Sites Grátis no Comunidades.net
Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS INVASORES DE CORPOS / Jack Finney
OS INVASORES DE CORPOS / Jack Finney

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS INVASORES DE CORPOS

 

Corpos são encontrados em porões... apenas são corpos estranhos, como se fossem cópias inacabadas, que nem mesmo possuem impressões digitais.

Seria simplesmente uma ilusão coletiva?

É o que o Dr. Miles Bennell tenta desesperadamente descobrir. Sente, mais do que sabe, que é uma questão de vida ou morte, para si mesmo, para Becky Driscoll, a antiga namorada dos tempos de colégio que ele volta a encontrar agora.

De repente, ambos se descobrem cercados e acuados numa cidade estranha, por pessoas estranhas... a mesma cidade em que nasceram e viveram, as mesmas pessoas que conheceram desde a infância, seus parentes, amigos e vizinhos...

 

 

       Devo avisar que a história que está começando a ler tem muitos pontos indefinidos e perguntas sem respostas. Não estará perfeitamente rematada ao final, com tudo resolvido e satisfatoriamente explicado. Ou pelo menos não por mim. Porque não posso dizer que sei exatamente o que aconteceu, por que, como começou ou como terminou... se é que já terminou. E estive bem no centro dos acontecimentos. Se não gostam desse tipo de história, sinto muito. É melhor não lerem. Tudo o que posso fazer é contar o que sei.

       Para mim, tudo começou por volta das seis horas da tarde de uma quinta-feira, 28 de outubro de 1976, quando acompanhei meu último paciente, um caso de torção do polegar, até a porta lateral do consultório, com o pressentimento de que meu dia ainda não terminara. Desejei não ser um médico, porque esse tipo de pressentimento sempre se confirma no meu caso. Certa vez, saí de férias convencido de que voltaria um ou dois dias depois. E não deu outra coisa: irrompeu uma epidemia de sarampo e tive de voltar às pressas. Já fui deitar-me cambaleando de cansaço, sabendo que estaria de pé duas horas depois, para atender a um chamado domiciliar. Foi o que aconteceu, como já ocorrera muitas vezes antes e certamente voltará a acontecer. Ainda atendo a chamados domiciliares, assim como muitos outros.

       Voltei para a minha mesa, acrescentei uma anotação à ficha do paciente, depois peguei o medicinal conhaque, fui ao banheiro e preparei um drinque, algo que quase nunca fazia. Mas fiz naquela noite. Parado à janela, atrás da mesa, olhando para a Rua Throckmorton, tomei um gole. Tivera de fazer uma apendicectomia de emergência e não almoçara. Por isso, sentia-me bastante irritado. Ainda não estava acostumado a imprevistos e desejava ter alguma coisa com que me divertir naquela noite, para variar.

       Assim, quando ouvi baterem de leve na porta externa da sala de espera, que se encontrava trancada, simplesmente continuei onde estava, imóvel, na esperança de que a pessoa, quem quer que fosse, decidisse ir embora. Em qualquer outro ramo de atividade pode-se fazer isso, mas não no meu. Minha enfermeira já tinha ido, provavelmente saindo correndo com o último paciente pela escada abaixo e ganhando fácil. Com um pé em cima de uma cadeira, tomei um gole do drinque, olhando para a rua e fingindo que não iria atender, enquanto a suave batida se repetia. Ainda não estava escuro e não ficaria por algum tempo mas também já não era mais a plena luz do dia. Os lampiões já estavam acesos e a Rua Throckmorton achava-se deserta. Por volta das seis horas da tarde, todo mundo na cidade está em casa jantando. Eu me sentia solitário e deprimido.

       Então, a batida soou novamente, e eu larguei o drinque em cima da mesa. Fui à outra sala, destranquei a porta e abri-a. Acho que pisquei aturdido algumas vezes, a boca entreaberta numa expressão idiota. Porque era Becky Driscoll quem estava parada ali à minha frente.

       — Olá, Miles. — Ela sorriu, satisfeita com a surpresa e o prazer estampados na minha cara.

       — Becky, que prazer vê-la de novo! — murmurei, dando um passo para o lado a fim de deixá-la passar. — Vamos, entre!

       Sorri, e Becky passou por mim, atravessando a sala de espera e entrando em meu gabinete. Fechei a porta e fui atrás dela.

       — O que é isso? Uma visita profissional? — Fiquei tão aliviado e satisfeito que me tornei excitado e exuberante, acrescentando na maior felicidade: — Temos uma oferta especial de apendicectomia esta semana. Um negócio de primeira!

       Becky virou-se e sorriu para mim. Ainda tinha um corpo espetacular. Era um esqueleto maravilhosamente revestido de carne. Tenho ouvido mulheres comentarem que ela é muito larga nos quadris, mas jamais escutei um homem reclamar. Ela parou junto à minha mesa e virou-se para responder à pergunta:

       — Não, não se trata exatamente de uma visita profissional.

       Peguei o copo e levantei-o para a luz.

       — Bebo invariavelmente cada dia, como todo mundo sabe. Especialmente nos dias de operação. E cada paciente tem de tomar um copo comigo... vai aceitar?

       O copo quase escorregou entre os meus dedos, porque Becky soluçou, um ruído seco, subindo do fundo da garganta, aspirando o ar convulsivamente. Lágrimas súbitas transbordaram de seus olhos e ela virou-se rapidamente, os ombros se arqueando, as mãos subindo ao rosto.

       — Bem que estou precisando... — Becky mal conseguia falar.

       Depois de um segundo, murmurei gentilmente:

       — Sente-se...

       Becky afundou na cadeira de couro diante da mesa. Fui para o banheiro, preparei outro drinque, sem qualquer pressa, voltei e deixei o copo diante dela, sobre o tampo de vidro da mesa.

       Depois, contornei a mesa e sentei de frente para Becky, recostando-me na cadeira giratória. Quando levantou os olhos, simplesmente acenei com a cabeça para o copo, sugerindo que bebesse. Tomei um gole, sorrindo-lhe por cima do copo, dando a Becky alguns momentos para que recuperasse o controle. Pela primeira vez, podia realmente contemplar-lhe o rosto de novo. Era o mesmo rosto bonito, os ossos proeminentes e bem modulados sob a pele; os mesmos olhos suaves e inteligentes, um pouco vermelhos agora, a mesma boca cheia e atraente. Os cabelos estavam diferentes, mais curtos ou algo assim, mas continuavam a ser do mesmo castanho lustroso, quase pretos, parecendo naturalmente ondulados, embora pudesse recordar-me de que não era esse o caso. Becky mudara, é claro. Não tinha agora os seus 18 anos, havendo avançado bastante pela casa dos 20, o que transparecia em sua aparência. Mas ainda era a mesma mulher, ou garota, que eu conhecera na escola secundária, com quem saíra umas poucas vezes no último ano.

       — É um prazer vê-la novamente, Becky. — Ergui o copo numa saudação, sorrindo. Depois, tomei um gole, baixando os olhos. Queria levá-la a falar sobre alguma outra coisa, antes de entrar no problema que a levara ao meu consultório, qualquer que fosse.

       — É muito bom vê-lo de novo, Miles. — Becky respirou fundo e recostou-se, o copo na mão. Sabia o que eu estava querendo fazer e concordava. — Está lembrado de uma ocasião em que foi buscar-me? Íamos a uma festa e você tinha escrito umas coisas na testa.

       Eu me lembrava perfeitamente, mas alteei as sobrancelhas numa expressão inquisitiva.

       — Tinha escrito M.B. ama B.D. na testa, em tinta vermelha, batom ou qualquer outra coisa. Disse que iria ficar assim a noite inteira. Tive de brigar muito até que concordasse em limpar a testa.

       Sorri ternamente.

       — Isso mesmo, estou-me lembrando... — Recordei nesse momento de outra coisa. — Becky, soube do seu divórcio, é claro. E lamento muito.

       Ela assentiu.

       — Obrigada, Miles. E soube também do seu. E também lamento muito.

       — Creio que somos agora irmãos da seita — falei, dando de ombros.

       — Isso mesmo. — Becky fez uma breve pausa, antes de encerrar as amenidades. — Miles, vim até aqui por causa de Wilma. — Referia-se a sua prima.

       — Qual é o problema?

       — Não sei. — A moça olhou para o copo por um momento, depois tornou a me fitar. — Ela tem... — Hesitou. O que é natural, porque as pessoas detestam dar nomes a essas coisas. — Creio que é o que se costuma chamar de uma ilusão. Conhece o tio dela... o Tio Ira?

       — Conheço.

       — Miles, Wilma está pensando que ele não é realmente o seu tio.

       — Como assim? — Tomei outro gole. — Ela pensa que não são realmente parentes?

       — Não, não é isso. — Becky sacudiu a cabeça, impaciente-mente. — O que estou querendo dizer é que ela pensa que o tio é... — um ombro de Becky se alteou num gesto de perplexidade — ... um impostor ou algo parecido. Alguém que somente se parece com Ira.

       Olhei para Becky, aturdido. Não estava entendendo. Wilma fora criada pelos tios.

       — Ela não pode reconhecer a diferença?

       — Não. Wilma diz que ele se parece exatamente com o Tio Ira, fala exatamente igual, age exatamente igual. Em suma, é igual em tudo. Mas ela simplesmente sabe que não é Ira. Estou terrivelmente preocupada, Miles. — As lágrimas afloraram novamente aos olhos de Becky.

       — Tome o drinque — murmurei, indicando com a cabeça o copo em cima da mesa.

       Tomei um gole grande do meu e recostei-me na cadeira olhando para o teto, pensando no caso. Wilma tinha os seus problemas, mas era inteligente, a mente forte, com cerca de 35 anos de idade. Era baixa, as faces vermelhas, gorduchas, a aparência não chegava a ser das mais atraentes. Jamais se casara, o que é sempre lamentável. Tenho certeza de que Wilma gostaria do casamento e daria uma excelente esposa e mãe. Mas agora a possibilidade já passara. Dirigia a biblioteca local de livros de aluguel e a loja de cartões de felicitações, realizando um bom trabalho. Pelo menos conseguia ganhar a vida assim, o que não é muito fácil numa cidade pequena. Wilma não se tornara azeda ou amargurada. Possuía uma mente astuta, céptica e bem-humorada. Sabia o que era o que, e não se enganava facilmente. Não podia imaginar Wilma a se deixar dominar por distúrbios mentais. Mas, afinal, nunca se sabe o que pode acontecer. Olhei novamente para Becky.

       — O que está querendo que eu faça?

       — Que vá até lá esta noite, Miles. — Becky se inclinou para a frente, sobre a mesa, com uma expressão suplicante. — Agora mesmo, se puder, antes de escurecer. Quero que dê uma olhada em Tio Ira, converse com ele. Afinal, conhece-o há anos.

       Meu copo estava no ar, a meio caminho da boca, mas tornei a pousá-lo na mesa, olhando para Becky, aturdido.

       — Como assim? De que está falando, Becky? Por acaso também pensa que não é Ira?

       Ela ficou vermelha.

       — Claro que não! — Subitamente, Becky estava mordendo os lábios, sacudindo a cabeça de um lado para outro, atarantada. — Oh, Miles, não sei, não sei! Claro que ele é o Tio Ira. Claro que é, mas... o problema é que Wilma parece ter certeza absoluta! — Retorceu as mãos nervosamente, um gesto que a gente está sempre lendo nos livros, mas raramente vê na vida real. — Miles, não sei o que está acontecendo por lá!

       Levantei-me e contornei a mesa, indo postar-me ao lado dela. E disse gentilmente:

       — Pois vamos descobrir. Fique tranqüila, Becky. — Pus a mão no ombro dela, a fim de confortá-la. Sob o vestido fino, o ombro era firme, arredondado e quente. Apressei-me em tirar a mão. — O que quer que esteja acontecendo, há uma causa. E vamos descobri-la e dar um jeito em tudo. Vamos embora.

       Virei-me, abri a porta do armário embutido ao lado da mesa e senti-me um idiota rematado. Porque o casaco que pretendia pegar estava no lugar em que sempre o deixava, pendurado nos ombros de Fred. Devo esclarecer que Fred é um esqueleto muito bem polido, completamente articulado, que guardo no armário embutido, juntamente com outro esqueleto, menor, feminino. Não posso mantê-los à vista no consultório, pois isso deixaria os clientes assustados. Era um presente de Natal de meu pai, no meu primeiro período na faculdade de Medicina. É claro que são muito úteis para um estudante de Medicina, mas creio que o verdadeiro motivo de meu pai para dá-los foi o fato de poder entregá-los numa caixa imensa, de dois metros de comprimento, envolta em papel de seda. Não tenho a menor idéia de onde ele conseguiu arrumar uma caixa tão grande. Como falei, Fred e sua companheira sempre ficam no armário embutido e, por isso, nada mais natural que eu pendure meu casaco nos ombros dele. Minha enfermeira acha que é uma extravagância. Naquele momento, aquilo arrancou um pequeno sorriso de Becky. Dei de ombros, peguei o casaco e fechei a porta.

       — Às vezes penso que sou palhaço demais. Não demora muito e as pessoas não irão confiar em mim nem para receitar uma aspirina para resfriado.

       Liguei para o serviço de recados telefônicos, comuniquei para onde ia e deixamos o consultório para ir dar uma olhada no Tio Ira.

       Apenas para não deixar nada por informar: meu nome completo é Miles Boise Bennell, tenho 28 anos e estou exercendo a Medicina em Mill Valley, Califórnia, há pouco mais de um ano. Antes disso, fui interno e cursei a Faculdade de Medicina de Stanford. Nasci e fui criado em Mill Valley e meu pai foi médico na cidade antes de mim. E dos bons, diga-se de passagem. Assim, não tive maiores dificuldades em conseguir clientes.

       Tenho l,82m de altura, peso 76 quilos, possuo olhos azuis, cabelos pretos, relativamente ondulados, abundantes, embora já se possam notar débeis indícios de um princípio de calvície no alto da cabeça. O que é um problema de família. Não me preocupo com isso. De qualquer forma, não há nada que se possa fazer para evitar, embora muitos pensem que os médicos são capazes de encontrar uma solução. Jogo tênis sempre que posso, e por isso estou sempre razoavelmente bronzeado. Havia-me divorciado há cinco meses e, na ocasião, vivia sozinho numa casa grande, antiquada, de madeira e alvenaria, com muitas árvores imensas e terrenos gramados ao redor. Era a casa de meus pais antes de morrerem, e agora é minha. E isso é praticamente tudo o que tenho a dizer a meu respeito. Tenho uma Mercedes 1973, de dois lugares, um lindo carrinho vermelho, comprado em segunda mão, para manter a ilusão popular de que todos os médicos são ricos.

       Fomos até Strawberry, uma área suburbana ainda não urbanizada, logo além dos limites da cidade. Depois, entramos na Ricardo Road, uma rua larga e sinuosa. Encontramos Tio Ira no gramado da frente de sua casa. Levantou a cabeça quando diminuímos a velocidade e encostamos no meio-fio. Sorriu.

       — Boa noite, Becky. Oi, Miles.

       Respondemos ao cumprimento com um aceno. Saltamos do carro. Becky subiu pelo caminho da casa, falando jovialmente com Tio Ira na passagem. Atravessei o gramado na direção dele, descontraidamente, as mãos nos bolsos, querendo dar a impressão de que estava simplesmente fazendo um pouco de hora.

       — Boa noite, Sr. Lentz.

       — Como vão os negócios, Miles? Matou muitos hoje? — Ira sorriu, como se aquela fosse uma piada nova.

       — Dentro dos limites. — Sorri também, parando ao lado dele. Aquela era a rotina habitual entre nós, sempre que nos encontrávamos pela cidade. E agora eu estava parado ali, fitando-o nos olhos, o rosto dele a menos de meio metro do meu.

       Era um dia agradável, a temperatura devia andar por volta dos 18.° C, e a claridade ainda era suficiente para se ver tudo perfeitamente. Não sei exatamente o que eu imaginava que poderia encontrar, mas é claro que era o Tio Ira, o mesmo Sr. Lentz que eu conhecia desde garoto, quando todas as noites ia entregar o jornal vespertino no banco. Naquele tempo, ele era o chefe dos caixas — está aposentado agora — e sempre insistia comigo para que depositasse no banco os lucros fabulosos que obtinha com a entrega dos jornais. Agora, Ira continuava a parecer o mesmo homem, apenas 15 anos mais velho e com cabelos brancos. É grandalhão, beirando o l,90m de altura, o porte agora um pouco trôpego, mas ainda um velho simpático, vigoroso, de olhos espertos. E aquele era o próprio, ninguém mais, parado ali no gramado, ao final da tarde. Comecei a me sentir preocupado com Wilma.

       Conversamos durante algum tempo sobre assuntos inconseqüentes — política local, o tempo, negócios — e examinei atentamente cada ruga e poro do seu rosto, prestando atenção a todas as tonalidades e inflexões da voz, alerta a cada movimento e gesto. Mas não é realmente possível fazer duas coisas ao mesmo tempo, e ele acabou percebendo.

       — Está preocupado ou algo assim, Miles? Parece um pouco distraído esta noite.

       Sorri e dei de ombros. — Acho que simplesmente estou levando para casa os problemas do consultório.

       — Não deve fazer isso, rapaz. É algo que jamais fiz. Esquecia tudo sobre o banco no momento em que punha o chapéu, à noite. É claro que, dessa maneira, torna-se impossível chegar a presidente do banco. — E sorriu, antes de acrescentar: — Mas o presidente está agora morto e eu continuo vivo.

       Era mesmo o Tio Ira, em todos os cabelos, cada linha do rosto, cada palavra, movimento e pensamento. Senti-me como um tolo imperdoável. Becky e Wilma saíram da casa e sentaram no balanço da varanda. Acenei para elas e fui até a casa.

      

       Wilma continuou sentada no balanço, ao lado de Becky, à espera e sorrindo jovialmente, até que cheguei à varanda, quando me disse baixinho:

       — Fico contente que tenha vindo, Miles.

       — Olá, Wilma. É um prazer vê-la de novo.

       Sentei, de frente para as duas, na grade da larga varanda, encostado na pilastra. Wilma observou-me com uma expressão inquisitiva, depois olhou para o tio, que estava outra vez passeando pelo gramado.

       — E então? — murmurou ela.

       Olhei também para Ira, depois para Wilma. E assenti.

       — É ele mesmo, Wilma. Não tenho a menor dúvida de que é o seu tio.

       Ela sacudiu a cabeça, como se estivesse esperando exatamente essa resposta.

       — Não é, não — murmurou. Falou calmamente, não em tom de discussão, apenas afirmando um fato incontestável. Encostei a cabeça na pilastra.

       — Vamos analisar a coisa com calma. Afinal, dificilmente você poderia enganar-se, pois vive há anos com ele. Como sabe que não é o Tio Ira, Wilma? Qual é a diferença?

       Por um momento, a voz dela se alteou, estridente, em pânico.

       — É justamente esse o problema! — Mas ela se controlou prontamente, inclinando-se em minha direção. — Miles, não há diferença alguma que se possa perceber. Fiquei esperando que você pudesse descobrir alguma, quando Becky me disse que vinha até aqui. Mas é claro que não pode, porque não há coisa alguma que se possa perceber assim. Olhe só para ele!

       Todos olhamos novamente para o gramado. Tio Ira estava indolentemente chutando com o lado do pé uma erva daninha, uma pedrinha ou qualquer outra coisa no gramado.

       — Todos os movimentos, por menores que sejam, tudo nele é exatamente como Ira. — Ela ainda estava com as faces vermelhas, o rosto redondo como um círculo, mas apresentava agora rugas de ansiedade. Fitava-me fixamente, com uma estranha intensidade nos olhos. — Estava aguardando o dia de hoje, Miles.

       Esperando até que ele cortasse o cabelo, o que finalmente aconteceu. — Novamente se inclinou para mim, os olhos arregalados, a voz pouco mais do que um sussurro. — Há uma pequena cicatriz na nuca de Ira. Ele teve um furúnculo ali e foi seu pai quem o lancetou. Não se pode ver a cicatriz quando ele está com o cabelo comprido. Mas dá para se perceber quando o corta. Pois hoje... eu estava esperando justamente por isso!... hoje ele cortou o cabelo...

     Foi a minha vez de me inclinar para a frente, subitamente excitado.

       — E a cicatriz havia desaparecido? Está querendo dizer...

       — Não! — exclamou Wilma, quase indignada, os olhos faiscando. — A cicatriz está no mesmo lugar... exatamente como a de Tio Ira!

       Não respondi por um momento. Fitando a ponta do sapato, não me atrevi a olhar para Becky e muito menos para a pobre da Wilma. Depois, levantei a cabeça, mirei-a nos olhos e disse:

       — Então, Wilma, ele é mesmo o seu Tio Ira. Será que não pode entender isso? Não importa como se sente, ele é...

       Ela sacudiu a cabeça, recostando-se no balanço.

       — Não é, não.

       Fiquei embatucado, meio atordoado. E só me ocorreu uma coisa para dizer:

       — Onde está a sua Tia Aleda?

       — Não se preocupe. Ela está lá em cima. Só precisamos tomar cuidado para ele não ouvir.

       Fiquei mastigando o lábio, tentando pensar. Demorei um pouco para indagar:

       — E os hábitos dele, Wilma? Os pequenos maneirismos?

       — Tudo como o Tio Ira. Exatamente.

       Claro que isso não deveria ter acontecido, mas a verdade é que, por um instante, perdi a paciência.

       — Então, qual é a diferença? Se não existe nenhuma, como pode dizer... — Controlei-me prontamente e fiz um esforço para ser construtivo. — E o que me diz das recordações, Wilma? Deve fazer pequenas coisas que somente o seu Tio Ira saberia.

       Dando impulso com os pés no chão, ela começou a movimentar o balanço lentamente, olhando para o Tio Ira, que naquele momento estava contemplando uma árvore, como a imaginar se não precisava ser aparada.

       — Também já testei por esse lado — murmurou Wilma. — Conversei com ele sobre o tempo em que eu era criança. — Ela suspirou, tentando em vão fazer-me compreender e sabendo que era inútil. — Certa vez, há muitos anos, Tio Ira me levou a uma loja de ferragens. Havia no balcão uma porta em miniatura, assentada numa estrutura, creio que uma propaganda de alguma marca de fechadura. Tinha pequenas dobradiças, maçaneta em miniatura, se bem me lembro até mesmo uma pequena aldrava. Como não podia deixar de acontecer, eu quis levar a porta e armei a maior confusão quando descobri que não podia. Ele se lembra disso. E com todos os detalhes. O que eu falei, o que disse o homem da loja, as explicações que ele deu. Recorda-se até do nome da loja, que já fechou há anos. Ele se lembra inclusive de coisas que eu tinha esquecido inteiramente, como uma nuvem que vimos numa tarde de sábado, quando foi buscar-me no cinema, depois da matinê. Tinha o formato de um coelho. Ele se lembra perfeitamente... de tudo. Exatamente como o Tio Ira se teria lembrado.

       Sou um clínico geral, não um psiquiatra. Aquele caso estava além dos meus conhecimentos e eu sabia disso. Por um longo momento, fiquei olhando para os meus dedos entrelaçados e as costas das mãos, escutando o rangido do balanço.

       E depois fiz mais uma tentativa, falando calmamente, de modo tão persuasivo quanto era capaz, lembrando que não podia arrasar com Wilma e que o cérebro dela, não importando o que pudesse ter acontecido, era dos melhores que eu conhecia.

       — Escute, Wilma, estou do seu lado. Meu ofício é ajudar pessoas que estão com problemas. E este é um problema que precisa ser resolvido. Você sabe disso tanto quanto eu. Vou encontrar um meio qualquer de ajudá-la. E agora quero que preste atenção ao que vou dizer. Não espero nem lhe peço que de repente concorde que tudo foi um engano, que no final das contas é mesmo o Tio Ira quem está ali e não pode imaginar o que aconteceu com você mesma. Ou seja, não espero que pare de sentir emocionalmente que aquele não é o seu tio. Mas quero que compreenda que é o seu tio, não importa o que você possa sentir. E quero que entenda também que o problema está dentro de você. É absolutamente impossível duas pessoas parecerem exatamente iguais, não importa o que você tenha lido em histórias ou visto em filmes. Até mesmo gêmeos idênticos podem ser sempre distinguidos, mas sempre mesmo, por aqueles que os conhecem intimamente. Ninguém poderia, em hipótese alguma, assumir o papel do seu Tio Ira por mais de um momento sem que você, Becky ou mesmo eu percebêssemos um milhão de diferenças. Quero que compreenda isso, Wilma. Pense a respeito, deixe que tal conclusão entre em sua cabeça e passará a saber que o problema está dentro de você. E depois poderemos começar a fazer alguma coisa para remediar a situação.

       Recostei-me novamente na pilastra da varanda, depois de disparar minha carga, esperando uma resposta.

       Ainda balançando calmamente, os pés tocando no chão ritmadamente, Wilma ficou em silêncio por algum tempo, pensando no que eu acabara de falar. Depois, os olhos se afastando distraidamente pela varanda, ela contraiu os lábios e sacudiu lentamente a cabeça, dizendo que não.

       — Escute, por favor, Wilma! — falei com veemência, inclinando-me para a frente e fitando-a nos olhos. — Sua Tia Aleda saberia! Será que não pode entender isso? Entre todas as pessoas no mundo, ela não poderia ser enganada! E o que ela diz? Já conversou com sua Tia Aleda a respeito disso?

       Wilma limitou-se a sacudir a cabeça, virando-se para olhar através da varanda para o nada.

       — Por que não?

       Ela virou a cabeça lentamente, voltando a me fitar. Por um momento, os olhos se fixaram nos meus. Depois, abruptamente as lágrimas começaram a escorrer pelo rosto gorducho e contorcido.

       — Porque... Miles... ela também não é a minha Tia Aleda! — Por um instante, a boca entreaberta, Wilma me olhou num horror absoluto. E depois, se é possível gritar, num sussurro, foi justamente o que ela fez, ao acrescentar: — Oh, Miles, será que estou ficando doida? Por favor, Miles, diga o que está acontecendo comigo! Pelo amor de Deus, não me poupe! Tenho de saber!

       Becky estava segurando a mão de Wilma, apertando-a entre as suas, o rosto contraído numa agonia de compaixão. Deliberadamente, sorri para Wilma, exatamente como se soubesse o que estava acontecendo. E disse firmemente:

       — Não, Wilma, você não está doida. — Inclinei-me e pus a mão sobre as delas, apoiando-me com a outra mão no balanço. — Até mesmo atualmente, Wilma, não é tão fácil ficar doida como você pode pensar.

       Procurando imprimir à voz um tom quase calmo, Becky comentou:

       — Sempre ouvi dizer que a pessoa que pensa que está perdendo o juízo nunca está.

       — Há muita verdade nisso — declarei, mesmo sabendo que não havia. — Mas deve entender, Wilma, que uma pessoa não precisa nem de longe estar perdendo o juízo para necessitar de ajuda psiquiátrica. Qual é o problema? Atualmente, isso não tem qualquer importância e muitas pessoas já. ..

       — Você não compreende. — Ela estava olhando para o Tio Ira, a voz apática e distante agora. Dando um aperto de agradecimento na mão de Becky, ela puxou a própria mão e virou-se para mim. Não estava mais chorando e a voz era serena e firme quando acrescentou: — Miles, ele parece, fala, age e lembra tudo exatamente como Ira. Por fora. Mas por dentro ele é diferente. Suas reações... — Wilma fez uma pausa, procurando pela palavra adequada. — ... não são emocionalmente certas, se é que posso explicar isso. Ele se lembra do passado em detalhes, sorri e comenta: “Você era uma garota muito viva, Willy. Das mais inteligentes.” Exatamente como Tio Ira fazia. Mas alguma coisa está faltando. E, ultimamente o mesmo se aplica a Tia Aleda.

       Wilma fez outra pausa, mais prolongada, olhando para a nada, uma expressão concentrada, antes de continuar:

       —        Tio Ira foi um pai para mim, desde que eu era pequena. E quando falava sobre a minha infância, Miles, havia sempre, invariavelmente, uma expressão especial nos olhos dele, a indicar que se recordava de toda a qualidade maravilhosa que esse tempo representou para ele. E esse olhar, lá no fundo dos olhos dele, desapareceu, Miles. Com esse... esse Tio Ira, o que quer ou quem quer que ele seja, tenho a impressão, a certeza absoluta, Miles, de que está falando de cor. Assim como uma lição decorada. As recordações de Tio Ira estão todas em sua mente, nos mínimos detalhes, prontos para virem à tona. Mas o mesmo não acontece com as emoções. Não há qualquer emoção, absolutamente nenhuma, apenas uma simulação. As palavras, os gestos, os tons de voz, tudo enfim... mas não o sentimento. — A voz de Wilma tornou-se subitamente dominante: — Miles, com recordações ou não, aparências ou não, possível ou impossível, esse não é o meu Tio Ira.

       Não havia mais nada a dizer agora, e Wilma sabia disso tanto quanto eu. Ela se levantou, sorrindo, e acrescentou:

       — É melhor encerrarmos a conversa ou... — sacudiu a cabeça na direção do gramado — ... ele vai começar a desconfiar.

       Eu ainda estava confuso.

       — Desconfiar do quê?

       Pacientemente, Wilma explicou:

       — Desconfiar que eu suspeito de alguma coisa. — Estendeu-me a mão e eu a apertei. — Ajudou-me bastante, Miles, quer saiba ou não. E não quero que fique muito preocupado comigo. — Virando-se para Becky, com um sorriso, acrescentou: — Nem você. Tenho muito resistência e ambos sabem disso. Não haverá problema. E se quer mesmo que eu procure o seu psiquiatra, Miles concordo desde já.

       Assenti, dizendo que marcaria uma consulta para ela com o Dr. Manfred Kaufman, em San Rafael, o melhor psiquiatra que eu conhecia, telefonando para informá-la na manhã seguinte. Murmurei algumas bobagens sobre a necessidade de relaxar, não perder o controle, deixar de se preocupar e assim por diante. Wilma sorriu gentilmente e pôs a mão no meu braço, da maneira como uma mulher faz quando perdoa um homem por falhar-lhe. Depois, agradeceu a Becky por ter vindo, disse que queria ir deitar cedo. Ofereci-me para levar Becky em casa.

       Descendo pelo caminho na direção do carro, passamos pelo Tio Ira e eu disse:

       — Boa noite, Sr. Lentz.

       — Boa noite, Miles. Volte outras vezes. — Sorriu para Becky e, ainda falando para mim, acrescentou:

       — Não é um prazer ter Becky de volta? Só faltou piscar. Sorri também.

       — Claro que é, Sr. Lentz. Becky murmurou um boa noite.

       No carro, perguntei a Becky se ela não gostaria de fazer alguma coisa, jantar em algum lugar. Mas não fiquei surpreso quando ela disse que queria apenas voltar para casa.

       Ela morava a cerca de três quarteirões da minha casa. Era uma casa antiga, grande, toda branca, em que o pai dela nascera. Quando paramos junto à calçada, Becky disse:

       — O que acha, Miles? Ela vai ficar boa?

       Hesitei por um instante, dei de ombros.

       — Não sei. Sou um médico, pelo que diz o meu diploma, mas não sei realmente qual é o problema de Wilma. Poderia começar a falar no jargão psiquiátrico, mas a verdade é que o caso está fora da minha alçada e mais na de Mannie Kaufman.

       — Acha mesmo que ele pode ajudá-la?

       Às vezes, há um limite para a sinceridade que se deve ter. Por isso, respondi:

       — Claro que pode. Se há alguém que pode ajudá-la, esse alguém é Mannie. Tenho toda certeza de que ele irá ajudá-la.

       Mas, na verdade, eu não sabia como. Na porta de Becky, sem qualquer planejamento antecipado ou mesmo sem ter pensado nisso antes, indaguei:

       — Amanhã de noite?

       — Está certo — assentiu Becky distraidamente, ainda pensando em Wilma. — Por volta de oito horas?

       — Está ótimo. Virei buscá-la.

       Era de se pensar que estávamos saindo juntos há meses. Havíamos simplesmente recomeçado do ponto em que tínhamos parado, anos antes. Voltando para o carro, ocorreu-me que estava mais relaxado e em paz com o mundo como há muito tempo não acontecia.

       Talvez isso pareça desalmado. Talvez você pense que eu deveria estar-me preocupando com Wilma. De certa forma, eu estava mesmo, lá no fundo da mente. Mas um médico aprende, porque não há outro jeito, a não se preocupar ativamente com os pacientes, enquanto isso não adiantar para alguma coisa. Até lá, os problemas devem ficar encerrados num compartimento isolado da mente. Não ensinam isso na faculdade de Medicina, mas; é tão importante quanto um estetoscópio. É necessário até mesmo a pessoa ser capaz de perder um paciente e voltar para o consultório a fim de tratar, com absoluta atenção de um caso de cisco no olho. Quem não conseguir isso, deve desistir da Medicina. Ou especializar-se.

       Jantei no Dave’s Diner, sentado a uma mesinha. Notei que o restaurante não estava apinhado, como geralmente acontecia, e fiquei imaginando por quê. Depois, fui para casa, vesti a calça do pijama, deitei na cama e comecei a ler um livro de mistério, torcendo para que o telefone não tocasse.

      

     Na manhã seguinte, quando cheguei ao consultório, já havia uma cliente esperando. Era uma mulher pequena e sossegada, na casa dos 40, que se sentou na cadeira de couro diante da minha mesa, as mãos cruzadas no colo, por cima da bolsa, e declarou que estava perfeitamente convencida de que o marido não era absolutamente o seu marido. Com voz serena e controlada, a mulher disse que ele parecia, falava e se comportava exatamente como o marido sempre o fizera — e estavam casados há 18 anos — mas simplesmente não era o seu marido. Era novamente a história de Wilma, exceto pelos detalhes concretos. Assim que a mulher saiu, telefonei para Mannie Kaufman e marquei duas consultas.

       Vou resumir a história: até a terça-feira da semana seguinte, na noite da reunião dos médicos do Hospital Geral de Marin, eu já havia despachado mais cinco pacientes para Mannie. Um deles era um jovem advogado, brilhante, equilibrado, que eu conhecia bastante bem. Ele estava convencido de que a irmã casada com quem morava não era realmente a sua irmã, embora o próprio marido dela obviamente ainda pensasse que era. Houve também as mães de três garotas da escola secundária, que chegaram ao meu consultório em grupo para dizer, em meio a lágrimas, que suas filhas estavam sendo escarnecidas porque afirmavam que o professor de Inglês era na verdade um impostor, o qual se parecia exatamente com o professor. Um garoto de nove anos foi trazido pela avó, com quem estava agora morando, porque ficava histérico ao ver a mãe, uma mulher que ele alegava não ser absolutamente a sua mãe.

       Mannie Kaufman estava à minha espera quando cheguei para a reunião dos médicos, um pouco mais cedo para variar. Parei o carro no estacionamento do hospital. Assim que puxei o freio de mão, alguém me chamou, de um carro estacionado um pouco mais adiante. Saltei e fui até lá. Quem me havia chamado era Mannie, sentado ao volante, com Doe Carmichael, outro psiquiatra do Marin, a seu lado. Ed Pursey, um dos meus concorrentes de Mill Valley, achava-se no banco de trás. Mannie estava com A porta do seu lado aberta, sentado de lado, os pés para fora do carro, os calcanhares enganchados no estribo. Com os cotovelos apoiados nos joelhos, inclinava-se para a frente, as mãos cruzadas. É um homem moreno, nervoso, de boa aparência. Lembra um jogador de futebol americano inteligente. Carmichael e Pursey são mais velhos e parecem mais com médicos.

       — Que diabo está acontecendo em Mill Valley? — indagou Mannie, assim que me aproximei. Olhou para Ed Pursey, no banco traseiro, a fim de indicar-lhe que também estava incluído na pergunta. Foi assim que eu soube que Ed também estava tendo alguns casos.

       — É um novo hobby em nossa cidade — comentei, apoiando um braço na porta aberta. — Algo bem fácil, para substituir a mania da corrida.

       — Pois é a primeira neurose contagiosa que já encontrei — disse Mannie, meio rindo, meio irritado. — É uma verdadeira epidemia. E se continuar assim, vocês vão acabar conosco. Não sabemos o que fazer com essa gente. Não é isso mesmo, Charley? — Olhou por cima do ombro para Carmichael, sentado ao seu lado. Seu colega franziu o rosto ligeiramente. É ele quem mantém a dignidade da psiquiatria local, enquanto Mannie entra com a inteligência.

       — É uma sucessão de casos realmente excepcional — comentou Carmichael, comedidamente.

       — A psiquiatria está na infância, é claro — falei, dando de ombros. — A enteada retardada da Medicina. Evidentemente, vocês dois não podem...

       Pare de brincadeira, Miles. Esses casos têm-me deixado aturdido. — Mannie fitou-me com uma expressão especulativa, um dos olhos se estreitando. — Quer saber o que eu diria a respeito de qualquer um desses casos, se não fosse absolutamente impossível? No caso daquela mulher, Lentz, por exemplo? Diria que não se trata absolutamente de nenhuma ilusão. Por todas as indicações que conheço a respeito de qualquer coisa, seria capaz de afirmar que ela não é particularmente neurótica, pelo menos não nesse caso. Diria que o lugar dela não é no meu consultório, que sua preocupação é externa e concreta. Diria também, a julgar apenas pela paciente, é claro, que ela está certa, que o tio não é realmente seu tio. O único problema é que isso é impossível. — Fez uma pausa, fitando-me curioso, antes de acrescentar: — Mas é igualmente impossível que um total de nove pessoas de Mill Valley tenham adquirido, súbita e simultaneamente, uma ilusão praticamente idêntica. Certo, Charley? Contudo, parece ter sido exatamente isso o que aconteceu.

       Charley Carmichael não respondeu. Ninguém mais disse qualquer coisa por um momento. Depois, Ed Pursey suspirou e falou:

       — Tive outro caso esta tarde. Um homem em torno dos cinqüenta anos. É meu paciente há cerca de nove. Tem uma filha, vinte e cinco anos. Agora, o homem afirma que ela não é sua filha. O mesmo tipo de caso. — Deu de ombros e indagou na direção do banco da frente: — Devo encaminhá-lo para um de vocês?

       Nenhum dos dois respondeu por um momento e depois Mannie murmurou:

       — Não sei. Faça o que achar melhor. Sei que não posso ajudá-lo, se ele é como os outros. Mas talvez Charley não se sinta tão desesperançado.

       — Pode mandá-lo para mim — interveio Carmichael. — Farei o que for possível. Mas Mannie tem razão. Não são, certamente, casos típicos de ilusão.

       — Ou de qualquer outra coisa — acrescentou Mannie.

       — Talvez devêssemos tentar uma pequena sangria — comentei.

       — Por Deus, até que não seria má idéia! — exclamou Mannie.

       Estava na hora de começar a reunião e eles saltaram do carro. Todos nos encaminhamos para o hospital. A reunião foi tão fascinante quanto sempre. Ouvimos um orador, um professor universitário, tortuoso e insípido. Desejei estar em casa, assistindo à televisão. Ou com Becky, o que seria muito melhor. Depois da reunião, Mannie e eu conversamos mais um pouco, de pé, no escuro, ao lado do meu carro. Mas não havia realmente mais nada a acrescentar, e finalmente Mannie disse:

       — Ficaremos em contato, está certo, Miles? Temos de chegar a alguma conclusão.

       Respondi que estava certo, entrei no carro e voltei para casa.

       Tinha-me encontrado com Becky pelo menos uma noite sim outra não, ao longo da última semana, mas não porque houvesse alguma coisa se desenvolvendo entre nós. Era simplesmente melhor do que fazer hora no salão de sinuca, jogar paciência ou colecionar selos. Becky era uma maneira agradável e confortável de passar algumas noites, nada mais do que isso. O que me convinha perfeitamente. Na noite de quarta-feira, quando telefonei para ela, combinamos ir ao cinema. Liguei para o serviço de recados telefônicos e comuniquei a Maud Crites, que estava de plantão naquela noite, que ia ao Cinema I, em Corte Madere. Comentei que iria mudar inteiramente de atividade, passando a dedicar-me exclusivamente a abortos, e convidei-a para ser a minha primeira paciente. Ela soltou uma risadinha, na maior alegria. Depois, peguei o carro e fui buscar Becky.

       — Você está maravilhosa — comentei, enquanto nos encaminhávamos para o carro, encostado no meio-fio. E ela estava mesmo. Usava um costume cinza, com uma espécie de ramo de flores estampado no próprio tecido, subindo por um dos ombros.

       — Obrigada. — Becky entrou no carro e depois sorriu-me, entre plácida e feliz. — Sinto-me muito bem quando estou com você, Miles. Mais à vontade do que com qualquer outra pessoa. Acho que é porque ambos somos divorciados.

       Acenei em concordância e liguei o carro. Entendia perfeitamente o que Becky estava querendo dizer. Era maravilhoso ser livre. O que não impedia que o rompimento de alguma coisa que fora feita com a intenção de ser permanente nos deixasse um pouco abalados, ligeiramente inseguros. Eu sabia que tivera muita sorte de meu caminho ter cruzado com o de Becky. Porque ambos passáramos pelas mesmas provações, eu podia sair com uma mulher num relacionamento tranqüilo, sem as pressões, e exigências tácitas que gradativamente se acumulam entre um homem e uma mulher, na maioria dos casos. Com qualquer outra, eu sabia que estaríamos caminhando para alguma espécie de clímax inevitável: casamento, uma ligação extraconjugal ou um rompimento. Mas Becky era simplesmente o que os médicos recomendavam. Avançando de carro naquele momento pela noite fria de outono, estava-me sentindo extremamente bem.

       Deixamos o carro no estacionamento imenso. Na bilheteria, quando comprei as entradas, a garota me disse:

       — Obrigada, Doe. Fale com Gerry.

       O que significava que ela transmitiria qualquer recado que chegasse para mim, se eu avisasse ao gerente onde nos iríamos sentar. Compramos pipoca no saguão, entramos na sala de projeção e sentamos.

       Tivemos sorte, pois conseguimos ver a metade do filme. Às vezes penso que já assisti a mais metades de filmes do que qualquer outra pessoa viva. Minha mente está apinhada de dúvidas e indagações vagas, jamais respondidas, sobre como determinados filmes terminaram e outros começaram. Gerry Montrose, o gerente, estava parado em nossa fila, fazendo-me um sinal. Murmurei uma imprecação para Becky — afinal, era um bom filme, chamado Time and Again, sobre uma camarada que encontra um meio de visitar o passado — e depois nos levantamos e passamos por mais de 50 pessoas, cada uma delas parecendo equipada com três joelhos.

       Assim que chegamos ao saguão, Jack Belicec afastou-se do balcão de pipoca e avançou em nossa direção, com um sorriso meio constrangido.

       — Desculpe, Miles — disse ele, olhando também para Becky, a fim de incluí-la na desculpa. — Detesto estragar seu filme.

       — Não foi nada, Jack. Qual é o problema?

       Ele não respondeu imediatamente. Encaminhou-se para a porta externa e a manteve aberta para nós. Por isso, compreendi que Jack não queria falar no saguão. Assim, saímos para a calçada e ele veio atrás. Mas mesmo ali fora, quando paramos um pouco além das luzes da marquise, Jack ainda não se mostrou objetivo.

       — Ninguém está doente, Miles. Não é esse o problema. Nem mesmo sei se poderia chamar exatamente de uma emergência. Mas... eu gostaria muito que viesse comigo esta noite.

     Gosto de Jack. Ele é escritor e dos bons, na minha opinião. Já li um de seus livros. Mas isso não me impediu de ficar um pouco irritado. Essas coisas acontecem com uma freqüência excessiva. Durante o dia inteiro, as pessoas ficam esperando, pensando em chamar o médico, mas decidindo não fazê-lo, preferindo aguardar, na esperança de que não seja necessário. Porém, depois ficar escuro e há alguma coisa na noite que leva as pessoas a chegarem à conclusão de que talvez, no final das contas, seja mesmo melhor chamar o médico.

       — Ora, Jack, se não é uma emergência, se é algo que pode esperar até amanhã, por que não fazemos justamente isso? — Sacudi a cabeça na direção de Becky. — Não é apenas por minha noite, mas... Por falar nisso, vocês dois já se conhecem?

       — Já, sim — disse Becky, com um sorriso. E Jack acrescentou:

       Claro que conheço Becky. E o pai dela também. — Franziu o rosto, ficou parado na calçada por um momento, pensando. Depois, olhou de mim para Becky, incluindo nós dois no que estava dizendo: — Leve Becky junto, Miles, se ela quiser. Talvez seja até uma boa idéia. Pode ajudar minha esposa. — Sorriu tristemente. — Não posso afirmar que Becky vai gostar do que irá ver, mas posso garantir que será muito mais interessante do que qualquer filme.

       Olhei para Becky e ela assentiu. Como Jack não é nenhum tolo, não fiz mais perguntas.

       — Está certo, Jack. Vamos todos no meu carro, a fim de podermos conversar. Eu o trarei de volta para buscar o seu, depois que acabarmos.

      Sentamos os três no banco da frente. No caminho — Jack vive no que ainda é quase uma área rural, logo depois de Mill Valley —ele não deu qualquer informação adicional e presumi que tivesse uma razão para isso. Jack é um homem de rosto fino, expressão veemente, os cabelos prematuramente brancos. Eu diria que tem cerca de 40 anos, um homem inteligente, de bom senso, julgamento criterioso. Sabia de tudo isso porque ele me chamara alguns meses antes, quando a esposa ficara doente. Tinha uma febre alta súbita e extremo cansaço. Diagnostiquei finalmente um caso de tifo das Montanhas Rochosas. Não fiquei muito satisfeito com tal diagnóstico. Pode-se praticar a Medicina na Califórnia por muito tempo e nunca se deparar com um caso de tifo das Montanhas Rochosas. Era difícil imaginar como ela poderia ter contraído. Mas não via o que mais poderia ser e foi para isso que aconselhei tratamento, a começar imediatamente. Contudo, fui obrigado a dizer a Jack que nunca antes vira um caso igual e que tinha toda a liberdade de consultar outros médicos, se assim o desejasse. Mas acrescentei que estava tão certo do meu diagnóstico quanto qualquer outro médico da região poderia estar do seu, e que opiniões conflitantes naquele momento, com incerteza da parte de alguém, poderiam ser extremamente prejudiciais. Jack escutou atentamente, fez algumas perguntas, pensou um pouco e depois me disse que tratasse de sua esposa como eu achasse melhor. Foi o que fiz. Um mês depois, ela estava recuperada e voltando a fazer bolinhos, o que era a sua especialidade. Jack levou uma fornada ao meu consultório. For isso, eu o respeitava. Era um homem que sabia como tomar uma decisão. E assim fiquei esperando, até que ele estivesse pronto para falar.

       Passamos pela placa preta e branca que indicava os limites da cidade, e Jack apontou para a frente.

       — Vire à esquerda, na estrada de terra, se não está lembrado do caminho. É a casa verde, na colina.

       Acenei com a cabeça e entrei na estradinha indicada, começando a subir. Um momento depois, Jack disse:

       — Pode parar por um minuto, Miles? Quero perguntar-lhe uma coisa.

       Parei à beira da estrada, puxei o freio de mão e virei-me para ele, deixando o motor ligado. Jack respirou fundo, antes de começar a falar:

       — Miles, não há determinadas coisas que um médico é obrigado a comunicar às autoridades quando as descobre?

       Era tanto uma declaração quanto uma pergunta, e limitei-me a assentir. Jack continuou a falar, como se estivesse pensando em voz alta:

       — Uma doença contagiosa, por exemplo. Ou um ferimento a bala. Ou uma morte. Sempre tem de comunicar tais coisas, Miles? O que estou querendo saber é o seguinte: há alguma circunstância em que um médico possa achar que se justifique ignorar os regulamentos?

       — Depende — falei, dando de ombros. Não sabia como poderia responder-lhe.

       — De quê?

       — Creio que do médico. E do caso específico. Qual é o problema, Jack?

       — Ainda não lhe posso dizer. Tenho primeiro de saber a resposta para minha pergunta. — Olhando pela janela, Jack pensou por um momento, depois virou a cabeça e voltou a olhar para mim. — Talvez possa responder-me a isso. Pode imaginar um caso, qualquer espécie de caso, um ferimento a bala, por exemplo, em que os regulamentos ou leis, qualquer coisa, exijam que o comunique às autoridades? E que o levaria a enfrentar os maiores problemas, se não o comunicasse e fosse posteriormente descoberto, talvez até perdendo sua licença para exercer a Medicina? Pode imaginar qualquer conjunto de circunstâncias que o leve a arriscar sua reputação, ética e licença, e não comunicar um caso, aconteça o que acontecer?

       Tornei a dar de ombros.

