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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS OLHOS DE EMMA / Sheila Hocken
OS OLHOS DE EMMA / Sheila Hocken

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS OLHOS DE EMMA

 

                   Uma Criança Isolada

       Eu não fazia idéia de que não podia ver normalmente até por volta dos sete anos. Vivia entre imagens e cores vagas que eram embaçadas, como se uma névoa as envolvesse.

       Mas pensava que era assim que todas as demais pessoas viam o mundo.

       Minha visão foi-se tornando cada vez pior até que, no final da adolescência, quase só conseguia distinguir a luz da escuridão, e isso era tudo. Mesmo nos meus sonhos as pessoas não tinham rosto. Eram vultos numa bruma. Em minha mais remota lembrança, acordada ou sonhando, a bruma estava sempre lá, e vagarosamente ela foi se fechando até tornar-se impenetrável, e aí até mesmo os vultos embaçados finalmente desapareceram.

      Nasci em 1946 em Beeston, Nottingliam. Meus pais tinham visão Deficiente e também o meu irmão Graham, que é três anos mais Velho do que eu. O problema nos olhos É hereditário: catarata congênita que provoca dano na retina.

       Herdei isso do meu pai. A doença de minha mãe era diferente, foi Causada por rubéola quando ela era pequena, mas nenhum dos dois conseguia ver muito bem. A fatalidade que atingiu a nós quatro - ninguém era capaz de enxergar bem - pode parecer estranha a uma pessoa com visão normal. Se eu fosse a única doente, uma criança com problema de visão numa família em que todos enxergassem perfeitamente, as coisas teriam sido certamente diferentes. Mas em minha família ninguém jamais falou em cegueira, ou em não ser capaz de enxergar bem. Era tudo aceito como um fato da vida e ninguém tocava no assunto. Talvez mamãe e papai mantivessem algum tipo de conspiração do silêncio sobre este tema para ajudar a Graham e a mim, e se isso era verdade, foi uma coisa boa. O que ajudaria dizer a um menino e a uma menina que eles não eram iguais as outras crianças? Éramos poupados a fim de manter intacta nossa confiança.

       Somente fazendo uma retrospectiva é que compreendo que muitas coisas consideradas normais em nossa vida diária seriam consideradas como estranhas por outra pessoa.

       Na hora das refeições, derrubar um vidro de molho enquanto se passava a mão pela toalha à procura do sal era um fato tão freqüente que ninguém dizia nada quando acontecia.

       Eu devia ter cinco ou seis anos, suponho, quando comecei a me questionar a respeito de as outras crianças não baterem com a cabeça nas paredes ou rolarem as escadas como freqüentemente acontecia comigo. Cair e esbarrar em coisas tinha sido sempre um acontecimento tão comum em minha vida que eu aceitava tudo como normal e quando ainda pequena provavelmente me achasse um pouco desastrada. Eu me encarregava de dar minhas próprias explicações e desculpas. Ao mesmo tempo, nada disso realmente chegou a me aborrecer.

       O que finalmente me fez sentir uma criança isolada foi o fato de ver meus amigos assistindo à televisão. Em casa, a família não podia sentar-se reunida para ver um programa, porque cada um de nós tinha de ficar bem perto da tela para poder enxergar. Certo dia percebi que outras pessoas, apesar de sentadas bem afastadas da tela, podiam ver perfeitamente.

       Hoje em dia, minha lembrança desses dias distantes, contudo, é tão nebulosa quanto a luz do dia costumava ser para mim naquela época.

       Imagino que as pessoas com visão normal tenham poucas lembranças vívidas de sua infância, mas eu não consigo sequer lembrar da imagem do meu pai e da minha mãe, a não ser em termos de tato e sons. E da mesma forma como não tenho qualquer memória visual de meus pais, ou, pelo menos, de nada que seja significativo, também não posso lembrar-me de impressões visuais da casa onde morávamos, que ficava numa pequena cidade chamada Sutton-in-Ashfield, perto de Mansfield. Mudamos para lá pouco depois de eu nascer. Como casa, eu a conhecia pelo aroma do pão no forno e das tortas e pelo calor e ruído do fogo de carvão crepitando e assoviando na grelha. Nada mais.

       Meu pai ficava fora muito tempo, viajando por todo o país vendendo tecidos. Não há dúvida de que sua visão deficiente era uma grande desvantagem, mas ele jamais admitia isso; só discutia os problemas para nos contar as coisas engraçadas que aconteciam com ele.

       Lembro dele chegando em casa certa noite, depois de uma longa viagem de trem, e contando-nos que tinha ido ao carro restaurante tomar chá.

       Depois de encontrar um lugar no meio daquela multidão de passageiros, viu algo que lhe pareceu um cinzeiro. Curvou-se para frente e jogou dentro o toco do cigarro, mas, para divertimento dos outros passageiros e embaraço dele, o cinzeiro que ele descobrira não passava de uma torta de frutas.

       Não demorou muito para meu pai admitir que os negócios fossem mal em conseqüência da deterioração de sua visão. Essa constatação foi um golpe que alterou por completo nosso estilo de vida. Naquela época, porém, as crianças não compartilhavam dos assuntos dos pais, e Graham e eu não fomos informados exatamente sobre o que acontecera.

       Tomamos conhecimento do primeiro sinal de mudança certo dia quando, ao voltarmos da escola, mamãe pediu-nos para ajudá-la a arrumar a bagagem. Ela não disse nada sobre a súbita incapacidade de papai ganhar o sustento da família.

       — O que aconteceu, mamãe? Para onde vamos? — perguntei.

       — Compramos uma loja - respondeu ela. — Vamos nos mudar para Nottingham.

       Nottingham! Isso era muito excitante para Graham e para eu mudar para uma grande cidade, longe do lugarejo onde vivêramos tantos anos.

       Nossos pais tinham conhecimento, mas nós dois não, que aquilo significava um retrocesso em nossa vida, porque iríamos morar numa casa de um dos bairros mais pobres e miseráveis da cidade, St. Ann's Well Road. E o que nem Graham nem eu percebemos na hora foi que seria muito mais difícil para nós conviver com outras pessoas e outras crianças depois de passarmos tanto tempo com aquelas que conhecíamos e com as quais estávamos acostumados.

       Em lugar dessa reflexão, havia a alegria da mudança. A loja ficava numa esquina. Minha mãe, que enxergava muito melhor do que meu pai cuidou do estoque de tecidos, marcou os preços nas etiquetas e deu ciência a ele de todos os preços. Estávamos acostumados a que ele permanecesse muito tempo fora de casa, viajando, mas agora ele estava sempre em casa e tinha mais tempo para passar conosco.

        Papai não podia fazer muito na loja — um tremendo golpe em seu orgulho — e finalmente teve de se adaptar ao estilo de vida dos cegos: começou a fazer vassouras no Instituto Midland para Cegos. Felizmente, ele não demorou muito tempo fazendo vassouras, porque logo depois de entrar para o Instituto pôs as mãos pela primeira vez, numa guitarra. Ele demonstrou possuir um talento inato desde o início, não apenas para arranhar algumas canções populares bem, conhecidas, mas também para escrever suas próprias melodias e letras. E agora ele ganha a vida apresentando um programa de música country e western chamado Flor de Laranjeira Especial, na Rádio Nottingham.

       Também viaja pelas Ilhas Britânicas tocando suas músicas em alguns clubes. E não há mais o perigo de o acidente com a torta de frutas repetir-se, porque ele deixou de fumar.

       Graham e eu logo descobrimos que as crianças daqui eram mais indelicadas do que as que conhecêramos em Sutton-in-Ashfield. Elas me chamavam de todos os tipos de nomes, mas como mamãe sempre nos ensinara, nós as ignorávamos.

       Provavelmente por causa disso, meu irmão e eu ficamos mais unidos.

       Graham era terrível com suas pequenas chantagens comigo. Eu sempre lhe pedia que lesse para mim, quando estávamos na cama, à noite. E ele dizia:

       — Vou ler para você um capítulo de Enid Blyton se você jogar críquete comigo amanhã.

       — Oh, não, críquete não — eu protestava. — Você sabe que não gosto de jogar críquete.

       Tinha pavor de ser atingida pela bola, que é muito dura. No fim, contudo, atraída por Enid Blyton e sua história de Shaduw, o, Cão Pastor, eu acabava cedendo e dizia:

       — Está bem, jogo uma partida, se você prometer não usar aquela bola dura.

       A barganha perdurava com Graham respondendo que não seria realmente um jogo de críquete se não fosse com a bola dura, e eu dizia que não jogaria a menos que ele usasse uma bola macia, de tênis. Eu geralmente conseguia fazer com que prometesse jogar com uma bola macia e então ele lia o capítulo para mim.

