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OS DOIS AMORES / Joaquim Manuel de Macedo
OS DOIS AMORES / Joaquim Manuel de Macedo

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS DOIS AMORES

 

O “CÉU COR-DE-ROSA”

NINGUÉM há na cidade do Rio de Janeiro, que não conheça perfeitamente o largo da Lapa do Desterro.

Sobretudo, ele se faz notável pelas missas, que de madrugada se dizem em seu pequeno convento; por suas belas festas do Espírito-Santo com seu império sempre cheio de oferendas, e seus grandes fogos de artifício; e enfim, pela multidão imensa de povo, e pelos carros, ônibus e gôndolas, que incessantemente por aí transitam, indo ou vindo desses bairros aristocráticos, que ficam além do cais da Glória.

E, como para compensar esse ruído constante e essa concorrência de que falamos, o largo da Lapa tem por vizinhas algumas ruas pequenas, mas bonitas, que se podem chamar solitárias em comparação dele.

No ano de 1846, porém, os habitantes de uma dessas ruas, de cujo nome agora não nos podemos ou não nos queremos lembrar, mas que será fácil conhecê-la pelo que dela dire­mos, começaram a notar que ela se ia tornando muito freqüentada a certas horas do dia.

De tarde, quando já o sol não incomodava e a sombra e o frescor convidavam as moças a chegar à janela, viam-se passar primeira e segunda vez pela rua de... numerosos mancebos, que trajavam com elegância e gosto, e que por seus modos e ademãs mostravam pertencer ao círculo feliz, que atualmente se conhece pelo nome do – bom-tom.

Deu isto muito que pensar aos sossegados habitantes da rua de.... até que finalmente certo dia um homem que ali morava, e que se chamava Jacó, apontando para uma casa, que ficava defronte da sua, disse em tom confidencial a al­guns de seus vizinhos: – a causa é aquilo.

Também Jacó era a pessoa mais capaz de descobrir qualquer mistério. Pelo sim, pelo não, diremos já, em duas pa­lavras, quem era ele.

Jacó tinha sido escrivão, e apenas há três anos havendo perdido o seu lugar por motivos que ele a ninguém dizia, mas que o fizeram viver na cadeia durante alguns meses, re­tirou-se do centro da cidade, onde habitava, e veio com sua mulher e uma escrava morar na rua de...

A casa de Jacó era térrea, e constava de uma porta e duas janelas de vidraça cobertas com cortinas brancas: a porta abria-se para um corredor ao lado direito do qual outra dava entrada para a sala.

Sem ter nada em que se ocupasse, Jacó vivia do fruto de seus antigos trabalhos, e sua mulher, para ajudá-lo nas des­pesas da casa, fazia um pequeno comércio de balas e confeitos, que a escrava vendia em um tabuleiro à porta do corredor.

Um homem baixo, um pouco gordo e um pouco calvo, com os cabelos que lhe restavam, já meio grisalhos, com olhos pequenos e vivos, tendo sempre no semblante uma ale­gria fingida, tomando rapé, e trajando constantemente um fraque roxo, abotoado até em cima, calças pretas, e botins de cordovão de lustro – era Jacó.

Uma mulher alta, gorda, com poucos cabelos, olhos pardos, rosto, e principalmente o nariz, que não era pequeno, muito vermelhos, com pés imensamente grandes, com voz fi­na, retumbante, e falando de contínuo – era a sra. Helena, a mulher de Jacó.

Este par vivia na mais estreita união, e tendo pouco ou nada em que cuidar, gastava o tempo em descobrir mistérios.

Jacó tinha o seu posto de dia, sentado junto de uma das janelas, e só o deixava se supunha conveniente seguir a al­guém; dali ele observava e adivinhava tudo: seu olhar vivo penetrava no interior da casa alheia, e seu ouvido apurado ouvia, apesar das paredes, o que se falava na dos vizinhos; se saía, apanhava e lia o pequeno escrito, que desprezado rolava no chão; e de noite, escondido atrás da cortina da janela, devassava as ruas, e escutava o que diziam aqueles que passeavam conversando.

Helena ajudava excelentemente seu marido nesse inocente passatempo: ela conhecia os escravos de todas as casas, praticava com eles, e dava conta a seu esposo das questões domésticas, dos segredos e das mais miúdas circunstâncias da vida alheia: o papel em que vinha da venda embrulhado o açúcar, era lido e estudado; e durante a noite uma das cortinas das janelas pertencia aos cuidados de Helena.

A intriga, a maledicência e mesmo a calúnia alimentavam este homem e esta mulher, que se tinham encontrado no mundo tão iguais, tão dignos um do outro.

Não era pois acreditável que a causa dos passeios desses mancebos por aquela rua, dantes tão pouco freqüentada, escapasse a Jacó e sua mulher.

Um dia Jacó disse: – a causa é aquilo.

E aquilo era uma casa de bela aparência, que ficava defronte da dele: casa muito conhecida, mesmo muito amada pelos habitantes da rua de.... ou melhor pelos habitantes e freqüentadores do bairro da Lapa do Desterro.

Era essa casa assobradada e sobremontada por um sótão, ou, se quiserem, por um meio sobrado com três janelas de peitoril, tendo o andar inferior cinco, todas porém igualmente de peitoril: do lado esquerdo dava entrada para ela um humilde alpendre, que levava, os que por ele praticavam, a uma escadinha de quatro degraus, pelos quais se subia ao primeiro andar: pela parte direita, e na extensão de três braças, erguia-se um muro, que ocultava aos olhos dos curiosos pequeno e gracioso jardim, e breve se terminava confinando com uma velha casinha. Nada portanto mais simples, nada menos romanesco do que o aspecto dessa casa; mas porque sua frontaria fosse toda pintada de uma bela cor-de-rosa, excetuando-se a cimalha e os caixilhos das vidraças, que eram brancos, os habitantes e freqüentadores do bairro da Lapa do Desterro deram-lhe o nome e teimavam em chamá-la com o título muitíssimo poético de “Céu cor-de-rosa.”

Seria, porém, a cor da frontaria da casa, de que tratamos, a verdadeira causa de sua denominação quase sacrílega?... certo que não. O instinto do coração de um homem adivi­nha, para logo, que aí deve habitar uma mulher, provavelmente muito bela; porque esse nome de “Céu cor-de-rosa” tem em si alguma coisa de poético; e neste mundo tão por demais enganador e falso, e nesta vida tão por demais estéril e trabalhosa, o homem só encontra poesia e encanto onde respira a mulher. Por conseqüência, a cor da frontaria era o meio; a existência de uma mulher nessa casa, era a causa única de seu belo nome.

Com efeito uma moça, que a ser julgada pelo que dela apregoava a fama, era tão linda como nova, tão rica de en­cantos como pobre de anos, embelecia, tornava cheia de in­teresse a modesta habitação: centro para onde convergiam mil simpatias, tinha ela seu nome abençoado, sua vida mergulhada em uma atmosfera toda poética, seus hábitos e costumes, suas ações, sua casa, e quanto com ela estava em relação gozando honras romanescas, graças à imaginação fervorosa de um público idólatra.

Assim, já vimos com que nome tão altivo era conhecida a morada da feliz moça, e fez o povo mais ainda: para com uma antítese tornar dobradamente notável a conta em que tinha o “Céu cor-de-rosa”, aproveitou-se da existência da pobre casa, que junto do muro do jardim da primeira se via; e em castigo de sua miséria, pois que muito baixa, só havia nela de mais um sótão, que nem mesmo lançava janelas para a rua, e toda se mostrava já meio arruinada pela força dos anos, e bastante intrigueirada pelas desfeitas do tempo, deu-lhe o epíteto afrontoso de – “Purgatório-trigueiro”.

Tendo por essa maneira feito notar a casa da moça que­rida com um nome sagrado, e a que lhe ficava contígua com uma alcunha de maldição, os entusiastas foram por diante com a sua antítese. Entenderam que o nome batismal da moça, não exprimindo nenhum dos sentimentos que por ela nutriam, não lhes podia servir para fazê-la designar; e então acertaram de chamá-la – “Bela Órfã”; – porque assim a tornavam por dois modos interessante: interessante aos olhos pela beleza e ao coração pelo estado; e enfim, chegou a vez da antítese cruel, e a uma pobre mulher setuagenária, que morava no “Purgatório-trigueiro”, foi lançado o insultuoso apelido de – “Velha bruxa”.

Depois, como para dar os últimos toques à apoteose da feliz senhora, eles estudaram os hábitos, observaram as ações e os passos da “Bela Órfã”, e interpretações e explicações tão poéticas como esse nome vieram completar o romance que a imaginação popular criava. Por exemplo: a moça tinha desde os mais tenros anos contraído o hábito de despertar com a aurora para passar a primeira hora da manhã no pe­queno jardim do “Céu cor-de-rosa”; a explicação não tar­dou. “Há, diziam-se sorrindo uns aos outros os entusiastas, há uma paixão, e a mais decidida correspondência amorosa entre a “Bela Órfã”, e o sol; de ajuste despertam ambos à mesma hora para, livres de testemunhas, se irem namorar de manhã cedo, ele do alto dos céus, e ela do meio das flores”.

Pensamos haver dito bastante para que se compreenda, com que excesso era amada essa moça: e como não pretendemos fazer coro com a multidão, que a incensava com lisonjas tão exageradas, e pouca importância damos a esses exaltamentos populares, que, tantas vezes, basta um leve sopro para de todo apagar, ou mesmo dar-lhe direção absolutamente oposta: vamos dizer o que era ela em realidade, e do que   com justiça se lhe devia; e se, no correr desta história, usarmos repetidamente de alguns desses epítetos mencionados, será porque o povo à força de repetir os nomes de sua esco­lha  acabou por generalizá-los, de tal modo, que só por eles eram bem conhecidos os objetos que nomeavam.

Deus legou aos homens pensamentos grandes, importantes e sagrados, em sua passagem, de padecimentos para ele e de salvação para nós; em sua passagem por este mundo, dizemos, cada passo que deu, cada ação que fez, cada palavra que pronunciou, foi uma lição de virtude angélica, uma amostra do caminho do céu, um pensamento de santidade;  e o cumprimento de cada um desses pensamentos é o em­blema, o mote de cada classe da sociedade; entre eles, se fosse possível dar-se mais beleza a uma do que a outras idéias do Espírito Divino, seria um dos mais sublimes e difíceis – a caridade. – E os missionários dessa virtude angélica, são especialmente os médicos. A medicina é o sacerdócio da caridade.

O negociante de receitas, aquele que, mercê de seu título, anda por aí curando, se pode, os seus doentes, tendo em mira somente o pobre interesse; que só presta o seu conse­lho a troco de ouro; que morde nos outros médicos, como em concorrentes que lhe diminuem o ganho; esse, que não compreende o gemer da alma da humanidade; que não sabe o que é o sofrimento mal gemido, as angústias abafadas do homem pobre; esse, que enquanto receita com a mão direita, tem já a esquerda estendida para receber dinheiro; esse, que define a medicina – somente um meio de vida; – esse, que não entende que a religião de Jesus Cristo, a nobreza de sua ciência, e a honra do coração marcam-lhe o posto ao pé de quem geme, e não unicamente ao pé de quem paga; esse... é apenas um mercador de receitas.

Mas aquele que, no exercício da medicina, não faz distin­ção entre rico e pobre, e só vê indivíduos que de seus cui­dados carecem; aquele que combate as enfermidades, dispu­tando contra a morte dia por dia, hora por hora, instante por instante, o campo da vida; que invade corajoso a atmosfera da peste; que se expõe com marcial bravura ao contágio mortífero, respirando aqui ar miasmático e envenenado, banhando-se ali em suor fétido e peçonhento, para caridoso levar socorros a infelizes, de quem sabe não receberá  um ceitil; aquele que nem mesmo desanima, nesse viver trabalhoso, ante o monstro que tantas mil vezes fere o coração do médico – a ingratidão; – que paciente se amolda à im­pertinência da infância, ao capricho da velhice e ao pudor da virgindade; que não conhece no homem só os padecimen­tos da matéria; que entende e fala também o idioma da sen­sibilidade, o eloqüente dizer da alma; aquele que tem na cabeça a medicina para curar, nas mãos metade do ouro que recebeu do rico para espalhar sobre a miséria da pobreza; nos lábios consolações salutíferas para com elas abrandar os tormentos do infeliz; e no coração uma sepultura para eternamente encerrar os segredos das famílias; esse sim... esse é médico.

E se acaso se orgulha de sê-lo, tem, de sobra, razão para orgulhar-se.

Nobre, alta, importante, solene missão é essa!... e essa missão tinha sido cumprida à risca pelo dr. Paulo Ângelo.

A vida de Paulo Ângelo fora uma longa história de filantropia e caridade: compreendendo perfeitamente o ministé­rio do médico, não se arredara nunca em nenhum de seus passos da linha de proceder que lhe cumpria seguir. Dias e noites gastara ele em fazer bem ou em preparar-se para fazê-lo a seus semelhantes, porque de dia eram suas horas votadas à observação e ao cuidado de seus enfermos; e de noite estudava, estudava sempre, pois que jamais pensava ser suficientemente sábio. Havia reconhecido que, assim como o homem moral, o homem físico é também um livro imenso, em que sempre se acham segredos novos para interpretar; e que lendo-se mesmo de contínuo até à última hora da vida, ainda assim não se tem lido bastante, ou antes nun­ca se chega à sua página derradeira.

Moço ainda, desposara ele uma mulher virtuosa e amável; e o céu abençoando sua união lhe fez presente de uma filha, que deveria fazer o encanto de sua velhice. Ocupou-se desvelado em sua educação: possível e muito, lhe fora preparar-lhe uma herança elevada porque, médico hábil e afamado, exercia uma clínica vasta e rendosa; quase sempre, porém, metade do estipêndio do rico ficava debaixo do travesseiro do pobre.

No entanto, se seus cofres permaneciam vazios, as bênçãos do povo choviam sobre Paulo Ângelo e sua família, pois que sua esposa, obedecendo à própria índole, e seguindo os exemplos que ele lhe dava, cumpria também a santa virtude da caridade, com essa graça no bem-fazer, com esse segredo de ser beneficente quase brincando, de que somente são capazes as mulheres; e sua pequena filha amamentada com o leite da virtude, embalada no berço da beneficência, era um galante querubim, de quem Deus modelara o coração, e o amor o rosto.

Ia indo Paulo Ângelo em seu viver sossegado e ditoso, quando no começo do ano de 1844 foi vítima de seu próprio ministério: contraindo uma enfermidade contagiosa, trouxe o germe da morte para o centro de sua família, e em um mesmo dia os sinos da capital gemeram com seu dobre lú­gubre por ele e por sua esposa.

Era um espetáculo bem triste ver famílias inteiras, de quem ele havia sido o benfeitor, acompanhar chorando seu carro fúnebre!... era uma cena despedaçadora vê-las ao derredor de seu féretro misturando lamentos e soluços com os hinos funerais dos sacerdotes.

E havia, com tudo isso, um objeto ainda mais triste, ainda mais lamentável do que todo esse espetáculo: havia uma órfã de quatorze anos.

Aos quatorze anos, pois, ficou quase só no mundo a filha de Paulo Ângelo. É verdade que um nobre e respeitável an­cião, seu avô paterno, encarregou-se de sua tutela; que ela achou em uma bela e interessante senhora, filha de seu avô, e portanto sua tia, uma companheira e amiga. É certo, que firmes e não ingratos se mostraram alguns dos muitos antigos amigos de seu pai; por sem dúvida, que herdou ela toda a idolatria que votava a classe necessitada ao médico ben­feitor. É verdade tudo isso, mas não será verdade, também, que ainda mesmo no centro da multidão está quase num ermo, que ainda mesmo no meio de mil riquezas está mais pobre que o último mendigo, aquele que perde de improvi­so o que mais ama no mundo? pois que sentimento há aí, que preencher possa o vazio deixado no coração pelo amor filial?... um só talvez, a saudade do que se perdeu: é ainda o mesmo sentimento modificado pela dor, e crisma­do com novo nome.

E pois essa interessante pombinha ficara só e ainda mal emplumada no ninho, onde não poderão jamais voltar os pais, apanhados tão de súbito pela morte. E pois essa criança de quatorze anos, fora cedo tocada pelo dedo pesado do infortúnio e escrevera seu nome na lista dessas criaturas infelizes e sagradas, que no mundo se chamam – órfãos; – sim, infelizes, porque têm perdido aquilo que a natureza pede incessantemente dentro do coração; sagradas, também, porque um órfão deve ser um objeto respeitado, como a alma de um vivo e o cadáver de um morto.

E como profundamente ressentida desse golpe inesperado que a viera ferir no tempo mesmo em que começava de bem compreender o que era, o que valia o amor dos pais, a filha de Paulo Ângelo, semelhante a essas flores que, açoitadas pela tempestade ao desabrochar, não morrem mas se desen­volvem abatidas e tristes, ia passando seus belos dias da idade da inocência alquebrada pela dor e pela saudade. Mesmo depois de passado seu ano de luto, quando já o bálsamo do tempo tinha cicatrizado a ferida profunda de seu coração, ela teimava em viver uma vida de retiro e de esquecimento. Apenas uma ou outra vez podiam na manhã de algum domingo admirar a graça de sua figura ou adivinhar a beleza de seu rosto encoberto pelo véu com que se ornava, indo ao templo do Senhor; apenas, e raramente, uma ou outra vez podiam vê-la, para fugir logo, depois aparecer ao lado de sua tia em alguma das janelas do “Céu cor-de-rosa”; apenas, e ainda mais raramente, era uma ou outra vez enfim arrastada por seu avô e sua tia a essas sociedades brilhantes e embria­gadoras, que fazem o delírio das moças, e que são, a um só tempo, o altar em que se elas adoram, e o labirinto em que um se elas perdem. Era seu viver como esse viajar etéreo de formosa lua melancólica, por noite nublada e feia, que surge por curtos instantes dentre nuvens carregadas, e logo depois novamente se mergulha, deixando apenas ressumbrar seus raios através dos véus de fumo do firmamento.

Não era por índole triste assim a filha de Paulo Ângelo; tinha, ao contrário, gênio brincador e alegre; mas a prema­tura morte de seus pais lhe embutira um ponto negro, uma recordação lúgubre na vida, e mil vezes, ou quase sempre no  fervor de uma festa, ou no sonhar de lisonjeiras fantasias, o ponto negro lhe surgia, a recordação lúgubre vinha abismá-la. Por isso, notava-se de ordinário em seu rosto essa me­lancolia tocante que, como já disse alguém, é, até certo pon­to, uma graça na dor.

Ela ficara pobre de bens; fora sua única herança o “Céu cor-de-rosa”; e, portanto, não podendo, como dantes, derramar benefícios e esmolas sobre aqueles tantos pobres, que seus pais chamavam – filhos, – e ela se habituara a chamar – irmãos; – achava em tal mais um motivo para ocultar-se, como já inútil; e às vezes escapava-lhe uma lágrima, pensando que poderia ser pesada.

Mas essa mesma vida de retiro e sossego, essa vida quase de mistério, redobrava o interesse que pela órfã se mostrava.

E ao mesmo tempo que ela, ao amanhecer cuidando de suas flores, durante o dia de suas músicas e trabalhos, e de noite triste e docemente refletindo, se supunha esquecida de todos, se acreditava, ao muito, objeto só de alguma terna saudade como a que se tem de um bom amigo de muito tempo perdido, os velhos protegidos de seu pai, os filhos da caridade de Paulo Ângelo, a fantasia romanesca do povo entusiasta celebravam a apoteose da interessante moça, crian­do para ela o “Céu cor-de-rosa”; dando-lhe o nome de “Bela Órfã”, inventando um “Purgatório-trigueiro”; fazendo ha­bitante deste uma velha bruxa, e até enfim forjando uma pai­xão miraculosa entre a “Bela Órfã” e o astro do dia.

Ora, como é natural, a fama da beleza e das virtudes da “Bela Órfã” não se deixou ficar no bairro da Lapa do Desterro, e correndo por toda cidade, chegou também aos ouvidos dos senhores do bom-tom, que, começando por isso a fre­qüentar a rua de.. e conhecendo que no “Céu cor-de-rosa” não era a “Bela Órfã” a única beleza que havia, fizeram dessa rua o seu passeio de escolha, e desafiaram assim a curio­sidade dos sossegados habitantes dela.

Como dissemos, essa curiosidade estava já satisfeita, o mis­tério tinha sido facilmente explicado. Jacó havia apontado para o “Céu cor-de-rosa”, e dito:

– A causa é aquilo.

Agora, desviando-nos um pouco da porta do “Céu”, con­vém que entremos diretamente no “Purgatório”.

 

O “PURGATÓRIO-TRIGUEIRO”

NO FIM do muro que defendia o jardim do “Céu cor-de-rosa”, estava, como já dissemos, o “Purgatório-trigueiro”.

Era uma velha casinha, cujas paredes se mostravam carcomidas pelo tempo: entrava-se por uma rótula em péssimo estado; havia ao lado desta, e pela parte direita, uma janela sem vidraças, mas com postigos que se abriam para os lados, e nada mais. Nem mesmo da rua se podia fazer uma justa idéia do pequeno sótão que, como envergonhado, deitava suas janelas para trás, e que apenas assinalava sua existência pela parte anterior, na elevação do telhado enegrecido e limoso, o que ainda mais afeava a antiga casinha, simulando corcova enorme de velha.

Aquela triste e miserável habitação tinha em si um não sei quê de repugnante; e todavia não era maldição, não era escárnio o que o povo votava ao velho casebre; era sim a cruel antítese, que a fazia conhecer por um nome afrontoso.

No entanto, a interessante moça do “Céu cor-de-rosa”, bendizia a existência daquela casinha, e pedia ao céu que jamais se lhe mudasse a moradora: justa razão tinha ela para assim o pedir.

A “Bela Órfã” gostava, e muito, de passar no jardim a sua hora matutina em completa liberdade; e seu jardim podia ser quase todo devassado pelo pequeno sótão da velha casa; mas a janela desse sótão, que podia incomodar a moça, não se abria nunca; e por conseqüência nenhum morador lhe devia ser tão agradável como essa pobre velha, que parecia amar a obscuridade, e tinha as janelas sempre fechadas.

Apesar do muito que pareça mau gosto, a despeito mesmo de que erro se julgue abandonar uma personagem ainda pouco conhecida, para nos irmos ocupar já de outras por sem dúvida baldas do interesse que terá podido merecer a primeira; perderemos de vista, por um momento, a “Bela Órfã”, para travar conhecimento agora com a velha bruxa. Ainda bem que não é pecado, neste caso, desprezar o cami­nho do “Céu”, a fim de penetrar no interior do “Purgatório”.

Eram oito horas da noite.

A saleta do “Purgatório-trigueiro” estava fracamente alu­miada por uma única luz deposta sobre antiga mesa redon­da, junto da qual tomavam café e pão a velha Irias e um man­cebo de agradável presença, que deveria contar cerca de vinte anos; uma escrava da mesma idade que a primeira, esperava de braços cruzados, e a alguma distância, a termina­ção da ceia.

Irias era uma mulher setuagenária, alta, magra, de cabelos completamente brancos, de olhos verdes, que deveriam ter si­do belíssimos, e que ainda aos setenta anos ela os conservava sempre repletos de fogo e de vivacidade: tinha ainda todos os dentes iguais, alvos e belos; vestia nessa noite um simples vestido de chita escura sem enfeite algum, e escondia os cabelos brancos por debaixo de um lenço de Alcobaça atado à cabeça.

O mancebo era de estatura regular. Tinha cabelos pretos e anelados e a fronte elevada e bela. Seus olhos pardos, que às vezes, por passageiros instantes, se acendiam e darde­javam olhares ardentes, mostravam-se de ordinário desmaia­dos e amortecidos; por baixo de suas pálpebras inferiores desenhavam-se olheiras roxeadas e filhas talvez da vigília e do estudo; a tez pálida desse mancebo condizia, enfim, perfeitamente, com o parecer melancólico e abatido e com o silêncio obstinado que guardava desde o começo da refeição; estava ele de calças brancas e com um lencinho de seda encarnada ao pescoço, e finalmente vestia um chambre de riscadinho azul abotoado até em cima.

Embora a melancolia devesse ser natural nesse mancebo, é provável que alguma coisa, fora do comum, nele houvesse naquela noite; pois que a velha Irias lhe lançava de relance vistas perscrutadoras e ele cem vezes tinha já estremecido, como por uma horripilação momentânea e súbita.

Terminada a ceia, a velha e o mancebo ergueram-se, rezaram, e tornaram a sentar-se, ao mesmo tempo que a escrava retirou de sobre a mesa o velho serviço.

Uma hora longa e muda passou então para aquele mancebo, que meditava, e para aquela velha, que observava.

O moço tinha deixado cair a cabeça até encostar a barba na mão esquerda, apoiando-se com o cotovelo sobre a mesa: parecia esquecido de si mesmo e só entregue a um profundo cogitar de recônditos pensamentos; pesadas idéias como que se lhe exalavam d’alma, e se lhe iam encrespar em sua fronte elevada, cujas rugas horizontais poderiam dizer-se ondas de um ânimo em tempestade.

A cena de concentração e de silêncio se foi prolongando mais e mais, sem que o mancebo pudesse arrancar-se dos braços de um pensamento em que, talvez a pesar seu, se achava embebido; e sem que também a velha ousasse despertar o moço daquele completo sono da matéria, que deixa a alma livre toda entregue a esse vivíssimo trabalho, que os homens chamam meditação.

O toque de recolher veio despertar o mancebo. O som dos bronzes pareceu tocar dolorosamente sua alma; e ele erguendo-se imediatamente, e sacudindo a cabeça como para espalhar o enxame de tristes idéias, que a pejavam, corou, olhando para Irias, e disse:

– É tarde: boa-noite, minha mãe.

Tomou então uma vela, acendeu-a, e sumiu-se por um corredor estreito e úmido, no fim do qual encontrou a escadinha do sótão, que vagarosamente galgou.

A velha em silêncio o abençoou, e duas lágrimas grossas e brilhantes vieram pendurar-se das pálpebras de seus olhos verdes, semelhantes a gotas de orvalho prestes a tombar do ápice de duas folhas de uma árvore secular.

Mas quem era esse mancebo?...

Chegado a casa de Irias apenas há dois meses, fora rece­bido como um extremosamente amado filho; e logo após sua vida correu triste e misteriosa, desconhecida e abafada, como alguns desses lúgubres pensamentos noturnos, que no leito concebem, e que no leito se deixam até o repousar da seguinte noite.

Sem um único amigo; só, Cândido (este o nome do man­cebo) deixava o pequeno sótão do “Purgatório-trigueiro” pouco depois do amanhecer, e voltava de novo a ele quando a noite desdobrava o manto das trevas sobre a cidade do Rio de Janeiro.

E ninguém tinha até então notado naquele mancebo, que duas vezes por dia passava triste e silencioso o limiar da porta do “Purgatório-trigueiro”. Apenas o par terrível o observava cuidadoso: Jacó o tinha seguido por vezes, mas parara vendo-o entrar em uma muito freqüentada rua da corte na casa de um advogado. Jacó, que fora escrivão, detestava a justiça agora, e tinha medo de quem com ela estava em relação; e portanto, mesmo para os dois maldizentes e curiosos vizinhos, a vida de Cândido era um mistério... o pesadelo de Jacó... o tormento de Helena.

E o resto de sua vida, à noite, era ainda um novo segredo até para a velha Irias; era um segredo sepultado dentro de antigo sótão.

E a filha de Paulo Ângelo, ao romper de todas as auroras, passeava negligente e descuidada pelo seu jardim, e mal po­dia adivinhar que a essas horas a janeleta fechada do triste sótão do “Purgatório-trigueiro” encerrava um mancebo em toda força dos anos, que então ali descansava, ou... quem sabe o que ele fazia?

Mas quem era esse mancebo?...

É meia-noite. Uma luz pálida e fraca alumia uma rude câmara, cujas paredes mal rebocadas, e já aqui e ali fendi­das, ameaçam desabar bem cedo. Tábuas já meio apodre­cidas, e que rangem ao pisar de um pé menos leve, fazem o assoalho dessa câmara, que nem ao menos é forrada. No fundo vê-se uma pequena janela, e iguais a esta duas outras, que se abrem uma para cada lado. Todas três se acham fechadas. Mas naquela, que fica à direita, uma fenda larga de três dedos deixa passar os raios da lua, que vem inundar o interior daquele aposento resfriado incessantemente pelas brisas da noite, que entram pela fenda da janela.

Vê-se ao lado esquerdo uma mesa pequena, e sobre ela tudo o que é de mister para escrever. Defronte dessa uma outra muito maior coberta de livros, de papéis e de estam­pas; não longe desta um leito baixo e estreito; a um canto uma harpa, cujas cordas, pela maior parte rebentadas, atestam o esquecimento de seu dono.

Eis o sótão do “Purgatório-trigueiro” todo completo.

Na hora em que fizemos a descrição da câmara desse sótão, a qual era o sótão inteiro, à meia-noite, um mancebo achava-se sentado junto da mesa pequena, e tinha o rosto caído sobre um livro, onde acabara de escrever algumas linhas. Seu braço direito estendia-se sobre a mesa, e ele apertava ainda a pena entre os dedos.

Cândido havia involuntariamente adormecido.

Quem se tivesse então colocado por trás do mancebo e lhe afastasse um pouco a cabeça, poderia ler uma página do li­vro da vida daquele homem. Este livro era o seu diário, a urna onde sepultava os pensamentos de cada um de seus dias.

Uma página apenas se oferece a saciar nossa curiosidade. Eis, pouco mais ou menos, o que estava escrito:

“15 de setembro. – Hoje foi como ontem, e amanhã será como hoje. O porvir começa a desenhar-se a meus olhos sob a forma de um esqueleto. Não há nada novo na minha vida. É somente a mocidade, que tem por seu passado a in­fância, que ainda não geme nem medita, que goza já e ainda espera; é somente a mocidade quem se pode sorrir para a vida. E todavia eu que sou moço, moço dos melhores anos,  eu me não posso sorrir para ela!... quando pois o farei?... quando for velho?... mas o velho chora os erros do passado, o sofrimento do presente, chora a morte, que é todo o seu futuro, e enfim medita sobre a eternidade. Por conseqüência eu nunca hei de sorrir para a vida.”

“16 de setembro. – Terrível sonho tive eu à noite passada. Dormindo, vi uma mulher, que se envergonhava de me olhar... era minha mãe!... eu a estive vendo, como se a houvesse algum dia conhecido... chorei ajoelhado a seus pés, e ela praguejou contra mim, porque eu sou a prova do seu erro. Amaldiçoou-me, porque eu sou para ela (talvez!) um remorso, que incessante a dilacera. Preciso repetir mil vezes, a mim mesmo, que isso foi um sonho. Porque achar minha mãe é a única esperança, que neste mundo tenho, e ser amado por ela, uma ambição desesperada. Eu adoro a minha mãe sem tê-la nunca visto; daria minha vida por uma bênção dela. Meu Deus! dai-me minha mãe!”

“17 de setembro. – Há somente dois sentimentos capazes de encher toda a alma de um mancebo: são eles – amor e ambição –. Careço de bases para desenvolver qualquer dos dois. Para mim, portanto, não há felicidade possível. É horrível a vida do homem que tem um coração cheio de amor e carece de quem lhe aceite esse sentimento de fogo; que possui um pensamento repleto de nobre ambição, e não tem asas para voar ao ponto que mira. Disseram-me um dia que eu tinha talento e gênio; pois sim; suponhamos que se não enganaram. Tenho talento e gênio, mas não posso dei­xar a obscuridade; porque se eu sair em claro dia, o primeiro que me encontrar, perguntar-me-á – quem és tu? – e eu não terei uma palavra para responder-lhe. Tenho talento e gê­nio; porém se amar uma mulher, ela há de rir-se de minha audácia, de minha loucura, há de zombar do pobre que a ama; e se for também louca para chegar a amar-me, terá de descer muito para ir até o fundo do abismo onde a sociedade tem posto em exílio o homem pobre. Oh! é preciso pois passar pela vida sem gozar nenhum desses grandes afetos... sem ter pais, que me abençoem; sem ter esposa, com quem me identifique; sem ter filhos, em quem me sinta renascer. Oh!... só! sempre só.”

“18 de setembro. – Não foi uma visão, meu Deus?... será possível que fosse realidade?... o que se está passando ainda agora, o que eu tenho na cabeça, o que eu sinto no coração não se exprime... não se descreve... não, é impossível; mas fica eternamente impresso na alma.”

“19 de setembro. – Oh!... era... é realidade!”

“20 de setembro. – Minha mãe, perdão! três dias passados, sem que eu vos desse mais que momentâneos pensamentos; foram três dias de embriaguez ou de sono; mas enfim eis-me despertado. Sim... dormi, porque cheguei a esquecer-me de minha posição e de minha desgraça; em castigo, porém, aqui estou eu agora mais desgraçado que nunca. O que eu sofro... as lúgubres idéias que me fervem no cérebro, não serão aqui exaladas. Não! eu tenho vergonha do que sofro; se aqui as escrevesse, e depois alguém a meus olhos lesse este papel, eu creio que morreria de pejo. E todavia eu precisava tanto de escrever!... quando se tem derramado em um papel aquilo que na alma se está sentindo, o coração de quem sofre como que fica livre de um peso enorme. Eia, pois!... escrevamos sempre... um nome só... não! um nome, não! Bastam duas letras – “Ce” –.”

Com essas duas letras tinha-se exatamente terminado a página, de que copiamos os anteriores pensamentos.

Cândido havia parado de escrever; e provavelmente, sem querer, adormecera com o rosto caído sobre o papel, e os lábios sobre aquelas duas letras – Ce.

É possível que o seu último pensamento da vigília fosse o dar um beijo nas duas letras, que lhe pareciam ser tão caras.

Prolongou-se o dormir do mancebo até quase o amanhecer; hora em que, como se o próprio coração o despertasse, ergueu-se ele rápido, e foi até a fresta que havia na janela do lado direito.

A noite ainda não se havia de todo dissipado.

– Ainda é cedo, disse.

Mas ficou no mesmo lugar, olhando pela fresta; e dir-se-ia que esperava ver dali cair sobre a terra o primeiro raio do sol.

Pela fenda da janela, a que Cândido se chegara, e onde  permanecia, devassava-se quase todo jardim do “Céu cor-de-rosa”. Ao fundo deste via-se um pequeno e gracioso caramanchão coberto de trepadeiras de mil espécies.

As auras da madrugada entravam pela fenda da janela do sótão, impregnadas de mil embriagadores perfumes, como o bafo de cem anjos, que a um só tempo respirassem.

À luz incompleta e duvidosa do começar do dia, tinha sucedido essa outra, que acompanha o primeiro rubor do oriente, que é como um sorrir de saudação e de amor, que o sol oferece à terra.

De repente Cândido estremeceu da cabeça até os pés; inclinou-se para diante, e sua perna direita recebeu todo peso de seu corpo. Operou-se então em seu semblante, e em todo ele, uma mímica expressiva e eloqüente. Os olhos vivos e animados pareciam acompanhar um único objeto com olhar apaixonado, ardente e cheio de fascinação magnética; rubor febril embelecia-lhe as faces... suas narinas se dilatavam pouco a pouco; a boca entreaberta deixava passar sua respi­ração suspirosa e comprimida, e ao mesmo tempo sua mão esquerda apertava o peito no lugar do coração, que palpitava forte e freqüente, como em uma hora de perigo; tremor nervoso, porém leve, agitava-lhe todo o corpo.

Tudo isso era a alma virgem de um jovem, que por suas mil bocas saudava a aparição de uma mulher formosa.

Com efeito abrira-se uma pequena porta, que do “Céu cor-de-rosa” deitava para o jardim, e uma mulher tinha-se misturado com as flores.

Era uma moça de dezesseis anos. Mercê da hora e do lu­gar, vinha ela em livre desalinho. Vestia um vestido azul-claro, leve, de mangas curtas, e comprido, como é moda ain­da hoje. Cabelos castanhos quase pretos caíam bastos, lon­gos e ondeados até um palmo do chão, de modo a fazer inveja a essas gregas, de quem fala Gemelli; sua fronte era branca e lisa; seus olhos azuis e belos, como os das mais belas mulheres do Norte. Fugitivo rubor lhe assomava às faces. Formavam sua boca breve e ornada de lindíssimos dentes, dois lábios úmidos e rubros, como o bico de uma trocaz. Seu nariz era bem feito como os das beldades da Circássia; e a seu colo altivo e branco como a neve seguia um seio alvo palpitante... perigoso de se contemplar...

Delgada e graciosa como a palmeira de nossos bosques, essa moça com cintura de georgiana, com suas mãozinhas delicadas e finas, com seus pés de menina, com todas as suas formas mimosas e puras, mostrava-se verdadeiramente encan­tadora.

Era uma dessas belezas delicadas e flexíveis, a quem um homem apertaria a mão muito de leve, e teria ainda assim mesmo medo de haver ofendido seus brandos tecidos; a quem um esposo beijaria no rosto com a ponta dos lábios, temeroso de desbotá-la com o simples toque deles; era um desses tipos de brandura delicado e fino, como uma violeta, um jacinto ou uma pétala de rosa.

Era a “Bela Órfã”.

A interessante moça passeou durante alguns momentos por entre suas flores; examinou o estado de seus arbustinhos mais queridos; enfim chegou-se a uma roseira e colheu um botão de rosa.

Tinha colhido a sua imagem.

Entrou depois no caramanchão e reclinou-se negligentemente em um banco de relva. Aproveitando a inclinação desse belo corpo, e ajudados pelo impulso dos zéfiros, os ca­belos da moça derramaram-se sobre ela.

Quem a visse então debaixo daquele teto de flores, reclinada em um leito cor de esmeralda, com seu seio e seu colo cobertos pelas longas madeixas quase negras, com seu comprido vestido azul-celeste agitado pelas auras, com seu rosto tão belo como surgindo dentre aquela chusma de anéis de madeixas, a julgaria talvez uma encantadora fada, ou tomá-la-ia pela visão de um sonho.

A moça parecia esquecida de si própria na posição que tomara, quando um brando raio do sol que acabava de nascer veio refletir sobre seu rosto.

Então ergueu-se, e olhando como em despedida para suas flores, saiu do caramanhão, e pouco depois desapareceu pela pequena porta por onde tinha vindo.

O anjo acabava de entrar no céu.

Cândido, imóvel, silencioso e em êxtase, havia acompanhado com seu olhar magnético aquela mulher angélica em todos os seus movimentos. Vendo-a desaparecer, exalou um suspiro longo e doloroso, que talvez desde muito sufocava no coração; e enfim pronunciou vagarosamente com enlevo indizível e demorando-se em cada sílaba, um nome, só um nome, como se esse nome fosse um hino completo, e em cada uma de suas sílabas achassem seus lábios melíflua doçura.

Ele disse pois baixinho e preguiçosamente:

Celina!

 

A TIA DE CELINA

CELINA acabava de entrar na sala para entregar-se a seus estudos de música, que ela amava sobretudo, quando sua tia veio correndo para ela, e com uma explosão de alegria infantil exclamou abraçando-a:

– Celina! eu sou feliz... imensamente feliz!.

A “Bela Órfã” deixou-se levar por Mariana até o sofá, onde se sentaram juntas a sobrinha muito admirada, e a tia rutilante de júbilo.

Mariana era uma dessas mulheres que ainda são moças aos quarenta anos. Contava ela então trinta e seis, dizia que tinha trinta, e julgá-la-iam com vinte e cinco. Era um verda­deiro tipo de beleza dos trópicos; tinha os cabelos longos e negros como o azeviche, os olhos grandes, pretos e tão brilhantes como o sol do Brasil; o rosto perfeitamente bem ta­lhado e de uma cor morena muito pronunciada. O nariz era bem feito, e suas narinas cedendo às vezes a um ardor natural, se dilatavam com força; tinha lábios eróticos, e ri­quíssimos dentes; a boca um pouco grande, mas engraçada; abaixo de seu pescoço garboso e acima de seus seios pequenos e palpitantes, nem de leve se desenhavam suas clavículas; cintura delgada, braços grossos com perfeição torneados, mãos lindíssimas e pés de brasileira completavam os encan­tos dessa mulher.

Começando ela então a engordar, nada porém havia perdido da elegância de suas formas; ao contrário estava mais elegante ainda. Alta e graciosa, cada posição que seu corpo tomava tinha um encanto particular, cada um de seus movimentos acendia um desejo perigoso; seu olhar era às vezes um desafio, uma provocação; seu sorrir quase sempre uma magia poderosa, sua voz uma harmonia que ficava no coração para se ouvir sempre, ainda mesmo ausente dela: a voluptuosidade e o ardor estavam derramados em toda essa mulher, que deveria ter sido e era ainda objeto de cultos perigosos.

Sobretudo, Mariana sabia que era bela, e se ufanava de sê-lo. Quando um homem chegava-se a ela, havia de pagar­-lhe por força o seu tributo de admiração, porque Mariana lho pedia com a provocação de seus olhos; e se o homem resistia, lho ordenava com a magia de seu sorrir, e enfim lho impunha com a harmonia de sua voz.

Viúva há três anos, julgara com sua vaidade de bela, que as vestes de luto não faziam sobressair seus encantos; e um simples lencinho preto que às vezes lhe ornava o colo, era menos um sinal de viuvez, do que um enfeite que a tornava dobradamente interessante. Aquele lencinho preto parecia estar dizendo “sou livre... podem dizer que me amam”.

Mariana era finalmente a menina dos olhos de seu velho pai, e a amiga e companheira da “Bela Órfã”.

– Celina, eu sou feliz!... imensamente feliz!... tinha ela já três vezes exclamado depois que se sentara no sofá ao lado de sua sobrinha.

– Mas por quê?... o que há então minha tia?

Ficou Mariana pensando alguns instantes, depois abraçou, e repetidas vezes beijou a “Bela Órfã”, e disse:

– Olha... por isto; porque muitas vezes nós precisamos abrir o nosso coração a alguém que juntamente conosco chore nossos pesares, e frua nossos prazeres, é que te eu tenho dito mil vezes que nós nos devemos amar como duas amigas, ou melhor ainda, como duas irmãs que se amem muito. Para que estes nomes de tia e sobrinha?... chama-me Mariana, como eu te chamo Celina.

– Senhora...

– Sim... fiquemos nisto, continuou Mariana beijando de novo Celina; eu nunca mais te hei de responder quando me chamares como até agora – minha tia. – És muito mais mo­ça do que eu, mas também podes olhar-me, não sou nenhu­ma velha, e somos ambas bonitas.

– Pois sim; eu prometo.

– E agora o que é que queres saber?...

– Por que se julga minha tia tão feliz.

– Não respondo.

– Ah!... perdão!...

– Pois pergunta de novo, disse a viúva rindo-se.

– Por que te crês tão feliz, Mariana?...

            – Escuta: para responder-te daqui a um instante, eu preciso perguntar-te uma coisa: juras falar-me de coração?...

– Sem dúvida.

– Pois bem, Celina, sabes o que é amar... amar um homem  que não é nosso pai, nem nosso irmão?...

A “Bela Órfã” corou até a raiz dos cabelos, e sua perturbação aumentou-se quando viu que Mariana se estava rindo de vê-la assim.

– Oh! não te perturbes, não cores tanto. Lembra-te que estamos sós, e que somos como duas irmãs que se amam muito. Responde francamente: amas já alguém?...

– Não, Mariana.

– Falas verdade, Celina?...

– Falo verdade, respondeu a moça com os olhos no chão.

– Mas com dezesseis anos, tão bonita e tão viva que és, tu já deves ter pensado nesse sentimento de fogo, que mais cedo ou mais tarde sempre experimentamos; fazes já idéia do que seja amar um homem?...

– Não sei... talvez... tenho lido.

– E então?...

– Mas eu tinha perguntado por que te julgavas feliz, Mariana!

– É porque amo, Celina.

– Eu o supunha.

– Tu o supunhas?... e a quem acreditavas que eu amava?...

Celina hesitou.

– Fala, disse Mariana.

– O sr. Salustiano.

Mariana fez um movimento de horror.

– Oh!... nunca! exclamou.

– Como!... pois não é?

– Eu o detesto... eu o aborreço, como se aborrece um malvado.

– É possível?

– Pobre menina!... tu ainda não sabes o que é o mundo. Vês-me rir para esse homem, vês como ambos conversamos e mutuamente nos festejamos, e como com outras pessoas, pensas que o amo e sou por ele amada. Pois bem: eu detesto esse homem, e ele sabe que eu o detesto.

Uma nuvem de imensa tristeza passou pelo rosto de Mariana há pouco expandido pelo prazer. Ela ficou muda e pensativa, até que Celina arrependida do que tinha dito, tomou-lhe uma das mãos entre as suas, e falou-lhe docemente:

– Está bem, Mariana, esqueçamos esse vaidoso mancebo, de quem também não gosto, e falemos sobre aquele que te é caro.

– Oh! sim! falemos!... exclamou, como despertando de um sonho, a bela viúva, em cujo semblante radiou de novo o prazer.

– Eu o conheço?...

– Creio que não.

– Muito moço, não é assim?...

– Trinta e dois anos.

– Bonito?...

          – Oh! pelo menos eu o julgo tal.

– És amada?...

– Era, disse Mariana soltando um suspiro.

– Desde quando?...

– Há seis anos.

Celina tornou-se pela segunda vez muito corada, e sem poder ocultar um movimento de desgosto, disse:

– Eras casada nesse tempo, Mariana.

– É verdade, respondeu a viúva. Escuta o que eu precisava dizer a uma amiga, , ara que ela ficasse conhecendo meu coração, e depois falasse muitas vezes comigo sobre o meu amor.

Celina fitou os olhos em Mariana, que começou logo a falar.

– A história da minha vida, Celina, se assemelha à de um número imenso de moças. Não te cansarei, pois, alongando-a. Aos quatorze anos já o meu espelho me tinha dito que era bela, e desde que o soube, sonhei, como todas nós sonhamos aos quatorze anos, sonhei como tu sonhas aos dezesseis, com um mancebo formoso e interessante, que o céu por força deveria ter formado de propósito para mim; que seria meu esposo, que me amaria com ardor indizível em meu pri­meiro dia de noivado, e que daí a cem anos, ele e eu, moços sempre, ele sempre com seus vinte anos, e eu sempre com meus quatorze anos, belos e felizes nos amaríamos com o mesmo ardor indizível do primeiro dia de noivado. Fui amada, requestada, e às vezes feliz. Recebi cem proposições de casamento. De seu lado meu pai rejeitou cinqüenta, que eram feitas por mancebos gentis, namorados, bailistas; e que, segundo dizia meu pai, sabiam tudo, tudo, menos trabalhar. Por minha parte rejeitei as outras cinqüenta que me eram dirigidas por nobres e ricos senhores de cabelos grisalhos e elegantes carruagens, que, em minha opinião, mereciam tudo, tudo, menos o meu amor. Enfim cheguei aos meus vinte e quatro anos... oh Celina! eu tive medo, quando um dia me lembrei que tinha já vinte e quatro anos e estava ainda solteira!...

Celina notando no tom sério com que Mariana pronunciou aquelas últimas palavras, não pôde deixar de sorrir-se.

– É porque tu não sabes, Celina, o que se passou então dentro de mim. Nas sociedades parecia-me ouvir dizer – coitada! – quando eu passava perto de um círculo de cava­lheiros; eu julgava-me ofendida no meu orgulho, rebaixada na convicção que eu tinha de ser bela; bela sim, e mais bela que as outras, quando eu via entrar na sala pelo braço de seus maridos minhas companheiras de colégio, algumas mais moças que eu e nenhuma tão bonita como eu mesma me supunha!... Oh Celina!... eu sentia que o sangue me estava subindo à cabeça naqueles terríveis momentos; concebia desejos de matar-me, e às vezes fugia para o toilette, e chorava como chora uma criança em desespero!...

A “Bela Órfã” começava a ouvir com interesse a relação daqueles segredos íntimos de um coração de mulher.

– Em outras ocasiões, prosseguiu Mariana, conversava-se familiarmente em uma roda de moças; passava-se da discussão sobre o último sarau a falar-se acerca de vestidos e modas, e enfim se sucedia cair a conversação a respeito de idades, era para mim um suplício acerbo obrigarem-me a dizer a minha. Eu mentia, Celina, eu dizia que tinha dezoito anos, e dentro de mim sofria horríveis torturas, vendo como aquelas que me conheciam, sorriam-se e beliscavam-se ouvindo-me mentir diante delas!

– Uma vez, continuou a viúva, era em um brilhante sa­rau; Matilde, a minha melhor amiga, passeava conversando comigo; de repente parou, e como inspirada por um demônio, disse-me: – Ah! é verdade, Mariana, é preciso cuidares de casar-te; estás te fazendo velha!... – Oh!... então eu tive vontade de matar a minha melhor amiga. Fugi daquele sarau... disse que estava doente; meu pai trouxe-me para casa cheio de cuidados; eu corri a esconder-me no meu quarto, e passei a noite inteira chorando. No outro dia (foi certamente o meu destino, Celina) meu pai mandou-me chamar à sala; estava com ele um homem que eu havia encontrado algumas vezes mas que nenhuma atenção me merecera: esse homem vinha pedir a minha mão; meu pai deu-me a liberdade de responder, e eu, sem perguntar quem ele era, qual o seu nome e o emprego que na sociedade exercia, disse-lhe que – sim! – e passado um mês eu era mulher de um ho­mem que não amava, e de quem podia ser filha.

– Mas foi uma loucura!... exclamou Celina.

– Oh! sim, foi, e caro tive eu de pagá-la. Eu tinha feito, sem o pensar, o sacrifício de minha vida; não me era porém então doloroso, porque meu coração estava livre... eu não amava. Mas parece que Deus quis castigar-me de pronto; porque Deus, Celina, não abençoa a união daqueles que se não amam. Logo na noite de nossas núpcias, meu marido me apresentou um mancebo de nome Henrique, e me con­vidou a abraçar nele o seu primeiro amigo; e nessa mesma noite, portanto, vi um homem que preferi a meu marido. E daí por diante todos os dias sempre esse mancebo belo, nobre, ardente, de olhos tão lindos, e um sorrir tão meigo, se apresentava diante de mim, ao pé de meu marido pálido, abatido, com os cabelos começando a embranquecer, sem espírito para compreender a mulher que desposara, e sem poder ser amado por ela!

– Oh! devia ser horrível!... murmurou a “Bela Órfã”.

– Como chorei então a minha vida de solteira!... Sim, eu estava passando novos tormentos, tormentos dobradamen­te dolorosos. Dantes era a minha vaidade que me perse­guia, mas que eu poderia vencer, e rir-me dela se tivesse sido menos louca; então era um poder mais forte, era o meu co­ração que se tornara meu inimigo, que me pedia o que eu não podia dar-lhe, e que, a pesar meu, a despeito de meus esforços para subjugá-lo, mesmo junto de meu marido e principalmente a seu lado, ele me bradava – amo Henrique!...

– E esse segredo terrível... ia perguntando Celina.

– Este amor funesto e invencível, continuou Mariana sem atendê-la, eu o sentia ir crescendo mais e mais todos os dias; para cúmulo de minha desdita, para tornar-se mais iminente o perigo em que eu me achava, Henrique amou-me perdidamente. Oh! e nos momentos em que eu contemplava esse nobre mancebo a hesitar quando me falava; a lançar-me a furto olhares ardentes, a tremer quando me dava o braço, a suspirar involuntariamente se a meu lado se sentava, e tão forte e tão grande, e tão fiel a seu amigo, que nunca achava uma frase terna para me dizer, e que sempre tantos elogios tinha para fazer a meu marido; eu amaldiçoava os laços que me prendiam, concebia outra vez desejos de matar-me, e outra vez escondida no meu quarto, chorava como chora uma criança em desespero!...

– Oh! devia ser horrível! repetiu Celina.

– Uma vida como essa não podia ser por muito tempo carregada. Eu via Henrique ir definhando pouco a pouco, como um arbusto que vai morrendo com suas folhas já murchas, e suas flores caindo. Tive mil vezes vontade de lançar-me a seus pés, e lhe pedir que vivesse; veio-me mil vezes aos lábios a confissão do amor que lhe votava; mas, bendito seja o amor do homem virtuoso! aquele nobre silêncio do mancebo, aquele santo respeito com que ele me tratava, aquela fidelidade que ele tinha a meu marido, me sustiveram na posição de esposa honesta. Enfim, Henrique teve também medo de si, e fugiu-nos...

– Fugiu?...

– Sim, há três anos; seis meses antes da morte de meu ma­rido, Henrique partiu para França. O que se passou no dia em que ele nos deixou, não posso bem descrever; sei que eu estava só quando Henrique veio despedir-se; sei que ne­nhum de nós pronunciou uma única palavra que não pu­desse ser proferida em alta voz e diante de todos; mas sei também que apesar disso, ele levou a certeza de meu amor, deixou-me a certeza do seu; e lembro-me enfim, que nesse mesmo dia meu pai me pediu de joelhos, de joelhos, Celina, que eu tivesse piedade de meu marido, de seus cansados anos!...

– E agora?...

– Agora, Celina, tu mo perguntas?... exclamou Mariana com novo arrebatamento de prazer. Agora eu o amo como dantes, ou mais ainda; eu quero ser dele; eu o amo, ouviste, eu o amo!

– Compreendo; mas...

– Mas o quê?...

– É que o teu prazer, Mariana, se mostra hoje tão grande como a distância que te separa de Henrique.

– Oh! não! graças a Deus, Celina, ele chegou... desembarcou ontem, e hoje escreveu a meu pai, pedindo licença para visitar-nos. Vê... lê comigo a sua carta.

Mariana tirou do seio um bilhete todo perfumado, e três vezes o leu a Celina.

– Portanto, hoje mesmo devo torná-lo a ver! Ah! Celina, se eu pudesse fazer-me mil vezes mais bela!... porque eu amo... muito... muito... tanto, que seria capaz de dar a vida por ele, e capaz de matar a mulher que se atrevesse a amá-lo!

A “Bela Órfã”, ingênua, inocente, sem ter jamais experimentado esses sentimentos desabridos e perigosos, que fazem falar com a veemência com que falava Mariana, olhava para esta, atônita e sem se atrever a pronunciar uma só palavra.

E também a viúva aprazia-se daquele silêncio. Quem ama e fala do seu amor, estima não ser interrompido, gosta de discorrer horas inteiras repetindo mesmo o que já disse mil vezes, e começando de novo a história que exatamente acaba de contar.

Finalmente Mariana sentiu que já tinha .o coração mais leve, ergueu-se, e abraçando ainda Celina exclamava:

– Eu sou feliz! imensamente feliz!...

Quando um escravo apareceu à porta da sala, e anunciou o sr. Henrique, Mariana deixou-se cair de novo no sofá; e foi só depois de alguns instantes que disse com voz muito trêmula e comovida:

– Que entre.

Levantou-se a custo para receber o antigo amante.

Era um homem alto e belo; seus olhos pretos lançavam olhares brandos que condiziam perfeitamente com o sorrir meigo e um pouco melancólico de seus lábios. Tudo nele era nobre e sério; tudo nele desafiava simpatia: bem feito, trajando com gosto, mas sem extremar-se em modas; era enfim um belo, homem; um cavalheiro completo.

Entrou perturbado e trêmulo, como estava Mariana.

Depois dos primeiros cumprimentos, disse com visível comoção:

– Cheguei ontem, senhora, e meu primeiro cuidado foi correr a depositar meus respeitos aos pés da viúva do meu melhor amigo.

– Obrigada, senhor, respondeu Mariana a tremer; é muito lisonjeiro para mim, que me coubesse aqui o seu primeiro cuidado. Vejo que se não esqueceu de nós...

– Oh!... nunca!... exclamou o mancebo animando-se.

– E também nós, senhor, nunca!...

Sem se poder explicar a razão, Celina sentou-se por seu turno perturbada, começou a corar muito e conheceu que não podia ficar ali mais tempo.

Aquela cena de amor como que ofendia sua inocência de virgem. Ela ergueu-se e disse a Mariana:

– Devo mandar participar a meu avô a visita do senhor?...

– Sim, murmurou a viúva.

Celina deixou a sala.

Henrique e Mariana ficaram a sós por cinco minutos. Mariana não era mais uma senhora casada.

Quando, no fim dos cinco minutos, entrou na sala o avô da “Bela Órfã”, Mariana já sabia que três anos de ausência não tinham podido arrefecer a paixão ardente que lhe vo­tava Henrique.

Era um amor que recomeçava.

 

DIA DE FINADOS

HÁ NO ANO dois dias que são verdadeiramente pomposos na cidade do Rio de Janeiro: o de quinta-feira de Endoenças e o da comemoração dos defuntos.

No primeiro deles adora-se o lenho sagrado, imagem daquele em que no Gólgota foi crucificado o Filho da Rainha das Virgens.

O segundo pertence à religião dos túmulos.

Pois com serem tão grandiosos e sublimes, tão cheios de íntima dor, e de tremenda verdade os pensamentos que pre­sidem esses dois dias, ainda assim há neles sacrilégio e vai­dade.

Há o sacrilégio dos homens e a vaidade das mulheres e de quase todos.

Uma multidão de mancebos corre um por um todos os templos na quinta-feira santa, e sem que os intimide nem contriste o aspecto solene das igrejas, o efeito dessas mil luzes que se queimam nos altares, e o profundo silêncio que neles reina; no meio dos poucos a quem um verdadeiro sentimento religioso afasta da terra e aproxima do céu, eles profanam o santuário requestando as mulheres e zombando dos mistérios.

E as mulheres, as mulheres em quem a religião, além de um dever, é ainda, mais que em todos, uma necessidade e um encanto, têm entre si muitas que olham a noite sagrada como o ensejo feliz de ostentar suas graças e suas galas; e lá mesmo, no seio dos templos, suas orações não chegam nunca ao céu, porque as desconceituam as murmurações que de envolta com elas caem na terra.

