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OS ANOS DE GLÓRIA / Albert Speer
OS ANOS DE GLÓRIA / Albert Speer

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS ANOS DE GLÓRIA

Primeira Parte

 

 

                                 ORIGEM E MOCIDADE

Meus antepassados foram suábios, também descendentes de camponeses pobres de Westervald, sendo alguns oriundos da Silésia e da Vestfália. Eram da grande massa de criaturas que passam por este mundo sem glória nem pena. Houve só uma exceção: o marechal hereditário Conde Friederich Von Pappenheim (1702-1793), que teve oito filhos com minha antepassada Humelin, com a qual, aliás, não casou. E, segundo parece, não se preocupou muito com o bem-estar desses filhos.

Três gerações depois, meu avô Hermann Hommel, filho de um pobre guarda-florestal da Floresta Negra, no fim da sua existência, acabou sendo o único proprietário da casa comercial alemã de máquinas e ferramentas e de uma fábrica de aparelhos de precisão. Apesar da sua riqueza, vivia modestamente e tratava seus empregados como um pai. Não somente foi dedicado ao seu trabalho, mas também possuía o dom de fazer que os outros trabalhassem independentemente. Era um homem típico da Floresta Negra, reflexivo, capaz de estar horas e horas sentado em um banco no bosque, sem dar uma palavra.

Meu outro avô, Berthold Speer, naquele mesmo tempo, era um abastado arquiteto, estabelecido em Dortmund. Ergueu numerosos edifícios em estilo clássico, predominante naquela época. Morreu ainda moço, mas deixou uma herança suficiente para a boa educação dos quatro filhos. A industrialização durante a segunda metade do século XIX contribuiu muito para a prosperidade dos meus dois avós, não sendo esse o caso de outros que começaram sob melhores auspícios. A mãe de meu pai, cujos cabelos ficaram brancos antes do tempo, infundiu em mim, durante minha meninice, mais respeito do que amor. Era uma mulher sisuda, que se orientava por suas idéias, das quais não se afastava um milímetro, sendo dotada de tremenda energia. Dominava a todos que a rodeavam.

Nasci em um domingo, 19 de março de 1905, ao meio-dia. Dizia minha mãe que os trovões de uma tormenta de primavera não deixavam ouvir o repique dos sinos de uma igreja próxima. Meu pai, independente aos vinte e nove anos (em 1892), era um dos arquitetos mais ocupados em Mannheim, cidade industrial de Baden, florescente naquela época. Tinha já realizado um considerável capital, quando em 1900 casou-se com a filha de um poderoso comerciante de Mogúncia. O pomposo estilo burguês de nossa residência correspondia ao êxito e prestígio de nossos pais. Grandes portões de ferro forjado com gradis de arabescos davam acesso a uma casa imponente em cujo pátio podiam permanecer dois automóveis.

Minha mãe, sentindo o orgulho de burguesa endinheirada, empenhava-se em manter a família no círculo das melhores de Mannheim. Sem dúvida, não havia mais do que umas vinte a trinta famílias em condições de fazer despesas com esse objetivo, despesas em que se incluía remuneração dos domésticos, um tanto numerosos. Meus pais faziam o possível por proporcionar aos filhos uma juventude satisfeita e livre de preocupações. Mas, além da satisfação desse anelo, havia as barreiras suscitadas pela sua riqueza e luxo, as obrigações sociais, o esplêndido serviço da casa, a governanta e o pessoal de serviço. Hoje percebo como era artificiosa e incômoda aquela maneira de viver. Além disso, freqüentemente eu sofria de desmaios, perdendo os sentidos. Um médico em Heidelberg diagnosticou: debilidade neurovascular. Essa deficiência física originou um sofrimento espiritual, submetendo-me desde cedo a desagradáveis circunstâncias na vida exterior. Na companhia de meus colegas de jogos, como também dos meus irmãos, mais robustos do que eu, sentia-me em situação de inferioridade. De vez em quando, eles criavam embaraços desagradáveis para mim.

Uma deficiência física, freqüentemente, sugere recursos para superá-la. As minhas dificuldades ensinaram-me a adaptar-me com mais flexibilidade ao mundo juvenil que me rodeava. Talvez se possa atribuir à minha deficiência física, na meninice, a minha habilidade em enfrentar situações difíceis e tratar com pessoas incômodas.

Quando estávamos acompanhados de nossa ama, uma senhorita francesa, tínhamos de nos vestir irrepreensivelmente, de acordo com nossa posição social. Não podíamos brincar nos parques, para não falar das ruas. Nosso campo de jogos era o pátio interno de nossa residência, não muito mais amplo do que a área de vários dos nossos quartos, rodeado pelas paredes dos fundos das casas vizinhas, de alguns andares de altura.

Aprendi as primeiras letras em uma elegante escola particular, onde se ensinava a ler e a escrever aos filhos das principais famílias da nossa cidade industrial. Sendo um menino cercado de cuidados, foram para mim muito difíceis os primeiros meses na Escola Real Superior, no meio de discípulos indiferentes. Mas o meu amigo Quenzer não tardou em familiarizar-se com toda classe de picardias, induzindo-me até a comprar uma bola de futebol com o dinheiro que recebia para os meus gastos. Quando souberam disso em minha casa, houve um espanto geral, pois o futebol era considerado um jogo plebeu, e, além disso, Quenzer pertencia a uma classe pobre.

Nessa época despertou em mim a tendência para anotar os fatos, segundo um critério estatístico. No meu Caderno Fênix para alunos eu registrava todas as notas más, constantes no livro de aula, e nele relacionava, todos os meses, os nomes de quem fora repreendido o maior número de vezes durante o mês.

O escritório de arquitetura de meu pai era vizinho à nossa residência. Lá se faziam os esboços das grandes perspectivas para os contratos de construções. Os desenhos eram feitos em um papel acetinado, de cor azul, mas esta, em minha lembrança, se confunde com a das paredes da sala. As obras de meu pai, influenciadas pelo neo-renascimento, tinham feito abstração do estilo da mocidade. Mais tarde, serviu-lhe de exemplo Ludwig Hoffmann, influente engenheiro-chefe da municipalidade de Berlim, cujo estilo era um classicismo mais sereno.

Eu tinha pouco mais de doze anos quando apareceu no escritório, como presente de aniversário para meu pai, minha primeira "obra de arte": o desenho de uma espécie de relógio da vida, dentro de uma caixa enfeitada de muitos arabescos, sobre colunas coríntias e volutas audaciosas. No meu trabalho, utilizei-me de todas as cores de aquarela que pude encontrar. Auxiliado por todos os empregados do escritório, compus uma figura na qual se reconheceriam claras tendências, à época, do estilo Império tardio.

Além de um automóvel conversível para o verão, meus progenitores possuíam, antes de 1914, um carro fechado, que servia, no inverno, para idas à cidade. Esses carros atraíam os meus entusiasmos de cunho técnico. Foram essas as minhas primeiras impressões, prenúncio da embriaguez técnica em um mundo que começava a ser governado pela tecnologia. Somente depois, tendo vivido vinte anos na prisão de Spandau, como um homem do século XX sem rádio, sem televisão nem automóvel, quando não podia sequer mexer no interruptor da luz elétrica, voltei a sentir uma felicidade parecida com a de quem, depois de dez anos de prisão, podia utilizar uma enceradeira elétrica.

Em 1915, tive contato com outro fato revolucionário no terreno das invenções técnicas. Estava em Mannheim um dos dirigíveis que tinham voado sobre Londres. O comandante e seus oficiais não tardaram em freqüentar assiduamente nossa casa. Convidaram a mim e aos meus irmãos a irmos ver o dirigível. Aos dez anos de idade contemplei de perto aquele gigante da técnica, subi à barquinha do motor, andei pelos misteriosos e quase escuros passadiços do interior da nave e estive na barquinha do comando. Quando ao entardecer o dirigível alçou vôo, o comandante fê-lo dar uma volta sobre o prédio de nossa casa, enquanto um oficial agitava um leque emprestado por minha mãe. Durante noites, estive angustiado pela idéia de que a nave poderia incendiar-se, ocasionando a morte de nossos amigos.

Minha fantasia não se afastava da guerra, dos avanços e recuos na frente de batalha, dos sofrimentos e castigos impostos aos soldados. À noite, durante meses, ouvia-se o longínquo troar dos canhões na Batalha de Verdun. Animado pelo desejo infantil de participar dos sofrimentos dos soldados, muitas vezes eu dormia no chão, ao lado da minha cama macia, supondo que estar estirado no soalho duro identificava-me mais com as privações que os soldados sofriam na frente.

Também tivemos de padecer as conseqüências da má alimentação nas grandes cidades e do "inverno dos nabos". Tínhamos muito dinheiro, mas não dispúnhamos de parente ou de conhecido no campo, melhor abastecido. Minha mãe sabia preparar os nabos de modos diferentes. Mas eu sentia tanta fome que, aos poucos, fui me alimentando com as tortas para os cachorros, que se guardavam em um saco. Essas tortas eram duras como pedras, mas eu as ia devorando com tremendo apetite. Também começaram os ataques aéreos a Mannheim (ataques completamente inofensivos, se comparados com os atuais), tendo caído uma bomba sobre uma das casas vizinhas à nossa. Começou então uma nova fase da minha mocidade.

Desde 1905, possuíamos, nas proximidades de Heidelberg, uma casa de veraneio, construída na encosta de uma pedreira de onde, segundo diziam, foi extraída a pedra para a construção do Palácio de Heidelberg, já havia muito tempo. Por trás do terreno, levantam-se as montanhas do Ondenwald. Serpenteiam veredas pelo velho bosque da encosta. As clareiras permitiam, de quando em quando, descansar a vista na contemplação do vale do Neckar. Lá havia tranqüilidade, um formoso jardim, vegetação. O vizinho possuía uma vaca. Fomos para essa casa no verão de 1918.

Logo melhorou meu estado físico. Todos os dias, ainda quando caía neve, sob a chuva ou a tormenta, eu percorria o extenso caminho que levava à escola, e nesse percurso gastava três quartos de hora. O último trecho, freqüentemente, eu o fazia correndo. Naqueles primeiros tempos difíceis do pós-guerra, não havia nem bicicletas.

O caminho passava pela frente da sede de um clube de remadores. Em 1919 fui admitido membro daquela associação, e durante dois anos exerci a função de timoneiro, nas regatas de barcos de quatro ou oito remos. Apesar da minha débil constituição física, transformei-me em um dos melhores remadores. Aos dezesseis anos consegui o posto de patrão das ioles de quatro remos, e nas de oito da escola, participando de algumas regatas. Pela primeira vez senti-me orgulhoso. Isso exigia de mim um trabalho com o qual eu jamais sonhara. Foi a primeira paixão na minha vida. A possibilidade de marcar o ritmo das remadas da tripulação atraía-me com mais força do que a oportunidade de conseguir admiração e respeito no reduzidíssimo mundo dos remadores.

Sem dúvida, éramos quase sempre vencidos. Mas, por se tratar do rendimento do esforço de uma tripulação inteira, não se considerava o rendimento pessoal. Ao contrário, a derrota originava um senso de solidariedade. Esse treinamento apresentava ainda uma vantagem, pois havíamos jurado abstinência. Naquele tempo, eu desprezava os camaradas que se divertiam pela primeira vez, fumando, dançando e bebendo vinho.

Aos dezessete anos, nas minhas caminhadas à escola, conheci aquela que teria de ser minha companheira na existência. Isso me incentivou a estudar, pois falamos de casamento para quando terminassem nossos estudos. Eu já era um bom matemático, desde alguns anos. Melhorei minhas notas noutras matérias, chegando a ser um dos melhores alunos da minha classe.

Nosso professor de alemão, um democrata entusiástico, lia-nos com freqüência artigos do Frankfurter Zeitung. Se não fosse esse professor eu teria pertencido na escola a um círculo inteiramente apolítico, pois estávamos sendo educados segundo a imagem do mundo conservador burguês. A distribuição do poder na sociedade, as autoridades existentes, era algo que nos apresentavam como ordem estabelecida por Deus. Isso, apesar da revolução em marcha. Mal atingia nossa casa o eco das ações das correntes que se agitavam por toda parte, durante os primeiros anos do decênio de 20. Também era proibida qualquer crítica à escola, às matérias, e exigida uma fé sem limites na intocável autoridade do centro educativo. Nem sequer chegamos a duvidar da ordem estabelecida, pois na escola estávamos submetidos à ditadura de um absoluto sistema de domínio. Aliás, não havia matérias como a sociologia, que poderiam despertar nosso juízo crítico sobre o aspecto político. Ademais, no último ano, as composições no idioma alemão baseavam-se unicamente em temas de história da literatura, que serviam, nada mais nada menos, para afastar toda reflexão sobre os problemas da sociedade. Desnecessário dizer que esse afastamento da política, dentro da escola, não nos induzia a tomar posições políticas fora do âmbito escolar, quando ocorriam acontecimentos de caráter político. Além disso, havia à impossibilidade de viajar ao estrangeiro. Não havia nenhuma organização que se ocupasse dos rapazes, ainda que eles dispusessem de dinheiro para viagens ao exterior. Parece-me necessário acentuar essa deficiência, que entregou de pés e mãos atados uma geração aos processos de influência técnicos, que se multiplicavam rapidamente.

Também em casa não se conversava sobre política, fato tanto mais surpreendente porque meu pai era um liberal convicto já desde antes de 1914. Todas as manhãs, esperava impaciente a chegada do Frankfurter Zeitung. Todas as semanas, lia os semanários humorísticos Simplicissimus e Jugend. Pertencia ao mundo espiritual de Friedrich Naumann, que propugnou pelas reformas sociais em uma Alemanha poderosa. Depois de 1923, meu pai fez-se partidário de Coudenhove-Kalergis, defendendo entusiasmado as idéias pan-européias deste. Talvez tivesse de bom grado falado de política comigo, se eu não evitasse as ocasiões; e meu pai então não insistia. É certo que a juventude estava decepcionada e fatigada, pela perda de uma guerra, a revolução, a inflação, o que no entanto não impedia de terem os moços a consciência das dimensões da política e das regras para a formulação de um juízo a respeito. Aquilo de que eu mais gostava era dirigir-me à escola, passando pelo parque de Heidelberg, e deter-me contemplando, desde o extensíssimo terraço, com olhos sonhadores e durante alguns minutos, a velha cidade e as ruínas do palácio. Esta afeição romântica pelas fortalezas arruinadas e as vielas serpenteantes, que sempre se conservou em mim, exprimiu-se mais tarde em minha mania de colecionar paisagens, especialmente os românticos de Heidelberg. Quando ia para a escola, às vezes, encontrava-me com Stefan George, que dava a impressão de extrema dignidade, irradiando uma aura que se poderia qualificar de sagrada. Meu irmão mais velho estava já no último ano, quando teve acesso ao círculo íntimo do mestre.

O que mais me atraía era a música. Antes de 1922, ouvi em Mannheim o jovem Furtwangler, e depois Erich Kleiber. Naquela época, Verdi impressionava-me mais do que Wagner. Puccini era espantoso para mim. Enquanto isso, muito me agradou uma sinfonia de Rimsky-Korsakov. Também a Quinta sinfonia de Mahler pareceu-me "bastante complicada", mas agradou-me. Depois de uma noite no teatro, concluí que Georg Kaiser era "o mais importante dramaturgo moderno", pois em suas obras analisava "o conceito, o valor e o poder do dinheiro". Quando vi O pato selvagem de Ibsen, vi que as qualidades da camada social dirigente repercutiam em nós de uma maneira ridícula. Eram, segundo meu ponto de vista, autênticos personagens de comédia. Com seu romance Jean Christophe, Romain Rolland aumentou o meu entusiasmo por Beethoven.

Assim, não se devia unicamente a impulsos de grosseria juvenil o fato de não me agradar a ostentosa vida social que havia em minha casa. Ocorria imediatamente oposição geral quando eu exprimia minhas preferências pelos autores que criticavam a sociedade, quando buscava meus amigos entre os camaradas da sociedade de remadores ou nos refúgios alpinos dos montanheses. Até a simpatia para com uma modesta família burguesa composta de artesãos contrariava o costume de busca de amigos e de futura esposa na fechada camada social a que pertenciam meus progenitores. Eu me opunha a qualquer compromisso de cunho político. Mas isto não alterava em absoluto o fato de que me sentia nacionalista até à medula dos ossos e me exaltasse, por exemplo, durante a ocupação da bacia do Ruhr (1923), quando houve a ameaçadora crise do carvão ou quando se tratava de diversões não adequadas às circunstâncias.

Para minha surpresa, compus a melhor prova de término de curso. Mas pensei comigo mesmo: "Isso apenas podes almejar", quando o reitor da escola em seu discurso de despedida aos bacharéis disse que agora "abria-se ante nós o caminho que nos conduziria a empreendimentos e honrarias elevadas".

Tendo sido o melhor aluno de matemática da escola, minha intenção era continuar o estudo dessa ciência. Mas meu pai, opondo argumentos ponderáveis, discordou da minha intenção. E eu não seria um matemático familiarizado com a lógica se não tivesse cedido às ponderações do meu progenitor. A profissão mais lógica para mim seria a de arquiteto, da qual já assimilara tantas coisas, já nos primeiros anos de estudos. Para grande alegria de meu pai, escolhi a carreira de arquiteto, a mesma profissão dele e de meu avô.

Por motivos de ordem econômica, freqüentei durante o primeiro semestre a Escola Técnica Superior da cidade próxima de Karlsruhe, pois a inflação se agravava rapidamente de dia para dia. Isso me obrigava a fazer meus pagamentos por semana, pois uma quantia fabulosa se reduzia a nada, no final de sete dias. Eis o que escrevi, em meados de setembro de 1925, a respeito de uma excursão à Floresta Negra: "Tudo está muito barato, aqui! Um pernoite custa quatrocentos mil marcos, uma ceia, um milhão e oitocentos mil marcos. Meio litro de leite, duzentos e cinqüenta mil marcos". Seis semanas depois, pouco antes de terminar a inflação, uma refeição em restaurante custava até vinte bilhões de marcos e na mesa dos estudantes mais de um bilhão, o equivalente a sete centavos-ouro. Por uma entrada de teatro, tive de pagar cerca de quatrocentos milhões de marcos.

Como conseqüência da catástrofe econômica, minha família viu-se obrigada a vender a casa comercial e a fábrica de meu falecido avô a um consórcio industrial por uma fração do seu valor, mediante bônus do Tesouro em dólares. Minha mesada mensal ascendia agora a dezesseis dólares, quantia com a qual eu podia viver magnificamente, livre de toda preocupação.

Terminada a inflação, transferi-me na primavera de 1924 para a Escola Superior de Munique. Ali permaneci até o verão de 1925. Hitler voltou a dar o que falar na primavera de 1925, depois da saída da prisão militar, mas não tomei conhecimento disso. Em minhas extensas cartas a minha namorada, eu falava somente do meu trabalho, que se prolongava até a noite, de nosso desejo comum de nos casarmos dentro de três ou quatro anos.

Minha futura esposa e eu tínhamos o costume de nos reunir, freqüentemente, durante as férias, a outros estudantes e passar os dias de descanso em um refúgio nos Alpes austríacos. As ascensões cansativas davam-nos a impressão de verdadeiras proezas. Também em nossas viagens em botes desmontáveis buscávamos a "união com a natureza". Naquela época, essas excursões eram uma novidade. Descíamos em silêncio os rios e, chegando a noite, montávamos nossas tendas nos locais mais bonitos. Aquelas excursões aprazíveis davam-nos um pouco daquela felicidade que fora algo inteiramente compreensível para nossos antepassados. Em 1885, meu pai fez uma viagem de Munique a Nápoles, regressando a pé e em carruagem. Mais tarde, quando pôde cruzar toda a Europa em seu automóvel, disse que aquela antiga excursão fora a mais importante de suas viagens.

Muitos da nossa geração buscavam esse contato com a natureza. Não se tratava de um protesto romântico contra a vulgaridade burguesa. Fugíamos, sim, de um mundo cada vez mais complicado. No outono de 1925, fui com um grupo de estudantes de arquitetura de Munique à Escola Técnica Superior de Berlin e Charlottenburgo. Escolhi como mestre o Professor Poelzig. Mas esse professor limitara o número de lugares em seu seminário. E não fui admitido porque minhas aptidões como desenhista foram consideradas insatisfatórias.

No semestre seguinte, foi nomeado para Berlim o Professor Heinrich Tessenov, defensor do artesão e do provinciano. Ele reduzia ao mínimo possível a expressão da sua arquitetura: "O decisivo é sempre o mínimo gasto". Também apreciava muito nosso catedrático de história da arquitetura. O Professor Daniel Krenkler, alsaciano de nascimento, não somente era um arqueólogo, inteiramente dedicado à sua profissão, como também um patriota emotivo. Em certa ocasião, descrevendo-nos em uma conferência o Mosteiro de Estrasburgo, chorou tanto que teve de interromper a preleção. Fiz para ele a resenha do livro de Albrecht Haupt, A arquitetura dos germanos.

Os vinte anos transcorridos em Berlim foram básicos na minha vida de estudante. Também freqüentei teatro, sendo muitas as peças que me causaram grande impressão: a montagem, por Max Reinhardt, do Sonho de uma noite de verão, de Shakespeare; Elisabeth Bergner em A donzela de Orleans, de Bernard Shaw; Pallenberg na representação de Schweik por Piscator. Mas também me atraíam enormemente as revistas de Charell, extraordinariamente suntuosas. No entanto, ainda não sentia nenhum prazer na pompa enfática dos filmes de Cecil B. de Mille; isso sem suspeitar de que, dez anos depois, eu deixaria diminuída essa arquitetura cinematográfica. Naquele tempo, para mim, os seus filmes eram "muito americanos e careciam de gosto".

Por outro lado, todas as minhas impressões estavam sombriamente afetadas pela pobreza e desemprego no operariado. A decadência do Ocidente, de Spengler, convencera-me de que estávamos vivendo em um período de decadência, semelhante ao dos últimos tempos da era romana: inflação, relaxamento dos costumes, impotência do governo. O ensaio Prussianismo e socialismo fascinou-me pelo desprezo do luxo e da comodidade. Nele se amalgamavam a doutrina de Spengler e os ensinamentos de Tessenov. No entanto, meu professor, contrariando Spengler, tinha ainda esperança no futuro. Em tom irônico, opunha-se ao "culto dos heróis", habitual naquela época.

No verão de 1927, depois de nove semestres de estudos, obtive o diploma de arquiteto. Na primavera seguinte, quando tinha vinte e três anos, eu era um dos mais jovens assistentes da Escola Técnica Superior. No último ano da guerra, quando eu participava da organização de uma tômbola, uma profetisa me dissera: "Obterás fama, muito cedo, e também cedo irás descansar". Naquelas circunstâncias, havia razão para eu pensar naquela profecia. Havia um certo fundamento na minha idéia de que, caso desejasse, chegaria a ocasião em que eu daria aulas na Escola Técnica Superior, como o meu professor.

O cargo de assistente possibilitou-me o casamento. Não fizemos a viagem de lua-de-mel na Itália, mas em nosso barco desmontável percorremos os lagos de Mecklenburgo e em nossa tenda de campo nos demoramos nos bosques que rodeiam esses lagos. Lançamos nosso barco na água em Spandau, a algumas centenas de metros da prisão onde depois transcorreriam vinte anos de minha existência.

 

                                     PROFISSÃO E VOCAÇÃO

Em 1928, quase fui nomeado arquiteto de uma corte real. Aman Ullah, soberano do Afeganistão, pretendia proceder a uma modernização do seu país. Para isso, desejava o concurso de um jovem grupo técnico alemão. Joseph Brix, professor encarregado da construção de rodovias e cidades, foi quem reuniu o grupo de técnicos. Minhas funções seriam a de autor de projetos de cidades, arquiteto, e também professor de arquitetura em uma escola de ensino técnico que se pretendia estabelecer em Kabul. Minha esposa e eu estudamos juntos todos os livros que pudemos arranjar, a respeito daquele país distante e isolado. Estivemos pensando em como se poderia elaborar um estilo nacional próprio, na base de construções modestas. Também pensamos em fazer excursões sobre esqui nas montanhas ainda não percorridas por criaturas humanas. Eram muito favoráveis as condições do contrato que me foi oferecido. Mas, quando este estava praticamente terminado e o soberano encontrava-se na Alemanha, muito bem recebido por Hindenburg, os seus súditos destronaram-no com um golpe de Estado.

Apesar disso, tive a compensação da possibilidade de continuar trabalhando com Tessenov. Antes eu duvidara. Mas agora fiquei satisfeito por não ter de tomar uma decisão, em conseqüência da deposição de Aman Ullah. Tinha de trabalhar no seminário somente três dias por semana. Além disso, na Escola Técnica Superior havia cinco meses de férias. E eu cobrava trezentos marcos, equivalentes mais ou menos a oitocentos marcos na época atual. Tessenov não dava preleções, mas na grande sala do seminário corrigia os trabalhos de seus alunos, cerca de cinqüenta. Em cada semana, ele comparecia por umas quatro a seis horas. Nas horas restantes, os estudantes dependiam de minhas explicações e correções.

Os primeiros meses foram muito cansativos. No princípio, os estudantes tinham uma atitude de críticos em relação a mim, e tratavam de surpreender-me em algum erro ou desconhecimento. Aos poucos, desapareceu minha timidez inicial.

Sem dúvida não chegaram as encomendas de construção, que eu esperava poder fazer no tempo livre disponível, que era muito. Talvez eu parecesse muito moço. Além disso, a atividade no ramo de construções estava diminuída, em conseqüência da crise econômica. Uma exceção foi a casa de Heidelberg. Era uma obra despretensiosa, seguida de outra sem importância: duas garagens juntas, para pistas de jogos de Wansee e a edificação do centro berlinense do Serviço de Intercâmbio Acadêmico.

Em 1930, em nossos botes desmontáveis, saímos de Donaueschingen, descemos o Danúbio até Viena. Quando voltamos, eu soube que no dia 14 de setembro se tinham realizado eleições para o Reichstag. Só conservei lembrança disso porque o resultado das eleições excitou muito meu pai. O Partido Operário Nacional Socialista Alemão (NSDAP) alcançou setecentas cadeiras no Reichstag, transformando-se logo no centro da discussão política. Esse êxito eleitoral imprevisto suscitou em .meu pai os mais negros temores, mormente pelas tendências socialistas do NSDAP. Por outro lado, já estava intranqüilo pela força alcançada pelos social-demo-cratas e comunistas.

Enquanto isso, nossa Escola Técnica Superior já se transformara em um centro de aspirações nacional-socialistas. Enquanto o pequeno grupo de estudantes comunistas de arquitetura se formara em torno do Professor Poelzig, os nacional-socialistas agruparam-se em roda de Tessenov, embora esse homem continuasse inimigo declarado do movimento hitlerista. Apesar disso, havia analogias não expressas e não propositais entre a doutrina de Tessenov e a ideologia nacional-socialista. Seguramente, Tessenov não tinha consciência dessas analogias. Não havia dúvida de que o aterrorizaria o pensamento de uma semelhança entre suas idéias e a forma nacional-socialista de entender a vida.

Entre outras coisas, Tessenov ensinava: "O estilo nasce do povo. É lógico que se ame a pátria. Não pode haver uma verdadeira civilização internacional. Esta procede unicamente do regaço materno de uma nação".

Hitler era também contrário à internacionalização da arte. Seus partidários viam no solo pátrio a raiz de uma renovação.

Tessenov condenava a grande cidade, opondo ao conceito respectivo idéias de camponês: "A grande cidade é uma coisa terrível, uma confusão de coisas antigas e modernas, a expressão de uma luta, luta brutal. Impõe-se à renúncia a tudo quanto for agradável. Onde o citadino entra em contato com o campo, a vida campestre acaba sendo destruída. É lastimável que não se possa mais pensar como aldeão".

Hitler também se manifestava contra o relaxamento de costumes nas grandes cidades, advertindo sobre os danos decorrentes da civilização, que ameaçavam a substância biológica do povo. Realçava a importância da manutenção de um núcleo campestre sadio para sustentáculo do Estado.

Hitler teve a habilidade de expor e de utilizar para os seus próprios objetivos estas e outras idéias já existentes na consciência daquela época, embora em forma parcialmente difusa e inconsistente.

Durante meus trabalhos de correção, os estudantes nacional-socialistas arrastavam-se freqüentes vezes a discussões de caráter político. Naturalmente, as opiniões de Tessenov eram discutidas, apaixonadamente. As débeis objeções que eu tratava de opor, extraídas do vocabulário de meu pai, eram varridas com muita habilidade dialética.

A mocidade estudantil procurava seus ideais de preferência no campo extremista. E o partido de Hitler dirigia-se, precisamente, ao idealismo dessa geração excitada. E Tessenov, por seu lado, também não animava essa disposição crescente em seus discípulos? Eis uma de suas opiniões, mais ou menos no ano de 1931:

"Talvez ainda apareça alguém que pense de um modo simples. Atualmente, o pensamento está muito complicado. Um homem inculto, sem base, solucionaria esta situação de uma maneira muito mais fácil, justamente por não estar ainda corrompido. Esse homem disporia também da energia suficiente para concretizar suas concepções simples". Essa observação, pragmática em seu fundo, parecia-nos poder ser aplicável, precisamente, a Hitler.

Naquela época, Hitler falou no Hasenheide de Berlim aos estudantes da Universidade de Berlim e da Escola Técnica Superior. Meus alunos instaram para que eu comparecesse. Eu não estava ainda convencido, mas sim vacilante, a respeito de suas idéias. Em todo caso, acompanhei-os à reunião. Paredes sujas, portas estreitas e um interior nauseabundo causavam péssima impressão. Em outros tempos, os operários realizavam ali suas cervejadas. O salão estava repleto. Parecia que quase todos os estudantes de Berlim queriam ouvir aquele homem, de quem os partidários diziam coisas admiráveis, sendo tão difamado pelos adversários. Muitos professores estavam sentados em lugares especiais, no centro de uma tribuna sem nenhuma ornamentação. Era a presença desses professores que qualificava e prestigiava aquela reunião. Nosso grupo pudera alojar-se em bons lugares, na tribuna, não distante do estrado do orador.

Quando apareceu, Hitler foi acolhido por uma ruidosa aclamação dos estudantes seus partidários. Esse entusiasmo muito me impressionou, mas também me surpreendeu a maneira como ele se apresentou. Eu já vira cartões e caricaturas que o mostravam vestido de uniforme, correame, franja no braço com o desenho de uma cruz gamada e uma pastinha de cabelos sobre a testa. Naquele dia, ele apresentou-se usando um terno azul, bem talhado, com uma atraente correção burguesa. Isso indicava ser Hitler um homem, consciente ou inconscientemente, capaz de adaptar-se a qualquer ambiente.

Com um gesto de repúdio, pretendeu sustar as ovações, que duraram minutos. Depois começou a falar, em voz baixa, vacilante, com certa timidez, não pronunciando um discurso, mas fazendo uma exposição histórica. Ele me conquistou, sobretudo por se mostrar inteiramente diverso daquilo que eu esperava pela propaganda feita pelos adversários: um demagogo frenético, um fanático vociferador, bracejante, vestido de uniforme. Mas os estrondosos aplausos não contribuíram para que ele deixasse o entono doutoral.

Aparentemente, expôs com franqueza e sem rodeios suas preocupações quanto ao futuro. Sua ironia atenuava-se por um humor de que ele tinha consciência. Atraiu-me sua afabilidade de alemão sulista. É impossível admitir que um frio prussiano me tivesse cativado com suas palavras. A timidez inicial de Hitler não tardou a desaparecer. Às vezes, elevava o tom de voz e falava com energia e sugestiva força de convicção. Essa impressão era muito mais profunda do que o próprio discurso, do qual não me ficou muita coisa na memória.

Além disso, fui arrastado pelo entusiasmo que, frase após frase, animava o orador, dando até a impressão de que o seu corpo se erguia assim excitado por suas palavras. Hitler anulou os argumentos dos céticos. Os adversários não puderam falar. Daí adveio, pelo menos momentaneamente, a falsa impressão de unanimidade. Ao terminar sua fala, Hitler parecia já estar falando não para convencer-nos, mas ele mesmo dava a impressão de estar convencido de que o público esperava que ele falasse como estivera falando. Parecia-lhe a coisa mais lógica, no mundo, levar por onde se quisesse os estudantes e uma parte do professorado das duas maiores universidades da Alemanha. E note-se que isso ocorria em um momento em que ele não dispunha ainda do poder absoluto, encouraçado contra qualquer crítica, mas estava exposto a ataques de todos os lados.

Muitos discutiriam, bebendo cerveja, os acontecimentos excitantes da véspera. Meus alunos solicitaram-me isso. Mas eu desejava aclarar minhas idéias, desfazer minha confusão, ser dono dos meus sentimentos, e por isso sentia necessidade de estar só. Solicitado por sentimentos desencontrados, à noite, tomei meu carro, dirigi-me a um pinheiral na zona de Havei e caminhei por algum tempo.

Pareceu-me que naquele homem havia uma esperança, novos ideais, nova compreensão das coisas, novas tarefas a executar. Também me pareciam agora anuladas as sombrias predições de Spengler, ao mesmo tempo em que se cumpria seu vaticínio relativo à vinda de um imperador. Era necessário afastar o perigo do comunismo, o qual, segundo Hitler nos convenceu, parecia estar se aproximando inelutavelmente do poder. E, por fim, bem poderia haver um reflorescimento econômico, em vez da desolada imagem do desemprego do operariado. O problema judaico só foi mencionado marginalmente. No entanto, tais observações não me impressionaram, pois eu não era anti-semita, tinha amigos judeus dos tempos de escola e de cursos superiores, como, na realidade, quase todos os demais.

Algumas semanas depois daquele discurso, tão importante para mim, meus amigos levaram-me a uma manifestação no Palácio dos Esportes, em que falaria Goebbels, chefe da região de Berlim. Tive uma impressão muito diferente daquela que produziu Hitler; muitas frases bem colocadas, formuladas de modo categórico; a multidão que rugia, levada a explosões de entusiasmo e de ódio, cada vez mais fanáticas; um furacão de paixões desenfreadas, como até então eu somente presenciara durante as corridas de bicicleta de seis dias. Senti repugnância, tendo diminuído o efeito positivo produzido por Hitler, embora não se tivesse extinguido, inteiramente.

Esvaziou-se o Palácio dos Esportes, o público desceu em calma a Potsdamerstrasse. O discurso de Goebbels infundia confiança àquela gente, que ocupou, em atitude de provocação, toda a largura do calçamento, impedindo o tráfego de veículos. A polícia não interveio, talvez por não pretender irritar a multidão. Mas nas esquinas estavam formações de cavalarianos, de caminhões e de infantes, que poderiam intervir, se necessário. Isso tinha por finalidade separar os comunistas dos nacional-socialistas. Afinal a polícia interveio e de cassetete em punho avançou sobre a multidão, a fim de esvaziar o calçamento. Nada houve além da carga dos policiais, pois não se registrou nenhum ferimento. Alguns dias depois – janeiro de 1931 – filiei-me ao Partido Nacional Socialista, sendo 474 481 o meu número de inscrição.

Minha decisão nada tinha de dramática. Nem me senti membro de um partido político. Não escolhi o NSDAP, e sim me aproximei de Hitler, cuja figura me impressionou, já no primeiro encontro, e assim seria daquela data em diante. Sua força de expressão, a magia própria da sua voz, nada agradável; a estranha forma de comportamento, antes vulgar; a sedutora simplicidade com que tratava de nossos complicados problemas; tudo isso produziu confusão em mim e me fascinou também. Hitler apoderou-se de mim, antes de eu ter compreendido o alcance do seu movimento.

Nem me importunou minha ida a uma reunião popular, organizada pelo Kampfbund Deutscher Kultur (1), embora nessa ocasião fossem condenadas muitas das aspirações do Professor Tessenov. Um dos oradores exigiu a volta a tradicionais formas e concepções da arte, atacou o modernismo, e finalmente arremeteu contra a associação de arquitetos Der Ring, a que pertenciam, além de Tessenov, Gropius, Mies van der Rohe, Scharoun, Mendelsohn, Taut, Behrens e Poelzig. Depois disso, um dos nossos alunos enviou uma carta a Hitler, na qual protestava contra aquele discurso e, entusiasmado, defendia nosso mestre. Não demorou em receber uma resposta, meio familiar, meio convencional, na qual se

 

(1) Movimento de Defesa da Cultura Alemã. (N. do E.)

 

afirmava que a obra do Professor Tessenov gozava da maior estima. Isto nos pareceu muito importante. É verdade que até então eu não revelara a Tessenov que pertencia ao Partido Nacional Socialista.

Creio que foi naquele período que minha mãe viu um desfile das SA nas ruas de Heidelberg. Sentiu-se também impressionada ao ver aquela demonstração de ordem, em um tempo de caos, o senso de energia que se irradiava daquele desfile, em uma ocasião de desânimo geral. Inscreveu-se no partido, sem ter ouvido um discurso, sem ter lido sequer um prospecto impresso. Ambos parecíamos sentir esta decisão como a ruptura de uma tradição familiar liberal. De qualquer modo, mantivemos oculta entre nós dois a nossa decisão, sem revelar nada ao meu pai. Somente anos depois, quando eu pertencia ao círculo pessoal de Hitler, foi que descobrimos por acaso que ambos pertencíamos, havia muito, ao partido.

 

                                             RUMO TRAÇADO

Seria mais natural que, lembrando aqueles anos, eu falasse, principalmente, da minha vida profissional, da minha família, das minhas tendências. Mas os novos fatos e experiências foram no meu pensamento relegados a segundo plano. Acima de tudo, eu era arquiteto.

Sendo dono de um automóvel, converti-me em membro da associação de motoristas do partido (NSKK). Sendo uma nova organização, adquiri automaticamente a categoria de chefe da seção de Wannsee, localidade onde nós residíamos. Mas, ainda assim, no princípio, eu estava longe de pensar em uma atividade partidária séria. Quanto ao mais, eu era o único dono de carro em Wannsee, portanto, em minha seção. Os outros membros nutriam o desejo de possuir um, no caso de se realizar a "revolução" com a qual eles sonhavam. E, para se prevenirem no momento oportuno, indagavam em que locais do rico arrabalde estavam as sociedades recreativas, onde eles encontrariam os autos necessários para o dia D.

O meu cargo fez que eu me dirigisse várias vezes à Chefatura da Comarca do Oeste, chefiada por um homem simples, mas inteligente e enérgico, um jovem moleiro chamado Karl Hanke. Tinha alugado para futuro quartel da sua organização uma elegante quinta, no distinto bairro de Grünewald. Mas, depois da vitória eleitoral de 14 de setembro de 1930, o partido, transformado em poderosa organização, estava se esforçando por adquirir brilho e categoria social. Pediu-me que adaptasse a quinta, sem receber nenhum pagamento.

Falamos de papéis pintados para forro das paredes, cortinas, cores. Por indicação minha o jovem chefe da comarca escolheu papéis pintados de empresas de construção, embora eu lhe tivesse dito que tais papéis eram "comunistas". Mas ele resolveu o assunto fazendo um largo gesto com a mão: "Nós colhemos o melhor em toda parte, até dos comunistas". Falando assim, ele exprimia aquilo que Hitler e seu Estado-Maior faziam há anos: reunir de toda parte o que oferecesse maiores possibilidades de êxito, sem considerar as ideologias; e até decidir sobre questões ideológicas visando o efeito na massa eleitoral.

A situação no partido era cômoda e agradável. Depois do entusiástico movimento do partido em Berlim, para o qual eu fora arrastado cada vez mais, a seção de Mannheim pareceu-me uma reunião de amigos que jogam cartas. Não havia nenhuma NSKK. Por isso em Berlim designaram-me para as SS motorizadas. Quando se iniciaram os preparativos para as eleições de julho de 1932, minha esposa e eu fomos a Berlim, para participarmos um pouco da excitante atmosfera eleitoral e também ajudarmos na medida do possível. Isso porque as perspectivas pouco lisonjeiras no setor profissional tinham intensificado meu interesse político, ou o que eu assim denominava. Queria contribuir para a vitória eleitoral de Hitler. Nós tínhamos a intenção de ficar em Berlim somente poucos dias, depois iríamos aos lagos da Prússia Oriental, a fim de fazermos uma excursão com os nossos botes desmontáveis, na qual já tínhamos pensado antes.

Apresentei-me, com o meu automóvel, ao chefe da NSKK da Chefatura da Comarca do Oeste de Berlim, Will Nagel. Ele utilizou-se de mim para servir de correio entre as diversas chefaturas locais do partido. Não era de estranhar que eu me sentisse muito incomodado, quando tinha de andar pelos distritos de Berlim dominados pelos "vermelhos". Em sótãos estreitos, eles faziam emboscadas às tropas de choque nacional-socialistas, que nesses lugares levavam uma vida difícil. O mesmo acontecia com os elementos comunistas que avançavam nas zonas dominadas pelos nazistas. Não posso esquecer a fisionomia angustiada, triste e cansada, por uma noite passada sem dormir, do chefe de uma seção nacional-socialista, em pleno distrito de Moabit, um dos lugares mais mal freqüentados naquele tempo. Aqueles homens arriscavam suas vidas, sacrificavam a saúde, por uma idéia, ignorando que estavam sendo utilizados em prol das idéias fantásticas de um homem ávido de poder.

Estava previsto que Hitler chegaria ao Aeródromo de Staaken, em Berlim, no dia 27 de julho de 1932, antes de uma manifestação que se realizaria de manhã em Eberswalde. Tinham-me designado para levar meu carro a um informante, de Staaken ao local da próxima reunião: o Estádio de Brandenburgo. Quando o trimotor cessou de rodar na pista, Hitler e alguns dos seus colaboradores e assistentes desceram do aparelho. Excetuando-se nós, não havia quase ninguém no aeroporto. Eu estava um pouco afastado, mas vi que Hitler fazia críticas nervosas aos da sua comitiva, porque não tinham chegado os automóveis. Caminhava para cima e para baixo, colérico, batendo com um rebenque nas altas botas de montaria, dando a impressão de uma pessoa mal-humorada, incapaz de dominar-se e que tratava com desprezo os seus colaboradores.

O Hitler de agora era completamente distinto do homem tranqüilo e educado que eu vira durante a reunião de estudantes. Sem pensar muito nisso, dei-me conta então das muitas caras que esse homem podia mostrar; possuidor de muita intuição teatral, ele podia adotar um comportamento público segundo as mais diversas situações, enquanto procedia negligentemente diante daqueles que estavam em sua proximidade, seus servidores e assistentes.

Chegaram os carros. Subi ao meu desajeitado veículo esporte e a toda velocidade adiantei-me alguns minutos à coluna motorizada de Hitler. Chegando a Brandenburgo, as margens da estrada, nas proximidades do estádio, se achavam ocupadas por social-democratas e comunistas. Por isso – meu acompanhante vestia o uniforme do partido – nós tivemos de atravessar aquela multidão excitada. Quando, alguns minutos depois, chegou Hitler com a sua comitiva, a multidão transformou-se em uma massa rugidora e furiosa. O automóvel foi abrindo passagem, vagarosamente, estando Hitler de pé ao lado do motorista. A minha impressão negativa, quando ele desceu no campo de aviação, desvaneceu-se com esta nova imagem do chefe do Partido Nacional Socialista.

O dia seguinte foi decisivo para meu futuro político. Os botes desmontáveis já me esperavam na estação, as passagens compradas e fixada para a noite a hora de nossa partida para a Prússia Oriental. Mas ao meio-dia fui chamado ao telefone. Nagel, o chefe da NSKK, comunicou-me que Hanke, que fora promovido às funções de chefe de organização na região de Berlim, desejava ver-me.

Hanke recebeu-me amistosamente.

– Estive à sua procura por toda parte. Quer reformar nossa nova chefatura regional? Hoje mesmo farei a proposta ao Dr. Goebbels. Temos pressa.

Algumas horas mais tarde eu já estaria viajando no trem, a fim de passar algumas semanas à margem dos solitários lagos da Prússia Oriental. Ninguém me teria encontrado e a chefatura teria que procurar outro arquiteto. Durante anos, considerei que isso fora o passo mais importante em minha vida. Meu caminho agora estava traçado. Vinte anos depois, já em Spandau, li as seguintes frases de James Jeans: "A marcha de um trem está claramente determinada pelos trilhos, na maioria dos pontos do trajeto. Mas de vez em quando há um entroncamento de linhas. Aí podemos ir em uma ou outra direção, podendo ser encaminhados a uma ou outra dessas linhas, mediante um gasto insignificante de energia, o necessário para a oportuna manobra das agulhas".

A nova chefatura de comarca estava na Voss Strasse, rodeada das legações dos Estados alemães. Das janelas traseiras podia-se ver o parque onde passeava o octogenário presidente do Reich, freqüentemente acompanhado de políticos e de militares. Segundo Hanke, o partido, caminhando rumo ao centro político do país, denunciava suas aspirações políticas. Meus objetivos porém eram mais modestos: pintar de novo as paredes e fazer alguns consertos. Foi relativamente fácil mobiliar a sala de reuniões e o gabinete do chefe, pois me faltavam recursos e estava ainda sob a influência de Tessenov. Mas essa modéstia contrariava a ornamentação em madeira e estuque do tempo em que a casa fora construída. Eu trabalhava dia e noite, pois a organização da chefatura regional me apressava para concluir os trabalhos o mais breve possível. Raras vezes vi Goebbels. Estava muito ocupado na campanha para as eleições do dia 6 de novembro de 1932. Quando aparecia lá, eu lhe mostrava as dependências da casa, mas ele, um tanto apressado, como se estivesse sendo perseguido, não dava muita atenção ao que se estava fazendo.

Terminou-se a reforma da casa; tinha-se gasto mais dinheiro do que se supunha, e perderam-se as eleições. Os subscritores diminuíram, o caixa torcia as mãos ao ver as contas que lhe eram apresentadas, e aos operários só podia mostrar um cofre vazio. Estes, sendo membros do partido, tiveram de concordar em uma moratória de meses, para evitar a falência da chefatura.

Dias depois da inauguração, Hitler visitou a chefatura regional, a que tinham dado o seu nome. Eu soube que a reforma lhe agradara, o que me envaideceu, sem no entanto ter a certeza do endereço do elogio, se à sobriedade dos meus esforços arquitetônicos, se ao estilo barroco da época do Imperador Guilherme.

Não demorei muito em voltar ao meu escritório de Mannheim. Nada mudara. A situação econômica, portanto a perspectiva de contratos de construção era pior do que antes. Além disso, as circunstâncias políticas estavam mais confusas. As crises se sucediam e não reparávamos nisso, pois as incertezas persistiam. Em janeiro de 1933, li que Hitler fora designado chanceler do Reich. Mas para mim esse acontecimento não teve significado imediato. Pouco depois, participei de uma reunião de sócios do grupo local de Mannheim. Chamou-me a atenção a precariedade do nível intelectual e das qualidades pessoais da gente do partido e pensei: "Não se pode dirigir um Estado com gente assim". Mas eram preocupações inócuas. O maquinismo estatal continuou funcionando, sem desgaste, também sob a direção de Hitler.

Realizaram-se as eleições do dia 5 de março de 1933. Uma semana depois recebi de Berlim um chamado telefônico. Era Hanke que falava comigo, e perguntou:

– Quer vir a Berlim? Temos várias coisas para você. Quando pode estar aqui?

Preparamos o nosso pequeno BMW, fizemos a maleta e à noite partimos para Berlim. Depois de uma noite sem dormir, na manhã seguinte apresentei-me a Hanke, no edifício da chefatura.

– Vá imediatamente ver o Doutor (2) – disse-me.         Quer examinar o edifício do seu ministério.

Assim, dirigi-me em companhia de Goebbels ao formoso edifício levantado na Wilhelmsplatz. Algumas centenas de pessoas, talvez aguardando Hitler, acenaram ao ministro. Não foi somente aí que notei os novos rumos da vida em Berlim. Após a grande crise, toda a gente parecia mais otimista e esperançada. Todos sabiam que desta vez não se tratava de mais uma das habituais mudanças do governo. Todos pareciam

 

(2) "Doutor" era o tratamento que os nazistas davam a Goebbels. (N. do T.)

 

sentir que se tinha chegado a um momento decisivo. Pessoas desconhecidas conversavam nas ruas, rindo ou manifestando sua concordância com o que estava acontecendo. Mas em outras partes, em qualquer lugar, em silêncio, o nacional-socialismo saldava contas com os inimigos que, durante anos, tinham lutado contra ele. Também milhares de pessoas tinham receios, devido à sua origem, sua religião, suas convicções.

Depois de inspecionar o edifício, Goebbels encarregou-me da reforma do seu ministério, da instalação de diversos cômodos, salão de despachos, salas de reuniões. Recomendou que iniciasse o trabalho sem demora, sem esperar a aprovação do orçamento, sem ver se o governo dispunha ou não de recursos. Demonstrou-se mais tarde ser essa uma exigência despótica, porquanto ainda não havia nenhum orçamento para o Ministério da Propaganda, de recente instituição. Fiz o possível por executar a obra, subordinando-me, de má vontade aliás, à arquitetura de Schinkel, no interior do edifício. Goebbels, no entanto, foi de opinião que os móveis não eram suficientemente vistosos. Alguns meses depois, dei à Vereinigten Werkstatten a incumbência de mobiliar novamente as dependências em "estilo de transatlântico".

Hanke tinha conseguido no ministério a influente posição de "secretário do ministro", dominando com muita habilidade. Foi no escritório de Hanke que eu vi naqueles dias o projeto de preparo da cidade de Berlim para a manifestação em massa, prevista para a noite do 1.° de maio, no Aeródromo de Tempelhof. Aquele projeto feriu meus sentimentos, de revolucionário e de arquiteto.

– Isto parece a decoração para uma festa de atiradores. – Se você pode fazer melhor – observou Hanke –, trate disso.

Naquela mesma noite, surgiu o projeto de uma grande tribuna por trás de três enormes bandeiras, em mastros mais altos do que um edifício de dez pavimentos. Duas seriam tricolores – negro, branco, vermelho –, e uma, no centro, teria o símbolo da suástica. O projeto era ousado, pois as bandeiras seriam distendidas de um para outro mastro e em caso de vento forte fariam o efeito de velas. Seriam iluminadas com refletores. O projeto foi aceito imediatamente e eu dei um passo à frente em minha carreira.

Vaidoso, mostrei minha concepção ao Professor Tessenov, já executada. Ele, apoiando-se firmemente nas pernas, observou:

– Supõe ter realizado alguma coisa? Isso causa impressão, quando muito.

Em compensação, segundo me disse Hanke, Hitler mostrou-se entusiasmado com o projeto. Com certeza, Goebbels considerou o êxito como coisa sua.

Semanas depois, Goebbels instalou-se no domicílio oficial do Ministério de Abastecimentos. Não o fez sem usar de alguma compulsão, pois Hugenberg exigiu que o local deveria ficar à disposição dele, ministro de Abastecimentos. Depois recebi o encargo de instalar a vivenda ministerial e também de construir uma grande casa de campo. Para adornar as paredes da vivenda de Goebbels, pedi algumas aquarelas de Nolde a Eberhard Hanfstaengl, diretor da Galeria Nacional de Berlim. Goebbels e sua esposa aceitaram-nas, ambos entusiasmados. Mas Hitler foi inspecionar as obras e quando viu as aquarelas manifestou seu desagrado. O ministro chamou-me, imediatamente, para dizer-me:

– Estes quadros têm de ser retirados imediatamente, são uns verdadeiros monstrengos.

Nos primeiros meses seguintes à ascensão do partido ao poder, houve algumas exposições de pintura moderna. Esta, depois de 1937, foi qualificada de "degenerada". Hans Weidemann, antigo membro do partido em Essen, agraciado com as insígnias de ouro do partido, dirigia no Ministério da Propaganda a seção de arte figurativa. Ignorando o incidente das aquarelas de Nolde, reuniu para Goebbels muitos quadros, pouco mais ou menos no estilo de Nolde e Munch, recomendando-os ao ministro como expressão de uma arte nacional e revolucionária. Goebbels, escarmentado, mandou retirar imediatamente os quadros comprometedores. Weidemann recusou concordar com essa condenação de tudo quanto fosse moderno, sem exceção. Pouco tempo depois foi transferido para outra função subalterna no ministério. Foi inquietante para mim essa manifestação de autoridade e de submissão, como também verificar a ilimitada autoridade de Hitler, mesmo em questão de gostos, sobre homens que tinham colaborado com ele durante muitos anos. Goebbels mostrara-sé submisso a Hitler, incondicionalmente. Isso também funcionava com relação a nós. Quanto a mim, enamorado da arte moderna, aceitava em silêncio as decisões de Hitler.

Mal eu executara a encomenda de Goebbels, em julho de 1933, fui chamado a Nuremberg. Naquela cidade estavam organizando o primeiro congresso do partido, já no poder. Essa vitória política tinha de ter sua expressão na arquitetura dos cenários. Nenhum arquiteto, em Nuremberg, apresentou um projeto que agradasse aos homens do partido. Viajei de avião e apresentei os esboços, não muito ricos em idéias novas, pois se pareciam com os de 1.° de maio. Mas, agora, em vez das bandeiras e velas, o Zeppelinfeld estaria ornamentado por uma águia gigantesca com mais de trinta metros de envergadura, colocada por cima de um painel como se fosse uma borboleta cravada em cartão para coleção de insetos.

O chefe da organização de Nuremberg não teve a coragem de uma decisão pessoal a respeito do desenho e por isso enviou-me à chefatura com sede em Munique. Uma carta de apresentação informava que eu era completamente desconhecido em Berlim. Na Casa Cinzenta, a minha arquitetura, ou melhor, a decoração para uma festa foi considerada de extraordinária importância. Fui logo levado à presença de Hess, em uma sala luxuosamente mobiliada. Eu levava minha pasta de desenhos debaixo do braço. Ele nem me deixou falar e foi logo dizendo:

– Uma coisa assim só pode ser resolvida pessoalmente pelo Fuhrer.

Falou alguns breves momentos ao telefone, dizendo-me em seguida:

– O Fuhrer está em casa. Mandarei levar o senhor até ele.

Pela primeira vez tive uma idéia do que significava a palavra mágica "arquitetura" no regime de Hitler.

Chegamos diante de um edifício de vários pavimentos nas proximidades do Teatro Prinzregenten. Subimos duas escadas e entramos em uma ante-sala com presentes e lembranças vulgares. Também os móveis eram de bastante mau gosto. Saiu de uma porta um oficial de gabinete, que me disse, simplesmente: "Por favor". Vi-me então em frente de Hitler, o poderoso chanceler do Reich. À sua frente, na mesa, estava uma pistola desmontada que ele parecia estar limpando.

Disse-me laconicamente:

– Desdobre seus desenhos aqui.

Nem me olhou, afastou as peças da arma e examinou o projeto com interesse, mas em silêncio, apenas dizendo afinal: "De acordo".

Não falou mais, e, como continuou a dar atenção à pistola, saí da sala um tanto perplexo. Em Nuremberg, quando eu disse que obtivera a autorização do próprio Hitler, em pessoa, todos ficaram admirados.

No outono de 1933, Hitler encarregou seu arquiteto de Munique, Paul Ludwig Troost, que fizera as instalações do transatlântico Europa, reformando também a Casa Cinzenta, de fazer uma reforma completa na residência do chanceler do Reich, em Berlim. O serviço deveria estar terminado no menor período de tempo possível. Troost foi de Munique para Berlim, mas não pôde chegar a entendimentos com as empresas berlinenses. Hitler lembrou então que um jovem arquiteto executara para Goebbels um serviço em tempo rápido. Determinou assim que eu auxiliasse Troost na escolha de casas comerciais, em Berlim.

Essa colaboração começou com uma inspeção completa no prédio, feita por mim e o mestre de obras de Hitler. Depois da revolução de 1918, a casa começou a desmoronar, aos poucos. Agora, os tetos e os soalhos estavam apodrecidos, os papéis das paredes estragados, e no interior sentia-se um fedor insuportável.

Não há exagero nestas palavras. Inacreditável é que o prédio tenha chegado àquele estado. Na ocasião, Hitler disse com ênfase:

– Aí têm os senhores expressa a podridão da antiga república. Nem a residência do chanceler pode ser mostrada a um estrangeiro. Eu me envergonharia de receber aqui uma visita.

Depois de cerca de três horas de inspeção chegamos ao sótão. O administrador explicou:

– Esta porta abre para a casa vizinha.

– Como?

– Por aqui se vai ao Hotel Adlon, passando-se pelos sótãos dos ministérios.

– Por quê?

– Durante os distúrbios, nos começos da República de Weimar, ficou provado que o chanceler do Reich podia ficar isolado do exterior, se os sublevados cercassem o edifício. Este era o caminho que possibilitaria uma retirada a qualquer momento.

Hitler ordenou que abrissem a porta. De fato, dava para o sótão contíguo do Ministério das Relações Exteriores. Disse então:

– Tapem essa porta. Não necessito disso.

Iniciadas as obras, Hitler, acompanhado do seu assistente, quase todos os dias ao meio-dia ia ver o andamento dos trabalhos. Verificava o progresso dos serviços e manifestava sua alegria, ao ver os lugares que iam ficando restaurados. Os numerosos trabalhadores das obras não tardaram a saudá-lo, amistosamente e sem cerimônia. Os homens das SS, à paisana, afastavam-se um pouco, para não se notar a presença de Hitler. Havia assim uma atmosfera idílica, nessas ocasiões em que Hitler parecia estar "em sua casa". Ao mesmo tempo, evitava-se toda espécie de popularidade servil e fácil.

Durante essas visitas de inspeção, o diretor das obras e eu o acompanhávamos. Dirigia-nos perguntas amistosas, porém lacônicas: "Quando vão limpar aqui?" "Quando chegam as janelas?" "Já vieram de Munique os desenhos dos detalhes?" "Ainda não?" "Vou falar pessoalmente com Troost sobre isso."

Passávamos a outra peça do prédio. "Ah, aqui já estiveram trabalhando." "Este florão no teto está muito bonito." "O professor sabe fazer essas coisas de um modo maravilhoso." "Quando supõe o senhor que vai terminar? Tenho alguma pressa. Agora só disponho do pequeno apartamento do subsecretário no sótão e não posso convidar ninguém a ir lá. Como era ridícula a economia da República!" "Já viu a entrada?" "E o elevador? Qualquer armazém tem um melhor." Realmente, o elevador parava de vez em quando e nele só entravam três pessoas.

Assim aparecia Hitler. É fácil imaginar que essa naturalidade me impressionasse. E, no entanto ele não era somente o chanceler do Reich, mas também o homem com o qual a vida na Alemanha começou a reanimar-se, o homem que procurava dar trabalho aos operários e tratava de executar grandes programas econômicos. Só muito tempo depois, verificando pormenores, comecei a perceber que na propaganda havia uma boa parte de segundas, intenções.

Vinte ou trinta vezes acompanhei-o em suas inspeções. No decurso de uma delas, perguntou-me:

– Quer ir hoje jantar comigo?

Naturalmente, esse convite inesperado, muito pessoal, fez-me feliz, sobretudo porque eu jamais esperara por ele, tanto assim que era ele um homem de trato um tanto formalista. Eu subia nos andaimes, freqüentemente. Nesse dia, caiu-me na roupa um pedaço de reboco, e eu devo ter feito uma careta lastimável, pois Hitler logo me disse:

– Venha comigo. Em casa nós arranjaremos isso.

Os comensais já o esperavam, e entre eles Goebbels, que não escondeu sua surpresa ao ver-me ali. Hitler levou-me em sua companhia aos seus aposentos particulares e ordenou ao criado que trouxesse seu paletó azul-marinho.

– Tome, vista! – disse-me.

Usando o seu paletó, entrei na sala de refeições, por trás de Hitler, e sentei-me ao seu lado, dando-me ele preferência aos demais. Goebbels viu um detalhe em que eu não reparara, pois estava muito nervoso.

– Mas o senhor está com as insígnias do Fuhrer. Este não é seu paletó, não é assim?

Hitler respondeu por mim:

– De fato, o paletó é meu.

Durante a refeição, pela primeira vez, Hitler dirigiu-me perguntas de cunho pessoal. Soube então que eu fora o autor da decoração para a manifestação do dia 1.° de maio.

– E a de Nuremberg? Foi também o senhor que fez? Mas foi um arquiteto quem me apresentou o projeto! Ah! Era o senhor mesmo! Outra coisa em que jamais pensei foi que o edifício de Goebbels pudesse ficar pronto na data prevista.

Não me perguntou se eu pertencia ao partido. Parecia-me, aliás, que isso não lhe interessava, quando se tratasse de artistas. Em compensação, quis saber particularidades da minha origem, atividade profissional, das obras de meu pai e do meu avô.

Anos depois, Hitler lembrou-se daquele convite, dizendo:

– Durante minhas inspeções, prestei atenção ao senhor. Eu buscava um arquiteto a quem pudesse confiar meus planos de construção. Tinha de ser moço, pois como sabe esses projetos visam a muito longe, ao futuro. Necessito de um homem que, depois da minha morte, continue trabalhando com a autoridade que tiver recebido de mim. Eu vi que esse homem é o senhor.

Depois de anos de esforços vãos, eu estava aos vinte e oito anos possuído de muita vontade de trabalhar. Tal como Fausto, eu venderia minha alma por uma obra de grande vulto. E tinha encontrado o meu Mefistófeles. Esse Mefistófeles parecia não menos absorvente do que o criado por Goethe.

 

                                           O MEU CATALISADOR

Não obstante ser, de natureza, aplicado às minhas tarefas, sempre necessitei de um impulso especial para desenvolver novas faculdades e energias. Agora encontrara o meu catalisador. Não podia ter achado outro mais poderoso e que atuasse com maior força. Exigiam a atuação de todas as minhas energias em um ritmo continuamente acelerado e com esforço cada vez maior.

Assim, tive de renunciar ao verdadeiro centro de minha vida: a família. Atraído e estimulado por Hitler, em cujas mãos estava, eu contava somente com trabalho, que não me deixava momento de repouso. Hitler sabia como estimular os seus colaboradores a que despendessem os máximos esforços de que fossem capazes. Uma das suas frases era: "O homem cresce com seus mais altos ideais".

Durante os vinte anos de minha reclusão na prisão de Spandau, perguntaram-me várias vezes o que eu teria feito se tivesse compreendido o autêntico modo de ser de Hitler e a verdadeira natureza do poderio estabelecido por ele. A resposta era banal e deprimente, ao mesmo tempo. Não tardou que se tornasse imprescindível a minha função de arquiteto, junto a Hitler. Ainda não tinha trinta anos e via à minha frente as perspectivas mais animadoras com que possa sonhar um arquiteto.

No afã do meu trabalho eu tinha um acúmulo de problemas, e nessas circunstâncias não podia dar atenção a certas irregularidades de somenos importância. Ao escrever estas memórias, vi acentuar-se minha surpresa, chegando até à consternação, quando verifiquei que antes de 1944 eu não dispunha quase nunca de tempo para refletir sobre meu próprio esforço. Jamais me detivera de maneira reflexiva sobre minha própria existência. Hoje, ao recordar o passado, tenho às vezes a impressão de que naquela época eu estava pairando um pouco acima do chão, desprendendo-me das raízes que me tinham atado à terra e deixando-me dominar por forças estranhas a mim.

Nesse olhar retrospectivo, o que mais me angustia é sentir que a inquietação naqueles dias estivesse relacionada, fundamentalmente, com os meus deveres de arquiteto, com o afastamento das doutrinas de Tessenov. No entanto, sinto que, pessoalmente, nada tinha que ver com os fatos, quando sabia que os judeus, os maçons, os social-democratas, as testemunhas de Jeová, que me rodeavam, eram condenados e perseguidos como feras. Para mim bastava não participar, pessoalmente, daqueles acontecimentos.

O modesto camarada do partido era educado no sentido de ficar incapaz de entender o sentido da grande política. Acima desse modesto nacional-socialista havia outros que respondiam por ele, de modo que não lhe fosse dado pedir explicações a respeito da sua própria responsabilidade. Toda a estrutura partidária funcionava para evitar, completamente, que surgissem conflitos de consciência, do que resultava uma absoluta esterilidade nas conversas e trocas de idéias entre pessoas que pensavam sob o mesmo critério. Era inútil proceder de modo contrário a opiniões uniformes.

Mais grave era que cada um tivesse de limitar sua responsabilidade à própria esfera de atividade, e sendo isso expressamente exigido. Cada qual se movia dentro da própria esfera, fossem médicos, jurisconsultos, técnicos, soldados ou camponeses. As raízes de nossa tendência a aceitar esse sistema teriam de ser pesquisadas em nossa própria juventude. As bases de nossa ação e pensamento provinham de um Estado autoritário, e, além disso, em uma época na qual as leis da guerra tinham enrijecido ainda mais o caráter de subordinação. Talvez tenham sido essas experiências que prepararam nossa maneira de pensar, como se fôssemos soldados, um modo de pensar outra vez propício ao sistema hitlerista. Trazíamos dentro do nosso sangue a semente de uma ordem rígida. Comparado com essa ordem, o liberalismo da República de Weimar parecia-nos frouxo, discutível e de nenhum modo merecedor de confiança.

Para manter sempre contato com o meu contratante, instalei meu escritório em um estúdio de pintor na Behrenstrasse, a poucas centenas de metros distante da chancelaria. Meus auxiliares, todos jovens, trabalhavam da manhã à noite, sem cuidar da existência particular. A refeição do meio-dia era substituída por alimentos leves. Afinal, esgotados, terminávamos o dia às dez horas da noite, comíamos algo mais sólido no Pfalzer Weinstube, nas redondezas, onde ainda uma vez analisávamos os trabalhos feitos durante o dia.

Sem dúvida, tive de esperar pelos grandes encargos. Hitler confiou-me a execução de trabalhos de ocasião, apressados, pois me parecia que ele achava que minha principal característica estava em executar com rapidez as incumbências recebidas. Nos primeiros meses do ano de 1933, havia sempre uma multidão a solicitar audiência ao Fuhrer. Essa gente vinha sempre em grupos, e a sala não se apropriava mais para o trabalho. Hitler, já não suportando a situação, disse:

– É muito pequeno este local! Com seus sessenta metros quadrados dá somente para um dos meus auxiliares. Onde vou sentar, quando houver convidados oficiais? Talvez neste cantinho? E esta mesa de despacho tem o tamanho exato para servir ao chefe do meu escritório.

Hitler encarregou-me de transformar uma sala que dava para o jardim em novo gabinete de despachos. Esteve aí cinco anos, considerando entretanto esse local como provisório. Mas não tardou a achar insuficiente seu gabinete no novo edifício da chancelaria do Reich, construído em 1938. De acordo com suas indicações e apoiando-me em seus projetos, deveria estar edificada em 1950 uma chancelaria definitiva. Nessa chancelaria, tinha-se previsto para Hitler e sucessores, nos séculos futuros, um salão de trabalho, com novecentos e sessenta metros quadrados, dezesseis vezes maior do que o gabinete do antecessor.

O antigo gabinete não deveria ser mais utilizado. Hitler queria ir sem embaraços ao novo "balcão histórico", que eu mandara fazer com a máxima urgência, a fim de mostrar-se melhor à multidão.

– A janela era muito incômoda – disse-me ele, satisfeito. – Eu não era visto de todos os lados. Afinal de contas, eu não iria estar me debruçando sobre o peitoril...

O arquiteto da primeira edificação da chancelaria, Professor Eduard Jobst Siedler, da Escola Técnica Superior de Berlim, formulou objeções àquela intromissão, que, segundo ele, atentava contra o direito do autor da obra. Hitler rechaçou sarcasticamente aquela objeção, dizendo:

– Siedler alterou toda a Wilhemsplatz. O edifício mais parece feito para os escritórios de uma grande fábrica de sabão do que para a sede de órgão de governo, o centro do Reich. Supõe ele que teria de construir também o balcão?

Mas Hitler consentiu em que fosse ressarcido o dano do professor, encarregando-o de uma obra.

Poucos meses depois, eu mandei fazer barracões em que se alojassem os operários de uma autopista que se iniciara. Hitler criticou os alojamentos até então utilizados e quis que eu apresentasse um projeto que pudesse ser utilizado para todos os acampamentos. Hitler preocupou-se com os detalhes dessa obra-modelo e pediu-me que o informasse da reação dos trabalhadores.

Enquanto se executava a reforma da sua residência de chanceler, Hitler utilizou a do seu secretário de Estado, Lammers, no último pavimento do edifício oficial. Aí eu era seu freqüente comensal, no almoço ou na ceia. À noite, era habitual o encontro do pessoal que acompanhava constantemente Hitler: o chofer Schreck, que estava no serviço havia muitos anos; o porta-estandarte da guarda pessoal das SS de Hitler, Sepp Dietrich; o chefe de imprensa, Dr. Otto Dietrich; os dois ajudantes-de-ordens, Brückner e Schaub, como também Heinrich Hoffmann, fotógrafo de Hitler. Quase sempre a mesa ficava repleta, pois não havia lugares para mais de dez pessoas. Para a refeição do meio-dia vinham sobretudo os antigos companheiros de luta em Munique, Amann, Schwarz e Esser, ou o chefe regional Wagner. Também comparecia com freqüência Werlin, chefe da filial em Munique da casa Daimler-Benz e fornecedor dos automóveis de Hitler. Os ministros apresentavam-se uma vez ou outra. Não via Roehm ou Streicher. Ao contrário, via freqüentemente Goebbels e Goering. Já naquela época estavam excluídos todos os funcionários que atendiam a Hitler. Por exemplo, chamava a atenção o fato de que inclusive Lammers, apesar de ser o dono da casa, jamais fora convidado, com certeza por muito boas razões.

Muitas vezes, Hitler comentava os acontecimentos do dia. Gostava também de dizer como fizera para desvencilhar-se do cerco da burocracia, que ameaçava tolher suas atividades de chanceler do Reich.

– Nas primeiras semanas apresentavam-me qualquer assunto insignificante para minha solução. Todos os dias, eu encontrava em minha mesa um monte de papéis, cuja altura não diminuía, não obstante os meus esforços em assiná-los. Afinal, cortei essa insensatez, radicalmente. Se continuasse assim, jamais conseguiria resultados positivos. Eu não dispunha de tempo para refletir. Quando me neguei a examinar os processos, disseram-me que isso iria concorrer para a demora de decisões importantes. Somente depois disso foi que eu pude pensar em assuntos de grande alcance, que eu tinha de resolver, determinar o curso dos acontecimentos, em vez de serem os funcionários que iriam decidir sobre minha maneira de agir.

Também falava, às vezes, de suas viagens: – Schreck era o melhor motorista que se possa imaginar. Alcançava os cento e setenta, usando o compressor. Viajávamos sempre a grande velocidade. Mas, nos últimos anos, recomendei a Schreck que não fosse além dos oitenta. Impossível imaginar o que ocorreria, se acontecesse alguma coisa comigo. Os carros norte-americanos são uma verdadeira porcaria, comparados com um Mercedes. O motor não agüentava o esforço, começava a falhar depois de algum tempo, e os proprietários tinham de ficar detidos com cara de bobos à margem da estrada.

A noite, montava-se um primitivo projetor de filmes, para a exibição do noticiário semanal e de uma ou duas fitas para distração. No princípio, os criados não sabiam manejar o aparelho. Às vezes, as figuras apareciam invertidas na tela, ou o filme rompia-se. Naquele tempo, Hitler suportava essas contrariedades mais tranqüilo do que os seus acompanhantes. Hitler encarregava Goebbels de escolher os filmes, os quais, em geral, eram os que estavam sendo exibidos nos cinemas de Berlim. Hitler preferia filmes de amor comum, informativos ou frívolos. No entanto tiveram de ser procuradas com pressa as fitas em que atuavam Jannings e Rühmann, com Henry Porten, Lil Dagover, Olga Tchecova, Zarah Leander, ou Jenny Jugo. As películas em que apareciam pernas nuas eram acolhidas com aplausos. Freqüentes vezes, víamos fitas estrangeiras e aquelas que não eram projetadas para o público alemão. Pelo contrário, faltavam quase inteiramente películas sobre esportes, de paisagens montanhesas, nunca sendo exibidas as que mostravam animais e vistas do campo, como também as que davam informações sobre países estrangeiros. Hitler não se interessava em fitas cômicas, das quais eu gostava, em que eram atores Carlitos ou Buster Keaton.

Durante uma daquelas refeições, no inverno de 1933, estando eu sentado ao lado de Goering, este perguntou:

– Meu Fuhrer, Speer está construindo sua residência? É seu arquiteto?

Eu não o era, mas Hitler respondeu que sim.

– Permita-me então que ele faça uma reforma em minha casa.

Hitler deu o consentimento. Depois da refeição, sem indagar das minhas preferências e idéias, Goering convidou-me a entrar em seu automóvel aberto, para levar-me à sua residência como se eu fosse um troféu valioso. Escolhera para sua casa a antiga residência oficial do ministro prussiano do Comércio, rodeada de um jardim que se estendia por trás da Leipziger Platz. Era um palácio que o Estado prussiano construíra sem reparar em despesas.

