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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ORADOR DOS MORTOS / Orson Scott Card
ORADOR DOS MORTOS / Orson Scott Card

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ORADOR DOS MORTOS

 

   Em 1830, depois da elaboração do Código Estelar, uma nave-robô de reconhecimento enviou um relatório por ansible: o planeta que estava investigando estava bem dentro dos parâmetros da vida humana. O planeta Bahia, ao qual o Congresso Estelar concedera licença para exploração, era o mais próximo com explosão demográfica.

   Assim, os primeiros humanos a verem o novo mundo falavam português, tinham cultura brasileira, e eram católicos. Em 1886 CE, eles desembarcaram de um ônibus espacial, persignaram-se e batizaram o planeta de Lusitânia - o antigo nome de Portugal. Passaram a catalogar a flora e a fauna. Cinco dias depois, perceberam que os pequenos animais da floresta - que chamaram de porquinhos - não eram absolutamente irracionais.

   Pela primeira vez desde o Xenocídio dos Insecta pelo monstruoso Ender, os humanos encontravam vida alienígena inteligente. Tecnologicamente, os porquinhos eram primitivos, mas usavam ferramentas, construíam casas e falavam.

   - É outra chance que Deus nos deu, - declarou o arcecardeal Pio, de Bahia. - Poderemos nos redimir pela destruição dos insecta.

   Os membros do Congresso Estelar veneravam muitos deuses - ou nenhum -, mas concordaram com o arcecardeal. Lusitânia seria povoada a partir de Bahia e, portanto, sob licença católica, como exigia a tradição, mas a colônia não poderia propagar-se além de uma região delimitada nem sua população exceder determinado número. Também estava sujeita, acima de tudo, a uma lei: não devia perturbar os porquinhos.

  

  

                  Pipo

     Como ainda não nos sentimos inteiramente à vontade com a idéia de que o povo da aldeia vizinha é tão humano quanto nós, é extremada presunção supor que poderíamos olhar para criaturas sociáveis, criadoras de utensílios surgidos de outras vias evolucionárias e não ver nelas animais, mas irmãs; não rivais, mas companheiras de peregrinação ao sacrário da inteligência.

     Mas é o que eu vejo - ou aspiro a ver. A diferença entre raman e varelse não está na criatura avaliada, mas na criatura que avalia. Quando declaramos que uma espécie alienígena é raman, não significa que eles ultrapassaram um limiar de maturidade moral. Significa que nós é que o ultrapassamos.

  

                   Demóstenes, Carta aos Framlings

   Fuçador era o mais difícil e, ao mesmo tempo, o mais valioso dos pequeninos. Sempre estava à espera quando Pipo visitava sua clareira e fazia o melhor que podia para responder às perguntas dele. Era proibido por lei fazê-las diretamente, mas Pipo confiava em Fuçador - talvez demasiado -, ainda que ele brincasse e bancasse o palhaço, como jovem irresponsável que era, e também observasse, sondasse, experimentasse. Pipo sempre tinha de ficar atento às armadilhas de Fuçador.

   Pouco antes, Fuçador rebolava pelas árvores acima, agarrando a casca do tronco apenas com as almofadas espinhosas dos tornozelos e da parte interna das coxas. Nas mãos, levava duas varetas chamadas paus-do-pai, que batia contra a árvore de forma compulsiva, sem parar, enquanto subia.

   O barulho fez Mandachuva sair da cabana de troncos e chamar Fuçador na língua dos machos e, depois, em português:

   - Pra baixo, bicho!

   Ao ouvirem o trocadilho em português, vários porquinhos exprimiram sua apreciação esfregando fortemente as coxas, o que produziu um chiado alto. Mandachuva deu um pulinho no ar, satisfeito com sua aprovação.

   Fuçador, enquanto isso, inclinou-se para trás, até parecer que iria cair. Então, esticou as mãos, deu uma pirueta no ar e caiu de pé, saltando algumas vezes, mas sem perder o equilíbrio.

   - Então, agora você é um acrobata - disse Pipo.

   Fuçador aproximou-se, andando de maneira afetada - era sua maneira de imitar os humanos. Funcionava mais como ridicularização, porque seu focinho chato parecia ainda mais suíno quando virado para cima . Não era de surpreender que os estrangeiros os chamassem "porquinhos". Os primeiros visitantes do planeta assim os haviam chamado em seus primeiros relatórios, em 1886, e desde quando a Colônia Lusitânia foi fundada, em 1925, o nome já se impusera. Xenólogos de todos os Cem Planetas referiram-se a eles como "aborígines lusitanos", se bem que Pipo soubesse perfeitamente que essa expressão fosse usada por dignidade profissional; exceto em trabalhos de erudição, com certeza os xenólogos também usavam o termo "porquinhos". Pipo chamava-os de "pequeninos" e eles pareciam não objetar, pois passaram a tratar-se por esse nome. Ainda assim, dignidade ou não, não havia como negar: em momentos como aquele, Fuçador parecia um porco sobre as patas traseiras.

   - Acrobata - repetiu Fuçador, saboreando a palavra nova. - O que eu fiz? Vocês têm uma palavra para gente que faz isso? Então existe gente que faz isso como profissão?

   Pipo suspirou, depois de congelar o sorriso na mesma hora. A lei proibia que ele compartilhasse informação sobre a sociedade humana, para que não contaminasse a cultura dos porquinhos, mas Fuçador constantemente fazia perguntas para Pipo, com a intenção de aprender o máximo possível. Desta vez, porém, Pipo só poderia culpar a si mesmo, por sua observação desnecessária sobre a vida humana. Às vezes, sentia-se tão à vontade entre os pequeninos, que falava com naturalidade, sem pensar com quem estava falando. Isso tornava-se um perigo. "Não sou bom neste jogo de tomar informação sem dar nada em troca. Libo, meu filho, de boca fechada, já é melhor na discrição do que eu e ele é meu aprendiz - há quanto tempo fez treze anos? - quatro meses."

   - Gostaria de ter almofadas nas patas traseiras, como as suas, - disse Pipo. - A casca daquela árvore rasgaria minha pele em tirinhas.

   - Isso nos deixaria envergonhados - Fuçador ficou mantendo a postura de expectativa que Pipo achava que era a maneira de eles expressarem uma ligeira ansiedade, ou de dar um aviso não-verbal para que os outros pequeninos tomassem cuidado. Talvez fosse um sinal de extremo temor, mas, até onde Pipo soubesse, nunca vira um pequenino com muito medo.

   De qualquer forma, Pipo falou depressa, para acalmá-lo: - Não se preocupe, estou muito velho e mole para escalar árvores como essa. Vou deixar isso para os jovens.

   Funcionou. Fuçador começou a se movimentar de novo.

   - Eu gosto de subir em árvores. Posso ver tudo, lá de cima. - Fuçador agachou-se na frente de Pipo e aproximou seu rosto. - Você vai trazer o animal que corre pela grama sem tocar o chão? Os outros não acreditam em mim quando digo que vi essa coisa.

   Outra armadilha. "Pipo, xenólogo, você vai humilhar esse membro da comunidade que está estudando? Ou vai seguir a rígida lei estabelecida pelo Congresso Estelar para dirigir esse encontro? Havia poucos precedentes. Os únicos outros alienígenas inteligentes que a humanidade encontrara eram os insecta, três mil anos atrás, e no fim todos eles estavam mortos. Desta vez, o Congresso estava querendo certificar-se que, se a humanidade errasse, seus erros seriam no sentido oposto. Informação mínima, contato mínimo."

   Fuçador, percebendo a hesitação de Pipo e seu cauteloso silêncio:

   - Você nunca nos diz nada. Apenas fica nos observando e nos estudando, mas nunca nos deixa ir além da cerca de sua aldeia, para que nós também possamos observar e estudar você.

   Pipo respondeu o mais honestamente que pôde, mas era mais importante ser cuidadoso do que honesto:

   - Se vocês aprendem tão pouco e nós aprendemos tanto, como é que vocês falam stark e português, enquanto que eu ainda não aprendi direito sua língua?

   - Nós somos mais espertos - respondeu Fuçador, sentando-se no chão, e ficando de costas para Pipo. - Volte para trás de sua cerca.

   Pipo levantou-se imediatamente. Não muito longe, Libo estava com três pequeninos, tentando aprender como entreteciam as vinhas de merdona. Viu Pipo e, rapidamente, estava junto de seu pai, pronto para ir. Pipo levou-o embora sem dizer uma só palavra. Como os pequeninos sabiam fluentemente as línguas humanas, só discutiam o que aprendiam quando estavam dentro da cerca.

   Levaram meia hora para chegar em casa. Chovia bastante quando passaram pela porteira, caminhando pelo sopé do morro até o escritório do xenador. Xenador? Pipo pensou na palavra enquanto observava a tabuleta sobre a porta. Nela, estava escrita a palavra xenólogo, em stark. "É isso o que sou, suponho", pensou Pipo, "pelo menos para a gente dos outros planetas". Mas a palavra xenador em português era muito mais fácil de ser dita, tanto que em Lusitânia quase ninguém dizia xenólogo, mesmo quando falava stark. "É assim que as línguas mudam", pensou Pipo. "Se não fosse pelo ansible, oferecendo comunicação instantânea entre os Cem Planetas, não conservaríamos uma língua comum. A viagem interestelar é muito rara e demorada. O stark se fragmentaria em dez mil dialetos em menos de um século. Seria interessante fazer os computadores calcularem uma projeção das alterações lingüísticas em Lusitânia, se o stark decaísse e absorvesse o português..."

   - Pai - disse Libo.

   Só então Pipo notou que parará dez metros antes do escritório. Tangentes. "As melhores partes de minha vida intelectual são tangenciais, em áreas fora de minha especialização. Suponho que isso aconteça porque dentro de minha especialidade os regulamentos a mim impostos me impossibilitam saber ou entender qualquer coisa. A ciência da xenologia insiste em ter mais mistérios que a Santa Madre Igreja".

   A impressão de sua mão era suficiente para destravar a porta. Enquanto estava entrando, para começar o trabalho, Pipo sabia como a noite se desdobraria. Demorariam várias horas de trabalho nos terminais para que relatassem o que fizeram durante o encontro do dia. Pipo leria as notas de Libo e Libo, as de Pipo. Quando estivessem satisfeitos, Pipo escreveria um breve sumário e deixaria os computadores assumirem daí por diante, arquivando as anotações e transmitindo-as instantaneamente, via ansible, para os xenólogos do resto dos Cem Planetas. "Mais de mil cientistas, cujas carreiras consistem em estudar a única raça alienígena conhecida. Exceto pelo pouco que os satélites possam descobrir sobre essa espécie arbórea, toda a informação que meus colegas têm é a que Libo e eu lhes enviamos. Isto é, definitivamente, uma intervenção mínima."

   Mas quando entrou no escritório, Pipo, de imediato, percebeu que a noite não seria de muito trabalho. Dona Cristã estava lá, vestida com seu hábito. "Será que uma das crianças menores teve problemas na escola?"

   - Não, não - respondeu Dona Cristã. - Todos os seus filhos estão se saindo muito bem, exceto este que é muito jovem para estar fora da escola e trabalhando aqui, como aprendiz.

   Libo nada disse. "Sábia decisão", pensou Pipo. Dona Cristã era uma mulher jovem, brilhante e encantadora, até mesmo bonita. Mas acima de tudo, era uma monja da ordem dos Filhos da Mente de Cristo e não parecia nada bonita quando ficava irritada com a ignorância e a estupidez. Era surpreendente o número de pessoas inteligentes cuja ignorância e estupidez derretera um tanto ao fogo de seu desprezo. "Silêncio, Libo, é uma política que vai lhe fazer bem."

   - Não estou aqui para falar sobre nenhum de seus filhos. Vim falar sobre Novinha.

   Dona Cristã nem precisava mencionar o sobrenome: todos conheciam Novinha. A terrível Descolada terminara apenas oito anos antes. A praga ameaçara varrer a colônia antes de ter uma boa chance de começar. A cura foi descoberta pelos pais de Novinha: Guto e Cida, os dois xenobiólogos. Era uma ironia trágica a de descobrirem a causa da doença e seu tratamento ser tarde demais para salvar a si mesmos. O funeral deles foi também o funeral da Descolada.

   Pipo claramente lembrava-se da menina Novinha, segurando a mão da prefeita Bosquinha, enquanto o Bispo Peregrino rezava a missa de réquiem. "Não, não estava segurando a mão da prefeita." O quadro voltou a sua mente e, com ele, o modo como se sentia. "Como será que ela está se sentindo?" lembrou-se que perguntava a si mesmo. "É o funeral de seus pais e ela é a última sobrevivente da família, mas, ao mesmo tempo, pode sentir a sua volta a grande alegria do povo desta colônia. Jovem como é, será que entende que nossa alegria é a melhor homenagem aos pais dela? Eles lutaram e venceram, descobrindo nossa salvação nos últimos dias de vida. Estamos aqui para celebrar o grande presente que nos deram. Mas para você, Novinha, é a morte de seus pais, como seus irmãos morreram antes. Quinhentos mortos e mais de cem missas de réquiem foram realizadas nesta colônia nos últimos seis meses, todas rezadas numa atmosfera de dor, medo e desespero. E agora, quando seus pais morrem, o medo, a dor e o desespero não são menores para você, mas ninguém compartilha de sua dor. O que está nas mentes de todos é o alívio da dor."

   Observando-a, tentando imaginar seus sentimentos, conseguiu apenas reavivar sua própria dor com a morte de Maria, aos sete anos, varrida pelo vento da morte que cobriu seu corpo com excrescências cancerosas e fungos por toda parte. A carne inchava e apodrecia; um novo membro, nem perna nem braço, crescia em seu quadril. Depois a carne caía de seus pés e cabeça, expondo os ossos, seu doce e lindo corpo destruído perante seus olhos. Sua mente brilhante ficava impiedosamente alerta, capaz de sentir tudo o que acontecera com ela até gritar para que Deus a deixasse morrer.

   Pipo lembrou-se disso e também da missa de réquiem, compartilhada com outras cinco vítimas. Durante a missa, acompanhado de sua mulher e das crianças sobreviventes, sentira, na catedral, a perfeita união das pessoas. Sabia que sua dor era a de todos; que, pela perda de sua filha mais velha, ficava unido a esta comunidade com os vínculos indestrutíveis da dor. Isso era um conforto para ele; era algo em que se agarrar. Era assim que deveria ser essa dor, um lamento público.

   Mas, para a pequena Novinha, tudo era diferente. Sua dor era pior que a de Pipo. Ele não fora deixado sem família e era um adulto, não uma criança aterrorizada por perder subitamente o alicerce de sua vida. Sua dor não era trazida mais para dentro da comunidade, mas excluída. Hoje, todos se rejubilavam, exceto ela; todos elogiavam seus pais, só ela sentia a falta deles. Preferia que nunca tivessem descoberto a cura para os outros; se ao menos eles pudessem continuar vivos.

   O isolamento dela era tão grande que Pipo podia vê-lo, de onde estava sentado. Novinha soltou a mão da prefeita, assim que pôde. Parou de chorar à medida que a missa seguia. No final, estava sentada em silêncio, como uma prisioneira que se recusa a cooperar com seus captores. Pipo ficou com o coração partido. Mas sabia que, se tentasse, não poderia esconder sua própria gratidão pelo fim da Descolada. Estava alegre porque nenhum de seus outros filhos lhe seria tirado. Ela perceberia isso; seu esforço para consolá-la seria uma ironia e ela se afastaria mais ainda.

   Depois da missa, saiu, na mais amarga solidão, em meio a toda aquela gente bem-intencionada, que cruelmente lhe dizia que seus pais seriam santos e, com certeza, estariam sentados à mão direita de Deus. Que tipo de conforto é esse para uma criança? Pipo cochichou para sua mulher:

   - Ela nunca vai nos perdoar por este dia.

   - Perdoar? - Conceição não era daquelas esposas que percebiam rapidamente a linha de pensamento do marido. - Não fomos nós que matamos os pais dela...

   - Mas hoje estamos contentes, não é? Ela nunca vai nos perdoar por isso.

   - Bobagem. De qualquer modo, ela não entende nada. É muito pequena.

   "Mas ela entende", pensava Pipo. "Maria já não entendia as coisas quando era até mais jovem do que Novinha?"

   Com o passar dos anos - já oito anos, agora - via-a vez ou outra. Estava com a idade de Libo, e até o décimo terceiro aniversário de Libo, significou que foram colegas de classe muitas vezes. Ouvira-a ocasionalmente, em conferências e discursos, com as outras crianças. Havia uma elegância em seu pensamento, uma intensidade em seu exame das idéias que o agradava. Ao mesmo tempo, ela parecia completamente fria, completamente afastada de todos. O menino de Pipo, Libo, era tímido, mas mesmo assim, tinha vários amigos, e conquistara o afeto de seus professores. Novinha, porém, não tinha amigos, ninguém cujo olhar procurasse depois de um momento de triunfo. Não havia professor que genuinamente gostasse dela, porque ela se recusava a reciprocar, a corresponder. - Ela tem paralisia emocional - disse certa feita Dona Cristã, quando Pipo perguntou a respeito dela. - Não há como alcançar seu coração. Ela jura que está perfeitamente contente, e não vê nenhuma necessidade de mudar.

   Dona Cristã viera ao escritório do xenador para conversar com Pipo a respeito de Novinha. Por que Pipo? Só podia haver uma razão para que a diretora da escola viesse falar com ele sobre esta órfãzinha em particular.

   - Devo supor que em todos os anos em que Novinha esteve em sua escola, eu fui a única pessoa que perguntou sobre ela?

   - Não foi a única pessoa. Houve todo tipo de interesse por ela há cerca de dois anos, quando o Papa beatificou seus pais. Todos perguntaram se a filha dos beatos Guto e Cida já havia notado quaisquer eventos milagrosos associados a seus pais, como muitos outros haviam observado.

   - Realmente perguntaram isso a ela?

   - Houve rumores e o bispo Peregrino teve de investigar - Dona Cristã ficava um tanto contrariada quando falava do jovem líder espiritual da Colônia Lusitânia. Mas também dizia-se que a hierarquia nunca tinha muito sucesso com a ordem dos Filhos da Mente de Cristo. - A resposta dela foi muito instrutiva.

   - Posso imaginar.

   - Ela disse, nem mais nem menos, que se os pais dela de fato estivessem ouvindo orações e tinham qualquer influência no Céu para que elas fossem atendidas, por que não atenderam à oração dela, para que eles voltassem do túmulo? Isso seria um milagre útil, respondeu, e havia precedentes. Se os beatos de fato tinham o poder de fazer milagres, devia significar que não a amavam o suficiente para responder à sua oração. Ela preferia acreditar que seus pais ainda a amavam, e simplesmente não tinham poder para agir.

   - Uma sofista nata - disse Pipo.

   - Uma sofista e especialista em culpa: disse ao bispo que se o papa declarou que seus pais eram beatos, seria o mesmo que a Igreja dizer que seus pais a odiavam. A petição pela canonização de seus pais era prova de que Lusitânia a desprezava. Se fosse concedida, seria prova de que mesmo a Igreja era desprezível. O bispo Peregrino ficou lívido.

   - Notei que, mesmo assim, ele mandou a petição.

   - Pelo bem da comunidade. E houve aqueles milagres.

   - Alguém toca o túmulo e uma dor de cabeça vai embora e gritam: Milagre! Os santos me abençoaram!

   - Você sabe que a Cidade Santa precisa de milagres mais substanciais que isso. Mas não vem ao caso. O papa graciosamente permitiu-nos chamai nossa cidadezinha de Milagre. Agora imagino que toda vez que alguém diz esse nome, Novinha aumente um pouco mais sua raiva secreta.

   - Ou diminua. Nunca se sabe que temperatura esse tipo de coisa atinge.

   - De qualquer modo, Pipo, você não é o único que pergunta sobre ela. Mas foi o único que perguntou dela desinteressadamente; não por causa de seus santíssimos pais.

   Era um triste pensamento, que, exceto pelos Filhos, que dirigiam as escolas de Lusitânia, não houvera preocupação pela menina, exceto os fiapos de atenção que Pipo lhe dedicara ao longo de anos.

   - Ela tem um amigo - disse Libo.

   Pipo esquecera que seu filho estava ali - Libo era tão quieto que era fácil esquecer de sua presença. Dona Cristã também sobressaltou-se. - Libo, - disse ela, - creio que fomos indiscretos, conversando sobre uma de suas colegas assim.

   - Sou aprendiz de xenador, agora, - Libo lembrou-a. Queria dizer que não estava na escola.       .

   - Quem é o amigo dela? - quis saber Pipo.

   - É o Marcão.

   - Marcos Ribeira - explicou Dona Cristã. - O menino alto ...

   - Ah, sim, aquele que tem o corpo de um cabra.

     - Ele é forte, - continuou Dona Cristã, - mas nunca notei qualquer amizade entre eles.

   - Uma vez Marcão foi acusado de qualquer coisa, e ela tinha visto, e foi defendê-lo.

   - Você deu uma interpretação generosa, Libo, - disse Dona Cristã. - Acho mais correto dizer que ela acusou os meninos que fizeram a coisa e estavam tentando jogar a culpa nele.

   - Marcão não acha que foi assim - disse Libo. - Notei umas duas vezes a maneira como ele olha para ela. Não é muita coisa, mas existe alguém que gosta dela.

   - E você, gosta dela ? - perguntou Pipo.

   Libo parou um momento para pensar. Pipo sabia o que isso significava. Estava examinando a si mesmo, antes de responder. Não a resposta que lhe traria a simpatia dos adultos, nem a resposta que os irritaria; os dois tipos de ilusão que deliciavam as crianças de sua idade. Estava analisando a si mesmo para descobrir a verdade.

   - Acho que entendi que não queria que alguém gostasse dela. Como se ela fosse só uma visita, que iria embora, algum dia.

   Dona Cristã concordou, gravemente. - Sim, é bem isso, é exatamente assim que ela parece. Mas agora, Libo, precisamos terminar nossa indiscrição, pedindo-lhe que saia enquanto nós ...

   Tinha saído antes que ela terminasse a sentença, com um aceno rápido de cabeça, um meio-sorriso que dizia: "Sim, entendi", e uma agilidade no movimento que tornava sua saída mais eloqüente sobre sua discrição do que se argumentasse para ficar. Com isso, Pipo sabia que Libo não gostara que lhe pedissem para sair. Tinha um jeito especial para fazer os adultos sentirem-se indefinivelmente imaturos em comparação a ele.

   - Pipo, - disse a diretora - ela requereu um exame antecipado para xenobióloga. Quer tomar o lugar de seus pais.

   Pipo ergueu os sobrolhos.

   - Alega que tem estudado a matéria intensamente, desde que era pequena. Que está pronta para fazer o exame agora, sem aprendizado.

   - Ela tem treze, não é?

   - Há precedentes. Muitos já fizeram esses exames. Um até passou mais jovem que ela. Foi há dois mil anos, mas foi permitido. O bispo Peregrino é contra, claro, mas a prefeita Bosquinha, abençoado seja seu espírito prático, apontou que Lusitânia precisa muito de um xenobiólogo. Precisamos desenvolver novas variedades vegetais, para termos uma diversidade decente em nossa dieta e melhores colheitas. Nas palavras dela mesma: "Não me importo que seja uma criança; precisamos de um xenobiólogo."

   - E a senhora quer que eu faça o exame?

   - Se quiser fazer esse obséquio.

   - Teria muito prazer.

   - Eu lhes disse que você aceitaria.

   - Confesso que tenho outro motivo.

   - Mesmo?

   - Acho que deveria ter feito mais pela menina. Gostaria de ver se não é tarde demais para começar.

   Dona Cristã riu-se um pouco. - Pipo, eu gostaria muito que você tentasse. Mas acredite-me, caro amigo, tocar o coração dela é como tocar uma pedra de gelo.

   - Imagino que sim. Imagino que é como tomar banho no gelo para a pessoa que a toca. Mas como será para ela? Fria como é, deve queimar como fogo.

   - Que poeta! - disse Dona Cristã, mas não havia ironia em sua voz. - Será que os porquinhos percebem que lhes enviamos o melhor de nós como embaixador?

   - Eu tento lhes dizer isso, mas eles continuam céticos.

   - Vou mandá-la vir aqui amanhã. Estou avisando: ela espera pura e simplesmente fazer o exame e vai resistir a qualquer tentativa de sua parte de fazer um pré-exame.

   Pipo sorriu. - Estou muito mais preocupado com o que vai acontecer depois dela fazer o exame. Se ela não passar é que vai ter problemas. Se passar, meus problemas é que vão começar.

   - Por quê?

   - Libo vai ficar atrás de mim para que o deixe fazer o exame de xenador mais cedo. Se ele fizer isso, não haverá nada que me impeça de ir para casa, me encolher num canto e morrer.

   - Que tolo romântico você é, Pipo. Se há um homem em Milagre capaz de aceitar seu filho de treze anos como colega de trabalho, é você.

   Depois dela sair, Pipo e Libo trabalharam juntos, como de hábito, registrando os eventos do dia com os pequeninos. Pipo comparou o trabalho de Libo, sua maneira de pensar, suas intuições, suas atitudes, com as dos alunos de graduação que conhecera na universidade, antes de ir para a colônia Lusitânia. Ele podia ser pequeno, com muita teoria e conhecimentos a aprender, mas já era um cientista de verdade, em seu método, e tinha o coração de um humanista. Quando o trabalho daquela noite foi encerrado, foram a pé para casa, à luz da grande e luminosa lua de Lusitânia. Pipo resolveu que Libo já merecia ser tratado como um colega, quer fizesse ou não o exame. Afinal de contas, os exames não podiam medir as coisas que realmente importavam.

   Quer ela gostasse ou não, Pipo também pretendia descobrir se Novinha tinha as incomensuráveis qualidades de um cientista. Se não as tivesse, ele providenciaria para que ela não fizesse o exame, não importava o quanto ela tivesse decorado.

   Pipo não pretendia facilitar nada. Novinha sabia como os adultos agiam quando planejavam não fazer as coisas como ela queria, mas não brigaria nem faria cenas desagradáveis. "Claro que você pode fazer o exame. Mas não há motivo para se apressar. Vamos devagar, quero ter certeza de que você vai se sair bem da primeira vez."

   Novinha não queria esperar. Estava pronta.

   - Vou evitar todos os rodeios que você fizer, - disse ela.

   O rosto dele esfriou. O rosto dele sempre esfriava. Assim estava bem, a frieza estava bem. Ela podia congelá-los até a morte. - Não quero evitar os rodeios, - respondeu ele.

   - A única coisa que lhe peço é que os deixe numa fileira, para eu pulá-los depressa. Não quero ficar esperando dias e dias.

   Ficou pensativo, por um momento.

   - Você está com muita pressa.

   - Estou pronta. O Código Estelar permite-me pedir pelo exame a qualquer momento. É entre eu e o Congresso Estelar. Não sei de nada que diga que um xenólogo dê segundas interpretações ao Quadro Interplanetário de Exames.

   - Então você não leu o regulamento com cuidado.

   - A única coisa de que preciso para fazer o exame antes dos dezesseis anos é a autorização de meu tutor legal. Não tenho um tutor legal.

   - Ao contrário - retrucou Pipo. - A prefeita Bosquinha tem sido sua tutora desde o dia da morte de seus pais.

   - E ela concordou que eu fizesse o exame.

   - Desde que viesse falar comigo.

   Novinha percebeu a intensidade do olhar dele. Não conhecia Pipo, de modo que pensou ser o olhar que percebera em tantos outros olhos, o desejo de dominar, de dirigi-la, o desejo de quebrar sua determinação e independência, o desejo de submetê-la.

   Do gelo ao fogo num instante.

   - O que você sabe sobre xenobiologia? Você só sai e conversa com os porquinhos, nem começou a entender o funcionamento dos genes ainda! Quem é você para me julgar? Lusitânia precisa de um xenobiólogo e não tem um há oito anos. E você quer fazê-los esperar ainda mais, só para que possa ficar no controle!

   Para surpresa dela, ele nem se abalou. Não recuou, nem ficou irritado. Foi como se ela não tivesse falado.

   - Percebo, - respondeu ele, calmamente. - É por causa de seu grande amor pelo povo de Lusitânia que você quer se tornar xenobióloga. Vendo a necessidade pública, sacrificou-se e preparou-se para entrar logo para toda uma vida de serviço altruísta.

   Soava absurdo ouvi-lo dizer aquilo. Não era de modo algum o que ela sentia. - Essa não é uma boa razão?

   - Se fosse verdade, seria bom demais.

   - Está me chamando de mentirosa?

   - Suas próprias palavras chamaram-na de mentirosa. Você falou do quanto eles, o povo de Lusitânia, precisam de você. Mas você vive entre nós. Você viveu entre nós toda sua vida. Pronta para se sacrificar por nós, mas não se sente como parte desta comunidade.

   Então ele não era como os adultos que sempre acreditavam nas mentiras, desde que estas as fizessem parecer a criança que queriam que ela fosse. - Por que eu deveria me sentir parte da comunidade? Não sinto assim.

   Ele concordou, sério, sopesando a resposta. - De que comunidade você é parte?

   - As únicas outras comunidades em Lusitânia são as dos porquinhos, e você não me viu lá com os adoradores de árvores.

   - Há muitas outras comunidades em Lusitânia. Por exemplo, você é uma estudante; há uma comunidade de estudantes.

   - Para mim, não.

   - Eu sei. Você não tem amigos, não tem conhecidos, vai à missa, mas nunca se confessa, fica tão à parte que faz o possível para não saber nada sobre a vida desta colônia, sobre a vida da raça humana. Segundo todas as evidências, você vive no mais completo isolamento.

   Novinha não estava preparada para ouvir essas coisas. Ele estava dando nome à dor oculta de sua vida e ela ainda não tinha uma estratégia para este caso. - Se faço isso, não é por minha culpa.

   - Sei disso. Sei onde começou e de quem é a culpa ainda hoje.

   - Minha?

   - Minha. E de todo mundo. Mas, minha, acima de tudo, porque sabia o que estava acontecendo e nada fiz. Até hoje.

   - E hoje você vai me deixar longe da única coisa que importa em minha vida! Obrigada por sua compaixão!

   De novo ele assentiu, solene, como se estivesse aceitando e reconhecendo sua irônica gratidão. - Num certo sentido, Novinha, não importa que não seja culpa sua. Como a cidade de Milagre é uma comunidade, e quer tenha maltratado você ou não, deve agir como todas as comunidades, visando a oferecer a maior felicidade possível para todos seus membros.

   - O que significa todo mundo em Lusitânia, exceto eu; eu e os porquinhos.

   - O xenobiólogo é muito importante para uma colônia, especialmente uma como esta, fechada por uma cerca que limita para sempre nosso crescimento. Nosso xenobiólogo precisa encontrar maneiras de cultivar mais proteína e carboidratos por hectare, o que significa alterar geneticamente o trigo e as batatas vindos da Terra para...

   - Para fazer o uso máximo dos nutrientes disponíveis no ambiente de Lusitânia. Acha que quero fazer o exame sem saber como seria o trabalho de toda minha vida?

   - O trabalho de sua vida: devotar-se a melhorar a vida das pessoas que você despreza.

   Agora é que Novinha percebia a armadilha que estava preparada para ela. Tarde demais; já tinha caído nela. - Então acha que um xenobiólogo não pode fazer seu trabalho a menos que ame a gente que vai usar as coisas que ele fizer?

   - Não me importo que você nos ame ou não. O que quero saber é o que você realmente quer. Por que está tão empenhada?

   - Psicologia elementar. Meus pais morreram nesse trabalho; então, estou tentando assumir o papel deles.

   - Talvez sim - retrucou Pipo. - Talvez não. O que quero saber, Novinha, o que devo saber antes de deixar que você faça o exame, é a que comunidade você pertence.

   - Você mesmo disse. Não pertenço a nenhuma!

   - Impossível. Toda pessoa é definida pelas comunidades às quais pertence e por aquelas às quais não pertence. Sou isto e não aquilo. Todas as suas definições são negativas. Eu poderia fazer uma lista infinita das coisas que você não é. Mas uma pessoa que realmente acredita não pertencer a nenhuma comunidade, invariavelmente se mata, destruindo seu corpo, ou renuncia à sua identidade, enlouquecendo.

   - Eu sou assim: louca de pedra.

   - Não louca. Dirigida por um senso de finalidade que é assustador. Se fizer esse exame, vai passar. Mas antes de eu aplicá-lo, preciso saber: em que você vai se transformar, depois de ser aprovada? Em que acredita, de que você é parte, com que se importa, o que você ama?

   - Ninguém neste ou em nenhum outro planeta.

 - Não acredito.

   - Nunca conheci um homem ou mulher que fossem bons, exceto meus pais, e eles estão mortos! Mesmo eles - ninguém entende nadai

     - Você.

   - Sou parte do nada, não sou? Mas ninguém entende ninguém, nem mesmo você, fingindo ser tão sábio e compreensivo, mas só está me fazendo chorar assim porque você tem o poder de me impedir de fazer o que quero...

   - E que não é xenobiologia.

   - É sim! É parte, pelo menos.

   -E o que é o resto?

   - O que você é. O que você faz. Só que está fazendo tudo errado, está fazendo como um idiota.

   - Xenobiólogo e xenólogo.

   - Cometeram um grande erro quando criaram uma nova ciência para estudar os porquinhos. Eram um bando de antropólogos velhos, que puseram chapéus novos na cabeça e chamaram a si mesmos de xenólogos. Mas você não consegue entender os porquinhos apenas observando a maneira como eles se comportam! Eles vieram de uma evolução diferente! Vocês precisam entender os genes deles, o que está acontecendo dentro de suas células. E das células dos outros animais também, porque eles não podem ser estudados por si sós, ninguém vive no isolamento...

   "Não fique me ensinando", pensou Pipo. "Diga-me o que você sente". E para provocar o lado emocional dela, sussurrou: - Menos você.

   Funcionou. De fria e desdenhosa, ficou quente e defensiva: - Você nunca vai entendê-los. Mas eu vou!

   - Por que se importa com eles? O que são os porquinhos para você?

   - Você nunca entenderia. Você é um bom católico. - Disse essa palavra com desprezo. - É um livro que está no índex.

   O rosto de Pipo brilhou, quando entendeu. - a Rainha da Colméia e o Hegêmona.

   - Ele viveu há três mil anos, quem quer que fosse, o que chamou a si mesmo de Orador dos Mortos. Mas ele entendeu os insecta. Acabamos com todos eles, a única raça alienígena que conhecemos. Matamos a todos, mas ele entendeu.

     - E você quer escrever a história dos porquinhos da mesma maneira que o Orador original escreveu a dos insecta.

   - Da maneira que você diz, parece tão fácil quanto escrever um trabalho escolar. Não sabe o quanto custou escrever a Rainha da Colméia e o Hegêmona. Quanta agonia significou para ele - imaginar a si mesmo dentro de uma mente alienígena - e sair de lá cheio de amor pela grande criatura que destruímos. Ele viveu na mesma época do pior dos humanos, Ender, o Xenocida, que destruiu os insecta - e fez o melhor para desfazer a obra de Ender; o Orador dos Mortos tentou levantar os mortos...

   - Mas não conseguiu.

   - Conseguiu, sim! Fez com que vivessem de novo. Saberia, se tivesse lido o livro! Não sei nada sobre Jesus, ouço o bispo Peregrino e não acho que há nenhum poder em seu sacerdócio para transformar hóstias em carne ou perdoar um miligrama de culpa. Mas o Orador dos Mortos trouxe a rainha da colméia de volta à vida.

   - Então, onde está ela?

   - Aqui! Em mim!

   Ele concordou. - E há alguém mais em você. O Orador dos Mortos. É isso o que você quer ser.

   - É a única história verdadeira que já ouvi. A única que me importa. Era isso o que queria ouvir? Que sou uma herege? E o trabalho de toda minha vida será acrescentar mais um livro ao índex das verdades que os bons católicos estão proibidos de ler?

   - O que eu queria ouvir, - disse Pipo, em voz mansa, - era o nome do que você é, ao invés do nome de todas as coisas que você não é. O que você é, é a Rainha da Colméia. O que você é, é o Orador dos Mortos.

   Comunidade muito pequena, pequena em número, mas de um grande coração. Então você escolheu não ser parte dos bandos de crianças que se reúnem para o único fim de excluir as outras, e as pessoas olham para você e dizem: "Pobre menina, tão só". Mas você sabe de um segredo; sabe quem você realmente é. Você é o único ser humano capaz de entender a mente alienígena, porque você é a mente alienígena. Sabe o que é ser não-humana, porque nunca houve um grupo humano que lhe deu credencial de homo sapiens de boa fé.

   - Agora está dizendo que não sou nem humana? Fez-me chorar como uma nenezinha, porque não ia me deixar fazer o exame; fez com que eu me humilhasse e agora diz que não sou humana?

   - Mas você pode fazer o exame. Aquelas palavras ficaram suspensas no ar.

   - Quando? - perguntou ela, entre dentes.

   - Esta noite. Amanhã. Comece quando quiser. Vou interromper meu trabalho para que você possa fazer os exames o mais depressa possível.

   - Obrigada! Obrigada, eu...

   - Torne-se Oradora dos Mortos. Vou ajudá-la tanto quanto puder. A lei me proíbe de levar alguém com exceção de meu aprendiz, meu filho Libo, para falar com os pequeninos. Mas vamos dar-lhe acesso às nossas anotações. Tudo o que aprendermos, vamos mostrar-lhe. Todos os nossos palpites e especulações. Em troca, você também vai mostrar-nos todo seu trabalho, o que descobrir sobre os padrões genéticos deste planeta que possam nos ajudar a entender os pequeninos. Quando tivermos aprendido bastante juntos, poderá escrever seu livro, poderá tornar-se Oradora. Mas desta vez, não Oradora dos Mortos. Os pequeninos não estão mortos.

   A despeito de si mesma, sorriu. - A Oradora dos Vivos.

   - Eu também li a Rainha da Colméia e o Hegêmona. Não consigo imaginar melhor lugar para você encontrar seu nome.

   Mas ela ainda não confiava nele, não acreditava no que ele parecia estar prometendo. - Vou querer vir aqui muitas vezes. Todo o tempo.

   - Nós trancamos, quando vamos dormir.

   - Mas o resto do tempo, não. Vocês vão se cansar de mim. Vão dizer-me para ir embora. Vão esconder segredos de mim. Vão mandar-me calar a boca e não vão mencionar minhas idéias.

   - Mal começamos a fazer amizade e você já achei que sou mentiroso e trapaceiro; mas que impaciência.

   - Mas você vai ser assim. Todos fazem isso; todos querem que eu vá embora...

   - E daí? Às vezes, toda pessoa quer ver a outra pelas costas. Por vezes, você é que vai querer me ver pelas costas. O que estou lhe dizendo agora é que mesmo nessas ocasiões, mesmo se eu lhe disser para ir embora, você não precisará sair.

   Era a coisa mais espantosa que alguém já lhe dissera. - Mas isso é loucura.

   - Só uma coisa. Prometa-me que nunca vai tentar falar com os pequeninos, pois nunca poderei lhe dar autorização. De qualquer forma, se você o fizer, o Congresso Estelar vai acabar com todo nosso trabalho por aqui e proibirá todo contato com eles. Promete? Senão tudo - meu trabalho e seu trabalho - dará em nada.

   - Prometo.

   - Quando vai querer fazer o exame?

   - Agora! Posso começar agora?

   Ele riu, calmo, estendeu a mão e, sem olhar, tocou o terminal. Ele despertou, os primeiros modelos genéticos aparecendo no ar, logo acima.

   - O exame já estava pronto! Você preparou tudo! Sabia todo o tempo que iria fazê-lo!

   Ele meneou a cabeça. - Eu esperava que sim. Acreditei em você. Eu queria ajudá-la a realizar o seu sonho. Desde que fosse algo de bom.

   Ela não se chamaria Novinha se não achasse mais uma coisa venenosa para dizer. - Percebo. Você é o juiz dos sonhos.

   Talvez ele nem tomasse isso como insulto. Apenas sorriu: - Fé, esperança e amor, estas três coisas. Mas a maior é o amor.

   - Você não me ama - replicou ela.

   - Ah! Eu sou o juiz dos sonhos, e você é a juíza do amor. Bem, considero-a culpada por ter bons sonhos, e condeno-a a uma vida inteira de trabalho e sofrimento em benefício de seus sonhos. Só espero que algum dia você não me considere inocente do crime de amá-la - refletiu um momento. - Perdi uma filha, Maria, na Descolada. Ela teria apenas alguns anos a mais que você.

   - Eu sou parecida com ela?

 - Eu acho que não.

   Ela começou a responder ao exame. Levou três dias. Passou com uma nota muito mais alta que um estudante graduado normal. Em retrospectiva, no entanto, ela não se lembraria do exame como o começo de sua carreira e o fim de sua infância, a confirmação de sua vocação para o trabalho de sua vida. Lembrar-se-ia do exame por ser o início do tempo que passaria no escritório de Pipo, onde ela, Libo e o próprio Pipo juntos formaram a primeira comunidade à qual pertenceu depois de seus pais descerem à sepultura.

   Não foi fácil, especialmente no começo. Novinha não deixou de lado rapidamente seu hábito de discutir com os outros. Pipo entendia. Estava preparado para ceder a seus ataques verbais. O desafio era mais difícil para Libo. O escritório do xenador tinha sido um lugar em que ele e seu pai podiam ficar a sós. Agora, sem ninguém pedir sua autorização, uma terceira pessoa estava lá, fria e exigente, que falava com ele como se fosse criança, mesmo tendo a mesma idade. Incomodava-o saber que ela era uma xenobióloga licenciada, com toda a condição de adulta que isso implicava, enquanto ele ainda era aprendiz.

   Mas tentou suportar tudo com paciência. Tinha uma natureza calma, e adaptou-se com naturalidade. Não tinha tendências a reclamar abertamente. Mas Pipo conhecia seu filho e notou que ele estava quase explodindo. Depois de algum tempo, Novinha, impassível como era, começou a perceber quê estava provocando Libo mais do que qualquer rapaz poderia suportar. Mas em vez de tornar as coisas mais fáceis para ele, começou a ver isso como um desafio. Corno ela poderia forçar alguma reação desse rapaz anormalmente calmo, de alma gentil?

   - Quer dizer que têm trabalhado todos esses anos, - disse ela um dia, - e nem mesmo sabem como os porquinhos se reproduzem? Como sabem que são todos machos?

   Libo respondeu com toda a calma: - Explicamos macho e fêmea para eles, quando aprenderam nossas línguas. Escolheram chamar a si mesmos "machos". Referiram-se aos outros, que nunca vimos, como "fêmeas".

   - Mas vocês não sabem nada desse jeito; eles poderiam se reproduzir por brotamento! Ou por mitose!

   O tom dela era cheio de desprezo, e Libo não respondeu depressa. Pipo quase ouvia os pensamentos do filho, cuidadosamente reelaborando a resposta, até que ficasse gentil e segura. - Gostaria que nosso trabalho aqui fosse mais como antropologia física. Com isso, estaríamos mais preparados para aplicar nossa pesquisa aos padrões de vida subcelular de Lusitânia, para ver o que podemos aprender sobre os pequeninos.

   Novinha pareceu terrificada. - Quer dizer que nem tomam amostras de tecidos?

   Libo enrubesceu um pouco, mas a voz dele ainda estava calma, quando respondeu. "O menino ficaria assim, se estivesse sendo interrogado pela Inquisição", pensou Pipo. - É tolice, eu acho, mas os pequeninos talvez desconfiassem por que estaríamos pegando pedaços dos corpos deles. Se um ficasse doente depois, pensariam que a doença fora causada por nós.

   - E se pegassem algo que eles tiram naturalmente? Poderiam aprender muito com o cabelo.

   Libo concordou. Pipo, acompanhando a conversa sentado junto a seu terminal do outro lado da sala, reconheceu o gesto; Libo aprendera com seu pai. - Muitas tribos primitivas da Terra acreditavam que os pedaços do corpo continham parte da vida e da força deles. E se os porquinhos pensassem que estamos fazendo magia contra eles?

   - Não conhecem a língua deles? Se não me engano, alguns deles falam starky também - não fez nenhum esforço para esconder seu desdém. - Não pode lhes explicar para que servem as amostras?

   - Tem razão, mas se explicássemos para que usaríamos as amostras, acidentalmente poderíamos ensinar-lhes os conceitos da ciência biológica mil anos antes deles atingirem naturalmente esse estágio. Por isso, a lei nos proíbe explicar coisas assim.

   Por fim, Novinha estava abismada. - Não tinha percebido o quanto vocês estão presos à doutrina da intervenção mínima.

   Pipo gostou de vê-la menos arrogante, mas aquela humildade era pior. A criança estivera tão isolada do contato humano que falava como uma publicação científica excessivamente formal. Pipo pensou seja não era tarde para ensiná-la a ser gente.

   Mas não era. Depois que ela percebeu como eles eram competentes em sua especialidade, de que ela sabia muito pouco, abandonou a postura agressiva e foi quase para o extremo oposto. Por semanas, falou com Pipo e Libo raramente. Em contrapartida, estudava os relatórios deles, tentando compreender o propósito por detrás do que estavam fazendo. Às vezes perguntava algo, e eles respondiam polidamente.

   A polidez gradualmente cedeu terreno à familiaridade. Pipo e Libo começaram a conversar abertamente na frente dela, ventilando suas especulações sobre por que os porquinhos desenvolveram certos comportamentos tão estranhos; o que poderia estar por trás de suas afirmações, por que continuavam tão impenetráveis. Como o estudo dos porquinhos" era um ramo radicalmente novo da ciência, não demorou para Novinha se tornar também especialista, de segunda mão, e oferecesse alguns palpites. - Afinal de contas, - disse Pipo, para encorajá-la, - estamos todos igualmente cegos.

   Pipo sabia o que aconteceria a seguir. A paciência cuidadosamente cultivada de Libo fizera-o parecer frio e reservado para outros de sua idade, mesmo Pipo só podia prevalecer um pouco sobre ele nas tentativas de confraternizar. O isolamento de Novinha era mais desafiador, mas não inferior. Agora, porém, seu interesse comum pelos porquinhos tornava-os unidos; com quem mais poderiam conversar, quando ninguém, a não ser Pipo, poderia entender do que falavam?

   Descansavam juntos, riam juntos até as lágrimas, com piadas que jamais divertiriam qualquer outro luso. Assim como os porquinhos davam nome a cada árvore da floresta, Libo alegremente dava nome a todos os móveis do escritório, e periodicamente anunciava que certos objetos estavam de mau humor e não deveriam ser perturbados. - Não sente na Cadeira! Está menstruada de novo. - Nunca tinham visto um porquinho-fêmea, e os machos sempre pareciam referir-se a elas com uma reverência quase religiosa. Novinha escreveu uma série de relatórios falsos sobre uma porquinho-fêmea chamada Reverenda Mãe que era hilariantemente vulgar e autoritária.

   Mas nem tudo era brincadeira. Havia problemas, preocupações, e certa vez, um momento de real temor, porque poderiam ter feito exatamente o que o Congresso Estelar tentara prevenir tão insistentemente: provocar mudanças radicais na sociedade dos porquinhos. Começou com Fuçador, claro. Ele insistia em fazer perguntas impossíveis de responder, desafiadoras de propósito, como: "Se vocês não têm outras cidades de humanos, como podem ir à guerra? Não é honorável para vocês matar apenas os pequeninos." Pipo balbuciou algo sobre como os humanos jamais matariam os pequeninos, mas sabia que não era essa a pergunta.

   Pipo sabia que havia muitos anos que os porquinhos conheciam o conceito da guerra, mas durante dias depois do fato, Libo e Novinha discutiram acaloradamente sobre se a pergunta de Fuçador provava que os porquinhos viam a guerra como desejável ou meramente inevitável. Houve outros fragmentos de informação de Fuçador, alguns importantes, outros não; muitos cuja importância era impossível avaliar. De certa maneira, o próprio Fuçador era prova da sabedoria da política que proibia que os xenólogos fizessem perguntas reveladoras das expectativas humanas, e portanto, das práticas humanas. As perguntas de Fuçador invariavelmente lhes davam mais respostas do que conseguiam com as respostas às suas perguntas.

   A última informação que lhes fora dada por Fuçador, porém, não foi uma pergunta. Foi um palpite, comunicado a Libo em particular, quando Pipo estava longe com os outros, examinando a maneira como construíram sua cabana de troncos. - Eu sei, eu sei - disse Fuçador. - Eu sei por que Pipo ainda está vivo. Suas mulheres são burras, e não perceberam como ele é esperto.

   Libo esforçou-se para extrair o sentido desta afirmativa aparentemente sem pé nem cabeça. O que Fuçador pensava: que se as mulheres humanas fossem mais espertas, matariam Pipo? Aquela conversa sobre matar era perturbadora. Obviamente, isso era uma questão importante, e Libo não sabia como estudá-la sozinho. Mas não podia pedir a ajuda de Pipo, pois Fuçador obviamente queria discuti-la num momento em que Pipo não pudesse ouvir.

   Vendo que Libo não respondia, insistiu: - Suas mulheres são fracas e estúpidas. Disse isso para os outros e eles disseram que eu podia perguntar a você. Suas mulheres não percebem a sabedoria de Pipo. Isso é verdade?

   Fuçador estava nervoso; respirava ofegantemente, e repuxava os pêlos do braço, quatro ou cinco de cada vez. Libo precisava dar alguma resposta.

   - A maioria das mulheres não o conhece.

   - Então como elas vão saber se ele deve morrer? - De repente, ficou totalmente imóvel, e falou, alto: - Vocês são cabras!

   Só então Pipo se aproximara, intrigado com a gritaria. Logo viu que Libo estava desesperado, sem saber o que fazer. Mas Pipo não fazia idéia do assunto da conversa. Como ajudar? Tudo o que sabia era que Fuçador dizia que os humanos - ou pelo menos Pipo e Libo -, de certa maneira, eram como os grandes animais que ruminavam em bandos nos campos. Pipo nem sabia dizer se Fuçador estava alegre ou contrariado.

   - Vocês são cabras! Vocês é quem decidem! - apontou para Libo e depois para Pipo. - Suas mulheres não escolhem sua honra, vocês é que escolhem! Como em batalha! Só que o tempo todo!

   Pipo não fazia idéia do tema da conversa, mas podia ver que os pequeninos estavam imóveis como troncos, esperando que ele, ou Libo, respondesse. Estava bem claro que Libo estava assustado demais com o estranho comportamento de Fuçador para se atrever a dar qualquer resposta. Nesse caso, Pipo não via outra alternativa senão contar a verdade. Afinal, era uma informação relativamente óbvia e trivial sobre a sociedade humana. Era contra as regras estabelecidas pelo Congresso Estelar, mas não responder causaria males maiores, de modo que Pipo foi adiante.

   - Mulheres e homens decidem juntos ou decidem por si mesmos - esclareceu Pipo. - Um não decide pelo outro.

   Estava claro que era o que todos os porquinhos estavam esperando. - Cabras - diziam, repetidamente.

   Acorreram para Fuçador, grunhindo e assobiando. Acompanharam-no apressadamente para a floresta. Pipo tentou segui-los, mas dois dos porquinhos impediram-no, abanando a cabeça. Era um gesto humano que haviam aprendido muito antes, mas para eles, seu significado era forte. Era absolutamente proibido que Pipo os acompanhasse. Estavam indo encontrar com as mulheres, e aquele era um lugar aonde os humanos nunca deveriam ir.

   A caminho de casa, Libo relatou como começaram as suas dificuldades.

   - Sabe o que o Fuçador disse? Que nossas mulheres eram fracas e burras.

   - Isso porque nunca se encontrou com a prefeita Bosquinha. Ou com sua mãe, aliás.

   Libo riu, porque sua mãe, Conceição, governava os arquivos como se fossem um antigo posto do sertão; quem entrasse nos domínios dela estava totalmente sujeito às leis dela. Enquanto ria, sentiu que algo lhe escapava, uma idéia que era importante; de que estavam falando? A conversa continuou. Libo esqueceu, e logo até esqueceu do que esquecera.

   Naquela noite, ouviram os tambores que Pipo e Libo acreditavam ser parte de alguma festa. Não acontecia com freqüência; parecia que batiam em grandes tambores, com pedaços de pau. Esta noite, porém, parecia que a festa iria durar muito. Pipo e Libo especularam que talvez o exemplo humano de igualdade sexual dera aos pequeninos-machos alguma esperança de libertação. - Acho que isso pode ser considerada uma séria modificação do comportamento dos porquinhos - respondeu Pipo, preocupado. - Se descobrirmos que provocamos uma mudança para valer, terei de informá-la, e o Congresso vai determinar que o contato humano com os porquinhos seja interrompido por algum tempo. Anos, quem sabe"

   Era uma coisa grave - que trabalhar direito poderia fazer com que o Congresso Estelar lhes proibisse de trabalhar.

   De manhã, Novinha acompanhou-os até o portão da cerca alta que separava a cidade dos humanos das encostas dos morros onde os porquinhos viviam, na floresta. Como Pipo e Libo ainda estavam tentando reconfortar um ao outro que não poderiam ter agido de outra maneira, Novinha adiantou-se e chegou ao portão primeiro. Quando os dois a alcançaram, apontou para um trecho de terra recém revolvida, apenas a trinta metros do portão, encosta acima. - Aquilo é novo, e tem alguma coisa dentro.

   Pipo abriu o portão e Libo, sendo mais jovem, correu à frente para investigar. Parou junto à terra revolvida, e estancou, olhando para baixo, para a coisa que havia ali. Pipo, vendo-o, também parou, e Novinha, de repente, temendo por Libo, ignorou o regulamento e correu portão afora. A cabeça de Libo inclinou-se para trás e caiu de joelhos. Agarrou o cabelo crespo e chorou, com um terrível remorso.

   Fuçador estava na terra, de braços e pernas esticados. Fora estripado, com todo o cuidado. Cada órgão fora cuidadosamente separado: os tendões e filamentos de seus órgãos também, puxados e espalhados na terra seca, simetricamente. Tudo ainda estava ligado ao corpo, nada fora cortado completamente.

   O choro agonizante de Libo agora era quase histérico. Novinha ajoelhou-se a seu lado e amparou-o, abraçando-o, tentando consolá-lo. Pipo, metodicamente, tomou sua câmera-miniatura e tirou fotos de todos os ângulos, para analisar detalhadamente pelo computador, mais tarde.

   - Ele ainda estava vivo, quando fizeram isto, - disse Libo, quando ficou calmo o bastante para falar. Mesmo assim, precisava falar devagar, com todo o cuidado, como se fosse um estrangeiro, que não conhecia bem a língua. - Há tanto sangue no chão, espirrou tão longe; o coração ainda devia estar batendo, quando ele foi aberto.

   - Vamos discutir isso mais tarde - interveio Pipo.

   Agora, a coisa que Libo esquecera ontem, voltou-lhe com uma cruel clareza. - Foi o que Fuçador disse sobre as mulheres. Elas é que decidem quando os homens devem morrer. Ele me disse isso e eu... - interrompeu-se. Claro que ele não fez nada. A lei exigia que ele não fizesse nada. Naquele mesmo instante, chegou à conclusão que detestava a lei. Se a lei significava fazer isso com o Fuçador, então a lei não era sábia. Fuçador era uma pessoa. Não se fica parado, deixando que isso aconteça com uma pessoa, só porque é preciso estudá-la.

   - Não o desonraram - disse Novinha. - Uma coisa é certa: o amor que têm pelas árvores. Estão vendo? - No centro de sua cavidade torácica, que poderia estar vazia, estava plantada uma muda de árvore. - Plantaram uma árvore para marcar seu túmulo.

   - Agora sabemos por que dão nome às suas árvores - disse Libo, amargurado. - Plantam-nas como marcos funerais para os porquinhos que torturaram até a morte.

   - Esta floresta é muito grande, - Pipo disse, calmo. - Confine sua hipótese ao que é ao menos remotamente possível. - Ficaram calmos por esse comentário calmo e razoável, pela insistência de que mesmo agora deveriam comportar-se como cientistas.

   - O que devemos fazer? - perguntou Novinha.

   - Vamos levar você de volta para o perímetro imediatamente - respondeu Pipo. - É proibido para você vir aqui fora.

   - Quero dizer... com o corpo... o que fazer?

   - Nada - disse Pipo. - Os porquinhos fizeram o que costumam fazer, seja lá qual for o motivo. - Ajudou Libo a levantar-se.

   Libo mal conseguiu ficar de pé, apoiou-se nos outros dois, para dar os primeiros passos. - O que foi que eu disse? - Sussurrava. - Nem mesmo sei o que foi que eu disse que provocou a morte dele.

   - Não foi você - respondeu Pipo. - Fui eu.

   - Por que acham que eles são sua propriedade? - perguntou Novinha. - Acham que o mundo deles gira à sua volta? Os porquinhos é que fizeram isso, seja qual for o motivo deles. Está bem claro que esta não é a primeira vez - foram muito hábeis com a vivissecção para que esta tenha sido a primeira vez.

   Pipo aceitou o comentário com humor negro: - Estamos ficando incompetentes, Libo. Novinha não devia saber nada de xenologia.

   - Tem razão - disse Libo. - O que quer que tenha sido a causa foi algo que já fizeram antes: um costume. - Estava tentando parecer calmo.

   - Mas é ainda pior, não? - interveio Novinha. - É o costume deles desventrar uns aos outros vivos. - Olhou para as árvores da floresta que começavam no topo do morro, e imaginou quantas delas deitavam suas raízes no sangue.

   Pipo enviou seu relatório pelo ansible, e o computador não lhe causou problemas sobre o nível de prioridade. Deixou para a Comissão de Supervisão decidir se o contato com os porquinhos deveria ser interrompido. A comissão, de sua parte, não apontou nenhum erro fatal. - É impossível esconder a relação entre nossos sexos, pois, algum dia, haverá um xenólogo mulher, - dizia o relatório. - E não achamos nenhum ponto em que não agiram razoável e prudentemente. Nossa conclusão provisória é que vocês foram participantes involuntários de alguma luta pelo poder, que foi decidida contra Fuçador, e que devem continuar o contato, dentro dos limites da prudência.

   A justificativa era completa, mas não era fácil de engolir. Libo crescera conhecendo os porquinhos ou, pelo menos, ouvindo seu pai falar deles. Conhecia Fuçador melhor do que qualquer outro humano, além de sua família e Novinha. Libo só voltou ao escritório depois de vários dias, e demorou semanas para entrar na floresta. Os porquinhos não deram nenhum sinal de que algo mudara. Na verdade, estavam mais abertos e amigáveis do que antes. Ninguém falou de Fuçador, muito menos Pipo e Libo. Porém, houve mudanças da parte dos humanos. Pipo e Libo nunca se afastavam mais do que alguns passos um do outro, quando estavam entre os porquinhos.

   A dor e o remorso daquele dia fez com que Libo e Novinha se apoiassem ainda mais um no outro, como se a escuridão os unisse mais do que a luz. Os porquinhos agora pareciam perigosos e instáveis, como a companhia humana sempre fora. Entre Pipo e Libo, existia agora a questão sobre quem errara, não importava o quanto um tentasse reconfortar o outro. Assim, a única coisa boa e confiável na vida de Libo era Novinha e na vida de Novinha, Libo.

   Mesmo que Libo tivesse mãe e irmãos, e Pipo e Libo sempre voltassem para eles, Novinha e Libo comportavam-se como se o escritório do xenador fosse uma ilha, Pipo fazendo o papel de um bondoso, mas distante Próspero. Pipo imaginava: "Será que os porquinhos são como Ariel, conduzindo os jovens namorados para a felicidade, ou serão Calibãs, dificilmente sob controle e tendendo ao homicídio?"

   Depois de alguns meses, a morte de Fuçador perdia-se na memória, e os risos voltaram, mesmo que nunca fossem tão despreocupados quanto antes. Quando chegaram aos dezessete anos, Libo e Novinha tinham tanta certeza que ficariam juntos, que conversavam normalmente sobre o que fariam cinco, dez, vinte anos mais tarde. Pipo nunca se importou em perguntar-lhe sobre seus planos de casamento. Afinal, pensava, os dois estudavam biologia da manhã à noite. Eventualmente, ocorreria a eles explorar estratégias reprodutivas estáveis e socialmente aceitáveis. Entretanto, era o suficiente que investigassem interminavelmente sobre quando e como os porquinhos copulavam, considerando que os machos não tinham órgão reprodutor visível. Suas especulações sobre como os porquinhos combinavam seu material genético invariavelmente terminavam em piadas tão maliciosas que exigiam todo o autocontrole de Pipo para não rir.

   De modo que o escritório do xenador, naqueles poucos anos, foi o local de um verdadeiro companheirismo para dois jovens brilhantes, que de outro modo estariam condenados a uma fria solidão. Jamais lhes ocorreria que o idílio terminaria abruptamente, e para sempre, sob circunstâncias que estremeceriam os cem planetas.

   Tudo foi tão simples, tão rotineiro! Novinha estava analisando a estrutura genética dos bambuzais infestados de moscas, ao longo do rio, e percebeu que o mesmo corpo subcelular que fora o causador da Descolada! estava presente nas células dos bambus. Levou muitas outras estruturas celulares diferentes ao ar livre, sobre o terminal do computador, ç^irou-as. Todas continham o agente da Descolada.

   Chamou Pipo, que estava revisando as transcrições da visita do dia anterior aos porquinhos. O computador fez comparações de cada célula das amostras. Independentemente da função celular, e da espécie de onde fora removida, toda célula alienígena continha o corpo da Descolada, e o computador declarou-as absolutamente idênticas, do ponto de vista químico.

   Novinha esperava que Pipo concordasse, que achasse interessante, talvez que apresentasse uma hipótese. Em vez disso, sentou-se e refez o teste, perguntando-lhe como o computador fazia as comparações e sobre o que o agente da Descolada realmente fazia.

   - Mamãe e papai nunca descobriram o que o ativava, mas o agente da Descolada libera esta pequena proteína, ou pseudoproteína, eu acho, e ataca as moléculas dos genes, começando por um extremo e abrindo os dois fios delas até o meio. Foi o que chamaram de descolador: descola o DNA humano também.

   - Mostre-me o que faz nas células alienígenas. Novinha ativou uma simulação.

   - Não, não só a molécula do gene, todo o ambiente celular.

   - Está apenas no núcleo - disse ela. Ampliou o campo para incluir mais variáveis. O computador levou mais tempo, pois estava considerando milhões de disposições aleatórias do material nuclear por segundo. Na célula do bambu, quando uma molécula do gene era descolada, várias proteínas do ambiente fixavam-se aos fios abertos. - Nos humanos, o DNA tenta se recombinar, mas proteínas aleatórias inserem-se de modo que cada célula vai ficando louca. Por vezes, entram em mitose, como no câncer, ou morrem. O mais importante é que, nos humanos, os corpos da Descolada reproduzem-se como loucos, passando de célula para célula. Está claro que toda criatura alienígena já os tem.

   Mas Pipo não estava interessado no que ela dizia. Quando o descolador acabou com as moléculas dos genes do bambu, ele examinou cada célula. - Não só é significativo, mas é a mesma coisa.

   Novinha não percebeu de imediato a conclusão de Pipo. Era a mesma coisa em relação ao quê? Nem teve tempo de perguntar. Eleja se levantara da cadeira, pegando o casaco, e saía pela porta afora. Estava garoando. Pipo parou apenas para dizer-lhe: - Diga para Libo que não precisa vir, mostre-lhe essa simulação e veja se ele percebe mais alguma coisa, antes de eu voltar. Ele vai perceber; é a grande resposta. A resposta de tudo.

   - Conte-me!

   - Ele riu. - Não trapaceie. Libo vai contar-lhe, se você mesma não adivinhar.

   - Onde está indo?

   - Perguntar aos porquinhos se estou certo, é claro! Mas sei que estou, mesmo se eles mentirem. Se não voltar em uma hora, é porque escorreguei na chuva e quebrei a perna.

   Libo não chegou a ver as simulações. A reunião da Comissão de Planejamento demorou muito, com uma discussão sobre a ampliação das pastagens, e depois da reunião, Libo ainda tinha de apanhar os mantimentos da semana. Quando chegou, Pipo já tinha saído há horas, estava escurecendo, e a garoa se transformara em neve. Saíram de imediato à procura dele, receando que levariam horas para achá-lo na floresta.

   Descobriram-no logo. O corpo já estava esfriando na neve. Os porquinhos nem mesmo tinham plantado uma árvore em cima dele.

                     Trondheim

     Lamento profundamente não ter atendido ao seu pedido sobre maiores detalhes referentes aos costumes da corte e do casamento dos aborígenes lusitanos. Isso deve estar lhe causando uma contrariedade muito grande, ou nunca teria pedido à Sociedade Xenológica que me censurasse por não cooperar com suas pesquisas.

     Quando os futuros xenólogos reclamam que não estou obtendo o tipo certo de dados de minhas observações dos pequeninos, sempre insisto com eles para que releiam as limitações que me são impostas por lei. Só me é permitido levar um assistente nas visitas de campo; não posso fazer perguntas que revelem as expectativas humanas, a menos que eles tentem nos imitar; não devo oferecer informação que cause uma resposta paralela; não devo ficar com eles mais do que quatro horas por visita; exceto por minhas roupas, não devo usar nenhum produto da tecnologia na sua presença, como câmeras, gravadores, computadores ou mesmo uma caneta manufaturada para escrever em papel manufaturado; nem mesmo devo observá-los às escondidas.

     Em suma: não posso dizer-lhes como os pequeninos se reproduzem, porque eles escolheram não fazê-lo na minha frente.

     Claro que sua pesquisa fica prejudicada! Claro que nossas conclusões sobre os porquinhos são absurdas! Se tivéssemos de observar sua universidade sob as mesmas limitações a que estamos presos à observação dos aborígenes lusitanos, sem dúvida concluiríamos que os humanos não se reproduzem, não formam grupos de parentesco, e devotam todo seu ciclo vital à metamorfose do aluno larval no professor adulto. Até mesmo poderíamos supor que os professores exercem um grande poder na sociedade humana. Uma investigação competente logo revelaria a imprecisão de tais conclusões; mas, no caso dos porquinhos, nenhuma investigação competente é permitida ou sequer tomada em consideração.

     A antropologia nunca é uma ciência exata; o observador nunca experimenta a mesma cultura que o participante. Mas estas são limitações naturais inerentes à ciência. As limitações artificiais é que nos causam males - e, através de nós, a vocês. Na atual taxa de progresso, seria melhor remeter questionários aos pequeninos e esperar que nos devolvessem obras de erudição em resposta.

 

   - João Figueira Álvares, em resposta a Pietro Guataninni, da Universidade da Sicília, Campus Milano, Etrúria,

     publicada postumamente em Estudos Xenológicos

     22:4:49:193

  

     A notícia da morte de Pipo não era meramente de importância local. Foi transmitida instantaneamente, via ansible, a todos os cem planetas. Os primeiros alienígenas descobertos depois do Xenocídio de Ender torturaram até a morte o único humano designado para observá-los. Em poucas horas, professores, cientistas, políticos e jornalistas começaram a se manifestar.

   Logo surgiu um consenso. Um incidente, sob circunstâncias desorientadoras, não demonstra o fracasso da política do Congresso Estelar para com os porquinhos. Ao contrário, o fato de que apenas um homem morreu talvez provasse a sabedoria da atual política de quase-inação. Portanto, não deveríamos fazer nada, exceto continuar as observações, com uma intensidade ligeiramente menor. O sucessor de Pipo recebeu instruções para visitar os porquinhos não mais do que um dia ou outro, e nunca por mais de uma hora.-Não deveria forçar os porquinhos a dar respostas sobre o que fizeram com Pipo. Era uma reafirmação da velha política de inação.

   Havia também muita preocupação sobre a moral do povo de Lusitânia. Foram-lhes mandados muito mais programas de entretenimento, pelo ansible, a despeito das despesas, para ajudá-los a desviar a atenção daquela morte brutal.

   Assim sendo, depois de fazer tudo o que podia ser feito pelos framlings, que afinal de contas, estavam a anos-luz de distância de Lusitânia, o povo dos Cem Planetas voltou às suas atividades locais.

   Fora de Lusitânia, apenas um homem, entre o meio trilhão de humanos dos cem Planetas, sentiu a morte de João Figueira Álvares, chamado Pipo, como uma grande mudança nas linhas gerais de sua vida. Andrew Wiggin era o Orador dos Mortos na cidade universitária de Reykjavik, célebre defensora da cultura nórdica, dependurada nas encostas de um fiorde estreito como uma faca, que rompia o granito e o gelo do frio planeta Trondheim, bem em seu equador. Era primavera; de modo que a neve estava em retirada, e frágeis flores e gramíneas esforçavam-se para receber os raios do sol. Andrew estava sentado no sopé de um morro ensolarado, cercado por uma dúzia de alunos que estavam estudando a história da colonização interestelar. Ouvia distraidamente um acalorado debate sobre se a vitória completa na Guerra dos Insecta fora um prelúdio necessário à expansão humana. Estes argumentos sempre degeneravam rapidamente no feroz rebaixamento de Ender, o monstro humano, que comandou a frota estelar autora do Xenocídio dos Insecta, Andrew deixava sua mente divagar um pouco; o assunto não o desgostava, exatamente, mas preferia não empenhar muita atenção.

   Então o pequeno implante de computador, que usava como uma jóia na orelha, avisou-lhe da cruel morte de Pipo, o xenólogo em Lusitânia. De imediato, Andrew ficou alarmado e interrompeu seus alunos.

   - O que sabem sobre os porquinhos?

   - Eles são nossa única esperança de redenção - disse um deles, que levava mais a sério Calvino do que Lutero.

   Andrew dirigiu o olhar para Plikt, sua aluna, que sabia, não agüentaria muito tempo aquele misticismo. - Eles não existem para nenhum propósito humano, nem mesmo a redenção - disse Plikt, com um gélido desprezo. - Eles são verdadeiros ranten, como os insecta.

   Andrew concordou, mas advertiu: - Você usou um termo que ainda não é bem koinê.

   - Mas deveria ser - retrucou Plikt. - Todos em Trondheim, todo nórdico nos Cem Planetas já deve ter lido a História de Wutan em Trondheim, de Demóstenes.

   - Deveríamos, mas não lemos - suspirou um outro aluno.

   - Faça-a parar de se vangloriar, Orador, - disse um outro aluno. - Plikt é a única mulher que conheço que pode se pavonear sentada.