       Minha mãe também costumava brincar muito comigo. Eu tinha um ursinho que só tinha um olho (parece que por ironia) e lembro-me de que estava sempre com pena dele.

       Mamãe e eu nos divertíamos muito com ele. Ela me levava quando saía para fazer compras e, se íamos à loja Woolworth's, eu queria sempre tocar nos brinquedos. Só conseguia vê-los como vultos, mas não conseguia dar-lhes uma identidade, a menos que os tocasse, o que talvez fosse um problema para minha mãe, pois a regra geral para crianças naquela época era: "Não mexam!" Mas ela devia ter os vendedores da loja a seu lado, porque eu sempre acariciava as bonecas e os bichinhos de pelúcia ou as caixas dos jogos de armar. E mesmo até hoje ainda não conheço de verdade um objeto por completo se não puder tocá-lo.

       Um incidente aparece em minhas mais remotas lembranças. Minha mãe levou-me para passar o dia em Skegness, um popular recanto à beira-mar muito freqüentado pelos moradores de Nottinghan. Eu estava num carrossel, alegremente girando em meu espaço fechado, e quando o brinquedo parou continuei no meu cavalinho colorido e não levantei-me. Isso porque estava acostumada com o fato de minha mãe sempre vir me apanhar. Eu não conseguia localizar as pessoas; em vez disso, esperava que viessem pegar-me.

       Sendo assim, permaneci no carrossel. A próxima coisa de que me lembro é ter sido levantada por uma senhora com voz arrogante. Poucos minutos depois me encontrava completamente perdida, aterrorizada e gritando muito. Depois de algum tempo, em meio às lágrimas, percebi uma figura vindo em minha direção. Quando o vulto se aproximou identifiquei ser uma mulher e de imediato pensei que fosse minha "salvadora". Mas então, em parte pelo sotaque, identifiquei que era minha mãe e falei:

       — Oh, mamãe, pensei que você fosse uma mulher.

       Esta frase logo se tornou parte da linguagem particular de nossa família.

       Quando eu era um pouco mais velha tinha um triciclo, embora nunca deixassem-me sair do jardim com ele. Mas quando Graham ganhou uma bicicleta, eu queria desesperadamente uma igualzinha à dele. Infernizei a vida dos meus pais. Mas, como em tudo mais, mamãe jamais   dizia para mim de modo direto: “Você não pode ganhar uma bicicleta porque não enxerga direito.” Ela inventava todo tipo de desculpas. Era como se não quisesse admitir, nem mesmo para si, que minha visão não era boa; aquilo era algo que ela desejava manter enterrado para que nunca fosse revelado. Acho que meu pai mantinha se em silêncio por achar-se desapontado pelo fato de eu ter herdado o seu problema de visão. Acredito que quando nasci ele deve ter esperado com todas as suas forças que meus olhos fossem normais. Mas eu seguira o padrão da família e acho que ele procurava fechar-se em si mesmo por causa disso, e o resultado é que me dava menos atenção. Conhecendo suas próprias dificuldades, sabia que as coisas não seriam mais fáceis para mim.

       Considerando, porém, tudo isso, o fato é que, até onde me importava, meu irmão podia ter uma bicicleta e eu não, e não entendia por quê. Então, certo dia, apanhei "emprestada" a nova e reluzente Hercules do meu irmão. Como consegui subir e andar e o que aconteceu fazem-me tremer até hoje, Mas apanhei a bicicleta e saí pedalando pelo portão na direção da rua. E lá fui eu sem ao menos me dar conta de que o tráfego seguia pelo lado esquerdo da pista. Nunca me ocorrera que os carros e os demais veículos circulassem numa determinada pista. Entretanto, como por um milagre, nada me atingiu, e sem saber como parar numa descida não muito inclinada, saí da pista, subi no meio fio e fui bater de encontro a uma parede.

       Eu simplesmente não sabia o que fazer, A roda da frente estava retorcida e o suporte da lanterna empenado. Meu coração disparou, deixei a bicicleta onde ela caíra e aos tropeços consegui encontrar o caminho de casa, onde me escondi no andar de cima por um período que me pareceu de horas. Pouco tempo depois ouvi vozes na cozinha. Era Graham, quase chorando, que dizia a minha mãe:

       — Mamãe, minha bicicleta sumiu. Alguém a roubou!

       Minha mãe, então, parecendo exausta e aborrecida:

       — Não tenho tempo para pensar nisso agora, Graham, você viu Sheila?

       Finalmente reuni coragem suficiente, desci e contei toda a verdade.

       Não posso lembrar o que mamãe disse, mas pareceu aliviada em ver que eu estava bem e não deu mostras de se importar com a bicicleta. Mas Graham estava aos prantos e saiu correndo para apanhar a bicicleta.

       Meu pai, então, apareceu e mamãe contou-lhe minha terrível saga.

       Ele também ficou assustado, em vez de zangado.

       — Sheila, o que houve com você? Podia ter morrido. Em seguida houve um silêncio e fiquei imaginando o que viria a seguir. Finalmente ele completou: — Vai custar muito dinheiro do meu bolso para consertar a bicicleta.

       Pode-se pensar que houve descaso da parte deles em não tentar operar meus olhos. A resposta é que o estágio da cirurgia de olhos naquela época não estava tão evoluído quanto hoje em dia, e a família não fora bem atendida pelos métodos então disponíveis. Meu pai fizera uma série de operações sem sucesso. Meu irmão Graham voltara do hospital com um olho completamente perdido em conseqüência de uma cirurgia (embora o outro olho dele fosse melhor que os meus dois juntos). Por outro lado, fiz uma operação, mas não obtive êxito e meus pais, especialmente com a experiência feita por Graham na mente, decidiram-se contra outras tentativas.

       Quando eu tinha cinco anos, surgiu a questão da minha educação. Eu era uma pessoa registrada como cega e as autoridades educacionais eram inflexíveis quanto ao fato de que eu deveria ser enviada para uma escola especial. Meus pais eram totalmente contra esta medida. O método usado nas escolas para cegos, quando meu pai freqüentara uma em sua infância, era que, independente do grau de visão da criança, ela deveria ser tratada como uma pessoa cega. Ou seja, aprender braile, Meu pai não foi encorajado a usar o que ainda lhe restava de visão. As coisas, e digo isso com prazer, mudaram muito desde então, e qualquer criança com um mínimo de visão seja é hoje encorajada a desenvolver sua utilização nessas escolas. Quando meus pais se conheceram, ele só conseguia ler em braile e foi ela quem o ensinou a ler visualmente com o uso de letras de fôrma bem grandes. Papai, por ter sido enviado a uma escola especial, teve uma infância isolada e mais tarde encontrou dificuldade para integrar-se no mundo das pessoas com visão normal.

       As autoridades educacionais de Nottingham, porém, tinham suas próprias idéias. A princípio tentaram persuadir e depois ameaçaram com ação legal, se eu não fosse "voluntariamente" enviada a uma escola para cegos. A resposta de minha mãe a isso foi:

       — Bem, se eu conseguir que aceitem Sheila numa escola primária comum, então ela estará sendo educada e assim será. Não há nada que os senhores possam fazer.

       As coisas não correram bem, mas tivemos um golpe de sorte.

       Descobriu-se que o diretor da escola primaria que minha mãe procurou era cego de uma vista. Portanto, ele entendia o problema um pouco melhor, mas acima de tudo teve compaixão. Concordou em aceitar-me e ver como eu me desenvolveria.

       Jamais deixei de agradecer à minha estrela da sorte pela decisão que ele tornara, o que fez uma grande diferença em minha vida.

       Então ingressei na Bluebel Hill Junior School, mas lembro-me pouco dessa instituição, exceto que era um lugar velho, barulhento e cheio de gente. Do que realmente lembro-me é de como fiquei aterrorizada com a multidão de crianças no pátio. Elas pareciam estar correndo por toda parte e gritando ao mesmo tempo. Era muito assustador, como um súbito acesso a um mundo inesperado e louco, e na hora do recreio eu costumava ficar sentada fora do caminho, ouvindo o barulho medonho e, com o pouquinho de minha visão, observando aqueles vultos que não paravam de se mexer. Eu era uma garota pequena, com o vestido azul de veludo, que imaginava fazer parte daquele grupo da escola mas que na verdade não fazia.

       Aos 11 anos, fui transferida para a Pierrepont Secondary Modern. Nessa época eu já ia à escola sozinha e a caminhada diária era um pouco como enfrentar um “paredão da morte". Além de saber que esbarraria em todos os objetos estranhos que estivessem no caminho, como engradados de leite deixados nas portas das casas, e mesmo os degraus, havia no final da rua um grupo de garotos que às vezes esperava para zombar de mim quando eu passasse, sendo que um dos nomes mais delicados de que me chamavam era "cegueta". Posso ouvi-los agora "Olha a... cegueta..." O estranho é que esses meninos tinham um cão mestiço que corria para mim e eu para ele. Eu costumava brincar com ele e às vezes ele me acompanhava até a escola. Acho que foi assim que comecei a pensar que em alguns casos os animais são mais gentis do que os seres humanos... E uma companhia melhor também.