E o dia de finados, o dia de luto que os homens têm tornado de festa; o dia do pó, a recordação do nada que somos, é em nosso tempo a demonstração viva e solene do muito que pretendemos ser.

Uma palavra diz tudo: no dia da comemoração dos defuntos, a vaidade dos vivos levanta seu trono sobre o túmulo dos mortos.

E portanto ainda nesses dois solenes dias nós demonstramos crime e fraqueza.

Em quinta-feira de Endoenças nós somos sacrílegos.

Em 2 de novembro de todos os anos nós somos, pelo menos, vaidosos.

 

Havia chegado o dia 2 de novembro de 1846.

Tinha-se, pouco mais ou menos, passado mês e meio depois daquela manhã em que Cândido, da fresta de sua janela, observara em êxtase a “Bela Órfã” passeando no seu jardim.

 

Desde o romper da aurora que os bronzes de todas as igrejas da capital do Brasil gemiam com seu dobre lúgubre, longo e monótono.

Multidão imensa de homens e mulheres, todos vestidos de luto, saíam ou entravam em turmas pelas portas dos templos como ondas negras.

Apesar de sua vaidosa ostentação, de sua inoportuna riqueza, os jazigos ofereciam um aspecto sublime e melancó­lico: era o aspecto da morte.

O cemitério de S. Francisco de Paula estava semeado de túmulos e repleto de povo.

Os curiosos que o visitavam cediam à força do império da morte; obumbravam-se.

Os órfãos e as viúvas, os pais que haviam perdido seus filhos, choravam e rezavam.

A despeito das galas e do luxo de alguns imensos mausoléus, o pó, o nada humano parecia transudar por entre as molduras douradas, e uma caveira se mostrava triunfante de sobre as colunas de ébano.

Nos túmulos humildes, sem pompa de luxo, cobertos de roxos amarantos e tristíssimas perpétuas, como que o gênio da saudade estava aí sentado para intermediário entre a dor do vivo e a alma do- morto. O túmulo sem pompa era a expressão da saudade do vivo.

Porque, preciso é dizê-lo, a verdadeira dor é simples e singela; e a saudade que se não simula, a saudade que sai do coração, não tem necessidade de adornar-se. Asseme­lham-se nisso às mulheres, que quanto mais feias mais se en­feitam para disfarçar seus senões, e quanto mais belas mais simplesmente se vestem para ostentar seus naturais encantos. Assim a dor e a saudade que se fingem, precisam de ornar-se muito, e as que são verdadeiras apresentam-se nuas... e sua nudez é imensamente sublime.

A melhor expressão de uma dor é o pranto. O mais rico ornamento dos túmulos é a caveira.

Os vestidos devem condizer com o corpo que se veste. Não há, não pode haver relação entre molduras, franjas douradas e um esqueleto.

Essa riqueza parece uma zombaria que a vida faz à morte. Essa riqueza destrói completamente a idéia tremenda que em tal dia deve ocupar o espírito dos vivos.

Porque à porta do cemitério o homem lê as terríveis palavras de morte: “Lembra-te, homem, que és pó, e que em pó te hás de tornar”. E dentro do jazigo de encontra ouro... ostentação... luxo...

Para que pois uma tão grande mentira em dia de tão grande verdade?... não sabeis?

É porque o filho do rico tremeu quando viu que os ossos de seu pai não se podiam distinguir dos ossos do mendigo; e com as galas da vida quis esconder a igualdade do pó.

Embora... Ou no mausoléu, ou na simples urna funérea, estava sempre o triunfo da morte. Mesquinha diferença havia: um guardava o esqueleto do rico, a outra os ossos do pobre; mas de mistura um e outros, quem acertaria com a caveira do primeiro?. .

Havia aí mesmo nessa área tremenda, ouro, ostentação no exterior; pó e mais nada internamente. Por cima estava ain­da a vida... a mentira; por baixo triunfava a morte... a verdade.

A linha terrível e anti-religiosa que com tão maus resulta­dos divide os filhos de Deus em dois grupos, ricos e pobres: ricos que gozam e mandam; pobres, que trabalham e sofrem de contínuo, estava traçada aos olhos dos vivos; mas em seu hediondo aspecto as caveiras pareciam estar soltando disformes gargalhadas de escárnio contra pretensões vãs de uma vaidade impotente.

E pois, e apesar de tudo, havia aí no cemitério a igualdade dos mortos mal desfigurada pela desigualdade dos vivos.

E por entre esses mausoléus e esses túmulos, iam passando grave e tristemente aqueles que vinham chorar seus defuntos.

O silêncio dos túmulos era de instante a instante cortado pelos soluços dos vivos, e a sequidão do pó recebia as lá­grimas da carne.

Às vezes uma virgem pálida e indiferente a tudo que a rodeava, banhada em pranto de saudade, se deixava ver de joelhos junto de um túmulo, como a sombra de um finado descansado sobre seus restos. No meio dessa multidão de­solada, não se perguntava, adivinhava-se quais eram os pais, quais as mães que choravam seus filhos, porque essa dor profunda do coração fala mais alto e mais claro do que as outras.

Não era porém comum o ver-se sobre um túmulo deposta a roxa perpétua pela mão da simples amizade. Poucos se notavam os amigos de além-túmulo.

Mas lá em sombrio recanto havia uma urna humilde e modesta, onde um grande número de homens e mulheres se tinha ido ajoelhar e depor seus ramos de saudades. Ora um mancebo luzido e rico, quase sempre a pobre mulher envolta em negra mantilha, e o velho abatido e magro se fora curvar ante esse pó sem dúvida muito amado.

O túmulo como dito fica, era simples e humilde; tinha por inscrição na parte superior duas letras – P. A. – e logo abaixo delas uma outra – C.

Ultimamente uma velha magra, de cabelos brancos e olhos verdes, e um mancebo pálido, de cabelos pretos e olhos pardos, acabavam de ajoelhar-se junto do túmulo, e oravam profundamente.

Um homem, a quem o amor que se tributava àquele pó tão lembrado, parecia haver muito sensibilizado, esperou que a velha e o mancebo se erguessem para falar-lhes; mas vendo que ambos por demais se demoravam, aproveitou um seu momento em que a mulher levantou a cabeça e tocando-lhe no ombro, perguntou:

– Senhora, perdoe se a interrompo; mas por quem é que ora tão fervorosamente?

– Pelos pais dos pobres, respondeu a velha.

– Como se chamavam?...

A mulher apontou para as três letras, e disse:

– Paulo Ângelo e Celina.

– Ah! tem razão; por minha vez rezarei por eles.

A velha tinha já outra vez se mergulhado em suas orações.

Nesse momento aproximaram-se do túmulo um velho e duas senhoras; uma muito mais moça que se quis logo lançar de joelhos, e outra também moça ainda, que fez a primeira parar à força enquanto se não levantavam a velha e o mancebo.

Teve então lugar uma cena que atraiu a atenção de quase todos os circunstantes.

A primeira das recém-chegadas, que era tão jovem como bela, sustida à força por sua companheira, por entre um dilúvio de lágrimas, sufocada por seus soluços, encarava ainda assim com indizível mostra de gratidão a mulher e o man­cebo que rezavam junto daquele túmulo.

E o velho pálido, com os braços cruzados e a cabeça caída, chorava muito, como chora um pai pelo filho amado que lhe morreu.

Finalmente a velha persignou-se e se ergueu. Um lugar ficou vazio; o moço levantava-se também por sua vez, quan­do a jovem escapando-se das mãos da senhora que a sustinha, foi... atirou-se de joelhos ao pé da urna funérea, excla­mando:

– Meu pai!... minha mãe!...

O mancebo, que acabava de levantar-se, escutando aquela exclamação dolorosa, e olhando para a pessoa que a soltava, começou por seu turno a soluçar desabridamente, e, sem querer talvez, pôs as mãos ainda em pé, e depois foi pouco a pouco curvando-se até ajoelhar-se de novo.

No entanto a comoção ou o acaso tinha feito com que se soltasse a mantilha que a velha trajava; e então aquela mu­lher alta, magra, com seus longos cabelos cor de neve caídos sobre uma saia de sarja preta, com as mãos postas e em pé por detrás daqueles dois jovens, completava um quadro da mais dolorosa eloqüência.

Conhecendo que também ela se fazia objeto da geral atenção, apontou para o túmulo, olhou com seus olhos verdes para a multidão e disse:

– É o prêmio do justo.

E desfazendo-se em lágrimas, a velha envolveu-se de novo e rudemente com sua mantilha, e retirou-se apressada.

A esse tempo também o mancebo tinha já refletido sobre o que acabara de praticar, e espantado de si mesmo, apro­veitou o instante em que todos os olhos acompanhavam a velha, para desaparecer por entre os túmulos.

À inteligência de ninguém será feita a injustiça de dizer-se, como revelando um segredo, que essa mulher era Irias, e esse mancebo Cândido.

Somente convém acompanhá-los em sua volta para o “Purgatório-trigueiro”.

 

O INSULTO

A VELHA e o mancebo encontraram-se à porta do templo, e sem se dizerem palavra, dirigiram-se para o “Purgatório-trigueiro”.

Irias voltava comovida; Cândido absorto e preocupado caminhava a esmo.

Havia mês e meio que na alma de Cândido se desabotoara sobre uma bela flor, um pensamento novo e brilhante, que desde então sendo o seu eterno companheiro das vigílias do dia, e dos sonhos da noite, nesse momento em que tornava para o “Purgatório-trigueiro”, o ocupava exclusivamente.

Esse pensamento se debuxava na alma do mancebo sob a forma de uma mulher formosa.

Até bem pouco, Cândido, que sentia o coração cheio de amor, que pedia incessantemente ao céu sua mãe para saciar nessa mulher, que lhe dera a vida, toda sua ambição de amar e de ser amado, não tinha ainda adivinhado que além do amor filial um outro afeto há, ardente e poderoso, que enche a vida do homem, que lhe desvaira a cabeça e pode fazer dele um herói ou um demônio.

Cândido era uma criatura excepcional, um desses mancebos que tem podido viajar pelo mundo vinte anos sem sentir surgir-lhe em seu caminho a figura de uma mulher formosa que lhe fizesse pagar o tributo gracioso, que enfim o coração do homem paga sempre na vida.

Mas, ao romper de uma aurora, o mancebo lançou por aca­so os olhos através da fresta de uma janela, e viu uma moça que, ao muito, poderia ser sua irmã; e para logo ele compreendeu, que, além de uma mãe, há no mundo uma outra mulher, a quem se pode amar muito.

E desde esse dia, em todos os outros, e à mesma hora, Cândido ia esperar que a “Bela Órfã” descesse ao seu jardim, e em êxtase a adorava, ou descuidadosa passeando por entre as flores, ou negligente repousando no banco de relva do cara­manchão, envolvida na nuvem de suas madeixas.

Amava ele aquela mulher?... Cândido juraria que não. Em seu entender Celina não era uma mulher para se amar; era sim uma bela visão para se admirar extasiado.

No entanto, ele que pensava não amá-la, despertava, ao amanhecer, para contemplá-la; de dia por ela suspirava; dor­mia e a via em sonhos.

A mãe de Cândido tinha já uma rival no coração de seu filho.

Acompanhando Irias ao templo de S. Francisco de Paula, Cândido pagava também o seu tributo de gratidão aos res­tos do homem beneficente; e além disso, rezava pelo pai de Celina.

Mas, quando a órfã soltou seu grito de dor, e caiu de joe­lhos junto do túmulo de seu pai, Cândido, preciso é dizer, esqueceu o lugar onde estava, a multidão que o cercava, e o fim para que ali viera; e de novo ajoelhando-se ele o fez, instintivamente, não para deprecar por um finado, porém só em adoração àquela mulher formosa.

Mal chegou o instante da reflexão, ergueu-se e fugindo do jazigo e encontrando sua mãe adotiva à porta do templo, travou-lhe do braço e levou-a apressadamente pelas ruas.

O coração e a cabeça daquele mancebo estavam em guerra. A pesar dele, a despeito de seus esforços para enganar-se a si próprio, ele amava. E seu coração lhe pedia com ardor a posse dessa mulher encantadora... a primeira que tinha amado.

E sua cabeça lhe mostrava a sociedade despótica e tirânica empurrando-o para longe de Celina, erguendo entre ela e ele um muro de bronze, em cujo cimo estava escrito – impossível – impossível; porque o século pertence ao ouro, e o ho­mem pobre deve abafar suas afeições...

Mas o coração que ama, não crê nessa palavra – impossí­vel –; o coração não sabe que no mundo há ouro; não ra­ciocina para depois amar: o coração ama, porque ama.

E todavia se Cândido fosse cair aos pés da “Bela Órfã”, se lhe pedisse seu amor e sua mão, a sociedade teria de per­guntar-lhe:

– Quem és tu?...

– Um pobre rico de honra.

E a sociedade havia de rir-se, e de responder-lhe: – não basta.

E viria depois dele um outro de quem se pudesse dizer – Um rico pobre de mérito.

E a esse responderia a sociedade: – é de sobra.

Atormentado por essas reflexões, que até certo ponto exprimiam nuamente a verdade, o caráter da época atual, Cândido caminhava a passos largos sem ver, sem ouvir, sem atentar coisa alguma.

Irias acompanhava a custo, e como que espantada, ao ardente moço. Tendo-lhe, como foi dito, caído a mantilha ao pé do túmulo de Paulo Ângelo, quando de novo nela se envolveu, colocou-a mal, e uma porção de seus longos cabelos brancos ficou flutuando sobre ela. E Cândido, levando-a estouvadamente, e caminhando sem reflexão, ora com Irias se esbarrava contra os que vinham, ora deixava que a pobre velha se salpicasse de lama.

Indiferente a tudo isso, surdo à voz de Irias, todo entregue a seu pensamento único, foi somente ao aproximar-se de sua pobre casa que Cândido se sentiu despertar por um grito de escárnio.

– Bruxa!... bruxa!... bradavam de todos os lados.

Entretanto também Celina se retirara da igreja de S. Francisco de Paula em companhia de seu avô e sua tia. A carruagem, em que vinha o velho e as duas senhoras, parou no alpendre do “Céu cor-de-rosa”, e quando os três acabavam de apear-se, foram atraídos pelos gritos, que de todas as partes soavam.

Cândido e Irias viam-se cercados por uma chusma de garotos, que tomavam a velha para alvo de suas zombarias.

Como os cães que, em nossa terra, investem de preferência contra os negros, porque sentem o desprezo que se vota a essa classe desgraçada, a escória da sociedade, imitando os grandes, escarnecia da pobreza daquela mulher.

Jacó e Helena riam-se daquela cena de escândalo, como se ela fora uma cena de prazer público; e ambos eles excitavam, em voz baixa, os garotos que passavam perto de suas jane­las, a continuar em seus insultos e redobrar os gritos que soltavam.

– Bruxa!... fora a bruxa!... bradavam uns.

– Lá vai a velha bruxa!... clamavam outros.

Alguns já tinham ousado chegar-se a suas vítimas, e a mantilha da velha estava feita pedaços.

Irias agarrava com suas duas mãos emagrecidas e nervosas o braço do mancebo que, tremendo de raiva e de vergonha, esquecia-se do que era, e queria lançar-se contra a canalha; e ao mesmo tempo que a velha, que o sustinha à força, ape­nas demonstrava o seu furor em um sorrir de desprezo, que deixava ver duas ordens de dentes iguais, alvos e brilhantes, e nas vistas de fogo de seus olhos verdes que simulavam do gato observado em noite escura.

– Minha tia! exclamou Celina, aquela é a velha Irias, e o moço, que a acompanha, o mesmo que orou junto do tú­mulo de meus pais.

– Sim... creio que sim, respondeu-lhe Mariana.

– Pois então nós não podemos consentir que sejam assim maltratados.

– Mas que faremos?

– Eu vou acompanhá-los... à casa da velha Irias... é tão perto...

– Louca!... exclamou o velho.

Os gritos redobravam. As duas vítimas não podiam dar um passo. Irias empregava todas as suas forças para suster o mancebo.

– Eu corro a socorrê-los, meu avô, disse outra vez a moça com interesse.

– Não; não! Manda antes o criado.

– Eles não respeitarão a um boleeiro.

– E crês que terão respeito a uma menina?...

– Respeito não; mas talvez que tenham piedade.

Nesse momento uma pedra veio cair aos pés de Irias. Celina escapou-se do braço de sua tia, correu e colocou-se ao lado da velha.

O escárnio cessou como por encanto.

Pôde-se mesmo notar que aquela gente pervertida, sem moral nem educação, que ainda há pouco gritara furiosa, parecia como que arrependida de o haver feito. Se pudesse, lançaria agora flores sobre a velha que acabava de ape­drejar.

Jacó e Helena foram os únicos que murmuraram entre si daquele proceder da moça.

Celina acompanhou Irias e Cândido até a porta do “Purgatório-trigueiro”.

– Minha mãe, disse a moça beijando a mão de Irias, eu lhe agradeço as orações que rezou junto do túmulo de meus pais.

E depois voltando-se para Cândido, continuou:

– Obrigada, senhor.

Cândido, pálido como um finado, estava em pé porque se agarrara à velha rótula.

Celina voltou-se para se retirar; e então Irias pôs suas duas mãos sobre a linda cabeça da moça, e disse:

– Proteja Deus a filha dos pais dos pobres.

Quando Celina desapareceu no alpendre do “Céu cor-de-rosa”, Jacó foi à janela onde estava Helena e apontando para a casa da moça, e depois para o “Purgatório-trigueiro”, disse:

– Helena, ali há coisa que é preciso descobrir.

 

VISITA DE GRATIDÃO

NO DIA seguinte, e por volta das quatro às cinco horas da tarde, estavam conversando na sala principal do “Céu cor-de-rosa” Mariana e seu velho pai.

No ângulo anterior e direito da sala, e a poucos passos de uma janela, achava-se sentado em excelente poltrona o ancião, que era de aspecto simpático e respeitável; deveria ter já passado dos sessenta anos; tinha os cabelos totalmente brancos, a fronte alta, o rosto pálido, finas e delicadas as mãos, e era um pouco magro. Estava envolvido em um robe de chambre de chita, vestia calças brancas, e calçava chinelas de marroquim verde.

Defronte do velho, tendo a cabeça descansada graciosamente sobre a face palmar da mão que se estendia no peitoril da janela, Mariana estava olhando para ele, e entretinham-se ambos em discutir uma questão que parecia interessá-los muito.

Anacleto, com os olhos fitos em sua filha, a escutava observando-a, e como que receava dar inteiro crédito a suas palavras.

Posto que adorasse a Mariana com indizível extremo, o velho que a tinha estudado desde a infância, conhecia per­feitamente o caráter de sua filha, e mil vezes com um olhar firme e penetrante, lia no coração dela o contrário do que lhe ouvia dizer.

Mariana tinha todas as boas e más qualidades de uma se­nhora da alta classe. Nobre, altiva, e mesmo vaidosa, sabia, quando era conveniente, humilhar-se horas inteiras diante daqueles mesmos a quem detestava, para depois erguer-se veemente e orgulhosa. Ela misturava a audácia com a pusilanimidade, a mais inqualificável imprudência com um san­gue frio que chegava a espantar. Sabia rir-se com os lábios quando chorava com o coração. Astuciosa, arrancava o segredo alheio e não confiava nunca o seu. Era capaz de rir-se à borda de um abismo, e de vir chorar numa sala de baile; e finalmente amava com ardor e odiava com extremo.

O semblante de Mariana sempre impassível, sempre o mesmo, dava a suas palavras uma força imensa de verdade, não deixando a ninguém ler-lhe no corar do rosto, no movimen­to dos lábios ou na expressão do olhar, o que se estava pas­sando dentro dela: contudo Mariana tinha poucas vezes a virtude da franqueza. Podia enganar, sabia que o podia, e enganava.

Mas à força de viver com ela e de estudá-la, Anacleto era o único homem de quem não triunfava o sangue frio e a feminilidade de Mariana; o olhar do velho penetrava direito no coração da viúva; e diante de seu pai ela tremia e corava muitas vezes.

Conversavam ambos.

– Contudo, dizia o ancião, creio que ainda não é tempo de discutirmos sobre isto.

– Mas... não faz nenhum mal que desde já nos preparemos para quando chegar a hora.

– Sabes, Mariana, tornou sorrindo-se Anacleto: vai-me parecendo que estás mais adiantada neste negócio do que pretendes fazer-me crer.

– Não, meu pai, Salustiano ainda nada me disse; eu porém tenho meus olhos de mulher, e a experiência de trinta anos. Talvez que o tenhamos de ver bem cedo vir falar-nos.

– Pois deixá-lo vir.

– E que lhe diremos?...

– Dir-lhe-ei que volte no dia seguinte.

– E depois?... que faremos nós?...

– Nós?... provavelmente bem pouca coisa. Pela minha parte e quando ele tiver saído, chamarei Celina, expor-lhe-ei a questão; e se ela responder que não, diremos a Salustiano no dia seguinte: – não.

– Eu tenho bastante confiança na prudência da nossa “Bela Órfã”; mas não sei se seria justo deixar somente ao juízo de uma criança a solução de objeto tão grave.

– Querias pois, Mariana, tornou-lhe com seriedade Anacleto, que sem consultar a essa interessante órfã, dispuséssemos de sua mão, de seu futuro, de sua vida inteira?... suponhamos que ela não ama a Salustiano. Quererias tu que a sacrificássemos à paixão, aos caprichos desse homem!... oh! não, minha filha; os sacrifícios deste gênero são horríveis... eu os compreendo.

O velho olhou fixamente para Mariana, que sentiu passar por seu rosto uma onda de rubor; disfarçou, e depois de serenar, disse:

– Pois bem. E se acaso Celina disser que sim?...

– Nesse caso ela ouvirá minhas reflexões.

– E meu pai dirá...

– Que esse homem não me agrada; que seu único mérito, a só recomendação com que se nos mostra, é ter herdado uma riqueza enorme acumulada por seu pai, homem laborioso e honrado, dir-lhe-ei que há no rosto desse mancebo alguma coisa que transpira baixeza de sentimentos; que há no sorrir constante de seus lábios um sarcasmo eterno, ou incurável toleima, que o torna antipático e pesado a quem o pratica.

– E por conseqüência?...

– Por conseqüência eu falarei horas inteiras para convencer Celina de que não se fará ditosa desposando semelhante homem. Se ela porém teimar... paciência; deixá-la-ei ir; e rogarei a Deus por ela.

– Vê-se bem que meu pai não olha com bons olhos para Salustiano.

– É verdade; ele reúne em si o egoísmo do inglês e a frieza do alemão; e não tem a honra nem de um nem de outro.

– Mas como então consente que esse homem freqüente tão assiduamente nossa casa?...

– Mariana, certas considerações, que os homens mutuamente se devem na sociedade, fazem que nem de nossa própria casa sejamos absolutos senhores. E além disso, não é por minha causa que Salustiano aqui vem.

– Por quem, então?...

– Não fui eu que o convidei, Mariana.

A filha de Anacleto fez-se pálida de súbito, e levantando a cabeça, perguntou:

– Que quer dizer o senhor?

Ficou Anacleto em silêncio por alguns instantes. Suportou com imperturbável sangue frio o olhar vivo, ardente e penetrante de sua filha, fito em seu rosto, e depois res­pondeu:

– Nada.

Mariana deixou cair de novo a cabeça sobre a face palmar da mão, que ela estendia no peitoril da janela, e disse:

– Felizmente que meu pai tendo a honra do inglês e do alemão, não tem contudo o egoísmo do primeiro.

– E por quê?...

– Porque a frieza do alemão, essa meu pai tem.

Anacleto sorriu e depois tomando um ar sério, falou à filha:

– Enfim, Mariana, preciso é que nos compenetremos bem do que devemos a essa menina que nos foi confiada. Lem­bra-te de que ela é uma órfã, e de que seus pais foram em vida amados pelo povo, e deixaram um nome que é ainda hoje abençoado.

– É verdade.

– E portanto, nós temos primeiro sobre nossas cabeças Deus que nos observa atento. Porque órfão deve ser, e é a criatura predileta da Providência. O órfão é a criatura isolada que não tem pai para velar no seu futuro, que não tem mãe para morrer por ela, e que portanto deve ter os olhos de Deus fitos em sua fronte; fitos sobre seus tutores. Mariana, os olhos de Deus estão pois sobre nós ambos: velemos por Celina.

– Sim... velemos.

– Oh! e tenhamos compaixão... tenhamos piedade desses restos respeitáveis, dessas cinzas amadas de um pai desvelado, de uma mãe extremosa, que a morte precoce arrebatou à sua filha. De dentro do sepulcro seus esqueletos nos observam... e de cima... da eternidade suas almas nos acompanham, e vêem como cuidamos nós da sagrada deixa que nos legaram. Mariana, velemos por Celina.

– Sim, meu pai, é assim.

– Oh! e tenhamos também cuidado com este povo que amou tanto aos pais da nossa pupila; não queiramos, ao passar pelo meio dele, ouvir suas maldições. Tu sabes como Celina é amada... tens ouvido que sua casa teve o nome de – Céu, e nós mesmos, acompanhando a gratidão popular, a chamamos “Bela Órfã”: até agora, pois, bênçãos... ah! temamos que chegue também uma hora de pragas. Mariana, velemos por Celina!

– Sim... mas silêncio... eu sinto suas pisadas.

Com efeito, Celina entrou nesse momento na sala, e dirigiu-se a seu avô.

De ordinário melancólica, a melancolia era nela um encanto. Algumas vezes, risonha, o seu sorrir era um feitiço. Dessa vez Celina vinha com leve sorriso nos lábios.

– Sabe, meu avô? disse ela a Anacleto, a nossa boa vizinha, a velha Irias, lhe mandou pedir licença para visitar-nos, e agradecer-nos o que ontem por ela fizemos.

– Agradecer-te, menina, foi provavelmente o que ela mandou dizer. Pois então que venha...

– Sim, disse Mariana, vai mandar-lhe dizer que venha, nós ouviremos dela com prazer o teu elogio.

– Eu já respondi que viesse, em nome de meu avô.

– E fizeste bem... mas parece que chegou...

Ouviu-se ruído junto da porta da sala.

– Oh!... é ela!...

– Vai recebê-la, disse Anacleto.

A menina correu à porta.

– Entre! exclamou ela, nós a esperávamos com prazer.

A porta abriu-se em par. Celina não pôde reter um pequeno grito, e recuou dois passos.

Era Salustiano.

Elegante no trajar e nas maneiras, se não era bonito, não se podia dizer feio. De estatura proporcionada, tinha cabelos castanhos, olhos pequenos mas vivos, e o rosto de uma cor pálida própria das constituições abaladas pelas enfermidades e vigílias; vinha vestido de bela casaca preta de abas muito largas; trazia ao pescoço linda manta de seda de cor, e vestia colete de chamalote branco, calças de pano preto sem presilhas, e excelentes botins envernizados; por debaixo do colete saía-lhe a cadeia do relógio, e dela pendia um enorme sinete.

Salustiano cumprimentou primeiro a Celina, sorrindo da surpresa que acabava de causar, e depois aproximou-se de Anacleto e de Mariana, que se haviam levantado para re­cebê-lo.

– Desculpe minha neta, disse Anacleto, ela contava ver entrar uma pessoa por quem ansiosa espera.

Celina olhou para seu tutor com indizível gratidão.

– Eu o compreendi logo, respondeu Salustiano. Não me posso julgar tão feliz que merecesse ver sua bela neta correr alegremente para receber-me.

– Ora... disse Mariana.

Anacleto e Celina não disseram nada.

Sentaram-se os quatro e começaram a conversar sobre objetos indiferentes.

Um observador que examinasse aquelas quatro personagens, teria muito que estudar nelas; e se entrasse no coração de cada uma, acharia ali um novo exemplo dessa superfície enganadora e falsa, com que a educação e a sociabilidade escondem às vezes sentimentos opostos e interior má vontade.

A conversação de Salustiano, que às vezes era mesmo agradável, quase sempre perdia muito por sarcástica e venenosa. Não poupava nem a ironia, nem o epigrama. Ele olhava com paixão e interesse para Celina; com presunção e orgulho para Mariana; com indiferença para Anacleto.

O ancião o tratava com aparente civilidade, mas havia sensível frieza em suas maneiras.

Celina tinha os olhos embebidos em seu avô. Parecia estar vendo nele o seu defensor; e como que fazia de conta que Salustiano não se achava na sala.

Mariana, à força de habilidade, conseguia fazer desaparecer todas essas sombras, e derramava enchentes de luz de seu espírito no meio daquele grupo. Tratava Salustiano com indizível bondade e sustentava quase só todo peso da con­versação. No entretanto era Mariana quem ali mais aborrecia o presumido mancebo.

Esta cena era a mesma que se representava todas as vezes em que Salustiano vinha visitar aquela família, o que a miúdo sucedia.

Havia, devia de haver portanto um misterioso motivo que desse àquele presunçoso mancebo a força necessária para se impor ali de modo tão insólito.

Bateram palmas.

– Agora é sem dúvida ela, disse Anacleto; vai recebê-la, Celina.

A menina dirigiu-se à porta.

– E quem é ela?... perguntou Salustiano.

– Oh, senhor! Descanse... respondeu Mariana; não se incomode... é apenas uma velha.

– Ainda bem, tornou Salustiano rindo. Fazia-se necessá­ria aqui para estabelecer um contraste.

À porta da sala apareceram então uma velha e um moço, Irias e Cândido.

Salustiano com um sorriso insolente, e com uma luneta ainda mais insolente, observava os recém-chegados, que vie­ram tomar assento.

Conversou-se sobre o acontecimento da véspera.

Irias tinha tomado por sua conta fazer o elogio da “Bela Órfã”, e relatou o caso com entusiasmo e gratidão. Quando chegou ao fim, Salustiano dirigiu-se a Cândido, e perguntou:

– E o senhor o que fazia?...

– Ele?... queria lançar-se contra a canalha que me insultava, e o teria certamente feito se eu o não agarrasse com minhas mãos de ferro... porque eu sou velha... uma pobre mulher velha, disse Irias estendendo suas mãos compridas magras e nervosas; mas tenho força.

– E quando a senhora o não susteve mais, o que fez o senhor?...

– Quando ela me não susteve mais, disse Cândido, que havia corado até a raiz dos cabelos, já um anjo benéfico nos tinha salvado, e eu compreendi logo que para não ser indig­no desse socorro deveria não descer até a canalha...

– Porque aliás... interrompeu com seu sorriso maligno Salustiano.

– Porque aliás, tornou Cândido ressentido-se, eu faria o que faz um homem de brio.

– E o que é que faz um homem de brio?...

– Pois o senhor não sabe? perguntou Cândido com acento muito significativo.

Salustiano corou por sua vez.

Anacleto interrompeu os dois mancebos.

– Ora pois, disse ele; agradeçamos ao céu esse insignificante acontecimento, já que nos trouxe a vossa visita. Desde muito que conheço a nossa boa vizinha, mas nunca tinha tido o prazer de encontrar-me com o senhor.

– É meu filho adotivo, respondeu Irias; esteve muito tempo fora da terra, e apenas há dois meses voltou à velha casi­nha onde foi criado.

– Mora, pois, em sua companhia?

– Sim... ocupa o nosso pobre sótão.

Celina olhou como admirada para Cândido, que fez um movimento de desagrado ouvindo as últimas palavras de Irias.

– Admiro-me de o não ter visto ainda, disse Mariana.

– Passa os dias fora de casa trabalhando, minha senhora, e quando se recolhe é já noite fechada.

– O senhor é operário?... perguntou Salustiano.

– Infelizmente não, respondeu Cândido, sou escrevente de advogado.

– Seja o que for, disse Anacleto, é um homem que trabalha, e por conseqüência digno da nossa amizade.

A conversação continuou por algum tempo ainda. Quando enfim a velha e o moço ergueram-se para sair, Anacleto disse:

– Senhora Irias, nós somos conhecidos velhos; quanto ao sr. Cândido, declaro que simpatizei muito com ele e o quero ver assiduamente nesta casa. Somos vizinhos... seremos bons amigos.

 

UMA HORA DA VIDA PASSADA

CONCEDA-SE agora um olhar sobre o passado...

Era uma dessas belas noites de inverno dos países tropicais, onde, para vencer o frio, é de sobra o movimento e a lã.

A cidade do Rio de Janeiro estava em suas horas de poesia. A modesta fada do vale tinha sobre sua cabeça a lua cheia e graciosa que a inundava de luz; o orvalho noturno molhava-lhe as tranças; em redor dela animava-se a sua na­tureza opulenta e variada; e a seus pés dormia tranqüilo, ressonando apenas, seu mar de águas verde-claras, que simulava então um lago de pirilampos.

A natureza estava em festa. Os homens tinham também a sua. Ouvia-se o ruído de um sarau; mas não era no centro da alegre cidade, era no mais mimoso de seus arrabaldes.

O que havia de mais belo, de mais primoroso e rico na cidade do Rio de Janeiro, tanto pessoal como material, se achava reunido em uma elegante casa em Botafogo. Dava-se esplêndida festa; importa pouco conhecer a origem dela; o essencial é saber que havia uma festa.

A casa brilhantemente iluminada, ostentando riqueza imensa e luxo desmedido, era, apesar de vasta, pequena para a multidão que a pejava.

O jogo, a dança, a música exerciam ali seu império em salas diversas, e sobre vassalos diferentes.

Aqueles a quem a idade ou o estado afastava do amor, e enfim os poucos de todas as idades e estados que eram es­cravos da mais terrível paixão, prestavam vassalagem ao jogo.

Os outros todos corriam para as salas de dança e música: lá estava a mulher.

Haviam sobre cem ainda muitas senhoras.

O estrangeiro curvava-se gostoso sob o poder dessas vistas ardentes jogadas pelos olhos negros das brasileiras. Ali o árabe lembraria baixinho suas canções aos olhos das ga­zelas...

Mas no meio dessas mulheres todas, entre mais de cinqüenta virgens belas em todo fulgor de verdes anos, com todo interesse de sua intacta pureza, de sua quase angélica inocência, ainda assim levantava sua cabeça de rainha uma senhora já casada, e que não se podia dizer menina como as outras.

Alta, elegante, extremamente bem feita, de cabelos e olhos negros, cor morena, lábios grossos e belos dentes, ostentava uma beleza especial. Havia em seus modos uma mistura de segurança e nobreza que impunha respeito e admiração; de voluptuosidade e ardor, que desafiava lascivos desejos. Era uma beleza como que selvagem e perigosa. Essa mulher tinha sobretudo um olhar insolente, uma voz melodiosa, e um andar provocador.

Trazia ela os cabelos primorosamente penteados e ornados com uma preciosa borboleta de brilhantes; rosetas das mes­mas pedras nas orelhas, e o colo cor de jambo, nu, para melhor ostentar sua perfeição; seu vestido era de seda cor de Isabel, e adivinhavam-se enfim dois pequenos pés presos em sapatinhos de cetim. Tinha na mão direita um ramalhete de violetas, e na gola do vestido, mesmo junto da axila, um cravo rajado, que exprimia um não sei quê de provocadora graça.

Não era uma incógnita: a assembléia toda conhecia o seu nome e respeitava-o. Tão encantadora como honesta, contentavam-se com admirá-la.

Formara-se defronte, mas um pouco longe dela, um círculo de mancebos que faziam por mil maneiras o seu elogio, depois de haverem discutido e concedido a coroa de rainha daquela festa à bela senhora:

– É um homem verdadeiramente feliz, disse um deles, o marido de uma tal mulher.

– Feliz por todas as razões, acrescentou um segundo.

– Como por todas as razões?... perguntou terceiro man­cebo.

– Oh! pois será preciso explicar-me?...

– Bem entendido, se for de sua vontade.

– Pois bem: feliz porque possui uma mulher formosa.

– Convenho.

– Dotada de bastante espírito.

– Tenho ouvido dizer.

– Que é fiel aos laços que a ligam.

– Devo crê-lo.

– Que ama a seu marido exclusivamente.

– Quem sabe?

– Agora, meu caro, sou eu que tenho o direito de pedir explicações.

– Estou pronto para dá-las.

– Vamos, pois.

– Digo que estou fatigado de ouvir falar na pureza e lealdade daquela senhora. Oh!... chamar-me-ão dissoluto... dirão que tenho a moral pervertida... pode ser; mas confesso que no ostracismo de Aristides votaria como o camponês que o desterrava por se achar cansado de ouvi-lo chamar – o justo.

– Com efeito!...

– E ainda mais: eu respeito muito as leis da natureza. Creio firmemente que todos podemos ser escravos do erro, e que portanto se a interessante senhora, que segundo creio, faz parte do gênero humano, ainda não errou, pode errar.

– Mas ao menos ainda não errou.

– Dá-me às vezes vontade de tentar... eu daria metade da minha riqueza para ser uma verdadeira tentação!

Alguns sorrisos aplaudiram o leviano; um só dos que estavam no círculo moveu-se com sentimento de reprovação e disse:

– Senhor, sou amigo do marido da senhora de quem se trata e me penaliza que com tanta ligeireza se fale dela em minha presença.

– Mas, meu Deus, ninguém a ofendeu aqui; eu falei somente no respeito que se deve às leis da natureza.

– Uma vida pura, senhor; um comportamento ilibado, merece alguma consideração. É uma mulher encantadora, convenho; ninguém contudo ousa lançar-lhe em rosto a mais passageira leviandade, nem a menor tendência para o ga­lanteio. Se tem algum crime, é o de ser bela.

– Devia ter mais uma virtude.

– E qual?...

– A de se deixar amar.

– Senhor, vejo que cumpre retirar-me. Defronte um do outro por mais tempo, poderíamos perturbar o prazer e harmonia desta assembléia; porque eu respeito a amizade, e o senhor insulta uma mulher, por saber que as mulheres não se vingam.

Dizendo assim, o mancebo travou do braço de um amigo, e retirou-se para o fundo de outra sala.

– Henrique! disse-lhe o amigo, tu estás pálido como a morte.

– É porque tenho uma morte no pensamento, Carlos.

– Como?... que queres dizer?

– Quero dizer que amanhã hei de bater-me com aquele insolente, a menos que ele sobre ser insolente, não seja tam­bém covarde.

– Estás louco, Henrique?

– É possível... e desde muito.

Os dois moços ficaram em silêncio alguns instantes. Finalmente, Carlos, com voz grave e solene, disse:

– Não te assiste o direito de vingar aquela senhora.

– Como?... não sou amigo de seu marido?...

– Sim; porém o tens ofendido dez vezes mais que o estouvado mancebo que falava há pouco.

– Ofendido?... eu?... de que modo?...

– Henrique, tu amas a mulher do teu amigo.

Henrique estremeceu vivamente, e depois respondeu em voz baixa, apertando a mão de Carlos:

– É verdade; mas sei amá-la em segredo.

No entretanto continuavam a gracejar no círculo que pelos dois jovens havia sido deixado.

– Pois bem, disse o leviano, vou vingar-me nobremente daquele assomado mocinho, que daqui saiu há pouco.

– E por que meio?...

– Trabalhando por tornar a nossa rainha um pouco menos merecedora de sua dedicação e entusiasmo.

– É uma empresa um pouco difícil.

– Eu a reputo bem simples.

– E então?...

– Vou requestá-la.

– Quando começa?...

– Boa pergunta... já!

– Para ser repelido.

– É provável que não; e para o mostrar... eis-me em campo. Adeus... rezem por mim...

– Uma palavra ainda...

– O que temos?...

– Uma concordata: se alcançar vitória, trar-nos-á uma vio­leta do buquê que ela cheira neste momento.

– Não; uma violeta é bem pouca coisa: trarei no meu peito aquele cravo, cujo pé deve estar fazendo cócegas terríveis na axila da nossa bela.

– Está dito.

– Adeus, pois... e outra vez rezem por mim.

O presumido mancebo foi direito até a cadeira em que se achava sentada a senhora morena.

– Minha senhora, disse ele, eu vinha declarar a V. Exa. que sou um consumado traidor.

– Sinto, senhor, não poder louvá-lo por isso.

– Estava ali com aqueles senhores falando mesmo a respeito de V. Exa.

– É possível.

– Julguei que V. Exa. estimaria saber o que dizíamos.

– Enganou-se; sou bem pouco curiosa. Se eram elogios, não sabendo deles, poupo-me a agradecimentos que às vezes me custam muito; se me desabonavam, furto-me ao desgosto de ouvir censuras que realmente, ainda quando justas, não agradam nunca.

– E se acaso se houvessem dito coisas que muito conviesse que V. Exa. as soubesse?...

– Pediria que as fossem referir a meu marido.

– E se o marido de V. Exa. não as devesse saber?... se mesmo cumprisse que ele as ignorasse sempre? replicou o mancebo.

– Não compreendo... mistérios tão assombrosos, mas que se tratam em uma sala de baile, ao compasso das contradan­ças, e em um círculo de moços, alguns dos quais devem ser bem levianos, são em verdade coisas muito incompreensíveis!

– Se todavia V. Exa. quisesse arrasar esses segredos, achar o fio desse labirinto ou decifrar essa charada...

– Senhor... sou tão pouco inteligente!...

– Eu me obrigaria a aclarar-lhe tudo, desempenharia meu papel de consumado traidor, com a condição de V. Exa. acei­tar o meu braço e dar comigo um passeio.

– Ah!... que tempo e que eloqüência que V. Sa. gastou para pedir-me um passeio!...

– E então?... V. Exa. será tão benigna que me não re­jeite?...

– Mas eu estou tão cansada!

– Vejo que é ser importuno insistir, mas insisto.

– Sinto que é ser incivil teimar, mas eu teimo.

– Teima em quê?...

– Em ficar sentada.

– Minha senhora, compreendo que para quem não tem a honra de ser de V. Exa. conhecido, eu já pretendo muito; mas pode V. Exa. estar certa que eu não seria capaz de ofendê-la.

– Oh! não é isso, creia que sou pouco medrosa.

– Há pouco eu juraria o contrário.

– Pois passeemos.

Um raio de alegria terrível brilhou nos olhos do mancebo. Guardou silêncio por alguns momentos, e quando se achou fora da sala da dança, começou dizendo:

– Quer V. Exa. que eu comece a ser traidor?...

– Ah! pois deveras temos uma história?...

– E no fim um verdadeiro mistério.

– Eu lhe escuto.

– Verá que vou trair a mim mesmo.

– Diga... diga.

– Sustentava-se, no círculo em que eu me achava, que V. Exa. era encantadora; todos concordaram e eu também.

– Só isso?...

– Engraçada; convieram todos, e eu também.

– Mais nada?...

– Espirituosa; todos apoiaram, e também eu.

– E que mais?...

– Inconquistável; todos o afirmaram, menos eu.

– Menos o senhor?!

– Sim, minha senhora; eu declarei que não havia mulher de quem algum homem se não pudesse fazer amado.

– E disse bem, porque eu amo meu marido.

– Perdoe-me; é que eu me não referia ao marido de V. Exa.

– Ah! senhor!... isso agora...

– Minha proposição foi geralmente combatida.

– Fizeram-me justiça.

– Mas eu fui por diante; sustentei quanto havia dito e jurei demonstrá-lo.

– E como, senhor?...

– Fazendo-me amado de V. Exa.

A senhora morena olhou espantada para o insolente que assim lhe falava e encontrou fitos em seu rosto dois olhares frios, mas impassíveis.

– Senhor!... disse ela com voz alterada.

– Jurei, prosseguiu o mancebo, que conseguiria isso hoje mesmo.

– É incrível tanta ousadia!...

– E que em sinal de minha vitória levaria no meu peito o cravo que está aí ornando o de V. Exa.

– Eu tenho pena do senhor, porque realmente me parece um pobre louco.

– Pena tenho eu de V. Exa., disse o mancebo apertando o braço da senhora. Porque eu hei de daqui a pouco aparecer com esse cravo no meu peito; e daqui a pouco V. Exa. há de na sala que deixamos, pelo menos, fingir-se dócil a meus cumprimentos e grata a meus extremos.

– Cometi uma imprudência em aceitar o braço de um fátuo que não conhecia, respondeu com nobre altivez a senhora; mas o senhor vai já levar-me a meu lugar, se não quiser ver retirar-me só, e dizer em voz alta que qualidade de homem se atreveu a oferecer-me o braço.

– Tanta fereza!...

– Senhor... tornemos à sala... aliás...

– Pois bem... V. Exa. ouvirá primeiro duas palavras, e depois... veremos.

 

No fim de meia hora os dois entraram na primeira sala.

O cravo que ornava o peito da senhora, tinha passado para o do mancebo. Ele estava radiante; ela muito pálida.

Henrique quando viu o cravo rajado no peito do atrevido moço, deixou-se cair em uma cadeira, como fulminado por um raio.

Depois, passada uma hora, ergueu-se, e Carlos chegou-se a ele.

– Então, Henrique, pretendes ainda bater-te amanhã?...

– Não Carlos; mas parto para França no primeiro navio que der à vela.

 

Esta cena ocorrera no meado do ano de 1843.

 

A senhora morena que se havia tornado pálida, chamava-se Mariana.

O nome do mancebo fátuo que se fizera radiante, era Salustiano.

 

O POBRE ENTRE RICOS

EM CONSEQÜÊNCIA das relações que com seus vizinhos entabulara inesperadamente, Cândido teve de modificar esse correr de vida a que se havia condenado. Se o emprego de seus dias era ainda como dantes todo votado ao trabalho, parte de algumas de suas noites já ele passava fora do velho sótão.

O convite de Anacleto não fora simples fórmula de civilidade. Duas noites depois da tarde em que os moradores do “Purgatório-trigueiro” fizeram sua visita de agradecimento à “Bela Órfã”, Cândido recebeu um bilhete de Mariana, no qual, da parte de seu pai, o convidava para passar algumas horas no “Céu cor-de-rosa”.

De então por diante, força foi repetir a miúdo essas noites de serão, porque, ou novos convites de Anacleto vinham lembrar-lhe e chamá-lo para esse gozo, ou Irias o instigava a ir procurar a sociedade de tão bons vizinhos, mais que tudo porque contava que assim se poderia melhor destruir aquela acerba melancolia de seu filho adotivo.

E Cândido, que parecia abandonar-se a uma como que obediência passiva; que sempre mostrava corresponder de má vontade aos convites de Anacleto; que nunca deixava de resistir às instigações da velha Irias; que quando transpunha o alpendre do “Céu cor-de-rosa”, parecendo querer desculpar-se ante sua própria consciência, dizia entre si “não é voluntariamente, é só por condescendência que aqui venho”; Cândido, se não tivesse até então receio de estudar a fundo o estado de seu coração, sentiria o como lhe palpitava açodado, ao ele subir a escadinha da habitação da “Bela Órfã”.

Cândido estava na situação daqueles que, tendo o espírito mergulhado na dúvida e o coração nadando na verdade, mentem a si mesmos sem querer... sem sentir.

E todavia os serões do “Céu cor-de-rosa” deviam agradar ao jovem melancólico. Ali não o podia turvar nem o peso de uma multidão ruidosa, nem o cansaço de uma vigília prolongada. Os convidados eram poucos, escolhidos, e sempre os mesmos; e à meia-noite todos se retiravam. Até à meia-noite conversava-se, jogava-se, e quase sempre o domínio dos serões era exercido pela dança e pela música.

O papel de Cândido era contudo muito limitado nos serões do “Céu cor-de-rosa”. Ele nunca jogava; dançara à força uma ou outra vez, conversava quase sempre com Anacleto, e a respeito de música se desculpara como pouco entendedor da matéria.

Apesar, porém, de sua completa inação, era Cândido muito bem tratado no “Céu cor-de-rosa”. Anacleto o distinguia da maneira mais positiva; há um mês apenas que vira esse mancebo e já parecia votar-lhe decidida e forte amizade. Mariana o cercava de atenções e cuidados; Celina o tratava com angélica doçura. E a sociedade que costumava reunir-se no “Céu cor-de-rosa”, acompanhava ou fingia acompanhar os donos da casa nos sentimentos que pareciam nutrir por Cândido.

Um só homem do mancebo se afastava; um só homem ali concorria, que mostrava desestimar o pobre mancebo: era Salustiano.

Também de sua parte, Cândido pagava com extrema gratidão aquelas demonstrações de estima.

Ao pé de Anacleto seu coração se abria todo a esse nobre e expansivo sentimento que se chama amizade; sentimento elevado e belo, que um vil interesse não mingua e acanha, nem a baixeza do ciúme tolda e degenera.

Contemplando Mariana, a acerbidade de sua melancolia se aplacava, se mudava quiçá em doce tristura; ele achava naquela mulher um encanto poderoso, que o convidava a amá-la não com esse extremo ardor com que se adora uma amante, mas com a afeição sossegada e benigna que se tributa a uma irmã... a uma boa amiga.

Seguindo algumas vezes com os olhos a “Bela Órfã”, ele sentia... mas era esse o sentimento que ainda Cândido não ousara classificar. Ele olhava de relance apenas; ouvia-a com indizível enlevo; tinha de cor o eco de suas pisadas; mas não se atrevia a dizer a si próprio o que sentia por Celina.

Ao resto da sociedade pagava Cândido cumprimento por cumprimento, delicadeza por delicadeza.

Um só homem havia ali de quem o mancebo se afastava: era Salustiano. Antipatia inexplicável tinha entre eles dois levantado uma barreira, ou cavado um abismo.

Por conseqüência, devemos concluir que, apesar da presença de Salustiano, o coração de Cândido agradavelmente se dilatava naqueles serões?... Antes de assim concluirmos, cumpre primeiro lembrar-nos de que Cândido era um moço pobre e sem nome, e em seguida estudarmos a fisiologia do coração do pobre, e a fisionomia da sociedade em que ele vive; sociedade geralmente pervertida, que repele sem discutir a pobreza e o desvalimento.

Estudemos, pois, e comecemos pela sociedade.

Pois que na vida moral e física do universo é tudo mais ou menos compensado, cumpria que, em paga de seus mil dissabores, provasse o homem pobre uma feliz compensação. Ele, que de tantas coisas carece na triste vida que vive; ele, verdadeiro Tântalo, que vê no mundo um mar de gozos, e a nenhum desses gozos pode tocar com os lábios; ele devia achar na sociedade daqueles que mais têm, uma hora de esquecimento daquilo que em vão deseja.

Mas o que é que todos os dias estamos vendo?...

Nós não queremos falar do homem intrometido que, pobre ou não, em toda parte aparece, arranca à força o seu quinhão em tudo, não querendo ver a cara má que lhe fazem, nem querendo ouvir a indireta insultante que se lhe atira ao rosto. Falamos, criamos para dele falar, o pobre cheio de mérito e de pudor, que vê, que ouve, que observa, e que sente.

O que é que lhe dá a sociedade?... o que é que dá a ele, tão escondido por sua modéstia, que precisa de uma mão que o levante para aparecer, e ser visto?... o que é que lhe dá?...

Quereis ver como a semelhante respeito se caracteriza a sociedade?... Pois bem.

O pai de família segue esse homem com os olhos, e quase que se incomoda se ele olha para uma de suas filhas, porque o pai de família tem medo desse olhar do pobre; do pobre que não pode sustentar o peso de uma carteira, onde se jul­gue seguro o porvir de uma mulher.

O mancebo não procura, foge antes do jovem pobre, porque receia que sua amizade pesada lhe seja; que ele o ocupe alguma vez... ele, que nada tem para poder servi-lo um dia.

E aqueles que não são pais de família, nem mancebos, e que contudo são ricos, olham para o homem pobre por sobre o ombro, envergonhar-se-iam de lhe dar o braço num passeio, e quase que têm pejo de o considerar de sua mesma espécie.

A mulher... oh! mas em honra da verdade digamos aqui: a mulher é apenas que ainda retém alguma generosidade e nobreza no meio desta nossa perversão tão grande; a mulher está aí no jogo de altas inspirações e sentimentos elevados, envergonhando o homem todos os dias. Mas pode ir o pobre até a mulher?... como? se para chegar até ela é preciso vencer essa barreira de gelo, essa massa imunda que a pren­de como, se adiante da mulher está o homem?...

E quereis saber o que se pretende e se consegue com isso?... que uma linha divisória separe os filhos de Deus; que o mundo pobre faça seu ninho muito à parte, e não vá cons­purcar o céu da riqueza, que a casa do rico não seja empestada pelo hálito do pobre!...

Erga-se embora o pai de família, e diga que nós mentimos; brade o mancebo, e jure que insolente aleivosia lhe levan­tamos. Realmente um ou outro pai de família, um ou ou­tro mancebo desmente essa regra; mas o gênero humano aí está em totalidade demonstrando-a na prática de um modo abominável.

Será que o gênero humano esteja assim todo, todo pervertido?... não. Em regra geral, cada homem individualmente tomado, cada um de per si repele a teoria infernal, mas vai realizá-la na prática; porque cada um de per si diz que não é ele que há de emendar o mundo, e, em uma palavra, porque esse ente abstrato, pervertido, degenerado, imundo, a nossa sociedade enfim, aceita, abraça a teoria, e, como já dissemos, horrivelmente a pratica.

É por isso que a sociedade não discute entre o rico estúpido e o pobre instruído: a vitória cabe sempre ao primeiro.

É por isso que ela, sem pudor, deixa a um canto a pobreza honrada, e festeja, lambe os pés da riqueza, mesmo indignamente adquirida.

É por isso que a porta que se não abre ao pobre modesto e nobre, se escancara ante o milionário imoral, cuja presença em uma casa é ás vezes o anúncio da desonra.

É por isso... mas basta. E se a sociedade disser que mentimos, nós a mandaremos olhar para si mesma; e ela há de por força corar de vergonha, observando-se.

Ainda se o caminho da fortuna e da riqueza se facilitasse a todos os homens... mas não; uma porta de ferro a fecha, e o pobre não pode vencê-la, porque não tem a chave que abre todas as portas... o dinheiro.

E agora pensareis que por isso maldizemos a sociedade geral?... que sobre os ombros lhe lançamos a pesada culpa de tanta miséria?... Não, mil vezes, não!

Não deve ser maldita a sociedade geral; sê-lo deve somente a sociedade que governa.

Aí está o poeta nacional que brada:

“Nasce de cima a corrução dos povos”.

E aí está a sociedade que governa, justificando o bradar do poeta:

Com a impunidade espantosa do rico.

Com o patronato, o escândalo, e a servidão vergonhosa que se presta ao rico.

Com a preferência inaudita que em tudo se dá mil vezes ao rico sem mérito algum, sobre o homem que, sendo embora distinto, é todavia pobre.

O que queríeis que fizesse a sociedade geral?... ela hoje, como sempre, arremeda a sociedade que governa.

É o governo quem desmoraliza quem tem desmoralizado o povo; o erro vem daqueles a quem cumpria mostrar o bom caminho, caminhando eles mesmos adiante.

Mas seja de quem for a culpa, o resultado é sempre o mesmo. A sociedade, geralmente pervertida, repele a pobreza o desvalimento.

E agora compreendei conosco o homem pobre lançado aí no meio da sociedade que o rejeita. Entrai conosco dentro do seu coração para poder bem sentir o que se passa nele.

Em conseqüência desse constante sofrer, em conseqüência da inabalável firmeza com que a sociedade desenvolve o nefando programa da onipotência da riqueza, resulta que profundas e terríveis convicções se imprimem no coração do pobre. Ele se acha convencido que nas relações políticas não se dá jamais igualdade de lei entre rico e pobre, quer se deva “proteger”, quer “castigar”. Há iniqüidade sempre; porque para o pobre não há proteção, mas há castigo, e para o rico há proteção, há patronato, e há impunidade.

Nas relações domésticas, em conseqüência dessa depravação pública, tributa-se um culto espantoso à riqueza, e o homem pobre acha quase sempre naqueles que mais têm, ou desprezo, ou um esquecimento involuntário, que dói ainda mais, porque é a demonstração viva da própria miséria.

Sabeis qual é, e qual será o resultado de tudo isto?...

É que hoje o pobre não tem amor às instituições, nem confiança no governo; porque as leis servem somente de puni-lo, e o governo não cura de protegê-lo.

É que amanhã o pobre terá em desprezo a lei, e há de desconfiar da sociedade que governa; e depois de amanhã... e no futuro, num dia enfim que felizmente bem longe está ainda, o povo pobre que é muito mais numeroso do que o dos povo rico, perguntará àqueles que estão de cima – se ainda não é tempo de minorar-se o peso de sua cruz, se o seu calvário não se acaba de subir nunca.

É que hoje o pobre indiferente e sofredor, carrega o seu peso silencioso como o camelo, e um dia mais tarde, – ai de nós se ele chegar! – levantará a cabeça, orgulhoso como o leão, e terrível como o tigre.

Não se diga que o mundo é hoje como fora ontem, e como será amanhã; não! No mundo tudo sobe e desce gradualmente, e neste caso é preciso convir que a perversão e a imoralidade tem ido subindo de grau em grau. Deus permita que também a paciência dos que sofrem não tenha ido igualmente de grau em grau subindo; porque então, quando o termômetro terrível marcar o último e mais alto grau de perversão, marcará também o último e mais alto de paciência.

E essa repulsão, esse desvalimento, o homem pobre encontra por toda a parte. No corpo abstrato que representa a grande família, no alto corpo social recebe ele esses golpes terríveis e mortais, que ferem seus direitos naturais e civis, que destroem a igualdade do gênero humano, que dividem os filhos de Deus em dois bandos: – protegidos e repelidos.

E na pequena sociedade das famílias dos ricos, o homem pobre se atira a um canto; vê rir, vê brincar, vê gozar, vê ser feliz; e quase nunca ri, goza ou brinca, e jamais é feliz. Algumas vezes desprezado, quase sempre involuntariamente esquecido, ele fica ao canto com a convicção de sua miséria. Na pequena sociedade de que falamos, ele sofre pequenos mas repetidos golpes. Pequenos, mas que lhe doem muito, porque lhe vão ferir esses pontos mais dolorosos da sensibilidade.