       — Não sei direito, Jack. Acho que sim. Creio que posso imaginar alguma situação em que eu esqueceria os regulamentos, se isso fosse suficientemente importante e eu me sentisse na obrigação. — Estava-me sentindo subitamente irritado com todo aquele mistério. — Mas não lhe posso afirmar coisa alguma, Jack. Onde está querendo chegar? Tudo isso é muito vago e não quero que fique com a impressão de que lhe estou prometendo alguma coisa. Se tem em sua casa algo que eu deva comunicar, provavelmente o farei. Isso é tudo o que lhe posso dizer.

       — Está certo, isso já é suficiente — disse Jack, com um sorriso. — Penso que talvez você decida não comunicar este caso. — Acenou com a cabeça na direção da casa e acrescentou: — Vamos continuar.

       Entrei novamente na estrada, e os faróis iluminaram uma pessoa cerca de 100 metros à frente, caminhando em nossa direção. Era uma mulher, ainda usando um avental, os braços cruzados sobre o peito, as mãos segurando os cotovelos. Faz bastante frio por aqui, durante a noite. Demorei um pouco para perceber que era Theodora, a esposa de Jack.

       Aproximei-me lentamente dela e parei o carro a seu lado. Theodora me cumprimentou:

       — Olá, Miles. — Depois, dirigiu-se a Jack, olhando pela janela aberta do meu lado. — Não pude ficar lá em cima sozinha, Jack. Não consegui agüentar. Desculpe.

       — Eu a deveria ter levado comigo — disse o marido, concordando. — Foi muita estupidez minha não fazê-lo.

       Abrindo a porta do carro, inclinei-me para a frente a fim de deixar Theodora entrar no banco de trás. Jack apresentou-a a Becky, e depois seguimos para a casa.

      

       A casa de Jack é verde, assentada na encosta de uma colina. A garagem é parte do porão. A garagem estava vazia, a porta aberta. Jack fez-me sinal para que entrasse. Saímos do carro e Jack acendeu a luz e fechou a porta da garagem. Depois, abriu uma porta que dava para o porão propriamente dito, fazendo um gesto para que passássemos na sua frente.

       Entramos num porão comum: uma antiquada tina de lavar roupa, uma moderna máquina de lavar roupa, um cavalete de madeira, jornais empilhados, algumas caixas de papelão e diversas latas de tinta usadas encostadas numa parede. Jack passou por nós, atravessando o portão até outra porta. Parou ali, virando-se para nós, com a mão na maçaneta. Eu sabia que Jack tinha lá dentro uma boa mesa de bilhar, comprada em segunda mão. Ele me contara que a usava constantemente, jogando sozinho, enquanto imaginava o que iria posteriormente escrever. Olhando para Becky e depois para a esposa, ele murmurou:

       — Fiquem calmas.

       Em seguida, Jack entrou naquela outra sala do porão e puxou o cordão que acendia a lâmpada pendurada do teto. Fomos atrás.

       A luz sobre uma mesa de bilhar é projetada para iluminar intensamente a superfície verde de feltro. Fica suspensa bem baixa, a fim de não incidir nos olhos dos jogadores, deixando o teto na escuridão. Aquela possuía um anteparo retangular para confinar a luz somente à superfície da mesa, deixando o resto da sala na semi-escuridão. Eu não podia ver direito o rosto de Becky, mas a ouvi suspirar bruscamente. Estendido sobre o feltro verde da mesa, sob a luz forte de uma lâmpada de 150 watts, coberto com o encerado que Jack mantinha ali como proteção, estava o que era inegavelmente um corpo. Virei-me para Jack, que me disse:

     — Pode puxar o encerado.

       Eu estava irritado. Aquela situação me preocupava e assustava, havia mistério demais para me agradar. Ocorreu-me que o escritor que havia em Jack estava forçando exageradamente o comportamento dramático. Peguei uma ponta do encerado e puxei-o para um canto da mesa. Estendido no feltro verde, de costas, encontrava-se o corpo nu de um homem. Devia ter em torno de l,75m de altura, mas não posso afirmar com certeza. Não é fácil calcular a altura de um corpo deitado. Era branco, a pele muito pálida sob a luz forte. Parecia, ao mesmo tempo, irreal e teatral, contudo era terrivelmente real. O corpo era esguio, talvez com 65 quilos, mas visivelmente bem nutrido e musculoso. Não dava para definir a idade, exceto que não era velho. Os olhos estavam abertos, fitando diretamente a luz, de um jeito que faria com que os olhos de qualquer outra pessoa parecessem inteligentes. Eram azuis e límpidos. O corpo não tinha qualquer ferimento visível nem alguma outra causa de morte evidente. Fui postar-me ao lado de Becky, passei o braço pelo dela e virei-me para Jack.

       — E então?

       Ele meneou a cabeça, recusando-se a fazer qualquer comentário.

       — Continue a olhar. Examine o corpo. Não está notando nada estranho? — indagou ele.

     Voltei-me novamente para o corpo sobre a mesa. Estava ficando cada vez mais irritado. A situação não me agradava. Havia mesmo algo de estranho naquele homem morto estendido sobre a mesa, mas eu não sabia explicar o quê. E isso só contribuía para me deixar ainda mais furioso.

       — Ora, Jack, não estou vendo mais nada além de um cadáver. Vamos acabar com o mistério. Qual é o problema?

       Ele tornou a menear a cabeça, franzindo o rosto, numa expressão suplicante.

       — Não fique nervoso, Miles. Por favor. Não lhe quero dizer a minha impressão do que está errado, para não influenciá-lo. Se realmente existe, quero que o descubra pessoalmente. E se não existe coisa alguma, se estou apenas imaginando coisas, também quero saber. Atenda a meu pedido, Miles. Dê uma boa olhada nessa coisa.

       Examinei o cadáver, contornando lentamente a mesa, parando a fim de olhar de diversos ângulos. Jack, Becky e Theodora se afastavam do meu caminho, enquanto eu me deslocava em torno da mesa. Pouco depois, relutantemente, pedindo desculpas a Jack no tom de voz, murmurei:

       — Tem razão, Jack. Há mesmo algo estranho nesse corpo. Não está imaginando coisas. Ou se está, o mesmo acontece comigo.

       Talvez por mais meio minuto fiquei olhando para o que estava em cima da mesa, em silêncio, antes de finalmente voltar a falar:

       — Por um lado, não é com freqüência que se encontra um corpo assim, vivo ou morto. De certa forma, faz-me lembrar de uns poucos pacientes tuberculosos que já examinei... os que passaram quase toda a vida em sanatórios. — Virei-me e olhei para os três. — Não se pode levar uma vida comum sem se ficar com umas poucas cicatrizes, alguns cortes, aqui e ali. Mas esses pacientes que vivem em sanatórios não têm oportunidade de arrumar cicatrizes, pois seus corpos praticamente não são usados. E é exatamente assim que esse corpo parece... — Acenei com a cabeça para o corpo pálido e imóvel sob a luz forte. — Mas não se trata de um tuberculoso. É um corpo saudável, bem formado. Aqueles músculos são vigorosos. Mas ele nunca jogou futebol ou hóquei, jamais caiu de uma escada, nunca quebrou um osso. Parece. .. um corpo que não foi usado. Foi essa também a impressão que teve?

       — Foi, sim — concordou Jack. — E que mais?

       — Você está bem, Becky? — Olhei para ela, por sobre a mesa.

       — Estou, sim — assentiu Becky, mordendo o lábio inferior.

       — O rosto... — murmurei, respondendo a Jack. Fiquei contemplando o rosto, branco como cera, sereno, absolutamente imóvel, os olhos azuis virados para cima. — Não é... exatamente imaturo. — Eu não sabia direito como explicar. — Os ossos são sólidos, é um rosto adulto. Mas parece... — fiz outra pausa, procurando a palavra certa, sem conseguir encontrar — ... vago. Parece...

       Jack interrompeu-me, a voz tensa e ansiosa. Na verdade, ele estava até sorrindo, ligeiramente.

       — Já viu alguma vez como se fazem medalhas?

       — Medalhas?

       — Isso mesmo. Medalhas de categoria. Medalhões.

       — Não.

       Jack começou a explicar, sem que eu pudesse compreender par quê:

       — Para se fazer um trabalho realmente bom, em metal duro, é preciso fazer duas gravações. Primeiro, eles pegam um molde e fazem a gravação número um, dando ao metal o formato inicial, ainda tosco. Depois, fazem a gravação com o molde número dois. É esse segundo molde que grava os detalhes, as linhas suaves e os contornos delicados que se encontram num medalhão de categoria. Eles são obrigados a fazer isso porque o segundo molde, o que contém os detalhes, não poderia deixar qualquer marca no metal liso. É necessário gravar o formato tosco inicial, com o molde número um. — Jack parou de falar, olhando de Becky para mim, a fim de verificar se estávamos acompanhando sua explicação.

       — E daí? — indaguei, impacientemente.

       — Geralmente, um medalhão mostra um rosto. E quando se o contempla, depois da primeira gravação, o rosto ainda não está acabado. Está tudo lá, é verdade, mas não se encontram os detalhes que proporcionam a individualidade. — Jack fez nova pausa, olhando para mim. — Miles, é assim que esse rosto parece. Está tudo aí. Possui lábios, nariz, olhos, pele, uma estrutura óssea por baixo. Mas não há linhas, não há detalhes, não há individualidade. É informe! Olhe só! — A voz dele se alteou, estridentemente. — É como um rosto vazio, esperando que os detalhes finais sejam gravados!

       Jack tinha razão. Nunca antes, em toda a minha vida, eu vira um rosto assim. Não era um rosto débil, sem força, com toda certeza. Mas era de certa forma indefinido, sem personalidade. Não era realmente um rosto; ainda não. Não havia qualquer vida nele, não estava marcado pela experiência. Creio que essa é a única maneira pela qual posso explicar. Finalmente perguntei:

       — Quem é ele?

      Não sei. — Jack foi até a porta e acenou com a cabeça para a outra parte do porão e a escada que levava lá para cima. — Há um pequeno espaço por baixo da escada, fechado com madeira compensada para proporcionar uma espécie de depósito. Está cheio de coisas velhas, como roupas em caixas de papelão, aparelhos elétricos sem funcionar, um velho aspirador de pó, um ferro de passar, alguns abajures, coisas assim. E há também alguns livros velhos. Foi ali que o encontrei. Estava procurando uma referência que precisava e pensei que poderia estar num daqueles livros. Ele estava estendido lá, por cima das caixas de papelão, exatamente como o está vendo agora. Fiquei apavorado. Saí correndo como um gato num canil, acabei ficando com um galo na cabeça... Depois, voltei e tirei-o de lá. Pensei que ainda poderia estar vivo. Miles, quanto tempo demora para haver o rigor mortis?

       — De oito a dez horas.

       — Pois pegue nele. — De certa forma, Jack estava apreciando a situação, como um homem que fez uma promessa e a está cumprindo.

       Peguei, pelo pulso, um braço do corpo em cima da mesa. Achava-se relaxado e flexível. Nem mesmo estava pegajoso ou particularmente frio.

       — Não há rigor mortis — disse Jack. — Certo?

       — Certo. Mas o rigor mortis não é invariável. Há determinadas condições... — Parei de falar no meio da frase. Não sabia que conclusões tirar naquele caso.

       — Se quiser, Miles, pode virá-lo. Mas também não vai encontrar quaisquer marcas de ferimentos nas costas. Nem no couro cabeludo. Não há o menor sinal do que o matou.

       Hesitei por um instante. Mas, legalmente, não podia tocar naquele corpo. Peguei o encerado e puxei-o por cima do corpo cobrindo-o pela metade.

       — Muito bem, Jack, e agora? Vamos subir?

       — Vamos. — Jack acenou com a cabeça na direção da porta e continuou onde estava com a mão no cordão da luz, até que todos tivessem saído.

       Lá em cima, na sala de estar, Theodora polidamente convidou-nos a sentar e circulou acendendo abajures e providenciando cinzeiros. Depois, foi para a cozinha e voltou sem o avental. Sentou-se numa poltrona. Becky e eu estávamos no sofá, enquanto Jack sentava junto à janela, numa cadeira de balanço de madeira, contemplando a cidade. Quase toda a parede da frente da sala é constituída por uma única placa de vidro. Pode-se ver todas as luzes da cidade, espalhadas pelas colinas. É uma sala das mais agradáveis.

       — Querem um drinque ou alguma outra coisa? — indagou Jack.

       Becky sacudiu a cabeça e eu disse:

       — Não, obrigado. Mas podem tomar, se quiserem.

       Jack disse que não estava com vontade e olhou para a esposa, que também sacudiu a cabeça. Depois, ele começou a falar:

       — Nós o procuramos, Miles, porque é médico, mas também porque é um cara que pode enfrentar os fatos. Mesmo quando eles não são o que devem ser. Não é um homem de se empenhar a fundo para transformar o preto em branco, só porque isso lhe parece mais conveniente. Para você, as coisas são o que são, como já tivemos oportunidade de constatar. Dei de ombros, sem dizer nada.

       — Tem mais alguma coisa a dizer a respeito do corpo lá embaixo? — perguntou Jack.

       Fiquei calado por um momento, mexendo num botão do casaco, depois tomei a decisão de dizer o que estava pensando.

       — Tenho, sim. Sei que não faz sentido, não faz absoluta mente o menor sentido, mas eu gostaria de efetuar uma autópsia naquele corpo. Querem saber o que acho que descobriria? — Corri os olhos pela sala, fixando-os em Jack, Theodora e depois em Becky. Nenhum deles respondeu. Continuaram sentados onde estavam, esperando. — Tenho a impressão de que não encontraria nenhuma causa para a morte. Acho que descobriria que todos os órgãos se encontram em perfeitas condições, assim como o corpo está externamente. Tudo em perfeitas condições de funcionamento, pronto para fazê-lo.

       Deixei-os pensar a respeito por um momento, depois acrescentei algo mais. Sentia-me extremamente tolo ao dizê-lo, mas também absolutamente convencido de que estava certo:

       — E isso não é tudo. Acho que, ao abrir o estômago, não encontraria coisa alguma lá dentro. Nem uma migalha, nenhuma partícula de alimento, digerida ou não. Nada, absolutamente nada. Tão vazio quando o estômago de um recém-nascido. E se abrisse os intestinos, a mesma coisa aconteceria. Não encontraria absolutamente nada. Por quê? — Fiz uma pausa, novamente correndo os olhos ao redor. — Porque não acredito que aquele corpo lá embaixo tenha morrido. E nunca morreu porque jamais esteve vivo. — Dei de ombros e recostei-me no sofá. — É isso o que penso. Pode conceber uma coisa dessas, Jack?

       — Posso, sim — falou Jack lentamente, e maneando a cabeça para aumentar a ênfase, enquanto as mulheres nos observavam em silêncio. — Desde o início que achei a coisa totalmente absurda. Queria apenas que outra pessoa confirmasse.

       — Becky... — Virei-me para fitá-la. — O que acha?

       Ela sacudiu a cabeça, franzindo o rosto, depois suspirou.

       — Estou... atordoada. Mas começo a achar que, no final das contas, bem que estou precisando daquele drinque.

       Todos sorrimos, e Jack começou a se levantar. Mas Theodora interrompeu-o, levantando-se e dizendo:

       — Pode deixar que eu providencio. Todo mundo vai querer?

       Todos assentimos. Ficamos sentados, esperando, mudando de posição nervosamente e olhando pela janela, até que Theodora voltou e distribuiu os drinques. Depois que todos tomaram um gole, Jack comentou:

       — Penso exatamente como você, Miles. E o mesmo acontece com Theodora. E devo dizer que não falei nada a ela sobre minhas impressões. Deixei-a olhar a coisa e tirar suas próprias conclusões, exatamente como fiz com você. Foi ela quem fez a comparação com os medalhões. Certa ocasião, em Washington, vimos como se fazem medalhões. — Jack suspirou, sacudindo a cabeça. — Conversamos e pensamos a respeito durante o dia inteiro, Miles. Só depois é que decidimos chamá-lo.

       — Falou com mais alguém?

       — Não.

       — Por que não chamou a polícia?

       — Não sei. — Jack fitou-me, um pequeno sorriso contraindo os cantos dos lábios. — Não quer chamar?

       — Não.

       — Por que não?

       — Não sei — respondi, também sorrindo. — Mas não quero.

       — Sinto-me do mesmo jeito.

       Jack meneou a cabeça em concordância e depois todos ficamos em silêncio por um longo tempo, tomando os drinques, Jack sacudiu o gelo no copo, lentamente, contemplando-o, e depois murmurou:

       — Tenho o pressentimento de que esta é uma ocasião para se fazer algo mais do que apenas chamar a polícia. Não é o momento de passar a bola adiante e deixar que os outros se preocupem. O que exatamente a polícia poderia fazer? Não se trata de um mero cadáver e sabemos disso. É... — deu de ombros, uma expressão sombria no rosto — ... algo terrível. Algo... Não sei direito o quê. — Tirou os olhos do copo, fitando-nos. — Sei apenas... mais do que isso, de alguma forma tenho certeza absoluta de que não devemos cometer um erro neste caso. De que há alguma coisa... a coisa sensata, a coisa correta, a única coisa possível, para se fazer. Se não a fizermos, se não descobrirmos o que é, algo terrível vai acontecer.

       — Fazer o que, por exemplo? — perguntei.

       Não sei. — Jack virou a cabeça e ficou olhando pela janela por um momento. Depois, voltou a fitar-nos, com um sorriso. — Tenho um impulso terrível de... ligar diretamente para o Presidente na Casa Branca ou para o comandante do Exército, FBI, Fuzileiros, Cavalaria, qualquer coisa assim. — Meneou a cabeça, sorrindo, achando graça de si mesmo. No instante seguinte, o sorriso se desvaneceu. — Miles, o que estou querendo dizer é que quero que alguém, exatamente a pessoa certa, quem quer que seja, compreenda desde o início como este caso é importante. E quero que essa pessoa... ou até pessoas... faça exatamente o que deve ser feito, sem cometer qualquer erro. E o problema maior é que a pessoa com quem eu entrar em contato, mesmo que me escute e acredite, pode ser exatamente a pessoa errada, alguém que irá fazer exatamente a pior coisa possível. O que quer que possa ser. Mas, de qualquer forma, sei que não se trata de um caso para a polícia. É... — Jack deu de ombros, percebendo que se estava repetindo. Achou melhor parar de falar.

       — Sei de tudo isso, Jack — declarei. — Tenho o mesmo pressentimento... de que o mundo deve torcer para que saibamos cuidar direito do caso.

       Na Medicina, há ocasiões em que a solução ou uma pista para um caso desconcertante surge abruptamente do nada. Creio que é a mente subconsciente em ação.

       — Jack, qual é a sua altura? — indaguei.

       — Tenho um metro e setenta e cinco.

       — Exatamente?

       — Exatamente. Por quê?

       — Em sua opinião, qual é a altura do corpo lá embaixo? Ele me olhou, aturdido, por um momento, antes de responder:

       — Um metro e setenta e cinco.

       — E qual é o seu peso?

       — Tenho sessenta e cinco quilos. O que deve pesar também o corpo lá embaixo. Creio que acertou em cheio, Miles. É o meu tamanho, o mesmo, a mesma compleição. Mas não se parece especialmente comigo.

       — Nem com qualquer outra pessoa. Tem uma almofada de tinta em casa?

       — Temos? — indagou Jack, virando-se para a esposa.

       — Uma o quê?

       — Uma almofada de tinta. Do tipo que se costuma usar para carimbos de borracha.

       — Temos, sim. — Theodora levantou e atravessou a sala, até uma escrivaninha. — Há uma aqui, em algum lugar.

       Depois de uma rápida busca, a mulher encontrou-a. Jack caminhou até lá, pegou a almofada de tinta, abriu outra gaveta e tirou uma folha de papel timbrado.

       Fui também até a escrivaninha, com Becky atrás de mim. Jack passou tinta nas pontas dos dedos da mão direita, estendendo-a em seguida para mim. Peguei a mão e comprimi os dedos sobre o papel, um de cada vez, rolando cuidadosamente. Obtive assim um conjunto de impressões digitais bastante nítidas. Depois, peguei a almofada de tinta e o papel e disse para as mulheres, acenando com a cabeça na direção da porta:

       — Querem descer também?

       Elas se entreolharam. Não queriam voltar àquela mesa de bilhar, mas também não queriam ficar sozinhas lá em cima, esperando. Becky finalmente disse:

       — Não quero, mas vou descer.

       Theodora fez um gesto de concordância.

       Lá embaixo, Jack acendeu a luz sobre a mesa de bilhar. Estava balançando um pouco e levei a mão à antepara, para firmar. Mas meus dedos tremeram e só serviu para aumentar o balanço. A antepara continuou a mover-se num pequeno arco, a luz se derramando pela borda da mesa, voltando para os olhos abertos do corpo, deixando a testa lisa na semi-escuridão por um instante. Dava a impressão de que o corpo estava-se movendo ligeiramente. Peguei o pulso direito, concentrando-me no trabalho, sem olhar para o rosto. Passei tinta na extremidade dos cinco dedos, depois coloquei a folha de papel com as impressões digitais de Jack em cima da mesa, ao lado da mão direita do corpo. Levantei-a, pousando-a sobre o papel branco. Rolando cada dedo, tirei uma impressão de todos, diretamente abaixo das impressões de Jack. Depois, tirei a mão de cima do papel.

       Becky soltou um gemido angustiado, quando vimos as impressões. Todos estávamos profundamente abalados. Porque uma coisa é especular sobre um corpo que nunca esteve vivo, mas outra muito diferente, algo que afeta o que possa haver de primitivo no fundo do nosso cérebro, é ver confirmada a especulação. Não havia impressões digitais, apenas cinco círculos solidamente pretos, absolutamente lisos. Removi a tinta dos dedos da melhor forma possível, e todos nos inclinamos, agrupados num semicírculo, sob a luz a balançar. Os dedos eram lisos como a face de um bebê. Theodora murmurou:

       — Jack, acho que vou vomitar...

       O marido virou-se para ampará-la, pois Theodora estava inclinada inteiramente para a frente, ajudando-a a subir a escada.

       Sentados novamente na sala de estar, sacudi a cabeça e disse para Jack:

       — Você encontrou a maneira apropriada de descrever. É um corpo vazio, em branco, inacabado, ainda esperando pelas impressões finais.

       — O que vamos fazer? — indagou Jack. — Tem alguma idéia?

       — Tenho, sim... — Fitei-o em silêncio por um momento. — Mas é apenas uma sugestão. E se não quiser aceitar, ninguém poderá culpá-lo. Muito menos eu.

       — Qual é a sugestão?

       — Não se esqueça de que é apenas uma sugestão. — Inclinei-me para a frente no sofá, os antebraços apoiados nos joelhos, e virei-me para Theodora. — E devo avisá-la de que, se acha que não vai conseguir, é melhor nem tentar. — Fiz uma pausa, olhando novamente para Jack, antes de acrescentar: — Deixe o corpo onde está, lá embaixo, na mesa. Esta noite você irá dormir. Darei alguma coisa para que possa dormir. — Virei-me outra vez para Theodora. — Mas você deve ficar acordada. Não durma por um instante sequer. De hora em hora, se for capaz, quero que desça e dê uma olhada naquele... corpo. Se tiver qualquer impressão de uma mudança, suba correndo e acorde Jack imediatamente. Tire-o da casa... os dois saiam daqui sem demora. Podem ir para a minha casa.

       Jack olhou para Theodora por um momento e depois disse, calmamente:

       — Quero que diga não, se acha que não vai conseguir enfrentar isso.

       A mulher mordeu nervosamente o lábio, olhando para o tapete. Depois, fitou-me primeiro e em seguida a Jack.

       — Como poderia ser essa mudança? Começaria a parecer o quê?

       Ninguém respondeu. Depois de um momento, ela baixou os olhos novamente para o tapete, voltando a mastigar o lábio, sem repetir a pergunta.

       — Jack despertaria sem qualquer dificuldade? — Theodora olhou para mim. — Eu poderia acordá-lo a qualquer momento?

       — Claro que sim. Um tapa no rosto e ele acordaria imediatamente. Mas mesmo que nada aconteça, acorde-o se chegar à conclusão de que não consegue mais agüentar. Os dois podem ir para a minha casa a fim de passar o resto da noite, se quiserem.

       Theodora assentiu, voltando a olhar para o tapete, até que finalmente murmurou:

       — Acho que posso. — Levantou os olhos, fixando-os em Jack. — Contanto que possa acordá-lo a qualquer momento, acho que posso agüentar.

       — Não podemos ficar com ela? — indagou Becky.

       — Não sei — respondi, dando de ombros. — Mas acho que não. Creio que só as pessoas que moram aqui é que devem ficar na casa. Não tenho certeza se de outra forma poderá funcionar. E nem mesmo sei direito por que digo isso. É apenas uma impressão, um pressentimento. Mas acho que somente Jack e Theodora devem ficar na casa.

       Jack acenou com a cabeça, em concordância. Depois de olhar para Theodora, a fim de confirmar a decisão dela, ele declarou:

       — Vamos tentar.

       Conversamos mais um pouco... isto é, não um pouco, mas bastante... contemplando as luzes da cidade no pequeno vale lá embaixo. Mas ninguém falou qualquer coisa que já não fora dita. Por volta da meia-noite, com a maioria das luzes da cidade lá embaixo já apagadas, Becky e eu nos levantamos para ir embora. Os Belicecs pegaram seus casacos e foram conosco, a fim de buscar o carro de Jack. Estava no estacionamento do Cinema I. Quando paramos ao lado do carro e eles saltaram, repeti para Theodora o que já dissera a respeito de despertar Jack e deixar a casa imediatamente, caso o corpo no porão começasse a se alterar, por qualquer forma. Peguei um Seconal em minha maleta e entreguei-o a Jack informando-o que bastaria um para que ele dormisse prontamente. Depois nos despedimos, Jack sorrindo ligeiramente, Theodora nem se dando ao trabalho de tentar. Ambos entraram no carro, acenaram e se afastaram.

       Já em Mill Valley, avançando pelas ruas desertas, a caminho da casa de Becky, ela me disse baixinho:

       — Não há uma relação, Miles? Entre este caso... e o caso de Wilma?

       Fitei-a rápido, mas ela estava olhando fixamente para a frente, através do pára-brisa.

       — Qual é sua opinião? Acha que há alguma relação?

       — Há, sim. — Becky não olhou para mim em busca de confirmação, limitando-se a menear a cabeça como se tivesse certeza absoluta. Depois de um momento, acrescentou: — Tem havido outros casos como o de Wilma?

       — Uns poucos.

       Eu olhava para a rua asfaltada iluminada pelos faróis, mas também a observava, pelo canto do olho. Mas a moça não reagiu nem disse nada por quase um quarteirão. Depois, quando o carro entrou na rua dela e eu aproximei o carro do meio-fio e parei diante da casa, Becky disse, ainda olhando fixamente para a frente, pelo pára-brisa:

       — Miles, pretendia contar-lhe uma coisa esta noite, depois do cinema. — Respirou fundo, antes de continuar. — Desde a manhã de ontem... — começou a falar lentamente, mantendo a voz calma, para depois aumentar o ritmo e acabar dizendo as últimas palavras numa explosão de pânico: — ... tenho a impressão ... de que meu pai não é absolutamente meu pai!

       Lançando um olhar horrorizado para a varanda de sua casa, imersa em sombras, a luz apagada, Becky cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar, desesperadamente.

      

       Não posso afirmar que tenha muita experiência com mulheres chorando. Mas, em todas as histórias que já li, o homem sempre abraça a mulher firmemente e a deixa chorar. E invariavelmente se verifica que era a atitude sensata e compreensiva a assumir. Jamais ouvi falar de um único caso comprovado em que a atitude sensata e compreensiva tenha sido a de distrair a mulher com truques de cartas ou cócegas nos pés. Assim, mostrei-me sensato e compreensivo. Apertei Becky firmemente entre meus braços e deixei-a chorar, porque não sabia o que mais fazer ou dizer. Depois do que víramos naquela noite no porão de Jack Belicec, se Becky acreditava que o pai era um impostor que se parecia exatamente com seu pai, eu não sabia como contestá-la.

       Seja como for, eu estava gostando de abraçar Becky. Ela não era exatamente uma mulher grande, mas também não era pequena. Nada em seu corpo fora mal provido ou negligenciado. Ali, em meu carro, na rua silenciosa e deserta, diante da casa dela, Becky se ajustava perfeitamente a meus braços, o rosto encostado em meu ombro. Estava preocupado e assustado, até mesmo em pânico, mas ainda havia lugar para apreciar a sensação quente e viva do contato de Becky. Quando o choro se desvaneceu para fungadelas ocasionais, murmurei:

       — Não quer passar a noite em minha casa? — A idéia era súbita e espantosamente excitante.

       — Não. — Becky empertigou-se no banco, mantendo a cabeça abaixada para que eu não pudesse ver-lhe o rosto, e começando a remexer na bolsa. — Não estou assustada, Miles, apenas preocupada. — Tirou um lenço e começou a enxugar as lágrimas. — É como se papai estivesse doente. Como se não fosse ele próprio e... bem, está na hora de ir.

       Becky fitou-me e sorriu. De súbito, inclinou-se e beijou-me rapidamente na boca, firme e afetuosamente. Depois, abriu a porta do carro e saiu.

       — Boa noite, Miles. Telefone-me de manhã. — Ela percorreu apressadamente o caminho que levava à varanda às escuras.

       Fiquei observando-a, contemplando o corpo esguio e atraente, ouvindo o ranger dos sapatos nas lajes ásperas do caminho, depois os passos leves subindo os degraus. Desapareceu na escuridão da varanda. Um instante depois, a porta da frente se abriu e logo em seguida fechou, atrás dela. E durante todo o tempo continuei sentado no carro parado, meneando a cabeça para mim mesmo, recordando os meus pensamentos a respeito de Becky no início da noite. No final das contas, ela não era apenas uma companhia agradável que por acaso usava saia. Estava começando a descobrir que bastava pôr uma mulher de quem se gosta nos braços, deixá-la chorar um pouco, para se começar a sentir uma profunda ternura, um impulso protetor. E depois esse sentimento se mistura com sexo. Se não toma cuidado, o camarada está pelo menos começando a se encaminhar para algo que eu pretendia evitar por algum tempo. Sorri e liguei o carro. Portanto, precisava apenas tomar cuidado e mais nada. Com os destroços de um casamento ainda ao derredor, não estava disposto a assumir qualquer relacionamento mais sério por enquanto. Quase na esquina, ao final do quarteirão, olhei para a casa de Becky lá atrás, grande e branca, à luz débil das estrelas. Compreendi que, embora gostasse muito dela e a considerasse extremamente atraente, podia afastá-la dos pensamentos sem maiores dificuldades. E foi o que fiz. Continuei em frente, pela cidade adormecida, pensando nos Belicecs, metidos em sua casa na colina distante.

       Eu tinha certeza de que Jack estava agora dormindo. Theodora provavelmente achava-se na sala de estar naquele momento, contemplando a cidade. Era até possível que naquele exato instante ela estivesse observando os meus faróis, sem saber que era eu. Imaginei-a tomando café, esforçando-se para resistir ao horror que estava sob seus pés, na sala de bilhar. .. e acumulando coragem para descer até lá dentro em breve, acender a luz, contemplar a coisa branca como cera que estava sobre o feltro verde da mesa.

       Cerca de duas horas depois, quando o telefone tocou, o abajur da minha mesa de cabeceira ainda estava aceso. Tinha começado a ler, pensando que não conseguiria adormecer por algum tempo. Contudo, caí no sono assim que me ajeitei na cama. Ao acordar, eram três horas da madrugada. Ao estender a mão para o telefone, verifiquei automaticamente a hora.

       — Alô? — falei. Ouvi o fone no outro lado da linha ser posto bruscamente no gancho. Eu sabia que havia atendido ao primeiro toque da campainha. Não importa quão cansado eu possa estar à noite, sempre ouço e atendo o telefone prontamente. — Alô? — Desta vez, falei um pouco mais alto, sacudindo o fone. Mas o aparelho estava mudo e desliguei também. No tempo do meu pai, uma telefonista noturna, cujo nome ele certamente conheceria, poderia informá-lo quem ligara. Provavelmente teria sido a única luz a se acender na mesa telefônica àquela hora da noite e ela se lembraria perfeitamente quem era, já que o telefonema era para o médico. Mas agora temos telefones automáticos, maravilhosamente eficientes, poupando-nos um segundo inteiro ou mesmo mais a cada ligação que se faz, inumanamente perfeito, extremamente impessoal. Mas o problema é que nenhum sistema automático jamais poderá recordar-se onde o médico está durante a noite, quando uma criança cai doente e precisa dele. Há ocasiões em que penso que estamos refinando nossas vidas para extirpar toda e qualquer humanidade.

       Sentado na beira da cama, comecei a praguejar, cansado. Não agüentava mais... com telefones, acontecimentos e mistérios, sono interrompido, mulheres que me importunavam quando eu queria apenas ser deixado sozinho, com meus próprios pensamentos, com tudo enfim. Pensei em levantar-me mas não o fiz. Apaguei a luz e estava quase dormindo novamente quando ouvi passos subindo os degraus da varanda. Depois, ouvi o toque brusco da campainha da porta, sempre mais alto e inesperado à noite, seguido, de imediato, por batidas rápidas e frenéticas rio vidro da porta.

       Eram os Belicecs. Theodora tinha uma expressão desvairada nos olhos, o rosto extremamente pálido, e se achava incapaz de falar. Os olhos de Jack estavam furiosos. Falamos apenas as poucas palavras necessárias para levar Theodora, praticamente carregando-a, pela escada acima, deitando-a na cama do quarto de hóspedes e cobrindo-a. Apliquei-lhe uma injeção de sódio-amital na veia.

       Jack sentou-se na beira da cama e a ficou observando por um longo tempo, talvez uns 20 minutos, segurando a mão dela entre as suas, fitando-a no rosto. Ainda de pijama, sentei-me no outro lado do quarto, numa poltrona que havia ali. Fiquei esperando, até que Jack finalmente olhou para mim. Sacudi a cabeça e deliberadamente falei num tom normalmente alto:

       — Ela vai dormir por várias horas pelo menos, Jack. Talvez até oito ou nove horas da manhã. E depois vai acordar faminta e estará perfeitamente bem.

       Jack assentiu, aceitando minha informação, e permaneceu sentado olhando para Theodora, por mais algum tempo. Depois, levantou-se e se encaminhou para a porta. Fui atrás dele.

       A sala de estar da minha casa é grande, atapetada de parede a parede, em cinza. O madeiramento é pintado de branco e a sala ainda está mobiliada ao melhor estilo dos anos 30, com móveis de vime, pintados de azul, que meus pais haviam comprado. É uma sala agradável que ainda contém, em minha opinião, um pouco da impressão mais simples e mais tranqüila de outros tempos. Sentamos ali, Jack e eu, um em cada lado da sala, com drinques nas mãos. Depois de tomar alguns goles, sempre olhando para o chão, Jack começou a falar:

       — Theodora acordou-me, sacudindo-me pela camisa. Eu estava dormindo todo vestido. Ela me bateu com tanta força que os dentes chocalharam. Ouvi-a... — Jack levantou a cabeça, fitando-me, o rosto franzido. É um homem que geralmente escolhe as palavras um tanto cuidadosamente. — Não exatamente me chamando, mas apenas dizendo meu nome, numa espécie de gemido, abafado, desesperado: “Jack... Jack... Jack...”

       Ele sacudiu a cabeça ao recordar, mordendo o lábio inferior duas ou três vezes, antes de tomar outro gole.

       — Acordei imediatamente para descobrir que ela estava histérica. Theodora não me disse nada. Apenas me olhou por um segundo, meio desvairada, frenética, depois virou-se bruscamente, atravessando o quarto até o telefone. Ligou para você, esperou por um segundo, não conseguiu ficar parada, bateu com o telefone. E começou a me suplicar, baixinho, como se receasse que alguém pudesse ouvi-la, para tirá-la imediatamente de lá. — Jack tornou a sacudir a cabeça, o rosto se contraindo numa expressão de irritação consigo mesmo. — Sem pensar, segurei-a pelo pulso e comecei a levá-la pela escada do porão para a garagem e o carro. Ela começou a lutar comigo, puxando violentamente o braço para se desvencilhar, empurrando-me pelo ombro, a expressão cada vez mais desvairada. Miles, acho que ela me teria arranhado todo o rosto com as unhas, se eu não a tivesse largado. Saímos então pela porta da frente e descemos os degraus externos. Mesmo assim, Theodora não quis chegar perto da garagem e do porão. Ficou esperando na estrada, bem afastada da casa, enquanto eu pegava o carro.

       Jack tomou outro gole e olhou por uma janela da sala, bastante escura na noite.

       — Não sei com certeza o que ela viu, Miles. — Jack olhou novamente para mim. — Mas posso perfeitamente imaginar. Assim como você. Só que não tive tempo de ir verificar pessoalmente. Sabia que precisava tirar Theodora de lá imediatamente. No caminho para cá, ela não me disse nada. Ficou toda encolhida no banco do carro, tremendo, comprimida contra mim... passei o braço por seus ombros... murmurando incessantemente “Jack, oh, Jack, Jack, Jack”.

       Por um longo momento, ficou-me olhando em silêncio com uma expressão sombria. Quando voltou a falar, a voz tinha um tom inconfundível de amargura:

       — Conseguimos de fato provar alguma coisa, Miles. Tenho a impressão de que a experiência funcionou. Mas o que vamos fazer agora?

      Eu não sabia e não tentei fingir que sabia. Limitei-me a menear a cabeça e murmurei:

       — Gostaria de dar uma olhada naquela coisa.

       — Eu também gostaria. Mas não vou deixar Theodora sozinha neste momento. Se ela acordasse e chamasse, sem que eu atendesse, se descobrisse a casa inteiramente vazia, poderia ficar desesperada a um ponto insuportável.

       Não respondi. É possível, e na verdade acontece com todo mundo, refleti através de uma sucessão de pensamentos consideravelmente longa, em um único instante. Foi o que aconteceu comigo naquele momento. Pensei em seguir de carro sozinho até a casa de Jack. Imaginei estacionar o carro ao lado da casa vazia e saltar, na escuridão, ficando parado, à escuta, no silêncio. Em seguida, entrava pela garagem aberta, avançando através do porão escuro tateando na parede à procura do desconhecido interruptor de luz. Vi-me realmente na sala de bilhar mergulhada na escuridão, buscando o caminho até a mesa. Apesar de saber o que estava estendido ali, chegava cada vez mais perto, as mãos levantadas, torcendo para que encontrassem a mesa, ao invés de tocar naquela pele fria e sem vida que esperava na escuridão. Pensei em esbarrar na mesa e finalmente encontrar o cordão que acendia a luz suspensa. Imaginei-me acendendo a luz e baixando os olhos para olhar. . . o que quer que provocara a histeria de Theodora. E me senti envergonhado. Não queria fazer o que sugerira a Theodora que fizesse. Não queria ir até à casa durante a noite. Ou pelo menos não queria fazê-lo sozinho.

       Fiquei subitamente furioso comigo mesmo. Naquele segundo ou pouco mais de pensamentos, estava procurando desculpas, dizendo a mim mesmo que não havia tempo para ir até a casa agora, que tínhamos de agir, fazer alguma coisa. E descarreguei minha raiva e vergonha em Jack. Levantei-me bruscamente, fitando-o, furioso:

       — Escute aqui! O que quer que vamos fazer, temos de começar a fazer logo! Portanto, o que tem a dizer? Tem alguma idéia? O que vamos fazer, pelo amor de Deus? — Eu estava de fato um pouco histérico e sabia disso. Jack falou bem devagar:

       — Não sei. Mas temos de agir cuidadosamente, certificando-nos de que não estamos cometendo qualquer erro. . .

       — Você já disse isso! Falou exatamente essas mesmas palavras no início da noite, e concordei e concordo plenamente! Mas o que vamos fazer? Não podemos ficar sentados de braços cruzados para sempre, até que finalmente nos seja revelado o caminho certo!

       Olhava furiosamente para Jack, mas logo fiz um esforço para me controlar. Pensei em algo, atravessei a sala rapidamente, piscando um olho para Jack a fim de informá-lo de que eu estava bem agora. Depois, peguei o telefone e disquei um número.

       A campainha no outro lado da linha começou a tocar e não pude deixar de sorrir. Estava encontrando naquilo um perverso pequeno prazer. Quando um clínico geral pendura a placa na frente de seu consultório, sabe que vai ser arrancado da cama pelo telefone durante a noite talvez pelo resto da vida. De certa, forma, ele se acaba acostumando. Mas, por outro lado, nunca se acostuma. Porque quase que invariavelmente o telefone tocando tarde da noite ou de madrugada significa algo sério, como pessoas apavoradas para enfrentar. Qualquer coisa que se faça se apresenta duas vezes mais difícil, talvez a necessidade de arrancar um farmacêutico da cama, ou fazer um hospital entrar em ação. E além disso tudo, ainda é preciso esconder do paciente e da família dele seus próprios temores e dúvidas noturnos, que devem ser sufocados, porque tudo depende agora de você e de mais ninguém. Afinal, você é o médico. O telefone tocando à noite não é nada divertido e, às vezes, é impossível não ficar ressentido contra os ramos da Medicina que nunca ou raramente apresentam chamados de emergência.

       Assim, quando o telefone finalmente parou de tocar no outro lado da linha, eu estava sorrindo deliciado com minha imagem mental do Dr. Manfred Kaufman, os cabelos pretos desgrenhados, mal conseguindo abrir os olhos, sem ter a menor idéia de quem poderia estar telefonando. E quando ele atendeu, murmurei:

       — Mannie?

       — Ele mesmo.

       — Escute... — fiz uma pausa, imprimindo à voz um tom exageradamente solícito. — ... por acaso o acordei?

       Isso o fez despertar bruscamente, praguejando como um doido.

       — Ora, Doutor, onde foi que aprendeu tal linguagem? — falei. — Imagino que deve ter sido do subconsciente sórdido e insidioso de seus pacientes. Confesso que eu gostaria muito de ser um médico de cabeça, cobrando setenta e cinco dólares de cada vez apenas para ficar sentado a escutar, melhorando meu vocabulário. Nunca mais ter de receber os terríveis chamados noturnos! Nada de operações delicadas! Não ter mais que me preocupar com receitas di...

       — Que diabo está querendo, Miles? Estou-lhe avisando que vou desligar e deixar o fone fora do gancho se. ..

       — Está bem, está bem, Mannie. — Eu estava sorrindo, mas o tom de minha voz prometia que não haveria mais brincadeiras. — Aconteceu algo e tenho de vê-lo imediatamente. O mais depressa possível. E tem de ser aqui. Venha para a minha casa o mais rapidamente que puder. É da maior importância.

       Mannie é um homem de inteligência extremamente ágil. Ele aprende as coisas depressa e não há necessidade de repetir ou explicar. Por apenas um instante, ficou em silêncio no outro lado da linha e depois disse simplesmente, antes de desligar:

       — Está certo.

       Fiquei imensamente aliviado, tornando a atravessar a sala, de volta ao meu lugar e ao drinque. Numa emergência em que se precisa de inteligência ou qualquer outra coisa, Mannie é o primeiro homem que quero ao meu lado. Agora que ele estava a caminho, eu sentia que finalmente íamos chegar a algum lugar. Peguei o drinque e me preparei para sentar-me. Já estava com a boca aberta, a fim de falar a Jack, quando aconteceu algo que a gente costuma ler nos livros, mas raramente experimenta. Num súbito instante, desatei a suar frio e fiquei imóvel por vários segundos, paralisado, todo encolhido por dentro de medo.

       O que acontecera foi bastante simples. De repente eu pensava em algo, um perigo tão óbvio e terrível que já deveria ter-me ocorrido muito antes. Mas tal não havia acontecido. E agora, o terror a me invadir a mente, eu sabia que não tinha um único segundo a perder e não podia agir com a rapidez necessária. Estava de chinelo e pijama. Corri para o vestíbulo e peguei o sobretudo que deixara em cima de uma cadeira, enfiando os braços pela mangas, enquanto me encaminhava para a porta. Tinha um pensamento fixo e era impossível fazer qualquer outra coisa senão agir, mexer-me, correr. Havia esquecido inteiramente de Jack e de Mannie, quando bruscamente abri a porta da rua e saí correndo, descendo os degraus para a noite escura, atravessando o gramado e chegando à calçada. Já estava com a mão na porta do carro, estacionado junto ao meio-fio, quando lembrei que deixara as chaves lá em cima. Simplesmente não era possível voltar para pegá-las. Comecei a correr, tão depressa quanto podia. De alguma forma, sem qualquer motivo que eu pudesse explicar, tinha a impressão de que a calçada me estorvava, retardando meu avanço. Deixei a calçada e passei a correr pelo meio das ruas escuras e desertas de Mill Valley.

       Não vi coisa alguma se movendo por dois quarteirões. As casas nos dois lados encontravam-se silenciosas e escuras, os únicos sons do mundo eram os dos meus pés no asfalto e da minha respiração ofegante, que pareciam povoar a rua inteira. Um pouco à minha frente, no cruzamento, o asfalto clareou e depois se iluminou, todos os detalhes da superfície aparecendo ao clarão dos faróis de um carro que se aproximava. Parecia que eu não podia pensar, não podia fazer outra coisa senão continuar correndo em frente, diretamente para o clarão dos faróis. Os freios rangeram abruptamente, pneus derraparam no asfalto, o cromado de um pára-choque bateu de leve em meu sobretudo.

       — Filho da puta! — gritou uma voz de homem, estridente de medo e de raiva. — Filho da puta doido!

       A voz foi diminuindo atrás de mim para um murmúrio de frustração, enquanto minhas pernas continuavam a se mover automaticamente, levando-me pela noite afora.

      

       Eu mal conseguia divisar qualquer coisa, quando cheguei à casa de Becky. O coração batendo forte parecia acumular todo o sangue por detrás dos globos oculares, toldando-me a visão. A respiração ofegante ressoava entre a parede da casa de Becky e a da casa ao lado. Comecei a verificar todas as janelas do porão da casa de Becky, empurrando para dentro com toda força, usando as duas mãos e correndo depois pela grama para a seguinte. Estavam todas trancadas. Terminei de contornar a casa. Enrolei a bainha do sobretudo em torno do punho cerrado, encostei no vidro da primeira janela e empurrei, aumentando a pressão até que o vidro rachou. Um pedaço caiu para dentro, no chão do porão, espatifando-se, ruidosamente. Os cacos faiscaram, pelo buraco no vidro. Os outros pedaços quebrados estavam inclinados para dentro, mas ainda presos no lugar. Eu estava agora começando a pensar. À luz débil das estrelas, retirei cuidadosamente os fragmentos quebrados, um a um, largando-os na grama e aumentando o buraco. Depois, enfiei o braço pela abertura, puxei a tranca e abri a janela. Arrastei-me para dentro, primeiro os pés, deslizando de barriga pelo peitoril. Finalmente, senti os pés tocarem no chão. O peito comprimido contra o cimento enquanto escorregava para baixo, senti a caneta-lanterna que sempre levo no casaco. Assim que fiquei de pé no porão, tratei de acendê-la. O facho de luz era fraco, largo e difuso, projetando-se por não mais que um metro. Não iluminava coisa alguma além de um ou dois passos à frente. Lentamente, fui avançando por aquele porão escuro e desconhecido, passando por pilhas de jornais velhos, uma porta de tela enferrujada encostada na parede de cimento, um cavalete todo escalavrado e sujo de tinta, uma arca velha, uma pia rachada, uma pilha de canos de chumbo sem uso, as colunas de madeira de sustentação do porão, uma fotografia de formatura da turma de Becky na escola secundária, emoldurada e coberta de poeira. Comecei a ficar em pânico. O tempo passava e eu não encontrava o que tinha certeza que estava em algum lugar daquele porão. Precisava descobrir, se é que já não era tarde demais.

       Verifiquei a arca. Achava-se destrancada e levantei a tampa sem qualquer dificuldade. Enfiei o braço até o ombro, vasculhando entre as roupas velhas que lá estavam, até me certificar de que não havia mais nada além disso. Também não havia nada entre as pilhas de jornais velhos ou por detrás da porta de tela. Nem tampouco atrás da estante que descobri, as prateleiras ocupadas por vasos vazios, em que se podiam ver crostas de terra. Avistei uma bancada de carpinteiro, coalhada de ferramentas e aparas de madeira, com várias tábuas de tamanhos diversos empilhadas embaixo. Tão cuidadosamente quanto possível, fui puxando as tábuas; mesmo assim, o barulho ainda era considerável. Mas não havia nada sob a bancada além das tábuas. Apontei a lanterna para os caibros do teto. Estavam expostos, cobertos por poeira e penugem, mas nada havia neles. O tempo continuava a passar e eu já tinha vasculhado todo o porão. Não sabia mais onde procurar. A todo instante olhava para as janelas, temendo avistar a primeira claridade do amanhecer.

