Sites Grátis no Comunidades.net Wordpress, Prestashop, Joomla e Drupal Grátis
Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS IMPLACÁVEIS / Harold Robbins
OS IMPLACÁVEIS / Harold Robbins

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS IMPLACÁVEIS

 

Saltei do táxi no Rockefeller Plaza. Ventava muito mesmo para um dia de março e as abas do sobretudo me batiam pelas pernas enquanto eu pagava ao chofer. Dei-lhe um dólar e disse que o troco era dele.

Sorri com a efusão dos seus agradecimentos. O relógio marcava apenas 30 cents. A embreagem arranhou quando o carro arrancou para ir-se embora. Deixei-me ficar alguns minutos na rua antes de entrar no edifício. O ar cheirava a frescura e limpeza. Ainda era muito cedo para que o cheiro habitual da gasolina se desprendesse do ponto de ônibus da esquina e eu me sentia bem. Melhor talvez do que havia muito tempo.

Entrei no edifício e comprei o Times na banca de jornais de que era freguês, perto do Banco Chase e, depois, subi os degraus para a galeria onde ficava o meu barbeiro.

De Zemmler’s era em matéria de barbearias o que Tiffany’s representa entre as joalherias. A porta abriu-se como por encanto quando me aproximei. Um italiano baixinho ficou segurando a porta para eu passar, com os dentes muito brancos realçados pelo rosto moreno.

— Bom dia, Sr. Edge. Veio cedo hoje.

Olhei automaticamente para o relógio da barbearia antes de responder. Eram apenas 10 horas.

— É verdade, Joe, — disse eu, enquanto êle me tirava o sobretudo. — Rocco já chegou?

— Já, sim, Sr. Edge. Está trocando de roupa. Neste instantinho mesmo, estará aqui.

Deixei o jornal em cima do balcão enquanto tirava o paletó e a gravata que entreguei a Joe.

Nesse momento, Rocco saiu da porta dos fundos e se encaminhou para a sua cadeira. Joe deve ter-lhe feito algum sinal sem que eu visse. Rocco olhou para mim e sorriu.

— Rocco já está pronto, Sr. Edge, — disse-me Joe e, então, voltando-se para Rocco, gritou: — OK, número sete.

Peguei o jornal e fui para a cadeira. Rocco me esperava, sorrindo. Sentei-me e êle passou uma toalha por baixo do meu queixo, meteu uns chumaços de Kleenex por dentro do meu colarinho e disse:

— Madrugou hoje, Johnny.

Não pude deixar de sorrir com o seu tom de voz.

— Foi mesmo, — respondi.

— Grande dia para você, Johnny. Aposto que não dormiu direito.

— É verdade. Quase não dormi.

Êle foi lavar as mãos na pia em frente da cadeira e, voltando a cabeça para mim, disse:

— Acho que também não conseguiria dormir se tivesse um novo emprego onde eu ganhasse mil dólares por semana.

Ri e disse:

— Mil e quinhentos dólares, Racco. Acho que deve estar bem informado.

— Ora, que são quinhentos dólares quando se tem tanto dinheiro? — disse êle, voltando para a cadeira ao mesmo tempo que enxugava as mãos. — Só serve para as despesas miúdas.

— Tornou a errar, Rocco. Quando se chega a esse ponto, não é mais de dinheiro que se trata e, sim, de prestígio.

Ele pegou a tesoura e começou a cortar o cabelo.

— O prestígio é como a barriga grande. Dá a impressão de que o camarada está bem alimentado e bem de vida. Mas sempre lá por dentro sente-se um pouco de vergonha de ser barrigudo. De vez em quando, tem-se vontade até de perdê-la e voltar a ser magro.

— As uvas estão verdes, Rocco. Em mim assenta bem.

Êle não respondeu. Continuou a cortar-me o cabelo e eu abri o jornal. A primeira página trazia apenas notícias. Bem pouco interessantes. Continuei a virar as páginas até encontrar o que queria. Estava na página das diversões. Um título em duas colunas, corpo 20: ’John Edge Eleito Presidente da Magnum Filmes’. O noticiário era o habitual. Um histórico da companhia. Uma pequena biografia minha, que não me agradou porque não omitia o fato de que eu me havia divorciado da famosa atriz Dulcie Warren.

Rocco olhou para o jornal e perguntou:

— Vai começar um caderno de recortes agora que ficou importante, Johnny?

Essa me irritou um pouco. Era como se êle estivesse na minha cabeça e me adivinhasse os pensamentos. Procurei não me zangar e esbocei um sorriso amarelo.

— Deixe de tolice, Rocco. Ainda sou o mesmo homem. Tenho apenas um emprego diferente. Isso não altera as coisas para mim.

— Não? — murmurou Rocco. — É que não sabe como entrou hoje aqui. Parecia até sócio de Rockefeller.

A coisa já começava a me irritar. Olhei para a mão e disse:

— Quer chamar a manicura?

A moça me ouviu e veio correndo. Pegou minha mão. Rocco baixou o encosto da cadeira e começou a cobrir-me o rosto de espuma. Não podia mais ler o jornal e deixei-o cair no chão.

Fiz o serviço completo — barba, xampu, massagem, tudo o que havia. Quando saí da cadeira, Joe correu para me dar a gravata. Dei o laço em frente do espelho. Para variar, o laço saiu direito e não tive de dá-lo de novo. Virei-me para Rocco, meti a mão no bolso e tirei uma nota de cinco dólares que lhe entreguei.

Ele colocou o dinheiro displicentemente no bolso da blusa como se me estivesse fazendo um favor. Olhamo-nos fixamente durante um instante e êle me perguntou:

— Já teve notícias do velho? Que é que êle acha?

— Não soube dele e não me interessa. Êle e o que êle pensa que vão para o diabo.

— Não deve dizer isso, Johnny. Êle é um sujeito direito ainda que esteja brigado com você. Mas sempre gostou de você, quase como se fosse filho dele.

— Mas brigou comigo, não foi? — exclamei zangado.

— De fato. E daí? É velho, estava cansado, desesperado e sabia que tinha disparado os últimos cartuchos. — Calou-se um instante para acender-me o cigarro. — Ficou então um pouco desorientado e voltou-se contra você. Mas que tem isso, Johnny? Não se pode por isso esquecer os trinta anos que se passaram antes. Você não pode dizer que esses trinta anos não existiram, porque não é verdade.

Vi-lhe os olhos. Eram castanhos e brandos, havendo neles um toque sutil de compaixão. Pareciam quase ter pena de mim. Comecei a dizer alguma coisa, mas não disse. Afastei-me dele, vesti o paletó, botei o sobretudo no braço e saí.

Os turistas já estavam no edifício. Havia um grande grupo à espera do guia. Essa gente nunca mudava. Tinham todos a mesma cara que eu vira no parque de diversões havia mais de trinta anos. Ansiosas, cheias de expectativa e com as bocas entreabertas como se pudessem ver mais por meio delas.

Passei por eles, tomei a escada rolante, subi para o andar principal e me encaminhei para um grupo de elevadores que subiam diretamente para o trígésimo andar. Entrei no elevador e o ascensorista, ao ver-me, apertou o botão do 32º andar, sem que eu dissesse uma palavra.

— Bom dia, Sr. Edge, — disse êle.

— Bom dia.

A porta se fechou e eu senti a habitual sensação desagradável quando o elevador de grande velocidade ganhou impulso, subindo vertiginosamente. A porta se abriu e eu saí.

A moça na mesa da recepcionista sorriu ao ver-me.

— Bom dia, Sr. Edge.

— Bom dia, Mona, — disse eu, seguindo pelo corredor atapetado até ao meu novo gabinete. Dantes era dele. Mas o meu nome, ”Mr. Edge”., estava na porta em letras douradas. Não deixava de ser engraçado estar ali o meu nome em vez do nome dele. Olhei cuidadosamente para a porta para ver se ainda havia algum vestígio do outro nome. Nada encontrei. Tinham feito um serviço completo e que não demorara muito. Ainda que se tenha o nome numa porta durante mil anos, bastam alguns minutos para tirá-lo.

Levei a mão à maçaneta para rodá-la e de repente parei. Devia ser tudo um sonho. Não era o meu nome que estava na porta e sim o dele. Olhei de novo o nome na porta e tornei a ver ”Mr. Edge” em letras douradas.

Rocco tinha razão. Não era possível apagar trinta anos.

Abri a porta e entrei na sala de minha secretária. A minha era vizinha.

Jane estava acabando de falar ao telefone quando entrei. Levantou-se, pegou o meu sobretudo e foi pendurá-lo num armário embutido, dizendo ”Bom dia, Sr. Edge”, tudo ao mesmo tempo.

— Bom dia, Miss Andersen, — respondi, sorrindo. — Mas como estamos cheios de cerimônias hoje!

Jane riu.

— Ora, Johnny, afinal de contas você agora é o chefão e eu tenho de dar o exemplo.

— Deixe isso para os outros. Você, não, Jane, — disse, entrando no meu gabinete.

Parei um instante à porta a fim de acostumar-me. Era a primeira vez que o via depois da nova decoração. Ficara nos estúdios até à noite de sexta-feira, tomara o avião no domingo à noite e estava ali em Nova Iorque, naquela manhã de segundafeira.

Jane entrou também no gabinete e me perguntou:

— Gosta?

Corri os olhos em torno. Claro que gostava. Quem é que não gosta de um gabinete que parece feito de ouro lavrado? Ficava num canto do andar e tinha dez janelas, cinco de cada lado. As paredes eram revestidas de madeira artificial. Na parede maior havia um grande mural fotográfico dos estúdios feito de uma fotografia tirada de avião. Na parede menor, havia uma lareira artificial, completa, com os pequenos postes de ferro, a grade e as poltronas ao pé do fogo. Havia outras poltronas de couro vermelho espalhadas pela sala e minha mesa era de mogno luzidio com tampo coberto pelo mesmo couro. No centro, estavam as minhas iniciais também em couro num ligeiro contraste de côr. Havia espaço bastante para dar um baile e ainda sobrariam alguns cantos onde se pudesse conversar particularmente.

— Gosta, Johnny? — tornou a perguntar Jane.

— Gosto, sim, — disse eu, indo sentar-me à mesa.

— Você ainda não viu nada, — disse ela.

Foi até à lareira e apertou um botão na parede.

A lareira começou a girar e foi substituída por um bar.

Dei um assobio.

— Formidável, hem? — disse ela, com orgulho.

— Não tenho palavras.

— E não é só, disse ela.

Tornou a apertar o botão e a lareira reapareceu. Deu alguns passos para o lado e apertou outro botão. Parte da parede deslizou para o lado e mostrou um cintilante banheiro.

— Que tal? — perguntou ela.

Levantei-me, aproximei-me dela e dei-lhe um abraço.

— Jane, você acaba de fazer de mim o homem mais feliz do mundo. Como adivinhou que o que eu mais desejava era um banheiro particular?

Ela riu, um tanto confusa.

— É tão bom você gostar, Johnny. Estava preocupada. Cheguei à porta do banheiro e olhei. Era completo, com

box para o chuveiro e tudo.

— Não se preocupe mais, menina. Gostei e muito.

Voltei para a mesa e sentei-me. Tinha ainda de habituar-me ao ambiente. Quando o gabinete era de Peter, tinha um aspecto simples e antiquado como êle. Já ouvira dizer que o gabinete de trabalho de um homem refletia o juízo que dele fazia a sua secretária. Será que Jane pensava que eu era assim tão afetado?

O telefone começou a tocar na sala de Jane e ela correu para atender, fechando a porta. No momento em que a porta se fechou, senti-me sozinho, tão sozinho que chegava a ser ridículo.

Nos velhos tempos em que eu era o assistente de Peter, a minha sala àquela hora já estava cheia de gente. Conversávamos demais, a sala ficava cheia de fumaça dos cigarros, mas era agradável. Trocávamos idéias sobre filmes, sobre vendas, sobre publicidade. Troçávamos uns dos outros, criticávamos, discutíamos. Mas tudo isso gerava uma tranqüila camaradagem que eu sabia que nunca mais estaria ao meu alcance.

Peter me havia dito uma vez: ”Quando se é chefe, Johnny, fica-se sozinho. Não se tem amigos, só inimigos. Quando alguém se mostra amável, é preciso descobrir qual é o seu motivo secreto. Só pode ser alguma coisa que queira conseguir. Escuta-se o que dizem, procura-se colocar os outros à vontade, mas não é possível. Todos sabem que se é o chefe e se tem o poder de virar-lhes a vida pelo avesso. Ser chefe é uma coisa muito triste e desolada, Johnny”.

Na ocasião, achei graça mas estava começando a compreender o que êle queria dizer. Afastei deliberadamente essas idéias da cabeça e voltei a atenção para a correspondência em cima da mesa.

Afinal de contas, eu não havia lutado para conseguir o lugar. Peguei a primeira carta e parei um instante. Não havia mesmo? O pensamento me passou pela cabeça, desapareceu logo e eu tratei de ler a carta.

Era uma carta de parabéns. Assim eram também as outras cartas e os telegramas. Todo o mundo na indústria me estava dando parabéns e formulando votos de felicidades. Os grandes e os pequenos. Era uma coisa interessante que havia no cinema. Pouco importava que se fosse simpatizado ou antipatizado. Quando acontecia alguma coisa, todo o mundo escrevia. Era como se fosse uma grande família onde todos se observavam, atentos aos menores sinais de êxito ou de insucesso. Podia-se sempre deduzir o que os outros pensavam a respeito da carreira de uma pessoa pela quantidade de correspondência convencional recebida.

Estava quase chegando ao fim da correspondência quando Jane entrou no gabinete com um grande apanhado de flores.

— Quem foi que mandou? — perguntei.

Ela colocou as flores num vaso na mesa do café e, sem nada dizer, jogou um pequeno envelope branco em cima da minha mesa.

Antes mesmo de ver as pequenas iniciais ”D. W.” no envelope, eu já sabia quem tinha mandado as flores pela maneira de agir de Jane, Abri o envelope e tirei o cartão escrita numa letra muito minha conhecida.

Dizia: ”Nada dá tanto sucesso quanto o sucesso. Parece que calculei mal”. E estava assinado: ”Dulcie”.

Joguei o cartão na cesta e acendi um cigarro. Dulcie. Era uma cadela. Mas eu me casara com ela porque a julgava maravilhosa. Porque era bela. E porque tinha uma maneira de olhar para a gente que fazia pensar que se era o único homem no mundo. Isso mostra até que ponto uma pessoa pode ser enganada. No momento em que descobri isso, divorciamo-nos.

— Algum telefonema, Jane?

O rosto dela tinha estado fechado enquanto eu lia o cartão, mas voltara a ser risonho.

— Houve apenas um antes de você chegar. George Pappas. Pediu que ligasse para êle quando tivesse tempo.

— Está bem. Pode ligar.

George Pappas era um bom sujeito. Era presidente da Borden Filmes e eu o conhecia desde muitos anos. Fora êle quem comprara o pequeno nickelodeon de Peter, quando este resolvera dedicar-se à produção de filmes.

A cigarra do telefone tocou.

— O Sr. Pappas no telefone, — disse a voz de Jane.

— Pode ligar.

Houve um estalo e eu ouvi a voz de George.

— Alô, Johnny.

— George! Como vai você, amigo velho?

— Bem, Johnny. E você.

— Não tenho razões de queixa.

— Aonde vai almoçar?

— Graças a Deus, alguém pensou nisso. Estava com receio de que tivesse de almoçar sozinho.

— Aonde nos vamos encontrar? — perguntou êle.

— Tenho uma idéia, George. Por que não vem até aqui? Quero que veja o meu gabinete.

— É bonito, hem, Johnny? — disse êle, rindo devagar.

— Uma beleza! Parece até sala de recepção de uma casa de mulheres de alto luxo na França. Mas venha até aqui que eu quero saber da sua opinião.

— Estarei aí à uma hora da tarde, Johnny. Depois disso, desligamos.

Chamei Jane e disse-lhe que convocasse todos os chefes de departamento para uma reunião em meu gabinete. Afinal de contas, já era bem hora de que soubessem da minha existência e, depois, que é que adianta ser chefe quando ninguém aparece para receber ordens?

A reunião durou até quase uma hora da tarde. Foi a amolação de costume. Estavam todos cheios de felicitações e boa vontade. Disse-lhes que a companhia não estava em boa situação e que eles teriam de deixar de viver perdendo tempo e tratar de trabalhar a sério, pois, do contrário, quando menos esperássemos, estaríamos todos sem emprego. Logo que disse isso, fiquei um pouco sem graça. Pareceu-me falta de lógica dizer que a companhia estava em dificuldades dentro de um gabinete cuja reforma custou 15 mil dólares, mas parece que nenhum deles teve a mesma idéia. Ficaram visivelmente impressionados. Antes de encerrar a reunião, disse que queria em cima da minha mesa antes do fim da semana um relatório de economias em cada departamento que mostrasse os cortes que poderiam ser feitos em matéria de material e de pessoal. Tínhamos de eliminar o desperdício e a ineficiência pois, do contrário, não sobreviveríamos à crise econômica.

Depois, disse que fossem almoçar e, quando foram saindo, vi pelas caras, apesar dos sorrisos, que nenhum deles iria poder comer direito.

Logo que a porta se fechou, fui até à parede onde ficava o bar e procurei o botão. Não houve jeito de encontrá-lo. Abri a porta de Jane.

— Não consigo encontrar os danados daqueles botões!

Ela me olhou um instante espantada e se levantou, dizendo:

— Vou mostrar-lhe.

Segui-a até à parede e vi-a apertar o botão para fazer aparecer o bar. Pedi-lhe então que me preparasse um uísque enquanto eu fosse lavar-me. Encaminhei-me para a porta externa, mas ela me fêz parar.

— Particular, já se esqueceu?

Tocou outro botão e a porta do banheiro foi corrida.

Entrei sem nada dizer. Quando saí, George já estava na sala, com um copo na mão e correndo os olhos por tudo.

— Então, George? — perguntei, apertando-lhe a mão. Que é que acha?

Êle sorriu, acabou de beber o seu uísque, colocou o copo em cima do bar e disse:

— Algumas fotografias de mulheres nuas nas paredes, Johnny, e acho que talvez tudo esteja bem.

Tomei o uísque e fomos almoçar. Descemos para o ”English Grill”. Não quis ir para o ”Shor’s” porque havia sempre muita gente lá e êle não quis ir para o ”Rainbow Room” por causa da altura. Chegamos a acordo quanto ao ”English Grill.” Ficava na galeria do edifício da RCA e dava para o chafariz. Ainda estava fazendo frio suficiente para a patinação e ficamos sentados junto a uma das janelas, olhando durante alguns minutos os patinadores no ringue.

Pedi carneiro grelhado ao garçom e George preferiu uma salada. Explicou que estava fazendo dieta e voltou-se para a janela a fim de olhar de novo para os patinadores.

Afinal, deu um suspiro e disse:

— Isso dá vontade de ser moço de novo, Johnny.

— É

— Oh, Johnny — Desculpe... Tinha-me esquecido.

— Não tem importância, George, — disse eu, sorrindo. — Quase não penso mais nisso e, de qualquer maneira, o que você disse é verdade.

Êle não respondeu, mas eu sabia em que era que estava pensando. Era em minha perna direita. Perdera-a na guerra e tinha a última palavra em pernas artificiais. Era coisa tão perfeita que, quem não soubesse, nunca poderia adivinhar que não era minha a perna com que eu andava.

Ainda me lembrava do dia em que Peter fora visitar-me no hospital na Ilha Staten. Eu estava revoltado, amargo, hostil ao resto do mundo. Ainda não tinha trinta anos e estava sem perna. Teria de passar num hospital o resto da vida. Mas Peter me dissera:

— Você de fato perdeu a perna, Johnny. Mas ainda tem alguma coisa por cima do pescoço, não tem? Não é correndo e pulando que se vive, mas, sim, usando a massa cinzenta. Deixe-se de tolices, Johnny. Volte para o trabalho e você esquecerá isso num instante.

Voltei para o trabalho e vi que Peter tinha razão. Esqueci-me inteiramente da perna até aquela noite em que Dulcie me chamou de aleijado. Mas Dulcie era uma bruxa e, com o tempo, até disso me esqueci.

O garçom trouxe os pratos e começamos a comer. Foi no meio do almoço que comecei a falar.

— George, foi muito bom você ter telefonado, querendo ver-me. Se não tivesse feito isso, quem lhe iria telefonar era eu.

— Por quê?

— Negócios. Você sabe qual é a situação e não ignora que me fizeram presidente porque Ronsen pensa que eu posso salvá-lo.

— E está disposto a isso?

— Muito, não. Você sabe como é, George. Leva-se trinta anos construindo alguma coisa e não se pode gostar de vê-la desaparecer sem mais aquela. Além disso, é um emprego.

— E você precisa tanto assim de um emprego, Johnny?

Isso me fêz rir intimamente. Se havia uma coisa de que eu não precisava era de um emprego. Tinha de meu, livre e desembaraçado, um quarto de um milhão de dólares.

— Não é pelo dinheiro, George. Mas ainda estou muito moço para ficar sem fazer nada.

George encheu a boca de salada e, depois, perguntou:

— Que é que você quer que eu faça?

— Gostaria de que você exibisse os dez medonhos. George não mostrou no rosto o menor sinal do que estava pensando. Não se surpreendera absolutamente com o fato de eu lhe haver pedido que exibisse o que a indústria do cinema rotulara jocosamente como os ”dez medonhos”, isto é, os dez piores filmes que já haviam sido feitos.

— Está querendo fechar as portas dos meus cinemas, Johnny?

— Não são tão ruins assim, George. E eu lhe farei condições ótimas. Poderá exibi-los como quiser, por uma semana ou por três dias, a 50 dólares por período de exibição. Depois de quinhentas programações garantidas, poderá continuar a exibi-los de graça.

George não respondeu.

Acabei o carneiro, recostei-me na cadeira e acendi um cigarro. Tinha feito uma boa proposta. George possuía quase novecentos cinemas. Poderia passar os filmes de graça em quatrocentos pelo menos.

— Não são assim tão ruins quanto os jornais dizem, George. Já vi os filmes e posso dizer que há outros piores.

— Não há mais necessidade de conversas de vendedor, Johnny. Vou fazer negócio com você.

— Obrigado, George. Vai ser uma grande ajuda.

O garçom veio tirar os pratos. Pedi café e torta de maçã. George quis apenas café. George então me perguntou se eu havia falado com Peter ultimamente.

— Há quase seis meses que não o vejo.

— Por que não toca o telefone para êle? Acho que êle agora gostaria de ter notícias suas.

— Êle que me telefone então.

— Ainda está zangado com êle, não está, Johnny?

— Zangado, não. Ressentido. Êle pensa que eu fui uma das pessoas metidas no plano para roubar-lhe a companhia.

— Acha que êle ainda acredita nisso?

— Como é que eu vou saber o que êle pensa ou deixa de pensar? Botou-me pela porta da rua afora na noite em que eu fui conversar com a filha dele. Acusou-me de ser um espião de Ronsen e de estar envolvido numa conspiração para arruiná-lo. Culpou-me de tudo. Disse que eu devia tê-lo impedido de fazer as coisas que fêz. Agüentei muita coisa durante muito tempo, George, mas aquilo foi o fim para mim.

George tirou um charuto do bolso e acendeu-o demoradamente, sem tirar os olhos de mim. Quando acabou, perguntou-me:

— E Doris?

— Resolveu ficar ao lado do pai. Também há muito não sei dela.

Sofri ao dizer isso. Eu havia procedido insensatamente em muitas coisas mas, justamente quando pensava que tudo ia dar certo, tudo saiu ao contrário.

—E o que era que você esperava que ela fizesse? — perguntou George. — Conheço a moça. Seria possível que ela abandonasse o velho naquela hora difícil? Nunca, sendo boa como é.

Felizmente, êle não disse uma palavra a respeito do meu procedimento durante muitos anos e fui-lhe grato por isso.

— Não quis nunca que ela abandonasse o velho. Queria apenas era casar-me com ela.

— E qual seria o efeito sobre Peter?

Não respondi. Não havia o que responder. Sabia o efeito que isso teria sobre Peter mas de qualquer modo me doía. Todos têm de viver a própria vida e nós ambos tínhamos dado a êle mais do que devíamos da nossa.

George fêz um sinal pedindo a conta. O garçom trouxe-a a êle a pagou. Saímos para a galeria e George voltou-se para mim, estendendo a mão.

— Telefone para êle, Johnny. Será melhor para ambos. Não respondi.

— E muitas felicidades para você, Johnny. Sei que se sairá bem. Fico satisfeito de que o escolhido tenha sido você e não Farber. E sou capaz de apostar que Peter pensa da mesma maneira.

Agradeci-lhe e tornei a subir para o escritório. Fui no elevador pensando em telefonar para Peter. Quando saltei no meu andar, havia chegado a uma decisão. Se êle quisesse falar comigo, telefonasse.

A sala de Jane estava vazia quando passei. Devia estar almoçando ainda. Havia em cima de minha mesa outra pilha de correspondência, ali deixada na minha ausência. A pilha era bem grande e tinha no alto um pequeno pesa-papéis.

Tive a impressão de reconhecer o pesa-papéis. Peguei-o, Era um pequeno busto de Peter. Sentei-me na cadeira e fiquei a olhá-lo. Alguns anos antes, Peter chegara à conclusão de que um busto dele poderia ser uma inspiração para todos os empregados e contratara um escultor que lhe cobrara mil dólares pela estatueta. Depois, uma oficina metalúrgica fizera um molde e o pequeno busto começou logo a aparecer em todas as mesas.

O escultor havia-o favorecido muito. Dera-lhe mais cabelo do que êle jamais tivera, um queixo mais quadrado do que o verdadeiro, um nariz mais aquilino do que aquele com que êle nascera, e um ar de determinação absolutamente fictício. E, ainda por cima, na base do busto, liam-se as palavras: ”Nada é impossível para o homem que quer trabalhar — Peter Kessler”.

Levantei-me com o busto nas mãos e, indo até à parede do banheiro, apertei o botão. Na parede da direita do banheiro, havia algumas prateleiras para vidros. Coloquei o busto de Peter no centro da primeira prateleira e recuei um pouco para olhá-lo.

O rosto fictício que me parecia tão real olhava firmemente para mim. Voltei para o gabinete e fechei a porta do banheiro. Comecei a abrir a correspondência, mas isso de nada me adiantou. Não podia concentrar-me. Continuava a pensar em Peter e no busto que eu deixara no banheiro.

Levantei-me irritado e voltei ao banheiro para apanhar o busto. Corri os olhos pelo gabinete à procura de um lugar onde não me perturbasse. Decidira-me pelo alto da lareira. Ali era melhor. O busto parecia sorrir para mim. Quase podia ouvir-lhe a voz na sala, dizendo:

— É melhor assim, rapaz, é melhor assim.

— Acha mesmo, velho patife? — perguntei em voz alta. Depois, sorri e voltei à minha mesa. Já podia concentrar-me na correspondência.

Às três horas da tarde, Ronsen entrou no meu gabinete. O seu rosto redondo e gordo estava escancarado num sorriso. Os olhos pareciam contentes atrás dos vidros quadrados dos óculos sem aros.

—Tudo bem, Johnny? — perguntou êle com a sua voz surpreendentemente forte.

Quando se ouvia Ronsen pela primeira vez sentia-se espanto de que uma voz tão forte e autoritária pertencesse a um corpo tãoflácido. Era então que se refletia que aquela voz era de Laurence G. Ronsen.

Quem pertencia à classe social dele nascia com uma voz forte e autoritária. Com toda a certeza, quando era bebê não chorava para mamar. Exigia o peito energicamente. Ou talvez eu estivesse errado e as mães daquela classe social não tivessem peito.

— Tudo, Larry, — disse eu.

Era outra coisa nele de que eu não gostava. Quando êle estava presente, eu me via inconscientemente forçado a falar com uma correção que não estava na minha natureza.

— Como foi que se saiu com Pappas?

Êle devia ter espiões trabalhando o tempo todo. Respondi em voz alta:

— Muito bem. Vendi-lhe os dez medonhos por um quarto de milhão.

O rosto dele se iluminou ao ouvir isso. Fiz uma pausa para que o meu triunfo fosse mais completo.

— E adiantado. Receberemos o dinheiro amanhã.

Êle esfregou as mãos e, aproximando-se da minha mesa, deume uma palmadinha no ombro. A mão era surpreendentemente pesada e me fêz lembrar que êle jogara futebol americano nos seus tempos de universidade.

— Eu sabia que só você era capaz disso, Johnny. Eu sabia.

Com a mesma rapidez com que o seu prazer se manifestara, a reserva o fêz trancar-se de novo.

— Estamos no caminho certo, rapaz, — disse êle. — Não podemos errar. Venderemos a produção velha, apertaremos um pouco a organização e dentro em pouco tudo estará nos eixos.

Falei-lhe então da reunião com os chefes de departamento e do que lhes havia pedido. Ouviu atentamente, batendo com a cabeça de vez em quando à medida que eu enumerava as várias coisas que tínhamos de fazer.

Quando terminei, êle disse:

— Pelo que vejo, vai ter trabalho de sobra aqui.

— Claro que sim. É bem provável que não arrede o pé de Nova Iorque nestes próximos três meses para tomar todas as providências necessárias.

— Tudo isso é da maior importância, Johnny. Se você não controlar as coisas aqui, acabaremos tendo de fechar as portas.

Nesse momento, o telefone tocou. Ouvi a voz de Jane:

— Telefonema da Califórnia. Doris Kessler. Hesitei um instante.

— Pode ligar.

Momentos depois, ouvi a voz de Doris.

— Alô, Johnny.

— Alô, Doris, — respondi, estranhando que ela me houvesse telefonado e achando a voz dela um tanto diferente.

— Papai teve um derrame, Johnny. E está chamando por você.

Olhei automaticamente para o busto na lareira e vi Ronsen acompanhar-me com o olhar.

— Quando foi, Doris?

— Há umas duas horas. Foi horrível. Primeiro, recebemos um telegrama que dizia que Mark havia morrido numa batalha na Espanha. Papai ficou aniquilado. Caiu desacordado. Tratamos de levá-lo para a cama e chamamos um médico. Êle disse que era um derrame e que não podia dizer quanto tempo Papai iria durar. Talvez um dia, talvez dois. Então Papai abriu os olhos e disse: ”Chamem Johnny. Tenho de falar com êle. Chamem Johnny!”

Depois de dizer isso, ela começou a chorar. No mesmo instante, tomei a decisão e disse:

— Não chore, Doris. Estarei aí hoje à noite. Fique-me esperando.

— Vou esperar, Johnny, — disse ela e desligou. Bati no gancho várias vezes até Jane atender.

— Reserve passagem para mim no primeiro avião para a Califórnia. Avise-me logo que a reserva estiver confirmada. Irei daqui direto para o aeroporto.

Desliguei o telefone sem esperar que ela respondesse.

— Que é que há, Johnny? — perguntou Ronsen, levantando-se.

Acendi um cigarro e vi que as mãos estavam um pouco trêmulas.

— Peter teve um derrame e eu tenho de ir para lá.

— E os nossos planos aqui?

— Terão de esperar mais alguns dias.

— Ora, Johnny, — disse êle muito sério, — sei perfeitamente o que você deve estar sentindo. Mas a verdade é que a diretoria não vai gostar disso. Álém disso, o que é que adianta À sua presença lá?

Olhei para êle também com a maior seriedade. A única coisa que lhe disse por entre os dentes foi:

— A diretoria que vá para o inferno!

Êle era a diretoria e sabia que eu tinha pleno conhecimento disso. Franziu os lábios, deu-me as costas e saiu raivosamente do gabinete.

Deixei-o ir. Pela primeira vez desde que eu resolvera aceitar o lugar que Ronsen me oferecera, sentia o espírito em paz.

— E vá para o inferno também, — disse eu, através da porta fechada. Que era que aquele filho da mãe sabia daqueles últimos trinta anos?

 

TRINTA ANOS 1908

 

 Johnny tinha a camisa nas mãos quando ouviu tocar o sino da igreja. Onze horas. ”Apenas quarenta minutos mais para tomar o trem”, pensou êle, continuando apressadamente a arrumar a mala. Meteu a roupa lá dentro de qualquer maneira e empurrou os fechos. Em seguida, firmou o joelho em cima da mala e passou a correia, apertando-a. Quando acabou, pegou a mala em cima da cama e saiu com ela do quarto, atravessando a loja para ir colocá-la no chão, perto da porta.

Na escuridão, as máquinas pareciam estar zombando dele, vaiando o seu fracasso. Havia ainda uma coisa que êle tinha de fazer. E era o mais desagradável de tudo. Deixar uma carta para Peter explicando por que fugia assim no meio da noite.

Seria muito mais fácil se Peter não tivesse sido tão bom para êle. E não só êle, mas toda a família. Esther chamava-o para jantar quase todas as noites e as crianças o chamavam de ”Tio Johnny”. Sentiu um aperto na garganta ao sentar-se à mesa para escrever. Era aquela a família com que sempre sonhara nos longos anos solitários em que trabalhara no parque de diversões.

Pegou uma folha de papel e um lápis e escreveu: ”Caro Peter”. Depois, ficou olhando para o papel. Como era que podia dizer adeus e obrigado a uma gente que tinha sido tão boa para êle? Bastaria escrever displicentemente palavras convencionais como ”Adeus. Tive muito prazer em conhecê-los e obrigado por tudo” e não pensar mais nisso?

Levou a ponta do lápis à boca e mordeu-a, pensando. Largou o lápis e acendeu um cigarro. Daí a alguns minutos, tornou a pegar o lápis e começou a escrever.

”Em primeiro lugar, você tinha razão. Eu nunca devia ter começado esse negócio”.

Lembrava-se do primeiro dia em que havia chegado à loja. Tinha quinhentos dólares no bolso, dezenove anos de idade e a certeza de que era o homem mais sabido do mundo.

Tinha trabalhado num parque de diversões toda a sua vida e, afinal, ia estabelecer-se e viver por conta própria. Um conhecido seu lhe havia dito que havia em Rochester uma loja de divertimentos mecânicos completamente equipada e que estava mesmo à espera dele.

Nesse mesmo dia, conhecera Peter Kessler. Peter era proprietário do prédio e da loja de ferragens que nele havia ao lado da loja de divertimentos. Peter gostara de Johnny no momento em que o vira. Johnny era uma dessas pessoas de quem é fácil gostar. Tinha um metro e oitenta de altura. Cabelos bem pretos e cheios, olhos azuis e um sorriso franco que lhe mostrava os dentes muito brancos e regulares, causando ótima impressão. Peter começara a ter pena do rapaz antes mesmo de alugar-lhe a loja. Era uma criatura cheia de vida e de vibração.

Peter ficara olhando Johnny enquanto êle andava pela loja, experimentando as máquinas. Afinal, falou.

— Sr. Edge.

— Pronto. Às suas.ordens.

— Talvez não seja da minha conta, Sr. Edge, mas acha que este local é bom para essa espécie de negócio?

Hesitou, pensando que poderia ser mal interpretado. Afinal de contas, era o proprietário e o seu único interesse por aquele rapaz seria que êle pagasse pontualmente o aluguel...

Johnny apertou os olhos. Aos dezenove anos, é difícil reconhecer que se pode estar errado.

— Por que pergunta, Sr. Kessler? — disse êle, com voz fria.

— Bem, os dois camaradas que estiveram aqui antes não se deram muito bem.

— Talvez não conhecessem bem esta espécie de negócio. E também lhe dou razão. Isso não é da sua conta.

Peter franziu a testa. Era muito sensível, embora se esforçasse ao máximo para não demonstrá-lo. A sua voz tornou-se brusca e seca, do mesmo modo que pouco antes, quando Johnny entrara na sua loja e se apresentara.

— Desculpe, Sr. Edge. Não tive a intenção de ofender. Johnny bateu com a cabeça e Peter continuou:

— Entretanto, em vista da minha experiência com os anteriores donos desta loja, devo insistir em que me pague três meses adiantados de aluguel.

Johnny fêz rápidos cálculos mentais. Tirando 120 dólares de 500, ficam 380. Bastava para fazer o que êle queria. Tirou o dinheiro do bolso, contou as notas e entregou-as a Peter.

Peter encostou-se a uma das máquinas e escreveu um recibo, que lhe passou às mãos, dizendo:

— Desculpe se fui grosseiro, mas a intenção foi boa. Johnny olhou-o atentamente. Não viu nele qualquer sinal

de zombaria e estendeu-lhe a mão. O aperto de mãos foi rápido e Peter se encaminhou para a porta. Em dado momento, voltou-se e disse:

— Se precisar de mim para alguma coisa, Sr. Edge, não hesite em procurar-me.

— Está bem, Sr. Kessler. Muito obrigado.

— Felicidades, — disse ainda Peter. Johnny deu-lhe adeus e êle voltou para a sua loja com um ar de preocupação que não lhe era comum.

Esther, sua mulher, que tinha ficado tomando conta da loja enquanto êle ia mostrar a outra casa a Johnny, perguntou:

— Ficou com a loja?

— Ficou. Pobre rapaz... Espero que não se arrependa.

Johnny acendeu outro cigarro e voltou a escrever.

”Pode crer que não lamento o dinheiro que perdi. Sinto apenas o dinheiro que lhe custei. O meu antigo patrão, Al Santos, vai dar-me de novo o meu lugar no parque de diversões e logo que eu começar a receber, mandarei algum dinheiro por conta do que lhe devo de aluguel”.

Não queria voltar para o parque de diversões, não porque não gostasse do trabalho, mas porque teria saudades dos Kesslers. Não se lembrava muito dos pais. Tinham morrido num acidente no parque de diversões quando êle tinha apenas dez anos. Al Santos tomara-o sob a sua proteção, mas Al era um homem ocupado e Johnny tivera de tratar da vida por si mesmo.

Tinha vivido muito sozinho, porque quase não havia garotos da sua idade no parque e os Kesslers tinham preenchido um vácuo que sempre existira na sua vida.

Recordou o jantar às sextas-feiras com Peter e a família. Podia ainda sentir o bom cheiro da canja de galinha e o gosto dos bolinhos a que Esther chamava de knedloch.

Lembrou-se do último domingo em que saíra com as crianças a passeio. Tinham-se divertido muito e êle se sentira muito orgulhoso e feliz sempre que o chamavam de ”Tio Johnny”. Eram ótimas crianças. Doris tinha cerca de nove anos e Mark tinha três.

Não queria voltar para o parque de diversões, mas não podia viver às custas de Peter a vida inteira. Já devia três meses de aluguel e, se Esther não o chamasse de vez em quando para jantar, teria passado muitas noites com fome.

O lápis tornou a correr pelo papel.

”Sinto muito ter de sair assim, mas sei que alguns credores vão aparecer amanhã com uma intimação e creio que esta é a melhor solução para mim”.

Assinou a carta e leu-a. Era um pouco vazia. Aquilo não era maneira de despedir-se de gente amiga. Começou a escrever logo depois da assinatura.

”P.S. — Diga a Doris e a Mark que, se o meu parque vier a esta cidade, êle poderão entrar em tudo de graça. Mais uma vez, muito obrigado por tudo. Tio Johnny.”

Sentia-se melhor depois disso. Levantou-se e colocou um copo em cima da carta para prendê-la. Correu os olhos cuidadosamente pela sala. Não queria esquecer coisa alguma. Não podia, pois não havia dinheiro suficiente para substituir o que esquecesse. Não. Tudo estava em ordem, não se havia esquecido de nada.

Olhou de novo para a carta em cima da mesa. Depois, apagou a luz e saiu da sala. Não viu que a carta se soltara do copo e fora cair no chão com o vento produzido quando fechara a porta. Atravessou a loja, olhando de um lado para outro.

À direita, via os bandidos manetas, as máquinas caça-níqueis, as lanternas mágicas de postais franceses. Mais adiante, estavam os jogos de habilidade, a máquina de beisebol com o rebatedor e nove homens diante dele, os pugilistas com os longos botões de metal no queixo. À esquerda, estavam os bancos que mandara colocar à espera do projeto de cinema que havia encomendado e ainda não chegara. E bem na porta, estava Vovó, a máquina que dizia a sorte.

Olhou através do vidro para ela. A cabeça era coberta por um xale branco de que pendiam moedas e símbolos estranhos. Parecia quase viva no escuro, a mirá-lo com os olhos pintados.

Meteu a mão no bolso à procura de uma moeda. Colocou-a na ranhura e moveu a alavanca.

— Vamos ver qual é a sua opinião, menina, — murmurou.

Houve um ranger de engrenagens e o braço da figura se levantou com os dedos de ferro passando pelas pilhas de cartões arrumados diante dela. O barulho da máquina aumentou quando ela escolheu uma carta e jogou-a pela rampa da máquina. Todo o barulho cessou e ela se voltou para olhá-lo. O cartão foi sair em frente de Johnny que apanhou. Nesse mesmo instante, ouviu o apito de um trem. — Ih! Preciso correr, — disse êle.

Meteu a cartão nervosamente no bolso, apanhou a mala e saiu para a rua.

Olhou um instante para as janelas de Peter. Estavam todas às escuras. Toda a família já estava dormindo. Sentiu frio no ar da noite. Vestiu o capote, levantou a gola e começou a caminhar a toda a pressa para a estação.

Lá em cima, na cama, Doris acordou de repente. Abriu os olhos e viu que tudo estava escuro. Inquieta, voltou os olhos para a janela. À luz do lampião, viu um homem que descia a rua, carregando uma mala. ”Tio Johnny”, murmurou ela vagamente tornando a fechar os olhos. Pela manhã, não se lembrava de nada, mas o travesseiro estava úmido, como se ela houvesse chorado.

Johnny estava na plataforma quando o trem chegou. Meteu a mão no bolso para tirar um cigarro e encontrou o cartão. Resolveu lê-lo.

”Vai fazer uma viagem e pensa que nunca mais vai voltar, mas voltará. E mais depressa do que pensa. A Vovó Cigana que sabe de tudo”.

Johnny riu ao embarcar no trem, pensando: ”Você desta vez quase acertou, minha velha. Só errou quanto à minha volta”.

Mas Johnny é que estava errado. Vovó havia acertado.

Peter abriu os olhos. Estava deitado ainda na grande cama de casal, com as névoas do sono a dissiparem-se lentamente da cabeça. Abriu os braços. A mão direita encontrou o travesseiro que ainda guardava a marca da cabeça de Esther, como a cama ainda lhe guardava o calor do corpo. Ouviu-lhe a voz na cozinha, dizendo a Doris para andar depressa e tomar o café senão iria chegar tarde à escola. Isso o fêz acordar por completo. Levantou-se da cama com a camisa de dormir que ia até ao chão e se dirigiu para a cadeira onde estavam arrumadas as suas roupas.

Tirou a camisa, vestiu a roupa de baixo e as calças. Sentando-se na cadeira, calçou as meias e os sapatos, depois do que foi para o banheiro. Abriu a torneira da pia e começou a fazer espuma para a barba cantarolando uma velha melodia alemã de que ainda se lembrava dos tempos da infância.

Mark entrou no banheiro com o seu andar vacilante.

— Quero fazer pipi, Papai.

— Por que não faz? Você já está bem crescido.

Mark fêz o que queria e, depois, olhou para o pai que estava afiando a navalha.

— Posso fazer a barba hoje?

— Quando foi que você fêz a barba? — perguntou Peter muito sério.

Mark esfregou os dedos no rosto como vira o pai fazer muitas vezes e disse.

— Anteontem, mas minha barba cresce muito depressa.

— Está bem, — disse Peter, entregando-lhe o pincel. — Vá passando sabão no rosto, enquanto eu acabo.

Mark passou o pincel no rosto e ficou esperando pacientemente que o pai acabasse. Não disse uma palavra enquanto o pai se barbeava, pois sabia que aquela operação era delicada e importante e se uma pessoa fosse interrompida poderia cortar-se.

Afinal, o pai acabou e voltou-se para Mark.

— Pronto?

Mark fêz que sim com a cabeça. Não se atrevia a abrir a boca porque a havia coberto também de sabão e poderia engolir um pouco.

Peter ficou agachado ao lado dele.

— Vire um pouquinho a cabeça, Mark.

O menino virou a cabeça e fechou os olhos, dizendo:

— Não vá me cortar.

— Terei todo o cuidado.

Peter virou a navalha e começou a passar as costas da mesma pelo rosto de Mark, tirando o sabão. Alguns segundos depois, levantou-se.

Mark abriu os olhos e esfregou o rosto com a mão.

— Está bem liso agora, — disse, satisfeito.

Peter sorriu enquanto lavava a navalha e enxugava-a. Depois, guardou-a na caixa e lavou o pincel e o copo de barba. Lavou depois o rosto e levantou Mark até ao ombro.

— Vamos ao café agora, rapaz.

Chegou à cozinha, acomodou Mark na cadeira dele e sentou-se.

Doris se aproximou para beijá-lo.

— Bom dia, Papai, — disse ela com a sua voz aguda e clara. Êle abraçou-a, dizendo:

— Gut’ morgen, Hebe kind, zeese kind.

Era assim que êle sempre falava com ela, especialmente depois do nascimento de Mark. Este era o seu favorito e isso lhe dava um sentimento de culpa, que o fazia ser mais efusivo com Doris do que fora antes de Mark nascer.

Ela voltou para a cadeira dela e Peter ficou olhando-a. Era uma garotinha bem bonita. Os cabelos dourados estavam amarrados em trancas em torno da cabeça e os seus olhos azuis eram suaves e quentes. As faces eram rosadas. Peter sentiu-se feliz. Ela fora muito doente em pequena e justamente por isso é que eles se haviam mudado do atravancado East Side de Nova Iorque para Rochester.

Esther chegou, trazendo uma travessa de cheiro delicioso na qual havia ovos mexidos, salmão defumado e cebolas, tudo frito na manteiga.

Peter olhou-a enquanto ela o servia. Era um ano mais moça do que êle e ainda estava esbelta e bonita com a mesma tranqüila beleza morena que o havia encantado logo que êle começara a trabalhar na loja de ferragens do pai dela, pouco depois de chegar aos Estados Unidos. Tinha os abundantes cabelos pretos amarrados atrás num coque à moda da época e os olhos castanhos brilhavam serenamente num rosto redondo e macio. Ela começou a servir Mark.

— Fiz a barba hoje, — disse o garoto.

— Estou vendo, — disse ela, passando a mão pelo rosto do filho. — Muito bem.

— Quando é que posso começar a fazer a barba sozinho? Doris riu.

— Você é muito menino ainda, Mark. Não precisa fazer a barba.

— Preciso, sim.

— Cale a boca e trate de comer, — disse Esther.

Quando ela afinal conseguiu sentar-se, Peter já havia quase terminado. Tirou o relógio quando tomava o café e desceu correndo pela escada para abrir a loja. Não dissera uma só palavra ao levantar-se da mesa. Mas ninguém se incomodou. Papai se atrasava sempre na hora de abrir a loja e já passava um pouco das oito horas.

A manhã passou lentamente. Não havia freguesia. Fazia muito calor para aquela época do ano e o calor tirava o ânimo de fazer compras ou qualquer trabalho extra.

Às onze horas, um carroceiro entrou na loja.

— A que horas o seu vizinho abre a porta? — perguntou a Peter, apontando para a loja de Johnny.

— Lá para o meio-dia. Por quê?

— Tenho uma máquina para entregar, mas a casa está fechada e eu não posso voltar aqui.

— Bata na porta, — disse Peter. — Êle dorme nos fundos e, se ainda estiver dormindo, você o acordará.

— Já bati, mas ninguém respondeu.

— Espere um instante, — disse Peter, apanhando uma chave, — que eu vou abrir-lhe a porta.

O carroceiro acompanhou-o. Peter bateu na porta, mas ninguém respondeu. Olhou pela vitrina mas nada pôde ver.

Afinal, meteu a chave e abriu a porta. Os dois entraram e Peter foi diretamente ao quarto dos fundos. A porta estava fechada. Bateu na porta e esperou. Não houve resposta. Abriu a porta e olhou. Johnny não estava lá.

— Pode trazer o que tem para entregar, — disse êle ao carroceiro. — Johnny deve ter ido à rua por um instante.

Peter foi até à rua enquanto o carroceiro tirava a máquina. Olhou-a com curiosidade. Era uma coisa que nunca havia visto.

— Que é isso?

—- É uma máquina de fotografias animadas, — disse o carroceiro. — Projeta num pano fotografias com movimento.

— Não sei mais o que é que faltam inventar, — disse Peter, sacudindo a cabeça. — Acha que isso funciona mesmo?

— Funciona, sim. Já vi uma máquina dessas em Nova Iorque.

Quando a máquina foi depositada na loja, Peter assinou o recibo para o carroceiro, fechou a porta e não pensou mais no caso até Dores voltar da escala, depois das três horas.

— Por que Tio Johnny ainda não abriu a loja, Papai?

O pai a olhou espantado. Tinha-se esquecido do que acontecera pela manhã.

— Não sei, — murmurou êle.

Foram até à outra loja e espiaram pela vitrina. Não havia lá dentro o menor sinal de movimento. O caixote entregue pela manhã ainda estava no mesmo lugar onde o carroceira o deixara.

— Doris, vá chamar Mamãe lá em cima para ela tomar conta da loja um instante.

Ficou esperando que Esther chegasse.

— Johnny ainda não abriu a porta, Esther. Fique na loja enquanto eu espio lá dentro.

Depois de abrir a porta, dirigiu-se pára o quarto dos fundos. Dessa vez, entrou no quarto e viu a carta no chão. Apanhou-a e leu-a. Depois, voltou para a loja de ferragens e entregou a carta a Esther.

Ela leu e perguntou:

— Foi-se embora então?

Havia uma expressão de mágoa nos olhos de Peter, que parecia não ter ouvido a pergunta.

— Acho que a culpa foi minha. Eu não o devia ter deixado àlugar a loja.

Ela o olhou, compreendendo. Também ela acabara gostando de Johnny.

— Você nada podia fazer, Peter. Bem que tentou fazê-lo desistir da idéia.

Tornou a pegar na carta e a lê-la.

— Êle não precisava ter saído assim, — murmurou êle. — Poderia ter conversado comigo.

— Com certeza, ficou com vergonha, — disse Esther.

— Ainda não compreendo. Éramos amigos dele.

De repente, Doris, que estava ao lado deles escutando tudo o que diziam, começou a chorar. Os pais viraram-se para ela.

— Tio Johnny não vai mais voltar?

— Claro que vai, — disse-lhe Peter. — Diz na carta que vem aí com um parque de diversões onde vocês podem andar em tudo de graça.

Doris parou de chorar e olhou para o pai, arregalando os olhos.

— Sério?

— Sério, — respondeu Peter, olhando para a mulher por cima da cabeça da menina.

O desconhecido esperou calmamente que Peter acabasse de atender um freguês e perguntou:

— Johnny Edge anda por aí?

— No momento, não. Mas talvez eu possa ser-lhe útil. Sou Peter Kessler. O proprietário do prédio.

O desconhecido estendeu a mão e sorriu.

— O meu nome é Joe Turner e eu sou da Companhia de Filmes Graphic. Vim mostrar a Johnny como funciona a máquina de filmes que foi entregue ontem.

-- Prazer em cOnhecé-lo, — disse Peter. — Tenho más notícias para o senhor. Johnny foi-se embora daqui anteontem.

— Não pôde agüentar-se aqui?

— Não. A situação estava muito ruim e êle voltou para o antigo emprego.

— Com Santos?

— Sim, — disse Peter. — Já conhece Johnny?

— Trabalhamos para Santos juntos. É muito bom rapaz. É uma pena que êle não tivesse esperado mais alguns dias. Poderia salvar-se com aquela máquina.

— Em Rochester? Não creio.

— Por quê? — perguntou Turner. — Rochester não é diferente dos outros lugares e essas máquinas estão fazendo um sucesso cada vez maior por toda a parte. Já viu alguma funcionar?

— Não. E a primeira vez que ouvi falar nelas foi quando o homem chegou aqui com o caixote.

Turner tirou um charuto do bolso e acendeu-o. Só depois de tirar a primeira baforada foi que tornou a falar.

— Tenho a impressão de que é um homem direito, Sr. Kessler, e por isso vou fazer-lhe uma proposta. Garanti à companhia o negócio da máquina com Johnny. Se eu tiver de recolhê-la, terei de pagar as despesas de carreto e instalação ainda que a máquina não tenha funcionado. Tudo isso anda em mais de cem dólares. Deixe-me fazer-lhe uma demonstração hoje à noite e poderá depois fazer uma experiência.

— Nada disso. Eu entendo é de ferragens. Nada sei sobre essas coisas.

— Não tem a menor importância. É um negócio novo. Há coisa de dois anos, um homem chamado Fox abriu uma casa com uma máquina dessas sem ter qualquer experiência e está fazendo um bom dinheiro. Com outro camarada chamado Laemmle, está acontecendo a mesma coisa. O senhor só precisa é fazer a máquina funcionar. O povo paga para ver os filmes. É coisa rendosa e de futuro.

— Para mim, não, Sr. Turner. Tenho um negócio que me rende o suficiente e não quero dores de cabeça.

— Escute, Sr. Kesler, não vai pagar nada só para ver. O projetor já está aqui. Tenho umas latas de filmes aí fora e nada tenho para fazer agora. Quero que o senhor veja de que é que se trata.

Se não gostar, nem haverá discussão. Torno a encaixotar tudo e levar.

Peter pensou um instante. Tinha curiosidade de ver os filmes. O que o carroceiro lhe dissera havia-lhe atiçado a imaginação.

— Está bem, — disse êle. Vou olhar, mas não prometo nada. Turner sorriu.

— É o que todos dizem antes de ver. Pode não acreditar, Sr. Kessler, mas eu lhe digo que o senhor já está no negócio de cinema.

Peter convidou Turner a jantar com êle. Quando o apresentou a Esther, esta olhou o desconhecido com curiosidade, sem nada perguntar. Mas Peter apressou-se em explicar:

— O Sr. Turner vai-nos mostrar algumas fitas de cinema esta noite.

Depois do jantar, Turner pediu licença, dizendo que tinha de descer para arrumar as coisas. Peter acompanhou-o.

— É uma pena que Johnny tivesse de ir-se embora. Era exatamente do cinema que êle precisava.

Peter falou-lhe então do motivo pelo qual Johnny havia partido e da carta que deixara.

Turner escutou-o atentamente enquanto trabalhava e, depois, disse:

— De qualquer maneira, Sr. Kessler, não se preocupe com o dinheiro que Johnny lhe deve. Quando Johnny diz que paga, paga mesmo.

— E quem lhe disse que estou preocupado com o dinheiro? Todos nós gostávamos do rapaz. Êle já parecia quase uma pessoa da família.

Turner sorriu.

— Johnny é mesmo assim. Ainda me lembro de quando os pais dele morreram. Johnny tinha nessa época cerca de dez anos. Santos e eu discutimos o que se devia fazer com êle. O menino não tinha outros parentes e devia ser mandado para um orfanato, mas Santos resolveu ficar com êle. Pouco depois, Santos dizia que já queria tanto bem a Johnny como se fosse seu filho.

Turner acabou o seu trabalho em silêncio e Peter subiu para ir chamar Esther. Quando desceram, todas as luzes da loja estavam apagadas. Sentaram-se com alguma desconfiança no escuro no lugar que Turner lhes indicou.

Por mais interessado que Peter estivesse em ver os filmes, sentia-se satisfeito de que não houvesse muita gente na rua para vê-lo.

— Pronto? — perguntou Turner.

— Sim, — respondeu Peter.

De repente, uma luz brilhante se projetou na tela que Turner armara em frente onde estavam. Algumas palavras impressas meio turvas se tornaram, depois, mais claras quando Turner focalizou as lentes. Mas as palavras desapareceram da tela antes que houvesse oportunidade de lê-las e viu-se então um trem, bem pequeno num canto da tela, que vomitava fumaça. Vinha na direção deles, aumentando de segundo a segundo.

Vinha para cima deles e parecia que ia saltar da tela a qualquer momento.

Esther deu um grito e escondeu o rosto no ombro de Peter, estendendo a mão, que Peter segurou com força. Peter tinha a garganta seca, quase não podia falar e sentia o rosto banhado de suor.

— Já passou? — perguntou Esther, com a voz abafada de encontro ao ombro dele.

— Já, sim, — murmurou êle, com a voz ainda embargada pela emoção.

Quase antes de falar, viram-se numa praia onde algumas moças nadavam, enquanto outras corriam e riam. Depois, estavam a bordo de uma barca que entrava no porto de Nova Iorque e os edifícios tão conhecidos pareciam a tal ponto reais que dava até vontade de tocá-los com a mão. Mas, no mesmo instante, haviam passado para um prado de corridas em Sheepshead Bay durante a realização de um páreo. Havia muita gente presente e um cavalo tomou a dianteira sobre os outros, vencendo a carreira. Tudo acabou então. A luz forte tornou a encher a tela, tão forte que chegava a doer nos olhos.

Peter notou que ainda apertava a mão de Esther. Ouviu a voz de Turner:

— E então? Gostou?

Peter se levantou, piscando os olhos. Viu Turner que lhe sorria. Esfregou os olhos e disse:

— Se eu não tivesse visto, seria capaz até de não acreditar. Turner riu e disse enquanto acendia as luzes da loja:

— E o que todos dizem da primeira vez.

Foi então que Peter viu a multidão. Enchia a rua, com os rostos vagos e anônimos comprimidos de encontro às vitrinas da loja, os olhos cheios do mesmo assombro que havia nos seus. Virou-se para Esther.

— Qual é a sua opinião?

— Não sei o que dizer. Nunca vi nada que se parecesse com isso.

A porta se abriu e os curiosos entraram de roldão. Peter começou a reconhecer pessoas e rostos. Falavam todos ao mesmo tempo.

— Que é isso? — perguntavam.

— Fitas de cinema de Nova Iorque, — explicou Turner.

— Vai mostrar essas fitas aqui?

— Não sei, — respondeu Turner. — Isso depende do Sr. Kessler.

Todos se voltaram para Peter.

Êle ficou ali um instante sem falar, com a cabeça ainda cheia do que acabara de ver. De repente, exclamou:

— Claro, que vamos mostrá-las aqui. A inauguração será no sábado à noite.

— Bist du meshuggeh? — perguntou Esther, agarrando-o pelo braço. — Está maluco? Sábado é depois de amanhã!

— Acha que estou maluco? Com toda essa gente querendo pagar para ver cinema?

Ela não respondeu.

Peter começou a sentir-se grande com o coração a bater-lhe com mais força. A inauguração seria no sábado à noite. Afinal de contas, Esther não iria opor-se.

Foi pouco menos de seis semanas depois que Johnny voltou a Rochester. Com a mala na mão, caminhou pela rua até chegar à galeria. Parou no passeio diante do prédio. A loja de ferragens ainda estava na mesma, mas a sua loja havia desaparecido. A tabuleta fora substituída por outra na qual se lia: nickelodeon

KESSLER.

Era bem cedo e a rua ainda estava deserta. John ficou por um momento olhando a tabuleta. Depois, passando a alça da mala de uma mão para a outra, entrou na loja de Peter.

Parou um instante à porta, esperando que os olhos se habituassem à luz atenuada.

Foi Peter quem primeiro o viu e correu para êle de mão estendida.

— Johnny!

O rapaz largou a mala e apertou a mão de Peter.

— Afinal você voltou, Johnny! Eu bem disse a Esther que você voltaria. Ela achava que você não havia de querer voltar, mas eu dizia que bastava passar-lhe um telegrama.

Johnny riu.

— Ainda não sei o que você pode querer comigo, principalmente depois do que fiz, desaparecendo daquela maneira. Mas...

Peter não o deixou acabar.

— Nada de conversa. O que aconteceu, aconteceu e não se fala mais nisso. Doris, corra lá em cima e diga a Mamãe que Tio Johnny está aqui.

Levou Johnny mais para dentro da loja e continuou:

— Achei que era do meu dever chamá-lo. Afinal de contas, a idéia foi sua e você tinha algum direito a participar...

Nesse momento, viu Doris, que ainda esta ali, olhando para Johnny.

— Não disse que fosse dizer a sua mãe?

— Queria antes falar com Tio Johnny, — disse ela, com voz queixosa.

— Está bem. Então fale com êle e suba.

Doris aproximou-se gravemente de Johnny e estendeu-lhe a mão.

— Alô, Tio Johnny.

Johnny riu, suspendeu-a nos braços, abraçou-a e disse:

— Sabe que tive muitas saudades suas, queridinha?

Ela ficou muito vermelha, soltou-se dos braços dele e subiu a escada correndo.

