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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS MÁGICOS DE CAPRONA / Diana Wynne Jones
OS MÁGICOS DE CAPRONA / Diana Wynne Jones

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

Os feitiços são a coisa mais difícil do mundo de fazer direito: esta era uma das primeiras coisas que as crianças da família Montana aprendiam. Qualquer pessoa pode usar um amuleto, mas na hora de fabricar esse amuleto, seja ele escrito, falado ou cantado, tudo precisa sair certinho, senão acontecem as coisas mais incríveis.

Um exemplo disto é a jovem Angélica Petrocchi, que deixou o pai verde-claro quando entoou uma nota desafinada. Durante semanas, em Caprona — aliás, em toda a Itália — não se falou de outra coisa.

Os melhores feitiços ainda são feitos em Caprona, apesar dos problemas recentes. Na Casa Montana ou na Casa Petrocchi. Se uma pessoa usa um feitiço que realmente funcione, seja para melhorar a recepção do aparelho de rádio ou para fazer os tomates crescerem, então é bem provável que alguém da família dela tenha ido passar as férias em Caprona e trazido de lá o feitiço. Ao longo da Ponte Velha, em Caprona, vêem-se pequenos oratórios de pedra onde envelopes, tirinhas de feitiço e pergaminhos ficam pendurados em barbantes, como flâmulas.

 

 

 

 

Em Caprona é possível encontrar feitiços vindos de todas as casas especializadas da Itália. Cada feitiço tem a sua etiqueta com as instruções e o selo da casa que o fabricou; se uma pessoa quiser descobrir quem fez o feitiço que ela está usando, é só procurar nos documentos da família: se ela encontrar um documento comprido, cor de cereja, carimbado com um leopardo negro, então ele veio da Casa Petrocchi; se for um envelope verde-musgo carimbado com um cavalo alado, então foi a Casa Montana que o fez. Os feitiços de ambas as Casas são tão bons que as pessoas ignorantes pensam que até mesmo os envelopes conseguem fazer mágicas. Isto é bobagem, naturalmente. Pois, como foi dito muitas e muitas vezes a Paolo e Tonino Montana, um feitiço consiste em palavras corretas usadas da maneira correta.

As grandes Casas Petrocchi e Montana remontam à fundação do Estado de Caprona, há mais de 700 anos. E entre ambas existe uma rivalidade exacerbada: os membros de uma família nem sequer falam com os da outra. Se um Petrocchi e um Montana se encontram em alguma das ruas estreitas e calçadas de paralelepípedos dourados de Caprona, desviam os olhos e se esquivam um do outro como se ambos estivessem passando por um chiqueiro. As crianças são enviadas para escolas diferentes e recebem ordens de nunca, jamais, trocar uma só palavra com alguma criança da outra Casa.

Às vezes, no entanto, grupos de jovens rapazes e moças dos Montana e dos Petrocchi encontram-se casualmente, à noitinha, quando estão a passear pela rua larga chamada Corso. Quando isto acontece, os outros cidadãos imediatamente procuram abrigo. Se a luta for com punhos e pedras, é bastante ruim, mas se for com feitiços pode ser apavorante.

Um exemplo disso foi quando o arrojado Rinaldo Montana fez chover do céu esterco de vaca sobre o Corso durante três dias. Aquilo produziu uma grande consternação entre os turistas.

— Um Petrocchi me insultou — Rinaldo explicou depois, com seu sorriso mais simpático. — E por acaso eu tinha no bolso um feitiço novinho.

Os Petrocchi, maldosamente, alegaram que, no calor da batalha, Rinaldo tinha cometido um erro no feitiço, pois todo o mundo sabia que todos os feitiços de Rinaldo eram encantamentos de amor.

Os adultos de ambas as casas nunca explicaram às crianças exatamente o motivo que fez com que os Montana e os Petrocchi se detestem tanto assim. Esta é uma tarefa tradicionalmente delegada aos irmãos, irmãs e primos mais velhos. Paolo e Tonino ouviram a história repetidamente, contada por suas irmãs Rosa, Corinna e Lucia, por seus primos Luigi, Cario, Domenico e Anna, e novamente pelos primos em segundo grau Piero, Luca, Giovanni, Paula, Teresa, Bella, Angelo e Francesco. Eles próprios a contaram a seis primos mais jovens quando estes foram crescendo. Os Montana são uma família grande.

Segundo a história, há 200 anos o velho Ricardo Petrocchi enfiou na cabeça que o Duque de Caprona estava encomendando mais feitiços dos Montana do que dos Petrocchi, e a respeito disso escreveu ao velho Francesco Montana uma carta bastante ofensiva. O velho Francesco ficou tão zangado que prontamente convidou todos os Petrocchi para um banquete; explicou que tinha uma iguaria nova e queria que eles experimentassem. Então enrolou a carta de Ricardo Petrocchi, formando palitos compridos, e lançou sobre ela um dos seus feitiços mais poderosos. E a carta transformou-se em espaguete. Os Petrocchi devoraram tudo gulosamente e todos ficaram doentes, especialmente o velho Ricardo — pois nada faz tão mal a uma pessoa quanto ser obrigada a engolir as suas próprias palavras. Ele nunca perdoou Francesco Montana, e desde então as duas famílias eram inimigas.

— E foi assim que surgiu o espaguete — contava Lucia, que é quem conta a história com mais freqüência, sendo apenas um ano mais velha que Paolo.

Foi Lucia quem lhes contou em cochichos todos os horríveis hábitos pagãos que os Petrocchi tinham: eles nunca iam à igreja ou se confessavam, nunca tomavam banho ou mudavam de roupa, nenhum deles jamais se casou mas — aqui ela sussurrava ainda mais baixo — tinham filhos como se fossem gatos; eram capazes de afogar os filhos que não desejavam criar, também como gatos, e dizia-se que comiam os tios e tias indesejáveis; e eram tão sujos que da Via Sant’Angelo dava para sentir o fedor da casa dos Petrocchi e escutar o zumbido das moscas.

Havia muitas outras coisas, algumas delas bem piores que essas, pois Lucia tinha uma imaginação fértil. Paolo e Tonino acreditavam em todas elas, e odiavam os Petrocchi de todo o coração, embora muitos anos tenham passado antes que eles pusessem os olhos num Petrocchi. Quando ainda eram bem pequenos, eles fugiram certa manhã e desceram a Via Sant’Angelo, chegando quase à Ponte Nova, para olhar a casa dos Petrocchi. Mas não havia fedor nem moscas para guiá-los, e a irmã deles, Rosa, encontrou-os antes que eles achassem a casa. Rosa, que era oito anos mais velha que Paolo e já estava bem crescida, riu quando eles explicaram sua dificuldade, e, de bom humor, levou-os até a casa dos Petrocchi. Era na Via Cantello, não na Via Sant’Angelo.

Paolo e Tonino ficaram muito decepcionados com a casa. Era igualzinha à casa dos Montana. Era ampla, como a casa dos Montana, e construída com as mesmas pedras douradas de Caprona, e provavelmente tinha a mesma idade. O grande portão da frente era de madeira antiga e cheia de nós, exatamente como o deles, e havia até a mesma figura dourada do Anjo acima do portão. Rosa contou-lhes que os dois Anjos eram em memória do Anjo que surgira para o primeiro Duque de Caprona, trazendo consigo um pergaminho com uma música do Céu — mas os meninos já sabiam disso. Quando Paolo comentou que a casa dos Petrocchi não parecia cheirar mal, Rosa mordeu o lábio e disse, com gravidade, que não havia muitas janelas nas paredes externas, e que todas estavam fechadas.

— Imagino que tudo aconteça no pátio, exatamente como na nossa casa — ela explicou. — Provavelmente o fedor fica por lá.

Os meninos concordaram que provavelmente era isso mesmo, e queriam esperar para ver um Petrocchi sair. Mas Rosa declarou que achava isso muito imprudente e carregou-os de lá. Os meninos olhavam por cima do ombro enquanto eram arrastados por ela e viram que a casa dos Petrocchi tinha quatro torres de pedras douradas, uma em cada canto, ao passo que a casa dos Montana só tinha uma, em cima do portão.

— É porque os Petrocchi são uns exibicionistas. Vamos embora — disse Rosa, puxando-os.

Já que as torres tinham como telhado um pequeno chapéu de telhas vermelhas igualzinho aos telhados da casa dos Montana e de todas as casas de Caprona, Paolo e Tonino não as acharam particularmente grandiosas, mas não gostavam de discutir com Rosa. Sentindo-se muito decepcionados, deixaram que ela os arrastasse de volta para a casa dos Montana e os levasse através do seu próprio portão de madeira cheia de nós para o pátio movimentado. Ali, Rosa deixou-os e subiu correndo os degraus que levavam à varanda, gritando:

— Lucia! Lucia! Onde é que você está? Quero ter uma conversinha com você!

Em toda a volta do pátio abriam-se portas e janelas; a varanda, no segundo andar, com sua balaustrada de madeira e seu telhado de telhas, estendia-se por três lados do pátio e levava aos aposentos desse andar. Tios, tias, primos grandes e pequenos, além de gatos, atarefavam-se por toda parte, rindo, cozinhando, discutindo feitiços, lavando roupa, tomando sol ou brincando. Paolo soltou um suspiro de contentamento e pegou no colo o gato mais próximo.

— Não acredito que a casa dos Petrocchi possa ser parecida com a nossa por dentro — afirmou.

Antes que Tonino pudesse concordar, ambos foram carinhosamente abraçados pela Tia Maria, que era mais gorda do que a Tia Gina porém não tão gorda quanto a Tia Anna.

— Onde é que vocês andavam, meus amores? Há mais de meia hora estou pronta para a aula de vocês!

Todos na Casa Montana trabalhavam muito. Paolo e Tonino já estavam aprendendo as primeiras regras para produzir feitiços. Quando Tia Maria estava ocupada, quem lhes ensinava era o pai deles, Antonio. Antonio era o primogênito do Velho Niccolo, e seria o chefe da Casa Montana quando o Velho Niccolo morresse. Paolo achava que esse fato pesava na mente do pai; Antonio era um homem magro e preocupado, que ria com menos freqüência do que os outros Montana. Ele era diferente. Uma das diferenças era que, em vez de deixar o Velho Niccolo escolher criteriosamente uma esposa para ele em uma Casa italiana, Antonio tinha ido fazer uma visita à Inglaterra e voltado de lá casado com Elizabeth. Elizabeth ensinava canto aos meninos. Ela gostava de dizer:

— Se aquela tal de Angélica Petrocchi tivesse aprendido comigo a entoar feitiços, ela nunca deixaria alguém verde.

O Velho Niccolo dizia que Elizabeth era a melhor musicista de Caprona. E essa, segundo o que Lucia contou aos meninos, tinha sido a razão por que Antonio conseguira casar-se com ela. Mas Rosa disse a eles para não dar ouvidos a isso; ela tinha orgulho de ser metade inglesa.

Era provável que Paolo e Tonino tivessem ainda mais orgulho de serem da família Montana. Era uma coisa grandiosa saber que pertenciam a uma família conhecida mundialmente como a maior casa de feitiços da Europa (sem contar os Petrocchi). Havia ocasiões em que Paolo mal conseguia esperar crescer para ser como seu primo, o arrojado Rinaldo. Tudo era fácil para Rinaldo; as meninas se apaixonavam por ele, os feitiços jorravam de sua caneta. Ele compusera sete feitiços novos antes de terminar a escola. E, como dizia o Velho Niccolo, naqueles tempos não era fácil fazer um feitiço novo, de tantos que já existiam. Paolo tinha uma admiração desesperada por Rinaldo. Declarou a Tonino que Rinaldo era um Montana de verdade.

Tonino concordou, porque era mais de um ano mais novo que Paolo e acatava as opiniões do irmão, mas sempre lhe parecera que era Paolo o verdadeiro Montana. Paolo era tão esperto quanto Rinaldo; conseguia aprender, sem se esforçar, feitiços que Tonino levava dias para dominar. Tonino era lento; só conseguia decorar as coisas se as repetisse vezes sem conta. Parecia-lhe que Paolo havia nascido com um instinto para a magia que ele próprio não possuía.

Às vezes Tonino ficava bastante deprimido por causa da sua lentidão. Ninguém mais se desesperava com isso; todas as irmãs dele, até mesmo a estudiosa Corinna, passavam horas ajudando-o. Elizabeth assegurava-lhe que ele nunca cantava fora do tom, o pai o repreendia por estudar demais e Paolo afirmava que ele estaria muito à frente das outras crianças quando entrasse para a escola. Paolo acabara de entrar para a escola e se mostrava tão inteligente para as aulas normais quanto era para os feitiços.

Mas quando Tonino começou a ir à escola, mostrou-se tão lento lá quanto era em casa. A escola o deixava confuso, porque ele não conseguia entender o que os professores queriam que ele fizesse. Quando chegou o primeiro sábado, ele estava tão infeliz que saiu escondido de casa e vagou por Caprona em prantos. Ficou desaparecido durante horas.

— Não tenho culpa de ser mais rápido que ele! — Paolo exclamou, quase chorando também.

Tia Maria correu para Paolo e abraçou-o.

— Ora, ora, não vá você começar também! Você é tão inteligente quanto o meu Rinaldo, e todos nós temos orgulho de você.

— Lucia, vá procurar Tonino — Elizabeth pediu. — Paolo, você não deve se preocupar tanto. Tonino está absorvendo os feitiços sem se dar conta disso. Aconteceu a mesma coisa comigo quando vim para cá. Será que devo contar isso a Tonino? — ela perguntou a Antonio.

Antonio viera correndo da varanda. Na Casa Montana, quando alguém tinha problemas o resto da família sempre acorria. Antonio esfregou a testa.

— Talvez. Vamos lá perguntar ao Velho Niccolo. Venha, Paolo. Paolo seguiu o pai magro e lépido através dos desenhos que o sol fazia na varanda, até o frescor azul do Scriptorium. Lá, suas outras duas irmãs, Rinaldo e outros cinco primos, além de dois dos tios, estavam de pé junto a escrivaninhas altas, copiando feitiços de livros enormes, encadernados em couro. Cada livro tinha uma fechadura de cobre, para que os segredos da família não pudessem ser roubados. Antonio e Paolo atravessaram a sala pé ante pé. Rinaldo sorriu para eles sem parar de copiar. Enquanto outras canetas arranhavam e estacavam, a de Rinaldo disparava.

No aposento atrás do Scriptorium, Tio Lorenzo e o Primo Domenico estavam carimbando cavalos alados em envelopes verde-musgo. Quando eles passaram por ali, Tio Lorenzo lançou um olhar intenso para o rosto deles e concluiu que o problema não era grande demais para o Velho Niccolo sozinho. Piscou para Paolo e ameaçou carimbar um cavalo alado nele.

O Velho Niccolo estava no aposento seguinte — a biblioteca, quente e embolorada — com Tia Francesca, consultando um livro num aparador. Tia Francesca era irmã do Velho Niccolo, portanto, na realidade, uma tia-avó. Parecia um barril: era duas vezes mais gorda do que Tia Anna. E era ainda mais carinhosa do que Tia Gina. Estava dizendo apaixonadamente:

— Mas os feitiços da Casa Montana têm sempre uma certa elegância. Isto está sem graça! Além disso, é...

Os dois rostos redondos voltaram-se na direção de Antonio e Paolo. O rosto do Velho Niccolo, e também os seus olhos, eram redondos e maravilhados, como os do bebê mais novinho. O rosto de Tia Francesca era pequeno demais para seu corpo imenso, e os olhos eram miúdos e sagazes.

— Eu já estava indo — disse o Velho Niccolo. — Pensei que era Tonino quem estava com problemas, mas você me trouxe Paolo.

— Paolo não está com problemas — declarou Tia Francesca. Os olhos redondos do Velho Niccolo piscaram para Paolo.

— Paolo, o que seu irmão sente não é culpa sua — disse ele.

— Não. Acho que na verdade é a escola — respondeu o menino.

— Pensamos que talvez Elizabeth pudesse explicar a Tonino que quem mora nesta casa aprende feitiços quase que automaticamente — Antonio sugeriu.

— Mas Tonino tem ambição! — exclamou Tia Francesca.

— Acho que não — retrucou Paolo.

— Não, mas ele está infeliz — disse o avô. — E precisamos pensar na melhor maneira de consolá-lo. Já sei! — Seu rosto infantil iluminou-se. — Benvenuto!

Embora o Velho Niccolo não tivesse dito isso em voz muito alta, alguém na varanda gritou de imediato:

— O Velho Niccolo está chamando Benvenuto! Houve Correrias e chamados no pátio. Alguém deu alguns golpes num barril de água com um pedaço de pau.

— Benvenuto! Onde foi parar esse gato? Benvenuto!

Naturalmente, Benvenuto só apareceu quando sentiu vontade. Era o gato-chefe da Casa Montana. Cinco minutos se passaram até Paolo escutar suas passadas firmes ao longo das telhas do telhado da varanda. Depois ouviu-se um baque surdo, quando Benvenuto deu um salto difícil, por cima da balaustrada, até o piso da varanda. Logo em seguida ele apareceu no peitoril da janela.

— Ah, finalmente! — exclamou o Velho Niccolo. — Eu estava começando a ficar impaciente.

No mesmo instante Benvenuto ergueu uma pata traseira negra e acomodou-se para lambê-la, como se fosse para fazer isso que ele havia ido até lá.

— Ah, não, por favor — pediu o Velho Niccolo. — Preciso da sua ajuda.

Os olhos grandes e amarelos de Benvenuto voltaram-se para o Velho Niccolo. Não era um gato bonito: a cabeça era incomumente grande e pesada, com marcas cinzentas deixadas por muitas e muitas lutas. As brigas haviam deixado suas orelhas caídas sobre os olhos, de modo que Benvenuto dava a impressão de estar sempre usando um boné marrom era frangalhos. Uma centena de mordidas havia deixado as suas orelhas entalhadas como folhas de azevinho. Logo acima do focinho, dando-lhe uma expressão zombeteira e contorcida, havia três grandes manchas brancas que nada tinham a ver com a posição de Benvenuto como gato-chefe numa casa de feitiços; eram o resultado de seu fraco por bifes. Ele enfiara-se sob os pés de Tia Gina quando ela estava cozinhando, e Tia Gina derramara gordura quente sobre a cabeça dele. Por este motivo, Benvenuto e Tia Gina sempre faziam questão de ignorar-se mutuamente.

— Tonino está infeliz — disse o Velho Niccolo.

Benvenuto pareceu achar que aquilo era digno da sua atenção: encolheu a perna estendida, saltou para o piso da biblioteca e subiu para o topo do livro no aparador, tudo em um único movimento, parecendo não flexionar um só músculo. E ali ficou, balançando educadamente a única coisa bela nele: a causa negra e peluda. O resto da pelagem desbotara para um marrom manchado. A parte o rabo, a única coisa que mostrava que Benvenuto já fora um magnífico gato persa negro era a penugem macia em suas patas traseiras. E, como todos os gatos de Caprona haviam aprendido às próprias custas, aquela penugem escondia músculos iguais aos de um buldogue.

Paolo ficou olhando seu avô conversar cara a cara com Benvenuto. Ele próprio sempre tratara Benvenuto com respeito, naturalmente. Era fato conhecido que Benvenuto não aceitava ficar no colo de pessoa alguma, e arranhava quem tentasse erguê-lo do chão. Paolo sabia que todos os gatos ajudavam maravilhosamente os feitiços, mas até então não se dera conta de que os gatos compreendiam tanto. E tinha certeza de que Benvenuto estava respondendo ao Velho Niccolo, por causa das pausas que o avô fazia, como se estivesse escutando as respostas. Paolo olhou para o pai, para ver se aquilo era verdade. Antonio estava muito aflito. E Paolo compreendeu, pela expressão angustiada do pai, que era muito importante ser capaz de entender o que os gatos diziam, e que Antonio jamais conseguiria. Muito preocupado, Paolo pensou: estava na hora de começar a aprender a compreender a linguagem de Benvenuto.

— Qual dos gatos você sugere? — perguntou o Velho Niccolo. Benvenuto ergueu a pata dianteira direita e aplicou nela uma leve lambida. O rosto do Velho Niccolo abriu-se em um de seus sorrisos de bebê.

— Que tal isso? Ele mesmo vai se encarregar!

Benvenuto sacudiu para o lado a ponta da cauda. Então desapareceu, saltando de volta para a janela num movimento tão fluido e rápido que dava a impressão de um pincel pintando uma linha escura no ar. Deixou Tia Francesca e o Velho Niccolo com largos sorrisos, e Antonio ainda com expressão infeliz.

— O caso de Tonino está resolvido — anunciou o Velho Niccolo. — Não precisamos nos preocupar mais, a não ser que ele nos preocupe.

 

Tonino já estava se sentindo melhor: o burburinho das ruas douradas de Caprona o acalmara. Nas mais estreitas ele caminhava pelo centro, sobre a faixa de luz do sol, roupas a secar no varal sacudindo-se acima dele, e brincava: se pisasse numa sombra, morreria na mesma hora. Na verdade, ele morreu algumas vezes antes de chegar ao Corso. Primeiro, uma multidão de turistas empurrou-o para fora da faixa de sol; depois duas carroças e uma carruagem fizeram o mesmo. E uma vez um automóvel comprido e brilhante aproximou-se lentamente, rosnando, e buzinou com força para abrir caminho.

Quando estava perto do Corso, Tonino ouviu um turista dizer em inglês:

— Ah, veja só! Marionetes! A peça é Punch e Judy!

Orgulhoso por ter sido capaz de entender, Tonino esgueirou-se, deu empurrões e chegou a rastejar, até chegar à primeira fila da multidão e poder ver o fantoche Punch matar a boneca Judy a pancadas no alto do seu palquinho pintado. O menino bateu palmas e soltou vivas, e quando alguém também veio abrindo caminho pela multidão e o empurrou para o lado, Tonino ficou tão indignado quanto os outros. Esquecera-se inteiramente de que estava infeliz.

— Não empurre! — gritou.

— Tenha dó! Preciso ver o Punch enganar o Carrasco! — protestou o homem.

— Então cale a boca! — ordenaram as pessoas em volta, inclusive Tonino.

— Eu só disse que... — o homem começou. Era uma pessoa corpulenta, de rosto úmido e modos estranhamente excitados.

— Cale a boca! — gritaram todos.

O homem ofegava, sorria e contemplava, boquiaberto, Punch atacar o Policial. Parecia o mais novinho dos meninos ali presentes. Tonino, irritado, lançou-lhe um olhar de soslaio e concluiu que o homem era, provavelmente, um doido amigável. Soltava enormes gargalhadas diante das piadas mais bobas, e estava vestido de maneira muito estranha: usava um terno de reluzente seda vermelha com botões dourados cintilantes e medalhas espalhafatosas. Em lugar da gravata costumeira ele tinha um pano branco dobrado no pescoço, preso no lugar por um broche que cintilava como uma lágrima. Seus sapatos ostentavam presilhas brilhantes, e ele trazia rosetas douradas nas ligas à altura dos joelhos. Com o rosto suarento e os dentes brancos e brilhantes à mostra quando ele ria, o homem reluzia por inteiro.

O boneco chamado Punch também o percebeu.

— Ah, que sujeito esperto! — entoou, dando pulinhos em sua pequena plataforma de madeira. — Vejo botões dourados. Será o Papa?

— Ah, não sou, não! — berrou o Sr. Cintilante, deliciado.

— Será o Duque? — grasnou o boneco.

— Ah, não sou, não! — rugiu o Sr. Cintilante e o resto da assistência.

— Ah, é sim! — Punch insistiu.

Enquanto todos gritavam “Ah, não é não!”, dois homens de fisionomia preocupada abriram caminho por entre a multidão até chegarem ao Sr. Cintilante.

— Vossa Graça, o Bispo chegou à Catedral há meia hora — disse um deles.

— Ah, que aborrecimento! — respondeu o Sr. Cintilante. — Por que vocês estão sempre me importunando? Será que não posso ficar... só até terminar? Adoro esta história.

Os dois o encararam com reprovação.

— Ora, muito bem. Vocês dois paguem ao artista. Dêem alguma coisa a cada pessoa aqui — disse o Sr. Cintilante. Ele virou-se e saiu apressado pelo Corso, ofegando.

Por um instante Tonino perguntou-se se o Sr. Cintilante seria mesmo o Duque de Caprona. Mas os dois homens não fizeram menção de pagar ao artista ou a qualquer outra pessoa; simplesmente saíram trotando atrás do Sr. Cintilante, como se temessem perdê-lo de vista. Por este fato Tonino concluiu que o Sr. Cintilante era mesmo um lunático — e rico — e que eles estavam tentando mantê-lo satisfeito.

— Gentinha pão-duro! — comentou o Sr. Punch, passando então a dedicar-se a enganar o Carrasco para que este fosse enforcado em seu lugar.

Tonino ficou assistindo até o Sr. Punch fazer uma mesura e retirar-se em triunfo para a casinha pintada nos fundos do palco. Então o menino deu-lhe as costas, lembrando-se da sua infelicidade.

Não sentia a menor vontade de voltar para a casa; não sentia vontade de fazer coisa alguma. Continuou vagando na direção em que seguia antes, até encontrar-se na Praça Nova, no alto da colina na extremidade ocidental da cidade. Ali, sentou-se melancolicamente no parapeito e ficou a contemplar a paisagem do outro lado do Rio Voltava, as ricas mansões e o Palácio Ducal, e os longos arcos da Ponte Nova, perguntando-se se iria passar o resto da vida dentro de uma névoa de burrice.

A Praça Nova tinha sido construída na mesma época da Ponte Nova, cerca de uns 70 anos antes, para possibilitar a todos a grandiosa vista de Caprona que Tonino contemplava naquele momento. Era de tirar o fôlego. Mas o problema era que tudo o que Tonino enxergava tinha algo a ver com a Casa Montana.

O Palácio Ducal, por exemplo, cujas torres de pedra dourada desenhavam linhas nítidas no azul límpido do céu. Cada torre dourada era mais larga no topo, de modo que os soldados nas ameias, sob as bandeiras vermelhas e douradas que tremulavam ao vento, não poderiam ser alcançados por quem a escalasse. Tonino distinguia os escudos embutidos nas ameias, dois de cada lado — um, vermelho-cereja, e o outro, verde-musgo, mostrando que os Montana e os Petrocchi haviam colocado um feitiço para defender cada torre. E abaixo, a grande fachada de mármore branco era incrustada de outros mármores de todas as cores do arco-íris; e entre essas cores estavam o vermelho-cereja e o verde-musgo.

Cada uma das amplas mansões douradas na encosta do morro abaixo do Palácio tinha na parede um disco verde-musgo ou vermelho-cereja. Alguns ficavam semi-ocultos pelos ramos escuros dos elegantes arbustos plantados na frente deles, mas Tonino sabia que estavam ali. E cada um dos arcos de pedra e metal da Ponte Nova que se afastavam dele na direção das mansões e do Palácio ostentava uma placa de esmalte, alternadamente verde e vermelha: a Ponte Nova havia sido fortalecida pelos mais poderosos feitiços de sustentação que a Casa Montana e a Casa Petrocchi tinham condições de produzir.

Naquela época do ano o rio era apenas um fio de água sobre o cascalho e dava a impressão de que não havia necessidade de feitiços. Mas no inverno, quando a chuva caía nos Apeninos, o Voltava tornava-se uma torrente furiosa. Os arcos da Ponte Nova mal ficavam acima da água. A Ponte Velha — que Tonino conseguia avistar esticando-se para a frente e para o lado — costumava ficar debaixo d’água, e os oratórios em forma de casinhas engraçadas que ficavam ao longo dela não podiam ser utilizados. Só os feitiços dos Montana e dos Petrocchi enterrados nas fundações da Ponte Velha impediam que a correnteza a carregasse.

Tonino ouvira o Velho Niccolo dizer que os feitiços da Ponte Nova tinham exigido todos os esforços da família Montana inteira. O Velho Niccolo ajudara a produzi-los quando tinha a idade de Tonino. Tonino não teria conseguido fazer isso. Deprimido, ele baixou os olhos para as paredes douradas e as telhas vermelhas da cidade de Caprona lá embaixo. Tinha quase certeza de que cada telha escondia pelo menos uma tirinha de papel verde-musgo. E o máximo que Tonino já fizera havia sido ajudar a carimbar o cavalo alado nos envelopes. Pior: tinha certeza de que isso era tudo o que ele faria.

Tonino teve a sensação de que alguém o chamava. Olhou em volta da Praça Nova: ninguém. Apesar do panorama, a Praça ficava distante demais para os turistas visitarem. Tudo o que Tonino conseguia ver eram as maciças estátuas de ferro dos grifos com cabeça de águia e garras de leão, que assomavam a distâncias regulares em todo o parapeito, erguendo para o céu as patas de metal. Mais grifos amontoavam-se num grupo em luta no centro da praça, para formar um chafariz. E mesmo ali Tonino não conseguia fugir da sua família: havia uma plaquinha de metal embutida na pedra abaixo das garras de ferro do grifo mais próximo a ele. Ela era verde-musgo. Tonino deu-se conta de que estava chorando.

Por entre as lágrimas ele por um momento teve a impressão de que um dos grifos mais distantes havia abandonado seu poleiro de pedra e viera trotando pelo parapeito em direção a ele. O grifo havia abandonado as asas, ou as tinha fechado. Então a figura lhe disse, em tom bastante paternalista, que os gatos não precisavam de asas. Era Benvenuto, que se sentou no parapeito ao lado dele e ficou a encará-lo com censura.

Tonino, que sempre tivera um respeito enorme por Benvenuto, estendeu a mão para ele com timidez.

— Olá, Benvenuto.

Benvenuto ignorou a mão estendida. Disse que ela estava molhada de água dos olhos de Tonino e que isso fazia um gato perguntar-se por que Tonino estava sendo tão bobo.

— Os nossos feitiços estão por toda parte. E eu jamais vou conseguir aprender a fazer... — Tonino explicou. — Acha que é porque eu sou metade inglês?

Benvenuto respondeu que não tinha certeza da diferença que aquilo poderia fazer. Tudo que aquele fato significava, pelo que ele compreendia, era que Paolo tinha olhos azuis como um siamês e Rosa tinha pelagem branca...

— Cabelos louros — Tonino corrigiu.

Mas Benvenuto, imperturbável, prosseguiu, sem se deixar interromper: ... e o próprio Tonino tinha cabelos de gato malhado, como as listras claras de um gato malhado. E eram todos gatos, não eram?

— Mas sou tão burro... — Tonino começou. Benvenuto interrompeu-o para dizer que na véspera escutara

Tonino conversando com aqueles gatinhos, e considerava Tonino muito mais inteligente do que eles. E antes que Tonino pudesse objetar que eram apenas filhotes, acrescentou: o próprio Tonino não era também só um filhote?

Diante disso, Tonino riu e enxugou a mão na calça. Quando tornou a estendê-la para Benvenuto, o gato ergueu-se nas quatro patas, muito alto, e aproximou-se dele ronronando. Tonino aventurou-se a acariciá-lo. Benvenuto ficou andando em círculos, ronronando e arqueando o dorso, como o gatinho mais novinho e mais carinhoso da Casa. Tonino encontrou-se sorrindo de orgulho e prazer. Percebia, pelos movimentos da cauda peluda de Benvenuto em espasmos majestosos e contrafeitos, que Benvenuto no fundo não gostava de ser acariciado — o que tornava aquele momento uma honra ainda maior.

Assim está melhor, disse-lhe Benvenuto. O gato subiu para as pernas nuas de Tonino e acomodou-se em seu colo, como se fosse um tapete marrom e musculoso. Tonino continuou fazendo-lhe carícias. De sob uma das pontas do tapete surgiram garras afiadas, que picaram dolorosamente as coxas de Tonino. Benvenuto continuava a ronronar: será que Tonino podia ver as coisas de outra maneira, e perceber que ambos, menino e gato, faziam parte da Casa mais famosa de Caprona, que, por sua vez, fazia parte do mais especial de todos os Ducados italianos?

— Sei disso. E é porque acho isso maravilhoso que eu... Somos mesmo tão especiais?

Naturalmente, ronronou Benvenuto. E se Tonino se inclinasse para fora e olhasse para a Catedral, veria a razão.

Obedientemente, Tonino inclinou-se e olhou. As enormes bolhas de mármore que eram os domos da Catedral erguiam-se por entre as casas no final do Corso. Ele sabia que nunca existira uma edificação como aquela. Branca, dourada e verde, a Catedral flutuava, altaneira. E no topo do domo mais elevado cintilava a grandiosa figura dourada do Anjo, ali pousado de asas abertas, segurando em uma das mãos um pergaminho dourado. Ele dava a impressão de estar abençoando toda Caprona.

Aquele anjo, Benvenuto informou-lhe, estava ali como sinal de que Caprona estaria segura enquanto todos cantassem a canção “O Anjo de Caprona”. O Anjo trouxera a canção num pergaminho diretamente do Céu para o Primeiro Duque de Caprona, e seu poder expulsara o Demônio Branco e tornara Caprona grandiosa. O Demônio Branco desde então vagava pelas cercanias de Caprona, tentando voltar para dentro da cidade, mas enquanto a canção fosse entoada, ele jamais conseguiria.

— Sei disso — disse Tonino. — Cantamos o “Anjo” todos os dias na escola. — Aquilo trouxe de volta a parte mais importante da sua infelicidade. — Eles insistem em me fazer aprender História... e todo tipo de coisas... e eu não consigo, porque já sei, então não consigo aprender direito.

Benvenuto parou de ronronar. Ele estremeceu, porque os dedos de Tonino tinham encontrado um dos muitos nós da sua pelagem. Ainda estremecendo, ele perguntou, com certo azedume, por que não ocorrera a Tonino contar a eles na escola que já sabia aquelas coisas.

— Desculpe! — disse Tonino, afastando os dedos. E explicou: — Mas eles ficam dizendo que tenho que aprender do jeito deles, senão não vou conseguir aprender direito.

Ainda irritado, Benvenuto disse que, bem, naturalmente dependia de Tonino, mas parecia não fazer sentido aprender as coisas duas vezes. Um gato não aceitaria isso. E já era hora de começarem a voltar para casa. Tonino suspirou.

— É, acho que sim. Devem estar preocupados. Ele pegou Benvenuto nos braços e levantou-se. Benvenuto gostou daquilo. E ronronou: não era por causa da preocupação dos Montana que eles deviam voltar; na verdade, era porque as tias estariam cozinhando o almoço e seria mais fácil para Tonino do que para Benvenuto roubar um belo pedaço de vitela.

Aquilo fez Tonino rir. Enquanto começava a descer os degraus para a Ponte Nova, ele disse:

— Sabe, Benvenuto, você ficaria muito mais confortável se me deixasse tirar esses nós do seu pêlo e penteá-lo um pouco.

Benvenuto declarou que qualquer pessoa que tentasse penteá-lo sairia arranhada por todas as garras que ele possuía.

— E escovar?

Benvenuto disse que pensaria sobre o assunto.

Foi ali que Lucia os encontrou. A essa altura, havia procurado Tonino em toda Caprona e estava preparada para ficar extremamente zangada. Mas a visão da fisionomia feia e contorcida de Benvenuto encarando-a por entre os braços de Tonino deixou-a com pouquíssima coisa a dizer.

— Vamos nos atrasar para o almoço — declarou.

— Não vamos, não — disse Tonino. — Vamos chegar bem a tempo para você vigiar enquanto roubo um pouco de vitela para Benvenuto.

— É bem típico de Benvenuto ter pensado nisso — Lucia comentou. — Então trata-se do início de um relacionamento lucrativo, afinal?

Benvenuto disse a Tonino que aquela era uma boa maneira de definir a situação.

— É uma boa maneira de definir a situação — Tonino disse a Lucia.

De qualquer maneira, Lucia ficou suficientemente impressionada para aceitar começar uma conversa com Tia Gina e distraí-la enquanto Tonino conseguia a vitela para Benvenuto. E todos ficaram tão felizes por Tonino estar de volta são e salvo que não se zangaram muito. No entanto, naquela tarde Corinna e Rosa zangaram-se muito, quando Corinna perdeu a tesoura e Rosa, a sua escova. Ambas saíram furiosas para a varanda. Paolo estava lá, observando Tonino cortar, com delicadeza e cautela, os nós do pêlo de Benvenuto. A escova estava ao lado do menino, cheia de pêlos marrons.

— E você consegue mesmo entender o que ele diz? — Paolo estava perguntando.

— Consigo entender o que todos os gatos dizem. Não se mexa, Benvenuto. Este está bem perto da pele — disse Tonino.

O status de Benvenuto — portanto, o de Tonino também — ficou bem evidente pelo fato de que nem Rosa, nem Corinna ousaram dizer uma só palavra ao menino. Em vez disso, voltaram-se para Paolo.

— Que história é esta, Paolo, de você ficar parado aí deixando seu irmão sujar a escova? Por que não o obrigou a usar a tesoura da cozinha?

Paolo não se importou; estava aliviado demais por não ter que aprender, ele também, a compreender o que os gatos diziam. Não saberia sequer como começar.

Dessa ocasião em diante, Benvenuto passou a considerar-se o gato especial de Tonino. E isso fez diferença para ambos. Benvenuto, com a escovação constante — pois Rosa comprou e deu a

Tonino uma escova especial para o animal — e, quase com a mesma constância, um suprimento de comida surrupiada debaixo do nariz da Tia Gina, logo começou a adquirir uma aparência mais jovem e mais bem-cuidada. Tonino, por sua vez, esqueceu-se de que alguma vez se sentira infeliz; ele era, agora, uma pessoa especial e cheia de orgulho. Quando o Velho Niccolo precisava de Benvenuto, tinha que pedir primeiro a Tonino. Benvenuto recusava-se terminantemente a fazer qualquer coisa para qualquer pessoa sem a permissão de Tonino. Paolo achava muita graça na irritação que isso provocava no Velho Niccolo.

— Esse gato se aproveita de mim! — queixava-se. — Peço a ele para me fazer um favor, e que é que recebo? Ingratidão!

No fim, Tonino foi obrigado a dizer a Benvenuto para colocar-se à disposição do Velho Niccolo enquanto o menino estivesse na escola. Caso contrário, Benvenuto simplesmente desaparecia o dia inteiro. Mas, sempre, sem falhar, reaparecia por volta das três e meia e ia sentar-se no grande barril de água mais perto do portão, onde ficava a esperar por Tonino. E assim que Tonino atravessava o portão Benvenuto saltava para os braços dele.

Aquilo acontecia até mesmo nas ocasiões em que Benvenuto não estava disponível para qualquer outra pessoa — em geral, durante a lua cheia, quando as gatas miavam tentadoramente nos telhados de Caprona.

Na segunda-feira Tonino foi para a escola, depois de meditar sobre o conselho de Benvenuto. E quando, em dado momento, deram-lhe a figura de um gato e ensinaram-lhe que as formas sob a figura formavam “ga-to”, Tonino reuniu coragem e sussurrou:

— Sim. É um G, um A, um T e um O. Eu sei ler.

A professora, que era nova em Caprona, ficou completamente atônita, e chamou a Diretora.

— Ah, é outro Montana — esta explicou. — Eu devia ter lhe avisado. Todos eles sabem ler. Além disso, a maioria deles sabe latim, que usam com freqüência em seus feitiços, e alguns também falam inglês. Mas você vai ver que na aritmética eles não ficam acima da média.

De modo que deram a Tonino um livro de verdade, enquanto os outros aprendiam o alfabeto. O livro era fácil demais para ele; o menino terminou-o em dez minutos, e tiveram de lhe dar outro.

E foi assim que ele descobriu a leitura. Para Tonino, ler um livro logo se tornou um encantamento acima de qualquer feitiço. Ele nunca se cansava. Vasculhou toda a casa dos Montana e a Biblioteca Pública, e gastava toda a sua mesada em livros. Logo tornou-se fato conhecido que o melhor presente que alguém poderia dar a Tonino era um livro — e o melhor livro seria sobre uma situação inimaginável em que não existiam feitiços. Pois Tonino preferia a fantasia: nos seus livros favoritos, as pessoas viviam aventuras incríveis sem a magia para ajudá-las ou prejudicá-las.

Benvenuto aprovava plenamente. Enquanto Tonino lia, se mantinha imóvel, e um gato podia ficar confortável sentado no colo dele. Paolo implicava um pouco com Tonino, chamando-o de rato de biblioteca, mas no fundo não achava isso ruim. Sabia que sempre conseguiria convencer Tonino a largar o livro, se precisasse realmente dele.

Antonio estava preocupado. Preocupava-se com tudo. Tinha medo de que Tonino não estivesse fazendo suficiente exercício. Mas todas as outras pessoas da Casa diziam que isso era besteira. Elas tinham orgulho de Tonino. Ele era tão estudioso quanto Corinna, diziam, e, sem dúvida, ambos terminariam na Universidade de Caprona, como o tio-avô Umberto. Os Montana sempre tinham alguém da família na Universidade. Isto significava que não estavam guardando egoisticamente a Teoria da Magia na família, e era também muito útil para terem acesso aos feitiços na Biblioteca da Universidade.

Apesar das esperanças nele depositadas, Tonino continuava a mostrar-se lento no aprendizado de feitiços e não particularmente esperto na escola. Paolo era duas vezes mais rápido nas duas coisas. A medida que os anos passavam, porém, ambos vieram a aceitar este fato. Isto não os preocupava. O que os preocupava muito mais era a sua descoberta gradual de que as coisas não iam inteiramente bem na Casa Montana, nem em Caprona.

 

Foi Benvenuto quem primeiro preocupou Tonino. Apesar dos cuidados que Tonino lhe dispensava, ele começou novamente a emagrecer e sua aparência ficava cada vez pior. Ora, Benvenuto tinha mais ou menos a mesma idade de Tonino. Tonino sabia que aquela era uma idade avançada para um gato, e no princípio imaginou que Benvenuto estava simplesmente ficando velho. Depois percebeu que o Velho Niccolo começava a parecer tão preocupado quanto Antonio, e que o Tio Umberto telefonava para ele da Universidade quase todos os dias. Cada vez que ele ligava, o Velho Niccolo ou a Tia Francesca mandavam chamar Benvenuto, que voltava exausto. Portanto, ele perguntou a Benvenuto o que havia de errado.

A resposta de Benvenuto foi que eles bem poderiam deixar um pobre gato ter alguma paz, mesmo sendo o Duque um idiota. E que ele não ia deixar que ainda por cima Tonino o amolasse.

Tonino consultou Paolo e ficou sabendo que Paolo também estava preocupado. Paolo vinha reparando em sua mãe. Os cabelos dela, que eram louros, ultimamente vinham ficando bem mais claros, por causa de todos os fios brancos, e ela parecia nervosa o tempo todo. Quando Paolo perguntou a Elizabeth qual era o problema, ela respondeu:

— Ah, não é nada, Paolo. Só que tudo isto torna muito difícil encontrar um marido para a Rosa.

Rosa tinha então 18 anos. A Casa inteira ocupava-se em discussões sobre um marido para ela, e parecia haver — como Paolo vinha reparando — muito mais aflição e ansiedade sobre esse assunto do que houvera a respeito da Prima Claudia, três anos antes. Os Montana precisavam ter cuidado na escolha da pessoa com quem se casariam. Era fácil entender: eles precisavam casar-se com alguém que tivesse talento pelo menos para feitiços ou para o canto; e tinha de ser alguém com quem o resto da família simpatizasse; e, acima de tudo, era preciso que fosse alguém sem qualquer espécie de ligação com os Petrocchi. Mas a Prima Claudia conhecera Arturo e se casara com ele sem toda aquela confusão e discussão que estava havendo em relação a Rosa. Paolo só podia imaginar que o motivo era “tudo isto”, fosse o que fosse que Elizabeth queria dizer com essa expressão.

Qualquer que fosse o motivo, as discussões eram constantes. Antonio, ansioso, falava em ir à Inglaterra consultar alguém chamado Crestomanci sobre o assunto.

— Queremos para ela um produtor de feitiços realmente forte — disse.

Elizabeth respondeu-lhe que Rosa era italiana e deveria casar-se com um italiano. O resto da família concordava com ela, embora afirmasse que o italiano precisava ser de Caprona. De modo que a questão era: quem?

Paolo, Lucia e Tonino não tinham dúvidas: queriam que Rosa se casasse com seu primo Rinaldo. Parecia-lhes inteiramente apropriado. Rosa era linda, Rinaldo era bonitão, e no caso dele ninguém poderia fazer qualquer das objeções costumeiras.

Porém havia dois empecilhos. O primeiro era que Rinaldo não se mostrava verdadeiramente interessado em Rosa; no momento ele estava desesperadamente apaixonado por uma moça que era inglesa de verdade. O nome dela era Jane Smith, e Rinaldo tinha alguma dificuldade era pronunciá-lo. Ela viera copiar alguns dos quadros na Galeria de Arte que havia no Corso. Era uma moça romântica e, para agradar-lhe, Rinaldo adquiriu o hábito de vestir-se de preto com um lenço vermelho no pescoço, como um bandoleiro. E comentou que andava pensando em deixar crescer também um bigode de bandoleiro. Com tudo isso, não lhe sobrava tempo para uma prima com quem ele convivera durante toda a vida.

O outro empecilho era a própria Rosa. Ela jamais se interessara por Rinaldo. E parecia ser a única pessoa na Casa inteiramente despreocupada com relação à pessoa com quem se casaria. Quando as discussões ficavam mais acaloradas, ela balançava os cabelos louros que lhe chegavam aos ombros e sorria.

— Escutando vocês, qualquer pessoa pensaria que eu não tenho o direito de dar opinião neste assunto. É mesmo muito engraçado — dizia.

Durante aquele outono, a preocupação cresceu na Casa Montana. Paolo e Tonino perguntaram à Tia Maria qual era o problema; Tia Maria disse a princípio que eles eram jovens demais para compreender. Depois, como em certos momentos ela ficava tão exaltada quanto a Tia Gina ou até mesmo a Tia Francesca, ela lhes anunciou, repentina e fervorosamente, que Caprona estava a caminho do abismo.

— Tudo está saindo errado para nós — continuou. — O dinheiro está curto, os turistas não vêm aqui, e a cada ano ficamos mais fracos. Aí estão Florença, Pisa e Siena, todas nos cercando como urubus, e a cada ano uma delas ganha um pouco mais de quilômetros quadrados de Caprona. Se isso continuar assim, deixaremos de ser um Ducado. E, ainda por cima, este ano a colheita se perdeu. E tudo por culpa daqueles depravados dos Petrocchi, eu garanto! Os feitiços deles não funcionam mais. Nós, Montana, não conseguimos segurar Caprona sozinhos! E os Petrocchi nem mesmo tentam! Ficam simplesmente fazendo as mesmas coisas da mesma maneira de antigamente, e indo de mal a pior. Isto a gente percebe, pois se não fosse assim, aquela criança não conseguiria fazer o pai ficar verde!

Isso, por si só, já era bastante perturbador. E parecia ser mesmo verdade. Durante todos os anos em que Paolo e Tonino foram à escola, tinham ficado acostumados a escutar que houvera uma concessão para Florença, que Pisa exigira um acordo sobre os direitos de pescaria ou que Siena aumentara as taxas de importação dos produtos de Caprona. Estavam acostumados demais para perceber. Mas agora tudo aquilo parecia sinistro. E logo aconteceu uma coisa ainda pior: chegaram notícias de que as enchentes do inverno haviam provocado graves rachaduras na Ponte Velha.

Essa notícia causou grande consternação na Casa Montana, já que a ponte deveria ter resistido. Se cedeu, isso significava que os encantamentos dos Montana nos alicerces também haviam cedido. Tia Francesca saiu aos berros para o terraço.

— Aqueles Petrocchi degenerados! — gritava. — Já não conseguem manter nem mesmo um feitiço antigo! Fomos atraiçoados!

Embora ninguém encarasse as coisas exatamente assim, provavelmente Tia Francesca falara por toda a família.

E, como se isso não fosse suficiente, naquela noite Rinaldo saiu para visitar sua namorada inglesa e foi levado de volta para casa jorrando sangue, carregado pelos primos Cario e Giovanni. Rinaldo, usando palavrões que Paolo e Tonino nunca haviam escutado, disse que tinha encontrado alguns Petrocchi e os chamara de degenerados. E então foi a vez da Tia Maria sair correndo para o terraço aos berros, gritando coisas horrorosas sobre os Petrocchi. Rinaldo era a menina-dos-olhos da Tia Maria.

Rinaldo já havia sido medicado e colocado na cama quando Antonio e o Tio Lorenzo voltaram da Ponte Velha, onde haviam ido verificar os estragos. Ambos tinham uma expressão muito grave no rosto. O velho Guido Petrocchi em pessoa estivera lá, com o empreiteiro do Duque, o Sr. Andretti. Alguns encantamentos bastante profundos haviam cedido, e para consertá-los seriam necessárias pelo menos três semanas de trabalho de todos os membros de ambas as famílias, trabalhando em turnos.

— Seria muito bom se pudéssemos contar com a ajuda de Rinaldo — Antonio comentou.

Rinaldo jurou que no dia seguinte estaria em condições de sair da cama e ajudar, mas Tia Maria não quis nem ouvir falar nisso. O médico também não. De modo que o resto da família foi dividido em turnos, e o trabalho continuou noite e dia. Todos os dias, Paolo, Lucia e Corinna iam diretamente da escola para o trabalho. Tonino não; ainda era muito pequeno para ser de grande utilidade. Porém, pelo que Paolo lhe contou, ele considerava que não estava perdendo grande coisa. Paolo simplesmente não conseguia acompanhar o ritmo furioso dos feitiços e recebeu a função de levar e trazer recados, como o coitado do Primo Domenico. Tonino sentia muita pena de Domenico, que era o oposto de seu arrojado irmão Rinaldo sob todos os aspectos e também não conseguia acompanhar o ritmo das coisas.

O trabalho já prosseguia havia quase uma semana, muitas vezes debaixo de chuva forte, quando o Duque de Caprona convocou o Velho Niccolo para uma conversa.

O Velho Niccolo postou-se no pátio e arrancou os cabelos que lhe restavam. Tonino pousou o livro (que se chamava “As máquinas da morte” e era muito interessante) e foi ver se podia ajudar.

— Ah, Tonino, estou com problemas gigantescos — contou-lhe o Velho Niccolo, encarando-o com o rosto de um bebê triste. — Todos são necessários na Ponte Velha, e aquele idiota do Rinaldo está de cama, e tenho que aparecer diante do Duque com alguém da minha família. Os Petrocchi também foram convocados. Não podemos ter aparência pior do que a deles, afinal. Ah, por que Rinaldo escolheu justamente esta ocasião para gritar insultos tolos?

Tonino não tinha idéia do que dizer, portanto perguntou:

— Quer que eu chame Benvenuto?

— Não, não — respondeu o Velho Niccolo, mais contrafeito do que nunca. — A Duquesa não suporta gatos. Nisso Benvenuto não tem a menor utilidade. Serei obrigado a levar aqueles que não são úteis na ponte. Você irá, Tonino, e Paolo e Domenico, e vou levar seu Tio Umberto para parecer sábio e de peso. Talvez assim não fiquemos parecendo tão magrelas.

Talvez aquele não fosse um convite dos mais lisonjeiros, mas assim mesmo Tonino e Paolo ficaram deliciados. Continuaram deliciados no dia seguinte, apesar de estar caindo uma chuva de inverno, forte e penetrante. Os integrantes do turno da madrugada, inteiramente molhados e frustrados, chegaram da Ponte Velha debaixo de guarda-chuvas reluzentes de gotas d’água. Em vez de descansarem, foram obrigados a aprontar o grupo para a visita ao Palácio.

A carruagem da família Montana foi puxada da cocheira até um local sob a varanda, onde passou por uma cuidadosa limpeza. Era um veículo grande e negro, com janelas de vidro e enormes rodas negras. O cavalo alado dos Montana estava pintado num escudo verde nas portas pesadas.

A chuva continuava forte. Paolo, que odiava a chuva tanto quanto os gatos odiavam, sentiu-se aliviado porque a carruagem era de verdade. Os cavalos não eram; consistiam em quatro figuras de cavalo recortadas em papelão branco, que ficavam guardadas na cocheira, apoiadas à parede. Aquilo era uma idéia econômica do pai do Velho Niccolo. Como ele explicou, cavalos de verdade necessitavam de exercícios e ocupariam um espaço que a família poderia muito bem utilizar para outra coisa. O cocheiro era também uma figura de papelão — pelas mesmas razões — mas ficava guardado dentro da carruagem.