Havia poucos meses que essa residência fora reformada, dispendiosamente, conforme as indicações de Goering, que para isso se utilizou do dinheiro do Estado da Prússia. Hitler inspecionou a obra concluída e mostrou-se insatisfeito:

– Muito escura! Como se pode viver em uma escuridão dessas? Compare isso com o trabalho do meu professor: tudo claro, cheio de luz e simples.

Realmente, encontrei um conjunto de saletas românticas, com nichos, escuras janelas envidraçadas, grossos tapetes, tudo mobiliado segundo o estilo Renascimento. O conjunto causava impressão desfavorável. Havia também uma espécie de capela, dedicada à cruz suástica. Mas este símbolo estava entre as paredes, o forro e o piso de saletas contíguas.

Um indício daquele sistema, talvez ocorrente em todas as formas de uma sociedade submetida a princípios autoritários, foi a maneira como se transformou, imediatamente, Goering, ao ouvir a crítica de Hitler, pois sem perda de tempo abandonou a instalação, há pouco terminada, conforme suas instruções, apesar de com certeza sentir-se mais à vontade nela, pois correspondia à sua maneira de ser.

– Dê uma olhada nisto. Eu já nem quero ver. Proceda como quiser. Eu lhe entrego a obra. A única coisa que eu quero é que fique como a do Fuhrer.

Foi uma incumbência magnífica. Como sempre, em se tratando de Goering, o dinheiro não tinha nenhuma importância. Derrubaram-se paredes para se transformarem em quatro salas os numerosos quartos do rés-do-chão. A maior dessas salas, a do seu gabinete, media cento e quarenta metros quadrados, e portanto suas dimensões aproximavam-se das da sala de Hitler. Acrescentou-se ao antigo edifício um anexo feito de ornamentos de bronze embutidos em cristal. O bronze estava escasso, era considerado metal precioso, havendo castigo para quem usasse dele abusivamente. Mas isso não afetou Goering, de modo nenhum. Quando inspecionava as obras, entusiasmava-se, com o rosto sorridente como o de um menino em festa de aniversário, expressando sua alegria com o esfregar de mãos e rindo.

Os móveis de Goering estavam de acordo com o seu corpo. Uma antiga mesa para secretária, estilo Renascimento, tinha dimensões extraordinárias. Também havia uma poltrona cujo encosto se elevava muito acima da cabeça. Talvez tivesse sido o trono de algum rei. Na mesa do gabinete, mandou colocar dois candelabros de prata com abajures de folhas de pergaminho, além de uma fotografia muito grande de Hitler. Não achava muito vistoso o original com que o presenteara o Fuhrer. No vestíbulo, foi retirado um quadro de grandes dimensões, a fim de haver um lugar para uma câmara cinematográfica, por trás da parede. Eu já tinha visto esse quadro. De fato, Goering, segundo fui informado, ordenara ao "seu" diretor prussiano do Museu do Imperador Frederico que levasse para sua casa – a de Goering – o célebre quadro de Rubens, Diana caçando o cervo, até então uma das mais importantes obras-primas existentes naquele museu.

Durante o tempo de reforma da sua residência, Goering morou no palácio do presidente do Reichstag, em frente, edifício dos começos do século XX, com fortes reminiscências de um rococó de novo-rico. Aí nós conversávamos sobre a forma da sede definitiva. Freqüentemente, estava presente um dos diretores da Vereinigten Werkstatten, o Sr. Paepke, cavalheiro de cabelos encanecidos, já bastante idoso, com J boas intenções de agradar Goering, mas intimidado pela maneira seca e meio dura como este tratava seus subordinados. Um dia, estávamos sentados com Goering em uma peça cujas paredes, em estilo neo-rococó guilherminesco, estavam enfeitadas de cima a baixo com rosas em relevo cheio. Resumo e conceito do autêntico idiota. Goering também sabia disso, quando começou a perguntar:

– Que lhe parece esta decoração, senhor diretor? Não está mal, não lhe parece?

Em vez de responder: "Isto é horroroso", o velho cavalheiro deu uma resposta evasiva, não querendo indispor-se com seu poderoso patrão e cliente. Goering tolerou essa evasiva, piscando-me um olho.

– Mas, senhor diretor, não acha isto bonito? Pretendo que o senhor faça uma decoração idêntica em todas as peças. Já falamos nisso, não é, Sr. Speer?

– Sim, naturalmente, já estão em andamento os desenhos.

– Bem, já vê, senhor diretor, este é o nosso novo estilo. Tenho certeza de que lhe agradará.

O diretor não sabia o que fazer. A testa estava suarenta e a barba pontuda tremia, sob o efeito da excitação. Goering estava resolvido a obrigar o ancião a manifestar-se, claramente, em um ou outro sentido, e continuou:

– Vejamos. Repare com toda a atenção nesta parede. Veja como as rosas brotam, maravilhosamente, como se fosse na primavera. O senhor não sente entusiasmo por isso?

– Claro que sim, claro que sim – opinou timidamente o desesperado personagem.

– Mas o senhor deveria sentir-se entusiasmado por uma obra de arte como esta, sendo, como é, um notável conhecedor de arte. Diga-me: não acha precioso?

Goering continuou a brincadeira até que o diretor cedeu e simulou o entusiasmo que lhe era exigido.

– Assim são todos – exclamou Goering por trás do professor, tomado de desprezo.

De fato, assim eram todos, entre os quais convinha incluir o próprio Goering, que, durante as refeições no domicílio de Hitler, não cessava de proclamar que sua residência seria agora tão clara e grandiosa como a do seu chefe: "Exatamente como a sua, meu Fuhrer".

Se Hitler tivesse ordenado relevos com rosas nas paredes de seus quartos, Goering também teria exigido rosas iguais.

No inverno de 1933, poucos meses depois daquela decisiva refeição em casa de Hitler, fui admitido ao círculo dos seus mais íntimos colaboradores. Eu ainda estava muito distante da minha posterior orientação classicista. Por acaso se tinham conservado os projetos de um concurso para a construção de uma escola de comandos do NSDAP em Munique-Grünewald, do qual participaram todos os arquitetos alemães. Hitler examinou com Troost e comigo os desenhos deste concurso, antes da respectiva classificação. Segundo a norma habitual, os desenhos tinham sido entregues sob anonimato. O meu não foi aceito. Somente depois de concedido o prêmio procedeu-se à verificação dos pseudônimos. Troost referiu-se ao meu desenho em uma conversa, e Hitler, para meu assombro, foi capaz de recordar os meus esboços, apesar de tê-los visto apenas por uns segundos entre muitos outros. Ouviu em silêncio o elogio formulado por Troost. Talvez tenha pensado então que eu ainda estava longe de ser um arquiteto de acordo com suas idéias.

Hitler ia a Munique com intervalos de duas ou três semanas. Eram cada vez mais freqüentes minhas idas com ele em tais viagens. Quando descia do trem, dirigia-se logo ao escritório do Professor Troost. Ainda no trem, Hitler costumava falar com vivacidade a respeito dos esboços que o professor teria feito:

– Talvez tenha feito alguma alteração no projeto da Academia de Belas-Artes. Tinha de melhorar um pouco... Já estarão desenhados os detalhes do refeitório? É bem possível que já possamos ver os esboços das esculturas de Wackerle.

O escritório estava em um pátio descuidado, por trás da Theresienstrasse, não longe da Escola Técnica Superior. Por uma escada descoberta, que não era pintada havia anos, tinha-se de subir dois lances até chegar ao escritório de Troost. Este, consciente da sua posição, jamais saía a receber Hitler na escada, nem o acompanhava quando saía. Hitler cumprimentava-o na ante-sala.

– Não posso esperar, senhor professor. Mostre-nos as novidades.

Hitler e eu passávamos logo à sala de trabalho. Aí, Troost, com um sentimento de segurança, reservado como sempre, mostrava seus projetos e esboços. No entanto, Troost não obtinha mais do que eu conseguiria mais tarde. Hitler mal deixava perceber seu entusiasmo. Em seguida, o "senhor professor" exibia amostras de cores de telas e tons das paredes, que seriam empregados na decoração das dependências da Casa de Comandos de Munique. Tudo combinado de maneira discreta e elegante. Na realidade, muito discreta para o gosto de Hitler, orientado no sentido da produção de efeitos. Mas agradaram-lhe. Depois de duas horas ou mais, Hitler despedia-se, com palavras breves, mas cordialmente, dirigindo-se à sua residência. Quanto a mim, dizia rapidamente:

– À osteria.

Na hora normal, mais ou menos às duas e meia, eu me encaminhava à Osteria Baviera, um pequeno restaurante freqüentado por artistas, que de repente ficou afamado porque Hitler fazia lá suas refeições. Ele sentia-se bem na osteria; como "artista que não se realizara" agradava-lhe aquele ambiente, ao qual aspirara pertencer e que agora tinha perdido, deixado para trás, definitivamente. Não era raro que o limitado número de convidados o esperasse, horas e horas. Eram um ajudante do chefe regional da Baviera, Wagner, no caso de já ter curtido a sua embriaguez; naturalmente, seu acompanhante; e Hoffmann, fotógrafo oficial que, naquele tempo, de vez em quando se apresentava ligeiramente alcoolizado; com muita freqüência, a simpática Lady Mitford; e, algumas vezes, embora raras, um pintor ou um escultor. Depois, também o Dr. Dietrich, o chefe da imprensa do Reich, e, sempre, Martin Bormann, o secretário aparentemente insignificante de Rudolf Hess. Na rua, algumas centenas de homens. Bastava-lhes nossa presença para saberem que "ele" vinha.

Grande júbilo na rua. Hitler aproximava-se do local onde estava nossa mesa, protegida em um dos lados por um tabique de altura mediana. Quando o tempo estava bom, nós nos sentávamos em um pequeno pátio, que pretendia ser um lugar para ceias. O dono do restaurante e as duas empregadas eram cumprimentados com jovialidade.

– Que temos hoje de bom? Raviólis? É pena que sejam tão saborosos. São muito tentadores.

Hitler estalava os dedos.

– Tudo em sua casa é magnífico, Sr. Deutelmoser. Mas veja minha linha. Esquece que o Fuhrer não pode comer tudo o que lhe apetece.

Depois examinava o longo cardápio e acabava escolhendo os raviólis. Cada um pedia o que lhe agradava: filés, goulash e também o bom vinho da Hungria. Apesar dos ocasionais gracejos de Hitler a propósito dos "devoradores de faisandés (x)", "bebedores de vinho", lá todos comiam e bebiam sem embaraço. Estavam entre amigos. Tinham chegado a um acordo tácito: não se falava de política. A única exceção era Lady Mitford, que, mesmo nos anos de tensão que se

 

(x) Carne de caça que se deixou chegar ao início da decomposição (N. da R.).

 

seguiram, lutou tenazmente em defesa da sua pátria, a Inglaterra, suplicando muitas vezes a Hitler que fizesse um acordo com a Grã-Bretanha. Apesar da reserva de Hitler, reserva que significava recusa, essa mulher não demonstrou a menor fadiga em sua atitude, no decurso dos anos. Mais tarde, em setembro de 1939, tentou suicidar-se com uma pistola muito pequena, no dia da declaração de guerra à Inglaterra. Isso ocorreu no Jardim Inglês de Munique. Hitler entregou-a aos melhores médicos de Munique e ordenou que ela fosse sem demora enviada ao seu país natal, em um carro especial, transitando pela Suíça.

Durante aquelas refeições, o assunto principal era a visita feita ao professor, pela manhã. Hitler exagerava os seus elogios. Todos os detalhes ficavam-lhe na memória sem esforço. Suas relações com Troost pareciam-se com as de um discípulo em relação ao professor. Lembravam-me minha admiração por Tessenov, careciam de crítica. Esse traço do caráter de Hitler agradava-me muito. Para mim, era motivo de assombro que aquele homem, adorado como um deus pelas pessoas que o rodeavam, fosse capaz de sentir por outra pessoa uma espécie de veneração. Hitler, que, pessoalmente, se considerava arquiteto, respeitava, nesse campo, a superioridade do especialista na matéria, coisa que jamais teria feito em se tratando de política.

Narrava com freqüência como chegara a travar conhecimento com Troost, por intermédio dos Bruckmann, uma culta família de editores de Munique. Segundo suas próprias palavras, quando viu os trabalhos de Troost, pareceu-lhe que "caiu um véu dos seus olhos".

– Passei a não suportar o que tinha desenhado, até então. Que sorte conhecer este homem!

A arquitetura de Troost era realmente sóbria e, assim, sua influência sobre Hitler manifestou-se no caráter de um episódio. Hitler elogiou até o fim os arquitetos e obras que lhe tinham servido de modelo em seus antigos esboços: o grande Opera de Paris (1816-1874), de Charles Garnier.

– Sua escadaria é a mais formosa no mundo. Por ela descem as senhoras com suas esquisitas cabeleiras. Homens uniformizados, de ambos os lados... Sr. Speer, nós devemos construir um edifício também assim.

Do mesmo modo, sentia entusiasmo pelo Ópera de Viena.

– É o teatro de ópera mais maravilhoso do mundo.

A acústica é perfeita. Quando eu, moço, me sentava ali na última fila de lugares...

Relativamente ao segundo arquiteto daquele teatro, Van der Nüll, Hitler contava o seguinte:

– Ele supunha que o seu Ópera tinha ficado defeituoso. Veja a que extremos chegaria seu desespero, ao dar um tiro na cabeça no dia da inauguração. Mas essa inauguração foi o maior dos seus êxitos. Toda a gente elogiou os arquitetos.

Em tais ocasiões, não era raro que concluísse por se referir aos momentos difíceis por que passara, como sempre fora salvo por uma mudança favorável nos acontecimentos. Terminava dizendo: "Não se deve ceder nunca".

Suas preferências inclinavam-se de modo especial para os numerosos edifícios teatrais, levantados por Hermann Helmer (1849-1919) e Ferdinand Fellner (1847-1916), os quais edificaram teatros não somente na Áustria-Hungria como também na Alemanha, nos fins do século XIX, orientados pelo mesmo estilo: um barroco tardio. Hitler sabia em que cidades havia edifícios construídos por esses homens e mais tarde mandou reformar o descuidado teatro existente em Augsburgo. Mas também estimava os severos arquitetos do século XIX, Gottfried Semper (1803-1879), construtor da ópera e da pinacoteca de Dresden, do Palácio Imperial e dos museus da corte de Viena; também Theophil Hansen (1803-1883), que edificara em Atenas e em Viena alguns importantes prédios de estilo classicista. Logo depois da entrada das tropas alemãs em Bruxelas (1940), tive de ir àquela capital para examinar o gigantesco Palácio da Justiça, de Poelaert (1817-1879), pelo qual Hitler sentia grande entusiasmo. Mas, tal como o Ópera de Paris, ele só os conhecia pelas plantas. Quando regressei, pediu-me todos os pormenores a respeito daquele palácio.

Esse era o mundo da arquitetura de Hitler. No final, ia ter ao falado neobarroco, que também Guilherme Ü recomendara ao arquiteto do seu palácio, Ihne. Também lhe ocorria o mesmo no tocante à pintura e escultura, nas quais se refletia o mundo da sua juventude, o mundo compreendido entre os anos de 1880 e 1910, que emprestou características especiais tanto ao seu gosto artístico como ao seu pensamento político e ideológico.

As tendências contraditórias caracterizavam a maneira de ser de Hitler. Por exemplo, era capaz de falar entusiasmado das maravilhas arquitetônicas de Viena, que talvez lhe estivessem gravadas na memória desde a juventude, e explicava:

– Foi com Troost que eu aprendi, pela primeira vez, o que era realmente arquitetura. Quando o partido dispôs de maiores recursos, encarreguei-o de reformar e mobiliar a Casa Cinzenta. Já vi o resultado. Mas quantas dificuldades encontrei por causa disso...

Paul Ludwig Troost nascera na Vestfália, sendo de estatura elevada, delgado, e de cabeça totalmente raspada. Reservado no falar, gestos sóbrios, pertencia a um grupo de arquitetos tais como: Peter Behrens, Joseph M. Olbrich, Bruno Paul e Walter Gropius. Desde antes de 1914, estes eram os representantes de uma reação orientada no sentido do emprego de métodos arquitetônicos parcos, quase desprovidos de adornos, e de um tradicionalismo espartano, unidos a elementos modernos. Sem dúvida Troost obteve êxitos ocasionais em alguns concursos; mas jamais pôde exceder os grupos de vanguarda antes de 1933.

Não havia de modo nenhum "estilo do Fuhrer", por mais que a imprensa do partido falasse disso. O que foi declarado como arquitetura oficial do Reich era unicamente o neoclassicismo de Troost, depois transformado, exagerado e mesmo desfigurado até o ridículo. Hitler apreciava no estilo classicista seu caráter supratemporal. Ele acreditava ter encontrado na época dórica alguns pontos de conexão com o seu mundo germânico. Entretanto, estaria equivocado quem buscasse, no caso de Hitler, um estilo arquitetônico com base ideológica. Isso não se conciliava com seu pensamento pragmático.

Não há dúvida de que Hitler tinha um objetivo determinado ao levar-me consigo, regularmente, a Munique para examinar obras. Era evidente que pretendia fazer de mim um discípulo de Troost. Eu, sempre disposto a aumentar meus conhecimentos, aprendi realmente muito com esse arquiteto. A rica arquitetura de meu segundo mestre, embora reservada em sua limitação a elementos construtivos simples, influiu em mim de maneira decisiva.

Ele terminara a extensa conversa de sobremesa no restaurante Baviera:

– O professor disse-me hoje que a escadaria da casa será um trabalho de artesanato. Mal posso acreditar. Brückner, mande vir o carro. Vamos sair já. O senhor vem comigo, não é?

Dirigiu-se rapidamente à escadaria da construção, olhou-a de baixo para cima, desde a galeria. Subiu outra vez e acabou mostrando-se encantado. Finalmente, a obra fora inspecionada pelo Fuhrer, sob todos os ângulos. Hitler tinha um conhecimento exato de todos os detalhes, demonstrando-o uma vez mais, de modo que assombrou a todos os que trabalhavam na obra. Satisfeito com o andamento dos trabalhos, satisfeito consigo mesmo por ser a causa e o motor da edificação, dirigiu-se ao próximo objetivo: a quinta de propriedade de um fotógrafo em Munique-Bogenhausen.

Quando fazia bom tempo, o café era servido no pequeno jardim da quinta, de uns duzentos metros quadrados e rodeado pelos jardins das outras quintas. Quando havia sol, podia acontecer que o Fuhrer e chanceler do Reich ficasse à americana, em mangas de camisa, estendido em uma rede. Em casa de Hoffmann ele sentia-se como se estivesse em sua própria residência. Certa vez pediu um volume de Ludwig Thomas, escolheu um trecho e esteve lendo em voz alta. Hitler sentia especial predileção pelos quadros que o fotógrafo levava para sua escolha. A princípio, admirei-me por ver que espécie de quadros Hoffmann apresentava a Hitler. Depois, acostumei-me, embora sem poder dissuadir-me da minha antiga paixão pelos quadros românticos, de Rottmann, Fries ou Kobell, por exemplo.

Um dos pintores preferidos de Hitler e de Hoffmann era Eduard Grützner. Os seus quadros com frades e bodegueiros bebendo vinho concordavam melhor com a forma de vida do fotógrafo do que com a de Hitler, que era abstêmio. Mas o Fuhrer examinava essas obras sob um ponto de vista artístico.

– Quê? Custa só cinco mil marcos?

O quadro não teria valido mais de dois mil marcos, do ponto de vista comercial.

– Sabe, Hoffmann? Isto é uma verdadeira jóia. Veja estes detalhes! Não dão a Grützner o valor que ele merece. A obra seguinte desse pintor custou mais.

– Pois, precisamente, não foi descoberto. Depois da morte de Rembrandt, passaram-se anos até que fossem apreciados pelo seu real valor os quadros daquele mestre. Na sua época, as obras daquele pintor eram quase dadas. Acredite-me, este Grützner ficará para o futuro, como Rembrandt, que não poderia ter pintado isto melhor.

Hitler considerava os fins do século XIX uma das maiores épocas da história da humanidade, em todas as esferas da arte. Malart era um dos pintores daquele tempo mais estimados por ele, que também apreciava muito Spitzweg. Apesar de apreciar o grandioso e algumas vezes impressionista Malart, ele gostava de Spitzweg, que, com seu humor amável e sincero, plasmava com ironia o caráter da provinciana Munique daqueles anos.

Para desagradável surpresa do fotógrafo, descobriu-se que um falsário se tinha aproveitado dessas preferências por Spitzweg. No princípio, Hitler aborreceu-se por não poder distinguir quais eram as autênticas entre as pinturas que ele vira de Spitzweg.

– Sabe? As pinturas de Spitzweg, na casa de Hoffmann, são em parte falsificadas. Isso se pode verificar, examinando-as. Mas deixemo-lo com sua alegria.

Quando estava em Munique, Hitler se adaptava à maneira de conversar dos bávaros. Visitava com freqüência o Carltons Teestuben, um estabelecimento pseudoluxuoso, com móveis de estilo inautêntico e aranhas de cristal também falsas. Gostava de ir lá, pois, estando naquela casa, os habitantes de Munique não o importunavam com aplausos e pedidos de autógrafos, como acontecia em outros lugares. Muitas vezes, já à noite, eu recebia um telefonema da casa de Hitler: "O Fuhrer vai ao Café Heck e pede-lhe que vá também". Eu tinha de saltar da cama, sabendo de antemão que não poderia regressar antes das duas ou três da madrugada.

Algumas vezes, Hitler desculpava-se:

– Nos meus tempos de luta, acostumei-me a estas noitadas. Tinha de estar em companhia dos velhos camaradas, depois das reuniões. Ademais, em seguida aos discursos, eu me achava tão excitado que só podia dormir quando a manhã já estava alta.

Ao contrário do Carltons Teestuben, o Café Heck, com suas cadeiras simples de madeira, suas mesas de ferro, no tocante à instalação era a antítese do outro. Antigo café do partido, tinha sido o local onde Hitler, antigamente, se reunia com os companheiros de luta. No entanto, depois de 1933, não se reuniu mais com eles. Eu supunha que ele tivesse em Munique um largo círculo de relações, mas não havia nada disso. Ao contrário, Hitler ficava mal-humorado quando um de seus antigos correligionários desejava falar-lhe. Quase sempre tinha jeito de afastar essas visitas ou de demorar a atendê-las. Os antigos camaradas do partido nem sempre guardavam a distância que Hitler agora julgava necessária, apesar da sua afabilidade exterior. Freqüentemente, usavam de familiaridade inadequada até certo ponto. O direito que eles se atribuíam para essa intimidade já não se ajustava ao papel histórico que o Fuhrer se tinha atribuído.

Eram muito raras as visitas de Hitler a esses antigos companheiros, os quais já se tinham apropriado de quintas senhoriais, desfrutando a maioria deles de cargos importantes. A única reunião era a comemorativa do aniversário do Putsch (3) de 9 de novembro de 1923, que se realizava no Bürgerbrau-Keller. Note-se que Hitler não sentia a menor alegria por esse reencontro, mas freqüentes vezes manifestava seu desagrado por essa espécie de obrigação.

Depois de 1933, constituíram-se rapidamente diversos círculos, afastados uns dos outros, e que se espionavam reciprocamente, rivalizando uns com os outros e desprezando-se mutuamente. Isso se relacionava também com o fato de se terem formado círculos em torno de cada novo dignitário. Assim, Himmler tratava quase exclusivamente com os homens das SS, que lhe dedicavam uma veneração incondicional. Goering tinha em redor de si um grupo de admiradores fanáticos, constituídos em parte pelos seus mais imediatos colaboradores e ajudantes. Goebbels sentia-se à vontade no meio de um grupo de admiradores procedentes dos setores da literatura e do cinema. Hess ocupava-se dos seus problemas de curas com a homeopatia, gostava de música de câmara e tinha conhecidos excêntricos, embora também interessantes.

Goebbels, considerando-se intelectual, olhava por cima do ombro os incultos pequenos burgueses dos grupos de direção de Munique. Estes, por sua vez, zombavam das ambições literárias do presumido doutor. Por sua parte, Goering não julgava à sua altura nem os pequenos burgueses de Munique nem Goebbels, evitando qualquer relação social com uns e outro. Enquanto isso, Himmler, preocupado com os homens das SS, que se consideravam pessoas de elite, e que se

 

(3) Reunião subversiva, visando à tomada do poder, à derrubada de um governo (N. do E.).

 

envaideciam com as preferências demonstradas pelos filhos de príncipes e de condes, considerava-se muito acima dos demais. Também Hitler possuía um grupo seu, íntimo, que ia com ele a todos os lugares, composto sempre das mesmas pessoas: motoristas, fotógrafos, piloto e secretários.

É bem verdade que Hitler unia, politicamente, aqueles círculos tão divergentes entre si. Mas nas refeições ou nas sessões de cinema, depois de um ano da conquista do poder, não se via Himmler, Goering ou Hess com a freqüência que seria admissível em uma sociedade vinculada ao novo regime. E, nos encontros, o interesse deles achava-se tão concentrado em Hitler e em seu favor que os contatos marginais com os demais grupos tinham efeitos nulos. Também Hitler não estimulava uma união social do grupo constituinte da chefatura. Quando mais adiante se tornou mais crítico o desenvolvimento dos acontecimentos, as iniciativas recíprocas de aproximação eram observadas com desconfiança. Somente quando tudo estava terminado (já no cativeiro), as hierarquias ainda restantes daquele mundo em miniatura, fechado nele mesmo, reuniram-se pela primeira vez em um hotel, no Luxemburgo, embora à força, é verdade.

Quando estava em Munique, Hitler pouco se ocupava de assuntos governamentais ou do partido, menos do que quando ficava em Berlim ou em Obersalzberg. Geralmente, só dispunha de uma ou duas horas por dia para as conferências. A maior parte do tempo empregava vagabundeando, visitando obras de construção, estúdios, cafés, restaurantes, falando sozinho, muitas vezes, mas sempre rodeado pelo mesmo pessoal, que conhecia por demais os assuntos sempre repetidos e que, fazendo grandes esforços, tratava de esconder o aborrecimento.

Depois de dois ou três dias em Munique, de vez em quando Hitler dava ordem para o preparo de uma viagem à "montanha". Íamos por estradas poeirentas em carros abertos. Ainda não havia a rodovia de Salzburgo, que estava sendo construída com afinco. Chegando em uma pousada aldeã, em Lambach am Chiensee, comíamos uma merenda de bolos saborosos, que Hitler deixava de provar fazendo esforço sobre si mesmo. Depois, os ocupantes do segundo e terceiro carros iam comer poeira, outra vez, pois a coluna de automóveis rodava muito fechada. O caminho a Berchtesgaden era uma estrada em declive, que nos levava à pequena e agradável casa de madeira que Hitler possuía em Obersalzberg, uma casa de telhado muito saliente e muito modesta quanto a acomodações: uma sala de refeições, uma pequena sala de estar e três quartos de dormir. Os móveis eram da época dos pequenos armários ornamentais, dando ao ambiente o caráter de uma residência de pequenos burgueses que viviam comodamente. Esta impressão era acentuada por uma gaiola dourada com um canário, um cacto e um eucalipto. Viam-se suásticas em figurinhas, em almofadas bordadas por partidárias de Hitler, ora com um sol nascente ou com a frase "fidelidade eterna". Confuso, Hitler dizia-me:

– Sei que estas coisas não são bonitas. Muito do que está aqui recebi de presente. Mas não quero de modo nenhum me separar disto.

Depois de algumas horas, chegava um pequeno Mercedes fechado, com as secretárias, a Srta. Wolf e a Srta. Schroeder, quase sempre acompanhadas por uma modesta rapariga de Munique, mais agradável e de bom aspecto do que bonita. Nada indicava ser esta a amante de um homem todo-poderoso: Eva Braun.

Aquele carro fechado não podia jamais ir na coluna dos automóveis oficiais, pois não podia ser indicado como tendo relação com Hitler. As secretárias serviam para disfarçar a chegada da amante. Surpreendeu-me o fato de que Hitler e ela evitassem tudo o que pudesse indicar uma amizade íntima entre ambos, até quando alta noite tivessem de subir aos quartos de dormir. Nunca pude compreender a razão desse disfarce, mesmo no círculo íntimo, onde não poderia deixar de ser notada a ligação entre ambos.

Eva Braun mantinha-se afastada de todas as pessoas que rodeavam Hitler. Sua conduta para comigo mudou no decurso dos anos. Quando nos conhecemos melhor, verifiquei que as suas maneiras reservadas, para muitas pessoas sinal de altivez, decorriam unicamente de sua timidez. Sabia perfeitamente do caráter inseguro da sua posição na corte de Hitler.

Nos primeiros anos de nosso conhecimento, Hitler ficava na pequena casa só com Eva Braun, um ajudante-de-ordens e um criado. Os cinco ou seis convidados, entre eles Martin Bormann, o chefe da imprensa do Reich – Dietrich – e as duas secretárias, acomodavam-se em uma pensão existente nas proximidades.

O desejo de Hitler de escolher Obersalzberg para lugar de sua residência parecia testemunhar seu amor à natureza. No entanto, quando fiz esta observação, vi que me equivocara. Talvez admirasse o belo panorama. Mas, em geral, sentia-se mais atraído pela grandiosidade dos fundos abismos do que pela agradável harmonia de uma paisagem. É possível que o sentisse mais do que exprimiriam as palavras. Não gostava muito de flores, tolerando-as como elemento decorativo. Em 1943, uma delegação de uma organização feminina berlinense quis receber Hitler, na Estação de Anhalt, propondo-se entregar-lhe um ramalhete de flores, no momento de sua chegada. A chefe dessa delegação falou por telefone a Hanke, secretário do Ministério da Propaganda, para saber quais as flores preferidas de Hitler. Hanke dirigiu-se a mim, dizendo:

– Telefonei a todo mundo e perguntei aos ajudantes-de-ordens, mas em vão. Ele não tem nenhuma flor favorita.

E depois de refletir um pouco:

– Qual a sua opinião, Sr. Speer? Talvez possamos responder que é o Edelweiss. Suponho que esta flor seria a melhor. Não é uma flor muito comum e procede das montanhas da Baviera. Vamos dizer que é o Edelweiss.

Desde então essa flor foi, oficialmente, a "flor do Fuhrer". Isso demonstra com que independência procedia, em certas ocasiões, a propaganda do partido, ao configurar a imagem de Hitler.

Freqüentemente Hitler falava de grandes excursões que, segundo dizia, realizara antigamente. É verdade que tais excursões eram insignificantes, do ponto de vista de um alpinista. Ele não gostava de alpinismo nem de esquiar nos Alpes.

– Como pode haver alguém que sinta prazer em prolongar de maneira artificial o espantoso inverno, mediante uma permanência nas alturas?

Sua aversão à neve manifestou-se uma ou outra vez, antes da catastrófica campanha de inverno de 1941-1942.

– De boa vontade eu proibiria essa classe de esporte. Ele ocasiona muitas desgraças. Mas as tropas de montanha formam-se com esses loucos.

Nos anos de 1934-1935, Hitler deu longos passeios pelos caminhos na montanha, acompanhado dos seus convidados e de dois ou três funcionários de polícia, pertencentes à sua seção de escolta do estandarte da guarda pessoal. Eva Braun podia acompanhá-lo nesses passeios, mas no grupo em que estavam as duas secretárias, no fim da coluna.

Ser chamado por Hitler para frente da coluna era considerado um privilégio, embora a conversa com ele fosse vagarosa. Transcorria meia hora, Hitler mudava de companheiro:

– Diga ao chefe de imprensa que venha.

Algumas vezes nos dirigíamos a Hochlenzer, uma pequena pousada montanhesa, outras vezes a Scharitzkehl, onde se bebia cerveja ou um copo de leite, ao ar livre, em mesas singelas de madeira. Era rara uma excursão mais longa. Isso sucedeu uma vez com o Capitão-General Von Blomberg, comandante-chefe da Wehrmacht. Por tratarem de graves problemas militares, todos os da comitiva tiveram de manter-se distanciados. Outra vez, fomos com o automóvel até Koenigsee e dali, utilizando-nos de uma lancha a motor, fomos à península de Bartholoman. Também fizemos uma excursão de três horas até Koenigsee, passando por Scharitzkehl. No último trecho do caminho, tivemos de passar por muitos turistas. No princípio, Hitler não foi reconhecido, mas depois, quando chegamos a uma hospedaria, chamada Schiffmeister, formou-se um grande grupo de entusiastas, que tinham reconhecido Hitler e que, animados, nos acompanharam. Precedidos por Hitler, que andava apressado, conseguimos com dificuldade alcançar a porta da hospedaria, antes de sermos cercados pela multidão, cujo número aumentava rapidamente. Enquanto nos sentávamos, diante do café e dos bolos, enchia-se a grande praça fronteira ao edifício. Hitler não subiu ao carro aberto enquanto não chegaram reforços para a guarda. De pé, ao lado do motorista no assento dianteiro, com a mão esquerda no pára-brisa, os turistas puderam vê-lo, até mesmo os que estavam mais afastados. Em tais ocasiões, o entusiasmo era extremo. Afinal, tinha sido premiada uma espera de longas horas. O automóvel movia-se precedido por dois homens da escolta e flanqueado por outros seis, dois de cada lado. O veículo abria caminho lentamente, pelo meio da multidão apinhada. Como na maioria das ocasiões, eu ia sentado imediatamente atrás de Hitler, e não esquecerei jamais aquela explosão de júbilo, aquela embriaguez de satisfação expressa em tantos rostos. Aquelas cenas se repetiam, em toda parte, nos primeiros anos do seu governo, onde quer que aparecesse Hitler ou se detivesse o seu carro, ainda que somente por alguns instantes.

Talvez seja compreensível que também eu me sentisse arrastado por aqueles transbordamentos de veneração. Mas, para mim, muito mais impressionante era falar, minutos ou horas depois, com aquele ídolo de um povo, sobre planos de obras em construção, sentar-me ao seu lado no teatro, ou comer com ele raviólis na osteria. Este contraste era o que exercia um fascínio sobre mim.

Se, alguns meses antes, eu estivera entusiasmado com a possibilidade de realizar construções, agora estava inteiramente submetido à influência do feitiço de Hitler, a quem eu me entregara, incondicionalmente, sem capacidade de nenhuma crítica. Eu estava disposto a acompanhá-lo a toda parte. Procedendo assim, Hitler pretendia, evidentemente, proporcionar-me uma gloriosa carreira de arquiteto. Anos depois, na prisão de Spandau, li a opinião de Cassirer a respeito dos homens que pelo seu próprio impulso desdenham o mais alto privilégio do ser humano: o de serem pessoas donas delas mesmas.

Eu era então um desses homens.

Duas mortes, em 1934, tiveram efeitos de ordem particular e pública. Troost, o arquiteto de Hitler, faleceu no dia 21 de janeiro, depois de semanas de muitos padecimentos. E, no dia 2 de agosto, morreu o presidente do Reich, Von Hindenburg, abrindo-se assim para Hitler o caminho rumo a um poder sem nenhum limite.

No dia 15 de outubro de 1933, Hitler, solenemente, colocou a primeira pedra da Academia de Arte Alemã, em Munique. Para bater na pedra utilizou-se de um martelinho de prata, que Troost desenhara especialmente para aquela cerimônia. O martelinho fragmentou-se em vários pedaços. Quatro meses depois, falando conosco, Hitler disse:

– No mesmo instante em que o martelo se partiu, pensei comigo: "Isto é mau agouro! Vai acontecer alguma coisa!" Agora já se sabe por que o martelo se quebrou: o arquiteto tinha de morrer.

Não foram poucas as ocasiões em que testemunhei a superstição de Hitler.

A morte de Troost também significou uma grave perda para mim. Precisamente, estava se iniciando entre nós uma amizade, da qual eu esperava muito, tanto sob o ponto de vista humano como artístico. Funk, subsecretário de Goebbels, naquela época, tinha uma opinião diversa da minha sobre o assunto. No dia em que faleceu Troost, eu o encontrei na ante-sala do seu ministério, com um grande charuto no meio de sua cara redonda. Disse-me:

– Meus parabéns. Agora o senhor é o primeiro.

Eu tinha então vinte e oito anos de idade.

 

                                   MEGALOMANIA EDIFICADA

Durante muito tempo pareceu que Hitler tencionava encarregar-se pessoalmente do escritório de Troost. Receava que os projetos não continuassem sendo realizados com a sensibilidade característica dos pensamentos do falecido.

Disse, finalmente:

– O melhor será que eu tome pessoalmente a direção.

No final de contas, essa intenção não era mais estranha do que a manifestada posteriormente, ao tomar nas suas mãos a chefia suprema do Exército.

No decurso de algumas semanas, sentiu-se atraído pelo pensamento de ser chefe de um escritório de arquiteto, bem instalado. Já durante as viagens a Munique costumava freqüentemente pensar nisso, falando sobre projetos, para uma hora depois ir sentar-se à prancha de desenho do verdadeiro chefe do escritório, Gall, homem simples e honrado, que defendeu com inesperada tenacidade a obra de Troost, rejeitando os esboços de Hitler, no começo muito minuciosos.

Hitler depositou confiança em Gall e não tardou em deixar, tacitamente, seus propósitos, ao verificar o valor daquele desenhista.

Ele continuou mantendo estreitas relações com a esposa do falecido arquiteto, à qual estava unido por grande amizade. Era uma senhora de sensibilidade, de bom gosto e caráter, que defendia suas opiniões com mais tenacidade do que muitos homens providos de cargos oficiais e dignidades. Combateu Bonatz, bastante imprudente para opinar, abertamente, contra a configuração dada por Troost à Koenigsplatz, de Munique. Opôs-se também aos arquitetos modernos Vorhoelzer e Abel, seus pontos de vista coincidindo com os de Hitler. Por outro lado, aproximava Hitler de arquitetos daquela cidade, escolhidos por ela, ou repelia ou elogiava artistas e eventos artísticos. Chegou a influir sobre Hitler a ponto de este, freqüentemente, tomá-la por juiz artístico, no âmbito municipal.

Mas, infelizmente, não ocorria o mesmo no campo da pintura. Hitler encarregara seu fotógrafo Hoffmann de efetuar a primeira inspeção dos quadros enviados à Grande Exposição Artística anual. A esposa do falecido Troost, freqüentemente, criticava a unilateralidade daquela escolha. Mas nesse terreno Hitler não dava o braço a torcer, por isso ela não tardou em renunciar a tomar parte nessas inspeções.

 

Eu estava em Berlim, quando houve o Putsch de Roehm. A tensão de ânimos dominava a cidade. No jardim zoológico estavam soldados equipados como se fossem iniciar uma campanha a qualquer momento. A polícia, armada de fuzis, percorria em caminhões as ruas e o ambiente estava "muito rarefeito", semelhante ao do dia 20 de julho de 1944, que eu também passei na capital do Reich.

No dia seguinte, Goering foi considerado salvador da situação em Berlim. Quase ao meio-dia, terminada a operação de "limpeza", Hitler regressou à capital, e eu recebi uma chamada telefônica:

– O senhor tem alguns desenhos, quaisquer que sejam? Traga-os, imediatamente.

Isso indicava que pretendiam afastar a atenção de Hitler para assuntos relacionados com a arquitetura. Ele estava muito nervoso e, segundo penso ainda hoje, acreditando que tinha saído são e salvo de um grande perigo. Durante dias, repetia a sua narrativa de como entrara no Hotel Hanselmayer, de Wiessee, sem esquecer a referência à sua coragem:

– Não estávamos armados, nem sabíamos se teríamos de enfrentar guardas com armas.

Também dizia que sentira nojo ante a ambiência de homossexualidade que lá encontrara.

– Em um dos quartos, surpreendemos dois jovens inteiramente despidos.

Evidentemente, estava convencido de ter sido ele, com sua intervenção pessoal, quem salvou a situação, impedindo a catástrofe no último momento.

– Eu era a única pessoa que podia resolver aquilo! Eu, ninguém mais!

As pessoas da sua roda insuflavam a aversão ao fuzilado chefe das SA, salientando todos os detalhes imagináveis com relação à vida íntima de Roehm e seus correligionários. Brückner mostrou a Hitler minutas das bambochatas (xx) organizadas por aqueles indivíduos, encontradas no quartel-general das SS. Nelas constavam pratos esquisitos, vindos do estrangeiro: coxas de rã, línguas de pássaros, ovos de gaivotas, além de vinhos franceses e champanha das melhores marcas. Examinando esses cardápios, Hitler comentou, ironicamente:

– Bem! Aqui temos esses revolucionários! E no entanto diziam que a nossa revolução era muito lenta para eles!

 

(xx) Neste sentido, orgias, pândegas (N. da R.)

 

Regressou altamente satisfeito da sua visita ao presidente do Reich. Segundo disse, Hindenburg aprovara sua maneira de agir, exprimindo-se em termos mais ou menos como estes:

– Quando chega o momento, não se deve retroceder ante as máximas conseqüências. O sangue tem de correr também.

Lia-se também nos jornais que o presidente do Reich, Von Hindenburg, felicitara oficialmente o chanceler do Reich pela ação executada, e o presidente do conselho de ministros da Prússia, Hermann Goering.

A chefatura do partido fez todo o possível para justificar a ação executada. Isso, durante dias, terminou com um discurso de Hitler, perante o Reichstag, convocado expressamente para tal fim. Precisamente, com seus protestos de inocência, Hitler deixou entrever sua própria culpa. Um Hitler defendendo-se seria algo que não se veria mais, no futuro, nem mesmo em 1939, quando a Alemanha iniciou a guerra. Também foi chamado a apresentar sua justificativa o ministro da Justiça, Gürtner, que, não pertencendo a nenhum partido, portanto aparentemente não dependendo de Hitler, exerceu influência especial em todos os que ainda duvidavam. O fato de a Wehrmacht tolerar em silêncio a morte do General Schleicher despertou muita atenção. No entanto, o que mais me impressionou, a mim e a outros muitos políticos meus conhecidos, foi a atitude de Hindenburg. O marechal-de-campo da Primeira Guerra Mundial era uma autoridade venerada pela geração minha contemporânea, a de procedência burguesa. Já nos meus tempos de estudante, ele encarnava a figura do herói, firme e inflexível, da história moderna. Desde os meus dias de escola, Hindenburg tinha sido para mim a encarnação da autoridade. Saber que Hitler estava protegido pela auréola dessa máxima autoridade tinha como resultado um sentimento geral de tranqüilidade.

Não foi uma casualidade que a direita, representada pelo presidente do Reich, o ministro da Justiça e os generais, se colocasse do lado de Hitler depois da intentona de Roehm. É verdade que essa direita não compartilhava do anti-semitismo radical professado por Hitler. Desprezava essa explosão de sentimentos plebeus de ódio. Seu espírito conservador nada tinha de comum com o delírio racista hitlerista. Era outra a razão dessa simpatia para com a ação de Hitler no caso de Roehm: a poderosa ala esquerda do partido, preponderantemente representada pelas SA, foi eliminada nos assassinatos de 30 de junho de 1934. A ala esquerdista sentira-se ludibriada quanto aos frutos da revolução. E não sem motivo, porquanto a maioria dos seus componentes, educados para a ação revolucionária, tinham acreditado, seriamente, no suposto programa socialista propugnado por Hitler. Durante minha breve atividade em Wansee, eu observara, no plano mais baixo, como o homem simples das SA estava disposto a sofrer toda espécie de privações, demoras, e expor-se a perigos, na expectativa de recompensa, quando viesse o momento almejado. Quando a recompensa não veio, surgiram aborrecimentos, descontentamentos não exteriorizados, mas que facilmente poderiam adquirir uma força altamente explosiva. Talvez a intervenção de Hitler tenha, na realidade, impedido a "segunda revolução", que Roehm estivera apregoando.

Esses argumentos apaziguavam nossas consciências. Eu e muitos outros buscávamos, ansiosamente, desculpas e considerávamos normal para o mundo aquilo que, dois anos antes, teria sido para nós motivo de irritação. As dúvidas que nos importunariam eram sufocadas em seu embrião. Agora, na distância medida por vinte anos, sinto-me consternado à lembrança da nossa irreflexão, naquele tempo.

Aquele evento teve uma conseqüência para mim, expressa no encargo que recebi no dia seguinte:

– O senhor vai reformar o Palácio de Borsig com a maior rapidez possível. Quero trazer de Munique para cá os maiorais das SA, a fim de no futuro tê-los comigo, na maior proximidade possível. Veja o local e comece logo a trabalhar.

Observei que os escritórios oficiais do vice-chanceler achavam-se nesse local. Hitler replicou com simplicidade:

– Pois saiam logo! O senhor não tenha nenhuma consideração!

Sendo assim, dirigi-me sem perda de tempo à dependência oficial ocupada por Von Papen. É de supor que o chefe do escritório ignorasse tudo. Propuseram-me que esperasse alguns meses, até que encontrassem outro local e o adaptassem. Voltei a Hitler e informei-o disso. Ele enfureceu-se. Não somente renovou a ordem para que o local fosse desocupado imediatamente, como também me autorizou a iniciar os trabalhos, sem demora, não levando em consideração a presença dos funcionários que trabalhavam no palácio.

Von Papen manteve-se alheio ao que estava ocorrendo, seus funcionários indecisos, embora prometendo que dentro de uma ou duas semanas teriam transportado toda a sua papelada para outro local. Então agi sem contemplações. Ordenei aos operários que entrassem no prédio, ainda ocupado, e começassem a retirar das paredes e dos forros os ricos florões de estuque, fazendo todo o barulho e espalhando a maior quantidade de poeira possível. A poeira no vestíbulo e nas ante-salas e o barulho penetravam pelas frinchas das portas nos lugares onde os funcionários estavam trabalhando. Esse procedimento pareceu magnífico a Hitler. Seus elogios eram acompanhados de ironias dirigidas aos "funcionários poeirentos".

Vinte e quatro horas depois, saíam da dependência oficial do vice-chanceler os seus ocupantes. Em uma das salas vi uma grande mancha de sangue seco. Lá tinha sido assassinado, no dia 30 de junho, Herbert von Bose, um dos colaboradores de Von Papen. Desviei o olhar e desde então evitei entrar naquela sala.

No dia 2 de agosto, faleceu Hindenburg. No mesmo dia, Hitler encarregou-me, pessoalmente, da direção dos trabalhos necessários à celebração das exéquias, no monumento de Tannenberg, na Prússia Oriental.

Durante muito tempo, em sua marmórea rigidez, Hindenburg causara muitas dificuldades a Hitler. Eram dificuldades demasiadas, incluindo demoras, para a impaciência de Hitler, que freqüentemente recorria à astúcia ou à intriga, ou a sutilezas, para que seus argumentos fossem aceitos. Um dos lances de xadrez de Hitler consistia em enviar Funk, um prussiano oriental, na ocasião subsecretário de Goebbels, para todas as manhãs relatar ao presidente o noticiário da imprensa. Funk, possuidor daquela astúcia característica do campônio, sabia, realmente, como misturar veneno em muitas notícias políticas, desagradáveis a Hindenburg, mas de modo que não produzissem choques emotivos no presidente.

Hitler nunca pensou, seriamente, em uma restauração da monarquia, coisa, que Hindenburg e muitos dos seus amigos políticos esperavam do novo regime. Não era raro que ele dissesse:

– Dei ordem para que continuem os pagamentos das pensões dos ministros social-democratas. Não se pode recusar-lhes um mérito: o de terem liquidado a monarquia. Isto significa um grande passo à frente. Foram eles os primeiros a nos preparar o caminho. Então, iremos agora restaurar a monarquia? Eu, dividir o poder com outros? Vejam a Itália! Pensam que eu sou tolo? Os monarcas sempre se mostraram ingratos para com seus primeiros colaboradores. Temos o exemplo de Bismarck. Não, não caio nessa armadilha, por muito que os Hohenzollern mostrem-se agora amáveis.

Nos começos de 1934, Hitler surpreendeu-me com a primeira das minhas grandes tarefas. A tribuna provisória de madeira no Zeppelinfeld de Nuremberg tinha de ser substituída por uma construção de pedra. Estive muito preocupado com os primeiros desenhos, até que me acudiu uma idéia salvadora: grandes escadarias, realçadas e rematadas na parte superior por uma grande galeria, sustentada por pilares, flanqueada nas duas extremidades da construção por dois bastiões de pedra, que a fechariam por ambos os lados. Não havia dúvida de que o projeto fora influenciado pelo altar de Bérgamo. A dificuldade estava na indispensável tribuna de honra, que eu tratei de situar de maneira que chamasse o menos possível a atenção, no centro da área ocupada pelas escadas.

Duvidando do meu êxito, pedi a Hitler que visse a maquete. Eu também tinha receio de desaprovação, porque o meu projeto era muito mais ambicioso do que a incumbência que me fora atribuída. A grande obra de pedra tinha um comprimento de trezentos e noventa metros e uma altura de vinte e quatro. Era mais extensa do que as termas de Caracala, em Roma, excedendo-as em cento e oitenta metros, ou seja, quase o dobro.

Muito tranqüilo, Hitler examinou a maquete sob todos os ângulos, comprovou com um ar de entendido a altura exata da clarabóia, sem abrir os lábios esmiuçou os esboços e não externou nenhuma reação. Pensei que recusasse meu trabalho. Depois, tal como acontecera em nosso primeiro encontro, pronunciou um "de acordo" seco e despediu-se. Ainda não compreendi por que um homem afeiçoado a explicações prolongadas se mostrasse tão avaro de palavras em semelhantes decisões.

Quando se tratava de outros arquitetos, Hitler costumava recusar o primeiro projeto. Gostava de que corrigissem várias vezes os esboços, exigindo alteração em detalhes no decurso da execução. Não me molestou, desde quando lhe demonstrei quais eram os meus conhecimentos. Depois disso, respeitava minhas idéias e me tratava como se de algum modo eu fosse uma pessoa situada no seu mesmo plano, como arquiteto, bem entendido.

Hitler gostava de dizer que ele construía obras para transmitir à posteridade o seu espírito e o do seu tempo. Era de opinião que, no final de contas, a única coisa que nos recorda as grandes épocas históricas são as obras monumentais. Na realidade, que restou da ação dos imperadores romanos, quando Roma dominava o mundo? Se não fossem os monumentos que eles levantaram, qual o testemunho atual da existência daqueles homens? Afirmava que, na história de um povo, há de quando em quando períodos de debilidade. Mas, depois, as obras monumentais começam a relembrar o antigo poderio desse povo. Naturalmente, não se desperta de novo uma consciência nacional somente assim. Mas quando, depois de um extenso período de decadência, desperta o sentimento de uma nova grandeza nacional, os monumentos erguidos pelos antepassados incitam-nos à renovação dos feitos do passado.

E continuava Hitler:

– Assim, as obras do antigo Império Romano permitiriam hoje a Mussolini apoiar-se no espírito da Roma heróica, se pretendesse tornar popular a idéia de converter seu povo em um moderno império. Também as obras levantadas por nós falariam à consciência dos alemães, nos séculos futuros.

Este argumento servia também a Hitler para sublinhar a importância e o valor de uma construção duradoura.

Os trabalhos no Zeppelinfeld começaram imediatamente, a fim de, pelo menos, estar terminada a tribuna antes da reunião do próximo congresso do partido. A estação de bondes de Nuremberg teve de ceder lugar à nova tribuna. Depois da demolição, vi o montão de cimento armado e notei que o material de ferro já começava a oxidar-se, sendo fácil prever a sua ulterior decomposição. Essa desolada vista deu motivo para uma reflexão que depois expus a Hitler sob o pretensioso título de Teoria dos valores das ruínas de uma obra. O ponto de partida da minha teoria foi o seguinte: as obras de construção moderna não eram muito próprias à formação da "ponte de tradições" exigida por Hitler para formar o vínculo com as futuras gerações. Era inimaginável que ruínas enferrujadas motivassem o impulso das inspirações heróicas, que Hitler admirava nos monumentos do passado. Minha "teoria" relacionava-se com o seguinte problema: o emprego de materiais especiais e a aplicação de certos princípios de estática permitiriam a construção de obras que, em uma situação de decadência, depois de centenas ou milhares de anos (esse era o nosso cálculo), se assemelhassem, mais ou menos, aos modelos da época romana.

Para dar um exemplo prático aos meus pensamentos, preparei um modelo representativo do estado em que se encontraria a tribuna do Zeppelinfeld depois de várias gerações, durante as quais tivesse sido descuidada, estando cheia de pedra, com os dois pilares derrubados, desfeitos aqui e ali os muros da construção, reconhecível todavia em seu aspecto geral. Esse modelo foi considerado uma "blasfêmia" pelos que conviviam com Hitler. Parecia-lhes incrível a idéia de eu já admitir em meus prognósticos um período de decadência para o Reich recém-fundado: o Reich milenar. No entanto, Hitler achou lógica e clara a minha consideração; deu ordem para que, daí em diante, as obras mais importantes do seu Reich fossem construídas de acordo com essa "lei de ruínas".

Durante uma inspeção do terreno do partido, Hitler, dirigindo-se a Bormann, falando bem-humorado, exigiu que eu, daí em diante, me apresentasse com o uniforme do partido. Aqueles que pertenciam ao seu vínculo íntimo – o médico particular, o fotógrafo, inclusive o diretor da casa Daimler-Benz – tinham já o seu uniforme. Por conseguinte, estaria deslocado um indivíduo à paisana entre tantos homens uniformizados. Essa recomendação significou que Hitler já me considerava definitivamente entre as pessoas de que se compunha o seu círculo mais íntimo. Não demonstraria seu desagrado se alguém se lhe apresentasse à paisana ou na chancelaria ou na casa de campo, pois ele mesmo preferia usar terno comum. No entanto, quando fazia viagens de inspeção ou comparecia a algum lugar, em caráter oficial – segundo sua opinião –, só o uniforme era o traje adequado. Nos começos de 1934, fui designado para o cargo de chefe de seção, no Estado-Maior do seu lugar-tenente Rudolf Hess. Alguns meses depois, Goebbels atribuiu-me a mesma função, para a minha atividade relacionada com as suas reuniões de massas, no congresso do partido, na festa de ação de graças pela colheita, e no 1.° de Maio.

No dia 30 de janeiro de 1934, por proposta de Robert Ley, chefe da Frente Alemã do Trabalho, foi criada uma organização para o gozo do tempo livre, denominada Força pela Alegria. Nessa entidade, eu me encarregaria da seção Beleza do Trabalho, cuja denominação ocasionaria não menos motivos de troça do que a outra, Força pela Alegria. Pouco tempo antes, em uma das suas viagens à Holanda, Ley vira umas instalações para mineiros, notáveis pela escrupulosa limpeza e arredores muito bem tratados, além de jardins, na província de Limburgo. Isso satisfazia à sua maneira de entender as coisas, generalizando, de modo que lhe veio a idéia de fazer que a indústria alemã agisse do mesmo modo. Nossa primeira iniciativa foi convencer os donos de fábrica que reformassem os locais de trabalho e colocassem flores nas oficinas. Mas isso não nos pareceu suficiente: teriam de ser aumentadas as superfícies de arejamento e instaladas cantinas. Mais de um lugar destinado antes a depósito de detritos foi transformado em sala de estar para os intervalos entre horas de trabalho. Estabelecemos como padrão um tipo de instalação para refeitório, simples, como o dos móveis, também feitos em grande quantidade. Recomendamos que as empresas contratassem técnicos especializados e mediante películas explicativas adquirissem conhecimentos no que diz respeito a iluminação artificial e ventilação dos locais de trabalho. Para colaborar nesses projetos, foram postos à minha disposição antigos funcionários dos sindicatos e alguns membros da extinta Werkbund. Todos empenharam-se a fundo na tarefa, decididos a melhorar de algum modo as condições de vida dos trabalhadores e praticar o princípio de uma comunidade sem classes. Para surpresa minha, Hitler mostrou pouco interesse nessas idéias. Aquele homem capaz de divagar, falando sobre detalhes de um projeto de construção, mostrou-se, ostensivamente, indiferente à minha exposição de realizações no campo social. O embaixador britânico em Berlim dava mais importância a essas atividades do que Hitler.

Tive de agradecer aos meus cargos oficiais, na primavera de 1934, o primeiro convite a uma recepção oficial noturna, oferecida por Hitler, como chefe do partido, e à qual também foram convidadas mulheres. Fomos dispostos em grupos de seis a oito pessoas, em mesas redondas, no grande refeitório do domicílio do chanceler. Hitler andou de mesa em mesa, dizendo frases amáveis e fazendo-se apresentar às senhoras. Quando veio à nossa mesa, apresentei-lhe a minha esposa, da qual, aliás, não lhe tinha falado antes.

Alguns dias mais tarde, em uma reunião reservada, ele perguntou-me impressionado:

– Por que nos privou tanto tempo da presença de sua senhora?

Certamente, entre outros motivos, o que mais influíra em minhas reservas, quanto à apresentação de minha esposa, motivo que não era o último, fora que eu sentia aversão à maneira como Hitler tratava sua amante. Ademais, na minha opinião, cabia ao seu ajudante-de-ordens convidar minha esposa ou informar Hitler da existência de minha mulher. Entretanto, não se podia esperar dos seus ajudantes-de-ordens uma compreensão do que fosse etiqueta. No final de contas, sua modesta origem de pequeno burguês refletia-se na conduta dos seus ajudantes-de-ordens e auxiliares imediatos.

Dirigindo-se à minha esposa, naquela noite em que a viu, pela primeira vez, disse-lhe num tom em que havia algo de solene:

– O seu esposo levantará para mim obras como não se têm construído há quatro mil anos.

Todos os anos, celebrava-se no Zeppelinfeld uma cerimônia da qual participava o corpo dos funcionários médios e modestos do partido. Se as SA, a Frente do Trabalho, e, naturalmente, também a Wehrmacht produziam grande impressão em Hitler e nos assistentes, durante as suas demonstrações de massa, pela perfeita disciplina, era de fato difícil apresentar de maneira apreciável a gente composta de funcionários do partido. A maioria tinha transformado em volumosas barrigas as pequenas prebendas que usufruíam. Não se podia fazer que eles marchassem em filas exatamente alinhadas. A seção organizadora dos congressos do partido esteve discutindo essa desagradável situação, que já dera motivo a irônicas observações de Hitler. Eu tive então uma idéia salvadora:

– Façamos então que eles marchem no escuro.

Expus meus planos aos chefes da organização do congresso do partido. À noite, os milhares de bandeiras de todos os grupos comunais da Alemanha seriam dispostos por trás dos altos muros do campo. Quando se ouvisse uma voz de comando, elas se distribuiriam em dez colunas, entre os funcionários do partido, dispersando-se assim por um número igual de divisões do campo. Ao mesmo tempo, as bandeiras e as brilhantes águias que as encimavam teriam de receber a luz projetada por dez potentes holofotes. Só isso já seria suficiente para se obter um efeito impressionante. Mas não me pareceu suficiente. Já tivera ocasião de ver que os nossos novos holofotes antiaéreos emitiam um jato luminoso que alcançava muitos quilômetros de altura. Solicitei a Hitler que me fossem emprestados cento e trinta daqueles holofotes. Goering, a princípio, opôs algumas dificuldades, pois se tratava da parte mais importante da reserva estratégica. Mas Hitler conseguiu convencê-lo:

– Se montarmos ali um número tão grande de holofotes, pensarão no estrangeiro que dispomos de milhares de tais aparelhos.

A impressão excedeu a minha fantasia. Os feixes luminosos dos cento e trinta refletores, dispostos em torno do campo, à distância de doze metros um do outro, erguiam-se até seis a oito quilômetros e, naquelas alturas, espalhavam-se, formando uma superfície luminosa. Assim, houve a impressão de um espaço gigantesco, onde os jatos de cada projetor pareciam pilares de paredes infinitamente altas. A coroa luminosa, de vez em quando, era sulcada de nuvens, acrescentando ao grandioso efeito um elemento de irrealidade surrealista. Creio que com aquela "catedral de luz" foi criada a primeira arquitetura luminosa daquele tipo. Para mim continua sendo não somente a minha mais formosa como também a minha única criação especial que, à sua maneira, sobreviveu à passagem do tempo. "Solene e formosa ao mesmo tempo, como se estivéssemos dentro de uma catedral de gelo", foram as palavras do embaixador britânico Henderson.

Os dignitários, ministros do Reich, chefes nacionais, chefes regionais não podiam ser relegados a uma posição secundária quando havia colocação de primeira pedra, embora tais dignitários tivessem um aspecto não menos carecido de atrativos. Eram com dificuldade postos em fila pelos organizadores impacientes. Quando chegava Hitler, uma voz de comando ordenava que toda a gente ficasse em posição de sentido e levantasse o braço para a saudação nazista. Durante a colocação da primeira pedra da Sala de Congressos de Nuremberg, Hitler viu-me na segunda fila e interrompeu a cerimônia solene para estender-me a mão. Fiquei tão impressionado por aquele seu gesto, que não era habitual, que deixei cair a minha mão, levantada para a saudação, sobre a calva do chefe regional da Francônia, Streicher.

Durante os congressos do partido em Nuremberg, Hitler permanecia quase invisível, recolhendo-se aos aposentos para a redação dos seus discursos, quando não visitasse alguma das numerosas reuniões. Um motivo de especial satisfação para ele era ver cada ano aumentar o número de delegações estrangeiras, mormente quando procediam dos países do democrático Ocidente. Durante os almoços apressados, ele informava-se dos nomes dos seus membros e satisfazia-se com o crescente interesse da auto-representação da Alemanha nacional-socialista.

Também em Nuremberg eu tive um osso duro de roer. Era minha a responsabilidade da ornamentação de todos os edifícios em que Hitler se apresentava, no decurso do congresso do partido. Como "decorador-chefe" eu tinha de agir no sentido de tudo estar pronto um pouco antes do começo da cerimônia, a fim de, logo depois, ir preparar a cerimônia seguinte, isso com a maior rapidez. Eu gostava das bandeiras e utilizava-as sempre que possível. Assim, eu introduzia motivos coloridos na arquitetura de pedra. Para mim foi útil a bandeira com a suástica, ideada por Hitler, pois se adaptava mais ao emprego em arquitetura do que uma bandeira com três faixas coloridas.

Essa minha atividade não me permitia estar presente em nenhuma das reuniões presididas por Hitler, excetuando-se quando ele proferia os seus "discursos culturais", que ele dizia serem o ápice da sua oratória. Hitler preparava-os em Ober-Salzberg. Naquela época, eu admirava tais discursos. Certamente, na minha opinião, muito mais pelo conteúdo pensado do que pelo brilho da sua retórica. Quando entrei em Spandau, pretendia relê-los, quando voltasse à liberdade. Eu supunha encontrar neles algo do meu antigo mundo, que não me repelira. Vi-me porém desiludido. Os discursos tinham significado muito para mim, naquela época. Agora estão vazios de sentido, sendo superficiais e vãos. Esses discursos permitem ver, claramente, o afã de Hitler em utilizar-se, para seus próprios objetivos de poder, do conceito de cultura, dando a esta palavra um significado inteiramente oposto ao seu genuíno. Não pude compreender por que as palavras de Hitler me impressionaram tão profundamente naquele tempo. A que se devia isso?

Também jamais eu deixaria de estar presente à inauguração dos congressos do partido, que se abriam com a execução de Os mestres cantores de Nuremberg pelo conjunto coral da Ópera de Berlim, sob a direção de Furtwangler. É de se supor, facilmente, que essas noites de gala só teriam outras iguais em Bayreuth, sendo, portanto, concorridíssimas. Mais de mil personalidades do partido recebiam ingressos e convites, mas preferiam ver qual era a qualidade da cerveja de Nuremberg ou do vinho da Francônia. Procedendo assim, provavelmente todos pensariam que os demais cumpririam com o dever inerente à sua categoria no partido, assistindo à representação lírica. Mas, na verdade, era uma lenda o interesse da elite do partido na arte musical. Na generalidade, os seus representantes eram tipos vulgares, anódinos, com muito pouca disposição à música clássica, à arte e à literatura. Também os poucos representantes do mundo intelectual existentes no âmbito de Hitler, como, por exemplo, Goebbels, não compareciam aos concertos que a Filarmônica de Berlim executava, regularmente, sob a direção de Furtwangler. Para tais ocasiões só se podia contar com Frick, ministro do Interior. Hitler, que parecia entusiasmado pela música, depois de 1933 somente em determinados atos oficiais comparecia aos concertos da Filarmônica de Berlim.

Compreende-se portanto que o Teatro da Ópera de Nuremberg estivesse quase vazio quando Hitler entrou no camarote central, por ocasião daquela representação de Os mestres cantores de Nuremberg em 1933. Hitler reagiu aborrecido, pois, em sua opinião, nada havia mais ofensivo e mais incômodo para um artista do que apresentar-se em um local inteiramente vazio. Hitler ordenou que patrulhas fossem percorrer as cervejarias e lugares de venda de vinhos para trazerem ao teatro os altos funcionários do partido. Apesar disso, o teatro não ficou lotado.

No ano seguinte, Hitler deu ordem expressa a tais personalidades desinteressadas de teatro para que comparecessem à solenidade de inauguração do congresso. Apareceram com semblante aborrecido, muitos sonolentos. Na opinião de Hitler, os aplausos fracos não corresponderam ao valor da brilhante execução da peça. Desde 1935, aquelas figuras do partido, indolentes sob o ponto de vista artístico, foram substituídas por um público civil, que pagava alto preço pelas entradas. Pela primeira vez, entretanto, se tinha conseguido o ambiente imprescindível ao artista e os aplausos exigidos por Hitler.

Altas horas da noite, depois dos preparativos, eu entrava em meu aposento (no Hotel Deutscher Hof), reservado para o Estado-Maior de Hitler, chefes nacionais e chefes regionais. Lá encontrava, habitualmente, no restaurante do hotel, um grupo dos antigos chefes regionais. Eles escandalizavam, bebendo como cossacos, falando em alta voz da traição do partido aos fundamentos da revolução e aos trabalhadores. Isso indicava que as idéias de Gregor Strasser, antigo dirigente da ala anticapitalista dentro do NSDAP, continuavam inesquecidas, embora reduzidas tão-somente a palavras. E somente sob o influxo do álcool é que voltavam a sentir o antigo impulso revolucionário.

No congresso celebrado pelo partido em 1934 houve pela primeira vez, na presença de Hitler, um simulacro de batalha. Naquela mesma noite, Hitler visitou oficialmente o acampamento militar. Tendo sido cabo, pareceu achar-se de novo em um mundo que lhe era familiar. Aproximava-se dos soldados, em redor das fogueiras do acampamento, via-se rodeado por eles, e ouviam-se gracejos aqui e ali. Hitler voltou dessa inspeção muito satisfeito e falou a respeito durante a ligeira refeição logo depois.

Mas o Alto-Comando do Exército não ficou contente. Hossbach, ajudante-de-ordens do comandante-chefe, falou de "falta de disciplina" dos soldados, que tinham esquecido diante do chefe do Estado a posição de sentido que lhes tinha sido ordenada. E insistiu em proibir no ano seguinte tais familiaridades, contrárias à dignidade do chefe do Estado. Hitler, em particular, mostrou-se aborrecido por essa crítica, mas disposto a obedecer.

Durante os preparativos dos congressos do partido, encontrei-me com uma mulher que já me tinha impressionado, quando eu era estudante: Leni Riefenstahl, estrela ou diretora de filmes relacionados com a montanha e o esqui. Essa mulher tinha sido encarregada por Hitler de filmar os congressos do partido. Sendo a única mulher com um cargo oficial, nos quadros do partido, freqüentemente criticava sua organização, o que quase desencadeava uma revolta contra ela. Segura de si mesma, ela constituía uma provocação aos chefes políticos de um movimento que por tradição era inimigo das mulheres, porquanto a mulher destemida governa, sem rodeios, o mundo masculino, tendo o olhar dirigido aos seus objetivos particulares. Urdiram-se intrigas, contaram-se a Hess casos infamantes a fim de provocar a queda daquela criatura. Mas os ataques cessaram depois do primeiro filme de um congresso do partido, o qual convenceu os corifeus de Hitler da capacidade de Leni Riefenstahl como diretora cinematográfica.

Quando tive contato com ela, Leni tirou de uma carteira um recorte amarelecido de jornal, dizendo-me:

– Quando, há três anos, o senhor reformou a chefatura regional, recortei sua fotografia, estampada em um jornal, embora não o conhecesse.

Perguntei-lhe, surpreso, qual o motivo daquilo, e ela respondeu:

– Pensei que o senhor, com essa cabeça, pudesse interpretar um papel em um dos meus filmes.

Recordo também que as filmagens de uma das reuniões solenes do congresso do partido em 1935 ficaram inutilizadas. Leni Riefenstahl propôs e Hitler ordenou que as cenas se repetissem no estúdio cinematográfico. Em um dos grandes estúdios de Berlim-Johannestal. Utilizei como cenário uma seção das salas do congresso. Streicher, Rosenberg e Frank tiveram de decorar os seus papéis, e quando Hess chegou pediu-se-lhe que fosse o primeiro a aparecer para ser filmado. O lugar-tenente de Hitler, solenemente, levantou o braço, como se estivesse diante dos trinta mil ouvintes do congresso do partido e, com a emoção e dramaticidade que o caracterizavam, começou a falar em direção ao lugar onde, aliás, não estava Hitler, e adotando a posição de "sentido" disse em alta voz:

– Meu Fuhrer, eu o saúdo em nome do congresso do partido. O congresso prossegue. Fala o Fuhrer!

Enquanto representava, ele demonstrava uma expressão tão convincente que, a partir daquele momento, eu duvidei da autenticidade dos seus sentimentos. Também os outros três homens, no vazio da sala de filmagem, desempenharam seu papel de maneira ajustada à verdade, demonstrando possuírem dotes de verdadeiros atores.

Sem dúvida eu já admirara a cuidadosa técnica, quando Hitler, por exemplo, ia tateando com freqüência em suas reuniões, até o momento preciso de provocação do primeiro aplauso. Nem por isso eu deixava de reconhecer o elemento demagógico, para o qual eu contribuía com a decoração dos lugares onde se realizavam reuniões mais importantes. Mas, até então, eu estivera convencido da autenticidade dos sentimentos com que os oradores suscitam o entusiasmo da massa. Portanto, foi para mim, naquele dia, surpreendente o fato de ver que a arte de enfeitiçamento das massas pudesse ser representada "autenticamente", sem a presença de um público, tal como eu vira no estúdio de Johannestad.

Durante as obras de Nuremberg, havia na minha cabeça uma síntese entre o classicismo de Troost e a simplicidade de Tessenov. Não a qualificava propriamente de neoclássica, pois eu supunha tê-la derivado do estilo dórico. Eu me iludia a mim mesmo, ao esquecer que essas obras já tinham funcionado como bastidor teatral monumental, tendo sido assim durante a Revolução Francesa, no Campo de Marte em Paris, e em outras circunstâncias menores. As características do classicismo e a simplicidade mal se podiam conciliar com as dimensões gigantescas de que me utilizei em Nuremberg. Apesar disso, ainda hoje, os meus desenhos de Nuremberg são os que mais me agradam, ao contrário de muitos outros que fiz mais adiante para Hitler e que eram muito mais pretensiosos.

Minha primeira viagem ao estrangeiro ocorreu em maio de 1935. Foi motivada por minha preferência pelo mundo dórico. Não fui à Itália contemplar os palácios do Renascimento e as colossais obras romanas, embora lá tivesse podido encontrar modelos para minhas construções. Dirigi-me à Grécia, o que me parecia lógico naquele tempo. Minha mulher e eu procurávamos na Grécia testemunhos do mundo dórico e ficamos profundamente impressionados – o que nunca mais se apagou em minha memória – com o Estádio de Atenas reconstruído. Quando, dois anos depois, tive de desenhar um projeto de estádio, adotei a forma de ferradura do estádio ateniense.

Pareceu-me descobrir em Delfos a rapidez com que as riquezas adquiridas nas colônias jônio-asiáticas contribuíram para a decadência da pureza das criações artísticas gregas. Demonstra isso como é sensível uma elevada consciência da arte e como bastam insignificantes forças para alterar até se tornar irreconhecível a representação ideal? Eu refletia sobre tais extremos, sem preocupar-me comigo. Meus próprios trabalhos pareciam evitar que eu caísse nesses perigos.

Depois de nosso regresso, em junho de 1935, terminou-se a construção de minha casa em Berlim-Schlachtensee. Não pude construir uma residência de grandes dimensões. Custou setenta mil marcos, e para eu levantar essa quantia meu pai teve de fazer uma hipoteca de trinta mil. Meus recursos financeiros eram escassos, apesar de trabalhar para o Estado e o partido, como arquiteto profissional. Mas a minha desinteressada emoção, em uma ambiência idealista, característica da época, induzira-me à renúncia dos meus honorários em todas as minhas construções.

Essa atitude provocou a incompreensão de outras pessoas. Um dia, em Berlim, Goering, que estava bem-humorado – coisa inesquecível –, disse-me:

– Bem, Sr. Speer. Agora tem muitas coisas para fazer e vai também ganhar um montão de dinheiro.

Minha resposta negativa provocou nele um olhar de incompreensão:

– Mas... Que diz? Um arquiteto tão ocupado como o senhor? Pois eu supunha que fizesse uns cem mil marcos por ano. Os seus ideais são uma insensatez absoluta. O senhor tem de ganhar dinheiro!

