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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS INOCENTES / Henry James
OS INOCENTES / Henry James

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS INOCENTES

 

                   Entrevistas com o senhor de Bly

     — A minha principal condição para lhe confiar o cargo é que a senhorita nunca, em hipótese alguma, me perturbe: não quero nenhuma solicitação, nem reclamações, nem cartas a respeito de coisa alguma. Resolva sozinha todos os problemas, receba o salário e todo o dinheiro necessário através meu procurador; enfim, assuma toda a responsabilidade, por favor, deixe-me em paz.

     Eu era jovem (apenas vinte anos), vinda de uma pequena paróquia em Hampshire, inexperiente e temerosa. A perspectiva era de uma tarefa séria, com muitos deveres, poucas companhias, muita solidão. Esta já era minha segunda entrevista com ele. Devia tomar a decisão naquele momento.

     O senhor de Bly era um homem solteiro e jovem e, sem dúvida um cavalheiro. Uma figura com tais características havia surgido diante dos meus olhos, a não ser em sonhos ou através da minha imaginação febril ao ler romances antigos. Não pude deixar de pensar nele nem por um minuto entre nossos dois encontros, e acho que nunca poderei esquecê-lo: bonito, agradável, natural, alegre e gentil. Mas penso e o que me encantou e me encorajou a aceitar a tarefa foi fato de ele apresentá-la de uma maneira como se eu fosse lhe prestar um favor, pelo qual ele me seria eternamente grato.

     Percebi que era rico e extravagante, de hábitos dispendiosos pelo fato de se vestir na moda, por sua ótima aparência e principalmente pela sua casa, enorme e impotente, repleta de lembranças de viagens e troféus de caça.

   Mas não seria lá que eu trabalharia, e sim na sua casa de campo, a propriedade de Bly, em Essex, para onde ele queria que eu seguisse imediatamente. Eu seria a governanta e instrutora de seus dois sobrinhos, um menino e uma menina, deixados sob sua guarda desde a morte dos pais deles, na índia, uma vez que eles praticamente não tinham outros parentes.

         — Tudo foi uma imensa tristeza, sem dúvida — ele comentou comigo na nossa primeira entrevista —, e houve também uma série de erros da minha parte, considerando-se a minha falta de experiência e de paciência com crianças. Mas, finalmente, decidi mandá-los para o campo, que com certeza é o melhor lugar para criá-los. Logo cerquei-os dos melhores empregados que pude encontrar, e eu mesmo ia até lá sempre que podia. Mas meus próprios negócios tomam quase todo o meu tempo...

   Falou-me então dos inúmeros empregados e de suas funções: a cozinheira, a arrumadeira, a moça que preparava os laticínios, o cavalariço e um velho jardineiro, todos igualmente respeitáveis.

   — Não há alguém que dirija os serviços domésticos? — perguntei.

   — Ah, sim, claro, a Sra. Grose. Ela é a cabeça da casa, uma mulher excelente. E responsável pela manutenção da casa e ultimamente tem sido também a governanta da menina, por quem sente imenso carinho.

— E seu sobrinho?

   — Esteve o último semestre num internato, embora ainda tão pequeno. Mas o que mais eu poderia fazer? Deverá voltar para casa nos próximos dias, com o início das férias. Assim, se aceitar o emprego, a senhorita será responsável pela educação das duas crianças, tendo suprema autoridade sobre todos os outros empregados, inclusive, logicamente, a Sra. Grose.  

     — Desde que chegaram da índia, não tiveram ainda uma preceptora? — perguntei, intuindo ser essa uma questão delicada, uma vez que haviam chegado há bastante tempo.

Ele pareceu-me um tanto perturbado:

   — Sim, houve uma moça, sim. Mas tivemos o infortúnio de perdê-la.

   — Perdê-la? — repeti, tentando deduzir o que "perder" significava.

   Ele foi seco em sua resposta, como que me advertindo a não continuar insistindo no assunto:

   —  A jovem morreu. E justamente esse fato obrigou-me a enviar o pequeno Miles para um internato. Creio que isso é tudo, senhorita. Espero sua resposta dentro de dois dias, com ansiedade.

   Na verdade, aqueles dois dias serviram somente para eu me assegurar de que minha decisão em aceitar o emprego não seria um ato precipitado. No fundo eu sabia, desde o primeiro momento em que o vi, que assumiria o cargo se ele me admitisse. O salário, sem dúvida, excedia de longe as minhas expectativas. Mas o verdadeiro motivo, agora eu tenho certeza, foi a própria figura fascinante do senhor de Bly.

   Quando concordei com a mais importante das condições, ou seja, não importuná-lo jamais, ele segurou minha mão e disse, num tom absolutamente encantador:

   —  Estou extremamente agradecido pelo seu sacrifício. Só por essa frase eu já me sentia recompensada. Mesmo que me fosse possível imaginar o quanto seria difícil minha estada em Bly.

 

                   A chegada em Bly

   No inicio da longa viagem de coche, que pulava e sacolejava a caminho de Essex, comecei a experimentar uma certa dúvida: na realidade, não teria cometido um grande erro? Quanto mais me afastava de Londres, mais me afastava do meu patrão... E, afinal, não havia aquela condição de nunca procurá-lo? Minhas expectativas em relação a Bly tornavam-se negras: imaginava-a uma casa sombria e melancólica, inóspita e deprimente.

   Na estação havia um veiculo à minha espera. Já me senti melhor no percurso até a propriedade, pois a tarde estava linda e os campos em torno pareciam me dar as boas-vindas em seu esplendor de verão. Mas minha segurança só foi restabelecida ao dobrarmos a última curva do caminho, quando acreditei que havia me enganado nas lúgubres fantasias a respeito de Bly: deparei com a clara e enorme fachada de uma antiga mansão com suas inúmeras janelas abertas, leves cortinas alvas esvoaçando na brisa, flores pelo jardim, o barulho agradável das rodas no cascalho, o alto topo das árvores emoldurando o céu.

   Assim que paramos, surgiu na porta de entrada uma senhora que me cumprimentou com tamanha reverência que me senti como uma convidada da mais alta distinção ou a própria dona da casa.

   Era a Sra. Grose. E, com ela, a menina mais linda que eu jamais tinha visto em toda a minha vida. Até estranhei o silêncio do meu patrão a respeito da sua extrema beleza.

   Logo levaram-me ao meu quarto, enorme, confortável. Pareceu-me que tinham reservado para mim o melhor cômodo da casa. As cortinas, a cama larga, o espelho onde podia me ver de corpo inteiro!, tudo me parecia um sonho. Lá estava também, já arrumada, a cama da pequena Flora, ao lado da minha.

   —  Mas hoje eu quero dormir com a Sra. Grose, está bem? — pediu a menina. — Sabe, eu ainda não conheço você direito e sou muito tímida.

   Eu nunca tinha visto uma criança tão consciente da própria timidez, e muito menos falando tão franca e corajosamente sobre o assunto.

   —  Claro, claro — respondi. — Mas, a partir de amanhã, você vai ficar comigo. Tenho certeza de que nos daremos muito bem.

   Flora sorriu. Seu rosto era resplandecente. Seria um prazer cuidar dela, ensiná-la, formá-la. Virei-me para a Sra. Grose:

   —  E o menino? É parecido com ela? É assim tão... tão especial!

   Julguei que não deveria elogiar exageradamente a menina na sua presença; por isso, evitei fazer uma referência clara à sua extraordinária beleza. A Sra. Grose entendeu de imediato o que eu queria dizer.

   — Ah, sim! Completamente especial — respondeu com um olhar de cumplicidade. Se a senhorita pensa assim dessa menina... A senhorita vai ficar encantada com ele!

   — É, na verdade foi para isso que vim para cá — respondi com bom humor: para ser encantada pelas crianças. Devo dizer, inclusive, que me arrebato facilmente. Já me senti assim, lá em Londres...

— A senhorita quer dizer na casa do...

   Flora não parecia estar prestando atenção à conversa, mas mesmo assim a Sra, Grose não terminou a frase.

— Exatamente.

   — Bem, na verdade a senhorita não é a primeira, e não será a última...

   — Ah, essa pretensão eu não tenho — eu disse, rindo. — E o menino, quando chega?

   — Sexta-feira. Vai chegar de coche, e a carruagem daqui de Bly estará esperando para trazê-lo.

   — Não acha que seria bom se eu fosse esperá-lo com Flora?

   A Sra. Grose concordou, entusiasmada, e tomei esse seu entusiasmo como mais uma promessa de que eu seria feliz em Bly. Ela havia me acolhido com alegria e não com despeito, como poderia facilmente acontecer, considerando-se que perderia sua posição de superioridade na casa. Aquela era minha primeira sugestão, que poderia ter sido recebida com relutância ou antipatia. Afinal, eu já estava me intrometendo em pequenas coisas que ela organizara. Mas não; concordou imediatamente, sem o menor sinal de ciúme ou ressentimento por perder sua autoridade. Constatei então que, desde o momento em que pus os pés em Bly, ela se mostrou muito contente, até eufórica com a minha chegada, embora tentasse disfarçar seus sentimentos.

   O primeiro dia em Bly havia sido perfeito. Todos os meus temores tinham se dissipado. Enquanto subia ao meu quarto para ir me deitar, eu considerava que a casa, a simpatia da Sra. Grose e o encanto de Flora haviam não só acabado com a possibilidade de eu me arrepender de ter aceitado aquele emprego, como também transformado o meu trabalho em completo prazer.

   Mas, embora o quarto fosse muito confortável e eu estivesse exausta pela viagem e pelas emoções do dia, não pude dormir praticamente nada naquela noite. Sentia uma inquietação, uma agitação que me fez levantar várias vezes e ir até a janela. No entanto, tudo estava quieto lá fora. Voltava à cama e tentava dormir, até que desisti e resolvi esperar amanhecer. Em dado momento, pareceu-me ouvir alguns sons que me tiraram o sono de vez. Primeiro, vindo de dentro da casa, um pouco abafado, um grito de criança. Depois, no corredor, passos leves. Imobilizada pelo susto, não consegui me levantar e abrir a porta.

 

                   A Carta

   O segundo dia também teria sido perfeito se, à noitinha, não tivéssemos recebido aquela carta.

   Pela manhã, combinei com Flora que ainda não começaríamos com nossas aulas. Afinal, precisávamos nos conhecer melhor; eu acreditava que primeiro devia ganhar a confiança da menina. Além disso, também gostaria de conhecer por inteiro a casa onde iria morar.

   — Será que você pode me levar, Flora? — perguntei, observando o brilho de prazer nos olhos da menina. — Depois que você me mostrar tudo, podemos ir brincar lá fora.

   Passo a passo, cômodo por cômodo, segredo a segredo, a menina levou-me numa excursão de meia hora pela casa, enquanto falava sem parar, de um modo engraçado e tipicamente infantil. Fiquei surpresa com sua segurança e coragem pelos corredores escuros, quartos vazios e escadas tortuosas; fomos até o alto de uma velha torre quadrada e de sua plataforma olhamos a paisagem. Flora seguia muito animada, tagarelando, contando muito mais do que eu perguntava; ao sairmos finalmente para o jardim, já éramos boas amigas.

   Nunca mais voltei a Bly desde o dia em que saí de lá imagino que hoje, mais velha e já tendo visto tantos lugares na vida, tudo pareceria menor e muito menos importante. Mas naquele dia, com minha guia loirinha saltitando à minha frente para me mostrar todos os cantos e passagens, tive a impressão de estar visitando um castelo de romance habitado por duendes ou fadas. Não era assim. Agora, lembrando-me de Bly, consigo visualizar a casa velha e enorme, um pouco deslocada no tempo, utilizada somente pela metade se tanto, onde eu tinha a fantasia de estarmos um pouco perdidos, como um grupo de passageiros num imenso navio a deriva.

   O resto do dia passamos ao ar livre. Como já disse, teria sido um dia perfeito se à noite não tivesse chegado a carta.

   O envelope continha um bilhete do meu patrão encaminhando-me uma carta endereçada a ele, mas ainda lacrada. Ou seja, ele realmente tinha passado para as minhas mãos o leme daquele navio: "Esta carta é da parte do diretor da escola de Miles, que é extremamente aborrecido. Leia-a, por favor, trate do assunto como for necessário e lembre-se de não me informar do que se trata. Nem uma palavra. Estou fora disso!"

   Rompi o lacre da carta, mas não consegui lê-la naquele momento. Levei-a para o meu quarto e só me animei a enfrentá-la na hora em que fui me deitar. O que ela continha proporcionou-me uma segunda noite sem dormir.

   Sabendo que não poderia me aconselhar com o tio do menino, levantei-me, além de exausta, bastante deprimida. Decidi me abrir com a Sra. Grose.

   — O que significa isso? O menino... — fiz uma pausa porque não conseguia dizer a palavra — o menino saiu da escola!

   Ela me lançou um olhar rápido e fingiu não ter entendido o que eu quis dizer:

— Mas todas as crianças, nesta época do ano...

   — Sei, voltam para casa, de férias. Mas Miles não voltará para a escola depois das férias...

O rosto da Sra. Grose avermelhou-se:

— Não querem que ele volte?

— De jeito nenhum.

   — O que ele fez? — ela perguntou, com a voz trêmula e os olhos se enchendo de lágrimas.

   Tentei imaginar o que ele teria feito e, não conseguindo, passei-lhe a carta para que ela visse que ali não havia qualquer explicação razoável. Mas, como a Sra. Grose não sabia ler, peguei a carta de volta para lê-la em voz alta. Não encontrei ânimo para isso. Dobrei-a e recoloquei-a no envelope.

— Ele é assim... indisciplinado?

— O diretor diz isso?

   — Não, ele não entra em detalhes. Só diz que é impossível ele continuar na escola. Isso só pode querer dizer uma coisa!

   Ela não me perguntou que coisa seria essa, mas ouvia-me com muda emoção; então, dei continuidade às minhas deduções:

— Que ele faz mal para os outros...

— Miles? Miles fazer mal para os outros?

   Mesmo sem ainda conhecer o menino, percebi que tinha dito um absurdo, pelo tom que ela usou.

   —  É terrível dizer isso de Miles! Ele só tem dez aninhos! Veja-o antes de tirar qualquer conclusão. Depois de conhecê-lo, tente acreditar que ele possa fazer mal a alguém! É o mesmo que julgar assim a pequena Flora. A senhorita conseguiria? Olhe, olhe para ela!

   Só então notei que Flora estava parada na porta, observando-nos. Eu a havia deixado sentadinha na nossa sala de aula, com papel e lápis, depois de instruí-la para fazer os exercícios de caligrafia. Mas ali estava ela, fitando-me com tal luz no olhar, que não pude deixar de interpretar sua fuga às obrigações senão como resultado do seu apego a mim e da necessidade de seguir-me onde quer que eu fosse.

   Abracei-a, comovida, dando-lhe beijos no rostinho adorável. Não havia dúvida; se Miles era parecido com ela, seria absolutamente impossível imaginar que pudesse fazer mal alguém.

   Mesmo assim, durante o resto do dia tentei me aproximar da Sra. Grose e retomar aquele assunto. Cheguei a pensar que talvez estivesse me evitando, porque, todas as vezes que chegava perto dela, ela se afastava, alegando que tinha muito trabalho naquele dia. Finalmente, já à noite, peguei-a pelo braço quando cruzamos na escada principal e levei-a para uma das salas.

   — Deduzo que hoje, quando conversamos, a senhora quis dizer que Miles nunca fez nada errado?

   — Nunca também seria demais! — ela respondeu, jogando a cabeça para trás.

— Bem, então?

   — Bem... um menino que nunca fez nada errado para mim nem é um menino!

   — E, claro... no mínimo as crianças, às vezes, são mal criadas... Mas, certamente, não a ponto de “contaminar” outras crianças...

— Contaminar? — repetiu, sem entender.

— Sim, corromper, ou qualquer coisa assim.

   Ela me encarou, enquanto procurava captar o que eu queria dizer; finalmente, soltou uma risada estranha e observou:

   —  A senhorita está com medo de que ele a corrompa; é isso?

   A pergunta foi formulada com um bom humor tão ousado que rimos juntas, à medida que eu me apercebia do ridículo das minhas suposições.