       Foi então que descobri um grupo de armários altos. Estavam encostados na parede dos fundos, estendendo-se por toda a largura do porão, do chão ao teto. À luz fraca da lanterna, eu pensara inicialmente que constituíssem a própria parede e por isso não dei maior atenção. Abri a primeira porta. As prateleiras estavam cheias de alimentos em latas. Abri a porta seguinte. As prateleiras encontravam-se vazias, empoeiradas. Menos a última, que ficava a não mais do que dois ou três centímetros do chão.

       E lá estava, sobre a tábua de pinho sem pintura, estendido de costas, os olhos arregalados, os braços imóveis nos lados. Fiquei de joelhos ao lado do corpo. Acredito que seja mesmo possível perder o juízo em um único instante e tenho a impressão de que estive bem perto disso. Agora, eu podia compreender por que Theodora Belicec estava deitada numa cama em minha casa, em estado de choque, drogada. Fechei os olhos com toda força, fazendo um tremendo esforço para me controlar. Depois, tornei a abri-los e olhei, mantendo a mente, por pura força de vontade, num estado de calma fria e artificial.

       Já tinha observado um homem revelar uma fotografia, um retrato que tirara de um amigo comum. Ele mergulhava o papel em branco na solução, balançando-o lentamente de um lado para outro, à difusa luz vermelha do laboratório. Sob aquele fluido incolor, a imagem começava a se revelar, lenta e vagamente, mas não obstante perfeitamente reconhecível. Aquela coisa que ali estava, estendida de costas sobre a prateleira empoeirada e iluminado pelo débil clarão alaranjado da minha lanterna, era uma Becky Driscoll inacabada, ainda não de todo desenvolvida, vaga, indefinida.

       O cabelo, como o de Becky, era castanho e ondulado, começando na testa, forte e vigoroso. Já se podia ver o início de um ângulo na linha do cabelo, bem no meio da testa, sugerindo o bico-de-viúva que Becky Driscoll tinha. Sob a pele, a estrutura óssea estava-se alteando, as faces, o queixo e a região em torno dos olhos começando a ficar proeminentes. Como em Becky. O nariz era estreito, alargando-se abruptamente no alto. Dava para se perceber que, se aquele nariz se alargasse apenas uma fração mais, ficaria uma duplicata, tão precisa quanto um molde em cera, do nariz de Becky. Os lábios eram quase tão cheios e a boca, o que era horrível, igualmente atraente. Nos lados da boca estavam aparecendo as duas minúsculas rugas de preocupação, quase invisíveis, que haviam surgido no rosto de Becky Driscoll ao longo dos últimos anos.

       É impossível, mesmo numa criança, que osso e carne se desenvolvam perceptivelmente num período inferior a várias semanas. Contudo, ajoelhado ali naquele momento, eu sabia que a carne que estava olhando, assim como o osso por baixo, vinham-se formando e desenvolvendo nas horas e minutos que haviam transcorrido desde o início da noite. Simplesmente não era possível, mas mesmo assim eu sabia que aqueles malares haviam-se elevado sob a pele nesse prazo, da mesma forma como a boca se alargou, os lábios se encheram e assumiram sua individualidade, o queixo se prolongara ligeiramente, o cabelo havia mudado de cor para aquela precisa tonalidade, tornando-se mais espesso e vigoroso, estendendo-se em ondulações e formando um bico-de-viúva na testa.

       Espero nunca mais em minha vida ver algo tão terrível quanto aqueles olhos. Eu só consegui contemplá-los por um segundo de cada vez, e depois tinha de fechar meus próprios olhos. Eram quase tão grandes quanto os olhos de Becky, embora não totalmente... ainda não. Não eram também exatamente do mesmo formato ou precisamente da mesma tonalidade... mas estavam «chegando lá. A expressão daqueles olhos, no entanto. .. Observem uma pessoa inconsciente que recupera os sentidos. A princípio, os olhos mostram apenas mínimos primórdios apáticos de compreensão, os primeiros débeis relances de retorno da inteligência. Isso era tudo o que já havia acontecido àqueles olhos. A percepção objetiva e o alerta constante dos olhos de Becky Driscoll estavam horrivelmente parodiados e diluídos ali. Contudo, mesmo atenuado consideravelmente, podia-se não obstante divisar,, naqueles impassíveis olhos azuis iluminados pela luz fraca da minha lanterna, o primeiro indício, ainda débil, de que se tornaria, com o tempo, algo igual aos de Becky Driscoll. Soltei um gemido e me dobrei todo para a frente, comprimindo o estômago com força, com os braços cruzados.

       Havia uma cicatriz no antebraço esquerdo da coisa na prateleira, logo acima do pulso. Becky também tinha uma pequena marca de queimadura ali. Recordava-me perfeitamente do formato, porque parecia vagamente com os contornos do continente sul-americano. E no pulso daquela coisa, quase indiscernível, achava-se a mesma marca, exatamente com idêntico formato. Havia um sinal no quadril esquerdo e uma cicatriz branca como um risco feito a lápis, logo abaixo do joelho direito. Embora eu jamais tivesse examinado pessoalmente de perto tais sinais em Becky, tinha certeza de que ela os possuía, exatamente com os mesmos formatos.

       Ali, naquela prateleira, estava estendida Becky Driscoll... incompleta. Ali estava um... esboço preliminar para o que s& iria tornar uma cópia perfeita e impecável, tudo começado, tudo esboçado, nada inteiramente acabado. Pode-se dizer de outra maneira: ali, sob o débil clarão alaranjado da lanterna, havia um rosto meio toldado, visto vagamente através da água, mas mesma assim reconhecível em todas as feições.

       Sacudi a cabeça bruscamente, afastando os olhos da coisa. Quase que solucei, sorvendo o ar com sofreguidão, pois, inconscientemente, estivera prendendo a respiração. O barulho ressoou áspero e dissonante no porão silencioso. Depois, bruscamente, recomecei a me agitar, o coração inchando e se contraindo em proporções incalculáveis, o sangue se congestionando nas veias e por trás dos olhos, num pânico de terror e excitamento. Levantei com grande esforço, meio cambaleante, as pernas entorpecidas.

       Depois entrei em ação, rapidamente, subindo a escada do porão e experimentando a porta para o andar térreo da casa. Não estava trancada, e entrei na cozinha. Atravessei a silenciosa sala de jantar, as cadeiras de espaldar reto em torno da mesa, delineadas contra as janelas. Chegando à sala de estar, virei para a escada de balaustrada branca e comecei a subir, de dois em dois degraus, silenciosamente, até o vestíbulo superior.

       Havia ali diversas portas, todas fechadas. Eu tinha de adivinhar. Experimentei a segunda porta, num pressentimento súbito, segurando a maçaneta, apertando-a com firmeza. Lentamente, comecei a girar o pulso, sem fazer qualquer barulho. Podia sentir mais do que ouvir a lingüeta saindo do encaixe no umbral. Entreabri a porta apenas uma pequena fresta e a fui empurrando lentamente. Meti a cabeça para dentro do quarto, sem mexer os pés. Uma mancha escura, informe, uma cabeça, repousava sobre o único travesseiro numa cama de casal. Não havia a menor possibilidade de determinar quem era. Apontei a lanterna para um dos lados do rosto e apertei o botão, acendendo-a. Descobri que era o pai de Becky. Ele se mexeu, murmurando uma palavra ininteligível. Apaguei a lanterna e rapidamente, mas mesmo assim de maneira silenciosa, fechei a porta. Depois, gradativamente, fui largando a maçaneta.

       Estava agindo por demais devagar. Não podia mais me controlar. Estava quase prestes a arrombar as portas, arremessando-as ruidosamente contra as paredes, prestes a gritar com toda a força dos meus pulmões, despertando todo mundo na casa. Dei dois passos rápidos para a porta seguinte, abri-a sem qualquer hesitação e entrei, acendendo prontamente a lanterna e avançando pela parede até descobrir quem estava dormindo ali. Era Becky, deitada imóvel sob o pequeno círculo de luz, o rosto uma duplicata mais forte e mais vigorosa da paródia de rosto que eu deixara no porão. Contornei a cama em duas passadas e agarrei o ombro de Becky, a outra mão segurando a lanterna. Sacudi-a de leve e ela resmungou ligeiramente, mas não acordou. Passei o braço por baixo de seu ombro e a levantei. A parte superior do corpo ficou numa posição sentada, a cabeça descaindo para trás, por cima do meu braço. Um suspiro fundo subiu pela garganta de Becky.

       Não esperei por mais um instante sequer. Ajeitando a lanterna na boca, presa entre os dentes, puxei rapidamente a coberta, enfiei o outro braço sobre os joelhos de Becky e levantei-a. Depois, cambaleando um passo, ajeitei Becky por cima do meu ombro, na forma como os bombeiros carregam as pessoas que salvam. Um dos braços a segurá-la, para que não caísse, peguei a lanterna com a outra mão e saí cambaleando para o vestíbulo. Avancei até a escada, ainda cambaleando, mas na ponta dos pés. Para dizer a verdade, nunca soube se fiz muito ou pouco barulho. Desci a escada no escuro, deslizando os pés, tateando cada passo com os dedos.

       Cheguei à porta da frente e deixei a casa. Fui caminhando pela rua escura e deserta, alternadamente carregando Becky por cima do ombro, depois aconchegando-a entre meus braços, com sua cabeça ainda pendendo inerte. Depois de um quarteirão, Becky soltou um gemido, em seguida ergueu a cabeça, os olhos ainda fechados. Os braços também se levantaram, enlaçando-me pelo pescoço. E foi só então que ela abriu os olhos.

       Por um momento, enquanto eu continuava a andar, olhando para o rosto dela, Becky fitou-me aturdida, os olhos dando a impressão de que ela estava drogada. Depois, piscou diversas vezes, os olhos se desanuviaram um pouco. Sonolentamente, como uma criança, Becky balbuciou:

       — O que é isso? O que está acontecendo, Miles? O que houve?

       — Conto depois — murmurei, com um sorriso. — Você está bem. Como se sente?

       — Estou bem, mas muito cansada. Ó, Deus, como estou cansada! — Becky estava virando a cabeça enquanto falava, olhando ao redor, para as casas às escuras e as árvores por cima. — Miles, o que está acontecendo? — Fitou-me novamente, com um sorriso desconcertado. — Por acaso está-me raptando? Está me levando para seu covil ou algo assim? — Baixou os olhos e viu que, por baixo do sobretudo desabotoado, eu estava de pijama. E murmurou, zombeteiramente: — Não podia esperar, Miles? Não podia pelo menos me pedir, como um cavalheiro? Miles, que diabo afinal está fazendo?

       — Explicarei daqui a pouco, assim que chegarmos em minha casa. — As sobrancelhas dela se altearam ligeiramente, e eu aprofundei o sorriso. — Não se preocupe. Está perfeitamente segura. Mannie Kaufman está lá em casa, assim como os Belicecs.

       Becky olhou-me em silêncio por um momento, depois estremeceu. O ar da noite tornou-se frio e sua camisola era de nylon Apertou-me o pescoço mais firmemente e aconchegou-se entre meus braços, fechando os olhos. E murmurou:

       — É uma pena... A maior aventura da minha vida: raptada de minha própria cama por um homem bonito, de pijama, carregada pelas ruas como uma cativa mulher das cavernas. Mas, no final de tudo, ele tem de arrumar outras companhias.

       Abriu os olhos bruscamente e sorriu. Meus braços doíam horrivelmente, as costas pareciam uma gigantesca faca rombuda a se comprimir contra a espinha. Mal conseguia endireitar os joelhos depois de cada passo. Era uma terrível agonia. E, no entanto, eu não queria que terminasse. Ter Becky nos braços era uma sensação maravilhosa, e eu estava intensamente consciente do calor especial em todos os pontos em que o corpo dela encostava no meu.

       Ao me aproximar de casa, descobri que Mannie já havia chegado. O carro dele estava estacionado atrás do meu. Na varanda, pus Becky no chão. Fiquei sem saber se conseguiria empertigar-me sem me espatifar em incontáveis fragmentos, como um vidro quebrado. Mas consegui e tirei o sobretudo para entregar a ela, como já deveria ter feito muito antes. Simplesmente a lembrança não me ocorrera. Becky vestiu o sobretudo e abotoou-o, sorrindo. Depois, entramos em casa. Mannie e Jack encontravam-se na sala de estar.

      Ficaram olhando para nós, as bocas entreabertas de espanto. Becky sorriu e os cumprimentou, como se estivesse chegando para um chá da tarde. Comportei-me de maneira igualmente descontraída, deliciado com as expressões de Jack e Mannie. Sugeri a Becky que estava um pouco frio para ela ficar de camisola e informei onde poderia encontrar uma jeans azul que encolhera e se tornara pequena demais para mim, uma camisa branca limpa, meias de lã e um par de sapatos de lona. Ela assentiu e subiu para procurar as coisas.

       Avancei pela sala de estar, na direção de uma poltrona vazia, olhando para Mannie e Jack.

       — É que de vez em quando me sinto um tanto solitário — murmurei, dando de ombros. — E quando isso acontece, tenho de arrumar companhia de qualquer maneira.

       Mannie fitou-me com uma expressão cansada.

       — A mesma coisa? — indagou ele, sacudindo a cabeça na direção da escada pela qual Becky acabara de subir. — Encontrou outro na casa dela?

       — Exatamente. — Fiquei novamente sério. — No porão.

       — Quero vê-los — disse Mannie, levantando-se. — Pelo menos um deles. Na casa dela ou na de Jack.

       — Está certo — concordei. É melhor irmos à casa de Jack. O pai de Becky está em casa. Vou-me vestir.

       Lá em cima, eu no meu quarto, Becky no banheiro, a dois ou três passos adiante no corredor, ambos nos vestimos. Mesmo falando baixo, dava para conversarmos. Enquanto vestia uma calça, sapatos e meias, uma camisa e um velho suéter azul, expliquei tão sucintamente quanto possível o que ela já adivinhara que acontecera na casa dos Belicecs. Depois, relatei também o que descobrira no porão da casa dela, sem entrar em detalhes.

       Estava com receio de que isso pudesse ter um impacto adverso sobre Becky, mas ela reagiu bem à notícia. Ambos vestidos, saímos para o corredor. Becky sorriu-me jovialmente. Ela gostava ótima. A calça se ajustara perfeitamente. Com as meias brancas de lã, sapatos de lona, as mangas da camisa enroladas, colarinho aberto, ela parecia uma garota de um anúncio de temporada de férias. Os olhos, eu podia perceber agora, estavam brilhantes e ansiosos, sem qualquer vestígio de medo. Compreendi que isso acontecia porque ela não chegara a ver o que eu encontrara. Assim, estava mais satisfeita e deliciada pela aventura do que qualquer outra coisa.

       — Estamos indo para a casa de Jack, Becky. Quer ir também? — Eu estava pronto para discutir, se ela aceitasse. Mas Becky sacudiu a cabeça, recusando.

       — Não. Alguém tem de ficar aqui com Theodora. Vocês todos podem ir que cuidarei dela. — Virou-se e seguiu para o quarto em que Theodora estava, enquanto eu descia a escada.

       Fomos em meu carro, todos sentados no banco da frente. Depois de alguns quarteirões, Jack indagou:

       — O que acha de tudo isso, Mannie?

       Mas meu colega sacudiu a cabeça, olhando distraidamente para o painel.

       — Ainda não sei... simplesmente não sei...

       Notei que a leste, embora ainda fosse noite fechada no carro e na rua ao derredor, havia no céu uma insinuação do amanhecer.

       Subimos pela estrada de terra em marcha lenta,, viramos a última curva e descobrimos que aparentemente todas as luzes da casa de Jack estavam acesas. Por um instante, isso me assustou, pois esperava que a casa estivesse totalmente às escuras. Tive uma rápida imagem mental de um vulto meio vivo, inteiramente nu, cambaleando pela casa, a mente vazia, acendendo todas as luzes. Só depois de um instante é que compreendi que Jack e Theodora não se teriam dado ao trabalho de apagar as luzes quando partiram. Assim, acalmei-me um pouco. Parei o carro diante da garagem aberta. No tempo que transcorrera para vir de minha casa até ali, o céu clareara. Podíamos agora divisar, ao nosso redor, os contornos escuros das árvores, contra o céu do amanhecer. Saltamos. Num pequeno círculo a meus pés, pude perceber as irregularidades do terreno e os primeiros vestígios de cor, ainda acinzentada, nas moitas. As luzes da casa estavam começando a se tornar fracas e alaranjadas, à claridade do amanhecer.

       Nenhum de nós disse qualquer coisa. Entramos na garagem em fila indiana, com Jack na frente, o couro das solas de seus sapatos rangendo no cimento. Passamos para o porão, a porta entreaberta da sala de bilhar apenas sete ou oito passos à frente. A luz encontrava-se acesa, exatamente como Theodora a deixara. Jack estava passando pela porta.

       E parou de repente, tão abruptamente que Mannie esbarrou nele. No instante seguinte, Jack tornou a avançar, lentamente. Mannie e eu seguimos atrás. Não havia nenhum corpo em cima da mesa. Sob a luz forte da lâmpada que pendia do teto havia apenas o feltro verde. Nos cantos da mesa achava-se uma penugem cinzenta, que poderia ter-se desprendido dos caibros expostos.

       Por um instante, Jack ficou olhando para a mesa em silêncio, aturdido, a boca entreaberta. Depois, virou-se para Mannie. Como se protestasse, como se pedisse que acreditassem, falou:

     — Estava ali, em cima da mesa! Juro que estava, Mannie!

       O médico sorriu, sacudindo a cabeça rapidamente.

       — Acredito em você, Jack. Todos viram. — Deu de ombros. — E agora alguém o levou. Há um mistério aqui. Talvez. Vamos lá para fora. Creio que tenho algo para lhes contar.

 

       À beira da estrada, diante da casa de Jack, sentamo-nos na grama, ao lado do meu carro, os pés sobre a ribanceira, olhando para a cidade no vale lá embaixo. Eu já havia contemplado a cidade assim inúmeras vezes, atravessando as colinas de volta de chamados noturnos. O alto dos telhados ainda estavam cinzentos, sem cores definidas, mas por toda a cidade já havia janelas faiscando com um brilho alaranjado, refletindo os raios quase horizontais do sol nascente. Enquanto observávamos, as janelas alaranjadas foram-se tornando mais brilhantes, enquanto o sol ia-se deslocando, subindo lentamente pelo horizonte a leste. Aqui e ali, de uma que outra chaminé, podia-se ver fumaça se elevando pelo céu.

       Jack murmurou, falando na verdade mais para si mesmo, sacudindo a cabeça, enquanto olhava para as casas que pareciam de brinquedo lá embaixo:

       — Não gosto nem de pensar a respeito. Quantas dessas coisas estarão lá embaixo na cidade neste momento? Escondidas em lugares secretos?

       Mannie sorriu.

       — Nenhuma, absolutamente nenhuma. — E continuou a sorrir, enquanto virávamos bruscamente a cabeça para fitá-lo. — Não resta a menor dúvida de que vocês têm um mistério nas mãos. E um mistério genuíno. De quem era aquele corpo? E onde está agora? — Estávamos sentados à sua esquerda e Mannie virou a cabeça para observar nossos rostos por um momento, antes de acrescentar: — Mas é um mistério completamente normal. Um assassinato, possivelmente. Não posso dizer com certeza. O que quer que seja, no entanto, está inteiramente dentro dos limites da experiência humana. Não tentem transformá-lo em algo mais além

disso.

       Abri a boca para protestar, mas Mannie sacudiu a cabeça vigorosamente.

       — Escute o que tenho a dizer! — Os antebraços nos joelhos, as mãos cruzadas, Mannie ficou olhando a cidade, enquanto falava, pensativo. — A mente humana é uma coisa estranha e maravilhosa. Não sei se algum dia será capaz de entender a si mesma. Pode provavelmente compreender a tudo o mais, das partículas subatômicas ao universo. Menos a si mesma. — Estendeu o braço, gesticulando para a cidade em miniatura lá embaixo, rebrilhando ao sol do início da manhã. — Lá embaixo, em Mill Valley, há uma semana ou dez dias, alguém formou uma ilusão: uma pessoa de sua família não era o que parecia, mas sim uma

impostora. Não se trata exatamente de uma ilusão comum, mas acontece de vez em quando. Todo psiquiatra sempre acaba deparando com um caso desses, mais cedo ou mais tarde. E geralmente tem alguma noção de como tratá-lo. — Mannie recostou-se na roda dianteira do meu carro e sorriu-nos. — Mas na semana passada fiquei desnorteado. Não é uma ilusão comum. Apesar disso, somente esta pequena cidade produziu uma dúzia ou mais de casos apenas em uma semana ou pouco mais. Nunca antes eu havia encontrado tal incidência em toda a minha carreira e confesso que fiquei aturdido. — Passou distraidamente a mão pelo

princípio de barba no rosto bronzeado. — Mas estive fazendo algumas leituras ultimamente, refrescando a memória sobre determinadas coisas que deveria ter recordado antes. Por acaso já ouviram falar do Maníaco de Mattoon? Limitamos a sacudir a cabeça e ficamos esperando. Mannie encaixou um joelho entre os dedos entrelaçados, antes de continuar:

       — Mattoon é uma pequena cidade no Illinois, talvez com vinte mil habitantes. Aconteceu algo ali que podem encontrar descrito em detalhes nos livros de Psicologia.

       “A 2 de setembro de 1944, no meio da noite, uma mulher telefonou para a polícia. Alguém tentara matar sua vizinha com gás venenoso. A vizinha acordara por volta de meia-noite. O marido estava trabalhando, no turno da noite de uma fábrica. O quarto dela estava impregnado de um odor estranho, adocicado, enjoativo. Ela tentou levantar-se, mas as pernas estavam paralisadas. Conseguiu arrastar-se até o telefone e ligou para a vizinha, que comunicou à polícia.

       “Os policiais foram ao local e fizeram o que era possível. Descobriram uma porta destrancada, pela qual alguém poderia ter entrado na casa. Mas é claro que não havia mais ninguém ali, quando a polícia chegou. Uma ou duas noites depois, a polícia recebeu outro chamado. Encontrou outra mulher parcialmente paralisada, passando mal. Alguém tentara matá-la com gás venenoso. Naquela mesma noite, o fato se repetiu, em outra parte da cidade. E quando uma dúzia ou mais de mulheres foram atacadas da mesma forma, nas noites subseqüentes, cada mulher passando mal e parcialmente paralisada por um gás de cheiro enjoativo bombeado para seu quarto enquanto dormia, a polícia chegou à conclusão de que tinha um psicopata para descobrir. Um maníaco, como os jornais o estavam chamando. — Mannie arrancou uma erva daninha, pondo-se a tirar as folhas da haste.

       “E chegou a noite em que uma mulher viu o homem. Acordou a tempo de vê-lo delineado contra a janela aberta do quarto, estava bombeando algo para dentro, como se fosse uma dessas bombas antigas de inseticida. Ela farejou o gás, soltou um grito € o homem tratou de fugir. Mas antes que se afastasse, a mulher teve a oportunidade de dar-lhe uma boa olhada. Ele era alto, bastante magro, estava usando o que parecia ser um pequeno barrete preto.

       “A polícia estadual foi chamada a intervir no caso, pois numa única noite sete outras mulheres foram vítimas de ataque com gás e ficaram parcialmente paralisadas. Repórteres dos serviços noticiosos e da maioria dos jornais de Chicago convergiram para a cidade. Podem-se encontrar relatos de tudo isso nos arquivos dos jornais. Durante a noite, naquele período do ano de 1944, em Mattoon, Illinois, carros patrulhavam as ruas, cheios de homens armados de espingardas. Vizinhos se organizavam em grupos, patrulhando seus quarteirões em turnos. Mas os ataques continuaram e o maníaco não foi descoberto.

       “Chegou uma noite em que havia oito carros da polícia estadual na cidade, além de uma unidade móvel de rádio. Um médico, preparado e de prontidão, encontrava-se no hospital metodista local. Naquela noite, como sempre, a polícia recebeu um chamado. Era uma mulher, mal conseguindo falar, informando que sofrerá um ataque de gás do lunático. Em menos de um minuto, um dos carros da polícia, circulando pela cidade, estava na casa dela. A mulher foi levada imediatamente para o hospital e examinada pelo médico. — Mannie fez uma pausa, sorrindo. — Ele não encontrou nada de errado com a mulher. Absolutamente nada. Ela foi mandada de volta para casa. Houve outro chamado. A segunda mulher também foi levada às pressas para o hospital e examinada. Também não havia nada de errado com ela. E essa rotina continuou a acontecer pelo resto da noite. Os chamados chegavam, as mulheres eram levadas para o hospital e examinadas poucos minutos depois, sendo em seguida mandadas de volta para suas casas.

       Mannie fez outra pausa, contemplando atentamente nossos rostos por um longo momento, antes de acrescentar:

       — Os casos daquela noite foram os últimos que aconteceram em Mattoon. A epidemia havia acabado. Não havia nenhum maníaco. Nunca houvera. — Sacudiu a cabeça, num gesto de perplexidade. — Histeria de massa, auto-sugestão, podem chamar como acharem melhor... foi justamente isso o que aconteceu em Mattoon. Por quê? Como? — Mannie deu de ombros. — Não sei. Podemos dar nomes, mas não somos realmente capazes de compreender. Tudo o que sabemos com certeza é que tais coisas podem mesmo acontecer.

       Creio que Mannie percebeu, em meu rosto e no de Jack, uma disposição obstinada de não aceitar as implicações do que ele estava dizendo, porque virou-se para mim e disse, pacientemente:

       — Miles, na faculdade de Medicina você deve ter lido sobre a Doença da Dança, que se espalhou pela Europa há cerca de duzentos anos. — Olhou para Jack e acrescentou: — Foi uma coisa espantosa. Impossível de acreditar. Só que de fato aconteceu. Cidades inteiras começaram a dançar. Primeiro uma pessoa, depois outra, depois cada homem, mulher e criança, até que caíam, mortos ou exaustos. A coisa se espalhou por toda a Europa e ganhou o nome de Doença da Dança. Pode ler a respeito em sua enciclopédia. Durou um verão inteiro, pelo que me recordo. E depois... parou, cessou por completo, deixando as pessoas espantadas, sem saber o que lhes tinha acontecido. — Mannie fez uma pausa, observando-nos, depois voltou a dar de ombros. — Aí está. Essas coisas são difíceis de acreditar, até que as testemunhemos. E mesmo depois disso. E foi algo assim que aconteceu em Mill Valley. A notícia se espalha, a princípio meio

secretamente. É sussurrada de pessoa para pessoa, como aconteceu em Mattoon. Alguém pensa que seu marido, irmão, tia ou tio é na verdade um impostor idêntico. É uma notícia estranha e excitante, todo mundo se interessa. E a coisa continua a acontecer. Vai-se espalhando cada vez mais e quase todos os dias surge um novo caso ou vários. A caça às feiticeiras em Salém, os chamados objetos voadores não-identificados... tudo faz parte dessa mesma faceta desconcertante da mente humana. Não são poucas as pessoas que levam vidas solitárias. Tais ilusões atraem atenção e preocupação.

       Mas Jack estava sacudindo a cabeça lentamente, insistindo que não. E Mannie acrescentou, calmamente:

       — O corpo era genuíno. É isso o que o está perturbando, Jack? — Este assentiu e Mannie continuou: — Era mesmo. Vocês o viram. Mas isso é tudo o que há de concreto. Se tivesse descoberto o corpo há um mês, Jack, certamente o teria considerado pelo que era, um mistério desconcertante, possivelmente muito estranho, mas também perfeitamente natural. E o mesmo aconteceria com Theodora, Becky e Miles. Creio que pode entender o que estou querendo dizer. — Inclinando-se pela minha frente, Mannie olhava atentamente para Jack. — Vamos supor que em agosto de 1944, em Mattoon, Illinois, um homem saísse pelas ruas à noite carregando uma bomba de inseticida. Qualquer um que o visse teria imaginado, corretamente, que o homem iria cuidar de suas rosas no dia seguinte ou algo parecido. Mas um mês mais tarde, em setembro, aquele mesmo homem com a bomba de inseticida poderia ter os miolos estourados, antes de ter uma oportunidade de se explicar. — Mannie fez uma nova pausa, antes de gentilmente acrescentar: — E você, Jack, encontrou um corpo tendo aproximadamente a sua altura e compleição, o que não é tão estranho assim. Você é um homem de tamanho médio. Na morte, o rosto era liso e sem rugas, o que acontece freqüentemente. Além disso, a expressão era vazia, outra coisa também possível. — Deu de ombros. — Você é um escritor, um homem de imaginação. Está sob a influência da ilusão que grassa em Mill Valley, assim como Miles, Theodora e Becky. O que certamente também aconteceria comigo, se eu vivesse aqui. Sua mente procurou prontamente uma ligação, chegou à conclusão explicando dois mistérios em termos um do outro. A mente humana está sempre procurando por uma relação de causa e efeito, e todos preferimos o fantástico e emocionante ao insípido e corriqueiro como resposta.

       — Ora, Mannie, Theodora realmente viu...

       — Exatamente o que ela estava esperando ver! O que ela estava apavorada por ver! O que ela estava absolutamente certa de ver, nas circunstâncias. Eu ficaria muito espantado se isso não tivesse acontecido. Ora, vocês dois a condicionaram, e ela própria se condicionou completamente e estava pronta para ver!

       Fiz menção de falar, e Mannie sorriu ironicamente.

       — Você não viu nada, Miles. — Deu de ombros. — Exceto talvez um tapete enrolado numa prateleira no porão da casa de Becky. Ou uma pilha de lençóis ou roupas sujas. Praticamente qualquer coisa ou absolutamente nada teria produzido o mesmo efeito. A esta altura, Miles, você se encontrava em tal estado, tão excitado, correndo pelas ruas, que estava certo de que iria encontrar, como foi o primeiro a falar... o que acabou encontrando, como não podia deixar de acontecer. — Levantou a mão, quando fiz novamente menção de falar. — É claro que você viu, Miles. Nos menores detalhes. Exatamente como descreveu. Viu tão nitidamente e tão absolutamente real quanto qualquer pessoa já viu alguma coisa. Só que viu apenas em sua mente. — Mannie franziu o rosto para mim. — Você é médico, Miles. Sabe alguma coisa sobre como esse tipo de processo funciona.

       Mannie tinha razão. Eu sabia mesmo. Na faculdade de Medicina, assisti certa ocasião a uma aula de um professor de Psicologia. Agora, sentado ali, à beira da estrada, o sol quente incidindo em meu rosto, lembrei-me de como a porta da sala se abrira bruscamente e dois homens engalfinhados cambalearam para dentro. Um homem se desvencilhou, arrancou uma banana do bolso, apontou-a para o outro e gritou: “Bam!” O outro levou as mãos ao lado do corpo, tirou do bolso uma pequena bandeira americana, sacudiu-a vigorosamente na cara do primeiro, em seguida os dois saíram correndo da sala.

       O professor disse: “Esta é uma experiência controlada. Cada um deve pegar papel e lápis e escrever um relato completo do que acabou de presenciar, deixando em minha mesa ao sair da sala.”

       No dia seguinte, na aula, ele leu em voz alta os trabalhos. Eram vinte e tantos estudantes e não havia dois relatos iguais, nem mesmo parecidos. Alguns estudantes viram três homens, outros quatro, uma moça viu cinco. Houve quem visse homens brancos, outros pretos, alguns orientais ou mesmo mulheres. Um estudante viu um homem apunhalado, o sangue esguichando; viu-o comprimir contra o lado do corpo um lenço, que prontamente ficou encharcado de sangue no chão, o que procurou ao deixar o papel na mesa do professor e sair da sala. E assim por diante. Não houve um único relato que mencionasse a bandeira americana ou a banana; tais objetos não se ajustavam à súbita e violenta cena que causara tanto impacto em nossos sentidos. Por isso, nossas mentes simplesmente os haviam excluído e substituído por outras coisas mais apropriadas, como revólveres, facas e panos encharcados de sangue, que estávamos absolutamente convencidos de termos mesmo visto. E de fato víramos, mas somente em nossas mentes, procurando por alguma explicação.

       Por tudo isso, perguntei-me agora se Mannie não estaria certo. E foi muito estranho. Experimentei uma sensação de desapontamento, uma decepção profunda. Compreendi que estava fazendo força para resistir, não querendo acreditar em Mannie. Preferimos o fantástico e emocionante, como Mannie dissera, ao insípido e corriqueiro. Muito embora ainda pudesse ver na mente, nítida e horrivelmente real, o que pensava ter visto no porão da casa de Becky, sentia intelectualmente que Mannie provavelmente estava certo. Mas emocionalmente ainda era quase impossível aceitar, e creio que isso transpareceu em meu rosto e no de Jack. Porque Mannie se levantou e ficou parado por vários segundos, fitando-nos, para depois dizer suavemente:

       — Querem uma prova? Pois lhes vou dar. Miles, volte à casa de Becky e, num estado mental sereno, vai verificar que não existe nenhum corpo naquela prateleira no porão. É algo que garanto. Havia apenas um corpo, na casa de Jack, o que começou tudo isso. Querem mais provas? Posso dar. Essa ilusão acabará em Mill Valley, assim como acabou em Mattoon, assim como acabou na Europa, assim como todas acabam. E as pessoas que foram procurá-lo, Miles, Wilma Lentzs e outras, irão retratar-se. Ou pelo menos algumas delas. Outras irão evitá-lo, por simples constrangimento. Mas se pressioná-las, certamente admitirão o que as outras vão dizer-lhe: que a ilusão desapareceu, que simplesmente não compreendem como ou por que a idéia entrou em suas cabeças. E isso será o fim de tudo. Não haverá mais casos. É algo que também posso garantir. — Mannie sorriu, olhou para o céu agora bastante azul e comentou: — Até que estou com fome.

       Jack sorriu, levantou-se também e disse:

       — Eu também.

       Fui o último a ficar de pé.

       — Vamos voltar para minha casa e ver o que as mulheres podem fazer para comermos.

       Jack foi antes até sua casa, apagando as luzes, fechando e trancando as portas. Ao voltar, trazia debaixo do braço uma pasta do tipo sanfona, de papelão, dividida em seções, cada uma estofada de papéis.

       — É o meu arquivo. Trabalhos em andamento, anotações, referências, coisas diversas. — Sorriu. — É extremamente valioso para mim e gosto de levá-lo sempre comigo.

       Entramos no carro e voltamos para a cidade.

       Parei junto ao meio-fio diante da casa de Becky e saltei, deixando o motor ligado. Ainda era muito cedo, a rua esbranquiçada pela claridade do novo dia. Não vi uma única pessoa ou qualquer movimento em todo o quarteirão. Avancei bravamente pelo lado da casa, mas a verdade é que meus pés não faziam barulho no gramado. Parei diante da janela quebrada do porão, olhando para as janelas das casas vizinhas. Não vi ninguém, não ouvi qualquer barulho. Abaixei-me rapidamente, passei rastejando pela janela e depois fui andando na ponta dos pés pelo chão de concreto do porão. Este achava-se claro agora e silencioso. Eu estava calmo, mas preocupado. Não queria ser apanhado ali embaixo para explicar o que estava fazendo.

       A porta do armário encontrava-se entreaberta, exatamente como eu a deixara. Escancarei-a e olhei para a última prateleira. A claridade que entrava por uma janela do porão próxima incidia sobre a prateleira... que estava vazia. Abri todas as portas e não encontrei coisa alguma que não devesse estar ali: havia somente alimentos em latas, ferramentas, vidros vazios de conservas, jornais velhos. Sobre a prateleira vazia de baixo havia uma camada espessa de poeira. Agachei-me ao lado e dei de ombros. Era o tipo de sujeira que se acumula em porões e que meus sentidos haviam distorcido, numa espécie de explosão histérica, encarando como um corpo.

       Eu não queria ficar ali por um momento mais além do necessário. Fechei o armário, como o encontrara, voltei à janela e saí novamente para o gramado. Não sabia o que o pai de Becky pensaria, quando descobrisse a janela quebrada do porão, mas tinha certeza de que não seria eu quem lhe explicaria.

       No carro, afastando-me do meio-fio, sacudi a cabeça para Mannie, com um sorriso constrangido.

       — Você estava certo.

       Olhei para Jack e dei de ombros.

      

       O animal humano não se limita a uma dieta exclusiva de qualquer emoção: medo, felicidade, horror, angústia ou mesmo contentamento. Foi estranho. Depois da noite que todos passáramos, o café da manhã foi bastante divertido. O sol ajudava. Entrava pelas janelas e pela porta da cozinha, amarelo e quente, repleto com as promessas da manhã. Theodora já tinha acordado, quando chegamos em casa. Estava sentada à mesa da cozinha, tomando café com Becky. Levantou-se quando entramos. Jack correu para ela, e os dois ficaram abraçados por um longo tempo. Jack beijou-a fortemente. Depois, deu um passo para trás, a fim de contemplá-la. Mannie e eu também olhamos. Theodora ainda estava cansada e tinha olheiras fundas. Mas a expressão era agora serena e sã, e ela sorriu-nos por cima do ombro de Jack.

       Depois, quase como se tivesse havido algum sinal, todos começamos a falar, rindo muito, fazendo gracejos. As duas mulheres acenderam o fogo e começaram a esquentar frigideiras e panelas, abrindo armários e a geladeira, enquanto os três homens se sentavam à mesa da cozinha. Becky serviu-nos café. Por um consentimento tácito, não falamos sobre a noite anterior — pelo menos não a sério — ou sobre o que Jack, Mannie e eu acabáramos de fazer. As mulheres também não fizeram perguntas. Devem ter sentido, por nossa atitude, que estava tudo bem.

       O presunto começou a fritar no fogão, Theodora revirando-o com um garfo comprido. Becky quebrou diversos ovos numa tigela. O barulho da colher de metal, batendo ritimadamente contra a louça, era extremamente agradável. Os olhos rindo, Theodora disse:

       — Estive pensando no que aconteceu e cheguei à conclusão de que poderia perfeitamente aproveitar uma duplicata de Jack. Um deles poderia vaguear pela casa como sempre, sem ouvir uma só palavra do que digo, elaborando o que quer que esteja escrevendo mentalmente. E talvez o outro tivesse tempo para conversar comigo e até mesmo me ajudar a lavar a louça de vez em quando.

       Jack sorriu para ela por cima da xícara, os olhos felizes e aliviados por vê-la assim.

       — Talvez valesse a pena — disse ele. — Há ocasiões em que penso que qualquer mudança em mim seria uma melhoria. Talvez o novo Jack pudesse saber realmente como escrever, ao invés de ficar batendo com a cabeça contra um muro de pedra, apenas tentando.

       — Não resta a menor dúvida de que há algumas vantagens — concordou Becky. — Gosto da idéia de uma Becky sendo carregada secretamente pelas ruas de camisola, enquanto a outra ainda está em casa, devidamente sozinha na cama, satisfazendo às convenções.

       Continuamos no mesmo tema. Mannie queria um Dr. Kaufman escutando os pacientes, enquanto o outro jogava tênis. Comentei que também poderia aproveitar uma duplicata de Miles Bennell para conseguir pôr o sono em dia.

       A comida estava saborosa e conversamos sem parar, enquanto comíamos vorazmente, fazendo todos os gracejos possíveis. Na verdade, pelo que penso, estávamos um pouco animados demais, quase inebriados, numa reação a tudo o que acontecera. Dali a pouco Mannie tocou com o guardanapo na boca, olhou para o relógio na parede e se levantou. Comentou que mal teria tempo de chegar em casa, tomar um banho, fazer a barba, mudar de roupa e ir para o consultório esperar o primeiro paciente. Despediu-se de todos, disse-me que tencionava apresentar uma conta enorme, cobrando as taxas habituais, se não em dobro, sempre sorrindo. Acompanhei-o até a porta da frente. Depois, nós quatro tomamos mais algumas xícaras de café.

       Enquanto eu tomava o meu, recostei-me na cadeira e contei a Theodora e Becky, sucinta e objetivamente, o que acontecera, o que encontráramos — ou melhor, o que não encontráramos — nos porões de Jacky e Becky, e o que Mannie nos dissera lá na estrada.

       Já esperava o que aconteceu, quando terminei o relato: Theodora simplesmente sacudiu a cabeça, os lábios contraídos numa expressão de serena obstinação. Não lhe era possível acreditar que não tinha visto o que estava certa de ter visto... e ainda podia ver, no olho da mente. Becky não fez qualquer comentário, mas pude perceber, pelo alívio em seus olhos, que aceitava a explicação de Mannie. Eu sabia que ela estava pensando no pai. Becky parecia estar muito bem, sentada ao meu lado, viçosa, animada, atraente. Era excitante vê-la com a minha camisa, aberta no colarinho.

       Jack se levantou, foi até a sala de estar e voltou com a pasta de papelão que trouxera de sua casa. Sorrindo, tornou a sentar-se e disse, espiando em cada seção da pasta do tipo sanfona:

       — Sou uma espécie de esquilo. Um colecionador de coisas diversas, sem saber direito por quê. E uma das coisas que guardo... — tirou um punhado de recortes de uma das seções da pasta... — são determinadas notícias de jornal. Decidi trazê-las para cá, depois que conversamos com Mannie.

       Empurrando para o lado os pratos à sua frente, ele pôs os recortes na mesa, uma dúzia ou mais, alguns amarelados pelo tempo, outros parecendo recentes, a maioria curta, uns poucos longos. Pegando um recorte ao acaso, deu uma olhada no título e depois entregou-me.

       Levantei-o para que Becky também pudesse ler. Rãs Caem no Alabama, dizia o título. Era uma notícia de uma coluna, com quatro ou cinco centímetros de altura, despachada de Edgeville, Alabama: “Qualquer pescador desta cidade de quatro mil habitantes teve iscas em abundância esta manhã... se houvesse um único lugar na região para usá-las. Ontem à noite, uma chuva de pequenas rãs, de origem indeterminada...” A pequena notícia — li o resto por alto — informava que uma chuva de pequenas rãs caíra sobre a cidade, fazendo barulho nos telhados e janelas como chuva de verdade, por vários minutos, na noite anterior. O tom da notícia era ligeiramente irônico e não se sugeria qualquer explicação para o fenômeno. Olhei para Jack, que me sorriu e disse:

       — Um absurdo, não é mesmo? Especialmente, como a própria notícia insinua, porque não havia lugar nenhum de onde as rãs pudessem ter vindo.

       Pegou outro recorte e me entregou. O título era o seguinte: Homem Queimado até a Morte; Roupas Intactas. Contava a história de um homem que fora totalmente consumido pelo fogo, numa fazenda em Idaho. As roupas que ele usava, no entanto, não haviam sido afetadas, nem mesmo ficado chamuscadas. Não havia qualquer indício de danos de fogo ou mesmo manchas de fumaça na casa. O médico-legista local declarara que geria necessário um calor de pelo menos 1000.°C para queimar um homem como aquele fora encontrado. E isso era tudo o que havia na notícia.

       Meio sorri, meio franzi o rosto para Jack, sem ter a menor idéia do que significava tudo aquilo. Theodora olhava para o marido por cima da xícara de café encostada em seus lábios, com uma expressão divertida, de desdém afetuoso, como as pessoas costumam exibir diante das excentricidades dos maridos. Jack sorriu.

       — Tenho duas dúzias de notícias assim, de todas as partes... pessoas queimadas até a morte, por dentro de suas roupas. Já leram um absurdo maior alguma vez? Mas aqui há outra espécie.

       Escrito a lápis, na margem do recorte, estava a referência: New York Post. O título impresso era o seguinte: E Lá Estava a Ambulância. Era um despacho de Richmond, Califórnia, 7 de maio (AP). E dizia: “Sigam imediatamente para o cruzamento da San Pablo com a McDonald Avenue”, falou a voz ao telefone. “O expresso de Santa Fé acaba de bater num caminhão e um homem está gravemente ferido.” A polícia prontamente enviou uma radiopatrulha e uma ambulância para o local. Não havia qualquer acidente. O trem ainda nem passara por ali. Mas chegou, no momento em que o carro da polícia e a ambulância se retiravam. Um caminhão de entrega, dirigido por Randolph Bruce, de 44 anos, estava cruzando a via férrea naquele exato momento. Houve o choque. Bruce ficou gravemente ferido. Sofreu lesão cerebral e tinha o peito esmagado.

       — Onde está querendo chegar, Jack? — indaguei, largando o recorte em cima da mesa.

       — Há pelo menos uns duzentos casos estranhos que colecionei em poucos anos, mas podem-se descobrir outros milhares. — Jack se levantou e começou a andar bem devagar pela cozinha.

       — Acho que provam pelo menos o seguinte: que coisas estranhas acontecem, acontecem de verdade, volta e meia, aqui e ali, no mundo inteiro. Coisas que simplesmente não se ajustam com a grande massa de conhecimento que a raça humana adquiriu gradativamente ao longo de milhares de anos. Coisas em contradição direta com o que sabemos ser verdadeiro. Como alguma coisa cair para cima, ao invés de cair para baixo.

       Jack estendeu a mão para a torradeira, pegou uma migalha e levou-a à língua.

       — É onde estou querendo chegar, Miles — continuou ele.

       — As coisas devem ser sempre explicadas? Ou desdenhadas zombeteiramente? Ou simplesmente ignoradas? Porque é isso o que sempre acontece. — Recomeçou a andar lentamente pela cozinha grande e antiga. — Acho que isso é natural. Imagino que nada pode conquistar um lugar em nossa massa de conhecimento aceito, exceto o que é universalmente experimentado. — Parando de andar, Jack virou-se para a mesa. — Deveríamos considerar todos os fenômenos imparcialmente, sem qualquer preconceito. Mas é claro que isso não acontece. Esse tipo de ocorrência... — fez uma pausa, acenando com a cabeça para os recortes na mesa — .... é sempre descartado com o desprezo automático habitual. No qual todos nos baseamos. Que coisas são essas? — indaga a atitude científica. Ora, não passam de ilusão de óptica. Ou auto-sugestão. Histeria. Hipnose de massa. Ou quando todas as possibilidades se esgotam, passam a ser pura coincidência. Qualquer coisa e tudo, exceto o que possivelmente aconteceu de fato. — Jack sacudiu a cabeça, sorrindo. — Não se deve nunca admitir, por um momento sequer, que alguma coisa que não compreendemos possa, mesmo assim, ter ocorrido.

       Como creio que a maioria das esposas faz, mesmo as mais sensatas, com qualquer convicção autêntica de seus maridos, Theodora aceitou aquela e tornou-a sua também, comentando:

       — O que é uma estupidez. Não dá para entender como a raça humana consegue aprender qualquer coisa nova.

       — Leva muito tempo — concordou Jack. — Foram necessárias centenas de anos para aceitar que o mundo é redondo. Um século resistindo ao conhecimento de que a Terra gira em torno do sol. Detestamos enfrentar novos fatos ou constatações, porque podemos ter de reavaliar nossas concepções do que é possível. O que é sempre desagradável. — Jack sorriu e voltou a se sentar à mesa. — Mas não deveria ser assim. Peguemos qualquer um desses recortes. — Pegou um, ao acaso. — Este do New York Post, por exemplo. Não se trata de ficção. O New York Post é um jornal que existe de verdade. Esta pequena notícia foi de fato publicada no Post e certamente em muitos outros jornais de todo o país. Milhares de pessoas a leram, inclusive eu. Mas por acaso exigimos que nossa massa de conhecimentos fosse reavaliada para incluir essa ocorrência pequena e estranha? Por acaso foi o que fiz? Não. Todos ficamos espantados com o fato, intrigados e interessados momentaneamente, depois tratamos de afastá-lo da mente. E agora, como todos os outros acontecimentos estranhos e sem maior importância que não se ajustam inteiramente ao que pensamos que sabemos, está esquecido e ignorado pelo mundo, à exceção de uns poucos colecionadores de curiosidades como eu.

       — Talvez deva ser assim mesmo — comentei, calmamente. — Dê uma olhada nisso.

       Eu estivera examinando a esmo os recortes enquanto Jack falava, e empurrei um na direção dele. Tratava-se de um pequeno recorte do Mill Valley Record e não dizia muita coisa. Um certo L. Bernard Budlong, professor de Botânica e Biologia do Marin College, era citado como negando um comentário que o jornal lhe atribuíra no dia anterior, a respeito de alguns “objetos misteriosos” encontrados em certa pastagem além dos limites da cidade. Eram descritos como imensas vagens de sementes, de alguma espécie. Budlong negava agora ter declarado que “vinham do espaço exterior”. O Record se retratava ao final da notícia: “Desculpe, Professor!”

       — O que acha disso, Jack? — indaguei, gentilmente. — O colapso de uma de suas pequenas ocorrências, com uma retratação escondida na massa do jornal do dia seguinte. Não faz a gente pensar duas vezes... — sacudi a cabeça para os outros recortes — ... a respeito do resto?