Excetuando-se as obras realizadas em Nuremberg, pelas quais eu recebia mil marcos mensais, depois agi no sentido de me pagarem os honorários devidos a todo arquiteto. Mas não foi só por isso que tive a precaução de não perder minha independência profissional. Eu sabia que Hitler confiava mais nos arquitetos que não eram funcionários. A preferência de Hitler pelos particulares, em vez dos funcionários públicos, exprimia-se também pelo seguinte: no final de minhas atividades de arquiteto, eu possuía um milhão e quinhentos mil marcos, aproximadamente, mas o Reich devia-me ainda outro milhão, que não cobrei nunca.

Minha família vivia feliz naquela casa. Bem quisera afirmar que eu também participava daquela dita familiar, tal como sonhara, junto de minha mulher. Mas eu chegava em casa, fatigado, já alta noite. Os meninos já estavam dormindo. E eu, ao juntar-me à minha mulher, não abria os lábios, tão cansado me sentia. Essa situação não se alterou durante anos. Hoje, decorridos já tantos anos, quando relembro aquela maneira de viver, vejo que se dava a mesma coisa com os maiorais do partido, que se descuidavam da vida familiar para seguir um pomposo estilo de vida. Transformavam-se em estátuas imóveis, pela sua atividade oficial; eu, ao contrário, pelo meu excessivo trabalho.

No outono de 1934, Otto Meissner, que, depois de Ebert e Hindenburg, tinha encontrado em Hitler seu terceiro chefe, chamou-me ao telefone; eu teria de ir com ele a Weimar no dia seguinte, a fim de acompanharmos Hitler a Nuremberg. Estive desenhando, até à madrugada, projetos de que me ocupara desde algum tempo. Tinham de ser construídas outras grandes obras para os congressos do partido, um campo para as revistas militares, um grande estádio, um salão para os discursos culturais de Hitler e concertos sinfônicos. Por que não incorporar tudo isso ao já existente e formar um grande centro? Até então eu não me atrevera a tomar a iniciativa em questões semelhantes, pois a iniciativa era coisa que Hitler reservava para si mesmo. Sendo assim, executei aqueles desenhos a título precário.

Estando em Weimar, Hitler mostrou-me o projeto de um "foro do partido", obra do Professor Schultze-Naumburg.

– Parece a praça principal, extraordinariamente grande, de uma cidade provinciana – foi a opinião dele. – Nada típico, não se diferencia das épocas anteriores. Se construirmos um foro para o partido, terá depois de dar a impressão de que foi erguido em nosso tempo, segundo nosso estilo, como, por exemplo, a Koenigsplatz de Munique.

Schultze-Naumburg, uma autoridade no Kampfbund Deutscher Kultur, não teve possibilidade de justificativa. Não foi mais convidado, Hitler não teve consideração para com a fama daquele homem e promoveu novo concurso entre diversos arquitetos de sua escolha.

Depois fomos à casa de Nietzsche, onde nos esperava sua irmã, a Sra. Forster-Nietzsche. Era evidente que aquela mulher de tendências excêntricas não podia entender-se com Hitler. O ambiente tornou-se tenso e a conversação derivou para a superficialidade. No entanto, o assunto principal resolveu-se com satisfação para todos. Hitler encarregou-se de financiar a construção de um anexo à velha casa de Nietzsche. A Sra. Forster-Nietzsche concordou em que o arquiteto Schultze-Naumburg elaborasse os planos respectivos.

– Ele se adaptará melhor ao aspecto da velha casa – comentou Hitler, visivelmente contente por poder proporcionar àquele arquiteto uma pequena compensação.

Na manhã seguinte, continuamos nossa viagem de automóvel rumo a Nuremberg, embora, naquele tempo, Hitler preferisse o trem por motivos que vim a saber naquele mesmo dia. Como sempre, ele ia sentado ao lado do motorista, em um Mercedes conversível, de sete litros, de cor azul-escura. Eu ia sentado atrás dele, ao lado do criado, que, se fosse necessário, podia tirar de uma bolsa mapas de estradas, guloseimas, pastilhas. No assento traseiro, sentavam-se o ajudante-de-ordens Brückner e o chefe de imprensa, Dr. Dietrich. Em um carro de escolta, do mesmo tamanho e da mesma cor que o Mercedes, viajavam cinco homens vigorosos da seção de escolta e o médico particular, o Dr. Brandt.

Mal chegamos ao outro lado do bosque da Turíngia, começaram os embaraços. Estávamos em uma zona muito povoada. Ao passarmos por um povoado, fomos reconhecidos, mas conseguimos nos afastar antes que a população se manifestasse.

– Preste atenção – observou Hitler. – Quando chegarmos a outra localidade já não será tão fácil nos desvencilharmos. Com toda a certeza, o pessoal daqui já avisou por telefone os habitantes da outra povoação.

Realmente, quando chegamos as ruas estavam cheias de cidadãos jubilosos. O agente policial fazia o possível para cumprir o seu dever, mas o automóvel só podia rodar muito lentamente. Mal havíamos conseguido abrir caminho, quando alguns entusiastas fecharam a passagem de nível, na estrada, para Hitler ser detido e assim receber os cumprimentos daquela gente. Daquela forma, era quase impossível continuarmos a viagem. Chegando a hora do almoço, desviamo-nos para uma pequena pousada em Hildburgshausen, onde anos antes Hitler tinha obtido nomeação de comissário dos gendarmes, para conseguir a nacionalidade alemã, fato que ele nunca mencionou. Os donos e empregados estavam alvoroçados. Custou ao ajudante-de-ordens pedir a comida: espaguetes com ovos.

Estivemos esperando muito tempo, e, finalmente, o ajudante-de-ordens foi dar uma vista de olhos na cozinha, voltando para dizer:

– As mulheres estão excitadas, a ponto de não saberem se há espaguetes ou não.

Enquanto isso, do lado de fora tinham se reunido milhares de pessoas que aos gritos chamavam por Hitler.

– Quem nos dera já estivéssemos longe daqui! – disse o Fuhrer.

Lentamente e sob uma chuva de flores, chegamos afinal à porta da cidade, em estilo medieval. Moços fecharam-na diante de nós, enquanto os meninos subiam aos pára-lamas. Hitler teve de distribuir autógrafos. Então, rindo, abriram a porta, sendo nisso auxiliados por Hitler.

No campo, em toda parte, os camponeses detinham-se e as mulheres acenavam. Era uma viagem triunfal. Enquanto o automóvel rodava, Hitler, recostando-se no assento, voltou-se para mim, dizendo:

– Até agora, só um alemão foi recebido assim, antes de mim: Lutero. Quando ele percorria o país, toda a gente acudia em massa para vê-lo e alojá-lo, como estão fazendo hoje comigo.

Essa grande popularidade era perfeitamente compreensível. O povo atribuía unicamente a Hitler os êxitos obtidos no terreno econômico e na política exterior. Viam nele, cada vez mais, o homem capaz de realizar a aspiração, profundamente enraizada, de uma Alemanha poderosa, segura de si mesma e unida. Os desconfiados eram apenas uma minoria. Quem, uma vez ou outra, sentisse dúvidas, estas seriam desfeitas, quando pensasse nos êxitos e no respeito que usufruía o regime em países estrangeiros.

Durante aquela embriaguez tributada pela gente do campo, em face da qual eu me sentia também fascinado, em um dos nossos carros havia um ambiente intranqüilo, provocado por Schreck, motorista que estava há muitos anos a serviço de Hitler. Eu ouvia trechos da conversa: "estão descontentes por", "a gente do partido envaideceu-se", "orgulhosos, esquecidos da sua origem". Depois da sua morte prematura, no gabinete particular de Hitler, em Obersalzberg, estavam pendurados juntos um quadro a óleo de Schreck e uma pintura da mãe de Hitler. Mas não havia nenhuma fotografia do pai.

Pouco antes de chegar a Bayreuth, Hitler entrou sozinho em um pequeno Mercedes, fechado, conduzido por seu fotógrafo particular Hoffmann. Aquele carro, sem ser reconhecido, chegou à quinta Wahnfried, onde o esperava a Sra. Winifred Wagner. Nós nos dirigimos ao balneário de Berneck, nas proximidades, onde Hitler costumava passar a noite, quando viajava de Munique a Berlim em automóvel. Em oito horas, tínhamos percorrido somente duzentos e dez quilômetros.

Quando eu soube que Hitler sairia da casa Wahnfried já tarde da noite, senti-me levemente confuso. Na manhã seguinte, a viagem deveria prosseguir, rumo a Nuremberg. Era muito possível que Hitler resolvesse lá o programa das obras, de acordo com os desejos da administração municipal, que tratava dos seus próprios interesses. Se a administração municipal conseguisse impor-se, não haveria nenhuma possibilidade de meu projeto ser tomado em consideração, porquanto muito desagradava a Hitler voltar atrás em sua decisão. Naquela noite, falei somente com Schreck, a quem expliquei meu projeto para os terrenos do partido. Ele prometeu-me falar a Hitler sobre o assunto, durante a viagem, e apresentar-lhe os desenhos, no caso de sua reação ser positiva.

Na manhã seguinte, pouco antes de começar a viagem, fui chamado ao gabinete de Hitler:

– Estou de acordo com seu projeto. Hoje mesmo falaremos a respeito com o Prefeito Liebel.

Dois anos mais tarde, Hitler dirigia-se ao prefeito para falar-lhe diretamente das suas idéias.

– Aqui está o projeto para os terrenos do partido e queremos que se faça assim.

Mas, em 1935, não se sentia ainda tão autoritário; necessitou de uma hora de explicações preliminares, antes de abrir sobre a mesa o meu desenho. Desde logo, o prefeito achou extraordinária a minha idéia, pois sendo um antigo camarada do partido estava habituado a concordar com a opinião dos chefes.

Depois dos elogios ao meu plano, Hitler iniciou uma sondagem no ambiente, pois o meu projeto implicava a mudança do jardim zoológico.

– Podemos esperar o consentimento dos habitantes da cidade? Sei que estão muito afeiçoados ao jardim, e, certamente, teremos de custear a instalação de um novo, sem dúvida mais bonito.

O prefeito, que era também um bom defensor dos interesses da sua cidade, esclareceu:

– Teremos de convocar os acionistas. Talvez tentar comprar-lhes as ações.

Hitler esteve de acordo com tudo. Na rua, Liebel, esfregando as mãos, disse a um dos seus colegas de administração:

– Por que o Fuhrer esteve tanto tempo tentando convencer-me? Naturalmente, o atual jardim zoológico será dele e nós teremos um novo. O velho já não tinha valor. Agora, vamos ter o mais belo jardim zoológico do mundo. E, além disso, receberemos dinheiro.

Dessa forma, os habitantes de Nuremberg obtiveram o seu novo zoológico. Foi a única obra realizada, em todo o projeto aprovado naquele tempo.

No mesmo dia, fomos de trem a Munique. O ajudante-de-ordens, Brückner, chamou-me depois ao telefone:

– O diabo leve o senhor e o projeto! O senhor não podia ter esperado? O Fuhrer não pregou olhos, durante a noite inteira, tal a sua excitação. Na próxima vez, o senhor faça-me o favor de falar antes comigo!

Para a realização daquele projeto, foi criada uma organização denominada Associação para Tratar do Aproveitamento dos Terrenos do Partido em Nuremberg, encarregando-se do financiamento, muito contra a vontade, o ministro da Fazenda do Reich. Hitler nomeou, para a presidência, Kerrl, ministro dos Cultos do Reich, e seu suplente Bormann, que assim obteve pela primeira vez, à margem da chancelaria do partido, um cargo oficial de importância.

Dois anos depois de ter sido aprovado por Hitler, meu projeto para os terrenos do partido foi exposto em maquete, na Exposição Internacional de Paris de 1937, e distinguido com o Grand Prix. No extremo sul da instalação completa, estava o Campo de Marte. Esse nome, além de referir-se ao deus da guerra, tinha por finalidade também recordar o mês em que Hitler restabelecera o serviço militar obrigatório.

Naqueles terrenos extensos, a Wehrmacht realizaria exercícios de combate simulado, em uma superfície de mil e cinqüenta por setecentos metros. Tinham-se planejado tribunas de catorze metros de altura, que rodeariam todo o terreno, com capacidade para cento e sessenta mil espectadores. Vinte e duas torres de mais de quarenta metros de altura dariam uma distribuição simétrica às tribunas, uma das quais seria a de honra, encimada por uma estátua de mulher. Ao norte, exatamente na direção do antigo palácio dos Hohenzollern, via-se ao longe o Campo de Marte, com uma avenida de dois quilômetros de comprimento por oitenta metros de largura. Tinha-se previsto que a Wehrmacht desfilaria diante de Hitler, em formações com cinqüenta metros de largura. Essa avenida, terminada antes da guerra, foi revestida de grossas lajes de granito, bastante fortes para resistirem ao peso dos tanques. O chão tinha sido raspado a fim de que os soldados pudessem pisar com firmeza, durante os desfiles. À direita levantava-se uma construção com escadas, na qual Hitler, rodeado dos generais, presidiria ao desfile. Do outro lado, à frente, estava uma galeria, sustentada por pilares, onde se colocariam as bandeiras dos regimentos.

Essa galeria de pilares, com dezoito metros de altura somente, serviria de medida comparativa para o "grande estádio" que se levantaria por trás, para o qual Hitler estabelecera a capacidade de quatrocentos mil espectadores.

Calculamos que o Estádio de Nuremberg custaria de duzentos a duzentos e cinqüenta milhões de marcos, ou seja, cerca de 1 bilhão de marcos de agora, segundo os preços atuais da construção. Hitler não fez nenhum reparo:

– É menos dinheiro do que o do custo dos couraçados do tipo Bismarck. Um couraçado pode ser destruído rapidamente; e, quando não, de qualquer maneira, depois de dez anos, será reduzido a ferro velho. Mas esta obra durará séculos. Evite responder ao ministro da Fazenda, quando ele perguntar pelo preço. Diga-lhe que ainda não se tem experiência de projetos dessa grandeza.

Encomendou-se granito no valor de alguns milhões de marcos, vermelho-claro para a parte externa e mais claro para a tribuna dos espectadores. No local da obra foi aberto um fojo gigantesco para depósito dos cimentos, que se transformou num pitoresco lago, durante a guerra, e fazia presumir a gigantesca grandeza da construção.

Mais ao norte do estádio, a avenida para os desfiles passava por cima de uma superfície líquida, na qual se refletiriam as obras, seguindo-se-lhe, para terminar, uma praça à direita da qual se encontraria a Sala dos Congressos, ainda existente hoje, ao passo que, do lado esquerdo, estaria fechada por uma "sala cultural", a qual seria expressamente construída para Hitler dispor de um local adequado para os seus discursos culturais.

Excetuando-se a Sala dos Congressos, já desenhada em 1933 pelo arquiteto Ludwig Ruff, Hitler designara-me arquiteto de todas as obras levantadas nos terrenos do partido. Deixou-me as mãos livres, quanto a planos e realizações, desde então, todos os anos procedendo à colocação de uma pedra fundamental. Essas pedras, logo depois da cerimônia, eram levadas ao depósito municipal, para depois serem de novo levadas ao seu lugar, quando a obra estivesse bastante adiantada. Quando se colocou a primeira pedra do estádio, no dia 9 de setembro de 1937, Hitler apertou-me a mão, cerimoniosamente, diante de todos os hierarcas do partido, dizendo-me:

– Este é o maior dia da sua vida.

Talvez eu já fosse cético, porquanto observei-lhe:

– Hoje, não, meu Fuhrer, e sim quando a obra estiver terminada.

Nos começos de 1939, diante dos operários da construção, Hitler teve a intenção de justificar o alcance do seu estilo arquitetônico com as seguintes palavras:

– Por que sempre o maior? Faço-o para infundir nos alemães a confiança neles mesmos, para se poder dizer a cada pessoa, em centenas de campos: "De modo nenhum somos inferiores, mas, ao contrário, estamos inteiramente em situação de igualdade com qualquer outra nação".

Não se deve atribuir única e exclusivamente à forma de governo essa tendência ao gigantismo. O enriquecimento rápido concorre para isso tanto quanto a necessidade de se exibirem as próprias forças, sejam quais forem as razões. No entanto, o afã de Hitler no exagero das dimensões ia além daquilo que confessou ante os trabalhadores. O tamanho máximo tinha por objetivo glorificar sua obra, aumentar a confiança em si mesmo. A finalidade de se erguerem aqueles monumentos era indicar a existência de uma pretensão ao domínio do mundo, antes mesmo de o próprio Hitler atrever-se a confessá-lo aos seus mais íntimos colaboradores. Também eu senti-me embriagado pela idéia de criar história esculpida em pedra com auxílio de desenhos, dinheiro e empresas construtoras, podendo portanto crer, antecipadamente, que eu tinha direito a uma reivindicação milionária. Também suscitei o entusiasmo de Hitler, quando pude demonstrar-lhe que, pelo menos quanto a dimensões, nós tínhamos ultrapassado obras historicamente afamadas. Mas, em tais ocasiões, ele era sempre comedido em seu entusiasmo, expresso em sóbrias palavras. Talvez se sentisse então envolto em uma certa veneração por ele mesmo, imaginando essa concepção da própria grandeza projetada no futuro.

No congresso do partido, em 1937, quando Hitler colocou a primeira pedra do estádio, concluiu seu discurso com esta frase: "A nação alemã tem agora seu império germânico". Brückner, ajudante-de-ordens de Hitler, contou que durante o almoço depois daquela cerimônia o Marechal von Blomberg derramara lágrimas de emoção. Hitler interpretou isso como plena aprovação do significado fundamental das palavras que pronunciara.

Naquela época falou-se muito que tais misteriosas palavras tinham por objetivo iniciar uma nova fase em uma política de grande alcance. Seria muito aquilo que se originaria delas. Eu sabia, mais ou menos, qual era a intenção de Hitler ao pronunciá-las, pois, poucos dias antes, em uma ocasião, inesperadamente, Hitler deteve-me na escada do seu domicílio, deixando que passassem os demais membros da sua comitiva. E disse-me:

– Edificaremos um grande império, reunindo todos os povos germânicos. Desde a Noruega até o norte da Itália. Serei eu, pessoalmente, quem o vai fundar. Só necessito de saúde.

Mas tratava-se de um projeto ainda muito reservado. Na primavera de 1937, Hitler visitou-me nos seus locais de exposição, em Berlim. Estávamos sós, diante da maquete de mais de dois metros de altura do estádio com capacidade para quatrocentas mil pessoas. A maquete achava-se exatamente à altura dos olhos e apresentava todos os detalhes que a obra teria, no futuro. Iluminada por poderosos refletores cinematográficos, a maquete nos possibilitava fantasiar o que seria a obra, na realidade. Os desenhos estavam fixados em pranchetas, ao lado da maquete. Hitler fixou o olhar neles. Falamos de jogos olímpicos. Como em vezes anteriores, chamei-lhe a atenção para o fato de não ter o meu campo de esportes as dimensões olímpicas prescritas. Sem alterar a voz, como se se tratasse de coisa lógica, compreensível, indiscutível, Hitler disse:

– Isso não tem importância. Os jogos olímpicos serão realizados outra vez em Tóquio no ano de 1940. Mas depois se realizarão sempre na Alemanha, neste estádio. Seremos nós que determinaremos as dimensões do campo de esportes.

De acordo com nosso plano de trabalho, cuidadosamente calculado, o estádio estaria concluído para o congresso do partido em 1945...

 

                                         A GRANDE MISSÃO

Hitler estava passeando inquieto, dando passos acima e abaixo no jardim de Obersalzberg.

– Realmente, não sei que fazer. Trata-se de uma decisão grave. De boa vontade eu faria aliança com os ingleses, mas, no decurso da história, eles têm mostrado que não são um povo muito fidedigno. Se eu me colocar ao lado deles, então acabarão para sempre as relações entre a Itália e nós. Se os ingleses se afastarem de mim, nós ficaremos nadando entre duas águas.

Assim costumava ele falar, no outono de 1935, aos membros do seu reduzido círculo em Obersalzberg. Naqueles dias, Mussolini tinha começado a invadir a Abissínia, flagelando-a com fortes ataques aéreos. O negus fugira, e tinha sido proclamado o novo Império Romano. Depois da sua visita oficial à Itália, em junho de 1934, visita que não deu grandes resultados, Hitler nutria desconfiança, se não em relação a Mussolini, pelo menos para com os italianos e a política da Itália. Para aumentar suas dúvidas, agora, lembrava-se de uma recomendação do testamento político de Hindenburg, segundo a qual a Alemanha jamais deveria marchar ao lado da Itália. Sob a pressão da Inglaterra, a Sociedade das Nações impôs sanções econômicas à Itália. Como faria mais tarde, agora Hitler era de opinião que tinha de decidir-se a colaborar com os ingleses ou com os italianos. Uma decisão de grande alcance. Falava da sua disposição em garantir aos ingleses o império, em troca de um acordo global. No entanto, as circunstâncias não lhe permitiram nenhuma escolha; ele foi forçado a decidir-se por Mussolini.

Não foi uma decisão fácil, apesar da afinidade ideológica e das relações de cunho pessoal que se estavam iniciando. Todavia, alguns dias depois, Hitler mostrava-se deprimido pelo fato de que a situação o tivesse obrigado a dar esse passo. Por isso, mostrou-se aliviado quando, algumas semanas depois, se comprovou que ias medidas de sanção, finalmente impostas à Itália, respeitavam essa nação, justamente nos pontos decisivos. Hitler deduziu daí que nem a França nem a Inglaterra queriam correr o risco e desejavam evitar todo perigo. O que mais tarde foi classificado como vontade de um ânimo decidido foi o resultado de tais experiências. Segundo então observou, como conclusão dos seus raciocínios, os regimes ocidentais se tinham mostrado débeis e sem energias para adotar uma decisão.

Além disso, estas idéias de Hitler foram reforçadas quando as tropas alemãs, no dia 7 de março de 1936, entraram na Renânia desmilitarizada. Isso era uma flagrante violação do Pacto de Locarno e teria justificado uma contra-ofensiva militar das potências interessadas. Hitler esperou nervoso as primeiras reações. No trem especial em que viajamos a Munique no entardecer daquele dia, sentia-se uma atmosfera tremendamente tensa, que se estendia a todos os outros carros, irradiada desde o lugar onde se achava Hitler. Ao chegar a uma estação recebemos uma notícia, e Hitler respirou:

– Enfim! O rei da Inglaterra não intervém. Mantém a palavra. Por conseguinte tudo poderá ir muito bem.

A reação de Hitler mostrava seu desconhecimento das escassas possibilidades constitucionais da coroa inglesa em face do Parlamento e do governo. Contudo, uma intervenção militar talvez tivesse necessitado de um consentimento do rei e talvez tenha sido esse o fato a que Hitler aludia. De qualquer modo, suas preocupações eram consideráveis. No entanto, mais tarde, quando estava em guerra com quase todo o mundo, dizia que a mais ousada de todas as suas iniciativas fora a entrada na Renânia.

– Não dispúnhamos de um exército digno desse nome. Não teria tido sequer a força de combate suficiente para impor-se à Polônia. Nós teríamos sido facilmente vencidos, se os franceses se tivessem mostrado resolutos. Nossa resistência teria capitulado em um par de dias. E as forças aéreas que possuíamos eram ridículas: alguns JU 52 da Lufthansa, e para eles não dispúnhamos sequer de bombas suficientes.

Depois da abdicação do Rei Eduardo VI, mais tarde Duque de Windsor, ele falava freqüentemente da aparente compreensão daquele homem em relação ao nacional-socialismo alemão:

– Estou certo de que com ele teria sido possível efetivarem-se relações amistosas com a Inglaterra. Tudo teria sido diferente com ele. Sua abdicação foi uma dura perda para nós.

Estas observações eram acompanhadas de outras a respeito de potências inimigas da Alemanha, decisivas para o curso da política britânica. Sua mágoa por não colaborar com a Inglaterra estendeu-se como um véu roxo por todos os anos do seu domínio. Esse sentimento aumentou quando o Duque de Windsor e sua esposa visitaram Hitler, no dia 22 de outubro de 1937, em Obersalzberg. É de se presumir que o duque se exprimiu de maneira favorável sobre as conquistas realizadas pelo Terceiro Reich.

Alguns meses depois da entrada do Exército alemão na Renânia, sem oposição de ninguém, Hitler mostrou-se contente pela atmosfera de harmonia reinante durante os Jogos Olímpicos. O mau humor internacional tinha-se dissipado, evidentemente. Hitler deu instruções para que os numerosos personagens estrangeiros tivessem a impressão de uma Alemanha de sentimentos pacíficos e acompanhou, muito excitado, as competições esportivas. Se qualquer êxito alemão inesperado – foram muitos – fazia-o feliz, reagia com muito aborrecimento à série de vitórias obtidas pelo maravilhoso corredor norte-americano Jesse Owens. Levantando os ombros, Hitler era de opinião que os homens cujos antepassados procediam da selva eram seres primitivos, de constituição mais atlética do que a civilizada raça branca. Não eram, dizia ele, pessoas com as quais se pudesse estabelecer uma comparação, sob o ponto de vista de competição, e, por conseguinte, teriam de ser excluídos dos futuros jogos e competições esportivas.

O que produziu maior impressão em Hitler foi o júbilo frenético dos berlinenses à entrada solene do grupo francês no estádio olímpico. Esse grupo desfilou diante de Hitler com a mão para o alto, provocando assim um entusiasmo espontâneo em muitos espectadores. Mas Hitler sentia no prolongado aplauso do público uma voz popular, impelida pelo anseio de paz e de entendimento com o país vizinho ocidental. Se estou interpretando acertadamente o que observei naquela ocasião, Hitler sentiu-se antes intranqüilo em vez de alegre por aquela explosão de alegria dos habitantes de Berlim.

Na primavera do ano de 1936, inspecionei junto com Hitler um trecho da auto-estrada. Hitler externou naquela ocasião a seguinte observação:

– Mas vou ainda encarregá-lo de outro trabalho, o maior de todos.

A coisa resumiu-se nessa insinuação. Hitler não disse qual era a obra.

Algumas vezes, traduzia em esboços algumas idéias relacionadas com a planta de Berlim. Mas só em junho é que Hitler me mostrou um plano do centro daquela cidade:

– Já expliquei muitas vezes e detalhadamente ao prefeito por que esta avenida há de ter cento e vinte metros de largura; agora ele me desenha uma de somente noventa.

O prefeito, Dr. Lippert, antigo camarada do partido e redator-chefe do periódico berlinense Angriff, foi novamente chamado, umas semanas mais tarde. Mas nada havia mudado e a rua continuava com noventa metros de largura. Lippert sentia pouco entusiasmo pelos projetos de obras de Hitler.

No princípio, Hitler mostrou-se apenas um pouco aborrecido, dizendo que Lippert era um homem de vistas estreitas, incapaz de administrar uma cidade cosmopolita e ainda mais incapaz de compreender a importância histórica das obras projetadas.

As observações de Hitler a respeito do prefeito foram subindo de entono no decorrer do tempo: "Lippert não sabe nada; é um idiota, um frustrado, um zero à esquerda". O surpreendente era que Hitler jamais expressara seu descontentamento na presença do prefeito, nem tampouco intentara jamais convencê-lo.

Naquela época, às vezes parecia evitar o enfado de expor razões. Quatro anos depois, em um passeio da sua residência na montanha à casa de chá, durante o qual falou irritado de Lippert, comunicou-se com Goebbels, ordenando-lhe categoricamente que demitisse o prefeito. Sem dúvida, até o verão de 1936, Hitler estivera supondo que a administração municipal estudasse os planos projetados para Berlim. Agora, mandou-me que fosse falar-lhe e sem nenhum rodeio ordenou-me que tratasse do assunto.

– Nada se tem que fazer com esta cidade. De hoje em diante o senhor está encarregado do projeto. Leve este esboço. Quando estiver terminado, mostre-o. O senhor sabe que eu sempre tenho tempo para estas coisas.

Segundo me disse Hitler, suas idéias a respeito de uma rua muito larga vinham desde o tempo em que vira uns planos insuficientes para Berlim. Já naquela época adotara a resolução de mudar as estações de Anhalt e Potsdam para o sul do Aeródromo de Tempelhof. Assim ficariam livres no centro da cidade grandes áreas, que permitiriam vias de acesso da Segesallee para uma magnífica via de cinco quilômetros de comprimento, flanqueada de edifícios de grande estilo. Todas essas grandes construções de Berlim foram ultrapassadas por duas obras que Hitler pretendia levantar nessa nova avenida de edifícios representativos. No extremo norte, próximo ao edifício do Reichstag, previa uma gigantesca sala de reuniões, uma construção com uma cúpula, na qual caberiam várias catedrais da dimensão da de São Pedro em Roma. O diâmetro da cúpula teria duzentos e cinqüenta metros. Dentro dela, em uma superfície de cerca de trinta e oito mil metros quadrados, poderiam reunir-se mais de cento e cinqüenta mil pessoas. A alguma distância da estação do sul, como pólo oposto a esta sala, Hitler tinha a intenção de erguer um arco de triunfo com a altura de cento e vinte metros. Hitler explicou que uma discussão com pessoas habilitadas lhe havia feito pensar em um diâmetro de mais de duzentos metros para a cúpula e em uma altura de mais de cem para o arco de triunfo. O mais assombroso em tudo isso não era tanto a idéia das dimensões, como a surpreendente obsessão com que planejava monumentais obras de triunfo, quando ainda não havia sequer um mínimo de esperança de que seriam executadas.

Nas conversas que quase sempre se realizavam na chancelaria do Reich, dizia ele:

– Berlim é uma grande cidade, mas não cosmopolita. Veja o senhor Paris, a mais bela cidade do mundo. Ou mesmo Viena. São cidades afamadas, mas Berlim não é mais do que um irregular amontoamento de edificações. Temos de ultrapassar Paris e Viena.

Nos anos anteriores, Hitler estudara, atentamente, as plantas de Paris e de Viena. Quando conversávamos, vinha-lhe à memória toda classe de detalhes. Quando se tratava de Viena, admirava a criação urbanística da Ringstrasse, com suas grandes edificações, a Municipalidade, o Parlamento, a Sala de Concertos, o Palácio Imperial e os museus. Era capaz de reproduzir, exatamente, no papel, essa parte da cidade. Sabia que os grandes edifícios, assim como os monumentos, têm de ser projetados de modo que sejam visíveis de todos os lados. Admirava essas construções, ainda quando não se adaptassem bem à sua compreensão das coisas, como ocorria, por exemplo, com a Municipalidade, de estilo neogótico.

– Viena está dignamente representada. Ao contrário, veja a Municipalidade de Berlim. Mas pode ter certeza de que a futura Municipalidade será mais bonita do que a de Viena.

Estava ainda mais impressionado pelas aberturas de ruas, pelos novos bulevares abertos por Georges E. Haussmann em Paris, no período de 1853 a 1870, gastando dois milhões e quinhentos mil francos-ouro. Considerava Haussmann um dos grandes urbanistas da história, mas que eu o ultrapassaria, tal era a sua esperança. A oposição a Haussmann, durante muitos anos, fazia Hitler temer que os projetos para Berlim encontrariam também resistências. Mas, na sua opinião, a sua autoridade conseguiria sobrepor-se a qualquer oposição.

Certamente, no princípio, usou de argúcia para vencer a administração municipal, contrária a tais projetos, pois opinava que os planos de Hitler eram um presente funesto, uma vez que caberia ao município fornecer as enormes somas para a abertura e construção das ruas, das instalações públicas e das autopistas.

Ele dizia então:

– Vamos cuidar por algum tempo de projetos relacionados com a construção da nossa nova capital, às margens do Müritzsee, em Mecklemburgo. O senhor vai ver que, quando os berlinenses sentirem o perigo de o governo do Reich mudar sua sede para outro lugar, eles ficarão despertos.

De fato, foram suficientes algumas insinuações nesse sentido para que os vereadores se mostrassem dispostos a aceitar os gastos necessários à planificação das obras. Contudo, durante alguns meses, Hitler sentiu prazer em pensar em uma "Washington alemã", imaginando como poderia sair do nada uma "cidade ideal".

Depois repeliu a idéia:

– As cidades artificialmente edificadas permanecem sempre mortas. Pense em Washington ou Canberra. Nem há vida em nossa Karlsruhe, pois os nossos anquilosados funcionários vivem ali encerrados em seu próprio círculo.

Neste particular, ainda não cheguei à conclusão sobre se Hitler estava representando uma comédia comigo ou se alguma vez pensara seriamente no assunto. De qualquer modo, para a execução de tais projetos, Hitler, mediante o subsecretário Lammers, baixou um decreto concedendo-me amplos poderes, colocando-me imediatamente sob suas ordens. Nem o ministro do Interior, nem o prefeito de Berlim, nem o chefe distrital de Berlim (Goebbels) teriam prerrogativas para decisões ante mim. Além disso, Hitler dispensou-me, expressamente, da obrigação de informar dos meus projetos à cidade e ao partido. Quando lhe manifestei meu desejo de proceder como arquiteto independente, Hitler deu o seu assentimento. O subsecretário Lammers encontrou um dispositivo legal que atendia à aversão de Hitler em relação ao funcionalismo. Meu departamento adquiriu o caráter de grande instituto de investigação independente.

Em janeiro de 1937, Hitler confiou-me, oficialmente, "a maior entre as obras de construção". Esteve muito tempo buscando um título altissonante, que inspirasse respeito, até que Funk encontrou a solução: "inspetor-geral das obras de reorganização da capital do Reich". Entregando-me a nomeação, mostrou-se quase tímido, atitude reveladora de seu comportamento para comigo. Depois do almoço, apertou-me a mão e disse: "Seja feliz". A partir daquela ocasião, interpretando meu contrato de maneira generosa, foi-me atribuída a categoria de subsecretário do governo do Reich. Desde aquele dia, aos trinta e dois anos de idade, sentei-me junto do Dr. Todt, na terceira fila das poltronas nas reuniões do gabinete. Cabiam-me os vencimentos de mil e quinhentos marcos mensais, quantia insignificante em relação aos meus honorários de arquiteto. Em fevereiro daquele mesmo ano, Hitler, sem rodeios, ordenou ao ministro da Educação que me cedesse, para o meu serviço, o venerável edifício da Academia de Belas-Artes, na Pariser Platz.

A idéia de urbanização concebida por Hitler apresentava uma grande desvantagem: não fora concebida até o fim. Ele se obstinara a tal ponto no projeto de um "Champs-Élysées" berlinense que perdeu de vista, por inteiro, a estrutura da cidade de quatro milhões de habitantes. Para um urbanista, uma avenida como aquela só poderia ter sentido e função sendo o núcleo de uma nova ordem urbanística. Para Hitler, ao contrário, era um elemento de esplendor decorativo e tinha nela mesma a sua finalidade. Nem se solucionava também o problema do tráfego. A gigantesca cunha naquele sistema de ruas, dividindo a cidade em duas partes, poderia apenas ser deslocada alguns quilômetros para o sul.

O diretor-geral, Leibbrand, do quadro do Ministério de Transportes e Comunicações do Reich, projetista-chefe da rede ferroviária do Reich, naquela época, viu nos planos de Hitler a possibilidade de uma grande reforma de toda a rede de viação da capital do Reich. Juntos encontramos uma solução. Assim, tivemos a possibilidade de prosseguir na abertura da avenida, rumo ao sul, aproveitando as antigas instalações das vias férreas. Dessa maneira, obtivemos essas instalações, isto é, no coração da cidade, somente a cinco quilômetros de distância, uma grande superfície livre para uma nova cidade de quatrocentos mil habitantes. Também, pelo norte, a derrubada da Estação de Lehrt dava-nos a possibilidade de continuar o eixo da avenida, para a abertura de novos terrenos habitados. Mas nem Hitler nem eu tínhamos a intenção de renunciar à sala com a cúpula para remate da grande avenida. A gigantesca praça fronteira deveria permanecer livre de trânsito.

Era lógico também o prolongamento da Heerstrasse, com a mesma largura, uma rua de saída a oeste, já existente na largura de sessenta metros. Esse projeto foi realizado em parte, depois de 1945, mediante a reforma da antiga Frankfurter Allee. O primitivo projeto de Hitler, relativo a uma grandiosa avenida, destituído de sentido urbanístico, ia-se transformando, à medida que o reelaborávamos, e adquiria uma nova dimensão construtiva. Comparada com essa extensa reorganização, a idéia inicial de Hitler quase não tinha importância. Pelo menos no que diz respeito ao alcance da planificação urbanizadora, eu havia ido além das grandes concepções ideadas por Hitler. Isso era coisa que raramente ocorrera em sua existência. Não vacilava no seu assentimento a todas aquelas alterações, deixando-me as mãos livres, mas não era capaz de sentir entusiasmo por aquela parte do projeto. É verdade que examinava as plantas, algo desatento, para afinal perguntar com um tom de aborrecimento:

– Onde estão os planos novos para a grande avenida?

Não deixava porém de referir-se à primitiva parte central da avenida ideada inicialmente por ele. Depois falava com prazer dos edifícios administrativos, das grandes Casas comerciais, de um novo teatro de ópera, de hotéis de luxo, de palácios de recreio. E eu participava dessa satisfação. No entanto, eu compreendia o projeto total em relação com os edifícios representativos. Hitler, ao contrário, com sua paixão por obras de duração perene, desinteressava-se totalmente das necessidades imperativas do tráfego, dos terrenos edificáveis, dos espaços verdes, mostrando-se indiferente ao espaço social. Hess, ao contrário, interessava-se unicamente na construção de vivendas. Mal reparava na parte ostentosa dos nossos projetos, razão pela qual me fez algumas observações, no fim de uma das suas visitas. Prometi-lhe empregar nas vivendas uma espécie de ladrilho, utilizada em grandes edifícios. Hitler mostrou-se desagradavelmente surpreendido quando soube disso e falou da primazia das suas exigências. No entanto, nossa combinação continuou.

Ao contrário do que muitos supunham, eu não era um arquiteto-chefe de Hitler, que tivesse sob suas ordens todos os demais. Os arquitetos encarregados da reforma de Munique e Linz foram ao mesmo tempo providos de plenos poderes, semelhantes aos meus. No decorrer do tempo, Hitler foi empregando um número de arquitetos cada vez maior, para empreitadas especiais, talvez dez ou doze, antes de começar a guerra.

Durante as deliberações relacionadas com a edificação, manifestava-se a capacidade de Hitler para compreender rapidamente um projeto, reunindo o plano e as perspectivas para formar uma imagem plástica em sua mente. Apesar de todos os negócios do Estado, embora se tratasse com freqüência de dez e até quinze obras, nas mais diversas cidades, podia no momento, mesmo depois de meses, recordar os esboços em uma nova exposição. Geralmente mantinha-se reservado e atencioso durante as deliberações. Propunha sempre seus desejos de modificação com muita amabilidade, em um tom de voz diferente daquele usual perante seus colaboradores políticos. Convencido da responsabilidade dos arquitetos, na construção da sua obra, fazia com que fosse o arquiteto e, não O chefe regional acompanhante quem dissesse a última palavra. Não queria que se intrometesse nas explicações nenhuma autoridade superior leiga na matéria. Se uma das suas idéias se opunha à de um arquiteto, Hitler, de modo nenhum, insistia em que prevalecesse sua vontade.

– Se o senhor tem razão, então está melhor.

Assim, tive a sensação de ser pessoalmente responsável por tudo quanto eu desenhasse sob as ordens de Hitler. Freqüentemente, nossas opiniões divergiam, mas não me lembro de nenhum caso em que ele me forçasse a aceitar a sua. Essa relação entre arquiteto e construtor, comparativamente dotados dos mesmos direitos, foi a causa de que também eu, quando ministro dos Armamentos, desfrutasse, posteriormente, de maior independência do que a maioria dos ministros e marechais. Hitler só reagia com grosseria e sem consideração alguma quando notava no ambiente a existência de uma oposição disfarçada contra o que fosse fundamental. Assim, o Professor Bonatz, mestre de uma geração de arquitetos, não mais recebeu nenhum encargo, desde a data em que criticou as novas obras de Troost na Koenigsplatz de Munique. Nem mesmo Todt atreveu-se a pedir que Bonatz construísse algumas pontes na autopista. Bonatz foi desculpado mediante a intervenção da Sra. Troost, viúva do venerando professor.

– Por que não pode construir pontes? – perguntou aquela senhora. – Esse arquiteto é muito bom para as construções técnicas.

As palavras da viúva Troost bastaram para que Bonatz voltasse a construir pontes na autopista. De vez em quando Hitler dizia-me:

– Como eu gostaria de ser arquiteto!

E à minha resposta, de que se fosse assim eu não teria quem me encarregasse de obras, ele replicava:

– O senhor é um homem que sempre se imporia.

O comitê olímpico alemão ficou em situação desagradável, quando Hitler ordenou que o subsecretário, correspondente do Ministério do Interior, Pfundtner, lhe mostrasse os primeiros planos para a construção do estádio. Otto March, o arquiteto, previra uma construção de cimento armado e paredes de vidro, de modo semelhante ao Estádio de Viena. Hitler voltou colérico e exaltado à sua residência, aonde me tinha chamado para examinar alguns projetos. Mandou que se comunicasse, sem muitas palavras, ao subsecretário que não se realizariam os Jogos Olímpicos. Não podiam realizar-se sem a sua presença, pois o chefe do Estado teria de inaugurá-los, e ele jamais entraria em uma caixa de vidro como aquela. Durante a noite, fiz um desenho em que se previa o revestimento da estrutura com pedra natural e o emprego de fortes arquitraves, deixando sem efeito o envidraçamento. Hitler mostrou-se satisfeito.

Também, no princípio, Hitler desaprovou com dureza a participação na Exposição Internacional de Paris, em 1937, embora eu tivesse aceitado o convite e a designação do local para a instalação do pavilhão alemão. Os projetos apresentados desagradaram-lhe. O Ministério da Economia solicitou-me que fizesse um. Nos terrenos da exposição, os pavilhões da Alemanha e da Rússia seriam localizados, exatamente, um em frente ao outro, sendo isso determinado de propósito pela direção francesa daquele empreendimento. Casualmente, andando pelas ruas de Paris, eu me perdi e fui dar em um lugar onde estava exposto o desenho do pavilhão russo, até então não divulgado. Sobre um estrado elevado, um grupo de figuras de dez metros de altura parecia andar, triunfalmente, em direção ao pavilhão da Alemanha. Eu então desenhei uma massa cúbica, que assentava sobre grossos pilares, parecendo enfrentar aquele assalto. No alto da minha torre, uma águia com suástica nas garras olhava de cima o grupo soviético. O prêmio à minha construção foi uma medalha de ouro, também concedida ao meu colega russo.

Durante o almoço de inauguração do nosso pavilhão encontrei-me com o embaixador francês em Berlim, André François Poncet. Propôs-me que eu expusesse meus trabalhos em Paris, em troca de uma exposição de pintura moderna francesa em Berlim. Em sua opinião, a arquitetura francesa ficara para trás, "mas os senhores podem aprender de nós, no que diz respeito à pintura". Na primeira oportunidade, falei a Hitler, tratando-se de uma proposta que me oferecia a possibilidade de ser conhecido, internacionalmente. Hitler silenciou a respeito da minha observação, desagradável para ele. Isso não significaria, em princípio, repulsa ao meu sentimento, mas impedia que eu voltasse a falar do assunto.

Enquanto estive em Paris, vi o Palais de Chaillot, o Palais des Musées d'Art Moderne, o Musée des Travaux Publiques, ainda em construção, desenhado pelo afamado vanguardista Auguste Perret. Confundiu-me o fato de a França tender também para o neoclassicismo, na construção das suas obras representativas. Afirmava-se depois, freqüentemente, que tal estilo é característico da arquitetura dos países totalitários, o que não é exato, de modo nenhum. É a característica de uma época, em Washington, Londres, ou Paris, como em Roma, Moscou, tanto quanto em nossos projetos para Berlim.

Minha esposa e eu viajamos de automóvel, na companhia de alguns amigos. Percorremos o sul da França, vendo palácios e catedrais, indo até as muralhas de Carcassona, diante das quais sentimos algo de romântico, embora se trate de construções bélicas medievais. No hotel do castelo, encontramos um velho vinho tinto francês. E pretendíamos ficar por ali, alguns dias, supondo estarmos livres das chamadas telefônicas dos ajudantes-de-ordens de Hitler, pois ninguém sabia do nosso roteiro de viagem. Mas, à tardinha, chamaram-me ao telefone.

Aconteceu que a polícia francesa, por motivos de segurança e de controle, seguira o nosso itinerário. Estava em condições de informar o lugar onde estivéssemos, se em Obersalzberg fizessem alguma pergunta a respeito. Era então o ajudante-de-ordens Brückner que estava na outra extremidade do fio telefônico:

– Amanhã, ao meio-dia, o senhor deve estar na residência do Fuhrer.

Observei-lhe que necessitava de dois dias e meio para a viagem de regresso.

– Programaram uma conferência aqui, amanhã, à tarde. O Fuhrer exige que o senhor esteja presente.

Tentei uma débil objeção:

– No momento...

– O Fuhrer sabe onde o senhor está. Mas deve apresentar-se aqui, amanhã – foi a resposta definitiva do ajudante-de-ordens.

Senti-me desconcertado, aborrecido e perplexo. Uma conversa telefônica com o piloto de Hitler deu como resultado informar-me de que seu avião especial não podia descer na França. Disse-me que trataria de reservar-me um lugar em um avião alemão de carga, o qual, procedente da África, faria escala em Marselha às seis da manhã. Depois, o avião especial de Hitler me levaria de Stuttgart ao Aeroporto de Ainring, nas proximidades de Berchtesgaden.

Naquela mesma noite, viajamos para Marselha. Durante alguns minutos, ao luar, vimos as construções romanas, em Aries, que tinham sido o objetivo de nossa viagem. Às duas da madrugada, estávamos em um hotel de Marselha, de onde saímos três horas depois, rumo ao campo de aviação. E, segundo as ordens recebidas, à tarde eu me apresentava a Hitler, em Obersalzberg.

– Sinto muito, Sr. Speer. Eu adiei a reunião. Queria saber de sua opinião a respeito da construção de uma ponte em Hamburgo.

Naquele dia, o Dr. Todt pretendia apresentar-lhe o projeto de construção de uma ponte gigantesca, cuja extensão ultrapassaria a de Golden Gate de San Francisco. Entretanto, o início da construção daquela ponte estava previsto para o decênio dos 40, e assim Hitler poderia ter-me permitido mais uma semana de férias.

Em outra ocasião, eu tinha ido para a montanha com a minha mulher, quando recebi uma chamada telefônica do ajudante-de-ordens.

– O senhor tem de vir ver o Fuhrer, amanhã, ao meio-dia, na osteria, almoçando com ele.

E cortou minhas objeções com estas palavras:

– Não; é urgente!

Na osteria, Hitler cumprimentou-me com estas palavras:

– Parece-me estupendo que tenha vindo almoçar. Mandaram-no vir? Ontem, nada mais fiz do que perguntar: "Onde está Speer?" Mas... sabe de uma coisa? Foi bom. Por que o senhor tem de andar esquiando?

Von Neurath era mais resistente. Uma vez, altas horas da noite, Hitler mandou o ajudante-de-ordens dizer-lhe: "O Fuhrer quer falar com o ministro das Relações Exteriores". A resposta foi: "O ministro das Relações Exteriores já foi se deitar". Houve insistência: "Despertem-no! Quero falar-lhe!"

Depois de mais uma chamada telefônica, o ajudante-de-ordens apresentou-se confuso a Hitler, dizendo:

– O senhor ministro encarrega-me de dizer que estará à disposição do Fuhrer amanhã de manhã, muito cedo. Mas agora sente-se muito cansado e deseja repousar.

Hitler cedia, mas passava o resto da noite mal-humorado e não esquecia tais atitudes de independência.

 

                                                   OBERSALZBERG

Quem exerce o poder, seja o diretor de uma empresa ou o chefe de um governo, ou um déspota ditatorial, está exposto a um conflito permanente. Sua posição faz tão apetecido o seu favor que os inferiores podem ser seduzidos por este. Mas aqueles que o rodeiam não estão expostos somente ao perigo da corrupção, convertendo-se em cortesões; estão também expostos à tentação de seduzirem por sua parte o soberano, por sua manifesta submissão.

Para a valorização do homem poderoso é decisivo ver de que forma reage a este influxo permanente. Fui testemunha da conduta de industriais e militares que souberam resistir a essa tentação. Quando o poder é exercido já sobre gerações, não é raro encontrar uma certa incorruptibilidade herdada. Entre os que rodeavam diretamente Hitler, só algumas pessoas isoladas, tais como Fritz Todt, resistiam às tentações da corte. O próprio Hitler não oferecia nenhuma resistência visível a essa evolução.

As condições especiais do seu estilo de mando levaram Hitler a um crescente isolamento, mormente depois de 1937. Acrescente-se a essa circunstância a sua incapacidade para estabelecer contatos humanos. Naquela época, em nosso círculo íntimo, falávamos de uma mudança cada vez mais visível no Fuhrer. Heinrich Hoffmann acabara precisamente de publicar uma nova edição do seu livro O Hitler que ninguém conhece: A antiga edição fora retirada do mercado por causa de uma fotografia em que se via o Fuhrer, amistosamente, ao lado de Roehm, assassinado por ele. Hitler escolheu em pessoa as fotografias para a nova edição, que o mostravam jovial, sem afetação, um simples paisano. Mostravam-no de calças curtas de couro, em um barco, segurando remos, deitado na relva em um prado, andando pelo campo em companhia de jovens, ou nos estúdios de artistas. Esse livro foi o maior êxito de Hoffmann. Mas a obra era já inoportuna. Aquele Hitler que eu conhecera em 1930 tinha-se transformado em um déspota isolado, quase sem relações, inclusive para aqueles que formavam sua roda íntima.

Em um vale retirado e elevado, nos Alpes bávaros, eu encontrei uma pequena casa de montanhês bastante espaçosa para nela se colocarem algumas mesas de desenho e também, embora com algum aperto, a família e alguns auxiliares. Lá desenhamos, na primavera de 1935, os nossos planos de Berlim. Foram tempos felizes para o trabalho e minha família. Mas um dia cometi um grande erro: falei a Hitler daquela moradia idílica. Ele logo me disse:

– Mas será muito melhor para mim. Eu ponho à disposição de sua família a casa Bechstein. Na galeria envidraçada, há lugar suficiente para o seu escritório.

Nos fins de maio de 1937, também saímos daquela casa. Mudamo-nos para um edifício de escritórios, que Bormann tinha mandado construir por ordem de Hitler, segundo meus desenhos. Assim, depois de Hitler, Goering e Bormann, eu fui o quarto morador de Obersalzberg.

Bormann era o verdadeiro senhor de Obersalzberg. Mediante coação adquiriu antigas fazendas, mandou demolir as casas, arrancar cruzes e imagens existentes nas estradas, embora a comunidade das igrejas tenha protestado. Apoderou-se também de florestas do Estado. O terreno desceu desde uma altura de quase mil e novecentos metros até o vale, seiscentos metros mais abaixo, tendo portanto uma superfície de sete quilômetros quadrados. O valado em torno do recinto interno tinha uns três quilômetros, chegando a catorze o do recinto externo.

Bormann, totalmente insensível à natureza virgem, mandou abrir estradas naquela deliciosa paisagem. As veredas do bosque, até então cobertas pelas copas dos abetos, cheias de raízes, converteram-se em trilhas asfaltadas. Um quartel, uma garagem, um hotel para os convidados de Hitler, instalações para os empregados, cujo número aumentava, foram surgindo com a mesma rapidez com que se moderniza um balneário. Nos flancos da montanha, encontravam-se barracões para o alojamento de centenas de operários; nas estradas iodavam caminhões de carga, e à noite muitas obras estavam iluminadas, pois havia trabalho em dois turnos. De vez em quando, explosões atroavam pelo vale. No alto da montanha, Bormann levantou uma casa, dispendiosamente mobiliada, em estilo de transatlântico adaptado ao rústico. Chegava-se até ela por uma estrada audaciosa, terminada em uma esplanada, aberta mediante o arrebenta-mento de uma pedreira. Somente para se conseguir aquela casa, que Hitler visitou muitas vezes, Bormann gastou entre vinte e trinta milhões de marcos.

Na comitiva de Hitler havia maldizentes que falavam:

– Parece uma cidade de garimpeiros. Mas acontece que Bormann não acha ouro nenhum, ao contrário, enterra-o.

Hitler lamentava aquele desperdício, mas apenas comentava:

– Isso é coisa de Bormann. Não quero meter-me nos seus assuntos.

Em outra ocasião disse:

– Quando tudo estiver terminado, procurarei outro vale tranqüilo e lá construirei uma casinha de madeira, como a primeira.

As obras jamais terminavam. Bormann ideava sempre novas estradas e novos trabalhos. E quando, finalmente, estalou a guerra, ele começou a construir abrigos subterrâneos para Hitler e os da sua comitiva.

No verão de 1935, Hitler decidiu ampliar sua modesta quinta de montanha para transformá-la no ostentoso "palácio montanhês". Executou essa obra com seus próprios recursos, o que afinal era apenas um gesto, porquanto, para o edifício anexo, Bormann obtinha de outras fontes grandes somas que não tinham relação nenhuma com as que eram despendidas por Hitler.

Bormann não estava unido a Hitler somente por suas atividades como construtor em Obersalzberg. Também soube ir-se encarregando da administração das rendas pessoais de Hitler. Até os ajudantes-de-ordens de Hitler dependiam de Bormann. A amante de Hitler confessou-me, francamente, que ela também dependia de Bormann, porquanto Hitler deixara a cargo dele atender às necessidades financeiras de Eva Braun, aliás modestas. Hitler elogiava a habilidade de Bormann para lidar com dinheiro. Uma vez contou que Bormann, em 1932, ano de queda na produção, adquirira grande prestígio no partido por haver instituído o seguro obrigatório contra acidentes do trabalho. Segundo afirmava Hitler, a receita dessa caixa auxiliar tinha excedido a despesa, sendo os saldos destinados ao partido. Não foi menor o merecimento de Bormann ao acabar, definitivamente, depois de 1933, com as preocupações financeiras de Hitler. Teve duas fontes abundantes: junto com o fotógrafo particular de Hitler (Hoffmann) e um amigo deste, o ministro dos Correios, Ohnesorge, teve a idéia de que Hitler, pelo fato de estar sua efígie estampada nos selos postais, tinha direito a uma indenização por esse uso da sua imagem, indenização que resultaria em dinheiro. No tocante aos selos postais, isso não representaria muito, mas acontecia que o rosto de Hitler aparecia em toda classe de valores, assim canalizando-se para o bolso particular do Fuhrer alguns milhões.

Bormann descobriu outra fonte de dinheiro, ao instituir a Doação Adolf Hitler da Indústria Alemã. Os industriais que se tinham visto beneficiados pelo desenvolvimento da economia foram sem rodeios convidados a demonstrar seu agradecimento a Hitler mediante donativos voluntários. Como outros funcionários do partido já tinham tido a mesma idéia, Bormann, mediante um decreto, garantiu para ele mesmo o monopólio dessa classe de donativos. Mas era bastante inteligente para dar presentes a diversos dignitários do partido, como sendo "por encargo do Fuhrer". Quase todas as altas hierarquias do partido recebiam gratificações, oriundas daquela contribuição. É bem verdade que parecia insignificante a influência que isso poderia ter sobre o nível de vida dos diferentes chefes nacionais e regionais. Mas, no fundo, isso conferia a Bormann mais poder do que dispunham outros que gozavam de elevada posição dentro do partido.

Com aquela disposição que o caracterizava, depois de 1934 Bormann teve outra iniciativa: colocar-se sempre o mais próximo possível da fonte dos favores e das graças. Acompanhava Hitler ao Berghof, andava com ele nas viagens, e não se afastava da pessoa do Fuhrer, na chancelaria. Assim, acabou sendo um secretário diligente, fidedigno, e finalmente indispensável para Hitler. Bormann mostrava-se sempre obsequioso para com todos, dispensando favores a toda a gente, na medida das suas possibilidades, tanto mais por dar a impressão de que agia a serviço de Hitler, de um modo totalmente desinteressado. Também ao imediato de Hitler, Rudolf Hess, convinha ter esse colaborador nas proximidades de Hitler.

Decerto, naquela época, os poderosos imediatos de Hitler estavam em posição indefinida no que diz respeito a prestígio, olhando-se reciprocamente, receosos uns dos outros. Para definição de situação, houve freqüentes lutas entre Goebbels, Goering, Rosenberg, Ley, Himmler, Ribbentrop e Hess. Somente Roehm já fora estendido no chão, e Hess não tardaria em perder sua influência. Mas nenhum deles percebeu o perigo que Bormann significava para todos. Inicialmente apresentara-se como pessoa insignificante, mas aos poucos estava reforçando o seu bastão. Diante dos muitos dignitários, carecidos de consciência, Bormann destacava-se por sua brutalidade e rudeza de sentimentos.

Sem instrução suficiente para lhe opor barreiras morais, ele fazia cumprir-se o que Hitler ordenara e até mesmo aquilo que ele deduzia de insinuações do Fuhrer. Subalterno por natureza, tratava os subalternos como se estivesse lidando com bois e vacas. Era realmente um servil.

Eu evitava encontrar-me com ele. Aliás, não nos tolerávamos, nem pintados. Isso não impedia que nos tratássemos corretamente, pois assim o exigia o ambiente de Obersalzberg. Mas, excetuando-se o meu próprio escritório, não projetei nenhuma obra para Bormann.

Segundo Hitler acentuava, freqüentemente, a moradia na montanha dava-lhe tranqüilidade interior e a segurança de que necessitava para as suas decisões. Aí redigiu seus discursos mais importantes, sendo de notar a maneira como os preparava. Assim, antes do congresso do partido em Nuremberg, Hitler retirava-se, regularmente, para Obersalzberg, lá se demorando durante semanas. À medida que se aproximava a data, os secretários instavam para que ele começasse a ditar, afastando dele qualquer estorvo ou distração, inclusive planos de obras e visitantes. Mas, à medida que passavam as semanas, Hitler ia adiando a redação, para tratar do texto do discurso às pressas. De um modo geral, já era muito tarde para preparar todos os discursos. Na maioria das vezes, Hitler tinha de empregar as noites, durante o congresso, para recuperar o tempo perdido em Obersalzberg.

Eu tinha a impressão de que Hitler necessitava dessa pressão para criar, à sua maneira de artista e de boêmio, desprezando disciplina, não querendo submeter-se a uma execução regular. Deixava amadurecer o conteúdo dos seus discursos, os seus pensamentos, durante semanas de aparente inatividade, até que o já ideado, estando redigido, se atirasse com ímpeto sobre os ouvintes e partidários.

Nossa mudança para Obersalzberg não favoreceu meu trabalho. Já o decurso do dia, rotineiro, era fatigante. E aborrecido o círculo de pessoas, sempre o mesmo, em torno de Hitler. A mesma gente reunia-se em Munique e em Berlim. A única diferença, em relação a Berlim, era a presença das mulheres, que acompanhavam os maridos, as duas ou três secretárias e Eva Braun.

Hitler costumava aparecer no pavimento térreo já tarde, cerca de onze horas. Lia as informações da imprensa, recebia notícias dadas por Bormann e adotava as primeiras decisões. Seu dia iniciava-se com um abundante almoço. Os convidados reuniam-se na ante-sala, Hitler escolhia a dama que sentaria ao seu lado na mesa. Desde 1938, Bormann teve o privilégio de levar à mesa Eva Braun, que costumava sentar-se à esquerda de Hitler. Esse privilégio demonstrava a posição predominante de Bormann, na corte. O refeitório era uma combinação de rusticidade artística e elegância urbana, freqüente nas casas de campo dos ricos habitantes das cidades. As paredes e o teto estavam revestidos de madeira, as cadeiras forradas de pano vermelho-claro. Os pratos eram brancos. A baixela de prata, onde reluzia o monograma de Hitler, era igual à de Berlim. As decorações com poucas flores tinham sempre a aprovação de Hitler. O cardápio, à maneira burguesa, continha sopa, um prato de carne, pratos de creme, acompanhados de Fachinger ou vinho em garrafas. As mesas eram servidas por membros da escolta pessoal das SS, de calças pretas e jaqueta branca. Sentavam-se à mesa umas vinte pessoas, mas esta, sendo comprida, não facilitava as conversas. Hitler sentava-se no centro, diante da janela, e conversava com quem estivesse à sua frente, que não era o mesmo comensal todos os dias, ou com a senhora acompanhante.

Finda a refeição, um pouco depois, os convidados dirigiam-se à casa de chá. O caminho era estreito, permitindo a passagem apenas de duas pessoas, assim o trajeto assumia o aspecto de procissão. À frente, a alguma distância de Hitler e dos convidados, iam os agentes do Serviço de Segurança. Atrás de Hitler, com o seu companheiro de conversa, seguiam os que tinham estado à mesa, também acompanhados de agentes de segurança. Dois cães pastores corriam pelo mato, Sem ouvirem as ordens do amo, sendo essa a única oposição que havia em sua corte. Bormann aborrecia-se porque Hitler escolhia sempre aquela vereda, caminhando uma meia hora, desprezando os caminhos asfaltados, através do bosque, mas que tinham uma extensão de vários quilômetros.

A casa de chá fora construída num lugar de que Hitler gostava muito. De lá descortinava-se amplo panorama do vale de Berchtesgaden. A comitiva elogiava o panorama sempre com as mesmas palavras. Hitler concordava, sempre também com as mesmas expressões. A casa formava-se de um recinto circular com cerca de oito metros de diâmetro, com janelas envidraçadas e uma lareira. Sentavam-se em torno de uma mesa redonda, Eva Braun e uma outra senhora ao lado de Hitler. Quem não encontrasse lugar, ia para uma saleta contígua. Eram servidos à vontade chá, café ou chocolate, diversos tipos de tortas, bolos, pastéis, depois de alguns licores. Na mesa onde tomavam café, Hitler gostava de estender-se em monólogos intermináveis, cujo tema era já conhecido dos comensais, que por isso, embora distraídos, fingiam dar-lhe atenção. Uma vez ou outra cochilava. Enquanto isso, os presentes falavam em voz baixa, esperando que ele despertasse para o jantar. Era uma reunião de amigos.

A hora do chá costumava terminar quase às seis. Hitler levantava-se, e o que se diria um desfile de peregrinos dirigia-se a um local de estacionamento de carros, distante uns vinte minutos em passo normal. Regressando ao Berghof, Hitler recolhia-se aos seus aposentos, no pavimento superior, enquanto se dissolvia o grupo. Bormann, seguido dos maliciosos comentários de Eva Braun, freqüentemente desaparecia no quarto de uma das jovens secretárias.

Duas horas mais tarde, os convidados reuniam-se de novo para o jantar, com o mesmo ritual do meio-dia. Depois Hitler ia para a sala de estar, acompanhado dos mesmos convidados. A sala tinha móveis procedentes do estúdio de Troost. Os móveis eram poucos, mas de grandes dimensões: um armário de mais de três metros de altura e cinco de comprimento, para os diplomas de cidadania honorária e os discos da vitrola; uma vitrina de cristal de um classicismo afetado; uma caixa de relógio, enorme, rematada por uma águia de bronze, que parecia protegê-la. Uma mesa de seis metros de extensão, onde Hitler costumava assinar documentos, mais tarde utilizando-se dela para estudar os mapas da situação militar. Havia dois grupos de assentos, com revestimento de cor vermelha. Um deles estava perto do fogão, outro próximo à janela. Por trás dos grupos de assentos, havia a cabina de projeção cinematográfica. Nas paredes, viam-se grandes quadros a óleo. Um atribuído a Bordone, discípulo de Ticiano; era o retrato de uma senhora com os seios descobertos; outro, um nu, que podia ser do mesmo Ticiano; a Nana de Feuerbach, em uma moldura muito bonita; uma antiga paisagem de Spitzweg; um outro quadro, representando ruínas romanas, pintado por Pannini; surpreendentemente, uma espécie de altar, de Eduard von Steinle, representando o Rei Henrique, fundador da cidade. Em compensação, não se via nenhum Grützner. Hitler algumas vezes dizia que aqueles quadros foram pagos do seu próprio bolso.

Sentávamos no sofá ou nas poltronas de um dos grupos de assentos e começava a segunda parte da noite, com as películas normalmente projetadas nos cinemas de Berlim. Depois nos reuníamos em torno da gigantesca lareira. Seis ou oito pessoas em um sofá incômodo, estofado, bem comprido, como se estivéssemos sentados em fila. Hitler, outra vez ladeado por Eva Braun e uma das senhoras, sentava-se em uma das poltronas macias. A disposição dos móveis não facilitava a conversação. Cada um falava em voz baixa ao seu vizinho. Hitler, também em voz baixa, dizia vulgaridades às duas mulheres ao seu lado ou cochichava com Eva Braun, tendo uma das mãos dela nas suas. Às vezes, ele emudecia, dirigindo o olhar para o alto, ou fixando a vista na chama da lareira. Os presentes calavam para não perturbar o Fuhrer em seus importantes pensamentos.

De quando em quando falavam de fitas cinematográficas. Hitler opinava sobre as interpretações femininas e Eva Braun sobre as masculinas. Ninguém cuidava de elevar o nível da conversa acima de alguns detalhes, expondo idéias sobre novas formas de expressão do diretor do filme. É verdade que as fitas exibidas não proporcionavam assuntos desse gênero, destinavam-se apenas à distração dos espectadores. Nunca foram exibidas, pelo menos eu estando presente, as experiências de um Curt Oertel tendo por tema Michelangelo. Era que Bormann não perdia oportunidade para depreciar o prestígio de Goebbels, responsável pela produção cinematográfica alemã. Fazia sempre observações mal-intencionadas. Disse, por exemplo, que a elaboração da película O vaso quebrado encontrara obstáculos da parte de Goebbels, que se via figurado e ridicularizado por Emil Jennings no papel de um juiz coxo aldeão. Hitler viu com alegria a película, retirada dos cinemas, e ordenou que ela voltasse a ser exibida, no maior cinema de Berlim. No entanto, durante muito tempo, não houve essa volta da fita aos cinemas, o que demonstra a carência de autoridade de Hitler, freqüentes vezes. Mas Bormann não cedeu, até que Hitler ficou aborrecido e fez ver claramente a Goebbels que este tinha de obedecer àquilo que ele, Hitler, ordenava.

Mais tarde, durante a guerra, Hitler suprimiu as sessões cinematográficas noturnas, pois, segundo manifestou, queria renunciar à sua distração favorita para "solidarizar-se com os sacrifícios dos soldados". As projeções de filmes foram substituídas por audição de música em discos. Apesar da sua magnífica coleção de discos, as preferências de Hitler iam para uma mesma espécie de música. Não tinham significado para ele o barroco, o clássico, a música de câmara, nem as sinfonias. Antes do mais, gostava de ouvir algumas impressionantes árias de óperas de Wagner, para depois dar atenção à opereta.

Com a opereta terminava a audição. Seu interesse reduzia-se à identificação da voz dos cantores, mencionar-lhes o nome, e, quando acertava, o que ocorria freqüentemente, não escondia sua satisfação. Para se animarem essas reuniões noturnas, um tanto insípidas, bebia-se champanha. Depois da ocupação da França, o champanha servido provinha do butim de guerra, havendo também marcas baratas, porquanto Goering e seus marechais-do-ar se tinham apoderado das melhores marcas. Aquela monotonia prolongava-se até uma hora da madrugada, não faltando quem não pudesse reprimir um ou outro bocejo. Afinal, depois de uma troca de palavras com Adolf Hitler, Eva Braun retirava-se para os seus aposentos no pavimento superior. Cerca de um quarto de hora depois Hitler levantava-se para também despedir-se. Seguia-se uma reunião menos tensa, em que nós nos sentíamos como que livres, e bebíamos champanha e conhaque.

Voltávamos para casa às primeiras horas da madrugada, mortos de cansaço por não termos feito coisa nenhuma. Decorridos alguns dias, fui atacado do "mal da montanha", como o denominavam naquele tempo, ou seja, eu sentia-me esgotado e sem idéias, em conseqüência daquela contínua dilapidação de tempo. Somente quando os ócios de Hitler eram interrompidos pelas suas decisões administrativas restava-me algum tempo para dedicar-me aos meus trabalhos com os meus auxiliares. Sendo hóspede permanente e favorito, morando também em Obersalzberg, não podia evitar aquelas vigílias, por mais torturantes que fossem, sem dar a impressão de descortesia. O Dr. Dietrich (chefe da Imprensa do Reich) teve algumas vezes o atrevimento de assistir a representações do Festival de Salzburg. O que obteve foi o aborrecimento de Hitler.

De vez em quando, vinham membros dos antigos círculos de Hitler, em Munique ou em Berlim, tais como Schwarz, Goebbels ou Hermann Esser. Mas isso ocorria raramente e durante apenas um ou dois dias. Também vi, em Obersalzberg, Hess, duas ou três vezes, quando não lhe faltavam motivos para com sua presença pôr um freio à atividade de Bormann, seu lugar-tenente. Até mesmo os mais íntimos colaboradores de Hitler, que se podiam encontrar com freqüência na mesa de almoço na chancelaria do Reich, evitavam francamente apresentar-se em Obersalzberg. Isso era impertinente, pois Hitler costumava mostrar-se alegre com a presença de tais pessoas, solicitando-lhes que aparecessem mais vezes e permanecessem mais tempo lá. Ao contrário, não queria ver em Obersalzberg os antigos companheiros de luta, que evitava já em Munique, sendo que esses aceitariam entusiasmados um convite para irem àquela residência de Hitler.

Eva Braun tinha permissão de estar presente durante as visitas dos antigos colaboradores. Mas era afastada quando compareciam à mesa outros dignitários do Reich, os ministros, por exemplo. Eva Braun permanecia em seus aposentos, quando apareciam Goering e sua esposa. Era evidente que Hitler considerava-a capaz de vida social só até um certo ponto. Enquanto ela ficava em seu aposento, contíguo ao dormitório de Hitler, eu lhe fazia companhia, algumas vezes. Ela se mostrava tão tímida que não se atrevia sequer a sair de casa para dar um passeio.

– Se eu saísse poderia encontrar-me com os Goering.

Além do mais, Hitler manifestava pouca consideração pela presença de Eva Braun, diante de quem, sem embaraços, exprimia seu pensamento a respeito das mulheres:

– Os homens muito inteligentes devem ter ao seu lado uma mulher primária e tola. Imaginem os senhores se eu tivesse uma esposa que se intrometesse em meu trabalho. O que eu quero é paz em meu tempo livre... Nunca poderia J casar. E que problema, se tivesse filhos... Trataria de fazer do meu filho meu sucessor... E só faltaria isso... As pessoas como eu não têm possibilidade de que lhes nasçam filhos inteligentes, o que é uma regra quase geral em tais casos. Lembrem-se do filho de Goethe, que foi um indivíduo inteiramente inútil. Há muitas mulheres que me são afeiçoadas porque estou ainda solteiro. Isto era particularmente freqüente no tempo da guerra. Dá-se o mesmo com o ator cinematográfico; quando casa perde aquele algo que faz com que as mulheres suspirem por ele. Deixa então de ser para elas o ídolo que sempre tinha sido.

Hitler supunha que de sua pessoa se irradiava um forte eflúvio erótico sobre as mulheres. No entanto, desconfiava disso e dizia que não sabia nunca se uma mulher via nele o "chanceler do Reich" ou o "Adolf Hitler", quando demonstrava sua simpatia. De modo nenhum queria tê-las próximas de si, como afirmava com inteira falta de delicadeza. Era evidente que ao se manifestar assim não tinha consciência da ofensa desse seu pensamento às senhoras que o ouviam em suas reuniões. Mas não carecia do sentimento de chefe de família. Uma vez, Eva Braun estava esquiando. Demorou-se para o chá. Ele então mostrou-se inquieto, preocupado pela idéia de que algo tivesse acontecido à sua amante.

Eva Braun nascera em um meio modesto. Seu pai era mestre-escola. Nunca vi os seus progenitores. Não vinham à residência de Hitler, jamais saíram da sua vila. Também Eva Braun continuou sua vida simples, vestia-se com modéstia e usava jóias baratas, anéis de pedras semipreciosas, no valor de poucas centenas de marcos, na melhor das hipóteses. Bormann era o encarregado de mostrar a Eva Braun amostras de presentes. Pareceu-me que Hitler escolhia jóias de escasso valor artístico, demonstrando assim um gosto característico do pequeno burguês.     

A amiga de Hitler não manifestava nenhum interesse na política. Jamais intentou exercer qualquer influência no Fuhrer. Mas possuía visão clara dos fatos da vida diária, fazendo muitas observações acertadas sobre pequenos inconvenientes ou situações anormais da vida em Munique. Bormann não via isso com bons olhos, pois, nesses casos, era chamado a uma prestação de contas. Ela gostava dos esportes, praticando bem o esqui. Freqüentemente, fizemos com ela excursões na montanha, indo além do recinto fechado. Uma vez, Hitler concedeu-lhe oito dias de férias. Naturalmente, quando não estava em sua casa na montanha. Durante alguns dias foi conosco até Zürs. Lá, sem que ninguém a reconhecesse, freqüentava os bailes, dançando com jovens oficiais até altas horas da madrugada. No entanto, estava muito longe de ser uma Madame Pompadour. Para o historiador, essa mulher só oferece interesse porque contribui para dar um relevo ao tipo de caráter de Hitler.