   No dia seguinte, pouco antes de sair para ir buscá-lo na estação, como tínhamos resolvido, decidi fazer a pergunta que há dias estava na minha cabeça:

— Como era a última governanta, Sra. Grose?

   — Era jovem e bonita. Quase tão jovem e bonita como a senhorita.

— Ele parece gostar das jovens e bonitas, não é?

   — É, ele gostava, sim; ele gostava de todos que fossem assim.

   Nem bem terminou a frase, percebeu que havia dito algo que não queria.

— Quero dizer, gosta... O patrão...

   — E de quem a senhora estava falando? — perguntei, chocada.

— Estava falando do senhor de Bly, mesmo. De quem mais poderia ser?

Entretanto, não pôde impedir que o rubor tomasse conta do rosto. Continuei a interrogá-la, pois o fato de Miles ter sido expulso estava me intrigando profundamente:

   —  E essa outra governanta, alguma vez viu algo em Miles que...

Ela completou meus pensamentos:

— Que não estivesse certo? Não, nunca me disse nada.

— Ela era cuidadosa, atenta?

— A respeito de algumas coisas, sim.

— Mas não a respeito de tudo?

   Ela ficou em silêncio por um instante, pensando, antes de responder. Então disse, um pouco timidamente, mas com firmeza:

   — Olhe, senhorita, eu não vou ficar falando dela. Afinal de contas, ela já se foi.

   — É, eu entendo — apressei-me em responder. — Ela morreu aqui?

   — Não. Saiu antes.

     Percebi que ela estava sendo cada vez mais ambígua, menos clara nas suas respostas. E olhou fixamente através da janela, procurando dar o assunto por encerrado. Mas eu precisava saber.

— Ela foi embora porque estava muito doente?

   — Não. Enquanto esteve aqui, não ficou doente. Saiu para tirar umas férias curtas, no fim do ano. E, quando chegou o dia em que devia voltar, o patrão me avisou de que ela tinha morrido.

— Mas de quê?

   — Eu nunca soube. Mas, a senhorita me desculpe, eu tenho muito o que fazer. Com licença, não posso mais conversar.

E virou as costas.

 

                   O estranho visitante

   Quando cheguei da estação com Miles, fui diretamente falar com a Sra. Grose:

— Olhe, definitivamente, aquilo tudo é grotesco ! Ela entendeu ao que eu me referia:

— A carta de expulsão?

   —  É; só pode ser um horrível mal-entendido ou alguma intriga muito grave. A senhora tem toda razão. É só olhar para ele para ver que aquilo não pode ter nenhum funda mento.

   Eu havia chegado um pouco atrasada à estação e, assim que o vi, senti em torno dele a mesma aura de frescor e pureza que percebera ao conhecer Flora. Era incrivelmente belo e sua presença não despertava nada além de amor e ternura Parecia um pequeno deus; uma sensação que nunca qual que outra criança tinha me provocado.

— Ele é encantador! — disse à Sra. Grose.

   — Foi exatamente isso o que eu disse que ele era! — E acrescentou depressa: — O que a senhorita vai dizer?

— Em resposta à carta? Nada.

— E ao tio dele?

— Nada.

— E ao próprio Miles?

— Nada.

Ela enxugou a boca com a ponta do avental.

   — Então ficarei do seu lado. Nós vamos dar um jeito nisso.

   — Vamos, sim — respondi, estendendo-lhe minha mãe como num pacto.

   Os dias que se seguiram foram tranqüilos e agradáveis. Em meio à minha presunção, inexperiência e confusão, achei que seria simples lidar com um garoto cuja educação para o mundo ainda mal começara.

   Era esperado que, naquele verão, eu desse aulas às duas crianças. Mas agora percebo que, durante semanas, quem mais aprendeu fui eu mesma. Aprendi a me divertir e a mesmo a ser divertida, sem me preocupar demais com o dia seguinte.

   Pela primeira vez eu tinha espaço, ar puro e liberdade. Eles quase não me davam trabalho; eram de uma gentileza extraordinária. Além disso, eu nunca havia me sentido tão valorizada. Era como uma armadilha — não planejada, mas profunda — para a minha imaginação, para a minha fragilidade e, talvez, para a minha vaidade.

   É óbvio que o que repentinamente ocorreu veio reforçar muito, na minha memória, a impressão de tranqüilidade daquela época: como o silêncio que se instala antes de uma tempestade, ou de qualquer coisa terrível que se arma.

   Eu costumava imaginar de que maneira um futuro severo (porque todos os futuros são difíceis) poderia manipulá-los e machucá-los. Eles ostentavam o frescor da saúde e da felicidade e, como se eu estivesse cuidando de dois principezinhos, só conseguia fantasiar para eles um futuro romântico, um prolongamento realmente magnífico do jardim e do parque de Bly.

   Nas primeiras semanas os dias eram longos, por causa do verão, e eu me concedia o que costumava chamar de "meu tempo". Era a hora em que, tendo as crianças tomado chá e ido se deitar, eu ficava um pouco sozinha antes de me recolher. Aquela era a parte do dia que me dava maior prazer. Quase sempre saía para dar uma volta. Desfrutava o escurecer e a beleza do lugar com o agradável sentimento de posse. Gostava de pensar que, com minha discrição e bom-senso, estava com certeza correspondendo ao que ele esperava de mim. Chegava a me sentir uma pessoa extraordinária, sem nem imaginar que teria que ser realmente extraordinária para enfrentar os fatos insólitos que dali a pouco começariam a ocorrer.

   Foi de repente, numa tarde, durante o "meu tempo". As crianças haviam se recolhido e eu tinha saído para o meu passeio. Normalmente, nessas caminhadas, o que costumava me passar pela cabeça era como seria fascinante, tanto quanto num conto de fadas, se eu o encontrasse. Ele surgiria ali, na curva do caminho, e ficaria parado na minha frente, sorrindo para mim. Era tudo o que eu desejava. Queria que ele soubesse como eu estava me saindo bem, e a única maneira de eu ter essa confirmação me seria dada pelo seu próprio rosto.

   Aquele belo rosto estava como que diante dos meus olhos quando, ao fazer a curva, de volta do meu passeio, deparei com algo que me deixou paralisada: meu sonho tinha se tornado realidade! Ele realmente estava lá, de pé. Mas não no jardim, como eu sempre havia idealizado: estava no topo da torre aonde Flora me levara na primeira manhã, quando eu fora conhecer a casa. Não era, por certo, em tal altura que eu imaginara encontrar o homem em quem eu pensava com tanta freqüência. Essa visão à luz do crepúsculo por duas vezes assustou-me a ponto de me tirar completamente o fôlego: a primeira, pela surpresa; a segunda quando, ao olhar com atenção, percebi que o homem parado na torre não era o meu patrão! Eu não o tinha visto em Londres, eu nunca o tinha visto. Era um desconhecido.

   Lembro nitidamente que, no instante em que aquilo ocorreu, todo o resto à minha volta ficou morto. À medida que escrevo posso sentir outra vez o intenso silêncio em que mergulharam todos os sons do entardecer: não se ouviam mais as gralhas no céu dourado, não se ouvia mais o suave farfalhar das folhas das árvores. No entanto, a figura que me olhava por entre as ameias da torre era tão nítida quanto um retrato em uma moldura.

   Com extraordinária rapidez pensei em cada pessoa que ele poderia ser, mas não era. Confrontamo-nos, a distância, tempo suficiente para que eu me perguntasse, com intensidade, quem, então, seria ele. Conforme ia me apercebendo de que aquela pergunta não teria resposta, fui sendo invadida por um assombro cada vez maior, que em poucos segundos tomou conta de mim.

   Não sei e jamais saberei quanto tempo isso tudo durou. Só sei que foi o bastante para que eu pudesse considerar inúmeras possibilidades capazes de justificar a presença daquele homem, mas nenhuma delas podia amenizar o fato: havia uma pessoa desconhecida na casa, sem que eu soubesse há quanto tempo.

   Não obstante, o visitante parecia me encarar com ar de dúvida e indagação, como se minha presença, para ele, fosse tão intrigante quanto a dele, para mim. Lembro ainda que havia uma estranha liberdade revelada pela maneira familiar com que ele se apresentava, sem chapéu à cabeça.

   No primeiro momento em que o vi ele estava no ângulo mais afastado da torre, bem ereto, com ambas as mãos na borda. Eu o vi assim como estou vendo as letras que escrevo nesta página; e então, cerca de um minuto depois, como que para me impressionar ainda mais, ele mudou lentamente de lugar. Encarando-me o tempo todo com uma expressão dura, passou para o canto oposto da plataforma da torre. Abalou-me o fato de que, durante esse movimento, mantivesse os olhos cravados em mim. Parou no outro lado, dessa vez por menos tempo; mas, até o momento em que não pude mais vê-lo, ficou me olhando fixamente.

   Não sei como foi embora. Tudo o que sei é que de repente ele não estava mais lá.

  

                   A segunda visita

         Quando entrei em casa, já estava completamente escuro lá fora. A Sra. Grose me aguardava no saguão. Seu rosto ansioso tranqüilizou-se com a minha chegada; concluí que ele desconhecia qualquer fato ligado àquele incidente.

— Por que demorou tanto hoje?

— O entardecer estava tão bonito...

         Até hoje não sei explicar por que não consegui contar-lhe o que tinha acontecido. Subi de imediato para o meu quarto, enquanto meditava justamente sobre isso: por que não lhe contara? Decerto eu estava querendo poupá-la de alguma coisa; mas de quê?

         Tranquei-me e fiquei me perguntando se Bly teria algum segredo, um mistério, algo assim como um louco, um parente não mencionado, que vivia preso em algum lugar, escondido. No entanto, várias coisas me diziam que isso não tinha fundamento — eu não tinha visto a casa inteira, na minha excursão com Flora? Não havia nenhuma porta que não tivéssemos aberto, nenhuma escada que não tivéssemos subido. Além disso, eu já teria notado (afinal, eu morava lá há várias semanas) algum movimento suspeito dos empregados, alguma referência a essa outra pessoa.

         Às vezes eu me sentia tão aflita a respeito do assunto que precisava me fechar em meu quarto para pensar um pouco. E, por mais voltas que desse, não conseguia encontrar uma explicação para aquele fato. Finalmente, com o passar do tempo, decidi que a única possibilidade aceitável seria a de que algum viajante inescrupuloso, interessado em casas antigas, tinha entrado sem ser visto, apreciado um pouco a paisagem lá de cima e saído da mesma maneira que chegara. O fato de não ter se desculpado nem se apresentado quando me viu, e de até ter ficado me encarando daquele modo atrevido, só ressaltava a sua falta de escrúpulos.

         O meu trabalho com as crianças era tão agradável que aos poucos o ocorrido parou de me atormentar. A cada dia eles me surpreendiam mais com sua graça e docilidade.

         Miles, sobretudo, dava-me a impressão de não carregar nenhum passado. É de supor que qualquer criança se esqueça de alguns episódios da sua vida, porém ele, estranhamente, jamais se referiu à escola, nem a um colega ou professor. Além disso, mostrava-se tão completamente feliz e era tão sensível que eu teria percebido, pelas suas reações, se alguma vez tivesse sido punido por algo errado que tivesse feito. Teria observado nele um traço de mágoa ou vergonha. Mas não; era como um anjo.

         Portanto, a expulsão da escola só podia ter uma explicação: ele era bom demais e muito bonito para aquele mundinho escolar, e havia pago um preço por isso. A percepção de tais diferenças individuais, de tais características superiores, infalivelmente desperta na maioria o desejo de vingança, levada a cabo por meio de intrigas.

         Tudo ia bem novamente quando, num domingo em que chovia muito, eu e a Sra. Grose decidimos que não iríamos à igreja de manhã e sim à tardinha, se o tempo melhorasse. A chuva parou e me preparei para nossa caminhada.

         Quando desci para encontrar a minha amiga no saguão lembrei-me de um par de luvas que havia consertado durante a tarde, enquanto as crianças tomavam o seu chá, que excepcionalmente aos domingos era servido na sala de jantar dos adultos.

         Lá eu havia deixado as luvas, e voltei para pegá-las. O dia estava bastante cinzento, mas a luz da tarde ainda não se havia extinguido. Ao cruzar a soleira, não só as vi na cadeira em que as deixara, como vi uma pessoa do outro lado da janela, olhando fixamente para dentro. O reconhecimento foi instantâneo: o homem que olhava através da vidraça era o mesmo da torre. Assim ele surgiu outra vez, não com uma clareza maior, porque isso seria impossível, mas muito mais próximo. Quando o vi, o ar me faltou e me senti gelar. Seu rosto estava junto ao vidro, e no entanto, estranhamente, essa proximidade só serviu para que eu avaliasse o quanto o primeiro encontro havia sido intenso.

         Foi como se eu o tivesse olhado por anos e sempre o tivesse conhecido. Contudo, aconteceu algo, dessa vez, que não havia ocorrido anteriormente: ele me encarou através do vidro com a mesma profundidade e dureza do primeiro encontro, mas depois desviou o olhar e passou a fixar sucessivamente várias outras coisas. Naquele instante me veio o choque de uma certeza: ele não estava ali por minha causa. Ele viera à procura de outra pessoa.

         O lampejo dessa descoberta — em meio ao terror — produziu em mim o efeito mais extraordinário: uma súbita vibração de coragem. De um salto, alcancei a porta que dava para o exterior da casa, cheguei em um instante ao passeio e, passando pelo terraço o mais rápido que pude, virei a esquina e me pus à vista. Mas foi à vista de ninguém: meu visitante tinha desaparecido.

         A sensação de alivio me fez quase cair. Fiquei ali parada por algum tempo, não sei quanto. Hoje em dia não posso falar com segurança da duração de tais fatos. Acho que na época me pareceu muito maior do que o foi na realidade.

         O terraço, o gramado, o jardim atrás dele e tudo o que eu podia ver do parque e dos bosques aparentavam estar completamente vazios. Lembro que tinha a plena certeza de que ele não estava escondido por lá. Era uma sensação de que ou ele estaria ali, visível, ou então não estaria: se eu não o via, é porque não estava.

         Instintivamente, em vez de retornar à casa, fui até a janela. Tive o impulso de me colocar onde ele estivera; apoiei o rosto na vidraça e olhei para dentro como ele havia feito. Nesse momento, a Sra. Grose surgiu do saguão, exatamente como eu tinha surgido para ele um pouco antes. Era a repetição exata do que havia acontecido; ela me viu como eu vira o visitante; ela teve um sobressalto assim como eu tinha tido. Ficou lívida, e isso fez com que eu me perguntasse se também havia empalidecido tanto. Ela encarou-me e saiu da sala como eu o fizera; eu sabia que ela daria a volta. Permaneci onde estava. Pensava, intrigada, por que ela teria se assustado tanto ao me ver.

 

                   As primeiras revelações

         Ela satisfez a minha curiosidade assim que me viu:

         — Pelo amor de Deus, o que está acontecendo? — perguntou, assustada.

         Só respondi quando ela se achava bem próxima:

        — Comigo? Estou esquisita?

         — A senhorita está branca como papel! Está horrível!

         Dessa vez eu não iria poupá-la. Estendi-lhe a mão e ela pegou. Havia uma espécie de apoio em sua demonstração de surpresa.

         — A senhora veio me buscar para irmos à igreja, mas eu não vou — eu disse.

         — O que aconteceu? A senhorita está branca!

         — Bem — respondi —, estou apavorada!

         O olhar da Sra. Grose demonstrava claramente que e desejava ser poupada; além disso, sabia muito bem que sua posição não permitia que compartilhássemos qualquer assunto íntimo ou delicado. Mas naquele momento era tácito que ela deveria fazê-lo.

         — A palidez que a senhora viu no meu rosto foi o resultado do que aconteceu. O que eu vi, um pouco antes, foi muito pior.

         Sua mão se contraiu:

         — O que foi?

         — Um homem fora do comum, olhando para dentro.

         — Que homem fora do comum?

         — Não faço a mínima idéia.

         A Sra. Grose examinou o local, em vão.

         — Então, para onde ele foi?

         — Sei menos ainda.