       — Claro, Miles. Essa retratação também pertence à coleção. E é justamente por isso que está aí. Não a excluí. — Levantou um punhado de recortes e depois largou-os de novo sobre a mesa.

      — Miles, há muitas mentiras aqui, a maioria, pelo que sei. Alguns são certamente embustes. E provavelmente quase todos os outros são distorções, exageros, simples erros de julgamento ou visão. Tenho bom senso suficiente para saber disso. Mas que diabo, Miles, isso não acontece com todos, no passado, presente ou futuro! Não se pode explicar todas essas ocorrências estranhas, permanentemente, para sempre! — Por um momento Jack ficou-me olhando com uma expressão furiosa, para depois sorrir.

       — Será que Mannie está mesmo certo? O que aconteceu ontem à noite deve ser explicado também com alguma generalização? — Deu de ombros. — Talvez deva mesmo. O que Mannie diz faz sentido. É o que sempre acontece no caso dele. E ele explicou o que aconteceu quase satisfatoriamente. Talvez até noventa e nove por cento.

       Por algum tempo, Jack ficou-nos olhando em silêncio. Depois, baixou a voz e disse suavemente:

       — Mas ainda resta em minha mente um insignificante um por cento de dúvida.

       Eu olhava para Jack e podia sentir um calafrio subir-me lentamente pela espinha, diante do pensamento que acabara de me ocorrer.

       — As impressões digitais... — murmurei. Jack franziu o rosto por um momento. Alteei a voz: — As impressões digitais em branco! Mannie acha que se trata simplesmente de um corpo comum. Mas desde quando homens comuns não têm absolutamente quaisquer impressões digitais?

       Theodora estava-se levantando nesse instante, as mãos se apoiando no tampo da mesa, a voz saindo alta e estridente:

       — Não posso voltar para lá, Jack! Não posso mais pôr os pés naquela casa! — Quando Jack também se levantou, a voz dela tornou-se ainda mais alta. — Sei o que vi! Ele se estava transformando em você, Jack!

       E quando ele a abraçou, as lágrimas escorriam pelas faces de Theodora, os olhos novamente dominados pelo medo. Depois de um momento, consegui falar calmamente:

       — Então não volte para casa, Theodora. Pode ficar aqui. — Os dois se viraram para mim e acrescentei, sorrindo: — Ambos devem ficar aqui. É uma casa bastante grande. Escolham um quarto qualquer e se instalem. Traga sua máquina de escrever, Jack. Trabalhe aqui. Adoraria a companhia de vocês. Sinto-me muito sozinho nesta casa e sempre tenho vontade de ter alguém com quem conversar.

       — Tem certeza de que quer isso mesmo? — indagou Jack, após examinar atentamente meu rosto por um momento.

       — Absoluta.

       Ele olhou para Theodora, que assentiu, atordoada, suplicante. Jack virou-se novamente para mim.

       — Está certo. Talvez seja mesmo melhor ficarmos aqui, por um ou dois dias. Obrigado, Miles, muito obrigado.

       — Você também deve ficar aqui, Becky — falei, em seguida. — Pelo menos por alguns dias. — Não sei por que, algo me fez acrescentar: — Com Theodora e Jack.

       O rosto dela estava pálido, mas sorriu ligeiramente ao ouvir o comentário, e repetiu:

       — Com Theodora e Jack. .. E onde você vai ficar? Senti que ficava vermelho, mas sorri assim mesmo.

       — Aqui mesmo. Mas você pode ignorar-me.

       Theodora olhou do ombro de Jack e agora estava sorrindo também.

       — Pode ser divertido, Becky — disse ela.

       Os olhos da moça estavam brilhando.

       — É bem possível. Seria uma espécie de festa a se prolongar por vários dias. — Mas, no instante seguinte, o medo voltou a invadir os olhos dela. — Eu estava pensando em meu pai, Miles...

       Telefone para ele. E fale a verdade. Que algo deixou Theodora profundamente transtornada e ela vai passar alguns dias aqui e precisa de você. Não é necessário dizer mais nada além disso. — Sorri e acrescentei. — Se quiser, pode dizer também que tenho em mente alguns planos a que você não pode resistir. — Olhei para o relógio na parede. — Tenho de ir trabalhar, pessoal. Façam de conta que a casa é de vocês. — E subi, a fim de me aprontar para ir ao consultório.

       Eu estava mais irritado do que assustado, de pé diante do espelho do banheiro, fazendo a barba. Uma parte da mente estava apreensiva com o fato que acabáramos de recordar lá embaixo: que o corpo no porão de Jack, inacreditavelmente, impossivelmente, inegavelmente, não tinha impressões digitais. Não nos havíamos lembrado disso antes, e eu sabia que era um fato que a explicação de Mannie não podia cobrir. Mas principalmente, inclinando-me na direção do espelho, a raspar o rosto, eu estava irritado. Não queria Becky Driscoll morando em minha casa, onde poderia vê-la cada dia mais do que normalmente aconteceria numa semana inteira. Ela era atraente demais. Simpática demais.

       Sempre converso comigo mesmo quando estou fazendo a barba. E disse a meu rosto:

       — Ora, seu filho da mãe bonito, é verdade que pode casar-se com qualquer uma. O que não pode é ficar casado. Esse é o seu problema. É um homem fraco. Emocionalmente instável. Basicamente inseguro. Um chupador de polegar em potencial. Um poço de imaturidade, sem condições de assumir qualquer responsabilidade adulta. — Sorri e tentei pensar em algo mais. — É indubitavelmente um charlatão e possui uma personalidade de Don Juan. Um pseudo...

       Parei de falar abruptamente e terminei de fazer a barba com o sentimento incômodo de que, por tudo o que eu sabia, não era engraçado mas verdadeiro que, tendo fracassado com uma mulher, estava ficando envolvido demais com outra e que, para meu bem e o dela, Becky deveria ficar em qualquer outro lugar que não sob o meu teto.

       Jack foi de carro ao centro comigo, para falar com Nick Crivett, o chefe de polícia local. Ambos o conhecíamos muito bem. Afinal, Jack encontrara um corpo em sua casa, que posteriormente desaparecera. De qualquer forma, tinha de comunicar o fato à polícia. Mas decidimos, no caminho, em meu carro, que ele comunicaria os fatos por alto, sem entrar em detalhes. Não podíamos explicar a demora dele em comunicar a ocorrência. Por isso, combinamos alterar um pouco a seqüência de tempo. Jack deveria dizer que encontrara o corpo na noite anterior e não pela manhã. Poderia perfeitamente ter acontecido assim.

       Mesmo com essa alteração, haveria uma pequena demora para explicar. Por que Jack não telefonara para a polícia ontem à noite? Combinamos que ele alegaria que Theodora ficara transtornada e histérica. O marido não pudera pensar em mais nada senão providenciar os cuidados necessários para a esposa, levando-a a um médico. No caso, eu. Theodora sofrerá um choque tão grande e por isso estavam hospedados em minha casa. Jack voltara a sua casa, para pegar algumas roupas, antes de telefonar para a polícia. E descobrira então que o corpo desaparecera. Previmos que Grivett iria reclamar bastante, mas não havia muito mais que ele pudesse fazer. Sorrindo, sugeri a Jack que se comportasse de maneira aturdida e distraída. Assim Grivett atribuiria tudo ao fato de ele ser um literato sem qualquer espírito prático. Jack sorriu também com a sugestão, mas sua expressão logo voltou a ficar séria.

       — Acha que devo também omitir o detalhe das impressões digitais, quando falar com Grivett?

       — Não tem outro jeito — respondi, dando de ombros e fazendo uma careta. — Grivett mandaria interná-lo num manicômio, se mencionasse isso.

       Paramos diante da delegacia, e Jack saltou. Sorri-lhe e acenei em despedida, afastando-me em seguida.

      

       Mas a verdade é que eu não estava com uma disposição das melhores quando estacionei o carro, numa rua transversal, perto do consultório, pouco além da área de parquímetro. Preocupação, dúvida e medo me atormentavam a mente, enquanto percorria o quarteirão e meio até o consultório. A aparência da Rua Throckmorton me deprimiu. Parecia atulhada de detritos e miserável ao sol da manhã; uma lata de lixo na calçada estava transbordando, o globo de um lampião encontrava-se quebrado, e a algumas portas do prédio em que ficava meu consultório havia uma loja vazia. As vitrines achavam-se imundas e havia um cartaz de Aluga-se pintado de qualquer maneira encostado no vidro. Mas não dizia onde se poderia tratar e tive a impressão de que ninguém se importava se a loja fosse ou não alugada. Os cacos de uma garrafa de vinho quebrada estavam espalhados à entrada do meu prédio. A placa de latão fixada no granito cinzento do prédio estava suja, há muito tempo não recebia um polimento. De um lado a outro da rua, pude constatar, quando parei por um momento para observar, que não havia uma única pessoa lavando vitrines, como os donos de lojas geralmente faziam pela manhã. A rua parecia estranhamente deserta. Disse a mim mesmo que era apenas uma impressão, uma conseqüência da depressão em que eu me encontrava. Por isso, olhava o mundo com olhos de medo e preocupação. Censurei-me vigorosamente. Não se pode permitir qualquer sentimento, quando se tem de diagnosticar e tratar pacientes.

       Uma paciente estava esperando, quando entrei no consultório. Não tinha hora marcada, mas a atendi assim mesmo, já que estava chegando mais cedo do que o habitual. Era a Sra. Seeley, a mulherzinha serena de 40 anos que me procurara na semana anterior para declarar que o marido não era absolutamente o seu marido. Agora, estava sorrindo, transbordando de alívio e prazer, ao comunicar-me que sua ilusão se dissipara. Informou que conversara com o Dr. Kaufman na semana anterior, conforme eu sugerira. Ele não fora capaz de ajudá-la muito, infelizmente. Mas, na noite anterior, inexplicadamente, ela de repente “recuperara o juízo”.

       — Eu estava sentada na sala de estar, lendo — disse ela, cheia de ansiedade e cruzando as mãos nervosamente sobre a bolsa — quando subitamente olhei para Al, no outro lado da sala. Ele estava assistindo à televisão. — Sacudiu a cabeça, aturdida e feliz, antes de continuar: — E tive certeza de que era ele. Isto é, era ele mesmo, de verdade, Al, meu marido. Dr. Bennell, não consigo entender o que aconteceu na semana passada. Não posso imaginar o que me deu. E me sinto terrivelmente tola por causa disso. — Recostou-se na cadeira. — É claro que eu já tinha ouvido falar de outro caso igual ao meu. Uma mulher do meu clube falou a respeito. Disse que já houve vários casos na cidade. E o Dr. Kaufman explicou-me que o simples fato de ouvir falar desses casos...

       Finalmente me contou o que o Dr. Kaufman dissera, o que lhe respondera. Limitei-me a escutar, assentir e sorrir, até conseguir tirá-la do consultório, sempre falando, num prazo que atendia às conveniências. Se tivesse deixado, a Sra. Seeley continuaria falando até o final da tarde, repetindo-se interminavelmente.

       Minha enfermeira havia chegado enquanto a Sra. Seeley falava e trouxe-me a relação das consultas marcadas. Dei uma olhada na relação e encontrei, como já estava esperando, o nome de uma das três mães de alunas da escola secundária que me haviam procurado na semana anterior, todas angustiadas e frenéticas. A hora dela era três e meia da tarde. Quando a enfermeira a introduziu em minha sala, ela estava sorrindo. Antes mesmo de sentar-se, começou a me dizer o que eu já sabia que ia ouvir. As meninas estavam bem agora e gostando mais do que nunca do professor de Inglês. Este aceitara prazerosamente os pedidos de desculpas, demonstrando plena compreensão do que acontecera. E ela apresentara a sugestão sensata de que as meninas simplesmente explicassem aos colegas que tudo não passara de uma brincadeira, um embuste colegial. As meninas tinham concordado e todos aceitaram a explicação. A mãe acrescentou que os colegas haviam até admirado a capacidade das meninas de fazerem uma boa brincadeira. Agora, a mãe não estava mais preocupada. Dr. Kaufman lhe explicara como uma ilusão assim pode facilmente afetar uma pessoa, particularmente meninas adolescentes.

       Logo que a feliz mãe se retirou, peguei o telefone e liguei para Wilma Lentz, na loja. Assim que ela atendeu, indaguei displicentemente como se estava sentindo nos últimos dias. Houve uma pausa antes que ela respondesse:

       — Estava mesmo pensando em dar um pulo até seu consultório para falar sobre... o que aconteceu. — Riu, um tanto forçadamente, e acrescentou: — É verdade que Mannie me ajudou bastante, Miles, exatamente como você disse. A ilusão ou o que quer que tenha sido desapareceu e... Miles, estou terrivelmente embaraçada. Não sei direito o que aconteceu ou como lhe posso explicar, mas...

       Interrompi-a para dizer que compreendia perfeitamente o que acontecera, que ela não devia ficar preocupada ou se sentir constrangida, mas apenas esquecer. E falei que voltaríamos a nos encontrar outro dia.

       Fiquei sentado, imóvel, durante um minuto inteiro, depois que desliguei, com a mão ainda no fone, esforçando-me em pensar fria e sensatamente. Tudo o que Mannie previra estava sendo confirmado. E se ele estivesse certo a respeito de tudo o que acontecera — a tentação de acreditar era muito forte — eu poderia simplesmente deixar que o medo em minha mente se desvanecesse. Imediatamente. E Becky poderia voltar para sua casa naquela mesma noite.

       Contrariado, quase com raiva, fiz-me uma pergunta: iria permitir que nada mais do que a ausência de impressões digitais naquele corpo no porão de Jack mantivesse todos os meus temores e problemas vivos e sem solução? Uma imagem se delineou em minha mente e ali perdurou por um momento, nítida, intensa. Mais uma vez, pude ver aquelas impressões digitais manchadas, de forma horrível e impossível, mas inegavelmente lisas como o rosto de um bebê. No instante seguinte, a nitidez dessa imagem mental se rompeu e se desvaneceu. Disse a mim mesmo, irritado, que havia uma dúzia de explicações perfeitamente possíveis e naturais, se quisesse dar-me ao trabalho de procurá-las. Falei em voz alta:

       — Mannie tem razão. Mannie explicou...

       Mannie, Mannie, Mannie, pensei subitamente. Parecia que, ultimamente, era tudo o que eu ouvia e pensava. Mannie explicara nossa ilusão na noite anterior e hoje cada paciente com quem eu conversava tratava de mencionar logo o nome dele entre extasiada e agradecida. Mannie resolvera tudo prontamente, sozinho, sem qualquer ajuda. Por um momento, pensei no Mannie Kaufman que sempre conhecera. Tive a impressão de que ele sempre fora mais cauteloso, demorando-se mais a formar opiniões definitivas. Abruptamente, a noção surgiu-me à mente como uma explosão: aquele não era o Mannie que eu sempre conhecera, não era absolutamente o mesmo Mannie, apenas parecia, falava e se comportava...

       Cheguei a sacudir a cabeça vigorosamente, para desnuviá-la. Depois sorri, tristemente. Ali estava outra prova de como ele estava certo, com ou sem impressões digitais, a confirmação do que Mannie explicara: a força incrível da ilusão que se instalara em Mill Valley. Tirei a mão do telefone sobre a mesa. O sol de outono do fim da tarde entrava inclinado pelas janelas. Podia ouvir, na rua lá embaixo, todos os pequenos ruídos de um mundo normal movendo-se em sua rotina cotidiana. E agora o que acontecera na noite anterior perdera toda a sua forma, em meio às atividades rotineiras, à claridade do sol ao meu redor. Tirando o chapéu mentalmente para Mannie Kaufman, psiquiatra eminente, disse-me — insisti comigo mesmo — que ele era exatamente o que sempre fora, um homem extremamente inteligente, de percepção excepcional. Ele estava certo e nós nos comportáramos tola e histericamente. Não havia qualquer razão sensata para que Becky Driscoll não retornasse à casa a que pertencia naquela mesma noite, a fim de dormir em sua própria cama.

       Parei o carro em frente à minha casa por volta das oito horas da noite, depois de passar pelo hospital, como normalmente fazia. O jantar estava pronto. Ainda havia alguma claridade, e vi Theodora e Becky na varanda, usando aventais que haviam encontrado em algum lugar da casa. Estavam pondo o jantar nas largas grades de madeira da varanda. As duas me acenaram, sorrindo. Ao bater a porta do carro, pude ouvir, lá em cima através de uma janela aberta, o barulho da máquina de escrever de Jack. A casa parecia novamente viva, ocupada por pessoas de quem eu gostava. Senti-me maravilhosamente bem.

       Jack desceu e jantamos na própria varanda. Fora um dia claro, de céu muito azul, bastante quente para aquela época do ano. Mas agora, quando o crepúsculo começava a se adensar, a temperatura era mais amena, no ponto certo. Soprava uma brisa suave e perfumada e podiam-se ouvir as folhas das árvores imensas e antigas que margeavam a rua se remexendo e suspirando de prazer. Os passarinhos cantavam. De algum lugar, ao final do quarteirão, vinha o ruidoso e distante matraquear de um cortador de grama, um dos melhores sons que conheço. Ficamos sentados ali, na varanda larga e antiga, nas cadeiras de vime confortavelmente usadas ou no balanço, comendo sanduíches de bacon e tomate, tomando café, conversando sobre assuntos inconseqüentes, com freqüentes silêncios de puro contentamento. Eu sabia que desfrutávamos um daqueles momentos. maravilhosos que a gente nunca mais esquece.

       Aparentemente, Becky fora até sua casa e pegara algumas roupas. Estava usando um desses vestidos leves e elegantes que parecem impessoais, mas transformam as mulheres bonitas em deslumbrantes. Não pude deixar de sorrir-lhe. Becky estava sentada perto de mim, no balanço. Indaguei polidamente:

       — Você se importaria de subir comigo neste momento para ser seduzida?

       — Adoraria — murmurou Becky, tomando um gole de café — só que neste momento estou com fome demais.

       — Mas que coisa linda! — comentou Theodora. — Jack, por que não me disse coisas tão agradáveis, quando me estava namorando?

       — Não tive coragem — respondeu ele, dando uma mordida no sanduíche. — Você poderia encurralar-me e exigir casamento.

       Senti que ficara com o rosto vermelho ao ouvir isso. Mas como já estava bastante escuro, tive certeza de que ninguém percebeu. Poderia informar naquele instante o que havia acontecido em meu consultório durante o dia. Mas, se o fizesse, Becky talvez desejasse voltar para casa imediatamente. E disse a mim mesmo que pelo menos merecia passar algum tempo com ela. Não havia qualquer perigo, já que mais tarde a levaria para casa. Dali a pouco, Theodora acabou de comer e levantou-se.

       — Estou morta de cansaço, exausta como há muito tempo não me sentia. Vou deitar-me. — Olhou para o marido e acrescentou, firmemente: — Não vem comigo, Jack? Acho que também deve dormir cedo.

       Jack fitou-a, hesitante por um instante, depois assentiu.

       — Tem razão. É melhor mesmo ir deitar-me. — Tomou o último gole de café, jogou a borra no gramado e se levantou da grade da varanda, dizendo-me e a Becky: — Até amanhã. Boa noite para os dois.

       Não falei nada para detê-los. Becky e eu também lhes desejamos boa noite. Ficamos observando os Belicecs entrarem na casa e depois os ouvimos subindo a escada, falando baixinho. Eu não tinha certeza se Theodora estava mesmo cansada ou simplesmente querendo dar uma de Cupido. Parecia-me que insistira com Jack que ele deveria também deitar-se cedo com um pouco de veemência demais. Porém, de qualquer maneira, não me importava. O que tinha a dizer-lhes, poderia esperar até a manhã seguinte. Afinal, eu estava um pouco cansado de bancar o monge. Afirmei a mim mesmo que merecia perfeitamente passar algum tempo a sós com Becky. Mais tarde, eu poderia contar-lhe o que acontecera em meu consultório durante o dia.

       Ouvimos os passos chegarem ao patamar lá em cima e virei-me para Becky.

       — Importa-se de se levantar e sentar-se à minha esquerda, em vez de à direita?

       — Não. — Levantou-se com um sorriso aturdido. — Mas por quê?

       Becky sentou-se novamente no balanço, desta vez à minha esquerda. Inclinei-me pela frente dela para deixar a xícara na grade da varanda.

       — Porque... — fiz uma breve pausa, sorrindo — ...beijo canhoto, se entende o que estou querendo dizer.

       — Não, não entendo — respondeu ela, retribuindo o sorriso.

       — É que uma mulher à minha direita... — fiz a demonstração, passando o braço pelo espaço vazio no lado direito — ... é incômodo para mim. Dá a impressão de que algo não está certo. É como tentar escrever com a mão esquerda. Simplesmente não consigo beijar bem, a não ser quando a mulher está à minha esquerda.

       Levantei o braço para o encosto do balanço, toquei nos ombros dela. Becky tornou a sorrir e virou-se para mim. Apertei-a, inclinando-me um pouco em sua direção, mudando ligeiramente de posição. Ajeitei os braços em torno dela da maneira correta, até que ambos ficamos inteiramente à vontade. Eu queria aquele beijo. E queria muito. Meu coração subitamente batia forte, podia sentir a pressão do sangue nas têmporas. Beijei Becky, lenta e gentilmente, sem qualquer pressa. E fui aumentando a intensidade do beijo, a pressão, os braços apertando-a, inclinando-a ligeiramente para trás. Abruptamente, era mais do que agradável, era uma explosão silenciosa em minha mente, por todos os nervos e veias do corpo. Sentia claramente os lábios dela, macios e fortes, sentia as minhas mãos comprimidas contra as suas costas, sentia a pressão do seu corpo grudado ao meu. Bruscamente, joguei a cabeça para trás. Não conseguia respirar. E depois voltei a beijá-la. De repente, já não mais me importava com o que pudesse acontecer. Nunca, em toda a minha vida, experimentara algo assim. Minha mão baixou, agarrando a coxa de Becky. Eu sabia que levaria aquela mulher comigo lá para cima, se pudesse.

       — Miles! — Ouvi o som, um sussurro rouco de homem partindo não sei de onde. Tinha a sensação de que era incapaz de pensar. — Miles! — A voz soou mais alta e corri os olhos pela varanda, inteiramente aturdido. — Venha até aqui, Miles! Depressa! — Era Jack, parado do outro lado da porta de tela fechada, chamando-me, desesperadamente.

       Eu sabia que alguma coisa havia acontecido com Theodora. No instante seguinte, estava atravessando a varanda apressadamente, depois seguindo Jack pela sala de estar na direção da escada. Mas Jack passou pela escada e entrou no corredor. Abriu a porta do porão e acendeu a lanterna. Desci atrás dele.

       Atravessamos o porão, o couro das solas dos sapatos rangendo na poeira do chão. Jack levantou a tranca de madeira da porta do velho depósito de carvão. O depósito ficava num canto do porão, isolado do resto por uma parede de madeira que ia até o teto. Estava vazio agora, não era mais usado, havia sido lavada e fechado há muito tempo, desde que meu pai instalara aquecimento a gás. Jack abriu a porta pela metade e projetou o facho da lanterna pelo chão, parando um instante depois. Era um oval de claridade no chão.

       Não consegui entender muito o que estava vendo, caído ali no concreto. Olhando atentamente, tive de descrever para mim, um pouco de cada vez, o que estava vendo, tentando resolver o enigma daquilo. Finalmente cheguei à conclusão de que as coisas pareciam ser quatro vagens gigantescas. Possuíam um formato arredondado, talvez com um metro de diâmetro. Haviam agora se rompido em diversos pontos. Do interior das imensas sementes, derramara-se parcialmente pelo chão uma substância acinzentada, lembrando uma penugem.

       Isso foi uma parte do que vi, a mente ainda empenhada em tentar definir as impressões. De certa forma, a um olhar rápido, aquelas vagens gigantescas lembravam-me um tumbleweed, essas bolas de matéria vegetal seca, emaranhada, extremamente leve, criadas pela natureza apenas para rolarem pelo deserto, impelidas pelo vento. Mas aquelas vagens estavam fechadas. Percebi que as superfícies eram constituídas de uma rede de fibras amareladas, parecendo extremamente resistentes. Entre as fibras, para fechar inteiramente as imensas vagens arredondadas, estendia-se uma membrana castanha, ressequida, parecendo uma folha de carvalho morta, na cor e na textura.

       Fitei-o, sem dizer nada, e ele acrescentou, impacientemente:

       — O recorte que você pegou esta manhã, referindo-se a um professor qualquer. Falava em vagens, Miles, vagens gigantescas, encontradas em algum lugar a oeste da cidade, no verão passado.

       Por mais um momento, continuou olhando-me fixamente, até que assenti. Depois, Jack abriu toda a porta do depósito de carvão. À luz da lanterna em movimento, vimos algo mais e entramos no depósito e nos agachamos ao lado das coisas no chão, a fim de examiná-las mais atentamente. Cada vagem rompera em quatro ou cinco lugares, uma parte da substância que as enchia se espalhando pelo chão. Agora, à luz mais próxima da lanterna de Jack, vimos algo estranho. Nas extremidades, nos pontos mais distantes das vagens, a penugem cinza estava ficando branca, quase como se o contato com o ar a estivesse privando de cor. E... não havia como negar, era algo que estávamos vendo claramente... a emaranhada substância penugenta estava-se comprimindo, começando a adquirir uma forma.

       Vi certa ocasião uma boneca feita por um primitivo povo sul-americano. Era de juncos flexíveis, toscamente entrelaçados e amarrados em determinados pontos, para formar a cabeça, corpo, braços e pernas, projetando-se rigidamente. As massas emaranhadas do que parecia pêlo de cavalo acinzentado a nossos pés estava lentamente se derramando das vagens membranosas, a cor clareando nas extremidades, começando a adquirir forma, vagarosa, mas perceptivelmente. As fibras se esticavam e alinhavam, numa débil aproximação, quase um arremedo, de uma cabeça, um corpo, braços e pernas em miniatura. Eram tão toscos quanto a boneca que eu vira. . . e igualmente inconfundíveis.

       É difícil dizer por quanto tempo ficamos agachados ali, contemplando, aturdidos e espantados, o que estava acontecendo. Mas foi por tempo suficiente para percebermos que a substância cinza continuava a se derramar, lentamente, como lava em movimento, das imensas vagens no chão de concreto. Foi por tempo suficiente para vermos a substância cinza clarear e embranquecer, depois de entrar em contato com o ar. E foi por tempo suficiente para constatarmos que as massas em que sobressaíam cabeça e membros iam aumentando, enquanto a substância cinza continuava a se derramar... e gradativamente iam-se tornando menos toscos.

       Ficamos observando, imóveis, as bocas entreabertas. De vez em quando, as superfícies castanhas membranosas das gigantescas vagens estalavam audivelmente, o som de uma folha frágil sendo partida ao meio. As vagens iam-se encolhendo incessante e lentamente, murchando um pouco de cada vez, enquanto o fluxo semelhante ao de lava da substância com que estavam recheadas continuava a se derramar, a se espalhar, como um nevoeiro denso, infinitamente lento. E assim como uma nuvem imóvel, num céu sem vento, imperceptivelmente muda de forma enquanto a observamos, as massas em forma de bonecos no chão tornaram-se.. . não mais eram meros bonecos. Não demorou muito para que se tornassem tão grandes quanto bebês. As vagens que haviam contido a substância estavam-se encolhendo e se rompendo em fragmentos. O entrelaçamento, o alongamento e o alinhamento das fibras a embranquecer continuavam. Agora, surgiram depressões na cabeça, como vagas aproximações das órbitas dos olhos, uma saliência que lembrava um nariz, outra depressão para ser a boca. Nas extremidades dos braços, dobrados agora nos cotovelos, estavam-se delineando os formatos de pequenas mãos, com dedos esticados.

       Jack e eu viramos a cabeça ao mesmo tempo e nos fitamos nos olhos, ambos sabendo perfeitamente o que iríamos ver dentro de mais algum tempo.

       — Os corpos vazios — murmurou Jack, com voz rouca. — É assim que eles surgem! É assim que eles crescem!

       Não podíamos mais continuar observando. Levantamo-nos bruscamente, as pernas meio entorpecidas de termos ficado agachados por tanto tempo. Cambaleamos pelo porão, saindo do depósito de carvão. Os olhos correram freneticamente por todos os lados, em busca da normalidade. E fixamos simplesmente uma pilha de jornais velhos, para a qual ficamos olhando, inteiramente atordoados, à luz da lanterna de Jack, que incidia sobre a primeira página de um número antigo do San Francisco Chronicle. As manchetes e fotografias, de assassinato, violência e corrupção de uma cidade, pareciam compreensíveis e normais, mostravam-se quase agradáveis de se ver. Vagueamos pelo porão, lentamente, sem dizer nada, andando e esperando, parando de vez em quando, com os pensamentos confusos e aturdidos de que éramos capazes. Depois de algum tempo, voltamos à porta aberta do depósito de carvão.

       O processo impossível lá dentro estava quase terminado. As imensas vagens destroçadas estavam espalhadas agora pelo chão em pequenos fragmentos, uma poeira quase imperceptível. No lugar delas, havia agora quatro corpos, tão grandes como os de adultos. As meadas de fibras pegajosas que os compunham estavam agora perfeitamente unidas, as superfícies ininterruptas, ainda irregulares como veludo pique, mas se alisando incessantemente, inteiramente brancas. Eram quatro corpos em branco, os rostos lisos e vazios, sem quaisquer marcas, quase prontos para receberem as impressões finais. Sabíamos que havia um corpo para cada um de nós: um para mim, outro para Jack, mais dois para Theodora e Becky.

       — O peso — murmurou Jack, empenhando-se em manter a sanidade através das palavras. — Absorvem água do ar. O corpo humano tem oitenta por cento de água. Eles absorvem água do ar. É assim que a coisa funciona.

       Agachando-se ao lado do corpo mais próximo, levantei a mão dele e olhei, atordoado, para as pontas de seus dedos: arredondadas, lisas, inteiramente desprovidas de impressões digitais. E dois pensamentos me ocorreram simultaneamente: Eles vão-nos pegar, pensei, levantando a cabeça a fim de olhar para Jack; ao mesmo tempo, outra coisa me passou pela cabeça: Agora, Becky tem de ficar aqui.

 

     Eram 2:21 da madrugada. Olhei para o relógio e pensei que ainda faltavam nove minutos para acordar Jack, a fim de que ele iniciasse seu turno. Eu estava patrulhando a casa, andando silenciosamente pelo corredor do segundo andar, apenas de meias. Parei diante da porta do quarto de Becky. Abri-a sem fazer barulho, entrei e, pela terceira vez desde a meia-noite, explorei cada palmo do quarto com a lanterna, assim como tinha feito com todos os outros aposentos da casa. Abaixando-me, projetei a luz da lanterna debaixo da cama. Depois, abri o armário e o examinei também.

       Focalizei o facho de luz entre azulado e branco na parede, um pouco acima da cabeça de Becky. Contemplei o rosto dela. Os lábios estavam ligeiramente entreabertos, a respiração era regular, as pestanas curvadas para baixo e repousando sobre as faces. Era uma visão deslumbrante. Becky estava linda, deitada ali. Descobri-me pensando como seria confortador deitar a seu lado por um minuto, senti-la remexer-se no sono, sentir o calor de seu corpo perto do meu. Mas voltei para o corredor e encaminhei-me para a escada do sótão.

       Não havia coisa alguma no sótão que não devesse estar ali. À luz da lanterna, vi os vestidos e casacos de minha mãe, suspensos em cabides num pedaço de cano e cobertos com um lençol, para resguardá-los da poeira. No chão, ao lado das roupas, estava uma velha arca de cedro que pertencera a minha mãe. Vi também o arquivo de madeira de meu pai, com seus diplomas emoldurados empilhados por cima, exatamente como haviam sido trazidos do consultório dele. Naquele arquivo achavam-se os registros de resfriados, dedos cortados, cânceres, fraturas de ossos, sarampos, difterias, nascimentos e mortes de uma considerável parcela da população de Mill Valley, ao longo de duas gerações. Metade dos pacientes relacionados naqueles arquivos estava agora morta, os ferimentos e tecidos que meu pai tratara com tanto desvelo, reduzidos simplesmente a pó.

       Fui até a janela junto à qual costumava sentar-me e ficar lendo, quando era menino. Contemplei Mill Valley, estendendo-se pela escuridão embaixo. Lá estavam os habitantes da cidade, aproveitando a noite para dormir. Meu pai trouxera muitos deles ao mundo. Havia uma brisa noturna soprando. À minha esquerda, sobre o pavimento, por baixo do lampião da rua, as sombras meio indistintas e prolongadas dos fios telefônicos balançavam para um lado e outro da rua deserta. Era uma cena terrivelmente solitária. Eu podia ver a varanda da frente dos McNeeleys, destacando-se nitidamente ao clarão do lampião, com a sombra imensa da casa por trás. Podia ver também a varanda dos Greesons. Brincara ali com Dot Greeson, quando tinha sete anos de idade. A grade da comprida varanda estava inclinada para dentro e precisando urgentemente de uma pintura. Não entendia como eles podiam ter deixado que chegasse àquele estado. Afinal, sempre haviam cuidado impecavelmente de sua casa. Mais além, dava para divisar a cerca branca de madeira em torno da casa de Blaine Smith. Aquela cidade, repousando na escuridão, estava repleta de antigos e bons vizinhos. Eu conhecia muitos deles, pelo menos de vista ou de cumprimentar e conversar na rua. Crescera ali. Desde a infância, conhecia cada rua, cada casa, os caminhos, a maioria dos quintais dos fundos, todas as colinas, campos e estradas por quilômetros ao redor.

       E agora descobria que não mais conhecia nada. Sem que houvesse qualquer alteração perceptível, o que eu estava vendo lá fora agora, através dos olhos e, mais do que isso, na mente, era algo inteiramente estranho. O círculo de luz no chão lá embaixo, as varandas familiares, a massa escura de casas e o resto da cidade além... eram assustadores. Todas aquelas coisas e rostos familiares eram agora ameaçadores. A cidade havia mudado ou estava mudando para algo terrível.. . e que estava atrás de mim. Queria também me pegar e eu sabia disso.

       Um degrau da escada rangeu, ouvi um passo suave. Virei-me na escuridão, agachando-me, a lanterna erguida como uma arma. Jack disse baixinho:

       — Sou eu.

       Acendi a lanterna e divisei o rosto dele, cansado e ainda sonolento. Quando parou ao meu lado, tornei a apagar a lanterna. Por algum tempo, ficamos em silêncio, olhando para Mill Valley pela janela. A casa adormecida sob nossos pés, a rua lá fora e toda a cidade estavam quietas, num silêncio fatal. Era um momento de depressão para o corpo e o espírito humanos. Jack finalmente murmurou:

       — Esteve lá embaixo recentemente?

       — Estive, sim — informei, respondendo em seguida à pergunta que ele pensara, mas não chegara a formular. — Não se preocupe. Apliquei em cada um cem centímetros cúbicos de ar, na veia.

       — Estão mortos?

       — Se se pode dizer isso a respeito de uma coisa que nunca esteve realmente viva — falei, dando de ombros. — De qualquer forma, estão sofrendo um processo de reversão.

       — De volta à substância cinzenta?

       Assenti. À claridade das estrelas que entrava pela janela pude perceber que Jack estremecia. Fazendo um esforço para manter a voz sob controle, ele comentou:

       — Pelo menos temos certeza agora de que não se trata de uma ilusão. As duplicatas existem mesmo. Reproduzem as pessoas vivas. Mannie estava errado.

       — Tem razão.

       — Miles, o que acontece com o modelo original, quando se conclui o processo de duplicação de uma pessoa? Será que os dois corpos continuam a circular?

       — É evidente que não, caso contrário já teríamos percebido. Não sei o que acontece, Jack.

       —        E por que tantas pacientes voltaram a procurá-lo para tentar convencê-lo de que não havia nada de errado? Estavam mentindo, Miles.

       Limitei-me a dar de ombros. Sentia-me cansado e irritado, e teria falado bruscamente com Jack, se tentasse responder. Suspirando enquanto falava, ele acrescentou:

       — O que quer que esteja acontecendo, temos de presumir que ainda está confinado a Mill Valley e à região imediatamente ao derredor. Porque se não estiver... — Jack também deu de ombros e não continuou a frase. Depois de uma breve pausa, voltou a falar: — Cada casa e cada prédio, cada espaço fechado em toda a cidade iam ter de ser revistados. E imediatamente, Miles. E até o último homem, mulher e criança tem de ser examinados. Não sei dizer como e à procura do que, mas temos de pensar em algum caminho, imaginar um plano, começar a executá-lo... e depressa! — Novamente ficou calado por algum tempo, antes de continuar: — Não adianta procurar a polícia local ou a estadual. Eles não têm autoridade suficiente e de qualquer maneira seria muito difícil tentar explicar-lhes o que está acontecendo. Miles, estamos diante de uma emergência nacional! Ê exatamente isso o que é, um problema tão concreto quanto todos os outros que já enfrentamos. E pode ser mais do que isso: uma ameaça nova na história. — Jack fez outra pausa. Ao voltar a falar, a voz estava contida, mas ansiosa: — Por isso, Miles, alguém. . . o Exército, Marinha, FBI, não sei quem ou o que... mas alguém tem de vir para esta cidade e o mais depressa possível. E terão de declarar lei marcial em Mill Valley, estado de sítio ou qualquer coisa no gênero. Mas é preciso fazer alguma coisa... qualquer coisa! — Jack baixou a voz: — É preciso exterminar com essa coisa, esmagá-la, destruí-la, custe o que custar!

       Continuamos parados no sótão por mais algum tempo, em silêncio. Eu pensava no que poderia estar ao nosso redor, oculte em lugares secretos. Não era possível pensar muito a respeito.

       — Ainda resta algum café lá embaixo, Jack.

       Descemos em silêncio. Na cozinha, servi o café. Jack se sentou à mesa, enquanto eu me recostava no fogão.

       — Está certo, Jack. Mas como? O que vamos fazer? Telefonar para o Presidente Carter ou algo assim? Simplesmente ligar para a Casa Branca, e quando ele atender informá-lo de que aqui em Mill Valley, onde os democratas venceram nas últimas eleições, encontramos alguns corpos, só que não são realmente corpos, mas alguma outra coisa, não sabemos o que, e que por favor despache os Fuzileiros para cá imediatamente?

       Jack deu de ombros, impacientemente.

       — Não sei! Mas temos de fazer alguma coisa, temos de encontrar um meio de alcançar as pessoas que podem tomar providências concretas! Vamos parar de dizer gracinhas e começar a pensar a sério!

       — Está certo, Jack — falei. — Cadeia de comando.

       — Como?

       Os olhos quase fechados, fitei Jack atentamente. Achava-me excitado, porque sabia que ali estava a resposta.

       — Quem você conhece em Washington, Jack? Por acaso conhece alguém que saiba que você não é doido e poderá acreditar que a história que lhe vai contar é verídica? Tem de ser uma pessoa que possa por as engrenagens em movimento e assim as mantenha, até que a história alcance um camarada que esteja em condições de tomar alguma providência.

       Depois de pensar por um momento, Jack sacudiu a cabeça.

      — Não conheço absolutamente ninguém em Washington. Você conhece?

       — Não... — Tornei a descair contra o fogão. — Nem mesmo conheço algum escritor de sucesso ao estilo de Watergate.

       — Mas, no instante seguinte, lembrei-me de alguém e dei de ombros. — Estou recordando agora que conheço alguém em Washington. E é a única pessoa que conheço por lá em alguma função oficial. Ben Eichler foi meu contemporâneo na escola. Ingressou depois no Exército e está atualmente no Pentágono. Mas é apenas tenente-coronel. Não conheço mais ninguém.

       — Ele serve — apressou-se Jack em dizer. — O Exército pode perfeitamente cuidar do caso. E ele está dentro do Pentágono, é um oficial superior. Pode pelo menos falar com um general sem ser submetido à corte marcial.

       — Está certo. Tentar não fará mal algum. Vou telefonar para ele. — Levei a xícara à boca e tomei um gole de café. Jack ficou me olhando, o rosto amarrado, a impaciência aumentando, até que bruscamente explodiu:

       — Agora! Mas que diabo, Miles, tem de ser agora! O que está esperando? — Respirou fundo. — Desculpe, Miles, mas... temos de fazer alguma coisa imediatamente!

       — Está bem.

       Larguei a xícara em cima do fogão e fui para a sala de estar, seguido por Jack. Tirei o fone do gancho e disquei para a telefonista. Assim que ela atendeu, disse-lhe, falando bem devagar e cuidadosamente:

       — Telefonista, quero falar com Washington, com o Tenente-Coronel Benjamin Eichler. Não sei qual é o telefone dele, mas consta do catálogo. — Virei-me para Jack e falei: — Há uma extensão no quarto. Vá escutar lá.

       Com o fone no ouvido, fiquei escutando os estalidos distantes, os débeis zumbidos e silêncios eletrônicos. Depois, uma campainha começou a tocar no pequeno disco preto encostado em meu ouvido.

       O telefone foi atendido ao terceiro toque da campainha e a voz de Ben soou nítida em meu ouvido:

       — Alô?

       — Ben? — Percebi que havia alteado a voz, como as pessoas costumam fazer sem sentir nos telefonemas interurbanos.

       — Aqui é Miles Bennell, da Califórnia.

       — Oi, Miles! — A voz soava subitamente satisfeita e jovial.

       — Como tem passado?

       — Muito bem. Por acaso o acordei?

       — Claro que não, Miles. São cinco e meia da manhã aqui em Washington. Por que eu haveria de estar dormindo a uma hora desta?

       — Desculpe, Ben. — Não pude deixar de sorrir. — Mas já. estava na hora de você se levantar. Nós, contribuintes, não lhe estamos pagando um salário fabuloso para que passe o dia inteiro na cama. — Fiz uma breve pausa e passei a falar com toda seriedade: — Dispõe de algum tempo, Ben? Pelo menos de meia hora, para sentar-se e escutar o que tenho a dizer? É extremamente importante, Ben, e quero explicar tudo. Quero falar como se fosse um telefonema local. Pode dar-me o tempo de que necessito e ficar escutando com todo cuidado?

       — Claro que posso. Espere só um instante. — Houve uma pausa e depois a voz distante e nítida disse: — Pode falar, Miles. Já estou pronto para ouvir.

       — Você me conhece, Ben. E conhece bastante. Começarei por lhe dizer que não estou bêbado, você sabe que não sou maluco e que não costumo fazer brincadeiras idiotas com os amigos em plena madrugada ou em qualquer outra ocasião. Tenho algo para lhe contar e sei que será muito difícil de acreditar. Mas é tudo verdade. E quero que não se esqueça disso, enquanto ouve a minha história. Certo?

       — Certo, Miles. — A voz estava agora sóbria, na expectativa.

       — Há cerca de uma semana, na quinta-feira, para ser mais preciso... — E continuei a falar, bem devagar, sem qualquer pressa, tentando contar-lhe toda a história. Comecei pela visita de Becky ao meu consultório e terminei cerca de 20 minutos depois com os acontecimentos daquela noite.

       Mas não é fácil explicar uma história longa e complicada pelo telefone, quando não se está vendo a cara do interlocutor. E não tivemos muita sorte com a ligação. A princípio, eu ouvia Ben e ele podia ouvir-me tão claramente como se estivéssemos falando em casas vizinhas. Mas quando comecei a contar o que estava acontecendo em Mill Valley, a ligação rapidamente foi piorando. A todo instante, Ben tinha que me pedir para repetir e eu quase tinha que gritar para fazê-lo compreender. Não se pode falar direito, não se pode nem mesmo pensar direito, quando se tem de repetir uma frase a todo momento. Falei novamente com a telefonista e pedi-lhe que providenciasse uma ligação melhor. Depois de alguma demora, a ligação ficou melhor. Mas mal eu havia começado a falar, surgiu um zumbido no fone em meu ouvido. Tive então de tentar falar mais alto do que o zumbido. A ligação foi completamente interrompida por duas vezes, o fone subitamente guinchando em meu ouvido, até que finalmente eu estava desesperado, berrando com a telefonista. Não foi absolutamente uma conversa tranqüila e satisfatória. Quando acabei, não pude deixar de imaginar como tudo deveria ter parecido a Ben, a um continente de distância. E ele deu a resposta final:

       — Entendo... — Falou bem devagar depois fez uma pausa de alguns segundos, pensando. — O que quer que eu faça, Miles?

       — Não sei, Ben. — Subitamente, naquele momento, a ligação estava ótima. — Mas deve compreender que é preciso fazer alguma coisa. Não pode deixar de compreender isso. Espalhe a história, Ben. Conte para alguém. Imediatamente. Acione as engrenagens aí em Washington, até alcançar alguma autoridade que possa tomar providências concretas.

       Ben riu, uma risada forçada.

       — Lembra-se de mim, Miles? Não passo de um tenente-coronel, servindo no Pentágono. Bato continência para o zelador. Por que logo eu, Miles? Não conhece mais ninguém aqui em Washington que possa realmente...

       — Não, Ben, não conheço mais ninguém! Se conhecesse outra pessoa, estaria falando com ela agora! Tem de ser alguém que me conheça. Uma pessoa que saiba que não estou doido. E não conheço mais ninguém. Tem de ser você, Ben. Você precisa...

       — Está bem, está bem.. . — murmurou ele, em tom apaziguador. — Farei o que puder. Tudo o que puder. Contarei a história ao meu coronel dentro de uma hora. Irei à casa dele e o acordarei. Ele mora em Georgetown. Direi exatamente o que me contou, tão bem quanto pude entender. E acrescentarei meu próprio comentário de que o conheço bastante bem, sei que é um cidadão são, sóbrio e inteligente e de que estou pessoalmente convencido de que você está falando a verdade ou acredita que está. Mas isso é tudo o que posso fazer, Miles. Absolutamente tudo. Mesmo que essa sua história signifique o fim do mundo antes do meio-dia.

       Ben parou de falar por um momento. Pude ouvir o silêncio elétrico do fio que nos separava. E depois ele acrescentou, calmamente:

       — Já lhe posso dizer que não vai adiantar coisa alguma, Miles. O que espera que ele faça com essa história? Meu coronel não é lá muito imaginativo, para dizer a coisa de uma maneira suave. E mesmo que fosse, ele não é um homem que goste de esticar o pescoço. Entende o que estou querendo dizer, não ê mesmo? Ele quer ganhar a sua estrela de general antes de se aposentar, talvez mesmo duas. E é muito consciente e atento, quer esteja dormindo ou acordado, ao que entra para sua folha de serviço. Tem procurado consolidar uma reputação, desde West Point, como um oficial eficiente, prático, de bom senso. Não se destaca pela inteligência, mas sim pela solidez. Essa é a especialidade dele. Já deve conhecer o tipo. — Ben suspirou, antes de acrescentar: — Miles, já o posso imaginar procurando seu general com uma história assim. Ele nunca mais confiaria em mim sequer para fazer ponta num lápis!

       Agora foi a minha vez de murmurar:

       — Entendo...

       — Mas farei o que me está pedindo, Miles... se insiste. Mas mesmo que o impossível aconteça, mesmo que o coronel leve a história ao seu general, mesmo que este conte a outro general, de duas estrelas, até chegar ao nível de três ou quatro estrelas, que diabo eles vão pensar de tudo isso? A essa altura, já será uma história fantástica na quarta ou na quinta versão, iniciada por algum tenente-coronel idiota que eles nunca viram e de quem jamais ouviram falar. E ele ouviu a história num telefonema de um amigo maluco, um civil, de algum lugar da Califórnia. Está percebendo agora? Pode imaginar essa história alcançando um nível em que as pessoas estão em condições de tomar providências e acreditar que elas realmente farão alguma coisa? Você sabe perfeitamente como é o Exército, Miles!

       Minha voz estava cansada e derrotada quando falei:

       — Tem razão. — Suspirei e acrescentei: — Entendo perfeitamente, Ben. E você está certo.

       — Mas de qualquer maneira farei o que me está pedindo e que se dane a minha folha de serviço... se você acha que existe alguma possibilidade, por menor que seja, de que isso adiante de alguma coisa. Porque acredito em você. Não vou dizer que é impossível que você esteja sendo enganado por um monstruoso embuste, determinado por alguma razão fantástica. Mas pelo menos tenho certeza de que alguma coisa está acontecendo aí e deve ser verificada. E se acha que devo.. .

       — Não, Ben — declarei, a voz agora firme e decidida. — Esqueça. Eu teria compreendido tudo desde o início, se tivesse pensado um pouco mais. Tem absoluta razão. Seria inútil. Não há razão para você estragar sua folha de serviço, se isso não vai adiantar coisa alguma.

