Concentrado de urânio bastaria, combustível normal de reator, isótopo 238, 3% refinado, não os 88% necessários.

No encontro crucial Zoran Zilic iria pagar por todos os favores que tinham sido acordados. Se não o fizesse, seria destruído por um único telefonema para o leal e pró-Qaeda serviço secreto paquistanês, o ISI.

Zoran Zilic iria subitamente duplicar o preço e ameaçar partir se o novo preço não fosse pago. Devereaux estava jogando com a chance de que havia apenas um homem que poderia tomar essa decisão, e que ele teria de ser consultado.

Lá longe, no Afeganistão, UBL teria de atender àquele telefonema. No espaço, um satélite-espião conectado à National Security Agency ouviria o telefonema e apontaria seu destino como um local de três metros quadrados.

Será que o homem no lado afegão esperaria? Será que conteria sua curiosidade de saber se tinha se tornado o proprietário de urânio suficiente para satisfazer seus sonhos mais mortais?

Na costa do Beluchistão, o submarino nuclear USS Columbia abriria suas escotilhas para emitir um único míssil Tomahawk. Enquanto estivesse voando seria programado por GPS (Global Positioning System mais Tercom (Terrain Contour Matching - emparelhamento de contorno de terreno) e Dismac (Digital Scene Matching Area Correlation - correlação de área de emparelhamento de cena digital).

Três sistemas navegacionais guiariam o míssil até o ponto de emissão do telefone celular e ele explodiria toda a área num raio de trinta metros, incluindo o homem que aguardava a chamada de volta de Peshawar. Para Devereaux, o problema era tempo. O momento em que Zilic teria de partir para Peshawar, parando em Rãs al-Khaimah para pegar o russo, aproximava-se cada vez mais. Devereaux não podia se dar ao luxo de permitir que Zilic entrasse em pânico e recuasse por achar que era um homem caçado, o que tornava o acordo entre eles nulo e vazio. Vingador precisava ser detido e provavelmente destruído. Mal menor, bem maior.

Era 20 de agosto. Um homem desceu do avião de passageiros holandês da KLM vindo de Curaçau para o aeroporto de Paramaribo. Não era o professor Medvers Watson, por quem um comitê de recepção esperava um pouco mais abaixo na costa.

Não era nem mesmo o diplomata norte-americano Ronald Proctor, por quem um caixote aguardava nas docas.

Era Henry Nash, o pesquisador de estâncias turísticas. com seu visto entregue em Amsterdã, passou sem esforço pela alfândega e pela imigração, e pegou um táxi para a cidade. Teria sido tentador hospedar-se no Torarica, que de longe era o melhor hotel da cidade. Mas como encontraria ingleses de verdade lá, seguiu para o Krasnopolsky, na Dominiestraat.

Seu quarto era no último andar, com uma varanda voltada para leste. O sol estava às suas costas quando ele saiu para olhar para a cidade. A altura extra proporcionou-lhe uma leve brisa que tornou o calor suportável. Cento e doze quilômetros para leste e depois do rio, as selvas de São Martinho o aguardavam.

 

                       A FLORESTA

FOI O DIPLOMATA AMERICANO, RONALD PROCTOR, QUEM comprou o carro. Não era nem de uma agência conhecida, mas de um vendedor autônomo que anunciava no jornal local.

O Cherokee era de segunda mão, porém em bom estado, e com um pouco de trabalho e manutenção completa, que seu novo proprietário - mecânico treinado pelo exército norte-americano - pretendia lhe prover, daria conta do recado.

O acordo que ele fez com o vendedor foi simples e agradável. Ele pagaria dez mil dólares em dinheiro vivo. Precisaria do veículo apenas durante um mês, até que seu próprio tração nas quatro rodas chegasse dos Estados Unidos. Se ele devolvesse o veículo intacto em trinta dias, o vendedor iria aceitá-lo de volta, reembolsando-o em cinco mil dólares.

O vendedor ficou animado com a possibilidade de ganhar cinco mil dólares sem desfazer-se de seu veículo. Considerando que o homem à sua frente era um elegante diplomata americano, e o Cherokee deveria voltar em trinta dias, parecia tolice dar-se ao trabalho de mudar os documentos. Afinal de contas, por que alertar a receita federal?

Proctor também alugou uma garagem e um pequeno depósito atrás do mercado de flores e hortaliças. Por fim, seguiu até o porto e retirou seu único caixote. Levou-o para a garagem, onde o abriu cuidadosamente, colocando o conteúdo em duas mochilas de lona. E então Ronald Proctor simplesmente deixou de existir.

Em Washington, Paul Devereaux mordia-se de ansiedade enquanto os dias se arrastavam. Onde estava aquele homem? Será que havia usado seu visto e entrado no Suriname?

Será que estava a caminho?

A forma mais fácil de satisfazer sua curiosidade seria perguntando diretamente às autoridades do Suriname, através da embaixada norte-americana em Redmondstraat.

Mas isso acionaria a curiosidade dos surinameses. Eles perguntariam por que ele queria saber. Então eles mesmos pegariam o homem e lhe fariam perguntas. O homem conhecido como Vingador daria um jeito de se libertar e começar tudo de novo. O sérvio, já paranóico com a perspectiva de ir a Peshawar, poderia entrar em pânico e romper o acordo. Assim, Devereaux continuou andando em círculos enquanto aguardava.

Em Paramaribo, o pequeno consulado de São Martinho fora alertado pelo coronel Moreno de que um norte-americano, passando-se por colecionador de borboletas, poderia candidatar-se a um visto. O visto deveria ser concedido, e o coronel informado imediatamente.

Mas ninguém chamado Medvers Watson apareceu. O homem por quem eles procuravam estava sentado no terraço de um restaurante no meio de Parbo com suas últimas aquisições num saco ao seu lado. Era 24 de agosto.

O que ele comprara viera da única loja de caça e pesca da cidade, a Tackle Box, na Zwarten Hovenbrug Street.

Como o empresário londrino Henry Nash ele comprara quase nada que lhe seria útil do outro lado da fronteira. Mas somado ao conteúdo do caixote do diplomata e o que adquirira naquela manhã, ele não conseguia pensar em nada que fosse lhe faltar. Assim, bebeu sua cerveja sabendo que seria a última da qual desfrutaria por algum tempo.

Aqueles que esperavam foram recompensados na manhã do dia 25. A fila diante da barca que atravessava o rio estava, como sempre, lenta, e as nuvens de mosquitos, como sempre, densas. As pessoas que faziam a travessia eram quase todas moradoras da região, em bicicletas, motocicletas e picapes enferrujadas, todas abarrotadas com frutas e hortaliças.

Havia apenas um carro bonito na fila no lado do Suriname. Era um Cherokee preto, com um homem branco ao volante. Ele usava um paletó de linho creme, chapéu-panamá e óculos de aros grossos. Como os outros, esperava parado, e então movia-se alguns metros à frente quando uma barca encerrava o recebimento de carga e começava a atravessar o rio Commini.

Depois de uma hora ele finalmente estava no convés de ferro. Acionou o freio de mão do carro e desceu para apreciar o rio. Algum tempo depois, no lado de São Martinho, ele se juntou à fila de seis carros que aguardavam liberação.

A checagem na fronteira de São Martinho era mais rigorosa, e a dúzia de soldados posicionados ali pareciam um pouco tensos. A estrada estava bloqueada por um poste listrado deitado sobre dois tambores de óleo recém-firmados ao chão com concreto.

No barraco a um lado, um oficial de imigração estudou todos os documentos, sua cabeça visível através da janela. Os sunnameses, que estavam aqui para visitar parentes ou comprar hortaliças para revender em Parbo, deviam estar se perguntando por que tudo aquilo, mas paciência nunca foi racionada no Terceiro Mundo, nem informação um artigo muito procurado. Os camponeses sentaram e esperaram de novo. Era quase noite quando o Cherokee avançou lentamente até a barreira. Um soldado estendeu os dedos para receber o passaporte, tomou-o do americano e o estendeu através da janela da cabine.

O motorista do off-road pareceu nervoso. Suava em bicas. Evitava os olhos dos guardas, mantendo sua atenção focada à frente. De vez em quando olhava para o lado através da janela da cabine. Foi durante um desses olhares que viu o oficial de imigração levantar de sua cadeira com um pulo e agarrar seu telefone. Foi nesse momento que o viajante com a barbicha na ponta do queixo entrou em pânico.

De repente o motor rugiu. O pesado veículo negro com tração nas quatro rodas arremeteu à frente, nocauteou um soldado com o espelho retrovisor, jogou o poste listrado para o ar e contornou os caminhões até desaparecer na escuridão.

Atrás do Cherokee o caos se instalou. Parte do poste tinha atingido o oficial do exército no rosto. O funcionário da imigração saiu gritando da cabine, brandindo um passaporte americano em nome do professor Medvers Watson.

Dois dos policiais secretos do coronel Moreno, que haviam estado observando o oficial de imigração dentro do barraco, saíram correndo com pistolas em punho. Um recuou e telefonou para a capital, sessenta quilômetros a leste.

Galvanizados pelo oficial do exército que segurava seu nariz quebrado, os soldados amontoaram-se num caminhão e partiram em perseguição. Os policiais secretos correram até seu próprio Land Rover azul e fizeram o mesmo. Mas o Cherokee dobrou duas curvas e sumiu.

Em Langley, Kevin McBride viu a lâmpada piscar no telefone de sua mesa que o ligava ao gabinete do coronel Moreno na Cidade de São Martinho.

Ele atendeu o telefonema, ouviu cuidadosamente, anotou o que foi dito, fez algumas perguntas e anotou novamente. Então foi ver Paul Devereaux.

- Pegaram ele.

- Em custódia?

- Quase. Ele tentou entrar do jeito que previ, pelo rio, vindo do Suriname. Deve ter notado o interesse repentino em seu passaporte, ou os guardas fizeram estardalhaço demais. Seja lá como for, ele derrubou a barreira e saiu a toda. O coronel Moreno disse que ele não tem para onde ir. Apenas selva em ambos os lados, e estradas cheias de patrulhas. Ele disse que vão pegá-lo até amanhã de manhã.

- Pobre coitado - disse Devereaux. - Devia ter ficado em casa.

O coronel Moreno foi otimista demais. Levou dois dias. Na verdade, a notícia foi trazida por um fazendeiro que morava no quilômetro três da estrada que começava do lado direito da rodovia da floresta.

O fazendeiro disse que lembrava de ter ouvido um carro de motor muito forte passando diante de sua casa na noite anterior. Disse também que sua esposa vira um off-road grande e quase novo subindo a estrada.

Naturalmente, ele presumira tratar-se de um veículo do governo; nenhum fazendeiro ou caçador sonharia em poder comprar um veículo como aquele. Apenas quando o veículo não voltou até a noite seguinte, o fazendeiro seguiu até a estrada principal. Ali encontrou uma patrulha e contou sua história aos soldados.

Os soldados acharam o Cherokee. Ele tinha seguido mais Um quilômetro e meio depois do barraco do fazendeiro quando, tentando adentrar a floresta tropical, enfiara-se de bico numa vala, ficando preso ali num ângulo de 45 graus. Marcas profundas mostravam onde o motorista tentara forçar seu caminho para fora da vala, mas seu pânico apenas piorara a situação. Foi necessário trazer um caminhão-guincho da cidade para tirar o tração nas quatro rodas do buraco, endireitá-lo e levá-lo de volta para a estrada.

O coronel Moreno compareceu pessoalmente ao local. Observou a terra revirada e as moitas esmagadas.

- Rastreadores - declarou. - Tragam os cães. Levem o Cherokee e tudo que tem dentro dele para o meu gabinete. Agora.

Mas a noite chegou. Os rastreadores eram pessoas simplórias, incapazes de enfrentar a escuridão quando os espíritos rondavam a floresta. Eles começaram na manhã seguinte ao amanhecer e encontraram sua presa ao meio-dia.

Um dos homens de Moreno estava com eles e tinha um celular. Moreno atendeu o telefonema em seu escritório. Trinta minutos depois, Kevin McBride entrou no escritório de Devereaux.

- Eles o acharam. Está morto.

Devereaux olhou para o calendário em sua mesa. Ele revelava que a data era 27 de agosto.

- Acho que você devia ir até lá - disse ele.

- É uma viagem horrível, Paul. Até a porra do Caribe.

- Vou reservar um jato da companhia. Você deve chegar lá amanhã de manhã. Não sou apenas eu que preciso ter certeza de que o problema acabou de vez. Zilic também precisa acreditar nisso. Vá até lá, Kevin. Convença a nós dois.

O homem que Langley conhecia apenas por seu codinome Vingador avistara a estrada a partir da rodovia quando voara no Piper sobre a região. Era uma dentre uma dúzia de estradas que derivavam da rodovia entre o rio e a capital, sessenta quilômetros a leste. Cada estrada servia a uma ou duas pequenas plantações ou fazendas, e depois dava no nada.

No dia em que sobrevoara a região, ele não pensara em fotografá-la, economizando seu filme para a fazenda em El Punto. Mas ele lembrava delas. E no vôo de volta com o malfadado piloto de aluguel, ele as vira novamente.

A estrada que escolheu usar era a terceira a partir do rio. Ele tinha uma vantagem de quase um quilômetro sobre seus perseguidores quando reduziu a velocidade para não deixar rastros, e fez o Cherokee subir uma trilha. Escondeu-se atrás de uma pedra, desligou o motor e ouviu os perseguidores passarem ruidosamente.

O percurso até a fazenda foi fácil para seu veículo com tração nas quatro rodas. Depois da fazenda o terreno ficou bem mais difícil. Ele fez o veículo seguir mais um quilômetro e meio através da selva densa. Então saltou do veículo e caminhou pela escuridão até achar uma vala. Então voltou para o veículo e o arremeteu contra a vala.