— Vou dizer a Mamãe. Johnny voltou-se para Peter.

— Conte-me agora o que aconteceu.

— Um dia depois de você ter viajado, Joe Turner apareceu aqui e, quase no mesmo instante, me vi metido no negócio do cinema.

E olhe que eu não esperava que fosse uma coisa tão grande. Digo-lhe até que é grande demais para mim. Esther trabalha com o dinheiro, mas estou tão cansado à noite depois de passar o dia inteiro na loja que me custa muito passar as fitas. Resolvemos então mandar chamá-lo. Como lhe disse no telegrama, você ganhará cem dólares por mês e 10 % dos lucros.

— Fiquei muito entusiasmado, — disse Johnny. — Vi nas outras cidades muitos desses nickelodeon e acho que são uma coisa de muito futuro.

Foram mais tarde ao nickelodeon. Johnny correu os olhos em torno e ficou satisfeito com o que via. Todas as máquinas tinham sido retiradas, vendo-se filas de bancos no lugar delas. Só a Vovó, a máquina que dizia a sorte, continuava no seu canto perto da porta.

Johnny foi até lá e bateu com os dedos no vidro.

— Parece que você tinha razão, minha velha, — murmurou êle.

— Que é que está dizendo? — perguntou Peter, espantado.

— Vovó disse a minha sorte na noite em que eu parti. Afirmou que voltaria. Pensei que ela estivesse maluca, mas sabia mais do que eu.

— Temos em iídiche um provérbio que diz: ”O que tem de ser, será”.

— Pois eu quase não posso acreditar ainda, — disse Johnny. Lembrou-se da hora em que recebera o telegrama de Peter.

Mostrara-o a Santos.

”— Não sei o que é que esse camarada ainda quer comigo depois que saí devendo-lhe três meses de aluguel.

— Dois meses, — corrigiu Santos. — Um mês você já mandou pagar com o primeiro dinheiro que ganhou.

— É verdade. Mas ainda não compreendo.

— Ora, talvez o homem goste de você, Johnny. Que é que você vai fazer?

— Voltar. Acha que posso fazer outra coisa?”

— Quantas sessões você está dando aqui? — perguntou Johnny, afastando-se da máquina da sorte.

— Uma só.

— De agora em diante, vamos dar três, — disse Johnny. — Uma à tarde e duas à noite.

—E onde é que vamos achar fregueses? Johnny olhou para Peter para ver se êle estava brincando. Quando percebeu que falava a sério, disse:

— Peter, você ainda tem muito o que aprender neste negócio de diversões. Vou-lhe dizer como conseguiremos fregueses. Temos de fazer publicidade. Encheremos todo o interior de cartazes, anunciaremos nos jornais. Somos o único cinema da região. Muita gente virá à cidade expressamente para isso, desde que saiba. Além disso, pagamos a mesmo coisa passando o filme uma ou três vezes. Só pagamos um aluguel por êle.

Peter olhou para Johnny com um novo respeito. ”O rapaz tem boa cabeça. Descobriu num instante como podemos fazer mais dinheiro,” pensou êle, sentindo um enorme alívio. Johnny estava de volta e êle não tinha mais de preocupar-se com o nickelodeon.

— É uma boa idéia, Johnny, — disse em voz alta. — Muito boa idéia.

Quando Peter adormeceu naquela noite ainda estava pensando nisso. Três vezes mais dinheiro.

George Pappas estava do outro lado da rua defronte do nickelodeon de Kessler às sete e meia da noite e olhava a multidão que chegava para ver o espetáculo. Olhou o relógio e deu um suspiro. O tal cinema estava modificando os hábitos da cidade. Antes do nickelodeon, eram bem poucas as pessoas que se viam na rua depois das sete horas. Agora, já eram quase oito horas e ainda aparecia mais gente para o nickelodeon.

E não era só gente da cidade. Havia fazendeiros e outras pessoas do interior. Aquele tal Edge que trabalhava com Kessler parecia ter um fio elétrico ligado dentro dele. Havia espalhado por toda a parte cartazes que falavam da novidade.

George Pappas tornou a dar um suspiro. Era muito estranho, mas êle tinha a impressão de que aquela novidade não ia passar, depois do primeiro ímpeto de curiosidade. Já tinha ido ver o espetáculo e sentira que uma coisa muito importante havia começado em sua vida.

Como aquilo iria afetá-lo, não sabia. Mas tinha certeza de que tudo ia mudar para êle.

Tinha um pequeno balcão de sorvetes a umas cinco ruas dali. Às sete horas da noite, êle e seu irmão fechavam a casa e iam jantar. Não havia freguesia à noite, exceto aos sábados. Mas era uma terça-feira e havia mais gente chegando para ver o espetáculo de Kessler do que já se vira nas ruas de Rochester mesmo numa noite de sábado. Devia haver um jeito de levar um pouco daquela gente para o seu balcão de sorvetes.

Voltou para casa pensando no problema, quando de repente estacou. Ocorrera-lhe uma idéia que se formulara no seu espírito em grego. Fora tudo tão rápido e natural que êle só compreendeu bem de que se tratava quando traduziu a idéia para o inglês. Viu então que era uma coisa tão certa, uma solução tão boa que voltou sobre os seus passos e dirigiu-se para o nickelodeon.

Parou à porta. Esther estava recebendo o dinheiro das entradas.

— Como vai, Madame Kessler?

Esther estava muito ocupada e respondeu apressadamente:

— Alô, Goerge.

— Kessler está aí? — perguntou êle, na sua maneira um tanto cerimoniosa.

— Está lá dentro.

— Se fosse possível, eu gostaria de falar com êle.

Esther olhou-o com curiosidade, notando a ansiedade mal contida com que êle falava.

— Estará aqui dentro de poucos minutos, pois a sessão já vai começar. É alguma coisa que eu possa fazer?

— Não, muito obrigado. Vou esperar. Tenho um negócio a propor-lhe.

Esther viu-o encostar-se à parede e ficar à espera. Estranhou vagamente que George pudesse ter algum negócio a propor a Peter, mas estava muito atarefada fazendo troco e dentro de alguns segundos não pensou mais nele.

George também estava ocupado. Enquanto estava junto à porta, contou quarenta pessoas que entraram. Olhou para dentro e viu que a sala já estava cheia de gente. As pessoas sentavam-se bem apertadas nos bancos, conversando animadamente à espera do espetáculo. Algumas tinham levado frutas e sanduíches e estavam comendo.

George calculou que houvesse duzentas pessoas lá dentro quando Peter saiu e fechou a porta. E ainda havia muita gente na rua e gente que chegava. Viu Peter fechar a porta e levantou a mão.

— Haverá outra sessão daqui a uma hora, — disse êle aos que esperavam. — A lotação está esgotada, mas esperem um pouco e poderão entrar.

Ouviu um murmúrio de decepção, mas foram bem poucos os que resolveram ir-se embora. E os que saíram foram substituídos por outros que chegavam. Dentro em pouco, uma fila começou a formar-se na rua.

Peter abriu um pouco a porta e gritou.

— Pronto, Johnny! Pode começar.

O público bateu palmas quando as luzes se apagaram. Mas houve silêncio logo que as imagens começaram a aparecer na tela.

Peter acendia um charuto quando George se aproximou dele.

— Alô, Kessler.

— Alô, George. Como vai?

— Muito bem, Kessler. Obrigado, — disse cortêsmente George, acrescentando depois de uma breve pausa: — Está com um bocado de freguesia.

— É verdade, George. Todo o mundo quer ver cinema. Você já viu?

— Já, sim.

— Eu não acreditava, mas hoje sei que é o negócio de mais futuro que pode haver.

— Também acho, Kessler. Você sem dúvida alguma sabe o que é que o povo deseja.

— Obrigado, George, — disse Peter, radiante com o elogio e metendo a mão no bolso do colete: — Tome, George. Um charuto para você.

George tomou o charuto. Embora não gostasse de charutos, cheirou-o como um entendido e exclamou:

— Muito bom.

— Claro que é, — disse Peter. — Mando buscá-los especialmente em Nova Iorque. Custam seis cents, cada um.

— Se não se incomoda, Kessler, — disse George, guardando cuidadosamente, — vou deixar para saboreá-lo depois do jantar.

Peter bateu com a cabeça, já desviando a atenção para a fila que aumentava.

George ficou pensando na melhor maneira de abordar o assunto que lhe interessava. Afinal, disse tudo diretamente.

— Sabe, Kessler? Eu gostaria de abrir um balcão de sorvete aqui.

— Um balcão de sorvete? Para quê?

George ficou embaraçado e respondeu, quase gaguejando:

— Essa gente toda... boa freguesia. Sorvetes, bombons, frutas, doces.

Peter compreendeu imediatamente e perguntou, interessado:

— A idéia é ótima, George, mas onde iríamos achar espaço? George deixou imediatamente de gaguejar. Começou a falar

com rapidez e facilidade, explicando a Peter que o espaço necessário seria muito pouco. Mas o que convenceu Peter foi a sua proposta de pagar aluguel e ainda dar-lhe sociedade nos negócios.

Embora os negócios do nickelodeon fossem muito muito bons, não deixavam de ter os seus problemas. Em virtude do contrato feito com a Graphic, Peter recebia um novo programa de três em três semanas. Tudo correu bem até o momento em que começaram a dar três sessões por dia. Aconteceu então que na primeira semana todo o mundo na região queria ver o novo programa, mas nas duas semanas seguintes, a freqüência caía muito. £le e Johnny conversaram sobre o assunto e resolveram perguntar a Joe Turner quando este aparecesse o jeito que poderiam dar.

Cerca de duas semanas depois de George ter aberto o seu balcão, de sorvetes, Joe apareceu na sua visita mensal de costume. Antes de entrar no nickelodeon, ficou olhando pensativamente George e o irmão que atendiam ativamente os fregueses.

A sessão da tarde havia terminado e Joe foi encontrar Johnny preparando os filmes para a primeira sessão da noite.

— De quem foi a idéia do balcão de sorvetes, Johnny?

— De Peter. Que é que acha?

— ótima idéia! Tão boa que vou ver se a aproveito em outros lugares.

Johnny desceu do pequeno tablado onde ficava o projetor e disse:

— Vamos lá tomar um refresco.

Johnny apresentou Joe a George e ao irmão. Quando começaram a tomar os refrescos perguntou:

— Será que você não tem outros filmes? O pessoal fica cansado de ver a mesma coisa durante três semanas a fio.

— Não há muita coisa, Johnny. Mas temos um novo filme de uma parte só que podemos mandar-lhe.

— Que é que adianta uma parte quando precisamos de um programa inteiro?

— Bem, Johnny, tenho alguma coisa que talvez resolvesse o problema mas tem de ser feito em segredo.

— Ora, Joe, você me conhece e sabe que eu sei ficar calado quando é preciso.

Joe sorriu e continuou:

— Você já deve ter ouvido dizer que as grandes companhias vão unir-se para formar um consórcio e controlar a indústria do cinema.

— Sei disso.

— Então deve saber também que um dos motivos é que há uma porção de produtores independentes que estão fazendo uma concorrência forte com os seus filmes. As grandes companhias querem que os exibidores só passem os programas deles e por isso é que se unem. Assim poderão controlar as patentes e só eles é que poderão fazer filmes.

— E daí, Joe? Ainda não vejo como é que iremos conseguir mais filmes.

— Já vou chegar lá. A Graphic vai entrar para o consórcio e eu estou com vontade de sair de lá e ir trabalhar com um independente que pretende fazer filmes em quantidade suficiente para assegurar um programa novo todas as semanas.

— Seria muito bom, mas continuamos na mesma. De acordo com o nosso contrato, só podemos exibir filmes da Graphic.

— Muitos exibidores acham que o que o consórcio não souber, não fará mal algum a ninguém. A verdade, Johnny, é que você arrenda os filmes pelo prazo de três semanas, mas não é obrigado a exibi-los se não aparece ninguém para vê-los.

— Estou entendendo, — disse Johnny, acabando o refresco. — Vamos conversar com Peter sobre isso.

A caminho da loja de ferragens, Joe disse a Johnny que bastava que êle fosse a Nova Iorque e assinasse um contrato de arrendamento.

— Quem é esse camarada para quem você vai trabalhar?

— Chama-se Bill Borden. É o maior produtor independente.

— E você vai vender filmes para êle como vendia para a Graphic?

— Não. Estou cansado disso. Vou ver se faço os filmes. Disse a Borden que êle precisava era de alguém que soubesse o que os exibidores queriam e que, desde que eu estava nesse caso, era eu o homem de que êle precisava.

Johnny riu.

— Você não mudou nada desde o tempo em que trabalhávamos no parque.

— Claro. E quer saber de uma coisa? Isso é um negócio de tanto futuro que devemos continuar a trabalhar juntos. Quero ver você um dia no cinema também.

Johnny parou um instante com a mão na maçaneta da porta, ao ouvir a voz de Esther que falava com Peter.

— Como é? Ainda não está vestido? Doris e Mark estão contando com você para dar um passeio.

Johnny sorriu no corredor. Ouviu indistintamente a resposta de Peter, dada num tom de preguiça e queixa. Era domingo e êle gostava de ficar calmamente meio deitado na poltrona, lendo os jornais. Rodou a maçaneta e entrou na cozinha.

Esther olhou-o com surpresa.

— Acordou cedo, Johnny, — disse ela, ao lado do fogão.

— Só passei aqui um instante. Vim saber se Peter quer alguma coisa de Nova Iorque.

— Vai a Nova Iorque?

Parecia um pouco irritada ao dizer isso e Johnny não pôde perceber o motivo.

Peter o ouvira da sala ao lado e chegou à porta.

— Vai a Nova Iorque? — perguntou êle, repetindo as palavras da mulher.

— Vou, — respondeu Johnny, lacônicamente. Peter estava em mangas de camisa, com o cinto desabotoado. Estava engordando ultimamente e bem que tinha motivo para isso. As coisas estavam correndo muito bem.

— Que é que vai fazer? — perguntou Peter.

— Prometi a Joe que iria procurá-lo para ver alguns dos novos filmes de que êle falou. Voltarei amanhã, a tempo de pegar a primeira sessão da noite.

Peter encolheu os ombros.

— Se você quer viajar oito horas só para ver alguns filmes, o problema não é meu, mas eu não faria isso.

Johnny sorriu e pensou em silêncio que se Peter fizesse o mesmo talvez chegasse a compreender o que êle vinha procurando explicar-lhe havia meses — que o cinema era um grande negócio, maior até do que era capaz de sonhar.

— Tenho de ir, — disse êle em voz alta. — Preciso ter uma idéia do que está acontecendo na indústria.

Peter olhou-o. Havia um brilho fanático nos olhos de Johnny. O cinema havia empolgado por completo o espírito de Johnny, que vivia, comia e dormia pensando em filmes. Desde que êle começara a fazer viagens a Nova Iorque para comprar filmes, não falava em outra coisa. Lembrava-se do que Johnny lhe dissera um dia ao voltar de Nova Iorque: ”Aquele camarada, Borden, está no caminho certo. Está fazendo filmes de duas partes com um pequeno enredo. E não é êle só. Fox e Laemmle estão fazendo o mesmo. Dizem que vai ser uma grande indústria e até esperam que um dia haja grandes teatros que só exibam filmes, como há agora para peças e óperas”.

Peter havia zombado da idéia, mas no íntimo tinha ficado impressionado. Talvez aqueles homens estivessem certos. Já havia visto os filmes que faziam. Eram sem dúvida alguma melhores do que os do consórcio, e eles deviam saber o que faziam.

Pensou um instante como seria bom possuir um teatro que só exibisse filmes, mas resolutamente tirou isso da idéia. Nunca daria certo. O cinema era uma simples curiosidade que poderia acabar de um momento para outro.

Doris entrou correndo na cozinha em companhia de Mark. Olhou, radiante, para Johnny.

— Vai passear conosco, Tio Johnny?

— Hoje não, queridinha, — disse êle, sorrindo, — Tio Johnny vai a Nova Iorque tratar de negócios.

A decepção se estampou no rosto da menina. Esther olhou significativamente para o marido. Peter se aproximou e segurou a mão de Doris.

— Papai levará você, Liebchen, — disse êle. — Johnny espere por nós que vamos levá-lo à estação.

Saiu um instante para ir vestir o paletó.

— Quer café, Johnny? — perguntou Esther.

— Não, muito obrigado. Já tomei. Peter voltou à cozinha, já pronto.

— Vamos, Kinder!

Na rua, Mark puxou Johnny pela mão.

— Quero cavalinho, Tio Johnny.

Johnny riu e suspendeu o garoto, montando-o nos seus ombros.

Ao fim de alguns minutos, Peter notou que Doris tinha ido para o outro lado de Johnny e dava-lhe a mão. Sorriu. Era um bom sinal as crianças gostarem de alguém.

— Como vai Joe? — perguntou a Johnny. Não via Joe Turner desde que êle deixara o consórcio e começara a trabalhar com Borden.

— Vai muito bem. Tem feito uns filmes ótimos e Borden acha que êle é o melhor elemento.

— Ótimo. E Joe está satisfeito?

— Está. Mas quer ainda mais.

Johnny estava tentando afastar a mão de Mark que lhe puxava os cabelos.

Peter olhou severamente para o filho.

— Largue os cabelos de Tio Johnny senão vou fazê-lo descer daí.

Mark obedeceu e Peter perguntou:

— Que é que êle quer mais?

— Quer trabalhar em filmes por conta própria e está certo de que vai ganhar muito dinheiro.

— Que é que você acha? — perguntou Peter, interessado, embora procurasse não o parecer.

— Acho que êle está certo. Calculamos tudo. Um filme de uma só parte custa perto de 300 dólares e mais as cópias. De cada filme, podem tirar-se cem cópias. Cada uma pode ser arrendada pelo menos duas vezes a 10 dólares. Isso significa 2 mil dólares em cada filme. Não pode deixar de dar certo.

— O que é que êle está esperando então?

— Dinheiro. Precisa pelo menos de 6 mil dólares para câmaras e equipamento.

Tinham chegado à estação. Johnny tirou Mark dos ombros e disse:

— Sabe de uma coisa, Peter? Não seria um mau negócio para nós.

— Para mim, não, — replicou, Peter rindo. — Sei muito bem o que me serve e o que não me serve. Sabe o que acontece quando não se pode vender os filmes? Perde-se o dinheiro.

— Não creio que você tenha razão. Nós, por exemplo, estamos comprando filmes a todos e nunca nos damos por satisfeitos Todos os outros exibidores com quem tenho falado em Nova Iorque estão na mesma situação. Não sei como poderemos errar com tantos fregueses ansiosos por mais filmes.

Peter tornou a rir, mas já sem tanta segurança.

— Não sou ambicioso, Johnny. Deixo as preocupações para os outros. Estou muito satisfeito com o que estamos ganhando.

Alguns minutos depois, o trem chegou e Johnny embarcou. Deu adeus aos amigos, em pé, na plataforma, sorrindo.

Conhecia Peter muito bem e sabia que plantara nele o germe de uma idéia. Com o tempo, a idéia germinaria e começaria a crescer.

Na estação, Doris começou a chorar, quando o trem partiu. Peter olhou-a com surpresa.

— Por que está chorando, Liebchen?

— Não gosto de ver ninguém ir-se embora num trem. Peter coçou a orelha. Tanto quanto sabia, era aquela a primeira vez que Doris via alguém ir-se embora num trem.

— Por quê?

— Não sei, Papai, disse ela, com os olhos cheios de lágrimas. — Talvez Tio Johnny não volte mais.

Peter olhou-a por um momento em silêncio. Depois, tomou-lhe a mão e disse:

— Que tolice! Venha. Vamos dar o nosso passeio.

Estava escuro quando Johnny acordou. O quarto era estranho. Sentia a cabeça dolorida e pesada. Gemeu e estendeu os braços, espreguiçando-se.

Houve um movimento na cama ao lado dele e Johnny teve a surpresa de sentir na mão o contato de uma carne quente e macia. Voltou-se.

No escuro, mal podia ver o rosto da mulher que dormia ao lado dele. Estava deitada de lado, com um braço debaixo do travesseiro. Sentou-se na cama e procurou lembrar-se do que havia acontecido na noite passada. Lembrava-se de que Joe mandara buscar mais vinho. Estavam todos ficando bêbedos. Pouco a pouco, reconstituiu tudo.

Havia chegado ao estúdio por volta das cinco horas da tarde. Joe dissera que estavam trabalhando no domingo porque era o único dia que algumas das pequenas que êle havia contratado tinham de folga. Trabalhavam num teatro como coristas e aproveitavam a oportunidade de ganhar alguns dólares a mais.

Quando Johnny chegara, Joe estava tendo uma discussão com uma delas. A princípio, Johnny não pôde compreender o motivo da discussão, mas acabou sabendo que era por causa dos trajes que ela estava usando.

Bill Borden estava perto, com a cara franzida que Johnny já se habituara a ver com uma das características de todos os homens que trabalhavam no cinema. Joe calou-se e ficou esperando calmamente que a pequena acabasse de gritar. Johnny parou perto da porta. Ninguém notara sequer a sua chegada.

A pequena parou de gritar e Joe voltou-se para Borden.

— Tenha paciência com ela, Bill. Temperamento é uma coisa que não podemos apriveitar no cinema.

Borden não respondeu. O ar de preocupação no seu rosto ficou mais profundo.

A pequena recomeçou a dar gritos, dizendo a Joe:

— Não pode fazer isso comigo! A estrela do filme sou eu 1 Vou dar ordem ao meu agente para acionar a companhia!

Joe explodiu:

— Quem você pensa que é, com todos os diabos do inferno, e a quem é que você vai acionar? Você ganha mais num dia de trabalho aqui do que numa semana inteira mostrando as coxas no teatro! Acione se quiser e você nunca mais trabalhará em nenhuma companhia de cinema! Vamos! Se quiser mesmo trabalhar no filme, tire esse vestido agora mesmo e fique de camisa! E não me venha com conversa fiada. Vi você no Bijou nuínha em pêlo. E foi por isso mesmo que a contratei!

A pequena olhou-o em silêncio alguns instantes. Depois disse:

— Está muito bem! Vou fazer-lhe a vontade!

Num movimento rápido, afastou-se um pouco, tirou o vestido pela cabeça e jogou-o aos pés de Joe.

Johnny não pôde conter uma exclamação de espanto. A pequena estava com o vestido em cima do corpo e se mostrava sem uma só peça de roupa.

Joe -apanhou prontamente o vestido e correu para cobrir-lhe o corpo. Borden levou as mãos à cabeça e gemeu. A pequena disse a Joe com um sorriso:

— Você terá de arranjar-me uma camisa. Estava fazendo muito calor e eu saí de casa assim.

Joe começou a rir.

— Por que não disse logo? Teria poupado toda essa atrapalhação.

Alguns minutos depois, a moça estava corn uma camisa e a câmara começou a rodar. Joe viu Johnny e aproximou-se dele, com um sorriso nos lábios.

— Viu as coisas que tenho de aturar?

— É duro, não é? — disse Johnny, piscando o olho.

— Não brinque, Johnny. Essas meninas são maluquinhas. A gente nunca sabe o que pode esperar delas.

— Pois acho que você não tem de que se queixar, — disse Johnny, rindo.

— Bem, vá para a sala de projeção ver os filmes. Quando você acabar, eu também já deverei ter acabado aqui e nós iremos jantar.

— Está bem, — disse Johnny, afastando-se.

— Espere um pouco, Johnny. Não acha que seria uma boa idéia irmos jantar com duas dessas pequenas? Não creio que você esteja levando uma vida muito sadia em Rochester.

— É muito gentil da sua parte preocupar-se comigo, Joe. Suponho que você pode passar sem mulheres, não é?

— Para mim, tanto faz como tanto fêz. Mas ainda me lembro da paixão que você teve aos 16 anos por aquela contorcionista. Que trabalho você deu a Santos nessa ocasião!

Johnny ficou vermelho e quis responder alguma coisa, mas nesse momento Borden apareceu muito nervoso e levou-o para a sala de projeção. Quando saiu de lá, Joe esperava-o com duas pequenas.

Joe apresentou-as. Uma delas era a que havia discutido flaquela tarde com êle. Chamava-se May Daniels e do jeito pelo qual ela e Joe se tratavam, pareciam velhos amigos. A outra era uma loura muito bonita chamada Flo Daley.

Sorriu para Johnny e Joe lhe disse:

— Seja boazinha para êle, Fio. É um dos nossos melhores fregueses.

Jantaram no Churchill’s. Joe estava muito contente. Fizeram um filme todo naquela tarde. Depois que acabaram de jantar, êle acendeu um charuto e perguntou em voz baixa a Johnny:

— Já conversou com Peter?

— Já. Esta manhã mesmo. Creio que êle vai topar.

— Tomara. Borden está trabalhando no novo estúdio em Brooklyn e será ótimo que Peter fique logo com este daqui. Para nós, será ótimo.

— Êle vai fazer o negócio, Joe. Tenho certeza.

— Ótimo! — disse Joe, recostando-se na cadeira e lançando para o ar uma baforada de fumaça.

— Por que vocês, homens, não podem deixar de falar de negócios? — perguntou-lhe May. — Por que não se esquecem um instante dessas coisas e não se divertem?

— Tem toda a razão, menina! — disse Joe, apertando-lhe o joelho por debaixo da mesa. — Vamo-nos divertir. Garçom, mais vinho!

Quando chegaram ao apartamento de Joe, era tarde e estavam discutindo sobre o número de cinemas que Johnny possuía. Joe dizia que eram vinte e um, ao passo que Johnny reclamava do exagero e dizia que eram apenas vinte.

Flo se declarou espantada de que um homem tão moço já fizesse tanta sucesso na vida e Joe lhe assegurou que Johnny era um gênio dos negócios e vivia sempre tão ocupado que não tinha nem tempo de contar os cinemas que possuía.

Entraram no apartamento e Johnny disse a Joe:

— Você está muito alto. É melhor ir dormir logo. Apesar dos protestos de Joe, levaram-no para o quarto. Êle

se jogou imediatamente na cama e não deu mais acordo de si. Tentaram tirar-lhe a roupa, mas May disse de repente que também estava muito cansada e se jogou na cama também vestida ao lado de Joe, dormindo no mesmo instante. Johnny e Flo se olharam, sorrindo.

— Coitados! Não agüentam bebida, — disse êle, solenemente. Saíram juntos com passos incertos para o outro quarto.

Ela fechou a porta e abriu os braços para êle.

— Gosta de mim, Johnny?

Johnny olhou-a e achou estranho que ela não lhe parecesse mais tão tonta quanto pouco antes. Abraçou-a, dizendo:

— Claro que gosto de você, menina.

— Que é que estamos esperando então? — perguntou ela, em voz baixa e nervosa.

Johnny beijou-a e sentiu-lhe o corpo colar-se ao dele. Meteu a mão pelo decote do vestido e sentiu um seio quente tremer-lhe entre os dedos. Procurou arrastá-la para a cama.

Ouviu-a rir.

— Espere um pouco, Johnny. Não é preciso rasgar-me o vestido.

Êle abriu os braços e viu-a despir-se apressadamente, enquanto pensava: ”Joe tem razão. A vida que estou levando não é sadia”, Mas alguma coisa lhe dizia bem no íntimo que êle não teria tempo bastante para aquilo e para tudo mais que queria.

Fio deixou as roupas no chão e voltou-se para êle.

— Viu? É muito melhor assim, não é?

Êle não respondeu. Puxou-a com os braços e os lábios se encontraram. O corpo dela era como fogo ao seu contato e êle afastou da cabeça todos os pensamentos, entregando-se ao calor daquele momento.

Sentia a cabeça latejar. Levantou-se da cama e ficou olhando a pequena que dormia. Levantou a colcha.

A pequena moveu-se, murmurou alguma coisa e sorriu no sono. Nada tinha sobre o corpo.

Lembranças ainda quentes, passaram-lhe pela cabeça. Deixou cair a colcha e foi para o banheiro.

Fechou a porta e acendeu a luz que lhe doeu nos olhos. Abriu a torneira de água fria e ensopou a cabeça repetidamente. Afinal, começou a sentir-se melhor. Pegou uma toalha e enxugou-se. Olhou-se no espelho e passou a mão pelo rosto. Precisava fazer a barba, mas não tinha tempo.

Voltou para o quarto e vestiu-se. Depois, saiu do apartamento sem acordar ninguém. O ar da manhã era fresco e revigorante. Eram seis e meia. Tinha de apressar-se ou não pegaria o primeiro trem para Rochester.

Johnny entrou na cozinha, quente e confortável com o calor irradiado do grande fogão.

— Onde está Peter? — perguntou. Esther voltou-se do fogão e disse:

— Foi andar um pouco.

— Com esse tempo? — perguntou êle, indo até à janela. A neve continuava a cair. — A rua já deve ter bem um metro de neve.

— Que é que ia fazer? Disse-lhe que não saísse mas êle não me ouviu. Anda bem inquieto ultimamente.

Johnny também havia sentido o nervosismo de Peter desde que eles, três dias antes, tinham tido de fechar o nickelodeon em vista da pesada tempestade de neve. O verão tinha sido muito rendoso, mas as primeiras neves do inverno os haviam forçado a fechar.

Esther olhou para êle, pensando ainda em Peter.

— Não sei o que há com êle ultimamente. Nunca foi assim.

Johnny deixou-se cair numa cadeira em frente dela e perguntou com as sobrancelhas franzidas:

— Assim como?

— Desde que o cinema começou a funcionar, êle está diferente. Dantes, um pouco mais ou um pouco menos de dinheiro ganho na loja não tinha muita importância para êle. Agora, vai para a janela, vê a neve cair e murmura irritado que está perdendo dinheiro.

— As coisas não são tão ruins assim, — disse Johnny, sorrindo. Lá no parque de diversões, nós sabíamos muito bem que o sol não pode brilhar todos os dias. Aproveita-se ao máximo o bom tempo para compensar os dias de chuva e neve.

— Ainda hoje, disse-lhe que não tínhamos motivo de queixa, pois até agora temos sido felizes, mas êle não me deu resposta e saiu pela porta afora.

Estava sentada na cadeira diante de Johnny e olhou para as mãos juntas no colo. Quando levantou a cabeça, os olhos estavam cheios de lágrimas.

— Às vezes, tenho até a impressão de que não o conheço mais e êle passou a ser um homem diferente, quase um estranho. Ainda me lembro de quando estávamos em Nova Iorque e o médico disse que Doris só ficaria boa se saíssemos da cidade. Peter vendeu a loja que tinha lá e veio para cá sem um segundo de hesitação. Não sei se êle seria capaz de fazer a mesma coisa agora.

Johnny sentia-se embaraçado com tais confidencias e disse, tentando consolá-la:

— É que êle tem trabalhado muito ultimamente. Não é muito fácil dirigir dois negócios ao mesmo tempo.

Um súbito sorriso brilhou entre as lágrimas diante dessa fraca tentativa de consolá-la.

— Não é preciso dizer isso, Johnny, pois eu sei de tudo. Desde que você voltou, êle não tem tido mais nada que fazer no cinema.

— Mas a responsabilidade de tudo é dele.

— É bondade sua dizer isso, Johnny, mas a verdade é que você não consegue enganar ninguém.

A sopa começou a ferver no fogão e ela foi cuidar das panelas. Mas continuou a falar, de costas para êle.

— Não é nada disso. Há alguma coisa que o está preocupando e eu não sei o que é.

Havia em sua voz um tom de desânimo. Ainda se lembrava de quando Peter aparecera na loja do pai dela. Tinha quatorze anos nessa época e Peter era um ano mais velho.

Acabava de chegar aos Estados Unidos e trazia uma carta do tio dela, irmão do pai, que havia ficado em Munique. A aparência era extremamente desajeitada e os braços lhe saíam quase até ao cotovelo das mangas muito curtas do paletó. Seu pai empregara-o na pequena loja de ferragens de Rivington Street e Peter havia começado a freqüentar a escola noturna. Ela costumava ajudá-lo nas lições de inglês.

Era a coisa mais natural do mundo que acabassem amando-se. Lembrava-se do dia em que êle fora pedi-la em casamento ao pai. Ficara olhando atrás da porta na sala dos fundos da loja. Peter ficara ali desajeitadamente a olhar para o pai que, sentado num tamborete atrás do balcão, com o pequeno Yamalke preto na cabeça, lia o jornal judeu através das pequenas lentes dos óculos.

Afinal, depois de um longo e penoso silêncio, Peter abrira a boca.

— Sr. Greenberg...

O pai olhara-o por cima dos óculos sem dizer uma palavra, pois não era homem dado a falar muito.

Peter estava muito nervoso e murmurava em palavras entrecortadas:

— Eu... isto é, nós... Esther e eu... queremo-nos casar.

O pai olhara-o por cima dos óculos e, sem falar, voltou à leitura do jornal. Esther lembrava-se de que o coração lhe batia tão alto que ela tivera medo de que ouvissem da loja.

Peter voltara a falar, com a voz ainda mais cheia de ansiedade.

— Ouviu o que eu disse, Sr. Greenberg?

O pai voltara a olhá-lo e falara em iídiche:

— Claro que ouvi. Sou por acaso surdo?

— Mas... mas o senhor não respondeu.

— Não disse ”não”, disse? E não sou tão cego que não tivesse visto o que iam pedir.

E voltara a ler o jornal.

Peter ficara parado um instante como se não acreditasse. Depois, saiu correndo para ir dar a notícia a Esther. Ela mal tivera tempo de sair de trás da porta quando êle entrou impetuosamente para dar-lhe a notícia.

Quando o pai morreu, Peter tomara conta da loja. Doris havia nascido na sala dos fundos. Com três anos de idade, era uma menina muito doente e o médico dissera que o único remédio era sair com ela daquela cidade. Assim é que tinham vindo para Rochester, onde, alguns anos depois, Mark nascera.

Havia agora, porém, em Peter uma agitação, uma ansiedade que ela não conhecia e não compreendia. Sentia-se estranhamente excluída dos seus pensamentos, numa separação que lhe era muito dolorosa.

De repente, Peter entrou na cozinha, sacudindo a neve das roupas.

Johnny deu um suspiro de alívio. O prolongado silêncio de Esther aumentara-lhe o embaraço e tinha sido ótimo Peter chegar naquele momento.

— Que tempo! — murmurou êle.

— Horrível! — exclamou Peter. — Parece que amanhã também não poderemos abrir. A impressão que se tem é que esse tempo miserável nunca mais vai melhorar.

Tirou o sobretudo e jogou-o em cima de uma cadeira. As gotas de água começaram logo a correr para o chão, à medida que o calor da cozinha ia derretendo a neve.

— É o que eu acho também, — disse Johnny. — Estou pensando em ir até Nova Iorque para ver Joe no estúdio. Por que não vem comigo?

— Para quê? Já lhe disse que não me interessa.

Esther olhou de repente para êle. Percebera intuitivamente pela sua voz que era o que o estava preocupando.

— Que é que você quer que êle faça, Johnny? — perguntou ela.

Johnny voltou-se pressurosamente, sentindo nela uma aliada.

— Bill Borden vai abrir dentro em breve um novo estúdio em Brooklyn e vai vender o velho. Quero que Peter vá comigo a Nova Iorque para ver o estúdio. Se gostar, talvez êle, Joe e eu façamos uma sociedade.

— Para fazer filmes? — perguntou ela, olhando Peter pelo canto dos olhos.

— Para fazer filmes, sim, — respondeu Johnny. — Pode-se ganhar muito dinheiro, pois as coisas estão melhorando de dia para dia.

E começou entusiàsticamente a falar das possibilidades que via.

Esther escutou atentamente. Tudo aquilo era novidade para ela, mas Peter sentara-se numa cadeira com um ar de profundo aborrecimento. Mas ela bem sabia que, por trás daquela máscara de desinteresse, a idéia o empolgava.

Sentaram-se à mesa e Johnny continuou a falar até acabarem de comer. Quando desceu para ir dormir, as suas palavras ficaram ressoando na cabeça de Esther. Peter não fizera qualquer comentário. Parecia absorvido em outros pensamentos.

Foram para a cama às nove horas. Ainda nevava e o quarto estava frio. Esther esperou que o marido se deitasse. Estava sonolento, mas Esther queria conversar.

— Por que não vai até Nova Iorque e não vê com os seus olhos se é verdade o que Johnny está dizendo?

Êle resmungou e voltou-se para outro lado.

— Para quê? Êle é ainda muito garoto e se entusiasma à toa.

— Êle estava certo quanto ao cinema. Pode estar certo nisso também.

— É bem diferente, — disse êle, sentando-se na cama. — Todos nós sabemos que esse negócio de cinema é apenas uma curiosidade. Quando passar e o povo se cansar, fecharemos a casa e pronto. Não teremos prejuízo porque quase não entramos com dinheiro. Mas negócio de fazer filmes é muito diferente. Exige muito dinheiro. Mas se baseia na mesma novidade e quando os cinemas se fecharem, que é que vai acontecer? Todo dinheiro estará perdido. Ao passo que com o nosso cinema aqui, deixaremos apenas de ter lucros, mas não perderemos nem o dinheiro, nem o sono.

— Mas Johnny acha que vai crescer ainda mais. Disse que pelo país todo abrem-se cinemas novos à razão de vinte por semana.

— Assim, acabarão mais depressa. Agora, diga-me uma coisa: por que está tão interessada assim de repente no que Johnny diz?

— Porque você está, Peter. Só que eu não fico à procura de desculpas para não fazer uma coisa de que tenho medo.

Peter não respondeu mas ficou pensando: ”Ela tem razão. Estou com medo de arriscar-me. É por isso que não quero ir com Johnny. Tenho medo de que êle esteja com a razão e eu tenha de meter-me mesmo nisso.”

Houve silêncio durante algum tempo. Peter já ia conciliando o sono quando Esther falou de novo.

— Está acordado?

— Estou, — respondeu êle com impaciência.

— Talvez seja uma boa idéia isso em que Johnny está pensando, Peter. Tenho a impressão.

— Eu também, — resmungou êle. — Tenho a impressão de que estou com sono.

— Não, Peter. Estou falando a sério. Lembra-se de quando o médico nos disse para levar Doris para fora e o que eu senti a respeito de Rochester?

Peter não queria que ela soubesse, mas tinha muito respeito pelas intuições da mulher. Vezes sem conta o tempo lhe dera razão. Naquela ocasião, êle tinha querido ir para outro lugar. Ela insistira em Rochester e eles tinham ido para aquela cidade e tudo lhes correra bem. O homem que comprara a loja que êle preferia em outra cidade, havia falido.

— E daí?

— Bem, agora tenho a impressão de que viemos para cá com determinado fim e que agora está na hora de voltarmos para Nova Iorque. Nunca disse nada porque o motivo da nossa vinda foi a saúde da menina, mas agora, graças a Deus, ela está muito bem e eu sinto falta da minha gente, de minha família. Quero que Mark vá ao cheder onde meu pai costumava rezar. Quero viver num lugar onde ouça falar iídiche e quero ir com meus filhos para a frente da padaria de Rivington Street e sentir o cheiro dos matzos saidinhos do forno, como meu pai e eu costumávamos fazer. Esse sentimento de que está na hora de voltar é muito forte agora em mim. Por favor, Peter, faça a vontade de Johnny e vá ver. Se achar que não presta, não se falará mais nisso, mas vá ver.

Talvez nunca ela houvesse falado tanto de uma só vez. Nos silêncios, Esther se parecia muito com o pai e Peter ficou realmente impressionado. Fez a cabeça dela descansar-lhe no ombro e lhe acariciou os cabelos. Por fim falou, com voz terna e em iídiche:

— Está bem. Vou ver.

— Amanhã?

— Sim, mas não estou prometendo nada!

Esther ficou durante muito tempo acordada, ouvindo a respiração regular de Peter, que adormecera. Era engraçado o trabalho que dava às vezes convencer um homem a fazer o que êle mesmo queria fazer.

 

Chegaram

ao estúdio de Borden às três horas da tarde do dia seguinte. Johnny, que já conhecia tudo, levou Peter diretamente ao lugar onde Joe estava trabalhando.

— Sentem-se por aí e fiquem olhando, — disse êle logo que os viu. — Vou falar com vocês daqui a pouco.

Mas levou quase uma hora para aparecer. Enquanto isso, Peter correra o estúdio em companhia de Johnny. Apesar da sua inexperiência, podia perceber a aura de intensa atividade que se desenvolvia em torno dele. Havia três turmas que trabalhavam em diversas plataformas, que eram chamadas de palcos, segundo explicou Johnny. As pessoas tinham um ar de orgulho, de segurança, de consciência de que estavam fazendo um trabalho que era a coisa mais importante do mundo.

Peter observou Joe, que estava ensaiando um grupo de atores numa cena que ia ser rodada. Fazia-os repetir muitas vezes os movimentos da cena até que fizesem tudo exatamente como êle queria. Isso fêz Peter lembrar-se do seu tempo de menino quando levava o almoço do pai no teatro de Munique. O pai dele era segundo violino da orquestra, que estava quase sempre ensaiando quando êle chegava. O maestro gritava, reclamava e se aborrecia até o momento em que se fazia silêncio e se tocava o número pela última vez antes do concerto daquela noite. Quando acabavam, o maestro, se estava satisfeito, dizia com o rosto sorridente:

— Agora, sim. Podem tocar até para o Rei, se êle aparecer.

Era o que Joe estava fazendo. Obrigava-os a representar a cena uma vez após outra e, quando tudo estava certo, mandava filmar. Peter sentiu uma vaga opressão no peito enquanto observava. Aquilo era uma coisa que êle podia compreender. O pai havia-o obrigado a praticar violino quase todos os dias porque fazia questão de que êle um dia tocasse ao lado dele na orquestra. Peter sabia quanto custara ao pai deixá-lo partir para os Estados Unidos quando o Kaiser começara a recrutar todos os moços para o exército. Ainda estava pensando nessas coisas quando Joe terminou a cena e foi falar com êle.

— Afinal você veio, — disse Joe, sorrindo.

— O cinema está fechado por causa do inverno, — explicou êle, cautelosamente. — E eu não tinha nada melhor para fazer.

— E que é que acha de tudo? — perguntou Joe apontando o estúdio com um movimento circular da mão.

— Interessante, muito interessante. Joe voltou-se para Johnny.

— Acho que vi Bill chegar enquanto eu estava trabalhando. Por que não leva Peter para falar com êle? Quero filmar ainda uma cena hoje.

— Está certo, — disse Johnny.

Peter acompanhou-o até ao escritório, que era uma grande sala cheia de mesas onde trabalhavam alguns homens e moças. Nos fundos da sala, havia uma grade baixa que separava a mesa de William Borden, uma grande secretária de tampo corrediço que o ocultava quase por completo. Só se via o alto de sua cabeça calva enquanto êle se movia ou falava ao telefone numa mesinha ao lado.

Johnny levou Peter até êle e disse:

— Sr. Borden, quero apresentar-lhe o meu patrão, Peter Kessler.

Borden levantou-se e êle e Peter olharam-se durante alguns momentos em silêncio. Borden então sorriu e estendeu a mão.

— Peter Kessler! Não se lembra mais de mim? Peter hesitou um instante, mas logo o reconheceu.

— Willie! Willie Bordanov... Seu pai era...

— Isso mesmo! Meu pai era vendedor ambulante num carro de mão em Rivington Street e fazia ponto em frente à loja de ferragens de Greemberg. • Sei que se casou com a filha dele, Esther. Como vai ela?

Os dois homens estavam conversando animadamente e Johnny deixou-os para ir falar com Joe. Tinha a impressão de que alguma coisa iria sair dali. Bill Borden era o melhor vendedor que havia na indústria do cinema. Teve mais do que certeza disso quando Peter lhe disse, pouco depois, que iam jantar na casa de Borden naquela noite.

Foi depois do jantar, quando estavam todos sentados na cozinha da casa de Borden que a conversa voltou a girar sobre cinema.

Até então, com grande aborrecimento de Johnny, os dois homens se haviam limitado a falar dos velhos tempos em Rivington Street. Foi Johnny que puxou a conversa sobre cinema. Provocara Boxden a falar sobre o consórcio de produtores que era o que particularmente o enfurecia. Pouco a pouco, levou-o a afirmar que se houvesse mais produtores independentes, o consórcio teria de perder a partida.

— É o que venho dizendo a Peter, — disse Johnny, — mais êle pensa que o ramo de ferragens é mais seguro.

Borden olhou para Peter e, depois, para Johnny.

— Talvez Peter tenha razão e o negócio de ferragens seja mais seguro. Mas as oportunidades no cinema são maiores. Promete resultados melhores para os que se dispõem a abrir o caminho na indústria. Vejam o meu caso. Comecei há três anos com mil e quinhentos dólares de capital. Estou vendendo filmes para todo o país e os meus lucros regulam oito mil dólares por semana. No ano que vem, com o novo estúdio, farei o dobro.

As cifras impressionaram Peter.

— Quanto custaria entrar no negócio agora? — perguntou êle.

— Está falando sério?

— Claro que sim, — disse Peter. — Johnny vem há seis meses lutando comigo para entrar com êle no negócio de cinema. Por isso, estou falando sério. Acha que se há dinheiro nisso eu posso fazer pilhérias?

Borden olhou para Johnny com maior respeito.

— Foi por isso então que não aceitou o lugar que lhe ofereci, Johnny. Tinha planos próprios. A verdade, Peter, é que convidei Johnny umas dez vezes a vir trabalhar comigo e êle sempre recusou. Agora, eu sei por quê.

Peter sentiu-se comovido pelo fato de que Johnny houvesse recusado o emprego sem nada lhe dizer.

— Johnny é um bom rapaz, — murmurou êle. — É como se fosse uma pessoa da família.

— Vamos aos negócios, — disse Johnny, embaraçado. — Quanto acha que é preciso?

Os dois homens sorriram compreensivamente um para o outro e Borden recostou-se na cadeira.

— Peter poderá iniciar o negócio com dez mil dólares.

— Nada feito então, — disse Peter, acendendo um cigarro. — Não disponho de tanto dinheiro.

— Mas eu tenho uma idéia, — replicou Borden. — Se quer mesmo entrar no negócio, posso fazer-lhe uma proposta.

— Qual é?

— Como já disse, vou abrir um novo estúdio em Brooklyn daqui a algumas semanas. Pretendia vender o meu equipamento do estúdio velho porque comprei tudo novo para o outro. Posso vender-lhe o meu equipamento do estúdio velho por seis mil dólares e pode crer que fará um bom negócio.

— Willie, — disse Peter, levantando-se e olhando firmemente para Borden, — você não mudou nada desde o tempo em que me tentava vender por cinco centavos cordões de sapatos de dois centavos do carrinho de seu pai. Não conheço nada de cinema, mas não sou tão cego quanto você pensa. Acha que não sei do estado do seu equipamento velho? Trabalho há muitos anos em ferragens e conheço mercadoria. Se você tivesse falado em três mil dólares, talvez pudéssemos conversar. Mas por seis mil, eu só posso é rir.

Johnny quase perdeu o fôlego. Peter estaria maluco? Não sabia que era dificílimo conseguir equipamento de cinema, pois o consórcio controlava tudo, e que havia muita gente que aproveitaria sem pestanejar a oportunidade de comprar aquele equipamento por seis mil dólares?

Mas a resposta de Borden espantou Johnny ainda mais.

— Peter, — disse êle, — o único motivo pelo qual eu lhe fiz uma oferta tão boa é porque quero ver você ao meu lado na indústria. Tenho a idéia de que você vai mesmo entrar no negócio e vou fazer-lhe outra proposta. De você, e só de você, aceitarei três mil dólares em dinheiro e três mil dólares a prazo, com a garantia do equipamento. E é tal a confiança pessoal que tenho em você que esse prazo será incerto. Você me pagará quando ganhar esse dinheiro.

Peter estava empolgado pelo espírito do negócio.

— Baixe o preço para cinco mil dólares, dois mil de entrada e o resto a prazo sob garantia e eu vou pensar. Posso até consultar Esther.

Johnny tornou a fitar surpreso. Não compreendia por que Peter dissera que ia consultar Esther. Não via a necessidade. Afinal de contas, o que era que Esther entendia de cinema?

Mas Borden não mostrou surpresa. Olhou atentamente para Peter, ficando decerto satisfeito com o que observou, pois bateu amistosamente no ombro de Peter e disse:

— Feito, rapaz! Se Esther concordar, o negócio está fechado!

 

Peter quase não abriu a boca no trem durante a viagem de volta e Johnny se habituara a ficar calado também nessas horas em que Peter queria ficar zòzinho com os seus pensamentos.

O chão ainda estava compactamente coberto de neve quando desembarcaram do trem e tomaram o caminho de casa. Quando já iam quase chegando lá foi que foi Peter começou a falar.

— Não é tão fácil quanto você pensa, Johnny. Tenho de resolver muitas coisas antes de aventurar-me a fazer uma coisa dessas.

Johnny teve a impressão de que Peter estava falando mais para si mesmo do que para saber a sua opinião e não respondeu.

— Tenho responsabilidades aqui. É preciso vender o cinema, a loja e a casa para que possamos ter algum dinheiro para trabalhar. O movimento é pequeno agora na loja, mas eu tenho um grande estoque que esperava vender na primavera.

— Mas não podemos esperar, — disse Johnny. — Bill não concordará em esperar tanto tempo. Precisa de vender o equipamento.

— Sei disso, Johnny, mas que é que eu posso fazer? Bill quer dois mil dólares em dinheiro agora e eu não tenho esse dinheiro. E, afinal de contas, não tenho certeza de que seja um bom negócio. É uma coisa muito arriscada. E se eu não conseguir vender os filmes? A verdade é que não sei absolutamente como é que se faz um filme.

— Joe vai trabalhar conosco e êle sabe. Os seus filmes são os melhores produzidos por Borden. Não podemos perder.

— Talvez não. Mas não temos garantias.

Peter subiu para o seu apartamento e Johnny entrou no cinema.

— Alô, Johnny, — disse George do seu balcão de sorvetes.

— Alô, George, — disse Johnny, chegando ao balcão e sentando-se num dos bancos altos.

George colocou uma xícara de café diante dele e perguntou:

— Fêz boa viagem?

— Fiz, sim, — disse Johnny, tomando o café. — E seria ainda melhor se Peter não fosse tão cauteloso, — acrescentou em pensamento. E continuou em voz alta: — Não pensei que você abrisse hoje. Com esse frio, ninguém vai sair de casa.

— Ora, se vai, — disse George. — Você devia ter visto ontem à noite. O povo começou a aparecer logo que parou de nevar e ficou esperando na porta que o cinema abrisse.

— Não me diga! Veio mesmo gente aqui ontem por dentro dessa neve toda?

— Claro que veio.

— Você disse que íamos abrir esta noite?

— Não, — disse George, todo satisfeito, — Fiz ainda melhor. Fui lá em cima falar com Madame Kessler. Ela olhou pela janela e viu o povo. Desceu e abriu o cinema. Fizemos uma boa féria.

— Será possível? Mas quem fêz funcionar o projetor?

— Eu mesmo. Madame Kessler vendeu as entradas e meu irmão Nick tomou conta do balcão sozinho. Foi tudo ótimo. O filme só quebrou duas vezes.

— Não era nada duas vezes numa noite.

— Como foi que aprendeu a trabalhar com a máquina? — perguntou Johnny, admirado.

— Vendo você trabalhar, — respondeu George, sorrindo. — Acho o cinema muito bom negócio, sabe? O dinheiro entra fácil. Coloca-se o filme numa ponta da máquina e o dinheiro sai pela outra.

Johnny nunca ouvira uma definição melhor. Acabou o café e levantou-se para ir para o seu quarto nos fundos da loja.

— Espere um pouco, Johnny.

— Que é, George?

— Madame Kessler me disse Peter foi a Nova Iorque para ver se começa a trabalhar em cinema por lá.

— Talvez.

— Que é então que êle vai fazer com isto aqui? Vai vender?

— É bem possível.

— Neste caso, — disse George, agarrando ansiosamente o braço de Johnny, — acha que êle pode vender para mim?

Johnny pensou um momento antes de responder.

— Se êle resolver vender e se você tiver dinheiro para comprar, não sei por que êle não fará negócio com você.

George voltou os olhos para o chão. Como sempre que ficava nervso, tinha o rosto um pouco vermelho.

— Quando cheguei aqui há quinze anos, era um grego bem pobre. Mas meu irmão Nick e eu vivemos com muito pouco e conseguimos juntar alguns dólares talvez para voltar um dia para a nossa terra. Mas não queremos voltar ainda. Queremos agora é ter um cinema.

— Por que chegou a essa decisão?

— Tenho lido nos jornais que estão abrindo cinemas em todo o país. Alguns teatros em Nova Iorque chegaram até a transformar-se em cinemas. Se Peter me vender o prédio todo, abrirei aqui um bom cinema como os de Nova Iorque.

— Quer comprar todo o prédio, George?

— Quero, sim, desde que Peter não queira dinheiro demais. Compro até a loja de ferragens.

Peter havia acabado de explicar a Esther por que não podia aceitar a proposta de Borden quando Johnny subiu as escadas na carreira.

— Está tudo resolvido, Peter! Tudo resolvido!

— Resolvido como? — perguntou Peter, olhando-o como se êle houvesse enlouquecido.

Johnny estava de fato agitadíssimo. Segurou as mãos de Esther e ensaiou alguns passos de dança com ela.

— O caso está todo resolvido! — exclamou. — George vai comprar tudo!

— Deixe de ser maluco e fique um instante parado! — exclamou Peter. — Está dizendo que George vai comprar tudo? Com que dinheiro?

— Acaba de me dizer que tem o dinheiro e quer comprar todo o prédio.

— Você está é doido. É impossível!

— Impossível? — exclamou Johnny. Foi até à porta, abriu-a e gritou: — George, quer vir aqui em cima um instante?

Ficou esperando junto à porta. Ouviram-se os passos de George na escada, a princípio hesitantes e, depois, mais firmes à medida que se aproximavam. Afinal apareceu, muito tímido, de olhos baixos e rosto vermelho.

— É verdade o que Johnny está dizendo?

George quis falar mas não pôde. As palavras não lhe chegavam aos lábios. Olhou Peter desconsoladamente.

Foi Esther quem foi em socorro dele. Sentindo a aflição do pobre homem e compreendendo a sua causa, aproximou-se dele e disse calmamente:

— Sente-se um pouco, George, e enquanto vocês homens, falam de negócios vou fazer um bom café para todos nós.

E assim se resolveu tudo. Uma semana depois, George havia comprado o prédio e o cinema por 12 mil dólares, metade em dinheiro e metade em títulos garantidos por hipoteca. Peter providenciou sobre a venda do estoque da loja ao único outro negociante de ferragens que havia na cidade, e que teve muito prazer em comprar e assim eliminar um concorrente.

Logo no dia seguinte, Peter assinou o contrato com Borden e, uma hora depois, arrendou o prédio onde estava o equipamento assegurando assim a localização do estúdio.

Quando todos os papéis foram assinados, Borden voltou-se para Peter e disse, rindo:

— Agora, você vai precisar de alguma ajuda para fazer filmes. Tenho alguns parentes que entendem disso e podem dar-lhe uma mão. Quer que os mande falar com você?

Peter sorriu e sacudiu a cabeça.

— Acho que não vou precisar deles.

— Mas você não pode fazer filmes sozinho, Peter. Só estou falando para seu bem. Afinal de contas, você não entende nada disso.

— É verdade. Mas tenho algumas idéias e quero experimentá-las primeiro.

— Bem, nada tenho com isso, — disse Borden. O problema é seu.

Estavam sentados a uma grande mesa num restaurante da Rua 14. Estavam presentes Borden e a mulher, Peter, Esther, Johnny e Joe. Borden levantou-se para fazer um brinde.

— À saúde de Peter Kessler e de sua gentil esposa, Esther, — disse Borden, com uma taça de champanha na mão. — Desejo-lhe todas as felicidades na...

Parou de repente, teve alguns momentos de hesitação e disse:

— Lembrei-me agora de uma coisa. Você ainda não tem nome para a sua companhia. Como é que vai chamá-la?

— Ainda não pensei nisso, — murmurou Peter, perplexo. — E não sabia nem que era preciso ter um nome.

— É coisa da maior importância, — disse solenemente Borden. — Como é que o público vai ficar conhecendo os seus filmes?

— Tenho uma idéia, — disse Esther.

Todos olharam para ela.

— Peter, — disse ela, — com foi que o garçom chamou aquela garrafa de champanha que você pediu?

— Um magnum.

— É isso mesmo. Por que não chama a companhia de Manum Filmes?

Um coro de aprovação elevou-se da mesa.

— Está resolvido! — disse Borden, concluindo o brinde. — À Magnum Filmes! Que os seus filmes sejam vistos em todo o país ao lado dos da Borden Filmes!

Todos beberam e Peter levantou-se. Olhou em volta da mesa, segurou a taça e disse:

— À saúde de Willie Borden, cuja boa vontade nunca poderei esquecer.

Todos acompanharam o brinde. Mas Peter não se sentou.

— Hoje é um grande dia em minha vida. Inicio a indústria da produção de filmes numa companhia que terá um nome escolhido por minha querida esposa. Agora, quero fazer uma comunicação aos presentes. Trata-se da nomeação de Joe Turner como gerente de estúdio e de produção da Magnum Filmes.

Borden não pareceu surpreso. Sorriu e estendeu a mão para Joe por cima da mesa.

— Não é de admirar que Peter não queira nenhum dos meus parentes. Você deve ter aberto os olhos dele.

Houve risos satisfeitos em toda a mesa. Peter estivera até então preocupado com a reação de Borden. Não sabia que Johnny e Joe haviam conversado com Borden algumas horas antes.

— Esperem um pouco, — disse Peter. — Tenho outra comunicação.

Levantou a taça e disse:

— Aos meus sócios, Johnny Edge e Joe Turner. Joe ficou de olhos arregalados, sem poder falar.

Johnny levantou-se, porém, e correu para Peter com o coração a bater forte e os olhos marejados.

— Peter! Peter!

Peter olhou-o, rindo.

— Calma, Johnny! Não fique tão entusiasmado! Afinal de contas, você só vai ter 10% dos lucros!

 

CONSEQÜÊNCIAS 1938

 

Terça-feira 17

FicA-SE ali na cadeira do avião, tentando dar a impressão de completa displicência. A pressão nos ouvidos vai cada vez aumentando mais, ao mesmo tempo que se forma um bolo bem forte na boca do estômago. As luzes são bem fracas dentro do avião e é preciso apertar os olhos para ver como os outros passageiros estão reagindo. De repente, as rodas tocam no chão. Percebe-se então que se vinha mastigando o chiclete violentamente e, de súbito, sente-se um gosto ruim na boca.

Tirei um lenço de papel, depositei nele o chiclete e joguei-o fora. As rodas pularam no chão e lentamente o aparelho foi parando. A aeromoça apareceu e desapertou o cinto de segurança.

Levantei-me e espreguicei-me para atenuar a tensão que me persistia no corpo. Era uma coisa que estava acima das minhas forças. Eu tinha medo de andar de avião. Por mais habituado que estivesse, o medo não desaparecia.

Os motores foram desligados e ficaram silenciosos, deixando-me nos ouvidos um eco surdo. Esperei que parasse, porque depois disso eu saberia que estava de novo em condições normais.

Um homem e uma mulher à minha frente estavam falando quando o avião descera para o pouso. Enquanto os motores estavam trabalhando, eu mal podia ouvi-los, mas agora pareciam gritar.

— Ainda acho que devíamos ter-lhes comunicado que viríamos, — disse a mulher e de repente compreendeu que estava falando muito alto. Parou no meio da frase e me olhou como se eu lhe estivesse deliberadamente ouvindo a conversa.

Olhei para outro lado e ela continuou a conversar em voz mais baixa. A aeromoça tornou a aparecer e eu lhe perguntei:

— Que horas são?

— Nove e trinta e cinco, Sr. Edge.

Acertei o relógio de pulso e me encaminhei para a cauda do avião. A porta já estava aberta e eu saí por ela, começando a descer a escada. A luz dos refletores me ofuscou e eu tive de parar por um minuto.

Senti uma ponta de frio e fiquei satisfeito de haver vestido o sobretudo. Levantei a gola e me dirigi para o portão. Outras pessoas passavam apressadamente a caminho da saída, mas eu ia em passo lento. Acendi um cigarro e aspirei profundamente, percorrendo com os olhos a multidão.

E lá estava ela. Parei um segundo e olhei-a. Ainda não me havia visto. Estava fumando nervosamente e o seu rosto parecia muito pálido sob o clarão dos refletores. Era evidente que os olhos estavam cansados, sublinhados por círculos escuros. Os lábios estavam apertados. E sob o casaco de pêlo de camelo passado pelos ombros, era visível a tensão do seu corpo. Fechava e abria sem cessar a mão em que não tinha o cigarro.