E essa convicção da própria miséria, e de seu imenso desvalimento, tem tão grande influência no homem pobre, que às vezes mesmo em um círculo excepcional, mesmo na sociedade de alguns poucos que abominam a máxima diabólica, que sendo ricos não sabem esquecer involuntariamente o pobre, este não se anima a tomar para si um papel igual ao dos mais que ali estão, porque embora excepcional seja esse círculo, o pobre tem na alma a convicção de sua miséria e de seu desvalimento, e por isso se entorpece ou receia... acanha-se.

Era esta última a posição de Cândido nos serões do “Céu cor-de-rosa”.

Que importavam as demonstrações de amizade de Anacleto, as atenções e cuidados de Mariana e a doçura angélica de Celina?... que importava a atmosfera pura e leve que no “Céu cor-de-rosa” ele respira, se dentro de seu coração lhe estava pesando a profunda convicção da miséria do pobre?... portanto, ele se deixava ficar escondido em um canto da sala... do seu lugar... no lugar que geralmente na casa daquele que muito mais tem, se deixa ficar o que muito menos tem.

Mas aí mesmo, aí nesse retiro vinha esmagá-lo o peso do seu infortúnio. Daí ele via Celina cercada e lisonjeada por mancebos que podiam sorrir para ela, ouvia lhe dizerem baixinho o elogio de sua beleza, e depois irem cantar com ela duetos apaixonados; mancebos enfim, que podiam merecê-la; e ele via esses sorrisos, ouvia o murmúrio dessas palavras ditas de súbito... e não podia fazer outro tanto, porque, quem sabe se por única resposta a seus cumprimentos, Celina lhe perguntaria: – Quem és tu?...

E suponhamos que, graças à sua virtude e urbanidade, nada lhe dissesse Celina, não poderia essa menina perguntar dentro de si mesma: – Quem é ele?...

E não basta simples suposição para fechar a boca do homem pobre e desconhecido, que tem no coração um pouco desse orgulho sagrado que todo o homem de honra se ufana de ter?...

Portanto, os serões do “Céu cor-de-rosa” não ofereciam a Cândido o encanto imenso que em outras circunstâncias lhe ofereceriam. A razão disso estava nele mesmo.

Mas, enfim, um pouco à força dos convites de Anacleto, e das instigações da velha Irias, e um pouco à força dos convites e das instigações de seu próprio coração, Cândido era um dos mais assíduos freqüentadores do “Céu cor-de-rosa”.

 

UM SERÃO DO “CÉU COR-DE-ROSA”

A NOITE estava bela, a lua clara e brilhante e brisas sua­ves e frescas faziam esquecer a calma abrasadora de um dos primeiros dias de dezembro, que acabara de passar.

Um grupo de curiosos e amadores tinha-se formado defronte das janelas do “Céu cor-de-rosa” e aplaudia os cantos agradáveis que ali eram entoados.

Um velho guarda-portão estava sentado à porta do alpendre da casa feliz.

Jacó e Helena observavam de suas janelas o que se passava e o que se dizia.

Dentro do “Céu cor-de-rosa” reinava a felicidade e borbulhava o prazer. Cerca de trinta pessoas entre senhoras e ho­mens, gozavam o serão daquela noite.

Mariana estava radiante porque defronte dela, e com os olhos embebidos em seu rosto, Henrique parecia crer-se ditoso.

Salustiano não se mostrava ressentido disso, e fazia a corte exclusivamente à “Bela Órfã”.

Cândido, um pouco afastado das senhoras, não parecia alegre nem triste; ia, a pesar seu, bebendo a largos tragos o terrível veneno d’alma que se bebe pelos olhos e se concen­tra no coração. Sem o sentir, ele ficava às vezes em êxtase, contemplando Celina do mesmo modo que pelo pensamento se prendia à vida dela inseparáve1, como a sombra de seu corpo. Longe da “Bela Órfã”, receando aproximar-se, esquecia-se de si próprio em aéreas meditações; ou outras ve­zes despertava cruelmente sacudido pela mão espinhosa do ciúme, que lhe mostrava um jovem conversando a sós com Celina, ou sorrindo para ela.

Os sinos tocaram nove horas.

– Oh! bem, disse Mariana. Há uma hora que cantamos; deixemos descansar aqueles que nos ouviram, conversemos também.

– A comandante das moças deu a voz de – liberdade! – ao seu batalhão, disse um homem de meia-idade, que se supunha muito espirituoso.

– Então hoje não se dança aqui, d. Celina? murmurou ao ouvido da “Bela Órfã” uma interessante mocinha.

– Eu sei, d. Felícia! se você quer dançar, eu vou dizer a minha tia.

– Deus me livre!

– Mas por quê?...

– Porque aqueles senhores haviam de pensar que eu morro por dançar.

– Que tem isso? pensavam a verdade.

– Sim... sim... porém pensariam também que eu gosto de dançar por causa deles... para conversar... para ouvi-los dizer muitas coisas...

– E não é por isso?... perguntou Celina sorrindo.

– Qual?...

– Então por que é, d. Felícia?...

– Ora, é porque a gente sempre gosta de se mostrar.

– Bravo, d. Felícia, exclamou outra moça, que se sentava perto de Celina.

– Ah! você estava ouvindo, D. Mariquinhas?... pois olhe, é muito mal feito vir escutar o que se está falando em se­gredo...

– Obrigado pela repreensão, minha senhora, disse um mancebo que delas se aproximava nesse momento; eu a recebo, porque, na verdade, a mereço.

– Oh! não; não era a V. Sa. que eu me estava dirigindo.

– É o mesmo; talhou uma carapuça que me serve às mil maravilhas.

– Pois então sirva-se, disse Mariquinhas.

– Eu confesso que morro por saber um segredo de moça... há sempre tanta graça nos inocentes mistérios de um coração que tem só dezesseis anos!

– Ah! tornou Mariquinhas, e se o senhor soubesse então dos mistérios de um coração como o de d. Felícia, que tem só dezessete anos e meio!

– E desgraçadamente, nem ao menos nutro a esperança de poder sabê-lo um dia!

– E que mistério... era um desejo imenso de...

– D. Mariquinhas! exclamou Felícia.

– Veja como ela cora... não.... não digo. Uma coisa espantosa... que pode produzir conseqüências tão desagra­dáveis...

– Deveras, minha senhora?...

– O senhor é de segredo?...

– Muito.

– Pois bem: d. Felícia...

– Diga.

– Quer dançar.

 O moço não pôde deixar de rir.

– Pois que pensa, minha senhora?... disse ele; mesmo isso é um mistério: quem sabe a razão por que ela quer dançar?...

– Não é por nada, interrompeu Felícia. Eu não disse, eu não desejei coisa alguma; o que me parece é que d. Mariquinhas está doida por uma contradança.

– Lá isso também é verdade...

– Pois é fácil satisfazer seus desejos; eu vou tocar.

O moço dirigiu-se ao piano.

– Ah! d. Mariquinhas! tornou Felícia; você sempre está com disposição para gracejar!...

– Mas agora não foi gracejo, foi cálculo. Eu queria dançar. Olhe, está vendo aquele moço de óculos verdes?... pediu-me uma contradança no último serão e devo pagar-lha neste...

– Como anda você tão adiantada!...

– Qual! pelo contrário, atrasada... estou carregada de dívidas... em três bailes não pago o que devo.

– Bom, lá se tocam os compassos de prevenção... d. Leocádia já está bulindo na cadeira... que maldito costume tem aquela moça!

– Coitada... é com razão. O exercício... o movimento a torna um pouco menos amarela.

As moças foram interrompidas por alguns cavalheiros que a elas se chegaram pedindo contradanças.

Mariana acabava de aproximar-se de uma janela. Salustiano foi ter com ela.

– Uma contradança... a que se vai dançar, minha senhora...

– Esta não é possível, já tenho par.

– A seguinte?...

– Também já a prometi.

– Ao mesmo cavalheiro da primeira, sem dúvida... disse sorrindo Salustiano.

– É verdade, respondeu Mariana sem hesitar.

– O sr. Henrique?...

– Ele mesmo.

– Bem, tornou Salustiano mudando de tom: hei de logo pedir-lhe um obséquio de outra ordem.

Henrique veio dar a mão a Mariana, lançando um olhar de desprezo a Salustiano, que o pagou com seu costumeiro sorrir sarcástico.

Salustiano passou ainda pelo desgosto de achar Celina engajada para lª, 2ª e 3ª contradanças; eram tantas quantas se costumavam dançar em cada serão.

A dança começou. Cândido não se tinha levantado, e conversava então com a velha Irias.

Anacleto chegou-se a eles.

– Que faz aqui, sentado e triste como um velho de setenta anos, este moço que não tem mais de vinte?...

– Estava repreendendo-o por isso, respondeu Irias. É uma cabeça cheia de teias de aranha; sabe cantar, e não se deixa ouvir; dança com graça, e o estamos vendo sentado.

– Pois ele canta?...

– Não o sabia, sr. Anacleto?...

– Disse-nos que pouco entendia de música.

– Olhem só que mentiroso! exclamou a velha: canta, e tem excelente voz.

– Minha mãe, disse Cândido, para que me há de estar comprometendo?

– Canta, sr. Anacleto: o sujeitinho canta...

– Deixe-o estar, que o tomo de agora por diante à minha conta.

Terminara a primeira quadrilha.

– Venha cá, meu caro senhor, disse Anacleto tomando o braço de Cândido, venha cá, e fique sabendo que não gosto de caras tristes em minha casa.

O velho levou o mancebo até junto de sua neta. Cândido sentiu um calafrio geral coar-lhe por todo corpo.

 

– Celina, disse Anacleto, apanhei este maganão em um crime: é mentiroso, é hipócrita, e tudo quanto há de mau neste mundo. Sabe cantar excelentemente, e veio aqui di­zer-nos que nada sabia de música.

– É, senhor, que eu... realmente...

– Adeus, meu caro, já não creio em suas desculpas. Celina, fazes anos daqui a quatro dias; tomaremos sem dúvida chá com nossos amigos na noite desse belo dia: não queres pedir alguma coisa ao sr. Cândido?

A “Bela Órfã” entendeu o pensamento do velho, e disse ao moço:

– Peço-lhe que nessa noite nos dê o prazer de se deixar ouvir cantar.

– E agora?... responda, meu cavalheiro.

– Cantarei, minha senhora, respondeu o mancebo a tre­mer.

– Tinha-se formado um círculo à roda de Anacleto, Cândido e Celina.

– Bem, bem, tornou o velho esfregando as mãos; mas resta que de tua parte agradeças de antemão ao nosso mentiroso o sacrifício que vai fazer por teu respeito.

– Mas eu não sei que espécie de agradecimento...

– Sabes o que ele me dizia há pouco? que desejava ardentemente dançar contigo a próxima quadrilha...

– Senhor... balbuciou Cândido.

– Homem, não me venha com novas mentiras; fale, quer ou não quer dançar com minha neta?...

– Minha senhora, disse o mancebo dirigindo-se a Celina; ouso pedir-lhe essa graça...

A moça hesitou primeiro, e enfim respondeu:

– Com muito prazer.

Depois, levantando os olhos, viu diante dela Salustiano, a quem um quarto de hora antes tinha negado a mesma qua­drilha que acabava de conceder a Cândido.

Desfez-se o círculo que estava formado defronte de Celina. Salustiano retirou-se sem dirigir-lhe uma só palavra. As moças ficaram de novo livres da companhia dos homens.

– D. Celina, perguntou Felícia, por que é que aquele moço tremia tanto quando te falava?...

– Eu sei! é talvez por ser naturalmente acanhado.

– Restava sabermos se ele tremeria do mesmo modo falando a qualquer de nós outras, acudiu a maliciosa Mariquinhas.

– Por quê?...

– Porque se não tremesse, tiraríamos uma bela conse­qüência.

– Maliciosa!... disse Felícia, enquanto Celina fazia-se um pouco corada.

O piano chamou os pares à sala.

– Nunca houve piano que tocasse mais a propósito, tornou Mariquinhas. Celina estava me contando, sem querer, umas poucas de coisas no rubor de suas faces.

– Ah! d. Mariquinhas!...

– Cuidado comigo... não hei de tirar os olhos de você, enquanto dançamos.

Dançou-se a segunda quadrilha.

Era a primeira vez que Cândido dançava ao lado de Celina. Uma mistura de prazer e de acanhamento, de satisfação imensa e de como dúvida do gosto de tão grande ventura, dava ao rosto do mancebo uma expressão nova, bela e interessante.

Acrescente-se a isso a perturbação de Celina, que se sentia devorada pelos olhos curiosos de Mariquinhas, e conceber-se-á a sensação que experimentavam os dois quando suas mãos se encontravam, quando se viam dançando defronte um do outro, esses dois jovens, uns dos quais não sabia dizer se amava, e o outro não compreendia ainda talvez o que era amor.

Em silêncio ambos, debalde uma e outra vez tentou Cândido encetar alguma conversação. Tudo se terminava em breves monossílabos pronunciados a tremer por qualquer dos dois.

A segunda quadrilha terminou; e no correr da terceira teve princípio um episódio que ocupou por alguns momen­tos a atenção da sociedade.

Em um passo mais rápido que Celina devia fazer, caiu-lhe do cabelo um botão de rosa, que foi a tempo apanhado pelo seu cavalheiro de vis-à-vis.

Terminada a quadrilha, o cavalheiro dirigiu-se à “Bela Órfã”, e mostrando-lhe o botão de rosa, disse:

– Na Inglaterra, minha senhora, os grandes fidalgos quando jogam, desprezam o dinheiro que lhes cai no chão, e que enfim fica pertencendo ao criado mais feliz que primeiro o apanha. Levantei este botão de rosa que lhe caiu quando dançava; e dar-me-ei por extremamente venturoso se dispensar a flor que rolou a seus pés.

– Oh! é impossível! exclamou Celina com voz apaixonada; o meu botão de rosa!.. não... de modo nenhum...

– Devo crer que a minha pouca ventura...

– Não deve crer em nada... pouco ou muito feliz, teria sempre de ouvir a mesma coisa.

– Ah! compreendo: não quer dar flores a moço

– O meu botão de rosa?... nem a moças.

– A sua melhor amiga...

– Não conseguiria arrancar-mo.

– Portanto este botão de rosa...

– É a flor... do meu coração.

– Feliz a mão que da roseira o colheu!

– Foi a minha.

– Pode ser... devo crê-lo... no entretanto preciso é que me sujeite ao sacrifício de entregar-lhe um tesouro que eu poderia guardar impunemente.

– Faria uma ação má...

– Bem, minha senhora; eis aí o seu talismã... Deus lhe conserve o valor e as virtudes.

O cavalheiro entregou o botão de rosa, talvez com má vontade, e retirou-se.

Cândido, quando viu a pequenina flor passar do peito do moço para o cabelo de Celina, sentiu entrar-lhe a vida no coração.

– Oh! bravo, d. Celina! acudiu Mariquinhas; eis aí um botão de rosa que deve encerrar o mais interessante mistério.

– É certo.

– Foi dado?

– Não; colhi-o.

– Quem plantou a roseira?...

– Não sei.

– Mas então como se explica esse ardor com que há pouco pedias o teu botão de rosa?...

– É que eu amo os botões de rosa; tenho predileção por eles, como você tem pelas violetas e d. Felícia pelos cravos brancos.

– Nada... aí há coisa.

Celina esteve algum tempo pensando, e enfim disse:

– Talvez.

– Oh! pois então conta-nos. Eu sou louca por histórias em que entrem flores.

– Porém é uma tolice de criança...

– Não faz mal... conta.

– Aqui não.

– Vamos ao toilette.

Pois bem... vamos... vem conosco, d. Felícia.

As três moças saíram da sala.

Anacleto, que tinha podido apanhar algumas palavras do que elas acabavam de falar, chamou de parte Cândido, e levando-o para dentro consigo, disse-lhe:

– Vamos devagar... pregaremos uma peça àquelas três sujeitinhas, ouvindo contar uma história de rosas, que sem dúvida não terá pés nem cabeça, mas que enfim poderá ser­vir para divertir-nos.

– No entanto Salustiano tinha achado ocasião de falar a sós com Mariana. Chegou-se a ela e disse:

Depois de amanhã pelas cinco horas e meia da tarde, terei a honra de visitar a V. Exa. Conversaremos durante meia hora sobre objeto tão importante, que eu tenho a certeza de que V. Exa. achará na riqueza de seu espírito meios de sobra para afastar daqui todas as pessoas que nos possam ser incômodas durante essa meia hora.

– Senhor!...

– Depois de amanhã, às cinco horas e meia da tarde.

 

HISTÓRIA DO BOTÃO DE ROSA

EM LUGAR de ir com as duas amigas para o toilette, que era mesmo no primeiro andar, a “Bela Órfã” guiou-as para o segundo, e entrou com elas em seu quarto.

Anacleto, levando sempre pela mão a Cândido, subiu também a escada, e entrou pé ante pé com o mancebo no quarto de Mariana.

As duas câmaras eram apenas separadas por uma delgada parede, e uma portinha as comunicava pelo fundo. A portinha estava simplesmente tapada com um leve reposteiro, ou melhor, com uma cortina de seda cor-de-rosa debruada de fita azul.

O velho levou o moço ao fundo da câmara, e com precaução e cuidado correu a cortina. O quarto de Mariana não tinha luz. No de Celina ardiam três velas em um candelabro de bronze.

Cândido viu primeiro um leito virginal defendido por cortinados de cassa branca, e através deles três moças encan­tadoras, cujas elegantes formas se desenhavam ainda na sombra.

E não pôde ver mais nada, porque Celina começava a falar.

A “Bela Órfã” pronunciou algumas breves palavras; mas olhando para as duas amigas e lendo-lhes no rosto a curiosi­dade com que estavam, corou, e hesitando, disse:

– Ora... é uma puerilidade... um sonho de criança, que parece loucura contar.

Não, não, d. Celina; conte sempre.

Há de ser por força muito bonito.

– Sem dúvida; pois que além de tudo, é um sonho com flores.

Celina, com os olhos pregados no colo, principiou a contar a história do botão de rosa.

– Foi no dia em que eu fiz treze anos: jantaram e passaram a noite comigo duas companheiras de colégio, ambas dois anos mais velhas do que eu. D. Luisinha e d. Leopoldina. Leopoldina era viva como você, d. Felícia; Luisinha mali­ciosa como você, d. Mariquinhas.

– Obrigada pelo elogio, disse esta.

– Deixe-a falar, acudiu Felícia.

Celina continuou.

– Três moças que se conhecem desde a infância, que brincaram juntas, e juntas estudaram, têm sempre tantas coisas para se dizer, que a certa hora nós nos escapamos da sala, e fugimos para conversar sem testemunhas, escondidas no meu quarto. Foi neste mesmo quarto! disse a moça, cortando com um suspiro sua narração.

– Neste mesmo quarto! murmuraram como admiradas daquela coincidência, as duas ouvintes.

– Passamos muito tempo, prosseguiu a “Bela Órfã”, a rirmo-nos muito, lembrando-nos do passado e de nossas travessuras; e depois misturamos com essas alegrias tantas saudades... tantas... e tão grandes, que estivemos a ponto de chorar. Depois sonhamos também com o futuro, e nossas cabeças de meninas o iam desenhando sempre tão bonito... tão bonito!... enfim tivemos vontade de falar no presente, e Luisinha deu-me um beijo e me disse:

– Já estás moça, Celina!

– É verdade, disse Leopoldina; já estamos todas três moças; e, continuou ela rindo-se, aqui para nós, somos bonitas.

– E como é bom ser moça, quando se é bonita, tornou Luisinha; os velhos nos admiram, as outras senhoras nos invejam, e os moços nos amam.

– Antes todos nos amassem, disse eu.

– Como ela é!... exclamou Leopoldina rindo-se muito.

Eu fiquei admirada daquele tanto rir, que me parecia muito fora de tempo.

– Em parte também eu sou assim, tornou Luisinha; não amo a ninguém ainda; mas quisera que todos bebessem os ares por mim. Quando eu passo junto de um homem, a quem vejo mesmo pela primeira vez, e ele me olha de certo modo e acompanha com a vista, ou me segue, eu gosto... confesso que gosto.

– Oh! sim, disse Leopoldina; mas é tempo de fazermos um ajuste.

– E qual? perguntei.

– Logo que uma de nós amar, di-lo-á em confidência às outras.

– Eu comecei então a pensar que havia algum grande mistério na vida, que essa palavra – amar – queria dizer.

– Pois bem, tornou Luisinha, eu estou pronta... é um belo ajuste; porque eu nunca terei vergonha de o dizer. Quando amar, hei de amar bem, e a quem bem o merecer.

– Sim!... e também eu, disse a outra.

– Não há de ser com seu ouro e suas riquezas que poderá um homem agreste, frio, e sem espírito, comprar o meu coração.

– Oh! sim!... exclamou Leopoldina.

– Nem há de ser o velho que poderia ser meu pai, quem, a preço de suas carruagens ou de sua brilhante posição na sociedade, de suas comendas ou de seus palácios, ganhará a minha mão.

– Oh!... sim!...

– Há de ser um moço... bem moço, pouco mais velho que eu... bastam quatro ou cinco anos; um moço bonito, com cabelos anelados, olhos brilhantes, dentes claros, sorrir gracioso, e mãos finas; com espírito cultivado, gênio alegre, e...., não precisa ser rico.

– Ora! para que dinheiro?... acudiu Leopoldina.

– E tu que dizes, Celina?... indagou Luisinha, dirigindo-se a mim.

Eu fiquei em silêncio por algum tempo. Mas enfim, corando muito de minha ignorância, perguntei:

– O que é amar?

Minhas duas amigas começaram a rir tanto... tanto... que por fim lhes causou piedade a perturbação em que me punha a hilaridade que eu provocara.

– Pois não sabes o que é amar?...

– Amo a meus pais, a meus parentes, a minhas amigas, e aos amigos de meus pais. O mais não sei.

– Coitada! murmurou Leopoldina.

– Pobre criança!... acrescentou a outra.

Eu me achava realmente confundida.

Luisinha, explica-lhe o que é amar, disse Leopoldina.

Então Luisinha tomou uma de minhas mãos entre as dela, e me falou assim:

– Celina, eu vou dizer-te o que é amar um homem que não é nosso pai, nem nosso irmão, nem nosso amigo; escuta. Nem sempre pertencemos a nossos pais. Chega um dia em que a nossa vida começa a correr de outro modo, e deixando aqueles que nos deram a existência, passamos a ser a eterna companheira de um homem, que nos deve amar e trabalhar para nós, que reparte conosco seus prazeres e seus pesares; que forma com sua companheira um ente só; que é o nosso melhor amigo, e mais do que nosso irmão. Ora pois, esco­lher, mesmo sem se querer, sem se sentir, mas escolher com os olhos e com o coração entre mil, entre todos um homem, ao qual desejamos pertencer desse modo; pensar nele de dia, sonhar com ele de noite, estar triste em sua ausência, tremer de alegria e de pejo a seu lado, resistir às ordens de um pai, que manda esquecê-lo, e lembrá-lo ainda mais depois disso, jurar ser dele ou de ninguém, e sofrer tudo por ele: eis aqui o que é amar.

– Ah! Celina! exclamou Mariquinhas interrompendo-a; a tua camarada tinha aproveitado muito no colégio!...

– Não a interrompas, disse Felícia.

Celina continuou:

– Eu fiquei pensativa e admirada. Nunca me tinha vindo ao pensamento que se pudesse amar assim a um homem estranho.

Luisinha ainda se dirigiu a mim:

– E agora, que já sabes o que é amar, Celina, é preciso que subscrevas ao nosso ajuste; que, nunca sejas a compa­nheira de um homem a quem não tenhas amor; e que, final­mente, logo que chegues a amar, no-lo digas em confidência.

– Mas quem sabe se chegarei a amar desse modo? respon­di eu.

Minhas duas amigas começaram a rir de novo; e Luisinha replicou:

– Hás de chegar, Celina; o amor vem quase sempre contra nossa vontade e ainda contra nossa vontade se deixa ficar em nossos corações.

– E como sabes isso, Luisinha?...

– Ora! tornou-me ela; achei uma boa amiga que me deu as explicações que agora te estou dando.

– Quem nos diz que ela ainda não ama?... disse Leopol­dina.

– Ainda não. Mas vamos ao nosso ajuste. Tu subscreves a ele, Celina?...

– Subscrevo, respondi hesitando.

– Vamos jurar! exclamou Leopoldina.

Fizemos um juramento de moças. Juramos por nossa amizade e selamos o nosso pacto com beijos.

Descemos e entramos na sala, onde todos notaram que eu estava pensativa e um pouco melancólica.

Às onze horas da noite retiraram-se nossas visitas. Daí a pouco meu pai abençoou-me, e eu subi de novo para meu quarto.

Deitei-me. Minha mãe entrou, dirigiu-se a meu leito e como costumava fazer todas as noites, beijou-me e disse:

– Dorme bem, Celina.

Achei-me só.

Começaram então a ferver em minha cabeça aquelas idéias que eu tinha pela primeira vez concebido. Foi-me impossí­vel dormir durante muito tempo; julguei que delirava; pen­sei que ia ficar doida, porque às vezes me parecia ver ao re­dor de mim meninos louros e travessos, que corriam, saltavam, chegavam-se a meus ouvidos, diziam baixinho – amar! – e fugiam de novo correndo, saltando, e rindo-se muito; outras vezes era uma mão invisível, que estava escrevendo pelas paredes de meu quarto, e com tinta de fogo, essa mes­ma palavra – amar!...

Enfim, adormeci.

Mas o pensamento, que me governava acordada, não me deixou dormindo. A pesar meu, a idéia única que me ocu­pava até no sono, era essa mesma que me tinham feito con­ceber na palavra – amar.

Sonhei.

Eu estava em um vale coberto de verde grama: defronte de mim erguiam-se dois montes altos e povoados de lindas palmeiras; por entre eles prolongava-se um lago profundo, mas de águas tão límpidas que se lhe via perfeitamente o leito de areias de ouro.

O lago, que se continuava por entre os montes, vinha terminar-se no vale, e a poucas braças de um outeirinho, onde eu estava sentada debaixo de um caramanchão natural.

Não era dia nem noite; era a hora do crepúsculo.

De repente soou uma música doce e maviosa, como eu nunca tinha ouvido; e uma multidão de meninos semelhan­tes aos que eu imaginara acordada, todos eles lindíssimos, louros, muito claros e rosados, vieram com cestinhas de ro­sas nos braços dançar ao redor de mim.

A música soava sempre... sempre... e parecia que vinha do céu.

No fervor de sua dança começaram os meninos a lançar flores sobre mim; derramou-se na atmosfera um imenso perfume... deleitoso... embriagador... e a música soava sempre tão doce... tão bela, que eu me senti adormecer entre perfumes e harmonias.

Mas era um sono de encanto, no qual eu via tudo quanto se passava no vale...

Então o mais formoso daqueles meninos tirou dentre os cabelos, que eram fios de ouro, uma seta pequenina, porém muito aguda, chegou-se a mim, e rasgando-me o peito, ar­rancou-me o coração.

Eu não senti dor, nem correu sangue; a ferida de meu peito fechou-se de repente a um beijo que nela deu o me­nino; e não ficou cicatriz.

A música cessou imediatamente, esvaeceram-se de súbito os perfumes; os meninos bateram palmas e soltaram grandes risadas, e eu, despertando ao ruído delas, comecei a chorar muito por ver o cruel roubador levar o meu coração.

A poucos passos de mim o menino cavou a terra com a seta, lançou na cova que fez, o meu coração, e cobriu-o com a mesma terra que havia tirado.

E os outros que me viam chorar muito, vieram com as mãozinhas aparar minhas lágrimas, e foram com elas regar o meu coração que estava plantado.

Chorei ainda, e enquanto chorei eles regaram a terra; quando o meu pranto cessou vi ir nascendo um arbustinho no lugar onde o meu coração fora plantado.

Os meninos, mal perceberam que o arbustinho vinha brotando, correram para os montes batendo palmas e rindo muito.

Desceu então do céu um belo anjo, que veio voar à roda de mim, e depois pousou entre flores sobre o caramanchão. Esse anjo tinha o rosto de minha mãe, e olhava para mim tão piedoso!...

E o arbustinho foi crescendo... foi crescendo... era uma roseira. Começou a florescer e botou três botões: um do lado esquerdo, outro da parte direita, e o terceiro em cima.

Quando os botões estavam completamente desenvolvidos, eu vi um batel que vinha saindo dentre os dois montes e navegando pelo lago.

O batel era lindíssimo, as cortinas eram de franjas de ouro, as velas de seda, os marinheiros tinham cintas marchetadas de esmeraldas e diamantes; e o dono do batel vestia com riqueza tal, que só se vê em sonhos, e que não se pode ex­plicar em desperto.

O dono do batel saltou no prado, e apesar de sua magnificência, tive medo de seu olhar, que era feroz, de seu sorrir, que era medonho, de suas mãos, que eram de desmesurada grandeza.

E ele veio vindo... veio vindo... até que parou defronte da roseira.

Eu levantei a cabeça, olhei para o meu anjo, e vi-o tremendo de susto, e me olhando com expressão de dor tão profunda, que desatei a chorar desolada.

O dono do batel não quis ver as minhas lágrimas...

Com ar pretensioso, com passo firme, aproximou-se da roseira, e colheu o primeiro botão. .. era o do lado esquerdo.

Mas quando o quis levar aos lábios para beijá-lo... o botão se foi mirrando... mirrando... mirrando... até que se sumiu de todo, e se esvaiu em um sopro, que simulou um suspiro.

O meu anjo soltou um grito de prazer, e o batel e seu dono desapareceram inopinada... inexplicavelmente.

Tudo mais ficou como estava; e a roseira com os dois botões que lhe restavam.

E logo depois eu vi, não um batel, mas um carro que vinha saindo dentre os montes e navegando pelo lago.

O carro era todo de prata e puxado por grandes cavalos negros, riquissimamente ajaezados, que bufando, nadavam, como se fossem peixes. Os criados venciam em magnificên­cia e luxo aos marinheiros do batel. Outra vez riqueza e brilhantismo; mais riqueza ainda do que há pouco.

E saltou no prado o dono do carro de prata. Vinha co­berto de vestes muito ricas e muito lindas e tinha o peito cheio de brilhantes medalhas; mas apesar disso eu vi que seu olhar estava amortecido, seu rosto pálido e rugoso e suas mãos já trêmulas: era um velho.

E ele veio vindo... veio vindo... até que parou defronte da roseira.

Eu levantei a cabeça, olhei para o meu anjo e vi-o tremendo de susto e me olhando com expressão de dor tão profunda que desatei a chorar desolada.

O dono do carro de prata não quis ver as minhas lá­grimas...

Com ar também pretensioso, mas com passos mal seguros, aproximou-se da roseira e colheu o segundo botão... era o do lado direito.

Mas quando o quis levar aos lábios para beijá-lo... o botão se foi abrindo... abrindo... abrindo... as pétalas de rosa se foram uma a uma transformando em penas de mil cores, até que todo o botão se metamorfoseou em passarinho, que se escapou das mãos trêmulas do velho, e voou direito para o céu.

O meu anjo soltou um grito de prazer, e o carro e o velho desapareceram como o batel e seu dono.

Tudo mais ficou como estava. Somente a roseira é que tinha dois botões de menos.

Só restava o terceiro botão.

Veio vindo enfim por entre os dois montes e navegando pelo lago, não um batel, nem um carro de prata puxado por cavalos negros, mas uma grande cesta formada por um belo tecido de rosas, e conduzida por formosas garças que traziam suas asas brancas fora d’água.

Soou de novo a música maviosa e doce, e as garças exalaram por seus bicos aromas deleitosos... mas dessa vez eu não adormeci entre os perfumes e as harmonias.

E saltou no prado um mancebo tão bonito... tão bonito... com seus cabelos negros e ondeados, e um sorrir que era todo meiguice e ternura!... não havia nem riqueza, nem magnificência: havia graça e beleza.

E ele veio vindo... veio vindo... até que parou defronte que da roseira.

Eu levantei a cabeça, olhei para o meu anjo, e o vi como nadando entre a dúvida e a esperança, e olhando ora para mim, ora para o mancebo, com ternura tanta, que eu fiquei também ansiosa e anelante, olhando ora para o meu anjo, ora para o belo mancebo, que eu já temia ver passar sem colher o botão de rosa, que único restava.

O moço da cesta florida pareceu adivinhar minha esperança e sorriu com um sorrir tão meigo!...

Com ar gracioso e leves passos aproximou-se da roseira e colheu o terceiro botão...

Mas quando o quis levar aos lábios para beijá-lo, o botão se foi abrindo... abrindo... abrindo... até deixar patente todo o seu seio... Não havia pétalas de rosa... lá estava o meu coração...

O anjo, que tinha o rosto de minha mãe, bateu as asas, e baixando o vôo, veio beijar-me nos lábios... e voou de­pois para o céu...

E o mancebo correu a mim para beijar-me também; porém eu tive medo, muito medo desse beijo e soltando um grito... despertei.

Era dia.

Fiquei ainda uma longa hora na cama, pensando no meu sonho...

E desde então eu amo os botões de rosa sobre todas as flores; não quero nenhuma outra flor no meu cabelo. Tenho por eles uma espécie de culto. Porque sempre me parece estar vendo o meu coração encerrado em um botão de rosa.

 

VELANDO E SONHANDO

AO BAFEJO dos zéfiros, e ao clarão do luar, uma jovem e um mancebo velavam à mesma hora.

Essa hora era sossegada, muda, misteriosa e bela: era além da meia-noite.

Depois de muito tempo, depois de tanto tempo que já a velha Irias se não lembrava do dia em que pela última vez fechara as janelas do sótão do “Purgatório-trigueiro”, abria-se enfim aquela dessas janelas que deitava para o fundo, e junto dela sentara-se um mancebo.

No “Céu cor-de-rosa” duas mãozinhas brancas e delicadas tinham levantado uma vidraça; e uma jovem encantadora se recostara a essa janela, que era a de seu quarto, e que se abria para o jardim.

Esses dois jovens, que não podiam ver-se, ficaram aí silenciosos... meditando.

Respiravam ambos uma atmosfera perfumada pelas exalações das flores do jardim do “Céu cor-de-rosa”.

E os pensamentos que deixavam escapar essas duas almas virgens, subiam talvez ao céu nas asas de faceiras auras em­balsamadas de aromas.

O mancebo, que ali estava meditando, tinha apenas vinte anos, e a moça contava somente dezesseis.

Em que pensavam eles?...

Tão moços, tão novos, com a ligeireza da adolescência, com o frescor e doçura da primavera da vida, por que estão, e como podem eles dois estar presos a uma só idéia, pensativos e melancólicos?...

A meditação pertence à velhice; e todavia aqueles dois mancebos, com os olhos no céu e o coração na terra, medi­tavam também.

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Celina e Cândido começavam a pagar um tributo sagrado que à natureza se deve... sem querer... sem pensar em tal, eles deviam prender-se pelos pensamentos primeiro, e final­mente pelo coração...

Tinham-se retirado as visitas, os amigos que haviam formado o último serão do “Céu cor-de-rosa”; a “Bela Órfã” achava-se enfim a sós no seu quarto, onde duas horas antes contara a suas amigas o sonho do botão de rosa...

Três anos antes, também em uma noite, ela conversara com duas amigas, e depois viera deitar-se pensativa e triste como o fizera agora

Mariana entrou no quarto de Celina, e abrindo as corti­nas do leito, deu-lhe um beijo e disse:

– Dorme bem, Celina.

E retirou-se. Uma lágrima rolou pelas faces da “Bela Órfã”.

Três anos antes ela estava deitada como então, e fora sua mãe quem lhe viera beijar, e dissera:

– Dorme bem, Celina.

A semelhança dessas duas noites, a coincidência dos fatos, excitaram tanto a imaginação da moça, como a entristecia a diferença que ela notava em algumas das pessoas que re­presentavam nesses fatos.

E como há três anos antes, ela ficou refletindo, não querendo refletir; primeiro muito triste... muito triste, pensando em seus pais que já não viviam... e depois levada por sua alma muito longe... muito longe... como a flor que cai na torrente, e que por ela é carregada até onde não pode prever...

Depois ela se lembrou de seu sonho... seu belo sonho, em que um envoltório de pétalas de rosa lhe escondia o coração, e um anjo com o rosto de sua mãe velara por ela.

A “Bela Órfã” teve vontade de sonhar de novo... fechou os olhos, ao menos para ver sua mãe com vestes de queru­bim.

As diversas cenas daquele sonho de virgem, que todo transpirava anjos, inocência e flores, se foram representando na imaginação fervente da “Bela Órfã” como se ela estivesse vendo tudo...

Primeiro o formoso prado de tapete cor de esmeralda, com seu outeirinho verde e caramanchão florido, com seus mon­tes de palmeiras, e seu lago de águas límpidas e de areias de ouro.

Depois a multidão de encantadores meninos com suas cestas de flores, e a música que vinha do céu, os perfumes que embriagavam...

Depois o seu coração arrancado, plantado e regado com suas lágrimas, e as risadas dos meninos que fugiam...

Depois o anjo com o rosto de sua mãe, que vinha velar pelo seu tesouro, guardar o coração de sua filha.

E a roseira que crescia... e os botões que nasciam...

E o rico senhor do batel de prata, que desaparecia...

E o velho do carro majestoso que se sumia...

Faltava o mancebo da cesta de flores...

Em vez dele, como por encanto ainda, como por um novo sonho, a despeito da vontade de Celina, que estimava talvez admirar de novo no lindo mancebo de cabelos negros e on­deados, e olhos pretos e brilhantes... em vez dele... se foi erguendo à margem do lago um túmulo sem pompa, cuja única inscrição eram três letras – P. A. – e um C. –, e junto desse túmulo, que era em tudo semelhante ao que ela vira no dia de finados erguido à memória de seus pais, estava rezando ajoelhado um mancebo pálido e melancólico, que lhe estendia a mão e a convidava para ir rezar com ele...

Esse mancebo tinha o rosto do filho adotivo da velha Irias...

Celina esteve muito tempo embevecida como contemplando essa nova aparição...

Pareceu-lhe enfim notar que o mancebo a olhava com vistas tão ardentes... tão fascinadoras que penetravam até o fundo de sua alma, que a faziam estremecer toda, e lhe lan­çavam no coração um desassossego indizível: teve medo... e sentando-se no leito, soltou um pequeno grito.

Receou depois ter despertado sua tia: escutou... ela ressonava brandamente.

Celina passou então a mão pela fronte, e sentiu que estava em fogo. Parecia que um calor abrasante a sufocava. Ergueu-se, e envolvendo-se em leves vestidos, dirigiu-se à ja­nela, abriu a vidraça, e... ficou meditando.

Por que é que sua imaginação transformara a última, a mais bela cena de seu querido sonho, em uma cena tão so­lene e melancólica? e por que principalmente em vez do mancebo de cabelos e olhos negros, lhe mostrava agora Cân­dido, tão pálido, tão triste?

Por que é que Cândido a. olhava de um modo tão singular, e por que tremia ela mesma à força desse olhar, e sentia no coração esse desassossego tão grande?... Como é que os olhos do homem podem ter influência sobre o coração de uma moça?...

Celina fazia essas perguntas a si mesma, e depois procurava lembrar-se do que em realidade sucedia entre ela e esse mancebo. Cândido estava sempre afastado dela quando vinha ao “Céu cor-de-rosa”; quase nunca lhe dirigia a palavra; jamais, se alguma vez lhe falava, atrevia-se a erguer os olhos até seu rosto; mas às vezes também Celina olhando de repente para ele, o encontrava devorando-a com vistas ardentes e magnéticas, com olhares que a faziam estremecer e ficar desassossegada.

Por que era que acontecia tudo isso?...

A “Bela Órfã” começou depois a observar-se a si mesma, a estudar o que se passava dentro dela, e principiou pouco a pouco a decifrar um grande mistério.

A primeira vez que encontrara esse mancebo, encontrara-o em uma posição caridosa, e em uma ocasião solene. De joe­lhos, junto ao túmulo de seus pais. Orava de certo por eles já mortos, e talvez por sua filha ainda viva. Naturalmente encontro de semelhante gênero produziu viva e profunda impressão em seu ânimo, e nunca mais se poderá apagar nele a imagem dessa triste, mas consoladora cena. Celina sentira, desde o primeiro momento, gratidão imensa pelo procedi­mento de Cândido.

A velha Irias e o mancebo tinham vindo no dia seguinte agradecer-lhe um pequeno serviço, que ela lhes havia pres­tado no anterior. Durante a visita pudera examinar o jovem, a quem era agradecida; e seu rosto pálido, mas expressivo, sua melancolia tocante, suas maneiras urbanas e modestas, atraíram sua atenção, e ao muito, pode ser que também a sua simpatia.

Mas Celina tinha ouvido dizer que o mancebo habitava no sótão do “Purgatório-trigueiro”, e desde então nunca mais passeou no seu jardim à hora primeira do dia, com a mesma ligeireza de vestidos, e de modos como dantes. Debalde, porém, olhava para a janela do sótão... jamais lhe aparecera o rosto pálido de Cândido.

Depois o mancebo começou a freqüentar o Céu cor-de-rosa”; e aquela sua habitual melancolia, aquele seu passar de horas inteiras afastado de todos, alheio aos prazeres, sempre triste ou abatido, como se fora consumido por um intenso e acerbo pesar, e aqueles olhares de fogo, que de relance dardejava sobre Celina, a faziam perguntar a si mesma: “por que ele está sempre triste?... por que motivo me olha de modo tão singular?...”

É incontroverso que o coração das moças chega ao amor subindo ordinariamente por uma escadinha, cujo primeiro degrau se chama curiosidade. Aqui houve em parte uma modificação dessa regra. Porque se acaso Celina ama a Cân­dido, o primeiro degrau da escadinha deve chamar-se – gratidão – e o segundo, então, curiosidade.

Nesse estado dos acontecimentos, e do que dentro dela se passara e se estava passando, Celina lembrou-se ainda que nas noites de serão, em que Cândido se demorava em apare­cer, ela se achava descontente, olhava a miúdo para a porta da sala, e ao menor ruído de uma pessoa que entrava sentia um movimento que, ou era uma mistura de esperança e de temor, ou uma sensação que ela não podia explicar a si mesma; e se enfim o mancebo chegava, seu descontentamento como por encanto desaparecia, do mesmo modo que resistia a todos os seus esforços e a acompanhava durante o resto do serão, se Cândido faltava a ele.

Lembrava-se que lhe inundava o coração um prazer imenso quando o moço a ela se chegava, e lhe dizia a tremer algumas palavras; e não sabia por que, tendo às vezes de responder-lhe, tremia também e corava...

Lembrou-se enfim, depois de mil outras lembranças, do serão que houvera nessa noite; dessa primeira vez que com Cândido dançara, da perturbação de ambos durante toda a quadrilha; dos monossílabos que lhe ouvira; e do fundo do coração agradeceu ao bom velho e seu avô, que lhe fizera conhecer nessa noite quando é que é belo o dançar.

De tudo isto era preciso tirar uma conclusão... a lógica do coração estava provavelmente oferecendo à “Bela Órfã” uma conseqüência positiva e inquestionável, que apenas os véus da inocência podiam encobrir ainda, quando ela foi arrancada de suas cogitações por uma voz sonora e doce, que entoava, posto que em tom baixo, um canto melancólico.

Ela escutou... o canto saía do sótão do “Purgatório-trigueiro”.

A voz que cantava era a de Cândido.

A noite mais bela, mais feliz dentre todas as noites da vida do mancebo, era aquela que se estava passando.

Ao terminar o serão deixou o “Céu cor-de-rosa” com saudades, mas sem aquela acerba amargura que o obumbrava sempre.

O coração do mancebo estava repleto de felicidade e de esperança, e seu pensamento cheio de belas imagens.

Estava Cândido em uma dessas noites de magia em que a vida se desenha toda em tintas cor-de-rosa... noites de mentira, em que a imaginação nos pinta tão fácil tudo que ambicionamos!

Um bom velho, cujos pés ele quereria beijar agradecido, lhe marcara, durante cinco minutos, um lugar junto daquela que era em sua opinião a mais perfeita das criaturas. Aí ele bebera o ar que ela respirava, mais perfumado ainda que o aroma das melhores flores. Aí tivera ele sobre as suas duas mãozinhas mais brancas, mais livres que as penas de uma garça; ali ouvira ele frases, monossílabos tão melodiosos como harmonias moduladas por um anjo.

E depois, por detrás das cortinas de um leito virgem, que era como o brando cálice da flor, que nele se deitava, ouvira Cândido a revelação do sonho de uma donzela. Sonho que todo inteiro respirava amor; mas um amor tão puro, tão poético, tão celeste, qual só caberia no coração de um querubim...

Oh! como realmente ficaria a cabeça daquele pobre mancebo, que tinha também imaginação ardente, escutando aquele romance enfeitiçado, onde o coração de uma virgem se transformava em botão de rosa, que não podia ser colhido nem pela riqueza, nem pelas factícias grandezas sociais, mas e somente pelo mérito distinto e real?..

Portanto, para aquela meiga pomba do Senhor Deus, para Celina, a pobreza não era um crime, não era – morféia. – A riqueza, embora mal adquirida, não era o tudo que governa o mundo. O belo, isto é, o mérito e virtude, que são as grandes belezas aos olhos de Deus, o belo é que podia ganhar o – pomo da ventura – colher o botão de rosa!

Portanto, não lhe estava fechada a porta daquele paraíso. Não havia ali no alpendre do “Céu cor-de-rosa” um demônio com uma bolsa por coração, que, ao querer um pobre pe­netrar naquele santuário de amor, lhe bradasse com a voz sinistra dos demônios da época: “aqui não entras!”

Portanto se ele fosse nobre e ativo, se trabalhasse, se procedesse como homem de honra, se com estudo profundo e incessante mostrasse que tinha capacidade e engenho, se com a observação das leis da religião de Cristo somente (porque as dos homens ou são essas mesmas leis enunciadas com mais difusão, e apropriadas a diversas especialidades, ou são leis falsas e bárbaras), trilhasse sempre as vias da virtude, podia, tinha o direito de pretender o pomo da ventura, de colher o botão de rosa.

A felicidade enchia, pois, a alma de Cândido. Já um abismo não o separava de Celina; já não se envergonhava de confessar a si mesmo que a amava. Orgulhava-se antes de amá-la e com o coração na terra preso aos pés da “Bela Órfã”, e a alma voltada para o céu, e toda embebida na bondade imensa do Criador, ele concebia a mais lisonjeira das esperanças; e a cifrava em uma palavra sagrada: – Deus.

Em um momento de explosão de ardor e esperança, o mancebo saiu da janela, e sentando-se junto à mesa, escreveu durante muito tempo com a rapidez e o ardor de um poeta entusiasmado.

Quando acabou de escrever correu ao lugar onde estava há tanto tempo esquecida a sua harpa e abraçando-se com ela:

– Oh! minha harpa! exclamou; minha querida companheira das tristezas e das saudades, vem outra vez emparceirar-te comigo; mas sê-me agora parceira na esperança.

Então com prazer imenso e sofreguidão notável, encordoou o instrumento, afinou-o prontamente, e sentando-se de novo à janela, cantou em meia-voz...

Era essa a voz que surpreendera Celina no meio das revelações que ela a si mesma estava fazendo dos mistérios de seu inocente coração.

A “Bela Órfã” estendeu um pouco o pescoço, e aplicou apurada atenção.

Infelizmente as auras da noite levavam os sons para o lado oposto, e o cantor noturno parecia empregar bastante cui­dado para não elevar a voz, que era doce, maviosa e tocante.

Um único verso do canto pôde ser ouvido distintamente por Celina: ela corou escutando:

 

“Quem colhera o terceiro botão!”

 

No dia seguinte a “Bela Órfã” amanheceu e passou todo o dia pensativa e absorta.

E o filho adotivo da velha Irias caiu de novo em sua habitual melancolia. A noite de esperanças tinha sido uma hora de mentirosas imaginações... com a volta do dia ele encontrara a realidade... a sua desgraça.

 

A VELHA

A TARDE estava no seu começar.

Cândido, que nesse dia se recolhera muito mais cedo do que costumava, e que subira ao seu modestíssimo aposento, ouviu gemer a escadinha do velho sótão sob o peso de alguém que vinha subindo; pouco depois mostrou-se além da porta uma cabeça branca, brilharam dois olhos  verdes, e a velha Irias disse:

– Venho conversar, meu filho.

Isto dizendo entrou e foi sentar-se na cama do mancebo, a quem deixou a cadeira, que única havia no sótão.

Estiveram ambos guardando silêncio por algum tempo; o moço pensativo, e como sempre melancólico, e a velha com as rugas do semblante menos salientes, talvez pela expansão de algum prazer.

– Não te admiras, perguntou finalmente Irias, de me ver, a mim, velha, que me vou despedindo da vida, e me avizinho da morte, alegre e prazenteira, ao pé de ti, moço, que ainda olhas para diante, e tens um futuro para viver, e estás contudo tão abatido e triste?... esta velhice que sorri junto da mocidade que geme, é uma coisa pouco comum na natureza, não?...

– É assim, respondeu Cândido; seja qual for a razão disso, eu dou graças a Deus pelo prazer de minha mãe.

– Mas também é preciso que tu saibas o que hoje não sabes ainda, e o que todavia se envelheceres, sentirás como eu sinto. A velhice, meu filho, a velhice, que o mundo chama egoísta, não tem alegrias por si, sabe somente alegrar-se pelos outros; os pais sorriem com a ventura de seus filhos; e aqueles que não têm filhos, amam sempre, e muito, alguém, e sorriem com a ventura do seu alguém.

– Portanto, alguém que minha mãe estima muito, acaba sem dúvida de alcançar uma boa ventura? ...

– Ou pelo menos não está longe de alcançá-la.

– Outra vez graças a Deus, minha mãe.

– Pois agora dá graças ainda urna terceira vez, porque já deves ter adivinhado quem é o meu alguém: quem é esse que eu amo como se fora meu filho, e que está em vésperas de uma grande ventura.

Cândido olhou fixamente para a velha e ficou como espantado, esperando que ela pusesse bem claro o seu pensa­mento.

– Sim, tornou Irias; é de ti mesmo, é de ti mesmo que eu falo.

– De mim mesmo, senhora?!

– Sim; de ti mesmo.

– Uma grande ventura para mim?...

– Quantas vezes queres que to diga?...

– E não estais zombando?...

– Não, de modo nenhum.

– E essa ventura...

– Adivinha-a.

O mancebo, com um sorrir convulsivo nos lábios, com os olhos em lágrimas, cheio de ardor e de felicidade, com as mãos postas e trementes, e um pouco curvado para a velha, exclamou:

– Vós descobristes minha mãe!

Sua exclamação foi um grito saído d’alma. Irias respondeu meio sentida:

– Não é isso.

Cândido, como fulminado por um raio, abandonou-se dolorosamente na cadeira, e disse:

– Vós zombastes de mim, senhora.

– Pois além dessa, não há mais nenhuma esperança em teu coração?..

– Nenhuma, nenhuma absolutamente.

A velha talvez para deixar a Cândido tempo de serenar-se, guardou silêncio por alguns minutos, e prosseguiu de­pois:

– Pois espero, Cândido, que sejas feliz bem cedo.

– Vós esperais, não duvido; mas quantas vezes na vida a esperança não é somente uma ilusão?...

– Meu filho, eu devo dizer-te que essa misantropia que te amortece, esse desespero que te vai consumindo, ofende a Deus Nosso Senhor.

– Deus lê no meu coração, e sabe que eu nada esperando dos homens, nesta vida, espero tudo dele na outra.

– E te julgas com razões bem fortes para nada esperar dos homens, e te dizeres tão sem remédio desgraçado?

– Creio que sim, minha mãe.

– Creio que não, meu filho.

– Oh! senhora! quereis que eu não veja o que tenho diante dos olhos, e que eu não sinta o que me pesa dentro da alma?...

– Não; mas quero que um quadro, que é somente triste, não o faça tua imaginação pavoroso e horrível.

– Sim... tendes razão, exclamou o mancebo com um sorrir de acerba ironia; tendes razão... eu sou muito feliz!.

A velha fez um movimento de impaciência.

– Eu sou muito feliz! tornou o mancebo com nova amargurada ironia.

– Cândido!...

– Sim! muito feliz!... pois então?... é verdade que a minha vida foi um crime, meu nascimento um documento desse crime, meu primeiro vagido o sentimento de um castigo; é verdade que, apenas vi a luz, fui por minha mãe repelido... enjeitado... lançado fora por minha mãe!... Mas que importa isso!... Sou muito feliz!

Irias ficou em silêncio olhando para Cândido, que con­tinuou:

– Tinha, porém, havido um erro na minha fortuna: repelido por minha mãe, achei eu uma mulher que me deu seu leite, a metade de seu pão, e todo o amor de seu coração; eu vos achei, senhora. Mas, para corrigir-se esse erro, aos treze anos de idade, um homem que não era meu pai, certamente, um homem de cujo semblante austero e vestidos negros hei de lembrar-me sempre, arrancou-me de vossos braços, lançou-me dentro de um navio, e no dia seguinte eu vi desaparecer a meus olhos a terra de minha pátria!... Por conseqüência eu sou muito feliz!

A velha parecia de plano querer que o mancebo fosse derramando toda sua amargura para depois falar por sua vez, e foi portanto ouvindo silenciosa aquela história que, sem dú­vida, já tinha ouvido cem vezes.

– E lá na terra estranha, prosseguiu Cândido, lá, quando eu começava a compreender que vivia, e que era homem, para que nada eu compreendesse, minha vida era um mistério, e entre os homens todos era eu um homem isolado, só, sem um laço no mundo, sem uma doce recordação no passado, sem uma impressão deleitosa no presente, sem uma esperança passageira no futuro. Sim, o navio que me levava aportou às terras de Portugal; uma família carinhosa, mas que eu não conhecia, me foi a bordo receber. Cresci, desvelaram-se em educar-me; essa família, que pouco tinha para si, deu-me mais instrução que a seus filhos; nada me faltava, e eu não podia saber donde tanto me vinha. Oh! senhora!... exclamou o mancebo, esquecendo a ironia amarga com que até então falara, será pois felicidade essa riqueza no meio de tanta miséria?...

A velha não respondeu.

– Oh!... compreendeis vós acaso como é que soavam na minha alma esses nomes sagrados de – meu pai! minha mãe! – que chegavam às vezes a meus ouvidos, saídos do coração de meus camaradas, que tinham mãos de pai para beijar, e um seio de mãe para recebê-los?... com que dolorosa impressão, eu, desterrado da mais bela das pátrias, via no meio das agitações políticas, no correr dos perigos, os homens animar-se e progredir, arrostar tudo pela glória da terra de seu berço, e entusiasmados ferver-lhes o sangue ao só escutar dos hinos patrióticos?... e compreendeis enfim, senhora, como se me enregelava o coração, quando eu pensava nesse mistério indecifrável que envolvia o meu passado e obscurecia o meu porvir?... Órfão e desterrado, sem saber nem ao menos de mim mesmo, eu devia considerar-me muito feliz não é assim?...

A velha obstinava-se em não cortar o fio das reflexões do mancebo.

– Pois no meio dessa minha tão grande felicidade, senhora, vinha um menino que me era parceiro nos estudos e nos brincos, e me perguntava: “Cândido, quem é teu pai?...” Vinha depois logo outro que me falava assim: “Cândido, tu não tens mãe?...” Vinha logo após um terceiro que me dizia: “Cândido, por que tão pequeno deixaste a terra onde nasceste?” E eu só lhe respondia: não sei!. E vinham depois um, dois, vinte outros que me perguntavam: “Como te chamas?... Cândido, de quê?” E eu que não tinha nome de família, eu que sou só no mundo, lhes respondia sempre: – Cândido – só. – E sabeis, senhora, o resultado de tudo isso?... é que apoderou-se de mim a convicção de que eu era, de que eu sou o somenos de todos os homens; porque entre todos os homens não há um só que, como eu, não tenha pai, não tenha mãe, não tenha nome, nem passado, nem futuro!... oh!... que até me quiseram roubar aquilo que a ninguém se nega... uma pátria!...

Irias nem se moveu à vista do exagerado quadro daquela desgraça, que a imaginação ardente do mancebo traçava com tintas tão medonhas. Cândido falou ainda.

– Quereis, senhora, que vos repita ainda outras provas de minha pretendida felicidade?... quereis que eu pise minhas feridas? eu o farei. Aos dezoito anos de minha idade vestiram-me vestidos negros, enrolaram de fumo o meu chapéu; e quando eu perguntei o que queria isso dizer, responderam-me: “Morreu teu pai!” Ouvistes bem, senhora?... era meu pai que tinha morrido; meu pai, que nunca me havia abençoado!

A velha não pronunciou uma só palavra.

– Depois deram-me uma bolsa cheia de ouro, embarcaram-me em um navio, e... se houve dia em que o prazer do coração correspondesse ao sorrir dos lábios foi aquele em que eu vi de novo as terras de minha pátria! oh!.. meu primeiro e meu único dia de ventura foi esse; e antes desse, e depois desse nenhum outro. Eu caí em vossos braços, corri a ver os lugares, testemunhas de meus brincos infantis; mas passada a hora do entusiasmo... achei o vazio dentro de mim. Eu era ainda como dantes, e como hoje, Cândido – só. – Eu não tinha encontrado minha mãe!

O moço respirou e prosseguiu:

– Porque é preciso que vos diga, senhora, no meio de minhas reflexões e mágoas, longe da pátria, quando eu pensava no mistério de meu nascimento e no segredo de meu nome, uma esperança me animava; eu contava de volta à terra de meu berço achar os braços de minha mãe abertos para me receber! ah! e eu não achei minha mãe!... eu a chamo debalde ainda!..