         A senhorita já o tinha visto antes? — perguntou.

         — Sim, uma vez. Na velha torre.

         — A senhorita quer dizer que é um estranho?

         — Completamente!

         — Por que não me contou?

         — Não sei, não senti que devia. Mas agora que a senhora já sabe...

         Ela rebateu minhas palavras:

         — Não sei de nada. Como poderia, se nem a senhorita faz idéia? — disse-me num tom muito simples. E retomou o interrogatório: — A senhorita só o viu na torre?

         — E agora, aqui.

         A Sra. Grose olhou novamente em torno:

         — O que ele estava fazendo na torre?

         — Apenas estava lá, de pé, me olhando. Ela meditou por um instante:

         — Ele era um cavalheiro?

         Percebi que não foi nem preciso pensar:

         — Não.

         — Era alguém da região? Alguém da cidade?

         —Ninguém... ninguém. Ninguém que eu jamais tenha visto antes.

         — Mas, se não é um cavalheiro... — ela recomeçou.

         — O que ele é? Ele é um horror.

         — Um horror?

         — Ele é... Deus me ajude se eu sei o que ele ê!

         Mais uma vez a Sra. Grose examinou os arredores, fixou os olhos numa região mais escura e distante e então, recompondo-se, dirigiu-se a mim com total inconseqüência:

         — É hora de irmos para a igreja.

         — Eu não estou com vontade de ir à igreja!

         — Não lhe faria bem?

         — Não faria bem a eles! — meneei a cabeça em direção à casa.

         — Às crianças?

         — Não posso deixá-las agora.

         — A senhorita está com medo...?

         — Estou, sim, estou com medo dele — respondi depressa.

         — Quando foi que aconteceu — na torre?

         — Mais ou menos há quinze dias, nesta mesma hora

         — Quase no escuro — disse a Sra. Grose.

         — Não, de jeito nenhum. Eu o vi como estou vendo senhora!

         — Então, como ele entrou?

         — E como ele saiu? — completei seus pensamentos, rindo. — Não sei; não tive oportunidade de lhe perguntar. Como a senhora vê, hoje ele não conseguiu entrar.

         — Ele fica só espiando?

        — Espero que continue assim. — Ela largou a minha mão e afastou-se um pouco. Depois de alguns instantes, lhe disse: — Vá para a igreja; eu vou ficar vigiando.

         — A senhorita tem medo de que aconteça alguma coisa a eles?

         Nós nos encaramos novamente por um bom tempo.

         — A senhora não? — perguntei.

         Em vez de responder, ela se aproximou da janela e, por um minuto, encostou seu rosto no vidro.

         — Quanto tempo ficou aqui? — perguntou.

         — Até eu sair. Vim encontrá-lo.

         A Sra. Grose olhou para mim:

         — Eu não conseguiria ter vindo.

         — Nem eu! Mas eu vim. Tenho minhas obrigações.

         — Eu também — ela respondeu, e em seguida continuou: — Como é ele?

         — Não sei, ele não se parece com ninguém.

         Por um instante fiquei absorta e me lembrei de algo significativo:

         — Ele não usa chapéu...

         Então, percebendo no seu rosto que nesse detalhe ela (com profunda consternação) reconhecia uma pista, comecei a formar um esboço, pincelada a pincelada:

         — Ele tem cabelos ruivos, muito ruivos, bem crespos, e um rosto pálido, comprido; costeletas um pouco esquisitas, tão ruivas quanto seus cabelos. Suas sobrancelhas são mais escuras e especialmente arqueadas. Seus olhos são penetrantes, estranhos, terrivelmente estranhos; mas a única coisa que sei com certeza é que são um pouco pequenos e muito firmes. Sua boca é larga, os lábios são finos e, com exceção de suas pequenas costeletas, tem a barba totalmente feita.

         Percebi que a Sra. Grose estava empalidecendo novamente.

         — Ele é alto, ágil, ereto — continuei —, mas nunca... não, nunca um cavalheiro.

         Ao ouvir o final da minha descrição, ela arregalou os olhos redondos e entreabriu a boca meiga.

         — Um cavalheiro? — disse, indignada, ao mesmo tempo que estupefata. — Um cavalheiro, ele!

         — A senhora então o conhece? Ela, visivelmente, tentou se controlar:

         — Mas ele é bonito?

         — Muito.

         — E suas roupas...

         — São roupas de outra pessoa. Elegantes, mas não pertencem a ele.

         Ela soltou um gemido afirmativo:

         — Pertencem ao patrão!

         — Mas então a senhora o conhece! — interpelei. Por um segundo, ela vacilou:

         — Quint! — gritou.

         — Quint? — repeti, assustada com seu tom.

         — Peter Quint! Seu homem de confiança, seu criado quando ele estava aqui! — Transtornada, ela continuou: — Ele nunca usou o chapéu do patrão, mas ele usava... bem

houve coletes que desapareceram! No ano passado, ambos estiveram aqui. Depois o patrão foi embora e Quint ficou sozinho.

         Continuei, embora hesitando: — Sozinho?

        — Sozinho com a gente — e então, como se arrancasse do fundo da garganta —, a serviço.

        — E o que foi feito dele?

         Ela demorou um bom tempo para decidir-se a falar:

         — Ele também se foi.

         — Foi para onde?

         Nessa hora, sua expressão se tornou impressionante:

         — Deus sabe para onde. Ele morreu.

         — Morreu? — gritei.

         Ela pareceu ter se aprumado, ter se cravado mais firmemente no solo para expressar o assombro do fato:

         — Sim, o Sr. Quint está morto.

         Depois daquele diálogo com a Sra. Grose, precisei de uma hora, deitada em meu quarto, para me recompor. Estava desesperada, confusa, horrorizada. Quando me senti um pouco mais calma, desci e procurei-a para conversarmos mais sobre aquele terrível assunto. Tínhamos que colocar as coisas em pratos limpos, decidir o que fazer com aqueles fatos absolutamente insólitos.

         A própria Sra. Grose nunca havia visto nem a sombra do visitante, e ninguém na casa jamais havia mencionado nada. Vi que aquele "privilégio" cabia somente a mim. Eu chorava muito, durante nossa conversa, completamente desesperada por ter de enfrentar algo com que jamais, nem nos meus mais alucinados devaneios, imaginei que depararia. Mas devo dizer que a Sra. Grose foi de um carinho inigualável comigo; nem por um momento duvidou da veracidade do que eu lhe contara, e muito menos deu a entender que questionava a minha sanidade mental.

         Recapitulamos, diversas vezes, todos os aspectos do que eu tinha visto.

         — Então ele parecia estar procurando outra pessoa, alguém que não era a senhorita?

         — E... Estava procurando alguém... — E então uma clarividência excepcional se apossou de mim: — Claro! Estava procurando Miles! Tenho certeza disso!

         — E o que a senhorita acha que aconteceria se o visse? — perguntou, assustada.

         — Não sei, mas é claro que ele quer a criança!

         A Sra. Grose empalidecia de um modo impressionante.

         Imagino que eu própria devia estar lívida, enquanto a hipótese se tornava cada vez mais inquestionável para mim.

         — Meu Deus, só pode ser isso! Ele quer que Miles o veja!

         Ficamos em silêncio por algum tempo.

         — A senhora não disse que os dois eram muito amigos? — perguntei, mostrando a coerência da minha intuição.

         — Amigos, propriamente, não. Quint é que cismava de brincar com o menino, mimá-lo... — Ela fez uma ligeira pausa e então completou: — Quint era muito atrevido, tomava liberdades...

         — Atrevido com o menino?

         — Com todo mundo!

         Naquele momento, não avaliei o comentário com mais profundidade; apenas imaginei em que medida ele poderia ser aplicado aos outros criados da casa. Entretanto, não corriam histórias desagradáveis a esse respeito em Bly. Continuei, na tentativa de arrancar mais alguma coisa da Sra. Grose:

         — Fico espantada de as crianças nunca terem mencionado nada.

         — Sobre ele ser atrevido?

         — Não, isso talvez elas não notassem, mas sobre o tempo em que ele esteve aqui, ou seu nome, sua história. Eles nunca se referiram a isso.

         — Flora não se lembra. Ela nada ouviu, nem soube.

         — Sobre as circunstâncias da sua morte? — cogitei, com ansiedade — Mas Miles se lembraria... Miles saberia.

         — Por favor, não o interrogue! — gritou a Sra. Grose.

         Tranqüilizei-a. Eu já não estava ali somente para educar as crianças. Agora sabia que deveria também protegê-las.

         — A senhora afirma que ele era definitiva e reconhecidamente mau?

         — Bem... Reconhecidamente, não. Eu sabia... mas o patrão não.

     — E a senhora nunca contou a ele?

     — Não. Ele não gosta de falatórios, detesta reclamações.

     Pressionei a pobre mulher:

     — Garanto à senhora que eu teria contado!

     — Posso ter errado, mas eu tinha medo — ela se justificou, sentindo recriminação na minha voz.

     — Medo de quê?

     — Das coisas que aquele homem pudesse fazer... Ele era tão esperto, tão misterioso...

     — Mas a senhora não tinha medo também da sua influência?

     — Influência? — ela repetiu, com uma expressão de angústia.

     — Sobre as duas crianças! Elas estavam sob sua responsabilidade; a senhora devia ter tomado alguma atitude!

     — Não, não estavam! — ela replicou, veemente e aflita. — O patrão confiava em Quint e colocou-o aqui porque não estava muito bem de saúde e o ar do campo lhe faria bem. E deu-lhe muita autoridade, autoridade demais! Até sobre as crianças!

     Ela me deu a idéia da figura sinistra daquele homem enquanto vivo e dos meses seguidos que ele tinha passado em Bly. Esse período só teve um fim quando, no despertar de uma manhã de inverno, um camponês a caminho do trabalho encontrou Peter Quint morto na estrada que dava acesso à cidade. Havia um ferimento visível na sua cabeça. Ao término do inquérito, depois de muito falatório, tal ferimento foi explicado como decorrente de um escorregão fatal, no escuro, em um declive íngreme coberto de gelo, ocorrido quando Quint voltava da taverna, embriagado. Mas nunca se pôde afirmar com segurança que tinha sido um acidente: havia fatos em sua vida — perigos, perturbações ocultas, vícios insuspeitos — que poderiam sugerir outras conclusões.

     Eu tinha certeza absoluta de que voltaria a ver o que já tinha visto, mas algo dentro de mim dizia que, se me oferecesse às aparições, estaria protegendo as crianças. Talvez eu fosse um anteparo: quanto mais eu visse, menos eles veriam. No mais, eu ainda conseguia encontrar alegria no heroísmo que a situação exigia de mim; sentia-me destinada a cumprir uma missão admirável e difícil, e me engrandeceria ao triunfar onde muitas outras provavelmente falhariam.

     Naquela noite eu e a Sra. Grose estabelecemos que iríamos enfrentar juntas os fatos, sem recorrer ao senhor de Bly. A partir do dia seguinte, seria exercido um controle rígido sobre as crianças, para que nunca ficassem sozinhas.

     Apesar de estar segura de que a Sra. Grose se empenharia no cumprimento da missão a que nos tínhamos proposto, fui me deitar com a sensação de que havia algo que ela não me contara. Sabia que isso não significava um traço de desonestidade, mas eu sentia que a Sra. Grose omitira alguma coisa. Passei a noite acordada, e pela manhã tudo o que havia para pensar sobre aquele assunto eu já havia pensado.

     A partir desse dia, comecei a vigiar as crianças, tomada por um suspense velado, uma tensão dissimulada que, caso tivesse se prolongado por muito tempo, poderia perfeitamente ter se transformado numa espécie de loucura. Agora vejo que o que me salvou da insanidade foi o fato de que as coisas tomaram um rumo completamente diferente. O suspense não durou... foi substituído por provas terríveis.

     Essas provas passaram a se evidenciar a partir de uma tarde em que saí para passear somente com Flora. Miles ficara em casa, lendo, sob os cuidados da Sra. Grose — ele queria terminar um livro, e tal propósito me parecera louvável.

     Conforme íamos andando, eu constatava, mais uma vez, o quanto ela, assim como seu irmão, conseguia me deixar a sós, sem que parecessem estar me abandonando, e me fazer companhia, sem que com isso me deixassem oprimida. Eles nunca eram importunos.

     Naquele dia Flora começou a brincar com muito empenho, à margem do lago do parque. Eu estava bordando, sentada num velho banco de pedra. Nessa posição, embora não tivesse tirado os olhos do meu trabalho, comecei a ter certeza da presença, ao longe, de uma terceira pessoa.

     As árvores, a mata espessa, projetavam uma sombra grande e agradável, mas a claridade daquela hora quente e parada invadia tudo. Não tive nenhuma dúvida, a mínima que fosse, daquilo que eu veria à minha frente, do outro lado do lago, assim que levantasse os olhos. Fiz um esforço enorme para não mover a cabeça antes que me sentisse calma o bastante para decidir o que fazer.

     Lembro-me de que dizia para mim mesma que nada seria mais natural, por exemplo, do que o aparecimento de um mensageiro, ou de um garoto mandado por algum comerciante da cidade. Mas eu tinha a convicção, a certeza, mesmo não olhando, de que a pessoa possuía o caráter e a atitude do nosso visitante.

     Por um instante meu coração parou, ante a dúvida e o terror de que Flora o estivesse vendo. Contive a respiração, esperando que um grito seu ou algum sinal de interesse ou alarme me desse o aviso. Olhei para ela. Nesse momento, entretida com sua brincadeira, tinha voltado às costas para a água. Arrepiei-me inteira ao me conscientizar, ao mesmo tempo, de que todos os sons, outra vez, haviam cessado. Mesmo enquanto tentava fixar um pedacinho de madeira em outro, para montar um barco, Flora não produzia o menor ruído.

     O fato de que ela estava distraída e não percebia aquela presença me deu coragem para mais: desviei os olhos para aquela direção e enfrentei o que precisava enfrentar.

 

                   Uma nova aparição

     — Ela sabe! Meu Deus, ela sabe, isso é monstruoso demais! — entrei em casa aos prantos.

     — Acalme-se, a senhorita está muito nervosa — a Sra. Grose me fez sentar no sofá. — Quem sabe o quê?

     — Flora. Ela sabe tudo o que nós sabemos e talvez ainda mais! Agora há pouco, no parque, Flora viu!

     A Sra. Grose reagiu como se tivesse levado um soco no estômago. Eu continuei:

     — E não me disse nem uma palavra... isso é que é o mais horrível! Uma criança de oito anos, guardando uma coisa tão pavorosa para si mesma...

     — Como a senhorita sabe que ela viu? — ela me perguntou, cautelosa.

     — Ora, eu estava lá... Vi com meus próprios olhos que ela estava ciente de tudo, e tentava disfarçá-lo.

     — Onde ele apareceu?

     — Ela. Desta vez foi outra pessoa, mas sem dúvida tão diabólica quanto ele: uma mulher de preto, com um aspecto e uma expressão terríveis...

     — Ela! Quem? Apareceu como? De onde?

     — De onde eles vêm! Ela apareceu e ficou lá, parada, do outro lado do lago...

     — É alguém que a senhorita já viu?

     — Eu, nunca. Mas Flora a conhece. Tenho certeza. E a senhora também conhece.          — Quis que ela soubesse que eu não tinha a menor dúvida: — A minha antecessora... aquela que morreu.

     — A Srta. Jessel. Como e que pode ter essa certeza?

     A Sra. Grose estava angustiada e confusa. Pela primeira vez, começou a me questionar de todas as formas para verificar se eu realmente havia visto o que vira, naquele dia e nos anteriores.

     — Sra. Grose — respondi, ainda chorando —, como eu poderia ter descrito tão bem Peter Quint se nunca o vi antes?

     — As crianças podem ter lhe contado... — ela balbuciou.

     — Elas nunca tocaram nem no seu nome! — gritei, desesperada, temendo que a minha única aliada me abandonasse.

     — Mas como a senhorita pode ter certeza de que, desta vez, era a Srta. Jessel?

     — Pergunte à Flora... ela tem certeza! — Mal acabei de falar, voltei atrás: — Não, pelo amor de Deus, não faça isso! Ela vai negar... Ela não quer que eu saiba...