Viu-me afinal. Levantou a mão como para dar-me adeus, mas logo a deixou cair como se houvesse encontrado um obstáculo.

Parei em frente dela. Estava toda contraída como uma mola.

— Alô, querida.

Ela então correu para os meus braças, encostou a cabeça no meu peito e murmurou, chorando:

— Johnny! Johnny!

Todo o corpo dela tremia. Joguei fora o cigarro e afaguei-lhe a cabeça. Não disse uma palavra. Falar não adiantava nada. Fiquei pensando repetidamente na mesma coisa.

— Quando eu crescer, vou-me casar com você, Tio Johnny.

Tinha quase doze anos quando dissera isso. Eu ia voltar para Nova Iorque com o primeiro filme que a Magnum terminara em Hollywood e estávamos jantando em casa de Peter na véspera da minha partida de trem. Estávamos todos felizes e nervosos. Não sabíamos absolutamente o que nos esperava. O filme que levávamos na lata podia salvar-nos ou derrotar-nos e todos nós procurávamos aparentar displicência para que os outros não vissem quanto estávamos apreensivos.

Esther havia rido, dizendo:

— Não vá conhecer no trem alguma moça bonita e casar-se com ela, esquecendo o filme.

— Quanto a isso, fique descansada, — disse eu, com o rosto um pouco vermelho. — Não há nenhuma moça que se queira casar comigo.

Foi então que Doris falou. Tinha o rosto muito sério, o azul dos seus olhos estava muito profundo e a voz com que falava era mais velha do que ela.

— Quando eu crescer, vou-me casar com você, Tio Johnny. Não me lembro do que foi que eu disse, mas todos riram.

Doris continuou, porém, a olhar para mim como se fosse completamente indiferente aos risos dos outros.

Naquele momento, tantos anos depois, estava nos meus braços e aquelas palavras não me saíam da lembrança. Eu devia ter acreditado nela. Devia ter-me lembrado sempre daquelas palavras. Haveria menos sofrimento nas nossas vidas se eu tivesse procedido assim.

Pouco a pouco, o corpo de Doris deixou de tremer. Ficou ainda alguns segundos abraçada comigo e, por fim, afastou-se.

Tirei o lenço e enxuguei-lhe as lágrimas das faces e dos cantos dos olhos.

— Está melhor agora, querida? Ela fêz que sim com a cabeça.

Tirei cigarros do bolso e ofereci-lhe um, acendendo-o. A chama do fósforo mostrou os cigarros que havíamos jogado ao chão no momento do nosso encontro, o dela com a marca do batom quase tocando o meu. Botei outro cigarro na boca e acendi-o.

— Tivemos de esperar algum tempo em Chicago que o tempo melhorasse, disse eu.

— Eu sei. Recebi seu telegrama.

Ela me tomou o braço e fomos andando.

— Como vai êle?

— Deixei-o dormindo. O médico deu-lhe um sedativo e êle vai dormir até amanhã de manhã.

— Mas está melhor?

Ela teve um gesto de desespero com as mãos e as lágrimas voltaram-lhe aos olhos.

— O médico não sabe. Diz que é ainda muito cedo para fazer um juízo seguro. É horrível, Johnny! Êle não quer mais viver. Não tem mais qualquer interesse por nada.

— Calma, meu bem. Você vai ver que êle ficará bom.

Ela me olhou por um momento e sorriu, o primeiro sorriso desde a minha chegada. Fazia bem vê-lo, ainda que isso lhe houvesse custado algum esforço.

— Estou feliz por você ter vindo, Johnny.

Levou-me de carro para o meu apartamento e esperou enquanto eu fazia a barba, tomava banho e trocava de roupa. Havia dado ao empregado algumas semanas de folga porque iria ficar ausente durante algum tempo e o apartamento tinha um ar estranho de lugar abandonado.

Quando voltei à sala, ela estava escutando alguns discos de Sibelius no radiofonógrafo. Só o abajur da mesa ao lado da sua poltrona estava aceso na sala. Havia uma leve claridade sobre o seu rosto e ela parecia bem calma. Os olhos estavam semicerrados e a respiração era suave e tranqüila. Abri os olhos quando me sentiu de pé ao lado dela.

— Está com fome, Doris?

— Um pouco. Não comi nada desde que Papai...

— Então vamos comer um bife no Murphy’s,

Fui ao quarto para pegar o sobretudo e ouvi o telefone tocar.

— Quer atender, Doris? — dise eu do quarto. Um instante depois, ela me chamou.

— É Gordon. Quer falar com você.

Gordon era o gerente de produção do estúdio.

— Pergunte-lhe se o que é não pode esperar até amanhecer o dia. Irei ao estúdio falar com êle.

Ouvi o murmúrio da voz dela. Pouco depois, tornou a chamar-me.

— Diz que não. Precisa falar com você com urgência. Peguei a extensão no quarto e disse a Doris:

— Pode desligar.

— Johnny? — perguntou Gordon.

— Sou eu. Que é que há?

— Não posso falar pelo telefone. Só pessoalmente. Hollywood era assim. Há leis que consideram crime ouvir-se a conversa dos outros pelo telefone. Mas em Hollywood todos têm receio de ser ouvidos. É um medo contra o qual não se pode lutar. Nada do que é importante pode ser falado pelo telefone..

— Está bem, — disse eu, impaciente. — Onde é que você está? Em casa?

— Sim.

— Passarei por aí depois de comer alguma coisa.

Peguei o sobretudo e voltei para a sala. Doris estava pondo batom diante de um espelho.

— Tenho de passar por um lugar depois de comermos. Você se incomoda, querida?

— Não.

Ela também conhecia Hollywood.

Eram quase onze horas da noite quando chegamos ao restaurante. Não havia quase ninguém. Nos dias de semana, Hollywood é uma cidade que vai dormir cedo. Todos os que trabalham estão na cama às dez horas, pois às sete horas da manhã é preciso estar no estúdio. Fomos para uma mesa sossegada num canto.

Pedimos um uísque, bifes, batatas fritas e café. Doris estava com mais fome do que pensava. Sorri intimamente vendo-a comer. Diga-se o que se quiser sobre o regime das mulheres. Esteja a mulher com fome ou não, ponha-se um bife diante dela e veja-se o que acontece. Talvez algum agente de publicidade dos frigoríficos houvesse espalhado o boato de que um bom bife não engorda. De qualquer modo, ela comeu com muito apetite. Eu, também. Mas comigo isso não é novidade.

O prato estava vazio quando ela largou o talher com um suspiro. Viu que eu estava sorrindo para ela e sorriu também, com o rosto bem mais descansado.

— De que é que está rindo? — perguntou ela. Tomei-lhe as mãos por cima da mesa e disse:

— Alô, querida.

Ela olhou para as minhas mãos. Não sei por quê. Eram mãos esquisitas e que não melhoravam, por mais que as manicuras se esforçassem. Eram quadradas e de dedos curtos cobertos nas costas de cabelos muito pretos.

— Alô, Johnny, — disse ela com a sua voz suave.

— Como está minha menina?

— Melhor porque você está aqui.

Ficamos sorrindo assim um para o outro até que o garçom chegou, levou os pratos e nos trouxe café. Já passava muito da meia-noite quando saímos do restaurante.

Fomos até à casa de Gordon, que morava em Westwood. Levamos meia hora no trajeto. As luzes da sala estavam acesas quando chegamos.

Abriu a porta quando ainda nem havíamos começado a subir a escada. Os cabelos estavam despenteados e êle tinha um copo de uísque na mão. Parecia nervoso e ficou surpreso quando viu Doris comigo.

Depois dos cumprimentos, fomos com êle para a sala. Joan, a mulher dele, estava lá. Levantou-se quando nos viu, falou comigo e, depois, beijou Doris, perguntando:

— Como está Peter?

— Um pouco melhor, — respondeu Doris. — Está dormindo.

— Ótimo, — disse Joan. — Se conseguir fazê-lo descansar, bastará isso para êle se curar.

— Que é que há? — perguntei a Gordon.

Êle tomou um gole do uísque e olhou para Doris. Joan percebeu a sugestão e disse:

— Vamos fazer café, Doris. Esses dois querem falar de negócios.

Doris sorriu compreensivamente para mim e saiu da sala com Joan.

— Então, Gordon?

— Corre por toda a cidade a boato de que Ronsen vai dar o fora em você.

Os dois maiores produtos de Hollywood são filmes e boatos. Desde que amanhecia até que anoitecia, faziam-se filmes. Durante a noite, fabricavam-se boatos. Havia várias discussões sobre qual era o produto mais importante, mas creio que a questão nunca teve uma solução satisfatória.

— Fale mais, Gordon.

— Estão dizendo que você teve uma discussão com êle em Nova Iorque. Êle não queria que você viesse ver Peter e você veio. Um minuto depois da sua saída, êle entrou em contato com Stanley Farber e deve chegar amanhã de avião para conversar com êle.

— Só isso?

— Não acha que chega, Johnny?

— Pensei que fosse alguma coisa importante, — disse eu, rindo.

Êle se estava servindo de mais uísque quando eu disse isso e quase deixou o copo cair.

— Não estou brincando, Johnny. A coisa é muito séria. Êle não conservou Dave Roth no estúdio porque goste dele.

Gordon tinha razão nesse ponto. Dave era o homem de confiança de Farber e Ronsen o havia nomeado assistente de Gordon para que êle fosse uma ameaça psicológica à minha pessoa. Por outro lado, Farber não concordaria com a permanência de Dave Roth se não tivesse esperanças de acontecer alguma coisa assim.

— O que é que Dave tem feito?

— Você bem sabe como Dave é, — disse Gordon, encolhendo os ombros. — Quando não quer, não há jeito de fazê-lo falar. Mas parece muito seguro de si mesmo.

Gordon me passou um uísque e eu tomei um gole, pensando na coisa. Ronsen podia vir conversar com Farber, mas quem conhecia toda a organização era eu. Estava a par dos pontos fracos e das coisas boas. Eu é que sabia o que se devia fazer e estava garantido até acabar o meu serviço de remodelação.

— Não se preocupe com isso, Gordon. Aparecerei amanhã de manhã no estúdio e estudaremos a situação.

— Está bem. Espero que você saiba o que está fazendo.

Joan apareceu na sala com um bule de café. Doris acompanhava-a com uma bandeja de sanduíches. As mulheres de Hollywood, como as mulheres dos diplomatas, têm de saber por intuição o momento exato em que devem sair e em que devem aparecer. Nunca soube como fazem isso com tanta precisão.

Doris e eu não queríamos comer nada. Tomamos uma xícara de café e saímos. Eram quase duas e meia da manhã quando chegamos à casa dela.

A casa estava em silêncio. Via-se apenas uma luz acesa na sala de estar. Doris jogou o casaco em cima do sofá e subiu. Desceu um instante depois.

— Ainda está dormindo. Mamãe, também. A enfermeira me disse que o médico deu também um sedativo a ela. Coitada! Não pode compreender tudo o que está acontecendo. Tem sido um choque atrás do outro.

Fui com ela para a biblioteca onde um grande fogo crepitava na lareira. Estava bem confortável ali. A noite havia esfriado, com uma súbita geada que fizera os lavradores acenderem o fogo das panelas entre as plantações de laranjeiras.

Sentamo-nos num sofá. Passei o braço pelos ombros dela, puxei-lhe a cabeça e beijei-a. Ela me tomou o rosto nas mãos, conservando-o perto do dela.

— Eu sabia que você viria, Johnny. — sussurrou ela.

— Não poderia deixar de vir.

Ela descansou a cabeça no meu ombro e ficamos uma porção de tempo caladas, olhando para o fogo.

Ao fim de algum tempo, perguntei:

— Está com vontade de falar agora, querida?

— Você sabe demais, — murmurou ela. — Compreendeu que até agora eu não queria falar disso.

Não respondi.

Alguns minutos depois, ela voltou a falar.

— Tudo começou ontem com um telegrama que o mordomo recebeu. Eu estava perto da porta quando o telegrama chegou e tomei-lhe o telegrama. Era do Departamento de Estado e estava dirigido a Papai. Abri o telegrama e foi bom, porque o telegrama dizia: ”A nossa Embaixada na Espanha acaba de comunicar que seu filho, Mark Kessler, morreu em combate perto de Madri”. Apenas isso. Fiquei ali parada, sentindo o sangue gelar-se em minhas veias. Sabíamos que Mark estava na Europa ainda que já fizesse quase um ano que não tínhamos notícias dele, mas nem desconfiávamos de que estivesse na Espanha. Pensávamos que estivesse em Paris com alguns amigos e não nos preocupávamos. Papai achava até que era boa coisa êle ficar algum tempo ausente depois do que acontecera.

Apanhou um cigarro na mesinha ao lado dela e curvou-se para mim a fim de que eu o acendesse. Depois, tornou a recostar-se no sofá, com os olhos fixos.

— É uma coisa que nunca poderei compreender, Johnny. Mark sempre foi uma das criaturas mais egoístas que conheci. Nunca deu a menor importância ao que acontecera aos outros. Entretanto, foi para a Espanha, alistou-se na Brigada Abraham Lincoln e morreu defendendo uma causa em que não acreditava e combatendo um sistema de vida que poderia ter admirado se não fosse judeu. Quando recebi o telegrama, o meu primeiro pensamento foi para Mamãe. Não sabia como ela iria receber esse golpe. Ela nunca mais passou bem desde que Mark foi-se embora. Era seu filho querido e ela não foi mais a mesma desde que Papai expulsou Mark de casa. Vivia pedindo a Papai que o deixasse voltar e creio que Papai também queria que ele voltasse.

Mas bem sabe como êle é teimoso.

Calou-se e ficou olhando para as chamas que dançavam na lareira. Em que estaria ela pensando? Mark sempre fora o favorito de Peter. Doris sabia disso mas nunca se queixara. Por outro lado, não era de falar muito. Lembrava-me ainda de como ela descobrira que era capaz de escrever. Foi no ano em que terminou a universidade. Guardara absoluto segredo até o livro ser aceito por um editor. Ainda assim, usara um pseudônimo, dispensando a publicidade que lhe daria o nome do pai.

O titulo do livro era Vida de Caloura. Contava a história do primeiro ano de uma moça na universidade e fêz muito sucesso, sendo repassado de sentimento, saudades de casa e emoções de adolescente. Os críticos fizeram muito barulho com o livro, dizendo-se espantados com as qualidades de percepção e com a profundeza da moça que o escrevera. Doris tinha 22 anos quando o livro foi publicado.

Não tinha dado muita atenção ao livro. Para dizer a verdade, nem o li naquela época. A primeira vez em que vi Doris depois de publicado o livro foi quando levei Dulcie à casa de Peter no dia seguinte ao do nosso casamento.

Estavam todos sentados à mesa do café quando Dulcie e eu chegamos. Mark tinha cerca de 18 anos nessa época. Era um rapaz alto e magro, ainda com o rosto cheio de espinhas da adolescência. No momento em que viu Dulcie, deu um assobio.

Peter repreendeu-o severamente pela sua falta de modos, mas eu sorri orgulhoso. Dulcie ficou um pouco vermelha, mas eu sabia que ela não havia deixado de gostar da homenagem. Gostava de ser admirada. Nascera com alma de atriz. Até o rosto vermelho era pura representação e eu adorava aquilo.

Tudo isso fazia parte para mim do encanto de Dulcie. Quando ela passava, todos os olhares se voltavam para acompanhá-la. Dava prestígio a um homem sair em companhia dela. Alta, esbelta, muito bem feita de corpo e com a pele morena, dava uma impressão de latente selvageria sexual que fazia todos os homens recuarem uns cinco mil anos no tempo.

Esther se levantara para mandar trazer cadeira para nos sentarmos à mesa. Até então, eu não havia dito que estávamos casados. Estava sem saber como poderia dar a notícia. Afinal, dei com os olhos em Doris que nos olhava curiosamente, com uma interrogação no olhar.

— Bem, querida, — disse-lhe eu, — não precisa mais se preoCupar com o Tio Johnny. Encontrou finalmente uma moça disposta a casar-se com êle.

Doris ficou um pouco pálida, mas eu estava feliz demais para dar alguma atenção a isso.

— Quer dizer que vão casar? — perguntou ela, com voz trêmula.

— Vamos, não, — disse eu, rindo. — Já estamos casados. Desde ontem à noite.

Peter se levantou e foi apertar-me a mão. Esther, do seu lado, abraçou Dulcie. Só Doris ficou onde estava, olhando para mim ainda pálida, de olhos arregalados e a cabeça inclinada para o lado, como para ouvir melhor.

— Não vem dar um beijo em seu tio Johnny? — perguntei-lhe.

Levantou-se e chegou aonde eu estava. Beijei-a, mas os seus lábios estavam frios. Depois, foi até Dulcie e beijou-a de leve no rosto, dizendo:

— Desejo que seja muito feliz.

Olhei-as. Eram quase da mesma idade, mas havia em relação a elas outras coisas que percebi de súbito.

A pele de Doris era pálida e ela usava os cabelos cortados. Parecia uma colegial ali ao lado de Dulcie. Esta a estava estudando também. Já conhecia aquele olhar dela. Para quase todos, poderia parecer um olhar de relance, mas naquele tempo eu já conhecia Dulcie muito bem. Ela via mais coisas em poucos segundos do que a maioria das pessoas em horas.

Esther virou-se para mim.

— Ela é linda, Johnny! Onde foi que a conheceu?

— É atriz. Conheci-a na caixa de um teatro em Nova Iorque.

— Atriz? — exclamou Peter. — Talvez consigamos um papel para ela.

Dulcie sorriu para êle.

— Há tempo de sobra para isso, — disse eu. — Primeiro, temos de assentar a vida.

Dulcie nada disse.

Quando saímos, já no carro, ela me disse:

— Johnny...

— Que é, querida?

- Sabe que ela gosta de você?

— Ela quem? Doris?

— Você sabe muito bem de quem estou falando, — disse ela, com um olhar zombeteiro.

Ri e disse, meio nervoso:

— Dessa vez, errou, meu bem. Eu sou para ela apenas o Tio Johnny.

Ela riu também e no seu riso havia espanto em face da profunda ignorância masculina.

— Tio Johnny... Já leu o livro dela?

— Não. Ainda não tive tempo.

— Pois devia ler, Tio Johnny. Você faz parte dele. Doris recomeçou a falar.

— Tive vontade de chamar o médico antes de mostrar o telegrama a Mamãe. Resolvi, por fim, falar primeiro a Papai. Êle estava na biblioteca. Bati na porta e, como êle não respondeu, entrei. Estava sentado ali à mesa, com o telefone diante dele. Não sabia por que êle não havia mandado retirar aquele telefone. Você sabe qual é — o ligado diretamente com o estúdio.

Eu sabia, sim. Nos velhos tempos, quando se levantava o receptor daquele telefone, uma luz azul se acendia na mesa telefônica do estúdio. Isso mostrava que era o presidente da companhia que estava falando. O telefonema tinha prioridade absoluta sobre todos os outros.

— Papai estava olhando para o telefone, com uma vaga nostalgia. ”Papai”, disse eu e senti a voz incerta. Com algum esforço, êle olhou para mim e perguntou: ”Que é, Liebchen?” Fiquei de repente sem saber o que dizer. Sem uma palavra, entreguei-lhe o telegrama. Leu-o lentamente e ficou de repente muito pálido. Olhou para mim como se não acreditasse e tornou a ler o telegrama. Levantou-se e notei que a mão dele tremia muito. ”Tenho de ir dizer a Mamãe”, disse êle, com voz surda. Deu alguns passos e pareceu vacilar. Corri para êle e segurei-o pelo braço. ”Papai! Papai I” gritei, enquanto as lágrimas me desciam pelo rosto.

— Êle se apoiou um momento em mim, com os olhos também cheios de lágrimas. Foi então que caiu. Tudo aconteceu com tal rapidez que nem tive tempo de tentar segurá-lo. Procurei levantá-lo, mas não consegui. Corri para a porta e gritei pelo mordomo. Levamo-lo juntos para o sofá.

Depois, corri para a mesa e peguei o telefone do estúdio por engano. Ouvi imediatamente a voz surpresa da telefonista. ”Magnum Filmes, bom dia.” Desliguei com um sentimento de magoada surpresa. Magnum Filmes! Sentia-me mal só de ouvir essas palavras. Minha vida estava impregnada daquelas palavras, que nos haviam dado a todos tanta infelicidade. Por que é que fomos ligar-nos com o cinema?

Ela me fitou com os olhos cheios de centelhas.

— Por que não ficamos em Rochester a salvo de tudo isso? Mark morto e Papai à morte e com o coração despedaçado? Você é que foi culpado, Johnny, só você. Ouvi Papai dizer muitas vezes que só se metera nisso por sua causa. Não teria vindo para Hollywood se não fosse você. Se você não tivesse falado, teríamos levado uma vida calma e feliz, sem nada disso.

De repente, começou de novo a chorar e continuou a acusar-me violentamente.

— Tenho ódio de você, Johnny, ódio! Papai poderia levar a vida toda sem nunca pensar em cinema. Mas você, não. Você nasceu para fazer cinema. E tinha de arrastar Papai para servir-lhe de instrumento.

Procurei segurar-lhe as mãos, mas não pude.

— Você é a Magnum Filmes, Johnny. Sempre foi. Mas por que não parou quando foram para Nova Iorque? Por que o trouxe para cá e lhe deu a impressão de que êle era tão grande que quando a bolha de sabão estourou, o coração dele se partiu?

Calou-se e as lágrimas lhe desciam em borbotões pelo rosto. Ela me atingira mais profundamente do que pensava. Estivera tão cego durante tantos anos.

Ela se acalmou por fim, mas quando voltou a falar, percebi o esforço que fazia para controlar a voz.

— Desculpe, Johnny, — disse ela em voz bem baixa. — Mas que foi que viemos fazer em Hollywood?

Não respondi. Não sabia o que responder. Olhei para a janela. O céu estava começando a mostrar os primeiros sinais do dia. O relógio em cima da mesa de Peter marcava quatro e meia.

Doris tinha onze anos, Peter, 38 e eu, 21 quando tínhamos ido para Hollywood. E nenhum de nós queria. Fomos obrigados. E nada podíamos fazer para impedi-lo.

 

TRINTA ANOS 1911

 

Todo o mundo estava feliz, menos Johnny. Borden estava feliz porque recebera o dinheiro que Peter lhe devia. Joe estava feliz porque, pela primeira vez, podia fazer os filmes que quisesse, sem ninguém para dar-lhe ordens. Peter estava feliz porque o negócio se revelara ainda melhor do que êle havia esperado. Pagara todas as suas dívidas, tinha oito mil dólares no banco, mudara-se para um novo apartamento em Riverside Drive e pusera uma empregada para ajudar Esther a cuidar das crianças. Esther estava feliz com a felicidade de Peter.

Mas Johnny não se sentia feliz. Estava contente, satisfeito em muitos sentidos, mas ainda lhe faltava alguma coisa. A exaltação que êle sentira a princípio com a idéia das grandes coisas que iam acontecer ainda vivia dentro dele, mas estava um pouco amortecida pelo ramerrão das atividades quotidianas.

Se não fosse o consórcio do cinema, Johnny talvez fosse feliz. Mas tinha a instintiva aversão de quem trabalhara num parque de diversões a ser forçado a seguir contra a sua vontade determinado padrão de ação. E era isso que o consórcio estava fazendo com a indústria cinematográfica.

Os produtores independentes, entre os quais estavam Kessler e Borden, sabiam que dependiam do consórcio para continuarem a produzir. O consórcio controlava a matéria-prima de que o filme era feito, os processos de fabricação do filme, as patentes das câmaras de filmagem e até as patentes relativas ao equipamento secundário sem o qual não se podia fazer um filme, como, por exemplo, as lâmpadas de vapor de mercúrio e os sincronizadores de luz.

Em virtude desses controles básicos, o consórcio podia dobrar à sua vontade o produtor independente, desde que este trabalhava graças a uma licença concedida pelo consórcio.

Este podia, portanto, dizer ao produtor que tipos de filmes êle podia fazer e qual o preço pelo qual os podia vender. As regras eram rigorosas e estavam todas previstas nas licenças concedidas. Nenhum filme podia ter mais de duas partes. O exibidor que quisesse continuar com o seu projetor teria de exibir determinada quota dos filmes produzidos pelo consórcio e essa quota era estabelecida de tal maneira que o tempo que sobrava para a exibição dos filmes dos produtores independentes era forçosamente limitado.

Johnny se indignava com essas restrições. Tinha visões grandiosas do futuro do cinema. Era em vão que deblaterava contra o consórcio que atrasava o progresso da indústria. Bem sabia que estava clamando no deserto porque nenhum produtor independente, por maiores que fossem as suas queixas, poderia desafiar a supremacia do consórcio. Este era o rei, dominando a indústria nascente e tratando os produtores independentes como um pai indulgente e seguro da sua autoridade trataria os filhos travessos. As linhas estavam fundamente traçadas e os independentes tinham de observá-las. Se algum não o fizesse, a licença era imediatamente cassada. O consórcio comprava-lhe as dívidas e, dentro em pouco, êle era forçado a fechar as portas. Se obedecesse às regras, o consórcio permitia-lhe magnânimamente continuar em atividade e recebia direitos por metro de filme que êle comprasse ou vendesse.

Johnny aprendera muita coisa sobre filmes naqueles últimos três anos e estava cada vez mais convencido de que lhes faltava alguma coisa. Não sabia o que era. Só sabia era que o padrão de filmes curtos imposto pelo consórcio não permitia ao produtor contar convenientemente a sua história.

Observava com interesse o desenvolvimento do filme em série que um produtor havia imaginado para contornar as regras do consórcio. Mas os seriados ainda eram exibidos à razão de dois rolos por semana, ou um episódio, como se chamava, a fim de obedecer às regras do consórcio. Esses filmes eram acompanhados com avidez pelos espectadores de semana a semana, mas Johnny achava que ainda lhes faltava alguma coisa.

Era esse intangível no espírito de Johnny que o afligia. Era como tentar lembrar-se de uma música. A melodia lhe ressoava aos ouvidos, mas era impossível cantarolá-la. Persistia nos recantos da memória, tantalizando-o. Assim acontecia com o cinema. Via mentalmente a espécie de filme que se devia fazer. Sabia o tamanho, a forma, o jeito que devia ter. Sabia o tempo de projeção que deveria ter, sabia até como o público reagiria. Mas quando procurava dar-lhe forma concreta, não conseguia.

Tudo lhe dançava diante dos olhos de forma vaga e então desaparecia entre as realidades que o cercavam. Assim, ante a visão que o atormentava, os êxitos reais nada significavam para êle.

Mas um dia a idéia começou a tomar forma. Era em fins de dezembro de 1910 e estava na sala de espera do novo cinema de Pappas em Rochester conversando com George quando um homem e uma mulher saíram da sala.

O homem parou perto deles para acender um charuto e a mulher disse:

— Eu gostaria de que tivessem os outros episódios da série para mostrar tudo hoje. Era bom que a gente pudesse ver o filme inteiro, em vez de um pedacinho cada semana.

Johnny interrompeu instantaneamente o que estava dizendo a George e prestou atenção à conversa do casal. O homem tinha rido.

— Não vê logo que não vão fazer isso? Querem é que a gente venha ao cinema todas as semanas. Só exibem um pedacinho da fita. Se fossem exibir a fita toda, na semana seguinte o cinema ficaria vazio.

— Quem foi que disse? Eu por mim gostaria de vir todas as semanas se soubesse que iria ver uma fita nova e que valesse mesmo o dinheiro que se paga.

Saíram e Johnny ficou cheio de entusiasmo ao ver que o casal conversara exatamente sobre as coisas em que estivera pensando.

— Ouviu o que estavam dizendo, George?

— Ouvi.

— Que é que você acha?

— Sei que muita gente pensa como eles.

— E que é que você acha?

— Não sei, Johnny. Pode ser uma coisa boa, pode não ser. Depende do filme. Tenho de ver um assim para saber.

Na viagem de volta para Nova Iorque, Johnny foi o tempo todo, no trem, pensando no caso. A mulher falara num ’filme inteiro’. Que queria dizer isso ao certo? Seria uma série exibida de uma enfiada? Não, não era essa a solução. A projeção de um filme desses levaria cinco ou seis horas. Uma série era composta de uns vinte rolos. Talvez fosse possível reduzir o tamanho dos filmes em série. Mas reduzir até onde? Tinha de saber.

Já era tarde quando chegou ao escritório, mas o seu interesse não havia caído. Disse a Peter e Joe o que havia ouvido e o que era que pensava.

Joe pareceu interessada, mas Peter não.

— Você ouviu apenas uma pessoa falar, — disse êle. — Muita gente gosta do cinema como é, Johnny. Eu, por mim, não quero tentar seja lá o que fôr para depois me arrepender.

Mas Johnny não se conformou com essa opinião. Sabia que a observação que ouvira casualmente era a chave do problema que tinha em mente. E os fatos dos dias e semanas que se seguiram pareceram dar-lhe razão. E mais do que razão, pensou Johnny. Quase todos os exibidores com quem falava, perguntavam-lhe: ”Não tem alguma coisa diferente? O povo já está cansado de ver sempre a mesma coisa!”

E Johnny sabia que estavam certos. Sabia que para os exibidores não fazia a menor diferença os filmes que levavam, porque todos os produtores faziam a mesma espécie de filmes.

Resolveu fazer uma série completa e condensá-la num só filme para ver o resultado. Mas isso criou outro problema. A Magnum não produzia seriados e êle teria de conseguir um com outra companhia. E qual seria a companhia que lhe daria uma cópia de um seriado para êle cortá-la à vontade? E, ainda que acontecesse isso, teria de dizer o que pretendia fazer e não queria que ninguém soubesse disso.

Resolveu o problema, pedindo a George que lhe conseguisse uma cópia de um dos seriados de Borden. George disse a Borden que gostava tanto do seriado que queria ter uma cópia para guardar. Bill Borden ficou tão satisfeito que insistiu em dar a cópia de presente a George. Se Borden soubesse o que iria ser feito com o filme, ficaria furioso. Mas não sabia e George entregou a cópia a Johnny.

A cópia foi levada por Johnny para Nova Iorque e êle tratou de cortar e emendar os dez episódios para fazer um filme completo. Trabalharam durante cinco semanas até sentirem que tinham um filme em condições de ser exibido. Era dividido em seis partes e podia ser exibido em pouco mais de uma hora.

Só falaram com Peter depois de concluído o trabalho. Foram então procurá-lo, contaram-lhe toda a história e convidaram-no a ver o filme que haviam feito. Êle concordou e uma projeção do filme foi marcada para a noite seguinte. Johnny mandou um telegrama a George, chamando-o também para ver o filme.

Na noite seguinte, reuniram-se todos na pequena sala de projeção do estúdio da Magnum. Peter, Esther, George, Joe e Johnny eram as únicas pessoas presentes. O operador do estúdio fora mandado para casa e Johnny tomou o lugar dele.

Ficaram em silêncio durante a exibição, mas logo que o filme terminou começaram todos a falar ao mesmo tempo.

— Comprido demais, — disse Peter. — Nao gostei. Ninguém pode ficar tanto tempo sentado e ainda gostar de um filme.

— Por que não? — perguntou Johnny. — Você ficou sentado o tempo todo e não se queixou.

— Faz mal aos olhos olhar tanto para a tela, — replicou Peter. — A pessoa não pode sentir-se bem.

— O público fica o mesmo tempo sentado nos cinemas e ninguém fica com os olhos doendo — disse Johnny, um tanto aborrecido com a obstinação de Peter. — Qual é a diferença entre assistir a um só filme grande e assistir a quatro pequenos?

Joe riu e disse:

— Talvez você esteja precisando usar óculos, Peter.

Peter explicou. Os olhos vinham-no incomodando um pouco, mas êle não queria usar óculos.

— Os meus olhos nada têm que ver com o caso! O filme é comprido demais!

Johnny voltou-se então para George e perguntou:

— E você que é que diz?

George olhou durante alguns momentos com simpatia e disse calmamente:

— Gostei, mas acho que tenho de ver o filme num cinema antes de dar opinião.

— Eu bem que gostaria disso, — murmurou Johnny sorrindo, — mas não é possível.

Mas foi Esther quem acertou com o ponto fraco do filme.

— Foi interessante, mas não foi completo. Faltou alguma coisa. Num filme em série, está muito certo que toda a emoção aparece no fim de cada episódio. Mas quando tudo é condensado num só filme, há emoção demais. No fim, há tanta movimentação que acaba cansando ou parecendo uma pilhéria.

Johnny refletiu no assunto e compreendeu que ela tinha razão. A solução não era reduzir um seriado a outro tamanho, mas, sim, fazer uma nova espécie de filme.

Já vira várias vezes a versão condensada do seriado e chegou à conclusão de que, embora o tempo de projeção do filme não fosse longo demais, faltavam-lhe outros elementos de atração necessários para dar-lhe corpo. O filme teria de contar um enredo adaptado ao seu tamanho.

Saíram todos juntos da sala de projeção, conversando ainda sobre o filme. Só Johnny estava calado, com as mãos nos bolsos e o rosto sombrio.

Peter bateu no ombro dele.

— Não pense mais nisso. Estamos indo bem. Por que se preocupa então?

Johnny não respondeu. Peter tirou o relógio e disse:

— Quer saber de uma coisa? Ainda é cedo. Vamos jantar juntos e, depois, ir ao teatro?

— Não! — exclamou Peter. — Positivamente não! Não vou fazer uma coisa dessas!

Passou por Joe e ficou diante de Johnny com o dedo apontado.

— Só se eu fosse maluco para fazer o que você quer! Já faz quase dois anos que lutamos e trabalhamos dia e noite para levantar a cabeça e agora que começamos a ganhar dinheiro você quer abandonar tudo para meter-se em outra coisa. Não estou ainda inteiramente louco! Não conte comigo!

Johnny continuou calmamente sentado, olhando para Peter, que estava assim desde que Johnny havia proposto que comprassem O Bandido, uma peça que estava sendo levada na Broadway, para fazer um filme. Ouvira em silêncio Johnny dizer que deviam fazer um filme de seis partes. Continuara em silêncio quando Johnny dissera que deviam contratar o autor da peça para escrever a versão para o cinema. Não perdera a calma quando Johnny explicara que lucrariam comercialmente com o sucesso da peça e a propaganda favorável para o filme que isso constituía. O seu princípio de interesse fora evidente na pergunta que fêz a Johnny;

— Quando é que vai custar?

Johnny já havia esperado a pergunta. Preparara um orçamento do filme, chegando à conclusão de que teriam de gastar cerca de 23 000 dólares.

Peter examinou o orçamento e começou a gritar:

— Vinte e três mil dólares por um filme! É preciso não ter a cabeça no lugar! Comprar uma peça e contratar um homem para escrever o filme por 2 500 dólares! Por esse preço, eu posso fazer um filme todo!

— Se não fizer isso agora, terá de fazer depois!

— Talvez faça, mas agora não faço. Agora que estamos livres de dívidas, você quer enforcar-me de novo! E onde é que vou encontrar esse dinheiro todo! Não sou o dono da Casa da Moeda, sabe?

— Quem não arrisca, não petisca, — disse Johnny.

— Mas em compensação não perde a camisa! Além disso, não é seu o dinheiro que vai ser arriscado!

Com isso, Johnny se zangou.

— Sabe muito bem que eu não lhe pediria que arriscasse dinheiro em alguma coisa se eu também não fosse arriscar o meu!

— Seu dinheiro!... O que você tem não chega nem para comprar papel higiênico para o estúdio durante uma semana.

— Mas chegará para pagar dez por cento do filme! — gritou Johnny, com o rosto muito vermelho.

— Calma! — disse Joe, indo ficar entre eles. — Esses gritos não resolvem nada. Peter, eu pagarei mais dez por cento do filme. Você terá de arranjar apenas dezoito mil dólares.

— Apenas dezoito mil dólares! — exclamou Peter, erguendo os braços abertos. — E acham que isso se encontra no meio da rua?

Foi até à escrivaninha, baixou a tampa, batendo-a com toda a força e exclamou de novo:

— Não! Positivamente, não! Não vou fazer uma coisa dessas!

A cólera de Johnny havia-se dissipado. Já podia compreender a relutância de Peter em arriscar o que lhe custara tanto a ganhar. Mas Johnny estava convencido de que o que propunha tinha de ser feito. Falou com lentidão e calma.

— Você pensou em Rochester que eu estava louco quando falei do estúdio, não foi? E os resultados não foram tão ruins assim. Você tem um apartamento em Riverside Drive, oito mil dólares no banco, a hipoteca paga, não é verdade?

— É claro, Johnny. Mas não vou arriscar tudo isso numa das suas idéias malucas. Tivemos sorte com o estúdio. Mas desta vez é diferente. Não temos apenas de arriscar dinheiro. É preciso também enfrentar a luta com o consórcio. E você bem sabe qual seria o resultado nesse caso. Desculpe, Johnny, mas estou-lhe falando com toda a sinceridade. Talvez sua idéia seja boa, embora eu tenha opinião contrária. Mas, nas circunstâncias atuais, não creio que devamos assumir esse risco. Essa é a minha decisão final sobre o assunto. Até amanhã.

E saiu da sala, fechando a porta.

Johnny olhou para Joe e encolheu expressivamente os ombros. Joe sorriu.

— Não fique tão desapontado, rapaz. Afinal de contas, o dinheiro é dele e êle tem direito a dizer o que pensa. Vamos tomar uma cerveja e não pensar mais nisso.

— Muito obrigado. Vou ficar aqui pensando numa maneira de convencê-lo. Neste negócio, quem fica parado, está perdido.

— Está bem. Mas fique sabendo que está batendo com a cabeça na parede.

Depois da saída de Joe, Johnny ficou durante algum tempo sentado onde estava. Por fim, levantou-se e foi até à escrivaninha de Peter. Levantou o tampo e apanhou o orçamento que entregara a Peter, examinando-o durante dez minutos. Depois, repôs o orçamento na mesa e tornou a descer o tampo.

— Está certo, velho abutre! — disse êle, olhando para a mesa como se Peter estivesse ainda ali. — Um dia, você terá de fazer isso mesmo!

Johnny abriu os olhos. Fazia calor no quarto. A primavera chegara cedo naquele ano, com uma boa amostra do que seria o verão. Ainda se estava em meados de março e já os sobretudos tinham sido guardados e os homens iam para o trabalho em mangas de camisa ou de roupas leves.

Levantou-se preguiçosamente e atravessou o apartamento, chegando até à porta.

Apanhou os jornais do domingo que já haviam sido ali deixados e foi lê-los numa poltrona da sala, ouvindo o ressonar de Joe através da porta aberta do seu quarto. Levantou-se, fechou a porta do quarto do amigo e voltou para a poltrona.

Folheou o jornal até chegar à parte que lhe interessava. Naquele tempo, os jornais ainda não tinham notícias diárias de cinema, mas aos domingos sempre havia algumas notícias. No jornal daquele domingo, Johnny encontrou duas que o fizeram dar um pulo da poltrona.

A primeira vinha de Paris e dizia: ”Madame Sarah Bernhard vai fazer um filme, de quatro partes baseado na vida da Rainha Elizabeth”.

A segunda era de Roma, com o seguinte texto: ”No próximo ano, o famoso romance Quo Vadis? será transformado na Itália num filme de oito partes”.

As notícias eram assim breves e estavam perdidas num canto de página, mas para Johnny eram importantíssimas, pois provavam que êle tinha razão. Ficou uma porção de tempo pensando que talvez Peter acabasse concordando com êle, depois disso. Afinal, levantou-se e foi até à cozinha, pondo água no fogo para fazer café.

O cheiro do café tirou Joe da cama, ainda sonolento e esfregando os olhos.

— Bom dia, — resmungou êle. — Que é que há para se comer?

— Ovos, — respondeu Johnny, a quem cabia o dever de preparar o café naquele domingo.

Joe murmurou alguma coisa e se encaminhou para o banheiro.

— Espere um pouco, — disse-lhe Johnny levando o jornal e mostrando as notas que havia lido.

Joe leu e devolveu o jornal a Johnny, perguntando:

— Que é que isso prova?

— Prova que eu tinha razão, — disse Johnny, com uma nota de triunfo na voz. — Não está percebendo? Peter agora terá de escutar-me.

Joe sacudiu lentamente a cabeça.

— Você nunca desiste, desde que mete uma coisa na cabeça, não é?

— Por que iria desistir? É uma boa idéia e eu tinha razão em dizer que vão começar a fazer filmes maiores.

— É bem possível, — disse Joe. — Mas como e onde você vai fazer esses filmes? Ainda que se arranje o dinheiro, você sabe que o nosso estúdio não chega para fazer filmes assim. Seria preciso usar toda a matéria-prima que gastamos em seis meses de produção para fazer um só filme. E você sabe que o consórcio se opõe terminantemente a qualquer filme de mais de duas partes. Se souber do que pretendemos fazer, cassará a nossa licença e onde é que ficaremos? No olho da rua!

— Poderemos deixar de fazer filmes pequenas durante algum tempo, — disse Johnny. — Assim economizaremos filme virgem suficiente para fazer o que queremos e completaremos o filme antes que o consórcio saiba o que estamos fazendo.

Joe acendeu um cigarro, soprou a fumaça e disse:

— Talvez você esteja certo e possamos fazer isso, talvez não. Se não pudermos, a Magnum estará riscada do negócio, pois o consórcio é forte demais para nós. Poderão esmagar-nos como quem pisa numa formiga. Deixe que Borden e os outros lutem com eles. Têm mais dinheiro e, mesmo assim, não estou vendo nenhum pensar em insurgir-se.

— Mas eu continuo a pensar que temos um jeito.

— Quer dizer que ainda acha que está certo?

— Acho, não. Estou certo, — replicou Johnny.

— Talvez esteja, Johnny, mas pense no que está querendo arriscar. Não estou preocupado nem comigo, nem com você. Somos sozinhos na vida e não temos de afligir-nos com o que nos acontece, porque de um jeito ou de outro conseguiremos arrumar-nos. Mas com Peter o caso é diferente. Se falharmos, êle ficará arruinado. E se ficar arruinado, que é que irá fazer com uma mulher e dois filhos para sustentar? Empregou tudo o que tinha na companhia e, se esta acabar, êle também estará liquidado. Está disposto a arriscar isso também?

Johnny levou algum tempo sem responder. Já havia pensado nisso. Sabia que havia risco e não era preciso que Joe lhe dissesse. Mas havia alguma coisa que o impelia. Costumava dizer para si mesmo: ”O tosão de ouro está no alcance da mão. Só é preciso ter a coragem de pegá-lo”. A visão do filme no seu espírita era como Circe a chamá-lo. Não poderia deixar de segui-la, do mesmo modo que não podia deixar de respirar.

Foi com a determinação estampada no rosto que respondeu:

— Tenho de conseguir isso, Joe. É a única coisa que interessa. Não há outra oportunidade de tornar a indústria realmente grande e importante.

Do contrário, ficaremos estagnados toda a vida, a fazer filmezinho sem valor. Do outro jeito, faremos alguma coisa que valha a pena. Não somos apenas uma indústria, somos uma arte. Como no teatro, na música, na literatura, é preciso tentar sempre fazer alguma coisa melhor. E temos de fazer isso.

— Temos, não. Quem quer fazer isso é você, Johnny. Você sonha com as coisas que deseja e julga que é disso que a indústria precisa. Se eu não o conhecesse bem e não fosse seu amigo como sou, pensaria que você não passa de um egoísta e de um ambicioso. Mas sei que você está sendo sincero. Contudo, uma coisa você precisa saber.

— Que é?

— Peter tem sido bom demais para nós. Nunca se esqueça disso.

Dizendo isso, Joe deu-lhe as costas e foi para o banheiro.

Johnny voltou para a cozinha e viu que a água já estava fervendo no fogão. A mão tremia quando êle apagou o gás.

— Qual é o apartamento, cavalheiro? — perguntou o ascensorista depois que fechou a porta e o elevador começou a subir.

Johnny acabou de acender o cigarro. Não havia falado em nenhum apartamento; dissera apenas o andar que queria. Era muito cheio de formalidades o pessoal daqueles edifícios e tomavam providências para que os inquilinos não fôsem indevidamente perturbados. Que diferença havia de Rochester — onde tudo era fácil e simples — para Riverside Drive!

— O apartamento do Sr. Kessler, — disse êle e voltou a pensar na conversa que tivera com Joe naquela manhã. Ainda estava preocupado com o que Joe lhe havia dito. Não conversaram muito depois disso. Joe saíra logo depois do café. É verdade que, antes de sair, Joe o convidara a passar o resto do dia com May e Fio, mas êle tinha dito que pretendia ir à casa de Peter naquela tarde.

— À sua direita, — disse polidamente o ascensorista, abrindo a porta do elevador. — Apartamento 9-C.

Johnny agradeceu, seguiu pelo corredor e tocou a campainha. A empregada abriu-lhe a porta. Johnny entrou, entregou-lhe o chapéu e perguntou:

— O Sr. Kessler está?

Antes que a empregada pudesse responder, Doris veio correndo do interior da casa.

— Tio Johnny! Ouvi a sua voz!

Êle levantou-a nos braços, abraçando-a.

— Alô, querida.

— Sabe que eu estava esperando você hoje? Você quase não vem ver a gente.

— É porque não tenho muito tempo, querida. Seu pai me faz trabalhar demais.

Sentiu que o puxavam pelas calças. Olhou e viu que era Mark.

— Cavalinho, Tio Johnny!

Johnny deixou Doris no chão e carregou Mark, colocando-o nos ombros. Mark ria satisfeito e se agarrava aos cabelos de Johnny quando Esther apareceu na saleta de entrada.

— Que boa surpresa, Johnny! — disse ela, sorrindo. — Entre, entre.

Johnny entrou na sala, levando Mark ainda nos ombros. Peter estava lá, lendo os jornais. Estava sem camisa e Johnny percebeu com espanto que havia criado um pouco de barriga. Levantou os olhos do jornal e sorriu para Johnny.

— Veja só, Johnny, — disse Esther, com uma fisionomia radiante. — Temos uma empregada em casa e êle anda o dia inteiro assim, nu da cintura para cima.

— E que é que tem isso? — exclamou Peter em iídiche. — Eu conheço a aldeia onde ela nasceu na Alemanha. Quem tem camisa lá é considerado milionário.

Johnny não entendeu e ambos riram-se dele.

— Vá vestir uma camisa, ande, — disse Esther.

— Está bem, — resmungou êle, levantando-se e indo para o quarto.

Peter voltou à sala quando Johnny estava colocando Mark no chão. Ainda vinha abotoando a camisa.

— Que foi que o trouxe aqui, Johnny?

Johnny olhou para êle e sorriu intimamente. Peter não dava muito pelas coisas. Era a primeira vez em muitas semanas que ia fazer-lhes uma visita.

— Queria ver como a outra metade vai passando, — disse êle.

— Mas você já esteve aqui, disse Peter.

— Desde que vocês têm uma empregada, não.

— E isso faz alguma diferença?

— Às vezes faz...

— Para mim não... Posso ter uma casa cheia de empregados e nunca deixarei de ser o que sou.

— Claro, — disse Esther. — Continuaria a andar pela casa

nu da cintura para cima.

— Isso prova o que eu digo! Com empregados ou sem empregados, Peter Kessler é sempre o mesmo!

Johnny tinha de reconhecer que Peter tinha razão. Peter não havia mudado naqueles últimos anos, mas êle ficara bem diferente. Peter se contentava com as coisas como eram, mas Johnny nunca ficava satisfeito. Sempre queria mais alguma coisa, ainda que não soubesse ao certo o que era. A única realidade era aquela permanente insatisfação. Tornou a lembrar-se da sua conversa com Joe naquela manhã. Peter estava já bem longe da loja de ferragens em Rochester. Conseguira alguma segurança e estava contente com isso. Que direito tinha êle de pedir a Peter que arriscasse tudo isso por uma idéia? Mas, por outro lado, Peter nunca teria conseguido o que já possuía se êle não o tivesse forçado. Não sabia se isso lhe dava o direito de forçá-lo ainda mais. Só sabia era que não podia parar. O futuro, por mais nebuloso que fosse, era uma parte da sua vida a que êle não podia de modo algum renunciar.

— Quer dizer então que ainda não é tão importante que não possa ouvir uma boa idéia?

— Exatamente, — respondeu Peter. — Estou sempre disposto a ouvir sugestões e conselhos.

— Fico muito satisfeito em saber disso, Peter. Há quem diga que você está muito cheio de si desde que passou a viver em Riverside Drive.

— Quem foi que disse uma coisa dessas? — exclamou Peter, indignado. — É sempre assim. Não se pode ter uma pontinha de sucesso e logo começam a falar mal da gente.

Esther sorriu. Sabia que Johnny tinha alguma coisa em mente. Estava curiosa e sentia que êle não tardaria muito a dizer o que era.

— Isso acontece, — disse ela. — Mas talvez você tenha dado algum motivo...

— Nunca! Trato todo o mundo com a amizade de sempre.

— Então não se preocupe, — disse Esther, que em seguida se voltou para Johnny: — Quer uma xícara de café com um pedaço de bolo.

Foram com ela para a cozinha. Quando Johnny acabou de comer o segundo pedaço de bolo, perguntou displicentemente a Peter:

— Leu o World hoje?

Um sexto sentido fêz Esther olhar atentamente para Johnny. Aquela pergunta fora feita com exagerada displicência. Ficou à espera do que Johnny ia dizer.

— Li, sim, — respondeu Peter.

— Leu a notícia sobre um filme de quatro partes que vai ser feito por Sarah Bernhardt? E leu também a notícia sobre o Quo Vadis?

— Claro que sim. Por que pergunta?

— Lembra-se do que lhe disse uma vez sobre filmes maiores?

— Lembro-me. E também me lembro do seriado que você cortou.

— Isso foi outra coisa, Peter. Eu estava tentando um novo rumo. Mas essas duas notícias são diferentes. Provam que a minha idéia de transformar O Bandido num filme estava certa.

— Não sei disso, não. As coisas continuam na mesma.

— Você acha? A maior atriz do nosso tempo vai fazer um filme, um grande romance vai servir de base para um filme e você ainda acha que as coisas continuam na mesma? Não percebe então que o cinema está crescendo e que os filmes de duas partes que o consórcio o está forçando a fazer já não cabem nele?

— O que você está dizendo é pura tolice, — disse Peter, levantando-se. — De vez em quando alguém fará um filme mais comprido sem resultado algum. Mas você lê no jornal que dois estão sendo feitos ao mesmo tempo e fica logo cheio de razões. Pode ser que, se Sarah Bernhardt quisesse fazer um filme para Peter Kessler, eu me metesse nessa aventura. Mas, quem é que vai ficar sentado durante uma hora para ver um filme, se não fôr atraído por algum artista famoso que trabalhe nele?

Johnny pensou que Peter tinha de certo modo razão. Sem nomes conhecidos, seria difícil atrair o público para ver um filme. Quando trabalhava no parque, tinha visto fazer-se muita publicidade de certos artistas porque isso chamaria os fregueses. O teatro contratava também certos atores e atrizes pela mesma razão. Mas o cinema nunca divulgava os nomes dos artistas. O consórcio era contra isso, pois achava que, se os artistas se tornassem conhecidos e tivessem consciência do seu valor, iriam exigir mais dinheiro.

Apesar disso, o público já distinguia certos artistas pela fisionomia e sempre que sabia que havia um filme com esse favoritos corria para os cinemas. Isso acontecia, por exemplo, com um vagabundo de aspecto muito engraçado que já havia feito algumas comédias. Como era o nome dele? Johnny teve de fazer um grande esforço de memória para lembrar-se — Chaplin. Da moça que era conhecida como a pequena da Biograph, Johnny nem sabia o nome. Mas o público sabia e não perdia um filme dela.

Resolveu recomendar a Joe que incluísse no quadro do título dos filmes os nomes dos atores. Facilitaria a identificação pelos fregueses dos artistas que preferissem e ajudaria os exibidores na publicidade das suas atrações.

Pensando nessas coisas, Johnny estava havia tanto tempo em silêncio que Peter pensou que o derrotara.

— Já não tem o que dizer, não é? — perguntou êle, vitoriosamente.

Johnny voltou a si e acendeu um cigarro.

— Não, nada disso. O que acontece é que você acaba de me sugerir a única coisa de que eu precisaria para assegurar o sucesso de um filme. Um grande nome que todos conheçam. Se você tiver um grande ator, não poderá negar-se a fazer um grande filme!

— Com um grande nome é possível. Mas quem é que você vai conseguir, Johnny.

— O mesmo ator que está fazendo O Bandido no teatro, Warren Craig.

— Warren Craig? Por que não escolhe logo John Drew? — perguntou ironicamente.

— Não. Warren Craig é suficiente. Peter exclamou em iídiche:

— Uehr nicht a nahr!

Vendo que Johnny não compreendera, repetiu:

— Não seja tolo! Bem sabe que essa gente do teatro olha para o cinema como uma coisa inferior. Não vai conseguir que trabalhem!

— Quem sabe? Talvez agora que Sarah Bernhardt vai fazer um filme, eles não se mostrem tão difíceis.

— Neste caso, será preciso também conseguir o dinheiro de Jacob Astor para pagar-lhes.

Johnny não deu atenção a esse último comentário de Peter. Levantou-se exaltadamente, com o cigarro esquecido na mão.

— Já sei agora como irá aparecer na tela: ”Peter Kessler apresenta... Warren Craig... no famoso sucesso da Brodway... O Bandido... um filme Magnum”.

Parou, ainda com o dedo estendido dramaticamente para Peter.

Este havia-se levantado sem querer da cadeira, procurando visualizar também o que Johnny dizia. Mas o encanto se quebrou e êle voltou a acomodar-se na cadeira.

— Pois eu vejo também uma notícia nos jornais, — disse êle. — ”Requerida a falência de Peter Kessler!”

Esther olhava para os dois. Teve então uma vaga surpresa, pensando: ”No fundo, Peter está com vontade de tentar!”

— Nada feito, Johnny, — disse Peter, levantando-se. — Não podemos jogar tanto com a sorte. Os riscos são muitos. O consórcio não concordará e, se nos cassarem a licença, nada mais poderemos fazer. O nosso dinheiro não é suficiente para arriscar assim.

Johnny olhou-o, sentindo as têmporas latejarem. Esther estava com os olhos fitos em Peter. Pela porta da cozinha, via-se Mark que estava tentando armar no chão uma casa com blocos de madeira. Naquele momento, a casa caiu e Doris largou o livro que estava lendo e foi ajudá-lo.

Voltando-se lentamente para Peter, Johnny começou a falar. Não alteou a voz e não deu o menor sinal de tensão. A sua decisão estava tomada.

— Vocês, produtores, são todos iguais! Têm todos medo do consórcio! Queixam-se o tempo todo, dizem que o consórcio não os deixa viver e que os está matando à fome!

Mas que é que estão fazendo contra isso? Nada! Ficam todos debaixo da mesa do consórcio, apanhando as migalhas que eles querem jogar. Porque vocês só pegam migalhas! Nada mais. Sabe quanto foi que o consórcio ganhou no ano passado? Vinte milhões de dólares! Sabe quanto foi que os produtores independentes fizeram no ano passado? Quatrocentos mil dólares para quarenta produtores, o que dá uma média de dez mil dólares por cabeça. Mas, durante esse tempo, vocês pagaram oito milhões de dólares ao consórcio para continuarem a produzir! Oito milhões de dólares! Dinheiro que ganharam e tiveram de entregar aos outros! Vinte vezes mais do que aquilo com que ficaram. E só há um motivo para tudo isso! Todos têm medo de enfrentar o consórcio!

O cigarro começou a queimar-lhe os dedos. Jogou-o no cinzeiro em cima da mesa e continuou a falar com uma voz carregada de tensão. Era espantosa a qualidade dramática que podia dar à voz quando era preciso, substituindo-a prontamente por outra quando o seu efeito fora conseguida.

— Por que não abrem os olhos? A indústria é tanto de vocês quanto deles. Vocês é que ganham o dinheiro. Por que não ficam com êle? Mais cedo ou mais tarde, terão de lutar com com eles. Por que não lutam já? Lutem fazendo filmes melhores. Eles sabem do que vocês são capazes e, por isso, estabelecem limites ao que vocês podem fazer. Dominam a indústria assim porque têm medo do que vocês poderão fazer se começarem a agir por conta própria. Unam-se. Talvez consigam enfrentá-los nos tribunais. Talvez o que estão fazendo seja previsto nas novas leis contra os trustes. De qualquer modo, o que está em jogo vale bem a luta. Lembra-se de quanto em Rochester batalhei para você entrar para a indústria? Tinha para isso uma boa razão. Poderia ter ido trabalhar com Borden ou com qualquer dos outros, mas queria era você. Por quê? Porque achava que você era o único homem com coragem suficiente para lutar quando chegasse a ocasião. Muitas vezes, depois disso, fui convidado a trabalhar com outros, mas fiquei firme ao seu lado. E o motivo foi o mesmo. Agora, tenho de saber se estava certo ou errado. A ocasião é esta. Ou você entra na luta agora ou, dentro em breve, o consórcio afastará a todos da atividade!

Ficou olhando para Peter, procurando avaliar o efeito das suas palavras. O rosto de Peter nada revelava, mas havia outros sinais que lhe mostravam que vencera a batalha. As mãos de Peter estavam cerradas como as de um homem que vai lutar.

Peter ficou muito tempo em silêncio. Não podia discutir com Johnny. Sabia que êle tinha razão. No ano passado, pagara ao consórcio 140 mil dólares e só ficara com oito mil. Mas Johnny era muito moço e estava sempre disposto a investir contra moinhos de vento. Talvez, quando fosse mais velho, chegasse a compreender que é preciso, às vezes, ter paciência.

Levantou-se, foi até à pia e bebeu demoradamente um copo de água. Apesar de tudo, havia alguma coisa certa no que Johnny dizia. Se todos os produtores independentes se unissem, poderiam enfrentar o consórcio e talvez vencer. Às vezes, lutar era melhor do que esperar. Talvez Johnny estivesse certo. Talvez fosse aquela a ocasião. Voltou-se para Johnny e perguntou:

— Quanto você disse que poderia custar um filme assim?

— Por volta de 25 mil dólares, isto é, desde que se queira Warren Craig no papel principal.

Vinte e cinco mil dólares, pensou Peter. Dinheiro demais para um filme. Mas, depois, podia-se ganhar uma fortuna com êle.

— Se fizermos um filme assim, — disse êle, — teremos de ter Warren Craig no papel principal. É uma coisa em que não se pode facilitar.

— Você não terá de colocar 25 mil dólares do seu dinheiro, — disse Johnny, aproveitando ansiosamente a oportunidade. — Joe e eu poderemos entrar com cinco mil dólares juntos, você entrará com oito mil e o resto tomaremos emprestado. Acho que alguns exibidores são capazes de aproveitar a oportunidade. Vivem reclamando alguma coisa diferente. Se lhes prometermos isso, poderemos conseguir que entrem com dinheiro.

— Mas temos de conseguir Warren Craig.

— Deixe isso comigo, Peter, que eu conseguirei.

— Então eu posso entrar com 10 mil dólares.

— Quer dizer que vai mesmo fazer isso, Peter?

Peter hesitou um momento. Olhou para Esther e disse com voz pausada:

— Não estou dizendo que vou fazer, nem que não vou fazer. Só estou dizendo é que vou pensar no caso.

Peter esperou que Borden saísse da sinagoga. A sinagoga na baixa Broadway era todas as manhãs um ponto de encontro para muitos dos mais importantes produtores de filmes. Começou a descer a rua ao lado dele.

— Bom dia, Willie.

— Olá, Peter, — disse êle, sorrindo. — Como vai o Geschãft?

— Não me posso queixar. Quero conversar com você. Tem tempo para uma xícara de café?

Borden tirou o relógio e consultou-o.

— Claro. Que é que há?

— Leu os jornais de ontem? — perguntou Peter, quando se sentavam a uma mesa do café mais próximo.

— Li, sim. A que é que você está querendo aludir?

— Ao filme de Sarah Bernhardt e a Quo Vadis?

Claro que li, respondeu Borden, sem saber ainda aonde Peter queria chegar.

— Acha que vão começar a fazer filmes maiores?

— É possível, — respondeu Borden cautelosamente.

— Pois Johnny quer que eu faça um filme de seis partes.

— Um filme de seis partes? — perguntou Borden, interessado. — Sobre quê?

— Quer que eu compre uma peça de teatro para fazer um filme e contrate para trabalhar nele o artista principal do palco.