A velha fez um movimento quase imperceptível, e que podia exprimir desagrado daquela mágoa do mancebo; o qual surpreendendo esse movimento, respondeu-lhe:

– Não sou ingrato, não, senhora, mas perdoai-me, vós não sois minha mãe. Será preciso para que vos sossegueis, que eu vos diga o que é no entender de minha alma uma mãe?... pois bem, ouvi-me. Uma mãe, senhora, sente nove meses antes de todos a existência de seu filho, e primeiro que ele nasça, ela sofre já muito por ele. Se seu estado é a realização de um voto de amor sagrado e puro, ela ainda as­sim volve os olhos da esperança para a morte, do ventre para o túmulo!... Se pelo contrário é o efeito, a prova viva de um erro, então se torna em incessante tormento que vai crescendo pouco a pouco, e cada vez mais com o correr dos meses; que espreme o suco de sua vergonha, que rói e dilacera sua sensibilidade com a consciência de uma falta insanável. E todavia ela ama seu filho que ainda não nasceu, maldiz sua cabeça que errou, e abençoa seu ventre que concebeu! Depois, quando ele nasce, que tesouro há aí que possa pagar o fervor da oração com que a mãe, cruzando as mãos sobre o seio, encomenda seu filho à misericórdia do Senhor Deus?... que possa pagar o fogo sagrado de seu primeiro olhar de mãe?... a pureza angélica de seu primeiro sorrir de mãe!... a doçura inefável de seu primeiro beijo de mãe?... Oh!... uma mãe rasgaria suas carnes como o pelicano para alimentar com seu sangue e à custa da própria vida o filho de suas entranhas! uma mãe jamais desama seu filho, nunca o repele, nunca o enjeita; e essa sociedade de­salmada e imoral, que faz de uma fraqueza um crime, que olha um filho como um remorso, que se rebela contra a natureza e contra Deus, que arranca do colo materno pobres e inocentes criancinhas, lavadas em lágrimas de sangue de suas mães!... não! não! e não! minha mãe me amava por força, me adorava como o seu anjo, olhava-me... sorria para mim, me beijava e me chamava – meu filho! – Foi a sociedade desalmada e imoral quem me arrancou à força de seus braços!

Cândido falava, repassado de tamanha dor, que Irias apesar de seu propósito, ia consolá-lo quando ele prosseguiu:

– E debalde, senhora, debalde eu me quero levantar contra essa sentença de ferro que me separa de minha mãe. Não há nem ao menos um pirilampo no caminho de minha vida, um pirilampo só que me dê alguma luz para que eu vá terrível e audaz arrasar esse mistério de meu berço. Sim! eu iria... pois que ninguém pode ter o direito de separar-me de minha mãe, e ela não há de nunca envergonhar-se de seu filho! oh! mas tudo é em vão. Há longos anos que eu não penso, que eu não cogito de outra coisa. Quando vou à igreja, quando rezo de joelhos, pensais, senhora, que eu peço a Deus honras e fortuna para mim neste mundo e a salvação de minha alma no outro?... não, mil vezes não. O pensamento, o objeto de minhas orações, é sempre um e único; o que eu peço a Deus é ela, sempre e só ela... é minha mãe.

E dizendo isso, o mancebo prosseguiu com voz comovida e terna:

– Porque se eu achasse minha mãe, queimaria, se eu fosse rico, toda minha riqueza para poupar-lhe um desgosto... e ainda mesmo quando tivesse uma dor imensa no coração, havia de rir-me para não vê-la chorar e daria a minha vida para não deixá-la morrer. Minha mãe, senhora, minha mãe! eu não quero nem esposa, nem filho, nem riqueza, nem glória; eu prefiro a tudo minha mãe!

E cruzando as mãos sobre o peito, Cândido terminou dizendo com acento profundamente religioso:

– Deus me ouça!

– Tens razão, meu filho, disse enfim Irias, depois de alguns instantes.

– Portanto, senhora, reconheceis que, embora involuntariamente, zombastes de mim ainda há pouco?...

– Não, Cândido.

– Como não, senhora?...

– Porque nesta vida deve o homem, quando não pode conseguir o que mais deseja, consolar-se com algum desses outros mil benefícios e favores, que Deus espalhou com profusa mão sobre o gênero humano.

– Quereis explicar-vos, senhora?...

– Não é só uma mãe a mulher que se ama extremosamente na vida.

– E então?...

– Ama-se a escolhida do coração... ama-se a esposa.

– Que quereis dizer; senhora?... exclamou o mancebo estremecendo todo.

– Quero perguntar-te se não concordas em que um moço, como tu és, triste, desvalido e pobre, pode achar consolação e fortuna na posse de uma mulher que ame?

– Entendamo-nos, respondeu Cândido serenado. Um moço que for como eu, triste, desvalido e pobre, e que também tiver feito o mesmo juízo que eu faço a respeito da pureza e da dignidade do homem, pode sim achar consolação e uma fortuna toda moral na posse da mulher que ame e por quem for amado, mas não calcula nunca a sua fortuna positiva e material sobre esse dado.

– Era pouco mais ou menos isso o que eu queria dizer.

– E para concluir o quê?...

– Que tu deves amar...

– Eu amar?! bradou o mancebo erguendo-se; eu amar?! e com que fim?...

– Para ser menos desgraçado.

– Que conselho, minha mãe!... não reparais que há veneno dentro dessa taça de ouro que me trazeis aos lábios?... eu amar? um pobre amar? pois não vos lembrais de que a pobreza é como a morféia, repugnante e fatal?... a quem queríeis que eu amasse?... a uma moça desvalida e pobre, como eu; única que poderia ter olhos para me olhar?... qual seria o resultado desse amor?... cobri-la com meus andrajos?... dar-lhe metade do pão de amargura, para matar-lhe a fome?... e um copo cheio de lágrimas para saciar-lhe a sede? haveria felicidade nesse amor?...

– Abençoado fosse ele por Deus; que o trabalho do homem daria de sobra o que para viver-se é preciso.

– Ou então, continuou Cândido sem atender à boa resposta que lhe dera a velha; quereis que eu fosse por aí, com a mentira no coração e no rosto, farejar onde houvesse um cofre de ouro pertencente a uma mulher bela ou não, que pouco importava isso; pretendesse agradar-lhe, e lhe jurasse amor e ternura, e iludisse a seus pais e a ela, e a arrastasse aos pés do altar, e mentisse perante Deus! e mentisse perante Deus, repito! Não, não, minha mãe, nem ao menos isso é possível; um homem pobre já não chega ao pé de uma mu­lher rica. A pobreza é a morféia.

– Não se trata disso, Cândido, tornou Irias; é preciso somente que ames. Ama, pois pobre ou rica a mulher que amares, se for honesta e bela, far-te-á ditoso.

– Ama!... disse o mancebo. Manda-se amar, como se o amor fosse o brinco de um instante, como se o amor dependesse de nós e não dos outros; oh! se fosse assim, eu não amaria nunca!

– Então tu amas já?... perguntou Irias, fixando no mancebo seus olhos verdes e brilhantes.

– Quem disse que eu amava? respondeu Cândido enleado.

– Amas já?...

– Quereis zombar de mim outra vez, senhora?

– Amas já?...

– Minha mãe...

– A verdade... a verdade... somente a verdade!...

– Que quer dizer, pois, isto?

– Amas já, Cândido?...

– Não... disse tremendo o mancebo.

– Tu me mentiste hoje pela primeira vez em tua vida, disse com austeridade Irias.

– Senhora!

– Tu amas, e amas perdidamente.

– Basta... basta de zombarias, respondeu Cândido per­turbado.

– Ao romper de todos os dias pela fresta daquela janela, tu segues com os olhos o objeto de teu amor...

– Minha mãe!... minha mãe!... bradou o mancebo tão espavorido como se acabassem de romper o segredo de um crime horrível por ele perpetrado.

– Tu amas a neta do sr. Anacleto! continuou Irias.

– Silêncio!... balbuciou o infeliz.

– Amas a “Bela Órfã”!...

Cândido ocultou o semblante entre as mãos e a velha prosseguiu com voz animadora e doce:

– Esse teu amor, tão cheio de angélica pureza, que nunca os lábios do amante tocaram a ponta dos brandos dedinhos da amada; tão inocente que apenas, e a pesar teu, na presença de Celina lho dizem teus olhos, e na ausência o sonho de tua imaginação, deve ser agradável a Deus, que ama a pureza e a inocência.

– Ah! minha mãe! murmurou o mancebo.

– Ama, que és já, ou bem cedo serás amado. E tu e ela sereis talvez aos olhos de Deus como dois pombos que de longe se namoraram, e que, de asas abertas, com o pensa­mento no céu, e os olhos um no outro, esperam o aceno de um anjo para voar, a ajuntar-se num só ninho, seguros da ventura com a bênção divina.

– Ah! minha mãe! repetiu o mancebo erguendo a cabeça e mostrando o rosto enrubescido pelo mais belo pejo, e talvez com alguns átomos de esperança.

– E a passagem da vida que hoje tendes, continuou Irias, para a vida que deveis não tarde viver, será como a poética transição da noite escura e duvidosa para o dia claro e fulgente, que um sol fulguroso abrilhanta, e zéfiros perfuma­dos suavizam.

– Oh! senhora, é que vós esqueceis sempre que eu sou um pobre, e que para o pobre não há esperança de felicidade tão suprema como essa que me mostrais!

– Não, não, mancebo; tu mentes a ti próprio. Examina o teu coração, procura bem, e lá acharás a esperança cifrada em uma única palavra, que é o moto sagrado e sublime da alma do justo.

– E essa palavra, essa esperança qual é?...

Irias levantou o braço, e apontando para cima com seu dedo indicador, grande e emagrecido, disse:

– Deus.

Sentiram nesse momento que alguém subia a escada do velho sótão, e logo após a velha escrava de Irias apareceu, e disse:

– A família do sr. Anacleto.

Cândido não pôde conter um grito de surpresa.

 

O VELHO

MAS ANTES de acompanharmos os habitantes do “Céu cor-de-rosa” em sua visita ao “Purgatório-trigueiro”, justo é relatar uma cena ocorrida na mesma tarde, e talvez ao mesmo tempo em que sucedia a que acabamos de referir. Era a hora da sesta.

Pouco mais ou menos como acontecera a Cândido, que viu mostrar-se além da porta do seu velho sótão uma cabeça branca e dois olhos verdes, assim também Celina, que na hora da sesta se achava sentada junto do seu piano e começava a deleitar-se no estudo de suas músicas, viu aparecer uma cabeça branca e brilhar o olhar malicioso do velho guarda-portão.

Mas é verdade que ainda não se tem idéia nem se fez conhecimento com o velho guarda-portão.

Também poucas palavras serão de sobejo para que se faça uma idéia perfeita desse personagem.

A índole humana e piedosa de Anacleto, tinha dois ou três meses antes do começo desta história, chamado para o “Céu cor-de-rosa” um homem pobre e velho; e para que menos pesasse a este o benefício que recebia, Anacleto o envolveu sob a capa de um emprego, que em sua casa lhe dava. O velho Rodrigues foi pois ali reconhecido como – guarda-portão, – e estabelecendo o seu quartel-general no alpendre do “Céu cor-de-rosa”, via amanhecer e anoitecer em completa inação.

O guarda-portão da casa de Anacleto era portanto um criado sem exercício, uma praça-morta pouco mais ou menos. Passava os dias retirado em um dos ângulos do alpendre, e só às noites, em que claro luar e doce frescor de aragem sucediam a algum calmoso dia, deixava o pobre homem seu eterno posto por algumas horas, e sentando-se à porta do alpendre, cantarolava por entre os dentes algumas anti­gas baladas.

Era o velho Rodrigues um homem de cerca de sessenta anos, alto e de formas musculares; tinha os olhos pequenos, mas espertos, e o nariz aquilino. Os cabelos, que estavam já muito brancos, deviam ter sido de cor castanho escuros no tempo da mocidade, e corredios como eram, desciam então até quase encontrar-se com as sobrancelhas, que se mostravam espessas e cerradas; de ordinário apresentava-se este homem vestido de calças de brim escuro sem presilhas, e com bolsos aos lados de jaqueta do mesmo pano, e algumas vazes com um quimono de baeta preta sobre esta.

E, ou porque o velho Rodrigues fosse homem de poucas conversas, e dificilmente acessível para certa qualidade de gente, ou porque muitos notassem no seu hábito de resguar­dar-se de dia em um canto do alpendre e de só aparecer em algumas noites à porta deste, assentaram os garotos das circunvizinhanças de chamá-lo por acinte – o Coruja; – de modo que, quando em suas noites de escolha o velho se mos­trava, e começava de cantar suas antigas baladas, era às vezes interrompido pelos gritos de – Coruja! coruja! – que lhe soavam ora de um, ora de outro lado da rua, acompanhados de risotas e motejos.

Mas tão pouco se dava disso o guarda-portão, que começava e concluía sem se interromper um velho solau, passava por uma balada, depois para outra e outra, até não poder mais de cansado, enquanto os garotos riam-se desmedida­mente daquelas desusadas cantigas.

Pelo mesmo tempo, porém, em que começou esta história, sofreram também os hábitos do velho Rodrigues uma pequena modificação. Foi ela devida ao amor que dedicava à música.

Era costume do velho Anacleto e de sua filha sestear algum tempo depois do jantar; e a “Bela Órfã”, então mais que nunca em liberdade, ia sentar-se ao piano e estudar suas músicas. Em uma dessas horas de estudo, a moça, sentindo ruído e olhando para a porta, viu a cabeça branca do velho Rodrigues, que a escutava.

– Que faz aí, sr. Rodrigues? perguntou ela docemente.

– Escuto, respondeu o velho.

– Pois então é melhor ouvir de perto; entre.

O velho abriu a porta e entrou.

– Sente-se.

Rodrigues sentou-se junto do piano.

– Gosta de música? perguntou a moça.

– Oh! muito! muito!

– Sim: é verdade... também eu lhe tenho ouvido cantar à porta do alpendre.

– Que cantar! que canto eu?... cantigas tão velhas como eu, ou de- certo mais velhas ainda; que as aprendi no colo de minha mãe quando ela me fazia adormecer ouvindo-as.

– E que, portanto, devem ser bem caras ao seu coração.

– Decerto; mas só ao meu coração.

– Também não é assim, sr. Rodrigues, porque, pelo menos eu, tenho muitas vezes ficado esquecidamente à janela, ouvindo suas cantigas melancólicas e ternas.

– Está zombando de mim, senhora?

– Oh não! não! e tanto que lhe proponho o ensinar-me algum de seus velhos romances.

– Hoje ninguém mais gosta disso.

– Gosto eu, e lhe peço que nos ensine.

Depois de um teimoso recusar da parte do velho Rodrigues, conseguiu enfim a “Bela Órfã” o que pedia. E desde então, em todas as horas de sesta, o guarda-portão lhe ia cantar um solau ou uma balada, e em troco Celina fazia ouvir suas mais belas peças.

E havia beleza nesse cantar do velho.

Rodrigues, com seu trêmulo barítono, com sua coroa de neve na cabeça, e sua melancolia do declinar da vida, parecia ainda mais próprio para a execução daqueles cantos do passado.

E havia também, apesar de tudo, muito interesse nesses mesmos cantos do passado.

A balada, o solau, o romance nacional é o canto do coração e da natureza. Não é seu único mérito o ter sido com eles que outrora nossas mães nos embalavam no berço e nos adormeciam no colo. É principalmente porque há neles a música, a cor e o falar da pátria; é porque eles cantam o caro que se passou na terra que nos viu nascer; porque enfim a balada, o solau, o romance nacional é como nós filho de uma só terra, é nosso irmão.

Celina tinha de tal modo tomado gosto por esse gênero de música, que a presença do guarda-portão em seus estudos da tarde já era para ela uma necessidade. Por isso, foi com vivo movimento de prazer que ela viu mostrar-se à porta da sala a cabeça branca e o olhar malicioso do velho Rodrigues.

– Ah! exclamou; entre, entre, meu bom mestre de baladas; então, que teremos hoje?...

– Quase que já esgotei tudo quanto sabia, respondeu o velho.

– Pois então repitamos tudo quanto já ouvimos.

– Esses pobres cantos ouvidos mais de uma vez perdem talvez todo interesse que podiam ter merecido.

– Não; não. Vamos, sr. Rodrigues. Escolhamos um dos que já foram mesmo mais cantados. Por exemplo – Lindóia.

– Esse não...

– A Tamoia feita escrava?...

– Também não...

– O Sino do Colégio?...

– Cantei-o já três vezes.

– Escolha então o senhor um outro.

– Pois bem, senhora, cantarei – o Sonho da Virgem.

– Oh! esse ainda não o ouvi eu.

– É um romance moderno, feito ao molde dos antigos.

– Pois bem; vamos a ele.

O velho começou com voz pausada e melancólica a cantar assim:

 

Era um dia um mancebo que ardente

Pobre vida esquecido vivia,

E uma virgem formosa inocente,

Que outra igual não se viu, não se via.

Quem separa o ardor da beleza?...

Um abismo fatal: – a pobreza.

 

O mancebo a donzela adorava?...

Quem o sabe?... ninguém dele ouviu.

Em seu peito esse amor sepultava,

Se o amor em seu peito nutriu,

E se amava, era triste esse amar;

Era um mudo e terrível penar.

 

E se amava, quem disso curou?

Quem ouvira do pobre o gemido?...

Se o seu peito um ai só desatou,

Foi um ai no deserto perdido.

E podia alta e nobre donzela

Ver um pobre chorando por ela?...

 

O que é feito da virgem, do pobre?...

Quando o dia voltar to direi.

Negro manto da noite nos cobre.

Ela dorme... mas ele... não sei.

É na terra das trevas o véu;

Vagam sonhos... misteriosos do céu.

 

Eis a virgem... num vale formoso,

De tapete de relva coberto,

Assentada em outeiro mimoso

Vendo um lago, que mora ali perto:

Cobre-a teto de mil trepadeiras,

Há dois montes, que c’roam palmeiras.

 

Vêm dos montes meninos amores,

Em seus braços cestinhas trazendo;

Tiram delas e espargem mil flores

Sobre a virgem, que os olha tremendo;

E os amores seus jogos seguindo

Vão brincando, dançando, e se rindo.

 

Soa um canto dormente, mavioso,

Que entoado no céu parecia,

Já das flores ao bafo oloroso,

E perfumes o ar rescendia:

E a donzela, que tanto sentiu,

Entre eflúvios e cantos dormiu.

 

E um menino com seta afiada

Rasga o peito da virgem então,

E com hábil mãozinha apressada

Rouba o puro, feliz coração.

E a ferida nem sangue jorrou,

Nem doeu, antes logo sarou.

 

Despertou a donzela assombrada

Com os clamores do bando loução.

E a chorar desatou desolada

Vendo o roubo do seu coração.

E o cruel, o fatal roubador

Foi na terra plantá-lo, qual flor.

 

A donzela chorava... chorava...

E os meninos as mãos ajuntaram.

E correndo pra onde ela estava,

Nas mãozinhas seu pranto apararam;

E vão todos com gesto apressado

A regar, o que estava plantado.

 

E nasceu um arbusto mimoso...

E do céu um anjinho baixou,

Que fiel, vigilante, piedoso

Pela virgem constante velou.

E esse anjinho amoroso, que vela,

Tem o rosto da mãe da donzela...

 

Já o pranto da virgem secou,

E o arbusto nascido cresceu;

De folhinhas mimosas se ornou;

O seu caule de espinhos se encheu.

Coração de uma jovem formosa

Brotou linda roseira viçosa.

 

Os meninos fugiram pra o monte,

Três botões a roseira brotou,

Dois aos lados um doutro defronte,

E o terceiro superno ficou.

Estava ali no envoltório da flor

Um segredo, um mistério de amor.

 

Veio então pelo lago descendo

Um batel, que em riquezas primava,

Tudo quanto ia nele se vendo

De tão rico e brilhante ofuscava;

Té que em terra seu dono saltou;

E a donzela, que o viu... trepidou.

 

Era rico; mas torvo no olhar,

E feroz, no sorrir causa susto;

Veio vindo... e enfim té parar

Mesmo junto do flórido arbusto;

E a donzela pra o seu anjo olhando,

Soluçou; porque o viu soluçando.

 

O seu braço monstruoso estendeu

Pra roseira o opulento senhor;

Dos botões o da esquerda colheu...

Soa um grito de susto, e de dor;

E o tirano sem nada escutar

O colhido botão vai beijar.

 

Porém pára espantado... sentido...

Frio... pálido espectro ficando,

Que o botão encantado, colhido

Vai-se todo mirrando... mirrando...

Esvaiu-se... mais forma não tem,

E o batel e seu dono também.

 

Veio então pelo lago chegando

Belo carro de prata formado,

E rinchando, bufando, nadando

Os ginetes, que o trazem puxado,

Té que em terra seu dono saltou,

E a donzela, que o viu... trepidou.

 

Era rico; mas velho e cansado

Todo em rugas o rosto mostrou;

Veio vindo a um bastão arrimado,

Té que junto do arbusto parou.

E a donzela pra o seu anjo olhando,

Soluçou, porque o viu soluçando.

 

O seu trêmulo braço estendeu

Pra roseira o tão velho senhor,

O botão da direita colheu...

Soa um grito de susto e de dor,

E o tirano sem nada escutar

O colhido botão vai beijar.

 

Porém pára espantado... sentido...

Frio... pálido espectro ficando;

Que o botão encantado, colhido

Vai-se em linda avezinha tornando...

Bate as asas... pra o céu já fugiu;

Velho, e carro... quem foi que os sumiu?...

 

Veio enfim pelo lago descendo,

Não um carro, nem rico batel.

Nem riquezas, nem luxo trazendo

Vasos d’ouro repletos de fel;

Mas somente uma cesta de flores,

Que teceram benignos amores.

 

Já o ar outra vez rescendia,

E outra vez doce canto se ouviu;

Entre eflúvios e a terna harmonia.

A donzela porém não dormiu.

Belo jovem em terra saltou;

Por que a virgem não mais trepidou?...

 

Era lindo o donzel... tão formoso...

Seu sorrir tem feitiços de amor;

Veio vindo... e parou cobiçoso

Como em êxtase olhando pra flor:

E a donzela pra o seu anjo olhando,

Suspirou, porque o viu suspirando.

 

O seu braço gracioso estendeu

Pra roseira o dileto de amor,

O terceiro botão já colheu...

Não se ouviu mais o grito de dor.

E o mancebo com fogo, e paixão

Vai beijar o colhido botão.

 

Porém pára... enlevado... perdido...

O presente de amor contemplando,

Que com tanta ventura colhido

Pouco a pouco se vai desfechando,

E oferece, em lugar de botão,

Da donzela o feliz coração...

 

Bate as asas o anjo contente,

E primeiro baixando o adejo,

Da donzela tão pura, inocente,

Vai nos lábios deixar santo beijo.

E saudoso alça então vôo seu

Para sua morada... no céu.

 

E o mancebo feliz... belo... ardente

Corre à virgem com vivo fervor,

E sem ver, que ela é toda inocente,

Quer também dar-lhe um beijo de amor,

Mas a virgem tremeu... não ousou...

E um grito soltando... acordou.

 

O que é sonho?... é verdade ou quimera!...

O que é sonho?... é a alma que vela,

Que vagando por mais alta esfera

Do porvir os arcanos revela?...

O que é sonho?... futuro sem véu?...

O que é sonho?... – mistério do céu.

 

Mas que é feito da virgem, do pobre?...

Já o dia voltou – Vou dizer:

Seu amor denso véu inda cobre;

Que ele ama não posso esconder;

Porém teme... receia... não diz;

Porque é pobre, por isso infeliz.

 

E a donzela formosa, inocente,

Inda livre, inda isenta de amor,

A ninguém ganhar dela consente

De seu sonho um botão,., uma flor;

Pois no rubro virgíneo botão,

Julga ver seu feliz coração.

 

E o mancebo, que tinha tentado

A paixão, que nascia, abafar,

Hoje a ela de todo curvado

Está com os olhos no céu a clamar:

“Quem não fora nascido; – ou então

“Quem colhera o terceiro botão!...”

 

Longo tinha sido o cantar do velho, e durante todo ele mil e diversas sensações havia experimentado a “Bela Órfã”.

Um segredo de seus mais belos dias, o primeiro romance de sua alma de moça estava revelado.

Quem o revelara?

E sobretudo havia ali naqueles versos a expressão e a confissão de um amor profundo mas temeroso... era o poeta que amava a bela.

O primeiro pensamento de Celina foi perguntar ao velho Rodrigues o nome do autor daquele romance; corando porém diante de sua consciência de virgem hesitou...

O velho estava em pé diante dela com seus olhos pequenos, porém penetrantes, fitos em seu rosto, e obrigando-a a abaixar a cabeça.

Enfim, Rodrigues rompeu o silêncio.

– Está triste, senhora?...

– Não! respondeu ela.

– Mas também ninguém a julgará alegre.

– Também não estou alegre.

– Ah!... está pensativa.

Celina olhou para o velho guarda-portão, e o achou sorrindo maliciosamente.

– De que se está rindo assim? perguntou.

– É porque estou adivinhando o pensamento que a ocupa.

– E qual é?...

– Deseja saber a história do meu romance, o nome da virgem inocente e do mancebo pobre, não é assim?

– É verdade, respondeu Celina hesitando.

– Pois eu vou satisfazê-la.

A “Bela Órfã” corou,

– Não sei o nome da virgem, disse o velho.

– E o do mancebo?... perguntou Celina respirando.

– Esse eu o sei. É um jovem modesto e cheio de mérito, porém pobre; ele ama apaixonadamente, ama como nenhum outro poderá amar mais do que ele; mas o seu amor mor­reria no silêncio de seu quarto se uma generosa e traidora mão não roubasse nesse romance a confissão dele tão extremosa e tão pura...

– Mas quem é ele?...

A bela queria conhecer o seu poeta.

O velho Rodrigues estendeu a mão para o lado do “Purgatório-trigueiro”, e apontando com seu longo e trêmulo dedo, disse:

– É o sr. Cândido.

E como se tivera concluído uma comissão importante, de que se encarregara, saiu da sala com passos vagarosos.

A “Bela Órfã” ficou pensando muito tempo no mesmo lugar, e quando se levantou disse como falando consigo mesma:

Deveria ter adivinhado... anteontem à noite, quando eu meditava, ele também meditou... e cantou depois, sem dú­vida, este mesmo romance; porque eu me lembro de ter ou­vido distintamente dizer a sua voz:

– Quem colhera o terceiro botão!...

 

O MOÇO E A MOÇA

APROXIMA-SE a hora encantada do crepúsculo vespertino.

À calma abrasadora de um dos primeiros dias de dezembro, sucedera uma dessas tardes frescas e belas, que fazem as delícias dos países tropicais.

Uma multidão imensa pejava as alamedas, os dois peque­nos largos, e o terraço do Passeio Público da boa cidade do Rio de Janeiro. Era como uma tarde de festa.

Entre os novos concorrentes que a todo o instante formi­gavam, quatro vieram enfim que atraíram a atenção de mui­ta gente. Eram um homem e uma mulher velha; e um ho­mem e uma mulher moça.

Vinham os dois últimos adiante, e seguidos pelos velhos. Tão facilmente se lia a serenidade no semblante destes, como a perturbação no dos primeiros.

Estava a moça muito corada, e quase ansiosa; e o moço pelo contrário, muito pálido, e como que abatido. Traziam ambos os olhos no chão, e não se diziam palavra. Eram porém ambos bonitos; a moça principalmente era muito bela.

Vinha ela de vestido de escomilha cor-de-rosa e em corpinho, com os cabelos à napolitana; não trazia nem brincos, nem adereço, nem pulseiras, mas sim lindíssimos braços nus, pois que o vestido era de mangas curtas, e ao mesmo tempo tão comprido, que apenas às vezes se descobria a ponta envernizada de suas pequeninas botinas. Uma fita azul, larga de dois dedos, e enlaçada na cintura, era ao demais o seu único ornato.

O moço vestia sobrecasaca e calças de merinó preto, gravata de mesma cor, e colete de fustão branco lavrado. Tinha fechando-lhe o peito da camisa, um simples botão de ouro pequenino e liso; trazia os cabelos muito curtos, chapéu de castor preto, e botins de couro de bezerro.

A velha estava vestida toda de preto, e tinha na cabeça um chapelinho da mesma cor, mas de palha, com enfeites de fi­tas roxas.

O ancião enfim, vinha de sobrecasaca de pano cor de rapé, gravata preta, colete e calças brancas, trazia uma grossa corrente de ouro, muito fora da moda, prendendo o relógio, e pendendo de uma fita negra, sua grande luneta de aros de prata. Tinha na cabeça um chapéu de patente, e calçava sapatos ingleses.

Seguiram estas quatro personagens a rua, que em linha reta vai do portão do Passeio terminar-se no largo principal, e defronte do outeiro artificial chamado comumente – Cas­cata. – De caminho foi o velho cumprimentado como amigo por alguns. Trazia a moça muito no chão os olhos para o ser também. Ninguém todavia deu sinal de conhecer a velha nem o moço.

Os dois velhos conversando um com o outro sem cessar, nada ouviram do que se poderia estar dizendo em derredor deles. Outro tanto não acontecia aos mancebos que, em silêncio caminhando, tinham por conseqüência mais apurada a atenção.

Já por vezes lhes tinha chegado aos ouvidos ora um elogio à beleza da jovem, ora as meias palavras e o ruído das risadinhas de duas moças ao apuridar-se; quando ao passarem por junto de dois mancebos, disse um deles:

– Olha... aí vão dois irmãos ou dois noivos.

– Nem uma nem outra coisa, respondeu-lhe o compa­nheiro.

– Por quê?

– Porque se fossem irmãos conversariam, e se fossem noivos se estariam dizendo finezas.

– Então são namorados.

– É o mais provável.

A perturbação do moço e da moça foi tão visível então, que não pôde escapar aos olhos de seus observadores.

Depois de alguns passos mais, a moça disse ao seu companheiro com voz quase sumida:

– Conversemos... senhor...

Mas foram indo sempre calados como até então.

Desde porém que aquelas palavras chegaram aos ouvidos da moça, qualquer fraco ruído, o sussurrar de uma conversa a pouca distância travada, tudo, em uma palavra, a assustava; tudo lhe parecia estar repetindo aquele insulto feito à sua inocência:

– São namorados.

Chegaram enfim aquelas quatro personagens ao largo principal, e ladeando-o pela direita, entraram no caramanchel desse lado, e sentaram-se nos bancos de pedra.

Ficaram então todos quatro descansando em silêncio debaixo daquele belo teto de jasmins da Índia, e como se a melancolia dos dois moços se houvesse propagado aos velhos, estiveram estes tristes e suspirando, até que o ancião quebrou inopinado o silêncio, dizendo:

– Então... que quer dizer isto?... vimos passear e divertir-nos, e estamos tristemente olhando uns para os ou­tros?...

– Parece, respondeu a velha, que estes meninos nos pegaram sua tristeza.

– Não, tornou aquele; não mintamos a nós mesmos: queres saber, Celina, por que nossa velha amiga se tornou de súbito melancólica?... quer saber, sr. Cândido, por que me sucedeu o mesmo?...

Os dois mancebos levantaram pela primeira vez os olhos, e os fitaram em Anacleto, como dizendo cada um deles: – quero.

– É que nos estamos lembrando do passado! disse Ana­cleto.

Irias murmurou tristemente:

– É verdade! é isso mesmo.

– É que vemos ir-se tudo mudando em torno de nós. É que sentimos irem morrendo uma a uma todas as testemunhas de nossos gozos dos belos anos... e aqui mesmo, a não serem essas árvores copadas que resistem ao tempo, e essas duas pirâmides, que não sei por que milagre não se lembraram ainda de lançar por terra, nada, nada mais haveria do que era nosso! tudo teria morrido... tudo estaria mudado, pois que até se matam os nomes...!

– É verdade! tornou a velha.

– Vós, mancebos, não sabeis nada disto! houve no entanto um tempo, uma época como outra não haverá nunca mais para esta cidade. Eu era tão moço como vós, e vi e gozei tudo isso; havia paz e ventura para todos, e cada noite era uma noite de festa. Os moços saíam tocando e cantando pelas ruas suas músicas suaves; as famílias reuniam-se em uma só família para gozar prazeres inocentes; dormia-se com as portas abertas, e nunca um malfeitor entrava por elas... Tudo porém acabou, e este mesmo lugar, onde tão belas horas se passavam, já talvez nem delas lembrar-se pode, porque enfim tudo está mudado... vossa civilização matou tudo isso!

Ninguém respondeu.

– Vistes, continuou Anacleto depois de curto silêncio, vistes aquela rua que vem direito ao portão deste passeio?... vós hoje chamais – das Marrecas – e nós chamávamos então – das Belas-noites: – compreendeis o que significava este nome?... era a demonstração viva do prazer, da felicidade que fruía a multidão imensa de ambos os sexos, que passava por essa rua para entregar-se a gozos puros aqui. Sobre estas grandes mesas, junto de uma das quais estamos, ceavam famílias a quem os laços de amizade ligavam, e nas quais havia às vezes um mancebo e uma moça que não tarde se ligariam por outros laços mais doces ainda. Oh! quantas vezes de­baixo deste caramanchel, ou em um passeio, ali por aquelas ruas sombrias e solitárias, não teve origem um terno sentimento, que foi logo depois fazer a felicidade de duas cria­turas!...

Uma leve onda de rubor passou ligeira por sobre as faces de Celina, ao mesmo tempo que Cândido se fez mais pálido ainda.

Irias, até então distraída, começava a observá-los, fitando ora na moça, ora no mancebo seus olhos verdes.

Anacleto prosseguiu:

– Que é feito daqueles nossos dois pavilhões quadrangulares com sua estátua de Apolo coroando o do lado direito, e com a de Mercúrio o do esquerdo?... vossos dois torreões octogonais poderão fazê-los esquecer?... desconfio muito que não; pelo menos eu me hei de lembrar sempre do pavilhão da direita com seu teto de arabescos, palmas e flores sobre fundo branco, todos formados de diversas cores; com suas sobreportas de baixos-relevos de pássaros de nossa terra, feitos à custa de suas próprias penas. Pelo menos eu me hei de lembrar sempre do pavilhão da esquerda com seu teto de arabescos, palmas e flores sobre fundo azul, todos formados, não já de penas, como o outro, mas de lindas conchinhas, com suas sobreportas ornadas de relevos de peixes de nossos mares, feitos à custa de suas próprias peles; tudo isso era belo, era bem acabado, era obra de gênio; mas tudo isto está morto e morto ficará, porque vós não tendes para ressuscitar tantas belezas o homem que nós tínhamos, o nosso –Xavier dos pássaros. – Sim! sim!... tudo está mudado. Mudou mesmo a índole, mudaram os hábitos, e é outro hoje e espírito da população.

– É verdade! disse ainda a velha Irias; mas tendo sempre os olhos fitos ora em Cândido, ora em Celina.

– E nós, que isso sentíamos, que por tudo isso passamos, sofremos agora ao visitar estes lugares, onde tanto gozamos, uma melancolia profunda, uma saudade imensa do nosso passado e ao mesmo tempo uma dor aguda e terrível, quando pensamos que os prazeres, as belas festas, os jardins, e os edifícios têm todos mudado de face, todos caídos, todos enfim morrido, que daquela época nós e poucos mais restamos, e que quando também morrermos só teremos do nosso tempo algumas folhas de árvores seculares, para cair sobre a tumba que nos cobrir.

Ficaram de novo todos quatro em silêncio por algum tempo, e ainda tristemente, até que Anacleto de novo falou.

– Mas vós também estais tristes, e todavia vossa tristeza em nada se pode parecer com a nossa! o que vos acanha, meus filhos?... não podeis chorar o que nós choramos, porque não bebestes na taça de nossos gozos: chorais sobre o presente porventura?... porém, meus filhos, não sentis que o futuro se está sorrindo sempre para a mocidade?...

– Às vezes não, disse o mancebo falando pela primeira vez.

– Ás vezes não?! tornou Anacleto. Sim; ele tem razão: às vezes parece que o homem traz de dentro do ventre materno a sina de sofrer sempre, de sempre chorar, e não rir nunca nem uma só vez na vida! Mas será crivel que o senhor pertença ao número desses homens desgraçados?...

– Pertenço, sr. Anacleto, respondeu Cândido, pertenço a número daqueles que sofrem... e calam.

Anacleto olhou com interesse para o mancebo, e não julgando a propósito encetar uma conversação sobre tal assunto naquele lugar, disse pouco depois:

– Meus filhos, passeai... se amais a multidão, lá está terraço cheio de povo; se preferis o silêncio, tendes as alamedas sombrias... ide...

– E vós, meu avô?... perguntou Celina.

– Eu fico. Tenho muito de que falar à sra. Irias. Somos dois velhos que estamos voltados para o passado; ide vós, pois, que tendes o rosto para o porvir.

– Oh! não, tornou a moça; nós queremos ficar e ouvir-vos... preferimos isso...

Anacleto pegou levemente na mão de Celina, fez com que a moça se erguesse, e entregando-a a Cândido, disse:

– Não, eu quero ficar só com a sra. Irias; e o sr. Cândido, Celina, é um cavalheiro honrado e nobre, que pode pas­sear a sós contigo. Ide!

Celina tocou com a ponta de seus dedinhos o braço que lhe oferecia Cândido, e saíram ambos do caramanchel; ela, como no princípio, muito corada, e ele muito pálido.

Foram os dois mancebos para o caminho do terraço; a multidão pareceu talvez a ambos uma defesa contra sua própria perturbação. Quando eles subiam a escada do extremo direito do terraço, Irias ainda tinha sobre ambos fitos os olhos, e os acompanhava com um sorrir eloqüente; mas ao vê-los chegar ao último degrau, Anacleto estendendo o braço, e apontando para Cândido, disse a Irias:

– Estamos em completa liberdade; e eu posso desvanecer-me de merecer a sua confiança. Diga-me, senhora, quem é aquele mancebo que leva pelo braço minha pupila e neta?...

– O que quer saber, senhor? pergunta-me pela história de sua vida, ou por suas qualidades?...

– Penso ter bem apreciado as últimas; mas ignoro tudo da primeira.

– Também o que eu sei não poderá satisfazer-lhe.

– Diga-me sempre.

Começou Irias a falar, em voz porém tão baixa, que não a pudemos ouvir.

No entanto, Cândido e Celina tinham-se entranhado no coração da multidão. Nas portas dos torreões, sobre os bancos de mármore e azulejos que entremeiam a bela cortina que guarnece em quadro o terraço, sobre o parapeito de grossas grades de ferro, que olham para o mar, subindo enfim pelas quatro escadas, havia sempre multidão. Celina pensava que melhor se esconderia no meio dela; Cândido era escravo da inércia, iria para onde o quisessem levar, e sobretudo respeitava o desejo de uma senhora.

Mas Celina se iludira. Um homem sim, uma mulher não, nunca se esconde na grande concorrência, porque, onde exis­te uma mulher, principalmente moça e bela, todos os olhos  se fitam sobre ela.

Que importa que a mulher traga os olhos baixos? os observadores perguntam e indagam por que ela os não traz levantados; porém se os trouxer bem erguidos, os observadores hão de indagar ainda por que os não traz ela no chão.

Mas quase ao tocar a extremidade esquerda do terraço, quando o par incompreensível tinha atravessado todo aquele extenso quadro sem dar fé das belas jovens, e elegantes mancebos que por ali vagavam, Celina, no momento em que se voltava para repetir o mesmo passeio, viu em um volver de olhos os mesmos dois mancebos, que já uma vez tinha encontrado, e a haviam feito corar, e que ora a observavam de uma das janelas do torreão esquerdo.

Um dos observadores tinha o braço levantado, e mostrava-a com o dedo. Ambos se estavam rindo como de inteli­gência.

A brisa da tarde trouxe aos ouvidos de Celina as mesmas palavras da outra vez:

– São namorados.

A perturbação da moça redobrou; ela compreendeu que havia alguma coisa de singular neles dois. Lembrou-se desse silêncio obstinado que ambos guardavam, dessa melancolia que os fazia notáveis, e temendo já a multidão, ao chegar à primeira escada do centro que desce ao lado da cascata, ela deixou o braço de Cândido e disse:

– Desçamos, senhor... vamos passear... conversemos... por quem é... conversemos.

Cândido levantou os olhos e viu o rosto de Celina ainda mais embelecido pelo rubor do pejo... uma leve excitação nervosa lhe fazia palpitar com força o coração, e lhe inundava o seio de voluptuosidade. Cândido respondeu tre­mendo:

– Conversemos; e ficou ainda calado.

– Oh! vamos passear pelas alamedas... leve-me para as menos freqüentadas... eu aborreço a multidão... mas con­versemos!

– Vamos para as alamedas... murmurou Cândido.

Os dois mancebos que observavam desde o princípio Cândido e Celina, perderam-nos de vista ao voltar de uma alameda.

Cândido e Celina passeavam a sós.

Temendo a multidão como a um inimigo, procuravam as ruas solitárias; aí reinava o silêncio; as árvores cruzando seus ramos deixavam apenas passar raios de uma luz duvidosa... sopravam brandos favônios, que vinham travessos entender com as folhas, beijar as flores, e espalhar os perfumes, que das últimas roubavam...

Celina já se havia esquecido dos dois mancebos... e pensava sobre o romance que nessa tarde lhe havia cantado o velho Rodrigues...

Cândido lembrava-se do que ainda há pouco tinha ouvido da velha Irias.

Não conversavam... não se diziam palavra... fechava a boca de ambos esse pudor angélico do primeiro amor; mas o primeiro amor diz tudo no seu eloqüente silêncio, diz mil vezes mais do que em seus longos discursos dizem esses amores velhos, gastos, que já não têm originalidade nem pureza, e que falam muito porque sentem pouco.

O primeiro amor respira virtude e castidade: é a exalação do sentimento puro e santo que Deus soprou em nossa alma... exalado esse, os outros são feios arremedos, que nun­ca se podem parecer com ele.

O primeiro amor não fala... quase que não olha: suspira e treme; mas nessa linguagem muda diz muito... diz tudo.

Cândido e Celina não falaram, mal se olharam; suspiraram porém, tremeram.

Ao crepúsculo recolheram-se ambos ao caramanchel, onde Anacleto e Irias conversavam ainda.

Em todo passeio Celina só observou um fenômeno: quando sua mão tocava menos de leve o braço de Cândido, o mancebo estremecia involuntariamente. Cândido pôde apenas notar, que se alguma vez seus olhos encontravam os de Celina, a moça corava muito, e mostrava-se enleada.

E no fundo do coração ambos se haviam perguntado, o mancebo, por que era que aquela moça corava?... a moça, por que era que aquele mancebo tremia?...

Eles se amavam.

As quatro personagens de que temos falado, deixaram enfim o Passeio Público.

Quando de volta se achavam exatamente defronte do “Purgatório-trigueiro”, um carro puxado por dois cavalos brancos se despedia do portão do “Céu cor-de-rosa”, e passou perto deles.

– O carro do sr. Salustiano, disse a velha Irias.

A noite escondeu um movimento de despeito, e um olhar de cólera que escaparam ao velho Anacleto.

Entraram todos quatro no “Céu cor-de-rosa”.

 

O SENHOR E A ESCRAVA

MEIA HORA depois que Anacleto e Celina tinham saído para se dirigirem ao Passeio Público, um carro parou junto do alpendre do “Céu cor-de-rosa”, e Sa­lustiano apeou-se dele.

Mariana, que o recebeu, estava só na sala.

Apresentou-se Salustiano com ar triunfante; a filha de Anacleto estava pelo contrário pálida, mas com semblante desdenhoso.

Sentaram-se ambos muito perto um do outro. Houve um curto silêncio, e Salustiano falou primeiro:

– Enfim, estamos um momento a sós, minha senhora!

– É verdade, respondeu com voz segura Mariana, eu preparei este momento.

 

– Como?...

A viúva levantou-se, foi fechar a porta da sala, e tomando de novo o seu lugar:

– O senhor mo havia exigido, disse; no serão de anteontem despediu-se de mim com estas palavras: “depois de amanhã, às cinco horas da tarde!” não foi assim...

– Ah! Sim... creio que sim, respondeu Salustiano, fingindo que se lembrava.

– E eu para obedecer-lhe, menti a meu pai; convidei-o para passear hoje à tarde, e na hora de sair queixei-me de um pequeno incômodo, e forcei-o com rogos a fazer o pas­seio só com minha sobrinha.

– V. Exa. é a mesma bondade!... disse o moço com insolente ironia.

– Oh! não! senhor; falemos seriamente; não há bondade da minha parte, nem polidez da sua. O caso é simples: aqui está um senhor e uma escrava.

A firmeza com que Mariana pronunciou essas palavras obrigou Salustiano a fazer um movimento de admiração.

– Porque, continuou ela, eu compreendo perfeitamente o que sejam as cerimônias, e as etiquetas em uma assembléia; mas quando se acham a sós, e cara a cara, duas pessoas que se procuraram adrede para tratar de uma questão cuja base, apesar de ser um segredo, é de ambos conhecida, para que, senhor, estar com vãs palavras encobrindo uma triste verdade?... para que vestir em belas roupas um horrível esque­leto?...

Mas enquanto Mariana assim se exprimia, retomara Salustiano seu sangue frio habitual, e já com seu insolente e costumeiro sorriso nos lábios, respondeu em tom de gracejo.

– É, minha senhora, que eu tenho minhas tendências para diplomata.

– Menos isso, senhor, tornou Mariana; pode sim um homem, imprevistamente dono do segredo de uma mulher, impor-lhe, por preço de seu silêncio, condições indignas; isso será apenas vilania... baixeza de alma; mas ridicularizar essa mulher, senhor?! oh já não é só vilania, é infâmia!

– Senhora! disse Salustiano.

– E preciso é que me conheça bem, que faça justiça a meu caráter. Se tenho tremido, se me tenho humilhado a seus olhos nas sociedades, é porque me curvo ante a pureza dos outros, e nunca porque dobre os joelhos ao seu poder. Quando estivermos sós, eu hei de conservar-me sempre na minha posição, alta, elevada muito sobre a sua; porque a vítima é sempre menos infame do que o algoz. A quem eu temo, a quem eu respeito, não é o senhor, é as almas nobres.

– Senhora!...

– Nada de falsas posições entre nós, continuou a viúva: o que somos ambos, ambos o estamos vendo. Eu sou uma mulher indigna, e o senhor é um homem baixo e vil. Suponhamos agora que nenhum de nós tem pejo, e falemos claramente um ao outro como dois sicários que tratam de um crime. Eis aqui como deve passar esta hora entre nós dois: creio que torno tudo muito fácil. O que quer o se­nhor de mim?...

Aquela mulher alta, bela, morena, de olhos cheios de fogo, orgulhosa e veemente, dava incrível força a suas palavras; com seu olhar ardente humilhava Salustiano, que ficou de novo espantado e em silêncio junto dela.

A viúva repetiu a pergunta que já havia feito.

– O que quer de mim, senhor?!

– Confesso, senhora, disse Salustiano, que não vinha pre­parado para uma conversação da natureza que parece dese­jar; todavia, pois que assim o quer, esforçar-me-ei por mos­trar-me sem pejo, e falar-lhe como um sicário que com outro conversa sobre um crime.

– Bem; é isso mesmo: o que quer, pois?...

– Primeiramente quero saber quem é este mancebo que tão assiduamente freqüenta a sua casa, e a quem ouço dar o nome de Cândido.

– Sei que se chama Cândido.

– E mais nada?...

– E mais nada.

– Vamos mal, senhora; não vi, como desejava, satisfeita minha primeira pergunta; desvaneço-me porém de esperar que uma exigência, que agora farei, será completamente e cedo cumprida.

– E o que exige o senhor?... perguntou Mariana.

– Que as portas desta casa sejam fechadas a esse mancebo.

– Quem abre e fecha as portas desta casa a todas as pessoas não é a filha, é o pai.

Salustiano levantou os ombros e disse:

– Embora; eu o exijo.

Mordeu Mariana os lábios de despeito, e depois perguntou:

– E por quê?... e para que havemos de fechar as portas desta casa a esse infeliz moço?...

– Já o disse uma vez, senhora, porque eu o exijo.

– Oh!... e crê que há de ser humildemente obedecido, não é assim?...

– Tenho a certeza disso.

– Senhor! senhor!... exclamou a filha de Anacleto; não compreende que isso é já muito abusar?... oh! um cava­lheiro zombando, insultando uma mulher, porque sente que ela não tem por si quem a defenda; que existe abatida com a consciência de um crime! Mas um cavalheiro deve sentir que quando chega a exaltação, quando mais não pode sofrer, quando enfim determina vingar-se, uma mulher vale o dobro de um homem; porque de ordinário o homem sabe somente matar, e a mulher sabe também morrer.

Salustiano começava a rir.

– O senhor se está aí rindo porque não sente que estas palavras pronunciadas por uma senhora à face de um cavalheiro eqüivalem à maior das afrontas que um homem pode fazer a outro... mas deve rir-se... o senhor tem consciência de não ter generosidade nem honra.

Salustiano continuava a rir.

– O senhor se está aí rindo porque se persuade que sempre que estivermos juntos, haverá um senhor para mandar, e uma escrava para obedecer, não é isso?...

– Talvez.

– Sim... talvez ainda por algum tempo, mas um dia...

 

Aí se interrompeu Mariana, e encarando de perto Salustiano, prosseguiu:

– Qual é porém a razão por que as portas desta casa se hão de fechar a esse mancebo?... tem o senhor concebido algum projeto, diante do qual se levante ele?... que projeto é o seu, portanto? creio que ainda me assiste o direito de fazer tais perguntas.

– E eu tenho a certeza de que não preciso descobrir o alvo a que atiro, para ser satisfeito no que pretendo.

– Ah! senhor! isso é já demais.

– Estou falando, senhora, na suposição tristíssima de que nenhum de nós tem pejo, e somos como dois sicários que tratam de um crime.

– Oh! pois bem, exclamou com violência Mariana; vamos ao fim: pensa que não vejo o que se passa diante de meus olhos?... quer que lhe trace o painel de seu comportamento para comigo, e que lhe exponha seus últimos projetos?... ouça pois.

Salustiano descansou uma perna sobre a outra com inaudito sangue frio, e disse:

– Ouvirei, senhora; note porém que se vai fazendo tarde.

Mariana começou.

– Um acaso funesto, um acontecimento talvez determinado por Deus, para castigo de um crime que eu cometi, depôs em suas mãos um documento que prova esse crime. Quando eu soube que semelhante documento existia em seu poder, foi no meio de uma festa, no seio dos prazeres, dos quais o senhor mesmo me foi arrancar dizendo-me – és minha escrava!... – Oh! eu tremi realmente! e vejo bem que tinha razão de tremer: tremi, porque desde então havia no mundo um homem que possuía o meu fatal segredo; tremi, mas nun­ca pensei que esse homem abusasse tanto, e de maneira tão indigna, de uma pobre mulher sem defesa.

– Vai-se fazendo tarde, senhora, repetiu Salustiano.

– Senhor, senhor; já se não lembra acaso do que conosco se passou nos primeiros tempos de nosso desgraçado conhecimento?... lá nessas sociedades que foram o meu delírio, a minha fascinação; lá nessas assembléias eu me supunha admirada e querida; porque, confessarei tudo, tenho ainda hoje orgulho de ser bela; lá mesmo foi o senhor perturbar meus inocentes gozos; lá ostentou diante de seus amigos que merecia um amor que eu lhe não tinha, que eu lhe não podia dar; lá ostentou ter subjugado, ter conquistado o coração da mulher casada; e eu que observava isso, eu que sentia como as mulheres murmuravam contra mim, e os homens pareciam ter piedade de meu marido; eu que via o monstro da calúnia erguer-se contra minha fama de esposa fiel; eu... eu sorria ou corava, à vista de todos, quando o senhor se aproximava de mim ou me oferecia o braço convidando-me para um passeio; porque, enfim, eu era sua escrava!... Em resultado o senhor era um homem infame e eu uma mulher covarde.

– Vai-se fazendo tarde, senhora, tornou Salustiano.

– Não havia, não podia haver amor entre nós. Desde o primeiro dia em que nos encontramos, eu o aborreci, e o senhor nunca chegou a amar-me. Por que, pois, fazia crer a seus companheiros de devassidão, de orgias, e de calúnias, que eu era pouco fiel a meu esposo e sensível ao seu amor?... não sabe por quê?... o senhor era um homem infame! e eu por que não sabia vencer minha tão grande fraqueza?... por que não mostrava ao mundo, a meu marido, a todos, o homem indigno que zombava de mim e trazia em torturas a minha vida?... eu já disse a razão ainda há pouco: porque eu era uma mulher covarde.

– Lembre-se que é tarde, senhora!

– E agora?... sabe o que se está passando entre nós?... persuade-se de que eu não tenho já adivinhado a razão por que se atreve a exigir que seja expulso desta casa um nobre mancebo, que tem sabido merecer nossa amizade!... escu­te: há uma menina que é bela, bela com todo o esplendor e viço da mocidade; bela ainda mais por sua modéstia, e suas virtudes; uma menina cujo nome o povo abençoa, e que todos como que de ajuste a julgam encantadora. É um coração virgem; e perturbar a tranqüilidade desse coração, ganhá-lo com sua linda inocência, é uma conquista que deve encher de orgulho a qualquer desses moços fátuos e sem moral, que desonram a época em que vivem, fazendo glória da desventura das mulheres. Pois bem: o senhor tem lançado os olhos sobre essa menina, que é minha sobrinha.

– É verdade! exclamou Salustiano; eu a amo!

– Amá-la! oh! não, senhor; não desdoure assim o mais nobre dos sentimentos humanos... um homem vil não ama.

– Senhora!

– Mas, sendo por ora infrutíferos todos os seus esforços, conhecendo que até hoje nenhuma impressão tem feito no coração da modesta virgem, o senhor foi procurar uma coi­sa que explicasse essa indiferença de Celina, e lançou os olhos sobre um mancebo honrado, nobre, cheio de recomendáveis qualidades, que não nos fez ainda um só momento arrepender de o haver recebido em nossa casa. E julgando que esse moço é o único obstáculo a seus pretendidos triunfos, ousa vir aqui exigir de mim que lhe feche as portas de nossa casa! não é isso? não tenho adivinhado tudo?...

– Sim... é isso mesmo: faz-se-me preciso que Cândido não volte mais nunca ao “Céu cor-de-rosa”.

– E acredita que Celina será por tal meio menos indiferente à sua improvisada paixão?... ah! senhor, a virtude e um amor santo deram o leite a essa menina. A natureza dela e a sua se repelem; lembre-se que ela é um inocente anjo, e que não há simpatia possível entre um bom anjo e um demônio. E seria possível que nós lhe sacrificássemos mi­nha sobrinha?...

– Eu o pensava, senhora.

– Oh!... tem a vencer primeiro a antipatia de Celina, o aborrecimento do velho Anacleto e o ódio de Mariana.

– E porventura não tenho eu alguma coisa a meu fa­vor?...

– Um dia se há de quebrar essa arma!...

– Senhora, disse Salustiano endireitando-se na cadeira; tenho-lhe escutado sossegadamente; justo é que me ouça ago­ra do mesmo modo.

– Mas vai-se fazendo tarde, senhor.

– A senhora pretendeu ter adivinhado meus sentimentos e não conhece ainda metade deles; quero dar-lhe idéia de mais alguns. Sim, o documento que possuo, me tem colo­cado na posição de senhor e a tem posto na de escrava. E eu, eu que sou rico e feliz, considero-a como uma de minhas riquezas, como a mais interessante carta do meu jogo dos prazeres da vida; e abuse ou não, hei de divertir-me jogando com essa carta, dela me servindo para ganhar as mais difíceis partidas. Sim! ostentei-me seu apaixonado e seu preferido, e o mundo em que vivemos acreditou que eu era amado e feliz.

– Oh! mas isso foi uma calúnia desse mundo, e uma infâmia de sua parte!

– Agora que já por muito tempo gozei a felicidade do parecer amado por uma senhora encantadora, quero realmente ganhar a posse de uma outra não menos bela. Amo, e ame ou não, quero que a “Bela Órfã” seja minha esposa. E sabe quem me há de ajudar nesse empenho?... sabe quem, se preciso for, há de levar a “Bela Órfã” de rastos aos altares, e forçá-la dizer – sim – ao sacerdote?... é a senhora.

– Eu?!

– Sim, porque atualmente eu tenho mais do que o documento de um crime; tenho um sentimento poderoso, por cuja existência e triunfo a senhora há de fazer tudo. Tenho um amor, cujos laços hei de quebrar, se não for ajudado e feliz em minhas pretensões.

– Senhor!...

– Esse amor que não morreu com um viajar de três anos, que resiste ainda, que hoje aparece e se mostra tão belo, tão cheio de esperanças, hei de eu matá-lo, senhora! ...

 Mariana não pôde dizer nada.

– Se acaso uma barreira se levantar entre mim e sua sobrinha, eu também saberei levantar uma barreira que separe Mariana de Henrique.

– Senhor!

– Oh! a senhora sabe bem se eu posso, se eu tenho ânimo de o fazer... e eu o farei.

– Sim! sim! eu o sei: o senhor é capaz de tudo.

– E portanto a senhora há de necessariamente coadjuvar-me no meu empenho... por interesse próprio, para que eu não mate o seu amor...

– É muito!

– Para que eu não atire um documento terrível aos olhos do seu amante, aos olhos do público; um documento que a condena como... de que nome quer a senhora que eu me sirva?...

– Senhor!... senhor!...

– Por ora, pois, cumpre-lhe somente despedir desta casa a esse homem que eu detesto. Com razão ou sem ela, ame ele ou não a sua sobrinha, seja ou não amado enfim, eu não peço, eu quero que esse mancebo deixe de vir aos serões do “Céu cor-de-rosa”. Senhora, repito a palavra com que co­meçamos a tratar desta questão: – eu o exijo! e pronunciarei depois dessa a palavra que deve terminar todas as nossas discussões doravante: – se não...