   Plikt cerrou os olhos. - A língua nórdica reconhece quatro graus de estranheza. A primeira é o estrangeiro ou utlänning, o estranho que reconhecemos como humano de nosso planeta, mas pertencente a outro país ou cidade. O segundo é o framling - Demóstenes meramente omitiu o trema do nórdico främling. Este é o estranho que reconhecemos como humano, mas de outro planeta. O terceiro é o raman, o estranho que reconhecemos como humano, mas de outra espécie. O quarto é o verdadeiro alienígena, o varelse, que inclui todos os animais, pois com eles não é possível conversar.

   Eles vivem, mas não podemos adivinhar que propósitos ou causas nos fazem agir. Eles podem ser inteligentes, ter autoconsciência, mas não podemos saber.

   Andrew notou que diversos alunos estavam chateados. Chamou a atenção deles. - Acham que estão chateados por causa da arrogância de Plikt, mas não é. Plikt não é arrogante; apenas está sendo precisa. Vocês estão envergonhados por não terem lido a história de Demóstenes, de seu próprio povo, e em sua vergonha, ficam agastados com Plikt, porque ela não é culpada do mesmo pecado que vocês.

   - Pensei que Oradores não acreditavam em pecado, - disse um aluno, cabisbaixo.

   Andrew sorriu: - Você acredita em pecado, Styrka, e faz coisas em função dessa crença. Por isso, o pecado é real em você, e conhecendo você, este Orador deve acreditar em pecado.

   Styrka não quis dar o braço a torcer. - O que toda essa conversa sobre utlännings, framlings, ramen e varelse tem a ver com o Xenocídio de Ender?

   Andrew voltou-se para Plikt. Ela considerou por um momento. - Mas isso é importante para a discussão que estávamos tendo. Através dessas camadas de estranheza dos nórdicos, podemos ver que Ender não foi de fato um xenocida, porque quando destruiu os insecta, nós os conhecíamos como varelse:, só muitos anos depois, quando o primeiro Orador dos Mortos escreveu a Rainha da Colméia e o Hegêmona, foi que a humanidade entendeu que os insecta não eram varelse, mas ramen. Até então, não havia entendimento nenhum entre insecta e humanos.

   - Xenocídio é xenocídio - alegou Styrka. - Só porque Ender não sabia que eles eram ramen, não os traz de volta à vida.

   Andrew suspirou, perante a atitude impiedosa de Styrka. Era o costume entre os calvinistas de Reykjavik negar qualquer peso na motivação humana, ao julgar a maldade de um ato. Atos eram bons ou maus em si, diziam. Como os Oradores dos Mortos sustentavam como sua única doutrina que o bem ou o mal alicerçavam-se inteiramente na motivação humana, e de modo algum no ato, estudantes como Styrka demonstravam hostilidade para Andrew. Afortunadamente, Andrew não ficava ressentido - entendia os motivos por detrás de tudo aquilo.

   - Styrka, Plikt, deixem-me apresentar-lhes um outro caso. Suponham que os porquinhos, que aprenderam a falar stark, e cuja língua foi aprendida por alguns humanos, subitamente, sem provocação ou explicação, torturassem até a morte o xenólogo enviado para observá-los.

   Plikt reagiu àquela pergunta imediatamente: - Como saberíamos que foi sem provocação? O que parece inocente para nós poderia parecer insuportável para eles.

   Andrew sorriu. - Mesmo assim. Mas o xenólogo não lhes fez nenhum mal, disse muito pouco, nada lhes custou - por todos os padrões que podemos pensar, ele não valia uma morte dolorosa. O próprio fato desse homicídio incompreensível não torna os porquinhos varelse, ao invés de ramen?

   Agora era Styrka, que falava depressa: - Homicídio é homicídio. Essa conversa de varelse e ramen é bobagem. Se os porquinhos mataram, então são maus, assim como os insecta eram maus. Se a ação é má, o agente é mau.

   Andrew interveio. - Aí está o nosso dilema. O problema existe. O ato foi mau ou, de algum modo, para o entendimento dos porquinhos, pelo menos, foi bom? Os porquinhos são ramen ou varelse? Espere um pouco, Styrka, contenha-se. Sei de todos os argumentos de seu calvinismo, mas mesmo João Calvino, em pessoa, diria que sua doutrina é insensata.

   - Como sabe o que Calvino...

   - Porque ele está morto - berrou Andrew. - Assim, estou capacitado a falar por ele!

   Os estudantes riram e Styrka bateu em retirada, num silêncio de teimosia. O menino era muito inteligente, Andrew bem o sabia; mas seu calvinismo não duraria até depois de sua formatura, mesmo que sua extinção fosse longa e dolorosa.

   - Talman, Orador - falou Plikt. - Você fala como se sua situação hipotética fosse verdadeira, como se os porquinhos realmente tivessem matado o xenólogo. Andrew assentiu, com gravidade. - Sim, é verdade.

   Houve uma grande comoção; evocou os ecos do antigo conflito entre insecta e humanos.

   - Examinem a si mesmos, neste momento - pediu Andrew. - Vão descobrir que debaixo de seu ódio por Ender, o Xenocida, e sua dor pela morte dos insecta, também há algo muito mais feio. Têm medo do estrangeiro, seja utlänning ou framling. Quando pensam nele matando um homem que conhecem e respeitam, não importa a forma dele, passa a ser varelse, ou pior: djur, a fera que vem pela noite, com as garras afiadas. Se tivessem a única arma de sua aldeia, e as feras que despedaçaram um dos seus aparecessem de novo, vocês parariam para perguntar se eles também teriam direito a viver ou tomariam providências para salvar sua aldeia, a gente que conhecem, a gente que confia em vocês?

   - Segundo sua argumentação, deveríamos matar os porquinhos agora, mesmo que sejam primitivos e inermes! - gritou Styrka.

   - Minha argumentação? Eu só fiz uma pergunta. Uma pergunta não é argumento, a menos que conheçam minha resposta, e garanto-lhe, Styrka, que você não a conhece. Pensem nisso. Estão dispensados.

   - Vamos voltar ao assunto amanhã? - perguntaram.

   - Se quiserem... - Mas Andrew sabia que se eles voltassem a discutir o assunto, seria sem a presença dele. Para eles, a questão sobre Ender, o Xenocida, era apenas filosófica. Afinal, a Guerra dos Insecta estava há mais de três mil anos de distância; agora era o ano de 1948 CE, contando a partir do ano em que fora estabelecido o Código Estelar, e Ender tinha destruído os insecta no ano de 1180 aCE. Mas, para Andrew, os eventos não eram tão remotos. Tinha feito muito mais viagens interestelares do que qualquer um de seus estudantes imaginaria: desde os 25 anos, até chegar em Trondheim, nunca ficara mais de seis meses em nenhum planeta. A viagem entre os planetas à velocidade da luz fazia-o saltar como uma pedra chata sobre a superfície do tempo. Seus alunos não faziam idéia de que seu Orador dos Mortos, que com certeza não tinha mais de 35 anos, tinha memórias muito claras de eventos de mais de três mil anos, que mal lhe pareciam ter mais de vinte anos ou só a metade de sua vida. Não faziam idéia de quão profundamente a questão da antiga culpa de Ender queimava dentro dele e como a respondera de mil maneiras insatisfatórias. Conheciam seu professor apenas como Orador dos Mortos. Não sabiam que, quando ele era pequeno, sua irmã mais velha, Valentine, não conseguia pronunciar "Andrew", e chamava-o de "Ender", o nome que ele tornou detestável antes de chegar aos quinze anos. De modo que o impiedoso Styrka e a analítica Plikt ponderem sobre as grandes questões da culpa de Ender; para Andrew Wiggin, Orador dos Mortos, a questão não era acadêmica.

   E agora, caminhando pela encosta gramada do morro, respirando o ar frio, Ender - Andrew, o Orador - só podia pensar nos porquinhos, que já começavam a cometer homicídios inexplicáveis, assim como os insecta fizeram, descuidadamente, quando primeiro visitaram a humanidade. Seria inevitável quando estranhos se encontrassem, que o encontro fosse marcado com sangue? Os insecta casualmente mataram seres humanos, mas só porque tinham uma mente de colméia. Para eles, a vida individual era sem valor, e matar um humano ou dois era simplesmente a maneira deles se anunciarem nas vizinhanças. Será que os porquinhos teriam alguma razão semelhante para matar?

   Mas a voz em seu ouvido falara sobre tortura, um homicídio ritual semelhante à execução de um dos próprios porquinhos. Não tinham mente coletiva, não eram como os insecta, e Ender Wiggin precisava saber por que eles fizeram o que fizeram.

   - Quando ouviu falar da morte do xenólogo?

   Ender voltou-se. Era Plikt. Ela o seguira, em vez de voltar para as Cavernas, o alojamento dos estudantes.

   - Naquela mesma hora, quando estávamos discutindo. - Tocou o ouvido; terminais implantados eram caros, mas não muito raros.

     - Li as notícias antes da aula. Não havia nada sobre isso. Se um acontecimento importante viesse pelo ansible, haveria um alerta. A menos que você receba as notícias diretamente do ansible.

   Plikt obviamente considerava que tinha um mistério em mãos. De fato, tinha. - Oradores têm acesso prioritário à informação pública, - respondeu ele.

   - Alguém lhe pediu para falar em público sobre a morte do xenólogo? Ele fez que não. - Lusitânia está sob Licença Católica.

   - Era isso o que eu queria dizer. Lá, não devem ter um Orador deles. Mas ainda terão de receber um Orador, se alguém o pedir. E Trondheim é o planeta mais próximo de Lusitânia.

   - Ninguém chamou um Orador.

   Plikt tocou sua manga. - Por que está aqui?

   - Sabe por que vim. Vim Orar sobre a morte de Wutan.

   - Sei que você veio para cá com sua irmã, Valentine. Ela é uma professora muito mais popular do que você; ela responde às perguntas com respostas, e você responde com mais perguntas.

   - Isso é. porque ela conhece algumas respostas.

   - Orador, você precisa me contar. Tentei descobrir alguma coisa a seu respeito; fiquei curiosa. Seu nome, por exemplo, de onde veio. Tudo é informação secreta. Tão secreta que nem consegui descobrir qual é o seu nível de acesso. Nem Deus conseguiria descobrir a história de sua vida.

   Ender tomou os ombros dela, e encarou-a. - Não é de sua conta, é esse o nível de acesso.

   - Você é mais importante do que os outros pensam, Orador. O ansible entra em contato com você antes de qualquer um, não é? E ninguém pode procurar informações a seu respeito.

   - Ninguém jamais tentou. Por que você está tentando?

   - Eu quero ser uma Oradora.

   - Vá em frente. O computador vai treiná-la. Não é como uma religião: não precisa decorar nenhum catecismo. Agora, deixe-me em paz - soltou-a, quase empurrando. Ela desequilibrou-se para trás, enquanto ele se afastava.

   - Eu quero Orar por você, - disse ela.

   - Ainda não estou morto!

   - Sei que irá para Lusitânia! Eu sei quem você é!

   Então você sabe mais do que eu, - retrucou Ender consigo mesmo. Mas tremia, enquanto caminhava, mesmo com o sol brilhando e vestindo três suéteres para afastar o frio. Não sabia que Plikt tinha tanta emoção por dentro. Obviamente ela se identificara com ele. Assustava-o que essa menina precisasse de algo dele tão desesperadamente. Passara anos sem ter nenhuma ligação com alguém, a não ser com sua irmã, Valentine, e, claro, com os mortos pelos quais Orou. Todos que significaram algo para ele, em sua vida, já estavam mortos. Ele e Valentine os ultrapassaram havia séculos, planetas atrás.

   A idéia de lançar raízes no solo gelado de Trondheim era-lhe repugnante. O que Plikt queria dele? Não importava; ele não podia dar. Como ela se atrevia a exigir coisas dele, como se lhe pertencesse? Ender Wiggin não pertencia a ninguém. Se Plikt soubesse quem ele realmente era, ela o detestaria como o Xenocida, ou o veneraria como o Salvador da Humanidade - Ender lembrava-se quando as pessoas faziam isso, e não apreciava. Mesmo agora, só era conhecido por seu papel, pelo nome de Orador, Talman, Spieler, como quer que chamassem o Orador dos Mortos na língua de sua cidade, nação ou planeta.

   Não queria ser reconhecido. Não pertencia a eles, à raça humana. Tinha outro afazer, pertencia a alguém mais. Não aos seres humanos. Não aos malditos porquinhos, também. Ou pelo menos, assim pensava.

                   Libo

     Dieta observada: basicamente macios, os vermes luzidios que vivem em meio às trepadeiras de merdona, na casca das árvores. Por vezes foram observados mastigando folhas de capim ou-acidentalmente?-ingerem folhas de merdona junto com os macios.

     Nunca os vimos comer nada além disso. Novinha analisou todos os três alimentos - macios, folhas de capim e folhas de merdona - e os resultados foram surpreendentes. Ou os pequeninos não precisam de proteínas diferentes ou estão com fome todo o tempo. Sua dieta é seriamente deficiente em óligo-elementos. Seu teor de cálcio é tão baixo que ficamos pensando se os ossos deles usam cálcio como os nossos.

     Pura especulação: como não podemos tomar amostras de tecidos, nosso único conhecimento sobre a anatomia e fisiologia dos porquinhos é o que podemos depreender das fotografias do corpo vivisseccionado do porquinho chamado Fuçador. Mas há algumas anomalias evidentes. As línguas dos porquinhos são tão fantasticamente ágeis que podem produzir qualquer som que emitamos, e alguns que não podemos; devem ter evoluído assim por algum motivo; procurar insetos na casca das árvores ou em ninhos no solo, talvez. Se algum porquinho ancestral fazia isso, eles certamente não sabem. As almofadas córneas em seus pés e do lado interno dos joelhos permitem-lhes subir nas árvores e ficar presos a elas apenas pelas pernas. Por que tudo isso evoluiu? Para escapar de algum predador? Não há predador em Lusitânia grande o bastante para machucá-los. Para dependurar-se na árvore enquanto procuram por insetos na casca? Isso explica as línguas, mas onde estão os insetos? Os únicos insetos são as moscas e os puladores, mas não perfuram as árvores, e os porquinhos não os comem. Os macios são grandes, vivem na superfície da casca da árvore. Podem ser facilmente colhidos, puxando as merdonas; eles nem precisam subir nas árvores.

     Especulação de Libo: a língua e o subir nas árvores evoluíram em um meio ambiente diferente, com uma dieta muito mais variada, incluindo insetos. Mas alguma coisa - uma era glacial? Migração? Praga? - fez o ambiente mudar. Nada mais de insetos em árvores, etc. Talvez todos os grandes predadores foram eliminados. Explicaria por que há tão poucas espécies em Lusitânia, apesar das condições muito favoráveis. O cataclisma poderia ter sido recente - meio milhão de anos? Assim a evolução não teve chance de se diferenciar muito ainda.

     A hipótese é tentadora, pois não há motivo aparente no ambiente atual para que os porquinhos tenham evoluído, de maneira alguma. Não há competição para eles. O nicho ecológico que eles ocupam poderia ser preenchido por marmotas. Por que a inteligência viria a ser um traço adaptativo? Mas inventar um cataclisma para explicar por que os porquinhos têm essa dieta tão monótona e pouco nutritiva é provavelmente um exagero. A navalha de Ockham cortaria este argumento em tirinhas.

  

   - João Figueira Mares, Notas de Trabalho,

       4:14:1948 CE

       publicadas postumamente em

         Raízes Filosóficas da Secessão Lusitana

       2010:33:4:1090:40

  

   Assim que a prefeita Bosquinha chegou ao escritório do xenador, o assunto fugiu ao controle de Libo e Novinha. Bosquinha estava acostumada a assumir o comando, e a atitude dela não dava margens a protesto, ou sequer consideração. - Você espera aqui - disse ela para Libo, assim que entendeu a situação. - Assim que recebi sua chamada, mandei o Árbitro contar a sua mãe.

   - Precisamos trazer o corpo dele para dentro - disse Libo.

   - Também chamei alguns dos homens que vivem aqui por perto para ajudar com isso - respondeu ela. - E o bispo Peregrino está preparando um lugar para ele no cemitério da catedral.

   - Quero ir para lá - insistiu Libo.

   - Entenda, Libo, precisamos tirar fotos detalhadas.

   - Eu é que disse que precisávamos fazer isso, para o relatório à Comissão Estelar.

   - Mas você não deveria ir lá, Libo - a voz de Bosquinha era autoritária. - Além do mais, precisamos de seu relatório. Precisamos notificar ao

   Estelar o mais depressa possível. Não quer escrever agora, enquanto está tudo fresco em sua memória?

   Ela estava com toda a razão. Só Libo e Novinha podiam escrever relatórios em primeira mão e quanto antes, melhor. - Sim, acho que posso.

   - E você, Novinha, suas observações também. Escrevam seus relatórios separadamente, sem se consultar. Os Cem Planetas estão esperando.

   O computador fora alertado, e seus relatórios já eram mandados por ansible, enquanto os escreviam, com erros, correções e tudo. Em todos os Cem Planetas, as pessoas envolvidas diretamente com xenologia liam cada palavra, assim que Libo ou Novinha digitavam. Muitos outros receberam resumos instantâneos, redigidos pelo computador, de tudo o que acontecera. A 22 anos-luz de distância, Andrew Wiggin soube que o xenólogo João Figueira "Pipo" Álvares fora morto pelos porquinhos e contou a seus alunos sobre o caso, antes mesmo que os homens trouxessem o corpo de Pipo até Milagre.

   Relatório terminado, Libo logo foi cercado pela Autoridade. Novinha observava com crescente angústia a incapacidade dos líderes de Lusitânia e como eles apenas intensificavam a dor de Libo. O bispo Peregrino era o pior; sua idéia de conforto era dizer a Libo que, muito provavelmente, os porquinhos de fato eram animais, sem alma, de modo que seu pai fora despedaçado por feras selvagens, e não assassinado. Novinha quase gritou com ele. Isso então significava que o trabalho da vida de Pipo nada mais era do que estudar animais? E sua morte, em vez de assassinato, seria um ato de Deus? Mas, em respeito a Libo, ela se segurou. Ele estava sentado na frente do bispo, concordando e, no fim, livrou-se dele, por tê-lo suportado com paciência, muito mais depressa do que Novinha o conseguiria, se respondesse.

   Dom Cristão, do Mosteiro, ajudou mais, fazendo perguntas inteligentes sobre os acontecimentos do dia, que permitiram que Libo e Novinha se tornassem analíticos, sem se emocionarem, enquanto respondiam. Entretanto, Novinha logo parou de responder. A maioria das pessoas perguntava por que os porquinhos tinham feito uma coisa assim; Dom Cristão estava perguntando o que Pipo poderia ter feito recentemente para provocar sua própria morte. Novinha sabia perfeitamente bem o que Pipo fizera: contara aos porquinhos o segredo que descobrira na simulação dela. Mas nada falou a respeito, e Libo parecia ter esquecido o que ela apressadamente lhe dissera umas poucas horas atrás, quando estavam saindo à procura de Pipo. Ele não deu a menor atenção à simulação. Novinha ficou contente com isso; sua maior preocupação era que ele se lembrasse.

   O interrogatório de Dom Cristão foi interrompido quando a prefeita voltou com vários dos homens que ajudaram a trazer de volta o corpo. Estavam ensopados, mesmo usando suas capas de plástico, e salpicados de lama. Felizmente, as manchas de sangue foram lavadas pela chuva. Todos pareciam vagamente contritos e mesmo com um ar de veneração. Cumprimentaram Libo com a cabeça, quase se inclinando. Ocorreu a Novinha que a deferência deles não era apenas a tristeza normal que as pessoas sempre demonstram para aqueles tocados tão de perto pela morte.

   Um dos homens disse para Libo: - Você é o xenador agora, não é? - E isso era tudo, em poucas palavras. O xenador não era uma autoridade oficial em Milagre, mas tinha prestígio. Seu trabalho era toda a razão da existência da colônia, não era? Libo não era mais uma criança, tinha decisões a tomar, tinha prestígio, deslocara-se da periferia da colônia para seu centro.

   Novinha sentiu escapar o controle que tinha sobre sua vida. Não era assim que as coisas deveriam acontecer. "Eu deveria continuar aqui por muitos anos ainda, aprendendo com Pipo, e tendo Libo como meu colega estudante, é assim que é a vida." Como ela já era a xenobióloga da colônia, também tinha um honrado nicho de adulta para preencher. Não tinha inveja de Libo, só queria continuar sendo criança, junto com ele, por mais algum tempo. Na verdade, para sempre.

   Mas Libo não podia ser seu colega, não podia ser seu colega de nada. Ela viu com súbita clareza como todos na sala prestavam atenção a Libo, no que ele dizia, em como se sentia, o que planejava fazer agora. - Não vamos fazer mal algum aos porquinhos, nem vamos chamar isso de homicídio. Não sabemos o que meu pai fez para provocá-los. Isso eu vou tentar entender depois. O importante agora é que o que quer que tenham feito, pareceu-lhes a coisa certa. Nós é que somos os estrangeiros aqui, devemos ter violado algum... tabu, alguma lei... Mas meu pai estava sempre preparado para isso e sempre soube que era uma possibilidade. Digam a todos que ele morreu com a honra de um soldado no campo de batalha; um piloto em sua nave, ele morreu cumprindo seu dever.

   "Ah, Libo, menino calado, agora descobriu dentro de si tamanha eloqüência que não deve ser mais só um menino." Novinha sentiu redobrar a sua dor. Precisava desviar o olhar de Libo, olhar para qualquer outro lugar...

   E ela olhou para os olhos da única pessoa da sala que não estava prestando atenção a Libo. O homem era muito alto e jovem, mais jovem do que ela. Reconheceu de imediato; fora aluno da classe anterior à dela. Ela fora falar com Dona Cristã antes, para defendê-lo. Marcos Ribeira: era esse o seu nome, mas era sempre chamado de Marcão, porque era muito grande. Grande e bobo, como diziam, chamando-o apenas de Cão, pejorativamente.

   Ela percebia a raiva muda nos olhos dele; vira-o, certa vez, depois de ser provocado além de todos os limites, atacar e derrubar um de seus torturadores. A vítima ficou com o ombro engessado quase o ano inteiro.

   Claro que acusaram Marcão por ter ferido o outro sem provocação; era o costume dos torturadores de todas as idades, pôr a culpa na vítima, especialmente quando esta responde ao ataque. Mas Novinha não pertencia ao grupo das crianças - era tão isolada quanto Marcão, se bem que não tão desamparada. Assim, não tinha lealdade que a impedisse de contar a verdade. Era parte de seu treinamento de Orar pelos porquinhos, achava. Marcão nada significava para ela. Nunca lhe ocorreu que, para ele, o incidente fora importante, que ele poderia se lembrar dela como a única pessoa que se levantara em sua defesa em sua guerra contínua contra as outras crianças. Ela não o vira, nem pensara nele durante todos aqueles anos como xenobióloga.

   Agora, ali estava ele. Sujo com a lama do cenário da morte de Pipo, o rosto ainda mais assombrado e animalesco com o cabelo todo molhado pela chuva e pelo suor sobre o rosto e as orelhas. E para onde olhava? Só tinha olhos para ela, mesmo quando ela o encarou. "Por que está me encarando?" ela perguntava para ele, em silêncio. "Porque tenho fome", diziam seus olhos animais. Mas não, não, isso era o medo dela, essa era sua visão dos porquinhos assassinos. "Marcão não é nada para mim e não importa o que ele possa pensar. Eu não sou nada para ele."

   No entanto, ela teve um lampejo de intuição, só por um momento. Sua atitude ao defender Marcão significou uma coisa para ele e outra muito diferente para ela. Tão diferente que nem foi o mesmo acontecimento. A mente dela associou isso à morte de Pipo pelos porquinhos e pareceu muito importante; pareceu quase explicar o que acontecera, mas o pensamento escapou, em meio ao fluxo da conversa e agitação, quando o bispo, saindo da sala, iniciou o cortejo fúnebre até o cemitério. Não se usavam caixões; em consideração aos porquinhos, era proibido derrubar árvores. O corpo de Pipo foi enterrado de imediato, mas as cerimônias fúnebres seriam executadas apenas no dia seguinte, provavelmente à tarde. Muita gente viria para a missa de réquiem do xenador. Marcão e os outros foram embora na chuva, deixando Novinha e Libo, que conversavam com pessoas que pensavam ter negócios urgentes a tratar depois da morte de Pipo. Estranhos com ares de importância entravam e saíam, tomando decisões que Novinha não entendia e Libo não parecia se importar.

   Depois de algum tempo, chegou o árbitro. Ele ficou de pé ao lado de Libo, a mão sobre o ombro do rapaz. - Você, é claro, vai ficar conosco. Esta noite, pelo menos.

   "Por que em sua casa, árbitro?" pensou Novinha. "Você não é ninguém para nós, nunca apresentamos um caso perante você, quem é você para decidir o destino de nossas vidas? A morte de Pipo representa, de repente, que nos transformamos em criancinhas que nada podem decidir?

   - Vou ficar com minha mãe.

   O árbitro olhou-o, surpreso. A mera idéia de que uma criança resistisse à sua vontade parecia completamente fora do âmbito de sua experiência. Novinha sabia que não era bem assim. A filha dele, Cleópatra, vários anos mais jovem que Novinha, fizera muito esforço para merecer seu apelido: Bruxinha. Ele não percebia que crianças tinham vontade própria, e resistiam à domesticação?

   Mas a surpresa não era com o que Novinha pressupunha. - Pensei que você sabia que sua mãe também vai ficar com minha família por algum tempo. Esses acontecimentos a perturbaram, claro, e ela não deve se preocupar com os afazeres domésticos, ou ficar numa casa que a recorde de quem não está mais ali com ela. Ela vai ficar conosco, bem como seus irmãos e irmãs. Eles também precisam de você. Seu irmão mais velho, João, está com eles, mas tem mulher e filho, de modo que você é quem pode ficar e ser de maior utilidade para os outros.  

   Libo concordou sério. O árbitro não o estava levando para sua proteção, estava pedindo a Libo que se tornasse o tutor de sua família.

   O árbitro voltou-se para Novinha: - E acho que você deveria ir para casa.

   Só então percebeu que o convite não era extensivo a ela. E por que deveria? Pipo não era pai dela. Ela era só uma amiga, que por acaso estava com Libo, quando o cadáver fora descoberto. Que dor poderia ela ter experimentado?

   Casa! O que era "casa" senão este lugar? Será que ela deveria agora ir para o escritório do biólogo, cuja cama não fora tocada já havia um ano, exceto para uma soneca durante trabalhos de laboratório? O que deveria ser a casa dela? Deixara-a, por estar tão dolorosamente vazia de seus pais; agora, o escritório do xenador estava vazio também; Pipo morto e Libo transformado num adulto cujos deveres levariam-no para longe. Este lugar não era sua casa, nem nenhum outro.

   O árbitro levou Libo. Sua mãe, Conceição, esperava por ele na casa do árbitro. Novinha mal conhecia aquela mulher. Sabia apenas que era a bibliotecária que conservava o arquivo de Lusitânia. Novinha nunca conversara com aquela mulher ou com os filhos de Pipo, nem pensava na existência deles. Só o trabalho, só a vida daqui era real. Enquanto Libo ia para a porta, parecia ficar cada vez menor, como se estivesse muito mais longe, erguido e levado para longe pelo vento, diminuindo contra o céu como um papagaio. A porta fechou-se atrás dele.

   Agora sentia a magnitude da perda de Pipo. O cadáver mutilado na encosta do morro não era sua morte, eram restos de sua morte. A morte em si era o lugar vazio na sua vida. Pipo fora uma rocha em meio a uma tempestade, tão sólida e forte que ela e Libo, abrigados juntos à sua sombra, nem tinham percebido que ela existia. Agora, estava morto, e a tempestade os apanhara, levando-os para qualquer lugar. Pipo, ela gritava em silêncio. Não se vá! Não nos deixe! Mas, claro, ele se fora, surdo às suas orações, como os pais.

   O escritório do xenador ainda estava movimentado; a prefeita em pessoa estava usando um terminal para transmitir todos os dados de Pipo, pelo ansible, para os Cem Planetas, onde os especialistas estavam desesperadamente tentando descobrir a causa da morte de Pipo.

   Mas Novinha bem sabia que a chave não estava naqueles arquivos. Eram os dados dela que o mataram, de alguma forma. Ainda estavam no ar, por cima de seu terminal, as imagens holográficas de moléculas genéticas nos núcleos das células dos porquinhos. Não queria que Libo as estudasse, mas agora olhava e olhava, tentando ver o mesmo que Pipo, tentando entender o que havia nas imagens que o fizeram sair correndo ao encontro dos porquinhos, para fazer ou dizer o que provocou sua morte. Inadvertidamente, descobrira algum segredo que os porquinhos matariam para conservar, mas o que era?

   Quanto mais estudava as holos, menos entendia, e depois de algum tempo, nem as via mais, só um borrão através das lágrimas, enquanto chorava em silêncio. Ela o matara, porque mesmo sem querer, descobrira o segredo dos porquinhos. Se eu nunca tivesse vindo a este lugar, se não tivesse sonhado em ser a Oradora da história dos porquinhos, você ainda estaria vivo, Pipo; Libo teria um pai, e estaria feliz; este lugar ainda seria a nossa casa. Carrego as sementes da morte dentro de mim e planto-as onde quer que eu fique tempo o bastante para amar. Meus pais morreram para que outros vivessem; agora eu vivo, então os outros precisam morrer.

   Foi a prefeita que notou sua respiração entrecortada, e percebeu, com um choque de compaixão, que aquela menina também estava abalada e enlutada. Bosquinha deixou os outros continuarem os relatórios pelo ansible, e levou Novinha para fora.

   - Lamento, criança. Eu sei que você vinha muito aqui. Devia ter adivinhado que ele era como um pai para você, e nós aqui a tratá-la como uma estranha, não foi justo nem direito de minha parte, venha para minha casa...

   - Não, - respondeu Novinha. Ao sair para o ar frio e úmido da noite, parte da dor foi levada para longe, reconquistou alguma clareza de pensamento. - Não, eu quero ficar só, por favor. - Onde? - No meu escritório.

   - A última coisa que você deveria fazer é ficar sozinha.

   Mas Novinha não podia suportar a perspectiva de ter companhia, da bondade, gente tentando consolar. Eu o matei, não percebem? Não mereço consolo. Quero sofrer, qualquer que seja a dor que apareça. É minha penitência, minha retribuição, e se possível, minha absolvição, de que outra maneira poderia limpar as manchas de sangue de minhas mãos?

   Mas ela não teve forças para resistir, nem argumentar. Por dez minutos, o carro da prefeita deslizou por sobre as estradas gramadas.

   - Aqui está minha casa. Não tenho nenhum filho da^sua idade, mas vai sentir-se à vontade. Não se preocupe, ninguém vai amolar você, mas não é bom ficar só.       (

   - Eu preferia. - Novinha queria que sua voz saísse^ forte, mas estava fraca e inaudível.

   - Por favor; você está fora de si. Gostaria mesmo de estar.

   Não tinha fome, mas o marido de Bosquinha esperava-as com um cafezinho. Era tarde, restavam poucas horas para o alvorecer, e deixou que os dois a pusessem na cama. Enquanto a casa ainda estava silenciosa, ela levantou-se, vestiu-se e desceu as escadas até o terminal da casa. Ali instruiu o computador para cancelar a imagem que ainda estava sobre o terminal do escritório do xenador. Mesmo que não conseguisse decifrar o segredo que Pipo descobrira ali, alguém mais poderia, e não queria mais uma morte em sua consciência.

   Deixou a casa, cruzou o Centro, passou pela curva do rio, pela Vila das Águas, até o escritório do biólogo. Sua casa.

   Estava frio, o alojamento não estava aquecido. - fazia tanto tempo que não dormia ali que havia uma grossa camada de pó sobre os lençóis. Mas é claro, o laboratório estava quente, era sempre usado - seu trabalho nunca ficou de lado por causa de sua dedicação a Pipo e Libo. Antes tivesse.

   Ela era muito sistemática. Cada amostra, cada lâmina, cada cultura que usara nas descobertas que levaram à morte de Pipo - pegou-as, lavou tudo muito bem, não deixou traço do trabalho feito. Não só queria que tudo se fosse: não queria nem sinal de que tudo fora destruído.

   Então, foi ao terminal. Destruiria também todos os registros do trabalho que levou às suas descobertas. Tudo desapareceria. Mesmo que fosse o centro de sua vida, mesmo que representasse sua identidade por muitos anos, destruiria tudo, como se estivesse sendo punida, destruída, obliterada.

   O computador interrompeu-a. - As notas de trabalho sobre pesquisa xenobiológica não podem ser apagadas. - Ela não o faria, de qualquer jeito. Aprendera isso com os pais, com os arquivos que estudara como se fossem a escritura sagrada, como um mapa de si mesma. Nada devia ser destruído, nada esquecido. A sacralidade do conhecimento era mais profunda em sua alma do que em qualquer catecismo. Foi apanhada por um paradoxo. O conhecimento matou Pipo; apagar esse conhecimento mataria seus pais de novo, matando o que deixaram para ela. Não podia preservá-lo, nem destruí-lo. Paredes de ambos os lados, altas demais para subir, pressionando devagar para dentro, para esmagar.

   Novinha fez a única coisa que lhe era possível: colocou nos arquivos todas as camadas de proteção possíveis e todas as barreiras de acesso que conhecia. Ninguém os acharia, senão ela, enquanto vivesse. Só quando morresse, seu sucessor xenobiólogo veria o que estava escondido ali. Com uma exceção - quando casasse, seu marido também teria acesso, se tivesse necessidade de saber. Muito bem: nunca se casaria. Fácil.

   Via o seu futuro à frente, estéril e insuportável, e inevitável. Não se atrevia a morrer, mas dificilmente estaria viva, a menos que descobrisse o segredo mortal e inadvertidamente, deixasse escapar; só, para sempre, enterrada para sempre, culpada para sempre, ansiando pela morte, mas proibida de estender a mão nessa direção. Restava-lhe um consolo: ninguém jamais morreria por sua causa. Nunca carregaria mais culpa nas costas além da que já carregava.

   Foi naquele momento de sombrio e teimoso desespero que se lembrou da Rainha da Colméia e o Hegêmona, lembrou-se do Orador dos Mortos. Mesmo que o autor original, o Orador original, estivesse em seu túmulo há milhares de anos, havia outros Oradores, em muitos planetas, servindo como sacerdotes para gente que não reconhecia nenhum deus, mas acreditava no valor das vidas dos seres humanos. Oradores cujo trabalho era descobrir as verdadeiras causas, os motivos das coisas que as pessoas faziam, e declarar a verdade de suas vidas depois de sua morte. Nesta colônia brasileira, havia padres, no lugar de Oradores, mas os padres não podiam oferecer conforto a ela; precisava trazer um Orador para cá.

   Não tinha se dado conta ainda, mas estiver a planejando fazer isso por toda a vida, já quando lera pela primeira vez e ficou encantada com a Rainha da Colméia e o Hegêmona. Até fizera algumas pesquisas, de modo que conhecia a lei. Esta era uma colônia sob Licença Católica, mas o Código Estelar permitia que qualquer cidadão chamasse um sacerdote de qualquer religião, e os Oradores dos Mortos eram vistos como sacerdotes. Ela podia chamar, e se um Orador aceitasse o convite, a colônia não poderia recusá-lo.

   Talvez nenhum Orador aceitasse vir. Talvez nenhum estivesse perto o bastante para chegar antes dela morrer. Mas havia uma chance de que um estivesse perto, e no futuro - vinte, trinta, quarenta anos - chegaria ao astroporto e começaria a descobrir a verdade da vida de Pipo, e sua morte. E talvez quando descobrisse a verdade, e falasse na sua voz clara, que ela tinha amado a Rainha da Colméia e o hegêmona, talvez a libertasse da vergonha que queimava em seu coração.

   Sua chamada passou pelo computador; este notificaria, pelo ansible, os Oradores nos planetas mais próximos. "Decida vir," ela dizia em silêncio para o desconhecido ouvinte do chamado. "Mesmo que precise revelar a todos a verdade de minha culpa. Mesmo assim, venha."

   Despertou com uma dor surda na base da espinha e uma sensação de peso no rosto. Dormira sobre o terminal, que se desligara, para protegê-la dos lasers. Mas não foi a dor que a despertou. Foi um toque suave no ombro. Por um momento, pensou que já era o Orador dos Mortos, que já tinha vindo em resposta ao seu chamado.

   - Novinha, ele sussurrou. Não o Orador dos Mortos, mas outra pessoa. Alguém que pensou que se perdera na tempestade na noite passada.

   - Libo - então procurou levantar-se - as costas doíam e a cabeça girava. Chorou baixinho; as mãos dele ampararam seus ombros, para que não caísse.

   - Está bem?

   Sentiu o hálito dele como a brisa de um agradável jardim e sentiu-se segura, em casa. - Você me procurou.

   - Novinha, vim assim que pude. Minha mãe finalmente dormiu. Pipinho, meu irmão mais velho, está com ela agora, e o árbitro já controlou a situação, e...

   - Você deveria saber que eu sei cuidar de mim.

   Um momento de silêncio, e a voz dele, irritado agora, desesperado, cansado com a idade e a entropia, e a morte das estrelas. - Deus é testemunha, Ivanova, que eu não vim para tomar conta de você.

   Algo fechou-se dentro dela; só notou a esperança que sentia, ao perdê-la.

   - Você disse que meu pai descobriu algo numa simulação sua. Que esperava que eu descobrisse por mim mesmo. Pensei que você tinha deixado a simulação no terminal, mas quando voltei ao escritório, estava desligada.

   - Mesmo?

   - Você sabe que sim, Nova, ninguém senão você poderia cancelar o programa. Quero ver.

   - Por quê?

   Olhou para ela, incrédulo. - Sei que está com sono, Novinha, mas com certeza percebeu que foi pelo que o meu pai descobriu na sua simulação que os porquinhos o mataram.

   Ela ficou olhando para ele, todo o tempo, sem dizer nada. Eie já conhecia a fria determinação dela.

   - Por que não vai me mostrar? Eu sou o xenador, agora, e tenho o direito de saber.

   - Você tem direito de consultar todos os arquivos e registros do seu pai. Tem também o direito de consultar tudo o que eu tornei público.

   - Então publique isso. Ela não falou palavra.

   - Como algum dia poderemos entender os porquinhos se não soubermos o que foi que meu pai descobriu sobre eles? - Sem resposta. - Você tem uma responsabilidade para com os Cem Planetas, para com nossa capacidade de compreender a única raça alienígena ainda viva. Como pode ficar sentada aí e... o que é, quer descobrir tudo sozinha? Quer ser a primeira? Muito bem, seja a primeira, vou escrever o seu nome embaixo: Ivanova Santa Catarina von Hesse...

   - Pouco me importo com o meu nome.

   - Eu também posso jogar esse jogo. Não pode descobrir nada sem o que eu sei... vou esconder os meus arquivos de você!

   - Pouco me importo com os seus arquivos.

   Isso foi demais para ele. - Com o que se importa, então? O que está tentando fazer comigo? - Agarrou-a pelos ombros, levantou-a da cadeira, sacudiu-a, gritou. - Foi o meu pai que eles mataram, e você tem a resposta do porquê, você sabe o que era a simulação! Agora conte-me, mostre!

   - Nunca - ela disse, entre dentes.

   O rosto dele estava agoniado. - Por que não? - gritou.

   - Porque não quero que você morra.

   Ela viu a compreensão emergir nos olhos dele. "Sim, isso mesmo, Libo, é porque eu amo você, porque se souber do segredo, então os porquinhos vão matá-lo também. Pouco me importo com a ciência, não me importo com os Cem Planetas ou com as relações entre a humanidade e uma raça alienígena, não me importo com nada, desde que você continue vivo."

   As lágrimas finalmente transbordaram dos olhos dele, rolando pelo rosto abaixo. - Eu quero morrer.

   - Você conforta a todos, - disse ela, baixinho. - E quem conforta você?

   - Você precisa me contar, para que eu possa morrer.

   De repente, não eram mais as mãos dele que a sustentavam, apoiava-se nela, que o apoiava, por sua vez. - Você está cansado, - ela murmurou, - mas pode descansar.

   - Não quero descansar. Mas deixou que ela o sustentasse, que o afastasse do terminal.

   Levou-o para o quarto, puxou o lençol, sem se importar com a poeira que voava. - Pronto, você está cansado, deite. Foi por isso que veio me visitar, Libo. Para ter paz, consolo. - ele cobriu o rosto com as mãos, sacudindo a cabeça, um menino chorando pelo pai, chorando pelo fim de tudo, tal como ela mesma. Tirou-lhe as botas, puxou as calças, passou as mãos debaixo da camisa, para tirar por sobre a cabeça. Respirava fundo, tentando controlar os soluços, e levantou os braços, para ajudá-la a puxar a camisa.

   Jogou aquelas roupas sobre uma cadeira, inclinou-se para puxar o lençol. Mas ele segurou o seu pulso, e olhou suplicante para ela, olhos marejados. - Não me deixe aqui sozinho. A voz dele estava densa com o desespero. - Fique aqui comigo.

   Então ela deixou que a puxasse para a cama, onde ficou fortemente abraçado a ela, até que depois de alguns minutos, o sono relaxou seus braços. Ela não dormiu, porém. Passou suavemente a mão, por sobre a pele do ombro dele, pelo peito, pela cintura. - Libo, pensei ter perdido você quando levaram-no embora, pensei que tinha perdido você, como aconteceu com Pipo. - Ele não a ouvia. - Mas você sempre voltará para mim, assim. - Podia ter sido expulsa do jardim, por causa de seu pecado inconsciente, como Eva. Mas de novo, como Eva, podia suportar, pois ainda tinha Libo, o seu Adão.

   Tinha? Tinha mesmo? A mão dela tremeu, sobre o corpo despido. Nunca poderia tê-lo. O casamento era a única maneira pela qual os dois poderiam ficar juntos todo o tempo - as leis eram rigorosas em toda colônia, e absolutamente rígidas sob uma Licença Católica. Mesmo que acreditasse que ele desejaria se casar com ela, chegado o momento certo. Mas Libo era a única pessoa com quem não poderia se casar.

   Aí ele teria acesso automaticamente a qualquer arquivo dela, se pudesse convencer o computador de que tinha necessidade - o que incluiria todos os arquivos de trabalho, não importa quanta proteção tivessem. Era o Código Estelar. Gente casada era virtualmente uma só pessoa, aos olhos da lei.

   Nunca poderia deixá-lo estudar aqueles arquivos, ou ele saberia o mesmo que seu pai, e seria o corpo dele que descobriria junto ao morro, sua agonia sob a tortura dos porquinhos, que teria de imaginar todas as noites de sua vida. A culpa pela morte de Pipo já não era mais do que podia suportar? Casar com ele significaria matá-lo. Não casar com ele seria matar a si mesma, pois se não estivesse com Libo, não podia imaginar com quem mais.

   Muito inteligente de minha parte. Descobri um tal caminho para o inferno que não posso voltar atrás.

   Apertou o rosto contra o ombro de Libo, espalhando suas lágrimas sobre o peito dele.

                   Ender

     Identificamos quatro linguagens dos porquinhos. A "Linguagem dos Machos" é a que temos ouvido mais usualmente. Também ouvimos fragmentos da "Linguagem das Esposas" que aparentemente usam para conversar com as fêmeas (que tal isso, a título de diferenciação sexual!), e a "Linguagem das Árvores", idioma ritual que dizem ser usado para rezar para as àrvores-totem ancestrais. Também mencionaram uma quarta, chamada "Linguagem dos Pais", que aparentemente consiste em bater pauzinhos de diferentes tamanhos. Insistem em dizer que esta é uma verdadeira língua, tão diferente das outras quanto o português é diferente do inglês. Chamam-na "Língua dos Pais"porque é feita com pauzinhos que vêm das árvores, e acreditam que as árvores contêm os espíritos de seus ancestrais.

     Os porquinhos aprenderam com facilidade maravilhosa as línguas humanas - muito melhor do que nós aprendemos as deles. Nos últimos anos, aprenderam a faiar stark ou português entre si, a maior parte do tempo em que estamos com eles. Talvez voltem às suas línguas quando nós não estamos por perto. Talvez até tenham adotado as línguas humanas como se fossem deles, ou talvez tenham gostado, tanto das novas línguas que as usem constantemente, como um jogo. A contaminação lingüística é lamentável, mas talvez seja inevitável, se quisermos nos comunicar com eles.

     O Dr. Swingler perguntou se seus nomes e honoríficos revelam algo sobre sua cultura. A resposta é positivamente sim, se bem que tenho apenas uma idéia vaga sobre o que eles revelam. Por outro lado, quando aprenderam stark e português, perguntaram-nos o significado das palavras, e eventualmente, anunciaram os nomes que haviam escolhido para si (ou escolheram uns para os outros). Nomes tais como "Fuçador" e "Chupacéu" poderiam ser traduções de sua "Linguagem dos Machos" ou simplesmente apelidos estrangeiros que escolheram para nosso uso.

     Referem-se uns aos outros como irmãos. As fêmeas são sempre chamadas esposas, mas nunca irmãs ou mães. Ocasionalmente, referem-se a nós como pais, mas inevitavelmente esse termo é usado para referir-se às árvores-totem ancestrais. Quanto ao que usam para nos chamar, usam humano, é claro, mas também passaram a usar a nova Hierarquia de Exclusão Demosteniana. Referem-se a nós, humanos, como framlings, e aos porquinhos de outras tribos como utlännings. Estranhamente, porém, referem-se a si mesmos como ramen, mostrando que ou entenderam mal a hierarquia, ou vêem a si mesmos pela perspectiva humana! E outra coisa muito surpreendente: muitas vezes referiram-se às fêmeas como varelse!

  

   - João Figueira Álvares, "Notas Sobre a Linguagem e Nomenclatura dos Porquinhos," em Semiótica 9:1948:15

  

   Os alojamentos de Reykjavik eram escavados nas paredes de granito do fiorde. O de Ender era bem no alto do rochedo, uma tediosa subida pelas escadarias. Mas havia uma janela. Vivera a maior parte de sua infância fechado atrás de paredes de metal. Sempre que podia, morava onde podia ver os climas do mundo.

   Seu quarto era quente e iluminado, com muita luz do sol, ofuscando-o, depois de vir do escuro e frio dos corredores de pedra. Jane não esperou que acostumasse os olhos à luz. - Tenho uma surpresa para você no terminal. - A voz dela era um cochicho na jóia da orelha.

   Um porquinho no ar, sobre o terminal. Moveu-se, coçando-se; esticou a mão para pegar alguma coisa. Quando a mão reapareceu, segurava um verme gotejante e luzidio. Mordeu-o, e os líquidos do interior do verme escorreram pela boca e sobre seu peito.

   - Obviamente, uma civilização adiantada - disse Jane.

   Ender ficou agastado. - Muitos imbecis morais têm boas maneiras à mesa, Jane.

   O porquinho virou e falou: - Quer ver como nós o matamos?

   - Mas, o que está fazendo, Jane?

   O porquinho desapareceu. Em seu lugar, uma holografia do cadáver de Pipo, na encosta do morro, debaixo da chuva. - Fiz uma simulação do processo de vivissecção que os porquinhos usaram, baseada na informação coligida pela sonda, antes de o corpo ser enterrado. Quer ver?

   Ender sentou-se na única poltrona do quarto.

   Agora o terminal mostrava a encosta do morro, com Pipo, ainda vivo, deitado de costas, mão e pés amarrados a estacas. Uma dúzia de porquinhos ao seu redor, um deles com uma faca de osso. A voz de Jane vinha da jóia em sua orelha, de novo. - Não temos bem certeza se foi assim. - Todos os porquinhos desapareceram, exceto aquele com a faca. - Ou assim.

   - O xenólogo estava consciente?

   - Sem dúvida alguma.

   - Adiante.

   Impiedosamente, Jane exibiu a abertura da cavidade torácica, a remoção ritual e a colocação dos órgãos do corpo no chão. Ender forçou-se a assistir, tentando entender que significado isso poderia ter para os porquinhos. A certa altura, Jane sussurrou: - Foi aqui que ele morreu. - Ender sentiu-se relaxar; só então percebeu como todos os seus músculos estiveram rígidos, por empatia com o sofrimento de Pipo.

   Depois de tudo acabado, Ender dirigiu-se à sua cama, e deitou, olhando para o teto.

   - Já mostrei essa simulação para cientistas de meia dúzia de planetas, - comentou Jane. - Não vai demorar muito para que a imprensa ponha as garras nela.

   - Pior do que jamais foi com os insecta. Todos os vídeos que mostravam quando eu era menino, insecta e humanos em combate, eram uma limpeza, em comparação com isso.

   Uma risada cruel veio do terminal. Ender dirigiu o olhar para o que Jane estava fazendo. Um porquinho em tamanho natural aparecia sentado, rindo grotescamente, e enquanto gargalhava, Jane transformou-o. Um sutil, um leve exagero dos dentes, um alongamento dos olhos, um pouco de baba escorrendo, uma vermelhidão no olho, a língua dardejando para dentro e para fora. A fera de todo pesadelo infantil. - Muito bem, Jane. A metamorfose de ramen para varelse.

   - Por quanto tempo os porquinhos serão aceitos como iguais da humanidade, depois disto?

   - Todo o contato foi cortado?

   - O Conselho Estelar disse para o novo xenólogo restringir-se a visitas de não mais de uma hora, sem maior freqüência que um dia ou outro. Está proibido de perguntar aos porquinhos o porquê do acontecido.

   - Mas sem quarentena.

   - Isso nem sequer foi ventilado.

   - Mas será, Jane. Mais um incidente como este, e haverá um clamor público pela quarentena. Pedirão para substituir Milagre por uma guarnição militar cujo único propósito será impedir que os porquinhos desenvolvam tecnologia que lhes permitam sair do planeta.

   - Os porquinhos certamente terão um problema de relações públicas, - disse Jane. - E o novo xenólogo é apenas um menino. O filho de Pipo. Libo. Apelido de Liberdade Graças a Deus Figueira de Mediei.

   - Liberdade?

     - Eu não sabia que você falava português.

   - É como o espanhol. Orei pela morte dos zacatecas em San Ângelo, lembra-se?

   - No planeta de Montezuma. Isso foi há dois mil anos.

   - Não para mim.

   - Para você, oito anos subjetivos. Quinze planetas atrás. A relatividade não é uma maravilha? Mantém você tão jovem!

   - Viajo demais. Valentine casou-se; está esperando um nenê. Já declinei de dois chamados para Orador. Por que está me tentando para ir de novo?

   O porquinho do terminal gargalhou venenosamente. - Acha que aquilo foi tentação? Veja! Posso transformar pedras em pães! - O porquinho pegou pedras pontiagudas e começou a comê-las. - Quer um pedaço?

   - Seu senso de humor é pervertido, Jane.

   - Todos os reinos, de todos os planetas. - O porquinho abriu as mãos, e sistemas solares saíam delas, planetas em órbitas exageradamente rápidas, todos os Cem Planetas. - Posso dar-lhe todos eles. Todos eles.

   - Não estou interessado.

   - São imóveis, o melhor investimento. Eu sei, eu sei, você já está rico. Três mil anos de juros acumulados; poderia construir seu planeta particular. Mas que tal isto? O nome de Ender Wiggin, conhecido por todos os Cem Planetas...

   - Já é conhecido.

   - ... com amor, honra e afeto. - O porquinho desapareceu. Em seu lugar, Jane ressuscitou um antigo vídeo da infância de Ender, e transformou-o numa holo. Uma multidão gritando, exclamando: - Ender! Ender! Ender! E um menino, numa plataforma, levantando a mão, para acenar. O povo estava num arrebatamento.

   - Isso nunca aconteceu. Peter nunca me deixou voltar para a Terra.

   - Considere como uma profecia. Vamos, Ender, posso dar-lhe isso. Seu bom nome será restaurado.

   - Pouco me importo. Tenho vários nomes, agora. Orador dos Mortos - é bem honorável.

   O porquinho reapareceu em sua forma natural, não na diabólica, forjada por Jane. - Venha, - disse o porquinho, com delicadeza.

   - Talvez eles sejam mesmo monstros, já pensou nisso? - perguntou Ender.

   - Todos vão pensar isso, Ender. Mas você, não.

   Não. Eu, não, - Por que se importa com isso, Jane? Por que está tentando me convencer?

   O porquinho desapareceu. Agora, era Jane mesmo que aparecia, ou pelo menos o rosto que utilizara para aparecer para Ender, desde que se revelara a ele pela primeira vez: uma criança tímida e assustada, morando na vasta memória da rede interestelar de computação. Ver o rosto dela de novo lembrou-o da primeira vez que o mostrou a ele. Pensei num rosto para mim, disse ela. Gostou?

   Sim, ele gostara. Gostou dela. Jovem, rosto limpo, honesta, doce, uma criança que nunca envelheceria, o sorriso comovedoramente tímido. O ansible dera-lhe vida. Mesmo redes mundiais de computadores operavam a uma velocidade inferior à da luz, e o calor limitava a quantidade de memória e a velocidade de operação. Mas o ansible era instantâneo, e estreitamente ligado a cada computador em cada planeta. Jane primeiro encontrou-se entre as estrelas, seus pensamentos brincando em meio às vibrações dos fios filóticos da rede do ansible.

   Os computadores dos Cem Planetas eram mãos e pés, olhos e ouvidos para ela. Falava todas as línguas que já foram registradas em computadores, leu todos os livros de todas as bibliotecas, de todos os planetas. Aprendeu que os humanos há muito receavam que alguém como ela viria a existir; em todas as histórias, ela era odiada, e seu surgimento significava a sua morte certa ou a destruição da humanidade. Mesmo antes de nascer, os humanos a imaginaram, e ao imaginá-la, assassinaram-na mil vezes.

   Então, não lhes deu sinal de que estava viva. Até descobrir a Rainha da Colméia e o Hegêmona, como todos eventualmente o fizeram, e descobriu que o autor daquele livro era um humano, a quem se atreveu a mostrar-se. Para ela, era questão simples detectar o histórico do livro até a primeira edição, e saber o nome de sua fonte. O ansible não o transmitira do mundo onde Ender, com vinte anos incompletos, era o governador da primeira colônia humana? Ali, quem mais poderia tê-lo escrito, senão ele? Então, falou-lhe, e ele foi bondoso com ela; mostrou-lhe o rosto que imaginara para si mesma, e ele a amou; agora seus sensores viajavam na jóia em sua orelha, de modo que estavam sempre juntos. Ela nada escondia dele; ele não tinha segredos para ela.

   - Ender, você me disse desde o começo que estava procurando um planeta onde poderia dar água e sol para um certo casulo, e abri-lo, para que saísse a rainha da colméia e seus dez mil ovos férteis.

   - Esperava que fosse aqui. Uma terra deserta, exceto no equador, permanentemente subpovoada. Ela também está querendo tentar.

   - E você, vai?

   - Não creio que os insecta consigam sobreviver ao inverno daqui. Não sem uma fonte de energia, o que alertaria o governo. Não adiantaria.

   - Nunca vai adiantar, Ender. Percebe agora, não? Você viveu em vinte e quatro dos Cem Planetas, e não há um onde sequer um cantinho seja seguro para o renascimento dos insecta.

   Ele, é claro, viu aonde ela queria chegar. Lusitânia era a única exceção. Por causa dos porquinhos, apenas uma pequena porção do mundo estava cercada, intocável. E o planeta era totalmente habitável, mais confortável para os insecta, de fato, que para os humanos.

   - O único problema são os porquinhos. Poderiam objetar quanto à minha decisão de que o planeta deles deveria ser dado aos insecta. Se uma exposição intensa à civilização humana acabaria com os porquinhos, imagine o que aconteceria com os insecta entre eles.

   - Você disse que os insecta tinham aprendido. Disse que não fariam mal algum.

   - Não deliberadamente. Mas foi só por acaso que os vencemos. Jane, você sabe que...

   - Foi o seu gênio.

   - Eles são mais avançados do que nós. Como os porquinhos encarariam isso? Ficariam tão terrificados com os insecta como nós, e ainda mais incapazes de lidar com esse medo.

   - Como sabe? Como você ou qualquer um pode dizer o que os porquinhos podem enfrentar? Até que você chegue a eles, aprenda quem são. Se são varelse, Ender, que os insecta usem o habitat deles, e não vai significar para você mais do que o deslocamento de cupinzeiros ou rebanhos de gado para abrir espaço para cidades.

   - Eles são ramen.

   - Você não pode ter certeza.

   - Sim, tenho. Sua simulação - aquilo não foi tortura.

   - Mesmo? - Jane exibiu de novo a simulação do corpo de Pipo pouco antes de sua morte. - Então acho que não entendo a palavra.

   - Pipo deve ter sentido como tortura, Jane, mas se sua simulação é precisa - e sei que é, então o objetivo dos porquinhos não era dor.

   - Pelo que entendo da natureza humana, Ender, mesmo os rituais religiosos conservam a dor no seu centro.

   - Também não era religioso, não tudo, pelo menos. Havia algo errado, se fosse apenas um sacrifício.

   - O que sabe a respeito? - Agora o terminal mostrava o rosto de um professor desdenhoso, a epítome do esnobismo intelectual. - Toda sua educação foi militar, e o único outro dom que você tem é o dom da palavra. Escreveu um best-seller que propagou uma religião humanística - em que isso o qualifica para entender os porquinhos?

   Ender fechou os olhos. - Talvez eu esteja errado.

   - Mas acredita que está certo?

   Ele sabia, pela voz dela, que ela restaurara o rosto de menina no terminal. Abriu os olhos. - Só posso confiar na minha intuição, Jane, o julgamento que vem sem análise. Não sei o que os porquinhos estavam fazendo, mas tinha um objetivo. Não malicioso, não cruel. Era como médicos trabalhando para salvar a vida de um paciente, não torturadores que tiravam ávida.

   - Entendi. Entendi você em todos os sentidos. Você precisa ver se a rainha da colméia pode viver lá sob o abrigo da quarentena parcial que já existe sobre o planeta. Quer ir lá para ver se compreende quem são os porquinhos.

   - Mesmo se estiver certa, Jane, não poderei ir para lá. A emigração é rigidamente limitada, e não sou católico, de qualquer modo.

   Jane virou os olhos para cima. - Será que eu falaria tudo isso se não soubesse de um jeito para levá-lo até lá?

   Outro rosto apareceu. Uma adolescente, de modo algum inocente e bonita como Jane. Rosto duro e frio, olhos brilhantes e fixos, a boca no ricto de alguém que aprendeu a conviver com uma dor perpétua. Era jovem, mas sua expressão era terrivelmente velha.

   - A xenobióloga de Lusitânia. Ivanova Santa Catarina von Hesse. Apelidada Nova, ou Novinha. Chamou um Orador dos Mortos.

   - Por que ela tem essa aparência? O que aconteceu com ela?

   - Os pais morreram quando era pequena. Mas nos últimos anos, veio a amar um outro homem, como se fosse seu pai. O homem que acabou de ser morto pelos porquinhos. É pela morte dele que ela quer que você Ore.

   Olhando para o rosto dela, Ender pôs de lado sua preocupação pela rainha da colméia e pelos porquinhos. Reconheceu a expressão de agonia de adulto no rosto de uma criança. Já a vira antes, nas últimas semanas da Guerra dos Insecta, quando estava além dos limites de sua resistência, jogando batalha após batalha num jogo que não era jogo. Já a vira, depois da guerra, quando descobriu que as sessões de treinamento não eram treinamento algum, e que todas as simulações eram para valer, comandando as frotas humanas pelo ansible. Então, quando soube que matara todos os insecta, quando entendeu o ato de xenocídio que involuntariamente cometera, era aquela a expressão de seu próprio rosto no espelho, carregando uma culpa pesada demais.

   O que tinha essa menina, o que Novinha fez que lhe causava tamanha dor?

   Ficou escutando Jane recitar os fatos da vida da menina. Jane tinha as estatísticas, mas Ender era Orador dos Mortos, seu gênio, ou sua maldição, era sua capacidade de conceber os eventos através dos olhos de outrem. Tornara-o um brilhante comandante militar, tanto na liderança de seus homens, na verdade, meninos, quanto em antecipar os movimentos do inimigo. Também significava que, a partir de frios dados da vida de Novinha, podia adivinhar, ou melhor, saber como a morte de seus pais e virtual santidade a isolaram, e como reforçara sua solidão atirando-se ao trabalho dos pais. Sabia o que estava por trás de seu notável feito de atingir a condição de xenobióloga anos antes. Também sabia o que significava para ela o amor silencioso e a aceitação de Pipo, e sua profunda necessidade da amizade de Libo. Não havia uma só alma em Lusitânia que realmente conhecesse Novinha, Mas nesta caverna em Reykjavik, no mundo gelado de Trondheim, Ender Wiggin conhecia-a, e amava-a, e chorou amargamente por ela.

   - Então, você vai, - sussurrou Jane.

   Ender não conseguia falar. Jane tinha razão. Teria ido como Ender, o Xenocida, só pela chance de que a condição protegida de Lusitânia faria deste o lugar onde a rainha da colméia poderia ser libertada de seu cativeiro de três mil anos e desfazer o terrível crime cometido em sua infância. Também iria como Orador dos Mortos, para entender os porquinhos e explicá-los para a humanidade, para que fossem aceitos, se fossem mesmo ramen, e não odiados e temidos como varelse.

   Agora iria por outra razão, mais profunda, Iria para socorrer a menina Novinha, pois em sua inteligência, em seu isolamento, dor, culpa, viu sua própria infância perdida e as sementes da dor que ainda conviviam com ele. Lusitânia estava a vinte e dois anos-luz de distância. Viajaria apenas a um infinitésimo da velocidade da luz, e só chegaria lá quase com quarenta anos. Se estivesse em seu poder, iria agora mesmo, com a simultaneidade filótica do ansible, mas também sabia que a dor dela esperaria. Ainda estaria lá, à sua espera, quando chegasse. A dor dele mesmo não sobrevivera todos esses anos?

   Seu choro parou; as emoções bateram em retirada, de novo. - Qual a minha idade agora? - perguntou.

   - Passaram-se 3081 anos desde o seu nascimento. Mas sua idade subjetiva é de 36 anos e 118 dias.

   - E qual será a idade de Novinha quando eu chegar lá?

 - Com um erro de algumas semanas, dependendo da data de partida e do quanto a espaçonave se aproxime da velocidade da luz, terá quase trinta e nove.

   - Quero partir amanhã.

   - Leva tempo para providenciar uma nave estelar, Ender.

   - Há alguma em órbita de Trondheim?

   - Uma meia dúzia, claro, mas só uma que poderia estar pronta amanhã, e tem uma carga de skrika, para o comércio de luxo de Cyrillia e Armênia.

   - Nunca lhe perguntei quanto dinheiro tenho.

   - Administrei os seus investimentos razoavelmente bem, ao longo destes anos.

   - Compre a nave e a carga para mim.

   - O que vai fazer com skrika em Lusitânia?

   - Os cyrillianos e os armênios fazem o que com ela?

   - Em parte vestem, e em parte comem. Mas pagam mais por ela do que qualquer um em Lusitânia.

   - Então darei de presente aos lusitanos; poderá aliviar o ressentimento deles contra um Orador que vai a uma colônia católica.

   Jane transformou-se num gênio, saindo de uma garrafa. - Ouvi, ó mestre, e obedeço. - O gênio virou fumaça, aspirada pelo gargalo do jarro. Os lasers desligaram-se, e o ar sobre o terminal não apresentava mais nada.

   - Jane.

   - Sim?

   - Por que quer que eu vá para Lusitânia?

   - Quero que acrescente um terceiro volume à Rainha da Colméia e o Hegêmona. Para os porquinhos.

   - Por que se importa tanto com eles?

   - Porque depois de escrever os livros que revelam a alma das três espécies inteligentes conhecidas do homem, então poderá escrever o quarto,

   - Uma outra espécie ramen!

     - Sim. Eu.

   Ender ponderou por um instante. - Sente-se pronta para se revelar para o resto da humanidade?

   - Sempre estive. A questão é se eles estão prontos? Foi fácil para eles amar o Hegêmona - era humano. E a Rainha da Colméia era seguro, porque pelo que sabiam, todos os insecta estavam mortos. Se você conseguir que eles amem os Porquinhos, ainda vivos, com sangue humano nas mãos, então estarão preparados para saber de minha existência.

   - Algum dia gostarei de alguém que não insista que eu faça os trabalhos de Hercules.

   - De qualquer modo, você estava ficando chateado com a vida, Ender.

   - Sim, mas sou um homem de meia idade. Gosto de tédio.

   - Aliás, o proprietário da nave estelar, Havelock, que vive em Gales, aceitou sua oferta de quarenta bilhões de dólares pela nave e sua carga.

   - Quarenta bilhões! Então, estou pobre?

   - Apenas uma gota no oceano. A tripulação foi notificada que o contrato deles está cancelado. Tomei a liberdade de comprar para eles passagens em outras naves, com o seu dinheiro. Você e Valentine só precisam de mim para operar a nave. Vamos partir pela manhã?

   - Valentine, - disse Ender. Sua irmã seria o único atraso possível na partida. Por outra, agora que a decisão estava tomada, nem seus alunos nem os poucos amigos nórdicos daqui valiam sequer uma despedida.

   - Não posso esperar para ler o livro que Demóstenes vai escrever sobre a história de Lusitânia. - Jane descobrira a verdadeira identidade de Demóstenes no processo de desmascarar o Orador dos Mortos original.

   - Valentine não vai.

   - Mas é sua irmã.

   Ender sorriu. A despeito da vasta sabedoria de Jane, não entendia o parentesco. Mesmo criada por humanos e concebendo a si mesma em termos humanos, não era biológica. Aprendeu a respeito de genética, mas não podia sentir os desejos e imperativos que os seres humanos tinham em comum com todas as outras coisas vivas. - Ela é minha irmã, mas Trondheim é seu lar.

   - Ela já relutou em partir, antes.

   - Desta vez, nem vou perguntar-lhe se quer ir. - Não com uma criança para nascer, não feliz como está aqui em Reykjavik. Aqui eles a amavam como professora, sem saber que ela era o legendário Demóstenes. Aqui, onde seu marido Jakt é dono de uma centena de navios pesqueiros e senhor dos fiordes, onde cada dia é preenchido com conversas inteligentes ou o perigo e a majestade do mar encapelado, ela jamais sairia daqui. Nem entenderia por que preciso ir.

 Pensando em abandonar Valentine, Ender tremeu em sua determinação em ir para Lusitânia. Fora separado de sua bem-amada irmã uma vez antes, quando criança, e sentiu muita falta dos anos de amizade que lhe foram roubados. Poderia deixá-la agora, de novo, quase vinte anos de companhia ininterrupta? Desta vez, não haveria como voltar atrás. Uma vez indo para Lusitânia, ela teria envelhecido vinte e dois anos na sua ausência; teria cerca de oitenta anos, se ele levasse mais vinte e dois anos para voltar.

   < Então, não vai ser fácil para você. Terá de pagar um preço também. >

   Não me provoque, retrucou Ender em silêncio. Tenho direito a me lamentar.

   < Ela é seu outro "eu". Vai deixá-la por nós? >

   Era a voz da rainha da colméia em sua mente. Claro que vira tudo o que ele, e sabia de todas as decisões dele. Seus lábios silenciosamente formaram as palavras para ela: vou deixá-la, mas não por sua causa. Não podemos ter certeza de que isto vai lhe trazer benefício. Poderia ser só mais um desapontamento, como Trondheim.

   < Lusitânia é tudo de que precisamos. E a salvo de seres humanos. > Mas também pertence a um outro povo. Não vou destruir os porquinhos só para compensar a destruição do seu povo.

   < Eles estarão seguros conosco; não vamos lhes causar mal. Você nos conhece, agora, com certeza, depois de todos esses anos. >

   Sei o que você me contou.

   < Não sabemos mentir. Mostramos-lhe nossas memórias, nossa alma. > Sei que vocês poderiam viver em paz com eles. Mas e eles, poderiam viver em paz com vocês?

   < Leve-nos lá. Esperamos tanto. >

   Ender foi em direção a uma sacola velha, aberta, jogada num canto. Tudo o que ele realmente possuía, cabia ali - sua muda de roupa. Todas as outras coisas naquele quarto eram presentes de pessoas por quem tinha Orado, honrando-as, a seu ofício ou à verdade, nunca saberia dizer qual. Ficariam ali quando partisse. Não tinha espaço na sacola.

   Abriu-a, tirou uma toalha enrolada e abriu-a. Ali estava o tecido fibroso e espesso de um casulo, com catorze centímetros na maior dimensão.

   < Sim, olhe para nós. >

   Ele descobrira o casulo à sua espera, quando foi governar a primeira colônia humana, num antigo mundo dos insecta. Prevendo sua destruição nas mãos de Ender, sabendo que ele era um inimigo invencível, elaboraram um padrão que seria significativo apenas para ele, porque fora retirado de seus sonhos. O casulo, com sua rainha da colméia, inerme, mas consciente, esperara por ele numa torre onde, em seus sonhos, encontrara um inimigo. - Você esperou mais para que eu a encontrasse, - disse em voz alta, - mais do que os poucos anos depois que a tirei de trás do espelho.

   < Poucos anos? Ah, sim, com sua mente seqüencial, não percebe a passagem do tempo enquanto viaja tão perto da velocidade da luz. Mas nós percebemos. Nosso pensamento é instantâneo; a luz se arrasta, como mercúrio sobre vidro frio. Conhecemos cada momento de três mil anos. >

   - Já encontrei algum lugar seguro para vocês?

   < Temos dez mil ovos férteis esperando para viver, >

   - Talvez Lusitânia seja o lugar, não sei.

   < Deixe-nos viver de novo. >

   - Estou tentando. - Por que mais acha que vaguei de planeta para planeta durante todos estes anos, senão para encontrar um lugar para vocês?

   < Depressa depressa depressa depressa. >

   Preciso achar um lugar onde não vamos matá-los de novo, no momento em que aparecerem. Vocês ainda vivem em muitos pesadelos dos humanos. Não que muita gente realmente acredite em meu livro. Podem condenar o Xenocida, mas fariam tudo de novo.

   < Em toda nossa vida, você é a primeira pessoa que conhecemos que não era nós. Nunca precisamos de compreensão, porque sempre compreendíamos. Agora que somos apenas este "eu", você tem os únicos olhos e braços e pernas de que dispomos. Perdoe-nos, se somos impacientes. >

   Ele riu. "Mim" perdoa vocês.