— Comprar uma peça? É bobagem. Nunca se ouviu falar nisso. Podemos ter todos os enredos que quisermos de graça.

— Sei disso, mas Johnny acha que o título da peça atrairá o público para as bilheterias.

Borden podia ver que isso fazia sentido e o seu interesse aumentou.

— Como é que vocês vão contornar as regras áo consórcio?

— Johnny diz que podemos economizar filme virgem suficiente para fazer o filme e, depois, trabalhar nele secretamente. O consórcio só saberá quando o filme estiver pronto.

— Se eles descobrirem, poderão fazê-lo fechar as portas.

— Talvez sim, talvez não. Mas tem de haver um ponto em que façamos pé firme para enfrentar o consórcio. Do contrário, ainda estaremos produzindo filmes de duas partes enquanto o resto do mundo estiver fazendo filmes longos. Os produtores estrangeiros chegarão e dominarão o nosso mercado. Quando isso acontecer, nós sofreremos mais do que o consórcio. Já chega de viver com as migalhas que eles nos deixam. Está na hora de nós, os produtores independentes, nos unirmos para lutar contra eles.

Borden refletiu sobre o caso. O que Peter dizia era a opinião geral dos produtores independentes, mas nenhum deles tinha vontade de enfrentar o consórcio. Êle mesmo não queria de modo algum meter-se numa aventura tão perigosa quanto aquela. Mas se Peter se arriscasse, êle podia ver os benefícios que teria com o êxito do outro.

— Quanto custaria um filme assim? — perguntou êle.

— Cerca de 25 mil dólares.

Borden acabou de tomar o seu café, procurando calcular quanto Peter tinha em dinheiro. Depois de alguns momentos de cálculo silencioso, chegou à conclusão de que Peter tinha cerca de 10 mil dólares. Teria, portanto, de tomar o resto emprestado. Botou o dinheiro para pagar o café em cima da mesa e levantou-se.

— Vai fazer o filme? — perguntou quando chegaram à rua.

— Estou pensando no caso, — disse Peter, — mas não tenho dinheiro que chegue. Talvez, se eu puder ver as coisas claras, pegue a oportunidade.

— Quanto já tem?

— Cerca de quinze mil dólares.

Borden se surpreendeu. Peter devia estar ganhando mais do que êle calculara. Olhou-o de maneira mais respeitosa.

— Posso entrar com 2 500 dólares, — disse êle, impulsivamente.

Era uma quantia bem pequena para arriscar num empreendimento tão cheio de oportunidades. Sentia-se muito à vontade em tudo aquilo. Seria melhor para êle que Peter se arriscasse.

Peter olhou-o, também satisfeito. Era só isso que êle queria saber — se Borden aprovava a idéia a ponto de arriscar dinheiro nela. A pequena quantia que Borden oferecera não tinha importância para Peter.

Não lhe ocorreu que Borden, se quisesse, poderia facilmente entrar com o dinheiro que faltava.

— Ainda não resolvi, — disse êle a Borden. — Logo que resolver, irei falar com você.

Mas Borden já estava ansioso pela decisão de Peter e disse ardilosamente:

— Está bem. E se não quiser fazer, fale também comigo. Talvez eu mesmo faça o filme. Quanto mais penso nisso, mais me agrada.

— Não sei ainda, — atalhou Peter, prontamente. — Como já disse, ainda não cheguei a uma decisão. Logo que chegar, falarei com você.

Lia-se na porta de vidro o nome: ”Samuel Sharpe” e embaixo, em letras menores: ”Representante Teatral”. Johnny empurrou a porta e entrou.

A sala era pequena e tinha as paredes cobertas de retratos com dedicatórias ao ”caro Sam”. Johnny notou que todas as dedicatórias pareciam ter a mesma caligrafia e sorriu intimamente.

Uma moça entrou por outra porta e sentou-se a uma mesa encostada à parede.

— Que deseja, cavalheiro? — perguntou ela.

Era bem bonita. O tal Sharpe pelo menos sabia escolher as funcionárias. Aproximou-se dela e entregou-lhe um cartão.

— Quero falar com o Sr. Sharpe.

A moça olhou o cartão e viu que se tratava de ”John Edge, Vice-Presidente da Magnum Filmes”. Olhou-o de maneira diferente e disse:

— Quer fazer o favor de sentar-se? Vou ver se o Sr. Sharpe pode atendê-lo.

Johnny sorriu para ela quando se sentou e murmurou:

— Devia estar trabalhando no cinema.

Ela saiu da sala com o rosto muito vermelho e voltou daí a um instante.

— O Sr. Sharpe vai atendê-lo daqui a poucos minutos. Depois, sentou-se à mesa e fingiu que estava muito ocupada.

Johnny pegou um número do Billboard e começou a ler. Pelo canto dos olhos, viu que ela o estava observando. Largou o jornal e puxou conversa:

— O dia está bem bonito, não está?

— Está sim, senhor.

Em seguida, colocou uma folha de papel na máquina e começou a bater.

Johnny se levantou e foi até à mesa dela.

— Acredita que a letra possa revelar o caráter de uma pessoa? Ela pareceu atônita e respondeu:

— Nunca pensei nisso, mas acho que pode.

— Então escreva alguma coisa numa folha de papel. Ela pegou uma caneta e perguntou:

— Que quer que eu escreva?

— Escreva, por exemplo, ”Ao caro Sam...” e assine com o seu nome.

Ela sorriu, escreveu alguma coisa e entregou-lhe o papel.

— Pronto, Sr. Edge. Não sei se vai gostar.

Johnny leu o que ela escrevera e olhou-a com súbita suprêsa. Ela estava rindo. Johnny sorriu para ela e leu de novo:

”O nome é Jane Anderson. Maiores detalhes a pedido”.

— Jane! — exclamou êle. — Eu sabia que nos iríamos entender.

Ela ia responder, mas uma campainha tocou ao lado da mesa.

— Pode entrar, — disse ela, sorrindo. — O Sr. Sharpe já está livre.

Johnny encaminhou-se para a porta, mas parou de repente e voltou-se para ela.

— Diga-me uma coisa: Sharpe estava realmente ocupado?

— Claro que sim, — disse ela com um sorriso. — Estava fazendo a barba.

Johnny riu e entrou na outra sala, que era muito parecida com a primeira, pois tinha as paredes também cheias de retratos. Mas era um pouco maior e, sentado à mesa, via-se um homem de terno cinza, que se levantou e estendeu-lhe a mão.

— Muito prazer em conhecê-lo, Sr. Edge.

Trocaram cumprimentos e Johnny entrou direto no assunto.

— A Magnum Filmes vai comprar os direitos de filmagem de O Bandido e nós gostaríamos de que Warren Craig se encarregasse do papel principal do filme.

Sharpe sacudiu a cabeça tristemente e não respondeu.

— Por que está sacudindo a cabeça, Sr. Sharpe?

— Desculpe, Sr. Edge. Se tivesse sido qualquer outro dos meus clientes, menos Warren Craig, eu acharia que o senhor poderia ter possibilidades, mas Craig...

E concluiu a frase, abrindo expressivamente os braços.

— Menos Warren Craig por quê?

— O Sr. Craig vem de uma das famílias mais conhecidas do teatro e bem sabe o juízo que os artistas fazem dos filmes. Além disso, olhando as coisas de um ponto de vista mais prático, o cinema paga muito pouco.

— Escute, Sr. Sharpe: Quanto é que Warren Craig costuma ganhar?

— Craig ganha no palco 150 dólares por semana e o cinema não paga mais de 75 dólares.

— Sr. Sharpe, o que lhe vou dizer é absolutamente confidencial.

— Sam Sharpe respeitará a confiança, Sr. Edge.

— Ótimo. A Magnum não pretende fazer de O Bandido um filme comum. Será uma produção de alta classe, alguma coisa tão nova e grandiosa que poderá comparar-se às melhores produções do teatro. É por isso que queremos que Warren Craig faça no filme o mesmo papel que fêz no teatro. Pelo seu trabalho, estamos dispostos a pagar-lhe 400 dólares por semana, com um mínimo garantido de dois mil dólares.

Johnny recostou-se na cadeira e ficou a observar o efeito das suas palavras. Era evidente pela fisionomia de Sharpe que era de transações dessa espécie que êle gostava.

— Devo ser honesto com o senhor, — disse Sharpe. — A sua oferta me parece muito generosa, mas não creio que possa convencer Craig a aceitá-la. Torno a dizer que êle não aprova o cinema. Chega ao ponto de desprezá-lo, pois o julga abaixo da dignidade da verdadeira arte.

— Sara Bernhardt não considera o cinema abaixo da dignidade da sua arte e, ela está fazendo um filme na França, talvez o Sr. Craig não se incomode de fazer um filme aqui.

— Já tinha ouvido falar nisso, Sr. Edge, mas não acreditei. É verdade?

— Absoluta verdade! — exclamou Johnny e começou a mentir. — O nosso representante na França acompanhou de perto as negociações e nos assegurou que o contrato já foi assinado e registrado. É claro que lhe pagaríamos a mesma gratificação que o agente de Madame Bernhardt recebeu. Dez por cento sobre a garantia.

— Sr. Edge, devo dizer-lhe que é muito convincente. Estou da minha parte inteiramente convencido, mas não posso dizer como o Sr. Graig reagiria. Não me daria ouvidos. Gostaria de falar com êle?

— A qualquer tempo que seja possível.

Johnny saiu da sala certo de que Sharpe lhe telefonaria logo que fosse possível um contrato com Craig.

Parou à saída junto à mesa da moça. Sorriu para ela e disse:

— E quanto aos outros detalhes, Jane?

Ela lhe passou às mãos uma folha de papel, em que estavam escritos à máquina o nome, o endereço e o telefone.

— Não telefone depois das oito da noite, Sr. Edge, — disse ela, sorrindo. — Moro numa pensão e a dona não gosta de telefonemas depois dessa hora.

— Telefonarei para aqui, menina. Assim, você não terá de preocupar-se com a dona da pensão.

E saiu, assobiando alegremente.

Johnny só foi chegar ao estúdio lá para o fim da tarde. Peter levantou a cabeça da escrivaninha ao vê-lo.

— Onde foi que você se meteu? Passei o dia a procurá-lo.

— Tive um dia muito atarefado, Peter. Em primeiro lugar, fui conversar com o agente de Warren Craig. Depois, fui almoçar com George, que está na cidade.

— Para que é que você foi almoçar com George?

— Para conversar de dinheiro, Peter. Parece que vamos mesmo conseguir Warren Craig e eu pensei que não faria mal começar a arranjar dinheiro para o filme. George vai entrar com mil dólares.

— Mas eu ainda não disse que vamos fazer o filme.

— Eu sei, Peter, mas se você não o fizer, outra pessoa o fará. E eu não vou ficar do lado de fora olhando até tudo terminar.

Olharam-se firmemente durante alguns segundos. Afinal, Peter falou:

— Está então resolvido?

— Estou, sim. Para mim, chega de indecisão.

O telefone tocou. Peter atendeu. Depois, virou-se e passou o fone a Johnny.

— É para você.

Johnny pegou o fone e disse:

— Alô?

A pessoa falou durante alguns minutos enquanto Johnny escutava. Em dado momento, Johnny tampou o bocal com a mão e disse a Peter:

— É Borden. Falou com êle sobre o filme hoje de manhã?

— Falei, sim. Que é que êle quer?

Johnny, em vez de responder-lhe, disse ao telefone:

— Não sei, Bill. Êle ainda não resolveu. Escutou mais alguns instantes e disse:

— Está bem, Bill. Não me esquecerei de falar com você. Logo que êle desligou, Peter perguntou, desconfiado:

— Que era que êle queria?

— Queria saber se você já havia resolvido. Disse mais que, se a sua decisão fôr contrária ao filme, quer que eu vá conversar com êle.

— Gonif! — exclamou Peter, indignado. — Bastou eu falar com êle hoje de manhã e êle já está querendo roubar as idéias dos outros! Que foi que disse a êle?

— Você ouviu. Disse que você ainda não havia decidido.

— Então telefone para êle agora mesmo e diga que eu já decidi. Vamos fazer o filme!

— Vai mesmo?

— Claro que vou. Quero mostrar a esse tal Willie Bordanov que êle não pode roubar as idéias dos outros!

Johnny pegou o telefone.

— Espere um pouco, — disse Peter. — Eu mesmo falarei com êle. Temos um pequeno assunto para resolver. Êle me prometeu dois mil e quinhentos dólares se eu decidisse fazer o filme e eu quero que êle me mande esse dinheiro imdiatamente.

Peter ficou calado durante todo o jantar. Quase não proferiu duas palavras do princípio ao fim. Esther sabia que alguma coisa o estava preocupando, mas esperou que êle acabasse de comer. Conhecia-o muito bem e sabia que êle só falaria quando julgasse que estava na hora.

— Doris trouxe hoje o boletim mensal, — disse ela. — Tirou

100 em tudo.

— Ótimo, — disse Peter sem maior interesse.

Em geral, êle examinava com toda a atenção o boletim de Doris e fazia questão de assiná-lo. Esther nada mais disse.

Peter levantou-se da mesa, pegou o jornal e foi para a sala. Esther ficou ajudando a empregada a tirar a mesa. Quando foi para a sala, viu que o jornal estava esquecido no chão e o marido tinha o olhar parado no espaço.

— Que é que há com você? — perguntou ela, sem suportar mais aquele prolongado silêncio. — Não se está sentindo bem?

— Estou perfeitamente bem. Por que pergunta?

— Parece que está morrendo. Desde que chegou, quase não abriu a boca para falar.

— São coisas que estou pensando, — respondeu êle com secura, desejando que a mulher o deixasse em paz.

— Algum segredo?

— Não, — disse êle, lembrando-se de repente que ainda não comunicara à mulher a sua decisão. — Decidi fazer o tal filme que Johnny quer. Agora, estou preocupado.

— Se já decidiu, por que está preocupado?

— Há muito risco. Eu poderei perder tudo.

— Sabia disso quando tomou a sua decisão, não sabia?

Êle bateu com a cabeça.

— Não fique então aí sentado, como se estivesse esperando o fim do mundo. Agora, tem de fazer o que deve, sem pensar no que poderá acontecer.

— E se eu perder tudo, o que acontecerá?

Os seus pensamentos se apegavam a essa hipótese como a língua a um dente que dói. E quanto mais isso acontecia, mais dor êle sentia.

Esther sorriu.

— Não vai acontecer nada. Meu pai perdeu três lojas e sempre se arrumou. Nós também nos arrumaremos.

— Você não se importará? — disse êle com um sorriso mais contente.

Ela se aproximou dele, sentou-se no seu colo e disse:

— Os negócios para mim não são tão importantes que cheguem a preocupar-me. Só estou interessada é em você. Você tem de fazer o que acha que deve. Isso é que é importante, ainda que não dê bom resultado. Para minha felicidade, bastam você e as crianças. Pouco me importa ter mais um apartamento em Riverside Drive e uma empregada.

Êle enlaçou-a com os braços e descansou a cabeça sobre os seus seios.

— Tudo o que faço é por você e as crianças, — disse êle em voz baixa. — Quero que vocês tenham tudo.

A voz dele era sincera. Isso era o que ela queria. Sabia que o sucesso nos negócios era importante para um homem, mas para ela o importante era o ânimo do marido.

— Sei disso, Peter. Por isso mesmo é que você não deve preocupar-se. Um homem trabalha melhor quando não tem certas preocupações na cabeça. Tudo vai dar certo. A idéia é boa e corresponde a uma necessidade.

— Acha mesmo?

— Claro. Do contrário, você não teria tomado a decisão.

Levantar o dinheiro para o filme acabou sendo o mais fácil de tudo. Os exibidores com quem Johnny conversou se mostraram ansiosos em entrar com dinheiro para o filme. Estavam cansados de ter de pagar os olhos da cara pelos péssimos filmes do consórcio.

Johnny recebeu quantias que iam dos mil dólares que VÍL havia conseguido de George a cem dólares que lhe foram confiados por um pequeno exibidor de Long Island.

Era o segredo mais divulgado da indústria. Todos sabiam do filme, menos o consórcio. Os outros produtores independentes observavam cuidadosamente a Magnum para saber o que ia acontecer.

Enquanto isso, Peter estava comprando todo o filme virgem que encontrava e Joe estava trabalhando ativamente com o autor da peça na preparação do script para o cinema.

Warren Craig estava tirando a maquilagem no camarim repleto de gente. Pelo espelho, via quase todo o mundo conversando animadamente, menos uma bela pequena a um canto, que não dizia uma palavra. Limitava-se a vê-lo tirar a maquilagem com uma expressão de admiração no olhar.

Craig sentia-se bem. Tinha tido um bom desempenho naquela noite e tinha consciência disso. Havia noites em que tudo dava certo, do mesmo modo que havia outras noites diferentes. Cruzou os dedos para afastar a má sorte ao pensar nisso.

A moça do espelho viu o gesto e sorriu timidamente para êle. Craig sorriu para ela e o rosto da moça se iluminou.

Acabou de tirar a maquilagem do rosto e voltou-se para a gente reunida no camarim.

— Agora, tenho de pedir licença aos meus bons amigos, — disse êle, com a sua forte voz de barítono. — É preciso tirar este traje provinciano.

Houve risos. Sempre havia quando êle dizia isso, que fazia parte da representação. Estava vestido de cowboy e o traje lhe assentava muito bem. As cores vistosas da camisa em contraste com a côr neutra das calças, realçando os ombros largos e o corpo esbelto.

Foi para trás de um biombo e daí a alguns minutos apareceu em roupas comuns. A verdade era que parecia tão bem com elas quanto com o costume que usara no palco. Era um ator e tinha plena consciência disso. Tudo o que êle vestia, tudo o que fazia e dizia proclamava a cada instante que êle, Warren Craig, era o representante da terceira geração de sua família no palco americano.

Estava pronto a receber as homenagens.

Postou-se à vontade no centro do camarim com a cabeça levemente inclinada para a frente, dizendo algumas palavras a cada pessoa que chegava para felicitá-lo. Enquanto isso, fumava um cigarro metido numa comprida piteira russa.

Foi assim que Johnny o viu quando entrou com Sam Sharpe no camarim. Mas Warren Craig não teve muito prazer em ver Sam. Este fê-lo lembrar-se do encontro que contra a vontade marcara naquele mesmo dia com o tal camarada do cinema. Em vez disso, tinha de achar um meio de levar aquela linda pequena ali no canto para cear com êle.

Mas o tempo foi passando e a oportunidade não surgia. Craig sorriu filosòficamente. Era o preço que se pagava por ser um dos maiores artistas do teatro americano. Nunca se podia dispor do próprio tempo.

O camarim se esvaziou pouco a pouco. A última pessoa que saiu foi a pequena bonita. Despediu-se da porta com um sorriso. Craig retribuiu o sorriso, com um gesto de desolação que dizia tão claramente como um pensamento expresso em palavras: ”Que é que se vai fazer, minha filha? São os ossos do ofício de um grande ator”.

Também o sorriso dela era eloqüente. Craig interpretou-o: ”Compreendo perfeitamente. Fica para outra vez”.

Johnny havia percebido todo esse jogo de cena. Havia ficado calmamente a um canto, observando Craig. Não tinha dúvida de que fosse um bom ator, mas a vaidade masculina caía-lhe sobre a pessoa como um manto. E tinha motivos para ser vaidoso. Devia ter no máximo vinte e cinco anos, era bem apessoado, esbelto, com feições clássicas e cabelos crespos que, na opinião de Johnny, deviam fotografar muito bem.

Craig voltou-se para Johnny e, na realidade, viu-o pela primeira vez. ”Mas êle é mais moço do que eu!” foi o seu primeiro sentimento de surpresa. ”E, apesar disso, é vice-presidente de uma companhia de cinema”. Mas, continuando a olhar para Johnny, viu outras coisas que não eram em geral visíveis para o comum das pessoas. Quem trabalha em teatro costuma observar com presteza certos traços pessoais que possam depois ser projetados do palco para o público. A boca de Johnny era grande e generosa, mas firme e determinada. O queixo tinha uma certa curva agressiva, mas mantida sob controle. O mais interessante de tudo eram, porém, os olhos, profundos e de um azul bem carregado, em cujo bojo pareciam dormir chamas ocultas. ”Um idealista”, foi a conclusão de Craig.

— Está com fome, Warren? — perguntou Sharpe, com a sua voz esganiçada.

— Sou capaz de comer, — disse êle, encolhendo os ombros como se a comida pouco significasse para êle. Olhou para Johnny e disse: — Essas representações esgotam muito.

— Compreendo, Sr. Craig, — disse Johnny, sorrindo. Craig simpatizou com a voz de Johnny.

— Espere aí, vamos deixar de cerimônias. O meu nome é Warren.

— E o meu é Johnny.

Os dois homens apertaram-se as mãos e Sam Sharpe saiu com eles do camarim, sorrindo. A comissão e a gratificação já pareciam a caminho.

Craig aqueceu o cálice de conhaque entre as mãos. Embora houvesse dito que não estava com fome, comera o grande bife que havia pedido com o apetite de um trabalhador braçal. Naquele momento, estava pronto a conversar.

— Segundo sei, trabalha numa companhia de cinema, não é, Johnny?

Johnny bateu com a cabeça.

— Sam me disse que estão querendo filmar O Bandido.

— Isso mesmo, — disse Johnny. — E gostaríamos de que tivesse o papel principal. Ninguém mais no teatro pode encarregar-se de um papel tão difícil.

Não fazia mal um pouco de adulação. Craig era da mesma opinião. Sorriu satisfeito, mas exclamou:

— O pior é que terei de trabalhar no cinema, meu velho. No cinema!

— O cinema está crescendo e subindo de categoria, Warren. Um grande artista como você já pode expressar o seu talento melhor na tela do que no palco.

— Não concordo com você, Johnny, — disse Craig, tomando um gole de conhaque e sorrindo. — Ainda outro dia, entrei por acaso num cinema e o que vi foi francamente pavoroso. Tinha o nome de comédia mas, palavra de honra, que não fazia rir. Havia um pequeno vagabundo perseguido por policiais gordos que levavam quedas a cada instante. Desculpe, meu velho, mas se havia alguma coisa naquilo, não consegui vê-la.

Johnny riu. Viu que o cálice de Warren estava vazio e fêz sinal ao garçom para voltar a enchê-lo.

— Não posso crer que esteja pensando que vamos transformar O Bandido num filme dessa espécie, — exclamou.

Inclinou-se sobre a mesa como se fosse fazer uma confidencia e continuou:

— Escute aqui, Warren. Em primeiro lugar, o filme será inteiramente diferente. Não terá vinte minutos de projeção, mas mais de uma hora. Depois, há uma novidade que acaba de ser lançada. É o close-up ou primeiro plano. É criação de um homem chamado Griffith. Consiste no seguinte. Imagine que você esteja representando uma cena importante, digamos, aquela cena com a moça no jardim. Lembra-se do momento em que olha para ela e o seu rosto exprime todo o seu amor sem você dizer uma palavra? Pois bem, isso na tela será mostrado magnificamente. A câmara focalizará o seu rosto de perto e só o seu rosto. É o que todo o público verá. Todas as expressões sutis, todos os matizes de sentimento de que você é capaz, com a sua arte soberba, serão mostrados a todo o mundo e não apenas às pessoas que estão na primeira fila do teatro.

Craig pareceu interessado.

— Quer dizer que a câmara só fotografará a mim?

— E não é só. Ficará concentrada em sua pessoa a maior parte do tempo porque, afinal de contas, tirando você, que é que há mais na peça?

Craig ficou em silêncio e tomou mais um gole de conhaque. Agradava-lhe a idéia. Na verdade, a peça era êle. Depois, sacudiu a cabeça.

— Não, Johnny, você chegou a me tentar, mas não é possível. O cinema arruinaria a minha reputação no palco.

— Sarah Bernhardt não tem medo de que o cinema lhe arruine a reputação. Ela percebe o desafio feito à sua arte e está pronta a enfrentá-lo. Compreende que o cinema lhe oferece possibilidades tão amplas quanto o palco. Pense nisso, Warren, pense nisso! Sarah Bernhardt na França, Warren Craig nos Estados Unidos. Os dois maiores artistas dos dois lados do Atlântico fazendo cinema! Não me diga que tem receio de enfrentar o mesmo desafio que Sarah Bernhardt está enfrentando!

Craig acabou de beber o conhaque. Aquelas últimas palavras haviam-no acertado. Que foi mesmo que John dissera?

Havia gostado daquilo. Sarah Bernhardt e Warren Craig, os dois maiores artistas do mundo. Levantou-se com equilíbrio um tanto incerto e disse a Johnny:

— Você conseguiu convencer-me, meu velho. Vou trabalhar no filme! E o que é mais, pouco me importa com o que os meus colegas de profissão disserem, ainda que seja John Drew. Mostrarei que um verdadeiro artista é capaz de trabalhar de qualquer maneira. Até no cinema!

Johnny sorriu para êle. Sam, debaixo da mesa, descruzou os dedos.

Sentado na poltrona, Joe olhava para Johnny que dava o laço na gravata. Já era a terceira vez que o desmanchava e escolhia outra gravata.

— Que diabo! Nunca acerto da primeira vez.

Joe sorriu. Desde o dia em que falara a Johnny do risco que êle corria em convencer Peter a fazer o tal filme, nunca mais tratara do assunto. Fazia a sua parte do trabalho em silêncio e da melhor maneira que lhe era possível, esperando que tudo acabasse bem. De vez em quando, sentia um pouco de receio diante da maneira por demais fácil em que tudo estava correndo, mas logo se censurava pelo seu pessimismo.

— Tem algum encontro? — perguntou a Johnny.

— Tenho, sim, — disse Johnny, ainda atrapalhado com a gravata.

— Alguém que eu conheço?

— Acho que não, — disse Johnny, voltando-se com o laço da gravata afinal terminado. É a secretaria de Sam Sharpe.

— Hum! Cuidado, garoto! Já vi uma vez aquela lourinha. É muito bonita mas é das que querem casar.

— Tolice. Ela é muito boa companhia.

— Já vi isso acontecer tantas vezes, — disse Joe, sacudindo tristemente a cabeça. — A pessoa sai com uma pequena para se distrair e, quando menos espera, está com uma sentença de prisão perpétua nas costas.

— Jane é diferente, — disse Johnny. — Ela sabe que não estou pensando ainda em me casar.

— As mulheres podem saber disso, mas o diabo é que não acreditam, Johnny. Mas, escute, você e Peter vão ao escritório do consórcio amanhã?

Era o que iam fazer. Estavam em fins de maio e o filme já estava pronto para ser rodado. O script e o elenco já eram caso resolvido. A única dificuldade que restava era conseguir um estúdio em condições para fazer o filme, pois o deles era pequeno demais.

Tinham falado com vários produtores independentes, mas nenhum deles dispunha de um estúdio que lhes pudesse ceder. Haviam resolvido por fim procurar o consórcio para conseguir o arrendamento de um dos seus estúdios. Eram todos de tamanho suficiente para a produção de O Bandido e Johnny sabia que um deles não ia ser utilizado naquele verão. Diriam ao consórcio que iam fazer um seriado e isso deveria bastar para resolver o caso.

— E se eles recusarem? — perguntou Joe.

— Não recusarão. Vamos ser pessimistas, mas como você já é demais.

— Está bem, está bem. Estava apenas perguntando.

Os cascos do cavalo batiam ritmadamente no chão. De repente, o cabriolé parou. O cocheiro inclinou-se da boléia e perguntou:

— E agora, chefe?

— Torne a dar uma volta pelo parque, — disse Johnny que, em seguida, voltou-se para Jane: — Está certo? Não está cansada?

O rosto de Jane estava pálido à luz do luar. A noite estava quente, mas ela levava uma charpa sobre os ombros.

— Não, não estou cansada, — murmurou ela.

O cabriolé voltou a rodar e Johnny se recostou no banco. Olhou para o céu onde todas as estrelas piscavam para êle. Descansou a cabeça sobre as mãos cruzadas na nuca e disse:

— Quando acabarmos esse filme, Jane, dominaremos a indústria. Ninguém mais nos pegará I

Sentiu-a mover-se ao lado dele e murmurar:

— Johnny...

— Que é, Jane? — perguntou êle, com o pensamento ainda nas estrelas.

— É só nisso que você pensa? No tempo em que o filme estiver terminado?

Êle se voltou para ela, surpreso.

— Que é que está querendo dizer?

Ela olhou com os olhos grandes e suavemente luminosos, dizendo com voz bem calma:

— Não sei se sabe disso, mas há na vida outras coisas além de filmes.

— Para mim, não, — disse êle, sorrindo. Ela virou a cabeça e olhou para o lado.

— Outras pessoas acham tempo para outras coisas, além dos negócios.

Johnny passou o braço pelo ombro dela, puxou-lhe a cabeça para êle e beijou-a. Os lábios de Jane eram quentes e ela o cingiu avidamente com os braços. Mas, de repente, os braços penderam inertes e ela se afastou.

— Coisas assim, Jane?

Ela ficou alguns segundos sem responder. Afinal, falou em voz bem baixa.

— Gostaria de que não tivesse feito isso, Johnny.

— Por quê, meu bem? Não era isso que você queria?

— Era e não era. Um beijo em si não tem nenhuma importância. O importante é o que há no fundo do beijo. Não gostei de que me houvesse beijado porque sei que não há nada no fundo do seu beijo. Dentro do seu coração, Johnny, só há filmes e não sentimentos.

O escritório do consórcio ficava num grande edifício na Rua 23, que tinha doze andares, um deles todo ocupado pelo consórcio. Quando Peter e Johnny saíram do elevador nesse andar, foram atendidos por uma jovem recepcionista.

— Querem falar com quem?

— Com o Sr. Segale, — disse Peter. — Somos Edge e Kessler e temos hora marcada.

— Façam o favor de sentar-se, — disse ela, apontando um sofá encostado à parede. — Vou-me comunicar com o escritório do Sr. Segale.

No fim do corredor, via-se por uma porta aberta um grande escritório onde homens e mulheres trabalhavam em várias filas de mesas.

— Eles têm realmente uma grande empresa, — murmurou Johnny.

— Já estou ficando nervoso, — disse Peter.

— Calma, Peter. Eles não têm a menor idéia do que vamos fazer. Não se preocupe.

Peter ia dizer alguma coisa, mas não pôde, pois nesse momento a recepcionista reapareceu.

— O Sr. Segale vai recebê-los. No fim do corredor. O nome dêle está na porta.

Os dois agradeceram e foram pelo corredor. Era tudo muito amplo e com um ar que intimidava. De vez em quando, alguém passava por eles às carreiras, com jeito de quem estivesse fazendo alguma coisa muito importante. Até Johnny estava impressionado.

Abriram a porta onde estava o nome de Segale e o seu cargo de ”Supervisor da Produção” e entraram. Estavam na sala de uma secretária. A moça sorriu para eles e apontou outra porta.

— Podem entrar. O Sr. Segale os espera.

O escritório era ricamente mobiliado. Um tapete côr de vinho cobria todo o chão, havia vários quadros nas paredes e confortáveis sofás e poltronas de couro espalhados pela sala.

Segale estava sentado a uma enorme mesa de nogueira. Recebeu-os cordialmente e os levou para um sofá.

— Fiquem à vontade. Querem fumar? — perguntou com uma caixa de charutos aberta nas mãos.

Peter tirou um charuto e acendeu-o. Johnny agradeceu e acendeu um cigarro.

Segale era um homem pequeno e gordo, com uma cara redonda e lisa de anjo. Mas os olhos azuis eram muito vivos e lábios bem finos marcavam uma boca pequena e redonda.

Logo que o viu, Johnny teve as primeiras desconfianças. ”Esse camarada não é tolo”, pensou ele. ”Não vai ser nada fácil passar-lhe a perna”. Mas ficou em silêncio, à espera.

Quem falou primeiro foi Segale.

— Que desejam, senhores?

Pete resolveu ir diretamente ao assunto.

— A Magnum gostaria de arrendar o estúdio de Slocum durante três semanas para fazer um seriado.

Segale se recostou confortàvelmente na poltrona. Lançou uma baforada da charuto para o alto e ficou olhando a fumaça que se enovelava e subia.

— Compreendo. Se não me engano, têm uma concessão nossa para a produção de filmes curtos que não ultrapassem de dois rolos.

— É verdade, — disse prontamente Peter.

— E estão fazendo apenas isso?

Johnny olhou para Peter. As coisas não estavam correndo exatamente como esperavam. Mas Peter estava todo atento a Segale.

— Francamente, não entendo a pergunta! O Sr. sabe o que estamos fazendo.

Segale se ajeitou na poltrona. Apanhou um papel na mesa e olhou-o.

— Hum! Produziram 72 rolos de filme no ano passado.

Peter nada disse. Já não estava gostando também daquilo. Olhou para Johnny, que estava um pouco pálido e com os olhos apertados. Compreendeu que também Johnny estava inquieto. Voltou-se para Segale.

— Por que todas essas perguntas, Sr. Segale? Estamos apenas querendo espaço para fazer um filme em série.

Segale olhou firmemente para Peter e perguntou:

— Tem certeza de que é só isso que quer fazer, Sr. Kessler?

Johnny compreendia tudo. O homem estava brincando com Peter como um gato com um rato. Êle sabia o que eles queriam; sabia disso antes mesmo da chegada deles. Por que não dizia logo isso em vez de ficar com tantos rodeios?

— Tenho certeza, Sr. Segale. Para que mais iríamos precisar do estúdio? — disse calmamente Peter.

— Bem, correm por aí rumores de que vão fazer um filme de seis rolos tirado de uma peça da Broadway chamada O Bandido.

É um absurdo, — disse Peter, rindo. — Talvez eu tivesse falado em fazer um seriado com a peça, mas um filme de seis rolos, nunca.

— De qualquer maneira, Sr. Kessler, o estúdio de Slocum vai ficar ocupado durante todo o verão e não poderemos cedê-lo.

— Ocupado como? — perguntou Johnny, levantando-se impulsivamente. — Sei perfeitamente que nada vai ser rodado neste verão.

— Não sei onde consegue as suas informações, Sr. Edge, para saber mais do que eu, que sou da companhia, — disse êle, friamente.

— Devo entender então, Sr. Segale, — disse Peter, que o consórcio não quer que a Magnum faça um seriado.

Segale encarou-o e disse polidamente:

— Sr. Kessler, o consórcio não quer que a partir de 1º de junho a Magnum faça filmes de qualquer espécie. De acordo com o parágrafo 6 da cláusula A do nosso contrato, revogamos neste momento a licença que lhes concedemos para tratarem da manufatura e produção de filmes cinematográficos.

Johnny viu o rosto de Peter ficar cinzento enquanto Segale falava. Por um momento, pareceu que ia sumir pela poltrona adentro, mas, logo depois, aprumou o corpo e a côr voltou-lhe às faces. Levantou-se e disse.

— Tenho de considerar então que o consórcio está exercendo o seu direito monopolizador de criar obstáculos ao comércio e à concorrência.

— Chame a isso o que quiser, Sr. Kessler. O consórcio está fazendo apenas o que é prevista no contrato.

A voz de Peter era pesada e lenta, mas sentia-se vibrar nela um timbre de aço.

— Não podem impedir a Magnum de fazer filmes apenas com a revogação do seu contrato, Segale. Nem pode impedir o progresso do cinema. A Magnum continuará a produzir filmes! Com ou sem licença do consórcio!

Segale olhou friamente para Peter e disse:

— O consórcio não terá o menor interesse em afastá-los da atividade, Sr. Kessler, desde que o senhor se comprometa a respeitar o seu acordo de só fazer e produzir filmes de dois rolos.

Johnny olhou para Peter. Aquele Segale era um sujeito duro. Dava uma cacetada na cabeça, e depois vinha com uma aspirina. Qual seria a atitude de Peter? Segale lhe dera uma saída.

Peter não respondeu logo. Muitas coisas lhe giravam na cabeça. Era uma oportunidade de salvar a sua indústria, mas, se a aproveitasse, jamais teria coragem de lutar contra o consórcio.

Era apenas um filme que êle queria fazer. Fitas de celulóide de muitas centenas de metros de comprimento, com milhares de fotografias impressas e congeladas. Mas, quando se projetavam essas fotografias numa tela, elas adquiriam vida. Mostravam pessoas e lugares reais e significavam alguma coisa. As pessoas riam ou choravam com elas. Eram tão capazes de despertar emoções como o teatro, a literatura, a música ou qualquer outra forma de arte. E a arte para ter valor tinha de ser livre, do mesmo modo que um homem tinha de ser livre para viver como queria.

Esther lhe havia dito: ”Faça o que acha que deve. Pouco me importa não ter mais um apartamento em Riverside Drive...”

As palavras chegaram-lhe aos lábios. Sabia exatamente o que queria dizer a Segale, mas o que disse foi coisa inteiramente diferente.

— Sr. Segale, a Magnum não entrará em qualquer acordo que lhe dite qual o tipo de filmes que poderá fazer. Pouco me importa não ter mais um apartamento em Riverside Drive.

Deu-lhe as costas e saiu, seguido de Johnny.

Logo que eles saíram, Segale coçou a cabeça e ficou pensando que relação poderia ter com o cinema um apartamento em Riverside Drive.

A luz do sol era tão forte quando saíram do edifício do consórcio que chegava a doer nos olhos.

— Vamos beber alguma coisa, — disse Johnny, vendo como Peter estava pálido e carrancudo.

Peter abanou a cabeça.

— Não, — disse éle com voz trêmula. — Acho que vou para casa deitar-me um pouco. Não me estou sentindo bem.

Johnny compreendia que êle é que fora o culpado daquilo por que Peter estava passando.

— Desculpe, Peter, — murmurou êle. — Nunca pensei...

— Não peça dpesculpas, Johnny. Sou tão culpado quando você. Eu quis fazer o filme.

Colocou o charuto na boca e viu que estava apagado. Riscou um fósforo com os dedos trêmulos e procurou acendê-lo. Mas a mão lhe tremia tanto que não conseguiu. Afinal, aborrecido, jogou o charuto fora.

Ficaram ali parados, cada qual entregue aos próprios pensamentos. Para Peter, aquilo parecia o fim de todos os seus planos. Teria de procurar alguma coisa para fazer. Já começava a sentir remorsos da atitude que tomara no escritório de Segale. Deveria ter concordado com a oferta de Segale, deixando para os outros a tarefa de enfrentar o consórcio, outros que tivessem mais dinheiro e estivessem em melhor posição. Êle não sabia mais o que fazer. Sentia-se aniquilado. Talvez, quando chegasse em casa e falasse com Esther, as coisas melhorassem.

Johnny já estava pensando em fazer o filme em outro lugar. Devia haver algum estúdio que pudessem arrendar para fazer o filme. O consórcio não podia ser a única organização em Nova Iorque possuidora de um estúdio suficiente para a produção de O Bandido. Teria de procurar. Talvez Borden pudesse cederlhes algum espaço no seu estúdio. Êle fazia seriados e, apertando um pouco, poderia dar um lugar para fazer-se O Bandido, Afinal de contas, Borden tinha 2 500 dólares no filme e não havia de querer perdê-los.

— Vou pegar um táxi para você, — disse Johnny, indo para o meio-fio.

Dentro em pouco, chamou um táxi que passava. Ajudou Peter a embarcar e disse, despedindo-se dele:

— Não se preocupe. Daremos um jeito de derrotar os patifes. Peter limitou-se a sorrir, batendo com a cabeça. Não queria falar, pois tinha receio de desatar a chorar. Johnny ficou olhando o táxi até vê-lo dobrar a esquina.

Joe estava sentado à mesa lendo um jornal quando Johnny chegou. Levantou-se, cheio de interesse mas, quando viu a cara de Johnny, deixou-se cair de novo na cadeira e perguntou:

— Nada feito?

— Nada.

— Como foi?

— O consórcio sabia de tudo. Parece que há gente incapaz de guardar um segredo.

Joe murmurou com o rosto franzido:

— Isso não podia deixar de acontecer...

— Não, replicou Johnny, agitadamente. — Não precisava ter acontecido. Poderíamos ter conseguido tudo sem dificuldade!

— Calma, rapaz. Não adianta nada ficar assim nervoso. Uma coisa eu sei: não fui eu quem falou.

— Desculpe, Joe. Sei muito bem que não foi você. Mas você tinha razão. Eu não devia ter metido Peter nisso. Se eu tivesse ficado calado, ainda estaríamos em atividade.

— E não estamos mais? Chegou a esse ponto?

— Chegou, — disse Johnny, sombriamente. — Cancelaram a nossa licença.

— Agora, preciso é de beber, — disse Joe.

— Onde é que está a garrafa?

Joe abriu uma gaveta de baixo da mesa e tirou uma garrafa e dois copos. Serviram-se e começaram a beber em silêncio. Quando já estavam no terceiro copo, foi que Joe falou.

— Que é que vamos fazer agora?

— Isso é que eu não sei, — murmurou tristemente Johnny — Laemmle está em Cuba fazendo um filme com a Pickford, mas nós não temos dinheiro para fazer a mesma coisa. Temos de descobrir um meio de fazer o filme aqui mesmo. Não podemos ficar de braços cruzados. Vamos lutar até ao fim!

Joe olhou-o com uma admiração que não se disfarçava.

— Agora é que compreendo Santos, que me disse que você era um carrapato. Nunca desiste, não é?

— Só lhe digo uma coisa: vamos fazer esse filme! Pegou o telefone e pediu à telefonista o número de Borden.

Foi o próprio Borden que atendeu.

— É Johnny quem fala, Bill.

Houve uma leve hesitação na voz de Borden antes que êle respondesse.

— Oh... Alô, Johnny.

— Estivemos no consórcio, Bill, e nada conseguimos. Por

que não nos cede um pouco de espaço no seu estúdio?

A voz de Borden pareceu ligeiramente embaraçada.

— Ora, Johnny... Já estamos um bocado apertados aqui.

— E eu não sei disso? Mas acho que, se apertar mais um „ pouco, pode-se dar um jeito. Você bem sabe que agora não podemos recuar.

— Eu bem que gostaria de ajudá-los, Johnny, — disse Borden, com voz bem arrastada, — mas não posso.

— Não pode como? — exclamou Johnny, irritadamente. — Tudo esta certo para você quando Peter resolveu fazer o filme. Sabia que êle estava lutando por todos vocês.

— Sinto muito, Johnny. Pode crer... Johnny teve de repente uma idéia.

— Alguém do consórcio falou com você?

Houve alguns segundos de silêncio até Borden responder:

— Falou.

— Que foi que lhe disseram?

— Vocês estão na lista negra. Bem sabe o que isso quer dizer.

Johnny sentiu um frio no estômago. Sabia o que isso queria dizer. Daí por diante, nenhum produtor independente poderia ter qualquer espécie de relações com a Magnum, sob pena de perder as próprias licenças.

— E você vai obedecer?

— Não tenho outro jeito. Acha que podemos todos deixar de trabalhar?

— E Peter pode?

— Mas, se todos perdermos as licenças, isso não lhe servirá de nada.

- Como é então que vamos ajudá-lo, Borden?

— Não sei... Vou pensar nisso e amanhã darei um telefonema para você.

— Está bem, — disse Johnny, desligando. Em seguida, voltou-se para Joe: — O consórcio já entrou em ação. Estamos na lista negra.

Joe levantou-se e tomou o caminho da porta.

— Aonde é que vai? — perguntou Johnny.

— Vou comprar um jornal e ler a seção de anúncios para ver se acho algum emprego.

— Sente-se e deixe de conversas bobas. Já chegam as atrapalhações que temos.

— Torno a lhe perguntar: que é que vamos fazer agora?

— Ainda não sei, Joe, mas deve haver um jeito de sairmos dessa encrenca. Meti Peter nisso e eu mesmo é que tenho de livrá-lo.

— Muito bem, rapaz. Conte comigo. Estarei ao seu lado para tudo o que fôr necessário.

— Obrigado, Joe, — disse Johnny, com um sorriso.

— Não tem nada que me agradecer. Tenho ou não tenho dois mil e quinhentos dólares metidos nisso?

Já era tarde da noite quando êle telefonou para a casa de Peter.

— Quem fala é Johnny, Esther. Como está Peter?

— Está deitado, queixando-se de uma forte dor de cabeça, — disse ela, com voz calma.

— Está bem assim, Esther. Não fale sobre negócios com êle. Deixe-o descansar bem.

— As coisas vão mal, hem, Johnny?

— Bem é que não vão. Mas não se preocupe. Amanhã, começarão a melhorar.

— Não estou preocupada, Johnny. Meu pai sempre dizia que ”o que tem de ser, traz força”. De fome não morreremos.

— Ótimo! Faça Peter sentir-se da mesma forma e acabaremos vencendo!

— Deixe Peter comigo. Mas, Johnny...

— Que é?

— Você é que não deve estar preocupado. A culpa não foi sua e nós todos gostamos tanto de você que não queremos que você sofra com isso.

Johny sentiu as lágrimas chegarem-lhe aos olhos.

— Está bom, Esther. Muito obrigado.

Desligou o telefone e voltou-se para Joe, com os olhos molhados:

— Que é que se vai fazer com gente assim?

O verão já ia em meio e eles ainda não haviam encontrado um lugar onde pudessem rodar o filme. Johnny havia recorrido sem resultado a todos os produtores independentes da indústria.

Todos afirmavam a sua simpatia. Estavam de acordo com Johnny em que a única maneira de vencer o consórcio era agir como a Magnum estava agindo, mas aí paravam. O máximo que Johnny conseguia era simpatia. Era em vão que êle argumentava que a Magnum estava lutando por todos eles. Se a Magnum vencesse, todos eles seriam beneficiados. Achavam que êle estava dizendo a pura verdade, mas nenhum deles queria arriscar-se a perder a sua licença.

No fim de agosto, tinham chegado ao fim da corda. O dinheiro estava quase no fim. Peter perdera a barriga. Esther havia dispensado a empregada em julho e Peter começava a olhar invejosamente as lojas de ferragens pelas quais passava.

Joe passava a maior parte do tempo no estúdio jogando intermináveis paciências. Nem êle, nem Johnny haviam recebido um centavo de ordenado desde que a licença da Magnum fora cancelada, mas continuavam firmes. Para economizar o dinheiro, faziam todos as refeições em casa de Peter. A comida era simples mas satisfatória e Esther não se queixava do trabalho.

Joe às vezes fazia algum trabalho extra com um independente e entregava o dinheiro que recebia à caixa comum. Mas era Johnny de todos o que estava mais mudado.

Quase não sorria mais. Era magro quando tudo aquilo havia começado. Tinha ficado seco e animado por um nervosismo intenso que lhe encovava as faces e lhe acendia chamas nos olhos. Passava as noites em claro, olhando para o teto. Sabia que era o culpado de tudo. Se não tivesse insistido tanto, nada teria acontecido.

Fazer aquele filme passou a ser para êle a única coisa deste mundo. Sabia que, se conseguisse fazer o filme, a batalha estaria ganha. Levantava-se todas as manhãs com a convicção de que seria aquele o dia em que poderia convencer um dos independentes a ceder-lhe o estúdio. Mas, à medida que o tempo passava, os produtores começaram a cansar-se da sua insistência.

Davam ordem para que não o deixassem entrar e, quando êle o conseguia apesar disso, inventavam mil pretextos para desembaraçarem-se dele.

Quando Johnny percebeu isso e viu que o estavam evitando, ficou indignado. ”Canalhas!” pensava êle. ”São todos heróis quando podem aproveitar-se da gente, mas basta pedir-se um pouquinho de ajuda para que não queiram nem falar conosco!”

O advogado da companhia havia trabalhado no foro todo o verão, tentando conseguir um mandado que impedisse o consórcio de incluir a Magnum na sua lista negra. Um dia, afinal, êle procurou Peter e disse que nada mais poderia fazer. O contrato íôra redigido com muita habilidade e a posição do consórcio era tal que se tornava legalmente inabalável. Além disso, queria dinheiro em vez de promessas.

Peter pagou-lhe sem uma queixa e a luta continuou. Mas, já estavam no fim de agosto e o dia em que teriam de reconhecer a derrota se aproximava rapidamente.

Peter, Johnny e Joe estavam um dia sentados no escritório quando Warren Craig chegou com Sam Sharpe.

Johnny levantou-se e estendeu-lhe a mão.

— Alô, Warren.

Craig não lhe deu atenção e foi até onde estava Peter.

— Sr. Kessler...

Peter levantou para êle os olhos cansados. Não dormira bem naquela noite e estava tentando calcular até onde poderiam ir com o dinheiro que lhes restava. Não era muito tempo.

— Às suas ordens, Sr. Craig.

— Sr. Kessler, — disse Craig solenemente, — teremos de marcar uma data definitiva para o início da filmagem agora mesmo. Do contrário, considerar-me-ei desligado de qualquer compromisso.

— Que é que lhe posso dizer, Sr. Craig? Gostaria de marcar-lhe uma data definitiva para o início da filmagem, mas ainda não sei quando isso será possível.

— Neste caso, o nosso compromisso está desfeito.

— Tenha um pouco mais de calma, Warren, — disse Sam Sharpe. — Afinal de contas, a culpa não é deles. Talvez...

— Talvez nada, Sam, — atalhou Craig rispidamente. — Em primeiro lugar, foi você que me fêz entrar nisso contra a minha vontade.

Quando assinamos o contrato, dizia-se nele que a filmagem terminaria em meados de julho. Já estamos quase em setembro e nada. Dentro em pouco, começará uma nova temporada na Broadway. Se você fosse o agente que deve ser, eu já estaria incluído no elenco de uma nova peça em vez de esperar que esse sonho de loucos chegue a concretizar-se.

— Espere um pouco! — exclamou Johnny, colocando-se belicosamente à frente de Craig. — Tem recebido pelo tempo que tem ficado parado, não tem?

— Não posso dizer que não, — respondeu Craig.

— Dois mil dólares por mês todos os meses em junho, julho e agosto, certo?

— Certo, mas...

— Que diabo então! — exclamou Johnny. — Combinamos pagar-lhe dois mil dólares pelo filme. Quando chegamos à conclusão de que não poderíamos iniciar o filme na data marcada, você mesmo concordou em receber dois mil dólares por mês até que o filme fosse concluído. Agora que o verão está acabando e o tempo em que não iria trabalhar de qualquer maneira vai chegando ao fim, quer fugir?

— Não estou fugindo, — respondeu Craig sem muita segurança. — Mas tenho de pensar na minha carreira. Um ator é esquecido na Broadway com muita facilidade quando deixa de aparecer numa peça nova.

— Você tem um contrato assinado conosco para fazer um filme e pode ter certeza de que vai cumpri-lo!

— Johnny! — exclamou Peter. Johnny voltou-se para êle.

— Que é que adianta, Johnny? Se êle quiser desistir, deixe. De qualquer modo, não podemos fazer mais nada.

— Mas nós já pagamos a êle seis mil dólares!

— Poderíamos pagar mais cem mil, se tivésemos esse dinheiro, e não estaríamos mais perto de fazer o filme do que estamos agora. Está bem, Sr. Craig. Concordo com a sua desistência.

Craig começou a dizer alguma coisa, mas mudou de idéia. Encaminhou-se para a porta, dizendo a Sharpe:

— Vamos, Sam.

Sam não o acompanhou logo e disse:

— Desculpe, Johnny. A idéia não foi minha e eu fiz tudo para dissuadi-lo.

Johnny bateu com a cabeça.

— Amanhã de manhã, vou mandar as minhas comissões e a gratificação que me pagou, Johnny.

— Nada disso, Sam! — replicou Johnny vivamente. — Você fêz jus ao dinheiro que ganhou. E não teve culpa do resto.

— O nosso acordo dependia de Craig fazer o filme, — disse Sharpe. — Êle não vai fazer o filme. Não recebo dinheiro por deixar de cumprir a minha parte de um contrato.

Johnny olhou-o com admiração. Afinal, havia um homem com dignidade e correção.

— Está muito bem, Sam, — disse êle, estendendo-lhe a mão. Depois que êle saiu, Peter sentou-se à sua mesa. Pegou um

lápis e brincou com êle durante algum tempo. Depois, apanhou uma ponta de charuto e acendeu-a. Virou-se então para Johnny e Joe.

— Bem, parece que é o fim.

— Nada disso! — replicou Johnny. — Há outros atores tão bons quanto êle.

— E acha que algum deles vai querer arriscar-se conosco, depois do que aconteceu com Craig? — perguntou Peter. — Ainda que tivéssemos o dinheiro, que é coisa que não temos?

A lógica era irrefutável e Johnny não teve o que dizer.

— Temos de encarar a realidade, — continuou Peter. — Estamos derrotados. Não diga que não, Johnny, porque você também sabe disso. Tentamos tudo e não deu resultado. Vamos fechar as portas.

Joe largou para um lado as cartas com que fazia a paciência e levantou-se, furioso. Johnny quis falar, mas não pôde. Tinha um nó na garganta.

Peter levantou-se e disse cansadamente:

— Não sei como poderei pagar o que lhes devo.

— A mim você não deve nada, — disse Johnny, conseguido afinal falar.

— Nem a mim, — murmurou Joe.

Peter olhou-os durante alguns segundos. Havia uma névoa nos seus olhos. Foi até onde estava Joe, apertou-lhe a mão em silêncio e voltou-se para Johnny.

Johnny estendeu a mão, que estava estranhamente trêmula. Peter apertou-a com força. Depois, abraçou Johnny. E as lágrimas já então lhe rolavam pelo rosto.

— Johnny, meu amigo Johnny, não pense que tenha sido culpado de coisa alguma. Você lutou mais do que qualquer de nós.

— Desculpe, Peter. Desculpe.

— Não desista, Johnny. Este é que é o seu caminho. Você nasceu para o cinema. Mas êle não serve para velhos como eu. Você ainda fará grandes coisas.

— Faremos grandes coisas juntos, Peter!

— Eu, não. Para mim, chega. Bem, acho que vou para casa.

Peter se dirigiu a passos lentos para a porta. Depois que a abriu, voltou-se para eles e tentou sorrir. Correu os olhos pelo escritório, féz um gesto de resignação com as mãos e saiu.

Durante alguns segundos, houve silêncio na sala. Joe foi o primeiro a falar.

— Acho que vou sair e tomar uma bebedeira!

— Foi a primeira idéia sensata que tivemos neste verão! — exclamou Johnny.

O homem do bar olhou-os de cara fechada. Segurava os dois copos perto dele no balcão.

— São 70 centavos, cavalheiros.

A voz agradável desmentia-lhe a aparência e a maneira pela qual segurava os copos indicava a firmeza com que estava disposto a enfrentar a situação.

Johnny olhou para Joe, sem saber se era êle que estava balançando ou Joe.

— O homem quer dinheiro, — disse êle. Joe exclamou solenemente:

— Estou vendo. Pode pagar.

-- Está bem.

Johnny meteu a mão no bolso e tirou algumas moedas. Deixou-as cair no balcão e contou.

— Sessenta e cinco, setenta, — disse êle, exultante. — Dê-nos as bebidas.

O homem do bar olhou para as moedas e empurrou os copos para eles. Pegou o dinheiro e guardou-a na caixa registradora.

Antes que o barulho da máquina houvesse terminado, Joe estava de novo batendo no balcão.

— Mais dois!

— O dinheiro na frente! — disse o homem do bar. Joe olhou-o, indignado.

— Escute aqui, meu velho. Fiz que não tinha ouvido quando você falou com meu amigo nesse tom. Mas comigo a coisa é muito diferente. Sou um freguês desta espelunca, está ouvindo? Não sou um bebedor esporádico como êle, mas um homem que vem aqui todos os dias. Portanto, quando eu peço bebida, tenho de ter bebida, certo?

O homem do bar fêz um sinal para um homem que estava nos fundos. Êle chegou perto dos dois e pegou cada um pelo braço.

— Vamos embora, rapazes, — disse êle, calmamente.

— Tire as mãos de cima de mim, — disse Joe, desvencilhando-se dele.

O homem não lhe deu atenção. Empurrou Johnny com as duas mãos para a porta e voltou-se para Joe, arregaçando as mangas.

— Vai sair ou não vai?

— Claro que vou, — disse Joe desdenhosamente. — Acha que vou querer ficar mais um minuto num lugar onde tratam os fregueses tão mal?

Chegando à porta, virou-se e fêz um gesto grosseiro para o homem. Este fêz menção de correr atrás dele. Joe saiu às pressas da porta, não viu a batente e se estendeu a fio comprido no passeio.

Johnny ajudou-o a levantar-se.

— Como foi, companheiro? Botaram você para fora?

Joe apoiou-se nele e disse na sua voz engrolada de bêbado:

— Claro que não. Eles têm juízo e não iam ter a audácia de botar Joe Turner para fora. Tropecei no batente, foi só.

ficaram encostados à parede.

— Para onde é que vamos agora? — perguntou Johnny.

— Que horas são?

Johnny tirou o relógio do bolso e procurou enxergar, apertando muito os olhos.

— Meia-noite! — exclamou êle, passando o braço pelo pescoço do amigo. — Já é meia-noite, Joe!

— Chegue para lá, — disse Joe, empurrando-o. — Você está que é uísque puro.

Johnny se afastou, ofendido.

— Está bem, Joe, mas eu sou seu amigo.

— Ainda tem dinheiro? — perguntou Joe.

Johnny remexeu os bolsos, um por um. Afinal, encontrou uma amarfanhada nota de um dólar.

Joe tomou-a e disse:

— Vamos pegar um táxi. Conheço um bar onde talvez nos fiem alguma coisa.

Johnny estava com a cabeça caída em cima da mesa, achando agradável a sensação do mármore frio no rosto. Alguém estava querendo fazê-lo levantar-se, mas êle não queria sair dali. Empurrou as mãos e murmurou:

— Sou eu o culpado, Peter. Só eu... só eu...

Joe olhou-o e voltou-se para o homem que estava de pé ao lado dele.

— Êle está bêbado que não se agüenta, Al.

— E você não está? — perguntou Al Santos.

— Êle está mais do que eu.

— É porque êle não tem o treino de beber que você tem, — replicou Al. — Depois, você é bem mais velho do que êle. Êle ainda é um garoto.

— Garoto... Já tem vinte e dois anos.

— Para mim, podia ter cinqüenta e ainda seria um garoto, — disse Santos que, em seguida, voltou a sacudir Johnny. — Vamos, Johnny, levante-se! Sou eu, Al! Passei a noite toda à sua procura!

— Johnny limitou-se a virar a cabeça para o outro lado a murmurar:

— Desculpe, Peter. Eu tive a culpa de tudo...

— Que história é essa de êle dizer que é culpado? — perguntou Santos a Joe. — Culpado de quê?

Joe já estava começando a melhorar da bebedeira e respondeu:

— Pobre Johnny! Êle estava querendo fazer um filme, mas a coisa não deu certo. Perdemos todo o nosso dinheiro e Johnny acha que o culpado foi êle.

— E foi?

— Não, não foi. É verdade que a idéia foi dele, mas era uma boa idéia e ninguém nos obrigou a aceitá-la. Tínhamos idade bastante para saber o que estávamos fazendo.

— Venha contar-me tudo, — disse Al, levando Joe para outra mesa, onde pediu ao garçom uma garrafa de vinho.

Escutou sem comentários o que Joe lhe dizia. De vez em quando, voltava a cabeça para onde Johnny estava dormindo e sorria com amizade.

Johnny Edge. Ainda se lembrava da primeira vez em que ouvira esse nome. Um carroção havia chegado ao seu parque de diversões tarde da noite. Tinha sido em 1898, treze anos antes. Muito tempo, mas parecia que tinha sido ontem. Os anos corriam bem depressa.

Fora no ano em que êle e seu irmão Luigi haviam comprado aquela fazenda na Califórnia. Luigi queria ver as coisas crescerem da terra, queria plantar uvas para fazer vinho e ver as laranjas penduradas das árvores como na velha terra e queria ter um lugar para descansar quando deixasse os negócios. E ali estava êle, Al, com cinqüenta e quatro anos, que abandonara todos os negócios e ia para a fazenda na Califórnia.

Naquele dia, em 1898, êle acordara bem cedo. A manhã ainda estava enevoada quando êle saiu do carroção. De repente, sentiu que alguém o estava observando e virou-se.

Era um garotinho, que não devia ter mais de nove ou dez anos. Al olhou-o, espantado. Não havia meninos daquela idade no parque.

— Quem é você? — perguntou êle.

— Johnny Edge, — respondeu o menino, fitando-o com os seus cândidos olhos azuis. — Estou com minha mãe e meu pai. Entraram para o parque ontem à noite.

— Já sei, — disse Al. — Você está com o Dr. Psalter, não é?