Impelido por uma certa compaixão pela condição de Eva Braun, fui sentindo simpatia pela desgraçada mulher, que era tão leal e carinhosa com Hitler. Além disso, sentimo-nos unidos pela comum aversão a Bormann, pela maneira como naquela época ele enganava sua mulher. Quando, durante o processo de Nuremberg, eu soube que Hitler se casara com Eva Braun, um dia e meio antes de morrer, senti alegria, embora aquele ato revelasse de algum modo o cinismo com que Hitler a tratou e talvez tratara as mulheres em geral.

Algumas vezes indaguei de mim mesmo se Hitler sentira pelas crianças algo assim como ternura. De qualquer modo, tencionava demonstrá-la, quando estava com elas, conhecidas ou não. Ia mesmo a ponto de tratá-las de modo paternal e amistoso. Mas eu não me convenci da autenticidade dessa atitude. O fato era que jamais achou forma adequada para o trato com as crianças. Depois de algumas palavras elogiosas, sua atenção dirigia-se à criança seguinte. Para ele, as crianças eram apenas os representantes da geração futura e por isso alegrava-se mais por vê-las loiras, de olhos azuis, fortes, sadias, ou por sua inteligência – viva, desperta –, do que pela maneira infantil de serem. A personalidade de Hitler não exerceu nenhuma influência em meus próprios filhos.

Da vida social em Obersalzberg só me ficou um vazio. Por sorte, durante meus primeiros anos de prisão, anotei alguns modismos, usuais nas conversas, e que agora posso considerar autênticos.

Em muitas das conversas, à sobremesa ou na hora do chá, falavam de modas, da criação de cachorros, de teatro, de cinema, de operetas e suas estrelas, tudo isso entremeado de referências mesquinhas à vida das famílias de outras pessoas. Hitler pouco se referia à questão judaica, a inimigos políticos internos, e muito menos à instalação de campos de concentração. Isso se devia mais à trivialidade das conversas do que a uma intenção predeterminada. Mas, por outro lado, Hitler divertia-se freqüentes vezes à custa dos seus mais próximos colaboradores. Não é por acaso que me ficaram gravadas estas observações na memória, pois, no final de contas, tratava-se de pessoas acima de qualquer crítica pública. No círculo íntimo de Hitler ninguém estava obrigado a guardar silêncio. No caso das mulheres, ele dizia carecer de sentido obrigarem-nas a ficarem caladas. Pretendia causar alguma impressão, quando falava com desprezo de alguém ou de muitos? Tratava-se de um menosprezo geral para com pessoas e acontecimentos?

Freqüentemente, Hitler comentava o mito de Himmler e suas SS:

– Que insensatez! Agora que afinal fomos tão longe, em uma época em que se deixou para trás toda classe de misticismo, vamos outra vez iniciar desde o começo. Para isso, poderíamos ter ficado com a Igreja. Esta, pelo menos, tem tradição. Idéia corajosa a de eu algum dia ser canonizado "santo das SS". Veja o senhor! Eu me moveria na sepultura!

– Este Himmler pronunciou outro discurso, em que dá a Carlos Magno o qualificativo de Carniceiro da Saxônia.

Ao contrário da opinião de Himmler, a matança de um grande número de saxões não foi um crime histórico. Carlos Magno agiu com muito acerto, subjugando Widukind, matando sem rodeios os saxões. Isso possibilitou a formação do reino dos francos e a penetração da cultura do Ocidente na Alemanha do nosso tempo, Himmler mandou que se fizessem escavações pré-históricas de que participavam cientistas.

– Por que mostrar a todo o mundo que não temos nenhum passado? Pelo visto, já não basta que os romanos tivessem levantado suas grandes obras quando nossos antepassados ainda viviam em choças de barro. Agora Himmler tem de fazer escavações, nessas aldeias de casas de barro, para entusiasmar-se quando encontra um caco de argila, um machado de pedra. Assim, só provaremos que ainda lutávamos com machados de pedra e estávamos de cócoras, em torno de fogueiras, ao ar livre, quando Grécia e Roma tinham chegado ao seu mais alto grau de civilização. Para falar a verdade, nós tínhamos toda a razão para silenciar sobre esse passado. Mas, em vez disso, Himmler propala-o aos quatro ventos. Como os romanos de hoje não estão rindo desses descobrimentos!

No âmbito dos seus colaboradores políticos, quando estava em Berlim, Hitler manifestava-se duramente contra a Igreja. No entanto, empregava um tom menos agressivo, na presença de mulheres, sendo esse um dos muitos exemplos de suas cautelas em manifestar seus pensamentos de acordo com as pessoas que o ouviam.

Em outra ocasião, naquele círculo, declarou:

– Não há dúvida, a Igreja é necessária ao povo. É um elemento forte e conservador.

Falando assim referia-se a um instrumento que estava ao seu lado:

– O Reibi – assim se denominava o primaz do Reich, Ludwig Müller – teria de ser um personagem... Mas considere-se a nomeação para essa função de um pequeno sacerdote castrense! De boa vontade eu lhe daria todo o meu apoio... Mas que iria fazer com ele? Comigo, a Igreja protestante poderia ser a Igreja do Estado, como acontece na Inglaterra.

Mais uma vez, em 1942, em uma conversa na hora do chá, em Obersalzberg, Hitler acentuou que considerava imprescindível a Igreja na vida do Estado. Afirmou que seria feliz se um dia encontrasse um homem da Igreja bastante habilitado a dirigi-la, ou, se possível, não uma porém as duas. Enquanto falava assim, condenava a luta contra a Igreja como um atentado ao futuro de um povo. Em sua opinião, era impossível substituir a Igreja por uma "ideologia de partido". Indiscutivelmente, depois de um largo período, a Igreja saberia adaptar-se aos fins políticos do nacional-socialismo. Deus tem sabedoria e assim solucionaria os problemas políticos no decurso da história. Uma nova religião, apoiada em um partido, nada mais seria do que um retrocesso ao misticismo medieval. Isso era demonstrado pelo mito das SS e pelo incompreensível livro de Rosenberg O mito do século XX.

Se em um daqueles monólogos Hitler tivesse manifestado um pensamento de oposição à Igreja, Bormann com certeza teria tirado de um bolso uma folha de papel em branco para anotar as palavras do Fuhrer, como era do seu hábito. E ele o fazia com mais interesse quando se tratasse de opiniões depreciativas à Igreja. Naquela ocasião, eu supus que ele estivesse preparando uma biografia de Hitler.

Quando, mais ou menos em 1937, Hitler soube que muitos partidários seus se tinham afastado da Igreja, por instigação do partido e das SS, pois a Igreja resistia, obstinadamente, às diretrizes de Hitler, este, por oportunismo, ordenou que seus colaboradores mais importantes continuassem membros da Igreja, particularmente Goering e Goebbels. Também ele continuaria na Igreja Católica, embora não tivesse nenhum vínculo espiritual com ela. E assim continuou até o suicídio. A concepção de Hitler de sua Igreja estatal podia ser imaginada pela narrativa, freqüentemente repetida, de uma delegação de árabes nobres: segundo teriam explicado os visitantes, os maometanos foram derrotados na Batalha de Poitiers, quando pretenderam invadir a Europa através da França. Se os árabes tivessem ganhado a batalha, o mundo seria muçulmano. De fato, teriam imposto aos povos germânicos uma religião que, pela sua doutrina – propagação da fé pela espada e submissão dos povos a essa fé –, estaria de completo acordo com o caráter dos germanos. Por causa da inferioridade racial, depois de anos, os conquistadores não teriam conseguido impor-se aos habitantes dessa área geográfica, mais vigorosos, mais acostumados à áspera natureza do solo. No final, não teriam sido os árabes, mas os germanos maometanizados, que estariam no governo desse império mundial islâmico.

Hitler costumava terminar aquela argumentação com a seguinte orientação:

– Temos, precisamente, a desgraça de que a nossa religião não nos convém. Por que não temos a religião dos japoneses, cuja aspiração máxima está no sacrifício pela pátria? Para nós a religião maometana teria sido melhor do que o cristianismo, uma religião frouxa e paciente.

Considere-se que, já antes da guerra, ele repetia: "Os siberianos, os russos brancos, os homens da estepe, desfrutam hoje de uma saúde extraordinária. Isso capacita-os a evoluir, e no futuro serão biologicamente superiores aos alemães". Nos últimos meses da guerra repetia, de modo drástico, essa observação.

Rosenberg vendeu centenas de milhares de exemplares de O mito do século XX, um volume de setecentas páginas. Esse livro, ao aparecer, foi considerado publicamente a obra que definia a ideologia do partido. Mas, nas conversas à hora do chá, Hitler qualificava-o "um palavreado que ninguém pode compreender", escrito por um "báltico de testa estreita, que pensa de um modo espantosamente complicado". Ele se admirava de que tal livro pudesse ter tido ao menos uma edição.

– É um retrocesso às idéias da Idade Média.

Mas não se sabe se Rosenberg tinha tido conhecimento daquelas opiniões do Fuhrer, feitas em um círculo íntimo.

Segundo Hitler, a civilização dos gregos era a expressão da perfeição máxima, em todos os planos. Em sua opinião, a forma grega de entender a vida, tal como se refletia, por exemplo, na arquitetura, tinha sido "fresca e sadia". A fotografia de uma bela nadadora levou-o um dia às seguintes reflexões:

– Como se podem ver hoje corpos maravilhosos! Tivemos de esperar pelo nosso século para que a juventude se aproximasse de novo, mediante os esportes, dos ideais helênicos. Nos séculos passados, não se deu a menor atenção ao corpo. Mas, nisto, a nossa época se diferencia dos demais períodos de civilização, transcorridos desde a Antiguidade.

Mas Hitler não queria praticar nenhum esporte. Nem disse que tivesse praticado algum em sua mocidade.

Quando falava dos gregos, referia-se aos dórios. Naturalmente, dentro desse pensamento, admitia a tese, alimentada pelos cientistas daquele tempo, de que o ramo dórico, proveniente do norte, era de origem germânica. Por isso a cultura dórica não pertencia ao mundo mediterrâneo.

Um dos seus temas preferidos era a paixão de Goering pela caça:

– Como é possível alguém se entusiasmar por uma coisa assim? Matar animais, quando necessário, incumbe ao magarefe. Mas gastar montões de dinheiro com isso? Compreendo a existência dos caçadores profissionais, para a eliminação dos animais doentes. Se, ao menos, nessa atividade houvesse algum perigo, como nas eras em que se caçavam feras empunhando lanças!... Mas hoje, quando um indivíduo, ainda que barrigudo, pode derribar um animal, atacando-o de longe?... A caça e as corridas de cavalos são os últimos restos de um mundo feudal, já desaparecido...

Também Hitler se divertia quando o Embaixador Hewel, homem de confiança de Ribbentrop, lhe contava, detalhadamente, o conteúdo das conversas telefônicas com o ministro das Relações Exteriores. Dava-lhe até conselhos para tranqüilizar o seu chefe ou também confundi-lo. Havia ocasiões em que ele se colocava ao lado de Hewel. Este, tapando uma das extremidades do fone, repetia as palavras de Ribbentrop e Hitler sussurrava-lhe o que devia dizer o auxiliar de Ribbentrop. Em geral tratava-se de observações sarcásticas para aumentar a constante preocupação do desconfiado ministro das Relações Exteriores. Hitler sugeria que círculos incompetentes poderiam influir em questões da política exterior, disso decorrendo o desprestígio do ministro.

Depois de dramáticas negociações, Hitler era capaz de divertir-se à custa dos seus opositores. Uma vez, ele contou como, no dia 12 de fevereiro de 1938, fingindo-se encolerizado, fez o chanceler austríaco Schuschnigg se convencer da gravidade da situação do seu país, quando este lhe fez uma visita em Obersalzberg, obrigando-o assim a render-se. Muitas das suas reações, que pareciam histéricas, e das quais muitos falaram, podem ser atribuídas a fingimentos dessa ordem. Precisamente, uma das características mais acentuadas em Hitler era o domínio de si mesmo. Naquela época, foram poucas as vezes em que se desmandou.

Lá para o ano de 1936, Schacht apresentou-se na sala de estar da residência de montanha para expor a situação. Nós estávamos sentados no terraço contíguo, achando-se aberta a janela daquela sala. Hitler gritava para o seu ministro da Economia e em sua voz havia acentos de alta excitação. Schacht respondia àqueles gritos com voz firme e alta. O diálogo foi adquirindo maior vivacidade, da parte de ambos, e terminou de maneira brusca. Hitler foi para o terraço, colérico, e externou considerações sobre o seu recalcitrante ministro, que estava dificultando o rearmamento da Alemanha. Outra crise de cólera foi a suscitada, em 1937, pelo Pastor Niemüller, que havia pronunciado outro sermão revolucionário em Dahlem. Mostraram-lhe também gravações das conversas telefônicas de Niemüller. Hitler, com voz estridente, ordenou que Niemüller fosse internado em um campo de concentração, de onde não saiu mais, por haver manifestado sua recusa em desdizer-se.

Há outro caso, relacionado com a sua juventude. Em uma viagem de Budweis a Krems, feita em 1942, via-se no caminho um grande letreiro, que chamava a atenção para uma casa situada em uma aldeia, chamada Spital, próxima de Weitra, na fronteira tcheca. Segundo indicava a placa, “o Fuhrer tinha morado naquela casa, quando menino", uma casa esplêndida. Falei disso a Hitler, que, imediatamente, perdeu as estribeiras. Chamou aos gritos Bormann, que veio consternado. Hitler falou-lhe com dureza, para lembrar-lhe que ele já ouvira diversas vezes que não se devia mencionar aquela localidade, de modo nenhum. Apesar disso, aquele asno do chefe regional mandou colocar um letreiro ali. O cartaz tinha de ser retirado imediatamente. Não pude compreender o motivo daquela irritação, pois Hitler ficava satisfeito quando Bormann lhe falava da restauração de outros lugares, que recordavam sua mocidade, em Linz, em Braunau... Sabe-se hoje da obscura origem da sua família, naquele rincão de um bosque austríaco.

De quando em quando fazia desenhos de uma torre das históricas fortificações de Linz:

– Este era o meu lugar favorito para brincadeiras... Como aluno eu era ruim, mas quando se tratava de pilhérias, eu era o primeiro. Mais tarde, como recordação daquele tempo, mandarei transformar essa torre em um grande albergue para crianças.

Também falava, freqüentemente, das suas primeiras impressões políticas, quando rapaz. Quase todos os seus colegas, em Linz, tinham a impressão de que a imigração dos tchecos para a Áustria alemã tinha de ser repelida. Isso lhe tinha dado, pela primeira vez, consciência do problema das nacionalidades. Depois, em Viena, viu surgir de maneira fulminante o perigo do judaísmo. Muitos operários com os quais ele convivia adotavam uma atitude duramente anti-semita. Mas, segundo suas próprias palavras, "não tinha as mesmas idéias dos operários no tocante à social-democracia, e jamais pertenci a um sindicato. Isso acarretou as minhas primeiras dificuldades políticas".

Talvez tenha sido essa uma das razões pelas quais não guardava boa recordação de Viena, ao contrário do que ocorria quando falava do seu tempo em Munique, antes da guerra, mostrando-se então entusiasmado. E freqüentemente falava contente das casas que vendiam salsichas. Hitler exprimia seu respeito e estima ao bispo de Linz, quando ele era menino, o qual, vencendo resistências, conseguiu construir a catedral com dimensões invulgares. Como essa catedral ia ser maior do que a de Santo Estêvão, em Viena, o bispo, segundo dizia Hitler, tivera dificuldades com o governo austríaco, que não desejava construções no país de obras maiores do que as existentes em Viena.

Hitler sentia entusiasmo pelo aspecto que, no decurso dos séculos, havia adquirido Budapeste, nas duas margens do Danúbio. Ambicionava transformar Linz em uma Budapeste alemã. Sobre o assunto, era de opinião que havia um equívoco na orientação da cidade de Viena, pois alcançava o rio somente por sua parte posterior. Na opinião de Hitler, os antigos planificadores não tinham sabido aproveitar o rio, sob o ponto de vista urbanístico.

Já antes da guerra, algumas vezes, Hitler dissera que se recolheria em Linz para terminar sua vida, naquela cidade, afastado dos negócios do Estado, depois de alcançados seus objetivos políticos. Não desempenharia mais nenhum cargo estatal, pois somente assim seu sucessor disporia da necessária autoridade. Não influiria em seu substituto, de modo nenhum. E ele – Hitler – logo seria esquecido. Toda a gente o abandonaria. Prosseguindo nesses pensamentos, mostrou-se compadecido dele mesmo:

– Talvez me visite algum dos meus antigos colaboradores. Mas isso não é certo... Ninguém me acompanhará, exceto a Srta. Braun e meu cachorro. Estarei sozinho... Como irá alguém passar muito tempo em minha companhia? Ninguém se importará se estou vivo. Todos irão correndo em busca do meu sucessor. Talvez apareçam em minha casa no dia do meu aniversário.

Naturalmente, as pessoas presentes à tertúlia protestavam solenemente, afirmando que lhe continuariam sendo fiéis e estariam sempre ao seu lado. Quaisquer que fossem os motivos que induziam Hitler a pensar em uma prematura retirada da política, esses pareciam fundar-se, em tais momentos, em que a origem e a razão da sua autoridade era a sua posição forte, não a sua personalidade e capacidade de sugestão.

A auréola de Hitler, para os colaboradores que não tinham trato direto com ele, era muito maior do que aquela vista pelos que participavam do círculo íntimo. Neste, não se falava dele em tom respeitoso. Era denominado "o chefe". Não se ouvia o clássico "Heil Hitler!" Todos se cumprimentavam com um "bom dia". Até havia ironias, à custa de Hitler, que não se aborrecia com isso. Eva Braun, sem cerimônias, chamava a atenção de Hitler, na presença de todos, se a gravata que não combinava com o terno, e, algumas vezes, dizia que ela era a "rainha".

Um dia, quando estávamos sentados em torno da grande mesa redonda, na casa de chá, Hitler começou a olhar-me fixamente. Em vez de baixar o olhar, considerei isso uma provocação. Ninguém sabe que instintos primitivos provocam essa pugna, na qual os adversários miram-se, firmemente, nos olhos um do outro, até quando um deles baixa a vista. De qualquer modo, eu estava acostumado a sair vitorioso desses combates visuais. Mas, naquela ocasião, tive de usar de uma energia quase sobre-humana, que parecia infinda, para não ceder ao impulso cada vez mais acentuado de olhar em outra direção. Afinal, Hitler fechou os olhos, para logo depois dirigir-se à senhora sua vizinha.

Às vezes, eu perguntava a mim mesmo: "Que me falta para qualificar Hitler de meu amigo?" Eu pertencia ao grupo dos que o rodeavam, estava em seu círculo íntimo como em minha própria casa e, além disso, era seu primeiro colaborador no seu campo favorito, a arquitetura.

Faltava tudo. Jamais conheci em minha existência alguém que tão raramente revelasse seus verdadeiros sentimentos. E, quando o fazia, voltava logo a fechar-se em si mesmo. Enquanto estive em Spandau, conversei com Hess sobre essa peculiaridade de Hitler. Segundo nossas experiências comuns, talvez tenham ocorrido momentos em que alguém tivesse conseguido aproximar-se mais dele. Mas isso implicava sempre uma desilusão. No caso de alguém, embora cautelosamente, se deixar iludir por um tom cordial nas palavras de Hitler, este, com uma expressão de repulsa, levantava logo um muro.

De qualquer modo, Hess era de opinião que havia uma exceção: Dietrich Eckart. Mas, afinal, concordamos em que vt tratava, mais do que de amizade, de uma veneração sentida pelo já importante personagem que, além de tudo, era tido cm grande estima pelos meios anti-semitas. Depois da morte de Dietrich Eckart, em 1923, apenas quatro homens trataram Hitler por "tu", como a um amigo: Esser, Christian Weber, Streicher e Roehm. Depois de 1933, Hitler aproveitou-se de boa ocasião favorável para fazer que o primeiro voltasse a tratá-lo por "senhor". Quanto ao segundo, foi evitando encontrar-se com ele. Dava um tratamento impessoal ao terceiro. E o quarto foi assassinado. Nem se revelava inteiramente humano e simples em suas relações com Eva Braun. Entre ambos sempre houve a distância do chefe da nação para com uma rapariga modesta. Algumas vezes, dirigia-se a Eva Braun com uma expressão meio inconveniente, meio familiar, chamando-a Tschapperl. Este vocábulo, usado pelos camponeses bávaros, caracterizava a classe de relação que o unia à mulher.

  

                             A NOVA CHANCELARIA DO REICH

Hitler deve ter tido clara consciência da aventura da sua vida, da alta aposta do seu jogo, quando, em novembro de 1936, em Obersalzberg, se encontrou em uma entrevista com o Cardeal Faulhaber. Depois daquela conversa, Hitler e eu estivemos sós, sentados, junto ao balcão da sala de jantar. Anoitecia. Depois de estar muito tempo olhando para fora da janela, em silêncio, disse:

– Há para mim duas possibilidades: ou levar adiante os meus planos, ou malograr. Se for bem sucedido, eu me converterei em um dos maiores personagens da história. Se eu não conseguir êxito, serei condenado, desprezado, amaldiçoado.

Para servir de fundamento à exaltação de "um dos maiores personagens da história", Hitler exigiu a construção de um cenário com perspectivas imperiais. Qualificava de "apropriada à sede de uma fábrica de sabão" a chancelaria do Reich, para onde se mudara no dia 30 de janeiro de 1933. Na sua opinião, aquele local não era o centro do império, já poderoso.

Nos fins de janeiro de 1938, Hitler recebeu-me, oficialmente, em seu gabinete. Falou-me em tom solene, de pé:

– Tenho um trabalho urgente para o senhor. Dentro de pouco tempo, irei proferir importantíssimas conferências. Para esse fim, necessito de grandes vestíbulos e de salões, para impressionar bem aos pequenos estadistas. Coloco à sua disposição todo o terreno, na Voss Strasse. Não me interessa o custo. Quero, sim, que as obras se façam com urgência e sejam também sólidas. De quanto tempo o senhor necessita, incluindo a elaboração dos desenhos? Ano e meio ou dois anos seria muito para mim. Poderia estar terminado no dia 10 de janeiro de 1939. Quero que a próxima recepção diplomática se realize na nova chancelaria.

Logo depois, ordenou-me que me retirasse.

O que ocorreu no resto do dia foi relatado por Hitler no discurso pronunciado pela terminação da estrutura do edifício:

– O meu inspetor-geral de obras pediu-me que lhe concedesse algumas horas para refletir. À noite, ele apresentou-se com uma relação de datas, dizendo-me: "As casas estarão demolidas em tal dia de março, a festa de terminação da estrutura será no dia 1.° de agosto; no dia 9 de janeiro, eu comunicarei ao meu Fuhrer que a obra está terminada". Eu, que conheço o que seja construção, sei o que isto significa. Nunca se fez nada igual. É uma realização única em seu gênero.

Realmente, foi aquele o consentimento mais irrefletido em toda a minha vida. Mas Hitler demonstrou sua satisfação.

A construção seria uma série de conjuntos, no total de duzentos e vinte metros de comprimento, tendo uma sucessão continuamente mutável, de materiais e coloridos. Por último, a sala de recepções de Hitler. Isso era um exemplo pletórico (xxx) da arquitetura representativa, sem dúvida "arte para produzir efeito". Mas isso também havia no barroco e o barroco existirá sempre.

Hitler ficou impressionado:

– Aqueles que vierem aqui verão já um pouco do poderio e da grandeza do Reich alemão, depois do longo caminho desde a entrada até a sala de recepção.

Durante os meses seguintes, fez que eu lhe mostrasse os planos, de vez em quando. Mas, o que é de admirar, raras vezes ele se intrometia na construção daqueles edifícios, que lhe eram destinados. Deixava-me as mãos inteiramente livres naquele trabalho.

A pressa de Hitler na edificação da nova chancelaria do Reich teria um profundo motivo na preocupação pela saúde. Ele temia, seriamente, não viver muito tempo. Já desde 1935 deixou-se dominar, em proporção crescente, por um padecimento gástrico, que tentou curar, no decorrer do tempo, mediante um regime de abstinências. Pretendia saber quais as comidas que lhe faziam mal e impôs a si mesmo uma dieta apertada. Um pouco de sopa, salada, pratos leves, em pequena quantidade. Alimentava-se pouco. E sua voz assumia um tom desesperado, quando, indicando o seu prato, dizia:

– E um homem ter de viver com isto! Veja, veja o senhor! Para os médicos é fácil dizer que as pessoas podem comer o que lhes apetece. Para mim, quase nada senta bem no estômago. Depois de cada refeição, voltam as dores... Mas como irei diminuir ainda mais os pratos? Como irei viver?

Freqüentes vezes, teve de interromper de repente uma conferência por causa das dores, recolhendo-se ao seu aposento por meia hora ou não voltando mais. Também, pelo que dizia, ele sofria de um exagerado meteorismo, do coração e de insônia. Eva Braun disse-me, certa vez, que o seu amante, um homem que não completara ainda os cinqüenta anos, lhe havia dito:

 

(xxx) exuberante (N. da R.).

 

– Brevemente, terei de deixar-te. Que vais fazer com um velho?

O seu médico de cabeceira, o Dr. Brandt, um jovem cirurgião, esforçava-se por convencer Hitler de que devia ser examinado bem por um clínico de reconhecido valor. Todos nós apoiávamos essa proposta. Mencionaram-se nomes de professores célebres, pensou-se na maneira como seria feito aquele exame, sem provocar suspeitas. Falou-se até na internação em um hospital militar, pois aí o segredo seria perfeitamente mantido. Mas, quando chegou o momento da decisão, Hitler recusou quaisquer sugestões, opinando que de modo nenhum podia permitir o fato de ser considerado doente, pois isso enfraqueceria sua posição política, principalmente no estrangeiro. Também não consentiu em que um clínico entrasse em sua residência, para proceder a um exame, pois isso chamaria a atenção. Pelo que sei, naquele tempo não se submetia a nenhum tratamento bem orientado, mas cuidava dos seus sintomas de acordo com teorias de que tivera conhecimento em leituras.

No entanto, solicitou os serviços de um famoso otorrinolaringologista berlinense, Professor von Eicken, por causa de uma rouquidão cada vez mais acentuada. O professor procedeu a um minucioso exame, e, quando declarou a Hitler que não encontrara o menor indício de câncer, o Fuhrer demonstrou seu alívio. Hitler já se referia, meses antes, ao destino do Imperador Frederico. O cirurgião tirou um pequeno caroço, em poucos minutos, na própria casa de Hitler.

Em 1935, Heinrich Hoffmann adoeceu gravemente. O Dr. Morell, seu antigo conhecido, tratou-o, curando-o com sulfas vindas da Hungria. Hoffmann falava sempre a Hitler do extraordinário tratamento daquele médico, que lhe salvara a vida. Hoffmann falava de boa-fé, porquanto uma das características de Morell era exagerar a gravidade das doenças que ele curava, a fim de tornar-se afamado.

Pelo que Morell dizia, estudara com o famoso bacteriologista Ilia Metchníkov (1845-1916), que recebeu o prêmio Nobel e era professor do Instituto Pasteur. Segundo Morell, Metchníkov lhe ensinara a combater as enfermidades bacteriais. Depois, exercendo as funções de médico de bordo, Morell Viajara muito em vapores de passageiros. Sem dúvida, não era charlatão, mas fanático pela profissão, e tinha a ambição fortuna.

Hitler foi convencido por Hoffmann de que devia ser examinado por Morell. E o resultado foi surpreendente, porquanto, pela primeira vez, concordou na importância de um médico.

– Ninguém ainda me dissera, com clareza e precisão, o que está acontecendo comigo. Ele fala com tanta segurança, seus argumentos são tão lógicos, que esse doutor me levou a nutrir esperanças. Obedecerei à sua prescrição de remédios.

Segundo revelou Hitler, o resultado do exame foi o diagnóstico de um enfraquecimento na fisiologia intestinal, o que Morell atribuía a uma excessiva tensão nervosa. Todos os demais sintomas cessariam, mediante a extinção daquela doença, cura que seria apressada com o tratamento de injeções de vitaminas, hormônios, fósforo e glicose. O tratamento teria de durar um ano. Antes disso, as melhoras seriam parciais.

A maior parte dos remédios receitados, desde então, foram cápsulas com bactérias intestinais, intituladas Multiflor. Morell assegurava tratar-se da melhor cultura feita por um camponês búlgaro. Os demais produtos que ele aplicava por injeções eram muito pouco conhecidos. Não tínhamos confiança naquele tratamento. O Dr. Brandt andou tomando informações com outros médicos, seus amigos. Todos externaram desconfiança em relação àqueles medicamentos, que não tinham sido experimentados em laboratórios. Na opinião daqueles clínicos, os métodos de Morell eram ousados, admitindo que houvesse perigo no seu uso prolongado, por habituarem o organismo. De fato, as injeções tiveram de ser aplicadas mais freqüentemente, assim como também os produtos biológicos, extratos de testículos e de entranhas de animais, substâncias químicas e vegetais. Um dia, Goering, dirigindo-se a Morell, ofendeu-o, chamando-o "senhor chefe das injeções do Reich".

Mas, pouco depois de começar o tratamento, desapareceu rapidamente um eczema no pé de Hitler, que o incomodava e preocupava muito. O estômago também melhorou, depois de algumas semanas. Comia mais, servindo-se de pratos mais fortes. Sentindo-se melhor, manifestou-se com entusiasmo:

– Ainda bem que encontrei Morell. Salvou-me a vida! Seu auxílio tem sido realmente maravilhoso.

Hitler, capaz de deslumbrar com seu fascínio os demais, desta vez procedeu de modo contrário: totalmente convencido da genialidade do seu novo médico, deixou de lado qualquer observação crítica. Desde então, Morell passou a ser um dos participantes do círculo íntimo de Hitler. Quando Hitler não estava presente, Morell era objeto de gracejos, pois só sabia falar de estreptococos, testículos de animais, de vitaminas e de bacilos. Hitler recomendava a todos os seus auxiliares que consultassem Morell, quando sentissem a menor dor. Eu fui consultá-lo, em 1936, quando meu estômago e minha circulação sanguínea rebelaram-se contra o insensato ritmo de trabalho e costumes anormais de vida de Hitler. Na entrada do seu consultório, havia uma placa: "Dr. Theodor Morell, enfermidades da pele e venéreas". O seu consultório estava na parte mais elegante da Kurf-Urstendamm, próximo da Igreja Comemorativa. Nas paredes, havia fotografias com dedicatórias de célebres atores e artistas de cinema. Depois de um sumário, receitou-me suas bactérias intestinais, glicose, vitaminas e hormônios. Para maior segurança, fui a um professor da Universidade de Berlim, o Dr. von Bergmann, que me examinou detalhadamente. Pelo seu diagnóstico, não havia nenhum mal orgânico e sim fenômenos de caráter nervoso, provocados por excesso de trabalho. Diminuí meus esforços, na medida do possível, e os incômodos cederam. Para evitar que Hitler se aborrecesse, eu lhe disse que seguia, cuidadosamente, as prescrições de Morell. Também Eva Braun, por insistência de Hitler, foi examinada por Morell. Disse-me ela depois que aquele médico era tão sujo que lhe provocava náuseas. Afirmou que não permitiria que ele continuasse a tratá-la.

A melhora de Hitler foi transitória. No entanto, não se afastou do seu novo médico de cabeceira. Ao contrário, depois da hora do chá, dirigia-se com mais freqüência à casa do Dr. Morell, na ilha de Schwanenwerder, próxima de Berlim. Era o único lugar aonde ia, quando saía da chancelaria. Raras vezes visitava Goebbels. E uma única vez esteve em minha casa, em Schlachtensee, para vê-la, pois eu mesmo a construíra.

Nos fins de 1937, quando o tratamento de Morell começou a deixar de ser eficaz, Hitler voltou às suas antigas queixas. Quando tratava da execução de obras e discutia os projetos, dizia:

– Não sei quanto tempo ainda me resta de vida. Talvez eu já esteja morto quando terminarem muitas dessas obras.

O prazo para se terminarem muitas construções de grande vulto estava previsto para os anos entre 1945 e 1950. Assim, Hitler esperava viver poucos anos mais. Outras vezes, dizia:

– Quando eu desaparecer... Não me resta muito tempo...

Para os participantes do seu grupo íntimo, ele se exprimia dizendo:

– Não viverei muitos anos. Sempre pensei dispor de tempo para a realização dos meus planos. Tenho de encarregar-me deles, pessoalmente. Nenhum dos meus sucessores terá energia suficiente para vencer as crises que surgirão, por este motivo. Por conseguinte, meus projetos têm de ser executados enquanto eu desfrutar de saúde, uma saúde que está piorando de dia para dia.

Hitler redigiu seu testamento particular no dia 2 de março de 1938. O testamento político já fora feito em 5 de novembro de 1937, na presença do ministro das Relações Exteriores e dos principais chefes militares do Reich, qualificando seus extensos planos de conquista de "legado testamentário para o caso de minha morte". O círculo mais íntimo, que todas as noites tinha de assistir à projeção de fitas com cenas de operetas ouvir infinitos e presunçosos discursos a respeito da Igreja Católica, receitas de regimes alimentares, referências a templos gregos e a cães pastores, não percebeu como Hitler tomava ao pé da letra o seu sonho de domínio mundial. Muitos colaboradores antigos de Hitler, posteriormente, tentaram uma teoria para explicar uma transformação de Hitler, no ano de 1938, com base no agravamento do estado de saúde, devido aos métodos curativos de Morell. Mas eu, ao contrário, sustento a opinião de que os projetos e objetivos de Hitler não tiveram nunca modificação nenhuma. O que aconteceu foi que sua enfermidade e seu temor à morte impeliram-no a acelerar os prazos previstos. Seus planos só teriam malogrado se houvesse forças contrárias superiores. Ora, em 1938, estas ainda não eram visíveis. No decurso daquele ano, os êxitos animaram-no em seu ímpeto.

Segundo então observei, a inquietação íntima de Hitler relacionava-se com a pressa com a qual exigia que executássemos as obras. Certamente, às vezes indago de mim mesmo se aquela desmedida paixão pela construção de obras não tencionava ocultar seus projetos, enganando a opinião pública com as datas de terminação de obras e colocação de pedras fundamentais.

Mais ou menos em 1938, encontrando-nos no Deutscher Hof, em Nuremberg, Hitler referiu-se à obrigação de falarmos somente das coisas destinadas ao conhecimento do público, em geral. Entre os presentes, estavam o chefe nacional Philip Bouhler e sua jovem esposa. Esta observou que tais restrições, naturalmente, não teriam aplicação naquele círculo, porquanto todos nós saberíamos guardar um segredo que o Fuhrer nos confiasse. Hitler desatou a rir e respondeu:

– Aqui ninguém sabe guardar silêncio, com exceção de uma pessoa.

E enquanto dizia aquelas palavras apontava para mim. Mas eu não saberia do que iria acontecer, por seu intermédio.

No dia 2 de fevereiro de 1938, vi Erich Raeder, comandante-chefe da Marinha de Guerra, passar pelo vestíbulo da residência de Hitler. O almirante, que vinha visitar Hitler, estava pálido e alterado, vacilava ao andar e dava a impressão de um homem prestes a ser vítima de um ataque cardíaco. Dois dias depois li em um jornal que o ministro das Relações Exteriores, Von Neurath, fora substituído por Von Ribbentrop e que o comandante-chefe das forças de terra, Von Fritsch, tinha sido substituído por Von Brauchitsch. Hitler assumira o cargo de comandante supremo da Wehrmacht, até então exercido pelo Marechal Von Blomberg, nomeando Keitel chefe do seu Estado-Maior.

Já em Obersalzberg eu conhecera o Capitão-General Von Blomberg, homem correto, nobre, que gozava de grande prestígio perante Hitler, e que até sua destituição fora tratado com uma deferência invulgar. Por insinuação de Hitler, o Capitão-General Von Blomberg, no outono de 1937, visitara meus escritórios na Pariser Platz, vendo os desenhos e maquetes da remodelação de Berlim. Esteve comigo, durante uma hora, tranqüilo, interessado, acompanhado de um general que apoiava os conceitos do seu chefe sacudindo a cabeça. Era Wilhelm Keitel, que mais adiante seria o colaborador mais íntimo de Hitler, dentro do Alto-Comando da Wehrmacht. Eu, desconhecedor da hierarquia militar, pensei que fosse o ajudante-de-ordens de Blomberg.

O Capitão-General Von Fritsch, que eu jamais vira até então, pediu-me, naqueles dias, que eu fosse vê-lo em seu gabinete, em um edifício na Bendlerstrasse. Não era somente curiosidade que o induzia a exprimir o seu desejo de ver os planos para Berlim. Estendi-os em cima de uma grande mesa para mapas. Frio, mantendo distância, com um laconismo militar, quase descortês, ouviu minhas explicações. Por suas perguntas, tive a impressão de que estivesse pensando até onde poderia Hitler estar interessado por uma evolução política, pois aqueles grandes projetos de construção requeriam muito tempo para serem executados. Talvez estivesse enganado.

Também não conhecia o ministro das Relações Exteriores do Reich, Barão Von Neurath. Um dia – no ano de 1937 – Hitler disse que a quinta do seu ministro não correspondia à importância dos deveres oficiais de um ministro das Relações Exteriores. Ordenou-me que eu me dirigisse à senhora de Von Neurath para propor-lhe uma considerável ampliação do edifício, à custa do Estado. A senhora mostrou-me as dependências do prédio, concluindo por afirmar que, em sua opinião e na do ministro das Relações Exteriores, a casa atendia à sua finalidade. Depois externou seu agradecimento a Hitler. O Fuhrer, mal-humorado, não tocou mais no assunto. Sob este ponto, a antiga nobreza demonstrava uma modéstia consciente, e abertamente distanciava-se da forçada necessidade de ostentação dos novos senhores.

O mesmo não se dava com Ribbentrop. Este, no verão de 1936, fez-me viajar a Londres porque desejava ampliar e reformar a Embaixada alemã. Segundo o seu desejo, essa obra deveria estar terminada na primavera de 1937, por ocasião da coroação de Jorge VI. Ele pretendia impressionar a sociedade elegante de Londres com uma suntuosa sede de embaixada. Ribbentrop deixou a esposa cuidar dos detalhes. Ela discutiu com um arquiteto a ornamentação da casa de Munique, Vereinigten Werkstatten, estendendo-se em orgias arquitetônicas, a tal ponto que senti desnecessária minha presença. Comigo, Ribbentrop mostrava-se conciliador. Mas, ainda assim, durante os dias em que estive em Londres, ele estava sempre de mau humor, mormente quando recebia do ministro das Relações Exteriores telegramas que ele considerava intromissão em seus deveres. Nessas ocasiões, dizia, em voz alta e em tom de desagrado, que sua política seguia as diretrizes de Hitler, que lhe havia confiado, pessoalmente, e de um modo direto, a missão a efetivar-se em Londres.

Para muitos colaboradores políticos de Hitler, que tinham esperança de se manterem boas relações com a Inglaterra, já não parecia muito acertada a nomeação de Ribbentrop. No outono de 1937, o Dr. Todt, em companhia de Lorde Wolton, fez uma viagem de inspeção aos lugares onde estava sendo construída uma auto-estrada. Depois falou do desejo do lorde, em forma não oficial, de que enviassem a Londres um substituto para Ribbentrop, porquanto com esse representante diplomático jamais haveria uma melhoria nas relações entre os dois países.

O segundo acontecimento, naquele ano, que manifestou de forma concreta a crescente aceleração da política de Hitler, eu o vivi no dia 9 de março de 1938, no vestíbulo do domicílio de Hitler, em Berlim. Schaub, ajudante-de-ordens do Fuhrer, estava sentado ao lado de um aparelho de rádio, ouvindo o discurso pronunciado em Innsbruck pelo Dr. Schuschnigg, chanceler federal austríaco. Hitler tinha-se dirigido ao seu gabinete particular, no primeiro pavimento. Era evidente que Schaub esperava ouvir algo determinado. Tomava notas, enquanto Schuschnigg, falando sempre com muita clareza, anunciou afinal um plebiscito na Áustria. O povo austríaco deveria decidir sua independência ou não. Schuschnigg disse aos seus concidadãos em bom sotaque austríaco: "Chegou o momento".

Também chegara o momento esperado por Schaub, que voou pela escadaria até o gabinete de Hitler. Lá estava já Goebbels, vestido de fraque, e Goering, em uniforme de gala. Ambos correram até onde estava Hitler, logo depois de ouvirem o discurso de Schuschnigg. Vinham de uma festa usual na temporada de bailes em Berlim.

Dias depois, eu soube do que acontecera, lendo os jornais. No dia 13 de março, as tropas alemãs invadiram a Áustria. Quase três semanas depois, fui de automóvel a Viena para preparar, naquela cidade, o vestíbulo da Estação do Noroeste, onde se realizaria a grande manifestação vienense.

Pouco depois da anexação da Áustria, Hitler pediu um mapa da Europa central e mostrou aos circunstantes, que o ouviam em religioso silêncio, como a Tchecoslováquia estava entre tenazes. Decorridos alguns anos, Hitler costumava ressaltar o desinteresse de Mussolini ao dar seu assentimento à penetração da Alemanha na Áustria, e por isso ele seria sempre agradecido. De fato, para a Itália seria melhor a Áustria de permeio, para amortecer quaisquer atritos. Agora, as tropas alemãs estavam no passo do Brenner, o que não deixava de ser um incômodo para a situação política interna italiana.

A viagem de Hitler à Itália, em 1938, não deixava de significar um agradecimento, mas também indicava a idéia de visitar as obras monumentais e os tesouros artísticos de Florença. Os pomposos uniformes dos membros da comitiva, feitos sob medida, foram mostrados a Hitler, que gostava desses dispêndios. As roupas modestas, ele as preferia, intencionalmente, baseado na psicologia das massas: "A minha comitiva terá uma aparência ostentosa. Assim ficará mais evidente a minha simplicidade".

No seu regresso, Hitler resumiu assim as suas impressões:

– Estou contente por não ter nenhuma monarquia comigo e de jamais haver escutado os charlatães que me falavam de monarca. Os cortesãos! A etiqueta! Custa imaginar isso . . .

E o Duce sempre em segundo plano! A família real ocupava sempre os melhores lugares, nos banquetes oficiais e nas tribunas. O Duce, que é realmente o representante do Estado, vinha muito atrás.

De acordo com o protocolo, Hitler era igual ao rei, como chefe de Estado, ao passo que Mussolini era apenas o presidente do Conselho de Ministros.

Depois da visita à Itália, Hitler sentiu-se na obrigação de prestar uma honra especial a Mussolini. Dispôs que a Adolf Hitler Platz tomaria o nome de Mussolini, depois de reformada. Do ponto de vista arquitetônico, Hitler achava a praça simplesmente horrorosa, enfeitada pelas modernas construções da "época do sistema". Mas, dizia ele:

– Se depois dermos a essa praça o nome de Mussolini Platz, então estarei livre dela, definitivamente. Ademais, isso será um modo de homenagear Mussolini. Eu até já desenhei um monumento a Mussolini.

A reforma da praça jamais foi realizada.

No dramático ano de 1938, houve afinal um acordo de Hitler com as potências ocidentais, sobre a cessão de grandes faixas de território da Tchecoslováquia à Alemanha. Algumas semanas antes do acordo, no congresso do partido em Nuremberg, Hitler portou-se como o caudilho colérico da sua nação. Apoiando-se nos frenéticos aplausos dos seus partidários, ele pretendeu convencer os ouvintes estrangeiros, atentos à sua palavra, de que não temia a guerra. Raciocinava sob um ponto de vista retrospectivo. Essa ameaça media-se por uma larga escala, se comparada com a que fora realizada, em pequena escala, em sua entrevista com Schuschnigg. Por outro lado, receando as afirmativas feitas ao público, gostava de fixar um limite de valor do qual não podia recuar sem comprometer seu prestígio.

Os seus mais íntimos colaboradores, aos quais ele expusera o inevitável da situação, naquela época, já não duvidavam de que Hitler estivesse disposto à guerra. Mas, em sua conduta habitual, mal permitia que alguém conhecesse suas mais recônditas intenções. No entanto, o que dava a entender com relação à disposição de fazer a guerra já impressionara Brückner, seu ajudante-de-ordens categorizado, desde anos. Em setembro de 1938, durante o congresso do partido, estávamos sentados junto a uma das paredes externas do Castelo de Nuremberg. Diante de nós, envolta em um véu de fumaça, estendia-se a velha cidade, ao sol de setembro. Brückner disse com uma expressão de abatimento na voz:

– Talvez seja esta a última vez em que estamos vendo essa paisagem. Talvez esteja se aproximando a guerra. . .

Se a guerra foi evitada naquele tempo, isso decorreu mais da ductilidade das potências ocidentais do que da prudência de Hitler. A cessão do território dos sudetos à Alemanha efetuou-se ante o olhar aterrorizado do mundo e dos próprios partidários de Hitler, naquela época convencidos da infalibilidade do seu chefe.

As fortificações fronteiriças da Tchecoslováquia deram motivo a um assombro geral. Em uma prova de tiro, para Surpresa dos técnicos na matéria, demonstrou-se que as nossas armas, se empregadas contra aquelas fortificações, não produziriam efeito. Hitler foi à antiga fronteira, para ter uma idéia da instalação das casamatas, e regressou muito impressionado. Na sua opinião, as fortificações eram surpreendentemente sólidas, estavam dispostas com habilidade e perfeitamente bem dispostas no sentido da profundidade, aproveitando vantajosamente o terreno.

– Se tivessem oferecido uma resistência decidida, teria sido muito difícil conquistarmos essas posições e isso nos teria custado muitas baixas. Agora temos essas fortificações sem perder uma gota de sangue. Mas uma coisa é certa: jamais permitirei aos tchecos que construam uma nova linha de defesa. Agora já dispomos de uma vantajosa posição para apoio de uma ofensiva. Passamos as montanhas e chegamos aos vales da Boêmia.

No dia 10 de novembro, indo para o meu escritório, passei pela frente das ruínas das sinagogas, ainda fumegantes. Foi esse o quarto dos graves acontecimentos que marcaram aquele último ano anterior à guerra. Essa lembrança está ligada a um dos fatos mais deprimentes que já senti em minha existência, pois o que mais dor me causou foi ver a desordem na Fasanenstrasse: vigas carbonizadas, fachadas derruídas, paredes calcinadas – antecipação de uma imagem que haveria de estender-se por quase toda a Europa, durante a guerra. Mas o que mais me perturbou foi ver despedaçadas as vidraças, o que feria o meu sentido burguês de ordem.

Não percebi então que se havia quebrado algo mais do que vidros. Naquela noite, Hitler atravessara o Rubicão pela quarta vez, e marcou o destino do seu Reich com o selo do inelutável. Teria eu tido, pelo menos por um rápido momento, a suspeita de que se iniciara algo que só terminaria com a destruição do nosso povo? Algo que também alteraria minha substância moral? Não sei.

Considerei aquele acontecimento de um modo diferente. Para aquele meu modo de ver as coisas, contribuíram algumas palavras com as quais Hitler manifestou seu sentimento com relação ao ocorrido, que ele não desejava que acontecesse. Parecia estar envergonhado daquilo. Na presença de algumas pessoas, Goebbels declarou mais tarde que fora ele o iniciador daquela triste e monstruosa noite. Na minha opinião, é muito possível que Goebbels tenha colocado Hitler vacilante diante da lei dos fatos consumados, para reger-se por ela.

Sempre me surpreendeu o fato de que pouco me lembro das palavras anti-semitas proferidas por Hitler. Agora, lançando um olhar retrospectivo, posso, partindo do que ainda guardo na memória, recompor a imagem que me impressionou, naquela época: distanciamento daquela que eu de bom grado tinha criado a respeito de Hitler; preocupação pela sua decadência física, cada vez mais acentuada; esperança de que chegasse a uma trégua na luta contra a Igreja; o anúncio de metas afastadas, que pareciam verdadeiras utopias; toda espécie de curiosidades... Naquela época, o ódio de Hitler aos judeus parecia-me tão lógico que me impressionava.

No decurso dos anos posteriores à minha saída de Spandau, perguntaram-me, algumas vezes, o que eu tinha tratado de averiguar, nos vinte anos em que permaneci na solidão da minha cela; que sabia eu da perseguição e aniquilamento dos judeus, das espoliações de que eram vítimas, que teria eu podido saber e que classe de culpa eu supunha caber-me.

Já não dou a resposta que eu sempre dava aos meus interlocutores, com a qual, aliás, eu tratava de tranqüilizar-me, durante muito tempo, a saber: no sistema de Hitler, como em todos os regimes totalitários, a ascensão hierárquica traz um acréscimo de isolamento; a tecnificação do assassinato faz decrescer o número de assassinos, oferecendo ao mesmo tempo a possibilidade de nada saber-se; a mania do regime, no que diz respeito à conservação dos segredos, dá origem a diferentes graus de iniciados, deixando assim a cada um e a todos abertas as possibilidades de se refugiarem na ignorância da desumanidade dos acontecimentos.

Não dou mais tais respostas. Parecem ditas por um advogado. É bem verdade que eu, na qualidade de favorito e mais tarde ministro influente, estava isolado dos demais. É certo que a preocupação nos assuntos da sua competência tinha facilitado numerosas possibilidades de evasão, tanto ao arquiteto como depois ao ministro. Eu não tive conhecimento daquilo que começou na noite de 9 para 10 de novembro de 1938 e culminou em Auschwitz e Maidanek. Mas o meu isolamento, minhas possibilidades de evasão e o alcance da minha ignorância eram coisas que, em definitivo, dependiam única e exclusivamente de mim mesmo.

Por esta razão, hoje sei que as torturantes perguntas que tenho dirigido a mim mesmo tratam da questão tão erroneamente como os curiosos com quem me tenho encontrado. Se eu sabia ou não, se eu sabia muito ou pouco do que estava acontecendo, não tem nenhuma importância em comparação com o fato de que eu devia ter sabido algo do que acontecia e com as conseqüências que eu devia ter imaginado, conseqüências completamente lógicas. Aqueles que me fazem perguntas esperam, no fundo, uma justificativa da minha parte. No entanto, eu não tenho desculpas.

A nova chancelaria do Reich deveria estar terminada no dia 9 de janeiro de 1939. Hitler, que então se achava em Munique, apareceu em Berlim, no dia 7 daquele mês, dominado pela tensão e, evidentemente, supondo encontrar por toda parte uma terrível confusão de operários e turmas de limpeza. Toda gente sabe da pressa febril, pouco antes de entregar-se uma obra: desmontagem de andaimes, limpeza de poeira, retirada de entulho, colocação de cortinas, de quadros. No entanto, Hitler equivocou-se. Tínhamos calculado o término da obra com alguns dias de antecipação, dias de que não necessitávamos de modo nenhum, por isso que dispúnhamos de quarenta e oito horas para entregar a obra já completamente terminada. Quando Hitler passou pelas salas, podia já sentar-se à sua mesa de trabalho para tratar dos assuntos governamentais.

A obra impressionou-o, e se desfez em elogios ao trabalho do "genial arquiteto". Repetiu esses elogios na minha presença, o que era contrário ao seu hábito. O fato de eu ter conseguido terminar a obra dois dias antes de findar o prazo estipulado contribuiu para eu adquirir a fama de extraordinário organizador.

Hitler sentiu-se satisfeito porque os convidados oficiais e diplomatas, no futuro, teriam de andar bastante até chegar à sala de recepção. Eu tinha reparos a fazer a respeito do piso de mármore muito polido, que eu não gostaria de ver recoberto por um tapete. Hitler observou:

– Assim é que está certo. Uma vez que são diplomatas, que se movam sobre um solo escorregadio. . .

A sala de recepção, entretanto, era pequena para o gosto de Hitler, que ordenou fosse ampliada três vezes. Os planos da ampliação já estavam prontos, quando estalou a guerra. Mas o gabinete foi de seu agrado. Porém, o que produziu maior contentamento foi um trabalho de gravação na superfície da sua mesa de trabalho, figurando uma espada meio desembainhada.

– Bem... bem... os diplomatas saberão o que é o medo, quando estiverem diante de mim e virem o que há nesta mesa. . .

Dos painéis dourados que dispus acima das quatro portas de acesso ao seu gabinete baixavam o olhar sobre a mesa quatro virtudes: Sabedoria, Reflexão, Valentia e Justiça. Duas esculturas flanqueavam o pórtico de entrada para a sala redonda, desde a grande galeria. Uma dessas estátuas representava o "ousado", a outra o "ponderado".

Essa indicação do meu amigo Breker, antes patética, segundo a qual toda ousadia há de estar aparelhada com a inteligência, mostrava até que ponto meu conselho alegórico significava uma ingênua superestimação das recomendações artísticas. Mas talvez incluísse algo de inquietação pelo arriscado do objetivo logrado.

Ao lado da janela, havia uma grande mesa com uma pesada superfície de mármore, onde no começo não se colocaram papéis. Mas, a partir de 1944, a mesa foi utilizada para nela se estenderem os mapas das operações militares, quando se reuniam as conferências dos membros do comando supremo e generais para o estudo das operações bélicas. Já então se iniciara o avanço dos inimigos no próprio território do Reich. E lá também se realizou a última reunião presidida por Hitler no nível do solo. A seguinte se fez a cento e cinqüenta metros de distância, sob muitos metros de cimento armado.

Quatro mil e quinhentos operários tinham trabalhado em dois turnos, para que a obra se concluísse no prazo determinado. Acrescentem-se mais uns mil, espalhados pelo país, para a execução de trabalhos a serem utilizados no edifício.

No Palácio dos Esportes, Hitler falou-lhes assim:

– Sou o representante do povo alemão. Quando alguém for recebido na chancelaria do Reich, não será o homem Adolf Hitler que o receberá, mas o chefe da nação alemã. Portanto, não serei eu quem receberá, e sim a Alemanha, por meu intermédio. E por isso quero que este palácio esteja à altura de sua função. Cada um dos que aqui trabalharam ajudou a construir uma obra que há de durar séculos e séculos e que dará testemunho da nossa época. A primeira obra do grande Império Alemão!

Depois das refeições, ele costumava perguntar qual dos léus convidados não tinha ainda visto a chancelaria e sentia-se satisfeito quando podia mostrar a alguém o novo prédio. Em tais ocasiões, demonstrava aos seus assombrados acompanhantes sua capacidade para reter dados. E perguntava-me: “– Quais as dimensões desta sala? Que altura?”

Eu não respondia, mas Hitler dava as dimensões, sempre exatas. Isso acabou sendo uma espécie de cartas marcadas, pois os algarismos foram sendo decorados por mim. Mas como ele se divertia, eu também tomava parte no jogo.

Sucederam-se então as distinções de que fui alvo da parte de Hitler. Ofereceu em sua residência um almoço aos meus colaboradores mais íntimos; redigiu um artigo para o livro sobre a chancelaria do Reich; condecorou-me com as insígnias de ouro do partido; dirigiu-me algumas palavras na dedicatória de uma das suas aquarelas, feitas quando rapaz. Pintada em 1909, na época mais sombria da vida de Hitler, reproduz uma igreja gótica, sendo o exemplo de um trabalho extraordinariamente minucioso, paciente e pedante. Não se sente nela nenhuma emoção, não se vê nenhuma pincelada com inspiração. Mas não é somente nos traços que se verifica a falta de personalidade; a pintura, pela escolha do tema, as cores apagadas, com a ingênua perspectiva, parece um inequívoco testemunho daquela antiga época de Hitler. Todas as suas aquarelas daquela época produzem a mesma impressão de falta de conteúdo. Também são impessoais os quadros pintados durante a Primeira Guerra Mundial. Mas dão prova de uma transformação na sua sensibilidade os esboços a pena da Grande Sala de Berlim e do Arco do Triunfo, que ele desenhou, por volta de 1925. Dez anos depois, fez desenhos na minha presença, riscando os traços com mão enérgica, empregando lápis azul e vermelho, linha após linha, superpondo as folhas, até atingir à forma que ele imaginava. Mas ainda mirava com olhos amorosos suas insignificantes aquarelas, feitas na mocidade, pois uma vez ou outra presenteava-as a quem ele pretendia agradar de um modo especial.

Desde muitos anos, havia na chancelaria do Reich um busto de Bismarck, em mármore, executado por Reinhold Begas. Dias antes da inauguração da chancelaria, quando os operários o mudavam para um outro local, o busto caiu e a cabeça quebrou-se. Isso me pareceu de mau presságio. Hitler já me dissera que a águia do Reich, que coroava o edifício dos Correios, tinha se desequilibrado exatamente no começo da Primeira Guerra Mundial. Por isso ocultei de Hitler aquele incidente e pedi a Breker que fizesse uma cópia exata, à qual aplicamos uma solução de chá para criar a patina, fingindo antiguidade.

No discurso já mencionado, Hitler, seguro de si mesmo, proferiu as seguintes palavras:

– Precisamente o que há de maravilhoso neste trabalho é que a obra se transforma em monumento, perdurável, algo muito diferente de um par de botas, que embora resultem de trabalho estragam-se em um ou dois anos e não são utilizadas depois. Esta obra vai perdurar e, durante séculos, será um testemunho vivo de todos os que a realizaram.

No dia 12 de janeiro de 1939, inaugurou-se o edifício destinado a durar séculos. Hitler recebeu, no Grande Salão, os diplomatas acreditados em Berlim, para a reunião de Ano Novo.

Sessenta e cinco dias depois da inauguração, ou seja, em 15 de março de 1939, o chefe do governo tchecoslovaco foi levado ao novo gabinete. Iniciou-se lá aquela tragédia que começou à noite, com a submissão de Hacha, e terminou às primeiras horas da manhã, com a ocupação do seu país.

– Afinal – informou Hitler mais tarde –, veio à minha presença o velho senhor, tão cansado que perdeu completamente o domínio dos nervos e manifestou-se disposto a assinar, mas naquele momento teve um ataque cardíaco. O Dr. Morell aplicou-lhe uma injeção, na sala vizinha, injeção muito eficaz no caso. Hacha recuperou bem suas forças, voltou a demonstrar energia e nenhuma disposição a assinar o tratado. Finalmente, pude vencer sua resistência.

No dia 16 de julho de 1945, ou seja, sessenta e oito meses depois da inauguração da chancelaria, Winston Churchill foi percorrer as salas daquele edifício e lembrou no seu livro A Segunda Guerra Mundial:

"Uma grande multidão estava reunida em frente à chancelaria do Reich. Todos me saudaram com vivas, exceto um velho que sacudiu a cabeça com um gesto desaprovador. Essa atitude daquele velho comoveu-me tanto quanto os rostos magros e as roupas gastas da multidão. Percorremos então os corredores e salões destruídos da chancelaria".

Pouco depois o edifício foi demolido. As pedras e os mármores deram material para o monumento dos russos em Berlim-Treptow.

 

                           UM DIA NA CHANCELARIA DO REICH

Oscilava entre quarenta e cinqüenta o número de pessoas que tinham acesso à mesa de almoço de Hitler. Bastava-lhes chamar pelo telefone um dos ajudantes-de-ordens e dizer-lhe que iriam almoçar. Em geral, eram chefes regionais do partido e alguns ministros, além das pessoas do círculo íntimo de Hitler. No entanto, não se via nenhum militar, exceto o oficial de ligações de Hitler na Wehrmacht. Aquele oficial – Coronel Schmundt – instou com o Fuhrer, várias vezes, para que consentisse em convidar à sua mesa os militares mais destacados. Mas Hitler não aceitava a sugestão do Coronel Schmundt. Talvez compreendesse que, reunidos, os seus velhos colaboradores dariam motivo aos oficiais para fazerem observações pejorativas.

Eu também tinha acesso livre à residência de Hitler e com freqüência usava dessa facilidade. O policial de guarda, na entrada do jardim, conhecia meu carro e abria o portão, sem mais nenhuma explicação. Eu estacionava o carro no pátio e dirigia-me à vivenda, reformada por Troost, situada à direita da nova chancelaria, com a qual se comunicava por um vestíbulo.

O homem das SS, da escolta de Hitler, saudava-me familiarmente. Eu lhe entregava os meus rolos de desenhos e dirigia-me à ampla ante-sala, sem estar acompanhado, como se fosse alguém de casa. A ante-sala dispunha de dois cômodos grupos de poltronas, tinha as paredes recobertas de painéis gobelinos, e o piso era de mármore vermelho-escuro, recoberto de espessos tapetes. Alguns dos presentes conversavam, outros falavam ao telefone. Era um lugar procurado, pois somente ali era permitido fumar.

Não era de praxe a saudação "Heil Hitler!" O "bom dia" era o habitual. Também não era comum a exibição de insígnias do partido, sendo raros os uniformes. Quem chegasse até ali gozava do privilégio de comportar-se até certo ponto sem nenhuma cerimônia.

À verdadeira sala de estar, onde os presentes, em geral, conversavam de pé, chegava-se através de um salão de recepção, onde ninguém ficava, devido aos móveis incômodos. A sala de estar, com uns cem metros quadrados, era a única peça mobiliada com alguma intenção de conforto. Em consideração a Bismarck, não sofrera nenhuma alteração durante a grande reforma de 1933 a 1934. O teto era de vigas de madeira e as paredes estavam revestidas também de madeira, até meia-altura. Além disso, havia ali uma lareira, adornada com um escudo do Renascimento florentino, que o Chanceler Von Bülow trouxera da Itália. Era a única lareira existente no pavimento térreo. Em redor agrupavam-se móveis revestidos de couro escuro e por trás do sofá uma grande mesa em cuja superfície de mármore estavam alguns periódicos. Um gobelino e duas telas de Schinkel ornavam as paredes. A Galeria Nacional emprestara-os para a residência do chanceler.

Hitler não era pontual, de modo nenhum. A refeição estava anunciada para as duas da tarde. Mas, em geral, começava às três, e algumas vezes mais tarde. Isso quando Hitler vinha ou dos aposentos particulares ou de alguma conferência na chancelaria. Quando ele entrava não havia nenhum movimento de atenção, parecendo tratar-se de uma pessoa qualquer. Cumprimentava alguns convidados, apertando-lhes a mão, formava-se um círculo em seu derredor, e Hitler então externava suas opiniões a respeito de tal ou qual problema do dia. No caso de alguns privilegiados, perguntava em tom convencional pela "senhora". Depois, solicitava ao chefe de imprensa um relatório a respeito das notícias, sentava-se em uma poltrona um pouco afastada e começava a leitura. De quando em quando, entregava a um dos presentes uma das folhas do relatório, fazendo observações, quando a notícia lhe parecia particularmente interessante.

Enquanto isso, os convidados andavam de um para outro lado, durante quinze ou vinte minutos, até que se descerrava a cortina, atrás da qual se abria uma porta envidraçada que dava acesso à sala de refeições. O "mordomo da casa", um indivíduo com figura de dono de estalagem, que despertava confiança pelo volume da barriga, informava a Hitler que os pratos estavam na mesa. O Fuhrer ia à frente, seguido dos convidados, reunidos sem atenção a categorias, entrando todos no refeitório.

Era uma grande peça quadrada, doze metros por doze, talvez a mais bem planejada na vivenda do Fuhrer, cujos recintos tinham sido reformados por Troost. Uma das paredes, na qual se abriam três portas envidraçadas, dava para o jardim. Havia um grande armário para louça e por cima uma pintura de Kaulbach, inacabada. Embora não tivesse sido terminado, o quadro possuía algum interesse, sendo um exemplo da meticulosidade do eclético pintor. No centro das outras paredes, havia nichos em forma de arco semicircular, dentro dos quais, sobre um pedestal de mármore, viam-se nus do escultor Wackerle, de Munique. De ambos os lados dos nichos abriam-se outras tantas portas de cristal, dando acesso a uma grande sala de estar e à sala de estar já mencionada, por onde se entrava na sala de jantar. As paredes eram pintadas de branco, assim como da cor de creme, e umas cortinas de tecido claro emprestavam luminosidade ao ambiente. Os móveis eram sóbrios e suscitavam uma impressão de tranqüilidade. O centro estava ocupado por uma mesa redonda, com capacidade para cerca de quinze pessoas, rodeada de cadeiras comuns de madeira escura, forradas de couro vermelho-escuro. Todas eram iguais, inclusive a de Hitler. Nos cantos havia outras quatro mesas pequenas, com quatro ou seis cadeiras do mesmo tipo. A baixela era de porcelana clara e singela, sendo também singelos os vasos. Tudo fora escolhido pelo Professor Troost. No centro da mesa, via-se uma jarra com flores. Aquele era o "restaurante do alegre chanceler do Reich", assim o denominava Hitler, freqüentemente, perante os seus convidados. O Fuhrer sentava-se ao lado da janela, tendo antes determinado quais os convivas que se sentariam ao seu lado. Os demais sentavam-se à vontade. Quando os convidados eram muitos, os ajudantes-de-ordens e algumas pessoas menos importantes, entre as quais eu estava incluído, sentavam-se às mesas pequenas. Isso significava uma vantagem para mim, pois ali se podia conversar livremente.

A comida era trivial: sopa, carne, um pouco de verduras e batatas, e um prato de doce. Para beber, podíamos escolher água mineral, cerveja comum, engarrafada, e vinho barato. Hitler costumava servir-se de pratos vegetarianos e bebia Fachinger, podendo ser imitado por quem o quisesse, mas muito poucos desejavam o regime do Fuhrer. O próprio Hitler valorizava aquela sobriedade, supondo fosse comentada em todo o país. Um dia os pescadores de Helgoland presentearam-no com uma lagosta gigantesca, a qual foi preparada e servida aos convidados. Hitler não somente externou comentários sobre a insensatez humana, que levava a se devorarem tais monstros, como também proibiu tais luxos. Raras vezes Goering comparecia àqueles almoços. Um dia, ele me disse:

– Falando com franqueza, acho muito ruim a comida que servem lá. E ainda por cima aqueles pequenos burgueses de Munique!... Insuportáveis!

Hess comparecia de quinze em quinze dias, acompanhado do seu ajudante-de-ordens, que levava uma marmita em cujos recipientes havia uma comida especialmente preparada, que era requentada na cozinha. Durante algum tempo, Hitler não soube que Hess se servia de pratos vegetarianos especialmente condimentados para ele. Quando soube ficou aborrecido e disse a Hess, na frente de outros convidados:

– Tenho uma cozinheira excelente, que sabe preparar comidas de regime. Se o seu médico prescreve algo especial, ela pode preparar e o fará de boa vontade. Mas não volte a trazer sua comida.

Naquela época, Hess tinha a tendência à teimosia, mostrando-se recalcitrante. Intentou explicar a Hitler que os componentes da sua comida tinham um caráter biológico-dinâmico especial. A resposta foi que por isso ele ficasse em casa. Desde então, raras vezes ele ia almoçar na chancelaria.

Quando, por exigência do partido, em todos os lares, na Alemanha, só devia ser servido um prato único, para se permitir a prática do slogan "Canhões em vez de manteiga", também na residência de Hitler se servia apenas uma sopa. Desde então, o número de convivas reduziu-se a somente dois ou três, o que induziu Hitler a externar sarcásticas observações sobre o espírito de sacrifício dos seus colaboradores, pois a cada um se apresentava uma lista para que escolhesse nela um prato. Cada prato único custava de cinqüenta a cem marcos.

Goebbels era o conviva mais importante. Himmler comparecia raras vezes. Naturalmente, Bormann não faltava. Eu também era infalível, embora não fosse considerado um convidado, pois pertencia ao círculo íntimo de Hitler.

As conversas de sobremesa, na chancelaria, não se afastavam do ternário estabelecido, desconcertante pelo reduzido número de assuntos e pela maneira de considerar os fatos, impregnada de preconceitos, tal como acontecia nas palestras de Obersalzberg.

Em seus monólogos, Hitler afirmava que o seu mundo de idéias, nos aspectos político, artístico e militar, era unitário, que se forjara em seus pormenores entre os vinte e os trinta anos. Em sua opinião, sob o ponto de vista espiritual, aquela época fora a mais fértil em sua existência. Aquilo que planejava e realizava, atualmente, era tão-somente a execução das idéias elaboradas havia anos.

Assumiam então grande importância as conversas a respeito da Primeira Guerra Mundial, da qual tinha participado a maioria dos presentes. Hitler lutara contra os ingleses, cuja valentia e tenacidade mereciam seu respeito, embora algumas vezes zombasse das suas manias. Afirmava com ironia que os ingleses suspendiam o fogo de artilharia na hora do chá. Por isso ele se entregava aos seus afazeres, naquela hora, sem nenhum risco. Também, durante 1938, não manifestou nenhum sentimento de menosprezo aos franceses. Não desejava desencadear outra guerra, como a de 1914, sendo de opinião que não valia a pena empreender uma guerra por um território tão insignificante. Ademais, segundo ele, os alsacianos tinham tantas vezes mudado de nacionalidade que acabaram por perder a personalidade coletiva. Não havia nenhuma vantagem, nem para a Alemanha, nem para a França, em incorporá-los. Deixá-los como estavam. Falando assim Hitler partia naturalmente da premissa da expansão da Alemanha para o oeste. A valentia do soldado francês, durante a Primeira Guerra Mundial, tinha-o impressionado. Segundo Hitler, só o oficial perdera o caráter viril:

– Os franceses seriam tropas magníficas, se tivessem oficiais alemães.

A respeito de um pacto com o Japão, discutível sob o ponto de vista racista, ele não o recusava, mostrando-se contudo reservado quanto ao futuro longínquo. Sempre que se referia a isso, parecia queixar-se por se haver aliado à raça denominada amarela. Mas concordava em que não havia razão para reprovar aquele acordo, pois durante a guerra a Inglaterra mobilizara o Japão contra as potências centrais. Para o Fuhrer, o Japão era uma potência mundial, o que não seria a Itália, no seu modo de pensar. Também dizia que os norte-americanos não tinham se destacado muito, não havendo grandes perdas de vidas no Exército dos Estados Unidos, durante a guerra de 1914-1918. Na sua opinião, era escasso o valor militar dos norte-americanos; não agüentariam uma prova que exigisse esforço árduo. Para ele, não havia povo norte-americano, que, no final de contas, não era mais do que um aglomerado de imigrantes, de várias procedências e de diferentes raças.

Fritz Wiedemann, antigo subcomandante de regimento, depois feito por Hitler seu ajudante-de-ordens, intentou com muita falta de tato contradizê-lo e sugeriu-lhe que entabulasse conversações com a América. Este, aborrecido pela oposição do seu auxiliar, oposição que transgredia a norma pela qual procediam os convidados à mesa do Fuhrer, mandou-o à cidade de San Francisco, na qualidade de cônsul-geral.

– Lá ele se curará das suas idéias.

Naquelas palestras, à sobremesa, não havia ninguém que tivesse experiência dos países estrangeiros. A maior parte dos componentes do grupo em torno de Hitler não havia atravessado as fronteiras da Alemanha. Se algum dos presentes tivesse feito uma viagem de recreio à Itália, na mesa de Hitler, isso era considerado um acontecimento, sendo atribuída a tal viajante uma experiência internacional. Nem Hitler vira coisa alguma, além das fronteiras da Alemanha, nem adquirira conhecimentos dos países estrangeiros ou capacidade para compreensão das coisas. Nem possuíam instrução superior os políticos que o rodeavam. Dos cinqüenta chefes nacionais e regionais que constituíam a flor e a nata da chefia do Reich, apenas dez possuíam formação universitária. Alguns não tinham terminado os estudos nas universidades, a maioria não ultrapassara o currículo do ensino secundário. Quase nenhum deles se mostrara capaz de ação com rendimento digno de atenção, em algum campo de atividade; quase todos evidenciavam surpreendente falta de espiritualidade. A formação deles de modo nenhum correspondia às esperanças que deveriam ser postas na escolha de chefes de um povo com um nível espiritual tradicionalmente elevado. No seu íntimo, Hitler preferia rodear-se de colaboradores da sua mesma origem, por se sentir, talvez, melhor na companhia deles. Gostava de que, em geral, os seus colaboradores denunciassem possuir alguma tara, como se dizia naquela época. Hanke disse um dia:

– Sempre é conveniente que os colaboradores tenham defeitos e saibam que os seus defeitos são conhecidos do seu superior. Por essa razão, raramente o Fuhrer muda de auxiliares, pois com os que já conhece é fácil trabalhar. Quase todos apresentam uma falha, e isso ajuda a mantê-los submissos.

As taras mais comuns eram: procedimento imoral, antepassados judeus ou ser membro novo do partido.

De quando em quando, Hitler estendia-se em considerações sobre o erro de se exportarem ideologias, tais como a do nacional-socialismo. Isso, acrescentava, tinha como resultado exclusivo o fortalecimento de outros países e portanto o enfraquecimento da posição da Alemanha. Tranqüilizava-o o fato de que os partidos nacional-socialistas de outros países não dispunham de um chefe que o igualasse. Ele chamava de copistas Mussert e Mosley, homens aos quais não ocorrera nenhuma idéia original. "Só fazem imitar nossos métodos, à maneira dos escravos. Isso não leva a coisa nenhuma. Cada país tem de se apoiar em suas premissas próprias, determinando seus métodos de acordo com as mesmas." Estimava muito Degrelle, embora nada esperasse dele.

