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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS FILHOS DAS TERRAS SOMBRIAS / Wolfgang
OS FILHOS DAS TERRAS SOMBRIAS / Wolfgang

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

Como tudo começou no hospital, nada mais lógico do que continuar ali mesmo. Aliás, pensando bem, nada nesta história obedecia às leis da lógica, refletiu Kim. Num misto de perplexidade e curiosidade, ele observava o pisca-pisca azul da ambulância refletindo nas janelas da casa em frente. Estava louco para descobrir o verdadeiro motivo de a ambulância estar parada a pouco menos de dez metros do portão principal da Clínica de Düsseldorf, à espera do guincho. Uma ambulância que tinha sofrido um acidente de trânsito? Era mesmo hilário!

Como das outras vezes, tia Birgit ficou encarregada de lhe fazer companhia, enquanto a mãe e Bekky estivessem na clínica para os exames de rotina a que Bekky tinha de se submeter.

Segundo tia Birgit, ninguém havia se machucado no acidente. Ainda bem, pensou Kim, porque assim não sentiria nenhuma dor de consciência pela quase incontrolável vontade de rir ao olhar para a ambulância avariada. Kim desembrulhou o último dos chicletes que tia Birgit havia comprado para ele e jogou o papel na lixeira da beira da calçada. Errou na pontaria e o papel foi parar a meio metro de distância da lixeira. Lançou uma olhadela furtiva na direção da tia, rezando para que ela não tivesse percebido a façanha. Mas, pelo visto, a atenção da tia estava voltada para outros acontecimentos. Sua cabeleira curta e negra apontava para o círculo de curiosos que se formara ao redor da ambulância, dificultando o trabalho da polícia e dos enfermeiros. Comportamento típico de adulto, refletiu Kim, irritado. O tempo todo pregam sermões do tipo: isso não se faz, é feio demonstrar curiosidade quando acontece um acidente. Afinal de contas, um acidente não é uma quermesse. É algo muito grave! (palavras da tia Birgit). Mas, no final das contas, nem ela seguia as próprias regras.

Kim gostava muito da tia, porém, por mais simpática que ela fosse, agora estava fazendo exatamente o contrário do que sempre ensinava.

Kim estava mal-humorado, pois odiava ser tratado como criança. Toda vez que Bekky precisava ir à clínica para fazer os exames periódicos, os pais obrigavam-no a ir junto e — pior — impunham-lhe a companhia da tia para “tomar conta” dele, como se fosse um bebê.

Kim costumava protestar de maneira veemente, mas o pai mostrava-se irredutível. E tudo porque, uma única vez, quando ficara sozinho em casa, havia convidado uns amigos, o que resultou numa pequena confusão. Pura injustiça! Afinal, não era culpa sua nem de seus amigos que alguém tivesse colocado a infeliz da televisão sobre uma mesa tão pequena e frágil. Tanto a televisão quanto a mesa não resistiram a um leve choque com uma bola, e acabaram desabando. A conseqüência foi uma tela rachada. Uma bobagem, é claro!

Os pais deviam ser-lhe gratos, pois há meses vinham planejando a compra de uma televisão nova e, depois do “acidente”, finalmente realizaram o seu sonho. Não foi bom?

No quarto dos pais havia agora uma televisão enorme, como o pai sempre sonhara, apesar dos argumentos contrários da mãe, alegando que o aparelho velho ainda servia. Seu pai devia agradecer-lhe, em vez de castigá-lo! Não era justo! Aliás, alguma vez os adultos foram justos com as crianças?

Kim perdeu a vontade de mastigar chiclete e resolveu cuspi-lo com força para dentro da lixeira. Mas novamente errou a pontaria e o chiclete foi parar longe. Enfiou as mãos nos bolsos da calça e, desanimado, virou para o outro lado. Na calçada oposta, a tia girou a cabeça para se certificar de que seu protegido continuava no mesmo lugar. Afinal, que mal havia em espiar pára-choque amassado? Bah! Seus dedos tocaram em algumas moedas no fundo do bolso. Por um momento hesitou, depois pegou-as e se pôs a contar o seu tesouro: pouco mais de três euros! O bastante para ir ao café e comprar uma Coca-Cola! Sua mãe e Bekky provavelmente ainda demorariam um bom tempo naquele hospital. E, pela milésima vez, Kim se perguntou por que um exame de rotina, que não deveria levar mais do que dez minutos, costumava demorar duas ou três horas. E, como sempre, ficou sem resposta. Pelo jeito, a lentidão nos hospitais era uma lei inquestionável, até mesmo em casos menos complicados. Também não entendia por que sua irmã precisava voltar lá a cada seis semanas. Afinal, há muito tempo ela tinha se recuperado. Talvez os médicos não conseguissem entender o que havia acontecido com ela naquela época. Aliás, como poderiam entender? Apenas duas pessoas neste mundo eram capazes de compreender, e elas jamais revelariam o segredo. Ninguém acreditaria mesmo...

Naquele mesmo hospital ele vira Temístocles pela primeira vez, talvez por isso seus pensamentos se voltaram para aquele dia longínquo, quando tudo começou. Foi do outro lado da rua que o velho mago sorriu para Kim. Mais tarde Kim o viu novamente na janela do café, onde ele e seus pais estavam sentados depois da consulta. Foi nesse instante que Kim sentiu pela primeira vez que a irmã não estava doente de verdade e que estava acontecendo algo bem estranho...

Para que lembrar disso agora? Faz tanto tempo! Não estava esquecido, mas era passado. Ele e sua irmã Rebekka haviam entrado em contato com um mundo estranho, aliás, foi uma experiência bem mais profunda do que um simples contato, eles penetraram no mundo que ficava do outro lado do sono, onde a realidade se transformava em sonho e os sonhos se tornavam realidade. E lá viveram a maior e mais estranha aventura de suas jovens vidas.

Às vezes, quando Kim lembrava de Märchenmond e dos amigos que lá deixara, Temístocles, o velho mago cheio de bondade, com a barba branca e os olhos ternos, Gorg, o gigante sem nenhuma maldade, o urso Kelhim, o dragão dourado Rangarig, o príncipe Priwinn, Ado e todos os outros que cruzaram seu caminho nessa fantástica viagem, ele sentia uma leve nostalgia, pois provavelmente nunca mais os veria.

Mas, por outro lado, também sabia que nunca perderia Märchenmond, pois uma parte desse mundo maravilhoso ficaria para sempre em sua alma. Às vezes era como se uma luz interior, suave e aquecedora, iluminasse seus dias. E quanto mais melancólico estivesse o mundo ao seu redor, mais intensa se tornava esta luz.

Ele e Rebekka viveram mais do que uma simples aventura, lhes fora concedida uma dádiva! Talvez muitas crianças tinham recebido esta dádiva sem saber, isto é, talvez apenas poucas crianças tinham aquela profunda sabedoria de acreditar que além da realidade do mundo visível e material havia muito mais e que o mundo em que vivemos era apenas uma minúscula parte daquilo que a maioria das pessoas rotulava de realidade.

Às vezes Kim se perguntava o que diriam todos aqueles que se julgavam tão sábios e superiores, com seus computadores e seus conhecimentos adquiridos apor meio dos livros científicos, caso conhecessem a verdade. Nestes momentos, a tentação de se abrir e contar tudo se tornava imensa.

Mas jamais o fez. O que Rebekka e ele viveram continuaria sendo um segredo só deles. E, é claro, de Temístocles.

Pensativo, Kim ficou olhando para as moedas na palma da mão e, com um suspiro resignado, devolveu-as ao fundo do bolso. O café era caro demais para a sua mesada, que — diga-se de passagem — era bem modesta. Tentaria convencer tia Birgit a comprar uma Coca-Cola? A tia, além de muito legal, era também muito generosa, pelo menos na maioria das vezes.

Kim ia se voltar para lançar à tia um olhar de cachorro pidão, quando percebeu um reflexo distorcido no vidro do café. Em apenas uma fração de segundo, como um breve lampejo.

Era como se fosse o furtivo reflexo da luz da ambulância... mas era mais! Era o contorno de uma figura humana! Uma figura bastante familiar! Um homem velho, de barba branca que, com o braço esquerdo erguido, acenara em sua direção um gesto de desespero!

Perplexo e mal conseguindo conter um grito, Kim se virou para ver se havia alguém atrás dele. Não havia vivalma, fora a multidão de curiosos. Algumas pessoas se voltaram para o garoto ali parado, de olhos arregalados, a boca escancarada, o rosto lívido como cera. Uma mulher fez menção de segurar-lhe braço:

— Está tudo bem com você, rapaz? — perguntou. Kim não reagiu e ela repetiu a pergunta.

Mudo, Kim acenou com a cabeça, forçando-se a esboçar um sorriso. Pasmo, olhou ora para o vidro, ora para o ponto vazio atrás dele, onde o velho de barba branca devia estar, quando seu reflexo apareceu no vidro do café. Um homem que não usava terno ou casaco, como os outros aqui presentes. Usava uma espécie de túnica negra sobre a qual pendia a comprida barba, na mão direita um bastão, no qual figurava uma serpente entalhada, de boca escancarada.

Kim se virara com uma tal rapidez que era impossível ao velho desaparecer na multidão em tão curto espaço de tempo. Por outro lado, não restava dúvida, Kim viu o homem nitidamente na janela do café!

— Você está bem mesmo, rapaz? — repetiu a mulher. — Está lívido!

A mulher aproximou-se e, sorrindo, pousou de leve a mão no ombro dele, num gesto amigável. Estava de fato preocupada.

Kim tirou a mão da mulher do seu ombro e novamente forçou-se a sorrir:

— Está tudo bem... é que... eu fiquei assustado.

— Assustado?!

Kim apontou com a cabeça para a janela atrás dele:

— Alguém apareceu no vidro, sabe?

A mulher não entendia nada, ou talvez não acreditasse nele:

— Ah... alguém apareceu no vidro?

— Não, eu me enganei — apressou-se Kim a dizer. — Está tudo bem, de verdade.

A mulher olhou para ele meio desconfiada. Depois deu de ombros, virou-se e desapareceu na multidão. Kim continuou parado, aparentemente calmo, mas sua cabeça fervilhava. O breve diálogo com a mulher lhe custou um bocado de energia. Tudo em ordem? Nada estava em ordem!

A voz da razão lhe dizia que era impossível, mas ainda havia uma outra voz, mais poderosa! Esta outra voz lhe dizia que ele não tivera nenhuma alucinação e que tudo, até a expressão de desespero no rosto do velho, realmente acontecera!

Se fosse verdade, Kim tinha todas as razões do mundo para se preocupar, porque a figura que aparecera no vidro era ninguém mais do que Temístocles, o mago de Märchenmond!

— Está tudo bem com você?

Era a terceira vez que lhe faziam a mesma pergunta, desta vez tia Birgit. O quase imperceptível aceno com a cabeça de Kim não a convenceu. Quando, finalmente, conseguiu dominar o tremor das mãos e dos joelhos, Kim resolveu atravessar a rua para chegar até a ambulância, o que não seria nada fácil. A tia franziu a testa, ao vê-lo tão pálido:

— Tudo bem — disse Kim. — É que...

— O que é? — insistiu a tia colocando a mão no seu braço. Kim resistiu à tentação de empurrar a mão dela, como fez com a mulher desconhecida.

— É que eu me sinto... meio esquisito — disse vagamente.

A tia ficou ainda mais preocupada. Tirou a mão do seu braço e colocou-a em sua testa:

— Hum... não está com febre — observou de maneira objetiva. Kim apressou-se em tranqüilizá-la:

— Não é nada, só estou um pouco enjoado, vai ver que é gripe que vem por aí.

— Talvez — concordou a tia. Depois perguntou: — Você comeu?

— Claro — respondeu Kim. — Você sabe que mamãe não me deixa sair de casa sem o café-da-manhã.

— Café-da-manhã? — exclamou tia Birgit. — Agora são quase quatro horas da tarde!

— Não estou com fome — murmurou Kim —, é que eu...

— Bobagem! — interrompeu a tia, num tom que abafou qualquer eventual protesto. — Vamos para o café e você vai comer um pedaço de bolo, ou melhor, dois pedaços.

Kim se resignou. Conhecia bem a tia e sabia que qualquer tentativa de oposição, além de inútil, seria desgastante. Mesmo assim, arriscou:

— A mamãe e Bekky voltam logo e...

— Elas irão nos encontrar — interrompeu a tia, enérgica. — Do café podemos ver a entrada do hospital, além disso as chaves do carro estão comigo, esqueceu? Uma xícara de café é tudo que eu quero neste momento. Venha!

— O que aconteceu? — perguntou Kim à tia, apontando para a ambulância.

Finalmente alguém teve a idéia de desligar o pisca-pisca azul e os dois motoristas deixaram o carro. Um deles ficou parado, com as mãos enfiadas nos bolsos, abanando a cabeça sem tirar os olhos do pára-lama amassado. Kim, como a maioria dos presentes, viu quando aconteceu o acidente: o carro se chocou, com os freios cantando, mas com a velocidade reduzida, contra um dos postes que flanqueavam a entrada da clínica. Depois subiu na calçada e acabou com os canteiros das flores. A batida até que foi relativamente fraca, sem grandes estardalhaços, mas, mesmo assim, o pára-lama e a tampa do radiador sofreram consideráveis estragos. Com o impacto, o pára-choque se desprendeu e furou os pneus. Mas como o carro estava vazio e o motorista e seu acompanhante estavam com o cinto de segurança, ninguém se machucou. Como a ambulância danificada bloqueava a metade da rua, o motorista ligou o pisca-pisca azul para prevenir que outro carro, por descuido, se chocasse contra eles.

— Como aconteceu o acidente? — insistiu Kim.

Tia Birgit o encarou, desconfiada. Seria o mal-estar do sobrinho pretexto para se aproximar do local do acidente? Depois deu de ombros e apontou para um pequeno grupo que discutia ao lado da entrada do hospital. Kim viu o acompanhante do motorista de uniforme branco e, escoltado por dois policiais, um garoto alto de cabelos negros. O comportamento do garoto despertou sua atenção.

— Está vendo aquele garoto? — perguntou tia Birgit. E, sem esperar reposta: — Sem mais nem menos pulou para o meio da rua. O motorista teve que desviar bruscamente para não atropelá-lo. E aí perdeu o controle sobre o veículo. Pelo menos foi isso que ouvi dizer.

Kim se pôs na ponta dos pés para enxergar melhor. Os dois policiais, o motorista da ambulância e o menino estavam meio escondidos pelo portão arqueado da clínica, o que dificultava a visão. Mesmo assim, ele pôde perceber que havia algo de estranho com o menino. Demonstrava certa apatia, como se tudo ao seu redor não lhe dissesse respeito. Um dos policiais tocou seu ombro, falou com ele e depois o sacudiu, mas o menino não demonstrou a menor reação.

— É o choque — diagnosticou tia Birgit, ao perceber o espanto do sobrinho. — É comum acontecer. Provavelmente vai demorar algum tempo até que o coitado se lembre do que aconteceu. — Tia Birgit suspirou: — Certamente alguém vai cuidar dele, afinal, para que existe um hospital do outro lado da rua? Agora venha... eu pedi que você não viesse até aqui, lembra?

Kim obedeceu, não antes de lançar um último olhar para o menino. Conhecia-o de algum lugar...? Impossível! Nunca vira o seu rosto antes! Algo lhe dizia que era de suma importância descobrir a identidade do menino. Era tudo muito inquietante!

Ainda há poucos minutos Kim afirmara que não sentia fome, mas a primeira garfada do delicioso bolo e o primeiro gole de Coca-Cola despertaram seu apetite e acabaram com a tremedeira e a inquietação. A figura que vira no espelho nada mais era do que fruto de uma associação de lembranças que vieram à tona neste café, onde tudo começou. Por alguns momentos as lembranças, guardadas a sete chaves no seu subconsciente, turvaram o seu senso de realidade. Kim sempre acreditou que com o tempo ele conseguiria assimilar o acontecido naquela época, o que, na verdade, não era tão simples. É muito difícil, senão impossível, superar certas experiências, por mais que se queira, como, por exemplo, as aventuras que ele e sua irmã Rebekka viveram em Märchenmond.

Tia Birgit ofereceu-lhe outro pedaço de torta e Kim aceitou. Afinal, desde o café-da-manhã não comera mais nada, a não ser mascar cinco tiras de chiclete. Para ele, comer era um mal necessário. Não era fã de refeições regulares e só gostava de comer quando realmente sentia fome, como agora. Prazeroso, mastigava a torta, enquanto mantinha os olhos fixos na rua em frente ao portão do hospital, onde remava um total congestionamento. O guincho conseguira, a muito custo e com mil manobras, aproximar-se do carro avariado, mas ao redor dele inúmeros carros bloqueavam a rua. No começo eram apenas alguns curiosos que reduziram a velocidade para olhar, forçando os carros que vinham atrás a fazer o mesmo, e logo se criou um verdadeiro nó no trânsito

Depois de algum tempo Kim desviou os olhos do emaranhado de automóveis e pedestres e se concentrou num policial que saía da clínica e, com certo esforço, tentava chegar até a sua viatura. Estava sozinho.

— O que foi? — perguntou tia Birgit, que seguira o olhar do sobrinho.

— Nada... por quê?

— Você não desgruda os olhos daquele policial.

Kim deu de ombros. Ganhou tempo enfiando um enorme pedaço de torta na boca e tomou o resto da Coca-Cola.

— Ele está sozinho — disse, finalmente. — Eu pensei que ele levaria o menino... é que... ele provocou o acidente, não foi?

Tia Birgit ergueu os ombros:

— Devem ter feito uma ficha com os dados pessoais do menino — respondeu. — Afinal, ele não cometeu nenhum crime. Talvez o tenham deixado no hospital... não me parecia muito bem.

A tia apontou para a entrada da clínica:

— Lá vem a sua mãe com a Bekky.

Kim queria levantar, mas tia Birgit o impediu com um gesto:

— Termina de comer, temos tempo. Elas já nos viram.

A tia levantou a mão e acenou para as duas. Do outro lado da rua, a mãe de Kim também acenou. Ela e Bekky abriram caminho entre os carros e, poucos minutos depois, se aproximaram da mesa.

— O que está acontecendo? — indagou a mãe de Kim. — O trânsito está em total confusão.

— Um acidente — informou tia Birgit, apontando para o guincho amarelo que, neste momento, lançava-se à difícil tarefa de tirar a ambulância da rua sem atingir meia dúzia de outros carros.

Kim seguiu as manobras do guincho que, centímetro por centímetro, deslocava o pesado veículo sem ganhar considerável espaço. Os policiais, por sua vez, gritavam ordens que ninguém atendia. Kim, com sua imaginação fértil, encontrou a solução: cobrir a rua toda com concreto. Quando o concreto estivesse seco, poderiam abrir novas faixas, talvez seria bem mais rápido do que estas tentativas frustradas de desatar o nó. Ele trocou um breve olhar com a irmã sentada à sua frente e lhe empurrou o prato com os restos da torta. Estava satisfeito.

— Você não precisa comer o resto do seu irmão — disse tia Birgit, olhando o sobrinho com reprovação. Empurrou o prato de volta para ele. — Vou pedir um bolo para você, Bekky. — Levantou a mão e chamou a garçonete.

— Acho melhor voltarmos para casa — sugeriu a mãe de Kim. Tia Birgit soltou uma risadinha:

— Voltar para casa? No momento você só conseguiria sair daqui com um tanque de guerra. Senta e toma um café.

A mãe de Kim hesitou, mas depois de lançar um olhar pela janela se conformou e aceitou o convite da irmã. Com um suspiro pediu um capuccino, mais um suco de laranja e um pedaço de torta para Rebekka.

Tia Birgit voltou-se para a sobrinha:

— E aí, como foi?

Não era segredo que as idas periódicas ao hospital deixavam Rebekka mal-humorada. Aliás, nos últimos meses Bekky mostrara uma resistência cada vez maior e desta vez por pouco a mãe e a tia não tiveram que levá-la à força. Esta resistência da irmã era um enigma para Kim. Afinal, ninguém a machucava, os médicos queriam apenas certificar-se de que não restaram seqüelas, pois naquela época ficara algumas semanas em coma.

— Foi ótimo — respondeu a mãe no lugar de Rebekka. — Foi a última vez, pelo menos este ano.

Kim e sua tia ficaram surpresos.

— A última vez? — repetiu a tia.

— Ela tem que retornar somente daqui a seis meses — confirmou a mãe. — Hoje até o médico responsável pela clínica a examinou e se mostrou muito satisfeito com o seu estado. Não há por que voltar a cada mês. Só mais duas vezes e depois acabou definitivamente.

— Mas que maravilha! — exclamou tia Birgit. — Não é mesmo, Bekky, meu tesouro?

O semblante de Bekky era de raiva, talvez por não gostar de ser chamada de tesouro. Mas Kim teve a impressão de que ainda havia outro motivo. Rebekka nunca fora muito falante, mas agora não pronunciara uma só palavra desde que haviam entrado no café. Como se algo a incomodasse, ou como se estivesse assustada...

— Idiotice — ela pronunciou, finalmente. — Eu odeio a clínica. Tia Birgit ficou visivelmente chocada, enquanto a mãe mal conteve o riso. Afinal, a tia também acabou rindo.

— De qualquer maneira, agora você está livre — disse a tia. Rebekka lançou-lhe outro olhar sombrio e depois se voltou para a garçonete que estava trazendo a torta.

Na rua, o guincho finalmente conseguiu desencalhar a ambulância danificada, mas acabou preso no engarrafamento. Fascinado, Kim observou uma moça num elegante carro esporte, que tentava se aproveitar de uma pequena brecha para escapar e, depois de algumas investidas malsucedidas, acabou batendo no pára-choque do carro da frente. O motorista desceu e, como era de esperar, teve um ataque de cólera.

Kim mastigou o último pedaço da torta, enquanto notou um policial a cavalo na extremidade oposta da rua à procura de uma brecha em meio a tanta lataria. Polícia montada na cidade não constituía exceção. Era a única maneira de se locomover com certa agilidade nas ruas apinhadas de veículos. Mas, desta vez, o policial cavaleiro fascinou Kim e novamente ele teve a sensação de que algo estranho estava acontecendo, sem saber explicar o que era.

— Meu Deus! — suspirou tia Birgit. — Como vamos sair daqui?

— Afinal, o que aconteceu? — indagou a mãe de Kim, novamente.

— Na verdade, não aconteceu nada de muito trágico. Um menino apareceu na frente da ambulância, obrigando o motorista a desviar. Com isso, ele perdeu o controle do carro e bateu no portão. Os danos foram apenas materiais.

— Um menino?

Tia Birgit inclinou a cabeça:

— É... era meio estranho... totalmente apático, sabe? Era como se estivesse sonhando. Além disso, usava umas roupas esquisitas.

Kim engasgou, começou a tossir e cuspiu um chuvisco de migalhas sobre sua irmã e tia Birgit. Rebekka gritou e, sem que alguém pudesse impedir, jogou seu pedaço de torta em cima do irmão, enquanto tia Birgit, assustada, mais que depressa saiu da linha de fogo.

Rebekka errou a pontaria e a torta, em vez de atingir o irmão, foi parar em cheio no vestido de uma senhora gorda que levantou sobressaltada e por pouco não esbarrou na garçonete, que estava passando com uma bandeja repleta de pratos, talheres e bolos. Aproveitando a confusão, Rebekka espetou com o garfo outro pedaço de torta e desta vez acertou em cheio o rosto do irmão!

Em outra circunstância Kim teria adorado a confusão que se instalou tão de repente, mas no momento nem percebeu o creme que lhe escorria pelo rosto.

Usava roupas estranhas! Era isso! Por que não pensara nisso antes? Devia ter logo notado, desde o primeiro momento em que vira o menino!

Não é possível!, a voz da razão o insuflava. Mas, por outro lado, a miragem no vidro da janela, o menino que parecia sonhar e que vestia roupas esquisitas, o mau humor da irmã e o seu próprio mal-estar desde que chegaram à clínica... não podia ser apenas coincidência. Kim não tinha escolha, precisava descobrir a verdade, custe o que custar! Ao levantar repentinamente, derrubou a cadeira e jogou o prato com os restos da torta no chão.

— Kim! — gritou a mãe. — O que aconteceu? Aonde você vai? Volte já aqui!

Kim não lhe deu atenção e saiu correndo do café. Sua mãe demorou alguns segundos para se recuperar do susto e depois correu atrás dele, que já tinha atravessado a rua e, mais que depressa, desaparecido na entrada do hospital.

Graças às muitas visitas que fizera ao hospital no passado, Kim estava tão familiarizado com as dependências da clínica que nada mais lhe era estranho. Encontraria o caminho de olhos fechados, se fosse preciso. Assim, não precisou perguntar na portaria para onde haviam levado o menino. Provavelmente não iriam mesmo dar quaisquer informações e ele teria perdido um tempo precioso, pois com certeza sua mãe apareceria em breve à sua procura.

Kim passou correndo pelo portão arqueado, desviou de um enfermeiro perplexo e, a passos largos, atravessou o gramado e se dirigiu para o prédio ladrilhado onde estava instalado o pronto-socorro. No tempo em que ele e os pais visitavam Rebekka, inúmeras vezes acompanhara o atendimento do pronto-socorro pela janela do quarto em que a irmã estava internada. Agora tinha quase certeza de que haviam trazido menino para esta ala. Calculou que não passara mais de dez minutos desde que viu o policial sair sozinho do portão da clínica.

Kim arriscou um olhar para trás e constatou, aliviado, que não havia nem sombra da tia ou da mãe. Só o enfermeiro com quem quase esbarrou continuava parado no mesmo lugar, provavelmente se argumentado quem seria o menino que teve a ousadia de pisar no gramado, ignorando por completo o aviso bem legível: É proibido pisar na grama.

Kim resolveu usar os caminhos cobertos por cascalho. Entrou no prédio todo suado e com a respiração ofegante. As portas automáticas lhe pareciam lentas demais e, por um fio, não esbarrou no vidro. O cheiro forte de desinfetante, característica de hospitais, o envolveu. As paredes ladrilhadas, as enfermeiras e os médicos em seus uniformes brancos, as cadeiras desconfortáveis, as flores artificiais em vasos de plástico desencadearam uma série de lembranças e Kim, de repente, sentiu-se pequeno e perdido. Não devia ter vindo! Agira de maneira inconseqüente! Pensar que o menino tinha algo a ver com Märchenmond! Dentro de poucos minutos apareceria a mãe, louca da vida! O seu comportamento impulsivo com certeza terá conseqüências desagradáveis, entre outras, o sermão do pai, à noite.

Kim parou para recuperar o fôlego. Depois se aproximou do balcão que dominava toda a parte direita da recepção. Cerca de meia dúzia de atendentes de branco estavam sentados de olhos fixos na tela do computador sem lhe dar a menor atenção. Kim pigarreou ostensivamente e uma das jovens se dignou a olhar para ele. No primeiro momento parecia surpresa com o menino suado e nervoso à sua frente, mas depois esboçou um sorriso simpático e se levantou.

— O que posso fazer por você, meu jovem? — perguntou.

Boa pergunta, pensou Kim. Gaguejou um pouco e acabou dizendo a primeira coisa que lhe veio à mente:

— Meu irmão... eu procuro meu irmão, ele acabou de... trouxeram ele para... acidente...

Kim ficou mudo e a enfermeira indagou:

— Seu irmão? Como ele se chama?

— Thomas.

— Sobrenome?

Ela o pegou de surpresa. Muito sem graça, Kim não sabia o que dizer. Então o acaso veio em seu auxílio: uma colega da enfermeira ergueu os olhos do monitor:

— É o menino que quase foi atropelado aqui na porta? — perguntou.

Kim se apressou em confirmar.

— Ele não está aqui.

Kim se mostrou desapontado e ela acrescentou:

— Levaram-no para a clínica infantil.

A moça se inclinou para frente e o encarou com ar severo. A luz esverdeada do monitor se refletiu nos seus óculos, o que transmitia a impressão que no lugar dos olhos ela tinha números.

— A clínica infantil? — repetiu Kim.

— Você não pode entrar lá — disse a moça. — Mas é bom você ter vindo, seu irmão não disse uma única palavra, nem sabemos como ele se chama. Talvez você possa...

— Eu conto tudo para os médicos — Kim interrompeu-a e se virou bruscamente.

— Ei! — protestou a enfermeira. — Você não pode...

Kim atravessou a recepção a passos largos e desta vez realmente esbarrou na porta automática de vidro que, como da outra vez, abriu-se com enervante lentidão.

A clínica infantil ficava quase na outra extremidade da extensa área em que fora construído o hospital, mas Kim percorreu a distância de quase dois quilômetros em tempo recorde. Quando alcançou o prédio de seis andares, estava certo de que havia despistado a mãe.

Na ala infantil reinava absoluto silêncio. Não havia balcão de atendimento, apenas uma vidraça com uma pequena abertura quadrangular. O lugar atrás da vidraça estava vazio. No momento em que Kim entrou, as portas de um dos elevadores se fecharam, mas ele ainda avistou, de relance, o menino com suas roupas de couro marrom e as botas de cano longo, trançadas.

Kim ia entrar no outro elevador mas mudou de idéia e, galgando dois e até três degraus de uma só vez, subiu as escadas. Quando chegou ao quinto andar, estava prestes a se tornar o paciente mais jovem a ser internado com enfarte. Nesse mesmo instante, o elevador chegou e Kim viu o menino sair dele, acompanhado por um enfermeiro. Ambos se voltaram para a direita e Kim passou despercebido. Pelo que pôde ver, o menino continuava impassível. Suas roupas, em couro marrom, eram, no mínimo e segundo as palavras de tia Birgit, esquisitas: botas de cano longo, apertadas, a calça quase toda coberta por um folgado camisão amarrado e na cintura um cinto largo com uma fivela de latão dourado. Dos ombros pendia uma espécie de capa, também de couro, mas de cor avermelhada. Kim observou os dois de longe até desaparecerem em um dos quartos no final do corredor.

Impossível! Não pode ser! Kim sentiu o coração martelar no peito, os pensamentos giravam feito carrossel, enquanto tentava encontrar uma explicação para o inexplicável.

A porta se abriu e Kim tratou de se esconder. Passos, sem dúvida do enfermeiro, aproximavam-se, mas, para alívio seu, não se detiveram. Nervoso, Kim ficou parado atrás da porta que separava o vão do corredor. Novamente alguém se aproximou! Munindo-se de coragem, Kim saiu do esconderijo e deparou com o enfermeiro que ainda há pouco acompanhara o menino. O homem trazia na mão direita algo semelhante a uma alongada bainha de couro com dois laços, que, provavelmente, serviam para prendê-la à cintura. Na bainha havia um pequeno punhal, com a extremidade revestida de couro. O enfermeiro parou, surpreso. Muito sério, perguntou:

— O que você está fazendo aqui? O horário de visitas acabou.

— Eu sei — respondeu Kim. — Só queria encontrar meus pais, eles estão com o meu irmão, que foi operado esta manhã.

O enfermeiro se mostrou desconfiado:

— O número do quarto dele?

— Seiscentos e nove — chutou Kim.

— Ah, então é o andar superior — disse o enfermeiro. — E, apontando para o elevador: — Eu vou subir, você pode vir comigo.

Kim balançou a cabeça:

— Eu não gosto de elevadores, uma vez fiquei preso... além disso, pelas escadas é mais rápido, muito obrigado.

Kim virou, hesitou um instante e depois começou a subir as escadas. O enfermeiro fez menção de ir atrás dele, mas depois resolveu tomar o elevador. Kim deu meia-volta e desceu rapidamente.

Parou por um instante na frente do quarto que abrigava o menino. Mais uma vez a voz da razão o preveniu. O que estava fazendo era loucura! Vai ver que o menino não estava sozinho e, mesmo se estivesse, não seria por muito tempo. Mas, como das outras vezes, Kim ignorou o medo e, decidido, apertou a maçaneta.

O quarto estava mergulhado em penumbra e a figura do menino era uma silhueta escura contra o branco da cama. Mas a sorte lhe era favorável: o menino estava sozinho!

Kim se aproximou e notou que o haviam vestido com um roupão branco. Suas roupas estavam cuidadosamente dobradas sobre uma banqueta e o conteúdo dos bolsos disposto sobre um criado-mudo metálico. Pelo jeito, o enfermeiro procurara algum tipo de documento. Se o menino realmente era quem Kim suspeitava, documento algum seria encontrado. Em sua terra, as pessoas não usavam documentos.

Sem fazer ruído, Kim se debruçou sobre a cama e observou, atento, o rosto do estranho menino. De repente e para sua surpresa, o menino arregalou os olhos fixamente em direção ao teto.

— Oi — sussurrou Kim.

Nenhuma reação! O rosto continuou impassível e o olhar vazio. Kim chegou bem perto, mas os olhos escuros permaneceram fixos, como se nem estivessem vendo o visitante. Não restava dúvida: o menino, apesar dos olhos arregalados, não o via, como também não vira a ambulância que quase o atropelara. Kim fez mais uma tentativa:

— Você pode me ouvir?

Sem resposta. Kim mordeu os lábios, lançou um olhar furtivo para a porta e tentou novamente

— Sei quem é você, pode confiar em mim. Você deve estar muito assustado, mas... não precisa fingir, eu sei de onde você vem. Quem te enviou? Temístocles? O príncipe Priwinn?

Esses nomes provocaram um lampejo fugaz lampejar nos olhos do menino. Mas desapareceu tão depressa que Kim se perguntou se não seria apenas fruto de seu desejo ardente de abrir uma brecha na impenetrabilidade dele.

Desapontado, Kim resolveu desistir. Mas, antes de deixar o quarto, decidiu vasculhar os pertences do menino. Quem sabe, não encontraria algum indício que o ajudasse a desvendar o mistério?

Um cordão enrolado, preso a um anzol, duas pedras sílex e uma minúscula flauta com três orifícios. O instrumento era tão pequeno que parecia feito para anões. Que tipo de música poderia sair deste pequeno instrumento? Indeciso, ele passou a flauta de uma mão para outra. Depois voltou a atenção para a roupa sobre a banqueta. Apesar de tudo, ainda poderia estar acontecendo nada mais do que um acaso, improvável, mas não impossível! Precisava de uma prova. E a encontrou!

A camisa, a calça e as botas eram feitas daquele couro fino, mas à prova de rasgo, que tão bem conhecia. Porém foi a fivela do cinto, uma verdadeira obra de arte, de latão reluzente, que o fez gelar! Esculpida em alto-relevo, com inigualável delicadeza, mostrava a cabeça de um cavalo dentro de uma meia-lua que, vista de perto, revelou-se ser um “C” entrelaçado. Pasmo, Kim não conseguiu desviar os olhos da fivela. Era a prova que procurara!

Nesse instante a porta se abriu com um solavanco e um bando de gente entrou no quarto, liderados pelo enfermeiro com quem topara na frente do elevador e pela enfermeira de óculos que o atendera na recepção.

— O que você está fazendo aqui? — indagou uma voz irada.

Alguém o pegou pelo ombro e o arrastou de maneira nada delicada, outro arrancou de suas mãos a calça do menino e a jogou na banqueta. O vozerio ganhou volume e as perguntas se tornaram cada vez mais agressivas:

— Quem é você?

— O que você quer aqui?

Kim permaneceu mudo. Também não reagiu quando o arrastaram para fora do quarto. Até o último momento não desgrudou os olhos do emblema esculpido na fivela que, na penumbra do quarto, parecia irradiar uma luz vermelho-clara, como se nele se encerrasse a chama do reconhecimento.

Era mais do que uma bonita obra de arte, era um brasão! Um brasão que Kim já vira antes, inúmeras vezes, o brasão de Caivallon, a pátria dos altivos cavaleiros das estepes de Märchenmond!

 

 

 

 

Neste dia fatídico, por sorte o pai retornou do trabalho mais tarde do que de costume, e Kim foi provisoriamente poupado da tempestade, que certamente desabaria sobre sua cabeça. Por outro lado, a espera não era nada agradável. A essa altura Kim já nem se lembrava bem do que aconteceu depois que fora descoberto no quarto do menino. Lembrou do enfermeiro que o arrastou de maneira rude para o escritório do diretor do hospital e também de sua mãe, que apareceu e tomou logo as dores do filho, não sem antes lançar-lhe um olhar ameaçador que prenunciar o posterior acerto de contas.

Mas ele permaneceu distante. Seus pensamentos giravam sem trégua em torno da fivela e do seu significado. Tudo nessa história poderia ser acaso, menos a fivela! Kim não teve mais dúvida: o menino era um cavaleiro de Caivallon, a extensa estepe no coração de Märchenmond, uma terra que não existia, porque não se encaixava nos conceitos de realidade dos homens que viviam no mundo de Kim.

A confusão foi parar no escritório do Dr. Halserburg, médico-chefe, que conhecia muito bem a família de Kim, pois tratara de Rebekka naquela época. Graças à sua intervenção, e também graças à mãe de Kim, que usou de toda sua diplomacia, a diretoria do hospital desistiu de levar o caso à esfera policial.

Kim, por sua vez, não entendeu o porquê de todo este alarde. Afinal, o que ele fez de tão grave? Apenas entrou num quarto indevidamente e revistou as roupas do paciente. Os funcionários do hospital, no entanto, encararam o fato por outro prisma. A fisionomia deles não era nada amistosa quando a mãe de Kim finalmente conseguiu a proeza de tirar o filho dali. De todos, a enfermeira de óculos foi quem demonstrou mais abertamente sua ira.

Quando deixaram a clínica pelo menos um problema havia sido solucionado: haviam conseguido desatar o nó do terrível engarrafamento, embora restasse um pormenor, isto é, perto da calçada havia um carro esporte vermelho com o capô totalmente amassado e, um pouco mais adiante, uma viatura com o pisca-pisca azul aceso. Enquanto estivera na clínica houve outro incidente.

Mas isso não o interessava mais. Sua cabeça girava em torno de outra pergunta: O que teria acontecido em Märchenmond?

Por que vira a imagem de Temístocles na janela do café e o que fazia aqui um cavaleiro de Caivallon?

Enquanto tia Birgit dirigia o carro no retorno para casa, sua mãe tentava descobrir o que — pelo amor de Deus! — tinha acontecido. O que significava seu comportamento maluco? Por que, por que...

Responder o quê? Que vira um mago e um menino de um mundo que só existia em seus sonhos, um mundo onde ele, Kim, viajara no lombo de um dragão e onde travara gigantescas batalhas? Ridículo! Se contasse tais histórias, voltaria para a clínica, só que desta vez para a ala psiquiátrica!

Enquanto Kim ignorava estoicamente as perguntas da mãe, lançava olhares indagadores para a irmã. Mas Rebekka desviava. Entre todas as pessoas do mundo, Rebekka era a única com quem poderia compartilhar tais acontecimentos. Afinal, estiveram juntos em Märchenmond! Mas, por outro lado, Bekky ainda era muito pequena e, apesar das aventuras que viveram juntos, sua relação com ela não se diferenciava em nada da convivência entre irmãos, isto é, como cão e gato. Além disso, seria impossível falar com a irmã sobre Temístocles e o cavaleiro das estepes na frente da mãe e da tia Birgit. Tinha de esperar até chegar em casa, aí, talvez, poderia contar tudo a ela.

Tia Birgit estacionou o carro na frente da casa e Kim foi o primeiro a descer, para se refugiar o mais rápido possível no seu quarto. Mas a voz nada suave da mãe o deteve. Sem palavras, ela apontou para a grande mesa na sala de jantar, onde, tradicionalmente, eram discutidos os problemas familiares, ou seja, esclarecidos conflitos e, em casos mais graves, pronunciados os devidos julgamentos. Seu sexto sentido lhe disse que hoje seria a vez dele.

Sem reclamar, Kim sentou em uma das cadeiras à espera dos acontecimentos. Por um momento cogitou em contar o que de fato havia acontecido naquele hospital, mas acabou desistindo. Ninguém acreditaria!

Nesta noite o conselho de guerra demorou para se reunir. A mãe levou Rebekka para o quarto, enquanto tia Birgit se retirou para a cozinha a fim de fazer café. De vez em quando aparecia na sala de jantar para lançar olhares ameaçadores ao sobrinho, ignorando por completo sua expressão de cachorro sem dono.

Finalmente a mãe voltou e sentou ao seu lado. Tia Birgit apareceu segurando uma bandeja com duas xícaras de café e um copo de leite com mel. Kim detestava leite com mel. Só de olhar para o leite seu estômago revirava, mas, heroicamente, pegou o copo e tomou um grande gole, na esperança de apaziguar os ânimos. A mãe deu início ao interrogatório:

— E aí?

Kim se fez de bobo, aliás, segundo a opinião da irmã, seu estado normal.

— O quê? — retrucou.

O rosto da mãe se anuviou:

— Você sabe muito bem do que estou falando. O que aconteceu? Por que você invadiu aquele quarto?

— Eu não invadi — defendeu-se Kim. — É que... eu...

— Está bem — interrompeu a mãe. — Pelo menos foram estas as palavras da mulher responsável pela administração do hospital.

Kim olhou surpreso para a mãe. A enfermeira de óculos? Nem percebera que ela dissera palavras tão duras.

— Não queremos fazer nenhum mal a você, filho. Ao contrário, eu sei muito bem que você seria incapaz de fazer uma coisa dessas sem nenhum motivo. Afinal, você não é mais uma criancinha, você já é um rapaz.

— Queremos apenas saber os motivos — acrescentou tia Birgit. — Se a sua mãe não conhecesse aquele médico, vocês estariam em sérios apuros.

Kim baixou a cabeça. A tia nem podia imaginar que ele já estava em apuros.

— O que você queria com aquele menino? — insistiu a mãe. — O enfermeiro alegou que você queria roubar as coisas dele.

— Que besteira! — exclamou Kim, revoltado.

A mãe inclinou a cabeça em sinal de confirmação:

— Foi o que eu disse e o médico acreditou em mim, graças a Deus! Se não tivesse acreditado, agora estaríamos em alguma delegacia de polícia. Mas o enfermeiro afirma que você estava com as coisas do menino nas mãos quando ele entrou no quarto. É verdade?

Kim não teve alternativa a não ser confirmar, pois, além do enfermeiro, pelo menos meia dúzia de pessoas o viram com a fivela do cinto nas mãos. Não fazia sentido negar.

— Eu só queria... olhar — murmurou Kim, evasivo.

— Olhar?! Mas... por quê?

— As roupas dele são esquisitas... eu pensei que... eu pensei que conhecia o menino.

Tia Birgit franziu a testa e a mãe o encarou, desconfiada:

— De onde?

— Não... eu não o conheço — apressou-se Kim em esclarecer. — Eu me enganei, só pensei que o conhecia.

— E você se deu conta disso tão depressa que saiu correndo como se um bando de cachorros loucos estivesse atrás de você? — indagou a tia, incrédula.

Kim sabia que não estava sendo convincente. A mãe continuou insistindo:

— Então?

Kim emudeceu e sua mãe reconheceu que, pelo menos por ora, não adiantava prosseguir com o interrogatório. Com um suspiro profundo abanou a cabeça, tomou um gole de café e disse:

— Está bem, vamos deixar este assunto de lado, pelo menos por enquanto. Estamos todos nervosos. Vá para o seu quarto e espere lá. Talvez o seu pai consiga fazer você falar.

Kim subiu para o quarto, bateu a porta e fechou os olhos. Só agora, sozinho, começou a sentir pavor de verdade. De olhos fechados viu o rosto pálido do menino e a fivela dourada com o brasão de Caivallon. Lembrou que o enfermeiro segurava um punhal, sem dúvida a arma do menino. Punhal, espada e arco... as armas tradicionais dos cavaleiros de Caivallon!

Mas, se o menino realmente fosse um cavaleiro de Caivallon, o que teria vindo fazer aqui? Para lhe dar algum aviso... será que algo terrível aconteceu em Märchenmond! O rosto de Temístocles no vidro do café mostrara a expressão de alguém que presenciara algo mais terrível que a própria morte!

Algo duro roçou sua perna, e quando enfiou a mão no bolso para ver o que era, arregalou os olhos: um minúsculo pedaço de madeira com três buracos não muito maiores do que picadelas de agulha... a flauta que estivera entre os pertences do menino! Nem lembrava que a enfiara no bolso. Fora uma reação instintiva, quando o enfermeiro entrou no quarto de supetão. Ficou gelado só de pensar o que poderia ter acontecido se tivessem encontrado a flauta no seu bolso. É claro que não teve a intenção de roubar o pequeno instrumento, porém, por mais que afirmasse, ninguém teria acreditado!

De alguma forma Kim sentiu-se culpado. Repôs a flauta no bolso da calça e se jogou na cama. Contra sua vontade, seus pensamentos se voltaram de novo para Märchenmond. Tanto tempo se passara, embora às vezes parecesse que tudo tinha acontecido ontem. Havia se conformado com a idéia de que nunca mais retornaria ao reino da fantasia. É claro que sempre havia aquela pequenina faísca de esperança de que um dia reencontraria o caminho de volta. Chegou até a sonhar com seu retorno. Mas, no fundo, sabia que era apenas um sonho.

E agora tudo levava a crer que os habitantes daquele mundo fantástico haviam encontrado o caminho para o mundo de Kim. Por algum motivo o jovem cavaleiro das estepes conseguiu atravessar o portal que conduzia ao mundo dos humanos. Mas o preço que pagou foi alto demais. Por que ousariam tanto? Para alertá-lo? Ou... pedir ajuda?

Temístocles já estivera no mundo dos homens antes para pedir a ajuda de Kim, se bem que depois ficou evidente que, na verdade, foram os habitantes de Märchenmond que prestaram ajuda a Kim. Naquela época não foi nada fácil para Temístocles chamar Kim, mas, lançando mão de seus poderes mágicos, ele guiou Kim através da Cordilheira das Sombras e...

Kim saltou da cama e foi até a prateleira onde guardava sua coleção de ficção científica, já bem desgastada pelo uso. Na frente dos livros, o protótipo de um disco voador que ele próprio montara com dois pires que “roubou” do armário da cozinha, um dragão de estanho, de uns quinze centímetros, dois aviões Perry-Rhodan e... a Viper!

Com as mãos trêmulas tirou a Viper do suporte de plástico transparente e, por pouco, ela não caiu no chão. Era muito mais do que um simples brinquedo! Foi a pequena nave espacial de cerca de trinta centímetros de comprimento que o levou para as profundezas das galáxias. Com ela desbravou planetas desconhecidos e, o mais importante, foi com ela que pousou em Märchenmond!

Parado, com a nave espacial nas mãos, aos poucos se delineou um plano em sua mente. Tinha plena consciência de que seria um empreendimento louco, praticamente impossível, mas não tinha escolha, pois estava certo de que Temístocles e talvez até Märchenmond estavam correndo perigo e precisavam de ajuda. Talvez ele, Kim, fosse a única pessoa que pudesse ajudá-los.

Levou a modelo da Viper para a cama e, de pernas cruzadas, sentou em cima do cobertor. Fechou os olhos e canalizou todos os pensamentos em um único objetivo: estar novamente na carlinga da Viper e reencontrar o caminho para Märchenmond! Conseguira uma vez e, sem dúvida, o faria de novo. Era só querer!

O quarto começou a escurecer e o mundo ao seu redor encolheu, até ficar reduzido a um minúsculo ponto claro no centro de um gigantesco mar de escuridão, onde habitavam somente ele e a Viper. E, de repente, a nave espacial começou a crescer, crescer...

Acordou e se viu cercado pela escuridão absoluta, interrompida apenas por um lúgubre brilho esverdeado que pairava no ar como um sinistro feitiço, distorcendo o contorno dos objetos. Faltavam palavras para descrever o que via.

Algo pontiagudo e muito dolorido estava espetado no seu peito, provavelmente os destroços da Viper que, como da primeira vez, caíra em alguma parte inóspita de Märchenmond, embora Kim não tivesse nenhuma lembrança do vôo. A nuca e os ombros doíam tanto que ele nem ousou se mexer. Consegui!, foi a primeira coisa que pensou. O chão macio em que estava deitado devia ser o pântano que ficava além da Cordilheira das Sombras. Kim se viu cercado pela penumbra que reinava nas florestas obscuras e sombrias da cordilheira, atravessada apenas pelo brilho esverdeado e azulado dos gases que emanavam do pântano. Com certo esforço, cerrando os dentes para conseguir suportar a dor, Kim se pôs de pé, pronto para enfrentar um eventual cavaleiro negro que assomasse na escuridão. Desta vez estava preparado! Não cairia mais nos truques do barão Kart e nem nas mentiras do mago Boraas. Porém, nenhum cavaleiro negro apareceu e tampouco o obscuro Boraas deu o ar de sua graça. Kim sentiu-se um tanto ridículo, pois os contornos das árvores em volta dele nada mais eram do que seus móveis, e a escuridão da Cordilheira das Sombras era o breu do seu quarto! Em vez do chão pantanoso, Kim estava deitado em cima de sua cama, e sua nuca estava dolorida porque adormecera numa posição torta. A luz mágica vinha da tela do computador ligado. Só havia uma coisa que coincidia com os seus sonhos: eram realmente os restos da Viper que estavam espetados no seu peito! Ele adormecera, deitado em cima do modelo da nave espacial. Muito chateado, Kim não tirou os olhos daquilo que um dia tinha sido uma nave espacial e que construíra com tanto esforço e carinho. A nave não havia simplesmente quebrado, estava totalmente destruída! Kim sentiu lágrimas nos olhos. A perda da nave doía muito. Pôs-se a juntar os pedaços, mas como só restaram incontáveis estilhaços e lascas, foi um empreendimento inútil. Demoraria semanas ou até meses para reconstruir o modelo que, uma vez pronto, talvez nem chegasse perto da Viper original.

Depois de algum tempo, levantou, assoou o nariz e enxugou as lágrimas. Carinhosamente juntou os restos e os levou até o cesto de papel... não! Simplesmente não conseguia jogar a Viper no lixo! Ele os depositou em cima da escrivaninha. Depois teve o cuidado de vasculhar a cama para não perder nenhum pedaço de sua querida Viper, por menor que fosse, o que, na escuridão, era uma empreitada um tanto difícil. De repente, sua atenção se voltou para a tela do computador. Estranho... tinha certeza de que não ligara o computador! Hesitou por um momento, depois deu de ombros. O comportamento do seu computador com certeza nada tinha a ver com Temístocles. Na terra dos sonhos este tipo de tecnologia era desconhecido.

Kim suspirou, desligou o aparelho e acendeu a luz do quarto. A claridade espantou o medo que, contra a sua vontade, instalara-se em sua alma. Ao consultar o relógio verificou que já eram mais de sete horas. Seu pai provavelmente já retornara do trabalho. Pensativo, desligou a luz e saiu para o corredor. Fora um leve murmúrio de vozes que vinha da sala de estar, entremeado com os ruídos da televisão ligada, tudo estava em silêncio. Kim se preparou para o deus-nos-acuda que certamente ocorreria. Respirou fundo, mas, em vez de descer, deu meia-volta e foi até o quarto de Rebekka. Talvez agora pudesse dar uma palavrinha com a irmã. Indeciso, ficou parado diante da porta. Não se ouvia o menor ruído, o que, no entanto, não significava que ela não estava no quarto, pois, desde que ele e a irmã possuíam toca- fitas, o pai reconheceu a necessidade de instalar portas à prova de ruído na casa, o que, sem dúvida, revelara-se indispensável para a harmonia familiar.

Kim bateu à porta, mas ninguém respondeu. Bateu de novo, com mais força, sempre escutando os ruídos que vinham da sala de estar. Rebekka não respondeu e Kim resolveu entrar. O quarto estava vazio! Sobre a cama, Kelhim, o urso de pelúcia com apenas um olho. Estranho, a irmã raras vezes saía sem o seu bichinho de estimação! Às vezes ela o levava até para o banho. Também este quarto estava mergulhado em penumbra, com a diferença de que aqui a única fonte de luz não vinha da tela do computador, mas do grande “terrário” ao lado da janela, iluminado por uma lúgubre luz azul esbranquiçada. O quarto vazio o deixou triste, esperou encontrar a irmã para trocar idéias com ela.

Voltou sua atenção para o terrário, que Rebekka ganhara no Natal passado, junto com duas salamandras do tamanho da palma da mão, cuja cor variava entre o verde e o vermelho. Aos dois irmãos fora dada a chance de escolher seus presentes, e enquanto Kim optou pelo computador, Bekky escolheu o terrário com as salamandras. Rebekka costumava dizer que o computador era um “troço” muito besta e Kim lhe dava o troco reduzindo suas salamandras a bichos nojentos.

Mas, neste exato momento, algo mudou. Era como se o grande recipiente de vidro com sua luz fria azulada o atraísse de forma hipnótica. Kim ficou de cócoras. Rosi e Rosa! Era um enigma como Bekky conseguia distinguir o sexo dos animais, para ele as salamandras eram absolutamente iguais. Uma delas, como de costume, escondeu-se debaixo de um pedaço de cortiça, deixando à mostra apenas o final da cauda. A outra subiu na miniatura de árvore, feita de plástico, que ocupava a parte direita do tanque de vidro. O animal ostentava um comportamento um tanto estranho: enrolou o corpo no tronco da árvore, enquanto suas minúsculas garras procuravam apoiar-se na superfície de plástico. Sua boca estava semi-aberta e seus pequeninos olhos fitavam Kim atentamente. O rapaz arrepiou-se todo, pois a Salamandra lembrava uma serpente enrolada em um bastão... o bastão de Temístocles! Bobagem! Kim levantou e, às pressas, saiu do quarto. Quando entrou na sala de estar, os pais interromperam a conversa. O pai olhou para ele e com a cabeça apontou para o sofá. Kim obedeceu, sem desviar os olhos da televisão, que exibia um filme de ficção científica: gigantescas naves espaciais sobrevoavam a superfície de um planeta ermo, onde homens e mulheres maltrapilhos enfrentavam, desesperados, um enorme exército de robôs. Kim constatou que os efeitos especiais eram malfeitos. Ele entendia do assunto, afinal ficção científica era a sua grande paixão. Seu pai pigarreou e Kim, muito a contragosto, desprendeu os olhos da tela.

— Se você tiver a bondade de me conceder sua atenção, eu agradeço, meu filho — ironizou o pai.

Por pouco Kim não suspirou. Quando o pai falava nesse tom, a coisa era séria. Resolveu fingir que o filme não o interessava.

— Está bem, pai — respondeu, um pouco sem graça. O rosto do pai endureceu:

— Não banque o espertinho, rapaz. Você sabe muito bem o que eu quero saber. Eu quis chamar você antes, mas sua mãe achou melhor deixar você dormir.

O pai fez uma pausa e Kim aproveitou para lançar um olhar para a televisão, onde, neste momento, um robô gigante ocupou toda a tela. Por detrás da estreita abertura na parte superior da máscara, em vez dos olhos se via uma escrita luminosa, esverdeada, trepidante, o que despertou uma vaga lembrança nele, sem que soubesse decifrá-la. Mas era de certa forma inquietante.

— Então, filho, o que aconteceu esta tarde na clínica?

— Não sei — confessou Kim. — Pensei que conhecia aquele menino. Eu... eu tinha que ir até lá, você entende?

— Não — respondeu o pai. — Eu não entendo. Por que você tinha que correr atrás dele como um louco, sem dar ao menos satisfação a sua mãe?

— É que... eu...

A campainha o livrou de mais desculpas esfarrapadas, pelo menos por ora. O olhar que os pais trocaram deixou claro que não esperavam visitas àquela hora. O pai levantou os ombros e saiu da sala para atender.

Kim aproveitou a oportunidade para voltar sua atenção para o filme, no qual os robôs estavam vencendo os humanos e tomavam um castelo de cristal, construído no alto de uma grande torre. Os robôs usavam armas a laser que abriam cada vez mais buracos no cristal.

O pai voltou acompanhado de um homem de uns cinqüenta anos, cabelos grisalhos, vestindo um uniforme verde. Mesmo se estivesse sem uniforme, não dava para esconder que era policial. Além da polícia, veio também o médico da clínica. Lá vem chumbo grosso! O pai pigarreou:

— Temos visitas — disse, evidenciando o óbvio.

— O Dr. Halserburg vocês já conhecem. — E, apontando para o homem de uniforme verde:

— Comissário Gerber.

O pai lançou um olhar tranqüilizador para a mãe que, muito pálida, enrijeceu em sua cadeira. Depois se voltou para Kim:

— O Sr. comissário quer lhe fazer umas perguntas, filho.

— Ah... eu... — gaguejou Kim. — Mas eu não fiz...

— Não há motivos para ficar nervoso, rapaz — interrompeu-o Gerber, com um sorriso amigável. O comissário sentou-se na frente de Kim:

— Não estamos aqui para recriminá-lo, eu só quero lhe fazer umas perguntas.

— Perguntas? — repetiu Kim. — Mas eu não sei de nada!

— Bem, vamos ver — disse Gerber, e seu sorriso já não era tão amigável.

— O senhor aceita um café? — perguntou a mãe, pouco à vontade. A polícia em sua casa! E tudo por causa de Kim! Dr. Halserburg recusou a gentil oferta, mas Gerber aceitou o café.

A mãe foi até a cozinha, mas deixou a porta aberta para não perder nenhum detalhe da conversa. Enquanto isso, a tela da televisão mostrou novamente a imagem do robô, que agora parecia estar olhando para Kim. O comissário Gerber reiniciou o interrogatório:

— Eu acho que você pode imaginar por que estamos aqui, meu jovem.

Kim engoliu em seco. Queria responder, mas só balançou a cabeça. O comissário apontou para o médico:

— Dr. Halserburg nos contou o que aconteceu hoje à tarde na clínica.

— Eu não roubei nada — defendeu-se Kim. — Só entrei naquele quarto, mas não...

— Tudo bem! — tranqüilizou-o Gerber, com um gesto. — Mesmo se tivesse roubado, a polícia não viria a sua casa só por causa disso.

— Por que o senhor não fala logo o que quer do meu filho? — intrometeu-se o pai de Kim, nervoso.

Gerber se voltou para o pai e cravou os olhos nele:

— Apenas uma informação, nada mais.

— É sobre aquele menino, não é? — insistiu o pai. Gerber inclinou a cabeça:

— Entre outros.

— Entre outros? — repetiu o pai, surpreso. O médico tomou a palavra:

— Sinto muito se estamos causando transtornos para o senhor e seu filho, mas Kim talvez seja nossa única esperança de solucionarmos uma questão enigmática tanto para nós quanto para a polícia.

Dr. Halserburg se dirigiu diretamente a Kim:

— Veja bem, Kim, o menino que despertou o seu interesse não é o primeiro...

— Não é o primeiro o quê? — interrompeu o pai, impaciente.

— Bem, hum... não é a primeira criança que encontramos em estado de total apatia — continuou o Dr. Halserburg. — Você o viu de perto, Kim. Aparentemente ele não tem nada, isto é, fisicamente. Mas ele está catatônico.

— Cata... o quê? — perguntou Kim. O médico esboçou um sorriso:

— Está impassível, apático — explicou. — Ele respira, seu coração bate e ele reage a estímulos externos, como dor, frio, calor. Mas isto é tudo. Se ele for colocado de pé em um canto, simplesmente ficará parado, até cair.

— Mas o que o meu filho tem a ver com isso? — quis saber o pai. Gerber tomou as rédeas:

— Como o Dr. Halserburg disse, este menino não é o primeiro que encontramos nesse estado. Nas últimas semanas encontramos quase uma dúzia de crianças como ele. Elas não têm documentos, não falam...

— E todas elas usam roupas estranhas — acrescentou o médico. — O motorista da ambulância afirmou que o menino apareceu de repente, do nada.

— Como assim? — indagou o pai.

O comissário Gerber ergueu os ombros:

— Foram estas as suas palavras. Ele disse que o menino não veio correndo de alguma direção específica, como seria normal. Simplesmente apareceu, do nada. É difícil acreditar, mas o homem jurou que foi isso que aconteceu. Mas, como eu já disse, não é por causa do acidente que estamos aqui. Queremos descobrir a origem dessas crianças e qual é o seu problema.

— Elas estão doentes? — perguntou Kim e na mesma hora se arrependeu.

Dr. Halserburg hesitou um pouco e depois disse:

— É o que tememos. À primeira vista não apresentam nenhum sintoma físico, mas parece que se encontram... hum... em uma espécie de transe. Estamos diante de um mistério. O pior é que elas estão cada vez mais fracas, têm de ser alimentadas artificialmente e não sabemos até quando isto será possível.

— Temos que descobrir sua origem — reforçou Gerber. — Você, Kim, até agora é a única pessoa que, pelo visto, pode nos dar alguma informação.

Kim estava quase certo de que o Dr. Halserburg desconfiava de algo, pois o médico não esqueceu o que acontecera com Rebekka naquela época.

— Isso me faz lembrar a sua irmã — disse Dr. Halserburg, como se confirmasse as conjeturas de Kim. — Se você sabe de alguma coisa tem de nos dizer, não importa o que seja — insistiu o médico.

— Mas eu... eu não sei de nada — murmurou Kim. — É verdade, eu fui até lá, mas foi um engano. Eu achei que conhecia o menino, mas...

Dr. Halserburg o interrompeu, impaciente:

— Você estava branco como se estivesse vendo um fantasma. Só tinha olhos para o menino. Esse não é o comportamento de quem não sabe de nada.

— O doutor está certo que você conhece aquele menino — acrescentou Gerber.

Kim se mostrou irredutível:

— Não... eu não conheço.

O comissário o fitou em silêncio. Depois tirou do bolso um saquinho de plástico transparente contendo um cinto de couro e uma fivela reluzente.

— Você estava com estes objetos nas mãos, quando o enfermeiro o surpreendeu no quarto do menino. Você não quer explicar o que isto significa?

— Um cinto... — disse Kim, vagamente.

Gerber estava prestes a perder a paciência, mas ainda conseguiu se controlar:

— Óbvio! Mas trata-se de um cinto estranho, não é mesmo? Eu nunca vi nada igual e os nossos técnicos que analisaram o material confirmaram que a composição do metal é desconhecida.

— O metal não é desse mundo — disse Kim.

— O quê? — exclamou Gerber, debruçando-se para frente. O robô na televisão fez o mesmo.

— Explique melhor. Kim resolveu se abrir:

— O menino não tem documentos porque ele vem de um outro mundo, onde as pessoas não possuem documentos.

Gerber estarreceu:

— O quê?! — exclamou de novo.

— Existe um país onde o fantástico se torna realidade — continuou Kim. — Trata-se de um mundo que só se pode visitar nos sonhos, pelo menos até agora era assim. Eu e minha irmã estivemos lá, há muito tempo, e nós...

— Basta! — interrompeu-o Gerber, sem disfarçar a raiva.

— Se você quer me fazer de idiota, meu jovem, é melhor inventar uma história mais convincente. Por que não fala logo que o menino veio de Marte? — E, com um gesto impaciente: — Se não quer colaborar, terei que ser mais duro.

— Acho que não — intrometeu-se o pai com a voz que era puro gelo.

Gerber se voltou para ele, irado:

— O senhor...

— O senhor sem dúvida não se deu conta de que meu filho é menor, senhor Gerber. Além disso, ele não cometeu nenhum crime, mas, mesmo se tivesse feito algo de errado, o senhor não teria o menor direito de falar com ele nesse tom.

O comissário engoliu em seco. Parecia que ia explodir a qualquer momento. Enfiou o cinto no bolso do paletó e, mal controlando a raiva, levantou:

— Como o senhor quiser — disse friamente. — Mas esteja certo, isso não vai ficar assim!

Dr. Halserburg tentou apaziguar os ânimos:

— Senhores, por favor! Assim não resolveremos nada...

O médico suspirou, balançou a cabeça e voltou-se para Kim:

— Não queremos fazer mal a ninguém. Só queremos resolver o problema dessas crianças, elas estão doentes, talvez até morram. Não é isso que você quer, não é mesmo?

— Claro que não — respondeu Kim, nervoso. — Mas, eu... eu não posso ajudar, mesmo se quisesse.

— Então você não quer — insistiu Gerber.

— Que bobagem! — disse o médico, que também começou a ficar estressado.

— Conheço Kim e tenho a certeza que ele nos ajudaria se pudesse. O senhor não acha...

— Não acho mais nada — enfureceu-se o comissário.

Nesse momento apareceu a mãe de Kim segurando uma bandeja cheia de xícaras com café.

— Não é preciso — disse o pai, com frieza. — Os senhores já estavam de saída.

Gerber soltou fogo pelas ventas, mas absteve-se de qualquer comentário. O médico, por sua vez, parecia triste.

— Talvez você ainda mude de idéia — disse. — Vou deixar meu telefone particular, se você tiver algo a dizer, me ligue. Eu dou minha palavra de honra que você disser ficará em sigilo.

— Eu os acompanho até a porta — disse o pai, levantando.

Até o robô desapareceu da tela, embora a luta entre os robôs e os humanos continuasse. Mas Kim perdera o interesse. Ele ia se levantar, mas, quando percebeu o olhar da mãe, resolveu sentar-se de novo.

Essas crianças talvez não sobrevivam — disse Dr. Halserburg. Só queremos ajudá-las.

— Mas eu também quero! — afligiu-se Kim. Ele tinha que encontrar o caminho para Märchenmond, custe o que custar!

Ouviu a porta bater e logo em seguida o pai entrou na sala, os olhos lampejando de raiva.

— Satisfeito? — perguntou. Kim não respondeu.

— Você já aprontou muito, mas até hoje nunca havia se envolvido com a polícia — continuou o pai, nervoso. — Qual será a próxima vítima?

— Por favor — pediu a mãe. — Não brigue com ele, você não está vendo que ele está arrasado?

— Ah é? Arrasado? — repetiu o pai enquanto acendia um cigarro, o que não fazia há muito tempo. E, prontamente, após o primeiro trago, teve um forte acesso de tosse. Depois que se acalmou, abanou a fumaça diante do rosto e continuou:

— Eu só entendo que o nosso filho nos trouxe um monte de aborrecimentos. Você não ouviu o que o comissário disse? Ele não acreditou em uma única palavra.

Lançou um olhar sombrio para o filho:

— E, para o bem da verdade... nem eu!

— Mas eu falei a verdade! — defendeu-se Kim. — Não conheço aquele menino!

O pai ia responder, mas outro acesso de tosse o impediu:

— Pois bem — disse, depois de recuperar o fôlego. — Você é quem sabe. Estou cansado. Vá para o seu quarto, filho. Reflita bem, talvez você mude de idéia e se conscientize de que não está agindo com inteligência.

Kim olhou para o pai e sentiu remorso. Depois saiu da sala e subiu as escadas correndo para refugiar-se no quarto.

 

Como era de esperar, Kim ficou um bom tempo rolando na cama de um lado para o outro. Da sala de estar vinham as vozes dos pais, mas Kim não conseguiu entender o que falavam. O pai parecia irritado, enquanto a mãe, sempre muito diplomática, apenas murmurava. Ela era mestre em abrandar os ânimos, mesmo nos problemas mais críticos. Pelo jeito, desta vez também conseguiu contornar a situação, pois, quando Kim acordou no meio da noite, as vozes haviam silenciado. Primeiro, continuou deitado, surpreso porque, apesar de tudo, conseguira adormecer. Kim bocejou, levantou da cama e percebeu que não havia trocado de roupa. Atordoado, passou a mão pelo rosto. Tinha de encontrar o caminho para Märchenmond, mas como?

Quis acender a luz, mas desistiu. Seu pai às vezes trabalhava até tarde da noite e, se visse a luz do quarto acesa, sem dúvida apareceria para ver o que estava acontecendo. Kim resolveu ligar o computador. A claridade do monitor era suficiente para que ele pudesse se orientar.

Olhou para os restos da Viper e, com um suspiro, começou a juntar os pedaços, um trabalho inútil. Mas era melhor fazer algo inútil do que não fazer nada.

Ao se debruçar para frente, sentiu algo espetar sua coxa direita. Enfiou a mão no bolso da calça e... a minúscula flauta que, sem querer, trouxera da clínica! Pensativo, olhou para o pequeno instrumento. Será que...?

Não custava tentar. Encostou a pequena flauta na boca, e com as pontas dos dedos cobriu os minúsculos orifícios e assoprou com força. O som que saiu era tão dissonante, que o instrumento quase lhe escapou das mãos. Até a tela do computador começou a vibrar.

Kim olhou ao redor. Nada mudou! Afinal, o que esperava? Que o chão se abrisse e que aparecesse um elevador para levá-lo a Märchenmond?