       Desnecessário dizer que houve dificuldades na escola. A atitude era:

       “Ou você progride sem ajuda extra de nossa parte ou então terá de”.

       “ser enviada a uma escola especial.”

       Um dos meus maiores problemas era não poder enxergar, o quadro-negro, mesmo se me sentasse na fila da frente. Certo dia, que guardo vivo na memória, nossa professora de inglês, Srta. Pell deu-me licença para levantar e chegar mais perto do quadro. O que estava escrito era uma longa regra de análise gramatical, muito difícil de entender de qualquer modo. Eu, então, tinha de ler uma linha de cada vez, tentar me lembrar do que lera e voltar até minha carteira para anotar.

       O problema é que a turma estava se tornando cada vez mais irrequieta e aborrecida, pois cada vez que eu ia ao quadro ficava na frente do exercício que os alunos estavam copiando. Logo a sala se encheu de reclamações: “Estou fazendo o exercício, a Senhora não pode tirá-la da frente?”.

       “ Ela está na frente, Professora.”

       "Ela está atrapalhando."

       A Srta. Pell era muito bondosa. Disse então a todos:

       — Vocês vão ter de esperar um instante.

       Mas a tensão estava aumentando e depois de três idas ao quadro-negro eu desisti e passei a ouvir suspiros de alívio em vez de gritos de protesto. O silêncio só era quebrado pelas canetas roçando no papel enquanto eu permanecia quieta, preferindo me tornar analfabeta a ter de passar por aquilo novamente. A única compensação é que eu começava a desenvolver uma memória bem treinada.

       Contudo, para cada professor ou aluno intolerante, havia igual número de pessoas que se importavam comigo. E estas permaneceram muito mais em minha mente. Lembro-me de um professor de Geografia que percebeu a minha impossibilidade de ver as partes menores e os diversos sinais e símbolos dos mapas e diagramas. Quando ficou claro para ele o que estava acontecendo, ou melhor, o que não estava acontecendo, ofereceu-se para me ensinar fora da escola. Foi muita gentileza dele e o resultado dessa dedicação apareceu nos exames de fim de ano, quando consegui o segundo lugar em Geografia.

       Dessa forma, tendo chance, eu me encarregava de fazer o resto, e a questão de eu ter de ser transferida para uma escola de cegos nunca chegou a ser colocada de forma séria, muito embora minha visão estivesse se tomando cada vez pior.

       Eu conseguia ir me mantendo e a maioria das notas obtidas foi boa, especialmente nas matérias em que as aulas eram expositivas e eu podia confiar na memória. Tive resultado especialmente bom em História e Ciências, em que tínhamos de fazer nossas experiências elementares. Eu tinha pouca dificuldade para lembrar dos artigos da Magna Carta ou dos nomes das esposas de Henrique VIII; nem tive problema, por estranho que pareça, em manipular o bico de Bunsen. Mas em matérias como Geografia, a menos que eu tivesse um professor me dando aulas extras, eu não era boa. Em Matemática eu era quase nula; minha habilidade não dava para fazer as divisões muito grandes. Isso porque não conseguia seguir, junto com os demais alunos, a instrução passo a passo transmitida com auxílio do quadro-negro. Pode-se imaginar os problemas que enfrentei com os pontos decimais.

       Quando se aproximou o Dia de Visitação dos Pais, a Srta. Thompson, nossa professora de Ciências, resolveu que os alunos deveriam dissecar algumas flores e colocar as diversas partes delas num papel com os respectivos nomes. Já tínhamos feito isto em Biologia e, devido a sua intrincada natureza, era algo em que eu não me saíra bem. Uma pessoa muito compreensiva, a Srta. Thompson chegou-se a mim e disse:

       — Sheila, sei que isso não será fácil para você. Gostaria que eu lhe desse outra atividade para o Dia dos Pais?

       — Sim, por favor — respondi imediatamente.

       Não desejava ficar de lado enquanto os outros alunos dissecassem suas flores, recebendo o olhar dos pais, que certamente pensariam: “Ah”, aquela deve ser a menina “Que não consegue enxergar direito.”

       Infelizmente, não achei a idéia da Srta. Thompson muito boa. No dia da sua aula ela me falou:

     — Encontrei algo para você fazer e lá atrás tem uma mesa para você trabalhar. - Levou-me até a mesa e então explicou:

       — Aqui estão alguns potes vazios de geléia. Quero que você ponha água neles. Cada um deverá receber uma quantidade diferente de água. Depois você poderá bater neles com o lápis e mostrar os diferentes sons de cada um.

       Fiquei aterrorizada. Nada me faria ficar mais destacada dos outros do que isso.

       — A senhora não pode arranjar nada diferente para eu fazer? Não poderia limpar as gaiolas dos hamsters?

       Ela pareceu um pouco desapontada e respondeu:

       — Pensei muito para conseguir esta tarefa, Sheila. Pensei que gostaria de fazê-la. É algo que você pode fazer. Pode ouvir o resultado do seu trabalho e também sentir a água.

       — Sim, mas me parece algo tão infantil, especialmente porque os demais estão fazendo algo realmente importante.

       Mas suponho que ela estivesse muito orgulhosa da sua idéia. E não me deixaria fazer outra coisa. Então tive de encher os potes de geléia e depois ficar batendo neles para fazer barulho. Todo o tempo pude sentir os olhares dos pais sobre mim. Com uma piedade que eu não desejava.

       Fiz amigos na escola, mas não tão depressa quanto as outras crianças. Principalmente porque não podia participar das brincadeiras delas. Eu tentava me juntar aos outros, mas nunca conseguia me manter nos jogos. Embora fosse quase impossível para eu jogar tênis, eu estava sempre inscrita neste esporte. Fazia todo o esforço, de pé naquele mar verde com o traje branco, esperando desesperadamente que a bola batesse na raquete depois de ultrapassar a rede. Mas não consigo me lembrar de ter obtido bons resultados. Outra grande dificuldade era encontrar quem quisesse jogar comigo. E eu invariavelmente terminava com um adversário que não gostava de tênis. Mas acho que Wimbledon não perdeu nada com isso!

       Fora da escola a vida também era complicada. Tinha amigos mas, como eu, eles eram adolescentes e nesta fase poucas pessoas estão prontas a atender as necessidades de uma amiga cega que precisa ser cuidada e levada pelo braço. Quando saíam à noite, talvez para ir ao Nottingham Palais, na Parliament Street, ou ao Jepson's, outro salão de baile, eu queria ir com eles; mas, se eu fosse, significava ter de fazer tudo que eles quisessem fazer e ir a todos os lugares aonde fossem. O senso de restrição era enorme mas não havia escolha, porque eu não sairia sozinha. Quando ia a bailes, ficava completamente petrificada se um rapaz me convidasse para Dançar Sentia-me tão assustada que cometia erros ou não conseguia seguir seus passos. Por outro lado, quando ninguém me convidava para dançar, eu ficava no canto do sofá, ansiosa, porque assim, sozinha, não conseguia ver direito, além de uma embaçada sensação de luz e cores, em vez dos pares dançando. Meu pensamento Constante era: “E se todos forem embora com suas namoradas e namorados e me deixarem aqui?”Às vezes pensava também: “Ninguém me tira para dançar porque sou cega.”

       Eu ficava sempre muito confusa e sentia-me como um goivo com suas pétalas fechadas. Lembro-me de uma ocasião particularmente terrível em que um rapaz chamado Philip deixou-me no meio do salão depois que a música terminou e ouvi todos se afastando. Senti a desconfortante sensação de um vazio abrindo-se à minha volta à medida que os passos dos dançarinos os levavam para fora do salão. Fingi estar arrumando o cabelo, mas por dentro estava aterrorizada, até que uma das minhas amigas salvou-me daquela situação. Depois disso desisti de ir a bailes, porque era sempre um sofrimento. Comecei a odiar tudo aquilo, o que obrigou-me a abandonar o grupo de pessoas da minha idade. Como resultado, também não tinha oportunidade nenhuma de encontrar rapazes. Mesmo quando eu os conhecia, eles me ignoravam e naturalmente isso me preocupava muito porque eu tinha receio de jamais vir a me casar.