Deixou o que queria que os rastreadores achassem e levou o resto. Era pesado. O calor, mesmo à noite, era opressivo. A noção de que à noite as selvas são lugares silenciosos não passa de uma falácia. Elas farfalham, coaxam e rugem. Mas não têm espíritos.

Usando sua bússola e lanterna, marchou para oeste, então para o sul, por cerca de um quilômetro e meio, usando um de seus facões para abrir um tipo de trilha.

Depois de um quilômetro e meio ele deixou a outra parte do que queria que os perseguidores achassem e, agora finalmente tendo de carregar apenas uma mochila pequena, um cantil, uma lanterna e um segundo facão, apertou o passo em direção à margem do rio.

Alcançou o rio Commini ao alvorecer, num ponto bem afastado da rota de travessia da barca. O colchão inflável não era o que ele teria preferido, mas daria conta do recado. Deitado de bruços, remou com ambas as mãos, retirando-as da água quando uma cobra d'água deslizou por perto. O ofídio fitou-o a poucos centímetros de distância, mas continuou deixando-se levar pela correnteza.

Uma hora remando levou-o até a margem do rio Suriname. O fiel colchão inflável foi esfaqueado e abandonado para afundar no rio. Era o meio da manhã quando a figura suja e molhada, salpicada com mordidas de mosquito e sanguessugas, capengou pela estrada de volta para Parbo.

Depois de nove quilômetros, um mercador amistoso permitiu-lhe viajar com uma carga de melancias pelos últimos oitenta quilômetros até a capital.

Até mesmo as almas gentis no Krasnopolsky olhariam com desconfiança para seu empresário gentil aparecendo naquele estado; assim, trocou de roupas no depósito, usou um banheiro da garagem e um isqueiro a gás para queimar as sanguessugas, e voltou para o hotel, onde desfrutou de um almoço de filé com fritas. Mais várias garrafas de cerveja. Depois ele dormiu.

Trinta mil pés acima, o Lear Jet da companhia sobrevoava a costa norte-americana com Kevin McBride como seu único passageiro.

- Este é o tipo de transporte com o qual eu realmente poderia me acostumar - disse aos seus botões.

Reabasteceram na base aérea de Eglin, norte da Flórida, e mais uma vez em Barbados. Havia um carro à sua espera no aeroporto da Cidade de São Martinho para levá-lo até o QG da polícia secreta do coronel Moreno, numa floresta de

palmeiras nas cercanias da cidade.

O gordo coronel saudou o visitante em seu escritório com uma garrafa de uísque.

- É um pouco cedo para mim, coronel - disse McBrioe.

- Bobagem, meu amigo, nunca é cedo demais para um trago. Vamos, eu faço o brinde. Morte aos nossos inimigos.

Beberam. McBride, àquela hora e naquele calor, teria preferido um café decente.

- O que o senhor tem para mim, coronel?

- Uma pequena exposição. Venha, Vou lhe mostrar. Havia uma sala de conferências ao lado do escritório. Ela tinha sido arrumada para a sinistra "exposição" do coronel. A comprida mesa central estava coberta por um pano branco e continha um objeto. Perto das paredes havia mais quatro mesas com coleções de objetos variados. Foi a uma das mesas menores que o coronel Moreno aproximou-se primeiro.

- Eu lhe disse que o nosso amigo, o Sr. Watson, primeiro entrou em pânico, então dirigiu até a rodovia, tomou uma estrada secundária e tentou fugir seguindo através da selva? Sim? Bem, isso seria impossível. Ele enfiou seu veículo numa vala e não conseguiu retirá-lo. Agora o veículo está no jardim abaixo dessas janelas. Aqui está parte do que foi abandonado dentro dele.

A Mesa Um continha principalmente roupas de campanha, botas sobressalentes, mosquiteiro, repelente contra insetos, tabletes de purificação de água.

A Mesa Dois tinha uma tenda, pregos, lanterna, bacia de lona num tripé, artigos variados de toalete.

- Nada que eu não levaria para um passeio normal pela floresta - comentou McBride.

Concordo com você, meu amigo. É evidente que ele Pensava que iria se esconder na selva durante algum tempo, provavelmente fazendo uma emboscada para seu alvo na estrada para El Punto. Mas esse alvo raramente sai através da estrada e, quando o faz, é numa limusine blindada. Este assassino não era muito bom. Ainda assim, quando abandonou suas ferramentas, também abandonou isto. Talvez fosse pesado demais.

À Mesa Três o coronel descobriu alguns objetos. Tratava-se de uma Remington 3006, com uma enorme mira telescópica Rhino e uma caixa de balas. Adquirível em lojas de armas norte-americanas como um rifle de caça, aquela arma arrancaria a cabeça de um ser humano sem a menor dificuldade.

- Então, neste momento o seu homem abandona o carro e oitenta por cento do equipamento - explicou o homem gordo, apreciando cada segundo de sua exposição. – Ele foge a pé, provavelmente querendo chegar ao rio. Mas ele não é habilitado para combate na selva. Como eu sei? Porque ele não levava uma bússola. Depois de percorrer trezentos metros ele estava perdido, seguindo para o sul, para o interior da selva, e não para oeste, rumo ao rio. Quando nós o encontramos, tudo isto estava espalhado.

A última mesa continha um cantil (vazio), chapéu de safari, facão, lanterna. Havia botas de campanha de sola dura, farrapos de calças e camisa de camuflagem, pedaços de um paletó de linho absolutamente inadequado, cinto de couro com fivela de bronze, uma faca com bainha ainda presa ao cinto.

- Isto era tudo que ele estava carregando quando vocês o encontraram?

- Isso era tudo que ele estava carregando quando morreu. Em pânico, deixou para trás o que deveria ter levado. Seu rifle. Ele poderia ter-se defendido até o fim.

- Então, seus homens o alcançaram e atiraram nele?

O coronel Moreno lançou ambas as mãos ao alto, palmas para a frente, num gesto de inocência surpresa.

- Nós? Atirar nele? Desarmado? Claro que não, nós o queríamos vivo. Não, não. Ele morreu no mesmo dia em que fugiu, por volta da meia-noite. Quem não compreende a selva não deveria aventurar-se nela. Certamente não mal-equipado, à noite, tomado pelo pânico. Essa é uma combinação mortal. Veja.

Num gesto absolutamente teatral, o coronel puxou o lençol da mesa central. O esqueleto fora trazido da selva num saco de corpo, os pés ainda calçados nas botas, os ossos ainda segurando farrapos. Um médico tinha sido convocado do hospital para rearranjar os ossos na ordem certa.

O morto, ou o que restara dele, fora limpo até o último fragmento de pele, carne e tutano.

- A resposta para o que aconteceu está aqui - disse o Coronel Moreno, apontando com o indicador.

O fêmur direito tinha sido partido com perfeição através do meio.

- A partir disto podemos deduzir o que aconteceu, meu amigo. Ele entrou em pânico, fugiu. Apenas munido de uma lanterna, às cegas, sem uma bússola. Depois de sair do carro atolado, avançou aproximadamente um quilômetro e meio. Então seu pé ficou preso numa raiz ou num toco escondido de árvore. Ele foi ao chão. Craque! Uma perna quebrada.

"Agora ele não podia correr, não podia caminhar, não podia nem se arrastar. Sem arma ele não podia nem chamar por ajuda. Só podia gritar, mas de que valia isso?

Sabia que temos jaguares nessas selvas?

Bem, nós temos. Não muitos, mas se sessenta e oito quilos de carne fresca insistem em gritar até ficarem roucos, há boas chances de que será achado por um jaguar.

Foi o que aconteceu aqui. Os membros principais estavam espalhados por uma Pequena clareira.

Foi um banquete. O guaxinim come carne fresca. E o puma e o quati também. Quando o dia nasce, os abutres da floresta conseguem enxergar a carniça no chão. Já viu o que eles fazem com um cadáver? Não? Não é bonito, mas é completo. E depois de tudo isso ainda há as formigas-de-fogo.

"Conheço muito sobre as formigas de fogo. São as melhores faxineiras da natureza. A quarenta e cinco metros dali encontramos os ninhos delas. Elas enviam batedores, sabia? Não enxergam, mas seu olfato é extraordinário, e obviamente, depois de vinte horas morto ele estava cheirando que era uma maravilha. Basta?"

- Basta-disse McBride. Por mais cedo que fosse, McBride sentiu vontade de tomar um segundo uísque.

De volta ao escritório do coronel, os policiais secretos mostraram alguns objetos menores. Um relógio de pulso, com MW gravado nas costas. Um anel de formatura, sem inscrição.

- Não achamos uma carteira - disse o coronel. - Se era feita de couro, um dos predadores deve tê-la pego. Mas isto talvez seja ainda melhor. Ele teve de abandoná-lo na fronteira, quando foi reconhecido.

Era um passaporte dos Estados Unidos da América em nome de Medvers Watson. A profissão descrita foi de cientista. O mesmo rosto que McBride tinha visto antes, no formulário de requisição do visto: óculos, barbicha, expressão ligeiramente indefesa.

O homem da CIA considerou, com toda razão, que ninguém jamais veria Medvers Watson novamente.

- Posso falar com meu superior em Washington?

- É claro - disse o coronel Moreno. - Fique à vontade. Vou deixá-lo sozinho.

McBride abriu sua pasta 007 e tirou um laptop. Entrou em contato com Paul Devereaux digitando uma seqüência de números que impediria sua conversa de ser escutada por outros. com o celular plugado no laptop, aguardou até Devereaux atender.

Contou ao seu superior o essencial do que o coronel Moreno havia lhe contado, e do que ele tinha visto. Durante algum tempo houve silêncio.

- Quero que você volte para casa - ordenou Devereaux.

- Não tem problema - disse McBride.

- Moreno pode ficar com todos os brinquedos, inclusive o rifle. Mas quero o passaporte. Ah, e mais uma coisa.

McBride ouviu.

- Você quer... o quê?

- Apenas faça isso, Kevin. E venha o mais rápido que puder.

McBride contou ao coronel a ordem que havia recebido. O gordo chefe da polícia secreta deu de ombros.

- Que pena, uma visita tão curta. Tem certeza de que não quer ficar? Almoçaremos lagosta no meu barco em alto-mar. E beberemos vinho italiano gelado. Não? Tudo bem... o passaporte, claro. E o resto...

Ele encolheu os ombros.

- Se é o que você quer... pode levar tudo.

- Meu superior me disse que apenas um item irá bastar.

 

                     O TRUQUE

MCBRIDE ESTAVA DE VOLTA EM WASHINGTON EM 29 DE agosto. Naquele mesmo dia, em Paramaribo, o Sr. Henry Nash, com seu passaporte emitido pelo Primeiro-Secretário de Estado para Assuntos Externos de Sua Majestade, para dizer seu título completo, entrou no consulado da República de São Martinho e requereu um visto.

Não houve problema algum. O cônsul no escritório individual estava ciente da confusão de alguns dias atrás, quando um fugitivo da justiça tentara entrar em sua pátria.

Mas o estado de alerta fora suspenso. O homem estava morto. Assim, o cônsul emitiu o visto de entrada.

Esse era o problema com agosto. Não se conseguia nada depressa, nem mesmo em Washington, nem mesmo se você se chamasse Paul Devereaux. A desculpa era sempre a mesma:

"Sinto muito, senhor, ele está de férias. Ele vai voltar semana que vem." E assim tudo ficou pendente até a chegada de setembro.

Foi em 3 de setembro que Devereaux recebeu a primeira das duas respostas que buscava.

- Trata-se provavelmente do melhor trabalho de falsificação que já vimos - reconheceu o funcionário da divisão de passaportes do Departamento de Estado. - Basicamente, já foi genuíno e impresso por nós. Mas um especialista removeu duas páginas vitais e inseriu duas páginas novas de outro passaporte. As páginas novas contêm a foto e o nome de Medvers Watson. Até onde sabemos essa pessoa não existe. Este número de passaporte nunca foi emitido.

- O portador desse passaporte poderia entrar e sair dos Estados Unidos? - perguntou Paul Devereaux. - Ele é tão bom assim?

- Sair, sim - disse o especialista. - Sair significaria que ele seria verificado apenas pelos funcionários da linha aérea. Isso não envolveria nenhum banco de dados informatizado. Mas entrar... haveria um problema se o oficial do serviço de imigração e naturalização decidisse inserir o número no banco de dados. O computador responderia: esse número não existe.

- Pode me devolver o passaporte?

- Sinto muito, Sr. Devereaux. Nós gostamos de ajudar vocês, mas esta obra-prima vai para o Museu Negro. Colocaremos classes inteiras para estudar esta belezinha.

E ele ainda não tinha recebido nenhuma resposta da unidade de patologia forense em Bethesda, o hospital onde Devereaux mantinha alguns contatos úteis.

Foi no dia 4 que o Sr. Henry Nash, ao volante de um modesto carro compacto alugado, com uma valise com roupas de verão e artigos de higiene pessoal, passaporte britânico na mão e um visto de São Martinho carimbado dentro dele, dirigiu para a barca na fronteira no rio Commini.

O sotaque britânico não enganaria ninguém de Oxford ou Cambridge, mas ele esperava convencer os surinameses de língua holandesa e os são-martinenses de língua espanhola.

E convenceu.

Vingador observou o rio marrom fluindo por baixo de seus pés uma última vez, e jurou que seria um homem feliz se jamais visse aquela maldita coisa de novo.

No lado de São Martinho não estavam mais lá nem o poste listrado nem os policiais secretos e soldados. A fronteira retomara sua rotina sonolenta. Ele saltou do carro, passou seu passaporte através da janela lateral da cabine, abriu um sorriso desanimado e se abanou enquanto aguardava.

Correr de camiseta debaixo de todos os tipos de clima conferira à sua pele um leve bronzeado; duas semanas nos trópicos tinham-na deixado com um tom marrom-claro.