A política para Hitler era um caso de oportunidade, não excluindo dessa concepção nem mesmo seu antigo livro Minha luta (Mein Kampf). Dizia que o livro estava em grande parte errado, que não devia ter fixado sua posição com tanta antecipação. Tais observações fizeram-me abandonar definitivamente meus infrutíferos esforços no sentido de ler o livro.

Quando, depois da conquista do poder, a ideologia passou a segundo plano, foram sobretudo Goebbels e Bormann os organizadores de uma frente contra o aburguesamento e a superficialidade do partido, intentando a radicalização de Hitler no aspecto ideológico. Não há dúvida de que também Ley pertencia ao grupo dos ideólogos "duros". Mas ele carecia de personalidade suficiente para exercer influência digna de menção. Ao contrário, Himmler continuou avançando pelo seu rumo ridículo, criado na base da pureza da primitiva raça germânica com pensamentos de escol e idéias reformistas, tudo isso indo adquirir uma extravagante forma pseudo-reli-giosa. Junto de Hitler, era Goebbels quem ridicularizava as aspirações de Himmler, e nisso, sem dúvida, auxiliava-o Branmler, com sua vã obstinação. Por exemplo, quando os japoneses presentearam Himmler com uma espada de samurai, este descobriu afinidades entre os cultos nipônicos e germânicos. Auxiliado por cientistas, andou tratando de averiguar como se traçaria um denominador comum para essas circunstâncias.

A questão realmente interessante para Hitler era poder assegurar ao seu Reich a existência de novas gerações, educadas para essa finalidade. A idéia partira de Ley, a quem Hitler confiou também a organização do sistema educacional. A construção de "escolas Adolf Hitler", para os mais jovens, e de "escolas superiores de chefia", para aperfeiçoamento da formação da mocidade, visava à criação de uma elite, sob o aspecto da ideologia e da especialização. Essa seleção só habilitaria ao exercício de funções dentro do partido, porquanto os anos de juventude passados no internato afastariam os jovens da vida pública. E no que diz respeito à arrogância e à diminuição da capacidade de discernimento, aqueles moços não seriam superados por ninguém, tal como demonstraram alguns. Era sintomático que os altos funcionários não mandassem seus filhos àquelas escolas. Até mesmo um indivíduo tão fanático como Sauckel não permitiu que nenhum dos seus filhos recebesse aquela educação. E note-se que Bormann enviou a tais escolas um dos seus filhos para castigá-lo.

Na opinião de Bormann, a luta contra a Igreja era um dos recursos indubitavelmente necessários para animar-se a ideologia do partido, já descurada. Bormann era a força impulsora daquela orientação anticlerical, o que se evidenciou várias vezes no decurso das reuniões. Não há dúvida de que as vacilações de Hitler se explicariam pela expectativa do momento propício para desfechar aquela luta. Naquele grupo, onde somente havia homens, ele manifestava seu pensamento de um modo mais brutal e franco do que entre os habituais convidados de Obersalzberg. Às vezes, dizia:

– Quando eu tiver solucionado todas as outras questões, ajustarei contas com a Igreja. Mas Bormann não queria o contínuo adiamento desse de contas. Sua forma estúpida e direta de fazer as não se conciliava com o pragmatismo ponderado de Aproveitava todas as ocasiões propícias para adiantar-se na execução dos seus planos. Mesmo durante as refeições, Bormann não deixava de referir-se a esse assunto, contrariando o que se tinha combinado a respeito de conversas que pudessem irritar Hitler, quando ele estivesse à mesa. Indicava um dos convivas para abrir fogo, induzindo-o a relatar em voz alta o que ouvira de tal ou qual sacerdote em um sermão. Interessado, Hitler acabava pedindo pormenores do ocorrido. Bormann dizia que houvera algo de desagradável, mas que não convinha tirar o apetite a Hitler, contando-lhe o acontecido. Então Hitler insistia, e Bormann fingia estar apenas contando algo sem importância. Os olhares coléricos dos presentes não lhe interessavam, nem o enrubescimento da face de Hitler. Uma ou outra vez, tirava de um dos bolsos do casaco uma folha de papel e começava a leitura de um trecho de sermão, de uma circular de autoridade eclesiástica, igualmente subversivo. Hitler mostrava-se logo excitado, estalando os dedos – sinal certo do seu desagrado –, deixava de comer e anunciava a desforra para mais adiante. Tolerava melhor as críticas e os ataques nos países estrangeiros do que a oposição dentro das fronteiras do país. O fato de não poder sufocá-las no momento levava-o a tremenda excitação, apesar de em geral saber conter-se, devidamente.

Hitler não possuía nenhuma capacidade de invenção humorística. Deixava que outros dissessem piadas e então ria muito, por algum tempo. Às vezes, torcia-se de tanto rir. Havia ocasiões em que tinha de limpar lágrimas, provocadas por tais acessos de hilaridade. Gostava de rir, mas, se o examinássemos bem, sempre à custa de outros.

Goebbels era dotado de extrema habilidade para entreter Hitler com seus gracejos, diminuindo ao mesmo tempo a importância dos seus inimigos pessoais, na luta pela conquista do poder. Certa vez, contou a Hitler o seguinte:

– Componentes da Juventude Hitlerista pediram que publicássemos nos jornais uma notícia do vigésimo quinto aniversário do seu chefe de Estado-Maior, Lauterbacher. Mandei-lhes um rascunho de artigo, no qual se dizia que Lauterbacher, nos seus vinte é cinco anos, estava "em pleno vigor físico e mental". Mas depois não tivemos mais noticias dele.

Hitler soltou gargalhadas. Contando aquele simples incidente, Goebbels conseguira desacreditar a presunçosa chefia da juventude melhor do que se tivesse se estendido em larga exposição de motivos. Uma ou outra vez, em suas reuniões, Hitler, falando da mocidade, insistia na severidade da educação que recebera.

– Freqüentemente, meu pai aplicava-me algumas pancadas fortes. Mas acredito que fossem necessárias, ajudaram-me.

Wilhelm Frick, ministro do Interior, deu um aparte:

– Pelo que se vê hoje, meu Fuhrer, aquelas pancadas ajustaram-se bem ao senhor.

Fez-se um silêncio mortal em torno e, para remediar a situação, Frick acrescentou:

– Quero dizer, meu Fuhrer, que por isso o senhor chegou tão alto.

Goebbels, para quem Frick era um perfeito idiota, comentou sarcasticamente:

– Vê-se bem, querido Frick, que você nunca recebeu uma pancada do seu pai.

Walter Funk, ministro da Economia e também presidente do Banco do Reich, contava as loucuras que Brinkmann, vice-presidente do banco, fizera, impunemente, durante meses, antes de afinal ser declarado doente mental. Falando assim, Funk não somente pretendia distrair Hitler, mas, ao mesmo tempo, de maneira insuspeita, fazê-lo sabedor de fatos de que Hitler teria mais tarde de ser informado. Brinkmann convidava as mulheres encarregadas da limpeza e os contínuos do Banco do Reich a um grande almoço, na sala de banquetes de um dos melhores hotéis de Berlim – o Bristol –, tocando violino em seguida. É verdade que esse procedimento, a demonstração de igualdade na sociedade, coincidia Com os propósitos do partido. Mas a narrativa foi adquirindo um significado grave, quando Funk continuou falando, enquanto rebentavam gargalhadas:

– Não faz muito tempo, ele postou-se à frente do Ministério da Economia, tirou da pasta um grande maço de cédulas recém-impressas (como sabem, as cédulas têm minha assinatura) e começou a distribuí-las aos transeuntes, dizendo-lhes: "Quem quer uma cédula nova assinada por Funk?" Funk contou que a loucura do seu vice-presidente fora descoberta, afinal, pouco depois do seguinte incidente.

Brinkmann reunira todos os funcionários do banco, ordenando-lhes:

– Os que tiverem mais de cinqüenta anos coloquem-se à esquerda; os mais moços, à direita.

Então perguntou a um dos que estavam à direita:

– Quantos anos tem o senhor?

– Quarenta e nove, senhor presidente.

– Então, para a esquerda. Bem, todos os que estiverem à esquerda vão ser logo aposentados, recebendo o dobro da aposentadoria.

Hitler tinha os olhos marejados de lágrimas de tanto rir. Quando terminou o acesso de riso, começou o seu monólogo sobre a dificuldade em se diagnosticar loucura, em casos tais. Contando o caso, Funk obtivera a possibilidade de uma defesa, sem solicitar coisa nenhuma. O vice-presidente do Banco do Reich, autorizado a assinar valores, emitira em nome de Goering um título de vários milhões, título que o "ditador econômico" tratou de cobrar sem nenhuma consideração à pessoa de Goering. Este negou que Brinkmann fosse irresponsável. Mas Hitler já tinha sobre o assunto sua opinião firmada, de acordo com as informações de Funk. Quem primeiro sugerisse uma idéia a Hitler podia estar certo de que teria sua partida ganha, na questão em que estivesse interessado. Isso já era sabido de todos, por experiência. No entanto, Funk encontrou dificuldade na cobrança a Goering.

Um alvo preferido para as zombarias de Goebbels era Rosenberg, que ele qualificava de "filósofo do Reich", ridicularizando-o perante terceiros, mediante anedotas. No caso de Rosenberg, Goebbels podia ter a certeza do aplauso de Hitler. Goebbels repetia tantas vezes suas invectivas, que parecia um ator teatral, que tivesse decorado o seu papel. Era quase certo que, no fim, Hitler comentaria:

– O Volkischer Beobachter é exatamente tão chato quanto o seu diretor, Rosenberg. Temos no partido um periódico que se diz humorista: Die Brennessel, que é a publicação mais triste que se possa imaginar. Pois bem, sob um ponto de vista oposto, o VB é nada mais nada menos do que um periódico humorístico.

Também para divertir Hitler, Goebbels não poupava o proprietário da gráfica, Muller, que fazia o possível por conservar seus fregueses os membros do partido e seus antigos clientes, pertencentes às esferas rigidamente católicas da Alta Baviera. A produção de Müller era muito diversificada, compreendendo desde folhinhas de calendário com gravuras de santos até os escritos anticlericais de Rosenberg. Ele podia proceder daquela maneira, pois, durante o decênio de 20, viera imprimindo o Volkischer Beobachter, apesar de não serem pagas as contas.

Um antigo companheiro do partido, Eugen Hadamowski, que obtivera na radiodifusora uma posição importante, a de chefe das programações radiofônicas do Reich, desejava, ardentemente, ser chefe da radiodifusão do Reich. O ministro da Propaganda, tendo já outro candidato, temia que Hitler acabasse apoiando Hadamowski, pois este, antes de 1933, organizara com muita habilidade as transmissões na campanha eleitoral, mediante uma rede de alto-falantes. O subsecretário do Ministério da Propaganda, Hanke, mandou-lhe um recado para que Hadamowski se lhe apresentasse. Disse-lhe então que ele fora nomeado por Hitler "diretor artístico do Reich". A explosão de alegria de Hadamowski, tendo alcançado o objetivo que tanto desejava, foi descrita a Hitler, durante a refeição. O Fuhrer ficou desfigurado ao saber de um fato que era um embuste. No dia seguinte, Goebbels mandou que se imprimissem alguns números de jornal, que policiava a nomeação com enorme elogio ao nomeado. Goebbels sabia fazer essas coisas. Então podia agora falar a Hitler de todos os elogios e exageros no artigo do jornal, da alegria que essa notícia jornalística provocara em Hadamowski. O resultado foi outra explosão de riso de Hitler e dos que participavam do almoço. No mesmo dia, Hanke solicitou a Hadamowski que pronunciasse uma alocução dirigida ao público, falando em um microfone desligado. Isso foi ainda motivo de outra seção de hilaridade, quando os participantes da reunião souberam da exagerada alegria de Hadamowski que significava fatuidade. Goebbels já não tinha para temer um pedido de alguém em favor de Hadaski. Foi um jogo diabólico, no decurso do qual o ridículo não tivera sequer a possibilidade de defender-se, nem suspeitasse de que estava sendo autor de uma trama que impediria Hitler de protegê-lo. Talvez se acreditasse que o intrigante Goebbels fazia rir por meios indiretos. Segundo minhas observações, em tais casos Hitler não estava à altura de Goebbels. Essa de sutileza não fazia parte do seu modo de ser, muito mais direto nos procedimentos. Mas a gravidade estava em que Hitler apoiasse e até provocasse aqueles processos sujos. Não há dúvida de que bastaria uma expressão de mau humor, ainda que breve, para dar fim a tal situação.

Perguntaram-me, freqüentes vezes, se Hitler era um homem influenciável. Sem dúvida que sim, e também em alto grau, por quem soubesse agir adequadamente. Hitler era desconfiado. Mas, a meu ver, sem argúcia, porquanto nem sempre era capaz de entender os lances de xadrez daqueles que pretendiam que atuasse em determinado rumo. Evidentemente, não podia perceber um jogo bem feito, metódico. Goering, Goebbels, Bormann e, pouco abaixo, Himmler eram mestres nessas armadilhas. Dado que, nas questões decisivas, a linguagem franca não obtinha de Hitler uma alteração de pensamento, a posição daqueles homens adquiria maior importância para as deliberações de Hitler.

Encerrarei a menção do que ocorria nas reuniões à sobremesa contando outro embuste. Nessa ocasião, o alvo do ataque foi Putzi Hanfstaengl, chefe da imprensa estrangeira. Goebbels desconfiava dele por causa das suas relações pessoais com Hitler. Ridicularizava-o pela sua suposta avareza. Utilizando-se de um disco de vitrola, Goebbels tentou demonstrar que Hanfstaengl plagiara de uma canção inglesa a música de uma marcha popular, composta por ele, intitulada Der Fon.

Assim, o chefe da imprensa estrangeira já estava desacreditado, quando, durante a Guerra Civil Espanhola, Goebbels contou que Hanfstaengl fizera observações depreciativas da combatividade dos soldados alemães na Espanha. Hitler aborreceu-se. Iria dar uma lição àquele covarde, que não tinha nenhum direito a dar opinião sobre a valentia dos demais. Alguns dias mais tarde, apresentou-se no gabinete de Hanfstaengl um mensageiro de Hitler. Era portador de envelope lacrado, que Hanfstaengl só podia abrir depois de estar em um avião que estava preparado para ele viajar. A bordo do avião, depois de levantar vôo, o chefe da imprensa leu, aterrorizado, que desceria na "zona ocupada pelos vermelhos na Espanha", a fim de agir lá como agente de Franco.

Hitler soube de todos os detalhes pelo que lhe contou Goebbels, na mesa. Depois de ler a folha de papel, Hanfstaengl rogara, desesperadamente, ao piloto que voltasse, pois a causa daquele vôo devia ser um mal-entendido. O avião estivera voando em círculo, horas e horas, sobre o território alemão. O passageiro recebia informações falsas a respeito da viagem e pensou que já estivesse se aproximando do território espanhol. Afinal, o piloto disse que tinha de fazer uma aterrissagem forçada e desceu no aeródromo de Leipzig. Hanfstaengl soube então que tinham zombado dele e excitado declarou que estavam tramando contra a sua vida, desaparecendo sem deixar rastro.

Os diálogos reproduzidos produziam risadas, na mesa de Hitler, especialmente pelo fato de ter sido o Fuhrer em pessoa quem planejara a trama com Goebbels. Mas quando alguns dias depois Hitler soube que o seu chefe de imprensa se refugiara em um país estrangeiro, receou que Hanfstaengl colaborasse com os jornais daquele país para ganhar dinheiro, aproveitando-se das suas relações com o Fuhrer. Apesar da venalidade atribuída a Hanfstaengl, este não procedeu assim.

Também me impressionou a tendência de Hitler a destruir, por meio de cruéis situações ridículas, a fama e auto-estima de colaboradores próximos e leais companheiros de luta. Apesar de manter-me preso em suas redes, desde muito desaparecera o fascínio com que me dominara nos primeiros anos de nosso trabalho em comum. Mediante o trato pessoal diário, consegui lograr um certo distanciamento e, por conseguinte, também, às vezes, a capacidade de fazer minhas observações de índole crítica.

Minhas estreitas relações com Hitler continuavam sendo, antes de tudo, as relações entre arquiteto e empresário. Eu estava ainda entusiasmado pela idéia de servi-lo com todos os meus conhecimentos e realizar seus planos no setor da construção. E, quanto maiores e mais importantes fossem as obras encomendadas, maior seria o respeito à minha pessoa. Segundo eu pensava, naquela época, eu estava criando uma obra que me colocaria ao lado dos mais conhecidos arquitetos da história. Essa convicção dava-me a sensação de não ser apenas um favorito de Hitler, mas também de oferecer-lhe ma compensação pelo meu posto de construtor. Acrescente-se que Hitler me tratava como a um colega, e que, freqüentemente, dizia que eu era superior a ele em arquitetura.

Uma refeição em casa de Hitler resultava em considerável perda de tempo, pois permanecíamos à mesa até às quatro e meia da tarde, aproximadamente. Sem dúvida, ninguém podia se permitir tal perda de tempo, todos os dias. Para não deixar o meu trabalho, eu ia comer lá uma ou duas vezes por semana.

Mas, ao mesmo tempo, tinha importância o fato de ser um dos comensais de Hitler. Para a maioria deles valia a pena saber-se qual a opinião do Fuhrer, cada dia. A reunião também interessava a Hitler, pois ele podia, sem esforço e sem compromisso, dar a conhecer àquela gente uma observação ou instrução em matéria política. Mas Hitler evitava que os demais tivessem conhecimento dos seus projetos ou objetivos em elaboração. Quando se referia a isso, na maioria das vezes, era para censurar o interlocutor que indagara de algo a respeito.

Alguns dos convidados, enquanto estavam comendo, atiravam seus anzóis, como se fossem pescadores, para obterem a frase ou referência que desejavam saber. Diziam que tinham trazido fotografias do andamento de uma construção; também, para fins publicitários, buscavam-se fotografias de cenários de peças teatrais, sobretudo quando se tratasse de ópera de Wagner ou de alguma opereta. Mas o que parecia recurso infalível eram as palavras: "Meu Fuhrer, eu trouxe novos planos de obras para o senhor". O convidado podia contar com a resposta: "Magnífico, mostre-me depois do almoço".

Esse procedimento era muito malvisto, por discordar da praxe adotada na mesa redonda. Mas, não sendo assim, às vezes uma pessoa teria de esperar meses e meses até conseguir ser recebido por Hitler, oficialmente.

Terminada a refeição, Hitler levantava-se, os convivas despediam-se com poucas palavras, e o favorecido era conduzido à sala contígua, denominada "invernada", por motivos que eu nunca pude saber. No meu caso, isso significava com freqüência: "Espere um momento. Quero falar com o senhor". Em geral, esse momento prolongava-se por uma hora ou mais. Hitler mandava então chamar-me e comigo procedia sem cerimônia, sentando-se em uma das poltronas, à vontade, e indagava do andamento das minhas obras.

Mas, às vezes, quando Hitler se despedia já eram seis da tarde. Ele subia então aos seus aposentos, no pavimento superior. Eu me dirigia ao meu escritório, mas quase sempre ficava lá pouco tempo. Quando um ajudante-de-ordens me chamava por telefone para avisar-me de que Hitler desejava que o acompanhasse, na ceia, eu tinha de estar na chancelaria dentro de duas horas. No entanto, eu visitava Hitler sem ter sido solicitado. Isso quando tinha de lhe mostrar projetos.

Participavam da ceia de seis a oito pessoas: seu ajudante-de-ordens, o médico particular, o fotógrafo Hoffmann, mais um ou dois conhecidos de Munique, freqüentemente o piloto de Hitler (Bauer), com seu radiotelegrafista e seu mecânico. È sempre indispensável, Bormann. Era aquele o grupo mais íntimo de Hitler, não sendo desejada a presença de colaboradores políticos, tais como Goebbels.

O nível intelectual das conversas, entretanto, estava abaixo do costumeiro no almoço. Falavam de vulgaridades. Hitler gostava de estar informado das representações teatrais, interessando-se também nos casos escandalosos. O piloto falava de vôos, Hoffmann contava anedotas, relativas à vida em sua cidade, referindo-se à sua coleção de objetos de arte. Mas, na maioria das vezes, era Hitler quem tomava a palavra, repetindo casos da sua vida e comentando a sua formação. O cardápio era simples. Algumas vezes, o mordomo, Kannenberg, experimentava melhorar os pratos, dado o caráter íntimo do ambiente. Hitler serviu-se, durante semanas, de caviar, comendo-o às colheradas, com muito apetite, elogiando-o sabor, novo para ele. Perguntou a Kannenberg o preço, espantou-se e proibiu que continuassem a servi-lo. Propuseram-lhe caviar vermelho, que era barato. Mas ainda recusou, pois o considerava também caro. Naturalmente, aqueles gastos eram pequenos, no conjunto das despesas totais. No entanto, Hitler não tolerava a idéia de um Fuhrer comendo caviar.

Terminada a ceia, todos iam para a sala de estar, que se reservava para nela se tratarem assuntos oficiais, mas naquela ocasião servia para aquelas reuniões informais. Sentávamo-nos em cômodas poltronas, Hitler desabotoava o casaco, estendia as pernas. A luz ia amortecendo aos poucos, enquanto entravam, por uma porta traseira, criados – inclusive moças –, membros da escolta pessoal de Hitler. Aquele tipo de serviço era muito particular.

Projetava-se na tela o primeiro filme. Tal como na residência de Obersalzberg, permanecíamos mudos, durante três ou quatro horas. Cerca de uma hora da madrugada, quando terminava a sessão de cinema, levantávamo-nos de corpo e sentidos entorpecidos. Somente Hitler parecia bem discorrendo sobre o trabalho dos atores e exprimindo sua satisfação pelo desempenho de um ou outro seu favorito. Depois falava de outros assuntos. A reunião arrastava-se, sendo servidos vinho, cerveja, bolos. Afinal, às duas da madrugada, Hitler retirava-se. Ocorria-me, de quando em quando, a idéia de que ali se reunira Bismarck com os seus amigos.

Algumas vezes, insinuei um convite a algum pianista famoso ou cientista, para interromper-se a monotonia daquelas tertúlias. Mas, para minha surpresa, Hitler não aceitou minha sugestão, dizendo-me: "Os artistas não viriam com a satisfação que o senhor supõe". Mas, na realidade, muitos deles considerariam tal convite uma verdadeira distinção. Provavelmente Hitler não queria modificar aquele modo vulgar de terminar seu dia, o qual tanto lhe agradava. Também notei que Hitler aparentava certa timidez diante de pessoas que lhe eram superiores sob certos pontos de vista. Ele as recebia, porém, no ambiente de uma audiência oficial. Talvez tenha sido esse um dos motivos que o induziram a escolher-me, jovem arquiteto, para seu arquiteto. No seu trato comigo não se sentia diminuído.

Nos primeiros anos seguintes a 1933, os ajudantes-de-ordens podiam convidar mulheres, procedentes dos meios cinematográficos, sendo Goebbels encarregado da seleção. Não obstante, em geral só se admitiam mulheres casadas, quase sempre acompanhadas dos maridos. Hitler observava aquela regra, para evitar rumores prejudiciais à fama de um Fuhrer de vida honesta, propalada por Goebbels. Com relação àquelas damas, Hitler comportava-se como o aluno de uma escola de dança, na ocasião de dançar para terminar o curso. Também se revelava atento na maneira de proceder, distribuindo cumprimentos, saudando e despedindo-se das senhoras com o beijo austríaco na mão. Terminada a reunião, costumava conversar ainda com os membros do seu grupo particular, falando-lhes sobre mulheres. Em relação a estas, gostava muito mais de dissertar sobre o lado físico do que sobre os traços psicológicos ou intelectuais. E fazia-o sempre como um aluno convencido da impossibilidade de alcançar a realização dos seus desejos. Hitler sentia certa predileção pelas mulheres corpulentas. Eva Braun, miúda, figura delicada, não era em absoluto o tipo do Fuhrer.

Pelo que me lembro, isso acabou de repente, lá pelo ano de 1935. Eu nunca soube por quê. Talvez para evitar-se alguma maledicência. De qualquer modo, inesperadamente, Hitler anunciou que não seriam mais convidadas mulheres.

Desde então, contentou-se com o elogio das estrelas, vistas apenas na tela.

Mais tarde – suponho que em 1939 –, foi reservado para Eva Braun um dormitório na residência de Hitler, em Berlim, contíguo ao dele, com uma janela que dava para um pequeno pátio. A vida de Eva Braun ali era mais isolada do que em Obersalzberg. Entrava às escondidas por uma porta lateral e subia aos aposentos, ainda quando na casa só estivessem os antigos conhecidos. Ela se alegrava muito quando eu ia fazer-lhe companhia nas longas horas de espera.

Quando estava em Berlim, Hitler ia muito pouco ao teatro, exceto quando se tratasse de operetas. Jamais deixava de assistir à representação de operetas clássicas – O morcego, A viúva alegre. Tenho certeza de que o acompanhei, pelo menos cinco ou seis vezes, para ver a representação de O morcego em diversas cidades da Alemanha. Agradavam-lhe também as sessões de "arte leve", indo de quando em quando ao Wintergarten, um espetáculo de variedades. Sem dúvida, compareceria maior número de vezes àquelas sessões teatrais, se não houvesse o receio de ser mal interpretada aquela assiduidade. Às vezes, quando não ia pessoalmente, mandava o seu mordomo, que, ao regressar altas horas da noite, lhe descrevia os números que vira. Também freqüentou o Teatro Metrópole, onde se representavam revistas de enredo muito vulgar, mas nas quais se exibiam "ninfas" que usavam muito pouca roupa.

Todos os anos, sem exceção, comparecia às representações do primeiro turno do Festival de Bayreuth. Creio – eu era leigo em questões musicais – que Hitler estava também habilitado a emitir juízos a respeito de música, segundo deduzi de suas conversas com a Sra. Winifred Wagner. Mas ele dava mais atenção à regência.

Não sendo isso, somente em raras ocasiões comparecia à ópera, demonstrando no princípio mais interesse no espetáculo. Até sua preferência por Brückner manteve-se mais dentro de um plano sem compromisso. É verdade que sempre mandava que se executasse um trecho de alguma sinfonia de Brückner, antes dos seus "discursos culturais" nos congressos em Nuremberg. Apesar disso, fazia difundir-se no público a ufania da profundidade do seu sentido artístico.

Eu jamais soube se Hitler se interessava por boa literatura, e até que ponto. Em geral, falava de livros científico-militares, navais ou de arquitetura, que estudava, de quando em quando, com muito interesse, à noite. Além disso, não havia outra manifestação de gosto literário.

Acostumado ao trabalho intenso, no princípio, eu não compreendia a maneira como Hitler desperdiçava seu tempo. Daí terminar ele o dia aborrecido e com as horas inutilizadas. O tempo que ele dedicava realmente ao trabalho era muito curto, em comparação com aquele decorrido no ócio. Eu fazia a mim mesmo esta pergunta: "Quando é que ele trabalha, na realidade?" Era pouco o tempo por ele aplicado às ocupações. Levantava-se já tarde, mantinha duas ou três entrevistas oficiais, e, depois do almoço, matava mais ou menos tempo, até a noitinha. As contadas audiências à tarde corriam o risco de serem anuladas, devido à sua mania pelos projetos arquitetônicos. Os ajudantes-de-ordens pediam-me: "Faça o favor de não lhe mostrar hoje nenhum desenho". Por isso, eu escondia na sala telefônica, à entrada, os esboços que levava comigo. Depois respondia com evasivas às perguntas de Hitler. Mas acontecia que, desconfiando das minhas respostas, ele ia à sala de espera ou ao vestuário em busca dos rolos de desenhos.

Aos olhos do povo, Hitler era um chefe que trabalhava, infatigavelmente, dia e noite. Mas quem conhecer a maneira de trabalhar de quem possui mais um temperamento de artista compreenderá a indisciplina do Fuhrer, análoga ao estilo de um boêmio, quando se tratava da distribuição de tempo. Pude observar o seguinte: freqüentemente, deixava amadurecer um problema, durante dias, ocupando-se em coisas insignificantes para depois, revelando um "conhecimento súbito", em alguns dias de trabalho intenso determinar a solução que lhe parecia acertada. Talvez as reuniões durante as refeições fossem também um recurso para experimentar, caprichosamente, novos pensamentos, variando a respectiva expressão, retocando-os, aperfeiçoando-os, diante de um auditório que não fazia nenhum objeção. Logo que obtivesse uma solução, Hitler voltava à ociosidade.

 

                                   O IMPÉRIO DESENCADEADO

Eu ia à residência de Hitler uma ou duas vezes por semana, à noite. À meia-noite, quando terminava a última fita, ele me pedia, às vezes, os meus rolos de desenhos para discutir todos os detalhes até as duas ou três da madrugada. Os demais presentes na sala ou iam tomar um copo de vinho ou saíam, indo embora para suas casas. Compreendiam ser então muito poucas as probabilidades de falarem com o Fuhrer.

O que mais atraía Hitler era a maquete da nossa cidade-modelo, montada no antigo recinto da exposição da Academia de Belas-Artes. Para ir até lá sem ser incomodado, ele ordenara a abertura de portas nas paredes divisórias dos jardins ministeriais, entre a chancelaria e o nosso edifício, ordenando que também fosse aberta uma via de comunicação entre a chancelaria e a Academia de Belas-Artes. Às vezes, convidava os comensais a acompanhá-lo e saíamos empunhando lanternas de bolso e chaves. As maquetes nas salas vizinhas estavam iluminadas por holofotes. Não havia necessidade de minhas explicações, porquanto Hitler, com brilho nós olhos, explicava tudo aos seus acompanhantes.

Era grande a tensão, quando se expunha uma nova maquete, iluminada pelos poderosos holofotes cuja luz se dispunha na direção da do sol. Eram feitas na escala de 1:50, todos os pormenores reproduzidos por artífices técnicos em serviços de madeira, pintados com a cor que teriam os materiais na construção real. Dessa forma, foi possível a gradual reunião de partes inteiras da grande avenida. Tivemos pois uma impressão plástica das obras que deveriam ser realizadas dez anos mais tarde. Aquela rua de maquetes estendia-se por uns trinta metros, nos recintos outrora dedicados à exposição da Academia de Belas-Artes de Berlim.

Hitler entusiasmava-se, particularmente, por uma grande maquete que reproduzia, na escala 1:1000, a grande avenida projetada. A maquete podia ser fracionada, as partes colocadas sobre mesas cujos pés tinham rodas. Afastando qualquer uma daquelas mesas, Hitler podia colocar-se no ponto que quisesse. Punha-se assim no ponto em que estaria um viajante, chegando à gare do sul; ou contemplava o efeito de perspectiva da mole da Grande Sala; ou então ficava na parte central da rua, olhando em todas as direções. Para isso, ficava quase de joelhos, com os olhos alguns milímetros acima do nível da maquete da rua, para obter assim uma impressão exata, enquanto falava com vivacidade. Eram aquelas as poucas horas em que abandonava por completo a habitual rigidez de atitude. Em nenhuma outra ocasião eu o vi tão espontâneo, tão vivo, tão relaxado como naqueles momentos. Eu, cansado, com uns restos de respeitosa consideração, costumava estar silencioso. Um dos meus mais íntimos colaboradores assim resumiu sua impressão:

– Sabe o senhor quem é? O senhor é o amor desgraçado de Hitler!

Poucos eram os visitantes com acesso àquele local, cuidadosamente oculto aos curiosos. Ninguém podia ver o grande projeto das obras de Berlim sem autorização expressa de Hitler. Goering, depois de ver aquelas maquetes, ordenou que sua escolta se adiantasse à sua frente e disse-me com voz emocionada:

– Alguns dias atrás, o Fuhrer falou comigo sobre minha tarefa depois da sua morte. Disse-me que eu fizesse sempre aquilo que julgar acertado. Fez-me porém prometer-lhe uma coisa: que eu não o substituiria por outro, no caso de ele morrer. Não me intrometesse nos seus projetos, deixando toda a iniciativa ao senhor, e que eu pusesse à sua disposição todo o dinheiro de que necessitar para a execução das suas obras.

Emocionado, Goering fez uma pausa e continuou:

– Prometi ao Fuhrer com um aperto de mão obedecer-lhe e agora prometo ao senhor.

E estendeu-me a mão com um gesto patético.

Meu pai também examinou os trabalhos do seu filho, que já tinha alcançado a celebridade. Mas ao ver as maquetes, apenas encolheu os ombros, dizendo:

– Os senhores estão inteiramente loucos!

À noite, meu pai e eu fomos ver uma comédia em que representava Heinz Rühmann. Por acaso, Hitler naquela noite foi também ao mesmo teatro. Em um dos intervalos, perguntou a um dos seus ajudantes-de-ordens quem era o senhor idoso que estava comigo. Disseram-lhe que era meu pai. Ele então solicitou-nos por um dos seus ajudantes que fôssemos falar-lhe. Quando meu pai, ereto e sempre senhor de si mesmo, não obstante os setenta e cinco anos, foi apresentado a Hitler, tremia como eu nunca o vira assim trêmulo. Empalideceu ouvindo os elogios de Hitler ao seu filho. E despediu-se sem dizer uma só palavra. Depois, meu pai não fez nenhuma referência àquele encontro, nem eu lhe perguntei o motivo da sua inquietação diante de Hitler.

"Os senhores estão inteiramente loucos!" – Folheando hoje o maço de fotografias da maquete de nossa antiga grande avenida, vejo que teria sido não somente uma coisa desatinada, mas também aborrecida.

Tínhamos notado que a edificação somente de edifícios governamentais daria àquela nova artéria o aspecto de algo sem vida. Por isso, reservamos os dois terços da sua extensão para edifícios diversos. Não iríamos construir uma avenida de ministérios. Um luxuoso cinema, outro monumental com capacidade para dois mil espectadores, uma nova ópera, três teatros, uma nova sala de concertos, um congresso que se denominaria Casa das Nações, um hotel com vinte e um pavimentos e mil e quinhentos leitos, salas para comércio de variedades, restaurantes de luxo, até uma piscina coberta, no estilo romano das termas imperiais, foram desenhados com a intenção de se dar à nova avenida a vida própria de uma artéria urbana. Pátios internos, sossegados, rodeados de colunatas, pequenas tendas, afastadas do ruído da rua, convidariam aos passeios, sendo utilizados muitos anúncios luminosos. Toda a avenida fora idealizada por Hitler e por mim como uma extensa exposição de artigos alemães, que suscitariam a atenção principalmente dos estrangeiros. Hoje, examinando os planos e as fotografias, vejo também falhas naquelas partes da avenida. Quando, na manhã seguinte à minha saída da prisão, me dirigia ao aeroporto, passei pela frente de um grande edifício. Verifiquei então – coisa que não me ocorrera antes – que estávamos construindo em uma escala exagerada.

Comparativamente, a melhor solução nós a encontramos na estação terminal, no começo da avenida, ao sul, revestida de placas de cobre e dividida em compartimentos, me mediante superfícies de vidro. Ela se destacaria com vantagem entre os demais monstros de pedra. Previam-se quatro planos de tráfego, superpostos, unidos por escadas automáticas e elevadores, isso tudo com a intenção de superar a Grande Central Terminal de Nova York.

Os visitantes oficiais desceriam por uma grande escadaria. Eles e os demais viajantes, quando saíssem da estação, ficariam maravilhados à vista daquela obra e, por conseguinte, do poderio do Reich. A praça da estação, com mil metros de comprimento e trezentos e trinta de largura, seria ornamentada pelas armas conquistadas, segundo o exemplo da Avenida de Rams, que ligava Karnak a Luxor, flanqueada de aríetes. Depois da campanha da França, Hitler deu ordens para se executar esse detalhe, e confirmou-o no outono de 1941, antes da sua primeira derrota na Rússia.

A praça estaria terminada e coroada, a oitocentos metros de distância, pelo Grande Arco de Hitler, ou Arco do Triunfo, como o denominava algumas vezes. O Arco do Triunfo, mandado levantar por Napoleão, na Place de L'Étoile, constitui com seus cinqüenta metros de altura uma obra de massa monumental, sendo um imponente remate dos Champs-Élysées, em dois quilômetros de comprimento. Mas o nosso Arco do Triunfo, com seus cento e setenta metros de largura, cento e dezenove de espessura e cento e sessenta de altura, iria ultrapassar todas as demais edificações da parte meridional da rua.

A segunda obra triunfal, naquela rua, a sala de reuniões, a maior do mundo, com uma cúpula de duzentos e noventa metros de altura, seria vista, segundo supúnhamos, através da cortina de fumo da cidade, em uma distância de cinco quilômetros por trás da arcada de oitenta metros de altura do grande arco.

Entre o Arco do Triunfo e a Grande Sala, nossa avenida tinha os edifícios de onze ministérios, isolados uns dos outros: o do Interior, o de Comunicações, o da Justiça, o da Economia e, além dos outros, um Ministério das Colônias, acrescentado ao projeto depois de 1941, significando isso que Hitler, mesmo durante a guerra contra a Rússia, não renunciara à recuperação das colônias alemãs. Antes dos nossos planos, os ministros esperavam que os edifícios ministeriais, espalhados pela área da cidade, fossem reunidos, mas ficaram decepcionados quando Hitler dispôs que os novos edifícios teriam uma finalidade ornamental a prevalecer sobre a administrativa.

Continuando a monumental seção central da avenida, estava previsto mais um quilômetro para casas de comércio e diversão, que terminaria numa praça redonda, na interseção com a Potsdamerstrasse. A partir daquele local, a avenida adquiriria novamente, rumo ao norte, um aspecto solene; à direita, elevava-se a Galeria dos Soldados, desenhada por Wilhelm Kreis, um cubo gigantesco, a respeito de cuja finalidade Hitler jamais se manifestara com franqueza. No entanto, é possível que ele imaginasse uma combinação de arsenal e cenotáfio. De qualquer modo, depois do armistício com a França, ordenou que a primeira peça a ser exposta ali fosse o vagão-restaurante no qual, em 1918, fora assinada a derrota da Alemanha e, em 1940, a rendição da França. Também estava prevista uma cripta para os restos mortais dos marechais alemães mais famosos, no passado, no presente e no futuro. Mais além daquela sala estendiam-se, para o oeste, até à Bendlerstrasse os edifícios destinados à instalação do Alto-Comando do Exército.

Depois de ver aqueles projetos, Goering sentiu-se diminuído no que se referia ao seu Ministério do Ar. Convenceu-me de que deveria ficar à disposição dele, e afinal projetamos um prédio ideal para as suas finalidades, frente à Galeria dos Soldados, nos limites do Jardim Zoológico. Goering ficou entusiasmado com os meus planos para a sua nova obra, a qual, depois de 1940, deveria conter, sob a denominação de Departamento do Marechal do Reich, seus numerosos escritórios oficiais. Mas Hitler disse com decisão:

– O edifício é muito grande para Goering. Destaca-se muito. Além disso, não gosto de que se utilize dos meus arquitetos para tais fins.

Embora freqüentemente manifestasse seu desagrado ao falar dos planos de Goering, nunca pôs um freio às idéias do seu ministro. Goering conhecia Hitler, e disse-me:

– Esteja satisfeito com o que já conseguiu e não se preocupe. O edifício será construído tal como foi concebido. O senhor verá como no final o Fuhrer vai ficar entusiasmado.

Também no seu círculo íntimo, Hitler mostrava-se indulgente. Fechava os olhos aos escândalos conjugais, quando não fossem explorados para fins políticos, tal como no caso de Blomberg. Sorria ante a ostentação e costumava externar observações cáusticas, sem insinuar aos indivíduos visados que ele considerava incorreta a atitude deles.

No projeto do edifício de Goering havia muitas escadarias, salas e vestíbulos que ocupavam maior espaço do que o dos locais para trabalho. A parte central, para fins representativos, estava constituída por um vestíbulo com pomposas escadarias, que nunca seriam aproveitadas, porquanto, logicamente, Goering e todas as visitas usariam os elevadores. O conjunto era uma obra exclusivamente de ostentação. Na minha evolução profissional, foi aquele um passo decisivo no meu itinerário do neoclassicismo, ainda perceptível na reconstrução da chancelaria do Reich, aquela arquitetura sobrecarregada, própria de novos-ricos.

Sem se contarem os sótãos, o edifício para Goering teria um volume de quinhentos e oitenta mil metros cúbicos, ao passo que a nova chancelaria para Hitler tinha somente quatrocentos mil. Mas Hitler não se considerou superado por Goering, nesse ponto, pois no discurso de 1.° de agosto de 1938, muito ilustrativo das suas idéias a respeito de construção, manifestou que, de acordo com o grande projeto de urbanização da cidade de Berlim, utilizaria a chancelaria recém-construída só por uns dez ou doze anos. Estava prevista a edificação de uma obra muito maior, que serviria de residência e sede governamental.

Assim como no sul, também se tinha planejado ao norte do centro da cidade uma estação terminal. A cúpula seria vista a uma distância de quase dois quilômetros, quando olhada além de um canal de mil e cem metros de extensão e trezentos e cinqüenta de largura. Aquela enorme superfície líquida não estaria ligada ao Spree, cujas águas estavam poluídas pelas imundícies que atiravam no rio. Eu, antigo desportista, queria que a água do lago artificial estivesse limpa para os nadadores. Vestuários, toldos para as barracas, terraços para banhos de sol, formando um balneário, no centro da capital, apresentariam um contraste notável com as grandes edificações que se refletiriam nas águas do lago, que se fazia ali pela simples razão de que o terreno não suportava alicerces.

Eu planejara três grandes edifícios, no lado ocidental do lago; no centro, a nova Municipalidade de Berlim, tendo quase meio quilômetro de comprimento. O edifício da Municipalidade seria flanqueado pela Chefatura Suprema da Marinha de Guerra e pela nova Chefatura Superior da Polícia de Berlim. No lado oriental do vasto lago, erguer-se-ia uma nova escola militar. Os projetos de todas essas edificações já estavam prontos.

Com a abertura daquela avenida, que se estendia entre as duas estações terminais, havia a intenção de se demonstrar sem margem para dúvidas o poderio político, militar e econômico da Alemanha. O soberano absoluto do Reich estaria no centro, e como expressão máxima do seu poderio tinha sido prevista, nas proximidades, a Grande Sala, rematada pela cúpula, como edifício predominante na futura Berlim. Pelo menos nos projetos de Hitler, tinha adquirido dimensão real aquela sua expressão, segundo a qual "Berlim tinha de mudar de face para adaptar-se à nova e grande missão".

Projetos com aquela grandeza tendem, naturalmente, a uma explosão de megalomania contínua. No entanto, seria injustiça deixar de lado o projeto inteiro daquele eixo norte-sul.

A ampla avenida, as novas estações terminais com suas passagens subterrâneas teriam no entanto sido superadas, assim como os edifícios ministeriais e comerciais, pelas dimensões dos arranha-céus. O que propendia mais ao gigantismo era o caráter ostentoso em vez das dimensões. A Grande Sala rematada pela cúpula, a futura chancelaria de Hitler, o grandioso edifício de Goering, a Galeria dos Soldados e o Arco do Triunfo foram projetos vistos com o olhar político de Hitler, que, contemplando as maquetes, pegou-me no braço e com os olhos úmidos disse-me:

– Compreende por que fazemos isto tão grande? A capital do Império Germânico... Se eu tivesse saúde...

Hitler tinha pressa em executar a construção da parte essencial do seu projeto de planificação com sete quilômetros de extensão. Depois de muitos cálculos, prometi-lhe, na primavera de 1939, que as obras estariam terminadas em 1950. Ele se empenhava em que nossos projetos não fossem conhecidos do público, coisa que também temia. Só foram reveladas ao público as partes que não podiam deixar de ser exibidas, pois eram muitas as pessoas que trabalhavam os primeiros esboços. Por isso, às vezes deixávamos que fossem divulgadas partes do projeto, aparentemente sem importância.

Seus verdadeiros pensamentos. À minha esposa, que por onze anos teria de conformar-se com a perda da vida familiar, prometi-lhe, para consolá-la, uma viagem por todo o mundo, em 1950.

Os cálculos de Hitler, no sentido de distribuir o custo das edificações pelo maior número de cotas, deram resultado. Berlim, rica e cheia de aspirações, atraía continuamente novos departamentos oficiais, devido à centralização do poder do Estado. Também a indústria teve de considerar esse desenvolvimento, ampliando as instalações dos seus escritórios. Em Berlim só havia uma avenida como principal logradouro: a Unter den Linden Allee, com outras vias urbanas de menor importância. Assim, muita gente se sentia atraída pela nova grande artéria.

Pouco depois de Hitler ter assumido o poder, o novo edifício do Banco do Reich fora construído em um ponto pouco central. Falando de vários assuntos, em uma das refeições, Himmler mostrou a Hitler a planta daquele edifício, fazendo-lhe notar com seriedade que as seções transversais e longitudinais do bloco retangular tinham a forma da cruz de Cristo, sendo isso uma velada glorificação da fé cristã, da parte do arquiteto Wolf, católico. Mas Hitler, que conhecia arquitetura, ridicularizou aquela observação.

Alguns meses antes de os projetos tomarem forma definitiva, já tinha sido feita uma distribuição de áreas, em uma extensão de mil e duzentos metros. Os requerimentos de terrenos dos ministérios, das empresas particulares, dos departamentos oficiais do Reich alcançaram tal volume que a construção dos sete quilômetros, no todo, não somente estava assegurada, mas também nos possibilitou a distribuição dos solares ao sul da construção meridional.

Um dos motivos daquela tremenda febre de construção foi, naturalmente, a perspectiva de obter o favor de Hitler, mediante o levantamento de edifícios monumentais. Como os gastos dessas obras teriam de ser maiores do que os das construções normais, recomendei a Hitler que elogiasse os contratantes que gastassem milhões, suplementarmente, proposta logo aceita.

– Por que não se dar uma condecoração aos que forem merecedores, por incentivarem a arte? Serão concedidas só de vez em quando e, mormente, àqueles que tiverem financiado uma obra.

Até o embaixador britânico supôs ter sido bem visto por Hitler, ao propor-lhe a construção de uma nova embaixada, em Berlim, rejuvenescida. Também Mussolini demonstrou muito interesse naqueles projetos.

Hitler guardava silêncio sobre seus verdadeiros projetos de arquitetura. No entanto, falavam e escreviam muito a respeito do que já era conhecido. A conseqüência foi um entusiasmo geral pela arquitetura. Se ele se interessasse na criação de cavalos, não há dúvida de que as personalidades do Reich iriam se tornar maníacas na criação desses animais. Por causa daquele interesse do Fuhrer em arquitetura, surgiu uma produção maciça de projetos, nos quais se notava a influência de Hitler. Isso não quer dizer que ele fosse doutrinário. Compreendia que um lugar de repouso em uma autopista ou uma casa da Juventude Hitlerista não podiam ter o mesmo aspecto de um prédio na cidade. Nem lhe passara jamais pela imaginação levantar uma fábrica aplicando-lhe seu estilo representativo. Era capaz de entusiasmar-se por um prédio industrial construído com aço e vidro. Mas opinava que em um Estado que se dirigia à conquista de um império, as obras públicas deviam ter um caráter que as distinguisse.

Uma conseqüência dos planos de urbanização de Berlim foi a quantidade de projetos para outras cidades. Cada chefe regional desejava ver-se imortalizado em sua cidade. Cada um daqueles projetos baseava-se em um cruzamento de eixos, que até coincidiam em sua orientação para os pontos cardeais, como o meu em Berlim. O modelo berlinense transformara-se em esquema. Durante as conferências, Hitler riscava esboços, sem cessar. Fazia-os a mão livre, mas certos na perspectiva. As seções e as vistas de frente, fazia-as pela escala. Um arquiteto não teria feito melhor.

Guardei até hoje todos os esboços que Hitler fez em minha presença, anotando a data e o tema. Note-se que dos cento e vinte e cinco esboços uma boa parte relaciona-se com obras a se realizarem em Linz, cidade que lhe interessava mais do que qualquer outra. Também eram freqüentes os esboços de teatros. Certa manhã, surpreendeu-nos com o desenho, executado em uma noite, de uma Coluna do Movimento para Munique, a qual, como novo símbolo, teria diminuído as torres de Notre-Dame.

Para Hitler, esse projeto, como também o do futuro Arco do Triunfo, em Berlim, era algo de sua incumbência pessoal. Assim, não vacilava em melhorar nos detalhes o desenho de Hermann Giessler, o arquiteto de Munique.

Giessler era capaz de arremedar bem o gago Dr. Ley, diretor da Frente Alemã do Trabalho. Contava como o chefe dos operários alemães tinha entrado em seu escritório, vestido com um elegante traje de verão, luvas brancas pespontadas, chapéu de palha, acompanhado da mulher, vestida de forma não menos espalhafatosa. Falando-lhe dos projetos para Munique, Ley interrompeu-o:

– Farei aqui o bloco inteiro. Quanto custará? Algumas centenas de milhões? Sim, edificaremos. . .

– E que o senhor quer construir neste local?

– Uma grande casa de modas. Serei eu quem lançará a moda. Minha mulher entende disso. Mas para isso necessitamos de uma grande casa. Minha mulher e eu determinaremos como será a moda alemã... e necessitaremos também de mulheres da vida... Muitas... Uma casa inteira, instalada modernamente. Nós nos encarregaremos de tudo isso... As centenas de milhões carecem de importância . . .

Para aborrecimento de Giessler, Hitler fizera-o repetir muitas vezes aquela cena, rindo até às lágrimas, pelo depravado modo de pensar do seu "chefe do trabalho".

Não eram somente os meus projetos que Hitler incentivava. Autorizava a construção de foros nas cidades regionais e animava os chefes para que agissem como contratantes de obras representativas. Por isso irritei-me e freqüentemente me opus ao afã de Hitler em fomentar uma desapiedada carreira de apostas, pois era de opinião que somente assim se poderiam obter rendimentos de elevada categoria. Ele era incapaz de compreender que nossas possibilidades tinham um limite. Não considerava a objeção de que não tardaria o tempo em que não se cumpriria nenhum prazo, pois os chefes regionais gastariam para as suas construções o material de que dispunham. Himmler veio em auxílio de Hitler. Ao saber da ameaça de escassez de ladrilhos e de granito, ofereceu os seus presos para o fabrico desses materiais.

Entre o grande número de obras projetadas, eu tinha de elaborar, por desejo expresso de Hitler, o plano da praça diante da Grande Sala. Além disso, eu me tinha encarregado da nova edificação para Goering e da Estação do Sul. Isso era mais do que suficiente, pois eu também teria de executar os projetos das obras para os congressos do partido em Nuremberg. Mas a realização de todos aqueles projetos exigiria um decênio, mais ou menos, e assim eu podia ocupar-me dos planos, dispondo de um escritório com oito ou dez auxiliares. O meu escritório estava na Lindenallee, no Westende, não distante da Adolf Hitler Platz, antes da chancelaria do Reich. No entanto, minhas tardes decorriam, regularmente, até à noitinha, no escritório de urbanização, na Pariser Platz. Ali, eu encomendava grandes obras àqueles que, na minha opinião, eram os melhores arquitetos da Alemanha. Paul Bonatz recebeu a encomenda, depois de muitos desenhos de pontes, da realização da primeira das suas obras importantes – a Chefatura Suprema da Marinha de Guerra –, merecendo o seu esplêndido projeto o entusiástico aplauso de Hitler. Bestelmeyer recebeu a incumbência de levantar a nova Municipalidade. Concederam-se a Wilhelm Kreis os projetos relativos ao levantamento da Chefatura Suprema do Exército, a Galeria dos Soldados e diversos museus. Peter Behrens, professor de Gropius e de Mies van der Rohe, recebeu o encargo da construção dos novos edifícios da administração da companhia de eletricidade AEG. Naturalmente, essa incumbência contrariou Rosenberg e seus "zeladores da cultura", que se opuseram a que aquele precursor do radicalismo, em arquitetura, se imortalizasse na "avenida do Fuhrer". Mas Hitler, que apreciava a embaixada petersburguense de Behrens, confiou-lhe a execução das mencionadas obras. Também, várias vezes, pedi a Tessenov, meu professor, que participasse dos concursos. Mas ele não quis abandonar seu singelo estilo provinciano e obstinadamente manteve-se afastado da tentação de levantar grandes edifícios.

O escultor que eu costumava empregar era Josef Thorak, a cujos trabalhos dedicara um livro o diretor-geral dos museus berlinenses, Wilhelm Von Bode. E também Arno Breker, discípulo de Maillol. Este, por intermédio do seu discípulo, recebeu em 1943 uma tarefa, que era uma estátua a ser colocada em Grünewald.

Os historiadores opinam que eu me mantinha afastado do partido em meu trabalho particular. Mas também se pode dizer que os grandes do partido mantinham-se afastados de mim, pois me consideravam um intruso. As opiniões dos chefes nacionais ou regionais pouco me interessavam, porquanto eu desfrutava da confiança de Hitler. Excetuando-se Karl Hanke, que me havia "descoberto", não tive relações estreitas com nenhum deles, que aliás não me visitavam. Em vez dos grandes do partido, o meu círculo de amizade era constituído dos artistas a quem eu encomendava trabalhos e seus amigos.

Pude, outrossim, convencer Hitler de que os nossos companheiros inteligentes, havia muito, ocupavam postos de importância. Destarte, para realizar o programado eu dispunha apenas de membros de segunda categoria no partido. Hitler, sem vacilar, autorizou-me a escolher meus auxiliares com inteira independência. Aos poucos, foi-se difundindo a notícia de que era cômodo e seguro o trabalho em meus escritórios, e por essa razão aumentou o número de arquitetos que queriam trabalhar comigo.

Certa vez, um dos meus auxiliares pediu-me uma recomendação para filiar-se ao partido. Minha resposta foi conhecida de toda a Inspetoria-Geral de Obras:

– Para quê? Basta eu pertencer ao partido.

Certamente, levávamos a sério os planos de Hitler para edificações, mas não nos submetíamos ao fausto do Reich hitlerista. Também não freqüentei as reuniões privadas do partido. Comparecia a muito poucas, e raros eram meus contatos com as esferas dirigentes do partido, como, por exemplo, a Chefia Regional de Berlim. Eu descuidava de outros encargos do partido, a mim atribuídos. Precisamente por não dispor de tempo, fui entregando a direção da seção Beleza do Trabalho a um meu substituto. É verdade que esse alheamento se explicava pela circunstância de que receava pronunciar discursos perante o público.

Em março de 1939, na companhia de alguns amigos, estive viajando pelo sul da Itália e Sicília. Constituíam esse grupo Wilhelm Kreis, Josef Thorak, Hermann Kaspar, Arno Breker, Robert Frank, Karl Brandt e suas esposas. Viajou também conosco a esposa do ministro da Propaganda, Magda Goebbels, que, sendo convidada por nós, utilizou-se de um pseudônimo.

Hitler tolerava enredos amorosos entre aqueles que o rodeavam. Por exemplo, Bormann, com a sua brutalidade e grosseria, sendo carecido de bons sentimentos, convidava sua amante, uma artista de cinema, à sua casa em Obersalzberg, onde aquela artista passava alguns dias em companhia da família dele. Só a tolerância da Sra. Bormann, tolerância incompreensível para mim, evitou que surgisse um escândalo.

Goebbels tinha no seu haver grande número de casos amorosos. Hanke, subsecretário do ministro da Propaganda, contava, divertindo-se e também enojado, que o ministro costumava coagir as jovens artistas de cinema. Mas suas relações com a artista cinematográfica tcheca Lida Baarova foram algo mais do que uma aventura amorosa. A esposa separou-se dele e exigiu que ele também se separasse dela e dos filhos. Hanke e eu estávamos a favor da Sra. Goebbels. Hanke, no entanto, complicou a situação, enamorando-se da esposa do seu ministro, mulher mais velha do que ele. Então, para livrá-la daquela penosa situação, convidei-a a acompanhar-nos em nossa viagem à Itália. Hanke pretendeu acompanhá-la e escrevia-lhe cartas amorosas, enquanto ela esteve viajando, mas ela o repeliu sem contemplações.

Durante a viagem, a Sra. Goebbels revelou-se uma mulher amável e equilibrada. De um modo geral, as esposas das personalidades do regime se tinham mostrado muito mais discretas do que os maridos, em face às tentações do poder. Não se perdiam em mundos fantásticos, acompanhavam com reservas os vôos dos seus maridos às alturas, ridículos, e não se deixavam arrastar pelo turbilhão político que os impelia para cima. A Sra. Bormann foi sempre caseira, modesta, algo tímida, sendo igualmente fiel à ideologia do partido e ao seu marido. Com relação à mulher de Goering, minha impressão era de que o empenho do marechal em aparecer e brilhar fazia-a sorrir. Também, afinal, Eva Braun demonstrou possuir elogiável espiritualidade. Jamais se utilizou para fins pessoais do poder que detinha nas suas mãos.

A Sicília, com as ruínas dos seus templos dóricos, em Segesta, Siracusa, Selininte, Agrigento, foi um valioso complemento às nossas impressões da viagem anterior à Grécia. Verifiquei com íntima satisfação que a Antiguidade não se eximiu da megalomania. Em comparação com aqueles templos, empalideciam os testemunhos da arte arquitetônica sarraceno-normanda, que vimos em nosso caminho, excetuando-se o maravilhoso palácio de caça de Frederico, o octógono de Castel del Monte Paestum significou para nós outro momento culminante. Mas Pompéia pareceu-me mais afastada das formas puras de Paestum do que as nossas construções em relação às do mundo dórico.

Em nosso regresso, estivemos alguns dias em Roma. O governo fascista descobrira a verdadeira identidade da nossa ilustre acompanhante. Alfieri, o ministro italiano da Propaganda, convidou-nos a todos para uma noite na ópera. Mas nenhum de nós estava em condições de explicar por que a segunda dama do Reich estava viajando sozinha pelo estrangeiro. Logo depois do teatro, voltamos para casa o mais depressa possível.

Enquanto nós nos tínhamos agasalhado, como em um sonho, no antigo mundo dos gregos, Hitler ocupara a Tchecoslováquia. Quando voltamos à Alemanha, encontramos um ambiente de desânimo. Havia um sentimento de insegurança geral em relação ao futuro próximo. Todavia, é de se notar a maneira como uma nação tem intuição do desenvolvimento dos acontecimentos futuros, sem se deixar influir pela propaganda oficial.

Não era tranqüilizador o fato de Hitler um dia ter-se manifestado contra Goebbels, quando este, durante uma refeição na chancelaria do Reich, ao falar do antigo ministro das Relações Exteriores, Von Neurath, nomeado protetor da Boêmia e da Morávia algumas semanas antes, disse:

– Toda a gente sabe que Von Neurath é um hipócrita. O protetorado necessita de mão enérgica, que mantenha a ordem. Esse homem nada tem de comum conosco. Pertence a um mundo inteiramente diverso.

Hitler replicou:

– Somente Von Neurath é considerado no mundo anglo-saxão um homem nobre. Sua nomeação tranqüilizará o mundo inteiro, pois demonstrará minha vontade de não tirar aos tchecos sua personalidade autóctone.

Hitler pediu-me que lhe contasse minhas impressões da viagem à Itália. O que mais me tinha chamado a atenção eram os cartazes e frases de propaganda, estas até nas paredes, que pretendiam estimular o ardor combativo da nação italiana.

Hitler observou:

– Nós não temos necessidade disso. Se chegar a guerra, o povo alemão é bastante duro para resistir. Essa classe de propaganda talvez seja conveniente para a Itália. Mas resta ver se servirá para alguma coisa.

Várias vezes, Hitler pedira-me que, em seu lugar, eu discursasse na inauguração da Exposição de Arquitetura de Munique. Eu sempre usara de pretextos para evitar isso. Na primavera de 1938, propus um acordo, declarando-me disposto a desenhar a pinacoteca e o Estádio de Linz, contanto que não tivesse de pronunciar nenhum discurso.

Mas, na data do qüinquagésimo aniversário de Hitler, haveria a inauguração de um setor do eixo leste–oeste, aberto ao tráfego. Hitler prometera comparecer. Não havia como evitar o meu primeiro discurso. Durante uma das refeições, Hitler anunciou:

– Uma grande novidade! Speer vai discursar! Estou ansioso por ouvir suas palavras...

As autoridades estavam no meio da calçada, junto à Porta de Brandenburgo. Eu me coloquei à direita daquele grupo, enquanto a multidão se acumulava por trás das cordas. Ouviram-se gritos ao longe, que aumentaram de volume, à aproximação da escolta motorizada de Hitler, até se transformarem em tremendo fragor. O automóvel de Hitler parou exatamente à minha frente. O Fuhrer desceu do carro e deu-me um aperto de mão, ao passo que respondeu às saudações dos dignitários com o gesto oficial do nazismo. Os fotógrafos e cineastas começaram a trabalhar com as suas câmaras, enquanto Hitler, com evidente fisionomia de expectativa, se colocava a dois metros de distância de mim. Respirei fundo e disse apenas estas palavras:

– Meu Fuhrer, anuncio a conclusão do eixo leste–oeste! A obra falará por si mesma!

Houve um prolongado silêncio, antes de Hitler responder com algumas frases. Depois fui convidado a entrar no carro com ele, e ao seu lado passei pelo cordão de sete quilômetros, formado pelos habitantes de Berlim, que ovacionavam o Fuhrer nos seus cinqüenta anos. Tratava-se de uma das maiores manifestações públicas organizadas pelo Ministério da Propaganda, mas os aplausos me pareceram sinceros.

Na chancelaria do Reich, enquanto aguardávamos o início do almoço, Hitler me disse amistosamente:

– O senhor me lançou em uma bela confusão com suas duas frases. Eu esperava um discurso e como de praxe tinha a intenção de responder. Mas o senhor terminou sem começar e eu não soube o que tinha para responder. Mas concordo em que fez um bom discurso, um dos melhores que já ouvi em minha vida.

Nos anos seguintes, esse episódio era um dos números do seu repertório de casos, e o relatava com freqüência.

Hitler foi felicitado pelos comensais à meia-noite, em ponto. No entanto, quando lhe anunciei que tinha preparado, para aquele dia, em um dos salões, uma maquete de quase quatro metros de altura do seu Arco do Triunfo, deixou a companhia dos convidados e dirigiu-se apressado à sala indicada. Durante muito tempo, visivelmente comovido, contemplou o sonho dos seus anos de mocidade, agora realizado em uma maquete. Apertou-me a mão sem dizer palavra, vencido pela emoção, para depois, eufórico, reafirmar perante os convidados a importância daquela obra para a futura história do Reich. Naquela noite, Hitler foi ainda ver a maquete várias vezes.

As relações entre Hanke e a Sra. Goebbels chegaram, porém, a tal ponto de intimidade, que ambos, para terror de todos os iniciados naquele segredo, manifestaram a intenção de se casar. Seria um casal completamente díspar: Hanke, jovem e inexperiente, ao passo que ela era consideravelmente de mais idade e elegante dama da sociedade. Hanke insistia com Hitler para que autorizasse o divórcio. Mas Hitler não consentiu pelas razões de Estado. Certa manhã, quando se iniciava o Festival de Bayreuth, em 1939, Hanke apresentou-se desesperado em minha residência, em Berlim. Disse-me que o casal Goebbels se reconciliara e juntos tinham ido para Bayreuth. Fui de opinião que aquela solução era a mais sensata, inclusive para Hanke. Mas não se pode consolar um amante em desespero dando-se-lhe parabéns. Prometi-lhe pois tomar informações em Bayreuth, a respeito do que acontecera, e saí logo rumo àquela cidade.

A família Wagner acrescentara à mansão Wahnfried uma ala espaçosa, onde Hitler e seus ajudantes estiveram durante aqueles dias, ao passo que os convidados de Hitler foram hospedados em casas particulares, em Bayreuth. Aqueles convidados tinham sido selecionados por Hitler, com mais cuidado do que o habitual para Obersalzberg ou mesmo a chancelaria do Reich. Além do oficial do seu serviço pessoal, convidara somente alguns conhecidos e suas esposas, que ele tinha certeza agradariam à família Wagner. Falando com exatidão: somente o Dr. Dietrich, o Dr. Brandt e eu.

Durante aqueles dias, tínhamos a impressão de que Hitler se sentia mais à vontade. Evidentemente, encontrava um refugio no seio da família Wagner, com a qual se sentia livre da coação moral de fazer uma demonstração de poder, à qual, às vezes, se via constrangido, mesmo durante a reunião noturna na chancelaria do Reich. Mostrava-se alegre e paternal com os meninos e amistoso como também atencioso com Winifred Wagner.

Sem o auxílio material de Hitler aqueles festivais não se poderiam realizar. Bormann tirava todos os anos algumas centenas de milhares de marcos do dinheiro de Hitler para transformar Bayreuth no centro culminante da temporada alemã de ópera. Na qualidade de mecenas do festival e de amigo da família Wagner, os dias de Bayreuth significariam para Hitler a materialização de um sonho em que talvez nem tivesse pensado em sua juventude.

Goebbels e sua esposa chegaram a Bayreuth no mesmo dia da minha chegada, tendo sido hospedados, como Hitler, no anexo da mansão Wahnfried. A Sra. Goebbels tinha a aparência muito abatida, e falou-me com toda franqueza:

– Foi espantosa a maneira como o meu esposo me ameaçou. Eu estava justamente me recuperando em Gastein, quando ele se apresentou de repente no hotel. Durante três dias, esteve tratando de convencer-me, até que afinal não pude mais. Para coagir-me, utilizou-se dos nossos filhos. Disse-me que eu jamais ficaria com eles. Que podia eu fazer? Nossa reconciliação foi exclusivamente para a sociedade. Albert é terrível! Tive de prometer-lhe que jamais voltarei a encontrar-me com Karl. Sou terrivelmente desgraçada, mas não tenho nenhuma outra alternativa.

Que representação poderia concordar melhor com aquela situação trágica do que, precisamente, Tristão e Isolda, à qual assistimos Hitler, o casal Goebbels, a Sra. Winifred Wagner e eu, todos no camarote central? A Sra. Goebbels, sentada ao meu lado, chorou em silêncio, sem cessar, durante toda a representação. Nos intervalos, sentava-se a um canto de uma sala, soluçando sem conter-se, enquanto Hitler e Goebbels se exibiam ao público, em uma janela, esforçando-se por se manterem indiferentes ao lamentável sucesso.

Na manhã seguinte, Hitler, para quem era incompreensível o comportamento da Sra. Goebbels, inteirou-se por meu intermédio do que havia por trás daquela reconciliação. Sem dúvida, na qualidade de chefe de Estado, acolheu com satisfação aquele rumo dos acontecimentos. Mas ordenou que Goebbels se lhe apresentasse, imediatamente, e na minha presença disse-lhe com algumas palavras secas que seria mais conveniente que se retirasse de Bayreuth, naquele mesmo dia, com sua esposa. Sem lhe dar ocasião para uma explicação, mesmo sem lhe estender a mão, disse ao seu ministro que podia ir embora, e depois me disse:

– Esse Goebbels é sempre cínico, quando se trata de mulheres.

Claro que ele também o era, mas de outra forma.

 

                                     O GLOBO TERRESTRE

Examinando minhas maquetes dos futuros edifícios berlinenses, Hitler sentiu-se atraído, por assim dizer, magneticamente, por uma parte daquele projeto de urbanização, pelo futuro centro do Reich, que deveria ser, durante centenas de anos, o testemunho vivo do poderio alcançado na época hitlerista. Assim como a residência dos soberanos franceses, urbanisticamente, completa os Champs-Élysées, assim se haveriam de congregar, no centro da aristocrática avenida, todos os edifícios que Hitler desejava se erguessem em sua imediata proximidade, como expressão do seu poder político: a chancelaria do Reich, para a direção do Estado; a Chefatura Suprema da Wehrmacht, com jurisdição sobre as Forças Armadas; mais três chancelarias – uma para o partido (Bormann), outra para o protocolo (Meissner) e outra para os assuntos pessoais dele. O fato de também estar o edifício do Reichstag em nossos projetos, no centro do Reich, não significava que se tivesse previsto para o Parlamento um papel importante no exercício do poder; simplesmente acontecia que por uma casualidade o antigo edifício do Reichstag estava naquele local.

Propus a Hitler a demolição da obra de Paul Wallot, da época guilherminesca. Mas, inesperadamente, tropecei com uma viva resistência: o edifício agradava-lhe. Nó entanto, Hitler notava-o unicamente sob ò ponto de vista dos acontecimentos sociais. O Fuhrer mostrou-se mais sóbrio em palavras ao referir-se aos seus últimos objetivos. Quando falava comigo sobre os verdadeiros motivos dos seus planos de urbanização, fazia-o devido à confiança, que é quase sempre um sinal característico da relação entre contratante e arquiteto.

– Podemos fazer no edifício antigo salas de leitura e de estar para os deputados. Em minha opinião, a sala de debates podia ser transformada em biblioteca. Com os seus quinhentos e oitenta lugares, ainda é pequena para nós. Levantaremos um novo edifício ao seu lado. Calcule para dois mil e duzentos deputados!

Isso pressupunha uma nação de cerca de cento e quarenta milhões de habitantes, o que permitia vislumbrar o alcance das aspirações de Hitler. Ele contava com o aumento vegetativo da população alemã e com a anexação de outros povos germânicos. Mas não com a população das nações subjugadas, às quais não reconhecia nenhum direito ao voto.

As construções que teriam de demarcar a futura Adolf Hitler Platz estariam próximas da grande sala de cúpula, que tinha um volume cinqüenta vezes maior que o do edifício destinado à representação do povo, como se Hitler quisesse tornar claro nas suas proporções a insignificância da representação popular.

Já no verão de 1936, tinha tomado a decisão de que fossem elaborados os planos para a construção da Grande Sala. No dia 20 de abril de 1937, sua data natalícia, entreguei-lhe projeções horizontais, vistas, seções, e uma primeira maquete. Mostrou-se entusiasmado, fazendo restrição apenas à fórmula que empreguei para assinar os desenhos: "Elaborados segundo idéias do Fuhrer". Disse que eu era arquiteto, que a minha contribuição àquela obra seria mais valorizada do que o seu esboço de 1925. No entanto, a fórmula não foi alterada. É possível que ele se tivesse sentido satisfeito com minha recusa em reclamar a paternidade do projeto. Fizeram-se maquetes parciais, de acordo com os planos. Em 1939, tinham sido terminadas em madeira uma maquete exata do exterior, de quase três metros de altura, e uma dos interiores. Nesta, o chão podia ser retirado, o que permitia observar o efeito que produziria no futuro. Durante minhas numerosas visitas, Hitler jamais se privou do prazer de embriagar-se com a contemplação das duas maquetes, durante longo tempo. Agora, com um jeito triunfante, apontava para aquilo que há quinze anos atrás devia ter parecido aos seus amigos uma fantástica quimera: – Quem me haveria de acreditar, naquela época, quando disse que isto chegaria a ser construído um dia?

A maior sala de reuniões já idealizada no mundo até aquela data estava formada por um único recinto, no qual entretanto podia caber um número de ouvintes entre cento e cinqüenta e cento e oitenta mil. Não obstante a oposição de Hitler às concepções místicas de Himmler e Rosenberg, a sala era, ela mesma, um recinto de culto. No decorrer dos séculos, essa sala teria de alcançar, pela tradição e respeito, uma importância similar à da basílica romana de São Pedro para a cristandade católica. Sem haver tal fundo cultural, careceria de qualquer sentido, sendo incompreensível a utilização de meios empreendida por Hitler para realizar aquela construção.

O interior circular da sala tinha um diâmetro de duzentos e cinqüenta metros, quase impossível de imaginar-se. À altura de duzentos e vinte metros, contemplar-se-ia o remate da gigantesca cúpula, cuja suave curva parabólica iniciava-se a noventa e oito metros acima do solo.

Sob certo sentido, nosso modelo fora o Panteão de Roma. A cúpula berlinense também teria uma abertura circular para a entrada de luz. Mas só essa entrada para luz tinha quarenta e seis metros de diâmetro, ultrapassando portanto o de toda a cúpula do Panteão (quarenta e três metros) e o da Basílica de São Pedro (quarenta e quatro metros). O interior do recinto tinha um volume dezessete vezes maior do que o da Basílica de São Pedro.

A configuração do interior tinha de ser, como se pode imaginar, de grande sobriedade; em torno de uma superfície circular de cento e quarenta metros de diâmetro, levantavam-se, em três pavimentos, tribunas até a altura de trinta metros, que se elevavam, circularmente, em redor da superfície interior. Uma coroa formada de cem pilares retangulares de mármore estava interrompida, à frente da entrada, por uma concha de cinqüenta metros de altura e vinte e oito de largura, cujo fundo teria de ser revestido de mosaico dourado. Diante daquele fundo e como único elemento decorativo, uma águia imperial dourada, disposta sobre um pedestal de mármore de catorze metros de altura, segurando nas garras a suástica com uma coroa de folhas de carvalho. Assim, o símbolo da soberania era ao mesmo tempo o remate e a meta da grande avenida de Hitler. Sob aquele símbolo estava o lugar de onde o chefe da nação haveria de dirigir suas mensagens aos povos do futuro Reich germânico. Tentei destacar, arquitetonicamente, esse lugar. Mas aqui se viu a desvantagem de uma arquitetura orientada para a enormidade das dimensões. Na visualização panorâmica, Hitler não seria visto.