Os meninos estavam ansiosos para ver as figuras de papelão adquirirem vida, mas foram arrastados para dentro de casa pela mãe. Os cabelos de Elizabeth estavam empapados, por causa do trabalho na ponte, e ela bocejava tanto a ponto de seu queixo chegar a estalar, mas aquilo não a impediu de submeter Paolo e Tonino a uma cuidadosa sessão de esfregar, pentear e vestir. Quando eles desceram para o pátio novamente, ambos com os cabelos molhados grudados ao crânio e usando incômodos colarinhos brancos e largos acima dos pesados paletós ao estilo de Eton, o feitiço já tinha sido realizado. As faixas de feitiços haviam sido cuidadosamente enroladas dentro dos arreios e o cocheiro fora vestido com um paletó de papel coberto de feitiços pelo lado de dentro. Quatro lustrosos cavalos brancos estavam sendo arreados, e o cocheiro estava sentado em seu banco, ajeitando o chapéu verde-musgo.

— Esplêndido! — proclamou o Velho Niccolo, saindo da casa de supetão. Ele olhou dos meninos para a carruagem com aprovação. — Entrem, meninos. Entre, Domenico. Ainda temos que pegar Umberto na Universidade.

Tonino despediu-se de Benvenuto e entrou na carruagem. Ela cheirava a mofo, apesar da limpeza. Ele gostou de ver o avô tão animado. A família soltou vivas quando a carruagem dirigiu-se para o portão, e o Velho Niccolo sorriu e acenou. Tonino ficou pensando que talvez alguma coisa boa resultasse daquela visita ao Duque, e depois disso ninguém ficaria mais tão preocupado.

A viagem na carruagem foi esplêndida. Tonino nunca havia se sentido tão importante. A carruagem sacudia-se e fazia barulho. Os cascos dos cavalos ressoavam nas pedras do pavimento como se eles fossem de verdade, e as pessoas apressavam-se a abrir caminho respeitosamente. O cocheiro era o melhor que um feitiço poderia produzir. Apesar de haver poças d’água em todas as ruas, a carruagem mal se molhara quando eles fizeram uma parada na Universidade, gritando bem alto “Ei!”.

Tio Umberto, usando sua beca vermelha e dourada de Mestre, entrou no veículo, tão animado quanto o Velho Niccolo.

— Bom dia, Tonino. Como vai o seu gato? — disse, dirigindo-se a Paolo. — Bom dia — disse a Domenico. — Ouvi dizer que você levou uma surra dos Petrocchi.

Domenico, que preferia morrer a insultar até mesmo um Petrocchi, ficou mais vermelho do que a beca do Tio Umberto e engoliu em seco ruidosamente. Mas Tio Umberto nunca conseguia distinguir entre os Montana jovens. Ele sabia coisas demais. Olhou para Tonino como se não soubesse quem ele era, e virou-se para o Velho Niccolo.

— Os Petrocchi certamente ajudarão — afirmou. — Tive notícias de Crestomanci.

— Eu também — retrucou o Velho Niccolo, porém dando a impressão de que estava em dúvida.

A carruagem desceu o Corso sob a chuva e virou para atravessar a Ponte Nova, ainda mais barulhentamente. Paolo e Tonino, excitados demais para falar, contemplavam a chuva no lado de fora das janelas. Deixando para trás o rio caudaloso, eles subiram a encosta onde os ciprestes sacudiam-se e curvavam-se em frente às mansões ricas, e depois entre velhos muros. Finalmente passaram sob um grande arco e fizeram uma curva fechada para entrar no gigantesco pátio do Palácio.

Na frente da carruagem deles, outra carruagem, que parecia ser de brinquedo sob a enorme fachada de mármore do Palácio, estava justamente estacando diante do imenso pórtico de mármore. Aquela carruagem era negra também, e ostentava nas portas escudos vermelho-cereja com leopardos negros. Tinham chegado tarde demais para ver as pessoas saltando dela, mas contemplaram com uma irritação invejosa a carruagem e os cavalos. Os animais eram negros, lindos e esguios, de pescoço arqueado.

— Acho que são de verdade — Paolo cochichou para Tonino. Tonino não teve tempo de responder, porque dois lacaios e um soldado adiantaram-se para abrir a porta da carruagem e ajudá-los a descer. Paolo saltou primeiro. Mas depois dele o Velho Niccolo e Tio Umberto demoraram um pouco a sair do veículo, e Tonino teve tempo de olhar pela outra janela a carruagem dos Petrocchi afastando-se. Quando ela fez a curva, o menino viu distintamente uma pequena faixa de feitiço escarlate sob o arreio do animal negro mais próximo.

Pronto, descobri!, pensou Tonino, sentindo-se triunfante. Mas tinha a impressão de que o cocheiro dos Petrocchi era real.

Era um rapaz de cabelos ruivos que não combinavam com a cor de cereja da libré, e apresentava uma fisionomia atenta e concentrada, como se não achasse fácil guiar aqueles cavalos de mentira. Seu olhar era humano demais para um homem de papelão.

Quando Tonino finalmente desceu, nos calcanhares do nervoso Domenico, ele ergueu os olhos para o cocheiro da sua família, para fazer uma comparação. Ele era competente e garboso. Fez uma saudação levando a mão estendida ao chapéu verde, e manteve os olhos fixos à frente. Não, o cocheiro dos Petrocchi era mesmo real, Tonino pensou com inveja.

Tonino esqueceu os dois cocheiros quando ele e Paolo entraram no Palácio atrás dos outros. Era tão grandioso, tão imenso! Eles foram levados através de longos corredores de piso lustroso e teto dourado, que pareciam estender-se por muitos quilômetros. Nas paredes de ambos os lados havia estátuas, ou soldados, ou lacaios, em fileiras, aumentando a magnificência. Eles se sentiram tão oprimidos por toda aquela grandiosidade que sentiram grande alívio quando foram levados para um aposento que tinha apenas as dimensões do pátio da casa dos Montana. Era verdade que o piso reluzia e o teto ostentava a pintura de um céu cheio de anjinhos lutando uns com os outros, mas nas paredes viam-se prosaicos panôs de tecido vermelho e ao longo de cada parede lateral havia uma fileira de cadeiras douradas quase simples.

Outro grupo de pessoas foi introduzido na sala ao mesmo tempo. Domenico deu uma olhada neles e imediatamente voltou os olhos para os anjos pintados no teto. O Velho Niccolo e o Tio Umberto comportavam-se como se aquelas pessoas não estivessem ali, e Paolo e Tonino tentaram fazer a mesma coisa, mas acharam impossível conseguir isso.

Lançando olhadelas de soslaio, eles pensavam: então aqueles eram os Petrocchi! Eram só quatro, contra os cinco da Casa

Montana: um ponto para os Montana. E dois deles eram crianças! Era óbvio que os Petrocchi haviam experimentado tanta dificuldade quanto os Montana para se apresentarem diante do Duque com um grupo decente, e, na opinião de Paolo e Tonino, haviam cometido um grave erro ao deixar um membro da família do lado de fora com a carruagem.

Não faziam uma boa figura. Seu representante da Universidade era um frágil ancião que era muito mais idoso do que Tio Umberto e dava a impressão de estar quase perdido dentro de sua túnica vermelha e dourada. O mais impressionante deles era o chefe do grupo, que devia ser o próprio Velho Guido. Mas não era particularmente velho, como o Velho Niccolo, e, embora usasse a mesma espécie de fraque preto que o Velho Niccolo e levasse o mesmo tipo de chapéu lustroso, as vestes pareciam estranhas no Velho Guido porque sua barba era de um vermelho intenso. Os cabelos eram semilongos, desgrenhados e negros. E embora ele mantivesse os olhos fixos à sua frente com uma expressão fria e arrogante, era difícil esquecer que certa vez sua filha sem querer o deixara verde.

As duas crianças eram meninas. Ambas tinham cabelos ruivos. Ambas tinham o rosto pedante e pontudo. Ambas usavam reluzentes meias brancas e severos vestidos azuis, e eram obviamente muito antipáticas. A principal diferença entre elas era que a mais nova — que parecia ter mais ou menos a idade de Tonino — tinha a testa ampla e proeminente, o que deixava seu rosto ainda mais pedante do que o da irmã. Era bem possível que uma delas fosse a famosa Angélica que fizera o Velho Guido ficar verde.

Os meninos olhavam fixamente para elas, tentando descobrir qual delas seria, até que encontraram o olhar pedante e zombeteiro da menina mais velha. Era óbvio que ela pensava que eles pareciam grotescos. Mas Paolo e Tonino sabiam que continuavam com boa aparência — pois se sentiam muito desconfortáveis — de modo que não deram importância a isso.

Depois de terem esperado algum tempo, os membros de cada família puseram-se a conversar baixinho entre si, como se os outros não estivessem lá. Tonino cochichou para Paolo:

— Qual delas é a Angélica?

— Não sei — Paolo cochichou de volta.

— Então você não ficou conhecendo as meninas na Ponte Velha?

— Nenhuma delas. Estavam todos na outra...

Um dos panôs vermelhos foi afastado e uma dama entrou apressada.

— Sinto muito. Meu marido precisou atrasar-se — declarou ela.

Todos na sala curvaram a cabeça e murmuraram “Vossa Graça”, pois aquela era a Duquesa. Mas Paolo e Tonino mantiveram os olhos presos a ela enquanto curvavam a cabeça, querendo saber como ela era. Ela usava um vestido acinzentado e rígido, que lembrou a eles a estátua de uma santa, e o rosto quase podia fazer parte da mesma estátua. Era um rosto com a palidez de estátua, quase de cera, como se a Duquesa fosse entalhada num mármore levemente escorregadio. Mas Tonino não tinha tanta certeza de que a Duquesa fosse realmente como uma santa; as sobrancelhas dela formavam um arco forte e sarcástico, e a boca era crispada com o que parecia ser impaciência. Por um segundo Tonino achou que sentia aquela impaciência — e vários outros sentimentos nada santos — jorrando de dentro da máscara de cera da Duquesa para dentro do aposento como um cheiro forte e fedorento.

A Duquesa sorriu para o Velho Niccolo.

— Signor Niccolo Montana?

Não havia vestígio de impaciência, só de altivez. Tonino pensou consigo mesmo: ando lendo livros demais. Um pouco envergonhado, ele observou o Velho Niccolo fazer uma reverência e apresentar os demais. A Duquesa assentiu graciosamente e voltou-se para os Petrocchi.

— Signor Guido Petrocchi?

O homem de barba ruiva fez uma mesura de modo brusco e rústico. Não tinha nem um pouco da fidalguia do Velho Niccolo.

— Vossa Graça. Comigo estão meu tio-bisavô Dr. Luigi Petrocchi, minha filha mais velha Renata e minha filha caçula Angélica.

Paolo e Tonino ficaram a estudar a menina mais nova, desde a testa proeminente até as pernas finas e brancas. Então aquela era Angélica! Ela não parecia capaz de fazer alguma coisa errada ou interessante.

A Duquesa começou:

— Creio que compreendem por que...

Mais uma vez as cortinas vermelhas foram afastadas. Um homem corpulento, de ar entusiasmado, entrou correndo, de cabeça baixa, e pegou a Duquesa por um braço.

— Lucrezia, você tem que vir ver! O cenário ficou uma maravilha!

A Duquesa virou-se como uma estátua viraria — o corpo todo de uma vez. Tinha a testa franzida e a boca crispada.

— Senhor Duque! — ela exclamou em tom gélido.

Tonino estudou o homem corpulento. Ele agora estava usando veludo verde ligeiramente surrado, com grandes botões de cobre, mas, exceto isso, era exatamente o mesmo grande e úmido Sr. Cintilante que havia interrompido o espetáculo de marionetes naquela ocasião. Então era mesmo, afinal, o Duque de Caprona! E não ficou nem um pouco desanimado com o olhar gélido da Duquesa.

— Você tem que vir ver! — insistiu, puxando o braço dela com o mesmo entusiasmo de antes. Virou-se para os Montana e os Petrocchi como se esperasse que eles o ajudassem a levar a Duquesa da sala, e então, ao que parecia, deu-se conta de que não se tratavam de cortesãos. — Quem são vocês?

A Duquesa, com as sobrancelhas ainda mais erguidas e a voz derramando paciência, respondeu:

— Estes são os Petrocchi e os Montana esperando a sua atenção, meu senhor.

O Duque bateu na testa brilhosa com a mão grande e de aparência úmida.

— Ora, quem diria! As pessoas que fazem feitiços! Eu estava pensando em mandar chamá-los. Vieram por causa desse tal mago que cravou as suas garras em Caprona? — perguntou ao Velho Niccolo.

— Meu Senhor! — a Duquesa exclamou.

Mas o Duque afastou-se dela, sorrindo e cintilando, e mergulhou na direção dos Petrocchi. Sacudiu com ímpeto a mão do Velho Guido, e depois a da menina Renata. Em seguida, deu meia-volta e fez a mesma coisa com o Velho Niccolo e Paolo. Paolo precisou esfregar a mão na calça às escondidas depois que ele a soltou. Estava toda molhada.

— E dizem que os jovens são tão inteligentes quanto os velhos! Que famílias espantosas! — o Duque comentou em tom alegre. — Exatamente as pessoas de que necessito para a minha peça. A minha pantomima, vocês sabem. Vamos apresentá-la no Natal e preciso de alguns efeitos especiais.

A Duquesa soltou um suspiro. Paolo olhou para o rosto rígido dela e achou que devia ser difícil lidar com uma pessoa como o Duque.

O Duque lançou-se na direção de Domenico.

— Consegue fazer uma revoada de cupidos tocando trombetas? — perguntou-lhe ansiosamente.

Domenico engoliu em seco e deu um jeito de sussurrar a palavra “ilusão”.

— Ah, muito bem! — o Duque exclamou, e lançou-se na direção de Angélica Petrocchi. — E você vai adorar a minha coleção de marionetes. Tenho centenas! — anunciou.

— Que bom — Angélica respondeu em tom pedante.

— Meu senhor, esta boa gente não veio até aqui para discutir o teatro — disse a Duquesa.

— Pode ser, pode ser — respondeu o Duque, com um gesto largo e impaciente da mão enorme. — Mas, enquanto estão aqui, posso muito bem perguntar-lhes sobre isto também. Não posso? — perguntou, lançando-se sobre o Velho Niccolo.

O Velho Niccolo, mostrando grande presença de espírito, disse, sorrindo:

— Naturalmente, Vossa Graça. Sem o menor problema. Depois que tivermos discutido o assunto de Estado que nos trouxe até aqui, teremos imenso prazer em receber a encomenda de quaisquer efeitos especiais que o senhor desejar.

— Nós também — interveio Guido Petrocchi com um olhar raivoso para o ar acima do Velho Niccolo.

A Duquesa sorriu graciosamente para o Velho Niccolo por ele tê-la apoiado, provocando no Velho Guido uma expressão mais amargurada do que nunca, e lançou um olhar significativo para o Duque.

Finalmente o Duque pareceu entender.

— Sim, sim. É melhor tratarmos de negócios. É o seguinte, entendem...

A Duquesa interrompeu, com um suave sorriso fixo.

— Há um bufê na Saleta de Reuniões. Se o senhor e os adultos quiserem conversar lá, vou providenciar alguma coisa para as crianças aqui mesmo.

Guido Petrocchi viu sua chance de vingar-se do Velho Niccolo.

— Vossa Graça, minhas filhas são tão leais a Caprona quanto o resto da minha Casa — declarou em tom pomposo. — Não tenho segredos para elas.

O Duque dirigiu-lhe um sorriso cintilante.

— Isto mesmo! Mas elas não acharão tão monótono se ficarem aqui, não é mesmo?

E de repente, todos, com exceção de Paolo, Tonino e as duas meninas Petrocchi, retiraram-se por outra porta atrás dos panôs vermelhos. O Duque ficou para trás, sorrindo.

— Já sei! — exclamou. — Vocês têm de vir à minha pantomima, todos vocês. Vão adorar. Vou lhes mandar os convites. Já vou, Lucrezia!

As quatro crianças foram deixadas de pé sob o teto cheio de anjinhos em luta.

Depois de um momento, as meninas Petrocchi dirigiram-se para as cadeiras alinhadas ao longo de uma parede e sentaram-se. Paolo e Tonino entreolharam-se. Marcharam para as cadeiras do lado oposto da sala e sentaram-se ali. Parecia ser uma distância segura. De onde estavam, as meninas Petrocchi eram borrões escuros de pernas finas e brancas e manchas castanho-avermelhadas no lugar da cabeça.

— Queria ter trazido o meu livro — Tonino comentou. Eles ficaram sentados, com os calcanhares enganchados nas pernas das cadeiras, tentando manter-se pacientes.

— Acho que a Duquesa deve ser uma santa, para ter tanta paciência com o Duque — Paolo comentou.

Tonino surpreendeu-se com o que Paolo pensava. Ele sabia que o Duque não se comportava como um duque, ao passo que a Duquesa era uma duquesa dos pés à cabeça. Mas ele não tinha tanta certeza de que fosse correto o modo como ela deixava que percebessem como estava sendo paciente.

— Mamãe também corre de um lado para outro, e papai não se importa — respondeu. — Isso até faz com que ele pare de parecer preocupado.

— Papai não é uma Duquesa — Paolo retrucou. Tonino não quis discutir, pois nesse momento apareceram dois lacaios empurrando um carrinho muito interessante. Tonino ficou boquiaberto. Em toda a sua vida, jamais havia visto tantos doces juntos. Do outro lado da sala havia buracos escuros no rosto das meninas Petrocchi: evidentemente, também elas jamais haviam visto tantos doces. Tonino apressou-se a fechar a boca e tentar parecer que via aquelas coisas todos os dias.

Os lacaios serviram primeiro as meninas Petrocchi. Elas eram bastante refinadas e, pelo que parecia, levaram horas escolhendo. Quando o carrinho foi finalmente empurrado para o outro lado da sala, onde estavam Paolo e Tonino, os dois meninos acharam difícil aparentar a mesma compostura. Havia vinte tipos de doces diferentes, e cada um deles pegou dez com uma velocidade gulosa, de modo que os dois juntos teriam uma amostra de cada doce e poderiam fazer trocas se fosse necessário. Quando o carrinho foi levado, Tonino conseguiu desgrudar os olhos do seu prato por um instante, para ver como as meninas Petrocchi estavam se saindo. As meninas tinham os joelhos erguidos, para apoiar neles um prato suficientemente grande para caber dez doces.

Eram doces consistentes. Quando chegou ao décimo, Paolo comia lentamente, perguntando-se se realmente gostava de merengue tanto quanto havia imaginado, e Tonino ainda estava no sexto. Quando Paolo colocou asseadamente o prato sob a sua cadeira e limpou-se com o lenço, Tonino, pegajoso de geléia, sujo de chocolate e creme e coberto de migalhas, ainda saboreava teimosamente o seu oitavo doce. E foi esse momento que a Duquesa escolheu para sentar-se, sorridente, ao lado de Paolo.

— Não vou interromper o seu irmão — disse, rindo. — Fale-me sobre você, Paolo.

Paolo não soube o que responder. Não conseguia pensar em outra coisa além do estado de imundície em que Tonino se encontrava. A Duquesa perguntou, para ajudá-lo:

— Por exemplo, você acha fácil aprender os feitiços? Ou tem dificuldade para aprender?

— Ah, não, Vossa Graça. Tenho muita facilidade para aprender — Paolo respondeu, cheio de orgulho.

Então imaginou que aquilo poderia deixar Tonino ofendido. Ergueu depressa os olhos para o rosto sujo de doce de Tonino e viu que o irmão olhava fixamente para a Duquesa com expressão séria. Paolo sentiu-se envergonhado e responsável. Queria que a Duquesa soubesse que Tonino não era apenas um menininho sujo e mal-educado.

— Tonino aprende devagar, mas lê o tempo todo — acrescentou. — Já leu todos os livros da Biblioteca. É quase tão culto quanto o Tio Umberto.

— Que coisa notável — disse a Duquesa, sorrindo. Havia um traço de descrença no arco das suas sobrancelhas.

Tonino ficou tão embaraçado que deu uma mordida enorme no seu nono doce. Era um grande mil-folhas; no instante em que fechou a boca era torno do doce, Tonino deu-se conta de que, se abrisse novamente a boca, mesmo que para respirar, a massa iria jorrar para fora dela como uma tempestade de granizo, cobrindo Paolo e a Duquesa. Ele então apertou os lábios e pôs-se a mastigar valentemente.

E, para vergonha de Paolo, ele continuou de olhos fixos na Duquesa. Queria que Benvenuto estivesse ali para contar-lhe sobre a Duquesa. Ela o deixava confuso. Enquanto se inclinava, sorridente, para Paolo, ela não parecia ser a dama arrogante e rígida que havia demonstrado tanta paciência com o Duque. No entanto, talvez porque ela não estivesse sendo paciente, Tonino sentiu, mais forte do que nunca, o poder grosseiro dos pensamentos nada santos por trás do sorriso fixo.

Paolo ordenou silenciosamente a Tonino que parasse de mastigar e de arregalar os olhos. Mas Tonino continuou fazendo as duas coisas, e a descrença nas sobrancelhas da Duquesa era tão óbvia que Paolo deixou escapar:

— E Tonino é o único que consegue conversar com Benvenuto. É o nosso gato-chefe, Vossa... — Ele lembrou-se de que a Duquesa não gostava de gatos. — Hã... Vossa Graça não gosta de gatos.

A Duquesa riu.

— Mas não me importo de escutar coisas sobre eles. Que tal é o Benvenuto?

Para alívio de Paolo, Tonino afastou os olhos da Duquesa e voltou-os para ele. De modo que Paolo prosseguiu:

— Sabe, Vossa Graça, os feitiços funcionam muito melhor e com mais força se houver um gato por perto, e particularmente se for Benvenuto. Além disso, Benvenuto sabe todo tipo de coisas...

Ele foi interrompido por um ruído grave vindo de Tonino. Tonino estava tentando falar sem abrir a boca. Era evidente que a qualquer segundo haveria uma tempestade de massa folhada. Paolo pegou seu lenço cheio de geléia e de creme, e segurou-o de prontidão.

A Duquesa ficou de pé, um tanto apressada.

— Acho melhor ir ver como vão as outras convidadas — declarou, e saiu deslizando rapidamente em direção às meninas Petrocchi.

Paolo percebeu, ressentido, que as meninas Petrocchi estavam preparadas para recebê-la. Seus lenços haviam ficado ocupados enquanto a Duquesa conversava com Paolo, e agora seus pratos também estavam asseadamente guardados debaixo das cadeiras. Cada uma delas deixara pelo menos três doces. Esse fato encorajou bastante Tonino, que não estava se sentindo muito bem. Ele colocou o resto do nono doce ao lado do décimo e colocou o prato com muito cuidado sobre a cadeira ao seu lado. A essa altura, conseguira engolir o que tinha na boca.

— Você não devia ter contado a ela sobre Benvenuto — disse, puxando seu lenço do bolso. — Ê um segredo de família.

— Então você devia ter dito alguma coisa, em vez de ficar olhando como um boneco — Paolo retrucou.

Para sua mortificação, ambas as meninas Petrocchi estavam conversando alegremente com a Duquesa. A de testa grande, Angélica, estava rindo. Isso deixou Paolo tão irritado que ele exclamou:

— Olha como estas meninas bajulam a Duquesa!

— Eu não fiz isto — Tonino observou.

Como a vontade de Paolo era de dizer que teria preferido que Tonino tivesse feito, ele encontrou-se sem poder dizer coisa alguma. Ficou ali sentado, amargurado, observando a Duquesa conversar com as meninas no outro lado da sala, até que ela se levantou e retirou-se deslizando. Ela lembrou-se de sorrir e acenar para Paolo e Tonino antes de sair. Paolo achou que isso era simpático da parte dela, considerando o papel de tolos que ambos haviam feito.

Bem depressa, depois disso, as cortinas foram afastadas e o Velho Niccolo entrou de volta, caminhando devagar ao lado de Guido Petrocchi. Atrás dele entraram os dois tios-bisavôs de túnica, e Domenico entrou em seguida. Era como uma procissão.

Todos olhavam diretamente para a frente, e era óbvio que tinham muitas coisas em que pensar. Todas as quatro crianças puseram-se de pé, limparam as migalhas e acompanharam a procissão. Paolo percebeu que estava caminhando ao lado da menina mais velha, mas teve o cuidado de não olhar para ela. Em total silêncio eles marcharam para a grande porta do Palácio, onde as carruagens se aproximavam para recebê-los.

A carruagem dos Petrocchi chegou primeiro, com seus cavalos negros pingando da chuva. Tonino deu outra olhada para o cocheiro, com certa esperança de que ele houvesse cometido um engano. Ainda estava chovendo e as roupas do homem estavam ensopadas. Seus cabelos debaixo do chapéu encharcado, ruivos como os dos Petrocchi, estavam marrons, de tão molhados. Ele tremia ao inclinar-se para baixo e havia um olhar interrogador no seu rosto pálido, como se estivesse ansioso para que lhe contassem o que o Duque havia dito. Não, ele era mesmo de verdade. O cocheiro dos Montana, que vinha atrás, tinha os olhos fixos no espaço, ignorando tanto a chuva quanto os seus passageiros. Tonino sentia que, definitivamente, os Petrocchi haviam feito melhor figura.

 

Quando a carruagem pôs-se em movimento, o Velho Niccolo recostou-se e disse:

— Bem, tenho que admitir que o Duque é muito simpático. Talvez não seja um tolo tão grande quanto parece ser.

Com a mais profunda melancolia Tio Umberto comentou:

— Quando meu pai era criança, o pai dele ia ao Palácio uma vez por semana. E era recebido como amigo.

Domenico disse timidamente:

— Pelo menos vendemos alguns efeitos especiais. Tio Umberto retrucou em tom cortante:

— É exatamente disto que estou reclamando!

Tonino e Paolo olhavam de um para o outro, tentando imaginar o que os havia deprimido tanto.

O Velho Niccolo percebeu o olhar dos dois e disse:

— Guido Petrocchi queria que aquelas suas filhas horrorosas estivessem presentes enquanto conferenciávamos com o Duque. Não irei...

— Ah, Senhor! Não se presta atenção a um Petrocchi — resmungou Tio Umberto.

— Não, mas confia-se nos próprios netos — retrucou o Velho Niccolo. — Meninos, parece que Caprona está muito mal. Os Estados de Florença, Pisa e Siena agora uniram-se contra ela. O Duque suspeita de que estão pagando a um mago para...

— Rá! — exclamou Tio Umberto. — Estão pagando é aos Petrocchi.

Domenico, que, por um motivo qualquer, tornara-se surpreendentemente ousado, interveio:

— Titio, eu vi que os Petrocchi são tão traidores quanto nós! Os dois velhos voltaram-se para olhar para ele, e ele encolheu-se.

O Velho Niccolo continuou:

— O fato é que Caprona já não é o grande Estado que um dia foi. As razões para isto são muitas, sem dúvida. Mas nós sabemos, e o Duque sabe, e até Domenico sabe, que todos os anos montamos os encantos de costume para a defesa de Caprona, e a cada ano nós os fazemos mais fortes, e a cada ano o efeito deles é menor. Alguma coisa, ou alguém, está definitivamente minando o nosso poder. De modo que o Duque nos perguntou se havia alguma coisa mais que pudéssemos fazer. E...

Domenico interrompeu-o com uma risada.

— E nós dissemos que encontraríamos a letra de “O Anjo de Caprona”!

Paolo e Tonino achavam que Domenico seria novamente esmagado com um olhar, mas os dois velhos simplesmente mostraram-se melancólicos. Balançavam tristemente a cabeça.

— Mas não compreendo — disse Tonino. — “O Anjo de Caprona” já tem uma letra. Nós cantamos sempre, na escola.

— Sua mãe não lhe ensinou... — o Velho Niccolo começou, com irritação, mas interrompeu a frase. — Ah, não. Esqueci. Sua mãe é inglesa.

— Mais um motivo para termos cautela no casamento — disse Tio Umberto desanimadamente.

A essa altura, com a chuva caindo sem cessar, ambos os meninos estavam totalmente deprimidos e assustados. Domenico soltou outra risada: parecia achar graça neles.

— Fique quieto — zangou o Velho Niccolo. — Esta é a última vez que levo você aonde estiverem servindo conhaque. Não, meninos, “O Anjo” não tem uma letra correta. A letra que vocês cantam é uma improvisação. Algumas pessoas dizem que o glorioso Anjo levou as palavras de volta para o Céu depois que o Demônio Branco foi derrotado, e deixou apenas a melodia. Ou então as palavras foram perdidas. Mas todo o mundo sabe que Caprona não poderá ser verdadeiramente grande até que essa letra seja encontrada.

— Em outras palavras, “O Anjo de Caprona” é um feitiço como qualquer outro — disse Tio Umberto em tom irritado. — E sem as palavras corretas qualquer feitiço só tem metade da sua força, mesmo que ele seja de origem divina. — Ele juntou a saia da túnica quando a carruagem parou com um solavanco em frente à Universidade. — E nós, como idiotas, nos comprometemos a completar aquilo que Deus deixou inacabado. Como é grande a presunção do homem! — Ele saltou da carruagem falando para o Velho Niccolo: — Vou procurar em todos os manuscritos que me vierem à lembrança. Deve haver uma pista em algum lugar. Ah, que chuva desgraçada!

A porta bateu e a carruagem tornou a pôr-se em movimento com um solavanco. Paolo perguntou:

— Os Petrocchi também disseram que vão encontrar a letra? O Velho Niccolo franziu os lábios com raiva.

— Disseram, sim. E eu morreria de vergonha se eles encontrassem antes de nós. Eu...

Ele se interrompeu quando a carruagem dobrou a esquina do Corso. Com os solavancos, borrifos de água voavam perto das janelas.

Domenico inclinou-se para a frente.

— Ele não está dirigindo muito bem, não é mesmo?

— Fique quieto! — ordenou o Velho Niccolo.

Paolo mordeu a língua durante uma sucessão de solavancos. Havia alguma coisa errada: o ruído que a carruagem estava fazendo não era o costumeiro.

— Não estou escutando as patas dos cavalos — Tonino comentou, perplexo.

— Eu imaginei que fosse isso! — retrucou o Velho Niccolo. — É a chuva!

Ele baixou a janela com um forte ruído, deixando entrar uma lufada de vento úmido, e, sem ligar para os rostos na rua que o encaravam sob guarda-chuvas molhados, inclinou-se para fora e berrou as palavras de um feitiço. — E dirija a toda velocidade, cocheiro! Pronto — continuou, enquanto tornava a levantar a janela. — Com isto devemos chegar em casa antes que os cavalos virem uma polpa. Que sorte, isto não ter acontecido antes de Umberto saltar!

O ruído das patas dos cavalos voltou, ressoando sobre as pedras do Corso; pelo jeito, o novo feitiço estava funcionando. Porém, quando entraram na Via Cardinal o ruído mudou para um chomp-chomp esponjoso, e quando chegaram à Via Magica as patas dos animais mal faziam qualquer som. E os trancos recomeçaram, piores do que antes. Quando viraram para entrar pelo portão da casa dos Montana houve o pior solavanco de todos. A carruagem inclinou-se para a frente e ouviu-se um barulho forte quando as suas traves bateram nas pedras do pavimento. Paolo conseguiu abrir a sua janela bem a tempo de ver a figura de papel flácido do cocheiro cair do banco dentro de uma poça de água. Mais à frente, dois cavalos de papelão molhado estavam caídos sobre suas pegadas.

— Na época do meu avô, esse feitiço durava dias — disse o Velho Niccolo.

— Está dizendo que a culpa é do tal mago? — Paolo quis saber. — Ele está atrapalhando todos os nossos feitiços?

O Velho Niccolo encarou-o com os olhos arregalados, como um bebê prestes a cair no choro.

— Não, garoto. Imagino que não. A verdade é que a Casa Montana está tão mal quanto Caprona está. A antiga virtude está se dissipando. Vem se dissipando de geração para geração, e agora está quase toda desaparecida. Fico envergonhado por vocês aprenderem as coisas desta maneira. Vamos saltar, meninos, e começar a puxar.

Foi uma infeliz humilhação. Como o resto da família estava dormindo ou trabalhando na Ponte Velha, não havia alguém para ajudá-los a puxar a carruagem através do portão. E Domenico mostrou-se um inútil. Mais tarde ele confessou que não se lembrava de haver chegado em casa. Deixaram-no dormindo dentro da carruagem e puxaram-na, os três. Nem mesmo Benvenuto, que chegou correndo pela chuva, conseguiu alegrar Tonino.

— É um consolo. A chuva — ofegou o avô. — Não há ninguém por perto para ver o Velho Niccolo puxando sua própria carruagem.

Paolo e Tonino não achavam que isso fosse um grande consolo. Agora compreendiam a angústia crescente na Casa, e isso não era agradável. Eles entendiam por que todos haviam ficado tão ansiosos em relação à Ponte Velha, e tão felizes quando, pouco antes do Natal, ela foi finalmente consertada. Compreendiam também a preocupação em arranjar um marido para Rosa. Assim que a ponte foi consertada, todos voltaram a discutir esse assunto. E Paolo e Tonino sabiam por que todos concordavam que o rapaz que Rosa deveria escolher precisava ter, no mínimo, um grande talento para fazer feitiços.

— Para melhorar a raça, é o que você quer dizer? — Rosa perguntou. Ela se mostrava muito sarcástica e independente em relação a esse assunto. — Muito bem, meu caro Tio Lorenzo, só me apaixonarei por homens que saibam fazer cavalos de papel à prova dágua.

Tio Lorenzo enrubesceu de raiva. A família inteira sentia-se humilhada por causa daqueles cavalos. Mas Elizabeth estava tentando não rir. Elizabeth certamente incentivava a atitude independente que Rosa mostrava. Benvenuto informou Tonino de que aquela era a maneira inglesa. E acrescentou que os gatos gostavam do povo inglês.

— Nós perdemos mesmo a nossa virtude? — Tonino perguntou ansiosamente a Benvenuto. Ele achava que essa era, provavelmente, a explicação para a sua lentidão.

Benvenuto respondeu que ele não sabia como as coisas eram nos dias de antigamente, mas sabia que agora havia magia suficiente à solta para fazer sua pelagem soltar faíscas. Isso parecia ser muito. Mas ele às vezes se perguntava se ela estava sendo bem empregada.

Por volta dessa época, o dobro da quantidade de jornais ia parar dentro da casa. Havia jornais de Roma e revistas de Gênova e de Milão, assim como os costumeiros jornais de Caprona. Todos os liam ansiosamente e conversavam em cochichos a respeito da atitude de Florença, dos movimentos em Pisa e do endurecimento da opinião em Siena. Nesses murmúrios preocupados, a palavra “Guerra” começou a aparecer, com uma freqüência cada vez maior. Além disso, no lugar das costumeiras canções de Natal a única música que se ouvia na casa dos Montana, dia e noite, era “O Anjo de Caprona”.

Essa canção era cantada em baixo, tenor e soprano. Era tocada lentamente pelas flautas, em seguida as guitarras pegavam a melodia e então os violinos davam a cadência. Cada membro dos Montana vivia na esperança de que ele ou ela fosse a pessoa a encontrar as palavras corretas. Rinaldo teve uma idéia nova; conseguiu um tambor e sentou-se na beirada da cama batendo o ritmo até Tia Francesca implorar-lhe para parar. E nem isso adiantou; nenhum dos Montana conseguiu colocar a letra correta na melodia. Antonio dava a impressão de estar tão preocupado que Paolo mal conseguia olhar para ele.

Com tanta preocupação generalizada, não era de surpreender que todos os dias Paolo e Tonino esperassem chegar os convites para a pantomima do Duque. Era a única coisa alegre. Mas Antonio e Rinaldo foram ao Palácio — a pé — para entregar os efeitos especiais e voltaram sem uma única palavra de convite. Chegou o Natal; a família Montana foi em peso à igreja, à linda Igreja de Sant’Angelo com sua fachada de mármore, e comportou-se com grande devoção. Geralmente, só Tia Anna e Tia Maria eram notavelmente religiosas, mas agora todos sentiam que tinham algo para pedir em oração. Foi somente quando chegou a ocasião de cantar “O Anjo de Caprona” que a devoção dos Montana enfraqueceu. O rosto de cada um deles, do Velho Niccolo ao primo mais novinho, foi tomado por uma expressão distraída. Eles cantavam:

 

         “Com sua música soando

         Vejo o Anjo chegar cantando,

         Consolo e paz derramando

         Na cidade gentil de Caprona.

 

         Vitória que nunca falha,

         Amizade que nada atalha,

         A paz que vence a batalha,

         Na cidade gentil de Caprona.

 

         O Demônio fugiu em derrota

         E em Caprona agora brota

         A, a força e a virtude devota

         Na cidade gentil de Caprona.”

 

Cada um deles se perguntava quais seriam as palavras verdadeiras.

Eles se reuniram em casa para as comemorações familiares, ainda não havendo qualquer palavra da parte do Duque. Então o Natal passou, o Ano Novo chegou e passou também, e os meninos foram obrigados a compreender que afinal nenhum convite chegaria. Cada um disse a si mesmo que já sabia que o Duque era assim. Não falaram do assunto um com o outro, mas ambos ficaram profundamente decepcionados.

Foram despertados de sua melancolia por Lucia, que vinha em disparada pela varanda, gritando:

— Venham ver o namorado de Rosa!

— Como assim? — disse Antonio, erguendo o rosto preocupado do livro a respeito do Anjo de Caprona. — Que foi? Nada está decidido ainda!

Lucia pulava de um pé para o outro. Tinha o rosto rosado de excitação.

— Rosa resolveu sozinha! Eu sabia que ela ia fazer isso! Venham ver!

Levados por Lucia, Antonio, Paolo, Tonino e Benvenuto dispararam pela varanda e desceram os degraus de pedra que levavam ao pátio. Pessoas e gatos atravessavam o pátio vindo de todas as direções, dirigindo-se apressados para o aposento chamado Salão, que ficava atrás da sala de jantar.

Rosa estava parada perto das janelas, parecendo feliz, porém desafiadora, com ambas as mãos no braço de um rapaz de cabelos vermelhos e expressão embaraçada. Um anel faiscava no dedo de Rosa. Elizabeth estava com eles, parecendo tão feliz quanto Rosa e quase tão desafiadora. Quando o rapaz viu a família entrando pela porta e vindo em sua direção, seu rosto ficou de um tom cor-de-rosa forte e ele ergueu a mão para afrouxar a gravata elegante. Apesar disso, porém, era óbvio para todos que no fundo o rapaz estava tão feliz quanto Rosa. E Rosa estava tão feliz que parecia brilhar como o Anjo acima do portão. Aquilo fez com que todos a encarassem, maravilhados. O que, naturalmente, deixou o rapaz mais constrangido do que nunca.

O Velho Niccolo pigarreou.

— Agora escute aqui — começou, depois parou. Aquilo era assunto de Antonio. Ele olhou para Antonio.

Paolo e Tonino perceberam que seu pai olhou primeiro para a esposa. A expressão feliz de Elizabeth pareceu tranqüilizá-lo um pouco.

— Bem, quem é você exatamente? — ele perguntou ao rapaz. — Como foi que conheceu Rosa?

— Ele era um dos empreiteiros na Ponte Velha, papai — disse Rosa.

— E tem um enorme talento natural, Antonio — Elizabeth interveio. — Ele canta com uma linda voz.

— Está bem, está bem. Deixem que o rapaz fale — pediu Antonio.

O rapaz engoliu em seco, ajudando com uma sacudidela na gravata. Seu rosto agora estava muito pálido.

— Meu nome é Marco Andretti — disse, numa voz agradável, embora um pouco rouca. — Eu... Acho que o senhor conheceu meu irmão na ponte. Eu estava no outro turno. Foi assim que fiquei conhecendo Rosa.

O modo como ele sorriu para Rosa fez com que todos tivessem a esperança de que ele serviria para tornar-se um Montana.

— Se papai não der permissão, vai partir o coração deles — Lucia cochichou com Paolo.

Paolo concordou. Ele também percebia isso.

Antonio estava puxando o lábio inferior, que era algo que fazia quando o seu rosto não conseguia agüentar mais preocupações do que já estava agüentando.

— Sim, eu conheci Mario Andretti, é claro. Uma família muito respeitável. — Ele falou de um modo que dava a impressão de que isso não era uma coisa muito boa. — Mas tenho certeza de que sabe, Signor Andretti, que a nossa família é especial. Temos que ter muito cuidado na hora de escolher com quem nos casamos. Primeiro: o que acha dos Petrocchi?

O rosto pálido de Marco tornou-se de um vermelho vivo. Ele respondeu, com uma violência que surpreendeu os Montana:

— Odeio todos eles, Signor Montana!

Parecia tão irritado que Rosa puxou-lhe o braço e deu-lhe uns tapinhas tranqüilizadores.

— Marco tem razões pessoais, de família, papai — ela disse.

— Que eu preferia não mencionar — Marco completou.

— Nós... Bem, não vou insistir para que nos conte — disse Antonio, e continuou a puxar o lábio. — Mas, entenda, na nossa família precisamos desposar alguém que tenha pelo menos algum talento para a magia. Tem alguma aptidão nesse assunto, Signor Andretti?

Ouvindo isto, Marco Andretti pareceu relaxar. Sorriu e carinhosamente tirou as mãos de Rosa da sua manga. Então cantou. Elizabeth tinha razão quanto à voz dele: era um tenor de primeira qualidade. Tio Lorenzo foi ouvido murmurando que não conseguia entender o que uma voz como aquela estava fazendo fora da Ópera de Milão.

Marco cantou:

 

       “Uma árvore dourada cresce aqui, uma árvore

         Cujos ramos dourados têm botões verdes... “

 

Enquanto ele cantava, a árvore começou a aparecer, enraizada no tapete entre Rosa e Antonio, primeiro como uma leve sombra dourada, depois como uma forma metálica que chocalhava, o dourado cintilando aos raios de sol que vinham pelas janelas. Os Montana assentiram, demonstrando o seu agrado. O tronco e cada galho, até mesmo o menor raminho, eram mesmo de ouro puro.

Mas Marco continuou a cantar e, enquanto ele cantava, os galhos de ouro soltaram botões, a princípio claros e arredondados, depois cintilantes e pontiagudos. Instantes depois, a árvore estava coberta de folhas. Ela movia-se e tilintava constantemente, ao ritmo da canção de Marco. Então desabrocharam cachos de flores brancas e rosadas, que se abriam, cresciam e caíam com a rapidez das luzes coloridas dos fogos de artifício. O aposento estava tomado de perfume, e, depois, de pétalas que caíam suavemente, como confetes. Marco ainda cantava, e a árvore ainda se movimentava. Antes que a última pétala caísse, frutas verdes e pontudas inchavam onde antes havia flores. As frutas ficaram marrons e cresceram, cresceram, e ficaram amarelas, até que a árvore pendeu sob o peso de uma enorme quantidade de grandes peras amarelas. Marco concluiu:

— “...com frutos dourados para todos.”

Ele ergueu a mão, colheu uma das peras e estendeu-a para Antonio com um gesto um pouco tímido.

Do resto da família vinham murmúrios de aprovação. Antonio pegou a pêra e cheirou-a. E sorriu, para alívio evidente de Marco.

— Fruta boa — disse. — Isto foi feito de maneira muito elegante, Signor Andretti. Mas há ainda uma coisa que preciso lhe perguntar. Concordaria em mudar o seu nome para Montana? É o nosso costume, entende?

— Sim, Rosa me contou — disse Marco. — E... isto é uma dificuldade. Meu irmão precisa de mim na sua empresa, e ele também quer manter o nome da família. Seria aceitável que eu fosse conhecido como Montana quando estivesse aqui e como... como Andretti quando estiver em casa com o meu irmão?

— Está querendo dizer que você e Rosa não morariam aqui? — Antonio perguntou, atônito.

— Não o tempo todo — Marco respondeu. Pelo modo como ele disse isso, era óbvio que não mudaria de idéia.

Aquilo era grave. Antonio olhou para o Velho Niccolo. E havia semblantes carrancudos de todos lados, diante da idéia de que a família seria separada.

— Não vejo por que não — opinou Elizabeth.

— Bem, meu tio-avô fez isso — disse o Velho Niccolo. — Mas não foi um sucesso. A esposa dele fugiu para a Sicília com um bruxozinho ensebado.

— Isto não significa que eu vá fugir também! — Rosa protestou.

A família vacilava, enquanto a árvore balançava-se levemente no meio deles. Todos amavam Rosa; era óbvio que Marco era um bom rapaz; ninguém queria partir o coração deles. Mas aquela idéia de morar longe da Casa...!

Tia Francesca deu um passo à frente, dizendo:

— Concordo com Elizabeth. Nossa Rosa encontrou um bom rapaz, com mais talento e uma voz melhor do que tudo que vi fora da nossa família durante anos. Deixem que eles se casem.

Diante disso, Antonio pareceu ficar terrivelmente preocupado, mas não chegou a puxar o lábio. Parecia estar relaxando, prestes a concordar, quando Rinaldo abriu caminho e passou por baixo da árvore, fazendo com que ela chocalhasse furiosamente.

— Um momentinho. Não estamos sendo um pouco confiantes demais? Quem é este sujeito, afinal? Por que não o conhecemos antes, e jamais ouvimos falar no talento dele?

Paolo baixou a cabeça e observou Rinaldo por baixo dos cabelos. Aquele era Rinaldo no estado de espírito que ele menos admirava: Rinaldo vulgar e agressivo, com um esgar desagradável na boca. Rinaldo ainda estava um pouco pálido, por causa do corte na cabeça, mas isso até combinava com as roupas negras e o lenço vermelho de bandoleiro. Rinaldo sabia disso. Ergueu a cabeça num gesto pretensioso e com desprezo jogou longe uma pétala que havia caído em sua manga. Depois olhou para Marco, desafiando-o a responder.

O modo como Marco o encarou de volta mostrava que ele estava preparado para enfrentar Rinaldo.

— Estive na faculdade era Roma até recentemente. Se é isto que você quer saber — declarou.

Rinaldo girou o corpo para ficar de frente para a família.

— É o que ele diz — comentou. — Ele fez um belo truque para nós, e disse todas as coisas certas. Mas qualquer pessoa no lugar dele faria a mesma coisa. — Tornou a girar o corpo, ficando de frente para Marco. Foi um movimento tão teatral que Tonino fez uma careta e até Paolo sentiu-se ligeiramente infeliz. — Não confio em você — Rinaldo continuou. — Já vi sua cara antes, em algum lugar.

— Na Ponte Velha — Marco sugeriu.

— Não, não foi lá. Foi em algum outro lugar — Rinaldo insistiu.

Tonino se deu conta de que aquilo devia ser verdade. Marco tinha mesmo um ar familiar. E Tonino não poderia tê-lo visto na Ponte Velha porque jamais estivera lá.

— Quer que eu busque o meu irmão, ou o meu confessor, para dar referências minhas? — Marco perguntou.

— Não. Quero a verdade — Rinaldo respondeu em tom grosseiro.

Marco respirou fundo.

— Não quero ser hostil — declarou.

O braço que Rosa segurava dobrou-se, e o mesmo aconteceu com o punho na sua extremidade. Rinaldo fez uma expressão de quem estivesse achando aquilo ótimo, e deu um passo para a frente num movimento arrogante.

— Por favor! — pediu inutilmente Rosa.

Benvenuto mexeu-se nos braços de Tonino. Em sua imaginação Tonino viu um gato grande e listrado andando com arrogância sobre o telhado da casa — o telhado de Benvenuto. Tonino quase soltou uma risada. As musculosas patas traseiras de Benvenuto fizeram força para trás, apertando Paolo, e o gato saltou para o chão, aterrissando entre Rinaldo e Marco. Ouviu-se uma exclamação em tom baixo por parte do resto da família. Sabiam que Benvenuto resolveria a questão.

O gato ignorou Rinaldo deliberadamente. Arqueando o corpo, com a cauda ereta como um cipreste, ele aproximou-se com afetação das pernas de Marco e esfregou-se nelas. Marco abriu o punho e inclinou-se para estender a mão para Benvenuto.

— Olá! Qual é seu nome? — perguntou, e fez uma pausa para que Benvenuto respondesse. — Muito prazer em conhecê-lo, Benvenuto — concluiu.

Dessa vez a exclamação por parte da família foi longa e em alto volume. E foi seguida por gritos:

— Pare com isto, Rinaldo!

— Não banque o tolo!

— Deixe Marco em paz!

Embora Rinaldo não se deixasse intimidar com a mesma facilidade que Domenico, nem mesmo ele conseguiria enfrentar a família inteira. Quando ele olhou para o Velho Niccolo e viu que o Velho Niccolo fazia-lhe gestos zangados para que se afastasse, desistiu e abriu caminho até a porta aos empurrões.

Antonio declarou:

— Rosa e Marco, eu lhes dou o meu consentimento temporário para que se casem.

Diante disso, todos puseram-se a abraçar-se, apertar a mão de Marco e beijar Rosa. Marco, vermelho e feliz, colhia pêra após pêra da árvore dourada e a oferecia a cada um, até mesmo ao bebê mais jovem. Eram peras deliciosas, no ponto exato de amadurecimento. Elas se derretiam na boca e escorriam pelo queixo das pessoas.

— Não quero ser desmancha-prazeres, mas uma árvore no meio do Salão irá trazer muitos problemas — declarou Tia Maria, cuspindo suco na orelha de Paolo.

Marco, porém, havia pensado nisso; assim que a última pêra foi colhida, a árvore começou a desvanecer-se. Logo era apenas um ruidoso brilho dourado, uma sombra de árvore a desaparecer, e logo em seguida já não havia árvore alguma ali. Todos aplaudiram. Tia Gina e Tia Anna trouxeram garrafas de vinho e taças, e a Casa bebeu à saúde de Rosa e Marco.

— Graças a Deus! Eu estava tão nervosa, torcendo por ela! — Tonino ouviu Elizabeth exclamar.

No outro lado de Elizabeth, o Velho Niccolo declarava a Tio Lorenzo que Marco era uma excelente aquisição, porque conseguia entender os gatos. Tonino sentiu-se um pouquinho triste diante disso. E saiu para o pátio gelado. Como imaginava, Benvenuto estava agora enrodilhado no local banhado de sol nos degraus da varanda. O gato ondulou a cauda, irritado com Tonino; acabara de acomodar-se para uma soneca.

Declarou a Tonino, em tom irritado, que Marco não conseguia entender os gatos. Ele sabia o nome de Benvenuto porque Rosa lhe contara, mas não tinha a menor idéia daquilo que Benvenuto lhe dissera. Benvenuto havia dito a ele que ele e Rinaldo ficariam inteiramente arranhados se começassem uma briga na Casa — nenhum deles era o gato-chefe ali. Agora, se Tonino fosse embora, ele poderia dormir um pouco.

Aquilo foi um grande alívio para Tonino. Ele agora sentia-se livre para gostar de Marco tanto quanto Paolo gostava. Marco era divertido. Nunca ficava muito tempo na Casa, porque ele e o irmão estavam construindo uma residência do outro lado da Ponte Nova, mas era uma das poucas pessoas por quem Tonino largava o livro para conversar. E isso, conforme Lucia disse a Rosa, era realmente um elogio.

Rosa e Marco iriam casar-se na primavera. Os dois riam constantemente por causa disso enquanto entravam e saíam juntos da casa, sempre apressados. Antonio e Tio Lorenzo foram a pé até a casa onde Mario Andretti morava, e combinaram tudo. Mario Andretti veio até a casa dos Montana para acertarem os detalhes. Era um homem grande e gordo — duro na queda na hora de negociar, segundo Tia Francesca — e bem diferente de Marco. A coisa mais notável a seu respeito era o automóvel comprido e branco no qual ele fora até lá.

O Velho Niccolo olhou Pensativamente para o carro.

— Tem cheiro ruim. Mas parece mais confiável do que um cavalo de papelão — disse, e suspirou.

Ainda se sentia profundamente humilhado. De qualquer maneira, depois que Mario Andretti retirou-se Tonino ficou muito interessado ao ser enviado ao correio com duas cartas. Uma era endereçada à Ferrari, a outra à Rolls-Royce na Inglaterra.

Normalmente, a conversa na casa dos Montana teria sido toda a respeito daquele carro e daquelas duas cartas. Mas essas coisas passaram despercebidas em meio aos murmúrios ansiosos sobre Florença, Siena e Pisa. O único tópico capaz de finalizar a conversa sobre a guerra era o vestido de noiva de Rosa. Deveria ser longo ou curto? Com ou sem cauda? E qual o tipo do véu? Rosa mostrava-se tão independente a respeito disso quanto havia se mostrado a respeito de Marco.

— Imagino que eu não tenha o direito de dar a minha opinião sobre o meu vestido — ela comentou. — Ele será na altura dos joelhos na frente e com uma cauda de três metros atrás, eu acho. E nada de véu. Apenas uma máscara negra.