Seus cabelos claros haviam recebido a atenção de um barbeiro em Paramaribo e estavam agora tão castanhos-escuros que eram quase negros, mas isso simplesmente conferia com a descrição do Sr. Nash de Londres.

A inspeção do bagageiro do carro e de sua valise foi superficial. Então seu passaporte voltou para o bolso superior da camisa, e ele prosseguiu seu caminho até a capital.

Na terceira estrada à direita, olhou em torno para ver se não havia alguém vendo, e entrou novamente na selva. A meio caminho da fazenda parou e virou o carro. O

baobá gigantesco não foi difícil de localizar e a corda preta e resistente ainda estava no fundo do corte que ele fizera no tronco, uma semana antes.

À medida que liberava a corda, a mochila camuflada Bergen desceu dos galhos onde ficara pendurada. Continha tudo que esperava precisar durante os vários dias que passaria acocorado no penhasco sobre a fazenda do sérvio fugitivo, e também para sua descida à fortaleza.

O oficial da alfândega no posto da fronteira não dera atenção à garrafa térmica de dez litros no bagageiro. Quando o inglês dissera água, ele simplesmente meneara a cabeça e fechara a tampa. com a água acrescentada ao Bergen, a carga levaria até mesmo um

tri-atleta ao seu limite durante a escalada da montanha, mas dois litros por dia seriam vitais.

O caçador de recompensas dirigiu discretamente através da capital, passou pela floresta de palmeiras onde o coronel Moreno estava sentado à sua mesa, e seguiu para leste. Entrou no vilarejo turístico de La Bahia logo depois do almoço, bem na hora da sesta, e ninguém se mexeu.

As placas de trânsito de seu carro agora eram as de um veículo de São Martinho. Ele lembrou do adágio: onde você esconde uma árvore? Na floresta. Onde você esconde uma pedra? Na pedreira. Colocou o carro compacto no estacionamento público, pôs a mochila Bergen nas costas e marchou para leste, para fora da cidade. Ele agora era apenas mais um mochileiro.

A noite caiu. À sua frente, ele viu a cordilheira que separava a fazenda da selva circundante. Onde a estrada curvava-se para o interior, para contornar as colinas e seguir até Maroni e a fronteira para a Guiana Francesa, ele saiu da estrada e começou a escalar.

Quando viu a trilha estreita serpenteando para baixo a partir da garganta, afastou-se dela. Seguiu em direção a um pico que selecionara a partir das fotografias tiradas do avião. Quando simplesmente estava tão escuro que não podia se mover, despiu a mochila Bergen e fez uma refeição de ração de alto valor nutritivo regada a uma xícara da água preciosa. Então deitou com a cabeça sobre a mochila e dormiu.

Os atendentes das lojas de camping de Nova York tinham lhe oferecido as rações ARE, ou Alimentos Racionalmente Equilibrados, do exército norte-americano. Recusara, lembrando que essas rações eram tão horríveis que os soldados da Guerra do Golfo tinham-nas apelidado de Alimentos Rejeitados pelos Etíopes. Fez seus próprios concentrados juntando carne, cereais, nozes e glicose. Enquanto estivesse comendo isso, seus excrementos sairiam como bolinhas de fezes de coelho, mas manteria sua energia para quando precisasse dela.

Acordou antes do amanhecer. Beliscou e bebericou de novo, e prosseguiu a escalada. Em dado momento ele viu, montanha abaixo e através de uma brecha nas árvores, o teto da guarita na garganta.

Chegou ao cume antes do nascer do sol. Como saiu da floresta a 180 metros do ponto que queria, teve de se arrastar de lado até achar o local na fotografia.

Seu olho aguçado não o havia decepcionado. Havia uma leve descida na linha do cume, coberta por uma camada rala de vegetação. com camisa de camuflagem e chapéu de safari, rosto enegrecido e binóculos verde-oliva, imóvel sob as folhas, ficaria invisível para todos na propriedade abaixo.

Quando precisava de uma pausa, podia deslizar para trás, afastar-se da beira do precipício e se levantar novamente. Armou o pequeno acampamento que seria seu lar durante até quatro dias, sujou o rosto e engatinhou até o esconderijo. O sol pintava de rosa as selvas sobre a caiena francesa, e o primeiro facho luminoso deslizou pela península. El Punto estendia-se como o modelo em escala que ocupara a sala de estar de seu apartamento no Brooklyn: um dente de tubarão espetando o mar. Lá de baixo chegou aos seus ouvidos um som metálico, como se alguém usasse uma barra de ferro para golpear um pedaço de trilho de trem. Era o sinal para os trabalhadores forçados acordarem.

Só foi no dia 4 que o amigo que Paul Devereaux tinha contactado no Departamento de Patologia Forense de Bethesda ligou de volta.

- No que você se meteu, Paul?

- Me dê uma luz. No que me meti?

- Aparentemente, violação de túmulos.

- Diga-me, Gary. O que é isso?

- Bem, é um fêmur. Osso da coxa, perna direita. Partido ao meio. Nenhuma fratura composta, nenhuma lasca.

- Aconteceu numa queda?

- Não, a não ser que a queda tenha envolvido uma ponta afiada e um martelo.

- Você está concretizando o meu pior medo, Gary. Prossiga.

- Bem, o osso claramente provém de um esqueleto anatômico, adquirível em qualquer loja médica, usado por estudantes desde a Idade Média. Tem aproximadamente cinquenta anos. O osso foi partido recentemente com um golpe de um objeto afiado, provavelmente em cima de uma bancada. E então, fiz você ganhar o seu dia?

- Não, você apenas o arruinou. Mas eu te devo uma.

Como fazia com todos os seus telefonemas, Deveraux tinha gravado a conversa. Quando ouviu a fita, Kevin McBride ficou de queixo caído.

- Deus misericordioso! - exclamou Kevin.

- Pelo bem da sua alma imortal, espero que ele seja, Kevin, você fez uma besteira danada. Isto é uma fraude. O sujeito nunca morreu. Ele coreografou o episódio todo, enganou Moreno e Moreno convenceu você. Está vivo. O que significa que vai voltar, ou que já voltou. Kevin, esta é uma emergência. Quero que o jato da companhia decole dentro de uma hora e quero você nele. Darei a notícia ao coronel Moreno enquanto você voa. Quando chegar lá, Moreno terá checado cada possibilidade de que esse maldito Vingador tenha voltado ou esteja a caminho. Agora, vá.

No dia 5, Kevin McBride encontrou-se novamente cara a cara com o coronel Moreno. A máscara amistosa de Moreno tinha caído. Sua cara gorda estava inflamada de raiva.

- Esse sujeito é muito esperto, mi amigo. Você não me avisou disso. Tudo bem, ele me enganou uma vez. Não me enganará de novo. Veja.

Desde o momento em que o professor Medvers Watson trovejara através da fronteira, o chefe da polícia secreta verificara cada possível invasor à República de São Martinho.

O motor do carro no qual viajavam três pescadores de St Laurent du Maroni, no lado francês, havia morrido. O veículo tinha sido rebocado para a marina de São Martinho.

Eles estavam em detenção e nada felizes. Mais quatro não-hispânicos haviam entrado, vindos da direção do Suriname. Um grupo de técnicos franceses da base espacial de Kourou, na Guiana Francesa, atravessara o rio Maroni em busca de sexo barato, e estavam desfrutando de uma estada ainda mais barata na cadeia.

Dos quatro do Suriname, um era espanhol e dois eram holandeses. Todos os seus passaportes tinham sido confiscados. O coronel Moreno jogou-os na sua mesa.

- Qual destes é falso? - perguntou.

Um francês, dois holandeses, um espanhol. Um faltando.

- Quem era o outro visitante do lado do Suriname?

- Um inglês. Não conseguimos encontrá-lo.

- Detalhes?

O coronel estudou uma folha com os registros do Consulado de São Martinho em Parbo e os da fronteira no rio Commini.

- Nash. Senor Henry Nash. Passaporte em ordem, visto em ordem. Nenhuma bagagem, exceto por algumas roupas de verão. Carro compacto, alugado. Inadequado para trabalho

na selva. Nesse veículo ele não chegaria a nenhum lugar depois que saísse da rodovia ou da capital. Entrou no país no dia quatro, há dois dias.

- Hotel?

- Ele disse em nosso consulado em Parbo que ficaria na cidade, o Camino Real Hotel. Ele tinha uma reserva, passada por fax do Krasnopolsky em Parbo. Ele nunca se apresentou ao hotel.

- Parece suspeito.

- O carro também está desaparecido. Não há como um carro estrangeiro não ser encontrado em São Martinho. Mas este não foi encontrado. Ainda assim, ele não pode ter saído com esse carro da rodovia principal. Portanto, digo a mim mesmo, deve estar numa garagem em algum lugar no campo. Portanto, ele deve ter um auxiliar. Um amigo, colega, empregado. Estamos procurando no país inteiro.

McBride olhou para a pilha de passaportes estrangeiros.

- Apenas suas próprias embaixadas poderiam atestar a autencidade desses passaportes. E as embaixadas ficam no Suriname. Isso significa uma visita para um dos seus homens.

O coronel Moreno assenuu, melancólico. Ele se orgulhava de possuir controle absoluto sobre a pequena ditadura. Mas alguma coisa tinha acontecido de errado.

"Vocês americanos falaram sobre isso ao nosso convidado sérvio?

- Não - disse McBride. - E vocês?

- Ainda não.

Ambos tinham bons motivos. Para o ditador, presidente Munoz, o asilado era extremamente lucrativo. Moreno não queria ser aquele que o faria sair do país e levar sua fortuna junto.

Para McBride era uma questão de ordens. Ele não sabia, mas Devereaux temia que Zoran Zilic entrasse em pânico e se recusasse a voar para Peshawar para reunir-se com os chefes da Al Qaeda. Cedo ou tarde alguém teria de encontrar o caçador de cabeças ou contar a Zilic.

- Por favor, mantenha-me informado, coronel - disse McBride, virando-se para sair. - Ficarei no Camino Real. Parece que eles têm um quarto vago.

- Há mais uma coisa que me intriga, senor- disse Moreno enquanto McBride alcançava a porta.

McBride se virou.

- Sim?

- Este homem, esse tal Medvers Watson. Ele tentou entrar no país sem um visto.

- E daí?

- Ele teria precisado de um visto para entrar. Ele devia saber disso.

- Tem razão - disse McBride. - É estranho.

- Então eu me pergunto, como policial, por quê? E sabe o que respondo, senor?

- Diga-me.

- Eu respondo: porque ele não pretendia entrar legalmente; porque ele não entrou em pânico. Porque ele pretendia fazer exatamente o que fez. Forjar sua própria morte e voltar para o Suriname. Para então poder retornar discretamente para cá.

- Faz sentido - admitiu McBride.

- Então digo a mim mesmo: ele sabia que estávamos esperando por ele. Mas como sabia?

O estômago de McBride se revirou diante das implicações do raciocínio de Moreno.

Enquanto isso, invisível entre moitas no flanco de uma montanha, o caçador observava, aguardava e esperava. Esperava pela hora que ainda não havia chegado.

 

                     A VIGÍLIA

DEXTER FICOU IMPRESSIONADO ENQUANTO ESTUDAVA o triunfo da segurança e da auto-suficiência que uma combinação de natureza, engenhosidade e dinheiro criara na península abaixo da escarpa. Mesmo que não fosse dependente de trabalho escravo, seria admirável.

O triângulo que avançava para o mar era maior do que tinha imaginado no modelo em escala em seu apartamento em Nova York.

A base, na qual estava agora, olhando para baixo de seu esconderijo na montanha, tinha cerca de três quilômetros de lado a lado. Corria, como as fotos aéreas haviam demonstrado, de mar a mar e em cada extremidade a cordilheira mergulhava na água penhascos verticais.

Estimou que os lados do triângulo isosceles teriam cerca de cinco quilômetros, numa área total de mais de sete e meio quilômetros quadrados. A área era dividida em quatro partes, cada uma com uma função específica.

Abaixo dele, na base da escarpa, ficava o aeroporto particular e a vila dos trabalhadores. A 270 metros do penhasco havia um alambrado com seis metros de altura, encimado com arame farpado. A cerca corria de margem a margem da península. No ponto em que a cerca encontrava o mar, Vingador pôde observar através de seus binóculos, à luz cada vez mais forte do dia, que ela se estendia sobre o penhasco e acabava num emaranhado de rolos de arame farpado.

Impossível contornar a extremidade da cerca; impossível passar por cima dela.

Dois terços da faixa criada entre a escarpa e o arame eram dedicados ao aeroporto. Abaixo do Vingador, flanqueando a pista de pouso, havia um único e imenso hangar, uma área de manobra e uma série de prédios menores que deviam ser oficinas e armazéns de combustível. Perto da extremidade mais distante, próximo ao mar para pegar as brisas mais frescas, havia meia dúzia de casas menores que, ele presumiu, deveriam ser os lares dos tripulantes e funcionários de manutenção.

O único caminho para dentro e fora do aeroporto era um portão de ferro no alambrado. Não havia nenhuma guarita perto do portão, mas um par de hastes visíveis e rodinhas na base indicavam que era elétrico e abriria ao comando do controle remoto apropriado. Às cinco e meia da manhã, nada ainda havia se movido no aeroporto.

O outro terço da faixa era dedicado à vila. Era segregada do campo de pouso por mais uma cerca, que corria da escarpa para fora, sendo também encimada por arame farpado. Era evidente que os aldeÕes não tinham permissão para entrar ou mesmo se aproximar do aeroporto.

O clangor da barra de ferro no trilho de trem parou depois de um minuto, e a vila desabrochou para a vida. Dexter observou as primeiras figuras - vestidas em calças e blusas bege, com Sandálias de sola de corda nos pés, emergirem dos grupos de Choupanas e seguir para os banheiros comunitários. Quando todos os trabalhadores estavam reunidos, o observador estimou que havia dois mil deles.