     Contei-lhe, então, tudo o que Flora havia feito durante a visita para desviar minha atenção: seu perceptível aumento de movimentos, a cantoria, a conversa sem nexo, o convite insistente para que eu sentasse ao seu lado no chão (de costas para o lago), para participar de sua brincadeira.

     — Quanto mais eu revejo a cena, mais descubro, e quanto mais descubro, mais eu tenho medo.

     — A senhorita está com medo de vê-la novamente? — a Sra. Grose perguntou.

     — Não, exatamente o contrário. Tenho medo de não vê-la. Porque Flora vai prosseguir com isso, sem que eu saiba!

     — Mas... — a Sra. Grose teve dificuldade em se recompor. — Escute, não devemos perder a cabeça. E, afinal, se ela não se importa... — Tentou esboçar um gracejo mórbido: — Talvez ela até goste!...

     — Ela simplesmente não pode gostar! Aquela mulher é o horror dos horrores!

     — Como assim?

     — A maneira como ela olha... Meu Deus! Uns olhos tão terríveis! Havia uma espécie de determinação neles, uma intenção perversa... — Terminei aos soluços: — Ela parece querer se apoderar de Flora!

     A Sra. Grose deu um passo para trás, chocada com aquela possibilidade. Ficamos olhando uma para a outra, em silêncio.

     — A senhorita disse que ela estava de preto?

     — De luto... muito pobre, quase andrajosa. Mesmo assim, de uma beleza extraordinária. — Eu voltava a ganhar a confiança da minha confidente. — Mas uma pessoa desprezível...

     — É. Ela era desprezível. Ambos eram desprezíveis.

     As peças daquele quebra-cabeça começaram a se encaixar. Forcei a Sra. Grose um pouco mais:

     — Louvo a sua atitude em não querer dizer nada, mas agora eu preciso saber. O que havia entre eles? — perguntei.

     — Tudo — ela disse, secamente.

     — Apesar da diferença de suas posições? — eu estava alarmada.

     — Sim, apesar de ela ser uma dama.

     Não tive coragem de ponderar em voz alta, para a Sra. Grose, que embora Quint fosse corrompido, depravado, não se poderia negar que era bonito. E devia ser realmente esperto, envolvente. Então, como se as idéias estivessem presas numa corrente que eu fosse puxando, elo a elo, comentei:

     — Não me admira que a senhora tivesse se mostrado estranha quando chegou a carta do colégio.

     — Duvido que eu parecesse mais estranha do que a senhorita — ela retrucou, energicamente.

     Eu insisti:

     — Naquela ocasião, a senhora me disse que era impossível dizer que Miles nunca fizera nada de errado. Achei que a senhora se referia a pequenas má-criações. Diga-me: foi algo mais do que isso, não foi? Diz respeito à Quint?

     A Sra. Grose me contou que ficara alarmada ao ver que Quint e o menino andavam o tempo todo juntos. Percebendo o absurdo de tal amizade, depois de muita hesitação ela se atreveu a falar com a Srta. Jessel. Esta, profundamente irritada, lhe disse que cuidasse de seus próprios problemas. A Sra. Grose, angustiada, foi procurar o menino, dizendo-lhe que ele não podia se esquecer da sua posição e que Quint não passava de um reles empregado. Miles retrucou que ela não passava de uma reles empregada, e continuou agindo como se Quint fosse o seu preceptor e a Srta. Jessel apenas a governanta de Flora.

     — O pior de tudo é que ele sumia horas com o sujeito e depois negava que tivessem estado juntos — continuou a Sra. Grose.

     — Entendo. Ele mentia — conclui, desanimada. — Mas por quê? Se a própria Srta. Jessel não se importava...

     Imaginei, então, que o menino escondia algo mais do que suas escapadas com         Quint:

     — Miles nunca mencionou alguma relação entre Quint e a governanta?

     — Bem, ele não dava mostras de saber algo a respeito. Ele negava, ele negava — ela repetiu.

     Então eu a encurralei:

     — De tal maneira que para a senhora era visível que ele sabia o que se passava entre os dois canalhas?

     — Eu não sei! Eu não sei! — gemeu.

     — A senhora sabe — retruquei —, mas não consegue suportar a idéia de que o menino pudesse estar inclusive acobertando os dois... — O caso assumira proporções inquietantes: — A que ponto eles chegaram com ele!...

     A Sra. Grose não se mostrava tão impressionada:

     — Está tudo bem agora.

     Era evidente que a Sra. Grose tinha perdoado Miles por suas mentiras e insolências. Eu também sentia uma enorme ternura por ele... Mas seria possível que ele ainda estivesse sob a influência de Quint? Ele também sabia?

     A Sra. Grose cortou meus pensamentos com a sua reflexão:

     — Pobre Srta. Jessel... pagou pelo que fez.

     — A senhora sabe do que ela morreu? — perguntei.

     — Não, não quis saber. Mas imagino a verdadeira razão por que ela foi embora daqui. E, além do mais, eu imaginava... ainda imagino... coisas horríveis!

     — Não podem ser piores do que as que eu imagino!

     Senti sobre as costas o peso de uma terrível derrota. Explodi em lágrimas e ela me aconchegou em seu peito, onde minhas lamentações transbordaram:

     — Eu não vou dar conta disto! — solucei, desesperada.

     — Eu não vou conseguir salvar as crianças, não vou conseguir protegê-las! É muito pior do que tinha pensado; eles estão perdidos!

     Meu terror e desalento não poderiam ser maiores: eu não só tinha recebido visitas apavorantes, como percebia que as crianças por quem eu era responsável corriam um perigo contra o qual eu não via como protegê-las.

     Passei a fazer um esforço enorme para lutar contra minhas lembranças e, mais ainda, contra minhas fantasias. Tentava afastar o pensamento daquele assunto, porque me sentia no limite da minha resistência.

     Com o passar dos dias, meu pavor começou a diminuir. Conseguia evitar pensar naquilo ocupando-me integralmente com as crianças. E elas eram, sem dúvida, um encanto! Além de aprenderem suas lições cada vez melhor, o que, por si só, já me dava muito prazer, divertiam-me, distraíam-me, surpreendiam-me lendo trechos, contando-me histórias, propondo-me charadas, lançando-se sobre mim com disfarces de animais e personagens históricos e maravilhando-me com as peças que, em segredo, haviam decorado e que podiam recitar por horas a fio. Desde o começo elas tinham demonstrado muita facilidade em aprender tudo, mas agora aparecia uma habilidade geral que tomava um impulso extraordinário.

     Recebiam suas lições como se as adorassem; realizavam pequenos e espontâneos milagres de memória, pelo simples prazer de mostrar talento. Surpreendiam-me não apenas como tigres e romanos, mas também como personagens shakespearianos, astrônomos e navegadores.

     Miles, principalmente, não parava de dar continuas e admiráveis provas de inteligência. Às vezes eu tinha a sensação de que havia algo que agia como um estímulo fantástico, que influenciava sua vidinha intelectual.

     Ambos tinham um desenvolvido senso musical, mas sobretudo Miles demonstrava uma aptidão maravilhosa para ouvir e reproduzir sons. O piano da sala de aula participava de todas as fantasias deles e, quando paravam de tocar, surgiam confabulações pelos cantos, ao fim das quais um deles saía animado, para depois voltar com alguma coisa nova.

     Entretanto, eu me lembro de me haver perguntado, nesses dias, se não haveria alguma coisa estranha no fato de todas essas atividades terem aumentado tanto de um momento para o outro. Além disso, a maneira como eles demonstravam seu afeto por mim era, por assim dizer, um tanto exagerada. Na verdade eu me perguntava se aquilo tudo não seriam atitudes planejadas.

     Era como se uma sombra escurecesse meus sentimentos. Será que eles eram culpados de alguma coisa? Será que agiam daquele modo tão brilhante para ofuscar algo? Mas quando isso me passava pela cabeça eu me sentia culpada. Como podia pensar essas coisas horríveis? Eles eram tão meigos!

     Algumas vezes eu descobria, por acaso, sinais de pequenos acordos entre eles: enquanto um se preocupava em me entreter, o outro aproveitava para escapulir. Porém, eu já estava tão mais calma, tão envolvida pelos seus encantos e, além disso, eles eram tão delicados quando me enganavam, que essas pequenas coisas não chegavam a me impressionar. Coisas de crianças!, eu pensava, relutando em deixar surgir em mim a desconfiança.

     Aqueles dias foram, realmente, um período de calmaria. Mas, infelizmente, a tempestade voltou a irromper.

     Uma noite, eu estava sentada no quarto, lendo junto a dois candelabros. Como o livro era muito interessante, perdi a noção da hora. Sabia que já devia ser muito tarde, mas eu me recusava a olhar o relógio, tão fascinada me encontrava com a leitura. Flora estava dormindo profundamente, como eu já verificara muito tempo antes, entreabrindo o cortinado branco que rodeava a cabeceira de sua cama.

     Mesmo estando absorta no meu livro, lembro-me de que, ao virar uma página, não consegui me concentrar e me flagrei olhando fixamente para a porta do quarto.

     Havia sentido o toque gelado que tinha me tirado o sono na noite da minha chegada. Por um instante fiquei escutando, lembrando-me da vaga sensação que experimentara, na primeira noite, de que algo indefinido errava pela casa, e notei que uma suave brisa entrava pela janela, movendo lentamente a cortina entreaberta.

     Então, com uma coragem que teria parecido magnífica se houvesse alguém para admirá-la, larguei o livro, levantei da cama e, apanhando um candelabro, saí do quarto. No corredor, mal iluminado pela minha vela, tranquei a porta sem fazer barulho.

     Não posso afirmar, agora, o que guiou meus passos; mas segui diretamente pelo corredor, até que me vi em frente à grande janela que dominava a curva da escada. Devido a um gesto brusco, a vela se apagou, mas ela já não era imprescindível: a tênue luz do dia nascente entrava pela janela e se insinuava pelo corredor e pelo início da escada.

     Então percebi que havia uma pessoa ali. Não precisei nem de um átimo de segundo para juntar forças para um terceiro encontro com Quint. Ele tinha alcançado o patamar do meio da escada e estava, portanto, no canto mais próximo da janela; ao me ver, parou e me olhou fixamente, como havia feito na torre e no jardim. No frio e pálido amanhecer, nós nos encaramos com mútua intensidade.

     Ele era uma presença absolutamente viva, detestável e perigosa. Entretanto, o mais assombroso de tudo foi que, dessa vez, eu não estava sentindo medo. Fui tomada por uma extrema angústia, mas não senti pavor. E ele sabia disso. Ainda assim, havia algo medonho naquela situação: Quint me parecia tão humano, que eu tinha a impressão de que se tratava de um encontro real. Como se estivesse me avistando a sós, de madrugada, numa casa adormecida, com algum inimigo, um aventureiro ou um criminoso.

     O silêncio mortal de nosso confronto, em tal proximidade, foi o único aspecto sobrenatural. Se eu tivesse deparado com um assassino, no mesmo lugar e à mesma hora, alguém pelo menos teria dito alguma coisa. Alguma coisa aconteceria, em vida, entre nós; e, se nada houvesse acontecido, algum de nós teria se movido. O momento foi tão prolongado que, caso tivesse durado só um pouco mais, me faria ficar em dúvida até mesmo sobre a minha própria existência.

     Não consigo explicar o que aconteceu depois, a não ser que o próprio silêncio foi o elemento ou a forma em que ele desapareceu. Eu o vi virar-se, com meus olhos pregados em suas costas odiosas.

     Vi Quint descer alguns degraus e sumir na próxima curva da escada.

    

                        As noites

     Fiquei por algum tempo no topo da escada depois que meu visitante partiu; então, voltei para o meu quarto. Logo ao entrar, à luz do candelabro que tinha deixado aceso, vi que a cama de Flora estava vazia. Isso me deixou sem fôlego, fazendo-me sentir todo o terror que, cinco minutos antes, havia conseguido dominar. O pequeno acolchoado de seda e os lençóis estavam desarrumados, mas o cortinado branco que envolvia a cama estava cerrado, como que para disfarçar a sua ausência!

     Então, para meu profundo alívio, o barulho dos meus passos recebeu um ruído em resposta: notei uma agitação na cortina da janela e a criança surgiu, corada, vinda do outro lado.

     — Sua malvada! — ela me repreendeu. — Onde você estava?

     Em vez de perguntar o que ela estava fazendo de pé àquela hora, comecei a dar explicações, sentindo-me culpada. Por sua vez, ela se explicou com doce simplicidade:

     — É, eu acordei de repente e vi que você não estava no quarto.

     A chama da vela iluminava em cheio seu rostinho ainda corado de sono. Sentei na minha cadeira e abracei-a, alegre de que o incidente se resumisse a isso.

     — Você estava me procurando lá da janela? Você achou que eu poderia estar andando no jardim?

     — Bem, você sabe, achei que alguém estava no jardim — ela me disse sorrindo.

     Outra vez assustei-me:

     — E você viu alguém?

     — Ah, não! — ela respondeu quase sentida, com o total privilégio da inconseqüência infantil. !

     Naquele momento, no estado de nervos em que me encontrava, tive certeza de que ela mentia. O que me passou pela cabeça fez com que a abraçasse mais apertado: e se eu me desabafasse com ela ali mesmo e acabasse com todas as desconfianças? Se eu lhe falasse abertamente, olhando para seu rostinho iluminado? "Você vê, Flora, e já quase tem certeza de que eu sei que vê. Então, minha querida, por que não confessa tudo para mim? Assim poderíamos viver com isso juntas e, talvez, aceitarmos melhor a estranheza do nosso destino e entendermos, conversando, o que isso significa...”

     Mas esse impulso se foi assim como veio. Em vez de me render a ele, fiquei em pé de um salto, olhei para sua cama e pressionei-a:

     — Por que você puxou as cortinas sobre a cama? Para eu pensar que ainda estava lá?

     — Para não assustar você! — ela respondeu, depois de pensar um segundo.

     — Mas se você sabia que eu não estava no quarto!... — resolvi apertá-la até o fim.

     Ela recusou absolutamente deixar-se confundir:

     — É, mas você podia voltar, como voltou...

     E foi se deitar, muito serena e meiga.

     As noites seguintes foram muito difíceis para mim. Eu ficava sentada na cama até não sei que horas. Escolhia momentos em que Flora estava, com absoluta certeza, dormindo e, em silêncio, furtivamente, passeava pelo corredor. Chegava a ir até a escada, mas nunca mais encontrei Quint ali. Na verdade, nunca mais o vi dentro de casa.

     Entretanto, houve, na escada, algo diferente.

     Numa dessas minhas perambulações noturnas, olhando do topo da escada para baixo, uma vez reconheci aquela mulher sentada num dos degraus inferiores, as costas voltadas para mim, o corpo meio curvado e a cabeça enterrada nas mãos, numa atitude de profunda angústia. Contudo, mal eu cheguei, ela desapareceu sem se virar. Eu sabia, exatamente, o rosto terrível que veria se ao invés de estar acima eu estivesse abaixo dela; não sei se teria a mesma coragem de enfrentá-la que tivera com Quint. De qualquer modo, eu ainda iria necessitar de muita coragem.

     Onze noites depois do meu último encontro com ele — agora eu enumerava todas as noites —, fui submetida a um choque ainda mais forte.

     Cansada de minhas vigílias, julguei que poderia, novamente, sem incorrer em descuido, me deitar na hora de costume. Mas, cerca de uma hora da madrugada, acordei e no mesmo instante me pus sentada, completamente desperta, como se uma mão tivesse me sacudido.

     Eu havia deixado uma vela acesa; agora, estava apagada. Tive, no mesmo instante, a certeza de que Flora era a responsável. Isso fez com que eu me levantasse e fosse, no escuro, direto até sua cama; apalpei-a e constatei que estava vazia. Risquei um fósforo. A cortina da janela estava entreaberta e vi a menina ali debruçada, espreitando a noite.

     Agora eu estava certa de que ela via: nem o fato de eu acender a vela, ou o barulho de calçar os chinelos e o movimento de jogar o xale sobre os ombros conseguiram atrair sua atenção — estava absorta, totalmente entregue. Ela devia estar frente a frente com a aparição do lago e podia, agora, até se comunicar com ela.