– Oh! senhor! retire-se! exclamou Mariana com desesperação; retire-se! deixe-me em paz.

Como dissemos, a porta da sala tinha sido fechada no começo desta conferência.

No momento em que Mariana exclamava – retire-se! – um velho de quimono preto se afastou mansamente detrás da porta, e recolheu-se a um canto do alpendre.

Salustiano, e Mariana despediram-se enfim... como dois sicários que acabavam de tratar de um crime.

 

A VELHA, O MOÇO E A MOÇA

QUANDO Anacleto, Irias, Cândido e Celina entraram na sala do “Céu cor-de-rosa”, já Mariana ali não se achava.

Ou fosse para ocultar a perturbação, que por uma causa qualquer sentia, ou porque realmente se achasse fatigado, Anacleto convidou os dois habitantes do “Purgatório-trigueiro para cear com ele, e pedindo-lhes licença para descansar alguns momentos, dirigiu-se ao quarto de Mariana.

A viúva estava deitada e abatida. Queixou-se de que uma intempestiva e inesperada visita de Salustiano lhe exacerbara o incômodo de que poucas horas antes se tinha queixado.

Anacleto não lhe disse uma palavra; deixou-se cair em uma cadeira de braços e ficou triste e meditabundo, olhando para Mariana.

O pai desconfiava da filha.

Mas haviam ficado na sala a velha Irias, Cândido e Celina.

Estiveram descansando, sem encetar a mais simples conversação durante algum tempo; os dois moços conservavam a sua melancolia silenciosa do passeio. Irias continuava a observá-los como fizera em toda a tarde desse dia.

Até que enfim ela mesma quebrou o silêncio, dizendo:

– Continuais a estar tristes, meus filhos?

– Não, minha mãe, acudiu prontamente Cândido, estamos apenas fatigados.

– Sim... passeamos muito, disse Celina.

– E no entanto, em todo vosso passeio estivestes do mesmo modo, continuou a velha; sabeis que essa tristeza dá muito que entender nos moços?...

A “Bela Órfã” corou vivamente; Cândido estremeceu a próprio pesar.

– Não é preciso corar tanto assim, minha boa menina. Por que estremeceste tão fortemente, Cândido?

A observação da velha aumentou o enleio dos moços.

Irias pareceu deleitar-se vendo a ambos perturbados, e foi somente quando eles conseguiram serenar-se, que ela pros­seguiu:

– Ouvi-me: quando alguém vê dois jovens... um moço e uma moça, meditando tristemente, naturalmente vem-lhe vontade de compreender a causa dessa meditação; e coisa notável! quase sempre acaba por adivinhá-la.

Nada disseram os dois moços.

– Porque, continuou Irias, a alma da mocidade é inconstante, rápida e faceira; ligeira como o corpo que anima, ela se apraz de mudar a cada instante de objeto, de alimentar-se com impressões e pensamentos sempre novos e diversos. A alma da mocidade é uma borboleta no espírito. Não é assim a velhice; pertence a esta a meditação, pois que seu corpo já está cansado; e os sentidos fatigados de, por tantos anos, levar impressões a todos os instantes, mostram-se como que vagarosos por fraqueza e preguiça. A alma da velhice descansa sobre um pensamento, revolve-se dentro dele, porque também nisso lhe ajuda a tristeza, que de ordinário acompanha o velho, e que é morosa como convém ser quem medita. A juventude, repito, é naturalmente alegre, e a alegria é leve e brincadora; portanto, quando um moço e uma moça estão tristes, e meditam, quem os vê, por força os observa, porque nessa tristeza e nessa meditação deve haver algum mistério muito interessante para se estudar, e quem as estuda quase sempre adivinha.

– É noite fechada, disse Cândido levantando-se e aproximando-se de uma janela; é noite fechada; mas a lua, clara e brilhante...

– Deixa a noite e a lua, respondeu a velha cortando-lhe a palavra, e senta-te aí onde estavas para eu te dizer como é que se adivinha a tristeza e a meditação dos moços.

Deixou-se Cândido outra vez sentar, e Irias continuou:

– Sobre que é que medita um moço quando passeia com uma jovem bela e espirituosa, ou se acha junto dela senta­do?... é verdade que o homem tem no coração a ambição, que o faz desejar mil coisas, que lhe pode ao longe desenhar ricos castelos, extravagantes arabescos, palácios e venturas de diversas naturezas; mas é verdade, também, que naqueles momentos parece muito mais provável que medite sobre al­gum pensamento que tenha bastante relação com essa moça e ele mesmo. Que pensamento será? qual é o que nesta vida põe em mais íntima relação as almas de um moço e de uma moça?... o observador, que de ordinário é um velho, lem­bra-se do que com ele se passou no tempo do verdor dos anos, lembra-se de que não podem impunemente ver-se, e conversar, um mancebo cheio de ardor e uma donzela cheia de encantos; e finalmente o observador conhece que o moço medita sobre – amor. – A respeito da moça é ainda mais positivo.

– Senhora, disse timidamente a “Bela Órfã”, esta conversação me acanha....

A velha pareceu não ter ouvido o que lhe acabava de dizer Celina e prosseguiu:

– Em que pensará a menina de dezesseis anos?... ela não é ainda esposa para cuidar na constância de seu marido, e observar como é que ele olha, como é que ele fala às outras senhoras; ela ainda não é mãe para entregar-se toda inteira ao cuidado de seus filhos, para viver para eles de dia, e velar por eles de noite; em que pensará pois, ali sentada ao pé de um belo moço, ou com ele passeando?... pensará nos vestidos de suas bonecas?... no romance que está lendo?... meditará sobre sua lição de desenho?... sobre a cavatina que nessa noite pretende cantar?... sobre seus enfeites para o próximo serão? Mas nisso não medita a moça tristemente. Há, porém, para a jovem de dezesseis anos, que é ainda solteira, uma meditação acompanhada de tristeza, que não amarga, de melancolia que é doce como a saudade, e que se chama – amor: – sim, minha filha! sempre que a moça sol­teira está meditando, medita sobre amor. Vós ambos meditáveis esta tarde, e estais meditando ainda agora sobre amor.

– Senhora! exclamou Celina.

– Minha mãe! exclamou Cândido.

– Negais o que eu digo? perguntou a velha.

– Nego, disse rapidamente o mancebo.

– Enganou-se, respondeu com timidez a moça.

– Pois eu vou demonstrar que não; vou provar que conheço vosso coração mais do que vós mesmos; ou antes vou demonstrar isso somente à senhora, porque tu não podes negar, Cândido.

– Oh! minha mãe! por compaixão não abuse do meu es­tado!

– Senhora, Deus e a educação da virtude, tinha até bem pouco conservado o seu coração em toda a virgindade da inocência. Até bem pouco a senhora sabia o que era o galanteio; porque nesses poucos bailes a que tem ido, e nas reu­niões que se fazem em sua casa, os cavalheiros que lhe cercam, lhe dizem finezas, e provavelmente a requestam; tem pois ouvido muito falar em amor; não o compreendia, porém, porque não o havia sentido. Corava pelo que lhe diziam, mas não corava de si; também é só assim que pode corar a inocência.

Sem o pensar, Celina estava ouvindo atentamente o que dizia a velha.

– Enfim, senhora, este mancebo apareceu, seu desvalimento, sua pobreza, a palidez de seu rosto, que parece indicar íntimo sofrimento, sua melancolia habitual, que quase dá o caráter de verdade à suspeita de suas penas, eram suficientes para recomendá-lo à alma das virtudes; mas além disto seus tios o trataram com amizade e confiança; e sobretudo, a senhora quando o viu pela primeira vez, viu-o onde?... como?... viu do meio dos túmulos e de joelhos, orando junto à urna que guarda as respeitáveis cinzas de seus pais.

– É verdade! é verdade!... exclamou a “Bela Órfã” com vivo acento de gratidão.

Uma onda de prazer indizível rolou sobre o coração do mancebo, e foi desfazer-se em leve sorriso, que dilatou por um momento brevíssimo seus lábios.

– Desde então, prosseguiu Irias, desde esse momento, quando no silêncio de seu quarto, ou nas fantasias do seu leito, a imagem deste mancebo se lhe desenha no espírito, não é, a senhora deve-se estar lembrando, não é sob a forma de um lindo jovem, vestido de brilhantes e custosas galas... não, a senhora não o quer assim, não o quer fidalgo nem príncipe, não o quer rico nem deslumbrador, a senhora o quer, a senhora o vê sempre abatido, pálido e melancólico, de joelhos junto ao túmulo de seus pais.

– É verdade!... é verdade!... exclamou com lágrimas nos olhos a “Bela Órfã”.

Cândido, enquanto Celina atendia exclusivamente à velha, devorava com ardentes vistas as pérolas de ternura que se escapando dos olhos da moça, pendiam de suas faces viçosas, como gotas de água límpida, caídas em pétalas de rosa.

Irias continuou:

– Depois, este mancebo começou a freqüentar o “Céu cor-de-rosa”, e a senhora, muito naturalmente, notou que nas reuniões que aqui têm lugar, os cavalheiros a cercam, a adulam e incensam, e que somente Cândido, exceção entre todos, se afastava e se deixava, e deixa ainda esquecer em um canto de sala. A senhora pretendeu explicar a si mesma uma tal singularidade, porque, primeiramente, a mulher é muito curiosa destas coisas, e depois enfim porque lhe doía que estivesse sempre longe de seu lado aquele que tivera o seu mesmo pensamento no dia de dor, e junto do qual se ajoelhara um momento no meio dos túmulos.

Ninguém interrompeu a velha; ela, porém, parou um instante para respirar e depois disse:

– Mas para se explicar a si mesma essa singularidade, a senhora devia observar o mancebo, e em algumas das vezes que para ele olhava encontrou seus olhos que, de súbito, se abaixaram; bastou, porém, esse momentâneo encontro de vistas para a senhora espantar-se do ardor, do fogo com que Cândido a olhava. Esse fogo, senhora, incomodou-a a princípio; depois essa chama começou a propagar-se, e não tarde seu coração ardia também; mas por que ardia?... por que começou um desassossego indizível a perturbá-la? por que em seu jeito pensava nos abrasadores olhares do mancebo?... por que lhe escapava um suspiro na solidão?... por quê? a alma virgem da moça o não podia dizer.

Celina nada respondeu; estava porém espantada, porque a velha dizia o que realmente se havia passado dentro dela.

– Mas hoje, prosseguiu Irias, hoje era o dia das revelações dos mistérios do coração. A manhã deste dia correu como todas as outras; a tarde contudo foi muito diferente para ambos. Senhora, um amigo disse o que na sua alma se pas­sava, e a senhora o não compreendia. Antes do passeio da tarde que acaba de passar, a senhora já sabia que entre a “Bela Órfã” e o mancebo desvalido se abria uma flor perfu­mada e bela: – era a rosa do amor.

Os dois mancebos ficaram como que petrificados.

– A senhora não tinha tido tempo de estudar a sua posição, e ainda que a houvesse estudado, o mesmo sucederia. A perturbação, o enleio, o pejo a acompanhou em todo o pas­seio. Avaliando já seus sentimentos, e levada pelo braço de um homem a quem amava, e por quem era amada, temia que uma simples palavra a pudesse trair, que os olhos dos observadores arrasassem o segredo de si própria... e corava... e meditava; e portanto a senhora meditava e medita ainda; porque ama.

– Ah! senhora!... exclamou a moça, escondendo o rosto com as mãos.

– Minha mãe! basta!... disse o mancebo fora de si: basta, ou eu me retiro.

– Não! fica! e se vale alguma coisa para ti a autoridade de mãe adotiva que em mim respeitas, fica! eu te ordeno que fiques!...

O mancebo ficou imóvel à voz da velha.

– E este mancebo, disse ela a Celina, apontando Cândido com seu trêmulo dedo, concebe a senhora como é que este mancebo lhe ama?... oh!... ele dirá que não, ele há de jurar que eu minto. E sabe por quê?... porque, escravo do mais nobre orgulho, ele não quer ser amado por uma mulher que possui mais do que ele. Quereria, senhora, vê-la pobre e desgraçada, para lançar a alma a seus pés, e no entanto...

– Basta, minha mãe!

– No entanto é a senhora o objeto de seus mais belos e caros pensamentos. Ao romper da aurora ele, da fresta da janela do sótão que habita, acompanha com os olhos todos os seus passos, quando a senhora vai passear por entre suas flores...

– Minha mãe!... silêncio!... exclamou o mancebo, caindo de joelhos aos pés da velha.

Celina respirava apenas.

– Durante o dia, continuou Irias, ele não pensa, ele não suspira, ele não vive senão pela senhora.

– Minha mãe!...

– De noite, se dorme, são seus os sonhos dele; se vela, ele vive ainda só pela “Bela Órfã”, e escreve hinos ao objeto de seus cultos...

– Minha mãe!...

– Negas isto?... perguntou a velha com tom grave.

– Nego! disse Cândido.

As três personagens no fervor dessa prática se haviam insensivelmente erguido, e se tinham chegado até junto do piano.

– Negas isto? repetiu Irias.

– Nego, respondeu outra vez o moço.

Então a velha, lançando a mão no bolso de seu vestido, tirou dele um papel, e o ia entregar a Celina; mas vendo que esta não o recebia, lançou-o sobre o piano, e disse:

– Eis aí, senhora, a declaração de amor deste mancebo.

– Que é isto? perguntou Cândido.

Os versos que escreveste em uma das noites passadas.

Ouviu-se nesse momento o tropel que faziam Anacleto e Mariana descendo a escada do sótão. Cândido lançava-se sobre o papel, quando Irias o susteve com sua mão musculo­sa e forte, dizendo:

– Aquilo não te pertence mais.

Quando Anacleto e Mariana entraram na sala, Celina, trêmula e cheia de pejo, lançou seu lenço branco sobre o papel.

Depois, aproveitando um instante em que todos pareciam estar entretidos, ela, não tendo bolsos no vestido, escondeu o papel no seio.

Cândido viu isso.

Na hora de recolher-se, a “Bela Órfã” abriu esse papel e viu algumas folhas escritas: eram versos, e constavam de trinta e duas estrofes, tendo por título o seguinte: “O Sonho da Virgem”.

 

JOÃO E RODRIGUES

CONTRA todos os seus hábitos, o velho Rodrigues, guarda-portão do “Céu cor-de-rosa”, deixou às oito horas da noite o seu eterno posto do alpendre e desceu por um beco que vai abrir-se no largo da Lapa.

José e Helena, que estavam como sempre de espreita à janela, disseram um para o outro ao mesmo tempo:

– Temos novidade.

O ex-escrivão, tomou imediatamente o chapéu, e saindo, apressou os passos até descobrir o velho Rodrigues, e o foi acompanhando de longe, e com todo cuidado para não ser por ele descoberto.

Helena ficou só, mas sempre vigilante à janela, observando o que pela vizinhança ocorria.

O velho guarda-portão, sem nunca olhar para trás, atravessou o largo da Lapa, e tomou pela rua do Passeio Público, deixou ao lado esquerdo a rua das Marrecas, venceu todo largo da Ajuda, e como quem se dirigia para a de S. José, foi indo sempre no mesmo passo, até que endireitou para a portaria do convento da Ajuda, e foi sentar-se nos degraus superiores.

Jacó coseu-se com a parede do convento, aproximou-se quanto pôde do velho, e finalmente, atirou-se ao chão, procurando ser tomado por algum mendigo.

O guarda-portão descobriu-o a tempo, e reconheceu o ex-escrivão; mas não deu sinal algum de o ter feito, e ficou quieto no mesmo lugar, cantarolando por entre os dentes uma de suas prediletas baladas.

Um quarto de hora depois o vulto de um homem alto veio-se aproximando do posto que Rodrigues tomara.

O velho chegou-se mais, enfim subiu também os degraus da portaria: era um velho pouco mais ou menos da mesma idade de Rodrigues.

– Adeus, João, disse Rodrigues.

– Boa-noite, Rodrigues! disse o recém-chegado tomando lugar e sentando-se junto do guarda-portão.

– Esperaste muito?

– Não, há um quarto de hora, apenas.

– Que diabo! temos assim uns encontros, que melhor caberiam a dois ladrões, ou a dois namorados.

O guarda-portão sorriu e levantou os ombros, como quem queria dizer: – que nos importa?

– Conversemos, disse o recém-chegado: que novidades há?

– Que mau costume! murmurou Rodrigues; falas sempre com voz tão alta!

– Pois então que há?...

– Apenas um curioso que nos espreita.

– E onde está então essa peça?

Rodrigues apontou para Jacó, que fingia ressonar.

– Ora... é um pobre mendigo.

– Cala-te; é nada menos do que o celebre Jacó, que em outro tempo conheceste bem, e que hoje é meu vizinho, e tomou por sua conta espreitar todos os meus passos.

– Ui!... pois deveras?...

– Sem a menor dúvida.

– Vamos pô-lo dali para fora a pontapés.

– Para quê? basta que falemos baixo. Tenho pouco que dizer-te.

– Tens razão, tanto mais que me suponho em vésperas de tomar de novo conhecimento com ele.

– Como?...

– Vi-o entrar o mês passado lá em casa.

– E com que fim?...

– Não sei, mas hei de sabê-lo.

– É preciso.

– Vamos ao principal: conta-me o que há.

Sim, porém torno a dizer-te que fales mais baixo.

            Jacó não tinha até então percebido uma só palavra; apenas lhe chegava aos ouvidos um leve ruído; mas daí por diante ainda menos do que isso ouviu. João e Rodrigues eram para ele como dois mudos sentados ao lado um do outro. Arrependeu-se de haver seguido o velho guarda-portão, e a posição incômoda que tomara era como um castigo de sua insana curiosidade.

Os dois velhos amigos começaram a falar um com o outro em voz muito baixa.

– Então o que há?... repetiu João.

– Realizam-se minhas previsões.

– Amam-se?...

– Ele, como um louco, como um rapaz de vinte anos, que ama pela primeira vez.

– E ela?...

– Ou já o ama também, ou está em muito bom caminho para chegar a isso.

– E já sabe que é amada?...

– Creio que o pensava desde alguns dias; ontem porém teve a certeza de o ser.

– Quem lhe revelou o segredo?...

– Este seu criado.

– Bravo, sr. Rodrigues; está representando um excelente papel.

– Pois que querias tu que eu fizesse, João?... duas crianças tolas como eles são precisavam de quem lhes abrisse os olhos. E, sobretudo, não é verdade que convém terminar os nossos trabalhos? não crês que basta de provação?...

– Eu não te crimino, Rodrigues; ao contrário acho que tens ido às mil maravilhas; tanto mais que dois trastes ve­lhos como nós, devemos dar graças a Deus por podermos ainda prestar para alguma coisa neste mundo.

– Enfim eles se amam, repetiu Rodrigues.

– Era natural.

– Temos porém novidades cem vezes mais importantes.

– Vamos lá.

– Realiza-se também a minha última previsão: o outro igualmente a ama.

– Oh diabo! o caso vai-se complicando; e ela?

– Despreza-o.

– Está no seu direito. E ele teima?...

– Faz mais do que isso.

– Então o quê?

– Quer impor-se.

– Como?...

– Ora como!... pois não adivinhas?... com a misteriosa influência que exerce sobre a viúva.

– Quando eu digo que o caso se vai complicando!

– Ontem o velho e a menina saíram a passeio. A viúva arranjou uma dor de cabeça, e deixou-se ficar em casa; daí a pouco chegou ele.

– Bem; e depois?

– Fecharam-se na sala, e conversaram uma hora.

– E tu?...

– Ouvi tudo.

– Bravo! és um herói.

– Ele exigiu que a viúva fechasse a porta do “Céu cor-de-rosa ao pobre rapaz.

– Por quê?...

– Porque suspeita que a pequena o ama, e não quer ter um rival tão perto dela.

– E a viúva?

– Negou-se a cumprir a exigência.

– E ele?...

– Declarou-lhe formalmente que se ela não a cumprisse, perdê-la-ia no conceito público.

– E finalmente...

– Separaram-se sem haver decidido coisa alguma.

– E o que concluis tu do que se passou?...

– Que dentro em pouco as portas do “Céu cor-de-rosa” serão fechadas ao moço pobre.

– E nada mais?...

– Concluo também que o outro sabe pelo menos metade do que nós sabemos.

– Ainda bem que ele sabe só metade; creio que não gostará quando vier a saber o resto.

– João, para mim é claro que a – décima segunda – existe em poder dele.

– É realmente a melhor maneira de explicar aquela misteriosa influência.

– E tu, nada absolutamente tens conseguido?

– Nada.

– É pena; porque enfim, pode ser que essa arma com que ele joga, acabe por fazer muito mal ao nosso plano.

– Que queres?... tenho trabalhado muito; mas sempre em vão. Já corri e examinei um por um, todos os papéis da casa.

– E nada?...

– E nada; falta-me só a carteira velha do defunto.

– Quem guarda as chaves?..

– Ele, que de ninguém as confia.

– Diabo! é nessa: tem um segredo no fundo da primeira gaveta do lado esquerdo.

– Lembro-me bem.

– E então que fazes?...

– Que faço! o que tu farias: espero.

– Esperar é quase sempre o maior de todos os castigos.

– E que remédio, Rodrigues? a carteira está em seu quarto de dormir, e ele quando sai leva sempre a chave; parece que esconde ali um grande tesouro.

– Não se engana; mas hás de roubá-lo.

– Esperemos.

– Calaram-se por alguns momentos os dois velhos. Estiveram ambos pensando, e depois disse Rodrigues:

– Ora dize, João, não parecemos dois decididos inimigos do tal sujeito?

– Às vezes quer me parecer que sim: pelo menos praticamos como tais.

– Não... não... isso não: ouve; se fosse preciso, eu dera o resto de minha vida para fazê-lo verdadeiramente feliz.

– Às vezes quase que não merece nada. Foi, e será sempre desenfreado extravagante.

O seu fundo porém é bom. Sucede de ordinário assim com todos os extravagantes.

– Pode ser que tenhas razão.

– Ultimamente não se tem portado tão loucamente, como dantes.

– Descansa para recomeçar.

– Basta. É tempo de nos irmos.

– Quando nos veremos outra vez?

– Amanhã não pode ser: há reunião extraordinária no “Céu cor-de-rosa”; faz anos a “Bela Órfã”.

– Seja depois de amanhã.

– Pois bem: depois de amanhã; adeus.

Separaram-se os dois velhos. João sumiu-se voltando o canto da rua da Ajuda. Rodrigues atravessou os mesmos largos e ruas por onde tinha vindo, e entrou no alpendre do “Céu cor-de-rosa”.

Jacó, desesperado e furioso por não ter podido conseguir apanhar uma única frase da longa conversação dos dois velhos, voltou para sua casa em um verdadeiro estado da ebu­lição.

– Então, exclamou Helena apenas o viu entrar; que foi fazer o coruja?...

– Encontrar-se na portaria do convento da Ajuda com outro coruja, como ele, e com quem falou mais de uma hora.

– Sobre quê, meu caro Jacó?...

– São dois monstros, dois sicários, dois demônios...

– Então...

– Eu não pude ouvir nada; falaram em segredo; respondeu Jacó desatando profundíssimo suspiro.

Oh! malvados!... exclamou Helena.

E naquela noite os vizinhos de Jacó e de Helena foram mais que nunca vítimas da mordacidade, das calúnias desse par sem igual.

 

A NOITE DE ANOS

ERA A NOITE dos anos da “Bela Órfã”; noite de festa no “Céu cor-de-rosa”, e que deveria ser de inocentes gozos para os numerosos convidados, que enchiam aquela fe­liz habitação.

Além da casa, que estava toda brilhante de luzes, o jardim tão querido de Celina achava-se também iluminado, e patente àqueles que quisessem aí passear.

Não havia certamente no “Céu cor-de-rosa” o luxo deslumbrante das festas dos milionários, que gastam; em compensação, porém, o bom gosto transpirava em tudo.

Mariana ostentava sua beleza tão especial, tão deslumbradora, tão perigosa.

Celina, que era como a princesa da festa, levava, sem querer, sem pensar, vantagem sobre a bela tia.

Uma simplicidade feiticeira presidira, como sempre, o seu toucador. Seus longos cabelos estavam atados com graça indizível, mas tão pouco trabalho pedia aquele penteado, que adivinhava-se para logo que era o resultado da destreza de suas mãozinhas; agradava ainda mais por isso. Um pouco para o lado esquerdo de sua cabeça, aparecia um botãozinho de rosa, como surgindo dentre as tranças de madeixas.

Seu vestido era o único que lhe convinha.

Uma virgem pede um vestido branco. A cor branca exprime a alvura de sua alma, a inocência de seu coração. Qualquer outro vestido assenta mal numa virgem.

Além disto, uns sapatinhos de cetim, e mais nada. Para que quer enfeites a formosa donzela?... para que, se a natureza se incumbe de enfeitá-la com os mais interessantes adornos?...

Tudo na “Bela Órfã” respirava encanto, graça, candura e inocência: era um anjo.

Não há sacrilégio nesta comparação.

Quando a mulher reúne às graças físicas, virtudes cristãs, pureza e bondade, pode por um homem ser comparada a uma santa ou a um anjo.

A uma santa, em qualquer tempo, em qualquer condição, que esteja essa mulher; mas contanto que reúna os encantos de espírito que há pouco foram apontados.

A um anjo, porém, somente enquanto é virgem; porque só então na mulher transpira essa inocência que é por força vinda do céu; essa inefável pureza que não pode existir se­não nos anjos e na virgem.

Os anjos são as virgens do céu, como as virgens são os anjos da terra.

Mas Celina tinha naquela noite um não sei quê de mais belo, de mais interessante em si, em seus modos, em seus olhares. Era um receio que se não compreendia, um pudor como nunca suscetível...

Quando teve de receber os cumprimentos de Cândido, cobriu-se seu rosto de uma onda de rubor... por que co­rava?...

Forçada a responder, sua resposta foi o murmurar de algumas frases trêmulas, quase imperceptíveis, que ela deixou passar por entre seus lábios, hesitando e tremendo... por que tremia?...

– Ah! D. Celina!.. tinha exclamado Mariquinhas, correndo para ela logo que entrou na sala. D. Celina! Estás hoje bela como nunca o foste tanto!

– Deveras?... perguntou Celina alegremente.

Dantes não lhe importava tanto o parecer bonita, gostava de sê-lo, como todas as moças. Desde, porém, os últimos três dias, a “Bela Órfã” desejava redobrar os seus encantos.

– Olha, tornou Mariquinhas, falando-lhe ao ouvido; estás tão galante, que, se eu pudesse, fazia-me moço durante esta noite.

– Mas para quê?...

– Para amar-te.

– Ora...

– Para pedir-te um beijo.

– Meu Deus! respondeu Celina corando; se tu foras um moço não te atreverias a ofender-me pedindo-mo; e sendo moça como és, não mo pedes, e eu to ofereço.

Aqueles dois rostos tão novos e tão lindos aproximaram-se, e soou o ruído de um beijo.

– Não tem tanta graça como teria o outro, disse Mariquinhas sorrindo.

– Ah! D. Mariquinhas! Você é mil vezes maliciosa.

Felícia, e muitas outras senhoras moças e belas também, vieram cercar a “Bela Órfã”.

A música soou, convidando a dançar.

Os mancebos correram às senhoras; todas as contradanças, e mais ainda do que aquelas que se poderiam dançar nessa noite, foram pedidas e prometidas.

Insensivelmente a “Bela Órfã” correu com os olhos todos aqueles mancebos, como se algum procurasse entre eles... pareceu primeiro temer encontrá-lo, e depois entristecer-se por não vê-lo... realmente buscava ela alguém?

Cândido não se apresentou para dançar.

Sem motivo algum plausível, Celina negou a todos a segunda quadrilha; ela mesma não sabia por que a negava.

No último serão a “Bela Órfã” tinha dançado essa contra dança ao lado direito de Cândido; quereria a moça repreendê-lo assim, por não vir pedi-la naquela noite de seus anos?...

Há na vida das moças em que a educação e a inocência podem mais que as idéias livres e desabusadas de algumas sociedades que tudo pervertem, fatos tão pequeninos, ações tão leves e ingênuas, pensamentos soltos ao acaso, mas que às vezes envolvem tão importantes mistérios do coração, que é possível que tudo quanto se estava passando interiormente em Celina, esses receios misturados de desejos, essas inconseqüências enfim, não fossem mais do que a voz da natureza, que a próprio pesar da “Bela Órfã”, ou sem que ela o sentisse, estivesse bradando-lhe no coração: – eu já amo!...

Tinham por momentos cessado as quadrilhas e valsas. Respiravam os pares. Duas senhoras haviam já, no intervalo daquelas, cantado.

– Então, Celina, disse o velho Anacleto, vindo direito à sua neta; já esqueceste uma promessa que te fizeram?...

– Que promessa?...

– A de se deixar ouvir aquele senhor, que como sempre lá está sentado no seu canto?...

– Ah! disse a “Bela Órfã”, como recordando-se.

– Vamos a isto, tornou o velho.

E indo direito a Cândido, o trouxe para junto das senhoras.

– Eis o nosso novo cantor... teremos uma estréia esta noite.

Houve um movimento de curiosidade.

– O que pretende deixar-nos ouvir?... perguntou uma senhora.

– Uma ária de Bellini certamente, disse outra.

– Não, minhas senhoras, ousarei cantar um romance.

– Em italiano?...

– Também não, senhora, em nossa própria língua.

D. Mariquinhas fez com os lábios um momo de desagrado. Tinha razão.

O gosto estragado da época, que se faz excessivo em tudo, o é também na música, e como tal deu ao canto italiano um triunfo, uma palma universal, lançou para fora de nossas salas todos os cantos pátrios, como desterrou das igrejas os hinos sagrados. Rossini, Bellini, Donizetti e Auber, têm entre nós um tríplice trono, no teatro, nas salas, e na igreja.

– Pois então faça-nos o obséquio de dirigir-se ao piano, disse uma senhora.

– Não toco esse instrumento, respondeu o mancebo. Costumava em outro tempo acompanhar-me de harpa.

– Harpa! murmurou Mariquinhas ao ouvido de Celina; harpa; o moço é romântico.

Apareceu um criado trazendo a harpa de Cândido, que tomou lugar perto das senhoras.

Naturalmente acanhado, o mancebo afinou o instrumento com a cabeça baixa, medroso de encontrar todos aqueles olhos fitos nele.

Salustiano colocara-se defronte de Cândido com decidida intenção de confundi-lo com seu sorrir desdenhoso e sarcás­tico, e com sua luneta firmada insolentemente.

Soou um harpejo moderado, sonoro e vibrante...

Cândido ergueu a cabeça e cantou... o rosto do mancebo estava muito pálido, sua voz trêmula, comovida, mas era uma dessas vozes de tenor, que, sonora e penetrante, chegava ao coração dos que ouviam.

Ele cantava, pois:

 

Iguais são no fado, que têm a cumprir,

Iguais num mistério a bela e a flor;

Se a flor tem perfume, que o prado embalsama,

É délio perfume da bela o amor.

 

E a flor mais formosa, se não tem aromas,

No vale esquecida desabre e fenece;

E a virgem mais bela arrasta seus anos

Tristonha, isolada, se amor não conhece.

Iguais são no fado a bela e a flor,

Iguais no mistério, que vem revelar;

A flor deve os campos de aromas encher,

E a bela na vida amor cultivar.

E à rosa, que se abre fragrante, viçosa,

Em gruta profunda de vale escondido,

Por mais perfumada que seja, e se ostente,

Que serve o perfume na gruta perdido?...

 

E à virgem formosa, que o anjo dos risos,

Para encanto do mundo, ao mundo mandou;

Que serve o amor, se um ente obscuro,

Que o não merecia, foi quem ela amou?...

 

Faceiro favônio, que as flores namora,

Na gruta profunda a rosa festeja;

Depois pelos prados, de volta, voando,

Da rosa os perfumes no prado lenteja.

 

E o jovem poeta, que em fogo se abrasa,

Se da bela virgem amor mereceu,

Nos hinos sagrados, que manda ao futuro,

Eterna os encantos do amor, que valeu.

 

Iguais são no fado, que tem a cumprir,

Iguais num mistério a bela e a flor;

A flor quer favônio, que espalhe perfumes,

E a bela um poeta, que eternize amor.

 

A voz de Cândido, a princípio trêmula e abatida, bem depressa tornou-se firme, normal e somente comovida, como lho estava pedindo o seu cantar mavioso e terno; desde logo o mancebo esqueceu-se do lugar onde estava, dos olhos que o cercavam, e dos ouvidos que o ouviam. Era um artista, e como o verdadeiro artista, indiferente a tudo mais, ele só via a bela que o inspirava; e todo, todo se entregava à inspiração. Com olhares ardentes embebidos em Celina, modulava seu canto harmonioso, que parecia sair da alma.

Em profundo silêncio a assembléia mostrava-se suspensa e em êxtase; quando o mancebo acabou, soaram frenéticos aplausos... a comoção era geral; por alguns momentos não se pôde fazer mais nada.

Celina tinha compreendido aquele cantar do mancebo. O rubor de suas faces, a agitação de seu seio a traía, e ainda mais seus olhos pregados na figura graciosa de Cândido, pareciam aí presos por um encanto invencível.

Salustiano o compreendera também; a pesar seu, ele, rico e orgulhoso, sentia-se curvado ante a superioridade do talento. O gênio não pede, impõe respeito, e desafia inveja.

O triunfo de seu rival desenhou-se na imaginação de Salustiano, pronto e inevitável. A cólera, o despeito, todas as paixões que do ciúme se originam, ferviam em seu peito; e como se uma idéia sinistra acabasse de luzir-lhe na alma, ele deixou cair sobre Celina um olhar feroz e terrível, lançou a Cândido uma risada medonha, e cheia de um sarcasmo infernal, e foi direito a Mariana, que conversava com outras senhoras.

– Passeemos! disse ele com desdenhosa simplicidade.

Mariana levantou os olhos, e teve medo do aspecto de Salustiano.

– Passeemos! repetiu ele.

A viúva quis ensaiar um gracejo, que disfarçasse a perturbação que começava a sentir, e disse sorrindo:

 

– Já se viu como é moda hoje em dia pedir-se um passeio a uma senhora!

– Passeemos!... tornou Salustiano.

Mariana ergueu-se, e ainda para disfarce da perturbação, que nela ia crescendo, disse a suas amigas:

– Não há remédio... a escrava levanta-se para acompanhar o seu senhor.

Ao atravessar da sala, Mariana encontrou o olhar de Henrique descontente, cuidadoso, e como lhe dirigindo uma queixa.

– E disse bem, senhora, murmurou a seus ouvidos Salustiano com voz grave e terrível; disse bem; a escrava levantou-se para acompanhar a seu senhor.

– Como?! exclamou a viúva; pois neste lugar, e a esta hora...

– Neste lugar, em toda parte, e a todas as horas eu hei de persegui-la sempre!

– Oh! senhor!...

– Eu disse ser minha vontade que a esta casa não voltasse esse mancebo, que detesto; impus-lhe a obrigação de fechar-lhe as portas; e hoje.... ei-lo aí... devorando com os olhos a sua sobrinha...

– Mas é que meu pai...

– Sabe, senhora, que isso se chama abusar de minha paciência e desafiar-me?

– É muito!... exclamou a mísera mulher.

– Ignora que eu tenho em minhas mãos os meios de vingar-me; e que existe no seu coração um amor que eu posso destruir?..

A figura do velho Anacleto, nobre e respeitável, apareceu aos olhos de Mariana.

– Piedade! balbuciou ela: eis ali meu pai.

Salustiano arrastou a infeliz viúva para uma outra sala, e prosseguiu:

– Eu vou ter daqui a pouco uma hora de prática com o sr. Henrique.

Mariana estava pálida como uma finada.

– No fim dessa hora estarei vingado.

– Perdão!... murmurou a viúva ajuntando as mãos como se quisesse orar.

– Pois então... senhora, hoje mesmo, e antes que termine o sarau, esse mancebo deverá ter para sempre deixado esta casa.

E abandonando Mariana, que foi cair quase desmaiada sobre uma cadeira, Salustiano voltou à sala.

 

UM PAI QUE CHORA

FAZIA um calor abrasante; apesar dele, porém, as moças e moços continuavam a dançar.

Cândido deixou a sala, e dirigiu-se ao jardim. Queria ver aquele lugar feliz, onde pela primeira vez vira Celina; era o teatro de seu primeiro e único amor, devia ser-lhe grato.

Entrou como possuído de um santo respeito, devorou com os olhos todas aquelas inocentes flores, todos os dias regadas ao amanhecer por um ente tão belo e tão puro como elas mesmas; dirigiu-se depois ao caramanchão; mas força lhe foi parar diante dele.

Um velho com a cabeça coberta de cabelos brancos, ali estava sentado com o rosto caído entre as mãos, e chorando como um menino.

Era Anacleto.

Portanto, naquela festa estava a história do mundo. Estava o prazer de mistura com a dor, o riso de envolta com o pranto, e a felicidade com o infortúnio.

Na sala uma música alegre, viva e estrepitosa animava os moços; e no jardim um mísero velho desabridamente solu­çava.

Cândido em pé, diante de Anacleto, não podia compreender uma tristeza tão grande em uma noite de festa, nem adivinhava o que lhe cumpria fazer naquele caso

Anacleto, ocupado só com a sua dor, não tinha sentido aproximar-se o mancebo, e chorava, e soluçava sempre.

O que queriam dizer aquelas lágrimas do velho, que ainda há pouco se mostrara na sala tão feliz?... tão contente?... que contradição de sentimentos era essa?...

Era o segredo de um coração de pai.

Há na vida do homem um grande amor, cuja benéfica influência se experimenta ainda nos mais apertados lances. Um amor imenso, que, por assim dizer, enche toda a alma que o dá; amor único, sem interesse, porque às vezes é mes­mo a um ingrato, que arranca lágrimas, a quem se ama: é o amor que um pai e uma mãe dão a seus filhos.

Porém nesse terníssimo afeto, pode-se talvez fazer uma distinção: um pai ama muito com o coração, mas ama também com a cabeça; uma mãe ama quase sempre só com o coração.

A grande missão da mulher é a maternidade; e, desde que é mãe, a mulher tem Deus no céu, e seu filho no mundo.

Uma mãe, em regra geral, sabe amar muito, e só cura de seu amor; vive de beijar, de contemplar seu filho; ela quase que o acredita um ente especial, que todos devem bem-querer, e ao qual nunca poderá tocar a mão pesada do infortúnio. Extremosa, complacente, fecha os olhos aos erros de seu filho, não ouve aqueles que notam em suas faltas; e se seu filho é um desgraçado, ela é desgraçada com ele. E se seu filho é um criminoso, ela o adora no seio do crime, despreza o juízo do mundo; e que lhe importa o mundo!... Deus está no céu, e é grande para perdoá-lo; e na terra está ela, que é grande para amá-lo sempre.

Um pai não é tanto assim; olha também para o mundo em que vive; respeita seus prejuízos e quer preparar seu filho para esse mundo, no qual tem de passar a vida. A opinião dos homens significa muito para ele, e portanto dobra-se a ela. Quando seu filho começa a representar um papel na sociedade, o pai segue-o constantemente com os olhos, anima-o com suas exortações, corrige-o com suas admoestações, dirige-o com seus conselhos, e enfim coroa-se também com os seus triunfos, e humilha-se com suas derrotas, O desvario de seu filho o enlouquece; a mancha, que vem nodoá-lo, cai-lhe no coração; é com ele solidário na glória e na vergonha.

Por seu filho tem um pai os olhos no mundo, e uma mãe os olhos no céu.

E coisa notável!... a natureza inspira sentimentos que quase chegam a parecer-se com a ingratidão.

Um filho que deve tanto a seus pais; que antes de nascer causou já tantas dores, tantos tormentos a sua mãe, que depois de nascer bebe o leite de seus peitos; um filho, por cuja causa perderam seus pais tão longas noites, choraram lágrimas tão amargosas; um filho, ao pé do qual velam sempre por ele dois anjos, como duas Vestais pelo fogo sagrado; que tem sido o objeto de tão grande amor, de tão extremosos cuidados; um filho tem na sua vida uma hora que lhe é marcada pela natureza; que é hora da natureza sim, mas que é hora também de ingratidão.

Se esse filho é um homem, encontra cedo ou tarde uma mulher; e se é mulher, aparece-lhe um homem, pelo qual são deixados pai e mãe!... basta às vezes o olhar de um man­cebo elegante, para plantar-lhe no coração um sentimento que vai depois na balança pesar mais que todos esses amores, que todos esses cuidados de vinte anos e de mais anos ainda!...

A roda vai sempre girando. Os que foram filhos chegam um dia a ser pais, e enfim, vem também o tempo em que eles sentem por sua vez o que fizeram outrora experimentar a seus pais.

Não sejam os homens acusados por isso... pois que todos seriam réus e ninguém poderia ser juiz. Os homens não têm culpa; a natureza é que é a ingrata; mas o fato é esse.

Solteiro, porém, ou casado, o filho continua sempre a ser o pensamento da alma de seus pais. É a luz que lhes brilha na vida. Quem foi que pôde já consolar aqueles que perderam um filho?... o tempo?... o tempo dá somente resignação; muda o nome, crisma a dor; em vez de aflição, chama-a saudade, mas os pais não esquecem o filho que lhes morreu senão quando morrem.

Porém, nada pode ser eterno: tudo tem um fim. E esse amor deve acabar um dia... acaba na sepultura.

É esta a mais ligeira idéia que se pode dar, muito de passagem, do amor paternal.

Se nem todos amam com a mesma força a seus filhos, amam-nos sempre e a natureza do afeto é a mesma.

Anacleto amava a Mariana como os pais que são mais extremosos e ternos.

Apenas saindo do berço, Mariana perdera sua mãe, e então seu extremoso pai, vendo-a tão pequenina já órfã, tão debilzinha e já sem um de seus gênios protetores, viu tam­bém nisso uma razão para amá-la em dobro.

Obrigado por sua viuvez a rodear sua filha daqueles ternos e miúdos cuidados, de que especialmente se ocupam as mães, perdendo noites por ela, às vezes embalando-a para fazê-la dormir, Anacleto tinha por sua filha reunido em si dois amores a um só tempo: o amor de pai e de mãe.

Desse modo Anacleto pôde estudar a fundo o caráter de sua filha; pôde ler na leve contração de um músculo de seu rosto o íntimo sentimento de sua alma, e distinguir a verdade e a mentira nos feiticeiros sorrisos de Mariana.

Mas o amor não dá somente prazeres, faz sofrer também pesares acerbíssimos. Não será até possível decidir se estes são devidamente compensados por aqueles. Há muitos amores que sorriem; mas não há um só que não chore.

A beleza de Mariana encheu de orgulho o coração de seu pai nos primeiros anos, pouco depois porém essa mesma beleza começou-lhe a ser origem de sérios cuidados; quando ele chegou a notar que sua filha, vaidosa de seus encantos, embriagada com o incenso de mil lisonjas, procurava ganhar escravos em todas as sociedades onde aparecia, não desanimava nem preferia nenhum de seus numerosos admiradores, e, em uma palavra, amava perdidamente o galanteio... o galanteio, que é quase sempre um obstáculo para a felicida­de das moças, e uma recordação desagradável, que às vezes, já em muito nobre posição, as faz corar diante de um homem que vem visitar seu marido.

Então Anacleto desamava a beleza de Mariana, quisera antes vê-la cem vezes menos bela, contanto que fosse cem vezes mais discreta; porque enfim, uma filha nunca é feia para seu pai.

Quando Mariana casou, Anacleto sentiu-se livre de uma responsabilidade imensa; mas cedo encheu-se de novos e de mais importantes cuidados. Anacleto adivinhou o amor de sua filha e do jovem Henrique, e tremeu, e teve vontade de morrer; porque um pai faz-se por seu grande amor solidário na vergonha de seus filhos. E teve vontade de viver para velar por Mariana, para salvá-la e salvar-se daquele abismo.

Veio depois a viuvez de Mariana e com ela novos tormentos para o pobre velho. Um mancebo com quem ele antipatizava, parecia exercer sobre sua filha um império indizível. Com seu olhar penetrante, com suas vistas de pai, Anacleto via Mariana tremer diante de Salustiano... uma vez compreendeu que entre eles dois devia haver um segredo terrível; estudou inutilmente as ações e procedimento de ambos; daria metade dos poucos anos que lhe restavam para descortinar aquele arcano, mas não descobriu nada.

Enfim, chega Henrique, e outra vez aparece diante de sua filha. O amor daqueles dois corações não se tinha deixado morrer na ausência. Anacleto surpreende essa afeição ardente e dá-se parabéns porque Henrique é um nobre mancebo, que merece sua filha, e porque, além disso, vem livrá-lo do espectro que o assusta, vem lançar fora do combate a Salustiano.

Todavia, a despeito da presença de Henrique, Salustiano prossegue com seus antigos modos; Mariana continua, como dantes, a hesitar a seus olhos; portanto, nem o talismã do amor a pode salvar; e o pobre pai, que não conhece o abismo que o assusta, não tem o poder de avaliar o seu fundo, e treme ainda.

Um sarau é dado... festejam-se os anos de Celina, e nessa noite de prazer, na qual Anacleto adormecia suas mágoas, o mancebo importuno e terrível vem despertá-las.

O triste velho viu Salustiano aproximar-se de sua filha, conheceu no semblante dela que havia terror dentro de sua alma, e sem poder vencer-se, segue o par que passeia e con­versa; apura o ouvido, e apanha algumas palavras.

– Ignora que eu tenho em minhas mãos os meios de vingar-me; e que existe no seu coração um amor que eu posso destruir?... – tinha dito Salustiano.

E Mariana tremera e balbuciara uma frase que ele não pôde ouvir.

O terrível moço continuara:

– Eu vou ter daqui a pouco uma hora de prática com o sr. Henrique.

Mariana estava desfigurada pelo terror.

– No fim dessa hora estarei vingado.

Anacleto não teve coragem para ouvir mais nada; luziu-lhe no ânimo a idéia de cair sobre aquele homem com suas mãos trêmulas, e afogá-lo ali mesmo... mas lembrou-se de que ele podia gritar... falar muito alto... e o pobre pai não sabia o que é que toda a sociedade reunida em sua casa chegaria a saber.

Com o coração despedaçado correu para o jardim, atirou-se ao banco de relva, e, cobrindo o rosto com as mãos, começou a chorar e soluçar desesperadamente.

– Oh! meu Deus! meu Deus!... exclamava ele.

E depois pensava consigo mesmo: será possível que aquela gente toda tenha os olhos fechados, que não observe e reprove o procedimento de minha filha?... que não leia na horrível palidez de seu semblante a prova irrecusável de um crime?... que não esteja olhando para mim com piedade de meus cabelos brancos?

– Oh! meu Deus!... meu Deus!... exclamava.

E depois, continuava a pensar consigo mesmo. Que crime terá praticado minha pobre filha?... porque a submissão, com que ela se curva àquele bárbaro, não é amor... não... eu conheço minha filha, ela detesta esse indigno mancebo; mas ele falou em vingar-se... disse que tinha em suas mãos os meios da vingança: oh! pois então a minha pobre Mariana é criminosa?... a filha do meu coração há de ser desgraçada?... ousaria ela manchar as cãs de seu pai?... a minha pobre, a minha querida filha... o meu anjo!...

– Oh! meu Deus!... meu Deus! exclamava.

E depois, continuava ainda a pensar consigo mesmo: ser pai é uma coisa muito triste; ter filhos é abrir a alma aos pesares!... oh! estes filhos, a quem damos a vida, nos matam!... estes filhos, a quem em pequeninos sustentamos pelas mãozinhas para fazê-los andar, e carregamos aos nossos ombros, vêm depois com as suas loucuras empurrar-nos para o túmulo!... oh! neste mundo não há missão mais difícil, mais cheia de lágrimas, do que a missão de pai!... e então eu... tão velho! com a cabeça coroada pela neve dos anos, trêmulo, sem forças, com os pés na cova, nem ao menos morrer consolado! o que eu pedia ao céu era fazer minha filha venturosa, e depois morrer... E há de agora a vergonha vir fechar-me os olhos?!... e morrendo, deixarei minha pobre filha do coração, só, desolada, desprezada pelos homens, e sem amparo no mundo!... isto é horrível... é capaz de matar de repente!

– Oh! meu Deus!... meu Deus!... exclamou chorando ainda com mais força o infeliz velho.

Cândido tinha estado muito tempo em pé diante de Anacleto, não querendo, enfim, perturbar aquela dor imensa em que o via engolfado; ia retirar-se, quando ao ruído de suas pisadas na terra o velho ergueu a cabeça.

– Quem é?... perguntou enxugando apressadamente as lágrimas.

– Sou eu, sr. Anacleto, respondeu Cândido. Minha curiosidade trouxe-me neste momento ao jardim; retirava-me po­rém já para não incomodá-lo.

– Incomodar-me!... então eu...

O mancebo ficou em silêncio.

– Chorava?... exclamou Anacleto soluçando de novo.

– É verdade.

Estiveram ambos por algum tempo sem dizer-se palavra. O velho chorando e Cândido tristemente observando-o.

– Sim, disse finalmente aquele: tenho chorado... muito, minha cabeça arde... uma dor despedaçadora parece querer rebentar as fracas paredes deste velho crânio... o que eu sofro é isso... é uma dor... eu estou doente.

– Oh? então por que não se apressa a medicar-se? eu vou chamar a senhora sua filha... sobretudo este ar da noite, o sereno pode fazer-lhe mal.

– Não... não quero... eu exijo que não chame ninguém... nem mesmo minha filha. Este ar da noite me faz bem... eu estou melhor, muito melhor; isto vai passar de todo. Basta que eu descanse... vá dançar, preciso ficar só.

Cândido ia retirar-se.

– Escute, tornou o velho: promete-me não dizer a pessoa alguma que eu estava incomodado?... promete-me?... veja que eu o exijo.

– Pois bem, senhor, nada direi.

– Sobretudo, meu filho, não diga a pessoa alguma que me viu chorando aqui.

Cândido retirou-se.

O velho, sacudindo tristemente a cabeça, disse:

– Moço, se não compreendeste a minha dor, hás de compreendê-la um dia; – és filho; serás pai.

 

UMA MULHER QUE MENTE

QUANDO, de volta do jardim, Cândido entrou na sala, Mariana e Henrique conversavam com fogo, e defronte deles Salustiano estava em pé de braços cruzados, como quem espera por alguma coisa.

Cândido não acreditara nas palavras de Anacleto; compreendera que as lágrimas do velho exprimiam antes um grande sofrimento moral do que uma dor física; por isso mesmo respeitava o segredo daquele padecer; mas observava curioso o que se passava então no “Céu cor-de-rosa”.

Estava-se aí tecendo uma dessas intrigas de salão... era uma mina que se abria; qual deveria ser a vítima?...

Moço e inexperiente, Cândido nada pôde concluir de suas observações: a assembléia toda se mostrava, como desde o começo da noite, alegre e festiva; Mariana sorria-se meigamente para Henrique; Celina estava bela e contente, mesmo mais contente do que ordinariamente parecia.

No meio de tanto prazer, como achar a origem de uma grande tristeza?...

O velho Anacleto chegou pouco depois, e Cândido ficou ainda admirado ao vê-lo prazenteiro dirigir-se a todos, gracejando com as senhoras e animando a sociedade já um pouco fatigada.

Na alma de Cândido apareceu este pensamento; “Quem sabe se alguns dos que se estão aqui rindo alegremente, não terão ido chorar, às ocultas, como o velho Anacleto?”

Pela primeira vez em sua vida ele sentiu que, nas sociedades, o rosto se mascara com sorrisos... com olhares... e com palavras.

Henrique e Mariana separaram-se. Salustiano ia dirigindo-se ao primeiro, tendo porém os olhos fitos na filha de Anacleto, que, mal podendo conter um movimento de terror, foi direita ao lugar onde estava Cândido.

Salustiano voltou imediatamente à sua primeira posição.

Mariana falou a Cândido. Sua voz parecia comovida.

– Quer fazer-me obséquio de dar-me o braço?

– Oh! com sumo prazer.

Um homem pobre agradece com tanto reconhecimento qualquer pequenina prova de consideração!...

– Para onde quer que a acompanhe, minha senhora?... prefere passear nas salas, ou ir ao jardim?..

– Vamos ao jardim.

Cândido observou que o braço de Mariana tremia.

Quando chegaram ao jardim, a viúva e o mancebo entraram no caramanchão, e ela, sentando-se no banco da relva, disse:

– Sente-se ao pé de mim... conversemos.

Cândido sentou-se curioso; Mariana hesitava.

Aquela mulher, de caráter tão forte, ia cumprir as ordens de um homem que não era seu pai, nem seu marido, nem seu irmão. Agora fraca e humilde, desempenhava o papel de escrava, obedecendo ao aceno de seu senhor.

Esteve em silêncio por algum tempo a devorar seu cálice de amargura ali, naquele banco de torturas, onde pouco antes seu pai havia tanto chorado por causa dela.

Enfim, com esforço indizível tomou a mão de Cândido, apertou-a entre as suas, e disse:

– Este mundo... este mundo, senhor, é um inferno!...

– Para os infelizes, senhora.

– Oh! e onde estão os seus bem-aventurados?... ninguém julgue da paz do coração pelo sossego e prazer do semblante; quase sempre quando a alma chora lágrimas de sangue, os lábios sorriem e os olhos brilham!...

– Eu compreendo que às vezes sucede assim.

– Este mundo, sr. Cândido, é um tirano, um déspota inexorável, que todo ornado de prejuízos e de quimeras, impõe-nos o dever de respeitar seus prejuízos, e de adorar suas qui­meras! e ai daquele que resiste!...

– É verdade... é verdade.

– Os homens curvam-se a idéias falsas e indignas deles, e as desenvolvem porque, enfim, força é ser escravo do mundo!

– Não, isso não, minha senhora; o mundo não pensa, são os homens que, pervertidos e desmoralizados, concebem essas idéias. O mundo não tem culpa de ser assim, os homens o vestem com essas roupas.

– E o remédio?...

– O remédio é instruir e moralizar o povo.

– E enquanto ele não se instrui nem se moraliza?...

– Deve-se bradar com força contra aqueles a quem compete moralizá-lo e instruí-lo.

– Sim, mas o primeiro que se erguer contra um prejuízo que reina, será vítima, e ganhará em vez de palma de vitória a coroa de martírio.

– Embora. Sócrates morreu, porém suas idéias vingaram.

– E quem quereria ser Sócrates?.

– Oh! minha senhora, perdoe-me; mas julgo melhor fazer de outro modo a pergunta.

– Como?...

– Quem poderia ser Sócrates?...

– Pois aceito: quem poderia sê-lo?...

– Um bom governo.

A viúva pensou alguns instantes; a conversação ia tomando caminho contrário ao que ela queria levar; finalmente, começou de novo:

– E enquanto a revolução moral não se faz, enquanto a sociedade não reforma os seus costumes, o que hão de fazer os homens, o que farão principalmente esses entes fracos, as mulheres, que desde que nascem até que morrem precisam sempre de um apoio na vida; o que hão de fazer, senão curvar-se a esses erros, a esses prejuízos?...

– Uma grande mulher responde por mim, senhora; Mme. de Stael – penso que foi ela – escreveu em um livro: “Os homens devem arrostar a opinião pública, e as mulheres curvar-se a ela”. Eu digo o mesmo dos prejuízos de que fala.

– Oh! mas é horrível!

– Eu o sinto, minha senhora.

– Às vezes ter uma mulher, para respeitar essas indignas quimeras, de quebrar uma corda sonora de seu coração... às vezes ir parecer má, sendo benigna... dizer uma mentira, tendo na alma a verdade; é muito é horrível!

– Mas não é tanto assim, minha senhora; a mulher deve curvar-se diante do juízo dos homens só e unicamente até o ponto donde pode começar a ser ofendido o juízo de Deus.

– Pobres mulheres! às vezes o dito de uma criança é de sobra para perdê-las na opinião do público; e depois o dis­curso de um sábio não basta para purificar seu nome dessa nódoa imaginária! pobres mulheres, que precisam pesar suas palavras de cada vez que falam, ter cuidado com seus olhos de cada vez que olham... porque fazem de suas palavras e de seus olhos provas de erro, e até às vezes de crime!

– Afeia demais a posição do seu sexo na sociedade, minha senhora.

– Não, isto é assim; eu, e todas, o temos experimentado. Há ocasiões em que um homem, que nos é indiferente ou só estimado como amigo, que nos respeita, que só por ami­zade pura e sem interesse freqüenta a nossa casa, põe, apesar disso, em dúvida a inocência de nossas afeições; e, sem o pensar, abre caminho à mordacidade, e presta uma vítima à calúnia!

Cândido não respondeu. Ficou olhando para Mariana como querendo apanhar-lhe algum pensamento oculto, que acabasse de ressumbrar em suas últimas palavras.

Depois de hesitar também por algum tempo, a viúva continuou com voz muito comovida:

– O senhor mesmo não tem escapado à maledicência.

– Eu? exclamou Cândido estremecendo.

– É verdade.

– E como?... e por quê?

– Eu lho vou dizer... custa-me muito a fazê-lo, porque talvez o senhor se julgue ofendido; mas eu cumpro o meu dever... o meu desgraçado destino de mulher.

– Fale sem receio, minha senhora.

Mariana hesitando sempre, e sempre comovida, começou, pobre escrava, a cumprir as ordens de seu senhor.

– Sabe, que mortos os pais de Celina, foi o meu, como avô dela, nomeado seu tutor, que ele e eu recebemos a sagrada missão de velar por ela, e de fazer tudo por torná-la feliz?...

– Sei, minha senhora, respondeu Cândido que de novo estremecera ouvindo pronunciar o nome da “Bela Órfã”.