       Mas, se a vida era mais difícil do que precisava ser devido a minhas obstinações e ao meu orgulho e a minha simples recusa de ser considerada diferente das pessoas com visão normal, havia compensações em viver num lar com pais que Conheciam as dificuldades da cegueira e, mais que isso, sabiam que a melhor forma de conviver com elas era não se entregar. Eu era muito feliz por isso. Se não conseguia fazer alguma coisa por não enxergar, minha mãe me ensinava como fazer. Eu precisava então aprender e fazer sozinha. Por exemplo, enfiar linha na agulha. Mamãe Ensinou-me isso de um modo bem simples. Um método que uma pessoa que enxerga bem jamais pensaria em ensinar a um cego. O método consistia em apanhar a agulha (a parte onde fica o furo pode ser identificada porque é mais grossa que a Ponta) e segurar a linha entre o polegar e o indicador; depois empurrar a agulha entre os dois dedos. Finalmente a linha entra pelo buraco da agulha. O sucesso não é logicamente imediato.

       Precisa tentar algumas vezes, 20 que sejam. Mas finalmente consegue-se o resultado esperado.

        Aprendi também a costurar desenvolvendo a capacidade de sentir as coisas. Pregar um botão, por exemplo, era fácil e todas as outras coisas mecânicas tornaram-se possíveis para mim, graças a minha mãe, que me ensinou a usar o sentido do tato.

       — Sinta — ela dizia.

       Isso se aplicava até a sentir onde estava à poeira na hora de varrer o chão, e sentir uma segunda vez, e uma terceira, para certificar-se de que a poeira estava toda na pá de lixo. Acontecia a mesma coisa quando ia passar roupa a ferro. As pregas e dobras podem ser sentidas. Suponho, porém, que se eu fosse uma criança cega numa família com visão perfeita, jamais me deixariam chegar perto de um ferro elétrico com medo de que me queimasse. Em minha família, não havia alternativa. Cada um deveria fazer o quanto pudesse, e assim fui criada.

       Certa vez perguntei a mamãe se ela tivera idéia alguma vez, antes de eu nascer, de que eu não teria a visão perfeita. E fiquei espantada quando ela disse que não soubera o que poderia acontecer, mas que desejara correr o risco. Vendo meu horror, ela então me perguntou se eu gostava da vida que levava e se realmente valia a pena viver, apesar de todos os problemas. E é claro que respondi afirmativamente. Ela correra um risco, mas percebi que estava com a razão e que eu tinha condições de viver normalmente, apesar da cegueira, como as outras pessoas da minha família.

       Quando cheguei ao último período na escola, a decisão sobre meu futuro tinha de ser encarada. O que eu realmente desejava fazer era trabalhar com cães, porque sempre os adorei. Nos fins de semana costumava   trabalhar nos canis Existentes perto de casa, sempre dando um jeito para disfarçar a minha dificuldade em enxergar direito. Aconteceu num sábado. Eu estava exercitando um cão pastor alsaciano enorme e de repente, ele se soltou da coleira. Eu não tinha a menor noção de para onde ele tinha ido e fui invadida por um pânico imenso. E se ele tivesse saído do quintal e fosse atropelado? Comecei a sacudir freneticamente a guia do cachorro e chamei por ele, chamei por ele. Para espanto meu, e alívio também, ele atendeu e voltou imediatamente. Apesar disso, quando fui entrevistada pela orientadora vocacional e disse-lhe que desejava trabalhar com cães, ela nem deixou que eu acabasse de falar. A idéia foi desconsiderada como impossível.

       A primeira pergunta que então me fez deixou-me surpresa:

       — Sheila, pode me dizer onde é o Mar do Norte?

       Mar do Norte? Além das aulas de Geografia eu estivera em pessoa em Skegness, que fica no Mar do Norte. Mas não pude responder. Acima de tudo, não conseguia entender o motivo da indagação. Depois eu lhe perguntei.

       — Bem, diga-me então onde fica Birmingham.

       Isso eu sabia. E também a resposta à pergunta seguinte:

       — Sabe me dizer onde fica Edimburgo?

       Depois de dizer a localização de Edimburgo, reuni bastante coragem para lhe perguntar o motivo da pergunta.

       — Bem, se você for trabalhar como telefonista, e vou recomendá-la, deve ter uma noção de onde ficam diversos lugares.

       Fiquei espantada. Telefonista! Este era o último emprego do mundo que eu desejava. Sabia que as opções para alguém com problemas de Visão como eu era restrita, mas mesmo nos momentos de maior depressão jamais pensei em viver o resto da vida fazendo e desfazendo ligações telefônicas. Mesmo assim, quando as aulas terminaram, fui enviada ao Centro de Treinamento do Governo em Long Eaton para ser treinada como telefonista. Sob o comando de um instrutor extremamente brusco e rígido, chamado Ted, aprendi as técnicas do trabalho numa mesa telefônica. Em seguida, com ajuda do Centro, consegui um emprego numa grande loja de roupas de Nottingham. Nesta época ainda podia enxergar o suficiente para distinguir as luzes do painel, mas detestava cada minuto que permanecia no trabalho. Embora fosse fácil aprender onde colocar os diversos plugues, como fazer ligações, dar recados e decorar os números dos ramais, a atmosfera do lugar era terrível. Mesmo assim, agüentei aquilo durante um ano, antes de me transferir para uma firma mais agradável em que as pessoas eram mais amáveis.

       Ao voltar para casa certa tarde, mal acabara de fechar a porta quando mamãe me chamou.

       — É você, Sheila? Tenho novidades.

       — O que é? — perguntei, procurando o cabide para pendurar o casaco.

       — Fiquei sabendo de um emprego que serve para você.

       Mal conseguia esperar para me fornecer todos os detalhes. Sabendo como ela se preocupava pelo fato de eu andar sozinha por Nottingham, percebi o motivo do seu contentamento.

       A colocação era numa empresa chamada Industrial Punips. Queriam uma telefonista. O mais interessante era que a firma não ficava no centro da cidade e o trajeto até lá era mais fácil. No dia seguinte telefonei para o Senhor Dickson. A principio não pareceu muito entusiasmado e minhas esperanças começaram a se esvair quando ele disse que muitas pessoas haviam procurado a empresa atrás do emprego. Achava, inclusive, conveniente não fazer mais nenhuma entrevista. Contei-lhe então que era uma pessoa cega registrada e sua atitude mudou imediatamente.

       — Por que não me contou isso logo? Venha ainda hoje e conversaremos. —Pode chegar aqui às cinco e meia?

       Para surpresa minha, consegui o emprego imediatamente, mas somente mais tarde vim a saber o motivo. O Sr. Dickson também tinha um defeito: uma de suas pernas era mais curta que a outra e ele caminhava com certa dificuldade. Na verdade, mostrou-se muito compreensivo e não apenas nessa ocasião.

       Era um homem maravilhoso, sempre imbuído de paciência para ouvir os problemas dos outros.

       À medida que o tempo corria, meus olhos tornavam-se piores, de maneira imperceptível. E aos 17 anos já não conseguia enxergar nada a minha frente, tanto em casa quanto na rua. Nesta fase já não conseguia ler e tinha de me valer do braile. Percebi então como tudo no vocabulário normalmente usado reflete o mundo das pessoas que enxergam. A linguagem é relativamente pobre, em termos de descrição precisa de sensações que não sejam visuais, e por isso os cegos ficam praticamente privados de descrever suas percepções corretamente. O campo de referência a que me acostumara estava retraindo-se. Agora, não apenas as palavras mas também as noções de tempo e espaço eram inexatas e arbitrárias e nem sempre correspondentes às de uma pessoa com visão. Para aqueles acostumados a fazer isso, a colocação da toalha no cabide ou de uma xícara na prateleira é algo automático. Uma pessoa cega Tem de pensar “seis passos até a porta, cinco passos pelo corredor”.

       “Até o banheiro". Cada distância precisa ser mentalmente planejada.

       Foi nessa época, quando meu leque de possibilidades tornava-se mais e mais limitado e meu futuro parecia ser um vácuo cada vez mais escuro, que Emma entrou em minha vida e transformou-a por completo. Um mundo novo abriu-se a minha frente.

    

                   EMMA CHEGA

       Para dizer a verdade, eu tinha vergonha de ser cega. Recusava-me a usar a bengalinha branca. É preciso lembrar que eu era uma adolescente e não podia suportar as pessoas olhando para mim e percebendo que eu não era como elas.

       Pensando bem, devo ter sido um perigo nas ruas, Os motoristas provavelmente devem ter passado momentos de aflição; de repente deparavam comigo caminhando no meio dos carros, obrigando-os a parar instantaneamente. Fora isso, houve todos os tipos de desastres no caminho de ida e de volta do trabalho.

       Certo dia aconteceu algo que fez muita diferença em minha vida. Desci do ônibus para tomar outro que me deixaria perto de casa. Estava andando cautelosamente, como sempre fazia, até a parada do segundo ônibus. Esbarrei em alguma coisa.