Decepcionado, abanou a cabeça e enfiou a flauta no bolso. Nesse momento ouviu um ruído vindo da parte de baixo da casa. Ué? O pequeno relógio na parte superior do computador indicou as horas: quase quatro da madrugada! Nem mesmo seu pai estaria acordado a uma hora destas! Além disso, quando o pai acordava no meio da noite, costumava ser muito silencioso. No entanto, os ruídos que vinham da sala de estar não eram nada silenciosos, ao contrário, parecia que alguém estava brincando com todas as panelas da cozinha. O que estava acontecendo lá em baixo, meu Deus?

Kim saiu do quarto e foi para o corredor. Olhou para todos os lados, tudo estava escuro, nem do térreo nem do quarto dos pais vinha o menor sinal de luz. Em contrapartida, o tilintar aumentou e agora dava para ouvir também um estranho e inexplicável matraquear. Com o coração batendo forte, Kim desceu as escadas. A porta da sala de estar estava aberta e ele notou que no quarto havia uma luz pálida, acinzentada. Mas, depois que seus olhos se acostumaram à penumbra, percebeu algo mais: alguém estava se movimentando na sala de estar e, com certeza, não era seu pai!

Kim não sabia o que fazer. Um dia seu pai lhe dissera que havia uma diferença entre coragem e leviandade. Se houvesse um estranho com más intenções na sala de estar, enfrentá-lo sozinho certamente nada tinha a ver com coragem. Mas, por outro lado, desde quando um ladrão fazia tanto barulho?

Kim resolveu espiar, naturalmente tomando o maior cuidado. Quase desmaiou! A sala de estar estava totalmente destruída! A televisão, o aparelho de som do pai e o relógio de parede ficaram reduzidos a pedaços fumegantes! Também na cozinha, iluminada por uma luz muito clara e desagradável, reinava o caos: todos os equipamentos sofreram a mesma destruição metódica que Kim já havia presenciado na sala de estar. A janela estava escancarada e a cortina rasgada. E — o pior — em meio a toda esta destruição, uma estranha figura movimentava a cabeça em continuidade rítmica, para frente e para trás, como se estivesse à procura de novos objetos que pudesse destruir. Obviamente não era o pai de Kim! Aliás, nem humano era! Por um bom tempo Kim permaneceu simplesmente parado, os olhos fixos no gigante anguloso, de cerca de dois metros de altura, duvidando da própria razão. Estaria ficando louco?

A forte luz o deixou ofuscado, enxergava apenas a silhueta do gigante. Mas, mesmo assim, não restava dúvida: os ombros largos e angulosos, as enormes garras, uma das quais delgada e equipada com dedos flexíveis, a outra, uma terrível garra de aço com bordas afiadas, igual a uma gilete, pelo jeito não tinham outro fim a não ser rasgar e dilacerar o que encontrava pela frente... a horrenda figura era ninguém mais do que o robô do filme de ficção científica que passara na televisão! O rosto lembrava a máscara de um jogador de hóquei e, no lugar dos olhos, havia um rasgão oblíquo, atrás do qual se viam letreiros luminosos esverdeados.

De repente a figura virou a cabeça angulosa e encarou Kim. O rapaz, que até então estava paralisado pelo horror, soltou um grito e se virou abruptamente para alcançar a porta da rua. Não! Rebekka e os pais! Tinha que salvá-los das garras do monstro! Não importava de que galáxia viera o colosso, topar com ele era mortal! Aliás, por que os pais não acordaram com o tremendo barulho? Estranho!

Antes que pudesse subir as escadas, um golpe estrondoso atingiu a parede e fez tremer os alicerces da casa. Um punho de aço atravessou a parede, tentou agarrá-lo e só conseguiu arrancar um pedaço do seu casaco. Escapou por pouco!

Kim tropeçou, esbarrou no corrimão da escada e caiu sobre o primeiro degrau. Outro golpe brutal atingiu a parede, que acabou ruindo. Pelo visto, o monstro preferia atravessar as paredes que usar as portas.

O medo lhe conferiu forças. Levantou com um pulo e correu escada acima, gritando pelo pai. Entrementes toda a rua devia estar acordada com o inferno que se instalara em sua casa! Mas ninguém apareceu! O quarto dos pais continuava escuro, nem os pais nem a irmã vieram ver o que estava acontecendo!

Kim chegou ao topo da escada, lançou um rápido olhar para trás e gritou, apavorado. O robô apontava uma arma a laser para ele! O raio da arma mortal passou rente a ele e acabou abrindo um buraco na porta do seu quarto. Em poucos segundos o corredor ficou iluminado pelo clarão do fogo e o ar se tornou insuportavelmente quente.

Kim alcançou o quarto dos pais, mas, ao abrir a porta, esbarrou em um obstáculo invisível. O embate foi tão violento que Kim cambaleou para trás e depois caiu sentado. A cabeça parecia ribombar e os raios luminosos diante dos seus olhos não vinham apenas das labaredas, que nesse meio-tempo lambiam o corredor. A escada começou a trepidar sob o peso do colosso. Kim levantou com certo esforço e, novamente, tentou entrar no quarto dos pais, mas seus dedos encontraram uma parede de vidro maciço, onde se refletiam as chamas e... o robô, que surgiu atrás dele! Kim deixou-se cair de lado e, pela segunda vez, o raio laser não o atingiu por um triz. O raio atravessou a parede de vidro sem o menor esforço e explodiu no quarto, sem que o vidro sofresse o menor arranhão! Os móveis e as cortinas pegaram fogo, mas para alívio de Kim, o quarto dos pais estava vazio! Onde estavam seus pais?

Não havia tempo para conjeturas, pois o robô, não satisfeito em incendiar a casa, queria, a todo custo, atingir Kim. Um terceiro raio laser fulminou de sua mão, deixou um rastro fumegante no chão, varreu parte do corrimão da escada e abriu um buraco em uma das paredes.

Kim reuniu todas as forças, rolou, com os dentes cerrados, pela madeira ardente, levantou e, em ziguezague, atravessou o corredor para entrar no quarto de Rebekka. O impacto que perfurou a parede de vidro não lhe causou nenhuma surpresa. Era como se estivesse preso em um gigantesco aquário, sozinho, com um robô enlouquecido, decidido a transformá-lo em churrasco.

Novamente o robô apontou o laser para Kim. Só um milagre o salvaria! O desespero lhe conferiu forças sobrenaturais. Com um salto ousado arrancou o grande espelho de uma das paredes do corredor, usando-o como escudo para cobrir o rosto e o peito. O raio mortal atingiu o espelho, bem próximo ao seu coração. É o fim, pensou Kim. Mas o laser, em vez de atravessar o espelho, ricocheteou e voltou na mesma direção. A madeira da escadaria transformou-se em brasa aos pés do robô e, em fração de segundos, desapareceu por completo, levando-o consigo.

Kim ficou parado, arfante. Depois ficou de joelhos e engatinhou até onde ainda há pouco estava a escada. O robô despencara em meio a um montão de madeira ardente, mas, quando Kim espiou para baixo com cuidado, constatou que o monstro continuava ativo. Seu braço direito oscilava sem controle de um lado para outro e do seu interior saiam ganidos agudos, extremamente desagradáveis. O colosso ergueu a cabeça e o rasgão oblíquo de letreiros esverdeados que lhe servia de olho fixou-se em Kim, que, mais que depressa, pôs-se à procura de uma saída. O corredor em chamas, a entrada para o quarto dos pais e para o quarto da irmã barrada pela parede de vidro e o banheiro sem janela... estava encurralado! Com um pouco de sorte, podia escapar pela janela do seu próprio quarto e fugir pelo telhado, antes que a casa desabasse por completo. Mas o seu quarto também estava tomado pelas chamas! A escrivaninha, o computador, os restos da Viper... tudo destruído, e as labaredas arruinando as paredes e o tapete. Kim tossiu, protegeu o rosto com as mãos e seguiu tateando, quase às cegas, até a janela.

Abriu-a com os olhos lacrimejantes e... um grito de desespero se desprendeu de sua garganta! Esbarrou, de novo, em uma maciça parede de vidro! Para completar, ouviu um estalo ensurdecedor, o que lhe mostrou que o inimigo estava longe de desistir da perseguição. Não deu para ver o que o robô fazia, mas Kim tinha certeza de que não tardaria a aparecer para dar-lhe o golpe de misericórdia. Deu meia-volta, cambaleando, a à procura de uma saída. As chamas haviam devorado grande parte do corredor e a espessa fumaça dificultava a respiração. Mesmo se escapasse do robô, em pouco tempo morreria sufocado ou queimado. Novamente ouviu aquele terrível rebentar, estalar, rachar! Kim lutou contra a tosse convulsiva e as lágrimas que lhe escorriam pelas faces, arrastou-se até onde ainda há pouco era o topo da escada e viu — horrorizado — que o robô havia amontoado ali embaixo todos os móveis que restaram, formando, assim, um acesso para entrar no andar superior da casa. Desesperado, Kim voltou para o seu quarto, levantou uma cadeira e a lançou com toda a força contra a parede de vidro. A cadeira quebrou, o vidro permaneceu intacto! Precisava de algo mais forte... o quê? Havia de tudo no seu quarto, mas nada que pudesse destruir um vidro blindado. Mesmo assim, arrancou um pedaço da cadeira e começou a golpear o vidro, mas depois de algumas tentativas os seus braços começaram a doer e, além disso, estava quase asfixiado. A sensação era de que estava aspirando fogo. Sempre cambaleando, voltou para o corredor e deparou com o olho rasgado do robô que, neste momento, acabara de escalar a montanha que substituía a escada. Os minúsculos letreiros luminosos pareciam bruxulear triunfantes. O monstro mecânico fincou sua poderosa garra de ferro com horrendo rangido no soalho do corredor, enquanto erguia o pesado corpo. Com a coragem dos desesperados, Kim pulou em cima do robô e lhe deu um violento chute. Por um momento o robô perdeu o equilíbrio e sua cabeça metálica ribombou como um grande sino. Mas, ao contrário do que esperava Kim, ele não caiu para trás. Kim estava perdido! Em poucos minutos o colosso daria cabo dele definitivamente. E, aí, de repente, teve uma idéia! Havia uma remota possibilidade de quebrar o vidro. Kim deu mais um chute no robô, voltou para o seu quarto e tirou a minúscula flauta do bolso. Nervoso como estava, o pequeno instrumento lhe caiu das mãos e ele perdeu valiosos minutos tateando às cegas o tapete coberto por cinzas e madeira em brasa. Depois, levou a flauta à boca e assoprou com força, provocando aquele som tão estridente que chegava a doer. E, quando ergueu os olhos, o vidro havia rachado! Kim respirou fundo e voltou a levar a flauta à boca. Nesse momento, uma mão férrea agarrou seu ombro com inimaginável violência. Kim gritou de dor, perdeu o equilíbrio e caiu contra a parede. O robô deu um único passo, seu enorme pé de aço pegou o cano das calças do garoto e, literalmente, o pregou no chão. Kim tentou se desvencilhar, mas a calça jeans resistiu. A terrível figura se virou sem nenhuma pressa, o encarou e levantou o outro pé para esmagá-lo. Num gesto instintivo, Kim levou a flauta à boca e assoprou com toda força. O vidro em frente à janela do seu quarto estalou e, simultaneamente, as paredes invisíveis que barravam a entrada dos quartos desabaram numa verdadeira explosão.

Uma sombra alongada de coloração avermelhada passou pelo ar feito um raio, bateu no robô, ricocheteou e jogou a gigantesca máquina mortífera contra a parede. Incrédulo, Kim arregalou os olhos. Um ser indefinido, escamoso, vermelho-esverdeado, ostentando terríveis garras e dentes afiados, olhos feito rubi lapidado e uma cauda robusta que ricocheteava de um lado para outro, atacara o robô! A estranha criatura postou-se na frente do robô e, destemida, o encarou. À primeira vista lembrava uma Salamandra, se não fosse sua enorme cauda, que devia ter uns três metros de comprimento. Os ombros eram tão altos como os de um pastor alemão. O robô se virou com um rápido movimento e cravou seu olho luminoso no novo adversário. Atônito, Kim viu como o monstro mecânico tentou erguer a mão que ainda segurava o laser, mas, para espanto do garoto, o braço não lhe obedecia! Porém, seu outro braço, com a terrível garra de aço, ainda funcionava.

— Cuidado! — gritou Kim, quando viu que o homem-máquina, traiçoeiro, fingiu um movimento para a esquerda e, logo em seguida, veloz como um raio, lançou um golpe para a direita.

Kim não teve a menor idéia se a Salamandra ouviu ou entendeu o seu aviso, mas, de qualquer maneira, não fazia diferença, pois, com uma agilidade espantosa, a criatura desviou do golpe e, ao mesmo tempo, pulou em cima do robô, enquanto de sua boca saiu uma língua flexível. Tudo aconteceu com incrível rapidez e, antes que o robô pudesse se dar conta, a língua flexível se enrolou em seu braço e a criatura o golpeou violentamente com a cauda. Ouviu-se um ruído como se um martelo gigante tivesse despencado sobre a respectiva bigorna. O braço do robô quebrou com um rangido surdo, bem abaixo do ombro, provocando um chuvisco de faíscas azuis e alaranjadas. No estreito rasgão apareceram chamas vermelhas no lugar dos letreiros esverdeados. A enorme figura começou a vacilar, tentou manter o equilíbrio, mas, em seguida, desmoronou com terrível estrondo.

Kim olhou para a Salamandra boquiaberto e totalmente perplexo. Nesse meio-tempo, ele se deu conta de que a conhecia de algum lugar... era totalmente esquisito, doido, mas ela era... não havia tempo para pensar nisso agora! O robô estava derrotado, mas nesse instante as chamas haviam envolvido toda a casa. Saíam labaredas até debaixo do corpo da Salamandra, o que deixava a criatura totalmente insensível. Será que as escamas espessas que cobriam seu corpo funcionavam como uma espécie de blindagem protetora contra chamas? Tossindo muito, Kim se pôs de pé. O quarto em que dormia há quatorze anos virou um inferno chamejante! Também o quarto dos pais estava tomado pelas chamas. Como escapar? Talvez pelo quarto de Rebekka? Kim desviou da cauda da Salamandra, atravessou a soleira e... recuou, estupefato: no quarto da irmã não havia fogo, aliás, nem era mais quarto! Diante dele se estendia uma paisagem infinita, em tons sombrios de cor marrom e preto, onde cresciam algumas esparsas árvores deformadas e arbustos bizarros que lembravam arame farpado. No lugar da porta havia uma abertura em uma parede de vidro reluzente. Algo tocou sua perna. A Salamandra! O animal o fitava com seu olhar frio de réptil.

— Estás esperando o quê? — sibilou. — Estás esperando por quem?

O réptil movimentou a enorme cabeça triangular e rastejou alguns metros para frente, açoitando, inquieta, a cauda.

— Monta! — ordenou. — Temos que nos mandar, daqui a pouco os companheiros dele vão estar aqui.

Kim não fez menção de montar no lombo da Salamandra. Simplesmente ficou parado, olhando ora para o animal, ora para a paisagem irreal à sua frente. E, de repente, entendeu por que esta criatura lhe parecera familiar. Era nada mais nada menos do que um dos bichinhos que Rebekka mantinha em seu terrário. Só que agora não era mais uma simples Salamandra, assim como a paisagem lúgubre não era o interior do terrário. Então, como um lampejo, veio a constatação: ele não estava mais na casa dos pais! Encontrara o caminho para Märchenmond!

Porém, algumas horas mais tarde, Kim já não estava mais tão convicto de que o mundo deserto, monótono, que atravessava no lombo da Salamandra, era realmente Märchenmond. Na verdade, perdera qualquer noção de tempo. Não sabia se haviam passado doze, duas ou duzentas horas. A sensação era de que havia se passado uma eternidade.

O animal se locomovia lentamente pelo chão pantanoso, passando, sem o menor cuidado, por poças de água ou pela mata espinhosa. Serpenteava debaixo dos galhos baixos das poucas árvores, que não chegavam a tocar o seu corpo, mas, em contrapartida, provocavam sensíveis arranhões no seu rosto. Sua roupa estava reduzida a farrapos e, se a Salamandra não mudasse o rumo, em pouco tempo sua pele teria o mesmo destino da roupa. A dor nas costas e nas nádegas estava se tornando insuportável. Kim pediu mais de uma vez que a Salamandra fizesse uma pausa, ou, pelo menos, que o animal olhasse onde pisava ou por onde andava, mas ela se fazia de surda ou desentendida.

A estranha criatura caminhou horas a fio, atravessou regatos e passou por pequenas florestas, rastejou por pântanos e enormes lodaçais, dos quais subiam bolhas que, ao estalar, emanavam um gás de cheiro penetrante. A luz do dia deu lugar à penumbra e a noite se instalou sem lua nem estrelas, apenas um fraco brilho acinzentado no horizonte.

Apesar de tudo, Kim acabou dormindo, montado no lombo da Salamandra. Quando abriu os olhos, o amanhecer se apresentou encoberto, como um daqueles dias chuvosos de outono. Estava rodeado pelas mesmas terras ermas e pantanosas, onde cresciam árvores e arbustos entrelaçados. Vez ou outra, descobriu um toque de verde e vermelho na triste coloração do pântano. O seu mudo companheiro de viagem diminuiu a marcha e acabou parando. A Salamandra balançou a cabeça e Kim entendeu a mensagem. Ele desceu do lombo do animal, o corpo rígido, em virtude das muitas horas que passara na mesma posição. Gemendo, espreguiçou-se, deu alguns passos e por pouco não gritou de dor. Cada osso do corpo lhe doía! Enquanto isso, a Salamandra o fitou em silêncio. Kim desviou os olhos.

A heterogeneidade do animal lhe causava certo mal-estar, mas a estranha criatura salvara sua vida. Kim resolveu ser gentil e se forçou a sorrir:

— Você parece que não se cansa nunca. Nós andamos muito, não andamos?

— Fim da linha — respondeu a Salamandra. — Mais do que isso eu não ando, aqui tu estás seguro.

Kim lançou um olhar na direção de onde vieram:

— Você acha que os robôs não vêm até aqui?

— Eles não ousariam — assegurou o animal. Depois emitiu um som que provavelmente devia ser um riso: — Eu acabo com eles!

Kim lembrou da ligeireza com que a criatura dera cabo do robô e não duvidou de sua palavra.

— Eu... bem, eu quero lhe agradecer por tudo. Sem você eu estaria morto.

— Claro — sibilou o ser escamoso, fechando um olho e fitando-o com o outro. — E daí?

— Ah... nada — murmurou Kim. — É que... bem... foi horrível... Sem mais palavras, a Salamandra deu as costas e começou a fazer o caminho de volta. Kim não saberia dizer, mas teve a impressão de que a Salamandra também não se sentia à vontade na sua companhia. Talvez eu seja um ingrato, pensou Kim, mas me sinto melhor sem ela. Seria ela realmente um dos anfíbios que habitavam o terrário da irmã? Kim resolveu fazer um teste:

— Rosi?

Para sua surpresa, a criatura parou e respondeu:

— Por que me chamaste assim? — sibilou, impaciente. Kim apressou-se em pedir desculpas:

— Me perdoe, mas... por favor, não me interprete mal... é que vocês são parecidas... se você não for Rosi então é Rosa.

— Meu nome é Lizard — esbravejou a Salamandra. — A tua irmã me chamava de Rosi, um nome muito idiota.

— Lizard... hum, me desculpe — gaguejou Kim. — Eu não sabia...

— Agora tu já sabes — murmurou a ex-salamandra da irmã, mal-humorada, umedecendo os lábios com a língua comprida e elástica.

Kim se perguntou se, porventura, ela não estaria com fome, mas, pelo sim pelo não, resolveu não tirar isso a limpo.

— Para onde você vai? — perguntou.

— Vou embora — respondeu Lizard. — Aqui termina o meu reino. Daqui em diante terás de se virar sozinho.

— Sozinho? — questionou Kim, olhando em volta, inquieto. A paisagem já não lhe parecia tão erma como, mas continuava pouco convidativa. — Para onde eu devo ir?

— Tu vais encontrar o caminho — retrucou Lizard. — Tu não querias voltar para a terra dos sonhos? Pois conseguiste!

— Aqui? — indagou Kim, sem entender. — Você deve estar enganado, isto é... — Kim não terminou. A paisagem era tudo menos uma terra de sonhos, assemelhava-se mais a um pesadelo. — Isto aqui não é a terra dos sonhos — completou Kim.

— Claro que é a terra dos sonhos — replicou Lizard —, só que não os teus sonhos, humano! Pensaste que era só estalar o dedo para que a tua vontade fosse realizada, humano?

Kim olhou para a Salamandra, estupefato. Demorou alguns instantes para que compreendesse a dimensão do que acabara de ouvir.

— Quer dizer que... que isto aqui... isto aqui é o seu Märchenmond? A terra dos seus sonhos?

— Alguma coisa contra? — perguntou o animal, mal-humorado.

— Não, claro que não! Eu... só estou surpreso, pensei que...

— Pensaste o quê? — retrucou Lizard?

Kim não sabia o que dizer. Quantas vezes observara as duas salamandras em sua prisão vítrea, imóveis, nada mais do que pequenos animais irracionais que nem mesmo bonitos eram. O garoto se arrepiou todo.

— Eu não sabia que vocês também sonhavam — disse, finalmente.

— Pois é, acontece que nós sonhamos. E agora eu vou me mandar. Segue sempre em frente que chegarás lá.

— Espere! — pediu Kim.

Lizard parou de novo e o encarou com raiva:

— O que mais tu queres?

— Só mais uma pergunta — insistiu Kim. — Com o que vocês sonham?

A ex-salamandra o fixou por algum tempo sem dizer palavra, deixando Kim bastante constrangido. Depois emitiu um daqueles sons que vagamente lembravam um riso, mas, quem sabe, era justamente o contrário.

— Sonhamos com a liberdade — disse Lizard, despedindo-se. Um tanto consternado, Kim seguiu o seu salvador escamoso com os olhos até que desaparecesse entre os arbustos.

 

Kim continuou seu caminho na direção Sul. Depois de algum tempo deixou-se vencer pelo cansaço e estirou o corpo sobre um pedaço de chão razoavelmente seco. Quase que imediatamente caiu em sono profundo. Quando acordou, o céu estava negro e não reinava mais aquele cinza sombrio que lembrava a luz de um poste em meio a forte nevoeiro. Do pântano ainda subiam grandes bolhas de gás que soltavam cheiro forte ao explodir no ar, mas o vento trazia também um sopro de agradável frescor. Kim sentou e olhou ao redor. Num primeiro momento não divisou absolutamente nada. Sentiu até uma ponta de saudade daquela luz baça, mas aos poucos seus olhos se acostumaram e, graças ao pálido lume das estrelas, conseguiu enxergar uns vagos contornos.

Mas... o que era isso? Algo ou alguém estava cutucando sua perna! Kim teve que lançar mão de todo o seu autocontrole para reprimir o grito de asco. A criatura que agora roia seu tênis tinha o tamanho de um gato, embora não tivesse nem um pouco do charme e da beleza dos felinos. Aliás, para ser mais preciso, Kim nunca vira algo tão asqueroso: um ser pequeno e áspero, cuja cor oscilava entre o verde-catarro e o marrom-lamacento. Seu pequeno corpo consistia em ferrões e garras que pareciam bastante afiados. Nas partes onde faltavam esses terríveis adornos, viam-se camadas de escamas espessas. Além disso, irradiava um brilho úmido e viscoso. E como se não bastasse, emanava um cheiro insuportável. Seus olhos eram enormes e úmidos e seu olhar tinha algo de pérfido e traiçoeiro. A boca escancarada colocava à mostra uma fileira de dentes pequenos e pontiagudos e, para completar, uma baba branca escorria pelos cantos e pingava no chão.

— Oi — murmurou Kim enquanto se levantava, fazendo um esforço hercúleo para disfarçar sua repugnância. Conseguiu até esboçar um sorriso. — Quem é você?

O pequeno monstro babão não respondeu. Kim engoliu em seco para abafar a náusea e tratou de estabelecer um pouco de distância entre ele e o monstrengo. Notou um ar de frustração nos olhos da pequena criatura, que continuou muda. Fez nova tentativa:

— Você me entende? É que... você entende a minha língua? Não? Então vem aqui!

O aspecto horrendo do animalzinho lhe revirava o estômago, mas, não obstante, ele se debruçou para frente e estendeu a mão. Afinal, a criatura não tinha culpa de sua aparência asquerosa. Quem sabe, não pensava o mesmo de Kim, ou, talvez, pelos olhares de cobiça que lhe lançava, o achasse no mínimo apetitoso.

Kim aprendeu que nem sempre se deve tirar conclusões precipitadas sobre o caráter de alguém, só pela aparência. No entanto, às vezes esta regra não funcionava. O monstrinho olhou para a mão estendida e começou a cheirar os dedos, como um cachorro. E, de repente, mordeu um dos dedos com todo gosto!

— Ai! — berrou Kim, dando um pulo e puxando o braço para trás. Mas a criatura não demonstrou a menor intenção de largar o seu dedo. Kim continuou gritando de dor e raiva, deu pinotes e chacoalhou o braço feito louco, mas não conseguiu se livrar do monstrinho. — Miserável! Aberração! — gritou, desesperado. — Ai! Solta!

A “coisa” nem cogitou em soltar a presa, ao contrário, agora começou a atacar toda a mão com suas garras e, como se não bastasse, enrolou a cauda comprida, munida de ferrões pontiagudos, no seu antebraço.

Kim gritou, girou o braço no ar com violência e, finalmente, conseguiu se livrar da pequena aberração. A criatura voou pelos ares emitindo sons sibilantes e foi parar a alguns metros de distância em meio aos arbustos. Mas, se Kim pensou que o animal fosse desistir, enganou-se redondamente. A criaturinha levantou quase que de imediato e correu o mais depressa que pôde na direção de Kim que, num misto de raiva e espanto, questionou-se como é que um ser tão pequeno ousava enfrentar alguém do seu tamanho. Mas, antes que pudesse tomar qualquer atitude, a criatura se enganchou no seu pé. Desta vez a mordida foi tão forte que os dentinhos afiados atravessaram o tênis e se fincaram no dedão do pé. Nova onda de dor, novos gritos! Kim deu um violento chute no animal, que o lançou longe, mas também fez ele perder o equilíbrio e cair sentado. Quando o esdrúxulo animal retornou, Kim estava preparado. Cerrou o punho, esticou os músculos e se preparou para o golpe final. Porém, o pequeno ser tinha um sexto sentido, pois no último momento brecou a investida, muito atento. Mas com o olhar de pura traição, Kim inclinou a cabeça.

— Pode vir! — exclamou Kim. — Estou esperando!

O monstrinho sibilou, babou e fincou as minúsculas garras no chão. Kim levantou uma pedra:

— O que você quer? Se quiser apanhar, então venha! Ou então se manda!

— Fome — disse o animal. Kim arregalou os olhos:

— O quê?!

— Fome — repetiu o projeto de monstro. — Tu és grande, minha fome é grande.

Kim engoliu em seco, olhou para a criatura ouriçada e depois para o seu dedo marcado por uma fileira dupla de pontinhos sangrentos que os minúsculos dentes da pequena fera haviam deixado e que ardiam como se alguém tivesse jogado sal.

— Só um pedaço — suplicou o animal, com voz chorosa. Fungou e, enquanto seus olhos realmente começaram a lacrimejar, repetiu: — Fome!

— Eu não sou comestível, ora! — exclamou Kim e pôs o dedo ferido na boca. — Eu não sou gostoso, sou horrível — reforçou.

— Estás mentindo — disse o pequeno animal.

— Ah é? Por quê? — retrucou Kim.

— Tu estás comendo seu dedo.

Perplexo, Kim tirou o dedo da boca e, de repente, desatou a rir. O animal lambeu os beiços e chegou mais perto, babando sobre a sua calça.

— Ei! — protestou Kim. — Tome cuidado.

O garoto tentou afastar a criatura, mas quando percebeu a cobiça em seus olhos, mais que depressa retirou a mão.

— Ouça — começou —, eu não gosto de ser devorado, entendeu?

— Não vou te devorar — assegurou o minimonstro. E, com jeito de animal pidão: — Eu só quero um pedacinho... só um dedo... meio dedo?

— NÃO! — gritou Kim. — Nem mesmo um quarto de dedo! Nem uma unha sequer, ficou claro?

Kim cerrou a mão direita em punho, pois o dedo ainda doía muito.

— Que tal o dedo do pé? — insistiu o projeto de monstro, esperançoso.

Kim ia dar uma resposta atravessada, mas a situação cômica o fez soltar de novo uma gargalhada. Rindo muito, pôs-se de cócoras e, balançando a cabeça, encarou o aprendiz de monstro:

— O que tens? — indagou o animal. — Por que estás gritando?

— Não estou gritando — corrigiu Kim. — Estou rindo... mas, afinal, quem é você?

— Eu? — O pequeno animal meditou sobre o sentido da pergunta. Depois respondeu: — Eu sou eu, quem mais deveria ser?

— É isso aí — murmurou Kim. — Pergunta besta, resposta besta. O garoto suspirou: — Eu me chamo Kim, talvez você já me conheça. Já ouviu falar de mim?

— Não — respondeu a “coisa”. — Também ainda não te experimentei. Lembraria do gosto, com certeza.

— É... com certeza — concordou Kim, pondo-se de pé.

— Preciso ir, ainda tenho um longo caminho pela frente. Foi um prazer te conhecer.

A passos largos, Kim se afastou dali. Era noite, mas não estava nem um pouco cansado. Ademais, dormir num lugar onde a qualquer momento corria o risco de ser devorado, estava fora de cogitação.

Porém, encontrar o caminho através do pântano escuro como breu revelou ser um empreendimento um tanto complicado. Vez ou outra tropeçava em alguma raiz exposta, pisava em buracos que repentinamente se abriam à sua frente e duas vezes bateu a cabeça com força num tronco de árvore que brotou do nada. Aos poucos foi perdendo o ânimo. Pelo visto, ainda demoraria um bom tempo até o dia raiar. Aliás, a paisagem que estava atravessando — aos trancos e barrancos — lhe parecia cada vez mais sinistra. Pântano, nada mais que pântano, a perder de vista. As poucas árvores e arbustos tinham, sem exceção, um aspecto doentio e deformado. Por outro lado, o que esperava? Devia dar graças a Deus que sua irmã Rebekka mantinha em seu terrário duas salamandras e não uma aranha venenosa ou, pior, peixes...

Depois de algum tempo, Kim percebeu que estava sendo seguido por um vulto furtivo. Parou e franziu cenho. Não dava para ignorar os olhos enormes a brilhar na escuridão.

— O que significa isso? — questionou Kim, furioso. — Por que você está me seguindo?

— Fome! — implorou o animal, obstinado.

Kim suspirou. A “coisa” olhou para ele com ar de candura:

— Que tal uma orelha?

— NÃO! — berrou Kim. Enfurecido, ia socar o animal, mas no último momento mudou de idéia. — Espera! Você disse que tem muita fome?

O pequeno animal balançou a cabeça com força e se aproximou ainda mais.

— Escuta — disse Kim — por aqui tem muitos lagos e charcos, não tem? Sem dúvida, eles estão cheios de peixes. Você gosta de peixe?

— Claro.

— Você conhece bem essa região? — perguntou Kim.

— Claro.

— Então, aí vai minha sugestão: logo que o dia clarear eu pesco um peixe grande e suculento só para você, prometo.

— Um bem grande, só para mim?

— Só para você — assegurou Kim. — Não quero uma única escama do peixe, mas, em contrapartida, você me mostra o caminho para sair daqui. Eu procuro... bem, eu procuro seres humanos, como eu, você entende?

— Como tu? — repetiu o monstrinho.

— Isso — respondeu Kim. — Seres como eu, que não querem ser devorados. Você por acaso sabe onde posso encontrá-los?

— Claro. Não muito longe daqui. Mas primeiro o peixe. Kim gemeu:

— Não dá para esperar até clarear? É que... você parece enxergar muito bem na escuridão, mas eu infelizmente não enxergo direito.

— Percebi — retrucou o animal. — Por pouco não caíste no buraco de um abocador.

Kim não se atreveu a tirar a limpo o que era um abocador, pois, certamente, não iria gostar da resposta.

— Então, combinado? — perguntou. — Eu pego o peixe para você logo que o dia clarear e você me mostra o caminho.

— Combinado — respondeu o animal, com um espirro. Mas ainda havia outra questão para resolver:

— Como você se chama? — indagou Kim. O animalzinho parecia não entender.

— Está bem, está bem — suspirou Kim. — Eu vou pensar em um nome... você é feio de doer, sabe disso, não sabe? Acho que vou chamá-lo de Bocadinho.

— Bocadinho?

— É um apelido carinhoso, acho que de alguma forma combina com você. Você concorda?

O animal refletiu por um instante, depois balançou a cabeça e passou por cima dos pés de Kim, cobrindo seu tênis com baba gosmenta.

Kim aproveitou o primeiro clarão da alvorada para improvisar uma vara de pescar. A princípio foi um pouco complicado, mas ele era habilidoso e depois de algumas tentativas frustradas e com a ajuda de algumas gramíneas e galhos secos, conseguiu criar uma vara de uns três metros de comprimento que lhe parecia adequada para o seu propósito. Afinal, não pretendia pescar uma baleia, mas apenas um peixe capaz de matar a fome do seu companheiro glutão. Desafio maior era o anzol, mas também acabou resolvendo. Com uma pedra curvou a fivela do cinto e depois tentou afiá-la o mais que pôde, tudo sob o olhar atento de Bocadinho. Kim tinha pressa, porque até ele já estava faminto e, por outro lado, não agüentava mais as lamúrias do pequeno nojento que não parava de lhe pedir “só uma orelha” ou “só um dedo”. Sua paciência se esgotara e se não resolvesse logo o problema — quem sabe — acabaria cedendo um dedo, só para se livrar do tagarela.

Mas não foi preciso chegar a tanto. Seu companheiro o levou até um charco pequeno porém bastante profundo. Kim mal lançou o anzol improvisado quando, imediatamente, apareceu um vulto prateado rente à superfície da água lamacenta. O garoto sentiu um violento puxão e por pouco não perdeu o equilíbrio e caiu de cabeça na água. Agarrou a vara — que, para sua surpresa, agüentou o repuxo — com mãos de ferro. Pelo visto, pegara um peixão! A água borbulhou e espumou, enquanto o peixe travava uma luta aferrada para se livrar do anzol. Mais de uma vez as forças ameaçavam abandoná-lo e ele fez menção de soltar a vara, assistido por Bocadinho, que corria, afoito, de um lado para outro, lambendo os beiços e respingando baba esverdeada para todos os lados. Finalmente, o anzol sossegou. Ofegante de tanto esforço, Kim foi puxando o anzol para fora da água. O peixe tinha o comprimento do seu braço e, sem dúvida, pesava uns sete quilos. Kim julgou ter lido certa censura em seu olhar... ou seria apenas fruto de sua imaginação? Talvez este seu anzol rudimentar fosse o primeiro usado por essas bandas?

Kim espantou os pensamentos nada agradáveis e acabou de puxar o peixe para a margem. Quando o animal começou a se debater, ele levantou uma pedra para lhe dar o golpe de misericórdia.

— O que estás fazendo? — afligiu-se Bocadinho.

— Quero acabar com o sofrimento do pobre peixe — respondeu Kim. — Os pescadores costumam fazer isso. Não quero esperar até que ele morra asfixiado.

Quando tudo terminou, Kim sentiu-se muito mal. Pescar para ele não era novidade, muitas vezes acompanhara o pai em pescarias, mas esta parte sempre ficara a cargo do pai.

— Você o matou a pauladas — disse Bocadinho em tom de censura, o que, no entanto, não o impediu de escancarar a boca e arrancar um enorme pedaço do peixe.

— É o que você queria, não? — revidou Kim, irritado.

— Só quero um pedacinho — disse Bocadinho — engolindo e arrancando outro pedaço do flanco do peixe.

— Tu também querias me matar a pauladas ontem à noite? — perguntou de boca cheia.

Kim ficou sem graça:

— Por que... por que você está perguntando isso? Bocadinho apontou para a pedra com a qual Kim matou o peixe:

— Tu pegaste uma pedra como essa.

— Mas... era diferente, eu...

— Diferente por quê?

— É que eu... é que você é muito feio e eu... eu fiquei assustado, é isso!

— Ah! — fez Bocadinho e abocanhou outro pedaço.

Pasmo, Kim acompanhou a comilança. O peixe era, sem dúvida, umas três vezes maior do que o pequeno monstro espinhoso, mas, não obstante, Bocadinho já devorara quase a metade.

— Entendo, tu matas somente animais feios — continuou Bocadinho, mastigando.

— Não! — exclamou Kim. — Não é isso! É que eu não conhecia você, não sabia que você falava...

— Queres dizer que se eu continuasse mudo, tu terias me matado a pauladas?

Kim suspirou. Que assunto desagradável!

— Não é isso... eu quero dizer... é que...

Não é que o monstrinho tanto fez até que ele, Kim, acabou sentindo-se culpado! Mas, afinal, culpado do quê? Kim resolveu mudar de assunto:

— Você me dá um pedaço do peixe?

Bocadinho ficou todo ouriçado, agachou-se como um gato em posição de ataque e, com olhos faiscantes, encarou Kim:

— Tu prometeste que ele era todo meu! Kim suspirou de novo:

— Foi só uma pergunta... o peixe é tão grande!

— E daí? — replicou Bocadinho. — Promessa é promessa!

— Está bem, está bem. Você come até não agüentar mais e o que sobrar é meu, que tal?

Bocadinho grunhiu e, emitindo ruídos repugnantes, enterrou o focinho no peixe. Enojado, Kim balançou a cabeça e se afastou para fugir da cena nojenta. Era inacreditável que um ser tão pequeno provocasse ruídos tão insuportáveis. Mais parecia um bando de porcos comendo!

Kim aproveitou e circundou o pequeno lago. O cinza da alvorada já se amalgamava com a primeira claridade do dia. Perdidas em meio ao pântano, que já não parecia tão sinistro como na noite anterior, cresciam isoladas flores silvestres. Um pouco mais afastado, Kim acreditou enxergar uma faixa verde no horizonte. Parecia que Bocadinho cumprira a promessa de conduzi-lo até os limites do pântano. Em que parte de Märchenmond ele estaria perdido? Märchenmond era grande, extenso! Se a sorte não estivesse a seu favor, teria de caminhar por semanas a fio até alcançar o castelo vítreo de Gorywynn... seria este realmente o seu destino?

Nesse momento se deu conta de como eram falhos seus conhecimentos. Afinal, o que o trouxe até aqui? O rosto de Temístocles no vidro do café, um menino desconhecido com as roupas e o brasão dos cavaleiros das estepes... isso era tudo! Ele não tinha a menor idéia do que acontecia em Märchenmond e muito menos por que estava aqui!

Mas certamente não encontraria respostas se continuasse parado. Na verdade, não tinha outra escolha a não ser procurar o caminho para Gorywynn. Talvez, mais tarde, teria a sorte de encontrar um guia mais confiável do que Bocadinho.

Esperou mais um pouco. Queria dar um tempo para que Bocadinho pudesse saciar sua fome. Quando voltou para verificar o que havia restado do banquete, arregalou os olhos! Era inacreditável!

No lugar do peixe havia apenas uma espinha, totalmente limpa, sem nenhuma carne!

— Não é possível! — exclamou Kim, incrédulo.

Bocadinho sorriu satisfeito, lambeu os beiços e arrotou bem alto, sem a menor cerimônia.

Kim olhou para o animal e para aquilo que ainda há pouco era um peixe:

— Você... comeu tudo sozinho?

— Claro — respondeu Bocadinho. — Muito bom! Inclinou a cabeça de lado e encarou Kim: — Que pena! Não sobrou nada! Mas, já que estava morto, que diferença faz comer ele por inteiro? Se quiseres, podemos seguir em frente.

— Então vamos!

Bocadinho deu um passo e parou. Pensativo, olhou para o esqueleto do peixe:

— É uma judiação deixar isso para trás — disse e engoliu a espinha.

Kim e seu companheiro seguiram em frente. O sol galgara o horizonte, mas não conseguira abrandar a lúgubre paisagem. Os arbustos baixos e espessos que cresciam lado a lado e a névoa que subia do chão desde o amanhecer absorviam grande parte da luz. Mesmo assim, Kim estava bastante animado, pois sem dúvida eles se aproximavam da faixa verde no horizonte. Era o fim das terras pantanosas!

Quanto a Bocadinho, manteve o passo ao lado de Kim, se bem que às vezes corria na frente ou ficava alguns metros atrás. Kim acabou se acostumando com o pequeno animal e agora já não entendia por que de início o rejeitara tanto. Claro, ele era feio e continuava feio, mas quanto mais Kim o observava, menos repulsa sentia.

Finalmente chegaram aos limites do pântano. Uma nova paisagem se descortinou à sua frente: um prado levemente ondulado, banhado pelo sol, entremeado por esparsas árvores e arbustos. Alguns quilômetros adiante Kim avistou uma floresta.

— Chegamos — avisou Bocadinho, olhando, inseguro, para o céu. Depois instruiu: — Se tu procuras gente da tua espécie, siga em frente. A criaturinha hesitou um pouco antes de continuar: — O peixe estava muito gostoso... achas que pode repetir a dose?

— Por que não? — respondeu Kim.

— Posso te guiar por mais algum tempo, continuou Bocadinho. — O caminho é longo, tu poderias se perder... ou por acaso conheces o caminho?

Kim não conteve o riso:

— Não conheço o caminho, um guia não seria nada mal, isto é, se este guia concordar com a minha forma de pagamento.

— Um peixe por dia? — sugeriu Bocadinho.

— Tudo bem, mas quero a minha porção — disse Kim com firmeza. Bocadinho se mostrou decepcionado e Kim acrescentou: — Eu como pouco.

— Verdade?

— Verdade — confirmou Kim. De repente se deu conta de que não queria perder a companhia do pequeno animal.

— Está bem — suspirou Bocadinho. — Espera aqui — pediu, e desapareceu atrás de um arbusto.

Bocadinho demorou tanto que Kim se perguntou se a criaturinha não o fizera de bobo e agora o deixava aqui abandonado à própria sorte. Resolveu tirar a história a limpo e foi atrás dele. No momento em que se aproximou do arbusto atrás do qual Bocadinho havia desaparecido, este se abriu e apareceu um ser de extraordinária beleza. Boquiaberto, Kim olhou para o animal mais lindo que já tinha visto. Não era maior que Bocadinho, mas em vez dos ferrões e das escamas, uma manta plumosa nas cores vermelho, laranja e amarelo envolvia seu pequenino corpo. Com patas aveludadas e uma cauda comprida em tufos, mais parecia um gato persa de raro esplendor. Um par de olhos castanhos e muito meigos dominava o belo semblante. Maravilhado, Kim não teve palavras, nunca vira nada igual!

— Quem... quem é você? — gaguejou.

O garoto se pôs de cócoras e estendeu a mão para o esplêndido ser, que o encarou de maneira um pouco irônica e depois... mordeu seu dedo!

— Na verdade, não estou mais com tanta fome, mas uma pequena sobremesa vai bem.

Com um grito, Kim se pôs de pé e lambeu o dedo. Já vira esta cena antes! Incrédulo, olhou para o belo ser:

— Bo... Bo... Bocadinho? — balbuciou.

— Um nome besta, mas, por mim... tudo bem!

— Mas... como é possível... eu... é que...

— Sou feio como o breu da noite, eu sei — disse Bocadinho. — Mas a noite passou, não passou?

Kim emitiu alguns sons nada inteligentes, mas no momento não estava em condições de raciocínio mais elaboradas.

— Vamos — suspirou Bocadinho. — Temos muito caminho pela frente e acho que um certo peixe está à nossa espera.

Demorou um bom tempo até Kim se acalmar. Aos poucos se acostumou com a assombrosa metamorfose do animal espinhoso, que, aliás, nem se esforçou para entender. O garoto já passara por inúmeras situações fantásticas nas terras de Märchenmond, mas poucas tão surpreendentes como essa.

Kim e seu companheiro mutável iniciaram a travessia dos prados. Caminharam por cerca de duas horas até que finalmente alcançaram a floresta que o menino avistara. Bocadinho, com patas silenciosas de felino, corria na frente ou saltava na grama verde feito uma peteca multicolor, o tempo todo fazendo perguntas sobre a origem de Kim, às quais este respondia com infinita paciência.

O garoto, por sua vez, também perguntou o mesmo, sem, no entanto, obter respostas satisfatórias. Pelo visto, era a primeira vez que Bocadinho saía de sua pátria, o pântano.

Quando alcançaram a floresta, Kim resolveu fazer uma pausa, pois estava muito cansado e queria dormir um pouco. Primeiro fez Bocadinho jurar solenemente que, enquanto dormia, iria resistir à tentação de abocanhar um pedaço do seu corpo e que ficaria de sentinela. Depois procurou a sombra de uma árvore, estirou-se no chão e caiu em sono profundo.

Quando Kim acordou, o sol já estava alto no céu. Dormira quase o dia todo e estava descansado, pronto para novas peripécias. Depois de saciar sua sede em um pequeno lago — em Märchenmond havia sempre água para os sedentos — seguiram caminho.

A floresta revelou-se não muito profunda, em pouco tempo a mata de corte aclarou e as árvores já não cresciam tão cerradas, o que lhes permitiu se movimentarem com maior ligeireza. Em contrapartida, o chão começou a ficar mais acidentado. Não raro tiveram que transpor, com certa dificuldade, rochas que apareciam cada vez mais amiúde entre o musgo suculento, ou lançar mão de longos desvios. Estes contratempos aconteciam quando Kim não dava ouvidos aos conselhos de Bocadinho, pois achava que obstáculos aparentemente intransponíveis aos olhos de uma criatura tão pequena eram transpostos num piscar de olhos. E em quase todas as tentativas se deu mal!

Quando saíram da floresta, uma surpresa: a mata debruava o cume de uma escarpa rochosa que descia, com acentuado declive, para um vale de terreno ondulado, com campos e prados, mas também isoladas aldeias.

— E agora? — indagou Bocadinho.

Kim respirou fundo e apontou para a escarpa bastante íngreme:

— Temos que descer. Se você tiver medo, eu te carrego.

— Oh! Maravilha! — exclamou o animalzinho, e pulou nos ombros do garoto com tanta leveza que Kim só sentiu a plumagem roçar-lhe o rosto.

— Podemos ir pela ponte — sugeriu Bocadinho.

— Que ponte?

Bocadinho esticou a pata aveludada para a esquerda:

— Aquela, seu cego!

Kim sorriu. Bocadinho só mudara na aparência, seu jeito de ser continuava o mesmo. Obediente, ele olhou na direção apontada pelo amigo e viu algo parecido com uma filigrana prateada, preso à rocha.

A tal ponte não lhe parecia muito promissora, além disso ficava bem longe dali. Mas Kim preferiu andar alguns quilômetros do que descer a parede rochosa quase perpendicular. Com a peteca colorida nos ombros se pôs a caminhar.

O sol já alcançara o zênite quando, finalmente, chegaram à estranha construção, mais parecida a uma gigantesca escada de incêndio. A “ponte”, feita de ferro velho parcialmente corroído pelo tempo, possuía degraus tão largos que comportavam com folga pelo menos dez homens ao mesmo tempo. Faltavam alguns degraus e o vento incessante levava consigo a ferrugem avermelhada que, sem parar, deslizava pela estrutura carcomida.

Kim se perguntou por que alguém se dera ao trabalho de construir uma ponte para depois deixá-la cair em ruínas. Qual seria a sua finalidade? Hesitou um pouco antes de pisar no primeiro degrau. Finalmente tomou coragem, preparando-se para se jogar para trás, caso a estranha construção não agüentasse o seu peso e começasse a ruir. Para surpresa sua, nada aconteceu. A escada nem mesmo balançou. Só o vento o atingiu em cheio e por pouco não o fez perder o equilíbrio. Quando Kim se agarrou ao corrimão, a ferrugem esmigalhou com o toque dos seus dedos, mas agüentou firme. Bocadinho levou a pior, pois o vento quase lhe arrancou a plumagem e por um triz não o varreu dos ombros de Kim. Desesperado, o animalzinho se agarrou aos cabelos do seu protetor. O vento fez dele um joguete e o teria varrido para o abismo se não fosse o reflexo imediato do garoto, que o segurou com a outra mão.

— Puxa vida — disse Kim. — Essa foi por pouco!

— Grande novidade — gemeu Bocadinho com um fio de voz. O pequeno corpo tremia feito vara verde.

Com extremo cuidado, uma das mãos segurando o corrimão enferrujado, Kim desceu degrau por degrau, primeiro tateando com um pé para sentir firmeza antes de colocar o outro. Ele tinha plena consciência de que a cada passo estava arriscando a vida. O estado da ponte era catastrófico, não raro os degraus se mostravam tão enferrujados que só restara um gradeamento estreito e, por vezes, nem isso havia. Num determinado ponto, um pedaço inteiro havia sumido, ficara reduzido a pó vermelho, colocando à mostra o abismo. Com os dentes cerrados e o coração apertado, Kim venceu mais este desafio. Mas, superado o perigo, sentiu uma exaustão tão grande que teve de se sentar no primeiro degrau firme que encontrou para tomar fôlego e recuperar o controle.

Quando finalmente alcançaram o topo da escada o sol estava se pondo. O vento soprava mais frio, o que correspondeu aos anseios de

Kim, que estava banhado de suor — culpa também de Bocadinho, que se enfiara debaixo da sua camisa. É verdade que o peso do pequeno animal era insignificante, mas a penugem contribuiu bastante para que, em pouco tempo, o suor lhe escorresse pelo corpo.

De repente Kim estremeceu, apertou os olhos e espiou embaixo.

— O que aconteceu? — proferiu a voz abafada de Bocadinho debaixo da camisa.

Eu... eu não sei, mas acho que tem alguém lá embaixo. Bocadinho esticou a cabeça para espiar e suas plumas provocaram cócegas no queixo de Kim.

— É mesmo — sussurrou —, mas é um tipo muito esquisito.

— Esquisito? Como?

Kim já havia notado que a visão do pequeno animal era bem melhor do que a sua, ele enxergava coisas que Kim não via.

— Não sei... esquisito, ora. Toma cuidado!

Kim desceu os últimos degraus, sempre de olho na estranha figura. Parecia um homem muito alto, de ombros largos, usando roupas escuras. O mais estranho, no entanto, era que ele permanecia imóvel, de costas para eles, sem se mexer, mesmo quando Kim se aproximou cada vez mais. Impossível não ouvir o barulho que fazia! O homem continuava lá, imóvel, o braço direito ligeiramente erguido, como à procura de um apoio invisível.

Kim sentia medo. Aos pés da gigantesca rocha já estava bastante escuro e ele apenas viu um vulto enorme, aliás, maciço demais para ser humano. Bocadinho pigarreou debaixo da camisa:

— Kim?!

— O que é?

— Está escuro.

— Grande novidade!

— É que... bem, acho que é melhor eu sair debaixo da sua camisa quando... você sabe...

Bocadinho não continuou, mas Kim entendeu. De noite, seu amiguinho passaria pela metamorfose e se transformaria naquela coisa horrível. Mais que depressa puxou a bola de penugem debaixo da camisa e a depositou no degrau da escada.

— Obrigado — disse Bocadinho.

Kim voltou a se concentrar no vulto desconhecido que continuava imóvel e não dava o menor sinal de que estava ouvindo as vozes. Era impossível ignorar que não se tratava de um humano! Mas, então, o que era?

Kim se aproximou ainda mais, sempre atento ao menor sinal de perigo. E nesse instante viu: uma figura toda de ferro enferrujado, de uns dois metros de altura, ombros largos. A mão direita delgada, paralisada num gesto como se estivesse prestes a agarrar algo ou alguém. Dedos finos, aparentemente flexíveis. E na mão esquerda, uma terrível garra de ferro, parecida com um escavador, porém menor, mas com potência semelhante.

O coração do garoto disparou! Com força total sobreveio a lembrança! O robô que incendiara sua casa! Seria mesmo...?

Apesar do medo, aproximou-se ainda mais e, bem devagar, deu a volta ao redor do gigante estático. E então olhou o rosto, ou melhor, o lugar onde devia estar o rosto! Kim respirou fundo. Parecia o robô que o atacara na casa dos pais, cujo rosto era uma máscara com um olho oblíquo de letreiros esverdeados, enquanto a “cabeça” consistia em nada mais do que uma esfera oca de ferro, corroída pela ferrugem.

— O que é isso? — perguntou Bocadinho.

— Eu... eu não estou seguro — disse Kim. — Pensei tê-lo visto antes, mas agora...

Kim ergueu os ombros e não completou a frase. Ficou na ponta dos pés, lançou um olhar para a mão escavadora e espiou dentro do crânio vazio. Repentinamente apareceu um vulto negro, arranhou seu rosto e desapareceu, batendo asas, emitindo sons estridentes. Kim gritou, cambaleou para trás e só a muito custo conseguiu manter o equilíbrio. No alto, um pequeno pássaro negro dava voltas, grasnando.

Kim voltou a examinar a cabeça oca — desta vez com mais cautela, para evitar surpresas desagradáveis. Nas profundezas da armadura de ferro ouvia-se um fraco piar e no céu a grasnada enfurecida do pássaro negro. Um ninho!

— Estranho — murmurou Kim, dando um passo para trás.

— O quê? — indagou Bocadinho.

— Este robô... totalmente oco!

— Será que alguém se banqueteou e deixou só a carcaça? — sugeriu Bocadinho. — Se bem que parece muito duro...

— Pouco provável. — disse Kim, sorrindo. — Se você tentasse mastigar as vísceras desta coisa, quebraria todos os dentes.

Kim balançou a cabeça. Só agora notou a estranha posição em que o gigante estacara. Os dedos esticados do braço direito, levemente erguido, pareciam apontar para o Sul... na verdade, não estavam esticados, mas era uma posição curvada, como se no exato momento em que o monstro metálico ia agarrar algo ou alguém, seus dedos e o braço tivessem ficado paralisados.

Kim se apavorou, mas continuou em busca de respostas. Depois de algum tempo descobriu, não longe dali, outro robô imóvel, oco como o primeiro, em estado ainda mais precário. Seu corpo apresentava inúmeros buracos e profundas depressões, vestígios de fortes pancadas. Faltava-lhe um braço e, pelo visto, alguém jogara bola com a cabeça que se encontrava a alguns metros de distância, também bastante danificada.

Kim e Bocadinho encontraram quase uma dúzia de gigantes destroçados, espalhados ao redor da escada, alguns no chão, outros em pé, alguns quase totalmente destruídos, outros ainda intactos, porém ocos. Além disso, havia barras de ferro retorcidas, rodas enferrujadas, maiores que o garoto, nacos angulosos de coloração marrom-avermelhada que, ao menor toque, desmancharam e ficaram reduzidos a pó, além de máquinas misteriosas, cuja função escapava à compreensão de Kim. Parecia um gigantesco depósito de ferro-velho, abandonado há séculos.

Kim e seu amigo queriam sair daquele local sinistro o mais depressa possível e, aproveitando o último lampejo do dia, seguiram viagem rumo ao Sul.

 

O sol já estava baixo no horizonte e as sombras cada vez mais densas. Kim, ainda na escadaria gigante, passou os olhos pela paisagem e descobriu, não longe dali, uma pequena propriedade rural. Com um pouco de sorte poderiam alcançá-la antes do anoitecer.

Não só a inquietação e a busca por respostas o fizeram acelerar o passo, as figuras metálicas paralisadas e ocas o deixaram extremamente preocupado e assustado. Elas simplesmente não se encaixavam nas lembranças que ele tinha de Märchenmond, e quanto mais pensava no assunto, mais sinistra lhe parecia a estranha escadaria gigante presa à parede rochosa. Quem em Märchenmond construiria uma escada dessas e, sobretudo, para quê? Nada fazia sentido! Estava mais do que na hora de reencontrar Temístocles e seus amigos para que respondessem às muitas perguntas que ele lhes faria. Bocadinho, uma bolinha felpuda que corria ao seu lado, interrompeu as conjeturas nada alegres do rapaz:

— Que tal o peixe que me prometeste? Logo vai escurecer e, cego como tu és, na escuridão da noite não vais conseguir pegar nada.

Kim puxou pela memória e lembrou que, lá do alto, também avistara um pequeno lago, a meio caminho do pequeno sítio que agora tentavam alcançar.

— Por aqui deve haver um lago, é só seguir em linha reta — disse Kim, e tirou do bolso a vara e o anzol improvisado.

Dito e feito: não demorou muito e alcançaram o lago. Como já havia acontecido, Kim mal lançou o anzol na água e sentiu o repuxo. O peixe que encontrou era ainda maior e nem deu tempo de soltá-lo do anzol, pois a peteca colorida começou a devorá-lo de imediato, com suspiros prazerosos. É verdade que Bocadinho, em sua versão plumosa, tinha hábitos alimentares mais elegantes do que a coisa horrenda em que se transformava à noite, mas o seu apetite continuava o mesmo. Sob os olhares atônitos do rapaz, deu cabo do enorme peixe em pouquíssimo tempo. Quando, finalmente, chegou na pontinha da cauda, interrompeu a comilança e, sem graça, olhou para Kim:

— Ah! Eu... eu nem lembrei que tu também querias uma porção do peixe. Me desculpa.

Kim fez um gesto com a mão, demonstrando sua generosidade. A carne branca do peixe o fez lembrar que há dois dias não comia, e nesse meio-tempo seu estômago já roncava sensivelmente. Por outro lado, não demoraria muito e alcançariam a casa que avistara do alto e lá, com certeza, ele poderia saciar sua fome.

— Não faz mal — disse — fique à vontade. Eu... não estou com fome.

— Tu comes pouco mesmo — murmurou Bocadinho, e engoliu o resto da cauda e a espinha do peixe. Depois arrotou, embora um pouco mais moderado que na noite anterior. — Agora podemos continuar — disse, lambendo os beiços.

Um pouco hesitante, Kim não sabia se atravessava o lago que lhe parecia bastante raso e não muito extenso. Virou-se para seu pequeno companheiro e disse:

— Acho que daqui para frente eu sigo sozinho. Você não precisa mais me acompanhar... isto é, se não quiser.

— Que tal o peixe que me prometeste? Logo vai escurecer e, cego como tu és, na escuridão da noite não vais conseguir pegar nada.

Kim puxou pela memória e lembrou que, lá do alto, também avistara um pequeno lago, a meio caminho do pequeno sítio que agora tentavam alcançar.

— Por aqui deve haver um lago, é só seguir em linha reta — disse Kim, e tirou do bolso a vara e o anzol improvisado.

Dito e feito: não demorou muito e alcançaram o lago. Como já havia acontecido, Kim mal lançou o anzol na água e sentiu o repuxo. O peixe que encontrou era ainda maior e nem deu tempo de soltá-lo do anzol, pois a peteca colorida começou a devorá-lo de imediato, com suspiros prazerosos. É verdade que Bocadinho, em sua versão plumosa, tinha hábitos alimentares mais elegantes do que a coisa horrenda em que se transformava à noite, mas o seu apetite continuava o mesmo. Sob os olhares atônitos do rapaz, deu cabo do enorme peixe em pouquíssimo tempo. Quando, finalmente, chegou na pontinha da cauda, interrompeu a comilança e, sem graça, olhou para Kim:

— Ah! Eu... eu nem lembrei que tu também querias uma porção do peixe. Me desculpa.

Kim fez um gesto com a mão, demonstrando sua generosidade. A carne branca do peixe o fez lembrar que há dois dias não comia, e nesse meio-tempo seu estômago já roncava sensivelmente. Por outro lado, não demoraria muito e alcançariam a casa que avistara do alto e lá, com certeza, ele poderia saciar sua fome.

— Não faz mal — disse — fique à vontade. Eu... não estou com fome.

— Tu comes pouco mesmo — murmurou Bocadinho, e engoliu o resto da cauda e a espinha do peixe. Depois arrotou, embora um pouco mais moderado que na noite anterior. — Agora podemos continuar — disse, lambendo os beiços.

Um pouco hesitante, Kim não sabia se atravessava o lago que lhe parecia bastante raso e não muito extenso. Virou-se para seu pequeno companheiro e disse:

— Acho que daqui para frente eu sigo sozinho. Você não precisa mais me acompanhar... isto é, se não quiser.

Bocadinho olhou para ele com ar de ofendido. Depois se virou e olhou para a parede rochosa, a essa altura nada mais do que um gigantesco vulto negro.

— Voltar? Subir aquela escada? — perguntou o animalzinho e arrepiou-se todo. — Acho que vou ficar por aqui... não é tão ruim assim.

— Talvez você encontre um caminho mais fácil para voltar — sugeriu Kim, que aprendera a gostar do estranho ser metamórfico. No fundo, já não importava mais em que versão ele se apresentava.

— É... talvez — respondeu Bocadinho. — Eu poderia te acompanhar um pouco mais... isto é, só para ter certeza de que não vais ficar perdido por aí. — Soltou um riso travesso: — Quem sabe tu pescas outro peixe?... Mais tarde, claro!

Kim suspirou:

— Fechado! E ainda te dou a vara e o anzol. Quem sabe você aprende a usá-los.

A cada passo a paisagem se modificava: ora atravessavam campos repletos de flores silvestres, multicoloridos, ora lutavam com a mata de corte espinhosa ou tateavam, quase às cegas, por florestas onde já se instalara noite profunda. E, como já era noite, em vez da peteca plumosa vermelho-alaranjada, agora saltitava ao lado do rapaz aquela “coisa” ouriçada que já conhecia.

— Ouça — começou Kim —, quando chegarmos ao sítio, talvez fosse melhor se você... quero dizer que...você deveria...

— O quê? — indagou Bocadinho, embora soubesse muito bem o que o rapaz queria dizer.

Kim respirou fundo:

— Acho que seria melhor se o pessoal de lá não visse você, se é que você me entende.

Bocadinho não respondeu, mas depois de alguns instantes o pequeno animal vociferou:

— Fome!

Kim parou abruptamente:

— Não é possível! — exclamou. — Você acabou de devorar um peixe enorme, que...

— Não estou falando de mim — interrompeu-o Bocadinho. — Estou falando deste aí!

Kim olhou na direção apontada e... soltou um grito! Uma sombra gigantesca se ergueu atrás dele! A primeira idéia que lhe veio à mente foi que um dos robôs tinha criado vida e agora os perseguia, mas depois percebeu que os contornos do vulto eram maiores e mais maciços e, além disso, de certa forma desgrenhados!

Não era preciso usar de muita imaginação para perceber que aquilo que agora soltava um rosnar abafado era um urso! Bocadinho, por sua vez, soltou alguns gritinhos estridentes e se refugiou na mata espessa. O urso deu um passo desajeitado, rosnou e se ergueu nas patas dianteiras. Kim notou que o animal tinha um só olho, o qual refletia a luz das estrelas. De repente o urso levantou a enorme pata. Kim conseguiu desviar, mas cambaleou para trás e caiu na grama. Rapidamente rolou de lado, protegeu a cabeça com os braços e, na mesma hora, pôs-se de pé. O urso rosnou e lhe deu um empurrão contra o peito. Provavelmente ele acabou com as minhas costelas, pensou o rapaz. Ele se agarrou a uma árvore para não cair novamente.

Mas não por muito tempo! As terríveis garras se cravaram no tronco da árvore abrindo feridas no córtice da grossura de um dedo, no exato lugar onde há poucos instantes estava o rosto do garoto!

Cambaleando para trás, Kim tentou fugir, perseguido pelo enorme urso, que não parava de surgir. O garoto não se iludiu, sabia muito bem que o animal, apesar do andar aparentemente pesado e desajeitado, possuía incrível agilidade. Seu pé enredou-se em algo e ele tropeçou. Girou os braços no ar para não perder o equilíbrio, mas acabou se estatelando no chão! O urso, com a goela escancarada, o alcançou com um único passo, colocando à mostra uma fileira de dentes longos e afiados, feito pequenos punhais curvados.

Tudo parecia perdido... mas, subitamente, uma bola espinhosa disparou da escuridão, foi parar na nuca do urso e, loucamente, começou a maltratar o gigante com dentes, garras e ferrões.

— Fome! — gritou Bocadinho. —Tu és enorme, mas tens o tamanho da minha fome!

O urso rugiu enfurecido, ergueu-se ainda mais e tentou arrancar a pequena bola ouriçada da nuca. Ficou evidente que Bocadinho não era páreo para o urso, provavelmente suas minúsculas garras nem chegavam a atravessar o pêlo espesso do animal, mas o inesperado ataque desviara sua atenção de Kim, que nesse meio tempo aproveitou para fugir.

O urso ainda não conseguiu tirar Bocadinho da nuca. Enraivecido, pisoteou no mesmo lugar e seus rugidos faziam estremecer a floresta. Agora Kim o viu nitidamente à luz da lua... era realmente enorme! Mas... atônito o rapaz esfregou os olhos! O urso sacudiu o corpo e finalmente se livrou do seu pequeno carrasco. Ele realmente tinha apenas um olho e também lhe faltava uma orelha! Bocadinho fora lançado longe, mas logo recuperou o equilíbrio e, de dentes arreganhados, voltou a atacar. O urso rosnou, debruçou-se para frente e ergueu a pata direita para acabar definitivamente com o seu minúsculo adversário.

— Bocadinho! — gritou Kim, apavorado.

Como sob comando, ambos, o animalzinho e o urso, viraram-se para Kim.

— Bocadinho! — gritou Kim novamente. — Deixe o urso em paz, ele não vai me machucar. E, voltando-se para o urso: — Kelhim, você devia se envergonhar! Me pregar tamanho susto! Você e esse teu humor fora de hora!

Sorridente, o rapaz se aproximou do urso e abriu os braços, como se quisesse abraçá-lo. O urso não se mexeu, mas balançou a cabeça e encarou Kim de maneira estranha, deixando o rapaz inseguro. Seria realmente seu velho amigo Kelhim? Mas é claro que era Kelhim, o urso mágico que falava, seu companheiro de outrora na luta contra o malvado Boraas e seus cavaleiros negros, um dos melhores amigos que jamais tivera. Não restava a menor dúvida!

— Você está ficando velho, não reconhece mais os amigos? — perguntou Kim, em tom de brincadeira. — Seus truques já estão manjados. Desde a primeira vez que eu te vi, você fingiu que ia me devorar.

Bocadinho pigarreou:

— Espero que tu saibas o que estás fazendo?!

— Claro que sei — respondeu Kim e se aproximou ainda mais do urso. Kelhim rosnou, ergueu a pata e baixou a cabeça. Seu nariz,

O urso rugiu enfurecido, ergueu-se ainda mais e tentou arrancar a pequena bola ouriçada da nuca. Ficou evidente que Bocadinho não era páreo para o urso, provavelmente suas minúsculas garras nem chegavam a atravessar o pêlo espesso do animal, mas o inesperado ataque desviara sua atenção de Kim, que nesse meio tempo aproveitou para fugir.

O urso ainda não conseguiu tirar Bocadinho da nuca. Enraivecido, pisoteou no mesmo lugar e seus rugidos faziam estremecer a floresta. Agora Kim o viu nitidamente à luz da lua... era realmente enorme! Mas... atônito o rapaz esfregou os olhos! O urso sacudiu o corpo e finalmente se livrou do seu pequeno carrasco. Ele realmente tinha apenas um olho e também lhe faltava uma orelha! Bocadinho fora lançado longe, mas logo recuperou o equilíbrio e, de dentes arreganhados, voltou a atacar. O urso rosnou, debruçou-se para frente e ergueu a pata direita para acabar definitivamente com o seu minúsculo adversário.

— Bocadinho! — gritou Kim, apavorado.

Como sob comando, ambos, o animalzinho e o urso, viraram-se para Kim.

— Bocadinho! — gritou Kim novamente. — Deixe o urso em paz, ele não vai me machucar. E, voltando-se para o urso: — Kelhim, você devia se envergonhar! Me pregar tamanho susto! Você e esse teu humor fora de hora!

Sorridente, o rapaz se aproximou do urso e abriu os braços, como se quisesse abraçá-lo. O urso não se mexeu, mas balançou a cabeça e encarou Kim de maneira estranha, deixando o rapaz inseguro. Seria realmente seu velho amigo Kelhim? Mas é claro que era Kelhim, o urso mágico que falava, seu companheiro de outrora na luta contra o malvado Boraas e seus cavaleiros negros, um dos melhores amigos que jamais tivera. Não restava a menor dúvida!