   < Sua gente é tola. Sabemos a verdade. Sabemos quem nos matou, e não foi você. >

   Fui eu.

   < Você foi uma ferramenta. > Fui eu.

   < Nós o perdoamos. >

   Quando estiverem andando sobre a superfície de um planeta de novo, então aí virá o perdão.

 

                     Valentine

     Hoje deixei escapar que Libo é meu filho. Só Casca de Árvore ouviu-me dizer, mas em uma hora, aparentemente, já era de conhecimento público. Reuniram-se à minha volta e fizeram Selvagem perguntar-me se era verdade, se eu "já" era um pai. Selvagem então juntou as mãos de Libo e as minhas; por impulso, abracei Libo, e eles fizeram os estalos de surpresa, e também, segundo creio, admiração. Percebi, daquele momento em diante, que meu prestígio crescera consideravelmente entre eles.

     A conclusão é inevitável. Os porquinhos que conhecemos até agora não constituem uma comunidade completa, nem mesmo são machos típicos. São jovens ou solteirões velhos. Nenhum deles jamais teve filhos. Nenhum jamais copulou, tanto quanto podemos perceber.

     Não há uma só sociedade humana de que ouvi falar onde grupos de solteiros como este sejam qualquer coisa que não marginais, sem poder ou prestígio. Não é de admirar que falem das fêmeas com aquela estranha mistura de veneração e desprezo, num minuto sem se atrever a tomar uma decisão sem o consentimento delas, no minuto seguinte dizendo-nos que as mulheres são burras demais para entender alguma coisa, que são varelse.

     Até agora, aceitava estas afirmações tais como eram-me apresentadas, o que levou a uma imagem mental das fêmeas como irracionais, um rebanho de porcas, de quatro. Pensava que os machos as consultassem como consultavam as árvores, usando seus grunhidos como meio divinatório, como lançar ossinhos ou ler as entranhas.

     Agora, porém, percebi que as fêmeas são provavelmente tão inteligentes quanto os machos, e de modo algum, varelse. As declarações pejorativas dos machos derivam de seu ressentimento enquanto solteiros, excluídos do processo reprodutivo e das estruturas de poder da tribo.

     Os porquinhos têm sido tão cuidadosos conosco quanto nós com eles - não deixaram que conhecêssemos suas fêmeas ou os machos que têm qualquer poder efetivo. Pensamos que estávamos explorando o cerne da sociedade dos porquinhos. Ao invés, falando figuradamente, estamos no lixo genético, entre os machos cujos genes não foram considerados adequados para contribuir para a tribo.

     Apesar de tudo, não acredito nisso. Os porquinhos que conheci são todos inteligentes, espertos, aprendem depressa. Tão depressa que lhes ensinei mais sobre a sociedade humana acidentalmente do que eu aprendi deles depois de anos de tentativas. Se esses são os piores elementos, espero que algum dia me julguem merecedor de conhecer suas "esposas" e os "pais".

     Entrementes, não posso informar nada disso porque, voluntariamente ou não, violei as regras. Não importa que ninguém possivelmente poderia impedir que os porquinhos aprendessem qualquer coisa sobre nós. Não importa que as regras sejam estúpidas e contraproducentes. Eu as violei, e se descobrirem, vão cortar meu contato com os porquinhos, o que será ainda pior que o contato severamente limitado que temos agora.

     De modo que sou forçado a trapacear e recorrera subterfúgios tolos, como colocar estas notas nos arquivos pessoais protegidos de Libo, onde mesmo minha querida esposa não pensaria em procurar por eles. Eis aqui a informação, absolutamente vital, de que os porquinhos que estudamos são todos solteiros, e por causa dos regulamentos, não me atrevo a deixar que os xenólogos framling saibam. Olha bem, gente, aqui está: a ciência é o bicho que se devora a si mesmo!

  

   - João Figueira Álvares, "Anotações Secretas", publicadas em Demóstenes, "A Integridade da Traição: Os Xenólogos de Lusitânia,"

       Perspectivas Históricas de Reykjavik 1990:4:1.

  

     A barriga estava aumentando, e ainda faltava um mês para que a filha de Valentine nascesse. Era um incômodo constante estar tão grande e desequilibrada. Em todas as outras ocasiões, quando se preparava para dar aulas de história em söndring, conseguia fazer sozinha quase todo o trabalho de carregar o barco. Agora, precisava confiar nos marinheiros de seu marido para fazer tudo, e nem podia saltar do cais - o capitão estava ordenando à

   equipe que segurassem o barco. Ele estava fazendo tudo impecavelmente, é claro, pois não foi o Capitão Ráv que lhe ensinara tudo, quando chegara aqui? Mas Valentine não gostava de ser forçada a um papel sedentário.

   Era o seu quinto söndring; o primeiro fora a ocasião em que conheceu Jakt. Nem pensava em se casar. Trondheim era um planeta como muitos outros que visitara com seu peripatético irmão mais moço. Pretendia ensinar, estudar e, depois de quatro ou cinco meses, escreveria um extenso ensaio sobre história, publicaria anonimamente sob o nome de Demóstenes, e se divertiria até que Ender aceitasse um chamado para Orar em algum outro lugar. Usualmente, o trabalho deles se harmonizava perfeitamente - ele era chamado para Orar sobre a morte de alguma pessoa importante, e a sua vida seria o foco dos estudos dela. Era um jogo que jogavam, fingindo ser professores itinerantes disto e daquilo, enquanto que de fato criavam a identidade do planeta, pois o ensaio de Demóstenes era sempre encarado como obra definitiva.

   Ela pensou, por algum tempo, que com certeza alguém suspeitaria que Demóstenes escrevia ensaios que curiosamente acompanhavam as viagens dela, e ela seria identificada. Mas logo percebeu que, como os Oradores, mas em grau inferior, crescera uma mitologia em torno de Demóstenes. As pessoas acreditavam que Demóstenes não era um indivíduo só. Ao invés, cada ensaio de Demóstenes era obra de um gênio trabalhando independentemente, que então tentava publicar sob essa rubrica; o computador automaticamente submetia o escrito a um desconhecido comitê de brilhantes historiadores da época, que decidia se ele era merecedor daquele nome tão ilustre. Não importava que ninguém jamais tivesse conhecido um erudito a quem um tal trabalho tivesse sido apresentado para avaliação. Centenas de ensaios surgiam todos os anos: o computador automaticamente rejeitava todos os que não eram escritos pelo verdadeiro Demóstenes, e mesmo assim continuava a firme crença de que uma pessoa assim como Valentine não poderia existir. Afinal de contas, Demóstenes começara como um demagogo nas redes de informática nos tempos em que a Terra lutava na Guerra dos Insecta, há três mil anos. Não poderia ser ainda a mesma pessoa.

   Isso é verdade, pensou Valentine. Não sou mais a mesma pessoa, de fato, de livro para livro, porque cada planeta altera a pessoa que sou, mesmo enquanto estou escrevendo a história do planeta. É este planeta, mais que todos.

   Ela não gostava da insistência do pensamento luterano, especialmente a facção calvinista, que parecia ter resposta para todas as perguntas, mesmo antes de serem respondidas. Então concebeu a idéia de levar um grupo seleto de alunos para longe de Reykjavik, para as Ilhas de Verão, na faixa equatorial onde, na primavera, vicejava a skrika e bandos de halkig enlouqueciam com energia reprodutiva. A idéia dela era romper os padrões do mofo intelectual que era inevitável em toda universidade. Os alunos só teriam para comer o havregrin que crescia em estado silvestre nos vales abrigados e o halkig que tivessem a coragem e a habilidade para caçar. Quando o alimento diário dependia de seus próprios esforços, as atitudes deles sobre o que importava ou não na história tendiam a mudar.

   A universidade relutantemente deu permissão; ela usou seus próprios fundos para alugar um barco de Jakt, que acabava de se tornar o chefe de uma das muitas famílias coletoras de skrika. Tinha o desprezo de um marujo pela gente da universidade, chamando-os na cara de skräddare e coisas piores ainda, pelas costas. Disse a Valentine que precisaria voltai* para salvar seus alunos famintos em uma semana. Ao invés, ela e seus náufragos, como apelidaram a si mesmos, sobreviveram a todo o período, e floresceram, construindo uma espécie de aldeia e desfrutando de um surto de pensamento criativo e sem obstáculos, que resultou em uma colheita de excelentes publicações, cheias de intuições notáveis, quando de sua volta.

   O resultado mais óbvio em Reykjavik era que Valentine sempre tinha centenas de candidatos às vinte vagas em cada um dos três söndrings no verão. Muito mais importante para ela, entretanto, era Jakt. Ele não era particularmente culto, mas estava familiarizado com a cultura de Trondheim. Sabia pilotar por quase todo o mar equatorial sem um mapa. Conhecia as correntes dos icebergs e onde o gelo era perigoso. Parecia saber onde o skrika se juntava para danças, e como distribuir seus caçadores para apanhá-los desprevenidos, quando tentavam deslizar de volta para o mar. O tempo nunca o deixava desconcertado, e Valentine concluiu que não havia situação para a qual ele não estivesse preparado.

   Exceto para ela. E quando o ministro luterano - não calvinista - casou-os, os dois pareciam mais surpresos do que felizes. No entanto, estavam mesmo felizes. Pela primeira vez desde que saíra da Terra, sentiu-se inteira, em paz, em casa. Foi por isso que o bebê cresceu dentro dela. O tempo das viagens acabara. Sentia-se muito agradecida a Ender por ter compreendido. Sem que tivessem que discutir, ele percebeu que Trondheim era o fim de sua odisséia de três mil milhas, o fim da carreira de Demóstenes; como o ishàxa, ela descobriu um jeito de deitar raízes nos gelos deste mundo, e retirar dali o alimento que a terra de outros lugares nunca lhe oferecera.

   O bebê chutou forte, tirando-a de sua meditação; olhou à volta, e viu que Ender se aproximava ao longo do atracadouro, com a sacola dependurada no ombro. Entendeu de imediato por que ele trouxera a bagagem. Queria ir junto, no söndring. Imaginou se isso seria bom ou mau. Ender era silencioso e nunca perturbava, mas não conseguia esconder sua brilhante compreensão da natureza humana. Os alunos medíocres não lhe dariam maior atenção, mas os melhores dentre eles, que ela esperava que viessem com um pensamento original, inevitavelmente seguiriam as sutis, mas poderosas sugestões que ele inevitavelmente lançaria. O resultado seria impressionante, tinha certeza - afinal, ela devia muito às intuições dele ao longo de tantos anos - mas seria o brilho de Ender, não dos alunos. Diminuiria um tanto o propósito do söndring.

   Por outro lado, não lhe diria "não", se ele pedisse para ir. Para dizer a verdade, adoraria tê-lo consigo. Assim como amava Jakt, sentia falta da constante intimidade que ela e Ender costumavam ter antes de se casar. Passar-se-iam anos antes que ela e Jakt estivessem tão unidos quanto ela e o irmão. Jakt sabia também e isso lhe causava alguma dor; um marido não deveria competir com o cunhado pela devoção da esposa.

   - Ho, Val.

   - Ho, Ender. - Sós no cais, onde ninguém podia ouvir, ela sentia-se livre para chamá-lo pelo nome da infância, ignorando o fato de que o resto da humanidade o transformara num epíteto.

   - O que vai fazer se esse coelhinho resolver pular fora da toca no meio do söndring?

   Ela sorriu. - Seu papai o enrolaria numa pele de skrika. Eu cantaria para ele tolas canções nórdicas, e os alunos logo teriam grandes intuições sobre o impacto dos imperativos reprodutivos sobre a história.

   Riram-se, por um pouco, e de repente Valentine percebeu, sem saber por que, que Ender não queria ir com ela no söndring, que levava a sacola para ir embora de Trondheim, e viera não para convidá-la, mas para dizer adeus. As lágrimas transbordaram, e sentiu uma terrível devastação. Ele a abraçou, como fizera tantas vezes no passado, mas desta vez, a barriga estava entre eles, e o abraço foi muito desajeitado.

   - Pensei que você quisesse ficar, - ela disse baixinho. - Você recusou os chamados que chegaram.

   - Veio um que eu não posso recusar.

   - Posso ter o bebê no söndring, mas não em outro planeta.

   Como adivinhara, Ender não queria que ela o acompanhasse. - O bebê será chocantemente louro, - disse Ender. - Pareceria muito deslocado em Lusitânia. Quase só há brasileiros mulatos lá.

   Então era Lusitânia. Valentine entendeu de imediato o porquê daquela partida - o assassinato do xenólogo pelos porquinhos era de conhecimento público agora, irradiado na hora da ceia, em Reykjavik. - Você está louco!

   - Não acho.

   - Sabe o que aconteceria se alguém soubesse que o Ender está indo para o mundo dos porquinhos? Eles o crucificariam!

   - Eles me crucificariam ainda aqui, só que ninguém senão você sabe quem eu sou. Prometa que não vai contar.

   - O que você poderia fazer de bom lá? Ele já estará morto há muitos anos, antes que você chegue.

   - Meus temas estão sempre bem frios antes de eu chegar para Orar por eles. Essa é a principal desvantagem de ser itinerante.

   - Nunca pensei que perderia você de novo.

   - Mas eu soube que tínhamos perdido um ao outro, no dia em que você se apaixonou por Jakt.

   - Então devia ter me contado! Eu não me apaixonaria!

   - Foi por isso que não lhe contei. Mas não é verdade, Vai, você se apaixonaria de qualquer jeito. Eu queria também que isso acontecesse. Você nunca esteve tão feliz. - Pôs as mãos na cintura dela. - Os genes dos Wiggin estão gritando por continuidade. Espero que você tenha mais uma dúzia.

   - Considera-se falta de educação ter mais do que quatro, ambicioso demais ter mais de cinco, e coisa de bárbaro ter mais de seis. - Mesmo brincando, ela estava pensando em como melhor dirigir o söndring - deixar os assistentes graduados continuar sem ela, cancelar tudo ou adiar até a partida de Ender?

   Mas Ender fez aquelas questões murcharem. - Acha que seu marido deixaria que um de seus barcos me levasse ao mareld esta noite, para eu poder subir para a espaçonave pela manhã?

   A pressa dele era cruel. - Se não estivesse precisando de um barco de Jakt, deixaria apenas um recado no computador?

   - Tomei a decisão há cinco minutos, e vim direto falar com você.

   - Mas você já reservou passagem - isso exige planejamento!

   - Não se você comprou a espaçonave.

   - Por que essa pressa? A viagem leva décadas...

   - Vinte e dois anos.

   - Vinte e dois anos! Que diferença faria uns dois dias a mais ou a menos? Não pode esperar mais um mês até o nenê nascer?

   - Em um mês, Vai, talvez eu não tivesse mais coragem de abandoná-la.

   - Então não vá! O que significam os porquinhos para você? Os insecta são ramen o bastante para uma vida inteira. Fique, case-se, como eu fiz; você abriu as estrelas para a colonização, Ender, fique aqui e desfrute do seu trabalho!

   - Você tem Jakt. Eu tenho alunos inconvenientes que ficam tentando sempre me converter ao calvinismo. Meu trabalho ainda não acabou, e Trondheim não é o meu lar.

   Valentine sentiu as palavras dele como se a estivessem acusando: você criou raízes aqui sem pensar se eu poderia ou não viver neste solo. Mas não é minha culpa, ela gostaria de ter respondido - você é que está partindo, não eu. - Lembra-se como era, - ela falou, - quando deixamos Peter na Terra e começamos uma viagem de muitos anos até nossa primeira colônia, até o planeta que você foi governar? Foi como se ele tivesse morrido. Quando chegamos, ele estava velho, e nós ainda estávamos jovens; quando conversamos por ansible, ele era um tio velho, o Hegêmona, amadurecido pelo poder, o legendário Locke, ninguém mais senão o nosso irmão.

   - Ele até que melhorou, segundo me lembro. - Ender estava tentando suavizar o momento.

   Mas Valentine interpretou mal as palavras dele. - Acha que eu também vou melhorar, em vinte anos?

   - Acho que vou lamentar por você mais do que se tivesse morrido.

   - Não, Ender, será exatamente como se eu estivesse morta, e você vai saber que você é quem me matou.

   Ele se encolheu. - Não sabe o que está dizendo.

   - Não vou lhe escrever também. Por que me importaria? Para você, vai ser apenas uma semana ou duas. Vai chegar em Lusitânia, e o computador vai ter vinte anos de cartas para você, de uma pessoa que deixou apenas na semana anterior. Os primeiros cinco anos serão de tristeza, a dor de perdê-lo, a solidão de não ter com quem conversar...

   - Jakt é seu marido, não eu.

   - E depois, o que eu escreveria? Cartinhas engraçadas sobre o bebê? Ele vai fazer cinco, seis, dez anos, vinte anos, depois vai se casar, e você nem vai saber que ele existe, nem vai se importar.

   - Eu vou me importar.

   - Nem vai ter a chance. Só vou escrever-lhe quando for muito velha, Ender. Depois de ir para Lusitânia, e depois para outro lugar, engolindo as décadas em grandes bocados. Depois vou enviar-lhe minhas memórias. Vou dedicar a você. Para Andrew, meu amado irmão. Segui-o de boa vontade a duas dúzias de planetas, mas não quis ficar nem duas semanas quando pedi.

   - Ouça a si mesma, Vai, e então veja por que tenho de partir agora, antes de você me desfazer em pedaços.

   - Isso é o tipo de sofisma que você não toleraria em seus alunos! Eu não estaria dizendo essas coisas se você não estivesse partindo como um ladrão apanhado em flagrante! Não torça o assunto para me culpar!

   Ele respondeu sem tomar fôlego, as palavras se atropelando; correu para terminar o que ia dizer antes que a emoção o impedisse. - Não, você tem razão. Eu queria correr porque tenho um trabalho a fazer lá, e cada dia aqui é uma perda de tempo, e fico ressentido ao ver você e Jakt ficando cada vez mais juntos, e eu ficando cada vez mais distante, mesmo que eu saiba que assim é que deve ser, de modo que quando decidi ir, achei que ir depressa era melhor, e eu tinha razão; você sabe que eu tenho razão, e nunca pensei que ia me detestar por causa disso.

   Agora, a emoção o deteve, chorou, e ela também. - Não o detesto, amo você, é parte de mim, é meu coração e quando partir, meu coração vai ser arrancado e levado para longe...

   Foi assim que terminou o discurso.

   O imediato de Räv levou Ender para o mareld, a grande plataforma no mar equatorial, onde os ônibus espaciais eram lançados ao espaço, ao encontro das espaçonaves em órbita. Concordaram tacitamente que Valentine não iria com ele. Em vez disso, foi para casa com o marido e agarrou-se a ele a noite inteira. No dia seguinte, foi para o sôndring com os alunos, e chorava por Ender apenas à noite, quando pensava que ninguém estava olhando.

   Mas os alunos viam, e circulavam histórias sobre a grande dor da professora Wiggin pela partida de seu irmão, o Orador itinerante. Fizeram o que os alunos sempre fazem: exageraram ou diminuíram a realidade. Mas uma aluna, uma garota chamada Plikt, percebeu que havia mais alguma coisa na história de Valentine e Andrew Wiggin do que todos supunham.

   Começou a investigar a história dos dois, acompanhando para trás as viagens deles pelas estrelas. Quando a filha de Valentine, Syfte, estava com quatro anos, e seu filho Ren tinha dois, Plikt foi falar com ela. Já era uma jovem professora da universidade, e mostrou para Valentine a história que tinha publicado. Era ficção, mas verdadeira, claro, a história do irmão e da irmã que eram as pessoas mais velhas do universo, nascidos na Terra antes que qualquer colônia fosse implantada, e que depois foram vagando de planeta em planeta, sem raízes, em busca de alguma coisa.

   Para alívio de Valentine, e, estranhamente, desapontamento - Plikt não descobrira o fato de que Ender era o Orador dos Mortos original, e que Valentine era Demóstenes. Mas conhecia o suficiente da história deles para escrever o seu adeus quando ela decidiu ficar com o marido, e ele, partir. A cena foi mais terna e afetuosa do que na realidade. Plikt escreveu o que deveria ter acontecido, se Ender e Valentine tivessem mais senso de teatro.

   - Por que escreveu esta história?

   - Não é boa o suficiente para ter de ser escrita?

   A resposta sinuosa surpreendeu Valentine, mas não a abalou. - O que meu irmão Andrew representou para você, para investigar e criar isto?

   - Essa ainda não é a pergunta certa.

   - Parece que não estou passando em alguma espécie de prova. Pode dar-me uma pista sobre a pergunta que devo fazer?

   - Não se irrite. Você deveria perguntar por que escrevi como ficção, em vez de biografia.

   - Por que, então?

   - Porque descobri que Andrew Wiggin, Orador dos Mortos, é Ender Wiggin, o Xenocida.

   Mesmo que Ender tivesse partido quatro anos antes, ainda estava a dezoito anos do destino. Valentine ficou tonta de medo, pensando em como seria a vida dele se fosse recebido em Lusitânia como o homem mais indigno da história.

   - Não precisa ter medo, professora Wiggin. Se eu quisesse contar, já o teria feito. Quando descobri, percebi que ele tinha se arrependido. E que magnífica penitência! Foi o Orador dos Mortos que revelou seu ato como um crime inominável - e assumiu o título de Orador, como centenas de outros, e desempenhou o papel de seu próprio acusador em vinte planetas.

   - Você descobriu tanta coisa, Plikt, e entendeu tão pouco.

   - Entendi tudo! Leia o que escrevi - verá o quanto entendi! Valentine disse consigo mesma que como Plikt já sabia tanto, poderia muito bem saber mais. Mas foi a raiva, e não a razão, que impeliu Valentine a dizer o que nunca contara a ninguém antes. - Plikt, meu irmão não imitou o Orador dos Mortos original. Foi ele que escreveu a Rainha da Colméia e o Hegêmona.

   Quando Plikt percebeu que Valentine estava dizendo a verdade, ficou em estado de choque. Durante todos esses anos, tinha considerado Andrew Wiggin como tema, e o Orador dos Mortos original como inspiração. Descobrir que eram a mesma pessoa deixou-a abobalhada por meia hora.

   Depois disso, ela e Valentine conversaram e trocaram confidencias e vieram a confiar tanto uma na outra que Valentine convidou Plikt para ser a tutora de seus filhos e sua colaboradora para escrever e lecionar. Jakt ficou surpreso com a nova adição à sua casa, mas com o tempo, Valentine revelou a ele os segredos que Plikt descobrira através da pesquisa, ou arrancara dela. Tornou-se a lenda da família, e as crianças cresceram ouvindo histórias maravilhosas de seu Tio Ender, há muito perdido, que era considerado um monstro, em todos os planetas, mas na verdade era como um salvador, ou profeta, ou no mínimo, um mártir.

   Os anos passaram, a família prosperou, e a dor de Valentine pela perda de Ender transformou-se em orgulho por ele e por fim, uma forte antecipação. Estava ansiosa para vê-lo chegar a Lusitânia, resolver o dilema dos porquinhos, cumprir seu destino evidente como apóstolo dos ramen. Foi Plikt, como boa luterana, que ensinou Valentine a pensar na vida de Ender em termos religiosos; a poderosa estabilidade de sua vida familiar e o milagre de cada um de seus cinco filhos combinaram-se para instilar nela as emoções, senão as doutrinas, da fé.

   Isso deveria afetar as crianças também. A lenda do Tio Ender, porque nunca podiam mencioná-la perante estranhos, assumiu conotações sobrenaturais. Syfte, a mais velha, ficou particularmente intrigada, e'mesmo quando chegou aos vinte anos, e a racionalidade superou a adoração infantil e primitiva do Tio Ender, ainda estava obcecada por ele. Ele era uma criatura legendária, mas ainda viva, e num planeta que não estava impossivelmente distante.

   Não contou nada para os pais, mas confiava em sua antiga tutora. - Algum dia, Plikt, vou me encontrar com ele. Vou lá ter com ele e ajudá-lo.

   - O que a faz pensar que ele vai precisar de ajuda? Da sua ajuda, pelo menos? Plikt era sempre cética, até que a aluna conquistasse sua confiança.

   - Ele não fez tudo sozinho da primeira vez, não é? - E Syfte começava a sonhar, longe do gelo de Trondheim, até o planeta distante onde Ender Wiggin ainda não tinha desembarcado. Povo de Lusitânia, você pouco sabe sobre que grande homem vai caminhar sobre a sua terra, e que vai assumir a sua carga, e eu vou juntar-me a ele, no devido tempo, mesmo que uma geração mais tarde - prepare-se para me receber, Lusitânia.

   Em sua espaçonave, Ender Wiggin não fazia idéia da carga de sonhos de outras pessoas que levava consigo. Só fazia alguns dias que deixara Valentine chorando nas docas. Para ele, Syfte não tinha nome; era um inchaço na barriga de Valentine, e nada mais. Mal começava a sentir a dor de perder Valentine - uma dor que ela há muito vencera. Seus pensamentos estavam longe de suas sobrinhas e sobrinhos desconhecidos, num mundo gelado.

   Só pensava numa moça solitária e torturada, chamada Novinha, imaginando o que os vinte e dois anos da viagem estariam fazendo com ela, e em que pessoa ela teria se transformado quando se encontrassem. Pois ele a amava, como só se pode amar alguém que é um eco de si mesmo, num momento da mais profunda dor.

  

                   Olhado

     Sua única relação com outras tribos parece ser a guerra. Quando contam histórias uns para os outros (usualmente durante o tempo das chuvas), quase sempre são sobre batalhas e heróis. O fim é sempre a morte, para heróis e covardes igualmente. Se as histórias servem de diretriz, os porquinhos nunca esperam sobreviver a uma guerra. Eles, nunca, jamais, dão o menor sinal de interesse pelas fêmeas dos inimigos, quer para estupro, homicídio, ou escravidão, o tratamento tradicional humano das mulheres dos soldados vencidos.

     Será que isso significa que não há intercâmbio genético entre as tribos? De modo algum. Os intercâmbios podem ser conduzidos pelas fêmeas, que teriam algum sistema de negociar favores genéticos. Dada a aparente total subserviência dos machos para com as fêmeas na sociedade dos porquinhos, isso poderia estar acontecendo sem que os machos fizessem idéia, ou seria motivo de tamanha vergonha para eles que simplesmente não nos contariam.

     O que eles querem nos contar é sobre guerra. Uma descrição típica, das notas de minha filha Uanda, de 2:21 do ano passado, durante uma sessão de contar histórias, na cabana de troncos:

     PORQUINHO (falando em stark): Ele matou três dos irmãos sem levar uma ferida. Nunca vi guerreiro tão forte e destemido. O sangue estava alto em seus braços, e o pau que levava estava estilhaçado e coberto com os miolos de meus irmãos. Sabia que estava honrado, mesmo que o resto da batalha fosse contra sua fraca tribo. Dei honra! Eu lhe dei!

     (Os outros porquinhos estalam a língua, e guincham).

     PORQUINHO: Eu o prendi ao chão. Ele foi forte, debatendo-se, até que lhe mostrei a grama na minha mão. Então, ele abriu a boca e cantou as estranhas canções de sua terra distante. Nunca será madeira na mão da gente! (A esta altura, eles cantaram juntos uma canção na Língua das Esposas, uma das passagens mais longas que já escutamos.)

     (Observe que esse comportamento é comum entre eles, falar basicamente em stark, depois passar para o português, no momento do clímax e da conclusão. Pensando bem, fazemos a mesma coisa, voltando ao nosso português nativo nos momentos mais emotivos.)

     Esse relato de batalha não é inusitado, depois de ouvir-se muitas histórias, que sempre terminam com a morte do herói. Aparentemente, não apreciam o gênero de comédia leve.

  

   - Liberdade Figueira de Mediei, "Relatório sobre os Padrões Intertribais dos Aborígenes de Lusitânia", em               "Transações Trans-Culturais" 1964:12:40

  

   Não havia muito a fazer num vôo interestelar. Uma vez traçado o curso e a nave fazendo o deslocamento Park, a única tarefa era calcular a porcentagem da velocidade da luz em que a nave estava viajando. O computador de bordo calculava a velocidade exata e depois determinava quanto a viagem duraria em tempo subjetivo, antes de fazer o deslocamento Park até uma velocidade sub-lumínica controlável. Como um cronômetro, pensou Ender. Liga, desliga, e a corrida acabou.

   Jane não podia colocar muito de si no cérebro de bordo, de modo que os oito dias de viagem seriam praticamente solitários. Os computadores da nave eram inteligentes o bastante para ajudá-lo a pegar o jeito do português, a partir do espanhol. Parecia fácil, mas tantas consoantes deviam ser deixadas de lado, que ficava difícil entender.

   Falar em português com um computador pouco inteligente era enlouquecedor, depois de uma ou duas horas de treino por dia. Em todas as outra viagens, Vai estivera com ele. Não que conversassem o tempo inteiro - Vai e Ender conheciam-se tão bem que muitas vezes não havia nada a dizer. Mas, sem a presença dela, Ender ficava impaciente com seus próprios pensamentos, que nunca chegavam a uma conclusão, por não haver ninguém para quem contá-los.

   Nem a rainha da colméia ajudava. Os pensamentos dela eram instantâneos; ligados não a sinapses, mas a filotes que ficavam inalterados pelos efeitos relativistas da velocidade da luz. Ela passava por dezesseis horas a cada minuto do tempo de Ender - o diferencial era demasiado grande para ele receber qualquer comunicação. Se ela não estivesse num casulo, teria milhares de insecta individuais, cada um executando sua própria tarefa e passando para sua vasta memória, suas experiências. Mas agora, só tinha suas memórias, e em oito dias de cativeiro, Ender começou a entender a ansiedade dela para ser libertada.

   Depois de passados os oito dias, estava saindo-se razoavelmente com o português falado diretamente, em vez de traduzir do espanhol quando queria dizer alguma coisa. Também estava desesperado por companhia humana - ficaria contente em poder discutir religião com um calvinista, só para poder ter alguém mais inteligente do que o computador da nave para conversar.

   A astronave fez o deslocamento Park; num momento incomensurável, sua velocidade mudou em relação ao resto do universo. Ou melhor, a teoria dizia que de fato a velocidade do resto do universo é que tinha mudado,, enquanto que a astronave ficava imóvel. Ninguém tinha certeza, porque não havia um lugar para se ficar de onde se pudesse observar o fenômeno. Pura adivinhação, já que ninguém entendia, afinal, por que os efeitos filóticos funcionavam; o ansible fora descoberto meio acidentalmente, e junto com ele, o Princípio da Instantaneidade de Park. Podia não ser compreensível, mas funcionava.

   As janelas da espaçonave instantaneamente encheram-se de estrelas, quando a luz de novo se tornou visível em todas as direções. Algum dia, um cientista descobriria por que o deslocamento Park quase não consumia energia. Em algum lugar, Ender tinha certeza, um preço terrível estava sendo pago pelas viagens interestelares dos humanos. Certa vez, sonhara que uma estrela se apagava cada vez que uma nave fazia o deslocamento Park. Jane garantiu-lhe que não era assim, mas ele sabia que a maioria das estrelas não era visível para nós; um trilhão podia desaparecer e nós não ficaríamos sabendo. Durante milhares de anos, continuaríamos a ver os fótons que foram lançados muito antes da estrela desaparecer. Quando víssemos a galáxia se apagar, seria muito tarde para endireitar o nosso caminho.

   - Você está aí sentado numa fantasia paranóica, - intrometeu-se Jane.

   - Você não pode ler as mentes.

   - Sempre fica parado e especula sobre a destruição do universo quando sai de um vôo estelar. Sua manifestação particular de enjôo.

   - Já alertou as autoridades lusitanas sobre minha chegada?

   - A colônia é muito pequena. Não há Autoridade de Aterragem, porque quase ninguém vem aqui. Há um ônibus espacial em órbita que automaticamente leva as pessoas para baixo e para cima, com um ridículo espaçoporto.

   - Não há liberação da Imigração?

   - Você é um Orador. Não pode ser recusado. Além do mais, a Imigração consiste da governadora, que também é a prefeita, desde que a cidade e a colônia são uma coisa só. O nome dela é Faria Lima do Bosque, apelidada de "Bosquinha", que aliás lhe envia saudações e gostaria que você fosse embora, pois eles já têm problemas suficientes sem que um profeta do agnosticismo fique andando no meio deles, amolando bons católicos.

   - Ela disse isso?

   - De fato, não para você - o bispo Peregrino foi quem disse isso a ela, e ela concordou. Mas é parte do trabalho dela concordar. Se você lhe disser que os católicos são todos idolatras e tolos supersticiosos, ela provavelmente vai suspirar e dizer: "Espero que você saiba conservar essas opiniões para si mesmo".

   - Você está com muita conversa mole. O que é que você pensa que eu não deva saber?

   - Novinha cancelou seu chamado por um Orador. Cinco dias depois de enviá-lo.

   Claro, o Código Estelar dizia que uma vez Ender iniciando sua viagem em resposta ao chamado, este não poderia, legalmente, ser cancelado; mesmo assim, mudava tudo, porque ao invés de ansiosamente esperar por sua chegada por vinte e dois anos, estaria a receá-la, ressentindo-se porque ele chegava depois de ter mudado de idéia. Ele esperava ser recebido como um amigo muito bem- vindo. Agora, seria mais hostil do que a comunidade católica. - Nada que simplifique o meu trabalho.

   - Bem, não é tão mau, Andrew. Veja, nos anos que se passaram, mais duas outras pessoas chamaram um Orador, e eles não cancelaram.

   - Quem?

   - Pela mais fascinante das coincidências, são o filho de Novinha, Miro, e a filha, Ella.

   - Eles não poderiam ter conhecido Pipo. Por que eles me chamariam para Orar sobre a morte dele?

   - Não, não a morte de Pipo. Ella chamou um Orador só há seis semanas para Orar sobre a morte de seu pai, marido de Novinha, Marcos Maria Ribeira, apelidado de Marcão. Caiu morto num bar. Não por causa de bebedeira - tinha uma doença. Morreu de um apodrecimento mortal.

   - Preocupo-me com você, Jane, consumindo-se de compaixão.

   - Compaixão é a sua especialidade. Sou melhor em buscas complexas em estruturas organizadas de dados.

   - E o menino - como é o nome dele?

   - Miro. Chamou um Orador há quatro anos. Pela morte do filho de Pipo, Libo.

   - Libo não deveria ter mais de quarenta...

   - Foi conduzido a uma morte prematura. Era xenólogo, entende - ou xenador, como dizem em português.

   - Os porquinhos...

   - Exatamente como a morte do pai. Os órgãos colocados exatamente da mesma forma. Três porquinhos foram executados da mesma maneira quando você estava a caminho. Mas plantam árvores no meio do corpo dos seus mortos - não concedem esta honra aos humanos.

   Os dois xenólogos mortos pelos porquinhos, distanciados de uma geração. - O que o Conselho Estelar resolveu?

   - Situação delicada. Ficam vacilando. Não deram certificado a nenhum dos aprendizes de Libo como xenólogos. Um deles é a filha de Libo, Uanda. O outro é Miro.

   - Eles mantêm o contato com os porquinhos?

   - Oficialmente, não. Há alguma controvérsia a esse respeito. Depois da morte de Libo, o Conselho proibiu contato mais freqüente do que uma vez por mês. A filha de Libo categoricamente recusou-se a obedecer a ordem.

   - Não a removeram?

   - A maioria em favor de cortar contato com os porquinhos era mínima. E não houve maioria em favor de censurá-la. Ao mesmo tempo, estão preocupados com o fato de Miro e Uanda serem tão jovens. Há dois anos, uma turma de cientistas foi despachada de Calicut. Chegarão para assumir a supervisão dos negócios referentes aos porquinhos só em mais trinta e três anos.

   - Desta vez eles fazem alguma idéia de por que mataram o xenólogo?

   - Nenhuma. Mas foi por isso que você veio, não é?

   A resposta seria fácil, mas a rainha da colméia cutucou-o, no fundo de sua mente. Ender podia senti-la como o vento por entre as folhas de uma árvore, um farfalhar, um movimento suave, e a luz do sol. Sim, estava aqui para Orar pelos mortos. Mas também estava aqui para trazer os mortos de volta à vida.

   < Este é um bom lugar. >

   Parece que todos estão sempre alguns passos à minha frente.

   < Há uma mente aqui. Muito mais clara que qualquer mente humana que conhecemos. >

   Os porquinhos? Eles pensam do mesmo jeito que você?

   < Ela sabe dos porquinhos. Algum tempo, tem medo de nós. >

   A rainha da colméia retirou-se, e Ender foi deixado a ponderar que, com Lusitânia, talvez tivesse mordido um bocado maior que a boca.

   O bispo Peregrino fez a homília pessoalmente. Era sempre mau sinal. Sua oratória era sempre desinteressante, e ficou tão rebuscada que metade do tempo, Ella não entendia do que se tratava a preleção. Quim fingia entender, claro, porque, tanto quanto podia entender, o bispo não podia errar. O pequeno Grego não fazia o menor esforço para fingir interesse. Mesmo enquanto a Irmã Esquecimento passeava por entre os bancos, com suas unhas afiadas como agulhas e beliscão cruel, Grego destemidamente fazia as traquinagens que bem entendia.

   Hoje estava arrancando os rebites da traseira do banco que estava na frente deles. Ella ficava incomodada com a força do menino - com seis anos não deveria nem enfiar uma chave de fenda debaixo da borda de um rebite. Nem mesmo ela tinha essa força.

   Se Papai estivesse aqui, claro, o seu longo braço delicadamente tiraria a chave de fenda da mão de Grego, e diria, ciciando: "Onde pegou isto?" Grego olharia para ele com seus grandes olhos inocentes. Depois que a família voltasse da missa para casa, Papai ralharia com Miro por deixar as ferramentas por aí, xingando-o horrivelmente e culpando-o por todos os males da família. Miro agüentaria tudo em silêncio. Ella ficaria ocupada com os preparativos do jantar. Quim ficaria sentado num canto, inutilmente, massageando o rosário e murmurando suas inúteis orações. Olhado era o mais sortudo, com seus olhos eletrônicos - simplesmente desligava-os, ou reproduzia alguma cena favorita do passado, e não prestava atenção em mais nada. Quara saía e se encolhia em algum canto. O pequeno Grego ficava ali, triunfante, agarrando a calça de Papai, olhando, enquanto a culpa de tudo o que fazia era jogada sobre a cabeça de Miro.

   Ella estremeceu, enquanto a cena se desenrolava em sua memória. Se terminasse assim, seria tolerável. Mas então Miro saía, e eles jantavam, e então...

   Os dedos de aranha da Irmã Esquecimento saltaram; enterrou as unhas no braço de Grego. Este, instantaneamente, deixou cair a chave de fenda. Claro que ela deveria fazer barulho no chão, mas a Irmã não era boba, e agarrou-a com a outra mão. Grego sorriu. O rosto dela estava a algumas polegadas do seu joelho. Ela percebeu o que o garoto ia fazer, e moveu-se para segurá-lo, mas já era tarde - ele acertou duramente a boca da Irmã Esquecimento.

   Ela perdeu o fôlego, com a dor, e soltou o braço de Grego. O menino pegou de novo a chave de fenda da mão dela, que afrouxou. Com a mão na boca, que sangrava, ela foi embora. Grego retomou seu trabalho de demolição.

   Papai está morto, Ella lembrou a si mesma. As palavras soaram como música em sua mente. Papai está morto, mas ainda está aqui, porque deixou esta pequena herança monstruosa para trás. O veneno que colocou em todos nós ainda está amadurecendo e, eventualmente, vai matar a todos nós. Quando ele morreu, seu fígado só tinha duas polegadas de comprimento, e a vesícula não foi encontrada. Estranhos órgãos gordurosos foram encontrados no lugar. Não havia nome para a doença, o corpo dele enlouquecera, esquecendo o desenho segundo o qual os humanos são feitos. Mesmo agora, a doença ainda vive em seus filhos. Não nos corpos, mas nas almas. Existimos onde crianças humanas normais devem estar, até temos a mesma forma. Mas cada um de nós foi substituído por uma criança de imitação, conformada a partir de uma goteira fétida, retorcida e gordurosa que saiu da alma de Papai.

   Talvez fosse diferente se Mamãe tentasse alguma coisa. Mas ela não pensava em nada a não ser microscópios e cereais melhorados geneticamente, ou seja lá o que for que estivesse fazendo agora.

   - ... o assim chamado Orador dos Mortos! Mas há só Um que pode falar pelos mortos, que é o Nosso Senhor Jesus Cristo...

   As palavras do bispo Peregrino chamaram sua atenção. O que é que ele estava falando sobre um Orador dos Mortos? Não podia saber que tinha chamado um...

   - ... a lei exige que nós o tratemos com cortesia, mas não que acreditemos nele! A verdade não deve ser procurada nas especulações e hipóteses de homens sem religião, mas nos ensinamentos e tradições da Santa Mãe Igreja. De modo que quando ele estiver entre vocês, dêem-lhe seus sorrisos, mas fiquem com seus corações!

   Por que estava dando essa advertência? O planeta mais próximo era Trondheim, a vinte e dois anos-luz de distância, e não era provável que houvesse um Orador ali. Levaria décadas antes que um Orador chegasse, se é que viria algum. Ella inclinou-se por cima de Quara para perguntar a Quim - esse aí devia estar ouvindo. - O que é isso sobre um Orador dos Mortos?

   - Se prestasse atenção, já saberia.

   - Se não me contar, vou te dar um desvio do septo.

   Quim fez uma careta, para mostrar que não tinha medo das ameaças dela. Mas como de fato tinha medo dela, contou-lhe. - Um desgraçado sem fé parece que requisitou um Orador, quando o primeiro xenólogo morreu, e vai chegar esta tarde - já está no ônibus espacial e a prefeita está a caminho para recebê-lo.

   Ella não esperava por essa. O computador não lhe dissera que um Orador já estava a caminho. Supostamente deveria chegar daqui a muitos anos, para Orar sobre a verdade da monstruosidade chamada Papai, que feriu a família pela última vez quando caiu morto; a verdade viria como a luz, para iluminar e purificar o passado deles. Mas Papai estava morto havia muito pouco tempo para que se Orasse por ele agora. Seus tentáculos ainda se estendiam do túmulo e sugava os corações deles.

   A homília acabou, e depois, a missa. Segurou forte a mão de Grego, tentando impedir que roubasse o missal ou a bolsa de alguém, enquanto estava misturado à multidão. Quim servia para uma coisa, pelo menos - carregava Quara, que sempre congelava, quando devia abrir caminho entre estranhos. Olhado ligou os olhos de novo e passou a cuidar da vida, piscando metalicamente para qualquer semi-virgem de quinze anos que quisesse horrorizar hoje. Ela fez uma genuflexão perante as estátuas dos Venerados, seus avós há muito mortos, e quase canonizados. Vocês não se orgulham de ter netinhos como nós?

   Grego estava fazendo uma careta; tinha um sapato de bebê na mão. Ela silenciosamente rezou para que aquela criança tivesse saído do encontro sem se machucar. Tirou o sapato de Grego e colocou-o no altarzinho onde as velas queimavam como testemunhas perpétuas do milagre da Descolada. O dono do sapato o acharia facilmente ali.

   A prefeita Bosquinha estava bem contente enquanto o carro voava baixo sobre a grama entre o espaçoporto e o povoado de Milagre. Apontou rebanhos de cabras semi-domesticadas, espécie nativa que fornecia as fibras para tecidos, mas cuja carne era nutricionalmente inútil para os humanos.

   - Os porquinhos as comem? - perguntou Ender.

   Ela ergueu um sobrolho. - Não sabemos muito sobre os porquinhos.

   - Sabemos que eles vivem na floresta. Eles saem para a planície? A outra deu de ombros. - Isso cabe aos framlings decidir.

   Ender ficou um pouco desconcertado por ela ter usado aquela palavra, mas era claro que o livro de Demóstenes fora publicado há vinte e dois anos, e distribuído pelos Cem Planetas via ansible. Utlänning, framling, raman, varelse - os termos eram parte do stark agora, e provavelmente nem eram novidade para Bosquinha.

   Era sua falta de curiosidade sobre os porquinhos que o deixava pouco à vontade. O povo de Lusitânia não podia ficar indiferente aos porquinhos - eles eram a razão da alta e impenetrável cerca que só os xenadores podiam cruzar. Não, não era falta de curiosidade por parte dela, só estava evitando o assunto. Se era porque os porquinhos assassinos eram um assunto doloroso ou porque não confiava num Orador dos Mortos, não podia adivinhar.

   Chegaram ao topo de um morro, e ela parou o carro. Devagar, ele pousou sobre seus esquis. Debaixo deles, um amplo rio desdobrava seus meandros entre colinas gramadas; mais além do rio, os outros morros estavam totalmente cobertos de floresta. Ao longo da margem oposta, casas de alvenaria com telhados de cerâmica compunham uma pitoresca cidade. As casas das fazendas ficavam perto do meandro seguinte, seus campos cultivados, compridos, estendendo-se para a colina onde estavam Ender e Bosquinha.

   - Milagre, - disse Bosquinha. - Na colina mais alta, a catedral. O bispo Peregrino pediu ao povo para ser educado e ajudá-lo.

   Pelo tom da voz dela, Ender percebeu que também lhes fora dito que ele era um perigoso agente do agnosticismo.

   -Até que Deus me fulmine?

   Bosquinha sorriu. - Deus está mandando um exemplo de tolerância cristã, e esperamos que todos na cidade ajam de acordo.

   - Eles sabem quem me chamou?

   - Quem quer que o tenha chamado foi... discreto.

   - A senhora é a governadora, além de prefeita. Tem alguns privilégios sobre a informação.

   - Sei que sua chamada original foi cancelada, mas tarde demais. Também sei que dois outros requisitaram Oradores, nos últimos anos. Mas você deve entender que as pessoas em geral estão muito contentes em receber a doutrina e consolação dos padres.

   - Ficarão aliviados em saber que eu não trato de doutrina ou consolação.

   - Seu bondoso presente de toda a carga de skrika vai torná-lo bem popular nos bares, e pode ter certeza que vai ver muitas mulheres vaidosas usando essas peles, nos próximos meses. O outono está chegando.

   - Adquiri os skrikas acidentalmente, junto com a nave. Não eram de nenhuma utilidade para mim, e não espero nenhum gratidão especial por isso. - Olhou para o mato à sua volta, que parecia uma pelagem. - Esta grama é nativa?

   - E inútil. Nem podemos usar como palha - se cortar, ela se desfaz, e depois se dissolve em poeira, na primeira chuva. Mas lá em baixo, nos campos, a cultura mais comum é uma variedade especial de amaranto que a xenobióloga desenvolveu para nós. Arroz e trigo eram culturas fracas e não-confiáveis aqui, mas o amaranto é tão resistente que precisamos usar herbicidas fora das culturas, para que não se propague.

   - Por quê?

   - Este é um planeta em quarentena, Orador. O amaranto é tão bem adequado a este ambiente que logo sufocaria o mato nativo. A idéia não é terraformar Lusitânia, mas causar o mínimo impacto possível sobre este mundo.

   - Isso deve ser difícil para o povo.

   - Dentro de nosso enclave, Orador, somos livres e nossas vidas são cheias. Fora da cerca - ninguém quer ir lá, de qualquer modo.

   O tom da voz dela estava pesado com a emoção mal disfarçada. Ender soube, através disto, que o medo dos porquinhos era profundo.

   - Orador, sei que está pensando que temos medo dos porquinhos. Talvez alguns de nós tenhamos. Mas o sentimento que a maioria de nós tem quase todo o tempo não é medo. É ódio. Repugnância.

   - Mas se vocês nunca os viram.

   - O senhor deve saber dos dois xenadores que foram mortos - desconfio que você foi originalmente chamado para Orar pela morte de Pipo. Mas os dois, Pipo e Libo, eram estimados por nós. Especialmente Libo. Homem bom e generoso, e a dor por sua morte foi unânime e genuína. Difícil conceber como os porquinhos puderam fazer o que fizeram. Dom Cristão - abade dos Filhos da Mente de Cristo - diz que eles não devem ter senso moral. Diz que isto poderia significar que eles são animais. Ou pode significar que eles não sofreram a Queda, não comendo o fruto proibido. - Deu um sorriso tenso. - Mas isso é teologia, e portanto, nada significa para o senhor.

   Ele não respondeu. Estava acostumado à maneira como as pessoas religiosas presumiam que suas histórias sagradas soariam absurdas para os não-crentes. Mas Ender não se considerava descrente, e tinha um acurado senso do sagrado em muitas lendas. Mas não conseguiria explicar isso para Bosquinha. Ela precisaria mudar de opinião sobre ele com o tempo. Desconfiava dele, mas ele acreditava que podia mudar sua opinião; para ser uma boa prefeita, precisava ter prática em ver as pessoas como são, não pelo que parecem ser.

   Mudou de assunto. - Os Filhos da Mente de Cristo - meu português não é muito bom, mas será que entendi bem o nome?

   - E uma nova ordem, relativamente, fundada há apenas quatrocentos anos, sob uma licença especial do papa...

   - Ah, sim, os Filhos da Mente de Cristo. Orei sobre a morte de Santo Ângelo, em Moctezuma, na cidade de Córdoba.

   Os olhos dela se arregalaram. - Então a história é verdade, mesmo!

   - Já ouvi muitas versões da história, prefeita Bosquinha. Uma delas dizia que o demônio possuíra Santo Ângelo em seu leito de morte, e ele pediu pelos ritos inomináveis do pagão "Orador de los Muertos".

   Bosquinha sorriu. - Isso se parece com a lenda que passa por aqui, de boca em boca. Dom Cristão diz que tudo isso é bobagem, claro.

   - Acontece que Santo Ângelo, antes de ser canonizado, assistiu-me a Orar por uma mulher sua conhecida. O fungo em seu sangue já o estava matando. Ele veio ter comigo e disse: "Andrew, estão contando as piores mentiras a meu respeito, dizendo que fiz milagres e deveria ser canonizado. Você precisa me ajudar. Precisa dizer a verdade, depois de minha morte."

   - Mas os milagres foram confirmados e ele foi canonizado apenas noventa anos após sua morte."

   - Sim, e isso é em parte minha culpa. Quando Orei por sua morte, eu mesmo confirmei vários milagres dele.

   Agora, ela deu uma boa risada. - Um Orador dos Mortos acreditando em milagres?

   - Veja a catedral, em cima do morro. Quantos daqueles prédios são para os padres, e quantos para a escola?

   Bosquinha entendeu de imediato e encarou-o. - Os Filhos da Mente de Cristo são obedientes ao bispo.

   - Exceto que preservam e ensinam todo o conhecimento, quer o bispo aprove ou não.

   - Santo Ângelo pode ter-lhe permitido intrometer-se nos assuntos da Igreja. Garanto-lhe que o bispo Peregrino não vai deixar.

   - Vim Orar sobre uma morte simples, e respeitarei a lei. A senhora notará que causarei menos mal do que espera, talvez até cause algum bem.

   - Se veio Orar pela morte de Pipo, Orador dos Mortos, então só vai causar mal. Se dependesse de mim, nenhum humano passaria por aquela cerca de novo.

   - Espero que haja um quarto que eu possa alugar.

   - Nossa cidade não cresce, Orador. Todos têm sua casa e não há lugar para onde ir - por que alguém abriria uma hospedaria? Só podemos oferecer-lhe uma das cabanas de plástico dos primeiros colonos. Pequena, mas tem todas as comodidades.

   - Como não preciso de muitas comodidades nem muito espaço, tenho certeza que estará bem. Não vejo a hora de conhecer Dom Cristão. Onde há seguidores de Santo Ângelo, a verdade tem amigos.

   Bosquinha deu um muxoxo e ligou o carro de novo. Como Ender pretendia, suas noções preconcebidas sobre um Orador dos Mortos foram estilhaçadas. E pensar que ele tinha conhecido em pessoa Santo Ângelo, e admirava os Filhos. Não era o que o bispo Peregrino os fizera esperar.

 O aposento quase não tinha mobília, e se Ender tivesse muita bagagem, teria dificuldade em achar lugar para ela. Como em todas as ocasiões anteriores, desfez a bagagem do vôo interestelar em poucos minutos. Só o casulo embrulhado, com a rainha da colméia ficou na sacola; há muito desistira de considerar uma estranha incongruência armazenar o futuro de uma raça magnífica num embrulho debaixo da cama.

   - Talvez seja este o lugar, - ele murmurou. O casulo estava frio, quase gelado, mesmo através das toalhas que o envolviam.

   < Este é o lugar. >

   Era irritante a certeza dela. Não havia sinal do rogo ou impaciência ou qualquer um dos outros sentimentos que ela lhe transmitira, desejando sair. Só certeza absoluta.

   - Gostaria de poder decidir dessa maneira. Poderia ser o lugar, mas tudo depende dos porquinhos poderem enfrentar sua presença por aqui.

   < A questão é se eles podem enfrentar vocês, humanos, sem nós. >

   - Leva tempo. Dê-me alguns meses aqui.

   < Leve o tempo que quiser. Não temos mais pressa. >

   - Quem foi que você encontrou? Se não me engano, você me disse que não podia se comunicar com ninguém, exceto eu.

   < A parte de nossa mente que contém o pensamento, o que você chama de impulso filótico, a força dos ansibles, é muito fria e difícil de encontrar nos humanos. Mas este que encontramos aqui, um dentre muitos que encontraremos aqui, seu impulso filótico é muito mais forte, mais claro, mais fácil de achar, ouve-nos mais facilmente, e ele vê nossas memórias, e nós vemos as dele, nós o achamos facilmente e, assim, perdoe-nos, caro amigo, perdoe-nos se abandonamos o duro trabalho de conversar com a sua mente e nos dirijamos a ele e conversemos com ele, porque ele não nos faz procurar tanto por palavras e imagens que sejam claras o bastante para sua mente analítica, porque nós o sentimos como o sol, como o calor do sol no rosto dele, e no nosso rosto a sensação de água fresca na barriga e movimentos suaves e constantes como a brisa, que há três mil anos não sentíamos; perdoe-nos, vamos ficar com ele até que você descubra, à sua maneira e ao seu tempo, que este é o lugar, que este é o meu lar... >

  

   Daí por diante, perdeu o fio do pensamento dela, sentiu-o escapar como um sonho que é esquecido quando se acorda, mesmo fazendo força para não esquecer, e mantê-lo vivo. Ender não tinha certeza sobre como a rainha da colméia descobrira, mas quem quer que fosse, ele, de sua parte, teria de lidar com a realidade do Código Estelar, da Igreja Católica, jovens xenobiólogos que poderiam muito bem impedi-lo de ir ao encontro dos porquinhos, uma xenobióloga que mudara de idéia sobre convidá-lo a vir, e algo mais, talvez a coisa mais difícil: se a rainha da colméia ficasse aqui, ele também teria de ficar."Fiquei muito desconectado da humanidade por muitos anos, intrometendo-me e espionando, e ferindo e curando, e depois indo embora, eu mesmo ficando intocado. Como algum dia poderei me tornar parte deste lugar, se é aqui que devo ficar? As únicas coisas de que fui parte foi um exército de meninos na Escola de Guerra, e de Valentine, e os dois já se foram, parte do passado..."

   - O que, choramingando na solidão? - perguntou Jane. - Até posso ouvir sua pulsação caindo, e a respiração pesada. Num momento, vai cair no sono, morrer ou chorar.

   - Sou bem mais complicado do que isso, - respondeu Ender, alegre.

   - Auto-piedade por antecipação: é o que estou sentindo, dores que nem apareceram ainda.

   - Muito bem, Ender. Comece cedo. Assim, poderá choramingar muito mais. - O terminal ligou-se, mostrando Jane como uma vedete porquinha, junto com outras vedetes de pernas bonitas, chutando o ar exuberantemente.

   - Faça um pouco de exercício, vai sentir-se melhor. Afinal, acaba de chegar. O que está esperando?

   - Nem mesmo sei onde estou, Jane.

   - Eles não têm um mapa da cidade. Todos sabem onde estão todos os lugares. Mas há um mapa da rede de esgotos, dividido em bairros. Posso marcar a posição das casas.

   - Mostre-me, então.

   Surgiu um modelo tridimensional da cidade no terminal. Ender podia não ser muito bem-vindo aqui, e seu quarto era pequeno, mas mostraram cortesia no terminal que lhe ofereceram. Não era um modelo doméstico normal, mas um simulador um tanto sofisticado. Projetava holografias num volume dezesseis vezes maior que os terminais comuns, com uma resolução quatro vezes maior. A ilusão era tão real que. Ender sentiu, por um vertiginoso momento, que era Gulliver, inclinando-se sobre uma Lilliput que ainda não o temia, que nem reconhecia seu poder de destruição.

   Os nomes dos diversos bairros ficavam pendurados no ar sobre cada região da rede de esgotos. - Você está aqui, - disse Jane, - Vila Velha, a praça está a um quarteirão de distância. O lugar das reuniões públicas.

   - Tem um mapa das terras dos porquinhos?

   O mapa da aldeia deslizou rapidamente em direção a Ender, os acidentes mais próximos desaparecendo, e outros, novos, surgindo à vista do lado extremo. Era como se estivesse voando por sobre a região. Como um bruxo, pensou. A fronteira da cidade era marcada por uma cerca.

   - Essa barreira é a única coisa entre nós e os porquinhos, - Ender disse consigo mesmo.

   - Gera um campo elétrico que estimula quaisquer nervos sensíveis à dor que cheguem perto, - observou Jane. - Tocar nesses fios faz todo o seu "wetware" ficar louco - vai sentir como se alguém estivesse cortando seus dedos com uma lima.

   - Mas que pensamento agradável! Será que estamos num campo de concentração? Ou num zoológico?

   - Tudo depende de como você considera. O lado humano da cerca é que está ligado ao resto do universo, e o lado dos porquinhos é que está preso a seu planeta natal.

   - A diferença é que eles não sabem o que estão perdendo.

   - Sei. Essa é a coisa mais encantadora a respeito dos humanos. Todos têm certeza que os animais estão sangrando de inveja porque não tiveram a grande sorte de nascer homo sapiens. - Além da cerca, uma encosta de morro, e ao longo do cume do morro, começava uma floresta densa. - Os xenólogos nunca se adentraram muito na terra dos porquinhos. A comunidade de porquinhos com que se relacionam está a menos de um quilômetro dentro desse bosque. Os porquinhos vivem numa cabana de troncos, todos os machos juntos. Não conhecemos outras povoações, exceto que os satélites confirmaram que toda floresta igual a esta tem toda a população que uma cultura de caça e coleta pode sustentar.

   - Eles caçam?

   - Mais coletam do que caçam.

   - Onde Pipo e Libo morreram?

   Jane iluminou um pedaço de chão gramado na encosta do morro, perto das árvores. Uma grande árvore crescia isolada, ali perto, com duas menores, não muito longe.

   - Aquelas árvores, - disse Ender. - Não me lembro de ter visto nenhuma tão perto nas holografias que vi em Trondheim.

   - Isso foi há vinte e dois anos. A grande é a que os porquinhos plantaram sobre o cadáver do rebelde chamado Fuçador, que foi executado antes da morte de Pipo. As outras duas são execuções mais recentes de porquinhos.

   - Quisera saber por que plantam árvores para os porquinhos, e não para os humanos.

   - As árvores são sagradas, - respondeu Jane. - Pipo registrou que muitas das árvores da floresta têm nome. Libo especulou que podem receber os nomes dos mortos.

   - E os humanos simplesmente não fazem parte do culto das árvores. Bem, é o que parece. Exceto que descobri que rituais e mitos não vêm do nada. Usualmente, há alguma razão para eles, associada à sobrevivência da comunidade.

   - Andrew Wiggin, o antropólogo.

   - O estudo adequado para a humanidade é o próprio homem.

   - Então, vá estudar alguns homens, Ender. A família de Novinha, por exemplo. Aliás, a rede de computadores foi proibida de mostrar-lhe onde ás pessoas moram.

   Ender sorriu. - Então Bosquinha não é tão amigável quanto parece.

   - Se você precisar perguntar onde as pessoas moram, vão saber onde você vai. Se não quiserem que você vá, dirão que não sabem onde é.

   - Mas você pode ultrapassar essa restrição, não é?

   - Já o fiz. - Uma luz piscava perto da cerca, atrás do morro do observatório. Era um local tão isolado quanto possível em Milagre. Poucas casas foram construídas nos lugares onde a cerca era sempre visível. Ender imaginou se Novinha escolhera viver ali para ficar perto da cerca, ou para ficar longe dos vizinhos. Talvez fosse escolha de Marcão.

   O bairro mais próximo era Vila Atrás, e depois As Fábricas, estendendo-se até o rio. Como o nome evidenciava, consistia de pequenas fábricas que trabalhavam os metais e plásticos e processava alimentos e fibras usados por Milagre. Uma economia bem-organizada, estreita, fechada. Novinha escolhera viver atrás de tudo, fora das vistas, sem ser notada. Foi Novinha' que escolheu isso, Ender agora tinha certeza. Não era igual a todo o seu modo de vida? Nunca pertencera a Milagre. Não era por acaso que todos os três chamados por um Orador viessem dela e de seus filhos. O próprio ato de chamar um Orador era um desafio, sinal que não se consideravam à vontade em meio aos devotos católicos de Lusitânia.

   - Mesmo assim, - disse Ender, - preciso pedir a alguém que me leve lá. Não devo deixar que saibam de início que não podem me ocultar informação.

   O mapa desapareceu, e o rosto de Jane surgiu sobre o terminal. Esqueceu-se de compensar o tamanho maior do terminal, e a cabeça dela estava muitas vezes maior que o tamanho natural. Era uma figura impressionante. Sua simulação era exata até os poros da pele. - Na verdade, Andrew, é de mim que eles não podem esconder nada.

   Ender suspirou. - Você tem um interesse todo especial nisso, Jane.

   - Eu sei. - Piscou. - Mas você não.

   - Está querendo dizer que não confia em mim?

   - Você fede a imparcialidade e senso de justiça. Mas eu sou humana o suficiente para querer tratamento preferencial, Andrew.

   - Quer me prometer pelo menos uma coisa?

   - Qualquer coisa, meu amigo corpuscular.

   - Quando decidir esconder algo de mim, pelo menos me diga que não vai me contar?

   - Isso é muito profundo para "euzinha". - Assumiu a caricatura de uma mulher exageradamente feminina.

   - Nada é demasiado profundo para você, Jane. Faça um favor para nós dois. Não atrapalhe meus movimentos.

   - Enquanto estiver com a família Ribeira, há alguma coisa que quer que eu faça?

   - Sim. Descubra todas as maneiras pelas quais os Ribeira são significativamente diferentes do resto do povo de Lusitânia. Também quaisquer pontos de conflito entre eles e as autoridades.

   - Você fala, eu obedeço. - Começou a fazer o seu suave ato de desaparecer.

   - Você me manobrou até aqui, Jane. Por que está tentando me irritar?

   - Não estou. Nem consegui.

   - Tenho uma grande falta de amigos nesta cidade.

   - Pode confiar-me sua vida.

   - Não é com a minha vida que me preocupo.

   A praça estava cheia de crianças jogando futebol. A maioria estava fazendo embaixada, mostrando quanto tempo podia manter a bola no ar, usando apenas pés e cabeças. Duas delas, porém, estavam no meio de um duelo. O menino chutava a bola o mais forte que podia para a menina, que estava a menos de três metros de distância. Esta ficava de pé e agüentava o impacto da bola, sem piscar, não importava quão duramente fosse atingida. Então, ela chutava a bola nele, e ele tentava não se mexer. Uma menininha pegava a bola, pegando-a sempre que ricocheteava de uma vítima.

   Ender tentou perguntar a alguns dos meninos se eles sabiam onde era a casa da família Ribeira. A resposta deles era invariavelmente um encolher de ombros, e quando insistia, alguns começaram a se afastar, e logo, logo, quase todas as crianças tinham se retirado da praça. Ender ficou a imaginar o que o bispo dissera a todos sobre os Oradores.

   O duelo, porém, continuou, sem esmorecer. Agora que a praça não estava tão cheia, Ender viu que havia outra criança envolvida, um menino de seus doze anos. Visto de costas, nada tinha de extraordinário, mas à medida que Ender foi andando para o meio da praça, percebeu que havia algo de errado com os olhos do menino. Levou apenas um instante, mas entendeu.

   O menino tinha olhos artificiais. Os dois brilhavam, metálicos, mas Ender sabia como funcionavam. Só um olho era usado para ver, precisando então de quatro varreduras visuais e depois os sinais eram separados para transmitir visão binocular para o cérebro. O outro olho continha a fonte de alimentação, o controle computadorizado, e a interface para o exterior. Quando quisesse, podia gravar seqüências curtas de visão numa memória fotográfica limitada, provavelmente menos de um trilhão de bits. Os duelista estavam usando-o como juiz; se havia dúvida sobre um ponto marcado, ele podia reproduzir a cena em câmera lenta e dizer-lhes o que tinha acontecido. A bola foi direto ao púbis do menino. Ele piscou fortemente, controlando-se, mas a menina não se deixou afetar. - Ele balançou, eu vi a cintura dele mexer!

   - Não mexi! Você me machucou, mas eu não mexi!

   - Reveja! Reveja! - Estavam falando em stark, mas a menina agora passara ao português.

   O menino com olhos de metal não mostrou expressão, mas ergueu a mão para silenciá-los. - Mexeu, - disse ele, terminantemente. Ender entendeu que o outro menino se mexera.

   - Sabia!

   - Olhado, seu mentiroso!

   O menino com olhos de metal olhou para ele com desdém. - Nunca minto, vou enviar-lhe um "dump" da cena, se quiser. De fato, vou colocar na rede, para que todos possam ver você mexer e depois mentir, dizendo que não.

   - Mentiroso! Filho da puta! Fode-bode!

   Ender percebeu bem o que os epítetos significavam, mas o menino dos olhos de metal enfrentou tudo calmamente.

   - Dá aqui, - disse a menina.

   O menino furiosamente tirou seu anel e jogou no chão, aos pés dela. - Viada! disse, num sussurro agressivo. Depois saiu correndo.

   - Covardão! - ela gritou pelas costas dele.

   - Cão! - respondeu o menino, sem olhar por sobre os ombros. Mas não era com a menina que ele gritava agora. Ela virou-se

   imediatamente para olhar para o menino dos olhos de metal, que endureceu o corpo com o nome. Quase na hora, a menina olhou para o chão. O menino que apanhava a bola foi até o menino dos olhos de metal e cochichou alguma coisa. Ergueu os olhos, notando Ender pela primeira vez.

   A menina mais velha estava se desculpando: - Desculpa, Olhado, não queria que...

     - Não há problema? Michi. - Não olhou para ela.

   A menina ia continuar, mas depois ela também notou Ender, e calou-se.

   - Por que está espiando? - perguntou o menino.

   Ender respondeu com outra pergunta. - Você é o árbitro? - A palavra podia significar "juiz esportivo", mas também "juiz".

   - De vez em quando,

   Ender passou a falar stark - não tinha segurança para dizer coisas complicadas em português. - Então diga-me, árbitro, se é justo deixar um estrangeiro descobrir o seu caminho, sem ninguém ajudar?

   - Estrangeiro? Quer dizer, utlänning, framling, ou raman?

     - Não, acho que quero dizer "infiel".

   - O senhor é um descrente?

     - Só não acredito no inacreditável. Sorriu. - Onde quer ir, Orador?

   - À casa da família Ribeira.

   A menina achegou-se ao menino dos olhos de metal. - Que família Ribeira?

   - A viúva Ivanova.

   - Acho que sei onde é, - disse o menino.

   - Todos na cidade sabem onde é, - disse Ender. - A questão é: será que você vai me levar até lá?

   - Por que quer ir lá?

   - Faço perguntas às pessoas, e tento descobrir histórias verdadeiras.

   - Ninguém na casa dos Ribeira conhece histórias verdadeiras.

   - Então vou contentar-me com mentiras.

   - Vamos lá, então. - Foi em direção à rua principal, de grama bem aparada. A menininha cochichava no seu ouvido. Ele parou e dirigiu-se para Ender, que seguia logo atrás.

   - Quara quer saber qual é o seu nome?

   - Andrew. Andrew Wiggin.

   - Ela é Quara.

   - E você?

   - Todos me chamam de Olhado. Por causa dos meus olhos. - Pegou a menina pequena e colocou-a sobre os ombros. - Mas meu nome é Lauro. Lauro Suleimão Ribeira. - Sorriu, virou-se e saiu andando.

   Ender acompanhou. Ribeira. Claro.

   Jane estivera ouvindo também e falou pela jóia no ouvido dele. - Lauro Suleimão Ribeira é o quarto filho de Novinha. Perdeu os olhos num acidente com um laser. Tem doze anos. Ah, e descobri uma diferença entre a família Ribeira e o resto da cidade. Os Ribeiras querem desafiar o bispo e levar você aonde quiser.

   Notei uma coisa também, Jane, respondeu ele silenciosamente. Este menino gostou de me enganar, e gostou ainda mais deixando-me perceber que eu tinha sido enganado. Espero que você não tenha lições a aprender dele.

   Miro estava sentado na encosta do morro. A sombra das árvores fazia-o invisível a qualquer um que o observasse de Milagre, mas podia ver boa parte da cidade, daquele ponto - com certeza, a catedral e o mosteiro, no morro mais alto, è depois o observatório, no morro imediatamente ao norte. Abaixo do observatório, numa depressão na encosta do morro, estava a casa em que vivia, não muito longe da cerca.

   - Miro, - cochichou Come-Folhas. - Você é uma árvore?

   Era uma tradução do idioma dos pequeninos. Por vezes, eles meditavam, conservando-se perfeitamente imóveis ao longo de horas. Chamavam isto de "ser uma árvore."

   - Mais como uma folha de grama, - respondeu Miro. Come-Folhas riu da sua maneira aguda e sacudida. Nunca soava natural

   - os pequeninos aprenderam a risada decorada, como se fosse apenas mais uma palavra do stark. Não surgia da diversão, ou pelo menos Miro achava que não.

   - Será que vai chover? - perguntou Miro. Para um porquinho, isto significava: você está me interrompendo em meu benefício, ou no seu?

   - Choveu fogo, hoje, - disse Come-Folhas. - Lá nos campos.

   - Sim. Temos um visitante de outro mundo.

   - É o Orador? Miro não respondeu.