— É meu pai, mas não é esse o nome de verdade dele. Chama-se Walter Edge e minha mãe é Jane Edge. O carroção deles é aquele ali.

— Vamos então até lá para dar bom-dia. O menino olhou-o muito sério e perguntou:

— Você é Al Santos, não?

Al disse que sim e se dirigiu para o carroção dos Edge. De repente, parou e olhou. O garotinho tinha-lhe dado a mão.

Recordou então a noite em que os pais de Johnny haviam morrido no incêndio que destruíra a barraca central. Jane tinha sido atingida pelo poste do centro da barraca e o pai de Johnny correra para ir buscá-la. Quando o tiraram de lá, êle estava terrivelmente queimado.

Levaram-no para fora e estenderam-no no chão. Al ficou de um lado e Johnny, do outro.

O pai, de Johnny olhou para eles.

— Jane? — perguntou êle com uma voz tão débil que mal se podia ouvir.

Al sacudiu a cabeça e olhou cheio de pena para Johnny. Tinha apenas dez anos e estava atordoado como se não pudesse compreender como aquilo acontecera tão depressa.

Walter Edge pegou a mão do filho e colocou-a na mão de Al.

— Olhe por êle, Al. É ainda um garotinho e tem muito que viver. Quando êle quiser abandonar essa vida do parque, ajude-o, Al. Não deixe que aconteça a êle o mesmo que me aconteceu.

Fora por isso que Al não procurara impedir Johnny quando êle manifestara a intenção de sair do parque.

Al nunca tivera tempo de casar-se e constituir família como seu irmão Luigi e, ao fim de algum tempo, Johnny passou a ser quase um filho para êle. Quando Johnny resolvera voltar para trabalhar com Peter, Al nada havia dito. Se era isso o que o rapaz queria, era isso também o que Al queria para êle.

Depois de resolver afastar-se dos negócios, quisera ver Johnny antes de ir para o Oeste. Tinha ido ao estúdio, mas não havia ninguém ali. Telefonou para Peter, mas êle não sabia onde Johnny estava. Telefonara ainda para a casa de Johnny, mas ninguém havia atendido.

E então, por simples acaso, havia-o encontrado naquele bai da Rua 14, que, segundo sabia, Joe costumava freqüentar, na esperança de que Joe soubesse por onde andava Johnny.

Joe acabou de contar o caso do filme fracassado. Al ficou em silêncio alguns segundos. Depois, tirou do bolso um charuto preto, comprido e fino, e acendeu-o.

— Que é esse consórcio de que você tanto fala?

— É um grupo que controla todas as patentes relativas ao cinema, — disse Joe. — Para alguém fazer um filme, é preciso que o grupo dê licença.

— E vocês têm todo o material que é preciso para fazer esse filme?

— Está tudo pronto lá no estúdio.

Al rodou o charuto nos dedos durante alguns segundos e, por fim, disse:

— Vá acordar Johnny. Quero conversar com êle.

Joe levantou-se e foi até o bar. Sentia uns leves arrepios na pele, o que sempre acontecia quando alguma coisa importante estava para lhe acontecer.

— Quer-me dar um jarro de água gelada? — perguntou êle ao homem do bar.

O homem encheu o jarro em silêncio. Joe foi para onde estava Johnny, suspendeu o jarro acima da cabeça dele e despejou-o.

A água escorreu pela cabeça de Johnny e molhou-lhe as roupas. Mas Johnny estremeceu apenas, continuando a dormir. Joe voltou ao bar.

— Encha de novo.

Joe voltou para junto de Johnny e repetiu o tratamento. Dessa vez, Johnny acordou num sobressalto. Ergueu o corpo na cadeira, sacudiu a cabeça e olhou para Joe, através dos olhos nublados.

— Está chovendo, — murmurou.

Joe olhou-o e voltou para o homem do bar.

— Acho que mais um jarro completará o serviço.

Johnny tentou focalizar a vista quando Joe se aproximou dele, mas teve dificuldade. Que era aquilo que Joe tinha na mão?

A água atingiu-o como uma inundação. Estava muito fria e enregelou-o até aos ossos. Mas a cabeça se desanuviou de repente. Levantou-se, e sentiu que as pernas ainda estavam pouco firmes.

— Que é que você está fazendo? — perguntou a Joe, batendo os dentes.

— Estou tentando curá-lo da bebedeira, — disse Joe, rindo. — Temos uma visita.

 

Peter não podia dormir. Passou a noite a virar-se na cama de um lado para outro e os lençóis ficaram molhados de suor. Esther estava deitada e em silêncio, observando-o e triste com o sofrimento do marido.

E pensava: ”Se eu pudesse dizer-lhe alguma coisa que o fizesse compreender que nada disso tem importância. O importante é o esforço que êle fêz e não o insucesso. Mas já não sei o que possa dizer”.

Peter estava com os olhos abertos e voltados para o teto. Sabia que Esther estava acordada e queria que ela dormisse. As crianças davam-lhe muito trabalho o dia todo e ela não podia passar uma noite em claro. Virou-se para o lado e tentou fingir que estava dormindo.

”Se eu aceitasse a oferta de Segale, tudo estaria bem agora”, pensava êle pela milésima vez. ”Johnny nada teria dito porque sabia que eu não podia agir de outra forma. Johnny não teve culpa nenhuma. Eu queria mesmo fazer o filme, não foi êle que me forçou. O culpado fui eu. Agi erradamente no escritório de Segale”. Teve vontade de fumar um charuto, mas lembrou-se de que queria que Esther julgasse que êle estava dormindo e ficou quieto.

A noite foi correndo sem que nenhum dos dois dormisse. Cada qual ficava tão imóvel quanto possível, para que o outro pudesse descansar um pouco, mas nenhum deles conseguia enganar o outro.

Afinal, Peter não pôde mais ficar, deitado. Sentou-se aos poucos na cama, prestando atenção a Esther e com cuidado para ver se não a acordava. Ela não se mexia. Peter calçou os chinelos ao lado da cama e levantou-se. Dirigiu-se na ponta dos pés para a cozinha. Fechou cuidadosamente a porta para que a luz acesa na cozinha não a fosse acordar.

Logo que acendeu a luz, ficou um pouco ofuscado. Depois, foi até à mesa, pegou um charuto e acendeu-o. Nesse momento, ouviu a porta abrir-se. Era Esther.

— Vim fazer um café para você.

Êle bateu com a cabeça e viu-a ir para o fogão, acender o gás e colocar nele a chaleira com água. Depois, foi sentar-se na mesa, perto dele. Os cabelos dela estavam soltos e lhe caíam pelos ombros em ondas abundantes. Peter teve vontade de tocar naqueles cabelos tão vivos e quentes, mas nada fêz. Continuou a íumar em silêncio.

— Quando meu pai tinha os seus problemas, — disse ela, — ia sempre para a cozinha, tomava uma xícara de café e fumava um charuto. Dizia que isso lhe arejava a cabeça e ajudava-o a pensar. É curioso que você faça a mesma coisa.

— A minha cabeça não é tão boa quanto a de seu pai, Esther. Cometo muitos erros.

— Meu pai costumava contar-me uma história que era mais ou menos assim: Era uma vez um velho muito atilado a quem todos na aldeia chamavam o Sábio Jacó. De toda a redondeza, vinha gente para sentar-se aos pés de Jacó e ouvir as coisas acertadas que êle dizia e guardá-las como se fossem pérolas. Um dia, apareceu ali um jovem impetuoso que queria aprender do mestre tudo o que êle sabia, mas de uma só vez. Não tinha tempo de sentar-se aos pés de Jacó semanas e semanas, como os outros faziam. Tinha de aprender tudo de uma vez, para depois ir tratar da sua vida. ”Tive notícia da sua sabedoria”, disse êle, ”e gostaria de que me dissesse tudo o que é preciso saber para evitar os erros e as loucuras da mocidade”. O Sábio olhou durante muito tempo para o jovem ávido. Afinal, falou e disse mansamente: ”A única maneira certa de evitar os erros da mocidade, meu jovem, é chegar à velhice amadurecida”. O moço pensou no que o Sábio havia dito e despediu-se, agradecendo a resposta que lhe fora dada. De fato, o Sábio havia dito a verdade.

Um erro só é reconhecido como erro depois de praticado. Um erro reconhecida antes de praticado não seria cometido e não chegaria a ser erro”.

Peter tomou-lhe ternamente a mão e disse em iídiche:

— Teu nome não te foi dado em vão. Tens a mesma sabedoria da Rainha de quem levas o nome.

A chaleira estava fervendo e ela correu para o fogão e apagou o gás.

— Que é que adianta a sabedoria da Rainha Esther numa mulher que não saiba fazer para o marido uma boa xícara de café?

Riram ambos e Peter começou de repente a sentir-se melhor. Levantou-se e apagou o charuto, sorrindo para ela.

— Vamos voltar para o quarto, Esther. As preocupações podem ficar para amanhã.

— E o café? — perguntou ela.

— Nada de café. Isso pode ficar para amanhã também. Estavam dormindo quando o telefone começou a tocar. Esther

acordou, amedrontada. Para ela, um telefonema à noite só podia significar alguma tragédia. O coração lhe batia apressadamente. Peter pegou o telefone e atendeu. Ouviu a voz nervosa de Johnny.

— Já está acordado, Peter?

— Com quem pensa você que estaria falando se eu estivesse dormindo?

— Tudo está resolvido, Peter! Já podemos fazer o filme

— Você está é bêbado, Johnny. Vá para casa e meta-se na cama.

— Eu estava bêbado, Peter, mas agora estou no meu juízo perfeito. Palavra de honra! Tudo está resolvido. Já podemos fazer o filme!

— É verdade mesmo? — perguntou Peter nervosamente, ainda sem poder acreditar.

— Você acha então que eu lhe iria telefonar às quatro horas da madrugada se não fosse verdade? Agora, vá dormir de novo

e esteja no estúdio às oito horas da manhã que eu lhe explicarei tudo!

Johnny desligou e Peter ficou a bater inutilmente no gancho:

— Johnny! Johnny!

Peter largou o telefone e voltou-se para Esther, com os olhos cheios de lágrimas.

— Está vendo? Sabe o que aquele rapaz maluco me disse? Que vamos mesmo fazer o filme!

— Ótimo! — disse Esther, exultante.

— Não é mesmo? — disse êle, abraçando-a e beijando-a, com os olhos cheios de lágrimas.

— Deixe disso, Peter! — disse ela, feliz. — Quer que os vizinhos pensem que somos recém-casados?

 

Johnny estava sentada à sua mesa conversando com um homem baixo e moreno quando Peter entrou no estúdio às oito menos um quarto. Peter não conhecia o homem. Johnny estava mostrando alguns papéis ao desconhecido quando viu Peter.

Levantou-se e correu para êle, seguido pelo homem. Johnny disse a Peter, sorrindo:

— Este é Al Santos.

Os dois homens se apertaram as mãos. Peter viu um homem muito baixo e moreno, com um fino charuto preto seguro firmemente entre os dentes brancos.

— Al vai deixar-nos fazer o filme na propriedade dele, — explicou Johnny.

Peter sorriu.

— Prazer em conhecê-lo, Sr. Santos. Al tirou o charuto da boca e disse:

— Meu nome é Al. Ninguém me chama de Sr. Santos.

O sorriso de Peter aumentou. Era com gente daquela espécie que êle se sentia mais à vontade — gente simples, comum, despretensiosa.

— Muito bem, Al. Não sabe quanto aprecio você deixar-nos fazer o filme no seu estúdio.

— Quem foi que disse que êle tem um estúdio? — perguntou Johnny.

— Não tem? — exclamou Peter, tão surpreso que quase deixou cair o fósforo com que ia acender um charuto.

— Não.

— Então onde é que vamos fazer o filme?

— Na propriedade dele. Tem o espaço de que precisamos. Ainda no inverno passado, Griffith fêz um filme lá por perto e disse que o lugar é ideal para fazer cinema.

— Mas o filme de Griffith foi feito na Califórnia. Não temos dinheiro para ir para lá.

— Temos agora. Al vai-nos emprestar. Peter voltou-se para Al, muito sério e disse:

— Aprecio muito a sua bondade, Al, mas é preciso você saber que não temos nenhuma garantia para dar-lhe.

Al observou o homem que estava diante dele. Johnny e Joe lhe haviam contado a situação difícil em que Peter estava e êle compreendia que esforço era necessário para que Peter dissesse o que acabava de dizer. Johnny tinha razão. Aquele Kessler era um sujeito direito. Sorriu e disse:

— Tenho todas as garantias de que preciso, Peter. Conheço

Johnny há muitos anos, desde que êle era garotinho. Duas vezes êle já me deixou para ir trabalhar com você. Johnny só faria isso por quem valesse a pena. E pelo que acaba de dizer, tenho certeza disso.

— É você o dono do parque de diversões? — perguntou Peter, começando a compreender.

— Eu era o dono de um parque. Agora, vendi tudo e não estou trabalhando mais. Olhe, Johnny, resolva tudo com Peter que eu vou para o hotel ver se durmo um pouco. Não tenho mais a idade de vocês.

De fato, passara o resto da noite conversando com Johnny e o seu rosto mostrava as marcas do cansaço.

— Está bem, Al, — disse Johnny. — Vamos combinar tudo e depois lhe telefonaremos.

Al apertou a mão de Peter.

— Muito prazer em conhecê-lo, Peter. Não se preocupe que tudo vai dar certo.

— Graças a você, — disse Peter. — Não sei o que faríamos se... Al não o deixou acabar.

— Não me agradeça nada, Peter. Passei muito tempo no negócio de diversões. Para dizer a verdade, não queria ainda aposentar-me, mas meu irmão Luigi ficou dizendo: ”Você já tem dinheiro de sobra. Pare de trabalhar e venha para cá a fim de gozar a vida. Fazemos um bom vinho igualzinho ao da Itália, temos laranjas e gente como em nossa terra. Venha viver aqui.” Pensei, pensei e achei que êle tinha razão. Não me adiantava continuar a trabalhar como um burro e resolvi seguir o conselho de Luigi. Mas estou achando agora que um homem precisa sempre de ter alguma coisa para fazer, em que tenha interesse e o conserve ocupado. Ora, eu conheço o negócio de diversões. Andando com o meu parque pelo país, tenho visto como o cinema está crescendo e sei que se trata de um grande negócio. Foi por isso que me decidi.

Peter sorriu. Compreendia tudo o que o homem havia dito, mas vira a maneira pela qual Al olhava para Johnny. Esse olhar dizia mais do que todas as suas palavras. Estas eram apenas a moldura com que Santos disfarçava o ser verdadeiro motivo.

Al sorriu também para êle. Via que Peter compreendia tudo e, sem dizerem uma palavra, os dois homens sentiram-se unidos ainda mais pela amizade que tinham a Johnny. Al saiu afinal.

Os três homens se olharam. Joe correu para onde estava Peter e agarrou-o pelo braço.

— Que sorte!

— Califórnia, — murmurou Peter. — Mas fica a cinco mil quilômetros de distância.

— Cinco ou cinqüenta, que diferença faz? — exclamou Johnny. — Não podemos fazer o filme aqui.

— Mas Esther e as crianças? — Não posso deixá-las aqui!

— E quem foi que disse que vai deixá-las? — perguntou Johnny. — Irão conosco.

— Assim é ótimo, — disse Peter, começando a sorrir. Mas, de repente, o rosto se franziu e êle pareceu profundamente preocupado.

— Que é agora? — perguntou Johnny.

— É que estou pensando no perigo...

— Perigo? Que perigo? —perguntou Johnny.

— Os índios!

Joe olhou para Johnny e ambos começaram a rir. Riram tanto que as lágrimas começaram a correr dos olhos de Joe, que afinal conseguiu murmurar:

— Êle está com medo dos índios!

Peter olhou-os como se estivessem loucos.

— Qual é a graça que estão achando nisso?

E os dois iniciaram outra série de gargalhadas.

Todas as providências foram tomadas para a embalagem imediata das câmaras e do equipamento. Levariam quase uma semana para que tudo ficasse pronto para o embarque.

Ainda naquela tarde, depois que todos estavam mais calmos, Johnny foi ao escritório de Sam Sharpe. Levava o cheque que Sam lhe mandara pelo correio naquele dia. Ia devolvê-lo e insistir em que Craig cumprisse a sua parte do contrato.

Quando entrou no escritório, Jane cumprimentou-o ironicamente:

— O grande vice-presidente em pessoa! Como vai o cinema?

Êle parou diante da mesa dela, com um olhar magoado, e nada disse. Jane pôde então observá-lo bem. Não o via desde a noite em que haviam dado um passeio pelo parque. Ficou espantada quando percebeu como êle emagrecera e estava de rosto abatido. Arrependeu-se da maneira por que o recebera e se lembrou de algumas coisas que Sam lhe havia dito.

Estendeu-lhe impulsivamente a mão e disse:

— Desculpe, Johnny. Não tive a intenção de ofendê-lo.

— Sei disso, Jane. Fui eu o culpado. Eu devia ter sabido.

— A culpa foi tanto minha quanto sua. Acontece apenas que nós queremos coisas diferentes. Agora que sabemos disso, podemos esquecer tudo.

Êle sorriu e ela pensou como o rosto dele ficava iluminado e jovem quando êle sorria.

— Você é formidável, Jane.

— Você também, Johnny. Quer falar com Sam?

— Quero.

— Então vá entrando.

— Entre, johnny, — disse Sam, logo que o viu aparecer à porta. — Entre. Estava mesmo pensando em você.

Johnny apertou-lhe a mão e tirou o cheque do bolso.

— Vim devolver-lhe isto, Sam.

— Espere um pouco, Johnny. Não se lembra do que lhe disse ontem? Não recebo dinheiro por serviços que não prestei.

— Mas vai prestar serviços, Sam. Já temos uma data para a filmagem. Agora, Craig terá de cumprir o contrato, quer queira, quer não.

— Quer dizer que arranjou um lugar para fazer o filme? Pelo que me disse ontem, pensei que seria impossível.

— Isso foi ontem, — disse Johnny, sorrindo. — Mas estamos no negócio de cinema, no qual o dia de ontem não tem o menor valor. Hoje, está tudo resolvido.

— Craig não vai gostar disso. Mas eu estou satisfeitíssimo. Onde é que vão rodar o filme?

— O que lhe vou dizer, Sam, é rigorosamente confidencial. Vamos rodar o filme na Califórnia.

— Na Califórnia! — exclamou Sam, com um largo sorriso. — Agora mesmo é que eu sei que Craig não vai gostar!

— Vamos partir na semana que vem. Tomarei providências para mandar-lhe a passagem dele com bastante antecedência para que êle vá no mesmo trem conosco.

— Êle estará no trem, nem que eu tenha de levá-lo amarrado! — disse Sam, rasgando o cheque.

As únicas pessoas que souberam do que estava acontecendo foram George Pappas e Borden. Não se podia permitir que os fatos transpirassem. Os artistas e a turma técnica foram solicitados a manter absoluto sigilo.

Al Santos havia partido para a Califórnia, prometendo que tudo estaria preparado quando eles chegassem. Esther tomou providências para fechar o apartamento e guardar os móveis até voltarem, ao mesmo tempo que tirava as crianças da escola.

Doris estava entusiasmada. Leu todos os livros sobre a Califórnia que encontrou e passou a ser californiana desde o dia em que lhe disseram que iam para lá.

Dois dias antes da partida, o telefone da mesa de Peter tocou. Johnny veio do estúdio, onde estava ajudando a embalar o resto do equipamento, a fim de atender, pois Peter não estava presente.

Era Borden.

— Peter está aí? — perguntou êle com voz rouca e nervosa.

— Não. Por quê?

— Acabo de saber que o consórcio comprou algumas das dívidas de vocês e vão a juízo hoje para requerer um mandado contra vocês!

— Hoje? — exclamou Johnny. Se o consórcio conseguisse o mandado, eles não poderiam levar uma só peça de equipamento. Era tudo licenciado pelo consórcio, — Mas nós vamos partir na sexta-feira à noite!

— Se eles conseguirem o mandado, vocês não poderão partir. Será melhor irem esta noite, se puderem.

Johnny desligou o telefone e consultou o relógio. Eram quase onze horas da manhã. Era preciso avisar a todos da alteração dos planos e embarcar o equipamento no trem. Peter teria de esvaziar o apartamento e seria preciso trocar as passagens já compradas para a sexta-feira.

E se não pudessem fazer tudo isso até à noite, estariam perdidos.

Johnny correu para o estúdio, à procura de Joe. Não o viu. O estúdio estava vazio. Só havia ali as caixas, prontas para o embarque.

Correu para o bar da esquina. Joe estava lá diante de um copo de cerveja.

— Que é que há? — perguntou êle, ao ver o rosto aflito de Johnny.

— A casa está desabando em cima de nós, — disse Johnny. — Vamos para o escritório que eu lhe conto tudo.

Joe se levantou e já ia saindo quando disse:

— Espere um pouco, Johnny.

Voltou para a mesa, pegou o copo de cerveja e bebeu-o até ao fim.

No caminho para o estúdio, Johnny contou-lhe tudo.

— E agora? — perguntou Joe, quando já estavam chegando à porta do estúdio. — Estamos perdidos!

— Não estaremos, se conseguirmos viajar esta noite.

— Esta noite? Você está louco! É impossível!

— Temos de viajar! — disse Johnny, obstinadamente.

— Pode ser que não haja trem para lá esta noite, Johnny. E se houver, vai ser muito difícil conseguirmos passagem. Podemos jogar a toalha. Os patifes são mais fortes do que nós. Não podemos vencê-los.

— Você vai-me abandonar? — perguntou Johnny, com a voz dura e séria.

— Você me conhece muito bem e sabe que não tem o direito de dizer uma coisa dessa. Fui contra a sua idéia desde o princípio, mas quando você meteu Peter nisso, fiquei ao seu lado, não fiquei? Passei também o verão todo ao seu lado. Mas agora você está querendo o impossível. Temos uma chance de um contra um milhão de conseguir o que você quer fazer. Não pode deixar de compreender isso. Você já foi até aonde podia ir, Johnny! Mais é impossível!

Johnny deixou-o acabar e então tornou a perguntar:

— Você vai-me abandonar, Joe?

— Não! — gritou Joe, impetuosamente. — Não vou abandonar ninguém, mas quando tudo isso acabar, vou fazê-lo dar a volta no quarteirão, levando pontapés no traseiro!

— Se nos livrarmos ainda desta vez, Joe, será um prazer levar esses pontapés!

Foi até à mesa e apanhou as passagens.

— Joe, pegue isso e vá até à estação para ver se pode trocá-las para hoje à noite. Se não houver trem hoje para aonde nós vamos, compre passagem para qualquer trem que vá para fora deste estado. Veremos depois como é que iremos para a Califórnia! E telefone-me logo que tiver uma solução!

Joe saiu e êle ligou para a casa de Peter. Foi Esther quem atendeu.

— Onde está Peter, Esther?

— Não sei. Não está com você?

— Não, não está e eu tenho a maior urgência em falar com êle.

— Então não compreendo. Saiu de casa esta manhã dizendo que ia para o estúdio.

Johnny ficou um instante em silêncio.

— Que é que há, Johnny? Alguma dificuldade?

— De sobra. Temos de partir hoje à noite. Pode fazer o que é preciso da sua parte?

— Vou tentar. E Peter?

— Vou ver se o descubro. Se êle telefonar para aí, mande-o ligar para mim.

— Está bem, — disse ela, desligando. Não fêz mais perguntas inúteis. Se Johnny dizia que tinham de partir naquela noite era que havia uma boa razão para isso.

Johnny telefonou para a empresa de transportes e de lá disseram que iam mandar imediatamente dois carroções. Uma hora depois, Joe telefonou para dizer que havia um trem naquela noite, mas sem carro-leito.

— Mas há pasagens nas classes?

— Claro.

— Então que é que está esperando? Iremos todos sentados e sem dormir até à Califórnia, mas temos de partir nesse trem esta noite!

— Está bem. Vou pegar as passagens e levar para o escritório.

— Nada disso! Você vai é procurar o pessoal todo e ter certeza de que todos embarcarão esta noite. Depois, vá para casa e pegue o que é nosso. Só vou ver você na estação, na hora da partida I

Quando o último carroção de mudança ia saindo, o telefone tocou. Johnny atendeu.

— É Borden. Peter já chegou?

— Ainda não.

— Então não o deixe entrar no estúdio. O consórcio acaba de conseguir o mandado e pretende fazer Peter receber a intimação hoje à tarde.

— Como é que vou impedi-lo de entrar no estúdio se não sei onde é que êle está?

— Também não sei. Estive com êle hoje de manhã e êle me disse que ia para o estúdio.

— Você esteve com êle, Bill? Onde?

— Na sinagoga, onde vamos todas as manhãs.

— Oh!... — exclamou Johnny, desapontado. Peter não iria passar o dia inteiro lá.

— E descobri ainda uma coisa, Johnny, — disse Borden.

— Que foi?

— Alguém avisou ao consórcio que vocês ia mpartir na sexta-feira, mas não pude apurar quem foi.

— Algum patife... Espere aí um pouco, Bill, que o outro telefone está tocando. Talvez seja Peter. Depois, eu lhe telefono.

Desligou e atendeu o outro telefone. Era Joe.

— Que é que você quer?

— Não pude encontrar Craig.

— Deixe Craig. Vou telefonar para Sam. Vá arrumar as coisas lá em casa.

Em seguida, telefonou para Sharpe.

— Alguém contou tudo ao consórcio e nós temos de partir esta noite. Você terá de ir falar com Craig.

— Não se preocupe, Johnny. Levá-lo-ei pessoalmente ao trem.

O dia foi correndo. E Johnny não podia parar um instante. Fumava um cigarro atrás do outro. Onde estaria Peter? Olhou o relógio. Quatro horas da tarde. O trem partiria daí a três horas. Fêz um apelo mental: ”Peter, Peter, onde quer que você esteja, telefone. Telefone para Esther: Pelo amor de Deus, telefone para alguém e diga onde está!”

Como em resposta ao seu apelo, o telefone tocou. Johnny correu para atender.

— Peter?

— Êle ainda não chegou aí? Era Esther.

— Não, — disse Johnny, desconsoladamente.

— Tudo pronto, Johnny. Os homens da mudança já estiveram aqui e nós estamos prontos.

— Então vá indo para a estação. Joe está lá e tratará de tudo. Eu irei depois.

— Mas, Johnny, que é que vamos fazer? Ninguém sabe de Peter. Talvez tenha acontecido alguma coisa.

— Não se preocupe. Êle estava muito bem quando Borden o viu na sinagoga hoje de manhã.

— Willie viu Peter na sinagoga hoje?

— Viu, sim. Não se preocupe...

— Não estou mais preocupada, Johnny. É onde êle está. Como fui boba de não haver pensado nisso antes! Hoje é o décimo aniversário da morte do pai dele e êle deve estar fazendo as preces rituais por êle!

— Tem certeza, Esther?

— Claro que tenho. É onde êle está. No meu nervosismo, esqueci-me por completo da data.

— Você é um amor, Esther! Agora, vá para a estação que eu já vou levar Peter para lá!

Peter estava sentado na frente, com os olhos num livro de preces, movendo os lábios a cada palavra que lia.

Johnny parou em frente dele e chamou-o em voz baixa. Peter levantou os olhos e não mostrou surpresa de ver Johnny ali. Tinha os olhos muito distantes. De repente, pareceu vê-lo.

— Johnny! — disse êle, levando a mão ao alto da cabeça. Johnny não compreendeu o gesto e murmurou:

— Preciso muito falar com você.

Várias pessoas na sinagoga olharam para Johnny, parecendo indignados com a perturbação que êle estava causando.

Peter apanhou uma pequeno calote preta na banco ao lado dele e entregou-a a Johnny, dizendo:

— Ponha isso, que a sua cabeça está descoberta. Johnny obedeceu e disse:

— Vamos sair daqui. Preciso falar com você. Peter foi com êle para os fundos da sinagoga.

— Que é, Johnny?

— Tenho procurado você o dia todo, Peter! Por que não disse aonde é que ia?

— Desde quando um homem tem de anunciar publicamente que vai rezar a Deus? Não lhe pergunto quando é que você vai à igreja.

— Não quero saber o que você veio fazer. Queria apenas que nos dissesse onde estava. Surgiu uma encrenca e nós temos de partir esta noite I

— Esta noite?

— Sim. O consórcio conseguiu um mandado judicial contra você e se êle lhe fôr entregue, estaremos perdidos!

— Meu Deus! — exclamou Peter. — Tenho de dizer a Esther!

— Não é preciso, eu já disse. Ela já deve estar na estação com as crianças.

— E o equipamento?

— Já está embarcado desde as duas horas da tarde.

— Vamos então ao escritório que eu tenho de apanhar algumas coisas lá.

— Você não pode ir lá, Peter! Devem estar à sua espera com uma intimação!

— Mas tenho de ir até lá. O roteiro da filmagem está em minha gaveta!

— Deixe o roteiro para lá! Nós vamos é para o trem!

Esther foi quem primeira os viu entrarem pelo portão.

— Peter! — exclamou ela, correndo e atirando-se nos braços dele em pranto.

— Por que é que está chorando? — perguntou êle em iídiche com voz ao mesmo tempo firme e terna.

Johnny voltou-se para Joe, que estava rindo para êle.

— Está todo o mundo aqui?

— Todos menos Craig.

— Pox que será que êle está demorando? — murmurou Johnny. Nisso, ouviu uma voz que o chamava. Virou-se e viu Sam Sharpe que corria para aonde êle estava, seguido de Jame. Parou diante dele, ofegante.

— Onde está Craig? — perguntou Johnny.

— Diz que não vai. Foi êle quem contou tudo ao consórcio.

— Cachorro! Onde é que êle está neste momento?

— No meu escritório.

— Neste caso, êle ainda poderá dizer ao consórcio que resolvemos ir hoje. Vamos buscá-lo!

— Calma, Johnny. Êle não vai poder dizer nada a ninguém!

— Como assim?

— Quando êle me disse o que havia feito, fiquei tão indignado que o derrubei.

Johnny olhou para Sam sem acreditar. Craig era quase duas vezes maior do que êle.

— Quer dizer... eu o empurrei, Jane botou o pé na frente e êle tropeçou e caiu. Nós então o amarramos.

— Com a corda da cortina, — acrescentou Jane.

Johnny deu uma gargalhada. Devia ter sido um espetáculo aquele homenzinho e uma mulher amarrando o sucumbido ídolo das platéias.

— Johnny, — disse Sam, — acha que podemos ir com você? Quando Craig se soltar, as coisas ficarão bem ruins para nós dois.

— Sem dúvida, — disse Johnny, ainda rindo. — Venham que vamos precisar de uns bons guarda-costas durante a viagem!

O trem corria dentro da noite. Johnny, olhando pela vidraça, só podia ver o seu reflexo. Doris estava apoiada nele, tonta de sono. Já passava de nove horas.

Doris mudou de posição ao lado dele. Virou-se para ela e passou o braço pelos seus ombros.

— Cansada, querida?

— Não, respondeu ela, com a voz cheia de sono.

— Talvez você fique melhor se descansar a cabeça no meu colo.

Ela se estendeu no banco e fechou os olhos antes mesmo de encostar a cabeça no colo dele. Mas os lábios dela se moviam.

— Que é que está dizendo, querida?

— Você vai gostar da Califórnia, Tio Johnny. Lá é muito bonito.

Johnny sorriu porque viu que ela havia adormecido mal dissera a última palavra.

Nisso, alguém se aproximou dele. Era Peter.

— Ela já está dormindo? — perguntou êle. Johnny bateu com a cabeça.

— Não respondi à sua pergunta.

— Que pergunta?

— Por que não lhe disse onde estava hoje. Só me lembrei que era o aniversário da morte de meu pai depois de sair de casa hoje de manhã.

— Desculpe, Peter. Eu estava muito nervoso, mas não quis ser grosseiro.

— Está mais calmo agora? — perguntou Peter, sorrindo.

— É claro.

— Quer tirar então da cabeça esse yamalke? E tirou a pequena calote preta.

— Quer dizer que estou com isso desde que saí da sinagoga? — perguntou Johnny, atônito.

— Está.

— Por que foi que não me disse?

— Porque gostei de ver isso na sua cabeça, — disse Peter, rindo. — Parecia ter nascido assim.

Uma semana depois, estavam num carro a caminho da fazenda de Santos. Dos dois lados da estrada as laranjeiras se estendiam a perder de vista. Chegaram a uma encruzilhada, onde havia um poste com um sinal.

— Que é que diz aí? — perguntou Peter, que ainda se negava a usar óculos.

— Hollywood, — disse Johnny. —Acho que é onde fica a propriedade de Santos.

— É logo ali adiante, — disse o chofer.

— Califórnia, — resmungou Peter. — Não temos roteiro. Custou 2 500 dólares. Não temos ator principal. Custou seis mil dólares. Não temos nada!

Johnny riu, mas Peter continuou irritado.

— Com que acha você que eu vou fazer um filme? Com laranjas?

 

CONSEQÜÊNCIAS 1938

 

Quarta-feira

Olhei para o meu relógio de pulso. Eram quase cinco horas. A manhã cinzenta se ia pouco a pouco dourando. Perguntei a Doris:

— Não acha que já é tempo de você tentar dormir um pouco, querida?

— Não tenho sono, — disse ela, mas as olheiras e a fisionomia cansada desmentiam-na.

— Você tem de descansar um pouco, menina. Não pode continuar assim indefinidamente.

Um leve sorriso passou-lhe pelo rosto e ela me perguntou com voz zombeteira:

— Está cansado, Johnny?

Era uma velha pilhéria na família. Começara havia muito tempo quando Peter costumava chegar ao estúdio e quase sempre me encontrava ali a qualquer hora do dia ou da noite.

”Johnny não dorme”, dizia êle. ”Prefere ter dinheiro no banco”.

Sorri para Doris e disse:

— Talvez esteja um tanto cansado, mas quem mais precisa de repouso é você. O momento é difícil, querida, e você tem necessidade de toda a sua resistência.

Um sorriso floriu-lhe no rosto e o seu calor iluminou-lhe os olhos.

— Está certo, Tio Johnny, — disse ela, com voz de menina. — Mas promete que vem amanhã?

— Virei amanhã e todos os dias de minha vida quando tudo isso passar, se você quiser — disse eu, abraçando-a.

— Nunca em minha vida quis outra coisa, Johnny.

Beijei-a. Gostei do jeito com que ela me segurou a cabeça ternamente com as duas mãos, mostrando a força de uma velha paixão. Gostei também do suave contato do seu rosto, do leve perfume que vinha dela e do macio som farfalhante dos seus cabelos quando os afaguei.

Doris recuou um pouco e ficou a olhar-me por um instante. Depois, tomou-me a mão e fomos de mãos dadas para o hall de entrada. Ajudou-me a vestir o sobretudo e fomos até à porta.

— Agora, suba e vá dormir um pouco, — disse-lhe eu, severamente.

Ela deu um risinho e me beijou.

— Johnny, você é um amor.

— E posso deixar de ser um amor a qualquer momento, quando me zango, — disse eu, tentando em vão falar a sério.

— Quer dizer que se eu não fôr para a cama agora mesmo, você me baterá, como já bateu uma vez?

— Nunca bati em você!

— Bateu, sim, — disse ela, com um sorriso encantador. — E acho que ainda seria capaz de bater se estivesse zangado de verdade. Olhe que seria até engraçado.

Botei as mãos nos ombros dela e voltei-lhe o corpo para dentro da casa. Empurrei-a até à escada e dei-lhe uma leve palmada, dizendo:

— E vai apanhar com um pau de vassoura se não fôr para a cama neste instantinho, ouviu?

Ela começou a subir a escada, mas, ao fim de alguns degraus, parou, voltou-se para mim e disse com uma voz muito terna:

— Nunca mais me deixe, Johnny.

Fiquei alguns segundos sem poder falar. Sentia um nó na garganta e a voz não saía. Alguma coisa na sua voz, na sua solidão e na sua paciência, parecia tocar-me no fundo do coração. Depois, as palavras se articularam por si mesmas. Não as formei no cérebro, não as armei na garganta e não tenho nem consciência de as haver proferido com os lábios. Pareciam ter vindo espontaneamente do fundo de mim mesmo, estendendo entre nós uma ponte que nenhuma distância poderia destruir.

— Nunca, nunca mais a deixarei, querida.

A expressão no rosto dela não mudou, mas tive a impressão de que uma luz se acendera dentro dela, irradiando um calor que me atingiu deliciosamente.

Ficamos ali um instante a olhar-nos. Depois, ela se virou e subiu as escadas, com o andar leve e fácil que tinha a suave graça de uma dançarina. Chegando ao alto da escada, voltou-se e jogou-me um beijo.

Dei-lhe adeus e saí. O céu estava límpido e o tempo, frio. O orvalho das flores cintilava aos raios do sol nascente. De repente, não senti mais cansaço. A fadiga desaparecera com o primeiro hausto do ar matutino. Já passava das cinco horas e era tarde demais para ir dormir em casa.

Peguei mais adiante um táxi.

— Estúdios Magnum, — disse eu ao motorista, recostando-me nas almofadas e acendendo um cigarro.

O estúdio ficava a apenas quinze minutos da casa de Peter. Paguei ao motorista e encaminhei-me para o portão. Estava trancado. Toquei a campainha e esperei o vigia.

A luz se acendeu na casinha do porteiro a poucos metros do portão. Depois, a porta se abriu e êle saiu.

Reconheceu-me quase imediatamente. Acelerou o passo até que estava quase correndo quando chegou ao portão e abriu-o.

— Não esperava que voltasse tão depressa, Sr. Edge.

— Eu também não esperava. Foi uma viagem de surpresa.

— Precisa de mim para alguma coisa, Sr. Edge? — perguntou êle, depois de fechar o portão.

— Não, muito obrigada. Vou para o meu gabinete. Caminhei pela longa rua até ao edifício da administração.

O estúdio estava em silêncio e os meus passos ressoavam no pavimento. Os pássaros acordaram quando passei e começaram a chilrear nas árvores. Isso me fêz recordar várias outras manhãs em que os ouvira cantar assim através dos anos.

O vigia do edifício da administração estava à minha espera na porta, quando cheguei. O porteiro devia ter telefonado para êle.

— Bom-dia, Sr. Edge, — disse êle.

Foi pelo corredor à minha frente e abriu a porta do meu gabinete com a chave dele.

— Quer alguma coisa, Sr. Edge? Um café ou coisa assim?

— Não, muito obrigado, — disse eu, olhando para as janelas fechadas que faziam o ar abafado.

Êle notou o meu olhar e abriu imediatamente as janelas.

— Creio que um pouco de ar puro não fará mal, Sr. Edge. Agradeci-lhe com um sorriso e êle saiu. Tirei o chapéu e o

sobretudo, indo guardá-los no armário embutido a um canto da sala. Gostaria de beber alguma coisa, para rebater a noite em claro.

Entre a minha sala e a de Gordon havia uma pequena cozinha, com geladeira, armário e um pequeno fogareiro elétrica. Havia uma cafeteira ao lado do fogareiro. Ainda estava quente e eu cheguei à conclusão de que o vigia devia ter feito um pouco de café. Abri a geladeira, tirei uma garrafinha de ginger ale e levei-a para o gabinete.

Tirei uma garrafa de bourbon da minha gaveta. Derramei dois dedos de bourbon num copo, que enchi até à metade de ginger ale. Bebi um bom gole e fui até à janela,

O céu já estava bem mais claro e eu podia ver quase todo o estúdio. O prédio dos escritores ficava logo atrás do nosso e os outros edifícios executivos se estendiam em forma de leque para a direita e a esquerda, formando uma espécie de meia-lua em torno do edifício da administração. Atrás do edifício dos escritores ficava o palco de som número um.

Palco de som número um. Sorri quando pensei nisso. Era um edifício novo, todo branco, moderno e à prova de fogo. O primeiro palco que Peter e eu tínhamos feito era mais um galpão do que um prédio. Era uma construção esparramada com quatro paredes e sem teto, para deixar entrar o sol. Havia um grande toldo de lona que nós estendíamos ao primeiro sinal, de chuva. Para isso, um homem ficava sempre no alto do galpão, a espreitar o céu.

Era chamado o espia-chuva. Logo que havia qualquer ameaça de chuva, êle dava o brado lá de cima e imediatamente se tratava de armar e suspender o toldo. Usávamos o toldo o menos que era possível, pois as lâmpadas de vapor de mercúrio que acendíamos para a iluminação interna custavam muito caro.

Joe Turner é que havia encontrado a solução. Depois de havermos calculado o elevado preço por que nos iriam sair as lâmpadas de vapor de mercúrio, êle havia dito:

— Por que não cobrimos tudo com um toldo como o que se usa nos circos? Quando chover, levanta-se o toldo.

Joe já estava morto havia quase vinte anos mas havia coisas dele tão vivas e frescas no meu espírito como se eu não o tivesse deixado de ver num só dia desses vinte anos. Ainda me lembrava das gargalhadas que êle dava quando contava como havíamos conseguido de graça os terrenos do estúdio. De fato, não nos havia custado um só centavo do nosso dinheiro.

Foi depois que eu tinha voltado a Nova Iorque com a primeira cópia do Bandido. Peter não podia ir a Nova Iorque pois a ação, movida contra êle pelo consórcio ainda não fora julgada. A primeira exibição foi realizada na sala de projeção dos estúdios de Bill Borden. Os independentes estavam ficando mais animados com a esperança que havia de que Fox ganhasse a sua ação contra o consórcio.

A sala de projeção estava repleta. Todos os distribuidores importantes dos estados estavam presentes, bem como grande parte da nossa lista já bem avantajada de credores. Não sei quem mostrou mais entusiasmo pelo filme, se foram os distribuidores que se empenhavam em comprá-lo, se os nossos credores que começavam a ter esperanças de receber o seu dinheiro e com algum lucro de acréscimo.

Mas não creio que nenhum de nós realmente esperasse, mesmo nos seus sonhos mais exaltados, os acontecimentos que se seguiram. Duas horas depois de eu haver exibido o filme, já havia arrecadado quase quarenta mil dólraes de depósito dos distribuidores como sinal dos contratos de exibição do filme. Borden, que estava ao meu lado enquanto cada distribuidor insistia comigo para aceitar um cheque para a sua zona, dizia baixinho:

— Estou vendo, mas não acredito!

À meia-noite, falei com Peter pelo telefone. Eu estava tão exaltado que foi gaguejando que comuniquei a Peter:

— Consegui quarenta mil dólares!

— Que foi que você disse, johnny? Tive a impressão de ter ouvido você falar em quarenta mil dólares.

— É isso mesmo! Quarenta mil dólares! Adoraram o filme!

Houve silêncio do outro lado do fio e, então, Peter me perguntou:

— Onde é que você está?

— No estúdio de Willie.

— Êle está aí?

— Está, sim, ao meu lado.

— Quero falar com êle. Passei o fone a Borden.

Alô, Peter! — disse êle. Parabéns!

Eu ouvia a voz de Peter crepitar no telefone, mas não fazia a menor idéia do que êle estivesse dizendo. Borden me olhava com um sorriso nos lábios. Esperou Peter acabar de falar e então disse, com um sorriso ainda maior:

— Não, Peter. Johnny não bebeu uma gota durante toda a noite. Está no seu juízo perfeito tanto quanto eu. Foram quarenta mil dólares, sim! Eu vi os cheques!

Peter disse ainda alguma coisa e Borden me passou o telefone.

— Como é? — perguntei. — Não acreditou em mim, Peter?

— Não acredito ainda nem nos meus ouvidos, rapaz! Quarenta mil dólares!

— Vou transferir o dinheiro para você, amanhã de manhã.

— Não. Só me mande a metade, para que eu possa pagar a Al os vinte mil dólares que lhe devo. Com o resto pague as nossas dívidas aí em Nova Iorque.

— Mas, Peter, isso nos deixará outra vez sem dinheiro. Devemos quase vinte mil dólares aqui e vamos precisar de dinheiro para fazer outro filme.

— Se eu pagar o que devo desse filme, poderei ir dormir de consciência tranqüila, pelo menos esta noite. Amanhã, começarei a preocupar-me com o dinheiro para fazer outro filme.

— Mas precisamos de dinheiro também para um estúdio. Não podemos continuar a trabalhar numa fazenda. Pague a metade agora. Os credores não terão dúvida em esperar o resto. O filme deverá dar uns 250 mil dólares de lucro e eles agora sabem disso.

— Se o filme vai render tanto, podemos pagar a todos os credores agora.

— Mas teremos de esperar quase um ano pelo dinheiro, — disse eu, sabendo que, de acordo com o sistema de distribuição nos estados, só teríamos direito a receber o dinheiro seis meses depois do início das exibições nos cinemas. — Que é que vamos fazer até lá? Ficar sentados à espera? Depois disso, não podemos mais esperar!

A voz de Peter foi firme.

— Pague o dinheiro, como eu disse. Tudo isso vai-me render ao menos uma boa noite de sono!

Eu sabia que não adiantava discutir. Quando havia na voz de Peter aquele tom de teimosia, era inútil insistir.

— Está bem, Peter.

— E escute, Johnny. Gostaram do filme, hem?

— Ficaram loucos. Gostaram especialmente da cena em que há a troca de tiros entre o xerife e o bandido na sala da casa da moça.

Eu sabia que êle ficaria satisfeito com isso, pois a idéia tinha sido dele. Na peça, o encontro se dava no bar, mas não tínhamos dinheiro suficiente para construir o cenário e Peter havia sugerido a casa da moça.

Êle riu.

— Não lhe disse que ficaria mais dramático assim?

— Você é que estava certo, Peter, — disse eu, sorrindo do orgulho com que êle falava.

— Não reclamaram de ficar sentados tanto tempo para ver o filme?

— Reclamaram foi quando o filme acabou. Todos queriam ver mais. Gostaria de que estivesse aqui, Peter, para ver como bateram palmas.

Ouvi-o afastar-se um pouco do telefone e dizer alguma coisa a alguém. Pouco depois, voltou ao telefone.

— Estava dizendo a Esther que eu tinha razão. Um filme em sete partes não é comprido demais.

Ri, lembrando-me do que êle dissera uma vez — que não havia uma só pessoa capaz de ficar sentada mais de uma hora para assistir a um filme de seis partes.

Êle me interompeu o riso, perguntando:

— Esther quer saber quem é que está pagando este telefonema.

— Claro que somos nós, Peter. Acha então que ia dar um telefonema assim na casa dos outros a pagar?

Houve um instante de silêncio do outro lado do fio. Por fim, êle falou de novo:

— Já estamos falando há quase vinte minutos. Isso quer dizer que teremos de pagar cem dólares. Adeus, Johnny.

— Mas, Peter...

Êle não me deixou acabar e desligou. Desliguei também e olhei para Borden, sorrindo. Êle encolheu os ombros e nós saímos juntos do gabinete dele para o escritório geral do estúdio. Havia ainda muita gente lá e o ar estava cheio de fumaça e conversa.

Entre eles estavam os principais independentes da época. Um deles dizia:

— Creio que isso prova definitivamente que a era dos filmes pequenos de dois rolos está encerrada. De agora em diante, temos de pensar em filmes cada vez maiores.

— Acha mesmo, Sam? — disse outro. — Talvez seja verdade, mas onde é que vamos fazer esses filmes? Em Nova Iorque, a temporada em que se pode fazer filmagem ao ar livre é de três meses no máximo. Nesse tempo, não é possível fazer mais do que cinco filmes. Que faríamos então no resto do ano? Dormir?

O primeiro pensou um instante e disse:

— Neste caso, teríamos de ir para outro lugar onde a temporada fosse maior.

O segundo falou de cara fechada, sem muita esperança.

— Mas onde? Nem todos têm amigos na Califórnia como Kessler. Não podemos todos ir fazer filmes na Califórnia.

Nesse exato momento, vi tudo com clareza e tive a solução para tudo. Meti-me na conversa, perguntando:

— Por que não, senhores? Por que não podemos todos ir fazer filmes na Califórnia?

Todos os rostos se voltaram para mim, com expressões que iam do manifesto assombro a uma curiosidade cheia de reservas.

— Como assim? — perguntou um deles.

Olhei-os por um momento antes de responder. Queria que ficassem devidamente impressionados com o que eu ia dizer. Baixei a voz num tom confidencial.

— Meus amigos, a Magnum não deixou de prever a repercussão que teria O Bandido sobre o futuro da indústria do cinema. E Peter Kessler não deixa de ser grato aos muitos amigos entre os produtores independentes que ficaram ao seu lado.na ocasião em que as suas perspectivas eram mais sombrias. E assim, meus amigos, — prossegui, baixando ainda mais a voz para que chegassem para mais perto de mim, — depois de haver falado com Kessler na Califórnia pelo telefone, fui informado de que êle resolveu oferecer a todos a mesma oportunidade que êle agora tem de fazer filmes na Califórnia. Pensem bem! Será uma oportunidade de fazer filmes não apenas durante treze semanas do ano, mas durante cinqüenta e duas! Uma oportunidade de fazer cinema num lugar onde o sol brilha sempre e onde há espaço para fazer a espécie de filme que se quiser! Pensem bem, senhores!

A essa altura, sorri Intimamente, pensando que estava falando exatamente como falava quando fazia propaganda dos shows no parque de diversões, e prossegui:

— A Magnum tem opção sobre quase 400 mil hectares de terras na Califórnia. Isso dá lugar de sobra para cem estúdios. Quando Lasky, Goldwyn e Laemmle chegaram lá, Peter teve a brilhante idéia de fazer de Holywood a capital mundial do cinema I Autorizou-me, portanto, a fazer-lhes a seguinte a proposta: em retribuição a muitas gentilezas e favores que tem recebido, transferirá a sua opção por tantos hectares e tanta terra quanto queiram pelo mesmo preço que deu pot essas opções. Duzentos e cinqüenta dólares por hectare! É claro que êle não espera que vão comprar nabos em sacos. Dar-lhes-á a opção pelo número de hectares que desejem, sob a condição da aprovação pelo comprador, do local, depois de vê-lo. A oportunidade de escolha do local obedecerá à mesma ordem do pedido de opção. Quer dizer que a primeira pessoa a comprar a opção será a primeira a escolher o local do seu estúdio. Se alguém não ficar satisfeito, terá direito sem qualquer indenização à devolução do seu dinheiro.

Borden se mostrou tão espantado quanto os outros.

— Você não me havia dito nada disso, — murmurou êle.

— Desculpe, Bill, mas Peter me havia dado ordem de nada dizer enquanto êle não me desse o seu O. K. E foi o que êle acabou de fazer.

— E os nossos estúdios aqui? — perguntou Bill. — Temos um bocado de dinheiro empregado neles.

— Poderão continuar a usá-los para filmes curtos e outros serviços, — disse eu, — mas para fazerem grandes filmes e ganharem muito dinheiro terão de ir para Hollywood. Qual é o tamanho do seu estúdio aqui? Sei que é grande, mas é grande para Nova Iorque. Poderia filmar nele o estouro de cem cabeças de gado, como fizemos no Bandido? Poderia reunir um grupo de homens a cavalo e fotografá-lo, como fizemos no Bandido? A resposta é evidente. Se ficarem aqui, estarão sempre limitados no espaço, no tempo e nas oportunidades.

Olhei-os. Pareciam impressionados. Eu sabia que os tinha convencido. Só havia uma dificuldade. Se algum deles me perguntasse onde Peter havia conseguido o dinheiro para comprar todas aquelas opções, eu estaria perdido. Mas não tinha de ficar preocupado, porque Borden foi o primeiro que mordeu a isca.

Tirou a caneta-tinteiro e começou a escrever um cheque.

— Quero vinte hectares, — disse êle.

Dentro de uma hora, eu havia vencido opções sobre terras que não possuíamos no valor de 60 mil dólares. Os outros, vendo Borden morder a isca, começaram a lutar para chegar junto do anzol. Aquilo era mais fácil do que fazer os caipiras comprarem entrada para ver Salomé e a Dança dos Sete Véus.

Às três horas da madrugada, tornei a chamar Peter ao telefone, dessa vez, do meu hotel, onde ninguém podia ouvir-me.

Foi Peter quem atendeu. Ouvi o murmúrio de outras vozes na sala.

— É Johnny quem fala, Peter.

— Não lhe disse que não telefonasse mais? Isso custa muito dinheiro!

— Não fale em despesas, Peter! Eu não podia deixar de telefonar. Acabo de vender 60 mil dólares de terras aí e você tem de comprar alguma coisa imediatamente!

— Meu Deus, você ficou maluco? — gritou êle. — Quer levarmos a todos para a cadeia?

— Calma, Peter. Eu não podia deixar de fazer isso. Estavam todos ansiosos para irem para a Califórnia. Precisamos mais de dinheiro do que esses tubarões de terras daí. Quanto custa um hectare de terra aí?

— Como é que eu vou saber?

— Al está aí? Se estiver, pergunte a êle.

Peter afastou-se do telefone e voltou daí a alguns minutos, dizendo:

— Al diz que custa uns 75 dólares o hectare.

Senti o calor subir-me às faces. Eu havia calculado bem.

— Compre imediatamente 400 hectares, Peter. Isso nos custará uns 30 mil dólares. Acabo de vender 240 hectares a 250 dólares cada um. Teremos com a transação um lucro de 30 mil dólares, mais do que suficiente para levantar um estúdio.

Houve um momento de silêncio do outro lado do fio. Quando voltei a ouvir a voz de Peter, havia nele um tom diferente que não cheguei a identificar. Se não o conhecesse bem, poderia julgar que era respeito.

— Johnny, você é um estourado, mas bem esperto.

Saí da janela, sentei-me à minha mesa e acabei de beber o copo de bourbon. Muito tempo já havia passado, mas parecia ter sido na véspera. Holy wood nascera de uma trapaça e jamais havia mudado. Ainda vivia de trapaças, com a diferença de que os velhos trapaceiros estavam encontrando gente mais esperta.

Os trapaceiros modernos estavam dominando os trouxas, não como no passado graças à necessidade, mas graças à cobiça. E os trapaceiros lutavam uns com os outros e faziam do mundo inteiro o seu campo de caça.

Senti os olhos cansados e as pálpebras quentes e pesadas. Era bom se eu pudesse fechar os olhos e descansar um pouco.

Chegou-me aos ouvidos um som surdo de vozes. Virei a cabeça para deixar de ouvi-lo, mas sem resultado. Levantei o corpo na cadeira, abri os olhos e esfreguei-os. O corpo doía e as costas estavam duras da posição incômoda em que eu adormecera. Espreguicei-me e corri os olhos pelo ambiente. Olhei para o relógio em cima da mesa e tive um sobressalto. Três e meia da tarde. Eu havia dormido quase o dia inteiro.

Levantei-me da cadeira e fui ao pequeno banheiro ao lado do meu gabinete. Abri atorneira de água fria e molhei bem o rosto. A água fria me acordou por completo. Apanhei uma toalha e enxuguei o rosto. Olhei-me ao espelho. Estava precisando de fazer a barba.

Já ia saindo para ir ao barbeiro quando ouvi a voz de Gordon do outro lado da parede.

— Desculpe, Larry, — dizia êle, — mas não sei como posso concordar com isso. Afinal de contas, o meu acordo com Johnny era que eu seria o encarregado de toda a produção. Dividir as minhas funções da maneira que sugere levaria apenas à duplicação do trabalho e à maior confusão desnecessária.

Isso me fêz esquecer por completo a necessidade de fazer a barba. No gabinete de Gordon estava acontecendo alguma coisa de que eu precisava tomar conhecimento. Levei a mão à porta e abri-a. Gordon estava sentado à sua mesa, com o rosto vermelho e muito zangado. Diante dele estavam sentados Ronsen e Dave Roth. O rosto de Ronsen estava calmo e imperturbável como sempre, mas Dave estava com a cara do gato que acabou de comer o canário.

Quando entrei na sala, os rostos se voltaram para mim, com expressões diferentes. O de Gordon expressava alívio; o de Ronsen, aborrecimento e o de Roth, medo.

- Que é que há com vocês, amigos? — perguntei, sorrindo. — Não podem deixar uma pessoa dormir?

Não responderam. Dirigi-me para Gordon e estendi-lhe a mão.

— Como vai? Prazer em vê-lo.

Êle fêz o meu jogo. Não deu o menor sinal de ter estado comigo na noite anterior. Apertou-me a mão.

— Que é que está fazendo aqui, Johnny? Pensei que ainda estivesse em Nova Iorque.

— Cheguei ontem à noite para ver Peter, — disse eu e voltei-me para Ronsen: — Não o esperava aqui, Larry.

Olhou-me atentamente, tentando apurar o que eu sabia, mas sem resultado. O meu rosto estava tão impenetrável quanto o dele.

— Surgiu alguma coisa depois da sua partida e, desde que não estava presente, tomei o avião para vir resolver as coisas por você.

— Sério? — perguntei com muito interesse. — Que foi? —Tivemos um telefonema de Stanley Farber, — disse êle. Era

evidente que até a sua calma fora abalada pela minha presença inesperada. Parecia um tanto incerto quanto ao que ia dizer. — Fêz-nos uma proposta para que pusésemos Dave como encarregado da nossa produção mais importante. Em troca, êle nos garantiria exibições em todos os seus cinemas da Costa do Pacífico e ainda nos emprestaria um milhão de dólares.

Pela primeira vez desde que chegara à sala, olhei para Dave Roth. Mas foi com Ronsen que falei.

— Conheço bem Stanley. Deve querer mais alguma coisa de nós por um milhão de dólares, além de fazer do seu protegido encarregado da produção.

Não tirei os olhos do rosto de Dave enquanto Ronsen respondia:

— Naturalmente, teríamos de entregar-lhe algumas ações de garantia. Não vai querer que nos emprestem tanto dinheiro sem garantia.

Balancei a cabeça lentamente. Dave ficara pálido diante do meu olhar. Ronsen voltou a falar, com um pouco de nervosismo:

— Acha então que é uma boa idéia?

Encarei-o. Os olhos lhe brilhavam furiosamente por trás dos seus bifocais. Lembrava-me mais do que nunca um grande tigre de cara redonda esperando o momento de atacar a presa.

— Não disse que achava que fosse uma boa idéia. Mas vou pensar no caso. Um milhão de dólares é muito dinheiro.

Ronsen resolveu fazer pressão sobre mim. Era claro que queria que eu concordasse com êle.

— Claro que é, Johnny. Mas acontece que Farber quer uma resposta imediata. Não pode manter a proposta indefinidamente.

— Mas logo que aceitarmos, ficaremos presos, — disse eu, secamente. — Já disse que conheço Stanley e sei que não poderemos livrar-nos dele com facilidade, se não der resultado. Dave é um homem inteligente e sabe administrar cinemas. Mas nunca fêz um filme em toda a sua vida e, com todo o respeito que merece, que vai acontecer se não der certo? Não é a primeira vez que isso tem acontecido. Pode acontecer com êle também.

Voltei-me para Roth. Estava branco. Sorri para êle.

— Não se ofenda, meu caro. Temos de ser práticos nesta indústria e um pouco de experiência pode dizer-nos sem dificuldade quando uma coisa vai dar certo e quando não vai. Sei que a intenção de Larry é boa, mas eu terei de pensar no caso antes. Vamos deixar para discutir o assunto amanhã.

Com essas palavras, consegui impressionar Ronsen com a minha indiferença pelo seu julgamento e a Dave, com a minha opinião a respeito da sua inexperiência, encerrando a discussão.

Pude notar a raiva contida no rosto de Larry. Sorri para êle.

— Se dispõe de alguns minutos, Larry, gostaria de conversar com você depois de fazer a barba.

— Sem dúvida, Johnny. Telefone-me quando voltar.

Fui até à porta e voltei-me para olhá-los. Gordon, que estava atrás de todos, piscou-me o olho.

— Até logo, — disse eu, fechando a porta.

Gordon estava à minha espera quando voltei do barbeiro. Sentia-me bem disposto. É admirável o que pode fazer numa pessoa um rosto bem escanhoado e uma toalha quente. Olhei para êle, rindo.

— Que é que há, rapaz? Não estou gostando da sua cara.

Gordon deixou rolar uma cachoeira de pragas. Sorri e disse:

— Ao que parece, a sua opinião do nosso eminente presidente da diretoria não é lá muito boa.

O rosto de Gordon ficou vermelho.

— Por que diabo êle não se contenta em presidir às reuniões da diretoria sem vir meter o nariz aqui no estúdio? Está atrapalhando tudo!