— Você está ficando velho, não reconhece mais os amigos? — perguntou Kim, em tom de brincadeira. — Seus truques já estão manjados. Desde a primeira vez que eu te vi, você fingiu que ia me devorar.

Bocadinho pigarreou:

— Espero que tu saibas o que estás fazendo?!

— Claro que sei — respondeu Kim e se aproximou ainda mais do urso. Kelhim rosnou, ergueu a pata e baixou a cabeça. Seu nariz, coberto por pequenas cicatrizes, trepidou, igual ao nariz de um cão que fareja. — Então, cara! — disse Kim. — Não fique ai parado, fale comigo!

Kelhim continuou rosnando, ergueu a pata ainda mais e... o acertou em cheio! O golpe foi tão forte que jogou Kim longe. Era como se estivesse colidindo com um caminhão. Só não quebrou o pescoço porque caiu sobre um amontoado de plantas espessas, que amorteceram o impacto da queda. Mesmo assim, Kim ficou por alguns instantes deitado, imóvel, lutando para não perder os sentidos. Gemendo, virou-se de lado para levantar, mas a contusão em seu ombro o fez gritar de dor e ele deixou-se cair para trás. Diante dos seus olhos formaram-se listras vermelhas e negras. O urso se aproximou dele, as patas estendidas.

— Kelhim! — gemeu Kim. — O que estás fazendo? Sou eu... Kim! O urso parou e por um instante apareceu em seu único olho um lampejo de reconhecimento. Mas logo voltou a ser uma fera selvagem e perigosa.

— Kelhim! — gritou Kim. — Não!

O urso soltou um berro, agarrou Kim e não apenas rasgou a sua camisa, como também a sua pele. Depois escancarou a goela e soprou seu bafo quente e fétido no rosto do suposto adversário. Resignado, Kim fechou os olhos e esperou o golpe fatal. Mas o inesperado aconteceu: o corpo do urso foi sacudido por um forte golpe e Kim, pela segunda vez, caiu no chão.

Kelhim berrou e virou de costas. Suas patas entraram em ação e acertaram algo, provocando um forte ribombar. Arrastando-se de gatinhas, Kim tratou de se afastar dali.

Kim levantou-se vagarosamente e, aos gemidos, apertou os braços contra o corpo para aliviar a dor. Respirava com dificuldade. Com os olhos cheios de lágrimas, encarou Kelhim. O urso travava uma luta feroz com alguém, que no tamanho e na forma se assemelhava a ele. Sem parar, as enormes patas atingiam o corpo do adversário que, no entanto, parecia invulnerável, pois nem mesmo chegava a vacilar sob o impacto das terríveis pancadas. Em contrapartida, Kelhim não saiu ileso. Seus rugidos, cada vez mais desesperados, eram de pura dor.

Era inacreditável! Kim nunca pensou que existisse alguém capaz de derrotar o gigantesco urso, mas Kelhim bateu em retirada!

Passo a passo, o urso se afastou do seu inimigo desconhecido! Kim sentiu náuseas. Seu ombro latejava e o lado esquerdo do seu corpo começou a ficar dormente. Seus dedos tatearam o ombro no lugar onde fora atingido pela pata do urso. A ferida em si nem era muito profunda e nem mesmo sangrava muito, mas Kim temeu que o braço estivesse quebrado.

— Tira a mão, idiota! — manifestou-se uma voz atrás dele. — Deita, eu cuido do teu braço.

Fraco demais até para sentir medo ou qualquer outra sensação a não ser dor, Kim obedeceu. Deixou-se cair para trás e fechou os olhos. Dedos ágeis, embora não muito suaves, ocuparam-se do seu braço, provocando mais dor.

— Hum... pareces bem ferido — continuou a voz, que lhe soava familiar, mas Kim não lembrou de onde a conhecia. — Pelo jeito, o braço não está quebrado, mas vais ficar com um enorme hematoma roxo. Andar sozinho por estas bandas, à noite, que loucura, garoto!

Finalmente Kim abriu os olhos e viu um rosto barbudo, mas muito bondoso. E novamente teve a sensação de que já vira este rosto antes. O homem também encarou Kim com maios atenção.

— Tu consegues ficar de pé? — perguntou. — Minha casa fica perto daqui. Na floresta tu não podes ficar. Brokk espantou a fera, mas ela vai voltar.

— Kelhim... — gemeu Kim. — Foi Kelhim.

— Claro que foi Kelhim — confirmou o barbudo, balançando a cabeça. — Todos aqui o conhecem. Aliás, os poucos que chegaram tão perto dele como tu não saíram com vida.

— Mas por que... por que ele me atacou? — chorou Kim. O homem arregalou os olhos:

— Por que ele te atacou, seu tolo? — bufou. — Todo mundo sabe que Kelhim é a fera mais perigosa que jamais andou por estas bandas, e perguntas por que ele te atacou? De onde vens? Do... — O barbudo não completou a frase. Seus olhos quase saltaram das órbitas e seu queixo caiu: — Kim?! — exclamou. — És tu! O salvador de Märchenmond!

E, no mesmo instante, Kim também o reconheceu:

— Brobing? Você é Brobing?

O homem se ajoelhou, o que deixou o rapaz muito sem graça. Ignorando a forte dor que o atormentava, Kim puxou Brobing pelo braço.

— Que é isso, Brobing? Levanta daí!

O homem ergueu a cabeça, mas não se levantou:

— És tu mesmo! — murmurou, o rosto iluminado pela alegria. — Voltaste, jovem senhor!

Brobing, o camponês cuja vida Kim salvara, com a ajuda de Gorg, Rangarig, príncipe Priwinn e... Kelhim! Naquela época, quando Kim estivera pela primeira vez em Märchenmond, o sítio de Brobing havia sido atacado por um bando de cavaleiros negros. E agora Kim o reencontrava! Não podia ser mera coincidência!

— Você voltou — repetiu Brobing pela milésima vez. — Agora tudo vai acabar bem! Eu tinha a certeza de que você voltaria! Todos nós acreditamos nisso!

O camponês queria se pôr de joelhos de novo, mas Kim o deteve:

— Eu não estou entendendo nada! O que está acontecendo em Märchenmond? O que você está fazendo aqui e por que... por que Kelhim me atacou?

O rosto do homem se anuviou:

— Ele se tornou um animal selvagem, senhor — disse Brobing. — E isso não é tudo. Coisas terríveis estão acontecendo em Märchenmond. O camponês estremeceu: — Mas isso eu te conto mais tarde. Primeiro eu te levarei até minha casa para cuidar do teu braço. Não tente levantar, Brokk carregar-te-á nos braços. Brobing se voltou para trás e chamou: — Brokk!

Da escuridão da noite emergiu uma gigantesca figura e Kim, a despeito da dor no ombro, ergueu-se com uma exclamação de espanto. Era o vulto que vencera Kelhim! Tinha mais de dois metros de altura, ombros largos, o rosto nada mais que uma máscara sem expressão. No lugar do olho tinha apenas um rasgão, atrás do qual se via uma luz esverdeada. Seu corpo era todo de ferro. A mão direita se assemelhava à de um ser humano, só que bem maior, enquanto a esquerda lembrava uma escavadeira. Brokk era um dos gigantes metálicos que Kim e Bocadinho haviam visto aos pés da escada!

— Brobing! — arquejou Kim, apavorado. — Cuidado! Brobing olhou para o homem de ferro e depois para Kim:

— Não te assustes, senhor — disse, sorrindo. — Brokk é um bom amigo.

A casa do camponês era mais longe do que Kim havia imaginado. De início até tentou caminhar com as próprias pernas, mas após algumas tentativas frustradas, teve que desistir. Além das dores que o atormentavam, todo o lado direito do seu corpo estava insensível e ele simplesmente não conseguia mover o braço e a perna. Contra sua vontade, teve de aceitar que Brokk o carregasse. Um contato tão próximo com o homem de ferro era a última coisa que desejava! Brobing percebeu a relutância do rapaz e, sem maiores comentários, dispôs-se a carregá-lo. Mas, apesar do camponês ser um homem forte, Kim, com toda sua juventude, era pesado demais e o caminho era longo. Para Brokk, em contrapartida, Kim não constituía peso algum e, apesar de sua aparência angulosa e dura, o robô o carregava com extremo cuidado. Mas, para completar a desgraça, a maneira de andar do robô, ou seja, seu passo pesado e um pouco oscilante, acabou deixando o rapaz tremendamente enjoado. Por sorte, chegaram à casa de Brobing antes que a situação piorasse ainda mais.

A casa do camponês era ampla, de dois andares, toda pintada de branco com um telhado de sapê. Nos fundos, quase escondidos pela noite, erguiam-se os celeiros e as estrebarias.

Misturado ao tinir provocado pelos passos do robô, ouviam-se os ruídos de vacas, porcos e o latir de um cão que agora veio ao encontro deles. Pelo visto, Brobing, que naquela época perdera tudo, construíra um novo lar, maior e mais bonito do que antes.

Kim fez um comentário a respeito e o camponês inclinou a cabeça sem esconder seu orgulho:

— Muita coisa mudou desde que tu nos deixaste, jovem senhor. Nossa vida melhorou muito, isto é, sob alguns aspectos.

Kim não chegou a perguntar mais detalhes, pois nesse instante a porta da casa se abriu. Uma mulher de cabelos desgrenhados — Kim reconheceu a mulher de Brobing — veio ao encontro dele correndo:

— Torum! — gritou — tu...

Ela parou abruptamente, olhou para Kim, depois para o marido e novamente para Kim, que continuava aos cuidados do robô. Havia um profundo desespero estampado no rosto da mulher, mas também certa esperança, que logo se desvaneceu, restando apenas o desamparo e a tristeza.

— Jara! — exclamou Brobing — olha quem encontramos! Lembras dele?

Dava para notar que a mulher o reconhecera, mas ela não demonstrou a menor alegria em revê-lo.

— É Kim — disse Brobing, agitado. — Brokk estava certo, quando disse que ouviu o urso. Chegamos bem na hora para salvar Kim das garras da fera. O urso quase o matou!

— Isso é... que bom — disse Jara e tentou forçar um sorriso. Lágrimas se formaram em seus olhos. — Estás ferido, senhor?

— Só um arranhão — respondeu Kim.

— Ele levou um tremendo golpe — corrigiu Brobing. — Prepare água e alguns panos, para tratar do ferimento. E... seja um pouco mais amável com nosso hóspede, até parece que tu não estás contente com a volta dele.

— É claro que estou contente. É que... — Jara engoliu em seco e tentou conter as lágrimas: — É que... quando vi Brokk com um jovem nos braços, pensei que... — Jara não conseguiu se conter e começou a soluçar. Depois se virou e saiu correndo. Brobing a seguiu com os olhos, balançou a cabeça e se virou para Kim.

— Perdoa, jovem senhor, mas a minha mulher chora por Torum, nosso filho. Ele... ele desapareceu há meio ano. Ela achou que era Torum que Brokk carregava nos braços.

— Desapareceu? Como?

— É isso mesmo, ele desapareceu — confirmou Brobing, triste. — Como tantos outros. Ele tinha a tua idade, sabe? Vós sois até são um pouco parecidos. — O camponês soltou um suspiro dorido e disfarçadamente passou a mão pelos olhos, tentando esconder a emoção. Depois continuou: — Mas vamos entrar, em casa falaremos mais à vontade. Deves estar com fome e sede, pelo menos é o que parece.

Kim entendeu que Brobing não queria falar sobre o assunto, embora, à sua maneira, também sofresse muito com o desaparecimento do filho. Mas em uma coisa o camponês tinha razão: Kim estava esfomeado e seu estômago não parava de roncar.

Brokk, ainda carregando Kim nos braços, teve de se agachar ao entrar na casa, para não esbarrar no batente da porta. O soalho de madeira chiou sob o peso do robô e os seus ombros eram tão largos que não seria surpresa para ninguém se ele ficasse encalhado na porta como uma rolha no gargalo da garrafa. Mas o homem de ferro demonstrou inesperada habilidade e, com muito cuidado, depositou Kim num banco de madeira.

Kim respirou fundo ao se livrar das garras de aço. Dava para notar que Brobing confiava cegamente no robô. Mas uma coisa ele tinha que admitir: Brokk salvara sua vida, pois, mesmo se o comportamento do seu velho amigo Kelhim no momento ainda fugia à sua compreensão, o urso, com certeza, o teria matado se Brobing e seu horripilante companheiro não tivessem aparecido.

O camponês, que percebeu o mal-estar do rapaz em relação ao robô, apontou para a porta e disse:

— Vá para fora, Brokk, e fica vigiando. O urso estava muito próximo, e não quero ter nenhuma surpresa desagradável à noite. — Sem nada a dizer, o gigante vermelho-ferrugem se virou e saiu da sala com seu pisar retumbante que fazia a casa tremer. — Eu também não gostei quando o vi pela primeira vez — disse Brobing, depois que Brokk saiu. — Mas ele é inofensivo, não faz mal a ninguém, além disso é muito útil.

Brobing olhou para Kim à espera de resposta, mas o rapaz não quis falar sobre o robô. Havia questões mais importantes a discutir. Kim tinha muitas perguntas a fazer e, pelo que percebia, o camponês também mal controlava sua curiosidade. Mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Jara entrou na sala, acompanhada por duas serviçais, que carregavam bacias com água quente e panos brancos. Antes de mais nada, as mulheres começaram a tratar do ombro contundido do rapaz e das inúmeras esfoladelas espalhadas pelo corpo, vestígios de suas andanças pelas terras pantanosas.

Kim fez um pouco de cerimônia, não queria incomodar. Mas, por outro lado, os cuidados que lhe estavam sendo dispensados lhe proporcionaram uma profunda sensação de bem-estar. Seu ombro foi massageado com essências aromáticas e em seguida amarrado firmemente com ataduras, o que de imediato doeu mais do que a contusão, mas depois deu lugar a um grande alívio. Por fim, Jara trouxe roupas limpas: uma camisa curta, de couro macio feito seda, sem mangas, usada solta sobre o cinto. Calças do mesmo tecido, porém mais resistentes e, por último, botas de cano longo que se ajustaram aos seus pés como se tivessem sido feitas sob medida. Todas essas roupas lhe trouxeram à memória o jovem cavaleiro das estepes e, por conseguinte, o motivo pelo qual viera a Märchenmond. E, com a lembrança, voltou a ansiedade. Jara percebeu que algo o incomodava:

— As roupas não te agradam? — perguntou. — Elas te servem, não servem?

— Parecem feitas sob medida — assegurou Kim. — São muito bonitas! — Novamente os olhos de Jara se encheram de lágrimas. — Elas pertencem ao seu filho? — perguntou Kim.

Jara inclinou a cabeça e, sem esconder seu sofrimento, respondeu:

— Eu costurei estas roupas com minhas próprias mãos para ele, no último inverno. Ele era... ele era quase do teu tamanho quando desapareceu.

— Quando aconteceu? — perguntou Kim.

— Há meio ano, senhor. — Jara juntou a bacia, os panos e as roupas de Kim, que estavam sujas e rasgadas, enquanto as serviçais começaram a arrumar a mesa para o jantar. — A tarefa dele era ir até o pasto cuidar dos animais, e ele gostava do que fazia.

— Então o que aconteceu? — indagou Kim.

— Não sei... — murmurou Jara. Suas lágrimas secaram, mas seu olhar se perdeu em algum lugar longínquo, que ninguém conhecia. — Certa noite ele simplesmente não voltou — continuou. — Nós o procuramos por toda parte, durante semanas. Meu marido e Brokk foram até a toca do urso Kelhim...

Do canto dos olhos Kim notou, de relance, que Brobing fazia sinais agitados para a mulher, mas Jara não se intimidou:

— Eles pensaram que o nosso menino talvez tivesse morrido nas garras do urso.

— Kelhim? — repetiu Kim. Era difícil acreditar que o urso se tornava uma fera perigosa.

— Ele matou muitos dos nossos — disse Brobing. — Como te falei, ele se tornou uma fera selvagem. — O camponês suspirou fundo: — Encontramos muitos mortos na toca do urso, mas Torum não estava entre eles. Não creio que Kelhim tenha vindo buscar nosso filho. Se eu acreditasse nisso, o maldito urso já estaria morto!

O ódio com que o camponês proferiu estas palavras entristeceu o rapaz. Vingança?, perguntou-se, um tanto confuso. Uma palavra que não cabia em Märchenmond. No entanto, esperou, paciente, até que Brobing continuasse a falar:

— Torum não é o primeiro que desapareceu desta maneira.

— Foi o que pensei — murmurou Kim.

Quando viu o rosto assustado do casal de camponeses, Kim se arrependeu do comentário, mas já era tarde para voltar atrás.

— Tu sabes o que aconteceu? — perguntou Brobing, com a voz embargada pela emoção, nos olhos a chama da esperança.

— Bem... eu acho que esta é a razão por que estou aqui — respondeu Kim.

— Então... então sabes onde está Torum? — agitou-se Jara, movida pela mesma esperança que o marido. — Onde ele está? Ele está bem?

Kim gostaria de dizer a esta mãe aflita que não se preocupasse, que seu filho estava bem... mas estaria mentindo e em Märchenmond mentiras não tinham vez, nem mesmo aquelas contadas por piedade. A verdade era que ele não sabia nada sobre o paradeiro de Torum... o garoto que vira na clínica trazia consigo o brasão de Caivallon e, com certeza, não era o filho de Jara. Kim pensou nas palavras do médico: Talvez estas crianças morram, se não descobrirmos o que elas têm.

— Não — disse Kim, finalmente — eu não vi o seu filho, não sei onde ele está.

Jara levantou e saiu da sala, enquanto as lágrimas rolavam por suas faces. Também no rosto de Brobing estava estampada toda a dor.

— Ela era tão alegre, antes, lembras? Mas desde que Torum desapareceu a vida perdeu o encanto para Jara. Ela está de coração partido e às vezes eu temo perdê-la também.

— Acho que Torum está vivo — disse Kim, mais para confortar o camponês desesperado. Por pouco não se abriu e contou tudo que sabia, mas resolveu se calar. Não queria plantar falsas esperanças no coração do pobre homem.

— Aqui em Märchenmond não choramos pelos mortos — disse Brobing. — Nós os guardamos no coração e eles continuam vivos em nós e em nossa memória. Mas alguém que simplesmente desaparece... é diferente! Ninguém sabe o que aconteceu com Torum e os outros meninos que desapareceram. Estão mortos ou vivos? E, se estiverem vivos, onde estão? Presos? Ou até escravizados?

Kim sabia muito bem o que o camponês queria dizer. Não era apenas a dor pela perda do filho que lhes partia o coração, mas também a incerteza sobre o seu destino. Não havia sofrimento pior do que ignorar o paradeiro de um ente querido e não poder tomar nenhuma atitude.

— Quantos desapareceram? — indagou Kim.

— Muitos — suspirou Brobing. — Eles simplesmente saem e não voltam mais. Ou se recolhem à noite e ao raiar do dia desaparecem. Ninguém sabe o que aconteceu com eles. E, a cada dia que passa, aumenta o número... isto é, cada vez mais crianças desaparecem. Já se diz por aí que em breve todas as crianças de Märchenmond terão desaparecido.

— Mas deve haver uma explicação! — insistiu Kim.

Brobing não respondeu e, de repente, o rapaz entendeu que o camponês esperara que ele, Kim, lhe desse uma explicação!

— Quando e onde tudo isto começou?

— Não sei — respondeu Brobing. — Vivemos muito afastados das cidades e dos castelos. As notícias são esparsas e chegam com bastante atraso, mas eu soube que em todas as terras de Märchenmond começam a desaparecer crianças.

— Mas ninguém tomou providências? — estranhou Kim.

— Que providências? — retrucou Brobing, triste. — Claro... foram organizadas buscas, Temístocles empenhou todo o seu poder, auxiliado por outros magos... tudo inútil! Procuraram por toda parte e ouvi dizer que Rangarig, o dragão dourado, sobrevoou toda Märchenmond até as planícies ardentes para encontrar pelo menos um sinal das crianças. Não foram raptadas, se é isso que pensas. — Brobing ergueu os braços num gesto de desespero: — Estas crianças simplesmente sumiram!

Durante um bom tempo os dois permaneceram mudos, mergulhados em pensamentos sombrios. Por um instante Kim julgou ter encontrado a solução de todos os problemas, mas as idéias lhe escaparam antes mesmo que ele pudesse coordená-las. Depois, quase num sussurro, perguntou:

— Isso não é tudo, não é? Brobing suspirou:

— Não... mas não posso dizer-te o que é. Está acontecendo algo, todos percebem, mas ninguém sabe o que é.

— Não estou entendendo....

— As pessoas estão mudando, Kim — explicou Brobing. — Elas riem menos, muitos se tornaram duros e amargurados, as brigas aumentaram e no ano passado um viajante nos informou que em algum lugar havia estourado uma guerra.

— Guerra? — exclamou Kim. — Aqui em Märchenmond? Brobing levantou a mão:

— Não é uma guerra de grandes proporções, como daquela vez contra o diabólico Boraas e seus cavaleiros negros. Mas foram travadas algumas batalhas entre os cavaleiros das estepes, os habitantes de Caivallon, e o Senhor do Pântano, o Rei dos Charcos. Houve muitos feridos, alguns mortos. Não me pergunte por que eles lutaram, eu só sei que se não fosse a intervenção de Temístocles, teria sido bem pior.

Kim custou a acreditar no que acabara de ouvir. Ele conhecia o Senhor de Caivallon e também conhecia o Rei dos Charcos, que jamais iria desencadear uma guerra... isto é, se for o mesmo Rei dos Charcos que Kim conhecia.

— É como... como se estivéssemos perdendo algo — murmurou Brobing com ar de abandono. — E o pior é que nem temos consciência do que estamos perdendo!

Kim lembrou do robô paralisado aos pés da grande escada, o braço erguido como se quisesse apoderar-se das terras que o circundavam.

— Trata-se dos... homens de ferro? — perguntou. Brobing demonstrou uma surpresa genuína:

— Os homens de ferro? — repetiu. Depois balançou a cabeça e esboçou um sorriso: — Ah não, estás enganado. Eles são nossos amigos e nos ajudam. Sem eles tudo seria pior, acredita.

— Quando estive em Märchenmond pela primeira vez, não se falava em crianças desaparecidas e não havia homens de ferro.

— É fácil procurar um bode expiatório — revidou Brobing. — Mas não é o certo.

O braço com as ataduras começou a doer e Kim cerrou os dentes, tentando conter um gemido de dor.

— Dói muito? — preocupou-se Brobing. Kim abanou a cabeça:

— Não — disse, heroicamente. — Ah... não consigo entender o que aconteceu com Kelhim.

— Mas eu já disse, ele se tornou uma fera incontrolável.

— É difícil acreditar, apesar de ter sentido na pele... você disse que ele matou muitas pessoas?

— Isso mesmo — confirmou Brobing, triste. — Alguns camponeses até foram embora por causa dele. Nós não mudamos daqui porque temos Brokk que nos protege. Nossa propriedade fica perto da caverna do urso. Se nossos vizinhos soubessem onde fica a caverna, há muito tempo teriam ido até lá para matá-lo. Fora da caverna ele vence todos, não importa quantos são.

Kim lembrou que Brobing e a mulher haviam trocado um rápido olhar quando falaram sobre o urso.

— Você sabe onde fica a caverna dele, mas guardou segredo? Brobing balançou a cabeça:

— Deveria revelar o esconderijo dele, eu sei — disse Brobing —, mas não consigo! Tu e teus amigos, com a ajuda de Kelhim, salvastes a nossa vida, lembra? Agora eu não posso permitir que o matem!

— Kelhim, um monstro, eu não consigo aceitar a idéia! — exclamou Kim, inconformado. — O que o fez mudar tanto?

Brobing deu de ombros:

— Faz parte das mudanças que estão acontecendo aqui — respondeu. — Os animais já não falam e muitos se tornaram perigosos, is florestas já não são seguras, ninguém mais sai de casa após o anoitecer, pelo menos não desarmado.

Kim pensou nas palavras de Brobing: coisas terríveis estão acontecendo em Märchenmond! Sentiu um sopro gelado no coração.

— Eu vou descobrir o que aconteceu em Märchenmond, Brobing — prometeu Kim. — Amanhã cedo partirei para Gorywynn, para encontrar Temístocles.

 

Mas no dia seguinte Kim não partiu para Gorywynn. As andanças pelas terras pantanosas o tinham deixado exaurido, e ele acabou caindo em sono profundo. Mais tarde, Brobing e a mulher lhe contaram que fizeram de tudo para acordá-lo, porém todas as suas tentativas foram em vão. Quando, finalmente, Kim acordou, um dia inteiro havia se passado.

O atraso deixava-o aborrecido, mas o sono reparador em um leito macio e a comida deliciosa devolveram-lhe as forças. Pela primeira vez desde o seu retorno a Märchenmond Kim sentia-se descansado e pronto para enfrentar qualquer coisa. Assim, depois de outra farta refeição, ele pediu a Brobing que lhe cedesse um cavalo para que pudesse partir para Gorywynn. Mas o camponês se mostrou relutante:

—Já é tarde — justificou a recusa. — Tu levarás 24 horas para chegar à cidade mais próxima, e isso sem fazer uma única pausa.

— Posso dormir a céu aberto — replicou Kim. — Não quero perder mais tempo!

— Claro, claro... mas é perigoso. Esqueceste de Kelhim?

Kim tentou argumentar, mas Brobing se manteve irredutível e até um pouco alterado:

— O urso anda por todas estas terras. Ele não costuma atacar durante o dia, mas, se isto porventura acontecer, terás mais chance de escapar. Ceder-te-ei Estrelinha, meu melhor garanhão. Deves partir ao raiar do dia, viajar à noite é muito perigoso!

Kim engoliu outro protesto ao notar a troca de olhares entre Brobing e sua mulher. Pelo jeito, os dois estavam realmente preocupados com sua segurança. A última coisa que queria era lhes causar ainda mais sofrimento.

— Queres conhecer Estrelinha? — perguntou Brobing.

Kim amava os animais, principalmente cavalos e, entusiasmado, acompanhou o camponês até um dos grandes estábulos atrás da casa principal. Pôde reparar como a propriedade dos Brobing era grande, muito maior do que a anterior, que a família havia perdido para os malvados homens do bruxo Boraas. O camponês notou a curiosidade do rapaz e se encheu de orgulho:

— Por um longo tempo vagamos por estas terras, até que encontramos um pedacinho de chão onde pudéssemos construir nossa casa. Acabou dando tudo certo, este lugar é mais bonito do que aquele onde vivíamos antes.

— A sua propriedade agora é bem maior — comentou Kim.

— É mesmo — confirmou Brobing. — No inverno passado até descobrimos uma fonte com uma água esquisita, amarga...

— Água amarga?

— É, a gente enche as lâmpadas com esta água e ela queima por muitas horas — explicou Brobing.

— Ah... petróleo!

— É assim que a chamam no teu mundo? — Kim concordou com a cabeça e Brobing continuou: — No próximo ano vou contratar alguns homens para me ajudar a extrair a água amarga da terra. Eu pretendo vendê-la no mercado da cidade.

— Você deve ter muitos ajudantes para cuidar de uma propriedade tão grande — constatou Kim.

Brobing balançou a cabeça:

— Ah não! Só as duas serviçais que tu viste e um homem... e eu, claro.

Kim varreu com os olhos a longa fileira de estábulos e celeiros, os campos que começaram logo atrás dos prédios e que se estendiam a perder de vista.

— Mas como você consegue dar conta de tudo isso? — perguntou, incrédulo.

Brobing sorriu:

— Por que não? Eu explico... mais tarde — prometeu. — Mas agora vamos ver Estrelinha.

No estábulo, à esquerda e à direita da porta, estendiam-se duas longas fileiras com pelo menos trinta baias, quase todas vazias. Não obstante, Kim constatou que Brobing devia manter ali pelo menos uma dúzia de cavalos, o que, numa região como esta, significava uma pequena fortuna. Pelo visto, a vida do camponês mudou radicalmente desde a última vez que o vira.

Todos os cavalos do estábulo eram, sem exceção, magníficos. Eram cavalos de montaria, não destinados ao trabalho na lavoura. Brobing parou e apontou para o mais fantástico cavalo que Kim jamais vira. O garanhão era enorme, todo preto com minúsculos pontinhos brancos, como se o seu pêlo tivesse sido salpicado com milhões de estrelas. O animal olhou para Kim, como se soubesse muito bem quem tinha à sua frente. O garoto se aproximou com cuidado e Estrelinha baixou a cabeça e permitiu que Kim acariciasse suas narinas.

— Ele é... simplesmente maravilhoso — disse Kim.

— Eu sei — concordou Brobing. — É o cavalo mais veloz que possuo... ele seria de Torum, se não fosse...

— Não posso aceitar — disse o rapaz, sem desviar os olhos do garanhão, que o fitava com olhar inteligente. — Eu.... eu não posso prometer que vou devolvê-lo, explicou. — O caminho para Gorywynn é longo e eu...

— O caminho está repleto de perigos — interrompeu Brobing. — Por isso insisto que tu leves Estrelinha. Não quero que algo te aconteça só porque não tens um cavalo veloz.

— Mas se ele pertence ao seu filho...

Brobing o interrompeu de novo e desta vez mostrou claramente que estava magoado:

— Eu te dou este cavalo de coração, Kim. Só quero a esperança de ter meu filho de volta.

— Mas eu não posso prometer nada — respondeu Kim, constrangido.

O camponês suspirou fundo:

— Eu sei, mas somente tu poderás encontrar meu filho... você! E precisarás de toda ajuda possível... afinal, o que é um cavalo?

— Um cavalo deste porte? — disse Kim. Deve ser muito valioso!

— Ele é valioso — confirmou Brobing. — Mas eu sou um homem rico e sem ti eu não teria nada do que tenho hoje, sem ti eu e minha família estaríamos mortos.

Kim não disse mais nada. Ainda permaneceram por algum tempo no estábulo e Brobing esperou pacientemente até que o rapaz se familiarizasse um pouco com o cavalo. Depois de algum tempo, Kim arriscou montar em Estrelinha e, para sua alegria, o animal não ofereceu resistência.

— Pelo visto, sereis bons amigos — comentou Brobing sorrindo. — Mas agora vamos, quero te mostrar o resto da fazenda... isto é, se quiseres conhecer minha propriedade.

É claro que ele queria, mas por motivos que o camponês desconhecia.

As horas passaram voando. Orgulhoso, Brobing mostrou toda a sua propriedade, que realmente era muito vasta. Além dos cavalos — cerca de uma dúzia —, possuía muitos porcos, gado bovino e um rebanho de cabras. Rindo, explicou que nunca contara suas cabras e, portanto, não sabia quantas possuía. Brobing não exagerou quando disse ser um homem rico!

— Mas como você consegue dar conta de tudo isso? — admirou-se Kim outra vez.

— Vem, vou te mostrar.

O camponês apontou para um campo que estava sendo lavrado, não muito longe da casa. Perto do último sulco, quase no final do campo, alguém empurrava um arado.

— Quem é? — perguntou Kim, surpreso.

Estranhava, pois para esse tipo de trabalho era comum o emprego de cavalos ou bois, que Brobing tinha às dúzias. O rapaz sombreou os olhos com as mãos para enxergar melhor. A solitária figura era grande, de cor vermelho-ferrugem e de movimentos rijos.

— O homem de ferro! — exclamou Kim, estupefato. Brobing inclinou a cabeça:

— Brokk faz todos os trabalhos pesados aqui — explicou. — Ele lavra os campos e faz a colheita, tosa as ovelhas e abate os porcos e as cabras. E, além de tudo isso, ainda faz todos os consertos necessários. Ele construiu, sozinho, quase todos os estábulos que te mostrei. Não sei o que eu faria sem ele. E pensar que você tiveste medo dele!

As palavras do camponês não conseguiram eliminar o mal-estar provocado pela presença do homem de ferro, pelo contrário.

— Por que ele faz tudo isso? — perguntou Kim. — Ou melhor ... o que ele ganha em troca?

— O que ele ganha? — repetiu o camponês, estupefato. Depois desatou a rir: — Nada! Estou vendo que ainda não entendeste. Brokk não é meu servo, ele me pertence, eu o comprei há três verões.

— Comprou? Ah, entendo! Você quer dizer que Brokk é uma máquina?

— Não sei o que é uma máquina — respondeu Brobing. — Brokk não é um ser humano, se é isto que queres dizer. Ele é todo de ferro. Os anões das montanhas do Leste fabricam os homens de ferro. São caros, mas vale a pena, como podes ver. Daqui a dois anos terei quitado o valor de Brokk, e aí poderei comprar mais um ou talvez dois. Com mais dois poderei expandir meus negócios.

— Mas, para quê? — perguntou Kim. Brobing parecia confuso:

— Não estou entendendo...

— Você mesmo disse que é um homem rico — explicou Kim. — O que tem não lhe basta? Por que você quer mais?

— E por que não? — replicou Brobing. — Não estou tirando nada de ninguém. Em Märchenmond há muita terra, todos poderiam ter uma propriedade como esta. Eu não entendo a tua pergunta.

Kim não respondeu. Nesse momento lembrou de um passeio que ele fez com a escola para o campo. Naquela ocasião o professor de biologia lhes deu uma série de explicações sobre o trabalho na terra. Kim se pôs de cócoras. Pensativo, pegou um punhado de terra recém-lavrada e a deixou escorrer pelos dedos. Estava reduzida a pó acinzentado.

— Este solo está empobrecido— constatou. — Você remexe até o fundo. Tem barro misturado ao humo, está vendo?

Brobing inclinou a cabeça:

— Nós temos três colheitas por ano, isto exige muito do solo. Mais umas duas ou três colheitas e teremos que abandonar este campo.

— E depois? — perguntou Kim. Brobing deu de ombros:

— Vamos plantar em outro campo. Terra é o que não falta.

— Mas vai chegar o momento em que tudo estará esgotado — ponderou Kim.

— Pouco provável — disse Brobing. — E se isto de fato acontecer, vamos embora e começamos outra lavoura em outro lugar. Acredite, isso não é problema. Brokk constrói uma casa em uma noite se eu lhe ordenar.

Kim levantou e ficou observando o homem de ferro que empurrava o pesado arado como se fosse um carrinho de boneca.

— Em algum momento não haverá mais terra para ser cultivada, Brobing — disse o rapaz.

— Bobagem! — retrucou o camponês. — Märchenmond é grande, meu jovem. Muito maior do que pensas. Além disso... não existem apenas estas terras.

— Vocês podem construir terras novas? — perguntou Kim, com tom de ironia.

Brobing não percebeu o gracejo e respondeu:

— Tu viste a parede rochosa que limita os pântanos — disse o camponês, apontando para a direção de onde viera Kim. — Todas estas terras ainda há poucos anos eram somente rochas e montanhas. Os homens de ferro tiraram as rochas e as montanhas e criaram uma terra nova e fértil. Como vês, eles podem remover as montanhas se for preciso. Eles também podem secar os charcos e criar um novo espaço.

Kim lembrou de Lizard e se revoltou:

— Os pântanos? Você não deve estar falando sério, Brobing! Os pântanos não pertencem a vocês!

— Eles não têm dono — replicou o camponês. — Afinal, quem vive lá, fora algumas cobras e lagartos? Mas não será necessário, acredita. Tu não és o único que pensa assim. Muitos dizem que os homens de ferro não são bons para nós, mas eles estão errados! Olhe ao redor, Kim! Quando nós nos vimos pela primeira vez eu era um homem pobre!

— É, mas...

— Hoje não nos falta nada — interrompeu Brobing —. Não tenho mais problemas, não preciso me preocupar com a próxima safra ou com eventuais tempestades, Brokk toma conta de tudo. Acredite, somos felizes!

Kim não respondeu, mas, de repente, lembrou da dor que vira nos olhos de Jara quando falou no filho desaparecido. Sem dúvida, Brobing estava enredado em uma teia de fantasias e suas palavras eram ilusórias.

Estavam voltando para casa quando Brobing de repente parou, o olhar voltado para o Oeste. Kim piscou contra a luz do sol poente e viu alguém, ainda um pontinho no horizonte, aproximar-se da fazenda.

— Você está esperando visita? — perguntou, um pouco preocupado.

Brobing balançou a cabeça:

— Não que eu saiba, mas às vezes vem...

O camponês parou de falar e fixou os olhos no cavaleiro que agora já estava bem perto.

— É Jarrn! — exclamou.

Por alguns segundos o camponês parecia indeciso. Depois se virou e correu na direção da casa, deixando Kim ali plantado, como se o tivesse esquecido. O comportamento de Brobing deu a entender que a visita inesperada não era nada bem-vinda. Kim sentiu certo desconforto, mas quando o estranho visitante apeou do cavalo, que, aliás, não era maior que um pônei, notou que não havia nada de ameaçador nele, ao contrário, era quase hilário.

Num primeiro momento Kim pensou que se tratava de uma criança, pois o desconhecido era tão pequeno que mal alcançava o queixo do rapaz, e isso depois que se pôs na ponta dos pés. A estranha figura estava toda de preto: botas, calça e camisa pretas e um manto preto que lhe caía até os tornozelos, e ainda por cima largo demais.

Até o cabelo, quase todo escondido sob um capuz pontiagudo, era preto. Aliás, as suas unhas também eram pretas... de sujeira!

— Quem és tu? — indagou o pequeno em tom provocante, prostrando-se, de mãos na cintura, diante de Kim.

— Boa pergunta — respondeu Kim, fulo da vida com o comportamento autoritário do anão. — Talvez eu devesse perguntar o mesmo a você!

O anão lançou um olhar sombrio:

— Eu sou Jarrn! — bradou. — Venho aqui duas vezes por ano, mas nunca te vi antes. Pertences à corja dos camponeses?

Kim mal resistiu ao ímpeto de sacudir o anão em sua roupagem preta, imitação ridícula do conde Drácula.

— A corja de camponeses, como você os chama, homenzinho, são meus amigos e eu sou hóspede deles.

Com satisfação percebeu que o anão mudara de cor, quando ele o chamou de homenzinho.

— Bem, de certa forma — espumou o anão — também sou danado da vida. — Pois, saia do caminho, eu vim buscar o que é meu! — O pequeno homem levantou a mão para empurrar o rapaz, mas Kim não lhe deu passagem. — Sai do caminho, rapaz, ou... — ameaçou Jarrn.

— Ou? — repetiu Kim, desafiador, cerrando os punhos. Normalmente não era do seu feitio aceitar provocações, mas o anão o irritava ao extremo. Era como se da pequena figura de preto emanasse alguma toxina invisível, capaz de provocar uma incontrolável raiva nele.

O anão não respondeu e agora dava para ouvir os passos pesados de Brokk, que largara o arado e vinha ao encontro deles, um brilho ameaçador no rasgo esverdeado que lhe servia de olho.

— O que está acontecendo? — perguntou Brobing, que reapareceu na companhia da mulher. — Kim! Jarrn! O que está acontecendo? — repetiu o camponês, visivelmente preocupado.

— Nada — respondeu Kim, mal-humorado.

O anão esticou seu dedinho esturricado e apontou para Kim:

— Este moleque malcriado não queria me deixar entrar, Brobing! Ele é parente teu?

Meio sem jeito, o camponês lançou um olhar de súplica para Kim. Então se pôs a explicar:

— Ele é... o filho de um velho amigo, por favor, perdoai o seu comportamento, ele é jovem... bem, sabeis como são os jovens.

— É, eu bem sei — dignou-se o anão a responder com ar de desprezo. — E é por isso que não gosto de crianças e jovens, como também não gosto da corja de camponeses.

Kim ficou bastante surpreso ao notar a reação do camponês a estas palavras ofensivas. Brobing se limitou a rir, se bem que um riso um tanto artificial. Em seguida, fez um gesto convidativo na direção da casa:

— Bem, vamos entrar, Jarrn. Deveis estar com fome e cansado. Minha mulher vos servirá uma refeição.

— Não tenho tempo — respondeu Jarrn, grosseiro. — Estou com pressa, tenho de ir a mais duas fazendas. Mas aceito um cálice de vinho. E vai logo buscar o dinheiro!

— O dinheiro? — exclamou Brobing, atrapalhado. — Mas ainda é cedo...

— Por acaso não tens o dinheiro? — indagou o anão, piscando os olhos.

— Claro, claro — acalmou-o Brobing, mais que depressa. — O dinheiro está à vossa disposição, só não esperava encontrar-vos tão cedo. Ano passado...

— Ano passado foi ano passado — interrompeu Jarrn, impaciente. — Se não tiveres eu passo de novo em um mês... não te concedo mais do que isso! Se não puderes pagar, eu o levarei de volta — disse apontando para Brokk, que nesse meio-tempo chegara perto deles.

— Mas eu tenho o dinheiro — apressou-se Brobing em dizer. — Tenho mais do que o valor devido, posso pagar imediatamente a prestação que vence no inverno, assim não tereis que se incomodar, senhor.

— Os negócios aqui devem ir de vento em popa — comentou Jarrn, maldoso.

— Não tenho do que me queixar.

Só agora Brobing se deu conta de que Brokk largara o arado e seu rosto se anuviou:

— O que deu em tu — gritou. — Volta imediatamente ao trabalho! Até hoje à noite o campo tem que estar lavrado.

Brokk obedeceu, mas só depois que o anão fez um gesto quase imperceptível com a mão que Brobing, aliás, nem notou.

Todos entraram na casa. Brobing e o anão sentaram à mesa. Kim ainda estava indeciso se sentava ou não ao lado deles, mas depois preferiu ir até a cozinha, onde Jara estava preparando o jantar.

A mulher do camponês estava junto ao fogão, mexendo com uma colher de pau uma grande panela de ferro fundido, de onde emanava um aroma tentador. Ao ver Kim, ela sorriu e apontou para uma pilha de pratos de porcelana em uma prateleira. Kim pegou um dos pratos e ela lhe serviu uma generosa porção de sopa. O rapaz apontou na direção da sala:

— Quem é ele? — perguntou, depois da primeira colherada da deliciosa sopa.

— Jarrn? — A expressão no rosto da mulher não deixava dúvidas quanto à sua opinião sobre o rude visitante. — Ele é um anão das montanhas do Leste — explicou. — Ele nos vendeu o Brokk e agora duas vezes ao ano vem buscar o dinheiro das prestações.

— Por que Brobing agüenta as grosserias dele sem revidar? — perguntou Kim.

Jara ficou bastante constrangida:

— Pelo jeito, tu não conheces os anões das montanhas do Leste.

Não existe povo mais sem educação do que eles. Ninguém jamais ouviu uma única palavra amigável da boca deles. São bons artífices e bons ferreiros, seus trabalhos são famosos e muito solicitados em rodo o reino de Märchenmond.

Se fosse comigo, eu lhe ensinaria modos — revoltou-se o rapaz.

Jara suspirou fundo:

— Os anões não são maus, Kim, apenas mal-educados. É só saber lidar com eles. E Brobing sabe. Quando Jarrn aparece aqui, eu vou para a cozinha. Ainda bem que ele não demora muito. — A mulher suspirou de novo: — Além disso, Brokk lhe pertence até pagarmos a última prestação, o que vai ser no próximo verão. Até lá Jarrn poderá levá-lo daqui a qualquer momento.

— E vocês estariam arruinados — ponderou Kim. Jara deu de ombros:

— Teríamos que empregar alguns servos, o que seria bem mais caro. Kim terminou de comer a sopa e depois foi para a sala. Viu Brobing entregar um saco abarrotado de moedas de ouro que Jarrn se pôs a contar minuciosamente. O anão rabiscou números em um papel que tirou do bolso da camisa preta, murmurou algo e depois, sempre muito mal-humorado, guardou lápis e papel.

— Voltarei no próximo verão, será a última prestação, depois disso terás a posse definitiva de Brokk.

— Talvez eu necessite de mais um homem de ferro — disse Brobing.

— Se acertarmos o preço... — disse Jam, dando de ombros. — A demanda é cada vez maior. Ano que vem, depois de quitarmos essa dívida, falaremos sobre isso. — Agarrou o cálice de vinho com seus dedos esturricados e, com um olhar desconfiado para Kim, disse: — O filho de um amigo... pelo menos é o que tu dizes.

Todo solícito, Brobing se pôs a explicar:

— É, ele está aqui pela primeira vez, acho que nunca viu alguém do vosso povo.

— Pela primeira vez... hum... — O anão piscou: — De onde vens, rapaz?

— Do... — começou Kim, mas aí viu o desespero estampado no rosto do camponês e deu outro rumo à conversa: — Venho de uma terra que fica a oeste daqui, acho que não a conhece, senhor — completou, polido.

— Conheço muitos países — respondeu Jarrn. — Mas, na verdade, nem me interessa, tenho que partir. — O anão se levantou: — Até a próxima, e trata de arranjar o dinheiro pontualmente.

Brobing suspirou aliviado quando o anão deixou a casa. O camponês até esqueceu as regras da boa educação e não o acompanhou.

— Que sujeito esquisito — disse, balançando a cabeça. — Os anões são conhecidos pelo modo grosseiro com que tratam as pessoas, mas Jarrn é o pior de todos.

Para Kim o anão não tinha nada de esquisito, ele o achara sinistro e traiçoeiro, isso sim. Além disso, algo lhe dizia que o veria novamente mais cedo do que imaginava.

Durante o jantar reinava um clima pesado, apesar dos esforços de Brobing e da mulher para evitar que Kim notasse que algo os preocupava. Ele não perguntou, mas com certeza a depressão do casal tinha tudo a ver com a visita do anão.

O sol se pôs e Kim resolveu se recolher, com a desculpa de que estava cansado e que no dia seguinte teria que levantar muito cedo. Na verdade, percebeu que eles queriam ficar sozinhos para conversar, mas, como eram muito educados, jamais iriam lhe dizer isso.

Como deitou muito cedo, Kim não conseguiu dormir de imediato. Deitado na cama de Torum, de olhos arregalados e mãos cruzadas na nuca, o olhar fixo no teto, tentou, em vão, colocar seus pensamentos em ordem. A situação toda lhe parecia tão confusa e inquietante que acabou com dor de cabeça. No final das contas levantou e começou a andar de um lado para outro. Brobing e sua mulher provavelmente ainda não haviam de recolhido e Kim resolveu tirar a limpo toda essa história. Pedir as devidas explicações ao camponês: sobre o anão Jarrn e os homens de ferro, as estranhas mudanças que estavam acontecendo não só com os Brobing, mas em todo o reino de Märchenmond. Kim estava certo de que o camponês sabia mais do que revelara até então.

Cuidadosamente, ele abriu a porta e saiu para o corredor. Da parte de baixo da casa vinham as vozes agitadas de Brobing e Jara.

Pelo tom, pareciam estar brigando, mas não deu para ouvir o que diziam. O rapaz desceu a escada na ponta dos pés. A idéia de ficar escutando atrás da porta não lhe agradava nem um pouco, ainda mais que os dois o receberam com tanto carinho, mas algo lhe dizia que era melhor assim.

— ...entendo você! — ouviu Brobing exclamar. — Mas não tem outro jeito, senão ele percebe. Eu lhe disse que ele teria de cavalgar o dia todo... o que vou dizer se ele descobrir que não leva nem uma hora?

Kim aguçou os ouvidos. Brobing mentira para ele! Mas por quê?

— Ah... ele não vai descobrir — respondeu Jara. — Pelo menos não de imediato. Faça com que ele fique aqui, Brobing, só mais um dia... ou dois!

Brobing suspirou:

— Ou uma semana, não é? Jara, acredite, eu entendo você! Meu coração também está partido com a perda do nosso filho, mas Kim não é nosso filho... ele jamais será nosso filho!

— Mas... talvez ele acabe gostando daqui — insistiu a mulher. — Se ele ficar por um tempo, vai perceber como aqui é bonito. Podemos lhe dar tudo que ele quiser.

— Ele não está aqui por nossa causa — disse Brobing, e agora dava para perceber o carinho e a paciência no seu tom de voz. — Você sabe, Jara, que...

Kim não quis ouvir mais nada. Silenciosamente voltou para o seu quarto e fechou a porta. O mundo virou às avessas! O pouco que ouviu o deixou bastante atordoado. Brobing mentira para ele porque Jara não queria que ele fosse embora! Estaria realmente imaginando que ele, Kim, pudesse substituir o filho perdido? Que absurdo! Mas, por outro lado, Brobing lhe contara que o desaparecimento do filho partira o coração da mulher. Pessoas desesperadas fazem coisas absurdas. Seu coração se encheu de dó.

Kim sentou na cama e apoiou a cabeça nas mãos. Tinha que sair dali ainda aquela noite! Quando Jara levantar de manhã, encontrará um bilhete seu, explicando que resolvera partir antes do amanhecer, para não incomodar o casal.

Foi preciso esperar um bom tempo, até que, finalmente, reinasse absoluto silêncio dentro e fora da casa. Jara e o marido ainda conversaram até altas horas e já era mais de meia-noite, quando Kim ousou sair do quarto.

Reinava um silêncio absoluto! Mas, no momento em que saiu do quarto para deixar a casa às escondidas, Kim ouviu um leve ruído vindo do quarto. Assustado, virou para o outro lado. Nada! O quarto estava vazio! Mas havia algo... um estranho chiar, ranger, para o qual não encontrava explicação.

Com muito cuidado para não fazer barulho e sentindo um pouco de medo, Kim voltou para o quarto, fechou a porta e começou a procurar a origem do estranho ruído. Mas só quando se aproximou da janela percebeu que os ruídos não vinham de dentro do quarto e sim do lado de fora, do pátio.

Era uma noite quente, por isso deixara a janela aberta e, como reinava absoluto silêncio, dava para ouvir nitidamente qualquer barulho, por menor que fosse. Cuidando para não ser visto do lado de fora, Kim espiou pela janela.

Demorou alguns minutos até os seus olhos se acostumarem à luz prateada da lua, e quando finalmente descobriu o enorme vulto ao lado do celeiro, maior que um ser humano, o sangue gelou em suas veias e por pouco não gritou.

À primeira vista Kim acreditou que se tratava do urso Kelhim, que viera buscá-lo. Mas depois percebeu que não podia ser o urso, pois seus contornos eram angulosos demais. Além disso, Kelhim não possuía um rasgo verde reluzente no lugar do olho! Era Brokk!

O que o homem de ferro estava fazendo ali no meio da noite? A resposta veio logo em seguida, pois não tardou para que outro vulto, infinitamente menor, envolto em um manto negro, de capuz pontiagudo, se juntasse ao gigantesco homem de ferro: Jarrn!

Como a dupla desigual estava muito afastada da casa, Kim não pôde entender o que falavam, mas viu que o anão gesticulava muito e apontava para o quarto onde ele dormia!

Alguns minutos depois Brokk se virou lentamente e dirigiu seu pesado passo na direção da casa.

O coração do rapaz disparou. Num primeiro impulso quis fugir dali o mais depressa possível. Porém era tarde. Brokk não era muito ágil, mas o celeiro ficava bem próximo da casa e o robô teria alcançado o local antes mesmo que Kim começasse a descer as escadas. Além disso, Brobing e sua mulher poderiam acordar e querer ajudá-lo. Quem garantia que Brokk não iria machucá-los?

Com o coração na mão, Kim esperou Brokk desaparecer da sua janela. Depois respirou fundo, desceu para a cornija do lado de fora da janela e, decidido, pulou de uma altura de três metros.

O impacto foi menos duro do que ele havia imaginado. Mesmo assim, perdeu o equilíbrio, deu algumas cambalhotas, apoiou-se nas mãos e nos joelhos e... parou cara a cara com o anão, tão estupefato quanto ele.

A reação de Jarrn foi mais lenta que a do rapaz e antes que pudesse abrir a boca para dar o alarme, Kim o agarrou pela goela abafando qualquer tentativa de grito. Acuado, Kim olhou ao redor. Neste momento, Brokk provavelmente estava subindo as escadas. Até perceber que o quarto do rapaz estava vazio, passariam mais alguns minutos. O tempo era bastante escasso, mas talvez o suficiente para alcançar o estábulo. Não havia outra alternativa! Ele tinha que arriscar!

Kim saiu de abalada, arrastando consigo o anão, que esperneava violentamente. O homenzinho chutava suas canelas, arranhava-lhe os braços, mas pelo menos não gritava, pois a maneira implacável com que o rapaz o segurava mal permitia que ele respirasse. Kim alcançou o estábulo e correu para o último compartimento da longa fileira.

Estrelinha ergueu a cabeça e Kim notou, aliviado, que o cavalo já estava com o xairel e as rédeas. A sela estava pendurada na porta da baia, mas Kim tinha prática em selar cavalos e não demorou mais que um minuto para aprontar o animal, com Jarrn prensado debaixo do braço esquerdo, esperneando e espumando de raiva.

Kim abriu a porta do compartimento e estava prestes a montar quando deparou com um rosto feio como a noite preta, dominado por um par de olhos escuros, lacrimejantes:

— Tu me deves um peixe — manifestou-se a criaturinha, farejando na direção de Jarrn e fazendo ruídos desagradáveis.

— Esse aí eu não quero!

Kim respirou aliviado, levara um tremendo susto com a aparição inesperada de Bocadinho, que nesse meio tempo se apossara da sela e do cavalo.

— Bocadinho — disse Kim, impaciente —, eu tenho que me mandar!

— Tu me deves um peixe — teimou a pequena criatura.

— Agora não posso — gemeu Kim, mas no mesmo momento reconheceu que de nada adiantaria perder aquele tempo precioso brigando por causa do peixe. — Está bem — disse, resignado. — Eu pesco o peixe. Venha comigo!

Bocadinho se mostrou desconfiado, mas acabou obedecendo e, agarrando-se à crina de Estrelinha, liberou o lugar na cela para Kim. Este, por sua vez, depositou o anão, que ainda não havia se cansado de espernear, de maneira bastante rude, à sua frente na sela. Depois soltou sua goela.

— Me solta! — arquejou Jarrn imediatamente. — Vais quebrar todos os meus ossos!

— Boa idéia — respondeu Kim, louco da vida, enquanto conduzia Estrelinha pelo portão do estábulo. — Mas, antes de quebrar os seus ossos, ainda vamos conversar muito... em frente, Estrelinha!

O cavalo deu um pinote, pronto para disparar. Aí, de súbito, parou tão abruptamente que por pouco não jogou Kim no chão. Bocadinho não teve a mesma sorte e voou longe. Uma gigantesca sombra, angulosa e negra, pôs-se à sua frente, barrando-lhes o caminho. O rasgão esverdeado reluzia pura maldade.

— Ah! — gritou Jarrn. — Por essa tu não esperavas, agora vamos ver até onde vai tua coragem!

Com um único passo Brokk fez todo o estábulo estremecer. Estrelinha pisoteou no mesmo lugar e também os outros cavalos começaram a ficar inquietos em seus compartimentos.

— Pega ele, Brokk! — berrou Jarrn. — Faz picadinho dele, estou mandando!

Brokk deu outro passo e abriu sua terrível mão escavadora com os dentes de aço. O cavalo deu um salto para frente, parecia que ia derrubar Brokk, mas no último momento Kim puxou as rédeas com toda força.

Estrelinha empinou e gritou de dor e surpresa. Com seus cascos dianteiros, que pareciam um redemoinho, acertou em cheio a cabeça do monstro de ferro. O robô estremeceu, vacilou, mas não caiu! Estrelinha relinchou e recuou, e Kim escapou da mão escavadora por um triz. Brokk começou a encurralar o rapaz, fazendo o cavalo recuar passo a passo. Com seu tamanho preenchia todo o espaço do estábulo, o que inviabilizava qualquer tentativa de fuga.

— Isso mesmo, Brokk! — berrou Jarrn. — Pega ele!

Encurralado, o rapaz lançou mão do único recurso que ainda lhe restava: agarrou o anão com as duas mãos e o lançou com toda força, como se fosse um projétil humano, contra o homem de ferro. Jarrn soltou gritos horripilantes e Brokk ergueu os braços para pegar o seu mestre, mas, para desgraça do anão, o robô abriu a mão errada, ou seja, a mão escavadora!

Kim, debruçado sobre o lombo do cavalo, passou pelo homem de ferro em louca disparada, acompanhado pelos gritos horrendos de Jarrn, que mais tarde se transformaram em gemidos agonizantes. Mas, a esta altura, Kim e Estrelinha já estavam cada vez mais longe.

 

A princípio Kim havia pensado em se dirigir para o Sul, ou seja, para a cidade que Brobing mencionara, mas o terreno se mostrou cada vez mais acidentado. Além disso, depois que se acalmou um pouco, Kim se deu conta de que Jarrn com certeza esperaria por ele justamente na cidade indicada pelo camponês, isto é, caso tivesse sobrevivido ao impacto provocado pelo monstro de ferro. E, para completar, Estrelinha começava a manquejar.

Primeiro Kim nem percebeu que o maravilhoso animal se tornara mais lento e que estava perdendo um pouco da sua agilidade. Estrelinha evitava pisar com a pata dianteira direita e quando isso acontecia, a erguia imediatamente, como se lhe causasse uma forte dor.

Provavelmente o animal havia se machucado quando atacou o homem de ferro! Preocupado, Kim apeou e se agachou para ver o que estava acontecendo. Apesar da lua, que brilhava cheia no firmamento, estava muito escuro e ele, pelo menos à primeira vista, não encontrou nenhum ferimento. Mas, de repente, Estrelinha relinchou assustado e puxou a pata para trás. Kim examinou-a novamente e com mais atenção. Assustado, notou algumas gotas de sangue em seus dedos!

Com extremo cuidado pegou de novo na pata do cavalo que, nervoso açoitava a cauda, sem, no entanto, se mostrar agressivo, como se adivinhasse a boa intenção do rapaz. E então Kim descobriu a causa da dor! Espetado na carne sensível do animal, bem abaixo do joelho, havia um ferrão pontiagudo, do tamanho de um dedo!

Kim o arrancou e se pôs a examinar a perna do animal minuciosamente. Não ficou tão surpreso quando, em vez de outros ferrões, deparou com Bocadinho que, literalmente na última hora, se agarrara à cilha da sela e lá permanecera o tempo todo! Agora estava explicado por que Estrelinha mal conseguia andar! Não era só por causa do ferrão! Com Bocadinho agarrado à sua barriga, era como se alguém tivesse colocado uma bolota cheia de alfinetes embaixo da cela.

— Desça já daí! — ordenou Kim, fulo da vida.

Bocadinho simplesmente se soltou e por pouco não caiu no rosto do rapaz, que no último momento conseguiu desviar.

— O que é? — perguntou Bocadinho, enquanto Kim, xingando muito, levantou. O rapaz estava tão furioso que fez menção de dar uma lição em Bocadinho, mas depois mudou de idéia. Sem palavras, pôs-se a mexer na sela de Estrelinha.

— Pois então, venha — disse.

Bocadinho pulou na nuca do cavalo, agarrando-se à sua crina, como fizera antes, no estábulo. Kim hesitou um pouco. E se Jarrn, nesse meio-tempo, tivesse se recuperado do impacto com o robô e já estivesse em seu encalço?

Um sofrido suspiro lhe escapou. Não podia perder tempo com conjeturas que não levavam a lugar algum. Quanto a Brokk, por sorte era lento demais para alcançá-los, mesmo se Estrelinha fosse obrigado a reduzir a velocidade. Talvez não fosse má idéia ir até a cidade. Lá poderiam se abastecer de comida e tudo que precisassem e, além disso, tentar descobrir o caminho para Gorywynn!

Kim estava decidido a tomar o seu rumo, quando Bocadinho se manifestou:

— Não seria recomendável ir nesta direção.

— E por que não? — indagou Kim, com um pé atrás.

— Porque tu cairias nas mãos do urso.

— A toca de Kelhim? Ela fica aqui?

— Não exatamente aqui — corrigiu Bocadinho. — Mas ela fica nesta direção. Estás vendo a floresta aí na frente? Se passares por ela, dentro de uma hora terás um encontro com o teu velho amigo Kelhim e, acredita, tu serás o almoço!

— Você sabe onde fica a caverna de Kelhim? — indagou Kim. Bocadinho estremeceu-se todo:

— Claro, o fedor é inconfundível. Kim ficou pensativo. Depois insistiu:

— Você tem certeza de que é capaz de encontrar a caverna do urso?

— Claro que tenho — respondeu Bocadinho e, desconfiado, acrescentou: — Por acaso pensas em ir até lá?

— Kelhim e eu somos velhos amigos — respondeu Kim.

— Ah! Deu para notar! Por pouco ele não te devorou.

— Eu sei, suspirou Kim. — Mesmo assim, eu... eu estou certo de que ele não me reconheceu. Ele não faria mal a mim!

— Sei — desdenhou Bocadinho de novo. — Talvez ele queira te devorar de uma só vez, para que não sofras.

— Ele não me reconheceu — teimou o rapaz. — Estou certo de que ele... ele vai lembrar.

— Hum, tu estás certo, hein? — ironizou Bocadinho. — Tens tanta certeza que apostaria a própria vida?

Kim não respondeu. Depois de algum tempo ele aprumou Estrelinha e saiu a galope, exatamente na direção que ainda há pouco seu pequeno companheiro de viagem desaconselhara.

Levaram muito mais tempo do que Bocadinho previra, principalmente porque o cavalo, ao contrário do pequeno animal espinhoso, tinha certa dificuldade de se locomover na espessa mata de corte. Bocadinho lamentou e xingou o tempo todo, tentando convencer o rapaz a desistir da idéia maluca de encontrar o urso. Mas acabou entendendo que Kim já tomara sua decisão e que nada o faria voltar atrás. Ofendido, Bocadinho se fechou em copas.

Finalmente encontraram a moradia do urso, uma caverna bem no coração da floresta, tão escondida que Kim teria passado por ela se Bocadinho — muito a contragosto — não o tivesse alertado.

As copas de antiqüíssimas árvores se uniram sobre suas cabeças, formando um teto impenetrável de folhagem que impedia a passagem até mesmo do insípido clarão da lua. Nada se podia ver além das sombras escuras que povoavam a floresta. Não era exatamente uma caverna, apenas um buraco na terra.

— E aí? — irritou-se Bocadinho. — Satisfeito?

Reinava um silêncio um tanto lúgubre, quase irreal. Não se ouvia nada além do farfalhar da floresta.

— Parece que ele não está — murmurou Kim.

— Ah, mas isso vai mudar mais rápido do que imaginas — retrucou Bocadinho, irônico.

Sem dar importância às ironias de Bocadinho, Kim apeou e se acercou do buraco, semelhante a uma grande cova, de onde vinha um cheiro insuportável de coisa morta. E se o urso continuasse com seu comportamento hostil? Melhor não pensar nisso agora! O rapaz olhou ao redor, entrou no buraco e começou a descer até as profundezas da toca.

De cócoras, foi aos poucos se arrastando para frente e não tardou para que estivesse encerrado em absoluta e total escuridão. De repente, conseguiu se pôr de pé, mas o fedor insuportável dificultava a respiração.

Às cegas, os braços estendidos, Kim seguiu tateando... cambaleou e se estatelou no chão! Levantou xingando e praguejando, quando sua mão esbarrou em um pedaço de madeira. No primeiro momento se assustou, mas depois passou os dedos pela madeira e, aliviado, percebeu que encontrara nada mais nada menos do que uma tocha de piche! Agora não precisava mais procurar o caminho às escuras. Kim revirou os bolsos do paletó que Brobing lhe dera e encontrou duas pedras de sílex que os habitantes de Märchenmond costumavam levar consigo para atear fogo.

Pouco mais tarde o clarão bruxuleante das labaredas afugentava a escuridão malcheirosa da cova. E não tardou para que Kim encontrasse a explicação para a presença de uma tocha na cova do urso: o dono da tocha, ou melhor, aquilo que dele restava, não estava longe dali. O esqueleto do infeliz não era o único! Kim ergueu a tocha e... estremeceu de horror! Lá estavam, espalhados por toda parte, inúmeros ossos e crânios e, pior, quase todos de seres humanos! Brobing tivera razão ao afirmar que Kelhim se tornara um animal selvagem extremamente feroz e perigoso. Vir até aqui tenha sido loucura!

Mas era tarde para se arrepender. Quando Kim se virou para sair dali o mais rápido possível, apareceu Bocadinho:

— Ele está vindo! — avisou. — O urso! Esconda-te, idiota!

— Esconder-me? Onde? — perguntou Kim, desesperado.

A cova era grande, mas, com exceção dos ossos, estava totalmente vazia. Por um momento Kim cogitou seriamente a possibilidade de se esconder debaixo de uma das ossadas, mas logo mudou de idéia. Kelhim, com seu faro apurado, o encontraria imediatamente. Além disso, não viera para se esconder, mas para falar com Kelhim. Munido de uma coragem que, na verdade, estava longe de sentir, ergueu a rocha e ficou observando a entrada da cova.

Não foi preciso esperar muito. Apesar do seu tamanho, Kelhim se movimentava com a delicadeza de um gato, mas Kim percebeu que o urso se aproximava pelo penetrante cheiro que o acompanhava. O rapaz nunca havia reparado que Kelhim cheirava tão mal, mas aquele animal enorme que agora surgia na entrada da cova sem dúvida exalava um horripilante cheiro de morte!

Por alguns segundos — para Kim uma eternidade — o urso simplesmente ficou parado, olhando para ele, um brilho selvagem no olho. Será que estava surpreso ao ver aquele pequeno ser humano que ousara invadir sua morada? Kim também não se mexeu, ficou aguardando os acontecimentos, consciente de que cometera um erro fatal. Estava quase perdendo a razão de tanto medo, mas permaneceu imóvel, feito uma estátua, até mesmo quando o urso, aos poucos, aproximou-se dele, farejando como cão perdigueiro. Estaria suspeitando de uma emboscada? Se quisesse, Kelhim podia dar cabo dele com um único golpe. No entanto chegou cada vez mais perto, sempre muito atento.

Com mãos trêmulas, Kim continuou segurando a tocha no alto, e a luz das chamas projetava um louco bailado de sombras nas paredes da cova. Apesar de tudo, o rapaz não recuou nem um passo.

Finalmente, o urso parou. E, novamente, Kim vislumbrou uma expressão de surpresa no único olho de Kelhim.

— Oi, Kelhim — disse Kim, com uma voz que não parecia a sua. — Você... você não está... está feliz em me... ver? — gaguejou. — Sou eu, Kelhim! — exclamou, desesperado. — Lembra? Nós somos amigos!

Kelhim se ergueu nas patas dianteiras, mostrou os terríveis dentes, afiados como pequenos punhais, e deu um único passo na direção do rapaz. Fazendo um esforço sobre-humano, Kim conseguiu dominar o pavor e não recuar. Olhou no fundo do único olho do urso e... ele vacilou! Uma expressão estranha se fez notar em seu rosto: tristeza, dor e um leve lampejo de reconhecimento!

— Kelhim! — implorou Kim. — Somos amigos! Lembra? A luta para salvar Gorywynn, nossa viagem no lombo de Rangarig!

Kelhim rugiu e cambaleou, como se estivesse sofrendo dores muito fortes. E, realmente, Kim viu que o urso travava uma ferrenha luta interna, talvez com uma lembrança que estava o tempo todo dentro dele, mas que permanecera soterrada sob os instintos selvagens da fera.

— Por favor, Kelhim — implorou Kim. — Lembra, nós...

O instinto selvagem venceu! Não houve tempo nem para o susto. A enorme pata do urso lhe deu um tremendo golpe e o jogou contra a parede da caverna. A tocha caiu de sua mão, mas não apagou.

— Kelhim! — gritou Kim. — Por favor, não faça isso! Somos amigos!

Kelhim rugiu, ficou de quatro e mostrou os dentes.O rapaz levantou as mãos para proteger o rosto:

— Não! Kelhim! Por piedade!

Então aconteceu o inesperado! A atenção do urso foi desviada para uma repentina movimentação na entrada da caverna. Agora dava para ouvir uma voz que ironizava:

— Por piedade, Kelhim, somos amigos!

O urso girou a cabeça com um rugido raivoso. Passinhos ligeiros se aproximavam e uma voz repetia em tom de gozação:

— Teu amigo vai te devorar, idiota! Ah! Cheguei no melhor da festa!

Era Jarrn! O anão pulou de uma perna para outra, soltando gargalhadas frenéticas e dando tapinhas ora em uma perna ora em outra. Enquanto isso, o urso Kelhim olhou, indeciso, ora para o anão desvairado, ora para Kim. Depois, ele se voltou lentamente para Jarrn e se ergueu nas patas traseiras.