Aquilo ofendeu profundamente Tia Maria e Tia Gina, que eram as principais debatedoras. Com tudo isso — com o barulho que elas faziam e o som fanhoso que vinha do outro lado da sala, onde Antonio havia encurralado Marco para ajudá-lo a encontrar a letra de “O Anjo”, Tonino não conseguia concentrar-se no livro. Então saiu para a varanda e de lá foi para a biblioteca, na esperança de ali ter alguma paz.

Mas Rinaldo estava debruçado na balaustrada da varanda, bem em frente à porta da biblioteca, com uma aparência extraordinariamente sinistra, e fez com que Tonino estacasse, dizendo:

— Esse tal de Marco, eu queria muito recordar onde foi que o vi. Encontrei-o na Galeria de Arte com Rosa, mas não foi lá. Sei que foi em algum lugar muito mais degradante do que isso.

Tonino não tinha dúvida de que Rinaldo conhecesse todo tipo de lugares degradantes. Levou seu livro para dentro da biblioteca, torcendo para que Rinaldo não conseguisse lembrar-se do tal lugar, e acomodou-se para ler em meio ao frio e ao cheiro de mofo.

No momento seguinte, Benvenuto aterrissou sobre o livro com um ruído forte.

— Ora, saia daí! — Tonino ordenou. — Minhas aulas começam amanhã, e quero terminar isto antes.

Benvenuto disse que não: Tonino devia ir imediatamente ao encontro do Velho Niccolo. Por trás dos olhos de Tonino passou um alvoroço de documentos, feitiços, rolos de pergaminhos amarelados e então uma fila de imensos livros vermelhos. Isso foi seguido por uma tempestade de imagens imensas. Gigantes corriam, batiam, fumavam e incendiavam, e todos eles usavam vermelho e dourado. Mas não ainda; estavam a preparar-se para o combate, marchando com suas enormes e imponentes botas. Benvenuto tinha tanta urgência que Tonino precisou usar toda a sua capacidade para desvendar o que ele queria dizer.

— Está bem, eu direi a ele — concordou o menino. Levantou-se e saiu em disparada pela varanda.

Ao passar por Rinaldo, este perguntou:

— Qual é o motivo de tanta pressa?

Quando Tonino chegou aos aposentos do Velho Niccolo, este estava justamente saindo. O menino relatou:

— Benvenuto mandou dizer para preparar os feitiços de guerra. O Duque está convocando os Reservistas.

O Velho Niccolo ficou tão quieto, com os olhos tão arregalados, que Tonino achou que ele não estava acreditando. O Velho Niccolo tateou à procura da moldura da porta. Parecia pensar que ela não estava ali.

— O senhor me escutou, não foi? — Tonino quis saber.

— Escutei, sim — o Velho Niccolo afirmou. — É que é tão cedo... tão de repente... Queria que o Duque houvesse nos avisado. Então a guerra está chegando! Deus permita que o nosso poder ainda seja suficiente...

 

A novidade de Benvenuto provocou uma barafunda na Casa Montana. Os primos mais velhos correram para o Scriptorium e começaram a guardar os feitiços, as tintas e as canetas de uso diário; as tias trouxeram as tintas especiais para serem usadas nos feitiços de guerra; os tios cambaleavam sob pilhas de papéis e rolos de pergaminho em branco. Antonio, o Velho Niccolo e Rinaldo foram à biblioteca e pegaram os gigantescos livros vermelhos, com GUERRA estampada na lombada, ao passo que Elizabeth correu para a sala de música com todas as crianças, para guardar as partituras normais e preparar as canções e os instrumentos de guerra.

Enquanto isso, Rosa, Marco e Domenico saíram em disparada para a Via Magica e voltaram com jornais. Todos imediatamente abandonaram o que estavam fazendo e foram agrupar-se na sala de jantar, para saber o que os jornais diziam.

Formaram junto à mesa uma pequena multidão de pessoas de pescoço esticado. Rinaldo estava de pé sobre uma cadeira, debruçado em cima de três tias. Marco estava embaixo, entortando ansiosamente o pescoço para um lado, a cabeça quase grudada à do Velho Niccolo. Rosa virava as páginas. Havia tantas outras pessoas apertadas e inclinadas para a frente que Lucia, Paolo e Tonino foram forçados a agachar-se, com o queixo em cima da mesa, para que pudessem enxergar alguma coisa.

— Não, nada — disse Rosa, folheando o segundo jornal.

— Espere! — Marco exclamou. — Veja nas Notícias de Ultima Hora.

Todos se inclinaram na mesma direção, empurrando Marco mais para o lado. Nesse momento Tonino quase recordou o lugar onde havia visto Marco antes.

— Ali está — disse Antonio.

Todos endireitaram o corpo, as expressões muito sérias.

— A Reserva foi mesmo mobilizada — Rosa informou. — Ah, Marco!

— Qual é o problema? Marco é Reservista? — Rinaldo perguntou em tom sarcástico.

— Não. Meu... meu irmão conseguiu que me deixassem de fora — Marco respondeu.

Rinaldo riu.

— Quanto patriotismo! — exclamou. Marco ergueu os olhos para ele.

— Sou um Reservista Voluntário, e espero que você também seja. Se não for, terei muito prazer em levá-lo ao posto do Exército no Arsenal agora mesmo.

Os dois se entreolharam com ódio. Mais uma vez ouviram-se exclamações para que Rinaldo parasse de bancar o tolo. De fisionomia amarrada Rinaldo desceu da cadeira e saiu da sala.

— Rinaldo também é Reservista Voluntário — Paolo assegurou a Marco.

— Achei mesmo que fosse. Escute, preciso ir. Eu... eu preciso avisar meu irmão. Rosa, verei você amanhã, se eu puder.

Quando Tonino adormeceu, naquela noite, o aposento contíguo ao dele estava cheio de pessoas falando da guerra e do Anjo de Caprona, com desvios ocasionais a respeito do vestido de noiva de Rosa. Tonino tinha a cabeça tão cheia dessas coisas que ficou muito surpreso, quando foi para a escola, por não escutar esse assunto lá. Mas parecia que ninguém havia percebido que poderia haver guerra. Era bem verdade que alguns dos professores tinham a fisionomia séria, mas isso podia ser simplesmente o seu sentimento natural no início de um novo período letivo.

Conseqüentemente, Tonino voltou para casa, naquela tarde, a pensar que talvez as coisas não estivessem tão ruins assim. Como sempre, Benvenuto saltou de cima do grande barril de água e caiu nos braços dele. Tonino estava esfregando o rosto na orelha de Benvenuto quando ouviu uma carruagem parar às suas costas. Benvenuto prontamente desvencilhou-se dos braços dele. Tonino, muito surpreso, olhou em volta e viu-o trotando, com calma e polidez, e com a cauda toda ereta, na direção de um homem alto que vinha entrando pelo portão da casa.

Benvenuto estacou, abanando de leve a pontinha da cauda, as patas traseiras trêmulas e ligeiramente afastadas sob as coxas recobertas de penugem, e ficou a olhar com gravidade para o homem alto. Tonino pensou com rabugice que, visto por trás, Benvenuto muitas vezes tinha uma aparência bem idiota. E a aparência do homem era quase tão ruim. Usava um casaco extremamente caro, com uma gola de peles, e um boné de viagem feito de tweed com abas sobre as orelhas. Ele fez uma reverência para Benvenuto.

— Boa tarde, Benvenuto — disse, tão cerimonioso quanto o próprio Benvenuto. — Fico contente em encontrá-lo tão bem disposto. Sim, vou muito bem, obrigado.

Benvenuto adiantou-se para esfregar-se nas pernas do desconhecido.

— Não, por favor — pediu o homem. — Seus pêlos ficam na minha roupa.

E Benvenuto parou imediatamente, sem diminuir um grama daquela polidez incomum.

A essa altura Tonino estava extremamente ressentido: aquela era a primeira vez era muitos anos que Benvenuto se comportava como se alguém lhe fosse mais caro do que Tonino. O menino ergueu os olhos acusadoramente para os do estranho. Encontrou olhos ainda mais escuros do que os seus, que pareciam derramar um brilho sobre o resto do rosto liso e moreno do homem. Aqueles olhos provocaram um sobressalto em Tonino, ainda pior do que a ocasião em que os cavalos voltaram a ser de papelão. Ele sabia, sem a menor sombra de dúvida, que estava olhando para um mago poderoso.

— Como vai? — cumprimentou o homem. — Não, meu rapaz, apesar do seu olhar de raiva, nunca consegui entender os gatos. Pelo menos, não mais do que de uma maneira muito geral. Gostaria de lhe pedir a gentileza de traduzir para mim o que Benvenuto está dizendo.

Tonino escutou Benvenuto.

— Ele está dizendo que está muito feliz em vê-lo de novo e seja bem-vindo à casa dos Montana, senhor.

O “senhor” era de Benvenuto, não de Tonino. Tonino não achava muito agradável que magos desconhecidos entrassem na sua casa e requisitassem a atenção de Benvenuto.

— Obrigado, Benvenuto — disse o mago. — Estou muito feliz por estar de volta. Apesar de que, para ser franco, raramente tive uma viagem tão difícil. Sabia que as suas fronteiras com Florença e Pisa estão fechadas? — ele perguntou a Tonino. — Tive que vir por mar desde Gênova.

— Foi mesmo? — disse Tonino, perguntando-se se aquele homem estava achando que a culpa era dele. — Então, de onde é que o senhor vem?

— Ah, da Inglaterra.

Tonino gostou disso. Então aquele não poderia ser o mago que o Duque havia mencionado. Ou poderia? Tonino não tinha muita certeza da distância em que os magos podiam trabalhar.

— Isto o deixa mais tranqüilo? — o homem perguntou.

— Mamãe é inglesa — Tonino admitiu, sentindo que estava revelando coisas demais.

— Ah! — fez o mago. — Agora sei quem você é. Você é o Antonio Mais Jovem, não é? Era um bebê quando o vi pela última vez, Tonino.

Como não existe resposta para esse tipo de comentário, Tonino ficou feliz ao avistar o Velho Niccolo atravessando apressado o pátio, seguido por Tia Francesca e Tio Lorenzo, com Antonio e vários outros membros da família atrás. Eles fizeram um círculo em volta do mago, deixando Tonino e Benvenuto de fora, perto do portão.

— Sim, acabo de vir da casa dos Petrocchi — Tonino ouviu o desconhecido dizer.

Para sua surpresa, todos aceitaram o fato como se fosse a coisa mais natural do mundo para o desconhecido fazer — tão natural quanto o modo como ele tirou seu ridículo chapéu inglês para Tia Francesca.

— Mas vai passar a noite conosco — ela convidou.

— Se não for muito trabalho... — respondeu o desconhecido. Ao longe, como se já soubessem — como sem dúvida sabiam, em um lugar como a casa dos Montana — Tia Maria e Tia Anna subiam os degraus da varanda para preparar o quarto de hóspedes no andar superior. Tia Gina emergiu da cozinha, levantou as mãos para o céu e correu de volta para dentro outra vez. Pensativamente, Tonino pegou Benvenuto no colo e perguntou-lhe quem exatamente era aquele desconhecido.

A resposta foi: Crestomanci, é claro. O mago mais poderoso do mundo.

— É ele quem está prejudicando os nossos feitiços? — Tonino perguntou, cheio de suspeitas.

Benvenuto respondeu — com impaciência, porque evidentemente achava que Tonino estava sendo muito burro — que Crestomanci estava sempre do lado deles.

Tonino tornou a olhar para o desconhecido — ou, melhor, para a sua cabeça morena destacando-se entre os Montana, que eram mais baixos — e entendeu que a chegada de Crestomanci significava que havia mesmo uma crise.

O desconhecido deve ter dito alguma coisa sobre ele: Tonino viu que todos o encaravam, e a família lhe sorria amorosamente. Ele sorriu de volta, com timidez.

— Ah, é um bom menino — disse Tia Francesca. Então, sempre conversando, todos começaram a atravessar o pátio.

— O que torna tudo particularmente difícil é que sou, em primeiro lugar, um funcionário do governo britânico — Tonino ouviu Crestomanci dizendo. — E a Grã-Bretanha está se mantendo fora dos problemas italianos. Mas felizmente recebo relatórios bem completos.

Quase no mesmo momento, Tia Gina mais uma vez saiu da cozinha como uma flecha. Ela havia cancelado o jantar normal e iniciado um novo, em honra de Crestomanci. Seis pessoas foram imediatamente enviadas para trazer bolos e frutas, e duas mais foram procurar alface e queijo. Paolo, Corinna e Lucia foram interceptados quando chegaram da escola e receberam a ordem de ir imediatamente até o açougueiro. Nesse instante, porém, Rinaldo irrompeu furiosamente do Scriptorium.

— Que é que pensa que está fazendo, mandando todas as crianças saírem desse jeito? — gritou da varanda. — Estamos até o pescoço em feitiços de guerra. Preciso de copistas!

Tia Gina colocou as mãos nos quadris e gritou de volta:

— E eu preciso de bife! Não fique aí parado me contrariando, Rinaldo Montana! Os ingleses sempre comem carne, de modo que tenho que mandar buscar bife!

— Então corte uns pedaços dos gatos! Preciso de Corinna e Lucia aqui comigo! — Rinaldo berrou.

— Pois estou lhe dizendo que pelo menos uma vez elas vão fazer um favor para mim! — berrou Tia Gina.

— Meu Deus, que cena mais italiana! — disse Crestomanci, aparecendo outra vez no pátio. — Posso ser útil de alguma maneira?

Ele assentiu e sorriu para Tia Gina e para Rinaldo. Ambos retribuíram o sorriso, Rinaldo todo cheio de simpatia.

— O senhor concorda que preciso de copistas, não concorda? — perguntou.

— Bah! — exclamou Tia Gina. — Rinaldo liga o seu charme e eu acabo tendo que lutar sozinha! Como sempre! Muito bem. Como se trata de feitiços de guerra, Paolo e Tonino podem ir buscar o bife. Mas esperem enquanto escrevo um bilhete, senão vocês chegarão de volta com alguma coisa que ninguém vai conseguir mastigar!

— Fico feliz em poder ajudar — Crestomanci murmurou e virou-se para cumprimentar Elizabeth.

Ela vinha descendo em disparada os degraus da varanda, acenando com uma pilha de partituras musicais, e caiu nos braços dele. Os cinco priminhos que Elizabeth estava ensinando espichavam o pescoço, curiosos, para espiarem por cima da balaustrada da varanda.

— Elizabeth! Você está mais jovem do que nunca! — Crestomanci exclamou.

Tonino observava, tão curioso quanto os seus primos. A mãe estava rindo e chorando ao mesmo tempo. Ele não conseguia acompanhar a torrente de frases em inglês. Ouviu as palavras “virtude” e “guerra” e, sem muita demora, as inevitáveis “O Anjo de Caprona”. Ainda estava observando a cena quando Tia Gina enfiou o bilhete na mão dele e disse-lhe para andar depressa.

Enquanto seguiam apressados a caminho do açougueiro, Tonino disse a Paolo:

— Não sabia que mamãe conhecia uma pessoa como Crestomanci.

— Nem eu — Paolo confessou. Afinal, era apenas um ano mais velho do que Tonino, e, pelo jeito, a última vez que Crestomanci estivera em Caprona havia sido muito tempo antes. — Talvez ele tenha vindo para encontrar a letra da canção do Anjo — ele sugeriu. — Espero que sim. Não quero que Rinaldo tenha que ir para longe lutar.

— Nem Marco — Tonino concordou. — Ou Cario ou Luigi, ou até mesmo Domenico.

Por causa do bilhete da Tia Gina, o açougueiro tratou-os com grande respeito.

— Digam à sua tia que este é o último filé dos bons que ela verá, se a guerra for declarada — disse, passando para cada um deles uma carga pesada, rosada e molenga.

Eles chegaram de volta com sua carga exatamente quando de uma carruagem de aluguel saltava o Tio Umberto, ofegante, do lado de fora do portão da casa.

— É verdade mesmo? Crestomanci está aqui? Hein, Paolo? — Tio Umberto perguntou a Tonino.

Ambos os meninos assentiram. Parecia mais fácil do que explicar que ele havia se dirigido a Tonino.

— Muito bom, muito bom! — Tio Umberto exclamou. Ele irrompeu portão adentro e deu cora Crestomanci que atravessava o pátio. — “O Anjo de Caprona”, será que você poderia...

— Meu caro Umberto, todos aqui estão me pedindo isto — Crestomanci respondeu, com um cordial aperto de mão. — Aliás, na casa dos Petrocchi todos me pediram a mesma coisa, também. Infelizmente não sei mais do que vocês. Mas vou pensar no assunto, não se preocupe.

— Se conseguisse encontrar pelo menos um pedaço, para nós continuarmos... — disse Tio Umberto em tom implorante.

— Vou fazer o possível... — Crestomanci estava dizendo, quando Rosa passou por eles, os saltos batendo no chão com estrépito. Pela expressão no seu rosto, ela havia avistado Marco chegando. — Eu lhe prometo — Crestomanci continuou, virando a cabeça para ver por que Rosa estava com tanta pressa.

Marco entrou pelo portão e parou de supetão, olhos fixos em Crestomanci, de modo que Rosa deu-lhe um encontrão que quase o derrubou no chão. Marco cambaleou um pouco, enlaçou Rosa com os dois braços e continuou de olhos pregados em Crestomanci. Tonino prendeu a respiração sem perceber; Rinaldo tinha razão, havia mesmo alguma coisa esquisita em Marco.

Crestomanci sabia o que era, e Marco sabia que ele sabia. Pela sua expressão, ele imaginava que Crestomanci estava prestes a revelar o que era.

Crestomanci realmente chegou a abrir a boca para dizer alguma coisa, mas tornou a fechá-la e franziu os lábios com uma espécie de assobio. Marco olhava para ele com incerteza.

— Ah, quero lhe apresentar... — começou Tio Umberto, que então silenciou e pôs-se a pensar. De Rosa ele geralmente se lembrava, por causa dos seus cabelos claros, mas não conseguia determinar quem era Marco. — O noivo de Corinna — sugeriu.

— Eu sou a Rosa. E este é Marco Andretti — informou a moça.

— Muito prazer — disse Crestomanci educadamente. Marco pareceu relaxar. Crestomanci voltou os olhos para Paolo e Tonino, que olhavam fixamente para ele.

— Céus! Parece que todos aqui têm uma vida muito excitante! — exclamou. — Que foi que vocês mataram, meninos?

Paolo e Tonino baixaram os olhos, consternados, e descobriram que o filé estava pingando era seus sapatos. Dois ou três gatos já se aproximavam significativamente. Tia Gina apareceu à porta da cozinha.

— Onde é que está o meu filé?

Paolo e Tonino saíram depressa em direção a ela, deixando uma trilha respingada.

— Que conversa era aquela? — Paolo, ofegante, perguntou a Tonino.

— Não sei — Tonino respondeu, porque não sabia mesmo e porque gostava de Marco.

Tia Gina logo se mostrou muito incisiva e exaltada a respeito da carne. A trilha de respingos atraiu todos os gatos da casa, que passaram a tarde inteira perturbando na cozinha, miando tristemente. Benvenuto também estava presente, mantendo uma distância prudente de Tia Gina, e não perdeu tempo, pois Tia Gina mais uma vez irrompeu no pátio, trombeteando:

— Tonino! To-ni-noooo!

Tonino largou o livro e correu para o pátio.

— Sim, Tia Gina?

— Aquele seu gato roubou mais de meio quilo de carne! — Tia Gina proclamou, erguendo os braços para o céu num gesto teatral.

Tonino olhou e, realmente, ali estava Benvenuto no telhado, agachado, segurando com uma pata um grande bocado de carne.

— Ai, ai! — ele exclamou. — Acho que não vou conseguir fazer com que ele devolva, Tia Gina.

— Eu não quero essa carne de volta! Veja por onde ela andou!

— Tia Gina berrou. — Diga a ele que eu mandei dizer que vou torcer seu maldito pescoço se ele se aproximar de mim outra vez!

— Meu Deus, parece que você está no centro de tudo — Crestomanci comentou, aparecendo ao lado de Tonino no pátio. — É sempre assim tão requisitado?

— Vou ter um ataque histérico! — Tia Gina declarou. — E ninguém vai ter jantar!

Elizabeth, Tia Maria e as primas Claudia e Teresa imediatamente vieram em sua ajuda e a levaram carinhosamente de volta para dentro.

— Graças ao Senhor! — Crestomanci exclamou. — Não sei se conseguiria agüentar ao mesmo tempo fome e histeria. Como sabia que sou um mago, Tonino? Foi Benvenuto quem lhe contou?

— Não, eu simplesmente soube quando olhei para o senhor

— Tonino afirmou.

— Entendo. Isto é interessante. A maioria das pessoas é incapaz de perceber. Isso me deixa na dúvida se o Velho Niccolo tem razão quando diz que a virtude abandonou a sua casa.

Você acha que seria capaz de distinguir outro mago simplesmente olhando para ele?

Tonino franziu a testa, pensando.

— Talvez possa. São os olhos. Está querendo saber se eu reconheceria o mago que está atrapalhando os nossos feitiços?

— Acho que é isto que eu quero saber — Crestomanci concordou. — Estou começando a acreditar que essa pessoa existe. Tenho certeza, pelo menos, de que os feitiços na Ponte Velha foram rompidos deliberadamente. Será que iria atrapalhar muito os seus planos se eu pedisse ao seu avô para levar você com ele todas as vezes que ele tiver que conhecer alguém?

— Eu não tenho planos — Tonino respondeu. Então pensou um pouco, e riu. — Acho que o senhor faz piadas o tempo todo — disse.

— Tento ser simpático — Crestomanci respondeu.

No entanto, a ocasião seguinte em que Tonino encontrou-se com Crestomanci foi durante o jantar — que estava magnífico, apesar de Benvenuto e do ataque histérico de Tia Gina. E Crestomanci estava muito sério mesmo.

— Meu caro Niccolo, a minha missão precisa estar ligada à má utilização da magia e não ao equilíbrio do poder na Itália. Os problemas seriam infindáveis se eu fosse flagrado tentando impedir uma guerra.

O Velho Niccolo tinha a expressão de um bebê prestes a chorar. Tia Francesca interveio:

— Isto não é um pedido pessoal da nossa parte...

— Mas, minha cara, não entende que eu só posso fazer alguma coisa parecida com isto se for como um assunto pessoal? — Crestomanci interrompeu-a. — Por favor, faça-me um pedido pessoal. Não vou deixar que as regras severas do meu cargo interfiram com a minha obrigação para com os amigos.

Ele sorriu então, e seu olhar percorreu toda a volta da grande mesa, com muita afeição. E pareceu não excluir Marco. Então prosseguiu:

— Portanto, acho que o meu melhor plano, no momento, é seguir para Roma. Conheço certos lugares, por lá, onde conseguirei informações imparciais, que me possibilitarão identificar esse mago. No momento, tudo o que sabemos é que ele existe. Com um pouco de sorte poderei obter provas se Florença, ou Siena, ou Pisa está lhe pagando, e nesse caso o Estado e o mago podem ser indiciados no Tribunal da Europa. E se, enquanto estiver lá, conseguir que Roma, ou Nápoles, aja em benefício de Caprona, é certo que farei isto.

— Obrigado — disse o Velho Niccolo.

Durante o resto do jantar eles debateram a melhor maneira de Crestomanci viajar até Roma. Ele teria que ir por mar, já que pelo jeito o último trecho da fronteira entre Caprona e Siena estava agora fechado.

Muito mais tarde, nessa mesma noite, quando Paolo e Tonino estavam a caminho da cama, viram luzes no Scriptorium e foram até lá pé ante pé, para investigar. Crestomanci estava lá com Antonio, Rinaldo e Tia Francesca, estudando os feitiços nos grandes livros vermelhos. Todos resmungavam, mas os meninos escutaram Crestomanci dizer:

— Esta é uma combinação sólida, mas vai precisar de uma nova letra. — E, em outra página: — Peça a Elizabeth para traduzir isto para o inglês, como fator de surpresa. — E, logo depois: — Ignorem a melodia; a única melodia que será de alguma utilidade para vocês no momento é “O Anjo de Caprona”. Esta ele não consegue bloquear.

— Por que só aquelas três? — Tonino perguntou num cochicho.

— São as melhores para se fabricarem novos feitiços de guerra — Paolo cochichou de volta. — Precisamos de feitiços de guerra novos. Parece que o outro mago conhece todos os antigos.

Os dois irmãos foram para a cama com um sentimento de excitação e urgência, e nenhum dos dois achou fácil adormecer.

Na manhã seguinte, Crestomanci partiu antes que as crianças saíssem para a escola. Benvenuto e o Velho Niccolo foram com ele até o portão, um de cada lado, e todos da casa reuniram-se para acenar em despedida. Depois que ele se foi, as coisas pareciam sem força e preocupantes. Nesse dia houve muitas conversas na escola sobre guerra. Os professores cochichavam em grupinhos. Dois deles haviam partido para juntar-se aos Reservistas. Boatos corriam durante as aulas. Alguém disse a Tonino que a guerra seria declarada no domingo seguinte, para que fosse uma Guerra Santa. Outro anunciou a Paolo que todos os Reservistas haviam recebido botas com dois pés esquerdos, para que não conseguissem combater. Não havia a menor verdade nessas coisas. Simplesmente, todos sabiam agora que a guerra estava para chegar.

Os meninos voltaram depressa para casa, ansiosos por notícias verdadeiras. Como sempre, Benvenuto saltou de cima do seu barril de água. Enquanto Tonino mais uma vez desfrutava da atenção total de Benvenuto, Elizabeth chamou da varanda:

— Tonino! Alguém lhe mandou um pacote!

Tonino e Benvenuto saltaram para a escada que levava à varanda, altamente excitados, pois Tonino jamais havia recebido um pacote. Mas antes que chegasse perto dele, o menino foi agarrado por Tia Maria, Rosa e Tio Lorenzo. Eles arrebanharam todas as crianças que sabiam escrever e as carregaram para a sala de jantar. Esse aposento tinha sido transformado em um segundo Scriptorium. Diante de cada cadeira havia uma caneta especial, um frasco de tinta-de-guerra vermelha e uma pilha de tirinhas de papel. Ali as crianças ficaram ocupadas durante duas horas inteiras, copiando o mesmo feitiço de guerra vezes sem conta. Tonino nunca em sua vida havia sentido tamanha frustração. Não sabia sequer o formato do seu pacote. E ele não era a única pessoa a se sentir frustrada.

— Ah, por quê? — queixavam-se Lucia, Paolo e a jovem prima Lena.

— Eu sei, parece a escola. Comecem a escrever — disse Tia Maria.

— Exploração de menores, é isto que estamos fazendo — Rosa declarou em tom brincalhão. — Deve haver leis contra isto, de modo que podem reclamar.

— Pode ter certeza de que vou fazer isto — disse Lucia. — Já estou fazendo.

— Contanto que escreva enquanto reclama... — Rosa respondeu.

— É uma nova tira de feitiço para o Exército. É muito urgente — Tio Lorenzo explicou.

— É difícil. Todas as palavras são novas — Paolo reclamou.

— Foi fabricado pelo seu pai ontem à noite — Tia Maria informou. — Continuem escrevendo. Vamos ficar observando se cometem erros.

Quando finalmente, com o pescoço doendo e manchas de tinta vermelha nos dedos, eles foram liberados para irem para o pátio, Tonino descobriu que mal teria tempo para desembrulhar o pacote antes do jantar. Naquela noite o jantar sairia mais cedo, para que os Montana mais velhos pudessem fazer mais um turno nos feitiços do Exército antes de irem dormir.

— É pior do que trabalhar na Ponte Velha — disse Lucia. — Que é isso, Tonino? Quem foi que mandou?

O pacote tinha o promissor formato de livro. Trazia o selo e o escudo da Universidade de Caprona. Aquela era a única indicação que Tonino tinha de que o Tio Umberto o enviara, pois, ao arrancar o grosso papel marrom, não encontrou carta alguma, nem sequer um cartão. Havia apenas um livro brilhando de novo. Os olhos de Tonino cintilaram. Pelo menos Tio Umberto sabia alguma coisa sobre ele! Virou o livro com um gesto amoroso. Chamava-se “O menino que salvou o seu país”, e a capa era do mesmo couro vermelho reluzente e pontilhado dos grandes volumes de feitiços de guerra.

— Será que o Tio Umberto está fazendo uma insinuação, ou qualquer coisa assim? — Paolo perguntou, achando graça.

Ele, Lucia e Corinna debruçaram-se sobre Tonino enquanto ele folheava o livro. Para grande alegria do menino, havia figuras: soldados a cavalo, soldados dentro de máquinas; um menino pendurado numa corda subindo pela muralha de uma fortaleza; e a mais excitante de todas, um menino com uma bandeira, de pé sobre um rochedo, enfrentando um exército inteiro de dragões de aparência feroz. Suspirando de curiosidade, Tonino voltou para o Capítulo Um: Como Giorgio Descobriu uma Conspiração Inimiga.

Tonino foi forçado a fechar novamente o livro maravilhoso e descer correndo para a sala de jantar. Ele observava ansiosamente Tia Gina servindo o minestrone; ela dava a impressão de estar tão irritada que ele ficou convencido de que Benvenuto decerto andara aprontando na cozinha outra vez. Rosa explicou-lhe:

— Está tudo bem. Simplesmente ela pensou que havia conseguido um verso para “O Anjo de Caprona”. Então a sopa ferveu e ela esqueceu o verso.

Tia Gina estava distintamente chorosa.

— Com tanta coisa para fazer, minha memória é como uma peneira — ela repetia. — Agora decepcionei vocês todos.

— Claro que não decepcionou, Gina, minha cara — contestou o Velho Niccolo. — Isto não é motivo para se preocupar. Você vai tornar a se lembrar.

— Mas não consigo sequer lembrar em que língua ele estava! — lamentou-se Tia Gina.

Todos tentaram consolá-la. Polvilharam queijo ralado em seus pratos de sopa e jantaram com um entusiasmo especial, para mostrar a Tia Gina como todos lhe davam valor, mas Tia Gina continuou a fungar e a acusar-se. Então Rinaldo lembrou-se de comentar que ela estava mais adiantada do que qualquer outra pessoa na Casa Montana.

— Do resto de nós, nenhum já teve um verso de “O Anjo de Caprona” para esquecer — esclareceu, lançando a Tia Gina o seu melhor sorriso.

— Bah! — fez ela. — Está recorrendo ao seu velho charme, Rinaldo Montana!

Depois disso, porém, ela se mostrava bem mais alegre.

Tonino ficou aliviado ao saber que dessa vez Benvenuto nada tinha a ver com o caso. Olhou em volta, à procura do gato. Benvenuto geralmente se posicionava junto ao bufê, de modo a facilitar o roubo de restos de comida. Mas nessa noite ele não estava à vista. Aliás, Marco também não estava.

— Onde está Marco? — Paolo perguntou a Rosa. Rosa sorriu. Parecia muito contente.

— Ele precisou ir ajudar o irmão com as fortificações — disse. Aquilo lembrou a Paolo e Tonino o fato de que ia haver uma guerra. Entreolharam-se nervosamente. Nenhum dos dois tinha muita certeza se durante uma guerra as pessoas se comportavam de maneira normal ou não. Os pensamentos de

Tonino voaram para o seu lindo livro novo, “O menino que salvou o seu país”. Ele bebeu esse título através do pensamento, exatamente como estava bebendo a sopa. Será que Tio Umberto estava lhe dizendo: ‘Tonino, encontre a letra de “O Anjo de Caprona” e salve o seu país?’. Seria mesmo a coisa mais maravilhosa se ele, Tonino Montana, conseguisse encontrar as palavras e salvar seu país. Mal podia esperar para ver como o menino no livro havia feito isso.

Assim que o jantar terminou ele levantou-se de um pulo, pronto para sair correndo e começar a ler. E mais uma vez foi impedido. Dessa vez foi porque mandaram as crianças lavar a louça do jantar. Tonino gemeu. E, mais uma vez, ele não foi o único.

— Não é justo! — Corinna declarou veementemente. — Trabalhamos como escravos durante toda a tarde copiando feitiços, e trabalhamos como escravos à noite lavando louça! Sei que vai haver uma guerra, mas mesmo assim vou ter que passar de ano. Como é que vou conseguir fazer o meu dever de casa?

A maneira como ela ergueu os braços num gesto exaltado fez com que Paolo e Tonino pensassem que os modos de Tia Gina eram contagiosos.

Inesperadamente, Lucia ficou solidária com Corinna.

— Acho que você já passou da idade de ser tratada como uma criança como nós — ela declarou. — Por que não vai fazer o seu dever e deixa que eu organize as crianças?

Corinna olhou para ela com hesitação.

— E quanto ao seu dever de casa?

— Não é muita coisa. Não pretendo ir para a Universidade, como você — disse Lucia com bondade. — Pode ir — insistiu, empurrando Corinna para fora da sala.

Assim que a porta foi fechada, ela voltou-se para as outras crianças com expressão séria.

— Vamos lá. Que é que estão fazendo aí parados como estúpidos? Cada um leve uma pilha de pratos para a cozinha. Depressa, marche, Tonino. Mexam-se, Lena e Bernardo. Paolo, você leva as terrinas grandes.

Com Lucia tomando conta como um sargento, Tonino não teve oportunidade de sair de fininho. Foi para a cozinha arrastando os pés, como todos os outros, e lá, para sua surpresa, Lucia mandou que todos colocassem os pratos e talheres enfileirados no chão. Então fez com que eles próprios se enfileirassem, de frente para as fileiras de pratos engordurados.

Lucia estava toda cheia de si.

— Agora, isto é uma coisa que sempre quis experimentar. É o método de lavar louça com facilidade, inventado e patenteado por Lucia Montana. Vou lhes dizer as palavras. É uma letra para “O Anjo de Caprona”. E vocês vão cantar logo em seguida...

— Tem certeza de que devemos fazer isso? — perguntou Lena, que sempre fora uma prima obediente às leis.

Lucia lançou-lhe um olhar de desprezo. Dirigindo-se às traves do teto, declarou:

— Se algumas pessoas não reconhecem o verdadeiro gênio quando o encontram, têm toda a liberdade para ir morar com os Petrocchi.

— Foi só uma pergunta — disse Lena, arrasada.

— Bem, não pergunte. O feitiço é assim...

Pouco depois, estavam todos cantando com entusiasmo:

 

       “Anjo, limpe facas e pratos,

       Nossos talheres e nossas terrinas,

       Nossas panelas, escute o que eu digo,

       Assim fazendo não corremos perigo. “

 

No princípio parecia que nada iria acontecer. Então ficou evidente que a gordura alaranjada estava desaparecendo lentamente dos pratos. Em seguida, os fios de espaguete colados no fundo da maior das panelas começaram a despregar-se e retorcer-se como vermes. Subiram até a borda da panela e caíram no piso de pedra, onde se puseram a deslizar para dentro das latas de lixo. A gordura alaranjada e o azeite da salada foram atrás deles em pequenos fios líquidos. O canto fraquejou um pouco, pois as pessoas paravam de cantar para rir.

— Cantem, cantem! — Lucia gritava. E todos cantavam.

Infelizmente para Lucia, o barulho chegou até o Scriptorium. Os pratos ainda estavam rosados e um pouco engordurados, e o último dos fios de espaguete ainda se contorcia no chão, quando Elizabeth e Tia Maria irromperam na cozinha.

— Lucia! — Elizabeth exclamou.

— Seus pirralhos sem religião! — exclamou Tia Maria.

— Não sei qual é o grande problema — disse Lucia.

— Ela não sabe... Elizabeth, estou sem palavras! — disse Tia Maria. — Com é que eu posso ter-lhe ensinado tão pouco, e tão erradamente? Lucia, um feitiço não é uma coisa para substituir outra. É simplesmente para ajudar essa coisa. E, ainda por cima, você usa “O Anjo de Caprona”, como se fosse uma canção qualquer e não a mais poderosa de toda a Itália! Eu... Eu tenho vontade de lhe dar umas palmadas, Lucia!

— Eu também — disse Elizabeth. — Você não compreende que precisamos de toda a nossa virtude, todo o poder da Casa Montana reunido, para colocar nos encantos de guerra? E aí você fica desperdiçando poder na cozinha!

— Coloque estes pratos na pia, Paolo — Tia Maria ordenou. — Tonino, pegue essas panelas. O resto de vocês pode recolher os talheres. E agora vão lavar tudo direitinho.

Envergonhados, todos obedeceram. Lucia, além de envergonhada, estava zangada. Lena sussurrou:

— Bem que eu lhe disse!

Por causa disso, Lucia quebrou um prato e deu pulinhos em cima dos cacos.

— Lucia! — chamou Tia Maria, olhando para ela com raiva. Era a primeira vez que alguma das crianças a via tão perto de dar umas palmadas em alguém.

— Ora, como é que eu podia saber? Ninguém nunca me explicou... Ninguém me disse que os feitiços eram assim! — Lucia argumentou, furiosa.

— Sim, mas você sabia perfeitamente que estava fazendo alguma coisa que não devia fazer, mesmo que não soubesse por que não devia — Elizabeth respondeu. — O resto de vocês, parem de dar risadinhas. Lena, você também pode aprender esta lição.

Durante toda a conscienciosa lavagem da louça — que durou quase uma hora — Tonino ficou a repetir consigo mesmo:

— Depois disto vou poder finalmente ler o meu livro.

Quando a tarefa chegou ao fim, ele saiu correndo para o pátio. E lá estava o Velho Niccolo descendo às pressas a escada da varanda para interceptá-lo no escuro.

— Tonino, posso ficar com Benvenuto por algum tempo, por favor?

Mas não se conseguiu encontrar Benvenuto. Tonino começou a pensar que morreria de leitura frustrada. Todas as crianças se juntaram à caça, procurando e chamando, mas nada de Benvenuto. Logo, a maioria dos adultos também procurava por ele, e Benvenuto não aparecia. Antonio estava tão exasperado que agarrou o braço de Tonino e sacudiu-o.

— Isto é muito ruim, Tonino! Você deveria saber que íamos precisar de Benvenuto. Por que deixou que ele fosse embora?

— Eu não deixei! Você sabe como Benvenuto é! — Tonino protestou, igualmente exasperado.

— Pronto, pronto — disse o Velho Niccolo, segurando o ombro de cada um dos dois. — É evidente, a essa altura, que Benvenuto está no outro lado da cidade, fazendo barulhos horrorosos em cima de algum telhado. Tudo o que podemos fazer é torcer para que não demore muito até alguém lhe jogar um balde d’água em cima. A culpa não é de Tonino, Antonio.

Antonio soltou o braço de Tonino e esfregou as duas mãos no rosto. Parecia muito cansado.

— Desculpe-me, Tonino. Sinto muito. Avise assim que Benvenuto voltar, está bem?

Ele e o Velho Niccolo voltaram apressados para o Scriptorium. Quando passaram sob a luz, a expressão do rosto dos dois era de profunda preocupação.

— Acho que não gosto da guerra, Tonino — Paolo comentou. — Vamos jogar pingue-pongue na sala de jantar.

— Vou é ler o meu livro — Tonino declarou em tom firme. Já estava achando que ficaria igual a Tia Gina se acontecesse mais alguma coisa para impedi-lo.

 

Tonino leu durante a metade da noite, já que, com todos os adultos mergulhados no trabalho no Scriptorium, não havia alguém para mandar que ele fosse para a cama. Corinna bem que tentou, depois que terminou seu dever de casa, mas Tonino estava tão imerso no livro que nem sequer a escutou. E Corinna afastou-se respeitosamente, raciocinando que, se o livro viera do Tio Umberto, provavelmente era muito erudito.

O livro não era nem um pouquinho erudito, mas sim a história mais emocionante que Tonino já havia lido. Começava com o garoto, Giorgio, seguindo por um beco misterioso perto das docas, vindo da escola a caminho de casa. No final do beco havia uma casa de pintura azul descascada e, exatamente quando Giorgio passava por ela, um pedacinho de papel veio flutuando de uma das janelas. Continha uma mensagem misteriosa, que de imediato levou Giorgio a uma série de aventuras com os inimigos do seu país. Cada aventura era mais excitante do que a anterior.

Bem depois da meia-noite, quando Giorgio estava defendendo sozinho um desfiladeiro das mãos do inimigo, Tonino por acaso ouviu seu pai e sua mãe vindo para a cama. Foi forçado a deixar Giorgio ferido, estendido no chão, e mergulhar ele mesmo na cama. Durante toda a noite sonhou com bilhetes flutuando das janelas de casas azuis com a pintura descascada, Giorgio — que às vezes era o próprio Tonino e às vezes era Paolo — e inimigos implacáveis, que em sua maioria pareciam ter barbas ruivas e cabelos negros, como Guido Petrocchi. Quando o sol nasceu, ele estava excitado demais para continuar a dormir. Despertou e continuou a leitura.

Quando o resto da Casa Montana começou a despertar, Tonino havia terminado o livro. Giorgio salvara o seu país. Tonino tremia de excitação e exaustão. Sua vontade era de que o livro tivesse o dobro do tamanho. Se não fosse hora de levantar-se, ele teria voltado direto para o início e começado a ler todo o livro outra vez.

Enquanto tomava seu café da manhã sem prestar atenção, ele pensava que o mais maravilhoso era que Giorgio salvara o seu país, não apenas sozinho, mas sem que um único feitiço fosse mencionado. Se Tonino ia salvar Caprona, era dessa maneira que ele gostaria de fazer isso.

Em volta de Tonino, todas as outras pessoas estavam reclamando, e Lucia estava de cara amarrada. O feitiço de lavagem da louça ainda perdurava na cozinha. Todas as xícaras e todos os pratos estavam cobertos por uma camada de gordura alaranjada do espaguete, e a manteiga tinha gosto de sabão.

— Pelo amor de Deus! Que foi que ela usou, afinal? Este café está com gosto de tomate! — resmungou Tio Lorenzo.

— A melodia de “O Anjo de Caprona” com uma letra que ela inventou — Tia Maria relatou, estremecendo ao pegar sua xícara gordurenta.

— Lucia, sua tola! É a canção mais poderosa que existe! — disse Rinaldo.

— Está bem, chega! Parem de brigar comigo. Eu lamento muito! — Lucia exclamou cora raiva.

— Nós todos lamentamos muito, infelizmente — suspirou Tio Lorenzo.

Levantando-se da mesa, Tonino pensava: se ao menos pudesse ser como Giorgio... Imaginava que o que devia fazer era encontrar a letra de “O Anjo”. Foi para a escola sem ver coisa alguma no caminho, perguntando-se como poderia conseguir isso, quando o resto da família havia fracassado. Era suficientemente realista para saber que simplesmente não era suficientemente bom em feitiços para conseguir criar a letra pela maneira usual. Esse pensamento fez com que suspirasse profundamente.

— Anime-se — disse Paolo, quando entravam na escola.

— Está tudo bem — Tonino respondeu.

Ele ficou surpreso que Paolo pensasse que estava desanimado. Não estava nem um pouquinho desanimado! Estava, isso sim, mergulhado em sonhos deliciosos. Pensou: talvez consiga fazer isso casualmente...

Assim, durante as aulas ele ficou a compor frases sem sentido com a melodia de “O Anjo”, na esperança de que alguma coisa desse certo. Mas, por um motivo qualquer, esse método não apresentou resultados satisfatórios. Então, durante uma aula que provavelmente era de História — ele não escutou uma única palavra — ocorreu-lhe, como um relâmpago cegante, aquilo que devia fazer. Ele tinha de encontrar as palavras, naturalmente. O Primeiro Duque certamente as escrevera em algum lugar e depois perdera o papel. Tonino era o garoto cuja missão era descobrir aquele papel perdido. Nada de bobagens de querer compor a letra, mas sim um simples trabalho de detetive. E Tonino tinha certeza de que o livro havia sido uma pista. Precisava encontrar uma casa de pintura azul descascada, já que assim encontraria o papel com a letra da canção em algum lugar perto dela.

— Tonino! — chamou o professor, pela quarta vez. — Para onde Marco Polo viajou?

Tonino não ouviu a pergunta, mas deu-se conta de que estavam a perguntar-lhe alguma coisa.

— O Anjo de Caprona — respondeu.

Nesse dia, ninguém na escola conseguiu arrancar de Tonino alguma coisa que fizesse sentido. Ele estava tomado pelo assombro da sua descoberta. Não lhe ocorreu que Tio Umberto havia procurado em cada pedaço de papel escrito que havia na Biblioteca da Universidade, e não havia encontrado a letra de “O Anjo”. Tonino achava que sabia.

Depois das aulas ele evitou Paolo e os primos. Assim que todos estavam se encaminhando em segurança para a casa dos Montana, Tonino partiu na direção oposta, rumo às docas e ancoradouros perto da Ponte Nova.

Uma hora mais tarde, Rosa comentou com Paolo:

— Qual será o problema de Benvenuto? Olhe só para ele!

Paolo debruçou-se ao lado dela sobre a balaustrada da varanda. Benvenuto, parecendo surpreendentemente pequeno e infeliz, corria para a frente e para trás perto do portão, miando freneticamente. A todo momento, como se estivesse perturbado demais para saber o que fazia, ele se sentava, esticava uma pata traseira e punha-se a lambê-la enlouquecidamente. Depois erguia-se num salto e recomeçava a correr.

Paolo jamais havia visto Benvenuto comportar-se dessa maneira. Chamou:

— Benvenuto, qual é o problema?

Benvenuto girou, estendeu-se no solo e pôs-se a encará-lo com um olhar de urgência. Seus olhos eram como dois faróis amarelos. Ele soltou uma série de miados, tão penetrantes e tão assustadores que Paolo sentiu o estômago encolher-se de aflição.

— Mas o que é, Benvenuto? — Rosa quis saber. Benvenuto batia com a cauda no chão, exasperado. Deu um grande salto e desapareceu em algum lugar fora de vista. Rosa e Paolo debruçaram-se até o umbigo sobre a balaustrada e esticaram o pescoço à procura do gato. Benvenuto estava agora parado sobre o barril de água, abanando ferozmente a cauda. Assim que percebeu que os dois conseguiam vê-lo, ele tornou a encará-los fixamente e a soltar sons verdadeiramente assustadores.

— Wong wong wong wong-wong-wong!

Paolo e Rosa, sem mais delongas, correram para a escada e desceram os degraus a galope. Os gemidos de Benvenuto já haviam atraído todos os outros gatos da Casa. Eles atravessavam o pátio correndo ou saltavam dos telhados antes que Paolo e Rosa estivessem na metade da escada. Os dois foram forçados a caminhar com cuidado até o barril de água por entre corpos peludos e olhos verdes ou amarelos que os encaravam ansiosamente.

— Mi-a-au! — fez Benvenuto autoritariamente, quando eles o alcançaram.

Estava mais magro e mais marrom do que Paolo jamais o vira. Havia um novo corte em sua orelha esquerda, e a pelagem estava toda engrouvinhada. Parecia inteiramente infeliz.

— Mi-a-au! — ele insistiu, escancarando a boca cor-de-rosa.

— Alguma coisa está errada — disse Paolo, aflito. — Ele está tentando dizer alguma coisa.

Sentindo-se culpado, ele desejou que tivesse mantido sua resolução de aprender a entender o que Benvenuto dizia. Mas, como Tonino conseguia fazer isso com tanta facilidade, ele nunca achou que esse esforço valesse a pena. Agora ali estava Benvenuto com uma mensagem urgente — talvez um recado de Crestomanci — e ele não conseguia compreendê-lo.

— É melhor chamarmos Tonino — sugeriu. Benvenuto tornou a abanar a cauda ferozmente.

— Mi-a-au! — disse, com tremenda força. Em volta de Paolo e Rosa, todos os outros gatos abriram a boca.

— MI-A-AU!

Era ensurdecedor. Paolo, sem saber o que fazer, olhava em volta.

Foi Rosa quem descobriu o significado daquilo.

— Tonino! — ela exclamou. — Estão dizendo “Tonino”! Paolo, onde é que Tonino está?

Com um sobressalto de medo, Paolo se deu conta de que não via Tonino desde o café da manhã. E no mesmo instante Rosa também se deu conta disso. E a natureza da Casa Montana era tal que ali mesmo, no mesmo instante, o alarme soou. Tia Gina irrompeu da cozinha segurando uma faca numa das mãos e uma peneira na outra; Domenico e Tia Maria surgiram do Salão, e Elizabeth apareceu na varanda com os cinco primos, em frente à Sala de Música. A porta do Scriptorium abriu-se, mostrando vários rostos ansiosos.

Benvenuto abanou a cauda e saltou para os degraus da varanda. Subiu-os a galope, seguido pelos outros gatos; e Paolo e Rosa subiram também, em meio a uma onda de corpos pretos e brancos. Todos convergiram para os aposentos de Antonio. Todos os que estavam no Scriptorium saíram, Elizabeth veio era disparada pela varanda e Tia Maria com Tia Gina subiu a escada perto da cozinha com mais rapidez do que qualquer uma das duas alguma vez havia conseguido. A casa encheu-se com o som oco de pés correndo.

A família inteira espremeu-se atrás de Rosa e Paolo no quarto onde Tonino costumava ser encontrado entregue à leitura. O menino não estava lá; havia apenas o livro vermelho sobre o peitoril da janela. O livro já não estava brilhando; as páginas tinham as bordas grossas e a capa vermelha vergava-se para cima, como se o livro estivesse molhado.

Benvenuto, cuja pelagem marrom e falhada estava eriçada e com a cauda parecendo uma broxa de caiação, aterrissou no peitoril ao lado do livro e aproximou o focinho para farejá-lo. Tornou a saltar para trás, sacudindo a cabeça, agachando-se e rosnando como um cachorro. Do livro começou a sair fumaça. As pessoas tossiam e os gatos espirravam. O livro encrespava-se e encolhia-se no peitoril, exatamente como se estivesse pegando fogo. Em lugar de tornar-se preto, porém, ele adquiria um tom claro de azul-acinzentado nos pedaços onde fumegava, e parecia pegajoso. O aposento encheu-se de um cheiro de podridão.

— Argh! — disseram todos.

O Velho Niccolo empurrava os membros da família para abrir caminho até perto do livro. Parou ao lado dele e entoou, com uma forte voz de tenor quase tão boa quanto a de Marco, três palavras desconhecidas. Entoou-as duas vezes antes de ser obrigado a interromper-se para tossir.

— Cantem! — mandou com voz rouca e lágrimas descendo por seu rosto. — Todos vocês!

Obedientemente todos os Montana puseram-se a cantar as três palavras, três notas longas em uníssono. E mais uma vez. E de novo. Depois disso, muitos deles puseram-se a tossir, embora a fumaça houvesse diminuído distintamente. O Velho Niccolo recuperou-se e pôs-se a acenar com os braços, como o regente de um coral, e todos os que tinham condições recomeçaram a cantar. Foram necessárias dez repetições para interromper a destruição do livro — que a essa altura estava reduzido a um triângulo enrugado, com mais ou menos a metade do tamanho que tinha antes. Antonio inclinou-se cautelosamente por cima dele e abriu a janela, para deixar sair o restante da fumaça.

— Que foi isso? Alguém tentando nos sufocar a todos? — ele perguntou ao Velho Niccolo.

— Pensei que isto tivesse vindo de Umberto. Eu nunca teria... — começou Elizabeth.

O Velho Niccolo sacudiu a cabeça.

— Umberto jamais mandou esta coisa. E não me parece que a intenção era matar. Vamos ver qual tipo de feitiço é este.

Ele estalou os dedos e estendeu a mão, como um cirurgião durante uma operação. Sem que fosse preciso ouvir uma ordem, Tia Gina colocou a faca na mão dele. Cuidadosamente, com gestos delicados, o Velho Niccolo usou-a para abrir a capa do livro.

— Um ótimo facão de trinchar estragado — lamentou Tia Gina.

— Psiu! — fez o Velho Niccolo.

As páginas enrugadas do livro estavam coladas umas às outras. Ele tornou a estalar os dedos e estender a mão. Dessa vez Rinaldo colocou nela a caneta que estava segurando.

— É uma caneta das melhores — disse, com uma careta para Tia Gina.

Com a ajuda da caneta e do facão, o Velho Niccolo conseguiu separar as páginas do livro sem tocar nelas, e virar uma por uma. Em ambos os ombros de Paolo havia queixos apoiados, pois todos esticavam o pescoço para enxergar, e havia queixos sobre os ombros daqueles cujos queixos estavam nos ombros de Paolo. Não se ouvia qualquer som além da respiração dos presentes.

Em quase todas as páginas o texto havia derretido, deixando uma superfície pegajosa, parecendo couro, bem diferente de papel, e apenas uma ou duas marcas restavam no centro. O Velho Niccolo estudou cuidadosamente cada marca, resmungando. Tornou a resmungar ao ver a primeira figura, que havia desbotado como o texto, mas deixara uma marca mais nítida. Depois disso, embora não houvesse texto em nenhuma das páginas, a marca que restara era cada vez mais nítida até o centro do livro, quando começava a tornar-se mais desbotada outra vez, até mal ser visível na última página.