Vista do exterior, a cúpula semelharia uma montanha verde com duzentos e trinta metros de altura, pois estava previsto o seu revestimento com placas de cobre com sua patina correspondente. Para remate seria sobreposta uma lanterna de cristal com quarenta metros de altura e de feitura metálica a mais leve possível. Por cima da lanterna, uma águia sobre uma suástica.

Sob o ponto de vista óptico, a massa da cúpula estava sustentada por uma série contínua de pilares de vinte metros de altura. Daí eu esperava uma dimensão que pudesse ser captada pelo olho humano, seguramente uma esperança vã. A cúpula-montanha descansava sobre um bloco quadrado de granito claro, que deveria ter trezentos e quinze metros de extensão por setenta e quatro de altura. Um delicado friso, quatro pilares de canduras nas quatro esquinas e uma saliente galeria de colunas, orientada rumo à praça, haveriam de sublinhar a grandeza do gigantesco cubo. Essa colunata estaria flanqueada por duas estátuas de quinze metros de altura. Fora Hitler quem determinara o conteúdo alegórico daquelas esculturas, quando começamos a trabalhar nos primeiros desenhos: uma representava Atlas, sustentando a abóbada celeste; outra, Tellus Mater, apoiando o globo terrestre. O Céu e a Terra estariam revestidos de esmalte; os contornos e as constelações se fariam mediante incrustações de ouro.

O conjunto da obra haveria de ter uma dimensão de mais de vinte e um milhões de metros cúbicos. O Capitólio de Washington caberia várias vezes dentro dessa massa gigantesca: números e dimensões de caráter colossal.

Mas a Grande Sala não era de modo nenhum uma vã utopia sem possibilidades de realização. Nossos projetos não entravam na categoria de outros imaginados, da mesma pomposa maneira, no que diz respeito a dimensões, como é o caso por exemplo dos elaborados pelos arquitetos Claude Nicolas Ledoux e Etiènne L. Boullée, como canto fúnebre ao império francês dos Bourbons ou para glorificação da Revolução, mas sem que jamais alguém tivesse pensado em executá-los. Também os planos ideados por aqueles arquitetos previam dimensões que não se afastavam das concebidas por Hitler.

Para o levantamento da nossa Grande Sala e dos demais edifícios, em torno da futura Adolf Hitler Platz, foram demolidos, já em 1939, muitos prédios antigos, situados nas proximidades do Reichstag (os prédios que eram estorvos à execução dos planos), feitas prospecções do solo, desenhados esboços de detalhes e construídas maquetes de tamanho natural. Para as fachadas, apesar da penúria de divisas, já se haviam consumido milhões de marcos na compra de granito, procedente não só da Alemanha mas também, por ordem expressa de Hitler, da Suécia meridional e da Finlândia. A conclusão daquela obra tinha sido prevista para onze anos mais tarde, ou seja, para 1950, prazo idêntico ao previsto para os demais edifícios, na grande avenida de Hitler, com cinco quilômetros de comprimento. A solene colocação da primeira pedra foi fixada para o ano de 1940.

Do ponto de vista técnico, não era problema rematar-se com uma abóbada um espaço de duzentos e cinqüenta metros de diâmetro. Os construtores de pontes, no decênio de 30, dominavam sem dificuldade a técnica de construções similares com cimento armado, ferro ou aço, irrepreensíveis quanto à segurança. Prestigiosos arquitetos alemães tinham mesmo admitido a possibilidade da construção de uma abóbada maciça sobre aquela superfície vazia. De acordo com a minha "teoria das ruínas", eu, de bom grado, teria evitado o emprego do aço, mas Hitler observou: – Poderia acontecer que uma bomba, lançada por um avião, viesse a cair na cúpula e danificasse a abóbada. Quais os reparos que o senhor imaginaria, havendo o perigo de desabamento?

Hitler tinha razão. Fizemos construir uma armação de aço na qual ficaria suspensa a parte interior da cúpula. No entanto, a construção das paredes tinha sido prevista de modo maciço, tal como em Nuremberg. Juntamente com a cúpula, as paredes exerceriam tremenda pressão, para suporte das quais seriam necessários alicerces extraordinariamente sólidos. Os engenheiros decidiram-se por um bloco de concreto, cujo volume ultrapassaria três milhões de metros cúbicos.

Enquanto se elaboravam os planos, eu examinava a basílica romana de São Pedro. Senti-me desiludido, pois suas dimensões não correspondiam à impressão que experimenta o espectador. Dei-me conta de que a impressão não aumenta proporcionalmente às dimensões da obra, quando as construções alcançam tal grandeza.

Naquela época, eu temia que a impressão causada pela nossa Grande Sala deixasse de atender às esperanças nela depositadas por Hitler.

O encarregado das questões da proteção antiaérea do Ministério da Aviação do Reich, Conselheiro Ministerial Knipfer, tinha ouvido boatos a respeito da gigantesca obra projetada. Havia pouco tempo, tinha baixado instruções no sentido de que os edifícios que se construíssem a partir de então haveriam de estar distantes uns dos outros, na medida do possível, a fim de se minorar o efeito dos bombardeios. E agora iria surgir, no coração da cidade e do Reich, uma construção cujo remate se elevaria acima das nuvens baixas e seria um excelente ponto de referência para as esquadrilhas de bombardeiros inimigos, praticamente um indicador do centro governamental. Transmiti essas preocupações do conselheiro a Hitler, que no entanto se mostrou otimista, dizendo:

– Goering assegurou-me que nenhum avião inimigo sobrevoará o território alemão. Não permitiremos que qual quer coisa impeça a realização dos nossos projetos.

Hitler metera na cabeça a idéia da construção desta cúpula, que ele concebera pouco depois de sair da prisão militar e que não fora esquecida no transcurso de quinze anos. Quando, depois de concluídos nossos planos, ele soube que a União Soviética projetava, também, erigir um Congresso em Moscou, em honra de Lênin – edifício que ultrapassaria trezentos metros de altura –, reagiu muito aborrecido. Evidentemente, irritava-o a idéia de não ser ele quem erguesse a construção mais alta do mundo, e, ao mesmo tempo, atormentava-o a impossibilidade de impedir a realização da idéia de Stálin, mediante uma simples ordem. Afinal, consolou-se pensando em que sua obra seria algo único em seu gênero:

– Que importância terá um arranha-céu de mais ou de menos, mais alto ou mais baixo? A cúpula... será ela que irá diferenciar nossa obra de todas as demais!

Depois de iniciada a guerra com a União Soviética, eu pude comprovar que a idéia de Moscou competindo com ele no setor da construção de obras monumentais tinha-o impressionado mais do que ele quis confessar.

– Agora – desabafou – vai se acabar para sempre o assunto de construção.

A estrutura da cúpula estava rodeada, por três lados, de superfícies líquidas, o que aumentaria o efeito do edifício ao refletir-se na água. Para tal fim, pensou-se em alargar o leito do Spree, transformando-o em uma espécie de lago. É bem verdade que o tráfego fluvial seria feito por um túnel de dois traçados, devido à esplanada existente diante da Grande Sala. O quarto lado, orientado para o sul, dominava a grande praça, a qual, posteriormente, receberia a denominação de Adolf Hitler Platz. Nela se celebrariam as manifestações anuais do 1.° de Maio, até então feitas no campo de Tempelhof. O ministro da Propaganda tinha elaborado um sistema para a realização de tais manifestações de massas. Em 1939, Karl Hanke falou-me dos diversos tipos de manifestações, que se regulavam por princípios políticos e propagandísticos. Havia um esquema para cada caso, desde a manifestação de alunos de escolas, na recepção festiva a personalidades estrangeiras, até a mobilização de milhões de operários. O subsecretário do ministro da Propaganda falava, ironicamente, de "recrutamentos festivos". Para encher aquela praça, havia necessidade de se recorrer sempre ao máximo dos "recrutamentos festivos", pois tinha capacidade para um milhão de pessoas.

Em um dos lados, a Grande Sala estava limitada pela nova Chefatura Suprema da Wehrmacht; no outro lado, encontrava-se o edifício da chancelaria do Reich, ficando livre somente a parte que dava para a avenida. Esta era a única abertura na gigantesca praça, completamente rodeada de edifícios.

Além daquela sala de reuniões, a obra mais importante e interessante, sob o aspecto psicológico, era o palácio de Hitler. Não exagero se, neste caso, falar de um palácio, em vez de referir-me à residência do chanceler do Reich. Hitler já se ocupara dele, em novembro de 1938, tal como o demonstram os esboços que se conservam. O novo palácio do Fuhrer revelava seu afã de notoriedade, tendo sido aumentado de maneira gigantesca. Desde a antiga vivenda do chanceler Bismarck, que a princípio fora utilizada, até essa nova construção, as dimensões tinham aumentado cerca de cinqüenta vezes. A residência de Hitler podia-se comparar com o legendário recinto principesco de Nero, a Casa de Ouro, com uma superfície de mais de um milhão de metros quadrados. A situar-se no centro de Berlim, ocuparia uma extensão de dois milhões de metros quadrados, incluindo os jardins. Dos salões de recepção partiam várias filas de salas, que davam acesso a um refeitório, onde se poderiam sentar à mesa, ao mesmo tempo, milhares de comensais. Para as recepções de gala estavam previstos oito gigantescos salões de reunião. E para o teatro de quatrocentos lugares, uma imitação dos teatros ducais da época do barroco e do rococó, tinham sido providenciadas as mais modernas inovações em matéria de cenários e decorações.

Hitler podia ir da sua residência particular até à Grande Sala através de uma série de galerias. O outro lado comunicava diretamente com os lugares de trabalho, no centro dos quais se tinha previsto a instalação do salão de expediente, cujas dimensões excediam muito as da sala de recepção do presidente norte-americano. Agradou sobremaneira a Hitler o extenso caminho que teriam de percorrer os diplomatas, na nova chancelaria do Reich, acabada de construir, tendo manifestado seu desejo de uma solução parecida na construção da futura chancelaria. Por isso, prolonguei até meio quilômetro a distância a ser percorrida pelos diplomatas.

Desde a época da antiga chancelaria, no ano de 1931, quando Hitler dissera que aquele edifício era o da sede da administração de uma indústria de sabão, as exigências do Fuhrer foram crescendo numa proporção de setenta para um. Isso demonstra de maneira evidente a forma como tinha evoluído a megalomania de Hitler.

No entanto, no meio de todo aquele esplendor, Hitler iria colocar, em um dormitório de dimensões relativamente modestas, a sua cama branca esmaltada, tendo-me dito uma vez:

– Odeio qualquer luxo no dormitório. Onde me sinto melhor é em uma cama simples e modesta.

Em 1939, quando esses projetos se firmaram, manteve-se, mediante a propaganda de Goebbels, a crença geral de que Hitler preferia a simplicidade e a modéstia. Para não diminuir essa crença, Hitler só fazia referência ao segredo do seu palácio particular e da chancelaria do Reich a muito raras pessoas. Quanto a mim, quando uma vez passeávamos pela neve, exprimiu sua opinião com as seguintes palavras:

– Sabe o senhor? Eu me conformaria com uma casa simples e pequena em Berlim. Tenho poderio e prestígio suficientes, não necessito desses expedientes para realçá-los. Mas, creia numa coisa: quem me suceder necessitará, inevitavelmente, de uma representação dessa espécie. Quase não se acredita no poder que um espírito insignificante exerce sobre os que se lhe aproximam, quando tem a possibilidade de apresentar-se rodeado de tanto esplendor. Os recintos com passado histórico elevam também à categoria de homem histórico um político medíocre, no exercício do poder. Por esta razão, levantaremos tais edifícios, enquanto eu viver. Morando neles, eu transmitirei um valor de tradição a tais construções. Bastar-me-á morar neles um par de anos.

No discurso dirigido em 1938 aos operários da construção da chancelaria do Reich, Hitler já exprimira idéias análogas, naturalmente sem revelar coisa nenhuma dos projetos já existentes. Disse que, em sua qualidade de Fuhrer e chanceler da nação alemã, não residiria em palácios antigos. Por isso renunciara à moradia no palácio do presidente do Reich, pois não ocuparia a casa do antigo mordomo de Sua Majestade. Mas, informou, o Estado iria ter um edifício representativo digno de qualquer rei ou imperador estrangeiro.

Naquela época, Hitler proibiu-nos de calcular o custo das obras. Assim, não calculamos nem a quantidade de metros cúbicos do material necessário. Agora, depois de vinte e cinco anos, apresento os cálculos:

 

1) Sala da cúpula – 21.000.000 m3

2) Palácio-residência      – 1.900.000 m3

3) Seção para o expediente e chancelaria do Reich – 1.200.000 m3

4) Chancelarias anexas – 200.000 m3

5) Chefatura Suprema da Wehrmacht – 600.000 m3

6) Novo edifício do Reichstag – 350.000 m3

               Total – 25.250.000 m3

 

Embora as grandes dimensões diminuíssem o preço por metro cúbico, mal se pode imaginar os custos totais, porquanto aqueles gigantescos recintos requeriam tremendas paredes e alicerces com profundidade adequada. Além disso, estava previsto que as paredes externas seriam de excelente granito, e as internas de mármore, como também seriam feitos de materiais caros as portas, janelas, forros, etc. O preço de cinco bilhões de marcos atuais para as construções da Adolf Hitler Platz talvez seja uma estimativa modesta.

A alteração no estado de ânimo do povo, a desilusão que começava a estender-se por toda a Alemanha de 1939 faziam urgente a necessidade de se organizarem manifestações de júbilo. No entanto, dois anos antes, Hitler podia contar com os espontâneos aplausos dos alemães. Mas não havia isso somente: por seu lado, Hitler estava-se afastando da massa que o admirava. Mais freqüentemente do que antes, mostrava-se mal-humorado e impaciente, quando a multidão, reunida na Wilhelmsplatz, reclamava a presença do Fuhrer. Dois anos antes, fizera muitas vezes o caminho para o "balcão histórico". Mas, agora, quando os ajudantes-de-ordens insistiam em que se mostrasse ao povo, respondia-lhes com maus modos:

– Deixem-me em paz com essas coisas!. . .

Esta observação, aparentemente secundária, faz parte da imagem da nova Adolf Hitler Platz. Ele me disse certa vez:

– Não está longe o dia em que me verei forçado a adotar medidas antipopulares. Talvez suscitem uma revolta. Para se prevenir isso, deve-se cogitar do seguinte: todas as janelas dos edifícios terão um segundo painel espesso e cor tinas de aço, à prova de bala. As portas serão também de aço. O único acesso à praça será fechado por um forte portão de ferro. O centro do Reich há de ser defendido como uma fortaleza.

Tais palavras denotavam uma inquietação que jamais se manifestara antes. Esta inquietude ressurgiu quando se cuidou da situação do quartel do corpo da guarda pessoal, que tinha crescido até o ponto de transformar-se em regimento, inteiramente motorizado, dotado das mais modernas armas. Transferiu a residência da sua escolta pessoal para a imediata proximidade do grande eixo sul.

E perguntou-me:

– Qual a sua opinião a respeito do que sucederia em caso de distúrbios?

Apontando para a rua de cento e vinte metros de largura, acrescentou:

– Se avançassem contra mim com seus veículos encouraçados, ocupando toda a largura da rua... Ninguém seria capaz de enfrentá-los.

Ou porque o Exército já estivesse informado daquela disposição de Hitler, e quisesse antecipar-se às SS, ou porque assim ordenara Hitler, pessoalmente, o fato é que, por determinação do Alto-Comando do Exército e com a aprovação de Hitler, foi previsto, para servir o regimento berlinense da guarda Grossdeutschland, a construção de um quartel ainda mais próximo do centro ocupado por Hitler.

Eu, inconscientemente, exprimi na fachada do palácio de Hitler a separação existente entre a nação alemã e seu Fuhrer, um homem disposto, se fosse o caso, a mandar que se abrisse fogo contra seu próprio povo. Na fachada, não havia nenhuma abertura, excetuando-se a grande porta de aço da entrada e a porta de acesso a um balcão de onde o Fuhrer podia mostrar-se à multidão. Mas o balcão erguia-se a catorze metros acima da multidão, ou seja, à altura de uma casa de cinco pavimentos. A fachada, manifestamente hostil, parece-me, hoje, exprimir de maneira certa o distanciamento de um homem que tinha sido endeusado.

No começo da guerra, eu tinha elaborado uma teoria que, depois, em 1941, por ocasião de um almoço no restaurante parisiense Maxim's, pude expor a um grupo de artistas franceses e alemães, entre os quais estavam Cocteau e Despiau. Eu disse que a Revolução Francesa desenvolvera, depois do rococó tardio, um novo estilo. Mesmo os móveis mais singelos tinham uma suprema beleza em suas proporções. Segundo minha teoria, esse estilo tinha encontrado sua expressão mais pura nos desenhos de obras de Boullée. O estilo da Revolução fora substituído pelo do Diretório, o qual, embora trabalhasse com elementos mais ricos, conservara contudo a simplicidade e o bom gosto. A transição iniciara-se com o estilo império; novos elementos, sempre na minha opinião, surgindo em proporção continuamente ascendente, cada ano, ocultaram com fastidiosos adornos as formas fundamentais, todavia clássicas, até chegar afinal ao estilo "império tardio", cujo esplendor, magnificência e riqueza mal poderiam ser ultrapassados.

Isso, que significava o final da revolução de um estilo, tão esperançosamente iniciado na época do Consulado, era expressão, ao mesmo tempo, da transição da Revolução ao império napoleônico. Essa evolução fora, simultaneamente, o anúncio da decomposição e por conseguinte do final da era napoleônica. Nesse circuito evolutivo de uma duração aproximada de vinte anos podia-se observar o que, de ordinário, .costuma refletir-se unicamente no transcurso de séculos: a evolução da arquitetura dórica da primeira época da Antiguidade até chegar às sobrecarregadas fachadas barrocas do império tardio, como a presente, por exemplo, nas obras de Baalbek, as construções românticas dos começos da Idade Média e a floração gótica no fim dessa idade.

Se as minhas observações fossem conclusivas, eu continuaria expondo argumentos que, segundo o pressuposto de "império tardio", levariam a admitir-se a extinção do regime, prenunciada nos projetos de obras que fiz para Hitler. Mas, naquele tempo, eu ainda não via isso. Teria ocorrido o mesmo com aqueles que rodeavam Napoleão, vendo apenas a expressão da sua grandeza nos superornamentados salões dos últimos anos do império, ao passo que o pressentimento da queda só foi possível às gerações posteriores.

As últimas obras que projetamos em 1939 eram realmente "neo-império" puro, comparáveis às do estilo que, cento e vinte e cinco anos antes da queda de Napoleão, fora expressão de ornamentação excessiva, mania de dourados, afã de ostentação e decadência. Não somente o estilo daquelas construções como também suas exageradas dimensões indicavam, bem claramente, quais eram as verdadeiras intenções de Hitler.

Um dia, no princípio do verão de 1939, ele apontou para a águia imperial que segurava em suas garras o símbolo da soberania, águia que deveria coroar na altura de duzentos e noventa metros o remate da cúpula da Grande Sala. E falou-me assim:

– Tem de ser modificado. A águia não irá segurar a suástica, mas pousará, dominadora, sobre o globo terrestre. O coroamento deste edifício, o maior do mundo, será a águia sobre a esfera da Terra.

Essa alteração, introduzida por Hitler, nos projetos primitivos pode-se ver nas fotografias das maquetes que mandou fazer.

Meses depois começava a Segunda Guerra Mundial.

 

                                         INICIA-SE O DECLIVE

Talvez isto tenha acontecido nos começos de agosto. Formando um grupo despreocupado, nós íamos em companhia de Hitler para a casa de chá situada no Kehlstein. A extensa fila de automóveis serpenteava subindo pela rodovia que Bormann mandara abrir na rocha viva. Atravessando um alto pórtico de bronze, entramos em um vestíbulo revestido de mármore, úmido devido ao ar da montanha, e entramos no elevador de paredes de metal luzidio.

Quando tínhamos subido cinqüenta metros, Hitler, como se estivesse em um monólogo, disse, de repente:

– Talvez aconteça algo importante, dentro em pouco. Talvez um grande acontecimento. É possível que eu tenha de enviar Goering... Mas, em caso de necessidade, eu mesmo iria, em pessoa: Jogarei tudo nessa cartada.

A coisa ficou nessa insinuação.

Mal decorreram três semanas – no dia 23 de agosto de 1939 –, soubemos que o ministro alemão das Relações Exteriores estava em Moscou, entabulando negociações diplomáticas. Durante a ceia, Hitler recebeu uma nota. Leu-a, rapidamente, olhou alguns instantes à frente de si, corando muito, esmurrou a mesa com tanta energia que os copos tilintaram, e com a voz quase arquejante gritou:

– Já os tenho! Já os tenho!

Logo readquiriu a calma com fulminante rapidez e ninguém ousou fazer perguntas. E a refeição continuou.

Terminada a ceia, ordenou que fossem ter com ele todos os homens do seu grupo íntimo, e anunciou-lhes:

– Faremos com a Rússia um pacto de não-agressão. Vejam os senhores: um telegrama de Stálin.

O telegrama, dirigido ao "Chanceler do Reich, Hitler", informava em poucas palavras do acordo feito. O caso mais surpreendente e excitante que se possa imaginar: um telegrama reunindo em um pedaço de papel os nomes Hitler e Stálin. Depois foi exibido um filme em que se mostrava um desfile Exército Vermelho diante de Stálin, do qual participava um grande efetivo de tropas. Hitler exteriorizou sua satisfação por ter sido neutralizada aquela potência militar, dirigindo-se ao seu ajudante-de-ordens para, evidentemente, discutir com ele sobre a valorização daquela massa de homens, quanto a efetivo e armamento. As senhoras não estavam naquele grupo, mas depois foram informadas do acontecimento, uma novidade que não demorou em ser difundida pelo rádio.

Depois de Goebbels ter convocado com a maior rapidez uma reunião de jornalistas, Hitler comunicou-se com o seu ministro da Propaganda. Hitler queria saber qual fora a reação dos representantes da imprensa estrangeira. E com um brilho nos olhos disse-nos o que lhe informara Goebbels: – É impossível superar a sensação causada pela notícia. Quando os sinos das igrejas repicaram, ao mesmo tempo, no exterior, um representante britânico da imprensa opinou com um acento resignado na voz: "É o toque de finados do Império Britânico".

Foi essa observação que mais impressionou Hitler, eufórico naquela noite. Supunha já estar bastante no alto, acreditava já estar a salvo do destino.

Naquela noite, na companhia de Hitler, no terraço de Berghof, admiramos uma aurora boreal. Uma luz vermelha, extraordinariamente intensa, inundou de vermelhidão, durante mais de meia hora, a zona em que se estendia, debaixo de onde estávamos, o legendário Untersberg, enquanto o céu se cobria das mais diversas cores do arco-íris. O ato final de O crepúsculo dos deuses não podia ter sido encenado de um modo mais realista. Os rostos e as mãos de todos nós estavam banhados de um vermelhão não natural. O espetáculo suscitou uma atitude reflexiva da parte de Hitler, que, dirigindo-se a um dos militares, seu ajudante-de-ordens, disse, inesperadamente:

– Isso parece estar predizendo muito sangue. Desta vez, não se poderá terminar sem o emprego de força.

Desde há algumas semanas, o centro dos interesses de Hitler deslocara-se para o setor militar. Hitler tratava de esclarecer seus projetos. Por isso, conversava muito amiúde, durante horas, com um dos seus quatro ajudantes militares: o Coronel Rudolf Schmundt, do Alto-Comando da Wehrmacht; o Capitão Gerhard Engel, do Exército; o Capitão Nikolaus Von Below, da Força Aérea; o Capitão Karl Jesko von Puttkamer, da Marinha. Aqueles jovens oficiais eram do agrado de Hitler, especialmente porque procurava com eles o assentimento, difícil da parte dos generais mais céticos.

Mas logo depois de divulgado o acordo com a Rússia, os ajudantes-de-ordens foram substituídos pelas mais altas personalidades políticas e militares do Reich, entre as quais estavam Goering, Goebbels, Keitel e Ribbentrop. Goebbels, sobretudo, falava com franqueza e preocupação do perigo de uma guerra, que estava se delineando. Era pe estranhar que ele, ordinariamente extremado, achasse muito grande o risco de uma guerra. Intentou recomendar aos que rodeavam Hitler a conveniência de adotar uma orientação pacifista. Demonstrava seu aborrecimento com Ribbentrop, que ele considerava o mais destacado representante da facção belicista. Os que rodeavam Hitler, em sua vida particular, julgavam Goebbels – além de Goering, que também se manifestou partidário da paz – um indivíduo enfraquecido, degenerado pela existência fácil que lhe proporcionava o poder, que não queria arriscar os privilégios já alcançados.

A facção belicista, quem quer que tenha participado da mesma, além de Hitler e de Ribbentrop, apoiava-se mais ou menos nos seguintes argumentos: "Suponhamos que, devido à aceleração da nossa produção de armas, dispomos de um armamento cujo poder destrutivo está na proporção de quatro para um, em nosso favor. Desde a ocupação da Tchecoslováquia, o inimigo está se armando fortemente. No entanto, necessitará pelo menos de ano e meio ou dois para que sua produção alcance o nível máximo. Só depois de 1940 os adversários estarão em condições de começar a diminuir a sua desvantagem em relação a nós, que é relativamente grande. Ora, se chegarem a produzir tanto quanto nós, irá diminuindo a proporção da nossa superioridade, porquanto, para mantê-la como está atualmente, teríamos de produzir quatro vezes mais do que o inimigo. E não estamos em condições de fazer isso. A proporção de forças irá diminuindo, incessantemente, em relação a nós, ainda que nossa produção seja o dobro da deles. Ademais, devemos considerar que, agora, dispomos de novos tipos de armas, em todos os setores, e o inimigo só dispõe de material antiquado".

Tais considerações não deveriam ter influído de maneira decisiva nas resoluções de Hitler, mas não há dúvida de que fluíram na escolha do momento que ele julgou oportuno. Es Suas palavras:

– Permanecerei o maior tempo possível em Obersalzberg, a fim de reanimar-me para os graves dias que se aproximam. Não irei para Berlim enquanto não chegar o momento de tomar decisões.

Naturalmente, fui excluído do curso dos acontecimentos, tanto mais porque a rotina dos hábitos de Hitler foi sensivelmente alterada, durante aqueles dias turbulentos. Desde que a corte se trasladou para Berlim, o tempo de Hitler estava, continuamente, ocupado pelas conferências, que se sucediam, sem interrupção; na maioria das vezes, não mais havia as refeições em comum. Entre as minhas lembranças, naturalmente sujeitas às deficiências da memória humana, está em primeiro lugar o comparecimento, de algum modo cômico, do embaixador italiano Bernardo Attolico, que vi entrar, sem respeitar a etiqueta, na chancelaria do Reich, poucos dias antes do ataque à Polônia. Ia comunicar que a Itália, naquele momento, não podia manter as obrigações contraídas pelo seu tratado. O Duce disfarçava aquele recuo com exigências irrealizáveis: um enorme e imediato fornecimento de material, econômico e militar, que teria acarretado um considerável enfraquecimento do poder combativo do Exército alemão. Hitler havia superestimado o valor combativo da Itália, sobretudo da Marinha de Guerra, que dispunha de unidades modernas e de um grande número de submarinos. Também havia valorizado muito a aviação italiana. Viu inutilizada por um momento a sua intenção premeditada, pois calculara que a decisão da Itália de entrar na guerra seria mais um elemento para intimidar as potências ocidentais. Vacilou e adiou por uns dias o ataque à Polônia, o qual estava com a data já marcada.

No entanto, o pessimismo de alguns dias foi logo substituído por uma nova exaltação de ânimo. Procedendo por intuição, Hitler decidiu que a declaração de guerra pelas potências ocidentais não se podia considerar certa, de modo nenhum, mesmo levando em conta a vacilante posição italiana. Recusou uma mediação oferecida por Mussolini. Não se deteria, pois as tropas em permanente estado de prontidão ficariam nervosas. Ademais, não tardaria a terminar o bom tempo do outono, sendo de temer que as tropas ficassem atoladas no barro do solo polonês, se marchassem com as chuvas.

Trocaram-se notas com a Inglaterra sobre a questão polonesa. Hitler deu a impressão de estar fatigado pelo trabalho, quando uma noite, na sala da "invernada", disse aos integrantes do seu grupo íntimo:

– Desta vez, não se cometerá o erro de 1914. Tudo consiste em se lançar a culpa no adversário. Isso se fez frouxamente em 1914. Mas, agora, sob este aspecto, são inteiramente inúteis as propostas do Ministério das Relações Exteriores. É melhor que eu redija pessoalmente as notas.

Enquanto falava, tinha na mão um papel escrito, provavelmente o rascunho de uma nota proposta pelo Ministério das Relações Exteriores. Despediu-se apressado, com poucas palavras, sem tomar parte na refeição, e dirigiu-se aos aposentos no pavimento superior. Muito mais tarde, na prisão, li as notas que foram trocadas e então tive a impressão de que Hitler não fora muito bem sucedido em seus intentos.

A idéia de Hitler de que o Ocidente cederia outra vez, como em Munique, foi apoiada por uma nota do Serviço de Informação, segundo a qual um oficial do Estado-Maior britânico tinha obtido dados a respeito do poder dos efetivos do Exército polonês, tendo chegado à conclusão de que a resistência da Polônia seria inutilizada, rapidamente. Hitler, à vista dessa nota, concebeu a esperança de que o Estado-Maior britânico faria todo o possível para desaconselhar ao seu governo a entrada em uma guerra sem claras perspectivas de vitória. Mas veio o ultimato do dia 1.° de setembro. No entanto, depois de uma breve consternação, quando ao ultimato das potências ocidentais seguiu-se a declaração de guerra de 3 de setembro, Hitler consolou-se e consolou aos demais, explicando que a decisão da França e da Inglaterra de irem à guerra era só aparente, que elas assim agiram para se justificarem perante o mundo. Acrescentou que estava completamente convencido de que, apesar das declarações de guerra, não se chegaria a nenhuma ação bélica. Sendo assim, ordenou à Wehrmacht que se mantivesse estritamente na defensiva, considerando essa decisão uma acertadíssima medida política.

Uma calma inquietante seguiu-se à febril atividade dos últimos dias de agosto. Hitler voltou, embora por pouco tempo, ao seu costumeiro ritmo de vida cotidiano. Até voltou a mostrar-se interessado em projetos arquitetônicos. Eis sua explicação aos membros da sua mesa redonda:

– Certo que estamos em guerra com a Inglaterra e a França. Mas se, da nossa parte, evitarmos qualquer ação ofensiva, tudo ficará em água de barreia. O partido belicista inimigo só será reforçado assim que afundarmos um navio e se verificarem muitos prejuízos. Os senhores não têm idéia do que são essas democracias. Ficarão satisfeitas quando puderem sair deste embrulho. Deixarão a Polônia às voltas com seus próprios problemas.

Não houve ordem de ataque, mesmo quando alguns submarinos alemães estavam em boa posição em frente ao couraçado francês Dunkerque. Entretanto, o ataque aéreo inglês a Wilhelmshaven e o afundamento do Athena contrariaram suas reflexões.

Mas Hitler perseverou, obstinadamente, na opinião de que o Ocidente era muito fraco, demasiadamente frouxo e decadente para empenhar-se seriamente em uma guerra. Talvez fosse penoso para ele confessar aos seus colaboradores e a si mesmo que cometera um engano decisivo. Todavia, lembro-me da sua estupefação ao receber a notícia de que Churchill participaria do Gabinete de Guerra britânico, na pasta da Marinha. Goering, segurando a folha de jornal com a inquietante notícia, saindo à sala de estar de Hitler, deixou-se cair em uma poltrona, dizendo com voz desalentada:

– Churchill está no governo. Isto significa que a guerra começou de verdade. É agora que estamos de fato em guerra com a Inglaterra.

Por essas e outras observações inferia-se que a guerra não estava nos planos de Hitler. Nos últimos dias de agosto, ele demonstrou uma pressa que não era do seu costume, perdendo às vezes o ar tranqüilo do chefe infalível.

Tais ilusões e sonhos relacionavam-se com a forma de pensar e de trabalhar do Fuhrer, vazia de realismo. De fato, nada sabia a respeito do inimigo, e, além disso, recusava-se a usar das informações de que dispunha sobre o assunto. Ao contrário, confiava em seus impulsos momentâneos, derivados de um exagerado menosprezo ao real, por mais contraditórios que resultassem tais impulsos, considerados isoladamente. De acordo com o seu critério, segundo o qual sempre havia duas soluções, queria a guerra, naquele momento, aparentemente o mais favorável, e no entanto não se preparava suficientemente. Vendo na Inglaterra "nosso inimigo número 1”, como acentuou em uma ocasião, esperava, não obstante, chegar a um entendimento com ela.

Não creio que, naqueles primeiros dias de setembro, Hitler tivesse cabal consciência de que se havia desencadeado uma guerra mundial, sem possibilidade já de marcha à ré. Pretendera somente dar um passo. Sem dúvida, tal como um ano antes, durante a crise da Tchecoslováquia, estava disposto a enfrentar o perigo que a sua atitude acarretava. No entanto, preparara-se apenas para enfrentar o perigo, não para uma guerra de grande alcance. O poderio naval programado para um prazo posterior, os couraçados e o primeiro grande porta-aviões estavam ainda sendo construídos. Hitler sabia que os seus navios de guerra não poderiam dispor do seu pleno poder combativo enquanto não fossem capazes de enfrentar forças navais com o mesmo poder, aproximadamente. Também falava com muita freqüência do descuido com relação aos submarinos, durante a Primeira Guerra Mundial, e que ele, de propósito, não começaria uma segunda guerra do mesmo vulto sem dispor de uma poderosa frota submarina.

Mas todas essas preocupações se dissiparam, nos primeiros dias de setembro, quando a campanha da Polônia resultou nos surpreendentes êxitos das tropas alemãs. Também Hitler pareceu recuperar seu senso de segurança. E mais tarde, no momento culminante da guerra, ouvi-o dizer que a guerra contra a Polônia devia ter sido sangrenta:

– Supõe o senhor que teria sido uma sorte para as tropas a conquista da Polônia sem nenhum combate, depois de nos havermos apoderado da Áustria e da Tchecoslováquia sem luta? Creia-me: isso, não o suportam nem as melhores tropas. As vitórias sem sangue desmoralizam. Foi uma sorte não termos chegado a um acordo. Mais: isto teria sido uma desgraça, motivo pelo qual eu teria dado a ordem de ataque, de qualquer modo.

Mas pode ser que por trás de tais manifestações verbais ele tratasse de ocultar os erros diplomáticos de agosto de 1939. Lá para os fins da guerra, o Capitão-General Heinrici falou-me de um antigo discurso, pronunciado por Hitler ante os generais, o qual tem o mesmo significado: "Ele, Hitler, era o primeiro desde Carlos Magno a ter de novo nas mãos um poder ilimitado. Não faria uso desse poder em vão, mas saberia utilizá-lo em uma luta pela Alemanha. Se a guerra não fosse ganha, isto significaria que a Alemanha não soubera sair-se airosa da prova de força, e nesse caso deveria e teria de desaparecer".

Desde os primeiros instantes, o povo considerou a situação com muito mais seriedade do que Hitler e seus colaboradores imediatos. Devido ao nervosismo geral, no dia 1.° de setembro, houve em Berlim um falso alarma de ataque aéreo. Eu estava com muitos outros berlinenses em um refúgio antiaéreo público. Todos ali contemplavam o futuro com olhar de angústia. O estado de ânimo das pessoas que estavam abrigadas ali era de visível abatimento.

Ao contrário do ocorrido no começo da Primeira Guerra Mundial, nenhum dos regimentos saiu para o front com flores nas bocas dos fuzis. As ruas estavam desertas. Na Wilhelmsplatz, não se reuniu nenhuma multidão para aclamar Hitler. E aquele ambiente de desolação correspondeu ao fato de que o Fuhrer, uma noite, mandou preparar suas maletas para serem levadas a um carro no qual ele viajaria para visitar o campo de operações no leste.

Três dias depois do início da campanha da Polônia, fui chamado à chancelaria para a despedida. Encontrei-me com um homem que, na sua residência mal iluminada, embora temporariamente, irritava-se por qualquer coisa. Os carros movimentaram-se e o Fuhrer despediu-se rapidamente dos cortesãos. Na rua, não havia uma única pessoa, para participar daquela cena histórica. Hitler dirigia-se à guerra, preparada por ele. É claro que Goebbels poderia ter disposto de tanta gente quanto quisesse para simular uma manifestação jubilosa. Mas, evidentemente, seu estado de espírito não estava com disposição para tais coisas.

Hitler não esqueceu os seus artistas, nem durante a mobilização geral. No verão de 1939, o oficial de ligação de Hitler com o comando do Exército exigiu os documentos daqueles artistas, na chefatura da circunscrição militar, e, rasgando-os, anulou-os. Assim, deixou de existir a documentação dos artistas, por esse processo original, na mencionada chefatura. É certo que, nas listas feitas por Hitler e Goebbels, os seus arquitetos e atores ocupavam pouco espaço. A maior parte dos isentos eram cantores e atores. Quanto à importância dos jovens, para o futuro da nação, isso se descobriu com a minha Colaboração, em 1942.

Já em Obersalzberg, eu falara pelo telefone com Will Nagel, meu antigo superior, a fim de se organizar um grupo de técnicos, que atuariam sob a minha direção. Desejávamos atuar na reconstrução de pontes, reparo de estradas, ou qualquer outro serviço relacionado com a guerra. Sem dúvida, nossas idéias não eram bem definidas. Por isso, comecei preparando tendas e sacos de dormir e camuflando com uma nova pintura meu BMW. No dia da mobilização geral, apresentei-me na sede do Alto-Comando do Exército, situada na Bendlerstrasse. O Capitão-General Fromm, responsável pelo andamento da mobilização geral do Exército, estava desocupado em seu gabinete – não se podia esperar outra coisa de uma organização germano-prussiana –, enquanto a máquina trabalhava de acordo com o plano estabelecido. Aceitou de bom grado minha colaboração, tendo sido dado ao meu carro um número do serviço do Exército. Recebi também uma carteira de identidade militar. Assim, terminou naquele momento a minha atividade bélica.

Digo isso porque Hitler me proibiu, terminantemente, de me colocar à disposição do Exército, dizendo-me que o meu dever era continuar trabalhando em seus projetos. Depois disso, consegui pelo menos pôr à disposição do Exército e da Luftwaffe os operários e pessoal técnico, empregados em minhas construções de Berlim e de Nuremberg. Nós nos encarregamos dos trabalhos para a fabricação de foguetes Peenemunde e de urgentes projetos da indústria de aviação.

Informei a Hitler das medidas, que me pareciam completamente lógicas, supondo receber o seu assentimento. Para minha surpresa, no entanto, recebi uma comunicação assinada por Bormann, insolitamente grosseira: como me havia ocorrido buscar novas tarefas, quando não me fora dada nenhuma ordem, nesse sentido? Bormann transmitia-me a ordem de Hitler para que as obras continuassem sendo executadas, sem nenhuma restrição.

Aquela ordem demonstrava a carência de realismo no pensamento de Hitler, que visava dois objetivos: por um lado, ele falava, repetidamente, que a Alemanha desafiava agora o destino e tinha de enfrentar uma luta de vida ou morte; mas, por outro lado, não queria renunciar ao seu grandioso plano. Procedendo assim, desprezava a opinião das massas, que não podiam compreender o levantamento de edifícios luxuosos, tanto mais porque agora o afã expansionista de Hitler, pela primeira vez, reclamava vítimas e sacrifícios. Foi a primeira ordem que não cumpri. É certo que, durante o primeiro ano de guerra, vi Hitler muito menos vezes do que antes. Mas, quando ele estava em Obersalzberg, algumas semanas, ou em Berlim, alguns dias, pedia sempre lhe fossem exibidos os desenhos de projetos e concedia prêmios para que continuassem sendo elaborados. Entretanto, creio que não tardou em admitir, tacitamente, que se paralisassem os trabalhos.

Teria sido mais ou menos nos começos de outubro, quando o embaixador alemão em Moscou, Conde Von der Schulenburg, informou a Hitler de que Stálin se interessava, pessoalmente, em nossos projetos de obras. Exibiu-se no Kremlin uma série de fotografias das nossas maquetes, embora, por recomendação de Hitler, se mantivessem em segredo as relativas às obras maiores "para que Stálin não sentisse meu gosto na boca", segundo expressão do Fuhrer. Schulenburg propusera que eu voasse a Moscou a fim de explicar os projetos.

– Poderiam ficar com o senhor – replicou Hitler meio zombeteiro, e não autorizou a viagem.

Schnurre, ministro plenipotenciário alemão, disse-me, pouco depois, que os projetos tinham agradado a Stálin.

No dia 29 de setembro, Ribbentrop regressou da segunda conferência de Moscou, trazendo um tratado russo-alemão de amizade e de delimitação de fronteiras, que selaria a quarta divisão da Polônia. Durante o almoço com Hitler, declarou que jamais se sentira tão bem como entre os colaboradores de Stálin.

– Parecia que eu estava entre antigos companheiros do partido, meu Fuhrer!

Hitler não moveu um único músculo facial, ao ouvir tal explosão de entusiasmo no seu ministro das Relações Exteriores, normalmente um homem seco. Segundo relatou Ribbentrop, Stálin mostrou-se satisfeito com o acordo da fronteira. Depois das negociações, assinalou na zona que caberia à Rússia, no limite com a Alemanha, uma área com a qual presenteou Ribbentrop, a título de terras para caça. Isso contrariou Goering, que manifestou sua discordância daquele presente de Stálin, presente feito ao ministro das Relações Exteriores e que por isso deveria pertencer à Alemanha e, sem dúvida, caber a ele, caçador-mor do Reich. Originou-se uma viva disputa entre os dois grandes caçadores, que terminou com um acesso de mau humor do ministro das Relações Exteriores, visto Goering ter-se mostrado mais enérgico e capaz de impor sua vontade.

Apesar da guerra, continuou o trabalho de reforma do antigo palácio do presidente do Reich, nova sede oficial do Ministério das Relações Exteriores. Hitler visitou as obras, quando estavam quase terminadas, mostrando-se descontente porque Ribbentrop, às pressas, impensadamente, mandou derribar todo o teto para que se fizesse um novo. Talvez com o desejo de agradar a Hitler, insistiu na conveniência de pesados revestimentos de mármore e portas gigantescas, desproporcionais em relação às modernas dimensões das salas. Antes de uma outra visita, roguei a Hitler que se abstivesse de qualquer comentário negativo, para evitar que o ministro das Relações Exteriores ordenasse uma terceira reforma. Realmente, foi no círculo dos seus íntimos que Hitler zombou das obras, que, em sua opinião, eram um completo malogro.

Em outubro, Hanke disse-me que informara Hitler de que, durante o encontro das tropas alemãs e russas, na Polônia, tinha-se observado como era defeituoso, até mesmo deplorável, o armamento do Exército Vermelho. Outros oficiais confirmaram aquela observação, da qual Hitler deve ter tomado boa nota, porquanto uma vez se referiu àquela notícia, considerando-a um indício de debilidade militar ou falta de talento organizador. Não tardou muito em dar por confirmada sua suposição, quando viu a derrota soviética na Finlândia.

Também, apesar de todo o segredo, tive conhecimento das outras intenções de Hitler, quando me encomendou, em 1939, a construção de um quartel-general, no oeste da Alemanha. Ziegenberg, uma mansão senhorial do tempo de Goethe, encravada nas faldas do Taunus, perto de Neuheim, foi escolhida para aquele fim, sendo modernizada e feitos os correspondentes abrigos antiaéreos.

Uma vez terminadas as instalações, em cujas obras se enterraram milhões de marcos, havendo centenas de quilômetros de fios telefônicos, além de outros modernos meios de comunicação, Hitler, inesperadamente, disse que aquele quartel era muito luxuoso para ele. Deseja levar na guerra uma vida simples, e por isso teria de ser construído nos montes Eifel um novo alojamento, adequado à época da luta. Talvez isso impressionasse bem às pessoas que ignorassem quantos milhões de marcos tinham sido malbaratados e quantos outros milhões iriam ser despendidos, novamente. Chamamos a atenção de Hitler sobre isso, mas se mostrou inflexível, pois via perigar o seu prestígio de "homem de vida modesta e sem pretensões".

Depois da rápida vitória, na campanha da França, eu me convenci de que Hitler se transformara em uma das maiores figuras da história alemã. Impressionava-me e desgostava-me a indiferença que eu supunha haver na opinião pública, não obstante as grandiosas vitórias alcançadas. O próprio Hitler, sem conter-se, deu mostras de crescente confiança nele próprio. Agora, dispunha de um novo tema para os seus monólogos de mesa. Era de opinião que suas idéias não malograriam, tal como ocorrera durante a Primeira Guerra Mundial. Segundo o Fuhrer, naquela época, as chefias políticas e militares eram desorganizadas. Permitira-se também excessiva atividade aos partidos políticos. Estivera em perigo a união da nação alemã e ocorreram manobras de traição à pátria. Por motivos protocolares, os ineptos príncipes das casas reinantes foram comandantes-chefes dos seus exércitos. Tinham de colher lauréis militares para elevar o prestígio da sua dinastia. E além de tudo, estava à frente da nação Guilherme Ü, um general incompetente. Agora, ao contrário – continuava falando Hitler –, a Alemanha estava unida, e isso ele afirmava com satisfação. Os diversos Estados componentes da federação tinham uma autonomia insignificante; os chefes militares tinham sido escolhidos entre os melhores oficiais, sem nenhuma consideração pela origem; foram suprimidos os privilégios da nobreza, ou seja, a política, a Wehrmacht e a nação constituíam uma verdadeira unidade. E ele estava na direção da nação unida. Sua energia, sua vontade e sua força superariam todos os obstáculos que se apresentassem no futuro.

Hitler atribuía a si mesmo o crédito total pelo sucesso das campanhas do Ocidente. O plano partira dele mesmo, segundo afirmava.

– Eu li o livro do Coronel de Gaulle, mais de uma vez, a respeito das possibilidades das unidades inteiramente motorizadas, na guerra moderna, e aprendi muito com essa leitura.

Pouco depois de terminada a campanha da França, recebi uma chamada telefônica da secretaria do Fuhrer; por motivos especiais, eu teria de permanecer alguns dias no quartel-general. À minha chegada, Hitler saudou-me de muito bom humor e disse-me:

– Dentro de poucos dias voaremos a Paris. Eu gostaria de que o senhor fosse conosco. Breker e Giessler irão também.

Deu-me licença para andar à vontade, e fiquei surpreendido com o fato de o vencedor preferir a companhia de três artistas para a sua entrada na capital dos franceses. Naquela mesma noite, fui convidado a participar da mesa-redonda militar de Hitler, onde se discutiram os detalhes da viagem a Paris. Não se tinha previsto uma entrada oficial, mas uma espécie de "viagem artística" à cidade, na qual Hitler sempre dissera ser capaz de morar, somente para estudar seus monumentos e ruas.

O armistício deveria entrar em vigor na noite de 25 de junho de 1940, à uma hora e trinta e cinco minutos. Estávamos sentados com Hitler em redor de uma mesa de madeira no modesto quarto de uma casa de campo. Pouco antes daquela hora, Hitler mandou apagar a luz e abrir as janelas. Sentados, naquela escuridão, estávamos impressionados pela consciência de estarmos vivendo um momento histórico, estando tão próximos do seu promotor. Afinal, lá fora soou um toque de corneta, anunciando o fim das operações militares. A distância, formara-se uma tempestade, e de quando em quando um relâmpago riscava o espaço escuro, parecendo aquilo um cenário de romance barato. Alguém assoou-se, talvez comovido. Logo se ouviu a voz baixa de Hitler:

– A responsabilidade... – E depois ordenou: – Acendam as luzes...

No dia seguinte, fui a Reims para ver a catedral. Espetava-me uma cidade quase fantasma, quase abandonada pelos habitantes, cercada da gendarmeria rural para guardar as adegas de champanha. Como se a vida tivesse sido interrompida de repente, viam-se, nas mesas, pratos de comida intatos. Nas estradas, tínhamos encontrado grupos de fugitivos, que caminhavam pelas margens, pois o centro estava ocupado pela tropa alemã em marcha. Estas apresentavam grande contraste com os desconsolados fugitivos, que levavam seus pertences em carrinhos de bebês, em carros de mão e outros pequenos veículos. Três anos e meio depois, eu veria cenas semelhantes em território alemão.

Três dias depois da entrada em vigor do armistício, cerca de cinco e meia da manhã, nós descemos no Aeroporto Le Bourget. Esperavam-nos três carros Mercedes. Como era seu costume, Hitler sentou-se ao lado do motorista. Breker e eu sentamo-nos nos banquinhos. Giessler e o ajudante-de-ordens tomaram o assento traseiro. Nós artistas tínhamos envergado um uniforme acinzentado, que nos dava um ar de militares. Depois de passarmos pelos grandes arrabaldes, fomos ao Opera, construído pelo arquiteto Garnier. Hitler exprimira o desejo de visitar em primeiro lugar essa construção neobarroca, sua obra preferida. O Coronel Speidel, enviado pelas autoridades alemãs de ocupação, estava nos esperando no pórtico.

A escadaria, elogiada por sua grandiosidade, criticada pelo excesso de decoração, o faustoso foyer, a solene sala dos espetáculos, revestida de ouro, tudo foi examinado com muita atenção. As luzes refulgiam como em uma noite de gala. Hitler tomara ao seu cargo a direção da visita. Um porteiro de cabelos brancos acompanhava-nos pelo edifício vazio. Realmente, Hitler tinha estudado a fundo a planta do Opera de Paris. Notou a falta de uma sala, junto ao proscênio, e nisso tinha razão. O porteiro explicou que a sala tinha sido desfeita, muitos anos antes, durante a execução de umas obras.

Visivelmente satisfeito, observou Hitler:

– Vejam os senhores se conheço ou não o teatro. . .

O edifício do Opera fascinou-o. Ele não disfarçou o seu sentimento de entusiasmo por aquela inigualável beleza. Os olhos brilhavam, indicando um arroubo que me comoveu de maneira inquietante. O porteiro logo viu a quem estava mostrando o Opera. Quando afinal íamos sair, Hitler falou ao ouvido do seu ajudante-de-ordens, Brückner, que tirou de sua carteira uma nota de cinqüenta marcos para oferecê-la ao porteiro, que estava afastado de nós. O homem, amavelmente, recusou receber o dinheiro. Hitler tentou novamente gratificá-lo, utilizando-se agora de Breker. O homem ainda uma vez não aceitou, dizendo a Breker que nada mais fizera do que cumprir o seu dever.

Fomos depois aos Champs-Élysées, passando pela Madeleine, rumo ao Trocadero, e em seguida para a Torre Eiffel, onde Hitler mandou os carros pararem. Passando pelo Arco do Triunfo, chegamos afinal aos Invalides. Aí, Hitler esteve bastante tempo olhando para o sarcófago de Napoleão, percorrendo em seguida o Panteão, cujas dimensões muito o impressionaram. Ao contrário, não se interessou nas mais belas obras arquitetônicas de Paris: a Place des Vosges, o Louvre, o Palácio da Justiça, a Sainte-Chapelle. Afinal, demonstrou interesse quando viu a fileira de prédios da Rue de Rivoli. O ponto final de nosso passeio foi a romântica e linda imitação das primeiras igrejas medievais de cúpula, a Basílica de Sacré-Coeur, em Montmartre, algo surpreendente, inclusive para Hitler. O Fuhrer esteve ali muito tempo, rodeado por alguns latagões vigorosos da sua escolta. Foi logo reconhecido por alguns fiéis que não lhe deram a mínima atenção. Demos ainda uma vista de olhos, passando pelas ruas, e dirigimo-nos, velozmente, para o aeroporto. Às nove da manhã, terminara a visita. Disse-nos ele, então:

– O sonho de minha vida foi ver Paris. Não posso dizer como me sinto feliz, vendo realizado o meu desejo.

Por alguns momentos, compadeci-me dele. Quando estava no ápice da sua carreira política, três horas em Paris, pela primeira e última vez, tinham-no feito feliz.

Durante a viagem, Hitler conversou com seus ajudantes-de-ordens e o Coronel Speidel sobre a possibilidade de um "desfile da vitória" em Paris. Mas concluiu suas reflexões desistindo da idéia. Sua desculpa oficial foi o perigo de ataques da aviação britânica, porém mais tarde explicou:

– Não sinto nenhum desejo de desfile da vitória. Ainda não chegamos ao fim.

Naquela mesma noite, recebeu-me outra vez no pequeno quarto daquela casa de campo. Estava só, à mesa, e disse-me sem rodeios:

– Redija o senhor um decreto para que se reiniciem as obras de Berlim... Paris não é uma cidade formosa? Pois Berlim há de ser mais formosa ainda. Pensei muitas vezes sobre a destruição de Paris – prosseguiu com a maior tranqüilidade, como se fosse a ação mais normal do mundo. – Mas Paris será apenas uma sombra quando tivermos terminado Berlim. Sendo assim, para que destruí-la?

E logo me disse que podia retirar-me. Embora acostumado às observações impulsivas de Hitler, estremeci ao ouvir-lhe aquela vandálica intenção. Já ocorrera o mesmo com relação a Varsóvia. Fora de opinião que se deveria impedir a reconstrução da cidade, a fim de que o povo polonês ficasse sem um centro político e cultural. Varsóvia fora destruída em operações de guerra. Mas, com relação a Paris, houve indícios de que Hitler pensara detidamente na destruição, sem nenhum motivo, da cidade que ele dissera ser a mais formosa da Europa. Em poucos dias se tinham manifestado algumas das contradições características da maneira de ser de Hitler. Naquele tempo eu não compreendera toda a importância dessas contradições, algo desatento à circunstância de ser ele um homem consciente da sua responsabilidade e ao mesmo tempo capaz de ir ao extremo limite do niilismo, reunindo em sua personalidade os mais extremos contrastes.

Mas o efeito daquela tomada de consciência de minha parte em relação ao Fuhrer foi deslocado pela repercussão da brilhante vitória de Hitler, pelas favoráveis e inesperadas perspectivas de um imediato reinicio das minhas obras, e também por ter ele abandonado os seus propósitos de destruição. Cabia-me agora a responsabilidade de construir uma Berlim mais formosa do que Paris. Ainda não terminara o dia e Hitler ordenara tivessem prioridade as obras, a título de regozijo pela vitória. Disse-me:

– Na realização destas obras, as mais importantes do Reich, a partir de agora, vejo a mais importante contribuição para a consagração definitiva de nossa vitória.

De fato, deu ao decreto uma data anterior: a de 25 de junho de 1940, dia do armistício e do maior dos seus triunfos.

Hitler passeava, indo e vindo, pelo caminho arenoso que se estendia à frente da casa, em companhia de Jodl e Keitel, quando um ajudante-de-ordens informou-o de que eu queria me despedir. Ordenou que eu fosse falar-lhe. E à medida que eu me aproximava, ouvi-o dizer:

– Agora, já demonstramos do que somos capazes. Creia-me, Sr. Keitel, em comparação com isto, uma campanha contra a Rússia seria um jogo com castelos de areia.

Despediu-se de muito bom humor. Encarregou-me de transmitir à minha esposa as suas mais cordiais saudações e avisou-me de que não tardaríamos a falar sobre novos projetos e maquetes.

 

                                                   EXAGERO

Enquanto se ocupava do preparo dos planos da campanha contra a Rússia, Hitler refletia também sobre os detalhes dos desfiles da vitória, em 1950, quando, já estariam terminados a grande avenida e o grande Arco do Triunfo, Mas, enquanto sonhava com novas guerras, novas vitórias e festejos, sofreu o maior contratempo da sua carreira. Três dias depois de uma entrevista, durante a qual expôs em minha presença suas idéias sobre o futuro, fui convidado a apresentar-me em Obersalzberg com os esboços das minhas construções. Leitgen e Pietsch, dois ajudantes-de-ordens de Hess, pálidos e nervosos, estavam na ante-sala de Berghof. Pediram-me que adiasse minha visita, pois tinham de entregar a Hitler uma carta pessoal de Hess. Pouco depois, Hitler descia dos seus aposentos e um dos ajudantes de Hess foi chamado à sala de estar. Eu começara a folhear meus desenhos, quando ouvi um grito desarticulado, como o de um animal. E Hitler rugiu:

– Venha Bormann! Onde está Bormann?

Este se comunicou rapidamente com Goering, Ribbentrop, Goebbels e Himmler, tendo os presentes sido convidados a subirem aos aposentos do andar superior. Depois de muitas horas, soubemos do que acontecera: o lugar-tenente de Hitler, pilotando um avião, tinha fugido para a Inglaterra.

Mas Hitler não tardou a recuperar seu habitual domínio sobre si mesmo. Receava apenas que Churchill se aproveitasse do caso para confundir os aliados da Alemanha, propalando que esta desejava fazer a paz.

– Quem irá acreditar que Hess não agiu em meu nome? Que isso foi planejado sem meus aliados saberem? Isso poderia até fazer que o Japão mudasse sua política, opinou Hitler.

O Fuhrer quis saber do chefe técnico da Luftwaffe, o famoso piloto de caça Ernst Udet, se o bimotor orçado por Hess podia alcançar a costa da Escócia e quais as condições meteorológicas no momento da chegada do aparelho ao território inglês. Depois de alguns momentos, Udet respondeu pelo telefone que Hess teria de malograr, pois ignorava a navegação aérea. Insinuou que, provavelmente, se afastaria da Inglaterra, levado pelo vento, e continuaria voando sobre o mar.

– Quem dera que caísse no mar! Assim ele desapareceria sem deixar rastro e nós disporíamos de tempo para arranjar uma explicação.

Mas não demorou a duvidar de um desastre para Hess e, sem dúvida para tomar a frente aos ingleses quanto ao que ocorresse, resolveu ordenar fosse o fato divulgado pela radiodifusão, acrescentando-se que Hess enlouquecera. Mas os dois ajudantes-de-ordens foram detidos, como antigamente o eram os mensageiros de más notícias nas cortes dos soberanos déspotas.

Daí em diante, poucas vezes se falava de Hess, no grupo dos que rodeavam Hitler. Somente Bormann ainda falava dele. Investigou os antecedentes de Hess e atormentou-lhe a esposa com perseguições mesquinhas. Eva Braun tentou interceder em favor daquela senhora, junto a Hitler, mas sem resultado. Mais tarde, sem que o Fuhrer soubesse, ela amparou a mulher dele. Algumas semanas depois, eu soube pelo meu médico, o Professor Chaoul, que o pai de Hess estava agonizante. Mandei-lhe um ramalhete de flores, sem revelar o nome de quem lhe mandava aquela lembrança.

Segundo o que pensei, naquele tempo, foi a ambição de Bormann que impeliu Hess àquela fuga. Hess, também ambicioso, sentiu que Hitler estava se afastando dele. Eis o que me disse Hitler, em 1940, certa vez, depois de ter conferenciado com Hess durante quatro horas:

– Quando falo com Goering, parece-me que tomei um banho de água ferruginosa; sinto-me fresco, depois. O marechal do Reich expõe os assuntos de maneira cativante. Mas qualquer conversa com Hess converte-se em esforço torturante, insuportável. Sempre fala de assuntos desagradáveis e não muda.

Depois de tantos anos em situação secundária, Hess, com seu vôo para a Inglaterra, provavelmente cuidara de angariar notoriedade e êxito. Faltavam-lhe as qualidades necessárias para impor-se, no meio de um lodaçal de intrigas e de lutas pelas posições de mando. Era muito sensível, muito franco, muito variável, e freqüentemente dava razão a todas as facções, conforme fossem aparecendo. Seu tipo correspondia ao da maioria dos altos chefes do Reich, que tinham dificuldade em manter os pés firmes no terreno da realidade.

Hitler atribuiu a responsabilidade do caso à perniciosa influência do Professor Haushofer. Vinte e cinco anos mais tarde, em Spandau, Hess afirmou com toda a seriedade que durante um sonho lhe fora dada a idéia de que possuía forças sobrenaturais. Afirmou que de modo nenhum tivera o pensamento de opor-se a Hitler, nem sequer o de colocá-lo em situação difícil. "Garantimos à Inglaterra seu império mundial, contanto que nos deixe as mãos livres na Europa...", foi a mensagem que levou à Grã-Bretanha, mensagem que correspondia a uma das constantes manifestações de Hitler, antes da guerra, e, às vezes, durante ela.

Se não estou errado em meu julgamento dos fatos, Hitler não se recuperou jamais do choque daquela traição do seu lugar-tenente. Ainda algum tempo depois do atentado de 20 de julho de 1944, Hitler, em seus fantásticos e errôneos julgamentos da situação, mencionava uma das condições de paz, que seria a entrega do "traidor". Hess teria de ser enforcado. Mais tarde, quando lhe falei nisso, Hess disse-me:

– Tenho absoluta certeza de que se reconciliaria comigo. E não pense o senhor que em 1945, quando já se aproximava o fim, não teria Hitler mais de uma vez pensado: "Não teria Hess razão?"

Hitler não somente exigiu a continuação das obras de Berlim com a máxima energia, como também, influenciado pelos chefes regionais, entrou em uma fase de verdadeira "inflação" quanto ao número de cidades que teriam de ser urbanizadas. Às primeiras, já objeto de planos urbanísticos – Berlim, Nuremberg, Munique e Linz –, seguiram-se outras vinte e sete, declaradas por decreto "cidades de reorganização urbanística", entre as quais havia Hanôver, Augsburgo, Bremen e Weimar. Nem eu nem ninguém foi consultado sobre a utilidade daquelas decisões. Quanto a mim, cabia só receber a cópia dos decretos.

Eu pensei que isso comprometeria os prazos já decididos para a conclusão das obras. Falei a Hitler, propondo-lhe assinasse um decreto pelo qual ficariam sob minha jurisdição todos os planos de obras no Reich. A intervenção de Bormann impediu que a minha sugestão fosse aceita. Adoecendo, pude refletir sobre o assunto, e quando me restabeleci falei ao Fuhrer sobre a conveniência de minha ação ficar adstrita às construções de Nuremberg e Berlim, com o que ele concordou.

– Tem razão. Seria uma lástima que a sua atividade se dispersasse, tratando de muitas coisas. Pode dizer, em meu nome, se for o caso, que eu, o Fuhrer, não desejo sua intervenção em outras obras, a fim de não se afastar das tarefas artísticas que realmente lhe cabem.

Utilizei-me, amplamente, daqueles plenos poderes. Logo no dia seguinte, renunciei a todos os meus cargos oficiais, dentro do partido. Agora, ao pensar sobre o significado daquela minha atitude, parece-me ver nela, além de outros motivos, uma espécie de reação ante a maneira de proceder de Bormann, em relação a mim, embora eu não visse em perigo minha posição, uma vez que, algumas vezes, Hitler me tinha declarado insubstituível.

Era inevitável que uma ou outra vez eu cometesse alguma inconveniência. Certa vez, Bormann dirigiu-me do quartel-general uma repreensão por eu ter concordado com autoridades das Igrejas católica e protestante com a concessão de terrenos para a construção de igrejas e templos em nosso setor berlinense. Declarava, secamente, que não havia lugares disponíveis para a construção de igrejas.

Quando Hitler, com seu decreto de 25 de junho de 1940, ordenou o imediato reinicio das obras de Berlim e de Nuremberg, para "consolidar a vitória", alguns dias depois eu disse ao ministro, Dr. Lammers, que "estando o país em guerra eu não tencionava recomeçar as obras de Berlim". Hitler não aceitou o meu ponto de vista e ordenou que continuassem os trabalhos, apesar das críticas da opinião pública. Assim, obedecendo às suas ordens, as obras de Nuremberg e de Berlim teriam de estar terminadas, nos prazos já fixados, no máximo em 1950.

Também, não obstante a iminência da guerra com a Rússia, Hitler continuava com a sua teimosia, escolhendo pessoalmente as telas para a pinacoteca de Linz. Enviou seus peritos em obras de arte aos territórios ocupados, para investigarem a situação do mercado de quadros. Desencadeou-se logo uma luta sobre quadros entre os seus peritos e os de Goering, na qual houve rivalidades duras. Afinal, Hitler chamou à ordem o seu marechal, restabelecendo-se assim a escala hierárquica, até mesmo em relação aos comerciantes de objetos artísticos.

Em 1941, chegaram a Obersalzberg grandes catálogos encadernados em couro marrom, com fotografias de centenas de quadros, que Hitler, pessoalmente, distribuiu entre a sua pinacoteca preferida – a de Linz – e as de Koenigsberg, Breslau e outras cidades da região oriental. Durante o processo de Nuremberg, onde eles serviram de documentos para acusação, vi outra vez aqueles catálogos; os quadros tinham sido tomados, na maioria, a judeus residentes na França, pelo escritório oficial de Rosenberg em Paris.

Hitler respeitou as célebres coleções artísticas nacionais francesas, embora essa maneira de agir não fosse tão desinteressada como poderia parecer. Uma vez declarou, firmemente, que no tratado de paz as melhores telas do Louvre teriam de ser entregues à Alemanha, a título de indenização de guerra. É verdade que Hitler, no caso, não visava objetivos pessoais; não reservou para ele nem uma só das pinturas confiscadas nos territórios ocupados.

Goering, pelo contrário, julgava bom qualquer expediente para aumentar, durante a guerra, sua coleção de objetos de arte. Nos salões e demais cômodos de Karinhall viam-se superpostos, em três ou quatro filas, quadros de grande valor. Quando não houve mais lugar vazio nas paredes, utilizou-se o teto do grande vestíbulo para colocar ali uma série de telas. Até no dossel da sua luxuosa cama mandou pendurar um nu feminino, em tamanho natural, representando a Europa. Também exercia, pessoalmente, a profissão de comerciante de quadros. As paredes de uma grande sala do pavimento superior, em sua propriedade rural, estavam cobertas de telas, procedentes da residência de um conhecido comerciante holandês de objetos de arte, o qual, depois da ocupação militar da Holanda, tivera de ceder-lhe a sua coleção por um preço irrisório. Como estávamos em plena guerra, ele vendia aqueles quadros – e contava isso rindo como um menino – aos chefes regionais, cobrando-lhes não somente várias vezes o que lhe haviam custado mas também um acréscimo, pelo valor da procedência: "a famosa coleção Goering".

Um dia, lá pelo ano de 1943, fui informado por franceses de que Goering estava insistindo com o governo de Vichy para que fosse trocado um célebre quadro do Louvre por algumas pinturas sem valor da sua coleção. Apoiando-me no pensamento de Hitler, a respeito da inviolabilidade da coleção do Estado, existente no Louvre, disse ao enviado francês que não cedesse àquela pressão e que, se necessário, se dirigisse a mim. Goering renunciou aos seus desejos. Outro dia, sem manifestar nenhum remorso, mostrou-me, em sua residência de Karinhall, o famoso altar de Sterzing, que lhe fora presenteado por Mussolini, no inverno de 1940, após o acordo na questão do Tirol. O próprio Hitler aborrecia-se com as manobras do "segundo homem" para colecionar valiosas obras de arte, mas não tinha coragem de interpelar Goering.

Quase no final da guerra, Goering procedeu a uma estranha exceção: convidou-nos, a Breker e a mim, para um almoço em Karinhall. A comida não era muito fina. Mas o que me causou estranheza foi que, no fim da refeição, nos serviram, a mim e a Breker, um conhaque vulgar, enquanto o criado, com certa solenidade, servia a Goering conhaque de uma garrafa empoeirada.

Goering explicou aos convidados, sem embaraço:

– Está reservado exclusivamente para mim.

Depois, prosseguiu nos detalhes a respeito do palácio francês de onde fora confiscada aquela rara qualidade de bebida. Em seguida, exibindo bom humor, mostrou-nos os tesouros acumulados nos porões de Karinhall. Ali estavam valiosíssimas antiguidades do museu de Nápoles apanhadas antes da evacuação, nos fins de 1943. Com o mesmo orgulho de proprietário, mandou abrir armários para que víssemos a quantidade de sabonetes e de perfumes franceses, suficiente para o seu uso durante anos. A exposição terminou com a mostra de uma coleção de diamantes e pedras preciosas, a qual, evidentemente, valia centenas de milhares de marcos.

Hitler deixou de fazer compras de quadros pessoalmente, logo que nomeou o Dr. Hans Posse, diretor da pinacoteca de Dresden, seu representante, com plenos poderes para melhorar a coleção de quadros da pinacoteca de Linz. Até então, as aquisições de Hitler eram feitas na base dos catálogos de leilões. Mas, agindo assim, era vítima do seu sistema de nomear para certas funções duas ou três pessoas, que nem sempre estavam de acordo. Às vezes, enviava a leilões, separadamente, o fotógrafo Hoffmann e um dos seus peritos em obras de arte, com a ordem de fazerem lances sem limite. Assim, os representantes de Hitler continuavam com seus lances, quando não havia mais ninguém na casa do leiloeiro. Isso continuou até quando o leiloeiro berlinense Hans Lange me falou daquela maneira estranha de adquirir quadros.

Pouco tempo depois da nomeação de Posse, Hitler mostrou-lhe todas as compras feitas até então, inclusive a coleção Grützner. A exibição se fez no abrigo antiaéreo, onde tinham sido guardados os tesouros. Dispuseram-se poltronas para Hitler, Posse e eu, e os quadros foram sendo apresentados pelos serviçais das SS. Hitler exaltava suas obras de arte com os seus costumeiros adjetivos, mas Posse não se deixou influenciar nem pelas palavras do Fuhrer nem por sua amabilidade. Recusou, friamente e com absoluta imparcialidade, muitas daquelas custosas aquisições.

Nos meados de novembro de 1940, Molotov apresentou-se em Berlim. Hitler divertiu-se com os seus habituais companheiros de mesa, quando o seu médico, o Dr. Karl Brandt, lhe disse que o presidente do Conselho de Ministros e ministro das Relações Exteriores soviético, dominado pelo medo aos bacilos, mandara ferver todos os pratos e guardanapos, antes de serem servidos.

Na sala de estar de Berghof, havia um globo terrestre. Meses depois, vi nele refletidas as conseqüências negativas daquelas conversas. Um dos oficiais da Wehrmacht riscou nele, com um lápis, uma linha que ia do norte ao sul, a uma certa distância dos montes Urais. Hitler a tinha esboçado como o futuro limite da sua esfera de interesses com a zona de influência japonesa. No dia 21 de junho de 1941, véspera do ataque à União Soviética, Hitler, depois da refeição, chamou-me à sala de estar, em sua residência de Berlim, e me fez ouvir alguns compassos dos Prelúdios de Liszt. Depois me disse:

– Em um futuro próximo o senhor os ouvirá com freqüência, pois serão a nossa música triunfal para a campanha da Rússia. Funk escolheu-os. Agradam-lhe? Traremos de lá todo o granito e mármore que quisermos.

Agora, Hitler demonstrava, abertamente, sua megalomania. Aquilo que por anos se tinha insinuado com suas obras teria agora de ser selado "com sangue", conforme as suas palavras. Aristóteles escreveu em sua Política: "Está demonstrado que as maiores injustiças são as cometidas por aqueles que se orientam pelo exagero, não por aqueles que são impelidos pela necessidade".

Em 1943, por ocasião do qüinquagésimo aniversário de Ribbentrop, alguns dos seus íntimos colaboradores deram-lhe de presente uma caixa magnífica adornada com pedras semipreciosas, para nela se guardarem as fotocópias dos acordos e tratados feitos pelo ministro das Relações Exteriores. Durante a cerimônia, o Embaixador Hewel, dirigindo-se a Hitler, observou:

– Vimo-nos em grande aperto quando tratamos de encher a caixa. Restavam poucos tratados que não tivessem sido violados.

Hitler riu até lhe virem lágrimas aos olhos.

Tal como no início da guerra, voltou-me a afligir o pensamento de ter de levar adiante, em plena conflagração mundial, os gigantescos projetos de construção, empregando para isso todos os meios disponíveis. No dia 30 de junho de 1941, enquanto as tropas alemãs, impetuosamente, avançavam pelos campos da Rússia, propus ao Dr. Todt, "delegado geral com plenos poderes para a economia urbanística do Reich", a paralisação de todas as obras que não fossem imprescindivelmente necessárias ou decisivas para o desenvolvimento da guerra. Todt, no entanto, considerando a favorável marcha das operações, julgou conveniente adiar a solução da questão por algumas semanas. Foi adiada de fato, pois a minha proposta não teve a aquiescência de Hitler.

Nos meados de setembro de 1941, quando o avanço na Rússia não tinha alcançado os objetivos previstos, nossos contratos com a Suécia, a Noruega, a Finlândia, para o fornecimento de granito a ser utilizado nas minhas grandes obras de Berlim e de Nuremberg, foram muito ampliados por indicação de Hitler. Foram dadas encomendas no valor de. trinta milhões de marcos às principais indústrias de pedra da Noruega, Finlândia, Itália, Bélgica, Suécia e Holanda.