O anão parou de dar seus pinotes malucos e fez um gesto com a mão. Atrás dele apareceu Brokk, a garra de ferro pronta para atacar.

— Não te atrevas, seu urso de pelúcia malfeito! — espumou o anão. — E apontando para Kim: — Mata a tua fome com esse aí! Ou, melhor, deixa ele para mim, eu tenho contas a acertar com ele!

— Kelhim! — gemeu Kim, quase chorando. — Me ajude!

Mas desta vez a súplica do rapaz conseguiu o que parecia impossível: com um bramido monstruoso o urso se lançou sobre o homem de ferro. Kim jamais esqueceria a luta que se seguiu, o mais terrível dos pesadelos! Os dois gigantes se chocaram com indescritível força. O impacto foi tão violento que fez estremecer a caverna. Aos gritos e bramidos, as enormes patas de Kelhim desceram, sem parar, sobre a cabeça e os ombros do homem de ferro, que começou a cambalear sob o impacto dos golpes. Brokk, não menos poderoso, lutava em silêncio. Sua terrível mão escavadora não dava trégua ao urso, cujas forças diminuíam cada vez mais. Brokk, ao contrário de Kelhim, não conhecia nem a dor nem o cansaço e, por conseguinte, levava uma certa vantagem. Além disso, por mais poderosas que fossem as forças do urso, não eram o suficiente para romper as maciças placas de ferro que compunham o corpo do adversário.

A luta parecia não ter fim. A caverna tremeu, uma parte do teto desabou e cobriu Brokk com terra e nacos de rocha, sem, no entanto, lhe causar danos. Finalmente o urso começou a recuar.

Kelhim vacilou. Com a maioria de suas garras quebradas, as patas e o focinho ensangüentados, ele rugia de dor. Mal agüentava os golpes desferidos pela mão de ferro.

— Kelhim — sussurrou Kim, desesperado.

Sem dúvida, o urso estava derrotado! O monstro de ferro não iria recuar, até que desse cabo do adversário. Os olhos do rapaz se encheram de lágrimas.

Jarrn soltou uma de suas risadas estridentes:

— Estás vendo, ursinho de pelúcia! — gritou. — Não tenho medo de ti! Ninguém atravessa o meu caminho, ninguém! Quem me afrontar paga com a vida! —Jarrn começou a dar seus pinotes e com seu dedinho sujo apontou para Kim: — Tu serás o próximo! Mas para ti vou pensar em algo especial, seu nojento!

— Se lhe restar tempo para isso — disse Kim, dando um pulo e agarrando o anão pelo pescoço.

Apesar do ataque surpresa, Jarrn não estava de todo desprevenido. Tentou puxar o punhal debaixo de sua manta negra, mas Kim lhe deu um violento chute que o fez voar longe, deixando a arma cair. De soslaio Kim percebeu que Brokk desviara a atenção do urso e agora se voltava para ele. Mas, antes que o homem de ferro pudesse tomar alguma iniciativa, Kim alcançou o anão de novo e lhe encostou o punhal na garganta.

— Faça-o parar! — ordenou em voz baixa.

O anão percebeu que o rapaz estava disposto a tudo. Jarrn engoliu em seco e inclinou a cabeça para trás, mas de nada adiantou. O punhal acompanhou seus movimentos. Seus olhos quase saltaram das órbitas.

— Brokk! Pare! — gritou.

Com a mão escavadora erguida para o derradeiro golpe, o homem de ferro interrompeu o movimento.

— Mande-o sair — exigiu Kim. — Faça-o voltar para a fazenda dos Brobing.

— Tu ouviste... — O punhal arranhou o pescoço fino do anão e Jarrn se apressou a dar a ordem: — Tu ouviste o que ele disse, Brokk. Volta para a corja dos camponeses, espera por mim lá!

Obediente, o colosso deixou a caverna. Alguns segundos mais tarde ouviam-se os estalos, quando abriu caminho pela mata espessa. Kim afastou o punhal do pescoço de Jarrn, sem, no entanto, soltar o anão, que agora começou a se debater. O garoto arrancou uma tira do manto negro e enrolou o corpo do anão no que sobrou da vestimenta. O pequeno homem agora parecia um pacote. Kim aproveitou i tira para amarrar o “pacote”. Depois simplesmente largou o anão embrulhado na entrada da caverna e voltou sua atenção para Kelhim. O que viu lhe partiu o coração: O urso, de rosto ensangüentado, estava deitado no chão, com respiração ofegante e do seu peito saía um profundo e penoso rugir revelando que estava muito ferido.

— Kelhim — murmurou Kim. — Kelhim, você está me ouvindo? O urso não respondeu, mas procurou o olhar de Kim e, apesar da dor e do desespero refletidos pelo seu único olho, o rapaz percebeu que Kelhim voltara a ser o que fora um dia. Mas a que preço!

— Kelhim — sussurrou Kim novamente —, Kelhim, o que está acontecendo?

Finalmente o urso deu sinais de reconhecimento:

— Kim? És... és tu?

— Sou eu.

Kim se pôs de joelhos ao lado do urso e acariciou seu focinho. seus olhos se encheram de lágrimas e ele não reprimiu o choro. Kelhim iria morrer! Os golpes do monstro de ferro certamente lhe causaram graves ferimentos internos.

— Sou eu — repetiu, e o urso tentou se erguer, mas as forças o abandonaram.

— Tu vieste... que bom...

— Não diga nada — suplicou Kim, chorando muito. — Poupe suas forças, tudo vai dar certo.

A respiração do urso se tornou mais custosa e ele sussurrou com dificuldade:

— Vá para... Gorywynn, tens de... libertar... Temístocles.

— Libertar Temístocles? — agitou-se Kim. — Mas... ele está preso?

— Temístocles... — gemeu o urso —, vá...Temístocles... anões... as crianças...

Era praticamente impossível entender as palavras balbuciadas. Kim se inclinou para frente e implorou:

— Kelhim! Você não pode morrer! Kelhim fez um último esforço:

— Vá! Os anões... salve Märchenmond... pequeno herói... tu o consegues.

Com a cabeça encostada no peito do rapaz, Kelhim deu seu último suspiro, mergulhando seu grande amigo na mais profunda tristeza.

 

Na manhã seguinte o sol ainda nem havia despontado e Kim já estava montado em Estrelinha. Uma eternidade — pelo menos assim lhe parecia — o separava daquela clareira na floresta, onde reencontrara seu amigo urso para, logo depois, perdê-lo de novo, e desta vez para sempre! Fora uma dor insuportável, inimaginável, que quase lhe dilacerou o peito. Kim estava cansado. Um profundo desânimo, nunca antes sentido, o invadira. Há horas montado no lombo de Estrelinha, para ele não tinha a menor importância aonde o fiel cavalo o levava. Suas mãos seguravam as rédeas, mas esse ato era apenas um reflexo inconsciente, sem o objetivo de conduzir o animal. O tempo todo as lágrimas lhe escorriam pelas faces, até que seus olhos ficaram secos e ardidos. Quando, finalmente, o cavalo estacou, à sua frente se descortinou uma paisagem gramínea, suavemente ondulada. Um pouco mais adiante uma gigantesca parede rochosa ocupava quase a metade do horizonte. Kim não sabia onde estava e nem como chegara até ali. Reinava uma estranha luz esverdeada, para cuja origem não encontrou explicação e, a bem da verdade, não o interessava nem um pouco. Não lembrou ter visto a parede rochosa antes, apesar de ser maciça e tão alta que era humanamente impossível ignorá-la.

Em seu interior só havia espaço para tristeza, a dor e um terrível vazio o consumiam! Foi preciso perder o amigo para se dar conta de como ele era importante!

— Lá adiante tem um lago — disse uma voz fraquinha.

Era preciso voltar à realidade! Kim dirigiu sua atenção para o penacho colorido, lindo como o raiar do dia, sentado à sua frente sobre a crina do cavalo.

— Você vai ter o seu peixe — prometeu o rapaz com a voz rouca. Bocadinho o encarou, pensativo. Balançou a cabecinha como vira os humanos fazerem:

— Não estou falando do peixe... pelo menos por enquanto. Mas teu cavalo precisa descansar, e tu também precisas.

Kim queria protestar, mas até isto lhe parecia um esforço demasiado. Assim, apenas suspirou e, pela primeira vez depois de horas a fio, pegou nas rédeas com certa firmeza. Mas Estrelinha já mudara a direção por iniciativa própria e estava indo, a passos largos, para o lago. Pelo visto, o pobre animal estava com sede.

O lago, não muito extenso, ficava numa depressão redonda, escavada pela própria natureza. Parecia o fundo de um vulcão extinto, onde, no decorrer do tempo, se acumulara a água da chuva. Flores das mais variadas cores e formas, em faustosa suntuosidade e a perder de vista, debruavam as suas margens! Havia rosas, jacintos, narcisos, cravos, tulipas e centenas de espécies, cujo nome Kim não sabia e que nunca vira antes. Era como se um arco-íris tivesse despencado do céu e derramado suas cores sobre a paisagem! Era simplesmente maravilhoso!

As flores cresciam em círculos fechados, algumas tão próximas da água, como se estivessem debruçadas para saciar a sede. Demorou algum tempo até que Estrelinha encontrou uma passagem para a água, sem precisar pisotear as flores. Kim apeou, enquanto o cavalo matava a sede. O rapaz mal podia se mexer de tão rijo que estava seu corpo, em virtude das muitas horas que permanecera na sela.

Apesar da tristeza, não pôde ignorar a beleza que o rodeava. Era como se o lago estivesse enfeitado com todas as flores do universo. Porem, estranho era que nenhuma destas maravilhosas flores exalava algum tipo de perfume. O ar estava impregnado apenas pelo aroma do orvalho e da grama pela qual haviam passado. O cavalo finalmente saciou a sede e começou a mordiscar a grama a alguns passos dali. Até Estrelinha tomou todo cuidado para não machucar flor alguma.

Uma espécie de sorver, acompanhado de outros ruídos desagradáveis, atraiu a atenção do rapaz: a seus pés a peteca colorida estava empenhada em esvaziar o lago! Kim esperou até que Bocadinho terminasse de beber e depois se pôs de cócoras para, finalmente, beber também. A água estava gelada e lhe parecia que nunca sorvera algo tão delicioso.

Estranho!

A superfície do lago refletia a sua imagem, mas... era mesmo ele, Kim? Algo muito estranho estava acontecendo, era a sua imagem e não era!... O rosto refletido na superfície lisa do lago, por mais incrível que pudesse parecer, era de tão extraordinária beleza, que Kim não conseguia desprender os olhos dele!

Precisou de muita força de vontade para se afastar e, de pernas cruzadas, sentou-se à beira do lago, em meio às flores. De repente, sentiu-se totalmente extenuado. As costas lhe doíam e seu corpo tinha o peso de toneladas. Era imensa a vontade de se estender sobre o tapete florido, fechar os olhos e se entregar ao sono.

Kim tinha consciência de que isso era impossível, aliás, pensando bem, ele nem poderia ter feito esta pausa às margens do lago. Sem dúvida, Jarrn e seu companheiro de ferro já estavam à sua procura e, pela rapidez com que Brokk o localizara na caverna do urso, o homem de ferro não era tão lento como pensara que fosse.

E mais uma vez Kim se questionou por que deixou Jarrn para trás, na caverna, em vez de levá-lo consigo. Poderia ter interrogado o anão que, sob pressão, com certeza lhe teria revelado tudo que queria saber. Jarrn tinha pose de valentão, mas, quando pressionado, se revelava um grande covarde. Kelhim, antes de morrer, havia tentado lhe dizer algo muito importante, mas Kim não conseguira entender as palavras balbuciadas do urso. Mas, apesar de tudo, ficou claro que ele quisera lhe contar algo sobre os anões! E, mesmo assim, Kim simplesmente largou o gnomo embrulhado na entrada da caverna e se mandou. Atordoado com a morte de Kelhim, acabou esquecendo o anão.

A voz de Bocadinho interrompeu seus pensamentos nada alegres:

— Tu estás com fome?

Kim balançou a cabeça sem responder.

Bocadinho se aproximou e enterrou o focinho macio em sua perna. Kim não teve como não sorrir e, com ternura, alisou a penugem aveludada do pequeno animal.

— Posso arranjar algo para comeres — disse Bocadinho, preocupado. — Que tal um peixe? Ou um porco-do-mato?

— Não estou com fome, obrigado — respondeu Kim.

— Já sei, tu comes pouco — suspirou Bocadinho. — Mas, quem sabe, um porco-do-mato? — Kim bufou impaciente e Bocadinho se desculpou: — Não queria incomodar...

Com passinhos apressados o pequeno animal foi até o lago para se espelhar na água e também o rapaz voltou a se admirar nela. E desta vez foi um choque, pois a imagem que a superfície prateada da água lhe devolvia era a de um rapaz lindo e sorridente, ao passo que ele, na verdade, estava triste e sisudo.

— Tu estás muito triste, não estás? — perguntou Bocadinho.

— Foi culpa minha — disse Kim.

— Culpa tua? Que bobagem! Foi o homem de ferro...

— Mas foi por minha causa que Brokk foi até a caverna de Kelhim, ele estava à minha procura e Kelhim o atacou para me defender, você entende?

— Não — contestou Bocadinho. — Kelhim o atacou porque era um animal selvagem.

— Kelhim não era um animal selvagem — revidou Kim com veemência. — Alguma coisa... alguém o impelia a agir assim, ele nunca foi selvagem.

— Queres dizer que antigamente ele não tinha instintos selvagens? Tentando reprimir as lágrimas, Kim explicou:

— Eu já estive em Märchenmond antes, sabe? Naquele época Kelhim era... bem, ele era um amigo de verdade.

Bocadinho se mostrou cético:

— O urso? Um amigo?

— Naquela época tudo era diferente — murmurou Kim. — Märchenmond era diferente, era...

— Era como? — insistiu Bocadinho. Kim ergueu os ombros:

— Não sei — confessou —, era simplesmente diferente.

— Às vezes é até bom quando as coisas mudam — filosofou Bocadinho.

— É... mas não é isso que eu quis dizer, é que... — Kim lembrou das palavras de Brobing: “É como se estivéssemos perdendo algo, sem saber o que é”. — Märchenmond era uma terra feliz — explicou. — Uma terra povoada por gente feliz, muitos animais podiam falar, as florestas estavam repletas de flores e seres encantados.

— Eu também falo — lembrou Bocadinho.

— É... — concordou Kim e deu de ombros. A água continuava a refletir a imagem de um rosto de rara beleza, que simplesmente não podia ser ele! Até Bocadinho parecia encantado, pois enquanto conversavam não paravam de se admirar mutuamente.

De repente uma voz disse:

— Se eu fosse vós, tiraria os olhos do lago, poder ser perigoso. Assustado, Kim se virou rapidamente, mas, para grande alívio seu, não era Jarrn. Não obstante, todo cuidado era pouco!

O desconhecido era alto e forte e, por incrível que pareça, de certa forma... nodoso. É isso mesmo! Nodoso! Não havia outra designação para o tipo do homem: sua pele era bem mais escura que a de Kim e se assemelhava ao córtice de uma árvore. Na cabeça trazia um boné de folhas trançadas. Sua vestimenta consistia em folhagem verde, artisticamente trabalhada, que parecia fazer parte do seu corpo. O rosto grande, coberto por fissuras, seria amedrontador, se não fosse o sorriso autêntico e de puro carinho.

— Vós devíeis seguir o meu conselho — disse o homem, depois que concedeu a Kim o tempo necessário para se acostumar com sua aparência inusitada. — Não fiqueis olhando para a superfície do lago por muito tempo, não é bom — insistiu o desconhecido.

— Por quê? — perguntou Kim.

O estranho sorriu, um riso agradável, acolhedor, que deixou Kim à vontade. Instintivamente sabia que não havia perigo algum.

— Vós não sois daqui, não é mesmo? — perguntou o estranho homem. Kim balançou a cabeça e o homem, apontando para o lago, explicou: — Este não é um lago comum.

Kim se assustou e Bocadinho começou a gritar:

— Nós bebemos desta água! Imediatamente o desconhecido os acalmou:

— Isto não tem a menor importância, a água é totalmente inofensiva, poderás até banhar-vos no lago, importante é não contemplar vosso reflexo.

— Mas por quê? — indagou Kim, de novo.

— Primeiro afastai-vos um pouco da água — recomendou o homem. — Depois eu vos colherei e levarei para casa, para plantar-vos nos vasos.

Agora Kim já não entendia mais nada. Mas algo lhe dizia que as palavras do desconhecido eram amigáveis e não de ameaça. Kim e Bocadinho seguiram o homem através do cerco de flores que rodeava o lago.

— Deveis vir de muito longe, se nunca ouvirdes falar do lago da vaidade — disse o desconhecido.

— Lago da vaidade?

O homem apontou para as águas:

— É um lago encantado. Suas águas curam feridas e devolvem as forças, mas também é perigoso, pois ele devolve uma imagem falsa daquele que se mira em suas águas, isto é, não como ele realmente é, mas como ele gostaria de ser. Entendes o que digo?

Kim se lembrou de como ficou encantado com o rosto que viu no espelho das águas e, um pouco hesitante, concordou.

— Mas isto não é tudo — continuou o homem nodoso. — Se contemplardes vosso reflexo por muito tempo, não conseguireis mais se desprender da própria imagem e acabareis transformado em flor. Estais vendo as flores ao redor do lago?

Kim olhou para o mar de flores e estremeceu:

— Tudo isto... todas estas flores são...

O homem confirmou que eram pessoas que não haviam conseguido se desprender de sua imagem.

— Quem sois vós? — perguntou depois.

Ainda sob o impacto do que acabara de ouvir e ver, Kim respondeu:

— Meu nome é Kim... venho de muito longe. Este aí é Bocadinho, um... amigo.

— Bocadinho? Que nome estranho!

— Foi o nome que ele me deu! — manifestou-se o animalzinho. — Queres saber por quê?

— Acho que isso não vem ao caso agora. — interveio Kim. Decidido, voltou-se para o homem: — Agradeço por ter-nos avisado, mas agora temos que seguir o nosso caminho.

— Ei! Para que tanta pressa? — exclamou o homem-folha esticando a mão. Num misto de susto e espanto Kim notou que a mão do homem era de madeira! As unhas eram pedacinhos de córtice mais escuro e as folhas do seu boné cresciam na sua cabeça! — Em vos observei por um bom tempo. Parecem exaustos. Podem vir comigo para descansar um pouco, eu moro bem perto.

— Não! Isso não é possível — recusou Kim, afoito. Entre as sobrancelhas, igualmente de córtice, formou-se uma ruga. — Ainda temos um longo caminho pela frente — acrescentou o rapaz, com um sorriso sem graça.

— Aonde quereis ir?

— Para Gorywynn — respondeu Kim, com certo receio.

— Gorywynn, o castelo de vidro? — exclamou o homem. —Você conhece Gorywynn?

— Bem... estive lá uma vez, jovem senhor. Mas ninguém do meu povo jamais esteve lá. Se de fato quereis ir para Gorywynn, então é melhor que venhais comigo.

— O que você quer dizer com isso? — perguntou Kim, desconfiado.

— Como dizeis, é um longo caminho — respondeu o homem-folha. E, apontando para Estrelinha: — Até a cavalo levareis algumas semanas para chegar ao castelo de vidro, talvez até meses. É melhor reunirdes forças antes de seguir caminho. Indeciso, Kim não sabia o que dizer.

— O que é? — insistiu o homem. — Não confiais em mim?

— Claro, claro... — apressou-se Kim em afirmar.

— Estais fugindo, não é? — perguntou o homem, de repente. Pego de surpresa, Kim não conseguiu evitar que lhe escapasse a pergunta:

— Como você sabe? O outro sorriu:

— Achais que sou cego? Eu vos observei, a vós e ao vosso pequeno companheiro. Quem vos persegue? Os duendes?

Kim meneou a cabeça:

— Um anão — disse.

O rosto do homem se anuviou:

— Um anão das montanhas do Leste? Se é assim, mais um motivo para que fiqueis algum tempo conosco. Nenhum anão jamais ousou invadir a nossa árvore. E, acreditai, nenhum anão jamais ousará!

— Árvore? Eu não entendo...

— Eles não são nossos amigos — explicou o homem. — Os anões são criaturas da noite. Eles vivem debaixo da terra e odeiam o sol, aliás, odeiam tudo que cresce e prospera sobre a terra. Também odeiam as alturas e nossa árvore é muito alta.

Nossa árvore? Kim só entendia a metade do que o homem-folha dizia, mas, sem saber por quê, confiava nele. Tudo que falou sobre os anões lhe parecia autêntico.

— Hoje à noite teremos uma festa, vós sois meus convidados — disse o homem, ao ver que Kim ainda hesitava.

— Não estou nada animado para festas — disse Kim, triste.

— Ele acabou de perder um velho amigo — explicou Bocadinho. O outro se mostrou compreensivo:

— Isso dói — disse. — Mas talvez uma distração vos faça bem. Se não quiserdes participar da festa, temos uma cama para descansar des. Então vinde, jovem senhor!

Kim ainda teve um momento de dúvida, mas depois resolveu aceitar o convite do desconhecido.

Oak, como se apresentou seu novo amigo, prontificou-se a levar Estrelinha para um lugar seguro, onde o cavalo fosse bem tratado e pudesse ficar até a volta deles. Como lhes explicou Oak, o lago da vaidade era perigoso não só para homens, como também para cavalos. Infelizmente, continuou Oak, não era possível levar Estrelinha para a sua árvore. Kim concordou e Oak pegou as rédeas do garanhão e o levou embora. Estrelinha seguiu o homem-folha sem se opor, o que era uma prova de que Kim podia confiar nele, pois com o anão o animal se mostrara visivelmente irritado.

Não foi preciso esperar muito tempo. Oak retornou depois de poucos instantes e explicou que agora os levaria até a árvore. Entrementes Kim já estava bastante curioso, ainda mais que não via nenhuma árvore por perto. Arbustos e flores silvestres a perder de vista, mas nada que se assemelhasse a uma árvore.

Kim fez um comentário a respeito, mas Oak apenas sorriu enigmático e fez um gesto convidativo para que o seguissem. Bocadinho pulou nas costas de Kim e os três se puseram a andar pela grama que lhes chegava à cintura. Enquanto Oak os conduzia diretamente para a parede rochosa que haviam visto de manhã, Kim se esforçava para descobrir a tal árvore, mas mesmo com a melhor boa vontade, não viu nenhuma árvore.

Depois de algum tempo, Kim percebeu que a parede não era tão lisa como lhe parecera de longe. A suposta rocha apresentava rachas, sulcos e inúmeras aberturas que se assemelhavam a grandes olhos negros. Quando chegaram mais perto, Kim viu os degraus de uma enorme escada esculpida na rocha que conduzia, em curvas sinuosas, a alturas vertiginosas. E quando finalmente estavam diante da parede, Kim entendeu que ela não era de rocha, mas de madeira! A “parede rochosa” era uma árvore! Pasmo e sem palavras, o rapaz se pôs a admirar a estranha aparição. E agora também notou que não havia céu acima deles e sim, a perder de vista, uma gigantesca copa! Daí a inexplicável luz esverdeada! Era como se o firmamento consistisse em um enredado interminável de folhagem e galhos, sem nenhuma visão para o universo das estrelas.

— O que tendes? — perguntou Oak, com um sorriso divertido. Com certeza já conhecia a reação das pessoas que se viam frente a frente com a árvore pela primeira vez. Oak o deixara às escuras de propósito, respondera a todas as perguntas de maneira evasiva e agora se divertia à custa de Kim.

— É esta a tal... a sua árvore? — perguntou Kim, finalmente. Oak balançou a cabeça:

— Ela não é a minha árvore, ela é a árvore das árvores — enfatizou. — Conheceis outras árvores, não conheceis?

— Claro — respondeu Kim, atrapalhado. — Por toda parte existem árvores, mas nenhuma igual a esta.

— Ah! — exclamou Oak, que se parecia com uma criança que mostrava seus brinquedos a um amigo. — As árvores que conheceis não são árvores de verdade, ainda vão demorar um bocado para se tornarem verdadeiras árvores.

Ele soltou uma risada:

— Desculpai se vos fiz você de bobo... mas esta é a árvore e ela é única!

— É... eu até acredito — disse Kim em voz baixa.

Impossível desprender os olhos do gigantesco tronco. É claro que se tratava realmente de uma árvore, mas para o rapaz ainda parecia mais uma parede rochosa. O diâmetro do tronco devia ser monstruoso e Kim nem ousou pensar na altura, com medo de sentir tonturas. Oak lhe acenou impaciente e quando começou a seguir o homem-folha escada acima, não demorou muito e ele foi acometido pela temida vertigem. A imponente escadaria de madeira, esculpida no tronco da árvore gigante, serpenteava para o alto em meandros e, apesar de confortável e larga, era extremamente íngreme e, pior, não tinha corrimão! Com os olhos fixos nas costas de Oak, Kim rezava para que ninguém percebesse o seu medo.

Quando chegaram ao número quatrocentos Kim parou de contar os degraus. Sem pausa, subiram por mais de meia hora até que, finalmente, chegaram ao ponto em que o tronco começou a se ramificar e apareceu o primeiro galho, ou melhor, o que Oak denominava de galho, pois para Kim era mais uma rua toda de madeira que se perdia numa selva de folhagem verde.

Mas Kim também viu outra coisa: mais adiante saíam do galho, um tanto fantasmagóricas, pequenas habitações brancas e verdes. Kim arregalou os olhos! Sem dúvida, sobre esta gigantesca árvore :ora edificada uma cidade!

— Surpreso? — indagou Oak, que se divertia com o espanto do rapaz.

Isto... estas... são casas? — balbuciou Kim.

— Claro que são casas — confirmou Oak. — Em vossa terra as pessoas não moram em casas?

— Claro — retrucou Kim, confuso — mas pensei... quero dizer que... achei...

— Terei prazer em mostrar-vos esta cidade e as outras também — disse Oak, sorrindo.

— Outras cidades? — exclamou Kim, cada vez mais perplexo. — Quer dizer que ainda existem... mais cidades?

— São sete ou oito — respondeu Oak, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Sem contar os pequenos povoados na copa.

— Ah! — fez Kim, pois lhe faltavam as palavras.

Era inacreditável! Uma árvore do tamanho de um país, com cidades construídas em seus galhos! Seguiram em frente e, por mais esdrúxulo que fosse, não restava a menor dúvida de que se tratava de uma cidade! Algumas casas tinham cinco ou seis andares e uma delas parecia um castelo!

A roupa das pessoas era verde, vermelha e amarela, mas na realidade não se tratava de roupagem na expressão da palavra e sim de folhas que cresciam naturalmente dos seus corpos e lhes serviam de roupa. As ruas, talhadas no córtex dos galhos, foram polidas por milhares de pés que por elas andaram ao longo do tempo e agora se assemelhavam a asfalto brilhoso. Vez ou outra apareciam entre os prédios plantas que de perto se revelavam rebentos laterais de grandes galhos, no entanto tão grandes como árvores comuns.

— Isso é inacreditável! — exclamou Kim, enquanto seguia Oak pelas ruas da cidade-árvore. A cada passo descobria novas sensações. — Vocês... vocês realmente moram aqui em cima? Vocês nunca descem?

— Oh... às vezes descemos, claro — respondeu Oak, um pouco irônico. — Se não fosse assim, não vos teria encontrado no lago, não é? Mas tendes razão, raramente deixamos a árvore. Aqui é a nossa pátria. — Oak apontou para uma casa pequena, mas muito bonita: — Chegamos. Minha mulher não está, ela está ajudando nos preparativos da festa logo mais à noite. Mas ela terá prazer em vos receber. Gostamos de hóspedes. — Oak curvou-se para passar pelo vão da porta, que era um pouco baixo para sua altura. — Entrai e ficai à vontade! — disse, com um gesto convidativo.

Kim hesitou, desta vez não de medo, mas porque a casa o deixou pasmo, aliás, como tudo o que vira até então. A casa não fora construída sobre o galho, como pensara, mas era parte orgânica da árvore. As paredes cresciam diretamente da árvore e o telhado era só folhagem verde, viva. As portas e janelas não foram talhadas na madeira, eram simplesmente aberturas arredondadas, orladas por um grosso bocel, que se formou naturalmente onde a madeira parou de crescer.

E, como não podia deixar de ser, o interior da casa era igualmente surpreendente: havia móveis comuns para Kim — mesas, cadeiras, armários. A diferença era que aqui os móveis cresciam do chão e das paredes! Era como se a árvore se esforçasse para oferecer aos seus habitantes o máximo em conforto. Até fogão tinha: um bloco quadrado de madeira, cuja superfície escura era dura como pedra e — o mais curioso — pelo visto o fogo não constituía nenhum perigo.

Oak deixou seus visitantes à vontade, enquanto preparava a comida: um purê verde, de aroma adocicado, sobre o qual salpicou ervas e folhas secas. Para acompanhar serviu algo parecido com mel, porém menos espesso. Diante de Bocadinho colocou uma pequena vasilha, e então chegou a vez de o homem-folha ficar pasmo, pois o pequenino penacho, num piscar de olhos, engoliu não só a sua porção, como também a de Kim. Depois lançou um olhar faminto para Oak. Hospitaleiro, o cidadão da árvore saciou a fome do seu pequeno hóspede, o que, aliás, constituía tarefa nada fácil. Por fim encheu o prato de Kim novamente.

— Então estais fugindo de um anão — constatou Oak, depois que todos comeram.

Kim não respondeu de imediato. Não que ainda tivesse alguma dúvida a respeito das intenções de Oak, mas, de repente, lembrou de Kelhim e, sem que pudesse evitar, sentiu-se culpado. Foi por sua culpa que o urso se envolveu na briga com Jarrn, que acabou provocando sua morte!

— É — declarou Kim, finalmente —, o anão matou um amigo meu.

— Matou? — repetiu Oak, franzindo a testa.

— Bem... hum, ele não o matou com as próprias mãos, explicou Kim. — Alguém... alguém que esteve com ele o matou.

Ficaram em silêncio por alguns minutos, depois Oak suspirou:

— Não quereis falar sobre isso, não é mesmo? Kim meneou a cabeça:

— Não.

— Tudo bem — disse Oak. — Nós não costumamos nos intrometer nos assuntos das pessoas lá debaixo, mas, se quiserdes falar, estou às ordens. — Em seguida, educado, o homem-folha mudou de assunto: — Aliás, hoje à noite teremos uma corrida, não quereis participar? Vós pareceis ser um bom esportista... isto é, primeiro precisais dormir por algumas horas, depois veremos.

Era como se as palavras do homem-folha tivessem o efeito de um sonífero, pois, de repente, Kim não conseguiu mais parar de bocejar. Oak sorriu, levantou e pediu que o acompanhassem até o outro quarto. Apontou para um leito coberto por folhas secas, que cresciam do chão ao lado da porta.

— Tereis de dormir na minha cama, é a única que temos no momento — desculpou-se. — Estou construindo uma nova casa, onde haverá um quarto de hóspedes. Mas ainda não está pronta.

Caindo de sono, Kim nem ouviu mais o que o outro estava dizendo. Mal conseguiu manter os olhos abertos. Sem mais uma palavra, deixou-se cair sobre a cama. Antes de adormecer ainda percebeu que a manta de folhagem envolvia seu corpo naturalmente, aquecendo-o de maneira gostosa, sem que Kim tivesse tocado em uma única folha! Mas nem deu tempo de estranhar, pois a esta altura já estava dormindo.

Algumas horas mais tarde acordou com um grito.

Seu coração disparou e ele ergueu o corpo tão abruptamente que quebrou alguns dos galhos mais finos que o cobriam. Então, o inusitado cobertor de folhas e galhos se deslocou e escorregou para o chão com ruído barulhento.

O coração ainda batendo forte, Kim olhou ao redor. Fora Bocadinho, que também acordara sobressaltado e agora olhava para ele assustado, não havia mais ninguém no quarto. Algo mudara, mas Kim não soube dizer o que era. Por um momento Kim pensou ver uma figura alta, angulosa, cujo único olho verde reluzia na penumbra.

Não era possível! Só podia ser a lembrança da noite anterior que ainda o perseguia. Claro, só podia ser isso! Tudo não passava de um pesadelo. Passos se aproximavam e de repente surgiu a figura nodosa de Oak na porta.

— O que aconteceu? — perguntou — pareceu-me ouvir um grito! Kim balançou a cabeça e passou a mão pela testa suada:

— Eu... tive um pesadelo... já passou. — Um pouco sem graça, acrescentou: — Acho que quebrei alguns galhos....

Oak fez um gesto apaziguador:

— Não tem importância, eu já disse, vamos mudar dentro era breve. — O homem-folha se mostrou preocupado: — Conseguistes descansar?

Kim não se sentiu nem um pouco descansado, mas só de pensar em dormir e ter outro pesadelo o fez estremecer.

— Minha mulher voltou e preparou o jantar — disse Oak. — Depois começa a festa.

Kim não respondeu, mas se levantou. Sentiu o estômago roncar, e Bocadinho, como sempre, farejou esfomeado.

Oak apresentou sua mulher, que estava junto ao fogão. As folhas do seu vestido eram mais claras que as do marido, mas tinha o mesmo rosto nodoso e uma cabeleira de folhas lhe caía sobre os ombros. Pelo jeito, o marido já lhe contara sobre os dois visitantes, pois ela os recebeu com um sorriso amigável. Depois apontou para a mesa, sobre a qual três pratos fundos, com o mesmo mingau verde, aguardavam por eles. Além disso, ainda havia uma grande tina contendo um líquido, da qual Bocadinho, sem a menor cerimônia, apossou-se imediatamente esvaziando-a em tempo recorde, sob o olhar atônito da dona da casa e o sorriso divertido de Oak.

Quando todos estavam satisfeitos, Oak preparou seu cachimbo. Ele e a mulher se sentaram ao lado dos hóspedes e iniciou-se animada conversa. Kim notou que ambos evitavam assuntos que pudessem lhe causar algum tipo de constrangimento. Era realmente como Oak dissera: os habitantes da árvore não demonstravam grande interesse pelas coisas que aconteciam fora do seu mundo de folhas e galhos. Finalmente Oak levantou e apontou para a porta:

— Está na hora, temos de ir, se não quisermos perder o começo ia festa. Eu ficaria feliz se vós me acompanhardes.

Kim agradeceu, mas seu ânimo realmente não estava para festas. Para ele era quase um sacrilégio participar de uma comemoração depois de tudo o que aconteceu com Kelhim.

— Não — disse. — Eu agradeço, mas...

Não completou a frase. Horrorizado, de olhos arregalados, olhou para a porta. Na rua, em frente a casa, havia uma multidão de homens-árvore nas mais variadas cores e, em meio à multidão, uma figura de ferro vermelho-marrom, com um único olho verde reluzente!

— O que foi? — perguntou Oak, alarmado.

— Brokk — murmurou Kim e começou a tremer. — É Brokk! Ele está aqui!

Oak seguiu o olhar do rapaz e, confuso, disse:

— Mas é apenas um homem de ferro! Kim mal conseguiu falar:

— Não devia ter vindo! Ele também matará vocês e...

De repente se deu conta das palavras de Oak. Atônito, se virou para o homem-folha:

— Isto quer dizer que... existem mais homens de ferro por aqui? Oak começou a rir:

— Mas é claro! Há dúzias deles. Eles nos ajudam a construir uma nova cidade, onde em breve iremos morar. Sem eles jamais conseguiríamos fazer isto em tão pouco tempo!

Kim não desgrudou os olhos do homem de ferro, que, a passos vagarosos e pesados, locomovia-se entre os habitantes da árvore, enquanto seus enormes pés de ferro arrancavam pequenas lascas da madeira.

— Eles estão até aqui! — gemeu o rapaz. — Você sabe de onde eles vêm?

Oak não entendeu mais nada:

— Claro que sei! Os anões os fabricam em suas cavernas.

— Mas... você disse que os anões são seus inimigos...

— Inimigos não — corrigiu Oak. — Eles não são nossos amigos, o que não quer dizer que sejam nossos inimigos. Não temos inimigos. — Oak levantou e fechou a porta. Depois perguntou: — O que há de tão dramático nisso?

Como Kim não respondeu, Bocadinho explicou:

— Foi um homem de ferro que matou o amigo dele.

Kim engoliu em seco e por pouco não desatou a chorar de novo.

— Posso imaginar como vos sentis — disse Oak, cheio de carinho e compreensão. — Sinto muito. Se eu soubesse teria dado um jeito de evitar este encontro.

— Vocês têm que se livrar deles — murmurou Kim. — Eles são perigosos.

— Imagine! — retrucou Oak, sorrindo. — Eles não são perigosos. Oak tocou na mão do rapaz e, apesar da aparência dura e nodosa de sua pele, o seu toque era suave e caloroso.

— Ouça o que lhe digo — murmurou Kim. — Eu tenho experiência com eles, um deles matou Kelhim na minha frente.

— Eles são apenas ferramentas — replicou Oak, puxando uma faca do bolso, que colocou sobre a mesa na frente do rapaz. — Esta faca também foi feita pelos anões. Esta faca e todas as outras ferramentas que usamos aqui. Na árvore não temos condições de fundir metais, tampouco como os anões têm condições de plantar em suas cavernas as frutas que vendemos para eles. Não somos amigos, mas praticamos um comércio mútuo, pois um tem o que o outro precisa. O que há de errado nisso?

Kim quis contestar, mas Oak ergueu a mão nodosa e, em tom levemente alterado, continuou:

— Esta faca também é um instrumento para matar, jovem senhor. Mas não a temeis. Os homens de ferro são como esta faca, isto é, nada mais do que instrumentos. Não há por que temê-los. Deves temer apenas os homens que usam as ferramentas para fins maléficos.

— Não acredito — disse Kim em voz baixa. — Eles... eles são mais do que simples ferramentas. Eu sinto... eles me dão medo.

— Que bobagem! — suspirou Oak. — Também aqui entre nós há alguns que pensam como vós, mas eles se enganam. Os homens de ferro são muito úteis. — Kim não conteve um riso amargo, mas Oak não lhe deu atenção e continuou: — Amanhã, quando a festa estiver terminada, eu vos mostrarei nossa nova cidade. Ela é muito maior e mais bela do que esta. Hum... se não tivéssemos os homens de ferro! Vereis, não há motivos para temê-los. Então vinde!

— Para onde? — indagou Kim, desconfiado.

— Para cima — respondeu Oak. — Quero que participeis da festa. Deveis se distrair, jovem senhor. Se ficardes sozinho aqui, é capaz de sairdes correndo só porque vistes um homem de ferro.

Ele soltou a mão do rapaz, levantou e sorriu. Kim resolveu aceitar o convite e segui-lo, mas, ao contrário do que Oak imaginava, não rara se distrair. Seu motivo era totalmente outro!

 

Mas as surpresas estavam apenas começando, e antes de a noite terminar Kim ainda sofreria diversos abalos emocionais. Por ora, no entanto, ele se viu obrigado a participar de uma prática esportista que no mundo de onde vinha com certeza jamais faria parte dos jogos olímpicos. Aqui, pelo visto, era o que os habitantes da grande árvore mais faziam, ou seja, subir escadas!

E, assim, na companhia de Oak, enfrentou de novo a terrível escada que serpenteava em direção às alturas. Bocadinho logo desistiu e, como de costume, pulou nos ombros de Kim, que, muito a contragosto, teve que lançar mão das próprias pernas. Depois de algum tempo já não acompanhou mais o ritmo de Oak, que subia os degraus com espantosa agilidade e rapidez. As poucas horas de sono que tivera na casa de Oak não foram suficientes para recuperar as forças.

— Estamos chegando — disse Oak, apontando para o alto.

— Só mais quatro galhos. — Kim gemeu. Quatro galhos! Ele não iria resistir a tamanho esforço! Oak, que parecia ter adivinhado os pensamentos do rapaz, disse sorrindo:

— O último trecho é o mais fácil.

Kim se questionou o que Oak queria dizer com isso, mas não perguntou, pois precisava de todas as suas forças para se arrastar pelos degraus da interminável escada.

Finalmente chegaram a um galho, de onde Kim pôde lançar um breve olhar na direção da outra cidade, que, pelo jeito, era ainda maior.

Seguiram-se outros tantos degraus! Vez ou outra passaram por enormes cavidades na madeira que, como explicou Oak, levavam ao interior da árvore titânica. Diante de uma dessas entradas Oak fez um gesto para que Kim o seguisse.

A caverna era menor do que o rapaz havia imaginado. Um quadrado de cerca de cinco passos de um canto a outro. O chão emoldurado por um corrimão relativamente alto. Oak pediu que não tocassem nas paredes e depois puxou com força uma corda trançada, feita de fibras de plantas e que caía sabe-se lá de onde, pois, pelo que parecia, a caverna não tinha teto.

No mesmo instante Kim soltou um grito. O chão sob seus pés foi sacudido por um forte solavanco e, de repente, a entrada desapareceu e as paredes despencaram para o abismo. A “caverna” nada mais era do que a clarabóia de um elevador!

— Fantástico, não é? — perguntou Oak, jubiloso com a cara de espanto do rapaz. — Em breve ampliaremos este poço para facilitar nossa vida, pois poderemos nos locomover com maior rapidez. Até estamos planejando um elevador ainda maior.

— Isto é... incrível — disse Kim, um pouco hesitante.

Na verdade ele não achava nada fantástico. O elevador o incomodava, sem que ele soubesse por quê.

— Como ele funciona? — perguntou.

— É bem simples — explicou Oak, com visível orgulho. — A plataforma está presa a cordas e funciona por meio de um contrapeso que soltamos quando queremos que ela suba.

— Ah! — fez Kim. As palavras do homem-folha lhe causavam certo mal-estar, uma sensação de perigo.

— É muito confortável mesmo! — exibiu-se Oak. — Aliás, foram os homens de ferro os responsáveis por esta obra. — Agora já não era mais apenas um vago e inexplicável temor, Kim sentia medo, quase pavor! — Sem eles teria sido impossível — continuou Oak, sem perceber o que se passava com o rapaz. — Não podeis nem imaginar o trabalho que deu para abrir o poço na árvore.

Kim não queria imaginar nada.

— E a árvore? Não ficou prejudicada? — perguntou.

— Prejudicada?

— Ora, vocês estão abrindo buracos nela, não estão?

— Ah!, jovem senhor — disse Oak, rindo —, ela é tão grande que não sentiria nem mesmo se abríssemos mais cem poços no seu tronco. Isto aqui não é nenhuma das pequeninas árvores que conheceis, Kim.

Mas Kim estava preocupado. Apesar das explicações plausíveis do homem-folha, ele teve a nítida impressão de que algo estava errado... mas o quê?

O restante da viagem no estranho elevador transcorreu em silêncio. Vez ou outra passavam por uma abertura, enquanto o elevador continuava a subir, até que, finalmente, parou. A claridade insólita que os atingiu ao saírem do elevador fez com que Kim piscasse. Era a primeira vez que via o sol. O telhado de folhagem verde, ao qual entrementes já tinha se acostumado, ali não era tão denso como mais abaixo. Em alguns pontos até deixava transparecer o azul do firmamento.

Ao descer do elevador foram recebidos por risos e pelas vozes alegres de milhares de homens-árvore. Reinava a maior agitação. Sobre pequenas fogueiras que ardiam em alguns pontos do galho cuidadosamente selecionados estavam sendo assadas frutas. Diante de uma tenda um pouco mais afastada, enfeitada com bandeirolas multicoloridas, aglomerava-se uma multidão também multicolorida de homens-árvore.

— Vinde! — exclamou Oak, animado. — Quero apresentar-vos a algumas pessoas.

Kim e Bocadinho seguiram-no um pouco relutantes. Seu anfitrião se lançou na multidão e em poucos minutos Kim, um tanto constrangido, viu-se no centro das atenções. Pelo visto, Oak tinha inúmeros amigos, pois falava com todo mundo e todos cumprimentavam Kim e seu pequeno companheiro. Não demorou muito e o rapaz, mesmo sem querer, deixou-se levar pela alegria geral. Surpreendentemente, não passou nem meia hora até que estivesse rindo com os novos conhecidos. Bocadinho, que descobrira o agradável sabor das frutas assadas, precipitou-se de fogueira em fogueira, esforçando-se para dar cabo de tudo em uma única noite.

Contagiado pelo ambiente descontraído, Kim estava disposto a esquecer os terríveis acontecimentos da noite anterior, mas, como nada é perfeito, sua alegria durou pouco. Totalmente à vontade junto a Oak e alguns de seus amigos, próximos a uma fogueira, beliscando uma fruta grelhada, que, aliás, estava muito gostosa, de repente Kim teve um choque. Engasgou e faltou pouco para não sufocar.

— O que foi? — perguntou Oak, preocupado.

Kim não respondeu, mas o homem-folha seguiu o olhar do rapaz e entendeu tudo: não longe dali os ombros angulosos de cerca dez homens de ferro sobressaíam na multidão.

— Não vos preocupais tanto, jovem senhor — disse Oak, impaciente. — Eu já disse, eles são inofensivos.

— O que... o que eles estão fazendo aqui?

— É o que eu gostaria de saber — intrometeu-se um dos homens-árvore, muito jovem, envolto em folhagem amarelo-pálida.

Oak lançou-lhe um olhar colérico e se voltou de novo para Kim:

— Eles vão participar da corrida logo mais à noite.

— Os homens de ferro? — perguntou Kim, surpreso.

— Que absurdo! — exclamou o jovem das folhas amarelas. — Além disso é uma ofensa para todos nós.

— Cala-te! — repreendeu-o Oak.

Um homem, como Oak, envolto em folhagem verde, veio ao seu encontro:

— Não te irrites, afinal, o que se pode esperar de um amarelo?

— Pelo menos não estou contribuindo para a destruição da nossa árvore — irritou-se o amarelo.

Kim ficou um pouco constrangido com a discussão, pois em momento algum imaginara que os habitantes da grande árvore pudessem brigar entre si.

— Por favor, por favor — implorou Oak —, estamos aqui para festejar e não para brigar. Portanto, contenha-te Tarrn. — E, voltando-se para o amarelo: — Limb! Se és tão avesso aos homens de ferro então por que não participas da corrida para vencê-los?

— Eu não quero saber de... de uma coisa que nem alma tem! Tarrn, o “verde”, suspirou:

— Isso é típico — desdenhou. — Se atendêssemos a todas as vontades dos amarelos, teríamos que demolir nossas casas e voltar a viver nus nos galhos, como nossos antepassados.

— O que há de tão ruim nisso? — desafiou Limb e se voltou para Kim: — O que pensas, rapaz? É certo destruirmos o nosso próprio meio ambiente?

— Que bobagem! Não fazemos isso! — protestou Tarrn.

— Basta! — exclamou Oak, lançando um olhar ameaçador para o amarelo. — Não permito que envolvas meus convidados numa briga ridícula.

Não restava dúvida de que o “amarelo”, Limb, estava muito revoltado, mas se conteve e, sem dizer mais nada, deu as costas e desapareceu na multidão.

Tarrn o seguiu com os olhos e meneou a cabeça:

— Ora! Amarelos! — disse em tom depreciativo. — Continuam os mesmos caóticos de sempre.

— Basta! — advertiu Oak outra vez. Tarrn bufou:

— Como se alguns poucos homens de ferro pudessem ameaçar nosso mundo! Não queremos mais subir escadas, desejamos morar em casas maiores... O que há de mal nisso?

— Eu já disse, basta! — repetiu Oak, com severidade. Em seguida esboçou um sorriso meio forçado: — Vamos ver os preparativos para a corrida.

No fundo Kim não se interessava pela corrida, ele preferia continuar a conversa com Limb, pois algo lhe dizia que o amarelo, como os outros o chamavam, podia eventualmente ser seu aliado na luta contra os homens de ferro. No entanto, educadamente, seguiu Oak para a parte central do galho, onde estava a grande tenda ricamente ornamentada com bandeiras multicoloridas.

Kim notou que em meio à multidão, que os impelia para frente, também havia pessoas que usavam roupas iguais à dele e que tinham cabelos em vez de folhagem. Pelo visto, a festa atraíra visitantes de todas as partes, não só do mundo da árvore. Quanto aos habitantes da grande árvore, tudo indicava que não se misturavam, pois cada cor — havia amarelos, verdes, vermelhos, azuis, violeta e brancos — formava um grupo isolado e só esporadicamente viam-se duas ou mais pessoas de cores diferentes conversando.

Kim perguntou o porquê da discriminação e Oak respondeu com a maior boa vontade:

— Eles pertencem a tribos diferentes — explicou. — Mas a cor não significa nada... bem, pelo menos não tem grande importância, com exceção, talvez, dos azuis. É melhor evitá-los, é um povo arrogante, que mora bem no alto, nos cumes. Eles se acham superiores porque estão mais próximos do céu.

Mais uma vez as palavras de Oak provocaram certo desconforto em Kim. Aos poucos começou a entender o que estava acontecendo ali e, se as suas suspeitas se revelassem verdadeiras, a situação era preocupante.

Mas naquele momento Kim não teve oportunidade de fazer mais perguntas, pois chegaram à tenda festiva. Era uma tenda enorme, cujos cabos haviam sido, com a ajuda de ganchos de aço, cravados na madeira do galho e que, sem dúvida, comportava trezentas pessoas, se não mais. Kim notou que a parte traseira da tenda fora isolada do resto e que lá só havia um punhado de gente, embora o restante da tenda estivesse abalroado de visitantes.

-— O que está acontecendo lá no fundo? — quis saber Kim.

— São os participantes da corrida — informou Oak. — Vai começar logo... esperai, vou erguer-vos para que possais ver melhor.

E antes que o rapaz pudesse protestar, Oak o ergueu e o colocou, como se fosse uma criança, em seus ombros.

Agora ele tinha uma visão bem melhor! No espaço reservado aos atletas, além dos oito homens de ferro, que já vira antes, ainda havia cinco ou seis homens-árvore da mesma cor e alguns esportistas de fora. Não era estranho. Afinal, Oak também convidara Kim para a festa.

E, de repente, Kim viu... o cavaleiro negro!

Aparentemente ele nada mais era do que alguém mais escuro em meio à folhagem multicolorida. Mas quando se movimentou, Kim percebeu que o homem esbelto e de altura mediana vestia uma armadura negra! Não se tratava de uma armadura qualquer: a couraça de peito estava manchada, o capacete era grosso e a cor das pernas e dos braços blindados, na verdade, não podia ser chamada de preto, era mais um metálico escuro de um aspecto um tanto sujo.

Era uma armadura do tipo que Kim usara, por ocasião de sua primeira visita, quando os cavaleiros negros por pouco não acabaram definitivamente com Märchenmond e seus habitantes! Mas... eles haviam sido derrotados! De onde surgiu este que estava em meio à festa dos homens-árvore?

— Deixa eu descer! Depressa, Oak, me solte!

Oak obedeceu, assustado, e quando os pés de Kim tocaram o chão, ele abriu espaço entre a multidão. Precisava ver o estranho cavaleiro de perto! Queria certificar-se de que não era nenhuma aparição! Se os fantasmas assustadores do passado voltaram, Märchenmond corria um perigo ainda maior do que Kim imaginara!

No entanto não era nada fácil passar pelas pessoas, que pareciam grudadas umas nas outras. Kim ainda nem havia chegado perto do cordão que separava os atletas da multidão quando um sonoro estampido inundou o início da corrida. A parte traseira da tenda se abriu e instigados pelos gritos dos torcedores, os atletas se precipitaram para fora.

Nesse instante Kim alcançou o cordão e, sem pensar duas vezes, pôs-se a correr atrás dos concorrentes! Um homem de folhagem branca queria impedi-lo, mas o rapaz escapou e tratou de aumentar a velocidade para alcançar os demais corredores. Mais adiante, avistou o preto reluzente da armadura, alvo do seu interesse.

O cavaleiro, a despeito da armadura que devia ter considerável peso, desenvolveu uma velocidade surpreendente e Kim reconheceu que fizera besteira quando deixou-se levar pelo impulso do momento. Teve que dar o máximo de si para não perder os outros de vista. Alcançá-los... nem pensar! Até os homens de ferro se revelaram bem mais rápidos do que pensara, se bem que aos poucos foram caindo para trás, o que, no entanto, não contava, pois Kim sabia muito bem que os gigantes vermelho-ferrugem não conheciam o cansaço.

De repente alguém gritou num fio de voz:

— Ei! Aonde pensas que vai?

Sem interromper sua desenfreada corrida, Kim lançou um olhar para trás e viu Bocadinho num esforço tremendo para alcançá-lo, a despeito de suas perninhas curtas.

— Tu não podes me deixar para trás!

— Agora não! — gritou Kim, sem fôlego. — Espere por mim! Bocadinho, no entanto, não quis nem saber. Correu ainda mais depressa e, com um pulo, foi parar no seu lugar cativo, ou seja, o ombro do rapaz.

Nesse instante, os primeiros corredores alcançaram o gigantesco tronco da árvore, e lépidos começaram a subir a escada. Kim os seguiu, arquejante, banhado de suor, e a uma distância cada vez maior. Mal subiu os primeiros degraus e já estava tão esgotado que por pouco não desabou em algum degrau para nunca mais levantar. Mas aquilo era impossível! O cavaleiro negro de Morgon... inimaginável! Ele precisava alcançá-lo!

Bufando, chegou à bifurcação do próximo galho. Uma parte dos corredores já sumira de vista. O galho pululava à vontade e cada rebento tinha a espessura de uma árvore comum. Assim formou-se uma espécie de floresta, onde a maioria dos participantes havia desaparecido. Os homens de ferro e também o cavaleiro negro, que aparentemente começara a sentir o peso da armadura, ficaram para trás e formaram — exceto Kim, claro — o final.

Mas aos poucos Kim percebeu que algo estava acontecendo, pois o cavaleiro negro não lhe parecia cansado ou inseguro, estava simplesmente cada vez mais lento, como se diminuísse a marcha de propósito; até os homens de ferro o deixaram para trás. A distância entre o cavaleiro e Kim, porém, estava cada vez mais curta.

O estranho cavaleiro negro parou tão de repente que Kim mal teve tempo de se esconder atrás de um pequeno arbusto, o que aconteceu, aliás, no último momento, pois o cavaleiro lançou olhares furtivos para todos os lados e, em seguida, desviou para a direita.

— Ei! — assobiou Bocadinho, surpreso — o que ele está fazendo?

— Sei lá — disse Kim —, mas vou descobrir.

Depressa, atento para não provocar nenhum ruído, Kim penetrou na mata no mesmo lugar onde o outro entrara ainda há pouco.

A floresta era bem fechada, mas Kim aproveitou o atalho aberto pelo cavaleiro negro. O rapaz não teve a menor idéia para onde o caminho o levava até que, subitamente, abriu-se um tremendo abismo à sua frente! Chegara na extremidade do galho e a seus pés se estendia o vazio! O galho mais próximo ficava a cerca de dois ou três minutos de distância, isto é, distância de vôo, é claro. Meio passo a mais e ele teria despencado no abismo!

Kim tratou de recuar e olhou ao redor. O coração quase lhe saltou pela boca. Onde estava o cavaleiro?

Ele o avistou depois de algum tempo e o seu comportamento era deveras estranho: a armadura negra estava descendo para as profundezas, com a ajuda de uma corda munida de inúmeros nós, presa a um galho. Aliás, para esta empreitada um tanto perigosa, demonstrava surpreendente habilidade!

— O cara está trapaceando! — gritou Bocadinho. — Ele está cortando caminho!

Kim não concordou com Bocadinho. Esse tipo de tramóia logo daria na vista. Além disso, Oak lhe dissera que nesta corrida não havia prêmio para o vencedor, os corredores participavam apenas pelo prazer da vitória. Mas, caso o cavaleiro não tenha se separado dos outros para sair vitorioso, talvez houvesse outro motivo...

Kim ficou de joelhos e se debruçou para frente, sempre atento para não ser visto. Esperou até que o cavaleiro, agora já bem distante, alcançasse o próximo galho e depois, munindo-se de muita coragem, agarrou a corda de nós e começou a descer vagarosamente pelo mesmo caminho tomado pelo cavaleiro negro. Bocadinho começou a xingar, valendo-se de um palavreado bastante vulgar, mas Kim, firme e forte, não lhe deu ouvidos e continuou a descer, um empreendimento, aliás, bastante penoso. Quando finalmente pisou em galho firme de novo, suas pernas e braços pareciam de borracha. Por alguns segundos ficou parado para recuperar as forças, embora o desgaste tivesse sido menor do que pensara inicialmente.

Kim olhou ao redor. Nenhum sinal do cavaleiro negro, o que, aliás, não era de admirar, pois a superfície deste galho estava ainda mais impenetrável que a do galho acima. Aqui as “árvores” cresciam tão cerradas que dificilmente davam passagem, e o chão estava coberto por uma grossa camada de folhas mortas e humo. Ficou cada vez mais difícil acreditar que isto era o galho de uma gigantesca árvore a meio caminho do céu.

Depois de algum tempo Kim descobriu marcas no chão macio, deixadas pelas pesadas botas do cavaleiro.

A lenta descida pela corda de nós levara bastante tempo, mas Kim não demorou muito para reencontrar o cavaleiro. Este estava não muito longe dali, de cócoras, meio escondido por um arbusto, espiando, atentamente, o estreito caminho que serpenteava, mais abaixo, pela mata cerrada. Kim quase esqueceu de se esconder de tão surpreso e curioso que ficou. Só não foi descoberto porque o cavaleiro negro estava totalmente concentrado no caminho à sua frente.

Kim ousou lançar um breve olhar para o caminho que tanto interessava o cavaleiro, a ponto de nem notar a presença de outra pessoa. Fora um galho especialmente grosso do outro lado do caminho, que mais parecia um gigantesco naco de rocha com a superfície corroída pelo tempo, não havia nada de extraordinário. Mais adiante, o caminho se perdeu novamente na mata.

De repente ouviu o barulho cada vez mais alto de incontáveis pés. Eram os primeiros corredores que estavam chegando!

Mas por que o homem fizera tanto sacrifício para encurtar o caminho se agora deixava os outros passarem na frente? — pensou Kim, atendido. Quais eram as intenções deste cavaleiro negro um tanto fajuto?

O cavaleiro negro recuou ainda mais e se escondeu atrás de um arbusto, em vez de se infiltrar discretamente na fileira dos participantes, o que, sem dúvida, teria conseguido, pois a compacta multidão de corredores se dispersara bastante nesse momento e havia grandes intervalos entre eles. Mas o cavaleiro esperou pacientemente até que os últimos corredores passassem pelo seu esconderijo. Quase os últimos!...

Bem atrás dos últimos corredores vinham os homens de ferro, nem mais rápidos nem mais lentos do que antes. Então o cavaleiro negro se pôs a postos! Seria cúmplice dos homens de ferro e, por conseguinte, também dos anões? Nada impossível tratando-se de uma criatura vinda de Morgon, o reino das sombras e do mal.

Mas também os colossos angulosos passaram sem que o cavaleiro se manifestasse. O único movimento que fez foi pegar o cabo da enorme espada presa à sua cintura.

O primeiro homem de ferro ia passar pelo galho que mais pare-:ia uma rocha e que ainda há pouco havia despertado a atenção de Kim. Então aconteceu algo assombroso: de repente apareceu outra árvore, aliás, de maneira bastante estranha, isto é, ela literalmente saltou por detrás da suposta rocha e, pior, de cabeça para baixo, isto é, com as raízes para o alto!

O homem de ferro, impelido pelo próprio impulso, não conseguiu parar a tempo e esbarrou em cheio no obstáculo que de súbito apareceu à sua frente. Um monstruoso retumbar rompeu o silêncio da floresta e a cabeça de ferro foi lançada longe, enquanto o resto do corpo ainda deu alguns passos cambaleantes antes de se estatelar no chão.

Kim seguiu o inusitado espetáculo boquiaberto e de olhos arregalados. A estranha árvore deu meia-volta e acertou a cabeça do segundo homem de ferro com um terrível golpe, para, em seguida, amassá-lo como se fosse uma lata de sardinha. Três dos quatro homens de ferro que restaram pararam e se jogaram, de uma só vez, em cima da árvore-rocha. Era como se um caminhão cheio de ferro velho tivesse capotado. O sexto e último homem de ferro queria ajudar seus companheiros, mas nesse momento o cavaleiro negro deixou o seu esconderijo e, apesar de se movimentar silenciosamente, o homem de ferro o ouviu, voltando-se para ele de imediato.

O cavaleiro levantou sua espada e acertou a mão do homem de ferro, partindo o metal como se estivesse cortando papel. O monstro recuou e olhou, incrédulo, para o braço mutilado. Em seguida se virou novamente para seu adversário e com a outra mão começou a desferir-lhe uma série de golpes.

O cavaleiro desviou dos golpes com grande agilidade, passou por debaixo da garra e enterrou a espada no peito do homem de ferro, sem que isso provocasse efeito algum, pois, no mesmo instante, a mão escavadora desceu sobre a armadura feito martelo.

O golpe não atingiu o cavaleiro em cheio, somente raspou seu ombro, mas foi o suficiente para que a espada lhe escapasse das mãos. A arma voou pelos ares e fincou no chão, bem aos pés de Kim. Era como se tivesse parado ali de propósito.

O cavaleiro cambaleou, desviou de outro golpe, mas acabou perdendo o equilíbrio e caiu para trás. O homem de ferro o alcançou com um único passo e debruçou-se sobre ele.

Kim, que até então assistira a tudo atônito, agarrou, quase que instintivamente, o punho da espada e a puxou do chão. E, no instante em que suas mãos tocaram a arma, aconteceu algo estranho: era como se da lâmina negra passasse uma força sobrenatural invisível para o corpo do rapaz. A espada era tão pesada que numa situação normal ele nem sequer conseguiria erguê-la, mas nesse momento nem sentia o peso da arma. E mais: a espada ajustou-se à sua mão de tal forma, como se fosse a continuação do seu braço. Na verdade, não era Kim que agora erguia a espada e se lançava com um grito sobre o homem de ferro, e sim a arma em sua mão, que criara vida própria.

Quando o homem de ferro se deu conta do perigo, já era tarde! Ele não reagiu a tempo. Levantou a cabeça e seu olho verde irradiou pura maldade. Em fração de segundos a lâmina desceu sobre a cabeça angulosa e a varreu dos ombros. E o mais estranho: Kim não sentiu nenhum tipo de resistência quando o aço partiu as grossas chapas de ferro.

O colosso férreo permaneceu imóvel por alguns segundos, numa posição grotesca, levemente debruçado para frente. Depois começou a vacilar e, finalmente, caiu para frente com grande estardalhaço. O cavaleiro desviou no último instante para não ser esmagado pelo robô.

Kim baixou a arma e se agachou para ver o que havia acontecido com o cavaleiro. Este levantou, sacou a arma das mãos do rapaz e, antes que Kim pudesse dizer ou fazer algo, saiu em disparada para onde ainda se ouvia o barulho de luta. Kim o seguiu sem pensar duas vezes.

Quando dobrou a esquina deparou com outra cena singular: espalhados pelo chão estavam os restos de três homens de ferro e, antes que o cavaleiro ou Kim pudessem entrar na luta, um quarto colosso foi atingido e esmagado pela gigantesca raiz que crescera, em fração de segundos, do bloco de madeira.

Só então Kim descobriu que se tratava de nada mais nada menos do que a raiz de uma árvore que alguém estava usando como clava. Este alguém, de considerável tamanho, prostrou-se à sua frente, pronto para enfrentar todos os monstros férreos que viessem, abanando seu inusitado pedaço de madeira e...

— Gorg! — exclamou Kim, totalmente pasmo.

Irado, o gigante franziu a testa e... sua boca se abriu e assim ficou, espantado.

— Kim? — murmurou. — És tu... mesmo? Mas...

O gigante deixou cair a clava, agarrou o rapaz e o ergueu para o alto. Era realmente Gorg, o gigante bondoso, que gostava de se fingir de covarde e abobalhado, sem ser nem um nem outro, e que acompanhara Kim, em outra época, na sua perigosa aventura pelas terras de Märchenmond.

Kim riu e chorou ao mesmo tempo e Gorg, por sua vez, não parava de girá-lo no ar gritando seu nome sem parar. O rapaz tentou, em vão, se desvencilhar das mãos gigantescas:

— Me solte, seu grosso — exclamou rindo —, você vai acabar me esmagando!

Gorg, ainda bastante agitado, o depositou na terra com cuidado, repetindo várias vezes:

— És tu! És tu! — O gigante não cabia em si de tanta alegria: — Nós nunca perdemos a esperança de que voltadas e agora estás aqui! Agora tudo vai acabar bem! — Agitado, acenou na direção do cavaleiro negro: — Olha quem está aqui!

O cavaleiro se aproximou com passos vagarosos. Ele havia embainhado a espada, enquanto presenciava, mudo, o reencontro entre Gorg e Kim. A viseira negra ainda cobria o rosto do cavaleiro, mas Kim sentiu, instintivamente, que mais uma surpresa o aguardava.

— Eu sei — murmurou o cavaleiro. — Eu também o reconheci, mas...

A voz, apesar de abafada pela viseira, lhe era familiar!

— Você? — sussurrou.

— É — respondeu Priwinn, o Cavaleiro das Estepes de Caivallon, libertando-se da viseira.

Então os dois se abraçaram e riram até não poder mais.

— De onde você vem? — perguntou Kim, um pouco sem fôlego. — O que está fazendo aqui e...

— Calma, uma pergunta de cada vez — interrompeu-o Priwinn.

O jovem príncipe continuava o mesmo, apesar do tempo que havia passado. Seu rosto, já quase de um homem feito, expressava a mesma nobreza de caráter de antes. Só em seus olhos Kim acreditou enxergar certa amargura que não combinava com seu temperamento alegre e sua inata espontaneidade juvenil. Mas não havia tempo para muita conversa, pois, de repente, ouviram passos. A mata se abriu e apareceu uma figura envolta em folhagem amarelo-pálida.

— Estais ouvindo? Que barulho é este? — esbravejou Limb. — Dá para ouvir a mais de dois galhos de distância, vós...

Parou no meio da frase quando se deu conta da presença de Kim. Nervoso, perguntou, desconfiado:

— O que ele está fazendo aqui? Ainda há pouco ele estava com Oak. Gorg levantou a mão num gesto apaziguador:

— Não te preocupes, ele é nosso amigo.

— Podes confiar nele — acrescentou Priwinn.

Limb hesitou. Continuava desconfiado. Mas depois viu os homens de ferro estraçalhados e uma visível satisfação se fez notar em seu rosto.

— Destes cabo deles, muito bom.

— Duvidavas de nós? — perguntou Gorg, ofendido.

— São apenas cinco — contou Limb.

— Há outro no meio do caminho — explicou Priwinn. E apontando para Kim: — Nosso amigo o matou.

— Está bem. Mas agora temos que sumir daqui, se alguém nos surpreender tudo estará perdido. Oak ficou nervoso quando este jovem idiota começou a correr atrás de vós. — Antes de desaparecer na floresta, Limb falou mais uma vez: — Vamos nos encontrar na cidade nova! Apressai-vos! — instou.

— O que significa isso? — admirou-se Kim. Priwinn fez um gesto com a mão:

— Limb tem razão, não podemos ficar aqui, é perigoso demais. Tu vens com a gente?

Kim concordou sem pestanejar. Depois se pôs à procura de Bocadinho, que caíra do seu ombro no confronto com o homem de ferro. Desde então não o vira mais.

— O que procuras? — perguntou Gorg.

— Um amigo — respondeu Kim, vagamente.

— Um amigo? Como ele é?

— Ah, é impossível não reconhecer Bocadinho, você vai ver. Sem esperar resposta chamou pela pequenina bola de penas. E, realmente, não tardou para que Bocadinho se aproximasse com passinhos ligeiros, ostentando suas penas vermelho-amareladas.

— Passou? — perguntou, um pouco envergonhado.

— Passou... — respondeu Kim sorrindo. — E agora venha, seu covarde!

— O que significa isso? — indagou Bocadinho pulando no ombro do amigo. E apontando para Gorg e Priwinn: — Quem são esses dois?

— Eu explico depois — respondeu Kim. — Agora temos de ir. Mas antes ficou de joelhos ao lado de um dos colossos de ferro destruídos. Pensativo, virou uma das cabeças para o alto. Estava totalmente vazia! Também dos outros titãs vermelho-ferrugem não restara nada além de vestígios ocos, o que deixou o rapaz abismado. Kim não pôde dizer o que exatamente esperava, talvez um complicado sistema de rodas dentadas e alavancas, algum tipo de mecânica... enfim, alguma coisa, não simplesmente nada. E como os homens de ferro se movimentavam, como trabalhavam? Movidos a quê?