O Velho Niccolo pousou a caneta e o facão de cozinha em meio a um terrível silêncio.

— De cabo a rabo — disse finalmente.

As pessoas se remexeram e alguém tossiu, mas ninguém disse coisa alguma. O Velho Niccolo continuou:

— Não sei de qual substância este objeto foi feito, mas reconheço um encanto de convocação quando vejo um. Tonino deve ter ficado como que hipnotizado, se tiver lido o livro inteiro.

— Ele estava mesmo meio esquisito na hora do café da manhã — Paolo comentou.

— Tenho certeza disso — disse o avô. Depois de contemplar Pensativamente os restos do livro, ele percorreu com o olhar o círculo de rostos da sua família. Então perguntou em voz suave: — Mas quem ia querer colocar um encanto de convocação tão poderoso era Tonino Montana? Quem seria tão cruel a ponto de usar uma criança? Quem iria...

De repente ele voltou-se para Benvenuto, que estava agachado ao lado do livro. O gato recuou, amedrontado, estremecendo, as orelhas rasgadas encostadas à cabeça.

— Onde foi que você esteve ontem à noite, Benvenuto? — o Velho Niccolo perguntou, a voz ainda mais suave.

Ninguém entendeu aquilo que Benvenuto respondeu com expressão apavorada, mas todos sabiam a resposta. Ela estava na expressão angustiada de Antonio e Elizabeth, no queixo erguido de Rinaldo, nos olhos apertados de Tia Francesca, tão apertados que estavam quase fechados, e no modo como Tia Maria olhava para Tio Lorenzo; mas, acima de tudo, a resposta estava no modo como Benvenuto jogou-se de lado, dando as costas ao aposento: o retrato de um gato em desespero.

O Velho Niccolo ergueu os olhos.

— Ora, isto não é estranho? — perguntou em tom delicado. — Benvenuto passou a noite de ontem correndo atrás de uma gata branca pelos telhados da casa dos Petrocchi. — Fez uma pausa para que todos entendessem o significado daquilo. — De modo que Benvenuto, que conhece um feitiço maléfico quando vê um, não estava por perto para avisar Tonino.

— Mas por que motivo? — Elizabeth perguntou, desesperada. O Velho Niccolo falou, em tom ainda mais baixo, se é que isso era possível:

— Só posso concluir, minha cara, que os Petrocchi estão sendo pagos por Florença, Siena ou Pisa.

Houve outro silêncio cheio de significados. Antonio rompeu-o.

— Bem... — começou, de um modo tão derrotado e triste que Paolo o encarou. — E então, nós vamos?

— É claro que sim — respondeu o Velho Niccolo. — Domenico, traga o meu caderninho preto de feitiços.

Todos saíram do aposento, de maneira tão repentina, silenciosa e eficiente que Paolo ficou para trás, sem entender muito bem o que estava acontecendo. Hesitante, ele virou-se para encaminhar-se para a porta e percebeu que Rosa também havia ficado para trás. Ela estava sentada na cama de Tonino com uma mão na cabeça, branca como os lençóis de Tonino.

— Paolo, diga a Claudia que vou ficar com o bebê, se ela quiser ir — ela pediu. — Fico cora todos os pequenininhos.

Ela ergueu os olhos para Paolo enquanto falava, e sua expressão era tão estranha que de repente Paolo sentiu-se assustado. Com alívio ele correu para a varanda. A família, ainda silenciosa e triste, estava a reunir-se no pátio. Paolo desceu correndo para lá e deu o recado. Os pequeninos foram enviados aos protestos escada acima para Rosa, mas Paolo não ajudou. Ele avistou Elizabeth com Lucia e abriu caminho até elas. Elizabeth enlaçou-o com um dos braços e com o outro abraçou Lucia.

— Fiquem perto de mim, meus queridos. Vou proteger vocês. Paolo olhou para Lucia e viu que a menina não estava nem um pouco assustada. Estava entusiasmada. Ela piscou para ele; Paolo piscou de volta e sentiu-se melhor.

Um minuto depois, o Velho Niccolo tomou o seu lugar à frente da família e todos se dirigiram apressados para o portão. Paolo havia acabado de forçar o seu caminho através do portão, empurrando sua mãe de um lado e Domenico do outro, quando uma carruagem parou na rua e Tio Umberto saltou. Ele encaminhou-se para o Velho Niccolo na mesma maneira triste e quieta em que todos pareciam mover-se.

— Quem foi raptado? Bernardo? Domenico?

— Tonino — respondeu o Velho Niccolo. — Um livro com o escudo da Universidade no papel de embrulho.

— Luigi Petrocchi também é membro da Universidade — Tio Umberto comentou.

— Não vou me esquecer disso — afirmou o Velho Niccolo.

— Irei com vocês à casa dos Petrocchi — Tio Umberto declarou.

Ele acenou para o cocheiro da carruagem de aluguel para avisar que ele podia ir embora. O homem estava ansioso para isso, e quase derrubou os cavalos tentando fazer com que virassem depressa demais. Ao que parecia, a visão de toda a Casa Montana saindo para a rua num cortejo melancólico era demais para ele.

Isso deixou Paolo feliz. Ele olhava para um lado e outro enquanto desciam a Via Magica, e o orgulho crescia dentro dele. Era uma família tão grande! E todos eram tão decididos! A mesma expressão resoluta mostrava-se em cada rosto. E embora as crianças caminhassem com passos pequenos e os jovens com passadas firmes, embora as mulheres pisassem ruidosamente nas pedras do pavimento com seus sapatos elegantes, embora os passos do Velho Niccolo fossem curtos e entusiasmados, e Antonio — porque mal conseguia esperar para enfrentar os Petrocchi — caminhasse com passos longos, o objetivo comum dava à família inteira um ritmo comum. Paolo quase podia acreditar que estavam todos marchando com o mesmo passo.

O cortejo encheu a Via Sant’Angelo e virou a esquina para o Corso, com a Catedral às suas costas. As pessoas que faziam compras apressavam-se a lhes ceder a passagem. Mas o Velho Niccolo estava zangado demais para usar a calçada como um pedestre qualquer; ele guiou a família para o meio da rua e todos marcharam por ali como um exército em busca de vingança, forçando carroças e carruagens a trafegar pela sarjeta, com o Velho Niccolo marchando orgulhosamente à frente. Era difícil acreditar que um velho gordo com rosto de bebê poderia ter uma aparência tão belicosa.

O Corso faz uma curva ligeira depois do Palácio do Arcebispo, então torna a endireitar-se e passa em linha reta pelas lojas e, em seguida, pelas colunas da Galeria de Arte de um lado e as portas douradas do Arsenal do outro. Eles fizeram essa curva. Ali, aproximando-se pela direção oposta, havia outro cortejo, também caminhando pelo meio da rua: a Casa Petrocchi também estava em marcha.

— Extraordinário! — exclamou Tio Umberto.

— Perfeito! — cuspiu o Velho Niccolo.

As duas famílias avançavam uma para a outra. O silêncio agora era total, rompido apenas pelo ruído dos passos. Todos os cidadãos comuns, assim que viram toda a Casa Montana avançando sobre toda a Casa Petrocchi, apressaram-se a sair da rua. As pessoas batiam nas portas de perfeitos desconhecidos e eram convidadas a entrar sem qualquer pergunta. O gerente da Grossi’s, a maior loja de Caprona, escancarou suas portas de vidro laminado e mandou que os seus funcionários arrebanhassem todas as pessoas próximas. Depois disso, ele fechou as portas e baixou uma grade de aço diante delas. Por entre as barras da grade, rostos pálidos observavam os feiticeiros que se aproximavam. E uma tropa de Reservistas recém-convocados, que marchavam negligentemente em suas fardas novas e muito amarrotadas, ficaram horrorizados ao encontrarem-se presos entre os dois bandos; abandonaram a formação e puseram-se a correr freneticamente como se fossem um único Reservista, indo procurar abrigo no Arsenal. As grandes portas douradas fecharam-se estrepitosamente atrás deles justamente quando o Velho Niccolo fez alto, cara a cara com Guido Petrocchi.

— Então? — disse o Velho Niccolo, a fúria espelhada em seus olhos de bebê.

— Então? — retrucou Guido, a barba vermelha eriçada. O Velho Niccolo perguntou:

— Foi Florença ou foi Pisa que pagou a vocês para raptar meu neto Tonino?

Guido Petrocchi soltou uma risada de escárnio.

— O que você está perguntando é se foi Pisa ou Siena que pagou a vocês para raptar a minha filha Angélica.

— Por acaso imagina que dizendo isto vai ficar menos óbvio que você é um raptor de crianças? — perguntou o Velho Niccolo.

— Por acaso está me chamando de mentiroso?

— Estou, sim! — rugiu a Casa Montana. — Mentiroso!

— E o mesmo são vocês! — uivou a Casa Petrocchi, reunida atrás de Guido, todos esguios e ferozes, muitos deles de barba ruiva. — Mentirosos imundos!

A briga começou enquanto ainda estavam gritando. Não havia como saber quem a havia iniciado. Os rugidos de cada lado misturavam-se a cantorias e resmungos. Muitas mãos agitavam tirinhas de feitiço. E de repente o ar estava cheio de ovos voando. Paolo recebeu um ovo frito muito gorduroso, bem sobre a boca, e isso deixou-o com tanta raiva que ele também pôs-se a gritar feitiços de ovos, com todas as suas forças. Ovos quebravam-se por toda parte — ovos fritos, ovos cozidos, ovos frescos e ovos tão podres que quando explodiam pareciam bombas. Todo o mundo escorregava nas pedras meladas de ovo. Ovos escorriam dos cabelos das pessoas e respingavam em suas roupas.

Então alguém fez uma variação com um ou dois tomates podres. Imediatamente todo tipo de coisas desagradáveis passou a voar pelo Corso: espaguete frio e excremento de vaca — embora essa última variedade possa ter sido idéia de Rinaldo, logo foi adotada por ambos os lados — e repolhos, jorros de azeite e chuvaradas de gelo, ratos mortos e fígados de galinha.

Não era de se espantar que as pessoas comuns ficassem escondidas. Ovos e tomates escorriam pelas grades das janelas da Grossi’s e sujavam as colunas brancas da Galeria de Arte. Havia um forte barulho quando os repolhos podres atingiam as portas de bronze do Arsenal.

Aquela foi a primeira fase da batalha, uma fase desorganizada, com cada pessoa expressando separadamente a sua fúria. Porém, quando todos já estavam imundos e pegajosos, a fúria começou a tomar forma. Ambos os lados começaram a cantar de maneira mais organizada. A cantoria cresceu, e formaram-se dois fortes corais ritmados.

O resultado foi que os objetos que voavam pelo Corso ergueram-se no ar e começaram a cair como coisas muito mais perigosas. Paolo ergueu os olhos e viu uma chuva de peças transparentes e cintilantes, parecendo congeladas, jorrar do céu em cima dele. A princípio pensou que se tratava de neve, até que uma peça atingiu seu braço e cortou-o.

— Que monstros cruéis! Estão jogando cacos de vidro! — Lucia gritou ao lado dele.

Antes que a grande massa de cacos de vidro caísse, a penetrante voz de tenor do Velho Niccolo ergueu-se acima dos berros e dos cânticos:

— Testudo!

A voz de baixista de Antonio veio em seu apoio:

— Testudo!

O mesmo fez a voz de barítono de Tio Lorenzo.

Os pés batiam no chão. Paolo conhecia aquele feitiço; inclinou-se para a frente, e pôs-se a bater os pés no chão com regularidade, ajudando a sustentar o encanto. A família inteira o imitou. Pam, pam, pam, “testudo, testudo, testudo”. Acima das cabeças curvadas, os cacos de vidro quicavam contra uma barreira invisível e caíam para os lados.

— Testudo!

Do meio do mar de costas curvadas, a voz de Elizabeth soou docemente em um novo feitiço. Tia Anna, Tia Maria e Corinna juntaram-se a ela. Era como uma segunda voz cantada em soprano acima de um coro de batidas de pés ritmadas.

Paolo sabia, sem que alguém lhe dissesse, que precisava manter o feitiço de escudo enquanto Elizabeth montava o seu feitiço. O mesmo fizeram todos os outros. Paolo achava aquilo extraordinário, excitante, espantoso: cada Montana entendia a indireta mais sutil e agia de acordo com ela como se fosse uma ordem.

Ele arriscou-se a olhar de relance para cima e viu que o feitiço da segunda voz estava funcionando: cada caco de vidro, ao bater no escudo invisível que Paolo estava ajudando a fabricar, transformava-se numa vespa furiosa e voltava zumbindo para atacar os Petrocchi. Mas os Petrocchi simplesmente transformavam-nas novamente em cacos de vidro, que eram lançados de volta. Ao mesmo tempo, Paolo percebia, pelo ritmo dos cânticos deles, que alguns estavam se esforçando para destruir o encanto do escudo. Paolo cantou e bateu com os pés no chão com mais força do que nunca.

Enquanto isso, a voz de Rinaldo e a voz do pai de Paolo cantavam suavemente, em tom grave, trabalhando em outra coisa ainda. Mais damas juntaram-se à canção das vespas para que os Petrocchi não conseguissem perceber. E durante todo o tempo o pam-pam-pam que sustentava o feitiço do escudo era mantido por todos. Poderia ter sido o coro mais grandioso da ópera mais grandiosa de todos os tempos, exceto que o objetivo de tudo aquilo era diferente. O objetivo veio com um perfeito rugido de vozes. Os Petrocchi ergueram os braços e cambalearam: as pedras sob eles ondulavam e o sólido Corso começou a afundar, transformando-se em uma vala. A resposta instantânea deles foi outro enorme acorde cantado, com inúmeras desafinações. E os Montana encontraram-se de repente dentro de uma muralha de chamas.

A confusão foi total. Paolo saiu caminhando incertamente em busca de segurança, com as pontas dos cabelos chamuscadas, sobre um pavimento que estremecia e ondulava sob seus sapatos.

— Voltava! Voltava! — ele cantava freneticamente.

Atrás dele, as labaredas assobiavam. Nuvens de vapor escondiam até o telhado alto da Galeria de Arte, quando o rio respondeu ao encanto e veio enchendo o Corso. A água batia nos joelhos de Paolo, depois chegou à sua cintura, e continuava subindo. Havia água demais; alguém havia cantado fora do tom, e Paolo temia que houvesse sido ele mesmo. Viu sua prima Lena com água até o queixo e agarrou-a. Rebocando Lena, ele cambaleou através da correnteza sobre o calçamento ondulante, tentando alcançar a escada do Arsenal.

Alguém deve ter tido o bom senso de criar um feitiço de cancelamento; de repente tudo clareou — o vapor, a água e a fumaça desapareceram ao mesmo tempo. Paolo encontrou-se nos degraus da Galeria de Arte e não do Arsenal. Atrás dele, o Corso era uma confusão de pedras soltas, imundas de lama e cobertas de excremento de vaca, tomates e ovos fritos. Não teria havido uma sujeira maior se Caprona houvesse sido invadida pelos exércitos de Florença, Pisa e Siena.

Paolo achou que para ele já era o suficiente. Lena estava chorando. Ela era novinha demais, devia ter ficado era casa com Rosa. Ele viu sua mãe pegando Lucia na lama, e Rinaldo ajudando Tia Gina a pôr-se de pé.

— Vamos para casa, Paolo — Lena choramingou.

Mas a batalha não estava realmente terminada: os Montana e os Petrocchi subiam e desciam o Corso em grupinhos furiosos e enlameados, gritando ofensas uns para os outros.

— Vocês vão ver o que é caco de vidro!

— Foram vocês que começaram!

— Seus porcos Petrocchi mentirosos! Raptores de crianças!

— Porcos são vocês! Não sabem fazer feitiços! Traidores! Tia Gina e Rinaldo foram escorregando até algo que dava a impressão de ser uma rocha enlameada no meio da rua e puxaram-na; e surgiu então o corpanzil de Tia Francesca, coberta de lama e furiosa como Paolo jamais a vira.

— Seus Petrocchi imundos! Exijo um duelo! — ela gritava. Sua voz soou rascante como um serrote gigantesco, e enchia o Corso.

 

O desafio de Tia Francesca pareceu ter empolgado ambos os lados. Uma mulher Petrocchi gritou:

— Nós aceitamos!

E todos os grupos enlameados dirigiram-se depressa para o meio do Corso. Paolo chegou junto da sua família bem a tempo de ouvir o Velho Niccolo dizendo:

— Não seja tola, Francesca!

Ele parecia mais um duende enlameado do que o chefe de uma Casa famosa. E estava quase ofegante demais para conseguir falar.

— Eles nos insultaram e nos atacaram! Merecem ser derrotados e expulsos de Caprona! — exclamou Tia Francesca. — E eu mesma vou fazer isto! Nenhum Petrocchi é páreo para mim!

E parecia mesmo intimidante, corpulenta e suja de lama, com o enorme vestido negro em farrapos e os cabelos grisalhos despenteados, caindo sobre um dos ombros.

Os outros Montana, porém, sabiam que Tia Francesca era uma mulher de idade. Houve um coro de protestos. Tanto Tio Lorenzo quanto Rinaldo ofereceram-se para lutar cora o representante dos Petrocchi em seu lugar.

— Não — protestou o Velho Niccolo. — Rinaldo, você foi ferido...

Ele foi interrompido por vaias e assobios dos Petrocchi:

— Covardes! Queremos um duelo!

O rosto enlameado do Velho Niccolo crispou-se de raiva.

— Muito bem, eles terão um duelo — decidiu. — Antonio, eu escolho você. Dê um passo à frente.

Paolo sentiu uma onda de orgulho. Então seu pai era, como ele sempre pensara, o melhor produtor de feitiços da Casa Montana. Mas o orgulho misturou-se ao medo quando Paolo viu o modo como sua mãe agarrava o braço de Antonio, e o olhar preocupado e relutante no rosto barrento do pai.

— Vá! — ordenou o Velho Niccolo em tom zangado. Lentamente Antonio avançou para o espaço vazio entre as duas famílias, tropeçando um pouco nas pedras soltas.

— Estou pronto — ele anunciou aos Petrocchi. — Onde está o seu representante?

Era óbvio que havia alguma indecisão entre os Petrocchi. Uma voz exclamou em tom assustado:

— Mas é o Antonio!

Isto foi seguido por uma confusão de vozes. Pelo modo como eles viravam a cabeça e confabulavam, Paolo achou que estavam procurando por um Petrocchi que, por um motivo desconhecido, não estava presente. Mas a confusão acalmou-se e Guido Petrocchi em pessoa avançou um passo. Paolo viu que vários Petrocchi pareciam tão alarmados quanto Elizabeth.

— Também estou pronto — disse Guido, mostrando os dentes com uma expressão de raiva.

Como o rosto dele estava coberto de barro, ele tinha uma aparência bem selvagem. Também ele era corpulento e robusto. Fazia Antonio parecer frágil e delicado.

— E exijo um duelo sem limites! — Guido rosnou, parecendo ainda mais zangado do que o Velho Niccolo.

— Muito bem — concordou Antonio. Em sua voz havia um tremor quase imperceptível. — Você sabe que isto significa lutar até a morte, não sabe?

— Acho perfeito — disse Guido.

Ele parecia um gigante. De repente Paolo sentiu-se muito assustado.

Foi nesse momento que a Polícia Ducal apareceu. Os policiais haviam se aproximado estrategicamente, sem ruído, montados em bicicletas e seguindo pelas calçadas. Ninguém notou a presença deles até o Chefe de Polícia e seu lugar-tenente estarem postados ao lado dos dois lutadores.

— Guido Petrocchi e Antonio Montana, vocês estão presos... — começou o lugar-tenente.

Os dois lutadores deram um salto e viraram-se, encontrando fardas enfeitadas cercando-os pelos dois lados.

— Ah, vão embora — disse o Velho Niccolo, aproximando-se apressado. — Por que têm de interferir?

— Sim, vão embora, estamos ocupados — reiterou Guido. O lugar-tenente fez uma careta ao ver o rosto de Guido, mas o Chefe de Polícia era um homem corajoso e enérgico, com um belo bigode, e precisava zelar pela sua reputação de homem corajoso e enérgico. Fez uma mesura para o Velho Niccolo.

— Estes dois estão presos — declarou. — Quanto ao resto de vocês, ordeno que esqueçam suas discordâncias e lembrem-se de que estamos prestes a entrar em guerra.

— Já estamos em guerra. Vá embora — disse o Velho Niccolo.

— Lamento muito, mas isto é impossível — insistiu o Chefe de Polícia.

— Então não diga que não foi avisado.

Os adultos de ambas as famílias puseram-se a cantar por um breve período. Paolo lamentava não conhecer aquele feitiço, que parecia ser útil. Assim que ele terminou, Rinaldo e um Petrocchi jovem e moreno aproximaram-se dos dois policiais e puxaram-nos para trás. Os dois policiais mostravam-se tão rígidos quanto os manequins na vitrine gradeada da Grossi’s. Rinaldo e o outro rapaz deitaram-nos nos degraus da escadaria da Galeria de Arte e voltaram cada um para a sua família, sem olharem um para o outro. Quanto ao resto da Polícia Ducal, parecia ter desaparecido, com as bicicletas e tudo.

— Está pronto agora? — Guido perguntou.

— Pronto — respondeu Antonio. E o duelo começou.

Mais tarde, rememorando a cena, Paolo deu-se conta de que o embate não havia durado mais do que três minutos, embora na ocasião parecesse uma eternidade. Pois durante esse tempo, a força, a habilidade e a velocidade dos dois duelistas passaram por provas duríssimas. Durante a primeira parte, que provavelmente foi a mais longa, os dois estavam testando um ao outro, procurando uma abertura, e parecia que comparativamente pouca coisa estava acontecendo. Ambos ficaram parados, ligeiramente inclinados para a frente, resmungando, cantarolando, ocasionalmente fazendo um gesto rápido com a mão.

Paolo observava o rosto tenso do pai e sentia vontade de saber o que estava acontecendo exatamente. Então, por um instante, Guido ficou sendo um pano de pó quadriculado de vermelho e branco. Alguém soltou uma exclamação. Antonio, porém, quase que simultaneamente transformou-se num homem de papelão coberto de triângulos verdes. Então ambos voltaram a ser quem eram.

A velocidade daquilo deixou Paolo atônito. Não apenas os dois lados haviam lançado um feitiço, mas também um contra-feitiço, e um feitiço contra o contra-feitiço, tudo isso quase que simultaneamente. Ambos os combatentes estavam ofegantes e olhavam cautelosamente um para o outro. Era evidente que ambos tinham as mesmas condições para vencer.

Mais uma vez houve um intervalo em que parecia que nada estava acontecendo, a não ser uma espécie de vibração de ambos os lados. Então Antonio atacou de repente, e de maneira tão forte que era evidente que durante aquele intervalo ele havia fabricado um forte feitiço disfarçado pela vibração dos feitiços triviais destinados a manter Guido ocupado. Guido deu um grito e dissolveu-se em poeira, que se afastou, retrocedendo, em forma de espiral. Mas, de um modo ou de outro, enquanto se dissolvia Guido jogou o seu feitiço poderoso em Antonio; este partiu-se em mil pedacinhos, como peças espalhadas de um quebra-cabeças.

Durante uma eternidade a espiral de poeira e a pilha de pedacinhos de Antonio ficaram flutuando no ar. Ambos se esforçavam para se manterem inteiros e não se dispersarem pelos paralelepípedos deslocados do calçamento do Corso. Na realidade, eles continuavam também tentando fazer feitiços. Quando, finalmente, Antonio deu um passo cambaleante para a frente, outra vez inteiro, segurando um tipo qualquer de fruto vermelho em sua mão direita, mal teve tempo de desviar-se: Guido era um leopardo em pleno salto.

Elizabeth gritou.

Antonio jogou-se para um lado, inspirou profundamente e cantou:

— Oliphans!

Sua voz normalmente sedosa estava áspera e entrecortada, mas ele entoou as notas corretas. Um elefante gigantesco, com presas maiores do que a altura de Paolo, bloqueou o sol poente e sacudiu o Corso enquanto avançava, com as orelhas bem abertas, para esmagar com as patas o leopardo atacante. Era difícil acreditar que o imenso animal era na realidade o magrela e preocupado Antonio Montana.

Durante uma fração de segundo o leopardo voltou a ser Guido Petrocchi, de rosto muito branco e a barba exuberantemente vermelha, balbuciando uma canção frenética:

— Hickory-dickory-muggery-mus!

E também ele deve ter cantado as notas certas, pois aparentemente desapareceu.

Os Montana estavam começando a festejar a covardia de Guido quando o elefante entrou em pânico. Antes de começar a correr para salvar sua vida, Paolo enxergou de relance um minúsculo ratinho avançando agressivamente para as patas dianteiras do elefante. O berro estridente de Antonio parecia que ia estourar os ouvidos do menino. Ele sabia que atrás de si o elefante estava inteiramente enlouquecido, movendo-se de um lado para o outro em meio aos apavorados Montana. Lucia passou correndo por ele carregando Lena de costas em seu peito. Paolo agarrou o pequeno Bernardo por um braço e correu com ele, fazendo uma careta ao ouvir o barrito horrível e desesperado de seu pai.

Os elefantes têm medo de ratos, um medo terrível. E existem muito poucas pessoas que conseguem mudar de forma sem tomar a natureza da forma para a qual mudaram. Parecia que Guido Petrocchi não apenas vencera, mas conseguira também que a maioria dos Montana morresse esmagada pelas patas do animal.

Mas quando Paolo tornou a olhar, Elizabeth estava parada no caminho do elefante, olhos fixos nos olhinhos selvagens do animal.

— Antonio! — ela gritou. — Antonio, controle-se!

Ela parecia tão frágil e o elefante se aproximava tão depressa que Paolo fechou os olhos.

Tornou a abri-los bem a tempo de ver o elefante erguendo sua mãe e colocando-a no dorso. Lágrimas de alívio nublaram de tal modo a visão de Paolo que ele quase deixou de acompanhar o ataque seguinte de Guido. Simplesmente ouviu um ruído infernal, sentiu um cheiro horrível e avistou uma espécie de torre móvel. Viu o elefante girar e Elizabeth agarrar-se às costas dele. O animal agora estava sendo ameaçado por uma enorme máquina de ferro, ainda maior que ele próprio, que pulsava com uma força mecânica e enchia o Corso com uma desagradável fumaça azul. Aquela coisa encaminhou-se lentamente na direção de Antonio, deslocando-se sobre enormes trilhos móveis. Quando se aproximou, uma arma na sua parte dianteira moveu-se para apontar para o espaço entre os olhos do elefante.

No mesmo instante Antonio transformou-se em máquina também. Como foi obrigado a fazer isso com muita pressa, e ainda por cima sem conhecer muita coisa sobre máquinas, ele ficou uma máquina muito esquisita mesmo. Era azul-clara, da cor de um ovo de pato, com enormes rodas de borracha. Aliás, provavelmente era toda feita de borracha, porque o projétil disparado pela máquina de Guido quicou nela e foi cair na escada do Arsenal. A maioria dos espectadores jogou-se no chão.

— Mamãe está dentro daquela coisa! — Lucia gritou para Paolo acima do ruído.

Paolo deu-se conta de que só podia ser isso. Antonio não tivera tempo para colocar Elizabeth no chão. E agora estava dando encontrões em Guido: batia e quicava, batia e quicava. Devia estar sendo horrível para Elizabeth. Por sorte, isso só durou um segundo; de repente Elizabeth e Antonio apareceram com suas próprias formas, quase sob os poderosos trilhos da máqui-na-Guido. Elizabeth correu como o vento (Paolo nunca imaginara que ela conseguisse correr tão depressa) na direção do Arsenal. E, talvez pela maldade dos Petrocchi ou talvez por simples confusão, o grande tanque-Guido girou o canhão para apontá-lo para Elizabeth.

Antonio xingou Guido com um palavrão cabeludo e jogou o tomate que ainda tinha na mão. O fruto vermelho bateu na lateral de ferro da máquina, esborrachou-se e começou a escorrer. Paolo estava justamente perguntando-se qual seria a utilidade daquilo quando o tanque desapareceu. Guido também. Em seu lugar havia um tomate gigantesco. Era mais ou menos do tamanho de um abóbora. Que simplesmente ficou no meio da rua, sem se mover.

Aquele foi o golpe que venceu o duelo. Paolo percebia isso pela expressão no rosto de Antonio quando ele se encaminhava para o tomate. Com repulsa e cautela, Antonio baixou-se para recolhê-lo. Ouviram-se gemidos dos Petrocchi e aplausos, não muito convincentes, dos Montana.

Então alguém lançou mais um feitiço.

Dessa vez foi uma neblina espessa e úmida. Sem dúvida, no início não teria parecido tão terrível. Porém, depois de todo o resto, justamente quando o combate estava no fim, Paolo achou que aquilo era a gota d’água. Ele estava olhando em volta para tentar distinguir quem mais estava tossindo, e quando virou a cabeça constatou que não conseguia enxergar Lucia. Tampouco conseguia encontrar Bernardo, e sabia que um minuto antes estava a segurá-lo pelo braço. Assim que se deu conta disso, ele percebeu que perdera também o seu senso de direção. Estava sozinho, tossindo e tremendo, no vazio frio e branco.

— Não vou perder a cabeça — Paolo disse a si mesmo veementemente. — Papai não fez isso, de modo que eu também não vou fazer. Vou encontrar algum lugar para me abrigar até esta porcaria de feitiço acabar. Então vou para casa. Não me importa que Tonino ainda esteja desaparecido... — Ele interrompeu-se então, porque um pensamento lhe ocorreu como uma descoberta espantosa. — De qualquer maneira, deste jeito nunca vamos conseguir encontrar Tonino — disse. E sabia que era verdade.

Com as mãos estendidas à frente do corpo e os olhos bem arregalados na esperança de enxergar alguma coisa — o que era improvável, já que seus olhos estavam lacrimejando por causa da neblina, assim como o seu nariz estava escorrendo — Paolo avançou, tossindo, espirrando e tateando com os pés, até que seus dedos esbarraram numa superfície de pedra. Paolo baixou os olhos, mas não conseguiu distinguir o que era. Ele tentou erguer o pé, deslizando os dedos de encontro à obstrução. E depois de alguns centímetros a obstrução desapareceu e o seu pé avançou. Era um degrau, portanto. Provavelmente o meio-fio; ele estava perto da beirada da rua quando fugira correndo do elefante. Colocou o outro pé era cima do meio-fio e avançou 15 centímetros — então caiu em cima de algo que parecia ser um corpo.

Paolo ficou tão assustado que no princípio não ousou mexer-se. Mas logo se deu conta de que o corpo debaixo dele estava tremendo, como ele próprio, e tentando tossir e falar ao mesmo tempo. Paolo escutou uma voz rouca e entrecortada murmurando:

— Virgem Maria...

Perplexo, Paolo estendeu a mão cautelosamente e tateou o corpo. Seus dedos encontraram frios botões metálicos, alamares e, um pouco acima, um rosto quente — que soltou um grasnido quando a mão gelada de Paolo tapou sua boca — e um espesso bigode debaixo do nariz.

Ele pensou: meu Anjo de Caprona, é o Chefe de Polícia!

Paolo colocou-se de joelhos no que devia ser um degrau da escada da Galeria de Arte. Não havia pessoa alguma por perto a quem pedir ajuda, mas não lhe parecia justo deixar alguém caído, indefeso, na neblina. Mesmo para quem conseguia mover-se a neblina já era ruim demais. Assim, torcendo para estar fazendo a coisa certa, Paolo ajoelhou-se e cantou, bem baixinho, o feitiço de cancelamento mais geral que conseguiu recordar. Ele não teve qualquer efeito na neblina — que era, evidentemente, uma magia muito forte — mas o menino escutou o Chefe de Polícia girar o corpo de lado e gemer, e depois esfregar as botas no chão, testando as pernas.

— Mamma mia! — Paolo ouviu-o resmungar.

Pelo jeito, o Chefe de Polícia desejava ficar sozinho. Paolo deixou-o e subiu rastejando a escada da Galeria. Não tinha idéia de que havia chegado ao topo até bater com o cotovelo numa coluna, ao mesmo tempo em que enfiava a cabeça no estômago de Lucia. Ambos disseram coisas bem desagradáveis.

— Quando você acabar de praguejar, pode vir ficar comigo entre essas colunas e me manter aquecida — Lucia disse finalmente. Ela tossiu e estremeceu. — Isto não é horrível? Quem foi que fez? — E tornou a tossir. A neblina deixara-a rouca.

— Não fomos nós, senão saberíamos — Paolo respondeu. — Ai, meu cotovelo!

Segurando nela para guiar-se, ele enfiou-se entre as colunas e sentou-se no chão ao lado dela. Assim se sentiu melhor.

— Estes porcos! Para mim, isto é um truque baixo — disse Lucia. — É engraçado, a gente passa a vida toda ouvindo as pessoas dizerem que eles são uns porcos, e a gente fica pensando que não devem ser tanto assim. Então, quando a gente os conhece, vê que são piores ainda. Era você quem estava cantando agora mesmo?

— Caí por cima do Chefe de Polícia na escada — Paolo explicou.

Lucia riu.

— E eu caí por cima do outro. Também entoei um feitiço de cancelamento. Ele estava esparramado em cima dos degraus, e deve ter ficado todo machucado quando caí em cima dele.

— Já é ruim quando a gente consegue se mover. Como se fosse cego — Paolo comentou.

— Horrível — Lucia concordou. — Aquele cego que pede esmolas na Via Sant’Angelo, amanhã vou lhe dar algum dinheiro.

— Aquele de olhos brancos? — Paolo quis saber. — É, eu também vou. E nunca mais quero ver outro feitiço.

— Para falar a verdade, eu estava desejando ter coragem para incendiar a Biblioteca e o Scriptorium. Logo antes de cair em cima daquele policial, tive a certeza, como se fosse um relâmpago dentro da minha cabeça, de que nenhum feitiço vai funcionar naqueles monstros raptores.

— Exatamente o que eu pensei! — Paolo exclamou. — Eu sei que a única maneira de encontrar Tonino...

— Espere — Lucia pediu. — Acho que a neblina está ficando mais fraca.

Ela tinha razão. Quando Paolo inclinou-se para a frente, conseguiu enxergar duas manchas pretas nos degraus abaixo dele, onde o Chefe de Polícia e o seu lugar-tenente estavam sentados com a cabeça apoiada nas mãos. Paolo conseguia enxergar também um bom trecho do Corso, com as pedras do calçamento escuras como se estivessem molhadas, mas, para a sua surpresa, nem sujas de lama, nem fora do lugar.

— Alguém colocou tudo de volta no lugar! — Lucia exclamou.

A neblina dissipou-se ainda mais. Eles já conseguiam enxergar as portas do Arsenal e toda a largura enevoada do Corso, com cada pedra do pavimento de volta aonde deveria ficar. Em algum lugar mais ou menos no centro da rua, Antonio e Guido Petrocchi estavam parados de frente um para o outro.

— Ah, não, será que eles vão começar de novo? — Paolo lamentou-se.

Mas quase que no mesmo instante Antonio e Guido fizeram meia-volta e afastaram-se um do outro.

— Graças aos céus! — Lucia exclamou.

Ela e Paolo voltaram-se um para o outro com sorrisos de alívio.

Só que não era Lucia. Paolo encontrou-se encarando um rosto branco e pontudo, com olhos mais escuros, maiores e mais sagazes do que os de Lucia. Rodeando o rosto havia cachos despenteados de um vermelho-escuro. O sorriso morreu naquele rosto e o horror surgiu em seu lugar, enquanto Paolo o observava. E sentia que o seu próprio rosto se comportava da mesma maneira. Ele estivera aninhado junto a uma Petrocchi! E sabia quem ela era: a mais velha das duas que haviam estado com ele no palácio. Renata, esse era o nome dela. E ela também o reconheceu.

— Você é o menino Montana de olhos azuis! — ela exclamou. Pelo modo como falava, dava a impressão de que isso era uma coisa nojenta.

Os dois se puseram de pé. Renata recuou, encostando-se na coluna como se tentasse penetrar na pedra, e Paolo retrocedeu ao longo dos degraus.

— Pensei que você fosse a minha irmã Lucia — ele disse.

— E eu pensei que você fosse o meu primo Claudio — Renata retrucou.

Por um motivo qualquer, os dois falavam como se a culpa fosse do outro.

— A culpa não foi minha! — Paolo declarou, zangado. — Culpe a pessoa que criou a neblina, e não eu. Existe um mago inimigo.

— Eu sei. Crestomanci contou — Renata revelou.

Paolo sentiu que odiava Crestomanci. Ele não tinha o direito de ir dizer aos Petrocchi a mesma coisa que dissera aos Montana. Mas ele odiava anda mais o mago inimigo. Era ele o responsável pela coisa mais embaraçosa que jamais acontecera a Paolo. Resmungando, envergonhado, o menino virou-se para sair correndo.

— Não, pare, espere! — Renata pediu.

Disse isso com modos tão autoritários que Paolo parou sem pensar, e deu a Renata tempo de agarrar o seu braço. Em vez de desvencilhar-se, Paolo ficou imóvel e tentou comportar-se com a dignidade que se esperava de um Montana. Olhou para o próprio braço, e para a mão de Renata que o segurava, como se as duas coisas tivessem se transformado numa lagartixa pegajosa. Mas Renata não o soltou.

— Pode olhar à vontade, eu não me importo — disse. — Não vou deixar você ir embora enquanto não me disser o que a sua família fez com Angélica.

— Nada — Paolo respondeu cora desprezo. — Nós não tocaríamos num Petrocchi nem com uma vara comprida. Que foi que o seu bando fez com Tonino?

Uma ruguinha estranha formou-se na testa pálida de Renata.

— É o seu irmão? Ele sumiu mesmo?

— Ele recebeu um livro com um feitiço de convocação — Paolo revelou.

— Um livro... — Renata repetiu lentamente. —Angélica também foi apanhada por um. Só percebemos quando o livro pegou fogo.

Ela soltou o braço de Paolo. Os dois ficaram a encarar-se em meio aos resquícios de névoa.

— Deve ter sido o mago inimigo — Paolo afirmou.

— Tentando fazer-nos esquecer a guerra — Renata completou. — Conte isto à sua família, está bem?

— Se você contar à sua — disse Paolo.

— Claro que vou contar. Pensa que sou boba? Apesar de tudo, Paolo encontrou-se rindo.

— Penso que você é uma Petrocchi — respondeu.

Mas quando Renata começou a rir também, Paolo deu-se conta de que aquilo era demais. Virou-se para sair correndo e encontrou-se cara a cara com o Chefe de Polícia. O Chefe de Polícia havia, evidentemente, recuperado a sua dignidade.

— Agora, crianças, vão andando — ordenou.

Renata fugiu sem outra palavra, com o rosto vermelho de vergonha por ter sido flagrada com um Montana. Paolo deixou-se ficar. Tinha a impressão de que devia informar que Tonino estava desaparecido.

— Eu disse para ir andando! — repetiu o Chefe de Polícia, ajeitando a farda com um puxão assustador.

A coragem de Paolo fugiu. Afinal, um policial comum não seria de grande ajuda contra um mago. Ele saiu correndo.

Correu durante todo o caminho até a casa dos Montana. A neblina e a umidade não ultrapassavam o Corso. Assim que ele virou para uma rua lateral, Paolo encontrou-se nas sombras gélidas e ao sol vermelho e baixo de um final de tarde de inverno. Era como ser lançado em outro mundo — um mundo onde as coisas aconteciam como deviam acontecer, onde o pai de alguém não se transformava num elefante enlouquecido, onde, acima de tudo, a irmã de alguém não era confundida com uma Petrocchi.

Enquanto Paolo corria, seu rosto queimava de vergonha. De todas as coisas horríveis que poderiam ter acontecido, aquela era a pior!

A casa dos Montana surgiu à vista, com o familiar Anjo acima do portão. Paolo passou em disparada por ele e trombou com seu pai. Antonio estava parado sob o arco do portão, ofegando como se ele também tivesse feito todo o caminho para casa correndo.

— Quem...? Ah, Paolo. Fique onde está — ele disse.

— Por quê? — Paolo quis saber.

Ele queria entrar em casa, onde ficaria em segurança, talvez comendo um bom pedaço de pão com mel. Ficou surpreso ao ver que o pai não tinha a mesma intenção. Antonio parecia exausto, e suas roupas eram farrapos enlameados; o braço que ele estendeu para manter Paolo no portão estava semidesnudo e coberto de arranhões. Paolo ia protestar quando percebeu que alguma coisa estava mesmo muito errada: quase todos os gatos estavam no portão também, agachados, com as orelhas para trás. Benvenuto, parecendo um gato-do-mato, patrulhava a entrada para o pátio. Paolo ouvia os seus rosnados.

Antonio agarrou Paolo pelo ombro com a mão cheia de arranhões e empurrou-o para a frente, para que ele pudesse enxergar dentro do pátio.

— Veja — disse.

Paolo pestanejou ao ver no centro do pátio as letras de 30 centímetros de altura que pareciam flutuar no ar. À luz fraca do final do dia, elas brilhavam com uma cor amarela desagradável, repugnante. Diziam:

 

           PAREM COM TODOS OS FEITIÇOS

           SENÃO A CRIANÇA VAI SOFRER.

           ASSINADO: CASA PETROCCHI

 

A assinatura vinha em letras ainda mais brilhantes e mais repugnantes. Sua intenção era deixar bem claro quem havia mandado a mensagem.

Depois daquilo que Renata havia dito, Paolo sabia que havia um engano.

— Não foram os Petrocchi. Foi aquele mago que Crestomanci mencionou.

— Sim, naturalmente — disse Antonio.

Paolo ergueu os olhos para o pai e viu que ele não acreditara — provavelmente nem sequer prestara atenção.

— Mas é verdade! — insistiu. — Ele quer que a gente pare de produzir feitiços de guerra.

Antonio suspirou e controlou suas emoções para explicar a Paolo:

— Meu filho, ninguém além de Crestomanci acredita nesse mago. Na magia, como em tudo mais, a explicação mais simples é sempre a melhor. Em outras palavras, por que inventar um personagem desconhecido quanto temos um inimigo conhecido com motivos conhecidos para nos odiar? Por que não poderiam ser os Petrocchi?

Paolo sentia vontade de protestar, mas ainda estava envergonhado demais por causa de Renata para dizer que Angélica Petrocchi também havia desaparecido. Quando estava fazendo força para encontrar alguma coisa que pudesse dizer e que conseguisse convencer o pai, um quadrado de luz surgiu na varanda quando uma porta foi aberta.

— Rosa! — Antonio chamou. Sua voz estava entrecortada pela ansiedade.

A figura de Rosa apareceu à luz, carregando o bebê da prima Claudia. A própria luz era tão alaranjada e tão brilhante, ao lado do brilho nojento das letras que flutuavam no pátio, que Paolo encheu-se de alívio.

Atrás de Rosa estava Marco, carregando outro bebê.

— Que bom! — Antonio murmurou. Depois gritou: — Você está bem, Rosa? Como foi que estas palavras apareceram aqui?

— Não sabemos. Simplesmente apareceram, sem mais nem menos — Rosa gritou de volta. — Tentamos nos livrar delas, mas não conseguimos.

Marco inclinou-se sobre a balaustrada e completou.

— Não é verdade, Antonio. Os Petrocchi não fariam uma coisa dessas.

Antonio gritou em resposta:

— Não saia por aí dizendo isto, Marco.

Ele falou num tom tão autoritário que Paolo entendeu que nada do que dissesse seria levado a sério. Se antes ele tinha alguma chance de convencer Antonio, acabava de perdê-la.

 

Quando Tonino recuperou os sentidos — no momento exato, aliás, em que o livro encantado começou a pegar fogo — ele teve, a princípio, uma sensação de pesadelo: a sensação de estar preso dentro de uma caixa de papelão. Virou a cabeça para um lado, em cima do braço. Tinha a impressão de que estava deitado de bruços numa superfície rígida, mas levemente peluda. Bem à distância ele conseguia enxergar vagamente uma outra pessoa, encostada na parede como um boneco, mas Tonino sentia-se esquisito demais para interessar-se. Girou a cabeça para o outro lado e viu, bem perto, os lambris de uma parede. Isso lhe mostrou que se encontrava em um aposento bastante comprido. Tornou a girar a cabeça e olhou para o piso peludo. Nele havia um desenho grande demais para que Tonino conseguisse enxergar todo ele; ficou achando que se tratava de alguma espécie de tapete. Fechou os olhos enevoados e tentou recordar o que havia acontecido.

Lembrava-se de ter ido até as cercanias da Ponte Nova. Sentia-se cheio de entusiasmo. Havia lido um livro que, segundo ele julgava, estava lhe dizendo como salvar Caprona. Ele sabia que precisava encontrar um beco tendo no final uma casa de pintura azul descascada. Agora isso lhe parecia tolice; Tonino sabia que as coisas nunca aconteciam do modo como aconteciam nos livros, tanto assim que na hora ele havia ficado bastante espantado ao descobrir que havia mesmo um beco tendo no fundo uma casa de pintura azul descascada. E, para grande excitação sua, havia um pedaço de papel que veio flutuando até seus pés. O livro estava se tornando realidade! Tonino inclinara-se e pegara o papel.

E depois disso ele de mais nada sabia, até este momento.

Isso era verdade. Por várias vezes Tonino rememorou o que acontecera, e todas as vezes suas lembranças terminavam exatamente no mesmo momento: quando ele se inclinou para pegar o pedaço de papel. Depois disso havia apenas uma vaga sensação de pesadelo. A essa altura, estava quase convencido de ter sido vítima de um feitiço. Começou a se sentir envergonhado. Então sentou-se.

Percebeu imediatamente a razão pela qual tinha a impressão de ter sonhado que estava fechado dentro de uma caixa de papelão: o aposento onde se encontrava era comprido e baixo, tendo quase exatamente a forma de uma caixa de sapatos. As paredes e o teto eram pintados de uma cor creme — uma espécie de cor de papelão esbranquiçado, aliás — mas pareciam ser de madeira, já que havia neles entalhes realçados com tinta dourada. Pendendo do teto havia um lustre de cristal, embora a luz entrasse pelas quatro janelas compridas em uma das paredes mais compridas; no chão via-se um tapete de luxo, e perto da parede oposta às janelas havia uma mesa de jantar muito elegante e algumas cadeiras. Sobre a mesa havia dois castiçais de prata. Ao todo, era um aposento extremamente elegante — e, de alguma forma, errado.

Tonino ficou sentado, tentando descobrir o que era que lhe parecia estar errado. O aposento encontrava-se praticamente vazio, mas não era exatamente isto. Havia alguma coisa estranha na luz que entrava através das quatro janelas compridas, como se o sol estivesse, de algum modo, mais distante do que deveria estar — mas também não era isto. Tonino voltou os olhos para as quatro listas de sol fraco demais que entravam pelas janelas e recaíam sobre o tapete, e então deixou que seu olhar deslizasse pelo tapete. No final do tapete Tonino avistou a pessoa encostada à parede. Era Angélica Petrocchi, a menina que estivera no Palácio. Os olhos dela estavam fechados sob a testa proeminente, e ela dava a impressão de estar doente. Então ela também havia sido capturada!

Tonino tornou a olhar para o tapete. Aquilo era uma coisa estranha. Na realidade, não se tratava de um tapete; ele havia sido pintado sobre a substância levemente peluda do piso. Tonino conseguia distinguir as pinceladas no desenho. E o motivo pelo qual havia julgado o desenho grande demais era que ele era mesmo grande demais; seu tamanho era inadequado para o resto do aposento.

Mais confuso do que nunca, Tonino fez um esforço e ficou de pé. Sentia-se um pouco fraco, de modo que estendeu a mão para os lambris com desenhos dourados, para firmar-se. Os lambris também eram peludos ao tato, exceto nos trechos dourados. Estes eram planos, mas não inteiramente rígidos, como se fosse... — Tonino pensou um pouco, mas nenhuma outra comparação lhe ocorreu — ...como se fosse tinta. Ele deslizou a mão sobre o lambri aparentemente entalhado: era tudo falso. Nem sequer a madeira era de verdade, e os entalhes eram pintados era linhas marrons, azuis e douradas. Quem quer que o tinha aprisionado estava querendo parecer mais rico do que era, mas estava fazendo isso muito mal.

Houve movimentos no outro extremo do aposento: Angélica estava tentando ficar de pé, cambaleante, e também ela estava deslizando a mão sobre os entalhes pintados. Com muita ansiedade e muita cautela ela virou-se e olhou para Tonino.

— Pode me deixar ir embora agora, por favor? — perguntou. Em sua voz havia um leve tremor, que mostrava a Tonino que ela estava muito assustada. E, para falar a verdade, ele também estava.

— Não posso deixar você ir embora. Não fui eu quem prendeu você — ele respondeu. — Nenhum de nós pode ir embora. Não existe porta.

Aquela era a coisa errada que ele estivera tentando não perceber. E assim que disse isto ele se arrependeu, desejando ter ficado de boca fechada, pois Angélica deu um grito. E este som deixou Tonino em pânico também. Não havia porta! Ele estava fechado numa caixa de papelão com uma menina Petrocchi!

Tonino deve ter gritado também — ele não tinha certeza. Quando se controlou, tinha nas mãos uma das cadeiras elegantes e estava batendo com ela na janela mais próxima. Aquilo foi a coisa mais assustadora de tudo, porque a vidraça não se partiu; era feita de um material ligeiramente elástico, e a cadeira quicou nele. Perto de Tonino, a garota Petrocchi atacava outra janela com um dos castiçais de prata, sem parar de gritar. Tonino via claramente, do lado de fora da janela, um pequeno cipreste com seu formato de torre, iluminado pelo sol da tarde. Então estavam em uma daquelas ricas mansões perto do Palácio? Ah, quando ele conseguisse sair!.. Ele ergueu a cadeira e despedaçou-a de encontro à janela com toda a sua força.

Não aconteceu coisa alguma com a janela, mas a cadeira ficou em pedaços. Duas pernas mal coladas se soltaram, e o resto despedaçou-se. Tonino considerou a cadeira impressionantemente malfeita. Jogou-a sobre o tapete pintado e pegou outra cadeira. Dessa vez, para variar, ele atacou a parede perto da janela. Pedaços da cadeira se desprenderam e saíram voando, e na mão de Tonino sobrou apenas o assento pintado — alias, pintado para parecer uma almofada bordada, exatamente como o chão era pintado para parecer um tapete. Por várias vezes ele bateu com a madeira na parede, conseguindo fazer umas mossas grandes e marrons. Ainda melhor, a parede sacudia-se com um som seco e abafado, como se fosse feita de alguma coisa muito barata. Tonino batia na parede e berrava; Angélica batia na parede e na janela, imparcialmente, com seu castiçal, e continuava gritando.

Eles foram interrompidos por um terrível martelar. Alguma coisa parecia estar dando centenas de golpes barulhentos no teto. O aposento era como o lado de dentro de um tambor; o ruído era forte demais para ser suportável. A menina Petrocchi deixou cair o castiçal e pôs-se a rolar pelo chão. Tonino encontrou-se agachado, as mãos tapando os ouvidos, os olhos fixos no lustre que se balançava acima dele. Ele tinha a impressão de que a sua cabeça ia explodir.

Os golpes cessaram. Não havia qualquer som além de um gemido, que Tonino imaginava que viesse dele próprio.

Uma voz fortíssima retumbou através do teto:

— Assim está melhor. Agora fiquem quietos, senão vão ficar sem comida. E se tentarem qualquer outro truque serão castigados. Estão entendendo?

Tonino e Angélica ficaram de pé ao mesmo tempo.

— Tire a gente daqui! — berraram.

Não houve resposta; apenas um ruído distante de passadas. Pelo jeito, o dono da voz fortíssima estava indo embora.

— Um truque cruel com um feitiço amplificador — disse Angélica.

Ela pegou o castiçal e estudou-o com revolta. A parte superior, que se dividia em duas, entortara, formando um ângulo reto com a base.

— Que lugar é este afinal? Tudo aqui parece falsificado... — comentou.

Os dois se levantaram e voltaram para as janelas, na esperança de uma pista. Logo do lado de fora eles avistaram várias arvorezinhas com o formato de torre, e mais atrás delas uma espécie de platô. Por mais que olhassem, no entanto, tudo o que conseguiam distinguir à distância era uma extensão de uma estranha cor azul, com uma ou duas montanhas de formato quadrado refletindo a luz do sol a um canto. Parecia não haver um céu.

— É um feitiço — disse Angélica, numa voz que dava a impressão de que ela poderia entrar em pânico outra vez. — Um feitiço para impedir que a gente saiba onde está.

Tonino imaginava que devia ser isso mesmo. Não havia outra maneira de explicar a estranha ausência de uma paisagem.