– Pois então, tornou Mariana, compreende a imensa responsabilidade, que pesa sobre nós?... compreende que sobre meu pai, e sobre mim recairá a culpa de qualquer falta que por minha sobrinha for praticada, ou da calúnia que contra ela ousarem lançar?...

– Compreendo, disse o mancebo recordando-se das lágrimas do velho Anacleto.

– Agora escute: esse povo insano, que não vive senão quando murmura, essa gente indigna, que quando não acha uma ação de que murmurar inventa-a para com ela alimen­tar-se; esse povo, essa gente quando vê um mancebo solteiro freqüentando a casa em que existe uma senhora que não é casada, não pergunta o motivo de suas visitas, não indaga a origem das relações que existem, brada, insulta, calunia!

– Que quer dizer, minha senhora?...

– Quero dizer que desde as primeiras visitas que do senhor recebemos graças, eu me ufano de o declarar a todos, graças a nossos reiterados convites, minha sobrinha e o senhor tem sido vítimas da aleivosia.

– É possível?!

– Ousam dizer que Celina e o senhor se amam e se correspondem, e que meu pai e eu protegemos esse amor...

– Mas é uma infame calúnia!... exclamou Cândido.

– E que importa ao mundo que murmura que o senhor e nós todos juremos que isso é falso?... que a sua presença nesta casa é devida somente a nossas repetidas instigações... que o seu comportamento aqui é nobre, é leal, é digno de um homem de educação?... o mundo continua a murmurar, como de fato tem continuado... vai de boca em boca passando a calúnia, e os últimos que a escutam já a recebem como verdade.

– Ah! senhora!...

Mariana hesitou, corando de si mesma. – Ousam dizer até... porque era horrível mentira, o que ia avançar; Cân­dido pensou que ela corava de vergonha disso que ousavam dizer, e falou a custo.

– Diga tudo, minha senhora, nada se deve esconder àquele que vai ser condenado.

– Ousam dizer que o senhor se gaba de merecer o amor de Celina a seus próprios amigos...

– Gabar-me a meus amigos?... eu sou pobre, minha senhora, muito pobre para ter amigos. Essa acusação é tão miserável que eu me rebaixaria se a combatesse.

– Hoje mesmo, e dentro de nossa própria casa a calúnia achou pasto para alimentar-se; ainda há pouco, quando o senhor cantava, houve quem visse muito fogo nos seus olhos, e uma declaração de amor no seu canto. No fim dele as amigas de minha sobrinha foram cercá-la, zombar, e dar-lhe irônicos parabéns pela sua futura felicidade.

Cândido sentia-se possuído de desespero e de vergonha; ansiado, faltava a seus pulmões ar para respirar; enxugava com o lenço suor copioso, que em bagas lhe descia pelo rosto. Seu coração estava comprimido por um pêso enorme; arquejava.

A viúva prosseguiu:

– Minha infeliz sobrinha correu para mim desolada, e escondida comigo no fundo de meu quarto, chorou tanto e tanto, que me fez dó, e obrigou a um passo que me causa realmente muita aflição.

– Ela chorou, senhora?... perguntou Cândido torcendo as mãos com violência.

– Oh! sim! ela tinha razão; perdoe-lhe, pois. Ela pesou as conseqüências desses boatos, e teve medo.

– E teve medo!... balbuciou automaticamente o mancebo.

– Porque, senhor, se esses boatos não forem desmentidos de algum modo muito positivo, qual será o resultado deles? uma barreira se levantará diante do futuro da pobre menina. Nenhum homem de bem quererá pretender a mão, a posse da namorada de um outro, e, ou ela se casará com algum que não tenha sentimentos elevados... ou ficará eternamente solteira... o que é na verdade uma desgraça, ou, enfim, casar-se-á com o senhor.

– Ou enfim... balbuciou outra vez Cândido.

– Oh! mas eu tenho bastante conhecimento da generosidade de sua alma para acreditar que tudo isto lhe é tão doloroso como a ela; eu vejo que o senhor não se achando com forças, não podendo fazer a ventura de Celina...

A viúva hesitou outra vez.

– Não podendo... repetiu surdamente o mancebo.

 A viúva respirou, animou-se, e prosseguiu.

– Porque o senhor é pobre... não tem bastante para si... e Celina está habituada a cômodos e prazeres, que enfim o senhor não a poderia fazer feliz... é pobre... e...

– Sou pobre... disse o mancebo com voz sombria e sacu­dindo a cabeça; é isso mesmo: eu sou pobre...

– E quando mesmo os senhores se amassem realmente, e o amor, operando um milagre que não seria o primeiro, fizesse com que Celina se julgasse feliz partilhando as privações da sua pobreza; essa felicidade duraria dois ou três meses, talvez mesmo um ano; mas passada a força da paixão... a realidade chegaria por sua vez, Celina choraria seus antigos prazeres, que o marido lhe não poderia dar em sua pobreza.

– A pobreza!

– E o senhor também se havia de arrepender de havê-la desposado; porque talvez que um homem rico e feliz, um ho­mem que ocupasse na sociedade uma posição que se visse...

– Que se visse!...

– A quisesse por mulher; e então é conseqüente, e eu creio que o senhor pensará comigo, que uma mulher no seio da riqueza, gozando os regalos que ela facilita, brilhando pela posição de seu marido, é mil vezes mais feliz, é sem compa­ração mais ditosa do que nos braços de um pobre, que não teria para dar-lhe senão lágrimas de amor no princípio... e no fim impertinências e dissabores de indiferença...

– Tem razão.

– Oh! não sou eu que a tenho, é minha sobrinha que a tem; minha sobrinha, que o estima; mas que não pode dei­xar de chorar a sua fama assim ultrajada por seu respeito... bem que o senhor não tenha para isso cooperado.

A viúva calou-se... Cândido não podia dizer palavra; ambos porém sofriam muito. O mancebo tragava fel de amargura, de vergonha e de desespero, e Mariana sentia-se devorada por violentos remorsos.

Mas era escrava: tinha obedecido a seu senhor.

Estavam já em silêncio há alguns minutos, quando ouviu-se o toque da meia-noite.

Mariana ergueu-se, e disse:

– Ah! meu Deus! que tempo estamos fora da sala... hão de ter reparado em minha ausência... voltemos, sr. Cândido.

O mancebo que se tinha deixado ficar sentado no banco de relva, respondeu com voz sombria:

– Não; eu fico.

A viúva retirou-se a passos vagarosos e com a cabeça baixa; desaparecendo pela portinha que deitava para o jardim, ela encostou-se à parede do corredor e desatou a chorar,

Quando Mariana acabava de sair do jardim, surgiu dentre alguns arbustos um homem alto e cuja cabeça alvejava de tão branca que era.

Chegou-se ao caramanchão, e dirigindo-se ao mancebo, disse:

– Aquela mulher mentiu.

– Não mentiu! exclamou Cândido com violência, não mentiu! é a verdade! o mundo falou em seus lábios... tudo aquilo quer dizer – o homem pobre é um miserável... o contato do homem pobre mancha o rico... seu hálito é pestífero... o seu aspecto hediondo... a pobreza é a morféia!

E acabando de pronunciar essas palavras, saiu correndo pela portinha do jardim.

Ficou só o velho Rodrigues.

 

HENRIQUE

O AMOR é a paixão das inconseqüências e dos absurdos.

A impossibilidade de bem defini-lo provém da mesma natureza desse sentimento. Tem-se escrito mi­lhões de volumes sobre o amor, e a inteligência humana ainda o não retratou com todas as suas cores, porque sempre ele se mostra com uma nova nuança.

Fizeram-no parente da amizade, deram-lhe até o grau de seu irmão; mas se realmente tanto nela como nele há sempre um pendor para o objeto que nos é grato, diferem ambos em tudo que resta, tanto e tanto, que parecem mais inimigos do que deviam ser dois parentes tão chegados.

Diferem muito, diferem nos princípios e rios resultados.

O belo título de amigo adquire-se à custa de uma longa provação, que dura anos. Aglomeram-se obséquios sobre obséquios; é preciso que o tempo e o trato mútuo de dois homens tenha feito conhecer a ambos sua também mútua dedicação, e o desinteresse e a paciência, e até certo ponto conformidade de sentimentos, e de sentimentos que sejam nobres; para que no fim de tudo isso saia o nome de – amigo, – não da flor dos lábios, mas do âmago do coração.

O amor não é assim: às vezes é a obra de um instante tão breve como um suspiro.

Às vezes não se estuda a nobreza dos sentimentos da pessoa a quem se vai, sempre involuntariamente, amar; e nunca se espera por nenhuma prova de dedicação e paciência, e não se pode esperar por alguma de desinteresse; porque o amor é terrivelmente interesseiro no seu gênero.

Às vezes dois olhos pretos, dois lábios de coral, e um instante para vê-los, resumem toda a história de um grande amor.

Pois bem, aí tendes um amor e uma amizade: o primeiro, filho do temperamento ou da simpatia, ou do que quiserdes; o filho, em suma, de um curto momento em que não houve nem reflexão nem vontade; a segunda, sentimento refletido, criado pela dedicação, amamentado pela virtude, educado cuidadosamente durante muitos anos.

Aí tendes a amizade, virgem encantadora cheia de pureza, de formosura, de graça e de castidade; e o amor, menino impertinente, audacioso, exigente, importuno, teimoso... para dizer tudo, menino malcriado.

O que é que acontece no correr da vida de ambos?...

Acontece que o filho do momento, que devia ser o mais fraco, é o mais forte; que o menino malcriado, que devia ser menos tolerado, é de quem se sofre. muito mais.

A amizade para viver precisa que a ajudem: é a lâmpada do templo, cuja luz se extingue se lhe falta o óleo; é necessário que a dedicação, o desinteresse, a paciência, que já tanto se provaram, vão sempre de seu existir dando novas provas, para que a amizade subsista; para que a virgem não fuja envergonhada.

E o amor?... amai, e vede: aquilo mesmo que destruiria para logo a mais antiga e enraizada amizade, é quase sem­pre um incentivo que dá mais vigor e mais fogo ao filho do momento.

Amai, e vede: a mulher que vos plantou no coração esse sentimento, vos desafia com seus rigores; vos faz escravo de seus caprichos; com um desdém arranca lágrimas de vossos olhos, e com uma lágrima vos faz dobrar os joelhos.

Na amizade, a traição faz esquecer; no amor, a traição faz enlouquecer.

As diferenças que existem entre os dois sentimentos continuam ainda; e, como devia acontecer, compensam finalmente os triunfos que sobre a amizade dão no princípio ao amor.

O orgulhoso que de si mesmo tirava suasforças, que vivia de seus caprichos, de desdéns e de lágrimas, devia por força cansar mais depressa do que a virgem modesta, que cami­nhava cuidadosamente à sombra de mil cuidados e guiada pela virtude epela dedicação.

O tempo é portanto a vida da amizade e a morte do amor.

E assim como vimos há pouco, que aquilo mesmo que podia instantaneamente matar a amizade, era para o amor incentivo que lhe dava mais vigor e lhe tornava mais intenso o fogo; veremos agora, em compensação também, que o princípio que anima a primeira é causa do resfriamento e morte do segundo.

Queremos falar do gozo, porque, embora de natureza distinta, tanto o amor como a amizade têm o seu.

Dois amigos gozam-se com a troca de seus sentimentos e de seus cuidados, gozam-se partilhando mutuamente os pesa­res e os prazeres um do outro, ajudando-se na prosperidade e nos trabalhos da vida; e esse gozo anima o fogo do sentimento que o dá, enraíza ainda mais a amizade que o promoveu.

Agora o que acontece com o amor, perguntai a todos os esposos. Interrogai principalmente a todas essas belas moças, a quem se jurou paixão eterna; interrogai a essas... um ano depois de casadas.

Elas vos dirão o que desde muito tempo já foi dito – “o desejo é a medida do prazer”.

Ou, o que pouco mais ou menos exprime a mesma coisa – “a morte do amor está no gozo”.

Mas enquanto se não goza, flameja um desejo imenso que acende a imaginação, e os menores encantos são perfeições angélicas, e tudo é engrandecido e divinizado no objeto que se ama. Da mulher se faz um anjo.

Não há mais nada de terrestre nela. Houve uma metamorfose operada pela imaginação.

O desejo suspira às vezes como um favônio que brinca com as flores de manhã cedo; e logo depois brame como a tempestade, como o vento enraivado varrendo a floresta virgem.

Se há um abismo, o homem lança-se dentro dele; se lá dentro... se lá embaixo ele viu o rosto da mulher que ama...

Se há um muro de bronze, o homem trabalha uma vida inteira para lançá-lo por terra.

E nem os anos, e nem a ausência podem fazer esquecer a mulher que se ama.

Porque não houve gozo.

E pode a mulher ser caprichosa e ligeira; pode zombar, pode parecer inconstante, pode desdenhar, podem mesmo as­severar que ela é falsa; o homem estará preso a seus pés como um mísero escravo.

Porque não houve gozo.

É, com isto, e mercê destas considerações mil vezes já enunciadas de modo mil vezes melhor, que se explicava o amor extremoso e irresistível de que o jovem Henrique se achava possuído pela filha de Anacleto.

Henrique era um exemplo que se podia dar dos dois sentimentos que acabam de ser discutidos.

Laços de uma pura e virginal amizade o ligaram a Carlos. Grilhões de um amor tirânico e invencível o prendiam aos pés de Mariana.

A amizade porém dos dois mancebos era mais velha que o amor de um deles; e Carlos, com o zelo de um amigo fiel, tinha acompanhado todo o correr desse amor, que durante muito tempo se lhe figurou em abismo.

Com franqueza a lealdade combatera esse sentimento de Henrique durante seus primeiros tempos; apoiara sua via­gem à Europa, e, apesar de ler o nome de Mariana em todas as cartas de seu amigo, só começara a falar dela nas suas quando começara também a viuvez da filha de Anacleto.

Depois da volta de Henrique à pátria, acompanhava-o ao “Céu cor-de-rosa”, e observava...

Os dois amigos estavam juntos na manhã que se seguia depois da noite dos anos de Celina.

Henrique achava-se pensativo e profundamente melancó­lico.

– Previ que estimarias ver-me hoje cedo, disse Carlos.

– Estimo ver-te sempre; que quer porém dizer a tua pre­visão?

– Adivinhei que estarias pensativo e triste.

– Então adivinhaste também o motivo?

– Também.

Henrique corou sem querer; ensaiou um sorriso, e perguntou:

– E qual é?...

– Sou teu médico, Henrique, e vi que a noite de ontem deveria fazer-te mal.

– E fez-me.

– Portanto, fiz bem em vir conversar contigo: necessáriamente tens muito que dizer-me.

– Não; tenho ao contrário alguma coisa que perguntar.

– Vamos, pois.

– Que observaste ontem à noite, Carlos?

– Provavelmente menos do que tu, Henrique.

– Menos do que eu?...

– Sim; porque eu examinei tudo com o olhar frio do observador, e tu viste tudo com os olhos enganadores da paixão.

– E então?...

– Então tu deixaste ontem o “Céu cor-de-rosa” com a convicção terrível de que tinhas um rival poderoso no jovem Salustiano.

– E tu?...

– E eu vim com a certeza de que a bela viúva detesta esse homem mais do que tu mesmo.

– É possível?!

– Mas eu trouxe também a certeza de que entre ela e Salustiano existe um segredo, que é uma barreira que se le­vanta contra o teu amor.

– Oh!... mas esse fatal segredo...

– É um segredo... não o saberás... não o saberemos.

– Mas eu daria meu sangue... metade de minha vida para poder arrasá-lo.

– E nunca o saberás.

Henrique torceu as mãos com violência, e depois exclamou com acento de dor profunda:

– Que eu não possa esquecer essa mulher!

E começou a passear por toda a extensão da sala visivelmente alterado.

Carlos acompanhava-o em silêncio e com os braços cruzados, até que enfim Henrique principiou a desabafar seus sofrimentos, falando.

– É incrível! exclamou ele: como se pode explicar este sentimento que tem feito o constante padecer de minha vida?... como é que pode em mim tanto essa mulher, que nem a razão, nem a ausência, nem a amizade poderão conseguir fazer-me esquecê-la?... como é que eu me prendo assim a uma rosa que me espinha; que me ofereço a um raio que me abrasa?! Oh! Carlos! Carlos! este amor é fatal como a maldição de um pai!...

– Eu to predisse: no seu começo fora possível vencê-lo; agora é tarde.

– Possível vencê-lo?! se não foras meu amigo, eu te desejaria um amor como este, para sentires como foi ele no seu começo; sabes o que é estar um homem devorado pela sede, e preso a uma coluna de ferro a dois passos de um rio de águas límpidas?... pois foi assim que eu vivi enquanto Mariana esteve casada; a minha sede era de amor, minha coluna de ferro era a honra, e essa mulher era para mim uma fonte de angélica pureza... oh!... foi muito horrível a minha vida!... foi muito horrível!

Carlos guardou silêncio.

– E agora? prosseguiu o apaixonado mancebo; – agora que nenhuma consideração digna de respeitar-se opõe-se ao meu amor; agora que eu não me envergonho declarando-o à mulher que tanto pode sobre mim; agora que eu a ouço todos os dias dizer que me ama, há de vir um homem, que até hoje desprezei, ostentar a meus olhos o poder que exerce sobre ela?... isto não é uma tentação abominável?... dize Carlos, dize, isto não é uma tentação capaz de perder-me pa­ra sempre?

Os olhos de Henrique flamejavam.

– O que queres dizer?... exclamou Carlos.

– Quero dizer, respondeu Henrique tremendo, que ontem à noite eu vi a mulher que adoro, levada pelo braço desse homem, pálida, abatida, trêmula como uma criminosa; e ele, arrogante, soberbo, terrível e feroz como um algoz; quero dizer que de então até agora eu tenho sonhado com um punhal... com a desonra...

– Insensato! bradou Carlos.

– Mais do que isso!

– Compreendes bem todo o sentido das palavras que pronunciaste?..

– Perfeitamente.

– Serás capaz de repeti-las?...

– Sem dúvida.

– Henrique, disse Carlos com voz triste e grave; falas com o teu amigo, responde pois seriamente. Pensaste já uma só vez em realizar esse pensamento abominável?...

Henrique hesitou.

– Esse pensamento é um crime, tornou Carlos, mas eu sou teu amigo para to perdoar; responde pois, pensaste já uma só vez em realizá-lo?.

Henrique empalideceu como um moribundo, e disse:

– Já... esta noite.

– Estás quase perdido! exclamou dolorosamente o amigo. a Henrique, escutando esse grito da amizade, atirou-se no sofá chorando desabridamente.

Carlos sentou-se, e refletiu durante muito tempo; o médico procurava um remédio para o seu doente; e o doente tinha medo daquele médico, que sempre se havia oposto ao seu amor.

No fim de meia hora, Carlos chegou-se para junto do amigo, e tocando-lhe no ombro, disse:

– Sê homem.

Henrique levantou a cabeça.

– Tenho pensado bem, continuou aquele; não vejo razão para tão grande dor.

– Como? perguntou Henrique.

– A bela viúva te ama.

O mancebo suspirou, e disse:

– E aquele homem?...

– É um vil... despreza-o...

– Era só isso o que tinhas para me dizer?...

– Não.

– Que mais então?

– Cumpre que tudo isto tenha um termo; e quanto mais cedo, melhor.

– Que devo fazer?... eu não sei nada... desvairo e choro.

– Pois bem: irás ao “Céu cor-de-rosa”.

– Quando?...

– Hoje não; estás agitado demais. Irás ao primeiro serão.

– E depois?...

– Terás uma conferência com tua amada, e positivamente oferecer-lhe-ás a tua mão.

– E finalmente?... exclamou Henrique.

– Pedi-la-ás em casamento ao velho Anacleto.

– Tu mo aconselhas?... – bradou o amante abraçando com força a Carlos – tu mo aconselhas?...

– Sim! sim! respondeu este.

E depois continuou falando consigo mesmo:

– Dos males o menor.

 

UM SERÃO SEM ELE

SE O OLHAR do observador pudesse chegar ao fundo do coração humano, esquadrinhar todos os seus escaninhos, arrasar seus segredos mais ocultos, ler nele como em um livro; teria, é verdade, muito de que horrorizar-se, muito de que espantar-se com a hipocrisia e malvadeza da humanidade; em compensação porém acharia um encanto indizível, examinando o coração de uma moça que começa a amar pela primeira vez.

Porque, se doçura imensa se goza já nessas rápidas e passageiras traiçõezinhas, que fazem ao pudor de uma virgem os suspiros que por entre os lábios escapam, e os olhares que com mal comprimido fogo dardejam os olhos; em que mar de inocência, de amor angélico, de candura e de graças se não banharia o pensamento do observador, penetrando no coração da virgem cristã?!

Uma vida nova começa com o primeiro dia de amor. A aurora desse dia rubra com o pejo da moça, revela um mistério que ainda se não compreendia a noite passada.

De então por diante todos os pensamentos, todos os desejos, os brilhantes arabescos da imaginação, os sonhos, que a alma sonha acordada, o futuro, os risos, o pranto e a vida da virgem estão presos por correntes de rosas ao mistério que se revelou.

Foi o grito da natureza que soou, e que repercutiu no coração da donzela.

Mas a virgem cristã teve a educação da pureza, e tem o pudor da mulher. Desde que concebeu a idéia do amor, desde que a sentiu, ouvindo o grito da natureza, corou de si mesma.

Por que cora?... por que esconde um sentimento que a natureza inspira?... por que cora?... perguntai-lhe. Ela responderá com voz quase sumida – não sei, – há de corar mil vezes mais, respondendo.

E a virgem que não corasse por mais formosa que fosse, seria como uma flor sem perfumes, ou uma alma sem pensamentos.

Mas a virgem pretende em vão esconder o amor que amanheceu no seu coração. Ela o esconde, e ele se revela, como ainda o perfume que escapa da flor, e ainda o pensamento que transpira da alma.

Observai a moça que começa a amar. Tudo é novo nela: uma revolução se operou em seu caráter e em suas ações; o seu físico mesmo se ressente; ela se torna mais encantadora.

Estudai a expressão de seus olhos; seus olhares são vagos, rápidos, às vezes langorosos... é belo vê-la olhar assim...

Melancólica e distraída, seus antigos prazeres a afadigam; esqueceu-se deles... tem na mente um desejo novo...

Louquinha que amava as festas com seu ruído e bulício; que corria pelos prados; que brincava com as companheiras saltando, gritando, zombando; agora se esconde em seu quar­to para chorar sem motiva, e depois, no jardim, fica uma hora parada defronte de uma flor...

Isso, e ainda muito mais que não será possível descrever completamente nunca, é a história da madrugada do amor, que todas as que foram moças gozaram, e que as que o não são devem gozar ainda.

Celina começava a experimentar todos esses fenômenos. A noite de seus anos rasgara, enfim, o véu da dúvida... No fim do canto do mancebo pobre ela havia compreendido que já o amava muito; que dentro do seu coração esse amor brotara e crescera sem que fosse sentido... Cândido era amado.

Mas por que se tinha ele retirado antes da terminação do baile? por que não aparecera desde então no “Céu cor-de-rosa”?

O amor de Celina começava com tormentos. Porque também é regra que no amor uma dúvida é um tormento, uma suspeita é veneno.

Com ansiedade esperou a “Bela Órfã” pela primeira noite de serão... devia vê-lo... Cândido, se a amava, não podia faltar... havia de vir por força...

Gastou o dobro do tempo que costumava, em seu toucador. Tinha vontade de parecer ao homem que amava a mais bela de todas as mulheres.

Chegou a hora do serão. Vieram pouco a pouco chegando todos aqueles que costumavam freqüentar o “Céu cor-de-rosa”.

Celina não podia arrancar os olhos da porta da entrada; por três vezes já, tinha ido à janela sob diferentes pretextos.

Apresentou-se Henrique... algum tempo depois apareceu Salustiano.

Os sinos tocaram nove horas da noite. Cândido não havia chegado.

Celina não pôde conter um forte movimento de impaciência e desagrado.

– Meu Deus! D. Celina, exclamou Felícia, o que é que hoje você tem?

– Parece que esperava por alguém que não chegou, disse Mariquinhas; ela não tem tirado os olhos da porta da sala,

– Oh! não! respondeu a “Bela Órfã”; é que hoje não estou boa... sinto um calor que parece febre; preciso respirar ar puro e livre. E dirigiu-se de novo à janela... ninguém vinha. Esperou cerca de dez minutos; mas sempre debalde.

A pobre moça sentiu então uma dor nova para ela; apertou-se-lhe o coração, como se uma mão de ferro a estivesse comprimindo com os dedos; e não podendo suportar o ruído que na sala reinava; parecendo-lhe as risadas que ouvia, os gracejos que se diziam, as músicas que se cantavam, e os olhares que lhe lançava Salustiano, um insulto feito à sua dor, aproveitou um momento de distração geral, e saindo da sala sem ser sentida, subiu para seu quarto, e atirando-se no leito, começou a chorar.

No entanto, Henrique havia oferecido o braço a Mariana, e passeavam conversando.

Chegaram-se ambos para uma janela, e vendo-se a sós Henrique falou à bela viúva:

– Minha senhora, eu precisava falar-lhe a sós sobre um objeto de grande importância para nós ambos, julgará opor­tuno este momento?...

– Posso eu dar uma sentença sobre causa que não conheço? perguntou gracejando Mariana.

– Não haverá gracejo nem puerilidade no que eu devo dizer, tornou Henrique com tom sério.

– Mas é que eu não sei sobre o que devemos tratar.

Oh!... senhora!... será possível que não adivinhe qual será o objeto de que lhe quero falar?... não lho diz o coração há seis anos?...

– Para aqueles que se amam, disse Mariana abaixando a cabeça e a voz, todos os momentos e todos os lugares são oportunos e propícios.

– Então eu falo; e depois que eu falar, é que realmente ouvirei uma sentença.

Mariana levantou os olhos e viu a expressão apaixonada e séria do semblante de Henrique.

– Eu não lembrarei o passado, disse o mancebo: é a história de uma luta desesperada entre o dever e o amor, que eu não quero recordar, porque ainda me causa terríveis angústias...

– Oh! lembremo-lo sempre!... a sua memória é doce porque não desdoura... foi um amor do espírito.

– Embora... mas se quiser, eu o lembrarei somente para dizer que esse amor que resistiu ao dever, que não morreu na ausência, é um amor que deve ser bem caro, senhora!...

– E tem ele sido mal pago, senhor?... nessa luta entre o dever e o amor, sofreria menos a mulher, para quem o amor é sempre mais ardente, e o dever era dobradamente maior?...

– E agora, senhora?... agora, que não há mais barreiras levantadas diante desse terno sentimento?...

– Agora?...

– Sim, agora?...

– Aceite como resposta, senhor, a mesma pergunta que acaba de fazer-me.

– Oh! pois bem; mas o que vemos na sociedade?... quem é que se apressa a desejar prender-se por laços sagrados?... é porventura o homem, que pode esperar dez anos sem perder na opinião dos outros homens?...

– Que quer dizer, senhor?...

– Quero dizer, minha senhora, que acreditando em suas palavras, julgando-­me feliz e amado, eu me espanto de que a mulher que me ama, e que tem a certeza de ser por mim idolatrada, livre, tão senhora de sua mão como de seus pensamentos, não se lembrasse uma só vez ainda de me estender essa mão há tantos anos desejada, dizendo-me: – ei-la aqui!

– Ah! senhor!...

– Quero dizer que tenho pensado comigo mesmo sobre a causa provável dessa frieza, e seguramente há erro em todos os meus juízos. Pensei, eu o confesso, senhora, que eu podia ter sido o objeto de uma zombaria de seis anos... que o amor, em que acreditava, era fingido...

– E teve duas vezes esse mesmo pensamento?... perguntou Mariana, deixando cair duas grossas lágrimas.

Henrique não viu felizmente as lágrimas da viúva.

– Não... não... esse pensamento duas vezes concebido seria capaz de matar-me; esse pensamento foi certamente uma loucura; mas como essa, mil outras loucuras me vieram à cabeça, e finalmente uma, que foi a pior de todas, que é horrível!...

– Mas por felicidade nossa, senhor, não passará também de uma loucura.

– Pensei, disse Henrique voltando os olhos para a sala, que havia no mundo um homem que se opunha à minha dita... e que a mulher que eu adoro, obedecia à sua voz e tre­mia debaixo de seus olhos!

Henrique encarou Mariana como querendo apanhar-lhe no rosto, no tremer convulsivo de um músculo, ou no espanto do olhar, um segredo que ela guardasse; mas apenas viu raiar nos lábios da interessante viúva o mais feiticeiro dos sorrisos.

Com serenidade, sangue frio e graça respondeu Mariana em tom alegre:

– Quando eu dizia que era ainda uma loucura!...

– Uma loucura somente?... uma quimera, e mais nada.

– Sim... sim; somente uma loucura; mas uma doce lou­cura, que me agrada, porque a sua origem me é grata.

– Deus permita que eu fosse realmente um louco!

Apesar da serenidade que afetava, a viúva sentia-se terrivelmente combatida interiormente pelas suspeitas de Henrique; a todo transe quis saber até onde tinham elas chegado.

– Porém, disse ela, para que ficar assim apenas conhecido por metade o juízo que fez a meu respeito?... arrependo-me de o haver interrompido.

– Ao contrário, senhora, fez bem em dar apressada um copo d’água ao homem morto de sede; tanto mais que o meu juízo parou aí... não pensei mais nada...

– Fala seriamente? não procurou conhecer esse homem que podia tanto em mim, nem descobrir a causa de sua admi­rável influência?...

– Não passei além do que disse.

– Oh! exclamou Mariana, Deus permita que os seus votos de amor sejam mais verdadeiros do que as suas últimas pa­lavras...

– Por que, minha senhora?...

– Porque agora não disse a verdade. O homem do qual quer falar está ali na sala... seus olhos o procuraram ainda há pouco.

– É verdade, murmurou Henrique.

Mariana corou, e disse com violência mal comprimida:

– E o senhor... o homem a quem eu distingui com o meu amor, o senhor que é um homem nobre, porque se o não fora eu o não amara, abaixou-se até o ponto de tomar para seu rival um miserável que não tem espírito nem beleza?... rebaixou-me, dando-me por amante um moço sem mérito e que eu detesto!...

– É possível...

– Oh!... eu sei amar melhor do que sou amada!...

Henrique apertava com ardor uma das mãos de Mariana; cairia a seus pés, se não pudesse ser visto por tanta gente que estava a alguns passos deles.

– Eu sei amar melhor, continuou a viúva. Porque ao menos eu não rebaixaria o homem que amo, julgando-o capaz de esquecer-me por uma mulher que não se pudesse comparar comigo!...

– Mas aquele homem por toda a parte a segue... e eu... ah! senhora, eu já disse que sou um louco.

O rosto de Mariana tomou ainda uma nova expressão fisionômica; radiou nele outra vez o prazer, e com acento gracioso respondeu:

– Quando eu digo que amo, que me é grata uma loucura assim!...

– Que contradição, meu Deus!

– Que quer?! a culpa não é minha; quando penso em levantar-me violenta e ressentida contra essa loucura, vem logo desarmar-me a imagem do louco!...

Henrique torceu as mãos apaixonadamente, e disse:

– Ah! senhora! eu quisera sentar-me em um trono para lhe dar metade dele... eu tremeria menos assim, porque o esplendor do meu diadema deslumbraria àqueles que ousas­sem erguer os olhos para aquela que se sentasse a meu lado!

– E eu, pelo contrário, respondeu a viúva com seu encantador sorriso, quisera vê-lo no fundo de um horrível abismo para descer até lá, e ir viver debaixo de seus olhos; eu então não tremeria nunca... porque nenhuma mulher quereria descer como eu e esquecer o mundo pelo abismo.

O piano tocou nesse momento os primeiros compassos de uma valsa.

– Chamam-nos! disse Mariana.

– Sim... chamam-nos... mas com suas belas palavras ficou esquecido o fim principal de nossa conversação! Sereia encantadora que o homem não deve ouvir para se não perder!...

– Ah! porém eu compreendi tudo.

– Tudo?... talvez; porém não respondeu nada.

– Eis a minha resposta, disse a viúva.

E oferecendo a Henrique sua mão direita, acrescentou, abaixando os olhos e com voz comovida:

– Ei-la aqui.

O mancebo apertou aquela mão delicada e bela com ardor e entusiasmo, e com os olhos úmidos de lágrimas de prazer, disse:

– Amanhã virei pedi-la a seu pai!

– Venha... eu o espero, respondeu a viúva.

Os dois entraram na sala ébrios de alegria e de amor.

A música viva e animadora de Strauss tinha feito voltar à sala mais alguém, que dela estava ausente.

Pouco tempo depois que Celina havia subido para seu quarto, deu Mariquinhas por falta da amiga, e adivinhando onde a acharia, correu ao segundo andar.

Quando entrou no quarto da “Bela Órfã” não pôde reter um pequeno grito de susto:

Celina estava meio deitada em seu leito, e com o rosto coberto com um lenço chorava tristemente; seus cabelos se haviam desatado e caíam-lhe espalhados sobre o lindo colo.

Escutando o grito de Mariquinhas, tirou o lenço dos olhos, e sentando-se, perguntou agitada:

– Quem é?...

– Sou eu, d. Celina, disse Mariquinhas aproximando-se; sou eu, que te venho perguntar o que querem dizer essas lágrimas.

A “Bela Órfã” passou a mão pela fronte e respondeu tristemente:

– Já te não disse que não estava boa?... é a minha cabeça que sofre.

Mariquinhas olhou para a amiga por algum tempo, e depois tornou-lhe assim:

– Sou alegre, d. Celina, tu me chamas maliciosa. d. Felícia diz que eu sou ligeira, e que não tenho juízo; mas olha, o que eu sei é que sou tua amiga.

– Eu te creio, d. Mariquinhas.

– Pois bem, sabe que compreendo alguma coisa de tua dor... não adivinho tudo, mas alguma coisa eu sei.

– Que queres dizer?

– Que não é a tua cabeça que está sofrendo.

– Então o quê?...

– É o teu coração.

– D. Mariquinhas!

– Basta! por agora nem mais uma palavra. Deixa-me arranjar teus cabelos... teremos tempo para conversar qualquer destes dias.

– Mas eu...

– Silêncio! enxuga as tuas lágrimas. Que precisão há de que saibam lá embaixo que tu choraste?... sabes?... perguntar-te-iam, ou quereriam adivinhar por quê.

A “Bela Órfã” abaixou a cabeça, e Mariquinhas começou a endireitar-lhe o cabelo.

Quando acabava esse interessante trabalho, soaram embaixo os primeiros compassos da valsa.

– Ouves?... disse Mariquinhas.

– Sim, ouço.

– Pois vamos descer.

– Para quê?...

– Para dançar

– Eu não dançarei hoje.

– Oh! tornou Mariquinhas; mas é necessário dançar, é necessário rir, é necessário fingir; porque a moça que não finge, sofre muito neste mundo que morde.

– Oh! que mundo!...

– Vamos.

– Espera; olha bem para mim; poderão descobrir nos meus olhos que eu estive chorando?...

Mariquinhas olhou de perto para Celina, foi aproximando o rosto, deu-lhe um beijo, e disse:

– Teus olhos brilham... as lágrimas estão no coração. Desceram as duas amigas

Quando, deixando a janela em que haviam conversado, Mariana e Henrique tornavam à sala, Celina e Mariquinhas apareciam também.

Eram dois amores que entravam ao mesmo tempo: o primeiro trazia a esperança nos olhos, e o segundo um tormento no coração.

 

CÂNDIDO

NA NOITE dos anos da “Bela Órfã”, foi a velha Irias uma das primeiras pessoas que reparou na ausência de Cândido.

Depois de esperar inutilmente vê-lo entrar de novo na sala, perguntou por ele, e soube com espanto que se havia retirado.

Receando que algum incômodo grande e imprevisto tivesse sobrevindo a seu filho adotivo, despediu-se dos donos da casa, e deixando o “Céu cor-de-rosa” entrou no “Purga­tório-trigueiro”.

Subiu ao velho sótão, a porta estava fechada. Bateu em vão primeira, segunda e terceira vez.

Espantada daquele silêncio que no sótão reinava, desenhando-se em sua imaginação já um grande infortúnio, Irias gritou com força:

– Cândido! meu filho!... Cândido!...

Ouviu então os passos de alguém que da porta se aproximava, e Cândido respondeu:

– Ide sossegar, senhora; não tenhais receio algum pelo meu estado... não estou doente.

A voz do mancebo tinha um não sei quê de assustador.

– Abre! disse a velha.

– Amanhã, senhora.

– Abre! eu quero que abras.

– Eu preciso de repouso.

– Abre!

– Perdoai-me... mas esta noite não posso obedecer-vos.

– Abre, Cândido! exclamou a velha; abre em nome da mulher que te concebeu... abre em nome de tua mãe.

O mancebo pareceu hesitar ainda: mas logo depois deu volta à chave, e a porta abriu-se.

– Acertastes! disse ele; de hoje avante tudo por minha mãe... tudo... e só por ela.

Irias ficou extática diante de Cândido.

Não era mais aquele moço pálido, melancólico, abatido e fraco: seus olhos brilhavam de ardentes, suas faces estavam rubras, seus lábios às vezes convulsos, havia em todo seu semblante fogo e vivacidade; mas de sua fronte caíam gôtas de suor, e em seu aspecto, e em seus modos notava-se a agitação, e esse excesso de vida que acompanha os febricitantes.

– Que é isto?... que tem?... bradou Irias agarrando-lhe no braço.

– Quereis dizer que nunca me vistes tão belo, não é assim, senhora?... respondeu o mancebo com um rir convulsivo, que fez estremecer a velha.

– Cândido!...

– Pois então?... não é melhor assim?... não estou mil vezes mais belo com este meu rosto enrubescido, com meus olhares flamejantes, com este ardor e este fogo, em vez de todo aquele gelo antigo? oh! aplaudi-me!... batei palmas!... eu triunfo!... sou feliz!...

Uma risada nervosa terminou a delirante exclamação de Cândido.

A velha, que tinha entre as suas segura a mão do seu filho adotivo, disse com força:

– Tu não estás bom... tens febre; eu vou chamar um médico.

De um salto colocou-se o moço diante da porta, e respondeu:

– Aqui não entrará mais ninguém esta noite: para que um médico?... o que é um médico?... é o homem da vida, é o homem que deve esforçar-se para prolongar o mais possível a nossa existência, é o inimigo da morte; pois então para longe!... a vida é somente uma longa cadeia de tormentos: suas duas únicas realidades a definem com um gemido; porque o homem geme quando nasce, e geme quando morre; portanto aquele que tem por ofício estender esse longo aparelho de torturas, é um tirano. O médico é um homem mau... nada de médico!

– Meu filho!...

– Não! não! eu não sou vosso filho, sabeis?... não quero que me chameis por esse nome... é um direito sagrado que usurpais! devo-vos muito, não é isso?... pois bem, tomai todo meu sangue... ou melhor, sede a senhora de meus dias: trabalharei enquanto viver para vos sustentar; serei vosso escravo, e ainda assim morrerei confessando que vos fico devendo muito; mas ah! não me chameis vosso filho! de hoje avante está isso decidido... não me chameis vosso filho!

A velha começou a chorar. Cândido, que passeava a largos passos por toda a extensão de seu quarto, escutou enfim um soluço da pobre Irias; correu para ela, e achou-a sentada em seu leito, desfazendo-se em lágrimas.

– Vós chorais?... perguntou ele; que querem dizer essas lágrimas?... não confessei já que vos devia tudo?

– Oh! não! vós não me deveis nada, respondeu a mísera velha.

A voz de Irias trazia o acento de tamanha dor, que abriu o coração do mancebo a seus naturais sentimentos. Esque­cendo de súbito os tormentos que o faziam desarrazoar, caiu aos pés da velha, e de joelhos, abraçado com eles, exclamou:

– Perdão! mil vezes perdão, se vos ofendi! amaldiçoada esteja a minha alma, fechadas lhe sejam as portas do céu, senhora, se uma só vez concebeu uma só idéia que pudesse ser inspirada pela ingratidão a vossos benefícios. Vós tendes sido tudo para mim! em vosso seio eu bebi o leite da vida... fostes quem ganhou o meu primeiro sorriso infantil! vós éreis pobre, não tínheis senão um pão, e me destes metade desse pão! e me destes vosso coração todo inteiro!... perdoai-me! perdoai-me!... que hoje depois de tanto sofrer seria demais para mim a convicção de ter movido vossas lágrimas! perdoai-me!...

A velha e o moço abraçaram-se apertadamente, misturando o pranto que derramavam ambos.

As lágrimas pareceram abrandar um pouco a excitação de Cândido: ele ficou, durante algum tempo, silencioso e pensativo diante de Irias, que não pronunciava uma só palavra, medrosa talvez de ver renovar-se o desespero de seu filho adotivo.

Finalmente foi Cândido quem rompeu o silêncio, dizendo tristemente:

– Eu me lembro do que disse: pedi que não me chamásseis vosso filho.

– Não falemos mais nisso.

– Ao contrário, devemos falar; pois eu... eu que não quero deixar em vosso coração a mais leve dúvida a respeito de meus sentimentos, pedi que me não chamásseis vosso filho... foi um desvario produzido por minha exaltação: eu vos ofendi, porque não estava em mim; um remorso, que me tortura, fez-me delirar.

– Um remorso!...

– O remorso de uma grande falta que eu cometi, e da qual já comecei a receber o castigo.

– Como?... quando?... perguntou Irias.

– Desrespeitei um sentimento sagrado... quis cultivar na minha alma uma flor estranha ao pé de outra flor, que lá está plantada pela mão do Senhor Deus. Sabeis o que acon­teceu?...

– O quê?

– A flor estranha está murcha... está morta, disse com voz trêmula e dolorosa o mancebo; mas deixou para sem­pre na minha alma o germe de um tormento horrível... desesperado!

Os olhos e o rosto de Cândido acendiam-se de novo: a velha começou a recear que sobreviesse algum acidente mais grave, e ia falar, quando o moço prosseguiu com voz cada vez mais repassada de dor:

– Plantei em um vaso sagrado uma flor humana, quis equiparar um sentimento, que me veio do céu, com outro que achei na terra. O resultado é este; o vaso foi profanado... a flor humana feneceu... um remorso é o que dela me resta.

– Cândido!

– Quereis dizer que não me tendes compreendido?... eu vos explico tudo; metade da culpa pertence-vos também; mas mal não vos quero por isso. Ouvi-me.

A velha não achou uma só palavra para dizer a Cândido, que continuou a falar.

– O amor dos pais vem do céu: é um sentimento tão grande, tão nobre, tão divino, que apesar de ser natural a todos os homens; de às vezes achar-se um bom filho em um mau cidadão; o Senhor Deus desceu do céu, misturou-se com os homens e quis que esse sentimento fosse dele também, fa­zendo-se filho de uma mulher. O amor dos pais nos anima, nos consola, nos exalta, nos aproxima de Deus. Oh! eu nunca vi meus pais, e os amei com toda a força de minha alma. Quando soube que no mundo só me restava mãe, concentrei todos os raios da minha faculdade de amar nessa mulher, que eu tenho criado na minha imaginação tão bela como um anjo. Oh! minha mãe!... eu não tinha pensamento que não fosse dela; todos os meus desejos, todos os meus sonhos de venturas relacionavam-se com ela: oh!... eu pensava ser, mas não era desgraçado! porque no meio de meus dissabores, de minhas tristes vigílias, de meus sofrimentos e de minhas privações, a imagem de minha mãe me aparecia bela... amante... carinhosa; e, contemplando essa imagem, eu esquecia todos os meus infortúnios. Eu era pobre no mundo, mas com o meu coração rico deste amor, eu gozei muitas vezes delícias indizíveis; porque, quando eu me engolfava em belas fantasias a respeito de minha mãe, quando me sentia redobrar de amor por ela, oh!... parecia-me ver lá de cima, do céu, o Senhor Deus sorrindo para mim, mandar-me um anjo murmurar-me aos ouvidos – abençoado!...

– Abençoado!... repetiu a velha enxugando com a face dorsal da mão duas grossas lágrimas que dos olhos lhe caíram.

– Não é verdade que eu deveria contentar-me com esta suprema felicidade que gozava? felicidade que não há ouro que a compre!...

– Oh! sim! sim!...

– Pois o coração do homem é uma fonte de insaciável ambição; o homem é tão ambicioso de riquezas, de honras, e de empregos, como de afeições. Eu perdia-me, porque sou como todos os outros.

– Como? que queres tu dizer?...

Cândido passou a mão pela fronte e prosseguiu:

– Da fresta daquela janela vi uma mulher de quem eu não podia ser filho, e que eu amei tanto quanto amava e amo a imagem de minha mãe!...

– Que importa?...

– Que importa?! pois não é um sacrilégio igualar o sentimento da terra com um sentimento que foi digno de Deus?! oh!... pois não é uma ingratidão inqualificável amar a uma mulher a quem nada devemos, que muitas vezes nos não paga o nosso amor, que outras vezes é mesmo indigna de ser amada, e amá-la tanto quanto amamos aquela que padeceu por nós horríveis transes, aquela cujo sangue é o nosso sangue?! é sacrilégio, senhora, e é ingratidão. Eu fui sacrílego e ingrato!

– Cândido!...

– Esqueci tudo por uma criança de dezesseis anos, que ao romper de uma aurora descobri por entre as flores daquele jardim. O momento que bastou para vê-la começou a pesar em meu coração tanto quanto até então tinha pesado minha mãe. Esqueci minha pobreza, não me lembrei que aí por esse mundo um pobre é um ente à parte, que não deve comer à mesa com os ricos, que não deve amar a quem tem mais do que ele... esqueci tudo... de minha mãe, comecei a lem­brar-me menos; no altar da minha alma coloquei duas santas... e quando orava, já não orava só por minha mãe!... fiz mais: deixei o silêncio de meu quarto, fui tomar parte nas festas de gente que não era pobre como eu; riram-se tal­vez de mim, mil vezes em cada noite!... eu diverti-os, cantei, para que me tolerassem ali... curvei-me... abaixei-me... e nem assim me toleraram.

– Cândido!...

– A culpa foi também vossa, exclamou Cândido; quem vos inspirou o fatal pensamento de ir patentear o estado do meu coração àquela criança?... porque viestes tirar daqui os versos que eu escrevia em minha loucura?... oh!... eis aqui a vossa e minha obra!... tiveram piedade de mim: despediram-me, e não me mandaram correr pelos escravos, oh! foram piedosos! respeitaram a linha com que, em seus tratos e modos, distinguem um pobre de um cão!...

– Cândido!... é possível o que estais dizendo?...

– Pensais que eu me lastimo! ...continuou o mancebo; pois já não confessei que era um castigo? julgais que me resta algum ressentimento?... não: é um remorso o que me resta!

– Oh! não é isso, exclamou Irias; não é isso o que te quero perguntar; o que eu desejo é saber se tu zombas, se estais em ti, se não inventas?...

O mancebo riu com um rir terrível.

– Eles despediram-te?...

– Como a um pobre se despede.

– Eles?... ela?!

– Por que vos admirais?...

– Ela te ama.

Cândido tornou a rir mais terrivelmente ainda do que há pouco.

– Ela te ama! repetiu com acento de profunda convicção a velha Irias.

– Não! bradou o moço; não, e não! se é uma consolação que pretendeis derramar na minha alma, minha alma rejeita uma consolação em que não pode acreditar.

– É uma verdade, o que eu digo... uma verdade que o futuro te há de demonstrar.

– Então vós vos enganais, senhora; estais ainda menos adiantada que eu no conhecimento deste mundo, onde tendes vivido três vezes mais do que o desgraçado que adotastes.

A velha fez com a cabeça um movimento de impaciência, e ia falar.

– O que é, continuou Cândido sem querer ouvir Irias, o que é que vos prova o amor dessa moça?... quê?... não ordenar que me lançassem fora de sua casa no momento mesmo em que tivestes a imprudência de lhe declarar o meu amor?... sofrer que eu para ela algumas vezes olhasse, e algumas vezes também ter olhado para mim?... engano e ilusão, senhora!... essa mulher é como as outras. A mulher se apraz de merecer o amor, a admiração da criança, do moço e do velho; todos eles incensam o amor-próprio, a vaidade mesmo, que é a corda mais vibrante do coração da mulher! amai-me! admirai-me! diz ela; porém pagar esse sentimento que querem inspirar com outro sentimento igual, é mui diverso do que isso. Quem confunde amor com vaidade dirá também, como vós dizeis, que eu fui amado pela neta de Anacleto.

– Então esse amor entra porventura na ordem dos impossíveis?.

– Dos impossíveis absolutos não; porém no pé em que se acha a sociedade, entra na ordem dos impossíveis morais.

– Como?... meu querido Cândido, que te falta para ser amado?...

– Falta-me aquilo que é hoje no mundo a primeira das virtudes; a virtude que encanta homens e mulheres; que abre-nos a porta dos empregos e das honras; que abre-nos corações ao amor... falta-me a virtude a quem se está rendendo um culto idólatra; falta-me a riqueza.

– Oh!...

– Pois então?... aquela mulher não tem olhos para ver que eu sou pobre, e vendo-o, não tem inteligência para compreender que amar um pobre é uma loucura?... ela fez o que devia.

– Desvairas...

– Não; estou calmo, falo com a frieza da razão. A mulher é vaidosa sempre, quer ser amada, admirada por sua beleza e por seus vestidos. Quer para seu marido um homem em alta posição para elevar-se ela também; quer estar de alto, coberta de sedas e de brilhantes, deslumbrando os homens e sendo invejada pelas outras mulheres. No casamento isto é tudo, e o amor é quase nada. E a mulher, que isto consegue, lá vai... incensada... feliz... deslumbradora... invejada... ainda que seu marido seja um ente abjeto e estúpido; que abjeto!... que estúpido!... não há abjeção nem estupidez onde há riqueza. Os altos funcionários, que nunca estão em casa para receber o artista de mérito, o velho soldado, e o honrado servidor do país, o estão sempre para ir ajudar a descer da carruagem o milionário analfabeto. Que queríeis que fizesse a mulher?... esqueceu a missão do céu; ornou-se com os prejuízos e as douradas vilezas da terra... embora... o mundo bate palmas!...

– Isso não é falso; mas é exagerado, respondeu tristemente a velha Irias.

– Oh! não... é a própria verdade, mal pintada ainda. Perguntai a todos os que sofrem, perguntai a vós mesma. A sociedade não tem pejo!... hoje despreza um moço humilde, sem educação, que vive em miséria, e que para viver se sujeita a trabalhar como um escravo, e que por isso mesmo é indignamente ridicularizado; bem... amanhã esse moço, que compreendeu a época em que nasceu, enxergou... descobriu um meio que lhe oferece imensos... incalculáveis lucros; mas esse meio, sim, é que é desonesto; é que desdou­ra, é que rebaixa o homem diante da moral e da própria consciência... que importa?... o moço aproveitou-o... foi feliz. E depois de amanhã, senhora, quando o moço sai no seu belo carro, os grandes da terra, os nobres, os ministros e todos enfim o saúdam respeitosos, e vão depois festejá-lo... curvar-se diante dele!... isto é mentira ou verdade?...

A velha guardou silêncio.

– Não se zomba senão do pobre; não se ridiculariza senão a ele. Dizei, por que é que sois o alvo de uma zombaria desprezível?... por que foi que vos lançaram uma alcunha insultuosa?... por que é que quando passais, a gente que vos vê sorri, e vos maltrata, lançando sobre vós um epíteto afrontoso?..

– Porque eu sou uma triste mulher velha, respondeu Irias.

– Não, senhora; é somente porque vós sois uma triste mulher pobre.

– Embora... embora; isso porém não me tira do meu pensar: a “Bela Órfã” te ama.

– Pois bem, ficai-vos com o vosso pensar.

– E eu hei de provar-te que tu te enganas com ela; e serás tu o primeiro que me virás confessar a injustiça que lhe estás fazendo.

– Será difícil.

– Freqüenta com mais assiduidade o “Céu cor-de-rosa”...

Cândido, que já se achava mais sossegado, tornou-se de novo rubro de despeito e vergonha.

– Eu não irei lá nunca mais... exclamou.

– Nunca mais?...

– E se lá tornasse merecia que me lançassem longe da porta como a um cão.

– Cândido!...

Eu não irei lá nunca mais! repetiu com veemência o mancebo.

 

E estava cumprindo à risca o seu propósito; dois serões haviam tido lugar depois da noite dos anos de Celina, e Cândido tinha faltado a ambos.

No começo da noite que se seguiu à do segundo serão, achava-se Cândido descansando no sótão do “Purgatório-trigueiro”, quando a velha escrava de Irias lhe anunciou o sr. Anacleto.

 

A MOÇA E O VELHO

O VIVER da “Bela Órfã” estava sofrendo notáveis mo­dificações.

Desde que Cândido deixara de aparecer no “Céu cor-de-rosa”, tornou-se mais constante e profunda a melancolia da moça.

De ordinário escondida no seu quarto, Celina comparava seus curtos dias de um amor nascente, com aqueles que es­tava passando de ansiedade e de dúvida, e conseqüentemente misturava saudades com lágrimas.

Os pesares desta ordem são mil vezes mais fortes e cruéis na mulher do que no homem, porque a sociedade impõe à mulher o dever de calar, e o homem pode sem corar desaba­far-se contando-os, derramando-os na alma de um amigo. Ela portanto concentra a sua dor, revolve-se nela, devora-a em silêncio, o que dói mais certamente.

Sucedia isso a Celina. Apesar da amizade com que sua tia a tratava, não podia a moça esquecer-se da diferença de idade que havia entre ela e Mariana, e por isso, ainda quando pretendesse confiar a alguém os seus pesares, não se animaria nunca a escolher a viúva para confidente.

Em resultado a “Bela Órfã” fugia de tudo e de todos para viver com seu segredo, para pensar somente nesse amor que tão sem sentir lhe nascera no peito.

Todos os seus antigos e mais preferidos entretenimentos estavam esquecidos. O piano não mais se abria, as músicas descansavam, os livros tinham sido aborrecidos; porque também às vezes a pobrezinha, pretendendo vencer-se, tomava um romance, lia uma página inteira, e no fim dela, conhecia que lhe era preciso ler outra vez, porque sua atenção se distraíra, mas a leitura se repetia uma e dez vezes e o resultado era sempre o mesmo. Lia apenas com os olhos... com o pensamento não podia.

Era melhor não ler.

Um único de seus antigos costumes conservou intacto: ao romper da aurora ia sempre ao seu jardinzinho colher um botão de rosa... quem sabe se ele a observava oculto atrás da janela?

Era sempre uma esperança a de ser vista assim tão abatida e tão triste.

Até o velho Rodrigues perdera com as mudanças do viver da “Bela Órfã”; as sestas não se renovaram mais. E ele nem ouvia a doce voz de Celina, nem podia, acompanhado por ela, entoar suas baladas e antigos romances.

Foi indo assim a moça admirada de que ninguém, nem seu avô, nem sua tia, dissesse uma só palavra notando a ausência de Cândido, até que chegou a noite do segundo serão, depois da de seus anos.

O moço do “Purgatório-trigueiro” faltou a esse, como tinha faltado ao primeiro.

A aflição da “Bela Órfã” subiu de ponto. Ela conheceu que já tinha lágrimas que derramava em segredo, para es­vaziá-lo; conheceu que lhe era absolutamente preciso, para ser consolada, falar a preço mesmo do que sofreria seu pudor de virgem.

Lembrou-se de uma sua amiga.

No fim do serão chamou Mariquinhas de parte, e disse-lhe:

– D. Mariquinhas, no último serão você me havia dito que teríamos tempo de conversar sobre alguma coisa, em qualquer dos dias que se seguissem...

– Ah! é verdade, respondeu a amiga.

– Então?

– Eu pedirei a meu pai que me deixe vir passar um dia contigo, d. Celina.

– Olha, depois de amanhã é domingo.

– Pois sim.

– Queres que eu peça a teu pai?...

– Não... ele me estima muito para me negar esse prazer.

– Então eu te espero...

– Depois de amanhã.

As duas amigas separaram-se.

No dia seguinte, e na hora em que a “Bela Órfã” tinha por costume ir cantar, e ouvir o velho Rodrigues, estava Celina encerrada em seu quarto e toda entregue a suas meditações.

– É-me preciso falar, pensava ela: não se pode viver assim em silêncio com a alma cheia de angústias, e condenada a não soltar um só gemido. Os homens têm o direito de chorar bem alto!... quando se diz o que se está padecendo, parece que o mal abranda um pouco...

Ela pensou alguns instantes, e prosseguiu:

– Seguramente aqueles que escrevem, os poetas em primeiro lugar, devem achar bastante consolação escrevendo. Esses sim, não têm necessidade de um seio onde depositem os seus pensamentos, seus segredos e suas dores; eles têm uma amiga fiel e mais condescendente que nenhuma outra na sua pena; quando sofrem, escrevem, dizem o que têm no coração; exaltam-se, eternizam suas penas, suas desgraças, e nessa mesma eternidade acham um grande lenitivo para sua dor. Um poeta!... se ele ama, ele o diz nos seus livros, faz do que se passa em sua alma um romance; está dizendo que ama e a quem ama à face do mundo inteiro, e ninguém compreende o belo segredo que está derramado em todas as páginas de seu livro senão a pessoa que ele quer que compreenda!... oh!... se eu fora poetisa!

E prosseguiu ainda:

– Um poeta! um homem excepcional... o gênio tem por força em si alguma coisa de divino; assim como o oceano é no universo o que poderia dar a idéia do infinito, se a idéia do infinito se pudesse dar; o poeta arremedaria o poder da divindade, se esse poder chegasse a ser arremedado. Porque o poeta cria também o seu mundo, o seu universo; levanta palácios e abre cavernas; desprende as tempestades e faz belas auroras... oh!... que riqueza há aí tão rica como a imaginação de um poeta!... oh! se eu fosse poetisa!...