— Sinistro, não é? — perguntou Priwinn.

Apesar de calmo e controlado, Kim percebeu que uma sensação muito forte o agitava por dentro.

— Não entendo — murmurou o rapaz. — O que os mantêm vivos?

— Magia — respondeu Priwinn, sem esconder o ódio. — A magia dos anões das montanhas do Leste — continuou. — Mas agora temos que sair daqui. Mais tarde conversaremos melhor.

Nesse momento Kim não teve oportunidade de fazer uma única pergunta sequer das inúmeras que estavam entaladas na sua garganta. Seus dois amigos atravessaram a selva de galhos com incrível rapidez.

Quando chegaram na onipresente escada, Gorg na frente, Kim já não sentia mais suas pernas e até Priwinn apresentava visíveis sinais de cansaço. No final das contas, Gorg perdeu a paciência: simplesmente colocou os dois rapazes nos ombros e, tomando sete e às vezes dez degraus de uma só vez, correu escada acima.

Mas, apesar de toda pressa, já era fim de tarde quando chegaram na copa propriamente dita da grande árvore. Aqui, no alto, ainda se podia divisar o sol, se bem que o seu brilho estava entremeado com sombras acinzentadas. Embaixo, no solo, que parecia infinitamente longe, provavelmente já era noite.

E sobre o galho mais alto erguia-se a maior e mais bela cidade da grande árvore! As casas, construídas num estilo suntuoso, mas não necessariamente bonito, eram altas e amplas. A cidade fora edificada sobre um gigantesco entrançamento de vigas e escoras, feito teia de aranha, e o mais curioso era que toda esta construção pairava sobre o vazio, tocando, em alguns pontos, os galhos vizinhos. Além disso, estava desabitada, pois não se via vivalma! Nenhuma lâmpada acesa, nenhum ruído, por menor que fosse!

— Ela ainda não está pronta — explicou Priwinn. — Não tem moradores, isto é, caso alguém venha morar aqui.

Kim encarou o príncipe e quis dizer algo, mas este, com um gesto, pediu que se calasse. Priwinn olhou para todos os lados e depois se dirigiu, com passos rápidos e um tanto furtivos, para um dos prédios desabitados. Kim e Bocadinho o seguiram, enquanto Gorg postou-se à sombra de uma casa para ficar de sentinela. Mas Kim suspeitou que a casa era muito pequena para o gigante e ele preferiu ficar do lado de fora. O gigante tinha certa experiência em bater a cabeça em portas e tetos.

— Vamos encontrar o seu amigo aqui? — perguntou Kim, ao entrarem no prédio.

— Limb? — Priwinn meneou a cabeça. — Ele não é meu amigo. Apenas um aliado, nada mais. Senta, temos muito que conversar.

Kim obedeceu, mas com certa relutância, pois não se sentia muito à vontade. A casa, as palavras de Priwinn e de Limb o deixaram bastante apreensivo. Sentaram à mesa e Priwinn se voltou para o amigo:

— Parece inacreditável que estás de novo entre nós. Eu tinha tanta esperança de que voltasses... nós todos esperamos por ti.

— Esperaram por mim? — admirou-se Kim.

— Gorg, eu, toda Märchenmond implorou a tua volta. Pelo menos aqueles que ainda não estão condenados.

— Como? O que você quer dizer com isso?

Antes que Priwinn pudesse responder, surgiu de um dos cantos da casa uma sombra escura, delgada. Bocadinho soltou um silvo assustado e se agarrou ao pescoço de Kim. A sombra chegou mais perto e revelou-se um enorme gato preto de olhos chamejantes.

— Oi — disse Kim —, quem é você?

— A mesma pergunta faço eu — rosnou o gato. — Afinal de contas foi tu que invadiste a minha casa.

Kim soltou um gemido patético e Priwinn começou a rir.

— Essa não! Um gato que fala! — exclamou o rapaz.

— Claro — resmungou o gato —, pensavas o quê? Priwinn não se conteve e soltou uma gargalhada.

— Sheera gosta de surpreender as pessoas — explicou. — Mas é um cara bacana, se bem que seus modos deixam a desejar.

— Modos? — ofendeu-se Sheera. — Não fui eu que invadi a casa alheia sem ao menos bater à porta. Esse aí nem se apresentou!

— Meu nome é Kim — apresentou-se o rapaz. E, com um gesto para o seu ombro: — Este é Bocadinho.

— Hum... Bocadinho — rosnou Sheera. — Pequenino caberia melhor. Por que ele é tão colorido?

— Por que tu és tão preto, seu mal-educado? — retrucou Bocadinho. — Não tens modos mesmo, afinal somos hóspedes aqui.

— Hóspedes? Que bom! — Sheera levantou uma das patas e mostrou cinco garras afiadíssimas. — Toma cuidado, meio quilo, senão te mostro o que faço com vagabundos que vêm à minha casa sem ser convidados.

— Então vem! Vem! — berrou Bocadinho, colocando-se em posição de luta sobre o ombro de Kim.

Sheera começou a bater o rabo e piscou:

— Achas que estás seguro em cima desse ombro, não é?

— Parem, vocês dois! — ordenou Priwinn.

Mas Bocadinho e o gato estavam exaltados demais.

— Se pensas que tenho medo de ti, estás enganado, seu monstro negro!

— Ah é? — rosnou Sheera. — Então desce daí, vamos resolver esta questão lá fora!

— Bem... — murmurou Bocadinho. — Será um prazer, isto é, na teoria.

— E na prática?

— Não brigo com gente baixa — disse Bocadinho do alto do ombro de Kim.

— Gente baixa? — berrou o gato. Bocadinho mostrou-se valente:

— Bem... se fizeres questão eu até encaro.

— Então vamos! — prontificou-se Sheera e colocou à mostra todas as garras que Deus lhe deu.

Bocadinho bateu em retirada:

— Não agora, só depois do anoitecer — disse. O gato curvou-se e formou uma corcova:

— Tu escolhes.

— Eu pensaria melhor — objetou Kim. — Bocadinho é...

— Basta! — interrompeu Priwinn, impaciente. — Sheera, desapareça! E, voltando-se para Kim: — O teu amiguinho abelhudo devia tomar cuidado, com Sheera não se brinca! Além disso, temos coisas mais importantes a tratar!

— Concordo plenamente — disse Kim, sem conseguir desviar os olhos do gato preto, que saiu orgulhoso e de cabeça erguida. — De onde surgiu esta figura? — perguntou ao amigo.

— Sheera? — Priwinn esboçou um sorriso melancólico. — Eu o encontrei há um ano, ou melhor, ele me encontrou. Antigamente a maioria dos animais tinha o dom da fala, mas isto faz muito tempo. Acho que Sheera é o último dos animais que falam.

— O que aconteceu? — perguntou Kim. Priwinn suspirou fundo:

— Se eu soubesse! Algo está acontecendo em Märchenmond, algo terrível! — O Príncipe das Estepes olhou para Kim, cheio de esperança: — Pensei que pudesses nos ajudar.

No momento Kim não sabia o que dizer e assim começou a contar como chegou em Märchenmond e todas as suas peripécias desde então. Priwinn ouviu sem interrompê-lo e, pelo visto, ficou um tanto abalado. Quando Kim terminou, fez-se um pesado silêncio. Finalmente, Priwinn se manifestou:

— Kelhim, morto? — murmurou. — Isto é... terrível!

Gorg, que do lado de fora ouvira tudo, apareceu na janela, aos prantos. Depois de algum tempo, Priwinn, apesar de tudo, mostrou-se animado:

— Apesar de tudo que me contaste, tenho novas esperanças. — Kim olhou para ele surpreso e o príncipe explicou: — A transformação de Kelhim em animal selvagem não foi total, pois, como disseste, no fim ele voltou a ser o que era antes, isto é, o urso amigo. Isto significa que nem tudo está perdido. Há esperança!

— Esperança? Em quê?

— Que tudo voltará a ser como antes — completou Priwinn. — Märchenmond mudou, Kim. E continua mudando cada vez mais depressa e para pior. — O jovem cavaleiro das estepes abanou a cabeça para dar maior ênfase a suas palavras: — Vê os habitantes da grande árvore. Eles são o povo mais pacífico que existe em Märchenmond, mas até eles mudaram. Eram um povo alegre, festeiro, com gosto pela vida... — Priwinn hesitou por um instante, depois continuou: — Viste o que aconteceu na festa. Antigamente todos eles formavam uma grande comunidade sem preconceitos. Não se conhecia a palavra briga. Hoje os azuis desprezam os verdes, os verdes por sua vez desdenham dos amarelos, os amarelos odeiam os brancos, e assim por diante. E o pior é que nem se dão conta do que está acontecendo.

— Mas, pelo que percebi, alguns enxergam as coisas com mais clareza — conjeturou Kim.

— Tu te referes a Limb e os outros amarelos? — perguntou Priwinn, triste. — Pois estás enganado. Eles estão certos quando dizem que os homens de ferro prejudicam a árvore, mas não têm limites para alcançar seus objetivos, eles...

— Alguém se aproxima — alertou Gorg do lado de fora da janela.

— Limb?

— É — confirmou o gigante, depois de alguns segundos. — Parece bastante apressado.

Priwinn e Kim olharam para a porta e, de fato, não tardou muito até que Limb, o amarelo, entrasse esbaforido:

— Tendes que sumir daqui! — exclamou em tom de urgência. — Fostes traídos, todos nós fomos traídos! Eles encontraram os restos dos homens de ferro e agora sabem o que aconteceu.

— Céus! — gritou Priwinn, enquanto pulava da cadeira. — Como é possível?

— Não sei — respondeu Limb, ainda sem fôlego. Parecia ter subido ao cume correndo. — Além disso — continuou Limb —, eles sabem que estamos aqui na cidade nova e estão a caminho. Não nos resta muito tempo... tenho que avisar os outros! — Limb cerrou os punhos: — Tenho vontade de botar fogo nesta maldita cidade!

— Por quê? — perguntou Kim.

Limb olhou para o rapaz cheio de raiva:

— Ainda perguntas? Porque o preço que pagamos é muito alto. Olha ao redor!

Mas o rapaz não notou nada de extraordinário, exceto, talvez, que a casa era maior e fora construída com mais capricho do que as outras nos galhos inferiores.

— Não estás vendo? Então, olha! — gritou Limb, furioso, levantando uma das cadeiras e lançando-a com toda força contra o tampo da mesa.

A cadeira e a mesa quebraram e Kim entendeu o que o amarelo quis dizer: os móveis não cresceram da árvore naturalmente como na casa de Oak. Foram feitos com tábuas avulsas, aplainadas isoladamente e artisticamente trabalhadas. O quarto, a casa, a cidade inteira fora construída da mesma maneira.

— Eles extraem a madeira do coração da árvore! — explicou Limb. — O que demorou séculos para crescer está sendo destruído em pouco tempo. E tudo isso só porque o velho e tradicional método não tem mais serventia.

— Mas são apenas algumas tábuas — atreveu-se Kim a observar.

— Não! — exaltou-se Limb. — É o começo do fim! Quem vai viver aqui, se não tiver restado nada do coração desta árvore?

— Mas ela não volta a crescer?

— Ah! Se por ventura voltar a crescer, será tão devagar que para nós já não terá importância. Esta árvore é velha, Kim, muito velha. E só existe esta árvore, nosso povo não pode viver em nenhuma outra.

Kim não disse mais nada:

— Temos de ir — ponderou Priwinn —, se te encontrarem aqui, terás de responder a uma série de perguntas desagradáveis.

— Eles não vão me encontrar — retrucou Limb, com certa arrogância. — Mas vós devíeis seguir até Gorywynn para falar com Temístocles, o mago. Talvez ele consiga pôr juízo na cabeça desses idiotas aqui.

Priwinn e Kim deixaram a casa e Gorg se juntou a eles. Kim queria ir para a esquerda, na direção da escada, mas Priwinn o deteve.

— Por aí não — disse. — Daríamos de cara com eles, é melhor seguir outro rumo. — Quando viu a cara desconfiada do amigo, o Príncipe das Estepes riu: — Presta atenção!

Ele inclinou a cabeça para trás e deu às mãos um formato de concha. Em seguida, emitiu um som alto e forte, como de uma corneta.

Por um momento tudo permaneceu em silêncio. Depois o ar se encheu de um forte ramalhar e quando Kim ergueu a cabeça viu uma gigantesca sombra dourada que descia do céu e voava de encontro à árvore.

Então tudo aconteceu muito rápido: o enorme dragão dourado pousou no galho, Priwinn e Gorg montaram depressa no seu lombo e antes que Kim pudesse dar vazão à sua alegria, Gorg o agarrou pelo cangote e o colocou, junto com Bocadinho, à sua frente. No mesmo instante Rangarig — sim, pois era ele mesmo — levantou vôo, imponente.

 

Enquanto sobrevoavam as terras de Märchenmond sobre as asas douradas de Rangarig, Kim teve a oportunidade de, pela primeira vez na vida, vivenciar um raro espetáculo: o dragão voou mais rápido do que o movimento do sol e a chamejante bola de fogo quase não teve tempo de desaparecer no horizonte e reiniciar sua trajetória pelo firmamento.

Rangarig era uma criatura dotada de forças inesgotáveis, mas voara tão depressa que agora estava perdendo altura e se via forçado a procurar um lugar para pousar.

Encontraram um pedacinho de chão, que lhes pareceu seguro: uma rocha alta, lisa, onde não crescia nada além de uns arbustos franzinos e um pouco de musgo. O penhasco despencava, quase perpendicular, algumas centenas de metros. Nenhum ser vivo que não tivesse asas para voar ou que fosse hábil feito aranha os alcançaria aqui.

O dragão pousou suavemente nesta fortaleza natural e eles desceram do seu lombo. Kim sentiu as pernas tremerem. Gorg o segurara o tempo todo, mas o vôo do dragão era tão rasante que Kim teve de se agarrar com toda força a uma de suas muitas protuberâncias calosas.

O rosto ardia e os olhos lacrimejavam, mas, não obstante, mal seus pés tocaram o chão, o rapaz pulou por cima da cauda escamosa do dragão e correu para frente. Rangarig lhe parecia ainda maior e suas enormes escamas reluziam como cobre antigo. Seus olhos — cada um deles maior do que a cabeça do rapaz — encararam Kim sem o menor sinal de reconhecimento. Pelo visto, o vôo rasante esgotara o dragão, pois sua respiração estava ofegante.

Por algum tempo Kim permaneceu simplesmente parado, olhando para o rosto do dragão lá no alto, buscando palavras que pudessem expressar sua imensa alegria. Mas o dragão continuou indiferente. Inseguro e até um pouco tímido, Kim perguntou a primeira coisa que lhe veio à mente:

— Rangarig... como vai?

Pela primeira vez desde que conhecia o dragão, o imponente animal lhe infligiu medo.

— Bem — resmungou Rangarig.

Em toda Märchenmond, Rangarig sempre teve a fama de falar demais. O que estava acontecendo com ele? Kim não esperava ver o dragão dando pulos de alegria, mas também não contava com tamanha indiferença. O rapaz fez outra tentativa:

— Faz tanto tempo que a gente não se vê...

— Para ti faz muito tempo — disse Rangarig com sua voz profunda. — Nós, dragões, temos outros padrões de tempo. — Educado, mas demonstrando claramente que não estava para conversa mole, acrescentou: — E tu, como tens passado?

— Bem — murmurou Kim, sem graça, e como percebeu que Priwinn queria lhe dizer algo, acrescentou: — Vamos conversar mais tarde, está bem?

Rangarig pousou o enorme focinho nas patas dianteiras:

— Por mim... — disse laconicamente. Aliviado, Kim se distanciou do dragão.

— O que está acontecendo com ele? — perguntou a Priwinn.

O Príncipe das Estepes colocou o dedo indicador nos lábios e, com um aceno de cabeça, pediu a Kim que o seguisse. Foram até a outra extremidade da rocha para que Rangarig não os ouvisse.

— O que está acontecendo? — repetiu Kim. — Por que está tão.... tão frio comigo? O que eu fiz para ele?

— Não é isso — respondeu Priwinn, triste. — O problema não é contigo. Ele... mudou. Mas ele não é sempre assim. Provavelmente amanhã cedo vai querer te beijar de tanta alegria.

Muito sério, Kim fez a mesma pergunta de sempre:

— O que aconteceu?

— O mesmo que acontece em todo o reino de Märchenmond — respondeu Priwinn, com amargura. — Não te lembras de Kelhim? Rangarig ficou esquisito, imprevisível. Às vezes está tão mal-humorado que me dá até medo. É isso que estou tentando dizer-te, Kim, o nosso mundo está morrendo.

— Que bobagem! — exclamou Kim, sem muita convicção.

— É claro que Märchenmond continuará existindo — abrandou Priwinn. — Mas não será mais aquele mundo que tu conheceste. Seus habitantes estão se voltando para o mal, estão ficando invejosos, amigos viram inimigos e vizinhos se tornam estranhos.

— Como Harkvan, teu pai, e o Rei dos Charcos? — perguntou Kim. Priwinn estremeceu e Kim se desculpou por sua falta de tato. Priwinn deu de ombros:

— Tens razão — disse, deprimido. — Então já te contaram?

— É... eu quase não acreditei.

— É a mais pura verdade — retrucou o Príncipe das Estepes.

— Eu só queria entender! — exclamou Kim, com desespero. — Quem é o culpado de tudo isso?

— Não é tão simples. Não é um inimigo de fora que nos ameaça, Kim. É pior.

O príncipe suspirou fundo: — É como... é como se nós nos tornássemos nossos próprios inimigos — disse, finalmente.

Os dois amigos silenciaram, cada um mergulhado em pensamentos nada alegres. Na luz difusa do entardecer apareceu o gato Sheera como sombra escura de olhos amarelados. Imediatamente se voltou para o penacho vermelho-alaranjado que continuava sentado no ombro de Kim:

— Olá, seu garganta! Pensou que pudesses escapar, não é? Bocadinho e Kim ficaram surpresos com a presença do gato, pois não haviam percebido que ele também estivera montado no lombo de Rangarig.

— Bem... é que... — começou Bocadinho. Mas Sheera o interrompeu bruscamente:

— Tu não me escapas! Marcamos um encontro, esqueceste?

— Pensei que estivesses com medo — revidou Bocadinho, desbocado como sempre.

Sheera bufou e fez uma corcova:

— Desce daí, sujeitinho! Pra mim chega!

— Espera — revidou Bocadinho, sem se alterar. — Combinamos que nosso encontro seria depois do pôr-do-sol. — Ele pulou do ombro de Kim, olhou ao redor e depois apontou com sua patinha para um dos poucos arbustos que cresciam na rocha erma: — Eu te espero lá, logo após o escurecer. Se precisares de reforço, pede ao dragão, ele pode te ajudar.

Sheera mal se conteve com tanto atrevimento, mas Bocadinho já se afastara com passinhos ligeiros.

Enquanto Sheera esperava, impaciente e de pelo eriçado, que o sol desaparecesse de vez no horizonte, Kim sentou, de pernas cruzadas, no chão rochoso e, após alguns instantes, Priwinn fez o mesmo. E não tardou para que Gorg, que até então esperara ao lado do dragão, se juntasse a eles. Priwinn lançou-lhe um olhar indagador.

— Ele está dormindo — informou o gigante. — Acho que hoje ele está melhor.

A luz do dia despediu-se com um último lampejar e, no mesmo instante, Sheera arremessou, com a velocidade de um raio, contra o arbusto. Primeiro ouviram-se os estalos e estalidos dos galhos que arrebentavam, mas, logo em seguida, retumbaram no ar os gritos estridentes de alguém que estava passando por uma terrível experiência. Priwinn se virou, assustado, e Gorg franziu o cenho.

— Ele encontrou Bocadinho em sua versão noturna — explicou Kim, lacônico.

Priwinn chegou à conclusão de que os dois adversários não precisavam de ajuda e recomeçou a conversa:

— Tu me contaste sobre aquele menino que foi parar no hospital, como era ele?

Kim fechou os olhos para visualizar o menino. Depois deu de ombros:

— Como todos os meninos — disse, vago.

Do arbusto ouviam-se berros raivosos e mais galhos rachando.

— Acho que ele era maior e mais jovem que você — continuou Kim. — Estava muito pálido e tinha cabelos escuros.

Priwinn lançou um olhar preocupado para o arbusto, onde a gritaria aumentava a cada instante. Depois suspirou:

— Essas informações não são de grande valia, Kim. Quase todos os cavaleiros das estepes têm cabelos escuros.

— Você está pensando em alguém em especial? — perguntou Kim.

Priwinn assentiu com a cabeça:

— Um amigo? — insistiu Kim.

— É — respondeu Priwinn, após breve pausa. — Um amigo.

Kim lembrou de Jara e Brobing, que também sofreram uma perda dolorosa e, de repente, se deu conta de um fator importante.

— Quando eu estive aqui pela primeira vez, o filho de Jara ainda era um bebê — disse, franzindo a testa. — E agora Torum tem praticamente a minha idade.

— Tu sabes que o tempo em Märchenmond obedece a leis diferentes das leis do seu mundo — lembrou Priwinn.

— Mas, Priwinn! Você não está nem um dia mais velho! Priwinn esboçou um sorriso condescendente:

— Claro que não — explicou. — Não te lembras? Eu não fico mais velho, enquanto meu pai Harkvan estiver vivo e for o soberano de Caivallon. Só quando o velho rei morre, o príncipe se torna homem, para ocupar o seu lugar no trono.

— Você realmente não sabe nada sobre as crianças desaparecidas? — perguntou Kim, que custava a acreditar em tudo que ouvia.

— Não — respondeu Gorg no lugar de Priwinn.

— Em três dias estaremos em Gorywynn, onde Temístocles responderá às nossas perguntas.

O tempo todo o arbusto ficara em movimento, como se estivesse sendo chacoalhado por mãos invisíveis. Vez ou outra Chumaços de pelo negro voavam pelos ares e um chuvisco de espinhos espalhou-se pela redondeza.

De repente fez-se silêncio absoluto e todos se voltaram, preocupados, para o arbusto. Alguns segundos se passaram até que os galhos restantes se abriram para dar passagem a duas criaturas totalmente estropiadas.

Bocadinho, em sua versão noturna, mancava. Perdera alguns dos seus ferrões e o resto estava revolto, como se uma tempestade tivesse passado por ele. Um de seus olhos, salientes por natureza, estava inchado.

Sheera também se machucara. O gato mancava e seu pêlo, outrora preto e brilhoso, estava revolto. Pelo aspecto do seu focinho, todo picado, parecia que tinha topado de frente com um cacto.

— O que é isso? — exclamou Priwinn, estupefato, apontando para a coisa horrenda ao lado do gato.

— Bocadinho — disse Kim, com a maior naturalidade. — Eu também não gosto da sua versão noturna, mas, como vê, ela lhe foi bem útil.

— Ele... ele se transforma? — assombrou-se Gorg. — Por que não disse antes?

Bocadinho estava se divertindo com a situação:

— Não foi uma boa surpresa? Se soubésseis antes, eu teria perdido uma bela briga.

— Eu também — acrescentou o gato Sheera, que se mantinha em pé com dificuldade. — Na próxima vez acabo contigo!

E, de repente, os dois desataram em alegre gargalhada e se abraçaram, o que não fez nada bem a Sheera, pois ele foi premiado com mais um ferrão no focinho. Bocadinho riu e bocejou:

— E agora um lanche para recuperar as forças.

Fixou os olhos em Rangarig, lambeu os beiços e começou a babar de tanta vontade.

— De jeito nenhum — disse Kim, severo.

Bocadinho ficou decepcionado, mas não disse nada e, acompanhado pelo gato, sumiu na escuridão da noite.

— Essa é boa! — exclamou Gorg, balançando a cabeça. — Por que não nos contaste que ele se transforma?

— Desculpem, mas eu acabei esquecendo — defendeu-se Kim.

— Não precisa desculpar-te — disse Priwinn, olhando na direção onde Bocadinho e Sheera desapareceram. — Animais que se transformam se tornaram raros em Märchenmond, ainda bem que alguns sobreviveram.

— Não por muito tempo — sentenciou o gigante.

Na manhã seguinte partiram antes do nascer do sol e o prognóstico de Priwinn quanto ao comportamento de Rangarig se revelou correto. Era como se o dragão dourado tivesse esquecido a maneira fria e desinteressada com que tratara Kim no dia anterior. E passou a demonstrar uma alegria tão arrebatadora que o rapaz temeu ser esmagado entre suas gigantescas patas quando Rangarig o abraçou.

Quando finalmente levantaram vôo, Rangarig aprontou tantas peripécias que seus passageiros por pouco não despencaram do seu lombo: deu cambalhotas no ar, desceu e subiu em vôos rasantes, manobras mortais que fizeram até Gorg gritar de medo.

Hoje, ao contrário do dia anterior, voaram ao cair da noite e o crepúsculo da madrugada parecia não ter fim. Kim gemeu de frio, pois, apesar de Gorg protegê-los com o seu corpanzil, o frio da noite era quase insuportável. Quando Rangarig, finalmente, desceu à procura de um lugar adequado para pousar, o corpo do rapaz parecia um bloco de gelo. Suas mãos e pés estavam totalmente insensíveis e Gorg teve que puxá-lo do dorso de Rangarig. Sozinho não teria conseguido! Até Bocadinho, escondido debaixo da camisa de Kim, estava sendo sacudido por tremores de frio. Quando a longa noite finalmente chegou ao fim, os raios de sol logo ganharam força, e à medida que o frio implacável foi se esvaindo, a vida voltou a circular no corpo dos heróis.

Desta vez pousaram no topo de uma montanha onde havia madeira seca em abundância, e como Kim ainda guardava o sílex que Brobing lhe dera, o rapaz se prontificou a fazer uma fogueira. Mas Priwinn o deteve com a desculpa esfarrapada de que não valia a pena. Kim quis argumentar, mas o príncipe simplesmente lhe deu as costas, sem maiores explicações. Irritado, Kim o pegou pelo braço:

— Por que você não quer acender uma fogueira?

Priwinn não respondeu e com um olhar sombrio quis se desvencilhar, mas Kim não o soltou.

— Por que sempre pousamos em lugares tão ermos? — insistiu, apontando para a montanha escarpada.

— Pergunta a Rangarig — respondeu Priwinn, mal-humorado.

— Estou perguntando a você — revidou Kim. — Priwinn, você está escondendo algo, não é? Esta montanha é tão inacessível como a rocha em que pousamos ontem. E você não quer nem mesmo fazer fogo. Do que, ou melhor, de quem vocês estão se escondendo?

Priwinn não respondeu, mas Kim não deixou por menos e fez a pergunta que estava entalada em sua garganta desde que reencontrara o príncipe:

— Afinal de contas, o que você está fazendo aqui, Priwinn? Por que não está em Caivallon, ao lado do seu pai? E, por que está vestindo esta armadura?

— Ela é útil — respondeu Priwinn, ignorando a primeira pergunta. — Ninguém melhor do que tu para saber disso, pois a usou por muito tempo, lembra?

Até então Kim não havia olhado direito para a armadura, o que resolveu fazer naquele instante. E, de repente, entendeu e arregalou os olhos.

— É isso mesmo — disse Priwinn —, é a armadura que vestiste na luta contra os homens de Boraas. Nós a guardamos. Jamais esquecemos aqueles dias terríveis. Se quiseres, eu a devolvo para ti, afinal, ela é tua.

Por um momento Kim ficou tentado em aceitar a oferta do príncipe e vestir de novo a armadura negra de Morgon. Para ele, era mais do que uma simples armadura. Há poucos dias sentira a força mágica da espada em suas mãos, uma força que poderia torná-lo invencível. Com a espada mágica nas mãos e vestindo a armadura negra, imaginou-se à frente de um exército, prestes a combater. Mas na luta contra quem?

— Não, obrigado — disse após algum tempo. — Fique com ela, mas quero saber de quem vocês estão fugindo.

— Não estamos fugindo de ninguém — respondeu Priwinn. Quando viu que esta resposta não havia convencido o amigo, o Príncipe das Estepes esboçou um sorriso sem graça e deu de ombros: — Não é exatamente uma fuga, simplesmente acho melhor continuarmos despercebidos.

— Mas por quê? — insistiu Kim.

Demorou um bom tempo até que o príncipe respondesse:

— Lembra de Limb, o amarelo?

— Claro — disse Kim —, afinal, não faz tanto tempo assim.

— Então também te lembras como os outros o trataram, não é? Eles o desprezam. Os amarelos são indesejados e estou certo de que, se pudessem, fariam mal a eles.

— Mas o que isso tem a ver com você e Gorg?

— É que pensamos como Limb e eu temo que também teríamos o mesmo destino, isto é, nos fariam algum mal.

— Não estou entendendo mais nada — impacientou-se Kim. Priwinn deu de ombros e olhou para o chão:

— Hum... todos sabem que Gorg e eu somos contra os homens de ferro.

— E daí?

— E daí que fomos informados de que não somos bem quistos, se é que me entendes.

— Você? — indagou Kim, estupefato. — O Príncipe de Caivallon? Priwinn suspirou profundamente:

— Eu disse e repito, as coisas mudaram em Märchenmond.

— E como! — exclamou Kim, desgostoso.

Estava na hora de rever Temístocles para obter respostas. Ele se tornava um poço de perguntas sem resposta.

 

Seis dias se passaram até alcançarem Gorywynn. Como sempre, Priwinn foi excessivamente cuidadoso, pois quando o castelo vítreo surgiu no horizonte ao entardecer do sexto dia, prismático e cintilante, o príncipe, como das outras vezes, pediu a Rangarig que procurasse um lugar seguro para pousar. O lugar escolhido foi uma floresta impenetrável, onde as gigantescas asas do dragão tiveram primeiro que abrir uma brecha para que ele pudesse pousar.

Kim havia decidido que não perguntaria mais nada ao Príncipe das Estepes, pois este, com certeza, só lhe daria respostas evasivas. Nesses últimos seis dias os amigos conversaram muito, mas Kim entendeu que Priwinn simplesmente se fazia de surdo quando o garoto lhe fazia certas perguntas. O tempo urgia e agora, tão perto do seu destino, ou seja, Gorywynn e Temístocles, Kim não aceitou a decisão do príncipe de passar a noite em meio à floresta em vez de seguir direto para o castelo! Impaciente, o rapaz explodiu:

— O que significa isso? — exigiu, no momento em que desceram do lombo do dragão. — Em meia hora chegaremos a Gorywynn!

— Vamos passar a noite aqui — respondeu Priwinn, firme. — Rangarig está cansado e tu também.

— Bobagem! — protestou Kim.

Priwinn estava certo, ele estava exausto, e o cansaço do dragão dourado provavelmente era ainda muito maior, pois carregara o peso de todos eles. Mas, mesmo assim, os poucos minutos que levariam para chegar a Gorywynn certamente não fariam nenhuma diferença para Rangarig.

— Preciso saber como está a situação em Gorywynn antes de entrar no castelo, explicou Priwinn. — Gorg e eu estivemos ausentes por vários meses, muita coisa pode ter acontecido nesse meio-tempo.

Kim queria fazer um comentário, mas Priwinn o interrompeu com um gesto:

— Marcamos um encontro com um amigo para hoje à noite, acrescentou. Um homem de Gorywynn. Ele nos informará sobre os acontecimentos no castelo. Só depois decidiremos o que fazer.

— Mas eu não quero esperar mais! — teimou Kim. — Preciso falar com Temístocles!

O príncipe deu de ombros:

— Então vá. Eu não vou impedir. Podes ir. Gorg e eu vamos passar a noite aqui e ao amanhecer partiremos.

Kim teve de se controlar para não partir para cima de Priwinn. Talvez até o teria feito, mas nesse momento pensou que o príncipe talvez estivesse sofrendo as mesmas mudanças que estão acontecendo em Märchenmond. Até mesmo ele, Kim, estava mudado. Nesses últimos dias tornara-se irritadiço, impaciente, como nunca fora antes.

Olhou para Priwinn mal conseguindo esconder a raiva. Depois, sem mais palavras, atravessou a clareira e se juntou a Rangarig, que havia se enrolado para dormir.

O dragão, ao contrário de Priwinn e Gorg, manteve-se quase sempre calado nos últimos dias. Quando Kim se aproximou, ergueu as grossas pálpebras e em seus olhos apareceu um brilho suave.

— Oi, pequeno herói — disse Rangarig. — Estamos chegando em casa.

— Já poderíamos estar lá — retrucou Kim, mal-humorado. Rangarig lançou um olhar na direção do príncipe e Kim percebeu que sua discussão com Priwinn não passara despercebida.

— Certamente — disse Rangarig com um suspiro. — Mas sabes que ele tem razão? É melhor te informares primeiro sobre a situação em Gorywynn. E, melhor ainda, é melhor descansar e reunir forças, pode ser que precisemos delas.

— Por quê?

— Para sumir o mais depressa possível, por exemplo.

— Você quer dizer... fugir? Mas... Gorywynn é a sua pátria! Uma grande tristeza invadiu o rosto de Rangarig:

— Gorywynn foi a minha casa... um dia, mas agora... — O dragão hesitou e depois continuou: — Já nem sei se ainda tenho pátria.

— Como você pode dizer uma coisa dessas! — exaltou-se o rapaz. Rangarig balançou a cabeça:

— Por que não acreditas em Priwinn? — perguntou. — O castelo de vidro já não é mais o mesmo. Eu também não sou mais o mesmo. — Deu outro suspiro profundo, mais parecido a um soluço: — As vezes sinto saudade de um lugar que nem conheço, tu me entendes, pequeno herói? — Por algum tempo permaneceram em pesado silêncio, depois Rangarig continuou com voz baixa: — Às vezes noto algo em mim que me assusta e aí sinto uma profunda saudade da solidão, das montanhas inóspitas onde moram os meus parentes. Talvez 3. minha pátria seja lá e não aqui.

— Não conheço os seus parentes — disse Kim. — Mas sei que os dragões são criaturas selvagens, muito temidas.

— Isso mesmo — murmurou Rangarig.

Kim queria dizer algo, mas nesse momento acreditou ver Kelhim à sua frente, a fera mortal em que se transformara.

O rapaz estremeceu. Kelhim fora, um dia, um animal que falava, assim como Bocadinho, Sheera e Rangarig. Seria isso que Priwinn estava tentando lhe dizer o tempo todo? Era essa a mudança que todos estavam sofrendo? A magia que estava se apagando?

— Talvez — respondeu Rangarig e Kim percebeu, assustado, que falara alto. — Talvez a magia em Märchenmond esteja se apagando, mas, se assim for, pequeno herói, me promete uma coisa.

— O quê?

— Promete que não vais tentar me ajudar, porque tu não conseguirias.

Kim sentiu lágrimas em seus olhos e lutou para não desatar em choro na frente do dragão.

— Prometo — disse, mal contendo os soluços.

Quando finalmente conseguiu reprimir as lágrimas, o dragão adormecera e Kim se perguntou se Rangarig ouviu a promessa que fez.

Deprimido, o rapaz se aproximou de Priwinn e Gorg, que estavam jantando em silêncio. Nem mesmo as brincadeiras de Bocadinho e Sheera conseguiram tirá-los da depressão. Pensou seriamente em aceitar a sugestão de Priwinn e ir sozinho para Gorywynn. É claro que a pé demoraria mais para chegar do que montado em Rangarig. Por outro lado, precisava ficar só com seus pensamentos. Mas acabou reconhecendo que seria loucura seguir sozinho para o castelo. E, assim, estirou-se no musgo macio que cobria o chão da floresta e, para sua surpresa, adormeceu em seguida.

O sono durou pouco! Logo depois acordou sobressaltado. A posição da lua lhe informou que a noite ainda não estava muito adiantada. Algo o acordara... eram as vozes de Gorg e Priwinn. Bastante sonolento, sentou e piscou os olhos. E aí notou que os amigos não estavam sozinhos!

O príncipe e Gorg estavam conversando com dois homens altos. Um deles gesticulava o tempo todo enquanto falava. O outro, mudo, mas aparentemente bastante nervoso, olhava ora para o chão, ora para o dragão adormecido.

Kim levantou e se aproximou do pequeno grupo. Priwinn e o desconhecido interromperam a conversa e o príncipe apresentou o rapaz como “um amigo”, sem, no entanto, mencionar seu nome.

O homem encarou o rapaz visivelmente desconfiado, mas acabou aceitando a explicação do príncipe, pois retomou a conversa:

— Há semanas ninguém vê Temístocles. Em contrapartida, o número de anões aumentou tanto que parece até um formigueiro. Não vai demorar muito para se apossarem do castelo e da cidade que o cerca.

— Anões? — perguntou Gorg com uma careta. — E o mago não faz nada?

— Já disse, ninguém sabe onde ele está. Além do mais... o que ele pode fazer? Os anões não entraram no castelo à força.

— Como entraram então? — intrometeu-se Kim, profundamente chocado com o que acabara de ouvir.

Outro olhar desconfiado por parte do desconhecido! O homem só respondeu depois que Priwinn, com um gesto, deu sinal verde.

— Foram chamados.

— Chamados? Quem os chamou?

— Aqueles idiotas em Gorywynn! — exclamou o homem, cheio de amargura. — Homens de ferro, anões, construções e obras por todos os lados! Essa não é a vida que quero para mim! — Com os olhos lampejando de ódio, voltou-se para Priwinn, que tentou, em vão, impedi-lo de falar. — Está na hora de agir, príncipe!

— Agir? O que ele quer dizer com isso, Priwinn? — perguntou Kim.

— Ah, nada — despistou o príncipe.

— Não diga besteira! — irritou-se o rapaz. — Faz muito tempo que não venho aqui, mas não sou bobo. Você destrói os homens de ferro quando os vê, se esconde o tempo todo e até tem medo de ir para Gorywynn. E agora este homem fala em agir! O que significa tudo isso?

Priwinn se manteve calado. Mas o desconhecido apontou para Kim e perguntou:

— Quem é esse rapaz, príncipe? Por que permites que ele vos fale dessa maneira?

— Meu nome é Kim.

O homem arregalou os olhos:

— Kim? Tu és... — de repente, para a surpresa de todos, caiu de joelhos na frente do rapaz: — Perdoai, não vos reconheci! Sois vós! Voltastes! Agora tudo vai dar certo. Com vossa ajuda venceremos! — E perguntou ao príncipe Priwinn: — Por que não dissestes logo que ele estava de volta?

— Falta de oportunidade — disse o príncipe, bastante seco. — Faz pouco tempo que ele voltou.

Kim olhou para Priwinn, surpreso. Mas Priwinn se calou. Aí Bocadinho se manifestou, mal-humorado:

— Ainda não entendeste, idiota? Se não estou enganado, teus amigos estão se preparando para arrebentar algumas cabeças de ferro.

Priwinn olhou para o bichinho horrendo como se quisesse arrebentar a cabeça dele e de mais ninguém, mas, para surpresa de Kim, ele disse:

— Arrebentar algumas cabeças de ferro, sim!

— Vocês pretendem fazer uma revolução? — perguntou Kim.

— Bobagem! — exclamou Priwinn. — Só queremos colocar as coisas nos seus devidos lugares, mais nada. Os anões e seus homens de ferro são uma ameaça. Se as pessoas não entendem isso, temos que...

— Lançar mão da violência para fazê-las entender — completou Kim, com amargura.

— Se quiseres interpretar desta maneira — disse Priwinn, cerrando os punhos. — Em todo caso, não vou assistir de braços cruzados à derrocada de Märchenmond.

— E você acha que vou ajudar vocês nessa empreitada? — retrucou Kim.

— Faz o que bem entender — disse Priwinn furioso, e se afastou, deixando Kim para trás com uma terrível sensação de impotência.

O rapaz queria seguir o amigo, mas não o fez. E novamente lutou contra as lágrimas, só que desta vez eram lágrimas de raiva e de impotência. Tudo era tão diferente da sua primeira visita em Märchenmond. Também naquela época a existência dessas terras estava ameaçada, mas pelo menos sabiam quem eram seus inimigos. Realmente, desta vez parecia que aos poucos estavam tornando-se seus próprios inimigos.

— Eu... eu não entendo, senhor — disse o desconhecido com quem Priwinn falara. — Não voltastes para... nos ajudar?

— Claro — respondeu Kim. — Mas eu ainda sei muito pouco sobre os acontecimentos aqui.

O homem ia responder, mas Gorg fez um gesto imperativo:

— Agora vão! Mais tarde conversaremos sobre tudo e aí decidiremos o que fazer. Amanhã, uma hora após o nascer do sol, estaremos em Gorywynn.

Gorg proferiu estas últimas palavras quase aos gritos e os dois homens trataram de sumir dali o mais rápido possível. Rangarig levantou uma pálpebra, soltou um ronco e voltou a dormir.

Depois que os visitantes se foram, passou a reinar um silêncio desagradável, cheio de rancor e raiva, uma situação que deixou o rapaz aborrecido. O gigante e Priwinn eram seus amigos, e se não lhe contaram tudo, certamente não era para traí-lo. Devia haver outras razões. De repente Gorg pegou o rapaz pelo braço e o levou até o dragão.

— Rangarig! — berrou com tanta força que toda a floresta parecia estremecer. — Acorda! Vamos fazer um pequeno vôo de reconhecimento!

Logo depois de o dragão levantar vôo, já estavam pousando de novo, desta vez não muito longe de uma pequena cidade. A escuridão era total, e graças a Gorg, que o segurou, Kim não topou em cheio com um muro totalmente escuro, invisível naquele breu.

— Pst! — fez o gigante, colocando o dedo indicador nos lábios.

— O que é isso? — sussurrou Kim. Gorg levantou os ombros:

— Bem que eu gostaria de poupar-te, mas acho que chegou a hora de conhecer certos fatos. Tu fostes injusto com Priwinn, sabe?

— Então por que ele não fala de uma vez o que está acontecendo aqui?

— E achas que ele não o faria se pudesse? — revidou o gigante.

— Kim quis responder, mas Gorg o impediu com um gesto de mão:

— Não diz nada agora... vem, vou erguer-te para que possas ver o que há do outro lado do muro, terás uma surpresa.

E, realmente, quando as mãos do rapaz tocaram o muro à procura de apoio, notou como era liso e frio, frio demais para ser madeira e liso demais para ser pedra...

— É ferro! — exclamou.

— Silêncio! A cidade toda é de ferro. Mas, fala baixo, por favor. Se eles nos virem, estaremos perdidos.

Kim obedeceu, mas quando Gorg o ergueu ainda mais alto ficou boquiaberto: como dissera o gigante, não só o muro era de ferro, mas a cidade inteira! Incontáveis janelas derramavam uma estranha luz vermelha sobre uma praça bem à frente de Kim, dando a impressão de que ela estava banhada em sangue coagulado. Figuras fantasmagóricas se movimentavam entre os prédios, algumas delas altas e angulosas. Mas também havia sombras pequenas, não maiores que crianças, cujas vozes ressoavam dissonantes na noite.

— Anões! — cochichou Kim.

Gorg, cujos braços começavam a tremer, abanou a grande cabeça:

— É... são os construtores desta cidade e são eles que mandam aqui.

Em algumas casas ouviam-se marteladas rítmicas, acompanhadas por chuviscos de fagulhas. Além disso, o ar estava impregnado pelo cheiro de ferro em brasa.

— Forjas! — constatou Kim, surpreso. — Mas o que eles fabricam aqui?

O gigante, cujos braços já estavam trêmulos, desceu o rapaz com cuidado e depois respondeu:

— Eles fabricam tudo que as pessoas querem: carros, ferramentas, armas...

— Pensei que suas forjas ficassem nas montanhas do Leste.

— A maioria fica lá — confirmou Gorg. — Talvez os homens de ferro sejam fabricados lá, mas esse segredo eles mantêm a sete chaves. A maior parte do tempo eles trabalham aqui, perto de Märchenmond. Desde que os habitantes do castelo de vidro passaram a comprar cada vez mais mercadorias deles, ficou complicado transportar tudo das montanhas até o reino. Ninguém se opôs quando os anões sugeriram construir suas forjas aqui.

Os olhos de Kim deslizaram pelo sinistro muro de ferro, que parecia absorver toda a luz do universo.

— Devias ver este muro durante o dia — murmurou o gigante. — Vem, isto não é tudo que quero te mostrar. Não faz nenhum ruído.

Bastante deprimido, Kim seguiu o gigante. Depois que andaram um bom bocado, Gorg parou e apontou para o chão. Kim se questionou o que seria desta vez, pois a escuridão era total. Mas não demorou muito para notar um clarão avermelhado que parecia sair do centro da Terra, acompanhado por vozes abafadas e pesadas marteladas. Andaram ainda mais, sempre atentos para não fazer nenhum ruído. Depois de alguns instantes, Gorg parou e Kim precisou de todo seu autocontrole para não gritar. À sua frente, no chão, abriu-se um enorme buraco, tão profundo que dava a impressão de que estavam à beira de um vulcão. As figuras que se movimentavam no fundo do poço pareciam bonecos de brinquedo. Kim se pôs de bruços e se arrastou com o máximo cuidado até a beirada. Demorou algum tempo até que o rapaz entendesse o que estava acontecendo lá embaixo. Trabalhadores golpeavam as paredes e o chão do poço com pesados martelos e picaretas. Outros carregavam a rocha assim extraída em pequenos vagões de ferro que, depois de cheios, eram puxados para o alto por cerca de uma dúzia desses homens. Entre eles locomoviam-se homens de ferro e anões que, pelo visto, vigiavam-nos. Vez ou outra se ouviam estalidos como de chicotes.

Sem dúvida aquilo era uma mina! Mas... e os trabalhadores vigiados pelos anões? Seriam escravos?

— São escravos — confirmou Gorg, mal contendo a raiva.

— Escravos? — repetiu o rapaz, incrédulo. — Não acredito! Temístocles jamais permitiria tamanha barbaridade!

— Bem... murmurou Gorg — depende. Tu nos contaste sobre Brobing. Ele comprou um homem de ferro e o anão apareceu para cobrar. Contaste também que o anão ficou um pouco decepcionado quando o camponês lhe pagou a dívida, lembra?

— Claro, mas...

— É isso mesmo — disse o gigante. — Os homens aí embaixo eram clientes dos anões, como Brobing. Compraram homens de ferro e outras quinquilharias. Os anões facilitam a compra, as pessoas podem pagar em prestações ou, se não tiverem o dinheiro, pagam mais tarde. Alguns conseguem, como no caso de Brobing. Mas nem todos têm a mesma sorte. E aqueles que não conseguem saldar suas dívidas... bem, eles têm de trabalhar nas minas até pagar tudo o que devem. E tudo isso para tirar ainda mais ferro da rocha, vender o produto final para os idiotas que, como eu já disse, muitas vezes não conseguem pagar... é um círculo vicioso, Kim.

— Isto é... inacreditável! — murmurou Kim. — E Temístocles não faz nada?

— Não — respondeu Gorg, com profundo amargor. — Acredita, não vai demorar muito para que todo o reino de Märchenmond esteja em poder dos anões. — O gigante se afastou da beira da mina e levantou. — E agora vou te mostrar mais uma coisa — sussurrou.

Na verdade, Kim já não queria ver mais nada, mas Gorg simplesmente foi em frente e o rapaz não teve outra alternativa a não ser segui-lo, se não quisesse ficar sozinho na escuridão.

Perto do rio, chegaram a uma estrada ampla e reta. Primeiro Kim pensou que seguiriam por esta estrada, mas o gigante parou e ficou de cócoras. Sem palavras, apontou para baixo. Ao tocar o chão, o coração do rapaz disparou: a estrada era toda de ferro!

— Vê o mal que eles nos causam? — disse Gorg, cheio de ódio. — Eles matam a terra! Aqui nunca mais vai brotar nada, Kim, não importa quanto tempo passar. Este pedaço de terra está apodrecido e muito mais vai apodrecer se não os detivermos. É isto que Limb quis nos dizer. Eles constroem ruas e estradas de ferro em todo o reino. Constroem cidades de ferro e começam a represar a água para gerar energia hidráulica e com ela mover suas forjas. Queres ver o rio? Eles represaram suas águas com uma parede de ferro e agora seus martelos trabalham dez vezes mais rápido do que antes, mas as terras do outro lado da barreira estão esturricadas. Onde ainda há pouco tempo havia chão fértil para o plantio, em um ano será deserto. Queres ver?

Estupefato, Kim balançou a cabeça. Ele não precisava ver, não havia por que duvidar das palavras do gigante. Ódio e dor eram tão fortes que chegavam a doer.

— Vamos voltar — pediu. — Acho que agora entendo Priwinn. Sem mais palavras tomaram o mesmo caminho de onde vieram.

Quando chegaram perto da mina, Gorg parou e esticou os ombros. Não havia mais tempo para qualquer reação, pois, de repente, apareceram à sua frente, como se tivessem brotado da noite, dois homens de ferro e um anão.

Num primeiro momento o anão ficou não menos surpreso do que Kim e o gigante. Mas depois começou a vociferar:

— O que fazeis aqui? — gritou com voz estridente. — Por que não estais trabalhando e... — Quando se deu conta de quem eram eles, o anão esbravejou: — Ah! Os rebeldes! — E voltou-se para os homens de ferro: — Peguem-nos!

Os monstros atacaram o gigante, enquanto o anão desembainhou uma espada tão pequena que mais parecia um punhal e arremessou contra Kim, que desviou habilmente, agarrou-o com a mão esquerda e com a direita lhe deu tamanha surra que o pequeno soltou a arma das mãos e caiu sentado.

Quanto ao gigante, desprovido da sua clava, lutava apenas com as mãos, uma luta nada fácil até para um gigante. Gorg jogou um monstro contra o outro até que um deles perdeu um braço, o que acabou servindo de clava ao gigante. E ele soube aproveitar muito bem a sua nova arma! Passou a golpear os robôs com pancadas incessantes até que eles não resistiram e ficaram reduzidos a peças avulsas, espalhadas pelo chão.

Kim se divertiu ao ver que os olhos do anão quase saltaram das órbitas. Pelo visto, pensara que seus guarda-costas fossem imbatíveis.

— E então? — perguntou Kim.

— Corja imunda! — arfou o anão. — Ladrões! Vão pagar caro!

— Não vamos pagar nada — revidou o gigante. — O serviço é gratuito.

Kim se debruçou para frente, o dedo no nariz do anão:

— Você é que vai responder a algumas perguntas e é bom não mentir, senão meu amigo gigante vai entrar em ação.

Nesse instante Gorg fez uma cara tão feia que até Kim se assustou.

— Pois bem — começou o rapaz, sem rodeios. — O que aconteceu com as crianças desaparecidas?

— Crianças? — murmurou o anão e engoliu em seco. — Odiamos crianças, não temos nada a ver com crianças... ai!

Gorg, com dois dedos, puxou o pequeno homem pelo pé direito, ergueu-o para o alto e fez menção de soltá-lo para que despencasse de três metros de altura.

— Não é o que eu quis ouvir — disse Kim. Com um olhar, pediu a Gorg que não o machucasse.

O gigante acenou com a cabeça e começou a chacoalhar o anão até que seus dentes começassem a bater.

— Me solta! — berrou o anão.

— Com prazer — disse Gorg, e soltou.

O anão gritou feito louco e, no último momento, antes de se estatelar no chão, Gorg o pegou.

— E então? — recomeçou Kim.

— As cavernas! — chorou o anão — as crianças estão nas cavernas. Elas...

De repente, a noite ao redor deles se encheu de movimento! Gorg gritou de dor e susto quando uma mão escavadora acertou sua nuca. O gigante cambaleou, soltou o anão e caiu de joelhos. Um segundo homem de ferro lhe deu um chute que o derrubou de vez.

Dois robôs atacaram o rapaz que, apesar de desviar do golpe brutal, não conseguiu evitar que as terríveis garras lhe arrancassem um pedaço de pele. Kim gritou de dor e ao cair esbarrou na pequena espada que o anão deixara cair. Instintivamente o rapaz pegou na arma e, quando o homem de ferro se debruçou para lhe dar o derradeiro golpe, enfiou a lâmina no olho dele. O monstro ergueu os braços e se estatelou no chão, levando consigo o outro.

Também Gorg havia conseguido dar cabo de seus adversários e estava em pé outra vez. Mas a luta não tinha terminado, ao contrário, mais homens de ferro brotaram da noite e ficou cada vez mais difícil escapar de suas terríveis garras. Gorg acabou com quatro ou cinco, mas para cada monstro que destruía apareciam outros três.

Gorg e Kim foram impelidos, passo a passo, para a direção da mina. O anão incentivava seu exército de ferro com gritos estridentes:

— Acabem com o gigante... mas o menino eu quero vivo!

— Nem vivo nem morto! — retumbou Gorg, agarrando um dos monstros e, com imenso esforço, lançando-o contra os demais. Com o impacto, cinco ou seis se despedaçaram.

Mas Kim e Gorg teriam perdido a luta, pois o número de robôs aumentava a cada minuto e agora eles vinham acompanhados pelos anões que, com gritos estridentes, erguiam suas pequenas espadas. Porém, surgiu a salvação inesperada: de repente, ouviu-se um forte farfalhar e antes que Kim entendesse o que estava se passando, apareceu o gigantesco dragão dourado! Um horripilante bramido agitou os ares e até os homens de ferro vacilaram.

Rangarig despencou da noite como um projétil, e suas asas titânicas provocaram um furacão que arrancou dos pés não só Kim e os anões, como também Gorg. Os homens de ferro, pesados demais, permaneceram de pé, mas acabaram esmagados pelas asas gigantes. Os que escaparam foram destruídos pelas garras e pela cauda do dragão.

Rangarig parecia um demônio enfurecido: seus poderosos maxilares trituravam, suas garras despedaçavam e um único golpe de sua cauda jogou meia dúzia de monstros de uma só vez no fundo da mina. Não demorou nem um minuto e a luta estava terminada. Não sobrou um único homem de ferro!

Kim levantou cambaleando e quis agarrar o anão, mas Gorg o impediu:

— Deixa — disse o gigante, apressado. — Eles vão mandar reforço. Rangarig não pode enfrentar milhares deles! Depressa!

Kim ainda hesitou. Duvidava que o dragão não pudesse acabar com todos eles! Mas algo no comportamento de Gorg lhe dizia que esse não era o único motivo para tanta pressa. Lançou um último olhar ameaçador para o anão e montou no lombo do dragão, cuja cauda ainda açoitava o ar.

— Quero acabar com eles! — espumou Rangarig, raivoso.

Kim estremeceu, pois Rangarig se transformara em um animal selvagem que sentia gosto de sangue. E, ao se agarrar às escamas enormes do dragão, sentiu medo. Rangarig, no entanto, levantou vôo e desapareceu na noite feito uma flecha dourada.

 

Quando voltaram à clareira, Kim reportou a Priwinn o acontecido. No entanto, o que surpreendeu o garoto, o príncipe apenas comentou laconicamente: — Não foi boa idéia, mas agora pelo menos tu sabes o que está acontecendo.

Não havia tempo para comentários mais longos, pois, ao encostar no chão, Rangarig imediatamente levantou vôo, desta vez para o Sul, na direção do lago em cujas margens ficava o castelo vítreo de Gorywynn. Não fazia mais sentido se esconder, comentou Priwinn. Além do mais, em Gorywynn estariam mais seguros do que na floresta, onde, com certeza, em breve seriam descobertos pelos anões e seus fiéis homens de ferro.

Era quase meia-noite mas a cidade, em cujo centro se localizava o castelo, estava toda iluminada. Primeiro viram apenas um fraco arder multicolorido, depois um brilhar reluzente em todas as cores do arco-íris e, finalmente, uma composição estonteante de torres pontiagudas, muros poderosos e ameias, um diamante gigantesco de mil cores às margens do lago, como se fosse uma estrela mágica que caíra do céu. De asas bem abertas, Rangarig sobrevoou a cidade, onde, apesar do horário, ainda reinava intenso movimento nas ruas.

Uma profunda alegria se apossou do rapaz, enquanto o dragão voava em círculos cada vez mais fechados à procura de um lugar adequado para pousar. Kim estivera em Märchenmond uma única vez, quando havia combatido as forças do cruel mágico Boraas. No seu íntimo sabia que agora novos terrores o aguardavam, mas, mesmo assim, era como se estivesse chegando em casa. Ele estava ansioso para rever Temístocles, não importava sob quais condições. Priwinn fez um sinal para o dragão, pedindo-lhe que não pousasse diante dos portões da cidade e sim em um local mais afastado, para não serem vistos.

— O que significa isso agora? — irritou-se Kim.

O príncipe não respondeu, e quando Rangarig finalmente pousou, o dragão esperou até que os dois rapazes se afastassem um pouco para, imediatamente, levantar vôo e mais uma vez desaparecer na noite. Levou consigo o gigante Gorg, o que deixou Kim, ainda sem resposta à sua pergunta, bastante preocupado.

— Por que Gorg não ficou com a gente?

— Gorg chamaria muita atenção. — respondeu o príncipe, com um suspiro. — Além disso, é melhor que um de nós fique do lado de fora, se precisarmos de ajuda. Ninguém sabe o que nos espera na cidade.

Ainda cismado, Kim quis argumentar, mas acabou desistindo, pois Priwinn enfiou a mão na sacola que carregava consigo e tirou uma manta já bastante rota que colocou sobre os ombros.

Guardou o capacete e as luvas da sua armadura negra e, por fim, ainda escondeu a espada por debaixo da capa sebenta. Depois, para completar o disfarce, apanhou sujeira do chão e esfregou no rosto. Agora parecia mais um mendigo do que o príncipe de Caivallon. Pelo visto, fazia questão absoluta de não ser reconhecido em Märchenmond!

Priwinn encarou o amigo com olhar embaraçoso e o que viu parecia tranqüilizá-lo, pois naquele momento as roupas de Kim eram apenas trapos. Com a cabeça apontou para o punhal do anão que Kim enfiara por debaixo do cinto:

— É melhor escondê-lo — recomendou. — Meninos de rua não possuem armas tão valiosas.

Surpreso, Kim seguiu o conselho do príncipe. Aos seus olhos, a arma do anão era de pouco ou nenhum valor.

— Cuida bem dela — recomendou Priwinn, sério. — A lâmina foi feita nas cavernas dos anões. — E tocou na espada escondida debaixo de sua manta: — Com exceção da minha espada, só as armas dos anões têm o poder de quebrar as chapas blindadas de que são feitos os homens de ferro.

Kim lembrou com que facilidade a lâmina finíssima atravessara as chapas de ferro e como o efeito fora devastador para os robôs. Em seguida, os dois amigos se puseram a caminho dos portões de Märchenmond.

Como Rangarig os deixara a uma boa distância, levaram algum tempo para chegar ao seu destino. A euforia do reencontro com a terra dos seus sonhos recebeu o primeiro balde de água fria quando se viu diante dos portões fechados. Os portões de Gorywynn só estiveram fechados uma única vez, durante o cerco à cidade realizado pelos cavaleiros negros do mago Boraas.

Não tardaria para que viesse outro susto: o vidro multicolorido do portão, outrora charmoso e delicado, fora substituído por ferro! Agora era um portão feio, grande e pesado, e tão maciço que dava a impressão de resistir até mesmo a um tiro de canhão. Estava todo coberto com enormes rebites, cujas extremidades eram guarnecidas com barbelas espinhosas. Embutido na parede de cristal reluzente que cercava o castelo, o portão parecia uma grande e horrenda cicatriz.

Devem ter sido vistos, pois ao se aproximarem Kim notou um movimento furtivo por detrás do muro cristalino, um pouco transparente. Não obstante, o portão continuava fechado! Quando estavam quase encostando no portão, abriu-se uma pequena portinhola, quase despercebida, e um par de olhos negros encarou-os com desconfiança. Uma voz rude perguntou:

— Quem é?

Kim ia responder, mas Priwinn o fez calar com um ligeiro sinal e deu dois passos para frente:

— Dois viajantes cansados e famintos à procura de um lugar para passar a noite!

— Para passar a noite? Chegaram tarde! Voltem ao amanhecer... ou melhor, não voltem nunca mais! Aqui não é lugar para pedintes e vagabundos.

— Não somos pedintes — disse Priwinn e, como num passe de mágica, tirou do bolso uma moeda de ouro. — Podemos pagar pela hospedagem. Veja!

Os olhos negros brilharam, hipnotizados, diante da moeda. Em seguida, a portinhola fechou-se com um estampido e não demorou muito para que uma porta baixa nos flancos do imenso portão de ferro se abrisse. Uma mão enluvada lhes acenou com gestos impacientes e arrancou a moeda das mãos de Priwinn, quando este, seguido por Kim, curvou-se para passar pela porta.

Uma luz suave, rósea, os recebeu quando pisaram no mosaico vítreo das ruas de Gorywynn. Não era o mesmo lugar que povoava a lembrança de Kim, algo havia mudado! Da última vez que estivera em Gorywynn Kim não sentiu tanto frio como agora e demorou alguns instantes para que ele percebesse que o sopro gelado vinha do seu íntimo, das profundezas de sua alma!

O homem que abriu a porta era um soldado alto, de cabelos grisalhos e rosto embrutecido. A espada que lhe caía da cintura deu mostras de que fora bastante usada e que não estava lá para simples enfeite. Seu olhar era pura falsidade e ganância. Estava na companhia de mais três homens armados que não tiravam os olhos dos dois amigos. Desde quando Gorywynn precisava de guardas armados?

— E o teu amigo? — perguntou o soldado grisalho. — Ele também pode pagar?

Kim sentiu o sangue ferver de tanta raiva e antes que Priwinn pudesse impedir, perguntou:

— Desde quando é preciso pagar para entrar em Gorywynn?

O príncipe lançou um olhar quase desesperado para Kim e, mais que depressa, enfiou a mão no bolso e tirou outra moeda de ouro, que entregou ao soldado:

— Eu pago por ele. Por favor, perdoai o meu amigo, faz um bom tempo que não vem aqui e não está familiarizado com os costumes.

— É o que parece — disse o homem, mal-humorado.

A moeda desapareceu tão rapidamente como a primeira, mas o olhar continuava desconfiado:

— Quem é esse sujeito petulante?

Priwinn se apressou em acalmar o homem grisalho, enquanto lançava outro olhar de súplica na direção do amigo:

— Apenas um jovem aparvalhado do campo, senhor. — E antes que o soldado pudesse fazer mais perguntas, acrescentou: — Poderíeis nos indicar alguma hospedaria? Não gostaríamos de pernoitar nas ruas.

Depois que Priwinn lhe deu uma terceira moeda de ouro, o soldado se dignou a dar a informação desejada:

— Procurem Grodler, meu cunhado. Digam-lhe que fui eu quem os enviei e ele lhes dará um quarto... isto é, se puderem pagar, claro. Sigam por esta rua, é a hospedaria Novilho de Ouro, não tem como passar despercebida.

— Eu vos agradeço, senhor — disse Priwinn, fingindo-se submisso. Agarrou Kim pelo braço e o arrastou quase à força.

Atravessaram a grande praça ao lado do portão e entraram na rua indicada pelo soldado. Kim resistiu à tentação de se virar para olhar para trás, pois instintivamente sabia que os homens os seguiam com os olhos.

— Enlouqueceste? — sussurrou Priwinn, ainda agarrado ao braço do amigo. — Queres que nos joguem na torre?

— Torre? — repetiu Kim, injuriado. — Não fizemos nada!

— Silêncio! — fez Priwinn. — Guarda bem o que vou dizer: ser jogado na torre é mais fácil do que pensas e uma vez lá dentro tu não sais mais! E agora cale-te, não quero chamar a atenção de mais ninguém.

De fato, despertaram a curiosidade de algumas pessoas que cruzaram seu caminho. Kim tentou ignorá-las, mas a sensação nada agradável de que todos os seguiam com os olhos permaneceu.

Mas assustado de verdade ficou quando descobriu alguns anões em meio à multidão que passava por eles. Priwinn lhe sussurrou desesperadamente que se controlasse, e Kim se esforçou para dominar o ódio que o corroia por dentro. Pelo menos até agora não depararam com nenhum homem de ferro, o que, no entanto, não significava nada, pois Priwinn o alertara de que os robôs também estavam em Gorywynn, se bem que, talvez, não em número tão grande como em outras partes de Märchenmond.

Não foi difícil encontrar a Novilho de Ouro que o soldado recomendara, mas o príncipe, para alívio de Kim, não entrou. Da porta escancarada ouviram uma gritaria e muitas risadas, não do tipo alegre e sim bastante vulgar.

— Divertido, não é mesmo? — comentou Priwinn, com amargura. — Infelizmente não temos tempo, senão eu te mostraria uma série de outras coisas nada alegres. Gorywynn realmente mudou!

— Isso é... terrível — sussurrou Kim.

— E isso não é tudo — disse Priwinn. — Olha para o alto. Kim seguiu a direção apontada pelo príncipe e não viu nada de imediato. Em contrapartida, o que avistou depois o deixou ainda mais triste: no alto erguia-se uma grande torre truncada, cujas paredes pareciam absorver a suave luz da cidade vítrea. Não precisava nem perguntar para saber que era de ferro!

— Para onde vamos? — perguntou Kim, deprimido, depois de terem caminhado por algum tempo em silêncio.

— Para o palácio — respondeu Priwinn. — Temos de descobrir o paradeiro de Temístocles. Talvez eles o mantenham prisioneiro. Precisamos nos apressar, não me surpreenderia se o homem do portão estivesse nos seguindo para certificar-se de que realmente vamos nos hospedar na Novilho de Ouro. Eles são muito desconfiados com os forasteiros.

A cada passo Kim descobria novos horrores. Em algumas ruas o cristal cedera lugar ao ferro e também as portas de muitas casas já não eram de vidro. Vez ou outra cruzavam com anões e a cada passo ficava mais difícil para Kim se controlar. O que mais desejava neste momento era dar vazão à sua raiva e também à tristeza pela terrível transformação que se operava em Gorywynn.

Quando se aproximaram do palácio, Priwinn diminuiu o passo. A gigantesca torre subdividida em compartimentos se erguia, majestosa, sobre as ameias. Era a mais alta construção da cidade e, por sorte, o onipresente ferro ainda não tinha chegado até aqui. Mas o brilho que as paredes vítreas do castelo irradiavam outrora já não era o mesmo, perdera a suavidade!

— Como vamos entrar? — perguntou Kim. Priwinn deu de ombros:

— Não vai ser nada fácil. Tu viste os soldados quando entramos. O palácio provavelmente tem um número muito maior de guardas. Nem mesmo os moradores da cidade podem entrar sem permissão.

Kim lembrou da primeira vez que esteve em Gorywynn. Naquela época não havia portas fechadas, o castelo e a cidade formavam uma unidade. Todo visitante era bem-vindo. Desta vez, no entanto, tinham de quebrar a cabeça para planejar como entrariam despercebidos num prédio todo de vidro!

Mas o acaso os favoreceu! Priwinn pegou Kim pelo braço e o puxou para um beco entre duas casas. Logo depois, passou por eles, aos trancos e barrancos, um carro puxado por dois burros guiados por um anão com um chicote. Não havia tempo para pensar ou discutir. Sem pestanejar, quase que instintivamente, os dois amigos pularam sobre o carro e se cobriram com uma lona suja e malcheirosa.

— E se ele não entrar no castelo? — sussurrou Kim.

Não dava para ver o rosto do príncipe debaixo da lona, mas Kim sentiu que ele estava gesticulando:

— Podemos ter sorte, não é? — cochichou o príncipe.

E, realmente, em pouco tempo o carro parou com um solavanco e os dois ouviram uma grande porta se abrir. Após mais solavancos e balanços o carro parou, desta vez definitivamente. Andaram apenas alguns minutos no carro puxado pelos burros, mas o tempo debaixo da lona lhes parecia uma eternidade. Finalmente, as vozes foram se afastando e depois de mais alguns segundos Priwinn arriscou levantar uma ponta da lona para espiar.

— Vem, rápido! — ordenou.

Os dois pularam da carroça e atravessaram, às escondidas, o pátio do castelo. Ali nada havia mudado, por isso não foi difícil se orientar. Entraram no prédio principal por uma estreita porta lateral e Kim lembrou que ela conduzia à cozinha e às despensas.

A grande cozinha, repleta de fogareiros, armários, prateleiras com panelas e caçarolas, estava totalmente vazia. No ar havia um cheiro desagradável de comida estragada e água parada. Kim notou uma fina camada de poeira sobre os móveis e o chão. Pelo visto, a cozinha e seus utensílios não eram usados há um bom tempo.