Minha proposta de paralisação das obras, destinadas ao tempo de paz, também não foi tomada em consideração, quando começou a esboçar-se na Rússia a catástrofe do inverno de 1941. No dia 29 de novembro de 1941, Hitler falou-me, francamente:

– De qualquer modo, começarei as obras durante esta guerra, que não me impedirá de realizá-las.

Ele não insistia somente na realização dos seus planos. Depois dos êxitos iniciais, na Rússia, aumentou o número dos armamentos montados sobre pedestal de granito, que seriam o complemento ornamental das ruas, dando-lhes uma característica marcial. Enviado por Hitler, em 20 de agosto de 1941, comuniquei ao Almirante Lorey, assombrado com a informação, então diretor do arsenal de Berlim, que se tinha a intenção de montar, entre a Estação do Sul e o Arco do Triunfo ("Obra T") uns trinta canhões pesados dos conquistados ao inimigo. Hitler pretendia também colocar mais canhões em outros pontos da grande avenida e do eixo meridional – expliquei ao almirante –, e para isso seriam necessárias umas duzentas peças do tipo mais pesado. Diante dos edifícios públicos importantes seriam colocados tanques especialmente grandes.

As idéias de Hitler, sob o ponto de vista do direito político, a respeito da construção do seu "Reich germânico da nação alemã", pareciam muito nebulosas. Mas ele não tinha dúvida em um ponto: nas proximidades da cidade norueguesa de Trondheim, em posição estrategicamente vantajosa, deveria ser construída a maior base naval alemã. Seria uma cidade de duzentos e cinqüenta mil alemães, incorporada ao Reich. O Vice-Almirante Fuchs, membro do Alto-Comando da Marinha de Guerra, forneceu-me no dia 1.° de maio de 1941 os dados necessários, a fim de que eu soubesse de antemão as necessidades de espaço para um estaleiro nacional de grande envergadura. Em 21 de junho, o grande Almirante e eu expusemos a Hitler o projeto, na chancelaria do Reich. O Fuhrer então determinou a localização aproximada da cidade.

Um ano depois, em 13 de maio de 1942, voltou a ocupar-se daquela base naval, quando se achava participando uma conferência sobre armamentos. Utilizando-se de mapas especiais, estudou detalhadamente a melhor situação dos cais e ordenou que se fizesse, mediante explosões, grande base submarina na rocha de granito. Hitler também previa que os portos franceses de Saint-Nazaire e Lorient e as ilhas britânicas do canal da Mancha, devido à sua posição geográfica favorável, seriam no futuro incorporados ao sistema de bases navais alemãs. Sua idéia de poderio mundial não conhecia nenhuma barreira.

Sob o mesmo prisma, deve-se também considerar sua intenção de fundar cidades alemãs em territórios ocupados na Rússia. Em 24 de novembro de 1941, durante a catástrofe daquele inverno, o chefe regional Meyer, lugar-tenente do ministro do Reich para os territórios ocupados, Alfred Rosenberg, propôs-me encarregar-me da seção "construção de cidades", para que eu planejasse e edificasse as cidades projetadas para as guarnições e a população civil alemã. No entanto, nos últimos dias de janeiro de 1942, repeli definitivamente a proposta, receando que um escritório central para a planificação de cidades teria que prever a uniformidade de todas. Por isso, propus encarregar as grandes urbes alemãs do levantamento de novas cidades.

Aquela organização fora consideravelmente ampliada, desde que, no começo da guerra, eu me encarreguei das obras do Exército e da Aviação. O programa mais importante era o da Luftwaffe, o Programa Ju 88, cuja finalidade era aumentar a produção do novo avião de bombardeio em vôo picado, um aparelho bimotor de combate e de grande raio de ação. As três grandes fábricas de Brünn, Graz e Viena, cada uma maior do que a fábrica de carros Volkswagen, foram terminadas em oito meses, tendo sido empregadas pela primeira vez seções de cimento armado pré-fabricadas. Entretanto, depois do outono de 1941, nossos trabalhos tornaram-se vagarosos devido à falta de combustível.

Tratando-se de programas que tinham prioridade, pela sua urgência, em setembro de 1941, o fornecimento teve de ser reduzido à terça parte do consumo. Essa redução, em janeiro de 1942, chegou à sexta parte do combustível de que necessitávamos. Foi isso um exemplo dos excessos da estimativa de Hitler com relação à possibilidade de se empreender uma guerra contra a Rússia.

Também me foram confiados os trabalhos de construção de refúgios antiaéreos e os consertos dos danos causados pelos bombardeios em Berlim. Eu estava me preparando, sem saber, para o exercício do cargo de ministro dos Armamentos. Eu já sabia das perturbações ocasionadas no andamento da produção pela arbitrariedade nas mudanças de programas e critérios de prioridade. Essa minha nova posição possibilitou-me comprovar as relações de poder e as inadmissíveis circunstâncias no centro da direção do Reich.

Por exemplo, uma vez, participei duma reunião presidida por Goering, durante a qual o General Thomas formulou reparos às exageradas pretensões do governo do Reich, sob o aspecto econômico. Goering encarou o prestigioso general e disse-lhe com voz forte:

– E ao senhor? Que lhe importa isso? Sou eu quem o determina, eu! Ou por acaso o teriam encarregado da execução do Plano Quadrienal? O senhor nada tem para dizer-me, pois a direção de todos esses problemas incumbe-me, a mim somente, por determinação do Fuhrer!

Alguns meses depois, talvez em novembro de 1941, na qualidade de encarregado das obras relacionadas com os armamentos, participei de uma conferência em que estavam presentes Milch e Todt. No outono de 1941, Hitler estava convencido de que os russos tinham sido definitivamente derrotados. Por isso, insistiu em que se trabalhasse, urgentemente, no programa de armamentos aéreos, destinado à próxima ação: a derrota da Inglaterra. Milch insistiu, como era teu dever, na manutenção da escala de prioridade, fixada por Hitler. Dada a situação militar, isso desesperou o Dr. Todt, pois incumbia-lhe também aumentar com a maior rapidez possível os armamentos do Exército. Mas faltava um decreto de Hitler para haver essa prioridade. No fim da conferência, Todt resumiu sua impotência nestas palavras:

– Senhor marechal, será melhor o senhor levar-me para o seu ministério, onde me transformarei em seu colaborador.

Naquele mesmo outono, Hitler, em companhia de Koppenberg, visitou a fábrica Junker em Dessau, a fim de coordenar o programa de construção com a produção desejada. Depois me levou a uma sala fechada e mostrou-me um gráfico comparativo da produção norte-americana de bombardeiros, nos próximos anos, com a nossa. Perguntei-lhe o que diziam nossos comandos, em face de algarismos tão desanimadores.

– Aí está o mal, não querem acreditar – foi a sua resposta, seguida de lágrimas.

Pouco depois, Koppenberg foi demitido do cargo de diretor das fábricas Junker. Mas Goering, comandante-chefe da Luftwaffe, comprometida em duros combates, estava bastante desocupado para, no dia seguinte ao do início da campanha da Rússia, visitar fardado as maquetes em escala natural do seu edifício de marechal do Reich, expostas em Treptow, visita na qual eu o acompanhei.

A última viagem artística que efetuei, em um período de vinte e cinco anos, levou-me a Lisboa, onde, no dia 8 de novembro, foi inaugurada a exposição intitulada Nova Arte Alemã de Construção. Tinha sido resolvido, inicialmente, que eu faria a viagem no avião de Hitler. Mas, como alguns dos seus auxiliares, tais como o fotógrafo e o ajudante-de-ordens, Schaub, pretendessem participar do vôo, livrei-me deles propondo a Hitler eu mesmo fazer a viagem em meu carro. No trajeto, vi as antigas cidades de Burgos, Segóvia, Toledo, Salamanca. Visitei o Escorial, cujo palácio tinha dimensões somente comparáveis com as do Fuhrer. Mas o Escorial tinha um objetivo espiritual: Felipe Ü rodeara sua residência com um convento que era, na verdade, o núcleo do edifício. Que diferença em relação às idéias de Hitler, no campo da arquitetura! No palácio de Felipe Ü, claridade e sobriedade extremas, além das majestosas salas internas. No edifício de Hitler, ao contrário, fausto e dimensões gigantescas, sob o aspecto representativo. Inegavelmente, a quase melancólica criação do arquiteto Juan Herrera (1530-1597) estava mais de acordo com a sinistra situação em que então nos encontrávamos do que a arte triunfal programada por Hitler.

Enquanto eu viajava para Lisboa, houve uma catástrofe no serviço de comunicações por trás das frentes do cenário oriental da guerra. A organização militar alemã não estava em condições de enfrentar a crueza do inverno russo. Além disso, na retirada, as tropas russas destruíram completamente todos os abrigos para locomotivas, os depósitos de água e outras instalações técnicas do sistema ferroviário. Durante a embriaguez, do êxito, colhido no verão e no outono, quando parecia acabado o "osso russo", ninguém pensara na reconstrução daquelas instalações. Hitler não queria compreender que, dadas as dificuldades próprias da dureza do inverno russo, deveriam ser tomadas em tempo as providências necessárias no tocante às comunicações.

Fui informado do que estava ocorrendo pelos altos funcionários das estradas de ferro do Reich, por generais do Exército e da Aviação. Propus então a Hitler que se destacassem para a reconstrução das instalações ferroviárias trinta mil dos sessenta mil operários que estavam sob minhas ordens. Hitler demorou quinze dias para dar um cunho legal à minha proposta, mediante o decreto de 27 de dezembro de 1941.

No mesmo dia, estive conversando com o Dr. Todt, em sua casa à margem do Hintersee, nas imediações do Berchtesgaden. Designaram-me para agir na região ucraniana. Os operários e grupos de direção, insensatamente utilizados na construção de auto-estradas, encarregaram-se das regiões norte e centro da Rússia. Todt tinha justamente regressado de uma grande viagem de inspeção na frente oriental. Vira trens do Serviço de Saúde parados, nos quais os feridos morriam congelados. Testemunhara as misérias das tropas nas pequenas cidades e aldeias isoladas, em conseqüência do frio e da neve, e participara do desânimo, da inquietação e do desespero dos soldados alemães. Compadecido e pessimista, Todt terminou de falar dizendo que não podíamos resistir, fisicamente, àqueles tormentos, mas que também moralmente nos afundaríamos na Rússia. E prosseguiu:

– Trata-se de uma luta em que serão vencedores os seres primitivos, os capazes de resistir a tudo, inclusive às mais terríveis inclemências do tempo. Somos muito sensíveis e vamos sucumbir. Afinal os vencedores serão os russos e os japoneses.

Também Hitler, antes da guerra, naturalmente sob a influência de Spengler, exprimira pensamentos semelhantes, falando da superioridade biológica dos "siberianos e russos". Mas, ao iniciar a campanha do leste, deixou de lado essas considerações, esses seus argumentos, opostos à realização dos seus propósitos.

A ininterrupta mania de Hitler, no terreno da construção, seu apego eufórico a preferências particulares, suscitou, uma multidão dos admiradores, indivíduos que desejavam respeitá-lo em tudo, elaborando projetos megalomaníacos. Já na época verifiquei que o sistema de governo de Hitler era inferior, sob este aspecto – ponto decisivo –, ao das democracias, pois não havia nenhuma crítica pública àquelas excentricidades, nem disposição de alguém a remediar tais inconvenientes. Em 29 de março de 1945, na minha última carta a Hitler, recordei-lhe minhas experiências: "Senti grande dor, quando vi, durante os dias da vitória de 1940, como perdíamos nossa boa disposição íntima, em amplos círculos dos nossos comandos. Era aquela a ocasião favorável para nos valorizarmos, perante a Providência, mediante um comportamento decente e honesto".

Embora escritas cinco anos mais tarde, essas linhas confirmam que eu já tinha sido testemunha de erros, tendo sofrido por causa de anomalias que eu criticara. Também tivera minhas crises de dúvidas e de descrença, é bem verdade, pelo temor de que Hitler e suas ordens nos fizessem deixar escapar a vitória.

Goering visitou nossa cidade de maquetes, na Pariser Platz, nos meados de 1941. Assumindo, momentaneamente, uma atitude de protetor, fez-me uma declaração que não era habitual nele:

– Eu disse ao Fuhrer que, depois dele, o senhor é para mim o maior homem da Alemanha.

Apesar disso, o segundo homem do Reich, do ponto de vista hierárquico, julgou conveniente limitar, naquele momento, o alcance das suas palavras:

– Aos meus olhos, o senhor é o maior dos arquitetos. Desejo dizer-lhe que aprecio o trabalho do senhor, no campo arquitetônico, na mesma proporção em que estimo o do Fuhrer no terreno político e militar.

Depois de nove anos de trabalho como arquiteto pessoal de Hitler, eu conseguira elevar-me a uma posição admirável e respeitada. Os três anos seguintes iriam colocar-me diante de missões completamente distintas, que, realmente, por algum tempo, me transformariam no homem mais importante depois de Hitler.

 

                         ENTRADA NO NOVO DEPARTAMENTO

Sepp Dietrich, um dos primeiros partidários de Hitler, então comandante-chefe de uma das unidades de tanques das SS atacada pelos russos nas proximidades de Rostov, na Ucrânia meridional, dispunha-se a voar, no dia 30 de janeiro, a Dniepropetrovsk, em um dos aparelhos da esquadrilha do Fuhrer. Solicitei-lhe permissão para acompanhá-lo. O meu estado-maior achava-se naquela cidade a fim de preparar os consertos nas instalações ferroviárias, no sul da Rússia.

Viajamos apertados, em um bombardeiro Heinkel adaptado ao transporte de passageiros. Lá embaixo, estendiam-se as nevadas planícies meridionais da Rússia. Vimos telheiros e estábulos consumidos pelo fogo. Orientávamo-nos no vôo pelos trilhos da via férrea. Eram raros os trens, mas os prédios das estações estavam calcinados e as oficinas destruídas. Somente de vez em quando víamos uma estrada de rodagem, mas sem veículo. As distâncias que iam ficando para trás impressionavam-nos por um silêncio de morte, que também havia no interior do aparelho. Mas a monotonia era interrompida pelo ruído da neve na fuselagem do aparelho. Melhor: esse ruído realçava aquele silêncio. Durante o vôo, percebi claramente o perigo da impossibilidade do abastecimento das tropas, quase isoladas da nossa pátria. No anoitecer daquele dia, aterrissamos em Dniepropetrovsk, cidade industrial russa.

O meu grupo de técnicos, segundo o costume então vigorante de unir o nome de pessoas aos trabalhos em execução, denominava-se Estado-Maior de Construções Speer e estava, provisoriamente, instalado em um carro-dormitório ferroviário. De vez em quando, uma locomotiva enviava algum vapor à instalação de aquecimento, a fim de evitar o congelamento dos que estavam ali abrigados. Também eram lastimáveis as condições de trabalho em um carro-refeitório, que servia ao mesmo tempo de sala de trabalho e de descanso. A reconstrução do leito ferroviário, em diversos pontos, era mais difícil e dura do que pensávamos. Os russos tinham destruído ledas as estações intermediárias. Não havia em nenhuma parte abrigos para reparos, nem depósitos de água protegidos contra as nevadas. Estavam destruídos os edifícios das estações e inutilizadas as agulhas nos trilhos. Os mais insignificantes problemas, que na Alemanha seriam solucionados por qualquer empregado com uma chamada telefônica, transformavam-se aqui em problemas gigantescos, embora se tratasse de coisas tão simples como um punhado de pregos ou um pedaço de madeira.

Caía neve sem cessar. O tráfego por estrada de ferro ou de rodagem estava completamente paralisado. Também estava coberta de neve a pista do aeroporto. Estávamos isolados, e minha viagem de regresso teve de ser adiada. Ocupava o meu tempo visitando os operários. Improvisavam-se noitadas de camaradagem, durante as quais entoávamos canções. Sepp Dietrich pronunciou discursos e foi aplaudido. Eu, consciente da minha incapacidade oratória, não me atrevi a dizer sequer algumas palavras aos meus homens.

Entre aquelas canções, cantadas por homens do Exército, havia algumas bem melancólicas, expressivas do anseio e da saudade da pátria, como também da desolação da imensidade da planície russa. Revelavam, claramente, a tensão a que estavam submetidos aqueles homens dos postos avançados. Eram as canções favoritas, indício inequívoco do estado moral dos soldados.

No entanto, a situação era cada vez mais inquietante. Os russos tinham conseguido romper a nossa linha, com uma pequena unidade de tanques, e aproximavam-se de Dniepropetrovsk. Houve reuniões para se deliberar a maneira de oferecer-lhes resistência. Mas não se podia contar com coisa nenhuma. Havia disponíveis alguns fuzis e um canhão sem munição. Os russos aproximaram-se até uns vinte quilômetros e sem orientação começaram a descrever círculos na estepe. Cometeram um erro, comum nas guerras: não se aproveitaram da situação. Um pequeno avanço até a grande ponte sobre o Dniepr e a sua destruição pelo fogo – dera muito trabalho a sua reconstrução com madeira, meses antes – e teria sido cortado, durante meses, o abastecimento do Exército, que estava próximo de Rostov, ao sudoeste daquela cidade.

Não tenho envergadura de herói. Durante os sete dias de minha permanência não pude resolver nada. Minha presença só resultou na diminuição das provisões dos meus engenheiros. Assim, resolvi regressar em um trem que iria abrir caminho entre os redemoinhos de neve rumo ao oeste. Meu estado-maior despediu-se amistosamente e, na minha opinião, dando mostras de alívio. Viajamos a noite inteira à velocidade de dez quilômetros por hora. De vez em quando a composição tinha de parar para a limpeza do leito, escavando-se a neve com pás. Depois de ter sido percorrido um bom trecho da estrada, rumo ao oeste, ao amanhecer o trem chegou a uma estação abandonada.

Mas o lugar me pareceu bastante conhecido. Casas incendiadas, nuvens de vapor que saíam de carros-dormitórios e refeitórios, patrulhas de soldados. Eu tinha voltado a Dniepropetrovsk. As grandes massas de neve tinham forçado o trem a fazer uma volta. Desanimado, dirigi-me ao vagão-dormitório do meu estado-maior, onde os meus colaboradores me receberam com rostos não somente surpresos, mas talvez ocultando sua irritação.

O avião em que Sepp Dietrich voara a Dniepropetrovsk tinha de levantar vôo naquele dia, 7 de fevereiro de 1942. O Capitão Nein, pouco depois piloto do meu próprio aparelho, mostrou-se disposto a levar-me no seu avião. Para irmos ao campo de aviação, tivemos dificuldades enormes. Sob um céu limpo, com uma temperatura de vários graus abaixo de zero, rugia um vento que empurrava grandes massas de neve. Russos envoltos em grossos agasalhos tentavam em vão retirar da estrada a enorme quantidade de neve com vários metros de altura. Quando já tínhamos andado cerca de uma hora, alguns daqueles russos rodearam-me, falando-me excitados, sem que eu entendesse uma única palavra. Afinal, um deles, sem cerimônias, esfregou-me o rosto com neve. "Congelado", pensei comigo, pois já sabia disso pela experiência que eu tinha nas minhas excursões pelas montanhas. Mas a minha surpresa aumentou quando vi um dos russos tirar de dentro da sua roupa suja um pedaço de pano muito alvo e bem dobrado e com ele enxugar-me o rosto.

Com muita dificuldade, às onze da manhã, levantamos vôo de um campo de que tinha sido removida a neve. O aparelho tinha de ir para Rastemburgo, na Prússia Oriental, o pouso final da esquadrilha de Hitler. O meu destino era Berlim, mas o avião não era meu, e assim dei-me por satisfeito com o avanço de um bom trecho no meu percurso. Isso me fez estar pela primeira vez no quartel-general do Fuhrer na Prússia Oriental.

Quando cheguei a Rastemburgo chamei por telefone um dos ajudantes-de-ordens de Hitler. É possível que este tenha informado o Fuhrer da minha chegada. Fui levado do seu quartel-general em um dos seus carros particulares. Antes do mais, fartei-me de comer no barracão em que Hitler costumava fazer suas refeições em companhia de seus generais, colaboradores políticos e auxiliares imediatos. Mas, naquele momento, o Fuhrer não se achava lá. O Dr. Todt estava expondo-lhe assuntos do seu departamento, enquanto fazia uma refeição com o Fuhrer, ambos desacompanhados, na sala de refeições particular de Hitler. Enquanto isso, conversei com o General Gercke, chefe do serviço de transporte do Exército e comandante-chefe dos batalhões ferroviários. Descrevi-lhe as nossas dificuldades na Ucrânia.

Depois de uma ceia da qual participaram muitos comensais, estando presente Hitler, o Fuhrer e Todt continuaram sua conferência. Terminada a conferência, vi Todt, altas horas da noite, com uma expressão de cansaço. Estive sentado com ele ao lado de uma mesa, enquanto Todt silencioso bebia um copo de vinho, sem revelar o motivo da sua depressão. Durante nossa conversa, Todt me disse que tencionava regressar a Berlim na manhã seguinte e que havia um lugar disponível em seu avião. Mostrou-se satisfeito, oferecendo-me esse lugar, o que me evitaria a longa viagem de trem. Concordamos em levantar vôo logo nas primeiras horas da manhã, e ele despediu-se, dizendo que iria tentar dormir um pouco.

Um ajudante-de-ordens solicitou-me que fosse ver Hitler. Seria uma da madrugada a hora em que, quando em Berlim, nós nos sentávamos diante dos nossos desenhos para estudá-los. Hitler também parecia esgotado e mal-humorado. O seu quarto estava arranjado com muita simplicidade, pois ele renunciara até à comodidade de um colchão de molas. Falamos dos planos de construções, em Berlim e Nuremberg, mostrando-se então Hitler mais loquaz e animado, à medida que o tempo transcorria. Também me pareceu que o seu rosto adquiria cor. Afinal, pediu-me que lhe dissesse minhas impressões da viagem ao sul da Rússia, animando-me com suas perguntas. Aos poucos, foi tomando conhecimento das dificuldades para a reconstrução das ferrovias, das instalações ferroviárias, das tormentas de neve, do incompreensível comportamento dos tanques russos, das noitadas de camaradagem com suas melancólicas canções. Enfim, disse-lhe tudo. Quando lhe falei das canções, perguntou-me se eu tinha as letras. Tirei de um dos bolsos do meu casaco um impresso com o texto daquelas canções. Hitler leu-as, ficando depois silencioso. Para mim, elas eram a expressão, aliás muito admissível, de um ambiente de depressão. Mas, naquela ocasião, Hitler manifestou sua convicção de que tais canções tinham de ser atribuídas à maligna atividade de um inimigo consciente dos seus objetivos. Mediante o que lhe disse, supôs ter descoberto o rastro desse inimigo. Depois da guerra, fui informado de que Hitler ordenara que comparecessem a um conselho de guerra os responsáveis pela impressão daquelas canções. Isso confirma sua constante desconfiança em relação a tudo e a todos.

Às três da madrugada, despedi-me de Hitler, informando-o do meu regresso a Berlim, no avião do Dr. Todt, que levantaria vôo às cinco horas. Eu estava muito cansado e, antes de tudo, queria dormir. Mas, antes de cair no sono, em meu pequeno quarto, refleti sobre a impressão que poderia ter causado a Hitler. Aliás, entre os que privavam com Hitler, quem não refletia sobre sua conversa com ele, depois de um diálogo de duas horas? Mas, de qualquer modo, eu estava satisfeito; readquirira a confiança para realizar as obras projetadas, juntamente com ele, o que me parecera incerto, em face da situação, militar. Durante aquelas horas, nossos projetos antigos readquiriram relevo de realidade, e voltamos a um otimismo próprio de alucinados.

Pela manhã, tocou o telefone, arrancando-me de um sono profundo. Ouvi a voz do Dr. Brandt, que excitado me informou:

– O avião do Dr. Todt acaba de cair e o doutor morreu.

A partir daquele momento, tudo mudou para mim. Nos Últimos anos, minhas relações com o Dr. Todt tinham adquirido um caráter de franca cordialidade. Morto o doutor, eu perdia um colega ponderado. Havia muitas coisas em comum entre nós dois: pertencíamos a abastadas famílias burguesas, ambos tínhamos nascido em Baden, ambos tínhamos terminado nossos estudos técnicos. Gostávamos da natureza, da vida nos abrigos campestres, das excursões de esqui... e sentíamos a mesma aversão a Bormann. Todt teve com ele várias discussões por causa das estradas que Bormann abria na zona de Obersalzberg, desfigurando a paisagem. Minha esposa e eu tínhamos sido, várias vezes, hóspedes do ministro.

O Dr. Todt morava em uma pequena e modesta casa, perto do Hintersee, na região de Berchtesgaden, uma casa afastada do barulho e do movimento da cidade. Ninguém suporia que ali residia o famoso construtor de rodovias e largas auto-estradas. Ele era um dos poucos homens modestos e despretensiosos, naquele regime, merecedor de toda a confiança, e com ele podia-se estar certo de não ser vítima de alguma intriga. Devido à sua sensibilidade – o que freqüentemente ocorre com os técnicos –, dificilmente se ajeitava no ambiente de direção do Estado nacional-socialista. Vivia afastado, solitário, sem contato de caráter pessoal com os círculos do partido. Só em raríssimas ocasiões se apresentava nas mesas-redondas de Hitler, embora não houvesse dúvida quanto ao seu bom acolhimento, pois seria recebido de braços abertos. Hitler dedicava-lhe um apreço que se aproximava da veneração, não só pela sua personalidade como pelas suas obras. Todt mantinha sua independência pessoal, em face de Hitler, sendo ao mesmo tempo um leal camarada da antiga época.

Durante o almoço, no refeitório do quartel-general de Hitler, discutiram sobre a sucessão do Dr. Todt. Todos concordaram em um ponto: não havia ninguém capaz de substituí-lo. O Dr. Todt dirigira ao mesmo tempo três ministérios: era, na categoria de ministro, o chefe supremo da construção de rodovias, o encarregado de todos os canais, rios, melhoramentos do solo, das centrais elétricas, e, além disso, como delegado de Hitler, ministro dos Armamentos e do Municia-mento do Exército; dentro do Plano Quadrienal de Goering, dirigia a economia das construções, e, além do mais, criara a Organização Todt, que levantou a Muralha Ocidental, as instalações para submarinos no Atlântico, construindo também as rodovias nos territórios ocupados desde o norte da Noruega até a França meridional e também na Rússia.

Assim, durante os últimos anos, Todt enfeixara em suas mãos a direção de importantes iniciativas técnicas. Separados no princípio os seus diversos departamentos, Todt esboçara o tipo de organização do futuro ministério técnico. Dentro da estrutura do partido, tinha ao seu cargo a direção-geral técnica e ao mesmo tempo a chefia do agrupamento de comandos de todas as associações e grupos de caráter técnico. Já naquela ocasião vi, claramente, que me seria entregue uma importante fração do enorme volume de tarefas de que fora encarregado Todt. Na primavera de 1939, durante a viagem de inspeção da Muralha Ocidental, Hitler dissera que tinha pensado em entregar-me as obras de Todt, no caso de acontecer algo ao doutor. Posteriormente, no verão de 1940, recebera-me, oficialmente, em seu gabinete da chancelaria do Reich, para explicar-me que Todt estava deprimido pelo excesso de trabalho, e por isso ele resolvera encarregar-me da realização de todas as obras, inclusive as que se estavam executando na costa do Atlântico. Naquela ocasião, pude convencer Hitler de que era melhor continuarem sob uma só direção a construção de obras e o fabrico de armamentos.

Mas, então, seria quase uma hora da tarde quando fui chamado à presença de Hitler. A fisionomia de Schaub, o primeiro ajudante-de-ordens de Hitler, era indício da importância daquele chamado. Ao contrário do que ocorrera na noite anterior, Hitler recebeu-me oficialmente, com a atitude de chefe do Reich. De pé, sério, com um modo formalista, aceitou minhas condolências, que respondeu em poucas palavras, dizendo logo em seguida:

– Sr. Speer, eu o nomeio sucessor do Dr. Todt em todas as atribuições dele.

Fiquei consternado. Hitler estendeu-me a mão e dispôs-se a despedir-me. No entanto, supondo que ele se tivesse equivocado, respondi-lhe que me dedicaria com empenho à substituição do Dr. Todt na construção das obras.

– Não, em todos os cargos dele. E também como ministro dos Armamentos.

– Mas se eu nada entendo de... – tentei objetar.

– Tenho confiança no senhor – foram as palavras de Hitler, interrompendo o que eu pretendia dizer. – O senhor vai ser bem sucedido. Ademais, não disponho de outra pessoa. Trate de comunicar-se com o ministério imediatamente, e comece a agir.

– Pois então, meu Fuhrer, transmita suas ordens, porquanto não me julgo em condições de desempenhar bem tais atribuições.

Hitler logo me transmitiu, em poucas palavras, a ordem solicitada, que aceitei sem abrir os lábios. Logo depois, em silêncio, cuidou do seu expediente, procedendo de modo contrário ao que era habitual entre nós, até então. Despedi-me.

Eu tinha passado pela primeira prova da nossa norma de trabalho, que era outra desde aquele momento. Até então, Hitler tinha tido para comigo uma maneira de tratar cordial, em certo sentido como a de um colega para com outro. Mas agora iniciava-se, inegavelmente, uma nova fase em nossas relações, demonstrando Hitler, logo no começo, a distância oficial entre ele e o ministro que lhe era subordinado.

Quando eu estava saindo, apareceu Schaub.

– O senhor marechal do Reich está aí e quer falar-lhe, urgentemente, meu Fuhrer.

Hitler olhou para o seu ajudante-de-ordens com expressão de desgosto dizendo-lhe:

– Mande-o entrar.

E acrescentou, dirigindo-se a mim:

– O senhor, fique.

Goering entrou na sala impetuosamente, e depois de algumas palavras de pêsames começou a falar com veemência:

– O melhor seria eu encarregar-me dos serviços do Dr. Todt, dentro do esquema do Plano Quadrienal. Assim se evitariam os atritos e contrariedades que tive pela sua maneira de agir.

É bem possível que Goering tivesse vindo, em seu trem especial, desde Rominten, onde estavam suas terras de caça, cerca de cem quilômetros de distância do quartel-general de Hitler. Como o desastre ocorrera às nove e meia da manhã, Goering deveria ter vindo com muita pressa.

Hitler negou-se a atender a proposta de Goering. Respondeu-lhe dizendo:

– Já nomeei o sucessor de Todt. O ministro do Reich, Sr. Speer, aqui presente, vai se encarregar de todas as funções do Dr. Todt.

Essas palavras foram pronunciadas com tanta firmeza que significavam a repulsa a qualquer réplica. Goering mostrou-se aterrorizado e consternado, mas readquiriu a calma alguns instantes depois. E sem aludir àquelas palavras do Fuhrer, perguntou-lhe mal-humorado e friamente:

– Estará o senhor de acordo em que eu não assista ao enterro do Dr. Todt? O senhor sabe das minhas desavenças com ele, e por isso me sinto inibido de estar presente em seu enterro.

Não sei bem qual foi a resposta de Hitler. Isso é perfeitamente compreensível. Eu permanecera, depois da minha primeira entrevista como ministro, um tanto absorto. Lembro-me, no entanto, de que afinal Goering acedeu em estar presente nos funerais, para evitar que o público viesse a saber do que ocorrera entre ele e o falecido.

Durante aquele diálogo, vi claramente que Goering não seria jamais meu amigo. Mas Hitler parecia disposto a ajudar-me, no caso de surgirem dificuldades entre mim e Goering.

Logo depois do acidente em que morreu Todt, Hitler demonstrou, exteriormente, a estóica serenidade do homem que sabe serem inevitáveis esses sucessos. Logo no primeiro dia manifestou a suspeita de que aquele desastre não podia ter sido casual. Considerava possível uma ação eficaz dos serviços secretos. Essa idéia acabou suscitando uma reação de nojo, freqüentemente nervosa, quando falavam no assunto em sua presença. Em tais ocasiões, ele costumava dizer com aspereza na voz:

– Não quero ouvir mais falar do caso. Proíbo que continuem falando nisso.

E acrescentava:

– Saibam os senhores que essa perda me afeta muito para que eu sinta desejo de referir-me a ela.

Por ordem de Hitler, o Ministério da Aviação procedeu a pesquisas para averiguar se a queda do avião teria ocorrido de um ato de sabotagem. A investigação acabou verificando que o aparelho explodira a vinte metros do solo, produzindo-se uma chama vivíssima e delgada que subiu como um dardo disparado por um arco.

Como era arriscada e leviana a espontânea decisão de Hitler, encarregando-me da direção de um dos três ou quatro ministérios dos quais dependia a existência do seu Estado! Eu era um intruso típico, tanto no que dizia respeito ao Exército como no que se referia ao partido e à economia. Jamais fora soldado, jamais empunhara um fuzil, nem mesmo de caça. Mas a minha nomeação atendia à disposição de Hitler e a seu diletantismo. Ele escolhera seus colaboradores entre gente não especializada nas matérias de que iriam tratar. Havia nomeado ministro das Relações Exteriores um comerciante de vasos, ministro para os Territórios do Leste o filósofo do Partido, colocou sob a direção de um piloto combatente toda economia do Reich. E agora transformava em ministro dos armamentos um arquiteto. Não há dúvida de que Hitler preferia que ocupassem cargos de direção indivíduos leigos nos assuntos de que iriam tratar. Sempre demonstrou desconfiança em relação aos técnicos, como no caso de Schacht, por exemplo.

Hitler interpretou como um favor especial da Providência o fato de eu me ter sentido cansado, depois da entrevista no quartel-general, deixando de viajar com Todt. Assim, como no caso do Professor Troost, minha carreira foi outra vez determinada pela morte de uma pessoa. Mais tarde, quando fui bem sucedido no exercício do meu cargo, Hitler afirmava com freqüência que tinha de ocorrer a morte de Todt para haver melhor rendimento no fabrico dos armamentos.

Em comparação com o Dr. Todt, com quem era difícil lidar, eu era um instrumento de trabalho fácil de manejar pelo Fuhrer. Isso corroborava a lei de seleção negativa, mediante a qual Hitler tinha constituído o seu grupo. Preferindo sempre as pessoas que mais concordassem com os seus desejos, no decurso dos anos, ele ficou rodeado de indivíduos que aceitavam suas decisões, executando-as sem refletirem nas conseqüências.

Os historiadores dão hoje alguma atenção às minhas atividades de ministro dos Armamentos, considerando secundários, em relação a tais atividades, meus projetos de urbanização de Berlim e de Nuremberg. Mas, na realidade, naquela época, minha profissão de arquiteto continuou essencial para mim. Considerei como interrupção involuntária, em conseqüência da guerra, minha surpreendente nomeação para o cargo de ministro. Como arquiteto de Hitler, eu via possibilidade de alcançar fama e glória também, ao passo que o valor de um ministro, ainda que importante, estava inteiramente obscurecido pela glória que se estendia em torno do Fuhrer. Por isso pedi logo a Hitler que me prometesse que me nomearia de novo seu arquiteto, depois da guerra. Hitler concordou sem vacilar. Também ele admitia que, sendo seu arquiteto, eu lhe prestaria serviços, a ele e ao Reich. Quando então falava dos seus planos futuros, às vezes exprimia pensamentos nostálgicos, dizendo:

– Então nós nos retiraremos, os dois, alguns meses, para um lugar solitário, a fim de reexaminar todos os planos de obras.

Mas eram raras tais manifestações.

A primeira reação à minha nomeação de ministro veio de Berlim, no dia 9 de fevereiro, na pessoa do chefe de seção pessoal de Todt, o conselheiro governamental superior Konrad Haasemann, que chegou de avião ao quartel-general. Havia conselheiros de Todt mais importantes e influentes. Por isso interpretei a iniciativa daquele funcionário como intencional, no sentido de pôr à prova a minha autoridade. Sem perder tempo, Haasemann disse-me que por seu intermédio eu poderia familiarizar-me com a maneira de ser dos meus futuros colaboradores. Retruquei-lhe, taxativamente, que eu resolvera, ao caso, impor meus pontos de vista pessoais. Naquela mesma noite, dirigi-me a Berlim, viajando de trem, pois naquela ocasião eu não me dispunha a viajar de avião.

Quando, na manhã seguinte, atravessei os arrabaldes da capital do Reich, com suas fábricas e instalações ferroviárias, assaltou-me a dúvida sobre se eu conseguiria dominar aquela gigantesca tarefa técnica, estranha para mim.

Na conjuntura da guerra, eu tinha de ocupar uma posição-chave, apesar de ser antes tímido no meu trato com desconhecidos, carecendo de desembaraço nas reuniões. Mesmo no decurso das reuniões, eu tinha dificuldades na expressão dos meus pensamentos, de modo preciso e compreensível. Que diriam os generais do Exército, ao tratarem com um paisano e artista?

Esperava-me outrossim um problema não pequeno: eu estava convencido de que os antigos colaboradores de Todt me considerariam um intruso. Sem dúvida, conheciam-me Como bom amigo do seu falecido chefe, mas também como pessoa que, freqüentes vezes, tinha ido vê-los para assinarem documentos relacionados com a construção de obras. Durante anos aqueles funcionários tinham sido colaboradores muito unidos a Todt.

Logo depois de minha chegada ao ministério, visitei todos os meus funcionários mais importantes, nos seus gabinetes, evitando assim o incômodo de se apresentarem a mim. Também dei ordem para não se alterar a disposição dos móveis e demais objetos no gabinete do Dr. Todt, apesar de não e agradar a arrumação daquele recinto de trabalho.

Na manhã de 11 de fevereiro de 1942, tive de receber, solenemente, na Estação de Anhalt, o féretro com os restos mortais de Todt. A cerimônia comoveu-me, como também as exéquias celebradas no dia seguinte na Sala dos Mosaicos da chancelaria do Reich – sala construída por mim –, em companhia de Hitler, comovido até quase às lágrimas. Dorsch, um dos mais íntimos colaboradores do falecido Todt, prometeu-me, solenemente, sua lealdade, durante uma solenidade ao lado do túmulo. Dois anos mais tarde, estando eu gravemente enfermo, esse homem participou de uma intriga dirigida por Goering contra mim.

Não tardei em iniciar minhas atividades. O subsecretário da Aviação, Marechal Erhard Milch, rogou-me que assistisse a uma reunião, prevista para sexta-feira, 13 de fevereiro, na grande sala do Ministério da Aviação. Naquela reunião seriam tratados os problemas dos armamentos e economia, comuns às três armas da Wehrmacht. Quando perguntei se essa reunião não podia ser adiada, Milch respondeu-me com outra pergunta, segundo sua maneira espontânea de dialogar e pela cordialidade de nossas relações pessoais. Já estavam viajando os industriais mais importantes do Reich. Acaso pretendia eu tirar o corpo fora?

Goering convocou-me para o dia anterior ao da reunião. Era a primeira vez que o fazia, sendo eu ministro. Falou-me cordialmente das nossas boas relações, quando fui seu arquiteto, e exprimiu o desejo de que tais relações não se alterassem. Quando queria, Goering usava de uma amabilidade dominadora, embora um tanto altiva. Não demorou, porém, em expor-me sua pretensão: disse-me haver entre ele e o meu antecessor um acordo escrito e que o mesmo acordo estava sendo redigido para mim, o qual depois me seria remetido para que eu o assinasse. Acrescentou que, por aquele documento, eu, na minha função relacionada com o Exército, não poderia interferir em questões subordinadas ao Plano Quadrienal. Nossa entrevista terminou com frases de significado ambíguo. Depois, eu ficaria sabendo de mais coisas por intermédio de Milch, no decorrer da reunião. Eu não dei nenhuma resposta, e a nossa conversa terminou cordialmente. O Plano Quadrienal envolvia toda a economia do Reich, de modo que o acordo previsto por Goering me incapacitaria inteiramente de agir.

Suspeitei de que Milch me comunicasse algo inesperado, durante a reunião. Não me sentindo ainda seguro, expus meus temores a Hitler, que ainda estava em Berlim. Dada a impressão que ele teve com a atitude de Goering, no momento de lhe ser comunicada minha nomeação, eu podia contar com a compreensão do Fuhrer.

– Está bem – disse-me ele. Se lhe demonstrarem hostilidade ou se o senhor tiver dificuldades, interrompa a reunião e convide os participantes a reunirem-se na sala de sessões do gabinete. Direi então a esses cavalheiros o que for necessário.

A sala de sessões do gabinete era considerada uma espécie de "lugar sagrado", e teria de impressionar quem fosse recebido nela. O fato de Hitler falar àquele grupo com o qual eu iria trabalhar significava para mim um bom começo, melhor do que eu poderia desejar.

A grande sala de sessões do Ministério da Aviação estava totalmente cheia. Estavam presentes trinta pessoas: os homens mais importantes da indústria, entre eles o diretor-geral Albert Võgler; Wilhelm Zangen, o diretor da Associação dos Industriais Alemães; o chefe da Reserva do Exército, Capitão-General Ernst Fromm, com o seu subordinado na diretoria-geral dos Armamentos do Exército, Tenente-General Leeb; o Almirante Witzell, chefe dos Armamentos da Marinha; o General Thomas, na qualidade de chefe da diretoria-geral dos Armamentos e da Economia, no setor do Alto-Comando da Wehrmacht; Walter Funk, como ministro da Economia do Reich; diversos delegados do Plano Quadrienal e outros importantes colaboradores de Goering.

Milch assumiu a presidência, na qualidade de representante do chefe do departamento. Pediu a Funk que se sentasse à sua direita e a mim que ficasse à sua esquerda. Abrindo os trabalhos, explicou em poucas palavras as dificuldades surgidas na questão dos armamentos, em conseqüência do aumento aos fornecimentos às três armas da Wehrmacht. Võgler, do quadro da Vereinigten Stahlwerken, fez em seguida uma exposição muito precisa, explicando como se perturbava a produção econômica, mediante ordens e contra-ordens, discussões sobre os escalões de prioridade e as freqüentes alterações no critério de prioridade. Disse ainda que se dispunha de reservas não utilizadas, as quais nunca tinham um destino, pelos vaivéns na remessa. Sendo assim, julgava chegado o tempo de se esclarecerem as coisas. Portanto, havia necessidade de alguém que tomasse decisões, pouco importando à indústria quem fosse tal pessoa.

Os oradores seguintes foram o Capitão-General Fromm e o Almirante Witzell, como representantes do Exército e da Marinha, os quais, excetuando-se alguns detalhes, aderiram às observações de Võgler. Também manifestaram-se no mesmo sentido os demais assistentes, verificando-se portanto o desejo geral de haver uma pessoa que assumisse a direção interna daqueles assuntos. Também eu sentira o mesmo, durante o tempo de minha atividade a serviço dos Armamentos da Aviação. Por último, falou o ministro da Economia, Funk, que se dirigiu a Milch. Disse que, estando todos de acordo, segundo o andamento do expediente da reunião, o que faltava era a escolha de uma pessoa para o exercício de tal função.

– Quem melhor do que o senhor, caro Milch, que usufrui da confiança do nosso estimado marechal do Reich? Por isso suponho falar em nome de todos ao rogar-lhe que aceite a função – terminou ele, com uma expressão algo patética nas suas palavras.

Não havia dúvida de que tudo fora arranjado de antemão. Enquanto Funk continuava falando, murmurei ao ouvido de Milch:

– A reunião continuará na sala de sessões do gabinete. O Fuhrer quer falar a respeito das minhas funções.

Milch, inteligente, dotado de rápida compreensão, respondeu à proposta de Funk manifestando-se honrado por aquela prova de confiança, mas dizendo que não podia aceitar. Tomei, então, a palavra pela primeira vez. Transmiti o convite do Fuhrer e ao mesmo tempo disse com firmeza que a discussão do assunto continuaria na quinta-feira, 18 de fevereiro, no meu ministério, uma vez que, segundo as aparências, havia íntima conexão daqueles problemas com as minhas funções ministeriais.

Milch deu por encerrada a reunião.

Funk explicou-me mais tarde que Billy Kõrner, subsecretário de Goering e seu homem de confiança dentro do Plano Quadrienal, insistira com ele, Funk, para que propusesse Milch para o cargo de delegado, com plenos poderes nas suas decisões pessoais. Segundo Funk, era lógico que Kõrner lhe tivesse formulado tal pedido com o conhecimento de Goering.

Bastava o convite de Hitler para fazer aqueles homens perceberem que eu iniciava minhas funções situado em uma posição mais forte que a do meu antecessor.

Hitler tinha agora de sancionar, publicamente, o seu assentimento. Chamou-me ao seu gabinete, fez que eu o informasse do ocorrido e pediu-me que o deixasse só para que ele tomasse algumas notas. Depois dirigiu-se comigo à sala do gabinete e tomou a palavra. Falou cerca de uma hora. Estendeu-se em considerações difusas sobre a economia de guerra, salientando como era importante um aumento substancial na produção de armamentos. Referiu-se às valiosas forças que era necessário fossem mobilizadas na indústria, e expôs o conflito com Goering de um modo surpreendentemente franco:

– Esse homem não pode encarregar-se da questão dos armamentos, dentro do objetivo do Plano Quadrienal.

Prosseguiu dizendo que era necessário estabelecer uma separação entre o Plano Quadrienal e a questão dos armamentos, e que me fora confiado o desempenho desta última atividade. Dava-se um cargo a alguém, que logo depois era demitido. Isso acontecia habitualmente. Do ponto de vista técnico, era possível aumentar a produção. O que estava acontecendo era decorrente de negligências.

Quando estávamos na prisão, Funk disse-me que, durante o processo de Nuremberg, Goering lhe pedira uma cópia escrita dessas palavras de Hitler, equivalentes a uma destituição, a fim de utilizá-la para anular a acusação de ter utilizado o trabalho forçado de prisioneiros.

Hitler evitou qualquer referência a uma direção global dos armamentos. E, falando unicamente dos Armamentos do Exército e da Marinha, excluiu, propositadamente, o caso dos armamentos aéreos. Evitei dizer-lhe que, sob esse ponto de vista, estava sendo ventilada uma questão política, da qual só se podia esperar confusões, dado o funcionamento do sistema. Hitler concluiu sua exposição com um apelo à boa vontade dos assistentes. Falou da minha capacidade organizadora no terreno da construção – argumento não muito convincente para os presentes –, qualificou de grande sacrifício pessoal minha nova atividade – o que, provavelmente, seria lógico para aquelas pessoas, dada a situação crítica em que nos encontrávamos; finalmente, exprimiu a esperança de que eu fosse não somente apoiado no desempenho das minhas funções como também cordialmente tratado, cavalheirescamente:

– Procedam com ele, senhores, como cavalheiros.

Tratando-se de Hitler, aquelas palavras eram inteiramente inesperadas. O que não fez, entretanto, foi delimitar minhas funções com clareza, o que eu teria preferido.

Até então, Hitler não apresentara nenhum ministro daquela forma. Aquele começo teria significado um valioso auxílio, mesmo em um regime menos autoritário. Mas, considerando-se o regime, as conseqüências foram assombrosas, inclusive para mim. Durante muito tempo, eu pude movimentar-me em um espaço de algum modo vazio, sem resistência, sem nenhuma limitação, podendo fazer praticamente o que eu quisesse.

Quando nos dirigimos à residência particular de Hitler, na chancelaria do Reich, Funk, emocionado, declarou que colocava à minha disposição todos os elementos de que eu necessitasse e faria tudo quanto estivesse ao seu alcance para ajudar-me. Manteve sua promessa, raras vezes deixando de cumpri-la.

Bormann e eu estivemos conversando alguns minutos na sala de estar. Antes de recolher-se aos seus aposentos, no pavimento superior, Hitler mais uma vez recomendou-me utilizar a indústria o mais possível. Essa idéia não era novidade para mim. Freqüentemente, Hitler dizia que para o desempenho de grandes tarefas o melhor era resolver os problemas da economia diretamente, uma vez que a burocracia ministerial, à qual ele tinha acentuada aversão, nada mais fazia, em sua opinião, do que entravar as iniciativas da indústria. Aproveitei a ocasião para dizer-lhe, na presença de Bormann, que era minha intenção utilizar de preferência técnicos industriais. Mas, para isso, seria necessário que não se levasse em conta serem eles filiados ou não ao partido. Hitler concordou comigo e recomendou a Bormann o cumprimento das minhas intenções, ficando o meu ministério livre das desagradáveis ingerências da direção do partido, isso pelo menos até depois do atentado de 20 de julho de 1944.

Naquela mesma noite, estive falando com Milch, que me prometeu sua estreita colaboração, sem dar sinais da animosidade que havia da parte da Aviação para com o Exército e a Marinha. Foi precisamente no início da minha gestão ministerial que a sua orientação foi imprescindível para mim. E não tardou a surgir entre nós uma amizade que ainda perdura.

 

                                     IMPROVISAÇÃO ORGANIZADA

Eu tinha à minha frente cinco dias, até à reunião em que deveria expor minhas idéias no ministério. Por estranho que pareça, eu possuía já uma visão bastante clara do fundamental. De fato, durante meus dois anos em posição inferior, no setor dos armamentos, eu tinha visto "muitos erros sistemáticos, ocultos para quem olhasse de cima o complexo daquelas atividades".

Elaborei um plano de organização, cujas linhas verticais incluíam os diversos produtos acabados, tais como tanques, aviões ou submarinos, ou seja, o material bélico das três armas da Wehrmacht. Em torno das colunas verticais, havia numerosos círculos, cada um dos quais representava um grupo dos fornecimentos para canhões, tanques, aviões e outros tipos de armas. Nos círculos, eu considerei, por exemplo, a produção de peças forjadas ou de equipamentos eletrônicos como um todo. Habituado por minha profissão de arquiteto a pensar em três dimensões, desenhei aquele organograma sob o ponto de vista da perspectiva.

Os principais chefes dos departamentos de economia de guerra voltaram a reunir-se, no dia 18 de fevereiro, na antiga sala de sessões da Academia de Belas-Artes. Falei-lhes durante uma hora. Aceitaram sem discussão meu organograma e nem formularam objeção aos meus plenos poderes, entre os quais havia os exigidos, na reunião de 13 de fevereiro, no tocante à direção unitária da questão dos armamentos, plenos poderes concedidos em meu nome. Além disso, submeti minha declaração à assinatura dos presentes, procedimento desusado nas relações entre autoridades do Reich.

Enquanto isso, as palavras de Hitler continuavam a produzir efeito. Quem primeiro manifestou sua conformidade a minha proposta foi Milch, que a assinou. Os outros apresentaram reparos de caráter formal, que foram objeto de explanação em meu favor, feita por Milch. Entre os presentes, apenas um não cedeu em suas observações: foi o Almirante Witzell, representante da Marinha, que deu um consentimento condicional.

No dia seguinte, 19 de fevereiro, dirigi-me ao quartel-general do Fuhrer, em companhia do Marechal Milch, dos generais Thomas e Olbricht, este representante do Capitão-General Fromm, para comunicar a Hitler o resultado positivo da reunião. Eu lhe exporia os meus pensamentos sobre a organização. Hitler esteve de acordo com tudo.

Logo depois do meu regresso ao ministério, recebi um convite de Goering para falar-lhe em seu palácio de caça no Schorfheide, a mais de setenta quilômetros ao norte de Berlim. Quando, em 1935, Goering vira o novo "Berghof" de Hitler, mandou construir, em substituição à sua antiga e modesta casa de caça, uma residência senhorial, que excedeu em tamanho à de Hitler. A sala de estar tinha as mesmas dimensões, mas a janela corrediça era maior. Naquela época, Hitler ficou aborrecido. Mas o seu arquiteto construiu uma plataforma que era um desafio às pretensões de Goering, e que agora servia de quartel-general.

Naquelas conversas de Goering, perdia-se um tempo valioso. Desta vez, também, depois de uma longa viagem de automóvel – seriam onze da manhã –, cheguei pontualmente à casa dele, mas tive de estar uma hora vendo os quadros e gobelinos na sala de recepção. Ao contrário de Hitler, Goering era muito liberal com as horas marcadas para entrevistas. Afinal, apresentou-se, descendo dos seus aposentos no pavimento superior, vestindo uma bata de cor verde, que lhe emprestava um aspecto meio romântico, meio decorativo.

Cumprimentamo-nos com bastante frieza. Acompanhou-me em passos curtos a sua sala de despachos, sentando-se à sua gigantesca mesa, enquanto eu, modestamente, tomava um assento à sua frente. Goering, muito nervoso, queixou-se amargamente de que eu não o tivesse convidado à reunião celebrada na sala do gabinete. Passou-me, por cima da mesa, uma resolução do seu diretor-geral, no Plano Quadrienal, Erich Neumann, relativa às conseqüências jurídicas do documento que eu solicitara. Mas, de repente, com uma rapidez de que jamais eu o suporia capaz, dado o volume do seu corpo, deu um pulo, levantando-se, e começou a andar às pressas de um para outro lado da sala, fora de si, tão exaltado estava. Disse que os seus delegados eram uns tipos covardes e sem caráter. Quando assinaram o documento, por minha exigência, tinham-se subordinado a mim, para o futuro, e nada lhe perguntaram a respeito. Não deu ocasião a que eu falasse, o que foi melhor, à vista da situação. Suas queixas amargas, indiretamente, dirigiam-se a mim, mas não se atrevia a censurar-me por uma atitude incorreta, o que demonstraria sua posição abalada. Afinal, declarou que não podia tolerar aquele solapamento da sua autoridade. Iria logo falar a Hitler e renunciaria ao cargo de "delegado para a realização do Plano Quadrienal".

Naquele tempo, isso não significaria nenhum prejuízo. Sem dúvida, inicialmente Goering havia dado impulso enérgico ao desenvolvimento do plano. Mas, em 1942, parecia sonolento, demonstrando pouca disposição para o trabalho. Ele dava impressão de instabilidade, seguindo sem escolha muitas idéias, trabalhando segundo impulsos, e em geral denunciava-se carecido do senso de realidade.

Sem dúvida, considerando as conseqüências políticas, Hitler não aceitaria a demissão de Goering, mas procuraria uma solução conciliatória. Isso no entanto teria de ser evitado, pois tais soluções de compromisso eram temíveis, sob todos os pontos de vista, e não resolviam as dificuldades; ao contrário, as dificuldades já existentes se complicavam ainda mais.

Eu sabia que tinha de fazer algo para amparar o enfraquecido prestígio de Goering. Assegurei-lhe que as inovações desejadas por Hitler e aceitas pelos delegados de Goering não diminuiriam, de modo nenhum, sua posição de chefe do Plano Quadrienal. Minhas palavras agradaram Goering. Eu estava disposto a subordinar-me a ele, exercendo minhas atividades dentro do Plano Quadrienal.

Três dias depois, voltei à residência de Goering e mostrei-lhe um projeto segundo o qual eu atuaria como "delegado-geral dotado de plenos poderes para as questões dos armamentos, dentro do âmbito do Plano Quadrienal". Goering manifestou sua concordância, embora me fizesse sentir que eu me excedera e que só procederia de acordo com meus interesses se eu retrocedesse em meus objetivos. Dois dias mais tarde, no dia 1.° de março de 1942, Goering assinou um decreto mediante o qual eu dispunha de autoridade "para dar aos armamentos, dentro do conjunto da vida econômica, a primazia que lhes cabe em caso de guerra". Eu tinha alcançado mais com aquele decreto do que com o documento de fevereiro, que tinha tido objeções de Goering.

No dia 16 de março, pouco depois de Hitler – satisfeito por se ver livre de dificuldades pessoais com Goering – ter manifestado sua conformidade com o acordo, comuniquei minha nomeação à imprensa alemã. Aproveitei para a notícia uma fotografia antiga, na qual se via Goering apertando-me a mão, amistosamente, satisfeito pelo meu projeto do edifício do seu departamento de marechal do Reich. Queria dar a entender que terminara a crise de que já se falava em Berlim. É verdade que a seção de imprensa de Goering me dirigiu uma nota de protesto, declarando que a fotografia e o decreto deveriam ter sido publicados por Goering.

Houve mais dificuldades. Já ferido em seu amor-próprio, Goering queixou-se a mim de que o embaixador italiano lhe informara que a imprensa estrangeira noticiara que ele – Goering – fora derrotado pelo novo ministro, no setor do Plano Quadrienal. Tais informações iriam, necessariamente, minar seu prestígio na indústria. Ora, era um segredo sabido de todos que a economia nacional financiava os grandes gastos de Goering. Tive a impressão de que o temor de Goering, ao referir-se à diminuição do seu prestígio, relacionava-se com a diminuição daquelas vantagens. Propus-lhe por isso realizar em Berlim uma reunião, à qual seriam convidados os industriais mais prestigiosos. No transcurso da reunião, eu declararia estar à disposição das ordens de Goering. Essa proposta agradou-lhe muito, e assim recobrou o bom humor.

Logo depois, quase cinqüenta industriais receberam ordem de Goering para se apresentarem em Berlim, a fim de participar de uma reunião. Esta se iniciou com umas breves palavras minhas, de acordo com as promessas que fiz ao marechal, que, depois, se estendeu em uma longa dissertação sobre a importância do armamento. Convidou os industriais presentes a colaborarem com todas as suas energias, a fazerem sacrifícios, a fim de prosseguir o programa. Mas não fez a mínima referência às minhas funções, em nenhum sentido, nem positivo, nem negativo. Essa atitude de Goering possibilitou-me agir livremente, no futuro, sem nenhum empecilho. Talvez estivesse com inveja dos meus êxitos, junto a Hitler. No entanto, nos anos seguintes, raras vezes tencionou interferir em minhas atividades.

Considerando-se a pouca autoridade de Goering, não me pareceram suficientes os plenos poderes que ele me havia outorgado. Por isso, pouco depois de 12 de março, induzi Hitler a assinar este decreto: "As exigências de toda a economia alemã têm de se subordinar às necessidades da economia dos armamentos". Em face dos costumes do regime autoritário, em vigor, o decreto de Hitler equivalia à outorga de plenos poderes em todo o campo da economia.

As formas de direito público, em nosso âmbito, eram também improvisadas e vagas, como tudo mais. No meu setor de atividades e de competência, não havia nenhuma delimitação precisa. De minha parte, achei inconveniente essa delimitação e tratei de evitá-la, com êxito. Sendo assim, nossa competência podia reger-se, em cada caso, pela energia e capacidade dos colaboradores. Uma formulação jurídica dos direitos inerentes à minha posição com poder quase ilimitado, em conseqüência da amizade de Hitler, teria tido como resultado divergência com outros ministérios, sobre questões de jurisdição, sem que se chegasse a uma unidade de critérios.

Essas ambigüidades eram um câncer no organismo do governo de Hitler. Mas eu me conformava com elas, enquanto me favorecessem, e Hitler assinava os meus pedidos prontamente. Só mais tarde deixou de atender-me em certos setores, razão pela qual vi-me condenado à impotência ou a valer-me da astúcia.

Com os plenos poderes de Hitler no bolso e um Goering domado, pude entrar no caminho rumo à estruturação da "responsabilidade da indústria", segundo minha idéia no organograma. Hoje se tem por inegável que a rápida elevação da produção de armamentos se deve a se terem posto em prática minhas idéias. No entanto, as bases não eram novas, de modo nenhum. Tanto o Marechal Milch como o Dr. Todt já tinham começado a entregar a direção de serviços de armamentos a técnicos disponíveis nas grandes empresas industriais. Mas o Dr. Todt afirmava que o verdadeiro promotor da "responsabilidade da indústria" foi Walther Rathenau, o grande organizador judeu da economia bélica, durante a Primeira Guerra Mundial.

Seu pensamento de que era possível aumentar de maneira considerável a produção mediante o intercâmbio de experiências técnicas, de divisão do trabalho, de tipificação e de normalização, o havia levado, já em 1917, a estabelecer, com teor axiomático, que sob essas premissas se poderia garantir uma produção dupla com as mesmas instalações e com os mesmos custos de trabalho.

Constituímos "comissões principais" para os tipos de armas e "elos principais" para o preparo dos elementos subsidiários. Enfim, treze comissões principais integraram, sob a forma de membros estruturados verticalmente, as colunas do meu organograma, no terreno dos armamentos, unidos entre si por um igual número de elos principais. Organizei também comissões de desenvolvimento, nas quais oficiais do Exército sentavam-se à mesma mesa com os melhores elementos da indústria. Tais comissões tinham por objetivo inspecionar as novas construções, introduzir melhorias na técnica da produção, durante os trabalhos de planificação, e suprimir o que houvesse de desnecessário nos processos de fabricação.

Tais modificações conseguiram transformar em processo de fabricação industrial aquilo que, durante os primeiros anos da guerra, tinha sido de algum modo um fabrico de armamentos com caráter de artesanato. Logo se alcançaram resultados surpreendentes. Eu pensava que a minha tarefa fundamental estava em descobrir e analisar os problemas ocultos sob a rotina dos anos. A solução desses problemas, entretanto, competiria aos especialistas no respectivo ramo. Obcecado pelas minhas tarefas, eu não desejava uma diminuição na minha esfera de jurisdição, mas a sua ampliação. A estima de Hitler, o sentido do dever, o orgulho, a auto-satisfação... tudo isso contribuía para a multiplicação dos meus serviços. Isso, para um homem que, aos trinta e seis anos, era o ministro mais moço do Reich. A "organização industrial" necessitou logo de mais de dez mil auxiliares e colaboradores, ao passo que no meu ministério trabalhavam somente duzentos e dezoito funcionários. Isso correspondia às minhas idéias de um trabalho ministerial subordinado à "responsabilidade da indústria".

Segundo a norma de trabalho no ministério, a maioria dos casos tinham de chegar ao ministro por intermédio do subsecretário. Este, de algum modo, procedia a uma triagem e, segundo seu critério, decidia da importância de tais casos. Eliminei esse sistema e coloquei sob minhas ordens não somente mais de trinta chefes da organização da indústria como também dez chefes de seção do ministério. Todos eles teriam de se comunicar uns com os outros sobre assuntos das respectivas competências. Reservei para mim somente o direito de intervir quando se tratasse de questões importantes ou existisse discrepância de opiniões.

Nosso método de trabalho era tão inovador como a mencionada forma de organização. Os funcionários do ministério, habituados na sua rotina, falavam, ironicamente, de um "ministério sem plano de organização", de um "ministério sem funcionários do Estado". Foi-me atribuída a introdução de métodos norte-americanos, com o pessoal trabalhando em mangas de camisa. Foram minhas palavras: "Quando as atribuições se delimitam, estritamente, nada mais se faz do que obrigar cada um a cuidar somente das suas próprias funções, não se ocupando das que pertencem a outras pessoas".

Mas, freqüentes vezes, mostrei a Hitler meus esquemas de organização, sem que ele demonstrasse interesse nos meus organogramas. Tive a impressão de que não lhe agradava ocupar-se dessas questões, porquanto, em determinados campos de atividade, não era capaz de distinguir o fundamental e o destituído de importância. Nem gostava de delimitar as funções de uns funcionários em relação a outros. Algumas vezes, propositadamente, fazia que diversos grupos ou pessoas se ocupassem, simultaneamente, da mesma tarefa.

– Assim – dizia com satisfação – impõe-se o mais forte.

Decorridos apenas seis meses de minha presença no ministério, tinha já aumentado consideravelmente a produção, em todos os setores. A produção do mês de agosto de 1942, comparada com a de fevereiro do mesmo ano, superou em vinte e sete por cento o número de armas, em vinte e cinco por cento o de tanques e aumentou noventa e sete por cento – quase o dobro – na fabricação de munições. Nesse período, o rendimento total da produção de armamentos aumentou em cinqüenta e nove e meio por cento.

Não havia dúvida: tínhamos posto em movimento reservas não usadas até aquela data.

Apesar dos bombardeios, que estavam começando, no decurso de dois anos e meio tínhamos aumentado nossa produção de armamentos, na média de noventa e oito por cento em 1941, ou, cifra recorde, trezentos e vinte e dois por cento em julho de 1944. Entretanto, o número de pessoas só aumentou em trinta por cento, mais ou menos. Tínhamos logrado, exatamente, o que predissera Rathenau em 1917, tratando da racionalização do trabalho: "Dobrar a produção com as mesmas instalações e os mesmos custos de trabalho".

Ao contrário do que diziam, tais rendimentos não eram de modo nenhum a obra de um gênio. Muitos dos técnicos do meu ministério, homens dotados de grande talento organizador, teriam sido, sem nenhuma objeção, mais apropriados do que eu à execução do programa. Mas, como eu, ninguém podia colocar na balança a minha auréola de pessoa em quem Hitler depositava confiança. Gozar de prestígio e de poder aos olhos de Hitler era tudo.

Aquela minha atividade foi interpretada pelo partido como um desafio e eu pude comprovar aquela reação depois de 20 de julho de 1944. Duramente atacado por todos os lados, eu tive de defender, em carta dirigida a Hitler, o meu sistema de exercício da delegação de responsabilidades.

Mas ocorreu um fato paradoxal, a partir de 1942, na produção dos Estados nossos adversários. Enquanto os norte-americanos, por exemplo, viam-se obrigados a disciplinar de maneira autoritária a estrutura da indústria, nós estávamos tratando de tirar as travas ao nosso sistema econômico regulamentado. Não havendo mais crítica de baixo para cima, no decorrer dos anos, isso resultou na desatenção aos fracassos, erros, enganos no planejamento ou desenvolvimentos paralelos nas chefias do Reich. Mas agora havia grupos onde ocorriam discussões, descobrindo-se defeitos e erros, com a possibilidade de entendimentos sobre o modo de resolvê-los. Muitas vezes, como gracejo, dizíamos que estávamos nos preparando para um regime parlamentar.

Mas não deixa de ser engraçado que aquele sistema fosse olhado com desconfiança pelos chefes das empresas, porquanto, ao iniciar o desempenho das minhas funções, dirigi-lhes uma circular convidando-os a que "me comunicassem suas notas e observações fundamentais, com mais freqüência do que tinham feito até aquela data". Eu esperava uma avalancha de respostas, mas o fato é que minhas palavras não tiveram nenhum eco. Desconfiado, pensei no princípio que não me permitiam utilizar-me do correio. Mas, realmente, não tive nenhuma comunicação do tipo que eu esperava. Segundo eu soube mais tarde, os dirigentes das empresas temiam ser punidos pelos chefes regionais.

Quanto à crítica, era abundante de cima para baixo, mas logo se obtinha o seu complemento, a saber, a crítica do inferior ao superior. Depois de minha nomeação, tive muitas vezes a impressão de estar flutuando no ar, pois minhas decisões alo encontravam nenhuma crítica.

O êxito do nosso trabalho, nós devemos agradecê-lo a milhares de técnicos, que se destacaram pelos extraordinários rendimentos do seu trabalho, e àqueles a quem entregamos a inteira responsabilidade pelo funcionamento de seções inteiras, no terreno dos armamentos. Essa maneira minha de proceder despertou neles o entusiasmo adormecido. Meu estilo heterodoxo de dar ordens aumentou neles o afã de produzir. No fundo, o que eu fiz foi aproveitar a relação, carecida de crítica, entre o técnico e o seu trabalho. À aparente neutralidade moral da técnica impedia-os de refletirem sobre a sua própria tarefa. No decurso do tempo, esse fenômeno ia-se tornando tanto mais perigoso quanto mais empenhado estivesse o técnico em sua tarefa, por imposição das necessidades da guerra, pois o técnico não conhecia diretamente as conseqüências da sua atuação anônima.

Para o desempenho dos meus trabalhos, "eu preferia colaboradores incômodos a esbirros cômodos". O partido, ao contrário, demonstrava profunda desconfiança em relação aos especialistas apolíticos. Sauckel, um dos mais radicais chefes do partido, opinava que se deveria ter fuzilado, como primeira medida, alguns dirigentes de empresas, assim os demais teriam reagido, dando melhor rendimento.

Permaneci dois anos em uma situação inatacável. Mas, depois do atentado militar de 20 de julho de 1944, Bormann, Goebbels, Ley e Sauckel tomaram a desforra. Por isso escrevi uma carta a Hitler, dizendo-lhe que eu não me sentia bastante forte para continuar com êxito os meus trabalhos, se estes tivessem de ser avaliados em relação a interesses políticos.

Os colaboradores do meu ministério não filiados ao partido desfrutavam no Estado hitlerista de uma proteção legal invulgar, porquanto, contrariando a oposição do ministro da Justiça, eu tinha conseguido que ficasse estabelecido, logo depois do início da minha ação no ministério, que o processo criminal por danos, no setor dos armamentos, só pudesse ser iniciado por minha solicitação. Isso continuou protegendo meus colaboradores, mesmo depois do dia 20 de julho de 1944. Ernst Kaltenbrunner, chefe da Gestapo, consultou-me sobre se os três diretores-gerais, Bücher (da AEG), Võgler (da Vereinigten Stahlweryen) e Reusch (da companhia siderúrgica Gutehoffnungshütte), teriam de ser ou não submetidos a processo por suas manifestações "derrotistas". Respondi que o nosso trabalho exigia franqueza, quando falávamos sobre a situação, e isso evitou-lhes a prisão. Por outro lado, tinham sido estabelecidos duros castigos para os colaboradores que abusassem da confiança instituída por nosso sistema, por exemplo, monopolizando matérias-primas importantes e assim impedindo a remessa de armas para o front, mediante indicações falsas que não poderíamos descobrir.

Desde o primeiro dia, nossa organização foi considerada provisória. Assim como eu desejava voltar à arquitetura, terminada a guerra – e nesse sentido pareceu-me necessária a firme promessa de Hitler –, achei oportuno prometer à intranqüila chefia da indústria que nosso sistema de organização estava delimitado pela duração da guerra. Não se podia pensar que, durante a paz, as empresas tivessem de renunciar aos seus homens inteligentes, nem que tivessem de colocar seus conhecimentos à disposição das fábricas concorrentes.

Não somente eu queria dar um caráter de transitoriedade à organização como também me esforcei por manter um modo de agir baseado no princípio de improvisação. Eu receava com tristeza que os processos burocráticos acabassem predominando no meu setor. Insistia com meus colaboradores para não adotarem a rotina da redação de atas, para anularem, logo no início, sem nenhuma cerimônia na conversação, mediante referências obtidas por telefone, o nascimento de "processos", segundo se denominava em linguagem oficial a redação de uma ata. Além disso, os ataques aéreos às cidades alemãs obrigaram-nos a constante improvisação. No entanto, algumas vezes, até achei benéficos aqueles ataques. Houve de minha parte uma reação irônica, depois da destruição do meu ministério, no dia 22 de novembro de 1943.

– Se é verdade que tivemos a sorte de ver queimada grande parte das atas de rotina, no ministério, o que nos livrou por algum tempo de um lastro desnecessário, nem por isso iremos supor que tais acontecimentos concorram sempre para dar animação e vivacidade aos nossos trabalhos.

Apesar de todos os progressos técnicos e industriais, a produção de armamentos durante a Primeira Guerra Mundial estivera acima da nossa, mesmo durante o período dos êxitos militares, nos anos de 1940 e 1941. Durante o primeiro ano da campanha da Rússia, só se alcançou a quarta parte da produção de canhões e munição realizada no outono de 1918. Mesmo três anos depois, na primavera de 1944, quando, após todos os esforços feitos, estávamos nos aproximando do máximo de nossa produção, o fabrico de munições continuou inferior ao da Primeira Guerra Mundial, considerando-se o total da antiga Alemanha, que incluía a Áustria e a Tchecoslováquia.

Na minha opinião, os motivos do retrocesso foram sempre o excesso de burocracia, contra o qual lutei em vão. Por exemplo, o número de pessoas que trabalhavam na Direção-Geral dos Armamentos era dez vezes maior do que o existente na Primeira Guerra Mundial. Meus apelos no sentido da simplificação da administração constam dos meus discursos e cartas desde 1942 até os fins de 1944. Quanto mais eu continuava meu ataque à burocracia tipicamente alemã, cujas tendências eram reforçadas pelo autoritarismo do sistema, tanto mais minha crítica à tutela estatal da economia bélica ia adquirindo o caráter de dogma político, que eu aplicava a todos os processos. Na manhã de 20 de julho de 1944, poucas horas antes do atentado, escrevi a Hitler uma carta, na qual lhe dizia que os russos e os norte-americanos sabiam agir com meios simples, sob o aspecto de organização, obtendo por isso maior rendimento. Nós, devido a nossas antiquadas formas de organização, não conseguíamos alcançar resultados comparáveis aos daqueles nossos dois adversários. Esta guerra – acentuava eu em minha carta – era também uma luta entre dois sistemas de organização: a "luta do nosso sistema de organização, praticado com exagero contra a arte da improvisação seguida pelos adversários". Se não adotássemos outro sistema de organização a posteridade seria testemunha da derrota do nosso sistema antiquado, amarrado pela tradição e pouco ágil.