Respirou alguns instantes, e continuou:

– Se eu fosse poetisa... não precisava tanto, se eu pudesse ao menos escrever algumas páginas, que eu mesma não me fatigasse, lendo-as, ao chegar ao fim da primeira... oh!... que felicidade!... eu havia de pintar o estado do meu coração... exalar meus tormentos e minhas saudades nas páginas do meu livro... escreveria com lágrimas; porém depois, que consolação!... eu beijaria minha alma nas minhas letras, beijaria meus olhos nas minhas lágrimas...

Celina hesitou um momento, e depois disse:

– Quem sabe?...

Ficou pensando ainda:

– Não... não eu não escreveria nada que merecesse ser lido... iria descorar o quadro que existe traçado no meu pensamento... mas em suma, ninguém havia de ler o que eu escrevesse... era um livro que depois de acabado eu lançaria no fogo... oh!... se eu pudesse escrever...

Ela tornou a hesitar e depois disse como da primeira vez:

– Quem sabe?!...]

A moça pensou ainda... parecia lutar entre um grande, um nobre desejo, e um receio, que, apesar de pueril, podia muito no seu ânimo. Enfim o nobre desejo triunfou.

A “Bela Órfã” ergueu-se do leito onde estava recostada, foi primeiro observar se sua tia estava no quarto vizinho... Mariana dormia.

Tomou então todas as disposições para escrever, e sentando-se junto de uma mesa, começou a trabalhar.

O fruto das inspirações daquela virgem de dezesseis anos devia ser cheio de pensamentos inocentes e puros: era talvez como uma flor que derrama na solidão perfumes agradáveis e leves.

Ao terminar a primeira página, a “Bela Órfã” parou de repente ouvindo a voz do velho Rodrigues.

O guarda-portão do “Céu cor-de-rosa” cantava, sem dúvida no fundo do alpendre, um romance já conhecido de Celina.

 

“Era um dia um mancebo que ardente

“Pobre vida esquecido vivia,

“E uma virgem formosa, inocente,

“Que outra igual não se viu, não se via.

“Quem separa o ardor da beleza?...

“Um abismo fatal: – a pobreza.”

 

O velho Rodrigues parou no fim da primeira estrofe do romance.

Celina, que havia interrompido o seu belo trabalho para ouvir a voz do guarda-portão esperou debalde que ele pros­seguisse, durante algum tempo.

Supondo, enfim, que o velho Rodrigues não prosseguiria em seu canto, tomou outra vez a pena, quando a voz de novo se fez ouvir:

 

“O mancebo a donzela adorava ....

“Quem o sabe!... ninguém dele ouviu.

“Em seu peito esse amor sepultava,

“Se o amor em seu peito nutriu,

“E se amava, era triste esse amar;

“Era um mudo e terrível penar.”

 

O canto, como antes sucedera, parou no fim da estrofe.

Que quererá isto dizer? perguntou a si mesma a “Bela Órfã”, por que é que o velho Rodrigues canta e se suspende no fim de cada estrofe?... esta é a hora em que mutuamente nos fazíamos ouvir. Quererá ele assim lembrar-me o que tenho esquecido?... mas por que escolheu, para chamar-me, o romance que exprime um segredo do meu coração?...

A voz fez-se ouvir pela terceira vez. Celina ergueu-se meio agitada.

O guarda-portão do “Céu cor-de-rosa” prosseguindo no seu canto, saltou pela terceira estrofe do romance, e cantava a quarta:

 

“O que é feito da virgem, do pobre?...

“Quando o dia voltar to direi;

“Negro manto da noite nos cobre.

“Ela dorme... mas ele... não sei.

“E’ na terra das trevas o véu;

“Vagam sonhos... mistérios do céu.”

 

A voz parou como até então fizera, e a “Bela Órfã”, guardando apressadamente os seus papéis, saiu do quarto, desceu a escada, e entrou na sala.

Não havia ninguém aí.

Celina sentou-se ao piano, e começou a tocar uma música terna e melancólica.

O velho Rodrigues apareceu à porta da sala, e aproximou-se com seu andar vagaroso.

– Tinha-se esquecido de mim, senhora, disse ele.

A moça abaixou a cabeça, e respondeu:

– Tenho passado mal.

– Está doente?...

– Não estou boa.

– Acha-se hoje melhor?

– Não.

– Talvez que nesse caso possa a música incomodá-la.

– Ao contrário.

– Quer cantar?...

– Não; quero ouvir.

– Escolha o que quiser, senhora.

A moça hesitou; mas enfim respondeu com a cabeça baixa:

– O mesmo romance que estava cantando há pouco.

O velho Rodrigues começou de novo a cantar o “Sonho da Virgem”.

Quando o canto terminou, a “Bela Órfã” deixou cair a cabeça, e ficou pensativa.

Depois de algum tempo de silêncio, o velho perguntou:

– Por que está triste assim?

– Não sei; respondeu a moça.

– Faz-lhe mal ouvir este romance?

– Não; faz-me bem.

– Mas essa tristeza deve ter forçosamente uma causa... qual é ela?...

– Eu não sei, tornou a moça enxugando uma lágrima.

O velho fingiu não ver essa lágrima, e prosseguiu dizendo:

– Parece que a melancolia é a moléstia reinante da qua­dra atual.

– Por quê?...

– Tenho um bom amigo padecendo do mesmo mal.

A moça não disse nada.

– Um bom amigo, que a senhora também conhece.

– Quem é ele?

– O sr. Cândido.

Celina olhou espantada para o guarda-portão, mas para logo abaixou os olhos rubra de pejo.

O velho deixou que a “Bela Órfã” serenasse, e depois con­tinuou:

– É um bom moço aquele sr. Cândido.

A moça não respondeu.

– Não pensa como eu? perguntou o velho.

– Penso, murmurou Celina.

– Pois o infeliz moço anda agora bem triste; e desgraçadamente com razão.

A “Bela Órfã” fez um leve movimento.

– Incomodo-a, senhora?

– Não.

– Dizia pois que o sr. Cândido tinha bastante razão para andar triste... ofenderam-no gravemente...

– Sinto isso, balbuciou a moça.

E há de sentir mais quando souber que se serviram do seu nome para ofendê-lo...

– Do meu nome?... disse a moça estremecendo, e levantando ao mesmo tempo a cabeça.

– Do seu nome, repetiu o velho.

– E como? e por quê? eu não sei, eu não suspeito coisa alguma...

– Estou certo disso, senhora; mas o fato é grave, e eu não sei se cometo uma imprudência falando-lhe desse assunto.

– Não, não, fale; eu lhe peço que fale.

– Pois bem, eis aqui o que se passou: o sr. Cândido foi política, mas formalmente despedido desta casa.

– Quando?... exclamou com traidora comoção a “Bela Órfã”.

– Na noite de seus anos.

– E por quê?

– Por sua causa.

– Por minha causa?... meu Deus!... disse a moça com lágrimas nos olhos.

– Sim, minha senhora: sua tia teve com o sr. Cândido uma entrevista no jardim; quer saber o que ela disse? que nesta sala zombava-se da senhora, dizendo-se que a senhora e o pobre mancebo se amavam...

– É falso!.. isso não é verdade.

– E que em conseqüência dessas zombarias fora a senhora queixar-se a ela de que seu nome estava exposto às calúnias e à maledicência por causa do sr. Cândido.

– Meu Deus! Meu Deus!...

– Que a senhora fizera notar que esse mancebo, apesar de suas boas qualidades, não estava pelo estado de pobreza em que se acha, na posição de pretendê-la.

– Oh! mas eu não disse nada.

– E finalmente, senhora, sua tia fez compreender ao pobre moço que a presença dele no “Céu cor-de-rosa” tornava-se incômoda e prejudicial à senhora.

– E ele?... perguntou Celina.

– Retirou-se, e não voltará mais nunca ao “Céu cor-de-rosa”.

– Acreditou em tudo?!

– Como não acreditar, senhora?!...

– Oh! e me detesta!... e julga mal de mim!...

– Não! não; ele ainda não soltou uma só queixa.

– E como sabe o senhor de tudo isto?...

– Eu estava no jardim, ou perto dele. Estava em um lu­gar onde podia e pude observar quanto se passou.

– Oh! e então por que não jurou, por que não disse a esse mancebo que era falso tudo isso que avançaram contra mim?...

– Eu lho disse, senhora.

– E ele?

– Não quis crer-me.

– Sim! sim! e tinha razão; exclamou por entre lágrimas a “Bela Órfã”; tinha muita razão!... quem poderia suspeitar que minha tia levantasse contra mim uma tão grande calúnia?! que quer dizer isto, meu Deus?... que mal tenho eu feito?... que significa esta intriga?... oh! e que juízo estará fazendo de mim esse nobre moço? como não terá ele amaldiçoado a hora em que pela primeira vez me viu?!

– Não, tornou o velho; ele não há de amaldiçoá-la nunca.

– Minha cabeça arde, disse a moça sem atender ao guarda-portão: eu me perco... eu não sei o que faça; mas é terrível que eu deixe assim vingar uma intriga... uma calúnia que me desdoura!... não, não é possível.

E voltando-se para o velho tomou-lhe uma das mãos, e apertando-a prosseguiu:

– Sr. Rodrigues, eu devo-lhe amizade; sei que me estima; não consinta pois que tão injustamente estejam talvez praguejando contra mim. Eu sou uma pobre criança... devo fazer loucuras... mas nunca me lembrei de dizer o que disseram que eu disse. Vá, escute; se não julga haver nisso inconveniente, vá ter com esse moço, e diga-lhe da minha parte...

A virgem parou subitamente... cobriu-se-lhe o rosto de uma cor rubra, e ela estremeceu...

– Dizer-lhe o quê?... perguntou o velho.

– Nada! não lhe diga nada! tornou a “Bela Órfã” com tristeza profunda.

O guarda-portão ficou olhando admirado para Celina.

– Desculpe-me, disse depois a moça: uma calúnia deve ter bastante força para exaltar sua vítima, como eu há pouco me exaltei.

– E aquele pobre moço?...

– Saberá um dia a verdade, no entanto não posso esquecer-me do que devo à minha educação. Uma coisa só tenho direito de fazer..

– O quê?...

– Queixar-me-ei a meu avô, mesmo na presença de minha tia.

O rosto de Celina tinha tomado um tal aspecto de nobreza, sua voz um timbre tão forte, o seu olhar tanto fogo, que o velho Rodrigues esteve durante muito tempo olhando para ela sem dizer palavra

– Perdoe-me, senhora, disse ele enfim; mas eu creio que não vai bem pelo caminho que pretende seguir.

– Por quê?... perguntou ela com voz firme.

– Porque, se há intriga como supõe, é um erro expor-se a ela com essa franqueza que a caracteriza. Os que intrigam trabalham sob o manto da noite, e para triunfar deles não basta a inocência, é necessária também a prudência. Senhora, não diga coisa alguma a seu avô, nem se atraiçoe diante de sua tia.

– Que devo pois fazer?... perguntou a moça olhando admirada para o velho.

– Guardar silêncio, respondeu este.

– Silêncio?... e até quando?...

– Eu lho direi. No entanto anime-se com a certeza de que tem amigos que velam por ele... pela senhora...

E o velho acrescentou com voz insinuante:

– E que velam sobretudo pelo seu amor.

– Senhor...

– É inútil fingir comigo... eu sei tudo.

A moça cobriu o rosto com as mãos, envergonhada e sen­tida.

E o velho deixou a sala, cantarolando por entre os dentes o romance “Sonho da Virgem”:

“Era um dia um mancebo, que ardente...”

 

A SÚBITA e imprevista retirada de Cândido naquela fatal noite de anos, tinha sido um novo golpe para o coração do velho pai de Mariana.

Anacleto vira sair da sala sua filha pelo braço do mancebo, apanhara um raio de cólera dardejado contra ambos pelos olhos de Salustiano, e combinando estas observações com o desaparecimento de Cândido, parecia-lhe que sua filha, cedendo à inexplicável influência daquele, tinha uma parte qualquer no triste acontecimento.

Muito ocupado com os desgostos e temores que lhe causava Mariana, deixou passar a noite e os dois dias que lhe seguiram, sem desafiar explicação alguma.

Depois do primeiro serão, que teve lugar, passada a noite de anos, um novo pensamento encheu a alma daquele bom pai, que não teve mais tempo de lembrar-se de Cândido.

Henrique viera pedir-lhe formalmente a mão de Mariana. O casamento ficara ajustado, e com geral assentimento determinou-se que se efetuaria antes de um mês.

Na noite do seguinte serão, Anacleto apresentou os noivos a seus amigos; e então lembrou-se outra vez que faltava na sala alguém a quem votava estima leal e bem merecida.

No outro dia chamou Mariana a seu quarto, e interrogou-a seriamente sobre a ausência de Cândido.

A viúva contava que mais cedo ou mais tarde se trataria disso no “Céu cor-de-rosa”, e tinha-se preparado para não atraiçoar-se deixando entrever a verdade.

Respondeu a seu pai com segurança e calma. Ela não sabia nada que pudesse ter relação com esse fato; sentia mesmo muito que um moço tão recomendável assim se tivesse reti­rado do “Céu cor-de-rosa”.

O olhar penetrante e desconfiado do velho esteve, durante toda a conferência, constantemente fito no rosto de Mariana, e não pôde apanhar o mais leve indício de fingimento. A verdade estava fechada no coração da viúva com uma porta de ferro.

– Estou determinado a ir ao “Purgatório-trigueiro”, disse Anacleto olhando sempre fixamente para sua filha.

– Creio que é o melhor passo a dar, respondeu ela sem hesitar.

– Devo pedir uma explicação a esse moço.

– Sem dúvida, tornou a viúva; ninguém melhor do que ele pode esclarecer este mistério.

– Supões que me cumpre esperar ainda alguns dias?... perguntou o velho observando.

– Ao contrário, disse Mariana, penso que meu pai deve ir falar-lhe hoje mesmo.

– Bem... irei esta noite.

A filha de Anacleto apreciava com justeza o caráter de Cândido para temer que ele declarasse o que havia ocorrido; e sobretudo jogava ainda com a probabilidade do silêncio do mancebo, porque, mesmo quando falasse, ela contava com o extremoso amor de seu pai para ser perdoada.

Ao começar da noite Anacleto dirigiu-se ao “Purgatório-trigueiro”.

Começou conversando com a velha Irias, a quem pediu explicações a respeito da ausência de seu filho adotivo.

A resposta da velha Irias foi uma e única:

– Ele está lá em cima, e melhor do que eu poderá dizer se teve razões para retirar-se.

Anacleto fez-se anunciar a Cândido.

Quando o moço vinha descendo a escada, Anacleto começou a subi-la dizendo:

– Sou sem-cerimônia, meu caro, e quero antes ir conversar lá em cima.

O velho e o mancebo acharam-se a sós defronte um do outro.

– Adivinha certamente o motivo que me traz aqui?... perguntou Anacleto.

Cândido não sabia fingir, e respondeu:

– Talvez.

– Pois então... ia dizendo o velho.

– Mas, é melhor que o exponha o senhor, interrompeu o mancebo; é possível também que eu esteja enganado, e que nossos pensamentos, que supomos reunidos em uma só idéia, se achem pelo contrário bem afastados um do outro.

– Não; não estão.

– Enfim, sou eu quem deverá ouvir as causas de uma visita que, em todo o caso, muito me lisonjeia.

– Meu caro, disse Anacleto, eu ponho as formalidades e as etiquetas para o lado, quando converso com aqueles de quem sou amigo; e nós o somos.

Cândido abaixou a cabeça em sinal de agradecimento.

– Ou pelo menos, tornou o velho, eu o sou seu.

O moço tornou a repetir com a cabeça o mesmo sinal de há pouco.

– Deixemo-nos pois de longos rodeios, e vamos já ferir de face a questão. O senhor retirou-se de minha casa de um modo singular: de duas uma, ou alguém lá o ofendeu, ou o senhor nos ofende; e em todo caso uma explicação se faz necessária.

Cândido empalideceu a próprio pesar, e ficou pensando.

– Estuda para responder? perguntou o velho.

Com um sorriso fraco e triste respondeu o mancebo.

– Agradeço-lhe, senhor, a delicadeza com que me trata, e o interesse que eu não mereço; mas que, apesar disso, mostra por mim.

– Não se trata de agradecimentos, nem de delicadezas e nem de interesses: o caso é simples, meu caro; alguém o ofendeu em minha casa?...

– Ninguém, disse o mancebo, rindo-se amargamente como há pouco.

– Então como devo eu explicar o que ocorreu. e está ainda ocorrendo?...

– Explique como quiser, senhor; explique pela minha má cabeça.

– Como é isso?...

Cândido pensou alguns instantes e começou depois a falar.

– Eu errei em não ter agradecido, em não haver fugido de aceitar o oferecimento que V. Sa. me fez da sua casa...

– Quê?...

– Ah! senhor! eu direi tudo. Invejar a ventura dos outros é um crime; mas forçar um infeliz a ter diante dos olhos e constantemente o quadro da felicidade alheia, é quase rir de seus tormentos!

– Então...

– Sua casa é um céu de prazeres e... de virtudes; estar porém ali um desgraçado que não pode fruir esses prazeres, e, que, se acaso tem uma ou outra virtude, não a pode mostrar para ser por ela estimado, é o martírio de Tântalo... a causa creio que foi essa; eu me retirei por isso.

– Sr. Cândido, há nas suas palavras alguma coisa que se parece com a ironia, e há no seu coração algum sentimento que quer sair e não pode, porque o senhor impede.

– Não... não... tudo se diz em uma palavra; eu sou infeliz, e tenho consciência de o ser. Além da realidade de meu infortúnio, senhor, a natureza deu-me ambições, deu-me desejos que não posso realizar, e que por conseqüência me atormentam.

– Devo falar-lhe com franqueza, sr. Cândido: entendo que a sua posição na sociedade não é a melhor possível; que seus merecimentos lhe marcavam um lugar mais alto nela. Compreendo mesmo que um moço pobre, que vê o mundo cheio de gozos e delicias que não lhe é dado gozar, tem até certo ponto razão para entristecer-se durante algumas horas; olhe porém à roda de si, sr. Cândido; que número imenso de homens não está aí diante de seus olhos com mil vezes mais razão para lastimar-se?... quantos tiveram como o senhor a felicidade de receber uma educação proveitosa e acurada?... já não é alguma coisa a superioridade da luz do seu espírito?

O moço sacudiu a cabeça, e disse:

– Já confessei que sou ambicioso; e demais, a educação agiganta as privações. O mendigo contenta-se com um pedaço de pão velho para comer, e com um capote feito em pedaços, e com a porta de uma igreja para dormir; mas o mendigo não sonha com a felicidade como sonha o moço que estudou, e que tem imaginação e ardor. Não é ouro o que eu desejo, senhor... a riqueza que eu peço a Deus não é de metal, nem de bilhetes do banco; a minha riqueza é a do coração. Se muitas vezes falo com amargor do poder do dinheiro, é porque me revolto quando vejo acima do talento, da honra e do mérito, o ouro! mas não é o ouro que eu ambiciono.

– Não o compreendo, disse Anacleto.

– O que me acanha, o que me obumbra, o que me faz nascer desejos de fugir para essas florestas virgens de minha pátria, é a pobreza de afeições em que vivo. Ah! Sr. Anacleto!... eu sou o último, o mais miserável mendigo dos melhores amores!.

– Que quer dizer?

– Pois então? como é que um homem como eu não há de sentir apertar-se-lhe terrivelmente o coração, quando, comparando-se com os outros homens, se acha o somenos de todos eles?... pois não há de doer-me o aspecto da felicidade de uma família, comparado com o meu isolamento?... Em sua casa, em toda a parte onde há homens e mulheres, eu vejo um moço brilhante de mocidade, de talento, de ardor e de ventura; pensa que é isso o que eu invejo?... não; também sou moço, tenho também alguma inteligência, e também fogo no coração; o que eu invejo é o olhar de gênio benfeitor, é o olhar de bênção, senhor, com que um velho pai se revive naquele moço; é o carinho, a doçura angélica com que uma terna mãe o festeja; é a doce amizade com que uma boa irmã o abraça; e então, senhor, quando eu penso que nunca cheguei a gozar, nem gozarei um olhar assim de um bom pai, nem um carinho de mãe, nem uma meiguice de irmã, não é verdade que tenho bastante razão para con­siderar-me desgraçado?... não é verdade o que eu digo? não sou eu o último, o mais miserável mendigo dos melhores amores?...

– E o remédio agora, meu pobre Cândido?! disse Anacleto meio comovido.

– Remédio para curar radicalmente a minha dor não há nenhum; para minorá-la é a solidão, é o retiro. Aqui, senhor, no fundo deste quarto eu não vejo essas cenas de felicidade doméstica, não tenho ao vivo diante dos olhos o quadro daquilo que em vão desejo. Ficarei pois aqui, senhor, enquanto esta boa velha carecer de meu braço; desde o momento porém em que ela fechar os olhos, o meu destino é outro.

O moço respirou, e prosseguiu:

– Não conheci meus pais; minha mãe é a natureza; pois bem, irei viver onde a natureza é mais bela, irei adorá-la nos seus vivos encantos. Aborreço a sociedade dos homens. O campo... o vale... a montanha... os precipícios... a floresta virgem... o rio caudaloso é um espetáculo bem belo!... ah! sim! o campo... o vale... os precipícios... a floresta virgem... e o rio caudaloso são meus irmãos; têm como eu por mãe somente a natureza.

Cândido tinha-se exaltado tanto, que Anacleto deixou-o sossegar para continuar a conversação que havia encetado.

– Tem ainda muito fogo, sr. Cândido, disse o velho, é muito moço, e sua imaginação avulta os seus pesares. Respeito-os porque são de nobre origem; mas tenho o direito dos anos para dizer-lhe que pecam por excessivos.

– Embora...

– Procurar ser feliz é ao mesmo tempo um dever do ho­mem.

– Quando há esperança.

– E quem não a tem?... quando foi que ela nos abandonou?... eis-me aqui velho e cansado... eis-me aqui à borda do túmulo com os olhos fitos em Deus, e uma esperança no coração.

O mancebo olhou para o velho.

– Sim! não se admire. Uma grande esperança, e depois desta virão ainda outras. Uma grande esperança, a de ver feliz minha filha.

– Sua filha! repetiu Cândido.

– E então não é uma nobre esperança?

– Bem doce!

– E quem lhe diz que não terá ainda uma igual?...

– Eu não; eu hei de completar o meu destino. Fui arrojado do mundo com desprezo... quando abri os olhos, abri-os entre os estranhos... não conheço os meus; eu sou – só; – compreenda bem esta palavra, sr. Anacleto; é uma palavra, um nome de duas letras que revela toda a minha história, o meu passado, o meu presente, e o meu futuro – só! – completarei a minha sina. Farei a viagem do mundo sem um companheiro do meu sangue – só!... sempre só!...

E como se essa palavra tivesse realmente a significação que lhe ele dava, como se ela fosse a sua divisa, Cândido ainda uma vez repetiu com voz sonora e profundamente melancólica:

– Só! – sempre só!

Mostrou-se Anacleto impaciente; e, depois de coçar a cabeça por vezes, tornou:

– Não temos feito nada, meu caro. Vim aqui saber a razão por que deixou de ir à minha casa de um modo tão singular; e já temo bem retirar-me sem levar explicação alguma.

– Porventura não tenho eu dito bastante? esse ato é filho de uma excentricidade minha.

– E no entanto o que pensarão de nós ambos os nossos amigos?...

– Os seus amigos podem pensar o que quiserem a meu respeito: para mim é isso indiferente.

– E para mim?...

– O senhor lhes dirá que eu sou um louco, que me condeno a um inferno que eu mesmo tenho criado para atormentar-me. O senhor lhes dirá se quiser: “Aquele moço tem uma cabeça desarranjada, deixa a nossa sociedade agradável... obsequiadora e feliz, pela solidão e pelo isolamento: ele quer estar só... sempre só”.

– E se eu lhe rogasse que de novo freqüentasse a minha casa?... tomasse parte nos nossos prazeres?... fosse de novo um de nossos mais constantes companheiros dos serões?...

– Eu teria o imenso pesar de não poder servi-lo, respondeu com tristeza indizível o moço.

– Paciência, disse Anacleto; resta-me ao menos a convicção de que nunca o ofendi voluntariamente, e que fiz tudo o que estava de minha parte para provar-lhe a estima em que o tenho.

O velho ergueu-se pesaroso e quase ressentido.

Cândido apertou-lhe a mão com ardor, e disse:

– Não me desestime por isto... creia que o que faço, é o que devo fazer; creia que o que eu disse, é o que eu devia somente dizer... e o senhor, que é um dos poucos homens cuja mão me tem sido oferecida com lealdade e franqueza, sinta por mim antes piedade do que ressentimento.

– Serei o mesmo sempre; respondeu o velho dispondo-se para sair.

– Uma palavra ainda.

– O quê?... perguntou Anacleto.

– É um novo obséquio que lhe quero pedir. Provavelmente minha ausência tem admirado também a sua família

– Sem dúvida.

– Eu lhe rogo que em meu nome lhe ofereça minhas desculpas, e em particular à senhora sua filha. Quisera que ela tivesse conhecimento da obsequiosa visita que recebi: do que se passou entre nós, e do que enfim julguei dever responder, explicando o meu procedimento.

O velho olhou para Cândido como desconfiado do motivo desta última recomendação.

E a ela, e a todos, senhor, que possam mostrar-se curiosos das causas de minha irrevogável resolução, poucas palavras bastam para explicá-la, e para arredar de sua pessoa e de sua família a menor suspeita de uma ofensa ainda involuntária feita a mim, é de sobra dizer: “ele completa a sua sina – só... sempre só –”.

 

DUAS AMIGAS

ERA na tarde de domingo.

Anacleto e Mariana, obrigados a ir fazer uma visita de etiqueta, tinham acabado de sair para voltar antes de duas horas.

Celina e Mariquinhas subiram ao segundo andar e entraram no quarto da primeira.

Sentaram-se defronte uma da outra, junto da pequena mesa sobre a qual escrevera a “Bela Órfã” no dia antecedente.

Estavam ambas as moças vestidas de branco, e eram ambas muito bonitas. Celina, porém, mostrava-se meio perturbada e confusa; apoiou o cotovelo na mesa, descansou o rosto na face palmar da mão, e fechou um pouco os olhos como se quisesse dormir.

Era Mariquinhas três anos mais velha que a “Bela Órfã”, tinha dezenove anos; mas dera-lhe a natureza, com um gênio alegre e brincador, com uma tendência para faceirice e ambição de agradar, tanto talento, tanta viveza e tão fino instinto para viver no mundo e conhecê-lo, que pouco mais de quatro anos de vida de assembléias, de teatros e de reuniões tinham sido de sobra para ela dissecar a sociedade e suficientemente apreciá-la no que na sociedade há de relativo a uma moça bonita e solteira.

Mariquinhas tinha mesmo orgulho do que ela chamava – sua experiência. Discernia com suma habilidade a simples delicadeza do galanteio, o galanteio da paixão que se improvisa, e a paixão que se improvisa do verdadeiro amor.

Com sua experiência, pois, ela adivinhara que Celina estava já pagando o seu tributo de coração; e vindo nesta tarde ouvi-la confidencialmente, não quis esperar que sua amiga começasse a falar.

Conheceu que a “Bela Órfã” se achava perturbada e vergonhosa; e, querendo antes levá-la sem sentir ao principal objeto que as reunia do que começar logo a tratar dele, dirigiu-lhe a palavra em primeiro lugar:

– Estamos aqui mais à vontade, d. Celina; creio que ninguém nos virá perturbar...

– Ninguém...

– É que as moças têm mais necessidade de conversar em segredo do que os homens; creio mesmo que de cada vez que uma moça solteira fala à vista de muita gente não deixa decorrer seu perigo.

– Mas por quê?...

– Ora... porque vivemos em um mundo notável, principalmente por suas contradições a respeito de nós outras. Dizem que somos fracas e frágeis; por conseqüência não é verdade que deveria haver muita desculpa para nossos erros?...

– Sim.

– Pois a nós é que se não perdoam tênues faltas; uma leviandade é quase um crime. E às vezes uma simples palavra dita com a maior inocência deste mundo desafia escarcéus tais, que é melhor não falar, d. Celina.

– Oh! parece que é assim.

– Ah! os homens e as mulheres!... olha; as aparências são em verdade todas em nosso favor. Somos flores que se cultivam, belas estátuas que se admiram, lindas santinhas que se adoram... nas aparências, d. Celina.

– E a realidade?

– Oh!... isso é outra coisa. Os homens entenderam lá a seu modo a teoria das compensações; bem vês que nos não podiam dar tudo... guardaram o bom para si. Ninguém os chamará tolos por isso.

– E nós somos então...

– Ora... nós?... nós somos o que eles querem que nós sejamos; também!... olha, d. Celina, durmo todas as noites com um sossego que não há igual.

– E todavia ninguém dirá que isso se passa assim.

– Em parte nós temos a culpa.

– Como?

– Com sistema, com arte, mesmo com esta nossa fraqueza, nós poderíamos, apesar de tudo, valer muito, e conservar um poder que fazemos por abandonar. Eu sou moça, mas observo; às vezes quando me rio, estou pensando bem seriamente.

– E o que observas?... no que pensas?...

– Observo o sistema de vida que seguem minhas camaradas logo que se casam, e penso que eu havia, que eu hei de seguir um outro bem diverso.

– É um segredo que guardas para ti só?...

– Não, eu o quisera dizer a todas as do meu sexo; ou me engano muito, ou faríamos uma revolução; d. Celina, eu sou reformista... quero a reforma do sistema doméstico.

– Como é isso?...

Eu te vou dizer.

– Espera... disse a “Bela Órfã” erguendo-se; não sentiste chegar alguém à porta do quarto?...

– Não... mas vai ver sempre.

Celina chegou à porta, olhou para um e outro lado, não viu ninguém.

– Enganei-me, disse ela sentando-se de novo; fala agora, eu te escuto.

Mariquinhas começou a discorrer:

– D. Celina, eu não quero falar de uma moça que vive pobremente em solteira, e vai pobremente viver depois de casada cercada de privações e de filhos. Para essa, a misericórdia de Deus e a virtude, e gratidão de seu marido. Essa, coitadinha, já está por si mesma na posição em que mais se sofre física e moralmente, por si e por seus filhos. Eu quero somente falar naquelas que, podendo conservar-se de cima, no seio da felicidade, lançam-se por terra aos pés do infortúnio.

– Pois bem, disse Celina.

– Uma jovem senhora, bonita, moça como tu, ou como eu, que não é rica, mas que também não é pobre, que teve educação, que se estima, que é delicada, e que deseja fazer-se amar: o que faz ela?...

– O que faz ela?... perguntou Celina repetindo a frase de Mariquinhas.

– Encontrou um mancebo ardente, extremoso e belo; simpatizam ambos; falemos agora a verdade, d. Celina, como procede a moça? defronte de seu toucador empenha todos os esforços para se tornar mais bela, seus cabelos estão sempre atados primorosamente... há perfumes nos seus vestidos, fogo em seus olhos, graça em seus sorrisos, espírito em suas palavras, amor em toda ela, diante dele canta apaixonadamente; para agradar-lhe estuda com fervor a música, o desenho, a literatura, a dança, tudo; consegue o belo triunfo, faz de um namorado um escravo; seus pais aplaudem a escolha de seu coração... esse homem é enfim seu marido.

– E depois?...

– Depois?... essa moça não se lembra mais que a paixão esfria... oh! é incrível!... ela mesma trabalha involuntariamente por esfriá-la. De manhã seu marido a vê com os cabelos desgrenhados diante dele, erguendo-se do leito com os pés nus... o piano passa fechado meses inteiros... o canto lhe desagrada... o desenho a aborrece, ela não lê mais, não sorri, nem olha, nem fala, como sorria, olhava e falava dantes. E, se alguém lhe lança em rosto essa metamorfose, ela responde: “Consegui o que queria, o pássaro já está preso”. E a louca não pensa que o pássaro que pretendeu foi o amor desse homem, pássaro que vai fugir bem depressa.

– É assim, disse a “Bela Órfã”.

– Entretanto, continuou Mariquinhas, acontece o que devia acontecer: o coração do marido espanta-se daquela repentina mudança; procura ver de novo a bela moça de lindos cabelos, de escolhidas vestes, de olhar de fogo, de espirituosas palavras, de gracioso sorriso; e achando pelo contrário uma menina descabelada, sem graça, sem espírito, sem arte mesmo, recua... esfria, e às vezes desanima; e então grita a mulher contra a inconstância do homem. Falemos outra vez a verdade, D. Celina, o homem não tem culpa... a mulher que ele amava não é certamente essa, que então assim se lhe mostra.

– Oh! tens razão; é assim mesmo, exclamou Celina.

– E depois, qual é a vida que vive daí por diante a esposa?... uma vida de mentiras e de fingimento nas assembléias, e de frieza ou de indiferença em casa. Em casa toma a posição de criada grave de seu marido; por suas mãos a toma. Tem por prazer a costura, e por ofício determinar o almoço, o jantar e a ceia. Quando o marido chega da rua ralha com ele... quando o marido sai ralha com os escravos; donde lhe veio esse mau humor?... do ciúme!... acredita que já não é amada!... quem teve culpa disso?... ela mesma, que se fez outra.

– Continua, d. Mariquinhas.

– Ora agora, prosseguiu a moça, eu acho tão fácil, tão belo, tão nobre seguir-se uma vida absolutamente oposta a essa!... uma vida que faria ao mesmo tempo o encanto do marido e a felicidade da mulher.

– Dize... dize.

– Mesmo depois de casada, a moça não se enfeita com esmero para ir a uma assembléia?... quais são os pensamentos que a ocupam quando ela está defronte do toucador?... Dois, principalmente: primeiro, não ser sobrepujada, não parecer menos bela que as outras senhoras; este sentimento nasceu conosco, e nos acompanhará em todas as épocas de nossa vida; o segundo, é o desejo de agradar, por que, sem ofender nem levemente sua pureza de esposa, uma senhora pode querer, e quer agradar. Pois não é, d. Celina, uma contradição indesculpável, um erro que custa a defender, o esmerar-se uma senhora casada em agradar, em parecer bela aos outros, e esquecer-se, e não fazer um só esforço para mostrar-se bonita aos olhos de seu marido?...

– Sem dúvida; sem dúvida.

– A moça que acaba de casar-se, não tem necessidade de mudar muito em suas relações com o homem que recebe por marido. Seu melhor empenho, seu maior triunfo estaria em continuar a ser a namorada de seu esposo. Pode parecer que seja isso muito difícil, mas eu não o creio.

– Então como? fala.

– Por que não há de a moça empenhar para prender seu marido os mesmos meios de que ela se serviu para encadeá-lo quando se amavam solteiros?... quando de manhã aparecer-lhe, apareça-lhe penteada, vestida com simplicidade, mas sem negligência, com seu vestido apertado, fresca, louçã e bela, que, ou eu me engano muito, ou ganhará um abraço de seu esposo; gostava ele de ouvi-la cantar?... pois cante ainda, e cada vez mais aprimore sua voz. Dava-lhe prazer o piano? a harpa?... pois estude novas músicas, e em relação com o gosto do homem que ama; e converse com ele como dantes, meiga e pudibunda, e ao mesmo tempo amorosa; e, finalmente, sem deixar-se cair no ridículo (que seria então muito pior), obrigue a seu marido a ser ainda seu namora­do à força de namorá-lo. Seria isto um impossível?...

– Eu não sei, mas, fala ainda.

– E sobretudo o pudor, d. Celina!... o pudor da senhora casada não deve diferir muito do pudor de uma virgem; de cada vez que uma esposa se veste diante de seu marido, per­de um ano do fogo de amor.

– Oh! deve ser assim!

– O amor vive de mistérios, de imaginação, de segredos, de véus, de dificuldades, de oposição e de fogo; a realidade é fria como o gelo, a realidade o mata; a esposa deve aparecer aos olhos do esposo sempre pudibunda e recatada. Esse pudor, esse recato, esse rosto que cora, é uma espada cujo gume não se dobra nunca; assim ela será sempre bela, sempre nova para seu marido, cuja imaginação lhe dirá que ele não a compreendeu toda ainda, que o seu tesouro de inocência é inesgotável... e o amor não se há de acabar nunca, se na mulher houver sempre esse pudor que arremeda o da virgem, e no esposo houver sempre esse respeito que jamais falta a um homem delicado. O rubor da face de uma moça é tudo; uma senhora que cora ouvindo votos de amor de seu marido, não pode recear nem frieza, nem indiferença.

– Oh! D. Mariquinhas, exclamou Celina muito seriamente, d. Mariquinhas, tu és sábia.

Escutando a ingênua exclamação de Celina, Mariquinhas desatou a rir.

– Então eu te faço rir?...

– Pois então?... não me chamaste sábia?

– Mas é que tu dizes coisas que devem ser bem verda­deiras.

– Estimo que te aproveitem.

– A mim?

– Sim, algum dia poderão aproveitar-te.

A “Bela Órfã” sacudiu tristemente a cabeça e respondeu:

– A mim, não.

– E por quê?...

– Porque eu não me hei de casar.

– Ah! queres ser freira? tens vocação para o claustro?

Celina abaixou a cabeça.

– Dizem os homens que as moças têm duas maneiras muito notáveis de responder afirmativamente; que quando abaixam a cabeça e guardam silêncio, ou quando respondem simplesmente – não sei, – querem dizer que sim; mas eu sou capaz de jurar que desta vez tu, abaixando os olhos, d. Celina, quiseste dizer que – não.

– Começas a gracejar?

– Não, Deus me livre; a tarde deve acabar como principiou, séria e filosófica. Olha, d. Celina, há pouco me chamaste – sábia; – agora eu digo que somos duas filósofas. Quem nos ouvisse teria de achar-nos bem modestas.

– D. Mariquinhas!

– Vamos ao que importa: eu te fiz uma pergunta, e não quiseste responder-me; hei de arrancar-te a resposta à força. Fizeste há poucos dias dezesseis anos, d. Celina; eu sou mais velha três anos...

De repente começou Mariquinhas a rir-se muito.

– De que te estás rindo assim?

– Ora... de uma coincidência.

– Qual!...

– Tu hás de ser toda tua vida uma pobre inocentinha, e em toda tua vida precisarás de uma mestra bem complacente.

– Começas outra vez?

– Não, é verdade. Lembra-te que na noite em que fizeste treze anos, aqui, neste mesmo quarto, uma boa amiga foi tua mestra, e te explicou com bastante habilidade o que era certo sentimento que ignoravas; o que era amor.

– Oh! que bom tempo! disse Celina suspirando.

– E hoje, neste mesmo quarto, uma outra boa amiga tua te está dando lições de filosofia amorosa.

– Acabaste já?...

– De falar sobre a coincidência, acabei, mas agora vou tratar do que muito nos importa.

– Pois fala; mas não gracejes.

– Tens dezesseis anos, d. Celina, continuou Mariquinhas; és bonita, mesmo bem bonita, deram-te muitas prendas, deves ser sensível, e por conseqüência não te achas com voca­ção para o claustro.

– Por quê?...

– Porque já sabes o que é amar um homem, porque muitos cavalheiros sem dúvida já se prostraram diante de ti, já te juraram um amor imenso... desesperado... eterno... que há de passar além da morte; já te declararam muito positi­vamente que tua indiferença é capaz de matá-los...

– Oh! basta... que quer dizer isso?

– Quero dar-te um conselho de amiga.

– Qual?...

– Que não tenhas medo de que esses senhores se deixem morrer por tua causa.

– Ora, d. Mariquinhas...

– Que não acredites neles...

– Certamente que não.

– Escuta: quando um homem se chegar a ti e começar a fazer o elogio de tua beleza, como se fosse um poeta que recitasse um cântico, e depois a jurar amor, constância, paixão e ardor por toda a eternidade, desconfia dele; os homens que mais falam são os que mais mentem.

– E os que não falam?... perguntou Celina.

– Esses não dizem nada, respondeu Mariquinhas com in­genuidade.

– Ora, tornou a “Bela Órfã” com um movimento de desagrado, disso já eu sabia.

– Então o que é?...

– Dizes que não devemos acreditar naqueles que falam muito e juram sempre; bem. E naqueles que de longe nos olham medrosos... tristes... modestos... mas que nos olham com fogo, e que abaixam a cabeça quando suas vistas se encontram com as nossas?

– Esses, respondeu Mariquinhas, das duas uma, ou amam deveras, e pela primeira vez na vida, ou são piores que todos, são hipócritas.

Fez a “Bela Órfã” um novo movimento de impaciência.

– E como distinguir?... perguntou ela.

– Estudando-os em seu proceder.

Celina calou-se.

– Tu tens uma história para me contar, disse Mariquinhas abraçando-a.

– História?...

– Sim: a história de um moço triste e modesto que te ama, que nunca te falou de amor, mas que te olha com olhos de fogo.

A “Bela Órfã” corou.

– Somos duas amigas... quase da mesma idade; que pejo é esse?

– Eu não sei.

– Fala.

– Não ouviste outra vez rumor à porta?

– Qual! é a tua imaginação.

– Vou ver sempre.

Celina foi de novo à porta do quarto; olhou para um e outro lado, e não viu ninguém.

Fala agora.

Ah! D. Mariquinhas! exclamou Celina caindo nos bra­ços da amiga; eu sou bem infeliz!...

 

CONFISSÃO DE AMOR

CELINA estava muito comovida.

– Anima-te! disse Mariquinhas.

– Tu já amaste? perguntou aquela.

– Agradecida pelo cumprimento, respondeu-lhe a amiga. Com que, tendo eu apenas dezenove anos, entendes que já não posso responder senão pelo passado?

– Pois bem, d. Mariquinhas, tu amas?

Vamos mal: eu vim para perguntar, e não para responder.

Mas tu amas?

– Desconfio que sim.

– Pois somente desconfias?

– És muito simples, d. Celina.

– Por quê?

– Porque ainda não sabes que entre nós, as moças, desconfiar, neste assunto, é saber de certo.

– Ah!...

– E tu?

– Eu?... então se tu amas deves ter sofrido muito.

– Sim... sim... sempre se sofre mais ou menos; e tu?...

– Eu também.

– Conta-me isso.

– Não se pode contar o que eu sofro.

– Mas por quê?

– Parece que não é nada, e é muito: é uma dor... um desassossego... um abalo interno que se não pode explicar.

– Pois basta que me contes a história do teu amor; farei idéia de tuas penas pelas minhas.

– Eu penso que amo...

– Sim... compreendo... desconfias que amas.

– Mas olha, d. Mariquinhas, eu não amei por minha vontade... foi sem sentir...

– Sim... sucede a todas nós isso mesmo.

– Foi pouco a pouco que esse sentimento entrou no meu coração... eu não desconfiava disso, aliás saberia combatê-lo...

– Debalde!

– Quando me veio ao pensamento que eu poderia estar amando... quando caí em mim, oh!... tudo foi em vão... era já muito tarde.

– Tal qual sucedeu comigo.

– Chorei muito, d. Mariquinhas, chorei muito... uma noite inteira... e tu?

– Eu?

– Sim; tu choraste também muito?

– Eu não, d. Celina.

– Mas por quê?

– Por duas razões; primeira, porque eu desejava amar.

– É possível?!

– Eu fazia uma idéia muito engraçada do amor; há porém muitas moças que pensam como eu. Pensava que o amor era para uma moça o mesmo que a boneca para uma menina, um passatempo inocente, um brinquedo que se deixa quando nos aborrece, e nada mais; por isso eu desejava amar.

– Que louca!

– Depois, eu não devia também chorar; não tinha de quê; o homem que eu amei era e é digno de mim.

– Certamente não foi por pensar o contrário disso que eu chorei, respondeu Celina corando.

– Então por que foi?

– Também não sei. Ficava só neste quarto pensando... fantasiando tantas coisas... tantas coisas... depois ia, sem saber por que, tornando-me triste... triste... até que desa­tava a chorar.

– E depois?

– Depois que chorava, eu me sentia um pouco mais aliviada de uma dor que não se pode dizer como é; continuava a pensar... a fantasiar outra vez... de novo me entristecia, e de novo chorava.

– Pobre d. Celina!...

– Olha; e nem uma só vez me tenho rido...

– Mas essa tristeza?

– É a um tempo muito amarga e muito doce; se me dessem a escolher uma festa, um baile, um belo passeio, uma noite de teatro, ou uma hora de solidão, de isolamento com a minha querida tristeza, eu te juro, d. Mariquinhas, que preferiria essa hora de pranto a essas noites de prazer.

– Eu compreendo...

– Oh! pensar nele, exclamou Celina, que se ia exaltando pouco a pouco; pensar nele!... ter sua imagem dentro do coração, e ao mesmo tempo diante dos olhos!... estar ele ausente, e eu vê-lo ao meu lado... ouvir a sua voz tão doce! tão meiga! tão melancólica! sentir o toque de sua mão que me causa um abalo indizível; o roçar de sua roupa com a minha em uma curta passagem, que me faz estremecer vivamente... vê-lo andando garboso e engraçado, ouvi-lo a cantar um hino de amor tão terno... não existir nada disso, e estarmos vendo e ouvindo tudo isso... oh! é muito! faz com que instintivamente ergamos mãos ao céu, e clamemos: “bendito seja Deus que nos deu a imaginação, para na ausência vermos e ouvirmos assim aquele a quem tanto amamos!...”

– Tens razão, d. Celina!

– Oh! é sublime! prosseguiu a moça; isso é tão belo, tão encantador, tão mágico, que eu fico às vezes uma hora inteira, mais de uma hora, em contemplação, enlevada nessas delícias, nessas imagens, entre o céu e a terra, porque esse estar assim, esse gozo tem por força alguma coisa de celeste. E por fim, d. Mariquinhas, sem querer, sem sentir, no meio desse sonho de vigília, sem sofrer dor alguma, não sei por que mesmo as lágrimas caem em rios de meus olhos...

– E choras?

– Pranto bem doce! é bom quando se chora assim!...

– Meu Deus!

– Tu não choras nunca assim, d. Mariquinhas?

– Nunca.

– Infeliz! disse a “Bela Órfã” olhando com piedade para a amiga que a escutava admirada.

– Eu infeliz? por não chorar?

– Oh! sim!... porque há certas lágrimas que dão um prazer que está acima de todos os prazeres!

– Então tu és bem ditosa?

– Não.

– Como, pois, esse prazer?

– Ah! não me sacia nunca.

– E então...

– Eu sou como aquele que está devorado por ardente febre: com fervor leva aos lábios um copo d’água... esgota-o... e de novo mata-o a sede. Amar é também uma febre... não é?

– Eu já não digo palavra, respondeu Mariquinhas; estás mais adiantada do que eu.

– É porque tu não amas.

– Mas nota que tenho observado muito.

– Engano! amor não se observa... sente-se!

– Todavia tu és contraditória, d. Celina.

– Como?

– Começaste queixando-te de tuas lágrimas, e acabaste abençoando-as.

– É porque nem todas são da mesma natureza. A imaginação, que não é nossa escrava, a imaginação, livre, independente como as aves da floresta virgem, se às vezes me oferece um quadro de esperança, de amor e de saudade, outras vezes, d. Mariquinhas, cria fantasmas que atemorizam, fantasmas horríveis que bradam a meus ouvidos... que entoam o hino infernal, o hino do desespero resumido em uma palavra fatal...

– Qual?

– Impossível!...

O som com que a “Bela Órfã” pronunciou essa palavra foi tal, que tanto ela como Mariquinhas se deixaram ficar caladas durante algum tempo, tristes e pensativas.

No entanto serenou o ardor que fizera Celina exprimir-se com tanta viveza, de modo que, quando Mariquinhas quis continuar a conversação, já a achou perturbada e comovida como no princípio.

– Mas, d. Celina, ainda me não disseste o que eu desejo principalmente saber.

– O quê?

– Quem é o venturoso mancebo que tanto merece de ti.

A “Bela Órfã” hesitou.

– Se eu não quisesse saber também tudo quanto se tem passado entre ele e ti, continuou Mariquinhas, abster-me-ia de fazer-te esta pergunta.

– Por quê?

– Porque não acho muita dificuldade em adivinhar o nome daquele que amas.

– Já o adivinhaste, d. Mariquinhas?

– Ora!...

– Desde quando?

– Desde antes de teus anos.

– Foi na verdade bem cedo, respondeu Celina; porque então eu mesma apenas o suspeitava.

– Não duvido; isso acontece. Mas então dizer-mo?

– Para que, se tu já sabes?

– Seria possível que eu estivesse em erro.

– És muito viva para te enganares.

– Pois bem, dir-te-ei eu o nome, é  porém  com uma condição.

– Qual?

– Se eu acertar, hás de confessá-lo.

– Sim.

– Chama-se...

 Celina olhou para Mariquinhas.

– Cândido.

 A “Bela Órfã” abaixou a cabeça.

– Adivinhei?

– Adivinhaste, murmurou a moça.

– Levanta a cabeça; conta-me o que tem havido; não foi para isso que nos reunimos hoje?

Celina pensou um momento e disse:

– Sou uma louca.

Tu?...

Sim; mas ao menos a minha loucura poderá agora ser-me útil.

– Como?...

– Escrevi o que se tem passado comigo...

– A história do teu amor?...

– Sim...

– Um romance?!

– Não... uma verdade.

– Como não?... pensas que os romances são mentiras?...

– Tenho certeza disso.

– Neste ponto estás muito atrasada, d. Celina; os romances têm sempre uma verdade por base. O maior trabalho dos romancistas consiste em desfigurar essa verdade de tal modo que os contemporâneos não cheguem a dar os verda­deiros nomes de batismo às personagens que aí figuram.

– Pelo que ouço, d. Mariquinhas, tu já escreveste!

– Não, mas conversei já com um moço que escreve. Vamos porém ao nosso caso; deixa ver o teu romance.

– A minha história, tornou Celina, que abrindo a gaveta da mesa tirou algumas folhas de papel, e entregou-as com mão trêmula a Mariquinhas.

– “História do meu amor”, disse esta lendo; ah! eu tinha adivinhado o título.

– Peço-te que leias para ti só; eu me envergonharia muito se te ouvisse ler alto.

Mariquinhas começou a leitura da história do amor de Celina.

A “Bela Órfã” acompanhava com os olhos todos os movimentos, todas as impressões que aquela leitura produzia em sua amiga, corando se esta sorria, animando-se, tremendo, e confundindo-se segundo as expressões fisionômicas da leitora.

Quando Celina viu que os olhos de Mariquinhas volviam-se correndo pelas últimas linhas da derradeira página, abaixou de novo a cabeça, envergonhada e confusa.

– Bravo, d. Celina! estás em bom caminho para romancista; mas repara que não podes aproveitar muito no nosso país.

– Não zombes.

– Falo séria; porém, dize que destino pretendes que tenham estes papéis?...

– Que destino?... o fogo.

– O fogo?!

– Sim; queimá-los-ei, respondeu soltando um suspiro a “Bela Órfã”.

– Não; não cometerás um parricídio. Quando tua mão se erguer para lançá-los às chamas, tua alma, eu o juro, cantará os versos de Torquato: “Ah! não seria possível”.

– Pois então que poderia eu fazer deles?...

– Quem sabe?... estes papéis guardam-se. É possível que cheguem um dia às mãos do feliz mancebo que te moveu a escrevê-los.

– Oh! Deus me livre!...

As duas moças calaram-se de repente, sentindo que alguém subia a escada. Celina guardou os papéis na gaveta donde os tinha tirado.

Apareceu uma escrava à porta do quarto.

– O que é?... perguntou Celina.

– O sr. Salustiano, respondeu a escrava.

– Dize-lhe que meu avô e minha tia saíram, respondeu “Bela Órfã”.

– Mas que nós descemos já para recebê-lo, acrescentou Mariquinhas.

– Não!

– Sim! vai: dize-lhe que o vamos já receber.

A escrava desceu.

– Que queres fazer, d. Mariquinhas?...

– Conversar, divertir-me.

– Oh! porém tu me comprometes; este homem é um maldito impertinente...

– Melhor.

– Requesta-me... diz-me loucuras.

– Ótimo.

– Eu o aborreço.

– Por isso mesmo.

– Que queres pois?...

– Rir-me.

– Então entendes que devo...

– Zombar dele.

– Como?...

– Como te parecer.

– Mas eu não sei fingir.

– Pois desengana-o; isso também me diverte. Ainda não vi como fica o rosto de um desenganado.

– Tu és louca.

– Vamos!

– Hei de arrepender-me deste passo.

– Ao contrário, prevejo que terás de agradecer-me. Vamos! Não te lembras que o sr. Salustiano nos espera?

Mariquinhas tomou a mão da “Bela Órfã”, e levou-a quase à força para o andar inferior.

Quando as moças acabavam de descer a escada, correu-se a cortina que tapava a portinha do fundo, por onde se comunicavam as câmaras de Mariana e de Celina.

Um homem aproximou-se com precaução e cuidado da mesa, junto da qual tinham as moças conversado.

A gaveta dessa mesa estava fechada, mas Celina havia-se esquecido de tirar a chave.

O homem abriu a gaveta, tirou dela os papéis que continham – a história do amor da “Bela Órfã” – e saiu com tanto cuidado e precaução como entrara.

Esse homem era o velho Rodrigues.

 

ELAS E ELE

ENTRARAM as duas moças na sala, e Salustiano, que se tinha recostado a uma janela, voltou-se para recebê-las.

Sentaram-se todos três.

Era bem de estudar-se a expressão fisionômica de cada uma daquelas três personagens.

Celina, que havia sido trazida quase à força para a sala, mostrava-se contrafeita e acanhada; sentou-se bem unida a Mariquinhas, cuja mão apertava como procurando uma defesa.

Salustiano esforçava-se para ostentar a impassibilidade de que se jactava; mas não podia esconder de todo a comoção que sentia na presença da moça que amava, e o quanto o contrariava uma terceira pessoa, que ele não queria encontrar ali naquela ocasião.

Mariquinhas completava o grupo. No meio dos dois desapontados aparecia risonho, belo e malicioso o rosto da interessante moça. Seus olhos vivos e travessos confundiam realmente Salustiano, que, a pesar seu, já não tinha sarcasmos para suas palavras, nem para seus sorrisos.

– Sinto havê-la incomodado... tinha dito Salustiano muito desenxabidamente.

– Oh! não, não nos incomodou, respondeu Mariquinhas; deu-nos ao contrário muito prazer.

– Seria isso possível?... perguntou o moço, fitando os olhos em Celina.

– Pois ainda duvida?... tornou a primeira.

– Perdão, minha senhora; mas considero tão subida essa felicidade que muito me custa acreditar nela.

– Ora esta!... eu achava a coisa muito simples!

– Talvez para V. Exa.

– Digo mesmo que a sua visita foi um verdadeiro obséquio que V. Sa. nos fez.

– Lhes fiz?! V. Exa. fala em nome de mais alguém?... perguntou sorrindo-se o moço.

– Certamente: falo também em nome da minha amiga.

Celina apertou com força a mão de Mariquinhas.

– Ai! não me apertes a mão, d. Celina!...

– Ora, d. Mariquinhas, você está sempre brincando!

– Mas, como eu dizia, V. Sa. nos fez um verdadeiro obséquio aparecendo aqui.

– Bem... suponhamos que V. Exa. não está apenas dizendo palavras muito lisonjeiras; suponhamos que eu tenho a vaidade de acreditar que fiz um verdadeiro obséquio a V. Exas. aparecendo aqui; devo porventura concluir que eu era esperado e desejado?

Mariquinhas pensou um momento; sorriu-lhe a malícia nos lábios, e depois respondeu:

– Esta d. Celina compromete as amigas terrivelmente! é capaz de conservar-se em silêncio um dia inteiro!

– Tenha V. Exa. a bondade de responder por ela.

– Pois bem: digo que não era positivamente V. Sa. quem desejávamos ver.

– Eis aí o que eu não compreendo.

– Queríamos a presença de um de certos cavalheiros, e V. Sa. serve-nos a mil maravilhas.

– Posso saber para quê?...

– Para um estudo particular.

– Ora!... eis-me compreendendo ainda menos do que ainda há pouco.

– Trata-se de um segredo de moças.

– Bem... não perguntarei mais nada.

– Oh! pelo contrário, pergunte. Eu sou como as outras; quando tenho um segredo, fico louca para contá-lo a todos; na alma de nós outras, um pensamento que se não deve revelar não é um segredo, é um martírio.

– Então, o que é segredo?

– Para as moças?...

– Sim, minha senhora, o que é um segredo para as moças?

– É uma coisa que se diz baixinho aos ouvidos de quase todos.

– Pois, nesse caso, minha senhora, peço a V. Exa. que, se me julgar digno disso, diga-me o seu segredo, ainda que seja baixinho.

– Oh! este pode-se contar em voz alta.

– Se portanto me supõe digno...

– Sem dúvida que o julgo; até V. Sa. nos há de servir de muito.

– Estou à espera, minha senhora.

– Trata-se de um romance...

– De um romance?!

– Sim, de um romance, que d. Celina e eu estamos compondo.

– Parabéns, minhas senhoras; mas eu não sei... V. Exas. querem porventura um terceiro colaborador?...

– Qual?...

– Eu. V. Exa. tinha falado em mim.

– Deus nos livre! perderíamos a glória de autoras.

– Por quê?

– Os senhores homens custam muito a julgar-nos capazes de escrever; e portanto era V. Sa. quem ganharia todas as honras da obra.

– Mas esse romance..

– É uma história de todos os dias e de todos os salões.

– Já está completa?

– A invenção completamos hoje; mas a execução nos está dando muito que fazer.

– O que falta?

– Quase tudo; atrapalha-nos grandemente uma das principais personagens.

– Por quê?

– Pela dificuldade de descrevê-la; mas V. Sa. chegou muito a tempo.