Sentei-me à minha mesa, acendi um cigarro e disse:

— Tenha calma, rapaz. Lembre-se de que êle não entende nada de cinema. Mas sabe como êle é. Um homem de dinheiro que se encheu de avidez quando viu que era possível ganhar muito no cinema. Quando descobriu que o negócio não era o sorvete de creme que julgava, está um pouco nervoso e procurando ansiosamente ou garantir o seu dinheiro ou encontrar uma saída.

Quanclo Gordon me viu ali sentado calmamente, esfriou um pouco. Olhou-me atentamente e perguntou:

— Já sabe o que vai fazer?

— Claro que sei. Vou deixá-lo debater-se de um lado para outro. Quando estiver cansado, virá procurar-me.

— Aquilo é um patife muito teimoso, Johnny. E se êle insistir em dar uma entrada a Farber?

Não respondi logo. Se êle insistisse em fazer isso, eu não poderia impedi-lo e estaria perdido. Talvez não fosse tão ruim assim. Já estava havia trinta anos naquilo e tinha bastante dinheiro para não me incomodar com o que acontecesse. Talvez fosse bom ficar sem fazer mais nada e esquecer tudo. Mas não era nada fácil. Uma boa parte da minha vida estava ligada ao cinema e não me seria muito fácil livrar-me dele.

— Não vai fazer isso, — disse eu, falando com mais confiança do que sentia. — Quando eu disser a êle tudo o que penso, Ronsen terá medo de fazer negócio com Farber ainda que este lhe oferecesse a Casa da Moeda.

— Bem, — disse êle, levantando-se para sair. — Espera que você saiba o que está fazendo.

Vi-o sair e pensei que nós ambos estávamos na mesma situação.

O telefone tocou e eu atendi. Era Doris.

— Onde era que você estava, Johnny? Estou telefonando há uma porção de tempo sem conseguir falar com você.

— Peguei no sono no meu gabinete. Vim para cá logo que saí da sua casa e ninguém sabia que eu estava aqui. Como vai Peter?

— O médico saiu daqui agora pouco. Está dormindo normalmente. O médico acha que está melhor.

— ótimo. E Esther?

— Está aqui ao meu lado. Quer falar com você.

— Chame-a.

Pouco depois, ouvi a voz de Esther. Fiquei surpreso, tanto havia mudado. Da última vez que a ouvira, ainda era jovem e firme. Parecia agora velha e abalada. Era como se ela estivesse numa sala cheia de gente estranha, sem saber como iriam recebê-la.

— Johnny?

— Sou eu, Esther, — disse eu, sem poder conter a emoção na voz.

Ela ficou um instante calada. Depois, disse na mesma voz estranhamente hesitante:

— Estou muito satisfeita de que você tenha vindo, Johnny. Você não sabe o que isso representa para mim e representará para Peter, quando êle souber.

Senti alguma coisa revoltar-se dentro de mim. Deu-me vontade de gritar: ”Sou eu, Johnny! Vivemos juntos há trinta anos! Não so um estranho e você não pode ter medo de falar comigo!”

Mas não podia dizer isso e, desde que tinha de dizer alguma coisa, murmurei:

— Não podia deixar de vir. Vocês dois também representam muito em minha vida. Senti muito o que aconteceu a Mark.

Foi a antiga voz dela que me respondeu, como se houvesse de repente percebido com quem estava falando. Havia na sua voz também um sentimento de dor, de resignação e de aceitação, como de uma pessoa que de havia muito conhecesse as tristezas da vida.

— É a vontade de Deus, Johnny. Nada podemos fazer. Só espero que Peter...

Não conseguiu acabar a frase, que os soluços interromperam.

— Esther! — exclamei, procurando chamá-la à razão.

Podia quase vê-la lutando para controlar-se e conter as lágrimas que queriam derramar-se, as lágrimas a que tinha direito. Respondeu afinal:

— Sim, Johnny.

— Você não pode chorar ainda, Esther, — disse eu, sentindo-me um insensato. Quem era eu para dizer-lhe que não devia chorar pelo filho? — Tem de cuidar de Peter primeiro.

— Sim, Johnny, tenho de ajudá-lo a ficar bom para redizer o Kaddish por nosso filho e nós fazermos shiveh juntos.

Shiveh é o ritual hebreu de luto. Cobrem-se todos os espelhos e quadros da casa e fica-se dentro da casa sentando em tamboretes durante uma semana depois da morte de um ente querido.

— Não, Esther. Não para shiveh, mas para viverem juntos.

— É verdade, Johnny. De qualquer maneira, é preciso continuar a viver.

— Assim é melhor, Esther. Está parecendo mais a Esther que eu conheço.

— Acha mesmo, Johnny? — perguntou ela. — Até isso acontecer, eu podia ser a Esther que você conheceu, mas agora sou uma velha. Até hoje, nada me havia de fato mudado, mas isso me arrasou e eu estou com medo.

— Isso passará e as coisas voltarão a ser as mesmas.

— As coisas nunca mais serão as mesmas, — disse ela, com triste convicção.

Trocamos mais algumas palavras e desligamos. Acendi um cigarro e não sei quanto tempo fiquei ali imóvel, pensando em Mark. É curioso como a morte faz esquecer as coisas de que não gostamos numa pessoa. Nunca havia gostado dele depois de crescido e fiquei pensando nele quando era garoto. Gostava de que o carregasse nos ombros. Ainda lhe ouvia a vozinha alegre e lhe sentia as mãos agarrando-me os cabelos.

A perna começou a doer. A perna. Sempre pensava em minha perna, mas era apenas um coto de perna. O resto ficara na França vinte anos antes. A dor me subia pela coxa. O coto estava dolorido. Havia três dias que eu não tirava a perna mecânica.

Desapertei a correia em torno da cintura que mantinha a perna no lugar. Afrouxei também a correia em torno da coxa e a perna mecânica ficou solta e caiu no chão.

Comecei a massagear o coto com o movimento circular que aprendera havia tantos anos. Senti o sangue começar a circular, aliviando a dor. Continuei a massagem.

De repente, a porta se abriu e Ronsen apareceu. Parou em frente da minha mesa e olhou-me.

— Johnny, vamos resolver o caso da proposta de Farber. Você não acha que...

Olhei-o, sem poder concentrar a atenção no que êle estava dizendo. As mãos que ainda faziam massagem no coto de perna começaram a tremer.

Que diabo! Por que não havia êle esperado que eu telefonasse?

Comecei a concordar com êle antes que êle falasse, antes que soubesse o que êle estava dizendo. Faria tudo, tudo, para que êle saísse o mais depressa possível. Não suportava vê-lo ali diante de mim, tão calmo, tão forte, tão seguro. Não podia tolerar aquela ânsia insaciável e implacável de domínio.

Êle apertou os olhos, surpreso com a minha pronta aquiescência. Depois, saiu da sala apressadamente, como se estivesse com receio de que eu mudasse de idéia.

Então, com os dedos trêmulos, tentei apertar de novo a correia em torno da coxa. Mas não o consegui logo. Continuei nervosamente a tentar.

Eu era um homem inteiramente perdido sem a minha perna.

 

30 ANOS 1917

 

Johnny saiu da sala de projeção, piscando os olhos com a luz forte do corredor. Parou e acendeu um cigarro. Um homem se aproximou.

— Posso tirar as cópias, Johnny?

— Claro, Irving. Vá em frente. O homem sorriu satisfeito.

— Tiramos alguns bons shots de Wilson quando prestava o juramento, não acha?

— Bons não, Irving, ótimos. Quando chegarem aos cinemas, bateremos todos os outros jornais.

Wilson havia tomado posse para o seu segundo período presidencial menos de três horas antes e Johnny havia contratado um avião para levar o negativo a Nova Iorque, em vez de esperar pelo trem. Como calculava, estava pelo menos seis horas à frente das outras companhias. Essas seis horas significavam que o jornal estaria nos cinemas da Broadway naquela noite e não na noite seguinte. Era um furo completo.

Irving Banno, que naquele momento o acompanhava, era o editor dos jornais. Era um homem baixo e forte, de cabelos pretos, que trabalhava como cameraman antes de Johnny indicá-lo para o outro posto. O que agradava nele a Johnny era que conseguia o filme sem exigir preparações complicadas. Só queria era que houvesse luz suficiente para ver as coisas. Era um homem ativo e enérgico, justamente o que era preciso para fazer o serviço. Johnny estava muito satisfeito com êle.

— Recebi os filmes de guerra da Inglaterra, Johnny, — disse êle, esforçando-se para acompanhar o andar de Johnny. — Quer vê-los hoje?

— Hoje, não, Irving, — disse Johnny, parando à porta do seu escritório. — Estou com muito serviço. Fica para amanhã.

— Está bem, Johnny, — disse êle, continuando pelo corredor.

Johnny sorriu. Era outra coisa que Irving tinha. Não parava. Mal acabava um serviço, atacava logo o outro. Não se podia negar que era graças a êle que o jornal da Magnum era considerado o melhor do país.

Entrou no escritório e Jane o recebeu com um sorriso.

— Que tal o filme, Johnny?

— Ótimo. Irving fêz um serviço notável, — disse Johnny, sentando-se à sua mesa. — Telefonou para Peter?

— Telefonei, sim, — disse ela, levantando-se e levando duas pilhas de papéis para a mesa de Johnny. — Estes aqui você tem de examinar; aqueles pode assinar logo.

Êle a olhou, sorrindo.

— Mais alguma coisa, minha chefe?

Ela voltou para a mesa dela e consultou o bloco.

— George Pappas vem aqui ao meio-dia e você vai levar Doris para almoçar a uma hora.

Johnny olhou para o relógio e exclamou:

— Ih! Já é quase meio-dia! Vou resolver tudo isto aqui antes de George chegar. E sabe de uma coisa, Jane? Você é um verdadeiro feitor de escravos.

— Se eu não fosse, — disse ela, franzindo o rosto, — você acabaria sem fazer nada.

Johnny voltou a atenção para os papéis na sua mesa. Eram os habituais contratos com os distribuidores dos estados, uma parte do seu trabalho que êle detestava. Eram rotineiros e enfadonhos. Jane tinha razão. Se fosse por êle, nunca nem olharia para eles. Mas tirou a caneta e começou a assiná-los.

Aqueles últimos cinco anos haviam-lhe dado mais corpo. Era ainda esguio, mas o aspecto de magreza e nervosismo havia desaparecida. A Magnum ia muito bem. Tinham um estúdio na Califórnia. Peter estava lá e se encarregava da produção. Joe estava com êle. Peter determinava o que tinha de ser feito e Joe fazia tudo. Davam-se bem juntos. Os filmes da Magnum mostravam os resultados do seu trabalho de equipe, pois estavam entre os melhores da indústria.

Johnny dirigia o escritório de Nova Iorque. Tivera razão em prever que a maior parte da indústria se transferiria para a Califórnia.

E tivera também razão na sua idéia de que o centro de distribuição deveria ser em Nova Iorque, onde também deveria ficar a produção de filmes curtos. A inesperada vitória de William Fox na ação que movera contra o consórcio em 1912, obrigando-o a fornecer filme aos produtores independentes, dera maior vigor a essa transferência. Desde então, outras vitórias tinham sido alcançadas. O destino do consórcio estava dependendo dos tribunais federais dos Estados Unidos e tudo indicava que a justiça decretaria a sua dissolução.

Logo que soubera da vitória de Fox, Johnny convenceu Peter a deixá-lo voltar para Nova Iorque, a fim de reabrir os estúdios ali. Jane estava trabalhando como script girl com Joe e Johnny lhe perguntou se ela gostaria de voltar para Nova Iorque com êle. Jane aceitara e Sam Sharpe os acompanhara na qualidade de diretor de elenco. Ficara nesse serviço até o outono do ano anterior, quando voltara à sua profissão de agente.

— Há muita gente de valor no cinema, — disse êle, explicando os seus motivos a Peter, — que não tem quem lhe zele pelos interesses. Por outro lado, sempre gostei da profissão de agente e não me tenho sentido feliz desde que a deixei.

— Está bem, Sam, — disse Peter. — Comprendo o seu ponto de vista e estou de acordo. Para começar, vou falar com todos os meus artistas aqui e convencê-los a contratá-lo como agente.

— Não é preciso, — disse Sam, sorrindo. — Todos eles já assinaram contrato comigo.

— Magnífico, — disse Peter, dando-lhe parabéns.

Depois que se apertaram as mãos Sam sentou-se na poltrona do escritório de Peter.

— Quando é que pretende começar a trabalhar? — perguntou Peter.

— Agora mesmo. Queria falar-lhe a respeito do contrato daquela menina Cooper. Acho que ela devia ganhar mais. Afinal o último filme dela fêz você ganhar uma pequena fortuna.

Peter arregalou os olhos e disse, sorrindo:

— E eu que não sabia que tinha um espião dentro do estúdio!!

Anos antes, em 1912, O Bandido havia estreado na Broadway. Foi a primeira das grandes premieres do cinema. O preço das entradas fora marcado em um dólar. Esperavam ter uma boa casa, mas nem Johnny previu o que iria acontecer.

Ao meio-dia, duas horas antes da abertura do cinema, já se formara em frente das bilheterias uma fila que dava a volta ao quarteirão. O trânsito pelo passeio era impossível e as pessoas tinham de andar pelo meio da rua. Pouco a pouco, a rua foi ficando mais repleta e mais tumultuada. Alguém, olhando da janela de um escritório vizinho, telefonara para a polícia, dizendo que estava havendo desordens na rua. Aparecera então um numeroso choque da polícia, disposto a manter a ordem a cassetete.

Puxando os cabelos de aflição, o gerente do cinema saiu e foi falar com a polícia. Explicou a um capitão de cabelos grisalhos que aquela gente toda só estava ali à espera da oportunidade de ver um filme.

O capitão tirou o quepe e coçou a cabeça.

— Não me diga! Nunca pensei que chegaria o dia de Bill Casey ver uma alteração da ordem apenas porque o povo quer assistir a um filme. De qualquer maneira, essa gente não pode ficar aí, impedindo o trânsito. Tem de tirar todo o mundo da rua.

O gerente olhou desesperadamente para Johnny.

— Que é que eu vou fazer? A exibição só vai começar às duas horas.

— Abra as portas já e deixe o povo entrar, — disse Johnny.

— Se eu os deixar entrar agora, que é que vou fazer com o espetáculo das duas horas?

O capitão interveio.

— Se não tirar logo essa gente da rua, não haverá espetáculo às duas horas. Recebi ordens enérgicas nesse sentido.

O gerente torcia as mãos.

— Vou-lhe dizer o que tem de fazer, — disse Johnny, chegando a uma decisão súbita. — Deixe todo o mundo entrar, passe o filme, e às duas horas, torne a passar. Fique passando o filme até o povo parar de chegar.

— Mas se eu os deixar entrar no meio do filme, eles não entenderão nada!

— Mas podem esperar a outra exibição até chegarem ao ponto em que entraram, não podem? Não é o que se faz com os filmes curtos?

O gerente olhou para o capitão, mas este se manteve em silêncio. Foi então até à bilheteria e bateu na janelinha de vidro. Disse desconsoladamente à moça que a abriu:

— Comece a vender as entradas.

As pessoas que estavam na cabeça da fila ouviram-no. Avançaram para a bilheteria e os dois guardas que estavam ali foram afastados do caminho.

O gerente começou a abrir caminho pelo meio da multidão e chegou até onde estava Johnny. Este, ao vê-lo, começou a rir. O paletó do homem havia perdido os botões, a flor da lapela estava caída para o lado, uma ponta do colarinho duro se soltara do botão e a gravata estava voltada para as costas.

— Quem já ouviu falar de uma coisa assim? — perguntou êle, espantado, a Johnny. — Sessões contínuas! Estamos transformados num carrossel de circo.

Mas a coisa pegou. Mais uma vez, Johnny acertara.

E isso foi apenas o começo. Outras companhias e outros filmes conseguiram sucesso semelhantes. Naquele mesmo ano, Adolph Zukor, que tinha sido um operador de cinema em Nova Iorque, exibiu em Nova Iorque o tão falado Rainha Elizabeth, com Sarah Bernhardt, e formou a sua companhia dos Famous Players para fazer filmes longos.

Em 1913, foi a vez de Quo Vadis?, seguido logo depois de Trafic in Souls, da Universal de Carl Laemmle, e de The Squaw Man, de Jesse Lasky e Cecil B. DeMille, tendo como artista principal Dustin Farnum. E, de ano para ano, foram maiores e mais freqüentes os sucessos. O primeiro grande teatro destinado exclusivamente a exibição de filmes, o Strand, de Nova Iorque, foi inaugurado em 1914. No mesmo ano, foi estreada a produção de Mack Sennett intitulada Title’s Punctured Romance, com Charlie Chaplin e Marie Dressier. No ano seguinte, foi a vez de Birth of a Nation, de Griffith, e de Theda Bara no filme de William Fox, A Fool There Was.

Nomes como Paramount, Metro, Famous Players e Vitagraph passaram a ser correntes na indústria e entre o público. Este estava começando a reconhecer e admirar artistas como Mary Pickford, Charlie Chaplin, Clara Kimball Young, Douglas Fairbanks e Theda Bara. Os jornais exploravam à vontade o valor desses nomes como notícia. O público queria saber de tudo a respeito desses artistas. Havia repórteres permanentemente destacados junto aos estúdios para divulgarem diariamente todos os seus atos e palavras.

O público se apaixonara pelo cinema e a indústria estava crescendo. Mas o cinema não deixava de ter as suas falhas.

Havia renhidas guerras nele. Os produtores lutavam uns com os outros. Era tremenda a competição em torno dos artistas. Um artista assinava contrato com uma companhia por uma soma fabulosa, só para descobrir que no dia seguinte poderia transferir-se para outra companhia por um preço ainda mais fantástico. Faziam-se e desfaziam-se contratos de dia para dia. Mas a indústria continuava a crescer.

Johnny disse um dia a Peter, meio de brincadeira, meio a sério:

— Pela primeira vez, há realmente um teatro do povo. O povo pode chamar o cinema de seu, pois foi êle que o fêz.

E o público lhe dava razão, formando compridas filas diante das bilheterias dos cinemas, através dos Estados Unidos.

Johnny empurrou os papéis para o lado e olhou o relógio. Era quase meio-dia.

— Jane, — disse êle, — veja se a ligação para Peter já está pronta. Tenho de falar com êle antes de George chegar.

Jane pegou o telefone em cima de sua mesa e Johnny levantou-se, espreguiçando-se. Foi até à janela e olhou. Lá fora, estava caindo uma chuva miúda. Ficou ali pensando.

George Pappas havia prosperado naqueles últimos anos. Já possuía nove cinemas com o seu nome e pretendia abrir mais. Havia procurado Johnny com uma proposta para formarem uma sociedade e comprarem dez cinemas em Nova Iorque. Com o seu jeito habitual, delicado e hesitante, havia explicado que faria isso sozinho se pudesse, mas a verdade era que não dispunha de dinheiro suficiente. Os cinemas pertenciam a um homem que estava muito doente e queria vender tudo. Eram dez boas casas espalhadas pela cidade, não na Broadway, mas em bons locais. O preço era 250 mil dólares, George daria a metade se a Magnum entrasse com a outra metade. Seriam sócios com direitos iguais e George administraria os cinemas.

Johnny havia pensado muito no caso e resolvera recomendar o negócio a Peter. Borden,

Fox e Zukor possuíam cinemas e Johnny via como exibiam proveitosamente neles a própria produção. Programariam os filmes da Magnum para as melhores datas, nas ocasiões em que houvesse longos feriados e, sem dúvida alguma, conseguiriam os melhores preços. Dava resultado para os outros e teria de dar para eles também.

A voz de Jane interompeu-lhe os pensamentos.

— A ligação será completada daqui a alguns minutos.

Johnny voltou para a sua mesa. Esperava que Peter procedesse dessa vez de maneira diferente e não pegasse uma discussão com êle. Sorriu, lembrando-se de como havia seis anos que Peter lutava com êle, desde o dia em que êle procurara interessá-lo no cinema. Mas êle sempre tivera razão e, de qualquer maneira, Peter gostava de discutir.

Só que Peter não chamava isso de discussão. Dizia que estava apenas conversando sobre o caso. Johnny se lembrava bem de alguns casos sobre que Peter havia conversado com Joe. Eram idéias para filmes que Joe queria fazer e Peter não queria. Para um estranho, a discussão dava a impressão de que os dois homens iriam chegar a qualquer momento às vias de fato. De repente, faziam silêncio. Entreolhavam-se desconfiados, como que envergonhados da exaltação a que haviam chegado e, então, um ou outro deles cedia. Não importava qual fosse, pois quando o filme ficava pronto cada qual se derramava em elogios ao outro. Cada qual dizia que o outro é que representara o papel mais importante da elaboração do filme. Mas os resultados eram bons e os filmes da Magnum eram dos melhores da indústria.

Ora, se Peter se opusesse, Johnny estava preparado para êle. Havia colhido algumas estatísticas sobre os lucros possíveis com a acumulação da produção e da exibição.

— Êle está no telefone, Johnny, — disse Jane, com voz um pouco trêmula. Nunca havia deixado de maravilhar-se com aqueles telefonemas diários de costa a costa.

Johnny pegou o telefone, disposto a enfrentar qualquer discussão.

— Alô, Peter.

— Alô, Johnny. Como vai?

— Muito bem. E você?

— Vou òtimamente. — Era curiosa como o telefone parecia acentuar o sotaque alemão de Peter. — Já viu Doris? Como foi que ela chegou aí?

Johnny quase se havia esquecido dela.

— Eu estava na sala de projeção quando ela chegou. Mas Jane foi recebê-la e ela está agora no hotel, trocando de roupa. Vou levá-la hoje para almoçar comigo.

Peter riu, com uma ponta de orgulho na voz.

— Você quase não vai conhecê-la, Johnny. Já está uma mocinha. Cresceu muito nestes últimos tempos.

Nas últimas vezes em que Johnny tinha estado na Califórnia não a havia visto. Doris estava estudando como interna numa escola para moças e agora se havia trnsferido para outra, perto de Nova York. Fêz mentalmente as contas. Ela já estava com dezoito anos.

— Sei mesmo que não vou conhecê-la. Acha então que o tempo fica parado?

— Mark é outro que você também não reconheceria, Johnny! Está quase da minha altura.

— Não!

— Sério! Está crescendo tanto que tem de vestir a toda pressa as roupas que Esther manda fazer, senão não chegam mais nele.

— Não diga!

— Eu também não acreditaria se não estivesse vendo. — Peter fêz então uma breve pausa e perguntou: — Já fêz o balanço do mês pasado?

Johnny apanhou um papel em cima da mesa e leu algumas cifras rapidamente, concluindo com a afirmação de que os lucros no mês anterior tinham sido de 60 mil dólares.

— Se continuarmos assim, — disse Peter, com voz satisfeita, — faremos mais de um milhão de dólares neste ano.

— Fácil, Peter. O movimento bruto da semana passada foi de setenta mil dólares.

— Ótimo, Johnny. Você vai bem. Continue assim.

— E vamos continuar! — disse Johnny, cuja voz tomou então um tom de orgulho. Consegui hoje o filme sobre a posse de Wilson.

— Formidável!

— Será exibido esta noite nos cinemas da Broadway e a preços especiais. Quando eu disse que o filme foi trazido de avião, os exibidores não fizeram qualquer objeção ao preço.

— Gostaria de vê-lo, — disse Peter.

— A sua cópia seguirá hoje pelo trem. Que há de novo por aí? - perguntou Johnny, sentindo que tinha de dar a Peter uma oportunidade de contar as suas vantagens.

Peter falou durante alguns minutos e Johnny escutou-o atentamente. A Magnum havia completado vários filmes e a última produção da temporada já estava na sala dos cortes. No fim, Peter teve uma idéia.

— Acho que irei a Nova Iorque no mês que vem, quando o trabalho aqui estiver mais aliviado. Já faz quase um ano que não vou aí e Esther está com vontade de passar uns dias com a família dela. Creio que as férias serão boas para ela.

Johnny sorriu. Peter não havia falado no desejo que tinha de visitar o escritório de Nova Iorque e ver com os próprios olhos o que estava acontecendo.

— Faça isso, Peter. Fará um bem enorme a vocês dois.

— Estou com muita vontade.

— Quando resolver a data, mande-me dizer e eu tomarei todas as providências necessárias.

— Está bem. E escute, Johnny: que é que vocês acham da guerra aí em Nova Iorque?

Johnny tinha de ser reservado. Afinal de contas, Peter nascera na Alemanha.

— Como assim?

— Joe quer fazer um filme mostrando como os alemães estão oprimindo o povo na Bélgica e na França e eu não estou certo de que seja uma boa idéia. Não sei se um filme assim daria resultado.

— A opinião pública é aqui na maioria favorável aos Aliados, — disse êle, cautelosamente.

Johnny já sabia do filme. Joe lhe havia telefonado para falar sobre êle, dizendo-lhe também que Peter era contrário à idéia. Embora não tivesse ilusões sobre a terra do seu berço, não podia decidir-se a fazer um filme que apontasse para ela um dedo acusador. Por outro lado, a notícia de que a Magnum ia fazer um filme sobre as atrocidades alemãs se espalhara pela indústria, e se Peter anunciasse que não ia fazer o filme, passariam a considerá-lo germanófilo. Foi mais ou menos isso que disse a Peter.

— Neste caso, — murmurou sem muita convicção o outro, — creio que teremos de tocar o filme para a frente.

— A situação é essa, Peter. É um caso de ser preso por ter cão e preso por não ter cão.

Peter deu um suspiro. Sabia quando estava derrotado.

— Vou dizer a Joe para começar a trabalhar no script.

Johnny não pôde deixar de sentir um pouco de pena. Compreendia como Peter se sentia. Ouvira-o muitas vezes falar dos seus parentes na Alemanha e da vontade que tinha de ir fazer-lhes uma visita.

— Diga a Joe que não se apresse. Talvez tudo esteja resolvido antes de vocês começarem a filmagem.

— Não, Johnny. Isso não vai adiantar nada. Se temos de fazer a coisa, vamos fazer logo. Afinal de contas, por que é que vou ficar preocupado? Não sou mais alemão. Há mais de vinte anos, sou cidadão americano. Não vi mais a terra, desde que saí de lá há mais de vinte e seis anos. O povo deve ter mudado muito depois disso.

— É verdade. Devem ter mudado muito desde que você saiu de lá.

— Claro, — disse Peter. Mas, no fundo, sabia que não era assim. Ainda se lembrava dos oficiais prussianos que andavam desdenhosamente pelas ruas de Munique nos seus grandes cavalos pretos. Todos se curvavam à sua passagem e tinham mêdó deles. Lembrava-se das diligências de recrutamento que haviam arrancado primos seus do seio da família quando ainda não tinham dezessete anos. Fora por isso que o pai o mandara para a América. Não, nada havia mudado.

De repente, as suas dúvidas se dissiparam e êle se sentiu melhor.

— Muito bem, Johnny. Vamos fazer o filme. Diga a Doris que telefone hoje à noite lá para casa.

— Está bem.

— Falarei então com você amanhã.

— Certo, — disse Johnny distraidamente. Estava ainda pensando no que Peter devia estar sentindo a respeito do filme sobre os alemães. De repente, lembrou-se. Precisava de uma resposta sobre o caso de George. — Escute, Peter...

— Que é?

— É sobre aquela proposta de George sobre os cinemas. Êle virá saber da resposta hoje.

— Ah, sim... — A voz de Peter não denotava qualquer interesse e Johnny ficou desanimado. Não podia discutir com Peter depois do que haviam conversado. — Falei com Esther e com Joe sobre o caso e ambos acham que é uma boa idéia. Diga a êle que está certo.

Johnny apanhou as estatísticas em cima da mesa depois de desligar o telefone e entregou-as a Jane.

— Guarde isso. Não há mais necessidade.

E recostou-se na cadeira, sacudindo a cabeça. Peter era assim mesmo. Nunca fazia o que se esperava.

Doris estava diante do espelho, empolgada por uma onda de satisfação. O que via muito lhe agradava. Aquele vestido era muito melhor do que o que ela havia experimentado antes. Fazia-a parecer mais velha, mais amadurecida. Felizmente, a chuva havia parado e ela podia sair com êle. Todos os seus outros vestidos davam-lhe o aspecto de uma menina.

Olhou para o relógio em cima da cômoda. Êle devia estar chegando, pensou ela enquanto colocava o chapéu. Tivera uma decepção quando não o vira na estação mas, depois que Jane explicara que êle estava muito ocupado com o filme da posse de Wilson, conformara-se. Já estava habituada às pressões contínuas e aos prazos rígidos dentro dos quais vivia por gosto a gente de cinema. Sentira-se melhor com a notícia de que êle iria buscá-la no hotel a fim de levá-la para almoçar.

Bateram à porta. ”É êle”, pensou ela, e correu para a porta. Mas no meio do caminho parou para um último olhar ao espelho e, depois, se dirigiu mais vagarosamente para a porta.

”Não posso mais agir como uma criança”, refletiu ela, enquanto levava a mão à maçaneta e abria a porta. Mas o coração lhe batia aceleradamente dentro do peito.

Foi quase como se outra pessoa estivesse abrindo a porta e não ela. Podia ver-se ali de pé, à espera. Podia vê-lo ali, com o sorriso que se lhe acendera no rosto ao vê-la.

Viu o sorriso desvanecer-se e, depois, renascer, mais quente e mais cheio de admiração.

Trazia-lhe flores. Êle estava preparado para vê-la, como ela havia estado. Tinha pensado em que ela devia estar bem crescida, mas no fundo não acreditava muito nisso. Tinha estado preparado para pegá-la nos braços e carregá-la dizendo ”Alô, querida” como fizera tantas vezes antes. Mas já não era possível. Viu-o de pé ali na porta e, então, recuou um pouco, com um toque de côr nas faces, os olhos quentes e cheios de imensa exaltação interior e os lábios um pouco trêmulos.

Êle entrou no quarto e lhe entregou as flores. Ela as recebeu em silêncio e as suas mãos se tocaram. Era como se uma corrente elétrica houvesse passado por eles. As mãos se apertaram e não se soltaram.

— Alô, querida, — disse êle, com a voz cheia do espanto que sentia.

— Alô, Johnny.

Era a primeira vez que o chamava assim, sem dar-lhe o nome de ”Tio”. De repente, ela teve consciênca de que ainda se estavam apertando as mãos. Retirou a mão desajeitadamente e ainda mais ruborizada.

— Vou colocá-las num jarro, — disse em voz baixa.

Johnny não tirou os olhos dela enquanto ela cuidava das flores. Via-lhe o perfil da posição em que estava. O cobre escuro dos cabelos contra o rosto claro e levemente colorido, os profundos olhos azuis, as maçãs do rosto salientes, a boca suave e o queixo firmemente arredondado.

Ela se voltou e viu que êle a estava olhando. Deu um toque final às flores e perguntou:

— Acha que ficam bem assim?

Johnny bateu com a cabeça. Sentia-se confuso. Não sabia o que dizer àquela moça desembaraçada que acabava de conhecer.

— Não posso acreditar, Doris. Você... Ela o interrompeu, rindo.

— Não vá dizer que eu cresci muito. Se eu ouvir isso mais uma vez, começarei a dar gritos!

Êle riu com ela e confessou, meio embaraçado:

— Era justamente isso que eu ia dizer.

— Eu sabia, mas não posso compreender por que todos dizem isso. O tempo não ficou parado para mim e não fica para ninguém. É claro que eu cresci. Queria que eu ficasse uma menina para sempre?

Êle começou a sentir-se mais à vontade e murmurou:

— Não sei... Quando você era uma menina, eu costumava levantá-la no ar, balançá-la, beijá-la, chamar você de querida. Ríamos e nos divertíamos muito com isso. Hoje, eu não posso mais fazer essas coisas.

Os olhos dela ficaram de repente muito sérios e mudaram de côr. Era curiosa a mobilidade líquida daqueles olhos.

— Mas pode ainda beijar uma pessoa amiga a quem não vê há quatro anos.

Olharam-se um instante e êle curvou a cabeça para ela. Doris aproximou o rosto e os lábios deles se tocaram.

Durante um segundo, êle ficou como que atordoado. Passou involuntariamente o braço pela cintura dela, enquanto Doris lhe passava os braços pelo pescoço. Johnny sentia o vinho da paixão nos lábios dela. Sentiu o leve perfume dos seus cabelos. Olhou-a e viu que estava com os olhos cerrados.

Os pensamentos lhe correram pela cabeça como relâmpagos: ”Que loucura, Johnny! Ela pode parecer uma mulher, mas é apenas uma garotinha que ainda está na escola e que saiu de casa pela primeira vez. Uma meninazinha romântica. Não seja idiota, Johnny!”

Afastou-se de repente. Ela descansou a cabeça no ombro dele. Por um momento, êle lhe acariciou o rosto e os cabelos. Depois, disse em voz grave:

—• Você cresceu, querida. Está grande demais para brincadeiras.

Ela o olhou, com os olhos brilhantes, um sorriso dançando nos lábios e a voz jovem:

— Acha mesmo, Johnny?

Êle fêz um sinal afirmativo com a cabeça, com o rosto ainda sério. Não podia falar. Ainda estava procurando uma resposta para a sua atônita interrogação: ”Que é que me está acontecendo?

Doris foi apanhar o casaco no armário. Repetia em silêncio, bem no fundo do coração: ”Êle me ama, êle me ama, mesmo que ainda não saiba disso!” Em voz alta, disse:

— Onde é que vamos almoçar, Johnny? Estou morta de fome I

Johnny demorou muito a tomar o café, estranhamente relutante em fazer aquele almoço chegar ao fim. Já estavam ali havia duas horas e êle tinha a impressão de que apenas alguns minutos tinham passado. Pela primeira vez, podia conversar com uma moça que mostrava pelo cinema o mesmo interesse que êle sentia. Acabara de falar-lhe detalhadamente sobre o filme da posse de Wilson.

Ela o havia escutado em silêncio e com muita atenção. Sentia o calor que êle revelava na voz quando falava de cinema, do que o cinema já era e do que chegaria a ser no futuro. Para muita gente, aquele tema único seria enfadonho, mas ela quase que se criara ouvindo aquelas coisas, que lhe eram, por isso, perfeitamente naturais.

Mas tinha também os seus pensamentos pessoais. Observava-lhe a côr dos cabelos e dos olhos, o formato do rosto, a boca generosa e o queixo determinado; também a sua altura e o seu jeito de andar, bem como a força dos braços quando a haviam entrelaçado.

Estava contente de não se haver enganado. Sempre o amara e agora sabia que êle também a amava. Êle levaria algum tempo para ter consciência disso. Tinha primeiro de aceitá-la como uma pessoa adulta, mas ela estava disposta a esperar. Um contentamento inédito e quente lhe corria pelas veias enquanto o escutava. Seria até muito interessante observá-lo quando fosse aos poucos tendo consciência do seu amor. Uma sombra de sorriso passou-lhe pelos lábios ao pensar nisso. Era tão bom amar!

Johnny acabou de tomar o café e colocou a xícara no pires. Sorriu quando olhou para o relógio.

— Tenho de voltar para o escritório. Nunca demorei tanto tempo no almoço desde que o abrimos.

— Pois acho que deve fazer isso mais vezes. Não é bom trabalhar demais.

— Não é sempre que posso ficar tanto tempo ausente. Mas hoje, não estou sentindo nem vontade de voltar e não sei por quê, disse êle, acendendo um cigarro.

Ela sorriu, pensando que sabia por quê. Mas levantou-se e disse:

— Há dias assim, dias em que não se tem vontade de fazer nada.

Johnny colocou o casaco nos ombros dela e disse:

— Vou levá-la até ao hotel, Doris!

Passaram pela banca de jornais da esquina e viram as manchetes dos jornais: ”Wilson Toma Posse e Promete Paz ” Doris voltou-se para êle e disse com voz séria:

— Acha que êle vai cumprir essa promessa, Johnny?

— Talvez não, mas fará tudo o que fôr possível. Por quê?

— Papai anda muito infeliz com essa guerra. Como sabe, êle ainda tem parentes na Alemanha. E há o filme que Joe quer que êle faça...

— Sei disso. Conversamos sobre o caso hoje de manhã. Êle vai fazer o filme.

Andaram mais alguns passos até ela falar de novo.

— Estou muito satisfeita de que êle tenha tomado uma decisão. Ao menos, não será mais torturado pelas dúvidas.

— É verdade.

— E, se entrarmos na guerra, você terá de ir, Johnny? Olhou-a, espantado. Não havia ainda pensado nisso.

— Acho que sim, — disse êle, logo na primeira reação. — Isto é, não sei bem. Mas não adianta pensar nisso. Quando chegar a ocasião, saberemos.

Ela não respondeu. Tomou-lhe o braço e foi em silêncio até ao hotel.

Johnny levantou os olhos da mesa e perguntou a Jane pela quarta vez:

— Tem certeza de que Doris disse que passaria por aqui antes de ir para a estação?

— Tenho, sim, respondeu ela, sem saber porque êle estava tão ansioso. Ainda que a moça não passasse por ali, sabia a hora da chegada do trem em que vinha o pai e a mãe e podia ir para a estação sozinha. Johnny não costuamva ficar nervoso por tão pouco.

Johnny assinou mais alguns papéis e tornou a falar com ela.

— Como é o nome do homem que George quer colocar como gerente daqueles três cinemas fora do centro?

— Stanley Farber.

Olhou para a carta que estava em cima da mesa. O homem lhe agradecia a aprovação da sua indicação para o cargo. Isso lhe causou surpresa. Ainda não havia aprovado a indicação. Em geral, só aprovava uma nomeação depois de conversar com a pessoa designada. E êle ainda não havia falado com Farber. Jogou a carta para Jane.

— Apure isso com George. Quero saber o que êle acha.

Tirou o relógio do bolso e olhou-o com impaciência. Faltava apenas duas horas para o trem chegar. Por que Doris estava demorando tanto?

A porta se abriu antes que êle acabasse de guardar o relógio. Era Doris.

Johnny se levantou e foi ao encontro dela.

— Já estava estranhando a sua demora, — disse êle, tomando-lhe a mão.

Ela sorriu para êle e explicou:

— Perdi o expresso quando saí da escola e tive de vir no trem parador.

Jane olhou-os, surpresa. Ficou por um momento imóvel, como que atordoada. Não amava Johnny, mas sempre achara que isso seria possível se êle a quisesse. Percebera havia muito que êle era capaz de grandes profundezas emocionais que algum dia se revelariam nele. Mas nada do que êle dissera ou fizera a tinha feito pensar que êle um dia voltasse para ela. Naquele momento, teve certeza de que nunca voltaria e isso lhe deu um sentimento inexplicável de alívio.

Doris voltou-se para ela e disse ”alô”. Jane respondeu-lhe maquinalmente e Johnny ofereceu-lhe uma cadeira.

— Agora, se você tiver paciência e esperar um instantinho que eu acabe algumas coisas urgentes, poderemos ir comer alguma coisa antes de irmos para a estação.

— Não me incomodo de esperar, — disse ela, suavemente. Jane olhou para Johnny quando se sentou de novo à mesa.

Era a primeira vez que o via assim tão exaltada. Parecia um garoto na descoberta do primeiro amor e o mais interessante era que parecia que êle ainda não sabia disso.

Olhou para Doris, confortàvelmente sentada na cadeira que Johnny lhe dera. Tirou o chapéu e os cabelos lhe brilharam às luzes acesas do escritório. Parecia muito feliz e tinha o coração nos olhos ao olhar para Johnny. Não notou que Jane a estava observando.

Jane levantou-se impulsivamente e foi até onde Doris estava. Curvou-se sobre ela, apertou-lhe a mão e sorriu. Falou em voz baixa, tão baixa que Johnny não a pôde ouvir.

— É como um sonho, Doris, não é?

Doris olhou-a espantada. Viu a quente simpatia que havia nos olhos de Jane e bateu com a cabeça, sem falar.

Nesse momento, Irving entrou impetuosamente na sala.

— Johnny! Vem aí uma notícia importante. A fita do telégrafo diz que é assunto urgente e sensacional. Já telefonei para a Associated Press e me confirmaram que estão esperando uma notícia da maior importância, sem explicarem, porém, de que se trata.

Johnny levantou-se e perguntou a Doris:

— Quer ir ver o que é?

— Quero, sim.

Foram com Irving para o departamento de jornais. No caminho, Johnny fêz as apresentações. A sala dos jornais era pequena e ficava no fim do corredor. Dentro, só havia uma mesa onde Irving redigia os títulos e uma mesa grande, onde fazia os cortes e a montagem dos jornais. Num canto, havia um receptor telégrafo de fita. Bannon havia convencido Johnny a instalá-lo para que ficassem a par dos fatos importantes a que fosse necessário dar cobertura para o jornal cinematográfico.

Havia algumas pessoas reunidas em torno do aparelho quando entraram. Deram passagem a Johnny, quando o viram. Doris, Irving e Jane estavam ao lado dele. O telégrafo estava parado quando entraram, mas de repente começou a funcionar.

Johnny pegou a fita e começou a ler em voz alta:

”Washington, D. C, 12 de março (AP) — O Presidente Wilson determinou hoje que os navios mercantes sejam armados para proteger-se dos ataques injustificados dos submarinos alemães.

Essa ordem foi dada oito dias depois que o Congresso deixou de aprovar uma lei que daria essa autorização aos navios mercantes. O texto completo da ordem do Presidente será fornecido logo que fôr possível. — Deve esperar-se continuação.”

Durante quase um minuto, houve completo silêncio na sala, enquanto todos pensavam na importância da notícia. Bannon foi o primeiro a falar.

— Isso significa a guerra. Ninguém pode impedi-la agora. Parece que o Presidente afinal se decidiu.

Johnny estava pensando. Guerra. Os Estados Unidos iam entrar na guerra. De repente, entrou em ação. Voltou-se para Jane.

— Peça uma ligação para Joe Turner no estúdio. Depressa!

Jane foi correndo para o escritório e êle falou então com Bannon.

— Faça um filme especial disso o mais depressa possível. Siga depois para Washington com uma turma de filmagem completa. Quero filmes de tudo o que acontecer de importante e quero você no trem daqui a duas horas 1

Voltou então para o escritório, acompanhado de Doris. Havia-se esquecido dela por alguns minutos e, naquele momento, sentiu a mão dela no braço. Parou e olhou para ela.

Doris estava muito pálida e com os olhos arregalados.

— Se houver guerra, que é que você vai fazer, Johnny? — perguntou ela em voz baixa e tranqüila.

— Não sei, querida. Temos de ver o que vai acontecer. Entraram no escritório e Jane disse a Johnny:

— A sua ligação será completada em quinze minutos.

— Obrigado, — disse êle, indo sentar-se à sua mesa e acendendo um cigarro. Ficou pensando no que faria se houvesse guerra. Mas não havia dúvida possível. Só se pode ter uma atitude quando a pátria está em guerra.

Não podia ficar sossegado. Pouco depois levantou-se e disse a Jane:

— Vou até à sala de Irving. Chame-me quando Joe estiver ao telefone.

Doris seguiu-o com os olhos. Via como estava inquieto e alguma coisa dentro dela parecia contrair-se até que ela mal podia respirar.

Jane, gozando a sua nova liberdade, olhou-a com compreensão. Levantou-se e foi até onde estava Doris.

— Preocupada? — perguntou.

Doris moveu afirmativamente a cabeça. Lutava muito para conter as lágrimas, mas sentia que elas estavam bem perto dos olhos.

— Você o ama, — disse Jane.

— Sempre o amei, — disse Doris, com voz trêmula. — Desde menina. Sonhava com êle sem saber o que isso significava. Um dia, fiquei sabendo.

— Êle também a ama, — disse Jane. — Mas ainda não sabe. Doris não podia mais conter as lágrimas.

— Sei disso. Mas, se houver guerra e êle partir, talvez nunca descubra.

— Não se preocupe que êle descobrirá.

— Acha mesmo? — perguntou Doris, sorrindo por entre as lágrimas.

— É claro que sim, — murmurou Jane, ao mesmo tempo que pensava: ”Pobre menina! Que situação a dela!”

O telefone tocou, assustando-as. Jane atendeu na mesa de Johnny.

— Está completa a ligação de Los Angeles, — disse a telefonista.

— Um momento, disse Jane. Tapou o fone com a mão e disse a Doris: — Quer ir chamá-lo, meu bem?

Doris ficou satisfeita de que lhe pedissem alguma coisa. Até então, ficara completamente afastada de tudo. Sorriu para Jane e saiu.

Um minuto depois, estava de volta em companhia de Johnny, que tomou o fone da mão de Jane.

— Alô, Joe?

Do outro lado do fio, fêz-se ouvir o vozeirão de Joe.

— Sou eu, sim, Johnny. Que é que há?

— O Presidente vai armar os navios mercantes. Isso significa certamente a guerra.

Joe deu um assobio e disse:

— Veio mais cedo do que se esperava. Que é que você quer que eu faça?

— Já acabou aquele filme de guerra?

— A última cena foi para a lata hoje de manhã.

— Então mande-o imediatamente para Nova Iorque. Se o distribuirmos agora, faremos um dinheirão.

— Não é possível, Johnny. O filme tem de ser cortado e ainda está sem os letreiros. Precisa ainda de uma duas semanas de trabalho no mínimo.

— Não podemos esperar tanto. Sabe o que é que você tem de fazer? Tome o trem esta noite com o seu melhor homem de corte e dois redatores. Pegue alguns enroladores e reserve duas cabinas juntas. Corte o filme no caminho e mande redigir os letreiros. Tenha tudo pronto quando chegar a Nova Iorque. Mandaremos fazer os letreiros aqui e os intercalaremos no filme. Depois, mandaremos fazer as cópias e distribuiremos o filme pelos cinemas.

— Não sei se será possível. O tempo é muito curto.

— Tem de fazer isso, Joe. Vou avisar a todos os distribuidores e vendedores que o filme estará pronto na semana que vem.

— Ih! Você não mudou nada! Não pode esperar mais um pouco?

— Não podemos esperar!

— Que é que Peter acha?

— Não sei. Peter ainda não chegou aqui.

— Está bem, está bem. Vou ver o que posso fazer.

— Ótimo. Sei que conseguirá. Já tem título para o filme?

— Não. Fizemos toda a filmagem, chamando-lhe apenas ”Filme de Guerra”.

— Está bem. Terei um título quando você chegar aqui. Desligou o telefone e olhou para as duas, dizendo:

— Afinal de contas, pode resultar algum bem de tudo isso! Doris exclamou com a voz cheia de angústia:

— Como pode dizer uma coisa dessas, Johnny? Como pode dizer que resultará algum bem da guerra dos alemães contra tantas pessoas inocentes?

Êle a olhou, sem sequer perceber a censura em sua voz. Tomou-lhe as duas mãos e apertou-as exaltadamente:

— É isso, Doris! É isso!

— Isso o quê} — perguntou ela, mais espantada do que nunca.

Êle não lhe respondeu. Voltou-se para Jane e começou a falar nervosamente:

— Quero que transmita a notícia a todos os distribuidores e vendedores. Mande o departamento de publicidade começar a trabalhar no material. Escreva.

Jane pegou lápis e papel e Johnny ditou:

”A Magnum Filmes anuncia a imediata distribuição da sua última e superlativa produção, ”A Guerra aos Inocentes”. As exibições começarão na próxima semana. O filme mostrará todos os terrores e atrocidades dos hunos”.

Fêz uma pausa e disse a Jane:

— Mande isso para a publicidade para ser reescrito, preparado e distribuído.

Voltou-se para Doris com um grande sorriso no rosto.

— Pegue o seu casaco, querida, e vamos saindo, senão chegaremos atrasados à estação!

A sala de projeção estava repleta quando se exibiu a primeira cópia completa de A Guerra aos Inocentes. Quando o filme terminou, o público saiu em silêncio e se dividiu em pequenos grupos pelo corredor.

Era seleto o grupo de convidados para a preview do filme. O país estava em guerra havia quase uma semana e era geral o interesse pelo filme. Representantes dos maiores jornais e das associações de imprensa, autoridades do governo e preeminentes distribuidores e homens do teatro e do cinema estavam presentes.

Reuniram-se todos em torno de Peter e de Joe, felicitando-os. julgavam que o filme contribuiria muito para explicar ao povo americano por que a guerra tinha sido necessária.

— Uma excelente e brilhante propaganda do nosso lado, — disse a Peter um dos convidados. — Merece todos os parabéns por ter conseguido ferir os hunos onde mais dói.

Peter sorriu maquinalmente. Sentira uma ponta de mal-estar ao ver o filme. Ao ouvir a voz do homem, pensou amargamente: ”Parabéns por estar fazendo guerra ao meu povo e a minha família”. Não podia falar. O coração estava carregado demais. Ficou contente quando o último convidado saiu e êle pôde ir para o escritório de Johnny onde havia relativo sossego e êle podia sentar-se. Esther, Doris, Joe e Johnny estavam com êle.

Não falavam muito. Entreolhavam-se com algum constrangimento. Havia no ar uma tensão que todos pareciam sentir mas a que cada qual atribuía uma causa diferente.

Afinal, Peter falou.

— Você tem aí shnapps ou coisa parecida, Johnny? Sinto-me um tanto cansado.

Johnny abriu uma gaveta da mesa e tirou uma garrafa de uísque e alguns copos de papel. Depois de servir, passou um copo a Peter, outro a Joe e levantou o seu, dizendo:

— À vitória!

A bebida afrouxou a língua de Joe, que disse:

— Fui eu que fiz esse filme, mas querem saber de uma coisa? Depois que o vi hoje, só me deu vontade de sair daqui e ir alistar-me.

Peter nada disse. Apanhou alguns papéis em cima da mesa de Johnny e começou a olhá-los distraídamente. Eram contratos de exibição do filme. Largou-os como se lhe estivessem queimando os dedos.

— E ainda tenho de ganhar dinheiro com isso!

Esther sabia como êle se estava sentindo. Foi para junto dele e ali ficou em silêncio. Peter olhou-a, agradecido. Eles se compreendiam.

A voz de Johnny caiu na sala como uma explosão de granada.

— Como é que vocês vão substituir-me durante a minha ausência? — perguntou êle.

Olharam-no todos, espantados. Havia um sorriso nos seus lábios, mas os olhos estavam sérios.

— Que é que você quer dizer com isso? — perguntou Peter.

— Exatamente o que eu disse, — respondeu Johnny. — Vou alistar-me amanhã.

— Não! — foi o grito angustiado que saiu dos lábios de Doris.

Esther olhou para a filha, cheia de fria surpresa. O rosto de Doris estava de uma palidez de cera. ”Eu devia ter desconfiado”, pensou Esther. Muitas coisas que Doris havia dito e feito ganhavam sentido de repente. E aquilo vinha de muito tempo. Aproximou-se e tomou nas suas as mãos trêmulas da filha.

Os homens nem tomaram conhecimento delas.

— Não irá sozinho, Johnny! — exclamou Joe. — Irei com você!

Peter olhou-os e pensou: ”E eu tinha de viver para ver esses homens a quem tanto quero irem para a guerra contra meus irmãos 1” Levantou-se e disse em voz alta:

— Vocês têm necessidade de fazer isso?

— Não posso fazer outra coisa, — disse Johnny, encarando-o. — Esta é minha terra.

Peter notou um olhar estranho em Johnny e se sentiu magoado ao pensar que êle estivesse duvidando da sua lealdade. Forçou um sorriso e disse:

— Se acham que devem ir, vão e não se preocupem conosco. Mas tenham cuidado porque vamos precisar de ambos quando voltarem.

Estendeu a mão a Johnny.

— Eu sabia que você compreenderia, — disse Johnny, apertando-a.

As lágrimas começaram a correr dos olhos de Doris. A mãe as fêz parar com algumas palavras, que ficaram durante muito tempo no espírito de Doris.

— Nunca chore na frente de seu homem, Hebe kind, — disse Esther.

Johnny olhou para a mesa. O último papel fora assinado e a mesa estava limpa. Olhou para Peter e disse:

— Acho que está pronto. Mais alguma pergunta?

— Não. Tudo está resolvido.

— De fato, Peter. Mas, se não entender alguma coisa, pergunte a Jane. Ela, aliás, entende mais disso do que eu, — disse êle, voltando-se para Jane, com um sorriso.

— Vai ser difícil isto funcionar na sua ausência, chefe, — disse ela, também com um sorriso e uma ponta de zombaria.

— Deixe de troçar de mim, Jane. Sei o que estou dizendo. Agora, dêem licença que já estou atrasado. Prometi a Joe estar no posto de recrutamento às três horas.

Pegou o chapéu no cabide e estendeu a mão para Peter.

— Adeus, Peter. Até depois da festa.

Peter apertou-lhe a mão em silêncio durante muitos segundos.

Johnny foi até à mesa de Jane e desmanchou-lhe o penteado.

— Adeus, menina.

Ela se levantou, beijou-o rapidamente e disse com voz rouca:

— Adeus, chefe. Tenha muito cuidado.

— Claro, — disse êle, saindo.

Peter e Jane se olharam durante algum tempo.

— Acho que vou chorar, — disse Jane com a voz embargada. Peter tirou o lenço do bolso e assoou o nariz ruidosamente.

— Pois chore. Quem é que está proibindo?

Quando Johnny parou no passeio diante do escritório para acender um cigarro, ouviu uma voz que o chamava. Voltou-se e viu Doris correndo para êle.

— Johnny! Johnny!

— Por que é que não está na escola, querida? — perguntou êle, severamente mas com o coração mais leve só de vê-la.

— Não voltei para lá ontem, — disse ela, ofegante. — Queria ver você antes de sua partida. Felizmente, ainda o alcancei.

Ficaram ali no meio da rua, olhando um para o outro. Não sabiam o que dizer.

Foi Johnny quem quebrou o silêncio.

— Gostei de que você viesse, querida.

— Gostou mesmo, Johnny?

— Muito!

Ficaram de novo em silêncio. Dessa vez, quem falou foi Doris.

— Você me escreverá se eu lhe escrever, Johnny?

— Sem dúvida.

De novo o silêncio, pesado e embaraçoso. Os olhos de ambos falavam mais do que os lábios. Johnny tirou o relógio.

— Estou atrasado. Tenho de ir.

— Está bem, Johnny.

Êle levantou a cabeça de Doris, pegando-lhe o queixo.

— Seja boazinha e espere por mim, — disse êle, tentando brincar. — Talvez, quando eu voltar, lhe traga uma coisa bem bonita.

— Esperarei por você, Johnny, ainda que seja pelo resto da vida, — disse ela, com lágrimas nos cantos dos olhos.

Johnny ficou perturbado com a intensidade da sua voz. Sentiu o rosto em fogo e tentou ainda brincar.

— Faça isso, querida, e eu lhe trarei um presente.

— Não tem de me trazer nada, Johnny. Só quero é que volte como está agora. É só o que eu quero.

— Que é que me pode acontecer? — disse êle, rindo.

A longa fila caqui fêz alto. O sol ardente caía fortemente sobre os homens. A poeira se havia depositado em espessas camadas nos rostos, onde o suor a transformara em lama.

A ordem veio ecoando da cabeça da coluna:

— Dispersar. Dez minutos de descanso.

Johnny estendeu-se de costas na relva ao lado da estrada, cobrindo o rosto com as mãos. A sua respiração era arfante. Joe sentou-se ao lado dele.

— Êta, estou que não agüento mais!

Tirou as botinas e começou a fazer massagem nos pés. Johnny continuou deitado em silêncio. Uma sombra caiu sobre êle. Tirou as mãos dos olhos e viu que era o cabo. Moveu um pouco o corpo para dar-lhe lugar no pequeno trecho de relva.

— Sente-se, Rocco.

Rocco deixou-se cair até o chão. Olhou para Joe que esfregava os pés e disse rindo:

— Aí é que se vê como é bom ser barbeiro como eu. A gente se acostuma a ficar de pé o dia todo e os pés aprendem.

— Conversa, — disse Joe. — Você só diz isso porque parece feito de ferro.

Johnny riu e perguntou a Rocco:

— Já sabe para onde é que nós vamos?

— Para um lugar perto do rio Mosa, a Floresta de Argonne, segundo ouvi dizer.

— Pronto! — exclamou Joe, olhando para os pés. — Ouviram? Pelo menos, já sabem para onde é que vocês vão.

Rocco continuou como se Joe não o houvesse interrompido.

— Parece que vai haver uma grande ofensiva por lá.

— Quanto ainda falta para chegarmos?

— Uns quarenta ou cinqüenta quilômetros.

Joe deu um gemido e se estendeu no chão. Ficaram em silêncio durante alguns minutos. O barulho de um avião os fêz levantar a cabeça.

Um Spad cinzento com as cores francesas estava atravessando o céu.

— Deve ser ótimo e fresco lá em cima, — disse Joe, invejosamente. — Quando nada, os pés não doem.

O avião era tão gracioso sobre o céu azul quanto uma gaivota. De repente, deu uma viragem brusca e voltou para o lado onde eles estavam. Parecia estar fugindo de alguma coisa.

— Que será que houve com êle? — perguntou Johnny. Não foi preciso esperar muito para saber. À luz do sol, atrás

do Spad, apareceram três Fokkers vermelhos com grandes cruzes pretas pintadas nas asas. Estavam voando em formação acima do pequeno Spad.

De repente, um deles saiu da formação e mergulhou sobre o pequeno Spad cinzento. O Spad deu uma viragem rápida e entrou numa curva, enquanto o Fokker continuava o mergulho sem atingi-lo.

— Johnny riu, olhando o Spad que fugia no rumo de leste.

— O pequeninho enganou o alemão. Acho que vai escapar deles.

Outro Fokker apareceu, mergulhando em direção ao Spad. Ouvia-se perfeitamente o crepitar das metralhadoras acima do barulho dos motores, fazendo Johnny lembrar-se das máquinas de escrever no escritório.

— Por que é que êle não atira também neles? — perguntou Johnny, irritado.

— É justamente isso que querem que êle faça, — respondeu Rocco. — Neste caso, poderão derrubá-lo com a maior facilidade. Êle está sendo esperto, procurando fugir.

Mais uma vez o Spad escapou e o Fokker passou sem atingi-lo. O primeiro Fokker estava subindo lentamente, mas já se achava bem longe do Spad. Não ganharia altura a tempo de voltar a atacá-lo.

— Só falta um, — disse Joe. — Se êle se livrar desse, estará salvo!

Nesse mesmo momento, o terceiro Fokker iniciou o seu mergulho. Os três ficaram olhando com a respiração presa. Os aviões já estavam muito longe para que algum som lhes chegasse aos ouvidos, mas viam tudo ainda muito bem. O Fokker mergulhou sobre o Spad.

— Livrou-se! — gritou Johnny — Viu Rocco?

Rocco não respondeu. Apontou para o céu. Um pequeno penacho de fumaça negra se desprendia do avião, o qual parecia balançar-se no ar como uma ave ferida. De repente, virou de lado e começou a cair para a terra. Viam-se perfeitamente as labaredas que lhe lambiam as asas. Começou a projetar-se no no chão com tremenda rapidez. Um pequeno objeto negro desprendeu-se do avião em chamas e caiu em direção à terra.

Johnny levantou-se impetuosamente.

— Está perdido! — exclamou, desolado. Rocco puxou-o para o chão.

— Abaixe-se! Quer que os alemães nos vejam?

Johnny atirou-se de novo no chão. Sentia-se anormalmente exausto. Colocou as mãos sobre os olhos para protegê-los do sol. Guardava ainda na retina a visão do pequeno objeto negro que caíra do avião. Tirou as mãos dos olhos e olhou para o céu. Os Fokkers faziam evoluções sobre o ponto onde o Spad havia caído. Alguns segundos depois, mudaram de rumo e voltaram em direção às linhas alemãs. O céu ficou vazio, de um claro e sereno azul.

Recomeçou a sentir o calor e o cansaço que lhe tomavam o corpo todo.

Levou um susto ao ouvir o apito do sargento. Ouviu dizerem:

— Levantem-se! Levantem-se!

Levantou-se cansadamente. Joe estava amarrando as botinas e Rocco estava ajustando a mochila. Voltou à estrada onde os homens estavam entrando em forma.

A noite estava caindo quando entraram na pequena aldeia. Dos dois lados da rua os habitantes os olhavam com olhos calmos e imperturbáveis. De vez em quando, via-se alguém com uma pequena bandeira americana.

Os soldados marchavam automaticamente, com os olhos à frente. Estavam tão cansados que não sentiam curiosidade ou interesse pelos habitantes e estes já haviam sofrido tanto que não podiam ter qualquer entusiasmo pelos soldados. Tinham consciência da presença uns dos outros, talvez até houvesse simpatia e compreensão entre eles, mas a fadiga era tanta que não podia haver qualquer demonstração.