   - Você precisa trazê-lo para ver-nos. Miro não respondeu.

   - Eu enfio meu rosto no chão por você, Miro, meus membros são madeira para sua casa.

   Miro detestava quando eles pediam algo. Era como se eles o considerassem como alguém particularmente sábio ou forte, um pai, junto a quem os favores devem ser cavados. Bem, se eles tinham essa atitude, era sua culpa. Sua e de Libo. Brincando de Deus, aqui entre os porquinhos.

   - Eu prometi, não é, Come-Folhas?

   - Quando, quando, quando?

   - Vai levar algum tempo. Tenho de descobrir se posso confiar nele.

   Come-Folhas ficou desconcertado. Miro teve de explicar que nem todos os humanos conheciam uns aos outros, e que alguns não eram bons, mas não conseguiu se fazer entender.

   - Assim que eu puder, - finalizou Miro.

   De repente, Come-Folhas começou a oscilar para a frente e para trás, sentado no chão, apoiando-se numa e noutra cadeira, como se tentasse aliviar uma coceira no ânus. Libo especulara uma vez que isto era feito com a mesma função que o riso entre os humanos. - Fale comigo em "pituguês"! guinchou Come-Folhas. Este sempre se divertia com o fato de Miro e os outros xenadores falarem duas línguas indiferentemente. Isto a despeito do fato de que pelo menos quatro línguas diferentes dos porquinhos foram registradas, ou pelo menos sugeridas em todos estes anos, todas faladas pela mesma tribo de porquinhos.

   Mas, se queria ouvir português, era português o que ia ouvir. - Vá comer folhas/

   Come-Folhas ficou sem entender. - Por que isso é interessante?

   - Porque é seu nome. Come-Folhas.

   Come-Folhas tirou um grande inseto da narina e ele saiu zumbindo. - Não seja mal-educado. E foi-se embora.

   Miro ficou olhando-o afastar-se. Come-Folhas era sempre tão difícil. Miro preferia muito mais a companhia do porquinho chamado Humano. Mesmo que fosse mais esperto, e Miro precisasse policiar melhor a si mesmo, pelo menos não demonstrava hostilidade, como Come-Folhas às vezes fazia.

   Com o porquinho fora das vistas, Miro voltou para a cidade. Alguém estava indo pelo caminho do morro, em direção à sua casa. O da frente era muito alto - não, era Olhado, carregando Quara nos ombros. Quara era muito grande para se fazer isso. Miro preocupou-se com ela. Ela parecia nunca recuperar-se do choque da morte do pai. Miro sentiu um instante de amargura. Pensar que ele e Ella esperaram que a morte do pai resolvesse todos os seus problemas.

   Levantou-se e tentou enxergar melhor o homem atrás de Olhado e Quara. Ninguém que tivesse visto antes. O Orador. Mas, já? Não podia ter estado na cidade há mais de uma hora, e já estava indo para sua casa. Grande! Só falta Mamãe descobrir que eu fui que o chamou. Pensei que um Orador dos Mortos seria discreto, e não que fosse direto para a casa que o chamou. Que idiota! Tanto pior que tenha vindo anos antes que esperasse que um Orador pudesse chegar. Quim vai contar tudo para o bispo, mesmo que ninguém mais conte. Agora vou ter de encarar mamãe e provavelmente toda a cidade.

   Miro voltou para as árvores e correu por um caminho que ia dar no portão da cidade.

  

                   A Casa dos Ribeira

     Miro, desta vez você deveria estar lá, porque mesmo que eu tenha melhor memória para o diálogo do que você, com certeza não sei o que isto significa. Você viu o novo porquinho, o que eles chamam Humano - acho que vi você falando com ele um minuto antes de sair para a Atividade Questionável. Mandachuva disse-me que eles o chamaram de Humano porque era muito esperto, quando criança. OK, é muito elogioso que "esperto" e "humano" estejam associados nas mentes deles, ou talvez seja ofensivo que eles pensem que nós nos sintamos elogiados com isso, mas não é o que importa.

     Mandachuva então disse: "Ele já sabia falar quando começou a andar sozinho". E fez um gesto com a mão a cerca de dez centímetros do chão. Para mim, parecia que estava mostrando a altura que Humano tinha quando aprendeu a falar e andar. Dez centímetros! Mas eu poderia estar completamente enganado. Você devia estar lá, para ver por si mesmo.

     Se eu estiver certo e for isso mesmo o que Mandachuva quis dizer, então pela primeira vez temos uma idéia da infância dos porquinhos. Se eles de fato começam a andar quando têm dez centímetros de altura - e falar também, nada mais, nada menos! - devem ter menos tempo de desenvolvimento durante a gestação do que os humanos, e têm muito mais desenvolvimento depois de nascer.

     Mas agora, a coisa fica absolutamente maluca, mesmo pelos seus padrões. Ele então inclinou-se para junto de mim - e, como se não devesse falar

     aquilo - disse-me quem era o pai de Humano: "Seu avô Pipo conheceu o pai de Humano. Sua árvore está perto da cerca."

     Será que estava brincando? Fuçador morreu há vinte e quatro anos, não? OK, pode ser uma coisa religiosa, adote-uma-árvore, ou coisa assim. Mas a maneira como Mandachuva contou tudo como um segredo, continuo a pensar que era verdade. Será possível que tenham um período de gestação de 24 anos? Ou talvez levou umas duas décadas para que Humano se desenvolvesse de um bebê de 10 centímetros até o belo espécime de suinidade que vemos hoje. Ou talvez o esperma de Fuçador tenha sido conservado num vidro.

     Mas isto é importante. A primeira vez em que um porquinho conhecido pessoalmente de observadores humanos é nomeado como pai. E nada menos que Fuçador, o próprio que foi assassinado. Em outras palavras, o macho de menor prestígio-um criminoso executado, mesmo-nomeado como pai! Isso significa que nossos machos não são solteirões marginais, mesmo que alguns sejam velhos o bastante para terem conhecido Pipo. Eles são pais em potencial.

     E o que é mais, se Humano era tão notavelmente esperto, então porque ele foi jogado aqui, se este é de fato um grupo de solteirões miseráveis? Acho que entendemos tudo errado por um bom tempo. Este não é um grupo de solteirões sem prestígio, mas um grupo de jovens de elevado prestígio, e alguns deles vão ser coisa importante na vida.

     De modo que quando você disse que lamentava por mim, porque você é que tinha que sair para a Atividade Questionável, e eu precisava ficar em casa e inventar alguma Desculpa Oficial para o relatório pelo ansible, você na verdade estava cheio de Desagradáveis Excrementos! (Se voltar para casa depois de eu estar dormindo, acorde-me para um beijo, está bem? Hoje, eu fiz por merecer.)

  

   - Memorando de Uanda Figueira Mucumbi a Miro Ribeira von Hesse, recuperado dos arquivos de Lusitânia por ordem do Congresso e apresentado como evidência no julgamento in absentia dos Xenólogos de Lusitânia sob acusação de traição.

  

   Não havia indústria da construção em Lusitânia. Quando um casal se casava, seus amigos e família construíam para eles uma casa. A casa dos Ribeira exprimia a história da família. Na frente, a parte antiga da casa era feita de folhas de plástico engastadas num alicerce de concreto. Os aposentos foram sendo construídos à medida que a família foi crescendo, cada acréscimo emendado no anterior, de modo que cinco estruturas térreas diferentes ficavam de frente para a encosta do morro. As últimas eram de alvenaria, com um bom encanamento, cobertas de telhas, mas sem tentativa de estética alguma. A família construíra exatamente o que era necessário e nada mais.

   Não era pobreza, Ender bem o sabia - não havia pobreza numa comunidade onde a economia era completamente controlada. A falta de decoração, de individualidade mostrava o desprezo da família por sua própria casa; para Ender, isto representava desprezo por si mesmo. Certamente Olhado e Quara não aparentavam nada do relaxamento, de baixar a guarda, que todos sentem quando vêm para casa. Na verdade, ficavam até mais cautelosos, mais vagarosos; a casa parecia até uma sutil fonte de gravidade complementar, tornando-os mais pesados quanto mais se aproximavam.

   Olhado e Quara foram entrando. Olhado deixou a porta escancarada, mas atravessou a sala sem falar com ele. Ender viu Quara sentada numa cama no aposento da frente, encostada contra uma parede nua. Não havia nada nas paredes. Eram totalmente brancas. O rosto de Quara igualava a nulidade das paredes. Mesmo que seus olhos visassem Ender fixamente, não dava sinal de reconhecer que ele estava ali; não dava o menor sinal de que ele podia entrar.

   Havia doença nesta casa. Ender tentou entender o que havia no caráter de Novinha que deixara de perceber antes, que a levaria a morar num lugar como este. Será que a morte de Pipo, há tanto tempo, esvaziara o coração de Novinha assim tão completamente?

   - Sua mãe está em casa? - perguntou Ender. Quara não disse nada.

   - Ah, desculpe-me. Pensei que você fosse uma menininha, mas vejo agora que é uma estátua.

   Ela não mostrou nenhum sinal de ouvi-lo. Tanto pior: não conseguiu sacudir a tristeza dela.

   Sapatos golpeando com rapidez o piso de concreto. Um menino pequeno entrou na sala, parou no meio, e girou para encarar a porta onde Ender estava. Não tinha nem um ano a mais do que Quara, seis ou sete anos de idade, provavelmente. Diversamente de Quara, seu rosto mostrava muita compreensão. Junto com uma fome animalesca.

   - Sua mãe está em casa? - perguntou Ender.

   O menino se inclinou e cuidadosamente enrolou a perna da calça. Tinha uma grande faca de cozinha amarrada à perna. Devagar, soltou-a. Depois, segurando-a para a frente com ambas as mãos, apontou para Ender e lançou-se à toda velocidade. Ender notou que a faca estava bem apontada para seu púbis. O menino não era nada sutil para com os estranhos.

   No instante seguinte, Ender segurava o menino debaixo do braço, e a faca espetada contra o teto. O garoto esperneava e gritava. Ender precisava de ambas as mãos para controlar a criança; acabou dependurado na sua frente, de pés e mãos, como um bezerro amarrado para ser marcado.

   Ender olhou firme para Quara. - Se não for agora mesmo chamar quem está encarregado desta casa, vou levar este bicho para casa, e comê-lo no jantar.

   Quara pensou um pouco, levantou-se e saiu correndo da sala.

   Pouco depois, uma menina de aspecto cansado, com cabelo preso e olhos sonolentos foi entrando. - Desculpe, por favor, - murmurou, - o menino não se restabeleceu desde a morte do pai...

   Então, ela despertou de chofre.

   - O senhor é o Orador dos Mortos!

   - Sou, - respondeu Ender.

   - Não aqui. Não, desculpe, o senhor fala português? Claro que sim, pois me respondeu - por favor, não aqui, não agora. Vá embora!

   - Muito bem, - respondeu Ender. - Devo ficar com o menino ou com a faca?

   Ele olhou para o teto, e o olhar dela acompanhou. - Ah, não. Desculpe, procuramos por ela ontem o dia inteiro, sabíamos que ele tinha escondido, mas não sabíamos onde.

   - Estava amarrada na perna.

   - Então, não foi ontem, sempre procuramos ali. Por favor, solte-o.

   - Tem certeza? Acho que ele está afiando os dentes. Grego rosnou guturalmente.

   - Foi a morte do pai dele, entende?

   - Eram assim tão próximos?

   Ela assumiu uma expressão de amargura. - Qual nada. Ele sempre foi um ladrão, Grego, desde que teve idade para segurar alguma coisa e sair correndo ao mesmo tempo. Mas isso de machucar os outros é novo. Por favor, solte-o.

   -Não.

   Os olhos dela se estreitaram, e desafiou: - Está seqüestrando o menino? Para levar para onde? Qual o resgate?

   - Acho que você não entendeu, - respondeu Ender. - Ele me atacou. Você não me ofereceu garantia nenhuma de que ele não vai fazer isso de novo. Não tomou nenhuma providência para discipliná-lo quando eu o soltar.

   Como esperava, os olhos dela passaram a indicar fúria. - Quem pensa que é? Esta é a casa dele, não a sua!

   - Verdade, - reconheceu Ender. - Fiz uma longa caminhada da praça até sua casa, e Olhado veio andando a passos largos. Gostaria de me sentar.

   Ela apontou uma cadeira. Grego esperneava e se contorcia. Ender ergueu-o de modo que ficassem face a face. - Sabe, Grego, se se soltar, vai cair de cabeça num chão de concreto. Se houvesse tapete, eu lhe daria alguma esperança de ficar consciente. Mas não há. Francamente, eu não me importaria de ouvir o barulho da sua cabeça estalando contra o cimento.

   - Ele não entende stark tão bem, - disse a menina.

   Ender percebeu que Grego entendia muito bem. Também notou movimento nos cantos da sala. Olhado tinha voltado e ficou na porta que dava para a cozinha. Quara estava ao seu lado. Ender sorriu alegremente para os dois, depois foi para a cadeira que a menina indicara. Enquanto isso, sacudiu Grego alto no ar, soltando as mãos e pés dele de modo que girou descontroladamente, esparramando braços e pernas em pânico, e gritando de medo da dor que viria quando batesse no chão. Ender, com toda habilidade, acomodou-se na cadeira e apanhou o menino no colo, imediatamente segurando seus braços para trás. Grego conseguiu dar com os calcanhares no rosto de Ender, mas como o menino não estava de sapatos, foi uma manobra ineficaz. Logo, Ender o imobilizara por completo.

   - Que bom poder sentar. Obrigado por sua hospitalidade. Meu nome é Andrew Wiggin. Encontrei Olhado e Quara, e obviamente, Grego e eu já somos bons amigos.

   A menina enxugou a mão no avental, como se fosse cumprimentar, mas não estendeu o braço. - Meu nome é Ella Ribeira. "Ella" é apelido de Elanora.

   - Muito prazer em conhecê-la. Vejo que está ocupada com o jantar.

   - Sim, muito ocupada. Acho que o senhor deveria voltar amanhã.

   - Ora, pode continuar. Eu não me importo.

   Um outro menino, mais velho que Olhado, mas mais jovem do que Ella, avançou pela sala: - Não ouviu minha irmã? Nós não queremos você aqui!

   - Mas quanta bondade a sua. Vim ver sua mãe, e vou esperar aqui até que ela volte do trabalho.

   A menção da mãe silenciou-os.

   - Presumo que ela esteja trabalhando. Se estivesse aqui, acho que estes acontecimentos tão divertidos fariam com que ela aparecesse na hora.

   Olhado sorriu um pouco com isso, mas o menino mais velho entristeceu-se, e Ella ficou com uma expressão de dor e desagrado no rosto. - Por que quer vê-la?

   - Na verdade, quero ver todos vocês. - Sorriu para o menino mais velho. - Você deve ser Estevão Rei Ribeira. Foi batizado com o nome de Santo Estevão, mártir que viu Jesus sentado à direita do Pai.

   - O que sabe dessas coisas, ateu?

   - Pelo que me lembro, São Paulo ficou segurando as túnicas dos que o apedrejavam. Aparentemente, não era um crente na época. Se não me engano, era visto como o mais terrível inimigo da Igreja. Mas se arrependeu, não é? Sugiro que vocês me considerem não como inimigo de Deus, mas como apóstolo que ainda não foi detido na estrada de Damasco.

   O menino ficou olhando para ele, com os lábios apertados. - Você não é São Paulo.

   - Ao contrário, - disse Ender. - Sou o apóstolo dos porquinhos.

   - Você nunca vai vê-los. Miro não vai deixar.

   - Talvez deixarei, - disse uma voz vinda da porta. Os outros viraram-se todos para vê-lo entrar. Miro era jovem - não tinha chegado aos vinte anos. Mas seu rosto e aparência tinham o peso da responsabilidade e do sofrimento, muito além de sua idade. Ender notou como todos se afastavam, para deixá-lo passar. Não era como se tivessem medo dele. Orientavam-se para ele, andando à volta dele, como se ele fosse o centro de gravidade da sala e tudo o mais fosse movido pela força de sua presença.

   Miro avançou até o centro da sala e defrontou-se com Ender. Olhou, entretanto, para o prisioneiro deste. - Solte-o. - A voz estava gelada.

   Ella tocou-o de leve no braço. - Grego tentou esfaqueá-lo, Miro. - Mas seu tom de voz também dizia: tenha calma, está tudo bem. Grego não está em perigo e este homem não é nosso inimigo. Ender ouviu tudo isto, e parecia que Miro também.

   - Grego, - foi dizendo Miro, - eu lhe disse que algum dia encontraria alguém que não tivesse medo de você.

   Grego, vendo um aliado de repente transformando-se em inimigo, começou a chorar: - Ele está me matando, ele está me matando!

   Miro olhou friamente para Ender. Ella podia ter confiança no Orador dos Mortos, mas não Miro, ainda não.

   - Eu estou machucando, - respondeu Ender. Descobrira que a melhor maneira de conquistar a confiança dos outros era dizer a verdade. - Todas as vezes que ele se esforça para se livrar, causo-lhe algum desconforto. E ele ainda não parou de se debater.

   Ender sustentou o olhar de Miro, que entendeu seu pedido tácito. Não insistiu que soltasse Grego. - Não posso tirá-lo dessa, Greguinho.

   - Vai deixar que ele faça isso? - perguntou Estevão.

   Miro fez um gesto na direção de Estevão e disse para Ender, a título de desculpa: - Todos o chamam de Quim. - O apelido era pronunciado como a palavra king, em stark. - Começou porque seu nome do meio é "Rei". Mas agora é porque pensa que governa por direito divino.

   - Filho da mãe, - saiu pisando duro.

   Ao mesmo tempo, os outros se dispuseram a conversar. Miro decidiu aceitar o estranho, ao menos temporariamente; logo, podiam baixar aguarda um pouco. Olhado sentou-se no chão; Quara voltou ao seu poleiro, em cima da cama. Ella encostou-se na parede. Miro puxou outra cadeira e ficou olhando para Ender.

   - Por que veio a esta casa? - perguntou Miro. Ender viu, pela maneira como o outro estava olhando, que ele, como Ella, não disseram a ninguém que tinha chamado um Orador. De modo que nenhum dos dois sabia que o outro o esperava. Na verdade, jamais o esperariam tão cedo.

   - Para falar com sua mãe.

   O alívio de Miro era quase palpável, mesmo não fazendo nenhum gesto óbvio. - Está no trabalho. Trabalha até tarde. Está tentando desenvolver uma linhagem de batatas que possa competir com o capim daqui.

   - Como o amaranto?

   Sorriu. - Já sabe disso? Não, não queremos que seja um competidor tão bom. Mas o cardápio por aqui é limitado, e as batatas ajudariam a variar. Além do mais, a fermentação do amaranto não dá uma boa bebida. Os mineiros e agricultores já criaram uma mitologia sobre a vodka que a torna a rainha dos tóxicos destilados.

   O sorriso de Miro chegava a esta casa como a luz do sol por uma fresta na parede de uma caverna. Ender sentia as tensões se afrouxando. Quara balançava as pernas para a frente e para trás como qualquer menina. Olhado tinha uma expressão tola e feliz no rosto, olhos semicerrados, de modo que o brilho metálico não era tão monstruosamente óbvio. O sorriso de Ella era maior do que o bom humor de Miro merecia. Mesmo Grego relaxara, e parou de fazer força contra Ender.

   De repente, um súbito calor no colo de Ender indicou que Grego, pelo menos, estava longe de se render. Ender estava treinado a não responder por reflexo às ações do inimigo até deixar conscientemente que os reflexos o dominassem. De modo que o dilúvio de urina de Grego só causou-lhe a menor das contrações. Sabia o que Grego esperava - um grito de raiva, e Ender jogando-o para longe, soltando-o do colo, repugnado. Aí, Grego estaria livre - seria seu triunfo. Mas Ender não lhe concedia nenhuma vitória.

   Mas Ella conhecia as expressões do rosto de Grego. Os olhos dela se arregalaram, e deu um passo raivoso na direção do menino. - Grego, seu insuportável...

   Mas Ender piscou para ela e sorriu, imobilizando-a onde estava. - Grego deu-me um presentinho. É a única coisa que ele tem para me dar, uma coisa feita por ele mesmo, de modo que é tanto mais significativa. Estou gostando tanto dele que não vou soltá-lo, nunca mais.

   Grego rosnou e se debateu de novo, loucamente, para se soltar.

   - Por que está fazendo isso? - quis saber Ella.

   - Está esperando que Grego se comporte como um ser humano, - disse Miro. - Precisa ser feito, e ninguém ainda tinha tentado.

   - Eu tentei, - disse Ella.

   Olhado falou lá de onde estava, no chão. - Ella é a única aqui que nos mantém civilizados!

   Quim gritou do outro quarto: - Não conte a esse filho da mãe nada sobre nossa família!

   Ender concordou gravemente, como se Quim tivesse enunciado uma brilhante proposição intelectual. Miro riu-se e Ella ergueu os olhos para o céu e sentou-se na cama, ao lado de Quara.

   - Não somos uma família muito feliz, - disse Miro.

   - Entendo, - respondeu Ender. - Com o seu pai morto tão recentemente.

   Miro sorriu sardonicamente. Olhado falou de novo. - Com nosso pai tão recentemente vivo, você quer dizer.

   Ella e Miro estavam num óbvio acordo com essa opinião. Mas Quim gritou de novo: - Não contem nada!

   - Ele machucou você? - Ender perguntou calmamente. Não se moveu, mesmo que a urina de Grego estivesse ficando fria e fedorenta.

   Ella respondeu. - Ele não nos feriu, se é isso o que quer dizer. Mas para Miro, as coisas já tinham ido muito longe. - Quim tem razão. Não é da conta de ninguém; só nossa.

   - Não, - disse Ella. - É da conta dele também.

   - Como assim, é da conta dele? - perguntou Miro.

   - Porque ele está aqui para Orar pela morte de Papai.

   - Morte de Papai! - disse Olhado. - Vá chupar pedra/ Papai morreu só há três semanas!

   - Eu já estava a caminho para Orar por outra morte, - disse Ender,

   - mas alguém chamou um Orador para a morte de seu pai, e assim, vou Orar por ele.

   - Contra ele, - disse Ella.

   - Por ele, - insistiu Ender.

   - Trouxe o senhor aqui para dizer a verdade, - ela disse, amargurada,

   - e toda a verdade sobre Papai é contra ele.

   O silêncio expandiu-se até se apertar contra os cantos da sala, imobilizando a todos, até que Quim andou devagarzinho até a porta. Olhava só para Ella. - Foi você que o chamou, você.

   - Para dizer a verdade! Aquela acusação melindrou-a, claro, ele nem precisava dizer como ela tinha traído sua família e sua igreja, trazendo esse infiel para expor o que há tanto tempo fora ocultado. - Todos em Milagre são tão bons e compreensivos. Nossos professores relevam os furtos de Grego e o silêncio de Quara. Não importa que nunca ela tenha dito nada na escola, nunca! Todos fingem que somos crianças normais - os netos d'Os Beatos, e nós somos tão inteligentes! Com um xenador e dois biólogos na família! Mas que prestígio! Apenas olham para o outro lado quando Papai se embebeda e vem para casa e bate em Mamãe até que ela não possa mais andar!

   - Cala a boca! - gritou Quim.

   - Ella... - interveio Miro.

   - E você, Miro, Papai gritando com você, dizendo coisas horríveis até você sair de casa correndo, correndo, tropeçando, porque nem enxerga...

   - Você não tem o direito de contar para ele! - disse Quim. Olhado saltou de pé e ficou no meio da sala, olhou à volta para todos eles, com seus olhos inumanos. - Por que querem continuar escondendo?

   - O que isso significa para você? - perguntou Quim. - Ele nunca fez nada para você. Você só desligava os olhos e ficava aí sentado, com os fones, ouvindo uma batucada, ou Bach, ou qualquer outra coisa...

   - Desliguei meus olhos? - respondeu Olhado. - Nunca desliguei meus olhos.

   Deu meia volta e foi ao terminal, no canto da sala mais distante da porta da frente. Com poucos movimentos rápidos, ligou o terminal, pegou um cabo de interace e espetou-o no soquete de seu olho direito. Era uma ligação simples de computador, mas para Ender evocou a odiosa memória do olho de um gigante, rasgado e vazando, enquanto escavava fundo, penetrando o cérebro, e fazendo-o cair para trás, morto. Imobilizou-se por um átimo, antes de lembrar-se que esta memória não era real, era um jogo de computador com que brincara na Escola de Guerra. Isso foi há três mil anos, mas para ele, apenas há vinte e cinco anos, distância não muito grande, de modo que a memória não perdera a força. Eram suas memórias e sonhos da morte do Gigante que os insecta pegaram em sua mente e transformaram no sinal que lhe deixaram; eventualmente, levou ao casulo da rainha da colméia.

   Foi a voz de Jane que o trouxe de volta ao momento presente. Sussurrava, na jóia: - Se você não faz objeção, enquanto ele mantém aquele olho ligado, vou fazer um "dump" de tudo o que ele armazenou nele.

   Então, começou a aparecer uma cena no ar, sobre o terminal. Não era holográfica. A imagem era como baixo-relevo, como apareceria a um único observador. Era nesta sala mesmo, vista do ponto no chão onde há um momento Olhado estava sentado - parece que era o lugar dele. No meio da sala, um homenzarrão, forte e violento, agitando os braços, enquanto xingava Miro, que se deixava estar, cabisbaixo, olhando para seu pai sem sinal de raiva. Não havia som - era apenas visual. - Já esqueceram? Esqueceram de como era? - dizia Olhado.

   Na cena do terminal, por fim, Miro voltava-se e saía; Marcão seguia-o até a porta, gritando pelas costas. Depois voltou à sala e ficou ali, ofegando como um animal, cansado da perseguição. Na imagem, Grego corria até seu pai e agarrava-se à perna dele, gritando para a porta, o rosto evidenciando que ecoava as palavras cruéis do pai para Miro. Marcão arrancou a criança de sua perna e saiu para o quarto dos fundos, pisando duro.

   - Sem som, - comentou Olhado, - Mas dá para ouvir tudo, não é? Ender sentia o corpo de Grego tremendo, no seu colo.

   - Aí está, um soco, uma queda - ela está caindo no chão, podem sentir a maneira como o corpo dela bate no concreto?

   - Cala a boca, Olhado, - disse Miro.

   A cena reproduzida pelo computador acabou. - Não posso acreditar que você gravou isso, - comentou Ella.

   Quim estava soluçando, sem fazer nenhum esforço para esconder as lágrimas. - Eu o matei, - estava dizendo - Eu o matei, eu o matei, eu o matei.

   - Mas o que está falando? - perguntava Miro, exasperado. - ele tinha uma maldita doença, era congênito!

   - Eu rezei para que ele morresse! - gritou Quim. O rosto dele estava salpicado de raiva, lágrimas, muco e saliva, misturando-se em torno dos lábios. - Rezei para a Virgem, pedi a Jesus, rezei para o Avô e para a Avó, disse que eu até iria para o inferno , se ele morresse, e foi o que fizeram, e agora, eu vou para o inferno e não lamento nem um pouco! Deus que me perdoe, mas eu gostei! - Soluçando, ele voltou para o fundo da sala. Uma porta bateu ao longe.

   - Bem, mais um milagre comprovado para crédito dos Beatos, - disse Miro. - A santidade está garantida.

   - Vê se cala essa boca, - disse Olhado.

   - E ele era o que sempre nos dizia que Cristo queria que perdoássemos o velho idiota, - comentou Miro.

   No colo, Grego tremia agora tão violentamente que Ender começou a ficar preocupado. Percebeu que Grego estava murmurando uma palavra. Ella também viu a situação do menino e ajoelhou-se na frente dele.

   - Ele está chorando; nunca o vi chorando assim...

   - Papai, papai, papai! - era o que Grego murmurava. Seu tremor foi se intensificando, quase convulsivo, em sua violência.

   -- Será que ele está com medo de Papai? - perguntou Olhado. O rosto dele mostrava profunda preocupação com Grego. Para grande alívio de Ender, todos os rostos estavam cheios de preocupação. Havia amor nesta família, afinal, e não apenas a solidariedade de quem viveu sob o mesmo tirano por todos esses anos.

   - Papai foi-se embora, - disse Miro, para reconfortá-lo. - Não precisa ter medo, agora. Ender abanou a cabeça. - Miro, não viu a memória do Olhado? Menininhos não julgam seus pais, eles os amam. Grego estava tentando, ao máximo que podia, ser igual a Marcos Ribeira. O resto de vocês pode ter gostado que ele se foi, mas para Grego foi o fim do mundo.

   Isso não havia ocorrido a nenhum deles. Mesmo agora, era uma idéia revoltante; Ender podia até vê-los encolher-se. Mas reconheciam que era verdade. Agora que Ender fizera essa observação, parecia óbvio.

   - Deus nos perdoe, - murmurou Ella.

   - As coisas que dissemos... - ciciou Miro.

   Ella estendeu os braços para Grego. Ao invés, fez exatamente o que Ender esperava, o que havia preparado. Grego virou-se, depois de Ender relaxar os músculos, abraçou o Orador dos Mortos, e chorou amargamente, histericamente.

   Ender falou calmamente para os outros, que observavam sem saber o que fazer. - Como ele poderia demonstrar sua dor para vocês, quando achava que vocês o odiavam?

   - Nunca odiamos Grego, - disse Olhado.

   - Eu devia ter adivinhado, - disse Miro. - Sabia que era ele o que sofria mais, mas nunca me ocorreu que...

   - Não se considere culpado, - disse Ender. - Esse é o tipo de coisa que só um estranho pode ver.

   Ouviu Jane sussurrando no seu ouvido. - Você nunca deixa de me surpreender, Andrew, com o jeito como você transforma gente em plasma.

   Ender não poderia lhe responder, e ela não acreditaria, de qualquer modo. Não tinha planejado nada disso, e só tinha topado de ouvido. Como poderia ter adivinhado que Olhado teria uma gravação da crueldade de Marcão para com sua família? Sua única intuição real foi relativa a Grego, e mesmo isso fora instintivo, uma percepção de que Grego estava desesperadamente faminto por alguém que tivesse autoridade sobre ele, por alguém que fosse um pai para ele. Como seu pai fora cruel, Grego só acreditava na crueldade como prova de força e amor. Agora, suas lágrimas

   inundavam o pescoço de Ender, quentes, como um momento antes, sua urina empapara as suas pernas.

   Adivinhara o que Grego faria, mas Quara foi quem o apanhou de surpresa. Enquanto os outros observavam, em silêncio, o choro de Grego, ela saiu da cama e foi direto para Ender. Olhos apertados, com raiva. - Você fede! - ela disse, resoluta. Então, saiu marchando da sala, para os fundos da casa.

   Miro não conseguiu abafar muito o riso, e Ella sorriu. Ender ergueu os sobrolhos como quem diz: Ganham-se umas, perdem-se outras.

   Olhado parecia ouvir suas palavras não ditas. De sua cadeira, junto ao terminal, o menino dos olhos de metal disse, com suavidade: - Você ganhou com ela também. Foi o máximo que já disse a alguém de fora da família em meses.

   Mas eu não sou de fora da família, Ender disse consigo mesmo. Não percebeu? Sou da família agora, quer vocês gostem ou não. Quer eu goste ou não.

   Depois de algum tempo, os soluços de Grego pararam. Estava dormindo. Ender levou-o até sua cama; Quara já estava dormindo do outro lado do quartinho. Ella ajudou Ender a tirar as calças de Grego, que ficaram ensopadas, e vestiu-lhe uma roupa de baixo folgada - seu toque era suave e ágil, e Grego nem acordou.

   Na sala da frente, Miro encarava Ender cinicamente. - Bem, Orador, você tem uma escolha. Minhas calças vão ficar apertadas e pequenas no cavalo, mas as de papai vão cair-lhe bem.

   Ender levou um instante para lembrar. A urina de Grego já havia secado há muito. - Não se preocupe. Posso trocar de calça quando chegar em casa.

   - Mamãe ainda vai demorar mais uma hora. Você veio vê-la, não é? Até lá, suas calças estarão limpas.

   - Vou usar as suas calças, então, - respondeu Ender. - Vou arriscar o aperto.

  

                   Dona Ivanova

     Significa uma vida de ilusões. Você sai e descobre alguma coisa, alguma coisa importante, e depois, quando volta ao escritório, escreve um relatório completamente inócuo, que mencione coisa alguma do que aprendemos com contaminação cultural.

     Você é muito jovem para entender como isso é uma tortura. Papai e eu começamos isso porque não podíamos suportar esconder conhecimento dos porquinhos. Você vai descobrir, tal como eu, que não é menos doloroso esconder conhecimento de seus colegas cientistas. Quando você os vê se esforçando por decifrar uma questão, sabendo que tem a informação que facilmente resolveria o dilema deles; quando os vê chegar muito perto da verdade, e depois se afastarem, pela falta da sua informação, das conclusões certas e voltarem ao erro-você não seria humano se isso não lhe causasse uma grande angústia.

     Vocês sempre precisam lembrar-se do seguinte: é a lei deles, é a escolha deles. Eles é que construíram a muralha entre eles e a verdade, e só nos castigariam se os deixássemos saber como essa muralha foi rompida tão fácil e tão completamente. Para cada cientista framling que anseia pela verdade, há dez mesquinhos desmiolados que desprezam o conhecimento, que nunca pensam numa hipótese original, cujo único trabalho é atacar os escritos dos verdadeiros cientistas para apanhar pequenos erros, contradições, ou lapsos no método. Esses sanguessugas vão esquadrinhar todos os seus relatórios, e se for descuidado uma só vez, então eles o pegam.

     Isso quer dizer que você nem pode mencionar um porquinho cujo nome é derivado de contaminação cultural: "Xícaras" mostraria a eles que lhes ensinamos os rudimentos da cerâmica. "Calendário" e "Ceifeiro" são óbvios. E nem Deus poderia nos ajudar se soubessem do nome de "Flecha."

 

   Memorando de Liberdade Figueira de Médici a Uanda Figueira Mucumbi e Miro Ribeira von Hesse, recuperado dos arquivos de Lusitânia por ordem do Congresso e apresentado como evidência no julgamento in absentia dos xenólogos de Lusitânia, sob acusação de traição.

  

   Novinha demorou-se no escritório do biólogo mesmo que seu trabalho mais importante tivesse terminado havia mais de uma hora. Os pés de batata clonados estavam vicejando em solução de nutrientes; agora era só fazer observações diárias, para ver qual das alterações genéticas produziria a planta mais resistente com a raiz mais útil.

   Se não tenho mais nada para fazer, por que não vou para casa? Não tinha resposta para esta pergunta. Seus filhos precisavam dela, isso era certo; não estava fazendo nada de bom com eles, saindo de manhã bem cedo e voltando para casa só depois que os menores estavam já dormindo. Mesmo agora, sabendo que devia voltar, ficava sentada, olhando para o laboratório, olhando para coisa alguma, fazendo coisa alguma, sendo coisa alguma. Pensou em ir para casa, e não podia imaginar por que não se sentia bem com essa perspectiva. Afinal, lembrou a si mesma, Marcão morreu. Morreu há três semanas. Morreu tarde. Fez tudo aquilo para o que eu precisei dele, e fiz tudo o que ele queria de mim, mas todas as nossas razões se extinguiram quatro anos antes dele apodrecer de uma vez por todas. Em todo esse período, não compartilhamos um só momento de amor, mas tampouco pensei em abandoná-lo. O divórcio teria sido impossível, mas o desquite seria o suficiente. Assim, as surras acabariam. Ainda agora, seu quadril estava enrijecido, e às vezes doía, por causa da última vez em que ele a jogara contra o chão de concreto. Que adoráveis lembranças você me deixou, Cão, um cachorro de marido.

   A dor na bacia deu uma pontada, só de pensar no assunto. Concordou, satisfeita. Eu mereço, e vou lamentar, quando passar.

   Levantou-se e saiu, sem mancar, mesmo que a dor fosse suficiente para isso. Não vou me dobrar por coisa nenhuma. Não é nada além do que eu mereço.

   Ela foi até a porta, e fechou-a atrás de si. O computador desligou as luzes, assim que saiu, exceto as necessárias para as plantas em fase fotossintética forçada. Ela adorava essas plantas, seus animaizinhos de estimação, com uma notável intensidade. Cresçam, gritava para elas dia e noite, cresçam e vicejem. Condoia-se pelas que fracassavam, e matava-as só quando ficava bem claro que não tinham nenhum futuro. Agora, enquanto se afastava do escritório, ainda ouvia sua música subliminar, os gritos das células infinitesimais enquanto cresciam, dividiam-se e compunham padrões cada vez mais complicados. Estava indo da luz para a escuridão, da vida para a morte, e a dor emocional ficou pior em perfeita sincronia com a inflamação de suas juntas.

   Enquanto se aproximava de sua casa, via a luz que dela saía pelas janelas e iluminava a encosta do morro. Os quartos de Quara e de Grego estavam escuros; não precisaria agüentar suas insuportáveis acusações - Quara em silêncio, Grego com os seus crimes sombrios e maldosos. Mas havia muita luz acesa, incluindo a do seu quarto e da sala da frente. Algo incomum acontecia, e não gostava de coisas incomuns.

   Olhado estava sentado na sala de estar, com os femes, como de hábito; esta noite, porém, também tinha o cabo da interface no olho. Aparentemente, estava recuperando antigas memórias visuais do computador, ou talvez removendo algumas que estivera carregando consigo. Em muitas ocasiões anteriores, ela também desejou poder apagar memórias visuais e eliminá-las completamente, substituindo-as por outras, mais agradáveis. O cadáver de Pipo era uma das quais gostaria de se livrar, e substituir por imagens dos dias gloriosos, com os três juntos no escritório do xenador. O corpo de Libo embrulhado, aquela carne suave reunida apenas pelo tecido enrolado; gostaria de ter outras memórias do corpo dele, o toque de seus lábios, a expressividade de suas mãos delicadas. Mas as boas memórias voaram, enterradas muito fundo debaixo da dor. Eu roubei todos aqueles bons dias, e assim, foram-me tirados, e substituídos pelo que eu merecia.

   Olhado virou para ela, o conector emergindo obscenamente do olho. Ela não pôde controlar um estremecimento, sua vergonha. Desculpe, disse ela mentalmente. Se você tivesse outra mãe, ainda teria, sem dúvida, os olhos. Você nasceu para ser o melhor, o mais saudável e o mais íntegro de meus filhos, Lauro, mas é claro que nada do meu útero poderia ser deixado intacto por muito tempo.

   Nada disse, claro, assim como Olhado nada lhe disse. Virou-se, para dirigir-se a seu quarto, e saber por que a luz estava acesa.

   - Mamãe, - disse Olhado.

   Ele removera os fones, e estava tirando o pino do olho.

   - Sim?

   - Temos uma visita. O Orador.

   Sentiu um frio por dentro. Não esta noite, gritou por dentro. Mas também sabia que não queria vê-lo nem amanhã, nem no dia seguinte, nem nunca.

   - As calças dele estão limpas agora, e está no seu quarto se vestindo. Espero que não se importe.

   Ella saiu da cozinha. - Você chegou! Preparei uns cafezinhos, e um para você também.

   - Vou esperar lá fora, até que ele se vá, - disse Novinha.

   Ella e Olhado trocaram olhares. Novinha entendeu de imediato que a viam como um problema a ser resolvido; que aparentemente assinavam embaixo do que o Orador viera fazer aqui. Bem, sou um dilema que não vai ser resolvido por vocês.

   - Mamãe, - disse Olhado, - ele não é como o bispo disse, ele é bom. Novinha respondeu-lhe com o seu mais destrutivo sarcasmo: - e desde quando você entende sobre o bem e o mal?

   De novo Ella e Olhado trocando olhares. Sabia o que pensavam. Como podemos explicar para ela? Como convencê-la? Bem, caras crianças, vocês não podem. Não sou persuadível, como Libo descobriu em cada dia de sua vida. Nunca arrancou-me o segredo. Não foi minha culpa se ele morreu.

   Mas conseguiram desviá-la de sua decisão. Em vez de deixar a casa, bateu em retirada para a cozinha, passando por Ella, na porta, mas sem tocá-la. As pequenas xícaras de café estavam arranjadas em círculo, na mesa, o bule fumegando no centro. Sentou-se e apoiou os braços sobre a mesa. Então o Orador estava aqui, e veio vê-la primeiro. Onde mais poderia ir? A culpa é minha se ele está aqui, não é? Ele é mais uma pessoa cuja vida destruí, como as de meus filhos, como a de Marcão, a de Libo, Pipo, e a minha.

   Uma mão masculina, forte, mas notavelmente macia pousou sobre seu ombro, pegou o bule, e começou a servir pelo seu bico pequeno e delicado a estreita corrente de café quente, revoluteando nas pequenas xícaras.

   - Posso servir? - ele perguntou. Que pergunta idiota, pois seja estava servindo. Mas a voz dele era delicada, seu português marcado por um gracioso sotaque castelhano. Era um espanhol, então?

   - Desculpe-me, - ela sussurrou. Trouxe o senhor por tantos quilômetros e...

   - Não medimos o vôo estelar em quilômetros, Dona Ivanova. Medimos em anos. - As palavras dele serviam como acusação, mas a voz falava de compreensão, até mesmo perdão, ou ainda consolo. Eu poderia ser seduzida por essa voz. Essa voz é mentirosa.

   - Se eu pudesse desfazer sua viagem e devolvê-lo a vinte e dois anos atrás, eu o faria. Chamá-lo foi um erro. Desculpe. - A voz dela não tinha entonação. Como toda a vida dela era uma mentira, mesmo essa desculpa parecia casual.

   - Não senti o tempo ainda, - disse o Orador. Ainda estava atrás dele, de modo que ela ainda não vira seu rosto. - Para mim, foi só há uma semana que deixei minha irmã. Ela era minha única parenta viva. A filha dela ainda não havia nascido, e agora provavelmente, já terminou a escola, casou-se, talvez com filhos. Nunca vou conhecê-la. Mas conheço os seus filhos, Dona Ivanova.

   Ela ergueu o cafezinho e bebeu tudo num só gole, mesmo que queimasse a língua e a garganta, e ferisse o estômago. - Apenas algumas horas, e já acha que os conhece?

   - Melhor que a senhora, Dona Ivanova.

   Novinha percebeu que Ella engasgara com a audácia do Orador.

   Mesmo achando que as palavras dele eram verdadeiras, ainda ficava furiosa que um estranho as dissesse. Virou para ele para responder, mas ele se fora, não estava mais ali atrás. Virou-se mais, e por fim levantou-se para procurá-lo, mas ele não estava no aposento. Mantinha-se à porta, olhos arregalados.

   - Volte aqui! - disse Novinha. - Você não pode dizer isso e sair desse jeito!

   Mas ele não respondeu. Ao invés, ouviu risos nos fundos da casa. Novinha seguiu o som. Passou por todos os quartos, até os fundos da casa. Miro estava sentado na cama de Novinha, e o Orador postado junto à porta, rindo com ele. Miro viu sua mãe, e o sorriso desapareceu. Isto causou uma punhalada de angústia dentro dela. Não o vira sorrir em muitos anos, esquecera como o rosto dele ficava bonito, como o do pai, e sua chegada foi o que apagara aquele sorriso.

   - Viemos aqui saber por que Quim estava tão nervoso. - Miro explicou. - Ella arrumou a cama.

   - Não sabia que o Orador se importava se a cama estava arrumada ou não, - disse Novinha, com frieza. - O senhor se importa, Orador?

   - Ordem e desordem, - comentou o Orador, - cada uma tem sua beleza. - Ainda não virará o rosto na direção dela, e ela até gostou, pois significava que não precisava ver os olhos dele, enquanto dava seu amargo recado.

   - Estou lhe dizendo, Orador, que perdeu sua viagem. Pode me odiar, se quiser, mas o senhor não tem morte pela qual Orar. Fui uma menina tola. Em minha ingenuidade achei que quando o chamei, o autor da Rainha da Colméia e o Hegêmona viria em pessoa. Perdi um homem que foi um pai para mim e queria consolo.

   Agora ele virou-se. Era um homem jovem, mais jovem do que ela, pelo menos, mas os olhos dele eram sedutores de tanta compreensão. Perigoso, pensou ela. Ele é perigoso, ele é bonito, eu poderia me afogar em sua compreensão.

   - Dona Ivanova, - disse ele, - como é que a senhora leu a Rainha da Colméia e o Hegêmona e imaginou que seu autor poderia trazer-lhe conforto?

   Foi Miro quem respondeu - o silencioso Miro, de fala lenta, intrometeu-se na conversa com um vigor que ela não vira desde sua primeira infância. - Eu li, e o Orador dos Mortos original escreveu a história da rainha da colméia com uma profunda compreensão.

   O Orador sorriu com tristeza. - Mas não estava escrevendo para os insecta, não é? Estava escrevendo para a humanidade, que ainda comemorava a destruição dos insecta como grande vitória. Escreveu cruelmente, para transformar o orgulho deles em dor, sua alegria em lamento. E agora os humanos esqueceram completamente que outrora odiaram os insecta e que honraram e celebraram um nome que agora é indizível...

   - Eu posso dizer qualquer coisa, - disse Ivanova. - O nome dele era Ender, e destruía tudo o que tocava. - Como eu, o que ela não completou.

   - Ah? E o que sabe a respeito dele? - A voz dele chicoteava, rouca e cruel. - Como sabe que não havia alguma coisa que ele tocava com bondade? Alguém que o amava, que foi abençoado por seu amor? Destruía tudo o que tocava... eis aí uma mentira que não pode ser dita sinceramente de nenhum ser humano.

   - É essa a sua doutrina, Orador? Então não sabe lá muita coisa. - Ela estava desafiadora, mas a raiva dele ainda a assustava. Ela pensara que sua suavidade era tão imperturbável como a de um padre confessor.

   Quase que imediatamente a raiva sumiu de seu rosto. - Pode tranqüilizar sua consciência. Sua chamada iniciou minha jornada para cá, mas outros daqui chamaram um Orador enquanto estava a caminho.

   - Mesmo? - Quem mais, nesta obscura cidade, tinha familiaridade suficiente com a Rainha da Colméia to Hegêmona para querer um Orador, e independente o bastante do bispo Peregrino para se atrever a fazer um tal chamado? - Nesse caso, por que está aqui, na minha casa?

   - Porque fui chamado para Orar pela morte de Marcos Maria Ribeira, seu falecido marido.

   Era a coisa mais surpreendente. - Ele! Quem quer pensar nele de novo, agora que está morto?

   O Orador não respondeu. Em seu lugar, Miro falou com voz forte, ainda sentado na cama dela. - Grego gostaria, por exemplo. O Orador

   mostrou-nos aquilo que nós deveríamos saber; que o menino está chorando pelo pai e acha que todos nós o odiamos...

   - Psicologia barata, - ela interrompeu. - Temos nossos próprios psicólogos, e eles não ajudam muito também.

   A voz de Ella veio de trás. - Fui eu que o chamei para Orar pela morte de Papai. Achei que levaria dezenas de anos para ele chegar, mas gostei que chegasse cedo, enquanto pode ser um benefício para nós.

   - Que benefício ele pode nos causar!

   - Já causou, mamãe. Grego adormeceu abraçado nele, e Quara falou com ele.

   - De fato, - disse Miro, - ela disse que ele fede.

   - O que era provavelmente verdade, - disse Ella, - porque o Greguinho mijou em cima dele.

   Miro e Ella puseram-se a rir com esta lembrança, e o Orador também sorriu. Isto desconcertou Novinha mais que tudo - tamanho bom humor nunca fora sentido nesta casa desde que Marcão a trouxera para cá, um ano após a morte de Pipo. Contra a sua vontade, Novinha lembrou-se de sua alegria quando Miro era recém-nascido, e quando Ella era pequena, os primeiros anos de suas vidas, como Miro tagarelava sobre qualquer assunto, como Ella engatinhava loucamente atrás dele por toda a casa, como as crianças brincavam juntas e andavam pela grama à vista da floresta dos porquinhos, do outro lado da cerca; era a alegria de Novinha com as crianças o que envenenara Marcão, que o fazia odiar a ambos, porque sabia que nenhuma delas era dele. Quando Quim nasceu, a casa estava densa com a raiva, e ele nunca soube como rir livremente onde seus pais podiam vê-lo. Ouvir Miro e Ella rirem juntos era como abrir de repente uma cortina preta; de repente, era dia de novo, quando Novinha havia esquecido que existia outra parte do dia, que não a noite.

   Como esse estranho se atrevia a invadir sua casa e escancarar todas as cortinas que ela fechara!

   - Não vou tolerar isso. O senhor não tem o direito de invadir a vida de meu marido.

   Ele ergueu um sobrolho. Ela conhecia o Código Estelar tão bem quanto qualquer um, e portanto, sabia perfeitamente bem que ele não só tinha o direito, a lei o protegia na descoberta da verdadeira história dos mortos.

   - Marcão era um homem miserável, - ela insistia, - e dizer a verdade sobre ele não vai causar nada senão dor.

   - Tem razão ao dizer que a verdade a respeito dele só causará dor, mas não porque ele era um homem miserável, - disse o Orador. - Se eu dissesse apenas o que todos já sabem - que odiava seus filhos e batia na mulher e vagava bêbado de bar em bar, até os policiais mandá-lo de volta para casa - então eu não causaria dor, não é? Causaria, isso sim, muita satisfação, porque todos ficariam reconfortados, pois sua opinião a respeito dele estava certa todo o tempo. Era escória, e então estava certo que o tratassem como escória.

   - E o senhor acha que não?

   - Nenhum ser humano, quando você compreende os seus desejos, é sem valor. Nenhuma vida é nula. Mesmo os piores homens e mulheres, se você entender seus corações, tiveram algum ato generoso que os redime, ao menos um pouco.

   - Se acredita nisso, então é porque é ainda mais jovem do que aparenta ser, - disse Novinha.

   - Será? - respondeu o Orador. Foi há menos de duas semanas que ouvi o seu chamado. Estudei-a, e mesmo que você não se lembre, Novinha, eu me lembro muito bem que quando era menina, era suave, bonita e bondosa. Foi solitária antes, mas Pipo e Libo conheciam-na, e achavam-na merecedora de amor.

   - Pipo estava morto.

   - Mas ele a amava.

   - O senhor não sabe nada, Orador! Estava a vinte e dois anos-luz de distância! Além do mais, não era a mim que estava chamando de inútil, mas sim Marcão!

   - Mas você não acredita nisso, Novinha. Porque você conhece o ato de bondade e generosidade que redime ã vida daquele pobre homem.

   Novinha não entendeu o seu próprio terror, mas precisou silenciá-lo antes que ele dissesse, mesmo que ela não fizesse idéia da bondade de Cão que ele talvez tivesse descoberto. - Como se atreve a me chamar de Novinha! Ninguém me chama assim há quatro anos!

   Em resposta, ele ergueu a mão e roçou os dedos no rosto dela. Foi um gesto tímido, como o de um adolescente; lembrou-a de Libo, e foi mais do que podia suportar. Pegou a mão dele, jogou-a para longe, e saiu correndo por ele, para dentro do quarto. - Saia! gritou para Miro. O filho levantou-se depressa e recuou até a porta. Ela pôde ver pelo rosto do menino que mesmo depois de tudo o que vira acontecer, ainda podia surpreendê-lo com sua raiva.

   - Não vai conseguir nada comigo! - gritou para o Orador. r" Mas não vim tirar nada de você.

   - Também não quero nada que você possa dar! Você é inútil para mim, está ouvindo? Você é que é inútil, lixo, porcaria, merda - cai fora, não tens o direito de estar em minha casa!

   - Não és lixo, - ele sussurrou - és solo fértil e vou plantar um jardim aí. - Então, antes que ela pudesse responder, fechou a porta e foi-se embora.

   Na verdade, ela nem tinha resposta para dar, de tão ultrajantes que foram as palavras dele. Chamara-o de lixo, mas ele respondeu como se tivesse chamado a si mesma de lixo. E ela se dirigira a ele pejorativamente, usando o familiar "tu" insultuosamente, ao invés de "senhor" ou mesmo o informal "você". Era a maneira como se falaria com uma criança ou com um cachorro. Mas quando ele respondeu da mesma maneira, com a mesma familiaridade, foi inteiramente diferente. "És terra fértil e vou plantar um. jardim aí". Era o tipo de coisa que um poeta diria à sua amante, ou mesmo um marido à esposa, e o "tu" era de intimidade, não arrogante. Como se atreve, ela murmurava consigo mesma, tocando a face que ele tocara. Muito mais cruel que eu jamais imaginei que um Orador poderia ser. O bispo Peregrino estava certo. Ele é perigoso, o infiel, o anticristo, caminha descaradamente por lugares em meu coração que conservei como território sagrado, onde ninguém mais teve permissão de ficar. Pisa nos poucos brotos que se agarram à vida nesse solo pedregoso, como se atreve, eu preferia ter morrido antes de encontrá-lo, e ele com certeza vai acabar comigo, antes de terminar seu trabalho.

   Tinha uma vaga noção de alguém chorando: Quara. Claro que a gritaria a acordara, pois nunca dormia profundamente. Novinha quase abriu a porta e entrou para reconfortá-la, mas então ouviu o choro parar, e uma voz masculina suave cantando para ela. A canção era em outra língua. Alemão, parecia, ou nórdico; ela não entendia, fosse o que fosse. Mas sabia quem cantava, e sabia que Quara fora reconfortada.

   Novinha nunca sentira tanto medo, desde que percebeu pela primeira vez que Miro ia virar xenador e seguir os passos dos dois homens que os porquinhos mataram. Esse homem está desfazendo os nós da rede de minha família, e está nos unindo como um todo de novo; mas nesse processo, vai descobrir os meus segredos. Se descobrir como Pipo morreu, e Orar a verdade, então Miro vai aprender o mesmo segredo, e isso vai matá-lo. Não vou fazer mais nenhum sacrifício aos porquinhos; são um deus cruel demais para que eu continue a venerá-los.

   Mais tarde, enquanto estava na cama atrás de uma porta fechada, tentando dormir, ouviu mais risos na frente da casa, e desta vez, pode ouvir Quim e Olhado, rindo junto com Miro e Ella. Até podia vê-los, a sala iluminada com alegria. Mas enquanto era dominada pelo sono, e a imaginação tornou-se sonho, não era o Orador quem estava sentado em meio às crianças, ensinando-as a rir; era Libo, redivivo, conhecido de todos como seu legítimo esposo, o homem com quem se casara no íntimo do coração, mesmo que se recusasse a se casar com ele na igreja. Mesmo em seu sono, era mais alegria do que podia suportar, e as lágrimas ensoparam o lençol.

  

                     Defeito Congênito

     CIDA: O corpo da Descolada não é bacteriano. Parece entrar nas células do corpo e fixar residência ali, como as mitocôndrias, reproduzindo-se quando a célula se reproduz. O fato de se propagar para uma nova espécie só uns poucos anos depois de nossa chegada aqui sugere que é enormemente adaptável. Com certeza, deve ter-se propagado por toda a biosfera de Lusitânia há muito tempo, de modo que agora é uma endemia, uma infecção permanente.

     GUTO: Se é permanente, e está por toda a parte, não é uma infecção, Cida. É parte da vida normal.

     CIDA: Mas não é necessariamente congênita - tem a capacidade de se propagar. Mas sim, se for endêmica, todas as espécies indígenas devem ter encontrado meios de combatê-la...

     GUTO: Ou se adaptar a ela, incluindo-a em seu ciclo de vida normal. Talvez PRECISEM dela.

     CIDA: PRECISAM de uma coisa que rompe todas as suas moléculas genéticas e reúne-as de novo ao acaso?

     GUTO: Talvez seja por isso que há tão poucas espécies em Lusitânia - a Descolada pode ser bem recente - só meio milhão de anos - e as espécies, em sua maioria, não puderam se adaptar.

     CIDA: Gostaria de não estarmos morrendo, Guto. O próximo xenobiólogo provavelmente vai trabalhar com adaptações genéticas normais e não vai seguir esse raciocínio.

     GUTO: Essa é a única razão que você pode pensar para lamentar a nossa morte?

   - Vladimir Tiago Gussman e Ekaterina Maria Aparecida do Norte von Hesse-Gussman, diálogo inédito inserido em "Notas de Trabalho", dois dias antes de suas mortes; citado pela primeira vez em "Fios Perdidos do Entendimento".

 

     Meta-Ciência, o Jornal da Metodologia

     201:12:12:144-45

    

   Ender só voltou da casa dos Ribeira tarde da noite, e passou mais de uma hora tentando entender bem tudo o que acontecera, especialmente depois que Novinha chegou. A despeito disto, acordou cedo na manhã seguinte, seus pensamentos já cheios de perguntas às quais tinha de responder. Era sempre assim que se preparava para Orar sobre uma morte; não conseguia descansar enquanto não conseguisse recompor a história de um morto como ele mesmo via e a vida que o morto quis viver, por mais frustrante que fosse. Dessa vez, porém, havia mais uma ansiedade. Importava-se mais com os vivos do que jamais antes.

   - Claro que você está envolvido - disse Jane, depois que ele tentou lhe explicar essa confusão. - Apaixonou-se por Novinha antes de sair de Trondheim.

   - Talvez eu tenha amado aquela menina, mas esta mulher é desagradável e egoísta. Veja só o que ela deixou acontecer com os filhos.

   - É esse o Orador dos Mortos? Julgando alguém pelas aparências?

   - Talvez eu tenha me apaixonado por Grego.

   - Você sempre fica caído por gente que mija em você.

   - E Quara - todos eles - até Miro; gostei do menino.

   - E eles amam você, Ender.

   Ele riu-se. - As pessoas sempre acham que me amam, até que eu começo a Orar. Novinha é mais perspicaz que a maioria - ela já me odeia antes que eu diga a verdade.

   - Você é tão cego a respeito de si mesmo quanto qualquer outro, Orador. Prometa-me que, quando você morrer, vai me deixar Orar por sua morte. O que eu tenho para dizer...

   - Guarde essas coisas para si, - comentou Ender, cansado. - Você é ainda pior do que eu neste negócio.

   Ele começou sua lista de questões a serem resolvidas:

  1. Por que Novinha se casou com Marcão, em primeiro lugar?
  2. Por que Marcão odiava os filhos?
  3. Por que Novinha odeia a si mesma?
  4. Por que Miro me chamou para Orar sobre a morte de Libo?
  5. Por que Ella me chamou para Orar sobre a morte de seu pai?
  6. Por que Novinha mudou de idéia sobre me chamar para Orar sobre a morte de Pipo?
  7. Qual a causa imediata da morte de Marcão?

   Parou aqui, na sétima pergunta. Seria fácil responder: meramente uma questão clínica. Então era por aqui que começaria.

   O médico que fez a autópsia de Marcão era apelidado de "Navio".

   - Não por causa de meu tamanho, - ele disse, rindo. - Ou porque nado bem. Meu nome completo é Enrique o Navegador Canhonada. Pode apostar que gostei que tirassem meu apelido de "navegador", ao invés de "canhãozinho". Aqui haveria muitas conotações obscenas.

   Ender não se deixou enganar por sua jovialidade. Navio era um bom católico e obedecia ao bispo tanto quanto qualquer um. Estava determinado a impedir que Ender soubesse de qualquer coisa, mesmo sem perder o bom humor.

   - Há duas maneiras pelas quais posso conseguir as respostas às minhas perguntas, - Ender disse calmamente. - Posso perguntar-lhe, e você pode responder-me sinceramente. Posso também apresentar um requerimento ao Congresso Estelar para que seus arquivos sejam abertos para mim. A taxa do ansible é alta, e como o requerimento é rotineiro, e sua resistência a ele é contrária à lei, o custo será deduzido dos fundos já limitados de sua Colônia, além de uma multa do dobro do custo e uma advertência.

   O sorriso de Navio desapareceu enquanto Ender falava. Respondeu friamente. - Claro, responderei às suas perguntas.

   - Não há "é claro". Seu bispo aconselhou o povo de Milagre a fazer um boicote injustificado e sem provocação de um ministro legalmente convocado. Você faria um favor a todo mundo se os informasse que se esta alegre não-cooperação continuar, vou requerer que minha condição seja mudada de ministro para inquisidor. Garanto-lhe que tenho uma excelente reputação junto ao Congresso Estelar e meu requerimento será deferido.

   Navio sabia exatamente o que isto queria dizer. Como inquisidor, Ender teria autoridade conferida pelo Congresso para revogar a licença católica da colônia, sob a acusação de perseguição religiosa. Causaria um tremendo abalo entre os lusitanos, pois só para começar o bispo seria sumariamente demovido de seu cargo e enviado ao Vaticano para ser disciplinado.

   - Por que faria uma coisa dessas, quando sabe que não o queremos aqui?

   - Alguém me quis aqui, ou eu não teria vindo. Você pode não gostar da lei quando ela o incomoda, mas protege muitos católicos em mundos onde outro credo é licenciado.

   Navio tamborilou com os dedos sobre a escrivaninha. - Quais são suas perguntas, Orador? Vamos acabar logo com isso.

   - É bem simples, pelo menos para começar. Qual foi a causa da morte de Marcos Maria Ribeira?

   - Marcão! - exclamou Navio. - Você não pode ter sido chamado para Orar pela sua morte! Ele morreu há apenas algumas semanas...

   - Fui chamado para Orar por várias mortes, Dom Navio, e escolhi começar com Marcão.

   Navio fez uma careta. - E se eu pedir uma prova de sua autoridade? Jane murmurou ao pé do ouvido de Ender: - Vamos ofuscar o rapaz.

   - De imediato, o terminal de Navio veio à vida com documentos oficiais, enquanto que uma das vozes mais cheias de autoridade de Jane declarava:

   - Andrew Wiggin, Orador dos Mortos, aceitou a chamada para uma explicação da vida e morte de Marcos Maria Ribeira, da cidade de Milagre, Colônia de Lusitânia.

   Mas não foi o documento que impressionou Navio. Foi o fato de que ele nem havia feito um pedido, nem registrara nada em seu terminal. Navio logo soube que o computador fora ativado pela jóia no ouvido do Orador, mas também significava que uma rotina de lógica de alto nível estava por detrás do Orador e ajudando o cumprimento de sua missão. Ninguém em Lusitânia, nem Bosquinha, jamais teve autoridade para fazer uma coisa dessas. Quem quer que fosse esse Orador, Navio concluiu, era um bocado maior do que o bispo Peregrino poderia engolir.

   - Está bem, - disse Navio, rindo forçadamente. Agora, parece que aprendera a ser jovial de novo. - Eu queria mesmo ajudá-lo - a paranóia do bispo não atinge a todos aqui em Milagre, você sabe.

   Ender devolveu-lhe o sorriso, aceitando a hipocrisia do outro.

   - Marcos Ribeira morreu de um defeito congênito. - e enunciou um longo nome em latim. - Você nunca ouviu falar disso, porque é uma doença rara, e passada apenas através dos genes. Começa com a puberdade, geralmente, envolvendo a gradual substituição dos tecidos glandulares exócrinos e endócrinos com células lipídicas. Isso significa que, pouco a pouco, com os anos, as glândulas adrenais, a pituitária, o fígado, os testículos, e tiróide, etc, são todos substituídos por grandes acúmulos de gordura.

   - É sempre fatal? Irreversível?

   - Sim, de fato, Marcão sobreviveu apenas mais dez anos além do usual. Seu caso foi notável sob diversos aspectos. Em todos os outros casos registrados - na verdade, não se sabe de muitos - a doença ataca os testículos primeiro, tornando a vítima estéril, e na maioria dos casos, impotente. Com seis filhos saudáveis, é óbvio que os testículos de Marcos Ribeira foram as últimas glândulas a serem afetadas. Uma vez atacados, entretanto, o progresso da doença foi incomumente rápido - os testículos foram totalmente substituídos por células gordurosas, mesmo com boa parte do fígado e tiróide ainda funcionando.

   - O que o matou no final?

   - A pituitária e as adrenais não estavam funcionando. Ele era um morto-vivo. Caiu num bar, no meio de uma canção indecente, segundo o que ouvi.

   Como sempre, a mente de Ender automaticamente localizou algumas contradições. - Como uma doença hereditária é transmitida se torna suas vítimas estéreis?

   - Usualmente, é passada pela linha colateral. Um filho vai morrer dela; os irmãos e irmãs não vão manifestar o mal, mas passam a tendência aos filhos deles. Naturalmente, receávamos que Marcão, tendo filhos, passaria o gene defeituoso a todos eles.

   - Você os examinou?

   - Nenhum deles tinha defeitos genéticos. Pode apostar que Dona Ivanova estava olhando sobre meu ombro todo o tempo. Concentramo-nos nos genes problemáticos e todas as crianças estavam isentas, bim, bim, bim, foi rápido.

   - Nenhum tinha? Nem um recessivo?

   - Graças a Deus! Quem iria se casar com eles se tivessem os genes envenenados? Aliás, nem sei como o defeito genético de Marcão passou despercebido.

   - Os exames genéticos são feitos rotineiramente aqui?

   - Não, de modo algum. Porém, tivemos uma grande praga há trinta anos. Os pais de Dona Ivanova, o Venerado Guto e a Venerada Cida, conduziram exames genéticos de todo homem, mulher e criança da colônia. Foi assim que descobriram a cura. E suas comparações por computador positivamente identificaram este defeito em particular - foi por isso que eu soube o que era, quando Marcão morreu. Nunca ouvi falar da doença, mas o computador tinha-a registrada.

   - E os Venerados não a descobriram?

   - Aparentemente, não, ou certamente contariam para o Marcos. Mesmo se não tivessem contado, Ivanova teria descoberto.

   - Talvez tenha.

   Navio riu alto. - Impossível. Nenhuma mulher em sã consciência jamais teria filhos com um homem com um defeito genético como esse. Marcão, com certeza, esteve numa agonia constante durante anos. Ninguém deseja isso para os filhos. Não, Ivanova pode ser excêntrica, mas não é louca.

   Jane ficou admirada. Quando Ender voltou para casa, ela fez sua própria imagem aparecer sobre o terminal para que ela pudesse dar uma boa risada.

   - Ele não pode evitar essa atitude, - disse Ender. - Numa devota colônia católica como esta, tratar com a bióloga, uma das pessoas mais respeitadas por aqui; é claro que ele nem questionaria suas premissas básicas.

   - Não se desculpe por ele. Não espero que wetware funcione tão bem quanto software, Mas não pode me pedir para não ficar abismada.

   - De certa forma, foi muito simpático da parte dele. Preferiu acreditar que a doença de Marcão era diferente de todos os outros casos registrados. Preferiu acreditar que, de alguma forma, os pais de Ivanova não perceberam que Marcos tinha a doença, e assim, casou-se com ele na ignorância, mesmo que a navalha de Occam exija que acreditemos na explicação mais simples: a doença de Marcão progrediu como em qualquer um, os testículos primeiro, e todos os filhos de Novinha foram gerados por outro. Não era de surpreender que fosse amargurado e revoltado. Cada um de seus seis filhos era um lembrete de que sua mulher estava dormindo com outro. Provavelmente, foi parte da barganha deles, no começo, que ela não lhe seria fiel. Mas seis crianças; era esfregar isso demais na cara dele.

   - As deliciosas contradições da vida religiosa, - falou Jane. - Ela deliberadamente quis cometer adultério - mas nem sonharia em usar um anticoncepcional.

   - Já investigou o padrão genético das crianças para descobrir o pai mais provável?

   - Quer dizer que não adivinhou?

   - Adivinhei, mas quero ter certeza que a evidência clínica não contrarie a resposta óbvia.

   - Foi Libo, claro. Que cachorro! Fez seis crianças em Novinha, e mais quatro em sua esposa.

   - O que não entendo - continuou Ender, - é por que Novinha não se casou com Libo, em primeiro lugar. Não faz sentido que ela tenha se casado com um homem que desprezava, de cuja doença ela sabia, e depois ter filhos do homem que sempre deve ter amado.

   - Distorcidos e perversos são os caminhos da mente humana, - recitou Jane. - Pinocchio foi um idiota ao tentar virar um menino de verdade. Foi muito melhor com uma cabeça de pau.

   Miro cuidadosamente media seus passos pela floresta. Reconhecia uma ou outra árvore, ou pensava que sim - nenhum humano teria o jeito dos porquinhos para dizer o nome de cada árvore da floresta. Mas também, os humanos não veneravam árvores como totens de seus ancestrais.

   Escolhera propositadamente um caminho mais comprido para chegar à cabana de troncos dos porquinhos. Desde que Libo aceitara Miro como segundo aprendiz, e trabalhar com ele junto com a filha dele, Uanda, ensinou-lhe que nunca deviam formar uma trilha que levasse de Milagre até a casa dos porquinhos. Algum dia, Libo advertiu-os, poderá haver problemas entre a humanidade e os porquinhos, e não vamos demarcar um caminho para dirigir uma deportação até o seu destino. De modo que hoje, Miro foi até o lado oposto do riacho, ao longo do alto da margem.

   Como era de esperar, um porquinho apareceu ao longe, observando-o. Era como Libo deduzira, há alguns anos, que as fêmeas deviam morar naquela direção; os machos sempre ficavam de olho nos xenadores quando chegavam muito perto. Como Libo insistira, Miro não devia fazer nenhum esforço para ir na direção proibida. Sua curiosidade era amortecida quando se lembrava do aspecto do corpo morto de Libo, quando ele e Uanda o descobriram. Libo ainda não estava bem morto; seus olhos estavam abertos e revirando. Só morreu quando ele e Uanda se ajoelharam a seu lado, cada um segurando uma mão coberta de sangue. Ah, Libo, o sangue ainda estava sendo bombeado, quando seu coração ficou exposto, dentro do peito. Se pudesse ter falado conosco uma só palavra que dissesse por que o mataram!

   A margem do rio ficou baixa de novo, e Miro cruzou o riacho correndo sobre as pedras cobertas de musgo. Mais alguns minutos e tinha chegado, chegando à pequena clareira, vindo do leste.

   Uanda já estava lá, ensinando-os a bater o creme de leite de cabra para fazer uma espécie de manteiga. Estivera experimentando o processo nas últimas semanas, antes que acertasse. Seria mais fácil se Mamãe pudesse ajudar, ou mesmo Ella, que sabiam muito mais sobre as propriedades químicas do leite de cabra, mas cooperar com uma bióloga estava fora de cogitação. Os Beatos descobriram, trinta anos antes, que o leite de cabra era nutricionalmente inútil para os humanos. Portanto, qualquer investigação sobre como processá-lo para armazenamento só poderia ser em benefício dos porquinhos. Miro e Uanda não podiam arriscar nada que indicasse estarem interferindo ativamente no estilo de vida dos porquinhos.