       Conversamos mais um pouco, e Ben tentou pensar em algo útil. Sugeriu que eu entrasse em contato com os jornais. Comentei que os jornais tratariam o assunto como mais uma história de OVNI, os objetos voadores não-identificados, com ironia e descrença. Ele sugeriu em seguida o FBI. Respondi que pensaria nessa possibilidade, prometi ficar em contato com ele e tudo o mais, depois nos despedimos e desligamos. Jack desceu a escada um momento depois.

       — E então? — disse ele.

       Limitei-me a dar de ombros. Não havia o que dizer. Depois de um momento, Jack indagou:

       — Quer tentar o FBI?

       Eu já não me importava muito e sacudi a cabeça para o telefone.

       — Lá está o telefone. Pode tentar, se quiser.

       Jack pegou o catálogo de São Francisco. Momentos depois, discou o número: 552-2155. Encostou o fone de lado no ouvido, a fim de que eu pudesse ouvir também. A campainha começou a tocar e foi logo interrompida por uma voz de homem, que disse:

       — Alô.

       E nesse instante o telefone ficou mudo. Voltou a soar o ruído de linha. Jack discou de novo, cuidadosamente. Antes que a campainha começasse a tocar, a telefonista entrou na linha:

       — Qual o número que ligou, por favor? — Jack informou e ela acrescentou: — Um momento, por favor.

       A campainha começou a tocar, uma vez, duas, três, até uma dúzia. A telefonista voltou a entrar na linha, com a habitual voz mecânica:

       — Ninguém atende.

       Jack estendeu o fone para a frente do rosto, fitou-o por um momento, antes de aproximá-lo novamente da boca e dizer, suavemente:

       — Está certo. Não tem importância. — Depois de desligar, ele me olhou e disse, a voz anormalmente calma: — Não nos vão deixar falar para fora, Miles. Havia alguém no telefone, ouvimos quando atendeu. Mas eles não nos permitiram ligar de novo. Miles, já ocuparam a estação telefônica e só Deus sabe o que mais.

       — É o que parece — falei, assentindo. E o pânico nos invadiu, implacavelmente.

      

       Pensávamos que estávamos pensando, mas na verdade começamos a agir obedecendo a impulsos desvairados e irracionais. Tratamos de acordar as mulheres, que piscaram os olhos diante da luz acesa de repente, aturdidas, interrogando-nos. Mas quando viram as expressões em nossos rostos, ao não respondermos, elas também ficaram dominadas pelo pânico, como se fosse algo contagioso. Depois, todos nos pusemos a correr pela casa, pegando roupas. Jack enfiou um facão de cozinha no cinto, enquanto eu recolhia todo o dinheiro que tinha em casa. Encontramos Theodora na cozinha, apenas meio vestida, ajeitando alimentos enlatados numa caixa de papelão. Não tenho a menor idéia do que ela pensava que estava fazendo.

       Esbarrávamos uns nos outros nos corredores, na escada, ao sairmos de aposentos. Devia estar parecendo uma daquelas comédias antigas do tempo do cinema mudo. Só que, em nosso caso, não havia risadas. Estávamos querendo fugir... da casa da cidade, o mais depressa que fosse possível. Estávamos profundamente abalados, sem saber o que mais fazer, sem ter a menor idéia de como reagir. Ou contra o quê. Algo impossívelmente terrível, mas também extremamente real, estava-nos ameaçando, de uma maneira muito além da nossa compreensão, da nossa capacidade. E por isso tínhamos de fugir.

       Theodora ainda calçava chinelos quando entramos no carro de Jack, na rua escura e silenciosa, um pouco além do círculo de luz do lampião. Jogamos as roupas, recolhidas sem o menor critério, no banco traseiro. Jack girou a chave, o motor pegou e ele arrancou do meio-fio, os pneus rangendo. Não estávamos pensando em absolutamente nada, queríamos apenas escapar, correr o mais depressa possível, até alcançarmos a rodovia federal U.S. 101, deixando Mill Valley 18 quilômetros para trás.

       Depois, enquanto avançávamos pela estrada quase deserta, comecei a sentir o retorno de alguma espécie de pensamento ordenado ou pelo menos da ilusão disso. Uma fuga rápida e bem sucedida e o aumento da distância que nos separa do perigo tornam-se por si mesmos fatores calmantes, antídoto para o medo. Virei-me para Becky, sentada no banco traseiro ao meu lado, sorrindo, abrindo a boca para falar. Foi só então que percebi que ela estava dormindo, o rosto pálido e tenso iluminado momentaneamente pelos faróis de um carro que passava em sentido contrário. E o pavor voltou a me invadir, pior do que antes, irrompendo em meu cérebro numa explosão silenciosa de puro pânico.

       Pus-me a sacudir o ombro de Jack, gritando-lhe que parasse. No instante seguinte, deixamos a estrada escura e avançamos aos solavancos pelo acostamento estreito, de terra e cascalho. Jack pisou com toda a força no freio, até pararmos. Inclinando-se pela frente de Theodora, ele bateu com o punho cerrado no botão do porta-luvas. O compartimento se abriu bruscamente e ele tateou lá dentro. Depois, saltou do carro, com uma expressão angustiada e inquisitiva. Estava-me inclinando diante dele, arrancando as chaves da ignição. Depois, corremos para trás do carro. Mas Jack continuou a correr adiante, pelo estreito acostamento de terra. Abri a boca para gritar-lhe quando ele se abaixou, apoiando-se num joelho. Só então compreendi o que Jack estava fazendo.

       Certa ocasião, Jack tivera a traseira de seu carro inteiramente amassada, quando estava mudando um pneu. Agora, virou uma segunda natureza dele acender sinais luminosos ao parar à beira de uma estrada. Um dos bastões se acendeu em sua mão naquele momento, uma chama entre vermelha e rosada, expelindo fumaça. Enquanto Jack o levantava, para fincar a ponta na terra, enfiei uma chave na fechadura da mala do carro, girando freneticamente.

       Jack voltou e pegou as chaves, arrancando a que eu introduzira na fechadura. Encontrou a chave certa, inseriu-a, girou e depois levantou a tampa da mala. E lá estavam, iluminadas pelas ondas que avançavam e recuavam do clarão vermelho da chama: duas enormes vagens já rompidas em um ou dois lugares. Peguei-as imediatamente e joguei-as na terra. Não tinham peso, como balões de criança, o contato áspero e seco nas minhas palmas e dedos. Perdi inteiramente o controle ao sentir aquele contato na pele. Comecei a pisoteá-las, freneticamente, esmagando-as, sem ter a menor idéia de que estava soltando um grito rouco e ininteligível, de pavor e repulsa animal. O vento distorcia a chama para todos os lados, até quase sufocá-la. Ao meu lado, na encosta que se erguia logo depois do acostamento, avistei ma sombra gigantesca. Era a minha, contorcendo-se e dançando desvairadamente, toda a cena de pesadelo iluminada pela luz avermelhada da espuma que sai de um ferimento. Tenho a impressão de que estive bem perto de perder o juízo para sempre.

       Jack estava-me puxando pelo braço com toda a força, tentando arrancar-me de cima das vagens. Voltamos para a mala do carro. Ele pegou a lata de gasolina de reserva que sempre levava. Abriu-a e, à beira da estrada, sob o clarão avermelhado e enfumaçado do fogo de aviso, derramou gasolina sobre as duas massas imensas e sem peso, que se dissolveram numa polpa informe de nada. Arranquei um dos bastões de fogo da terra e voltei correndo, jogando-o sobre a massa encharcada de gasolina na terra e cascalho.

       Afastando-nos rapidamente, o carro voltando aos solavancos para a estrada, olhei para trás e avistei as chamas se elevarem bruscamente por dois ou três metros. Eram chamas alaranjadas, com tons rosados, a fumaça densa, gordurosa, se contorcendo e revolvendo nas ondas de calor. Sempre olhando para trás, enquanto Jack engrenava a segunda e depois a terceira, acelerando o carro, vi as chamas baixarem rapidamente e se desvanecerem em uma vintena de línguas de fogo de dois ou três dedos de altura, entre vermelha e azuladas, a fumaça novamente rosada como espuma de sangue. E, abruptamente, tudo se apagou. Ou ficou oculta de meus olhos por alguma pequena elevação na estrada.

       Não tentei falar ou pensar. Nenhum de nós o fez. Estávamos esgotados de qualquer pensamento ou emoção. Fiquei sentado em silêncio, segurando a mão de Becky, guiando o carro com os olhos, em cada curva, subindo e descendo as lombadas, aumentando a distância. Becky estava calada e empertigada ao meu lado.

       Cerca de meia hora depois, o cartaz a néon esverdeado de Tem Vagas, parecendo frio e inamistoso, deteve-nos em um motel, chamado Rancho Qualquer-Coisa. Jack saltou. Quando abri a porta, Becky inclinou-se para mim e sussurrou:

       — Não me deixe num quarto sozinha, Miles. Estou apavorada demais. Não poderia jamais passar o resto da noite sozinha. Estou apavorada demais.

       Fiz que sim com a cabeça e também saí do carro. Acordamos a dona do motel, uma mulher de meia-idade, eternamente cansada e irritada, de chinelos, metida num roupão, que certamente há muito tempo deixara de tentar entender as pessoas que a acordavam a qualquer hora da noite. Sem haver necessidade de usar mais do que meia dúzia de palavras, alugamos dois quartos de casal, recebemos as chaves e assinamos os registros. Sem pensar conscientemente a respeito, assinei um nome falso. Só depois percebi que Jack havia feito a mesma coisa e compreendi por quê. Era uma idiotice, é claro, mas parecia terrivelmente importante naquele momento nos fazer anônimos, meter-nos num buraco, sem que ninguém no mundo soubesse onde estávamos.

       Jack achou um pijama na pilha amontoada de roupas no banco traseiro, mas eu não encontrei nenhum e peguei um emprestado dele. As duas mulheres apanharam camisolas. Abri a porta do nosso quarto, deixei Becky entrar primeiro e fui atrás. Eu tinha pedido camas separadas, mas no quarto havia apenas uma cama de casal. Deixei escapar uma exclamação contrariada e virei-me para a porta. Mas Becky me deteve, pondo a mão em meu braço.

       — Deixe como está, Miles, por favor. Estou apavorada demais. Acho que nunca senti tanto medo desde que era pequena. Oh, Miles, não me deixe sozinha, por favor!

       Caímos no sono em menos de cinco minutos. Eu estava deitado sem encostar em Becky, exceto pelo braço em torno da cintura dela. Ela pousou as mãos sobre a minha, apertando-a com força, como uma criança. E dormimos, simplesmente dormimos, pelo reto da noite. Estávamos exaustos e eu não dormia desde as três horas da madrugada anterior. Há um tempo e um lugar para tudo. Aquele podia ser o lugar, mas ò momento não era o apropriado. E por isso dormimos.

       Se sonhei, não me restou qualquer vestígio na mente. Simplesmente deixei o mundo e a vida no esquecimento do sono, o que foi a melhor coisa que poderia ter-me acontecido. Creio que teria dormido até o meio-dia, mas, por volta de oito e meia ou quinze para as nove, virei-me na cama e esbarrei em alguém, ouvindo um suspiro. Abri os olhos prontamente, no momento em que Becky, ainda adormecida, também se virava, para aconchegar-se melhor junto ao meu corpo.

       Era demais. Sentindo um calor maravilhoso, inebriado pelo sono, o sopro suave da respiração dela me acariciando o rosto, nada poderia impedir-me naquele momento de tomá-la nos braços e depois parar de respirar. Durante um longo período, foi suficiente sentir o calor do corpo de Becky contra o meu. E depois não foi mais. O que aconteceu a seguir foi a melhor coisa que me havia ocorrido em muito tempo.

       Tomei um banho de chuveiro e me vesti. Estava-me sentindo maravilhosamente bem e não parava de sorrir para Becky. Saí do quarto e fui encontrar Jack lá fora, andando de um lado para outro no pequeno estacionamento pavimentado. Conversamos um pouco, contemplando a manhã. E depois, quando nossos olhos voltaram a se encontrar, indaguei:

       — E então, o que vamos fazer agora? Para onde vamos?

       Jack me fitou nos olhos, o rosto cansado e tenso. Depois, deu de ombros e murmurou:

       — Vamos para casa.

       Fiquei aturdido e ele acrescentou, com voz irritada:

       — É isso mesmo, vamos voltar para casa. Para que outro lugar estava pensando que poderíamos ir?

       Eu estava com o rosto franzido, subitamente furioso, abrindo a boca para discutir. Mas não cheguei a fazê-lo. Depois de um momento, fechei a boca. Jack assentiu, sorrindo ligeiramente, como se eu tivesse dito alguma coisa concordando com sua opinião.

       — É isso mesmo. Mas você sabe tão bem quanto eu que não há opção, Miles. Pensava que poderia mudar de nome, deixar crescer a barba e fugir para algum lugar a fim de começar uma vida nova?

       Também sorri. Agora que Jack falava assim, qualquer outra coisa que não fosse Mill Valley parecia irreal, carecendo de força ou convicção. Era manhã agora, o sol forte iluminava a paisagem. Passara a metade da noite dormindo e o horror novamente se desvanecera de meu cérebro. O medo ainda persistia, concreto e ativo, mas pelo menos eu era agora capaz de pensar sem pânico. Conseguíramos escapar de Mill Valley e isso nos fizera muito bem. Ou pelo menos a mim. Mas pertencíamos àquela cidade e não a algum outro lugar vago, desconhecido, mítico. E agora estava na hora de voltar ao lugar a que pertencíamos, lutar contra o que estava acontecendo, da melhor forma que pudéssemos e enquanto pudéssemos. Jack sabia disso, e agora eu também sabia.

       Um momento depois, Theodora saiu do quarto e encaminhou-se para o lugar em que estávamos. Ao chegar perto, os olhos fixados em Jack, ela começou a franzir o rosto. Depois, parando diante dele, limitou-se a fitá-lo, em silêncio. Jack meneou a cabeça, embaraçado.

       — Meu bem, Miles e eu estamos achando... — Ele parou de falar, enquanto Theodora sacudiu a cabeça lentamente, murmurando, com voz cansada:

       — Não tem importância. Se vocês vão voltar, então vão voltar, não importa por quê. E onde você vai, Jack, eu vou também. — Deu de ombros e virou-se para mim, conseguindo exibir um débil sorriso. — Bom dia, Miles.

       Quando Becky saiu do quarto, meu pijama e a camisola dela enrolados debaixo do braço, tinha uma expressão ansiosa e concentrada, pensando no que tinha a dizer.

       — Miles... — Parou diante de nós. — Tenho de voltar. É tudo verdadeiro, está acontecendo mesmo. E meu pai... — Interrompeu-se, enquanto eu assentia.

       — Vamos todos voltar, Becky. — Segurei-a pelo cotovelo e comecei a levá-la para o carro, com Jack e Theodora nos seguindo. — Só que, antes, pelo amor de Deus, vamos comer qualquer coisa.

       Dois minutos depois das 11 horas daquela manhã, Jack engrenou a segunda e começou a praguejar, saindo da rodovia e entrando na estrada para Mill Valley, a alguns quilômetros de distância. Estávamos agora dominados por uma terrível sensação de urgência em chegar lá, agir, fazer alguma coisa. Mas a estrada, já há algum tempo sem reparos, estava cada vez pior, cheia de pequenos buracos, com alguns maiores aqui e ali. Se corrêssemos demais, havia o risco de quebrar um eixo. Mill Valley é uma cidadezinha isolada, com poucos acessos. Aquilo sucedia com todas as estradas, que se deterioram rapidamente, se não há manutenção. Amaldiçoamos o conselho municipal, o condado, todo mundo que julgávamos ter alguma responsabilidade.

      

       Não sei quantas pessoas, hoje em dia, ainda vivem na cidade em que nasceram. Mas eu vivia e era profundamente triste ver a minha cidade morrer. Talvez seja até pior do que a morte de um amigo, pois, neste caso, sempre nos podemos voltar para outros amigos. Muitas coisas aconteceram e muitas coisas fizemos na hora e 55 minutos que se seguiram. A cada minuto, minha sensação de perda se aprofundou, o choque foi aumentando, por tudo o que víamos. Eu sabia que algo que me era muito caro estava perdido. Avançando por uma rua à entrada da cidade, tive a minha primeira impressão concreta da terrível mudança que ocorrera em Mill Valley. Lembrava-me de algo que um tio certa ocasião me contara, a respeito da guerra, da luta na Itália. Às vezes, os soldados chegavam a uma pequena cidade supostamente sem alemães, com uma população supostamente amistosa. Mas mesmo assim entravam na cidade com os rifles em posição de atirar, olhando ao redor, para cima, para baixo, extremamente cautelosos a cada passo. Meu tio contou-me que os soldados viam em cada janela, em cada porta, em cada beco, em cada rosto, algo para se temer. Agora, de volta à cidade em que tinha nascido, na mesma rua em que entregara muitos jornais quando era garoto, podia compreender como meu tio se sentira ao entrar naquelas pequenas cidades italianas. Eu estava com medo do que podia ver e encontrar ali.

       — Eu gostaria de ir até a nossa casa por alguns minutos, Miles — disse Jack. — Teddy e eu precisamos pegar algumas roupas,

       Eu não queria acompanhá-los. Estava angustiado pelos pensamentos e sentimentos que me dominavam, sabia que tinha de percorrer a cidade, examiná-la de perto, na esperança de poder dizer a mim mesmo que continuava como sempre fora. Como era sábado, não tinha que me preocupar com consultas e havia outro médico de plantão naquele fim-de-semana.

       — Neste caso, Jack, pode deixar-nos aqui. Continuaremos a pé. Estou querendo andar um pouco, se Becky não se importar. Voltaremos a nos encontrar em minha casa.

       Jack deixou-nos na Avenida Sycamore, cerca de 10 minutos a pé da minha casa. A Sycamore é tranqüila, residencial, como a maioria das outras ruas de Mill Valley. Enquanto o barulho do motor do carro de Jack ia-se desvanecendo, Becky e eu começamos a caminhar na direção da Throckmorton. Não havia uma única pessoa à vista e praticamente não se ouvia qualquer som além dos nossos passos na calçada. Eu percorrera aquele mesmo quarteirão há menos de uma semana. E tudo o que estava vendo agora já estava ali antes para se ver, só que... Não se pode realmente ver o familiar até que nos seja esfregado na cara, não se percebem as coisas a que estamos acostumados até que haja um motivo para isso. Mas agora havia um motivo e por isso olhei ao redor, vendo realmente a rua e as casas, procurando absorver todas as impressões que me podiam transmitir.

       Não posso provavelmente descrever de alguma maneira específica em que a rua parecia diferente. Contudo, mostrava-se de fato diferente, de um jeito que não dá para explicar com palavras. Mas se eu fosse um pintor, retratando a maneira como via a Sycamore naquele momento, percorrendo-a ao lado de Becky, acho que iria distorcer as janelas das casas por que passávamos. E as mostraria com as persianas meio abaixadas, as extremidades se curvando para baixo. Dessa forma, as janelas ficariam parecendo olhos vigilantes, semicerrados, observando-nos atentamente enquanto passávamos pela rua terrivelmente silenciosa. Mostraria as grades das varandas e das escadas externas abraçando aquelas casas antigas como braços protetores, defendendo-as soturnamente da nossa curiosidade. Pintaria as próprias casas como encolhidas e retraídas, estranhas, ressentidas, maléficas, impregnadas por um ódio implacável contra os dois vultos que caminhavam entre elas. E daria um jeito de mostrar as próprias árvores, os gramados, a rua, o céu por cima de nós, em tons escuros, embora fosse um dia claro e ensolarado. E faria com que todo o quadro transmitisse uma impressão de silêncio, medo, ameaça. Faria também com que cada cor parecesse um pouco deslocada.

       Não sei se tudo isso transmitiria exatamente o que eu sentia naquele momento, mas... alguma coisa estava errada e não podia haver a menor dúvida. E não demorou muito para que eu percebesse que Becky estava sentindo a mesma coisa.

       — Miles — disse ela, em voz baixa e cautelosa — estou imaginando coisas ou a rua parece mesmo... morta?

       — Não, não está imaginando. — Sacudi a cabeça. — Em sete quarteirões, não passamos por uma única casa em que estivessem retocando a pintura, consertando um telhado, varanda, ou mesmo um vidro quebrado. Não se está plantando uma única árvore, um único arbusto, uma única planta. Nem mesmo se está cortando a grama. Nada está acontecendo, Becky, ninguém está fazendo coisa alguma. Há dias que não fazem, talvez semanas.

       Era verdade. Percorremos mais três quarteirões, até a Blithedale, entrando em seguida na Throckmorton. Não se via um único indício de mudança. Era como se estivéssemos num palco pronto, concluído até o último prego, até a última pincelada. Só que não se pode percorrer vários quarteirões de uma rua comum, habitada por seres humanos sem se deparar com sinais de uma garagem em construção, o pavimento da calçada sendo consertado, um jardim em reforma, coisas assim. Sempre se encontram pelo menos alguns indícios do impulso incessante e interminável de mudar e melhorar que caracteriza a raça humana.

       Entramos na Throckmorton. Ali, havia pessoas nas calçadas e carros estacionados ao lado dos parquímetros. Apesar disso, a rua parecia de certa forma surpreendentemente vazia e inativa. Exceto pela batida ocasional de uma porta de carro ou o som de uma voz, a rua estava quase que totalmente silenciosa, às vezes pelo tempo que levávamos para percorrer meio quarteirão. Era como a rua parecia à noite, quando a cidade adormece.

       Muito do que vimos naquele momento eu já tinha observado antes, ao passar pela Throckmorton para atender a chamados domiciliares. Mas não havia realmente notado, jamais tinha observado de verdade aquela rua que conhecera por toda a minha vida. Mas agora reparava em tudo e de repente me recordei da loja vazia que vira perto do meu consultório. É que agora, nos primeiros quarteirões da rua, nossos passos ressoando na calçada, passamos por três outras lojas vazias. As vitrines achavam-se imundas e, através delas, mal dava para se divisar os interiores, sujos e coalhados de detritos. Davam a impressão de que já se encontravam vazias há bastante tempo. Passamos sob a placa da Mill Town Tavern e percebi que as duas últimas letras faltavam. As vitrinas estavam sujas de moscas, os cartazes de papelão de marcas de bebidas estavam desbotados pelo sol. As portas achavam-se abertas e demos uma olhada ao passar. Havia um único freguês lá dentro, sentado no balcão, imóvel. E a taverna estava mergulhada no silêncio.

       O Dave’s Lunch achava-se fechado... aparentemente para sempre, porque os bancos junto ao balcão haviam sido desparafusados e estavam estendidos de lado no chão. Uma sapataria ainda tinha um cartaz do Quatro de Julho na vitrine, alguns sapatos de criança por detrás do vidro, com uma camada de poeira por cima do couro. O cinema Sequoia, pelo qual passamos logo depois, exibia um cartaz na fachada em que se lia Aberto Somente nas Noites de Sábado e Domingo.

       Reparei novamente, enquanto Becky e eu avançávamos pela rua, quantos detritos e papéis havia por toda parte. As cestas de lixo transbordavam, fragmentos de jornais e montículos de poeira se acumulavam nas entradas das lojas, nas bases dos lampiões e das caixas postais. Na pequena praça municipal, o mato estava alto, e há muitos dias ninguém cuidava do jardim. Becky murmurou:

       — A carrocinha de pipoca desapareceu...

       Só então percebi. Por muitos anos, uma carrocinha de pipoca de rodas vermelhas, douradas e envidraçada, ficara parada durante o dia ao lado do ponto de ônibus. E agora, a carrocinha e Eddie, o pipoqueiro de meia-idade, haviam desaparecido.

       O restaurante de Dave ficava logo adiante. Na última vez em que eu comera ali, pensara vagamente que havia bem poucos fregueses. E agora fiquei aturdido, ao pararmos por um instante e olharmos através da vitrine, pois apenas duas pessoas estavam almoçando, num momento em que o restaurante deveria estar apinhado. Pregado na janela, como sempre, via-se o cardápio do dia. Dei uma olhada. Havia uma oferta de apenas três entradas, quando durante anos houvera seis ou oito.

       — Miles, quando foi que tudo isso aconteceu? — Becky gesticulou para indicar a rua semideserta, nas duas direções.

       — Um pouco de cada vez — respondi, dando de ombros. — Mas só agora estamos percebendo. A cidade está morrendo.

       Afastamo-nos da vitrine do restaurante. O furgão de bombeiro hidráulico de Ed Burley passou pela rua nesse momento. Ele nos acenou e retribuímos. Depois, no estranho silêncio que volta e meia pairava sobre a rua, pudemos novamente ouvir nossos passos na calçada.

       Na esquina, diante da Farmácia Lovelock, Becky disse, procurando parecer tranqüila:

      — Vamos tomar uma Coca-Cola, um café ou qualquer outra coisa.

       Assenti e entramos na farmácia, que era mais uma drugstore. Sabia que Becky não estava realmente querendo tomar uma Coca nem um café, mas simplesmente sair daquela rua por um momento. E era o que eu também desejava.

       Havia um homem sentado ao balcão, o que me surpreendeu. Depois, fiquei surpreso por ter ficado surpreso. Mas é que, depois de nossa caminhada pela Throckmorton, eu quase que esperava que qualquer lugar em que entrássemos tivesse de estar vazio. O homem virou-se para fitar-nos, e eu o reconheci. Era um vendedor de uma firma atacadista de São Francisco. Já o tratara uma vez, de um tornozelo torcido. Sentamo-nos perto dele, e perguntei:

       — Como vão os negócios?

      O velho Sr. Lovelock fitou-me inquisitivamente de detrás do balcão. Levantei dois dedos e disse:

       — Duas Cocas.

       O homem ao balcão respondeu à minha pergunta:

       — Não podiam estar piores. — Ainda pairava em seu rosto o vestígio de um sorriso do nosso cumprimento, mas tive agora a impressão de que havia também uma insinuação de hostilidade. E acrescentou: — Pelo menos em Mill Valley.

       Ficou-me olhando por um longo momento, como se debatesse consigo mesmo se deveria ou não prolongar o comentário. Mais adiante no balcão, a torneira fazia algum barulho, enquanto nossos copos eram enchidos. O homem ao meu lado inclinou-se e, baixando a voz, disse:

       — Que diabo está acontecendo por aqui?

       O Sr. Lovelock trouxe nossas Cocas e colocou os copos lenta e cuidadosamente no balcão. Esperei que ele se afastasse, voltando aos fundos da loja, antes de responder:

       — Como assim? — Procurei falar com a maior naturalidade e tomei um gole de Coca. Estava horrível, quente demais e não fora mexida. Olhei ao redor e não avistei uma única colher ou canudo. Larguei o copo em cima do balcão.

       — Não se consegue arrumar mais nenhuma encomenda. — O vendedor deu de ombros. — Ou pelo menos alguma que valha o esforço. Querem apenas os produtos de consumo geral, os essenciais, desprezando inteiramente os extras. — Lembrou-se de que não se deve criticar uma cidade para um morador, sorriu jovialmente. — Vocês estão fazendo uma greve de compras ou algo parecido? — Desistiu do esforço, parou de sorrir e acrescentou, sombriamente: — As pessoas desta cidade simplesmente não estão comprando nada.

       — A situação anda meio apertada na cidade neste momento — comentei. — É só isso.

       — Talvez. — O homem pegou sua xícara e mexeu o café no fundo, fitando-o com uma expressão soturna. — Tudo o que sei é que ultimamente quase não vale mais a pena vir a esta cidade. Por outro lado, porque virou agora um lugar difícil de se alcançar. Demora-se muito tempo só para entrar e sair de Mill Valley. E por todos os negócios que faço por aqui, bem que poderia anotar as encomendas por telefone. — Fez uma pausa, antes de acrescentar, defensivamente: — E não está acontecendo só comigo. Todos os outros vendedores estão dizendo a mesma coisa. A maioria já deixou de vir a Mill Valley. Não se consegue mais nem mesmo salvar o dinheiro da gasolina nesta cidade. Torna-se difícil até comprar uma Coca na maioria dos lugares. Ou mesmo tomar um café. Por duas vezes, recentemente, esta casa ficou inteiramente sem café, sem que houvesse qualquer motivo aparente. E quando há café, não poderia ser pior. Está horrível.

       O homem terminou de tomar o café com um gole, contraindo o rosto numa careta. Ao descer do banco junto ao balcão, a hostilidade em seu rosto era patente. Nem se deu ao trabalho de sorrir, dizendo, em tom furioso:

       — Qual é o problema afinal? Esta cidade por acaso está morrendo de podre? — tirou uma moeda do bolso, inclinou-se para deixá-la em cima do balcão e murmurou em meu ouvido, com uma amargura contida: — Todos estão-se comportando como se não quisessem mais vendedores por aqui. — Por um instante, ficou-me olhando assim, com a maior raiva, para depois sorrir profissional mente. — Até a próxima, Doe.

       O homem sacudiu a cabeça polidamente para Becky, depois virou-se e encaminhou-se para a porta.

       — Miles... — murmurou Becky, a voz bem baixa, mas tensa. — Acha que é possível para uma cidade isolar-se inteiramente do resto do mundo? Gradativamente desencorajar as pessoas a visitá-la, até começar a passar despercebida? Ser praticamente esquecida?

       Pensei um pouco a respeito e depois meneei a cabeça.

       — Não.

       — Mas as estradas, Miles! Estão-se tornando quase intransponíveis! Isso não faz o menor sentido! E há também aquele vendedor e a maneira como a cidade parece...

       — É impossível, Becky. Seria necessário a cidade inteira para fazer isso, todos os seus habitantes. Teria de ser uma decisão e a ação correspondente absolutamente unânimes. E isso redundaria em nos incluir.

       — Mas eles tentaram incluir-nos, Miles.

       Continuei olhando para ela em silêncio por um momento. Becky estava certa. Deixei meio dólar em cima do balcão e me levantei.

       — Vamos embora. Saiamos logo daqui. Já vimos o que estávamos querendo.

       Na esquina seguinte, passamos pelo prédio em que ficava meu consultório. Olhei para meu nome em letras douradas na janela do segundo andar. Parecia que se passara muito tempo desde a última vez em que eu lá estivera. Continuamos em frente, deixando a área comercial. Becky comentou:

       — Tenho de passar em casa para ver meu pai. É algo que detesto, Miles, mas preciso vê-lo, apesar de me sentir profunda mente angustiada pela maneira como ele está agora.

       Não havia nada que eu pudesse dizer e por isso limitei-me a assentir. A biblioteca pública ficava a cerca de um quarteirão à nossa frente e falei para Becky:

       — Vamos parar por um instante na biblioteca.

       A Srta. Weygand achava-se sentada atrás da mesa quando entramos. Sorri-lhe com um prazer genuíno, como sempre fazia. Era bibliotecária desde os tempos em que eu estava na escola primária e vinha até ali para pegar Tom Swift e os livros de Zane Grey. Era o oposto da noção convencional do que uma bibliotecária geralmente é. Era uma mulherzinha vigorosa, de cabelos grisalhos, olhos inteligentes. Podia-se falar na sala de leitura principal de sua biblioteca, desde que não fosse alto demais. Havia cadeiras estofadas bem confortáveis ao lado de mesinhas baixas cheias de revistas. Era um ótimo lugar para se passar uma hora agradável ou uma tarde inteira, um lugar para se encontrar com amigos e conversar tranqüilamente. Ela era maravilhosa com as crianças, possuía uma enorme paciência, natural e interessada. Quando garoto, algo que jamais esquecerei, sempre me sentira bem-vindo ali e não um intruso.

       A Srta. Weygand era uma das pessoas de Mill Valley de quem eu mais gostava. Paramos diante de sua mesa e a cumprimentamos. Ela sorriu, um sorriso jovial de satisfação, que fazia qualquer um contente por estar ali.

       — Olá, Miles. É um prazer descobrir que está lendo novamente. — Não pude deixar de sorrir, e ela acrescentou: — É um prazer vê-la também, Becky. Apresente meus cumprimentos a seu pai.

       Depois das amenidades de praxe, falei:

       — Podemos dar uma olhada na coleção do Mill Valley Record, Srta. Weygand? Do verão passado, a primeira quinzena de julho.

       — Claro que pode. — Quando me ofereci para descer e pegar pessoalmente a coleção, ela disse: — Não. Fique sentado aqui e relaxe. Busco num instante.

       Sentamo-nos em duas cadeiras na mesa das revistas. Becky pegou uma revista e eu dei uma olhada ao redor. Só havia mais uma pessoa presente, um homem idoso, sentado em outra mesa. O que era uma situação insólita. A Srta. Weygand demorou algum tempo para subir da sala do arquivo. Já era meio-dia e vinte quando apareceu, sorridente, com a coleção encadernada e em que se podia ler Mill Valley Record, Julho, Agosto e Setembro de 1976. Deixou-a em cima da mesa, entre Becky e eu. Agradecemos. A data no recorte de Jack era 9 de julho. Abri o livro imenso e encontrei o exemplar do Record do dia anterior.

       Ambos examinamos cuidadosamente a primeira página, verificando cada notícia. Não havia nada a respeito de vagens gigantescas ou do Professor L. Bernard Budlong. Virei a página. No canto superior esquerdo da terceira página havia um buraco retangular, com duas colunas de largura, 12 a 15 centímetros de altura. Uma notícia fora recortada dali, cuidadosamente, com uma lâmina. Becky e eu nos entreolhamos. Examinamos o resto daquela página e também a segunda página. Não descobrimos o que procurávamos, que também não estava nas outras três páginas do Record de 8 de julho.

       Passamos para o exemplar do dia 7 de julho e começamos pela primeira página. Não havia qualquer notícia no jornal a respeito de Budlong ou das vagens. Na metade inferior da primeira página do Record de 6 de julho havia outro buraco, de cerca de 20 centímetros de altura, com três colunas de largura. Na metade inferior da primeira página da edição de 5 de julho havia um terceiro buraco, também com seus 20 centímetros de altura e duas colunas de largura.

       Não era um mero palpite, mas uma súbita pontada de conhecimento intuitivo, de certeza absoluta. Eu sabia, e ponto final. Virei-me na cadeira e olhei através da sala para a Srta. Weygand. Achava-se imóvel atrás de sua mesa, os olhos fixos em nós. No instante em que a fitei, o rosto dela estava impassível, desprovido de qualquer expressão. Os olhos eram brilhantes, concentrados, tão inumanamente frios quanto os de um tubarão. O momento foi apenas uma fração de segundo, porque, no instante seguinte, ela sorriu, jovial e inquisitivamente, as sobrancelhas se alteando numa indagação polida.

       — Posso ajudar em alguma coisa? — Aquela ansiedade serena e interessada era típica da Srta. Weygand que eu conhecera por tantos anos.

     — Pode, sim. Quer fazer o favor de dar um pulo até aqui, Srta. Weygand?

       Sorrindo sempre, ela contornou a mesa e atravessou a biblioteca em nossa direção. Não havia mais ninguém na sala agora. Passavam 26 minutos do meio-dia pelo relógio grande na parede por cima da mesa dela, e o único outro freqüentador se retirara poucos minutos antes.

       A Srta. Weygand parou ao meu lado. Fitei-a e ela não desviou os olhos, a expressão jovialmente inquisitiva. Sacudi a cabeça para o buraco na primeira página do jornal à minha frente. E falei, calmamente:

       — Antes de nos trazer a coleção, cortou todas as referências às vagens encontradas em Mill Valley no verão passado, não é mesmo?

       Ela franziu o rosto, aturdida com a acusação. Inclinou-se para a frente, olhando com uma expressão surpresa para o jornal mutilado sobre a mesa. Levantei-me para falar de novo, o rosto bem perto da Srta. Weygand.

       — Não precisa dar-se ao trabalho, Srta. Weygand ou quem quer que seja, de encenar um ato para nós. — Inclinei-me mais para perto, fitando-a nos olhos e baixando a voz: — Eu a conheço. Sei exatamente o que é.

       Por um momento, ela ficou imóvel, olhando aturdida de mim para Becky, completamente desconcertada. Depois, abruptamente, abandonou a representação. A Srta. Weygand de cabelos grisalhos, que 20 anos antes me emprestara o primeiro exemplar de Huckleberry Finn que li, fitou-me com uma expressão impassível, diferente de tudo o que eu conhecia, extremamente fria e implacável. Não havia agora coisa alguma naquele olhar, nada em comum comigo. Um peixe no mar estaria mais próximo de mim do que aquela coisa que me fitava. E depois falou. Eu dissera que a conhecia e ela respondeu, a voz infinitamente remota e indiferente:

       — Conhece mesmo? — Em seguida virou-se e afastou-se.

       Gesticulei para Becky e saímos apressadamente da biblioteca. Lá fora, na calçada, demos meia dúzia de passos em silêncio. Depois, Becky sacudiu a cabeça e murmurou:

       — Até mesmo ela... até mesmo a Sita. Weygand... Oh, Miles...

       As lágrimas brilhavam nos olhos dela. Becky olhou ao redor, primeiro por cima de um ombro, depois pelo outro, para as casas, os gramados aprazíveis, a rua. — Quantos mais, Miles?

       Eu não conhecia a resposta e limitei-me a menear a cabeça, enquanto seguíamos em frente, a caminho da casa de Becky.

      

       Havia um carro estacionado diante da casa dela. Pudemos reconhecê-lo ao nos aproximar: era um sedã Buick Century 1973, a pintura azul desbotada pelo sol.

       — Wilma, Tia Aleda e Tio Ira — murmurou Becky, olhando para mim. — Miles... não posso entrar em casa!

       Estávamos quase diante da residência e Becky estacou na calçada. Parei também, pensando por um momento.

       — Está certo, Becky. Não vamos entrar, mas temos de dar um jeito de vê-los. — Ela começou a sacudir a cabeça nervosa mente, e apressei-me em acrescentar: — Temos de descobrir o que está acontecendo, Becky! Temos de descobrir! Ou então de nada adiantará termos voltado para a cidade!

       Peguei o braço dela e entramos no caminho de lajotas que levava à casa. Mas saí dele imediatamente, puxando Becky, e avançando em silêncio pelo gramado.

       — Onde eles devem estar, Becky? — Como não respondesse, sacudi-a uma vez, quase bruscamente, sem lhe largar o braço. — Becky, onde eles devem estar? Na sala?

       Ela assentiu, atordoada. Fomos para o lado da casa, sempre em silêncio, andando junto à varanda larga e antiga que passava pelas janelas da sala de estar. As janelas estavam abertas e podíamos ouvir o murmúrio de vozes por detrás das cortinas brancas. Parei, levantei um pé, tirei o sapato, depois o outro. Olhei para Becky e ela engoliu em seco. Depois, segurando meu braço, ela também tirou os sapatos. Um pouco além das janelas da sala de estar, quase nos fundos da casa, subimos silenciosamente os degraus da escada. Sentamo-nos na varanda ao lado de uma janela aberta, com todo cuidado, lentamente. Estávamos completamente ocultos. Quem passasse pela rua não nos poderia ver, por causa das árvores imensas e antigas e dos arbustos altos do jardim.

       — ... aceita mais café? — ouvimos uma voz, a do pai de Becky, dizer.

       — Não — respondeu Wilma, e ouvimos o barulho de uma xícara e pires sendo postos numa superfície de madeira. — Tenho de estar de volta à loja à uma hora. Mas pode ficar aqui. Tia Aleda, juntamente com Tio Ira.

       — Também vamos embora — declarou a tia de Wilma. — Lamento não ter visto Becky.

       Levantei a cabeça lentamente, até o olho ficar acima do peitoril, no lado da janela aberta. Lá estavam eles, todos sentados: o pai de Becky, de cabelos grisalhos, fumando um charuto; Wilma, de rosto redondo, faces avermelhadas; o alto e idoso Tio Ira; a mulherzinha de rosto meigo que era a tia de Wilma. Todos pareciam os mesmos, e falavam exatamente como sempre fizeram. Virei a cabeça e olhei para Becky, imaginando se não teríamos cometido algum erro terrível, se todas aquelas pessoas não eram justamente o que pareciam.

       — Também lamento — disse o pai de Becky. — Estava convencido de que a encontraria em casa. Afinal, Becky voltou à cidade, como já devem saber.

       — Claro que sabemos — disse Tio Ira. — E Miles também está de volta.

       Não entendia como eles poderiam ter sabido que estávamos de volta. Ou sequer que havíamos partido. E no instante seguinte, inesperadamente, aconteceu algo que me provocou um calafrio, fazendo os cabelos da nuca arrepiarem.

       É algo muito difícil de explicar, mas vou tentar. Quando ainda estava no colégio, havia um preto de meia-idade que tinha uma cadeira de engraxate diante de um hotel. Era um dos personagens mais conhecidos da cidade. Todos apadrinhavam Billy, porque ele representava a noção geral de como deveria ser um “personagem”. Billy tinha um título para cada um dos seus fregueses habituais.

       — Bom dia, Professor — dizia ele sobriamente ao comer diante de óculos que sentava todos os dias em sua cadeira para engraxar os sapatos. — Minhas saudações, Capitão — dizia para outro.

       E seguia por aí:

       — Como tem passado, Coronel? Boa noite, Doutor. É um prazer tornar a vê-lo, General.

       A lisonja era óbvia, e as pessoas sempre sorriam, para indicar que não estavam sendo engambeladas. O que não as impedia, no entanto, de gostar.

       Billy professava ter um amor genuíno por sapatos. Sacudia a cabeça com uma expressão crítica de aprovação quando um freguês aparecia com sapatos novos.

       — Bom couro — murmurava ele, com plena convicção. — É um prazer trabalhar em sapatos assim.

       O freguês, inevitavelmente, sentia uma espécie de orgulho tolo pela confirmação de seu bom gosto. Se os sapatos eram velhos, Billy punha a mão em concha por cima ao terminar, virando-a de um lado para outro a fim de orientar o reflexo da luz. E comentava:

       — Não há nada para pegar um brilho tão bom quanto couro velho, Tenente. Mas nada mesmo.

       E se o freguês aparecia com um par de sapatos ordinários, o silêncio de Billy era uma confirmação de todos os elogios que ele fizera anteriormente. Com Billy, o engraxate, tinha-se a sensação de se estar em companhia dessa coisa extremamente rara que é um homem feliz. Obviamente, ele sentia prazer em exercer uma das mais humildes atividades do mundo. O dinheiro envolvido parecia não ter qualquer importância para Billy. Quando se lhe pagava, ele nem mesmo olhava para as moedas postas em sua mão. Aceitava-as distraidamente, toda a sua atenção concentrada nos sapatos. O freguês ia embora com uma sensação exultante, como se tivesse acabado de fazer uma boa ação.

       Certa noite, fiquei acordado até o amanhecer, numa aventura de estudante que já não tem mais qualquer importância agora. Sozinho em meu velho carro, descobri-me no bairro mais pobre da cidade, a três ou quatro quilômetros de casa. Estava subitamente sentindo um sono irresistível, cansado demais para guiar de volta. Parei o carro junto ao meio-fio e, com o sol começando a aparecer no horizonte a leste, enrosquei-me no banco traseiro, debaixo da velha manta que mantinha ali. Talvez meio minuto depois, quando eu já estava quase dormindo, fui bruscamente despertado por passos na calçada ao lado do carro. Ouvi uma voz de homem dizer:

       — Bom dia, Bill.

       Como estava com a cabeça abaixo da janela do carro, não podia ver quem estava falando. Mas ouvi outra voz, cansada e irritada, responder:

       — Oi, Charley.

       A segunda voz me era familiar, embora não conseguisse imediatamente situá-la. No instante seguinte, a mesma voz voltou a falar, num tom subitamente estranho e alterado:

       — Bom dia, Professor. — Havia uma cordialidade distorcida na voz. — Bom dia. Puxa, mas que sapatos! Esses sapatos já têm... deixe-me ver... vão fazer cinqüenta e seis anos na próxima terça-feira e ainda adoram receber um bom lustre! — A voz era de Billy, as palavras e o tom que toda a cidade conhecia com afeição. Só que, naquele momento, tudo não passava de uma paródia grotesca.

       — Não perca o controle, Bill — murmurou a primeira voz, apreensiva.

       Mas Billy ignorou o conselho. E continuou a falar, numa imitação subitamente rancorosa e escarninha da cantilena tão familiar.

       — É tudo o que quero na vida, Coronel, poder cuidar de sapatos assim. Deixe-me beijá-los! Por favor, deixe-me beijar seus pés!

       A amargura acumulada de tantos anos impregnava cada palavra e sílaba que ele proferia. Talvez por um minuto inteiro, parado na calçada do bairro miserável em que vivia, Billy continuou naquele arremedo quase histérico de si mesmo, com o amigo murmurando, ocasionalmente:

       — Relaxe, Bill. Vamos, pare com isso. Não precisa ficar assim.

       Mas Billy continuava. Nunca antes, em toda a minha vida, eu ouvira tamanho desprezo numa voz, um desprezo amargo, horrível, rancoroso, desprezo pelas pessoas engambeladas por sua exibição diária, mas desprezo maior por si mesmo, o homem que fornecia o servilismo pelo qual elas pagavam.

       Em seguida, de súbito, Billy parou de falar e bruscamente soltou uma risada.

       — Até mais tarde, Charley.

       O amigo riu também, meio constrangido, e disse:

       — Não deixe que eles acabem com você, Bill.

       E depois os passos voltaram a soar, em direções opostas.

       Nunca mais voltei a engraxar os sapatos na cadeira de Billy. E tomava todo o cuidado em jamais passar por lá. Só uma vez esqueci e, nessa ocasião, ouvi Billy dizer:

       — Isso é que é um brilho, Comandante.

       Olhei para o rosto de Billy, iluminado de prazer pelo sapato brilhando à sua frente. Olhei para o homem corpulento sentado na cadeira, que sorria condescendente para a cabeça abaixada de Billy. Tratei de me afastar e seguir adiante apressadamente, envergonhado por todos nós.

       — Becky voltou à cidade — dissera o pai dela.

       — E Miles também está de volta — falara Tio Ira, que acrescentou, um momento depois: — Como vão os negócios, Miles? Matou muitos hoje?

       Pela primeira vez, em anos, ouvi em outra voz o mesmo escárnio chocante que ouvira na voz de Billy. Por isso, os cabelos da minha nuca ficaram arrepiados.

       — Dentro dos limites — continuou Tio Ira, repetindo a resposta que eu lhe dera uma semana antes, séculos antes, no gramado de sua casa. A voz dele parodiava a minha, com o sarcasmo impiedoso de uma criança zombando de outra.

       — Oh, Miles... — disse Wilma nesse instante, a voz afetada, com um ódio que me fez estremecer. — Estava mesmo pensando em dar um pulo até seu consultório para falar sobre... o que aconteceu.

       Ela sorriu falsamente, num horrível arremedo de constrangimento. A pequena Tia Aleda soltou uma risadinha e prosseguiu na reconstituição da conversa de Wilma comigo:

       — Miles, estou terrivelmente embaraçada. Não sei direito o que aconteceu ou como lhe posso explicar, mas... recuperei o bom senso. — O tom de voz com que falava era repulsivo. De pois de uma breve pausa, ela acrescentou, imitando minha voz com perfeição: — Não precisa perder tempo em explicar, Wilma. Não quero que se preocupe com isso nem se sinta embaraçada. Apenas esqueça o que aconteceu.

       E todos riram, os lábios se contraindo e deixando os dentes à mostra, os olhos divertidos, zombeteiros e extremamente frios. Eu sabia que aqueles não eram Wilma, Tio Ira, Aleda e o pai de Becky; sabia que não eram sequer seres humanos. Senti um frio me invadir o corpo, quase que vomitei. Becky estava sentada no chão da varanda ao meu lado, as costas apoiadas na parede de casa, o rosto completamente drenado de qualquer sangue, a boca entreaberta. Eu sabia que ela estava apenas semiconsciente.

       Peguei uma dobra de pele no antebraço dela, entre o meu polegar e o indicador. Apertei com força, ao mesmo tempo em que punha a outra mão sobre a boca de Becky, a fim de que ela não pudesse gritar pela dor súbita. Observando o rosto dela atentamente, percebi que um pouco de cor retornava às faces. Com os nós dos dedos, bati bruscamente em sua testa, onde a pele é fina. A dor foi tanta que um brilho de raiva surgiu nos olhos da moça. Depois, pus um dedo sobre meus lábios, pedindo silêncio, e ajudei-a a levantar-se. Não fizemos qualquer barulho ao atravessar e descer a varanda, os pés apenas de meias, os sapatos nas mãos. Na calçada, voltamos a calçar os sapatos. Não me dei ao trabalho de amarrar os cordões. Seguimos em frente, a caminho de minha casa, apenas dois quarteirões adiante. Becky limitou-se a murmurar:

       — Oh, Miles... — Era mais um gemido, angustiado e desesperado. Simplesmente meneei a cabeça e continuamos em frente, andando bem depressa, aumentando a distância daquela casa antiga em que agora se instalara todo aquele horror.