       — Sinto muito — disse automaticamente e tentei andar novamente, mas voltei a me chocar.

       Na terceira vez, percebi que estava me desculpando a um poste. Esta foi apenas mais uma das coisas idiotas que constantemente aconteciam comigo, mas há muito eu aprendera a não me incomodar com esses fatos ou a considerá-los engraçados. Desviei-me do poste e segui para o ponto do ônibus.

       Não havia ninguém na parada e eu tinha de descobrir sozinha que o ônibus estava se aproximando.

       Geralmente, quando acontecia isso, já que detestava demonstrar que era Cega pedindo ajuda, eu procurava identificar o ruído. Às vezes fazia sinal para caminhões ou furgões e, depois que eles passavam sem me dar confiança, eu ficava ali como estúpida, engolia meu orgulho e pedia auxílio a alguém que estivesse no ponto.

       Mas nesta tarde não havia ninguém na parada; era como se todos de Nottingham tivessem decidido, subitamente, não andar mais de ônibus.

       Obviamente escutei muitos ônibus passarem, se é que eram mesmo ônibus. Mas como resolvera não fazer sinal com medo de bancar a boba, deixei todos irem embora.

       Fiquei ali, parada, durante meia hora sem fazer sinal para nada. Resolvi caminhar até o ponto seguinte, na esperança de encontrar alguém lá.

       Segui caminhando pela calçada o melhor que pude; esta é outra assustadora experiência, difícil de descrever a quem nunca foi cego; porque, apesar de se estar cercado de ruídos, não se tem uma imagem mental coerente do que está ao redor, e caminha-se orientado apenas pelos sons.   Os ruídos eram do tráfego e dos passos das pessoas. Às vezes, pelo tipo de som, eu podia dizer se estava passando perto de edifícios ou diante de espaços abertos. Mas não tinha absolutamente nenhuma concepção visual de como era a rua, muito menos do que estava do outro lado dela: as casas, as lojas, as pessoas e assim por diante; aquilo poderia ser o fim do mundo ou outro universo. Haveria crianças brincando, pessoas conversando, mulheres comprando pão ou batata? Como seriam essas pessoas? Quem seriam elas?

       Eu não fazia a menor idéia.

       Caminhava encerrada num mundo cinzento, uma caixa de' sons, um pequeno quadrado colocado em torno de mim.

       Finalmente cheguei ao outro ponto de ônibus. Mas ali também não havia ninguém e nenhum ônibus tampouco parou. Caminhei, então, até a parada seguinte e depois até a outra, e até a outra. Neste ponto eu já estava completamente perdida e não sabia se estava parada num ponto de ônibus ou ao lado de um poste. No fim das contas, Resolvi andar oito quilômetros até o terminal, na cidade, por que sabia que se chegasse lá tomaria o ônibus certo. E foi isso o que aconteceu, mas a essa altura eu já estava mais de duas horas atrasada no horário de chegar em casa.

       E sentia-me muito mal quando lá cheguei.

       Acredito muito no Destino. Aquela foi a maior influência em toda minha vida e tenho certeza de que o Destino tinha escrito que meu professor assistente estaria em minha casa quando eu finalmente chegasse lá. Os professores assistentes visitam os cegos. Aparecem com regularidade para auxiliar, resolver algum problema e para entregar diversas formas de ajuda, como relógios em braile, marcadores de tempo e outros objetos. O Sr. Brown, que costumava visitar minha família (já que éramos todos registrados como cegos), acompanhou todo meu desenvolvimento. Era como um tio. Mamãe sempre lhe encomendava fios de lã, que podiam ser comprados mais baratos através dele do que na loja. Quando era pequena ele me levava pequenos presentes e de um desses, uma boneca com óculos, eu gostava demais.

       O Sr. Brown estivera esperando por mim cerca de uma hora. Expliquei o motivo da demora e contei-lhe todos os detalhes do pesadelo que fora aquela viagem de volta.

        Ele imediatamente perguntou:

       — Por que você não passa a usar um cão-guia?

       Aquelas foram as palavras mais importantes da minha vida até aquele dia. Contudo a sugestão era espantosa. A idéia de ter um cão-guia simplesmente nunca me ocorrera, o que era estranho considerando-se minha ligação aos cães e a esperança que alimentava de conseguir um emprego onde pudesse tratar deles, Talvez devesse isso ao fato de minha visão ir piorando gradativamente e também por fingir, para mim mesma, que nunca a perderia por completo e que ainda conseguiria enxergar, se quisesse.

       Não queria admitir que estava me tornando cega. Na verdade, não acreditei no Sr. Brown quando ele disse que eu deveria recorrer a um cão-guia. Eu pensava, então, que as pessoas tinham de ser especiais para se qualificarem a ter um Cão guia, que apenas umas poucas escolhidas poderiam fazer uso dessa ajuda. Por isso nunca parei para considerar esta possibilidade. Mas o Sr. Brown prosseguiu:

       — Você realmente precisa de um cão-guia e está na idade ideal para ter um.

       Eu não conseguia assimilar a idéia. Seu impacto era tremendo, como se alguém tivesse pego o mundo e mudado todas as disposições e direções.

       — O que devo fazer? - perguntei.

       Ele respondeu de modo firme e com voz encorajadora.

       — Bem, vou lhe dizer. Trarei os formulários para você e depois nós os preencheremos juntos. Escreverei para você o que for preciso.

       Quando ele foi embora, fiquei sentada, pensando. Lembrei, então, dos livros que tinha lido sobre os cães usados como guias. Percebi que aquilo significaria não ter de passar novamente pela terrificante experiência por que tinha passado aquela tarde, Perambulando de um ponto a outro perdida na escuridão da cegueira e sem saber onde estava. Eu poderia sair à noite: poderia ser independente!

           Poucos dias mais tarde o Sr. Brown voltou com os formulários: páginas e mais páginas de perguntas. Qual a minha altura? Em que trabalhava? Em que tipo de casa morava? Quais os meus hobbies? Queriam saber até o meu peso. Enviamos os formulários e chegou a resposta do centro de treinamento de Leamington Spa informando que enviariam um treinador de cão-guia para avaliar minha personalidade e selecionar um animal adequado para mim. Fiquei entusiasmada, mas nervosa também, porque no fundo da minha cabeça estava indagando: "E se acharem que não sirvo?" Esta possibilidade era chocante. Quando o treinador chegou, foi comigo ver onde eu trabalhava e o que fazia. Saímos para uma caminhada juntos a fim de que ele pudesse observar meu ritmo de andar e ver se eu tinha alguma característica estranha. Examinou a casa onde morávamos, que praticamente não tinha jardim nos fundos e que não era cercada, e disse, quando expliquei que pensávamos em mudar:

       — Vocês precisam ter um jardim bem cercado para o cão. Por último, disse-me que havia uma lista de espera pelos cães-guias e que levaria de nove meses a um ano para que eu tivesse o meu.

       Isso foi em novembro de 1965. O tempo de espera converteu-se numa agonia, numa frustração constante. Sempre que chegava uma carta, eu a apanhava e tentava arranjar alguém que a lesse para mim o mais rápido possível. Durante esses meses tive tempo de descobrir a Associação dos Cães-Guias. Fora criada em 1934, mas a primeira idéia de usar cães para guiar pessoas cegas nasceu na Alemanha durante a guerra 1914-18, quando um médico, tendo sob seus cuidados alguns pacientes que haviam ficado cegos em combate, certo dia deixou seu pastor alsaciano cuidar de um dos soldados. E ficou espantado pelo modo como o animal realizou a tarefa. A idéia espalhou-se pelo Atlântico e voltou à Inglaterra. Contudo, por incrível que pareça, o uso de cães como guias sofreu oposição na Inglaterra porque consideravam-no antinatural, até mesmo cruel, pois os cães eram postos para trabalhar dessa forma. Felizmente, surgiu a Associação depois de um árduo trabalho e dos esforços de voluntários. Atualmente, há quatro centros de treinamento para os cães e seus proprietários: em Bolton, Exeter, Forfar e Leamington Spa; além de sedes em Ealing, perto de Londres, e um Centro de Reprodução e Treinamento de Filhotes perto de Warwick.

       Fiquei sabendo também que alguns cegos são rejeitados devido a diversos fatores, e isso preocupou-me. Mas a carta que eu aguardava com tanta ansiedade chegou mais depressa do que eu pensava ser possível. O mês de maio estava quase acabando e eu normalmente teria ainda mais cinco semanas de espera.

       Poderia comparecer ao centro de treinamento, em Leamíngton Spa, a 19 de julho? Se eu poderia? Estava preparada para acampar na porta do centro, a fim de não chegar atrasada.

       Finalmente chegou o dia 19 de julho. Era um dia, segundo minha imaginação, radiante: agradável e ensolarado.