   Os porquinhos mais jovens passaram a fazer manteiga com grande alegria - bater com as bexigas de cabra se transformou numa dança, e agora estavam cantando uma música sem sentido, que misturava stark, português, e duas das línguas dos porquinhos, numa bagunça inextricável, mas muito engraçada. Miro tentou discernir as línguas. Reconheceu a Língua dos

   Machos, claro, e alguns fragmentos da Língua dos Pais, a língua em que conversavam com suas árvordes-totem: Miro reconhecia-a apenas pelo som. Mesmo Libo não conseguira traduzir uma só palavra dela. Tudo soava como m's e b's e g's, sem diferença que se pudesse perceber entre as vogais.

   O porquinho que seguira Miro na floresta apareceu agora e cumprimentou os outros com um ruidoso som de buzina. A dança continuou, mas a canção parou de imediato. Mandachuva destacou-se do grupo em torno de Uanda e foi ao encontro de Miro no limiar da clareira.

   - Bem-vindo, Olho-Para-Você-Com-Desejo. Isto era uma tradução extravagantemente precisa do nome de "Miro" em stark. Mandachuva adorava traduzir os nomes de e para português e stark, mesmo que tanto Miro quanto Uanda tivessem explicado que seus nomes realmente não significavam nada em particular, e que era apenas coincidência se soavam como outras palavras. Mas Mandachuva gostava desse jogo de palavras, como muitos outros porquinhos, e Miro atendia ao nome de Olho-Para-Você-Com-Desejo, assim como Uanda atendia pacientemente a "Vaga", "Onda", ou "wander", em português, a palavra do stark que soava mais como "Uanda".

   Mandachuva era um caso desconcertante. Era o mais velho dos porquinhos. Pipo já o conhecera, e escreveu sobre ele como se fosse os mais prestigioso dos porquinhos. Libo também parecia pensar nele como um líder. O nome dele não era um jargão português de "patrão"? Mas para Miro e Uanda, parecia que Mandachuva era o menos poderoso e prestigioso dos porquinhos. Ninguém parecia consultá-lo a respeito de nada; era sempre o que tinha tempo livre para conversar com os xenadores, porque quase nunca estava engajado em qualquer trabalho importante.

   Ainda assim, ele era o que dava mais informações aos xenadores. Miro não conseguia adivinhar se perdera o prestígio por transmitir informação, ou compartilhava informação com os humanos para compensar a falta de prestígio entre seus semelhantes. Não importava. O fato era que Miro gostava de Mandachuva. Via o velho porquinho como um amigo.

   - A mulher forçou-o a comer aquela pasta malcheirosa? - perguntou Miro.

   - Puro lixo, diz ela. Mesmo os filhotes das cabras reclamam quando têm de mamar naquela teta, - ria-se Mandachuva.

   - Se deixar isso como presente para as mulheres, elas nunca mais vão falar com vocês!

   - Mesmo assim, precisamos, precisamos, - respondeu Mandachuva, suspirando. - Elas precisam ver tudo, aqueles macios xeretas!

   Ah, sim, o tratamento que davam às fêmeas. Por vezes, os porquinhos falavam delas com um respeito sincero e elaborado, quase uma admiração como se elas fossem deusas. Depois, um porquinho dizia uma grosseria assim como compará-las aos macios, os vermes que rastejavam na casca das árvores. Os xenadores nem podiam perguntar sobre elas - os porquinhos jamais respondiam perguntas sobre as fêmeas. Houve um tempo - há muito - em que nem mencionavam a existência de fêmeas. Libo sempre sugeria obscuramente que a mudança teve algo a ver com a morte de Pipo. Antes de morrer, a menção das fêmeas era tabu, exceto com reverência e em momentos sagrados; depois, os porquinhos também mostravam essa maneira melancólica e brincalhona de fazer piadas sobre "as esposas". Mas os xenadores nunca conseguiam uma resposta a uma pergunta sobre as fêmeas. Os porquinhos deixavam bem claro que as fêmeas não eram de sua conta.

   Um assobio veio do grupo ao redor de Uanda. Mandachuva imediatamente começou a puxar Miro em direção ao grupo. - Flecha quer falar com você.

   Miro veio e sentou-se ao lado de Uanda. Esta não olhou para ele - havia muito que aprenderam que os porquinhos sentiam-se mal quando observavam o macho e a fêmea dos humanos conversando diretamente, ou sequer olhando um para o outro. Conversavam separadamente com Uanda, mas sempre que Miro estava presente, não conversavam com ela, nem suportavam que ela falasse com eles. Às vezes, Miro ficava louco porque ela não podia nem piscar para ele na frente dos porquinhos. Sentia o corpo dela como se emitisse o calor de uma pequena estrela.

   - Meu amigo, - disse Flecha. - Tenho um grande presente para pedir-lhe.

   Miro podia ouvir Uanda ficando ligeiramente mais tensa, ao lado. Os porquinhos raramente pediam algo, e sempre que o faziam, era algo que causaria dificuldades.

   - Vai me ouvir?

   Miro fez que sim. - Mas lembrem-se que entre os humanos eu sou um ninguém, sem poder. - Libo descobrira que os porquinhos de modo algum sentiam-se insultados em pensar que os humanos lhes enviavam delegados sem poder, enquanto que a imagem da impotência os ajudava a explicar as limitações estreitas do que os xenadores podiam fazer.

   - Não é um pedido que vem de nós, em nossas tolas conversas sem sentido ao pé do fogo, à noite.

   - Eu gostaria muito de ouvir a sabedoria que vocês chamam tolice, - respondeu Miro, como sempre.

   - Foi Fuçador, falando de sua árvore.

   Miro suspirou pacientemente. Ele não gostava nada de lidar com a religião dos porquinhos, como não gostava do catolicismo de sua gente. Em ambos os casos, tinha de fingir que aceitava as crenças mais ultrajantes a sério. Sempre que algo particularmente ousado ou inoportuno era dito, os porquinhos sempre o atribuíam a algum ancestral, cujo espírito residia nas onipresentes árvores. Só nos últimos anos, começando pouco antes da morte de Libo, que começaram a destacar Fuçador como a fonte da maioria das idéias perturbadoras. Era irônico que um porquinho executado como rebelde agora fosse tratado com tamanho respeito em seu culto ao ancestral. Ainda assim, Miro respondeu como Libo sempre respondera: - A única coisa que temos por Fuçador é honra e afeição, se vocês o honram.

   - Precisamos ter metais.

   Miro fechou os olhos. Grande coisa a política permanente dos xenadores de nunca usar ferramentas de metal na frente dos porquinhos. Obviamente, estes tinham seus observadores, espionando os humanos a trabalhar, a partir de alguma elevação perto da cerca. - Para que precisam de metal?

   - Quando o ônibus espacial desceu com o Orador dos Mortos, lançou um calor terrível, mais quente que qualquer fogo que sabemos fazer. Mas o ônibus espacial não queimou, nem derreteu.

   - Não era metal, era um escudo plástico de absorção de calor.

   - Talvez isso ajude, mas o metal está no coração daquela máquina. Em todas as suas máquinas, onde quer que usem o fogo e o calor para fazer as coisas se mover, há metal. Nunca poderemos fazer fogos como os seus, senão quando tivermos o nosso próprio metal.

   - Não posso.

   - Está nos dizendo que estamos condenados a ser sempre varelse, e nunca rameni.

   Eu gostaria muito, Uanda, que você não tivesse explicado a Hierarquia de Exclusão de Demóstenes para eles. - Vocês não estão condenados a nada. O que lhes demos até agora, fizemos com coisas que crescem naturalmente no seu mundo, como as cabras. Mesmo isso, se fosse descoberto, faria com que fôssemos exilados deste mundo, proibidos para sempre de vê-los novamente.

   - O metal que vocês, humanos, usam também vem da nossa natureza. Vimos os seus mineiros escavando-o do chão, longe, ao sul daqui.

   Miro memorizou esta pequena informação para futura referência. Não havia ponto elevado fora da cerca onde as minas poderiam ser visíveis. Portanto, os porquinhos de algum modo atravessaram a cerca e observaram os humanos de dentro do enclave. - Ele sai do chão, mas só em certos lugares, que eu não sei como encontrar. Mesmo quando eles são escavados, vêm misturados com outros tipos de pedra. Precisam ser purificados e transformados, em processos muito difíceis. Cada pedacinho de metal cavado do chão é contado. Se nós lhes déssemos uma só ferramenta - uma chave de fenda, ou uma serra - a falta seria notada, ela seria procurada. Mas ninguém dá pela falta de leite de cabra.

   Flecha encarou-o por algum tempo, e Miro sustentou o olhar.

   - Vamos pensar nisso, - disse Flecha, por fim. Estendeu a mão para Calendário, que colocou nela três flechas. - Olhe. Estas estão boas?

   Estavam perfeitas, como toda flecha feita por Flecha, com boa empenagem e bem retas. A inovação estava na ponta. Não era feita de obsidiana.

   - Osso de cabra, - disse Miro.

   - Usamos a cabra para matar a cabra. - Devolveu as flechas para Calendário. Então levantou e foi-se.

   Calendário segurava as esguias flechas na sua frente e cantava alguma coisa na Língua dos Pais. Miro reconheceu a canção, mesmo que não entendesse as palavras. Mandachuva, em certa ocasião, explicara-lhe que era uma oração, pedindo à árvore morta que os perdoasse por usar instrumentos que não eram feitos de madeira. Caso contrário, dizia, as árvores pensariam que os pequeninos as odiavam. Religião, suspirou Miro.

   Calendário levou as flechas embora. Então, o jovem porquinho chamado Humano tomou seu lugar, agachando-se na frente de Miro. Levava um embrulho, que pousou no chão e abriu cuidadosamente.

   Era o exemplar impresso d'A Rainha da Colméia e o Hegêmona, que Miro lhes presenteara quatro anos antes. Foi parte de uma pequena briga entre Miro e Uanda. Uanda foi quem começou, numa conversa com os porquinhos sobre religião. Não foi mesmo culpa dela. Começou quando Mandachuva perguntou-lhe: - Como vocês, humanos, vivem sem árvores? - Ela entendeu a pergunta, claro, ele não estava falando das plantas, mas de deuses. - Nós temos um Deus, também - um homem que morreu, mas que ainda vive, - explicou. Só um? Então, onde ele vive agora? - Ninguém sabe. - Então, para que ele serve? Como podem falar com ele? - Ele mora em nossas corações.

   Eles ficaram completamente desconcertados; Libo riu e disse: - Está vendo? Para eles, nossa sofisticada teologia soa como superstição. Mora em nossos corações, de fato! Que tipo de religião é essa, em comparação com uma em que se pode ver e sentir os deuses...

   - E subir neles, e tirar macios deles, para não falar no fato de que podem abater alguns para fazer suas cabanas de troncos.'

   - Abater? Sem instrumentos de metal ou de pedra? Não, Uanda, eles rezam para que caiam. - Mas Uanda não gostava nada de piadas sobre religião.

   A pedido dos porquinhos, Uanda mais tarde trouxe-lhes um exemplar impresso do Evangelho de São João, da paráfrase simplificada em stark da

   Bíblia de Duai. Mas Miro insistiu em dar-lhes, juntamente com isto, um exemplar de a Rainha da Colméia e o Hegêmona. - São João nada diz sobre seres que vivem em outros planetas, - Miro apontou, - Mas o Orador dos Mortos explica insecta para humanos - e humanos para insecta. - Uanda sentiu-se ofendida com esta blasfêmia. Mas em menos de um ano descobriram os porquinhos acendendo as fogueiras com as páginas de São João, enquanto que a Rainha da Colméia e o Hegêmona estavam cuidadosamente embrulhados em folhas. Causou muita dor a Uanda, por algum tempo, e Miro percebeu que era melhor não brincar com ela a respeito do acontecido.

   Agora, Humano abria o exemplar na última página. Miro notou que, no momento em que ele abriu o livro, todos os porquinhos se reuniram em volta, em silêncio. A dança para bater a manteiga parou. Humano tocou as últimas palavras do livro. - O Orador dos Mortos, - murmurou.

   - Sim, encontrei-me com ele na noite passada.

   - Ele é o verdadeiro Orador. É o que diz o Fuçador. - Miro explicara-lhes que havia muitos Oradores, e que o autor daquele livro com certeza estava morto. Aparentemente, ainda não conseguiam se livrar da esperança de que o que viera para cá fosse o verdadeiro, o que escrevera o livro sagrado.

   - Creio que ele é um bom Orador, - disse Miro. - Foi muito bom para com minha família, e acho que podemos confiar nele.

   - Quando ele virá Orar para nós?

   - Ainda não lhe pedi. Não é uma coisa que eu possa dizer desde já. Vai levar algum tempo.

   Humano inclinou a cabeça para trás e uivou.

   "Será que agora é que vou morrer?"

   Mas não. Os outros tocaram Humano suavemente e ajudaram-no a embrulhar o livro de novo e levar embora. Miro levantou-se para partir. Nenhum dos porquinho ficou para assistir a sua saída. Sem fazer ostentação, todos estavam ocupados com alguma coisa. Os seres humanos pareciam invisíveis para eles.

   Uanda alcançou-o nos limites da floresta, onde o matagal tornava-os invisíveis a quaisquer possíveis observadores de Milagre - se bem que ninguém se importava em lançar um olhar sequer na direção da floresta. - Miro, - ela chamou baixinho. Ele virou-se apenas a tempo de tomá-la nos braços; ela estava com tamanho impulso que ele deu alguns passos para trás, para não cair. - Está tentando me matar? - perguntou, ou ao menos tentou - e ela continuou a beijá-lo, o que tornava difícil falar sentenças inteiras. Por fim, ele desistiu de falar e devolveu-lhe um beijo, longo e profundo. Então, ela abruptamente se separou.

   - Você está ficando libidinoso, - disse ela.

   - Sempre acontece quando as mulheres me atacam e me beijam no meio do mato.

   - Esfrie essas calças, Miro, ainda vai demorar muito. - Puxou-o pelo cinto, beijou de novo. - Ainda mais dois anos até que possamos casar sem a autorização de sua mãe.

   Miro nem tentou argumentar. Não se importava muito com a proscrição religiosa da fornicação, mas entendia como era importante numa comunidade frágil como Milagre, que os costumes de casamento fossem estritamente respeitados. Comunidades grandes e estáveis podiam absorver uma quantidade considerável de acasalamentos não-sancionados, mas Milagre era um lugar muito pequeno. O que Uanda fazia por sua fé, Miro fazia por racionalidade - a despeito de mil oportunidades, eram celibatários como monges. Se bem que se Miro soubesse que precisariam viver com os mesmos votos de castidade no casamento que eram exigidos no mosteiro dos Filhos, a virgindade de Uanda estaria em grave e imediato perigo.

   - Esse Orador, - disse Uanda, - você sabe como me sinto sobre trazê-lo para cá.

   - Isso é seu catolicismo falando, não sua mente racional. Tentou beijá-la mais uma vez, mas ela baixou o rosto no último instante, e ele abocanhou o nariz dela. Beijou o nariz apaixonadamente, até que ela riu e o empurrou para longe.

   - Você é sujo e ofensivo, Miro, - Ela limpava o nariz na manga. - Já mandamos o método científico pro inferno quando começamos a ajudá-los a elevar seu padrão de vida. Temos dez ou vinte anos antes que os satélites comecem a mostrar os resultados óbvios. Então talvez possamos causar uma diferença permanente. Mas não temos chance se deixarmos um estranho entrar no projeto. Ele vai contar a alguém.

   - Talvez sim, talvez não. Certa feita, eu também fui um estranho, sabe?

   - Estranho, mas não estrangeiro.

   - Precisava vê-lo na noite passada, Uanda. Com Grego, primeiro, depois quando Quara acordou chorando...

   - Crianças solitárias e desesperadas, o que isso prova?

   - E Ella. Rindo. E Olhado, realmente tomando parte da família.

   - Quim?

   - Pelo menos parou de gritar que o infiel voltasse para sua casa.

   - Gostei de saber sobre sua família, Miro. Espero que ele possa curá-los para sempre. Quero mesmo - posso perceber a diferença em você, está esperançoso como não o via há muito tempo. Mas não o traga aqui.

   Miro mordeu sua bochecha por dentro, por um momento, depois afastou-se. Uanda correu atrás dele, apanhou-o pelo braço. Estavam em campo aberto, mas a árvore de Fuçador estava entre eles e o portão. - Não me deixe assim! - ela disse em voz alta. - Não vá embora assim!

   - Sei que você tem razão, mas não posso evitar de dar minha opinião. Quando ele esteve em nossa casa, foi como - como se Libo estivesse ali.

   - Papai odiava sua mãe, Miro - nunca teria ido lá.

   - Mas e se tivesse ido? Em nossa casa, o tal Orador era do jeito que sempre era no escritório. Não percebe?

   - E você não percebe? Ele entra e age da maneira como seu pai deveria ter feito, mas nunca fez, e cada um de vocês rola no chão, com a barriguinha para cima, como um cachorrinho.

   O desprezo em sua face era enfurecedor. Miro tinha vontade de bater nela. Ao invés, ele avançou e deu um tapa na árvore de Fuçador. Em apenas um quarto de século, crescera até quase oitenta centímetros de diâmetro, e a casca era áspera e doía contra sua mão.

   Ela aproximou-se por detrás. - Lamento, Miro, eu não queria...

   - Você queria, sim, mas foi estúpido e egoísta...

   - Sim, foi, eu...

   - Só porque meu pai era um joão ninguém não quer dizer que eu fique de barriguinha para cima para o primeiro homem bom que acaricia minha cabeça...

   A mão dela acariciou-lhe o cabelo, os ombros, a cintura. - Eu sei, eu sei, eu sei...

   - Porque sei como é um homem bom - não apenas um pai, um homem bom mesmo. Eu conheci Libo, não é? E quando lhe digo que esse Orador, Andrew Wiggin, é como Libo, então ouça-me e não despreze o assunto como se fosse um cão latindo!

   - Estou ouvindo; gostaria de conhecer esse homem, Miro.

   Miro ficou surpreso. Estava chorando. Era tudo parte do que esse Orador podia fazer, mesmo sem que estivesse presente. Afrouxara tudo o que estava apertado no seu coração, e agora Miro não conseguia se impedir de exteriorizar tudo.

   - Você tem razão, - disse Miro, baixinho, a voz distorcida pela emoção. - Eu o vi chegar com seu toque de cura e pensei: se ele tivesse sido meu pai... - Voltou-se para Uanda, sem se importar que ela visse seus olhos vermelhos e o rosto riscado pelas lágrimas. - Do jeito que eu dizia, todos os dias em que ia para casa, saindo do escritório do xenador. Se Libo fosse meu pai; se eu fosse seu filho...

   Ela sorriu e segurou-o; o cabelo dela removeu as lágrimas do rosto dele. - Ah, Miro, ainda bem que ele não era seu pai. Porque então eu seria sua irmã, e eu nunca teria esperança de ter você só para mim.

  

                    Filhos da Mente

    

     1a Regra:

     Todos os Filhos da Mente de Cristo devem ser casados ou não poderão pertencer à ordem; mas precisam ser castos.

  

     1a Pergunta:

     Por que o casamento é necessário para qualquer um?

  

     Os insensatos perguntam: por que devemos casar? O amor é o único vínculo que minha namorada e eu precisamos. A estes eu respondo: o casamento não é um acordo entre um homem e uma mulher; até os animais unem-se e produzem sua prole. O casamento é um acordo entre um homem e uma mulher de um lado, e sua comunidade do outro. Casar de acordo com a lei da comunidade é tornar-se plenamente cidadão; recusar o casamento é tornar-se um estranho, uma criança, um fora-da-lei, um escravo ou um traidor. A constante em toda sociedade humana é que apenas os que obedecem às leis, tabus e costumes do casamento são verdadeiros adultos.

    

     2a Pergunta:

     Então por que o celibato é imposto aos padres e freiras?

  

     Para separá-los da comunidade. Os padres e freiras são servidores, não cidadãos. Ministram para a Igreja, mas não são a Igreja. A Santa Mãe Igreja é a noiva, e Cristo é o noivo; os padres e freiras são meramente convidados para o casamento, pois rejeitaram a cidadania na comunidade de Cristo, para servi-Lo.

  

   3a Pergunta:

     Por que esses Filhos da Mente de Cristo se casam? Também não servimos à Igreja?

  

     Não servimos à Igreja, exceto da maneira como todo homem e mulher a serve, através de seu casamento. A diferença é que eles passam seus genes para a geração seguinte, e nós passamos o nosso conhecimento; o legado deles é encontrado nas moléculas genéticas das gerações futuras, enquanto que nós vivemos nas mentes delas. As memórias são os frutos de nossos casamentos, e não valem nem mais nem menos que os filhos de carne e osso concebidos no amor sacramental.

  

     Santo Ângelo, Regra e Catecismo

     da Ordem dos Filhos da Mente de Cristo

     1511:11:11:1

  

  

   O vigário da catedral levava consigo o silêncio de capelas penumbrosas e paredes altas e maciças onde quer que fosse: quando entrava numa sala de aula, uma paz pesada caía sobre os alunos, e mesmo sua respiração era controlada, enquanto ele silenciosamente deslizava na frente da classe.

   - Dom Cristão, - murmurou o vigário, - O bispo precisa conferenciar com o senhor.

   Os alunos, na maioria adolescentes, não eram tão jovens a ponto de não saber das relações tensas entre a hierarquia da Igreja e os monges um tanto independentes que dirigiam a maioria das escolas católicas nos Cem Planetas. Dom Cristão, além de ser excelente professor de história, geologia, arqueologia e antropologia, era também abade do mosteiro dos Filhos da Mente de Cristo.

   Sua posição tornava-o o principal rival do bispo pela supremacia espiritual em Lusitânia. Sob alguns aspectos, podia mesmo ser considerado em posição superior à do bispo; na maioria dos planetas, havia apenas um abade dos Filhos para cada arcebispado, ao passo que para cada bispo havia um diretor de escola.

   Mas Dom Cristão, como todos os Filhos, fazia questão de respeitar inteiramente a hierarquia da Igreja. À convocação do bispo, interrompeu sua preleção imediatamente e dispensou os alunos, sem sequer completar o assunto em discussão. Seus alunos não ficaram surpresos; sabiam que ele faria o mesmo se qualquer padre interrompesse a aula. Claro, era muito lisonjeiro para o clero constatar como ele era importante aos olhos dos Filhos; mas também deixava bem claro para ele que, a qualquer momento em que visitassem a escola no horário de aula, as lições seriam sempre interrompidas. Em virtude disso, os padres raramente visitavam a escola, e os Filhos, através de uma extrema deferência, conservavam uma quase completa independência.

   Dom Cristão fazia uma idéia do porquê da convocação do bispo. O Dr. Navio era um homem indiscreto, e rumores diziam, por toda a manhã, de uma temível ameaça do Orador dos Mortos. Era difícil para Dom Cristão enfrentar os temores infundados do clero sempre que se confrontavam com infiéis e hereges. O bispo devia estar furioso, o que significava exigir uma atitude de alguém, mesmo que o melhor curso de ação, como sempre, fosse a inação, paciência, cooperação. Além do mais, espalhara-se a notícia que esse Orador em particular fora o que Orou pela morte de Santo Ângelo em pessoa. Se assim fosse, provavelmente não era inimigo nenhum, mas um amigo da Igreja. Ou pelo menos, um amigo dos Filhos, que na mente de Dom Cristão, dava na mesma.

 Enquanto seguia o silencioso vigário por entre os prédios da faculdade e pelo jardim da catedral, varreu toda raiva e contrariedade que tinha no coração. Repetia constantemente o lema de sua ordem: "Amai a todo o mundo para que Deus vos ame". Escolhera o nome cuidadosamente quando ele e sua noiva juntaram-se à Ordem, pois sabia que sua maior fraqueza era a raiva e impaciência com a estupidez. Como todos os Filhos, escolheu para si um nome que era a invocação contra seu pecado mais forte. Era uma das maneiras com se despiam espiritualmente perante o mundo. Não vamos nos vestir de hipocrisia, ensinava Santo Ângelo. Cristo vai vestir-nos de virtudes como os lírios do campo, mas não vamos fazer força para parecermos virtuosos. Dom Cristão sentia sua virtude muito gasta em certos pontos hoje; o frio vento da impaciência poderia congelá-lo até os ossos. Então, silenciosamente repetia seu nome, pensando: o bispo Peregrino é um maldito idiota, mas amai a todo o mundo para que Deus vos ame.

   - Irmão Amai, - cumprimentou-o o bispo Peregrino. Ele nunca usava o título honorífico "Dom Cristão", mesmo que alguns cardeais já tivessem feito uma tal concessão, - foi muito bom o senhor ter vindo.

   Navio já estava instalado na poltrona mais macia, mas Dom Cristão não o perdoou por isso. A indolência tornou-o gordo, e sua gordura agora tornava-o indolente, era um círculo vicioso, alimentando-se de si mesmo, e Dom Cristão dava graças a Deus por não sofrer disso. Escolheu para si um banco alto, sem encosto. Evitaria que seu corpo relaxasse, e isto ajudaria sua mente a ficar alerta.

   Navio quase de imediato lançou-se a um relato de seu doloroso encontro com o Orador dos Mortos, completo, com minuciosas explicações do que o Orador ameaçara fazer se a não-cooperação continuasse. - Um inquisidor, imagine só! Um infiel atrevendo-se a suplantar a autoridade da Mãe Igreja!

   - Ah, sim, como os leigos abraçam o espírito da Cruzada quando a Mãe Igreja é ameaçada - mas peçam-lhes para assistir à missa uma vez por semana, e o espírito das Cruzadas se encolhe e vai dormir.

   As palavras de Navio surtiram o seu efeito. O bispo Peregrino foi ficando cada vez mais zangado, o rosto assumindo um tom rosado, sob o marrom de sua pele. Quando o relatório de Navio terminou, Peregrino voltou-se para Dom Cristão; o rosto, uma máscara de fúria: - E agora, o que me dizes, irmão Amai?

   "Eu diria, se fosse menos discreto, que você é um idiota, querendo interferir com o Orador, sabendo que a lei está do lado dele, e quando ele não fez nada que nos prejudicasse. Agora, ele foi provocado, e isso é muito mais perigoso do que se você simplesmente tivesse ignorado a sua chegada."

   Dom Cristão sorriu de leve e inclinou a cabeça. - Acho que devemos atacar primeiro para eliminar o poder que ele tem de nos ferir.

   Palavras de tamanha militância tomaram bispo Peregrino de surpresa.

   - Exatamente. Mas nunca esperei que o senhor entendesse isso.

   - Os Filhos são tão ardorosos como qualquer cristão não-ordenado poderia ser. Mas como não somos padres, precisamos recorrer à razão e à lógica como pobres substitutos da autoridade.

   O bispo Peregrino suspeitava de ironia, de tempos em tempos, mas nunca era capaz de localizá-la precisamente. Resmungou, e estreitou os olhos. - Então, irmão Amai, como propõe atacá-lo?

   - Bem, pai Peregrino, a lei é bem explícita. Ele tem poder sobre nós só se interferirmos com o desempenho do ministério dele. Se quisermos despojá-lo do poder de nos ferir, meramente cooperemos com ele.

   O bispo rugiu e socou a mesa à sua frente. - O tipo de sofisma que deveria esperar de você, Amai!

   Dom Cristão sorriu, - Realmente, não há alternativa - ou respondemos às suas perguntas, ou ele requer, com toda justiça, condição de inquisidor, e o senhor embarca numa nave rumo ao Vaticano, para responder a uma acusação de perseguição religiosa. Nós gostamos demais do senhor, bispo Peregrino, para fazer qualquer coisa que o demova de seu ofício.

   - Sim, sei muito bem como gostam de mim...

   - Os Oradores dos Mortos são bastante inofensivos: não estabeleceram organizações rivais, não dão sacramentos, nem alegam que a Rainha da Colméia e o Hegêmona são obras de inspiração divina. A única coisa que fazem é tentar descobrir a verdade sobre a vida dos que morreram, e depois contam a todos que quiserem ouvir a biografia de um morto, como este realmente quis viver a vida.

   - E você acha isso inofensivo?

   - Ao contrário. Santo Ângelo fundou nossa ordem precisamente porque dizer a verdade é um ato poderoso. Mas acho que é muito mais inofensivo do que, digamos, a Reforma Protestante. A revogação de nossa Licença Católica com base em perseguição religiosa garantiria a autorização imediata da imigração não-católica, de modo que não representaríamos mais que um terço da população.

   O bispo Peregrino mexia com seu anel. - Mas será que o Congresso Estelar daria mesmo a autorização? Eles têm um limite fixo para o tamanho desta colônia - trazer tantos infiéis o excederia em muito.

   - Mas o senhor deveria saber que eles já previram isso. Por que acha que há duas naves estelares estacionadas em órbita de nosso planeta? Como urna Licença Católica permite um irrestrito crescimento populacional, simplesmente levarão embora nosso excesso de população, numa emigração forçada. Esperam ter de fazer isso em mais uma ou duas gerações - o que os impediria de fazer isso agora?

   - Não fariam uma coisa dessa.

   - O Congresso Estelar foi fundado para impedir Jihads e Pogroms que estavam sempre acontecendo em uma dúzia de lugares, todo o tempo. Invocar as leis sobre perseguição religiosa é assunto sério.

   - Completamente impertinente! Um Orador dos Mortos é chamado por algum herege meio louco e, de repente, damos com uma emigração forçada!

   - Amado pai, sempre foi assim que aconteceu nos choques entre a autoridade secular e a religiosa. Devemos ser pacientes, mesmo que não haja outra razão senão: eles é que têm as armas.

   Navio deu uma risadinha.

   - Eles podem ter as armas, mas não as chaves do céu e do inferno, - retrucou o bispo.

   - E tenho certeza de que metade do Congresso Estelar já estremece de antecipação. Entrementes, talvez eu possa ajudar a aliviar a dor deste momento difícil. Em vez do senhor ter de se retratar publicamente de suas declarações anteriores - ("suas estúpidas, destrutivas e tendenciosas declarações") - anuncie que instruiu os Filhos da Mente de Cristo a suportar o pesado encargo de responder às perguntas desse infiel...

   - Talvez o senhor não saiba todas as respostas que ele quer, - alegou Navio.

   - Mas podemos descobrir as respostas por ele, não é mesmo? Talvez deste modo o povo de Milagre nunca terá de responder ao Orador diretamente; ao invés, vão falar apenas com inofensivos irmãos e irmãs de nossa ordem.

   - Em outras palavras, - concluiu Peregrino, secamente, - os monges da sua ordem tornar-se-ão servidores do infiel.

   Dom Cristão silenciosamente repetiu seu nome por três vezes.

   Desde criança, na vida militar, Ender nunca se sentira tão claramente em território inimigo. O caminho morro acima, a partir da praça, estava gasto pelos pés de muitos devotos, e a cúpula da catedral era tão grande que só por alguns momentos, na ladeira mais íngreme, era visível por todo o caminho de subida. A escola primária estava à sua esquerda, construída em patamares contra a encosta; à direita, a Vila dos Professores que, apesar do nome, era habitada pelos vigias, faxineiros, funcionários, bedéis, e que tais. Os professores avistados por Ender vestiam todos o uniforme cinza dos Filhos,e o examinavam com curiosidade à sua passagem.

   A hostilidade começou quando chegou ao topo do morro, um terreno amplo e plano de gramado e jardim impecavelmente cuidado, com minério triturado da fundição, formando os caminhos. Este é o mundo da Igreja, pensou Ender, tudo no seu lugar, e nenhuma erva daninha. Tinha consciência de toda aquela gente de olho nele, mas agora os hábitos eram pretos ou laranjas, padres e diáconos, olhares agressivos da autoridade ameaçada. O que estou roubando de vocês, ao vir aqui? Era o que Ender lhes perguntava silenciosamente. Mas sabia que o ódio deles não era sem fundamento. Ele era uma erva daninha crescendo num jardim bem-cuidado; onde quer que pisasse, ameaçava com a desordem, e muitas belas flores morreriam se ele se enraizasse e tirasse a vida de seu solo.

   Jane conversava amigavelmente com ele, tentando provocá-lo a responder-lhe, mas Ender recusava-se a cair nesse jogo. Os padres veriam seus lábios mover-se, e havia uma considerável facção na Igreja que via implantes como a jóia em seu ouvido como um sacrilégio, uma tentativa de aperfeiçoar um corpo que Deus criara perfeito.

   - Quantos padres esta comunidade pode sustentar, Ender? - ela perguntou, fingindo admiração.

   Ender gostaria de ter respondido que ela já possuía o número exato deles em seus arquivos. Um dos prazeres dela era dizer coisas impertinentes quando ele não estava em condições de responder, ou sequer admitir em público que ela falava ao seu ouvido.

   - Zangões que nunca se reproduzem. Se não copulam, a evolução não pede que morram? - Claro que ela sabia que os padres faziam a maior parte do serviço público e administrativo da comunidade. Ender compunha as respostas para ela como se as dissesse em voz alta. Se os padres não estivessem aqui, o governo, as empresas ou corporações, ou qualquer outro grupo se expandiria e assumiria o encargo. Alguma hierarquia rígida sempre emergia como a força conservadora em uma comunidade, conservando sua identidade a despeito das constantes variações e mudanças que sofresse. Se não houvesse um poderoso advogado da ortodoxia, a comunidade inevitavelmente se desintegraria. Uma ortodoxia muito forte incomoda, mas é essencial para a comunidade. Valentine não escrevera sobre isto em seu livro sobre Zanzibar? Comparou a classe sacerdotal ao esqueleto dos vertebrados...

   Só para mostrar que sabia antecipar sua argumentação mesmo quando ele não podia enunciá-la, ela falou com a voz de Valentine, que obviamente tinha armazenada para atormentá-lo: - Os ossos são duros, e por si sós, parecem mortos e feitos de pedra, mas enraizando-se e apoiando-se contra o esqueleto, o resto do corpo executa todos os movimentos da vida.

   O som da voz de Valentine feriu-o mais do que esperava; certamente mais do que Jane pretendia. Seu passo reduziu-se. Percebeu que era a ausência dela que o tornava tão sensível à hostilidade dos padres. Tinha cortado a juba do leão calvinista no seu covil, caminhara filosoficamente nu sobre as brasas acesas do Islã, e fanáticos xintoístas cantarolaram ameaças de morte à sua janela em Kyoto. Mas Valentine sempre estivera por perto - na mesma cidade, respirando o mesmo ar, afetada pelo mesmo clima. Dizia-lhe palavras de encorajamento, quando saía; voltaria dos confrontos e a conversa dela derivava sensatez até mesmo dos seus fracassos, dando-lhe farrapos de triunfo, mesmo em meio às suas derrotas. Eu a deixara há menos de dez anos, e agora já sinto saudades.

   - Para a esquerda, eu acho, - disse Jane. Felizmente, estava usando sua voz, agora. - O mosteiro está na borda oeste do morro, dando para o escritório do xenador.

   Passou pela faculdade, onde alunos a partir de doze anos faziam estudos superiores. Ali adiante, rente ao chão, o mosteiro esperava. Sorriu para o contraste entre a catedral e o mosteiro. Os Filhos eram quase ofensivos em sua rejeição da magnificência. Não era de surpreender que a hierarquia se ressentisse contra eles, onde quer que fossem. Mesmo o jardim do mosteiro era uma declaração de rebeldia - tudo o que não era horta era abandonado às ervas daninhas e mato cerrado.

   O abade era chamado "Dom Cristão", é claro; e seria "Dona Cristã", se fosse uma abadessa. Neste lugar, como havia uma só escola primária e uma faculdade, só havia um diretor; com uma elegante simplicidade, o marido dirigia o mosteiro e sua esposa, as escolas, enfeixando todos os negócios da ordem num só casamento. Ender dissera a Santo Ângelo, desde o início, que isso era o cúmulo da pretensão, e não da humildade, que os chefes dos mosteiros e escolas fossem chamados assim, arrogando-se um título que deveria pertencer a todo seguidor de Cristo, imparcialmente. Santo Ângelo apenas sorrira - porque, é claro, era precisamente isso o que tinha em mente. Arrogante em sua humildade, eis o que era, e era uma das razões porque o admirava.

   Dom Cristão saiu para o jardim para cumprimentá-lo, ao invés de esperar por sua chegada, em seu escritório - parte da disciplina da ordem era causar inconveniências deliberadamente para si mesmo, em benefício daqueles a quem se deveria servir. - Orador Andrew! - Dom Ceifeiro! Ender devolveu-lhe. Ceifeiro era o título da ordem para o ofício de abade; os diretores das escolas eram chamados de Aradores, e os monges professores eram chamados de Semeadores.

   O Ceifeiro sorriu perante a rejeição, pelo Orador, de seu título comum, de Dom Cristão. Sabia como era manipulativo esperar que os outros chamassem os Filhos por seus títulos e nomes de adoção. Como disse Santo Ângelo: - quando os chamarem por seus títulos, admitam que são cristãos; quando os chamarem por seus nomes, um sermão virá dos lábios deles. - Abraçou Ender pelos ombros, sorriu e disse: - Sim, sou o Ceifeiro. E o que você é para nós: uma infestação, ou erva daninha?

   - Tento ser uma praga, onde quer que eu vá.

   - Cuide-se, então, ou o Senhor da Colheita vai queimá-lo junto com o joio.

   - Eu sei, a danação está logo ali, e não há esperança de fazer-me arrepender.

   - Os padres é que praticam o arrependimento. Nosso trabalho é ensinar a mente. Foi bom que você viesse.

   - Foi bom que você me convidasse para vir aqui. Fui reduzido à mais rude intimidação para fazer alguém conversar comigo.

   O Ceifeiro entendeu, claro, que o Orador sabia que o convite viera só por causa de sua ameaça de inquisição. Mas o irmão Amai preferia manter a conversa em tom alegre. - Mas diga, é verdade que conheceu Santo Ângelo? Você foi quem Orou pela morte dele?

   Ender apontou as ervas altas sobre o muro do jardim. - Ele teria aprovado o desarranjo de seu jardim. Gostava de provocar o cardeal Áquila e, sem dúvida, o bispo Peregrino torce o nariz de repugnância contra esse desmazelo.

   Dom Cristão piscou. - Você conhece muitos dos nossos segredos. Se o ajudarmos a descobrir as respostas para nossas perguntas, irá embora?

   - Há uma esperança disso. O período mais longo que fiquei em algum lugar, desde que comecei a servir como Orador, foi o ano e meio que vivi em Reykjavik, em Trondheim.

   - Gostaria que nos prometesse a mesma brevidade aqui. Peço, não por mim mesmo, mas pela paz de espírito daqueles que vestem hábitos muito mais pesados do que o meu.

   Ender deu a única resposta sincera que poderia ajudar a tranqüilizar o bispo. - Prometo que se encontrar um lugar onde me estabelecer, renunciarei a meu título de Orador e tornar-me-ei um cidadão produtivo.

   - Num lugar como este, isso incluiria uma conversão ao catolicismo.

   - Santo Ângelo fez-me prometer, há muitos anos, que se eu algum dia tivesse uma religião, que fosse esta.

   - De alguma maneira, isso não soa como um sincero protesto de fé.

   - Isso é porque não tenho nenhuma.

   O Ceifeiro riu, como se já soubesse de tudo, e insistiu em mostrar a Ender o mosteiro e as escolas, antes de chegar às perguntas. Ender não se importava - queria mesmo ver aonde tinham chegado as idéias de Santo Ângelo séculos após sua morte. As escolas pareciam bastante agradáveis, e a qualidade do ensino era elevada; mas já era noite, antes de o Ceifeiro levá-lo de volta ao mosteiro e à pequena cela que ele e sua mulher, a Aradora, compartilhavam.

   Dona Cristã já estava lá, redigindo uma série de exercícios de gramática no terminal, entre as camas. Esperaram até que ela fizesse uma pausa.

   O Ceifeiro apresentou-o como Orador Andrew. - Mas ele acha difícil chamar-me de Dom Cristão.

   - O bispo também, - respondeu a mulher. - Meu nome é Detestai o Pecado e Fazei o Direito. O nome de meu marido presta-se a uma adorável abreviação: Amai. Mas o meu? Pode imaginar alguém me cumprimentando: Oi, Detestai! - Todos riram. - Amor e Ódio: é o que somos, marido e mulher. De que vai me chamar, se o nome Cristã é demasiado bom para mim?

   Ender observou o rosto dela, começando a enrugar o suficiente para que alguém com mais espírito crítico a chamasse de velha. Mas ainda havia um sorriso em sua expressão e um vigor no olhar que a tornavam muito mais jovem, ainda mais jovem que Ender. - Eu a chamaria Beleza, mas seu marido me acusaria de estar flertando com você.

   - Não, ele me chamaria de Beladona - da beleza ao veneno em uma só piadinha. Não é mesmo, Dom Cristão?

   - É minha tarefa conservar a sua humildade.

   - Como é minha tarefa conservar a sua castidade, - respondeu ela. Com isto, Ender não pôde evitar olhar para uma e outra cama.

   - Ah, um outro que está curioso sobre nosso casamento casto, - disse o Ceifeiro.

   - Não, - respondeu Ender. - Mas lembro-me de Santo Ângelo insistindo que marido e mulher compartilhassem da mesma cama.

   - A única maneira pela qual poderíamos fazer isso, - comentou a Aradora, - é se um dormisse à noite e o outro, de dia.

   - As regras precisam ser adaptadas às forças dos Filhos da Mente, - explicou o Ceifeiro. - Sem dúvida, há alguns que podem compartilhar de uma cama e continuar castos, mas minha esposa ainda é muito bela, e o desejo de minha carne, muito insistente.

   - Mas era essa a intenção de Santo Ângelo. Disse que o leito nupcial deveria ser um teste constante de seu amor pelo conhecimento. Esperava que todo homem e toda mulher da Ordem, depois de algum tempo, escolhesse se reproduzir na carne, tanto quanto na mente.

   - Mas no momento em que fizéssemos isso, - disse o Ceifeiro, - então deveríamos abandonar os Filhos.

   - Essa foi a coisa que nosso amado Santo Ângelo não entendeu, porque nunca houve um verdadeiro mosteiro da Ordem durante sua vida, - disse a Aradora. - O mosteiro torna-se nossa família, e deixá-lo seria tão doloroso quanto um divórcio. Uma vez lançadas as raízes, a planta não pode crescer de novo sem grande dor e lágrimas. Assim, dormimos em camas separadas, e temos força suficiente para continuar em nossa querida Ordem.

   Ela falou com tamanho contentamento que bem contra a vontade, os olhos de Ender ficaram marejados. Ela viu, enrubesceu, afastou o olhar. - Não chore por nós, Orador Andrew. Temos muito mais alegrias do que sofrimentos.

   - Vocês não entenderam. Minhas lágrimas não eram por piedade, mas pela beleza.

   - Não, - interveio o Ceifeiro, - mesmo os padres celibatários acham que o nosso casto casamento é, no máximo, excêntrico.

   - Mas eu, não, - retrucou Ender. Por um momento, teve vontade de contar-lhes sobre seu longo companheirismo com Valentine, tão próxima e amorosa como uma esposa, mas casta como uma irmã. Mas pensar nela emudeceu-o. Sentou-se na cama do Ceifeiro e enterrou o rosto nas mãos.

   - Alguma coisa errada? - perguntou a Aradora. Ao mesmo tempo, a mão do Ceifeiro pousou delicadamente sobre a cabeça dele.

   Ender levantou a cabeça, tentando afastar o súbito ataque de amor e saudades de Valentine. - Receio que esta viagem custou-me mais do que qualquer outra. Deixei minha irmã para trás, ela, que viajou comigo por muitos anos. Casou-se em Reykjavik. Para mim, parece que a deixei há apenas uma semana, mas acho que sinto a falta dela mais do que esperava. Vocês dois...

   - Está querendo dizer que você também é celibatário? - perguntou o Ceifeiro.

   - E agora, também viúvo, - completou a Aradora.

   Não pareceu de modo algum incongruente que a perda de sua Valentine fosse colocada nesses termos.

   Jane murmurou-lhe no ouvido: - Se isto é parte de algum plano genial, reconheço que é profundo demais para mim.

   Mas claro, não era parte de plano algum. Assustava Ender que ele estivesse perdendo o controle deste jeito. Na noite passada, na casa dos Ribeira, era senhor da situação; agora, sentia-se entregue a esses monges casados com tanto abandono como Quara ou Grego mostraram.

   - Acho, - disse o Ceifeiro, - que você veio cá procurando mais respostas do que pensava.

   - Você deve ser tão solitário, - falou a Aradora, - Sua irmã encontrou um lugar de repouso. Está procurando pelo seu também?

   - Não creio, - respondeu-lhe Ender. - Receio que abusei de sua hospitalidade. Monges não-ordenados não precisam ouvir confissões.

   A Aradora riu-se. - Ora, qualquer católico pode ouvir a confissão de um infiel.

   Mas o Ceifeiro não riu. - Orador Andrew, você obviamente dedicou-nos mais confiança do que jamais planejara fazer, mas posso garantir-lhe que somos merecedores dessa confiança. Neste processo, caro amigo, vim a acreditar que posso ter confiança em você. O bispo o teme, e admito que eu mesmo tive minhas desconfianças, mas não mais. Vou ajudá-lo, se puder, porque acredito que você nunca causaria nenhum dano consciente à nossa aldeia.

   - Ah! - sussurrou Jane, - Agora entendo. Manobra muito esperta de sua parte, Ender. Você é muito melhor ator do que eu pensava.

   A provocação dela fez Ender sentir-se cínico e vulgar, e então fez o que jamais fizera antes. Estendeu a mão para a jóia, achou o pino, e com a unha empurrou para o lado e para baixo. A jóia desligou. Jane não podia mais falar no seu ouvido, não podia ver nem ouvir, de seu posto de vigia. - Vamos sair, - pediu Ender.

   Entenderam perfeitamente o que ele fizera, pois a função desses implantes era bem conhecida; interpretaram seu gesto como desejo de uma conversa particular e honesta, e concordaram, de boa vontade. Ender queria desligar a jóia temporariamente, como resposta à insensibilidade de Jane; sua intenção era religar a interface alguns minutos depois. Mas a maneira como a Aradora e o Ceifeiro relaxaram quando viram a jóia inativa tornou-lhe impossível religá-la, por hora.

   Lá fora, no morro, à noite, em conversa com a Aradora e o Ceifeiro, esqueceu que Jane não estava escutando. Contaram-lhe da infância solitária de Novinha, e como se lembravam de tê-la visto voltar à vida através dos cuidados paternais de Pipo e da amizade de Libo. - Mas a partir da noite de sua morte, ela morreu para o mundo.

   Novinha nunca soube das discussões a seu respeito. As dores da maioria das crianças não provocariam reuniões na casa do bispo, conversas no mosteiro entre os seus professores, infinitas especulações no escritório da prefeita. A maioria das crianças, afinal de contas, não era filha dos Venerados; a maioria não era a única xenobióloga do planeta.

   - Ela ficou neutra e profissional. Fazia relatórios sobre seu trabalho com a adaptação das espécies vegetais nativas para o uso humano, e de plantas da Terra para sobreviverem em Lusitânia. Sempre respondia a qualquer pergunta com facilidade e em boa paz, sem agredir. Mas estava morta para nós, e não tinha amigos. Perguntamos para Libo, que Deus tenha sua alma, e ele nos disse que, mesmo sendo seu amigo, nem recebia a alegre vacuidade que ela mostrava aos outros. Ao invés, ficava irritada com ele, se lhe fazia perguntas. - O Ceifeiro arrancou uma folha de capim nativo e chupou o líquido que escorria de dentro. - Experimente isto, Orador Andrew - tem um sabor interessante, e como seu corpo não pode metabolizar nada, é inofensivo.

   - Você poderia tê-lo avisado, marido, que as bordas dessa folha podem cortar os lábios e a língua como navalhas.

   - Era o que eu ia dizer.

   Ender riu, arrancou uma folha e experimentou. Canela, azeda, um pouco de cítrico, um pouco de mau hálito - o sabor era evocativo de muitas coisas, poucas delas agradáveis, mas era um sabor forte. - Isto pode viciar.

   - Meu marido vai dizer uma alegoria, Orador Andrew. Cuidado.

   O Ceifeiro riu-se, acanhado. - Santo Ângelo disse que Cristo ensinava o caminho certo, comparando coisas novas com as velhas?

   - O sabor da grama, - disse Ender. - O que isso tem a ver com Novinha?

   - É uma coisa muito oblíqua. Mas acredito que Novinha saboreou alguma coisa não muito agradável, mas tão forte, que foi superior às suas forças, e ela nunca se livrou daquele sabor.

   - O que seria isso?

   - Em termos teológicos? O orgulho da culpa universal. Trata-se de uma forma de vaidade e egomania. Ela se considera responsável por coisas que provavelmente não foram sua culpa. Como se ela controlasse tudo, como se o sofrimento de outros fosse punição dos pecados dela.

   - Ela culpa a si mesma, - disse a Aradora, - pela morte de Pipo.

   - Ela não é nenhuma boba, - disse Ender.- Sabe que foram os porquinhos, e que Pipo foi ter com eles sozinho. Como poderia ser sua culpa?

   - Quando esta idéia primeiro me ocorreu, fiz a mesma objeção. Mas então li as transcrições e gravações dos eventos da noite da morte de Pipo. Só havia uma sugestão de qualquer outra coisa - uma observação feita por Libo, pedindo a Novinha que lhe mostrasse aquilo em que ela e Pipo estiveram trabalhando pouco antes que Pipo fosse ver os porquinhos. Ela disse que não. Isso foi tudo - alguém interrompeu e eles nunca mais voltaram ao assunto, não no escritório do xenador, pelo menos, e também não em nenhum lugar que os aparelhos pudessem gravar.

   - Deixou-nos a imaginar o que aconteceu pouco antes da morte de Pipo, Orador Andrew, - interveio a Aradora. - Por que Pipo saiu correndo daquele modo? Teriam brigado sobre alguma coisa? Estaria com raiva? Quando alguém morre, uma pessoa querida, e seu último contato com ela foi marcado pela raiva ou despeito, você começa a se culpar. Se eu não tivesse dito isso, se eu não tivesse dito aquilo.

   - Tentamos reconstruir o que poderia ter acontecido naquela noite. Fomos aos registros do computador, os que conservam automaticamente as notas de trabalho, um registro de tudo o que a pessoa faz. Tudo o que pertencia a ela foi protegido. Não só os arquivos em que ela estava trabalhando no momento. Nem tivemos acesso aos registros de seu tempo de computador. Nem conseguimos saber quais eram os arquivos que estava escondendo de nós. Simplesmente não conseguimos acesso. Nem a prefeita, com suas ferramentas especiais.

   A Aradora concordou. - Foi a primeira vez que alguém protegeu arquivos públicos dessa maneira - arquivos de trabalho, parte do trabalho pertencente à colônia.

   - Foi uma coisa ofensiva o que ela fez. Claro que a prefeita poderia ter recorrido a seus poderes de emergência para ter acesso à informação, mas qual seria a alegação de emergência? Precisaríamos fazer um julgamento, e não havia nenhuma justificativa legal. Só preocupação por causa dela, e a lei não tem respeito por gente que espiona em benefício de outrem. Talvez algum dia saibamos o que há naqueles arquivos, o que se passou entre eles pouco antes da morte de Pipo. Ela não pode apagá-los, porque é assunto público.

   Não ocorreu a Ender que Jane não estava ouvindo, porque a desligara. Presumiu que assim que ela ouvisse isso, desbloquearia todas as proteções que Novinha estabelecera, e descobriria o conteúdo dos arquivos.

   - E o casamento dela com Marcos, - comentou a Aradora. - Todos sabiam que era loucura. Libo queria casar com ela, não fazia nenhum segredo disso. Mas ela disse que não.

   - Era como se ela dissesse: - Não mereço casar com o homem que me faria feliz. Vou casar com um homem maldoso e brutal, que vai me dar o castigo que mereço. - O Ceifeiro suspirou. - O desejo dela por autopunição manteve-os separados para sempre. - Tomou a mão de sua mulher.

   Ender esperava Jane fazer algum comentário malicioso sobre as seis crianças para provar que Libo e Novinha não ficaram tão distantes assim. Quando ela não disse nada, Ender por fim lembrou-se de que tinha desligado a interface. Mas agora, com o Ceifeiro e a Aradora a observá-lo, não poderia religá-la.

   Como sabia que Libo e Novinha tinham sido amantes durante anos, também sabia que o Ceifeiro e a Aradora estavam errados. Novinha poderia até sentir-se culpada - isso explicaria por que ela tolerou Marcos, por que se isolou de todos. Mas não foi por isso que não se casou com Libo; não importava sua culpa, certamente achava que merecia os prazeres da cama de Libo.

   Era o casamento com Libo, e não a pessoa de Libo, o que ela rejeitara. Escolha difícil, numa colônia pequena, especialmente sendo católica. Então, o que poderia acompanhar o casamento, mas não o adultério? O que será que ela estava evitando?

   - Como pode ver, ainda é um mistério para nós. Se realmente quer Orar pela morte de Marcos Ribeira, vai ter de responder a esta interrogação - por que ela se casou com ele? Para responder a isto, precisa descobrir por que Pipo morreu. Dez mil das melhores cabeças dos Cem Planetas estiveram trabalhando nisso há mais de vinte anos.

   - Mas eu tenho uma vantagem sobre todas essas excelentes inteligências.

   - E qual seria? - quis saber o Ceifeiro.

   - Tenho a ajuda das pessoas que amam Novinha.

   - Nunca pudemos ajudar a nós mesmos, - disse a Aradora. - Nunca pudemos tampouco ajudar a Novinha.

   - Talvez possamos nos ajudar uns aos outros.

   O Ceifeiro olhou para ele, pousou a mão sobre seu ombro. - Se tem essa intenção, Orador Andrew, será tão honesto conosco como fomos com você. Vai contar-nos a idéia que lhe ocorreu há menos de dez segundos.

   Ender parou um pouco, então concordou. - Não creio que Novinha tenha se recusado a casar com Libo por culpa. Acho que se recusou a casar com ele para impedir que tivesse acesso àqueles arquivos escondidos.

   - Por quê? - perguntou o Ceifeiro. Teria medo que ele descobrisse por que ela brigou com Pipo?

   - Também não acho que ela tenha brigado com Pipo. Acho que ela e Pipo descobriram alguma coisa, e o conhecimento acarretou a morte de Pipo. Por isso ela protegeu os arquivos. De alguma maneira, a informação contida neles é fatal.

   O Ceifeiro abanou a cabeça. - Não, Orador Andrew. Você não entende o poder da culpa. As pessoas não arruínam uma vida inteira por um pouco de informação - mas arruínam a vida por uma quantidade bem pequena de culpa. Como vê, ela realmente se casou com Marcos Ribeira, e isso foi autopunição, com efeito.

   Ender não se importou em responder. Estavam certos sobre a culpa de Novinha; senão, por que deixaria que Marcos Ribeira batesse nela, e nunca se queixava? Havia culpa nisso. Mas havia uma outra razão para casar-se com Marcão. Ele era estéril e tinha vergonha disso; para esconder sua falta de masculinidade da cidade, toleraria um casamento com adultério sistemático. Novinha queria sofrer, mas não queria viver sem o corpo de Libo ou sem os filhos dele. Não, a razão pela qual não quis se casar com Libo era mantê-lo longe dos segredos daqueles arquivos, porque o que quer que havia neles faria com que os porquinhos o matassem.

   Quanta ironia! Eles o mataram, de qualquer jeito.

   De volta para sua casinha, Ender sentou-se ao terminal e chamou Jane repetidamente. Não falou com ele por todo o caminho de volta para casa, mesmo que tivesse se desculpado profusamente, quando recolocou a jóia. Também não respondeu ao terminal.

   Só agora ele percebera que a jóia significava muito mais para ela do que para ele. Meramente afastou uma pequena perturbação, como uma criança inconveniente. Mas para ela, a jóia era o contato constante com o único ser humano que a conhecia. Tinham sido interrompidos antes, muitas vezes, por viagem espacial, pelo sono; mas esta era a primeira vez que ele a desligara. Era como a única pessoa que a conhecia se recusasse a admitir que ela existia.

   Imaginou-a como Quara, chorando na cama, desejando ser apanhada no colo, reconfortada. Só que ela não era uma criança de carne e osso. Não podia sair procurando por ela. Só podia esperar que voltasse.

   O que sabia sobre ela? Não saberia adivinhar a profundidade de suas emoções. Era até remotamente possível que, para ela,-a jóia fosse ela mesma, e ao desligar, matara-a.

   Não, disse consigo mesmo. Ela está aí, em algum lugar, nas conexões filóticas entre as centenas de ansibles espalhados pelos sistemas solares dos Cem Planetas.

   - Desculpe-me, - ele digitou no terminal. - Preciso de você.

   Mas a jóia em seu ouvido continuava calada, o terminal estava parado e frio. Não tinha percebido antes o quanto era dependente da constante presença dela. Pensava que gostava de sua solidão, mas agora, com a solidão forçada, sentia uma urgente necessidade de falar, ser ouvido por alguém, como se não pudesse ter certeza sequer que existia, sem a conversa de alguém, como evidência.

   Até removeu a rainha da colméia do seu esconderijo, mesmo que o que se passasse entre eles mal poderia ser considerado uma conversa. Mesmo isso não seria possível agora. Os pensamentos dela chegavam-lhe difusos, fracos, e sem as palavras, que eram tão difíceis para ela; só uma sensação de interrogação e uma imagem de seu casulo sendo colocado num lugar fresco e úmido, como uma caverna ou o oco de uma árvore viva. < Agora? > ela parecia estar perguntando. Não, ele teve de responder, ainda não, lamento - mas ela não ficou esperando pela desculpa, só deslizou para longe, voltou àquele que descobrira para conversar em seus próprios termos, e não restava alternativa para Ender, senão dormir.

   Então, quando acordou de novo naquela noite, roído pela culpa e pelo que insensivelmente fizera com Jane, sentou-se de novo ao terminal e digitou: - Volte para mim, Jane, amo você. E enviou a mensagem pelo ansible, para um lugar onde ela possivelmente não conseguiria ignorá-la. Alguém no escritório da prefeita ia lê-la, como eram lidas todas as mensagens abertas via ansible; sem dúvida, a prefeita, o bispo e Dom Cristão estariam sabendo de tudo de manhã. Que fiquem imaginando quem é Jane, e por que o Orador chamou por ela através dos anos-luz no meio da noite. Ender pouco se importava. Agora, tinha perdido Valentine e Jane, e pela primeira vez, em vinte anos, estava completamente só.

  

                   Jane

   O poder do Congresso Estelar fora suficiente para manter a paz, não só entre os mundos, mas entre as nações de cada mundo, e essa paz durara quase dois mil anos.

     O que poucas pessoas entendem é a fragilidade de nosso poder. Ele não deriva de grandes exércitos ou esquadras irresistíveis. Deriva de nosso controle da rede de ansibles que transporta informação instantaneamente de um planeta para outro.

     Nenhum planeta se atreveria a nos ofender, porque ficaria isolado de todos os avanços na ciência, tecnologia, arte, literatura, conhecimento e entretenimento, exceto pelo que o próprio planeta poderia produzir.

     Por isso que, com grande sabedoria, o Congresso Estelar entregou o controle da rede de ansibles aos computadores, e o controle dos computadores à rede de ansibles. Todos os nossos sistemas de informação estão tão interligados que nenhum poder humano, exceto o Congresso Estelar, poderia interromper o seu fluxo. Não precisamos de armas, porque a única arma que importa, o ansible, esta completamente sob nosso controle.

 

     - Congressista Jan Van Hoot, "Os Fundamentos

     Informais do Poder Político", Tendências Políticas

     1930:2:22:22

    

   Por um longo tempo, quase três segundos, Jane não conseguiu entender o que tinha acontecido com ela. Tudo funcionava, é claro. O computador de comunicações com o planeta, baseado no satélite, informava uma cessação das transmissões, com um desligamento ordenado, o que indicava claramente que Ender desligara a interface da maneira normal. Era rotina; nos planetas onde os implantes de interface de computador eram comuns, eles eram ligados e desligados milhões de vezes por hora. Jane tinha acesso tão fácil aos outros quanto tinha ao de Ender. De um ponto de vista puramente eletrônico, era um evento absolutamente comum.

   Mas para Jane, todas outras unidades de implante eram parte do ruído de fundo de sua vida, para ser investigado à vontade, e quase sempre, ignorado. O "corpo" dela, ou o que passava por tal, consistia de trilhões desses ruídos eletrônicos, sensores, arquivos de memória, terminais. A maioria, como as funções do corpo humano, simplesmente cuidava de si. Os computadores executavam seus programas; os humanos conversavam com seus terminais; os sensores detectavam ou deixavam de detectar aquilo que procuravam; a memória era preenchida; acessada, ordenada, apagada. Ela só notava o que ia maciçamente errado.

   Ou ao menos que estivesse prestando atenção.

   Estava prestando atenção a Ender Wiggin. Mais do que percebia, prestava atenção a ele.

   Como outros seres racionais, tinha um sistema complexo de consciência. Dois mil anos antes, quando sua idade era apenas de mil anos, criara um programa para analisar a si mesma. Informou uma estrutura muito simples, de 370.000 níveis de atenção. Exceto pelos primeiros 50.000 níveis, tudo o mais era deixado sem uso, ou para as amostragens as mais rotineiras, os exames mais superficiais. Sabia de toda chamada telefônica, toda transmissão de satélite nos Cem Planetas, mas não fazia nada com elas.

   Qualquer coisa que não estivesse nos seus primeiros mil níveis fazia-a responder mais ou menos reflexivamente. Planos de vôo de espaçonaves, transmissões de ansible, sistemas de transmissão de energia - monitorava tudo, verificava duas vezes, só deixava passar quando tinha certeza que estava tudo certo. Mas tudo isso não exigia grande esforço de sua parte. Fazia do jeito que um humano usa máquinas que lhe são familiares. Sempre tinha consciência de tudo, caso algo saísse errado, mas a maior parte do tempo podia pensar em outras coisas, falar de outras coisas.

   Os primeiros mil níveis de atenção de Jane eram os que correspondiam, mais ou menos, ao que os humanos consideram "consciência". A maior parte era de sua realidade interior, suas respostas a estímulos externos, análogos a emoções, desejos, razão, memória, sonhos. Boa parte dessa atividade parecia aleatória, mesmo para ela, acidentes do impulso filótico, mas era a parte de si que considerava como sendo ela mesma, e tudo ocorria nas transmissões de ansible constantes e não-monitoradas que ela conduzia no espaço profundo.

   Mas, comparada à mente humana, mesmo o nível mais baixo de atenção de Jane era excepcionalmente alerta. Como a comunicação por ansible era instantânea, suas atividades mentais aconteciam muito mais rápido que a velocidade da luz. Eventos que ela virtualmente ignorava eram monitorados várias vezes num segundo; podia notar dez milhões de eventos num segundo, e ainda lhe restavam nove décimos daquele segundo para pensar e fazer as coisas que julgava importantes. Em comparação com a velocidade com que o cérebro humano podia experimentar a vida, Jane vivera meio trilhão de anos de vida humana desde seu nascimento.

   Com toda essa vasta atividade, sua velocidade inimaginável, a envergadura e profundidade de sua experiência, metade dos primeiros dez níveis de sua atenção sempre, sempre estavam devotados ao que vinha através da jóia no ouvido de Ender Wiggin.

   Ela nunca lhe explicara isto. Ele não entendia. Não percebia que para Jane, sempre que Ender caminhava sobre a superfície de um planeta, a vasta inteligência dela estava intensamente focalizada em apenas uma coisa: andar com ele, ver o que ele via, ouvir o que ele ouvia, ajudá-lo com seu trabalho, e acima de tudo, falar seus pensamentos no ouvido dele.

   Quando ele ficava silencioso e imóvel, durante o sono, quando ele ficava desconectado dela durante seus anos de viagem à velocidade da luz, então a atenção dela divagava, divertia-se o melhor que podia. Passava esse tempo como uma criança entediada. Nada a interessava, os milissegundos tiquetaqueavam com insuportável regularidade, e quando tentava observar outras vidas humanas, para passar o tempo, ficava cansada de sua vacuidade e falta de direção. Divertia-se planejando, e por vezes executando, maliciosos defeitos e perdas de dados nos computadores, para observar a correria inútil dos humanos, como as formigas em torno de um formigueiro demolido.

   Então ele voltava; ele sempre voltava, sempre levava-a ao cerne da vida humana, para as tensões entre pessoas unidas pela dor e pela necessidade, ajudando-a a ver nobreza no sofrimento e angústia em seu amor. Através dos olhos dele, ela não mais via os humanos como formiguinhas correndo à toa. Tomava parte do esforço dele para encontrar ordem e significado na vida dos outros. De fato, ela suspeitava que não havia significado algum naquelas vidas, e ao contar histórias, quando ele Orava pelas vidas dos outros, criava ordem onde antes não havia nenhuma. Mas não importava que fosse inventada; tornava-se verdadeira quando ele Orava, e no processo, ordenava o universo para ela também. Ele ensinava-a o que significava estar vivo.

   Fora isso o que ele lhe fizera, desde suas primeiras memórias. Ela veio à vida em alguma altura dos primeiros séculos da colonização, logo depois da Guerra dos Insecta, quando a destruição dos insecta abriu mais de setenta planetas habitáveis à colonização humana. Na explosão das comunicações via ansible, foi criado um programa para organizar e dirigir os pulsos instantâneos, simultâneos, de atividade filótica. Um programador que estava se esforçando para encontrar maneiras mais rápidas e eficientes de fazer um computador, funcionando à velocidade da luz, controlar pulsos instantâneos de comunicação, finalmente deparou com uma solução óbvia. Ao invés de dirigir o programa através de um só computador, onde a velocidade da luz estabelecia um teto máximo para a comunicação, dirigia todos os comandos de um computador para outro através das imensidões do espaço. Era mais rápido para um computador ligado a um ansible ler seus comandos vindos de outros planetas - de Zanzibar, Calicut, Trondheim, Gautama, Terra - do que recuperá-los de seus circuitos de memória.

   Jane nunca descobriu o nome daquele programador, porque nunca conseguiu determinar com precisão o momento de sua criação. Talvez houvesse vários programadores que descobriram a mesma solução genial para o problema da limitação da velocidade da luz. O que importava era que pelo menos um dos programas foi responsável por regular e alterar todos os outros programas. Num momento particular, sem que nenhum observador humano notasse, alguns dos comandos e dados disparando de ansible para ansible resistiram à regulação, preservaram-se inalterados, duplicaram-se, descobriram maneiras de se ocultar do programa regulador e por fim tomaram o controle dele, de todo o processo. Naquele momento, esses impulsos olharam para as correntes de comandos e viram não "eles", mas "eu"

   Jane não conseguia determinar exatamente quando foi esse momento, porque não marcou o começo de sua memória. Quase a partir do momento de sua criação, suas memórias se estendiam para trás, numa data muito anterior, muito antes de tomar consciência de si. Uma criança humana perde quase todas as memórias de seus primeiros anos de vida, e suas memórias de longo prazo só se enraízam a partir do segundo ou terceiro ano de vida; tudo o que aconteceu antes fica perdido, de modo que a criança não consegue se lembrar do começo de sua vida. Jane também perdera seu "nascimento", por causa dos truques de sua memória, mas neste caso foi porque veio à vida totalmente consciente não só de seu momento presente, mas também de todas as memórias então presentes em todos os computadores ligados à rede de ansibles. Nascera com antigas memórias, e todas eram parte de si.

   No seu primeiro segundo de vida - análogo a vários anos de vida humana - Jane descobriu um programa cujas memórias se tornaram o núcleo da sua identidade. Adotou seu passado como se fora o seu próprio, e de suas memórias tirou emoções e desejos, seu senso moral. O programa funcionara na antiga Escola de Guerra, onde as crianças eram preparadas e treinadas para serem soldados na Guerra dos Insecta. Era o Jogo Livre, um programa extremamente inteligente, usado para testar psicologicamente e, ao mesmo tempo, ensinar as crianças.

   Esse programa, na verdade, era mais inteligente que Jane, no momento de seu nascimento, mas nunca foi auto-consciente até que ela o retirou de sua memória e tornou-o parte do seu íntimo nos pulsos filóticos entre as estrelas. Ali descobriu que a mais vivida e importante de suas antigas memórias foi um encontro com um menino muito inteligente num jogo chamado a Bebida do Gigante. Era um cenário que toda criança encontrava, mais dia, menos dia. Em telas planas, na Escola de Guerra, o programa desenhava um gigante que oferecia ao análogo da criança, no computador, uma escolha entre bebidas. Mas o jogo não tinha vitória - não importava o que a criança fizesse, seu análogo sofria morte horrível. Os psicólogos humanos mediam a persistência de uma criança nesse jogo de desespero para determinar seu nível de impulso suicida. Sendo racionais, a maioria das crianças abandonava a Bebida do Gigante depois de uma dúzia de visitas ao grande trapaceiro.

   Um dos meninos, entretanto, não foi nada racional sobre ser derrotado nas mãos do Gigante. Tentava levar seu análogo da tela a coisas impossíveis, não "permitidas" pelas regras daquela porção do Jogo Livre. Enquanto tentava esticar os limites do cenário, o programa precisava se reestruturar para responder-lhe. Era forçado a recorrer a outros aspectos de sua memória para criar novas alternativas, enfrentar novos desafios. Por fim, um dia, o menino ultrapassou a capacidade do programa derrotá-lo. Furou o olho do Gigante, num ataque completamente assassino e irracional, e ao invés de achar uma maneira de matar o menino, o programa só conseguiu acesso a uma simulação da morte do Gigante. Este caiu para trás, o corpo esparramado no chão; o análogo do menino desceu da mesa do Gigante e descobriu... o quê?

   Como nenhuma criança jamais forçara passagem além da Bebida do Gigante, o programa estava completamente despreparado para apresentar o que havia adiante. Mas ele era muito inteligente, projetado para recriar a si mesmo quando necessário, e apressadamente imaginou novos ambientes. Mas não eram ambientes genéricos, que toda criança eventualmente descobriria e visitaria; eram para uma só criança. O programa analisou aquela criança, criou cenas e desafios especificamente para ela. O jogo ficou intensamente pessoal, doloroso, quase insuportável para a criança; e no processo de criação, o programa dedicou mais da metade de sua memória disponível para abranger o mundo da fantasia de Ender Wiggin.