       Já estávamos subindo os degraus, quando percebi o vulto sentado no balanço da varanda. Foi o seu movimento, quando começou a levantar-se, que me atraiu a atenção e avistei os botões de latão do casaco do uniforme azul.

       — Oi, Miles... Becky... — Era Nick Grivett, o chefe de polícia de Mill Valley, sorrindo jovialmente.

       — Olá, Nick — murmurei, procurando imprimir à voz um tom despreocupado. — Algum problema?

       — Não. — Ele meneou a cabeça. — Não há nada. — Ficou parado na varanda, um homem de meia-idade, sorrindo afavelmente. — Mas gostaria que me acompanhasse até a delegacia, Miles... se não se importa.

       — Claro, claro... Qual é o problema, Nick?

       — Nada de importante — respondeu o policial, dando de ombros. — Quero apenas fazer-lhe algumas perguntas de rotina.

       Mas eu não ia satisfazer-me corri isso.

       — Sobre o quê?

       — Ora... — Nick Grivett tornou a dar de ombros. — Sobre o tal corpo que você e Belicec disseram ter encontrado... estou simplesmente querendo esclarecer alguns detalhes.

       — Está certo. — Virei-me para Becky, indagando, como se isso não tivesse qualquer importância: — Quer ir também? Não vai demorar muito. Não é mesmo, Nick?

       — Dez ou quinze minutos, no máximo — respondeu ele, também em tom despreocupado.

       — Está certo. Vamos em meu carro?

       — Prefiro ir no meu, Miles, se não se incomoda. Eu o trarei de volta quando terminarmos. — Fez um aceno com a cabeça na direção da garagem. — Deixei meu carro na garagem, ao lado do seu, Miles. Esqueceu as portas abertas.

       Assenti, como se isso fosse perfeitamente natural, o que não era o caso. O lugar mais fácil e natural para o chefe de polícia estacionar seu carro era na rua, diante da casa, a menos que estivesse com receio de que a estrela dourada pudesse afugentar as pessoas pelas quais estava esperando. Polidamente, recuei para a grade da varanda, fazendo um gesto para que Nick seguisse na minha frente. Bocejei ligeiramente, como se estivesse entediado e desinteressado. Nick encaminhou-se para os degraus. Era um homem relativamente baixo, atarracado, mais para o gordo, o queixo não chegando a bater em meu ombro. Um instante antes de Nick ficar bem na minha frente, ergui o punho com toda a minha força e atingi-o no queixo com um soco violento. Mas não é tão fácil derrubar-se um homem com um soco, como pensam algumas pessoas, a menos que se esteja bem treinado e se conheça o assunto. O que não acontecia comigo.

       Nick cambaleou para o lado e desabou, ficando de joelhos no chão da varanda. Passei o braço pelo pescoço dele, de pé às suas costas, puxando-lhe o queixo para cima, enganchado no meu cotovelo. Nick foi obrigado a pôr-se de pé, meio cambaleando, a fim de aliviar a pressão em sua garganta. Podia ver-lhe o rosto, pois a cabeça de Nick estava inclinada para trás, meu quadril comprimido contra suas costas. Naquela situação, era de se esperar que qualquer homem ficasse furioso, mas os olhos de Nick estavam frios, tão vazios de qualquer emoção quanto os olhos de uma barracuda. Arranquei-lhe a arma do coldre, encostei-a em suas costas e larguei-o. Nick sabia perfeitamente que eu a usaria se fosse necessário, e por isso ficou imóvel. Algemei-lhe as mãos, com suas próprias algemas, e levei-o para o interior da casa.

       — Miles, é demais para nós — disse Becky, tocando em meu braço. — Eles estão atrás de nós. Todos eles. E vão pegar-nos, Miles. Temos de ir embora, escapar de Mill Valley.

       Segurei-a pelos braços, um pouco acima dos cotovelos, fitando-a nos olhos. E assenti.

       — Tem razão, Becky. Quero que você saia daqui. Tem que deixar esta cidade, fugir para mil quilômetros de distância de Mill Valley. Pegue meu carro agora mesmo e trate de escapar. Vou fugir também. Só que fugirei e lutarei ao mesmo tempo... aqui mesmo. Não se preocupe comigo. Não vou deixar que me agarrem. Mas tenho de ficar aqui. E quero que você vá embora, para bem longe, para um lugar seguro.

       Ela me olhou em silêncio por algum tempo, mordeu o lábio, depois meneou a cabeça.

      — Não quero segurança sem você. De que adiantaria? — Quando fiz menção de falar, acrescentou: — Não discuta, Miles. Não há tempo agora.

       — Está certo — concordei, após um momento. Empurrei Nick Grivett para uma cadeira, depois peguei o telefone e liguei para Mannie Kaufman. Precisávamos agora de toda e qualquer ajuda que pudéssemos obter.

       O telefone começou a tocar na outra extremidade da linha. Ao terceiro toque, ouvi a voz de Mannie dizer:

       — Alô? — E no instante seguinte o telefone ficou mudo. Um momento depois, a telefonista entrou na ligação, com a habitual voz mecânica:

       — Qual o número que está chamando, por favor?

       Dei a informação e o telefone recomeçou a tocar. Mas, desta vez, ninguém atendeu. Eu sabia que a telefonista simplesmente me ligara com um circuito sem resposta. O telefone de Mannie não estava tocando nem qualquer outro telefone. A estação telefônica achava-se nas mãos deles.

       Desfiz a ligação e telefonei para Jack. Quando ele atendeu, compreendi que haviam permitido aquela ligação para ouvirem o que disséssemos. E falei depressa:

       — Jack, temos problemas. Tentaram agarrar-nos. E vão tentar agarrar vocês também. É melhor sair daí depressa. Deixaremos minha casa no instante em que eu desligar.

     — Está certo, Miles. Para onde vai?

       Tive de fazer uma pequena pausa para pensar como poderia transmitir a informação a Jack. Queria que a pessoa ou pessoas que estivessem escutando pensassem que estávamos deixando a cidade. E precisava encontrar um meio de dizer isso a Jack de tal forma que ele compreendesse que não era verdade. Jack é um literato e tentei recordar-me de algum personagem da literatura cujo nome se tivesse tornado um símbolo de falsidade. Mas, no momento, não me ocorreu nenhum. No instante seguinte, recordei-me de um nome, um nome bíblico, o de Ananias, o mentiroso.

       — Jack, conheço uma mulher que tem um pequeno hotel a duas horas de carro daqui. É a Sra. Ananias. Conhece o nome?

       — Conheço, sim, Miles. — disse Jack, e eu era capaz de apostar que ele estava sorrindo. — Conheço a Sra. Ananias e a reputação dela como uma pessoa que merece confiança absoluta.

       Pois pode também estar certo de uma coisa, Jack: Becky e eu estamos deixando a cidade, neste momento, e que tudo o mais se dane. Estamos indo para o hotel da Sra. Ananias. Está-me entendendo, Jack? Sabe o que vamos fazer?

       — Perfeitamente, Miles. Eu o entendo perfeitamente. — Eu sabia que Jack entendia e ele sabia que estávamos deixando minha casa, mas não a cidade. — Acho que vamos fazer exatamente a mesma coisa. Por que então não vamos todos juntos? Sugira um lugar para nos encontrarmos, Miles.

       — Lembra-se daquele homem mencionado em seu recorte de jornal, Jack? O tal professor? — Tinha certeza de que Jack saberia que era uma referência a Budlong. Enquanto falava, eu folheava rapidamente o catálogo, procurando o endereço dele. — Ele tem algo de que precisamos. É a única coisa que me ocorre neste momento. Vamos dar uma passada por lá. Acho que talvez cheguemos a pé. Passe por lá em seu carro exatamente dentro de uma hora,

       — Está certo, Miles. — Jack desligou, e fiquei torcendo para que tivéssemos conseguido enganar as pessoas que estavam escutando a conversa.

       Na garagem, encontrei a chave das algemas de Grivett no chaveiro dele dentro do carro. Sob a mira do revólver, ele se ajoelhou no chão do carro, na parte de trás. Abri as algemas apenas pelo tempo suficiente para prender uma argola no travessão de ferro do banco da frente. Tornei a fechar as algemas, deixando Grivett acorrentado a seu próprio carro, atrás, onde não poderia alcançar a buzina. Envolvi o revólver com o boné dele e bati com a coronha — não a ponta, mas o lado — em sua cabeça. Lê-se muito a respeito de pessoas que recebem golpes na cabeça e desmaiam, mas não se encontram nos jornais e livros referências a coágulos no cérebro. A verdade é que é extremamente perigoso golpear um homem na cabeça. Embora quem estava à minha frente não fosse mais Nick Grivett, ainda era muito parecido com ele e eu não podia esmagar-lhe o crânio. Grivett desmoronou quando o acertei e ficou imóvel. Com o polegar e o indicador, peguei uma dobra de pele em sua nuca e torci com força. Ele soltou um grito. Golpeei outra vez com a arma, cuidadosamente, mas aplicando um pouco mais de força. Grivett ficou novamente imóvel e torci-lhe a pele com mais força do que antes, observando-lhe o rosto, atento a qualquer reação de dor. Mas, desta vez, ele não se mexeu.

       Saímos da garagem em meu carro, de marcha à ré. Depois, voltei para fechar as portas. Alcançamos a rua e viramos na direção norte, a fim de tomar a Avenida East Blithedale, a caminho da casa de L. Bernard Budlong, o homem que poderia ter a resposta que não conhecíamos. O tempo se estava esgotando rapidamente, trabalhando contra nós. E eu sabia disso. A qualquer momento, um carro da polícia ou qualquer outro poderia subitamente nos forçar a encostar no meio-fio. O revólver de Nick Grivett estava no assento ao meu lado, de prontidão. Eu queria fugir, queria esconder-me. A última coisa que me interessava era sentar-me na casa de algum professor e ficar conversando. Mas não havia outro jeito. E eu não sabia o quê mais poderíamos fazer. Achava-me, porém terrivelmente consciente da Mercedes vermelha em que estávamos. Aquele era o carro de Doe Bennell, como todos na cidade perfeitamente sabiam. Perguntei-me se telefones não estavam sendo usados naquele momento nas casas por que passávamos, as informações sobre nosso paradeiro se espalhando pela cidade.

      

       Uma parte considerável do Condado de Marin, na Califórnia, é montanhosa. Mill Valley fica entre colinas e as ruas são sinuosas ou subindo e descendo. Eu conhecia tudo, cada palmo de cada rua e colina. Segui para uma pequena rua que não tinha saída, talvez a uns três quarteirões do endereço de Budlong. A rua terminava numa encosta íngreme demais para se construir e dominada pelo mato, com vários eucaliptos. Deixei o carro atrás de algumas árvores, mais ou menos escondido. De apenas duas casas se podia ver o carro e era sempre possível que ninguém nelas nos tivesse avistado. Saltamos. Deixei a chave na ignição e o motor ligado. Não iríamos mais usar o carro e quem quer que o encontrasse com o motor ligado poderia perder tempo a esperar na esperança de que fôssemos voltar. Não havia qualquer possibilidade de levar o revólver de Nick sem que o percebessem. Depois de um momento de hesitação, acabei jogando-o no meio do mato.

       Subimos o resto do morro, por uma trilha que eu percorrera muitas vezes quando era menino, atrás de caça miúda, armado com um rifle 22. Ninguém nos poderia ver na trilha, a não ser que estivesse a menos de cinco metros de distância. Eu sabia como seguir por aquela trilha e por outras, logo abaixo da crista daquela colina e da seguinte, até chegar ao quintal dos fundos da casa de Budlong.

       Não demorou muito para que pudéssemos avistar a casa, na base da colina em que estávamos. Encontrei um lugar, a uma dúzia de metros fora da trilha, de onde podíamos divisar claramente através das árvores e das moitas, a casa e o quintal nos fundos. Era uma construção de dois andares, pardacenta, um lado de madeira, com um quintal nos fundos de tamanho considerável fechado atrás e num dos lados por uma cerca alta de videira, com arbustos do outro lado. A vida ao ar livre é algo muito importante na Califórnia. Qualquer pessoa que dispõe de espaço suficiente em sua propriedade, trata de resguardar sua intimidade, deixando-a ao abrigo de olhares curiosos. Naquele momento, senti-me profundamente grato por tal disposição. Nada se mexia, não havia ninguém à vista, na casa e no quintal lá embaixo. Assim, tratamos de descer, cautelosamente. Abri o portão na cerca dos fundos, atravessei o quintal, e contornei a casa. Tinha certeza absoluta de que ninguém me vira.

       A casa possuía uma entrada lateral. Bati e ficamos esperando. Ocorreu-me então, pela primeira vez, que Budlong poderia perfeitamente não estar em casa, era mais provável que não estivesse. Mas ele estava. Oito ou dez segundos depois que bati, um homem apareceu na porta, olhou-nos através do vidro, depois abriu-a. Calculei que deveria beirar os 40 anos. Fitou-nos com uma expressão inquisitiva, sem entender por que havíamos usado a porta lateral, pelo que pude imaginar.

       — Creio que nos enganamos — comentei, com uma risada polida. — Acho que usamos a porta errada. Ê o Professor Budlong?

       — O próprio — respondeu ele, sorrindo jovialmente. Usava óculos de aros de aço, os cabelos eram castanhos e ligeiramente ondulados, o rosto de aparência jovem, inteligente e interessado, como os professores freqüentemente parecem ter.

       — Sou Miles Bennell, médico, e...

       — Ah, um... — Ele meneou a cabeça, sempre sorrindo. — Já o vi pela cidade e...

       — Também já o conheço de vista. Sabia que era professor, mas ignorava seu nome. Essa é Becky Driscoll.

       — Como tem passado? — O professor puxou a porta e deu um passo para o lado, acrescentando: — Não querem entrar?

       Budlong levou-nos por um corredor até uma espécie de escritório. Tinha uma escrivaninha antiquada, de tampo corrediço, alguns livros numa prateleira, diplomas e fotografias em molduras nas paredes, um tapete no chão, um sofá velho num lado. Era uma sala pequena, com apenas uma janela, um tanto escura. Mas o abajur na escrivaninha estava aceso e a sala proporcionava uma sensação agradável e aconchegante. Imaginei que ele passava muito tempo ali, trabalhando. Becky e eu nos sentamos no sofá, Budlong ocupou a cadeira giratória atrás da escrivaninha, virando-se a fim de ficar de frente para nós. Sorriu novamente, um sorriso amistoso, quase infantil.

       — Em que posso ajudá-los?

       Expliquei o que queríamos saber. Por motivos muito complicados para relatar naquele momento, estávamos interessados em qualquer coisa que nos pudesse dizer a respeito de uma notícia de jornal em que fora citado. Não chegáramos a ler a notícia, mas apenas uma referência a respeito no Record.

       Budlong estava sorrindo quando acabei, sacudindo a cabeça com uma expressão de quem achava graça de si mesmo, tristemente.

       — Ah, essa notícia... Acho que as conseqüências nunca mais vão acabar. — Recostou-se, abaixando um pouco para repousar a cabeça no encosto da cadeira. — Mas a culpa foi mesmo minha. Portanto, não tenho do que me queixar. Quer saber o que dizia a notícia?

       — Exatamente. E tudo o mais que puder acrescentar.

       — A verdade é que a notícia dizia algumas coisas que não deveria. — Tornou a sorrir de si mesmo, deu de ombros e acrescentou em tom pesaroso: — Os repórteres de jornais são envolventes. Acho que tenho levado uma vida por demais apartada. Jamais tinha conhecido qualquer repórter. E quando ele me telefonou, um jovem chamado Beekey, muito inteligente, não imaginava o que poderia ser. Era de manhã e ele me perguntou se eu não era professor de Botânica e Biologia. Respondi que sim. Perguntou-me se eu não gostaria de acompanhá-lo de carro ao que ainda é chamado de Celeiro de Parnell, embora pouco reste da construção. Havia algo lá que eu deveria ver, disse-me o jovem repórter. E descreveu o que era com detalhes suficientes para despertar-me a curiosidade.

       O Professor Budlong levantou as mãos sobre o peito, as pontas dos dedos de ambas se encontrando. Ocorreu-me que os professores procuram inconscientemente se comportar da maneira como as pessoas pensam que os professores devem comportar-se. Perguntei-me se o mesmo não aconteceria com os médicos.

       — Assim, fui até lá de carro com o repórter. Numa pilha de lixo, perto do antigo celeiro, Parnell mostrou-me alguns invólucros imensos, parecendo vagens, aparentemente de origem vegetal. Beekey perguntou-me o que era, e eu disse a verdade, que não sabia. — Budlong fez uma pausa, sorrindo novamente. — O repórter franziu as sobrancelhas ao ouvir isso, como se estivesse surpreso. Como tenho meu orgulho profissional, senti-me impelido a dizer que nenhum botânico vivo poderia identificar absolutamente qualquer coisa que lhe fosse mostrada. “Botânico”, repetiu o jovem Beekey. “Isso por acaso significava que, em sua opinião, tratava-se de alguma espécie de vida vegetal?” Respondi que sim, que provavelmente aquelas coisas eram de fato vegetais. — O professor sacudiu a cabeça, com uma expressão de admiração. — Como esses repórteres são espertos! Conseguem levar a gente a fazer algum comentário, sem que tenhamos tempo de perceber o que está acontecendo. Aceitam um cigarro?

       Tirou um maço do bolsinho superior do casaco e ofereceu a Becky e a mim. Sacudimos a cabeça, recusando. Acendeu um cigarro para si e soprou a fumaça para o alto.

       — As coisas que ele me mostrou pareciam imensas vagens de semente, a mesma impressão que qualquer outra pessoa teria. O velho Parnell disse que tinham caído do céu, do que não duvidei. Afinal, de onde mais poderiam ter vindo? Parnell, no entanto, parecia espantado. As vagens não me pareceram absoluta mente extraordinárias, a não ser possivelmente pelo tamanho.Tudo o que eu podia dizer era que se tratava de alguma espécie de vagem de semente, embora tivesse de reconhecer que a substância por dentro não se parecia com o que normalmente imaginamos como sementes. Beekey tentou interessar-me no fato de que diversos objetos na pilha de lixo em que as vagens haviam caído pareciam idênticos. Ele atribuía isso às vagens. Havia, por exemplo, um cabo de machado quebrado, com outro exatamente igual ao lado. Mas, pessoalmente, não achei que isso fosse tão espantoso. Beekey tentou então outro caminho. Estava querendo uma boa notícia, uma notícia sensacional, se possível. E estava disposto a qualquer coisa para consegui-la.

       Budlong deu uma tragada no cigarro, sorrindo-nos.

       — Beekey indagou a seguir se aquelas coisas não poderiam ter vindo do “espaço exterior”, para usar as próprias palavras dele. Ora... — Budlong deu de ombros — ... eu apenas podia responder que sim, que poderiam ter vindo de lá. Simplesmente não sabia qual era a procedência daquelas coisas. E foi aí... — O professor fez outra pausa, empertigando-se na cadeira e inclinando-se para a frente, os antebraços apoiados nos cotovelos — ... que o jovem Beekey me acuou. A teoria, a noção, como.quer que prefiram chamar, de que alguma da nossa vida vegetal chegou a este planeta procedente do espaço é antiga como o tempo. E é uma teoria perfeitamente respeitável. Não tem nada de sensacional ou mesmo de espantoso. Lord Kelvin... certamente sabe quem é, Doutor... Lord Kelvin, um dos maiores cientistas dos tempos modernos, foi um dos muitos partidários dessa teoria ou possibilidade. Talvez absolutamente nenhuma vida tenha começado neste planeta, disse ele, mas tudo aqui chegou através das profundezas do espaço. Alguns esporos, ressaltou ele, possuem uma resistência enorme ao frio intenso. Podem ter sido impelidos para a órbita da Terra por uma pressão da luz. Qualquer estudioso do assunto está a par da teoria e há muitos argumentos tanto a favor como contra. Por isso, eu disse ao repórter que sim. Aqueles podiam ser esporos do “espaço exterior”. Por que não? Eu simplesmente não sabia. Pois isso pareceu ser uma novidade espantosa para o meu amigo repórter, que reuniu duas palavras minhas como se fossem uma única expressão. “Esporos do espaço”, disse ele, num tom obviamente satisfeito. E escreveu a expressão em seu bloco. Comecei a imaginar as manchetes que poderiam derivar disso. — Budlong voltou a recostar-se na cadeira. — Sei que deveria ter tido um pouco mais de bom senso, mas acontece que sou humano. Era divertido ser entrevistado. Em minha satisfação, ampliei a idéia, sem qualquer outro motivo senão o de proporcionar ao jovem Beekey o que ele parecia estar querendo. — Levantou subitamente a mão. — Não que eu não estivesse falando rigorosamente a verdade, deve compreender. É perfeitamente possível que “esporos espaciais”, se quer usar uma expressão tão dramática, caiam na superfície da Terra. Creio até que é bem provável que isso tenha de fato acontecido, embora pessoalmente eu duvide que toda a vida neste planeta se tenha originado dessa maneira. Os defensores da teoria, no entanto, ressaltam que nosso planeta foi outrora uma massa fervilhante de gás, inconcebivelmente quente. Quando finalmente esfriou, a um ponto em que a vida se tornou possível, de onde mais a vida poderia ter vindo, indagam eles, senão do espaço exterior? Seja como for, deixei-me levar pelo entusiasmo. — O professor de aparência infantil voltou a nos sorrir. — É uma característica da mente acadêmica ampliar uma teoria interminavelmente, muitas vezes a um ponto tedioso. E ali, na fazenda de Parnell, ofereci ao rapaz a história que ele queria. Isso mesmo, declarei, aqueles poderiam ser esporos espaciais, assim como também poderiam ser qualquer outra coisa. Na verdade, assegurei, tinha certeza de que aquelas vagens seriam identificadas, se alguém se empenhasse a fundo no trabalho, como algo possivelmente raro mas perfeitamente conhecido, originário daqui mesmo da Terra, da maneira mais comum que se poderia imaginar. Mas o dano já estava feito. O jovem Beekey preferiu publicar a primeira parte dos meus comentários, omitindo a segunda. Assim, duas ou três notícias um tanto sensacionalistas e eu diria mesmo que distorcidas apareceram no jornal local, citando meu nome. É claro que protestei, como não poderia deixar de fazer. E essa é toda a história, Dr. Bennell. É o que se poderia chamar de tempestade num copo d’água.

       Sorri, ajustando meu ânimo ao dele.

       — Falou em “pressão da luz”, Professor Budlong. Ou seja, essas vagens podem ter sido impelidas através do espaço pela pressão da luz. Isso me interessa.

       — Interessou também ao jovem Beekey — falou ele, sorrindo novamente. Contei-lhe parte da teoria, deveria ter falado o resto. Não há nada de misterioso nisso, Doutor. A luz é energia, como sabe. Qualquer objeto vagando no espaço, vagens de semente ou outra coisa, seria inegavelmente impelido pela força da luz. A luz possui uma força definida, mensurável. Possui até mesmo peso. A luz do sol incidindo sobre um acre de terra arável pesa várias toneladas, acredite ou não. E se as vagens de semente, por exemplo, flutuando no espaço exterior, ficassem no caminho da luz que ao final alcança a Terra... a luz de estrelas distantes ou de qualquer outra fonte... poderiam ser impelidas nessa direção, pelo fluxo de luz incidindo nelas constantemente.

       — Mas não seria um processo extremamente lento, Professor?

       Seria, sim — assentiu Budlong. — Infinitamente lento, tão lento que praticamente não se poderia medir. Mas o que é a lentidão infinita no tempo infinito? A partir do momento em que se aceita a possibilidade de os esporos estarem vagando no espaço, então é igualmente verdade que podem estar por lá há milhões de anos. Centenas de milhões de anos. Isso simplesmente não importa. Uma garrafa tampada e jogada no oceano pode circular o globo terrestre, se houver tempo suficiente. Imagine esse ponto minúsculo que é o nosso globo nas imensas distâncias do espaço. Continua a ser verdade que, se houver tempo suficiente, qualquer uma dessas distâncias pode ser percorrida. Assim, se esses ou quaisquer outros esporos vaguearam pelo espaço até alcançar a Terra, podem ter iniciado sua jornada muito antes de o nosso planeta sequer existir. — Inclinou-se para a frente, batendo de leve em meu joelho e sorrindo para Becky. — Mas não é um repórter de jornal, Dr. Bennell. As vagens de semente na fazenda do velho Parnell, se é que eram isso mesmo, provavelmente foram trazidas para cá pelo vento, de uma distância não muito grande. E certamente eram um espécime bastante conhecido e classificado, que simplesmente por acaso não conheço. E tenho certeza de que poderia ter evitado muitas brincadeiras dos meus colegas, se simplesmente tivesse dito isso ao jovem Beekey, ao invés de permitir-lhe que aproveitasse minhas teorias para escrever uma notícia sensacionalista, citando meu nome.

       Sorriu-nos novamente, um homem extremamente simpático. Fiquei pensando por um instante no que acabara de ouvir. Depois de algum tempo, Budlong indagou, gentilmente:

       — Por que está tão interessado nessa história, Dr. Bennell? Hesitei por um instante, imaginando quanto eu podia ou deveria contar-lhe. E depois disse:

       — Já ouviu falar alguma coisa, Professor Budlong, a respeito de... uma espécie de ilusão coletiva que vem ocorrendo ultimamente em Mill Valley?

       — Ouvi alguns comentários. — Olhou-me um tanto atônita e acenou com a cabeça para uma pilha de papéis sobre a mesa. – Venho-me concentrando nos dois últimos meses no que pressinto ou espero que seja um estudo técnico dos mais importantes, a ser publicado no inverno. Representará muito para mim, profissionalmente. E tenho estado mais ou menos fora de circulação, dedicando-me a esse trabalho. Mas um professor de Psicologia da escola falou-me algo a respeito de uma ilusão aparente, embora temporária, de mudança de personalidade que vários moradores locais tiveram. O senhor pensa que pode haver alguma relação entre isso e... — fez uma pausa, sorrindo, antes de acrescentar: - ... e os nossos “esporos espaciais”?

       Olhei para o relógio e me levantei. Dentro de pouco mais de três minutos, Jack Belicec deveria passar de carro por aquela rua. Tínhamos de estar à espera na sebe alta diante da casa, prontos para entrar no automóvel.

         — É possível — respondi ao Professor Budlong. — Diga-me uma coisa: esses esporos poderiam ser alguma espécie de estranho organismo extra-terreno com a capacidade de imitar ou na verdade duplicar um corpo humano? Ou seja, poderiam, para todos os propósitos práticos, transformarem-se numa espécie de ser humano, que não poderiam ser distinguidos dos autênticos? O homem de aparência juvenil e rosto simpático na escrivaninha à minha frente fitou-me com a maior curiosidade, estudando-me por um momento. Quando falou, depois de aparentemente analisar minha pergunta, o tom era cuidadosamente polido. Era como se estivesse tratando uma pergunta totalmente absurda com uma seriedade que não merecia, em nome das boas maneiras.

       — Receio que não, Dr. Bennell. — Sorriu novamente. — Não há muitas coisas que se possam assegurar com certeza absoluta, mas esta é uma delas. Nenhuma substância no universo pode reconstituir-se na estrutura espantosamente complexa de ossos e sangue. Nem reproduzir a organização celular infinitamente complexa que é o ser humano. Ou qualquer outro animal vivo, diga-se de passagem. É impossível, um absurdo total. O que quer que pense que possa ter observado, Doutor, está no caminho errado. Sei pessoalmente como é fácil, em determinadas ocasiões, deixarmo-nos arrebatar por teorias. Mas é um médico. E quando analisar melhor essa idéia, vai imediatamente chegar à conclusão de que estou certo.

       Eu sabia disso. Senti que meu rosto ficava vermelho. Na mais total confusão, incapaz de pensar direito, fiquei parado onde estava, sentindo que bancava um idiota ridículo. Logo eu, como médico, entre todas as pessoas, deveria ter tido um pouco mais de bom senso. Minha vontade era afundar-me no chão, desaparecer em pleno ar. Rapidamente, quase que de forma abrupta, agradeci a Budlong, apertando-lhe a mão. Tudo o que queria era escapar daquele homem inteligente, extremamente simpático, que se abstinha cuidadosamente de deixar transparecer no rosto o desprezo que deveria estar sentindo. Poucos momentos depois, ele nos acompanhava polidamente até a porta da frente. Ao descermos os degraus, na direção do portão de madeira na sebe alta que se erguia diante do gramado, senti-me grato ao ouvir a porta se fechar às nossas costas.

       Eu não estava pensando; mentalmente, ainda encontrava-me na sala lá dentro, sentindo-me como um menino que se desgraçou. Estendi a mão para o trinco do portão. E parei abruptamente. A poucas centenas de metros à nossa direita, podia ouvir um carro, aproximando-se velozmente, dobrando a esquina e entrando na rua, os pneus rangendo, como se nunca fosse parar. No instante seguinte, através da treliça do portão, avistei o carro de Jack Belicec ultrapassar rapidamente a casa. Jack estava debruçado sobre o volante, os olhos fixados diretamente à frente, com Theodora encolhida ao seu lado. Outros pneus rangeram ao fazerem a curva na esquina à direita, escondida da minha vista pela sebe alta. Uma fração de segundo depois soou um tiro, o estampido áspero e inconfundível de uma arma. Chegamos a ouvir o débil zumbido da bala passando pela rua à nossa frente. Um carro preto e branco, com uma estrela dourada, da polícia de Mill Valley, passou diante do portão. E rapidamente, num tempo que pareceu incrivelmente mínimo, o barulho dos motores foi diminuindo, até desaparecer por completo.

       Por trás de nós, a porta da casa se abriu. Tratei de puxar rapidamente o portão e, segurando o cotovelo de Becky, saí com ela, apressadamente mas sem correr, avançando pela calçada e percorrendo as fachadas de mais duas casas. Só depois é que entramos no caminho que levava a uma casa branca de dois andares, onde eu brincara quando menino. Passamos pelo lado da casa e atravessamos o quintal dos fundos. Por trás de nós, na rua que acabáramos de deixar, ouvi uma voz gritar, outra responder, uma porta bater. Um momento depois, estávamos subindo o morro por trás das casas. Entramos em outra trilha no meio do mato, cercada por arbustos altos, passando de vez em quando por eucaliptos e carvalhos.

       Tivera tempo suficiente para pensar. Sabia agora o que havia acontecido. Estava impressionado com a coragem e lucidez que Jack Belicec demonstrara. Não havia como determinar há quanto tempo ele vinha sendo perseguido, mas não teria sido por um período muito longo. Mas eu sabia que Jack deveria ter guiado pelas ruas de Mill Valley com um carro da polícia em seu encalço, os ocupantes atirando, sempre atento ao relógio. Deliberadamente, Jack teria ignorado diversas chances de escapar, de sair da cidade e retornar à segurança além, para levar os perseguidores àquela rua, em que sabia que eu estava esperando. Aguardara até o preciso momento para o nosso encontro, a fim de que eu pudesse saber que estava sendo perseguido. Era a única maneira pela qual nos poderia avisar. E por mais incrível que pudesse parecer, Jack agira daquela maneira num momento em que o horror e o pânico estariam fazendo tudo para dominar-lhe a mente. E tudo o que eu podia fazer por ele agora era rezar para que conseguisse escapar, junto com a esposa, o que tinha quase certeza de que não aconteceria. As estradas em péssimas condições, quase intransponíveis, estariam agora bloqueadas, com outros carros da polícia à espera deles. Então, pude perceber que cometêramos um terrível erro ao voltarmos para Mill Valley e como nos achávamos impotentes diante do que estava dominando a cidade. Perguntei-me quanto tempo ainda demoraria para sermos apanhados. Talvez fosse no próximo passo, na curva seguinte da trilha. E o que aconteceria então?

       O medo, que a princípio é estimulante, com a adrenalina sendo bombeada para a corrente sangüínea, torna-se ao final extenuante. Becky estava agarrada ao meu braço, sem perceber o quanto do seu peso me fazia amparar. O rosto dela mostrava-se extremamente pálido, os olhos meio fechados, os lábios entreabertos. Ela respirava ofegantemente pela boca. Não podíamos continuar a vaguear e subir por aqueles morros por muito mais tempo. Percebi que os movimentos de minhas pernas já não eram mais automáticos; os músculos só estavam reagindo agora através de um esforço consciente de vontade. Tínhamos de encontrar refúgio em algum lugar, só que não havia nenhum... absolutamente nenhuma casa em que nos atrevêssemos a aparecer, nenhuma pessoa, nem mesmo um amigo da vida inteira, a quem pudéssemos correr o risco de pedir ajuda.

 

       A rua principal de Mill Valley serpenteia pela base de uma cordilheira em miniatura, assim como muitas outras ruas da cidade. Dali a pouco, estávamos descendo por um morro, seguindo por uma trilha que terminava numa viela nos fundos de um quarteirão de prédios comerciais, inclusive o edifício em que ficava meu consultório.

       Era a melhor coisa que eu podia pensar. Todos os outros lugares que me ocorreram eram perigosos, mais do que o consultório. Porém, eu estava também com medo de não ir para lugar nenhum. Achava que, curiosamente, era perfeitamente possível que estivéssemos seguros no consultório, pelo menos por algum tempo. Porque era um lugar que ninguém pensaria que pudéssemos ir, até que o tempo passasse e não nos encontrassem em nenhum outro lugar. E naquele momento o que mais precisávamos era de um lugar para descansar, pelo menos durante uma hora. Pensei que poderíamos até dormir um pouco, enquanto descia o morro com Becky, embora achasse que não conseguiríamos. Mas eu tinha benzedrina no consultório e algumas outras drogas estimulantes, que, depois de uma hora de descanso para pensar em algum plano qualquer, nos poderiam proporcionar as forças necessárias para executá-lo.

       Lá embaixo, por cima dos telhados dos prédios, eu já agora divisava a rua comercial que conhecia por tanto tempo quanto me podia recordar. Lá estava o Sequoia, onde eu assistira a tantos filmes nas tardes de sábado, quando era garoto. Lá se achava a Bennet’s Variety Store, onde eu comprava balas para chupar durante o filme e onde trabalhara numas férias de verão da escola secundária. Lá se encontrava o apartamento de três cômodos, por cima de uma loja, onde eu estivera meia dúzia de vezes, durante o verão, no primeiro ano do curso preparatório, visitando uma jovem que ali morava sozinha.

       Chegamos à viela e não havia ninguém por lá, à exceção de um cachorro, farejando uma caixa de papelão cheia de lixo. Atravessamos a viela e entramos no prédio de escritórios de dois andares pela porta com uma folha de aço que estava aberta e dava para a escada dos fundos, de concreto, pintada de branco.

       Eu estava disposto a enfrentar e levar conosco qualquer pessoa, homem ou mulher, que encontrasse na escada. Mas não vimos ninguém. No segundo andar, encostei o ouvido na porta contra incêndio de metal e fiquei escutando. Não ouvi qualquer barulho. Abri a porta cuidadosamente. Atravessamos o corredor silenciosamente até a porta de vidro fosco em que estava escrito meu nome. Já me encontrava com a chave na mão, em posição. Um instante depois entrávamos no consultório, e a porta se fechava atrás de nós.

       A sala de espera e o meu consultório já se achavam cobertos de poeira, o que pude constatar ao revistar o lugar. Havia uma fina camada de poeira sobre todas as superfícies de madeira e de vidro. Sabia que minha enfermeira não aparecia desde a última vez em que eu ali estivera. Agora, o consultório tinha o cheiro de um lugar há muito tempo fechado, sem uso, estava bastante escuro, com todas as persianas fechadas. Era um lugar quieto e morto, não mais amistoso, como se eu tivesse passado muito tempo longe e na verdade não mais me pertencesse. Parecia inalterado e não me dei ao trabalho de verificar se alguém mais estivera ali, revistando-o apenas por algum motivo que não sabia definir. Naquele momento, simplesmente não me importava com a possibilidade de alguém ter entrado ali e mexido em qualquer coisa.

       Há um sofá comprido e largo na sala de espera. Deitei Becky nele, sem sapatos. Peguei dois lençóis e o travesseiro da mesa de exames, ajeitando-a da melhor forma possível. Ficou-me observando, sem dizer nada. Quando nossos olhos se encontraram, Becky sorriu-me debilmente, em agradecimento. Agachando-me ao lado dela, peguei-lhe o rosto entre as mãos e beijei-a, um gesto de conforto, como beijar uma criança, sem qualquer pensamento de sexo. Becky estava exausta, ao final de sua capacidade de resistência. Passei a mão lentamente pela testa dela, afagando-a.

       — Durma um pouco, Becky. Trate de descansar. — Sorri e pisquei para ela, esperando parecer calmo e confiante, como se soubesse o que estava fazendo e o que iria acontecer.

       Também sem sapatos, a fim de que alguma pessoa que passasse pelo corredor não me pudesse ouvir, desamarrei a almofada de couro da mesa de exame e levei-a para a sala de espera, ajeitando-a no chão, junto às janelas que davam para a Rua Throckmorton. Depois, desabotoei o casaco, afrouxei a gravata e me sentei. De costas contra a parede do lado, puxei lentamente uma palheta da persiana, para dar uma espiada na rua. Sentia-me melhor agora. Encerrado naquelas salas escuras e silenciosas, achava-me impotente. Mas agora, olhando para a rua lá embaixo, observando a atividade, eu me sentia mais no controle da situação.

       A cena que vi através da pequena abertura era à primeira vista perfeitamente comum. Passe pela rua principal de qualquer uma entre 100.000 pequenas cidades americanas e poderá ver exatamente a mesma coisa. Havia carros estacionados na rua asfaltada, calçadas e parquímetros, as vagas delimitadas por linhas brancas pintadas no chão, pessoas entrando e saindo da Redhill Liquors, a drugstore, da loja de ferragens e de uma dúzia de outras. Havia um pequeno nevoeiro, uma neblina tênue vinda da baía. A Throckmorton se alarga na esquina, um pouco além de minhas janelas, onde se encontra com uma rua transversal. A área alargada é quase que inteiramente cercada em três lados por lojas, a coisa mais próxima de uma praça municipal de que dispomos. De vez em quando, armam ali um coreto, para bailes públicos ou carnaval.

       Continuei observando, mudando de posição volta e meia, às vezes deitando de lado, apoiado num cotovelo, os olhos sempre um pouco acima do peitoril da janela. Em determinado momento, deitei-me de costas, olhando para o teto. Há muito que aprendi que pensar é basicamente um processo inconsciente. Ou seja, em geral é melhor não forçar, particularmente quando o problema se mostra vago em nossa mente e não se sabe direito qual o tipo de resposta que se procura. Por isso relaxei, cansado mas não sonolento, observando a rua, esperando que algo acontecesse dentro de minha mente.

       Há uma certa fascinação na monotonia em movimento, como o bruxulear do fogo, uma sucessão interminável de ondas deslizando lentamente pela praia, o movimento invariável de alguma máquina. Contemplando a rua lá embaixo, minuto após minuto, observando os padrões mudando constantemente, quase se repetindo, mas jamais chegando a fazê-lo inteiramente, fui-me sentindo cada vez mais fascinado. Eram mulheres entrando no supermercado e depois saindo, os braços portando sacolas de papel pardo, as mãos segurando bolsas, crianças ou ambas as coisas; carros saindo das vagas, outros entrando; um velho avançando pela calçada com dificuldade; três garotos pulando pela rua.

       Tudo parecia absolutamente normal. Lá estavam os cartazes de papel, vermelhos e brancos, nas vitrines do supermercado, anunciando ofertas especiais de bifes já prontos, bananas e sabão em pó. A loja de ferragens tinha uma vitrine inteira ocupada por utensílios de cozinha: panelas, frigideiras, aparelhos elétricos. Em outra vitrine, havia ferramentas elétricas. As vitrines da loja de variedades exibiam modelos de aviões e bonecos de papelão. Quase que dava para sentir seu cheiro típico. Estendendo-se através da rua, perto do cinema Sequoia, achava-se pendurada uma faixa um tanto desbotada, vermelha, com letras brancas, anunciando o Jubileu da Barganha de Mill Valley, uma liquidação anual promovida pelo comércio da cidade. Parecia que, naquele ano, não se haviam dado ao trabalho de providenciar uma faixa nova.

       Quase que diretamente à minha frente, no outro lado da rua, um pouco à direita, vi o ônibus de Marin City parar no ponto. Apenas três pessoas desembarcaram: um homem e uma mulher juntos e outro homem segurando um embrulho de papel pardo pelo barbante. Não havia ninguém esperando para embarcar no ônibus. Depois de um minuto ou pouco mais de espera, o motorista partiu, avançando pela Avenida Miller, a caminho da rodovia distante. Por algum motivo, ocorreu-me que nenhum outro ônibus entraria nem deixaria a cidade nos próximos 51 minutos. Eu sabia disso, porque conhecia o horário dos ônibus. E, de repente, as coisas começaram a mudar na rua lá embaixo.

       Não é fácil descrever exatamente como mudaram. O nevoeiro mostrava-se mais forte agora, alcançando o alto dos telhados, denso e cinzento. Mas isso era normal. Não era bem isso o que estava mudando. Havia mais pessoas na rua, porém... Era justamente essa a mudança. As pessoas não se comportavam como a multidão habitual das tardes de sábado, fazendo compras. Algumas ainda entravam e saíam das lojas, mas não poucas achavam-se simplesmente sentadas em seus carros. Algumas estavam com a porta aberta, os pés para fora, conversando com as pessoas nos carros ao lado. Outras liam o jornal ou sintonizavam o rádio do carro, apenas procurando passar o tempo. Reconheci muitas delas, como Len Pearlman, o optometrista, Jim Clark e a esposa, Shirley, junto couros filhos, e vários outros.

       Naquele momento, porém, a Throckmorton, em Mill Valley, Califórnia, ainda podia parecer uma rua comercial comum, embora um tanto gasta, numa tarde de sábado comum. Era isso o que teria pensado um estranho que passasse de carro pela cidade. Mas contemplando a Throckmorton agora, eu sabia ou pelo menos sentia que havia algo diferente no ar. Havia um clima de expectativa, como se algo estivesse prestes a acontecer, todos aguardando tranqüilamente alguma coisa. Era... tentei traduzir a impressão em palavras, sentado na sala de espera do meu consultório, observando a cena através de uma fresta na janela... como pessoas lentamente se reunindo para assistir a um desfile. Mas também não era exatamente isso. Possivelmente era mais parecido com um grupo de soldados se concentrando indolente-mente para alguma espécie de formação de rotina, muitos conversando, sorrindo ou rindo com os companheiros, alguns lendo distraidamente, outros simplesmente sentados ou de pé, sozinhos, esperando. Creio que o clima que havia na rua lá embaixo era simplesmente... de expectativa, sem que houvesse nisso qualquer excitamento especial.

       E depois Bill Bittner, um construtor local, homem corpulento, de meia-idade, na casa dos 50 anos, veio avançando pela calçada, olhando para as vitrines das lojas. Distraidamente, tirou do bolso uma espécie de medalhão, de metal ou plástico, com alguma coisa impressa. Pregou-o na lapela do casaco e pude ver que era do tamanho de um dólar de prata. Reconheci também o desenho e compreendi o que estava escrito. Dizia Jubileu da Barganha de Mill Valley. Os comerciantes locais usavam aquele medalhão todos os anos, distribuindo-os também entre os fregueses que estavam dispostos a exibi-los. Só que todos os medalhões que eu sempre vira antes eram vermelhos com letras brancas. O que Bill Bittner usava tinha as letras amarelas sobre um fundo azul-marinho.

       E agora, aqui e ali, por toda a extensão da rua, até onde eu podia ver, outras pessoas começaram a tirar dos bolsos aqueles medalhões azuis e amarelos, pregando-os no peito. Nem todos o fizeram imediatamente. A maioria continuou simplesmente a andar, a conversar, sentada em seus carros ou fazendo qualquer outra coisa. Durante meio minuto, tudo o que um estranho que estivesse passando pela rua teria visto seria duas ou três pessoas pregando aqueles medalhões no peito. Contudo, após cinco ou seis minutos, no máximo, quase to4as as pessoas estavam exibindo um medalhão azul e amarelo, inclusive Jansek, o guarda encarregado de tomar conta dos parquímetros. Alguns retiraram antes o medalhão idêntico que usavam até aquele momento, só que de cor diferente, vermelho e branco.

       Levei também um minuto ou pouco mais para perceber outra mudança: estava ocorrendo um movimento gradativo das pessoas na Throckmorton, todas convergindo dos dois lados da rua para o trecho alargado, uma quase praça, logo depois da minha janela. Transeuntes seguiam para lá distraidamente, sempre olhando para as vitrines, aproximando-se lentamente. Aqui e ali, pessoas saíam de seus carros, batiam as portas, depois se espreguiçavam ou olhavam ao redor, algumas contemplando uma vitrine, antes de se encaminharem lentamente para o nosso arremedo de praça.

       Mesmo agora, no entanto, um estranho na Throckmorton provavelmente não teria reparado em nada de anormal. Aparentemente, Mill Valley estava realizando sua liquidação anual e a maioria dos habitantes usava o medalhão do Jubileu da Barganha. Naquele momento, muitos comerciantes da Throckmorton estavam agrupados em um único quarteirão. E, no entanto, em tudo e por tudo, não havia realmente nada de estranho ou deslocado para se perceber.

       Becky estava agora ajoelhada ao meu lado. Sorri e me levantei, para ajeitar a almofada de couro no chão, a fim de que os dois nos pudéssemos sentar. Depois, passei o braço pelos ombros dela. Becky aconchegou-se ao meu corpo, o rosto encostado ao meu. Ficamos ambos observando a cena lá embaixo.

       Um vendedor saiu da loja de variedades e foi até seu carro, que tinha pintado na porta o nome de sua firma. Abrindo-a, começou a procurar por alguma coisa, aparentemente no chão do carro. Jansek, o guarda, dando uma olhada no relógio, encaminhou-se para lá. Parou na calçada, próximo à frente do carro. O vendedor empertigou-se, bateu a porta do carro, com um punhado de folhetos na mão, virando-se na direção da loja de onde acabara de sair. Jansek disse-lhe alguma coisa e o vendedor parou. Os dois ficaram conversando. Percebi, ao observá-los, com o vendedor de frente para o lugar em que estávamos, que ele era uma das poucas pessoas na rua, se é que havia outras, que não usavam o medalhão azul e amarelo do Jubileu. O homem estava agora de rosto franzido, parecendo aturdido. Jansek sacudiu a cabeça lenta mas firmemente, ao que o vendedor dizia. Depois, o vendedor deu de ombros, irritado, contornando o carro para a porta do motorista, enquanto tirava as chaves do bolso. Jansek abriu a outra porta e se sentou no banco da frente. O carro saiu da vaga em marcha à ré, recuando uma dúzia de metros, depois virou lentamente para a esquerda, entrando numa rua transversal. Eu sabia que eles estavam seguindo para a delegacia. Mas, não podia imaginar por que Jansek prendera o vendedor.

       Um seda Volvo azul, o único carro a se movimentar agora, pela rua, avançou lentamente, em marcha lenta, procurando uma vaga para estacionar. O motorista avistou uma nesse momento e começou a manobrar para ocupá-la. O carro tinha placa do Oregon. O apito de um guarda soou nesse instante. Beauchamp, o sargento de polícia local, estava correndo pela calçada, a barriga sacudindo, e acenando com a mão para o carro e meneando vigorosamente a cabeça a dizer não. O automóvel do Oregon parou onde estava. O motorista ficou sentado, esperando que Beauchamp se aproximasse, a mulher ao seu lado inclinando-se para a frente a fim de espiar através do pára-brisa. Beauchamp parou junto à janela do motorista. Falaram por algum tempo, e depois o policial abriu a porta traseira e entrou no carro, que arrancou e virou à esquerda, entrando na rua transversal a caminho da delegacia, desaparecendo um instante depois.

       Havia mais três guardas à vista, nos quase dois quarteirões que eu podia divisar: o velho Hayes e dois outros homens mais jovens, que eu não conhecia. Hayes estava de uniforme, mas os dois homens mais jovens usavam apenas os quepes do uniforme, com blusões de couro e calças escuras, indefinidas. Pareciam guardas especiais, contratados exclusivamente para uma ocasião especial. Alice, a garçonete do Dave’s, saiu para a calçada e ficou parada diante da porta, o medalhão azul e amarelo do Jubileu pregado no uniforme branco. Um dos guardas mais jovens olhou para ela imediatamente. Alice fitou-o e acenou com a cabeça uma vez, depois virou-se e voltou para o interior do restaurante. O guarda aproximou-se rapidamente e também entrou no restaurante.