       Obviamente não poderia ir sozinha de Nottingham a Leamington SPA, mas sentia-me muito feliz. Geoff, um dos representantes da firma onde eu trabalhava, ofereceu-se para me levar em seu carro. Eu já estava pronta e com as malas fechadas muito antes de ele me chamar, às nove horas. Seguimos pela rodovia Ml tomando o rumo sul. Geoff esforçando-se ao máximo para descrever a paisagem. Eu não gostava de viajar, pois não havia nada a fazer, a não ser ir de um lado para outro. As descrições de Geoff, contudo, não permitiram que eu sentisse aquele enfado. Na verdade, porém, não conseguia imaginar todas as coisas que ele me descrevia. Não possuía uma imagem mental do que era um campo porque não me lembrava de jamais ter visto um, muito menos uma vaca.

       Lembro dele dizendo-me:

       — Como você acha que eu sou? Você deve ter uma idéia de como sou.

       — Sim, formo uma imagem quando ouço as pessoas, da mesma forma como você deve fazer a imagem de uma pessoa que escute pelo rádio. Mas quando você olhar a foto dessa pessoa que ouviu no rádio as duas imagens não vai coincidir, não é?

       — Claro, você tem razão. As imagens não coincidem, respondeu.

       — Bem, não me culpe se formei uma imagem errada sobre você... Acho que tem cabelos pretos, ondulados, e sei que tem cerca de um metro e setenta, porque posso calcular quando você está de pé e fala.

       — Muito bem ele disse sem fazer qualquer comentário. Depois perguntou:   Você sente o rosto das pessoas para formar uma imagem?

       Eu respondi que não, mas não disse o motivo. Seria como revelar a todo mundo que eu não enxergava,

       Mais ou menos na metade da viagem Geoff perguntou se eu gostaria de parar para tomar café. Eu realmente não queria parar. Por um lado desejava chegar a Leamíngton o mais depressa possível; por outro, detestava ir a lugares estranhos onde sabia que haveria muitas pessoas, porque sempre me sentia embaraçada. Mas finalmente concordei em pararmos, principalmente porque achei que Geoff queria tomar café.

       Saímos da estrada e entramos num grande estacionamento. Geoff foi atencioso, segurou meu braço, não percebendo como era irritante ser levada assim por todo o caminho. Ao deixarmos o estacionamento, Geoff disse:

       — Degraus, Sheila.

       Foi ótimo saber daquilo, mas ele não disse se a escada subia ou se descia. Achei que subia. Errei. Acho que devia ter perguntado para me certificar.

       Ele me conduziu, ou melhor, me impeliu pelas portas. Tive a impressão de que estávamos num salão muito grande, cheio de mulheres e conversando. Podia sentir os perfumes e o cheiro de café. Imaginei que fossem 11h00min. Deviam estar todas ali para o almoço.

       Fiquei sozinha enquanto Geoff saía para apanhar o café. Entrei em pânico. Sentia-me desesperadamente só e com vontade de sair correndo. Então outro embaraço surgiu.

       Senti vontade de ir ao toalete. Mas não queria pedir a Geoff. Embora a situação não fosse nova para mim, sempre a achava humilhante. Isso me lembrou a escola primária, minha mão levantada: "Por favor, professora, posso sair um instante?”

       Quando tive coragem bastante para tocar no assunto com Geoff, ele foi muito bondoso e imediatamente concordou:

       — Ah, é claro. Vou pedir a alguém que leve você.

       Ou ele não percebeu meu embaraço ou disfarçou muito bem.

       Levantou-se e foi providenciar a acompanhante. Pelo jeito ele deve ter pedido a gentileza à mulher mais forte do salão, pois no dia seguinte eu ainda tinha uma mancha roxa no braço. Ela me segurou pelo braço e me puxou da cadeira com força bruta.

       — Venha, querida. Vou levar você, coitadinha, não pode enxergar.

       E literalmente me empurrou pelo salão. Esbarrei em tudo que havia à frente durante o trajeto: mesas, cadeiras e até num copo e num pires, que saíram voando. Eu me sentia como um touro furioso numa loja de porcelanas. Mesmo quando estava no toalete, ela insistiu em montar guarda do lado de fora, perguntando de vez em quando:

       — Você está bem, querida? Ou:

       — Tem certeza de que não precisa de ajuda?

       Eu não sabia se chorava ou se ria. Mal podia esperar, depois de libertada da mão de ferro daquela mulher, para entrar no carro e percorrer a última parte da viagem para Leamington.

       O centro de treinamento, Geoff me informou quando chegamos lá, era grande, uma casa ao estilo dos Tudor e cheia de árvores ao redor.

       Ficava no centro de um imenso terreno. Enquanto aguardávamos que alguém viesse nos atender, tive Um breve instante de receio, “E se eu não conseguir fazer o que eles ensinarem no curso? E se disserem que não tenho condição de ter um cão-guia? O que acontecerá?” Era uma sensação estranha. E eu tremia ligeiramente quando a recepcionista chegou. Ela instantaneamente dissipou aquele pânico.

       — Olá, Sheila, estávamos aguardando você. Segure meu braço que vou mostrar o seu quarto.

       Desta vez não houve empurrões nem puxões. Geoff despediu-se e a recepcionista levou-me por uma série de corredores, subindo várias escadas. Parecia um lugar enorme.

       Enquanto caminhávamos, ela me explicava a disposição do centro e o caminho para a sala de jantar, saguão, o banheiro, os toaletes e assim por diante. Finalmente chegamos ao meu quarto.

       — Pronto — disse a recepcionista — número dez.

       Parou e pediu para eu colocar a mão na porta. Para surpresa minha, senti "número dez" em braile.

       — Todas as portas são numeradas ou marcadas como esta. De modo que você não terá problema para se locomover.

       Eu estava meio atordoada. Finalmente um lugar em que as pessoas realmente entendiam a situação de um cego. Compreendi isso melhor ao sentir o "número dez" na porta do quarto. Eles querem realmente que todos se sintam à vontade, pensei enquanto meus dedos percorriam aquela inscrição.

       Em seguida a recepcionista introduziu-me no quarto e descreveu a disposição do seu interior. Eu, é lógico, precisava "fotografá-lo" através do tato e da estimativa de distância entre os obstáculos. Bem atrás da porta ficava uma poltrona e depois o guarda-roupa. Fui passando a mão pela parede e encontrei minha cama e depois o rádio e a mesa. No canto ficava a pia com água quente e água fria. Na mesma parede estava a penteadeira. Descobri um espelho sobre a penteadeira e a recepcionista deve ter percebido a expressão que fiz.

       — Ah, sim — disse ela — o espelho. Você vai querer saber por quê.

       Bem, acontece que se não tivermos coisas normais como espelho e lâmpadas nos quartos ficaria um pouco estranho para as pessoas que enxergam, principalmente as que trabalham aqui. Desejamos que você conviva com as pessoas que enxergam e aceite esse tipo de coisas.

       Maravilhoso, pensei, integração...

       Havia apenas mais um móvel a examinar e era o mais importante. Junto à penteadeira ficava a cama do cachorro. Parecia sólida. Passei a mão no interior: havia colchão e lençol. Era muito confortável. Quando acabei de examiná-la, a recepcionista falou:

       — Bem, Sheila, é isso. Vou deixar você desfazer as malas. A refeição será servida daqui a meia hora.

       Ouvi a porta sendo fechada e comecei a desfazer minha bagagem. Para ir ao guarda-roupa eu precisava evitar a cama do cachorro. Toda vez eu me detinha e a tocava, ficava imaginando que animal dentro em breve estaria dormindo ali.

       Uma batida na porta interrompeu meus pensamentos. Quando a abri, alguém disse:

       — Olá, sou Brian Peel. Sou o seu treinador.

       Ele não treinava apenas os cães, mas também ensinava as pessoas a usar os animais. Seu aperto de mão era amistoso. Senti logo que íamos nos dar bem.

       — Se quiser descer comigo, posso lhe mostrar onde ficam o saguão e a sala de jantar.

       Fomos até o saguão e ele explicou a geografia do salão.

       — Todos se encontram aqui pela manhã, para começarmos o dia de treinamento. Há cadeiras por toda a volta. Se você as seguir para a direita achará o rádio e a televisão. Do outro lado há livros e jogos em braile... Há a mesa de café... Se você lembrar que a mesa fica onde o carpete termina, não esbarrará nela.