Estava claro que havia alguns funcionários que administravam a vila e que não trabalhavam nos campos. Ele os viu trabalhando em cozinhas abertas, preparando um desjejum de pão e mingau de aveia. Mesas de piquenique e bancos compridos formavam os refeitórios sob tetos de palha, que os protegeriam contra uma chuva ocasional, porém com mais freqüência contra o sol abrasador.

Ao segundo toque do som metálico, os trabalhadores rurais pegaram tigelas e um pedaço de pão e sentaram-se para comer. Não havia jardins, lojas, mulheres, crianças ou uma escola. Esta não era uma vila de verdade, mas um campo de trabalhos forçados. Os únicos prédios remanescentes pareciam ser um mercado, um depósito de roupas e a igreja com a casa do padre anexada. Era funcional: um lugar onde trabalhar, comer, dormir, rezar por libertação e nada mais.

Se o aeroporto era um retângulo aprisionado entre a escarpa, a cerca de arame e o mar, a vila também o era. Mas havia uma diferença. Uma trilha estreita e acidentada descia em ziguezague a partir da única garganta em toda a cordilheira. Aquele era o único acesso por estrada para o resto da república. Mas era claramente inadequada para caminhões grandes. Dexter perguntou-se como suprimentos pesados, como gasolina, óleo diesel e combustível de avião chegavam à península. Quando a visibilidade aumentou, ele descobriu.

Na extremidade de sua visão, oculta na névoa matutina, estava a terceira parte da propriedade, o complexo murado de 2.000 hectares no final do promontório. Graças às suas fotos aéreas, Dexter sabia que ela continha a magnífica mansão branca na qual o ex-gângster sérvio vivia; meia dúzia de casas para convidados e funcionários mais graduados; gramados bem cuidados, canteiros de flores e arbustos; e ao longo do lado interno do muro protetor de doze metros de altura, uma série de chalés para os funcionários domésticos e armazéns de tecidos, alimentos e bebidas.

Em suas fotos e em seu modelo em escala, o muro imenso também corria de penhasco a penhasco, e nesses pontos a terra ficava quinze metros sobre o mar que quebrava com violência nas rochas lá embaixo.

Um portão duplo, solitário, mas imenso, penetrava o muro em seu centro com um caminho calçado com paralelepípedos conduzindo a ele. No lado de dentro havia uma guarita que controlava a maquinaria de abertura do portão. Num parapeito que corria ao longo do interior do muro, dois guardas fortemente armados patrulhavam toda a sua extensão.

Tudo entre o alambrado abaixo do observador e o muro a três quilômetros destinava-se à produção de alimentos. À medida que o dia clareava, Dexter confirmou o que as fotos lhe haviam dito; a fazenda produzia praticamente tudo que a comunidade dentro da fortaleza poderia precisar. Vacas e ovelhas para corte pastavam no campo, e os barracos certamente continham porcos e galinhas.

Havia campos de hortaliças. Pomares que produziam dez tipos de frutas. Hectares de plantações de vegetais, ao ar livre ou sob domos de polietileno. Dexter deduziu

que a fazenda produzia cada tipo imaginável de vegetais e frutos, juntamente com carne, manteiga, ovos, queijo, óleo, pão e vinho tinto rústico.

Os campos e hortas eram apinhados com celeiros, silos, depósitos de máquinas e ferramentas, abatedouros e padarias.

A sua direita, perto da borda do desfiladeiro, mas no interior da fazenda, havia uma série de pequenas barracas para os guardas, com uma dúzia de chalés de qualidade melhor para os oficiais.

À esquerda, também na borda do penhasco, também dentro da fazenda, havia três armazéns grandes e um enorme e reluzente depósito em alumínio. Bem abaixo do penhasco havia dois guindastes grandes. Isso resolvia um problema: as cargas pesadas chegavam por mar e eram içadas ou bombeadas do navio para as instalações doze metros acima do nível da água.

Os trabalhadores rurais terminaram suas refeições e mais uma vez Dexter ouviu o clangor metálico de uma barra de ferro sendo golpeada contra um pedaço de trilho pendurado. Desta vez isso suscitou diversas reações.

Guardas uniformizados saíram de seu quartel - mais adiante à direita, próximo à costa. Um pôs um apito silencioso nos lábios. Dexter não escutou nada, mas do terreno da fazenda aflorou uma dúzia de dobermanns em obediência ao chamado. Os cães entraram em seu recinto cercado perto do quartel. Aparentemente não comiam havia mais de doze horas. Atiraram-se aos seus pratos e reduziram a farrapos a carne servida neles.

Aquilo disse a Dexter o que acontecia cada vez que o sol se punha. Quando cada funcionário e escravo estava dentro de seus respectivos complexos, os cães eram soltos para fazer sua ronda pelos terrenos da fazenda. Eles deviam ter sido treinados para não molestar novilhos, ovelhas e porcos, mas qualquer pessoa perambulando ao ar livre simplesmente não sobreviveria. Eram numerosos demais para que um único homem pudesse combatê-los. Entrar à noite seria inviável.

O observador enterrara-se tão fundo sob as folhagens que qualquer pessoa lá embaixo que levantasse os olhos para a borda do penhasco não veria qualquer brilho das

lentes do binóculo nem vislumbraria o homem camuflado e imóvel.

Às seis e meia, quando o terreno da fazenda estava preparado para recebê-los, o ferro soou, convocando os peões ao trabalho.

Eles marcharam até o portão alto que separava a vila da fazenda.

Este portão era muito mais complexo do que aquele do aeroporto para a fazenda. Abria para dentro do terreno da fazenda, em duas metades. Além do portão, cinco mesas tinham sido postas e guardas sentavam-se atrás de cada uma delas. Outros estavam em pé, vigiando. Os peões formaram cinco colunas.

A um berro de comando, eles avançaram à frente. Cada homem à frente da fila parou diante da mesa para mostrar ao funcionário sentado uma identificação que trazia pendurada ao pescoço. O número na identificação era checado e digitado num banco de dados.

Depois de receber a autorização do funcionário, cada trabalhador alinhava-se na coluna certa, segundo seu tipo de número. Finalmente, em grupos de aproximadamente uma centena, eram conduzidos para suas tarefas, parando em diversos barracos de ferramentas ao lado da trilha principal para pegar o material necessário.

Alguns iam para os campos, outros para as hortas. Outros destinavam-se ao tratamento dos animais, ou à moagem de grãos, ao abatedouro, à vinícola ou à imensa cozinha aberta. À medida que Dexter observava, a enorme fazenda acordou para a vida. Mas a segurança jamais relaxou. Depois que a vila finalmente estava vazia, o portão duplo se fechou e os homens dispersaram-se para seus postos. Então Dexter concentrou-se no sistema de segurança, atento para alguma falha.

Foi no meio da manhã que o coronel Moreno recebeu notícias dos dois emissários que enviara com os passaportes estrangeiros em suas mãos.

Ao leste, em Caiena, capital da Guiana Francesa, as autoridades não tinham perdido tempo. Não estavam nem um pouco felizes com o fato de que três pescadores inocentes tivessem sido detidos pelo crime de sair ao mar, nem que cinco técnicos tivessem sido detidos e aprisionados sem motivo justo. Todos os oito passaportes franceses foram declarados totalmente genuínos. Assim, o governo da Guiana Francesa emitiu uma requisição urgente de que seus proprietários fossem libertados e mandados para casa imediatamente.

A oeste, em Paramaribo, a embaixada holandesa disse exatamente o mesmo sobre seus dois cidadãos; os passaportes eram genuínos, os vistos estavam em ordem; então, qual era o problema?

A embaixada espanhola estava fechada, mas o coronel Moreno tinha sido assegurado pelo homem da CIA de que o fugitivo tinha cerca de 1,74m, enquanto o espanhol tinha mais de 1,80m. Assim, restava apenas o Sr. Henry Nash, de Londres.

O chefe da polícia secreta ordenou ao seu homem em Caiena que voltasse para casa, e que o homem em Parbo fosse a cada agência de aluguel de automóveis para descobrir que tipo de carro o londrino alugara, e sua placa.

No meio da manhã, o calor nas colinas era intenso. A alguns centímetros do rosto do observador imóvel, um lagarto com uma coroa vermelha e ereta atrás da cabeça, caminhando sobre pedras que fritariam um ovo, fitou o estranho, não detectou qualquer ameaça e se afastou. Mas perto dos guindastes havia atividade.

Quatro rapazes musculosos empurraram uma lancha de patrulha de alumínio até a traseira de um Land Rover e embarcaram. O Land Rover rebocou o barco até uma bomba de combustível, onde ele foi reabastecido. A lancha poderia passar-se por um barco de patrulha, não fosse a metralhadora Browning .30 montada em seu interior.

Quando o barco estava pronto para entrar no mar, foi rebocado até debaixo de um dos guindastes. Quatro faixas penduradas numa armação retangular terminavam em quatro ganchos de aço duro. Esses foram afixados em argolas no casco do barco. com a tripulação a bordo, a lancha de patrulha foi erguida do solo, conduzida para o mar e abaixada na água. Dexter observou a lancha sumir de vista.

Minutos depois, viu-a novamente no mar. Os homens a bordo puxaram para fora da água duas redes de pesca e cinco armadilhas de lagostas e esvaziaram-nas no barco.

Colocaram novas iscas e abaixaram as redes e gaiolas de volta para casa. Então reiniciaram sua patrulha.

Dexter notou que tudo à sua frente ruiria sem dois elixires da vida. Um era a gasolina, que abastecia o gerador elétrico situado atrás do armazém da doca. Este proporcionava a eletricidade que alimentava cada dispositivo e motor da propriedade inteira, desde o mecanismo que abria o portão até os abajures das mesinhas-de-cabeceira.

O outro elixir era água doce e limpa, num suprimento ilimitado. Provinha do córrego na montanha, que Dexter vira pela primeira vez nas fotografias aéreas.

Aquele córrego agora estava abaixo dele e ligeiramente à sua esquerda. Brotava gorgolejante da encosta da montanha, tendo chegado de algum lugar nas profundezas da floresta tropical do interior.

A água emergia seis metros acima da península, desabava sobre várias rochas e entrava num canal revestido em concreto que parecia ter sido criado com esse propósito.

A partir desse Ponto, o homem tomava o lugar da natureza.

Para alcançar a fazenda o córrego tinha de fluir por baixo de uma passarela na pista. Aquedutos fortes e quadrados tinham sido inseridos abaixo da pista quando ela fora construída. Emergindo do subsolo da pista no outro lado, a água, agora suja, fluía também sob o alambrado. Dexter tinha pouca dúvida de que ali havia uma grade impenetrável. Sem uma grade qualquer um poderia escorregar pelo córrego para dentro do aeroporto, passar debaixo da cerca e usar a sarjeta e a água fluente para enganar os cães de guarda. Quem havia projetado as defesas daquele lugar previra isso.

No meio da manhã, duas coisas aconteceram bem abaixo de seu esconderijo. O Hawker 1000 foi rebocado para fora do hangar. Dexter temeu que o sérvio estivesse planejando voar para algum lugar, mas o avião só foi retirado do hangar para abrir espaço. Em seguida foi retirado um pequeno helicóptero do tipo que a polícia usa para monitorar o trânsito. Se necessário, o helicóptero era capaz de pairar a poucos centímetros da rocha e, se isso fosse feito, Dexter teria de ser invisível para não ser localizado.

Mas a aeronave permaneceu abaixo dele, helices dobradas enquanto o motor era vistoriado.

A outra coisa que aconteceu foi que um quadriciclo saiu da fazenda e se dirigiu até o portão elétrico. Usando um controle remoto para abrir o portão, o homem no pequeno veículo passou pelo portão, acenou alegremente para os mecânicos e subiu a pista até a passarela sobre o córrego.

Parou seu quadriciclo, tirou uma cesta de vime da traseira e baixou os olhos para a água. Então jogou várias carcaças de galinha na água. Fez isso no lado da passarela que ficava contra a corrente. Então cruzou a passarela e olhou para a água de novo. As carcaças deviam ter sido carregadas pelo fluxo e ficado presas na grade no lado de escoamento.

O que havia na água entre a escarpa e a grade, fosse lá o que fosse, comia carne. Dexter só conseguiu pensar num habitante de água doce naquelas bandas que se alimentava de carne: a piranha. Se podia comer frangos, podia comer nadadores. De nada adiantava se Dexter era capaz de prender a respiração durante os 270 metros daquele córrego, porque ele era também um viveiro de piranhas.

Depois do alambrado o córrego atravessava a propriedade, alimentando uma teia de canais de irrigação. Canos subterrâneos conduziriam parte do fluxo até a vila dos trabalhadores, as casas, o quartel e a mansão.

Depois, tendo atendido todas as seções da propriedade, o córrego curvava de volta para a parte da pista que passava pela fazenda, e ali a água desabava pela borda até o mar.

No começo da tarde o calor pairava sobre o terreno como um cobertor grande, pesado, sufocante. Os trabalhadores rurais haviam trabalhado sem parar das sete da manhã ao meio dia. Então tinham recebido permissão para encontrar uma sombra e comer o que haviam trazido em suas bolsinhas de pano. Até as quatro tiveram permissão para fazer a sesta antes das últimas três horas de labuta, das quatro às sete.

Arfante, Dexter invejava a salamandra deitada na rocha a um metro dele, imune ao calor. Ficava tentado a aliviar o calor tomando goles de sua água preciosa, mas sabia que devia racionar se queria evitar a desidratação.

Às quatro, o clangor do ferro disse aos trabalhadores para voltarem para os campos e celeiros. Dexter arrastou-se até a borda de sua escarpa e observou as figurinhas em camisas e calças de tecido rude de algodão, rostos morenos escondidos debaixo de sombreros de palha, voltarem a pegar na pá e na enxada para manter a fazenda modelo livre de ervas daninhas.