— E agora? — perguntou Kim, depois que atravessaram a cozinha. Estavam em um estreito vão de escada. Por um momento Priwinn parecia indeciso, depois apontou para o alto:

— Acho que esta é a escada para as dependências dos serviçais — disse. — Se tivermos sorte, encontraremos o caminho que nos levará a Temístocles.

Mas não foi tão fácil assim. A escada, como Priwinn suspeitara, estava realmente destinada à criadagem, mas ela levava a um verdadeiro labirinto de corredores e escadarias, e eles abriram meia dúzia de portas apenas para descobrir quartos vazios e empoeirados.

Aliás, o que mais havia eram quartos vazios e malcheirosos. Tudo parecia abandonado há séculos. Kim fez um comentário a respeito, mas Priwinn só deu de ombros.

Finalmente, encontraram um quarto que não transmitia a impressão de abandono total. Indecisos e um pouco hesitantes, eles demoraram alguns instantes para entrar.

Era um aposento grande, arredondado, com janelas para todos os lados, o que levava a crer que estavam na torre do castelo. Valiosos tapetes cobriam o chão e as paredes. Fora isso, havia apenas uma cama estreita, uma mesa simples e um grande baú de carvalho. Ao lado de uma das janelas havia uma grande cadeira, talhada de um único bloco de madeira. O encosto alto lhes tapava a visão e não dava para saber se havia alguém sentado nela.

Kim olhou ao redor e Priwinn fez uma careta:

— Não entendo... deve ser o quarto de Temístocles, ouvi dizer que fica debaixo da torre... esperava encontrá-lo aqui. — O príncipe suspirou fundo: — Acho que...

— Estais certíssimo, príncipe — interrompeu-o uma voz. Kim e o príncipe se voltaram, sobressaltados.

A mão do cavaleiro das estepes agarrou o cabo do punhal debaixo da manta e também Kim, quase que instintivamente, tocou o punhal do anão sob a camisa. Alguém estava sentado na cadeira! Um homem todo de branco — o cabelo, a sobrancelha, a barba e a túnica — levantou. Um homem muito velho, os ombros curvados sob o peso de um fardo invisível, mas que ainda demonstrava a mesma grandeza de outrora, cujos olhos não haviam perdido o brilho suave e acolhedor que lhe era peculiar!

— Temístocles! — exclamou Kim, comovido. — Você está vivo! O homem velho esboçou um sorriso meigo:

— E por que não estaria vivo? Não sou eterno, mas ainda não chegou a minha hora, apesar de algumas pessoas acharem que já estou caduco.

Com estas palavras o homem se dirigiu ao príncipe, que olhava hipnotizado para o mago. Quando viu a mão do príncipe ainda segurando o cabo da espada, Temístocles franziu a testa:

— Priwinn, Priwinn — disse, balançando a cabeça. — Ainda não aprendestes. Sois esquentado como o vosso pai, quando ele tinha a vossa idade. E, pelo que sei, ele continua o mesmo. Por que viestes até aqui armado e pela porta dos fundos, como um ladrão?

O príncipe ignorou a pergunta do velho mago:

— Não estais... preso?

— Preso? — riu Temístocles. — Aqui, príncipe? No meu castelo? Quem iria me aprisionar em Gorywynn, onde só tenho amigos?

— Então saiba que os vossos amigos exigem um pagamento em ouro para permitir a entrada na cidade!

Temístocles suspirou:

— É... já me disseram. Os tempos estão difíceis, muita coisa mudou. O mago suspirou outra vez e voltou para sua cadeira. Com um gesto cansado apontou para a mesa:

— Sentai-vos, amigos. Gostaria de vos oferecer algo, mas os criados estão dormindo.

Kim pensou na cozinha abandonada e nos quartos empoeirados que viu pelo caminho. O comportamento do mago era deveras estranho! Trocou um olhar preocupado com o príncipe e sentou-se à mesa, como pediu Temístocles.

— Então voltaste — constatou o velho mago, dirigindo-se a Kim. — Estou feliz, acredite. Faz muito tempo que nos visitaste, meu jovem amigo. A tua irmã também veio?

Cada vez mais confuso, Kim olhou para o príncipe, cuja expressão dava a entender que ele devia se controlar.

— Infelizmente ela não pôde vir — respondeu Kim, sem entender nada.

— Que pena — disse Temístocles, e depois fechou os olhos.

Por um bom tempo imperou o silêncio e Kim se perguntou se Temístocles teria adormecido, como era comum acontecer com pessoas idosas, que dormiam no meio de uma conversa. Mas Temístocles abriu os olhos e perguntou:

— O que o traz aqui, Kim? O caminho para Märchenmond é longo e complicado. Vieste para visitar velhos amigos, ou existe outra razão? Há alguma coisa errada no mundo de onde vens?

— Sim... não... quer dizer... — respondeu Kim, atrapalhado. — Pensei que Märchenmond precisasse de ajuda.

— Nós? — perguntou Temístocles sorrindo. — Por que necessitaríamos de ajuda? Está tudo em ordem, não é mesmo, meu amigo Priwinn?

O rosto do príncipe se anuviou:

— Nada está em ordem — irritou-se. — E Sabeis muito bem disso, Temístocles! Por acaso quereis zombar de mim?

O velho mago admirou-se:

— Não entendo, meu amigo. O que quereis dizer com isso?

O príncipe ficou furioso e quis dar uma resposta áspera, mas Kim o deteve com um gesto e depois disse para Temístocles:

— Temístocles, você me chamou há poucos dias, lembra?

— Eu te chamei?

— Sim, na frente do hospital — disse Kim, quase desesperado com a indiferença do mago. O que estava acontecendo com seu velho amigo Temístocles? — Tente lembrar, por favor! — implorou o rapaz. — Um menino de Caivallon apareceu de repente. E logo depois vi a sua imagem no vidro do café... não se lembra? Você parecia ter medo.

Temístocles tinha o semblante bastante confuso, mas, de súbito, os rapazes presenciaram uma cena realmente arrepiante: o rosto do mago parecia desfalecer, seus olhos perderam todo o brilho, seu queixo caiu, como se ele tivesse perdido o controle sobre o corpo. Ele começou a cambalear e Kim estava prestes a dar um pulo para segurá-lo caso caísse. Mas não foi necessário, pois a terrível transformação desapareceu no mesmo instante e Temístocles voltou a ser o imponente e sábio protetor de Märchenmond que Kim guardara na lembrança. O homem senil que quase levara os rapazes ao desespero havia desaparecido!

— Deuses da eternidade! — exclamou Temístocles —, o que está se passando comigo?

Passou as mãos trêmulas no rosto e nos cabelos e depois olhou para os dedos como para certificar-se de sua própria identidade.

— Estais bem, Temístocles? — perguntou Priwinn, atônito. Temístocles inclinou a cabeça:

— Estou... agora estou bem. O que aconteceu?

— Você estava... esquisito — disse Kim. O mago repetiu com tristeza:

— Esquisito. É a palavra certa, é assim que me sinto às vezes. — Seu rosto se anuviou: — Eu parecia um homem muito velho e cansado, não é? — Sem graça e sem saber o que dizer, os rapazes permaneceram mudos. Mas Temístocles insistiu: — Um homem velho e cansado, não é?

— Sim... — respondeu Kim, sem coragem de encarar o mago de :rente.

Primeiro Kelhim, depois Rangarig e agora também Temístocles, era demais!

— É isso mesmo — disse o mago, que lera os pensamentos do rapaz. — É exatamente o que estás pensando, Kim. A magia está se apagando.

— Não com você! — exclamou Kim, sem conter o desespero que o invadira.

Temístocles esboçou um sorriso amargo:

— São os magos os primeiros a sentir quando a magia desaparece em um país.

— O que está acontecendo em Märchenmond? — perguntou Kim, com lágrimas nos olhos.

— Não sabemos — respondeu Temístocles. Depois fez um gesto e, com voz firme, continuou: — Nosso tempo é escasso, não podemos desperdiçá-lo com conversas vãs!

Kim respirou aliviado. Esse era o mago forte e determinado que conhecera! Temístocles voltou a ser ele mesmo! Com palavras breves reportou ao mago as aventuras que vivenciara nos últimos dias. Temístocles ouviu até o fim, sem interromper. Mas quando Kim disse que acreditava que os anões das montanhas do Leste eram os responsáveis pelo desaparecimento das crianças, o velho mago se mostrou cético.

— Muitos pensam assim — disse Temístocles lançando um olhar para Priwinn. — Mas, acredita, os anões não têm nada a ver com essas crianças desaparecidas. Se fosse tão fácil já teríamos desvendado esse mistério.

— Mas o anão admitiu a culpa! — exaltou-se Priwinn. Temístocles sorriu:

— Dizei-me, Príncipe de Caivallon, se um gigante vos pegasse pela perna e chacoalhasse feito um saco de batatas, com certeza admitiríeis qualquer coisa só para escapardes, não é mesmo?

— Acho que Priwinn tem razão — manifestou-se Kim. — Märchenmond está em ruínas, Temístocles. Quando estive aqui pela primeira vez, tudo era diferente. Homens, animais e plantas formavam uma comunidade pacífica e... não havia homens de ferro!

— Achas que já não pensei em tudo isso? — perguntou Temístocles, com tristeza. — Sabes de uma coisa, Kim? Priwinn e seus amigos esquentados querem responsabilizar os anões por tudo o que está acontecendo, mas, acredite, não são eles os responsáveis pelas mudanças.

— Os anões são nojentos! — enfatizou Priwinn.

— Pode até ser — disse Temístocles. — Eles provavelmente também não vos admiram. Mas pensai bem, Priwinn, a desgraça aqui em Märchenmond começou antes do aparecimento dos anões.

— E as minas? — lembrou Kim. — Elas destroem as terras, Temístocles. Os anões constroem ruas de ferro e acabam com os rios.

— Não são os anões, meu jovem amigo — disse Temístocles. Ele suspirou fundo, seu olhar se perdeu no vazio e apontou para uma das muitas janelas: — Muitas vezes eu olho por estas janelas, Kim. É claro que vejo o que está acontecendo com as terras de Märchenmond. Vejo o que vistes e muito mais. O encanto está se apagando, Kim, esta é a verdade. Mas não são os anões que roubam o encanto e a magia. Os anões estão aqui porque foram chamados pelos habitantes de Märchenmond. Eles não entraram à força, homens e mulheres os procuraram e os trouxeram. Talvez estejam matando nosso mundo, mas o fazem porque as pessoas daqui o permitem.

— Isso não é verdade, Temístocles — protestou Priwinn. — Não vai demorar muito e todo o reino de Märchenmond será de ferro!

— É — concordou Temístocles, pesaroso. — Mas isto aconteceu porque o coração do povo endureceu como ferro e se tornou frio como pedra. Será que as crianças realmente desapareceram? Talvez elas tenham simplesmente fugido...

— É só isso que você tem a dizer? — revoltou-se Kim.

— E o que deveria eu dizer, pequeno herói? — replicou Temístocles.

— Eu... eu não sei — disse Kim, com um suspiro. — Pensei que... bem, achei que nós poderíamos lutar juntos contra o inimigo que ameaça Märchenmond, como já fizemos antes, lembra?

— Lutar? — O olhar de Temístocles girou sobre a armadura negra que Priwinn ainda vestia e se deteve em Kim, que escondia o punhal do anão debaixo da camisa. — Como teu amigo, que pega em armas com a maior facilidade? Não, Kim. O inimigo que nos ameaça desta vez não vem de fora, ele está dentro de nós. O tempo do encanto e da magia simplesmente passou. Talvez em breve Märchenmond não seja mais a terra dos sonhos e dos contos de fada. Se assim desejam seus habitantes, não tenho o direito e nem o poder de impedir. Estou ficando velho e cansado. Não posso ajudá-los.

— Não falais a verdade! — exaltou-se Priwinn. — Nem todos em Märchenmond concordam com o que está acontecendo! Nem todos querem que o encanto acabe.

— Eu sei — concordou Temístocles. — Vós quereis a luta, mas este caminho não levará a lugar algum. Não posso proteger-vos eternamente. Além disso... o que podeis fazer? Forçar as pessoas a voltarem para sua vida anterior?

— Se for preciso, é isso que faremos! — respondeu o jovem príncipe, decidido.

— E se não for isso o que elas querem? Ansiais por uma guerra? Quereis ver irmão lutar contra irmão, pai contra filho? Não é a solução, príncipe!

— Então me apontai outra! — exigiu o príncipe.

— Não posso — revidou Temístocles.

— E... se eu pedisse a ajuda do Rei do Arco-íris, como já fiz da outra vez? — sugeriu Kim.

Priwinn olhou para o amigo, surpreso. Temístocles, no entanto, não demonstrou o menor interesse. Apenas deu de ombros:

— Seria inútil — disse. — O Rei do Arco-íris foi bastante solidário conosco, mas agora nem mesmo ele pode nos ajudar.

— E por que chamastes o nosso amigo Kim? — exaltou-se o príncipe, inconformado com a indiferença do mago.

— Ele pode decifrar a resposta — respondeu Temístocles. — Ainda não sabe como, mas a solução para todos os mistérios está escondida nas profundezas da sua alma. E vossa missão, Príncipe de Caivallon, é ajudá-lo a encontrar a resposta.

Não deu tempo para dizer mais nada, pois alguém do lado de fora bateu com força à porta, exigindo, com voz autoritária, que pudesse entrar. Kim e o príncipe trocaram olhares aflitos e fizeram menção de se levantar, mas Temístocles os acalmou. Em tom alto, porém sereno, falou:

— Pois não?

A porta foi aberta com um solavanco e dois homens uniformizados entraram de maneira bastante impetuosa. Estavam acompanhados por uma figurinha magra, do tamanho de uma criança, de rosto afilado e sujo. Kim e o príncipe levantaram de um pulo: era o anão contra quem Kim e Gorg haviam lutado e que, por pouco, não dera cabo deles!

Praguejando, Priwinn desembainhou sua espada e também Kim puxou a arma debaixo da camisa. O anão recuou com um gritinho assustado, enquanto os dois homens também fizeram menção de puxar suas espadas.

— Guardem as armas! — ordenou Temístocles em tom de comando, e em sua voz firme e enérgica não havia o menor sinal de velhice ou cansaço.

Kim guardou o punhal quase que instintivamente. Priwinn e os dois soldados também baixaram as armas.

—Quem sois vós? O que quereis? Que bicho vos mordeu?

— Queremos estes dois! — berrou o anão. — São eles! Peguem-nos! Exijo a imediata prisão desses forasteiros!

— Aqui não podeis exigir nada, anão! — bradou Temístocles. Os olhos do mago pareciam lampejar de raiva e o anão recuou dois passos. — Eles são meus hóspedes! Pelo que me lembro, não vos convidei, portanto, deveis manter o controle!

Já mais calmo, porém ainda em tom áspero e autoritário, dirigiu-se aos soldados:

— O que significa isso, capitão?

O soldado, visivelmente embaraçado, guardou a arma:

— Desculpai, senhor — disse, sem jeito. — Mas... este anão veio com uma série de acusações contra estes dois aí.

— Que tipo de acusações? — indagou Temístocles.

O anão esticou o dedo preto de tanta sujeira e apontou para Kim:

— Esse aí e um gigante atacaram a mim e a meus amigos, destruíram muitos dos nossos homens de ferro e, se não tivéssemos fugido, teriam nos matado a todos. Estávamos trabalhando quando eles apareceram e nos atacaram a pauladas, sem motivo algum!

Temístocles soltou uma risadinha:

— Este menino?! Contra doze homens de ferro? Estás brincando?

— Ele estava na companhia de um gigante, como já disse — protestou o anão. — Além disso, ainda apareceu um dragão alado.

— Certamente — disse Temístocles, muito calmo. — Eu os conheço.

O anão estava furioso:

— Eu exijo os meus direitos! Eles têm de pagar pelos danos que causaram!

— Se é só isso...

Temístocles fez alguns sinais com a mão esquerda, e de repente apareceu no ar uma barra de ouro do tamanho de sua mão, bem diante do anão.

— Acho que isto é mais do que suficiente para compensá-los pelos danos.

Ávido, o anão se apossou da barra de ouro para guardá-la na bolsa. Mas o tecido da bolsa não agüentou o peso do metal e arrebentou, deixando a barra cair aos seus pés, e ele aos berros começou a pular com uma perna só. Apenas com grande esforço Kim conseguiu conter o riso e até os dois soldados quase caíram na gargalhada. Temístocles, porém, continuou sério:

— O teu problema está resolvido? — perguntou.

— Não — resmungou o anão, depois que se acalmou e guardou devidamente o ouro. Com um gesto acusatório apontou para Kim: — Então admites a culpa deste sujeito? Exijo que ele me seja entregue. Também exijo a prisão do outro, sei que ele faz parte dos rebeldes que vivem nas florestas e que atacam nossas minas.

— Isto é verdade? — perguntou Temístocles, voltando-se para Priwinn.

— Bobagem — respondeu Priwinn. — Nós não vivemos nas florestas.

— Ouviste? — disse Temístocles. — É bobagem!

O anão bufou de raiva e se dirigiu aos dois soldados:

— Exijo meus direitos, capitão! — vociferou. — Os dois nos atacaram de modo traiçoeiro! Por acaso os anões valem menos do que os outros? Será que podem ser atacados impunemente?

O capitão, cada vez mais constrangido e pouco à vontade, voltou-se para Temístocles, mas baixou os olhos ao falar:

— Perdão, senhor, mas se o anão estiver falando a verdade... devo levar os dois. Afinal, eles cometeram um crime.

— Não cometemos crime algum! — exclamou Kim. — Foi o anão que nos atacou, nós apenas nos defendemos!

— Ouvistes bem? — berrou o anão. — Ele admitiu! Temístocles não respondeu e quando Kim se virou para ele, levou o maior susto: o mago piscou com os olhos e parecia ter alguma dificuldade em se concentrar. Mas, reunindo todas as suas forças, conseguiu mais uma vez retomar sua antiga personalidade:

— Se eles realmente forem culpados, capitão, eu próprio me encarrego de julgá-los. Ou duvidas do meu senso crítico?

— Claro que não, senhor — o soldado apressou-se em dizer. — Perdão.

Um pouco trêmulo e no limite de suas forças, Temístocles fez um gesto:

— Tudo bem... agora podeis ir! Vou ouvir o que estes dois têm a dizer sobre o acontecido e depois decidirei o que fazer. Levai convosco esta criatura horrenda, antes que eu o transforme em sapo!

Os soldados arregalaram os olhos e o anão abriu a boca para dizer algo, mas mudou de idéia. Antes de sair lançou um último olhar cheio de ódio para Kim:

— Não penses que eu desisti — ameaçou.

Quando o anão e os soldados desapareceram, os rapazes se voltaram para Temístocles, mas não deu tempo para falar mais nada, pois o corpo do mago estava sendo sacudido por fortes tremores. Com um gemido deixou-se cair sobre a cadeira.

— Temístocles! — exclamou Kim, alarmado. — O que você tem?

— Estou fraco... — suspirou o mago —, me sinto tão fraco. É como se algo... sugasse minha força.

— O anão! — vociferou Priwinn, cheio de ódio. — Vou pegar esse sujeito, eu...

— Não farais nada — interrompeu-o Temístocles, cada vez mais fraco. — Deveis fugir. Não sei até quando poderei proteger-vos. O anão vai voltar... fugi enquanto ainda... domino minha mente e meu espírito. Voltai pelo mesmo caminho... tomai cuidado, eles vos tentarão impedir.

— Não vamos sem você! — bradou Kim, mas Temístocles abanou a cabeça e, com a mão muito trêmula, acariciou a face do rapaz:

— Tu és corajoso — murmurou. — Mas tua coragem é inútil... não te preocupes, ainda sou o senhor de Gorywynn. Não ousariam lazer algo contra mim. — O mago esboçou um sorriso muito amargo: — Nem seria preciso... não vai demorar muito e serei apenas um velho sentado em seus aposentos na torre, para contar as poucas estrelas que seus olhos míopes ainda conseguem enxergar. Talvez até seja bom... estou tão cansado... imensamente cansado...

Temístocles acabou dormindo, sem completar a frase.

Desolado e em prantos, Kim começou a sacudir seu velho amigo, até que Priwinn o puxou com força. Kim bateu na mão do príncipe:

— Deixe-me tentar! — gritou.

— Não podemos fazer nada por ele — disse Priwinn. — Temístocles tem razão, temos que salvar nossas vidas. Não o deixarei para trás!

Muito triste, o cavaleiro das estepes abanou a cabeça:

— Eles não lhe farão nenhum mal. Ele não representa mais perigo para eles. Acho que esta conversa sugou o resto de suas forças e o deixou completamente exaurido. Vem!

Mas Kim continuou parado, olhando para o mago adormecido em sua cadeira e ainda demorou um bom tempo até que, finalmente, caiu em si. De coração partido e com lágrimas lhe escorrendo pelas faces, reconheceu que Priwinn tinha razão — nada podiam fazer por Temístocles! E, a cada minuto, o risco de serem pegos aumentava

Kim enxugou as lágrimas e esticou os ombros. Priwinn, que estava ao lado de uma das janelas, emitiu um daqueles estranhos assobios, como fazia antigamente. E, mais uma vez, passaram-se apenas alguns segundos até que o silêncio da noite fosse quebrado pelo farfalhar de imponentes asas e, logo depois, Rangarig apareceu para apanhá-los.

 

E novamente atravessaram uma distância relativamente curta no lombo de Rangarig. Quem quisesse persegui-los, a cavalo ou a pé, levaria um bom tempo até alcançá-los, isto é, caso soubesse onde procurar por eles.

Kim mal conseguiu conter a impaciência. Tentou falar com Priwinn e Gorg, mas o barulho do vento tornava difícil, senão impossível, qualquer tentativa de comunicação. Por isso, quando desceram do lombo do dragão, Kim deu vazão à sua impaciência e bombardeou Priwinn com perguntas.

No entanto, em vez de responder à batelada de perguntas, o príncipe puxou Kim pelo braço e tratou de afastá-lo de Rangarig, pois o dragão se mostrou bastante inquieto: desenraizou arbustos e pequenas árvores e balançava a cabeça continuamente de um lado para outro, como se estivesse à procura de algo. Kim não desistiu e retomou o interrogatório: — Temístocles disse que não pode mais proteger vocês... o que ele quis dizer com isso? E o anão... o que significam as palavras: “os rebeldes que vivem nas florestas”?

— Tudo bobagem — replicou Priwinn. — Já disse, nosso povo não vive nas florestas!

Kim se esforçou para manter a calma e não gritar:

— Você sabe muito bem o que estou dizendo — disse ele, irritado. — Então, o que me diz?

Os dois amigos se encararam com certa hostilidade. E novamente foi o gigante que interveio:

— Não existe mistério algum — disse Gorg. — Existem muitas pessoas que, como nós, não aprovam o que está acontecendo em Märchenmond.

— Entendo — murmurou Kim. — Vocês querem lançar mão da violência para destruir os homens de ferro e, conseqüentemente, o poder dos anões.

— Se for necessário — disse Priwinn, laconicamente. De repente, a voz do príncipe das estepes assumiu um tom de súplica: — Tu viste o que está acontecendo em Gorywynn! Viste Temístocles... ainda não basta?

— Claro que basta, mas eu também ouvi o que ele contou. Os anões...

— Ele não sabe mais o que está dizendo — interrompeu-o Priwinn. — Kim, tu viste de perto! Temístocles se tornou um homem velho e fraco! Até uma criança poderia enganá-lo. Não disseste que os anões têm algo a ver com as mudanças que estão acontecendo em Märchenmond?

De repente Kim sentiu-se extremamente só. Depois de tudo que vira, não tinha como não confiar em Priwinn e Gorg. Mas, por outro lado, também confiava em Temístocles. Haveria duas verdades? Seria possível que ambas as partes estivessem com a razão, cada qual à sua maneira? Era de enlouquecer!

— Vocês estão planejando uma espécie de rebelião, não é mesmo? — perguntou Kim.

Priwinn arregalou os olhos, mas foi Gorg quem respondeu:

— Bem... — começou o gigante, o que lhe valeu um olhar nada amigável do Príncipe das Estepes. — Bem... — repetiu Gorg —, agora que estás aqui, pensamos...

— Eu? — espantou-se Kim.

— Tu! Claro! — manifestou-se Priwinn. — As pessoas aqui não esqueceram que salvaste o nosso mundo, quando esteve em Märchenmond pela primeira vez. Estou certo de que eles te seguirão sem pestanejar! — Priwinn colocou a mão no peito: — Veste esta armadura negra, Kim. Sê nosso líder! Juntos expulsaremos os anões de Märchenmond!

— E se eles forem inocentes? — revidou Kim. Rangarig, ainda mais inquieto, disse:

— É melhor não ficarmos aqui. Acho que alguém... algo está se aproximando.

— Só mais um momento, Rangarig — gritou Priwinn, sem nem mesmo olhar para o dragão. — Estamos tratando de um assunto importante. — O príncipe olhou fundo nos olhos do amigo: — Então, qual é a tua decisão?

Kim não respondeu. Priwinn estava sendo desleal com ele. Era simplesmente impossível tomar uma decisão tão séria num piscar de olhos. Kim suspirou fundo:

— Não posso me decidir neste exato momento, Priwinn.

— Então quando? — insistiu Priwinn, furioso. — Quando for tarde demais?

— Eu até entendo você — murmurou Kim. — Está desesperado, com medo de que o seu mundo desapareça... por isso busca um culpado, não importa quem.

— Ah! Falas como Temístocles! — revidou Priwinn, cheio de ódio.

— O que, aliás, não é tão mau assim — comentou Gorg.

O Príncipe das Estepes se voltou para Gorg, pronto para despejar toda sua raiva, mas, nesse momento, Rangarig falou de novo, desta vez bastante irritado:

— Vem vindo alguém! Depressa!

Os amigos não titubearam. Não importava qual era a gravidade do assunto, era preciso levar Rangarig a sério.

Mas não deu tempo de tomarem nenhuma atitude, pois Rangarig, de repente, soltou um grito de arrepiar, ergueu o corpo, abriu as asas e voou para as alturas feito um raio dourado. A tempestade provocada pelo esvoaçar derrubou Kim, Priwinn e até o gigante Gorg. Seguiu-se um redemoinho de terra, pedras, folhas despedaçadas e galhos que os fez abaixar a cabeça. Somente após alguns segundos, Kim ousou erguer a cabeça e olhar para o céu, onde Rangarig sobrevoava a floresta. Ele não estava sozinho!

Aproximava-se uma sombra gigantesca, distorcida, de movimentos mecânicos e velozes.

— O que é isso? — perguntou Kim, horrorizado.

— Não sei — respondeu Priwinn. — Mas parece algo que atemoriza até mesmo Rangarig. Acho...

O restante da frase foi engolido por um barulho ensurdecedor quando os dois vultos se chocaram no ar: um terrível retumbar, estalar, rebentar! Por alguns intermináveis segundos só se via uma massa gigantesca de asas, garras e caudas ondulantes. As garras de Rangarig atacaram o outro e provocaram uma chuva de faíscas. Depois os dois gigantes informes se separaram e começaram a girar um em torno do outro.

— Um dragão! — exclamou Kim, incrédulo. — Um dragão? — repetiu.

— Não pode ser — respondeu Gorg. — Deve ser outra coisa. Kim forçou a vista para enxergar melhor, mas o estranho vulto continuou irreconhecível. Os dois ainda se chocaram mais duas vezes, fazendo a abóbada celeste estremecer. Rangarig soltou gritos de dor e raiva e quando se desvencilhou do adversário, Kim notou que os movimentos do dragão dourado já não eram tão vigorosos como antes. Mas também o seu oponente, pelo visto, estava bastante machucado, pois em vez de voar, cambaleava pelos céus. E aí, de repente, Rangarig deu meia-volta e com um único forte adejo despencou sobre o inimigo. Nova chuva de faíscas! Depois algo se desprendeu e caiu do céu como um meteorito incandescente, provocando um terrível impacto sobre a terra.

Kim correu até o local da queda, enquanto, no alto, o vulto desconhecido se pôs a fugir, perseguido por Rangarig, que ainda o atacava com garras e dentes. O dragão dourado ganhara a luta, mas por algum motivo a vitória de Rangarig não deixou Kim feliz. Quando se aproximou do lugar do impacto, Kim arregalou os olhos: aos seus pés abria-se uma enorme cratera de terra fumegante, no fundo da qual havia uma garra incandescente! Era maior do que as garras de Rangarig e muito mais afiada. Uma garra de ferro!

Kim ergueu a cabeça e olhou para o alto. Rangarig e o vulto desapareceram.

— Maldito — murmurou Gorg, que, na companhia de Priwinn, surgira ao lado de Kim.

Apesar da escuridão, não dava para ignorar que o rosto do gigante ficara lívido. Gorg se debruçou para frente e, com cuidado, pegou a garra. Seu rosto se contraiu com o forte calor irradiado pela extremidade incandescente. Kim estremeceu. A garra tinha o tamanho de uma foice, era estreita e muito afiada. Imaginar a criatura que a perdera era quase impossível.

— Joga isso fora — ordenou Priwinn, com a voz rouca.

Gorg obedeceu. Enojado, jogou o objeto de volta na cratera e deu um passo para trás.

— O que é isso? — perguntou Kim, chocado. Mas, no fundo, tinha uma sinistra suspeita, tão terrível que só de pensar dava arrepios.

Priwinn olhou para o amigo, como se tudo isso fosse culpa sua:

— Os anões! — Há muito tempo suspeitamos que eles fabricam uma coisa dessas!

— Você acha que... eles construíram um dragão de ferro? — perguntou Kim, com a respiração acelerada.

— Ainda tens dúvida, idiota? — gritou Priwinn. —Já não basta? Fala com Rangarig quando ele voltar!

Kim não reagiu. Sabia que o Príncipe das Estepes devia estar quase louco de preocupação e medo. Aliás, não por menos, também ele, Kim, sentiu o forte impulso de gritar ou até bater em alguém para dar vazão à ansiedade e ao medo.

Nesse momento Kim compreendeu o que estava se passando com Priwinn. Sentiu na pele a gritante impotência, que exigia um culpado pelo que estava acontecendo, não importava quem fosse. Apesar de não aprovar o comportamento do amigo, Kim o entendia.

De súbito sua mente se iluminou! A solução era tão simples, que Kim se questionou por que não pensara nisso antes.

— Eu vou ajudá-los — disse o rapaz. Priwinn arregalou os olhos:

— Tu vais...

Mas Kim o interrompeu:

— Jamais vestirei esta armadura para lutar contra os seus irmãos. Mas vou ajudar. Como disse a Temístocles, temos de encontrar o Rei do Arco-íris. Ele nos ajudou antes e fará o mesmo agora, estou certo disso!

— É loucura! — contestou Priwinn, sem muita convicção. — Atravessar o Desfiladeiro das Almas, onde habita o Tatzelwurm, seguir o rio subterrâneo... o Castelo do Fim do Mundo! Isso toma muito tempo! Tempo que não temos!

— Talvez — concordou Kim. — Mas quanto tempo levaríamos para destruir todos os homens de ferro, um a um, e procurar os anões nas montanhas do Leste? Muito mais tempo, aposto!

Priwinn quis argumentar, mas Gorg resolveu intervir:

— Ele tem razão, príncipe. Conseguimos uma vez e conseguiremos de novo! O que diz respeito ao Tatzelwurm...

— O Tatzelwurm está vivo?

— Claro. Não lembra? Depois que vencemos o mago Boraas, todos que morreram retornaram à vida.

Priwinn continuou cético, mas não se opôs. Olhou para Gorg, depois para Kim e deu de ombros:

— Vamos ouvir a opinião de Rangarig.

Demorou um bom tempo até que o dragão retornasse. Antes de pousar, sobrevoou a floresta repetidas vezes e com suas garras despedaçou as copas das árvores. Quando finalmente pousou, estava tão agitado que os três amigos não ousaram chegar ao alcance de suas asas e de sua cauda.

— Rangarig! — gritou Priwinn de longe. — O que foi aquilo? Tu o destruíste?

— Destruir! — uivou o dragão. — É isso! Matar, destruir! — Rangarig parecia possuído por um demônio. Agarrou uma árvore e a dobrou ao meio, como se fosse um palito de fósforo, enquanto repetia: — Matar! É isso! Matar!

Era uma cena simplesmente horripilante.

— Rangarig! Por favor! — implorou Kim. — Somos nós, teus amigos!

Os enormes olhos do dragão se voltaram para Kim e o rapaz viu neles o que já vira no olhar do urso: um monstro selvagem com instinto assassino.

— Matar! — rosnou Rangarig.

Kim deu um passo à frente. Priwinn soltou um gemido de pavor e quis impedi-lo, mas ele se desvencilhou e se aproximou ainda mais do dragão, sem desviar o olhar.

— Volta! — gritou Priwinn, desesperado. — Ele vai te matar! Kim não lhe deu atenção. Não estava nem um pouco seguro, mas não se deteve. Aliás, a bem da verdade, estava apavorado. Seu coração disparou e seus joelhos tremiam tanto que mal conseguia andar. Porém, Kim também sabia que não tinha volta. Se, nesse momento, tentasse fugir, o dragão com certeza o mataria.

— Por favor, Rangarig — pediu. — Acorde! Sou eu, Kim. Somos amigos, não lembra?

O dragão, abrindo sulcos na terra com as garras, não parava de gritar:

— Matar! Matar!

— Não — disse Kim com uma calma que estava longe de sentir. — Não! Não somos seus inimigos. Você é um dragão amistoso, Rangarig. Lembra?

E o milagre aconteceu! Os minutos se passaram, enquanto Kim permaneceu imóvel, com o coração acelerado, tremendo dos pés à cabeça, sem tirar os olhos do dragão. E então, aos poucos, o brilho mortal nos olhos do dragão foi amainando e ele voltou a ser o que sempre fora: Rangarig, o dragão dourado de Gorywynn, amigo e protetor de Märchenmond!

Kim soltou um profundo suspiro de alívio, deu mais alguns passos para frente e acariciou seu amigo dragão. Ainda bastante trêmulo, encostou-se ao imenso pescoço escamoso e ali ficou por algum tempo, de olhos fechados.

— Rangarig! — soluçou. — Pensei... pensei que iríamos perder você!

O dragão não respondeu, mas, de repente, Kim sentiu um líquido morno a lhe escorrer pelo rosto e, ao levantar a cabeça, viu que dos enormes olhos do dragão pingavam grossas lágrimas. Rangarig estava chorando!

— Meu pequeno amigo — murmurou o dragão. — Logo serei teu inimigo. Vá, enquanto ainda é tempo!

— Jamais! — respondeu Kim. — Ficarei ao seu lado, todos nós ficaremos com você. Juntos venceremos aqueles monstros de ferro. Ainda há pouco você derrotou um deles!

— É mais forte do que eu — respondeu Rangarig. — Só venci porque eles o soltaram cedo demais, ele não estava pronto. Mas em pouco tempo já não conseguirei derrotá-lo. E mesmo se os derrotar, não serei mais o mesmo. — Rangarig lhe deu um suave empurrão: — Preciso deixar-vos, agora!

— Não! — implorou Kim, amargurado. — Você está enganado, Rangarig! Você derrotou este monstro mecânico e vencerá todos os outros!

— Será que não entendes, pequeno amigo? A minha luta não é contra os monstros mecânicos! — lamentou Rangarig, impaciente. As lágrimas secaram e por um terrível momento a fúria parecia tomar conta do dragão outra vez. — Não é o dragão de ferro que deveis temer! Sou eu! Enquanto eu estiver convosco, ele vos perseguirá! É a minha vida que ele quer! E se eu morrer, ele vos matará!

— Mas você vai vencer....

— Não entendes? — repetiu o dragão. — Se eu vencer, terão de temer a mim! Não existe alternativa, preciso deixar-vos!

— Um momento! — suplicou Kim. — Por favor, só mais um momento! Sei como posso ajudar!

O dragão, que já havia aberto as asas para levantar vôo, deteve-se. Kim começou a falar tão depressa que as palavras se atropelaram:

— Tenho a solução! Eu vou ao encontro do Rei do Arco-íris! Ele salvou Märchenmond uma vez! Mas, para ir até lá, preciso de você! Sozinho não consigo! É um caminho longo! Por favor!

O dragão não respondeu de imediato. Olhou para Kim e depois para os outros dois amigos, um pouco mais afastados. Depois se virou novamente para Kim:

— Tu conheces os perigos.

— Não são maiores do que as desgraças que nos esperam aqui — revidou Kim. — Por favor, Rangarig, leve-nos até lá!

O dragão se mostrou relutante. Novamente desviou o olhar para Priwinn e Gorg. Finalmente, inclinou a cabeça:

— Está bem. Eu vos levarei ao Desfiladeiro das Almas e ao lago do Tatzelwurm. Tu conheces as regras.

De repente Kim sentiu um nó na garganta. Ele conhecia as regras, claro! Só havia um meio de passar pelo terrível Tatzelwurm, o guardião do rio subterrâneo: um adversário à sua altura deveria enfrentá-lo. Essa era a lei! Mas a lenda também dizia que raras vezes alguém sobreviveu ao confronto com o Tatzelwurm.

A tristeza era tanta que chegava a doer, pois Kim se deu conta de que Rangarig acabara de assumir o risco de morte!

O caminho para as montanhas onde se localizava o Desfiladeiro das Almas era longo e penoso. Como Rangarig estava ferido, eles levaram mais de uma semana para chegar ao destino, no qual surpresas desagradáveis e dolorosas os aguardavam. Nada era como antes! As terras que sobrevoavam estavam irreconhecíveis. No início as mudanças eram quase imperceptíveis: um caminho desconhecido, uma cidade nunca vista antes, um campo maior do que antigamente...

Mas à medida que seguiram em frente, rumo ao Norte, ficou impossível fechar os olhos diante das brutais transformações. As cidades se tornaram grandes e obscuras, e não raro davam a impressão de terem sido construídas inteiramente de ferro. Havia ruas largas que pareciam rios escuros e que comportavam dez veículos ao mesmo tempo. Os rios estavam comprimidos em leitos retos de ferro e suas águas avermelhadas arrastavam tudo que lhes vinha pelo caminho.

E, pior, havia as fogueiras!

Avistaram fogo logo na primeira noite: um brilho pálido, avermelhado, bem longe de onde estavam acampados, nada mais que um vislumbre no horizonte. O brilho avermelhado não os abandonou mais, até alcançarem as montanhas. E, às vezes, o vento lhes trazia o eco das marteladas. Em algum lugar, alguém passava as noites trabalhando nas forjas, enquanto Rangarig lambia suas feridas, resultado de sua luta com o dragão de ferro.

Às vezes Rangarig inclinava a cabeça, como se estivesse ouvindo algo. E também o Príncipe das Estepes não escondia sua profunda preocupação. A cada dia e a cada noite, o fogo se aproximava um pouco mais.

Na última noite antes de chegarem ao Desfiladeiro das Almas acamparam em um altiplano, uma rocha árida, totalmente inacessível, que já era parte da Cordilheira das Sombras. Ninguém dormiu bem nessa noite e quando Kim acordou de um sono agitado, ainda de madrugada, percebeu que os outros já estavam de pé.

Priwinn e Gorg estavam sentados, lado a lado, junto a uma fogueira, as mãos estendidas sobre o fogo. Conversavam em voz baixa. Do outro lado da fogueira, Bocadinho e Sheera pelo visto haviam perdido a habitual tagarelice. Aliás, à medida que se aproximavam do Desfiladeiro das Almas, as duas figurinhas se mostravam cada vez mais sérias e preocupadas.

Kim se desvencilhou da manta em que havia se enrolado na noite anterior para se unir aos amigos junto à fogueira. O frio era de lascar! No entanto, quando viu que Rangarig também já estava acordado, hesitou. Priwinn ergueu a cabeça e quis fazer um comentário, mas Gorg o impediu com um gesto de mão. Kim ainda ficou parado por alguns minutos e depois resolveu procurar o dragão, em vez de ir até a fogueira.

— Bom dia, pequeno herói — cumprimentou-o Rangarig, amável. Depois do mau humor que ostentara nos últimos dias, Kim ficou surpreso com a recepção cordial.

— Oi — murmurou o rapaz, um pouco sem graça. Viera com a intenção de falar com o dragão, mas, de repente, faltaram-lhe as palavras. Sua cabeça estava vazia, tudo parecia tão inútil, supérfluo.

Mesmo assim, fez uma tentativa: — Eu... eu queria lhe dizer mais uma coisa, Rangarig.

Kim precisou de muita força de vontade para não sair correndo. O dragão manteve o olhar fixo no rapaz:

— Estou ouvindo.

— É que... você não precisa nos acompanhar até o lago do Tatzelwurm. Quero dizer que... bem, você nos trouxe até aqui e talvez ainda nos leve até o Desfiladeiro das Almas, mas depois é por nossa conta.

— Tu sabes muito bem que não conseguirão seguir sozinhos — respondeu o dragão, mal-humorado.

— Por quê? Só por causa...

O dragão o interrompeu, impaciente:

— Tu sabes que a travessia do lago onde habita o Tatzelwurm deve ser paga com sangue. Ele libera o caminho pelo preço de uma vida. Se tentardes alguma tramóia, ele vos matará a todos.

— E por que essa vida que ele pede tem de ser a sua? — exclamou Kim.

— Não tem de ser a minha — respondeu o dragão. — Com a cabeça, Rangarig apontou para a fogueira: — Quem dos teus amigos tu queres sacrificar? Priwinn? Gorg? Aquele sujeitinho que se transforma ou o gato?

— Isso... isso não é justo — gaguejou Kim.

Rangarig fez um ruído que provavelmente devia ser uma risada:

— Justo? Quem disse que a vida é justa? Então, qual deles tu queres sacrificar? Ou quem sabe a ti mesmo?

— Chega! — gritou Kim. — Você sabe muito bem que eu não quero nada disso!

— Claro — disse Rangarig. — E tu sabes que só há uma maneira de passar pelo Tatzelwurm. — Agora o dragão soltou uma gargalhada: — Da última vez eu dei uma boa lição no Tatzelwurm, lembra? Desta vez usarei seu pescoço nojento para fazer um nó. Assim, ele estará ocupado tempo suficiente para passardes.

— Mas... você vai morrer — murmurou Kim. Rangarig suspirou:

— Provavelmente. Mas vou morrer por vocês e por Märchenmond.

Para Kim esta resposta não significava nenhum consolo. Ao contrário. Sacrificar um amigo como Rangarig era simplesmente insuportável!

— Não importa — disse Rangarig. — Estou mesmo fadado a morrer. Esqueceste o que está acontecendo comigo? O Rangarig que tu conheces, pequeno herói, em pouquíssimo tempo não existirá mais. Algo selvagem em mim está vindo à tona. Em poucos dias já não serei mais o mesmo.

— Mas você estará vivo!

— Estarei? — revidou Rangarig. — Então me diz, pequeno herói, qual é a diferença? Estarei morto se destruírem meu corpo, mas se um dia acordar e não lembrar mais quem sou, morrerei do mesmo jeito. Se meu corpo continuar vivo, mas eu não lembrar de ti, de Priwinn, do gigante e de todos aqueles que amei, serei outro dragão... O que serei?

Kim não soube responder. Rangarig riu baixinho:

— Vós, seres humanos! Tão pequenos e tão valentes. Vivem tão pouco, comparado a criaturas como eu. Porém, no curto espaço de tempo em que vivem, realizam coisas incríveis... isto é, às vezes. Chegam até a desafiar os deuses, mas diante de uma coisa tão natural como a morte, reagem com desespero. Morrer não é nenhuma desgraça, acredita. Sem a morte não existe vida... morte e vida se completam!

Kim continuou calado. Jamais encarara as coisas dessa maneira.

— Tu ainda és muito jovem — continuou Rangarig, como se adivinhasse os pensamentos do amigo. — E agora vá procurar os outros junto à fogueira. Trata de se aquecer e de comer alguma coisa, temos um caminho tortuoso pela frente.

Ao longo do percurso, a paisagem que sobrevoavam foi se tornando cada vez mais árida e inóspita. Kim evitava olhar para baixo, pois cada palmo destas terras continha lembranças dolorosas. Aqui travara a sua grande luta. Jamais provara maior triunfo e maior tristeza ao mesmo tempo.

— Tem alguma coisa errada — bradou Rangarig. Só ele, com sua voz de dragão, conseguia vencer os uivos do vento. — Estas terras estão muito povoadas!

Kim olhou para baixo. Voavam tão alto que era praticamente impossível enxergar pessoas. Pelo jeito os sentidos do dragão eram mais apurados do que os dos humanos.

O dragão desceu e reduziu a velocidade.

Avistaram algumas cabanas isoladas, propriedades rurais e uma aldeia com cerca de uma dúzia de casas baixas. Eram de ferro! Entre as casas serpenteavam ruas com brilho metálico. Alguém que passava parou e olhou para eles.

Pela lógica, era quase impossível encontrar sinais de povoamento num lugar tão ermo e afastado. Além disso, a proximidade do Desfiladeiro das Almas infligia medo às pessoas. Ninguém moraria naquele lugar! Pelo menos era assim quando Kim ali esteve pela primeira vez. Mas as coisas haviam mudado!

O dragão voava mais baixo e mais devagar. No entanto, Kim notou que ele evitava sobrevoar lugares mais habitados. Mesmo assim, era impossível que Rangarig passasse despercebido, o que, aliás, seria bem melhor. Por outro lado, uma vez alcançado o lago do Tatzelwurm, estariam a salvo de quaisquer eventuais perseguidores.

Finalmente chegaram ao Desfiladeiro das Almas! A fenda negra e profunda lhes causou arrepios. Era a pátria do medo, nenhum ser humano, quem quer que fosse, isto é, grande ou pequeno, forte ou fraco, corajoso ou covarde, escapava do seu sopro negro e gélido. Quando aqui estiveram outrora, até Rangarig tremera de espanto.

Mas desta vez o dragão não se mostrou nem um pouco impressionado. E demoraria um bocado até Kim entender que também esta parte de Märchenmond sofrera transformações.

Então Rangarig encostou as asas no corpo e despencou para o abismo negro. Quando suas garras tocaram o fundo, foram recebidos com um frio intenso.

— O que aconteceu aqui? — perguntou Gorg. — Eu... eu não sinto nada!

— Eu também não — respondeu Priwinn. — O que quer que seja que habitou este lugar, não está mais aqui.

— E o que há de errado nisso? — perguntou Kim, que ainda tinha na memória os horrores da última vez que atravessaram o Desfiladeiro das Almas.

Priwinn e Gorg olharam para Kim, como se ele tivesse feito um comentário idiota. Foi Rangarig que respondeu:

— Até o medo ocupa um lugar neste mundo, Kim.

— Pois eu vivo muito bem sem o medo — replicou o rapaz.

— Sem medo não existe coragem, Kim. Como podes ser corajoso, se nunca Sentiste medo?

Kim não soube responder.

E assim começaram a andar pelo Desfiladeiro e, pelo menos uma coisa não havia mudado: o caminho parecia interminável. Finalmente, depois de uma hora, ou várias horas, ninguém soube dizer ao certo, chegaram ao lago, a moradia do Tatzelwurm, e a gruta onde desaparecia o rio subterrâneo.

Mas era diferente: o lago ainda estava ali, porém suas águas já não eram revoltas, e também não mais o margeavam rochas pontiagudas. Havia em sua superfície um espelho redondo orlado por ferro negro. Suas águas eram tão transparentes que dava para enxergar o fundo. Nada se movia nestas águas cristalinas, nenhum peixe, nenhuma planta e... nem sinal do Tatzelwurm!

E o mais assombroso era que, onde outrora se localizava a nascente do Rio Desaparecido, não havia mais nada! Nas rochas, um dia intransponíveis, foi aberta uma enorme brecha triangular, cujos flancos eram de ferro negro. No fundo da brecha reluzia a mesma água do lago, desprovida de qualquer tipo de vida! Esta enorme garganta artificial se estendia a perder de vista.

— Onde... onde está o Tatzelwurm? — perguntou Kim, perplexo.

— Estará morto? — murmurou Priwinn.

— Não — respondeu Rangarig. — O Tatzelwurm está vivo. Priwinn perguntou ao dragão:

— Como tens tanta certeza disso?

— Simples — respondeu Rangarig. — Ele vive porque eu estou vivo. Se ele estivesse morto, eu também estaria. Ele deve ter fugido. Talvez tenha fugido dos homens de ferro.

— O Tatzelwurm? — indagou Priwinn. — Imagine se o Tatzelwurm fugiria dessas... criaturas! Não acredito!

O Tatzelwurm era uma das mais terríveis criaturas que viviam em Märchenmond e Kim lembrava dele com pavor, mas, por incrível que pareça, neste momento sentia pena da fera. O rapaz apontou para o lugar onde outrora ficava o acesso para o Rio Desaparecido e onde se iniciava seu curso subterrâneo. A brecha reta, como traçada por uma faca, causou-lhe medo. Lembrou das palavras de Brobing: eles movem montanhas! Não acreditara nas palavras do camponês, mas aqui estava vendo com os próprios olhos a confirmação de tudo que ele dissera!

— Por que fizeram isso? — murmurou.

Mas Brobing já tinha lhe respondido há muito tempo: as pessoas precisam de terra!

Priwinn, com um sorriso forçado nos lábios, disse a Rangarig:

— Sinto muito, amigo, mas não tens como escapar. Precisamos de ti mais do que nunca!

 

Durante horas a fio Rangarig os carregou no lombo, e a paisagem era sempre a mesma. Onde outrora se erguiam as rochas intransponíveis da Cordilheira das Sombras agora corria o curso retilíneo do rio, em cujas águas cristalinas não se notava o menor sinal de vida. Sobrevoaram uma embarcação toda negra, sem mastro e sem vela, que soltava uma fumaça escura e malcheirosa.

— O que é isto? — gritou Kim contra o vento.

— Piratas do rio! — gritou Priwinn de volta.

Kim nunca ouvira falar em piratas do rio. Depois de uma pausa e bastante irado, Priwinn gritou:

— É melhor evitar essa gente. Ninguém sabe de onde eles vêm, mas dizem que foi o rio que os transformou.

— Você quer dizer que se tornaram piratas depois que...

— ...passaram a viver no rio, é isso mesmo! — completou Priwinn, sempre aos gritos.

Conversar aos berros exigia certo esforço, por isso os dois rapazes se calaram. Vez ou outra avistavam uma casa solitária às margens do rio ou uma pequena propriedade rural. Sobrevoaram até uma cidade fortificada, cujas casas se escondiam atrás de muros de ferro.

Estavam voando há cerca de três ou quatro horas e neste curto espaço de tempo provavelmente já haviam vencido quase todo o percurso que Kim fizera com Priwinn e Gorg debaixo da terra, na ocasião em que aqui estivera pela primeira vez. Mas, não obstante, não havia nenhuma perspectiva de que o curso do rio estaria chegando ao fim. À direita e à esquerda estendiam-se, a perder de vista, nada mais do que rochas e lava endurecida. Morar aqui lhe parecia um tanto absurdo. Esta parte da criação nunca fora destinada a abrigar algum tipo de vida. Era o reino da solidão, onde jamais vingaria a vida.

Finalmente as montanhas foram se tornando menos pontiagudas. O rio continuou a seguir o seu curso retilíneo num leito de ferro, mas as agulhas de lava endurecida às suas margens aos poucos foram se transformando em montanhas corcovadas e, por fim, nada mais do que modestas colinas amarronzadas. Kim sentiu o coração bater mais forte. Estavam se aproximando da terra dos gigantes do gelo e logo chegariam ao Castelo do Fim do Mundo! Então tudo se resolveria! Os gigantes do gelo saberiam o que fazer e se eles não soubessem, o Rei do Arco-íris, que vivia além do abismo do nada, certamente teria a solução para todos os problemas. Rangarig interrompeu as conjeturas do rapaz:

— Está muito quente! — exclamou.

Kim teve um sobressalto e olhou ao redor. Muito quente? Apesar da manta em que se enrolara, estava batendo os dentes. Até Bocadinho, escondido sob sua camisa, tremia de frio. Seu rosto, exposto ao vento gelado, estava rijo.

— Estou sentindo muito frio! — gritou. — Estou quase congelado!

— Olhe para baixo. Onde está o gelo? — bradou Gorg, sentado atrás dele.

O rapaz se debruçou para frente e espiou embaixo: um infinito lamaçal amarronzado, vez ou outra interrompido por uma poça semicongelada! Em parte alguma havia gelo!

— Está muito quente! — repetiu Rangarig. — Vou descer, quero ver isto de perto!

Andar em meio à lama não era uma perspectiva atraente, mas Rangarig já estava se preparando para o pouso. E quando tocou o chão, esguichou lama para todos os lados. Kim, como os outros, ficou coberto de lama dos pés à cabeça. Xingando, passou as mãos pelo rosto e cuspiu água suja e lodo. Depois olhou ao redor: nada além de lama! Estava frio, mas nem de longe tão frio como seria o normal. Onde estava o rio? Onde estavam os gigantes do gelo? E, sobretudo, onde estava o Castelo do Fim do Mundo, a morada toda de gelo dos guardiões do universo?

Priwinn, a testa franzida, não tirava os olhos do chão lamacento, como se lá estivesse a resposta. Rangarig, em virtude do seu peso, estava enterrado até a barriga no lodo. Locomover-se neste lamaçal seria bastante penoso.

— Por que descemos? — perguntou Gorg, para alívio de Kim. — Aqui não há nada para ver. Tu és capaz de encontrar o Castelo do Fim do Mundo, Rangarig?

— Talvez... — ponderou o dragão. — Mas não será uma viagem bastante desagradável.

— Então vamos descer e esperar aqui — decidiu Priwinn.

E sem esperar resposta, pulou do lombo do dragão e afundou imediatamente na lama, até os joelhos. Enojado, Kim torceu o rosto, mas seguiu o exemplo do Príncipe das Estepes e também pulou. No mesmo instante Gorg pulou, cobrindo-os com um repuxo de lama. Rangarig esperou até que eles se afastassem um pouco, depois levantou vôo e desapareceu nos céus. Kim tremia, mas não era apenas de trio. Sentia um medo incontrolável.

— O que aconteceu aqui? — questionou em voz alta.

Como ninguém respondeu, Bocadinho, em sua versão diurna, ou seja, coberto por plumas vermelho-alaranjadas, resolveu dar o ar de sua graça e aparecer por debaixo da camisa:

— Foram eles.

— Eles?

— Os bípedes.

— Tu queres dizer que... — começou Priwinn.

— Quem mais poderia ser? — interrompeu Sheera, que viajara escondido sob a camisa do gigante. O gato galgou o ombro do gigante e para se apoiar fincou suas garras na pele dele: — Eles estavam aqui não faz muito tempo. Sinto o cheiro deles.

— Eu... não acredito — disse Kim, inseguro. — Quem gostaria de viver num lugar como este?

Agora era a vez de Bocadinho:

— Ninguém. E daí? Eles modificam tudo. Tudo isto aqui era gelo. agora é lodo. Logo tudo estará seco e eles irão se expandir por estas terras como uma doença, até que tudo esteja destruído.

Kim olhou surpreso para seu pequeno amigo. Nunca ouvira Bocadinho falar com tanta amargura.

— Talvez... talvez exista uma solução — disse Kim, hesitante.

— Os camponeses precisam da terra para viver — observou Gorg, com pouca convicção.

— Eles não têm esse direito! — exaltou-se o gato Sheera.

— Por que estais nervosos? — indagou Priwinn. — Afinal, o que tem demais tornar estas terras férteis? Talvez em breve aqui crescerão flores e...

— Idiota! — interrompeu-o o gato, e seus olhos verdes soltaram faíscas. — Pensei que fosses diferente! Mas tu és cego como eles! Por que o mundo tem que ser exatamente do jeito como quereis? Achas que esta paisagem não tinha razão de ser? Então achas que só o que parece útil para vós tem o direito de existir? Pois estás enganado, príncipe! Desertos e mares, montanhas infrutíferas e geleiras fazem parte do grande processo criativo e tudo tem sentido. E se um dia aparece um povo que só consegue viver no deserto? O que dirias se eles começassem a derrubar todas as florestas?

— É diferente — revidou Priwinn. — Afinal, ninguém vive aqui.

— E daí? — retrucou Sheera. — O que pensas da palavra criação, bípede? Não respeitas a criação?

— Parem! — ordenou Gorg. — Rangarig está retornando.

O gigante apontou para o céu, onde se via agora um minúsculo ponto luminoso. Priwinn franziu a testa:

— Não pensei que ele retornasse tão depressa.

— É... — manifestou-se Kim. — Além do mais ele está vindo da direção errada.

— Não é de admirar — constatou Bocadinho —, porque não é Rangarig... corram!

O grito ressoou nos ouvidos de Kim. Bocadinho se libertou da camisa e pulou para o lodo, onde afundou imediatamente. Sheera assoprou e o seguiu. O ponto no céu transformou-se num vulto prateado de proporções gigantescas. Deu para notar que não era Rangarig! Mas, sem dúvida, era um dragão! Um monstro mecânico munido de asas de aço e dentes de cromo reluzente!

Era muito maior do que Rangarig e, apesar da distância, irradiava algo maléfico. Seus movimentos eram angulosos e desajeitados, como os de uma marionete descontrolada. E enquanto o vôo de Rangarig era acompanhado pelo farfalhar de suas asas, ouvia-se aqui um constante ranger e chiar.

Das narinas do dragão de aço saía um vapor acinzentado e seus olhos eram de vidro esverdeado. Quatro ou cinco figuras envoltas em mantas negras maltrapilhas estavam sentadas na nuca metálica do monstro: anões! Apesar da distância, deu para ouvir seus gritos triunfantes, quando avistaram suas vítimas indefesas em meio ao lamaçal.

Kim e seus amigos, até então estarrecidos, começaram a correr.

— Cada um para um lado! — gritou Kim o mais alto que pôde. — Só assim teremos chance!

Nesse instante uma gigantesca sombra escureceu o céu. Kim sentiu o golpe de vento provocado pelas asas de aço. A manobra de fugir para lados opostos deixou o atacante confuso.

Juntos, seriam uma presa fácil para o monstro mecânico que, sem dúvida, acabaria com eles com um único golpe de suas garras. Mas, como cada um deles correu para uma direção diferente, e em ziguezague, o seu ataque não deu em nada. Kim ouviu o grito raivoso do monstro, quando suas garras atingiram nada mais do que lodo. Em seguida, o monstro voou tão rente sobre ele, que o rapaz foi varrido e rolou alguns metros pela lama.

O lodo macio amortizou a queda, mas também lhe encobriu a boca e os olhos. Kim tratou de levantar rapidamente. Tossindo e cuspindo lama, tirou a sujeira dos olhos. Nesse meio-tempo o dragão ganhara altura e se preparava para novo ataque.

Kim não ficou muito surpreso quando entendeu que o alvo do próximo ataque da fera prateada era ele. Correu alguns metros, depois desviou para a direita, mais alguns passos, a seguir para a esquerda e, inesperadamente, virou e correu na direção de onde viera.

E mais uma vez teve sorte! Escapou por um triz! Menos de um metro o separava das garras do monstro! Desta vez também estava preparado para enfrentar o golpe de vento e conseguiu se manter de pé. Porém não esperava o ataque do pequeno corpo que aterrissou na sua nuca e o fez cair na lama.

Instintivamente rolou de lado e enterrou a figura agarrada ao seu pescoço no lodo. Depois levantou depressa e limpou os olhos.

Uma mãozinha se agarrou ao seu pé. Kim se soltou, mas de repente apareceram mais duas figuras que grudaram nele feito carrapato e enquanto tentava se desvencilhar dos anões e ao mesmo tempo manter o equilíbrio, eles brotavam do chão por todos os lados.

Dava para encarar uns três anões, mas meia dúzia era demais! Kim pegou dois deles e os jogou longe, mas eles se tornaram incrivelmente ágeis e rápidos, e lutavam loucamente. Ficou difícil desviar da verdadeira rajada de socos e pontapés e aos poucos Kim começou a fraquejar.

Sua luta para salvar o reino dos sonhos pela segunda vez teria terminado neste momento de uma maneira bastante inglória, se Gorg não tivesse aparecido.

Sem a menor dificuldade, o gigante livrou Kim dos anões. Um dos gnomos traiçoeiros quis atacar Kim com uma faca, mas Gorg pegou a arma e a quebrou ao meio. Apavorado, o anão tratou de fugir dali.

O gigante pôs Kim de pé.

— Temos que sumir daqui! — gritou.

Mas só conseguiram dar alguns passos. Com berros estridentes o dragão de aço despencou dos céus. De asas abertas e com as garras fincadas no lodo ele pousou na frente dos amigos, feito uma parede ameaçadora de ferro, munida de garras e dentes à mostra.

Gorg se jogou no chão levando Kim consigo. Logo depois um raio azulado irrompeu da boca escancarada do dragão e explodiu no chão ao lado deles. No mesmo instante, uma avalanche de lodo quente e vapor efervescente os cobriu e os fez gritar de dor.

Ignorando a dor, Gorg, em fração de segundos, levantou e correu em ziguezague. O bafo azul do dragão não o atingiu por um fio e Kim ouviu o gigante gemer de dor quando o calor queimou sua pele.

— Acabem com isso, idiotas! — gritou uma voz estridente atrás deles. — Ou querem morrer aqui?

Kim reconheceu a voz mesmo sem olhar. O anão estava enterrado no lodo até a cintura e seu rosto estava coberto de lama. Mas não restava a menor dúvida de que era Jarrn, o anão com quem tudo começara!

— Escolhei — disse o maldoso anão. — Ou desistis agora, ou ele acaba convosco. Para mim tanto faz.

Gorg lançou um olhar revoltado para o anão:

— Eu não tenho medo de morrer!

— Claro, idiota como és, nem sabes o que é morrer — replicou o anão, desdenhoso. — Mas de ti não quero nada, gigante idiota. — O anão apontou para Kim e tentou se erguer, mas a lama o impediu: — Queremos ele — disse. — Entrega-me o garoto e poderás seguir cm paz!

— Só mesmo um anão para fazer uma proposta dessas — interveio Priwinn, que apareceu atrás de Gorg. Estava tão perto do anão que poderia alcançá-lo com um único salto. Mas entre ele e Jarrn se posicionaram mais três anões, que exibiam suas armas.

— Achas mesmo que sacrificaremos nosso amigo para que os outros escapem?

Em vez de responder, Jarrn fixou os olhos em Kim. Os pensamentos do rapaz se atropelaram. Atrás dele se erguia o dragão de aço, prestes a destruí-los ao menor sinal do anão. E Kim leu no olhar traiçoeiro do anão que este estava mais do que nunca decidido a dar o sinal.

— Está bem, Priwinn — decidiu Kim —, farei o que ele exige. O Príncipe das Estepes arfou:

— Estás louco! Eles vão te matar!

Kim duvidava disto. Os anões tiveram algumas oportunidades de matá-lo e não o fizeram. Por alguma razão eles o queriam vivo. Encarou o anão e perguntou:

— Você me dá a sua palavra de honra de que vai deixar os outros em paz se eu me entregar?

— Claro — confirmou Jarrn. — Não estou interessado neles.

— Não faça isso! — implorou Priwinn, e quis se jogar sobre Jarrn, mas os anões o impediram, erguendo suas armas com gestos ameaçadores.

— Vou com você, não oferecerei resistência — prometeu Kim. O rapaz estendeu as mãos vazias, deu um passo para frente e... foi parar de novo na lama, pois o dragão de aço se erguera para o alto inesperadamente e sem aviso prévio, desencadeando uma ventania que derrubou todos. Sem distinção. Nas alturas apareceu um vulto dourado que agora se lançava sobre o monstro mecânico com gritos estridentes. O dragão de aço tentou duas manobras simultâneas: ganhar altura e se virar para enfrentar o adversário de frente. Mas o dragão dourado, apesar de menor, era bem mais ágil e veloz.

Suas asas atingiram o corpo metálico do outro e o fizeram rodopiar como se fosse uma folha seca ao vento. Segundos depois fincou as garras douradas nas costas do monstro, o que provocou uma chuva de faíscas.

— Rangarig! — gritou Priwinn e, ameaçador, aproximou-se de Jarrn. — Pois bem, homenzinho! A situação agora é outra.

Jarrn engoliu em seco e sob a crosta de lama seu rosto ficou lívido.

— Bem... — começou, totalmente inseguro. — Talvez possamos conversar com calma...

Não completou a frase. Priwinn, de braços abertos, jogou-se em cima do anão e Kim agarrou um dos outros e o desarmou. Gorg, sem o menor esforço, pegou dois dos horrendos gnomos ao mesmo tempo. Os restantes tentaram fugir, mas foram impedidos por dois pequenos corpos enlameados, surgidos de repente: Sheera e Bocadinho, que os atacaram com garras e dentes. A luta, se é que o empurra-empurra podia ser chamado de luta, durou pouco. Depois de alguns minutos todos os anões estavam desarmados e presos. Kim enrolou o “seu anão” na própria manta negra esfarrapada e o levou para junto dos outros prisioneiros. Bocadinho empurrou o seu prisioneiro aos pontapés, enquanto Sheera continuou sentado no peito do outro, soprando e mostrando os dentes.

— Está tudo bem, Sheera — disse Gorg. — A luta terminou.

— Não dá nem para comer esse povo — disse Bocadinho. — Eles não têm gosto nenhum.

Kim olhou para o céu. Os dois dragões ainda estavam se atacando mutuamente com dentes, garras, asas e caudas. Apesar da distância, o barulho da luta travada com toda fúria era tão forte que Kim e seus amigos só conseguiam se entender aos gritos.

— Ele vai conseguir! — bradou Priwinn. — Rangarig está vencendo, olhem!

— Eu não estaria tão seguro disso — vociferou Jarrn, mas se calou imediatamente, quando o príncipe fez um gesto ameaçador.

No íntimo, Kim concordou com o anão. Ele não compartilhou a convicção do Príncipe das Estepes, quanto ao desfecho da luta dos dois dragões. As garras de Rangarig atingiam o dragão de aço sem parar, arrancando-lhe faíscas do corpo metálico.

De repente, um enorme pedaço da asa se desprendeu e caiu no chão, o que fez Priwinn soltar gritos de júbilo.

Mas, infelizmente, o dragão dourado também não saiu ileso. Já não se movimentava com tanta agilidade e deu para notar que tinha dificuldade para se manter no ar.

Nesse momento o dragão de aço expeliu um raio fino azulado, que atingiu o peito de Rangarig feito um estilete de luz. Apesar da distância, Kim pôde ver que as escamas douradas ficaram incandescentes. Rangarig soltou gritos de dor, abriu as asas e se esforçou ao máximo para manter o equilíbrio. Mas suas forças haviam se esgotado. Por um momento parecia estar imóvel no ar, feito um enorme dragão de papel preso a fios invisíveis. Depois caiu para trás e começou a rodopiar em direção ao chão como uma pedra

— Não! — gritaram todos ao mesmo tempo. — Rangarig! Não! E aí aconteceu o milagre!

No último instante, quando todos já estavam certos de que o dragão se estatelaria no chão, Rangarig abriu as asas e, com enorme esforço, a um metro do solo, conseguiu evitar a queda e voltou a subir! Com uma manobra quase impossível, conseguiu a incrível façanha de se colocar sobre o adversário. A máquina mortífera não teve nem tempo de reagir: Rangarig expeliu uma poderosa chama da boca escancarada que envolveu o adversário por completo.

O monstro mecânico desapareceu numa explosão alaranjada, provocando uma chuva de cinzas e destroços metálicos incandescentes.

— Ele conseguiu! — disse Priwinn, com júbilo. — Ele destruiu o monstro! Kim! Gorg! Estamos salvos!

Priwinn deu pulos de alegria, abraçou os amigos e de tanta euforia quase abraçou um dos anões.

Kim não conseguiu compartilhar a euforia do príncipe. Extremamente preocupado, seguiu os movimentos de Rangarig, que cambaleava nos céus e novamente corria risco de despencar. Faltava um pedaço de uma das asas e seu corpo estava coberto por feridas.

Priwinn, sério novamente, disse a Jarrn:

— E agora... como tu mesmo disseste, podemos conversar. Jarrn lançou um olhar cheio de ódio:

— O que queres? Não tenho nada a ver contigo.

— Mas eu tenho algo a te dizer — replicou o príncipe. — Eu te aconselho a não criar problemas, senão poderás ter o mesmo destino do teu amigo de aço.