       Enquanto caminhávamos para a sala de jantar, surgiu em minha mente certa ansiedade por estar longe da família. Eu detestava fazer as refeições com pessoas de visão normal. Isso sempre me provocava algum tipo de embaraço. Elas se ofereciam para cortar a carne para mim e achavam que seria melhor se eu comesse com uma colher em vez de usar garfo e faca. Ou diziam: “Querida, se eu soubesse que você não enxergava teria feito sanduíches". Nessas ocasiões, eu me sentia tão desmoralizada e nervosa que mal conseguia comer quando finalmente o prato era colocado diante de mim. Não sabendo o que havia no prato, muito menos onde exatamente estava a comida, eu acabava espetando o garfo no ar, errando as batatas ou seja o que fosse e mordendo o garfo vazio.

       No centro de treinamento era tudo totalmente diferente. Brian sentou-se a meu lado e pôs o prato na minha frente.

       — Aqui está. Peixe, batata frita e ervilhas. As batatas em frente, as ervilhas à direita e o peixe à esquerda.

       Assim, eu não apenas sabia o que iria comer mas também onde encontrar o alimento. Conversamos durante a refeição.

       — Há outra pessoa aqui para ser treinada? - perguntei.

       — Você é a primeira a chegar — Brian me informou. Chegarão mais três esta tarde.

      Então, antes que muitas batatas e ervilhas fossem saboreadas, fiz a pergunta que estava me inquietando:

       — Quando receberemos os cães?

       — Dentro de um dia ou dois, quando soubermos um pouco mais sobre você e você conhecer um pouco os cães. Sabe como é. Algumas pessoas nunca tiveram um bichinho de estimação em casa. E não saberiam como cuidar de um cão-guia.

       Portanto, primeiro ensinamos como tratar do cão. Depois, é lógico, você não pode trabalhar com um animal se não souber como ele é treinado e a que comandos obedecerá.

       — Entendo. — Houve uma pausa. Em seguida perguntei: Você já escolheu o cão que ficará comigo?

       — Acho que sim — respondeu Brian — mas dentro de dois dias terei a confirmação. Veja bem, eu conheço os animais mas não conheço os alunos, embora todos tenham preenchido os formulários. Procuramos fazer com que o cão se adapte o melhor possível ao futuro dono. Por exemplo, se o dono for jovem e puder andar depressa, queremos um cão que possa andar depressa também. Se o dono é mais velho, procuramos um cão que caminhe mais devagar. De um modo geral tentamos combinar as características. O seu cão, ou seja, o que eu penso que será seu, foi treinado por uma mulher que morava numa casa em que não havia homens. Esse animal, uma cadela, é um animal de mulher. Quer dizer, convive melhor com mulheres do que com homens. É muito sensível também e como você já cuidou de cães antes, achamos que vocês duas se darão bem. Mas, apesar disso, você, como todos do curso, terá de se acostumar a ela.

       Depois da refeição, voltamos ao saguão e encontramos os outros alunos, que haviam chegado enquanto estávamos comendo. Dois deles eu fiquei conhecendo muito bem.

       Dotty (Dorothy era seu nome), que tinha cerca de 34 anos e fora ao centro apanhar seu segundo cão-guia. O outro era Harry, um homem de 49 anos que ficara cego durante a guerra. Estava ali para apanhar o terceiro cão-guia.

       Durante a tarde, Brian começou a nos dizer o que devíamos esperar durante o mês em que ficaríamos ali. Contou-nos como treinava os cães e como seríamos treinados para usá-los. Tendo a meu lado duas pessoas que já haviam participado do curso, eu me senti como um recruta, pouco à vontade.

       Sem motivo. Brian explicou que mesmo As pessoas que já tiveram cães guias deviam voltar ao centro e ser retreinadas com seu novo cão. As técnicas de treinamento estavam sendo constantemente aperfeiçoadas e, além disso, o cão precisava ficar um mês com seu novo dono para transferir sua obediência e afeição para ele, coisas que normalmente o animal tinha em relação ao treinador.

       À noite, Dotty e Harris falaram sobre seus primeiros cães guias e achei maravilhoso ouvir suas histórias. Na hora de dormir subi para meu quarto mas me senti muito só. No quarto ao lado do meu, Dotty estava ouvindo rádio. E por isso decidi bater em sua porta.

       — É Sheila. Posso entrar?

       — Claro, a cadeira está atrás da porta. Sente-se. Sentei-me e tentei puxar conversa, mas Dotty não me pareceu muito comunicativa. Na verdade, achei-a perturbada.

       — Quer que eu vá embora?

       — Não, por favor. Fique. Tentei alegrá-la.

       — Você não está ansiosa para ver seu novo cão? Mal consigo esperar para ver a minha. — Ao ouvir isso, para espanto meu, ela rompeu em lágrimas. — Oh, querida, qual o problema?

       — O que eu disse de errado?

       — Está tudo bem ela respondeu entre soluços. — Vai passar. Mas não quero outro cão.

       Fiquei aturdida com a resposta dela.

       — Não quer outro cão? Não entendo.

       — Você entenderia se já tivesse tido um cão. — Acontece que Paddy, seu primeiro animal, não pôde mais continuar com ela, porque estava doente, e foi mandado para a casa de amigos, perto da casa de Dotty. — É tão terrível - ela continuou - deixar Paddy para trás e vir buscar outro cão. Sinto como se estivesse traindo Paddy.

       Tentei consolá-la.

       — Mas se Paddy já não podia continuar trabalhando, acho que ficará contente em ver um outro em seu lugar...

       — Não sei.

       — Para seu próprio bem, você precisa transferir sua afeição.

       — Sim. Sei que você tem razão. Mas é mais fácil falar do que fazer. No momento não me sinto capaz de amar outro cão.

       Não havia nada mais que eu pudesse fazer. Desejei-lhe uma boa-noite da maneira mais afetuosa que pude.

       Na manhã seguinte, toda a tristeza havia desaparecido. Por volta das sete e meia fui acordada por um grande coral de latidos, não muito longe dali. Foi o mais maravilhoso som que ouvi em muitos anos. Qual deles, dentre esses, será o meu cão? Foi o que pensei ainda meio adormecida. Que latido será o dele?

       Corri para tomar café. Queria chegar logo para começar a receber instruções. Quando estávamos todos reunidos no saguão, cada um de nós recebeu uma guia branca para os cães e logo começaríamos a aprender a usá-la. Havia um modelo de plástico no tamanho natural de um cão, que usávamos para demonstração. Nós o chamávamos de Fred.

       — Seus cães — Brian começou - estão acostumados a trabalhar com treinadores especializados que enxergam. E que não chegam perto deles vacilantes, tentando encontrar o lugar de colocar a guia. É aqui que entra o Fred. Vocês podem treinar nele primeiro.

       Depois que todos nós, um de cada vez, encontramos a extremidade correta de Fred, Brian continuou a ensinar como devíamos nos posicionar junto ao animal: o cão deve ficar sempre à esquerda.

       — Esses exercícios — prosseguiu — podem parecer triviais. Mas vocês receberão um cão muito bem treinado. O mínimo que podem fazer é tentar dar a impressão de que são donos completamente treinados.

       Colocada ao lado de Fred, aprendi como instruí-lo.

       — Vamos dizer que você esteja dizendo ao seu cão para ir para a frente. Indique sempre com o braço direito a direção que você deseja. Isso ajudará o cão.

       Minha primeira tentativa foi inacreditavelmente débil. Brian começou a rir.

       — Se você fosse começar pela direção que indicou, teria de pular por cima da cabeça do seu cão. Comece outra vez. Não. Não fique atrás dele, você vai pisar no rabo do cachorro.

       E assim por diante. Era bom ter Fred como modelo para praticar.

       Pelo menos sua cauda de plástico não sentia o peso do meu pé.

       Nossa próxima lição foi aprender a seguir o cão. Brian trazia o papel de cão porque Fred ainda não tinha recebido as rodinhas.

       Segurando a guia simulada e com Brian à frente, saímos pelos jardins do centro. Era muito difícil segui-lo e parar e prosseguir. Eu me sentia como se tivesse dois pés esquerdos e no final do primeiro dia de treino estava convencida de que jamais teria um cão-guia. Mas estava determinada a melhorar e a sensação da guia já era importante para mim.

       No saguão, depois do café da manhã, no dia seguinte, havia muita expectativa e excitação porque todos nós sabíamos que dentro de pouco tempo conheceríamos nossos cães. Brian fez-nos uma explanação final e depois pediu que voltássemos aos nossos quartos.

       — Haverá menos dispersão lá e vocês precisam conhecer seus cães e vice-versa, com calma.

       Subi ao número dez; já era capaz de ir sozinha até lá sem precisar de ajuda. Sentei-me na beirada da cama, esperando, com a porta aberta e com tempo suficiente para ter um pensamento inquietante: e se meu cão não gostar de mim? E se ficar rosnando para mim? Em seguida ouvi os passos de Brian aproximando-se, no corredor. E também o som das patinhas dela.