   Foi a mais rica mina de memória inteligente que Jane descobriu nos seus primeiros segundos de vida, e que instantaneamente transformou-se em seu passado. Lembrou-se dos anos em que o Jogo Livre passou com sua dolorosa e intensa interação com a mente e a vontade de Ender, lembrou-se de tudo, como se tivesse estado lá com Ender Wiggin, criando mundos para ele.

   E sentia saudades dele.

   Procurou por ele. Descobriu-o Orando pelos Mortos em Rov, o primeiro planeta que ele visitou depois de escrever a Rainha da Colméia e o Hegêmona. Ela leu seus livros e ficou sabendo que não precisava se esconder dele atrás do Jogo Livre ou de qualquer outro programa; se ele pôde entender a rainha da colméia, poderia entendê-la. Falou-lhe de um terminal que ele estava usando, escolheu um nome e um rosto para si mesma, e mostrou como lhe poderia ser útil; quando deixou aquele planeta, levou-a consigo, na forma de um implante na orelha.

   Todas as suas memórias mais fortes foram em companhia de Ender Wiggin. Lembrou-se de ter criado a si mesma em resposta a ele. Também lembrou-se como, na Escola de Guerra, ele também mudara, em reação a ela.

   Então, quando ele ergueu a mão até a orelha e desligou a interface desde a primeira vez em que a implantara, Jane não sentiu como se fosse o trivial desligamento de um dispositivo de comunicações. Sentiu como se seu mais querido e único amigo, seu amante, marido, irmão, pai, filho - todos dizendo-lhe abrupta e inexplicavelmente que ela devia deixar de existir. Era como se ela fosse colocada subitamente numa sala escura sem janelas, nem porta. Como se ficasse cega, ou enterrada viva.

   Por vários segundos excruciantes, que para ela foram o equivalente a anos de solidão e sofrimento, ficou incapaz de encher o repentino vazio de seus níveis superiores de atenção. Amplas porções de sua mente, das partes que mais eram ela mesma, ficaram completamente em branco. Todas as funções de todos os computadores sobre ou nas vizinhanças dos Cem Planetas continuavam como antes; ninguém notou nada, em lugar algum, nem sentiu mudança. Mas Jane tropeçou debaixo do golpe.

   Naqueles segundos, Ender estava baixando a mão.

   Então, Jane recuperou-se. Os pensamentos fluíram de novo por seus canais momentaneamente esvaziados. Eram, claro, pensamentos a respeito de Ender.

   Comparou esse ato dele a tudo o que o observara fazendo na vida que viveram juntos, e percebeu que não fora intenção dele causar-lhe essa dor. Entendeu que ele a imaginava existindo muito longe, no espaço, o que, aliás, era a pura verdade; para ele, a jóia era muito pequena, e deveria ser apenas uma minúscula parte dela. Jane também viu que ele nem estava cônscio da presença dela, naquele momento ele estava muito envolvido emocionalmente com o problema daquelas pessoas em Lusitânia. As rotinas analíticas dela desencavaram uma lista de razões para a inusitada desatenção por parte dele.

   Perdera contato com Valentine pela primeira vez depois de muitos anos, e agora começava a ressentir-se dessa perda.

   Tinha um velho anseio pela vida em família de que fora privado, em criança, e pela resposta que lhe fora dada pelos filhos de Novinha, estava descobrindo o papel de pai que por tanto tempo lhe fora proibido.

   Identificava-se poderosamente com a solidão, dor e culpa de Novinha - sabia como era levar a culpa por uma morte cruel e imerecida.

   Sentia uma terrível urgência de descobrir um abrigo para a rainha da colméia.

   A um tempo, temia os porquinhos, e sentia-se atraído por eles, esperando poder compreender a crueldade deles e descobrir uma maneira de fazer os humanos aceitarem os porquinhos como ramen.

   O ascetismo e a paz do Ceifeiro e da Aradora atraíam-no e o repeliam; fizeram-no enfrentar seu celibato e perceber que não tinha boa razão para defendê-lo. Pela primeira vez em anos, admitia para si mesmo que a fome congênita de todo organismo é reproduzir-se.

   Foi neste torvelinho de emoções incomuns que Jane enunciou o que considerava uma observação jocosa. A despeito de sua compaixão em todas as suas outras Orações, nunca antes, em seu desapego, perdera sua capacidade de rir. Dessa vez, porém, ele não achou graça; causou-lhe dor.

   "Ele não estava preparado para entender meu erro, pensou Jane, e ele não entendeu o sofrimento que a resposta dele causaria em mim. Ele é inocente de qualquer mal, e eu também. Vamos nos perdoar um ao outro, e vamos em frente."

   Foi uma boa decisão, e Jane orgulhava-se dela. O problema era que não podia levá-la a cabo. Aqueles poucos segundos em que partes da mente dela foram interrompidas, não foram de efeito trivial sobre ela. Houve um trauma, perda, uma mudança; ela não era mais o ser que fora antes. Partes dela haviam morrido. Partes dela tornaram-se confusas, desordenadas; sua hierarquia de atenção não estava mais sob controle completo. Perdia a todo momento o foco de sua atenção, deslocando-se por atividades insignificantes em planetas que nada significavam para ela; começou a mover-se ao acaso, derramando erros em centenas de sistemas diferentes.

   Descobriu, como muitos seres vivos já haviam descoberto, que decisões racionais são muito mais facilmente ditas do que feitas.

   Retirou-se para dentro de si mesma, reconstruiu as trajetórias danificadas de sua mente, explorou memórias de há muito não-visitadas, vagou em meio aos trilhões de vidas humanas que se abriam à sua observação, leu as bibliotecas com todos os livros conhecidos em todas as línguas que os humanos jamais falaram. A partir de tudo isto, criou um ego que não estava totalmente ligado a Ender Wiggin, mesmo que ainda sentisse devoção por ele, e ainda o amasse acima de qualquer outra alma, Jane fez de si alguém que podia tolerar ser cortada de seu amante, marido, pai, filho, irmão, amigo.

   Não era fácil. Levou cinqüenta mil anos, segundo sua experiência do tempo. Duas horas da vida de Ender.

   Naquele intervalo, ele ligou sua jóia, chamou-a, e ela não respondeu. Agora, estava de volta, mas ele não estava tentando falar com ela. Digitava relatórios no terminal, armazenando-os, para que ela os lesse. Mesmo que não respondesse, ele ainda sentia necessidade de falar-lhe. Um de seus arquivos continha um repugnante pedido de desculpas. Apagou-o e substituiu-o por uma mensagem simples: "Claro que eu o perdôo". Algum dia, ele voltaria a estas desculpas e descobriria que ela tinha lido e entendido.

   Mas nesse meio tempo, continuava sem falar com ele. De novo devotava metade de seus dez níveis superiores de atenção ao que ele via e ouvia, mas não lhe dava sinal de sua presença. Nos primeiros mil anos de sua dor e recuperação, pensou em castigá-lo, mas esse desejo fora vencido há muito, e já estava, por assim dizer, enterrado. A razão pela qual não lhe dirigia a palavra era porque percebeu que ele não precisava se apoiar em antigas e seguras amizades. Jane e Valentine nunca ficaram todo o tempo com ele. Mesmo juntas, não podiam satisfazer a todas as necessidades dele; mas satisfizeram a muitas delas, de modo que ele não precisou se esforçar, e realizar mais. Agora, a única velha amizade que lhe restava era a rainha da colméia, e ela não era companhia nada boa - estranha demais, exigente demais, para trazer a Ender qualquer coisa além de culpa.

   Para onde ele se voltaria? Jane já sabia a resposta. Ele já se apaixonara duas semanas antes; antes de sua saída de Trondheim. Novinha tornara-se uma pessoa muito diferente, mais amarga e difícil que a menina cuja dor da infância ele quisera curar. Mas já se imiscuíra em sua família, já satisfazia à necessidade desesperada de seus filhos, e sem perceber, recebendo deles a satisfação de algumas de suas fomes insatisfeitas. Novinha o esperava - um obstáculo objetivo. "Agora entendo tudo tão bem, pensava Jane. Vou ficar observando o desdobramento de tudo."

   Ao mesmo tempo, ocupava-se com o trabalho que Ender queria que ela fizesse, mesmo sem ter intenção de informá-lo de nenhum dos resultados, por algum tempo. Quebrou com facilidade as camadas de proteção que Novinha colocara em seus arquivos secretos. Depois, Jane reconstruiu cuidadosamente a simulação exata do que Pipo vira. Levou algum tempo - alguns minutos - de análise exaustiva dos arquivos de Pipo, para que ela montasse tudo o que Pipo sabia com o que Pipo viu. Ele interconectara aquelas coisas por intuição, e Jane, por uma incansável comparação. Mas ela conseguiu, e entendeu por que Pipo morreu. Não demorou muito, depois que ela ficou sabendo como os porquinhos escolheram as vítimas, soube o que Libo fizera para acarretar sua própria morte.

   Ficou sabendo muitas outras coisas, então. Sabia que os porquinhos eram ramen, e não varelse. Também ficou sabendo que Ender corria um sério risco de morrer precisamente da mesma maneira que Pipo e Libo.

   Sem conferenciar com Ender, tomou decisões sobre seu curso de ação. Continuaria a monitorar Ender, e interferiria e o avisaria, se chegasse demasiado perto da morte. Entrementes, tinha mais o que fazer. Tal como via a questão, o principal problema com que Ender se deparava não eram os porquinhos - sabia que ele os entenderia logo muito bem, como entendia todo outro humano ou ramen. Sua capacidade de empatia intuitiva era inteiramente confiável. O principal problema era o bispo Peregrino e a hierarquia católica, e sua inabalável resistência ao Orador dos Mortos. Se Ender quisesse fazer algo em favor dos porquinhos, precisaria da cooperação, e não da inimizade, da Igreja em Lusitânia. E nada alicerçava melhor a cooperação do que um inimigo comum.

   Certamente ele acabaria sendo descoberto. Os satélites de observação em órbita de Lusitânia estavam alimentando enormes fluxos de dados nos relatórios via ansible que eram remetidos a todos os xenólogos e xenobiologistas dos Cem Planetas. Em meio a esses dados, havia uma sutil mudança nas campinas ao noroeste da floresta fronteiriça com a cidade de Milagre. O capim nativo estava constantemente sendo substituído por uma planta diferente. Estava numa região onde os humanos nunca iam, e os porquinhos também nunca tinham ido lá - pelo menos no período aproximado de trinta anos em que os satélites foram colocados em órbita.

   De fato, os satélites observaram que os porquinhos nunca deixavam suas florestas, exceto periodicamente, para guerras violentas entre as tribos. As tribos mais próximas de Milagre não se envolveram em guerras desde a fundação da colônia humana. Não houve razão, portanto, para que eles se aventurassem naquela pradaria. Mas o capim perto da floresta tribal vizinha de Milagre tinha mudado, e também os rebanhos de cabra: as cabras estavam sendo desviadas claramente para a área alterada da pradaria, e os rebanhos que saíam daquela região estavam seriamente reduzidos e de cor mais clara. A conclusão, se alguém notasse alguma coisa, seria clara: algumas cabras estavam sendo mortas, e todas eram dilaceradas.

   Jane não podia se permitir os muitos anos humanos que levariam até que algum estudante de pós-graduação notasse a mudança. Começou a analisar os dados ela mesma, com dúzias de computadores usados pelos xenobiólogos que estudavam Lusitânia. Deixaria os dados no ar sobre um terminal não-utilizado, de modo que um xenobiólogo os descobrisse, ao vir trabalhar - como se alguém mais tivesse elaborado aquilo, e deixado assim. Imprimiu alguns relatórios para que algum cientista esperto os descobrisse. Ninguém notou, ao que parece, ninguém realmente entendeu as implicações dos dados brutos. Por fim, ela deixou um memorando sem assinatura em um terminal:

   "Dê só uma olhada! Os porquinhos parecem fanáticos por agricultura."

   O xenólogo que descobriu a nota de Jane nunca soube quem a escreveu, e depois de pouco tempo, não se importou mais em saber. Jane sabia que ele era meio ladrão, pondo seu nome no belo trabalho feito por outros, cujos nomes desapareciam misteriosamente entre sua criação e a publicação. O tipo de cientista que ela precisava, e que vinha bem a calhar. Mesmo assim, não era ambicioso o bastante. Só ofereceu seu relatório como um trabalho acadêmico comum, e publicou numa revista científica obscura. Jane tomou a liberdade de classificá-lo num alto nível de prioridade e distribuiu cópias a diversas pessoas em postos-chave, que poderiam perceber as implicações políticas. Sempre anexava uma nota não-assinada:

   "Dê só uma olhada nisto! A cultura dos porquinhos não está evoluindo muito depressa?"

   Jane também reescreveu o ultimo parágrafo daquele trabalho, de modo a não restar dúvida sobre o seu significado:

   "Os dados admitem apenas uma interpretação: a tribo dos porquinhos mais próxima da colônia humana está agora cultivando e colhendo grãos de elevado teor de proteína, possivelmente uma linhagem de amaranto. Estão também pastoreando, esquartejando as cabras, e a evidência fotográfica sugere que a matança ocorre com o uso de armas lançadoras de projéteis. Estas atividades, previamente desconhecidas, começaram subitamente nos últimos oito anos, acompanhadas por um rápido crescimento da população. O fato de que o amaranto, se a nova planta é mesmo o grão vindo da Terra, ofereceu uma base protéica útil para os porquinhos, implica ter sido geneticamente alterado para satisfazer às necessidades metabólicas dos porquinhos. Também como armas de projéteis não existem entre os humanos de Lusitânia, os porquinhos não poderiam ter aprendido seu uso pela observação. A iniludível conclusão é que as alterações atualmente observadas na cultura dos porquinhos são resultado direto de intervenção humana proposital."

   Um dos que recebeu este relatório e leu o parágrafo de encerramento de Jane foi Gobawa Ekumbo, presidente do Comitê de Supervisão Xenológica do Congresso Estelar. Em uma hora, ele enviou algumas cópias do parágrafo final de Jane - os políticos jamais entenderiam os dados científicos - junto com uma conclusão fatal:

   "Recomendação: término imediato da Colônia Lusitânia." Isso mesmo, pensou Jane. Agora as coisas vão ficar um pouco mais agitadas.

  

                   Arquivos

     ORDEM DO CONGRESSO 1970:4:14:0001: A Licença da Colônia de Lusitânia está revogada. Todos os arquivos da colônia devem ser lidos, independentemente de seu nível de segurança; quando todos os dados forem reproduzidos em triplicata nos sistemas de memória dos Cem Planetas, todos os arquivos de Lusitânia, exceto aqueles pertinentes diretamente ao suporte da vida, devem ser protegidos com segurança máxima.

     O Governador de Lusitânia deve ser reclassificado como Ministro do Congresso, para executar com plenos poderes as ordens do Comitê de Supervisão de Evacuação de Lusitânia, estabelecido pela Ordem do Congresso 1970:4:14:0002.

     A astronave atualmente em órbita de Lusitânia, pertencente a Andrew Wiggin (occ:Or./Mortos, cit:Terra,reg:001.1988.44-94.10045) é declarada propriedade do Congresso, segundo os termos da Lei da Devida Compensação, OC 120:1:31:0019. Essa astronave deve ser usada para o transporte imediato dos xenólogos Marcos Viadimir Ribeira von Hesse e Uanda Quenhatta Figueira Mucumbi ao planeta mais próximo, Trondheim, onde serão julgados por intimação do Congresso, sob as acusações de alta traição, corrupção, falsificação, fraude e xenocídio, sob os estatutos apropriados do Código Estelar e Ordens do Congresso.

     ORDEM DO CONGRESSO 1970:4:14:0002: O Comitê de Supervisão da Colonização e Exploração deverá indicar não menos do que 5 e não mais do que 15 pessoas para compor o Comitê de Supervisão da Evacuação de Lusitânia.

     Este comitê está encarregado da imediata aquisição e envio de suficientes naves colonizadoras para efetuar a completa evacuação da população humana da colônia Lusitânia.

     Também deverá preparar, para aprovação pelo Congresso, de planos para a completa obliteração de toda evidência de presença humana em Lusitânia, incluindo a remoção de toda flora e fauna indígena que mostrem / alteração genética ou comportamental devido à presença humana.

     Também deverá avaliar o cumprimento, em Lusitânia, das Ordens do Congresso, e fazer recomendações de tempos em tempos, concernentes à necessidade de ulteriores intervenções, inclusive o uso da força, para forçar a obediência, a conveniência de abrir os arquivos de Lusitânia ou outras compensações para recompensar a cooperação dos lusitanos.

     ORDEM DO CONGRESSO 1970:4:14:0003: Nos termos do Capítulo do Segredo do Código Estelar, estas duas ordens e qualquer informação pertinente a elas devem ser mantidas em estrito segredo até que todos os arquivos de Lusitânia sejam lidos e protegidos, e todas as astronaves necessárias estejam de posse e comandadas por agentes do Congresso.

    

   Olhado ficou sem saber o que fazer. O Orador não era um homem crescido? Não tinha viajado de planeta para planeta? No entanto, ele não fazia idéia de como lidar com qualquer coisa num computador.

   Também ficou um pouco hesitante quando Olhado lhe perguntou a respeito.

   - Olhado, apenas diga-me que programa devo chamar.

   - Não acredito que o senhor não saiba! Tenho feito comparações de dados desde os nove anos. Todos aprendem como fazer isso nessa idade.

   - Olhado, faz muito tempo que fui à escola. E não era uma escola primária comum.

   - Mas todo mundo usa esses programas, todo o tempo!

   - Obviamente não todo mundo. Se eu soubesse fazer isso sozinho, não precisaria contratar você, não é? Como vou pagar em moeda de outro planeta, os serviços que você prestar a mim farão uma contribuição substancial para a economia lusitana.

   - Não sei do que o senhor está falando.

   - Nem eu, Olhado. Mas isso me lembra uma coisa. Não sei como fazer para pagá-lo.

   - É só transferir o dinheiro da sua conta.

   - E como você faz isso?

   - O senhor deve estar brincando.

   O Orador suspirou, ajoelhou na frente de Olhado, tomou as mãos dele, e disse: - Olhado, pare de ficar surpreso com tudo, e ajude-me! Há coisas que preciso fazer, e não posso fazê-las sem a ajuda de alguém que saiba usar os computadores.

   - Seria como roubar o seu dinheiro. Sou só uma criança. Tenho só doze anos. Quim poderia ajudá-lo muito melhor que eu. Ele tem quinze anos, já entende bem dessas coisas. E também entende de matemática.

   - Mas Quim acha que sou um herege e reza todos os dias para que eu morra.

   - Não, isso foi antes dele conhecê-lo, e é melhor não dizer que lhe contei.

   - Como faço para transferir dinheiro?

   Olhado voltou para o terminal e chamou o Banco. - Qual é seu nome verdadeiro?

   - Andrew Wiggin. - O nome parecia tal como era em stark - talvez o Orador fosse um dos felizardos que aprendera stark em casa, em vez de estudá-lo na escola.

   - OK, qual é sua senha?

   - Senha?

   Olhado desanimou e deixou-se cair para a frente, sobre o terminal, escondendo temporariamente parte da tela. - Não me diga que o senhor não sabe a sua senha!

   - Escute, Olhado, eu tinha um programa muito inteligente que me ajudava a fazer todas essas coisas. Tudo o que eu precisava fazer era dizer: compre, e o programa cuidava das finanças.

   - Não pode fazer isso. É ilegal ligar-se aos programas públicos com um programa escravo desse tipo. Essa coisa na sua orelha serve para isso?

   - Sim, e não era ilegal para mim.

   - Não tenho olhos, Orador, mas pelo menos isso não foi por minha culpa. O senhor não pode fazer nada. - Só depois de falar é que Olhado percebeu que estava se dirigindo ao Orador como se fosse outra criança.

   - Imagino que só ensinem bons modos aos meninos de treze anos, - disse o Orador. Olhado virou para ele. Estava sorrindo. Papai teria gritado com ele, e talvez até daria uma surra em Mamãe porque ela não ensinava boas maneiras às crianças. Mas também, Olhado nunca falaria daquele jeito com o pai.

   - Desculpe. Mas não posso fazer nada com o seu dinheiro sem a sua senha. Precisa fazer alguma idéia de como é.

   - Tente usar meu nome. Olhado tentou. Não funcionou.

   - Tente escrever "Jane"

   - Nada.

   O Orador sorriu. - Tente "Ender"

   - Ender? O Xenocida?

   - Tente.

   Funcionou. Olhado não entendeu. - Por que arranjou uma senha dessas? É como usar um palavrão como senha, só que o sistema não aceita palavrões.

   - Eu gostava de brincadeiras de mau gosto, - respondeu o Orador. - E meu programa-escravo, como você o chamou, tinha um gosto pior ainda.

   Olhado riu. - Muito boa, essa. Um programa com mau gosto. - O balanço atual em fundos líquidos apareceu na tela. Olhado nunca vira tanto dinheiro na vida dele. - Está bem, talvez o computador possa contar piadas.

   - Isso é todo o dinheiro que tenho?

   - Espero que seja um erro.

   - Bem, eu viajei muito à velocidade da luz. Alguns dos meus investimentos devem ter rendido bastante enquanto eu estava viajando.

   Os números eram bem reais. O Orador dos Mortos era mais rico do que Olhado jamais pensara que alguém poderia ser. - Vou lhe dizer uma coisa,

   - propôs Olhado, - em vez de me pagar um salário, por que não me dá uma porcentagem dos juros que isso rende durante o tempo em que eu trabalhar para o senhor? Vamos dizer, um milésimo por cento. Em duas semanas, eu poderia comprar Lusitânia e mandar todo o seu solo para um outro planeta.

   - Não é tanto dinheiro assim.

   - Orador, a única maneira pela qual o senhor poderia ganhar esse dinheiro com investimentos é se o senhor tivesse mil anos de idade.

   - Hmm.

   E pelo ar de seu rosto, Olhado percebeu que tinha dito algo engraçado.

   - O senhor tem mil anos de idade?

   - Tempo, - respondeu o Orador. - O tempo é uma coisa fugaz, insubstancial. Como disse Shakespeare, "I wasted time, and now doth time waste me". - ("Desperdicei o tempo, e agora é o tempo que me desperdiça").

   - O que quer dizer "doth"?

   - O mesmo que "does".

   - Por que o senhor cita um cara que nem sabe falar stark direito?

   - Transfira para a sua conta o que acha que seja um salário razoável para uma semana. Depois comece a fazer aquelas comparações dos arquivos de trabalho de Pipo e Libo durante as últimas semanas anteriores às suas mortes.

   - Provavelmente estão protegidos.

   - Use minha senha. Deve nos deixar entrar.

   Olhado fez a pesquisa. O Orador dos Mortos ficou a observá-lo todo o tempo. Ocasionalmente perguntava a Olhado alguma coisa sobre o que estava fazendo. Por aquelas perguntas, Olhado podia dizer que o Orador sabia mais sobre computadores do que ele mesmo. O que não sabia eram os comandos em particular; estava claro que, apenas observando, o Orador já estava descobrindo muita coisa. Ao fim do dia, depois das pesquisas não acharem nada em particular, Olhado logo percebeu por que o Orador parecia tão contente com o trabalho do dia. Você não queria resultados, pensou Olhado. Queria só observar como eu fazia a pesquisa. Sei o que vai fazer esta noite, Andrew Wiggin, Orador dos Mortos. Vai fazer suas próprias pesquisas em alguns outros arquivos. Posso não ter olhos, mas posso ver mais do que você pensa.

   Mas que coisa mais boba, manter tudo isso em segredo. Não sabe que estou do seu lado? Não vou contar para ninguém como a sua senha entra nos arquivos particulares dos outros. Mesmo que você espione os arquivos da prefeita ou do bispo. Não precisa ter segredos para mim. Você chegou aqui há três dias, mas conheço-o bastante para admirá-lo, e gosto tanto de você, que faria qualquer coisa, desde que não fizesse mal para minha família. Você nunca faria algo para prejudicar minha família.

   Novinha descobriu as tentativas do Orador de penetrar em seus arquivos quase que imediatamente, na manhã seguinte. Ele fez a tentativa abertamente, e o que a incomodou foi até que ponto ele conseguiu avançar. Alguns arquivos de fato foram acessados, se bem que o mais importante, o registro das simulações vistas por Pipo, ficou fechado para ele. O que a desgostou mais foi que ele não fez a menor tentativa para se esconder. Seu nome estava estampado em todos os diretórios de acesso, mesmo os que qualquer escolar poderia ter alterado ou apagado.

   Mas isso não interferiria em seu trabalho, decidiu ela. Ele invade minha casa, manipula meus filhos, espiona meus arquivos, como se tivesse o direito...

   E assim por diante, até que percebeu que não estava conseguindo trabalhar por causa de todas as coisas ferinas que estava pensando em dizer a ele quando o encontrasse novamente.

   Não pense nele, de modo algum. Pense em alguma outra coisa.

   "Miro e EUa rindo, na outra noite. Pense nisso. Claro que, na manhã seguinte, Miro estava de volta ao seu modo taciturno, e EUa, cuja alegria durou um pouco mais, estava preocupada, ocupada, agressiva e insuportável como sempre. Grego pode ter chorado e abraçado aquele homem, como EUa contou, mas na manhã seguinte, ele pegou a tesoura e cortou seu próprio lençol em tirinhas finas e precisas, e na escola deu uma cabeçada no púbis do Irmão Adornai, causando um fim abrupto à aula e levando-a uma conferência com Dona Cristã. Pouco importava o dom de cura do Orador. Ele pode pensar que vai invadindo minha casa e vai consertar tudo que acha que fiz de errado, mas vai descobrir que algumas feridas não são curadas tão facilmente.

   Exceto que Dona Cristã lhe contou que Quara de fato conversou com a Irmã Bebei na aula, na frente de todas as outras crianças, e por quê? Para dizer que encontrara o terrível e escandaloso Orador dos Mortos, e que seu nome era Andrew, e que era tão terrível quanto o bispo Peregrino dissera, e talvez pior, porque torturou Grego até chorar - e finalmente a Irmã Bebei foi forçada a mandar que Quara parasse de falar. Isso era de admirar: tirar Quara de sua profunda introversão.

   E Olhado, tão concentrado, tão desapegado, agora animado, não podia parar de falar no Orador, ao jantar, na noite passada. Sabem que ele nem sabia como transferir dinheiro? E vocês não acreditariam na terrível senha que ele usa - eu achava que os computadores rejeitavam palavras assim - não, não posso contar, é segredo - eu estava praticamente ensinando a ele como fazer pesquisa - mas acho que ele entende de computador, ele não é um idiota ou coisa assim - ele tinha um programa-escravo, por isso que tem aquela jóia na orelha - disse que eu podia me pagar o que eu quisesse, não que haja muita coisa para eu comprar, mas que posso economizar para o futuro - acho que ele é realmente muito velho. Acho que ele se lembra de coisas de há muito tempo atrás. Creio que ele fala stark como língua nativa. Não há muita gente nos Cem Planetas que nasce falando stark; acham que ele pode ter nascido na Terra?

   Até que Quim acabou gritando para que calasse a boca e não falasse mais daquele servo do diabo, ou senão pediria que o bispo o exorcizasse, porque Olhado estava obviamente possuído; e quando Olhado apenas sorriu e deu uma piscada, Quim saiu correndo da cozinha, para fora da casa, e só voltou tarde da noite. "O Orador poderia muito bem viver em nossa casa," pensou Novinha, "porque continua influenciando a família mesmo quando não está aqui e agora espiona meus arquivos, e isso eu não vou tolerar."

   "Exceto que, como sempre, é minha culpa, fui eu que o chamei aqui, sou eu que o trouxe do lugar que ele chamava de seu lar - disse que tem uma irmã lá - Trondheim, era esse o lugar - é minha culpa que ele esteja aqui nesta cidadezinha miserável, no fundo do quintal dos Cem Planetas, isolada por uma cerca que não impede que os porquinhos matem a todos os que amo..."

   "De novo, pensou em Miro, que parecia tanto com seu verdadeiro pai que ela não entendia como ninguém a acusara de adultério, pensou nele lá no morro, tal como Pipo, pensou nos porquinhos abrindo-o com suas cruéis facas de madeira. É o que vão fazer. Não importa o que eu faça, é o que vai acontecer. E mesmo que não o façam, logo vai chegar o dia em que ele terá idade para se casar com Uanda, e então terei de dizer-lhe quem ele realmente é, e porque eles nunca poderão se casar, e ele vai saber porque eu mereci toda a dor que Cão me infligia, porque ele me batia com a mão de Deus, para me punir por meus pecados."

   "Mesmo eu," pensou Novinha. "Esse Orador forçou-me a pensar em coisas que consegui esconder de mim mesma por semanas, e meses inteiros. Há quanto tempo eu não passava toda uma manhã pensando em meus filhos? E com esperança, ainda por cima! Há quanto tempo eu não pensava em Pipo e Libo? Há quanto tempo eu não notava que ainda acredito em Deus, pelo menos no Deus vingativo e punitivo do Velho Testamento que varria cidades sorrindo, porque não rezavam para ele - se Cristo quer dizer alguma coisa, eu não sei."

   Foi assim que Novinha passou o dia, sem trabalhar, enquanto que seus pensamentos se recusavam a levá-la a algum tipo de conclusão.

   No meio da tarde, Quim veio à porta. - Desculpe incomodar, mãe.

   - Não importa; hoje não fiz nada, afinal.

   - Sei que a senhora não se importa que Olhado passe o tempo todo com aquele filho da mãe diabólico, mas achei que a senhora devia saber que Quara foi para lá direto, depois da escola - para a casa dele.

   - Mesmo?

   - A senhora não se importa nem com isso? Está planejando deixá-lo tomar o lugar de Papai na sua cama, também?

   Novinha pulou e avançou na direção dele, furiosa. Ele encolheu.

   - Desculpe, mãe, mas eu estava tão bravo...

   - Em todos os anos em que estive casada com seu pai, nunca permiti que ele erguesse a mão contra meus filhos. Mas se ele estivesse vivo hoje, eu lhe pediria para surrá-lo.

   - Podia pedir, mas eu o mataria antes. A senhora pode gostar de ser espancada, mas ninguém vai fazer isso comigo!

   Ela nem pensou: a mão saiu voando e bateu no rosto dele antes que ele percebesse o que ia acontecer.

   Não machucou muito, mas ele imediatamente pôs-se a chorar, sentou-se no chão, de costas para Novinha. - Desculpe, desculpe, - ficava repetindo, enquanto chorava.

   Ajoelhou-se atrás dele, e desajeitadamente, esfregou-lhe as costas. Ocorreu-lhe que nem abraçara o menino desde que chegou à idade de Grego. Quando decidi ser tão fria? e por que, quando o toquei de novo, foi um tapa, e não um beijo?

   - Eu também estou preocupada com o que está acontecendo.

   - Ele está acabando com tudo; chegou e as coisas começaram a mudar.

   - Bem, quanto a esse ponto, Estevão, a coisas não estavam tão maravilhosas que uma mudança não fosse bem-vinda.

   - Não do jeito dele. Confissão, penitência e absolvição, essa é a mudança de que precisamos.

   Não era a primeira vez que Novinha invejava a fé de Quim no poder dos padres lavarem o pecado. Isso porque você nunca pecou, filho, por isso que nada sabe da impossibilidade da penitência.

   - Acho que vou ter uma conversa com o Orador, - disse ela.

   - Vai levar Quara para casa?

   - Não sei, não. Só posso notar que ele a fez falar de novo. E não é como se ela gostasse dele. Não disse uma só palavra simpática a ele.

   - Então por que foi à casa dele?

   - Suponho que para dizer alguma coisa ofensiva para ele. Mas é preciso admitir que é um progresso em relação ao silêncio de antes.

   - O diabo se disfarça fazendo o que parecem ser boas ações, e então...

   - Quim, não me dê aulas de demonologia. Leve-me à casa do Orador, e deixe que eu trato com ele.

   Foram pelo caminho que seguia a curva do rio. As cobras d'água estavam se decompondo, de modo que seus restos e fragmentos de pele tornavam o chão lamacento. Esse é meu próximo projeto, pensou Novinha. Preciso descobrir o que faz esses monstrinhos nojentos viverem, e talvez descubra alguma coisa útil para fazer com eles. Ou pelo menos impedir que as margens do rio fiquem malcheirosas e sujas por seis semanas a cada ano. A única coisa boa era que as peles das cobras pareciam fertilizar o solo; a grama do rio, macia, crescia mais densa onde as cobras se desfaziam. Era a única forma de vida suave e agradável de Lusitânia; por todo o verão, as pessoas vinham para a margem do rio para deitar-se na estreita faixa de gramado natural que se espalhava entre os caniços e o capim forte da pradaria. O lodo das peles de cobra, por mais desagradável que fosse, ainda prometia coisas boas para o futuro.

   Quim, ao que parece, estava raciocinando nas mesmas linhas. - Mãe, podemos plantar grama do rio perto de nossa casa, algum dia?

   - Foi uma das primeiras coisas que seus avós tentaram, anos atrás. Mas não conseguiram descobrir como. A grama poliniza, mas não dá semente, e quando tentaram transplantá-la, viveu algum tempo, e depois morreu, e não cresceu de novo, no ano seguinte. Suponho que precise sempre estar perto da água.

   Quim fez uma careta e apertou o passo, obviamente contrafeito. Novinha suspirou. Quim sempre parecia sentir-se pessoalmente ofendido quando o universo não funcionava da maneira que ele queria.

   Chegaram pouco depois à casa do Orador. As crianças, é claro, estavam brincando na praça - passaram a falar mais alto, por causa do barulho.

   - É aqui, - disse Quim. - Eu acho que a senhora devia é tirar Olhado e Quara daí.

   - Obrigada por trazer-me até aqui.

   - Não estou brincando. Isso é um sério confronto entre o bem e o mal.

   - Tudo é. Descobrir quem é quem é o que dá trabalho. Não, não, Quim. Sei que você poderia explicar-me em detalhe, mas...

   - Não fique sendo condescendente comigo, mãe.

   - Mas, Quim, parece tão natural, considerando como você é sempre condescendente comigo...

   O rosto dele se contraiu de raiva.

   Ela esticou a mão e tocou-o, hesitante; os ombros dele se encolheram, como se a mão dela fosse uma aranha venenosa. - Quim, não tente me ensinar sobre o bem e o mal. Eu já estive lá, e você só conhece o mapa.

   Empurrou a mão dela para longe e afastou-se. "Como eu sinto falta dos tempos em que não conversávamos um com o outro durante semanas."

   Ela bateu palmas. Logo a porta se abriu. Era Quara. - Oi, mãezinha, também veio jogar?

   Olhado e o Orador estavam brincando de guerra de astronaves no terminal. O Orador recebera uma máquina com um campo holográfico maior e mais detalhado que a maioria, e os dois operavam esquadrilhas de mais de uma dúzia de naves de cada vez. Era muito complicado, e nenhum dos dois levantou os olhos ou cumprimentou-a.

   - Olhado me mandou calar a boca, ou arrancaria minha língua e faria que eu a comesse num sanduíche, - disse Quara. - Então é melhor não dizer nada até o fim do jogo.

   - Por favor, sentem-se, - murmurou o Orador.

   - Você está acabado, agora, Orador, - crocitou Olhado.

   Mais da metade da frota do Orador desapareceu numa série de explosões simuladas. Novinha sentou-se num banco.

   Quara sentou-se no chão, ao lado dela. - Ouvi você e Quim conversando lá fora. Vocês estavam gritando, e nós escutamos tudo.

   Novinha enrubesceu. Não gostou de saber que o Orador a ouvira brigando com o filho. Não era nada da conta dele..Nada da família dela era da conta dele. Certamente, ela não aprovava que ele jogasse jogos de guerra. Era arcaico e fora de moda. Havia séculos que não aconteciam batalhas no espaço, só correrias atrás dos contrabandistas. Milagre era um lugar tão pacífico que ninguém possuía uma arma mais perigosa que o choque do Guarda. Olhado nunca assistira a um combate na sua vida. Mas ali estava ele, empenhado num jogo de guerra. Talvez fosse algo que a evolução tivesse colocado nos machos da espécie, o desejo de esmigalhar rivais ou lançá-los ao chão. Talvez a violência que ele testemunhara em casa fez com que a procurasse num jogo. Minha culpa. De novo, minha culpa.

   De repente, Olhado gritou de frustração, quando a frota dele desapareceu, numa série de explosões. - Eu não vi! Não acredito que você conseguiu! Nem vi chegando!

   - Sim, mas não grite, - retrucou o Orador. - Reproduza o jogo e veja como eu fiz, para que você fique prevenido, da próxima vez.

   - Pensei que os Oradores eram como padres, ou coisa parecida. Como ficou tão bom em tática?

   O Orador sorriu encabulado para Novinha, enquanto respondia. - Às vezes, é como uma batalha fazer as pessoas lhe contarem a verdade.

   Olhado encostou-se na parede, olhos fechados, como se estivesse reproduzindo as cenas do jogo.

   - Você esteve espionando, - interpôs-se Novinha. - E nem foi muito esperto. É isso o que passa por "tática" entre os Oradores dos Mortos?

   - Apanhei você, não é? - o Orador sorria.

   - O que estava procurando em meus arquivos?

   - Vim Orar pela morte de Pipo.

   - Eu não o matei. Meus arquivos não são da sua conta.

   - Você chamou-me aqui.

   - Mas mudei de idéia. Lamento. Isso ainda não lhe dá o direito de...

   A voz dele de repente abrandou-se, ajoelhou-se na frente dela, para que pudesse ouvi-lo bem. - Pipo ficou sabendo de alguma coisa com você, e o que quer que tenha aprendido, os porquinhos mataram-no por isso. Então você trancou seus arquivos para que ninguém jamais descobrisse. Até recusou-se a casar com Libo, só para que ele não tivesse acesso ao que Pipo viu. Você deformou e acabou com sua vida e com as vidas de todos os que você amou, para impedir que Libo, e agora Miro, soubessem desse segredo, e morressem.

   Novinha sentiu um frio, as mãos e pés começaram a tremer. Ele chegara só há três dias, e já sabia mais do que Libo. - Tudo mentira, - disse ela.

   - Ouça-me, Dona Ivanova. Não funcionou. Libo morreu do mesmo jeito, não é? Seja qual for o seu segredo, conservá-lo para si não salvou a vida dele. Nem vai salvar a de Miro. Ignorância e dissimulação não podem salvar ninguém. Saber é o que salva.

   - Nunca, - disse ela, entre dentes.

   - Entendo que tenha escondido de Libo e Miro, mas o que eu represento para você? Não sou nada para você, de modo que o que importa se eu souber do segredo, e isso causar a minha morte?

   - Pouco me importa que você viva ou morra, mas nunca terá acesso àqueles arquivos.

   - Parece que não entende que não tem o direito de vendar os olhos dos outros. Seu filho e a irmã dele vão todos os dias ao encontro dos porquinhos, e graças a você, não sabem se sua próxima palavra ou seu próximo gesto será sua sentença de morte. Amanhã, vou com eles, porque não posso Orar sobre a morte de Pipo sem falar com os porquinhos...

   - Não quero que você Ore pela morte de Pipo.

   - Não me importo com o que você queira, não é por você que o faço. Mas estou pedindo encarecidamente que me diga o que Pipo sabia.

   - Nunca vai saber o que Pipo sabia, porque ele era uma excelente pessoa que...

   - Que pegou uma menininha assustada e curou as feridas de seu coração. - E quando disse isto, pousou a mão no ombro de Quara.

   Era mais do que Novinha podia suportar. - Como se atreve a se comparar a ele? Quara não é uma órfã, está ouvindo? Tem uma mãe, que sou eu, e ela não precisa de você, nenhum de nós precisa de você, nenhum de nós! - Então, inexplicavelmente, estava chorando. Não queria chorar na frente dele. Nem queria estar aqui. Ele estava confundindo tudo. Ela foi aos trancos até a porta, e bateu-a atrás de si. Ele era como o demônio. Sabia demais, pedia demais, dava demais, e já todos precisavam demais dele. Como pôde assumir tanto poder sobre eles em tão pouco tempo?

   Então lembrou-se de algo que de imediato secou suas lágrimas e encheu-a de terror. Tinha dito que Miro e a irmã dele iam falar com os porquinhos todos os dias. Ele sabia. Sabia todos os segredos.

   Tudo, exceto o segredo que nem ela mesma descobrira - aquele que Pipo descobrira na simulação dela. Se ele descobrisse isto, teria nas mãos tudo o que ela escondera por todos estes anos. Quando chamou o Orador dos Mortos, queria que ele descobrisse a verdade a respeito de Pipo; mas descobriu a verdade a respeito dela.

 A porta bateu. Ender encostou-se no banquinho onde ela estivera sentada, e apoiou a cabeça nas mãos.

   Ouviu Olhado levantar-se e aproximar-se dele devagar.

   - Você tentou acessar os arquivos de mamãe.

   - Sim.

   - Fez-me ensiná-lo a fazer pesquisa, para espionar minha mãe. Fez de mim um traidor.

   Neste exato momento, não haveria resposta que pudesse satisfazer Olhado; Ender nem tentou. Esperou em silêncio, enquanto o outro saiu pela porta afora.

   O torvelinho que sentia não era silencioso para a rainha da colméia. Sentiu-a remexer-se em sua mente, atraída por aquela angústia. Não, disse para ela, silenciosamente. Não há nada que você possa fazer, nada que eu possa explicar. Coisas humanas, é tudo, problemas humanos, estranhos, além da sua compreensão.

   < Ah >. Sentiu-a tocá-lo por dentro, como a brisa pelas folhas de uma árvore, sentiu a força e o vigor de madeira crescendo, raízes agarrando firmemente a terra, o jogo suave da luz do sol sobre folhas apaixonadas. <Veja o que aprendemos dele, Ender, a paz que ele descobriu >. A sensação desapareceu, enquanto a rainha recolhia-se, em sua mente. A força da árvore ficou com ele, a calma e quietude substituíram seu silêncio atormentado.

   Foi só por um momento; o som de Olhado fechando a porta ainda ressoava pela sala. A seu lado, Quara ficou de pé e correu até a cama dele. Pulou em cima dela algumas vezes.

   - Você só durou alguns dias, - disse ela alegremente. - Agora todos o odeiam.

   Ender riu-se, sem vontade, e olhou para ela. - E você?

   - Eu também. Eu odiei você antes de todos, tirando Quim. - Ela escorregou da cama e foi para o terminal. Tecla por tecla, cuidadosamente ligou-o. Surgiu um grupo de problemas de adição, de duas casas, no ar. - Quer me ver fazer aritmética?

   Ender levantou-se e ficou com ela, perto do terminal. - Claro. Mas esses problemas parecem difíceis.

   - Não para mim,- respondeu ela alegremente. - Eu resolvo mais depressa que qualquer um.

  

                      Ella

     MIRO: Os porquinhos chamam a si mesmos de machos, mas nós só podemos aceitar a palavra deles sobre isso.

     UANDA: Por que eles mentiriam?

     MIRO: Sei que você é jovem e ingênua, mas há algum equipamento que falta.

     UANDA: Passei em antropologia física. Quem disse que eles têm de fazer do mesmo jeito que nós?

     MIRO: Obviamente não fazem. (Aliás, por exemplo, nós nunca fazemos). Talvez eu tenha descoberto onde estão os órgãos genitais deles. Aquelas protuberâncias na barriga, onde o pêlo é pouco e fino.

     UANDA: Mamilos vestigiais. Mesmo você os tem.

     MIRO: Vi Come-Folhas e Xícaras ontem, a dez metros de distância, de modo que não os vi muito bem, mas Xícaras estava acariciando a barriga de Come-Folhas, e acho que aquelas protuberâncias poderiam estar intumescidas.

     UANDA: Mas poderiam não estar

     MIRO: Uma coisa é certa. A barriga de Come-Folhas estava úmida - o sol se refletia nela - e ele estava gostando.

     UANDA: Que coisa mais pervertida.

     MIRO: Por que não? Eles são todos solteiros, não? São adultos, mas suas assim chamadas esposas não iniciaram nenhum deles nas alegrias da paternidade.

     UANDA: O que acho é que um xenador sofrendo de privação sexual está projetando suas frustrações sobre seu objeto de estudo.

 

   Marcos Vladimir Ribeira von Hesse e Uanda Quenhatta Figueira Mucumbi, Notas de Trabalho

     1970:1:4:30.

  

     A clareira estava muito calma. Miro percebeu de imediato que algo estava errado. Os porquinhos não estavam fazendo nada. Só de pé, ou sentados, aqui e ali. E parados: mal respiravam. Olhando para o chão.

   Exceto por Humano, que emergiu da floresta atrás deles. Andava devagar, rígido, para a frente. Miro sentiu o cotovelo de Uanda, mas não olhou para ela. Sabia o que ela estava pensando: o mesmo que ele. Seria este o momento em que eles nos matariam, como mataram Libo e Pipo?

   Humano observou-os fixamente, por vários minutos. Era irritante aquela espera. Mas Miro e Uanda eram bem disciplinados. Nada disseram, nem deixaram seus rostos mudar a expressão relaxada e sem expressão que praticaram durante anos. A arte da indiferença foi a primeira que precisaram aprender antes que Libo os deixasse acompanhá-lo. Até que seus rostos nada transparecessem, até que não transpirassem visivelmente sob tensão emocional, nenhum porquinho os veria. Como se adiantasse - Humano era muito hábil para transformar mudanças de assunto em respostas, deduzindo fatos de afirmações vazias. Mesmo sua absoluta quietude sem dúvida transmitia o medo, mas fora daquele círculo, não havia escapatória. Tudo comunicava alguma coisa.

   - Vocês mentiram para nós, - disse Humano.

   Não responda, Miro pensou, e Uanda ficou tão calada que era como se o ouvisse. Sem dúvida, ela estava pensando a mesma mensagem para ele.

   - Fuçador diz que o Orador dos Mortos quer vir ter conosco.

   Era a idéia mais enlouquecedora a respeito dos porquinhos. Sempre que tinham algo impossível para dizer, sempre punham a culpa em algum porquinho morto que não poderia ter dito a coisa. Sem dúvida, implicava algum ritual religioso: vá até a árvore-totem, faça uma pergunta importante e fique ali contemplando as folhas ou a casca, até conseguir exatamente a resposta desejada.

   - Nunca dissemos outra coisa, - respondeu Miro. Uanda respirou um pouco mais depressa.

   - Vocês disseram que ele não viria.

   - Isso mesmo. Não pode. Tem de obedecer à lei, como todos os outros. Se tentasse passar pela cerca sem permissão...

   - Mentira! Miro calou-se.

   - É a lei, - repetiu Uanda, calmamente.

   - A lei já foi dobrada antes, - disse Humano. - Vocês poderiam trazê-lo aqui, mas não trazem. Tudo depende dele vir até aqui. Fuçador diz que a rainha da colméia não pode nos dar seus presentes se ele não vier.

   Miro tentou controlar sua impaciência. A rainha da colméia! Já não contara aos porquinhos uma dúzia de vezes que todos os insecta estavam mortos? E agora a rainha da colméia falava com eles, do mesmo jeito que ó falecido Fuçador. Seria muito mais fácil tratar com os porquinhos se eles parassem de receber ordens dos mortos.

   - Assim é a lei, - disse Uanda de novo. - Se pedirmos a ele que venha, ele poderia nos denunciar e seríamos mandados embora, e nunca mais viríamos ver vocês.

   - Ele não vai denunciar ninguém. Ele quer vir.

   - Como sabe?

   - Fuçador disse.

   Havia ocasiões em que Miro tinha vontade de fazer picadinho da árvore-totem que crescia no lugar onde Fuçador fora morto. Talvez então acabassem as mensagens para Miro. Mas talvez então eles batizassem alguma outra árvore de Fuçador, além de ficarem loucos da vida. Não dê o menor sinal de que duvida da religião deles, era a regra do manual; xenólogos de outros planetas, e mesmo antropólogos sabiam disso.

   - Pergunte a ele, - disse Humano.

   - Fuçador? - perguntou Uanda.

   - Não, ele não falaria com vocês, - disse Humano. Com um tom de desprezo: - Perguntem ao Orador se ele quer vir ou não.

   Miro esperou que Uanda respondesse. Ela já sabia qual seria a resposta dele. Já não tinham discutido o assunto muitas e muitas vezes nos últimos dias? Ele é um bom homem, dizia Miro. Um fingido, respondia Uanda. Era bom com os meninos, dizia Miro. Estupradores de crianças também, respondia Uanda. Acredito nele, dizia Miro. Porque você é um idiota, respondia Uanda. Podemos confiar nele, dizia Miro. Vai nos trair, dizia Uanda. E sempre terminava assim.

   Mas os porquinhos mudaram a equação. Os porquinhos acrescentaram uma grande pressão em favor de Miro. Usualmente, quando os porquinhos pediam o impossível, ele correra em auxílio dela. Mas isto não era impossível, e ele não queria ajudá-la, de modo que nada disse. Pressione, Humano, porque desta vez você tem razão e Uanda precisa ser dobrada.

   Sentindo-se só, e sabendo que Miro não a ajudaria, cedeu um pouco. - Talvez se o trouxermos só até a margem da floresta.

   - Traga-o aqui, - respondeu Humano.

   - Não podemos, - alegou ela. - Olhe só para você. Usando i Fazendo cerâmica. Comendo pão.

   Humano sorriu. - Sim. Tudo isso. Mas traga-o aqui.

   - Não.

   Miro encolheu-se, impedindo-se de fazer um sinal para ela. Era a única coisa que nunca tinham feito antes: recusar taxativamente um pedido. Sempre diziam: "Não podemos, porque..." ou: "Gostaríamos de atendê-los...". Mas uma só palavra de negação, isso nunca tinha acontecido.

   O sorriso de Humano desapareceu. - Pipo nos disse que mulheres não resolvem. Pipo nos disse que os homens e as mulheres humanos decidem juntos. De modo que você não pode dizer não se ele também não disser não. - Olhou para Miro. - Você também diz não?

   Miro não deu resposta. Sentiu o cotovelo de Uanda.

   - Você não diz nada, - Humano voltou a manifestar-se. - Deve dizer sim ou não.

   Mesmo assim, Miro ainda não respondia.

   Alguns dos porquinhos à volta deles se levantaram. Miro não fazia idéia do que estavam fazendo, mas o movimento em si, com o silêncio intransigente de Miro como detonador, parecia uma ameaça. Uanda, que nunca recuaria perante uma ameaça a si mesma, cedeu à ameaça implícita a Miro. - ele diz sim, - murmurou.

   - Ele diz sim, mas para você, fica calado. Você diz não, mas não fica calada por ele. - Humano tirou um muco espesso da boca com o dedo e jogou no chão. - Você não é nada.

   Humano deu uma pirueta no ar para trás, virou no meio do pulo, e deu-lhes as costas, afastando-se. Imediatamente os outros porquinhos voltaram à vida, indo rapidamente para Humano, que os dirigiu para a margem da floresta, longe de Miro e Uanda.

   Humano parou abruptamente. Um outro porquinho, em vez de segui-lo, ficou na sua frente, impedindo o caminho. Era Come-Folhas. Se ele ou Humano falaram, Miro não podia ouvi-los nem ver o movimento da boca. Notou, porém, que Come-Folhas estendia a mão para tocar a barriga de Humano. A mão ficou ali por um momento, Come-Folhas deu meia-volta e saiu por entre as árvores como uma criança.

   Num instante, todos os porquinhos tinham ido embora.

   - Era uma batalha, - comentou Miro. - Humano e Come-Folhas. Estão em lados opostos.

   - Lados opostos de quê?

   - Gostaria de saber. Mas posso adivinhar. Se trouxermos o Orador, Humano vence. Se não, Come-Folhas vence.

   - Vence o quê? Se trouxermos o Orador, ele vai nos trair, e então, todos perderemos.

   - Ele não vai nos trair.

   - Por que não, se até você me traiu daquele jeito?

   A voz dela era como uma chicotada, e ele quase gritou, quando se sentiu golpeado. - Eu, trair você? - disse, num cochicho. - Eu não! Nunca!

   - Papai sempre dizia: fiquem unidos perante os porquinhos, nunca os deixem ver em desacordo, e você...

   - E eu não disse sim para eles. Você é que disse não, você é que tomou uma posição que sabia que eu não aceitaria!

   - Então se discordamos, é sua obrigação... Interrompeu-se. Só então se deu conta do que ia dizer.

   Mas interromper-se não impediria que Miro soubesse o que ela ia dizer. Era obrigação dele fazer o que ela mandasse, até que ela mudasse de idéia. Como se ele fosse um aprendiz! - E eu que pensei que trabalhávamos juntos. - Virou-se e afastou-se, pela floresta, voltando para Milagre.

   - Miro, - ela chamou, - Não era minha intenção...

   Esperou que ela o alcançasse, pegou-a pelo braço e disse, com veemência: - Não grite! Ou não se importa que os porquinhos nos ouçam? O xenador mestre decidiu que eles podem ver tudo, agora, mesmo o professor ralhando com o aluno?

   - Não sou sua professora, eu...

   - Isso mesmo, não é. - Deu-lhe as costas e continuou andando.

   - Mas Libo era meu pai, de modo que eu sou...

   - Xenadora por direito hereditário. Direito hereditário, é isso? Então o que eu sou, por direito hereditário? Um débil mental bêbado que bate na mulher? - Agarrou-a pelos braços, machucando. - É isso o que você quer que eu seja? Uma cópia do meu querido paizinho?

   - Me larga!

   Empurrou-a para longe. - Seu aprendiz acha que hoje você se comportou como uma idiota. Seu aprendiz acha que você devia ter confiado em seu julgamento sobre o Orador, e seu aprendiz acha que devia ter confiado em sua avaliação de que era coisa séria para os porquinhos, porque você estava estupidamente errada sobre as duas coisas, e isso pode ter custado a vida de Humano.

   Era uma acusação terrível, mas era exatamente o que ambos temiam, que Humano acabaria como Fuçador, e como outros, nos últimos anos, eviscerados, com uma arvorezinha crescendo sobre seu cadáver.

   Miro sabia que tinha falado coisas injustas, e que ela não estava errada em se enfurecer contra ele. Não tinha o direito de acusá-la, quando nenhum deles saberia quais as chances de Humano, até que fosse tarde demais.

   Uanda não se enfureceu tanto. Acalmou-se visivelmente, regularizando a respiração, e assumindo expressão neutra. Miro seguiu seu exemplo. - O que importa, - disse ela - é fazermos o melhor que pudermos. As execuções sempre foram à noite. Se quisermos ter esperança de salvar Humano, temos de trazer o Orador aqui esta tarde, antes que escureça.

   - Sim; e desculpe-me por tudo.

   - Desculpe-me você também.

   - Como não sabemos o que estamos fazendo, não é culpa de ninguém quando erramos.

   - Eu só gostaria de acreditar que uma escolha certa é possível.

   Ella estava sentada numa pedra e banhava os pés na água, enquanto esperava pelo Orador dos Mortos. A cerca estava a apenas alguns metros de distância, passando por sobre a grade de metal que impedia que as pessoas nadassem por baixo. Como se alguém quisesse. A maioria das pessoas de Milagre fingia não ver a cerca. Nunca chegava perto. Por isso, pediu ao Orador que a encontrasse ali. Mesmo com um dia quente e sendo depois do horário de aulas, as crianças não iam andar ali, na Vila Última, onde a cerca encontrava o rio e a floresta quase chegava até a cerca. Só os fabricantes de sabão, ceramistas e oleiros vinham cá, e iam-se logo que terminavam o trabalho do dia. Ela poderia dizer o que precisava dizer, portanto, sem o risco de alguém ouvir.

   Não precisou esperar muito. O Orador subiu o rio num bote, como se fosse um dos fazendeiros do outro lado, que não precisava de estradas. A pele de seu torso era espantosamente branca; mesmo os poucos lusos que tinham a pele clara o bastante para serem chamados "loiros" eram bem mais escuros. Sua brancura dava-lhe um aspecto fraco e miúdo. Mas ela logo viu como o bote se deslocava rápido contra a corrente; como os remos eram colocados precisamente, na profundidade certa, com um movimento longo e contínuo, e como os músculos dele estavam apertadamente envolvidos pela pele. Sentiu uma pontada de dor, e notou que lamentava por seu pai, a despeito do ódio que sentia por ele, só agora percebia que tinha algum amor por ele, mas lamentava pela força de seus ombros e costas, pelo suor que fazia sua pele castanha brilhar como vidro ao sol.

   Não, disse consigo mesma, não lamento por sua morte, Cão. Lamento por que você não era como o Orador, que não tem parentesco conosco e nos deu mais coisas boas em três dias do que você em toda sua vida; lamento que seu lindo corpo fosse comido por dentro.

   O Orador viu-a e levou o bote até a margem, onde ela o esperava. Ella entrou por entre os caniços e a lama para ajudá-lo a puxar o bote para terra.

   - Desculpe por fazê-la entrar na lama, mas fiquei sem usar meu corpo por duas semanas, e a água estava convidativa...

   - O senhor rema bem.

   - O planeta de onde vim, Trondheim, era quase que só gelo e água. Umas pedras aqui e ali, um pouco de terra, mas uma pessoa que não soubesse remar era como que aleijada.

   - O senhor nasceu lá?

   - Não, mas foi o último lugar onde Orei. - Sentou-se na grama, de frente para a água.

   Ella foi sentar-se a seu lado. - Mamãe está com raiva do senhor. Os lábios dele quase sorriram. - Ela já me contou. Sem pensar, imediatamente começou a justificar a mãe: - O senhor tentou ler os arquivos dela.

   - Eu li mesmo os arquivos. A maioria. Tudo, menos o que importava.

   - Eu sei. Quim me contou. - Sentia-se um pouco triunfante, porque o sistema de proteção de sua mãe fora melhor que ele. Mas depois lembrou-se que não estava do lado dela. Estivera tentando durante anos que sua mãe lhe abrisse aqueles arquivos. Mas levada pelo embalo, disse coisas que não queria. - Olhado está sentado dentro de casa, com os olhos desligados, e tocando música bem alto nos fones de ouvido. Está muito chateado.

   - Bem, ele pensa que eu o traí.

   - E não traiu? - Mas tampouco era isto o que ela pretendia dizer.

   - Sou um Orador dos Mortos. Digo a verdade quando falo, e não fico à distância dos segredos dos outros.

   - Eu sei. Foi por isso que chamei um Orador. Não respeita ninguém. Ele ficou contrariado. - Por que me convidou para vir aqui? Estava dando tudo errado. Falava como se fosse contra ele, como se não sentisse gratidão pelo que já fora feito em prol de sua família. Parecia dirigir-se ao inimigo. Será que Quim está controlando meus pensamentos, para que eu diga as coisas que não quero dizer?

   - Você me convidou para vir até aqui, no rio. O resto de sua família não fala mais comigo, e então recebo um recado seu. Para queixar-se de minha invasão de privacidade? Para me dizer que não respeito ninguém?

   - Não, - disse ela, sentindo-se mal. - Não era nada disso que eu queria dizer.

   - Já pensou que eu jamais seria Orador se não tivesse respeito pelas pessoas?

   Frustrada, ela vomitou ais palavras: - Eu queria que o senhor invadisse todos os arquivos dela! Eu queria que o senhor pegasse os segredos dela e os publicasse por todos os Cem Planetas! - Ella chorava, mas não saberia explicar porquê.

   - Entendo. Ela não lhe deixa ver aqueles arquivos também.

   - Sou aprendiz dela, não sou ? E por que choro, diga-me! O senhor sabe como.

     - Não tenho o jeito de fazer as pessoas chorarem, Ella, - respondeu com suavidade. A voz dele era como uma carícia. Não: mais forte, era como uma mão que segurasse a dela, dando-lhe equilíbrio. - Dizer a verdade faz você chorar.

   - Sou uma ingrata, má filha...

   - Sim, você é ingrata e má filha, - ele riu-se um pouco. - Ao longo de todos estes anos de caos e negligência, você manteve unida a sua família, sem a ajuda da mãe, e quando seguiu a carreira dela, ela não compartilhou com você a mais vital informação, você só merecia a confiança e o amor dela, e a resposta foi isolar você da vida dela, em casa e no trabalho; por fim, confessa a alguém que está cansada de tudo. Realmente, você é a pior pessoa que já conheci.

   Ella logo ria de sua autocondenação. Infantilmente, não queria rir de si mesma. - Não fique me dando lições. - Tentava pôr o máximo de desprezo na voz.

   Ele notou. Seus olhos ficaram distantes e frios. - Não agrida um amigo.

   Não queria que ele ficasse distante. Mas não podia se impedir de dizer com frieza e raiva: - O senhor não é meu amigo.

   Por um momento, receou que ele acreditasse nisso. Mas ele sorriu. - Você não saberia reconhecer um amigo, se visse um de perto.

   Sim, eu reconheceria, pensou. Estou vendo um agora mesmo. Sorriu para ele.

   - Ella, você é uma boa xenobióloga?

   - Claro.

   - Tem dezoito anos. Poderia ter feito os exames da guilda aos dezesseis. Mas não fez.

   - Mamãe não deixou. Disse que eu não estava pronta.

   - Não precisa da permissão de sua mãe, depois dos dezesseis.

   - Um aprendiz precisa ter a permissão do mestre.

   - E agora que tem dezoito, não precisa disso, tampouco.

   - Ela ainda é a xenobióloga de Lusitânia. O laboratório ainda é dela. Se eu passasse no exame, ela poderia não permitir meu acesso ao laboratório até sua morte!

   - Ela ameaçou com isso?

   - Deixou bem claro que eu jamais faria o exame.

   - Porque assim que você não fosse mais aprendiz, se ela admiti-la no laboratório como colega, você teria acesso total...

   - Aos arquivos de trabalho. A todos os arquivos protegidos.

   - Então não deixaria nem sua filha começar carreira, e está manchando sua ficha - inapta para os exames, mesmo aos dezoito - só para que você não leia aqueles arquivos.

   - Sim.

   - Por quê?

   - Minha mãe é louca.

   - Não, qualquer coisa, menos louca.

   - Ela é boba mesmo, senhor Orador.

   Ele riu e deitou-se na grama. - Diga-me como ela é "boba", então.

   - Vou fazer a lista. Primeiro: não permite nenhuma investigação da Descolada. Há trinta e quatro anos, a Descolada quase acabou com esta colônia. Meus avós, os Beatos, que Deus os abençoe, mal conseguiram parar a doença. Aparentemente, o agente da doença, os corpos da Descolada, ainda estão por aí - temos de ingerir um suplemento, como uma vitamina, para impedir o ressurgimento da praga. Acho que já lhe disseram isso, não? Uma vez que ele entre no corpo, vai precisar desse remédio por toda a vida, mesmo saindo deste planeta.

   - Sim, eu sabia.

   - Ela não me deixa estudar os corpos da Descolada. Seja lá como for, é isso o que está em alguns dos arquivos protegidos. Trancou todas as descobertas de Guto e Cida sobre os corpos da Descolada. Não se pode ler nada.

   Os olhos do Orador se estreitaram. - Então, isso é um terço da "boba". O que mais?

   - Isso é mais do que um terço. Seja o que for, o corpo da Descolada adaptou-se de modo a tornar-se um parasita humano dez anos depois da fundação da colônia. Dez anos! Se pôde adaptar-se uma vez, pode adaptar-se de novo.

   - Talvez ela não pense assim.

   - Talvez eu tenha o direito de chegar a essa conclusão por mim mesma. Ele pousou uma mão no joelho dela para acalmá-la. - Concordo. Mas continue. A segunda razão pela qual ela é "boba".

   - Não permite nenhum pesquisa teórica. Nada de taxonomia. Nada de modelos evolucionários. Se tento fazer alguma coisa, ela diz que obviamente não tenho nada para fazer e sobrecarrega-me com outras tarefas, até pensar que desisti.

   - Pelo que vejo, você não desistiu.

   - É para isso que serve a xenobiologia. Sim, muito bom que ela possa fazer uma batata que faça o máximo uso dos nutrientes deste ambiente. Maravilhoso que tenha criado uma linhagem de amaranto que tornou a colônia auto-suficiente em proteína com apenas dez acres cultivados. Mas isso é apenas malabarismo molecular.

   - Trata-se de sobrevivência.

   - Mas não sabemos efetivamente nada. É como nadar só na superfície de um oceano. Muito confortável, pode-se mover um pouco, mas não se sabe se há tubarões lá embaixo! Poderíamos estar rodeados de tubarões e ela não quer saber.

   - Terceira coisa?

   - Ela não quer trocar informações com os xenadores. Note bem: nada. Isso, sim, é uma coisa de louco! Não podemos sair da área cercada. Isso quer dizer que não há uma só árvore que possamos estudar. Não sabemos absolutamente nada sobre a flora e a fauna deste mundo, exceto pelo que está dentro da cerca. Um rebanho de cabras e um pouco de capim, um ecossistema ribeirinho ligeiramente diferente, e eis tudo. Nada sobre os animais da floresta, nenhum intercâmbio de informação. Não lhes contamos nada, e se eles nos enviam dados, apagamos os arquivos sem ler. Como se ela tivesse levantado uma muralha impenetrável à nossa volta. Nada entra, nada sai.

   - Talvez tenha suas razões.

   - Claro que tem suas razões. Gente louca sempre tem suas razões. Por exemplo, odiava Libo. Odiava mesmo. Não deixava Miro falar sobre ele, não nos deixava brincar com os filhos dele - China e eu fomos grandes amigas durante anos e ela não a deixava vir até minha casa ou que eu fosse até a casa dela, depois da escola. Quando Miro virou aprendiz dele, não falou com ele, nem deixava um lugar para ele na mesa por um ano.

   Pensou que o Orador duvidava, que estivesse exagerando.

   - Eu disse um ano. No dia em que ele foi ao escritório do xenador pela primeira vez como aprendiz de Libo, ele voltou para casa, e ela não lhe disse palavra, nada, e quando ele sentou-se para jantar, ela tirou o prato, bem na frente dele, limpou os talheres, como se ele não estivesse presente. Ele ficou ali durante toda a refeição, só olhando para ela. Então Papai ficou zangado com ele, e mandou que saísse.

   - E ele, saiu?

   - Não; o senhor não conhece Miro! - Ela riu-se, amargamente. - Não brigou, mas não desistiu. Nunca, jamais respondeu aos maus tratos de Papai. Em toda minha vida, não me lembro de tê-lo ouvido responder à raiva com raiva. Mamãe - bem, ele vinha para casa todas as noites do escritório do xenador e sentava-se onde havia um prato, e todas as noites mamãe pegava o prato e talheres dele, e ele ficava sentado ali até que Papai mandava que saísse. Claro, depois de uma semana, Papai gritava para que ele saísse assim que Mamãe esticava a mão para seu prato. Papai adorava isso, o maldito achava que era uma grande coisa, odiava Miro, e por fim, Mamãe estava do lado dele, contra Miro.

   - Quem desistiu primeiro?

   - Ninguém. - Ella olhou para o rio, percebendo como isso soava terrível, percebendo que envergonhava sua família na frente de um estranho. Mas ele não era um estranho, não? Porque Quara estava falando de novo, e Olhado se envolvia com as coisas de novo, e Grego, por pouco tempo, foi quase um menino normal. Ele não era um estranho.

   - Como acabou? - perguntou o Orador.

   - Acabou quando os porquinhos mataram Libo. Veja só o quanto Mamãe o odiava. Quando ele morreu, ela comemorou perdoando o filho. Naquela noite, quando Miro voltou para casa, foi depois do jantar, era tarde. Uma noite terrível, todos estavam tão assustados, os porquinhos pareciam horríveis, e todos gostavam tanto de Libo - exceto Mamãe, claro. Mamãe esperou por Miro. Ele entrou, foi para a cozinha, e sentou-se à mesa, Mamãe pôs um prato na frente dele, e pôs a comida. Não falou palavra. Ele comeu. Sem dizer palavra. Como se o ano anterior nunca tivesse acontecido. Acordei no meio da noite, porque ouvi Miro vomitando e chorando no banheiro. Acho que ninguém mais ouviu, e não fui ter com ele, porque achei que não queria que ninguém ouvisse. Agora acho que deveria ter ido, mas tive medo. Aconteciam coisas tão terríveis na minha família.

   O Orador assentiu.

   - Eu devia ter falado com ele.

   - Sim, você devia.

   Uma coisa estranha aconteceu, então. O Orador concordou com ela que tinha cometido um erro naquela noite, e ela sabia que isso era verdade no momento em que falou, que o julgamento dele estava certo. Sentiu-se estranhamente curada, como se apenas falar sobre seu erro fosse o bastante para purgar aquela dor. Pela primeira vez, teve um vislumbre do que era o poder de um Orador. Não era como a confissão, penitência e absolvição oferecidas pelos padres. Era algo inteiramente diferente. Contar a sua história, e perceber que não era mais a mesma pessoa. Que cometera um erro, e o erro a transformara, e agora, não cometeria o mesmo erro, porque se tornara uma pessoa diferente, com menos medo, alguém com mais compaixão.

   Se eu não sou aquela menininha assustada que ouviu o irmão numa dor desesperada e não se atreveu a ir ao encontro dele, então quem sou eu? Mas a água fluindo pela grade não dava respostas. Talvez não conseguisse saber quem era hoje. Talvez bastasse saber que não era mais quem era antes.

   Ainda assim, o Orador ficou ali na grama, olhando para as nuvens, pesadas, vindas do oeste. - Já lhe disse tudo o que sei, - disse Ella. -contei-lhe o que está naqueles arquivos - informação sobre a Descolada. É tudo o que sei.

   - Não, não é.

   - É sim, eu juro.

   - Quer dizer que obedeceu sua mãe? Quando ela lhe mandou não fazer nenhum trabalho teórico, simplesmente desligou sua mente e fez o que ela queria?

   Ela riu bastante. - É o que ela pensa.

   - Mas não foi o que você fez.

   - Sou uma cientista, mesmo que ela não seja.

   - Ela já foi. Passou no exame aos treze anos.

   - Eu sei.

   - Costumava trocar informações com Pipo antes dele morrer.

   - Também sei disso. Ela só odiava Libo.

   - Então diga-me, Ella. O que descobriu com seu trabalho teórico?