       Tornou a sair talvez meio minuto depois, acompanhado por três pessoas, um homem, uma mulher e uma menina de nove anos, obviamente uma família. Por um momento, o grupo ficou parado na calçada, o homem falando, visivelmente protestando contra alguma coisa, o jovem guarda respondendo polida e pacientemente. Em seguida, o grupo se afastou, na direção da rua transversal em que ficava a delegacia. Fiquei observando até que viraram a esquina e desapareceram. Nenhuma das pessoas da família estava usando o medalhão do Jubileu, ao contrário do jovem guarda.

       Um outro homem, motorista de um caminhão de entrega, recebeu o mesmo tratamento. E assim que ele e o guarda que o acompanhava desapareceram, não pude ver mais nenhuma pessoa que não estivesse usando o medalhão amarelo e azul do Jubileu.

       E agora a rua estava quieta, quase que completamente silenciosa. Nenhum carro se movia, nenhuma pessoa andava. Não havia mais ninguém lendo jornal ou sentado em seu carro. Todos achavam-se parados nas calçadas, de frente para a rua, à exceção do velho Hayes, o guarda, que se encontrava de pé, sozinho, no meio da rua. Na frente de cada loja ou qualquer outro estabelecimento podia-se ver o proprietário, seus empregados e os fregueses que se achavam um momento antes lá dentro. O velho Hayes, no meio da rua, foi virando lentamente a cabeça, olhando para cada um dos proprietários de lojas. E cada proprietário sacudiu a cabeça, informando que não. Os dois outros guardas se aproximaram de Hayes e lhe comunicaram alguma coisa. O velho escutou em silêncio e assentiu. Terminada a verificação, Hayes e os dois outros guardas encaminharam-se para a calçada e se viraram de frente para a rua. Ficaram parados, esperando, como o resto da multidão.

       Em dois lugares, olhando por cima dos telhados, eu podia divisar outras ruas, até quase um quilômetro de distância. Não havia nenhum carro ou qualquer outra coisa se movendo em nenhuma delas. Numa rua distante, avistei uma barricada impedindo a passagem. Eram os cavaletes de madeira, pintados de cinza, do departamento municipal de obras. Subitamente compreendi, tive certeza, de que por toda a cidade as outras ruas de acesso se encontravam bloqueadas também, com grupos de homens de macacão ostensivamente fazendo reparos. E compreendi também que, naquele momento, ninguém podia entrar em Mill Valley por qualquer caminho nem se deslocar por suas ruas na direção do centro comercial. E sabia também que o punhado de estranhos que por acaso se encontrava na cidade fora devidamente arrebanhado e estava sendo detido na delegacia de polícia. O pretexto para isso não tinha a menor importância. Mill Valley achava-se agora isolada do resto do mundo e não havia ninguém à vista no centro da cidade que não fosse um residente.

       Por três ou quatro minutos, a multidão ficou parada nas calçadas, a rua vazia. Parecia que todos assistiam a um desfile invisível. Era uma cena terrivelmente estranha, como eu nunca vira antes. Todos estavam praticamente imóveis e silenciosos. Até mesmo as crianças achavam-se quietas. Aqui e ali, uns poucos homens fumavam, mas a maior parte da multidão estava simplesmente parada, sem fazer nada. Alguns homens tinham os braços cruzados sobre o peito, tranqüilos, relaxados, à vontade. De vez em quando, algumas pessoas deslocavam o peso do corpo de um pé para outro. As crianças ficavam segurando os casacos dos pais, estranhamente quietas.

       Ouvi o motor de um carro. Um momento depois, avistei-o virando a esquina e entrando na Throckmorton, perto do Sequoia. Era uma pickup Chevrolet verde, bastante surrada. Por trás, vinham quatro outros veículos, três deles imensos caminhões agrícolas GM. O último era outra pickup. Todos seguiram até a pequena praça pública e encostaram junto ao meio-fio, um atrás do outro. Traziam uma carga qualquer, coberta por lonas. Os motoristas, puxando o freio de mão, trataram de saltar, um a um, começando a desprender as lonas. A cena parecia agora a de um mercado ao ar livre, os produtos acabando de chegar dos campos. Os motoristas vestiam macacões. Eu conhecia quatro dos cinco. Eram todos das pequenas fazendas que ainda restavam a oeste da cidade: Joe Grimaldi, Joe Pixley, Art Gessner, Bert Parnell e um quinto que eu não conhecia.

       Dois homens de terno saíram para a rua, perto da fila de caminhões. Um deles era Wally Eberhard, um corretor de imóveis local. Não me lembrava do nome do outro, mas sabia que era mecânico na garagem da Buick. Wally tinha algumas folhas de papel na mão. Eram folhas pequenas, que pareciam ter saído de um caderninho de notas. Os dois homens ficaram parados por um momento, olhando para os papéis. Wally os folheava. Depois, o mecânico levantou a cabeça, respirou fundo e, em voz alta, quase gritando, de tal forma que pudemos ouvi-lo nitidamente através da janela, disse:

       — Sausalito! Os que têm parentes em Sausalito façam o favor de se adiantar!

       Sausalito é uma pequena cidade do Condado de Marin, a primeira que se encontra depois de se atravessar a baía. Duas pessoas, um homem e uma mulher, separados, deixaram o meio-fio e avançaram pela rua, encaminhando-se para Wally. Várias outras estavam abrindo caminho entre a multidão nas calçadas, passando em seguida para a rua e seguindo na direção dos caminhões.

       Joe Pixley já tinha a esta altura desamarrado a lona de sua pickup. Caminhou até a traseira, pegou a ponta da lona e levantou-a, pondo-se depois a enrolá-la, deixando a carga à mostra. Há muito que eu já adivinhara o que havia naqueles veículos. Não tive sequer um princípio de surpresa, quando a lona foi removida. Nas laterais de metal do corpo da pickup havia pranchas de madeira, aumentando a altura e evitando o contato da lona com a carga, empilhada até a altura da cabine. A carga era constituída pelas imensas vagens que eu agora já tinha visto tantas vezes antes.

       — Muito bem! — gritou o mecânico. — Sausalito! Somente Sausalito, por favor!

       Ele encaminhou cinco ou seis pessoas que estavam paradas na rua para a pickup de Joe Pixley. Subindo no estribo, Joe foi pegando as vagens de sua carga, uma a uma, entregando-as aos braços à espera das pessoas agrupadas na rua. Cada homem e mulher pegou apenas uma única vagem, carregando-a cuidadosamente nos braços estendidos. Um homem levou duas. Ao lado delas, Wally Eberhard fazia uma anotação no papel que tinha nas mãos, aparentemente uma lista, à medida que cada vagem era entregue. Depois, ele falou alguma coisa para o mecânico, que se virou e novamente gritou:

       — Marin City, por favor! Todos os que têm parentes ou conhecidos em Marin City façam o favor de se adiantar!

       Marin City é a cidade seguinte do Condado de Marin, a poucos quilômetros de Sausalito. Sete pessoas se adiantaram, cinco delas pretas. É que Marin City possui um grande contingente de população negra. Abriram caminho através da multidão e saíram para a rua. Foram até a pickup e Joe entregou uma vagem a cada uma. Uma das pessoas, Grace Birk, uma preta de meia-idade, que trabalhava no banco, pegou três vagens. Um homem desceu da calçada para ajudá-la a carregar as vagens sem as esmagar. Lembrei-me de que Grace Birk tinha uma irmã e um cunhado que viviam em Marin City. Eu não sabia dizer se havia ou não um terceiro membro da família.

       As malas dos carros estacionados na rua estavam sendo agora abertas. As vagens imensas quase não cabiam direito nas malas de alguns dos modelos mais novos. Outras vagens foram cuidadosamente enfiadas pelas portas abertas de carros e ajeitadas com extremo cuidado nos bancos traseiros. Nesses casos, cada homem ou mulher, ajoelhado no banco da frente, colocava sobre a vagem um lençol ou algum outro pano claro, escondendo-a.

       Tiburon foi chamada a seguir. Oito pessoas se adiantaram para pegar suas vagens. Depois, a pickup de Joe Pixley ficou inteiramente vazia. Ele se sentou no estribo e acendeu um cigarro, pondo-se a esperar. Os outros veículos já se achavam descobertos, com os motoristas em posição, prontos para descarregá-los. O mecânico da garagem da Buick, metido num impecável terno cinza, gritou:

       — Belvedere!

       Duas pessoas saíram para a rua. Depois, vieram em seguida Corte Madera, Strawberry, Belveron Gardens e San Rafael. Exatamente 14 pessoas foram buscar vagens para San Rafael, que era a maior cidade do condado. Não demorou muito, talvez 15 minutos, no máximo, para que todos os veículos estivessem descarregados, exceto o de Joe Grimaldi, que ainda tinha duas vagens.

       Em menos de um minuto, Wally e o mecânico voltaram a se misturar com a multidão, o primeiro metendo os papéis no bolso interno do paletó. A própria multidão estava agora em movimento, começando a se dispersar. Os motoristas dos cinco caminhões voltaram a sentar-se ao volante, ligaram os motores e partiram, desaparecendo pouco depois pela Throckmorton. Ao longo dos quase dois quarteirões que podíamos ver, os carros com as imensas vagens nas malas ou escondidas nos bancos traseiros deixavam as vagas e se afastavam. Por um breve momento, a multidão, caminhando pelas calçadas, atravessando a rua, crianças correndo de um lado para outro, era mais numerosa do que o habitual, como a saída súbita dos espectadores ao final de uma sessão de cinema. Mas a multidão foi rapidamente diminuindo e pouco depois avistei mulheres empurrando carrinhos de compras dentro do supermercado, pessoas sentadas ao balcão do Dave’s Lunch, outras entrando e saindo de várias lojas. Os carros estavam novamente se deslocando lentamente pela rua. A cena voltara a ser normal, uma rua central de cidade pequena mais ou menos típica, talvez mais desmantelada do que o normal, porém não o suficiente para despertar a curiosidade de um estranho de passagem. Não havia mais qualquer pessoa na rua usando o medalhão amarelo e azul, embora uma ou duas exibissem o medalhão vermelho e branco que os comerciantes da cidade costumavam distribuir.

       Talvez cinco minutos depois, avistei o vendedor que Jansek prendera guiando pela Throckmorton, sozinho em seu carro. Pouco depois, o carro com a placa do Oregon também passou pela rua.

       Com meu braço ainda passado pelos ombros dela, olhei para Becky. Fitou-me aturdida, por um momento, depois contraiu os lábios e deu de ombros. Sorri em resposta. Não havia mais nada para fazer ou dizer, e eu não sentia qualquer emoção em particular. Não havia qualquer emoção nova, e eu não sentia mais fortemente qualquer das emoções antigas. Simplesmente alcançáramos o limite além do qual nada mais havia para dizer ou sentir.

       Mas achava-me finalmente consciente, agora sabia com certeza, que toda a cidade de Mill Valley fora tomada, que não havia uma única pessoa, além de nós e possivelmente dos Belicecs, que não tivesse sido duplicada, pelo menos aparentemente. Os homens, mulheres e crianças na rua e lojas lá embaixo eram agora outra coisa qualquer para mim, até o último deles. Eram todos nossos inimigos, inclusive os que possuíam olhos, rostos, gestos e jeito de velhos amigos. Não havia ninguém que nos pudesse ajudar em Mill Valley, só poderíamos contar um com o outro. E, agora, as comunidades ao redor da nossa cidade também estavam sendo invadidas.

      

       Muitas vezes comentamos:

       — Não fiquei surpreso. Ou então:

       — Eu sabia que ia acontecer.

       Com isso, estamos querendo dizer que no momento da ocorrência de um evento, embora anteriormente não lhe tivéssemos dedicado qualquer pensamento consciente, experimentamos uma sensação de inevitabilidade, como se soubéssemos há muito tempo que justamente aquilo iria acontecer. Nos minutos em que ficamos sentados ali, junto à janela, tudo o que eu podia pensar para fazermos era esperar até o anoitecer e depois tentar sair da cidade através das trilhas nos morros. Era inteiramente inútil tentar escapar à luz do dia, com todas as pessoas na cidade atentas à nossa presença, contra nós. Foi o que expliquei a Becky, em termos tão esperançosos quanto podia, procurando dar a impressão de que acreditava plenamente que poderíamos conseguir escapar. E houve momentos em que me senti realmente esperançoso.

       E, no entanto, quando ouvi o ligeiro rangido de uma chave sendo inserida na fechadura da porta da sala de espera, experimentei a sensação que tentei descrever. Não fiquei surpreso. Tinha a impressão de que soubera o tempo todo o que iria acontecer. Tive até mesmo tempo para pensar que, quem quer que fosse, simplesmente pegara a chave-mestra do prédio com o zelador.

       Mas quando a porta se abriu e avistei a primeira das quatro pessoas que entraram na sala, levantei-me depressa, o coração subitamente exultante, batendo forte. Sorrindo com uma renovada esperança e imenso excitamento, avancei com a mão estendida para apertar a dele. Minha voz saiu como um sussurro alto e rouco:

       — Mannie! — Eu estava dominado por uma excitação intensa. Agarrei a mão dele e sacudi-a vigorosamente.

       Mas ele reagiu com menor vigor do que eu esperava, a mão quase inerte na minha, como se estivesse aceitando mas não retribuindo plenamente meu cumprimento. No instante seguinte, olhando atentamente para o rosto dele, compreendi tudo. É difícil explicar como pude saber. Talvez porque os olhos carecessem de um pouco de brilho, talvez porque os músculos do rosto houvessem perdido o indício habitual de tensão e alerta, talvez... Qualquer que fosse o motivo, o fato é que eu sabia.

       Mannie, percebendo em meu rosto o que se passava por minha mente, sacudiu lentamente a cabeça e disse, como se eu tivesse falado em voz alta:

       — É isso mesmo, Miles. E já há bastante tempo. Antes mesmo da noite em que me telefonou.

       Virei-me para verificar quem mais entrara na sala, olhando atentamente para cada rosto. Depois, voltei para junto da janela, passei o braço pelos ombros de Becky e encarei-os.

       Um dos homens — todos ficaram parados junto à porta — era baixo, corpulento e calvo. Eu nunca o tinha visto antes. Outro era Chet Meeker, um contador de Mill Valley, um homem .grandalhão, de cabelos pretos, rosto jovial, de trinta e poucos anos. O quarto era Budlong, que nos sorriu agora, tão amistosamente quanto antes.

       Becky e eu continuamos parados ao lado da janela. Mannie gesticulou na direção do sofá e disse gentilmente:

       — Sentem-se. — Sacudimos a cabeça e ele insistiu: — Sentem-se, por favor. Você está exausta, Becky, extenuada. Pode sentar-se.

       Mas Becky comprimiu-se contra mim e apertei-lhe os ombros, sacudindo novamente a cabeça.

       — Está certo.

       Mannie empurrou para o lado os lençóis que estavam no sofá e se sentou. Chet Meeker foi sentar-se ao lado dele. Budlong ocupou uma cadeira no outro lado da sala e o homem que eu não conhecia sentou-se perto da porta do corredor.

       — Eu gostaria que relaxassem e não ficassem tão preocupa dos — disse Mannie, alteando as sobrancelhas e sorrindo-nos, parecendo francamente preocupado com nosso conforto. — Não vamos machucá-los. E a partir do momento que compreenderem o que nós... temos de fazer... — Deu de ombros. — Creio que talvez possam aceitar, cessando toda resistência.

       Mannie ficou-nos olhando por um momento, em silêncio. Como não respondêssemos nem nos mexêssemos, ele se recostou no sofá e acrescentou:

       — Antes de mais nada, não dói. Não vão sentir nada. É algo que lhe posso prometer, Becky. — Mordiscou o lábio por um instante, pondo em ordem o que tinha a dizer. — E quando acordarem, vão-se sentir exatamente os mesmos. Continuarão a ser os mesmos, em cada pensamento, recordação, hábito e maneirismo, até o último átomo de seus corpos. Não há qualquer diferença. Absolutamente nenhuma. Não deixarão de ser vocês mesmos. — Mannie falou incisiva e convincentemente. Mas, pela fração de um instante, um vestígio de incredulidade nas próprias palavras pairou em seus olhos.

       — Por que então se darem a tanto trabalho? — Não esperava que qualquer coisa pudesse resultar da discussão, mas parecia-me que tinha de dizer alguma coisa

       — Se é assim, bem que nos podem deixar em paz. Iremos embora da cidade e nunca mais voltaremos.

       — Bem... — Mannie começou a responder, mas parou e olhou para Budlong, no outro lado da sala. — Talvez seja melhor você explicar isso, Bud.

       — Está certo.

       Parecendo bastante satisfeito, Budlong recostou-se na cadeira. Era o professor antevendo a alegria de dar uma aula, justamente como sempre fizera por toda a vida. E descobriu-me imaginando se Mannie não estaria certo, se realmente não havia qualquer mudança e a pessoa continuava como sempre fora.

       — Viu o que viu e sabe o que sabe — começou Budlong. — Já conhece... as vagens, digamos assim, por falta de outro termo melhor. Viu se mudarem e se prepararem. Por duas vezes, viu o processo quase concluído. Mas por que forçá-lo a submeter-se ao processo quando não há, como já falamos, absolutamente qualquer diferença final? — Novamente, como já havia acontecido na casa dele, as pontas dos dedos das mãos de Budlong se uniram, num gesto tipicamente acadêmico. Sorriu-nos jovialmente. — É uma boa pergunta. Mas há uma resposta e das mais simples. Como já imaginou, as vagens são, num certo sentido, vagens de semente. Só que não se tratam de sementes no sentido que conhecemos. Mas, de qualquer forma, são matéria viva. E como são sementes, são capazes de um crescimento e desenvolvimento enorme e complexo. E realmente vagaram pelo espaço, pelo menos as vagens originais, percorrendo distâncias fabulosas, através de milênios incontáveis, exatamente como lhe falei. — Fez uma pausa, sorrindo como se estivesse pedindo desculpas. — Mas, como não poderia deixar de ser, tentei formular a coisa de maneira a lançar dúvida sobre a noção. Seja como for, as vagens vivem. Chegaram a este planeta por puro acaso. Mas, tendo chegado, têm uma função a cumprir, tão natural para elas quanto as suas funções são para você. E é por isso que você deve submeter-se à mudança. As vagens precisam cumprir sua função, sua razão de ser.

       — E qual é a função delas? — indaguei, sarcasticamente. Budlong deu de ombros.

       — A função de toda a vida, em qualquer lugar: sobreviver.

       — Por um momento, olhou-me em silêncio, antes de acrescentar:

       — A vida existe por todo o universo, Dr. Bennell. A maioria dos cientistas sabe disso e não hesita em reconhecer. Não pode deixar de ser verdade, embora jamais a tenhamos encontrado antes. Mas a vida existe pelo universo, a distâncias infinitas, em todas as formas concebíveis. Pense só, Doutor, que existem planetas e vida incalculavelmente mais antigos do que nós temos aqui. O que acontece quando um planeta antigo finalmente morre? A forma de vida que o habita deve prever que isso vai acontecer e preparar-se para sobreviver. — Budlong inclinou-se para a frente, os olhos fixados em mim, fascinado por suas próprias palavras. — Um planeta morre, lentamente, ao longo de tempos incomensuráveis. A forma de vida que o habita, ao longo de tempos incomensuráveis, deve preparar-se. Preparar-se para o quê? Para deixar o planeta. Para chegar aonde? E quando? Não há resposta, a não ser uma, a que eles alcançaram. É a capacidade de adaptação universal a toda e qualquer outra forma de vida, sob toda e quaisquer outras condições que possam encontrar.

       Budlong sorriu-nos jovialmente, voltando a se recostar na cadeira. Era evidente que estava desfrutando intensamente aquele momento. Na rua lá fora, um carro buzinou e uma criança se pôs a gritar.

       — Portanto, num certo sentido, as vagens são parasitas de qualquer vida que encontrarem — continuou Budlong. — Mas são parasitas perfeitos, capazes de fazer algo muito além de simplesmente aderir ao corpo hospedeiro. São formas de vida completamente evoluídas. Possuem a capacidade de se reformar e se reconstituir numa duplicação perfeita, célula viva por célula viva, de qualquer forma de vida que possam deparar, em quaisquer condições em que a vida seja encontrada.

       Meu rosto deve ter deixado transparecer o que eu estava pensando, porque Budlong sorriu e levantou a mão.

       — Sei que parece um mero palavrório, uma divagação sem sentido. O que é perfeitamente natural. Afinal, estamos presos a nossas próprias concepções, Doutor, a nossas noções necessária mente limitadas do que a vida pode ser. Na verdade não podemos realmente conceber qualquer coisa muito diferente de nós mesmos e de qualquer outra forma de vida que existe neste pequeno

planeta. Não é difícil provar tal asserção. Como parecem os imaginários habitantes de Marte em nossa ficção e histórias em quadrinhos? Procure lembrar-se. Parecem com versões grotescas de nós mesmos. Não podemos imaginar qualquer coisa diferente! É verdade que podemos imaginá-los com seis pernas, três braços antenas saindo das cabeças... — Budlong sorriu, antes de acrescentar: — ...como insetos com que estamos familiarizados. Mas não são fundamentalmente diferentes do que conhecemos. — Levantou um dedo, como se estivesse censurando um aluno despreparado. — Mas aceitar nossas limitações e realmente acreditar que a evolução por todo o universo deva seguir, por alguma razão, por caminhos similares aos nossos, sob todos os aspectos é... — O professor deu de ombros — ...uma atitude um tanto insular, digamos assim. Uma atitude rematadamente provinciana. A vida assume a forma que se torna necessária: um monstro com quinze metros de altura, um imenso pescoço e pesando toneladas.

Podemos chamá-lo de dinossauro. Quando as condições mudam e a sobrevivência do dinossauro não é mais possível, ele simplesmente desaparece. Mas a vida não desaparece. Continua a existir sob uma nova forma. Uma forma necessária. — A expressão de Budlong era agora solene. — A verdade é o que estou dizendo. Aconteceu mesmo. As vagens chegaram, caíram em nosso planeta, como já haviam caído em outros, desempenharam e continuam a desempenhar sua função simples e natural... que é a de sobreviver neste planeta. E o conseguem recorrendo à sua capacidade extremamente evoluída de se adaptar, assumir e duplicar, célula por célula, a vida para a qual este planeta é apropriado.

       Eu não sabia de que nos adiantaria ganhar algum tempo. Mas estava disposto, ansioso mesmo, a conversar por tanto tempo quanto ele quisesse. E por isso comentei, desdenhosamente:

       — Tudo isso não passa de pura fantasia. Uma teoria barata. Porque falta o como. E, além do mais, como você pode saber? O que sabe a respeito de outros planetas e de outras formas de vida? — falei sarcasticamente, uma ponta de desprezo e amargura na voz. Pude sentir os ombros de Becky, sob o meu braço, tremerem momentaneamente. Mas Budlong não ficou irritado, dizendo com a maior tranqüilidade:

       — Nós sabemos. Não existe... — deu de ombros — ... memória. Não se pode chamar assim. Não se pode chamar de qualquer coisa que você seja capaz de reconhecer. Mas há conhecimento nesta forma de vida, é claro. E é um conhecimento que permanece. Ainda sou o que era, sob todos os aspectos, até uma cicatriz no pé que arrumei quando era pequeno. Ainda sou Bernard Budlong. Mas o outro conhecimento também existe agora. 15 um conhecimento que fica e eu sei. Todos sabemos.

       — Quer saber como acontece, como eles fazem o que fazem? — Budlong sorriu-me. Ora Dr. Bennell, pense em quão pouco conhecemos de fato este nosso pequeno planeta, ainda tão novo. Mal acabamos de descer das árvores. Ainda somos selvagens! Somente há duzentos anos, os médicos nem mesmo sabiam como o sangue circulava. Pensavam que se tratava de um fluido imóvel, enchendo o corpo como água num saco. E no meu próprio período de vida, nem sequer se suspeitava da existências das ondas cerebrais. Pensei nisso, Doutor! As ondas cerebrais, impulsos elétricos concretos, em padrões específicos identificáveis, passando do crânio para o exterior, podem ser captadas, ampliadas e registradas. Pode ficar sentado a observá-las numa tela. Por acaso é um epiléptico, real ou em potencial? Os padrões de suas próprias ondas cerebrais individuais irão prontamente responder a essa pergunta, como sabe perfeitamente já que é médico. E as ondas cerebrais sempre existiram. Não foram inventadas, apenas descobertas. As pessoas sempre tiveram ondas cerebrais, assim como sempre tiveram impressões digitais. Abraham Lincoln, Pôncio Pilatos e o homem de Cro-Magnon, todos tinham. Simplesmente não sabíamos, mais nada. — Budlong suspirou, antes de acrescentar: — E há muito mais que não sabemos, nem sequer começamos a suspeitar. Não apenas o seu cérebro, mas todo o seu corpo, cada célula, tudo irradia ondas, tão individuais quanto as impressões digitais. Acredita nisso, Doutor? — Sorriu. — Acredita que ondas totalmente invisíveis e impossíveis de se perceber possam emanar de uma sala, moverem-se silenciosamente pelo espaço, serem captadas e depois reproduzirem precisamente cada palavra e som ouvido na sala original? Como o som de uma voz sussurrada, a nota de um piano, o acorde de uma guitarra? Seu avô jamais teria acreditado em tamanha impossibilidade, mas não é o seu caso... porque acredita no rádio. Acredita até mesmo na televisão.

       Budlong fez outra pausa, sacudindo a cabeça.

       — Isso mesmo, Dr. Bennell, seu corpo contém um padrão, assim como toda matéria viva. É a própria base da vida celular. Porque é composto dos minúsculos impulsos elétricos que mantêm juntos os próprios átomos que constituem o seu ser. E, portanto, é um padrão, infinitamente mais perfeito e detalhado do que qualquer planta poderia mostrar, um padrão da constituição atômica exata de seu corpo precisamente naquele momento, alterando-se a cada respiração, a cada segundo, em que seu corpo passa por mudanças infinitesimais. E é durante o sono, a propósito, que a mudança ocorre em grau menor. E é durante o sono que o padrão lhe pode ser tirado, absorvido como eletricidade estática, passando de um corpo para outro. — O professor tornou a sacudir a cabeça lentamente, antes de continuar: — Portanto, Dr. Bennell, pode acontecer. E com relativa facilidade. Os padrões intrincados dos impulsos elétricos que mantêm juntos os átomos do seu corpo, para formar e constituir até a última célula, podem ser lentamente transferidos. Assim, já que toda e qualquer espécie de átomo do universo é idêntica, pois os átomos são o material de construção do universo, você está perfeitamente duplicado, átomo por átomo, molécula por molécula, célula por célula, até à menor cicatriz, aos cabelos, a tudo enfim. E o que acontece com o original? Os átomos que anteriormente o compunham, estáticos agora, tornam-se nada, uma pilha de penugem cinzenta. Pode acontecer e de fato acontece. Sabe que tem acontecido. E, no entanto, se recusa a aceitar. — Observou-me em silêncio por um instante, antes de sorrir e acrescentar: — Mas talvez eu esteja enganado em relação a isso. Creio que provavelmente já aceitou.

       Por algum tempo, a sala ficou mergulhada em silêncio, os quatro homens observando-me e a Becky. Budlong tinha razão, eu acreditava nele. Sabia que era verdade, quer fosse possível ou impossível. A impotência e a frustração estavam fermentando dentro de mim a um ponto insuportável. Podia senti-lo nas pontas dos dedos, uma sensação física, um imenso desejo compulsivo de fazer alguma coisa. Fiquei cerrando e abrindo os punhos. Súbita e impulsivamente, sem qualquer outra razão a não ser a de me mexer, agir, fazer alguma coisa, estendi a mão para trás, segurei a corda da persiana e dei um puxão com toda força. A persiana subiu, ruidosamente, como disparo de metralhadora, a luz do dia penetrando na sala. Virei-me e olhei para as pessoas que faziam compras na rua lá embaixo, as lojas, os carros, os parquímetros, a cena inteiramente normal.

       Os quatro homens na sala não se mexeram. Simplesmente continuaram sentados, observando-me. E agora meus olhos corriam freneticamente pela sala, procurando por alguma coisa que pudesse fazer. Mannie compreendeu o que se estava passando em minha cabeça, antes que eu tivesse tempo de fazer alguma coisa,

       — Pode pegar qualquer coisa e jogar pela janela, Miles. Pode estar certo de que isso atrairia atenção. As pessoas levantariam a cabeça e veriam a janela quebrada. E poderia postar-se na janela, Miles, pôr-se a gritar. Mas ninguém subiria até aqui.

       Meus olhos se desviaram para o telefone, e Mannie acrescentou:

       — Pode pegar o telefone. Não vamos impedi-lo. Mas não vai conseguir fazer uma ligação.

       Becky virou a cabeça para mim, comprimiu-a contra meu peito, as mãos agarrando-me as lapelas. Passei os braços em torno dela, sentindo seus ombros se sacudirem em soluços secos e silenciosos.

       — Por que então estão esperando? — Havia uma névoa vermelha genuína diante de meus olhos. — O que estão querendo fazer? Torturar-nos?

       Mannie fez uma careta, a expressão aparentemente angustiada, sacudindo a cabeça.

       — Não, Miles! Não estamos querendo torturá-los. Não temos a menor intenção de machucá-los ou torturá-los, por qualquer meio possível. Vocês são meus amigos. Ou eram. — Sacudiu a cabeça novamente, abrindo os braços num gesto de desamparo. — Será que não entende? Não há nada que possamos fazer, Miles, a não ser esperar. E tentar explicar, fazê-lo compreender e aceitar tudo, procurar dar um jeito para que se torne mais fácil para você. Miles, temos de esperar até que adormeça. Isso é tudo. E não há meio algum para se obrigar um homem a dormir, a não ser pela força. — Mannie ficou calado por um momento, observando-me, antes de acrescentar, em tom de urgência: — Mas também não há qualquer meio pelo qual você possa evitar de adormecer. Pode lutar contra o sono por algum tempo, mas finalmente... terá de dormir, mais cedo ou mais tarde.

       O homenzinho perto da porta, cuja existência eu havia até esquecido, suspirou e disse:

       — Vamos trancá-los numa cela na cadeia e eles acabarão dormindo. Para que toda essa discussão?

       Mannie fitou-o com uma expressão fria.

       — Porque essas pessoas são minhas amigas. Pode ir para casa, se quiser. Bastam três de nós.

       O homenzinho suspirou — percebi que nenhum deles se irritava — e continuou sentado onde estava. Mannie se levantou subitamente, aproximou-se de nós e fitou-me nos olhos. Parecia angustiado e pesaroso.

       — Enfrente os fatos, Miles. Você não tem saída. Não há nada que possa fazer. Enfrente o inevitável e aceite-o. Por acaso gosta de ver Becky desse jeito? Pois eu não gosto!

       Ficamo-nos olhando em silêncio por vários segundos. Eu não acreditava absolutamente na raiva dele. Gentil e persuasivamente, Mannie acrescentou:

       — Converse com ela, Miles. Faça-a compreender a verdade. Não estou querendo enganá-los. Garanto que não vão sentir absolutamente nada. Durmam e acordarão sentindo-se exatamente como agora, só que descansados. Continuarão a ser os mesmos. Afinal, contra o que estão querendo lutar?

       Mais um momento e Mannie virou-se, voltando a sentar-se no sofá.

      

       Minha mão estava-se mexendo, afagando os cabelos de Becky, massageando-lhe o pescoço gentilmente, confortando-a ou pelo menos tentando, da única maneira que eu podia. E depois me perguntei se era mesmo a única maneira. Eu estava muito cansado. Podia senti-lo por trás dos olhos, na flacidez dos músculos faciais, nos braços e pernas. Ainda não estava acabado. Podia resistir por mais algum tempo, mas não muito. E Becky também não conseguiria agüentar por muito tempo. E a idéia de dormir, de simplesmente esquecer todos os problemas e me largar, deixar que o sono me dominasse e depois acordar sentindo-me exatamente como agora, ainda Miles Bennell, era terrivelmente tentadora.

       Olhei para Mannie, sentado na beira do sofá, os olhos arregalados, o rosto parecendo compadecido e ansioso, querendo que eu acreditasse nele. E me perguntei se o que Mannie dissera não seria mesmo a verdade. Mesmo que não fosse, sentir o corpo de Becky tremendo entre os meus braços, sabendo como ela estava aterrorizada, era mais do que eu podia suportar. Sabia que havia algo mais que eu poderia fazer por ela além de ficar sentado ali a afagar-lhe os cabelos. Poderia persuadi-la. Poderia aceitar o que Mannie dissera, aceitar e acreditar. E depois deixar que minha convicção a persuadisse. Poderia até mesmo ser verdade. Por que não?

       Com a mão sempre afagando os cabelos de Becky, apertando-a firmemente, fiquei pensando a respeito, sentindo o tremor incessante do corpo dela e meu próprio cansaço. Deixei que a vontade de acreditar se fosse fortalecendo e aumentando. E depois... Budlong estava certo. A vontade de sobreviver não pode ser contestada e eu sabia que iríamos lutar, teríamos de lutar. Como um homem condenado prendendo em vão a derradeira respiração na câmara de gás, teríamos de resistir por tanto tempo quanto possível, lutando e esperando, mesmo quando não restasse mais qualquer perspectiva de esperança. Virei-me para Budlong, tentando pensar em alguma coisa para dizer, qualquer coisa, a fim de manter-nos acordados, para encontrar algum ponto de ataque, esperando eu não sabia pelo quê.

       — Como foi que aconteceu? — indaguei, em tom de quem queria apenas conversar um pouco. — Como fizeram para dominar Mill Valley inteiramente?

       Budlong mostrava-se disposto a responder. Eu sabia que Mannie estava certo. Simplesmente continuariam a esperar, até que finalmente caíssemos no sono.

       — A princípio, a coisa foi meio às cegas — disse Budlong, jovialmente. — As vagens caíram nesta área. Poderia ter sido qualquer outro lugar, mas acontece que foi aqui. Foram pousar na fazenda de Parnell, em cima de uma pilha de lixo. Os primeiros esforços não passaram de uma duplicação às cegas do que haviam encontrado inicialmente: uma lata vazia suja com o suco de alguma fruta outrora viva, um cabo de madeira quebrado de machado. É um desperdício perfeitamente natural, o mesmo desperdício de qualquer esporo caindo nos lugares errados. Outras vagens, no entanto, apenas umas poucas... diga-se de passagem que bastaria apenas um caso bem-sucedido... caíram, foram sopradas pelo vento ou levadas por pessoas curiosas para os lugares certos. E os que foram mudados trataram de recrutar outros, geralmente as próprias famílias. O caso de sua amiga, Wilma Lentz, é típico. Foi o tio dela, evidentemente, quem colocou no porão da casa a vagem que efetuou a mudança de Wilma. E foi o pai de Becky quem... — Polidamente, ele não concluiu a frase. — Seja como for, a partir do momento em que se efetuou a primeira mudança eficaz, o acaso deixou inteiramente de ser um fator. Somente um homem, Charley Bucholtz, o medidor de relógios de gás e de eletricidade, providenciou mais de setenta mudanças. É um homem que pode entrar à vontade nos porões e geralmente ninguém o acompanha. Entregadores, bombeiros, carpinteiros também foram responsáveis por várias mudanças. E é claro que a partir do momento em que se efetuava uma mudança numa casa, era fácil converter o resto da família. — Budlong suspirou, pesarosamente. — É claro que houve acidentes, alguns equívocos. Uma mulher viu a irmã deitada na cama, dormindo. Um momento depois, com o processo ainda inacabado, ela viu também a irmã, aparentemente, dormindo no armário do quarto de hóspedes. A mulher simplesmente perdeu o juízo. Algumas pessoas, compreendendo o que estava acontecendo, tentaram lutar. Resistiram e lutaram. É difícil entender por quê. Mas foi... muito desagradável para todos. As famílias com crianças foram normalmente mais difíceis. As crianças percebem prontamente até mesmo as diferenças menores e mais triviais. Porém, de um modo geral, foi tudo relativamente fácil e rápido. Wilma Lentz, assim como a Srta. Driscoll são pessoas sensíveis. A maioria das pessoas não percebeu absolutamente qualquer mudança, pois as diferenças não são significativas. E, evidentemente, assim que aumenta a quantidade de mudanças, torna-se mais fácil converter o resto.

       E agora eu havia encontrado um ponto de ataque.

       — Mas a verdade é que há uma diferença. Você mesmo acabou de dizer.

       — Não chega a ser realmente uma diferença e não é permanente.

       Mas eu não ia deixar as coisas por aí. Além do mais, Budlong acabara de me recordar outra coisa.

       — Vi uma coisa em seu escritório — falei, bem devagar, pensando a respeito. — Nada significou para mim na ocasião, mas agora estou-me lembrando. Assim como estou também me recordando de algo que Wilma Lentzs disse, pouco antes de ser mudada. — Todos estavam-me observando, em silêncio, esperando. — Disse-me em sua casa que estava trabalhando em uma tese, um estudo científico, que lhe era extremamente importante.

       — Exatamente.

       Inclinei-me para a frente, os olhos fixados nos dele. Becky levantou a cabeça, fitou-me aturdida por um instante e depois olhou para Budlong.

       — Só havia um meio pelo qual Wilma Lentz sabia que Ira não era Ira. Um único meio para perceber, já que era a única diferença. Não havia emoção, nenhuma emoção de verdade, nenhuma emoção forte e humana, mas apenas a recordação da emoção e a simulação dela, na coisa que parecia, falava e se comportava como Ira, em tudo o mais. — Baixei a voz, ao continuar: — Assim como não há qualquer emoção em você, Budlong. Apenas a recordação da emoção. Não há alegria de verdade, medo, esperança ou excitamento em você. Não há mais nada. Vive na mesma espécie de limbo acinzentado como a substância repulsiva de que se formou. — Sorri para ele. — Professor, há um jeito especial que os papéis adquirem quando ficam espalhados sobre uma mesa por muitos dias. De alguma forma, parece que perdem o viço, ficam diferentes. Como se o papel murchasse, do ar ou da umidade, não sei direito. Mas pode-se perceber, pela aparência, se estão há muito tempo em cima de uma mesa. E era exatamente essa a impressão que sua mesa dava. Não tocava naqueles papéis desde o dia, qualquer que tenha sido, em que deixou de ser Budlong. Porque não se importa mais, a tese não tem mais qualquer importância. Ambição, esperança, excitamento. . . não possui mais nada! — Virei-me bruscamente. — Mannie, está lembrado daquele compêndio para o segundo grau que você estava planejando, Uma Introdução à Psiquiatria! Trabalhava no esboço em todos os minutos de folga que podia arrumar. O que aconteceu, Mannie? Quando foi a última vez que trabalhou nele? Ou sequer lhe deu uma olhada?

       — Está bem, Miles, agora você sabe — disse Mannie, calmamente. — Queríamos apenas que as coisas fossem mais fáceis para você. Depois que tivesse acabado, não faria mais qualquer diferença, porque você não se importaria. Estou falando sério, Miles: não é tão ruim assim. Ambição, excitamento... o que há de bom em tais coisas? — Era evidente que ele estava absolutamente convencido do que falava. — Acha mesmo que vai sentir falta da tensão e preocupações que acompanham tais emoções? Não é tão ruim como imagina, Miles. Estou falando sério. É pacífico, tranqüilo. E a comida ainda tem paladar, ainda é ótimo ler um livro.

       — Mas não escrevê-lo — murmurei. — Não o esforço, a esperança e a luta obstinada para escrevê-lo. Ou sentir as emoções que fazem os livros. Tudo isso acabou, não é mesmo, Mannie?

       — Não vou discutir com você, Miles — disse ele dando de ombros. — Parece ter adivinhado muito bem como são as coisas.

       — Não há emoção — falei em voz alta, embora estivesse na verdade me dirigindo mais a mim mesmo. Ocorreu-me uma idéia e indaguei: — Mannie, ainda pode fazer amor, ter filhos?

       Ele me olhou em silêncio por um instante, antes de responder,

       — Creio que sabe que não podemos, Miles. Que diabo — e isso foi o mais próximo de raiva a que ele chegou — pode muito bem saber logo toda a verdade, já que está insistindo. A duplicação não é perfeita. E não pode ser. Algo assim como os compostos artificiais criados pelos físicos nucleares: instáveis, incapazes de manter a forma. Não podemos viver, Miles. O último de nós estará morto.. . — sacudiu uma das mãos, como se isso não tivesse qualquer importância — ... dentro de cinco anos, no máximo.

       — E isso não é tudo — acrescentei, suavemente. — Estão capturando tudo que é vivo, não apenas homens, mas animais, árvores, relva, tudo o que vive. Não é isso mesmo, Mannie?

       Ele sorriu, um sorriso de cansaço. Depois, levantou-se e foi até a janela e apontou. No céu da tarde estava suspensa a Lua em quarto crescente, pálida e prateada à luz do dia, mas perfeitamente visível e nítida. Um nevoeiro tênue pairava diante da Lua.

       — Olhe para a Lua, Miles. Está morta. Não houve qualquer mudança em sua superfície desde que o homem começou a estudá-la. Mas nunca se perguntou por que a Lua é um deserto de nada? A Lua, tão perto da Terra, tão parecida, outrora uma parte da terra, por que deveria estar morta?

       Ficou calado por um momento, enquanto olhávamos para a superfície silenciosa e inalterada da Lua.

       — Nem sempre foi assim — acrescentou Mannie, suavemente. — Houve um tempo em que a Lua estava viva. — Virou-se e voltou para o sofá, antes de continuar: — E os outros planetas, girando em torno da mesma fonte de vida, que é o Sol, como a Terra? Marte, por exemplo. Vestígios dos seres que outrora viveram em Marte ainda se encontram nos desertos. E agora é a vez da Terra. E depois que todos esses planetas são consumidos não tem importância. Os esporos seguem adiante, voltam ao espaço, para vagar... Não importa por quanto tempo ou para onde. Acabarão chegando... em algum lugar. Budlong disse o que eram: parasitas. Parasitas do universo. E serão os únicos e últimos sobreviventes do universo.

       — Não fique tão chocado, Doutor — disse Budlong, afavelmente. — Depois de tudo o que fizeram neste planeta.. Onde estão as florestas que cobriam o continente? E as terras férteis que converteram em desertos? Também têm consumido o que encontram ... e depois seguem adiante. Não há por que ficar tão chocado.

      Eu mal consegui falar:

       — O mundo... vão-se espalhar pelo mundo todo?

       — O que estava pensando? — disse Budlong, sorrindo tolerantemente. — Este condado, depois os seguintes, o norte da Califórnia, Oregon, Washington, toda a Costa do Pacífico. É um processo que se vai acelerando, sempre mais depressa, sempre mais de nós e menos de vocês. Não vai demorar muito para ocuparmos todo o continente. E depois... é claro que nos espalharemos pelo mundo inteiro.

       — Mas... de onde estão vindo as novas vagens? — indaguei.

       — São cultivadas, é claro. Nós as cultivamos. Cada vez mais.

       Não me pude conter.

       — O mundo... — murmurei baixinho, para depois gritar: — Mas por quê? Ó, Deus, por quê?

       Se ele pudesse ficar furioso, isso certamente aconteceria naquele momento. Mas Budlong limitou-se a menear a cabeça, tolerantemente.

       — Doutor, Doutor, será que não aprende? Parece que ainda não entendeu. Já esqueceu tudo o que lhe falei? O que faz e por quê? Por que respira, come, dorme, faz amor e reproduz sua espécie? Porque é a sua função, a sua razão de ser. Não há qualquer outra razão nem é necessário. — Tornou a menear a cabeça, espantado por eu não estar entendendo. — Parece chocado. Mas o que a raça humana tem feito a não ser espalhar-se pelo planeta até se elevar a bilhões? O que fizeram com este próprio continente, senão se expandir até ocupá-lo inteiramente? E onde estão os bisões que vagavam por este continente antes de aqui chegarem? Desapareceram. Onde estão os pombos bravos que literalmente obscureciam os céus da América em revoadas de bilhões? O último morreu num jardim zoológico da Filadélfia em 1913. Doutor, a função da vida é viver se puder. Nenhum outro motivo pode interferir com isso. Não há qualquer maldade envolvida. Por acaso odiavam os bisões? Devemos continuar por que devemos. Será que não pode entender isso? — Voltou a me sorrir, sempre jovialmente. — É a natureza da besta.

       E assim, finalmente, eu tinha de aceitar, o homem condenado exalando o derradeiro ar puro dos pulmões, fazendo uma pausa e depois aspirando a morte, porque não tem mais condições de resistir. Não me restava mais nada a fazer, a não ser atenuar o impacto sobre Becky do pouco tempo que nos restava... se nos fosse possível passá-lo a sós.

       — Mannie, você disse que fomos outrora amigos, que se lembrava de como era.

       — Claro que me lembro, Miles.

       — Não creio que você continue realmente a sentir. Mas se ainda pode recordar alguma coisa de como era nossa amizade, então deixe-nos a sós aqui. Pode trancar-nos em nosso consultório e precisarão ficar vigiando apenas uma porta. Mas deixe-nos a sós agora, Mannie. Fiquem esperando no corredor. Dê-nos pelo menos isso. Não podemos escapar. E como poderemos dormir com vocês nos observando? Dessa maneira, tudo poderá acontecer mais depressa. Tranque-nos em meu consultório, Mannie. E fiquem esperando no corredor. É a última oportunidade que teremos de saber o que significa estar realmente vivos. Talvez ainda possa lembrar-se ligeiramente do que isso representava.

       Mannie olhou para Budlong. Depois de um momento de hesitação, o professor assentiu. Mannie virou-se em seguida para Chet Meeker, que deu de ombros. A opinião do homenzinho na porta nem sequer foi pedida.

       — Está certo, Miles — disse Mannie. — Não há razão para que não atendamos ao seu pedido.

       Acenou com a cabeça para o homenzinho na porta, que se levantou e saiu para o corredor. Depois, foi até a porta de madeira que dava para o meu consultório, meteu a chave na fechadura, girou-a, mexeu na maçaneta, verificando-a. Tornou a destrancar a porta e abriu-a, para que Becky e eu pudéssemos passar.

       Lentamente, a porta começou a se fechar atrás de nós. Um instante antes de fechar inteiramente, pude vislumbrar o homenzinho retornando à sala de espera, o corpo quase oculto por duas imensas vagens que carregava. A porta foi finalmente fechada, a chave girou na fechadura. Ouvi o ruído débil de alguma coisa roçando no outro lado da porta. Compreendi que as duas imensas vagens estavam agora no chão, no outro lado da porta trancada, muito perto de nós, ao mesmo tempo fora de alcance.

      

       Peguei a mão de Becky entre as minhas, apertando-a com força. Ela me fitou, conseguindo mesmo exibir um sorriso. Levei-a para a cadeira estofada diante da minha mesa e sentei-a ali. Depois, sentei-me no braço da cadeira, inclinando-me para perto dela, passando o braço por seus ombros.

       Por um momento, ficamos calados. Recordei a noite — não muito tempo atrás, mas ao mesmo tempo parecendo incrivelmente distante — em que Becky viera ao consultório para me falar sobre Wilma. Percebi que ela estava usando o mesmo vestido, de seda, mangas compridas, estampado em vermelho e cinza. Lembrei-me de como me sentira contente por vê-la naquela noite, compreendendo que embora só tivéssemos saído juntos algumas vezes na escola secundária, a verdade é que nunca a tinha esquecido. E agora eu podia compreender uma porção de coisas que não percebera antes.

       — Eu a amo, Becky.

       Ela levantou os olhos para me sorrir e depois encostou a cabeça em meu braço.

       — Eu o amo Miles.

       Ouvi um pequeno ruído no outro lado da porta trancada atrás de nós. Era um ruído familiar, mas, por um instante, não pude reconhecê-lo. Era um ruído seco, um estalo, como o de uma folha seca se rompendo bruscamente. Mas logo compreendi o que era e olhei rapidamente para Becky. Mas se ela havia ouvido também e igualmente reconhecido, não deixou transparecer.

       — Gostaria que nos tivéssemos casado, Becky. Gostaria que estivéssemos casados agora.

       — Eu também.

       O estalido soou novamente no outro lado da porta. Levantei nesse instante, começando a andar pela pequena sala, procurando alguma coisa, qualquer coisa que nos pudesse ajudar. Mais do que tudo que já quisera antes, queria agora outra oportunidade. Tinha de haver um meio qualquer de escapar daquela situação. Não me esquecendo de agir silenciosamente, abri a gaveta da mesa. Lá estavam blocos de receita, mata-barrões, calendários de plástico, clipes, elásticos, um fóceps quebrado, lápis, duas canetas, uma espátula imitando bronze. Peguei a espátula, empunhando-a como uma adaga, apertando o cabo com toda a força. Olhei para a superfície envernizada da porta maciça que dava para a sala de espera. Depois, abri a mão e deixei a espátula inútil cair de novo na gaveta.