– E então?

– Então, é que enquanto nós conversamos, d. Celina vai tomando nota.

– Nesse caso eu...

– V. Sa. ou outro qualquer... V. Sa. é como quase todos...

– Obrigado, minha senhora.

– Cortou-me a palavra; não tem que agradecer-me, pois não sabe o que eu ia dizer.

– Adivinhei.

– Dou-lhe parabéns: veja se adivinha também o nosso romance.

– Não chego a tanto, minha senhora.

– Quer que lhe tracemos o esqueleto da nossa obra?...

– Terei muito prazer em ouvir a V. Exa.

– Não poderá fazer uma justa idéia do que será, pela falta dos episódios e dos diálogos.

– Oh! mas eu compreendo o que poderá fazer uma pena manejada por quem deve à natureza tanto espírito como V. Exa.

– Agradecida.

– Creia V. Exa. que faz um relevante serviço à tão atrasada literatura do país.

– Muito agradecida, respondeu Mariquinhas rindo-se, e sem dar mostras de doer-se da ironia com que Salustiano tentava feri-la.

– Era uma necessidade que desde muito palpitava, tornou Salustiano; o céu devia ao Brasil uma Stael, uma George Sand.

– Mil vezes agradecida; mas então V. Sa. não quer ouvir o nosso romance?

– Estou pronto, minha senhora.

– Trata-se de amor.

– Eu o previa.

– É uma jovem senhora de cabelos castanhos quase pretos, olhos de safira, lábios de coral, rosto pálido, enfim, uma jovem senhora bela e muito parecida com d. Celina.

– D. Mariquinhas, basta!... isso é quase demais! disse a “Bela Órfã”.

– Quem fez a pintura da moça fui eu, e portanto posso falar. A respeito do protagonista falará então você.

– Continue, minha senhora.

– Pois bem: essa moça, a quem eu ainda não dei nome, ama um jovem modesto e bonito, e é por ele apaixonadamente amada; mas o jovem é pobre e acredita que sua pobreza é um muro de bronze erguido entre ele e a bela de seus pensamentos.

Salustiano empalideceu sem querer, ouvindo as últimas palavras de Mariquinhas. Começava a compreender o que queria dizer aquele romance.

– Acha-se incomodado?... perguntou Mariquinhas encarando Salustiano.

– Oh! não! pelo contrário,..

– Cheguei a pensá-lo, sr. Salustiano, porque V. Sa. mu­dou de cor.

O mancebo serenou, e respondeu sorrindo:

– Ah! foi efeito da interessante narração de V. Exa. Sensibilizei-me... realmente o seu romance é muito sentimental... toca no coração.

– Sim.. sim, tornou a moça; eu creio bem que ele tocará o coração de V. Sa.

– Mas, concluiu-se?...

– Certamente que não; ficaria sem sentido, sem pés nem cabeça.

– Era mesmo assim excelente... estava na moda; porém já que o romance não termina aí, quererá V. Exa. ter a bondade de contar-me o resto?

– Pois não! com sumo prazer; temos, como eu dizia, uma moça bela e um jovem pobre que se amam muito... romanescamente; até aí não há senão um idílio; imaginamos pois, imaginamos não, foi d. Celina quem imaginou uma espécie de tirano de comédia, um outro namorado da heroína, um mancebo rico, honrado, e vaidoso de sua fortuna, que se vem erguer como uma barreira terrível entre os dois amantes.

Celina apertava a mão de Mariquinhas de instante a instante; mas não se atrevia a dizer palavra.

– E depois?... perguntou Salustiano.

– Depois as cenas se sucedem... deverão haver lutas domésticas, esperanças que morrem e revivem... jogo de afetos... e finalmente..

– Finalmente...

– Boa pergunta! por fim de contas triunfa o amor inocente e puro... triunfa a inspiração de Deus... o moço pobre alcança a mão da moça bela.

– E o outro?

– O outro!... exclamou Mariquinhas dando uma risada; o outro deve muito provavelmente ficar com cara de tolo.

Salustiano mordeu os beiços. Mariquinhas prosseguiu:

– Mas veja... estávamos em uma verdadeira dificuldade!

– Qual?...

– Não sabíamos como descrever o tal sujeito rico, ousado e vaidoso...

– Ora! que modéstia a de V. Exa!... com tanta imagina, espírito tão atilado...

– Sim... sim... porém nós queremos seguir à risca a natureza... procurávamos pois um original, quando V. Sa. chegou.

– O último golpe acabava de ser dado tão diretamente que Salustiano corou até a raiz dos cabelos.

– Compreendo tudo, minhas senhoras!...

– Ora... pois o que compreendeu?

Salustiano pensou alguns momentos, e depois respondeu:

– Que devo também escrever um romance.

– Ah! disse Mariquinhas, então isto é contagioso?!

– Creio que sim, minha senhora.

– Tanto melhor, tornou a moça rindo-se; creia V. Sa. que faz um relevante serviço à tão atrasada literatura do país.

– Agradecido.

– Eu estou pensando já no muito que poderá fazer uma pena manejada por quem deve à natureza tanto espírito como V. Sa.

– Muito agradecido.

– Era uma necessidade que desde muito palpitava; o céu devia ao Brasil um Cooper, um Walter Scott, um Dumas.

– Mil vezes agradecido.

– Quando começa a escrever?...

– Ora... já está metade escrito.

– Já!.. e então!...

– É o mesmo de V. Exas.

– O mesmo?... não... não... seria um triste roubo feito a duas pobrezinhas.

– Mas o meu romance, que se parece muito com o de V. Exas. até o meio, difere completamente no fim.

– Como?

– No meu romance triunfa o moço rico, o ousado e vaidoso...

Celina ergueu a cabeça nobremente, e fitou os olhos em Salustiano.

– Crê então, que isso chegue a ser verossímil?... perguntou Mariquinhas.

– Não será somente verossímil, tornou Salustiano elevando a voz com incrível audácia, ha de ser também uma rea­lidade.

– Bravo!... exclamou Mariquinhas; isto me está parecendo um desafio.

– Pois seja um desafio; veremos qual dos dois romances se realiza.

– Aceito, disse, levantando-se, a “Bela Órfã”.

O rosto de Celina estava aceso de rubor e de cólera: em pé, ela encarava Salustiano com olhos cheios de fogo.

– Minha senhora... ia murmurando o moço.

– Eu lhe disse que aceito o desafio, senhor!... exclamou Celina. Não é bem claro isto?

Reinou então silêncio por alguns instantes, até que Salustiano despediu-se com seu sorrir sarcástico nos lábios, e saiu com o desespero e a raiva no coração.

– Bem bom! bem bom! disse Mariquinhas batendo palmas com uma alegria infantil.

– Fizeste mal, d. Mariquinhas.

– Pois sim... concedo, fiz mal; porém tu, d. Celina, fizeste muito bem.

– E agora?... quem sabe o que me espera?...

– Que nos importa o futuro? o futuro é de Deus.

– Mas eu preciso que me animem; eu sou fraca e sou só.

– Vem portanto animar-te... subamos ao segundo andar.

– Para quê?...

– Vamos ler de novo a história do teu amor.

– Oh!... sim!... tu és louca como eu, d. Mariquinhas; mas o que acabas de dizer deve ser verdade.

– Vamos pois...

– Vamos.

As moças subiram a escada correndo, como duas crianças travessas; entraram no quarto de Celina... abriu-se a gaveta onde deveria estar a história do amor da “Bela Órfã”...

– Os meus papéis!... exclamou esta.

– Que há então?... perguntou Mariquinhas.

– Eu os tinha posto aqui.

– É certo..

– Oh!... furtaram-mos!...

– Meu Deus!...

– Os meus papéis!... a minha história!... exclamou dolorosamente a “Bela Órfã”.

– Como pode ser isto?...

– Onde estarão eles?...

– Quem entraria aqui?... perguntou Mariquinhas.

– Eu não sei... eu não podia ver!... o que eu sei, o que eu vejo é que estou perdida. Oh! isto foi uma desgraça!...

Quem sabe?... disse Mariquinhas com ar pensativo; também pode ser que seja uma felicidade.

 

O VELHO RODRIGUES E CÂNDIDO

O VELHO Rodrigues apareceu à porta do sótão do “Purgatório-trigueiro”, e ficou aí parado alguns instantes.

Cândido estava só, e tinha os olhos fitos na porta; mas não dizia palavra.

Era porque o moço estava olhando, porém não estava vendo.

Há alguns homens no mundo que têm freqüentemente horas inteiras passadas assim; horas em que, concentrados em um mundo interior, nada vêem, nada ouvem, nada sentem do que se está passando ao redor deles.

Serão pobres loucos ou entes privilegiados esses homens?

Há muitos que deles se riem, ou que deles têm piedade. Deixá-los rir... deixá-los ter piedade.

O velho Rodrigues falou:

– Sr. Cândido!

– Quem é? perguntou o moço erguendo-se, e como despertando de um sono afadigado.

– Sou eu... um velho amigo.

– O sr. Rodrigues... ah! entre, sente-se.

– Não, preciso voltar já; é pouco o que tenho a dizer-lhe.

– Como quiser... eu lhe escuto.

– Sr. Cândido, foi bem triste a última vez que nos vimos; foi em uma noite de prazer e de dor; noite em que na mesma casa e ao mesmo tempo soavam cantos alegres e corriam lágrimas amargas.

– Já passou tudo isso... esqueçamos.

– Não; lembremos antes, mancebo. Nessa noite uma intriga foi forjada, e a calúnia venceu então a verdade.

– Senhor... para que falar nisso?

– Uma mulher caluniou a outra mulher. As portas do “Céu cor-de-rosa” lhe foram fechadas em nome da “Bela Órfã”... A mulher que intrigava, depois de lançar mortal veneno em seu coração, deixou-o só no jardim, e eu apareci então... e o que lhe disse? lembra-se?

– Não; tudo esqueci... o teatro, o drama, as personagens... tudo está esquecido; nem quero outra vez lembra-me.

– Oh! mas é preciso lembrar-se! ouça pois: eu apareci então, e disse: “aquela mulher mentiu!”

– Não mentiu! respondeu com força o mancebo.

– Foi isso mesmo o que me disse, sr. Cândido; mas eu jurei a mim mesmo provar-lhe que a “Bela Órfã” fora caluniada, e que o senhor ofendia a pureza, a virtude de uma inocente moça sustentando uma calúnia.

– Ah! Sr. Rodrigues... murmurou meio comovido o moço.

– Eu jurei que havia de confundi-lo com a verdade, e de castigá-lo com o arrependimento...

– Mas para quê?...

– Para quê? para que justiça fosse feita a uma interessante virgem; para que bálsamo consolador fosse derramado no coração de um desgraçado.

– E quem é esse desgraçado?

– É o senhor.

– Tem razão; eu o sou.

– Eu quero que a esperança amanheça de novo em sua alma... que arrependida sua alma se ajoelhe ante a imagem da mulher que amava tanto...

– Senhor... basta.

– Que o seu arrependimento e a sua esperança façam de novo falar a sua alma; que outra vez de joelhos ante a imagem da bela virgem a sua alma exclame com ardor... – eu te amo!

– Senhor, senhor, é preciso que eu lhe diga que considero meu inimigo aquele que me fala de amor?

– É uma loucura.

– Que o fogo da vergonha ainda queima meu rosto, quando me lembro do que comigo se passou nessa horrível noite?

– Mas o bafo da virgem há de apagar esse fogo.

– Senhor! nem mais uma palavra sobre ela.

– E as provas de sua inocência?

– Eu não as quero.

– Para condená-la sempre?...

– Não a condeno.

– E o amor que lhe tinha?...

– Eu amo a minha mãe.

– E o amor dessa pobre virgem?...

– Senhor!

– Esse amor angélico?! esse perfume de flor que se desabrocha?... esse amor...

– Basta... é demais.

– Não quer ouvir-me então?...

– Dispense-me disso, sr. Rodrigues.

– Não me acredita?.

– Não.

– E se eu provar o que digo?...

– É inútil.

– Embora, eu o provarei.

– Mas com que fim?... que lhe importa a minha desgraça ou a minha felicidade?...

O velho olhou fixamente para Cândido e disse com voz grave e pausada:

– Pode ser que me importe mais do que pensa. Quem sabe se o seu passado, que é tão escuro para todos, não é bem claro para mim?...

– Oh!... exclamou Cândido: fale pois!... eu lhe escu­to...

– É tarde; eu já devia ter voltado.

– Mas...

– Eu lhe deixo estes papéis, sr. Cândido; peço que os leia... e que os guarde.

O velho Rodrigues tirou então do bolso algumas folhas de papel e as deitou sobre a mesa.

– O que contêm estes papéis?... perguntou Cândido com viva curiosidade.

– Uma história.

– A minha história?...

– Também é sua.

O velho retirou-se vagarosamente, e Cândido foi buscar uma luz, e abrindo a primeira página daqueles papéis leu:

HISTÓRIA DO MEU AMOR

 

UMA HORA DE LEITURA

DEVEREI eu ler estes papéis?... falou Cândido consigo mesmo. Não haverá aí veneno espalhado nessas páginas?... não será fraqueza ceder a um desejo que não passa de pueril curiosidade?... Não! estou determinado; pode rolar um século sobre essa mesa e não os hei de ler nunca.

Mas ele não podia arrancar os olhos dos papéis que lhe deixara o velho, e passados alguns minutos pensou já de outro modo; pensou assim:

– É que também, se eu os não ler, podem julgar que desconfio de mim mesmo... que tenho medo de amar ainda... que não sei triunfar de uma paixão de dois dias... é isso; podem julgá-lo. Pois eu lerei... mas hoje não; mostrarei a minha indiferença não lendo hoje; provarei que nada receio lendo amanhã; estou determinado.

E passado ainda um certo espaço, o mancebo mudou outra vez de resolução, e disse consigo:

– Mas isto, sim, é que é puerilidade! ler amanhã ou hoje, é sempre acabar por ler; e que tem isso?... que impressão me pode causar esta leitura?... e que me importa o juízo que de mim quiserem fazer?... eu sou pobre... eu sou só... eu sou portanto bem livre.

E abrindo a primeira página começou a ler.

HISTÓRIA DO MEU AMOR

Eu já fui como uma flor que se desabotoa; sou agora como uma pomba, que geme solitária.

Quem sabe o que eu virei a ser ainda?... pobre órfã que sou, o meu porvir está tão escuro!...

Até a idade de quinze anos eu fui como uma flor que se desabotoa.

Meus pais viviam ainda, e eu passava uma vida tão feliz....! eu era a florzinha de meus pais; o jardim que eu perfumava era o coração deles.

Meu pai me chamava o seu anjo; minha mãe dizia que eu era a sua alma; e eu via bem que eles sentiam isso que diziam.

As palavras de meu pai eram tão ternas!... os carinhos de minha mãe eram tão doces!... oh! palavras e carinhos, como esses... oh!... nunca mais.

Eu era tão feliz... de manhã erguia-me, dava graças a Deus, meu pai e minha mãe me beijavam, e depois eu ia brincar.

Como eu fui travessa! às vezes, quando me tornava por demais traquinas, meu pai se fingia enfadado, e me dizia: ”Celina... aquieta-te... tu estás ficando feia”.

E minha mãe me defendia dizendo: “deixa-a brincar; ainda é feliz!... quem sabe se há de ser sempre como hoje!..”

Oh! minha mãe adivinhava com o coração! o amor dos pais é assim... profetiza.

E meu pai se tornava melancólico; abraçava-me, beijava-me, e com os olhos úmidos de lágrimas me dizia: – vai brincar.

Oh! sim! bem feliz!... bem feliz!... a minha vida era um laço de cem amores. Eu amava a Deus, amava a meus pais, amava a meus parentes, amava os pobres, e amava as flores.

 

Amava as flores!.

Como e quando foi que começou esse amor, não sei bem explicar: quando pensei... já as amava.

No berço brinquei com flores... ensaiei meus primeiros passos para ganhar uma flor que minha mãe de longe me mostrava; quando pude correr, meu pai me deu um jardim.

Desde então, quando a aurora aparecia, já me encontrava no jardim; eu gostava do primeiro raio do sol.

Os primeiros raios do sol e as flores foram as camaradas que brincaram comigo na infância.

Eu amava as flores; gostava de acompanhar a vida de um botãozinho de rosa, que se ia desabrochando pouco a pou­co, como um pensamento de amor na alma de uma criança.

Depois eu fiz treze anos, e na noite em que eu fiz treze anos, tive um sonho com flores: sonhei com um botão de rosa.

Que sonho!... é uma das doces recordações do meu passado; eis aqui como foi o meu sonho.

 

Eu pois acabava de fazer treze anos: era ainda como a flor que se desabotoa.

Mas quando completei o terceiro lustro, a morte esvoaçou ao redor de mim, e não me feriu, nem me matou. Oh! eu minto: matou-me duas vezes, porque de um só golpe me arrancou pai e mãe.

Por que não fui eu que morri, meu Deus?... eu, que nada era, nada sou, que nada serei no mundo?

Eu, que nesse tempo tinha somente sorrisos para a vida, e que, apesar disso, morreria sorrindo também; porque creio em Deus que me há de salvar!

Oh! que hora tremenda foi essa, em que eu tive de receber duas solenes bênçãos de despedida, lançadas pelas mãos já frias de meu pai e de minha mãe!

Oh! que hora tremenda foi essa, em que eu tive de partir em dois pedaços um adeus de agonia!

Não se morre de dor.

Eu vi morrer ambos... meu pai e minha mãe. Eu vi... e não morri então; eu os estou vendo... e não morro ainda.

Eu estava... tinham-me posto de joelhos junto ao leito de meu pai; era a hora terrível.

Meu pai voltou o semblante para mim e fitou os olhos no meu rosto...

Seus olhos brilhantes e pasmos pareciam querer saltar das órbitas sobre mim... oh! se ele não fora meu pai eu teria tido medo daquele olhar.

Sua boca se entreabria... seus lábios se moviam; mas ah! o desgraçado não podia falar.

Olhou... esteve assim olhando muito tempo... muito tempo, até que... oh! meu Deus!...

Duas lágrimas límpidas e brilhantes ficaram pendentes de suas pálpebras... sua mão direita apertou o peito no lugar do coração, e... sempre me olhando... sempre me olhando, meu bom pai expirou.

A vida... a alma lhe saiu pelos olhos. Oh! sim! porque ele morreu olhando para sua filha.

Lancei-me sobre o cadáver de meu pai: arrancaram-me daí; e sabeis para quê?... para ver morrer minha mãe.

Pobre de minha infeliz mãe!... não estava em si quando eu me ajoelhei junto dela; delirava.

Começou a brincar com os meus cabelos; passou depois os dedos sobre meus olhos, e, sentindo-os molhados de minhas lágrimas, levou-os aos lábios, sorveu as lágrimas de sua filha, dizendo:

– É bem doce!... é bem doce!...

Depois entrou a rir-se e a cantar. Que rir! que cantar aquele!... até então eu não sabia que a morte tinha também seus risos e seus cantos.

Continuou a rir-se e a cantar; a brincar com os meus cabelos, e a beber minhas lágrimas.

Houve um momento terrível! um tremor súbito e desesperado agitou convulsivamente todo seu corpo...

Cessou de rir-se e de cantar. Olhou-me... que olhar!... era um adeus que se dizia por mil modos nos seus olhos.

Tinha talvez desaparecido o delírio, mas ela já não podia falar.

Ouvi alguém, a poucos passos, dizer baixinho – é chegada a hora: – oh! compreendi tudo... soltei um grito.

Escutando esse grito, que me saiu do coração, minha mãe agarrou com suas duas mãos a minha cabeça, e com força indizível levantou-me, aproximou meu rosto ao rosto dela, uniu meus lábios aos seus, deu-me um longo e ardente beijo, e expirou.

A vida... a alma lhe saiu pelos lábios. Oh! sim, porque ela morreu beijando sua filha.

As almas de meus pais, antes de subir ao céu, tinham passado por mim: a alma de meu pai pelos meus olhos; a de minha mãe pelos meus lábios.

Como eu fiquei então!... não se diz.

Não se morre de dor.

E estava órfã.

Deixei de ser como uma flor que se desabotoa.

 

Eu era uma pobre órfã.

Tinha começado a ser como a pomba que geme solitária.

Chorei! chorei muito! quando não tive nos olhos mais lágrimas para chorar, chorei saudades no coração; choro-as ainda. Mas resisti, e resisto, graças à educação que me deram meus pais.

Eles me ensinaram a ter fé e esperança em Deus; ensinaram-me, na prosperidade, a ser cristã: sou cristã na desgraça.

Quem crê em Deus, chora, mas resiste.

Eu chorei, e resisti.

Tenho esperança de ver ainda meus pais aos pés do Senhor Deus... não sei quando será; mas espero.

Esta esperança me anima. No entanto meu coração está sempre cheio de saudades, que não hão de acabar nunca.

Eu pois sou agora como uma pomba que geme solitária.

 

Passou-se um ano.

Um ano de lágrimas é muito tempo: é um século.

Passou-se mais tempo ainda; chegou o dia de finados.

Fui rezar no túmulo de meus pais.

Rezavam lá...

Oh! se soubessem como um coração de filha agradece uma oração que se reza por seus pais!...

Rezavam lá!... uma mulher e um homem.

A mulher era uma velha que eu conhecia; o homem não.... eu o via então pela primeira vez.

Mas esse homem... a velha ergueu-se, e eu lancei-me de joelhos no mesmo lugar que ela havia ocupado.

Fiquei junto desse homem que rezava por meus pais...

Oh! pela primeira vez que nos encontrávamos na vida, nossos pensamentos se uniam, se misturavam, e subiam juntos ao céu tão iguais... tão parecidos, como dois irmãozinhos gêmeos!...

Oh!... nós não nos havíamos visto nunca, não nos tínhamos olhado ainda, e nossas almas se correspondiam já, falando a linguagem do Senhor... rezando...

Ele ergueu-se enfim... e fugiu. Eu senti que ele chorava e soluçava.

Eu não sabia se ele era moço ou velho, bonito ou feio, rico ou pobre... e contudo desde esse momento eu amei esse homem.

Amei esse coração generoso que se fora ajoelhar junto ao túmulo de meus pais!

Esse homem amava portanto meus pais!

Era pois meu irmão no amor, meu irmão nas lágrimas e nas orações; quero... devo amá-lo. O mais sagrado dos laços uniu-nos aos olhos de Deus à face de um túmulo.

Eu o amo.

Quem é ele?...

 

Enfim, já pude vê-lo de perto. Veio visitar-nos, acompanhando a velha Irias.

Ele é moço e pálido, é triste e modesto; é belo.

Parece que esconde no coração um grande tormento, que ninguém compreende, e que ele abafa.

Pálido, triste e silencioso, sua figura tem um não sei quê de gracioso e fantástico, que toca na alma e faz arder a ima­ginação.

Se ele passa por diante de vós, sem querer vós vos lembrais da sombra de um ramo de palmeira, quando um ramo de palmeira, em noite de claro luar, é impelido por brandos favônios.

Às vezes fica pensativo horas inteiras; torna-se alheio a quanto se passa em torno dele...

É belo vê-lo assim; parece que transportado contempla uma visão. Ninguém lhe fala, e ele sorri... se entristece... se espanta... e murmura frases ininteligíveis como se estivesse conversando com algum ser invisível.

Será um louco?... não: ele é um poeta; eu já sonhei que os poetas eram assim.

Eu gosto dos poetas.

Os poetas são homens que mal vivem neste nosso mundo, e que são senhores de mil mundos; habitam um espaço entre o céu e a terra, e falam a língua das aves e das flores, das montanhas e dos mares, dos fantasmas e dos anjos.

Os poetas são homens que sabem amar; os que não são poetas amam como todos, amam com esse amor comum que se vê todos os dias, que não tem nada de novo, que tem bem pouco de belo.

O amor dos poetas é de um fogo que se não acende na terra, é um fogo como o do sol.

Os poetas são irmãos do sol; eles são os astros que iluminam o mundo como o sol ilumina o espaço.

A luz que dardejam os poetas e o sol, vem da mesma fonte, é a mesma luz santa e pura; veio-lhes do céu saída dos olhos do Senhor Deus.

Eu amo os poetas.

 

Ele se chama Cândido.

Tem continuado a visitar-nos; freqüenta os serões do “Céu cor-de-rosa”; meu avô o estima e minha tia também.

Eu tenho por ele um sentimento tão doce... tão sossegado, que me parece que assim é que se há de amar um irmão.

Quase nunca se dirige a mim... não conversa comigo... parece que se esconde, que foge de todos os olhos; por quê?...

Parece infeliz; gosto ainda mais dele por isso; a melancolia pode tanto na minha alma!...

Um homem melancólico vale mil vezes mais do que aquele que vive rindo-se constantemente.

Eu tenho pena dessa gente que anda rindo-se de contínuo.

Esses homens que vemos sempre a rir, a zombar, a dizer sarcasmos, a ridicularizar tudo, são como insultos que a na­tureza faz à terra.

A tristeza daquele mancebo tem alguma coisa de solene; ele está triste porque sofre.

Ás vezes de relance me olha... o seu olhar é então bem terno, e seus olhos quase sempre amortecidos têm nessas ocasiões um fogo...

Desde que pela primeira vez o apanhei olhando-me assim, eu senti alguma coisa de novo em mim... eu corei; por quê?... não será puerilidade corar por isso?...

 

Preciso conversar com o meu coração; dentro de mim se estão passando muitas coisas que ainda não compreendo; é uma série de contradições... um desejar sem querer, o que eu estou experimentando.

Como foi que eu comecei a amar este moço, que se chama Cândido, não é por certo um mistério. Vi-o de joelhos junto do túmulo de meus pais, e amei-o por gratidão; amei-o como se eu fora irmã dele.

Disse a todos que o amava assim; riam-se de me ouvir, e eu não corava.

Nos primeiros dias, quando ele me olhava, seu olhar passava por sobre meu coração, tão suave, tão doce, como o sopro do favônio sabre a rosa que acaba de desabrochar.

Depois... as sensações foram outras. Seu olhar não foi mais para o meu coração como o favônio para a rosa, é como a aurora para o céu; porque o céu se avermelha quando o dia amanhece, e meu rosto se enche do rubor do pejo quando ele me olha.

Por quê?...

Agora, quando ele está ausente, eu me aflijo, desejo ardentemente vê-lo chegar; quando ele se anuncia, meu coração palpita; quando ele entra na sala, minhas faces coram; quando ele se chega a mim, meus olhos se abaixam; quando ele me cumprimenta, eu não posso responder-lhe.

Por quê?...

Eu gosto de ouvir falar dele; mas não pronuncio nunca o seu nome. Sua imagem aparece nos pensamentos todos de minhas vigílias, e nas belas imaginações de meus sonhos; parece que a imagem desse mancebo é dona de minha alma.

Por quê?...

Oh! eu o estimo, e estando a seu lado, tremo; acho-o bonito, e tenho receio de olhar para ele; gosto de ouvi-lo falar, e nunca me animo a conversar com ele.

Por quê?...

Ah! por quê? por que, meu pobre coração? por que é que eu sinto que já não amo esse mancebo como se fora sua irmã? como é então que o amo agora?...

 

Oh! que revolução se operou em toda minha vida, em todo meu ser!

Eu já sei que se ama a alguém que não é nosso pai, nem nosso irmão, e que não é nosso amigo. Eu sei enfim o que é amor. Quem mo ensinou?... foi o coração, foi a natu­reza, foi Deus.

O amor é uma flor que existe em botão na alma da virgem; o homem a quem se tem de amar é o sol que faz desabrochar essa flor.

E uma flor que Deus plantou dentro de nós, porque, quan­do a virgem nasce, já consigo a tem no coração.

Oh! eu já despertei a um belo grito; gritaram-me – ele te ama!... – pois eu deveria tê-lo adivinhado.

Sim! oh! sim!... eu devo crer que me ama. Por que também ele cora quando encontra meus olhos? por que também treme quando me fala?

Eu revolvo na minha alma quanto se tem passado entre ele e mim, como a mão de uma menina revolve buliçosa uma cesta cheia de flores.

Recordemos...

Uma noite... que noite! dançamos juntos... fui o seu par... nossas mãos tremeram... quisemos falar e não dissemos nada... ah! parece que fazendo assim é que nós dissemos tudo!...

Depois fui com duas amigas para meu quarto; contei-lhes a história do sonho do – botão de rosa: – ninguém me devia ouvir senão elas.

Em uma das tardes seguintes veio o velho guarda-portão dar-me a sua hora de música. Cantou um romance; esse romance era a história do meu sonho... a história do botão de rosa. Quem escreveu estes versos? perguntei eu. Foi o sr. Cândido; respondeu o velho Rodrigues.

Cheguei a crer que um gênio invisível velava em prol desse terno sentimento que nascia...

Fomos ao Passeio Público. Passeávamos juntos e sós eu e ele. Estávamos ambos tão perturbados!... éramos como dois criminosos; ouvi que alguém dizia – são dois namorados: – quase que morri de vergonha.

Oh! não é possível encobrir mais... não é possível..... a verdade deve-se dizer.

A flor que existia em botão dentro de minha alma abriu-se ao terno sopro desse mancebo; eu o amo!

Ainda não lhe disse, não serei capaz de dizer-lhe que o amo; já porém jurei a mim mesma que hei de amá-lo toda a minha vida.

Oh! sim! eu confesso... eu o amo.

Abençoem lá da eternidade meus pais o amor destes dois corações, que a primeira vez que se encontraram nesta vida foi de joelhos ao pé de seu túmulo.

Abençoem!...

Proteja o Senhor Deus estes dois corações que, antes de se acharem unidos pelos laços de um amor puro e santo, já se haviam identificado em oração, e caído juntos aos pés do Onipotente ligados pela mesma fé, pela mesma esperança e pelo mesmo pensamento.

Oh! sim! proteja.

Mas por que motivo ele, a quem eu amo, ele que me ama, foge de meu lado?... por que me não fala?... por que continua a mostrar-se tão triste como dantes?...

Eu devo então ser bem infeliz, pois que ele não pode mais ignorar que eu o amo, e todavia sua tristeza é sempre a mesma, sempre incurável.

E no entanto esse outro que me desagrada tanto quanto ele me é grato, esse outro impertinente e ousado não me deixa um instante, e ousa falar-me de amor mesmo diante daquele que amo.

Que diferença entre ambos!

Um é a modéstia, que receosa se afasta e se esconde, e que por isso mesmo é mil vezes mais bela.

O outro é a presunção que se ostenta, que se impõe e que depois de aborrecer-nos muito, retira-se pensando que nos deixa em êxtase.

Um é a palavra da virtude, que soa unicamente para louvar o mérito; é a gravidade do homem nobre, a pureza das almas cândidas.

O outro é a loquacidade do vício, não sabendo falar senão a linguagem venenosa do sarcasmo; lançando a calúnia, a sátira e o epigrama no meio da conversação mais séria e delicada. E quando não fala, o aspecto de um bufo ou de um malvado com seu rir constante, rir maledicente... rir venenos... ou rir estúpido.

Um crê na eternidade e em Deus, e crê na honra dos homens; o outro zomba dos mistérios e não acredita na honra de ninguém. Um é o néctar da virtude... o outro é a peçonha da víbora!...

Que diferença entre ambos!...

 

Já lá vai a noite de meus anos: contraditória, inconseqüente, como tudo mais que hoje comigo se passa, ela encheu a minha alma de prazeres e de pesares.

Pela primeira vez ele tinha de cantar no “Céu cor-de-rosa”. Chegou a hora de seu canto... ele veio melancólico e gracioso e sentou-se defronte de mim.

Trouxeram-lhe uma harpa.

Aquele mancebo pálido e triste, com cabelos tão negros e mãos tão brancas, causou-me uma impressão que eu não posso bem definir; julguei estar vendo um desses quadros amorosos dos tempos romanescos da Idade Média.

Sua voz soou... que voz! seu canto saía-lhe da alma; era um canto de amor.

Seus olhos embebidos no meu rosto me estiveram repetindo o mesmo que no apaixonado canto dizia; eu era tão feliz!...

Estava orgulhosa do amor desse homem!

Estava suspensa... – não me achava na terra – aquele canto me erguia em suas asas harmônicas, levando-me para a região fantástica, onde mora a imaginação do bardo que cantava.

Terminou o canto... mas eu fiquei ouvindo sempre aquelas doces harmonias, como se um anjo mas estivesse repetindo aos ouvidos; era talvez o anjo de amor que cantava, e o coração amante que ouvia.

Depois ele saiu da sala; procurei-o todo o resto da noite com os olhos, com o coração e com o pensamento: não apareceu.

Por que se retirou ele?... eu tremo.

Oh! o meu amor é tão novo, tão inocente, tão anjo como uma criancinha recém-nascida e uma flor que acaba de desabotoar-se.

Ah! pobre mãe! como é fácil, apesar de tuas lágrimas, ver morrer ali no berço a criancinha de tua alma; ah! triste arbusto!... basta um instante de tempestade para que a tua flor caia por terra.

E o meu amor é como a criancinha, ou como a flor, eu tremo.

 

Eu sou como a pomba que geme solitária; eu o sou... é bem verdade!...

Desde a noite de meus anos que nunca mais tornei a vê-lo; não será isso uma crueldade de sua parte?...

Que lhe fiz eu?... amá-lo?... só se foi esse o meu crime; mas ah! não merecia tão forte castigo.

Tenho chorado muito... já se me acabaram as lágrimas; agora escrevo, e agora compreendo que muitas vezes escrever é chorar com o coração.

Ai de mim! nem tenho quem me console. A ninguém ouso dizer por que choro; ninguém saberá a causa de meus tormentos; zombariam de minhas lágrimas.

Oh! é bem triste. Todos devem ter padecido o que eu padeço. Todos têm coração. Todos devem ter amado. Como é pois que se ousa ridicularizar as penas de amor?... não zombam de si mesmo aqueles que zombam delas?

E contudo eles se riem sempre!...

Paciência; sofrerei tudo em silêncio. E se isto não é um tormento passageiro; se o meu amor tão novo, tão puro, tão extremoso foi morto por um ingrato, guardarei os restos dele no coração, chorarei com a minha alma de joelhos ao pé desse coração, que foi a um tempo o berço e a sepultura desse amor, como uma mãe extremosa chora abraçada com a urna onde guarda os ossinhos de seu primeiro filho.

Tenho a cabeça perdida... falta-me às vezes o ar... às vezes os cabelos me pesam...

A sociedade me aborrece... que tenho eu com os prazeres de toda essa gente!... ninguém me compreende lá. Desejo estar só... muito só, conversando com as minhas saudades.

Agora a minha amiga é a noite; quando a lua é cheia e o tempo está sereno, eu passo horas inteiras refletindo à janela de meu quarto.

Nunca me acho só nessas horas; embaixo, no jardim, os favônios conversam com as flores ao mesmo tempo que eu falo com o meu coração.

As flores respondem aos favônios com a exalação de seus perfumes, como o coração me responde com as suas saudades.

É assim que passo as noites; os dias são muito tristes, porque já perdi meus antigos prazeres.

Nem mesmo a música me agrada... se vou tocar, paro no meio de uma harmonia para embeber-me toda em um pensamento, que ela desafia.

Não posso cantar... quase sempre choro. Agora, por exemplo, seria ocasião de ir ouvir o velho Rodrigues cantar suas velhas baladas; era a hora da sesta. Não irei.

Mas... lá soa a sua voz; ele canta...

É o romance do botão de rosa...

Eu vou...

 

Já compreendi tudo.

A intriga me separa do homem que amo; a calúnia me nodoa... tudo está revelado.

Minha tia fez crer ao modesto mancebo que o seu amor me afligia; que eu supunha a minha reputação em perigo; que ele era pobre e por isso indigno de mim.

Fecharam em meu nome as portas do “Céu cor-de-rosa” no rosto do nobre mancebo. Oh! como não terá ele amaldiçoado a primeira hora em que me viu!

Todavia... antes assim...

Não sei quais sejam os desígnios de minha tia; agora, porém, sinto-me com forças de assoberbar a tempestade.

Sequem as minhas lágrimas.

Caluniam-me?... querem separar-me dele por meio da intriga?... pois bem; direi bem alto que o amo, quero que todos ouçam – eu o amo!

Amo-o tanto como amei já as meiguices de minha mãe, e a bênção de meu pai, e como amo ainda agora a memória de ambos.

É um amor puro e santo, que sai do âmago do coração, como um pensamento sai do seio da alma.

É um amor puro e santo que embeleza a minha vida, como a aurora que se vai sorrindo no céu, como um sorriso que se vai abrindo nos lábios!...

Oh! volta, meu amado, volta!

Volta, para que eu seja outra vez como uma flor que se desabotoa...

Volta, para que eu não seja por mais tempo como a pomba que geme solitária.

Volta!... eu te amo.

 

Quando o mancebo terminou a leitura da história do amor da “Bela Órfã”, sentiu que uma revolução profunda e completa se havia operado em todos os seus sentimentos.

A paixão prorrompia de novo, o fogo mal amortecido pela intriga flamejava com dobrado ímpeto.

Os olhos de Cândido brilhavam, suas faces pálidas estavam enrubescidas, e seus lábios se dilatavam e sorriam ante o aspecto da felicidade.

Beijou mil vezes aquelas páginas, que guardavam os pensamentos, e por onde haviam deslizado os delicados dedos da “Bela Órfã”; apertou-as contra o coração exclamando:

Eu sou feliz!... eu venço o meu destino!...

Lançou mão da pena e começou a escrever com o ardor e o interesse de um poeta apaixonado.

O que escrevia ele?

Ao romper do dia Cândido achava-se adormecido junto da mesa onde escrevera.

Despertou de repente ao zunido do vento.

Começava a bramir uma tempestade... o céu estava escuro; a chuva prestes a cair.

Cândido viu então os seus papéis desordenadamente espalhados pelo chão; alguns rolavam já pela escadinha do velho sótão; correu a apanhá-los e a pô-los em ordem.

Achou todos, achou mesmo toda completa a história do amor da “Bela Órfã”.

Mas não achou o que ele havia escrito na noite que acabava de terminar.

 

EU O EXIJO! – SENÃO...

AO TEMPO que o amor de Cândido e da “Bela Órfã” vacilava entre dúvidas, e ia vivendo a vida de todos os primeiros amores, ora animando-se com um sorrir de esperança, ora estremecendo diante de uma quimera, de um receio, ou de um fraco contratempo, caminhava o amor de Henrique e de Mariana ao seu desejado termo.

Poucos dias faltavam para que viesse o himeneu coroar aquela constância com que se haviam sabido amar os dois.

Aproximava-se a noite do dia em que o jovem do “Purgatório-trigueiro” despertara ao bramir da tempestade.

Sucedera a uma manhã feia e borrascosa uma tarde amena, fresca e bela. O céu estava claro, a atmosfera leve, a natureza em horas de magia.

Mariana achava-se só na sala do “Céu cor-de-rosa”; Anacleto saíra; Celina tinha ido despedir-se do dia entre as flores do seu jardim.

Meio deitada no sofá, em voluptuoso abandono, com os olhos quase completamente cerrados, com os lábios levemente dilatados pelo mais gracioso dos sorrisos, a interessante viúva contemplava em sua imaginação o quadro da ardente felicidade que a esperava; fruía de antemão todos os prazeres, todas as delícias com que durante tão longos anos debalde sonhara.

Seu mundo estava ali... dentro dela; dentro dela, em sua imaginação, reunia em belo grupo todos os entes que amava; conversava com eles, sorria para seu pai, recostada ao seio de Henrique.

Nem uma só nuvenzinha escura naquele imenso céu belo e sereno que estava criando; era uma dessas horas mágicas, que em vão se procura nos dias que se passa na terra, horas que se vive meio-dormindo, meio-acordado, quando se está só, e se está sonhando...

Era uma dessas viagens encantadas, viagens longas, de dezenas de anos e de milhares de léguas, que se faz com os olhos fechados, com o sorriso nos lábios, sem mudar de posição, e às vezes em uma só hora, em cinco minutos, ou mesmo em rápidos instantes.

Estava pois Mariana embebida naquele mar de gozos imensos, naquele mundo de abstrações deleitosas, quando...

Talvez mesmo passava nesse momento por diante de seus olhos a mais cara de suas imagens, porque ela apertou as mãos com indizível ardor contra o coração, e exalou um anelante suspiro, quando soou o rodar de uma carruagem que parou à porta do “Céu cor-de-rosa”.

A viúva soltou um pequeno grito e ergueu-se inopinada­mente.

O mundo abstrato acabava de esvaecer-se; a realidade fria e pesada chegava.

O rosto expansivo e belo de Mariana contraía-se dolorosamente.

Tinha reconhecido o rodar daquela carruagem: aquela carruagem trazia-lhe um tormento sempre que parava junto do alpendre do “Céu cor-de-rosa”.

A porta da sala abriu-se.

– O sr. Salustiano! disseram.

– Que entre! murmurou a viúva.

E o rosto de Mariana tomou uma nova expressão; tornou-se frio, mas sossegado.

Salustiano entrou, e veio sentar-se junto da viúva.

Encontravam-se ainda uma vez a sós esse homem e essa mulher que se aborreciam tanto.

– Parece que um anjo benfazejo me protege, disse Salustiano. Sempre que desejo falar a V. Exa. sem testemunhas, uma ocasião própria se me oferece.

– Hoje então...

– V. Exa. se admirava talvez de me não ver há muito tempo, não é assim?... perguntou sorrindo o mancebo.

– Oh! não; respondeu secamente Mariana; V. Sa. deu-nos o prazer de passar conosco o último serão; foi ainda há dois dias.

– A resposta não parece das mais lisonjeiras; mas também é porque me não fiz compreender; eu dizia que V. Exa. talvez já se admirasse de me não ver procurar alguns momentos em que pudesse falar-lhe a sós.

– Também não. Pensava ao contrário que V. Sa. já tinha exigido de mim tudo quanto exigir podia, e que pela minha parte eu já me havia mostrado obediente demais.

– Demos que assim fosse; não quereria porém V. Exa. pedir-me a entrega de alguma coisa que julgasse pertencer-lhe?...

– Confesso que não pensava em tal. Confiava na sua honra, e julgava que não seria preciso pedir-lhe o que o dever ordenava a V. Sa. que me entregasse.

– Oh! mil vezes agradecido; V. Exa. pela primeira vez em sua vida parece acreditar na honra do mais humilde de seus escravos.

– Senhor... de que serve aqui a ironia?

– Já vejo, minha senhora, que conserva todas as suas antigas disposições; ama a verdade e a singeleza sobretudo.

– Entendamo-nos, senhor, disse Mariana com sangue frio. Devo crer que não foi simplesmente para zombar de mim, que teve a complacência de vir hoje a esta casa.

– Oh! não, por certo.

– Pois então fará o obséquio de explicar-se. Estamos sós. O que quer de mim ainda?...

– Primeiramente eu vinha depositar aos pés de V. Exa. os mais sinceros parabéns pelo seu próximo casamento.

– Agradecida.

– Oh! eu tenho uma inveja desesperada de um noivo de moça bonita. Acreditará V. Exa.?... estou louco por casar-me.

– Felizmente para V. Sa. o remédio é fácil.

– Então aconselha-me?...

– Que se case.

– Esse é o meu desejo, certamente; e como em V. Exa. se concentra toda a minha esperança, eu não hesitei em correr a seus pés.

– Senhor...

– Falemos com clareza: não ignora que amo a sua sobri­nha.

– Sei ao mesmo tempo que minha sobrinha não o ama.

– É verdade; disse com sangue frio imenso Salustiano, E se eu tivesse podido agradar à “Bela Órfã”, acredite V. Exa. que dispensava completamente a sua intervenção.

– E não tendo podido agradar-lhe, senhor, a minha intervenção será sempre improfícua.

– Tenho a certeza do contrário,

– Estou hoje convencida de uma verdade que V. Sa. adivinhou antes de todos; minha sobrinha já ama.

– É uma dificuldade, convenho, mas...

– Quereria por acaso ligar-se a uma senhora que amasse a outro?...

– Sua digna sobrinha, minha senhora, tem a educação da virtude.

– Oh! mas a educação da virtude abafa, porém não mata nunca o amor! a mais nobre, a mais pura das virgens que se desposasse com um homem, amando ao mesmo tempo a outro, sem querer, a despeito de esforços inauditos, seria infiel na alma a seu esposo.

– Mas uma virgem cristã...

– Uma virgem cristã não desposa o homem que não ama. Deus proíbe esses laços sem nobreza. São laços ilegítimos. Em tal caso, ou não há verdadeiro casamento, ou o casamento é um sacrilégio.

Quantos sacrilégios tem portanto havido neste mun­do?... disse Salustiano.

Não é uma razão para que continue a havê-los,

– Pode ser que V. Exa. tenha toda razão; tornou o moço descansando uma perna sobre outra. Mas o pior é que, ou eu me engano muito, ou me acho desesperadamente apaixonado; e conseguintemente surdo à voz da razão, cego à luz da verdade, vinha dizer a V. Exa. que eu teria o maior prazer deste mundo se no dia do seu casamento se assinassem as escrituras do meu.

– Creio que não conseguirá o que pretende. Minha sobrinha é mais forte e decidida do que parece, e meu pai ama-a muito para querer sacrificá-la.

V. Exa. nada fará por mim?...

Eu não posso fazer nada.

– Sejamos francos, minha senhora; pela última vez, sejamos francos; demos cartas para jogarmos a última partida.

A voz de Salustiano tinha mudado de tom, como seu rosto tomara uma expressão fisionômica toda nova, era o senhor que se erguia diante da escrava.

No semblante de Mariana apenas uma ligeira contração dos músculos labiais atraiçoou seus padecimentos interiores.

– Sejamos francos, disse Salustiano; eu sei que a minha presença nesta casa é incômoda a todos; sei que seu pai me aborrece, que sua sobrinha me despreza e que a senhora me odeia como a vítima odeia o algoz.

Mariana não pronunciou uma só palavra, não fez mesmo o menor sinal, o mais leve movimento para desmentir Salus­tiano.

O mancebo prosseguiu:

– E no entanto, senhora, tudo parece ser disposto por um poder superior para que eu me ligue a esta casa.

– Poderes superiores, senhor, concebem-se de diversas naturezas, observou Mariana.

– Um feliz acaso, já o tenho dito muitas vezes, continuou Salustiano, pôs a mais soberba e orgulhosa das mulheres sob a dependência do mais fraco e humilde dos homens.

– Que humildade!...

– Mas tudo devia ser compensado; e assim como esse feliz acaso me deu aqui o caráter de senhor, o meu coração e o meu amor me faz curvar a cabeça como um escravo.

– E o que mais? o que mais?...

– Eu vim mesmo encontrar nesta casa recordações da minha infância. Há alguns meses um velho ocupa aqui o lugar de guarda-portão, e esse velho, senhora, viu-me nascer, viu-me crescer, e apenas depois da morte de meu pai deixou a minha casa.

– É possível?! exclamou Mariana. Um traidor! um es­pião!...

– Não; nada de injustiças, respondeu Salustiano. Eu e esse homem não fomos, nunca, amigos; e, além disso, acho-me hoje no caso de poder dizê-lo, porque tenho sabido velar por meu amor. O velho Rodrigues é protetor do jovem Cândido; ele entra todos os dias no “Purgatório-trigueiro”, e, ou o ciúme não sabe adivinhar segredos, ou esse maldito velho tem concebido o pensamento de ligar o seu protegido à “Bela Órfã”.

– Enfim, senhor...

– Enfim, senhora, estamos hoje dependendo um do outro: somos dois furiosos inimigos, que uma dependência mútua pôde tornar amigos devotados. Uma palavra diz tudo: um documento por uma mulher, senhora!...

– Que audácia!...

– Trocaremos, no mesmo dia, a mão de uma jovem bela por meia folha de papel de peso.

– Que sarcasmo!...

– Oh!... mas não é simplesmente meia folha de papel de peso! é um nome que se pode atirar ao meio da rua... é uma reputação que se pode nodoar para sempre...

– Senhor!...

– Escolha.

– É uma infâmia!...

– Embora; fará com que sua sobrinha seja minha esposa?...

– Nunca!

– Bem; vingar-me-ei.

– Embora! exclamou Mariana com ardor; já me tenho curvado demais, já tenho arrastado meu rosto pela terra muitas vezes, já tenho comprometido a salvação de minha alma. Minha alma que se purgue de seus erros, que expie suas culpas na humilhação e nos tormentos que me esperam!

– Oh! como lhe parecer.

– Já tenho sido fraca demais! minha reputação... não tem sido ela quase que nodoada já? não consenti, porventura, que se persuadissem que eu amava um homem que aborreço? eu, mulher casada, não passei por namorada de um moço sem nobreza? não se lembra, senhor, dessa terrível noite em que um cravo rajado passou de meu peito para seu paletó?... que disseram todos? disseram uma calúnia; mas quem teve culpa dessa calúnia foi a minha fraqueza.

Salustiano levantou os ombros e sorriu.

– Ainda há poucos dias, senhor, para não revolver mais o passado, ainda há poucos dias não pratiquei uma indignidade?... não caluniei minha inocente sobrinha fazendo um honrado mancebo acreditar que ela o desprezava por ser pobre? não bati com a porta de minha casa no rosto desse mancebo?... oh! o que quer mais?... o que pretende ainda?... devo eu ser miserável toda a minha vida? não repara que uma vida assim é pesada como um fardo enorme? não! não! e não!... faça o que lhe parecer: perca-me, mas pela minha parte basta de humilhar-me ante um homem sem generosidade.

– Bem, disse com frieza Salustiano; posso então fazer da carta que está em minhas mãos o uso que me parecer?...

– Que indignidade!...

– Não responde?

– Faça o que quiser.

– Oh! vê-se bem que a senhora não se lembra do que escreveu há vinte e um anos passados!

– Senhor!

– Cuida que nesse papel existe apenas a confissão de uma falta que às vezes o mundo desculpa?... não, senhora! ali se confessa um erro e um crime!

– Senhor!...

– Um crime que horroriza a natureza... um crime pelo qual a justiça de Deus há de condená-la a penas terríveis, e a justiça dos homens pode arrastá-la ao banco dos condenados, ao cárcere, ao patíbulo mesmo!

– Senhor...

– Oh! quem diria que esta mulher orgulhosa e insolente, que se apresenta em toda a parte com a cabeça tão levantada, carrega sobre a cabeça o mais horrível dos crimes?.

– Miserável!

– Sim... sim... miserável embora; mas este miserável pode aparecer com o rosto descoberto!... senhora, tudo está decidido: eu rompo o seu casamento, eu mato a sua ventura, eu me vingo!

Mariana arquejava.

– Primeiro irei ter com o homem que loucamente a ama, e mostrar-lhe-ei a sua carta... ou... se não... ah!... que idéia!..

O mancebo soltou uma risada. Mariana não achou em seu furor uma palavra para dizer-lhe.

– Tudo pode acabar em paz, minha senhora, disse com fingida amabilidade Salustiano: não haverá nem banco de condenados, nem cárcere, e muito menos patíbulo; a senhora casar-se-á com aquele que ama, e eu desposarei a jovem que adoro.

Mariana ficou olhando, e o terrível moço prosseguiu:

– Dispenso também a sua intervenção; achei um belo meio... que estupidez a minha!... deveria tê-lo há mais tempo lembrado. Aparece apenas um inconveniente: há um velho que talvez morra de desgosto... paciência.

Mariana estremeceu.

– Amanhã, senhora, terei uma hora de conferência com o honrado, austero e amoroso sr. Anacleto. Quando eu o deixar só levarei a certeza de ser o esposo de Celina, e ele ficará mudo e terrível, pálido como um cadáver, e se falar, falará para amaldiçoar sua filha.

– Oh!...

– Porque ele há de saber (há de saber pela própria letra da senhora), que a filha de seu coração, que a orgulhosa e bela Mariana, no meio das mil loucuras de seus primeiros anos, amou um homem... e amou tanto... tanto... tanto... que perdeu-se por ele!...

Mariana escondeu o rosto entre as mãos.

– Há de saber mais, que depois de cometida a primeira falta, cometeu ainda um crime abominável; há de saber que sua filha, em resultado de um momento de embriaguez, tinha de ser mãe; que inspirada pelo demônio, não o foi; não foi mãe... porque... porque...

– Oh!... bradou Mariana.

– Porque matou seu filho.

Sucederam a essas terríveis palavras alguns momentos de silêncio. Mariana estava convulsa, tinha os lábios pálidos, o rosto cadavérico, as mãos estendidas para diante, e trêmu­las como se quisesse defender-se de algum objeto; e com os olhos pasmos e terríveis, parecia talvez estar vendo diante dela a imagem do filho que havia assassinado.

Depois de algum tempo ela murmurou fracamente:

– Infanticídio... infanticídio...

Soltou um grito e desatou a chorar.

Salustiano, insensível e silencioso, esperou muito tempo que Mariana sossegasse um pouco. Quando a viu menos so­bressaltada, disse-lhe:

– Então, senhora?...

– Perdão, senhor; balbuciou a desgraçada pondo-se de joelhos.

Salustiano ergueu-a, fê-la sentar e continuou:

– Nada do que ouviu será sabido. No dia em que eu me casar com sua sobrinha, queimaremos juntos a carta fatal.

– Mas o que é que eu devo fazer?... perguntou a mísera viúva.

– Primeiramente fazer com que esse mancebo que mora no “Purgatório-trigueiro”, desapareça destes lugares; conseguir dele uma carta para sua sobrinha, carta em que se apague toda a esperança de amor.

– Oh! mas isso é impossível.

– Nada é impossível, senhora.

– Porém de que modo conseguir isso?...

– Uma mulher que se ajoelha e chora aos pés de um homem consegue tudo, principalmente quando esse homem é um moço.

Mariana abaixou a cabeça.

– Depois, prosseguiu Salustiano, convirá que seu pai se interesse a meu favor, convirá que a “Bela Órfã” ouça os seus conselhos, e até os seus rogos; e, em último caso, é preciso que se imponha.

– E se ela resistir?

– É uma criança; resistirá ao princípio, chorará depois, e cederá no fim.

– Está bem.

– Não voltarei a esta casa, concluiu Salustiano levantando-se, senão na véspera de seu casamento, e então... ou se hão de assinar as escrituras do meu, ou... a senhora o sabe...

            Salustiano saiu.

Meu Deus!... meu Deus!... exclamou Mariana dolorosamente; eu não pensava qu        e a minha desgraça fosse tão grande!... eu não me lembrava de ter escrito a confissão do último crime!... Oh!... isso foi loucura... e a loucura que me fez escrever tal, é o primeiro castigo da Providência!...

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Quando Salustiano deixou o “Céu cor-de-rosa”, o velho Rodrigues estava sossegadamente sentado na porta do alpendre... mas não cantava como de costume.

 

NO JARDIM

NESSA mesma tarde em que Mariana fora perturbada e arrancada do seu belo sonhar de alegres fantasias pelo rodar de uma carruagem, e ao mesmo tempo que na sala tinha lugar uma cena dolorosa e terrível, no jardim do “Céu cor-de-rosa” outra se apresentava mais doce, mais terna, mais cheia de esperanças.

Celina, fiel aos inocentes amores de sua infância, pois que, como dizia, tinha amado nessa idade feliz o primeiro raio do sol e as flores, estava sentada no banco de relva do caramanchão, melancólica e pensativa.

Tinha na mão direita um botão de rosa, que acabava de colher; ás vezes olhava para ele e suspirava; às vezes deixava cair a cabeça e meditava; às vezes enfim, corando de si mesma, erguia a cabeça e lançava os olhos para o lado esquerdo...

Ao lado esquerdo, e dominando o caramanchão, estava uma pequena janela do sótão do “Purgatório-trigueiro”.

Celina era uma dessas jovens de imaginação viva e ardente, que a natureza cria como para serem estrelas do céu dos poetas. Essa viveza, esse ardor de imaginação transpirava em tudo...

Aquele sonho do botão de rosa... aquele coração que se escondia em um envoltório tão inocente e tão puro... aquele amor começado por uma oração; aqueles laços que se tinham apertado aos olhos de Deus e à face de um túmulo; aquela história que ela mesma escrevera em uma hora de feliz melancolia, tudo enfim demonstrava que na alma dessa moça havia o quer que seja de poesia, de amor do belo, de modo de ver de artista.

Mas se essa viveza, se esse ardor de imaginação era ainda um encanto de mais na “Bela Órfã”, encanto que a tornava dobradamente encantadora, era ao mesmo tempo uma lente mágica que agigantava seus infortúnios e seus pesares.

A imaginação faz do poeta o mais feliz e ao mesmo tempo o mais desgraçado dos homens; porque na fruição de prazeres e no sofrimento dos desgostos o poeta goza mais do que há, e sofre o dobro do que em realidade existe.

Celina achava-se neste caso.

E ela nessa tarde, como em todas as dos últimos dias, estava sentada no banco de relva do caramanchão meditando tristemente, quando a passos vagarosos e com semblante prazenteiro se aproximou do lugar onde se achava a moça o velho guarda-portão.

Celina olhou para ele com doçura, e quase com esperança. Aquele homem de ordinário acertava de lhe falar sobre o jovem do “Purgatório-trigueiro”.

– Sempre triste!... disse o velho.

– Pois então... murmurou a moça, devo acaso estar alegre?..

– Digo que não há razão... para tão longas melancolias.

– Quando talvez julgam mal de mim... disse corando a “Bela Órfã”.

– Ele já conhece toda a verdade.

– Quem lha expôs?...

– Não fui eu.

– Mas quem foi?...

– Senhora, abusaram de um segredo... roubaram-lhe uns papéis... uma história de amor...

– Meu Deus!...

– Nessa história do seu amor a sua justificação estava completa...

– E então...

– Aquele que lha roubou levou-a ao “Purgatório-trigueiro”, e entregou-a ao sr. Cândido...

– Oh!...

– Ele portanto não pode mais julgá-la ingr