— Mas de uma coisa eu tenho certeza, por causa dessas árvores: estamos em uma daquelas mansões perto do Palácio — ele declarou.

— Tem razão — Angélica concordou. Sua voz estava livre do pânico. — Nunca mais vou invejar aquelas pessoas. A vida delas não passa de ostentação.

Eles deram as costas às janelas e descobriram que seus golpes haviam descolado um dos lambris da parede atrás da mesa de jantar, e ele estava aberto como uma porta. As duas crianças empurraram-se para chegar primeiro ao local. Mas havia ali apenas um banheiro do tamanho de um armário, sem janela.

— Bom. Eu estava tentando imaginar como poderíamos resolver esse problema — disse Angélica. — E pelo menos temos água.

Ela estendeu o braço e segurou numa das torneiras presas na pequena pia, e a torneira soltou-se em sua mão. Onde ela estivera havia uma bolinha de cola sobre a louça branca. Era evidente que a torneira não se destinava a ser usada. Angélica ficou a olhar para ela com um olhar de perplexidade tão ridículo que Tonino riu. Ao ouvir isso, ela ergueu a cabeça.

— Não ria de mim, seu Montana desgraçado!

Saiu com raiva para o aposento principal e jogou a torneira inútil sobre a mesa com um ruído alto. Então sentou-se em uma das duas cadeiras restantes e descansou os cotovelos sobre a mesa, desanimada.

Depois de algum tempo, Tonino fez a mesma coisa. A cadeira estalou sob ele; a mesa também. Embora tivesse a superfície do tampo pintada para parecer mogno liso, de perto ela mostrava apenas manchas de verniz e muitas farpas.

— Tudo aqui é ordinário — ele comentou.

— Inclusive você, seu fulaninho Montana! — Angélica respondeu, ainda furiosa.

— Meu nome é Tonino — ele informou.

— Este é o tiro de misericórdia, estar presa com um Montana, seja qual for o seu nome! — Angélica continuou. — Vou ter que aturar seus hábitos imundos.

— Bom, eu vou ter que aturar os seus — Tonino retrucou com irritação.

De repente ele se deu conta de que estava sozinho, distante da simpática agitação da casa dos Montana. Mesmo quando estava escondido com um livro em um recanto da casa, ele sabia que o resto da família estava por perto. E Benvenuto estaria ronronando e encostando-se a ele, para mostrar que ele não estava sozinho. Que saudade do Benvenuto! Tonino ficou com medo de começar a chorar — e ainda por cima na frente de uma Petrocchi!

— Como foi que pegaram você? — perguntou, para distrair os pensamentos.

— Com um livro — Angélica revelou, e um sorriso melancólico surgiu no seu rosto pálido e tenso. — Chamava-se “A menina que salvou o seu país”, e eu pensei que vinha do meu tio-avô Luigi. Ainda acho que a história era boa — completou, com um olhar de desafio para Tonino.

O menino ficou irritado, pois não era agradável pensar que ele se deixara prender pelo mesmo feitiço que prendera uma Petrocchi.

— Eu também — ele admitiu de má-vontade.

— E eu não tenho hábitos imundos! — Angélica declarou com irritação.

— Tem, sim. Todos os Petrocchi têm — Tonino insistiu. — Mas imagino que você não perceba, porque para vocês a imundície é uma coisa normal.

— Ah, muito bonito! — Angélica pegou a torneira quebrada como se sentisse a tentação de jogá-la em cima dele.

— Não me importo com os seus hábitos — Tonino continuou. E não se importava mesmo. Tudo o que queria era encontrar um modo qualquer de livrar-se daquele pesadelo e ir para casa. — Como poderemos sair daqui?

— Pelo teto — Angélica sugeriu sarcasticamente.

Tonino olhou para o alto. Havia aquele lustre; se conseguissem dar um puxão nele, podia ser que ele abrisse um rombo no teto.

— Não seja burro — retrucou Angélica. — Se existe um feitiço lá fora, é claro que deve existir um lá em cima para impedir a nossa saída.

Tonino temia que ela estivesse certa, mas valia a pena fazer uma tentativa. Ele passou da cadeira para o tampo da mesa, imaginando que conseguiria alcançar o lustre se ficasse de pé em cima dela. Ouviram-se estalos violentos e, antes que Tonino conseguisse ficar de pé, a mesa oscilou para um lado, como se todas as quatro pernas estivessem bambas.

— Desça daí! — Angélica exclamou.

Tonino desceu. Era evidente que a mesa ficaria em pedaços se ele continuasse em cima dela. Melancolicamente ele acertou as pernas tortas do móvel.

— Então isto não serve — comentou.

Angélica, subitamente esperta e entusiasmada, sugeriu:

— A não ser que a gente consiga manter a mesa firme com um feitiço.

Tonino transferiu seu olhar tristonho das pernas da mesa para o rostinho pontiagudo dela. Suspirou. Era inevitável que esse assunto viesse à tona.

— Você vai ter que fazer o feitiço — declarou. Angélica encarou-o, e ele sentiu que seu rosto ficava quente.

— Não sei quase nenhum feitiço — confessou. — Eu sou... devagar.

Imaginava que Angélica ia rir, e ela riu mesmo, mas na opinião dele ela não precisava rir daquela maneira cruel e exultante, nem ficar dizendo:

— Ah, esta é ótima!

— Qual é a graça? Pode rir! Conheço aquele caso do seu pai ter ficado verde. Você não é melhor do que eu! — disse.

— Quer apostar? — Angélica perguntou, ainda dando risada.

— Não — Tonino recusou. — Simplesmente faça o feitiço.

— Não consigo — Angélica admitiu.

Foi a vez de Tonino encará-la, e a vez de Angélica enrubescer. Um vermelho vivo espalhou-se até a proeminência da testa, e ela ergueu o queixo com expressão de desafio.

— Sou péssima com feitiços — declarou. — Nunca na minha vida consegui acertar um. — Vendo que Tonino continuava a encará-la, ela prosseguiu: — É uma pena que você não tenha apostado. Sou muito pior do que você.

Tonino não conseguia acreditar.

— Como? Por quê? — quis saber. — Também não consegue aprender os feitiços?

— Ah, aprender, até que eu consigo muito bem. — Angélica pegou a torneira quebrada e pôs-se a rabiscar raivosamente com ela, fazendo grandes arranhões amarelos no tampo envernizado da mesa. — Conheço centenas de feitiços, mas sempre erro na hora de executar — ela continuou. — Para começar, sou inteiramente desafinada. Não consigo entoar um feitiço direito, nem que seja para salvar a minha vida. Como agora.

Cuidadosamente, como se fosse uma artesã fazendo um entalhe delicado, ela raspou da mesa uma tira de verniz comprida e amarela, usando a torneira como goiva.

— Mas não é só isto — acrescentou com raiva, atenta ao trabalho que estava fazendo. — Eu erro as palavras, também. Faço tudo errado. E meus feitiços sempre funcionam, isto é que é o pior. Já fiz toda a minha família ficar de todas as cores do arco-íris. Já transformei a água do banho do bebê em vinho, e o vinho em molho. Uma vez virei a minha cabeça para trás. Sou muito pior do que você. Nem ouso fazer feitiços. Acho que a única coisa em que sou boa é entender os gatos. Aliás, cheguei até a fazer a minha gata ficar roxa.

Enquanto ela trabalhava com a torneira, Tonino ficou a observá-la, cheio de sentimentos confusos. Olhando pelo lado prático, aquela era a pior notícia possível, já que nenhum dos dois tinha qualquer esperança de vencer o poderoso fazedor de feitiços que os aprisionara; por outro lado, porém, ele nunca havia encontrado uma pessoa que fosse pior do que ele em feitiços. E sentiu um certo orgulho ao pensar que pelo menos nunca cometera um erro num feitiço, e isso lhe deu uma sensação agradável. Perguntou-se como a Casa Montana se sentiria se ele insistisse em deixar todas as pessoas da família de todas as cores do arco-íris. Imaginou que os Petrocchi, tão sérios, certamente detestavam aquilo.

— Sua família não se importa? — quis saber.

— Não muito — Angélica respondeu, surpreendentemente. — Não se importam nem a metade do que eu me importo. Todo o mundo acha muita graça cada vez que cometo um novo erro. Mas não permitem que alguém fale sobre isso fora da Casa. Papai diz que já sou suficientemente famosa por ter feito ele ficar verde, e ele não gosta sequer que eu seja vista era algum lugar até esse meu problema passar.

— Mas você foi ao Palácio — Tonino observou, achando que Angélica devia estar exagerando.

— Só porque a minha prima Monica estava dando à luz e todos estavam tão ocupados na Ponte Velha — Angélica explicou. — Ele teve que tirar Renata do turno dela e tirar o meu irmão da cama para dirigir a carruagem, para conseguir juntar um número suficiente de pessoas.

— Nós éramos cinco — Tonino comentou, cheio de orgulho.

— Os nossos cavalos desmancharam-se na chuva — disse Angélica, desviando os olhos do que fazia e encarando Tonino. — De modo que o meu irmão disse que os de vocês devem ter se desmanchado também, porque até o cocheiro de vocês era de papelão.

Constrangido, Tonino admitiu para si mesmo que Angélica havia acertado em cheio.

— O nosso cocheiro se desmanchou, sim — ele admitiu.

— Foi o que pensei, pela sua cara — Angélica afirmou, e voltou a arranhar a mesa, consciente da sua vitória.

— Não foi culpa nossa! Crestomanci diz que existe um mago que é nosso inimigo — Tonino protestou.

Angélica arrancou um pedaço de verniz tão grande que a mesa oscilou para o lado e Tonino precisou colocá-la reta.

— E agora ele pegou nós dois — disse Angélica. — E teve o cuidado de pegar os dois que não sabem fazer feitiços. Então, como é que saímos daqui, Tonino Montana? Tem alguma idéia?

Tonino sentou-se com o queixo apoiado nas mãos e ficou a pensar. Já havia lido muitos livros. Nos livros, as pessoas estavam sempre sendo raptadas. E nos seus livros favoritos — isso soava como uma piada sem graça — elas escapavam sem usar qualquer tipo de magia. Mas não havia porta! Era isso que fazia a fuga parecer impossível. Mas espere um momento! A voz forte havia lhes prometido comida...

— Se pensarem que estamos nos comportando bem, provavelmente vão nos trazer jantar. E precisarão colocar a comida aqui dentro, de alguma forma. Se ficarmos observando por onde ela entra, poderemos conseguir sair do mesmo modo.

— É claro que nessa entrada existe um feitiço — Angélica objetou melancolicamente.

— Pare de ficar tagarelando sobre feitiços. Será que vocês Petrocchi não sabem falar de outra coisa? — Tonino objetou.

Angélica não respondeu, simplesmente continuou raspando a mesa com a torneira. Tonino, sentado desanimadamente na cadeira que estalava, ficou pensando sobre os poucos feitiços que realmente conhecia. O mais útil parecia ser um simples feitiço de cancelamento.

— Um feitiço de cancelamento! — Angélica disse antes dele, deixando-o irritado. Ela raspava a mesa com cuidado. No piso em volta dos seus pés havia montinhos de tiras de verniz amarelo. — Pode ser que isso mantenha a entrada aberta. Ou um feitiço de cancelamento não está entre os poucos que você conhece?

— Conheço um feitiço de cancelamento — Tonino declarou.

— Meu irmãozinho bebê também. Provavelmente ele seria mais útil — Angélica retrucou.

O jantar deles chegou: apareceu, sem aviso, sobre uma bandeja que flutuava na direção deles, vindo da direção das janelas. Aquilo pegou Tonino de surpresa.

— Faça o feitiço! Não fique aí simplesmente olhando! — Angélica gritou.

Tonino entoou o feitiço. Apesar de apressado e surpreso como estava, ele tinha certeza de ter feito tudo certo. Mas foi em outra coisa que o feitiço funcionou: a bandeja, com a comida em cima, começou a crescer. Segundos depois, estava maior do que o tampo da mesa. E continuava a flutuar na direção da mesa, crescendo à medida que se aproximava. Tonino foi obrigado a retroceder, afastando-se das duas terrinas de sopa fumegante, cada uma do tamanho de uma banheira, e dois grandes montes de macarrão alaranjado — tudo isso ficando cada vez maior e cada vez mais perto. A essa altura não sobrava muito espaço em volta das bordas da bandeja. Tonino recuou até encostar-se na parede dos fundos, perguntando-se se o problema que Angélica tinha com os feitiços era contagioso. A própria Angélica estava espremida contra a porta do banheiro. Ambos corriam o risco de serem cortados era dois.

— Deite-se no chão! — Tonino gritou.

Os dois deslizaram depressa parede abaixo, sob a bandeja, que ficou pairando sobre eles como um teto baixo demais. O fortíssimo cheiro de macarrão era muito opressivo.

— Que foi que você fez? — Angélica perguntou, engatinhando na direção de Tonino. — Não fez direito!

— Sim, mas se ela crescer mais, pode ser que rebente as paredes — Tonino argumentou.

Angélica sentou-se e olhou para ele com algo que era quase respeito.

— É quase uma boa idéia.

Mas apenas quase. A bandeja certamente encostou-se às quatro paredes; eles ouviram o ruído que ela fez. Houve muitos trancos e estalidos vindo da bandeja e das paredes, mas as paredes não cederam. Depois de alguns instantes, ficou claro que a bandeja não estava conseguindo crescer mais.

— Há mesmo um feitiço nesta sala — Angélica afirmou. Ela não pretendia que aquilo soasse como “bem-que-eu-avisei”, pois estava infeliz demais para isso.

Tonino desistiu e entoou o feitiço de cancelamento, com muito cuidado e corretamente. Imediatamente a bandeja começou a encolher. No final, os dois, sentados no chão, contemplavam um jantar de tamanho normal colocado no centro da mesa.

— A melhor coisa que podemos fazer é comer — Tonino sugeriu.

Angélica tornou a irritá-lo completamente, ao dizer, enquanto pegava o talher:

— Bom, estou feliz em saber que não sou a única pessoa que erra os feitiços.

— Eu fiz tudo direito, tenho certeza — Tonino resmungou para o seu garfo.

Mas Angélica preferiu não escutar.

Depois de algum tempo, ele ficou ainda mais irritado porque cada vez que levantava a cabeça dava com Angélica olhando para ele com curiosidade.

— Qual é o problema agora? — ele perguntou finalmente, exasperado.

— Estou esperando para ver o seu jeito nojento de comer — ela disse. — Mas você deve estar se esforçando para comer direito.

— Eu sempre como assim!

Tonino percebeu que tinha enrolado macarrão demais no garfo, e apressou-se a desenrolá-lo.

A proeminência da testa de Angélica estava ondulada de rugas.

— Não come, não. Os Montana sempre comem de maneira nojenta por causa do modo como o Velho Ricardo Petrocchi obrigou-os a engolir as suas palavras.

— Não diga besteiras — Tonino retrucou. — De qualquer maneira, foi o Velho Francesco Montana quem obrigou os Petrocchi a engolir suas palavras.

— Não foi, não! — Angélica desmentiu, exaltada. — Esta foi a primeira história que aprendi na minha vida. Os Petrocchi fizeram os Montana engolir os feitiços disfarçados de espaguete.

— Não fizeram, não, foi exatamente ao contrário! — Tonino retrucou. — Foi a primeira história que aprendi, também.

Por um motivo qualquer, nenhum dos dois sentia vontade de terminar de comer o macarrão. Os dois largaram os garfos e continuaram a discutir.

— E por terem comido aqueles feitiços, os Montana ficaram muito nojentos e passaram a comer seus tios e suas tias que morriam.

— Não comemos, não! Vocês é que comem os bebês!

— Como ousa! — Angélica exclamou. — Vocês comem esterco de vaca em vez de pizza, e lá do Corso já dá para sentir o fedor da casa dos Montana.

— A casa dos Petrocchi fede até a Via Sant’Angelo — Tonino retrucou. — E da Ponte Nova já dá para ouvir o zumbido das moscas. Vocês têm filhos como se fossem gatos e...

— Isto é mentira! — Angélica berrou. — Vocês só espalham isto porque não querem que as pessoas saibam que os Montana não se casam certinho!

— Casamos, sim! São vocês que não se casam certinho!

— Muito engraçado! — Angélica gritou. — Pois fique sabendo que meu irmão se casou na igreja, logo depois do Natal. Pronto!

— Não acredito em você — Tonino respondeu. — E a minha irmã vai se casar na primavera, de modo que...

— E eu fui dama de honra! — Angélica berrou.

Enquanto os dois discutiam, a bandeja ergueu-se no ar silenciosamente e saiu flutuando, desaparecendo em algum lugar perto das janelas. Tonino e Angélica olharam em volta, irritados, à procura dela, extremamente contrariados por terem mais uma vez deixado de ver por onde ela entrava e saía.

— Está vendo o que você fez? — Angélica perguntou.

— A culpa é sua, por ter falado mentiras sobre a minha família — Tonino declarou.

 

Angélica, com um olhar de raiva sob a proeminência da testa, declarou:

— Se não tomar cuidado, vou entoar o primeiro feitiço que me vier à cabeça. E espero que ele transforme você numa lesma.

Aquilo era mesmo uma ameaça, e Tonino sentiu-se um pouco intimidado. Mas a honra dos Montana estava em jogo.

— Retire o que disse sobre a minha família — exigiu.

— Só se você retirar o que disse sobre a minha — retorquiu Angélica. — Jure pelo Anjo de Caprona que nenhuma dessas mentiras horríveis é verdadeira. Olhe, eu fiz o Anjo aqui. Venha jurar.

Seu dedinho rosado deu um tapinha no tampo da mesa, fazendo Tonino lembrar-se da sua professora num dia ruim.

Ele saiu da cadeira que estalava e debruçou-se para ver o que ela estava apontando. Angélica pôs-se a limpar cuidadosamente a poeira de verniz descascado para poder mostrar a ele que realmente havia ali o Anjo, cuja figura ela havia desenhando arranhando o tampo da mesa com a torneira inútil. Era um belo desenho, levando-se em consideração que a torneira não era uma boa ferramenta e tinha tendência a escorregar. Tonino, porém, não estava preparado para admitir tal coisa.

— Você esqueceu o pergaminho — criticou.

Angélica deu um salto, e sua frágil cadeira tombou para o chão.

— Agora chega! Foi você quem pediu!

Ela marchou até o espaço vazio perto das janelas e assumiu uma posição de poder. Dali, com as mãos erguidas, olhou para Tonino, para ver se ele ia ceder. Tonino tinha muita vontade de ceder, já que não queria virar uma lesma. Pôs-se a pensar, procurando um modo de ceder que não parecesse covardia. Mas, como em todas as coisas, ele foi demasiado lento. Angélica mexia-se sem parar, de modo que seus braços já não estavam no ângulo correto.

— Certo, então vou fazer um feitiço de cancelamento, para cancelar você. — E começou a entoar o feitiço.

A voz de Angélica era horrível, alternadamente fraca e estridente, e sempre saindo do tom. Tonino sentiu vontade de interrompê-la, ou pelo menos de distraí-la fazendo algum barulho, mas não teve coragem, pois isso poderia simplesmente piorar as coisas.

Ficou esperando enquanto Angélica guinchava alguns versos de um feitiço que parecia girar em torno das palavras “vire o feitiço ao contrário, faça o feitiço acabar”. Como ele era um menino e não um feitiço, Tonino tinha esperanças de que nada lhe acontecesse.

Angélica ergueu os braços mais ainda, para o terceiro verso, e mudou de tom pela sexta vez.

— “Vire o feitiço acabar, faça o feitiço ao contrário”...

— Está errado — Tonino interrompeu.

— Não tente me atrapalhar! — Angélica retrucou, virando-se para dirigir-se a ele, fazendo com que o ângulo dos seus braços ficasse mais errado ainda. Uma das mãos agora apontava para a janela.

— Ordeno que se solte aquilo que estava preso — ela entoou era tom irado e estridente.

Tonino rapidamente olhou para seu próprio corpo, mas pelo jeito ele ainda estava ali, e da mesma cor de sempre. Disse a si mesmo que já sabia que um feitiço tão malfeito jamais poderia funcionar.

Houve então um forte estalo vindo do teto logo acima das janelas. O aposento inteiro sacudiu-se. Então, para espanto de Tonino, a parede inteira, com as janelas e tudo, desprendeu-se das paredes laterais e do teto e tombou para fora com um ruído suave — suave demais para a queda de toda a lateral de uma casa. Uma lufada de ar cheirando a mofo entrou pelo espaço aberto.

Angélica ficou tão atônita quanto Tonino. Mas isso não impediu que ela se voltasse para ele com um sorriso de triunfo e de superioridade.

— Está vendo? Os meus feitiços sempre funcionam...

— Vamos sair daqui — Tonino sugeriu. — Depressa, antes que chegue alguém.

Os dois atravessaram correndo os lambris pintados entre as janelas, passando por cima das marcas que Tonino fizera com a cadeira. Desceram da borda — surpreendentemente limpa e regular — onde a parede antes juntava-se ao teto, e passaram para um terraço na frente da casa. Ele parecia ser feito de madeira e não de pedra, como Tonino imaginara. E depois dele...

Os dois estacaram, bem a tempo, na beira de um profundo precipício. Ambos quase caíram para a frente, e seguraram-se um no outro. O precipício terminava em total escuridão; eles não conseguiam enxergar o fundo. Tampouco conseguiam ver muita coisa quando olhavam diretamente para a frente, pois havia ali um clarão de sol vermelho-dourado que lhes impossibilitava enxergar claramente.

— Ainda há um feitiço na paisagem — Tonino observou.

— Neste caso, vamos continuar caminhando — Angélica propôs. — Deve haver uma estrada ou um jardim que não conseguimos enxergar.

Certamente deveria haver alguma coisa desse tipo, mas não era essa a impressão que aquele lugar dava. Tonino tinha certeza de que conseguia sentir enormes espaços vazios abaixo do rochedo onde estavam. Não havia sons da cidade, apenas um estranho cheiro de mofo.

— Covarde! — disse Angélica.

— Vá você — Tonino respondeu.

— Só se você for também.

Eles hesitaram, entreolhando-se com raiva. E, enquanto hesitavam, o clarão do sol foi bloqueado por uma enorme forma preta.

— Seus travessos! — disse uma voz fortíssima. — As crianças travessas devem ser castigadas.

Uma força quase forte demais para ser sentida empurrou-os para trás por cima da parede desabada. A parede desabada ergueu-se de supetão de volta ao seu lugar, jogando longe Angélica e Tonino, que rolaram e escorregaram de volta até caírem sobre o tapete pintado. A essa altura, Tonino estava tão zonzo e sem fôlego que mal conseguiu ouvir a parede encaixar-se no lugar com um forte estalo.

Depois disso a tontura ficou mais forte. Tonino sabia que estava sendo vítima de outro feitiço e lutou furiosamente contra ele, mas quem quer que o enfeitiçara era imensamente poderoso. Ele sentia o aposento mover-se. A luz que vinha das janelas mudou, e tornou a mudar. Tonino quase que poderia jurar que o aposento estava sendo carregado! De repente tudo parou com um solavanco. Ele escutou a voz de Angélica balbuciando uma oração para Nossa Senhora, e não achou que ela estivesse errada. Então aconteceu uma misteriosa lacuna nas coisas de que Tonino tinha consciência.

Ele voltou a si porque quem quer que estivesse fazendo o feitiço quis que ele voltasse. Tonino tinha absoluta certeza disso. Afinal, castigá-lo não teria tanta graça se Tonino não estivesse consciente do castigo.

Ele estava no meio de um alvoroço de luz e barulho — havia uma enorme mancha destas coisas a um lado — e estava correndo de um lado para o outro sobre uma estreita plataforma de madeira, arrastando um (quem diria?) cordão de salsichas. Estava usando uma camisola de dormir de um vermelho vivo e sentia alguma coisa pesando na frente do seu rosto. Cada vez que chegava a uma das extremidades da plataforma de madeira, ele encontrava ali um cachorro de papelão branco com um babado em torno do pescoço. A boca de papelão do cachorro abria-se e fechava, e o papelão fazia fracas tentativas de pegar as salsichas.

A algazarra era terrível, e Tonino tinha a impressão de que ele próprio estava contribuindo para isso.

— Que sujeito esperto! Que sujeito esperto! — ele ouviu-se dizer, numa voz guinchada completamente diferente da sua.

Era como o som que a gente faz quando canta com a boca junto a um pente enrolado em papel. O resto da algazarra vinha do espaço iluminado que ficava de um lado da plataforma.

Vozes fortes riam e soltavam exclamações, misturadas a uma música estridente.

— Estou sonhando — Tonino disse a si mesmo.

Mas sabia que não estava. Embora ainda sentisse a cabeça pesada e os olhos nublados, o menino tinha uma vaga idéia do que estava acontecendo. Enquanto voltava correndo ao longo da pequena plataforma, ele baixou os olhos nublados na direção do peso em seu rosto. E naturalmente enxergou, embaçado e duplicado, um enorme nariz vermelho e cor-de-rosa. Ele era o fantoche chamado Sr. Punch, e o cachorro era o Cachorro Toby!

É claro que ele tentou, nesse momento, firmar-se e parar de correr de um lado para o outro, e também levantar a mão para arrancar o enorme nariz cor-de-rosa. Não conseguiu fazer qualquer das duas coisas, e ainda pior do que isso: quem quer que estivesse fazendo com que ele fosse o Sr. Punch imediatamente aproveitou para obrigá-lo a correr ainda mais depressa, fazendo as salsichas sacudirem-se ainda mais.

— Ah, muito bom! — berrou alguém no espaço iluminado.

Tonino achou que conhecia aquela voz. Saiu correndo outra vez em direção ao Cachorro Toby, com um giro do corpo afastou as salsichas das mandíbulas de papelão do cachorro e esperou que sua cabeça parasse de pesar e seus olhos parassem de nublar-se. Tinha certeza de que isto aconteceria; o malvado queria que ele ficasse consciente.

— Que sujeito esperto! — guinchou mais uma vez. Enquanto corria pelo palco na direção oposta, ele deu uma olhada por cima do enorme nariz na direção do espaço iluminado, mas só enxergou um borrão. Então ele deu uma olhada em direção ao lado oposto.

Viu ali a parede de uma mansão dourada, com quatro janelas compridas. Ao lado de cada janela havia um pequeno cipreste escuro. Agora ele sabia por que o estranho aposento havia parecido tão falsificado: era apenas um cenário! A porta na parede externa era pintada. Entre a casa e o palco havia um buraco. A pessoa que estava movimentando as marionetes deveria estar ali, mas Tonino só conseguia enxergar escuridão. Tudo estava sendo feito por magia.

Justamente nesse momento a sua atenção foi atraída por uma pessoa de papelão que surgiu do buraco guinchando que o Sr. Punch havia roubado as suas salsichas. Tonino foi obrigado a permanecer imóvel e guinchar em resposta. A essa altura ele estava feliz por poder descansar. Enquanto isso, o cachorro de papelão agarrou as salsichas e mergulhou para fora de vista com elas na boca. A platéia batia palmas e gritava:

— Olhe o Cachorro Toby!

A pessoa de papelão passou correndo por Tonino, guinchando que ia chamar a polícia.

Mais uma vez Tonino tentou olhar para a platéia. Dessa vez ele conseguiu ver vagamente um aposento muito iluminado e volumosas figuras escuras sentadas em cadeiras, mas era como tentar enxergar alguma coisa contra o sol. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Uma lágrima desceu pelo bico rosado em seu rosto, e Tonino teve a sensação de que a pessoa malvada ficou deliciada ao ver isso, julgando que Tonino estava chorando. Ele ficou zangado, mas também um pouco alegre; pelo jeito, aquela pessoa podia ser enganada por seus próprios pensamentos malvados. O menino ficou olhando para fora, apesar de ofuscado, tentando ver o malvado, mas tudo o que conseguia enxergar claramente era um entalhe perto do teto do aposento iluminado. Era o Anjo de Caprona, uma das mãos estendidas numa benção, a outra segurando o pergaminho.

Então ele girou de um salto, e deu de cara com a personagem Judy. Do outro lado oposto, a parede da frente da casa havia desaparecido, e o cenário agora era o aposento que ele conhecia bem demais, com o lustre artisticamente iluminado.

Judy vinha atravessando o palco segurando um volume arredondado em forma de um bebê. Ela usava uma camisola e uma touca azuis. Seu rosto era lilás, com um narigão bem no meio, quase tão grande e vermelho quanto o de Tonino. Mas os olhos a cada lado do nariz eram de Angélica, alternadamente piscando e arregalados de terror. Ela piscou implorantemente para Tonino, enquanto guinchava:

— Preciso sair, Sr. Punch. Veja se toma conta direito do bebê!

— Não quero tomar conta do bebê! — ele guinchou de volta. Durante todo o diálogo longo e tolo, ele via os olhos de

Angélica piscando, suplicando para que ele pensasse num feitiço para acabar com aquilo. Mas naturalmente Tonino não conseguia. E achava que nem Rinaldo, e nem mesmo Antonio, poderiam impedir uma coisa tão poderosa quanto aquela. Pensou: Anjo de Caprona, socorro! Isso fez com que ele se sentisse melhor, embora nada houvesse acontecido para fazer cessar o feitiço. Angélica plantou o bebê nos braços dele e mergulhou para fora de vista.

O bebê começou a chorar. Tonino primeiro guinchou coisas malcriadas, depois segurou-o pela ponta da longa camisola branca e bateu com a cabeça dele no chão repetidas vezes. O bebê era muito mais realista do que o Cachorro Toby. Podia ser feito de papelão, mas contorcia-se e balançava os braços, e chorava de um modo horrível. Tonino quase poderia ter acreditado que era o bebê da prima Claudia. Essa idéia deixou-o tão horrorizado que ele se encontrou repetindo a letra de “O Anjo de Caprona” enquanto sacudia o bebê com violência. Podia não ser a letra correta, mas ele conseguia sentir que ela estava agindo de alguma maneira. Quando ele finalmente jogou a trouxinha branca para fora do palco, conseguiu enxergar o piso reluzente onde o bebê caíra. E quando ergueu os olhos para os espectadores que batiam palmas, conseguiu vê-los também com a mesma nitidez.

A primeira pessoa que Tonino reconheceu foi o Duque de Caprona. Ele estava sentado numa cadeira dourada, com seus botões cintilando, e ria estentoreamente. Tonino perguntou-se como alguém poderia rir daquela maneira de uma coisa tão horrível, até lembrar-se de que ele próprio havia feito isso muitas vezes, quase morrendo de rir exatamente da mesma coisa. Mas antes eram apenas marionetes... Então ocorreu a Tonino que o Duque pensava que ele também fosse só um fantoche, e estava achando graça na habilidade do manipulador dos bonecos.

— Que sujeito esperto! — Tonino guinchou.

E foi obrigado a pôr-se a dançar alegremente, sem estar com a menor vontade de fazer isso. Enquanto dançava, porém, ele olhava atentamente para o resto da platéia para ver quem era a pessoa que sabia que ele não era um fantoche.

Para seu terror, metade da platéia sabia. Tonino distinguiu um olhar de quem sabia no rosto de três homens sisudos que rodeavam o Duque, e a mesma coisa no rosto maquilado de duas damas com a Duquesa. E a Duquesa... Assim que Tonino viu a expressão de divertimento no rosto dela, no arco das sobrancelhas e no leve sorriso secreto em seus lábios, ele entendeu que era ela quem estava fazendo aquilo. Sim, ela era uma maga, e era isso que tinha deixado o menino tão perturbado quando a vira antes. A Duquesa reparou no olhar dele e sorriu mais abertamente, porque Tonino nada podia fazer.

Aquilo deixou o menino realmente apavorado. Mas Angélica tornou a surgir, com um grande porrete nos braços, e ele não teve tempo para pensar.

— Que é que você fez com o bebê? — Angélica guinchou.

E pôs-se a atacar Tonino com o porrete. As porretadas doíam de verdade. Elas o derrubaram no chão e continuaram a atingi-lo. Tonino via os lábios de Angélica movendo-se. Embora a vozinha guinchada dela repetisse sem cessar “Vou lhe dar uma lição por matar o bebê!”, seus lábios formavam a letra de “O Anjo de Caprona”. Aquilo era porque ela sabia o que vinha depois.

Tonino também recitou as palavras de “O Anjo” e tentou continuar agachado no chão. Mas não adiantou: ele viu-se forçado a ficar de pé num salto, arrancar o porrete da mão da personagem Judy e surrar Angélica com ele. Tonino via o Duque rindo e os cortesãos sorrindo. O sorriso da Duquesa era agora bem largo, porque, naturalmente, Tonino ia ser obrigado a matar Angélica a porretadas.

Tonino tentou segurar o porrete de modo a atingir Angélica apenas de leve; ela podia ser uma Petrocchi e uma garota extremamente irritante, mas não merecia aquilo. Porém o porrete subia e descia por vontade própria, e os braços de Tonino apenas acompanhavam. Angélica caiu de joelhos e depois desabou de bruços no chão. Seus guinchos redobraram, enquanto Tonino lhe dava porretadas nas costas, e então sua voz silenciou. Ela ficou deitada na borda do palco, a cabeça pendendo para fora, exatamente como um fantoche. Tonino foi forçado a chutá-la para o buraco entre a sala de mentira e o palco. Ele ouviu o “flop!” distante quando ela bateu no chão. E então foi obrigado a dançar e rir com entusiasmo, enquanto a Duquesa jogava a cabeça para trás e dava risadas tão animadas quanto as do Duque.

Tonino odiou-a. Estava tão zangado e tão infeliz que nem se importou quando um policial de papelão apareceu e o menino correu atrás dele sacudindo o porrete. Ele batia no policial como se fosse a Duquesa e não um boneco de papelão.

— Você está passando bem, Lucrezia? — ele ouviu o Duque perguntar.

Tonino olhou de soslaio enquanto aplicava outra poderosa porretada no capacete do policial. Viu que a Duquesa se encolhia quando o porrete descia. Não ficou surpreso por imediatamente o policial ter sido afastado, e ele próprio forçado a dar cambalhotas ainda mais frenéticas e a soltar guinchos ainda mais violentos. Ele deixou-se fazer tudo aquilo; quando guinchava “Que sujeito esperto!” pelo que parecia ser a milésima vez, sentia-se realmente alegre. Pois tinha compreendido o que acontecera: de um certo modo, a Duquesa era o policial, já que estava colocando um pouco dela mesma em todos os bonecos, para fazê-los funcionar. Mas Tonino não podia deixar que ela percebesse que ele sabia. Então ele deu cabriolas e soltou gargalhadas fazendo o possível para parecer apavorado, e manteve os olhos naquele entalhe do Anjo bem no alto, acima da porta do salão.

E agora o fantoche Carrasco apareceu, encapuzado, arrastando um pequeno cadafalso de madeira com um laço de forca feito de barbante. Tonino dava cambalhotas cautelosamente, pois era nesse momento do enredo que a Duquesa dava cabo dele, a não ser que ele tivesse muito cuidado. Por outro lado, se daquela vez a história de Punch e Judy terminasse como devia terminar, podia ser que ele é quem desse cabo da Duquesa.

A tola cena teve início. Tonino nunca em sua vida havia feito um esforço tão grande. Não cessava de repetir em pensamento a letra de “O Anjo”, tanto como uma oração quanto como uma cortina de fumaça para que a Duquesa não percebesse o que ele estava tentando fazer. Ao mesmo tempo ele pensava, feroz e vingativamente, que o Carrasco não era um simples fantoche — era a Duquesa em pessoa. E, também ao mesmo tempo, ele prestava intensa atenção às suas falas de Sr. Punch. Tudo tinha que sair certo.

— Vamos, Sr. Punch — grasnou o Carrasco. — Coloque a sua cabeça neste laço.

— Como é que eu faço isto? — perguntaram o Sr. Punch e Tonino, ambos fingindo com todas as suas forças que eram estúpidos.

— É só colocar a cabeça aqui — grasnou o Carrasco, enfiando uma das mãos pelo laço.

O Sr. Punch e Tonino, ambos cheios de esperteza, colocaram-se primeiro na frente do laço, depois atrás dele.

— Assim está certo? Ou assim? — Então, fingindo estupidez com mais intensidade ainda, queixaram-se: — Não sei como fazer isto. Você vai ter que me mostrar.

Ou a Duquesa estava querendo brincar com os sentimentos de Tonino ou estava tentando alguma manobra também, pois este diálogo repetiu-se inteirinho por várias vezes. A cada vez, o Carrasco enfiava a mão pelo laço para mostrar ao Sr. Punch o que fazer. Tonino não ousava olhar para a Duquesa; mantinha os olhos no Carrasco e pensava sem parar: este é a Duquesa, enquanto recitava “O Anjo de Caprona” com todo o seu coração. Finalmente, para seu alívio, o Duque começou a ficar impaciente.

— Vamos lá, Sr. Punch! — gritou.

— Você vai ter de enfiar sua cabeça pelo laço para me mostrar — disseram o Sr. Punch e Tonino, da maneira mais convincente que eles conseguiram.

— Ah, está bem — grasnou o Carrasco. — Já que você é tão burro...

E enfiou no laço a sua cabeça de papelão.

O Sr. Punch e Tonino prontamente puxaram a corda e o enforcaram. E Tonino, impulsionado pelo pensamento de que o fantoche era a própria Duquesa, tornou-se o mais mole e pesado que conseguiu. Apenas por um segundo ele deixou que o peso total do seu boneco ficasse pendurado na ponta da corda.

Isso durou apenas aquele segundo. Tonino viu de relance a Duquesa de pé, as mãos na garganta. Ele teve uma sensação de triunfo muito real. Então viu-se jogado de cara para o chão, na parte da frente do palco, incapaz de mover-se. E ali foi forçado a ficar. Sua cabeça pendia para fora do palco, de modo que ele não conseguia ver grande coisa. Mas concluiu que a Duquesa estava sendo carinhosamente levada dali, com o Duque ao lado muito afobado.

E pensou: acho que estou feliz...

 

Aquela foi uma noite da qual Paolo não queria lembrar-se jamais. Ainda tinha os olhos fixos nas letras amarelas no pátio quanto o resto da família chegou. Ele foi empurrado para o lado para deixar que o Velho Niccolo e Tia Francesca entrassem, mas Benvenuto, com um ruído agressivo que soava como gordura na chapa quente, não os deixou passar.

— Pode deixar, meu amigo. Você fez o possível — o Velho Niccolo tranqüilizou o animal. Em seguida voltou-se para Tia Francesca. — Nunca perdoarei os Petrocchi, nunca!

Paolo mais uma vez ficou impressionado com a aparência de duende alquebrado que seu avô apresentava. Ele pensara que o Velho Niccolo estava amparando os passos de Tia Francesca, gorda, enlameada e ofegante — mas agora o menino se perguntava se não era exatamente o oposto.

— Muito bem, vamos nos livrar desta mensagem horrível — o Velho Niccolo declarou, em tom irritado, ao resto da família.

Ele ergueu os braços para dar o sinal de iniciarem o feitiço e começou a cambalear. Suas mãos ergueram-se até o peito. Ele caiu de joelhos, com uma cor muito estranha no rosto. Paolo pensou que ele estivesse morto, até verificar que ele respirava, embora com dificuldade. Elizabeth, Tio Lorenzo e Tia Maria correram para ele.

— Ataque cardíaco — disse Tio Lorenzo, assentindo para Antonio. — Inicie você o feitiço. Vamos levá-lo para dentro.

— Paolo, vá correndo buscar o médico — disse Elizabeth. Enquanto corria, Paolo escutava o feitiço sendo cantado de si. Quando chegou de volta com o médico, a mensagem havia desaparecido e o Velho Niccolo havia sido carregado para a cama. Tia Francesca, ainda suja de lama, com os cabelos soltos de um lado só, andava de um extremo ao outro do pátio como uma montanha ambulante, chorando e retorcendo as mãos.

— Os feitiços estão proibidos — ela gritou para Paolo. — Fiz pararem com tudo.

— E foi uma boa coisa, mesmo! — exclamou o médico em tom amargo. — Um homem na idade de Niccolo Montana não pode ficar brigando pelas ruas. E faça a sua tia-avó ir deitar-se. Se ela continuar assim, vai ficar doente também — ele aconselhou Paolo.

Tia Francesca aceitou no máximo retirar-se para o Salão, onde recusou-se até mesmo a se sentar. Continuou a andar de um lado para o outro, lamentando-se por causa do Velho Niccolo, chorando por causa de Tonino, declarando que a virtude abandonara para sempre a Casa Montana e murmurando terríveis ameaças contra os Petrocchi.

Na verdade, ninguém da família estava muito melhor do que ela: as crianças menores choramingavam de exaustão; Elizabeth e as tias preocupavam-se com o Velho Niccolo e, depois, com a Tia Francesca; no Scriptorium, em meio aos feitiços abandonados, Antonio e os tios estavam sentados, rígidos de aflição, e o restante da casa estava cheio de primos mais velhos perambulando e amaldiçoando os Petrocchi.

Paolo encontrou Rinaldo, melancólico, apoiado na balaustrada da varanda, embora já estivesse escuro e realmente muito frio.

— Malditos sejam aqueles Petrocchi! — ele declarou para Paolo. — Agora não podemos sequer ganhar a vida, muito menos ajudar se houver uma guerra.

Paolo, apesar do seu sofrimento, sentiu-se muito lisonjeado porque Rinaldo parecia considerá-lo suficientemente crescido para conversar sobre assuntos da família. Respondeu:

— É mesmo horrível.

E tentou apoiar-se na balaustrada com a mesma pose elegante de Rinaldo. Não era fácil, porque Paolo não tinha altura suficiente, mas ele conseguiu, e preparou os argumentos que usaria para convencer Rinaldo de que Tonino estava nas mãos de um mago inimigo. Aquilo também não era fácil; Paolo sabia que Rinaldo não lhe daria ouvidos se ele fizesse a menor insinuação de que havia conversado com uma Petrocchi — aliás, ele preferia morrer a revelar isso ao primo. Mas sabia que, se convencesse Rinaldo, este resgataria Tonino em cinco minutos de ousadia. Rinaldo era um verdadeiro Montana.

Enquanto ele pensava, Rinaldo exclamou com raiva:

— Que foi que deu naquele moleque burro, para ler aquela droga de livro? Quando tivermos Tonino de volta, vou lhe ensinar uma lição que ele não vai esquecer.

Paolo estremeceu por causa do frio.

— Tonino sempre lê livros — afirmou. Mudou de posição, pois a pose elegante não era nada confortável, e perguntou com timidez: — Como vamos trazer o meu irmão de volta?

Não era nada daquilo que Paolo pretendia dizer, e ele ficou bastante chateado consigo mesmo.

— De que adianta? — disse Rinaldo. — Sabemos onde ele está: na casa dos Petrocchi. Se estiver desconfortável lá, a culpa é dele mesmo!

— Mas ele não está lá! — Paolo protestou.

Embora estivesse difícil enxergar à luz do pátio, ele viu que Rinaldo voltava-se para ele e o encarava com expressão de zombaria. Pelo jeito, a cada segundo a conversa estava se afastando cada vez mais do rumo que ele havia planejado.

— Um mago inimigo pegou Tonino. Aquele de quem Crestomanci falou — declarou.

Rinaldo riu, e afirmou:

— Isto é um monte de besteiras, Paolo. O nosso amigo andou conversando com os Petrocchi. Ele inventou esse conveniente mago porque quer todos trabalhando unidos era prol de Caprona. Todos nós logo percebemos isto.

— Então quem criou aquela neblina no Corso? — Paolo quis saber. — Nós não criamos, e nem eles.

Mas Rinaldo limitou-se a perguntar:

— Quem foi que lhe disse que eles não criaram aquela neblina?

Como Paolo não podia responder que havia sido Renata Petrocchi, ele não teve como responder. Em vez disso, propôs, em desespero:

— Venha comigo à casa dos Petrocchi. Se usar um feitiço de descoberta, poderá provar que Tonino não está lá.

— O quê? — Rinaldo parecia atônito. — Que tipo de idiota acha que eu sou, Paolo? Não vou enfrentar sozinho uma família inteira de feiticeiros. E se eu for até lá e usar um feitiço, e eles fizerem alguma maldade com Tonino, todos vão me culpar, não vão? E tudo isso por uma coisa que, de qualquer maneira, nós já sabemos. Não vale a pena, Paolo. Vou lhe dizer o que...

Ele foi interrompido por Tia Gina trombeteando abaixo deles, no pátio:

— Notti é o único farmacêutico aberto a esta hora. Diga a ele que é para Niccolo Montana!

Com certo alívio Paolo abandonou inteiramente a pose elegante e debruçou-se por cima da amurada para observar Lucia e Corinna atravessarem correndo o pátio com a receita do médico. Aquela visão causou-lhe um nó de preocupação no estômago.

— Acha que o Velho Niccolo vai morrer, Rinaldo? Rinaldo deu de ombros.

— Pode ser. Ele é bem idoso. De qualquer maneira, já era hora de esse velho bobo renunciar. Então eu estarei um passo mais perto de ser o chefe da Casa Montana.

Nesse instante, uma coisa esquisita aconteceu dentro da cabeça de Paolo. Ele jamais se dera ao trabalho de pensar quem poderia ser o sucessor de Antonio — já que era óbvio que seu pai sucederia ao Velho Niccolo — como chefe da Casa Montana; por um motivo qualquer, no entanto, jamais imaginara que pudesse ser Rinaldo. Agora tentava imaginar Rinaldo fazendo as coisas que o Velho Niccolo fazia. E, assim que começou, constatou que Rinaldo seria péssimo. Rinaldo era vaidoso, egoísta... e covarde, quando tinha condições de ser covarde e ao mesmo tempo manter uma boa reputação. Era como se Rinaldo tivesse pronunciado um feitiço poderoso para abrir os olhos de Paolo.

Nunca ocorrera a Rinaldo, por mais eficiente que ele fosse como feiticeiro, que umas poucas palavras corriqueiras poderiam fazer tanta diferença. Ele inclinou-se na direção de Paolo e baixou a voz para um murmúrio melodioso:

— Eu ia lhe contar, Paolo. Estou alistando todos os mais jovens. Vamos jurar uma vingança secreta contra os Petrocchi. Vamos fazer alguma coisa pior do que obrigá-los a engolir as próprias palavras. Você está comigo? Jura juntar-se ao plano?

Talvez Rinaldo estivesse sendo sincero, pois seria muito conveniente trabalhar em segredo, com um monte de ajudantes de boa vontade. Mas Paolo tinha certeza de que aquele plano era um passo adiante nos planos de Rinaldo de ser o chefe da Casa. Paolo começou a afastar-se ao longo da balaustrada.

— Vai aceitar ou não? — Rinaldo perguntou, com uma risadinha.

Paolo alcançou uma distância em que ficava a salvo de ser agarrado.

— Depois eu respondo — disse, e saiu apressado. Rinaldo riu e não tentou pegá-lo; achava que Paolo escava com medo de aceitar.

Paolo desceu para o pátio sentindo-se mais solitário do que jamais se sentira em sua vida. Tonino não estava ali. Seu irmão não era vaidoso, nem egoísta, nem covarde. E ninguém queria ajudá-lo a encontrar Tonino. Até esse momento Paolo não havia percebido quanto dependia de Tonino. Eles faziam juntos todas as coisas importantes. Mesmo quando Paolo estava ocupado com suas próprias coisas, sabia que Tonino estava em algum lugar por ali, sentado a ler um livro, pronto para abandonar a leitura se Paolo precisasse dele. Agora, parecia não haver coisa alguma que Paolo pudesse fazer. E toda a Casa transpirava preocupação.

Ele foi até a cozinha, onde, finalmente, alguma coisa estava acontecendo. Todos os seus primos mais novos estavam lá. Rosa e Marco estavam tentando fazer sopa para eles.

— Venha ajudar, Paolo — Rosa pediu. — Vamos colocá-los na cama depois da sopa, mas estamos encontrando alguns probleminhas.

Tanto ela quanto Marco pareciam cansados e atrapalhados. A maioria dos pequeninos estava choramingando, inclusive o bebê. O problema era o feitiço de Lucia. Paolo compreendeu isso quando Marco colocou o bebê em seus braços: a manta da criança estava coberta de gordura alaranjada.

— Eca! — Paolo exclamou, com nojo.

— Eu sei — disse-lhe Rosa. — Marco, é melhor tentar outra vez. Panela limpa, água limpa, o último pacote de sopa em pó. Não faça esta cara, Paolo. Já estragamos todos os legumes. Eles simplesmente voam para as latas de lixo, e antes de chegarem lá já estão mofados.

Paolo olhou nervosamente para a porta, perguntando-se se o mago inimigo era suficientemente poderoso para escutar o que ia propor.

— Tente um feitiço de cancelamento — sussurrou.

— Tia Gina tentou todos eles esta tarde — Rosa revelou. — Não adianta. A pequena Lucia usou “O Anjo de Caprona”, entende? Agora estamos tentando da maneira de Marco. Pronto, Marco?

Rosa abriu o pacote de sopa e segurou-o acima da panela. Quando o pó cor-de-rosa começou a cair dentro da água, Marco inclinou-se sobre a panela e começou a cantar furiosamente. Paolo, nervoso, os observava. Aquilo era justamente o que a mensagem havia dito para não fazer, ele tinha certeza. Quando todo o pó estava na água, Rosa e Marco espiaram ansiosamente dentro da panela.

— Será que conseguimos? — Marco perguntou.

— Acho que... — Rosa começou, e terminou com um grito de exasperação. — Ah, não! — As pequenas conchas de macarrão que havia no pó transformaram-se em conchas marinhas de verdade, pequenas e cinzentas. — Elas têm bichos dentro! — Rosa exclamou em desespero, retirando algumas com uma colher.

— Afinal onde está Lucia? Ela precisa vir até aqui. Diga-lhe que eu... Não, simplesmente traga-a para cá, Paolo.

— Ela foi até o farmacêutico.

Nesse momento uma gritaria irrompeu no pátio. Paolo passou o bebê engordurado para o primo mais próximo e disparou para fora, temendo que fosse outra mensagem amarela sobre Tonino. E havia uma chance de que a responsável pela algazarra fosse Lucia.

Não era uma coisa nem outra. Era Rinaldo. Os tios deviam ter saído do Scriptorium, pois Rinaldo estava fazendo uma fogueira de feitiços no meio do pátio. Domenico, Cario e Luigi ocupavam-se em trazer da varanda braçadas de tirinhas de feitiço, envelopes e pergaminhos. Paolo reconheceu, já queimando em meio às labaredas, os encantos de exército que ele e as outras crianças haviam passado tanto tempo copiando. Aquilo era um chocante desperdício de trabalho.

— Isto é o que os Petrocchi nos forçaram a fazer! — Rinaldo gritava, fazendo pose ao lado da fogueira. Aquilo, evidentemente, fazia parte do seu plano de recrutar as crianças.

Paolo sentiu-se aliviado-se ao ver Antonio e Tio Lorenzo saírem correndo do Salão.

— Rinaldo! — Antonio gritou. — Rinaldo, estamos preocupados com o Tio Umberto. Queremos que você vá até a Universidade para informar-se.

— Mande Domenico — Rinaldo respondeu, e tornou a virar-se para as chamas.

— Não. Vá você — Antonio insistiu.

Havia alguma coisa no modo como ele disse isso que fez com que Rinaldo recuasse diante dele.

— Está bem, eu vou — disse Rinaldo. Ele ergueu uma das mãos, rindo. — Eu só estava brincando, Tio Antonio.

E partiu imediatamente.

— Levem de volta estes feitiços — Tio Lorenzo ordenou aos outros três primos. — Detesto ver um bom trabalho desperdiçado.

Domenico, Cario e Luigi obedeceram sem uma palavra. Antonio e Tio Lorenzo foram até a fogueira e tentaram apagar as chamas pisoteando-as, mas elas ardiam com demasiada violência. Paolo viu que eles se entreolharam com expressão conspiradora e depois inclinaram-se para a frente e sussurraram um feitiço sobre as labaredas. O fogo extinguiu-se como se tivesse sido desligado por um interruptor. Paolo suspirou, preocupado; era óbvio que ninguém na Casa Montana conseguia abandonar o costume de usar feitiços. Ele perguntou-se quanto tempo isso duraria antes que o mago inimigo percebesse a desobediência.

— Traga uma luz! — Antonio gritou para Domenico. — E separe aqueles que não estão queimados.

Paolo voltou para a cozinha antes que lhe pedissem para ajudar. A fogueira lhe dera uma idéia.

— Temos bastante carne moída — Rosa estava dizendo. — Será que ousamos tentar com isso?

— Por que não levam a comida para a sala de jantar? Posso acender o fogo na lareira, e vocês podem cozinhar lá mesmo — Paolo sugeriu.

— Este menino é um gênio! — Marco exclamou.