     Tomei uma decisão rápida. Iria, sem perturbá-la, alcançar o corredor e, através de alguma outra janela do mesmo lado da casa, veria o que ela estava vendo. Assim fiz. Enquanto atravessava o corredor, pensei em entrar no quarto de Miles. O que aconteceria se eu entrasse lá e fosse diretamente para a janela? O que aconteceria se eu dissesse a ele exatamente o que fora fazer lá?

     Parei na soleira da sua porta. Imaginei que sua cama também estaria vazia e ele, secretamente, também estaria espiando. Foi um minuto de profundo silêncio, ao fim do qual meu impulso esmoreceu. Ele estava quieto. Fui embora dali.

     Havia uma figura no jardim; devia estar perambulando para ser vista por Flora. Devia ser isso.

     Escolhi um quarto num andar inferior ao nosso, mas ainda bem acima do jardim, e mais próximo ao canto da casa, abaixo da torre. Era um quarto grande, que há anos não era usado, embora a Sra. Grose o conservasse limpo e arrumado. Atravessei-o e abri com calma uma das venezianas.

     Encostando o rosto contra a vidraça, pude ver.

     A lua estava muito clara e me mostrou uma pessoa de pé na grama, imóvel, olhando para cima da janela onde eu estava, isto é, para algo que aparentemente se encontrava num andar superior. Era evidente que havia uma outra pessoa acima de mim — havia alguém na torre, mas a presença no gramado não era, de modo algum, a que eu imaginara encontrar.

     Quem estava ali, como que hipnotizado pelo que via, era o Pequeno Miles.

    

                   Os demônios e os anjos

     A Sra. Grose não conseguia ver, nas crianças, nada além da sua beleza, amabilidade, inteligência e felicidade. Ela era um abençoado monumento à falta de imaginação; portanto, não podia participar da minha aflição em relação a elas. Acreditava que as crianças estavam perfeitamente bem. Seu desvelo centrava-se em mim: eu é que não estava bem.

     Tinha certeza absoluta que ela acreditava em mim; se não fosse assim, não sei o que aconteceria comigo, porque me sentia incapaz de arcar com aquele peso sozinha. Precisava dividir com ela tudo o que ocorria. E ela, apesar das minhas horríveis confidências, conservava o aspecto tranqüilo, o rosto sereno, de modo a não transmitir aos outros empregados da casa nenhuma suspeita de que algo tenebroso se passava.

     Eu também tentava não despertar em ninguém qualquer desconfiança a partir de demonstrações de nervosismo ou deixando perceber que discutíamos mistérios. Mas era necessário contar à Sra. Grose o que acontecia. Assim, no dia seguinte, quando consegui ficar a sós com ela, fiz questão de narrar-lhe o incidente da noite.

     — Pois bem, Sra. Grose, as crianças realmente vêem!

     Nesse momento estávamos sentadas num banco do jardim, enquanto os irmãos caminhavam abraçados a alguma distância de nós, de um lado para outro, lendo um livro de histórias.

     — Mas Miles falou alguma coisa? — ela me perguntou.

     Parecia que não iria se convencer antes que algum deles confirmasse.

     — É isso que está me deixando maluca! Por que eles escondem o fato de mim? Que cumplicidade eles terão com os visitantes? — Eu já estava com vontade de chorar; passei a informá-la sobre o episódio noturno.

     Saí do quarto onde eu estava e fui para o terraço. Assim que ele me viu, veio ao meu encontro. Peguei sua mão sem dizer uma palavra e o conduzi de volta à casa.

     Durante o trajeto eu me perguntava como ele iria se sair desta. Ele já não poderia jogar com aquela dignidade impecável... Pus as mãos em seus ombros e, num tom completamente carinhoso, interpelei-o:

     — Você tem que me contar, agora, toda a verdade. Por que você saiu lá fora? O que você estava fazendo?

     — Se eu lhe contar, você vai entender? — sorriu para mim, com seus cândidos olhos azuis fixando diretamente os meus.

     Meu coração subiu à boca. Será que ele ia falar? Fiz um movimento afirmativo com a cabeça.

     — Bem, fiz o que fiz justamente para que você fizesse o que fez!

     — Fizesse o quê? — Sentei-me na sua cama.

     — Achasse, pela primeira vez, que eu não sou tão bonzinho!

     Nesse momento curvou-se para me dar um beijo. Recebi-o e tive de fazer um tremendo esforço para não chorar. Não conseguia mais acreditar nele!

     — Então você nem chegou a se despir para se deitar? — perguntei, já que não tinha mais o que perguntar, depois do que ele dissera.

     — Não. Eu me sentei e li.

     — E a que horas você desceu?

     — À meia-noite. Quando eu resolvo não ser bonzinho, eu não sou mesmo!

     — Sei, sei... Mas como você tinha certeza de que eu ia vê-lo?

     — Ah, combinei com Flora. Ela devia se levantar e olhar para mim, no jardim.

     — É, foi o que ela fez.

     — Ela deu um jeito de perturbá-la e fazê-la acordar.

     — Enquanto você podia adoecer com o ar da noite! — acrescentei, completamente desarmada. Tudo era lógico, tudo fazia sentido, embora eu não conseguisse acreditar nem em uma vírgula.

     — De que outra maneira eu podia ter sido mau? — ele perguntou.

     Fiz com que ele se deitasse, dei-lhe um beijo de boa-noite e saí sem fazer mais nenhuma pergunta. Mas ele ainda disse uma última coisa, quando eu estava fechando a porta de seu quarto.

     — Imagine o que eu poderia ter feito! — ele falou, como para mostrar que, mesmo querendo ser mau, ainda tinha sido bonzinho.

     Agora eu já não acho tão estranha aquela carta... Ele deve ter mostrado, lá na escola, o que poderia ter feito, se tivesse querido...

     — A senhorita está mudando de opinião quanto a Miles! — a Sra. Grose interrompeu-me, indignada.

     — Não, não sou eu quem estou mudando. Os fatos é que estão me fazendo compreender tudo. Os quatro, Sra. Grose, pode acreditar, se encontram normalmente. Se por apenas uma dessas noites a senhora tivesse estado lá em cima, também não duvidaria. E, quanto mais eu penso, mais eu vejo que, mesmo que não tivessem acontecido estas últimas coisas, só o fato de eles nunca, nem por um deslize, tocarem no nome dos dois, já demonstra que escondem algo. A Sra. Grose ficou olhando as duas crianças, que passeavam à nossa frente. A expressão de seu rosto era de incredulidade.

     Mesmo agora — continuei —, eles na verdade não estão entretidos com suas histórias de fadas. Devem estar falando deles, dos mortos... Estão falando coisas horríveis... Sei que estou me adiantando, como se estivesse louca. E nem entendo como não enlouqueci, com tudo o que presenciei! Ao contrário, estou cada vez mais lúcida, percebendo novas coisas...

     O que mais a senhorita descobriu? — ela perguntou, num tom de voz sentido.

     Na verdade, o que sempre me fascinou neles, me deliciou, também me deixava intrigada. Agora sei. Toda a sua doçura, toda a sua bondade tão extraordinária... são um jogo... — Tomei coragem e terminei: — É uma fraude! Tudo isto é uma grande farsa!

     A senhorita está falando destes anjos?! — ela não acreditava no que ouvia.

     É. Parece uma maluquice, mas só quando deduzi isso é que as coisas realmente fizeram sentido. Não é que eles sejam tão bons; o problema é que estão ausentes. É fácil viver com eles porque simplesmente levam uma vida à parte. Não são meus, nem seus. São dele e dela...

     — Do Quint e da Srta. Jessel?

     — Do Quint e da Srta. Jessel. E querem ir com eles.

     — Mas por quê? — gemeu a Sra. Grose.

     — Por causa de todo o mal que aqueles dois incutiram nas crianças, na época. E estão sempre voltando para continuar a manipular os pequenos através desse mal!

     A Sra. Grose não tinha como negar o caráter demoníaco de Quint e Jessel: afinal, era só ela se lembrar da época em que estavam vivos.

     — Está certo, eles eram uns... desqualificados... Mas o que podem fazer agora?

     — O que podem fazer? Podem destruir as crianças! Já estão tentando! Veja, Sra. Grose, têm aparecido em lugares estranhos: no topo de torres, no telhado de casas, do lado de fora das janelas, do outro lado de lagos; há um ensejo, cada vez mais nítido, de encurtar a distância; atingir o que querem vai ser somente uma questão de tempo. Só têm que continuar com suas perigosas sugestões...

     — A senhorita acha que estão tentando fazer com que as crianças vão ao seu encontro?

     — E que morram ao tentar!

     A Sra. Grose levantou-se num pulo, assustada com a hipótese.

     — A não ser que nós duas evitemos... — completei.

     O tio deles... precisa tirá-los daqui... É isso... — ela balbuciou.

     — E quem vai convencê-lo?

     — A senhorita! — ela respondeu, rápido.

     — Escrevendo-lhe contando que sua casa está envenenada e seus sobrinhos estão loucos?

     — Mas... e se estiverem? — a Sra. Grose ousou perguntar.

     — E se eu estiver louca? É o que a senhora também quer dizer, não é? Ótimas notícias para ele, enviadas por uma pessoa que tem sua confiança e cujo principal compromisso era não lhe dar preocupações!

     — É, ele odeia reclamações... É por isso que aqueles dois demônios...

     — ... enganaram-no por tanto tempo? — completei. — Mas eu jamais iria enganá-lo...

     — Por que a senhorita não tenta fazê-lo vir para cá? Ele deveria estar aqui! Ele tem que ajudar!

     Levantei-me e olhei-a com uma expressão que ela nunca tinha visto no meu rosto. Ela começou a perceber o que essa atitude poderia acarretar para mim: seu desprezo pela minha covardia em ficar sozinha e por toda a maquinaria que eu teria inventado a fim de atrair sua atenção para a minha pessoa. Ela não sabia o quanto eu estava orgulhosa de trabalhar para ele e me manter firme na nossa combinação. Mas não deixei de avisá-la, para que ficasse definitivamente claro:

     — Se a senhora perder a cabeça, Sra. Grose, a ponto de pedir ajuda a ele... — parei um segundo, enquanto ela me encarava com os olhos arregalados. — ... eu vou embora e abandono, no mesmo instante, tanto ele como a senhora e as crianças!

    

                        Mantendo as aparências

     Continuava sendo agradável estar com as crianças, mas, com o passar do tempo, nossas conversas iam se tornando cada vez mais difíceis. Tenho certeza, como tinha na época, de que não era somente a minha imaginação: era absolutamente óbvio que estavam cientes da dificuldade da minha situação. Eles sabiam que eu estava a par de tudo, e sabiam também que eu não tinha provas. Eu percebia que eles haviam adotado uma postura quase irônica. Isso resultou num clima propício para que o inominado e intocável se tornasse um elemento quase sólido, que fingíamos não ver. Tomávamos cuidado o tempo inteiro para não nos enredarmos em conversas que pudessem nos aproximar daquele assunto; parecia haver um acordo tácito entre nós. Era como se estivéssemos perpetuamente interrompendo um passeio a pé ao entrarmos por um caminho que constatávamos não ter saída; como se, ao fechar uma porta que um de nós tivesse indiscretamente aberto, fizéssemos um barulho maior do que gostaríamos de ter feito.

     Havia momentos em que eu tinha a nítida impressão de que um dos dois havia sussurrado para o outro: "Ela pensa que vai conseguir agora, mas não vai". "Conseguir", por exemplo, me referir à minha antecessora para comentar que ela lhes havia ensinado bem algum ponto das lições.

     Mas não. Cada vez mais falávamos da minha vida, porque então não corríamos nenhum perigo. Eles não se cansavam de ouvir e nem eu de repetir histórias da minha infância, pequenas aventuras dos meus irmãos e irmãs, episódios envolvendo o gato e o cachorro que tínhamos em casa, peculiaridades do vilarejo onde eu crescera.

     Pode parecer que, pelo fato de os dias passarem sem que ocorresse um novo encontro, eu estava mais calma; mas não — minha sensibilidade já havia sido aguçada. O outono tinha chegado. Bly, com o céu cinzento, as folhas secas e o vento frio, mais parecia um teatro após a encenação de uma peça: desarrumado, sujo, as luzes meio apagadas. Parecia que, a qualquer momento, eu ia dar de cara com Quint. Havia uma atmosfera de abandono e aparente quietude na qual ele caberia perfeitamente bem. Era como se eu pudesse reconhecer o exato instante e o lugar onde ele apareceria; entretanto, não via nada.

     Na verdade, eu preferiria ver. Estava preparada para saber tudo o que precisasse ser sabido. E a minha impressão era que meus olhos estavam selados, mas não os das crianças.

     Como descrever, rememorar os passos da minha obsessão? Mesmo assim, posso me lembrar perfeitamente de momentos nos quais poderia jurar que, na minha presença, Miles e Flora recebiam visitas que eram, inclusive, bem-vinda para eles. Mas eu jamais teria coragem de tocar num assunto tão delicado, tão terrível, com duas crianças. Além disso, eu não tinha provas de que eles viam.

     Mas o silêncio... Aquele silêncio, em que tudo ao redor como que mergulhava, era um silêncio palpável! Uma pausa de toda a vida que não tinha relação com os ruídos que estivéssemos fazendo: eu consegui ouvir aquele silêncio através das vozes de Flora e Miles, através de qualquer recitação cujo ritmo apressavam, ou de um acorde mais alto no piano. Era quando um dos visitantes estava lá. Eles "passavam", fazendo-me tremer de medo de que se dirigissem às suas pequenas vítimas com alguma mensagem ou imagem mais vivida do que tinham achado necessário dirigir a mim.

     O que mais me atormentava era o fato de que, o que quer que eu tivesse visto, Flora e Miles viam mais: coisas terríveis e que eu não podia adivinhar, já que eram ligadas a situações ocorridas entre eles no passado.

     Essas "passagens" deixavam no ar um arrepio que, logicamente, nós três fingíamos não perceber. E estávamos tão treinados com a repetição que cada vez, para marcar o fim da visita, fazíamos os mesmos movimentos. Sempre as crianças se aproximavam para me beijar e um dos dois perguntava:

     — Quando você acha que ele vai vir? Você não acha que devíamos escrever?

     "Ele" era o senhor de Bly. Ele nunca lhes escrevia e nem havia qualquer motivo para pensarem que iria visitá-los. E eu explicava às crianças que suas cartinhas eram, na verdade, somente exercícios de literatura bonitos demais para serem enviados pelo correio. (Eu não podia deixar de cumprir a minha promessa de que ele não seria importunado!) Mesmo assim, eles sempre repetiam a pergunta. Isso aumentava a minha ridícula esperança de que ele realmente aparecesse por lá, de surpresa.

     Eu achava que o desespero iria finalmente me trair não viesse logo um alívio. E veio. Chamo isso de alívio, embora não fosse mais do que a tempestade depois de um dia sufocante. Pelo menos foi uma mudança. Mudança que chegou como um golpe.

 

                   Quem é a intrusa?

     Íamos a pé para a igreja, numa manhã de domingo. Miles caminhava ao meu lado, e Flora ia mais adiante com a Sra. Grose. O céu estava claro, o ar estava brilhante, mas o vento era muito frio. Eu refletia em como as crianças facilitavam o cumprimento das minhas obrigações: nunca reclamavam da minha companhia constante, vigilante. Eu era como uma sentinela de prisão, sempre atenta a surpresas e fugas.

     Observava Miles, cujo ar de independência naquela ocasião estampava-se nitidamente em sua figura, tão importante com seu terninho novo feito pelo alfaiate do senhor de Bly. Se ele, em determinado momento, reclamasse por liberdade, eu nem teria o que responder. Estava justamente pensando nisso, quando ele, com sua voz sempre educada e meiga, perguntou:

     — Escuta, minha querida, quando é que eu vou, afinal, voltar para a escola?

     Parei como se uma árvore tivesse caído atravessada no caminho. Não sabia o que dizer. Ele continuou:

     — Sabe, um sujeito que está sempre acompanhado por mulher...