 

                                     OMISSÕES

Uma das mais assombrosas experiências dessa guerra foi ter Hitler pretendido evitar ao seu povo aqueles sacrifícios que Churchill ou Roosevelt impuseram aos seus, sem nenhuma consideração. A discrepância entre a mobilização total de todas as forças da democrática Inglaterra e a descuidada maneira como se tratou da questão na Alemanha caracteriza a preocupação sentida pelo regime em relação ao favor popular. Os membros da estrutura governamental não queriam submeter-se a sacrifícios, nem impô-los à nação, que eles insistiam em manter o mais contente possível, mediante concessões. Hitler e a maioria dos seus colaboradores políticos pertenciam à geração que vivera na situação de soldados da Revolução de 1918, e não se esqueciam disso. Em suas conversas particulares, freqüentemente Hitler dava a entender que, após a experiência de 1918, jamais alguém seria bastante cauteloso. E, para evitar que surgisse qualquer descontentamento, gastou-se muito mais do que nos países democráticos, sob a forma de fornecimento de artigos de consumo, de pensões de guerra, de indenizações às esposas cujos maridos não podiam trabalhar por terem sido mobilizados. Enquanto Churchill ofereceu ao seu povo apenas "sangue, suor e lágrimas", para nós, em todas as fases e crises da guerra, teve valor a frase de Hitler, repetida com incessante monotonia: "Temos segura a vitória final". Isso era uma confissão de debilidade política. Na frase aparecia o receio da perda do favor popular, perda que também se traduziria em crise na política interna.

Alarmado pelos reveses na frente russa, pensei, já na primavera de 1942, não somente em uma mobilização total de todas as fontes auxiliares, mas também acentuei que "a guerra tem de terminar no mais breve prazo possível; do contrário, a Alemanha perderá. Temos de vencer antes do fim de outubro, antes de começar o inverno russo. Se não for assim, perderemos a guerra, para sempre. Também só podemos ser vencedores com as armas de que dispomos agora, não com as que possuiremos no ano vindouro". Não sei como esta análise da situação chegou à redação do Times, que a publicou no dia 7 de setembro de 1942. O artigo naquele jornal resumia as opiniões, naquela época concordes, de Milch, Fromm e minhas: "Nosso sentimento nos diz a todos que, para nós, este ano será o período crítico da nossa história". Isso eu o afirmei, também publicamente, em abril de 1942, sem suspeitar de que o período crítico, a mudança total da nossa situação, estava a ponto de se efetivar com o cerco do VI Exército em Stalingrado, com o aniquilamento dos Afrikakorps, com as vitoriosas operações de desembarque dos Aliados na África do Norte, com os primeiros ataques aéreos em massa às cidades alemãs. Também nos encontrávamos em posição crucial no terreno da economia bélica, pois que esta estivera orientada, até o outono de 1941, no sentido das guerras curtas com grandes intervalos de trégua. Mas, agora, começava a guerra permanente.

Em minha opinião, a mobilização de todas as reservas teria de começar pelos maiorais da hierarquia do partido. Isso me parecia justificado, pois Hitler tinha declarado solenemente perante o Reichstag, no dia 1.° de setembro de 1939, que não havia privação nenhuma à qual não estivesse disposto a submeter-se.

Realmente, Hitler deu então autorização para se paralisarem todos os projetos de obras, incluindo-se as promovidas por ele, como as de Obersalzberg. Apoiei-me nessa disposição dele, quando, quinze dias depois de ter iniciado minha atuação no ministério, falei diante do nosso mais difícil auditório: o constituído pelos chefes nacionais e regionais. Disse-lhes que eu recebera instruções do Fuhrer, no sentido de informá-lo de qualquer perturbação em nosso esforço no terreno da produção de armamentos. Esclareci que os planos de cada um de nós teriam de estar subordinados aos dos objetivos militares, de modo que seriam paralisadas as obras de caráter supérfluo.

Eu estava convencido de que todos os meus ouvintes corresponderiam ao meu apelo, não obstante a leitura monótona do meu discurso. Mas, depois da reunião, vi-me rodeado por numerosos chefes de região e de comarcas que desejavam obter autorizações especiais para continuarem os seus projetos de construção.

O primeiro foi o próprio chefe nacional, Bormann, que obtivera uma contra-ordem de Hitler, vacilante neste particular. Os trabalhadores de Obersalzberg que se utilizavam de caminhões e consumiam combustível e outros materiais ficaram lá até o fim da guerra, embora, mediante autorização de Hitler, eu tivesse renovado a ordem de paralisação dos trabalhos.

Depois, foi o chefe regional Sauckel, que se aproximou de mim com a intenção de obter garantias para a construção em Weimar do seu "foro do partido". Também esse chefe regional continuou fazendo obras, até o fim da guerra. Robert Ley lutou pela construção de chiqueiros em sua fazenda-modelo. Explicou que eu teria de deferir a sua petição, pois a criação de porcos tinha importância para o abastecimento de carne. Rejeitei o seu pedido, por escrito, e para envaidecê-lo tratei-o como segue: "Ao chefe da organização do NSDAP e chefe da Frente Alemã do Trabalho. Assunto: suas pocilgas".

Mesmo depois desse apelo a toda a chefia do partido, o próprio Hitler, além de continuar as obras em Obersalzberg, mandou transformar em luxuosa residência para hóspedes o Palácio de Klessheim, nas proximidades de Salzburgo. A remodelação desse palácio, que estava em péssimas condições de conservação, consumiu muitos milhões de marcos. Himmler construiu perto de Berchtesgaden uma grande casa de campo para sua amante. Fez isso com tamanha cautela que eu soube dessa construção somente poucas semanas antes do fim da guerra. Em 1942, Hitler estimulou um chefe regional a reformar o Palácio de Posen e um hotel, trabalhos que exigiam grande dispêndio de materiais racionais, influindo nele para que também construísse uma residência particular nas proximidades da cidade. Também nos anos de 1942 e 1943 foram fabricados trens especiais para Ley, Keitel e outros, não obstante aquele fabrico exigir o emprego de valiosas matérias básicas e a colaboração de especialistas. Além disso, a maioria dos projetos para os funcionários do partido ficavam ocultos, sem que eu tomasse conhecimento deles. Em verdade, dado o prestígio dos chefes nacionais e regionais, eu não podia exercer nenhuma vigilância, e sim apenas vetar um ou outro -desses projetos, veto que aliás não era respeitado.

Depois de nove anos de exercício do poder, os maiorais do partido, corrompidos, não podiam renunciar ao seu luxuoso estilo de vida. Todos eles, para "sua representação", necessitavam de grandes casas, fazendas e palácios, um serviço abundante, uma mesa opulenta, uma adega escolhida. O próprio Hitler ordenou que, quando ele fosse a algum lugar, as primeiras obras a executar fossem os refúgios para a sua proteção pessoal. Afinal, houve sistemas de refúgios em Rastemburgo, Berlim, Obersalzberg, Munique, no palácio dos hóspedes, próximos de Salzburgo, nos quartéis-generais de Nauheim e Somme. Em 1944, mandou abrir na rocha das montanhas da Silésia e da Turíngia dois quartéis-generais subterrâneos. Para isso foi necessário o concurso de centenas de técnicos em minas e milhares de trabalhadores.

O medo de Hitler e a supervalorização da sua pessoa induziam os que o acompanhavam a se protegerem de modo exagerado. Goering mandou construir, não somente em Karinhall, mas também no distante Castelo de Veldenstein, próximo de Nuremberg, que quase nunca visitava, uma extensa instalação subterrânea. A rodovia de Karinhall a Berlim, com setenta quilômetros de extensão, teve de ser provida de refúgios de concreto, em intervalos regulares. Quando Ley viu com seus olhos o efeito causado por uma bomba em um refúgio antiaéreo público, só se interessou na espessura do teto perfurado, para compará-lo com o do seu refúgio aéreo particular, situado no distrito de Grünewald, pouco ameaçado. E os chefes regionais, valendo-se de uma ordem de Hitler, convencido de que tais chefes eram insubstituíveis, mandaram construir mais refúgios fora das cidades.

De todas as questões importantes que enfrentei, durante as primeiras semanas de exercício no ministério, a mais urgente foi a do operariado. Certa vez, já noite alta, visitei uma das mais importantes empresas de fabricação de armamentos – a Rheinmetall-Borsig –, e vi lá valiosas máquinas paralisadas pela falta de operários. Acontecia o mesmo em outras indústrias de armamentos. Ademais, durante o dia tínhamos de contar com o fornecimento de energia, enquanto a curva de trabalho diminuía consideravelmente durante as últimas horas da tarde e à noite. Ora, estavam sendo construídas novas instalações que custariam, aproximadamente, onze bilhões de marcos, para as quais iriam faltar as indispensáveis máquinas e ferramentas. Pareceu-me mais sensato paralisar a maioria dessas novas obras e utilizar em um segundo turno de trabalho a mão-de-obra que assim ficaria livre.

Hitler acolheu com agrado esta proposta lógica e assinou um decreto reduzindo o volume de construções para três bilhões de marcos. No entanto, opôs dificuldades à execução do decreto, porque iriam ser paralisados projetos de construção a longo prazo da indústria química no valor aproximado de um bilhão de marcos. Continuava como sempre querendo todas as coisas ao mesmo tempo. Fundamentou sua oposição com as seguintes palavras:

– É bem possível que termine logo a guerra contra a Rússia. Mas eu tenho planos de largo alcance, para os quais necessitarei de mais carburante sintético. Devem ser construídas novas fábricas, embora sejam necessários anos para construí-las.

Um ano mais tarde, em 2 de março de 1943, teve de concordar em que não havia "nenhum objetivo na construção de fábricas, que estavam previstas para os grandes programas do futuro e que somente começariam a dar rendimento depois de 1.° de janeiro de 1945". Hitler na primavera de 1942, cometeu o erro de supor houvesse então uma sobrecarga em nossa produção de armamentos, erro que veio se fazer sentir em setembro de 1944, quando a situação bélica já era catastrófica.

Embora a decisão de Hitler tenha prejudicado consideravelmente meu projeto de paralisar uma grande parte da indústria de construções, ficaram livres, no entanto, cerca de cem mil operários que estavam ocupados nela e que poderiam ser transferidos para o setor dos armamentos. Mas aí surgiu um novo e inesperado obstáculo: o diretor-geral do "grupo de emprego de trabalhadores no Plano Quadrienal", Dr. Mansfeld, explicou-me com franqueza que carecia de autoridade para trasladar de uma região para outra os operários das construções, os quais tinham ficado desempregados, se os chefes regionais se opusessem a tal transferência. Apesar das rivalidades e intrigas, os chefes regionais formavam, de fato e instantaneamente, um bloco sólido, quando um deles fosse ferido em seus "direitos de soberania". Vi claramente que, apesar da solidez da minha posição, naquela época, eu jamais poderia dominá-los sozinho. Eu necessitava de um deles, dotado de plenos poderes, concedidos por Hitler, para solucionar aquelas dificuldades. Escolhi um velho amigo meu, durante muitos anos subsecretário de Goebbels, Karl Hanke, que desde janeiro de 1941 era um dos membros daquele grupo, na qualidade de chefe regional da Baixa Silésia. Hitler concordou com a nomeação de um delegado com plenos poderes, que me ajudasse no desempenho das minhas funções. Bormann contrariou-me, desta vez com êxito, pois Hanke era considerado um dos meus partidários. Sua nomeação equivaleria não só a um reforço do meu prestígio como também a uma intromissão na esfera da hierarquia do partido, regida por Bormann.

Hitler continuou de acordo com os meus propósitos, quando eu os expus, alguns dias depois, mas rejeitou minha proposta pessoal:

– Hanke é um chefe regional muito moço e teria dificuldade em conseguir o necessário respeito. Falei sobre o assunto com Bormann. Nomearemos Sauckel.

Bormann conseguira a nomeação de Sauckel, que iria continuar subordinado a ele. Goering protestou com toda razão, pois se tratava de um caso que teria de ser resolvido dentro dos limites do Plano Quadrienal.

Alguns dias depois, Sauckel e eu fomos convocados ao quartel-general de Hitler. Entregando o título de nomeação a Sauckel, e repetindo o que já dissera em 9 de novembro de 1941, Hitler observou:

– O território que se acha ao nosso serviço compreende mais de duzentos e cinqüenta milhões de pessoas. Não se duvide que conseguiremos submeter toda essa gente ao jugo do trabalho.

Hitler então ordenou a Sauckel que recrutasse, sem nenhuma distinção de origem, todos os operários necessários a todos os setores. Assim teve início uma trágica fragmentação do meu trabalho no ministério. Durante as primeiras semanas, não houve nenhum atrito. Sauckel prometera a Hitler e a mim solucionar todas as deficiências de pessoal, mediante a substituição pontual de todos os operários chamados ao serviço da Wehrmacht.

Mas, em resumo, as promessas de Sauckel não se cumpririam. Já em 1942, havia um déficit de mais de um milhão de homens na indústria bélica, em conseqüência da convocação de jovens para a Wehrmacht. Por outro lado, as esperanças de Hitler, no sentido de tirar de uma população de atos e cinqüenta milhões de pessoas o número de trabalhadores necessários à Alemanha, tropeçavam em duas dificuldades: uma, a incapacidade funcional dos elementos alemães que atuavam nos territórios ocupados; outra, que os convocados preferiam fugir para as florestas, a fim de lutar como guerrilheiros, a ir para a Alemanha trabalhar.

Além disso, quando começaram a chegar os primeiros grupos de trabalhadores estrangeiros, os dirigentes das fábricas se queixaram de vários inconvenientes. Primeiro, que os serviços de espionagem e de sabotagem inimigas alcançariam seus objetivos, introduzindo agentes nos grupos desses operários estrangeiros, técnicos que ocupavam postos-chave. Havia ainda o problema da diferença de idiomas, necessitando-se de muitos intérpretes que atuassem junto aos trabalhadores trazidos por Sauckel.

Foi então que alguns dos meus colaboradores me mostraram estatísticas relativas ao trabalho das mulheres, durante a Primeira Guerra Mundial. Exibiram-me também fotografias da saída dos operários de uma fábrica de munições, em 1918 e em 1942. Na de 1918, via-se a preponderância das mulheres sobre o número de homens, ao contrário do que estava ocorrendo em 1942, com a maioria de homens. Também me demonstraram, com fotografias de revistas britânicas e norte-americanas, que na Inglaterra e nos Estados Unidos era muito maior do que na Alemanha o número de mulheres empregadas nos trabalhos da produção de armamentos.

Quando, em começos de abril de 1942, pedi a Sauckel providencias no sentido de se utilizar a mulher alemã na produção de armamentos, ele respondeu-me, sem rodeios, que era de sua exclusiva competência recrutar operários, distribuí-los e escolher os lugares onde tivessem de trabalhar. Também, na qualidade de chefe regional, estava subordinado somente a Hitler, sendo responsável somente perante o Fuhrer. Afinal, propôs-me deixar a decisão do assunto nas mãos de Goering, como delegado do Plano Quadrienal. Goering sentiu-se muito envaidecido com a entrevista, realizada em Karinhall. Demonstrou muita amabilidade com Sauckel, tendo para comigo uma atitude reservada. Mal consegui expor meus argumentos, porquanto Goering e Sauckel interrompiam-me a cada instante. O mais importante argumento de Sauckel era o risco que havia para a mulher alemã, no trabalho das fábricas, onde não somente havia possibilidade de ser prejudicada sua "vida anímica", mas também a sua capacidade de ser mãe. Goering concordava com esses argumentos, mas, para sua segurança absoluta, Sauckel, sem que eu soubesse, solicitou a anuência de Hitler.

Foi aquele o primeiro golpe desferido contra a minha posição, até então inatacável. Sauckel comunicou sua vitória aos colegas em uma proclamação, na qual declarava: "Para proporcionar um alívio sensível à mulher alemã, sobretudo as mães de família numerosa, e para não continuar comprometendo sua saúde, o Fuhrer encarregou-me de procurar nos territórios orientais de quatrocentas a quinhentas mil mulheres jovens e fortes, para trazê-las à Alemanha". Mas enquanto na Inglaterra o número de domésticas em 1943 fora reduzido de dois terços, na Alemanha continuou sendo um milhão e quatrocentos mil, ou mais, até o fim da guerra. Soube-se aliás que a maior parte das quinhentas mil ucranianas trazidas para o Reich tinham sido destinadas ao serviço dos funcionários do partido.

A produção de armamentos, nos países em guerra, dependia da distribuição do aço bruto. Durante a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha destinou quarenta e seis e meio por cento do aço bruto à produção de armamentos. No entanto, quando assumi a direção do ministério, verifiquei que a participação dos armamentos no consumo de aço bruto ia apenas até trinta e sete e meio por cento. Propus então a Milch que procedêssemos, conjuntamente, à distribuição das matérias-primas. Assim, tivemos de nos dirigir outra vez a Karinhall, em 2 de abril. Goering falou difusamente sobre vários assuntos, mas afinal concordou conosco quanto à instituição de um centro de direção da planificação, dentro do Plano Quadrienal. Essa "Central de Planificação" não tardou em converter-se no mais importante dispositivo da nossa economia de guerra. Os debates realizavam-se na grande sala de sessões do meu ministério. Prolongavam-se excessivamente, pois aos mesmos acorria um número incalculável de pessoas, entre as quais se contavam ministros e subsecretários, que, apoiando-se em seus auxiliares peritos, freqüentemente lutavam na defesa dos seus interesses rotineiros.

Eu me esforçava para que diminuísse a produção de bens de consumo. Em 1942, consegui reduzir essa produção em uns doze por cento, em benefício da produção de armamentos.

Mas, três meses depois, Hitler lamentou sua decisão de "deslocar toda a produção em benefício dos armamentos". Em 28 de junho de 1942, determinou que haveria de ser restabelecida a fabricação de produtos destinados ao consumo da população civil. Protestei contra essa nova decisão. Argumentei que "essa ordem reforçaria a resistência daqueles que até agora tinham visto com desagrado a preferência dada aos armamentos, no terreno da produção".

Minha intenção de instituir uma economia de guerra total malograra devido às vacilações de Hitler. O aumento da produção de armamentos necessitava não somente de operários e de matérias-primas, como também do bom funcionamento das ferrovias. Mesmo dentro do território alemão, era muito grande o número de trens parados, que não tinham sido despachados aos seus destinos, o que ocasionava atrasos intoleráveis no tráfego dos materiais para os armamentos.

Em 5 de março de 1942, o Dr. Julius Dorpmuller, nosso ministro dos Transportes, homem de pensamento ágil, apesar dos setenta e três anos, acompanhou-me ao quartel-general para expor a Hitler a situação do problema dos transportes. Expus a caótica situação das nossas vias de transporte. Dorpmuller apoiou-me, cautelosamente. Hitler, como sempre, escolheu a interpretação otimista. Adiou a solução das questões mais importantes, sob pretexto de que "as conseqüências não seriam tão graves como supunha Speer".

Duas semanas mais tarde, por minhas instâncias, ele consentiu em nomear um jovem funcionário como sucessor do velho – sessenta e cinco anos – secretário do ministro dos Transportes. Mas Dorpmuller foi irredutível, quando lhe contamos o que pretendíamos: "Velho demais, meu secretário? Se quando eu era presidente de uma das juntas de diretores dos Transportes, em 1922, ele estava apenas começando! É um rapazola!" Ele conseguiu manter as coisas como estavam.

Dois meses depois, entretanto, em 21 de maio de 1942, Dorpmuller não teve outro remédio senão revelar-me:

– As ferrovias alemãs dispõem de tão poucas locomotivas e vagões, mesmo para o território alemão somente, que não se pode atender à execução dos transportes mais urgentes.

Segundo consta das atas das reuniões do ministério, aquela maneira de Dorpmuller expor a situação dos transportes "equivalia a uma declaração de falência das companhias de transportes do Reich". Naquele mesmo dia, o ministro ofereceu-me o posto de "ditador do tráfego", oferta que recusei. Dois dias depois, Hitler solicitou-me que lhe apresentasse o Dr. Ganzenmüller, um jovem especialista em assuntos ferroviários. Durante o último inverno esse rapaz havia restabelecido o tráfego nas estradas de ferro de uma parte do território russo, na área entre Minsk e Smolensk, que ficara totalmente destruída. Hitler ficou impressionado com aquele feito, dizendo:

– Ele me agrada. Eu o nomearei secretário agora mesmo.

Objetei-lhe que se devia consultar antes Dorpmuller, ao que o Fuhrer contestou:

– De modo nenhum. Nem Dorpmuller, nem Ganzenmüller devem saber por enquanto. Eu os chamarei, ao senhor e ao seu jovem, ao meu gabinete, no quartel-general. Também convocarei o ministro dos Transportes, mas separado.

Por ordem de Hitler, Ganzenmüller e Dorpmuller foram introduzidos em barracões distintos, dentro do quartel-general. Por isso, o Dr. Ganzenmüller entrou no gabinete de Hitler não suspeitando de que o seu ministro estava no quartel-general.

Quanto a Hitler, sem a mínima atenção ao Dr. Dorpmuller, aliás ausente, sem nenhuma pergunta ao próprio Ganzenmüller, nomeou-o novo secretário dos Transportes, "por haver demonstrado, na frente, que possuía energia suficiente para restabelecer a ordem na situação de um tráfego em péssimas condições".

Depois dessa nomeação, foram convidados a entrar no gabinete de Hitler o ministro dos Transportes e seu assistente, o Diretor Ministerial Liebbrandt. Disse-lhes o Fuhrer que havia resolvido intervir, pessoalmente, no campo dos transportes, pois a vitória dependia deles. E prosseguiu com um dos seus argumentos típicos:

– Durante a Primeira Guerra Mundial, eu era apenas um soldado desconhecido. Para começar minha nova vida, não contava com ninguém. E comecei onde malograram todos os que pareciam mais capazes do que eu para o exercício de uma chefia. Diziam-me: "Isso é impossível, não se pode fazer nada!" Mas eu jamais me resignei a aceitar isso. Eu dispunha unicamente de minha vontade e com ela consegui impor-me. Toda a minha existência demonstra que jamais me rendo.

Os problemas da guerra têm de ser solucionados. E repito: não existe para mim a palavra "impossível". E repetiu, quase aos gritos:

– Esta palavra não existe para mim!

Somente então comunicou ao ministro dos Transportes que havia nomeado novo secretário para o seu ministério, advindo daí uma situação penosa para o ministro, para seu novo secretário e também para mim.

Naquela ocasião, Hitler determinou que Milch e eu agíssemos, temporariamente, como ditadores, no que se relacionasse com o tráfego. Devíamos cuidar de que as exigências formuladas "fossem atendidas no menor tempo possível e com a maior eficiência". Afinal, Hitler deu por encerrada a reunião, proferindo estas palavras, capazes de desarmar quem quer que fosse:

– Não se deve perder a guerra por causa do problema dos transportes. Portanto, tem de ser solucionado.

E foi solucionado. Mediante providências eficientes, o jovem secretário conseguiu eliminar a paralisação de trens, acelerar o tráfego e satisfazer as crescentes necessidades do transporte de armamentos. Uma comissão ocupou-se de ativar os consertos das locomotivas danificadas pelo inverno russo. Quanto ao fabrico das locomotivas, passou a se efetuar em série, em vez de uma a uma, como se procedia até então. Não obstante o aumento nas remessas de armamentos, manteve-se o tráfego normal. Por outro lado, a diminuição da área territorial sob nossa ocupação significou menor extensão das vias de tráfego. Afinal, os ataques aéreos, sistemáticos desde o outono de 1944, provocaram outra vez uma situação mais grave em nossa economia de guerra.

Voltei a visitar Hitler, uma semana depois da nomeação de Ganzenmüller. Fiel à minha idéia de que os dirigentes deveriam dar exemplo, nos tempos de crise, propus a Hitler que os altos figurões do Reich e do partido não se utilizassem de carros-salões até nova ordem. Naturalmente, eu não pensei em Hitler, quando apresentei a proposta. Ele evitou tomar uma decisão, afirmando que os carros-salões eram necessários no leste, devido às más condições de alojamento. Eu lhe disse então que a maioria dos carros-salões não circulavam no leste, e sim em toda a Alemanha. Mostrei-lhe uma relação em que se liam muitos nomes de altos membros do partido que se utilizavam dos carros-salões. Mas nada obtive.

Eu almoçava na chambre séparée do Restaurante Horcher e lá me encontrava, regularmente, com o Capitão-General Friedrich Fromm. Em um desses encontros, nos fins de abril de 1942, ele me disse que só poderíamos ganhar a guerra se conseguíssemos inventar uma arma de efeitos inteiramente novos. Ele mantinha contato com um grupo de cientistas que procuravam descobrir uma arma capaz de destruir cidades inteiras e até colocar fora de combate toda a Inglaterra. Fromm propôs-me visitar aqueles homens. Parecia-lhe importante uma entrevista com eles.

Também o Dr. Albert Võgler, diretor do maior consórcio alemão do aço, presidente da Kaiser Wilhelm Gesellschaft, falou-me do descaso com relação às pesquisas atômicas. Somente então fiquei a par da dotação insuficiente destinada a essas pesquisas pelo Ministério de Educação e Ciência do Reich. Em 6 de maio de 1942 falei com Hitler sobre o assunto, e propus fosse nomeado Goering, como figura representativa, conselheiro de pesquisas do Reich. Essa nomeação teve a data de 9 de junho de 1942.

Naquela mesma época, os três representantes do setor de armamentos (Milch, Fromm e Witzell), em minha companhia, estiveram reunidos na Harnackhaus, o centro berlinense da Kaiser Wilhelm Gesellschaft, para ouvirmos uns homens legendários, que desejavam expor-nos suas descobertas relacionadas com o fabrico de uma arma decisiva para a guerra. Além desses cientistas, de cujo nome não me recordo, estavam presentes os dois prêmios Nobel, Otto Hahn e Werner Heisenberg.

Depois de algumas exposições experimentais sobre diversos aspectos da pesquisa, Heisenberg prestou uma informação relativa à "desintegração dos átomos e o desenvolvimento da máquina de urânio e do ciclotron". Heisenberg lamentou que a pesquisa nuclear estivesse abandonada pelo ministério competente (o da Educação), queixou-se da falta de dinheiro e de auxiliares cientistas, indicando que, como conseqüência da incorporação de colaboradores científicos nos corpos de tropa, a ciência alemã tinha-se atrasado em um campo que já dominara anos atrás. Disse que recortes de revistas científicas norte-americanas davam a entender que os técnicos dos Estados Unidos dispunham de abundantes recursos, sob todos os aspectos, para levar adiante a pesquisa nuclear.

Heisenberg fora um dos poucos primeiros partidários de Hitler. Ele dissera ao Fuhrer que os judeus exerciam atividade demolidora na física nuclear e na teoria da relatividade. Invocando a opinião do seu ilustre companheiro de partido, Hitler, durante as reuniões na mesa redonda, ocasionalmente qualificava de "física judaica" a física nuclear. Isso não somente foi aereamente acolhido por Heisenberg, mas sem dúvida contribuiu para o ministro da Educação vacilar no apoio à investigação nuclear.

Mas admitamos que Hitler não tivesse aplicado suas doutrinas partidárias ao caso da pesquisa nuclear. Suponhamos também que o estado de nossa investigação básica, em junho de 1942, tivesse permitido aos nossos cientistas a inversão, em vez de vários milhões, de vários bilhões de marcos, no fabrico de bombas atômicas – nossa situação econômica, tensa, teria impedido que aprontássemos os materiais e trabalhadores qualificados, em proporção a tão vultosa quantia.

Não foi somente a superior capacidade de produção dos Estados Unidos que permitiu a essa nação a realização de tal projeto gigantesco. Devido aos ataques aéreos, que sempre aumentavam, a Alemanha chegara, no terreno dos armamentos, a uma situação de penúria, cada vez mais contrária ao desenvolvimento das grandes idéias. Em todo caso, mediante a concentração máxima de todas as suas forças, a Alemanha poderia ter a bomba atômica à sua disposição, em 1947. Nenhuma dúvida havia quanto à impossibilidade de dispormos da bomba ao mesmo tempo em que os Estados Unidos, ou seja, em 1945, pois, devido às nossas últimas reservas do minério de cromo, a guerra teria terminado, o mais tardar, no dia 1.° de janeiro de 1946.

Assim, desde o início das minhas funções no ministério, fui-me defrontando com um erro depois do outro. Hoje adquire um entono particular a frase freqüentemente dita por Hitler no decurso da guerra: "Perderão a guerra aqueles que cometerem mais erros". O próprio Hitler, pela série dos seus erros, em todos os campos, contribuiu para acelerar o término de uma guerra, já perdida por todos os modos, se considerarmos a capacidade de produção em relação a fatores como, por exemplo, o confuso projeto de guerra aérea contra a Inglaterra; a insuficiência de submarinos, no começo das hostilidades; sobretudo, a carência de um plano geral para o desenvolvimento e a direção da guerra. Realmente, têm fundamento as muitas observações de alemães, em suas memórias, que assinalam erros decisivos praticados por Hitler. Mas isto não quer dizer que sem esses erros a Alemanha tivesse podido ganhar a luta.

 

                                 HITLER, GENERALÍSSIMO SUPREMO

Uma das características de Hitler era o diletantismo. Jamais aprendera uma profissão e, afinal de contas, era um intruso em todas. E, como outros autodidatas, não percebia o sentido da verdadeira especialização. Por isso, inconsciente das complexas dificuldades inerentes a qualquer iniciativa de importância, mostrava-se insaciável na aquisição de novos e novos encargos. Carecendo de experiências anteriores, sua rapidez de compreensão levava-o a adotar medidas insólitas, que jamais ocorreriam a um especialista em dada matéria. Os êxitos estratégicos de Hitler, nos primeiros anos da guerra, são perfeitamente atribuíveis ao seu desconhecimento das regras do jogo, às suas imprevisíveis tomadas de decisões, próprias de leigo. Como o adversário obedecia a regras, que o autodidata Hitler desconhecia ou não empregava, houve surpresas que, juntamente com a superioridade militar, possibilitaram as primeiras condições prévias dos seus êxitos. Mas, como acontece com a maioria dos inexperientes, naufragou logo que surgiram os primeiros reveses. O seu desconhecimento das normas de ação, em cada caso, deixou afinal de ser vantagem. Mas, por isso mesmo, quanto maiores os insucessos, maior era a raiva, um dos efeitos da ineficácia do seu diletantismo. Durante muito tempo, a sua força estava nas decisões surpreendentes e inesperadas. Mas isso acabou resultando em derrota.

Com um intervalo de três semanas, eu saía de Berlim, rumo ao quartel-general de Hitler. Primeiro, ao da Prússia Oriental, depois ao da Ucrânia, a fim de receber sua decisão a respeito de muitos detalhes técnicos, nos quais ele se interessava como generalíssimo do Exército. Hitler conhecia todas as espécies de armas e de munições, os calibres respectivos, o comprimento dos canhões e seu alcance. Também sabia quais eram os depósitos, os armamentos mais importantes armazenados e a produção mensal dos mesmos. Podia comparar nossos fornecimentos com os programas de produção e tirar as conclusões adequadas.

A ingênua alegria de Hitler, o empenho em brilhar no terreno dos armamentos, referindo-se a dados pormenorizadamente, como antigamente fizera com relação a automóveis ou a obras em construção, demonstrava às claras que ali ele agia como amador. As informações, ele as colhia de um grande livro encadernado, de capa vermelha, com uma faixa transversal amarela. Sempre estava em sua mesa-de-cabeceira, à noite. No transcurso de uma conferência com militares, soando alguma vez corrigia uma informação que lhe dessem, O criado ia buscar o mencionado catálogo. Abria-se o livro, confirmava-se uma ou outra vez os dados referidos por Hitler, ficando a descoberto a ausência de informação da parte do general a quem competia a prestação de dados. A memória de Hitler era o terror de todos os que lidavam com ele.

Hitler podia assim intimidar a maioria dos oficiais que o rodeavam, mas sentia-se inseguro quando se defrontava com um verdadeiro especialista. Nem insistia em sua opinião, quando tropeçava com a resistência de um perito na matéria. Por conseguinte, para aproveitar-me do respeito de Hitler aos especialistas, levava sempre comigo técnicos abalizados para participar das conferências minhas com o Fuhrer. Daquela forma, via-me livre do pesadelo das "conferências" com o Fuhrer, nas quais ele procedia a um bombardeamento de perguntas sobre números e dados técnicos. Normalmente, eu me apresentava acompanhado de uns vinte especialistas. Não tardaram os freqüentadores do quartel-general a se divertir com as Invasões de Speer. Segundo os pontos sobre os quais iríamos tratar na conferência, que se realizava em uma sala do quartel-general, contígua aos aposentos de Hitler, eu levava de dois a quatro dos meus colaboradores.

Durante as conferências, eu procurava manter-me o mais afastado possível. Começava com uma breve alusão ao tema e depois cedia a palavra ao especialista. Os técnicos não se impressionavam com a encenação em que figurava Hitler, cercado de numerosos generais, ajudantes, zonas de vigilância, zonas restritas, passes. O prolongado exercício da profissão levava-os a ter consciência da sua categoria e da sua responsabilidade. A troca de idéias, às vezes, degenerava em acesas discussões ou então em gracejos. Mas, quando estava em um meio assim, Hitler tratava bem os meus assistentes, dando-lhes impressão de modéstia e de cortesia. Também, utilizava-se de discursos para sufocar as contestações. Em todo caso, podia distinguir o fundamental do acessório, surpreendendo pela rapidez com que fazia escolha das possibilidades de solução dos assuntos, expondo racionalmente o motivo da escolha. Não lhe era difícil orientar-se no labirinto dos processos técnicos, dos diagramas e desenhos. Decerto, não percebia as desvantagens dessa maneira de tratar com especialistas, mas de qualquer modo demonstrava sua vivacidade de argumentação. Jamais eu pude predizer o resultado de cada uma das nossas conferências. Às vezes, autorizava uma proposta sem descerrar os lábios, quando tal proposta tinha poucas probabilidades de ser aceita. Em outras ocasiões, negava, obstinadamente, autorização para que se executassem providências que ele aprovara pouco tempo antes.

Certamente, o horizonte técnico de Hitler, sua imagem do mundo, sua concepção de arte, seu estilo de vida estavam delimitados pela fronteira da Primeira Guerra Mundial. Sob o aspecto técnico, seus interesses orientavam-se, unilateralmente, para as armas tradicionais, Exército e Marinha, para as quais propunha, com muita freqüência, inovações convincentes e úteis. Entretanto, não tinha visão larga para as novidades – radar, aviões de caça, foguetes. Quando, raras vezes, voava no novo avião, Condor, preocupava-se com a possibilidade de não funcionar o trem de aterragem. Muito desconfiado, dizia que preferia viajar em aparelhos que tivessem o trem de aterragem fixo.

Finda uma conferência, quando vinha a noite e ele se reunia aos seus assistentes militares, expunha-lhes os conhecimentos técnicos que obtivera, discorrendo sobre os mesmos como se fossem de sua autoria.

Quando apareceu o tanque russo T-34, ele assumiu ares de triunfador ao assinalar que já tinha sugerido que os nossos tanques tivessem um canhão do comprimento do que havia no soviético. Antes de eu ser nomeado ministro, conversando com Hitler, no jardim da chancelaria do Reich, depois da apresentação do Panzer IV, ouvi-o queixar-se amargamente da teimosia da Diretoria-Geral de Armamentos do Exército, que não demonstrara nenhuma compreensão ao seu pedido para que fosse aumentado o comprimento do canhão, que resultaria em maior velocidade do projétil. O argumento da diretoria era o seguinte: uma vez que o tanque não fora construído para um canhão mais extenso, se lhe colocassem um canhão mais comprido haveria uma sobrecarga na parte dianteira do tanque, havendo portanto o perigo de o tanque desequilibrar-se.

– Ninguém quis me dar crédito. No entanto eu tinha razão, como se está vendo agora.

O Exército queria um tanque mais veloz e leve do que o T-34, a fim de superá-lo com mais facilidade de manobra. Mas Hitler insistia em que era mais vantajoso contar-se com maior força de penetração do projétil e, ao mesmo tempo, com melhor proteção, na base de uma blindagem mais resistente. Costumava fundamentar seus pontos de vista com exemplos dos navios de guerra:

– Em uma batalha naval quem possuir canhões de maior alcance poderá fazer fogo a maior distância. E se, além disso, tiver a blindagem mais forte... Ele deve necessariamente ser superior. Que querem os senhores? Ao navio mais rápido resta só uma vantagem: usar maior velocidade para escapar. Ou pretendem os senhores convencer-me de que a maior velocidade permite a um navio gozar de vantagem sobre outro com blindagem e artilharia mais fortes? Pois bem, estes mesmos princípios se aplicam também aos tanques. Os mais leves e velozes terão de fugir em um encontro com os mais pesados.

Em 1942, Hitler evitava cortar tais discussões com um simples "ordeno e mando". Ainda ouvia calmo as objeções e com a mesma calma expunha seus argumentos, que no entanto tinham um valor especial.

O Tigre fora projetado, inicialmente, para um peso de cinqüenta toneladas, depois elevado para setenta e cinco por exigência de Hitler. Sendo assim, resolvemos fazer um novo tanque de trinta toneladas, cujo nome, Pantera, designaria maior agilidade. Para esse peso bem menor deveria ser usado o mesmo motor do Tigre, o que significaria uma velocidade muito maior. Mas no correr do ano Hitler uma vez mais insistiu em reforçar-lhe a blindagem e acrescentar-lhe canhões maiores, tendo o peso afinal resultado em quarenta e cinco toneladas, ou seja, praticamente o peso original do Tigre. Para compensai essa estranha transformação do ágil Pantera em Tigre lento, fabricamos posteriormente uma série de tanques menores, mais leves e velozes. E, a fim de tranqüilizar e também alegrar Hitler, Porsche desenhou um tanque superpesado, de mais de cem toneladas, o qual só poderia ser fabricado em pequena escala. Para confundir a espionagem inimiga, demos-lhe a designação de Rato.

Certa vez, Hitler mandou chamar o General Buhle, a quem formulou a seguinte exigência:

– Acabo de saber que o inimigo tem um tanque com blindagem muito superior à dos nossos. O senhor já tem informações a respeito? Se for verdade, então imediatamente tem de ser fabricado um novo canhão antitanque. O poder de penetração será de... o calibre do canhão há de ser aumentado. Em resumo, deve-se reagir imediatamente! Instantaneamente!

O erro fundamental estava em ter sido Hitler elevado à função de comandante supremo da Wehrmacht e também do Exército, estando "enamorado" dos tanques. Tais questões eram de praxe debatidas por oficiais do Estado-Maior central, pelos da Diretoria-Geral de Armamentos do Exército e outros da comissão de armamentos da indústria. O generalíssimo do Exército só deveria intervir em casos de urgência extrema.

Também Hitler não tinha a mínima compreensão do fornecimento de peças sobressalentes às unidades mecanizadas. O inspetor-geral dos corpos de carros blindados, General Guderian, falou-me muitas vezes a respeito desse problema. Disse-me que um reparo rápido requeria apenas uma fração do tempo necessário ao fabrico de um tanque. O reparo de tanques proporcionaria portanto um número bastante de carros de combate, sem os gastos e o tempo exigidos pelo fabrico dos novos tanques. Hitler insistiu na prioridade do fabrico de tanques novos; o trabalho de reparo dos carros avariados, nesse caso, seria vinte por cento menor.

O Capitão-General Fromm, em cuja jurisdição ocorriam esses problemas, sendo ele chefe da reserva do Exército, acompanhou-me algumas vezes em minhas visitas a Hitler. Fromm exprimia-se com muita clareza, tinha firmeza na exposição dos argumentos, sendo também dotado do tato de um diplomata. Sentado, a espada em posição vertical entre os joelhos e mãos cruzadas no copo da arma, dava a impressão de um homem de acentuada energia. Acredito que por sua grande capacidade de ação ele teria impedido que se cometessem erros no quartel-general do Fuhrer. De fato, sua influência aumentou, depois de algumas conferências. Mas não tardaram as animosidades ostensivas, tanto da parte de Keitel, que via ameaçada sua posição, como da de Goebbels, que informou a Hitler tratar-se Fromm de um homem de duvidosa confiança política. O próprio Hitler teve uma desavença com Fromm, a respeito de uma questão de abastecimento. Logo depois me disse que não o levasse mais comigo ab quartel-general.

Em suma, tive a impressão de que Hitler tratava de diminuir sua responsabilidade militar, refugiando-se naquelas intermináveis conferências sobre armamentos e produção bélica. Pensei comigo que ele encontrava naquelas horas de discussão um alívio semelhante ao de outrora, quando falávamos dos nossos planos e projetos arquitetônicos. Naquelas conferências, desperdiçavam-se muitas horas, perdendo ele o seu tempo, mesmo quando havia urgência em uma solução. E isso ocorria quando os marechais e ministros tinham urgência em falar-lhe.

Nossas conferências, geralmente, eram seguidas da exibição de novas armas, experimentadas em um campo nas proximidades. Se tínhamos falado com o Fuhrer em tom coloquial, naqueles momentos a situação era outra, pois tínhamos de nos colocar de acordo com as exigências da hierarquia militar, estando presente o chefe do Alto-Comando da Wehrmacht, Marechal Keitel. Quando Hitler chegava, Keitel mencionava os nomes dos generais e técnicos presentes. Hitler dava grande valor àquela cerimoniosa apresentação, acentuando ainda mais o caráter formal do encontro, ao dirigir-se para o campo, situado apenas a uns cem metros, em seu carro oficial, sentando-me eu na parte de trás, como de costume.

O grupo dissolvia se logo após a comunicação, a cargo de Keitel. Hitler pedia que lhe mostrassem os detalhes, entrava no carro, para voltar ao quartel-general, e depois ia discutir com os especialistas no ramo. Hitler e eu manifestávamos nossa opinião com expressões deste teor: "Que canhão mais elegante!", ou: "Que linhas bonitas as deste tanque!" – o que era um ridículo retrocesso à terminologia que ambos usávamos quando examinávamos as maquetes das nossas obras a serem construídas.

Durante uma daquelas inspeções, Keitel tomou um canhão de setenta e cinco milímetros, antitanque, por um morteiro leve de campanha. No momento, Hitler nada disse, mas quando regressávamos ao quartel ele gracejou a respeito daquele equívoco do chefe militar, dizendo:

– Ouviram? Keitel e o canhão antitanque! E trata-se de um general da artilharia!

Em outra ocasião, a Luftwaffe exibiu, em um campo próximo, o grande número de tipos e variantes do seu programa de produção, a fim de serem examinados por Hitler. Goering tinha reservado para ele próprio o privilégio de dar explicação ao Fuhrer sobre cada um dos tipos de avião. O seu estado-maior lhe havia redigido uma lista, com os nomes dos aparelhos, condições de vôo e outros dados, tudo de acordo com a ordem em que tinham sido dispostos os modelos. Mas Goering ignorava a omissão na lista do nome de um dos aparelhos, motivo pelo qual os nomes seguintes foram mencionados erroneamente. Hitler percebeu o engano, mas fingiu que não tinha notado o erro involuntário do seu marechal-do-ar.

Nos últimos dias de junho de 1942, li em um jornal, como aliás qualquer outro alemão podia fazê-lo, que se iniciara uma ofensiva no leste. No quartel-general havia um grande movimento. Utilizando-se de um mapa mural, Schmundt, primeiro ajudante-de-ordens de Hitler, dava informações ao pessoal civil, em serviço no quartel-general, sobre o avanço das tropas. Hitler estava eufórico. Mais uma vez estava com a razão, perante os seus generais, que lhe tinham desaconselhado a ofensiva, recomendando ao contrário uma tática defensiva com melhorias ocasionais na frente.

Também o General Fromm mostrou-se confiante, embora, no começo da ofensiva, me tivesse dito que o alarde era um luxo na situação de "pobres homens" em que nos encontrávamos. A ala esquerda, que progredia para leste de Kiev, estava se estendendo e os efetivos se aproximavam de Stalingrado. Fizeram-se esforços extraordinários para a manutenção do imprescindível tráfego ferroviário, nos territórios recém-conquistados, a fim de se manter o abastecimento e o envio de reforços.

Cerca de três semanas depois do começo do vitorioso avanço, Hitler transferiu-se para um quartel-general avançado, nas imediações da cidade de Vinnitsa, na Ucrânia. Como os russos não atacavam com aviões e o Ocidente estava muito longe, sem preocupar Hitler, ele não exigiu a construção de casamatas no local. Em vez de um conjunto de obras de concreto, surgiu uma colônia de casas, de aspecto agradável, disseminadas no bosque.

Aproveitei os meus vôos ao quartel-general para, em horas livres, ir a diversos pontos do país. Fui a Kiev, onde vi que, depois da Revolução de Outubro, as construções tinham tido a influência de vanguardistas como Le Corbusier, May ou El Lissitzky, passando, posteriormente, já no tempo de Stálin, a adotar as linhas de um classicismo conservador. A Casa de Conferências de Kiev, por exemplo, poderia ter sido desenhada por um bom aluno da École des Beaux-Arts. Uma das mais famosas igrejas de Kiev estava reduzida a escombros. Disseram-me que tinha sido utilizada como paiol de munições pelos russos e que por isso, em um acidente, explodira. Entretanto, mais tarde, Goebbels contou-me que a igreja fora minada por Erich Koch, "comissário do Reich para a Ucrânia", que a fizera voar pelos ares para destruir o símbolo do orgulho nacional ucraniano.

Outras viagens levaram-me ao centro industrial de Dniepropetrovsk, onde o que mais me impressionou foi a Cidade Universitária, que estava sendo edificada: um complexo de obras superior a todos os realizados na Alemanha, demonstrando de modo impressionante a deliberação da União Soviética de chegar a uma posição de primeira ordem no campo da técnica. Visitei a central elétrica de Zaporójie, destruída a dinamite pelos russos. Aí os alemães instalaram turbinas, depois de terem sido feitos reparos nas largas brechas da barragem. Para aquela destruição bastara um homem mover uma chave elétrica. Essa visão me foi causa de horas de insônia, tempos depois, quando Hitler pensou em transformar a Alemanha em um deserto.

No quartel-general, Hitler mantinha o hábito das refeições em companhia dos colaboradores íntimos. Mas na chancelaria do Reich tinham predominado os uniformes do partido, enquanto que, agora, ele estava rodeado de generais e de oficiais do seu estado-maior. Ao contrário da sala da chancelaria, luxuosamente mobiliada, esse refeitório parecia mais um restaurante de estação ferroviária. As paredes estavam forradas de tábuas, as janelas eram de barracão, e no centro estava uma mesa comprida com cadeiras singelas para vinte pessoas. O lugar de Hitler era no centro, ao lado da janela; Keitel sentava-se à frente dele e os dois lugares de honra – um à esquerda, outro à direita – estavam reservados para visitantes, que mudavam continuamente. Tal como em Berlim, Hitler falava muito nos seus temas preferidos – sempre os mesmos –, permanecendo os comensais mudos, como simples ouvintes. Sem dúvida, esforçava-se o Fuhrer por melhorar a exposição das suas idéias, a fim de impressionar aqueles homens tão distantes dele e superiores pela origem e formação. Isso concorria para que o nível das conversações fosse melhor do que o das refeições na chancelaria. Durante as primeiras semanas da ofensiva, demonstrávamos ânimo satisfeito, pelo avanço nas estepes da Rússia meridional. Mas, depois de oito semanas, os rostos foram se anuviando, indicando preocupações. Até Hitler começava a perder aquele ar de segurança.

Sem dúvida, as nossas forças se tinham apoderado dos campos petrolíferos de Maikop, as patrulhas de tanques lutavam à margem do Terek e avançavam rumo ao Volga meridional, através de uma estepe sem nenhuma via de comunicação, na região de Astrakhan. Esse avanço, porém, já não tinha a velocidade da marcha nas primeiras semanas. Já não era possível a remessa de reforços e de abastecimentos; as peças para substituição já tinham sido gastas havia muito, e assim os efetivos da tropa que avançava estavam se reduzindo, cada vez mais. Nem a nossa produção mensal de armamentos estava em condições de atender às necessidades de uma ofensiva que se desdobrava em tão grandes espaços. Naquela época, fabricávamos apenas a terça parte dos tanques e a quarta parte da artilharia produzida em 1944. Aquelas distâncias obrigavam a um enorme desgaste de material, advindo daí a queda da capacidade combativa. Depois de seiscentos ou oitocentos quilômetros de trajeto, um tanque pesado necessitava de reparos no trem das rodas e no motor, segundo provas feitas no centro de Kummersdorf.

Hitler não compreendia nada disso. Tencionando tirar vantagem da suposta debilidade do inimigo, ordenou que as tropas exaustas continuassem avançando pelo sul do Cáucaso, na direção da Geórgia. Dividiu as forças de vanguarda e deu instruções para que uma parte das mesmas avançasse rumo a Sotchi, ladeando Maikop, e depois executasse uma marcha paralela à estreita rodovia litorânea, para alcançar Sukhumi, mais ao sul. Deu ordem para se dirigir o ataque principal contra aquela zona. Supunha que, de qualquer modo, a região ao norte do Cáucaso cairia em suas mãos, facilmente.

Mas as unidades militares estavam esgotadas e, apesar de todas as ordens de Hitler, não conseguiam avançar. Durante as conferências para o estudo da situação, mostraram-se a Hitler fotos aéreas dos impenetráveis bosques de nogueiras de Sotchi. Halder, chefe do Estado-Maior, tentou convencer o Fuhrer de que as operações naquela região não poderiam ser bem sucedidas pelos seguintes motivos: os russos poderiam destruir a dinamite a estrada costeira, tornando-a intransitável por muito tempo; além disso, a estrada estendia-se por uma encosta de montanha e, sendo estreita, não facilitava a marcha das tropas. Mas o Fuhrer não se impressionou com a argumentação daquele oficial, retrucando:

– Estas dificuldades são superáveis, como todas as outras dificuldades! A primeira medida há de ser a ocupação da estrada. Então teremos caminho livre nas estepes ao sul do Cáucaso. Ali poderemos deter o avanço e instalar campos de abastecimento. Depois, dentro de um ou dois anos, iremos desferir um ataque ao baixo-ventre do Império Britânico. Necessitaremos então apenas de um reduzido número de forças para libertar a Pérsia e o Iraque. Os hindus acolherão com entusiasmo as nossas divisões.

Quando, em 1944, fizemos uma revisão nas publicações então encomendadas, vimos em Leipzig uma requisição do Alto-Comando da Wehrmacht para mapas e manuais de conversação a serem utilizados na Pérsia. Aquela requisição tinha sido esquecida.

Mesmo um leigo na matéria veria que a ofensiva alcançara seu limite logístico. Mas houve a notícia de que um destacamento de tropas alpinistas alemãs tinha alcançado o mais alto pico do Cáucaso – o Elbruz, com cinco mil e seiscentos metros de altura, rodeado de geleiras – e implantado um mastro com a bandeira de guerra da Alemanha. Tratava-se de uma operação desnecessária e compreensível somente do ponto de vista de um alpinista entusiasta e amigo de aventuras. Freqüentes vezes eu vi Hitler furioso, mas não tão terrível como quando soube da façanha. Esteve enfurecido durante horas, como se aquela aventura tivesse inutilizado todo o plano da campanha. Durante dias, esteve amaldiçoando aqueles "alpinistas loucos que deveriam comparecer a um conselho de guerra". Dizia ele que aquilo demonstrava como eram obedecidas as suas ordens.

Assuntos urgentes exigiram minha presença em Berlim. O comandante-chefe do grupo de exércitos na região do Cáucaso foi destituído, alguns dias mais tarde, apesar de Jodl tê-lo defendido com toda a energia. E, ao regressar ao quartel-general, depois de quinze dias de ausência, Hitler estava de relações rompidas com Keitel, Jodl e Halder. Não lhes dava a mão, para cumprimentá-los, e fazia as refeições no seu alojamento, aonde poucas vezes eram convidados alguns privilegiados. As relações de Hitler com os comandos militares estavam desfeitas para sempre.

Devia-se isso ao definitivo malogro de uma ofensiva em que ele tinha posto tantas esperanças? Ou quiçá a um pressentimento da mudança da situação? O fato de manter-se afastado dos seus oficiais talvez se explicasse por não poder mais sentar-se entre eles como vencedor, e sim como um fracassado. Talvez se tivessem esgotado as idéias comuns extraídas do seu espírito de amador, que ele expunha ao seu círculo militar. Talvez sentisse que a magia falhara pela primeira vez.

Hitler não tardou em tratar um pouco mais amavelmente Keitel, que, muito preocupado, estivera rondando o Fuhrer, várias semanas, demonstrando muita solicitude. No caso de Jodl, resolveu-se também a situação. Este, conforme sua maneira de ser, não manifestara nenhuma reação. Mas o Capitão-General Halder era um homem lacônico, introvertido; e assim o chefe do Estado-Maior do Exército teve de ir embora. Seu sucessor, Kurt Zeitzler, era o reverso da medalha; insensível, ia sempre direto ao seu objetivo e expunha sua opinião com uma voz forte. Não correspondia ao tipo de militar com idéias pessoais, independentes, e talvez encarnasse o ideal de Hitler: um "peão de confiança, que não reflita muito tempo sobre minhas ordens, mas que trate de cumpri-las energicamente". A escolha não recaíra sobre um dos generais de alta categoria. Até então, Zeitzler fora um homem de segunda categoria na hierarquia militar. Foi rapidamente promovido em dois postos.

Depois da nomeação do novo chefe do Estado-Maior do Exército, Hitler permitiu-me estar presente às chamadas "conferências para o estudo da situação", sendo eu o único civil autorizado a presenciá-las. Eu podia interpretar essa permissão como deferência especial, para a qual não faltavam motivos, como o fato de estar aumentando a produção bélica. Mas talvez não tivesse dado essa permissão se temesse algum dano ao seu prestígio, em decorrência de oposições ou discussões suscitadas por mim. A tormenta amainara, Hitler voltara a ser dono dele mesmo.

A "grande sessão" realizava-se todos os dias, mais ou menos ao meio-dia, e costumava prolongar-se por duas ou três horas. Hitler era o único a sentar-se junto à mesa, utilizando-se de uma cadeira de vime. Todos os demais participantes do estudo ficavam em pé: além dos ajudantes do Alto-Comando da Wehrmacht e do Estado-Maior do Exército, os oficiais de ligação, da Marinha, da Aviação, das Waffen SS e de Himmler. De um modo geral, viam-se rostos jovens e simpáticos de homens cuja graduação militar, na maioria, era a de comandante ou coronel. E entre eles, sem nenhuma cerimônia, Keitel, Jodl e Zeitzler. Talvez para demonstrar-lhe uma distinção especial ou talvez em consideração ao volumoso corpo do seu marechal do Reich, quando Goering estava presente Hitler mandava trazer um banco acolchoado, no qual ele se sentava ao lado do Fuhrer.

Os mapas eram iluminados por lâmpadas de oficina, colocadas em braços movediços, longos. Em primeiro lugar, deliberavam sobre o cenário oriental da guerra. Colocavam-se na mesa, à frente de Hitler, três ou quatro mapas do Estado-Maior, tendo cada um dois metros e meio por metro e meio. Só o preparo diário da conferência, que durava pelo menos duas horas, quando se estudava a frente oriental, já supunha um enorme esforço para o chefe do Estado-Maior e seus oficiais, cujo tempo devia ser aplicado em coisas mais importantes. Eu, leigo na matéria, admirava-me de ver como Hitler, no decurso da conferência, tomava disposições, deslocava divisões de um para outro lado e dava ordens de menor alcance.

Durante as conferências, pelo menos ainda no ano de 1942, aceitava com tranqüilidade os reveses, talvez com um começo de indiferença, que mais tarde se acentuaria. Em todo caso, não mostrava nenhum sinal de reações desesperadas, parecendo um generalíssimo dotado de superioridade e aprumo. Dizia freqüentemente que as experiências da guerra de trincheiras, durante a Primeira Guerra Mundial, tinham-lhe feito ver muitas particularidades militares com maior clareza do que através das palavras dos seus conselheiros militares do Estado-Maior. Não há dúvida de que isso era certo, no tocante a aspectos parciais. Mas, na opinião de muitos oficiais, era precisamente a "perspectiva do homem da trincheira" que lhe tinha transmitido uma visão equivocada do processo de chefia. Seu conhecimento do detalhe era um conhecimento de cabo e naquela situação embaraçava-o mais do que ajudava. O Capitão-General Fromm, expressando-se em seu laconismo característico, dizia que talvez um civil tivesse sido um generalíssimo muito melhor do que um cabo, que aliás nunca lutara no leste e que portanto não podia entender de modo nenhum os problemas especiais dessa região.

Hitler procedia como um "sapateiro remendão". Deveria ver que os mapas só permitem conhecer de maneira insuficiente a natureza do terreno. No verão de 1942, ele ordenou, pessoalmente, o emprego dos seis primeiros tanques Tigre, já terminados, esperando resultados sensacionais, como sempre imaginava quando se tratava de novas armas. Sua fantasia levava-o a demonstrar como os canhões antitanques russos de setenta e sete milímetros, que perfuravam de frente a blindagem dos nossos Panzer IV, disparariam projétil e mais projétil em vão contra os tanques Tigre, os quais terminariam por destruir os postos de canhões antitanques. O seu estado-maior esclareceu-lhe que a faixa de terreno escolhida impossibilitaria qualquer evolução tática dos tanques, devido ao solo pantanoso de ambos os lados da estrada. Hitler recusou a advertência, se não com dureza, pelo menos com altivez. E assim se iniciou o primeiro ataque dos Tigres. Toda a gente, ansiosa, esperava o resultado. Eu me sentia um tanto angustiado, na dúvida sobre se tudo funcionaria bem, sob o ponto de vista técnico, pois não se tinha feito nenhuma prova geral. Os russos deixaram passar, tranqüilamente, os tanques, pela frente do seu posto de canhões antitanques, para depois alvejá-los de lado, pois lateralmente os Tigres tinham couraça menos resistente do que a frontal. Quatro tanques ficaram imobilizados; não podiam nem avançar, nem retroceder, nem manobrar para os lados, por causa do pantanal dos dois lados da estrada, sendo assim rapidamente postos fora de combate. Hitler engoliu em silêncio esse total fracasso, do qual não mais falou.

A situação na frente ocidental e também na África era exposta pelo Capitão-General Jodl. Hitler também gostava de intrometer-se em todos os detalhes. Várias vezes Rommel provocou o aborrecimento de Hitler. Durante alguns dias, Rommel só fornecia informações vagas dos seus movimentos, e depois, inesperadamente, apresentava uma situação inteiramente mudada. Hitler, que tinha estima pessoal por Rommel, deixava passar essa maneira de proceder daquele general, embora se sentisse desgostoso.

Quanto a Jodl, na sua qualidade de chefe superior da Wehrmacht, deveria ser na realidade o coordenador dos diversos movimentos nos diferentes setores da guerra. Mas Hitler apropriara-se de tal faculdade, sem depois se preocupar com o que ocorresse na rotina. O certo é que Jodl, no final de contas, não tinha um campo de ação delimitado. O resultado foi que o comando superior da Wehrmacht encarregou-se da direção independente dos setores da guerra, e assim, afinal, houve para o Exército dois Estados-Maiores rivais, entre os quais Hitler agia como árbitro, o que correspondia ao seu princípio de divisão das responsabilidades. Essa divisão resultou no seguinte: à medida que se agravava a situação, os dois Estados-Maiores disputavam, cada vez mais asperamente, sobre a transferência de divisões do leste para o oeste, ou vice-versa.

Concluída a exposição da "situação do Exército", resumiam-se na informação da "situação da Marinha" e da "situação da Aviação" os acontecimentos das últimas vinte e quatro horas, habitualmente por um oficial de ligação, ou pelos ajudantes de cada uma dessas forças, raramente pelo comandante-chefe de uma delas. Os ataques à Inglaterra e os bombardeios das cidades alemãs eram referidos de modo sucinto, como também os êxitos mais recentes na ação dos submarinos. Hitler deixava ampla liberdade aos comandantes-chefes, da Marinha e da Aviação. Pelo menos naquela época, intervinha ali raras vezes, e somente para dar conselhos.

Depois, Keitel apresentava a Hitler alguns papéis para serem assinados. Freqüentemente, tratava-se de "ordens de cobertura”, em parte temidas, em parte ridicularizadas. Eram disposições mediante as quais ele, ou quem quer que fosse, poderia defender-se de posteriores reprimendas de Hitler. Qualifiquei esse procedimento de intolerável abuso da assinatura de Hitler, pois, sob a forma de ordens, dava margem a intenções totalmente incompatíveis umas com as possibilitando confusões inextricáveis.

O grande número de pessoas naquele recinto, relativamente pequeno, resultava no abafamento do ambiente, o que provocava cansaço em mim e em outras pessoas. O local dispunha de aparelho de renovação do ar. No entanto, dizia Hitler, disso advinha hipertensão arterial, dores de cabeça e sonolência. Por conseguinte, a ventilação somente funcionava depois do "estudo da situação". Quase sempre, a janela estava fechada, mesmo quando houvesse bom tempo. As cortinas estavam cerradas até durante o dia.

Eu supunha que, naquelas conferências para o estudo da situação militar, houvesse respeitoso silêncio. Surpreendi-me quando vi que os oficiais que não participavam da exposição de dados, em alguns momentos, conversavam entre eles, despreocupadamente, embora em voz baixa. Também se sentavam nas cadeiras que ficavam no fundo da sala, sem darem importância à presença de Hitler. Aquelas conversas produziam um murmúrio contínuo, que não deixava de molestar-me. Mas Hitler só se incomodava quando subia o tom do vozerio. Então, bastava-lhe levantar a cabeça com uma expressão de aborrecimento para que o ruído baixasse.

Além da "grande sessão", havia outra, já às últimas horas da tarde, e nela um jovem oficial do Estado-Maior do Exército expunha o desenvolvimento dos fatos ocorridos nas últimas horas. Hitler e aquele oficial permaneciam sozinhos, nessa segunda sessão, mas às vezes eu era convidado, quase sempre depois de ter acompanhado Hitler em uma refeição. Nessa sessão vespertina, Hitler sentia-se mais à vontade, havendo um ambiente menos formalista.

Aqueles que rodeavam Hitler tinham grande parte de culpa no fato de estar ele convencido cada vez mais de possuir faculdades sobre-humanas. O Marechal Blomberg, o primeiro e último dos seus ministros da Guerra, gostava de enaltecer o gênio estratégico do Fuhrer. Até mesmo alguém mais modesto e mais equilibrado do que Hitler correria o perigo de perder toda a capacidade de julgar-se a si mesmo, em conseqüência dos contínuos hinos de louvor e dos estrepitosos aplausos que lhe eram dados.

Hitler gostava de tomar conselhos junto a pessoas que vissem a situação com mais otimismo e ilusão do que ele. Era o que acontecia sempre com Keitel. Quando Hitler tomava uma resolução, aceita pela oficialidade sem assentimento expresso e sim com um silêncio marcadamente hostil, era Keitel quem, freqüentemente, tomava a palavra para apresentar argumentos favoráveis às opiniões do Fuhrer. Esse general, que tinha sido antes um homem honrado e sincero, convertera-se no decurso dos anos em servidor insincero, adulador e carecido de intuição. No íntimo, Keitel sofria as conseqüências da sua fraqueza, porquanto a inutilidade de qualquer diálogo com Hitler tinha levado o general a prescindir, finalmente, de qualquer opinião própria. Se ele tivesse oferecido resistência a Hitler, defendendo com firmeza seu próprio juízo a respeito da situação, teria sido substituído.

Quando, em 1943-1944, o ajudante-chefe de Hitler e também chefe do pessoal do Exército, Schmundt, junto com muitos outros chefes militares, tentou substituir Keitel pelo enérgico Marechal Kesselring, Hitler afirmou que não podia prescindir de Keitel, pois este lhe era "fiel como um cachorro". Talvez Keitel encarnasse o tipo de homem de que Hitler necessitava ao seu lado.

Também eram raras as ocasiões em que o Gapitão-General Jodl contradizia Hitler. Tinha uma tática pessoal. Via de regra, mantinha o segredo das suas próprias opiniões, evitando situações difíceis. Mais tarde, conseguia que o Fuhrer modificasse sua atitude e até que voltasse atrás de resoluções já adotadas. Seus comentários com relação a Hitler, alguns até depreciativos, vez ou outra, mostravam que esse militar continuava com uma visão relativamente clara dos acontecimentos.

Quanto aos subordinados de Keitel – por exemplo, o General Warlimont, seu segundo chefe –, não se esperava que fossem mais corajosos. Keitel não os defendia, se fossem atacados por Hitler. De quando em quando, mediante acréscimos no texto, na aparência insignificantes e que Hitler não compreendia, revogavam-se ordens que se contradiziam, inequivocamente. O Alto-Comando da Wehrmacht, dirigido por um Keitel submisso e destituído de independência, tinha de recorrer a toda classe de subterfúgios para poder chegar ao seu objetivo.

Também um certo cansaço, excessivo e permanente, poderia ter contribuído para a submissão dos generais a Hitler. O horário de trabalho do Fuhrer não tinha relação com o horário do expediente diurno do Alto-Comando da Wehrmacht, o que impedia, freqüentemente, um sono suficiente. É bem possível que tamanhos esforços físicos desempenhassem papel mais importante do que se suporia no espírito daqueles homens, quando havia a exigência de uma atividade permanente com elevado rendimento. Tanto Keitel como Jodl davam a impressão de estarem sempre cansados e até na sua vida particular apresentavam-se como exaustos.

Interessado em romper aquele círculo de homens cansados, eu intentei introduzir no quartel-general o General Fromm e meu amigo Marechal Milch, sob o pretexto de expor assuntos da Central de Planificação. A tentativa teve bom resultado, algumas vezes, e Milch pôde insinuar-se junto a Hitler com o seu plano de fabricação de aviões de caça em vez da frota de grandes aviões de bombardeio. Mas Goering proibiu-o de voltar ao quartel-general do Fuhrer.

Goering deu-me a impressão de estar esgotado, quando, nos fins de 1942, estive conversando com ele no pavilhão que se construíra para seu uso, nas suas breves passagens pelo quartel-general. Goering dispunha de cômodas poltronas, não sendo o pavilhão tão simples como o da casamata de trabalho de Hitler. Goering disse-me com desânimo:

– Podemos nos dar por satisfeitos se, depois desta guerra, a Alemanha conservar as fronteiras que tinha em 1933.

Logo depois tratou de corrigir essa observação com algumas banalidades que pretendiam refletir confiança no futuro. Mas tive a impressão de que ele já via aproximar-se a derrota, apesar da maneira como falava a Hitler. Logo que chegava ao quartel-general do Fuhrer, Goering dirigia-se ao seu pavilhão particular. Enquanto isso, Bodenschatz, o general de ligação entre Hitler e Goering, saía da sala das conferências para ir informar a Goering, segundo supúnhamos, das questões em debate, falando-lhe por telefone. Depois de um quarto de hora, Goering entrava na sala e, sem que lhe falassem, declarava que defendia o ponto de vista de Hitler. Este então olhava com firmeza os generais presentes, dizendo-lhes:

– Como vêem os senhores, o Marechal do Reich é também de minha opinião.

Na tarde do dia 7 de novembro de 1942, acompanhei Hitler a Munique, viajando em seu trem especial. Naquelas viagens, Hitler, livre do expediente do quartel-general, era acessível ao exame das questões gerais dos armamentos, cujo debate exigia muito tempo. O trem especial dispunha de rádio, teletipo e uma pequena estação central de telefones. Acompanhavam-no Jodl e alguns oficiais do Estado-Maior.

O ambiente era tenso. Já estávamos com um atraso de muitas horas, pois havia uma longa parada em cada estação de importância, a fim de ligar o cabo telefônico do trem com a rede ferroviária, para se ter notícia das últimas novidades. Uma grande frota de navios de transporte, escoltada por esquadrilhas de navios de guerra, desde as primeiras horas da manhã, estava entrando no Mediterrâneo, pelo estreito de Gibraltar.

Anos antes, Hitler mostrava-se ao povo na janela do seu vagão, quando o trem parava nas estações. Agora não queria mais essas exibições, e por isso estavam sempre baixadas as cortinas corrediças das janelas do vagão. Quando nos sentamos para cear com Hitler, no vagão-refeitório, não vimos que na outra bitola estava parado um trem de carga. Nossa mesa estava sendo olhada pelos soldados que enchiam um dos vagões de transporte de gado, soldados alemães derrotados, famintos, alguns feridos, que vinham do leste. Um Hitler furioso viu aquela cena sombria, a dois metros de distância, e mandou que baixassem a cortina das janelas do vagão, onde estávamos ceando. Não lhes dirigiu nenhuma saudação, não manifestou a menor reação. Assim, no segundo período da guerra, terminou um dos raros encontros de Hitler com simples soldados da frente, um dos quais ele tinha sido, outrora.

À medida que íamos parando nas estações, ia aumentando o número de navios. Estava se realizando uma operação naval sem igual. Afinal, foi transposto o estreito. Todas as unidades navais já estavam sulcando as águas do Mediterrâneo, segundo informações da aviação de reconhecimento. Então declarou Hitler:

– É a maior operação de desembarque já registrada na história.

Proferiu essas palavras em tom de respeito, considerando que era contra ele que se estava processando aquela operação. A frota de desembarque manteve-se ao norte do Marrocos e da Argélia, até a manhã seguinte. Durante a noite, Hitler apresentou várias versões a respeito da enigmática atitude daquela frota de desembarque. Eu opinava, o mais provável seria que se tratasse de uma grande operação de envio de novas tropas para reforço da ofensiva contra os Afrikakorps, já em situação difícil. Acrescentou que os navios estavam se concentrando a fim de, na escuridão que os protegeria dos ataques da aviação alemã, passar pelo estreito entre a Sicília e a África. Também considerava outra alternativa, mais de acordo com sua maneira arriscada de conceber a realização de operações militares:

– Hoje à noite, o inimigo poderia desembarcar na Itália central, onde praticamente não encontraria resistência. Não havendo tropas alemãs, as italianas correriam. Assim, podem separar a Itália setentrional da meridional. Que seria então de Rommel? Estaria perdido em pouco tempo. Não tem reservas e não se pode mandar-lhe reforços.

Hitler embriagava-se ao pensar na possibilidade de operações de grande envergadura, já há muito tempo fora das suas possibilidades, e colocava-se cada vez mais na posição do inimigo:

– Eu ocuparia Roma, imediatamente, e formaria ali um novo governo italiano. Ou, como terceira alternativa, desembarcaria com essa grande frota na França meridional. Sempre fomos muito condescendentes. Vejam para que nos serve! Naquela região, nenhuma tropa alemã, nenhuma fortificação ali. É um erro não termos nada no sul da França. Naturalmente, o governo de Pétain não oferecerá resistência.

Parecia esquecer, momentaneamente, que era contra ele que se dirigia o perigo. Já naquela noite, entretanto, percebeu algo: a segunda frente começava a ser uma realidade.

Recordo-me porém da minha confusão ao ouvir Hitler pronunciar um grande discurso, quando se celebrou o aniversário do seu fracassado golpe de Estado, em 1923. Em vez de conclamar o povo alemão ao máximo esforço possível, aparentou estar certo da vitória, e cheio de confiança exclamou:

– São uma bela coleção de cretinos, se pensam que algum dia poderão destruir a Alemanha... Nós não cairemos. Serão os nossos adversários que irão tombar.

Nos fins do outono de 1942, durante uma conferência para o estudo da situação, disse Hitler com um entono triunfal:

– Os russos estão enviando seus cadetes aos combates. Isso é a prova mais certa de que estão acabados. Quando não resta mais nenhuma força, sacrificam-se os futuros oficiais.

Uma semana mais tarde, no dia 19 de novembro de 1942, Hitler, que se tinha retirado para Obersalzberg, recebia as primeiras notícias da grande ofensiva russa do inverno, a qual, nove semanas depois, resultaria na rendição de Stalingrado. Depois de violenta barragem de artilharia, fortes contingentes soviéticos tinham aberto uma brecha nas posições das divisões romenas, entrincheiradas em Serafinov. No princípio, Hitler usou de expressões de menosprezo ao valor combativo dos seus aliados, a fim de explicar a catástrofe e não lhe dar importância. Mas as tropas soviéticas não tardaram em derrotar também as divisões alemãs. A frente começou a desmoronar.

Hitler andava de cima para baixo na grande sala do Berghof, enquanto dizia:

– Nossos generais cometem sempre o mesmo erro: superestimam o poder dos russos. De acordo com as informações procedentes da frente, o material humano russo é insuficiente. Estão debilitados, já perderam muito sangue. Mas, naturalmente, ninguém quer saber disso. E, além do mais, como estão mal formados os oficiais russos! Com eles não se pode, realmente, organizar uma ofensiva. Já sabemos o que acontece. Mais cedo ou mais tarde, os russos ficarão imobilizados, ou correrão até o esgotamento. Enquanto isso, mandaremos algumas divisões de auxílio, que colocarão de novo as coisas em seu lugar.

No retiro da montanha, Hitler não compreendia a importância do que estava acontecendo. No entanto, três dias depois, vendo que não cessavam as más notícias, dirigiu-se, às pressas, à Prússia Oriental.

Alguns dias mais tarde, em Rastemburgo, eu via no mapa do setor, desde Voronej a Stalingrado, em uma extensão de duzentos quilômetros, muitas flechas vermelhas, indicativas dos movimentos da ofensiva russa. As flechas estavam interrompidas por pequenos círculos azuis, que designavam os restos das divisões alemãs e aliadas. Stalingrado estava circundada por um círculo vermelho. Inquieto, Hitler ordenou... 

 

                                                                                CONTINUA  

 

                      

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