Foi o que fizeram. Rosa cozinhava aos poucos e Marco fez chocolate quente. As crianças — inclusive Paolo — foram alimentadas primeiro. Paolo sentou-se num dos bancos compridos, achando aquilo tudo quase divertido — a não ser quando pensava em Tonino ou no Velho Niccolo na cama no andar superior. Ele ficou muito satisfeito e surpreso quando uma trouxa de garras e músculos de ferro aterrissou no seu colo: Benvenuto, também sentindo falta de Tonino. O gato esfregou-se em Paolo com uma espécie de desespero, mas não quis ronronar.

Rosa e Marco estavam fazendo menção de levantar-se para colocar os pequenos na cama quando lá fora houve um ruído metálico forte e repentino.

— Céus! — Rosa exclamou, e foi abrir a porta para o pátio.

O barulho inundou a sala, um som metálico irregular, rápido e fortíssimo. O mais próximo — ching, ching, ching— vinha de tão perto que só podia ser o sino da Igreja de Sant’Angelo. Por trás desse barulhão, o sino da Catedral dobrava. E mais longe ainda, ora próximos, ora distantes e fracos, todos os sinos de todas as igrejas de Caprona soavam. Corinna e Lucia entraram correndo, os rostos brilhando de frio e excitação.

— Estamos em guerra! O Duque declarou guerra! Marco disse que achava melhor ir para casa.

— Ah, não! — Rosa exclamou. — Ainda não! Aliás, Lucia... Lucia olhou de soslaio para a comida no fogo da lareira da sala de jantar.

— Vou levar o remédio para Tia Gina — ela declarou, e prudentemente afastou-se correndo.

Marco e Rosa se entreolharam.

— Três Estados contra nós e não temos feitiços para nos defendermos! — lamentou-se Marco. — Pelo jeito, não teremos um casamento longo e feliz, não é mesmo?

— O Sr. Notti disse que a Reserva Voluntária será convocada amanhã — Corinna informou, para tranqüilizá-los. Seu olhar cruzou com o de Rosa. — Venham, crianças, está na hora de dormir — disse aos quatro primos.

Enquanto os menores eram colocados na cama, Paolo ficou sentado ninando Benvenuto, sentindo-se mais desesperançado do que nunca. Perguntava-se se no dia seguinte haveria era Caprona soldados de Florença, Pisa e Siena. Haveria tiroteio nas ruas! Ele imaginou grandes lascas de mármore da Catedral arrancadas pelos tiros, a Ponte Nova derrubada apesar de todos os feitiços que a protegiam, e inimigos morenos arrastando Rosa aos gritos. E viu que tudo aquilo poderia realmente acontecer nos próximos dias.

Nesse instante ele teve certeza de que Benvenuto estava tentando lhe dizer alguma coisa. Percebia isso no olhar fixo e acusador dos olhos amarelos do animal. Mas Paolo simplesmente não conseguia entender o que era.

— Vou tentar — disse a Benvenuto. — Vou tentar de verdade.

Ele teve uma breve impressão de que Benvenuto ficou satisfeito; com esse incentivo, Paolo inclinou a cabeça e fixou os olhos no focinho de Benvenuto com sua expressão de urgência. Mas não adiantava; tudo o que Paolo conseguiu foi ver uma imagem em sua mente — a imagem de um lugar com uma fachada de mármore colorido, muito grande e bonita.

— A Igreja de Sant’Angelo? — perguntou, em tom de dúvida. Enquanto Benvenuto abanava a cauda com impaciência,

Rosa e Marco voltaram.

— Ora, ora! Aí está Paolo tentando mais uma vez carregar nas costas os problemas da nossa Casa! — Rosa comentou com Marco.

Paolo, surpreso, ergueu os olhos.

— De vez em quando você fica igualzinho a Antonio — Marco comentou.

— Não consigo compreender o que Benvenuto diz — Paolo explicou, sentindo-se desesperado.

Marco sentou-se sobre a mesa ao lado dele.

— Então ele terá de encontrar alguma outra maneira de nos dizer o que deseja — afirmou. — É um gato inteligente, o mais esperto que já conheci. Ele vai conseguir.

Estendeu a mão e Benvenuto deixou que acariciasse sua cabeça.

— As suas orelhas, Senhor Gato, são como ouriços-do-mar sem os espinhos.

Rosa empoleirou-se na mesa também, do outro lado de Paolo.

— O que é, Paolo? É Tonino? Paolo assentiu.

— Ninguém quer acreditar que o mago inimigo pegou o meu irmão — declarou.

— Nós acreditamos — Marco afirmou, e Rosa completou:

— Paolo, ainda bem que ele pegou Tonino e não você. Tonino vai agüentar tudo com muito mais calma.

Paolo ficou um pouco confuso.

— Por que vocês dois acreditam no mago e ninguém mais acredita?

— Que é que faz você achar que ele existe? — Marco respondeu com outra pergunta.

Nem mesmo para Rosa e Marco, Paolo conseguiria forçar-se a contar o seu embaraçoso encontro com uma Petrocchi.

— Houve uma neblina horrível no final do combate — disse. Rosa e Marco soltaram exclamações de alegria. Suas mãos encontraram-se ruidosamente acima da cabeça de Paolo.

— Funcionou! Funcionou! — ela cantarolava. E Marco acrescentou:

— Estávamos torcendo para que alguém mencionasse uma certa neblina! Por acaso você teve a impressão de que havia nela um feitiço de cancelamento em grande escala?

— Sim — disse Paolo.

— Fomos nós quem criamos aquela neblina, Marco e eu — Rosa revelou. — Tínhamos esperanças de impedir a luta, mas demoramos séculos para fazer o feitiço, porque toda a magia de Caprona estava reunida naquele combate.

Paolo ficou ruminando essa informação. Aquilo acabava com uma prova que não dependia da palavra de uma Petrocchi. Talvez o tal mago não existisse, afinal; talvez Tonino estivesse mesmo preso na casa dos Petrocchi. Ele lembrou-se de que Renata só havia revelado que Angélica estava desaparecida depois que a neblina clareou e ela conseguiu enxergar quem ele era.

— Escute, vocês dois querem vir comigo à casa dos Petrocchi para ver se Tonino está lá?

Ele sentiu que Rosa e Marco trocavam um olhar por cima da sua cabeça.

— Por quê? — Rosa quis saber.

— Porque sim — Paolo respondeu. — Porque sim. — Finalmente, a necessidade de convencê-los clareou seus pensamentos. — Porque Guido Petrocchi disse que Angélica também está desaparecida.

— Infelizmente não vamos poder — disse Marco, num tom de lástima que dava a impressão de ser sincera. — Você compreenderia se soubesse como os nossos motivos são importantes, pode acreditar.

Paolo não compreendia. Sabia que, no caso daqueles dois, não se tratava de covardia, orgulho ou qualquer coisa assim. Isso só tornava tudo mais complicado.

— Ah, ninguém quer me ajudar! — ele exclamou. Rosa rodeou-lhe os ombros com o braço.

— Paolo, você é igualzinho ao papai. Acha que tem que fazer tudo sozinho. Mas existe uma coisa que podemos fazer.

— Chamar Crestomanci? — Marco sugeriu.

Paolo sentiu que Rosa fazia um gesto de assentimento.

— Mas ele está em Roma! — objetou.

— Não tem importância — disse Marco. — Ele é esse tipo de mago: se estiver suficientemente perto e você precisar suficientemente dele, ele virá quando você chamar.

— Tenho que cozinhar! — Rosa exclamou, saltando de cima da mesa.

Pouco antes que o segundo jantar ficasse pronto, Rinaldo voltou, cheio de animação, contando que o Tio Umberto e o velho Luigi Petrocchi tiveram outra briga, no salão de jantar da Universidade. Por isso Tio Umberto não aparecera para ver como o Velho Niccolo estava: ele e Luigi estavam ambos de cama, prostrados de exaustão. Rinaldo estivera bebendo vinho com alguns estudantes que lhe descreveram toda a briga: costeletas e macarrão voavam pelo ar, seguidos por cadeiras, mesas e bancos. O jantar dos estudantes ficou estragado. Umberto tentara afogar Luigi numa terrina de sopa, e Luigi revidara jogando sobre Umberto todo o jantar dos Doutores. Os estudantes planejavam entrar em greve — não por se importarem com o jantar estragado, mas porque o revide de Luigi mostrara-lhes que a comida dos Doutores era melhor do que a deles.

Paolo escutava sem na realidade prestar atenção. Estava pensando em Tonino e perguntando-se se ousava acreditar na palavra de uma Petrocchi.

 

Passado algum tempo, alguém chegou e levantou Tonino como se ele fosse um boneco de trapo. Aquilo foi muito desagradável; suas pernas e seus braços balançavam-se em todas as direções, sem que ele nada pudesse fazer para impedir. Então foi jogado em outro lugar, muito mais escuro, e ali ficou caído, sofrendo muitos solavancos e ouvindo um ruído sibilante, como se ele se encontrasse numa caixa que estivesse sendo arrastada pelo chão. Quando o ruído e o movimento cessaram, ele constatou que conseguia mover-se. Então sentou-se, o corpo inteiro tremendo.

Estava no mesmo aposento de antes, que dava a impressão de ser muito menor: ele constatou que se ficasse de pé bateria com a cabeça no pequeno lustre aceso que pendia do teto. Isso significava que ele agora estava maior; se antes media cerca de

oito centímetros, agora devia ter uns vinte. Os fantoches deviam ser grandes demais para o cenário, e a falsa mansão era pequena justamente para parecer que estava distante. E, com a Duquesa passando mal de repente, nenhum dos ajudantes dela preocupara-se com o tamanho de Tonino; simplesmente providenciaram que ele fosse preso novamente.

— Tonino! — Angélica chamou num cochicho.

Tonino virou-se e viu que metade do aposento estava ocupada por uma pilha de bonecos sem vida. Ele distinguiu a cabeça de papelão do policial, em seguida a do seu inimigo Carrasco e a salsicha branca que era o bebê; na metade da pilha encontrou o rosto de Angélica. Não era o rosto de Judy, mas sim o dela mesma, embora inchado e molhado de lágrimas. Tonino levou a mão ao nariz. Para seu alívio, o narigão vermelho havia desaparecido, embora ele constatasse que ainda estava vestido com a camisola vermelha do Sr. Punch.

— Sinto muito — disse, com a sensação de estar batendo o queixo. —Tentei não machucar você. Está com algum osso quebrado?

— N-não — Angélica respondeu, mas não parecia ter muita certeza disso. — Tonino, que foi que aconteceu?

— Eu enforquei a Duquesa — Tonino revelou, sentindo um certo orgulho cruel. — Mas não matei — acrescentou, em tom de lástima.

Angélica riu. E ficou rindo até o monte de fantoches estremecer e os bonecos começarem a escorregar para o chão. Mas Tonino não conseguia achar graça naquilo. Ele começou a chorar, sem se importar de estar fazendo isso na frente de uma Petrocchi.

— Oh, céus! — Angélica exclamou. — Tonino, pare com isto! Tonino... por favor!

Ela lutou para desvencilhar-se dos fantoches e atravessou o aposento caminhando com dificuldade. Estava alta demais; sua cabeça bateu no lustre, que começou a tilintar, formando sombras esquisitas sobre eles. A menina ajoelhou-se ao lado de Tonino.

— Tonino, por favor, pare. Ela vai ficar furiosa, assim que se sentir melhor.

Angélica ainda estava usando a touca azul de Judy e o vestido da mesma cor. Ela tirou a touca e estendeu-a para Tonino.

— Tome, assoe o nariz com isto. Eu usei a roupa do bebê. Isso me fez sentir melhor.

Ela tentou sorrir para ele, mas o sorriso ficou torto no seu rosto inchado. A testa larga de Angélica certamente batera no chão primeiro, e agora estava ainda maior por causa de um enorme galo vermelho. Abaixo da testa, o sorriso tinha uma aparência grotesca.

Tonino compreendeu que aquela careta era um sorriso e sorriu em retribuição, o melhor que pôde, já que ainda estava batendo o queixo.

— Espere. — Angélica tornou a atravessar o aposento até a pilha de fantoches e puxou o Carrasco para fora. Voltou com a capa de feltro preta que ele usava. — Vista isto.

Tonino enrolou-se na capa e assoou o nariz na touca azul. E sentiu-se melhor.

Angélica tornou a remexer na pilha de bonecos.

— Vou usar o paletó da farda do policial — declarou. — Tonino, você deduziu?

— Na verdade, não — Tonino admitiu. — Eu já sabia, não sei como.

Ele sabia desde o momento em que avistara a Duquesa na platéia: era ela o tal mago que estava minando as forças de Caprona e atrapalhando os feitiços da Casa Montana. Tonino não tinha certeza a respeito do Duque — que provavelmente era burro demais para ter alguma importância. Apesar dos encantamentos da Duquesa, no entanto, os feitiços da Casa Montana — e da Casa Petrocchi — certamente ainda eram suficientemente fortes para representarem um obstáculo para ela. De modo que ele e Angélica haviam sido raptados para que ela, como preço do resgate, pudesse obrigar as duas casas a parar de produzir feitiços. Mas se elas parassem, Caprona estaria perdida. O mais assustador era que Tonino e Angélica eram as duas únicas pessoas que sabiam e a Duquesa não se importava que eles soubessem. O motivo disso? Ora, nem sequer uma pessoa esperta como Paolo pensaria em procurá-los no Palácio Ducal, dentro de um teatrinho de marionetes; além disso, era óbvio que as duas crianças estariam mortas antes que alguém as encontrasse.

— Definitivamente temos que fugir daqui — Angélica declarou. — Antes que ela melhore do quase enforcamento.

— Ela deve ter pensado nisso — Tonino respondeu.

— Não tenho tanta certeza assim. Dava para ver que todos ficaram muito perturbados. Eles deixaram que eu visse você ser colocado aqui por um buraco no chão, e acho que podemos sair por lá também. Vai ser mais fácil, agora que estamos maiores.

Tonino prendeu a capa em torno do corpo e lutou para ficar de pé, embora se sentisse quase que exausto e dolorido demais para isso. Ainda por cima, sua cabeça bateu no lustre. Enormes sombras tremeluzentes voejaram pelo aposento, fazendo com que os fantoches empilhados parecessem estar se contorcendo.

— Por onde foi que me colocaram aqui? — ele perguntou.

— Exatamente por onde você está parado —Angélica informou.

Tonino recuou até encostar-se nas janelas e examinou o local. Não havia como saber que ali existia uma abertura. Depois, porém, que Angélica lhe contou, ele conseguiu distinguir uma linha negra finíssima, disfarçada pelos arabescos do tapete pintado e pela luz que oscilava. A linha formava o contorno de um retângulo mais ou menos do tamanho da mesa de jantar. A bandeja com comida provavelmente entrara também por ali.

— Cante um feitiço de abertura — Angélica ordenou.

— Não conheço nenhum — Tonino foi obrigado a confessar. Pela rigidez da postura de Angélica, Tonino percebia que ela estava tentando não dizer algumas coisas desagradáveis.

— Bom, eu não tenho coragem. Você viu o que aconteceu na última vez — ela disse. — Se eu fizer alguma coisa, ela vai nos pegar outra vez e nos castigar nos transformando em fantoches. E eu não conseguiria suportar isto de novo.

Tonino também não tinha certeza de conseguir suportar, embora achasse, agora que pensava no assunto, que aquilo não havia sido para castigá-los pela tentativa de fuga; era provável que antes disso a Duquesa já pretendesse fazer com que eles representassem. Ela era suficientemente malvada para isso. Por outro lado, ele não tinha certeza de conseguir suportar outro dos feitiços malfeitos de Angélica.

— Bom, é apenas um alçapão. Deve estar fechado por um ganchinho — ele disse. — Vamos tentar bater nele com os castiçais.

— E se houver um feitiço nele? — Angélica perguntou. — Ah, está bem, vamos tentar.

Cada um deles pegou um castiçal e ajoelhou-se ao lado das janelas, pondo-se a bater diligentemente em cima da linha negra quase invisível. O papelão era grosso e rijo; logo os castiçais ficaram parecendo árvores secas de metal. Mas eles conseguiram fazer um amassado no meio de uma das bordas da porta escondida. Tonino achou que conseguia enxergar um brilho metálico, e ergueu o castiçal entortado para dar um golpe poderoso.

— Pare! — Angélica sibilou.

De algum lugar vinha o ruído de passos arrastados. Tonino foi baixando devagarinho o castiçal e mal ousava respirar. Uma voz distante resmungava:

— Nada por aqui... Devem ser ratos...

De repente ficou muito mais escuro; alguém havia apagado uma luz, deixando-os com apenas a luminosidade azulada do pequeno lustre. Os passos afastaram-se. Uma porta bateu, e o silêncio voltou a reinar.

Angélica largou o castiçal no chão e começou a tentar rasgar o papelão com os dedos. Tonino levantou-se e afastou-se dali. Não adiantava; fosse o que fosse que eles tentassem, alguém escutaria. O Palácio estava cheio de lacaios e soldados. Tonino teria desistido, preferindo esperar que a Duquesa fizesse o pior — só que, agora que ele estava de pé, o aposento de papelão parecia-lhe muito pequeno. Metade dele estava cheia de fantoches; mal havia espaço para moverem-se. Tonino teve vontade de jogar-se contra as paredes aos gritos. Chegou a fazer um movimento, e bateu contra a mesa. Como ele agora estava muito maior e mais pesado, a mesa oscilou e estalou.

— Já sei! — exclamou. — Termine de fazer o Anjo! O galo da testa de Angélica voltou-se para ele.

— Não estou com disposição para desenhar.

— Não é um desenho, é um feitiço — Tonino explicou. — E depois puxe a mesa para cima de nós enquanto fazemos um buraco no alçapão.

Angélica não precisava que ele lhe dissesse que o Anjo era o feitiço mais poderoso de Caprona. Ela jogou o castiçal para o lado e levantou-se com esforço.

— Pode ser que funcione — disse. — Sabe, para um Montana até que você tem idéias muito boas.

Ela tornou a bater com a cabeça no lustre. Na confusão das sombras que oscilavam, eles não conseguiram encontrar a torneira que Angélica havia usado para desenhar. Foi preciso Tonino enfiar a cabeça e o braço dentro do minúsculo banheiro e arrancar a outra torneira falsa.

Mesmo quando a luz parou de balançar-se era difícil enxergar o Anjo arranhado no tampo da mesa. Ele agora dava a impressão de ser fraco e pequeno.

— Ele precisa do pergaminho — Angélica declarou. — E é melhor eu colocar uma auréola, para ter certeza de que ele é santo.

Angélica estava agora tão maior e mais forte que a todo momento deixava cair a torneira. A auréola que ela desenhou arranhando a mesa ficou grande demais, e ela não conseguia acertar o pergaminho. A mesa balançava-se de um lado para outro, a torneira resvalava e havia o perigo de que o desenho do Anjo terminasse como uma coisa inteiramente diferente.

— É tão difícil! — Angélica queixou-se. — Será que assim está bom?

— Não — Tonino declarou. — Vai ser preciso um pergaminho mais desenrolado. No nosso Anjo, algumas das palavras aparecem.

Porque ele tinha razão, Angélica perdeu a calma.

— Está certo! Faça você mesmo, se é tão esperto, seu Montana horroroso!

Ela estendeu a torneira para Tonino e ele arrancou-a da mão dela, igualmente furioso.

— Olhe — disse, arrancando uma longa tira de verniz. — Aqui está o pedaço que fica pendurado. E as palavras ficam de lado. Dá para ver “Carmen pa”, “Venitang”, “Cap” e muitas outras letras, mas não vai haver espaço para tudo.

— O nosso Anjo diz “cis saeculare”, “elus cantare” e “virtus data perto do final — informou Angélica.

Tonino continuou arranhando, sem lhe prestar atenção. Já era suficientemente difícil desenhar letras minúsculas usando uma torneira como instrumento, sem precisar escutar as broncas de Angélica.

— Ora, é isto mesmo! — Angélica continuou. — Muitas vezes fiquei pensando por que será que não são as palavras que nós cant...

Os dois tiveram a mesma idéia. Olharam um para o outro, nariz com nariz por cima do verniz arranhado.

— Encontrar as palavras não significa inventar, e sim procurar as palavras — Tonino declarou.

— E elas estavam o tempo todo em cima dos nossos portões! Ah, como fomos burros! — Angélica exclamou. — Vamos, temos que fugir logo!

Tonino abandonou o pergaminho com as letras “Carmen” arranhadas nele. Na realidade, não havia mesmo espaço para outras letras. Os dois arrastaram a mesa frouxa e barulhenta por cima do buraco que haviam feito no chão e puseram-se a trabalhar debaixo dela, arrancando pedaços do chão pintado.

Logo depois eles encontraram uma barra de metal prateado que ia do alçapão até o piso abaixo deles. Tonino forçou a ponta de um dos castiçais entre as bordas rasgadas do papelão e fez força com o castiçal lateralmente.

— Há um feitiço nele — disse.

— Anjo de Caprona — Angélica disse no mesmo momento.

E a barra deslizou para um lado. Um grande pedaço retangular de chão baixou, perto dos joelhos deles, e ficou pendurado, deixando um buraco muito fundo e escuro.

— Vamos pegar a corda do Carrasco — Angélica sugeriu. Os dois foram até a pilha de fantoches e desfizeram o nó que prendia a corda da forca no cadafalso. Tonino amarrou-a no pé da mesa.

— É uma descida grande — comentou, hesitando.

— Na verdade, não chega a um metro — Angélica afirmou. — E não somos suficientemente pesados para nos machucarmos. Eu fiquei toda molenga quando você me chutou para fora do palco e... bom... de qualquer maneira, não quebrei nenhum osso.

Tonino deixou Angélica ir primeiro, e ela desceu pela corda para o espaço escuro como um vigoroso macaco azul. A mesa começou a produzir estalidos diversos, e a inclinar-se na direção da perna onde a corda estava amarrada.

— Anjo de Caprona! — Tonino sussurrou.

A mesa começou a entrar no alçapão. A caixa de papelão sacudiu-se. E, com muitos estalidos, a mesa ficou entalada na abertura, a maior parte dela dentro do aposento, mas com um dos cantos para fora. Houve um ruído seco vindo de baixo. Tonino teve certeza de que agora estava preso para sempre naquela sala.

— Já cheguei ao chão — Angélica disse num cochicho alto. — Você pode puxar a corda para cima. Ela chega quase ao chão.

Tonino inclinou-se e puxou a corda. Tinha certeza de que havia acontecido um milagre. Aquela perna de mesa deveria ter se quebrado, e a mesa deveria ter passado inteira pelo buraco. Ele sussurrou mais uma vez:

— Anjo de Caprona!

E deslizou por baixo da mesa para a escuridão.

A mesa estalou assustadoramente, mas ficou inteira. O barbante queimava as mãos de Tonino enquanto ele deslizava para baixo, e de repente ele acabou. Quase que no mesmo instante os pés dele atingiram o chão com violência.

— Ufa! — ele exclamou. Tinha a impressão de que seus pés haviam entrado para dentro das pernas.

Os dois estavam de pé no piso encerado de um aposento do Palácio. As paredes altíssimas do teatro de fantoches rodeavam-nos por três lados. No lugar da quarta parede havia uma cortina de pano, feita para esconder o manipulador dos bonecos. Pelas bordas da cortina entrava uma luz bastante fraca. Eles ergueram uma das pontas do pano. Era áspero e pesado, como pano de saco. No outro lado da cortina ficava a parede do aposento; mal havia espaço para Angélica e Tonino espremerem-se e saírem de trás do teatrinho, passando para uma sala ampla, iluminada pelo luar que entrava pelos quadrados de vidro da janela e formava blocos prateados sobre o piso lustrado.

Era a mesma sala onde os cortesãos haviam assistido à representação. Decerto, na confusão, haviam simplesmente empurrado o teatrinho para perto da parede. Tonino lembrou-se de que ele e Angélica haviam parado, cambaleantes, na borda do palco, olhando para o vazio. Aquilo lhe parecia outro milagre: podiam ter morrido! Depois de transformados em fantoches eles provavelmente foram guardados em algum tipo de depósito e, quando a Duquesa passou mal tão misteriosamente, ninguém se preocupou em guardá-los de volta lá.

A lua brilhava no rosto polido do Anjo inclinado para fora, bem no alto, acima das portas duplas no outro lado do salão. Havia outras portas, mas Tonino e Angélica, sem hesitarem, encaminharam-se na direção do Anjo. Ambos o tomaram como guia.

— Ah, droga, ainda estamos pequenos! — Angélica exclamou, antes de terem chegado ao primeiro bloco de luar. — Pensei que teríamos o nosso tamanho normal assim que saíssemos de lá. Você também não achava?

A única idéia de Tonino era escapar, fosse qual fosse o seu tamanho.

— Assim ficará mais fácil nos escondermos — ele argumentou. — Alguém na sua casa poderá facilmente devolver o seu tamanho normal.

Ele enrolou mais a capa do Carrasco em volta do corpo e estremeceu. Estava mais frio ali, no aposento amplo. Ele via a lua através das grandes janelas, bem alta e fria no céu azul-escuro de inverno. Não seria divertido correr pelas ruas metido numa camisola vermelha.

— Mas é que estou detestando ser tão pequena! — Angélica queixou-se. — E nunca conseguiremos descer as escadas...

Ela tinha razão em reclamar, como Tonino depressa descobriu: a travessia do piso encerado parecia ter quilômetros. Quando finalmente chegaram às portas duplas, estavam exaustos. Acima deles, bem alto, o Anjo entalhado segurava um pergaminho que eles não tinham condições de ler, e já não parecia tão amigável. A porta estava quase fechada, mas havia uma pequena fresta entre as duas folhas. Os dois conseguiram aumentar essa fresta apoiando as costas contra a borda de cada folha e empurrando. Era enlouquecedor pensar que poderiam abri-las com uma só mão, se tivessem o seu tamanho normal.

O aposento contíguo era ainda maior. E era cheio de cadeiras e mesinhas. A única vantagem de terem o tamanho de bonecos era que eles podiam caminhar em linha reta, por baixo de todos os móveis, até a porta, que lhes parecia distante demais. Era como andar com dificuldade através de uma floresta dourada iluminada pelo luar, onde cada árvore tinha seu tronco elegantemente curvo como o pescoço de um cisne. O piso dava a impressão de ser de mármore.

Antes que chegassem à porta, estavam discutindo mais uma vez, devido ao extremo cansaço.

— Vamos levar a noite inteira para sair daqui! — Angélica resmungou.

— Ah, cale a boca! Você reclama mais do que a minha Tia Gina!

— Será que a sua Tia Gina está toda dolorida porque você lhe deu uma surra? — Angélica retrucou.

Quando finalmente chegaram à porta entreaberta, só havia mais um aposento, um pouco menor do que os outros. E possuía um tapete e também, espalhados, sofás com pintura dourada que lhes pareciam grandes como celeiros, e poltronas embabadadas. Angélica soltou um gemido de desespero.

Tonino pôs-se na ponta dos pés. Ele tinha a impressão de que havia almofadas em cima de alguns dos assentos.

— E se nos escondermos debaixo de uma almofada para passarmos a noite? — ele sugeriu, tentando fazer as pazes.

Angélica voltou-se furiosamente para ele:

— Seu burro! Não admira que você seja analfabeto em feitiços! Podemos estar pequenos, mas eles podem nos encontrar, justamente por isso! Nós devemos estar recendendo de magia. Até meu irmãozinho conseguiria nos encontrar. Mesmo sendo um bebê ele é mais esperto do que você!

Tonino ficou tão furioso que não conseguiu responder. Simplesmente saiu pisando forte. A princípio o tapete foi um alívio para os seus pés doloridos, mas logo tornou-se outro suplício. Era como caminhar através de um pasto de capim alto e peludo — e quem quer que tenha feito isto por mais de um quilômetro sabe como é cansativo. Ainda por cima, a todo momento eles eram obrigados a rodear poltronas almofadadas que pareciam volumosas como casas, pufes embabadados e biombos extensos como tapumes. Algumas daquelas coisas proporcionariam um bom esconderijo, mas os dois estavam nervosos e assustados demais para sugerir tal coisa.

Então, quando finalmente chegaram à porta, ela estava fechada. Os dois se jogaram contra a madeira; a porta nem sequer estremeceu.

— E agora? — Tonino perguntou, apoiando as costas na porta.

A essa altura a lua estava bem baixa. O tapete sumia na escuridão. As barras de luar que entravam pelas janelas distantes tocavam apenas no alto das poltronas, ou realçavam o ouro no encosto dos sofás, ou então cintilavam nos jarros de vidro colorido sobre uma prateleira. Logo estaria totalmente escuro.

— Há um Anjo ali em cima — Angélica observou fatigadamente.

Ela tinha razão. Tonino mal conseguia vê-lo como faíscas coloridas na madeira, iluminadas pelo luar refletido pelos vasos coloridos. Havia outra porta abaixo do Anjo — ou, melhor, um espaço escuro, porque aquela porta estava escancarada. Cansado demais até mesmo para falar, Tonino recomeçou a andar para o outro lado da sala, atravessando um quilômetro de tapete peludo e rodeando penhascos de mobília.

Quando chegaram à porta aberta, estavam tão cansados que nada mais lhes parecia real. Do outro lado da porta havia quatro degraus que desciam. Muito bem. De um modo ou de outro eles os desceram. No final havia um tapete ainda mais brutalmente peludo. A escuridão era profunda.

Angélica farejou a escuridão.

— Charutos — sussurrou.

Para Tonino podiam ser até mariscos, tanto fazia: tudo o que ele queria era chegar até a porta seguinte. Foi em frente, tateando pelas paredes, com Angélica atrás dele aos tropeços. Trombaram num móvel imenso, tatearam à volta dele e trombaram em outro, um pouquinho acima do chão e sobressaindo ainda mais no aposento. E assim seguiram os dois, tropeçando e trombando nas coisas, passando por cima de duas barras de metal redondas, arrastando os pés através do tapete, até que chegaram novamente aos quatro degraus. Era uma saleta bem pequena — para o Palácio — e só tinha uma porta! Tonino tateou procurando o primeiro degrau, que era da altura da sua cabeça, e ficou com a certeza de que não teria forças para conseguir subi-los novamente. Afinal, o Anjo não havia sido um guia...

— Aquela parte que sobressaía, não sei o que era, mas era oca, como uma caixa — disse Angélica. — Será que devemos correr o risco de nos escondermos ali?

— Vamos até lá — Tonino decidiu.

Eles a encontraram, ou alguma coisa parecida, ao trombarem com ela. Era uma caixa cujas paredes chegavam às axilas deles. Havia uma grande peça de metal, como se fosse uma aldrava, porém bem larga, presa na frente da caixa. Quanto tatearam dentro dela, encontraram o que lhes parecia ser couro rígido e outro material que possivelmente era papel.

— Acho que é uma gaveta aberta — disse Tonino.

Angélica não respondeu; simplesmente trepou para dentro dela. Tonino ouviu os ruídos que ela produzia no meio dos papéis — se era mesmo papel. Ele pensou: bom, e foi ela quem disse que cheiramos a magia! Mas estava tão cansado que subiu para a gaveta, também, e caiu sobre um aconchegante ninho de papel amassado onde Angélica já estava adormecida. A essa altura, Tonino estava quase que cansado demais para se importar se seriam ou não descobertos. Mas teve a sensatez de puxar uma folha de pergaminho sobre os dois, antes de pegar no sono também.

 

Quando Tonino acordou, sentia-se friorento e confuso. A luz era pálida e amarela, porque a coberta estava sobre o seu rosto. Tonino ergueu os olhos, achando que aquele lençol era surpreendentemente rígido. Além disso, havia nele grandes letras pretas. Seus olhos seguiram as letras. Ele leu: DECLARAÇÃO DE GUERRA (Cópia em Duplicata).

Então, com um sobressalto, ele lembrou-se de que estava com 20 centímetros de altura e deitado numa gaveta no Palácio. E era dia claro! Alguém os encontraria! Aliás, alguém quase os encontrara, e tinha sido isso que o havia acordado. Ele escutava uma pessoa movimentando-se pelo aposento, ocasionalmente assobiando um trecho de “O Anjo de Caprona”.

Quem quer que fosse, chegou à gaveta. Tonino escutava o chão estalar sob o peso da pessoa, e o roçar alto e próximo de um vestido. Ele moveu a cabeça com cuidado e encontrou o rosto assustado de Angélica descansando sobre um papel amassado, a poucos centímetros do rosto dele. O roçar do vestido mostrava que a pessoa era uma mulher. Devia ser a Duquesa procurando por eles.

— Esse Duque! — exclamou a pessoa, numa voz que nenhuma Duquesa usaria. — Nunca vi um homem tão bagunceiro!

De repente a respiração da pessoa aproximou-se. Antes que Tonino ou Angélica pudessem pensar no que fazer, a gaveta moveu-se. Indefesos, os dois foram empurrados para dentro da escuridão quando a gaveta se fechou com ruído atrás da cabeça deles.

— Socorro! — Angélica sussurrou.

— Psiu!

A criada ainda se encontrava na sala. Elas a escutaram mover alguma coisa, e depois o som de notas musicais quando ela tirou o pó de um piano. Então um ruído seco. E finalmente, nada. Quando tiveram certeza absoluta de que ela havia ido embora, Angélica cochichou:

— Que é que vamos fazer agora?

Na gaveta havia altura suficiente para eles se sentarem eretos, porém pouco mais que isso. Acima da cabeça deles havia uma fresta iluminada, onde a gaveta encontrava a frente da escrivaninha — ou fosse o que fosse aquele móvel — e não havia jeito de abri-la. Mas eles conseguiam enxergar bastante bem; entrava luz pelos fundos da gaveta, atrás dos pés deles. Os dois tentaram firmar as mãos na madeira acima deles e puxar, mas a gaveta era feita de uma madeira sólida e perfumada, e eles não conseguiram movê-la.

— Estamos sempre sendo fechados em lugares sem portas! — Angélica exclamou.

E saiu aos tropeços em direção aos fundos da gaveta, por onde a luz entrava. Tonino rastejou atrás dela.

Assim que chegaram lá, eles se deram conta de que ali havia uma saída: a madeira dos fundos da gaveta era mais baixa do que a da frente, portanto não preenchia inteiramente o espaço, deixando ali uma boa fenda. Quando eles enfiaram a cabeça nesse espaço, viram os fundos das outras gavetas, acima da sua, subindo como uma escada de pintor, e uma fresta de luz do dia no alto.

Eles espremeram-se através da fenda e subiram, lado a lado. Era tão fácil quanto subir por uma escada. Quando faltava apenas uma gaveta para eles chegarem à fresta entre o móvel e a parede por onde entrava a luz do dia — e por onde eles teriam de espremer-se para valer — ouviram novamente uma pessoa na sala.

— Eles desceram para cá, Senhora — disse a voz de uma dama.

— Então nós os pegamos — respondeu a voz da Duquesa.

— Procure com muita atenção.

Tonino e Angélica ficaram pendurados pelas mãos e pelos pés no lado de fora dos fundos da gaveta, sem ousarem mexer-se. Os vestidos de seda sussurravam enquanto a Duquesa e a sua dama moviam-se pela sala.

— Deste lado não há coisa alguma, Senhora.

— E garanto que esta janela não foi aberta — disse a Duquesa.

— Abra todas as gavetas da escrivaninha.

Houve um ronco forte acima da cabeça de Tonino. Uma luz branca e empoeirada jorrou da gaveta superior aberta. Os papéis dentro dela foram remexidos ruidosamente.

— Nada — afirmou a dama.

A gaveta superior foi fechada com um ruído. Tonino e Angélica estavam pendurados na segunda gaveta. Desceram para a gaveta abaixo, o mais rapidamente que puderam. A segunda gaveta também foi aberta ruidosamente, e fechada com força, quase os ensurdecendo. A gaveta onde eles se penduravam deu um solavanco. Por sorte ela estava empenada. A dama puxou-a e sacudiu-a, o que deu a Tonino e Angélica tempo suficiente para tornarem a subir freneticamente para a segunda gaveta e se agarrarem a ela. E ali permaneceram, no espaço escuro e estreito, enquanto a dama abria a terceira gaveta, fechava-a com força e puxava a gaveta mais baixa. Os dois esticaram o pescoço e observaram o jorro de luz branca que vinha de baixo.

— Olhe para isto! — exclamou a dama. — Eles estiveram aqui! Parece um ninho de ratos!

A Duquesa aproximou-se depressa.

— Maldição! — exclamou. — E não faz muito tempo! Consigo sentir o cheiro deles, mesmo com o cheiro dos charutos. Depressa, eles não podem ter ido muito longe. Devem ter ido embora antes desta sala ter sido arrumada.

A gaveta fechou-se, trazendo consigo a escuridão empoeirada. Houve um roçar de sedas quando as duas mulheres subiram apressadas os degraus para a sala das poltronas, e depois o ruído seco e baixo da porta a fechar-se.

— Acha que é uma armadilha? — Angélica sussurrou.

— Não — Tonino respondeu.

Ele tinha certeza de que a Duquesa não adivinhara onde eles estavam. Mas agora, pelo ruído da porta, ele sabia que estavam fechados naquela sala, e não tinha idéia de como conseguiriam abrir a porta.

De qualquer maneira, até mesmo uma sala fechada era um espaço enorme, comparado com a estreita fenda nos fundos das gavetas. Angélica e Tonino empurraram e espremeram-se, forçando a passagem através do espaço estreito por onde entrava a luz do dia, e finalmente alcançaram o tampo da escrivaninha.

Antes que seus olhos se acostumassem à luz, Tonino deu uma topada com o dedão numa caneta comprida como um poste de telégrafo e depois tropeçou num abridor de cartas que parecia uma tábua de marfim. Angélica deu um encontrão num bibelô de porcelana que ficava perto da borda e o bibelô balançou-se. Angélica cambaleou, depois jogou os braços em volta do bibelô. Quando seus olhos pararam de lacrimejar, ela descobriu que estava abraçada a um Sr. Punch de louça, de nariz e camisola vermelhos, mais ou menos da mesma altura dela. Havia uma Judy na outra extremidade da escrivaninha.

— Não conseguimos ficar livres destas coisas! — exclamou a menina.

O tampo da escrivaninha era forrado com um macio couro vermelho, muito agradável aos pés, e sobre ele havia um enorme mata-borrão branco — caminhar sobre ele era ainda mais confortável. Uma cadeira com o assento também forrado de couro vermelho estava diante da escrivaninha, e Tonino calculou que poderiam facilmente pular para cima dela. E até mais facilmente poderiam descer pelos puxadores das gavetas. Por outro lado, o piano que a criada havia limpado estava bem ao lado da escrivaninha, e a janela redonda encontrava-se logo depois do canto da parede, que por sua vez ficava bem próximo ao piano. Assim, para alcançar a janela bastava um passo comprido a partir do piano. Embora aquela janela estivesse fechada, tratava-se de um fecho aparentemente fácil de abrir, se as crianças conseguissem chegar até ele.

— Veja! — Angélica exclamou, apontando para alguma coisa com expressão de desagrado.

Em cima do piano havia uma fila inteira de bonecos Punch e Judy. Dois eram fantoches sobre suportes, muito antigos e muito caros, a julgar pela aparência deles; outros dois eram feitos de ouro; e ainda outros dois eram figuras artísticas era argila, que davam a Punch a aparência de um homem comum, de expressão cafajeste, ao passo que Judy parecia-se constrangedoramente com a Duquesa. E a partitura que estava aberta no piano tinha o seguinte título: “Arnolfini — Suíte Punch e Judy”.

— Acho que este é o Scriptorium do Duque — disse Angélica. E os dois tiveram um ataque de riso.

Ainda rindo, Tonino passou para o teclado do piano e saiu caminhando em direção à janela. Dó-si-lá-sol-fá, fez o piano.

— Volte! — Angélica exclamou, rindo.

Tonino voltou — fá-sol-lá-si-dó — quase histérico de tanto rir.

A porta do aposento abriu-se e alguém desceu apressado os degraus. Angélica e Tonino não conseguiram pensar em coisa melhor a fazer do que ficarem parados rigidamente onde estavam, na esperança de serem tomados por bonecos Punch e Judy. E felizmente o homem que entrou estava atarefado e preocupado. Ele colocou bruscamente uma pilha de papéis sobre a escrivaninha sem sequer relancear um olhar para os dois novos bonecos e retirou-se apressado, fechando delicadamente a porta atrás de si.

— Ufa! — fez Angélica.

Os dois foram até a frente dos papéis e, curiosos, espiaram o que estava no alto da pilha. Ele dizia:

Relatório de Campanha às 8h00. Resumo: Tropas avançando em todas as frentes para repelir invasão. Artilharia Pesada e Reservistas deslocando-se fornecer apoio. A frente de Pisa relata pesadas perdas. Avistada Esquadra (de Pisa?) navegando em grande velocidade para a foz do Voltava.

— Estamos em guerra! — Tonino exclamou. — Por que será?

— Porque a Duquesa nos seqüestrou e as nossas famílias não ousam fabricar feitiços de guerra, é claro. Tonino, precisamos sair daqui. Precisamos contar a eles onde estão as palavras de “O Anjo”!

— Mas por que a Duquesa quer que Caprona seja derrotada? — Tonino insistiu.

— Não sei — Angélica admitiu. — Existe alguma coisa errada nela, isso eu sei. Tia Bella disse que houve uma confusão danada quando o Duque resolveu casar-se com ela. Ninguém gosta dela.

— Vamos ver se conseguimos abrir a janela — Tonino propôs, e tornou a partir por cima do teclado: dó-si-lá-sol-fá-mi-ré...

— Quieto! — Angélica exclamou.

Tonino descobriu que as notas não soariam se ele colocasse cada pé devagar e com muito cuidado. Estava na metade do teclado, e Angélica já tinha estendido uma perna para acompanhá-lo, quando ouviram alguém abrindo novamente a porta. Não dava tempo de ter cautela: Angélica voou de volta para a escrivaninha. Tonino, produzindo um som horrivelmente desafinado, disparou pelas notas pretas e espremeu-se atrás da partitura.

Bem a tempo. Tonino — que estava espremido com o rosto e os pés virados para um lado, como as figuras nos hieróglifos egípcios — viu o Duque de Caprona em pessoa, de pé diante da escrivaninha. Tonino achou que o Duque dava a impressão de estar ao mesmo tempo confuso e triste. Estava dando tapinhas com o Relatório de Campanha contra os dentes e parecia não ter percebido Angélica de pé entre o Punch e a Judy em cima da escrivaninha, embora Angélica pestanejasse por causa do brilho dos botões do Duque.

— Mas eu não declarei guerra! — disse o Duque para si mesmo. — Como poderia? Estava assistindo ao espetáculo de fantoches! — Ele suspirou e mordeu o relatório entre duas fileiras de dentes grandes e brilhantes. — Será que estou mesmo ficando maluco? — perguntou.

Dava a impressão de estar falando com Angélica, mas ela teve o bom senso de não responder.

— Preciso ir perguntar a Lucrezia — o Duque declarou. Então jogou o Relatório de Campanha aos pés de Angélica sobre a escrivaninha e saiu apressado do escritório.

Tonino escorregou cautelosamente pela tampa do piano para cima do teclado outra vez, tocando duas notas. Angélica agora estava de pé na extremidade do piano, e apontava para a janela. Estava muda de pavor.

Tonino olhou — e por um instante ficou tão assustado quanto Angélica. Havia um monstro marrom de olhos fixos nele do outro lado do vidro, todo desgrenhado, com um focinho largo e os olhos enormes. A coisa tinha olhos como lamparinas amarelas.

Fracamente, através do vidro, chegou um pedido levemente irritado para que ele se controlasse e abrisse a janela.

— Benvenuto! — Tonino gritou.

— Ah... é só um gato — Angélica falou com voz trêmula. — Como deve ser horrível ser rato!

— Só um gato? — Tonino repetiu em tom escandalizado. — Este é Benvenuto!

Ele tentou explicar a Benvenuto que não era fácil abrir janelas quando se tinha apenas 20 centímetros de altura. A resposta impaciente de Benvenuto foi colocar diante dos olhos mentais de Tonino o mais recente livro de exercícios de magia, aberto em uma das primeiras páginas.

— Ah, obrigado — Tonino disse, com certa vergonha. Naquela página havia três feitiços de abertura, e nenhum deles lhe ficara na lembrança. Ele escolheu o mais fácil, fechou os olhos para conseguir ler com mais clareza a página imaginária e entoou o feitiço.

Com facilidade e delicadeza a janela abriu-se inteiramente, deixando entrar uma rajada de vento frio. Benvenuto entrou junto com o vento e quase que com a mesma leveza. Enquanto o gato percorria o teclado em sua direção, Tonino teve outro instante de sensação exata de como um rato se sentia. Então esqueceu-a, na alegria de ver Benvenuto. E abriu bem os braços para esfregar Benvenuto atrás das orelhas cheias de cicatrizes.

Benvenuto encostou o focinho preto e pegajoso no rosto de Tonino e os dois ali ficaram, deliciados, pressionando as teclas de um longo acorde dissonante no piano.

Benvenuto disse que Paolo não era suficientemente esperto e que ele não conseguira fazer com que o menino compreendesse onde Tonino estava. Tonino precisava mandar uma mensagem para Paolo. Com aquele tamanho, será que ele conseguiria escrever?

— Há uma caneta ali na escrivaninha — disse Angélica de longe.

E Tonino lembrou-se de que ela havia dito que conseguia compreender os gatos. Benvenuto, com certa ansiedade, quis saber se Tonino se importava se ele conversasse com uma Petrocchi.

Por um instante aquela pergunta deixou Tonino atônito: o menino se esquecera inteiramente de que ele e Angélica deveriam se odiar. Aquilo lhe parecia uma grande perda de tempo, estando ambos naquela enrascada.

— Nem um pouco — respondeu.

— Desçam deste piano, vocês dois — Angélica pediu. — Este som é horrível.

Benvenuto obedeceu, com um salto longo e gracioso. Tonino desceu com esforço atrás dele, prendendo os cotovelos acima da tampa do piano e empurrando-se para a frente de encontro às notas pretas. Quando ele conseguiu chegar à escrivaninha, Benvenuto e Angélica já haviam se apresentado formalmente um ao outro, e Benvenuto aconselhava-os a não tentar sair pela janela: aquela sala ficava num terceiro andar. Os ornamentos de pedra estavam se desfazendo, e até mesmo um gato teria alguma dificuldade em se equilibrar. Se eles esperassem, Benvenuto traria socorro.

— Mas a Duquesa... — Tonino começou a protestar.

— É o Duque — Angélica acrescentou. — Este aqui é o escritório do Duque.

Benvenuto declarou que considerava o Duque inofensivo por si só. Na sua opinião, eles estavam no lugar mais seguro do Palácio. Deviam permanecer escondidos e escrever um bilhete suficientemente pequeno para ele carregar na boca.

— Não seria melhor se prendêssemos o bilhete em volta do seu pescoço? — Angélica perguntou.

Benvenuto objetou que jamais admitira alguma coisa era volta do pescoço, e não ia começar agora. De qualquer maneira, alguém no Palácio poderia ver a mensagem.

Então Tonino colocou um pé sobre o Relatório de Campanha e conseguiu, puxando com as duas mãos, rasgar um canto da folha. Angélica passou-lhe a caneta enorme, que ele precisou segurar com as duas mãos, com a ponta descansando sobre o seu ombro. Ela então ficou de pé sobre o papel, para mantê-lo preso enquanto Tonino movimentava a caneta. Foi um trabalho tão difícil que ele fez a mensagem mais curta possível: “No Palácio do Duque. Duquesa feiticeira. T. M. e A. P.?”.

— Conte-lhes sobre a letra de “O Anjo”, só para prevenir — Angélica sugeriu.

Tonino virou o papel e escreveu “Letra de “O Anjo” no Anjo acima do portão. T. e A.”. Então, exausto de tanto movimentar a caneta para cima e para baixo, ele dobrou o pedaço de papel com a última mensagem para dentro e a primeira para fora, e pisou nela para achatá-la. Benvenuto abriu a boca e Angélica fez uma careta ao ver aquela caverna cor-de-rosa com seu teto arqueado e enrugado e suas fileiras de dentes brancos. Tonino colocou a mensagem em cima da língua áspera de Benvenuto. O gato lançou a Tonino um olhar carinhoso e afastou-se num salto. Fez soar uma última nota no teclado do piano, pousou rapidamente na borda da janela e então desapareceu de vista.

Tonino e Angélica ficaram olhando naquela direção e não perceberam, até que fosse tarde demais, que o Duque havia retornado.

— Engraçado, temos um novo Punch, e também uma nova Judy — disse este.

Tonino e Angélica ficaram duros como postes, um de cada lado do mata-borrão, em poses agoniantemente desconfortáveis. Felizmente o Duque percebeu a janela aberta.

— Benditas criadas com sua mania de ar fresco! — resmungou, e foi fechá-la.

Tonino aproveitou a oportunidade para apoiar-se nos dois pés, e Angélica para desentortar o pescoço. Então ambos deram um pulo — de algum lugar abaixo deles veio o som inconfundível de um disparo de arma de fogo. E mais um. O Duque debruçou-se para fora da janela e, ao que parecia, ficou contemplando alguma coisa.

— Pobre bichano — disse. Parecia triste e resignado. — Por que não ficou longe, bichano? Ela detesta gatos. E fazem tanta algazarra atirando neles...

Outro tiro soou, e depois vários mais. O Duque endireitou-se, sacudindo tristemente a cabeça.

— Ora, ora — disse, enquanto fechava a janela. — Afinal, eles devoram os passarinhos...

Voltou a atravessar o escritório. Tonino e Angélica não conseguiriam mover-se, mesmo que quisessem. Estavam ambos perturbados demais.

O rosto do Duque encolheu-se em rugas brilhosas; ele havia notado o papel do Relatório rasgado no canto.

— E agora dei para comer papel! — exclamou. Voltou o rosto triste e perplexo para Tonino e Angélica. — Acho que esqueço mesmo as coisas — continuou. — E falo sozinho. Isto é um mau sinal. Mas realmente não me lembro de vocês dois. Pelo menos, eu me lembro de uma nova Judy. — Voltou-se para Tonino. — Mas não me lembro de você. Como foi que chegou aqui?

Tonino estava preocupado demais com Benvenuto para pensar com clareza. Afinal de contas, o Duque estava falando com ele.

— Por favor, senhor, posso explicar... — começou.

— Cale a boca! — exclamou Angélica em tom ríspido. — Senão vou cantar um feitiço!

— Mas por favor me diga se atiraram no meu gato — Tonino continuou.

— Acho que sim — disse o Duque. — Parece que ele foi atingido.

No mesmo momento ele inspirou profundamente e ergueu os olhos com cautela para o teto, antes de tornar a olhar para Tonino e Angélica. Nenhum dos dois moveu-se. Angélica olhava com raiva para Tonino, com promessas de feitiços inimagináveis se ele pronunciasse outra palavra. De qualquer maneira, Tonino já sabia que havia sido um perfeito idiota. Benvenuto estava morto e não havia sentido em mover-se — não havia sentido em coisa alguma.

O Duque, enquanto isso, puxava lentamente um lenço do bolso. Um charuto ligeiramente amassado saiu junto com o lenço e caiu em cima da escrivaninha. O Duque pegou-o e colocou-o distraidamente entre os dentes brilhantes. Então teve que tornar a retirá-lo para enxugar o rosto luzidio.

— Vocês dois falaram — disse, guardando o lenço e pegando um isqueiro de ouro. — Sabem disso? — perguntou, tornando a colocar o charuto na boca. Lançou um olhar furtivo ao seu redor, acionou o isqueiro e acendeu o charuto. — Vocês estão olhando para um coitado de um Duque caduco — continuou.

De sua boca saía fumaça junto com as palavras, como se o Duque fosse um dragão.

Angélica espirrou. Tonino achou que ia espirrar também; respirou bem fundo, para conter-se, e teve um acesso de tosse.

— Ah! Peguei vocês! — exclamou o Duque.

Estendeu rapidamente as mãos grandes e úmidas e agarrou cada um deles em volta das pernas. Segurando-os assim, firmemente presos ao mata-borrão, ele sentou-se na cadeira e inclinou o rosto triunfante e brilhoso até ficar no mesmo nível deles. O charuto, pendurado a um lado da boca, continuava a lançar fumaça sobre eles. As duas crianças puseram-se a sacudir os braços, tentando equilibrar-se, e a tossir sem parar.

— Agora digam: o que são vocês? — o Duque perguntou. — Outro dos diabólicos truques dela tentando me fazer pensar que estou maluco? É isto?

— Não somos, não! — Tonino tossiu.

— Ah, por favor, pare de soltar esta fumaça — Angélica tossiu ao mesmo tempo.

O Duque riu.

— A velha tortura chinesa do charuto, com a garantia de dar vida a estátuas! — disse, em tom alegre.