Só Joe se sentia de maneira diferente dos outros. Logo que viu a aldeia, perfilou o corpo. Quando viu a população, observou-a atentamente e sorriu para algumas moças. Deu uma cotovelada em Johnny.

— Bonitas, está vendo?

Johnny continuou a marchar em silêncio. Não levantou os olhos quando Joe falou com êle. Estava pensando na última carta que recebera de Doris. Dizia ela que a gente de cinema estava na frente em todas as vendas de Bônus da Vitória. Mary Pickford, Douglas Fairbanks e os principais artistas tinham feito excursões pelo país para vender os bônus. Outros faziam excursões pelos hospitais para distrair os soldados. As mulheres estavam preparando atadura. Peter havia feito para o governo vários shorts, pondo em relevo as atividades da frente interna. Os negócios iam muito bem. Muitos cinemas novos tinham sido inaugurados e Hollywood estava mandando filmes para o mundo inteiro. Na Inglaterra e no resto da Europa, onde a guerra havia forçado os estúdios a fecharem-se, os filmes americanos eram ávida e entusiàsticamente recebidos.

Mark estava muito crescido. Terminara o curso primário e Peter o havia mandado para uma escola militar. Êle esperava que a guerra acabasse antes que Mark tivesse idade de partir para a guerra.

Dois novos palcos tinham sido feitos no estúdio da Magnum, que passara a ser o maior de Hollywood. Edison havia feito uma demonstração de filme falado — um cilindro sincronizado com o filme. Peter tinha ido vê-lo, com outros líderes da indústria, e o achara muito pouco prático.

Johnny sentia a raiva crescer dentro dele. Era horrível êle estar ausente numa ocasião dessas. Os outros eram loucos. Não podiam ver então que, se o cinema chegasse a ser sonoro, reproduzindo as vozes dos atores, atingiria o mesmo plano do teatro? Gostaria de ver aquela máquina de Edison.

Estavam no centro da aldeia, numa grande praça calçada e vazia. A coluna fêz alto. Os soldados tiraram as mochilas dos ombros e descansaram os fuzis no chão. Do lado do norte, vinha a trovoada distante dos canhões.

Com a mão no cano do fuzil, Johnny podia sentir a vibração que vinha do chão. Esperou, querendo vagamente saber se continuariam a marcha ou iriam passar a noite ali.

Um oficial francês aproximou-se do capitão e os dois conversaram durante alguns minutos. Afinal, o capitão falou:

— Vamos passar a noite aqui. Partiremos às quatro horas da manhã. Os sargentos conduzi-los-ão aos alojamentos. Aproveitem ao máximo. Terá muito sorte quem nas próximas semanas tornar a ver uma cama.

Em seguida, afastou-se com o oficial francês.

— Quero lá saber de dormir, — disse Joe a Johnny, sem descerrar os lábios. — Quero é uma mulher.

Rocco ouviu-o e murmurou:

— Nada disso. Não é num piquenique que estamos. Isto é a sério!

— Vê lá se vou acreditar nisso, — disse Joe, troçando. — A gente só faz é marchar de um lado para outro e, mal descansa, toca a marchar de novo. Isto não é uma guerra contra a Alemanha. É uma conspiração contra os meus pés!

Um tenente se aproximava deles.

— Calem a boca, — advertiu Johnny. — Vejam quem vem aí.

O tenente fêz um gesto, chamado Rocco. Este deu um passo à frente e o tenente falou com êle, entregando-lhe um pedaço de papel.

Em seguida, continuou pela fila para o próximo pelotão.

Alguns minutos depois, saíram de forma.

— Onde se pode beber alguma coisa aqui? — perguntou Joe. Não havia uma só luz acesa em toda a aldeia.

Ninguém lhe respondeu. Alguns instantes depois, seguiram Rocco por uma das ruas e pararam diante de uma casa. Rocco bateu na porta. Um homem respondeu em francês por trás da porta fechada.

— Somos os soldados americanos, — disse Rocco.

A porta se abriu. Um homem alto e com uma espessa barba preta abriu a porta. Abriu os braços e exclamou:

— Les américains! — exclamou êle. Entrem, entrem! Entraram na casa e o homem fechou a porta.

— Marie! — gritou êle.

Seguiram-se algumas rápidas palavras em francês que eles não compreenderam.

Ficaram parados dentro da sala. Rocco tirou o capacete e os outros o imitaram. Uma moça entrou na sala com algumas garrafas bem grandes de vinho.

Joe olhou em torno triunfantemente.

— Eu sabia que o exército nos arrumaria a vida antes de mandar-nos para a batalha, — exclamou êle.

O francês sorriu para êle. Abriu uma garrafa de vinho e e serviu os copos, passando-os cerimoniosamente a cada um dos homens. Depois, levantou o copo para eles e disse:

— Vive l’Amérique!

Beberam-lhe o vinho. Depois, êle tornou a encher os copos e ficou esperando. Foi Johnny quem adivinhou o que o homem estava esperando. Sorriu para êle, levantou o copo e disse:

— Vive la France!

Joe já estava conversando com a moça.

Rocco sacudia-lhe o ombro. Acordou como um gato no mesmo instante. Na realidade, esperara toda a noite por aquele momento. Mas a sua primeira reação foi ficar na cama.

— Onde está Joe? — perguntou Rocco.

— Não sei, — respondeu Johnny. — Pensei que estivesse aqui. Sentou-se na cama, começou a calçar as botas e disse a

Rocco:

— Vou buscá-lo.

Saiu do quarto para o corredor. Ficou ali um segundo até os olhos habituarem-se e, então, dirigiu-se para uma porta. Abriu-a e entrou. Foi diretamente a uma cama no canto do quarto. Nesse momento, a pessoa deitada na cama virou-se para o outro lado.

Curvou-se sobre a pessoa que dormia e, agarrando Joe pelo ombro, arrancou-o da cama.

— Voilà! — exclamou êle, imitando o melhor possível o sotaque francês. — Logo que dou as costas é isso que acontece!

Joe tentou levantar-se e murmurou:

— Desculpe, monsieur. Não tive a intenção... Johnny começou a rir. Ajudou Joe a levantar-se e disse:

— Vamos, Bela Adormecida! A guerra está à sua espera! Joe saiu com êle para o corredor.

— Como foi que você descobriu que eu estava lá dentro?

Johnny abaixou-se e apanhou as botas de Joe junto à porta e entregou-as em silêncio.

Joe então começou a rir.

— Não me importo com o que me acontecer agora. Já tive tudo o que queria!

Era de manhã bem cedo. As névoas da noite ainda não se haviam dissipado e rolavam pesadamente pelo chão. Os homens estavam em silêncio e mal acomodados na longa e profunda trincheira.

O novo capitão estava falando. Naquela madrugada, quando haviam chegado às trincheiras, souberam que todos os oficiais eram novos. Os antigos tinham sido todos transferidos.

— Estavam com medo de levar um tiro pelas costas, — disse Joe, quando soube da notícia.

— Tolice, — replicou Rocco. — Esses novos oficiais têm experiência. Na guerra, não se pode perder tempo com amadores.

Parecia que Rocco tinha razão. O novo capitão era moço — bem mais moço do que o anterior — mas tinha um ar tranqüilizador de competência. O rosto era enérgico, marcado por fortes rugas de cansaço, mas os olhos castanhos eram vivos e vigilantes. Parecia ver tudo sem olhar para coisa alguma. A sua voz era ouvida por todos distintamente, ainda que êle não falasse alto.

— Meu nome é Saunders e não é difícil entender-se comigo, — disse êle, correndo os olhos por todos os homens de tal modo que cada qual pensava o capitão estivesse falando pessoalmente com êle. — Para que se dêem bem comigo, bastará que se mantenham vivos. Daqui por diante, esqueçam-se de tudo o que ouviram dizer e só pensem em sair com vida. Quero homens e não heróis, homens e não cadáveres.

Para continuarem vivos, é preciso que nunca se esqueçam de algumas coisas muito simples. Primeiro, baixem a cabeça. Com isso, quero dizer que não tenham curiosidade e não procurem olhar pelo alto da trincheira para ver o que o alemão está fazendo. Haverá vigias que se encarregarão disso. Enquanto não forem designados para esse serviço, não tentem fazê-lo por conta própria. Segundo, conservem as armas limpas e em bom estado de funcionamento. Quem deixa a arma suja vira em geral cadáver antes de ter tempo de limpá-la de novo. Terceiro, façam aquilo que tiverem ordem de fazer e nada mais. As ordens que receberem serão planejadas apenas com base na segurança de todos ou, quando nada, no menor risco possível.

Parou de falar e olhou para toda a coluna.

— Compreenderam?

Não houve resposta. Êle sorriu e continuou:

— Sigam essas regras e todos nós voltaremos juntos para nossa terra no mesmo vapor. Quem não seguir essas regras, poderá fazer a mesma viagem, mas sem saber como. Alguma pergunta?

Ninguém fêz perguntas. Êle ficou alguns segundos olhando para eles. Depois, encaminhou-se para a beira da trincheira.

Colocou as mãos num bloco de madeira e levantou cautelosamente o corpo para o alto da trincheira. Pouco a pouco, a cabeça dele apareceu acima da borda. Houve um silvo de bala e um pouco de terra foi elevado no ar perto da sua cabeça no mesmo instante em que êle se deixou cair no chão da trincheira. Ficou estendido um instante no chão. Levantou-se depois com um brilho zombeteiro no olhar e perguntou:

— Viram?

Os três formavam um pequeno triângulo acocorados ali no fundo da trincheira. Tinham na mão canecas fumegantes de café.

Rocco levou a caneca à boca e tomou um grande gole do líquido negro como tinta. Depois, deu um suspiro e disse:

— Soube que vamos atacar amanhã de manhã.

— Conversa, — disse Joe. — Estou ouvindo dizer isso desde que chegamos aqui, há cinco semanas.

Johnny limitou-se a resmungar e a tomar o café.

— Não é conversa, — continuou Rocco. — Se fosse, para que iriam trazer mais gente para cá todas as noites? Acho que já devemos estar no ponto do ataque.

Johnny pensou que o que Rocco dizia fazia sentido. Desde que haviam chegado, mais soldados apareciam todas as noites. Aquela noite era a primeira em que ninguém chegava. Talvez a quota necessária para o ataque já estivesse completa.

— Ora, deixa isso para lá, — disse Joe, acabando de tomar o café. Afrouxou o cinto, encostou-se confortàvelmente à parede da trincheira e acendeu um cigarro. — Gostaria era de estar naquela aldeia onde passamos a noite antes de virmos para cá. Essas meninas francesas sabem ser agradáveis a um homem. Eu bem que gostaria de repetir a dose agora mesmo.

Alguém se aproximava deles. Rocco viu que era o tenente e começou a levantar-se. O oficial fê-lo parar com um gesto e disse-lhe:

— Savold, faça uma revista no seu pelotão. Veja se tudo está em ordem e, depois, vá dizer-me se precisa de alguma coisa esta noite.

— Sim, tenente, — respondeu Rocco.

O oficial afastou-se e Rocco se levantou.

— Parece que eu tenho mesmo razão, — disse êle.

- De fato, — concordou Johnny.

O oficial voltou, andando mais depressa.

— Savoid! Rocco perfilou-se.

— Pronto, tenente.

— Assuma o posto de sargento interno. Johnson está ferido. Tem alguém para servir como cabo?

— Tenho. Edge ali, — disse êle, apontando Johnny. O oficial olhou para Johnny e disse:

— Está bem. Edge, você será interinamente cabo. Savold, diga a Edge o que êle tem de fazer e depois vá falar comigo no abrigo do capitão.

Rodou nos calcanhares e afastou-se rapidamente. Johnny voltou-se para Rocco:

— Para que foi fazer uma coisa dessas?

— Ora, — disse Rocco, rindo, — que mal lhe fazem dez dólares a mais por mês?

Havia uma poça de água no fundo da cratera aberta por uma granada e eles se agarravam às bordas para não se molharem. Na verdade, isso não faria grande diferença. Tinha chovido a noite toda e eles estavam com as roupas ensopadas e enlameadas. Não era mais do que um gesto instintivo, um desejo de reter um pouco de conforto.

— Onde estão esses camaradas que Rocco disse que viriam encontrar-se aqui conosco? — perguntou Joe.

Johnny deu uma tragada no cigarro escondido na mão em concha.

— Não sei e pouco me importa, Joe. Posso ficar aqui e esperar por eles até o fim da guerra, se fôr preciso. Não gostei do lugar onde estávamos.

Joe pediu-lhe um cigarro. Acendeu-o cuidadosamente no cigarro de Johnny, protegendo tudo com a mão para que a claridade não revelasse onde estavam. Ouviram o crepitar de uma metralhadora, cujas balas passavam zumbindo acima das cabeças deles.

— Vão ter de fazer calar essa metralhadora, pois do contrário não poderemos avançar, — disse Joe.

— E está preocupado com isso? — perguntou Johnny. - Está com pressa?

— Para dizer a verdade, não. Mas acho que é isso que eles esperam de nós.

— E que seja. Não somos adivinhos. Ninguém nos disse o que devíamos fazer. Lembra-se do que o capitão disse? Só devemos fazer o que nos fôr mandado e nada mais. Fizemos o que nos mandaram fazer. Daqui por diante, fico até receber nova ordem.

Joe não respondeu. Johnny recostou-se na parede de terra da cratera e fechou os olhos. Estava muito cansado. Havia três dias que avançavam. Sem descanso. Sentiu então que podia ser vencido pelo sono bem ali no meio da terra-de-ninguém.

Joe sacudiu-o e êle abriu os olhos. Já era noite. Quando fechara os olhos, era à tardinha e os últimos restos do dia ainda persistiam nos cantos do céu.

— Acho que dormi um pouco.

— Se dormiu! Estava roncando tanto que eu fiquei com medo de que o ouvissem em Berlim. Aliás, não sei como pode dormir aqui.

O matraquear da metralhadora abafou a resposta de Johnny. Ficaram em silêncio durante algum tempo, Joe remexeu na mochila e tirou uma barrinha de chocolate. Partiu-a e deu a metade a Johnny.

— Estou pensando numa coisa, — disse Joe.

— Que é?

— Devem estar esperando que a gente tome aquela metralhadora. Do contrário, não ficariam esperando.

— Ora, o problema não é nosso, — disse Johnny. — Ninguém nos deu ordem.

Joe encarou-o com os olhos um pouco apertados.

— Você bem sabe que estamos numa situação em que ninguém nos pode dar ordens. Temos de agir pela nossa cabeça.

— É o que eu estou fazendo, — disse Johnny. — Estou cumprindo ordens e vou ficar aqui.

Joe ficou de joelhos. Tirou duas granadas de mão do cinto e examinou-as. Depois, olhou para Johnny e disse:

— Vou dar uma surrinha neles.

— Você vai é ficar aqui, — disse Johnny secamente.

Joe olhou para êle zombeteiramente e disse:

— Quem é que me vai obrigar? Encararam-se um instante e então Johnny sorriu.

— Está bem, se está disposto a ser herói, tenho de acompanhá-lo para cuidar de você.

Joe estendeu-lhe a mão com um sorriso.

— Eu sabia, amigo velho.

Johnny tirou também duas granadas do cinto e examinou-as. Viu que estavam em ordem e disse a Joe:

— Se estiver pronto, eu também estou.

— Vamos, — disse Joe, começando a rastejar para o alto da cratera.

Quando chegaram ao alto, olharam cautelosamente. O barulho da metralhadora mostrava os clarões à frente deles.

— Está vendo? — perguntou Johnny. Joe resmungou.

— Ataque pela direita que eu atacarei pela esquerda. — Joe tornou a resmungar.

— Que foi que houve com você? Perdeu a língua? Joe riu.

— Estou tão assustado que nem posso falar. Mas vamos, rapaz! Vamos arrasar com eles!

E, erguendo-se nas mãos e nos joelhos, saiu correndo em ziguezague através do campo.

Johnny o seguiu com um segundo de atraso.

Estava tranqüilamente estendido na cama, escutando a música que vinha pela janela aberta. Os olhos estavam bem abertos, mas êle nada via. Não queria voltá-los para a janela, nem ver o dia que havia lá fora, de céu tão limpo e azul, de sol tão dourado a cair sobre os verdes rebentos primaveris das árvores. Puxou até ao peito a colcha que o cobria, agarrando-a como se tivesse medo de que a fossem arrancar.

A música parou, deixando um silêncio que lhe ecoou no espírito. Esperou inconscientemente o número seguinte. Sabia qual ia ser, pois era sempre o que tocavam quando o ônibus ia saindo.

Estendeu a mão e pegou um cigarro na mesinha de cabeceira. Acendeu-o e ficou esperando que a música recomeçasse.

Ouvia um rumor de vozes que flutuavam ao vento manso. Vozes de homens. Vozes de mulheres. Palavras gentis. Palavras suaves. Palavras ternas e até certo ponto rudes.

— Adeus, enfermeira. Eu seria capaz de beijá-la se você não fosse tão má...

Um riso macio e quente e depois a resposta:

— Vá em frente, soldado, mas cuidado com esse braço! Não se esqueça do que o médico disse!

Outras vozes. Vozes de homens. Conversas de homem.

— Até que a coisa era possível, rapaz. Mas ela veio logo lembrando que o posto dela era superior ao meu!

Indignada aquiescência.

— É assim mesmo. Elas só se passam para os oficiais. Os dois primeiros. A voz dele:

— Vou ter saudades suas.

A voz dela:

— Também vou ter saudades de você.

— Posso aparecer para ver você de vez em quando? Um segundo de hesitação e, depois, a resposta:

— Mas para que você vai querer isso, soldado? Você vai voltar para casa!

As vozes foram-se afastando pouco a pouco. Houve um instante de silêncio e então começaram a dar partida num motor.

A mão se crispou sobre a colcha. Era agora. Agora! A música o atingiu como um vagalhão dentro do mar, levando-o de roldão até que êle sentiu que ia afogar-se. Aquela música só fora feita e só era tocada para atormentá-lo.

Quando Johnny voltar para casa marchando...

Tampou os ouvidos para não escutar. Mas a música era forte e vencia a barreira das mãos. Ouviu o barulho das engrenagens do ônibus, os gritos de adeus e, por sobre tudo, os compassos vibrantes, intoleráveis da música.

Afinal, a música parou. Êle tirou dos ouvidos as mãos úmidas com o suor que lhe corria pelo rosto. Jogou o cigarro no cinzeiro em cima da mesinha e enxugou as mãos na colcha.

Pouco a pouco, a tensão diminuiu. As pálpebras desceram e quase se fecharam. Estava cansado. A respiração ficou mais calma. Daí a pouco dormia.

Um barulho de pratos numa bandeja o acordou. No mesmo instante em que abriu os olhos, estendeu a mão para pegar um cigarro. Antes que pudesse acendê-lo, alguém aproximou um fórforo aceso.

Sem olhar, deu a primeira tragada e disse:

— Obrigado, Rocco.

— Trouxe o seu almoço, Johnny. Quer sair da cama para comer? — perguntou a voz firme de Rocco.

Johnny voltou instintivamente os olhos para as muletas ao pé da cama. Ficavam ali, lembrando-lhe a todo instante o que êle havia chegado a ser. Sacudiu a cabeça.

— Não.

Levantou o corpo apoiando-se nas mãos enquanto Rocco ajeitava os travesseiros para calçar-lhe as costas. Colocou depois na cama a pequena armação de madeira com os pratos. Johnny olhou para a comida e afastou os olhos.

— Não estou com fome.

Rocco puxou uma cadeira para junto da cama, acendeu um cigarro, deixou sair lentamente a primeira fumaça e disse:

— Não posso compreender você, Johnny. Johnny não respondeu.

— Todo o mundo diz que você é um herói, mas acontece que você tem medo até de sair da cama. Você é o camarada que atacou uma metralhadora alemã quase de mãos limpas. Ganhou por isso uma medalha. Duas, aliás. Uma nossa e outra dos franceses. E, apesar disso, tem medo de sair da cama.

Johnny proferiu um palavrão.

— Você sabe o que é que eles podem fazer com as medalhas. Deram medalhas para Joe também, mas isso não adiantou nada mais para êle. Já lhe disse uma porção de vezes que não fui sozinho. Se eu tivesse sabido que Joe ia morrer, não teria ido. Não queria ser herói.

Rocco não respondeu e os dois ficaram ali calados a fumar. Johnny foi o primeiro que quebrou o silêncio. Apontou as sete camas vazias na enfermaria e perguntou:

— Quando é que vem a nova fornada?

— Amanhã de manhã, — respondeu Rocco. — Até lá, você terá um quarto particular. Por quê? Está-se sentindo sozinho?

Johnny não respondeu. Rocco levantou-se e olhou para êle. O sentimento que se lhe mostrava no rosto não transparecia na voz, que era deliberadamente displicente.

— Você poderia ter ido com o grupo que saiu hoje, se quisesse, Johnny. O rosto de Johnny se fechou numa máscara de impassibilidade e a sua voz foi tão displicente quanto a de Rocco.

— Acontece que eu gosto do serviço daqui, Rocco. Acho que vou ficar mais um pouco.

— O hotel pode ser bom, Johnny, mas só por algum tempo. Não é a minha idéia de um lugar para morar.

Johnny apagou o cigarro no cinzeiro e respondeu em voz áspera:

— Você pode ter as idéias que quiser, Rocco. Ninguém lhe está pedindo que fique aqui, mas já que quer ficar, meta as suas idéias no fundo do saco.

Rocco apanhou a bandeja e a armação, colocou tudo no carrinho e disse a Johnny:

— Há aqui neste hospital muitos que se dariam por muito

felizes se pudessem andar de muletas como você. Tome juízo, Johnny. Você não pode ficar a vida inteira na cama.

Johnny virou o rosto para a parede, sem responder.

Rocco ainda ficou ali, sentindo uma vontade imensa de chorar. Tinha sido assim desde o dia em que encontrara Johnny estendido na pequena vala onde tinha estado a metralhadora.

A poucos metros de distância, estava estendido o corpo de Joe e na trincheira, perto da metralhadora, estavam três soldados alemães mortos. Johnny estava quase inconsciente e repetia incessantemente numa espécie de delírio:

— Os patifes me meteram uma porção de agulhas na perna 1 Rocco se ajoelhara prontamente ao lado de Johnny. A perna direita da calça estava ensopada de sangue. Cortou a calça e viu a série de perfurações feitas pelas balas logo acima do joelho. O sangue jorrava dos ferimentos.

Cortou um pedaço da blusa e improvisou um torniquete que fêz parar o sangramento. Depois disso, tentou mover a perna de Johnny. Ainda podia ouvir ressoar-lhe aos ouvidos o grito de dor do amigo, que se elevou como uma nota de terror no campo de batalha já então em silêncio.

— Rocco! — exclamara Johnny, reconhecendo-o num súbito lampejo de consciência. — Não tire fora minha perna!

Depois disso, desmaiara.

Rocco o havia carregado até ao hospital de sangue. Estava presente quando o médico abanou a cabeça. Viu o médico cortar a carne acima do joelho de Johnny e expor o osso fraturado. Viu o médico, quase com displicência, pegar a perna amputada e jogá-la num montão onde já havia outras e, depois, puxar o mais possível a pele do coto sobre a carne viva, para coser tudo e deixar apenas uma pequena abertura para supuração.

Foi quando caminhava ao lado da maca na qual levavam Johnny para o pequeno hospital depois da operação que sentiu a mão de Johnny no seu braço. Os olhos de Johnny estavam arregalados para êle.

— Rocco, não deixe tirarem a minha perna! Não deixe! Fique comigo!

— Durma, Johnny, — havia dito Rocco, os olhos cheios de lágrimas. — Tomarei conta de você.

A guerra havia acabado, mas Rocco não fora para casa com os outros. Conseguiu transferência para o serviço médico e acompanhou Johnny do hospital na França para o hospital em Long Island. Jurara a si mesmo que ficaria com Johnny enquanto este precisasse dele, talvez porque se sentisse um tanto culpado. Êle é que havia dado a ordem a Johnny para executar a missão. Mas não tivera culpa alguma da confusão que se seguiu. Nada parecia dar certo naquele dia. Ainda não sabia como, com tudo errado, o ataque fora bem sucedido.

E ali estava êle ao lado da cama de Johnny, sentindo uma infinita pena. Colocou a mão no ombro de Johnny e disse gentilmente:

— Olhe para mim, Johnny.

Johnny voltou os olhos, talvez movido pelo calor de amizade daquela mão no seu ombro.

— Sei perfeitamente como é que você se sente, Johnny. Mas você tem de enfrentar a realidade.

Você tem coisas para fazer e amigos que o esperam lá fora. Não vou deixar você escondido deles aqui dentro. Você tem de querer andar. Hei de encontrar a coisa que lhe dê vontade de andar.

— Se quer encontrar a coisa que me faça andar, vá buscar a minha perna.

Johnny virou-se para a parede. E Rocco saiu da enfermaria com o coração cheio de mágoa.

Naquela noite, Johnny teve um sonho. Estava correndo por uma rua muito comprida, tão comprida que não se avistava o fim dela. Mas Johnny sabia o que era que havia no fim daquela rua e queria ir para lá. Correu, correu e afinal avistou o fim da rua. Estava lá uma moça. Era apenas um vulto, mas êle sabia quem era, ainda que não pudesse distinguir-lhe os traços.

Num instante, a rua se encheu de gente. Todos olhavam para êle, riam e apontavam-no:

— Olhe o aleijado perneta querendo correr!

A princípio, Johnny não lhes deu atenção. Só pensava era na moça que ali estava à espera dele. Mas à medida que se aproximava dela, os gritos da multidão cresciam. Afinal, parou e perguntou:

— Que é que estão achando tão engraçado?

— Você, — respondeu alguém desdenhosamente. — Todo o mundo sabe que perneta não pode correr!

— Mas eu posso!

— Não pode! Não pode! — gritou um coro zombeteiro de vozes.

— Posso, sim! Vou mostrar que posso!

Começou a correr, mas de repente percebeu que não estava correndo e, sim, pulando numa perna só. Procurou desesperadamente correr, com o coração a bater aceleradamente, cheio de medo. De repente, caiu.

A multidão fechou-se em torno dele, às gargalhadas.

— Viu? Nós não dissemos? Você não pode correr!

— Posso, posso, posso!

Procurou levantar-se, sacudido pelos soluços. Olhou para a moça no fim da rua. Ela havia dado as costas e se afastava.

— Espere por mim! Eu posso correr!

Mas a moça desapareceu.

Abriu dentro da noite os olhos cheios de lágrimas. Apanhou um cigarro na mesinha com os dedos trêmulos. Estava à procura de um fósforo quando subitamente um apareceu aceso diante dele. Acendeu o cigarro, levantou os olhos e viu que era Rocco.

— Você nunca dorme, Rocco?

— Como é que eu posso se tenho de andar atrás de você pelos corredores a noite toda?

— Que quer dizer com isso? — perguntou Johnny, surpreso.

— Ouvi você gritar e vim olhar. Você tinha rolado para os pés da cama e estava ali pronto a levantar-se. Fiz você deitar-se de novo e aí você começou a gritar: ”Posso correr”.

— Devia estar sonhando, — disse Johnny.

— Não estava, não. E eu não me surpreenderia de ver você correr um dia. Mas isso será depois. Depois de você aprender a andar.

A sala estava cheia quando Rocco empurrou a cadeira de rodas até um lugar de onde Johnny pudesse ver a tela. Todos os rostos estavam ansiosos, cheios de expectativa.

Desde que, havia uma semana, correra a notícia de que iam passar um filme, não se falava em outra coisa no hospital. Até os doentes que até então não haviam demonstrado interesse por coisa alguma mostravam-se de repente cheios de animação.

Com surpresa de Rocco, Johnny era um deles. Logo que soube, disse a Rocco:

— Quero ver esse filme.

Havia nele um ar de expectativa, até de contentamento, que era novo para Rocco.

— Muito bem, — disse êle. — Quer andar ou ir de carro?

Johnny olhou para as muletas e disse a Rocco, tentando sorrir:

— Irei de carro. É mais distinto e a cadeira é garantida.

Rocco riu. Sentia-se melhor. Era a primeira vez que Johnny tentava pilheriar.

Durante a semana, Johnny fizera uma porção de perguntas a Rocco. Sabia qual era o filme? Quais eram os artistas? De que companhia era? Quem era o diretor?

Rocco não sabia de nada disso. Parecia que ninguém mais sabia. Só se dizia era que um filme ia ser exibido. Estranhando que Johnny quisesse saber de tantas coisas, perguntou:

— Por que está tão curioso a respeito do filme?

Mas Johnny não respondeu e Rocco pensou que êle houvesse adormecido. Mas não. Estava com a cabeça no travesseiro e os olhos fechadas, mas acordado e tomado de uma exaltação que julgara que nunca mais iria sentir. Nunca mais escrevera a Peter nem a ninguém desde que ficara ferido. Não respondera as cartas que havia recebido. Não queria qualquer compaixão, nem qualquer ato de caridade. Se estivesse intacto, teria voltado muito satisfeito para a Magnum, mas, aleijado como estava, compreendia que não seria senão um fardo para todos. Por isso, não havia escrito e fechara o espírito e o coração a tudo o que o ligava ao passado.

Correu os olhos pela sala. Um pouco atrás dele estava a máquina de projeção. Johnny olhou-a demoradamente, com todo o prazer que um homem sente em olhar para sua casa. Tinha saudades, essa era a verdade. Tinha saudades das fitas de celulóide que passavam pelo projetor e saíam quentes. Tinha saudades do cheiro um pouco ácido dos carvões dentro da lanterna.

— Leve-me para junto da máquina, — pediu êle a Rocco. — Quero vê-la de perto.

Rocco fêz-lhe a vontade e êle ficou embevecidamente a ver o operador passar o filme pelos carreteis. Dava prazer só olhar para êle.

Começaram então a descer as cortinas sobre as janelas e em breve a sala ficou tão escura que não se enxergava mais nada. Teve vontade de fumar, mas se lembrou de que não podia acender um cigarro perto do filme como estava. Ouviu o leve ruído tão conhecido dos carvões acesos e, logo, a. forte luz se projetou na tela.

Havia um letreiro. A princípio, tudo aparecia turvo, mas o operador focalizou as lentes e as palavras se tornaram claras. Johnny leu:

Aos soldados do Hospital de Long Island:

O aparelhamento de cinema e o filme que vão ver nos foram doados pelo Sr. Peter Kessler, presidente da Magnum Filmes, que assim procedeu em honra de mais de cinqüenta de seus colaboradores e empregados que serviram conosco durante a guerra, muitos dos quais nãa voltaram,

Não podemos fazer mais do que agradecer ao Sr. Kessler a sua gentil e generosa oferta e exprimir-lhe a nossa satisfação pelo espetáculo que se vai seguir.

(Assinado) Cel. James F. Arthur Comandante

Hospital de Long Island.

Johnny quase não teve tempo de ler tudo. Ao deparar com o nome de Peter ficara como que gelado na cadeira. Mas o letreiro havia desaparecido e em seu lugar aparecia a imagem que identificava todos os filmes da Magnum: a grande garrafa de que o champanha se derramava espumejante numa taça, até esta ficar cheia até às bordas. E então as palavras cobriam toda a tela em letras góticas:

A MAGNUM FILMES

APRESENTA

A voz de Johnny chegou aos ouvidos de Rocco, num agoniado sussurro:

— Leve-me daqui, Rocco! Pelo amor de Deus, leve-me para bem longe daqui I

Rocco ficou surpreso. Não podia compreender. Johnny estava tão ansioso por ver o filme e agora queria sair, antes mesmo de começar.

— Que é que há, Johnny? — perguntou-lhe ao ouvi-lo. — Está-se sentindo mal?

— Não! Não! Só quero é sair! Leve-me daqui!

Rocco empurrou a cadeira para a porta e saiu. As luzes do corredor doeram-lhe nos olhos e êle os piscou durante alguns momentos. Depois, olhou para Johnny.

Os olhos estavam fechados mas as lágrimas corriam-lhe pelo rosto. Estava muito pálido e havia gotas de suor na fronte.

Rocco levou-o para a enfermaria e ajudou-o a deitar-se. O corpo de Johnny estava tremendo. Rocco cobriu-o e ficou ao lado dele.

— Foi alguém que você conheceu, Johnny?

Johnny abriu os olhos de repente e encarou-o. Rocco havia deparado acidentalmente com a verdade. Mas era preciso escondêla para que êle não soubesse de nada.

— Não, nada disso. De repente, não suportei mais ficar lá dentro. Acho que foi o medo de me ver ali naquele lugar todo fechado. É o que os médicos chamam de claustro... claustro... Não sei o nome direito.

Rocco não respondeu. Estava pensando. Dessa vez, Johnny não ia enganá-lo. Tinha de descobrir por que Johnny procedera assim. Se êle tivesse mesmo medo de ficar num recinto fechado, não suportaria aquela enfermaria.

A secretária saiu da sala do oficial e disse a Rocco:

— Pode entrar, sargento. O Capitão Richards vai atendê-lo. Rocco agradeceu e entrou na pequena sala. Ficou em posição de sentido e fêz continência ao oficial.

— Sente-se, sargento, — disse o oficial. — Não usamos muitas formalidades aqui.

Rocco sentou-se numa cadeira em frente à mesa do oficial. Este olhou um papel que estava em cima da mesa e disse:

— O seu pedido é um pouco fora do comum, sargento.

— É a única maneira que eu vejo de ajudá-lo, capitão.

O oficial tornou a olhar o papel que estava em cima da sua mesa. Examinou-o durante alguns minutos e então disse:

— Tenho aqui a folha de serviço do Cabo Edge, como pediu, mas nada há nela que forneça quaisquer indícios quanto à sua família, os seus amigos ou a sua vida anterior. Não fêz qualquer espécie de seguro conosco e a única pessoa que indicou para ser notificada no caso da sua morte foi Joseph Turner, já morto. Diz você que êle não tem para onde ir e deseja ficar aqui.

Rocco fêz um sinal afirmativo com a cabeça.

— Bem, não podemos forçar ninguém a sair daqui contra a vontade. Em último recurso, teremos de transferi-lo para um hospital de doenças mentais.

— Não há motivo para isso, capitão! — disse Rocco, exaltadamente. — Johnny não tem nada. Está tão bom do juízo quanto eu.

— Parece conhecê-lo muito bem.

— Fomos amigos. Fizemos a guerra no mesmo pelotão. Fui eu que lhe dei ordem para aquela missão em que êle foi ferido e Joe Turner morreu.

— E sente-se então responsável por êle?

— Mais ou menos.

— Foi por isso que ficou no exército?

— Foi, capitão.

— Aprecio muito os seus sentimentos, sargento, mas se todos no exército levassem as suas responsabilidades tão a sério, teríamos nos hospitais mais serventes do que doentes.

Rocco não deu resposta.

— Mas isso não resolve o nosso problema. Tem mais alguma sugestão?

Rocco disse então ansiosamente.

— Escute, capitão. Se pudéssemos ver a folha de serviço de Joe Turner, talvez encontrássemos mais alguns indícios sobre a vida de Johnny.

— Mas se fizéssemos isso, sargento, não poderíamos efetuar qualquer investigação, — disse o capitão, que fêz uma pausa e acrescentou: — Oficialmente...

Rocco sorriu.

— Sei disso, capitão, mas talvez eu pudesse encontrar acidentalmente alguma coisa que nos ajudasse.

— Acidentalmente, é claro, — disse o capitão, retribuindo o sorriso de Rocco.

Rocco levantou-se.

— Vai conseguir então uma cópia da folha de serviço de Joe, capitão?

O oficial bateu com a cabeça.

Rocco estava na rua, diante do prédio. A placa na porta dizia: Magnum Filmes. Hesitou um momento e entrou, chegando a uma saleta de recepção.

Um rosto de moça olhou-o por uma janelinha e disse:

— Não é aqui o lugar onde se contratam os empregados, soldado.

— Não vim procurar emprego, moça. Quero falar com uma pessoa.

— Ah, desculpe. Com quem quer falar?

— Com o Sr. Peter Kessler, — disse Rocco, depois de tirar um papel no bolso e consultá-lo.

— Seu nome, por favor?

— Savold, Sargento Rocco Savold.

— Faça o favor de sentar-se. Vou ver se o Sr. Kessler pode recebê-lo.

Rocco sentou-se. Ficou ali cerca de quinze minutos e chegou a pensar que a moça o havia esquecido. Mas a janelinha se abriu de repente e o rosto da moça reapareceu.

— A secretária do Sr. Kessler está ao telefone. Qual é o seu assunto com a Sr. Kssler? Êle no momento está ocupadíssimo. Se disser o que deseja, ela poderá marcar uma hora para o senhor.

Rocco hesitou. Não queria falar com a secretária, mas viu que não tinha outro jeito desde que não podia falar diretamente com o tal Kessler. Disse que sim e a moça passou-lhe um telefone pela janelinha.

— Alô, disse êle.

A voz da secretária era eficiente e impessoal.

— Sou Jane Andersen, secretária do Sr. Kessler. Estou às suas ordens. Que deseja?

— Bem, moça... Queria falar com o Sr. Kessler sobre um assunto pessoal.

— Pode falar comigo. Sou secretária particular dele. Rocco pensou um segundo e disse:

— Queria falar com êle a respeito de Johnny Edge. Houve um súbito silêncio do outro lado do fio.

— Ouviu o que eu disse, moça? — perguntou êle, ansiosamente.

— Ouvi, sim, — disse a secretária com uma voz bem diferente daquela com que vinha falando. — Quer falar a respeito de Johnny Edge?

— Exatamente. A sra. o conhece?

— Conheço. Êle está bem?

— Claro, — disse êle, sorrindo. — Claro.

— Graças a Deus! — murmurou fervorosamente a secretaria.

Rocco empurrou a cadeira de rodas para um canto bem no fim dos terrenos do hospital. Havia ali muito sossego e o caminho passava entre duas sebes atrás das quais se viam canteiros de flores muito bem tratados. A cadeira parou e Johnny levantou os olhos. Rocco estava remexendo os bolsos.

— Que é que está procurando, Rocco?

— Meus cigarros. Acho que acabaram.

— Fume dos meus, — disse Johnny, metendo a mão no bolso. Não encontrou o maço. Surpreso, olhou no outro bolso da blusa e viu que também estava vazio. Engraçado! Era capaz de jurar que havia pegado os cigarros na hora de sair. — Também não tenho.

— Você se incomoda de ficar aqui enquanto eu vou buscar cigarros na cantina? — perguntou Rocco. — Não demoro nada.

— Pode ir que eu espero.

Rocco saiu correndo e Johnny virou a cadeira para o sol. Recostou a cabeça, sentindo no rosto o calor bom do sol. Baixou a mão para o chão e arrancou um punhado de grama. Mordeu uma folha e pensou com um sorriso que não se podia provar uma côr. E ficou ali aquecendo-se ao sol.

Sentia-se preguiçoso e sonolento. Seria bom poder sair da cadeira, deitar-se na relva fresca e descansar. Seria bom, mas não para êle. Não poderia passear à vontade e estender-se no chão como em outros tempos. Isso era para os outros, não para êle. Fechou os olhos.

Ouviu passos às suas costas.

— Rocco? — disse êle, sem virar a cabeça, nem abrir os olhos. — Quer dar-me um cigarro?

Sentiu que lhe colocavam um cigarro na boca. Ouviu riscarem um fósforo e aspirou a fumaça.

— Isto aqui está tão agradável, — murmurou.

— Está achando, Johnny?

Era uma voz conhecida, mas não era a de Rocco. Abriu de repente os olhos, virou a cadeira e exclamou:

— Peter!

Peter estava ali diante dele, com o rosto pálido e abatido e os olhos cheios de lágrimas.

— Sou eu, sim. Você não me queria ver, Johnny?

Johnny estava paralisado, com o cigarro preso nos lábios, sem poder falar.

Peter aproximou-se e segurou-lhe a mão. De repente, Johnny não se pôde mais conter. Curvou a cabeça sobre a mão de Peter e desatou a chorar. Peter descansou a outra mão na cabeça dele e disse com a voz trêmula:

— Pensou que podia esconder-se daqueles que o amam, Johnny?

Ficaram ali no passeio enquanto o táxi se afastava. Johnny olhou para as suas muletas. Eram novas e brilhavam, todas envernizadas. Uma perna das calças estava presa à coxa por um alfinete. A outra perna parecia estranha ali sozinha entre as muletas.

Sorriu meio sem vontade para Rocco, olhou para o prédio onde se via a placa da Magnum Filmes e disse:

— Vamos logo resolver isso.

Johnny encaminhou-se lentamente para a porta e hesitou quando lá chegou. Estava muito pálido e tinha gotas de suor na testa.

— Não quero que ninguém tenha pena de mim, — disse êle em voz baixa.

— Não se preocupe com isso, — disse Rocco, sorrindo. — Ninguém terá pena de você.

Poderá a princípio haver um pouco de estranheza e todos quererem ajudá-lo mais do que 0 normal, mas isso logo passará quando virem que você pode arranjar-se sozinho. As coisas voltarão, então, a ser como sempre foram.

— E como devem ser, — disse Johnny.

— Não se preocupe, — disse Rocco, abrindo-lhe a porta. Johnny entrou na saleta de espera, acompanhado de Rocco.

O rosto da moça apareceu cheio de curiosidade na janelinha, mas ela não fêz qualquer menção de abrir a porta. Rocco sorriu para ela e encaminhou Johnny.

— Por aquela porta, — disse êle, apontando.

Johnny olhou em torno, cheio de curiosidade. Haviam modificado tudo. Passou pela porta indicada e viu-se num comprido corredor. De trás das portas, vinha o rumor de gente que trabalhava. Máquinas de escrever, máquinas de calcular, vozes. Continuaram pelo corredor. De vez em quando, passava alguém por eles e olhava-os com passageira curiosidade.

Johnny sentia-se como se estivesse num lugar estranho. Não reconhecera nenhuma das pessoas que haviam passado por êle. Chegaram a uma porta com o letreiro: Escritórios Executivos.

Entraram num curto e bem iluminado corredor. Havia várias poltronas confortáveis ali espalhadas e o chão era coberto de um espesso tapete vermelho. Não se ouvia som algum.

— Parece que não há ninguém aqui, — disse Johnny.

— Ainda é muito cedo. Peter me disse que quase ninguém chega antes das dez horas.

Johnny olhou o relógio de pulso.

— Nove e um quarto ainda. É muito bom porque poderei descansar um pouco antes de começar.

— O seu escritório é no fundo do corredor, ao lado do de Peter, — disse Rocco.

Johnny acompanhou-o pelo corredor. Em várias portas havia nomes que lhe eram desconhecidos. Estivera ausente pouco mais de dois anos apenas e a empresa havia prosperado tanto nesse intervalo que havia uma porção de nomes novos. Sentia-se estranhamente deslocado.

Passaram por uma porta com o nome de Peter.

— O seu escritório é o que vem agora, — disse Rocco.

Rocco ficou em frente à porta do outro escritório e Johnny viu o seu nome na porta. Parecia ter sido pintado às pressas e a tinta devia estar ainda fresca.

Tocou-a com os dedos e viu que estava seca.

Rocco sorriu ao ver o gesto e Johnny sorriu também para êle.

— Vamos entrar? — perguntou Rocco, ainda sorrindo.

— Vamos.

Rocco abriu a porta e se afastou para o lado a fim de dar passagem a Johnny.

Foi tomado de surpresa ante o barulho com que foi recebido, de palmas e vivas. A sua palidez aumentou e êle pareceu vacilar sobre as muletas, tanto assim que Rocco procurou ampará-lo.

A sala estava cheia de gente — gente a quem Johnny conhecia e gente a quem nunca havia visto. Peter, George e Jane estavam à frente dos outros, de olhos voltados para êle.

A sala estava toda ornamentada com faixas azuis, brancas e vermelhas. Bem no meio, pendia do teto um grande cartaz no qual se lia em grandes letras vermelhas: ”Boas-Vindas na Sua Volta, Johnny”.

Fêz-se silêncio de repente e Johnny ficou ali diante deles. Abriu a boca duas vezes para falar, mas nada pôde dizer.

Jane aproximou-se dele e estendeu-lhe a mão, dizendo, como se êle apenas tivesse voltado do almoço:

— Alô, chefe.

Como se fosse um sinal, alguém fêz um fonógrafo tocar e, ao som da música, todo o mundo começou a cantar:

Quando Johnny voltar para casa marchando...

Johnny viu as lágrimas nos olhos dela e sentiu também os olhos marejados.

— Jane, conseguiu murmurar.

Ela passou-lhe os braços pelo pescoço e beijou-o. Johnny tentou abraçá-la também, mas uma das muletas se lhe soltou da mão e caiu. Êle cambaleou e teria caído se Rocco não corresse a ampará-lo.

Olhou para a muleta caída no tapete vermelho e começou a sentir-se desamparado. Com esse sentimento, chegou um sentimento ainda mais estranho de terror — terror de todas aquelas pessoas que o olhavam.

Fechou os olhos por um momento. Pensou desesperadamente que aquilo passaria. Mas continuou. Chegou a sentir a cabeça rodar.

Podia-se sentir tropeçando e caindo, mas conservou os olhos fechados.

Sentiu que o ajudavam a sentar-se numa cadeira. Ouviu a voz de Rocco pedindo aos outros que se retirassem. Ouviu Rocco explicar que êle ainda estava muito cansado e muito fraco e que toda aquela agitação fora demais para êle.

Houve então na sala um súbito silêncio. Abriu lentamente os olhos e viu que estava num pequeno sofá. Peter, George e Jane olhavam-no com a fisionomia assustada. Rocco chegava-lhe um cálice à boca.

Bebeu automaticamente. A bebida queimou-lhe a garganta e o estômago como uma chama viva. A côr voltou-lhe às faces. Sorriu fracamente para os amigos, mas o terror ainda lhe empolgava o coração.

— Está bem, Johnny? — perguntou Peter ansiosamente.

— Estou bem, sim. Acho que me emocionei demais. Ficarei melhor depois de descansar um pouco.

Fechou os olhos e deixou a cabeça cair numa almofada. Desejou que todos saíssem e o deixassem sozinho.

Ouviu a porta abrir-se e fechar-se e tornou a abrir os olhos. Estava sozinho com Rocco.

— Rocco, — murmurou.

— Que é, Johnny?

— Você tem de ficar comigo, Rocco. Preciso de você junto de mim. Tenho medo de ficar sozinho com eles.

— De que é que você tem medo, Johnny? Todos são seus amigos.

— Eu sei, mas sinto-me tão desamparado sem a minha perna. Quando penso nisso, acho que todo o mundo vai rir de mim.

— Ninguém vai rir, Johnny.

— De qualquer modo, tenho medo. Você tem de ficar ao meu lado, Rocco. Não posso enfrentá-los sozinho. Prometa-me, Rocco, prometa!

— Está bem, Johnny. Ficarei com você.

— Prometa!

Rocco hesitou um momento e disse com relutância:

— Prometo.

Pouco depois, Jane voltou ao escritório. Trazia uma bandeja com um bule de café e duas xícaras.

— Achei que ia gostar de um pouco de café, — disse ela, colocando a bandeja numa mesinha em frente ao sofá.

— Foi boa idéia, — disse Rocco, servindo uma xícara e entregando-a a Johnny.

— Obrigado, — disse Johnny a Jane. De repente, notou uma aliança no dedo dela.

Largou a xícara, pegou a mão de Jane e exclamou, cheio de surpresa:

— Você se casou, Jane! Devia ter-me dito! Quando foi?

— Escrevi-lhe uma carta. Foi cerca de quatro meses depois da sua partida.

— Não recebi a carta. Como é êle?

— Um homem ótimo. Um soldado. Conheci-o num baile. Johnny percebeu de repente a tensão que havia na voz dela.

— Êle... êle não voltou?

— Não... não voltou, — murmurou ela, quase impercepttivelmente.

— Desculpe, Jane. Eu não sabia. Niguem me disse nada.

— Nem podia dizer. Ninguém sabia onde você estava. Fizemos tudo para ver se o descobríamos, mas havia muita confusão e não foi possível.

Ficaram em silêncio alguns instantes e ela então disse:

— Mas nem tudo é tão ruim assim. Tenho um filhinho. Johnny viu que ela havia dito isso com satisfação e até com

uma ponta de orgulho. Baixou os olhos e murmurou:

— Vou levar algum tempo para acostumar-me com as coisas daqui. Tudo mudou.

— Tudo não, — disse Jane. — Só o que você pensa que mudou.

johnny passou a manhã no seu escritório com Peter. Escutou em silêncio enquanto Peter pacientemente lhe explicava o que havia acontecido na sua ausência. A companhia havia crescido de uma maneira que o próprio Johnny nunca havia esperado. Os lucros da Magnum só no ano anterior haviam subido a mais de três milhões de dólares.

Estavam produzindo cerca de trinta filmes por ano, além de uma linha completa de shorts que compreendia comédias de um e dois rolos, filmes de viagens, jornais e desenhos animados. Mas, como dizia Peter, isso não bastava. O mercado de filmes era cada vez maior. Tinha já planos para aumentar o estúdio, assegurando-lhe uma capacidade de cinqüenta filmes por ano.

Além da produção de filmes, a Magnum possuía em sociedade com George mais de quarenta cinemas através do país e tinha planos para comprar ou construir outro tanto.

Cogitava-se naquele momento de abrir escritórios e filiais nas cidades mais importantes para que a própria companhia distribuísse os seus filmes. Isso acabaria com os distribuidores dos estados, que até então serviam como agentes da Magnum, e faria a companhia economizar muitos milhares de dólares que estava pagando a título de comissões. Borden havia feito a mesma coisa no ano anterior, com muito bons resultados.

Quando Johnny se havia alistado, a Magnum tinha pouco mais de duzentos empregados no estúdio e cerca de quarenta pessoas no escritório de Nova Iorque. Naquele momento, mais de oitocentas pessoas trabalhavam no estúdio e quase duzentas no escritório de Nova Iorque, havendo planos para a expansão de ambos.

Johnny escutava, anotando e catalogando mentalmente tudo o que ouvia. Peter já não exercia a direção-geral do estúdio. Havia um gerente do estúdio que se encarregava da produção e só era responsável pelo seu trabalho junto a Peter. As vendas eram repartidas em duas divisões — interna e estrangeira, cada qual com um gerente de vendas e seus assistentes, que se encarregavam dos negócios nos seus respectivos territórios.

No ano seguinte, Peter pretendia fazer uma excursão com o gerente das vendas estrangeiras para abrir escritórios e companhias subsidiárias em quase todos os países do mundo.

A função de Peter passara a ser principalmente de coordenação e as responsabilidades eram muitas e variadas. Para realizar esse trabalho, êle precisava de bons assistentes e de gente em quem pudesse confiar. Desde que o seu tempo estava de tal modo tomado que êle não podia dar plena atenção a todos os assuntos que a exigiam, achava que Johnny teria de assumir o posto de seu primeiro-assistente.

Johnny ficaria em Nova Iorque e tudo a respeito da companhia e dos seus negócios passaria pelas mãos dele.

Só os problemas que não pudessem absolutamente dispensar a decisão de Peter Seriam a êle encaminhados. Johnny resolveria tudo o que não exigisse a atenção pessoal de Peter.

A fim de executar esse imenso programa de expansão, Peter havia entrado em negociações com o Banco Independence, o banco de Al Santos, para conseguir um empréstimo de quatro milhões e meio de dólares. Quando soube da quantia, Johnny não pôde deixar de dar um assobio de espanto. Surpreendia-se não só de que Peter falasse tão displicentemente de quantia tão grande, mas também de que o banco de Al Santos fosse capaz de emprestá-la.

Durante toda a manhã, enquanto falavam, muitas pessoas entraram na sala. Eram homens que Johnny conhecia de outros tempos, outros que tinham estado presentes à recepção no seu escritório e alguns que nunca vira. Todos estavam ansiosos em conhecer o homem que iria assumir a posição de primeiro-assistente do chefe. Nessas ocasiões, por mais breves que fossem, havia um sentimento de mútua exploração e sondagem. Queriam saber até onde chegava o prestígio de Johnny junto ao chefe e Johnny procurava apurar a importância de cada um dentro da organização.

Havia também uma coisa nova e que Johnny, pronto sempre a sentir as relações humanas, sentiu imediatamente. Vários grupos haviam-se formado e faziam sentir a sua presença. Essas diferentes facções dentro da organização se esforçavam por ganhar prestígio junto ao chefe.

Em dado momento, Johnny recostou-se na cadeira e sorriu para Peter.

— Estou com a cabeça rodando, — disse êle. — Não fazia a menor idéia de que a companhia tivesse crescido tanto. Agora, terei de aprender tudo de novo.

— Você não terá dificuldade alguma, Johnny. É a mesma companhia, só que em ponto maior.

Levantou-se e perguntou:

— Vamos almoçar? George está à nossa espera no restaurante.

Johnny olhou para o outro lado da sala, onde Rocco ficara sentado no sofá durante toda a conferência, como se fosse uma peça de mobília, só se movendo quando Johnny falava com êle ou queria alguma coisa. Olhara o tempo todo para Johnny, atento a qualquer sinal de fraqueza nele. Não o percebera, porém.

Ao contrário, parecia que Johnny florescia naquela nova vida, mostrando um interesse que Rocco nunca lhe notara até então. Entendera muito pouco do que tinha ouvido, mas via que Johnny absorvia tudo como uma esponja dentro da água.

Havia visto Johnny falar com as pessoas que lhe eram apresentadas com uma cordialidade tranqüila e um encanto de que nunca o julgara capaz. O exército não era propício ao desenvolvimento de tais qualidades num homem, mas êle estava começando a compreender por que Joe Turner havia procedido com Johnny da maneira por que procedia.

Era só quando Johnny estava de pé que essa qualidade dele parecia desaparecer. O rosto ficava tenso e pálido e êle se sentia desajeitado, pouco à vontade e tartamudeante, embora a sua conversação fosse em geral concisa e direta.

Era nesses momentos que a pena que sentia de Johnny o envolvia como uma onda. Bem podia imaginar o orgulho que Johnny tivera outrora do seu corpo e da sua aparência física — o orgulho de ter um corpo à altura da sua inteligência, jovem, forte, sadio e cheio de vida, de exaltação e de um sentido de realização.

Via Johnny olhando para êle e sentia nesse olhar um apelo mudo. Levantava-se prontamente e ia até êle. Colocava um braço sob os ombros de Johnny enquanto este ajustava as muletas. Entregou-lhe o chapéu quando eles se encaminharam para a porta.

”É uma pena que não se possa fazer nada”, dizia êle consigo mesmo, pensando na perna de Johnny. De fato, era impossível. Ninguém seria capaz de restituir-lhe a perna.

Chegando à porta, Johnny parou e olhou para Peter.

— Temos de tomar alguma providência a respeito de Rocco. Não posso passar sem êle.

Peter olhou para um e para outro e respondeu:

— Êle poderá trabalhar aqui para você, se quiser. Receberá

75 dólares por semana.

Johnny olhou para Rocco. estava pensando. Setenta e cinco dólares por semana eram muito mais do que êle poderia ganhar se voltasse para a barbearia. Além disso, havia prometido a Johnny que ficaria ao lado dele. Fêz um sinal quase imperceptível com a cabeça.

Johnny sorriu e disse a Peter:

— Obrigado. Êle aceita.

Rocco ficou na porta e viu-os atravessar a sala de Jane e checar ao corredor. Jane levantou-se e se aproximou dele.

— Gosta muito dele, não é, Rocco?

— Gosto, sim. E você?

A resposta de Jane demorou um instante.

— Houve um tempo em que cheguei a amá-lo. Ainda o amo. Mas de uma maneira diferente.

Baixou os olhos para o chão, num esforço de dar expressão ao que sentia.

— Deve significar alguma coisa amar-se um homem apaixonadamente, deixar de amá-lo quando se descobre que êle não nos ama e voltar a querê-lo com outra espécie de amor, um amor que parece existir sem qualquer sinal da mágoa que o outro deixou. Isso deve significar alguma coisa.

— Talvez seja respeito, — disse Rocco.

— Talvez. Mas é mais do que isso e eu não sei explicar o que seja. Mas não é em mim que estou pensando agora. É um Doris.

— Doris? Quem é ela?

— É a filha de Peter. Gosta de Johnny e eu acho que êle também a amava, embora não o confessasse a si mesmo.

— Por quê?

— Ela é dez anos mais moça do que êle. E Johnny de certo modo a ajudou a criar desde menina. Ela costumava chamá-lo de ”tio”.

— Compreendo.

— Mas agora, não creio que Doris tenha mais chance. Parece que Johnny fechou o coração. Não disse uma palavra sobre Doris a manhã toda. Nem perguntou por ela.

— Êle tem uma razão, — disse Rocco, em defesa do amigo.

— Não quer constranger a moça agora que perdeu uma perna.

— Isso não teria a menor importância para ela, — disse Jane.

— Não teria a menor importância para quem de fato o amasse.

— Mas tem importância para quem sente que será um fardo,

— murmurou Rocco. Jane não respondeu. Abriu a bolsa, tirou o espelho e começou a pintar-se.

Rocco ficou um momento a olhá-la, com um esboço de sorriso nos lábios. Por fim falou:

— Se não tem compromisso para o almoço, aceita um convite meu?

Ela o olhou com surpresa. Depois, sorriu de súbito, quase maliciosamente.

— Quer ouvir o resto da história, não é?

— Gostaria, sim.

— Começou assim, — disse ela, abrindo o armário embutido e tirando o chapéu. — Eu era secretária de Sam Sharpe, o agente teatral, quando Johnny entrou no escritório.

Foi para diante de um espelho e colocou o chapéu. Olhou-o do espelho e disse:

— Não, não foi assim. Começou muito antes, antes mesmo de eu conhecê-lo. Mas vamos almoçar, — disse ela, voltando-se, — e eu lhe contarei tudo desde o princípio.

Rocco pegou o chapéu e saiu com ela.

O almoço tinha sido calmo. Peter e George haviam falado quase o tempo todo enquanto Johnny escutava. Havia muito que êle precisava saber e ambos estavam ansiosos em pô-lo a par de todos os fatos novos. Mas ambos evitavam qualquer referência ao defeito de Johnny. E também não falavam de Joe para evitar-lhe recordações desagradáveis.

Quando voltaram do almoço e Peter deixou Johnny no escritório, disse que iria pegá-lo depois de passar os olhos por algumas adaptações de enredos que mandara preparar.

— Não se dê a esse trabalho, Peter, — disse Johnny. — Ver-nos-emos amanhã de manhã.

— Como assim? Você não vai jantar comigo lá em casa? Depois de Esther ter passado o dia preparando o seu prato favorito — canja e knedloch? E depois de Doris ter vindo da escola especialmente para recebê-lo? Será como nos velhos tempos, Joe, e eu não admito discussão. Não entendo como você foi capaz de pensar em outra coiso na sua primeira noite em casa!

Johnny olhou-o em silêncio. Doris. Tentara durante o dia inteiro não pensar nela, mas sabia que teria de enfrentar o caso mais cedo ou mais tarde. Ela dissera antes da guerra que o amava, mas aquilo fora sem dúvida uma tolice, uma paixão efêmera de colegial, que já devia estar superada.

Mas êle sabia que estava querendo enganar-se e que aquele amor era uma coisa mais profunda e mais forte. Do contrário, êle não estaria sentindo o que estava. Voltava aleijado e bem podia imaginar como a compaixão de Doris tornaria a despertar nele o mesmo que êle sentira ao partir para a guerra.

Mas não havia outro recurso. Teria de ir e enfrentar o problema. Se ela dissesse alguma coisa sobre o que os dois haviam sentido em outros tempos, êle diria que tinha sido uma criancice da parte dela e que a amizade que tinha por ela sempre fora exclusivamente fraternal.

Peter estava olhando para êle e acharia estranho que êle não fosse, que êle não quisesse ir. Ficaria ofendido. E Esther também.

Forçou um sorriso e disse:

— Está bem. Se me quiserem, eu vou. Só não queria era dar trabalho a vocês.

Peter riu.

— Desde quando uma pessoa da família dá trabalho?

Johnny entrou no escritório pensando nas palavras de Peter: ”uma pessoa da família”. Teria êle alguma idéia a respeito dele e Doris? Teria ela dito alguma coisa aos pais?

Não, isso era bobagem. Ela não iria dizer nada a eles. Era só a maneira de falar de Peter. Vivia com eles havia tanto tempo e com tamanha intimidade que êle o considerava uma pessoa da família.

Foi sentar-se com Rocco na sala de projeção e olhou para a tela. Percebeu logo que tinha havido também um grande progresso técnico no cinema. O filme quase não tremia mais. Os movimentos dos atores haviam ficado mais reais, mais autênticos. Os movimentos bruscos de outros tempos haviam sido reduzidos a um ponto que as figuras não pareciam mais pular de um canto para outro da tela.