— Acho que vamos ter problemas! — interrompeu Bocadinho. À primeira vista não sabiam o que o animalzinho quis dizer, mas depois entenderam: Rangarig, com as asas apertadas contra o corpo, desceu em vôo rasante, feito uma flecha, a boca escancarada, as garras à mostra:

— Rasgarei todos! — berrou. — Mato! Rasgo!

O dragão dourado, totalmente exaurido, estava louco de dor. Foi o que lhes salvou a vida! Os amigos correram para todos os lados e os anões, soltando gritos estridentes, tentaram se salvar de alguma maneira, porque estavam presos às suas amarras. Mas de nada adiantou, pois Rangarig os alcançou.

Apavorado, Kim se jogou na lama e cobriu a cabeça com os braços. Uma chama esbranquiçada passou por eles e transformou a lama em vapor. Seguiu-se uma explosão estrondosa, que lançou para o alto água e lodo, cobrindo o dragão por inteiro.

— É isso! — berrou Rangarig. — Matar!

Tossindo muito, Kim se ergueu, e de olhos lacrimejantes notou um movimento ao seu lado. Era um dos anões que caíra com o rosto enterrado na lama. Como estava com as mãos e os pés amarrados, corria o risco de morrer sufocado. Kim tirou o gnomo da lama e limpou seu rosto o melhor que pôde. Depois sacudiu o homenzinho até que este começasse a respirar de novo. Só depois viu que era Jarrn! Kim salvara sua vida!

Mas em vez de lhe agradecer, o anão tentou morder seu dedo. Kim o jogou de volta na lama, mas teve o cuidado de deixar seu rosto acima da superfície. Depois se pôs à procura de Rangarig.

O dragão ainda estava tentando se equilibrar no ar a um metro do chão, mas, pelo visto, suas forças o haviam abandonado definitivamente: ele caiu de lado e despencou no solo.

Num impulso e até mesmo contra sua vontade, Kim levantou e com lama até os joelhos foi até onde o dragão caíra. Ouviu os gritos dos amigos, mas não lhes deu atenção. Quando, finalmente, alcançou o dragão, seu coração martelou no peito e sua garganta estava seca.

Rangarig estava deitado de lado. Uma de suas asas parecia quebrada, pois não conseguia abri-la. Respirava com dificuldade e do seu peito saíam penosos chiados. Kim não conseguiu evitar um gemido, quando viu as feridas que o dragão de aço infligira a Rangarig. Quando olhou para o rosto escamoso, estarreceu: não era Rangarig que estava em sua frente! Já não era mais o olhar do dragão dourado que ele conhecia e amava. Eram os olhos de uma fera! Kim só via ódio e vontade de matar!

A boca, também ferida, abriu-se expelindo sangue e espuma. Mas, lá no fundo, na goela de Rangarig, Kim viu o ardor do fogo e um sopro quente lhe bateu no rosto.

— Rangarig, por favor! — implorou Kim, com voz baixa. — Por favor, acorde!

O dragão rosnou. Lentamente, como se isso lhe custasse um esforço enorme, ergueu a pata e tentou atingir o rapaz, mas não tinha forças para mais nada.

— Rasgar! — murmurou o dragão. — Eu acabei com ele... rasguei!...

— Você acabou com ele — disse Kim. — Você venceu! Não existe ninguém igual a você, Rangarig! Você salvou as nossas vidas!

— Rasgar! — repetiu Rangarig, e por um momento Kim pensou ver um lampejo de reconhecimento nos olhos do dragão.

Mas esse momento passou e Rangarig voltou a ser a fera assassina que só não os matou porque simplesmente lhe faltaram forças. De repente Kim se deu conta de que talvez só lhe restassem alguns minutos para fugir dali. No entanto, em vez de se salvar, aproximou-se ainda mais do dragão.

— Acorde, Rangarig, eu lhe imploro! Você me conhece!

— Vá! — murmurou Rangarig. — Salva-te!

— Você está me reconhecendo! — alegrou-se o rapaz. Já havia ajudado o dragão antes, conseguiria novamente! — Você me reconhece — repetiu. — Agora está tudo bem!

— Reconhecer — respondeu Rangarig, com um gemido doloroso. — Odeio... homens... todos... rasgar... salva-te!

Gorg, que o seguira, colocou a mão no ombro de Kim:

— Vem, tu não podes fazer nada! Sem se virar, Kim gritou:

— Não!

Tentou tirar a mão do gigante do seu ombro, mas Gorg não soltou.

— Temos que sair daqui, antes que ele recupere as forças — disse Gorg. — Ele vai nos matar!

— Matar! É isso! — rosnou Rangarig.

— Rangarig é meu amigo — revoltou-se Kim. — Ele nunca me faria mal!

O gigante balançou a cabeça:

— Não, Kim — disse com uma profunda tristeza. — Rangarig foi teu amigo, agora não é mais.

No íntimo Kim sabia que Gorg falava a verdade. O próprio Rangarig o havia prevenido, mas ele recusou-se a aceitar. Todos eles viveram uma ilusão com respeito ao desfecho da luta. Claro, Rangarig vencera o inimigo, mas no final das contas foi o dragão de aço que se saiu vitorioso.

Amarraram os anões uns aos outros com algumas tiras de pano, que extraíram de suas próprias roupas, o que dificultava qualquer tentativa de fuga, mas lhes dava a possibilidade de se locomoverem. Depois se puseram a caminhar, a princípio sem rumo definido, apenas movidos pelo desejo de se afastarem o mais depressa possível do dragão Rangarig, que agora representava perigo. Não era nada fácil estabelecer uma estimativa de distância neste deserto de lama e poças. Mais difícil ainda era manter uma relação com o tempo.

Andar era penoso e muitas vezes o lodo pegajoso lhes chegava até a cintura. Não andaram nem meia hora e suas forças já haviam se esgotado. Os anões se locomoviam com extrema dificuldade e freqüentemente os amigos tinham de puxar as pequenas figuras da lama pelos cabelos e braços, para que não morressem sufocados no lodo. Até o gigante Gorg respirava com dificuldade. Finalmente, alcançaram uma espécie de ilha em meio ao mar de lama. Era um pedaço de chão redondo e seco, onde resolveram fazer uma pausa para descansar, pelo menos por alguns minutos. Mas acabaram ficando quase uma hora. Todos, inclusive os prisioneiros, deitaram no chão, exauridos, enquanto Gorg se propôs a ficar de vigia.

Depois de algum tempo, Kim abriu os olhos e a primeira coisa que viu foi o rosto de Jarrn, que estava sentado ao seu lado. O rosto miúdo do anão, feio por natureza, estava coberto de sujeira, o que o tornava ainda mais horrendo. O anão o encarou num misto de raiva e desprezo. Nos olhos negros do homenzinho não havia nada além de cobiça e um ódio contra tudo e todos.

— Então? — perguntou Jarrn, com voz rouca, depois que os dois se encararam por algum tempo. — Satisfeito?

— Com o quê? — revidou Kim, irritado.

— Com a situação que criaste, idiota! — vociferou Jarrn. — Vamos morrer e só por causa da tua imensa idiotice!

— O quê? — perguntou Kim, estupefato. Priwinn, deitado ao seu lado, ergueu a cabeça e olhou para eles. Jarrn prosseguiu:

— Não estaríamos aqui se tivesses cumprido a promessa...

— Promessa?

— De te entregares, ora!

Era o cúmulo! A desfaçatez do anão não tinha limites. Jarrn realmente o culpava pela situação!

— Esse tal de Rangarig, outro idiota, vai acabar com todos nós — continuou Jarrn. — De que adianta fugir? É melhor esperar aqui até que ele venha nos pegar. Que diferença faz?

— Nada disso vai acontecer — disse Gorg, muito calmo. O anão inclinou a cabeça para trás e olhou para o gigante:

— Ah é? Posso saber por quê?

— Rangarig está muito ferido. Vai demorar um bom tempo até que se recupere, tempo suficiente para pensarmos numa solução.

Gorg apontou para o gato Sheera, que se acomodou no seu colo, de onde vigiava os anões amarrados uns aos outros.

— Pouco antes de vos lançardes contra nós Sheera farejou homens — disse Gorg. — Com um pouco de sorte, podemos encontrá-los.

— Com um pouco de azar — replicou Jarrn. — O gato tem razão, eles estão bem próximos. Mas eu aconselho a evitá-los.

— Por quê? — perguntou Priwinn.

—São piratas do rio — respondeu Jarrn. — Uma gente muito perigosa.

— Piratas do rio? — indagou Kim, lembrando do navio sinistro, todo preto, que vira. — Se eles são seus inimigos, isso não quer dizer que também estejam contra nós.

— Não resta a menor dúvida que eles também estão contra vós, revidou Jarrn.

— Ele tem razão — disse Priwinn. — É melhor evitarmos os piratas do rio.

— É mesmo? — perguntou Jarrn fazendo uma careta. — E para onde queres ir, idiota das estepes?

Priwinn teve vontade de assentar a mão na cara do anão, mas se controlou. No momento tinha outras preocupações. Ignorou a ofensa e esticou o braço:

— Para o Norte, claro. Precisamos encontrar o Castelo do Fim do Mundo.

Kim julgou ter visto um lampejo de medo nos olhos do anão, mas não teve certeza.

— O Castelo do Fim do Mundo? — perguntou Jarrn, com voz rouca. — O castelo dos guardiões do universo?

— Esse mesmo — confirmou Priwinn.

Jarrn balançou a cabeça. Olhou primeiro para Kim, depois para Priwinn e deu de ombros. Em seguida levantou e com o costumeiro desdém, disse:

— Então vamos, o caminho é longo.

Realmente, o caminho era longo. Andaram o dia inteiro e não trocaram nem meia dúzia de palavras, pois precisavam de todas as forças para colocar um pé diante do outro, um empreendimento bastante penoso na lama pegajosa. Só aproveitavam para descansar por alguns minutos, quando deparavam com uma das ilhas secas em meio à lama.

Ao entardecer, um dos anões se soltou e tentou fugir. Gorg nem se deu ao trabalho de persegui-lo. O gigante fez um sinal para o gato Sheera e em poucos minutos o fugitivo estava de volta, com alguns arranhões a mais no rosto. Depois disso, ninguém mais tentou escapar.

Na última luz do dia, os olhos afiados de Bocadinho detectaram uma elevação na paisagem, um pouco mais adiante. Eles a alcançaram quando o sol já se punha. Só restava uma tira avermelhada no horizonte.

Mais uma ilha em meio ao oceano de lama. Era maior do que as sutras que viram até então. Porém havia algo diferente: no centro da “ilha” erguia-se uma espécie de corcova de ferro, de uns três metros de altura, cuja superfície estava salpicada por inúmeros buraquinhos. No ar pairava um estranho cheiro e do interior da corcova vinha uma espécie de zumbido abafado.

— O que é isto? — perguntou Priwinn, aproximando-se da estranha formação. O príncipe encostou a ponta dos dedos na coisa, mas retirou a mão imediatamente. — É quente! — exclamou, surpreso.

Kim, que o seguira, pôs a mão no flanco da corcova de ferro. O metal, enferrujado e corroído pelo tempo, era, como Priwinn dissera, quente! Um tanto confuso, Kim olhou para seus amigos e depois se voltou para os anões.

Os anões desviaram o olhar, com exceção de Jarrn, que não parecia nada contente. Ao contrário, lembrava um animal acuado. Ma; por quê?

De repente, Priwinn expeliu o ar com toda força. Assustado, Kim olhou para o amigo, que ainda estava na frente da estranha formação, de olhos arregalados. O príncipe virou abruptamente, agarrou Jarrn pelo pescoço e o puxou para o alto:

— Malditos anões! — esbravejou. Ao mesmo tempo sacudiu Jarrn com tanta força que este começou a gritar e a espernear.

— Fostes vós que criastes esta coisa, não é?

Kim não entendeu nada. Confuso, seu olhar pulou de um para outro e depois se fixou na corcova que agora expelia um vapor quente e... de repente entendeu!

— Estas... estas coisas derreteram o gelo! Priwinn sacudiu o anão com mais força:

— Vós as construístes! Não é isso? Responde, anão!

— Me solta, estúpido! — berrou Jarrn.

Priwinn realmente soltou o anão, mas tão de repente, que o homenzinho caiu na lama e afundou.

— Quantas dessas... coisas construístes? — perguntou Priwinn.

— Muitas — respondeu Jarrn, um pouco sem graça. — Não sei quantos, talvez mil. Demoramos muito para construí-los, acredita, não foi fácil.

— E por que fazem isso, Jarrn? — perguntou Kim.

— Por que, por quê! — repetiu Jarrn, imitando a voz do rapaz. — Eles pediram.

— Eles? Quem? — perguntou Priwinn, exaltado.

— Os piratas do rio, ora — respondeu Jarrn. — Eles nos procuraram e acabamos fechando negócio. Temos um contrato com eles.

— Um contrato para destruir estas terras?

Kim fez um gesto apaziguador na direção do príncipe e com surpreendente calma se dirigiu ao anão:

— Conte! — ordenou.

Jarrn estava visivelmente preocupado. Olhou de maneira furtiva para as mãos do príncipe, como se temesse levar um soco.

— Eles nos pediram para dar sumiço no monstro. É o que fizemos.

— O Tatzelwurm — murmurou Gorg.

— Isso mesmo — disse Jarrn, inclinando a cabeça. — Depois queriam um túnel que atravessasse as montanhas. Pois fizemos o túnel. E por fim queriam terras férteis para criar pastos. Atendemos a todos os seus pedidos. Cumprimos com a nossa parte do contrato, até a última vírgula. Mas eles nos enganaram. Quando queríamos cobrar o dinheiro justo pelo nosso trabalho, eles nos expulsaram. Os anões que não conseguiram escapar a tempo foram acorrentados e levados como escravos.

— Eles passaram a perna em vocês — disse Priwinn, e não dava para ignorar a satisfação que sentia. — Trapaceiros enganados por trapaceiros!

— Não somos trapaceiros! — protestou Jarrn. — Não enganamos as pessoas!

— Isso é verdade — concordou Gorg, o que lhe valeu um olhar nada amigável do príncipe.

— E onde estão todos estes fornos? — perguntou Priwinn.

— Não tenho a menor idéia — respondeu Jarrn. — Nós apenas os construímos. O resto, isto é, a instalação, ficou por conta dos piratas.

— Então provavelmente todas estas terras estão destruídas de maneira irreversível! — exclamou Priwinn, desesperado.

Jarrn não respondeu. Apesar do calor irradiado pelo forno de ferro, Kim sentiu um terrível frio que tomou conta de todo seu corpo, mas principalmente de sua alma.

 

Durante o percurso rumo ao Norte, a temperatura foi aumentando. O frio já não era tão intenso e apareciam cada vez mais trechos secos, verdadeiras ilhas em meio ao mar de lama em que se transformara o mundo outrora branco dos gigantes do gelo. O uso indiscriminado das máquinas fabricadas pelos anões nesta região de Märchenmond provocou uma verdadeira revolução na natureza. E quando o Sol alcançou o zênite, já estavam caminhando sobre chão seco. Só vez ou outra ainda se via alguma poça ou um atoleiro de lama. Era o segundo dia de caminhada e, após algumas horas, a noite começou a se instalar. O Castelo do Fim do Mundo, morada às margens do tempo, sede dos poderosos guardiões do mundo, estava próximo!

O gato Sheera, com seu olhar apurado, foi o primeiro a avistar as torres de gelo. Pouco mais tarde Kim vislumbrou um relampejar no horizonte, o que lhes deu novo ânimo, pois reacendeu a esperança de que O Castelo do Fim do Mundo tivesse sobrevivido à destruição do deserto gelado! A caminhada de dois dias, praticamente sem pausa, exigira deles o máximo e levou-os à beira da exaustão. Além disso, as provisões tinham acabado. No entanto, a certeza de que, finalmente, chegariam ao seu destino, fez com que acelerassem o passo novamente. Mesmo assim, ainda se passaram algumas horas até que o castelo feito de neve e gelo surgisse à sua frente em toda sua plenitude. Porém, quanto mais se aproximavam, uma aflição cada vez maior se apossava deles. A esperança aos poucos foi cedendo lugar à inquietação e um pesado silêncio se instalou. Não apenas o fato de que ninguém veio ao seu encontro para saudá-los os deixou preocupados, pois os gigantes do gelo viviam isolados às margens da eternidade e não se incomodavam com o resto do mundo. No entanto, a cada passo em direção ao palácio de gelo, aumentava a sensação de que algo de muito grave estava acontecendo. E realmente não durou muito para que descobrissem a verdade, e o choque foi doloroso demais!

O gigantesco portal de gelo com o número oito em posição horizontal, o símbolo da eternidade, continuava intacto. Em contrapartida, as ameias de gelo que se erguiam sobre o portal haviam diminuído e as torres se assemelhavam mais a enormes velas derretidas sob os efeitos do sol. Os muros, também de gelo, outrora retos, haviam se inclinado, encostados um no outro, como se já não mais suportassem o próprio peso.

Kim parou a alguns passos do portal. Simplesmente se recusou a aceitar o óbvio: o Castelo do Fim do Mundo estava derretendo!

Ainda dava para sentir o sopro gelado dos imponentes muros, mas era impossível ignorar que a desgraça que atingira esta região de Märchenmond não poupara o Castelo do Fim do Mundo! O degelo aqui era mais lento como nas terras ao redor do castelo e, quem sabe, o Castelo do Fim do Mundo ainda resistisse por algum tempo, mas, no final, também estaria fadado a desaparecer. A tristeza era tão profunda que chegava a doer.

Arriscaram tudo para chegar até aqui! Um de seus amigos sacrificara a própria vida e provavelmente também eles morreriam mesmo antes de encontrar o Rei do Arco-íris. E tudo isto só por causa de uma frágil esperança que havia nascido do desespero, uma probabilidade remota de que os guardiões da eternidade pudessem intervir no destino de Märchenmond e reverter a situação. Tudo em vão!

— Onde... onde estão os gigantes do gelo? — perguntou Priwinn.

— Foram embora — murmurou Gorg, com voz trêmula e o rosto contorcido de dor. — Foram todos embora. Não conseguem mais viver aqui. Eles... necessitam do frio e do gelo como nós precisamos do calor do sol. Talvez... talvez estejam mortos. — De repente o gigante agarrou um dos anões e o jogou para o alto: — Eles podem estar mortos! — gritou. — Vós os matastes com suas malditas máquinas!

O anão soltou um grito estridente, começou a estrebuchar e logo depois estarreceu, quando o gigante lhe mostrou seu punho, maior do que a cabeça do anão.

— Vós os matastes! — repetiu Gorg.

Priwinn tentou acalmá-lo e pegou no braço estendido:

— Gorg! Calma!

O gigante caiu em si, baixou a mão e soltou o anão sem lhe causar mal.

— Ninguém sabe se estão mortos ou não — continuou Priwinn. — Provavelmente foram embora, como dissestes ainda há pouco.

O Príncipe das Estepes esboçou um sorriso triste e esticou a mão para acariciar o rosto do gigante, mas não o alcançou. Gorg olhou para ele, sem enxergá-lo de fato. Depois deu as costas e se afastou. Kim queria segui-lo, mas o príncipe o deteve e, sem palavras, meneou a cabeça. O gigante queria ficar sozinho com sua dor.

Kim esforçou-se para conter as lágrimas. Depois de vencer os incontáveis perigos e obstáculos que a natureza lhes havia colocado no caminho, finalmente chegaram ao destino, só para constatar que tudo fora em vão! Simplesmente não era justo! De repente, Kim lembrou das palavras que o dragão dourado lhe dissera naquela última manhã que passaram juntos: quem disse que a vida é fácil?

— Venham — disse Priwinn, depois de algum tempo. — Vamos dar uma olhada, talvez nem tudo esteja perdido.

Todos estavam conscientes de que as palavras do príncipe expressavam o que ele desejava e não o que realmente pensava. Mas ninguém protestou.

Se visto do lado de fora o castelo estava desaparecendo, por dentro continuava com o mesmo esplendor de outrora. Para Kim era uma volta ao passado! Quando atravessaram o amplo pátio interno que conduzia à sala do trono, o frio intenso transformou seu hálito em vapor. Aqui nada mudara, até o tempo parecia congelado. A idéia de que este baluarte de eternidade congelada pudesse desaparecer lhes parecia totalmente absurda. A esperança de que a qualquer momento uma das portas se abrisse e surgisse um dos poderosos guardiões do mundo, todo de branco, para lhes perguntar o que faziam ali, deu-lhes força para seguir em frente.

No entanto nada aconteceu. O castelo gelado estava deserto, abandonado. Passaram por cômodos, corredores e vestíbulos, subiram imponentes escadarias de gelo cintilante e andaram por balaustradas de neve reluzente, para, finalmente, chegar à sala do trono.

O abandono também aqui! Lá estava a mesa comprida, onde, em tempos passados, sentara com os gigantes do gelo. Kim lembrou até da posição exata que ocupara naquele momento, ou seja, bem em frente ao gigantesco trono, ao lado do barão Kart, o líder dos cavaleiros negros, que o perseguira até lá.

Seu olhar caiu sobre a porta estreita atrás do trono e seu coração começou a bater forte. E como da outra vez, ela se abriu, movida por mãos invisíveis. Só que agora ela não dava para a planície de gelo que se estendia até o infinito, onde ele e o barão Kart travaram seu derradeiro duelo. Hoje não havia nada além de um pequeno quarto vazio. Com um profundo suspiro que traduziu toda a sua decepção, Kim fechou os olhos e se apoiou na parede gelada. Os gigantes do gelo eram os guardiões dos mundos e somente a eles cabia decidir a quem concediam a graça de atravessar o caminho do nada. Com o desaparecimento dos gigantes do gelo também desaparecia o caminho para a eternidade. Essa era a realidade! Kim tinha consciência disso, mas no fundo do seu coração ardia uma minúscula faísca de esperança, que, neste momento, apagou-se por completo.

Durante muito tempo permaneceu de olhos fechados, encostado na parede, até seu corpo começar a doer. Quando abriu os olhos se deparou com Gorg. O gigante que mal cabia na pequena câmara. Deu para notar que, como ele, Gorg também derramara lágrimas de amargor.

— É difícil para você, não é? — perguntou Kim. — Eles eram seus amigos?

O gigante balançou a cabeça. Algo havia mudado! Seus olhos já não resplandeciam a bondade de outrora. Seu semblante agora era selvagem, a mesma expressão que Kim vira nos olhos de Rangarig, quando o dragão se transformou em fera perigosa.

— Eu e eles... pertencíamos ao mesmo povo — disse Gorg em voz baixa. — Esboçou um sorriso amargo: — Tu não entendes, não sabes nada a respeito.

— Com certeza ainda estão vivos — disse Kim, sem, no entanto, acreditar nas próprias palavras.

Imponente, Gorg balançou a cabeça:

— Estão mortos, eu sinto.

O que mais desejava Kim neste momento era poder transmitir ao amigo um pouco de conforto, mas lhe faltavam palavras. Por isso, decidiu voltar para a sala do trono.

O Príncipe das Estepes, cujo rosto estava petrificado, permanecia ao lado da porta, os olhos fixos em algum ponto invisível, enquanto os anões, com a falta de respeito que lhes era peculiar, espreguiçavam-se nas cadeiras de gelo artisticamente esculpidas. Discutiam em altos brados numa língua que Kim não conhecia. Bocadinho e Sheera estavam sentados, lado a lado, no centro da grande mesa, de olho nos ruidosos anões.

— Sinto muito — murmurou Kim.

— O quê? — perguntou Priwinn, com uma voz que não era a dele.

— Temístocles tinha razão, nunca devíamos ter vindo — disse Kim.

— Foi certo o que fizemos. Pelo menos tentamos — respondeu o príncipe. E com um sorriso triste de cortar o coração, continuou: — Quando vieste ao reino de Märchenmond pela primeira vez, quase conduzi meu povo à desgraça, só porque não dei ouvidos a ti, Kim.

— Desta vez eu me enganei — revidou Kim, aflito.

Porém, de repente, percebeu que não era bem assim. Foram Gorg e Priwinn que fizeram a escolha errada! Naquela época enfrentaram um inimigo que lutava com uma espada. Mas desta vez não havia inimigo de espada na mão, aliás, talvez nem houvesse inimigo algum! Talvez aquilo que combatiam com tanto desespero não fosse nada mais do que a mudança dos tempos. Onde estava escrito que o futuro tinha de corresponder exatamente aos ideais daqueles que viviam no passado?

Do centro da mesa, Bocadinho se manifestou:

— Parei de sentir pena um do outro! O que Pretendeis fazer agora? O frio está de lascar!

— Além do mais, a companhia não me agrada — acrescentou Sheera com um olhar furioso na direção dos anões.

Kim concordou com Bocadinho, mas não disse nada. A situação não era nem um pouco animadora, aliás, na verdade era dramática: a comida tinha acabado, estavam à beira da exaustão e, para piorar, Rangarig se transformara numa fera e talvez neste momento estivesse sobrevoando o castelo à procura deles.

Pelo jeito, Priwinn pensava o mesmo:

— Eles têm razão — disse o príncipe, esfregando as mãos para espantar o frio. — Se continuarmos aqui, vamos morrer de frio.

— Voltar pelo mesmo caminho também seria morte certa — replicou Kim.

Priwinn deu de ombros:

— Tem alguma idéia melhor?

Kim não sabia o que dizer. A idéia de um eventual retorno até então nem lhes passou pela cabeça, pois primeiro estavam certos de que iriam percorrer a distância em pouco tempo, sobre o lombo de Rangarig, e, além disso, haviam confiado cegamente na ajuda do Rei do Arco-íris. E agora estavam sozinhos!

— Julgueis que sois muito espertos, não é mesmo? — ironizou Jarrn.

Kim se limitou a olhar feio para o anão e Sheera mostrou suas garras afiadas. Apesar de assustado, Jarrn não se intimidou e continuou com suas ironias:

— Aposto que nenhum dos grandes estrategistas aqui presentes levou em consideração a possibilidade de terem que voltar, não é?

— Vamos conseguir — respondeu Kim, mal-humorado. Jarrn balançou a cabeça nanica:

— Provavelmente vão se afogar em alguma poça ou morrer nas garras do dragão. O pior é que nós, anões, vamos morrer com vocês. Mesmo se, na mais remota possibilidade, conseguirem alcançar o rio, morrerão nas mãos dos piratas.

Gorg voltou a ser o mesmo, pelo menos aparentemente. Com o corpo erguido, demonstrou calma e autocontrole. Chegou a esboçar um leve sorriso. Mas quem o conhecia melhor notava a profunda tristeza nos seus olhos.

— Não tenho medo de meia dúzia de vagabundos! — bradou. Jarrn lançou um olhar de desdém para o gigante:

— Ah! Tamanho e força não significam nada! Vamos todos cair nas garras dos piratas!

Gorg não se alterou. Indiferente ao sarcasmo do anão, deu de ombros:

— Se isso acontecer, paciência. Tens uma solução melhor, anão? Jarrn hesitou por um instante, depois disse:

— Talvez.

Surpresos, Kim e o Príncipe das Estepes se entreolharam.

— O que você quer dizer com isso? — indagou Kim. Jarrn deu um passo atrás e apontou para os companheiros:

— Nós debatemos a questão — disse. — Acreditai ou não, o que encontramos aqui também nos pegou de surpresa. Além do mais, queremos permanecer vivos, como vós.

— Desembucha logo — interrompeu-o Priwinn, bastante rude. O anão lançou um olhar de puro veneno e murmurou algo. Depois disse em voz alta:

— Existe uma maneira de sair daqui.

— Como? — perguntaram Kim e Priwinn ao mesmo tempo.

O anão mostrou um sorriso maldoso e, vagarosamente, balançou a cabeça:

— Ah... não é tão simples assim. Em primeiro lugar, exijo a vossa palavra de honra de que irão nos libertar.

Priwinn deu um sorriso de desdém, mas o anão não lhe deu atenção:

— Existe um caminho de volta — explicou. Nós o conhecemos, mas precisamos de vós.

— Que caminho é esse? — perguntou Gorg, desconfiado. Jarrn não respondeu de imediato. Estava claro que hesitava em revelar seu segredo. Mas, por outro lado, entendeu que só teriam uma chance de sair vivos daquele lugar se todos ficassem juntos. Resolveu arriscar:

— Como Sabeis, vivemos em cavernas. Conhecemos muitos caminhos por baixo das montanhas. Perto daqui existe um túnel que desemboca diretamente na grande árvore.

— Uma caminhada de quase duas semanas — objetou Priwinn.

— Não pela caverna dos anões — respondeu Jarrn. — Então, vão nos libertar?

— Só quando tivermos alcançado a árvore — disse Priwinn, mas Jarrn balançou a cabeça:

— Nada feito! Tem que ser agora! Era a vez do príncipe menear a cabeça:

— De jeito nenhum! — exclamou. — Tu vais nos abandonar em uma daquelas cavernas! Vamos nos perder e morrer de fome e sede! É isso que pretendem! Achas que somos idiotas?

Jarrn soltou uma risada de puro menosprezo:

— Queres uma resposta sincera?

Priwinn fez menção de bater no anão, mas este, mais que depressa, continuou:

— Eu já disse: não vamos conseguir esta façanha sozinhos. A travessia por debaixo da terra é perigosa, eu sei, porque fomos nós que escavamos o túnel. Mas ele já não nos pertence, os piratas se apossaram dele. Juntos talvez tenhamos uma chance. Então, que tal?

Tanto Priwinn como Gorg pareciam não confiar nas palavras do anão. Coube a Kim decidir.

— Pois bem — disse o rapaz. — Vocês estão livres, mas sob uma condição.

Jarrn olhou desconfiado:

— Condição?

— O que vale a palavra de um anão? — perguntou Kim.

Jarrn inflou as bochechas e provocou um ruído indecoroso:

— Vale tanto quanto a tua, rapaz.

— Pois então quero a tua palavra de honra de que irão nos levar até a árvore — exigiu Kim. — Não pretendemos lutar com os piratas e abrir o caminho para que depois nos abandoneis em algum lugar.

Para surpresa de todos, Jarrn começou a rir:

— Estou começando a gostar de ti, rapaz! Está bem, tens a minha palavra. Vamos dar uma trégua até chegarmos à grande árvore. Depois é cada um por si.

Jarrn falara a verdade! A caverna realmente não ficava longe do Castelo do Fim do Mundo. Primeiro tiveram que voltar um bom pedaço do caminho pelo qual vieram. Depois se dirigiram para Oeste e por um bom tempo seguiram um curso quase em ziguezague. Kim começou a temer que os anões estivessem fazendo um jogo cruel com eles, deixando-os propositadamente confusos para depois, num momento propício, abandoná-los. Mas inesperadamente Jarrn parou e apontou para um buraco no chão, um poço de uns dois metros de diâmetro. Desconfiado, Kim se debruçou para frente. Um minuto antes seria capaz de apostar que não havia buraco algum. Como o sol já estava baixo no horizonte, a visibilidade era limitada. Mas não restava dúvida de que se tratava de considerável profundidade. Nervoso, o rapaz levantou e lançou um olhar indagador para os amigos. Já não estava seguro quanto ao acordo que firmara com o anão.

— Estais esperando o quê? — perguntou Jarrn, impaciente. — O primeiro trecho não é perigoso.

Priwinn suspirou:

— Eu vou primeiro.

Gorg segurou o braço do príncipe:

— Vou na frente, quem sabe o que nos espera lá embaixo. Além disso... se um de vós caíreis, posso segurar. Se fosse o contrário... hum, jamais agüentaríeis o meu peso.

Ninguém se opôs e assim Gorg, vagarosamente e com muito cuidado, desceu para as profundezas desconhecidas do poço, acompanhado pelos olhares preocupados dos amigos e pelo último clarão do dia. Pouco depois a escuridão o engolia. Primeiro desapareceram as pernas e o corpo, ficando à mostra os ombros e a cabeça. Por último viu-se uma das mãos e depois mais nada! Era como se estivesse mergulhando na superfície totalmente imóvel de um lago negro.

— Agora é a minha vez — disse Jarrn e empurrou Kim, que se preparou para descer.

— Esse gigante idiota é capaz de se perder lá embaixo — disse o anão.

Kim queria dar uma resposta áspera, mas se conteve. Notou que Priwinn também fazia força para manter a calma. Haviam estabelecido uma trégua com os anões, mas isto não significava que eram obrigados a baixar a cabeça e obedecer às ordens deles.

Sucessivamente, um atrás do outro, desceram para o desconhecido. Kim e seus amigos experimentaram a mesma sensação, isto é. mergulhar em algo irreal, não palpável, deixando para trás a última luz do dia. Nesse lugar havia uma presença lúgubre, obscura e gelada que atingia o corpo e a alma.

A descida foi mais longa do que imaginaram: quase vinte minutos até atingirem o fundo do poço. As mãos e os pés trêmulos, Kim se encostou à parede por alguns segundos para recuperar o fôlego. Descera por uma espécie de chaminé que terminou num salão redondo, não muito alto, de paredes lisas. Contrariando as expectativas, aqui não reinava a escuridão total. Havia uma luz tênue, frouxa, que conferia ao cenário um aspecto irreal, fantástico.

Gorg, com Priwinn ao seu lado, estava de joelhos e se locomovia de quatro, pois como o teto era muito baixo, não conseguia ficar em pé. Jarrn e seus companheiros aglomeraram-se em um dos cantos do salão.

— E agora? Que direção seguimos? — perguntou Kim. As paredes de uma lisura fora do normal devolveram sua voz em múltiplo eco.

Jarrn, nada mais que uma minúscula sombra na luz difusa, acenou-lhe, assustado:

— Fale baixo! — sussurrou. — Queres que nos ouçam?

— Tu não disseste que esta parte do túnel era segura? — perguntou Priwinn.

Jarrn fez um gesto, mas na penumbra não deu para entender o que significava:

— É seguro... normalmente — murmurou, nervoso. — Mas nunca se sabe, não é? De qualquer forma, temos que seguir por aqui, eu vou na frente.

Como ninguém protestou, o anão assumiu a liderança do pequeno grupo. Aos poucos Kim e seus amigos foram se acostumando com o ambiente sinistro dos corredores subterrâneos. A visibilidade continuava limitada a não mais do que cinco ou, no máximo, seis passos. Mas, agora, pelo menos, já dava para reconhecer alguns contornos. Uma coisa era certa: o túnel não era obra da natureza! Os anões teriam dito a verdade quando afirmaram que ele levava até a grande árvore? Todo este sistema ramificado debaixo da terra seria mesmo obra dos anões?

A medida que seguiam os anões pelo labirinto desconhecido, foram perdendo qualquer noção de tempo. Passaram por corredores abertos na rocha, gigantescas cavernas naturais, pedras ciclópicas e abismos infinitos que se abriam à sua frente, de maneira inesperada e assustadora.

Por vezes se viram obrigados a escalar formações rochosas tão hostis que até mesmo para Kim, acostumado a esse tipo de peripécias, constituíam obstáculos quase intransponíveis. Jamais teriam conseguido sem a ajuda de Gorg que, com forças quase sobre-humanas, pendurou-se nas paredes perpendiculares, como se fosse uma mosca gigantesca, carregando de uma só vez dois ou três deles nos ombros. Agora Kim também entendeu por que os anões fizeram questão de entrar era acordo com eles: embora fossem eles próprios os criadores de grande parte deste labirinto, havia trechos que para eles eram simplesmente instransponíveis. Vez ou outra surgiam buracos e abismos no chão, obrigando-os a escaladas mortais, e numa ocasião só conseguiram passar por uma dessas traiçoeiras crateras com o auxílio de Gorg, que praticamente os lançou, como projéteis, para o outro lado. Nervosos e impacientes, os anões simplesmente recusaram toda e qualquer sugestão de fazer uma pausa e ninguém protestou, pois no fundo todos sabiam que era melhor assim. Embora ninguém tivesse mencionado, Kim percebeu que a ameaça propriamente dita não eram as gargantas rochosas e os labirintos subterrâneos. E não tardaria para que os acontecimentos mostrassem que a sua intuição não falhara.

 

A dor nas costas estava ficando insuportável. Kim empenhou todas as suas energias para suportar o cansaço e as dores e não percebeu que Jarrn, ainda na liderança do grupo, parara de repente. Esbarrou no anão e por pouco não o derrubou. Mas antes que o rapaz pudesse dizer ou fazer algo, o anão colocou o dedo indicador na boca e, com o outro braço, começou a gesticular como um louco.

— O que houve? — sussurrou Priwinn atrás dele. Os gestos do anão se tornaram ainda mais frenéticos. Mudo, apontou para onde o corredor fazia uma dobra, dando-lhes a entender, através de mímicas, que todo cuidado era pouco.

Quando, em silêncio, espiaram pela curva do corredor, entenderam o medo e a preocupação de Jarrn.

O túnel terminava em uma galeria estreita, rochosa, para desembocar em outro buraco redondo, que, por sua vez, levava a um poço ainda mais profundo. A galeria, com certeza, tinha uns quinhentos metros de comprimento e fazia parte da monstruosa catedral esculpida na rocha, que avistaram. Reinava a mesma luz sinistra, acinzentada, que os acompanhara pelo mundo dos túneis que acabaram de deixar para trás, com a diferença de que aqui ardiam inúmeras fogueiras, cuja luz bruxuleante se espelhava na superfície de um grande lago subterrâneo.

Incontáveis balsas movimentavam-se sobre suas águas calmas e um pouco mais longe Kim avistou um daqueles barcos negros que já vira no Rio Desaparecido.

Em toda parte, principalmente entre as fogueiras, fervilhava a vida: homens sentados ou em pé formavam pequenos grupos, seguiam alguma ocupação indefinida, carregavam alguma coisa ou simplesmente dormiam no chão. Ao lado de uma das fogueiras maiores percebia-se uma atividade mais intensa: além de faíscas para todos os lados, ressoavam no ar as batidas de pesados martelos.

— O que é isto? — sussurrou Kim, bastante assustado. Ele e Priwinn bateram em retirada e voltaram, às pressas, para a segurança da galeria.

— Piratas! — sussurrou Jarrn. — Eu sabia que eles tinham uma cidade debaixo da terra, mas nunca a vimos antes.

— Uma cidade? — admirou-se Kim.

— Como vamos continuar sem que nos vejam? — perguntou Priwinn, desanimado.

Jarrn deu de ombros. Pensativo, olhou primeiro para o Príncipe das Estepes, depois para Kim e por último fixou o olhar nos ombros largos do gigante.

— Como somos pequenos, meu pessoal e eu com certeza passamos pelos piratas sem chamar a atenção — disse. — Mas vós, com este gigante atrapalhado a tiracolo... hum... temos que encontrar outro caminho. — O anão balançou a cabeça, parecia refletir sobre o problema. Depois de alguns instantes apontou para trás, ou seja, o caminho pelo qual acabaram de vir: — Existem algumas ramificações, talvez encontremos outro corredor.

E assim retornaram e entraram em uma das bifurcações indicada por Jarrn. O caminho, originalmente reto por um bom trecho, começou a declinar, transformando-se em rampa bastante perigosa pela qual mais rolaram do que desceram. No final da rampa outra caverna os esperava, menor do que a anterior, porém ainda suficientemente grande para comportar uma aldeia inteira!

Perplexos, olharam para o aglomerado de casas feitas de rocha. A maioria não tinha telhado, eram abertas em cima, sem janelas, mas vez ou outra também havia construções maiores de dois e até três andares. De algumas casas saía um clarão vermelho, provavelmente uma fogueira. Aqui também circulavam piratas, se bem que em número menor. E, ao contrário da caverna anterior, não estavam tão expostos, isto é, havia uma chance bem maior de passarem despercebidos. Jarrn apontou para um túnel na parede oposta. Com um pouco de sorte conseguiriam, pois espalhados pelo chão estavam enormes nacos de rocha e cumes de pontas afiadas, abrigos ideais até para o gigante Gorg.

Kim sentiu uma curiosidade quase irresistível. Queria chegar mais perto da aldeia para descobrir mais coisas, porém correr tamanho risco seria loucura. Mesmo assim vacilou um pouco e acabou sendo o último, depois que os outros, curvados e a grandes intervalos, já haviam se aventurado, apressados e às furtadelas, pelas rochas que lhes dariam cobertura. Continuou sendo o último, pois não resistiu à tentação de espiar repetidas vezes pela borda das rochas. Vez ou outra alguém saía de uma das casas e Kim não quis perder nenhum detalhe. Porém, por maior que fosse seu esforço, não viu nada de muito extraordinário: homens e mulheres em roupas simples e rudimentares, de couro ou pele, para se proteger do frio que fazia nas cavernas subterrâneas. Havia até algumas crianças que brincavam ruidosamente no centro da pequena aldeia que, exceto o fato de que fora construída debaixo da terra, era igual a milhares de outras aldeias que Kim vira em Märchenmond. O rapaz se questionou qual seria a explicação para o pavor que os anões tinham dos piratas do rio. A seu ver, não havia nada de muito excepcional neles.

Os outros o aguardavam mais que impacientes quando, finalmente, voltou a se juntar ao grupo. Jarrn pulou de uma perna para outra e também Priwinn gesticulou mal-humorado, dando-lhe a entender, através de caretas, que era preciso ter pressa. O rapaz acelerou o passo, mas novamente não resistiu: virou-se para dar uma última olhadela... e estarreceu!

Nas paredes da caverna havia inúmeras entradas e saídas de tamanhos variados. E, de um destes buracos obscuros saíam, neste exato momento, dois piratas do rio! Mas o pior não era isso! Arrastavam uma figurinha que esperneava desesperadamente, soltando verdadeiras rajadas de gritos estridentes.

Por um segundo o rapaz ficou paralisado, depois bateu em retirada e tratou de se esconder atrás de uma das rochas. Ouviu a respiração acelerada do príncipe, mas não lhe deu atenção. Protegido pelo grande naco de rocha, observou, como hipnotizado, os dois piratas com a sua presa.

A distância era muito grande para que pudesse reconhecer detalhes, mas deu para notar que o prisioneiro era pequeno e magro... uma criança?

E aí tomou uma decisão: virou-se para Priwinn, apontou para o corredor onde estavam os outros e sussurrou:

— Esperem por mim!

Depois, com muita cautela, deixou a rocha que lhe servia de abrigo, e, curvado, pulando de rocha em rocha, aproximou-se da aldeia e dos dois piratas com o seu prisioneiro.

Kim jamais podia imaginar que fosse tão fácil se aproximar deles. A aldeia fora construída bem no centro da caverna, num lugar esférico, que os construtores tiveram o cuidado de aplanar. Porém, para sorte do rapaz, não pensaram em limpar o terreno ao redor da aldeia. Assim, as rochas e o cascalho espalhados por toda parte lhes davam a necessária guarita até alcançar a primeira casa. Com o coração acelerado, Kim se pôs de pé, olhou para os lados e depois, aos poucos, movimentou-se em frente, as costas grudadas na parede traseira da casa.

Pouco depois, só mais alguns passos o separaram dos piratas e do seu pequeno prisioneiro que continuava esperneando. Apesar dos três estarem de costas para ele, Kim teve sua suspeita confirmada: os piratas estavam arrastando uma criança! O coração do rapaz quase parou de susto quando viu que a cabeça do menino estava coberta por folhagem azul-escura. O menino pertencia aos habitantes da grande árvore!

O menino lutou com bravura para se libertar e mordeu a mão de um dos piratas. O outro lhe deu uma violenta bofetada que o deixou quase inconsciente.

— Para de estrebuchar! — gritou o homem, enfurecido. — De nada adianta!

— Por que lutas tanto? — perguntou o outro. — Vamos te levar para um lugar bom, talvez até melhor do que entre a tua própria gente.

Em vez de responder, o menino com a folhagem azul na cabeça se rebelou ainda mais. Um dos piratas praguejou e lhe deu outro golpe, mais forte que o primeiro, que o deixou fora de combate.

— Cuidado — advertiu o seu companheiro. — Morto não tem nenhuma serventia para nós. Ninguém quer crianças mortas.

Kim, de coração acelerado, seguiu-os com os olhos até desaparecerem em uma das casas. Estava fora de si, todo seu ser exigia a libertação imediata do menino. Mas a razão lhe dizia que qualquer tentativa de sua parte neste sentido seria puro suicídio. Os dois piratas eram fortes e de nada adiantaria se ele também acabasse preso.

De repente lembrou das palavras dos piratas: Morto não tem nenhuma serventia para nós. Não restava qualquer dúvida quanto ao seu significado. O que fazer? Indeciso, Kim se virou e... deu de cara com Priwinn, vermelho de raiva.

— Perdeste o juízo de vez? — sussurrou o príncipe, mal contendo a fúria. — Queres acabar com todos nós?

Com gestos nervosos, Kim apontou na direção onde vira os piratas desaparecerem com o menino e suas palavras se atropelaram:

— As crianças! Estão aqui, Priwinn! Os piratas... Assustado, Priwinn tapou a boca do amigo com ambas as mãos, pois Kim falara alto.

— Quieto! Se nos ouvem, acabou tudo!

Priwinn tirou a mão, mas ficou com o braço erguido, pronto para, se necessário fosse, tapar a boca do rapaz novamente.

Mas Kim recuperou o autocontrole, pelo menos parcialmente. Ainda bastante agitado, mas com voz baixa, ele contou o que acabara de observar.

Priwinn, o rosto vermelho, ouviu tudo até o fim.

— Os piratas do rio? — perguntou, depois que Kim terminou. — Mas isto é impossível! Eles não podem... todas estas crianças!...

— Mas eu ouvi nitidamente! — interrompeu Kim. Pensativo, Priwinn silenciou por alguns instantes. Depois balançou a cabeça:

— Está bem. Vamos tentar descobrir o que está se passando. Espere por mim aqui, vou avisar Gorg e os outros.

E antes que Kim pudesse impedi-lo, desapareceu entre as rochas. Quando voltou, depois de pouco tempo, veio acompanhado, para surpresa de Kim, pelo grupo todo: o gigante, Sheera e Bocadinho, e também os anões. Como era de esperar, Jarrn soltou uma rajada de protestos:

— Enlouqueceste! Estás totalmente louco! O que pretendes? Queres que...

Sheera virou para o anão, os olhos amarelados soltando faíscas. Jarrn parou imediatamente.

— Para onde eles foram? — indagou Priwinn.

Kim, que nesse meio-tempo fez de tudo para não perder os piratas e o seu prisioneiro de vista, apontou para um prédio grande à esquerda da praça central, uma das poucas construções que merecia ser chamada de casa, pois tinha telhado, janelas e uma porta.

Por sorte, a porta não era em frente à aldeia, onde poderiam ser vistos com a maior facilidade. Com alguma habilidade e muita sorte poderiam entrar despercebidos.

Aproximaram-se com extremo cuidado, sempre procurando abrigo atrás das rochas. Só mais cinco ou seis passos os separavam da porta. É claro que todos tinham consciência de que estavam correndo um grande risco. A praça entre as casas estava repleta de homens, mulheres e crianças. Se uma dessas pessoas se virasse justo na hora em que atravessavam o trecho que os separava da porta da casa, um trecho que não oferecia abrigo algum, estariam perdidos.

— Não me parece nada bom — comentou Gorg. — Quem sabe o que nos espera lá dentro.

— Estás com medo, gigante covarde? — provocou Jarrn.

Gorg não respondeu. Priwinn olhou para o anão e, de repente, esboçou um sorriso. Para quem o conhecia, ficou claro que tramava algo:

— Gorg tem razão — disse o Príncipe das Estepes. — Um de nós devia ir na frente para sondar o terreno. De preferência, alguém muito pequeno e ágil.

Jarrn ficou lívido:

— Não achas que eu...

— Claro — interrompeu Priwinn. — É exatamente isto que eu acho.

O anão protestou veementemente, mas o gato Sheera resolveu a questão: alcançou o prédio sem ser visto, desapareceu dentro da casa e, depois de poucos minutos, reapareceu.

— Tudo limpo — informou o felino. — No andar de cima não tem ninguém e há uma escada que provavelmente leva ao porão.

— Ah... — fez Jarrn, mal-humorado. — A escada deve levar ao cárcere, idiotas.

— Assim espero — replicou Kim. E dirigindo-se a Priwinn e Gorg, perguntou: — O que vocês acham?

— Acho que seria melhor desaparecer e voltar com homens armados, talvez até um exército — respondeu Priwinn, com um suspiro. — Mas até lá poderia ser tarde demais.

Gorg, que não tirava os olhos do pessoal da praça, não se manifestou. De repente, levantou sem fazer o menor ruído e superou a distância para a casa com dois pulos. Kim e os outros esqueceram de respirar, o susto lhes tirou o fôlego. O milagre aconteceu! O gigante passou despercebido!

— Pois bem! Ide primeiro — disse Priwinn, voltando-se para os anões.

— Por que nós? — resmungou Jarrn. — Por que não podemos ser os últimos?

— Para que não esqueçais o que foi combinado — revidou Priwinn. — Se vos deixarmos por último, podeis nos dar as costas, não é mesmo? .

Jarrn desistiu de protestar, pois de nada adiantaria. Fez um sinal para seus companheiros anões e, visivelmente contrariado, foi atrás do gigante, que já se encontrava na casa. Os anões, minúsculas criaturas que não se diferenciavam muito das rochas acinzentadas, atravessaram o espaço aberto que os separava da casa totalmente despercebidos. Em pouquíssimo tempo atravessaram a porta e desapareceram atrás dela.

Kim, Priwinn, Sheera e Bocadinho chegaram à porta por último, igualmente sem problemas. Ao passar por ela, Kim parou por um instante, na expectativa de que, a qualquer momento, alguém o barrasse. Mas nada aconteceu! Por incrível que pareça, conseguiram a perigosa façanha de penetrar na casa!

Com uma mistura de alívio e medo, o rapaz olhou ao redor: havia uma única sala grande, totalmente vazia, isto é, fora os anéis de ferro embutidos nas paredes, de onde pendiam longas correntes. Cogitações sobre o seu significado, a essa altura, de nada adiantariam. Mas não restava dúvida de que serviam a um fim bastante cruel.

Gorg, de joelhos no meio da sala, ergueu um alçapão de madeira sem nenhuma dificuldade. Apareceu uma luz vermelha, bruxuleante. Além disso, uma escada tirada da própria rocha serpenteava, em curvas estreitas, para as profundezas da terra. Gorg foi o primeiro a descer, seguido pelos outros.

A escada terminou num salão orbicular, do qual saíam cerca de meia dúzia de portas. Gorg encostou o ouvido em uma delas, ficou à escuta por um instante e depois tentou abri-la. Estava fechada! Na dúvida se devia ou não arrombá-la, o gigante lançou um olhar indagador para Priwinn.

O príncipe meneou a cabeça e apontou para outra porta. Seguiu-se o mesmo procedimento e desta vez tiveram sorte: ao apertar a maçaneta rudimentar de ferro, a porta se abriu com um chiado.

À sua frente se estendeu um corredor, iluminado por uma luz vermelha, sombria, bruxuleante.

Nas paredes foram abertas pequenas celas, fechadas com grades de ferro. No chão espalharam feno apodrecido e no ar pairava um mau cheiro de tirar o fôlego. Examinaram cela por cela, cerca de uma dúzia, todas vazias, que, sem dúvida, lhes serviam de calabouços, o que veio a confirmar a suspeita de Jarrn. Mas onde estavam os prisioneiros?

— Tens certeza de que entendeste bem a conversa dos piratas? — perguntou Priwinn, quando percorreram outro corredor, igual ao primeiro e também totalmente vazio.

— Claro — respondeu Kim. — Vi que trouxeram o menino para esta casa... eles têm de estar em algum lugar!

Ainda olharam em mais três corredores, mas não encontraram nada além de celas vazias.

No momento em que iam deixar o último corredor, Gorg os deteve com um gesto nervoso. Depois fechou a porta, deixando apenas uma pequena fresta pela qual pudessem espiar.

Foi por pouco! Primeiro ouviram o tinir de uma chave, depois uma porta foi aberta e em seguida apareceram dois homens altos, com roupas de couro. Kim os reconheceu quase de imediato: eram os que prenderam o menino da árvore!

Os homens subiram a escadaria e pouco depois não se ouvia mais seus passos. Kim e seus amigos ainda esperaram alguns minutos até que ousaram deixar o esconderijo.

— Ufa! Essa foi por pouco — disse Priwinn.

— Vós sois todos uns loucos — resmungou Jarrn. — Vamos dar o fora daqui, antes que nos descubram. Não tenho a menor vontade de conhecer estas jaulas por dentro.

Kim balançou a cabeça e apontou para a última porta, até então fechada:

— Primeiro vamos verificar o que há por detrás desta porta. Os dois saíram por aqui... sozinhos.

O anão ficou bastante nervoso, mas Gorg não se fez de rogado: simplesmente arrancou a porta das dobradiças e a encostou na parede.

Mais um corredor iluminado pela obscura luz de tochas! Também aqui as mesmas celas... só que estas não estavam vazias!

Logo na primeira cela Kim reconheceu o menino da árvore. A cela em frente estava ocupada por uma menina pálida, de mais ou menos doze anos, deitada no feno úmido e malcheiroso. A criança olhou para eles de olhos arregalados.

E havia mais, muito mais! Descobriram mais oito ou nove prisioneiros, apenas crianças! O menino mais velho devia ter a idade de Kim, mas a maioria tinha, no máximo, dez anos!

Kim se precipitou de cela em cela e, desesperado, sacudiu as grades de ferro, na frustrada tentativa de arrebentá-las. Por fim voltou para a cela onde estava a menina pálida. Priwinn fez um sinal para o gigante e Gorg, sem pestanejar, dobrou as grades enferrujadas como se fossem palitos de fósforos, abrindo passagem para Kim e o príncipe.

A menina parecia um animal encurralado, e quando Priwinn lhe estendeu a mão ela recuou para o canto mais extremo da pequena cela. O príncipe e Kim tentaram ganhar sua confiança:

— Não tenhas medo — disse Priwinn —, estamos aqui para ajudar.

— Não pertencemos ao povo do rio — explicou Kim. — Viemos para libertar vocês.

A menina continuou muda. Pelo jeito dela, não acreditava no que diziam.

— Liberta os outros, não demores — pediu Priwinn ao gigante. Depois se virou de novo para a menina: — Não temas, somos teus amigos.

Finalmente a menina reagiu:

— Não... não sois piratas? — perguntou, incrédula.

— Claro que não! Acredite, não temos nada a ver com eles — respondeu Kim no lugar do príncipe. — Estamos aqui para ajudar vocês. Onde estão os outros?

A criança o encarou, confusa:

— Outros? Que outros?

Nesse meio-tempo Gorg abrira todas as celas e o corredor se encheu de crianças: meninos e meninas dos diversos povos de Märchenmond, algumas crianças em estado lastimável. Estavam sujas, magras e esfarrapadas, e o terror deixara marcas profundas em suas faces. Era de cortar o coração!

— Por que fazem isso? — sussurrou Kim, horrorizado. Priwinn soltou uma risada amarga:

— Esqueceste o que o pirata disse há pouco? Crianças mortas de nada valem. Os piratas do rio as vendem!

— É... — disse Kim e lembrou da dor do casal de camponeses. Brobing e sua mulher, pela perda do filho. Balançou a cabeça: — Mas vender para quem?

— Ora! — respondeu o príncipe —, eles as vendem para casais que perderam seus próprios filhos. Quem sabe, talvez a mulher daquele camponês também não fosse capaz de roubar o filho de alguém para substituir o próprio?

— Roubar o filho de outra mulher para substituir o próprio?! — exclamou Kim, estupefato.

Priwinn suspirou:

— O ser humano é capaz de coisas terríveis, quando a dor se torna insuportável. E esses malditos piratas do rio se aproveitam da dor humana para enriquecer. Eles vendem estas crianças em toda Märchenmond.

— Como você pode afirmar isto com tanta certeza?

— O anão Jarrn me contou. Eu acredito nele, pelo menos nesse caso.

De repente Priwinn lhe deu as costas e saiu da cela.

Com palavras carinhosas Kim e seus amigos tentaram conquistar a confiança das crianças. Finalmente, para alívio geral, a maioria começou a entender que, nesse momento, era vital evitar qualquer coisa que pudesse chamar a atenção dos piratas e seguir exatamente as instruções daqueles que estavam fazendo de tudo para salvá-los.

Poucos minutos mais tarde, todos estavam subindo a escada e não demorou muito para que se reunissem na grande sala vazia. Precavido, Kim foi até a porta e espiou lá fora: na praça reinava o mesmo vaivém de antes, um movimento não muito intenso, mas que dificultava as coisas. Com as crianças libertadas, o grupo aumentara consideravelmente, o que dificultava a fuga.

— Alguém tem que desviar a atenção deles — sugeriu Gorg.

— Ah! Podes me dizer como, inteligência rara — perguntou Jarrn cheio de ironia. E sem esconder sua raiva: — Que idéia mais louca! Nunca vamos conseguir sair daqui!

— Talvez exista uma chance — disse Gorg. — Eu...

O gigante não completou a frase. Mordeu os lábios e, pensativo, encarou Jarrn e seus companheiros. Depois, sem mais nem menos, agarrou um dos anões e o enfiou debaixo da camisa. O anão começou a arfar e a espernear, mas silenciou imediatamente, quando o gigante lhe mostrou o seu enorme punho.

— Não vou te fazer mal — disse Gorg, impaciente. — Mas preciso de ti. E apontando para a praça: — Vou provocar um pouco de confusão, o tempo suficiente para que possais escapar. Preciso de anão para me indicar a saída mais tarde.

E antes que alguém pudesse impedi-lo, o gigante com o anão debaixo da camisa passou pela porta. Gorg se precipitou, com passos furtivos, até a próxima casa, mas depois se ergueu em todo seu tamanho, começou a berrar, jogou os braços para o alto e os arremessou para o centro da praça. Foi como se alguém tivesse jogado uma bomba! Quando viram o gigante, as pessoas começaram a berrar, correndo ao seu encontro, depois estarreceram. E então explodiu o pânico! Homens, mulheres e crianças perderam completamente a cabeça e. em corrida desenfreada, fugiram para todos os lados, sem direção definida. Alguns poucos tentaram enfrentar o gigante, mas Gorg os derrubou sem esforço. Um dos homens desembainhou uma arma, porém Gorg lhe arrancou a espada das mãos e a jogou longe. Depois pegou o homem e o lançou contra uma das casas.

— Depressa! — gritou Priwinn — Vamos!

Deixaram a casa em fila indiana. Os anões, que encabeçaram a fila, os conduziram entre as rochas e os levaram para a galeria, de onde encontrariam seu caminho para fora da caverna. Kim, que novamente ficou por último, parou e lançou um último olhar para a aldeia subterrânea.

No centro da praça imperava um indescritível rebuliço. Apareciam cada vez mais piratas para enfrentar o gigante. Gorg, pelo visto. não resistira às investidas de tantos homens ao mesmo tempo e se estatelou no chão.

Preocupado, Kim se questionou se o gigante não subestimara o adversário desta vez. Mas não havia tempo para conjeturas. Seu amigo Priwinn o agarrou pelo braço de maneira nada delicada e o arrastou até a galeria, onde os outros o esperavam, ansiosos. As crianças, ainda bastante amedrontadas, haviam se espremido em um canto e os anões, preocupados com o colega que Gorg levara consigo, em outro. Jarrn tentava puxar conversa com a menina pálida.

— Deixa ela em paz, anão! — ordenou Priwinn.

Mas Jarrn não se intimidou:

— Ela tem que me dizer onde estão nossos irmãos! Eles também são prisioneiros dos piratas!

— De que adiantaria? Não podemos ajudá-los, mesmo se quiséssemos!

Os olhos do anão relampejaram de ódio. Num gesto acusatório apontou para as crianças:

— Por que elas e não os anões?

— Não insista — disse Priwinn. — Gorg não consegue segurar a situação por muito tempo. Quando descobrirem que soltamos as crianças, não vão sossegar até nos encontrar.

— Jarrn tem razão — manifestou-se Kim.

O Príncipe das Estepes encarou o amigo, incrédulo:

— O quê?! Tu queres ajudar o anão? Esqueceste que não faz nem dois dias que ele estava disposto a acabar com todos nós?

— Não esqueci — replicou Kim. — Mas ainda afirmo que ele tem razão. Ele nos mostrou o caminho de volta, sem ele nunca o teríamos encontrado. Nada mais justo do que ajudá-lo agora.

Priwinn balançou a cabeça e não disse mais nada.

— Eu vou com eles — insistiu Kim. — Não precisa me acompanhar. Leve os outros e depois espere por mim.

Kim se voltou para Jarrn:

— Você e eu, só nós dois. Os outros podem ir. Concorda? Indeciso, Jarrn olhou para o rapaz. Depois de alguns instantes, inclinou a cabeça:

— Concordo — disse. — Meus irmãos conduzirão os outros para fora da caverna em segurança.

Kim se havia enganado, pelo menos em relação a Gorg. O gigante conseguiu distrair os piratas por muito mais tempo que do que imaginara. Depois que Priwinn desapareceu na galeria com as crianças e os anões, Jarrn e Kim retornaram pelo mesmo caminho que vieram. Em pouco tempo alcançaram novamente a galeria de pedra no alto da caverna. Mas muita coisa tinha mudado ali: nada sobrou da calma que reinara às margens do lago subterrâneo. Dúzias de homens se agitavam de um canto para outro, ouviam-se gritos nervosos e do outro lado da caverna aproximava-se um contingente de piratas, todos armados até os dentes.

— Estão em número cada vez maior — sussurrou Kim.

Jarrn resmungou algo, pôs-se de joelhos e, cuidadosamente, arrastou-se para frente para espiar.

Kim hesitou, mas acabou fazendo o mesmo. Com tamanho alvoroço era pouco provável que alguém os visse.

Jarrn esticou seu indicador esturricado e apontou para uma abertura na parede da caverna, de onde saía um clarão vermelho-escuro.

— Segundo a menina, meus irmãos estão lá.

Kim girou os olhos pela catedral rochosa. A presença de piratas era bem mais maciça do que pudera imaginar. Deviam ser bem mais de cem!

— Como chegaremos lá? — perguntou em voz baixa.

Jarrn apontou para um ponto na parede a uns cem metros de distância:

— Parece que lá existe uma descida, mas terás que me carregar.

O rapaz suspirou. Era o que temera! Mas, por outro lado, reconheceu que Jarrn tinha razão. Os anões estavam acostumados às cavernas e sem a sua vasta experiência ele e seus amigos jamais encontrariam a saída deste labirinto subterrâneo. Mas aqui as paredes eram simplesmente altas demais para alguém do tamanho de um anão. Era um milagre que até agora nenhum deles tivesse despencado de alguma rocha e se arrebentado todo.

Ainda de joelhos, Kim e seu companheiro anão foram se arrastando até o ponto que Jarrn indicara. E, realmente, a parede rochosa aqui estava atravessada por inúmeras fendas e rachas, o que facilitava bastante a descida.

Menos mal, pensou Kim com certo sarcasmo, pois pior seria enfrentar dúzias de piratas, de armas em punho.

Kim olhou ao redor, reuniu toda sua coragem e, com um aceno, deu a entender ao anão que estava pronto para descer. As mãos magras do anão se agarraram à camisa e ao ombro do rapaz e, de dentes cerrados, Kim começou a descida. Apesar da movimentação intensa, nenhum pirata percebeu o que estava acontecendo e, após alguns minutos, pisaram em chão firme. Imediatamente procuraram abrigo atrás de uma rocha.

Jarrn conseguiu ser malcriado até na hora do perigo:

— Nada mal, pelo menos para um fedelho como tu — disse.

— Espere até sairmos daqui, aí eu lhe ensino modos, seu homenzinho — revidou Kim, irritado.

Jarrn lhe mostrou a língua, mas logo ficou sério de novo:

— E agora? — perguntou, apontando para a entrada iluminada pelo clarão vermelho na parede lateral da caverna.

Kim não respondeu. Embora muitos piratas já tivessem deixado a catedral rochosa, ainda havia um número considerável deles às margens do lago.

— A questão não é chegar até lá — disse Kim. — O problema é como sair depois que libertarmos os teus amigos. Quantos anões estão presos?

— Como vou saber? — retrucou Jarrn, grosseiro. — Talvez meia dúzia, talvez centenas.

— Centenas?! — exclamou Kim, assustado. — É impossível libertar centenas de prisioneiros!

Jarrn se pôs na ponta dos pés, de mãos na cintura:

— Ah não?! Se fossem centenas de crianças, não haveria o menor problema, não é?

Kim ia revidar, mas não deu tempo. De repente, perceberam um movimento furtivo atrás deles e quando se viraram, sobressaltados, suspiraram aliviados:

— Se continuardes brigando em altos brados, é melhor levantardes de uma vez e dizer alô para os piratas. Dá para ouvir de longe essa gritaria — disse Bocadinho.

— Bocadinho! — exclamou Kim, feliz em ver o pequeno companheiro. Mas, logo em seguida, franziu a testa: — O que você está fazendo aqui? Você devia estar com os outros.

— Não tenho vontade — retrucou a pequena criatura com sua voz de passarinho. E, com um olhar nada amigável na direção de

Jarrn: — Além disso, os anões não me agradam. Aqui pelo menos só tem um, mas lá tem cinco.

Antes que Jarrn pudesse dar o troco, Kim perguntou:

— E Gorg?

— Ah... Gorg? Não te preocupes, ele acabou com uma dúzia de piratas e agora deve estar correndo atrás dos que sobraram.

— Só espero que ele não esteja superestimando suas forças — disse Kim, preocupado.

Bocadinho balançou a cabeça espinhosa e soltou uma risadinha:

— Que nada! Devias ver como aqueles piratas fogem dele, mas isso não significa que temos todo tempo do mundo! Tendes um plano:

Como ninguém respondeu, o animalzinho suspirou fundo:

— Ah... pelo que vejo não existe plano algum! Nem sei por que perguntei.

— Se tu és tão esperto, então nos diga o que fazer — disse Jarrn. ofendido.

— Pfff — fez Bocadinho. Ergueu-se nas patas dianteiras e olhou para a caverna, onde os anões estavam presos. — Esperem aqui — disse. — Vou dar uma espiada.

Absolutamente silencioso e quase invisível, pois suas cores confundiam-se com as sombras da caverna, Bocadinho locomoveu-se com passinhos ligeiros e desapareceu na tal abertura, seguido pelo olhar preocupado do seu amigo Kim. Demorou um bom tempo até que reaparecesse, igualmente silencioso e invisível.

— E aí? — perguntou Jarrn, quase estourando de impaciência.

— Os teus irmãos estão lá — informou Bocadinho. — Duas ou três dúzias, não deu para saber ao certo.

— Quantos guardas? — indagou Kim.

— Não há guardas, só os anões que, aliás, estão trabalhando que nem alucinados.

Kim custou a acreditar no que estava ouvindo:

— Você quer dizer que ninguém toma conta deles? — perguntou, incrédulo.

— Eles estão acorrentados — explicou Bocadinho. — Mesmo se quisessem, não poderiam fugir.

Kim olhou ao redor. Estava indeciso. A agitação na grande caverna diminuiu. Grande parte dos piratas havia desaparecido, e os restantes formavam pequenos grupos envolvidos em animadas discussões.

Se a sorte lhes sorrisse, alcançariam a entrada para a caverna sem serem vistos.

— Tem que ser agora — sussurrou Jarrn. — Não teremos outra oportunidade!

O coração quase saltando pela boca, Kim abandonou seu esconderijo e, a passos largos, mas sem correr, dirigiu-se à entrada da caverna. Não se diferenciava muito dos piratas, nem na roupa e nem no tamanho. À primeira vista até podia passar por um deles. Mas, se começasse a correr, sem dúvida despertaria a atenção.

Mais tarde não saberia explicar como conseguiu chegar, pois teve mil sobressaltos no caminho. Custou-lhe um esforço sobre-humano não espiar por cima do ombro para os piratas parados às margens do lago. Algumas vezes julgou ouvir um ruído diferente, ou ver, de soslaio, um movimento. Nesses momentos estava convicto de que seu ousado empreendimento chegara ao fim.

Porém, mais uma vez a sorte lhe sorriu! Despercebidos, como se fossem invisíveis, alcançaram a tão almejada entrada da caverna!