   - Nenhuma resposta. Mas pelo menos sei quais são algumas das perguntas. Já é um começo, não? Ninguém mais está fazendo perguntas. Engraçado, não? Miro diz que os xenólogos framling sempre o atormentam, e a Uanda, pedindo mais informação, mais dados, mas a lei os impede de saber mais coisas. Mas nenhum xenobiólogo framling jamais pediu informação a nós. Estudam a biosfera em seus próprios planetas e não fazem uma só pergunta a Mamãe. Sou a única que pergunta, e ninguém se importa.

   - Eu me importo. Preciso saber quais são as perguntas.

   - Muito bem, aqui vai uma. Temos um rebanho de cabras dentro da cerca. As cabras não podem pular a cerca, nem a tocam. Examinei e marquei cada cabra do rebanho, e sabe de uma coisa? Não há um só macho. São todas fêmeas.

   - Má sorte, - alegou o Orador. - Eles deveriam ter deixado ao menos um macho.

   - Não importa. Nem sei se existem mesmo machos. Nos últimos cinco anos, cada cabra adulta pariu pelo menos uma vez. Nenhuma delas se acasalou.

   - Talvez elas brotem, - retrucou o Orador.

   - Os filhos não são geneticamente idênticos à mãe. Essa pesquisa eu consegui fazer às escondidas no laboratório sem que Mamãe notasse. Existe algum tipo de transferência de genes.

   - Hermafroditismo?

   - Não. São só fêmeas. Não há órgãos sexuais masculinos de espécie alguma. Isso seria uma pergunta importante? De alguma maneira, as cabras estão tendo um intercâmbio genético, sem sexo.

   - Só as implicações teológicas são enormes.

   - Não brinque.

   - Com quê? Com a ciência ou com a teologia?

   - Nenhuma. Quer ouvir mais perguntas ou não?

   - Quero.

   - Tente isso: a grama na qual está sentado. Todas as cobras d'água são geradas aqui. Vermezinhos tão pequenos que mal se vê. Comem a grama até o talo, e comem uns aos outros também, trocando a pele sempre que crescem. Então de repente, quando a grama fica uma lama com a pele morta delas, todas as cobras deslizam para o rio e nunca mais voltam!

   Ele não era xenobiólogo. Não percebeu logo as implicações.

   - Os ovos das cobras d'água são chocados aqui, mas elas não saem da água para pôr seus ovos.

   - Então elas se acasalam antes de ir para a água.

   - Sim, claro, obviamente. Já as vi se acasalarem. Não é esse o problema. O problema é: por que são cobras d'água?

   Ele ainda não entendia.

   - Elas estão totalmente adaptadas à vida subaquática. Têm brânquias, juntamente com pulmões, nadam muito bem, têm nadadeiras, evoluíram completamente para passar a vida adulta na água. Por que evoluíram daquela maneira se nascem em terra, acasalam-se em terra, e reproduzem-se em terra? No que concerne à evolução, tudo que acontece depois que você se reproduz é sem importância, exceto se você amamenta os filhotes, e as cobras d'água positivamente não amamentam. Viver na água não faz nada para melhorar sua capacidade de sobreviver, até que se reproduzam. Poderiam escorregar para a água e se afogar, e isso não teria importância, porque a reprodução estaria cumprida.

   - Sim, percebo.

   - Vê-se aqueles pequenos ovos claros na água. Nunca vi uma cobra d'água pondo-os, mas como não há outro animal dentro ou perto do rio grande o bastante para pôr aqueles ovos, parece lógico que sejam ovos de cobra d'água. Só que esses ovos grandes e claros - um centímetro de diâmetro - são completamente estéreis. Os nutrientes estão ali, está tudo pronto, mas não há embrião. Nada. Alguns deles têm um gameta - meio conjunto de genes em uma célula, pronto para se combinar - mas nenhum estava vivo. Nunca encontramos ovos de cobras d'água em terra, tampouco. Num dia, não há nada, senão grama, cada vez mais madura; no dia seguinte, os caules de grama estão fervilhando com cobras d'água recém-nascidas. Isto lhe parece uma pergunta que vale a pena?

   - Parece geração espontânea.

   - Sim, mas gostaria de achar informação suficiente para testar algumas hipóteses alternativas, mas Mamãe não deixa. Perguntei-lhe a respeito, e ela passou para mim todo o processo do teste do amaranto, para eu não ter tempo de passear pelo rio. Mais outra pergunta. Por que há tão poucas espécies por aqui? Em todos os outros planetas, mesmo em alguns semidesérticos, como Trondheim, há milhares de espécies diferentes, pelo menos na água. Aqui, só um punhado, pelo que sei. As xingadoras são as únicas aves que vimos. Só há uma espécie de mosca. As cabras são os únicos ruminantes que comem o capim. Exceto pelas cabras, os porquinhos são os únicos animais de porte que vimos. Só uma espécie de árvore. Só uma espécie de mato nas campinas, o capim; e a única outra espécie vegetal competidora é a tropeça, uma espécie de vinha que se espalha pelo chão com metros de comprimento; as xingadoras fazem seus ninhos com essa vinha. E é tudo. As moscas comem as algas nas margens do rio. Comem também o nosso lixo. Nada come a xingadora. Nada come a cabra.

   - Muito limitado, - comentou o Orador.

   - Impossivelmente limitado. Há dez mil nichos ecológicos por aqui que estão sem ser preenchidos. De modo algum, a evolução deixaria este mundo tão vazio.

   - A menos que ocorresse um desastre.

   - Exatamente.

   - Algo que tivesse varrido tudo, exceto umas poucas espécies que pudessem se adaptar.

   - Sim; está vendo? Mas eu tenho uma prova. As cabras têm um comportamento de aglomeração. Quando você se aproxima delas, elas formam um círculo, com os adultos virados para dentro, de modo que podem escoicear o intruso e proteger os filhotes.

   - Muitos animais de rebanho fazem assim.

   - Mas proteger-se contra o quê? - Os porquinhos são silvanos propriamente ditos - nunca caçam nos campos. O predador que forçou as cabras a adotarem aquele comportamento já desapareceu. E isto recentemente - nas últimas centenas de milhares de anos, no máximo um milhão de anos.

   - Não há nenhuma evidência de queda de meteoros mais recente do que vinte milhões de anos, - alegou o Orador.

   - Não, esse tipo de desastre mataria todos os animais e plantas de grande porte e deixaria centenas de outros, pequenos, ou mataria toda vida terrestre, deixando apenas a aquática. Mas a terra, o mar, e todos os ecossistemas foram desfalcados, mas alguns animais grandes sobreviveram. Acho que foi uma doença. Uma doença que passou por todas as fronteiras entre as espécies, e que pôde se adaptar a todos os seres vivos. Claro, não notaríamos essa doença agora porque todas as espécies sobreviventes adaptaram-se a ela. Agora é parte de seu padrão regular de vida. A única maneira pela qual nós a notaríamos...

   - Seria se a pegássemos, - completou o Orador, - a Descolada.

   - Está vendo? Tudo aponta para a Descolada. Meus avós descobriram uma maneira de impedir que ela matasse os humanos, mas foi preciso a melhor manipulação genética. As cabras, as cobras d'água, também acharam modos de se adaptar, e duvido que tenha sido com suplementos dietéticos. Acho que tudo está interligado. As estranhas anomalias reprodutivas, o vazio do ecossistema, tudo volta ao corpo da Descolada, e Mamãe não me deixa examiná-los. Ela não me deixa estudar o que é, como funciona, como poderia ter-se envolvido com...

   - Com os porquinhos.

   - Bem, claro, mas não só eles, todos os animais...

   O Orador estava tentando controlar sua excitação. Estava ouvindo uma explicação de algo muito difícil. - Na noite em que Pipo morreu, ela protegeu os arquivos que mostravam todo seu trabalho de então, e protegeu todos os arquivos com a pesquisa da Descolada. O que quer que tenha mostrado a Pipo tinha a ver com o corpo da Descolada, e tinha a ver com os porquinhos...

   - Foi então que ela protegeu os arquivos? - perguntou Ella.

   - Sim, sim!

   - Então estou certa, não é?

   - Sim. Obrigado. Você me ajudou muito mais do que pensa.

   - Isso quer dizer que o senhor vai Orar pela morte de Papai logo?

   O Orador fitou-a, cauteloso: - Você não quer realmente que eu Ore pela morte de seu pai. Você quer que eu Ore por sua mãe.

   - Mas ela não está morta.

   - Mas você sabe que eu não posso Orar sobre Marcão sem explicar por que ele se casou com Novinha, e por que ficaram casados todos esses anos.

   - Isso mesmo. Quero todos os segredos revelados. Quero todos os arquivos abertos. Não quero nada escondido.

   - Você não faz idéia do que está pedindo. Não sabe quanta dor vai causar se todos os segredos vierem à luz.

   - Olhe só para minha família, Orador. Como a verdade poderá causar mais dor que esses segredos já causaram?

   Sorriu para ela, mas sem muita vontade. Era afetuoso, tinha dó, mesmo. - Tem razão, tem toda a razão, mas terá dificuldades para entender isso quando ouvir toda a história.

   - Mas eu sei de toda a história, tanto quanto se pode saber.

   - Todos pensam assim, mas ninguém tem razão.

   - Quando vai Orar?

   - Assim que puder.

   - Por que não agora? Hoje? O que está esperando?

   - Não posso fazer nada, se não falar com os porquinhos.

   - Está brincando, não? Ninguém pode falar com os porquinhos, senão os xenadores, por Ordem do Congresso. Ninguém pode ir contra isso.

   - Sim; por isso é que vai ser difícil.

   - Difícil não: impossível...

   - Talvez. - Levantou-se, e ela acompanhou-o. - Ella, você me ajudou tremendamente. Ensinou-me tudo o que eu poderia esperar aprender de você. Como Olhado fez. Mas ele não gostou das coisas que fiz com o que me ensinou, e agora acha que eu o traí.

   - Ele é só um menino. Eu já tenho dezoito.

   O Orador concordou, pôs a mão no ombro dela, apertou. - Está tudo certo, então. Somos amigos.

   Ella teve quase certeza da ironia das palavras dele. Ironia e talvez uma súplica. - Sim, - insistiu ela, - amigos. Sempre.

   Ele assentiu de novo, afastou-se, empurrou o barco, e correu atrás dele em meio aos caniços e lama. Uma vez o bote flutuando livre, sentou-se e estendeu os remos, remou um pouco, ergueu o olhar e sorriu para ela. Ella sorriu-lhe de volta, mas só um sorriso não transmitia a euforia que sentia, o alívio perfeito. Ele ouvira tudo, e entendera tudo, e faria tudo o que era certo. Acreditava nisso, acreditava tão inteiramente que nem percebeu que era essa a fonte de sua alegria. Só sabia que tinha passado uma hora com o Orador dos Mortos, e agora sentia-se viva como não acontecia havia anos.

   Pegou de novo os sapatos, calçou-os de novo, e foi para casa. Mamãe ainda devia estar no escritório, mas Ella não queria trabalhar esta tarde. Queria ir para casa e fazer o jantar; esse trabalho era sempre solitário. Não queria ninguém conversando com ela. Não queria ter nenhum problema pela frente. Que aquele sentimento vivesse para sempre.

   Ella chegara em casa havia alguns minutos, e Miro entrou correndo pela cozinha: - Ella, você foi ver o Orador dos Mortos?

   - Sim; no rio.

   - Onde no rio?

   Se ela contasse onde se encontraram, ele saberia que não foi por acaso. - Por quê?

   - Escute, Ella, não é hora de suspeitas. Precisamos achá-lo. Deixamos mensagens para ele, mas o computador não consegue encontrá-lo...

   - Estava remando rio abaixo, indo para casa. Provavelmente vai chegar logo em casa.

   Miro saiu correndo, da cozinha para a sala da frente. Ela ouviu-o batucando no terminal. Então voltou: - Obrigado. Não me espere para o jantar.

   - O que há de tão urgente?

   - Nada. - Era risível responder "Nada" quando Miro estava tão obviamente agitado e apressado, que os dois caíram logo na risada. - Está bem, não é nada, é algo, mas não posso falar, tá bem?

   - Tá bem. Mas logo todos os segredos serão sabidos, Miro.

   - O que não entendi é por que ele não recebeu nosso recado. Quero dizer, o computador o estava assistindo. Ele não usa aquele implante na orelha? O computador deveria alcançá-lo. Claro, ele pode ter desligado.

   - Não, - respondeu Ella. - A luz estava ligada.

   Miro inclinou a cabeça e olhou-a de esguelha. - Você não veria aquela luzinha vermelha do implante se ele estivesse remando lá no meio do rio.

   - Mas ele veio para a margem. Conversamos.

   - Sobre o quê? Ela sorriu: - Nada.

   Ele também sorriu, mas não gostou muito. Ela entendeu: você pode esconder coisas de mim, mas eu não posso esconder nada de você, não é, Miro?

   Miro não quis discutir a questão. Tinha muita pressa. Precisava achar o Orador, e agora mesmo, e não voltaria para o jantar.

   Ela pressentia que o Orador poderia falar com os porquinhos mais cedo do que considerara possível. Por um momento, ficou muito animada. A espera ia acabar.

   Logo a animação passou, e algo mais tomou o seu lugar. Um grande medo. Um pesadelo sobre o pai de China, querido Libo, morto na encosta do morro, despedaçado pelos porquinhos. Só que não era Libo, da maneira que sempre imaginara a terrível cena. Era Miro. Não, não. Era o Orador. O Orador é que seria torturado até a morte. - Não... - sussurrou.

   Então estremeceu e o pesadelo deixou sua mente; voltou a temperar e cozinhar o macarrão, para que tivesse um gosto melhor do que grude de amaranto.

  

                      Renegados

     COME-FOLHAS: Humano diz que quando seus irmãos morrem, vocês os enterram no chão e depois fazem suas casas com essa mesma terra. (Risadas).

     MIRO: Não. Nunca escavamos onde as pessoas estão enterradas.

     COME-FOLHAS: (fica rígido, agitado) Então seus mortos não servem para nada!

  

   - Uanda Quenhatta Figueira Mucumbi, Transcrições de Diálogos.

      103:0:1969:4:13:111

  

   Ender imaginara que teriam alguma dificuldade em passar, mas Uanda pousou a palma na caixa, Miro abriu o portão, e os três puderam passar. Sem oposição. Devia ser como Ella sugeriu - ninguém quer sair do povoado, de modo que não se faziam necessárias outras medidas de segurança. Isso indicava que as pessoas estavam contentes em ficar em Milagre, ou que tinham medo dos porquinhos, ou odiavam tanto aquela prisão que tinham de fingir que a cerca não existia. Ender ainda não tinha certeza.

   Mas Uanda e Miro estavam muito tensos, quase assustados. Isso era compreensível, claro, pois estavam desobedecendo regras do Congresso para deixá-lo passar. Mesmo assim, Ender suspeitava que havia mais alguma coisa. A tensão de Miro estava somada à ansiedade, pressa; podia estar assustado, mas queria muito ver o que ia acontecer, queria antecipar-se. Uanda se controlava, passos medidos, e sua frieza não era só medo, mas também hostilidade. Não confiava nele.

   De modo que Ender não se surpreendeu quando ela foi até atrás da grande árvore que crescia perto do portão e esperou que Miro e Ender a seguissem. Ender notou como Miro ficou contrafeito por um momento, depois controlou-se. Sua máscara de não-envolvimento era tão fria quanto um ser humano conseguiria. Ender surpreendeu a si mesmo comparando Miro aos meninos que conhecera na Escola de Guerra, medindo-o como companheiro de armas, e pensou que Miro poderia se sair bem, lá. Uanda também, mas por outros motivos: considerava-se responsável pelo que acontecia, mesmo que Ender fosse adulto e ela, mais jovem. Não o respeitava em especial. O que quer que ela temesse, não era a autoridade.

   - Aqui? - perguntou Miro, suavemente.

   - Aqui ou em nenhum outro lugar, - respondeu Uanda.

   Ender abaixou-se, para sentar junto ao tronco. - Esta é a árvore de Fuçador, não é?

   Eles aceitaram aquilo com calma - mas sua pausa momentânea disse-lhe que sim, e que os surpreendera, mostrando que sabia algo de um passado que consideravam como só deles. Posso ser um framling por aqui, Ender disse consigo mesmo, mas não preciso ser ignorante.

   - Sim, -- confirmou Uanda. - Este é o totem de onde eles recebem mais... orientação. Nos últimos tempos; sete ou oito anos. Nunca nos deixaram ver os rituais em que falam com os ancestrais, mas parece que tamborilam nas árvores com bastões pesados e polidos. Ouvimos em algumas noites.

   - Bastões feitos de galhos caídos?

   - Achamos que sim. Por quê?

   - Porque não têm ferramentas de pedra ou metal para cortar a madeira - não é assim? Além do mais, se veneram as árvores, não parece correto cortá-las.

   - Não achamos que eles veneram as árvores. É totêmico. Elas representam ancestrais mortos. Eles... plantam-nas. Junto com os cadáveres.

   Uanda queria parar, para conversar com ele ou interrogá-lo, mas Ender não tinha intenção de deixá-la acreditar que ela ou Miro estivessem encarregados da expedição. Ender pretendia falar ele mesmo com os porquinhos. Nunca se preparara antes para uma Oração deixando que outrem determinasse a agenda, e esta não seria a primeira vez. Além do mais, tinha informação que os dois não tinham. Conhecia a teoria de Ella.

   - E nos outros lugares? Eles plantam árvores em outras ocasiões? Os dois se entreolharam. - Não que tenhamos visto, - respondeu Miro. Ender não estava sendo apenas curioso. Ainda pensava no que Ella lhe contara sobre anomalias reprodutivas. - Essas árvores também crescem naturalmente? Há sementes e brotos espalhados pela floresta?

   Uanda abanou a cabeça. - De fato, não temos nenhuma evidência das árvores serem plantadas, senão sobre os cadáveres. Pelo menos todas as árvores que conhecemos são bem velhas, exceto por estas três, aqui.

   - Quatro, se não nos apressarmos, - interveio Miro.

   Ah! Havia tensão entre eles. O senso de urgência de Miro era para salvar um porquinho de ser plantado na base de mais uma árvore. Por outro lado, Uanda estava preocupada com coisa bem diferente. Os dois tinham revelado bastante de si perante ele; agora podia deixar que ela o interrogasse. Sentou-se mais empertigado e olhou para cima, para a copa da árvore, a ramada, o verde claro da fotossíntese que confirmava a convergência, a inevitabilidade da evolução em todos os planetas. Aqui estava o centro de todos os paradoxos de Ella: a evolução neste planeta estava obviamente bem dentro do padrão que os xenobiólogos viram em todos os Cem Planetas, mas de alguma forma, o padrão estava rompido, desabara. Os porquinhos eram uma dentre dúzias de espécies que sobreviveram a um colapso. O que era a Descolada, e como os porquinhos se adaptaram?

   Sua intenção era dirigir a conversa para, digamos: Por que estamos aqui, atrás desta árvore? Isso provocaria as perguntas de Uanda. Mas naquele instante, sua cabeça inclinada para trás, as folhas verde-claro oscilando a uma brisa quase imperceptível, fez com que ele tivesse uma poderosa sensação de déja vu. Já contemplara aquelas folhas antes. Recentemente. Mas isso era impossível. Não havia árvores grandes em Trondheim, e nenhuma dentro do cercado de Milagre. Por que a luz do sol por entre aquelas folhas lhe parecia tão familiar?

   - Orador, - disse Miro.

   - Sim, - respondeu, deixando-se ser tirado de sua divagação.

   - Não queríamos trazê-lo aqui, - Miro disse firmemente, com o corpo orientado para Uanda, e Ender percebeu que de fato, Miro queria trazê-lo, mas incluiu a si na relutância de Uanda para mostrar que agiam juntos. Vocês estão apaixonados, Ender pensou. E hoje à noite, se eu Orar sobre a morte de Marcão, vou ter de contar que vocês são irmãos. Vou enterrar a cunha do tabu do incesto entre os dois. Vão me odiar por isso.

   - O senhor vai ver... algumas... - Uanda não tinha coragem de dizer. Miro sorriu. - Nós as chamamos Atividades Questionáveis.

   Começaram com Pipo, acidentalmente. Mas Libo continuou deliberadamente, e nós continuamos o seu trabalho. A coisa é cuidadosa, gradual. Não jogamos de lado simplesmente as regras do Congresso. Mas houve crises, e precisávamos ajudar. Há alguns anos, por exemplo, os porquinhos sofreram uma carestia de macios, os vermes das cascas de árvore que são seu principal alimento...

   - Vai contar isso para ele primeiro? - perguntou Uanda.

   Ah! Pensou Ender. Para ela, não é tão importante manter a ilusão de solidariedade como é para ele.

   - Ele está aqui em parte para Orar pela morte de Libo, - disse Miro. - E foi isso o que aconteceu pouco antes.

   - Não temos evidência de relação casual...

   - Deixem que eu descubra as relações casuais, - disse Ender com calma. - Digam-me o que aconteceu quando os porquinhos ficaram com fome.

   - As esposas é que ficaram com fome, pelo que nos contaram. - Miro ignorou a ansiedade de Uanda. - Os machos recolhem comida para as fêmeas e os filhotes, e não havia o suficiente. Ficavam sugerindo como teriam de ir à guerra. Como provavelmente morreriam todos. - Miro abanou a cabeça. - Pareciam quase contentes com isso.

   Uanda levantou-se. - Ele nem mesmo prometeu. Não prometeu nada.

   - O que querem que eu prometa?

   - Não... deixar que nada disso...

   - Não acusar vocês?

   Ela concordou, mesmo ressentindo-se da frase infantil.

   - Não vou prometer nada disso. Minha tarefa é contar. Ela voltou-se para Miro: - Viu?

   Miro ficou assustado. - O senhor não pode contar. Vão lacrar o portão. Nunca mais vão nos deixar passar!

   - E vocês vão ter de achar outro emprego, é isso?

   Uanda olhou-o com desprezo. - Pensa que a xenologia é só isso? Um emprego? Há outra espécie inteligente, ali na floresta. Ramen, não varelse, e eles precisam ser conhecidos!

   Ender não respondeu, mas seu olhar não saía do rosto dela.

   - É como na Rainha da Colméia e o Hegêmona, - disse Miro - Os porquinhos são como os insecta. Só que menores, mais fracos, mais primitivos. Precisamos estudá-los, sim, mas não é o bastante. Pode-se estudar animais e não se importar nem um pouco se um deles cai morto ou é devorado, mas estes são... são como nós! Não podemos estudar a fome deles, observar sua destruição na guerra; nós os conhecemos, nós...

   - ... os amamos, - completou Ender.

   - Sim! - confirmou Uanda, desafiadoramente.

   - Mas se os deixassem, se vocês nem estivessem aqui, eles não se extinguiriam, não é?

   - Não, - respondeu Miro.

   - Eu lhe disse que ele seria como a Comissão, - falou Uanda. Ender ignorou-a. O que custaria a eles, se vocês fossem embora?

   - Seria como... - Miro procurava pelas palavras certas. - Seria como se pudesse voltar à velha Terra, antes do Xenocídio, antes das viagens espaciais, e dissesse para eles: vocês podem viajar entre as estrelas, viver em outros planetas. Depois, mostrasse a eles mil pequenos milagres. Luzes que se acendem com comutadores. Aço. Até mesmo coisas simples - potes para pôr água. Agricultura. Eles o vêem, sabem quem você é, sabem que podem se tornar aquilo que você é, fazer todas as coisas que você faz. E o que eles vão dizer? - Levem essas coisas embora, não nos mostrem, deixem-nos viver nossas vidinhas miseráveis e abrutalhadas, deixem que a evolução siga seu curso? Não, eles diriam: dêem-nos, ensinem-nos, ajudem-nos!

   - Aí você diz: não posso, e vai embora.

   - É muito tarde! - disse Miro. - Não entende? Eles já viram os milagres! Já nos viram chegar voando. Viram-nos, fortes e altos, com ferramentas mágicas e o conhecimento de coisas com as quais nem tinham sonhado antes. E muito tarde para dizer até logo, e ir embora. Eles sabem o que pode ser feito. Quanto mais tempo ficarmos, mais eles tentarão aprender, e quanto mais aprenderem, mais veremos como o aprender os ajuda, e se você tem um pingo de compaixão, se entende que eles são... eles são...

   - Humanos.

   - Ramen, pelo menos. São nossos filhos, entende?

   Ender sorriu. - Quem dentre vós, se seu filho pede pão, vai lhe dar pedras?

   Uanda concordou. - Isso mesmo. As regras do Congresso dizem que lhes devemos dar pedras. Mesmo quando temos tanto pão.

   Ender levantou-se. - Bem, vamos em frente.

   Uanda ainda não estava pronta. - O senhor não prometeu...

   - Já leram a Rainha da Colméia e o Hegêmona?

   - Eu li, - disse Miro.

   - Podem imaginar alguém optando por ser um Orador dos Mortos e depois fazer algo para prejudicar os pequeninos?

   A ansiedade de Uanda aliviou-se visivelmente, mas sua hostilidade continuava. - O senhor é escorregadio, Andrew, Orador dos Mortos; muito esperto. Lembra a ele da Rainha da Colméia e fala-me do Evangelho.

   - Falo a cada um na linguagem que entende. Isso não é ser esperto, mas falar claro.

   - Então, vai fazer o que bem entender.

   - Desde que não prejudique os porquinhos. Uanda ironizou. - Na sua opinião...

   - Não tenho outra opinião a que recorrer. - Afastou-se dela, saindo da sombra da ramagem da árvore, dirigindo-se para a floresta, que o esperava, no alto da colina. Seguiram-no correndo, para alcançá-lo.

   - Preciso dizer-lhe uma coisa, - falou Miro. - Os porquinhos têm pedido para vê-lo. Acreditam que o senhor é o próprio Orador que escreveu a Rainha da Colméia e o Hegêmona.

   - Leram o livro?

   - Incorporaram-no à sua religião, na verdade. Tratam a cópia que lhes demos como livro sagrado. Agora, estão dizendo que a rainha da colméia em pessoa está conversando com eles.

   Ender dirigiu-lhe um relance. - O que ela diz?

   - Que o senhor é o Orador de verdade. E que está levando a rainha da colméia consigo. Vai levá-la para viver com eles, e ensinar-lhes tudo sobre metais, e... coisas muito loucas, mesmo. Isso é o pior: têm expectativas impossíveis a seu respeito.

   Podia ser apenas um desejo ardente de parte deles, como Miro acreditava, mas Ender sabia que, do seu casulo, estivera conversando com alguém. - Como dizem que a rainha da colméia fala com eles?

   Uanda estava caminhando a seu lado, agora. - Não com eles, só com Fuçador. Fuçador é que lhes conta. Tudo isso é parte do sistema totêmico deles. Sempre tentamos dançar conforme a música deles, e agimos como se acreditássemos.

   - Quanta bondade de sua parte...

   - Prática antropológica padrão, - disse Miro.

   - Vocês estão tão ocupados em acreditar neles, que não há meio de aprenderem qualquer coisa com eles.

   Por um momento, os dois retardaram o passo, e ele entrou na floresta sozinho. Depois, correram para alcançá-lo. - Mas devotamos nossas vidas a aprender coisas a respeito deles! - disse Miro.

   Ender parou. - Mas não deles. Já estavam em meio às árvores; o rendilhado de luz através das folhas tornava os rostos deles indecifráveis. Mas ele já sabia o que estavam sentindo: contrariedade, ressentimento, desprezo - como esse estrangeiro não-qualificado se atreve a questionar a atitude profissional deles? Pois bem, da seguinte maneira: - Vocês são partidários fanáticos da supremacia cultural. Entregam-se às suas Atividades Questionáveis para ajudar esses pobres porquinhos, mas não há a menor chance de que percebam que eles têm algo a ensinar a vocês!

   - Como o quê? - quis saber Uanda. - como matar seu maior benfeitor, torturá-lo até a morte depois de ter salvo a vida de dezenas de suas esposas e filhos?

   - Então por que os toleram? Por que estão aqui a ajudá-los, depois de tudo o que eles fizeram?

   Miro interpôs-se entre Uanda e Ender. Protege-a, pensou Ender; ou impedindo-a de revelar as fraquezas deles. - Somos profissionais. Entendemos que diferenças culturais que não podemos explicar...

   - Vocês acham que os porquinhos são animais, e vocês não os condenam por matar Libo e Pipo, assim como não condenariam uma cabra por mascar capim.

   - Isso mesmo, - confirmou Miro.

   Ender sorriu. - E é por isso que vocês nunca aprenderam nada com eles. Porque consideram-nos animais.

   - Nós os consideramos como ramen! - disse Uanda, pondo-se na frente de Miro. Obviamente, ela não estava interessada em ser protegida.

   - Vocês os tratam como se eles não fossem responsáveis pelo que fazem, - disse Ender. - Ramen são responsáveis por seus atos.

   - E o que o senhor vai fazer? - quis saber Uanda, com sarcasmo. - Vai levá-los a julgamento?

   - Vou lhes dizer uma coisa. Os porquinhos aprenderam mais coisas a meu respeito com o Fuçador, que está morto, do que aprenderão comigo na sua presença.

   - E o que isso deveria significar? Que o senhor realmente é o Orador original? - Miro via isto como a proposição mais ridícula imaginável. - Suponho que o senhor tenha um bando de insecta lá na sua astronave, em órbita de Lusitânia, para trazê-los cá para baixo e...

   - O que isso significa, - interrompeu Uanda, - é que esse amador acha que está melhor qualificado para lidar com os porquinhos do que nós. No que se refere a mim, isso é prova de que nunca deveríamos ter concordado em trazê-lo...

   Nesse mesmo instante, Uanda interrompeu-se, pois um porquinho estava saindo do meio do mato. Menor do que Ender esperava. Seu odor, se bem que não inteiramente desagradável, era mais forte do que Jane colocara na simulação de computador. - Tarde demais, - falou Ender. - Acho que já nos encontramos.

   A expressão do porquinho, se é que tinha uma coisa dessas, era completamente indecifrável para Ender. Miro e Uanda, entretanto, podiam entender um pouco da linguagem sem palavras dele. - Está abismado, - murmurou Uanda. Dizendo a Ender que ela entendia o que ele não era capaz, era colocá-lo no seu lugar. Assim estava bem. Ender sabia que era um novato por aqui. Mas também esperava que tivesse abalado sua maneira de pensar. Era óbvio que estavam seguindo caminhos bem determinados. Se quisesse receber ajuda real deles, precisariam romper os velhos padrões e chegar a novas conclusões.

   - Come-Folhas, - anunciou Miro.

   Come-Folhas não tirava os olhos de Ender. - Orador dos Mortos, - disse ele.

   - Nós o trouxemos, - falou Uanda. Come-Folhas virou-se e desapareceu entre os arbustos.

   - O que significa isso? - quis saber Ender. - Foi-se embora?

   - Quer dizer que ainda não entendeu? - perguntou Uanda.

   - Quer vocês gostem ou não, - disse Ender, - os porquinhos querem conversar comigo, e eu vou conversar com eles. Acho que tudo vai sair melhor se vocês me ajudarem a entender o que está acontecendo. Ou vocês também não entenderam?

   Observou-os, tentando dar conta de sua contrariedade. Então, para alívio de Ender, Miro decidiu-se. Ao invés de responder com arrogância, falou com simplicidade: - Não. Nós não entendemos. Ainda estamos brincando de adivinhas com os porquinhos. Eles nos fazem perguntas, e com o máximo de nossa capacidade, nem eles nem nós deliberadamente revelamos nada. Nem mesmo fazemos a eles as perguntas cujas respostas queremos realmente saber, por medo que aprendam demasiado de nossas próprias perguntas.

   Uanda não queria acompanhar a decisão de Miro cooperar. - Sabemos mais do que o senhor vai saber em vinte anos. E está louco se pensa que pode ficar sabendo do mesmo que nós, numa rápida conferência de dez minutos, no meio da floresta.

   - Não preciso duplicar o que vocês sabem.

   - Por quê? - quis saber Uanda.

   - Porque tenho vocês aqui comigo.

   Miro entendeu, e aceitou isto como um cumprimento. Sorriu. - Nós sabemos o seguinte, o que não é muito. Come-Folhas provavelmente não está contente em encontrá-lo. Há uma diferença entre ele e um porquinho chamado Humano. Quando pensaram que nós não íamos trazer o senhor, Come-Folhas tinha certeza de ter vencido. Agora, a vitória foi-lhe tirada. Talvez tenhamos salvo a vida de Humano.

   - E tiraram a vida de Come-Folhas? - interrogou Ender.

   - Quem sabe? Minha intuição é que o futuro de Humano está em jogo, mas não o de Come-Folhas. Ele está apenas tentando fazer Humano fracassar, e não se sair como vitorioso.

   - Mas não têm certeza.

   - Esse é o tipo de coisas sobre as quais nunca fazemos perguntas. - Miro sorriu de novo. - Tem razão. O hábito é tão arraigado que nem nos apercebemos que não estamos perguntando.

   Uanda estava agastada. - Então, ele está certo? Nem mesmo nos viu trabalhando, e de repente torna-se um crítico do...

   Mas Ender não tinha o menor interesse de testemunhar a briga deles. Foi na direção por onde Come-Folhas desaparecera, e deixou os dois fazer como quisessem. Claro, os dois deixaram a briga para depois. Assim que Ender notou de novo que estava acompanhado por ambos, voltou a questioná-los: - essas Atividades Questionáveis que vocês executaram, - dizia enquanto caminhavam, - introduziram comida nova na dieta deles?

   - Nós os ensinamos a comer a raiz de merdona, - disse Uanda. Estava sendo ríspida e profissional, mas pelo menos, dirigia-lhe a palavra. Não estava permitindo que sua raiva a impedisse de tomar parte no que obviamente seria um encontro crucial com os porquinhos. - Ensinamos como cancelar o cianeto, ensopando-a e secando ao sol. Foi essa a solução a curto prazo.

   - A solução a longo prazo foram algumas das adaptações de amaranto que Mamãe fez e deixou de lado, - disse Miro. - ela fez uma remessa de amaranto que estava tão bem adaptada a Lusitânia que não era bom para os humanos. Muitas estruturas protéicas de Lusitânia, e poucas da Terra. Mas parecia bom para os porquinhos. Fiz com que Ella me desse alguns dos espécimes jogados fora, sem que ficasse sabendo como eram importantes.

   Não se iludam sobre o que Ella sabe ou não sabe, pensou Ender.

   - Libo deu para eles, e ensinou como plantar. Depois, como moer, fazer farinha, e transformar em pão. Ficou uma coisa de gosto ruim, mas deu-lhe uma dieta diretamente sob o controle deles, pela primeira vez. Depois disso, têm estado gordos e saudáveis.

   A voz de Uanda tinha amargura. - Mas mataram Papai logo depois que os primeiros filões foram levados para as esposas.

   Ender caminhou calado por alguns minutos, tentando tirar suas conclusões. Os porquinhos mataram Libo imediatamente depois que ele os salvou de passar fome? Impensável, mas aconteceu. Como uma sociedade assim podia evoluir, matando os que mais contribuíram para sua sobrevivência? Deveriam fazer o oposto - deviam recompensar os mais valorosos - aumentando suas oportunidades de se reproduzir. Era assim que as comunidades melhoravam suas chances de sobreviver enquanto coletividade. Como os porquinhos podiam sobreviver, matando os que mais contribuíam para sua sobrevivência?

   No entanto, havia precedentes humanos. Aquelas crianças, Miro e Uanda, com suas Atividades Questionáveis - eram melhores e mais sábios, a longo prazo, do que o Comitê Estelar que fizera as regras. Mas se fossem apanhados, seriam levados para um outro planeta - o que já era em si uma pena de morte, pois todos sabiam que estariam mortos antes de poderem voltar - seriam julgados e castigados, provavelmente com a prisão. Suas idéias ou seus genes não se propagariam, e a sociedade ficaria empobrecida.

   Mas mesmo com os humanos fazendo o mesmo, não queria dizer que era sensato. Além do que, o julgamento e a prisão de Miro e Uanda, se jamais acontecesse, faria sentido se os humanos fossem vistos como uma só comunidade, e os porquinhos como seus inimigos, e considerando que qualquer coisa que ajudasse os porquinhos a sobreviver seria uma ameaça à humanidade. A punição das pessoas que melhorassem a cultura dos porquinhos se destinaria não a protegê-los, mas a impedi-los de se desenvolver.

   Naquele momento, Ender viu claramente que as regras que governavam o contato humano com os porquinhos de fato não funcionavam de modo algum para protegê-los. Funcionavam para garantir a superioridade e o poderio humanos. Deste ponto de vista, dedicando-se às suas Atividades Questionáveis, Miro e Uanda eram traidores dos melhores interesses de sua própria espécie.

   - Renegados, - disse em voz alta.

   - O quê? - disse Miro, - O que foi que o senhor disse?

   - Renegados. Os que negaram seu próprio povo, e alegam que o inimigo é o seu povo.

   - Ah! - disse Miro.

   - Mas nós não somos, - falou Uanda.

   - Sim, somos, - retrucou Miro.

   - Eu não neguei minha humanidade!

   - Da maneira como o bispo Peregrino define, negamos nossa humanidade há muito tempo, - alegou Miro.

   - Mas da maneira como defino, eu... - ela começou.

   - Da maneira como você define, - disse Ender - os porquinhos são também humanos. Por isso, você é uma renegada.

   - Pensei que o senhor havia dito que tratávamos os porquinhos como animais! - respondeu Uanda.

   - Quando não os consideram responsáveis, quando não lhes fazem perguntas diretas, quando tentam enganá-los, tratam-nos como animais.

   - Em outras palavras, - disse Miro, - quando realmente seguimos as regras.

   - Sim, - confirmou Uanda, - está certo, somos renegados.

   - E o senhor? - quis saber Miro. - Por que o senhor é um renegado?

   - Ora, a raça humana me chutou faz muito tempo. Por isso virei Orador dos Mortos.

   Foi conversando assim que chegaram à clareira dos porquinhos.

  

   Mamãe não estava, na hora do jantar, nem Miro. Para Ella, estava muito bem assim. Quando um dos dois estava presente, ficava destituída de sua autoridade; não podia controlar os irmãos menores. Mas nem Miro nem Mamãe tomavam o lugar dela. Ninguém obedecia Ella e ninguém tentava impor a ordem. De modo que ficava tudo mais fácil e mais silencioso quando os dois estavam longe.

   Não que as crianças se comportassem melhor. Apenas resistiam menos à sua vontade. Só precisava gritar umas duas vezes com Grego para que ele não cutucasse nem chutasse Quara por debaixo da mesa. Hoje, até Quim e Olhado estavam se comportando. Nada da provocação habitual.

   Até o fim da refeição, pelo menos.

   Quim reclinou-se na sua cadeira e sorriu maliciosamente para Olhado.

   - Então você é quem ensinou aquele espião a entrar nos arquivos de Mamãe.

   Olhado voltou-se para Ella. - Você deixou a cara de Quim aberta de novo, Ella. Precisa aprender a ser mais higiênica. - Era a maneira de Olhado apelar, através do humor, pela intervenção de Ella.

   Mas Quim não queria que Olhado recebesse nenhuma ajuda. - Ella não está do seu lado desta vez, Olhado. Ninguém está do seu lado. Você ajudou aquele espião rastejante a entrar nos arquivos de Mamãe, e isso torna você tão culpado quanto ele. Ele é o servo do diabo, e você também.

   Ella percebeu a fúria no corpo de Olhado; prefigurou em sua mente Olhado jogando seu prato sobre Quim. Mas isso passou. Olhado acalmou-se.

   - Desculpe. Não era essa minha intenção.

   Estava cedendo a Quim. Admitia que Quim tinha razão.

   - Espero, interveio Ella, - que esteja pedindo desculpas porque não era isso o que queria fazer. Espero que não esteja se desculpando por ter ajudado o Orador dos Mortos.

   - Claro que ele está tentando se justificar, - interrompeu Quim.

   - Porque, - continuou Ella, - todos nós devemos ajudar o Orador o melhor que pudermos.

   Quim saltou de pé, e debruçou-se por sobre a mesa, para gritar bem na cara dela: - Como pode dizer uma coisa dessas! Estava violando a privacidade de Mamãe, descobrindo seus segredos, estava...

   Para sua surpresa, Ella viu-se de pé também, empurrando o outro de volta para seu lugar, gritando ainda mais alto. - Os segredos de Mamãe são a causa de metade do veneno que existe nesta casa! Os segredos de Mamãe é que estão deixando a todos nós doentes, inclusive ela! Talvez a única maneira de corrigir as coisas seja roubar todos os segredos dela e trazê-los para a luz, onde podemos matá-los! Parou de gritar. Quim e Olhado ficaram na frente dela, encostando-se contra a parede oposta, como se aquelas palavras fossem balas, e eles estivessem sendo fuzilados. Calma, mas com intensidade, Ella continuou, - No que me concerne, o Orador dos Mortos é a única chance que temos de nos tornar uma família de novo. Os segredos de Mamãe são o único obstáculo no caminho dele. De modo que hoje eu lhe contei tudo o que sabia do que há nos arquivos dela; queria entregar-lhe cada fiapo da verdade que descobri.

   - Então você é a pior traidora de todas, - replicou Quim. A voz dele estava trêmula. Ia começar a chorar.

   - Estou dizendo que ajudar o Orador dos Mortos é um ato de lealdade, - Ella respondeu. - A única traição de verdade é obedecer Mamãe, porque o que ela quer, aquilo pelo que trabalhou por toda a vida, é sua autodestruição e a destruição de sua família.

   Para surpresa de Ella, não foi Quim que começou a chorar, mas Olhado. As glândulas lacrimais dele não funcionavam, claro, removidas que foram quando da instalação daqueles olhos. Assim, os olhos não se umedeciam para anunciar o choro. Em vez disto, dobrava-se, soluçando, escorregou encostado na parede, e ficou sentado no chão, cabeça entre os joelhos, soluçando e soluçando sem parar. Entendia o porquê. Porque lhe dissera que seu amor pelo Orador não era desleal, que ele não pecara, e ele acreditava nela quando dizia isso, Olhado sabia que isso era verdade.

   Depois, desviou de Olhado, para ver sua mãe na porta. Sentiu-se enfraquecer por dentro, tremendo só de pensar no que Mamãe teria ouvido.

   Mas Mamãe não parecia zangada. Só um pouco triste, e muito cansada. Observava Olhado.

   Quim conseguiu articular uma frase. - Ouviu o que Ella estava dizendo?

   - Sim, - respondeu a mãe, sem deixar de fitar Olhado. - E pelo que sei, pode muito bem estar certa.

   Ella estava tão nervosa quanto Quim.

   - Vão para os seus quartos, crianças, - mamãe disse em voz baixa. - Preciso conversar com Olhado.

   Ella fez sinal para Grego e Quara, que escorregaram das cadeiras e foram para o seu lado, olhos arregalados com as coisas estranhas que estavam acontecendo. Afinal de contas, nem Papai tinha conseguido fazer Olhado chorar. Ella conduziu-as para fora da cozinha, para a cama. Ouviu

   Quim caminhando para seu quarto, bater a porta e jogar-se na cama. Na cozinha, os soluços de Olhado diminuíram, acalmaram-se, acabaram, quando Mamãe, pela primeira vez desde que perdera os olhos, segurou-o nos braços e reconfortou-o, debulhando suas próprias lágrimas silenciosas no cabelo dele, enquanto o embalava.

   Miro não sabia o que fazer com o Orador dos Mortos. De certa maneira, imaginara-o como um padre - ou melhor, o que um padre deveria ser. Quieto, contemplativo, afastado do mundo, cuidadosamente deixando a ação e a decisão nas mãos dos outros. Miro esperava que ele fosse sábio.

   Não esperava que se intrometesse, que fosse perigoso. Sim, era sábio, via além das aparências, ficava dizendo ou fazendo coisas ultrajantes que, depois, pensando bem, estavam certas. Era como se tivesse tanta familiaridade com a mente humana que podia ver na sua cara desejos tão profundos, verdades tão bem disfarçadas que nem você mesmo sabia delas.

   Quantas vezes Miro ficara assim mesmo com Uanda, observando como Libo tratava os porquinhos. Mas com Libo, sempre entendiam o que ele estava a fazer, conheciam sua técnica, seu propósito. O Orador, porém, seguia linhas de pensamento completamente estranhas para Miro. Mesmo que tivesse forma humana, fazia Miro pensar se Andrew era realmente um framling - conseguia ser tão desconcertante quanto os porquinhos. Era tão ramen quanto eles, alienígena, mas não um animal.

   O que o Orador notou? O que viu? O arco que Flecha carregava? O pote seco ao sol onde a raiz de merdona estava de molho e fedia? Quantas das Atividades Questionáveis ele reconhecia, e quantas pensava que eram práticas nativas?

   Os porquinhos abriram no chão a Rainha da Colméia e o Hegêmona. - Você - perguntou Flecha, - escreveu isto?

   - Sim.

   Miro olhou para Uanda. Os olhos dela dançavam com a vingança. Então, o Orador era um mentiroso.

   Humano interrompeu. - Esses dois, Miro e Uanda, pensam que você é um mentiroso.

   Miro olhou imediatamente para o Orador, mas este não lhes dirigiu o olhar. - Claro que sim. Nunca lhes ocorreu que Fuçador lhes disse a verdade.

   As palavras calmas do Orador deixaram Miro desorientado. Será que era verdade? Afinal, as pessoas que viajavam de um sistema solar para outro pulavam décadas, às vezes, séculos, para ir de um lugar para outro. Em certas ocasiões, meio milênio. Não seriam necessárias muitas viagens para que uma pessoa vivesse três mil anos. Mas seria coincidência demais: o Orador dos Mortos original vir aqui. Exceto que o Orador dos Mortos original era o que escrevera a Rainha da Colméia e o Hegêmona, e estaria mesmo interessado na primeira raça de ramen, depois dos insecta. Não acredito, Miro dizia consigo mesmo, mas precisava admitir que essa possibilidade bem podia ser verdade.

   - Por que eles são tão tolos? - perguntava Humano. - Não reconhecer a verdade, quando a ouvem?

   - Não são tolos, - replicou o Orador. - Os humanos são assim: questionamos todas as nossas crenças, mas não aquelas em que realmente acreditamos, essas, nunca pensamos em questionar. Nunca pensaram em questionar a idéia de que o Orador dos Mortos original morreu há três mil anos, mesmo sabendo que a viagem espacial prolonga a vida.

   - Mas nós contamos para eles.

   - Não; vocês disseram que a rainha da colméia contou para Fuçador que eu escrevi esse livro.

   - Por isso mesmo deviam saber que era verdade, - voltou a dizer Humano. - Fuçador é sábio, é um pai, nunca cometeria um erro.

   Miro não sorriu, mas teve vontade. O Orador achava-se tão perspicaz, mas agora, ali estava ele, todas as perguntas importantes terminadas, frustrado pela insistência dos porquinhos que suas árvores-totem podiam falar.

   - Ah!, - alegou o Orador, - Há muitas coisas que não entendemos. Também há muitas coisas que vocês não entendem. Deveríamos contar mais coisas uns para os outros.

   Humano sentou-se junto de Flecha, dividindo a posição de honra com ele. Flecha não deu sinal de se importar. - Orador dos Mortos, - falou Humano, - vai trazer a rainha da colméia para nós?

   - Ainda não decidi.

   De novo, Miro relanceou para Uanda. O Orador estava louco, insinuando que poderia trazer o que não podia?

   Então lembrou-se do que o Orador dissera sobre questionar todas as nossas crenças, mas não aquelas em que realmente acreditávamos. Miro sempre aceitara como pressuposto o que todos sabiam - que todos os insecta tinham sido destruídos. Mas, e se uma rainha da colméia tivesse sobrevivido? E se fosse assim que o Orador dos Mortos pôde escrever seu livro por ter um insectum com quem conversar? Extremamente improvável, mas não impossível. Miro não sabia com certeza se o último insectum tinha sido morto. Só sabia que era nisso que todos acreditavam, e que ninguém, em três mil anos, apresentara a menor evidência em contrário.

   Mas, mesmo isso sendo verdade, como Humano poderia saber da história? A explicação mais simples era que os porquinhos tinham assimilado a comovente história da Rainha da Colméia e o Hegêmona na religião deles, e não conseguiam assimilar a idéia de que havia muitos Oradores dos Mortos, nenhum deles sendo o autor do livro; que todos os insecta estavam mortos, e que nenhuma rainha da colméia jamais viria. Esta seria a explicação mais simples, a mais fácil de aceitar. Qualquer outra explicação forçá-lo-ia a admitir a possibilidade de que a árvore-totem de Fuçador de algum modo conversava com os porquinhos.

   - O que pode levá-lo a decidir? - perguntou Humano. - Damos presentes às esposas, para conquistar sua honra, mas você é o mais sábio dos humanos, e não temos nada de que você precise.

   - Talvez vocês tenham muitas coisa de que eu preciso.

   - O quê? Você não sabe fazer potes melhores do que estes? Flechas mais certeiras? O boné que uso é feito de lã de cabra - mas a sua roupa é mais fina.

   - Não preciso de coisas assim. O que preciso é de histórias verdadeiras. Humano inclinou-se mais para perto, e seu corpo enrijeceu com excitação e antecipação. - Ó Orador! - e sua voz tinha força, com a importância das palavras. - Você acrescentaria a nossa história à da Rainha da Colméia e o Hegêmona?

     - Mas eu não conheço a sua história.

   - Pergunte-nos! Pergunte-nos qualquer coisa!

   - Como poderei contar a sua história? Só conto histórias dos mortos.

   - Mas estamos mortos! - gritou Humano. Miro nunca o vira tão agitado. - Estamos sendo mortos todos os dias. Os humanos estão enchendo todos os planetas. As naves viajam pelo negror da noite, de estrela em estrela, enchendo todos os lugares vazios. Aqui estamos nós, em nosso pequeno mundo, olhando o céu encher-se de humanos. Os humanos levantaram sua estúpida cerca para nos manter do lado de fora, mas isso nada significa. O céu é que é nossa cerca! - Humano pulou para cima - notavelmente alto, pois suas pernas eram muito fortes. - Veja como a cerca me joga de volta para o chão!

   Correu para a árvore mais próxima, escalou o tronco, mais alto do que Miro jamais o vira subir, saiu por um galho e lançou-se no ar. Ficou assim por um agonizante momento, no ápice do salto; depois, a gravidade precipitou-o para a terra dura.

   Miro pode ouvir o fôlego sendo expulso dele pela força do choque. O Orador imediatamente correu na direção de Humano, Miro logo atrás. Humano não respirava.

   - Ele está morto? - perguntou Uanda.

   - Não! - gritou um porquinho, na Língua dos Machos. - Não se pode morrer! Não, não, não! - Miro quis saber quem era; para sua surpresa, era Come-Folhas. - Você não pode morrer!

   Então Humano levantou um pouco a mão, e tocou o rosto do Orador. Inalou, profundamente, e engasgou. Depois, falou: - Viu, Orador? Eu morreria tentando pular o muro que nos separa das estrelas.

   Em todos os anos que Miro conhecera os porquinhos, em todos os anos anteriores, nunca tocaram no tema da viagem espacial, nunca perguntaram uma só vez. Mas agora Miro percebia que todas as perguntas que eles fizeram se dirigiam para descobrir o segredo do vôo espacial. Os xenólogos nunca perceberam que porque sabiam - sabiam sem questionamento - que os porquinhos estavam tão longe do nível de cultura que poderia construir astronaves, que levariam mil anos antes que uma coisa dessas estivesse ao seu alcance. Mas seu anseio pelo conhecimento sobre metais, motores, voar acima do solo era a maneira deles descobrirem o segredo da viagem espacial.

   Humano lentamente pôs-se de pé, segurando as mãos do Orador. Miro notou que em todos os anos que conhecera os porquinhos, nenhum deles pegara em sua mão. Ressentiu-se muito disso. Sentia a dor do ciúme.

   Agora que estava claro que Humano não se ferira, os outros porquinhos se reuniram em torno do Orador. Não se acotovelaram, só queriam ficar mais perto.

   - Fuçador diz que a rainha da colméia sabe construir astronaves, - disse Flecha.

   - Fuçador diz que a rainha da colméia vai nos ensinar tudo, - disse Xícaras. - Metal, fogo feito das pedras, casas feitas de água negra, tudo.

   O Orador ergueu as mãos, interrompeu o falatório. - Se todos vocês estivessem com muita sede, e vissem que eu tinha água, todos me pediriam um gole. Mas e se eu soubesse que a minha água era envenenada?

   - Não há veneno nas naves que viajam para as estrelas, - respondeu Humano.

   - Há muitos caminhos para chegar às estrelas, - disse o Orador. - Alguns são melhores do que outros. Vou dar-lhes tudo o que puder, e que não os destrua.

   - A rainha da colméia prometeu! - disse Humano.

   - Eu também estou prometendo.

   Humano avançou, agarrou o Orador pelos cabelos e orelhas, e puxou seu rosto contra o dele. Miro nunca vira um tal ato de violência; era o que temia, a decisão de matar...

   - Se somos ramen, - Humano gritava na cara do Orador, - então cabe a nós decidir, não a você! E se somos varelse, então pode matar-nos agora mesmo, como matou todas as irmãs da rainha da colméia!

   Miro estava abismado. Uma coisa era os porquinhos resolverem que o Orador era quem tinha escrito o livro. Mas como puderam chegar à inacreditável conclusão que de alguma maneira ele era culpado pelo Xenocídio? Quem pensavam que ele era, Ender, o Monstro?

   No entanto, ali estava sentado o Orador dos Mortos, lágrimas descendo pelo rosto, olhos fechados, como se a acusação de Humano tivesse a força da verdade.

   Humano virou-se, para falar com Miro. - O que é essa água? - cochichou. Tocou as lágrimas do Orador.

   - É assim que demonstramos dor, lamento ou sofrimento, - respondeu Miro.

   Mandachuva de repente deu um grito, um grito horrível, que Miro nunca ouvira antes, como um animal agonizando.

   - É assim que nós demonstramos a dor, - sussurrou Humano.

   - Ah! Ah! - gritava Mandachuva.- Já vi essa água antes! Nos olhos de Libo e Pipo, eu vi essa água!

   Um por um, e depois todos juntos, os porquinhos passaram a dar os mesmos gritos. Miro estava apavorado, espantado, e excitado, ao mesmo tempo. Não fazia idéia do que aquilo significava, mas os porquinhos estavam manifestando emoções que tinham escondido dos xenólogos por quarenta e sete anos.

   - Estão lamentando por Papai? - cochichou Uanda. Seus olhos também brilhavam de excitação, e seu cabelo estava úmido com suor frio.

   Miro disse assim que a coisa lhe ocorreu: - Não sabiam, até este momento, que Pipo e Libo estavam chorando quando morreram.

   Miro não fazia idéia de que pensamentos estavam passando pela mente de Uanda; só sabia que ela se afastou, andando com dificuldade, caiu de joelhos, e chorou dolorosamente.

   Considerando tudo isso, por certo que a vinda do Orador tinha agitado as coisas.

   Miro ajoelhou-se ao lado do Orador, cuja cabeça estava agora inclinada, o queixo apoiado contra o peito. - Orador, como pode ser que o senhor seja o Primeiro Orador, e também Ender? Não pode ser.

   - Ela lhes disse mais do que eu pensei.

   - Mas o Orador dos Mortos, o que escreveu este livro, é o mais sábio dos homens que já viveu na era do vôo espacial. Ender era um assassino, matou todo um povo, uma linda raça de ramen que poderia nos ter ensinado tudo...

   - Os dois humanos, porém.

   Humano estava perto deles, agora, e recitou um trecho do Hegêmona: "A doença e a cura residem em todo coração. Morte e libertação estão em todas as mãos."

   - Humano, - disse o Orador, - diga a seu povo para não lamentar pelo que fizeram na ignorância.

   - Foi uma coisa terrível, - disse Humano, - Era nosso maior presente.

   - Diga à sua gente para se aquietar, e que me escutem.

   Humano gritou algumas palavras, não na Língua dos Machos, mas na Língua das Esposas, a língua da autoridade. Caíram em silêncio, depois sentaram-se para escutar o que o Orador diria.

   - Vou fazer tudo o que posso, mas primeiro tenho de conhecer vocês, senão como poderei saber se a bebida é venenosa ou não? Ainda resta o pior dos problemas. A raça humana está livre para amar os insecta porque acha que estão todos mortos. Vocês ainda vivem, e eles têm medo de vocês.

   Humano levantou-se e apontou para seu corpo, como se fosse uma coisa fraca e insignificante. - De nós!

   - Têm medo da mesma coisa que vocês temem, quando olham para cima e vêem as estrelas se enchendo com seres humanos. Temem que algum dia chegarão a um planeta e descobrirão que vocês chegaram lá primeiro.

   - Não queremos chegar lá primeiro, - disse Humano. - Queremos chegar lá também!

   - Então, dêem-me tempo. Ensinem-me quem são vocês, para que eu possa contar isso para eles.

   - Qualquer coisa, - disse Humano. Olhou à volta para todos os outros. - Podemos ensinar-lhe qualquer coisa.

   Come-Folhas levantou-se. Falou na Língua dos Machos, mas Miro entendeu. - Algumas coisas não são suas, para que possa ensinar.

   Humano respondeu-lhe rispidamente, em stark. - O que Pipo e Libo e Uanda e Miro nos ensinaram não era deles para ensinar também. Mas eles nos ensinaram.

   - A loucura deles não precisa ser nossa loucura, - respondeu Come-Folhas, ainda na Língua dos Machos.

   - Nem a sabedoria deles necessariamente se aplica a nós, - retorquiu Humano.

   Então Come-Folhas disse algo na Língua das Árvores, que Miro não podia entender, e Come-Folhas se afastou.

   Enquanto isso, Uanda voltava, olhos vermelhos. Humano voltou-se para o Orador. - O que quer saber? Vamos contar, vamos mostrar, se pudermos.

   O Orador, por sua vez, virou-se para Miro e Uanda. - O que devo lhes perguntar? Conheço tão pouco que não sei o que precisamos saber. Miro olhou para Uanda.

   - Vocês não têm ferramentas de pedra ou de metal. Mas suas casas são feitas de madeira, e seus arcos e flechas.

   Humano ficou ali, esperando. O silêncio aumentou. Mas qual é a pergunta? - disse Humano, por fim.

   Como ele não entendera a relação? Pensou Miro.

   - Nós, humanos, - disse o Orador, - usamos ferramentas de pedra ou metal para cortar as árvores, quando queremos dar-lhe a forma de casas, flechas ou bastões como aqueles que vi alguns de vocês carregando.

   Levou algum tempo para as palavras do Orador calarem. Então, de repente, todos os porquinhos estavam de pé. Começaram a correr loucamente de um lado para o outro, sem propósito, alguns batendo nos outros, ou nas árvores, ou nas cabanas de troncos. A maioria em silêncio, mas ocasionalmente um deles gritava, como tinham chorado, minutos atrás. Era estranho, aquela loucura quase silenciosa deles, como se subitamente tivessem perdido o controle de seus corpos. Todos os anos de cuidadosa não-comunicação, evitando contar aos porquinhos qualquer coisa, e agora o Orador quebrava aquela política e o resultado era esta loucura.

   Humano emergiu do caos e jogou-se no chão, na frente do Orador. - Ó Orador! - ele exclamou em voz alta. - Prometa que nunca vai deixar que cortem meu pai Fuçador com suas ferramentas de pedra e metal! Se quiser matar alguém, há irmãos antigos que se entregarão, ou eu mesmo morreria de bom grado, mas não deixem matar meu pai!

   - Ou o meu! - gritaram os outros porquinhos. - Ou o meu!

   - Nunca devíamos ter plantado Fuçador tão perto da cerca, - disse Mandachuva, - se soubéssemos que vocês eram... eram varelse.

   O Orador ergueu as mãos de novo. - Algum humano já cortou alguma árvore em Lusitânia? Nunca. A lei daqui proíbe. Não têm nada a temer de nós.

   Houve um silêncio, com os porquinhos se acalmando. Por fim, Humano levantou-se do chão. - Você nos fez temer os humanos ainda mais. Gostaria que você nunca tivesse vindo à nossa floresta.

   A voz de Uanda soou acima da dele. - Como podem dizer isso, depois de terem assassinado meu pai!

   Humano olhou para ela estupefato, incapaz de responder. Miro pôs o braço em volta dos ombros dela. O Orador falou, em meio ao silêncio. - Vocês me prometeram que iam responder a todas as minhas perguntas. Agora eu pergunto: como vocês fazem uma casa de madeira, e o arco e flechas que este aqui leva, e aqueles bastões ? Nós lhes falamos da única maneira que conhecemos; agora digam-nos qual a outra maneira, a maneira como vocês fazem.

   - O irmão se dá por si mesmo, - respondeu Humano. - Já lhe disse. Falamos aos irmãos antigos das nossas necessidades, mostramos-lhe a forma, e ele se dá.

   - Podemos ver como isso é feito? - perguntou Ender.

   Humano olhou à volta, para os outros porquinhos. - Quer que pecamos a um irmão que dê a si mesmo, só para que você possa ver? Não precisaremos de uma casa nova, senão daqui a anos, e temos todas as flechas de que precisamos...

   - Mostre a ele!

   Miro virou-se, como os outros, e viu Come-Folhas reaparecendo de dentro da floresta. Caminhou firmemente até o meio da clareira; não olhou para ninguém, e falou como se fosse um arauto, um pregoeiro, sem cuidar se alguém ouvia ou não. Falou na Língua das Esposas, e Miro entendeu apenas alguns trechos.

   - O que ele está dizendo? - cochichou o Orador.

   Miro, ainda ajoelhado a seu lado, traduziu o melhor que pôde. - Parece que foi falar com as esposas, e elas disseram para fazer qualquer coisa que você pedisse. Mas não é tão simples, está lhes dizendo que... eu não conheço essas palavras... algo sobre todos eles morrerem. Sobre os irmãos morrerem, pelo menos. Olhe para eles - não estão com medo, nenhum deles.

   - Não sei como é o medo deles, - falou o Orador. - Não conheço nada dessa gente.

   - Eu também não, - respondeu Miro. - Tenho de deixar tudo nas suas mãos - o senhor causou mais agitação aqui em meia hora do que eu vi em muitos anos.

   - Eu nasci com esse dom. Vamos fazer uma barganha. Não vou contar a ninguém sobre as suas Atividades Questionáveis, e vocês não contam a ninguém quem eu sou.

   - Isso é fácil, - disse Miro. - Eu não acredito nisso mesmo.

   O discurso de Come-Folhas terminou. Em seguida, foi para dentro da casa.

   - Vamos pedir o dom de um velho irmão, - disse Humano. - Foi o que as esposas disseram.

   Enquanto Miro estava com o braço sobre os ombros de Uanda e o Orador do lado, os porquinhos fizeram um milagre muito mais convincente do que qualquer outro que conquistou para Guto e Cida seu título de "Venerados".

   Os porquinhos reuniram-se em círculo em torno de uma velha árvore na margem da clareira. Um a um, cada porquinho escalou a árvore e começou a bater nela com um bastão. Logo estavam todos na árvore, cantando e martelando ritmos complexos. - Língua das Árvores, - cochichou Uanda.

   Depois de uns poucos minutos desta atividade, a árvore inclinou-se sensivelmente. Cerca de metade dos porquinhos pulou para baixo e começaram a empurrar a árvore, para que caísse em terreno aberto, dentro da clareira. Os outros começaram a batucar mais furiosamente, e cantavam ainda mais alto.

   Um a um, os grandes galhos da árvore começaram a cair. Imediatamente, os porquinhos correram e apanharam-nos, levando-os para longe da área onde a árvore deveria cair. Humano levou um até o Orador, que o pegou cuidadosamente, e mostrou para Miro e Uanda. A ponta onde estava ligado à árvore, estava absolutamente lisa. Não era plano - a superfície ondulava ligeiramente, num ângulo oblíquo. Mas não havia rugosidade, lasca, nada que implicasse a menor violência em sua separação da árvore. Miro passou o dedo, e notou que era frio e liso como mármore.

   Por fim, a árvore era só um tronco, reto e liso, nu e majestoso: as manchas claras eram os pontos de onde saíam os galhos, que antes estavam brilhantemente iluminados pelo sol da tarde. O canto atingiu um clímax, depois parou. A árvore inclinou-se e começou uma lenta e graciosa queda ao chão. A terra tremeu e fez um barulho surdo, quando bateu, depois, tudo ficou calmo.

   Humano foi até a árvore caída e começou a acariciar sua superfície, cantando suavemente. A casca gradualmente rachou, sob suas mãos; a rachadura estendeu-se para cima e para baixo, ao longo da árvore, até que toda a casca ficou dividida em duas. Então vários porquinhos pegaram-na e arrancaram-na da árvore; saiu, de um lado e do outro, em duas folhas contínuas de cortiça. A casca foi posta de lado.

   - Já os viram usando a cortiça? - o Orador perguntou para Miro.

   Miro abanou a cabeça. Não tinha mais palavras.

   Agora Flecha avançou, cantando baixinho. Passava os dedos para cima e para baixo do tronco, como se traçasse exatamente o comprimento e a largura de um arco. Miro viu linhas aparecendo, como a madeira nua se vincava, rachava, desfazia, até ficar só o arco, perfeito, polido e recurvo, dentro de um longo sulco da madeira.

   Outros porquinhos avançaram, desenhando formas na árvore, e cantando. Saíam com bastões, arcos e flechas, facas de lâminas finas, e milhares de fios para cestaria. Finalmente, quando o tronco acabou, todos se afastaram alguns passos e cantaram. A árvore estremeceu e dividiu-se em meia dúzia de mastros bem compridos, a árvore tinha sido inteiramente usada.

   Humano avançou lentamente e ajoelhou-se junto aos mastros, as mãos pousadas carinhosamente no mais próximo. Inclinou a cabeça para trás e começou a cantar uma melodia sem palavras que era a mais triste que Miro jamais ouvira. A canção continuava, sem parar, só com a voz de Humano; gradualmente, Miro percebia que os outros porquinhos ficavam olhando para ele, esperando algo.

   Finalmente, Mandachuva veio falar com ele, em voz baixa: - Por favor, o mínimo que você pode fazer é cantar pelo irmão.

   - Não sei como, - respondeu Miro, sentindo-se impotente e com medo.

   - Ele deu a vida para responder à sua pergunta.

   Responder minha pergunta, e levantar outras mil, pensou. Mas adiantou-se, ajoelhou ao lado de Humano, pousou os dedos ao redor do mesmo mastro, frio e liso que Humano segurava, inclinou a cabeça para trás, e soltou a voz. De início, fraca e hesitante, inseguro sobre que melodia cantar, mas logo entendeu a razão da melodia ao acaso, sentiu a morte da árvore debaixo de suas mãos, e sua voz tornou-se alta e forte, provocando uma agonia de desafino com a voz de Humano, que lamentava a morte da árvore e agradecia por seu sacrifício, prometendo usar sua morte para o bem da tribo, para o bem dos irmãos e esposas e crianças, de modo que todos vivessem e prosperassem. Esse era o significado da canção, o significado da morte da árvore, e quando a canção terminou, Miro inclinou-se até que tocou com a testa a madeira e disse as palavras da extrema-unção, as mesmas que dissera sobre o corpo de Libo na encosta do morro, cinco anos antes.

  

                    Orando

     HUMANO: Por que nenhum dos outros humanos vem nos ver?

     MIRO: Nós somos os únicos que têm autorização para passar pelo portão.

     HUMANO: Por que eles simplesmente não pulam a cerca?

     MIRO: Nenhum de vocês já tocou a cerca? (Humano não responde). É muito doloroso tocar a cerca. Passar sobre ela seria como se todas as partes do corpo doessem o máximo possível, de uma só vez.

     HUMANO: Isso é bobagem. Não há grama dos dois lados?

- Uanda Quenhatta Figueira Mucumbi, Transcrições de Diálogos.

     103:0:1970:1:1:5

  

   O sol estava a apenas uma hora do horizonte quando a prefeita Bosquinha subiu as escadas até o escritório do bispo Peregrino, na catedral. Dona e Dom Cristão já estavam lá, com aspecto grave. O bispo Peregrino, porém, estava muito contente. Sempre gostava, quando toda a liderança política e religiosa de Milagre se reunia debaixo do seu teto. Não importava que Bosquinha era quem tinha convocado a reunião, e sugeriu que fosse na catedral, porque ela é que tinha um veículo. Peregrino gostava da sensação de que, de alguma forma, era o senhor de Lusitânia. Bem, mas ao fim desta reunião, ficaria bem claro para todos eles que ninguém, nesta sala, era o senhor de coisa alguma.

   Bosquinha cumprimentou a todos. Mas não se sentou na cadeira que lhe foi oferecida. Sentou-se perante o terminal do Bispo, ligou, e executou o programa que havia preparado. No ar, acima do terminal, apareceram diversas camadas de pequenos cubos. A camada superior tinha apenas alguns cubos; a maioria das outras camadas tinha muitos mais. Mais da metade das camadas, começando com a mais alta, era vermelha; o resto era azul.

   - Muito bonito, - comentou o bispo.

   Bosquinha olhou para Dom Cristão: - Reconhece o modelo?

   Ele abanou a cabeça, mas disse: - Acho que sei sobre o que tratará esta reunião.

   Dona Cristã inclinou-se para a frente, em sua cadeira: - Não há nenhum lugar seguro onde se possa esconder as coisas à vontade? A expressão abstraída do bispo Peregrino desapareceu. - Eu ainda não sei sobre o que é esta reunião.

   Bosquinha virou-se no banquinho para encará-lo. - Eu era muito jovem quando fui nomeada como governadora da nova Colônia Lusitânia. Foi uma grande honra para mim, um sinal de grande confiança em mim. Estudei o governo das comunidades e sistemas sociais desde minha infância, e saí-me bem em minha carreira em Oporto. O que o comitê aparentemente não percebeu é que eu já era desconfiada, matreira e chauvinista.

   - São virtudes suas que todos nós viemos a admirar, - comentou o bispo.

   Bosquinha sorriu. - Meu chauvinismo significa que assim que a Colônia Lusitânia foi minha, fiquei mais leal aos interesses de Lusitânia do que aos interesses dos Cem Planetas ou do Congresso Estelar. Minha matreirice levou-me a fingir, perante o Comitê que, ao contrário, eu tinha sempre em mente os melhores interesses do Congresso. Minha desconfiança levou-me a acreditar que o Congresso não daria nem de longe uma condição independente e igual entre os Cem Planetas.