Mas sua mão direita moveu Tonino, tropeçando e oscilando, por cima do mata-borrão, até Angélica, onde com a mão esquerda agarrou-o junto com ela. Com a mão direita ele tirou o charuto da boca e pousou-o na borda da escrivaninha.

— Pronto. Agora vamos dar uma olhada em vocês.

Os dois esfregaram os olhos cheios de lágrimas e olharam, temerosos, para o enorme rosto sorridente. Era impossível ver todo ele de uma só vez. Angélica escolheu o olho esquerdo do Duque, e Tonino ficou com o direito. Ambos os olhos estavam arregalados para eles, redondos e inocentes, como os do Velho Niccolo.

— Ora, vejam! — o Duque exclamou. — Vocês são os filhos dos feiticeiros, que deveriam ter vindo à minha pantomima! Por que não vieram?

— Nunca recebemos um convite, Vossa Graça — Angélica respondeu. — Você recebeu? — ela perguntou a Tonino.

— Não — respondeu este em tom melancólico.

O rosto do Duque tomou uma expressão de desânimo.

— Então é isso. Acontece que eu mesmo escrevi os convites. Esta é a minha vida: nenhuma das ordens que eu dou é cumprida, e muitas coisas que jamais ordenei acontecem. — Ele abriu lentamente a mão. Os dedos grandes e quentes deixaram úmidas as pernas dos meninos. — Contorcendo-se desse jeito, vocês fazem cócegas nas minhas mãos — disse. — Pronto, se eu deixar vocês soltos, vão me contar como chegaram até aqui?

Eles então contaram-lhe tudo, com uma ou duas pausas forçadas quando ele dava uma tragada no charuto e os fazia tossir novamente. O Duque escutou Pensativamente. Não era como explicar alguma coisa a um Duque adulto: Tonino tinha a sensação de estar contando aos seus priminhos pequenos uma história inventada. Pelo modo como os olhos do Duque se arregalavam, e o modo como ele ficava dizendo: “Continuem!”, Tonino tinha certeza de que o Duque não estava acreditando mais do que os pequenos Montana acreditavam na história de Joãozinho e o pé de feijão.

No entanto, quando eles terminaram o Duque disse:

— Aquela apresentação de Punch e Judy começou às 8h30 e foi até as 9h15. Eu sei, porque havia um relógio acima de vocês. Dizem que declarei guerra ontem à noite às 9 horas. Algum de vocês me viu declarando guerra?

— Não! — disseram os dois. Angélica acrescentou, em tom raivoso:

— Eu estava sendo morta a pancadas naquele momento, e posso não ter percebido.

— Lamento muito — disse o Duque. — E algum de vocês escutou tiros? Não? Mas o tiroteio começou por volta das 11 horas e durou a noite inteira. Ainda estão atirando. Dá para ver, mas não para escutar, da torre que fica acima deste escritório. O que significa outro maldito feitiço, eu imagino. Acho que pretendem que eu fique sentado aqui sem perceber que Caprona está sendo feita em ruínas ao meu redor.

Ele descansou o queixo nas mãos e ficou olhando para os dois com expressão infeliz.

— Sei que sou bobo, mas só porque adoro peças e teatros de fantoches não quer dizer que sou um idiota — disse. — A questão é a seguinte: como é que vamos tirar vocês dois daqui sem que Lucrezia perceba?

Para Tonino e Angélica a surpresa e a gratidão foram quase que grandes demais para que eles conseguissem dizer alguma coisa. E enquanto ainda estavam tentando formular um agradecimento o Duque ficou de pé num salto, os olhos ainda mais arregalados.

— Ela está vindo aí! Eu tenho um instinto para isso. Depressa! Entrem nos meus bolsos!

Ele virou-se de lado para a escrivaninha e, com dois dedos, esticou um dos bolsos do casaco bem rente ao tampo. Angélica depressa ergueu a aba sobre o bolso e deslizou para dentro dele entre as duas camadas de tecido. O Duque apagou o charuto na borda da escrivaninha e jogou-o dentro do bolso também. Depois fez meia-volta e abriu o outro bolso para Tonino. Agachado dentro do bolso escuro e cheio de fiapos de pano, o menino escutou a porta abrir-se e a voz da Duquesa.

— Meu senhor, andou fumando charutos aqui outra vez?

 

Naquela manhã, Paolo acordou com a certeza de que ele próprio teria que procurar Tonino. Se seu pai, e Rinaldo, e depois Rosa e Marco, todos eles, haviam se recusado a tentar, então não adiantaria pedir a qualquer outra pessoa.

Ele sentou-se e deu-se conta de que a casa estava cheia de ruídos incomuns. Lá embaixo, no pátio, o portão estava aberto. Ele conseguia distinguir as vozes de Elizabeth, Tia Anna, Tia Maria e a prima Claudia, que estavam chegando com o pão diário.

— Olhem só para o Anjo! Ora, quem foi que fez isto? — ele escutou sua mãe dizer.

— É porque paramos com os nossos feitiços — disse a prima Claudia.

Depois disso veio uma solitária nota musical, da Tia Anna, que foi interrompida por um guincho de Tia Maria.

— Nada de feitiços, Anna! Pense em Tonino! — ela disse, cora raiva.

Aquilo era intrigante, mas o que realmente interessava a Paolo eram os ruídos por trás das vozes: passadas em marcha, ordens dadas aos gritos, um tambor batendo, passos de cavalos, alguns ruídos baixos e vários palavrões. Paolo saltou para fora da cama. Devia ser o exército!

— São centenas — ele ouviu Tia Anna dizer.

— A maioria mais jovem do que o meu Domenico — Tia Maria comentou. — Claudia, pegue esta cesta enquanto fecho o portão. Todos indo enfrentar três exércitos, sem contarem com um único feitiço de guerra... Dá vontade de chorar!

Paolo disparou ao longo da varanda, enfiando seu casaco, e desceu correndo os degraus para o pátio à luz fria e amarela do sol. Mas chegou tarde demais; o portão estava trancado e os ruídos de guerra ficaram do lado de fora. As mulheres vinham atravessando o pátio com suas cestas.

— Aonde pensa que vai? — Elizabeth perguntou a ele. — Ninguém vai sair de casa hoje. Vai haver combate. As escolas estão todas fechadas.

Elas pousaram as cestas no chão para abrirem a porta da cozinha. Paolo viu que elas recuavam, com exclamações de consternação.

— Santo Deus! — disse Elizabeth.

— Ninguém vai contar a Gina! — disse Tia Maria.

No mesmo instante alguém bateu com força no portão.

— Vá ver quem é, Paolo — chamou Tia Anna.

Paolo passou sob o arco e abriu a portinhola para espiar. Estava contente com aquela oportunidade de ver o exército, e contente também porque as escolas estavam fechadas. De qualquer maneira, não tinha mesmo a intenção de ir à escola naquele dia.

Do lado de fora havia um homem fardado, que gritou:

— Abram e recebam isto em nome do Duque!

Por trás do homem, Paolo viu de relance botas lustrosas em marcha, e mais fardas. Ele destrancou o portão.

Enquanto isto, ficou evidente que não conseguiriam manter Tia Gina longe da cozinha. Ela desceu as escadas batendo os pés. Houve uma pausa, e então a casa inteira encheu-se com a voz dela:

— Ah, meu Deus! Santa Mãe de Deus! Insetos!

A voz de Tia Gina abafou até o barulho da banda militar que passava marchando quando Paolo abriu o portão.

O homem do lado de fora jogou uma folha de papel em cima de Paolo e saiu correndo para bater na porta seguinte. Paolo olhou para a folha. Tinha uma esperança louca de que houvessem acabado de lhe entregar a letra de “O Anjo”. E continuou com os olhos fixos no papel, alheio tanto a Tia Gina — que agora anunciava aos gritos o que iria fazer com Lucia — quanto ao enorme canhão que passava ruidosamente, puxado com esforço por quatro cavalos.

Ele leu:

Estado de Caprona, Formulário FR3. Convocação dos Reservistas Voluntários. As seguintes pessoas devem apresentar-se no Arsenal às 3h00 de 14 de janeiro de 1979 para entrar em ação imediatamente: Antonio Montana, Lorenzo Montana, Piero Montana, Ricardo Montana, Arturo Montana (nascido Notti), Cario Montana, Luigi Montana, Angelo Montana, Luca Montana, Giovanni Montana, Piero Lacopo Montana, Rinaldo Montana, Domenico Montana, Francesco Montana.

Aquilo significava todos os homens da família! Paolo não havia se dado conta de que seu pai também era um Reservista Voluntário.

— Feche o portão, Paolo! — guinchou Tia Maria.

Paolo fez menção de obedecer mas lembrou-se de que ainda não tinha olhado para o Anjo. Deu alguns passos para fora e ergueu os olhos, enquanto a metade de um regimento de infantaria passava marchando por trás dele. Parecia que durante a noite todos os pombos de Caprona haviam escolhido empoleirar-se naquela estátua dourada: o Anjo estava coberto de excremento de pombos. E, naturalmente, a camada era mais espessa no braço horizontal que segurava o pergaminho, e este era uma massa branca e empelotada. Paolo estremeceu: aquilo parecia um augúrio. Ele não percebeu quando um dos soldados em marcha destacou-se da coluna e aproximou-se dele pelas costas.

— Se eu fosse você, fecharia o portão — disse Crestomanci. Paolo ergueu os olhos para ele, perguntando-se por que as pessoas ficavam com uma aparência tão diferente quando estavam fardadas. Mas logo voltou à realidade e apressou-se a puxar as duas folhas do portão, fechando-o. Crestomanci ajudou-o a colocar as grandes barras de ferro que o trancavam. Enquanto fazia isso, disse:

— Estive na casa dos Petrocchi ao amanhecer, de modo que não há grande necessidade de explicações. Mas gostaria de saber qual é o problema na cozinha desta vez.

Paolo olhou naquela direção. Oito cestas contendo altas pilhas de pães encontravam-se no chão, do lado de fora da cozinha. De dentro da cozinha vinha um burburinho agitado, e um curioso zumbido.

— Acho que é o feitiço de Lucia novamente — disse.

Ele e Crestomanci atravessaram o pátio. Antes, porém, que conseguissem dar três passos, as tias irromperam da cozinha e correram na direção deles. Antonio e os tios vieram em disparada pela varanda, e de toda parte surgiam primos.

Tia Francesca surgiu do Salão. Ela passara a noite inteira lá, e a sua aparência mostrava isso. Crestomanci logo se encontrou no centro de uma multidão, falando com várias pessoas ao mesmo tempo.

— Você fez muito bem em me chamar — ele disse a Rosa. Em seguida, recomendou a Tia Francesca: — O Velho Niccolo ainda vai durar muitos anos, mas a senhora precisa descansar. — Para Elizabeth e Antonio ele anunciou: — Já soube de Tonino. — E, para Rinaldo: — Esta é a minha quarta farda hoje. Está havendo um combate feroz nas colinas e eu precisava atravessar de alguma forma.

Ele voltou-se para os tios e perguntou:

— O que foi que deu no Duque, para declarar guerra tão apressadamente? Eu poderia ter conseguido ajuda de Roma, se ele tivesse esperado.

Nenhum deles sabia a resposta, e todos disseram isto ao mesmo tempo.

— Eu sei, eu sei — disse Crestomanci. — Nenhum feitiço de guerra. Acho que o nosso inimigo mago cometeu um erro com Tonino e Angélica. Isto, se não ajuda de outra forma, pelo menos me dá liberdade para me intrometer. — Então, como o tumulto não dava sinais de diminuir, ele continuou: — Por falar nisso, os Reservistas Voluntários foram convocados.

Fez um gesto para que Paolo entregasse o papel a Antonio.

No silêncio consternado que esta declaração produziu, Crestomanci abriu caminho até a porta da cozinha e enfiou a cabeça para dentro.

— Não é possível! — Paolo ouviu-o murmurar.

Paolo agachou-se e, engatinhando, atravessou o grupo que rodeava Antonio e espiou para dentro da cozinha por debaixo do cotovelo de Crestomanci. Deparou com uma muralha de insetos. O aposento estava negro de insetos que cintilavam e rastejavam, e a atmosfera era densa com diferentes zumbidos. Moscas de todos os tipos, mosquitos, vespas e pernilongos enchiam o ar; besouros, formigas, traças e centenas de outros animais rastejantes ocupavam o piso, as prateleiras e a pia.

Espiando por entre as nuvens que zumbiam, Paolo teve quase certeza de ter visto um enxame de gafanhotos sobre o fogão. Aquilo era pior até do que a cozinha que ele, quando pequeno, imaginava que os Petrocchi teriam.

Crestomanci respirou profundamente. Paolo suspeitou que ele estava tentando não dar uma risada. Os dois olharam em volta, procurando por Lucia, que estava parada num só pé entre as cestas de pão, pronta para sair correndo.

— Tenho certeza de... — começou a dizer Crestomanci, que estava realmente tentando não rir, mas teve que recomeçar. — Tenho certeza de que já falaram com você a respeito de usar feitiços de maneira errada. Mas, só por curiosidade, o que foi que você usou?

— Ela usou uma letra dela mesma para a melodia de “O Anjo de Caprona”! — informou Tia Maria, irrompendo, irada, do grupo de pessoas. — Gina está quase louca!

— Todas as crianças participaram. Não fui eu sozinha — Lucia retrucou em tom de desafio.

Crestomanci olhou para Paolo e o menino assentiu. Crestomanci comentou:

— Um tributo considerável aos poderes dos jovens Montana. Ele voltou-se e estalou os dedos para dentro da cozinha cheia de insetos a zumbir e a rastejar. Não aconteceu grande coisa: o ar limpou-se o suficiente para Paolo verificar que eram realmente gafanhotos sobre o fogão, mas isso foi tudo. Crestomanci ergueu ligeiramente as sobrancelhas. E tentou novamente. Dessa vez, nada aconteceu mesmo. Ele afastou-se um pouco do zumbido, parecendo pensativo.

— Com todo o respeito a “O Anjo de Caprona”, a canção não deveria ser assim tão poderosa por si só — declarou a Paolo e Lucia. — Infelizmente acredito que teremos de esperar este feitiço gastar-se com o tempo. — E, voltando-se para Tia Maria, ele acrescentou: — Não é de se espantar que o mago inimigo tenha tanto medo da Casa Montana. Será que isto significa que não haverá café da manhã?

— Não, não. Vamos prepará-lo na sala de jantar — disse Tia Maria, parecendo bastante aflita.

— Ótimo! — Crestomanci exclamou. — Há uma coisa que preciso dizer a todos, quando todos estiverem lá.

E quanto todos haviam se reunido em volta das mesas para comer pão puro e beber café preto feito na lareira da sala de jantar, Crestomanci parou diante da lareira, segurando uma xícara de café, e começou:

— Sei que poucos entre vocês acreditam que Tonino não esteja na casa dos Petrocchi, mas juro a vocês que ele não se encontra lá, e que Angélica Petrocchi também está desaparecida. Acho que vocês estão certíssimos em parar de fazer feitiços até que eles sejam encontrados, mas quero dizer o seguinte: mesmo se eu encontrasse Tonino e Angélica neste minuto, todos os feitiços da Casa Montana e da Casa Petrocchi juntos não iriam salvar Caprona agora. Existem três exércitos, e a esquadra de Pisa está se aproximando da cidade. A única coisa que poderá ajudar vocês agora é a verdadeira letra de “O Anjo de Caprona”. Todos vocês compreenderam isto?

Todos haviam compreendido. O silêncio era geral. Durante algum tempo ninguém abriu a boca. Então Tio Lorenzo começou a resmungar que havia traças dentro da sua farda de Reservista.

— Alguém retirou o feitiço da minha farda. Não posso ser visto assim — reclamou.

— Faz alguma diferença? — Rinaldo perguntou. Tinha o rosto muito branco e não ingeriu coisa alguma além de café. — De qualquer maneira, só vai ser visto morto!

— Mas é justamente isto! Não quero ser visto assim, nem morto! — retrucou Tio Lorenzo.

— Ah, fique quieto — ordenou-lhe Domenico.

Tio Lorenzo ficou tão surpreso que parou de resmungar. O café da manhã terminou em meio a murmúrios pessimistas.

Paolo levantou-se e deslizou atrás do banco onde Crestomanci estava sentado.

— Com licença, senhor. Sabe onde Tonino está?

— Gostaria muito de saber — Crestomanci declarou. — Este mago é muito eficiente. Até agora, tenho apenas duas pistas. Ontem à noite, quando eu estava vindo para cá através de Siena, alguém fez funcionar dois feitiços muito estranhos em algum lugar à minha frente.

— Tonino? — Paolo perguntou ansiosamente. Crestomanci sacudiu a cabeça.

— O primeiro foi definitivamente de Angélica. Ela tem o que se pode chamar de um estilo individual. Mas o segundo me deixou confuso. Acha que seu irmão é capaz de fazer funcionar alguma coisa suficientemente forte para transpor os feitiços de um mago? Angélica conseguiu isso por causa da estranheza do seu feitiço. Acha que Tonino teria conseguido do mesmo modo?

— Acho que não... — disse Paolo. — Ele não conhece muitos feitiços, mas sempre os acerta e eles funcionam da maneira correta...

— Então o mistério continua — disse Crestomanci. Ele suspirou, e Paolo achou-o com aparência cansada.

— Obrigado — disse, e afastou-se, tomando o cuidado de só ter pensamentos inocentes sobre o que faria enquanto a escola estava fechada, já que não queria que alguém percebesse o que pretendia fazer.

Ele esgueirou-se através da cocheira, passando pelos cavalos e pelo cocheiro desmilingüidos, e depois pela carruagem, e abriu a pequena porta nos fundos, que dava para a rua. Estava atravessando a porta quando Rosa perguntou, em tom desconfiado, junto à porta da cocheira que dava para o pátio:

— Paolo, você está aí dentro?

Paolo pensou: não estou, não. E fechou a portinha atrás de si com o maior cuidado. Então saiu correndo.

A essa altura, quase não havia soldados nas ruas, e tampouco outras pessoas. Paolo passou correndo pelas casas amarelas, firmemente fechadas, em meio a um silêncio quebrado pelo dobrar aflito dos sinos. De vez em quando ele julgava ouvir um ruído baixo e distante. Onde quer que as casas permitiam que Paolo avistasse as colinas ele via soldados — não como soldados, mas como fileiras que rastejavam e faiscavam, subindo a encosta num curso serpenteante — e algumas nuvenzinhas de fumaça. Constatou que Crestomanci estava certo: o combate estava bem próximo dali.

Ele era a única pessoa na Via Cantello. A casa dos Petrocchi estava tão fechada quanto a casa dos Montana. E o seu Anjo também estava coberto de fezes de pássaros, já que, como os Montana, eles haviam parado de fazer feitiços. Para Paolo, aquilo mostrava que Crestomanci tinha razão também sobre Angélica. Sentiu-se bastante encorajado por esse fato enquanto batia com força no velho portão.

Não houve qualquer som vindo de dentro, mas, depois de um ou dois segundos, um gato branco saltou para o alto do portão e agachou-se no espaço sob o arco, olhando para baixo cora olhos ainda mais azuis do que os de Paolo.

Aqueles olhos lembraram Paolo de que os seus próprios olhos provavelmente o denunciariam. Achava que não ousaria disfarçá-los com um feitiço, pois os Petrocchi poderiam perceber. De modo que engoliu em seco, disse a si mesmo que tinha que encontrar a única pessoa que poderia ajudá-lo a procurar por Tonino e falou com o gato:

— Renata. Posso falar com Renata?

O gato branco continuou a encará-lo; talvez tenha feito algum comentário. Então saltou novamente para dentro da casa, deixando Paolo com uma sensação incômoda de que o gato sabia quem ele era. Mas ficou esperando. Quando estava quase decidido a ir-se embora de vez, a portinhola foi aberta. Para seu alívio, foi o rosto pontudo de Renata que olhou para ele através das barras.

— Ora! Agora entendo por que Vittoria me chamou. Que alívio, você ter vindo! — ela disse.

— Venha me ajudar a procurar Tonino e Angélica — Paolo pediu. — Ninguém me dá ouvidos.

— Hum. — Renata enfiou a ponta de um cacho de cabelos dentro da boca e mordeu-a. — Estamos proibidos de sair. Pense numa boa desculpa.

— A nossa professora está doente e assustada com a guerra e quer que a gente fique com ela — Paolo sugeriu.

— Pode ser que sirva — disse Renata. — Entre, enquanto eu peço permissão.

Paolo escutou o portão sendo destrancado.

— O nome dela é Sra. Grimaldi — Renata cochichou, mantendo o portão aberto para ele entrar. — Mora na Via Sant’Angelo e é muito feia, caso perguntem. Entre.

Para seu considerável espanto, Paolo viu-se entrando na casa dos Petrocchi; ficou ainda mais espantado por não se sentir particularmente assustado. Sentia-se como se estivesse prestes a fazer uma prova na escola: apreensivo, e sabendo que teria que ir até o fim, porém só isso.

Ele viu um pátio e uma varanda tão parecido5 com os da sua própria casa que quase poderia ter acreditado que voltara para lá por meios mágicos. Havia diferenças, naturalmente: a grade da varanda era de ferro fundido, com leopardos de ferro a intervalos, e os gatos que se sentavam tomando sol sobre os barris de água eram, na maioria, castanhos ou malhados — ao passo que na Casa Montana Benvenuto havia deixado a sua marca, e os gatos eram pretos ou preto-e-branco. E da cozinha vinha um penetrante aroma de cebolas fritas; Paolo não sentia aquele cheiro desde que Lucia fizera aquele feitiço infeliz.

— Mamãe! — Renata berrou.

Mas a primeira pessoa que apareceu foi Marco. Ele vinha descendo a galope os degraus da varanda, trazendo um par de lustrosas botas de cano longo em uma das mãos e sobre o braço uma farda vermelha amarrotada.

— Mamãe! — Marco gritou, no tom descuidado em que as pessoas sempre gritam pelas mães. — Mamãe! A minha farda está cheia de traças! Quem foi que retirou o feitiço dela?

— Seu burro! Ontem à noite desmanchamos todos os feitiços! — disse-lhe Renata. E, para Paolo, ela informou: — Este é o meu irmão Marco.

Marco virou-se para Renata, indignado.

— Mas as traças levam meses para...

Então ele viu Paolo. Era difícil dizer qual dos dois ficou mais perturbado.

Nesse momento, uma dama ruiva, de expressão preocupada, atravessou o pátio carregando um bebê. A criança tinha cabelos escuros e a mesma testa proeminente de Angélica.

— Não sei, Marco. Peça a Rosa para remendar — disse ela.

— Que é que você quer, Renata?

Marco interrompeu-a.

— Rosa está com a irmã dela — disse, marcando bem as palavras e olhando fixamente para Paolo. — Quem é o seu amigo, Renata?

Paolo não conseguiu resistir.

— Meu nome é Paolo Andretti — disse, maliciosamente.

Marco recompensou-o com um olhar que o desafiava a dizer mais alguma palavra. Mas Renata ficou aliviada, já que agora sabia como chamar Paolo.

— Paolo quer que eu vá ajudar a cuidar da Sra. Grimaldi. Ela está de cama, mamãe.

Pelo modo como Marco primeiro arregalou os olhos e depois os apertou até se transformarem em frestas, Paolo percebeu que aquilo o deixara extremamente alarmado e decidido a impedir que Renata saísse. Mas Paolo não via como Marco poderia fazer alguma coisa, pois ele não poderia confessar que sabia quem Paolo era, sem denunciar a si próprio e também Rosa. Aquilo lhe deu vontade de rir.

— Ah, coitada da Sra. Grimaldi! — exclamou a Sra. Petrocchi.

— Mas, Renata, acho que...

— Será que a Sra. Grimaldi não percebe que estamos em guerra? — Marco perguntou. — Foi Paolo quem lhe disse que ela está doente?

— Fui eu, sim — o menino confirmou. — Minha mãe é muito amiga da Sra. Grimaldi, sente pena por ela ser tão feia.

— E é claro que ela sabe da guerra — Renata interveio. — Eu vivo contando a você, Marco, que ela mergulha embaixo da escrivaninha quando ouve um estouro. Ela tem pavor de armas.

— E tudo isso tem sido demais para ela, diz mamãe — Paolo acrescentou criativamente.

Marco tentou outro caminho:

— Mas por que a Sra. Grimaldi quer você, Renata? Desde quando você é a queridinha da professora?

Renata, que obviamente era tão rápida quanto Paolo, explicou:

— Ah, mas eu não sou. Ela só quer que eu a distraia com uns feitiços...

Ouvindo isto, a Sra. Petrocchi e Marco disseram ao mesmo tempo:

— Você não pode fazer feitiços! Angélica...

— ...mas é claro que não vou fazer isto — Renata continuou sem se interromper. — Vou só cantar algumas canções. Ela gosta que eu cante. E Paolo vai ler a Bíblia para ela. Diga que podemos ir, mamãe. Ela está de cama, e sozinha...

— Bom... — começou a Sra. Petrocchi.

— As ruas não são seguras — Marco objetou.

— Não havia ninguém por aí — disse Paolo, lançando a Marco um olhar que lhe dizia para tomar cuidado, pois duas pessoas podiam jogar o mesmo jogo.

— Mamãe, você vai ou não vai remendar a farda de Marco? — Renata perguntou.

— Vou, sim, claro que sim — respondeu a Sra. Petrocchi. Renata imediatamente tomou isso como uma permissão para ir com Paolo.

— Vamos, Paolo — disse.

E saiu correndo, passando sob o nariz de Marco, na direção do que obviamente era a cocheira. Paolo disparou atrás dela.

Marco, no entanto, não se considerava derrotado. Antes que Renata colocasse a mão na maçaneta da grande porta, um homem, obviamente um dos tios, debruçou-se sobre a amurada da varanda.

— Renata! Seja uma boa menina e procure o meu tabaco. Uma mulher que era obviamente uma tia veio correndo da cozinha. Ela se parecia com Tia Gina, com cabelos vermelhos, e gritou de maneira igual a ela:

— Renata! Você pegou a minha faca boa?

Dois jovens primos apareceram em outra porta.

— Renata, você disse que íamos nos fantasiar!

E a Sra. Petrocchi, parecendo ansiosa e indecisa, estendia o bebê e dizia:

— Renata, você vai ter de tomar conta de Roberto enquanto eu estiver costurando.

— Não posso parar agora! — Renata gritou de volta. — A coitada da Sra. Grimaldi! — Ela abriu com força a grande porta e empurrou Paolo para dentro. — Que é que está acontecendo? — sussurrou.

Para Paolo, o que estava acontecendo era óbvio. Na casa dos Montana era igualzinho. Marco havia irradiado — não um alarme, porque não ousava chegar a tanto, mas uma espécie de inquietação generalizada a respeito de Renata.

— Marco está tentando nos segurar — ele explicou.

— Disso eu sei — respondeu Renata, passando com ele pela elegante carruagem dos Petrocchi e — para grande interesse de Paolo — por quatro cavalos de papelão tão deformados e sujos de lama quanto os da Casa Montana. — Por que ele está fazendo isso? Como é que ele sabe?

Atrás deles ouvia-se um grande clamor de vozes de vários Petrocchi, todos querendo Renata.

— Ele sabe, e pronto — Paolo respondeu. — Ande depressa! A portinha para a rua tinha uma chave grande e dura. Renata segurou-a com as duas mãos e esforçou-se para girá-la.

— Ele conhece você? — perguntou, espertamente. Como uma resposta a voz de Marco soou por trás da carruagem:

— Renata! — E então, em tom bem mais baixo: — Paolo, Paolo Montana, venha cá!

Renata conseguiu abrir a porta.

— Corra, se quiser mesmo ir! — Paolo comandou.

Os dois saíram para a rua e puseram-se a correr. Marco assomou à porta e gritou alguma coisa, mas não parecia querer persegui-los. Mesmo assim Paolo continuou a correr, o que forçou Renata a correr também. Ele não estava com vontade de conversar, já que precisava absorver o choque de ter visto Marco. Então Marco Andretti era, na realidade, Marco Petrocchi — devia ser o filho mais velho de Guido! Rosa Montana e Marco Petrocchi! Paolo perguntava-se sem parar: como eles haviam feito isso? Como haviam conseguido fazer tal coisa? E, mais seriamente, ele se perguntava: como conseguiriam se sair bem?

— Está bem. Já chega — ofegou Renata.

A essa altura eles haviam atravessado o Corso e estavam na margem do rio, trotando ao longo das docas desertas em direção à Ponte Nova. Renata diminuiu o passo e Paolo fez o mesmo, bastante sem fôlego.

— Agora me diga como foi que Marco reconheceu você, senão não darei mais nem um passo — ela declarou.

Paolo olhou para ela cautelosamente. Já havia descoberto que Renata era, como Tia Gina diria, tão afiada que ia acabar se cortando, e ele não estava gostando do modo como ela o olhava.

— Ele me viu no Palácio, é claro — disse.

— Não viu, não — Renata retrucou. — Era ele quem estava dirigindo a carruagem. Ele sabe o seu nome e sabe por que você me chamou, não sabe? Como?

— Acho que ele devia estar parado atrás de nós na escada da Galeria de Arte, e nós não percebemos por causa da neblina — disse Paolo.

Os olhos sagazes de Renata continuaram a encará-lo com aquele olhar que não agradava a Paolo.

— Boa tentativa — ela disse.

Paolo tentou quebrar aquele olhar dando meia-volta e saindo a caminhar ao longo dos embarcadouros. Renata seguiu-o, dizendo:

— E eu devia ficar toda envergonhada e não perguntar mais nada. Você é tão afiado que vai acabar se cortando, Sr. Montana. Mas que pena. Marco não estava no combate. Sei disso porque ele foi o escolhido para o duelo mas não estava lá, de modo que precisaram escolher o meu pai. E já percebi que você não quer que eu saiba como foi que Marco reconheceu você. E já percebi que Marco também não quer, senão teria tentado me segurar dizendo quem você é. Então...

— É você quem vai acabar se cortando por ser afiada demais — Paolo declarou por cima do ombro. — Não sei como Marco me reconheceu, mas ele estava sendo bondoso, não revelando...

Ele calou-se e pôs-se a farejar. Estava na frente de um beco, onde uma casa de pintura azul descascada estendia-se até um cais. Paolo sentiu o ar em volta do beco com um sentido que ele mal sabia que possuía, herdado de gerações de feiticeiros. Alguém havia colocado um feitiço ali, um feitiço poderoso — e não fazia muito tempo.

Renata aproximou-se por trás dele.

— Você não vai conseguir se livrar... — Ela também se calou. — Alguém colocou um feitiço aqui! — exclamou.

— Foi Angélica? Você consegue saber? — Paolo perguntou.

— Por quê?

Paolo contou-lhe o que Crestomanci havia dito. O rosto dela ficou vermelho, e ela cutucou com o dedão do pé uma amarra que havia no caminho.

— Estilo individual! — repetiu. — Ele e suas piadinhas! Não é culpa de Angélica. Ela nasceu desse jeito. E não é qualquer pessoa que pode fazer um feitiço funcionar fazendo tudo errado. Acho que ela é uma espécie de gênio do lado do avesso, e foi isto que eu disse à Duquesa de Caprona quando ela riu, também.

— Mas este feitiço é dela? — Paolo insistiu.

Ele escutava tiros vindo de algum lugar rio abaixo, misturados aos estrondos que vinham das colinas. Eram estouros surdos, como um gigante rachando lenha com um machado. Ergueu a cabeça para escutar, enquanto prosseguia:

— Sei que não é de Tonino. Os dele dão a sensação de cuidado.

— Não — disse Renata, e ergueu a cabeça também. — Está um pouco gasto, não está? E não dá uma sensação de coisa boa. Pelo barulho, a guerra está terrivelmente perto daqui. Acho que devíamos nos afastar dos ancoradouros.

Ela provavelmente tinha razão. Paolo hesitou; tinha certeza de que estavam na pista certa. O feitiço envelhecido dava uma sensação ligeiramente repugnante, que lembrava a ele a mensagem no pátio na noite anterior.

E, enquanto ele hesitava, de repente parecia que a guerra estava bem em cima deles. A algazarra era ensurdecedora, agressiva, horrível. Paolo pensou em uma pessoa segurando uma ponta de uma gigantesca folha de metal e sacudindo-a, ou em despertadores gigantescos. Mas aquilo não fazia justiça ao barulho, e tampouco explicava alguns fortes guinchos metálicos. Ele e Renata abaixaram-se e taparam as orelhas com as mãos, e coisas enormes passaram acima deles. Fossem o que fossem, seguiram por cima do rio. Paolo e Renata ficaram agachados no cais, com os olhos pregados naqueles estranhos objetos voadores.

Eles voavam em grupo — havia pelo menos oito deles — batendo asas com guinchos e tinidos como de gongos. Paolo pensou primeiro em máquinas voadoras e depois no cavalo alado dos Montana. Parecia haver pernas penduradas sob os grandes corpos negros, e suas asas de metal batiam furiosamente. Alguns não estavam voando tão bem. Um deles perdeu altura, apesar de bater destemperadamente as asas, e caiu no rio, jogando água sobre toda a Ponte Nova e molhando Renata e Paolo também. Outro também perdeu altura e pôs-se a movimentar a cauda de ferro para equilibrar-se. No momento exato em que ele também caiu na água, Paolo o reconheceu: era um dos grifos de ferro da Praça Nova.

Renata começou a rir.

— Isto sim é da Angélica! — ela afirmou. — Reconheço um feitiço dela em qualquer lugar.

Os dois ficaram de pé num salto e saíram correndo na direção do comprido lance de degraus que subiam para a Praça Nova. O barulho dos guinchos ainda abafava o som dos disparos, com exceção dos mais próximos. Renata e Paolo subiram correndo os degraus, virando-se a cada patamar para ver o que estava acontecendo ao resto dos grifos. Mais dois outros haviam caído dentro do rio. Outros dois mergulharam nos jardins das ricas mansões. Mas os dois últimos iam muito bem; quando Paolo tornou a olhar, eles pareciam estar tentando com esforço ganhar altitude para ultrapassar as colinas atrás do Palácio. Os tinidos distantes que faziam eram rápidos e furiosos, e as asas de metal pareciam borrões.

Paolo e Renata viraram-se e continuaram a subir a escadaria.

— O que é isto? Um pedido de ajuda? — Paolo ofegou.

— Deve ser — ofegou Renata em resposta. — Os feitiços de Angélica... sempre são... metade malucos, metade razoáveis.

Um ruído metálico que produziu ecos fez com que os dois se virassem. Outro grifo havia caído, mas eles não viram onde. Fascinados, ficaram observando os esforços do derradeiro. Ele agora alcançara a fachada de mármore do Palácio Ducal, mas não estava suficientemente elevado para passar por cima dela. O grifo parecia saber disso, pois ele estendeu as garras, dando a impressão de estar se agarrando às ameias de mármore. Mas não adiantou. Eles o viram, um borrão negro à distância, escorregar para baixo pela fachada de mármore colorido — chegavam até a ouvir os arranhões — caindo sempre, até bater no telhado do pórtico de mármore, onde ficou imóvel. Acima dele, mesmo de longe eles conseguiam distinguir duas compridas riscas de arranhões no mármore que iam de alto a baixo na fachada do Palácio.

— Uau! — fez Paolo.

Ele e Renata subiram para a Praça Nova, estranhamente nua. Agora ela nada era além de uma grande plataforma pavimentada, rodeada por uma mureta baixa. A intervalos em volta da mureta havia os tocos dos pedestais dos grifos, cada um com uma placa verde ou vermelha quebrada e caída para o lado. No centro, o que costumava ser um chafariz com grifos entrelaçados era agora um jato de água saindo de um cano quebrado.

— Olhe só para todos esses feitiços que Angélica rompeu! — Renata exclamou. — Nunca pensei que ela pudesse fazer uma coisa tão forte assim!

Paolo olhou para o Palácio arranhado, com certa inveja. Havia feitiços no mármore para impedir aquele tipo de coisa; Angélica havia conseguido romper todos eles. A coisa mais estranha era que ele não conseguia sentir o feitiço. A Praça Nova deveria estar recendendo a magia, mas só dava a sensação de vazio. Ele olhou em volta, perplexo. E ali, descendo devagar e cautelosamente ao longo da mureta, avistou uma figura marrom familiar, com uma cauda peluda.

— Benvenuto! — ele exclamou.

Por um instante parecia que Benvenuto iria passar direto por Paolo, como freqüentemente fazia. Mas aquilo devia ser porque estava cansado, pois ele parou e olhou intensamente para Paolo. Então abriu cuidadosamente a boca e cuspiu um pedacinho de papel dobrado. Depois disso, deitou-se e perdeu todo o interesse no mundo. Quando pegou o papel, Paolo viu as costelas do animal subindo e descendo.

Renata olhava por cima do ombro de Paolo enquanto ele desdobrava o papel — com certo nojo, pois o papel estava molhado. A letra era definitivamente de Tonino, embora fosse pequena demais. E, embora Paolo não soubesse disso, apenas um trecho pequeno da mensagem sobrevivera. Ele e Renata leram:

 

                    tra de “O Anjo” no Anjo acima

 

Não era de espantar que Paolo e Renata interpretassem de maneira errada, já que ali da Praça Nova, agora que os grifos não estavam mais lá, um Anjo era claramente visível. Dourado e sereno, no topo do grande domo da Catedral, ele montava guarda a uma Caprona que já estava cercada pela fumaça dos disparos.

— Acha que conseguiremos chegar até lá em cima? — Paolo perguntou.

Renata tinha o rosto pálido.

— Vamos ter que tentar. Mas vou logo avisando, tenho medo de altura.

Os dois saíram correndo por entre os telhados vermelhos e as paredes douradas, deixando Benvenuto adormecido sobre a mureta. Depois de algum tempo, Benvenuto, já restaurado, levantou-se e afastou-se dali. Era preciso mais do que alguns tiros de má pontaria para acabar com ele.

Quando Paolo e Renata chegaram à praça calçada de paralelepípedos em frente à Catedral, o grande sino na torre ao lado dela estava tocando. As pessoas se reuniam na igreja para rezar por Caprona, e o Arcebispo de Caprona em pessoa estava parado junto à porta abençoando todos os que entravam. Paolo e Renata juntaram-se à fila, já que essa parecia ser a maneira mais fácil de entrar. Tinham quase chegado à porta quando Marco apareceu na praça puxando Rosa. Rosa avistou os cabelos de Renata e apontou. Ela estava ofegante demais para falar. Marco sorriu.

— O seu feitiço venceu — disse apenas.

 

O bolso quentinho onde Tonino se encontrava sacudiu-se quando o Duque ficou de pé.

— É claro que fumei um charuto. Qualquer um rumaria um charuto se descobrisse que declarou guerra sem saber que havia declarado, e tendo certeza de que sem dúvida será derrotado — ele declarou, injuriado, à Duquesa.

Sua voz, vindo através do seu corpo mais do que pelo lado de fora, parecia um trovão aos ouvidos de Tonino.

— Eu já lhe disse que faz mal à sua saúde — disse a Duquesa. — Aonde você vai?

— Eu? Ah! — fez o Duque. Os bolsos sacudiram-se novamente, quando ele subiu os degraus que levavam à porta. — Vou até as cozinhas. Quero comer alguma coisa.

— Você poderia mandar buscar — disse a Duquesa, mas seu tom não era de desagrado.

Isso fez Tonino entender que a Duquesa sabia que ele e Angélica estavam escondidos no escritório, e queria o Duque longe dali enquanto ela procurava por eles.

Ele ouviu a porta fechar-se. O bolso balançava-se ritmadamente enquanto o Duque caminhava. Não era um movimento muito ruim, depois que Tonino se acostumou. O bolso era grande; nele quase que havia espaço para Tonino, mais o isqueiro do Duque, o seu lenço, e outro charuto, um pedaço de barbante e algum dinheiro, um rosário e alguns dados. Tonino acomodou-se confortavelmente usando o lenço como almofada e desejando que o Duque não ficasse dando tapinhas no bolso para verificar se ele ainda estava lá.

— Vocês estão bem, aí dentro? — o Duque trovejou finalmente. — Estou sozinho aqui. Vocês podem botar a cabeça para fora. Pensei nas cozinhas porque parece que vocês não tomaram o café da manhã.

— O senhor é bonzinho — disse a voz de Angélica, bem distante.

Tonino conseguiu pôr-se de pé e enfiar a cabeça para fora por debaixo da aba do bolso. Não conseguia avistar Angélica — pois a generosa barriga do Duque estava no caminho — mas escutou-a dizer:

— O senhor guarda um monte de coisas nos bolsos, não é? Por acaso sabe o que é que está preso no meu pé?

— Um caramelo, eu imagino — disse o Duque. — Por favor, fique à vontade para comê-lo.

— Muito obrigada — Angélica agradeceu em tom de dúvida.

— Escute, por que a Duquesa não percebeu que estávamos nos seus bolsos? Antes ela conseguia sentir o nosso cheiro — Tonino quis saber.

A risada alta do Duque trovejou atrás dele. O pedaço de parede dourada que Tonino conseguia enxergar começou a dar saltos para cima, cada vez mais para cima: o Duque estava descendo uma escada.

— O charuto, meu rapaz! — disse o Duque. — Por que pensa que eu fumo charutos? Ela não consegue sentir cheiro algum quando há fumaça de charuto, e odeia isto. Certa vez tentou colocar um feitiço em mim para me fazer parar de fumar, mas fiquei tão mal-humorado que ela teve que desmanchá-lo.

— Com licença, senhor — disse a voz de Angélica do outro lado do Duque. — Será que ninguém vai reparar se o senhor descer falando sozinho?

O Duque tornou a rir.

— De jeito nenhum. Falo sozinho o tempo todo. E dou risada, também, quando acho graça em alguma coisa. De qualquer maneira, todos pensam que estou caduco. Agora, vocês dois já imaginaram um meio para eu tirar vocês daqui? A maneira mais fácil seria trazer aqui as famílias de vocês. Aí eu poderia entregá-los em segredo, e ela não ficaria sabendo.

— Não pode simplesmente mandar chamar as nossas famílias? — Tonino sugeriu. — Diga que precisa deles para ajudar na guerra.

— Ela iria desconfiar — replicou o Duque. — De qualquer maneira, ela diz que os feitiços de guerra de vocês estão todos anulados. Pensem em alguma coisa que não tenha a ver com a guerra.

— Efeitos especiais para outra pantomima — Tonino sugeriu, um pouco desesperançado. Sabia que nem mesmo o Duque iria produzir uma peça enquanto Caprona estava sendo invadida.

— Já sei! — exclamou Angélica. — Vou lançar um feitiço.

— Não! — gritou Tonino. — Pode acontecer qualquer coisa!

— Isto não tem importância. A minha família saberia que sou eu, e viria me buscar como um raio — ela retrucou.

— Mas pode ser que você deixe o Duque verde! — Tonino objetou.

— Na verdade, eu não me importaria — interveio o Duque.

Ele chegou ao pé da escada e pôs-se a caminhar a passos longos e pesados através de salas e corredores do Palácio. Angélica e Tonino seguravam-se na borda dos bolsos e gritavam suas opiniões por cima da barriga dele.

— Mas você poderia me ajudar, e a sua parte sairia direito — Angélica argumentou. — E se a gente fizer um encantamento de convocação para chamar todos os ratos e camundongos de Caprona para o Palácio? Se você fizesse a convocação, traríamos alguma coisa.

— Sim, mas o que seria? — Tonino perguntou.

— Poderíamos fazer isto em honra de Benvenuto — Angélica gritou, na esperança de convencê-lo.

Mas Tonino pensou em Benvenuto caído em algum lugar sobre o telhado do pórtico do Palácio, e ficou mais obstinado do que nunca. Gritou em resposta que não ia fazer uma coisa tão desrespeitosa.

— Está me dizendo que não consegue fazer um feitiço de convocação? — Angélica berrou. — Até o meu irmãozinho...

Os dois gritavam tão alto que por duas vezes o Duque foi obrigado a pedir-lhes silêncio. O soldado que se aproximava apressado levou um certo susto.

— Não é preciso olhar para mim deste modo, Major — disse-lhe o Duque. — Eu disse “psiu” e é isto mesmo que eu quis dizer. As suas botas rangem demais. O que deseja?

— Infelizmente devo informar que as forças de Caprona estão batendo em retirada no sul, Vossa Graça — disse o soldado. — E as nossas baterias na costa foram capturadas pela esquadra de Pisa.

Ambos os bolsos se sacudiram quando o Duque curvou as costas.

— Obrigado — disse. — Na próxima vez que tiver notícias, traga-as para mim pessoalmente.

O Major bateu continência e retirou-se, olhando uma ou duas vezes para o Duque por cima do ombro. O Duque suspirou.

— Mais um que pensa que sou doido. Vocês dois não disseram que são as únicas pessoas que sabem onde encontrar a letra de “O Anjo”?

Tonino e Angélica tornaram a colocar a cabeça para fora dos bolsos.

— Sim! — exclamaram.

— Então façam o favor de chegarem a um acordo sobre um feitiço. Vocês realmente precisam escapar e encontrar essa letra enquanto ainda sobra alguma coisa de Caprona.

Tonino não havia se dado conta de que o assunto era tão urgente.

— Então está certo, vamos chamar os ratos — decidiu.

O Duque foi postar-se perto de uma ampla janela e, para encobrir o feitiço, acendeu o toco de charuto que vinha carregando debaixo de Angélica com o isqueiro que estava debaixo de Tonino. Tonino debruçou-se para fora do bolso e entoou, devagar e cuidadosamente, o único feitiço de convocação que ele conhecia.

Angélica, no outro bolso, ficou de braços erguidos e, com rapidez e segurança, pronunciou as palavras... certamente erradas. Mais tarde ela jurou que isso aconteceu porque ela quase soltou uma risada.

Outro homem aproximava-se. Tonino achou que era um dos cortesãos que haviam assistido ao espetáculo de fantoches, mas não chegou a ter certeza disso, pois o Duque baixou as abas dos bolsos sobre a cabeça deles e pôs-se ele mesmo a cantar em altos brados:

— Com sua música soando, vejo o Anjo chegar cantando... Nem mesmo Angélica cantava tão fora do tom. Tonino teve a maior dificuldade para continuar entoando o seu feitiço. E decerto foi nesse momento que o feitiço pareceu sair errado. Tonino teve a súbita sensação de que as suas palavras estavam puxando um peso enorme.

O Duque interrompeu sua cantoria abominável para dizer:

— Ah, Pollio, nada como uma boa canção enquanto Caprona pega fogo! Nero fez isso, e agora eu.

— Sim, Vossa Graça — respondeu o homem em voz fraca. Os meninos ouviram-no afastar-se.

— E este tem certeza de que sou louco — o Duque comentou. — Já terminaram?

Nesse instante, com uma espécie de solavanco, as palavras de Tonino ficaram leves outra vez e ele teve a certeza de que, de uma maneira ou de outra, o feitiço havia funcionado.

— Terminamos, sim — declarou.

Mas, pelo jeito, nada estava acontecendo. O Duque afirmou, filosoficamente, que um rato levaria bastante tempo para correr do Corso até o Palácio; em seguida dirigiu-se às cozinhas. Tonino percebeu que também lá achavam que ele era louco. O Duque pediu dois pãezinhos com manteiga e colocou um em cada bolso. Sem dúvida pensaram que ele estava ainda mais destrambelhado quando ele comentou, dirigindo-se a ninguém em particular:

— No meu bolso direito levo um cortador de charutos que espalha manteiga muito bem.

— É mesmo, Vossa Graça? — disse alguém em tom de dúvida.

Nesse exato momento alguém entrou correndo, gritando alguma coisa a respeito das estátuas de grifos da Praça Nova: os grifos estavam voando por cima do rio, vindo diretamente para o Palácio. Houve pânico generalizado; todos gritavam e se lamentavam, afirmando que aquilo era um presságio de derrota. Então outra pessoa entrou correndo e berrando que um grifo chegara a alcançar o Palácio e estava escorregando pela fachada de mármore. O vozerio aumentou. Todos diziam que só faltava o grande Anjo dourado da Catedral sair voando também.

Tonino estava aproveitando a confusão para arrancar um pedaço do pão batendo nele com o isqueiro do Duque, quando este gritou:

— Besteira!

Imediatamente fez-se silêncio. Tonino não ousava mover-se, porque todos estariam certamente olhando para o Duque.

— Não percebem? — este continuou. — É só um truque do inimigo. Mas nós, de Caprona, não nos intimidamos com facilidade, não é mesmo? Ei, você, vá chamar os Montana. E você, vá buscar os Petrocchi. Digam-lhes que é urgente. Digam-lhes para virem em maior número possível. Estarei na galeria norte.

E ele retirou-se, enquanto Angélica e Tonino eram jogados de encontro aos pães e tentavam não pisar na manteiga.

Quando chegou à galeria, o Duque sentou-se junto a uma janela. Angélica e Tonino ficaram com a metade do corpo para fora dos bolsos e conseguiram comer seu pão com manteiga. O Duque Simpaticamente passava o cortador de charutos de um para o outro e, nos intervalos, parecia mergulhado era pensamentos, olhos fixos nas nuvenzinhas de fumaça dos projéteis que explodiam nas colinas atrás de Caprona.

Angélica sentia-se inclinada a vangloriar-se.

— Eu lhe disse, meus feitiços sempre funcionam — afirmou a Tonino.

— Grifos de ferro não são ratos — este objetou.

— Não, mas eu nunca havia feito uma coisa grande como esta — ela retrucou. — Ainda bem que ele não derrubou o Palácio.

O Duque interveio, em tom melancólico:

— Os canhões de Pisa logo farão isso. Estou vendo navios canhoneiros no rio, e tenho certeza de que não são nossos. Gostaria que as famílias de vocês viessem logo.

Mas passou-se meia hora até que um lacaio aproximou-se respeitosamente do Duque, fazendo com que este baixasse as abas dos bolsos e espalhasse migalhas de pão com manteiga em todas as direções.

— Vossa Graça, alguns membros da família Montana e da família Petrocchi estão esperando pelo senhor no Grande Salão de Recepções.

— Ótimo! — exclamou o Duque.

Ele ficou era pé num salto e saiu correndo a tal velocidade que Tonino e Angélica precisaram apoiar os pés na bainha dos bolsos do Duque e segurar-se com força na borda. Várias vezes eles se desequilibraram, mesmo tendo o Duque tentado ajudá-los segurando os bolsos enquanto corria. Os meninos sentiram que ele parava de repente.

— Droga! Isto está sempre acontecendo! — ele exclamou.

— Que foi? — Tonino perguntou, sem fôlego e sentindo-se deformado pelos solavancos.

— Indicaram a sala errada! — o Duque explicou, saindo era disparada outra vez. Tonino e Angélica sentiram que ele se jogava através de uma porta. Os bolsos se balançaram. Então eles tornaram a desequilibrar-se quando o Duque estacou derrapando.

— Lucrezia, isto é insuportável! É por isto que você sempre me informa a sala errada?

— Meu senhor, eu não posso responder pela negligência dos lacaios — disse uma voz gélida, vindo de certa distância. — Qual é o problema?

— Isto — disse o Duque. — Estes...

As crianças sentiram que ele estremecia.

— São os Montana e os Petrocchi, não são? — ele continuou.

— Não tente me enrolar, Lucrezia. Eu mandei chamá-los. Eu sei muito bem.

— E se fossem? Gostaria de juntar-se a eles, meu senhor? — perguntou a voz da Duquesa, mais próxima.

Os dois sentiram que o Duque retrocedia.

— Não. Claro que não! Minha querida, os seus desejos são ordens para mim. Eu... só queria saber por quê. Eles vieram simplesmente para falar sobre uns grifos.

A voz da Duquesa tornou a distanciar-se, enquanto ela respondia:

— Porque, se quer saber, Antonio Montana me identificou.

— Mas... mas... — começou o Duque, com uma risada sem graça. — Todos a conhecem, minha cara. Você é a Duquesa de Caprona.

— Quero dizer que ele identificou o que eu sou — disse a Duquesa de longe.

Em seguida ouviu-se o som de uma porta que se fechava.

— Olhem! Olhem só! — disse o Duque num cochicho trêmulo. Enquanto ele ainda falava, Angélica e Tonino apoiavam os pés na bainha dos bolsos e colocavam a cabeça para fora.

O que viram foi o mesmo aposento de chão encerado onde certa vez haviam aguardado e comido doces, as mesmas cadeiras douradas e o teto cheio de anjinhos. Mas desta vez o piso brilhante estava cheio de fantoches. Os bonecos estavam por toda parte, flácidos e grotescos, espalhados por todos os lados e caídos como se fossem pessoas que de repente houvessem desabado no chão. Estavam em dois grupos; exceto isto, não havia como distinguir qual boneco era quem. Havia vários Punch e várias Judy, vários Carrascos, Homens da Salsicha e Policiais, além de um ou outro Demônio. Pela quantidade deles, parecia que as duas Casas haviam entendido que Tonino e Angélica estavam por trás dos misteriosos grifos, e ambas haviam enviado quase todos os adultos. Tonino não conseguiu falar. Angélica disse:

— Aquela mulher odiosa! Parece que ela só pensa em fantoches!