A sua esquerda uma picape velha entrou no espaço entre os guindastes e parou, depois de virar sua traseira para o mar. Um peão vestido num macacão manchado de sangue trouxe uma rampa de metal e prendeu-a ao pára-choque traseiro. com um ancinho , pôs-se a empurrar alguma coisa pela rampa metálica, não conseguiu ver o que era o volume, apenas que ele deslizou pelo metal liso e caiu no mar.

Ajustou o foco do binóculo. O volume seguinte escorregou da mesma forma. Era o tronco de um novilho, ainda com a cabeça.

Quando examinara as fotos, em Nova York, Dexter ficara pasmo ao perceber que mesmo com os penhascos os moradores da península não tinham feito nenhuma tentativa de acessar o lindo mar azul. Não havia uma escadaria até a água, ou plataforma de mergulho, ou quebra-mar, ou ancoradouro. Vendo a carcaça, ele entendeu o motivo.

A água em torno da península inteira fervilhava de tubarões: martelo, tigre e branco. Qualquer coisa que nadasse e não fosse peixe duraria poucos minutos naquelas águas.

Aproximadamente a essa hora, o coronel Moreno recebeu em seu celular uma ligação de seu agente do outro lado da fronteira do Suriname. Demorara tanto tempo para descobrir onde Nash, o inglês, alugara o carro porque ele o fizera numa companhia pequena e local. Tinha sido um modelo compacto da Ford. O agente ditou o número.

O chefe da polícia secreta emitiu sua ordem para a manhã. Cada estacionamento, garagem pública e garagem particular deveria ser revistado em busca de um modelo compacto da Ford com aquela placa. Então ele mudou suas ordens. Qualquer Ford com qualquer placa deveria ser procurado. E a busca começaria ao meio-dia.

Nos trópicos, o entardecer e o anoitecer acontecem com rapidez surpreendente. O sol tinha passado por trás das costas de Dexter uma hora mais cedo, trazendo alívio enfim. Ele observou os trabalhadores rurais voltarem para casa, arrastando pés cansados. Em suas cinco colunas, duzentos por coluna, os peões entregaram as ferramentas e foram revistados um a um antes de passar pelo portão duplo.

Voltaram para a vila para juntar-se aos duzentos que não tinham ido para os campos Nas casas e no quartel as primeiras luzes se acenderam. Na ponta mais distante do triângulo a mansão do sérvio se iluminou como uma árvore de Natal.

Os mecânicos no aeroporto encerraram seus expedientes e pegaram suas motonetas para irem até as casas no fim da pista. Quando tudo estava fechado e trancado os dobermann foram soltos, o mundo disse adeus ao 6 de setembro, e o caçador de recompensas se preparou para descer a escarpa.

 

                   O VISITANTE

NO DECORRER DE UM DIA DE OBSERVAÇÃO SOBRE A BORDA da escarpa, Vingador descobrira duas coisas sobre ela que não haviam aparecido em suas fotografias. Uma era que

a escarpa não era íngreme até o fundo. A descida era perfeitamente escalável até cerca de trinta metros do nível do solo, onde passava a descer reta. Mas ele tinha trazido mais do que uma pequena extensão de corda de alpinismo.

A outra coisa era que o fato do terreno ter sido despido de mato e arbustos pelo homem, não pela natureza. Alguém, ao preparar as defesas, mandara equipes descerem pela ribanceira penduradas em cordas para arrancar cada galho e arbusto das fendas na ladeira, de modo que ela não oferecesse nenhuma cobertura de folhas.

Onde eram suficientemente frágeis, as plantas tinham sido desenraizadas. Mas algumas haviam possuído caules capazes de resistir ao puxão de um homem pendurado na extremidade de uma corda. Essas tinham sido cortadas rentes. Mas não suficientemente rentes. Os tocos formavam centenas de apoios para mãos e pés que um alpinista poderia usar para subir ou descer.

À luz do dia esse alpinista seria instantaneamente visível, mas não na escuridão.

Às dez da noite a lua estava alta, uma lua minguante, oferecendo uma luz suave ao alpinista, mas não o bastante para torná-lo visível contra a face da rocha. Para evitar uma pedra, ele precisaria de toda sua destreza. Movendo-se de toco em toco, Dexter começou a descer até o aeroporto lá embaixo.

Quando a ladeira ficou íngreme demais até mesmo para escalar, Dexter despiu a corda que trazia enrolada no ombro. Amarrou uma extremidade da corda a um galho e usou-a para descer o restante do caminho.

Passou três horas no aeroporto. Anos antes, outro de seus "clientes" de Tombs, Nova York, ensinara-lhe a arte de arrombar fechaduras. O conjunto de ferramentas que Dexter trouxera fora confeccionado por um mestre. Não tocou nos cadeados nas portas do hangar. As portas duplas rangeriam se ele as empurrasse para trás. Num canto havia uma porta menor com uma única fechadura de entrada tipo Yale. Dexter não levou mais de trinta segundos para arrombá-lo.

É preciso um bom mecânico para reparar um helicóptero, e um ainda melhor para sabotá-lo de tal forma que um bom mecânico não conseguisse descobrir a falha e consertá-la, ou mesmo notar que alguém mexera ali.

O mecânico que o sérvio contratara para cuidar de seu helicóptero era bom, mas Dexter era melhor. De cara ele reconheceu a aeronave como um Eurocopter EC 120, a versão de motor único do bimotor EC 135. Na frente tinha uma grande bolha Perspex, que proporcionava excelente visão para a esquerda e a direita, e para cima e para baixo, ao piloto e ao homem ao seu lado, e ainda espaço para mais três pessoas atrás deles.

Dexter concentrou-se não no mecanismo da hélice principal, mas na hélice menor da cauda. Se ela funcionasse mal, o helicóptero simplesmente seria incapaz de voar. Quando Dexter terminou de trabalhar na hélice, teve certeza de que ela funcionaria mal e seria difícil de ser consertada.

A porta do Hawker 1000 estava aberta, de modo que Dexter teve uma chance de inspecionar o interior e garantir que o jato executivo não sofrerá nenhuma reconfiguração interna séria.

Depois de trancar o hangar principal, invadiu a oficina do mecânico, pegou o que precisava mas não deixou qualquer vestígio de sua presença. Finalmente, correu até a extremidade mais distante da pista, próxima aos fundos das casas residenciais, e passou sua última hora lá. Pela manhã, um dos mecânicos notaria com irritação que alguém pegara sua bicicleta emprestada do lugar onde costumava deixá-la, encostada contra a cerca.

Tendo terminado tudo que fora fazer ali, encontrou sua corda pendurada e subiu de volta até o toco ao qual estava atada. Depois disso continuou subindo, movendo-se de raiz em raiz até estar de volta ao seu esconderijo. Suas roupas estavam encharcadas de suor. Consolou-se com o pensamento de que o odor corporal era uma coisa que ninguém notaria nesta parte do mundo. Permitiu-se beber uma quantidade de água equivalente a um copo, checou o nível do líquido remanescente e dormiu. O alarme baixíssimo de seu relógio acordou-o às seis da manhã, pouco antes da barra de ferro ser golpeada contra o pedaço de trilho de trem, lá embaixo.

Às sete, Paul Devereaux acordou McBride em seu quarto no Camino Real Hotel.

- Alguma novidade? - perguntou o homem de Washington.

- Nenhuma - respondeu McBride. - Parece muito certo que ele voltou disfarçado como um inglês, Henry Nash, pesquisador de estâncias turísticas. Então evaporou. Seu carro foi identificado como um Ford compacto do Suriname. Neste momento Moreno está vasculhando o país em busca de qualquer Ford. Devemos ter alguma notícia ainda hoje.

O chefe de Contraterrorismo manteve-se calado durante um longo tempo, ainda sentado de pijamas em sua sala de jantar em Alexandria, Virgínia, antes de sair para Langley.

- Não é nada bom - disse Devereaux. -Terei de alertar o nosso amigo. Não vai ser um telefonema agradável. Vou esperar até as dez. Se houver qualquer notícia de uma captura ou iminência de captura antes da dez, ligue-me imediatamente.

- Estamos combinados - disse McBride.

Essas notícias não chegaram. Às dez, Devereaux deu seu telefonema. Levou dez minutos para que o sérvio fosse convocado de sua piscina para a central de rádio, uma salinha em seu porão que na verdade continha equipamentos de comunicação de alta tecnologia absolutamente protegidos contra escutas.

Às dez e meia, Vingador notou uma atividade intensa na propriedade. Veículos off-road saíram da garagem da mansão, deixando trilhas de poeira para trás. Abaixo dele, o EC 120 foi empurrado para fora do hangar e suas helices principais se estenderam e se travaram na posição de vôo.

- Alguém parece ter acordado com vontade de voar - disse, brincando, para si mesmo.

Os tripulantes do helicóptero chegaram de suas casas no fim da pista em duas lambretas. Em poucos minutos estavam aos controles e as helices grandes começaram a se mover devagar. O motor roncou e a velocidade das helices aumentou rapidamente.

A hélice de cauda, vital para impedir que a máquina inteira girasse em seu eixo, também estava funcionando. Então alguma coisa nela pareceu engasgar. Houve um som de metal se contorcendo e a hélice se destruiu a si mesma. Um mecânico acenou freneticamente para os homens dentro da bolha Perspex e correu sua mão diante da garganta.

O piloto e o observador souberam pelos instrumentos em seu painel que tinham uma falha grave na hélice da cauda. Eles abortaram o vôo. A hélice principal parou e

os tripulantes saltaram. Um grupo se formou em torno da cauda, olhando para cima na direção da hélice danificada.

Guardas uniformizados invadiram a vila dos peões ausentes e começaram a revistar cabanas, depósitos, e até a igreja. Outros, em quadriciclos, cruzaram a propriedade para levar aos seus chefes a notícia de que deveriam ficar de olhos abertos para qualquer sinal de um intruso. Não encontraram nenhum. Realmente houvera um intruso, mas ele soubera esconder muito bem seus sinais.

Dexter calculou que havia cerca de cem guardas uniformizados. Havia uma comunidade de cerca de meia dúzia no aeroporto, e mais duzentos trabalhadores braçais. Considerando o restante do corpo de segurança, mais os funcionários domésticos que estavam dentro da mansão, e vinte técnicos na estação de força e nas diversas oficinas, Dexter agora tinha uma idéia de quantos estava enfrentando. E ainda vira a mansão em si, que indubitavelmente possuía defesas complexas.

Pouco antes do meio-dia, Paul Devereaux telefonou para seu homem no olho do furacão.

- Kevin, você precisa ir visitar o nosso amigo. Falei com ele. Está muito agitado. Não tenho nem como expressar o quanto é importante que esse cachorro desempenhe seu papel no Projeto Peregrino. Ele não pode desistir agora. Um dia Vou poder dizer a você o quanto esse homem é vital. Por enquanto, fique com ele até que o intruso seja capturado e neutralizado. Aparentemente o helicóptero do nosso amigo está com defeito. Peça ao coronel um jipe para levá-lo até a península. Ligue para mim quando chegar lá.

Ao meio-dia Dexter observou um pequeno barco costeiro aproximar-se dos recifes. Mantendo posição na água a uma pequena distância das rochas, o cargueiro descarregou contêineres para seu convés, que os guindastes içaram e baixaram até a plataforma de concreto, onde picapes aguardavam.

Claramente esses eram os luxos que a fazenda não era capaz de produzir.

O último objeto a ser descarregado foi um tanque de combustível de mil galões. Um tanque vazio foi conduzido até o convés do cargueiro, que então se distanciou até sumir no mar azul.

Pouco depois de uma da tarde, abaixo dele e à sua direita, um off-road, tendo sido vistoriado pela guarita na garganta, rugiu e tossiu pela trilha até a vila. Era um veículo da polícia de São Martinho, e trazia um passageiro ao lado do motorista.

Atravessando a vila, o Land Rover azul alcançou o portão do alambrado e parou. O policial que dirigia o veículo saltou e ofereceu sua identidade ao guarda no portão.

O guarda deu um telefonema, presumivelmente para a mansão, pedindo autorização para liberar o veículo.

Durante a pausa, o homem no banco do passageiro também desceu e olhou em torno com curiosidade. Então olhou para trás, para a serra da qual acabara de descer. Lá no alto, um par de binóculos ajustaram-se e focaram em seu rosto.

Como o homem invisível sobre ele na beira do precipício, Kevin McBride ficou impressionado. Ele estava com Paul Devereaux no coração do Projeto Peregrino por dois anos, desde o primeiro contato e recrutamento do sérvio. Tendo lido os arquivos, ele sabia, ou achava que sabia, tudo a respeito desse homem a quem ainda não conhecera.

Devereaux sempre reservara para si esse prazer dúbio.

Tendo sido emitida a permissão, o policial conduziu o offroad até o muro alto do complexo no interior da península, que se avultava sobre eles à medida que se aproximavam do portão.

Uma portinha se abriu no portão e um homem parrudo, de calças e camisa de tergal azul-marinho, saiu para recebê-los.

A camisa adejava sobre a linha da cintura, e por um motivo. Ela obscurecia a Glock 9mm. McBride reconheceu-o do arquivo; Kulac, o único homem que o gangster sérvio trouxera de Belgrado, seu guarda-costas perpétuo.

O homem se aproximou da porta do passageiro e sorriu Depois de dois anos longe de casa ele ainda não falava uma palavra que não fosse servo-croata.

- Much as gradas. Adiós - disse McBride ao policial.

O homem fez que sim, ansioso por retornar à capital.

Depois do gigantesco portão de madeira operado eletronicamente havia uma mesa. McBride foi revistado minuciosamente em busca de qualquer arma oculta, e então o conteúdo de sua valise de mão foi derramado na mesa. Um mordomo trajado em branco desceu do terraço e esperou até as precauções terminarem.