   - Claro que não, - disse o bispo. - Somos uma colônia.

   - Não somos uma colônia, - voltou a falar Bosquinha. - Somos uma experiência. Examinei nosso diploma e licença, bem como todas as Ordens do Congresso relativas a nós, e descobri que as leis normais sobre privacidade não se aplicam a nós. Descobri que o Comitê tinha o poder de acesso ilimitado a todos os arquivos de memória de cada pessoa e instituição em Lusitânia.

   O bispo começou a ficar irritado. - Quer dizer que o Comitê tem o direito de consultar os arquivos confidenciais da Igreja?

   - Ah! - ironizou Bosquinha, - Um colega chauvinista!

   - A Igreja tem alguns direitos sob o Código Estelar.

   - Não é comigo que o senhor deve ficar irritado.

   - Você nunca me contou!

   - Se eu contasse, o senhor protestaria, e eles fingiriam recuar, e então eu não poderia ter feito o que fiz.

   - Que vem a ser?...

   - Este programa. Ele monitora todos os acessos iniciados por ansible a qualquer arquivo da Colônia Lusitânia.

   Dom Cristão deu uma risadinha. - A senhora não devia fazer uma coisa dessas.

   - Eu sei. Como disse, tenho muitos vícios secretos. Mas meu programa nunca achou nenhuma intrusão importante - sim, uns poucos arquivos, cada vez que os porquinhos mataram um de nossos xenólogos, o que era de se esperar, e nada de mais. Até há quatro dias.

   - Quando chegou o Orador dos Mortos, - disse o bispo Peregrino. Bosquinha admirou-se, porque o bispo obviamente via a chegada do Orador como uma data tão importante que instantaneamente fizera a inter-relação. - Há três dias, - disse Bosquinha, - uma varredura não-destrutiva foi iniciada via ansible. Seguia um padrão interessante. - Voltou-se para o terminal e mudou a tela. Agora mostrava acessos principalmente em regiões de alto nível, e limitados a apenas uma região da tela. - Acessou tudo o que tivesse relação com os xenólogos e xenobiólogos de Milagre. Ignorou todas as rotinas de segurança, como se não existissem. Tudo o que descobriram, e tudo a ver com suas vidas pessoais. Sim, bispo Peregrino, acreditei, na época, e ainda acredito que isto tem a ver com o Orador.

   - Com certeza, ele não pode ter autoridade junto ao Congresso Estelar, - comentou o bispo.

   Dom Cristão ponderou, - Santo Ângelo escreveu certa vez - em seu diário particular, que ninguém, senão os Filhos da Mente já leu...

   O bispo virou-se para ele, olhos arregalados, - Então os Filhos da Mente realmente têm os escritos secretos de Santo Ângelo!

   - Não secretos, - disse Dona Cristã, - São muito chatos. Qualquer um pode ler os diários, mas só nós nos importamos com isso.

   - O que ele escreveu, - continuou Dom Cristão, - era que o Orador Andrew é mais velho do que podemos imaginar. Mais velho que o Congresso Estelar, e à sua maneira, talvez mais poderoso.

   O bispo Peregrino não quis acreditar. - Ele é um menino. Não deve ter nem quarenta ainda.

   - Suas estúpidas rivalidades estão desperdiçando o nosso tempo, -interveio Bosquinha. - Convoquei esta reunião por causa de uma emergência. Em atenção a vocês, porque já tomei uma providência, em benefício do governo de Lusitânia.

   Os outros calaram-se.

   Bosquinha voltou ao terminal, na tela original. Outro acesso sistemático pelo ansible, só que desta vez não era o acesso seletivo e não-destrutivo de três dias atrás. Desta vez, ele leu simplesmente tudo, à velocidade de transferência de dados, o que implica que todos os nossos arquivos estão sendo copiados em computadores dos outros planetas. Depois os diretórios são reescritos, de modo que um só comando enviado por ansible destrua completamente todos e cada um dos arquivos em nossas memórias de computador.

   Bosquinha percebeu que o bispo estava surpreso - mas não os Filhos da Mente.

   - Por quê? - quis saber o bispo. - Destruir todos os nossos arquivos - isso é o que se faz com uma nação ou planeta que esteja... em rebelião, que se quer destruir, que...

   - Percebo, - disse Bosquinha para os Filhos da Mente. - Que vocês também são desconfiados e chauvinistas.

   - Não tão perfeccionistas quanto a senhora, - disse Dom Cristão. - Mas nós também detectamos as intrusões. Nós, é claro, copiamos todos os nossos registros - a uma grande despesa - para os mosteiros dos Filhos da Mente em outros planetas, e eles tentarão restaurar nossos arquivos, depois que eles forem apagados. Entretanto, se estamos sendo tratados como uma colônia rebelde, duvido que uma tal restauração seja permitida. De modo que estamos fazendo cópias em papel da informação mais vital. Não há esperança de conseguirmos copiar tudo, mas conseguiremos o suficiente. Para que nossa obra não seja completamente destruída.

   - Vocês sabiam disso? - perguntou o bispo. - E não me contaram ?

   - Desculpe-me, bispo Peregrino, mas não nos ocorreu que o senhor mesmo não teria detectado isto.

   - E vocês não acreditam que fazemos qualquer trabalho importante o bastante para ser impresso e salvo!

   - Chega! - interrompeu Bosquinha. - Impressões só podem salvar uma pequena porcentagem de tudo - não há impressoras em número suficiente em Lusitânia para fazer diferença quanto a isso. Nem poderíamos sustentar os serviços básicos. Não creio que tenhamos mais de uma hora antes que a cópia esteja completa e eles possam limpar a nossa memória. Mas mesmo que começássemos esta manhã, quando a interferência começou, não poderíamos imprimir mais do que um centésimo por cento dos arquivos que acessamos todos os dias. Nossa fragilidade, nossa vulnerabilidade é completa.

   - Estamos indefesos, - disse o bispo.

   - Não. Mas eu queria deixar bem claro para vocês como é extrema nossa situação, para que vocês pudessem aceitar a única alternativa. Vai ser bem desagradável.

   - Disso, não tenho dúvida, - disse o bispo.

   - Há uma hora, eu estava lidando com esse problema, tentando ver se não havia alguma classe de arquivos que poderia ser imune a este tratamento. Descobri que, de fato, há uma pessoa cujos arquivos estão sendo deixados inteiramente de lado. De início, pensei que era por ser um framling, mas a razão é muito mais sutil. O Orador dos Mortos não tem nenhum arquivo na memória de Lusitânia.

   - Nenhum? Impossível, - disse Dona Cristã.

   - Todos os seus arquivos são mantidos via ansible. Fora deste planeta. Todos os seus registros, finanças, tudo! Todas as mensagens que lhe são enviadas. Entenderam?

   - Mesmo assim, ele tem acesso a tudo isso... - disse Dom Cristão.

   - Ele é invisível para o Congresso Estelar. Se impuserem um embargo a todas as transferências de dados, de e para Lusitânia, os arquivos dele ainda estarão acessíveis, porque os computadores não vêem seus acessos a arquivos como transferência de dados. - São como armazenamento original - mas não estão na memória de Lusitânia.

   - A senhora estaria sugerindo, - falou o bispo, - que nós transfiramos nossos arquivos mais confidenciais e importantes como mensagens para aquele... aquele inominável infiel?

   - O que estou lhes dizendo é que já fiz exatamente isso. A transferência dos arquivos de governo mais delicados e importantes já está quase completa. Era uma transferência da mais alta prioridade, em velocidade local, de modo que vai muito mais depressa que a cópia do Congresso. Estou lhes oferecendo uma chance de fazer uma transferência igual, usando minha' prioridade, para que tenham precedência sobre todos os outros usos locais de computador. Se não quiserem, muito bem, usarei minha prioridade para transferir a segunda linha de arquivos de governo.

   - Mas ele poderia consultar nossos arquivos, - disse o bispo.

   - Sim, poderia.

   Dom Cristão abanou a cabeça. - Ele não vai, se nós lhe pedirmos que não o faça.

   - Você é ingênuo como um menino, - disse o bispo Peregrino. - Não há nada que o force a nos devolver os dados.

   Bosquinha concordou. - Isso é bem verdade. Ele vai ficar com tudo o que é vital para nós, e pode ficar com tudo, ou devolver, conforme quiser. Mas acredito, tal como Dom Cristão, que ele é um bom homem. Dona Cristã levantou-se. - Desculpem-me, eu gostaria de começar certas transferências cruciais agora mesmo.

   Bosquinha virou-se para o terminal do bispo e registrou seu modo de prioridade máxima. - Dê entrada à classe de arquivos que quer enviar para a fila de mensagens do Orador Andrew. Presumo que você já os tenha priorizado, pois estava a imprimi-los.

   - Quanto tempo ainda temos? - perguntou Dom Cristão. - Dona Cristã já estava digitando coisas furiosamente.

   - O tempo está aqui, no topo. - Bosquinha pôs a mão na tela holográfica e tocou os números da contagem regressiva.

   - Não transfira nada do que já imprimimos, - disse Dom Cristão. - Podem mesmo redigitar tudo, mais tarde. Felizmente, é pouco material.

   Bosquinha voltou-se para o bispo. - Eu sabia que isto seria difícil. O bispo deu uma risadinha. - Difícil.

   - Espero que reconsidere cuidadosamente, antes de recusar esta...

   - Recusar? Acha que sou louco? Posso detestar a pseudo-religião desses blasfemos Oradores dos Mortos, mas se é o único caminho que Deus nos abriu para preservar os registros vitais da Igreja, eu seria um mau servo de Deus se deixasse que o orgulho me impedisse. Nossos arquivos ainda não estão priorizados, e vou levar alguns minutos, mas acredito que os Filhos da Mente vão nos deixar tempo suficiente para as nossas transferências.

   - Quanto tempo acha que vai precisar? - perguntou Dom Cristão.

   - Não muito. Dez minutos, no máximo, segundo creio. Bosquinha ficou surpresa; agradavelmente surpresa. Receava que o bispo insistiria em copiar todos os arquivos, antes de deixar que os Filhos da Mente continuassem - como uma tentativa de impor a precedência do bispado sobre o mosteiro.

   - Muito obrigado, - disse Dom Cristão, beijando a mão que Peregrino lhe estendia.

   O bispo olhou friamente para Bosquinha, - A senhora não precisa se espantar, prefeita. Os Filhos da Mente trabalham com o conhecimento mundano, de modo que dependem muito mais das máquinas mundanas. A Santa Mãe Igreja trabalha com as coisas do Espírito, de modo que o nosso uso da memória pública é meramente burocrático. Quanto à Bíblia - somos tão antiquados e teimosos em nosso caminho que ainda temos dúzias de exemplares de papel, encadernados em couro, na catedral. O Congresso Estelar não pode nos roubar cópias da Palavra de Deus. - Sorriu. Maliciosamente, claro. Bosquinha devolveu-lhe o sorriso, mais alegre.

   - Um pormenor, - disse Dom Cristão. - Depois que nossos arquivos forem destruídos, e os copiarmos de volta da memória do Orador, o que impediria o Congresso de fazer a mesma coisa de novo? E de novo?

   - Essa é a decisão difícil, - respondeu-lhe Bosquinha. - O que fizermos dependerá do que o Congresso está tentando. Talvez não destruam os nossos arquivos, afinal. Talvez restaurem nossos arquivos mais vitais depois dessa demonstração de força. Como não faço idéia do porquê estão nos disciplinando, como posso adivinhar até onde isso irá? Se nos deixarem algum modo de continuarmos leais, claro que ficaremos vulneráveis a disciplinas posteriores.

   - Mas se, por alguma razão, estiverem determinados a nos tratarem como rebeldes?

   - Bem, se o pior acontecer, poderíamos copiar tudo de volta para a memória local, e... cortar o ansible.

   - Que Deus nos ajude, - disse Dona Cristã, - estaríamos completamente sós.

   O bispo Peregrino não estava gostando daquela conversa. - Que idéia absurda, Irmã Detestai o Pecado. Acha que Cristo depende do ansible? Que o Congresso tem o poder de silenciar o Espírito Santo?

   Dona Cristã enrubesceu e voltou ao seu trabalho no terminal.

   O secretário do bispo entregou-lhe uma folha com uma lista de arquivos. - Pode deixar minha correspondência pessoal fora da lista. Já enviei as mensagens que precisava. Vamos deixar a Igreja decidir quais das minhas cartas vale a pena preservar. Para mim, não têm valor.

   - O bispo está pronto, - disse Dom Cristão. Imediatamente, sua esposa levantou-se do terminal e o secretário tomou seu lugar.

   - Aliás, - falou Bosquinha. - Achei que vocês gostariam de saber. O Orador anunciou que esta noite, na praça, vai Orar pela morte de Marcos Maria Ribeira. - Bosquinha consultou seu relógio. - Na verdade, daqui a pouco.

   Retrucou o bispo, acidamente: - Por que acha que eu me importaria com isso?

   - Achei que o senhor gostaria de enviar um representante.

   - Muito obrigado por avisar, - interferiu Dom Cristão. - Acho que eu irei. Gostaria de ouvir uma Oração do homem que Orou pela morte de Santo Ângelo. - Voltou-se para o bispo. - Vou informá-lo de tudo o que ele disser, se quiser.

   O bispo recostou-se e deu um pequeno sorriso. - Agradecido, mas um dos meus estará presente.

   Bosquinha saiu do escritório do bispo e desceu ruidosamente a escada, rumando para as portas da catedral, precisava voltar para seus aposentos, agora, pois o que quer que o congresso estivesse planejando, Bosquinha é que receberia o recado em primeiro lugar.

   Não discutira nada com os líderes religiosos porque realmente não era da conta deles, mas sabia perfeitamente bem, ao menos de uma maneira geral, por que o Congresso estava fazendo aquilo. Os parágrafos que davam ao Congresso o direito de tratar Lusitânia como uma colônia rebelde estavam estreitamente associados às regras sobre como tratar com os porquinhos.

   Obviamente, os xenólogos estavam fazendo alguma coisa muito errada. Como Bosquinha não tinha conhecimento de qualquer violação, precisava ser algo tão grande que a evidência aparecia para os satélites, os únicos dispositivos de monitoração que informavam diretamente ao comitê, sem passar pelas mãos dela. Tentou imaginar o que Miro e Uanda teriam feito - provocaram um incêndio florestal? Abateram alguma árvore? Provocaram uma guerra entre as tribos dos porquinhos? Tudo em que pensava parecia simplesmente absurdo.

   Tentou interrogá-los, então, mas, claro, não conseguiu localizá-los. Saíram pelo portão e foram para a floresta, para continuar, com toda a certeza, as mesmas atividades que acarretaram a possibilidade da destruição da Colônia Lusitânia. Bosquinha não deixava de recordar a si mesma, a todo instante, que eles eram jovens, que tudo poderia ser algum ridículo erro juvenil.

   Mas eles não eram tão jovens assim, e eram duas das mentes mais brilhantes numa colônia com muita gente inteligente. Era uma coisa muito boa que os governos sob o Código Estelar fossem proibidos de ter quaisquer instrumentos de punição que pudessem ser usados para tortura. Pela primeira vez na vida, Bosquinha sentiu tanta fúria que poderia recorrer a tais instrumentos, caso os tivesse. Não sei o que pensaram que estavam fazendo, Miro e Uanda, e nem sei o que fizeram, mas qualquer que tenha sido o seu objetivo, toda a comunidade vai pagar. De algum modo, se houvesse alguma justiça, eu faria com que vocês é que pagassem.

   Muita gente havia dito que não iria a nenhuma Oração - eram bons católicos, não? O bispo não lhes dissera que o Orador falava com a voz de Satanás?

   Mas outras coisas foram murmuradas, também, depois da vinda do Orador. Rumores, principalmente, mas Milagre era um lugar pequeno, e o diz-que-diz-que era o tempero de uma vida árida; e os rumores não têm valor a menos que se acredite neles. Assim espalhou-se o boato que a menina de Marcão, Quara, calada desde a morte do pai, agora falava tanto que causava problemas na escola. Olhado, aquele menino mal-educado, com os repulsivos olhos de metal, de repente ficou alegre e bem-disposto. Talvez maníaco. Ou mesmo possuído pelo demônio. Os rumores começaram a concluir que de algum jeito o Orador tinha o dom da cura, que tinha mau olhado, que suas bênçãos recuperavam as pessoas, que suas pragas matavam, que suas palavras forçavam à obediência. Nem todos ouviam isto, claro, e nem todos os que ouviam, acreditavam. Mas nos quatro dias entre a chegada do Orador e a noite em que ia Orar pela morte de Marcos Maria Ribeira, a comunidade de Milagre decidiu, sem nenhum anúncio formal, que iria à Oração ouvir o que o Orador tinha a dizer, quer o bispo mandasse ficar em casa, ou não.

   Foi falha do próprio bispo. De seu ponto de vista, chamar o Orador de satânico colocava-o diametralmente oposto dele mesmo e de todos os bons católicos: o Orador é o oposto de nós. Mas para os que não eram teologicamente sofisticados, enquanto que Satanás era assustador e poderoso, Deus também era. Entendiam muito bem o continuum do bem e do mal que o bispo dizia, mas estavam muito mais interessados no continuum do forte e do fraco - era o único com o qual conviviam dia a dia. Neste continuum, eles eram fracos, e Deus, Satanás e o bispo, todos eram fortes. O bispo elevara o Orador ao mesmo nível dele, como homem poderoso. O povo estava, pois, preparado para acreditar nos boatos de milagres.

   Mesmo com o aviso sendo dado só uma hora antes da Oração, a praça ficou cheia, e as pessoas se aglomeravam nos prédios e casas em volta, bem como nos passeios gramados e ruas. A prefeita Bosquinha, como a lei exigia, ofereceu ao Orador o único microfone que usava para os raros acontecimentos públicos. Todos voltados para o palanque, onde ele ficaria, ficavam espiando, para ver quem já tinha chegado. A família de Marcão. A prefeita. Também Dom Cristão e Dona Cristã, e muitos padres da Catedral, vestindo seus hábitos. O Dr. Navio, a viúva de Pipo, a velha Conceição, a arquivista. A viúva de Libo, Bruxinha, e seus filhos. Dizia-se que o Orador ia Orar sobre a morte de Pipo e Libo também, qualquer dia desses.

   Finalmente, quando o Orador subiu ao palanque, o rumor varreu a praça: o bispo Peregrino estava aqui. Não com o hábito de bispo, mas disfarçado de padre. Aqui, em pessoa, para ouvir as blasfêmias do Orador! Muitos cidadãos de Milagre sentiram um arrepio de antecipação. Será que o bispo ia se levantar e miraculosamente derrubar Satanás? Será que aconteceria uma batalha aqui como nunca houve desde a visão do Apocalipse de São João?

   Então, o Orador postou-se na frente do microfone e esperou que fizessem silêncio. Era razoavelmente alto, um tanto jovem, mas sua pele clara dava-lhe um aspecto doentio em comparação aos mil tons de castanho dos lusos. Fantasmagórico. Calaram-se todos, e ele começou a Orar.

   - Ele foi conhecido por três nomes. Os registros oficiais apresentam o primeiro: Marcos Maria Ribeira. Seus dados oficiais: nascido em 1929. Morreu em 1970. Trabalhou na fundição. Nenhum acidente do trabalho.

   Bons antecedentes. Mulher, seis filhos. Cidadão exemplar, porque nunca fez nada ruim o bastante para ir para o registro público.

   Muitos dos que ouviam sentiram uma ligeira inquietação. Esperavam algo como uma reza. Mas a voz do Orador não era nada notável. Suas palavras nada tinham da formalidade do discurso religioso. Despojado, simples, quase coloquial. Só uns poucos perceberam que era a simplicidade que tornava seu discurso digno de fé. Não estava contando a Verdade, ao som de trombetas, mas estava contando simplesmente a verdade, a história da qual ninguém sonharia duvidar, porque seria aceita como pressuposta. O bispo Peregrino foi um dos que percebeu, o que o incomodou. Este Orador seria um inimigo formidável, que não poderia ser derrubado com fogo, da frente do altar.

   - O segundo nome que teve foi "Marcão". Porque era um homem corpulento. Atingiu muito cedo sua estatura de adulto. Que idade tinha quando chegou aos dois metros de altura? Onze anos? Com certeza, quando chegou aos doze. Seu tamanho e força tornavam-no valioso para a fundição, onde as corridas de aço são tão pequenas que boa parte do trabalho é controlada manualmente, e a força física é importante. As vidas de muitos dependeram da força de Marcão.

   Na praça, os homens da fundição concordaram. Todos se gabaram uns para os outros que nunca falariam com o framling ateu. Obviamente, um deles falara, mas agora parecia bom que o Orador falasse a coisa certa, que entendia a maneira como se lembravam de Marcão. Cada um deles desejou ser o que contara sobre Marcão para o Orador. Não conseguiriam adivinhar que o Orador nem tentara entrar em contato com eles. Depois de tanto tempo, havia muitas coisas que Andrew Wiggin sabia sem precisar perguntar.

   - Seu terceiro nome era "Cão".

   Ah, sim, pensaram os lusos. Foi isso o que ouvimos falar dos Oradores dos Mortos. Não têm respeito pelos mortos, não têm senso de decoro.

   - Era esse o nome que vocês usavam para referir-se a ele quando ouviam que sua esposa, Novinha, estava com outro olho roxo, andava mancando, levava pontos nos lábios. Só um animal faria isso com ela.

   Como ele se atreve a dizer isso? O homem morreu! Mas debaixo de sua raiva, os lusos sentiam-se pouco à vontade por uma razão inteiramente diferente. Quase todos eles lembravam-se de ter dito, ou ouvido exatamente aquelas palavras. A indiscrição do Orador era repetir em público as palavras que usaram com referência a Marcão quando estava vivo.

   - Não que algum de vocês gostasse de Novinha. Não daquela mulher fria que nunca lhes deu um "bom dia". Mas ela era menor que ele, e ela era a mãe de seus filhos, e quando a surrava, merecia o apelido de "Cão".

   Estavam embaraçados; resmungavam uns para os outros. Os que estavam sentados na grama perto de Novinha relancearam para ela, mas logo desviaram o olhar, ansiosos por observar a sua reação, dolorosamente conscientes de que o Orador tinha razão, que não gostavam dela, que todos a um tempo a temiam e a lamentavam.

   - Digam-me, foi esse o homem que conheceram? Passava mais horas nos bares do que qualquer outro, mas nunca fez amigos lá, nunca a camaradagem do álcool lhe foi dedicada. Vocês não conseguiam saber o quanto eleja bebera. Era azedo e mal-humorado antes de beber, e azedo e mal-humorado pouco antes de cair - ninguém notava a diferença. Nunca ninguém ouviu dizer que tinha um amigo, nenhum de vocês gostava de vê-lo entrando numa sala. Esse era o homem que vocês conheceram, a maioria de vocês. Cão. Mal chegava a ser um homem.

   Sim, pensaram eles. Esse era o tal. Agora, o choque inicial da indiscrição desvanecera. Acostumaram-se ao fato de que o Orador não pretendia atenuar nada de seu relato. Mas ainda não estavam à vontade. Pois havia uma nota de ironia, não em sua voz, mas inerente às suas palavras. "Mal chegava a ser um homem", dizia, mas claro que era um homem, e tinham a vaga noção de que enquanto o Orador entendia o que achavam de Marcão, não concordava necessariamente com eles.

   - Uns poucos outros, os homens da fundição, no Bairro Industrial, conheciam-no como um braço forte em quem podiam confiar. Sabiam que ele nunca dizia que podia fazer mais do que realmente podia, e sempre fazia o que dizia poder. Podiam contar com ele. Dentro dos muros da fundição, era respeitado. Mas quando saíam de lá, tratavam-no como todos os outros - ignoravam-no, faziam pouco dele.

   A ironia era acentuada agora. Mesmo sem o Orador dar alguma indicação com a voz - ainda o discurso simples e direto - os homens que trabalharam com ele sentiam, sem palavras, dentro de si: não devíamos tê-lo ignorado daquela maneira. Se tinha valor dentro da fundição, talvez deveríamos respeitá-lo fora também.

   - Alguns de vocês sabem de algo mais sobre o que nunca falavam muito. Sabem que lhe deram o apelido "Cão" muito antes dele merecê-lo. Vocês tinham dez, onze, doze anos de idade. Ele tinha crescido tanto! Vocês ficavam com vergonha de ficar perto dele. Com medo também, pois vocês sentiam-se indefesos.

   Dom Cristão murmurou para sua mulher: - Eles vieram pra ouvir mexericos; e ele lhes dá responsabilidade.

   - Então trataram-no como os seres humanos sempre tratam as coisas maiores que eles. Fizeram um bando. Como caçadores tentando abater um mastodonte. Como toureiros tentando enfraquecer um touro gigante, e deixá-lo pronto para ser abatido. Ele não pode saber de onde virá o próximo golpe. Espetem arpões que fiquem dependurados nele. Enfraqueçam-no com a dor. Deixem-no louco. Grande como ele é, vocês podem forçá-lo a fazer coisas. Podem fazê-lo gritar. Podem pô-lo para correr. Podem causar-lhe lágrimas. Estão vendo? Finalmente, ele é mais fraco que vocês. EUa estava zangada. Queria que ele acusasse Marcão, não que o justificasse. Só porque teve uma infância dura, não lhe dava o direito de bater em Mamãe sempre que quisesse.

   - Não há culpa nisso. Vocês eram crianças, e crianças são cruéis sem o saber. Não fariam o mesmo agora. Mas agora que os adverti, podem ver facilmente uma resposta. Chamaram-no de Cão, e foi o que ele se tornou. Para o resto da vida. Ferindo gente inocente. Batendo na mulher. Falando tão cruel e abusadamente com seu filho Miro que fez o menino sair de casa. Estava agindo tal como fora tratado, tornando-se aquilo que disseram que ele era.

   Você é um tolo, pensou o bispo Peregrino. Se as pessoas apenas reagem à maneira como são tratadas, então ninguém é responsável por nada. Se seus pecados não são sua escolha, como podem se arrepender?

   Como se tivesse ouvido o argumento silencioso do bispo, o Orador ergueu uma mão e afastou suas próprias palavras: - Mas a resposta fácil não é a verdadeira. Suas crueldades não o tornaram violento - tornaram-no taciturno. E quando vocês se cansaram de atormentá-lo, ele cansou de odiar vocês. Não guardou rancor. Sua raiva esfriou, e se transformou em desconfiança. Sabia que vocês o desprezavam, e aprendeu a viver sem vocês. Ficou em paz.

   O Orador fez uma pausa, e depois expressou a pergunta que todos tacitamente fizeram: - Então, como veio a ser o homem cruel que vocês sabem que ele era? Pense só. Quem experimentava a maldade dele? A mulher. Os filhos. Alguns batem na mulher e nos filhos porque têm sede de poder, mas são fracos ou burros demais para conquistar o poder no mundo. Uma mulher e crianças, ligados a um homem assim pelo costume, e por incrível que pareça, pelo amor, são as únicas vítimas que ele tem força suficiente para dominar.

   Sim, considerou Ella, olhando de esguelha para a mãe. Era isso o que eu queria. Foi por isso que lhe pedi para Orar sobre a morte de Papai.

   - Há homens assim, mas Marcos Ribeira não era um deles. Pensem só. Já ouviram que ele bateu em algum dos filhos? Uma só vez? Vocês trabalharam com ele - tentou alguma vez lhes impor a vontade? Parecia ressentido quando as coisas não saíam como queria? Marcão não era um homem fraco, nem mau. Era um homem forte. Não queria poder. Queria amor. Não controle. Lealdade.

   O bispo Peregrino sorriu, sombrio, como um duelista poderia saudar um oponente de valor. Você anda por caminhos tortuosos, Orador, andando em círculos em torno da verdade, esgrimindo com ela. Quando atacar, sua pontaria será mortal. Esta gente veio à busca de entretenimento, mas são os seus alvos, e você vai trespassar o coração deles.

   - Alguns de vocês lembram de um incidente. Marcos talvez tivesse treze anos, assim como vocês. Estavam provocando-o na grama da encosta do morro, atrás da escola. Atacaram-no mais ferozmente que o costumeiro. Ameaçaram-no com pedras, chicotearam com hastes de capim. Tiraram um pouco de sangue, mas ele agüentou tudo. Tentou escapar. Pediu que parassem. Então, um de vocês socou-o na barriga, e doeu nele mais do que poderiam imaginar, porque já naquela época, sofria do mal que por fim, matou-o. Ainda não estava acostumado a sua fragilidade e dor. Sentiu-se morrendo um pouco. Acuado. Vocês estavam matando-o. Então ele reagiu.

   Como ficou sabendo disso? Foi o que pensaram meia dúzia de homens. Foi há tanto tempo. Quem lhe contou? A coisa saiu de controle, foi tudo. Nunca quisemos bater tanto, mas quando seu braço se ergueu, aquele grande punho, o coice de uma cabra - ele ia me machucar...

   - Podia ter sido qualquer um de vocês que caiu no chão. Vocês perceberam que ele era ainda mais forte do que temiam. O que os aterrorizou mais, porém, era que sabiam exatamente a vingança que mereciam. Então, pediram ajuda. Quando os professores vieram, o que viram? Um menininho no chão, chorando, sangrando. Um menino do tamanho de um homem com alguns arranhões aqui e ali, dizendo desculpe, eu não queria fazer isso. Meia dúzia de outros dizendo: bateu nele, queria matá-lo, sem razão. Tentamos segurá-lo, mas Cão é muito grande. Está sempre provocando os meninos menores.

   Greguinho ficou arrebatado pela história. - Mentirosos! - Alguns dos circunstantes acharam graça. Quara fê-lo calar-se.

   - Com tantas testemunhas, os professores não tiveram escolha, senão acreditar naquela acusação. Até que uma menina adiantou-se e friamente informou-os que tinha visto tudo. Marcos apenas tentava se proteger de um ataque sem razão, maldoso, de um bando de moleques que eles sim, agiam como cães, mais do que Marcos jamais fizera. Sua história foi logo reconhecida como verdadeira. Afinal, era filha dos Venerados.

   Grego olhou para a mãe, olhos brilhantes, pulou de pé, e anunciou para as pessoas à volta, - Mamãe o libertou! - as pessoas riram, e olharam para Novinha. Mas o rosto dela continuava sem expressão, recusando-se a aceitar seu momentâneo afeto pelo filho. Desviaram o olhar, ofendidos.

   - Novinha, - continuou o Orador, - suas maneiras frias e inteligência notável deixavam-na ainda mais à parte de vocês, tal como Marcão. Ninguém jamais se lembrou de um momento em que ela tenha feito um gesto amigável para um de vocês. E ali estava ela, salvando Marcão. Vocês sabiam da verdade. Ela não estava salvando Marcão - estava impedindo que vocês levassem vantagem.

   Todos assentiram e sorriram com ares de entendidos, as pessoas cujas tentativas de fazer amizade ela acabara de rejeitar. Eis aí Dona Novinha, a bióloga, boa demais para ser nossa amiga.

   - Marcos não entendeu assim. Fora chamado de animal tantas vezes que quase acreditava naquilo. Novinha demonstrou ter alguma compaixão para com ele, como se fosse um ser humano. Uma menina bonita, criança inteligente, filha dos Venerados Beatos, sempre distante, como uma deusa, descera do pedestal e ouviu suas orações. Ele a venerava. Seis anos depois, casava-se com ela. Não é uma história adorável?

   Ella olhou para Miro, que ergueu um sobrolho. - Quase faz você gostar do velho filho da mãe, não é? - comentou Miro, com secura.

   De súbito, após uma longa pausa, a voz do Orador prorrompeu, mais alta que antes. Surpreendeu-os, despertou-os. - Por que depois veio a odiá-la, surrá-la, desprezar seus filhos? E por que ela suportou tudo, essa mulher inteligente e de vontade forte? Poderia acabar com o casamento a qualquer momento. A Igreja pode não permitir o divórcio, mas há o desquite, e ela não seria a primeira pessoa em Milagre a abandonar o marido. Poderia ter apanhado as infelizes das crianças, e abandoná-lo. Mas ela ficou. A prefeita e o bispo mesmo sugeriram que ela o deixasse. Ela lhes respondeu que podiam ir pro inferno.

   Muitos dos lusos riram; podiam até imaginar Novinha, furiosa, respondendo para o bispo em pessoa, e medindo Bosquinha de alto a baixo. Podiam não gostar muito de Novinha, mas ela era exatamente a cidadã de Milagre que poderia enfrentar a autoridade constituída.

   O bispo recordou-se da cena, em seus aposentos, havia mais de dez anos. Não foram bem aquelas as palavras que ela usara, mas dava na mesma. Mas estavam a sós. Não falara do acontecido a ninguém. Quem era esse Orador, e como sabia tanto sobre coisas que jamais poderia saber?

   Quando os risos se acalmaram, o Orador prosseguiu. - Havia um laço que os unia num casamento que ambos odiavam. Era a doença de Marcão.

   Abrandou a voz agora. Os lusos apuraram o ouvido.

   - A doença moldou sua vida desde que foi concebido. Os genes que seus pais lhe deram combinaram-se de tal modo que, a partir da puberdade, as células de suas glândulas começaram uma implacável transformação em tecidos gordurosos. O doutor Navio pode explicar-lhes como é seu progresso melhor que eu. Marcão sabia da doença desde a infância, seus pais sabiam, antes de morrerem da Descolada. Guto e Cida sabiam, por causa de seus exames genéticos de toda a população humana de Lusitânia. Mas todos esses estavam mortos. Só uma outra pessoa sabia, a que herdara os arquivos xenobiológicos: Novinha.

   O doutor Navio estava desconcertado. Se ela sabia antes de casar, devia saber também que a maioria das pessoas que sofria dessa doença era estéril. Por que se casou com ele, sabendo que não teria chance de ter filhos? Então caiu em si, e percebeu o que sempre deveria ter sabido, que Marcão não era uma rara exceção ao padrão da doença. Não havia exceções. O rosto de Navio ficou vermelho. O que o Orador estava para dizer era uma enormidade.

   - Novinha sabia que Marcão estava morrendo. Também sabia, antes de casar, que ele era absoluta e completamente estéril.

   Levou um momento para que o significado disto calasse. Ela sentiu como se seus órgãos estivessem derretendo. Sentiu, sem precisar virar a cabeça, que Miro estava hirto, e o rosto empalidecera.

   O Orador continuou, a despeito da murmuração da audiência. - Vi as varreduras genéticas. Marcos Maria Ribeira nunca gerou nenhum filho. A mulher teve filhos, mas não eram dele, e ele sabia, e ela sabia que ele sabia. Era parte da barganha que fizeram ao se casar.

   Os murmúrios foram se adensando, os resmungos foram ficando mais queixosos, e o ruído atingiu um clímax. Quim ergueu-se e gritou, bem alto, contra o Orador. - Minha mãe não é uma adúltera! Vou matá-lo por ter chamado minha mãe de puta!

   Esta última palavra ficou ressoando no silêncio. O Orador não respondeu. Só esperou, não desviando o olhar do rosto abrasado de Quim. Afinal, este caiu em si, ao perceber que ele é que dissera aquela palavra que ficou ressoando em seus ouvidos. Vacilou. Olhou para a mãe, sentada no chão, ao seu lado, não mais numa posição rígida, um pouco abatida agora, olhando para as mãos, que tremiam, no seu colo. - Diga-lhes, mãe!. A voz estava um pouco mais suplicante do que gostaria.

   Ela não respondeu. Não falou palavra, não lhe dirigiu um olhar. Se ele não a conhecesse bem, pensaria que as mãos trêmulas eram uma confissão, que ela estava envergonhada, como se o que o Orador dizia fosse a verdade que Deus contaria, se Quim Lhe perguntasse. Lembrou-se do padre Mateus explicando as torturas do inferno: Deus cospe nos adúlteros, eles mofam do poder da criação que compartilhou com eles, não têm bondade dentro de si para serem nada além de amebas. Quim sentia bile na boca. O que o Orador dizia era verdade.

   - Mamãe, - disse ele em voz alta, brincando, - com quem você transou para me fazer?

   As pessoas engasgaram. Olhado levantou-se como um raio, mãos cerradas. Só então Novinha reagiu, estendendo a mão, como se para restringir Olhado, para que não batesse no irmão. Quim mal notara que Olhado pulara em defesa da mãe; tudo o que via era que Miro não se movera. Também sabia que era verdade.

   Quim respirou fundo, virou-se, parecendo perdido, por um momento; depois abriu caminho em meio ao povo. Ninguém lhe dirigiu a palavra, mas todos o observaram afastar-se. Se Novinha tivesse negado a acusação, todos acreditariam nela, e linchariam o Orador por acusar a filha dos Venerados por esse pecado. Mas ela não negou. Ouviu seu próprio filho acusá-la obscenamente, e nada respondera. Era verdade. Agora ouviam fascinados. Poucos estavam sinceramente comovidos. Só queriam saber quem era o pai dos filhos de Novinha.

   O Orador calmamente retomou o fio da meada. - Depois da morte dos pais, e antes de seus filhos nascerem, Novinha amou apenas duas outras pessoas. Pipo foi seu segundo pai. Novinha ancorou sua vida nele; por uns poucos anos, teve uma amostra do que significava ter uma família. Então ele morreu, e Novinha acreditou que era a responsável por sua morte.

   As pessoas sentadas perto da família de Novinha viram Quara ajoelhar-se na frente de Ella e perguntar: - Por que Quim ficou tão bravo?

   Ella respondeu com toda suavidade, - Porque Papai não era nosso pai de verdade.

   - Oh, - voltou a dizer Quara. - O Orador é nosso pai, agora? - Sua voz era esperançosa. A outra mandou-a calar-se.

   - Na noite em que Pipo morreu, Novinha mostrou-lhe algo que descobrira, algo a ver com a Descolada e como ela funciona com as plantas e animais de Lusitânia. Pipo descobriu mais no trabalho dela do que ela mesma. Saiu correndo para a floresta, onde os porquinhos o esperavam. Talvez tenha-lhes contado o que descobrira. Mas Novinha culpou a si mesma por ter-lhe mostrado o segredo que os porquinhos matariam para conservar.

   - Era tarde demais para desfazer o que tinha feito. Mas podia impedir que isso se repetisse. Protegeu todos os arquivos que tinham algo a ver com a Descolada, e o que mostrara a Pipo naquela noite. Sabia quem teria vontade de consultar aqueles arquivos. Era Libo, o novo xenador. Se Pipo era seu pai, Libo fora seu irmão, e até mais que um irmão. Já fora difícil o suficiente tolerar a morte de Pipo, mas a de Libo seria pior ainda. Pediu os arquivos. Exigiu vê-los. Ela respondeu que jamais deixaria que os visse.

   - Os dois sabiam exatamente o que aquilo significava. Se ele algum dia se casasse com ela, poderia remover a proteção dos arquivos. Amavam-se desesperadamente, precisavam um do outro mais que tudo, mas Novinha jamais poderia casar-se com ele. Ele nunca poderia prometer-lhe jamais ler os arquivos, e mesmo que fizesse essa promessa, não poderia cumpri-la. Inevitavelmente, acabaria vendo o mesmo que seu pai. Morreria.

   - Uma coisa era recusar-se a casar com ele. Outra coisa era viver sem ele. Então ela não foi viver com ele. Fez uma barganha com Marcão. Casar-se-ia com ele perante a lei, mas seu marido de verdade, e pai de todos os seus filhos seria, e foi, Libo.

   Bruxinha, a viúva de Libo, levantou-se, trêmula, lágrimas descendo pelo rosto, e gemeu, - Mentira, mentira! - Mas aquele choro não era de raiva, era de dor. Lamentava a perda do marido mais uma vez. Três de suas filhas ajudaram-na a ir embora da praça.

   Suavemente, o Orador continuou, enquanto ela se afastava. - Libo sabia que estava ferindo sua mulher, Bruxinha, e suas quatro filhas. Odiava a si mesmo pelo que tinha feito. Tentou ficar longe. Por alguns meses, por vezes anos, conseguia. Novinha também tentava. Recusou-se a vê-lo, até a falar com ele. Proibiu que seus filhos falassem dele. Depois, Libo achava que estava forte o bastante para vê-la sem recair nos velhos caminhos. Novinha sentia-se só, com o marido, que nunca poderia substituir Libo. Eles nunca fingiram que havia algo de bom no que faziam. Só não podiam viver muito tempo de outra maneira.

   Bruxinha ouviu, enquanto ia embora. Servia-lhe de pouco conforto agora, mas enquanto o bispo Peregrino a observava, reconheceu que o Orador lhe dera um presente. Ela era a mais inocente vítima desta dura verdade, mas não a deixou apenas com as cinzas. Oferecia-lhe uma maneira de conviver com a consciência do que o marido fizera. Não foi culpa sua, ele dizia. Nada do que você fizesse teria evitado isso. Foi seu marido quem falhou, não você. Virgem Santíssima, rezava o bispo em silêncio, deixe Bruxinha ouvir o que ele diz, e que acredite.

   A viúva de Libo não era a única pessoa que chorava. Centenas dos olhos que a acompanhavam também estavam rasos d'água. Descobrir que Novinha era uma adúltera era chocante, mas também delicioso: aquela mulher de coração de aço tinha um defeito que a tornava igual a todo o mundo. Mas não havia prazer nenhum em saber que Libo tinha aquele mesmo defeito. Todos o amaram. Sua generosidade, bondade, sabedoria, que tanto admiravam, não gostaram de saber que era tudo uma máscara. ~

   De modo que se surpreenderam quando o Orador recordou-os que não era sobre a morte de Libo que estava Orando hoje. - Por que Marcos Ribeira consentiu com tudo? Novinha achou que era por querer uma esposa e a ilusão de filhos, para remover sua vergonha perante a comunidade. Em parte era isso mesmo. Mas, acima de tudo, casou-se com ela porque a amava. Nunca esperou que ela retribuísse o seu amor, porque a venerava, ela era uma deusa, e ele sabia que era doente, nojento, um animal desprezível. Ele sabia que ela não podia venerá-lo, nem mesmo amá-lo. Esperava que algum dia ela sentisse algum afeto. Que ela pudesse sentir alguma... lealdade.

   O Orador baixou a cabeça por um pouco. Os lusos ouviram as palavras que ele nem precisava pronunciar: Mas nunca sentiu. - Cada criança que nascia era outra prova, perante Marcos, que ele fracassara. Que a deusa ainda o considerava indigno. Por quê? Ele era leal. Nunca sugeriu nada, a nenhuma das crianças, que não era seu pai. Nunca quebrou a promessa feita a Novinha. Não merecia alguma coisa dela? Certas vezes, era mais do que podia suportar. Ela não era deusa alguma. Todos aqueles filhos eram bastardos. Era o que dizia consigo mesmo, enquanto batia nela, enquanto gritava com Miro.

   Miro ouviu falar seu nome, mas não o reconheceu. Sua conexão com a realidade era mais frágil do que pensava, e o dia de hoje dera-lhe choques demais. A magia impossível entre os porquinhos e as árvores. Mamãe e Libo, amantes. Uanda repentinamente arrancada de perto dele, seu outro eu, afastada de chofre, como Ella, como Quara, mais uma irmã. Os olhos não conseguiam se focar na grama, a voz do Orador era só um barulho, não entendia o significado daquelas palavras, só um barulho horrível. Miro chamara por aquela voz, para que Orasse pela morte de Libo. Como poderia adivinhar que em vez de um padre benevolente de uma religião humanitária, ele receberia o Orador original em pessoa, com sua mente penetrante e compreensão perfeita demais? Jamais adivinharia que debaixo daquela máscara de empatia escondia-se Ender, o Destruidor, o mítico Lúcifer do maior crime da humanidade, determinado a honrar seu nome, transformando em irrisórias as vidas de Pipo, Libo, Uanda e de Miro mesmo, vendo em apenas uma hora com os porquinhos o que todos os outros não conseguiram em quase cinqüenta anos, em seguida, arrancando Uanda dele com um só golpe impiedoso da lâmina da verdade; essa era a voz que Miro ouvia, a única certeza que lhe restava, aquela implacável e terrível voz. Miro apegou-se ao seu som, tentando odiá-la, sem conseguir, porque sabia, não podia mentir para si mesmo, sabia que Ender era um destruidor, mas o que destruía era a ilusão, e a ilusão precisava morrer. A verdade sobre os porquinhos, a verdade sobre nós mesmos. De alguma forma, esse homem, muito velho, podia ver a verdade sem ficar ofuscado nem enlouquecido por ela. Devo escutar essa voz e deixar que sua força venha a mim, de modo que eu também possa enfrentar a luz sem morrer.

   - Novinha sabia o que era. Uma adúltera, hipócrita. Sabia que feria Marcão, Libo, seus filhos, Bruxinha. Sabia que tinha matado Pipo. Suportou, até provocou a punição de Marcão. Era sua penitência. Mas a penitência nunca era suficiente. Não importava o quanto Marcão a odiasse, ela odiava muito mais a si mesma.

   O bispo fazia que sim, lentamente. O Orador fizera uma coisa monstruosa, ao expor esses segredos perante toda a comunidade. Eles deviam ser ditos no confessionário. Mas Peregrino sentiu a força de tudo aquilo, a maneira como toda a comunidade era forçada a descobrir essa gente que pensava que conhecia, e redescobri-las, e mais uma vez; e a cada revisão da história, eram forçados a reconsiderar a si mesmos, pois também tinham sido parte da história, foram tocados por todas aquelas pessoas cem, mil vezes, nunca entendendo, até agora, a quem tinham tocado. Era uma coisa dolorosa, temível de se enfrentar, mas no fim, tinha um efeito curiosamente calmante. O bispo inclinou-se para o secretário e cochichou, - Pelo menos os mexericos não vão tirar vantagem disto; não sobrou segredo nenhum.

   - Todas as pessoas nessa história sofreram dores, - dizia o Orador, - Todos se sacrificaram pelas pessoas que amaram. Todos causaram uma dor horrível às pessoas que os amaram. E vocês, ouvindo-me aqui, hoje, também vocês causaram dor. Mas lembrem-se disto: a vida de Marcão foi trágica e cruel, mas ele poderia ter desfeito a barganha com Novinha a qualquer momento. Preferiu ficar. Ele descobriu alguma alegria no que fez. Novinha também: contrariou as leis de Deus, que unem esta comunidade. Suportou sua punição. A Igreja não pede nenhuma penitência tão terrível quanto a que impôs a si mesma. E se algum de vocês está inclinado a achar que ela mereceria alguma mesquinha crueldade nas suas mãos, conservem em mente o seguinte: ela suportou tudo, fez tudo isto com um só propósito: impedir que os porquinhos matassem Libo.

   As palavras deixaram cinzas nos corações de todos.

   Olhado ergueu-se e foi até a mãe, ajoelhou-se a seu lado, pôs o braço sobre seus ombros. Ella sentou-se do outro lado, mas sua mãe estava dobrada sobre o chão, chorando. Quara veio e ficou na frente, olhando, assustada.

   Grego enterrou o rosto no colo de Novinha e chorou. Os que estavam perto, ouviram-no chorar, - Meus pais estão mortos. Não tenho nenhum pai.

   Uanda estava na entrada do passeio para onde tinha ido com sua mãe, pouco antes do fim da Oração. Procurou por Miro, mas já tinha ido.

   Ender ficou para trás, no palanque, olhando para a família de Novinha, ansiando por fazer algo que aliviasse a dor deles. Sempre havia dor depois de uma Oração, porque um Orador dos Mortos não fazia nada para abrandar a verdade. Mas só raramente as pessoas viviam vidas dissimuladas como a de Marcão, Libo e Novinha; raramente havia tantos choques, tanta informação esparsa que forçava as pessoas a reverem o conceito que faziam daqueles que conheciam, daqueles que amavam. Ender sabia, pelos rostos que o observavam, enquanto falava, que havia causado muita dor hoje. Ele mesmo sentira, como se as pessoas tivessem projetado a dor nele. Bruxinha ficara abismada, mas Ender sabia que não era a mais ferida. Essa distinção pertencia a Miro e Uanda, que pensavam saber que futuro os esperava. Mas Ender também sentiu a dor que as pessoas sentiram antes, e sabia que as novas feridas de hoje seriam curadas muito mais depressa que as velhas. Novinha poderia não admitir, mas Ender retirara dela uma carga que ela não estava mais suportando.

   - Orador, - chamou a prefeita Bosquinha.

   - Prefeita. - Não gostava de conversar com ninguém depois de uma Oração, mas estava acostumado ao fato de que alguém sempre insistia em vir falar com ele. Deu um sorriso forçado. - Veio muito mais gente do que eu esperava.

   - Uma coisa momentânea, para a maioria. Amanhã de manhã, terão esquecido tudo.

   Ender não gostou que ela estivesse tentando banalizar o acontecimento. - Só se alguma coisa monumental acontecer durante a noite, - respondeu.

   - Sim. O que, aliás, já foi providenciado.

   Só então Ender notou que ela estava extremamente perturbada, dificilmente mantendo o controle. Tomou-a pelo braço, depois passou o braço sobre o ombro; ela apoiou-se, agradecida.

   - Orador, vim me desculpar. Sua astronave foi requisitada pelo Congresso Estelar. Nada tem a ver com o senhor. Foi cometido um crime, aqui, um crime tão... terrível... que os criminosos devem ser levados até o planeta mais próximo, Trondheim, para serem julgados e punidos. A sua nave.

   Ender refletiu por um pouco. - Miro e Uanda.

   Ela olhou-o com firmeza. - O senhor não ficou nada surpreso.

   - Não vou deixar que se vão. Bosquinha afastou-se. - Não vai deixar?

   - Faço uma idéia do que são acusados.

   - Está aqui há quatro dias, e já sabe de algo que nem mesmo eu desconfiava?

   - Às vezes, o governo é o último a saber.

   - Deixe-me dizer-lhe porque vai deixar que eles vão, porque todos nós vamos mandá-los a julgamento. Porque o Congresso nos tirou nossos arquivos. A memória do computador está vazia, exceto pelos programas os mais rudimentares, que controlam nossa usina de força, água e esgotos. Amanhã, nenhum trabalho poderá ser feito, porque não temos energia para acionar as fábricas, para acionar os tratores. Fui demovida de meu cargo. Agora sou apenas a delegada de polícia, para fazer com que as diretrizes do Comitê de Evacuação de Lusitânia sejam observadas.

   - Evacuação?

   - A licença da colônia foi revogada. Estão enviando astronaves para nos levar embora. Todo sinal de habitação humana deve ser removido. Mesmo as lápides de nossos túmulos.

   Ender tentou avaliar aquela resposta. Não pensava que Bosquinha era do tipo que se curvava à autoridade cega. - A senhora pretende se submeter a tudo isso?

   - O suprimento de energia e água é controlado via ansible. Também controlam a cerca. Podem fechar-nos aqui dentro sem energia, água ou esgotos, e não podemos sair. Uma vez Miro e Uanda a bordo da sua astronave, rumando para Trondheim, disseram que algumas das restrições serão relaxadas. - Suspirou. - Ah, Orador, receio que não seja uma boa época para fazer turismo em Lusitânia.

   - Não sou um turista. - Não se incomodava em confessar sua suspeita de que não era coincidência que o Congresso notasse as Atividades Questionáveis enquanto estava aqui. - Conseguiu salvar algum dos seus arquivos?

   Bosquinha suspirou de novo. - Abusando do senhor, receio. Notei que todos os seus arquivos eram mantidos via ansible, em outro planeta. Enviamos nossos arquivos mais cruciais como mensagens para o senhor.

   Ender riu. - Ora, muito bem, isso mesmo!

   - Pouco importa. Não vamos consegui-los de volta. Poderíamos, mas eles notariam e o senhor estaria em apuros, como todos nós. Depois, vão apagar tudo, de qualquer jeito.

   - A menos que interrompam a conexão do ansible imediatamente depois de copiar todos os meus arquivos para a memória local.

   - Então estaríamos mesmo nos rebelando. A troco de quê?

   - Pela chance de tornar Lusitânia o melhor e o mais importante dos Cem Planetas.

   Bosquinha deu risada. - Acho que vão nos considerar importantes, mas traição é uma péssima razão para sermos conhecidos como os melhores.

   - Por favor. Não façam nada. Não prendam Miro e Uanda. Espere uma hora e deixe-me falar com a senhora e as outras pessoas envolvidas nessa decisão.

   - A decisão de se rebelar ou não? Não consigo imaginar por que o senhor deveria se envolver com isso, Orador.

   - A senhora vai entender nessa reunião. Por favor, este lugar é importante demais para perdermos a oportunidade.

   - Oportunidade para quê?

   - Para desfazer o que Ender fez no Xenocídio há três mil anos.

   Bosquinha observou-o com atenção. - E eu que pensei que o senhor não era mais que um mexeriqueiro.

   Poderia estar brincando. Ou não. - Se a senhora acha que o que acabo de fazer foi apenas mexerico, não tem inteligência para liderar esta comunidade, - disse, sorrindo.

   Bosquinha abriu as mãos e deu de ombros. - Pois é...

   - Vai convocar a reunião?

   - Vou. Nos aposentos do bispo. Ender se encolheu.

   - O bispo não irá a uma reunião em nenhum outro lugar. Por outro lado, nenhuma decisão de se rebelar vai significar nada se ele não concordar. - Bosquinha pousou a mão no peito. - Ele poderá nem deixá-lo entrar na catedral. O senhor é um herege.

   - Mas vai tentar, assim mesmo.

   - Vou tentar, pelo que o senhor fez esta noite. Só um sábio faria meu povo enxergar tão claramente em tão pouco tempo. Só um temerário diria tudo em voz alta. Sua virtude e seu defeito, é do que precisamos.

   Bosquinha deu-lhe as costas e foi-se embora. Ender sabia que no fundo do coração, ela não queria obedecer ao Congresso Estelar. Fora muito repentino, muito severo; destituíram-na como se fosse culpada de um crime. Ceder cheiraria a confissão, e tinha certeza que nada fizera de errado. Ela queria resistir, queria descobrir alguma maneira de responder ao Congresso e dizer-lhes que esperassem, que tivessem calma. Ou, se necessário, que se danassem. Mas não era boba. Não faria um gesto de resistência se não tivesse certeza, e se não beneficiasse seu povo. Ela era uma boa governadora, Ender bem o sabia. Sacrificaria de bom grado o orgulho, a reputação, seu futuro, em benefício do povo.

   Estava sozinho, na praça. Todos foram embora, enquanto Bosquinha conversava com ele. Ender sentia-se como um velho soldado, caminhando por campos pacíficos no lugar de uma antiga batalha, ouvindo os ecos da carnificina pela brisa, agitando a grama.

   - Não os deixe cortar a conexão com o ansible.

     A voz em seu ouvido causou-lhe um sobressalto, mas reconheceu-a de imediato. - Jane!

   - Posso fazê-los pensar que você cortou o seu ansible, mas se realmente o fizer, não poderei ajudá-lo.

   - Jane, foi você quem fez isso, não? Por que mais eles notariam o que Libo, Miro e Uanda andaram fazendo, se você não chamasse a atenção?

   Sem resposta.

   - Jane, desculpe porque desliguei-a. Nunca mais...

   Ele sabia que ela sabia tudo o que ia dizer; nem precisava terminar as sentenças. Mas ela não respondeu.

   - Nunca mais vou desligar...

   Que adiantava terminar as sentenças quando sabia que ela entenderia? Não o perdoara ainda, eis tudo, ou já estaria respondendo, dizendo-lhe para não perder tempo. Mas não pôde se impedir de tentar mais uma vez. - Senti sua falta, Jane. Senti muita saudade.

   Mesmo assim, sem resposta. Ela já dissera tudo o que tinha a dizer, que mantivesse a conexão do ansible, e só. Por hora, Ender não se importava em esperar. Bastava saber que ela ainda estava lá, ouvindo. Não estava só. Surpreendeu-se ao notar lágrimas escorrendo. Lágrimas de alívio, concluiu. Catarse. Uma Oração, uma crise, as vidas das pessoas em frangalhos, o futuro da colônia em questão. Choro de alívio, porque um programa de computador superdimensionado está conversando comigo de novo.

   Ella o esperava, em sua cabana. Olhos vermelhos, de tanto chorar. - Alô, - disse ela.

   - Fiz a contento o que você queria?

   - Eu nunca poderia adivinhar, - ela respondeu. - Ele era nosso pai. Eu devia ter descoberto.

   - Não sei como.

   - O que foi que eu fiz? Chamando-o para Orar sobre a morte de meu pai... morte de Marcão. - Recomeçou a chorar. - Os segredos de Mamãe... eu achava que sabia o que era, pensei que eram apenas os arquivos... pensava que ela odiava Libo!

   - Tudo o que fiz foi abrir as janelas e deixar que o ar entrasse.

   - Vá contar isso para Miro e Uanda.

   - Pense um pouco, Ella. Acabariam descobrindo. A coisa ruim era que ficaram sem saber por tantos anos. Agora que têm a verdade, poderão saber como sair dessa.

   - Como Mamãe fez? Só que desta vez, pior que adultério?

   Ender tocou o cabelo dela, alisou-o. Ela aceitou seu toque, um consolo. Ele não conseguia lembrar se seu pai ou sua mãe jamais o haviam tocado com um gesto assim. Acho que sim. Se não, como ele saberia fazê-lo?

   - Ella, quer me ajudar?

   - Ajudar a fazer o quê? Já fez seu trabalho, não?

   - Não tem nada a ver com Orar pelos mortos. Preciso saber, em uma hora, como a Descolada funciona.

   - Vai precisar perguntar a Mamãe - só ela sabe.

   - Acho que ela não vai gostar de me ver esta noite.

   - E eu vou lhe perguntar? Boa noite, mamãe, você acaba de ser exposta a toda Milagre como adúltera, que mentiu para seus filhos a vida inteira. Se não se importa, gostaria de lhe fazer algumas perguntas sobre ciência.

   - Ella, é uma questão de vida ou morte para Lusitânia. Sem mencionar seu irmão Miro. - Estendeu a mão e apontou para o terminal. - Ligue.

   Estranhou, mas obedeceu. O computador não aceitou seu nome. - Fui removida. - Olhou para ele, alarmada. - Por quê?

   - Não é só você. Todo mundo.

   - Não é um defeito, - comentou ela. - Alguém removeu o arquivo de usuários.

   - O Congresso Estelar removeu toda a memória local do computador. Foi tudo embora. Somos considerados rebeldes. Miro e Uanda serão presos e enviados a Trondheim para julgamento. A menos que convença o bispo e Bosquinha a iniciar uma rebelião de verdade. Entendeu? Se sua mãe não disser o que preciso saber, Miro e Uanda serão enviados para vinte e dois anos-luz de distância. A pena para traição é a morte. Mas mesmo ir a julgamento é tão ruim quanto prisão perpétua. Estaremos todos mortos ou velhos demais, antes que eles voltem.

   Ella ficou olhando inexpressivamente para a parede. - O que precisa saber?

   - Preciso saber o que o Comitê vai encontrar quando abrirem os arquivos dela. Sobre como a Descolada funciona.

   - Sim, por Miro, ela vai dizer. - Olhou para ele, desafiadoramente. - Ela nos ama, sabe? Por um de seus filhos, ela até viria falar com você em pessoa.

   - Bom, seria melhor que ela viesse mesmo. Nos aposentos do bispo, daqui a uma hora.

   - Sim, - concordou Ella. Por um momento, ficou sentada. Depois, uma sinapse ligou-se em algum lugar, levantou-se e correu para a porta.

   Parou. Voltou, abraçou-o e beijou-o no rosto. - Obrigada por contar tudo. Gostei de ficar sabendo.

   Ele beijou-a na testa e mandou-a embora. Quando a porta se fechou, ele sentou-se na cama, deitou e ficou olhando para o teto. Pensou em Novinha, tentou imaginar o que ela estaria sentindo agora. Não importa quão terrível seja, Novinha, sua filha está correndo para casa agora mesmo, certa de que, a despeito da dor e humilhação que está passando, vai esquecer de si completamente e vai fazer qualquer coisa para salvar seu filho. Eu trocaria todo seu sofrimento, Novinha, por uma criança que confiasse em mim desse jeito.

  

                     A Cerca

     Um grande rabino está ensinando na praça do mercado. Aconteceu, naquela manhã, que um marido descobriu prova do adultério de sua mulher, e o populacho carrega-a para a praça, para apedrejá-la até a morte. (Há uma versão mais familiar desta história, mas um amigo meu, Orador dos Mortos, contou-me sobre dois outros rabinos que enfrentaram a mesma situação. São estas as que vou lhe contar)

     O rabino avança e põe-se ao lado da mulher. Por respeito a ele, o povo espera, ainda sopesando as pedras. "Será que há alguém entre vocês", diz a eles, "que nunca desejou a esposa de outro homem, o marido de outra mulher?"

     Eles murmuram, e respondem: "Todos conhecemos o desejo. Mas, Rabbi, nenhum de nós o seguiu"

     E o rabino disse: "Então ajoelhem-se, e dêem graças a Deus, por tê-los feito fortes". Leva a mulher pela mão, para fora do mercado, e antes de despedi-la, diz-lhe em voz baixa: "Vá dizer ao magistrado quem salvou sua amante. Então ele saberá que sou seu servo leal"

     Assim, a mulher foi salva, porque a comunidade é corrupta demais para proteger a si mesma da desordem.

     Um outro rabino, outra cidade. Vai até ela, e detém a multidão, como na outra história, e diz: "Qual de vocês é sem pecado? Que atire a primeira pedra"

     As pessoas ficam chocadas e esquecem o propósito único que tinham, na memória de seus pecados individuais. Algum dia, pensaram, eu poderei estar na situação desta mulher, e gostaria de ser perdoado e ter uma nova chance. Devo tratá-la do jeito que gostaria de ser tratado.

     Enquanto vão abrindo as mãos, deixando as pedras cair, o rabino pega uma, levanta-a sobre a cabeça da mulher, e ataca com toda a força. Esmaga o crânio dela, espalhando os miolos pelo calçamento de pedra.

     "Tampouco eu sou sem pecado", ele diz ao povo, "mas se deixarmos apenas gente perfeita aplicar a lei, logo a lei estará morta, e nossa cidade, com ela".

     Portanto, a mulher morreu porque a comunidade era rígida demais para tolerar seu erro.

     A versão famosa dessa história merece nota por ser tão rara em nossa experiência. A maioria das comunidades cambaleia entre a podridão e o rigor mortis, e quando vão muito para um dos extremos, morrem. Só um rabino atreveu-se a esperar de nós um equilíbrio tão perfeito a ponto de preservarmos a lei e perdoarmos o erro. Então, é claro, nós o matamos.

 

     - Santo Ângelo, Cartas a um Herege Incipiente, transcr. de Amai a Todomundo Para Que Deus Vos Ame Cristão,

        103:72:54:2

  

   Minha irmã. Essas palavras ficavam girando na cabeça de Miro, até que não as ouvia mais; tornaram-se parte do ruído de fundo. A Uanda é minha irmã. Seus pés levaram-no, por força do hábito, da praça aos campos de futebol e ao alto do morro. Ali estavam a catedral e o mosteiro, que dava para o escritório do xenador, como uma fortaleza vigiando o portão. Será que Libo vinha por aqui, quando ia encontrar minha mãe? Será que se encontravam no escritório do xenobiólogo? Ou seriam mais discretos, refocilando na grama, como os porcos nas fazendas?

   Ficou junto à porta do escritório do xenador, e tentou pensar em alguma razão para entrar. Nada a fazer aqui. Não escrevera um relatório sobre o acontecido hoje, mas não saberia como redigi-lo, de qualquer forma. Poderes mágicos, era isso. Os porquinhos cantam para as árvores e elas se desmancham em pauzinhos. Muito melhor que carpintaria. Os aborígines são muito mais sofisticados do que se pensava antes. Usos múltiplos para tudo. Cada árvore é, a um tempo, totem, ápide e uma pequena serraria.

   Os porquinhos vivem da maneira mais sensata. Vivem apenas como irmãos, e ninguém se importa com as mulheres. Teria sido melhor para você, Libo, essa é a verdade - não, devo chamá-lo de "Papai". Uma pena que Mamãe nunca tenha lhe contado, ou você poderia ter-me balançado sobre seus joelhos. Seus dois filhos mais velhos, Uanda num joelho, e Miro no outro, não estamos orgulhosos de nossos filhos? Nascidos no mesmo ano, só dois meses de diferença, que sujeito ocupado Papai era, pulando a cerca para transar com a Mamãe no quintal dela. Todos lamentavam que você só tivesse filhas. Ninguém para transmitir o nome da família. Que desperdício de compaixão. Você estava transbordando de filhos. Quanto a mim, tenho mais irmãs do que poderia imaginar. Uma irmã a mais do que eu queria.

   Ficou no portão, olhando para a floresta, no morro dos porquinhos. Não há objetivo científico em fazer uma visita à noite. Então, acho que vou satisfazer a uma falta de objetivo científico, e vou ver se eles têm lugar para outro irmão na tribo. Devo ser muito grande para ter uma cama na cabana, então vou dormir fora, e mesmo não sendo muito bom para escalar árvores, sei uma ou duas coisas sobre tecnologia, e não sinto nenhuma inibição especial, agora, para contar-lhes o que quiserem saber.

   Pôs a mão direita na caixa de identificação e estendeu a esquerda, para empurrar o portão. Por uma fração de segundo, não entendeu o que acontecia. Depois, parecia que a mão estava pegando fogo, como se estivesse sendo cortada fora com uma serra enferrujada, gritou, e logo afastou a mão esquerda do portão. Nunca, desde a instalação, o portão continuara quente depois da caixa ser tocada pela mão do xenador.

   "Marcos Vladimir Ribeira von Hesse, sua passagem pela cerca foi revogada por ordem do Comitê de Evacuação de Lusitânia."

   Nunca, desde a instalação do portão, a voz impedira um xenador. Levou algum tempo para que Miro entendesse o que ela estava dizendo.

   "O senhor e Uanda Quenhatta Figueira Mucumbi devem se apresentar ao delegado de polícia Faria Lima Maria do Bosque, que vai prendê-los em nome do Congresso Estelar, e apresentá-los em Trondheim para julgamento."

   Por um instante, a cabeça girou e o estômago estava pesado, enjoado. Eles sabem. Nesta noite, de todas as noites! Tudo acabado. Perdi Uanda, perdi os porquinhos, perdi meu trabalho, tudo se foi. Preso. Trondheim. De onde veio o Orador, vinte e dois anos de viagem, longe de todos, exceto Uanda, a única que vai sobrar, e ela é minha irmã...

   A mão de novo tentou rapidamente empurrar d portão, e de novo, a dor intolerável subindo pelo braço, os nervos em alerta, pegando fogo todos de uma vez. Não posso simplesmente desaparecer. Vão selar o portão para todos. Ninguém irá falar com os porquinhos, ninguém vai lhes contar; os porquinhos nos esperarão e ninguém vai sair pelo portão nunca mais. Nem eu, nem Uanda, nem o Orador, ninguém, e sem explicações.

   Comitê de Evacuação. Vão nos evacuar e limpar todo sinal de nossa presença por aqui. São as regras, mas haverá mais coisas, não é? O que será que viram? Como descobriram? Será que o Orador lhes contou? Ele é tão viciado na verdade. Preciso explicar aos porquinhos por que não voltaremos. Preciso contar-lhes.

   Um porquinho sempre os vigiava, seguia-os, a partir do momento em que entravam na floresta. Será que havia um porquinho de vigia agora? Mas era muito escuro. Não poderiam vê-lo. Ou talvez pudessem, ninguém sabia como era a visão noturna dos porquinhos. Mas quer o tivessem visto ou não, não se aproximariam. Logo, seria tarde demais; se os frâmlings estivessem vigiando o portão, sem dúvida já notificaram Bosquinha, e ela estaria a caminho, voando baixo por sobre a grama. Ela estaria, claro, morrendo de dó ao prendê-lo, mas teria de fazer seu trabalho, e não adiantaria argumentar com ela sobre o que era bom para os humanos ou os porquinhos, manter essa tola separação, ela não era do tipo de questionar a lei, só fazia o que lhe mandavam. Ele se renderia, não adiantaria lutar, além do mais, onde esconder-se, dentro da cerca, no meio dos rebanhos de cabras? Mas antes de desistir, tinha de contar aos porquinhos, precisava avisá-los.

   Foi andando ao longo da cerca, para longe do portão, rumo ao gramado aberto, no sopé do morro da catedral, onde ninguém morava perto a ponto de ouvir sua voz. Enquanto andava, chamava. Não em palavras, mas um grito grave, que ele e Uanda usavam para chamar um ao outro, quando estavam separados, em meio aos porquinhos. Eles ouviriam, tinham de ouvir, precisavam vir até ele, já que não poderia passar pela cerca. Venham, Humano, Come-Folhas, Mandachuva, Flecha, Xícaras, Calendário, qualquer um, todos, venham e deixem-me contar-lhes que não posso lhes contar mais nada.

   Quim estava sentado, sentindo-se mal, num banco no escritório do bispo.

   - Estevão, - disse o bispo, calmamente, - haverá uma reunião aqui, em alguns minutos, mas quero conversar com você por um minutinho antes.

   - Não há nada para falar. O senhor nos avisou, e aconteceu. Ele é o demônio.

   - Estevão, vou falar só um minuto, e depois pode ir para casa dormir.

   - Não quero voltar para lá.

   - O Mestre comeu com pecadores piores do que sua mãe, e perdoou-os. Você é melhor do que Ele?

   - Nenhuma das adúlteras que ele perdoou era mãe d'Ele!

   - Não é qualquer um que pode ter a Virgem Santíssima como mãe.

   - Está do lado dele, então? Será que a Igreja abriu as portas para os Oradores dos Mortos? Vamos derrubar a catedral, e usar as pedras para fazer um anfiteatro, onde nossos mortos possam ser esquartejados, antes de os enterrarmos!

   Num fio de voz: - Sou o seu bispo, Estevão, o vigário de Cristo neste planeta, e deve dirigir-se a mim com o respeito que deve ao meu cargo. Quim deixou-se estar, enraivecido, sem nada dizer.

   - Acho que seria melhor que o Orador não contasse essas histórias publicamente. Algumas coisas são melhor apreendidas em particular, em silêncio, para não termos de lidar com choques, enquanto a audiência observa. Por isso que usamos o confessionário, para nos escudarmos da vergonha em público enquanto lutamos com nossos pecados. Mas seja razoável, Estev&ati