— É como ela vê as pessoas — disse o Duque em tom de infelicidade. — Eu sinto muito por vocês dois. Ela foi demais para nós. Que mulher terrível! Não consigo imaginar o motivo de ter me casado com ela. Mas acho que isso também foi um feitiço.

— Ela deve estar querendo saber onde nós dois estamos. Acha que a Duquesa tem alguma suspeita de que estamos com o senhor? — Tonino perguntou.

— Pode ser, pode ser — o Duque respondeu.

Ele pôs-se a marchar de um lado para o outro na sala enquanto os meninos, debruçados para fora dos bolsos, contemplavam a multidão de fantoches espalhados.

— Isto agora já não faz diferença para ela, é claro; ela já acabou com as duas famílias — o Duque continuou. — Ah, como sou idiota!

— O senhor não teve culpa — Angélica afirmou.

— Ah, tive, sim — retrucou o Duque. — Nunca consigo tomar uma decisão. Sempre deixo as coisas seguirem seu rumo e... Mas o que foi?

A escuridão caiu sobre as duas crianças quando o Duque baixou as abas dos bolsos.

— Vossa Graça, a esquadra de Pisa está desembarcando homens abaixo dos Ancoradouros Novos — informou o Major cujas botas rangiam. — E as nossas tropas no sul estão sendo obrigadas a recuar para os subúrbios.

Eles sentiram que o Duque arriava os ombros.

— Na verdade, estamos quase derrotados — ele disse. — Obrigado... Ah, espere um pouco, Major! Pode me fazer a gentileza de ir até as cocheiras e mandar preparar a minha carruagem? Os lacaios rugiram quase todos. Faça com que ela esteja na porta daqui a cinco minutos.

— Mas, Vossa Graça... — começou o Major.

— Pretendo ir para a cidade e falar com o povo — o Duque declarou. — Dar a eles... como se chama... apoio moral.

— Um belo objetivo, senhor — disse o Major, com um respeito bem maior na voz. — Em cinco minutos, senhor.

E o rangido das suas botas afastou-se rapidamente.

— Escutaram isto? Ele me chamou de “senhor”! Coitado! — disse o Duque. — Eu disse a ele um monte de balelas e ele não conseguia tirar os olhos de todos estes fantoches, mas me chamou de “senhor” e vai mandar preparar a carruagem, e não vai contar a ela. Uma caixa de papelão!

A cortina que fechava uma porta balançou-se violentamente quando o Duque passou por ela e entrou em outra sala. Ali havia uma mesa comprida no centro do aposento.

— Ah! — fez o Duque.

Ele correu até uma pilha de caixas perto de uma das paredes. As caixas continham taças de vinho, que o Duque pôs-se a retirar febrilmente, colocando-as sobre a mesa.

— Não estou entendendo — disse Tonino.

— A caixa. Não podemos deixar para trás as famílias de vocês para que ela se vingue nelas — o Duque explicou. — Pelo menos uma vez vou tomar uma decisão. Vou pegar a carruagem e sair do Palácio, e ela que ouse me impedir!

Assim dizendo, ele voltou apressado para a Sala de Recepções com a caixa vazia e ajoelhou-se para recolher os fantoches. Quando a aba do paletó dele balançou-se com força, Angélica foi jogada no chão.

— Desculpe-me — disse o Duque.

— Pegue-os com cuidado, pois eles sentem dor — Tonino recomendou.

Com cuidado e pressa, usando ambas as mãos para cada fantoche, o Duque colocou todos eles em camadas dentro da caixa de papelão. Nesse processo, os Montana ficaram totalmente misturados aos Petrocchi, mas não havia como impedir isso. Os três temiam que a Duquesa entrasse a qualquer momento, e o Duque não parava de olhar em volta nervosamente e depois murmurar consigo mesmo: “Decisão!”. Ainda estava murmurando isso quando partiu, carregando desajeitadamente a caixa de papelão nos braços.

— É estranho pensar que neste momento estou carregando quase todos os feiticeiros que existem em Caprona — ele comentou.

Um par de botas vinha rangendo na direção deles.

— Sua carruagem está à sua espera, senhor — disse a voz do Major.

— Decisão! — disse o Duque. — Quero dizer, muito obrigado. Vou me lembrar de você no paraíso, Major, já que tenho certeza de que é para lá que a maioria de nós logo irá. Enquanto isto, pode fazer mais duas coisas para mim?

— Senhor? — disse o Major em tom alerta.

— Primeiro: quando você pensa no Anjo de Caprona, em que é que pensa?

— A canção ou a figura, senhor? — o Major perguntou, agora mais temeroso do que alerta.

— A figura.

— Ora... — O Major estava outra vez ficando convencido de que o Duque estava louco. — Penso no Anjo dourado da Catedral, Vossa Graça.

— Grande homem! — exclamou o Duque. — Eu também penso! A outra coisa é: pode levar esta caixa e guardá-la na minha carruagem para mim?

Nem Tonino, nem Angélica conseguiram resistir, e espiaram para ver como o Major reagia àquele pedido. Infelizmente o rosto dele ficou escondido pela caixa que o Duque lhe colocava nas mãos. Os dois sentiram que haviam perdido uma cena rara.

— Se alguém perguntar, diga que são donativos para o meu povo sacrificado pela guerra.

— Sim, Vossa Graça — disse o Major num tom divertido e indulgente, destinado a agradar o Duque em sua loucura.

Logo em seguida, porém, os meninos ouviram o som de suas botas afastando-se depressa.

— Graças ao Senhor! Ela não vai me pegar com eles — o Duque exclamou. — Tenho a sensação de que ela está vindo aí.

Como o Duque saiu correndo, passaram-se alguns minutos antes que a Duquesa os alcançasse. Tonino, espiando disfarçadamente, conseguiu ver o grande Vestíbulo de mármore da entrada quando o Duque estacou com um escorregão. O menino apressou-se a encolher a cabeça ao ouvir a voz fria da Duquesa. Ela soava ofegante, porém vitoriosa.

— O inimigo está perto da Ponte Nova, meu senhor. O senhor será morto se sair agora.

— E serei morto se ficar aqui, também — o Duque replicou.

Ele imaginava que a Duquesa fosse negar isso, e ficou esperando, mas ela nada disse. As crianças escutaram quando o Duque engoliu em seco. Mas ele manteve a decisão tomada e disse, em tom não muito resoluto:

— Vou para onde está o meu povo, para confortá-lo em suas últimas horas de vida.

— Que tolo sentimental! — disse a Duquesa. Não falou era tom de raiva; estava apenas comentando um fato, pois era isso mesmo que ela o considerava.

Diante desse comentário, o Duque disse, com mais segurança:

— Posso não ser um bom governante, mas é assim que um bom governante deve agir. Irei... Irei fazer bilu-bilu para os bebezinhos e cantar com os cantores no coro.

A Duquesa riu.

— De grande coisa isso vai adiantar, principalmente se você cantar — disse. — Muito bem. Você pode ser morto lá embaixo ou aqui, tanto faz. Vá correndo fazer bilu-bilu.

— Obrigado, minha cara — disse o Duque com humildade.

Mais uma vez ele lançou-se para a frente e desceu os degraus de mármore com passos ruidosos. Os meninos ouviram o som dos cascos dos cavalos no cascalho e sentiram o Duque sacudindo-se.

— Vamos, Carlos — fez a voz dele. — Que é? Para onde está apontando? Ah, sim, um grifo. Que coisa notável. Vamos logo, está bem?

Ele fez um movimento para cima. As molas da carruagem rangeram e uma porta foi fechada barulhentamente. O Duque fez um movimento para baixo. Os meninos ouviram-no dizer “Muito bem!” enquanto se sentava, e escutaram também o ruído, infelizmente bastante familiar aos dois, de batidas no papelão, quando o Duque deu uns tapinhas na caixa que estava ao seu lado no assento. Então a carruagem partiu com um guinchar de rodas e o som de patas no cascalho. Eles sentiram o Duque dar um suspiro de alívio que os fez saltar dentro dos bolsos.

— Vocês podem sair agora — disse o Duque.

Os dois saíram cautelosamente para cima dos largos joelhos do Duque. Este teve a consideração de mover-se para perto da janela, para que eles pudessem ver o lado de fora. E a primeira coisa que eles viram foi um grifo de ferro, completamente retorcido, caído no meio de uma cratera bastante grande, no jardim do Palácio.

— Sabem, se o meu Palácio não estivesse para ser destruído de qualquer maneira pelos soldados de Pisa, de Siena ou de Florença, eu processaria vocês dois por perdas e danos. O outro grifo fez com as garras dois riscos fundos pela minha fachada abaixo.

Ele riu e enxugou o rosto brilhoso dando uns tapinhas nele com o lenço. Ainda se sentia muito nervoso.

Quando a carruagem saiu do pátio para a rua, eles escutaram um tiroteio. Uma parte dos disparos soava bem perto, uma rajada de tiros subindo do rio. A maior parte era distante e intensa, um longo estrondo vindo das colinas, porque os estampidos eram tão freqüentes que o som era quase contínuo. De vez em quando, porém, em meio à trovoada espocava um clap-clap-clap bem mais próximo. E os três davam um pulo de susto cada vez que isso acontecia.

— Estamos levando uma surra — o Duque comentou em tom tristonho.

A carruagem diminuiu a velocidade, e eles escutaram a voz afetada do cocheiro acima dos outros ruídos.

— Infelizmente a Ponte Nova está sob ataque, Vossa Graça. Para onde, exatamente, devemos nos dirigir?

O Duque baixou a janela. O ruído redobrou.

— Para a Catedral. Siga rio acima e veja se podemos atravessar pela Ponte Velha. — Ele fechou a janela. — Poxa! Não invejo Cario, sentado lá era cima!

— Por que estamos indo para a Catedral? — Angélica perguntou ansiosamente. — Queremos ir ver os Anjos nas nossas Casas.

— Não. Ela vai pensar neles — disse o Duque. — Foi por isso que perguntei ao Major. Parece-me que o único lugar onde aquelas palavras estão sempre seguras e sempre invisíveis deve ser o Anjo da Catedral. A gente logo pensa nele, mas ele está tão alto e tão inacessível lá em cima que a gente logo esquece.

— Mas ele está a quilômetros de altura! — Angélica exclamou.

— Acontece que ele tem um pergaminho — Tonino retrucou.

— E parece que esse pergaminho está mais desenrolado do que os dos nossos Anjos.

— Infelizmente aquele deve ser o único lugar que ela pode ter esquecido — disse o Duque.

A carruagem seguia veloz, a não ser em certo trecho onde uma bala de canhão abrira uma cratera no meio da rua. De um modo ou de outro Cario conseguiu que passassem.

— Bom sujeito, o Cario. Deve ser o único bom sujeito de quem ela não se livrou — o Duque comentou.

O barulho diminuiu um pouquinho quando a carruagem desceu para o rio e para a Piazza Martia — pelo menos, Angélica e Tonino imaginavam que o lugar fosse aquele; descobriram que eram pequenos demais para enxergar a uma grande distância. Conseguiram perceber que estavam passando na Ponte Velha, por causa do ronco sob as rodas e dos oratórios trancados a cada lado. O Duque muitas vezes virou o pescoço, assobiou e balançou a cabeça, mas eles não conseguiam ver o motivo disso. Reconheceram a Catedral, quando a carruagem virou na direção dela sobre os paralelepípedos, porque ela era enorme e branca como a neve. O grande sino ainda estava tocando. Uma enorme multidão, composta principalmente por mulheres e crianças, dirigia-se lentamente para a porta da igreja. Quando a carruagem parou, estava suficientemente próxima para Tonino e Angélica avistarem o Arcebispo de Caprona em suas vestes esvoaçantes, parado à porta, borrifando água benta sobre cada pessoa e murmurando uma bênção.

— Ora, aí está um homem corajoso. Eu queria ser como ele — o Duque comentou. — Escutem, vou colocar vocês no chão por esta porta, depois saio pela outra e mantenho todo o mundo ocupado enquanto vocês sobem para o domo. Isto será suficiente?

Enquanto falava, ele abria a porta mais próxima à Catedral.

Tonino e Angélica sentiam-se perdidos e sem saída.

— Mas o que é que devemos fazer?

— Subir e ler em voz alta aquelas palavras — disse o Duque. Ele inclinou-se, recolheu-os em suas mãos quentes e úmidas e plantou-os nos paralelepípedos frios. Os dois ficaram tremendo sob o grande pára-lama da roda da carruagem.

— Raciocinem: se eu pedir ao Arcebispo para colocar escadas na torre, ela vai descobrir — disse.

Aquilo fazia sentido, naturalmente. Eles ouviram-no dar um pulo para perto da outra porta e o ruído dessa porta ao abrir-se violentamente.

— Ele sempre faz tudo com tanta intensidade! — Angélica comentou.

— Povo de Caprona! — o Duque gritou. — Vim para cá para estar perto de vocês nesta hora de tristeza. Acreditem, não escolhi o que aconteceu hoje...

Da multidão veio um murmúrio e até mesmo algumas palmas.

— Ele está se saindo muito bem — disse Angélica.

— É melhor irmos fazer a nossa parte. Agora só sobramos nós dois — disse Tonino.

 

Tonino e Angélica percorreram a vasta lateral de mármore da Catedral e, hesitantes, aproximaram-se de uma trave comprida e inclinada. Aquela era a única coisa que eles conseguiam avistar que lhes oferecia alguma chance de subir. Uma vez tendo chegado perto, constataram que não seria difícil: o mármore dava a impressão de liso, mas, para pessoas pequenas como eles, era suficientemente áspero para lhes dar apoio para mãos e pés.

Os dois treparam como dois macaquinhos, o ar frio revigorando-os. A verdade era que, embora eles houvessem vivido uma manhã repleta de acontecimentos, havia sido também uma manhã abafada e nada cansativa. Eles estavam cheios de energia, e não pesavam mais do que algumas dezenas de gramas. Mal ofegavam enquanto subiam pela encosta longa e fria do domo mais baixo. Mas naquele local o restante da Catedral erguia-se diante deles, uma intrincada geleira de mármore branco, rosa e verde. Eles não conseguiam avistar o Anjo.

Nenhum dos dois sabia qual caminho tomar para continuar a subida. Seguraram-se numa cruz dourada e olharam para o alto. E ali, um emaranhado de pêlos preto-amarronzados e uma nuvem de penugem branca surgiram diante deles. Olhos dourados os encaravam intensamente e olhos azuis os contemplavam placidamente. Um focinho negro e um focinho rosado encostaram-se neles.

— Benvenuto! — exclamou Tonino. — Então você não...?

— Vittoria! — exclamou Angélica, jogando os braços em volta do pescoço do gato branco.

Mas os gatos explicaram: estavam apressados e muito aflitos. Várias coisas giravam em sua mente, coisas confusas e preocupantes sobre Paolo e Renata, Marco e Rosa. Tonino e Angélica poderiam, por favor, se apressar?

Eles iniciaram uma subida que jamais teriam acreditado ser possível conseguir. Com os gatos para guiá-los, eles passaram correndo por cima de compridos arcos de chumbo e esteios multicoloridos, como pontes vertiginosas, para domos mais altos. Os gatos lhes imploravam sem cessar para andarem depressa, e estavam sempre perto quando a subida ficava difícil. Com a mão no dorso peludo de Benvenuto, Tonino subiu alegremente uma lombada de mármore e passou através de minúsculos canos de drenagem que pendiam acima de pingos enormes; em seguida escalou correndo superfícies altas e curvas, onde as grandes costelas de mármore verde de um domo pareciam tão altas quanto a parede ao lado dele. Mesmo quando começaram a longa e árdua subida do próprio grande domo, nenhum deles ficou preocupado. Em certa ocasião Angélica tropeçou e conseguiu equilibrar-se segurando-se na pelagem sedosa de Vittoria; e em outro momento Benvenuto pegou a camisola vermelha de Tonino entre os dentes e puxou-o para fora de uma calha profunda. Tonino tinha a impressão de estar na superfície da lua, apesar do pálido céu de inverno acima da sua cabeça e do uivar do vento. O estrondo dos canhões estava quase fora do alcance das suas diminutas orelhas.

Finalmente eles treparam por entre os gordos pilares de mármore para a plataforma no topo do domo. E ali estava o Anjo dourado acima deles. Os imensos pés do Anjo descansavam sobre um pedestal dourado mais alto do que a estatura normal de Tonino. Em volta do pedestal havia um desenho, que Tonino contemplou distraidamente, de leopardos dourados enlaçados a cavalos alados. Mas ele estava olhando mais para cima, para as vestes esvoaçantes do Anjo, as imensas asas estendidas com 10 metros ou mais de envergadura, a mão enorme erguida acima da cabeça numa bênção e a outra estendida para o lado de encontro ao céu, ainda mais distante, segurando o grande pergaminho desenrolado. Mais acima resplandecia a face vasta e tranqüila do Anjo, indiferente, lançando a sua bênção sobre Caprona.

— Ele é gigantesco! — Angélica exclamou. — Nunca vamos conseguir chegar até aquele pergaminho, mesmo se tentarmos o dia inteiro!

Os gatos, no entanto, não cessavam de cutucá-los e empurrá-los para um local no outro lado da plataforma redonda. Curiosos, os dois obedeceram e pararam quase sob o pergaminho do Anjo. E ali estava a cabeça de Paolo acima da balaustrada, com os seus cabelos castanho-escuros despenteados e o rosto terrivelmente pálido. Um de seus braços segurava o topo da balaustrada de mármore, o outro estava estendido para baixo. Tonino espiou entre os pilares de mármore para ver o motivo. E deparou com a figura infeliz e curvada de Renata, agarrada a Paolo.

— Mas ela tem pavor de altura! Como será que chegou tão alto? — disse Angélica.

Vittoria disse a Angélica que ela precisava levantar Renata imediatamente.

Angélica enfiou a parte superior do corpo entre dois pilares. Ser pequena certamente tinha suas vantagens: as distâncias que eram impiedosamente imensas para Renata e Paolo eram longínquas demais para preocupar Angélica. Para ela, o domo era como um mundo inteiro.

Paolo, com cautelosa paciência, disse:

— Não vou conseguir me segurar muito tempo mais. Acha que pode fazer outra tentativa?

A resposta de Renata foi um gemido e um tremor.

— Renata! — Angélica gritou.

Renata levantou lentamente o rosto assustado.

— Agora aconteceu alguma coisa com os meus olhos. Você parece minúscula!

— Eu estou mesmo minúscula! — Angélica gritou.

— Os dois estão! — disse Paolo, olhos fixos na cabeça de Tonino.

— Me puxe depressa — Renata pediu.

O tamanho de Angélica e Tonino preocupava tanto Renata e Paolo que os dois se esqueceram de que estavam a centenas de metros do chão. Paolo puxava Renata e Renata empurrava Paolo, e os dois num segundo passaram por cima da balaustrada de mármore. Ali, porém, Renata ergueu os olhos para o imenso Anjo de ouro e teve uma recaída instantânea.

— Ai... ai! — gemeu, e deixou-se cair no pedestal dourado.

Tonino e Angélica aninharam-se em volta dela. O calor da subida havia se esgotado, e eles estavam sentindo cruelmente o vento através das suas finas roupas de dormir.

Benvenuto saltou por cima de Renata em direção a eles. Alguma outra coisa precisava ser feita, e logo.

Tonino tornou a ir espiar através dos pilares de mármore, onde o domo curvava-se para longe e para baixo como um campo de gelo com costelas verdes e douradas. Ali, surgindo à vista por cima da curva, apareceu uma farda de um vermelho reluzente que fazia os cabelos cor de cenoura de Marco parecerem desbotados e opacos. A farda combinava ainda menos com os cabelos de Marco do que o uniforme púrpura que ele usara como cocheiro — nesse momento Tonino lembrou-se de quem ele era. Mas isso o preocupou menos do que ver Marco achatado contra a superfície do domo e olhando para trás, coisa que Tonino tinha certeza de ser desaconselhável. Mas por trás das botas de Marco havia uma cabeleira loura que se alvoroçava ao vento. E o rosto corado de Rosa surgiu à vista.

— Eu estou bem. Cuide de si mesmo — disse ela. Benvenuto, ao lado de Tonino, avisou: eles precisavam subir mais depressa. Era importante.

— Tragam Rosa e Marco para cá, depressa! — Tonino berrou para Paolo. Ele não sabia se aquela sua sensação vinha dos gatos ou não, mas tinha certeza de que Rosa e Marco estavam correndo perigo.

Paolo, contrafeito, foi até a balaustrada, e fez uma careta ao ver a altura.

— Eles vieram nos seguindo e gritando o caminho inteiro — informou. — Ei, subam para cá depressa! — gritou.

— Muito obrigado! — Marco gritou de volta. — E de quem é a culpa de estarmos aqui em cima?

— Renata está bem? — Rosa berrou. Angélica e Tonino enfiaram-se entre os pilares.

— Andem depressa! — gritaram.

A visão deles provocou em Rosa e Marco a mesma reação que havia provocado em Renata e Paolo: os dois fixaram os olhos nas duas figurinhas e puseram-se de pé sem despregar os olhos deles. Então, curvados para a frente, braços pendurados, eles percorreram correndo o resto da curva para olharem de perto. Marco subiu a balaustrada e caiu do outro lado. Enquanto ajudava Rosa a subir, ele disse:

— No princípio eu não acreditei nos meus olhos! É melhor fazermos um feitiço de crescimento antes que...

— Abaixem-se! — Paolo gritou.

A mensagem de Benvenuto era tão urgente que ele também a captara. Ambos os gatos estavam grudados ao chão, imóveis, e até mesmo as orelhas caídas de Benvenuto estavam abaixadas. Rosa agachou-se e Marco, contrafeito, apoiou-se num joelho.

— Escute aqui, Paolo... — ele começou.

Uma violenta ventania atingiu o domo. Um vento glacial uivava por cima da plataforma, assobiava entre os pilares de mármore e descia varrendo a curva do domo. As asas do Anjo vibravam. O vento trazia farpas de chuva e agulhas de gelo, soprando com tanta força que Tonino foi jogado de cara no chão. Ele escutava o vento ricocheteando no Anjo e caindo sobre o domo. Paolo puxou-o para que ele se refugiasse atrás do seu corpo, ao passo que Renata arrastou-se temerosamente até encontrar Angélica e puxou-a por um dos braços para abrigá-la. Marco e Rosa dobraram-se para a frente. Era óbvio que qualquer pessoa que estivesse subindo o domo teria sido soprada para longe.

O vento afastou-se, uivando como um lobo. O grupo ergueu a cabeça para o sol.

A Duquesa estava parada na plataforma diante deles. Pedacinhos de gelo derretido pingavam de seus cabelos e de cada dobra do seu vestido cinzento e marmóreo. O sorriso em seu rosto impassível não era agradável.

— Ah, não! — ela exclamou. — Desta vez o Anjo não vai ajudar ninguém. Pensavam que eu havia esquecido?

Marco e Rosa ergueram o olhar para o braço dourado do Anjo que segurava o grande pergaminho acima deles. Se antes não haviam compreendido, agora sabiam. Vendo a expressão subitamente pensativa no rosto dos dois, Tonino entendeu que eles estavam tentando recordar algum feitiço para usar contra a Duquesa.

— Não façam isto! Ela é uma feiticeira! — Angélica guinchou. A Duquesa franziu os lábios em outro sorrisinho desagradável.

— Mais do que isto — disse. Apontando para o Anjo, continuou: — Que as palavras sejam removidas do pergaminho!

Da imensa estátua veio um forte estalo, seguido por um som arranhado, como se uma mola tivesse sido solta. O braço que segurava o pergaminho começou a mover-se para baixo com suavidade e regularidade, produzindo um ruído bem leve. Eles o escutavam com facilidade, apesar da súbita explosão de tiros vindo das casas no outro lado do rio. O braço do Anjo moveu-se para baixo e para dentro, até parar com um tranco. O pergaminho, resplandecente ao sol, estava agora entre eles e a Duquesa. Nele havia grandes letras em relevo. Eles leram: Angelus. Capronensi populo. Era como se o Anjo estivesse segurando o pergaminho para que eles lessem.

— Exatamente — disse a Duquesa.

Tonino, porém, achava que, pela surpresa estampada em seu rosto, aquilo não era exatamente o que ela esperava. Ela tornou a apontar para o pergaminho com um dedo longo e branco, como uma vela de cera, e disse:

— Apaguem. Palavra por palavra.

Todos olharam ansiosamente para as linhas escritas. A primeira palavra era Carmen. E, realmente, o C maiúsculo dourado estava lentamente afundando e fundindo-se ao metal do pergaminho. Paolo fez um movimento; precisava tomar uma atitude qualquer. A Duquesa olhou de relance para ele, erguendo as sobrancelhas numa expressão de desprezo. Paolo achou-se paralisado com as pernas tortas e sentindo uma forte cãibra nelas.

Mas ele ainda conseguia falar, e lembrou-se do que Marco e Rosa haviam dito na noite anterior. Sem ousar tomar fôlego ele gritou, o mais alto que conseguiu:

— Crestomanci!

O vento surgiu novamente. Dessa vez foi uma rajada forte e ruidosa. E ali estava Crestomanci, atrás de Renata e dos gatos. Crestomanci oscilou e rapidamente amparou-se na balaustrada de mármore. Ainda estava fardado, mas todo sujo de lama, e dava a impressão de estar inteiramente exausto.

A Duquesa girou e apontou para ele o longo dedo.

— Você! Eu o enganei!

— Ah, foi mesmo — disse Crestomanci.

Se a Duquesa tinha esperanças de pegá-lo desequilibrado, era tarde demais. Crestomanci agora estava firme.

— Você me fez seguir pistas totalmente erradas — ele continuou. E estendeu uma das mãos, com a palma para a frente, na direção do dedo estendido dela; o comprido dedo da Duquesa curvou-se e dele começaram a pingar gotas brancas, como se ele fosse realmente de cera. A Duquesa olhou para o próprio dedo e depois dirigiu a Crestomanci um olhar quase implorante.

— Não — disse Crestomanci, com voz muito cansada. — Acho que você já fez maldades suficientes. Tome a sua forma verdadeira, por favor.

E fez um gesto para ela, como alguém que está cansado de esperar.

Instantaneamente o corpo da Duquesa começou a mudar de forma. Os braços encolheram; o rosto esticou-se, permanecendo porém com as mesmas brancas de expressão sarcástica. No lábio superior surgiram pêlos longos e os olhos adquiriram uma luz vermelha, como se fossem lâmpadas. As vestes marmóreas tornaram-se brancas, incharam e grudaram-se aos tornozelos dela, revelando compridas garras rosadas em seus pés. E durante todo o tempo ela estava encolhendo. Dois dentes apareceram na ponta do rosto branco e alongado. Uma cauda cor-de-rosa sem pêlos, marcada de anéis como um verme, surgiu serpenteante por trás da saia e golpeou raivosamente o piso de mármore. Ela continuava a encolher.

Finalmente uma enorme ratazana branca com olhos como bolas de gude vermelhas saltou para a balaustrada de mármore e ficou agachada ali, guinchando e olhando com ódio, com as costas curvas estremecendo em espasmos.

— O Demônio Branco, que o Anjo foi enviado para expulsar de Caprona — Crestomanci anunciou. — Certo, Benvenuto e Vittoria, ela é toda de vocês. Dêem um jeito para ela nunca mais voltar.

Benvenuto e Vittoria já estavam a esgueirar-se para a frente. Suas caudas moviam-se sem parar, e eles tinham os olhos fixos. Finalmente deram o bote. O rato também deu um salto do parapeito para o chão, com um guincho, e disparou domo abaixo. Benvenuto disparou atrás dele, mantendo-se fora do alcance do chicote da cauda rosada. Vittoria, uma faísca branca que fazia a grande ratazana parecer amarela, corria pelo outro lado, na altura do ombro dela. Viram a ratazana virar-se e tentar mordê-la. E então, repentinamente, uma dúzia de ratos menores, correndo e guinchando, veio juntar-se aos três. Todos só ficaram visíveis por um instante, antes de ultrapassarem a encosta do domo e desaparecerem de vista.

— Os ajudantes dela, que vieram do Palácio — Crestomanci informou.

— Vittoria não está correndo perigo? — Angélica perguntou.

— Ela é a melhor caçadora de ratos em Caprona, não é? — perguntou Crestomanci como resposta. — Isto é, além de Benvenuto. E quando o Demônio e seus amigos chegarem ao solo, terão todos os gatos de Caprona atrás deles. Agora...

Tonino constatou que tinha novamente o seu tamanho normal. Ele agarrou a mão de Rosa, e atrás dela ele avistou Angélica, também em seu tamanho normal, tremendo e puxando para baixo a sua fina camisola azul antes de agarrar a mão de Marco. O vento era muito pior num corpo grande. Mas o que fez Tonino agarrar-se a Rosa não foi o frio. O caso era que o domo já não tinha o tamanho do mundo, era um montinho que girava numa paisagem marrom-acinzentada. As colinas em volta de Caprona mostravam-se cruelmente nítidas. Ele via os clarões das labaredas e figuras correndo. Aquilo tudo dava a impressão de estar quase ao lado dele, ou logo acima dele, como se o minúsculo domo branco houvesse tombado de lado. No entanto, as casas de Caprona estavam lá embaixo, a uma distância imensurável, e o rio parecia destacar-se delas. A Ponte Nova parecia quase acima dele, envolta em nuvens de fumaça. A fumaça descia das colinas e escapava em espirais das casas no outro lado da Ponte Velha, que já não ficavam no alto, e, pior de tudo, o estrondo do tiroteio era agora quase ensurdecedor. Tonino já não ignorava o que havia assustado tanto Renata e Paolo; ele se sentia como se estivesse girando para a morte.

Ele agarrou-se à mão de Rosa e lançou um olhar desesperado para o Anjo. Este, pelo menos, ainda era imenso. O pergaminho, que ele ainda segurava pacientemente na direção deles, era quase tão grande quanto a lateral de uma casa.

— Agora a melhor coisa que vocês podem fazer, todos vocês, é entoar estar palavras rapidamente.

— Como assim? Eu também? — Angélica quis saber.

— Sim, vocês todos — Crestomanci confirmou.

Os seis se reuniram junto ao parapeito de mármore, de frente para o pergaminho dourado, com a Ponte Nova atrás deles, e começaram, um pouco hesitantemente, a colocar aquelas palavras na melodia de “O Anjo de Caprona”. As palavras ajustavam-se perfeitamente à melodia. Assim que eles perceberam isso, todos passaram a cantar com mais firmeza. Angélica e Renata pararam de tremer. Tonino soltou a mão de Rosa, que por sua vez rodeou os ombros dele com o braço. E todos cantavam como se a vida toda conhecessem aquela letra. Era simplesmente a versão em latim das palavras de sempre, mas era o que a canção sempre pedira.

 

           “Carmen pacis saeculare

           Venit Angelus cantare,

           Et deorsum pacem dare

           Capronensi populo.

           Dabit pacem eternalem,

           Sine morbo immortalem,

           Sine pugna triumphalem,

           Capronensi populo.

           En diabola albata

           De Caprona expulsata,

           Missa pax et virtus data

           Capronensi populo.”

 

Quando terminaram, fez-se silêncio. Nenhum som vinha das colinas, ou da Ponte Nova, ou das ruas lá embaixo; todo ruído havia cessado. Assim, eles levaram um susto com o ruído metálico que o Anjo fez ao enrolar lentamente o pergaminho. As reluzentes asas estendidas dobraram-se para junto do corpo do Anjo, que então sacudiu-as para que as penas se arrumassem. E esse som não era metálico, mas sim um sussurro suave de penas de verdade. Ele trouxe consigo um perfume de tal doçura que houve um instante em que eles não tiveram consciência de qualquer outra coisa.

Nesse momento o Anjo alçou vôo. Quando as imensas asas douradas passaram acima deles, o perfume retornou, e com ele o som de cânticos. Parecia que centenas de vozes cantavam a canção “O Anjo de Caprona”. Eles não tinham idéia se era o Anjo sozinho quem cantava ou se era outra coisa. Ergueram os olhos para contemplar a figura dourada que se elevava em círculos até tornar-se apenas uma centelha dourada no céu. E o silêncio continuava total, exceto pela música.

Rosa suspirou.

— Acho que é melhor descermos.

Diante dessa idéia, Renata começou a tremer novamente. Crestomanci suspirou também.

— Não se preocupem com isso.

De repente eles estavam todos no chão, sobre os paralelepípedos do átrio da Catedral. A Catedral era novamente um enorme edifício branco, as casas estavam no alto, as colinas estavam distantes atrás delas e as pessoas que os cercavam estavam tudo, menos quietas. Todos corriam para onde conseguiam avistar o Anjo que cintilava ao sol enquanto se elevava. O Arcebispo estava em lágrimas, e o Duque também. Eles se apertaram as mãos ao lado da carruagem do Duque.

Crestomanci trouxera-os para o chão a tempo de presenciar outro milagre. A carruagem começou a sacudir-se para cima e para baixo e a dar trancos para os lados, até que ambas as portas se abriram de supetão e por uma delas espremeu-se Tia Francesca; Guido Petrocchi caiu atrás dela. Pela outra porta tombaram Rinaldo e a tia ruiva dos Petrocchi. Depois deles vieram Montanas e Petrocchis misturados, em número cada vez maior, e qualquer pessoa podia ver que a carruagem não poderia conter tanta gente. Os espectadores pararam de esforçar-se para avistar o Anjo e passaram a esforçar-se para enxergar a carruagem do Duque.

Rosa e Marco se entreolharam e começaram a recuar para o meio dos espectadores. Mas Crestomanci colocou uma mão no ombro de cada um.

— Tudo vai ficar bem — ele disse. — E, se não ficar, vou colocar vocês numa casa de feitiços em Veneza.

Antonio desvencilhou-se de um tio dos Petrocchi e correu na direção de Tonino e Angélica, acompanhado por Guido.

— Você está bem? Foi você quem soltou os grifos? — os dois perguntaram ao mesmo tempo; então calaram-se e encararam-se friamente.

— Sim. Sinto muito que vocês tenham sido transformados em fantoches — disse Tonino.

— Ela foi esperta demais para nós — Angélica completou. — Mas sejam gratos por terem recuperado suas roupas normais. Olhem para nós. Nós...

Então as duas crianças foram separadas pelas tias e primas, que temiam que elas se contaminassem uma com a outra, e receberam casacos e suéteres dos tios. Paolo também foi afastado de Renata por Tia Maria.

— Não chegue perto dela, meu bem!

— Ah, está bem — disse Renata, enquanto era afastada dali. — De qualquer maneira, obrigada por ter me ajudado a subir até o domo.

— Esperem um momento! — exclamou Crestomanci era voz bem alta.

Todos voltaram-se para ele, irritados, porém respeitosos. Ele continuou:

— Se os membros de cada casa de feitiços insistirem era pensar que os membros da outra são monstros, posso lhes prometer que Caprona logo vai sucumbir outra vez.

Montanas e Petrocchis o encararam, igualmente indignados. O Arcebispo olhou para o Duque, e ambos começaram a sair de fininho para irem se refugiar no pórtico da Catedral.

— De que é que o senhor está falando? — Rinaldo perguntou em tom agressivo.

De qualquer maneira, a dignidade dele havia sido ferida por ele ter sido transformado em fantoche. O seu olhar parecia prometer esterco de vaca para todos, sendo a maior parte para Crestomanci.

— Estou falando do Anjo de Caprona — Crestomanci respondeu. — Quando, na época do Primeiro Duque de Caprona, o Anjo pousou sobre a Catedral trazendo consigo a segurança de Caprona, a História declara claramente que o Duque indicou dois homens, Antonio Petrocchi e Piero Montana, para guardiões das palavras do Anjo, portanto guardiões da segurança de Caprona. Em memória disso, cada Casa tem um Anjo acima do seu portão, e o Anjo da Catedral fica sobre um pedestal que mostra o leopardo dos Petrocchi enlaçado ao cavalo alado dos Montana. — Crestomanci apontou para cima. — Se não acreditam era mim, arranjem escadas e subam para ver. Antonio Petrocchi e Piero Montana eram grandes amigos, e assim também eram as suas famílias. Havia freqüentes casamentos entre as duas Casas. E Caprona tornou-se uma grande cidade e um Estado forte. Seu declínio começou com aquela briga ridícula entre Ricardo e Francesco.

Tanto da parte dos Montana quanto dos Petrocchi ouviram-se murmúrios de que a briga não havia sido ridícula.

— Claro que foi — Crestomanci insistiu. — Todos vocês vêm sendo enganados desde o berço. Deixaram que Ricardo e Francesco os fizessem de tolos durante dois séculos. O verdadeiro motivo da briga nós jamais saberemos, mas eu sei que os dois contaram as mesmas mentiras às suas famílias. E vocês todos continuaram a acreditar nas mentiras deles e foram ficando cada vez mais divididos, até que o Demônio Branco conseguiu entrar novamente em Caprona.

Mais uma vez ouviram-se murmúrios. Antonio disse: — A Duquesa era mesmo o Demônio Branco, mas...

— Sim — interrompeu Crestomanci. — E por enquanto ela foi afastada, porque as palavras corretas foram encontradas e o Anjo foi despertado por membros das duas famílias. Eu suspeito que isso só poderia ter sido feito por Montanas e Petrocchis unidos. Vocês poderiam ter cantado a letra correta separadamente até perderem a voz, e de nada teria adiantado. O Anjo respeita apenas a amizade. Felizmente os jovens das duas famílias têm menos preconceito do que o resto de vocês. Marco e Rosa tiveram até mesmo a coragem de se apaixonarem e se casarem...

Até esse momento, ambas as famílias haviam escutado — inquietas, é verdade, porque não era agradável ouvir um sermão diante de uma multidão de conterrâneos, isso sem mencionar o Duque e o Arcebispo, mas escutaram. Esta notícia, porém, provocou um pandemônio.

— Casarem? — gritaram os Montana.

— Ela é uma Montana? — gritaram os Petrocchi.

Todos gritavam insultos para Rosa e Marco. Quem se desse ao trabalho de contar descobriria nada menos do que dez tias em lágrimas ao mesmo tempo, todas xingando enquanto choravam.

Tanto Rosa quanto Marco estavam pálidos. Só faltava Rinaldo abordar Marco com olhar de raiva, e foi o que ele fez.

— Este monte de lixo me derrubou e abriu a minha cabeça. E você se casa com ele! — disse para Rosa.

Crestomanci apressou-se a ficar entre Marco e Rinaldo.

— Eu tinha esperanças de que alguém aqui tivesse juízo — disse, dirigindo-se a Rosa. Ele dava a impressão de estar muito cansado. — Era melhor terem ido para Veneza.

— Saia da minha frente, seu feiticeiro traidor! — Rinaldo gritou.

— Por favor, dê licença, senhor — Marco pediu. — Não preciso ser protegido de um idiota como ele.

— Marco, vocês já imaginaram o que duas famílias de magos poderosos poderiam fazer a você e a Rosa? — Crestomanci perguntou-lhe.

— Claro que imaginamos! — Marco respondeu com raiva, tentando afastar Crestomanci para o lado.

Mas novamente fez-se um estranho silêncio, o silêncio do Anjo. O Arcebispo ajoelhou-se e os espectadores, atemorizados, agruparam-se de um lado e do outro do átrio da Catedral. O Anjo estava voltando! Ele veio de longe, ao longo do Corso, desta vez a pé, com as pontas das asas roçando os paralelepípedos e o coro de vozes crescendo à medida que ele se aproximava. Quando ele atravessou a frente da Catedral, viu-se que em cada lugar que uma pena havia tocado nas pedras crescia um arbusto de pequenas flores douradas. Todos sentiram o perfume quando o Anjo, imenso e dourado, aproximou-se e estacou perto do pórtico da Catedral.

Ali ele virou seu rosto tranqüilo e sorridente para todos os presentes. Sua voz era como uma voz única cantando acima de muitas.

— Caprona está em paz. Respeitem o nosso pacto. Com isto ele estendeu as asas, deixando as pessoas aturdidas com o perfume. Em seguida começou a elevar-se, acima dos domos menores e dos maiores, para mais uma vez tomar o seu lugar no grande domo, protegendo Caprona nos anos que se seguiriam.

Na verdade este é o final da história, mas ainda faltam algumas explicações.

Marco e Rosa precisaram contar a história deles muitas vezes — pelo menos tantas quanto Tonino e Angélica contaram a sua. Entre as primeiras pessoas a quem eles contaram estava o Velho Niccolo, que estava muito revoltado por ser obrigado a ficar de cama e só não se rebelava porque Elizabeth ficou o tempo fazendo companhia a ele.

— Mas eu estou muito bem! — ele insistia em dizer.

Assim, para mantê-lo na cama, Elizabeth fez com que primeiro Tonino e depois Rosa e Marco viessem lhe contar suas histórias.

Rosa e Marco haviam se conhecido quando os dois estavam trabalhando na Ponte Velha. Apaixonar-se e resolver casar-se foi a parte mais fácil, que ocupou poucos minutos. A dificuldade era que cada um deles precisava inventar uma família para si que nada tivesse a ver com qualquer das duas Casas. Primeiro foi Rosa quem conseguiu isso; ela fingiu ser inglesa. Ficou muito amiga da moça inglesa da Galeria de Arte — a mesma Jane Smith de quem Rinaldo tanto gostava. Jane Smith, achando graça em fingir que era irmã de Rosa, escreveu a Guido Petrocchi longas cartas em inglês que supostamente vinham do pai de Rosa na Inglaterra, e chegou a visitar pessoalmente a Casa Petrocchi no dia em que Rosa foi apresentada à família.

Rosa e Marco planejaram cuidadosamente as apresentações. Usaram o feitiço da pereira — que ambos confeccionaram — nas duas Casas, para grande divertimento de Jane. Mas os Petrocchi, embora tivessem apreciado a pereira, no princípio não aceitavam Rosa. Na verdade, algumas das tias de Marco mostraram-se tão antipáticas que Marco ficou com bastante raiva delas. Foi por isso que ele foi capaz de dizer a Antonio tão veementemente que detestava os Petrocchi. Mas com o passar do tempo as tias se acostumaram com Rosa, e Renata e Angélica passaram a gostar muito dela. E o casamento foi realizado logo depois do Natal.

Durante todo esse tempo, Marco não conseguiu encontrar alguém para fingir ser da sua família. Estava ficando desesperado. Então, poucos dias antes do casamento, seu pai encarregou-o de levar um recado à casa de Mario Andretti, o construtor. E Marco descobriu que os Andretti tinham uma filha cega. Quando Marco lhe pediu esse favor, Mario Andretti disse que faria qualquer coisa por qualquer pessoa que curasse a sua filha.

— Mesmo assim nós mal ousávamos ter esperanças — Marco contou. — Não sabíamos se conseguiríamos curá-la.

— Além disso, a única vez que nós dois ousamos ir até lá juntos foi na noite depois do casamento.

De modo que o casamento foi realizado na Casa Petrocchi. Jane Smith ajudou Rosa a fazer o vestido de noiva e serviu de dama de honra, juntamente com Renata, Angélica e uma das primas de Marco.

Rosa comentou em tom seco que Jane adorou o casamento e parecia achar Alberto, primo de Marco, pelo menos tão atraente quanto Rinaldo, ao passo que Rosa e Marco só conseguiam pensar na pequena Maria Andretti. Os dois correram para a Casa Andretti assim que as comemorações chegaram ao fim.

— E eu nunca vi uma coisa tão difícil — Rosa contou. — Passamos a noite inteira trabalhando!

Ao ouvir isso, Elizabeth foi incapaz de conter-se.

— E eu nem percebi que você não estava em casa! — disse.

— Nós tomamos bastante cuidado para que não percebesse — disse Rosa. — De qualquer maneira, nunca havíamos feito uma coisa assim, de modo que tivemos que estudar os feitiços na Universidade. Tentamos 17 feitiços e nenhum deles funcionou. Finalmente tivemos que fabricar o feitiço nós mesmos. E durante todo aquele tempo eu ficava pensando: se este também não funcionar, nós demos esperanças falsas aos Andretti.

— Para não falar nas nossas — Marco acrescentou. — Mas o nosso feitiço funcionou quando já estava amanhecendo. Maria gritou que o quarto era todo colorido e que havia coisas como árvores nele, pois ela achou que as pessoas pareciam árvores, e nós todos começamos a pular e a nos abraçar. E Andretti cumpriu a sua palavra, e representou tão bem um irmão aqui que eu lhe disse que ele deveria estar no teatro.

— Ele enganou até a mim! — disse o Velho Niccolo em tom surpreso.

— Mas no final alguém certamente iria descobrir. Que é que vocês fariam então? — Elizabeth perguntou.

— Nós simplesmente tínhamos esperanças — disse Marco. — Pensamos que talvez as pessoas pudessem acostumar-se com a idéia...

— Em outras palavras, vocês se comportaram como um par de jovens idiotas — disse o Velho Niccolo. — Mas o que é este fedor horrível?

Ele saltou da cama e saiu em disparada para a varanda, para investigar, com Elizabeth, Rosa e Marco correndo atrás dele para segurá-lo.

O fedor, naturalmente, era novamente o feitiço da cozinha. Os insetos haviam desaparecido e um fedor de esgotos havia tomado o lugar deles. Durante o dia inteiro a cozinha arrotou cheiros fétidos, que ficaram mais fortes ao entardecer. Era uma situação particularmente desagradável porque Caprona inteira estava preparando banquetes e comemorações. Caprona estava verdadeiramente em paz. As tropas vindas de Florença, Pisa e Siena haviam retornado para casa (com os soldados perplexos, perguntando-se como haviam sido derrotados) e o povo de Caprona dançava pelas ruas.

— E não podemos sequer cozinhar, quanto mais comemorar! — gemia Tia Gina.

Então chegou um convite da Casa Petrocchi: a Casa Montana gostaria de unir-se às comemorações na Casa Petrocchi? Era um convite um pouco seco, mas a Casa Montana aceitou-o. O que poderia ser melhor do que isso? Tonino e Paolo suspeitaram que aquilo era obra de Crestomanci.

A única dificuldade era encontrar alguém para ficar com o Velho Niccolo, para que ele não se levantasse da cama e fosse com o resto da família. Todos concordavam que Elizabeth já fizera o suficiente, e todos, até mesmo Tia Francesca, faziam questão de ir.

Então, ainda mais afortunadamente, Tio Umberto apareceu, e com ele o velho Luigi Petrocchi. Disseram que estavam velhos demais para danças e se sentariam com o Velho Niccolo — e até em cima dele, se fosse necessário.

De modo que todos os outros se dirigiram à Casa Petrocchi, e a festa foi inesquecível. O Duque estava lá, porque Angélica havia insistido. O Duque sentia-se tão grato por ter sido convidado que trouxera consigo todo o vinho e os doces que cabiam na sua carruagem, e seis lacaios em outra carruagem para servi-los.

— O Palácio está horrível. Lá dentro só existem bonecos de Punch e Judy. Não sei por que, não gosto mais deles como gostava.

Com o vinho, os doces e a boa comida feita na cozinha da Casa Petrocchi, a noitada foi muito alegre. Alguém encontrou um realejo e todos dançaram no pátio. E, se os seis lacaios se esqueceram de servir os doces e dançaram também, quem poderia culpá-los? Afinal de contas, o Duque estava dançando com Tia Francesca — uma visão realmente formidável.

Tonino estava sentado com Paolo e Renata ao lado de um braseiro de carvão, observando a dança. E, enquanto eles estavam ali, Benvenuto surgiu de repente das sombras e foi sentar-se junto ao braseiro, onde pôs-se a limpar-se inteiramente com lambidas vigorosas.

Enquanto estendia uma pata acima da cabeça e lhe dava um banho de lambidas, ele informou a Tonino que haviam feito um ótimo e agradável trabalho com a ratazana branca. Ela não voltaria mais.

— Mas Vittoria está bem? — Renata quis saber.

Benvenuto respondeu que ela estava ótima. Estava descansando, já que estava esperando gatinhos. Seriam filhotes especiais, porque ele era o pai. E Tonino não devia deixar de levar um para a Casa Montana.

Tonino no mesmo instante pediu um filhote a Renata, e Renata prometeu pedir a Angélica. Diante disso, Benvenuto, tendo terminado de limpar ambas as patas traseiras, acomodou-se no colo de Tonino, onde enrolou-se, parecendo um tapete marrom, e dormiu durante uma hora.

— Eu queria conseguir entender o que Benvenuto diz — Paolo confessou. — Ele tentou me dizer onde você estava, mas a única coisa que eu vi foi uma imagem da fachada do Palácio.

— Mas é assim que ele sempre diz as coisas! É preciso ler as imagens — Tonino explicou. Estava surpreso por Paolo não saber disso.

— Que é que ele está dizendo agora? — Renata perguntou a Paolo.

— Nada — respondeu o menino. — Só ronc, ronc.

E todos riram.

Algum tempo depois, quando Benvenuto já havia despertado e ido tentar a sorte na cozinha, Tonino foi dar uma volta e entrou num aposento próximo sem saber muito bem por que fazia isso. Assim que entrou, no entanto, constatou que não havia sido por acaso: Crestomanci estava lá, com Angélica e Guido Petrocchi, assim como Antonio. Antonio mostrava-se tão carrancudo que Tonino preparou-se para uma repreensão.

— Estávamos falando sobre você, Tonino — disse Crestomanci. — Você ajudou Angélica a trazer os grifos, não foi?

— Foi, sim — Tonino confirmou. Lembrou-se do estrago causado e ficou com medo.

— E você ajudou no feitiço da cozinha? — Crestomanci perguntou.

Tonino confirmou novamente. Agora tinha certeza de que ia levar uma bronca.

— E quando você enforcou a Duquesa, como foi que fez isso? — Crestomanci perguntou, para grande confusão de Tonino.

O menino não entendeu como poderia levar uma bronca por ter feito isso também, mas respondeu:

— Fazendo o que o enredo da peça me mandava fazer. Eu não conseguia fugir daquilo, de modo que tive que fazer, entende?

— Entendo — Crestomanci disse, e virou-se para Antonio cora expressão vitoriosa. — Está vendo? E aquele era nada menos do que o Demônio Branco! O que acho interessante é que todas as vezes tratava-se do feitiço de outra pessoa.

Então, antes que Tonino ficasse confuso demais, Crestomanci tornou a virar-se para ele.

— Tonino, parece-me que você tem um talento novo e muito útil. Pode não ser capaz de fazer muitos feitiços próprios, mas ao que parece é capaz de fazer os poderes de magia das outras pessoas serem úteis a você. Acredito que se tivessem deixado você ajudar na Ponte Velha, por exemplo, ela teria ficado pronta em metade de um dia. Andei perguntando ao seu pai se ele permitiria que você fosse para a Inglaterra comigo, para que possamos descobrir exatamente o que você consegue fazer.

Tonino olhou para o rosto preocupado do pai. Não sabia o que pensar.

— Não para sempre? — perguntou. Antonio sorriu.

— Só por algumas semanas — disse. — Se Crestomanci estiver com a razão, vamos precisar muito de você aqui.

Tonino sorriu também.

— Então não me importo — respondeu.

— Mas na verdade fui eu quem trouxe os grifos — reclamou Angélica.

— O que era que você queria trazer na verdade? — Guido perguntou.

Angélica baixou a cabeça.

— Ratos — confessou.

E pareceu resignada quando o pai soltou uma risada.

— Eu queria conversar sobre você também — Crestomanci declarou, e voltou-se para Guido: — Os feitiços dela sempre funcionam, não é? Acho que vocês poderiam aprender com Angélica.

Guido coçou a barba.

— Está dizendo que podemos aprender a fazer as pessoas ficarem verdes e a trazer grifos?

Crestomanci pegou sua taça de vinho.

— É claro que os métodos de Angélica apresentam riscos. Mas o que eu quis dizer é que ela pode lhes mostrar que para uma coisa funcionar não precisa ser feita sempre da mesma maneira antiga. Acho que com o passar do tempo ela vai lhes fazer todo um novo conjunto de feitiços. As duas Casas podem aprender com ela — afirmou.

E ergueu sua taça de vinho.

— À saúde de vocês, Angélica e Tonino. A Duquesa pensou que estava raptando os membros mais fracos de ambas as Casas, e aconteceu que foi exatamente o contrário.

Antonio e Guido ergueram suas taças também.

— Vou dizer uma coisa: se não fosse por vocês dois, não estaríamos comemorando esta noite — declarou Guido.

Angélica e Tonino se entreolharam e fizeram uma careta. Sentiam-se muito tímidos e muito, muito felizes.

 

 

                                                                                                    Diana Wynne Jones

 

 

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