Os métodos narrativos haviam também melhorado. Era bem mais fácil seguir o desenrolar do enredo. A arte do primeiro plano, do fading, dos letreiros, tudo isso se havia fundido num conjunto harmonioso.

Via que teria de fazer uma visita ao estúdio para conhecer melhor essas novas técnicas. O cinema o havia ultrapassado muito no breve período da sua ausência.

Acendeu um cigarro. Ao clarão do fósforo, viu o rosto de Rocco voltado para a tela, embebido na história. Sorriu. Bastava Rocco estar por perto para que êle se sentisse melhor. Era estranha essa sensação de segurança que êle lhe dava.

Lembrava-se do sonho que tivera no hospital em que tentava correr, caía e todos riam dele. Desde então, vivia com esse medo. Não queria que os outros rissem nem tivessem pena dele. E quando Rocco estava perto, êle sabia que nada disso podia acontecer. Rocco tinha jeito de prever as situações embaraçosas e evitá-las. Sabia desviar a conversa para longe das coisas que podiam magoá-lo ou afligi-lo. Colocava-se prontamente entre Johnny e qualquer choque iminente.

Fizera muito bem em ter pedido que êle ficasse ao seu lado.

— Meu carro está lá embaixo, — disse Peter. — Acabei de telefonar para Esther, dizendo que estaremos em casa dentro de meia hora. Estava tão nervosa como uma recém-casada quando a família vai jantar com ela pela primeira vez.

— Vamos, — disse Johnny.

Saíram para a rua. Uma limusine esperava diante do prédio, com a porta aberta pelo chofer.

Peter fêz Johnny entrar primeiro. O carro era luxuosamente estofado. Peter embarcou e Rocco sentou-se do outro lado de Peter.

— É um carro de classe, Peter, — disse Johnny. — É novo?

— Pierre-Arrow, com carroçaria especial, — disse Peter, sorrindo.

— Excelente, — disse Johnny.

O grande carro rolava em silêncio e maciamente. Em breve, estavam na Qinta Avenida, encaminhando-se para o centro. Foi parar diante de um grande edifício de apartamento defronte do Parque Central.

Um porteiro abriu a porta do carro, dizendo:

— Boa-noite, Sr, Kessler.

— Boa-noite, Tom, — respondeu Peter.

Esperavam que Johnny saísse do carro e entraram no edifício, que era novo.

Johnny nada disse, mas estava impressionado. Era preciso ter muito dinheiro para viver num lugar assim. Começava a perceber as conseqüências pessoais de tudo o que vira e ouvira durante o dia.

Acompanhou Peter a um elevador. Subiram onze andares e saíram num corredor tão luxuosamente decorado quanto o era o vestíbulo lá embaixo.

Peter parou diante de uma porta e tocou a campainha.

Johnny sentia o coração bater-lhe estranhamente. Procurou inconscientemente firmar-se.

A porta se abriu e Esther apareceu. Houve um momento de constrangimento silêncio enquanto os dois se olhavam. Depois, ela abraçou Johnny e começou a chorar.

Johnny ficou ali parado, com receio de tirar as mãos das muletas pois podia cair. Olhou por cima do ombro de Esther quando ela lhe beijou o rosto e viu Doris na porta, muito pálida e de olhos arregalados.

Rocco, que estava atrás de Johnny, podia ver a troca de olhares entre ambos. Doris tinha os cabelos caídos sobre os ombros emoldurando-lhe o rosto numa máscara oval. As mãos estavam cerradas com forças e as pálpebras caídas. Era como se alguém lhe houvesse apagado a luz do rosto. Rocco via as lágrimas que lhe afloravam aos olhos e que ela procurava desesperadamente conter.

Parecia que ela sabia o que Johnny pretendia dizer-lhe. Não fora dita uma só palavra, mas ela sabia. Os olhos e todo o corpo mostravam que ela sabia, com aquelas lágrimas e aquele desalentado descambar de ombros.

Tudo isso aconteceu num instante, mas Rocco sabia que aquele instante fora decisivo para ela.

Esther parou de beijar Johnny, recuou um pouco, olhou-o de alto a baixo e disse com voz chorosa:

— Meu Johnny! Que foi que fizeram com você?

— Não seja tola, Mamãe, — disse Peter rispidamente. — Êle está aqui, não está? O que é que se pode querer mais?

O jantar foi silencioso. Conversaram, mas ninguém falou do que tinha no fundo do coração. As lágrimas se escondiam por trás dos rostos sorridentes.

Rocco notou que Doris olhara para Johnny durante todo o jantar. Sempre que levantava os olhos para ela, via-se de olhos fitos em Johnny. O rosto de Johnny estava pálido e êle pouco falava. Não sabia o que dizer.

Ela se havia desenvolvido muito desde que êle a vira pela última vez. Naquele tempo, era uma bela moça, mas se tornara uma mulher bela, graciosa e ardente.

O jantar terminou e todos foram para a sala de estar. Johnny e Doris foram os últimos e por um momento ficaram sozinhos na sala de jantar. Ela deixou a xícara de café, levantou-se e foi para aonde êle estava. Êle a acompanhou com os olhos até ela chegar à sua cadeira.

Ela se inclinou para êle e disse com voz calma e controlada:

— Você ainda não me beijou, Johnny. Êle não respondeu, continuando a olhá-la.

Ela encostou os lábios nos dele. Por um instante, houve uma fagulha entre eles. Johnny sentiu-se atraído para ela, mas com grande esforço conseguiu conter-se. Os cantos da boca de Doris tremiam sob os lábios dele. Johnny afastou-se dela.

Ela levantou a cabeça e olhou-o, falando num tom magoado:

— Estou achando você mudado, Johnny.

— É verdade, — disse êle, amargamente, olhando para a perna. — Estou mudado.

Não é nisso que estou pensando. Você está mudado intimamente.

— É possível. Tudo o que altera a aparência de uma pessoa a faz mudar. Quando se perde um dente, não se ri mais com a mesma freqüência.

Mas, apesar disso, há de vez em quando um sorriso, Johnny. Não se fica frio e impassível.

Êle não respondeu.

Doris sentiu que as lágrimas lhe subiam aos olhos e teve vergonha delas. A voz lhe tremia um pouco quando disse:

— Lembra-se da última vez em que nos vimos? Lembra-se de como rimos e de que você prometeu trazer-me um presente?

Johnny fechou os olhos.

— Lembro-me, sim, — disse êle, sabendo que ia ofendê-la. — Nesse tempo, você ainda era uma garotinha, a guerra era apenas uma aventura e eu prometi trazer-lhe uma lembrança quando voltasse.

— Foi só isso que tudo representou para você?

— É claro, — disse êle, arregalando os olhos e sorrindo em aparente Inocência. — E era para significar mais alguma coisa?

Ela deu-lhe as costas, correu para a porta e saiu da sala. Johnny riscou um fósforo com os dedos trêmuios e acendeu um cigarro. Depois, levantou-se para ir para a sala de estar, lutando com as muletas.

Fim do primeiro volume

 

CONSEQÜÊNCIAS 1938

 

Quinta-feira

Ouvi as cortinas serem corridas e quando as janelas se escancararam, acordei de todo. Continuei estirado na cama, olhando vagamente para o teto. O quarto me parecia estranho e, de repente, me lembrei de onde estava. Tudo parecia errado. Eu devia estar em Nova Iorque. Que era que estava fazendo ali em Hollyoowd?

Foi então que me lembrei de tudo. Creio que ficara assim alheado das coisas em conseqüência do mesmo velho sonho, — o sonho em que eu corria por uma rua que não existia para uma moça que eu não podia ver. Tinha o mesmo sonho desde o fim da guerra e êle sempre terminava da mesma maneira. Eu caía e todo o mundo começava a rir.

Deviam estar rindo de mim naquela manhã. Eu deixara Farber entrar. Depois de tudo o que acontecera, eu deixara Farber botar o pé na porta. Agora, só me restava fazê-lo levantar o pé e dar o fora. Já havia feito isso de outras vezes. Poderia fazê-lo de novo? Não sabia. E dessa vez a culpa fora minha.

— Bom dia, Sr. John — disse Christopher ao lado da minha cama.

Sentei-me na cama e olhei-o, vendo-lhe o rosto preto todo aberto num sorriso de dentes muitos alvos.

— Bom dia, Christopher. Como foi que soube que eu estava aqui?

— Vi nos jornais que o Sr. Peter estava muito doente e calculei que viesse fazer uma visita a êle.

Êle colocou a bandeja do café na cama. Será que todo o mundo, menos eu, sabia como eu reagiria diante da notícia do estado de Peter? Christopher sabia perfeitamente da minha briga com Peter, mas não duvidara nem por um instante de que eu viria vê-lo. E todos estavam certos, porque ali eu estava.

Os jornais estavam dobrados num canto da bandeja. Abrios enquanto tomava o suco de laranja. O título do Reporter era conciso e direto.

Faber na Magnum

Com empréstimo de um milhão

Era verdade, mas não o seria por muito tempo, se eu conseguisse o que queria. Se Ronsen não tivesse entrado no meu escritório naquele exato momento, aquela notícia nunca teria sido publicada. Li com interesse o seguinte texto:

Falava-se muito hoje em todos os círculos da indústria cinematográfica sobre o significado do empréstimo de um milhão de dólares feito à Magnum por Stanley Farber. É coisa sabida que Farber tem procurado comprar sociedade na Magnum desde que Peter Kessler vendeu a sua parte a Laurence G. Ronsen. Sabe-se também que Ronsen sempre quis admitir Farber, só não o jazendo em virtude da oposição do presidente da Magnum, John Edge. Edge e Farber vêm lutando há quinze anos, desde que Edge jêz Farber sair da Magnum em virtude de uma questão sobre os cinemas que Farber administrava para a companhia.

O sobrinho de Farber, Dave Roth, joi colocado há dois meses como diretor do estúdio, antes de Edge assumir a presidência. O primeiro sinal de uma divergência entre Ronsen e Edge surgiu no começo desta semana quando Edge, em contrário à opinião de Ronsen, tomou o avião para fazer uma visita a Peter Kessler, que sofreu um derrame.

Há rumores não confirmados de que Farber entraria de posse de uma boa quantidade de ações da Magnum como garantia do seu empréstimo, ao mesmo tempo que Roth seria eleito para a diretoria da Magnum. Também se diz sem confirmação que Roth seria encarregado de todas as super produções da, Magnum.

Outros rumores não confirmados dizem que Bob Gordon, gerente do estúdio da Magnum, deixará a companhia em vista da diminuição das suas funções. Isso deixará Edge sem um só representante no estúdio e poderá determinar também a sua saída.

Além do empréstimo, Farber assinou também um contrato com a Magnum que dá à companhia automaticamente direito de exibição dos seus filmes em todos os cinemas da Costa do Pacífico da cadeia de Farber.

Larguei o jornal e acabei o suco de laranja. Os boatos figuravam obrigatoriamente como o café em todas as primeiras refeições de Hollywood. Mas para mim chegava.

Christopher me serviu café e destampou o prato de bacon com ovos. Cheirava bem e eu me senti com fome.

— Fiquei muito contente de você aparecer, Christopher.

— Também fiquei contente de vir, Sr. Johnny. Fico muito preocupado quando o senhor fica em casa sozinho.

Fiquei no passeio e acendi um cigarro enquanto esperava Christopher aparecer com o carro. O dia estava muito bonito e eu já começava a sentir-me melhor. A depressão que caíra sobre mim ao saber da doença de Peter parecia estar-se desvanecendo. Era difícil de explicar, mas eu me sentia melhor quando tinha alguma coisa definida contra que lutar.

Até então, eu estava lutando apenas para manter a companhia. Nunca havia considerado Ronsen um genuíno problema. Era um elemento estranho à indústria, um mal necessário, que se tinha de tolerar até quando fosse preciso. Quando a necessidade cessasse, dar-se-ia um jeito de afastá-lo. Mas, desde que Farber estava presente eu tinha um interesse pessoal na luta. Não era mais uma luta para manter a companhia. Era uma luta para saber quem dominaria a companhia. Se Farber estava interessado, era porque sabia que ainda era possível ganhar dinheiro na indústria. Eu tinha de calcular o que êle pretendia fazer, depois cercá-lo e fazer alguma coisa melhor ao mesmo tempo. No cinema, a competição fazia subir à tona o que se tinha de melhor. Quando não se podia agüentar a luta, era melhor ficar longe do cinema.

O carro chegou e eu embarquei.

Christopher voltou-se para mim.

— Para o estúdio, Sr. Johnny? *

— Não. Vamos primeiro à casa do Sr. Kessler.

Êle saiu com o carro e eu me recostei nas almofadas. Esperaria um pouco até aparecer no estúdio. Seria melhor deixar Ronsen e Farber estabelecerem os seus planos e anunciá-los antes que fosse trabalhar. Quando eu chegasse, saberia o que eles pretendiam fazer e lhes derrubaria a igrejinha. Sorri. Não havia motivo algum para que eu me sentisse tão bem. Mas a verdade é que me sentia maravilhosamente.

A enfermeira saiu, fechando a porta e falou em voz baixa para não ser ouvida no quarto do doente.

— Pode entrar, Sr. Edge — disse ela. — Mas não demore muito, pois êle ainda está muito fraco.

Olhei para Doris e ela se levantou para entrar comigo. Mas a enfermeira segurou-lhe o braço, dizendo:

— Uma pessoa de cada vez. Depois sorriu e tornou a sentar-se.

— Vá você, Johnny. Já estive com êle hoje de manhã e sei que êle quer vê-lo.

Entrei e fechei a porta cuidadosamente. Peter estava deitado na cama, com a cabeça levantada por dois travesseiros. Estava muito quieto e, a princípio, julguei que estivesse dormindo, pois não se movia. O rosto estava muito pálido e magro e os olhos, encovados. Em dado momento, voltou a cabeça para mim, abriu os olhos e sorriu.

— Johnny — murmurou êle com voz débil, mas satisfeita. Fui até à cama e fiquei olhando para êle. Apesar da fraqueza,

os olhos estavam luminosos e vivos. Fêz um leve gesto com a mão.

— Johnny.

Era impossível deixar de sentir o prazer que a sua voz, já um pouco mais forte, demonstrava.

Apertei-lhe a mão e sentei-me numa cadeira ao lado da cama. Ainda não podia falar.

— Tenho sido um idiota, Johnny — disse êle com os olhos voltados para mim.

Tudo dentro de mim transbordou ao ouvi-lo dizer isso.

— Não foi mais do que eu, Peter.

A minha voz me pareceu estranhamente rouca naquele quarto silencioso.

— Passamos a vida cometendo erros que nos custam a vida toda para corrigir — disse êle, sorrindo dèbilmente.

Não pude responder. Fiquei ali segurando-lhe a mão. Êle fechou os olhos pouco a pouco e eu pensei que estivesse adormecido. Continuei ali sentado, com receio até de mover-me para não acordá-lo. Olhei a mão dele e vi uma veiazinha azul que subia e descia nas costas da mão. Contemplava-a, fascinado.

A voz dele me fêz levantar a cabeça e as suas palavras me espantaram.

— Como vão os negócios, Johnny?

Os olhos estavam brilhantes e interessados. Era quase como nos velhos tempos.

Era a sua pergunta habitual, a que êle fazia antes de tudo mais. Depois, vinham mais duas: ”Como vão os recebimentos?” e ”Qual é o saldo bancário?”

De repente, comecei a contar tudo. Falei de George e dos dez medonhos. Falei da insistência de Ronsen para conseguir o milhão de Farber. Omiti qualquer referência aos motivos da minha discordância com Ronsen.

Enquanto eu falava, a côr voltou-lhe às faces e êle pareceu mais o Peter de antigamente. Não me interrompeu. Limitou-se a escutar e, quando acabei, pareceu recostar-se nos travesseiros com um suspiro.

Olhei-o ansiosamente. Estava com receio de havê-lo fatigado. Mas o meu receio era infundado. Saber de fatos sobre a indústria agia sobre êle como um tônico. Falou ao fim de alguns segundos, com a voz um pouco mais firme.

— Eles não têm fibra, Johnny, fibra — disse êle lentamente, com um sorriso esboçado nos cantos da boca. — Tudo parece muito bom para eles. Pensam que para fazer dinheiro basta rodar alguns filmes e emitir algumas ações. Mas, depois que entram, ficam amedrontados, como nós ficamos muitas vezes. Correm então de um lado para outro como galinhas de cabeça cortada, procurando alguém ou alguma coisa que os salve. Só podem vencer, Johnny, se você deixar. Houve um tempo em que o dinheiro deles nos metia medo, mas esse tempo acabou. O dinheiro nunca representou coisa alguma no cinema. O segredo está nos filmes. É aí que eles perdem. Nós sabemos fazer os filmes e eles não sabem.

Nisso, a porta do quarto se abriu e a enfermeira apareceu. Aproximou-se da cama e tomou o pulso de Peter. Olhou-me então com ar de censura.

— Tem de sair agora, Sr. Edge. O Sr. Kessler tem de descansar.

Sorri para Peter, levantei-me e dirigi-me para a porta. A voz dele me fêz parar antes de eu sair.

— Apareça e venha ver-me amanhã, Johnny.

Olhei para a enfermeira e, ante o olhar de aquiescência dela, sorri para Peter.

— Venho, sim, Peter. E lhe direi como vão as coisas.

Ele sorriu e deixou a cabeça cair no travesseiro. A enfermeira colocou-lhe um termômetro na boca e eu saí, pensando que talvez fosse melhor ela utilizar um charuto.

Doris estava à minha espera lá fora e me perguntou:

— Como vai êle?

— Quer saber de uma coisa? — disse eu, sorrindo. — Parece-me que èle está é com vontade de voltar ao trabalho. Acendi um cigarro e acrescentei: — O que não seria uma má idéia, pois poderia fazer um grande bem a nós dois.

Mas fiquei pensando. Enquanto estivera no quarto, eu não havia dito o mais importante. Nada havia dito sobre os meus sentimentos em relação a êle, sobre o que nos unia, sobre as coisas que dois homens sentem um pelo outro depois de terem passado quase a vida toda juntos. Horrível! Então a única coisa sobre que podíamos falar, a única coisa que tínhamos em comum depois de tantos anos era a companhia?

Cheguei ao grande salão do restaurante um pouco depois das 13 horas. Estava tudo repleto de gente que almoçava. O ar estava cheio de fumaça e conversa. Sentia muitos olhares cravados em mim enquanto atravessava o salão principal rumo a uma sala menor que tinha o nome de Sala do Sol. Um cartaz estava pendurado sobre a porta e dizia: ”Todas as Mesas Reservadas’’. Era um aviso para a gente menor não entrar. Aquilo era reservado para o primeiro time.

A minha mesa ficava num recanto, um pouco mais alto do que o resto da sala. Havia atrás três grandes janelas que davam para o estúdio. Não havia ninguém lá quando entrei. Olhei para a mesa de Ronsen. Estava também vazia. Sentei-me e a garçoneta apareceu.

— Boa tarde, Sr. Edge — disse ela, com um sorriso. — Alô, Ginny. Que é que se pode almoçar?

— Sweetbreão de vitela sauté. Está exatamente como o senhor gosta.

— Feito.

Ela saiu e eu corri os olhos pela sala. Gordon estava entrando. Viu-me e encaminhou-se para a minha mesa. Puxei uma cadeira para êle.

— Alô, Robert.

Êle se jogou na cadeira e disse a Ginny, que se aproximara ao vê-lo:

— Um scotch bem forte. — Vbltando-se para mim, acrescentou: — Precisa muito de um drinque.

— Não é a primeira vez que ouço isso — disse eu, sorrindo.

E ouvirá muitas vezes mais, antes que esse piquenique

acabe. Farber já apareceu no estúdio com ares de importância. Não respondi. Ginny chegou com o uísque e êle bebeu de

um gole..

Pensei que você não fosse consentir na entrada dele,

Johnny.

— Mudei de idéia.

Por quê? Pensei que você não o queria aqui. Ainda

ontem...

E não quero mesmo. Mas um milhão de dólares é um

milhão de dólares. Resolve muita coisa.

— Mas também complica muita coisa. Ronsen, Farber e Roth foram procurar-me hoje de manhã. Disseram que tudo está pronto para Dave assumir a responsabilidade pela produção da Rainha da Neve. Disseram que você estava de acordo.

A Rainha da Neve era o maior filme que tínhamos no momento. Era um musical estrelado por uma garota que Gordon tivera grande trabalho em tirar do estúdio de Borden. Tinha apenas quatorze anos, mas Bob já a havia preparado. A voz dela era a de uma mulher adulta. Bob conseguira incluí-la num programa de rádio apresentado por um grande comediante e ela tinha alcançado muito sucesso. Gastara muito dinheiro-para que os testes dela no estúdio de Borden não saíssem bons e eles acabassem desistindo da opção que tinham sobre ela. No momento em que a havia conseguido, entrara em ação. Arranjara um bom enredo para ela, e o script nos havia convencido de que o enredo possuía aquela qualidade intangível que assegura um sucesso certo. O filme não nos custaria muito e nós podíamos considerá-lo dinheiro em caixa. Bob estava entusiasmado pelo filme. E agora, depois de tudo encaminhado, Dave aparecia para ficar com todas as glórias. Era natural que Bob não estivesse contente.

Êle já estava no segundo uísque quando eu disse:

— É interessante.

— É só o que você tem para dizer? — perguntou êle, surpreso.

Bati com a cabeça. Êle ficou muito vermelho e fêz menção de levantar-se da mesa.

— Sente-se, rapaz. Sente-se e tenha calma. Não vou deixar ninguém passar-lhe a perna. Deixaremos Dave figurar como produtor associado se fôr preciso, mas o filme será uma produção Robert Gordon.

— Não foi isso o que me disseram — exclamou êle, indignado.

— Mas é assim que vai ser e, se eles não gostarem, bolas para eles!

Êle tornou a sentar-se, tomou o uísque mais devagar e me perguntou:

— Tem algum ângulo, Johnny?

Isso era também pura Hollywood. Tudo tinha de ter um ângulo. Podia-se fazer alguém enforcar-se com prazer se êle pensasse que isso era um ângulo para atingir alguém de quem êle não gostava.

— Um ângulo de um milhão de dólares — disse eu, sorrindo.

— Eu sabia, Johnny, eu sabia! Desculpe que eu tivesse perdido a calma.

— Nem pense nisso, Bob — disse eu generosamente e bem podia ser generoso, porque não me custava nada.

— Qual é o truque? — perguntou êle, baixando a voz para um tom confidencial.

Corri os olhos pela sala e baixei a voz para um tom igual ao dele. Os melhores atores do cinema nem sempre aparecem na tela. Representava-se mais num minuto do nosso lado da indústria do que num ano diante das câmaras.

— Isto aqui não é lugar para se falar sobre isso, Bob. Depois eu converso com você.

Êle ficou então inteiramente feliz. Correu os olhos exultantemente pela sala. Chegou até a sorrir e a dar adeus para algumas pessoas. Havia confiança em todos os seus gestos. E foi espantoso como isso transformou o ambiente da sala.

Antes disso, todos estavam falando baixinho, olhando-nos apreensivamente pelo canto dos olhos. Queriam saber se nós ainda seríamos os patrões no dia seguinte. Já deviam estar fazendo planos para a hipótese de que não fôssemos. Haveria gente nova para ser estudada e adulada, para ter as botas lambidas. Alguns talvez tivessem de procurar novo emprego. Mas, em vista da atitude de Gordon, muitos calcularam que as coisas ficariam na mesma ainda por algum tempo.

Olhei para a porta e vi Ronsen, Farber e Roth. O olhar de Ronsen se cruzou com o meu e êle veio na minha direção. Caminhava ao lado de Farber, com a mão atenciosamente pousada no braço dele. Dave vinha atrás como um cachorrinho seguindo o dono.

Olhando-os, cheguei quase a sorrir. Peter tinha razão. Todos os gestos de Ronsen indicavam a sua solicitude por Farber.

Ronsen havia mudado um pouco desde que se metera, à força, na indústria. Naquela época, era um homem cheio de confiança. Ainda me lembrava do que êle dizia: ”O erro do cinema é depender muito das personalidades e não ter fé nos velhos princípios americanos de administrar negócios. Não há necessidade de condições especiais. Tudo é, na verdade, muito simples. O estúdio não é senão uma fábrica. Só é preciso fabricar filmes e colocá-los em boas condições no mercado. Foi o que vim fazer aqui. Mostrar como a indústria do cinema deve ser administrada. Dentro de muito pouco tempo, isto aqui estará funcionando como a Companhia Ford!”

Dava-me vontade de rir quando pensava nisso. A Companhia Ford, pois sim! Procurou de fato imitar a Ford e a primeira coisa que fêz foi cancelar os nossos contratos de trabalho com os sindicatos. Nós é que quase fomos cancelados. Durante nove semanas, não se rodou um metro de filme nos nossos estúdios. Êle andou furiosamente de um lado para outro falando em influência comunista nos meios trabalhistas, mas não adiantou nada. Depois, na última semana da greve, quando já os operadores dos cinemas de todo o país se negavam a passar qualquer filme da Magnum, e nós estávamos ameaçados de uma perda total de receita, êle cedeu afinal e eu tive de ir consertar os estragos.

Peter tinha razão. Em última análise, eles tinham de recorrer a nós. Talvez fosse porque nós nada tínhamos a perder e eles podiam perder tudo. Havíamos começado aquilo falidos. Podíamos ficar falidos de novo, se fosse preciso. Sabíamos que na base da indústria do cinema havia um risco, um jogo. Todos os filmes que produzíamos eram paradas de jogo e, como jogadores, nós não nos contentávamos em esperar o resultado de uma parada. Calculávamos o que iríamos ganhar com aquele filme e saíamos para outro, para outra parada, para outro risco, para outro jogo. E era assim que íamos para a frente.

Com eles, a coisa era muito diferente. Chegavam ao nosso meio com os bolsos cheios de dinheiro que tinham havia muito tempo, que os pais deles tinham tido antes deles e se perdessem esse dinheiro o mundo acabaria para eles e nada mais lhes restaria.

Tinham de recorrer a nós.

Levantei-me quando eles chegaram perto da minha mesa. Olhei para Stanley. O tempo não o havia mudado muito.

Ainda era o mesmo homem. Talvez os cabelos estivessem grisalhos, o rosto mais cheio e a barriga também, mas tinha ainda o mesmo sorriso fácil e sem sinceridade. Os olhos ainda davam a impressão de que estavam sempre somando e subtraindo. Não havia mudado muito. A minha reação ainda era a mesma do tempo que eu o conhecera, uma reação de antipatia. Não podia gostar daquele homem.

Larry foi quem falou primeiro.

— Alô, Johnny — disse êle com o seu vozeirão que podia ser ouvido em todos os cantos da sala. — Conhece Stanley, não conhece?

Todos os olhos na sala estavam voltados para nós. Sorri e estendi-lhe a mão.

— Claro que sim. Seria capaz de reconhecê-lo em qualquer lugar — disse êle, apertando-me a mão. A mão dele era também a mesma. Tinha-se a impressão de estar pegando num peixe morto. — Como vai, rapaz? Prazer em vê-lo!

O rosto estava um pouco pálido, mas havia no olhar um brilho inconfundível de triunfo.

— Johnny! — exclamou êle. — Há quantos anos!

Êle me largou a mão e ficamos ali sorrindo um para o outro. Todas as aparências externas indicavam que nós éramos velhos amigos que havia muito não se viam. E a qualquer momento um seria capaz de cortar o pescoço do outro, se houvesse um jeito de fazê-lo sem complicações...

— Sentem-se — disse eu, apontando as cadeiras.

Só havia quatro cadeiras na minha mesa. Desde que Bob e eu já estávamos sentados, restavam dois lugares. Larry sentouse à minha direita e Stanley deixou-se cair pesadamente na cadeira à minha esquerda. Dave teve de ficar de pé à procura de um lugar para sentar-se.

Ginny viu-o ali de pé e fêz menção de pegar uma cadeira para êle. Mas eu consegui olhá-la e ela, disfarçando um sorriso, deu meia-volta e tomou o caminho da cozinha.

Dave ficou ali desajeitadamente à procura de alguém que lhe desse uma cadeira. Olhou-me desconsoladamente e eu sorri para êle.

— Pegue uma cadeira e sente-se, meu filho — disse eu, cordialmente. — Não sei o que há com essas garçonetas. Basta a gente precisar delas para desaparecerem.

Dave teve de ir buscar uma cadeira perto da parede.

Olhei-o e sem voltar a cabeça, disse a Stanley em voz calma, mas que podia ser ouvida em toda a sala:

- Rapaz brilhante o seu sobrinho. Faz-me lembrar você

como era há muitos anos. Poderá ir longe se não perder a cabeça.

Vi pelo canto dos olhos Stanley ficar vermelho. Dave parou

ao ouvir as minhas palavras. Depois, continuou, apanhou a

cadeira e estava um pouco pálido quando voltou para a mesa

com ela.

Voltei-me para Stanley e disse:

Você está muito bem, rapaz. Mas engordou um pouco,

não foi?

A conversa continuou, mas pouco me lembro do que se disse. Estava pensando na última vez que Stanley e eu nos havíamos sentado a uma mesa. Nessa ocasião, havia-me procurado com uma proposta para unirmos as nossas forças e tomarmos conta do negócio para nós. Não tinha sido havia tanto tempo assim. Foi em 1923.

O homem se levantou. Os olhos azuis piscavam cordialmente para mim. De cada lado da cabeça, a franja de cabelos grisalhos que lhe circundava a calva era espetada como uma escova de arame. Sorriu para mim e falou com forte sotaque alemão:

— Acho que está no ponto, Sr. Edge.

Olhei para as minhas pernas. Havia duas. Uma era minha mesmo; a outra, não. Era feita de madeira com articulações de alumínio. Ajustava-se perfeitamente ao coto e era presa por duas correias. Uma era passada em torno da coxa e a outra se prendia à nova correia passada pela cintura. Olhei meio incrédulo para aquilo.

O homem pareceu adivinhar-me os pensamentos.

— Não se preocupe, Sr. Edge, que vai dar certo. Vista as calças e vamos experimentar.

Eu estava realmente ansioso para experimentar. Se desse resultado, eu poderia caminhar de novo e ser como os outros homens.

Por que não posso experimentar antes de vestir as calças? Nao, primeiro as calças. Faça o que eu lhe digo, porque sei. Sem as calças, ficará olhando para a perna e isso não é bom. Não deve pensar na perna.

Vesti as calças e êle me ajudou, enquanto eu as abotoava e passava os suspensórios.

Deixou-me sentado ali e foi buscar uma armação que parecia em ponto maior um desses voadores que se usam para ensinar as crianças a andar. Havia duas barras de aço paralelas sustentadas por quatro barras verticais. Em baixo de tudo havia quatro rodinhas.

— Agora, Sr. Edge, — disse êle — segure-se nessas barras e levante o corpo entre elas.

Coloquei as mãos em cada uma das barras e levantei-me. Ao meu lado, o alemão me observava ansiosamente.

— Coloque cada barra debaixo dos braços, como se fossem muletas.

Obedeci

— Agora — disse êle, indo para o outro lado da sala — venha caminhando para onde eu estou.

Olhei para baixo. As pernas das calças caíam ambas até o chão. Isso me pareceu estranho porque já estava habituado a que uma descesse até o chão, enquanto a outra ficava dobrada e presa por um alfinete.

O homem gritou incisivamente:

— Eu disse que não olhasse para baixo, Sr. Edge! Venha caminhando para onde eu estou!

Olhei para êle e tentei dar um passo à frente. A armação rolou sob o meu braço e eu quase tropecei, mas me sustentei nas barras.

— Não pare, Sr. Edge! Continue andando!

Dei mais um passo, depois outro e mais outro e outro e outro. Podia ter andado assim mil quilômetros. A armação se movia com facilidade comigo. Cheguei onde êle estava.

Êle pegou as barras e fêz parar a armação.

— Até agora, muito bem — disse êle, ajoelhando-se e apertando a correia em torno da minha coxa. Depois, levantou-se e acrescentou: — Agora, caminhe, acompanhando-me.

Ficou diante da armação e, de frente para mim, começou a andar de costas. Segui-o lentamente. Êle continuou a andar de costas, dando volta à sala. Não olhou uma só vez para trás. Observava atentamente o movimento das minhas pernas.

Eu estava começando a ficar cansado. Havia dores lancinantes na coxa e eu sentia uma dor na nuca da pressão que fazia com os ombros sobre as barras. A correia da cintura me magoava a carne cada vez que eu respirava.

Parei, afinal.

Muito bem, Sr. Edge. Da primeira vez, chega. Com um

mês de treino, estará perfeito!

Sentei-me na cadeira, com a respiração arfante. Desabotoei as calças e êle as puxou. Depois, desapertou rapidamente as correias e a perna saiu. Fêz-me massagens na coxa com os dedos

hábeis.

Está dolorida, não está?

Acenei afirmativamente.

É sempre assim no começo. Depois, vai ficar acostumado

e isso passará.

A sensação de força que eu tivera logo que me havia levantado pareceu abandonar-me no momento em que a perna foi retirada.

— Nunca poderei acostumar-me a isso. No máximo, poderei usá-la alguns minutos de cada vez.

— Se eu pude fazer isso, Sr. Edge, um homem moço como o senhor não terá dificuldade alguma — disse êle, levantando uma das pernas das calças dele.

Era uma perna artificial. Sorri para êle e o alemão deu uma risada.

— Está vendo? Não é tão ruim assim. Eu disse ao Sr. Kessler, quando êle esteve na Alemanha, que daria um jeito no senhor. E vou dar. Êle então me disse: ”Herr Heinz, se fizer o meu amigo andar, tomarei todas as providências para que vá viver nos Estados Unidos com sua família”. E eu respondi: ”Herr Kressler, pode jurar que eu já sou um cidadão americano”. Não é o que está acontecendo?

Aquilo me fêz bem. Por mais ocupado que estivesse, Peter não se havia esquecido de mim e tentara ajudar-me. Teria sido muito fácil para êle não perder tempo e não abandonar os seus negócios para ir à cidadezinha onde vivia Herr Heinz, de quem lhe haviam falado. Mas Peter tinha achado tempo ainda que isso o tivesse atrasado quase uma semana.

Depois, pagara todas as despesas do homem e de sua família até aos Estados Unidos, pois esse fora o preço pedido. Não me havia dito nada sobre isso. Sabia da minha decepção com as pernas artificiais que havia experimentado, todas muito mal feitas e insatisfatórias.

Um belo dia, Herr Heinz apareceu no escritório e me mandou o seu cartão com uma nota de Peter, a qual dizia simplesmente: ”Apresento-lhe Herr Joseph Heinz, que acaba de chegar aos Estados Unidos para estabelecer-se. Faz pernas artificiais e pode ser que lhe sirva, Peter”.

Não havia uma só palavra sobre o que isso lhe havia custado. Só depois de falar com Heinz é que vim a saber do que Peter tinha feito.

Ora, aquele alemão tinha um segredo. Era a maneira pela qual as articulações funcionavam. Tudo era natural como uma perna de verdade. Os movimentos eram desembaraçados e fáceis. Ninguém seria capaz de dizer que o homem tinha uma perna artificial. Eu só havia sabido disso depois que êle me mostrou.

Peter ainda estava na Europa em companhia de Doris e Esther. Ainda ficariam seis meses por lá e todo o peso da companhia estava sobre os meus ombros.

Levantei-me e firmei-me nas muletas.

— Volte amanhã de manhã, Sr. Edge, para outra lição — disse Heinz.

Quando voltei para o escritório, Rocco estava à minha espera.

— Como é que foi, Johnny?

— Ótimo. Acho que vai dar certo.

— Vai ser muito bom.

Sentei-me à minha mesa. Rocco pegou as muletas e encostou-as na parede.

— Alguma coisa de especial esta manhã, Rocco?

— Não, o mesmo de sempre. Ah, sim, Farber telefonou para saber se pode almoçar com êle.

— Que foi que disse a êle?

— Nada, que não sabia e que você ainda não tinha chegado. Pensei por um momento. Não gostava de Farber. Não sabia

-por que, mas nunca havia gostado. Sabia trabalhar, era verdade, mas havia nele alguma coisa que não me agradava. Talvez fosse a carta que êle me escrevera antes de eu ir para a guerra, na qual me agradecia um lugar que eu ainda não lhe tinha dado.

George aprovou a indicação e eu deixei tudo por isso mesmo. De qualquer maneira, estava de partida para a guerra e não pensei muito no caso. Mas agora êle era o responsável por todos os cinemas e nós tínhamos mais de duzentas casas. George tinha muito o que fazer cuidando dos seus cinemas e nós havíamos chegado à conclusão de que Farber era a pessoa indicada para dirigir os cinemas da nossa propriedade conjunta.

— Sabe o que êle queria, Rocco?

— Não.

— Ora, vá lá. O melhor é saber logo o que êle quer e verme livre dele. Do contrário, ficará importunando até conseguir falar comigo. Diga-lhe que estarei no clube à uma e meia.

Stanley Farber estava esperando por mim na portaria do clube. Havia outro homem com êle, robusto, alto, de cabelos grisalhos e olhos penetrantes.

Veio ao meu encontro em companhia do homem. Estendeume a mão.

— Alô, Johnny! Como vai?

O seu riso era um tanto alto demais, um tanto forçado. Sorri e, olhando-o, estranhei que êle estivesse tão nervoso.

— Estou muito bem, Stan. E você?

— Nunca estive melhor — disse êle, ainda rindo.

Parou de rir de repente e apontou o homem que o acompanhava.

— Johnny, quero apresentar-lhe meu cunhado. Sid, este é o homem de quem lhe falei, Johnny Edge. Meu cunhado é Sidney Roth.

Gostei do jeito pelo qual o homem me apertou a mão, com força e firmeza. Gostei também da maneira de me olhar — direta e honestamente.

— Prazer em conhecê-lo — disse eu.

— Para mim, é uma honra, Sr. Edge — disse êle com uma voz surpreendentemente macia num homem tão forte.

Stanley virou-se e encaminhou-se para a mesa.

— Vamos comer? — disse êle, de novo com o seu riso inconseqüente.

Não compreendia por que êle tinha querido almoçar comigo em companhia do cunhado. Mas não tive de esperar muito para saber. Stanley começou logo na sopa.

— Você trabalha no cinema há muito tempo, não é, Johnny? Admirei-me da pergunta. Êle sabia tão bem quanto eu há

quanto tempo eu trabalhava no cinema. Mas fui cortês e respondi:

— Há quinze anos. Desde 1908.

Eu mesmo fiquei surpreso quando disse isso. Nunca me parecera tanto tempo assim.

— E já pensou em trabalhar no cinema por conta própria?

— Não. Sempre julguei que trabalhava por conta própria. Stanley olhou rapidamente para o cunhado. Pareceu-me um

olhar de confirmação de alguma conversa que tinha tido e percebi também nele uma curiosa expressão de condescendência.

— O que eu quero dizer é que se você nunca pensou em fundar uma companhia sua ou em comprar outra para você?

— Não. Nunca tive motivo para isso. Sempre me dei muito bem com Kessler.

Stanley fêz uma pausa. Quando voltou a falar, havia tomado’ outro rumo.

— De tudo o que sei — disse êle, em voz mais baixa — você é que é a cabeça pensante na organização de Kessler. Tudo o que êle fêz foi graças a você, a quem êle deve o sucesso que tem.

Não gostei do jeito que a conversa estava tomando, mas conservei a calma. Queria saber o que estava no fundo de tudo aquilo.

— Acho que está enganado, Stan. Todos nós sempre demos o máximo à companhia.

— Ora, Johnny, deixe de falsa modéstia. Você está entre amigos. Você é que fêz todo o trabalho de verdade e Peter foi quem ficou com o dinheiro e com as honras.

— Também tive alguma coisa.

— Que foi mesmo que você ganhou com isso? Migalhas. Sabe que Kessler já é milionário? E quando você o conheceu êle não passava de um dono de uma lojinha de ferragens numa cidadezinha do interior.

Procurei mostrar-me interessado. Inclinei-me sobre a mesa, mas nada disse.

Êle tornou a olhar o cunhado e continuou:

— Não acha que já é tempo de você conseguir do velho aquilo a que tem direito?

Abri as mãos num gesto de desalento.

— Mas como?

— Todo o mundo sabe que Kessler ouve muito o que você diz. O título dele no Banco Independence vai-se vencer neste ano e é voz corrente que êle vai pedir uma reforma. Por que você não sugere que êle venda um interesse na companhia e resgate o título?

Fiz-me de desentendido.

— E quem tem tanto dinheiro assim para comprar esse interesse?

— Meu cunhado poderia interessar-se por uma participação de 50%.

Olhei para Roth. Êle não havia dito ainda uma palavra durante toda a discussão.

— E eu? — perguntei calmamente. — Onde é que eu entro nisso?

— Você entrará conosco, Johnny. Se pudermos comprar metade do interesse da companhia, eu comprarei a parte que George Pappas tem nos cinemas. Isso nos dará o controle da companhia dos cinemas. Daí será um passo para controlar tudo.

Recostei-me na cadeira e fiquei olhando para êle. Stanley começou então a falar exaltadamente:

— Vamos ganhar um dinheirão, Johnny? Com o que você sabe da companhia e de filmes e com o que eu sei sobre os cinemas, faremos uma fortuna! E dentro de muito pouco tempo, botaremos o velho Kessler pela porta a fora!

Riscou um fósforo e acendeu um cigarro que eu havia colocado na boca. Tirei a primeira fumaça e olhei para o cunhado.

— Em que é que trabalha, Sr. Roth? — perguntei-lhe de repente.

— Em ferro-velho — respondeu êle com voz calma.

— Ferro-velho? Deve ser um negócio muito bom para que possa meter quatro milhões de dólares nisso.

— Não é mau.

— Não é mau, não. Deve ser muito bom.

— Ganhou-se muito dinheiro durante a guerra. Os negócios caíram agora, mas ainda vão bem.

Fiquei algum tempo em silêncio, olhando para ambos. Por fim, tornei a falar.

— Qual é a sua opinião sobre essa transação, Sr. Roth? Êle encolheu os ombros com deliberada displicência e disse:

— Parece boa, Sr. Edge.

— Não estou falando do ponto de vista do dinheiro, Sr. Roth. Refiro-me ao aspecto moral.

Êle teve um leve sorriso e eu pude perceber-lhe nos olhos um tom de cordialidade.

— O aspecto moral é problema seu, Sr. Edge, e não meu. Colocou as mãos em cima da mesa, olhou para elas, e perguntou: — E o senhor? Que é que acha dela?

Eu ainda estava recostado displicentemente na cadeira e, por isso mesmo, surpreendeu-me a violência da minha voz.

— Acho que é uma sujeira tão grande que fede a mil léguas de distância, Sr. Roth! E se não tirar quanto antes esse canalha da minha frente, torço-lhe o pescoço agora mesmo!

Stanley levantou-se num repelão, muito pálido, e murmurou com voz rouca:

— Quer dizer que não lhe interessa? Por que foi que me fêz pensar o contrário?

Notei que vários rostos no restaurante se voltavam para êle. O Sr. Roth continuava a olhar-me. Virei-me para Stanley e disse-lhe com voz fria.

— Quando eu voltar para o escritório, espero encontrar o seu pedido de demissão em cima da minha mesa.

Voltei-me para Roth. Havia na sua fisionomia um ar de tranqüila compreensão. Stanley abriu a boca para dizer alguma coisa, mas Roth o fêz parar, levantando a mão, e disse:

— Vá para a outra sala, Stanley, e espere por mim. Quero falar com o Sr. Edge em particular.

Stanley saiu e nós ficamos durante algum tempo a olhar-nos. Afinal, Roth disse:

— Peço desculpas por meu cunhado, Sr. Edge. Desconfiava há muito tempo de que era um patife, mas agora tenho certeza.

Não respondi e êle continuou:

— Também quero pedir desculpas por mim mesmo. Sinto vergonha de haver tomado parte nisso.

Continuei calado.

Levantou-se, então, olhou-me com o rosto muito grave e disse:

— Nada há que um homem não faça por uma irmã, Sr. Edge. Sou quase vinte anos mais velho do que ela e, quando nossa mãe morreu, prometi-lhe que cuidaria dela. Pensei que estava ajudando o marido de minha irmã e, portanto, ajudando-a. Vejo agora que estava errado.

Estendeu-me a mão. Levantei-me e apertei-a. O rosto estava um pouco triste, mas os olhos me encararam firmemente. Inclinou a cabeça num cumprimento e afastou-se.

O pedido de demissão de Stanley estava em minha mesa quando voltei para o escritório e esqueci o homem durante muito tempo. Soube um dia que fora para Chicago com o cunhado e abrira alguns cinemas ali, mas nunca lhe dei muita atenção. Tinha muito o que fazer, aprendendo a andar.

Larry estava falando no restaurante do estúdio, mas eu não sabia o que êle estava dizendo. Tive de repente curiosidade a respeito daquele homem a quem havia visto uma vez quinze anos antes. Compreendi então que Dave era filho dele.

Falei, interrompendo a conversa de Larry, como se êle não existisse.

— Como vai seu pai, Dave?

Dave ficou surpreso com a minha pergunta. Ficou um pouco vermelho e perguntou, gaguejando:

— Quem, meu pai?

Sorri para êle. Larry ficou em silêncio, espantado de que eu lhe houvesse interrompido a conversa. Não estava habituado a isso. Não lhe dei atenção.

— Sim, Dave, seu pai. Conheci-o há muitos anos. Achei-o um homem muito distinto.

Dave pareceu satisfeito com o que eu havia dito. Quando estava despreocupado, parecia-se muito com o pai. Mas o rosto não tinha a força do rosto do pai.

— Meu pai morreu há dois anos — respondeu-me êle. Senti um sincero pesar e o exprimi, acrescentando:

— Foi uma pena que não nos tivéssemos conhecido melhor — disse eu. — Poderíamos ter sido bons amigos.

Olhei para Dave e para Stanley e ocorreu-me uma idéia estranha. Seria possível que parentes por afinidade chegassem a parecer-se? Os dois tinham no rosto a mesma expressão sensual e egoísta. As bocas de ambos eram pequenas, redondas e perversas.

Comecei a sorrir, olhando para Stanley, que não se sentiu bem com o meu olhar. O que êle dizia a respeito do dinheiro ganho com o seu duro trabalho era pura conversa. O dinheiro não era dele, mas da mulher que o herdara do irmão. Dela e de Dave. Era por isso que Stanley estava querendo metê-lo na companhia.

Ri em voz alta. Olharam-me como se eu tivesse ficado maluco. Tornei a rir. Não ia ser tão difícil quanto eu havia pensado.

 

30 ANOS 1923

 

Johnny cobriu o fone com a mão e disse a Rocco:

— Vá buscar o carro que eu irei ter com você logo que acabar de falar com Peter.

Rocco saiu e Johnny disse alguma coisa ao telefone, com voz paciente. Peter estava-se queixando de Will Hays, o homem a quem a indústria contratara para chefiar a associação dos produtores. Segundo Peter dizia, Hays acabaria arruinando a indústria do cinema.

— Escute, Peter — disse Johnny — pare de se preocupar com Hays. Êle só está fazendo o serviço para que você e os outros o contrataram. O cinema não é mais uma carrocinha de pipocas, mas um grande negócio para o qual estão voltados os olhos do público. E foi para isso que vocês fundaram a associação, para protegerem-se.

Peter interrompeu-o.

— Será que você sabe o que êle quer fazer? Quer que todos nós lhe forneçamos informações sobre o nosso movimento em cada território. Já imaginou o que Borden, Lemmle, Fox ou Mayer fariam se soubessem que a Magnum está fazendo dois milhões de dólares por ano em Nova Iorque e, ainda por cima, nos cinemas deles? Começariam a apertar-nos. Não teríamos metade do tempo de projeção que temos nos cinemas deles e, se tivéssemos o tempo, não teríamos os preços. Conheço bem esses camaradas e não confio neles!

— E daí, Peter? Os filmes deles não são exibidos em nossos cinemas do interior do Estado e do Sul? Uma mão lava a outra. Além disso, Hays diz que toda a informação será confidencial e que só serão divulgadas as cifras totais da indústria. Nenhuma companhia vai saber de nada sobre as outras. Deixe, portanto, de preocupar-se.

— Está bem, está bem, mas isso não me agrada. Ainda acho que devíamos ter deixado Hays em Washington entregando cartas ou o que era lá que êle fazia antes de ser contratado por nós.

Johnny sorriu, pensando no Diretor-Geral dos Correios dos Estados Unidos fazendo entrega de cartas. Mudou de assunto.

— Como vão os filmes? Vamos ter uma concorrência difícil, com o Carroção Coberto da Paramount, o Corcunda de Notre Dame da Universal e Safety First da Pathé, com Harold Lloyd. Temos de andar depressa. Do contrário, não encontraremos em Nova Iorque uma só data que preste.

— Ah, Johnny, nem queira saber quais são os meus problemas. Volto da Europa, cheio de disposição para o trabalho e encontro tudo em confusão, sem um só filme pronto para rodar. Filmes que já deviam estar terminados não estão. Não posso arredar o pé daqui um instante, Johnny, e o pior é que não posso estar em quinze lugares ao mesmo tempo. Eu precisava era de um homem como o que Louis Mayer tem na Metro, um homem como Irving Thalberg, que não deixasse o estúdio pegar no sono no momento em que eu voltasse as costas.

— Então arranje um! Precisamos de filmes!

— Arranje um! Isso é muito fácil de dizer! Você pensa que os Thalbergs dão aqui nas laranjeiras? O mal com você, Johnny, é que fica em Nova Iorque o tempo todo e não pode compreender os problemas que temos aqui. Temos de fazer quarenta filmes por ano!

— Sei disso, Peter. Mas, se eu sou capaz de vendê-los, você deve ser capaz de fazê-los!

Peter ergueu a voz a um ponto de irritação.

— Se sabe tanto assim, por que é que não vem para cá ajudar-me? É fácil ficar sentado aí em Nova Iorque e dizer que precisamos de filmes! Mas ficar aqui pegando no rabo do foguete é coisa muito diferente!

— Posso ir para aí neste instante, se você quiser!

— Então venha! Quero que veja com seus próprios olhos os problemas com que eu luto! Talvez tenha então alguma consideração pelo que eu faço. Quando pode sair daí?

Johnny pensou rapidamente. Precisava de algumas semanas para limpar a mesa. Acrescentou mais um pouco para evitar surpresas.

— Digamos, lá para o Ano Novo.

— São quase cinco semanas. Está bem.

Houve um momento de silêncio dos dois lados do fio. Afinal, Peter disse:

- Fico muito satisfeito de que você venha, Johnny. Será como nos velhos tempos. Nós sempre trabalhamos juntos quando as coisas estão difíceis.

— Só desejo é que eu realmente possa ajudar — disse Johnny, cheio de sinceridade.

— E pode, Johnny. Você sabe que pode. Vou dizer a Esther que você vem que é para ela preparar o seu quarto.

— Diga a ela que faço também questão de comer ynedloch e canja.

— É claro!

Disseram mais algumas palavras e Johnny desligou pensativamente. Olhou pela janela. Começara a nevar fracamente e a rua já estava toda branca. Levantou-se, foi até ao armário e apanhou o chapéu e o sobretudo.

Chegou à rua, pensando na situação. Peter parecia cansado desde que voltara da Europa. Havia trabalhado muito, ali. A Magnum Filmes se estendia já pelo mundo inteiro. Tinha escritórios na Inglaterra, França, Itália, Alemanha, Bélgica, Áustria, Suíça, Espanha e em todos os pequenos países de que podia lembrar-se. Haviam instalado companhias e escritórios na Ásia, no Oriente Próximo e na América do Sul. A Magnum possuía a melhor rede de distribuição estrangeira de toda a indústria e um só homem havia feito quase tudo isso: Peter.

Não era de admirar que estivesse cansado. Trabalhava dezoito horas por dia. Não se poupava um só momento e voltava para encontrar um estúdio em declínio. Era muito para um homem só, mas Peter dera conta de tudo. E ainda tivera tempo de pensar em Johnny.

Johnny olhou para as pernas. Quem não soubesse qual era a perna verdadeira e a artificial não poderia distingui-las. Por mais ocupado que estivesse, Peter havia tomado todas as providências para mandar aquele alemão resolver o seu problema. Não se trabalhava para um homem assim; servia-se a esse homem com veneração.

A rua não estava tão fria quanto Johnny havia pensado. Rocco já estava com o motor do carro em funcionamento. Johnny entrou no banco da frente ao lado de Rocco. Olhou para trás e viu Jane.

— Tudo bem, Jane? Ela bateu com a cabeça.

— Que é que o velho queria? — perguntou Rocco, logo que saiu com o carro.

— Quer que eu vá até lá dar-lhe uma mão. Rocco nada disse. Johnny olhou-o e perguntou:

— Que é que há com você?

— Nada...

— Uma viagem para a Califórnia será bem agradável nesta época do ano — murmurou Johnny.

Rocco permaneceu calado, atento à direção.

— Que é que há com você, Rocco! Não quer ir?

Rocco resmungou alguma coisa que Johnny não compreendeu. Johnny tirou um maço de cigarros do bolso. Colocou um cigarro na boca de Rocco e acendeu-o, depois o seu. Fumou durante alguns momentos em silêncio. Todos andavam muito nervosos ultimamente, até Rocco que em geral era tão calmo. Mas aquela viagem à Califórnia faria dele com toda a certeza um novo homem.

O carro parou diante do teatro. Rocco voltou-se para êle.

— Você e Jane podem saltar. Vou procurar um lugar para deixar o carro e já volto.

Saíram do carro e viram-no afastar-se.

— Que é que há com êle, Jane? — perguntou Johnny.

— Não sabe? Êle está assim há algum tempo. Pensei que houvesse notado.

— Notei, sim, mas julguei que fosse alguma indisposição passageira. Jane ia dizer mais alguma coisa, mas nesse momento Rocco apareceu e entraram todos no teatro.

Jane riu.

— Parece estranho nós irmos ver uma peça em que Warren Craig trabalha depois de tudo o que aconteceu.

— Seria ainda mais estranho se êle soubesse que nós estamos aqui. E gostaria até de saber o que êle faria se fôssemos ao camarim cumprimentá-lo.

— Segundo estou informado — disse Rocco —, êle provavelmente botá-los-ia pela porta a fora!

Os aplausos redobraram enquanto o pano se levantava lentamente. Warren Craig apareceu na boca de cena. Quase insensivelmente, Johnny bateu palmas com o resto da platéia. Olhou para Jane e viu que também batia palmas.

Ela notou o olhar e fêz-lhe uma careta.

— Continuo a não gostar dele, Johnny, mas...

— Eu sei, Jane. É um patife, mas é um grande ator.

Os anos não haviam tratado mal Warren Craig. Estava mais amadurecido, mas não perdera nada do encanto natural da sua mocidade. Estava mais equilibrado e com a voz mais rica e mais expressiva.

O pano desceu. Os aplausos se extinguiram e os espectadores começaram a sair do teatro.

Johnny continuava sentado.

— Não quer ir ainda, Johnny? — perguntou Jane.

Êle a olhou como se não compreendesse e Jane perguntou, desconfiada:

— Em que é que você está pensando, Johnny?

— Você já sabe o que é — disse êle, com um sorriso de colegial apanhado em falta.

— Não, Johnny! Outra vez, não!

— Outra vez sim, Jane. Êle é bom demais para ser dispensado. Precisamos de um homem assim.

— Êle nem vai falar com você, Johnny!

— Não custa nada tentar. Quer vir comigo?

— Eu, não! Você pode ter esquecido o que eu e Sam fizemos com êle, mas aposto que êle não esqueceu!

Johnny voltou-se para Rocco e perguntou:

— Você se importa se eu lhe pedir que leve Jane para casa?

— Claro que não me importo! — respondeu Rocco, sorrindo.

— Posso muito bem ir para casa sozinha — disse Jane. — Rocco irá com você.

Johnny sabia o que ela estava pensando.

— Não se preocupe comigo, Jane — disse êle, batendo na perna artificial. — Já posso andar perfeitamente.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Quando chegaram à rua. Jane disse a Rocco: •—• Você pode não acreditar, mas fico preocupada de deixá-lo sozinho.

— Não se preocupe mais com êle. Já pode andar perfeitamente — disse Rocco, que, depois de um momento de silêncio, acrescentou: — Johnny não precisa mais de ninguém para cuidar dele. Aliás, estou começando a não saber mais o que estou fazendo aqui.

— Que idéia, Rocco! Você está prestando um grande serviço. Johnny não pode passar sem você.

— Não estou tão certo disso assim — disse êle, olhando para ela, que percebeu então o seu olhar angustiado.

Pôs involuntariamente a mão no braço dele e notou a tensão que isso provocou imediatamente nele. Pouco a pouco, êle se foi acalmando à medida que caminhava. Ao fim de algum tempo, ela perguntou:

— Que é que o está preocupando, Rocco? Você não é mais o mesmo.

Êle a olhou prontamente e viu a sinceridade que se derramava dos olhos dela, ansiosa para que êle tivesse confiança nela e lhe dissesse tudo.

— Nada — murmurou êle. — Não me estou sentindo bem. É só isso.

Uma súbita mágoa passou pelo rosto de Jane ao ver-se assim repelida e isso provocou estranhamente intensa alegria em Rocco. Até então, êle se sentia sozinho e rejeitado, mas de repente esse sentimento se extinguira, nem êle mesmo sabia por quê. Parou de repente e perguntou:

— Você está mesmo interessada?

Ela baixou os olhos e respondeu meigamente:

— Você sabe que estou, Rocco.

Rocco sentiu-se empolgado por um novo e estonteante entusiasmo. Deu-lhe a mão e continuaram a andar. Era curioso que nada do que o estava preocupando parecesse ter mais importância. Era tão bom sentir o contato da mão dela.

— O carro está aqui perto, Jane. Ela sorriu, sem nada dizer.

Gostou do sorriso dela, sabendo que até então ela nunca lhe havia sorrido assim. Talvez não interessasse mais o que êle sentia dantes, mas seria bom falar sobre isso até chegarem em casa.

Johnny entrou no camarim repleto. O teatro era outro e o camarim era maior, mas tudo recordava a Johnny o que acontecera da outra vez.

Craig estava tirando a pintura e observando pelo espelho quem estava presente. Ali, do mesmo modo que no palco, êle era o centro de todas as atenções.

Johnny tinha certeza de que Craig o vira entrar, mas desde que não tinha dado sinais de reconhecimento, foi sentar-se numa cadeira bem nos fundos, acendeu um cigarro e ficou olhando o que acontecia.

As pessoas eram sempre as mesmas, parecia que nunca mudavam. Quando, afinal, Craig se levantou, todos correram para êle. As mulheres deram-lhe programas para autografar. Outras pessoas sorriram e proferiram palavras de elogio. Para todos, Craig tinha um sorriso e uma frase agradável. Estava evidentemente no seu elemento.

Desinteressado do que se passava no camarim e que, pelo visto, ainda ia demorar um pouco, Johnny olhou para a porta, além da qual se via o corredor para o qual se abriam os outros camarins. De um deles, estava saindo uma mulher, que vinha para o camarim de Craig. À luz fraca do corredor, havia alguma estranha fluidez no seu andar profundamente feminino. Johnny teve a impressão de ver, através do vestido justo que ela usava, os músculos ondulantes das coxas, os contornos dos seios.

Quando ela apareceu sob as luzes intensas do camarim, teve a impressão de estar vendo outra pessoa. Era uma moça de cabelos côr de mel que se derramavam até aos ombros. Piscou um instante os olhos para habituá-los à luz mais forte do camarim. Dirigiu-se então através da multidão para onde estava Craig.

Johnny seguiu-a involuntariamente com os olhos. Havia sem dúvida uma qualidade magnética naquela pequena. Johnny não sabia a princípio o que era, mas logo compreendeu. A moda do tempo exigia corpos bem magros e cabelos cortados quase como de homem. Ela não obedecia a nenhuma dessas exigências. Era esbelta, mas inconfundivelmente feminina, e usava os cabelos em longas ondas louras.

Johnny ouviu-a falar de onde estava e notou que a voz era profunda e cheia. Como era bem empostada, não havia dúvida de que trabalhava no teatro.

— Warren, Cynthia mandou dizer que vai demorar um pouco — foi o que ela disse.

— Não faz mal, Dulcie — disse Craig. — Esperarei por ela. A moça saiu, de volta ao camarim do qual saíra. De novo