     Tentei rir, mas só consegui um sorriso amarelo:

     — E, ainda por cima, sempre com a mesma mulher, não é?

     — Ah, é claro que se trata de uma mulher perfeita, mas afinal de contas eu sou um rapaz que está crescendo, você não concorda?

     — Sim, você está crescendo. Rápido demais, eu diria!

     — E você não pode negar que eu tenho sido terrivelmente bonzinho, pode?

     Pus minha mão no seu ombro:

     — É, não posso.

     — A não ser aquela noite, não é? — ele ousou.

     Estremeci e não respondi nada. Ele estava tocando num assunto que seria melhor deixar esquecido...

     — Aquela noite, em que eu desci e saí para o jardim!

     — Ah, sim. Mas esqueci por que você fez aquilo... — Será que ele esqueceria sua mentira?

     — Esqueceu? Ora, para mostrar que eu podia fazê-lo!

     — É, você podia — consegui repetir.

     — E ainda posso — ele provocou.

     — Mas não vai, não é, Miles?

     — Não aquilo de novo. Aquilo não foi nada. Voltamos a andar e ele passou o seu braço pelo meu.

     — Bem, então quando vou voltar para a escola?

     — Mas você era feliz, lá?

     — Ora, eu sou feliz em qualquer lugar!

     — Bem... — Achei que era uma boa brecha para tentar convencê-lo de que então não precisava voltar: — Se você é feliz aqui também...

     — Mas isso não é tudo! Claro que você me ensina muitas coisas... Mas eu quero ver a vida!

     Estávamos perto da igreja. Eu queria apressar o passo e entrar antes que me visse totalmente encurralada. Meu Deus! Poderia dizer a ele que fora expulso da escola? Poderia explicar que não queria que ele saísse debaixo dos meus olhos? Estávamos entrando no pátio quando ele falou:

     — Quero a companhia de gente igual a mim!

     — É difícil gente igual a você — retruquei. — A não ser, talvez, Flora.

     — Você está me comparando com uma menininha? — Sua resposta deixou-me sem argumentos. Mas insisti:

     — Você não gosta dela?

     — E se eu não... nem de você? E se eu não...?! — ele repetiu, como se preparasse o bote, embora sem concluir seu pensamento. A Sra. Grose e Flora já haviam entrado na igreja, e nós atravessávamos o cemitério à sua frente, caminhando entre as lápides antigas e espessas.

     — Sim; e se você não o quê? — enfrentei-o.

     — Bem, você sabe o quê! — Pôs a mão no meu braço e continuou: — O meu tio pensa o que você pensa?

     — Como você sabe o que eu penso?

     — Bem, claro, eu não sei, você nunca me conta. Mas ele sabe?

     — Sabe o quê, Miles? — ele estava me exasperando.

     — Ora, o jeito que estou me portando...

     Qualquer coisa que eu dissesse de alguma maneira mostraria a posição de seu tio em relação a eles. Qualquer coisa envolveria um sacrifício da parte dele. Mas, afinal, nós lá em Bly estávamos sendo tão sacrificados, que um pequeno arranhão na imagem daquele cavalheiro não lhe faria tão mal...

     — Acho que seu tio não se importa muito...

     — Mas você não acha que podemos fazê-lo se importar?

     Para qualquer lado que o menino dirigisse a conversa, eu me sentia enrascada.

       — Você não acha? — Miles insistiu. — Se ele vier para cá...

     — E quem vai conseguir que ele venha? — perguntei.

     O rosto de Miles assumiu uma expressão decidida e enfática:

     — Eu!

     E entrou na igreja. Não consegui acompanhá-lo: estava completamente agitada e precisava pensar.

     Ele havia me encurralado, tinha arrancado alguma coisa de mim, mesmo eu não tendo dito nada claramente. Mas ele percebeu que eu sentia um medo muito grande, e provavelmente tiraria proveito desse medo para conseguir mais liberdade.

     Sentei-me na mureta defronte da igreja quando já não havia mais ninguém ali fora. Precisava me acalmar. Em vão: quanto mais pensava, mais angustiada ficava.

     Naquelas alturas, a vinda do senhor de Bly era quase indispensável. Como mandar o menino de volta para uma escola da qual ele havia sido expulso? Como conservá-lo comigo, se ele já se rebelava? Como decidir por outra escola, imaginando que lá também aconteceriam coisas insólitas e inexplicáveis que fariam com que fosse expulso pela segunda vez? Mas, para mim, seria terrivelmente humilhante a vinda do meu patrão. Não só não teria cumprido minha promessa, como lhe apresentaria problemas insolúveis. No entanto, Miles havia me encostado na parede, como se tivesse dito: "Ou você esclarece com meu tio esse mistério da interrupção dos meus estudos, ou você desiste de esperar que eu continue levando esta vida tão pouco natural para um menino".

     Levantei-me, já tendo perdido o início do culto, e comecei a dar voltas em torno da igreja. O que mais me deprimia em tudo era ver que Miles se colocava contra mim. Toda a sua conversa foi conduzida de modo a demonstrar que ele tinha consciência de que eu estava em dificuldade, e tirava proveito disso: ele planejara tudo, tinha-me em suas mãos e fazia questão de deixar isso bem claro. "Então eu chamo meu tio, já que você não o faz! Quero ver o que você vai dizer a ele, para explicar por que não me deixa sair um segundo debaixo dos seus olhos!"

     Pela primeira vez, quis me afastar dele. Num impulso de desespero, comecei a trilhar de volta o caminho de casa. Sim, eu teria tempo; todos os empregados estavam no culto, não haveria ninguém para tentar me impedir. Arrumaria minhas coisas rapidamente e, quando todos chegassem, já teria partido. Sim, eu iria fugir. Ninguém poderia me culpar, sabendo o que eu passava, de não ter suportado. Aproveitaria esses momentos em que poderia sair sem uma palavra, sem cenas.

     Entrei em casa e subi. Ao passar pela nossa sala de aula, lembrei-me de pegar alguns objetos meus que deixava guardado ali. Abri a porta.

     Uma moça estava sentada à minha mesa. Poderia ser alguma das empregadas que tivesse ficado em casa e, aproveitando a ausência dos outros, estivesse utilizando meus papéis e penas para escrever alguma carta. Mas não era.

     Estava com os cotovelos apoiados na mesa e a cabeça entre as mãos, numa posição que revelava muito cansaço. A despeito da minha chegada ela persistiu, imóvel, por alguns segundos. Depois levantou-se e, numa atitude de profunda indiferença e desligamento, ficou parada, de frente para mim. Escura como a meia-noite no seu vestido negro, com sua beleza sofrida e seu ar trágico, a Srta. Jessel olhou-me, desafiadora. Foi o tempo suficiente para que eu compreendesse o que queria dizer com aquele olhar: era como se quisesse me fazer entender que o seu direito de ocupar aquele lugar era o mesmo que o meu.

     Um arrepio percorreu-me o corpo: naquele instante ela me fez sentir que eu é que era a intrusa.

     — Sua... miserável! — exclamei, descontrolada.

     O som do meu grito ecoou pelos corredores da casa vazia. Ela encarou-me, como a demonstrar que tinha me ouvido. Mas me recobrei e respirei, menos tensa. No minuto seguinte não havia mais ninguém na sala. Havia só o sol, entrando pelas vidraças e, em mim, a certeza de que não podia ir embora.

                     A decisão

     Ao contrário do que eu previra, nem as crianças e nem mesmo a Sra. Grose perguntaram por que eu não havia ficado na igreja. Não tocaram no assunto, embora ela estivesse um tanto estranha.

     Assim que tive uma oportunidade de falar com ela a sós, indaguei-lhe por que agira de modo tão pouco natural.

     — Ah, eles me pediram para não falar nada; mas eu fiquei preocupada. O que lhe aconteceu? Não estava se sentindo bem?

     — Só fui dar uma volta — expliquei. — Depois, eu tinha de vir encontrar uma amiga.

     — Uma amiga? Aqui? — ela se mostrou surpresa.

     — É. Tenho um casal de amigos. — Dei uma risada. — Mas e as crianças? Não lhe deram nenhuma razão para eu ter ido embora?

     Eu queria saber o que Miles alegara ao pedir à Sra. Grose que não me perguntasse o que acontecera comigo.

     — Não. Quer dizer, Miles disse que a senhorita preferia não assistir ao culto, hoje.

     — Mas ele não disse por quê?

     — Não. Ele só sugeriu que é melhor fazermos o que a senhorita quer.

     — E Flora? Como ela reagiu quando ele disse isso?

     — Ela concordou, claro — respondeu.

     Pensei um pouco. Miles estava realmente indo longe demais.

     — Parece que as coisas entre mim e Miles estão mais claras... Ou não tão dissimuladas, pelo menos.

     — Como assim? Falaram daquele assunto? — ela me olhou, assustada.

     — Tudo. E nada, ao mesmo tempo. Mas isso, agora, não importa. O que eu vim fazer em casa foi ter uma conversinha com a Srta. Jessel...

     — O quê? Uma conversa? Ela apareceu? Ela... falou?!

     — Praticamente... É, eu a encontrei aqui quando voltei da igreja...

     — Meu Deus! Mas o que ela disse? Nem posso acreditar... — ela havia se levantado e estava em pé, na minha frente, muito nervosa.

     — Que ela sofre os tormentos...

     Tais palavras foram suficientes para encorajá-la a intuir o que eu iria dizer:

     —... dos condenados?

     — Falou que sofre os tormentos dos perdidos, dos condenados! E que, para compartilhar esses seus sofrimentos, ela quer... Flora!

     A Sra. Grose fez um movimento como se fosse correr para fora da sala. Não estava suportando o que ouvia. Segurei-a pelo braço.

     — Já decidi o que fazer — afirmei, tentando tranqüilizá-la.

     — O quê, pelo amor de Deus?

     — Vou chamar o senhor de Bly!

     — Sim, por favor, faça isso, é preciso!

     — É, vou chamá-lo, sim! E se Miles acha que tenho medo de avisar seu tio e pensa que por causa disso ele pode fazer o que bem entender da vida...

     — Miles disse isso! — Ela devia estar se lembrando do ar angelical do menino. — O pequeno e doce Miles?

     — Se ele pensa que eu vou ficar acuada e deixar que tudo isso continue, está muito enganado! — terminei. — Seu tio virá e, se necessário, eu vou explicar, na frente do próprio Miles, qual a horrível razão por que não pensei em mandá-lo para outra escola...

     — Que razão? — ela balbuciou, sem querer deduzir sozinha.

     — Vou mostrar-lhe a carta do diretor; na verdade, devia tê-la mostrado no instante em que a recebi. Afinal, como eu poderia dar conta de um menino que foi expulso por...

     — Pelo que a senhorita acha que foi? O que ele pode ter feito? Aquele anjo...

     — Por crueldade. Pelo que mais? Não é inteligente e bonito e educado? Não é perfeito? Foi expulso pela maldade que aqueles dois o fizeram conhecer... Afinal, é culpa do tio dele. Deixá-lo aqui com eles...

     — Então eu é que sou culpada — a Sra. Grose resmungou. — O senhor de Bly não sabia quem eles realmente eram!

     Ficou uns segundos em silêncio e depois, num tom muito baixo, perguntou:

     — O que vou dizer a ele?

     — Eu vou dizer a ele, não a senhora. E vou falar tudo. Vou escrever uma carta pedindo-lhe que venha. Vou escrever ainda hoje.

     Deixei a Sra. Grose e fui preparar as crianças para irem se deitar.

    

                   No quarto de Miles

     O tempo voltara a ficar ruim: chovia e ventava muito. Quando Flora já dormia, sossegada, sentei-me para iniciar a carta. Fiquei muito tempo parada em frente à folha branca de papel, ouvindo o ruído da chuva. Não conseguia começar. Levantei-me, peguei um castiçal e saí para o corredor. Fiquei parada perto da porta de Miles, esperando ouvir algum ruído que denunciasse que ele ainda não estava dormindo. Realmente ouvi, mas não da forma como esperava, pois ele mesmo me chamou, lá de dentro:

     — Ei, você aí, entre!

     Entrei; ele olhou para mim e perguntou, num tom amigável:

     — O que você está pretendendo?

     — Como você sabia que eu estava lá fora?

     — Ora, eu a ouvi. Ou você pensa que é totalmente silenciosa?

     — Então você não estava dormindo?

     — Não. Estava deitado, pensando.

     Coloquei o castiçal numa mesinha de cabeceira e sentei-me à beira de sua cama.

     — No que estava pensando? — perguntei, com a voz bem suave.

     — No que mais podia ser? Em você! Em você e suas estranhas ocupações...

     — Minhas estranhas ocupações? O quê, por exemplo?

     — Ora, o jeito de você me educar! E todo o resto!

     — Que resto? — quase me faltava o fôlego: então ele estava se aproximando dos assuntos intocáveis!

     — Você sabe, não sabe?

     Não consegui articular uma só palavra por alguns segundos. Estávamos de mãos dadas e olhando-nos nos olhos. Nada me parecia mais incrível do que o nosso relacionamento. Tudo era sabido, mas nada era dito claramente.

     — Miles, você vai voltar para a escola, se é isso que o preocupa. Mas não para aquela escola. Irá para uma outra.

     — Ah, finalmente! — respirou aliviado.

     — Como eu podia adivinhar que isso o preocupava tanto? — perguntei. — Você nunca tocou no assunto!

     Seu rostinho pálido e atento me lembrou, naquele momento, o de uma criança num leito de hospital. Como eu gostaria de ser sua enfermeira e salvá-lo de todo o seu mal!

     —Você percebe, Miles, que nunca falou uma palavra sobre a escola? Nunca mencionou nenhum professor ou colega e nada que tenha acontecido lá. Portanto, pode calcular como fiquei no escuro... Sempre imaginei que você não sentia a mínima falta... Que você queria continuar como está...

     Seu rosto, até então bastante pálido, ganhou um pouco de cor:

     — Não. Quero ir embora.

     — Você está cansado de Bly?

     — Gosto de Bly. Mas... Você sabe do que um menino gosta mesmo!

     — Você quer ir para Londres, ficar com seu tio? Miles sorriu ironicamente:

     — Ah, você não vai conseguir sair disso assim!

     — Não entendi essa sua reação. Naquele momento o meu rosto deve ter mudado de cor.

     — Bem, eu não quero sair disso! — retruquei.

     — Não, não é que você não queira. Você não consegue! Meu tio vai vir e vocês vão ter que arrumar as coisas!

     — Se formos arrumar as coisas, como você diz, então vai ser tirando você daqui.

     — E é exatamente o que eu quero que aconteça! Mas você vai ter que contar a ele o jeito que você deixou as coisas ficarem! Vai ter muito o que explicar para ele!

     Ele parecia estar exultante.

     — E você, Miles? Será que também não tem coisas para explicar? Provavelmente ele vai lhe fazer muitas perguntas!

     — Que tipo de perguntas?

     — Sobre coisas que você nunca me disse. Para poder decidir o que fazer com você. Ele não vai poder mandá-lo de volta para a mesma escola...

     — Eu não quero voltar para lá — ele me interrompeu. — Quero lugares novos...

     Falava com serenidade. Fiquei imaginando se seria difícil para ele voltar para a mesma escola, depois do que devia ter acontecido. Será que ele tinha noção da sua tragédia? Será que percebia o quanto era anormal e terrível aquela sua amizade? Não pude resistir e joguei-me sobre ele num abraço cheio de ternura. Meu rosto estava próximo ao dele, e ele permitiu que eu o beijasse, aceitando meu gesto com indulgente bom humor.

     — Sim, minha senhora?...

     — Miles, querido! Não tem nada que você queira me contar? Será que não seria melhor se você me dissesse alguma coisa?

     — Eu já disse, hoje de manhã — ele olhou para a parede.

     — O quê? O que é que você já disse? Encarou-me novamente:

     — Para me deixar em paz.

     Levantei-me da cama. Se eu saísse, naquele instante, eu o estaria abandonando. Ele não podia ficar sozinho. Sentei-me outra vez.

     — Eu estava escrevendo uma carta para o seu tio.

     — E então?! Termine-a!

     Precisei de um minuto, antes de prosseguir.