Kulac resmungou que estava satisfeito. com o mordomo caminhando na frente, levando a mala, os três subiram uma escadaria. Então McBride viu a mansão pela primeira vez.

Com três pavimentos de altura, era cercada por um gramado muitíssimo bem-cuidado. Dois criados em túnicas brancas podiam ser vistos ao longe, concentrados em sua jardinagem. A casa não era diferente de muitas residências que podiam ser vistas ao longo das costas francesa, italiana e croata, mas cada uma das varandas dos quartos superiores era revestida em material isolante, para proteger seus ocupantes do calor intenso.

O pátio no qual estavam agora podia ficar vários metros acima da base do portão pelo qual haviam entrado, mas permanecia abaixo do topo do muro protetor. Era possível ver sobre o muro a cordilheira pela qual McBride chegara. Porém, nenhum atirador posicionado no campo próximo seria capaz de disparar sobre o muro para acertar alguém no terraço.

No pátio havia uma piscina com água traneld'água|d"águaúcida. Ao lado, numa mesa enorme em mármore de Carrara branco sobre suportes de pedra, fora servido o almoço. Utensílios de prata e cristal reluziam ao sol.

A um lado, uma fileira de cadeiras de praia cercava uma mesa na qual um balde de gelo abrigava uma garrafa de Dom Perignon. O mordomo fez um gesto para que McBride se sentasse. O guarda-costa permaneceu de pé e alerta. Das sombras da mansão emergiu um homem vestido com calças compridas brancas e uma camisa de safari bege.

McBride mal reconheceu o homem que um dia fora Zoran Zilic, chefe do crime organizado do distrito de Zemun, Belgrado, administrador de uma dúzia de negócios ilegais na Alemanha e na Suécia, assassino na guerra da Bosnia, cafetão, traficante de drogas e armas em Belgrado, ladrão do tesouro iugoslavo e fugitivo da justiça.

O novo rosto trazia pouca semelhança com aquele que constava no arquivo da CIA. Naquela primavera os cirurgiões suíços tinham feito um bom trabalho. A brancura báltica fora substituída por um bronzeado tropical, e apenas as cicatrizes finas haviam se recusado a escurecer.

Mas McBride sabia que orelhas, assim como impressões digitais, variam completamente de um ser humano para outro, e jamais mudavam, salvo por intervenção cirúrgica.

As orelhas de Zilic eram as mesmas, assim como suas digitais, e quando apertou as mãos do sérvio, McBride notou os olhos castanhos de um animal selvagem.

Zilic sentou-se à mesa de mármore e apontou com a cabeÇa para a única outra cadeira vaga. McBride sentou-se. Houve uma rápida troca de palavras em servo-croata entre Zilic e o guarda-costas. O bandido musculoso se retirou para comer em algum outro lugar.

Uma são-martinense muito jovem e bonita, trajada em vestes azuis de empregada, encheu duas taças de champanhe. Zilic não propôs nenhum brinde; ele fitou o líquido âmbar, e então engoliu-o de uma vez.

- Este homem - disse num inglês bom, quase perfeito. - Quem é ele?

- Não sabemos exatamente. É um sicário contratado. Discretissimo. Tudo que sabemos é a alcunha que ele mesmo escolheu.

- E qual é?

- O Vingador.

O sérvio meditou a respeito da palavra, e então deu de ombros. Mais duas garotas começaram a servir a refeição. Omeletes de ovos de codorna e aspargos em manteiga derretida.

- Tudo isto é produzido na fazenda? - indagou McBride. Zilic assentiu positivamente.

- Pão, salada, ovos, leite, azeite, uvas... Vi tudo isso enquanto vínhamos para cá.

Outro aceno.

- Por que ele está atrás de mim? - questionou o sérvio. McBride pensou. Se dissesse o motivo verdadeiro o sérvio poderia decidir que não havia mais motivo para cooperar com os EUA ou com qualquer uma de suas instituições, tendo por base a certeza de que essa nação jamais iria perdoá-lo. As instruções recebidas eram para manter aquela criatura repugnante na equipe do Projeto Peregrino a qualquer custo.

- Não sabemos - disse McBride. - Foi contratado por alguém. Talvez um velho inimigo da Iugoslávia.

Zilic pensou sobre o assunto e então balançou a cabeça.

- Sr. McBride, por que esperaram tanto para me contar sobre isso?

- Não sabíamos nada a respeito desse homem até vocês terem informado sobre o avião que sobrevoou a península batendo fotos. Vocês anotaram o número de registro.

Depois mandaram homens para a Guiana para intervir. O Sr. Devereaux pensou que poderíamos encontrar o homem que bateu as fotos, identificá-lo e detê-lo. Ele escorregou pela nossa rede.

A lagosta foi servida fria em maionese, também feita a partir de ingredientes locais. Como sobremesa, vinho moscatel acompanhado de café preto forte. O mordomo ofereceu charutos Cohibas e aguardou até que os homens estivessem tragando para então se retirar. O sérvio parecia perdido em pensamentos.

As três garçonetes belíssimas estavam enfileiradas contra a parede da casa. Zilic virou-se em sua cadeira, apontou para uma e estalou os dedos. A garota ficou pálida, mas se virou e entrou na casa, presumivelmente para preparar-se para a chegada de seu amo.

- A esta hora eu tiro uma sesta. É um costume local e muito bom. Antes que me retire, deixe-me dizer-lhe uma coisa. Projetei esta fortaleza com o major van Rensberg, a quem você irá conhecer. Eu a considero talvez o lugar mais seguro da Terra. Não creio que este mercenário será capaz de sequer chegar aqui. E, se conseguir, nunca sairá vivo. Os sistemas de segurança deste lugar já foram testados. Esse homem pode ter ludibriado vocês, mas não escapará de meus sistemas ou de mim. Enquanto gozo de meu descanso, van Rensberg irá lhe mostrar o lugar. Depois poderá dizer ao Sr. Devereaux que sua crise acabou. Então, até mais tarde.

Ele se levantou da mesa e se retirou. McBride permaneceu sentado. Abaixo do terraço, a porta no portão principal se abriu e um homem subiu a escadaria. McBride o reconheceu dos arquivos, mas fingiu que não o conhecia.

Adriaan van Rensberg era outro homem com uma história. Durante o período em que o Partido Nacional e suas políticas de apartheid regiam a África do Sul, este homem tinha sido um recruta ávido do Birô de Segurança Nacional, o temido BOSS, e ascendera em sua hierarquia devido à dedicação extrema aos excessos dessa organização.

Depois da chegada de Nelson Mandela, ele havia se juntado ao partido de extrema-direita AWB, liderado por Eugene Terre-Blanche. Quando Terre-Blanche caiu, Rensberg considerou que seria uma boa idéia fugir do país. Depois de vários anos prestando serviço como especialista em segurança para diversas facções fascistas européias, atraiu a atenção de Zoran Zilic e recebeu a incumbência de planejar, projetar, construir e comandar a fortaleza de El Punto.

Ao contrário do coronel Moreno, o tamanho imenso do sulafricano não era composto por gordura, mas por músculos. Apenas a barriga que se salientava sobre o largo cinto de couro traía uma paixão por cerveja.

McBride notou que Rensberg projetara um uniforme para seu papel: botas de combate, camuflagem de selva, chapéu de safari adornado com pele de leopardo e uma insígnia deslumbrante.

- Sr. McBride? O cavalheiro americano?

- Sou eu, amigo.

- Major van Rensberg, chefe da Segurança. Fui instruído a lhe mostrar a propriedade. Que tal amanhã de manhã? Às oito e meia?

No estacionamento da estância de La Bahia um dos policiais encontrou o Ford. A placa era local, mas forjada numa garagem em algum lugar. O manual no porta-luvas estava em holandês. Como no Suriname.

Muito depois alguém lembrou de ter visto um mochileiro com uma enorme mochila Bergen camuflada, saindo da estância a pé. Ele se dirigia para leste. O coronel Moreno chamou toda a força policial e o exército de volta para seus quartéis. Pela manhã, ele disse, iriam escalar e vasculhar a cordilheira a partir do lado interno; da estrada até o cume.

 

                   UM PASSEIO PELA PENÍNSULA

FOI O SEGUNDO PÔR-DO-SOL E ANOITECER QUE DEXTER TEStemunhou a partir de sua posição invisível no pico da serra, e seria o último.

Ainda imóvel, observou as últimas luzes se apagarem nas janelas da península, e então preparou-se para agir. Lá embaixo eles acordavam cedo e dormiam cedo. Para ele, isso significaria, mais uma vez, um sono curto mas precioso.

Comeu o restante de sua ração, engolindo um suprimento de dois dias de vitaminas e cereais, fibra e açúcar. Pôde também beber o restante de sua água, conferindo ao seu corpo uma reserva para as 24 horas seguintes. A enorme mochila, a manta e a capa de chuva podiam ser abandonadas. O que ele precisaria trouxera consigo ou roubara na noite anterior. Todas as coisas couberam numa mochila menor. Apenas a corda enrolada em seu ombro continuaria volumosa e teria de ser escondida onde não pudesse ser encontrada.

Passava da meia-noite quando tornou o mais invisível possível o que restava de seu acampamento e o deixou.

Usando um galho para apagar os rastros deixados por seus próprios pés, caminhou lentamente para a direita até estar não mais sobre o aeroporto, mas sobre a vila dos trabalhadores. LeVou uma hora para cruzar os oitocentos metros necessários. A lua minguante nasceu. O suor começou a empapar suas roupas de novo.

Desceu lenta e cuidadosamente pela escarpa, de apoio em apoio, de toco em toco, de raiz em raiz, até precisar da corda. Desta vez teve que duplicar a corda e pendurar o laço numa raiz lisa, que não prenderia a corda quando a puxasse do solo.

Desceu pela corda o restante do caminho, evitando saltos atléticos que poderiam desalojar seixos. Simplesmente caminhou para trás, passo a passo, até chegar à brecha entre o penhasco e as costas da igreja. Torceu para o padre ter sono pesado; estava a poucos metros de sua casa.

Puxou gentilmente uma das extremidades da corda dupla. A outra deslizou sobre o galho lá no alto da rocha até finalmente cascatear sobre ele. Enrolou a corda no ombro e saiu da sombra da igreja.

A latrina era comunal e masculina. Não havia mulheres no campo de trabalhos forçados. Dexter foi obrigado a assistir, do alto, os homens fazerem suas necessidades.

A base da latrina era uma vala comprida, coberta por tábuas para mascarar o fedor inevitável, ou pelo menos a pior parte dele. Nas tábuas havia buracos circulares cobertos por tampas circulares. Não tinham sido feitas concessões à vergonha. Respirando fundo, Dexter levantou uma das tampas e largou a corda no interior negro da fossa. Com sorte, desapareceria para sempre, não podendo ser achada mesmo se alguém a procurasse, o que era extremamente improvável.

Os barracos nos quais os homens viviam e dormiam eram cubículos do tamanho de uma cela de delegacia. Eram dispostos em fileiras de cinqüenta, de frente um para o outro de modo a formar uma rua. Cada grupo de uma centena corria para fora a partir de uma rodovia principal, e essa era a seção residencial.

A estrada principal conduzia até a praça, flanqueada pelos lavabos, as cozinhas e as mesas de refeitório. Evitando a luz que a lua deitava na praça principal, procurando manter-se à sombra dos prédios, Dexter retornou à igreja. A fechadura na porta principal deteve-o por poucos minutos.

Como igreja, o prédio não era grande coisa, mas considerando o quanto o país era católico, tinha sido uma precaução sábia oferecê-lo como válvula de escape aos prisioneiros daquele campo de trabalhos forçados.

Encontrou o que precisava no fundo, atrás do altar e a um canto, no vestíbulo. Deixando a porta principal destrancada, retornou até as fileiras de barracos onde os trabalhadores desfrutavam de suas parcas horas de repouso.

Enquanto estivera lá no alto, decorando a localização da cabine que queria, Dexter vira o homem emergir para seu café da manhã. Quinta cabine no lado esquerdo, terceira rua a partir da avenida depois da praça.

Não havia fechadura; apenas uma simples trava de madeira. Dexter entrou e ficou parado até acostumar os olhos à escuridão completa, depois do luar pálido no lado de fora.

A figura deitada no beliche roncava. Três minutos depois, já completamente capaz de enxergar no escuro, Dexter podia ver o volume debaixo do cobertor rude. Acocorou-se para remover alguma coisa da mochila, e em seguida caminhou até a cama. Um leve odor de clorofórmio emanou do pano molhado que Dexter segurava.

O peão resmungou uma vez, tentou rolar de um lado para outro durante alguns segundos, e então mergulhou num sono ainda mais profundo. Dexter manteve o pano sobre o nariz do homem para garantir-lhe horas de insensibilidade. Quando julgou que estava bom, jogou o homem adormecido sobre os ombros, como um bombeiro carregando uma vítima, e retornou silenciosamente pelo mesmo caminho que tinha vindo, até a igreja.

No pórtico do prédio de pedra coral, parou novamente e aguardou para ouvir se perturbara alguém, mas a vila continuava adormecida. Quando tornou a achar o vestíbulo, usou fita adesiva para prender os pés e tornozelos do peão e cobrir a boca, mas deixando o nariz livre para que ele respirasse.

Enquanto trancava novamente a porta principal, olhou com satisfação para o bilhete ao lado dela, no quadro-negro. O bilhete foi um "bônus" da sorte.

De volta ao barraco vazio, arriscou acender uma caneta-lanterna para examinar as posses do trabalhador. Não eram muitas; apenas um retrato da Virgem numa parede e, enfiada na moldura, a foto desbotada de uma mulher sorridente. Noiva, irmã, filha? Através de binóculos poderosos o homem parecera ter aproximadamente a idade de Dexter, mas poderia ser mais jovem. Os indivíduos apanhados no sistema penal do coronel Moreno e enviados para El Pun to deveriam envelhecer depressa. Decerto ele aparentava ter a mesma idade e corpo de Dexter, que fora o motivo pelo qual o escolhera.