Ela era bem maior do que o rapaz havia imaginado: um verdadeiro salão com teto baixo, sustentado por inúmeras colunas de granito negro e lava endurecida. Entre as colunas ardiam incontáveis pequenas fogueiras e, como Bocadinho avisara, havia dúzias de anões junto às fogueiras, forjando e martelando a torto e a direito. As paredes devolviam o eco das pesados marteladas, chuviscos de faíscas foram lançados para o alto e o calor era quase insuportável. O ferro incandescente esbranquiçado fluía, sibilante, para formas de argila ou seguia para o resfriamento, provocando a imediata evaporação da água, no instante em que esta entrava em contato com o ferro incandescente.

— Malditos! — murmurou Jarrn, com a voz trêmula. Pela primeira vez, Kim concordou com o anão.

Até hoje não havia conhecido nenhum anão bonito, ou que causasse boa impressão, mas o que estava vendo ali era um aglomerado de figuras miseráveis de causar profunda pena. Era de admirar que ainda conseguissem se manter em pé e erguer os pesados martelos. Fora uma tanga ensebada, quase todos estavam nus e de uma magreza gritante. Pareciam esqueletos revestidos com uma pele esfolada e suja, banhada de suor. No calcanhar de cada um deles havia um anel de ferro, do qual saía uma corrente comprida que servia para unir os prisioneiros e que terminava embutida na parede.

Era de arrepiar! Mas, apesar de bastante traumatizado com o quadro à sua frente, Kim não perdeu tempo.

— Depressa, antes que venha alguém!

Até então ainda não haviam sido notados pelos anões, mas quando a luz vermelha bruxuleante das muitas fogueiras caiu sobre eles, os infelizes anões pararam de trabalhar e encararam os recém-chegados num misto de surpresa e pavor. Ninguém falou.

Finalmente, um dos anões depositou seu martelo no chão e se aproximou deles, ou seja, até onde a corrente o permitia:

— Jarrn? — perguntou, estupefato. — És tu mesmo? Jarrn fez um gesto impaciente:

— Sem falatório. Onde estão os vigias?

— Não há nenhum vigia — respondeu o anão. — Os piratas aparecem de vez em quando para trazer matéria-prima ou para fiscalizar o andamento dos trabalhos. Existe uma espécie de supervisor, mas este passa a maior parte do tempo dormindo.

— Ótimo — disse Jarrn. — Isto facilita as coisas. Quem tem a chave?

— O tal supervisor — informou o outro, apontando para a parede traseira da forja. — A câmara dele fica lá trás.

— Então vamos lhe fazer uma pequena visita — decidiu Jarrn. — Continuai trabalhando, como de costume. Os piratas não podem perceber nada, eu não pretendo acabar com um desses anéis no pé.

Kim colocou a mão no ombro de Jarrn:

— Esqueça o supervisor!

— Como?! Precisamos da chave — disse Jarrn e varreu a mão de Kim do seu ombro.

— Para quê? — perguntou Kim, apontando para os pesados martelos e ferramentas nas mãos dos anões. — Não precisamos da chave, podemos abrir as correntes com estas ferramentas. Jarrn fez uma careta e soltou um riso desdenhoso:

— Tu és mesmo idiota — disse. — Estas correntes vêm de nossas forjas nas montanhas do Leste. Não existe ferramenta que possa abri-las.

Enquanto os anões retomaram seu trabalho, os dois atravessaram a galeria até uma porta de madeira maciça, guarnecida com ferro. Atento para não provocar o menor ruído, Kim abriu-a milímetro por milímetro e viu uma pequena câmara, iluminada apenas por uma bacia cheia de carvão incandescente. Além da bacia com o carvão em brasa havia uma escrivaninha bastante rudimentar, uma cadeira e uma cama baixa coberta por palha. Um homem estava deitado na cama e roncava alto: o supervisor!

Kim se voltou para o anão e, por meio de mímicas, deu a entender que devia tomar cuidado. Depois, furtivamente, na ponta dos pés, entrou na câmara. Ansioso, olhou ao redor. A corrente terminava diretamente sobre a cama do supervisor adormecido, onde estava presa com um enorme cadeado de ferro. A respectiva chave, igualmente de tamanho desmedido, pendia do cinto do supervisor.

Kim parou na frente do leito e, de coração na mão, ficou observando o rosto do homem que continuava roncando. Era um rosto de feições grosseiras, emoldurado por uma longa barba. Pelo jeito, dormia profundamente. Mesmo assim, as mãos do rapaz começaram a tremer, quando fez menção de desprender a chave do cinto. Jarrn o deteve com um movimento rápido e brusco:

— Deixa, eu sei como fazer isto — sussurrou.

E, realmente, o anão se revelou um verdadeiro mestre: numa fração de segundo e com a agilidade de um punguista, soltou a chave do cinto do homem, deu um passo para trás e esticou os braços para abrir o cadeado. Como era pequeno demais para alcançá-lo, Kim teve de erguê-lo, e com a mesma rapidez e agilidade completou a missão: o cadeado estava aberto!

Nesse momento a sorte os abandonou: a fechadura se abriu com forte tilintar e a pesada corrente despencou com tanta força sobre o corpo do supervisor, que até chegou a lhe roubar o ar por um instante.

Kim e o anão viraram estátuas. O homem, por sua vez, os encarou de olhos arregalados. Mas o susto do pirata durou pouco: em poucos segundos varreu a pesada corrente para o chão e levantou com um pulo para se jogar em cima do rapaz. Kim conseguiu desviar, mas perdeu o equilíbrio, cambaleou e acabou caindo sobre a cadeira. Ao cair, viu Jarrn desaparecer pela porta. Mas não lhe sobrou nem um minuto sequer para pensar na traição do anão. O supervisor o agarrou grosseiramente e o pôs de pé.

— Quem és tu? — perguntou aos berros. — O que fazes aqui? Pelo jeito, não esperava resposta alguma, pois sacudiu o rapaz com tanta força que Kim, mesmo com a maior boa vontade, não conseguiu dizer uma só palavra. De repente, parou de chacoalhar o rapaz e, eletrizado, olhou para o anel e o cadeado aberto. Só então começou a entender o que realmente aconteceu. Começou a gritar feito louco:

— Traidores! Os prisioneiros!

Nesse instante, a corrente começou a deslizar pelo chão, como se fosse uma serpente de ferro. Aos berros, o pirata se jogou em cima da corrente, sem, no entanto, soltar o rapaz. Tarde demais! A corrente desapareceu pela porta semiaberta e logo depois ouviam-se gritos de júbilo vindos da forja.

— Traidores! — gritou o supervisor de novo.

Ergueu a mão como se quisesse bater no rapaz, mas mudou de idéia e brutalmente torceu-lhe os braços nas costas. Kim gemeu, a dor quase roubou-lhe os sentidos. Simultaneamente, o pirata desembainhou a espada, isto é, pelo menos tentou, pois, de repente, uma figurinha num manto negro foi parar na sua nuca e lhe fincou as unhas no rosto. Além disso lhe deu socos e pancadas, tudo acompanhado pelas piores pragas e maldições.

O homem lutou para se desvencilhar do pequeno atacante e com isso cambaleou e esbarrou contra a mesa. Certamente teria conseguido se livrar dele se não tivessem aparecido mais anões, que se jogaram todos, de uma só vez, sobre o supervisor, que, sob o peso da maioria, foi direto para o chão. Os anões o amarraram e amordaçaram com os restos de sua própria roupa que haviam lhe arrancado do corpo. Tudo aconteceu tão depressa que não lhe restou tempo nem para um último grito.

Kim levantou atordoado e começou a esfregar o braço bastante dolorido.

— Obrigado — disse, quando descobriu Jarrn entre os anões. — Foi por pouco.

— Pois é... tu bobeaste, idiota — respondeu Jarrn, petulante, como de costume.

Mas Kim não se importou:

— Pensei que vocês tivessem me abandonado — disse com um sorriso.

Jarrn fez um gesto de pouco caso:

— Ha! Não fiz isso por ti, idiota. Sabe que o iria acontecer? Ele acabaria contigo e depois gritaria por reforço... além do mais, agora estamos quites!

Kim preferiu não questionar o significado destas palavras, pelo menos por ora. Em vez de responder, fez menção de sair da câmara.

— Ei! Aonde vais? — perguntou Jarrn. Kim apontou para a galeria:

— Não tenho a menor intenção de ficar aqui.

— Tampouco nós, imagine... — ironizou Jarrn. — Mas não podemos sair por lá, está cheio de piratas, parece um formigueiro.

— É mesmo? — revidou Kim, aborrecido. — E o que vamos fazer? Esperar até que eles resolvam voltar para casa?

Malcriado, Jarrn simplesmente lhe mostrou a língua e depois, gesticulando muito, se voltou para seus irmãos:

— Metade de vós continuai trabalhando! — ordenou. — Tratai de fazer bastante barulho para que eles pensem que o andamento do serviço é o mesmo de sempre. Um de vós ficai a postos para quaisquer eventualidades. Os outros vêm comigo.

Para surpresa de Kim, os anões obedeceram às ordens de Jarrn imediatamente e sem contestar. Esta obediência cega dos anões era uma experiência nova para ele, pois até então nunca encontrara um anão que fizesse algo sem resmungar ou fazer comentários hostis.

A metade das figuras esfarrapadas se voltou novamente para o fogo das forjas e o barulho que fizeram foi tanto, que toda a caverna ressoava das marteladas. Para espanto do rapaz, os restantes se aglomeraram na pequena câmara do supervisor e, munidos de martelos e picaretas, começaram a atacar a parede traseira do quarto.

Apesar de esturricados em virtude do extenuante cativeiro, os anões ergueram suas ferramentas sem o menor esforço. Em pouquíssimo tempo o granito esmigalhou-se sob seus golpes como se fosse madeira apodrecida e abriu-se um túnel redondo, de cerca de um metro de altura.

Jarrn se divertia com a cara de espanto do rapaz. Mas, em vez de soltar um de seus comentários maldosos, berrou ordens ora para os anões que ainda estavam trabalhando na forja, ora para os de dentro do túnel, que se aprofundava cada vez mais. As marteladas dos anões já não soavam tão fortes como antes e não demorou muito para que se tornassem quase imperceptíveis. Então, de repente, ouviu-se um grito assustado vindo da forja e um segundo mais tarde entrou um anão correndo, esbaforido:

— Eles estão vindo! Os piratas perceberam... estão vindo!

Agora também os outros vieram correndo, munidos com martelos, picaretas e alguns até com armas, que acabaram de fazer nas forjas. Sem que pudesse fazer algo, Kim foi arrastado pela enxurrada de pequenos corpos para dentro do túnel. Mas o corredor era tão baixo que ele se viu forçado a engatinhar. Os anões que vinham atrás dele, o empurraram tanto que mais de uma vez perdeu o equilíbrio e deu com o nariz no chão. enquanto os anões simplesmente passavam por cima do seu corpo.

E, logo depois, ouviram-se os berros raivosos dos piratas na entrada do túnel. O rapaz olhou para trás e viu uma sombra larga que. em vão, se esforçava para entrar na estreita passagem.

Suas mãos esbarraram em um obstáculo e seu coração se acelerou ainda mais, ao se ver diante de uma parede maciça de rocha! Logo depois viu que não era o fim do túnel, mas apenas um desvio retangular que os anões criaram, sabe-se lá por quê. Ofegante, se espremeu pela abertura estreita, ergueu-se o mais que pôde e continuou engatinhando em frente.

Nesse instante algo ricocheteou na rocha atrás dele com um estalo metálico e ao virar a cabeça Kim percebeu, apesar da penumbra, que se tratava da ponta quebrada de uma flecha. Depois um vulto largo tentou se espremer no corredor estreito. Pouco mais de um metro após o pirata se viu entalado, incapaz de se mover nem para frente nem para trás. Em pensamento, Kim agradeceu aos anões por terem aberto um corredor tão estreito na rocha.

 

Finalmente, depois de dois longos dias debaixo da terra, a sinistra luz acinzentada, característica do mundo subterrâneo das rochas, cedeu lugar ao desbotado brilho da lua, que os acolheu na entrada da caverna. Era como acordar de um pesadelo! Um sopro gélido fez com que acelerassem o passo e nem mesmo o montão de cascalho que havia se acumulado em frente à caverna foi capaz de detê-los. Resvalando e rolando, desceram o talude e todos sofreram alguma escoriação ou contusão, o que, no entanto, não empanou sua euforia nem seu entusiasmo, quando viram de novo o céu aberto no lugar do teto de rocha e lava endurecida dos últimos dias.

Jarrn, Kim e os anões libertos andaram horas a fio pelo labirinto rochoso das cavernas até que, finalmente, reencontraram Priwinn e os outros. Outras tantas horas se passaram, cheios de angústia e medo, na expectativa de que os piratas pudessem descobri-los. Mas, por sorte, não depararam com nenhum deles. Os anões se revelaram excelentes guias. Os piratas podiam até dominar o mundo das cavernas, mas, por outro lado, os anões possuíam um conhecimento bem mais profundo deste labirinto.

Fora uma trajetória bastante penosa: a permanente penumbra, a falta de comida e, pior, de água, os deixou à beira de um colapso. Até o gigante Gorg perdeu muito de sua habitual energia e se tornou cada vez mais calado.

Kim, que chegou por último, deixou-se cair sobre uma rocha. Suas pernas e braços pareciam feitos de chumbo e teve dificuldade em manter os olhos abertos. Exausto, olhou ao redor, mas não reconheceu nada além de vultos e o brilho prateado da lua.

Os anões haviam prometido conduzi-los até a grande árvore, só que não havia árvore alguma por perto!

Mas Kim estava sonolento demais para pensar nisso agora. O que contava no momento era que, finalmente, haviam escapado do labirinto obscuro debaixo da terra. E, pelo visto, todos experimentavam a mesma sensação de alívio. Crianças e adultos passaram pelas mesmas penúrias e, principalmente as crianças menores, não raro choravam de fome e cansaço. Mas em momento algum se queixaram ou lamentaram a sua sorte. Em vista ao considerável número de pessoas — crianças, anões, Kim e seus amigos — que se aglomerava no limitado pedaço de chão em frente ao monte cascalho, reinava um silêncio quase anormal.

Alguém teve a idéia de acender uma fogueira. Pouco depois, o crepitar das chamas e o calor do fogo afugentaram a atmosfera um tanto lúgubre. Porém não de todo. Era como se no interior de cada um deles restasse um pouco da terrível obscuridade das cavernas, talvez uma reação normal, provocada pelo cansaço e pelo desânimo.

Próximo à floresta, surgiu uma pequena agitação. Kim ergueu os olhos, o que lhe custou certo esforço, e viu Gorg carregando nos ombros um veado que acabara de caçar. Priwinn e algumas das crianças maiores, meninos e meninas, correram para ajudar o gigante a estripar e destrinchar a caça.

Cerca de meia hora mais tarde, dois enormes espetos com pedaços suculentos de carne giravam sobre o fogo aberto e o aroma do assado fez com que os estômagos vazios roncassem ainda mais alto.

A comida, o céu aberto e a paisagem ampla que os rodeava aqueceram um pouco o coração do grupo. Esfomeado, Kim teve que lançar mão de toda sua força de vontade para não engolir sua porção de carne por inteiro. Enquanto mastigava devagar, pedacinho por pedacinho, seus olhos deslizaram sobre as crianças sentadas ao redor da fogueira.

— O que se passa contigo? — perguntou Priwinn ao sentar-se ao lado do amigo. — Pelo teu semblante, até parece que sofreste a pior derrota da tua vida.

— Eu só estou cansado — murmurou Kim.

— Estamos todos cansados — respondeu o Príncipe das Estepes. — Mas não é só isso. Desembucha!

Kim enfiou um pedaço de carne na boca para ganhar tempo. Depois, com a boca cheia, disse:

— As crianças, Priwinn.

— O que há com as crianças ? — admirou-se Priwinn. — Nós as libertamos, até parece que não estás feliz.

— Que bobagem!

Kim engoliu a carne e disse:

— São apenas algumas crianças e não são aquelas que procuramos.

— Todas são importantes — intrometeu-se Gorg, que ouvira a conversa.

— Claro... — murmurou Kim. — Desculpem, é que... — O rapaz tentou explicar, mas depois balançou a cabeça: — Foi tudo em vão — murmurou. — Nada mudou.

— E o que esperavas, idiota? — ralhou Jarrn.

Kim sentiu o sangue lhe subir à cabeça. Furioso, disse para o anão:

— Aposto que você sabe muito bem do que estou falando! Impossível saber o que se passava na cabeça do anão. Depois de alguns instantes, respondeu:

— E eu não te diria, mesmo se soubesse.

Priwinn fez um movimento brusco, mas Jarrn continuou:

— Cumprimos a nossa palavra, vocês estão salvos. De agora em diante meus irmãos e eu seguimos nosso próprio caminho.

Kim olhou para o céu noturno, como se lá estivesse a resposta:

— Ficou combinado que vocês nos levariam até a grande árvore — lembrou.

— Foi o que fizemos — respondeu Jarrn apontando para a escuridão atrás dele. — Ao amanhecer vereis uma colina, atrás da qual fica a árvore.

— Um momento — disse Priwinn. Levantou e com um sinal pediu a Gorg que tomasse conta do anão. Depois desapareceu na escuridão, mas voltou em seguida, na companhia de Eib, o menino da árvore com as folhas azuis na cabeça.

— Este anão afirma que estamos perto da tua árvore — disse o príncipe, apontando para Jarrn. — Isto é verdade?

Eib olhou ao redor. Indeciso, demorou um bocado até responder:

— Eu não sei — confessou o menino —, me parece familiar... talvez. Priwinn suspirou e virou os olhos. Jarrn fez uma careta:

— Esta resposta não vale nada. Querendo ou não, tereis de acreditar na minha palavra. Além do mais... se quisermos partir, partimos. Ninguém nos segura.

— Tens certeza? — perguntou Gorg, ameaçador. Jarrn soltou uma risadinha maldosa:

— Claro, idiota. Poderíamos ter nos deixado para trás com a maior facilidade. Se não acreditas em mim então pergunta àquele lá, disse — apontando para Kim que, a contragosto, teve de concordar.

— E por que não fizeram isso? — perguntou Priwinn.

— Porque empenhei minha palavra — respondeu Jarrn. — Mas agora acabou. Vamos partir e o próximo encontro será diferente, isto eu garanto.

— Eu também — ameaçou Priwinn, com raiva do anão. Deprimido, Kim se afastou da fogueira. A velha rixa entre Jarrn e o Príncipe das Estepes se reacendeu e ele percebeu que nada havia mudado. Por algum tempo o rapaz vivera na doce ilusão de que os muitos perigos que enfrentaram juntos, lado a lado, talvez tivessem transformado inimigos em amigos ou, pelo menos, em aliados. Mas nada disso aconteceu. Quando Kim, depois de algum tempo, voltou para junto da fogueira, os anões haviam desaparecido na noite, silenciosos como fantasmas.

A comida e o calor do fogo os deixaram relaxados e, esgotados como estavam, caíram, um a um, em profundo sono. Acordaram somente no dia seguinte já quase na hora do almoço e logo depois levantaram acampamento. A colina mencionada por Jarrn realmente existia, mas ficava bem mais longe do que haviam imaginado. As poucas horas de sono não foram suficientes para renovar as suas forças por completo, por isso a sua locomoção se deu com bastante vagar. Quando, finalmente, alcançaram o topo da colina, o sol já estava quase concluindo sua jornada diária.

Do outro lado da colina uma decepção esperava por eles: simplesmente não havia árvore alguma!

— Ele mentiu — murmurou Kim, profundamente decepcionado. — Os anões nos enganaram, Priwinn!

— Por acaso esperavas outra coisa? — perguntou o Príncipe das Estepes, sarcástico. — Provavelmente vamos levar meses, se não anos, até voltar para casa.

— Nada disso — manifestou-se uma voz aflita atrás deles. — Jarrn falou a verdade.

Kim se virou e deu de cara com Eib. O menino estava pálido como cera, nos olhos uma expressão de puro pavor. Com a mão trêmula apontou para o Leste. Kim seguiu com os olhos a direção indicada pelo menino, só que agora, em vez de olhar para o céu, olhou para baixo. E aí viu a grande árvore! Estava tombada!

Onde outrora se erguera um gigantesco complexo de madeira e folhagem, agora restava apenas um tronco dilacerado, restos melancólicos de um antigo esplendor!

O tronco da árvore havia se transformado em vários pedaços e, ao tombar, enterrou florestas, prados e montanhas. Longe, quase no limite do horizonte, se via a copa amassada da grande árvore, restos fantasmagóricos de sombras esverdeadas!

Levaram o resto do dia para alcançar o que restava da árvore. A destruição da grande árvore foi um choque imenso, aliás, mais que um choque, um impacto que imprimiu a todos uma sensação de permanente terror. Quanto mais perto chegavam, mais abalados ficavam. O único que se mostrava totalmente calmo, pelo menos aparentemente, era Eib. Mas Kim, que ficou de olho no menino o tempo todo, sabia que era uma tranqüilidade aparente. Eib, que afinal de contas perdera sua pátria, parecia um morto vivo. Caminhou entre eles sem uma única lamúria, mas seus movimentos eram rijos, automáticos, como os de uma máquina. No fim da tarde alcançaram o tronco e pararam aos pés da escadaria de madeira. E novamente Eib não demonstrou nenhum tipo de reação.

No último trecho do caminho tiveram de desviar dos gigantescos destroços e restos de madeira espalhados pelo chão num raio de vários quilômetros: galhos quebrados, cada um maior do que uma floresta inteira, lascas imensas de madeira, do tamanho de uma casa, montanhas de folhas esmagadas! Tudo era silêncio, nenhum ruído, por menor que fosse, nenhum pássaro, nem o mais fraco rumorejar de vento para quebrar o silêncio da morte, que pairava sobre a paisagem.

— O que aconteceu afinal de contas? — murmurou Priwinn.

Ninguém respondeu. No fundo, pensou Kim, deprimido, que importância tinha? Tudo que contava agora era o fato de que algo havia acontecido!

Kim colocou a mão sobre o ombro do menino da árvore. Eib teve um sobressalto, como se acordasse de um pesadelo. Depois se virou lentamente e encarou Kim de frente. E aí, pela primeira vez, as lágrimas brotaram!

Kim queria lhe dizer palavras de consolo, mas em seu interior havia um vazio tão devastador, que se viu incapaz de transmitir algum tipo de conforto ao menino. Algo dentro dele havia se quebrado, como a gigantesca árvore. Era ele que precisava de ajuda!

Priwinn apontou para a escadaria que ainda serpenteava tronco acima:

— Vamos subir, talvez ainda haja alguém lá em cima. Eib balançou a cabeça:

— Não.

Priwinn não lhe deu atenção e subiu o primeiro degrau, parou e desceu de novo. Um ramalhar nos restos de um dos galhos quebrados chamou-lhe a atenção. E, de repente, surgiu uma figura nodosa, a cabeça coberta por folhas verdes.

— Oak! — exclamou Kim, e se precipitou ao encontro do homem. Mas algo no olhar do homem-folha o deteve: o mesmo vazio que vira nos olhos de Eib!

Priwinn, Gorg e algumas das crianças mais velhas se aproximaram, mas não chegaram perto de Oak.

Oak levantou a cabeça:

— Ela tombou — murmurou. — Ela tombou...

Kim dominou seu impulso de sair correndo e deu alguns passos para frente:

— Oak — disse em voz baixa. — O que aconteceu? Por favor, conte para nós.

— Ela tombou — repetiu o homem da árvore. — Ela simplesmente tombou.

Pelo jeito, Oak nem sequer notara as pessoas ao seu redor e muito menos as perguntas.

— Como aconteceu isso? — reforçou Priwinn, num tom mais alto.

— Tombou — repetiu Oak. Depois balançou a cabeça: — Culpa nossa!

Priwinn e Kim se entreolharam.

— Como!? — indagou o Príncipe das Estepes. — Oak, por favor, contai-nos o que aconteceu. Ela... a árvore não pode ter caído sem mais nem menos!

— Uma tempestade — murmurou Oak. Olhou para Priwinn sem vê-lo. — Foi uma tempestade, uma terrível tempestade — repetiu com voz fraca e trêmula.

— Mas isto é impossível — objetou Priwinn. — Esta árvore sobreviveu a inúmeras tempestades durante séculos!

— Uma tempestade — repetiu Oak. — Ela... ela simplesmente tombou.

Priwinn ia dizer algo, mas Kim colocou a mão no ombro do amigo e meneou a cabeça. O rapaz entendeu que de nada adiantaria insistir, pelo menos no momento. O homem da árvore não estava em condições de conversar.

Kim chegou bem perto dele e lhe estendeu a mão. E aí aconteceu o inesperado: Oak parou de balbuciar palavras sem nexo, abraçou Kim e irrompeu em soluços. Um choro silencioso, sem lágrimas, mas justamente por isso infinitamente mais forte.

Em outras circunstâncias Kim com certeza teria ficado muito embaraçado com a situação, afinal, ele era apenas um rapaz e Oak um homem feito. Mas, nesse momento, tudo que ele queria era amenizar a dor do homem da árvore. E onde as palavras falharam, um simples abraço amigo conseguiu o milagre: aos poucos o homem-folha se acalmou! Quase sem graça, Oak deu um passo para trás e encarou Kim de frente. O horror e o medo ainda não haviam desaparecido do seu rosto, mas pelo menos percebeu as pessoas que o rodeavam.

— Desculpai-me, murmurou — eu... perdi o controle.

— Não tem importância — disse Kim. — Você... você pode nos contar o que houve?

Oak hesitou por um instante. Depois inclinou a cabeça:

— Limb e os outros estavam com a razão. Nós a destruímos. Houve uma tempestade, como milhares antes. Só que desta vez a árvore não resistiu. Ela estava enfraquecida. Nós a ferimos... as feridas foram tantas que ela não resistiu. Cortamos o seu coração e ela perdeu a força.

— Onde estão os outros? — perguntou Priwinn. — Estão... estão mortos?

Oak hesitou mais uma vez e Kim ficou com medo da resposta. O homem-folha abanou a cabeça:

— Muitos estão mortos — disse. — Centenas ou até milhares. Os sobreviventes se refugiaram nos galhos.

— Vejam! — disse Oak, esticando o braço. — Estão lá, onde a gigantesca copa se confunde com o horizonte. Mas estão condenados a morrer, a árvore tombou, seus galhos vão secar e não existe outro lugar neste mundo onde possam sobreviver.

— Mas você está vivo! — exclamou Kim, quase desesperado. — E... Eib sobreviveu à prisão dos piratas. Vocês encontrarão outra pátria.

Oak esboçou um sorriso amargo:

— Eu gostaria que fosse assim — disse. — Mas nós não podemos viver em nenhum outro lugar a não ser na nossa árvore. Por algum tempo até conseguiremos sobreviver, mas não vai demorar e o nosso povo terá desaparecido.

— Isto não pode acontecer! — exclamou Kim. O ódio que sentiu nesse momento era tão intenso, que chegou a assustá-lo. Um ódio voltado para o destino que deixou as coisas acontecerem desta maneira. — Vocês encontrarão outra árvore — disse, como se pudesse mudar algo só com a força do desejo. — Vocês terão outra pátria...

— Deixa para lá, pequeno herói — interveio Gorg. — Ele está dizendo a verdade. Não existe outro lugar onde possam viver. A árvore era única!

— Malditos anões! — gritou Priwinn. — Juro que vou destruí-los, junto com seus malditos homens de ferro, nem que seja a última coisa que faça nesta vida!

— Os anões não têm culpa, príncipe — disse Oak, balançando a cabeça.

— Claro que eles têm culpa! — replicou Priwinn, extremamente irritado. — Eles e os homens de ferro que criaram!

— Não foi culpa deles — repetiu Oak com veemência. — Não foram eles que destruíram a árvore. Fomos nós. Limb e muitos outros cansaram de nos advertir. Não lhes demos ouvidos e pagamos o preço.

— Eles terão de pagar um preço ainda bem maior — ameaçou Priwinn.

Novamente Oak abanou a cabeça:

— Existe um preço maior do que o desaparecimento de um povo inteiro? — perguntou.

Desta vez Priwinn não soube o que dizer.

Pernoitaram à sombra do monumental tronco da árvore. Havia madeira em abundância e assim acenderam uma enorme fogueira, o que lhes garantiu certa proteção do frio da noite. Oak lhes trouxe comida: frutas e bagos em tão grande quantidade que todos, sem exceção, puderam saciar a fome. Quanto mais a noite avançava, mais calmo ficava Oak. Ninguém ousou mencionar o acontecido, mas, depois que todos comeram e sentaram ao redor da fogueira, o próprio Oak voltou a tocar no assunto:

— Estou feliz que estejais vivos — disse o homem-folha depois que Priwinn lhe contou suas aventuras no deserto gelado e no labirinto subterrâneo dos piratas. — Ficamos muito preocupados, depois que sumistes — completou.

— O que fizestes com Limb e seus amigos? — perguntou Priwinn, preocupado.

Oak abanou a cabeça e esboçou um sorriso um tanto sem graça:

— Ficamos muito bravos com o que fizestes, ainda mais que os anões apareceram duas semanas depois para exigir indenização pelos homens de ferro destruídos. Mas...

Priwinn o interrompeu, surpreso:

— Duas semanas!? Não pode ser!

Oak não entendeu nada e Priwinn explicou:

— Partimos há pouco mais de uma semana!

— O quê?! — espantou-se Oak. — Estais viajando há quase meio ano!

Os rapazes ficaram boquiabertos.

— Meio ano? — certificou-se Kim. — Você tem certeza? Oak confirmou e ao mesmo tempo levantou os ombros:

— Talvez um mês a mais ou a menos... o tempo para nós não tem a mesma importância como no vosso mundo.

— As cavernas! — lembrou Gorg.

Todos se viraram para o gigante, sem entender.

— As cavernas dos anões — repetiu Gorg. — Existe um mistério nelas! Não entendeis? Levamos apenas dois dias do Castelo do Fim do Mundo até aqui, quando, na verdade, o caminho é longo, muito longo. Quem se aventurar a fazer o trajeto a pé, levará meio ano, se não mais.

— É... os anões possuem poderes mágicos — confirmou Oak.

— Quando eu me vingar deles, vão precisar de seus poderes mágicos — ameaçou Priwinn outra vez.

Oak lançou um olhar de reprovação, mas se absteve de qualquer comentário. Depois de alguns minutos o homem-folha continuou a sua narrativa:

— Não fizemos nenhum mal a Limb e seus amigos — afirmou. — Mas também não lhe demos ouvidos. É o que devíamos ter feito! Talvez naquela época ainda houvesse tempo. Mas estávamos cegos! Tudo parecia tão fácil: casas maiores, roupas mais bonitas, móveis melhores, uma vida mais fácil. Eles nos avisaram que mais cedo ou mais tarde teríamos de pagar a conta. Eu até acho que no fundo sempre soubemos que eles tinham razão. — Por um momento os seus olhos se encheram de novo com aquele terrível e profundo horror: — Mas não imaginávamos que aconteceria tão depressa. Achávamos que o tempo era ilimitado. Continuamos vivendo na ilusão de que um dia alguém encontraria uma solução para o problema ou que pudéssemos parar antes que os danos fossem irreversíveis! Como fomos idiotas!

— Não foi vossa culpa — teimou Priwinn. — Os anões vos enfeitiçaram e não resististes à sua magia.

Oak queria revidar, mas reconheceu que era inútil discutir com o Príncipe das Estepes sobre este assunto. Simplesmente abanou a cabeça e olhou para as chamas da fogueira.

Fez-se um silêncio um tanto incômodo, interrompido apenas pelo crepitar das chamas e pelo rumorejar do vento que se quebrava na folhagem dos galhos partidos.

Kim levantou e se afastou dos outros. Estava exausto e deprimido. Tudo lhe parecia tão inútil. Empenharam suas forças e até a sua vida, mas as coisas ficavam cada vez piores, como se estivessem lutando a favor de seus inimigos. E se tudo não passasse de uma ilusão? Talvez os inimigos que tanto procuravam na verdade nem existissem!

Enquanto caminhava, mergulhado em pensamentos torturantes, o chão ficou cada vez mais pantanoso e por pouco Kim não caiu em um pequeno lago. O rapaz parou abruptamente, olhou para a água em cuja superfície escura se refletia o luar e... sua própria imagem!

Lembrou-se do que Oak lhe dissera sobre este lago e mais que depressa se virou para voltar. Mas alguém se aproximava e ele reconheceu Priwinn.

Por algum tempo os dois amigos simplesmente ficaram parados, envoltos naquele silêncio desagradável de antes. Kim não sentia a menor vontade de falar com o príncipe, pelo menos no momento. De fato, não queria falar com ninguém! Mas, por outro lado, também não queria ficar sozinho. Sentia-se desamparado e confuso.

Finalmente, o Príncipe das Estepes quebrou o silêncio carregado de emoções:

— Tornaste alguma decisão? — perguntou.

Com certa má vontade, Kim se virou para o amigo:

— Decisão?!

— É... de que lado vais ficar. Pretendes assistir de camarote ao desaparecimento do nosso mundo?

Kim suspirou fundo. Como o amigo ousava forçá-lo a uma decisão? Será que não percebia como era difícil para ele?

— Eu... eu não posso — murmurou Kim.

O rosto do príncipe se anuviou, seus olhos relampejaram de raiva e o tom de sua voz se tornou gelado:

— Está bem! Então fala de novo com Temístocles, ou fica aqui... faz o que quiseres! Eu vou agir, pelo menos vou tentar salvar Märchenmond!

— E o que você vai fazer? — perguntou Kim, sabendo a resposta de antemão.

— Vou terminar o que começamos! — bradou o príncipe. — Vamos destruir os malditos homens de ferro e tudo que vem dos anões.

— Mas você não se sairá vitorioso desta guerra! — contestou Kim. — Sabe-se lá se são mesmo os anões os responsáveis pela ruína de Märchenmond!

— Talvez tenhas razão — admitiu o Príncipe das Estepes. — Mas não vejo outro caminho. Aceitei o conselho de Temístocles e também o teu. Acompanhei-te até o Norte, mesmo sabendo que seria inútil. Perdemos Rangarig. E, por um fio, não acabamos em poder dos anões. O que mais tu queres que eu faça?

— Eu não sei — admitiu Kim, atordoado. — É tudo tão... tão horrível! Talvez o inimigo seja o próprio povo de Märchenmond!

— Então terei de lutar contra eles — disse Priwinn, decidido. — Não estou sozinho, Kim. Não são poucos os que pensam como eu e depois do que aconteceu aqui, muitos outros se juntarão a nós. — O Príncipe das Estepes se empolgou: — Estou absolutamente certo de que se te tomares nosso líder, a vitória será nossa! — disse, veemente.

— Você está pedindo o impossível! — exclamou Kim, desesperado. — Eu não posso erguer a espada contra Märchenmond!

— E se não tiver outro jeito? — insistiu Priwinn, quase implorando. — Faremos o que tem de ser feito. Destruiremos os homens de ferro e depois será a vez dos anões.

— Mas vocês não sabem se são eles os verdadeiros culpados!

— Não temos escolha! Devemos esperar até que todas estas terras estejam cobertas por uma camada de ferro? Até que todas as flores, as árvores e as plantas estejam sufocadas, porque lhes foi furtado o ar que as mantêm vivas? Até que todas as mulheres e todos os homens estejam fazendo trabalho forçado nas minas dos anões? Talvez os homens de ferro e os anões realmente não sejam nossos verdadeiros inimigos, mas são reais, os únicos que podemos combater.

Kim não respondeu. No fundo até que compreendia o amigo. Mas havia algo de errado na lógica com que argumentava. Acabar com os robôs talvez até fosse a solução e dessa forma o príncipe conseguiria reverter a desgraça que se abatia sobre Märchenmond, livrando-se dos anões. Mas, com certeza, o preço seria muito alto.

— Me dê mais uma noite — pediu Kim. — Amanhã cedo darei minha resposta.

Priwinn não escondeu a decepção. Cerrou os punhos e, visivelmente irritado, fixou o olhar na superfície do lago. De repente, debruçou-se para frente e começou a admirar sua imagem.

— Não faça isso — pediu Kim. — Este lago é...

— Eu conheço o segredo deste lago — interrompeu-o Priwinn, rude. — Talvez até melhor do que ti. Mas veja!

Embora contrariado, Kim se pôs a olhar para a água, mas evitou mirar o próprio reflexo. Na superfície imóvel do lago via-se claramente a imagem do príncipe: um rosto marcado pelo cansaço, pelo desânimo e por uma profunda amargura.

— Não olhe — pediu Kim novamente.

Mas Priwinn abanou a cabeça e quando Kim quis se afastar, o príncipe o impediu:

— Vê! — repetiu e apontou para sua imagem na água. Em seguida deslizou os dedos pelo rosto e estremeceu-se todo.

— O que você tem? — perguntou Kim, preocupado.

Em vez de responder, Priwinn se afastou das margens do lago encantado e começou a esfregar o rosto com as duas mãos. Quando Kim, curioso e preocupado, chegou perto do amigo para ver o que estava acontecendo, viu uma sombra escura no rosto do príncipe, que antes não estava lá.

— O que é isto? — perguntou. — Uma barba? Priwinn soltou um gemido:

— Eu... eu estou envelhecendo — murmurou.

Kim deu de ombros. Se fosse só isso! Afinal, todos envelhecemos um dia... Mas, de repente, compreendeu o verdadeiro significado das palavras do príncipe.

— Teu pai!...

As mãos do príncipe começaram a tremer. Novamente as passou pelo rosto e depois as encarou, como se temesse ver as mãos de um ancião e não de um rapaz.

— Estou envelhecendo — murmurou de novo. — Sabes o que significa isto!

Mudo, Kim assentiu com a cabeça. Priwinn sussurrou:

— Meu tempo como príncipe acabou, Kim. — Meu pai está morto.

Deixaram Oak na manhã seguinte, antes do sol nascer. Durante a noite, atraídos pelo fogo, foram aparecendo, aos poucos, mais moradores da grande árvore, até que se formou um número razoável de sobreviventes! Eles se prontificaram a ficar com as crianças e encaminhá-las de volta para seus pais, uma proposta muito bem-vinda e imediatamente aceita por Kim e seus amigos. Kim começou o dia com mais uma grata surpresa: Estrelinha! Oak e seus amigos haviam cuidado com muito zelo do cavalo. Também havia um cavalo para o

Príncipe das Estepes, porém Gorg ficou a ver navios. Mas o gigante apenas sorriu, quando Oak, muito sem graça, começou a balbuciar uma série de desculpas.

— Não tem importância — disse o gigante. — Sou mais veloz do que qualquer cavalo.

Depois que Bocadinho e o gato Sheera foram acomodados nas duas celas, os dois amigos despediram-se e saíram cavalgando na direção Sudeste. Desde a noite anterior Priwinn estava sisudo e calado, mas Kim compreendia e respeitava seu silêncio. Igualmente aceitou a decisão do amigo de retornar a Caivallon o mais depressa possível. Mas antes, para sua surpresa, Priwinn se ofereceu para acompanhá-lo por um bom trecho, apesar de Caivallon e Gorywynn ficarem exatamente na direção oposta, o que significa um desvio de vários dias para o príncipe. Além disso, Priwinn não indagou mais a respeito da decisão de Kim.

Cavalgaram durante dois dias e, como das outras vezes, Priwinn e Gorg evitaram passar por aldeias ou povoados e procuraram lugares ermos para pernoitar. E, durante todo esse tempo, o príncipe se manteve na cela, rijo, o olhar fixo em algum ponto apenas visível para ele. Quando Kim lhe dirigia a palavra, na maioria das vezes ficava sem resposta. Até parecia um pouco confuso, perturbado. Kim se esforçou para entender o amigo, mas teve de admitir que estava difícil. Ele ainda não havia passado por esse tipo de experiência, ainda não perdera nenhum parente próximo. Uma coisa era falar sobre a dor e, aparentemente, entendê-la. Mas, nos dias em que cavalgava ao lado de Priwinn, imerso em luto, Kim começou a compreender que sentir a dor da perda era bem diferente do que falar sobre ela.

Ao entardecer do terceiro dia atravessaram uma cadeia montanhosa e quando chegaram ao topo da última montanha, a paisagem se estendia plana aos seus pés. Priwinn parou o cavalo e franziu a testa. Depois esticou o braço e disse:

— Que estranho.

Kim também notou que havia algo esquisito, mas, ao contrário de Priwinn, demorou um tempo para entender o que era.

Ao longo de sua cavalgada, as paisagens pelas quais passaram formavam uma mescla de campos, florestas, rochas, pequenos lagos, aldeias ou grandes propriedades rurais, mas esta planície era diferente de tudo o que viram até então. Mais parecia um gigantesco tabuleiro de xadrez, onde imperavam as cores marrom e preto com diversas tonalidades de verde. Um caminho reto, como traçado por uma gigantesca régua, atravessava toda esta formação. A simetria era tanta que chegava a doer!

Com cara amarrada, Priwinn apontou para um pedaço de chão sulcado por arado, linhas retas, paralelas, que cortavam a terra em inúmeras tiras da largura de uma mão. No final da última tira, algo ou alguém se movimentava. Porém a distância não lhes permitia ver com nitidez. Somente quando começaram a descer o flanco da montanha, reconheceram um cavalo e um camponês em cima de um arado. O camponês também percebeu a sua presença, pois desceu do arado e foi ao seu encontro, gesticulando muito. Só então Kim percebeu que Priwinn estava passando com seu cavalo sobre os sulcos recém-abertos pelo arado. A distância que os separava do camponês ainda era relativamente grande para que pudessem entender suas palavras, mas seus gestos não deixavam dúvida de que estava furioso.

— Ei! — berrou o homem quando chegou mais perto. — Enlouquecestes?! O que significa isto? Por que não...

De repente o camponês virou estátua. Com os olhos arregalados e a boca aberta, ficou olhando para o pequeno grupo que se aproximava rapidamente. Por que o homem se assustou tanto? Seria por causa da armadura negra do príncipe? Ou, talvez, seria o gigante que vinha atrás deles que lhe infligia tamanho pavor?

A poucos passos do camponês, fizeram parar os cavalos. O homem não desgrudou os olhos do gigante.

— Oh! — disse, finalmente —, tu és...

— Pois não? — perguntou Gorg e piscou.

— ...bem grande — completou o camponês e engoliu em seco. Depois tentou sorrir, mas não conseguiu esconder o medo.

— Não acho que sou grande — revidou Gorg. — Tu que és pequeno.

Kim sentiu pena do homem. Gorg era conhecido por suas brincadeiras um tanto rudes, mas no fundo era incapaz de fazer mal a alguém. Não dava para ignorar que o camponês estava quase morrendo de medo.

— Por favor não se assuste — interveio Kim, lançando para Gorg um olhar de reprovação. — Passamos por aqui por acaso e pedimos desculpas por atravessar o seu campo. Não é mesmo, Priwinn?

Em vez de responder, o príncipe se virou na sela e apontou para o arado:

— Nunca vi coisa igual — disse para o camponês. — Podes nos mostrar melhor?

O camponês hesitou por um instante. Inseguro, passou os olhos pela armadura negra do príncipe e se fixou na espada. Depois inclinou a cabeça, dando a entender que concordava. Priwinn e Kim desmontaram e seguiram o camponês a pé.

O arado em si, apesar de bastante grande, não passava de um simples arado. Mas o cavalo!... Era enorme e anguloso demais para ser um cavalo de verdade. Além disso, no lugar dos olhos tinha uma abertura estreita, verde reluzente, na parte superior do rosto.

— Um cavalo de aço! — exclamou Gorg, estupefato. Suas mãos agarraram com força o pedaço de madeira que lhe servia de clava.

— É isso mesmo, senhor — disse o camponês. Apesar de preocupado, o homem não escondeu o seu orgulho: — Impressionante, não é mesmo?

O gigante fez uma careta:

— Impressionante?! Ah!

O camponês ficou pálido e Kim interveio rapidamente:

— Onde você adquiriu este cavalo? — perguntou ao camponês. E a resposta não o surpreendeu nem um pouco:

— Comprei este cavalo dos anões. Eu o recebi há poucas semanas, junto com o arado. Agora o trabalho anda muito mais rápido, vejam! — Orgulhoso, apontou para o campo extenso: — Fiz tudo sozinho, um trabalho que normalmente demoraria uns três meses...

— Sem ajuda de ninguém? — perguntou Priwinn.

O camponês, que naquele momento perdera o medo, inclinou a cabeça:

— Até o último inverno eu tinha três servos — informou. — Não havia comida suficiente para todos e muitas vezes passávamos fome. Mas essa época passou. Com o cavalo pude despedir os servos e fiz a maior colheita dos últimos anos. O gigante bufou:

— Ah! E os teus servos vivem do que, agora que estão sem emprego?

Embaraçado, o camponês não sabia o que responder, enquanto Kim examinava os sulcos de perto. O mesmo cenário que vira nos campos de Brobing: o sulco era fundo demais, o arado danificou o humo do solo nativo. Este campo talvez trouxesse fruto abundante durante um ou dois anos, mas depois estaria morto, talvez para sempre. De repente, Kim sentiu uma raiva tão grande que num primeiro impulso quis destruir o arado do camponês, que tanto prejudicava a terra.

— Tens mais dessas... coisas? — perguntou Priwinn. O camponês se encheu de orgulho.

— Possuo mais dois homens de ferro... mas, perdoai minha falta de atenção. Deveis vir de longe, deveis estar com fome e cansados. Se não vos importardes com a simplicidade da minha casa, passai a noite sob o meu teto.

Para surpresa de Kim, o príncipe aceitou o convite, visto que até agora evitaram qualquer contato com a população.

— Com prazer — disse Priwinn. — Realmente viajamos muito e ainda temos um largo caminho pela frente.

Kim lançou um olhar indagador, mas o príncipe fez de conta que não percebeu e montou em seu cavalo. Gorg ainda ficou parado por alguns instantes ao lado do cavalo de aço e, pela expressão do seu rosto, seus pensamentos não eram nada bons. Depois também seguiu o camponês que andava na frente.

— Por que você aceitou o convite desse homem? — perguntou Kim, em voz baixa. — Até agora evitamos todas as aldeias e fazendas.

Priwinn abanou a cabeça:

— Não sei... talvez tenha cometido um erro. Por outro lado, se não falarmos com as pessoas, não ficamos sabendo das coisas. — O príncipe franziu a testa e continuou: — Um cavalo de aço! Essa é uma novidade. Só quero ver o que ainda vão inventar.

Seguiram o camponês através dos campos uniformes, já praticamente preparados para a colheita.

As casas do camponês, apesar de pequenas, primavam, como os campos, pela limpeza e organização. O pátio de terra batida fora cuidadosamente varrido, podia-se até comer do chão de tão limpo que era. As casas, recentemente caiadas, eram de um branco tão intenso que chegava a reluzir. Todos os objetos e ferramentas estavam dispostos de maneira ordenada, em absoluta simetria e uniformidade. A impressão que dava era que se tratava de uma propriedade padrão, modelo, destinada à exposição. Nem parecia um lar habitado.

Priwinn, de cara cada vez mais fechada, apeou e procurou algo onde pudesse amarrar o cavalo. O camponês abanou a cabeça e deu um estalo com a língua. Quase que instantaneamente apareceu uma enorme figura, angulosa, com um único olho verde.

Priwinn ficou estarrecido e Gorg teve um sobressalto. Os dois ficaram simplesmente paralisados, enquanto o homem de ferro, com sua garra de aço, pegou primeiro as rédeas do cavalo de Priwinn e depois as de Estrelinha. Em seguida levou os animais para o estábulo. Kim correu atrás dele e catou Bocadinho, agarrado à crina de Estrelinha. O animalzinho não demonstrou a menor reação, quando Kim o colocou sobre seu ombro. Aliás, Bocadinho estava calado demais nos últimos dias, considerando-se a costumeira tagarelice com que enervava as pessoas.

O gato Sheera, que havia se acomodado nos ombros do gigante, teve de pular para o chão, quando Gorg, forçosamente, curvou o corpo gigantesco para entrar na casa do camponês. O gato soprou, roçou as pernas do gigante e desapareceu no interior da casa.

Não demorou nem um minuto e o felino voltou correndo, perseguido por um enorme cachorro desgrenhado que soltava raivosos latidos. O camponês fez menção de chamar seu cão, mas Gorg abanou a cabeça e prontamente bateu no teto baixo da casa:

— Não precisa — disse, esfregando a cabeça —, Sheera pode muito bem cuidar de si mesmo.

Kim, Priwinn e Gorg, este último com algum esforço, atravessaram o Vestíbulo e seguiram o camponês até a sala de estar.

O camponês se revelou excelente anfitrião. Sua mulher, que se refez rapidamente do susto que levara ao se ver confrontada com o gigante, preparou uma farta refeição. Gorg devorou cinco fileiras de pão, um barril de vinho e um queijo inteiro. Bocadinho, comilão como sempre, reclamou das porções, depois que limpou o prato de Kim por três vezes, antes mesmo que este tivesse tempo de provar uma das delícias que a esposa do camponês lhe servira.

Rindo, a camponesa encheu o prato do rapaz pela quarta vez. E, na maior boa vontade, ofereceu a despensa a Bocadinho para que ele pudesse comer à vontade. Bocadinho murmurou algo e, num piscar de olhos, se mandou para a cozinha, e desapareceu na despensa ao lado. O mais tardar na manhã seguinte, a camponesa se arrependeria de sua generosidade.

Depois que todos estavam satisfeitos, o camponês abriu uma caixinha com tabaco, encheu seu cachimbo e, em seguida, ofereceu aos convidados. Kim e o príncipe agradeceram e recusaram, enquanto Gorg se serviu à vontade, isto é, devolveu ao camponês, estupefato, a caixinha totalmente vazia. Depois soltou uma série de espirros que fizeram os copos balançarem sobre a mesa e saiu da sala com a desculpa de que precisava respirar ar fresco. O camponês ficou visivelmente aliviado, mas Kim percebeu a troca de olhares, bastante significativa, entre Gorg e o príncipe. Kim teve a nítida sensação de que estavam tramando algo. Nos últimos dias Priwinn e Gorg quase não se falaram, porém os dois amigos extremamente diferentes estavam ligados por uma amizade tão profunda que não raro palavras se tornavam desnecessárias. Kim resolveu dar uma prensa no príncipe logo que estivessem sozinhos.

Mas foi Priwinn quem tomou a iniciativa:

— Este cavalo de aço é mesmo surpreendente — começou. — Não imaginei que pudesse existir uma coisa dessas.

— Nem eu... pelo menos até pouco tempo — respondeu o camponês. — Mas aposto que dentro em breve os vereis por toda parte.

— É... — murmurou o príncipe. — Sem dúvida.

O camponês soltou uma nuvem de fumaça azul e disse, bastante satisfeito:

— São bem mais fortes do que cavalos de verdade, não precisam de comida, não dormem e nunca ficam doentes.

Kim entrou na conversa:

— Por outro lado, você jamais poderá contar com a ajuda deles. Como são máquinas, não podem saber quando você sai na sela, e se, um dia, você deparar com um urso ou um lobo, uma máquina jamais o defenderá!

As palavras do rapaz deixaram o camponês um pouco confuso. Mas ele depois esboçou um sorriso irônico, como se Kim tivesse dito algo muito ridículo.

— É claro que não — disse calmamente. — Reparei no teu cavalo, é um animal realmente muito belo. O cavalo mais bonito que já vi.

— Estrelinha é meu amigo — respondeu Kim.

— Eu também tenho um cavalo de verdade — continuou o camponês, ainda com aquele sorriso indulgente nos lábios. — Não é tão bonito como o Estrelinha e nem de longe tão nobre. Também tínhamos um potro.

— Vocês tinham?!

Triste, o camponês inclinou a cabeça:

— Foi roubado. Certa manhã entrei no estábulo e encontrei a baia dele vazia. — O homem suspirou, abanou a cabeça e depois sorriu: — Mas restou o outro. Eu o tenho há muito tempo e gosto de montar nele. Agora que tenho o cavalo de aço, me sobra mais tempo para sair com ele. Antigamente o meu cavalo tinha que puxar o arado, ou a carroça pesada em vez de galopar comigo pelos campos.

De repente, Kim sentiu-se um pouco ingênuo. Talvez Priwinn e seus amigos estivessem errados. E, por uma fração de segundos, Kim acreditou ter encontrado a resposta para todas as suas perguntas. Mas as idéias lhe escaparam tão depressa como vieram, e antes que pudesse traduzir seus pensamentos em palavras, ouviu Priwinn dizer com rispidez:

— Teus servos também estão livres agora, não é? Livres para fazer o que bem entendem, até mesmo para passar fome, dormir ao relento no inverno, também podem...

— Estais enganado — interrompeu o camponês, ainda sorridente, porém bem mais frio do que antes. — Eu mesmo lhes arranjei trabalho e um novo lar na cidade — explicou. — A situação deles agora é bem melhor do que antes. Acredita, príncipe Priwinn, mesmo enquanto trabalhavam para mim, poderiam ter arranjado um trabalho melhor, mas ficaram comigo por amizade. Priwinn não escondeu a surpresa:

— Príncipe Priwinn? — repetiu, desconfiado. — Por que...

— Ora — respondeu o camponês tirando o cachimbo da boca. — Sei quem sois — disse, e apontou com o cachimbo para a armadura negra: — Também sei por que usais esta armadura.

— Mesmo assim, nos convidaste para entrar em sua casa? — admirou-se Kim.

— E por que não convidaria? — replicou o camponês. O homem se virou para Kim: — Não sei quem és tu, rapaz. Mas este jovem esquentado eu conheço — disse, apontando para Priwinn.

Priwinn não respondeu, mas os rapazes sentiram que as palavras do camponês eram amigáveis.

— Sei que não sois mau, príncipe Priwinn — continuou o camponês. — Sois impetuoso, mas a impetuosidade é privilégio dos jovens. Não sois injusto e cruel. Mas também sei que temo vossos atos.

Priwinn cerrou os punhos com tanta força que os dedos estalaram.

— Talvez estejas enganado — disse. O camponês abanou a cabeça:

— Não creio. Mas talvez o errado seja vós, príncipe. Ouvi falar a vosso respeito e do que andais fazendo. Acreditai, estais errado. Cruzar estas terras e destruir os homens de ferro de nada adianta. Destruições a esmo nunca serviram a ninguém.

— Nós só destruímos aquilo que está destruindo Märchenmond — replicou Priwinn.

O camponês ia responder, mas nesse momento ouviu-se o choro de uma criança, e a mulher levantou e saiu da sala.

— Tens um filho? — perguntou Priwinn.

De repente, o sorriso se apagou no rosto do camponês. Triste, ele inclinou a cabeça:

— Temos um filho. Ele nasceu no último inverno... o único que nos restou. — Depois de uma pausa em que ninguém falou, o homem continuou: — Tínhamos dois filhos, um menino de doze e uma menina de onze anos. Mas eles desapareceram ano passado.

— E nunca mais tivestes sinal deles?

Kim olhou para o príncipe e se assustou, pois no rosto do amigo havia certa satisfação, como se fosse exatamente isso que ele quisesse ouvir.

Por algum tempo todos permaneceram mudos, um silêncio pesado e incômodo, interrompido por um súbito tumulto na sala ao lado. Todos os olhares se voltaram para a porta onde, para surpresa geral, Sheera e o cachorro do camponês acabavam de entrar, lado a lado, em perfeita harmonia.

Pelo visto, a tradicional animosidade entre cão e gato ficara para trás, ou, talvez, jamais existiu.

Nesse momento, o insaciável Bocadinho, com passinhos ligeiros, retornou de sua expedição pela despensa, pulou em cima da mesa e começou a limpar os restos dos pratos. Depois voltou para seu lugar cativo, ou seja, o ombro de Kim, enrolou-se até formar uma bola felpuda e soltou um ruidoso arroto.

— Que comida boa — elogiou. — Transmita à tua mulher o meu agradecimento pela maravilhosa despensa, bom homem.

— Com prazer — respondeu o camponês. — Fico feliz que tenhas gostado da comida, podes comer quanto quiser.

— Obrigado, é o que farei — disse Bocadinho, e arrotou de novo. — Quando a despensa estiver cheia de novo.

O camponês achou que Bocadinho estava brincando e soltou uma risada alegre.

— Que sujeitinho divertido — disse, voltado-se para Kim. — De onde ele veio?

Kim ia responder, mas se deteve ao ouvir a porta bater e, pouco depois, aparecer Gorg, que se curvou para entrar na sala.

O camponês pulou da cadeira com um grito. O cachimbo pendurado em sua boca caiu no chão, e até Priwinn e Kim pularam de suas cadeiras. Sobre o ombro esquerdo do gigante estavam a cabeça e o pescoço do cavalo de aço!

O gigante atravessou a sala com um único passo e jogou a cabeça do cavalo sobre a mesa, que se quebrou em vários pedaços. Os olhos do camponês quase saltaram das órbitas e com um gemido ele cambaleou para trás. Até mesmo Kim custava em acreditar no que estava vendo. Não tirou os olhos do rosto do gigante, pois jamais vira uma expressão tão selvagem, quase animalesca, no olhar de Gorg. O gigante tinha as mãos ensangüentadas, o corpo coberto de suor e a respiração ofegante.

— O que... o que fizeste? — perguntou o camponês, lívido de pavor. O ódio que viu no rosto do gigante o fez recuar passo a passo, até esbarrar na parede. — O que fizeste? — perguntou novamente.

De repente deu as costas e, com um grito abafado, arremessou-se contra a janela. Gorg o agarrou e o jogou na parede com tanta força que o camponês perdeu o equilíbrio e caiu.

— Se pretendes chamar os teus ajudantes de ferro, estás perdendo seu tempo — disse o enfurecido gigante. — Os seus restos estão no celeiro.

Kim desconfiou que Priwinn e o gigante haviam tramado tudo isso, mas o ódio mortal nos olhos do gigante também deixara até o príncipe perplexo.

Atraída pelo barulho, a mulher do camponês apareceu com a criança nos braços. Quando viu seu marido estendido no chão, soltou um grito e correu para junto dele. No momento em que ela se debruçou para ajudá-lo a se levantar, viu os restos do cavalo de aço sobre a mesa quebrada e ficou estarrecida. Branca como cera, suas mãos tremiam tanto que o jovem Kim temeu pela criança que ela segurava. Mas ao se oferecer para ajudá-la, a camponesa soltou um grito de pavor e se afastou o mais depressa que pôde.

— Por que fizestes isso? — perguntou, desesperada. — Que mal vos fizemos?

Priwinn lançou um rápido olhar para o gigante e tentou tranqüilizar a mulher:

— Por favor, não vos preocupeis, não vamos fazer-vos nenhum mal. O casal de camponeses não parecia ouvir as palavras do príncipe.

Enquanto o homem continuava olhando, como hipnotizado, para a cabeça do cavalo de aço, a mulher não parava de tremer. Lágrimas escorriam por suas faces, mas quando Kim fez menção de se aproximar novamente, ela teve a mesma reação de antes. Recuou o mais que pôde e, apavorada, apertou o filho contra o peito. A criança começou a chorar e a mulher, instintivamente, começou a acariciar o rosto do bebê.

— É o fim — murmurou o camponês.

Levantou do chão com dificuldade, como se fosse um homem senil. Movimentava os lábios com dificuldade e seu olhar continuava fixo na cabeça do cavalo. Kim teve a impressão de que o homem nem sequer notava a presença deles. No seu rosto estava estampado um pavor tão grande que o rapaz estremeceu.

— Vós... vós me tomastes tudo — murmurou. — Destruístes tudo o que eu tinha. Agora eles vão me tomar a casa, os campos, tudo que tenho. Terei de trabalhar nas minas até morrer.

— Não te preocupes — disse Priwinn —, vou te recompensar pelo prejuízo.

Novamente, o casal de camponeses não ouviu as palavras do príncipe.

— Vós destruístes tudo — repetiu o camponês. — Nós vos recebemos tão bem em nossa casa. Não vos fizemos mal algum, só queríamos...

— Um dia — interrompeu Priwinn —, tu vais entender o que fizemos. Nós tínhamos de agir dessa forma, e vamos continuar agindo assim até este pesadelo terminar!

Kim, por sua vez, não sentiu nada além de um terrível vazio. A cabeça destruída era apenas um pedaço de metal, mas lhe infligiu tamanho horror, como se fosse um animal de verdade.

— Eles vão levar tudo que tenho — repetiu o camponês pela milésima vez.

— Que bobagem! — exclamou Priwinn, impaciente. — Quanto pagaste pelo cavalo e os dois homens de ferro?

O camponês finalmente desprendeu o olhar da mesa e se virou para Priwinn. Como sua mulher, começou a tremer:

— Não entendestes — murmurou —, não é o dinheiro, é...

— Quanto? — gritou Priwinn. — Fala!

Com a voz trêmula, o camponês mencionou uma determinada quantia e o príncipe abriu a bolsa, tirou um punhado de moedas de ouro e, com um gesto de desprezo, jogou-as em cima do camponês:

— Isto é mais que suficiente para pagar as tuas dívidas — disse com desdém.

— Mas... não é o dinheiro — chorou o camponês. — Os anões... eles castigam duramente quem destruir seus homens de ferro. Eles vão me mandar para as minas! Vão expulsar minha mulher desta casa. Perdemos tudo! Primeiro as crianças e agora a nossa casa!

Nesse instante o príncipe ficou sensibilizado:

— Se tendes tanto medo dos anões, então nos acompanhem até Caivallon. Lá estareis seguros. Este pesadelo terminará em breve e aí podereis voltar para casa. Vou libertar Märchenmond destas criaturas!

Com o olhar distante, o camponês continuou alheio às palavras do príncipe:

— Só queríamos um pouco de bem-estar. Uma vida sem fome, sem frio, menos preocupações, comida para nossos filhos... é pedir demais?

Priwinn, já bem mais calmo, colocou a mão no ombro do pobre homem:

— Eu sei — disse, com voz delicada. Depois se agachou e catou do chão as moedas que atirara para o camponês: — Pega o dinheiro e parta. É o suficiente para começar uma nova vida em outro lugar. Acredita, sei que tudo que fizeram foi com a melhor das intenções.

O camponês olhou para as moedas na mão do príncipe:

— Achas que fomos demasiado ambiciosos?

— Não — respondeu Priwinn, com tristeza. — Mas o preço foi alto demais.

Kim não agüentou mais. Era como se estivesse assistindo a uma peça de teatro, em que os artistas diziam coisas erradas no momento errado. Virou-se bruscamente e saiu da sala.

Já era quase noite. Bocadinho pulou do seu ombro e desapareceu atrás de um dos arbustos perto da casa, provavelmente para assumir sua versão noturna. Triste, Kim o seguiu com os olhos e, de repente, era como se o mundo todo fosse como Bocadinho: com o pôr-do-sol a beleza e o encanto davam lugar ao feio e ao repugnante.

Passou um bom tempo e Kim permaneceu parado, imerso em questões filosóficas. Quando ouviu passos, sabia, mesmo sem se virar, que era Priwinn que se aproximava.

Um pouco sem jeito, o Príncipe das Estepes pigarreou para chamar a atenção do amigo. Como este não reagiu, deu de ombros e disse:

— Acho que ele está mais calmo. Nesse momento Kim interveio:

— Por que Gorg fez isso? — perguntou. Priwinn deu de ombros novamente:

— Se ele não fizesse, eu o faria, o mais tardar amanhã cedo. Essas máquinas têm de ser destruídas, não há outra saída.

Kim sentiu arrepios. Primeiro Kelhim, depois Rangarig, os gigantes do gelo e agora Gorg... quando o encanto se apaga, só restam ódio e maldade. E Priwinn? Kim estudou o rosto do amigo, cujas feições perderam a juventude. Seria possível que Priwinn também estivesse passando pela mesma transformação? No semblante do amigo havia dureza, amargura, sentimentos que ele antes não nutria. E, novamente, vieram-lhe à memória as palavras que Brobing dissera há tanto tempo: é como se estivéssemos perdendo algo, sem saber o que é.

Era isso que estava acontecendo!

— Ainda me deves uma resposta — disse o príncipe, de repente. Kim ficou irritado, mas Priwinn continuou: — O mais tardar amanhã cedo teremos de nos separar, Kim. Até lá tenho de saber de que lado estás.

— Bobagem — respondeu Kim, desanimado. — Mesmo se eu não optar pela luta, Priwinn, continuaremos amigos. Jamais estarei do outro lado apenas porque...

— Tu estarás ou não do nosso lado? — interrompeu Priwinn com tamanha frieza que Kim ficou perplexo.

— Não — murmurou, finalmente, depois de algum tempo. Priwinn inclinou a cabeça, demonstrando que já contava com esta resposta.

— E o que pretendes fazer?

— Ainda não sei — admitiu Kim. — Vou voltar para Gorywynn e falar com Temístocles.

Priwinn soltou uma risada dura e sarcástica:

— Vós vos mereceis. Um velho mago que perdeu a memória e um jovem herói que foge à luta.

Kim não respondeu. As palavras do amigo o feriram profundamente. Por outro lado, sabia que a intenção de Priwinn era justamente esta, feri-lo. Mas, apesar de tudo, não sentia mágoa. Priwinn perdera o pai e viu seu mundo desmoronar sem que pudesse evitar.

— Você vai levar consigo os camponeses? — perguntou Kim, mudando de assunto.

— Acho que sim — respondeu Priwinn. — O homem ainda não decidiu, mas se for verdade o que disse sobre os anões, ele não tem outra alternativa. Em Caivallon estará seguro. E, um dia, quando tudo estiver terminado, poderá voltar para sua casa e seus campos.

No entanto ambos sabiam que não havia garantia alguma de que no futuro existiriam terras e casas para onde o homem pudesse voltar.

 

Antes do nascer do sol, Kim e Bocadinho despediram-se dos outros e, montados em Estrelinha, puseram-se a caminho de Gorywynn. A despedida foi breve e nem um pouco calorosa, e Kim partiu sem o menor pesar. Os camponeses, ocupados em carregar uma carroça de madeira com seus pertences, evitaram-no o tempo todo, como se o rapaz fosse o único culpado pela desgraça que se abateu sobre eles. Até Gorg se mostrou um tanto hostil. Priwinn se limitou a lhe desejar boa sorte e perguntou se Gorg deveria acompanhá-lo por um trecho, como medida de segurança. Porém, como o gigante não se manifestou a esse respeito, não se falou mais no assunto e Kim até ficou aliviado, pois nos últimos dias aprendeu a temer Gorg e suas reações violentas. Assim como Kelhim se transformara em monstro perigoso e Rangarig, o dragão bonachão, virou uma ameaça mortal, também o gigante estava passando por uma mutação que começou no momento em que descobriram que os gigantes do gelo deixaram de existir. Era possível que, quando se encontrassem de novo, Kim se surpreendesse com um ser traiçoeiro e selvagem em vez do gigante amigável e bondoso que conhecera um dia.

Até a hora do almoço Kim seguiu em linha reta para o Sul, como o aconselhara Priwinn. Depois desviou para a direita e cavalgou por mais uma hora, antes de fazer a primeira pausa. Como Bocadinho limpara a despensa dos camponeses, Kim não pôde levar nenhuma provisão, mas encontrou frutas e bagos em abundância pelo caminho. Bocadinho, por sua vez, desapareceu na floresta e ao retornar, uma hora mais tarde, arrotou com tanto gosto que nem foi preciso perguntar se matou a fome.

Cavalgaram por mais uma hora quando apareceu, longe no horizonte, uma nuvem de poeira que aumentava rapidamente. Alguns minutos mais tarde deu para ver que se tratava de um grupo de cerca de trinta cavaleiros armados até os dentes. Kim ficou bastante alarmado, mas entrementes já era tarde para voltar ou se esconder. Por outro lado, não tinha nada a temer. Assim, puxou as rédeas de Estrelinha e aguardou os acontecimentos.

Eram mais pessoas do que havia imaginado. Os homens chegaram perto e também refrearam seus cavalos. À frente do grupo estava um cavaleiro trajando uma armadura prateada, que deixava à mostra apenas o rosto, o que lhe conferia uma semelhança assustadora com um robô.

— Quem és tu? — perguntou, de maneira nada amigável.

O cavaleiro se aproximou ainda mais de Kim e quase encostou seu cavalo em Estrelinha que, nervoso, começou a pisotear. Kim precisou empenhar toda sua força para controlar o animal. Ele disse o seu nome, mas o outro não demonstrou nenhum sinal de reconhecimento. De certa forma, Kim ficou aliviado, pois já não tinha certeza se ainda era bem-vindo em Märchenmond.

— O que fazes aqui sozinho? — interrogou o cavaleiro. O rapaz resolveu falar a verdade:

— Estou a caminho de Gorywynn.

— Por quê?

— Estou à procura de alguém.