     — O que aconteceu antes de você voltar para casa, Miles? E antes de você ir para a escola? Diga, por favor, o que aconteceu?

     Na expressão de seu rostinho senti que ele começava a ceder. Como se, finalmente, estivesse pensando se não seria melhor me contar as coisas terríveis que vivera e presenciara.

     — Miles, se você soubesse como eu quero ajudá-lo! É só isso que eu quero, nada mais. — Hoje me pergunto se não fui longe demais. — Miles, quero que você me ajude a salvá-lo!

     Houve um estrondo e uma lufada de ar frio. O quarto parecia ter sido sacudido; o impacto do vendaval parecia ter destruído os batentes das janelas. O menino deu um grito alto que se perdeu no ruído ensurdecedor do trovão; um grito que poderia parecer, indistintamente, de júbilo ou de terror. Ficamos no escuro. Saltei da cama e, com a luminosidade da janela, vi que as cortinas mantinham-se imóveis e as vidraças fechadas.

     A vela! A vela se apagou! — gritei, em pânico. Miles disse, num tom perfeitamente calmo:

     — Fui eu que a apaguei, minha querida.

     O que teria acontecido a Flora ?

    

     Na manhã seguinte a Sra. Grose perguntou se eu havia escrito a carta.

     — Sim. Deixei-a na mesa do saguão. Quando Luke sair, ele a colocará no correio para mim (Luke era o rapaz que cuidava do coche e dos cavalos; também fazia as viagens necessárias à cidade).

     Nesse dia, o comportamento de Miles era tão exemplar que eu não podia deixar de achar que ele estava tentando apagar algum vestígio de desentendimento. Nunca ele havia se parecido tanto com um cavalheiro em miniatura quanto no momento em que, depois do almoço, me convidou para ouvi-lo tocar piano. Foi como uma demonstração de tato e educação; foi como se dissesse: "Nenhum cavalheiro que se preze leva muito longe uma vantagem que conseguiu. Sei o que você quer, agora: para estar sozinha consigo mesma e não ser seguida, vai deixar de se preocupar comigo e ficar me espionando, vai deixar que eu vá e volte à vontade. Mas, veja, estou sendo razoável com você. Não estou saindo por aí, sozinho. Vou deixar isso para depois, já que há muito tempo pela frente. Por enquanto vou mostrar que gosto da sua companhia e que só estava lutando por um princípio de liberdade..."

     Sentou-se ao piano e tocou como nunca havia feito. Depois de algum tempo em que me deixei entreter, a ouvi-lo, tive um sobressalto, como se tivesse adormecido e despertado. Foi o susto de perceber que durante todo aquele tempo eu tinha esquecido.

     — Onde está Flora? — perguntei a Miles, angustiada.

     — Como eu posso saber? — desatou a rir e continuou a tocar uma música bastante agitada e extravagante.

     Fui até o meu quarto, mas ela não estava lá. Corri aos aposentos da Sra. Grose, mas encontrei-a sozinha.

     — Pensei que a senhorita tinha levado os dois para a sala de aula — respondeu. — Ela deve estar com as criadas, então.

     Percorri todas as dependências das empregadas; em vão. Meu coração batia descompassado. Voltei a procurar a Sra. Grose.

     — Então deve estar lá em cima, em algum dos quartos que não são usados — concluiu, dirigindo-se para a escadaria.

     — Não, Sra. Grose — falei, trêmula — Nem adianta olhar. Flora saiu. Vou atrás dela.

     — Com este tempo? Sozinha? — comentou, olhando pela vidraça o céu pesado e as árvores curvadas pelo vento. — E a senhorita vai sair assim, sem chapéu, sem agasalho? Espere, vou buscar o meu...

     Mas eu não tinha tempo para isso; tampouco Flora tinha se preparado para sair. Precisava me apressar, antes que fosse tarde demais. Ela me seguiu; eu ia a passos rápidos na direção do lago.

     — A senhorita acha que ela foi para lá? Tão longe? Fazer o quê?

     — Está com ela. Precisamos achá-las...

     — Com ela?   E Miles? Ficou sozinho? A senhorita avisou-o de que ia sair?

     — Não, não está sozinho. Está com Quint, provavelmente — nesse momento eu conseguia manter um tom calmo e seguro; compreendera tudo. — O plano deles deu certo. Ele me distraiu enquanto Flora foi se encontrar com ela. E agora ele tem tempo para estar em companhia de Quint...

     — Meu Deus! — foi tudo o que a Sra. Grose conseguiu dizer, enquanto dava pequenas corridas, tentando acompanhar meu passo.

     Chegamos ao local onde eu e Flora estávamos quando tive a primeira visão daquela mulher. A Sra. Grose soltou um suspiro de alívio. Não havia ninguém ali. Podíamos avistar grande parte da outra margem do lago, e também lá tudo parecia deserto. A Sra. Grose preparou-se para retornar à casa.

     Lembrei-me do barco que às vezes usávamos para passear no lago; não estava no ancoradouro.

     — Espere, Sra. Grose. Flora atravessou o lago de barco.

     — Mas onde ela está, então? — ela retrucou, enquanto vasculhava as redondezas com o olhar.

     — Deve tê-lo escondido em algum lugar, do outro lado...

     — Sozinha? Aquela criança conseguiria?

     — Ela não está sozinha, Sra. Grose. Disso a senhora pode ter certeza.

     Recomeçamos a andar. Iríamos dar a volta no lago. Ele era muito mais comprido do que largo (assemelhava-se a um riacho) o que nos obrigaria a uma longa caminhada. No entanto, eu precisava fazê-lo, precisava evitar que alguma coisa terrível acontecesse. A picada no meio do mato era escorregadia e de difícil travessia, mas mesmo assim alcançamos o outro lado em dez minutos. Vimos, então o barco: estava intencionalmente escondido numa reentrância do barranco, embaixo de galhos de arbustos selvagens, amarrado a uma estaca de cerca que chegava até ali. Passamos por uma porteira e logo atingimos um espaço mais aberto. Então exclamamos ao mesmo tempo:

     — Olhe, Flora está ali!

     Flora estava de pé na relva, olhando para nós, sorrindo, como se sua proeza agora estivesse completa. Depois curvou-se e apanhou algumas folhas secas de samambaia, como se tivesse ido lá, com aquele tempo, só para isso. Endireitou-se e outra vez ficou a nos olhar, com o mesmo sorriso fixo nos lábios.

     Ninguém disse uma palavra; o silencio parecia esmagador. A Sra. Grose correu até a menina, ajoelhou-se na terra e abraçou-a com força. Flora deu uma olhadela rápida para mim, por sobre o ombro da minha acompanhante. Já não sorria. Pela primeira vez desde que a conheci, senti em seu rosto algo que não era infantil. Um arrepio gelado percorreu meu corpo. Flora ostentava uma expressão tão carregada que chegava a estar feia.

     A Sra. Grose levantou-se e segurou a mão da menina. Caminharam em direção a mim. Flora, então, perguntou:

     — Onde está o seu chapéu?

     — Onde está o seu ? — desafiei-a, em resposta.

     — E Miles? Onde está Miles? — ela continuou.

     Aquele seu pequeno ato de coragem levou-me ao meu limite. Suas palavras pareceram-me desafiantes como uma espada desembainhada. Então foi como se tudo o que estava há tanto tempo represado estivesse transbordando como numa enchente.

     — Eu lhe direi se você me disser — provoquei.

     — Disser o quê?

     A Sra. Grose lançou um olhar apavorado para mim, mas era tarde demais. Eu já estava falando, com a voz trêmula:

     — Eu lhe digo onde Miles está se você me disser onde está a Srta. Jessel, minha querida!

    

                   O confronto no lago

     Aquele nome nunca havia sido pronunciado entre nós. Flora encarou-me como se eu tivesse interrompido o silêncio agradável com um ruído tão brusco quanto o de uma vidraça se espatifando. Ao mesmo tempo, a Sra. Grose soltou um grito, como se tivesse sido ferida. Segurei-a pelo braço e exclamei:

     — Ela está lá! Está lá!

     A Srta. Jessel estava do outro lado do lago, exatamente no local onde eu e Flora nos encontrávamos quando a vi pela primeira vez. Estava lá, parada, e eu estava justificada! Estava lá, e portanto eu não estava sendo cruel e nem estava louca! Por mais incrível que pareça, naquele exato momento em que a vi, senti alívio e uma espécie de alegria.

     A Sra. Grose olhava, aturdida, na direção que eu apontava; pareceu-me que finalmente ela também via. Voltei-me para Flora, mas ela afetava indiferença ante aquele espetáculo. Não havia nenhum sinal de espanto ou agitação no seu rosto; tentava reprimir qualquer atitude capaz de traí-la. Nem mesmo olhava para onde a sua antiga governanta se mostrava. Em vez disso, continuava me encarando com uma gravidade imóvel; parecia que me julgava e acusava, impassível.

     — Ela está lá, criatura! Você sabe muito bem que ela está lá! — repeti, aos gritos.

     Ela sustentava a expressão de grave censura. A Sra. Grose explodiu:

     — Mas que história é essa!? Onde a senhorita está vendo alguma coisa?

     Ela estava vermelha de indignação. Agarrei seu braço outra vez e puxei-a mais para perto da água. A Srta. Jessel continuava lá, tão nítida como se estivesse viva.

     — A senhora não a vê, como nós a vemos? Não está vendo, agora? É só olhar, vamos!      Ela balançava a cabeça negativamente e tentava soltar o braço da minha mão. Seus olhos estavam selados! Ela não via, e o meu alívio começou a desintegrar-se. Olhei para a minha antecessora e quase senti o prazer com que ela presenciava a minha derrota. A Sra. Grose não via! Naquele momento, eu não estava conseguindo provar nada a ela; ela só enxergava o lago e o mato em torno. Soltou um profundo gemido que traduzia negação, repulsa e compaixão; um misto de piedade por mim e alívio por não estar vendo.

     Voltei-me para Flora. A Sra. Grose, antes que eu dissesse alguma coisa à menina, abraçou-se a ela e procurou tranqüilizá-la:

     — Ela não está lá, minha menina, e ninguém está lá e você nunca viu nada, não é? Como poderia ver? A pobre Srta. Jessel está morta e enterrada! Nós sabemos disso, não sabemos, meu amor? É tudo um mero engano... Uma bobagem, uma brincadeira de mau gosto! Vamos, vamos para casa agora!

     Flora continuava a me fitar com sua pequena máscara de desagrado. Sua incrível beleza havia desaparecido. Tinha o rosto duro e inexpressivo. Tornara-se feia e vulgar.

     — Não sei do que você está falando — disse-me, áspera e fria. — Não estou vendo nada. E nunca vi. Você está sendo má. Não gosto de você!

     Enfiou o rosto no vestido da Sra. Grose e então, com a voz abafada, gritou:

     — Leve-me embora daqui! Leve-me para longe dela!

     — De mim? — perguntei, abalada.

     — De você! Quero sair de perto de você e não quero vê-la nunca mais!

     Olhei para a Srta. Jessel, ainda do outro lado do lago, de frente para nós. Ela escutava tudo e devia regozijar-se com o resultado dessa sua aparição. Tudo desmoronava, e eu podia ser tomada por uma louca!

     — Se eu jamais tivesse tido qualquer dúvida — falei para Flora —, essa dúvida teria desaparecido hoje. Tenho vivido com esta realidade terrível, e agora vejo que estou sozinha nesta desgraça. Perdi você. Você escolheu, a comando dela, claro, a maneira de lidar com tudo isto. Fiz o que pude, mas perdi você para ela...

     Embora a Sra. Grose não tivesse visto nada, estava claramente convencida que alguma coisa terrível ocorrera e nos engolfara a todos. Afastou-se apressadamente, levando Flora pela mão.

     O que aconteceu depois não consigo recordar. Só sei que quando dei por mim vi-me deitada de bruços no chão, o rosto encostado à terra. Minhas roupas estavam úmidas e meu rosto, molhado pelas lágrimas. Devo ter ficado muito tempo ali chorando, porque já escurecia quando me levantei. Caminhei lentamente de volta para casa.

     Subi para o meu quarto e vi que as coisas de Flora haviam sido tiradas de lá. Ela se mudara; ficaria junto da Sra. Grose.

     Mais tarde fui tomar meu chá ao lado da lareira, na sala de aula. Quando a criada veio retirar a xícara e o bule, apaguei as velas e me aproximei do fogo. Sentia um frio mortal e tinha a impressão de que tal sensação jamais me abandonaria. Quando Miles entrou, encontrou-me imersa em meus pensamentos, encolhida na poltrona, mergulhada na obscuridade.

     Ele havia lutado por sua liberdade, mas, dentro dela, escolheu fazer-me companhia. Talvez não estivesse completamente perdido... Afundou-se numa cadeira e ali ficou, ao meu lado, por um longo tempo, em absoluto silêncio.

    

                   Ainda há tempo?

     Mal o dia tinha clareado, a Sra. Grose bateu à porta do meu quarto.

     — Desculpe-me acordá-la tão cedo, mas tenho que conversar com a senhorita. Não dormi a noite inteira. Flora está com uma febre muito alta; ela também mal dormiu... Está assaltada por temores...

     Sentei-me na cama.

     — Por que não me chamou antes, Sra. Grose?

     — Ela... ela está com medo da senhorita...

     — Não era da sua antiga governanta que tinha medo! Era de mim!

     — Ela continua negando que viu a Srta. Jessel? Que alguma vez a tenha visto?

     — A senhorita sabe, este não é um assunto que eu mencione a ela... — A Sra. Grose estava muito abatida. — Parece até que a pequena Flora envelheceu durante esta noite... Está transtornada... falou coisas horrorosas!...

     Flora não protestava contra a volta da Srta. Jessel à sua vida; protestava contra a minha entrada em cena! Eu é que estava interferindo, e não aquela mulher!

     — Flora não quer mais falar comigo, não é? Ontem eu senti isso, e acho que não estou enganada.

     — Sinto muito, mas concordo. Também acho que não quer. Ela me pergunta a cada três minutos se por acaso a senhorita não vai entrar no quarto. Ela tem medo, um medo horrível...

     —Ela tocou no nome da Srta. Jessel?

     — A Sra. Grose escolheu as palavras com cuidado:

     — Não, mas repetiu muitas vezes que lá no lago, além de nós três, não havia ninguém!

     — E a senhora acredita nela? A senhora concorda com ela, quando afirma tal coisa?

     — A senhorita entende, eu não posso contradizê-la! Eu tampouco vi... Sabe, eu fico quieta... O que mais posso fazer?

     — Sem dúvida nenhuma, a senhora está lidando com uma criança muito esperta... Eles tornaram-na ainda mais esperta do que era naturalmente! Agora Flora vai explorar toda esta situação. Vai levá-la até as últimas conseqüências, já que conseguiu um pretexto. — E continuei: — Com certeza vai fazer uma imagem negra de mim para seu tio...

     —Realmente, a senhorita me desculpe, mas Flora disse que não quer nem mesmo vê-la; nunca mais!

     A Sra. Grose continuava parada à minha frente. Pensei por algum tempo, procurando equacionar o problema. Finalmente, voltei-me para ela e disse:

     — A senhora veio pedir-me que deixe esta casa o mais cedo possível, não é isso? Pois bem, naquele domingo em que não fiquei para o culto, já havia pensado nessa alternativa, mas concluí que não deveria partir. E não vou fazê-lo agora. Não vou abandonar o barco. Vocês vão embora. A senhora vai levar Flora daqui. Vai levá-la para longe deles, agora que não posso mais protegê-la. Quero que as duas partam o mais depressa para Londres, para a casa do senhor de Bly.

     Ela caminhou até a janela, abriu as cortinas e as venezianas e ficou olhando para o jardim; já se despedia de Bly; Virou-se para mim:

     — E a senhorita, como fica? E Miles?

     — Acho que ainda tenho uma chance com Miles. Ficando aqui com ele, talvez consiga fazê-lo passar para o meu lado. Não sei, mas de qualquer maneira vou tentar. Flora está perdida, está até com medo de mim! É urgente que seja afastada daqui... da Srta. Jessel.

     — Se a senhorita quer assim, parto com ela ainda essa manhã.