Não havia outras decorações nas paredes; apenas ganchos dos quais pendiam dois conjuntos de roupas de trabalho, ambos idênticos - calças de algodão áspero e uma camisa do mesmo material. No chão havia um par de sandálias com sola de corda, gastas e puídas, mas resistentes e confiáveis. Fora isso, um sombrero de palha completava as roupas de trabalho. Havia uma bolsa de lona com barbantes para levar o almoço para a plantação. Dexter desligou sua lanterna e viu as horas. Quatro e cinco.

Despiu-se até ficar só de calção, selecionou os objetos que queria levar, embrulhou-os em sua camisa de malha suada e guardou-os na bolsa de almoço. Teria de desfazer-se do restante. O supérfluo ele enfiou em sua mochila, a qual descartou durante sua segunda visita às latrinas. Então aguardou o repicar da barra de ferro contra o pedaço de trilho de trem.

O que ocorreu, como sempre, às seis e meia. Ainda estava escuro, mas com um tom de cor-de-rosa ao leste. Os guardas de plantão, parados do lado de fora da vila logo depois dos portões duplos na cerca de argolas de arame, eram a fonte. Ao redor de Dexter a vila começou a voltar à vida.

Ele evitou a corrida até as latrinas e torceu para que ninguém o notasse. Depois de vinte minutos, espiando por uma brecha nas tábuas da porta, viu que seu beco

estava vazio de novo. Queixo baixo, sombrero curvado à frente, correu até as latrinas, uma figura em sandálias, calças e camisa iguais às das outras mil ao seu redor.

Acocorou-se sobre um buraco aberto enquanto os outros faziam seu desjejum. Apenas quando o terceiro repicar convocou os trabalhadores ao portão de acesso, ele se juntou à fila.

Os cinco funcionários sentados às mesas examinavam as identificações penduradas nos colares, checavam os manifestos de trabalho, davam entrada do número nos registros dos admitidos naquela manhã, e então indicavam para qual equipe o trabalhador deveria ir e o mandavam passar para juntar-se ao mestre de equipe e ser conduzido para coletar as ferramentas e iniciar o serviço.

Dexter alcançou a mesa que atendia sua fila e, como os outros, ofereceu sua identificação segurando-a entre o indicador e polegar, inclinou-se à frente e tossiu.

O inspetor reagiu virando o rosto para um lado, anotou o número na identificação e fez sinal para que ele prosseguisse. A última coisa que o homem queria era ficar com cheiro de feijão no rosto. O novo recruta caminhou a passos largos para pegar sua ferramenta; fora designado para colher abacates.

Às sete e meia Kevin McBride comia sozinho no terraço. O desejum de toranja, ovos, torrada e geléia de ameixa não ficaria deslocado em nenhum hotel de cinco estrelas.

Às oito e quinze o sérvio juntou-se a ele.

- Acho que você deve se preparar para partir - disse o sérvio. - Depois que tiver visto as coisas que o major van Rensberg irá lhe mostrar, vai concordar que esse mercenário tem um por cento de chance de entrar aqui, possibilidades ainda menores de chegar perto de mim, e nenhuma de sair. Portanto, não há motivo para você continuar aqui. Deve dizer ao Sr. Devereaux que irei cumprir minha parte no nosso acordo, conforme combinado, no final do mês.

Às oito e meia, McBride jogou sua mala na traseira do jipe aberto do sul-africano e sentou-se ao lado do major.

- E então, o que você quer ver? - indagou o chefe da Segurança.

- Foi-me dito que é virtualmente impossível que um visitante indesejado chegue até aqui. Pode me dizer por quê?

- Entenda, Sr. McBride, quando me foi designada a tarefa de planejar este lugar, garanti duas coisas. Primeira, este lugar é um paraíso praticamente auto-suficiente.

Temos tudo aqui. Segunda, é uma fortaleza, um santuário, um refúgio, protegido de praticamente qualquer invasão ou ameaça externa. Agora, é lógico que se estivermos falando de uma operação militar completa, com pára-quedistas e veículos blindados, claro que podemos ser invadidos. Mas por um mercenário, agindo sozinho? Jamais.

- E quanto à chegada por mar?

- Vou mostrar a você.

Van Rensberg deu partida e o carro saiu a toda velocidade, deixando uma nuvem de poeira atrás. Dali a pouco, o sul-africano reduziu a velocidade até parar perto da borda de um precipício.

- Você pode ver daqui - disse enquanto desciam do veículo. - A propriedade inteira é cercada pelo mar. Em nenhum ponto a distância até o mar é de menos de seis metros, mas na maioria dos locais chega a quinze. Radares disfarçados de antenas parabólicas nos avisam sobre qualquer coisa que se aproxime pelo oceano.

- Interceptação?

- Dois barcos de patrulha rápidos, um o tempo inteiro no mar. Há um limite de um quilômetro e meio de águas proibidas em torno da península. Só permitimos a aproximação de um eventural cargueiro de entregas.

- Entrada submarina? Forças especiais anfíbias? Van Rensberg riu, escarninho.

- Uma força especial de um indivíduo? Deixe-me mostrar o que iria acontecer.

Ele pegou seu walkie-talkie, chamou a central de rádio e foi passado para o abatedouro. O encontro foi do outro lado da propriedade, perto dos guindastes. McBride observou um balde de vísceras ser baixado até o mar nove metros abaixo.

Durante vários segundos não houve qualquer reação. Então a primeira barbatana em forma de cimitarra rasgou a superfície. Durante sessenta segundos a água ferveu.

Van Rensberg soltou uma gargalhada.

- Nós comemos bem aqui. Muito filé. Meu patrão não come filé, mas os guardas comem. Muitos deles são meus conterrâneos e gostam do nosso braai.

- E daí?

- Quando um animal é abatido, seja cordeiro, bode, porco ou novilho, mais ou menos uma vez por semana, as vísceras frescas são jogadas no oceano. E o sangue. Aquele mar está infestado de tubarões. Cinzentos, brancos, tigres e martelos: estão todos lá. Mês passado um dos meus homens caiu no mar. O barco virou para pegá-lo. Eles chegaram ao local em trinta segundos. Mas já era tarde demais.

- Ele não saiu do mar?

- A maior parte dele saiu. Mas não suas pernas. Morreu dois dias depois.

- Funeral?

- No mar.

- Então os tubarões acabaram ficando com ele todo?

- Ninguém comete erros aqui. Não com Adriaan van Rensberg no comando.

- E quanto ao acesso pela serra, como vim ontem? Como resposta, van Rensberg deu a McBride um par de binóculos.

- Dê uma espiada. Não é possível descer escalando pelas bordas. Elas descem direto para a água. Desça pela escarpa à luz do dia e você será avistado em segundos.

- Mas e à noite?

- Bem, você alcança o fundo. O seu homem está fora da cerca de arame farpado, a mais de três quilômetros da mansão e fora do muro. Ele não é um peão, nem um guarda.

Ele será visto rapidamente. E então eliminado.

- E quanto ao córrego que vi? Alguém pode nadar por ele?

- Bem pensado, Sr. McBride. Mas venha ver o córrego. Van Rensberg dirigiu até o aeroporto, entrou usando seu controle remoto para o portão da cerca de argolas de arame e seguiu até onde o córrego que descia das colinas passa debaixo da pista. Os dois homens desceram do carro. Havia uma longa extensão de água aberta para o céu entre a pista e a cerca. Água límpida corria gentilmente sobre as pedras e plantas no fundo.

- Vê alguma coisa?

- Não - respondeu McBride.

- Elas estão onde é frio, à sombra, debaixo da passarela. Aquela era claramente a menina dos olhos do sul-africano.

Ele tinha um suprimento de carne-seca no jipe. Quando jogou um pedaço no córrego, a água se agitou. McBride viu as piranhas saírem das sombras e avançarem com seus dentes pontiagudos contra o pedaço de carne-seca do tamanho de um maço de cigarros.

- Basta? Vou mostrar agora como abastecemos a península com água sem perder de vista a segurança. Venha.

De volta à fazenda, van Rensberg acompanhou o córrego durante a maior parte de seu curso coleante através da propriedade. Numa dúzia de pontos, valetas tinham sido cavadas a partir da corrente principal para irrigar diversas plantações ou abastecer lagos de armazenamento, mas eram sempre becos sem saída.

O córrego principal fazia várias curvas, mas acabava voltando para o penhasco perto da pista, onde aumentava sua velocidade e desabava no mar.

- Perto da borda finquei fileiras de lanças - disse van Rensberg. - Qualquer um que tente nadar por aqui será apanhado pela corrente e arrastado entre paredes de concreto lisas até o mar. Ao passar pelas lanças o nadador indefeso entrará no mar sangrando muito. E então o que acontecerá? Tubarões, é claro.

- Mas e à noite?

- Ah, você não viu os cães? Uma matilha de vinte. Dobermanns e mortais. São treinados para não tocar em ninguém que esteja usando o uniforme dos guardas, e mais uma dúzia de funcionários, a despeito de como estejam vestidos.

É uma questão de odor pessoal. Eles são soltos ao pôr-do-sol.

Depois disso cada peão e cada estranho precisa permanecer do outro lado da cerca, se não quiser sobreviver apenas alguns minutos antes que os cães o encontrem. E então, o que esse seu mercenário pode fazer?

- Não tenho a menor idéia. Se ele viu isto aqui e tem algum juízo, já está bem longe.

Van Rensberg riu novamente.

- Muito sensato da parte dele. Você sabe, lá em meu país, em Caprivi Strip, tínhamos um campo para arruaceiros que estavam causando problemas nas cidades. Eu era o diretor do campo. E sabe de uma coisa, Sr. homem da CIA? Nunca perdi um único prisioneiro. Nenhum. Ninguém jamais escapou.

- É bem impressionante, devo dizer.

- E sabe o que usávamos? Minas de terra? Não. Holofotes? Não. Dois anéis concêntricos de alambrado com dois metros por baixo da terra e arame farpado no topo. E entre os anéis, animais selvagens: crocodilos nos lagos, leões na terra. Um tunel protegido para entrar e sair. Eu sou um amante da natureza.

Ele olhou seu relógio.

- Onze horas. Vou levá-lo até nossa guarita nas colinas. A polícia de São Martinho mandará um jipe para pegá-lo lá e conduzi-lo de volta ao seu hotel.

Estavam atravessando a fazenda da costa até o portão que dava acesso à vila e à trilha quando o comunicador do major zumbiu. Ele ouviu a mensagem enviada pelo operador de telefonia e rádio no porão da mansão. A mensagem deixou-o feliz. Ele desligou e apontou para a beira da serra.

- Os homens do coronel Moreno vasculharam a selva estai manhã, da estrada até a beira do precipício. Eles encontraram o acampamento do americano. Abandonado. Você pode ter razão. Acho que ele viu o bastante e se acovardou.

Ao longe, McBride podia ver o grande portão duplo, e além dele, os prédios brancos da vila dos trabalhadores.

- Fale-me sobre os trabalhadores, major.

- O que tem eles?

- Quantos são? Como os arregimenta?

- Cerca de cento e vinte. Todos são criminosos. Eles me são fornecidos pelo sistema penal de São Martinho. Ora, Sr. McBride, não faça essa cara. Vocês americanos também têm prisões agrícolas. Esta é uma fazenda de prisioneiros. Considerando suas alternativas, até que vivem bem aqui.

- E depois que cumprem suas sentenças, voltam para casa?

- Não - foi a resposta de van Rensberg.

Uma passagem só de ida, pensou o americano. Cortesia do coronel Moreno e do major van Rensberg. Prisão perpétua. Por quais crimes? Furto? Direção imprudente? Afinal, Moreno precisava atender à alta demanda da península.

- E quanto aos guardas e os criados da mansão?

- Isso é diferente. Somos todos contratados. Todo mundo que é necessário dentro da mansão mora lá. Todos devem permanecer dentro de seus muros. Os peões que trabalham na fazenda vivem na vila. São todos homens solteiros.

- Nenhuma mulher ou criança?

- Nenhuma. Não precisamos que eles procriem. Mas temos uma igreja. O padre prega apenas um sermão: obediência absoluta.

Ele deixou de mencionar que para casos de insubordinação ele mantinha o uso de seu chicote de couro de rinoceronte.

- Major, um estranho poderia entrar na fazenda disfarçado como trabalhador?

- Não. Todas as noites a força de trabalho para o dia seguinte é escolhida pelo administrador da vila. Os selecionados caminham até o portão principal e se apresentam ao nascer do sol, depois do desjejum. São verificados um a um. O mesmo número de escolhidos são admitidos. Nem um a mais.

- Quantos entram na fazenda?

- Cerca de mil por dia. Duzentos com alguma habilidade técnica para as oficinas de consertos, o moinho, a padaria, o abatedouro, o manuseio de tratores. Oitocentos para plantio e colheita. Cerca de duzentos permanecem na vila a cada dia: os genuinamente doentes, as equipes de limpeza e os cozinheiros.

- Acho que acredito em você - disse McBride. - Um solitário não teria a menor chance, teria?

- Eu lhe disse, Sr. homem da CIA. Ele se acovardou. Ele mal tinha acabado de falar quando o comunicador tornou a zumbir. Sua testa se franziu enquanto ouvia o relatório.

- Que tipo de problema? Bem, diga a ele para se acalmar. Estarei aí em cinco minutos.

Ele guardou o rádio e disse:

- Padre Vicente, da igreja. Estava quase em pânico. Terei de dar uma paradinha lá no nosso caminho até as montanhas. Vamos atrasar dez minutos, no máximo.

Passaram por uma fileira de peões à esquerda. Cada um dos homens estava acocorado segurando uma ferramenta, tentando resistir ao calor inclemente. Algumas cabeças se levantaram para observar o veículo que levava o homem que detinha o poder de vida e morte sobre eles. Debaixo das abas dos chapéus de palha, rostos melancólicos, marcados por linhas, com olhos marrons da cor do café. Mas um par de olhos era azul.