       Meu armário de instrumentos ficava no outro lado da sala. Lá estavam fórceps de aço inoxidável, bisturis, seringas hipodérmicas, tesouras, desinfetantes, anti-sépticos. Nem mesmo me dei ao trabalho de abrir as portas de vidro. Havia também a pequena geladeira: soros, vacinas, antibióticos e uma garrafa pequena de ginger ale que minha enfermeira deixara ali. Fechei a porta silenciosamente. Não havia muita coisa mais: a balança, a mesa de exame, um pequeno armário branco esmaltado com ataduras, esparadrapo, iodo, mercurocromo, mertiolate, pequenos instrumentos. Havia móveis, tapetes, quadros e diplomas na parede. Ou seja, não havia nada.

       Virei-me para Becky, abrindo a boca para falar... e meu coração parou por um instante, para recomeçar a bater logo depois, descompassadamente. Dei dois passos rápidos para a cadeira em que Becky se encontrava, agarrei-a pelos ombros e sacudi-a bruscamente. Os olhos dela se abriram.

       — Oh, Miles... eu estava dormindo! — Seus olhos estavam arregalados de terror.

       Na última gaveta da mesa, no lado esquerdo, encontrei os tabletes de benzedrina. Fui ao banheiro, enchi um copo com água e entreguei um tablete a Becky. Olhei para o pequeno vidro por um momento e depois guardei-o no bolso, sem tomar nenhum tablete. Podia agüentar por mais algum tempo e era melhor que tomássemos a benzedrina alternadamente, a fim de que um sempre mantivesse o outro acordado.

       Sentei-me à mesa, os cotovelos sobre o tampo de vidro, os punhos cerrados debaixo das faces. Becky ficou observando meus olhos, para certificar-se de que eu não dormia. Se houvesse alguma saída para a emergência, estava em minha mente e não nos pés a andar de um lado para outro.

       O tempo foi-se passando, volta e meia soando outro estalido atrás da porta fechada. Ambos estávamos agora ouvindo e nenhum dos dois olhava para a porta. Fiz um esforço para continuar sentado, recordando tudo o que sabia a respeito das vagens gigantescas.

       Depois de algum tempo, levantei lentamente os olhos. Na cadeira de couro, no outro lado da mesa, Becky estava sentada em silêncio, alerta, observando-me atentamente, os olhos agora brilhando, dos efeitos da benzedrina. Baixinho, ao mesmo tempo pedindo a opinião dela e pensando em voz alta, falei:

       — Vamos supor, apenas supor, que haja um meio... não de escapar, pois não há jeito de escaparmos... mas de fazer com que nos levassem para algum outro lugar. — Dei de ombros. — Provavelmente nos levariam para a cadeia da cidade. Será que haveria um meio de conseguirmos isso?

       — Em que está pensando, Miles?

       — Não sei. Nada, provavelmente. Pensei apenas em encontrar um meio de estragar as malditas vagens. Nem mesmo sei se poderíamos. De qualquer forma, eles arrumariam outras. Levariam-nos para outro lugar e providenciariam mais. Não conseguiríamos coisa alguma assim.

       — Pelo menos estaríamos ganhando um pouco mais de tempo — comentou Becky. — Duvido muito que haja mais vagens disponíveis neste momento. Tenho a impressão de que vimos todas que estavam prontas. — Acenou com a cabeça na direção da janela e da rua lá embaixo, antes de acrescentar: — Acho que usaram todas as que estavam prontas. Talvez as duas no outro lado da porta sejam as que restaram no caminhão de Joe Grimaldi.

       — Há outras sendo cultivadas e só conseguiríamos uma pequena suspensão da sentença, o que não é suficiente, de nada adianta. — Frustrado, desesperado, eu batia com o punho cerrado na palma da outra mão, silenciosamente. Franzi o rosto com força, tentando pensar mais claramente. — Apenas um pouco mais de tempo não é suficiente. Temos de encontrar um meio de fazer com que nos tirem daqui, precisamos sair do prédio. Seria nossa última oportunidade de escapar. Não haveria outra.

       — Acha que poderia... acertá-los, derrubá-los inesperadamente, ao deixarmos o prédio, como fez com Nick Gri...

       Temos de pensar de verdade, Becky — interrompi-a, sacudindo a cabeça bruscamente: — Isto não é um filme e não sou um herói do cinema. Não, eu não poderia vencer quatro homens. Provavelmente não conseguiria dominar nem mesmo um só. Duvido muito que pudesse dominar Mannie. E tenho certeza de que Chet Meeker acabaria facilmente comigo. Talvez só tivesse alguma chance com o professor ou com o baixote gorducho. — Sorri por um instante, mas logo voltei a falar sério: — Ora, nem mesmo sei se seria possível fazer com que nos tirassem daqui. Provavelmente, não.

       — Mas como poderíamos tentar? — Becky não estava disposta a desistir. Apontei para a porta da sala de espera.

       — Neste momento, se Budlong está certo, as coisas lá fora estão-se... preparando. Preparando-se, mais ou menos às cegas inicialmente, para imitar e duplicar qualquer substância vital que encontrarem, como célula e tecido, estrutura óssea e sangue. O que significa nós... a partir do momento em que comecemos a dormir, os processos do nosso corpo diminuindo o ritmo, deixando-nos indefesos. Mas vamos supor... — Olhei para Becky, hesitante. Se aquela não fosse a resposta, eu não sabia mais o que poderia ser. — Vamos supor, Becky, que encontremos um meio de fazer com que as duas vagens lá fora se gastem em alguma outra coisa. Vamos supor que proporcionemos substitutos: Fred e sua namorada.

       Becky franziu o rosto ligeiramente, sem entender o que eu estava falando. Inclinei-me e abri a porta do armário atrás da mesa.

       — Os esqueletos — acrescentei, apontando-os. — Eles viveram. — De repente, eu estava falando muito depressa, excitado, quase como se persuadir Becky fosse a única coisa de que precisasse. — Eles possuem estrutura óssea humana e absolutamente completa! E se Budlong está certo, os átomos que os compõem ainda estão unidos pelos mesmos impulsos elétricos a que ele se referiu, os impulsos que os mantiveram juntos em vida e que nos sustentam agora. Eles estão... adormecidos, muito mais do que meramente adormecidos! Prontos, dispostos e provavelmente perfeitamente capazes de serem assumidos. Seus padrões é que serão copiados e reproduzidos, ao invés dos nossos!

       — Nada temos a perder por tentar, Miles — falou Becky, após um momento.

       Antes mesmo que ela terminasse de falar, eu já estava de pé. Em silêncio total, tomando extremo cuidado para evitar que os membros desconjuntados esbarrassem nas paredes do armário, peguei primeiro o esqueleto masculino, mais alto, levando-o até a porta trancada da sala de espera. Estendi-o no chão, a cara virada para baixo, a fim de que não precisássemos contemplar o sorriso macabro. Segundos depois, ajeitei o esqueleto feminino ao lado.

       Ficamos olhando para os esqueletos por um momento. Depois, fui até o armário de instrumentos e abri a porta de vidro sem fazer barulho, pegando uma seringa de 20cc. Inclinei um vidro de álcool sobre um chumaço de algodão esterilizado, passando-o sobre uma pequena área no braço de Becky e depois no meu. Levei Becky até a porta da sala de espera. De uma veia em seu antebraço, retirei 20cc de sangue. Um momento depois, rapidamente, antes que o sangue pudesse coagular, despejei-o sobre a clavícula e diversas costelas do esqueleto mais próximo no chão. Do meu próprio braço, retirei outros 20cc de sangue, derramando-o imediatamente sobre o outro esqueleto.

       — Miles, não, não!

       Olhei para Becky, que sacudia a cabeça freneticamente, desviando os olhos, o rosto pálido. Mas não parei.

       — Miles, por favor! Não agüento mais! A maneira como estão parecendo... Por favor, não! Já chega!

       Levantei-me e virei-me para ela.

       — Está bem, Becky. Não sei se vai adiantar coisa alguma, porque há muito mais matéria viva... — Não concluí a frase. Deixei os esqueletos no chão como estavam. Não sabia realmente o que estava fazendo, mas... deixei-os como estavam. Só fiz mais uma coisa e não pedi permissão a Becky. Peguei uma tesoura na mesa, cortei uma boa mecha do cabelo dela, depois um punhado do meu, espalhando-os sobre os esqueletos no chão. Agora, não restava mais nada a fazer senão esperar.

       Sentamo-nos, Becky na cadeira de couro, eu atrás da mesa. E foi então que ela começou a falar. Lenta e hesitantemente parando muitas vezes para me fitar de maneira inquisitiva, Becky descreveu uma idéia que lhe ocorrera.

       Fiquei escutando. E quando ela parou, esperando por minha resposta, sorri e assenti, procurando não parecer imediatamente desencorajador.

       — Becky, pode dar certo, provavelmente daria, até certo ponto. Mas eu ainda acabaria engalfinhado no chão, com dois ou três homens por cima de mim.

       Miles, sei que não há razão para que qualquer coisa que possamos pensar tenha de dar obrigatoriamente certo. Mas agora você está pensando como num filme. É o que a maioria das pessoas faz... pelo menos às vezes. Há determinadas atividades, Miles, que a maioria das pessoas jamais depara durante toda a vida. Por isso, imaginam-nas em termos de cenas como no cinema. É a única fonte que a maioria das pessoas tem para visualizar coisas das quais elas nunca tiveram uma experiência concreta. E é assim que está pensando agora: uma cena em que está lutando com dois ou três homens e... Miles, o que eu estou fazendo nessa cena em sua mente? Está-me vendo encolhida contra uma parede, os olhos arregalados de pavor, as mãos encostas no rosto num gesto de horror?

       Pensei um pouco e cheguei à conclusão de que Becky estava certa, absolutamente certa. Assenti.

     — E é isso o que eles também vão pensar, Miles: a imagem estereotipada de uma mulher nesse tipo de situação. E é exatamente assim que me vou mostrar... até ter certeza de que eles me viram e notaram tal reação. Depois, posso fazer exatamente a mesma coisa que você. Por que não?

       Fiquei pensando no que ela dissera. Becky insistiu, incapaz de esperar.

       — Por que não, Miles? Por que não posso? — Fez uma breve pausa, antes de acrescentar: — Posso perfeitamente. Você vai apanhar um pouco, passará um ou dois minutos terríveis, mas depois... Por que não pode dar certo, Miles?

       Eu estava com medo. A idéia não me agradava. Aquilo era real, uma questão de vida ou morte para nós. Sabia que estávamos querendo enfrentar a situação impulsivamente, improvisando. Tínhamos de pensar muito, ter certeza do que estávamos fazendo, ponderar sobre o assunto o tempo que fosse necessário até que não restasse mais qualquer dúvida. Agora, no entanto, como soldados subitamente apanhados sob a pontaria do fogo inimigo, o mais importante pensamento de nossas vidas tinha de ser improvisado, sob uma terrível tensão. A conseqüência de qualquer coisa menos que a perfeição seria a morte ou um destino ainda pior. E não havia tempo para um planejamento mais cuidadoso! Certamente não poderíamos dormir com o problema, pensei, sorrindo sem qualquer prazer com o gracejo.

       — Vamos logo, Miles, decida-se! — Becky estava de pé, inclinando-se sobre a mesa, puxando-me a manga. — Não sabe quanto tempo mais ainda temos!

       Bateram de leve na porta externa do consultório e ouvi a voz de Mannie no corredor lá fora, sussurrando suavemente:

       — Miles? — Ele fez uma pausa, antes de repetir: — Miles?

       — Desculpe, Mannie — gritei. — Ainda não dormimos. Não posso fazer nada. Sabe que ficaremos acordados enquanto puder mos. Mas não vamos agüentar por muito mais tempo. Não podemos.

       Ele não respondeu. Agora, não havia como tentar imaginar por quanto tempo mais ficaríamos a sós. Eu detestava o que iríamos fazer, não me agradava depositar toda nossa esperança naquela débil idéia de Becky. Só que não conseguia pensar em mais nada.

       — Está certo, Becky.

       Levantei-me e fui pegar um rolo de esparadrapo. No armário de instrumentos, apanhei tudo o mais de que precisávamos. Voltando à mesa, desabotoei as mangas do vestido de Becky levantei-as e comecei a trabalhar.

       Não demorou muito tempo, talvez quatro minutos. Enquanto eu baixava as minhas mangas e Becky abotoava as delas, ela gesticulou com a cabeça:

     — Olhe, Miles.

       Virei-me para olhar, estreitando os olhos para certificar-me de que estava vendo direito. Os ossos amarelados no chão pareciam... diferentes. Não sei dizer como, mas olhando-os naquele momento não tive a menor dúvida de que estavam diferentes.

       Talvez a mudança fosse na cor, embora não posso afirmá-lo com certeza. Mas era também mais do que isso. O sentido da visão é mais sutil do que estamos acostumados a pensar; vê mais coisas do que lhe creditamos. Costumamos comentar: “Posso dizer pelo olhar.” Mesmo nas ocasiões em que não sabemos explicar como isso é possível, geralmente é verdadeiro. Aqueles ossos haviam perdido sua dureza, alguma consistência. Tenho de admitir que não sei direito o que estou querendo dizer com isso nem como podíamos ver. A forma dos esqueletos não havia mudado, mas... haviam perdido algum grau de rigidez ou firmeza.. Como um muro antigo de tijolos soltos, a forma ainda inalterada à vista, mas a argamassa se esfarelando, alguma força deixara os esqueletos. O que quer que estivesse segurando cada osso, proporcionando-lhe sua forma, estava obviamente enfraquecendo. E os olhos nos podiam dar tal informação.

       Procurando não acalentar esperança demasiada, pronto para o desapontamento, ainda não capaz de confiar inteiramente no que me diziam os olhos, fiquei olhando. E depois, numa fração de segundo, num pequeno segmento de dois ou três centímetros do cúbito, um dos dois ossos do antebraço, no esqueleto mais próximo, apareceu uma mancha cinzenta. Nada mais aconteceu por um instante, mas logo em seguida e cinza foi-se ampliando, estendendo-se nas duas direções, disparando pelo osso esbranquiçado. Mais um instante. . . Foi como uma seqüência de desenho animado, em que uma imagem é desenhada impossível-mente depressa, as linhas disparando em todas as direções mais depressa do que a visão pode acompanhar. Nos dois esqueletos no chão, diante dos nossos olhos, o cinza foi disparando pelos ossos, acompanhando suas linhas em incrível velocidade, espalhando-se pela caixa torácica num piscar de olhos. Depois, os ossos esbranquiçados desapareceram. Por um instante suspenso no tempo, os dois esqueletos ali ficaram perfeitamente compostos, absolutamente completos... formados por uma penugem cinzenta sem peso. Esse instante terminou e os esqueletos se desvaneceram, talvez soprados por uma aragem, transformando-se numa pequena pilha de poeira e nada no chão.

       Continuei parado por mais um instante, olhando para o chão, dominado por uma exultação desenfreada. Depois, respirei fundo e gritei com toda força:

       — Mannie!

       À porta do consultório no corredor abriu-se no mesmo instante e eles entraram, correndo, os rostos extremamente calmos e controlados. Apontei para a penugem cinza com a ponta do pé e eles pararam, olhando por um momento. Depois, Mannie tirou a chave do bolso e abriu a porta da sala de espera. Ao empurrá-la, a porta bateu em alguma coisa, alguma coisa dura, que estalou ao impacto da madeira. Mannie empurrou com força, a porta entreabriu-se um pouco mais, e em seguida ficou emperrada de vez. Depois, tão depressa quanto podíamos e um de cada vez, passamos de lado pela porta parcialmente bloqueada.

       Sobre o tapete castanho, entre esbranquiçados e amarelados, reproduzidos até os últimos detalhes inúteis, estavam os dois esqueletos, manchados de vermelho em alguns pontos, um punhado de cabelo preto aparecendo entre os ossos. Virados para. baixo, exibiam sorrisos macabros, como se achassem a maior graça da piada. Ao lado e por baixo deles, passando quase despercebidos no tapete, estavam os minúsculos fragmentos que restavam das duas imensas vagens.

       Mannie sacudiu a cabeça lentamente por diversas vezes, os lábios contraídos, pensando. Budlong disse:

       — Interessante, muito interessante mesmo... — Virou-se para mim, como se quisesse conversar, os olhos amistosos como sempre. — Sabia que isso nunca me ocorreu? E, no entanto, é perfeitamente possível. Interessante, muito interessante... — Virou-se e ficou novamente olhando para o chão. Mannie, com uma expressão pensativa, falou:

       — Muito bem, Miles, acho que vamos mesmo ter de levá-los para uma cela, até que possamos providenciar outras vagens. Desculpe, mas não há outro jeito.

       Limitei-me a menear a cabeça. E saímos todos do consultório, pela porta que dava para o corredor do prédio. Percorremos o corredor até a porta contra incêndio de metal, começando a descer a escada.

      

       Chet Meeker e o homenzinho gordo seguiam na frente. Becky e eu estávamos no meio, com Mannie e Budlong diretamente atrás de nós. Não havia qualquer motivo que eu pudesse pensar para esperar por mais tempo. Assim, quando nos aproximamos do patamar entre os andares, uni as mãos, os braços frouxos à minha frente. Enfiei o polegar e o indicador da mão esquerda por dentro da manga direita, e o polegar e o indicador da outra mão na manga esquerda. Os dedos encontraram e puxaram os esparadrapos logo acima dos punhos. E depois — era o plano de Becky — cada mão empunhava uma seringa hipodérmica carregada.

       Pisando no patamar, começando a fazer a volta da escada, o homenzinho gordo estava no lado esquerdo, segurando no corrimão, com Chet Meeker ao lado. Avancei subitamente, atrás deles, empurrando Becky para o lado com o cotovelo, jogando-a contra um canto do patamar. Estiquei as mãos para a frente, rapidamente, com toda força, as seringas presas firmemente entre os dedos, os polegares nos êmbolos. E injetei em cada homem 2cc de morfina, nos músculos grandes das nádegas.

       Eles gritaram e se viraram para mim, enquanto Mannie e Budlong se jogavam contra as minhas costas. Fui derrubado no chão de aço, violentamente, chutando e golpeando com as seringas. Mas quatro contra um era demais e fui rapidamente dominado. Uma das seringas foi chutada de minha mão, enquanto a outra era esmigalhada por um calcanhar. Seguraram-me um braço e uma perna, imobilizando-os. Pus-me a sacudir freneticamente o braço livre, tentando evitar que também o imobilizassem. Becky — pude ver claramente, assim como eles — estava encolhida no canto do patamar, comprimindo-se contra a parede de concreto, tentando manter-se afastada da massa de homens a se debater, braços e pernas voando em todas as direções. Ela se encolhia impotente, os olhos arregalados e apavorados, as mãos erguidas num gesto de horror, diante da boca entreaberta. Depois, enquanto eu continuava a me debater e espernear, o barulho das respirações ofegantes e grunhidos ecoando pela escada, os dedos de Becky — as mãos ainda levantadas, os olhos ainda arregalados e atônitos — mexeram nas mangas do vestido, desabotoando-as. Ela puxou as duas tiras de esparadrapo e avançou subitamente. Budlong e Mannie encontravam-se naquele momento inclinados sobre mim, tentando agarrar-me o braço. Becky cravou as seringas nos dois. Eles se empertigaram no mesmo instante. Fiquei imóvel, observando a cena, fascinado. Por um momento, ficamos todos imóveis, ajoelhados ou caídos no chão, como que suspensos no tempo. Eles olharam para Becky e depois para mim.

       — O que estão fazendo? — indagou Budlong, perplexo. — Não estou entendendo.

       Fiquei de joelhos, começando a me levantar e eles novamente se lançaram em cima de mim.

       Não é fácil calcular por quanto tempo continuamos lutando. Mas dali a pouco Chet Meeker, ajoelhado sobre meu braço, suspirou suavemente e tombou inerte para o lado, rolando a escada, devagar, degrau por degrau, ruidosamente, até que o pé enganchou no corrimão e ele parou, mexendo-se debilmente e fitando-os. Os outros olharam para ele, e Mannie disse:

       — Ei, o que houve?

       Depois, o homenzinho gordo, ajoelhado sobre minha cabeça, diretamente atrás de mim, as mãos em meu queixo, largou-me e tombou para trás, batendo na parede e ali ficando, sentado piscando os olhos, inteiramente atordoado.

       Budlong fitou-me, abrindo a boca para falar. Mas, no instante seguinte, seus joelhos vergaram e ele caiu sentado, com tanta força que o chão de aço vibrou. Depois, caiu de lado, murmurando alguma coisa que não consegui entender. Mannie estava agarrado no corrimão da escada com as duas mãos. Dobrou o corpo, encostando a testa nas costas das mãos. Depois de um momento, ajoelhou-se lentamente, a cabeça descaindo entre os braços ainda esticados, as mãos segurando o corrimão. Elas finalmente desprenderam e, ainda ajoelhado, Mannie tombou de todo no chão de metal corrugado, como um homem fazendo a prece muçulmana.

       Nós dois saímos correndo, não muito depressa. Eu não tinha esquecido que era muito fácil escorregar e quebrar um osso naquela escada de aço. Logo estávamos na porta de metal nos fundos do prédio, empurrando-a com toda a força.

       A porta não queria abrir. Estava trancada, o prédio vazio, dominado pelo silêncio de fim-de-semana. Não havia outra coisa a fazer senão voltar, atravessar todo o saguão do prédio, na direção das portas que se abriam para a Rua Throckmorton. Lembrei-me de dizer a Becky:

       — Mantenha os olhos um pouco arregalados e impassíveis, sem muita expressão no rosto. Mas não exagere.

       Empurrei finalmente as portas e saímos para a rua, entre os habitantes de Mill Valley, uma cidade morta e abandonada.

       Cinco passos depois, cruzamos com um homem da minha idade, colega na escola secundária. Com uma expressão desinteressada e despreocupada, simplesmente acenei com a cabeça, deixando que os olhos passassem pelo rosto dele num reconhecimento indiferente. Ele acenou da mesma forma e seguimos adiante. Passamos por uma mulher baixa e gorda, carregando uma sacola de compras. Ela não olhou para nós. Meia dúzia de metros adiante, um homem saiu do banco dianteiro de um carro estacionado e ficou parado no meio da calçada à nossa espera. Era um homem de uniforme, um guarda. Sam Pink.

       Não alterei os passos nem hesitei. Seguimos diretamente para cima dele e paramos. Falei, em tom monótono:

       — Agora estamos com vocês, Sam. Não é tão ruim assim.

       Ele assentiu, mas de rosto franzido, olhando para o rádio que zumbia no carro.

       — Eles ficaram de nos avisar. Kaufman deveria ligar para a delegacia e depois nos dariam o aviso.

       — Sei disso. Ele telefonou, mas a linha estava ocupada. Deve estar ligando de novo agora.

       Virei-me para gesticular com a cabeça na direção do prédio atrás de nós. Sam não tinha ficado nem mais nem menos inteligente. Continuou parado, fitando-me, pensando no que acabara de ouvir. Esperei, desinteressado. Um momento se passou. Depois, como se encarasse o silêncio como conclusão da conversa, sacudi a cabeça e disse:

       — Até a vista, Sam.

       E segui em frente, segurando o braço de Becky. Não olhamos para trás, não aumentamos nem diminuímos a velocidade. Caminhamos até a esquina e viramos à direita. Olhando para trás nesse momento, avistei Sam Pink entrando no prédio em que ficava meu consultório.

       E agora tratamos de correr, pelo meio quarteirão de pequenas casas, uma ruazinha sem saída, que terminava na linha de morros baixos, mais ou menos paralelos à Throckmorton. Na metade do caminho, uma mulher saiu do jardim de uma das casas e confrontou-nos. Era uma mulher pequena e idosa, que levantou a mão, à maneira abrupta e imperativa com que os velhos às vezes detêm o tráfego, a fim de atravessar a rua. O hábito nos domina. Parei, mesmo sabendo que aquela velha senhora, uma viúva, a Sra. Worth, não era absolutamente uma velha senhora e que eu deveria derrubá-la com um soco na cara, sem interromper a corrida. Mas não podia fazê-lo. Parecia uma mulher, idosa, pequena, frágil. Por um momento, fiquei parado na calçada, olhando-a. Depois, bruscamente, empurrei-a para o lado, com o braço estendido. Ela cambaleou para trás, quase caiu.

       E logo chegamos ao fim da calçada e nossos pés passaram a pisar em terra vermelha. Um instante depois, estávamos subindo, embrenhando-nos por uma das incontáveis trilhas que se encontram nas colinas do Condado de Marin. Estávamos escondidos da rua pelo mato alto, as moitas emaranhadas.

       Becky perdeu os sapatos, ou melhor, as sandálias, na primeira dúzia de passos. Embora eu soubesse o que a trilha, com suas pedrinhas, galhos, rochas e raízes, estavam fazendo e fariam com os pés dela, não podíamos parar.

       Não tínhamos muita chance. Ou melhor, não tínhamos praticamente nenhuma. Não procurei enganar-me. Conhecia aquelas trilhas, morros e estradas sinuosas, mas outros muitos outros, também os conheciam. E entre nós e a Rodovia 101, por onde passavam os carros e a humanidade do mundo exterior, havia mais de três quilômetros de morros, trilhas, campos, até mesmo uns poucos acres de terras aradas. Não conseguiríamos passar, se houvesse qualquer busca ou perseguição. E no instante mesmo em que pensei nisso, o sinal de incêndio da cidade começou a ressoar pelo ar, parecendo bem perto, já que o Corpo de Bombeiros ficava a menos de dois quarteirões de distância, em linha reta. Mill Valley não usa uma sirene para dar seus alarmes, mas sim um buzina rouca de ar. No timbre e estridência, lembra uma buzina de nevoeiro. Mas as notas profundas e curtas, emitidas em rápida sucessão, vibram pelo ar por muitos quilômetros, penetrando por toda parte. As explosões de som, idênticas e intermináveis, povoaram o ar e nossos ouvidos, despertando-nos uma profunda sensação de pânico. Compreendi que o alarme poderia fazer com que perdêssemos a cabeça, e assim simplesmente nos pusemos a correr, às cegas, desesperados.

       Eu sabia que homens já entravam em seus carros, motores eram ligados e os veículos partiam, levando perseguidores atrás de nós e à nossa frente. Mais e mais homens se lançavam à busca, a cada toque sinistro e assustador da buzina. Mais à frente, homens estavam saindo de suas casas para se espalhar pelos morros, procurando-nos ou simplesmente esperando. Os minutos seguintes, talvez não mais do que cinco, seriam os últimos momentos em que poderíamos acalentar alguma esperança de não sermos vistos.

       Um pouco mais acima da encosta, à direita, as moitas definhavam e davam lugar a um campo aberto, vazio, exposto, sem qualquer utilidade, coberto por um mato que se erguia à altura da cintura. Atravessando aquele campo ou qualquer outro dos que encontraríamos adiante, ficaríamos imediatamente visíveis ao primeiro homem que chegasse ao topo do morro ou alcançasse um espaço vazio em algum ponto abaixo da encosta. Contudo, continuar seguindo por aquela trilha nos iria inevitavelmente levar aos braços dos homens que certamente a estariam patrulhando dentro de minutos, assim como a outras trilhas.

       Segurando o braço de Becky, parei por um instante, dominado pela indecisão, confuso, em pânico, tentando decidir entre duas opções igualmente desesperançadas. Se estivesse escuro, não seríamos limitados pelas trilhas, o que ampliaria consideravelmente a área de busca e... Mas era dia e, apesar do nevoeiro, réstias de sol iluminavam os morros. A noite só começaria dentro de algumas horas.

       Virei-me bruscamente, puxando Becky para fora da trilha, subindo pela encosta até a beira do matagal exposto, momentaneamente iluminado pelo sol. Abaixando-me, comecei a recolher rapidamente grandes punhados de mato solto, arrancando as hastes, gesticulando para que Becky fizesse a mesma coisa. Não demorou muito para que tivéssemos uma volumosa carga de mato, como um punhado de trigo.

       — Siga na frente, Becky. Até o meio do matagal.

       Sem fazer perguntas, ela prontamente avançou através do matagal, deixando em sua esteira uma trilha de hastes inclinadas. Fui atrás dela, caminhando de lado, com o braço livre puxando as hastes que tinham ficado inclinadas. Avancei rapidamente, trabalhando com um cuidado desesperado. Depois de avançarmos por cerca de 20 metros, não avistei mais qualquer trilha visível atrás de nós.

       Agora, no meio do matagal, mandei que Becky se deitasse e depois me deitei ao lado dela. Espalhei o mato que Becky carregara por cima de nós, cobrindo-nos. Peguei as hastes que eu mesmo trouxera e espalhei-as também por cima de nós, em posição vertical, apoiadas por elas mesmos e pelo mato ao redor.

       Eu não sabia o que poderia ver um observador parado à beira do matagal. Mas sem qualquer trilha que indicasse nossa passagem, esperava que passássemos despercebidos. Esperava que não ocorresse a ninguém que nos fôramos esconder num matagal amplo e descoberto, que aparentemente podia ser revistado a um só olhar. O caçador sempre espera que o fugitivo não pare, disse a mim mesmo.

       Vários minutos se passaram. Depois, aparentemente bem perto, ouvi uma voz gritar. Não entendi direito o que ele falou, mas pareceu-me que era um nome, Al ou qualquer coisa assim. Outra voz respondeu “Sim” e ouvi o barulho de gravetos sendo pisados por algum tempo. O barulho foi-se afastando. Peguei a mão de Becky e apertei-a.

      

       Ficamos deitados por um longo período, imóveis, terrivelmente inconfortáveis, depois dolorosamente inconfortáveis. Mas não nos mexemos, nem mudamos de posição. De vez em quando ouvíamos vozes, tanto na trilha perto de nós como em outras mais distantes. Em determinado momento, que pareceu ter sido um longo tempo, embora provavelmente não durasse mais do que três ou quatro minutos, ouvimos dois homens conversarem tranqüilamente, subindo o morro devagar, atravessando o matagal em que estávamos. As vozes foram ficando mais perto, aumentando de volume, até que ambos passaram por nós, a menos de 30 metros de distância. Creio que poderíamos ter ouvido nitidamente o que eles estavam dizendo, mas eu estava apavorado demais e concentrado em calcular por onde eles iriam passar para prestar qualquer atenção às palavras. Por diversas vezes, ao longe, ouvimos buzinas de automóveis.. Eram buzinas longas e curtas, em alguma espécie de código.

       Depois de muito tempo, começamos a sentir frio, a umidade se elevando da terra por baixo de nós. Eu sabia que o sol estava baixo, o tempo passara e não seríamos encontrados, pelo menos se continuássemos deitados no chão.

       Decidi que continuaríamos ali até a escuridão total. Quando a noite chegou, estávamos enregelados até os ossos, tremendo de frio incontrolavelmente. Tive de cerrar os dentes com toda a força, até as mandíbulas doerem. Era o único jeito de evitar que os dentes começassem a chocalhar.

       Finalmente nos levantamos, os músculos entorpecidos, mal conseguindo ficar de pé. Compreendi que a escuridão trouxera algumas vantagens. Não podíamos ser vistos agora até mesmo de uma distância de oito ou dez metros. Massas de nevoeiro, outro fator que nos ajudava consideravelmente, pairavam baixo no céu e sobre a terra. Mas havia também a lua em quarto crescente brilhando por cima de nossas cabeças. Eu sabia que haveria ocasiões, muito antes de alcançarmos a rodovia, em que poderíamos ser vistos claramente. Além disso, durante o tempo em que ficáramos imóveis e silenciosos no matagal, a busca deveria ter sido devidamente organizada, formando-se diversos grupos, sob uma orientação geral. Todos os homens, mulheres e crianças crescidas de Mill Valley, em boas condições físicas, estariam participando da busca. E só havia uma direção para a qual poderíamos seguir. E foi para lá, a Rodovia 101, que começamos a caminhar. Só que eles sabiam disso tanto quanto nós.

       Não conseguiríamos escapar. Isso era certo e eu podia compreendê-lo. Poderíamos apenas tentar aproveitar todas as chances que aparecessem, sem nos entregar, sem ceder coisa alguma, lutando sempre, até o último instante que nos restasse.

       Cada um estava com um dos meus sapatos. Becky não podia usar os dois, pois eram grandes demais. Mas com um lenço colocado no calcanhar do sapato, ela podia evitar de perdê-lo. Seguia arrastando-o e levantando-o cuidadosamente. Com a ajuda do pé metido em meias, avançávamos pela escuridão tão silenciosamente quanto podíamos, Becky segurando meu braço. Eu me orientava pelos formatos das cristas das colinas, por uma paisagem familiar ocasional e pela intuição pura e simples.

       Uma hora se passou. Havíamos percorrido quase dois quilômetros, sem encontrar ninguém, sem ouvir qualquer pessoa. Uma ilusão de esperança começou a se avolumar dentro de mim. Imaginei mentalmente, como um mapa, o que havia à nossa frente. Não pude conter-me e comecei a nos visualizar alcançando a estrada, atravessando-a, interrompendo o tráfego, pneus rangendo em freadas bruscas, 20 ou até 100 carros parados, com os pára-choques grudados, ocupados por pessoas vivas, genuínas.

       Continuamos em frente, percorrendo pouco menos de um quilômetro em meia hora. Depois, estávamos descendo pela encosta suave da última colina, na direção da faixa de terra descampada que margeava a rodovia, ao longo de um vale estreito e raso. Avançamos mais uma dúzia de passos, e nesse momento a lua irrompeu através de uma abertura nas camadas baixas de nevoeiro em movimento. No pequeno vale lá embaixo, pudemos divisar as cercas, algumas muito antigas, do tempo em que aquela área era cultivada. Um pouco à esquerda, podíamos notar os contornos escuros de um estábulo. Cavalos de montaria eram mantidos ali. Num campo adjacente, quase plano, vi algo que nunca antes percebera. Entre fileiras paralelas do que pareciam ser valas de irrigação, havia canteiros sucessivos de... talvez repolhos, talvez abóboras, coisas que não eram cultivadas ali, assim como nenhuma outra coisa, ao que eu soubesse. Eram esferas, glóbulos escuros à luz débil do luar, crescendo em canteiros compridos, perfeitamente espaçados. Subitamente, compreendi o que eram. Becky, ao meu lado, prendeu a respiração ruidosamente, também percebendo. Lá estavam as novas vagens, já imensas e ainda crescendo, centenas delas, iluminadas pelo luar.

       A cena me apavorou, deixou-me aterrorizado. Não podia admitir a idéia de passar por lá, caminhar através daquelas vagens monstruosas. Sentia engulhos só de pensar em roçar numa delas. Mas não havia outro jeito. Sentamo-nos, esperando que o nevoeiro novamente ocultasse a lua.

       O que não demorou a acontecer. A claridade diminuiu, mas não o suficiente. Eu queria atravessar aquele campo aberto na maior escuridão que a noite nos pudesse proporcionar. Por isso, continuamos sentados na encosta escura da colina, esperando.

       Eu estava muito cansado e fiquei sentado, meio inclinado olhando atordoado para o chão, enquanto esperava que escurecesse inteiramente. O campo lá embaixo, em que estavam as vagens, era estreito, talvez com 30 metros de largura, não mais do que isso. Ao lado, havia um matagal alto, escondendo a plantação de quem passasse pela estrada.

       Abruptamente, percebi o que iria acontecer. Podia agora compreender por que conseguíramos chegar tão longe sem encontrar ninguém. Não havia sentido em dispersarem suas forças pelo território que percorrêramos, tentando descobrir-nos na escuridão. Em vez disso, eles estavam simplesmente à nossa espera, centenas de vultos silenciosos parados lado a lado numa fileira sólida, escondidos pelo matagal que nos separava da rodovia. Assim, inevitavelmente, avançaríamos para os braços e mãos à espera.

       Mas disse uma coisa a mim mesmo: há sempre uma chance. Homens já escaparam das prisões mais rigorosamente vigiadas que outros homens podiam conceber. Prisioneiros de guerra já haviam percorrido centenas de quilômetros através de territórios povoados por milhões de pessoas, cada uma sua inimiga. Um golpe de sorte, uma brecha momentânea na linha no momento certo, um equívoco de identidade por causa da escuridão... Até o momento em que se é apanhado, sempre há uma chance de escapar.

       E depois compreendi que não poderíamos correr qualquer risco de sermos apanhados. O nevoeiro turbilhonou e afastou-se da frente da lua por um momento. Pude ver novamente as vagens, em fileira após fileira, tenebrosas, ameaçadoras. Se fôssemos apanhados, o que aconteceria com aquelas vagens? Não tínhamos o direito de nos desperdiçar numa tentativa de fuga praticamente impossível. Estávamos ali... com as vagens Muito embora fosse uma atitude desesperada, muito embora tornasse a captura uma certeza absoluta, tínhamos de aproveitar a oportunidade de fazer alguma coisa contra as vagens. Se tivéssemos alguma sorte, seria assim que deveríamos usar o pouco tempo de liberdade que nos restava.

       Um minuto se passou antes que o nevoeiro voltasse a obscurecer a lua. Foi um processo lento, a claridade diminuindo gradativamente. Assim que ficou novamente escuro, levantamo-nos e descemos silenciosamente a colina, na direção do monstruoso campo lá embaixo. À beira dele, havia um pequeno galpão, para onde seguimos apressadamente, roçando de vez em quando nas vagens e pulando sobre as valas de irrigação.

       No galpão, junto com o pequeno trator que abrira as valas e preparara os sulcos para a plantação, havia seis latões de metal de gasolina sobre o chão de terra batida, encostados numa parede. Fui invadido por uma intensa excitação, uma força súbita fazendo o sangue circular mais depressa nas veias. Era uma ação inútil, é claro, pois havia centenas de vagens. Mas era preciso aproveitar a oportunidade de fazer alguma coisa. Pus dois tabletes de benzedrina na mão de Becky e tomei outros dois. Depois, Becky me ajudou a virar de lado o primeiro tambor de gasolina. Levei 10 minutos revistando o pequeno galpão, acendendo um fósforo depois de outro, até encontrar a enferrujada chave inglesa pendurada num caibro. Depois, rolamos o tambor pelai porta, até a vala de irrigação mais próxima. Com o tambor em posição, desatarraxei a tampa com a chave inglesa, terminando o serviço com a mão, a gasolina esguichando entre meus dedos. Assim que a tampa saiu inteiramente, a gasolina foi-se derramando pela vala de irrigação. Prendi o tambor na posição com um pouco da terra e me afastei.

       Dali a pouco os tambores de gasolina estavam alinhados no começo de seis valas de irrigação, o primeiro já quase vazio. Dez minutos se passaram, durante os quais ficamos sentados em silêncio, esperando. Finalmente, o fluxo de gasolina do último tambor cessou, restando apenas um lento gotejar. Ajoelhei-me ao lado de uma das valas, sentindo o bafo da gasolina arder-me nos olhos. Acendi um fósforo e larguei-o na vala. Apagou-se no mesmo instante. Acendi outro e desci-o lentamente, até que a extremidade da chama encostou na superfície brilhante. Pude ver meu rosto refletido na superfície. O fogo pegou, uma pequena chama azulada que cresceu para um círculo, do tamanho de uma moeda de meio dólar, adquirindo um instante depois a diâmetro de um pires. A fumaça subiu e afastei a cabeça. Chamas vermelhas surgiram entre as azuladas tomando toda a largura da vala, e logo depois pondo-se a correr por sua extensão.

       O calor aumentou e se multiplicou, as chamas começaram a crepitar, cada vez mais altas e vermelhas, a fumaça preta turbilhonando. Parados, ficamos observando o fogo se espalhar, aumentar de altura, correr em linhas paralelas pelo campo, invadir as pequenas valas de ligação, as vagens escuras delineadas pelas chamas avermelhadas. A primeira vagem pegou fogo numa chama clara, quase incandescente, a fumaça branca. Depois foi a vez da segunda, terceira, quarta... Agora, as vagens pegavam fogo e estouravam, continuamente, uma depois da outra, como o tique-taque de um relógio, desprendendo uma fumaça que assumia o formato de cogumelo. O súbito ruído de centenas de vozes aproximando-se de nós, através do matagal além, parecia uma onda se derramando em nossos ouvidos.

       Talvez por um minuto, pensei que tínhamos vencido. E depois, como não podia deixar de acontecer, a gasolina de apenas seis tambores foi inteiramente consumida. Uma depois da outra, as linhas vermelhas de fogo foram diminuindo e pararam, procurando os últimos resquícios de gasolina. As fileiras de vagens incendiadas ainda brilhavam, mas as chamas eram agora mais vermelhas, a fumaça branca aumentava, nenhuma outra vagem se incendiava. As chamas, mais altas que um homem de pé, caíram abruptamente para a altura da cintura, baixando continuamente. As linhas vermelhas de fogo, antes contínuas, estavam agora interrompidas em vários pontos. Quase no mesmo instante, as chamas que cobriam talvez meio acre da plantação se desvaneceram para meras labaredas... enquanto centenas de pessoas continuavam a avançar para cima de nós.

       Eles praticamente não nos tocaram. Não tinham raiva, não experimentavam qualquer emoção. Stan Morley, o joalheiro, simplesmente encostou a mão de leve em meu braço, enquanto Ben Ketchel ficava ao lado de Becky, para o caso de ela tentar correr. Os outros se agruparam ao nosso redor, fitando-nos sem curiosidade.

       E nós dois, no meio daquela multidão de centenas de pessoas, começamos lentamente a subir a colina pela qual descêramos. Ninguém nos segurava, não havia praticamente qualquer conversa, nenhum excitamento. Simplesmente fomos subindo pela colina. Com um braço em torno da cintura de Becky, a outra mão segurando-lhe o braço, procurei ajudá-la da melhor forma possível, os olhos no chão, sem pensar em nada, sem sentir coisa alguma, exceto um grande cansaço.

       E depois... o vasto murmúrio de centenas de vozes ao nossa redor soou novamente. Levantei a cabeça. O murmúrio cessou abruptamente e vi que todos tinham parado. Estavam imóveis, de frente para o pequeno vale de onde subíramos, os rostos levantados para o céu, iluminados pelo luar.

       Olhei também para o céu e, ao luar, vi o que eles contemplavam. O céu por cima de nós estava salpicado de pontos. Eram mais do que pontos: um enxame impressionante de glóbulos a subir lentamente pelo céu. Um último véu de nevoeiro saiu da frente da lua, e o céu clareou inteiramente. Contemplei as imensas vagens, o campo de onde tinham saído quase vazio agora. Depois, as últimas vagens ainda no chão se mexeram, rompendo as hastes que as prendiam. E subiram também, atrás das outras, enquanto observávamos. Os glóbulos foram lentamente diminuindo de tamanho, jamais se tocando ou esbarrando, subindo sempre, cada vez mais alto, para o céu e o espaço além.

 

       Revelação é a palavra que se usa para designar um complexo de pensamentos que nos ocorrem subitamente, com o tremendo impacto da verdade absoluta. Parado ao lado de Becky, imóvel, a boca entreaberta, a cabeça inclinada para trás, contemplando aquela cena inacreditável no céu noturno, compreendi mil coisas que levaria minutos para explicar e outras que não conseguiria fazê-lo em uma vida inteira.

       As imensas vagens, os esporos espaciais, estavam simplesmente deixando um planeta bárbaro e inóspito. Compreendi isso com certeza absoluta, e uma onda de exultação violenta me percorreu o corpo, fazendo-o tremer. Sabia que Becky e eu havíamos desempenhado uma parte dos acontecimentos que levaram àquela cena. Não fôramos e não poderíamos ter sido, conforme eu compreendia agora, as únicas pessoas que haviam descoberto o que estava acontecendo em MUI Valley e resistido. Muitos outros, indivíduos e pequenos grupos, tinham feito a mesma coisa que nós, simplesmente se recusando a ceder. Muitos haviam perdido, mas alguns não foram capturados e lutaram implacavelmente até o fim. Um fragmento de um discurso de guerra passou-me pela cabeça: Lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas; e nunca nos renderemos. Era verdade para um povo, sempre havia sido verdade para toda a raça humana. Agora, eu sentia que nada, em todo o universo, poderia jamais nos derrotar.

       Será que aquela forma de vida extraterrena havia também “pensado” ou “sabido” disso? Provavelmente não. Assim como não poderia pensar qualquer das coisas que nossas mentes são capazes de conceber. Mas sentira... sentira com certeza absoluta que este planeta, esta pequena raça, jamais a acolheria, jamais se submeteria. E Becky e eu, recusando-nos à rendição, mas em vez disso lutando contra a invasão até o fim, renunciando a qualquer esperança de fuga pela oportunidade de destruir algumas vagens, havíamos proporcionado a confirmação final da verdade. E por isso, para sobreviverem, o seu único propósito e função, as imensas vagens haviam subido pelo céu, atravessando o nevoeiro, a caminho do espaço exterior de onde tinham vindo, deixando para trás um planeta inóspito, avançando a esmo para sempre ou... mas não tinha importância.

       Não sei por quanto tempo ficamos olhando para o céu. Dali a pouco, os pequenos pontos se tornaram quase invisíveis, e quando, cansado, pisquei os olhos, não os pude mais ver em seguida.

       Fiquei abraçando Becky, apertando-a contra mim, em silêncio. Ouvi novamente o murmúrio, mais tranqüilo agora. Levantamos a cabeça e vimos que as pessoas ao nosso redor estavam-se afastando, subindo a colina, de volta à cidade condenada de onde tinham vindo. Foram-se dispersando, os rostos impassíveis, desprovidos de qualquer emoção, uns poucos nos olhando ao passarem, a maioria não mais se interessando agora. Becky e eu descemos a colina, passando pelo meio deles. Estávamos imundos, as roupas amarrotadas, claudicando, um pé calçado, outro descalço, exaustos, mas nos sentindo vitoriosos. Em silêncio, passamos pelo último vulto, chegamos à base da colina e seguimos para a rodovia, ao encontro do resto da nossa espécie.

       Passamos aquela noite com os Belicecs. Fomos encontrá-los em sua casa, onde haviam resistido, combatendo o sono até o fim, agora finalmente livres. Theodora dormia numa poltrona, Jack estava sentado olhando pela janela imensa de sua sala, à nossa espera. Não havia na verdade muito para se dizer, embora tenhamos falado, com uma exultação cansada, sorrindo sem parar. Depois, em menos de 20 minutos, todos dormíamos, na mais profunda exaustão.

       A história nem sequer chegou aos jornais. Atravesse a Ponte Golden Gate atualmente e entre no Condado de Marin, seguindo até Mill Valley. Vai encontrar simplesmente uma típica pequena cidade americana, em algumas coisas mais desmantelada do que o normal. Contudo, não chega a haver nada de surpreendente. Algumas pessoas, em torno do ponto de ônibus, podem parecer-lhe estranhas, apáticas e alheias, e talvez o impressionem como inamistosas. Verá mais casas vazias e para alugar do que o normal. O índice de mortalidade na cidade é mais alto do que a média do condado e, às vezes, é difícil saber o que se pode escrever como causa mortis, num atestado de óbito. Na cidade e na região ao redor, grupos de árvores, trechos de vegetação e alguns animais às vezes morrem sem qualquer razão aparente.

       Mas, de um modo geral, não há muito para se ver ou dizer a respeito de Mill Valley. As casas vazias estão sendo rapidamente ocupadas — afinal, é um condado e um Estado com grande população — e há novos habitantes na cidade, a maioria constituída por jovens casais com filhos. Há um, de Nevada, vivendo ao lado da minha casa e de Becky. Ainda não sabemos os nomes deles. Dentro de um ano, talvez dois ou três, Mill Valley não parecerá diferente de qualquer outra pequena cidade dos Estados Unidos. Dentro de cinco anos, talvez menos, não haverá qualquer diferença. E o que aqui aconteceu irá desaparecer na incredulidade final.

       Mesmo agora, com os acontecimentos ainda recentes, há ocasiões, que se vão tornando mais e mais freqüentes, em que não mais tenho certeza do que de fato vimos, do que realmente sucedeu. Creio que é perfeitamente possível que não tenhamos realmente visto, ou interpretado corretamente o que julgamos ter acontecido. Não sei, não posso afirmar coisa alguma. A mente humana exagera e ilude a si própria. E também não me importo muito. Estamos juntos, Becky e eu, para o melhor e para o pior.

       Mas... chuvas de pequenas rãs, minúsculos peixes e misteriosas pedrinhas de vez em quando caem dos céus. Aqui e ali, sem qualquer explicação possível, homens são queimados até a morte dentro de suas roupas, que ficam intactas. E, de vez em quando, as seqüências de tempo ordenadas e imutáveis são inexplicavelmente transformadas e alteradas. Lemos, por vezes, essas estranhas notícias, em geral escritas em tom irônico. Ou então ouvimos rumores vagos e distorcidos a respeito. E de uma coisa tenho certeza: algumas dessas histórias, algumas, não todas, são verdadeiras.

 

                                                                                Jack Finney  

 

                      

O melhor da literatura para todos os gostos e idades

 

 

              Biblio"SEBO"