     Parecia hesitante, como se quisesse me dizer mais alguma coisa. Quando ia saindo do quarto, lembrei-me de algo muito importante:

     — Ah, Sra. Grose, os dois não podem se encontrar nem um minuto a sós, está bem? Ainda não se encontraram, não é?

   — Não. Imaginei, mesmo, que não seria bom Miles saber o que aconteceu. Ainda mais... considerando o ódio de Flora... Mas Miles também não estava querendo se libertar da senhora? A senhora acha mesmo...

     — Sra. Grose, as únicas coisas das quais tenho certeza é que posso contar com sua ajuda e que vou tentar recuperar Miles. Ontem à noite pareceu-me que ele abriu um novo caminho... Parecia que desejava me contar alguma coisa. Ficou um longo tempo sentado ao meu lado, perto da lareira. Talvez nestes próximos dias ele fale, e então tudo ficará mais fácil.

     A Sra. Grose tinha voltado e sentado na poltrona perto da minha cama. Estava muito triste.

     — Se ainda assim a senhora não quiser ir e preferir esperar, darei um jeito para que Flora não me veja.

     — Não, não; este lugar... ela precisa deixá-lo! — Fitou-me pesadamente e deixou escapar o que até então tinha evitado dizer: — A sua solução é a melhor. Eu mesma, senhorita... não poderia ficar.

     O olhar que ela me dirigiu reanimou-me.

      — A senhora quer dizer que, afinal, viu...?

     — Ouvi — ela disse, sacudindo a cabeça com dignidade. — Ouvi horrores da boca daquela criança. Por minha honra, senhorita, as coisas que ela falou!...

     A essa lembrança, irrompeu em soluços, dando vazão a toda a sua angústia. De minha parte, também liberei minhas emoções e exclamei:

     — Graças a Deus! — Ante o olhar de perplexidade da minha interlocutora, continuei: — Isso me justifica, prova que eu tinha razão!

     — A senhorita tem razão — assentiu ela. — Foi realmente chocante. Ultrapassou qualquer limite; não posso imaginar onde ela aprendeu tudo aquilo.

     — Mas eu posso! — repliquei, exultante.

     — Bem, talvez eu também pudesse... pois ouvi anteriormente algumas daquelas coisas... Mas não posso suportá-lo.

     — A pobre mulher estava abalada: — Tenho que levá-la daqui; tenho que afastá-la daqui, afastá-la deles...

     — A senhora ainda acredita que ela possa voltar a ser uma criança normal, livre daqueles...

     — Acredito — respondeu, com lágrimas nos olhos.

     Senti que ainda podia contar com ela. No momento em que íamos nos despedir, falei-lhe:

     — Uma última coisa, Sra. Grose, antes que a senhora vá arrumar as coisas para a viagem, lembre-se de que vai encontrar o senhor de Bly já bastante alarmado. Minha carta, provavelmente, vai chegar antes da senhora.

     Ela se levantou, andou até a porta do quarto e ficou ali parada, olhando para mim, como se estivesse tomando coragem para me dizer o que sabia. Finalmente, desviou os olhos para o chão.

     — A sua carta não chegou e nem vai chegar nunca. Ela não foi enviada — falou, muito baixo.

     — Como não foi enviada? Deixei-a na mesa do saguão para Luke levá-la quando fosse para a cidade, ontem!

     — À noite perguntei a ele se a tinha levado, mas me respondeu que não tinha visto carta alguma. A senhorita vê; Miles deve tê-la pego... Miles leu a carta!

     Pensei um pouco e então, calmamente, expliquei:

     — A carta era só um pedido para que o senhor de Bly viesse aqui a fim de que pudéssemos conversar... Miles deve estar arrependido, e talvez fosse isso o que tivesse para me dizer ontem à noite... Sim, se ele confessar, será uma porta aberta para seguirmos um outro caminho. Ah, Sra. Grose, ele ainda tem chance de ser salvo, se confiar em mim!

     A Sra. Grose balançou a cabeça, concordando. Depois sorriu, deu-me um forte abraço e saiu do quarto. Aquela foi a última vez que a vi.

      

                   Fecha-se o cerco

     Demorei ainda bastante para me levantar, arrumar-me e descer; a carruagem que levava a Sra. Grose e Flora para Londres já tinha partido. Soube que Miles havia tomado o café da manhã com elas e saíra para dar uma volta. Eu me encontrava sozinha com os empregados.

     Tinha muito o que fazer. Devia tomar todas as providências domésticas das quais normalmente a Sra. Grose se incumbia. Passei a manhã num vaivém pela casa, e Miles não apareceu sequer para perguntar se teríamos nossas aulas habituais. O cerco se fechava; eu me sentia como se estivesse presa por um parafuso apertado demais — mais uma volta e eu sufocaria.

     O nosso relacionamento estava sofrendo uma mudança violenta, e eu não conseguia ter o menor controle sobre a situação. Bastava, como exemplo, o fato de o menino ter me enganado tão completamente, entretendo-me com o seu piano, para poder proporcionar a Flora aquele encontro. Agora estava deixando evidente que, para ele, era um absurdo prolongar a ilusão de que eu ainda tinha alguma coisa para lhe ensinar. Simplesmente saiu a manhã inteira. Mostrava-me que havia tomado posse da sua liberdade e que eu não teria mais direito a interferir nela.

     Naquele dia almoçaríamos só os dois na enorme mesa da sala de jantar, de onde, naquele terrível domingo, eu tinha visto Quint espiando pelas vidraças. Eu precisaria de muita força de vontade e firmeza para que ele não percebesse o quanto eu estava abalada pelos últimos acontecimentos. Como não fazer nenhuma alusão ao que tinha acontecido? Ao mesmo tempo, como falar sobre aquilo sem um mergulho na terrível realidade, de que estávamos lidando com o obscuro e o antinatural?

     Mas o próprio Miles me facilitou o caminho. Quando já estávamos nos servindo, perguntou:

     — Ela está muito doente? É muito grave?

     — Flora? Não, não tão grave que demore para sarar. Bly já não estava lhe fazendo bem. Em Londres ela ficará boa logo.

     Depois de se servir, Miles sentou-se em seu lugar e então continuou:

     — Mas Bly parou de lhe fazer bem assim tão de repente?

     — Não, meu querido. Isso é uma coisa que já vinha ocorrendo há algum tempo.

     — Então por que você não a mandou para Londres quando ela ainda não estava doente demais para viajar?

     — Ela não está doente demais para viajar. Ficaria, se não partisse agora. Ela foi na hora certa.

     — Sei, sei — e ficou silencioso até o fim da refeição.

     Depois que o almoço estava terminado e mandei a criada retirar os pratos, Miles se levantou e deteve-se a olhar pela janela, com as mãos nos bolsos. Ficamos mais um tempo sem falar nada; então ele se virou para mim:

     — Bem, enfim sós!

     Eu já me sentara com algumas roupas para consertar. Dentro do possível, não o deixaria sozinho ali.

     — Mais ou menos, não é, querido? — senti que estava embaraçado. — Não absolutamente sozinhos... nem nós gostaríamos de estar...

     — É, acho que não. Temos os outros...

     — Sim, de fato, temos os outros — repeti, sem saber direito a que outros ele estava se referindo.

     — Mesmo tendo os outros — ele ainda conservava as mãos nos bolsos, de frente para mim —, eles não contam muito, não é?

       — Depende do que você quer dizer... — respondi.

     — Tudo depende! — ele comentou e virou-se outra vez para a janela. Encostou a testa no vidro.

     Lembrei-me de outras vezes em que eu ficava fazendo algum trabalho manual, com as crianças à vista, e percebia que elas compartilhavam algo a que eu não tinha acesso.

     Observei Miles, ele continuava em frente à janela, dando a impressão de que procurava alguma coisa lá fora. Parecia impaciente, agitado. Tive então a sensação de que agora era ele quem não encontrava acesso. Senti um laivo de esperança. Será que ele já não conseguia ver? Talvez ele estivesse percebendo essa sua incapacidade. Procurava controlar-se, mas traía sua ansiedade. Finalmente, virou-se para mim e disse:

     — Que bom que Bly me faz bem!

     — Você gosta muito daqui, não é, Miles?

     — E você, gosta? — Antes que eu pudesse responder, ele continuou: — É ótimo o jeito que você conduz as coisas... Sabe, se nós dois estamos sozinhos aqui, é você que está mais sozinha, não é? E não parece estar aborrecida!

     — De ficar só com você? Claro que não! Mesmo que eu tenha concordado em renunciar à minha autoridade sobre você, gosto muito da sua companhia, Miles querido! Senão, por que continuaria aqui?

     — Você ficou só por isso?

     — Claro! Fiquei como sua amiga. Isso não devia surpreendê-lo — minha voz tremia. — Você não se lembra daquele dia da tempestade, quando eu lhe disse que gostaria de ajudá-lo? Não existia nada no mundo que não fizesse por você naquele momento, Miles!

     — Eu sei, eu sei. — Ele estava visivelmente nervoso, mas disfarçava melhor do que eu, pois riu e continuou: — Só que seria para conseguir que eu fizesse algo para você.

     — É, pode ser — concedi. — Mas você não fez.

     — Você queria que eu lhe contasse uma coisa, não é? foi por isso que você ficou em Bly agora, não foi?

     Ele estava se rendendo! Quem sabe, agora, o parafuso se soltasse um pouco...

     — Foi, querido, foi por isso.

     — Mas você quer que eu lhe conte agora?

     — Não poderia haver um lugar nem uma hora melhor — eu o encorajei.

     — É que eu preciso ir lá fora! — disse, enquanto pegava seu chapéu e ficava dando passinhos no mesmo lugar, muito aflito.

     Eu sentia que o momento estava chegando, mas era um momento muito difícil. Havia uma espécie de violência no que eu estava fazendo. Afinal, estava forçando a idéia de erro e culpa numa criatura que era tão delicada e tinha tanto afeto para dar... Nossos olhos brilhavam com a previsão da angústia que a conversa a ser travada iria provocar.

      — Bom, eu vou contar tudo o que você quiser — ele disse, finalmente. — Você fica comigo e nós vamos nos dar bem, outra vez. Conto tudo. Mas não agora.

     — Por que não agora? — insisti.

     Outra vez ele foi para a janela. O silêncio era tal que teríamos ouvido o barulho de um alfinete caindo. Então, Mile virou-se:

     — Tenho que ir me encontrar com Luke.

     — Está bem — concordei, sabendo que era mentira. — Mas estou esperando que você cumpra sua promessa. Mas antes de sair, só me diga uma coisa, uma pequena...

     — Só uma coisinha?

     — É. Só um pedacinho de tudo o que você tem para me contar. Diga-me se ontem à tarde você pegou, da mesa do saguão, a minha carta para o seu tio.

    

                   A outra volta do parafuso

     Miles teve um choque ao ouvir o que eu lhe perguntara e eu, num impulso de ternura, puxei-o para mim e o abracei. Porém, levei um choque maior: por cima do seu ombro vi Quint parado, do lado de fora, observando-nos através da janela. Instintivamente, procurei manter o menino de costas para aquela visão. Era como estar lutando contra um demônio por uma alma humana. Mas eu iria lutar, sim, e iria vencer.

     Encostei meu rosto na testa de Miles e senti que ele estava suando. Segurando-o pelos dois bracinhos, afastei-o um pouco de mim. Estava tão branco como o rosto que eu via próximo à vidraça. Então ele disse, baixinho:

     — Sim, eu peguei.

     Abracei-o de novo. Ardia em febre e seu coraçãozinho batia apressadamente. Aquilo estava sendo muito difícil para ele, mas eu tive a certeza de que, se continuássemos e ele me contasse tudo acabaria por se unir a mim, e eu conseguiria salvá-lo daquela influência demoníaca para sempre.

     Olhei para a janela e vi a "coisa" se mover e mudar de posição, como uma fera impedida de alcançar sua presa, mas continuava fixando-nos com o olhar.

     — Por que você pegou a carta, Miles? — perguntei, relaxando um pouco o abraço e olhando para o seu rosto.

     — Para saber o que você dizia de mim.

     Ao olhar novamente para a janela, constatei que Quint não estava mais lá. A sua ausência era para mim como o começo da minha vitória.

     — E o que você fez com a carta? Não dizia nada de você, não é mesmo?

     — Eu queimei a carta — ele falou, muito baixo.

     Miles, era isso que você fazia na escola? Pegava coisas dos outros? — perguntei com muito carinho, para que ele não fugisse de mim naquele momento.

     — Você está perguntando se eu roubava!

     Fiquei vermelha até a raiz dos cabelos. A indignação do menino mostrou-me o quanto a pergunta era absurda.

     — Pensei que talvez fosse por isso que tivesse sido mandado embora — tentei me desculpar.

     — Você sabia que eu tinha sido mandado embora? — perguntou, com um tom de melancólica surpresa.

     — Eu sei tudo...

     — Tudo? — e me lançou um olhar muito estranho. — Não, mas roubar eu nunca roubei!

     Passei a mão pela sua testa para enxugar aquele estranho suor. Acariciei seu cabelo, enquanto continuava:

     — Mas, então, meu querido, o que você fez?

     Bem, eu... eu dizia umas coisas... — respondeu, respirando com alguma dificuldade.

     — Dizia coisas? Que coisas? E só por isso não querem que você volte para a escola?

     — É... eles acreditam que isso é motivo suficiente. Acho que eram coisas que eu não devia dizer... — e quase sorriu para mim, mostrando que estava realmente disposto a revelar toda a verdade.

     Virou-se e olhou para fora. Não havia nada que ele pudesse ver. Mas parecia ansioso, e quando o toquei outra vez para aproximá-lo de mim, notei que estava trêmulo.

     — Devo ter dito coisas muito feias, não sei. E contaram aos professores e ao diretor.

     — Mas ele não escreveu o que você tinha feito, Miles. Por isso é que estou perguntando... Que coisas foram essas que você disse?

     Provavelmente ele repetira coisas que aprendera no convívio com Quint e a Srta. Jessel; só poderiam ser coisas indecentes... De repente, percebi um movimento lá fora e olhei para a janela, ali estava outra vez o causador de toda esta tormenta, como que esperando a resposta que o menino iria dar... Num impulso de ódio e medo de ser derrotada por ele, gritei:

     — Vá embora! Saia daqui e não volte mais! Nunca mais!

     Miles seguiu o meu olhar e balbuciou:

     — Ela está aqui?

     Confundi-me com a sua pergunta; estranhei que ele dissesse "ela" e repeti-o, num eco. Isso fez com que ele gritasse, com fúria:

     — A Srta. Jessel! Ela está aqui?

     Deduzi o que ele estava supondo: aquela presença que ele não via só podia estar procurando por Flora, numa seqüência dos fatos do dia anterior.

     — Não, Miles querido. É aquele covarde, visitando-nos pela última vez!

     Ele respirou com dificuldade, sorvendo o ar em pequenas quantidades, como um cão que procurasse farejar alguma coisa. Depois olhou para o teto, em torno de si e outra vez para a janela.

     — É ele? — perguntou.

     — A quem você está se referindo, Miles? — desafiei-o, procurando obter todas as provas.

     — Peter Quint! Seu demônio! — Percorreu o aposento com o olhar e suplicou: — Onde?

     Finalmente ele se rendia por inteiro e falava o nome daquele monstro! Ele se submetia a mim, entregava-me o seu segredo, entregava-se ao meu afeto e à minha proteção!

     — Ele não importa mais! Agora eu tenho você, agora você é meu, e ele o perdeu para sempre! Podemos esquecê-lo, Miles! — E gritei, como para completar minha obra: — Ali, ali!

     Peter Quint tinha desaparecido outra vez. Miles virou-se para a janela e só viu o dia quieto e cinzento. Soltou um grito agudo, e eu o abracei com a força com que o teria agarrado para impedir que caísse num abismo.

     Peguei-o e apertei-o nos meus braços com paixão. Mas no fim de um minuto comecei a sentir o mais profundo terror que jamais pude imaginar sentir. Eu estava abraçando, de encontro ao meu peito, um corpo sem vida: o coração de Miles havia parado.

 

                                                                                Henry James  

 

                      

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