 

                   O BLEFE

PULAVA NO TOPO DOS DEGRAUS DA IGREJA DIANTE DA PORTA aberta. Era um homem baixinho e gordinho com olhos porcinos vestido numa batina branca não muito limpa. Padre Vicente, líder espiritual dos trabalhadores forçados.

O espanhol de van Rensberg era extremamente básico e geralmente usado apenas para exprimir comandos abruptos. A tentativa do padre em falar inglês não era muito mais feliz.

- Venha rápido, major - disse o padre e entrou correndo na igreja.

Os dois homens saltaram do veículo e subiram correndo os degraus atrás do padre.

A batina suja esvoaçou entre os bancos da igreja, passou pelo altar e entrou na sacristia. Era um cômodo pequeno que tinha como característica principal um armário de carpintaria básica, montado e pregado na parede para conter suas vestes sacerdotais. com um gesto teatral o padre abriu a porta e gritou:

- Mira!

Eles olharam para o peão, que estava imóvel exatamente como padre Vicente o encontrara. Nenhuma tentativa fora feita de libertá-lo. Seus pulsos estavam fortemente amarrados à frente com fita adesiva; o mesmo com os tornozelos; uma faixa larga de fita adesiva cobria-lhe a boca, por trás da qual vinham protestos murmurados. Ao ver van Rensberg, seus olhos manifestaram terror. O sul-africano curvou-se à frente e puxou a mordaça sem o menor cuidado.

- O que ele está fazendo aí?

O homem emitiu um balbucio de explicações aterrorizadas. O padre encolheu os ombros.

- Disse que não sabe. Disse que ontem à noite foi dormir e acordou aqui. Está com uma dor de cabeça terrível e não lembra nada mais do que isso.

O homem estava apenas de cuecas. Não havia nada para o sul-africano agarrar além dos antebraços do homem. Assim, puxou-os para obrigar o peão a se levantar.

- Diga a ele que é melhor começar a lembrar - gritou para o padre, que traduziu.

- Major - McBride disse em voz baixa. - O mais importante primeiro. Que tal um nome?

Padre Vicente entendeu o sentido da frase.

- Seu nome é Ramon.

- Ramon de quê?

O padre deu de ombros. Ele tinha mil paroquianos; devia lembrar de todos eles?

- De que casa ele veio? - indagou o americano. Houve mais um diálogo rápido em espanhol local. McBride podia decifrar espanhol escrito lentamente, mas o dialeto local de São Martinho não parecia nada com castelhano.

- Fica a trezentos metros daqui - disse o padre.

- Devemos ir até lá olhar? - perguntou McBride. Uma faca cortou as fitas que prendiam os pulsos e tornozelos de Ramon. O trabalhador assustado conduziu o americano e o major através da praça, pela rua principal e dali para um beco. Apontou para sua porta e recuou um passo.

Van Rensberg entrou, seguido por McBride. Não havia nada para ser encontrado, exceto um pequeno objeto que o americano achou debaixo da cama: uma compressa de gaze.

Ele a cheirou e a passou para o major, que fez o mesmo.

- Clorofórmio - disse McBride. - Ele foi drogado. Não deve ter sentido nada. Acordou todo amarrado, trancado num armário. Não está mentindo. Está apenas desnorteado e aterrorizado.

- Mas por que fizeram isso?

- Você não mencionou que cada homem usa uma placa de identificação, e que elas são checadas quando eles passam pelo portão para o trabalho?

- Sim. Por quê?

- Ramon não estava usando a sua. E ela não está caída aqui no chão. Acho que há um impostor em algum lugar lá fora.

A ficha caiu. Van Rensberg caminhou de volta até o Land Rover na praça e desenganchou o walkie-talkie do painel.

- É uma emergência - disse ao operador de rádio que atendeu. - Ligue o alarme de "fuga de prisioneiro". Proíbam a entrada pelo portão da mansão a todos, menos a mim. Depois usem o sistema de alto-falantes para ordenar a cada guarda na fazenda, de plantão ou não, que se apresente a mim no portão principal.

Segundos depois, o som longo e ondulante do alarme ecoou pela península. Foi ouvido no campo e em cada celeiro, barraco, cozinha e chiqueiro.

Todos os homens levantaram suas cabeças do que estavam fazendo para olhar para o portão principal. Quando sua atenção tinha sido despertada, a voz do operador de rádio no portão abaixo da mansão foi ouvida.

- Todos os guardas ao portão principal. Repito, todos os guardas ao portão principal. Acelerado.

Havia mais de sessenta guardas em serviço. O restante descansava no quartel. Quadriciclos afloraram do campo a toda velocidade, enquanto outros guardas saíram do quartel a meio quilômetro do portão principal, e depois convergiram em resposta à emergência.

Van Rensberg conduziu seu off-road de volta através do portão e aguardou por eles, de pé em posição de sentido, megafone na mão.

- Não temos uma fuga - disse aos guardas depois que haviam se enfileirado à sua frente. - Temos o oposto. Temos um intruso. Neste momento, ele está disfarçado de trabalhador. Mesmas roupas, mesmas sandálias, mesmo sombrero. Ele até está usando uma plaqueta de identificação roubada. Guardas do turno da manhã: reúnam e tragam para cá cada trabalhador. Sem exceção. Guardas de folga: vasculhem cada celeiro, estábulo e oficina. Depois lacrem cada local e montem guarda. Usem seus comunicadores para manter contato com os comandantes de esquadrão. Comandantes, mantenham contato comigo. Agora vão. Qualquer homem em roupas de trabalhador que seja visto correndo deve ser abatido prontamente.

Os cem homens se dispersaram pela fazenda. Eles tinham a seção central para cobrir: do alambrado que separava a vila do terreno da fazenda, até o muro da mansão.

Um território grande; grande demais para cem homens. Aquilo levaria horas.

Van Rensberg esquecera que McBride estava de partida. Ele ignorou o americano, ocupado com seus planejamentos. McBride sentou-se e assistiu a tudo, intrigado.

Havia um aviso na frente da igreja, ao lado da porta. Dizia: "Obsequias por nuestro hermano Pedro Hernandez. Once de lá manana."

Mesmo com seu espanhol claudicante, o homem da CIA entendeu o significado daquelas palavras: "Missa fúnebre por nosso irmão Pedro Hernandez. Onze da manhã."

Será que o caçador de recompensas não tinha visto aquilo? Será que ele não tinha entendido o que estava escrito? Seria razoável deduzir que o padre normalmente não visitaria a sacristia até o domingo. Mas hoje era diferente. Precisamente às onze da manhã ele abriria o armário em que guardava suas vestes sacerdotais e veria o prisioneiro.

Por que não largá-lo em algum outro lugar? Por que não amarrá-lo no seu barraco, onde não seria encontrado até o pôrdo-sol, ou talvez nem então?

Ele notou o major falando com o mecânico do aeroporto.

- O que está errado com o helicóptero? Então consertem a hélice da cauda. Preciso dele de volta no ar. Apressem-se.

Ele desligou o rádio, olhou para McBride e disse:

- O seu compatriota cometeu um erro, apenas isso. Um erro muito grave. Um erro que vai custar sua vida.

Uma hora se passou. Mesmo sem binóculos McBride pôde ver as primeiras colunas de trabalhadores vestidos de branco marchando de volta para a vila, tocados por guardas uniformizados. Meio-dia. O calor parecia um martelo golpeando suas cabeças.

A multidão de homens diante dos portões crescia cada vez mais. O falatório pelo rádio não parava nunca, enquanto trabalhadores eram retirados de cada setor da fazenda, seus prédios revistados, declarados vazios, lacrados e vigiados.

À uma e meia da tarde a checagem dos números começou. Van Rensberg insistiu para que os cinco inspetores retomassem seus lugares atrás das mesas e checassem os trabalhadores, um após outro, duas centenas por coluna.

Os homens normalmente trabalhavam no começo da manhã e no final da tarde, quando era mais fresco. Agora estavam sendo assados vivos ao calor. Dois ou três peões desmaiaram e foram ajudados por colegas. Cada plaqueta seria verificada até o último trabalhador. Quando a última figura em vestes brancas cambaleou na direção da vila, para descanso, sombra e água, o chefe dos inspetores meneou a cabeça positivamente.

- Falta um - disse ele.

Van Rensberg caminhou até a mesa do inspetor e olhou sobre seu ombro.

- Número quinhentos e trinta e oito.

- Nome?

- Ramon Gutierrez.

- Soltem os cães.

Van Rensberg caminhou a passos largos até McBride.

- Cada técnico deve estar agora trancado e guardado. Os cães jamais tocarão meus homens. Eles reconhecem o uniforme. Isso deixará um homem de fora. Um estranho, de calças e camisa de algodão brancas, com o cheiro errado. Para os meus dobermanm, isso será o mesmo que uma sineta anunciando o almoço. O homem está trepado numa árvore? Mergulhado num lago? Eles vão encontrá-lo, cercá-lo e latir até seus tratadores chegarem. Dou a esse mercenário meia hora para subir numa árvore e se render, ou morrer.

O homem por quem ele procurava estava no meio da fazenda, correndo entre pés de milho mais altos que sua cabeça. Pelo sol e pelos cumes da serra ele deduzia a direção para onde tinha de correr.

Mais cedo, naquela manhã, tivera de correr sem parar durante duas horas para seguir de sua área designada de trabalho até a base do muro que protegia a mansão. Não que a distância fosse um problema para um homem acostumado à meia maratona, mas ele tivera de evitar os outros grupos de trabalhadores e os guardas. E ainda estava fazendo isso.

Chegou a uma trilha através do milharal, jogou-se de barriga no chão e espiou entre os pés de milho. Mais adiante na trilha, um quadriciclo com dois guardas dirigia-se ao portão principal. Aguardou até que tivessem virado uma curva. Então atravessou correndo a trilha e se escondeu num pomar de pêssegos. Depois de estudar minuciosamente a propriedade do alto, planejara uma rota que o levaria de onde começara até as proximidades da mansão até onde queria estar, sem nunca atravessar uma plantação que o cobrisse apenas até os joelhos.

O equipamento que trouxera naquela manhã - tanto em sua suposta bolsa de almoço quanto no interior das cuecas que usava por baixo do calção - estava quase completamente no fim. O relógio de mergulho estava de volta em seu pulso, o cinto em torno da cintura e a faca alojada no vão de sua coluna, mas fácil de ser alcançada. A bandagem, a massa aderente e o restante estava acomodado na bolsinha presa em seu cinto.

Olhou novamente para os picos da colina, alterou seu curso em alguns graus e parou, inclinando a cabeça até ouvir o gorgolejar da água à frente. Chegou à beira do córrego, recuou treze metros pela trilha, depois se despiu completamente, ficando apenas de cinto, faca e cuecas.

Dexter ouviu os primeiros latidos dos cães em seu encalço. A leve brisa que soprava do mar levaria seu odor até os focinhos dos cães em poucos minutos.

Trabalhou com cuidado e rapidez. Quando se deu por satisfeito, correu nas pontas dos pés até o córrego, entrou na água fria e deixou-se levar pela corrente que cortava a fazenda em direção ao aeroporto e o penhasco.

Embora tivesse se vangloriado de que os cães assassinos jamais o tocariam, van Rensberg fechou sua janela enquanto dirigia lentamente por uma das avenidas principais do portão para a fazenda.

Atrás dele vinha o assistente do tratador de cães, dirigindo um caminhão com uma traseira completamente fechada por uma trama de aço inoxidável. O tratador de cães estava ao lado dele no Land Rover, cabeça para fora da janela no lado do passageiro. Foi ele quem escutou a mudança súbita na entonação de seus cães, passando de latidos roucos para ganidos excitados.

- Acharam alguma coisa - gritou. Van Rensberg abriu um sorriso.

- Onde, homem? Onde?

- Lá.

McBride estava acocorado na traseira, feliz pela proteção das paredes e janelas do Land Rover Defender. Para ele, doze cães selvagens eram uma dúzia demais para o seu gosto.

Os cães tinham realmente achado alguma coisa, mas seus ganidos pareciam mais de dor que de empolgação. O sul-africano encontrou a matilha inteira perambulando em torno de um canto do pomar de pêssegos. Sua atenção fora atraída por um bolo de roupas ensangüentadas.

- Ponha eles no caminhão - gritou van Rensberg.

O tratador de cães saltou, fechou a porta e, com um assobio, ordenou que sua matilha se organizasse. Sem nenhum protesto, ainda ganindo, os cães subiram na traseira do caminhão e foram trancados. Somente então van Rensberg e McBride saltaram do Land Rover.

- Então foi aqui que os cães pegaram ele - disse van Rensberg.

O tratador, ainda intrigado com o comportamento de sua matilha, pegou a blusa manchada de sangue e a segurou perto do nariz. Então afastou o rosto, repugnado.

- Filho da puta! - gritou. - Pó de pimenta! Esses pobres bichos não estão gritando à toa. Não é de excitação. Eles estão morrendo de dor.

- Quando seus focinhos vão funcionar de novo?

- Bem, hoje não, chefe. Amanhã, talvez.

Acharam as calças brancas, também impregnadas com pimenta em pó, e o chapéu de palha, até as sandálias de lona. Mas nenhum cadáver. Apenas a mancha de sangue na camisa.

- O que ele fez aqui? - van Rensberg perguntou ao tratador de cães.

- Ele se cortou, foi isso que o porco fez. Ele se cortou com uma faca, e então sangrou na blusa. Ele sabia que isso ia deixar os cães malucos. Sangue de homem sempre os deixa excitados quando estão caçando. Assim, farejaram o sangue, encontraram o tecido e inalaram a pimenta. Não teremos cães de caça até amanhã.