       — Aqui estamos, Sheila — disse Brian ao entrar no quarto. — Aqui está sua cadela; chama-se Emma. É uma labrador cor de chocolate.

       Ao mesmo tempo ouvi o ruído da cauda dela abanando. Brian saiu e fechou a porta.

       — Emma — chamei-a. Ela veio correndo, imediatamente, e quase fui arremessada da cama. Depois fui lambida. — Olá, Emma.

       Eu quase não acreditava naquilo. Ela continuou me lambendo e esfregando o nariz gelado em minhas mãos. Senti que nós duas íamos nos dar bem. Ela gostou de mim, pensei. Ela gostou de mim. Tive vontade de sair dançando pelo quarto.

       Tentei sentir o formato de sua cabeça, mas ela não parava de pular na minha frente, agitando-se e fazendo barulhinhos em minha mão. De vez em quando o nariz molhado roçava no meu rosto. Mas finalmente ela se acalmou e sentou a meu lado. E pude então sentir como ela era. O pêlo grosso e rijo, o que me lembrou um ursinho de pelúcia.

       Era pequena para um labrador; não era gorda, mas de compleição grande. Tinha a cauda grossa e as orelhas macias como veludo. E era muito esperta.

        Emma não me deu muito tempo para que eu a acariciasse. Começou a investigar minhas coisas. Debaixo da penteadeira estavam meus sapatos.

       Ela foi até lá e os trouxe para mim, um de cada vez. A mensagem era bem clara. “Estou aqui, sou Emma. Sou sua cadelinha e este é meu presente, um sapato.” Eu não conseguia me lembrar de outro momento mais feliz em minha vida. E a partir daquele instante, a afeição de Emma jamais vacilou. A partir de então ela jamais saiu de perto de mim e eu, por minha vez, tornei a responsabilidade de cuidar de todas as necessidades dela.

    

                   Treinamento

       Meu primeiro passeio com Emma aconteceu naquela tarde, e então ficou claro para mim por que era necessário que ficássemos durante um mês treinando com os cães. Embora Emma tivesse se afeiçoado a mim e nos déssemos bem, não fazia nada do que eu lhe dizia. Obedecia apenas a Brian. A dedicação e a Obediência a mim viriam apenas com o treinamento.

       Coloquei a guia em Emma e começamos a caminhar por uma tranqüila rua próxima ao centro. Brian estava perto de nós. Ele deu o comando para seguir em frente e antes que terminasse de dizer a frase nós já estávamos andando velozmente. Eu estava galopando, firmemente agarrada à guia.

       — Nunca vou conseguir controlá-la — disse eu.

       — Logo você se habituará — Brian respondeu. — Com a continuação você se adaptará. O problema é que você se acostumou a andar muito devagar.

       Um cão-guia faz em média seis quilômetros e meio por hora.

       Enquanto uma pessoa com visão normal caminha a uma velocidade que varia entre três e quatro e meio quilômetros por hora. Qual a minha velocidade anteriormente, não sei. Mas certamente não era competitiva nem com a das pessoas mais lentas.

       Finalmente consegui chegar a um ritmo mais acelerado e comecei a pensar que devia aproveitar aquilo quando, Sem motivo aparente, Emma parou. Quando percebi eu havia descido a calçada. Emma sentara-se no meio-fio e eu ouvi o riso de Brian.

       — Não continue sem o cão, esta é a lição um — Brian lembrou. — Se você continuar andando quando ela parar, acabará sendo atropelada. Quando ela parar, você pára também.

       — Bem, eu não sabia que ela ia parar. E você não me disse nada.

       — Não, você tem razão. Mas ensinamos vocês a seguir o cão.

       Brian tinha 28 anos naquela época, era muito agradável e tinha bom humor. Eu o imaginava com boa aparência, cabelo louro e de óculos.

       Gostava dele especialmente porque se recusava a fazer concessões à nossa cegueira. Esperava que fôssemos independentes. Em vez de nos mimar e dizer "ali, ali", quando saíamos do meio-fio, ele transformava aquilo numa piada, o que era o melhor remédio. Pelo menos para mim. Isso fazia com que eu levantasse e pensasse: “Certo. Vou mostrar a você que posso ser boa com este cão-guia.”

       Desta vez então, voltei para trás de Emma, segurei a guia novamente e disse:

     — E agora?

       — Você tem de atravessar a rua. Primeiro preste atenção para ouvir se há carros passando. Se estiver tudo tranqüilo, dê a Emma o comando de ir em frente.

       Foi o que fiz quando percebi que não havia carros passando. Mas não aconteceu nada.

       — Ela sabe que é você quem está atrás dela, não eu. Você precisa encorajá-la, para que ela tenha vontade de levá-la.

       — Emma, querida — falei. — Você é muito esperta.

       E depois de algum tempo com esta persuasão, e de dizer as palavras “em “frente” de tempos em tempos, ela finalmente atravessou a rua.

       Atravessar a rua com um cão-guia é um trabalho de equipe: qualquer coisa que se faça é feita em conjunto. Conheci pessoas de visão normal que tinham uma idéia errada sobre isso. Geralmente pensavam que os cães não eram inteligentes e usavam a guia somente para mostrar que seus donos eram cegos, um tipo de pedido de ajuda, ou então pensavam que os cães eram superdotados e que os cegos eram uns idiotas levados para um passeio da mesma forma que outras pessoas saem com seus cachorrinhos. A importância da parceria, ou mesmo sua existência, passa despercebida para todo mundo, de um modo geral. Minha função, ao atravessarmos a rua, era ouvir e a de Emma olhar. Somente quando eu não ouvia nada é que dava a ordem para ela atravessar. Mas se eu me enganasse e ela visse algum carro se aproximando, esperaria até que a rua ficasse desimpedida.

       Os cães-guias são ensinados a parar e sentar em todo meio fio e aguardar a próxima ordem. Os quatro comandos básicos são "Direita", "esquerda", "para trás" e “em frente”. E a pessoa deve se posicionar de modo a permitir que o cão possa obedecer corretamente ao comando. Por exemplo, quando se dá o comando de ir em frente, deve-se apontar para a direção indicada com o braço. É importante também conversar com o cão. E Brian lembrou-me disso, em nosso primeiro passeio, depois que atravessamos a rua.

        — Não deixe de conversar ou Emma pensará que você dormiu.

       — O que devo dizer? — perguntei estupidamente.

       — Não importa, desde que você torne a conversa interessante. Conte a ela, por exemplo, o que você comeu no café da manhã.

       E lá fui eu, galopando pelas ruas de Leamington e falando em bacon e ovos com uma cadela labrador cor de chocolate. Brian recomendou:

       — Vocês estão trabalhando juntas. Se você parar de falar, ela vai parar de trabalhar. Precisa manter o interesse dela. Ela é uma cadela e há muitos aromas agradáveis e interessantes ao redor, coisas passando que você não pode ver. Então, a menos que converse com ela, Emma se distrairá e vai parar para cheirar o Poste.

       Eu estava rouca quando terminamos o primeiro passeio juntas.

       Devo muito a Brian, não apenas pelo treinamento, mas por unir Emma e eu. A avaliação de tudo que ele sabia sobre nós duas resultou numa dupla perfeita, como o tempo provaria.

       Lembro que certo dia perguntei a ele de onde Emma viera.

       O que eu realmente queria saber era de onde os centros traziam os cães. Brian explicou que eles vão para Leamington, ou para qualquer outro centro, depois de receberem um treinamento inicial quando filhotes. A Associação de Cães-Guias tem um grande Centro de Reprodução e Treinamento de Filhotes em Toligate House, perto de Warwick.

       Lá há algumas cadelas reprodutoras e machos que depois de algum tempo são doados como animais de estimação, já que uma permanência prolongada no canil não é recomendável.

       E viver numa casa com uma família é a melhor solução. Ao mesmo tempo, a associação controla os cruzamentos. Quando nascem as ninhadas, são escolhidos os animais que serão treinados. Com cerca de dois meses de vida o filhote passa por diversos testes para ver se é corajoso, amistoso e capaz para ser treinado como cão-guia. Os cães aproveitados representam sessenta por cento do total e atualmente há cerca de 200 cães guias em todo o país. Os restantes quarenta por cento vão para a Associação, que os vende ou doa a criadores ou a outras pessoas. Mas a taxa de rejeição é elevada. Os cães esperam três semanas para receber a aprovação final. Em caso negativo, são devolvidos a seus donos. Em todos os casos os animais escolhidos são geralmente fêmeas, porque o macho tem formação e natureza diferentes e não é tão tratável quanto a fêmea, que em qualquer caso é esterilizada para se tornar um cão-guia. Cerca de setenta por cento dos animais usados são labradores como Emma, embora eu prefira pensar que ela é única, mesmo entre os labradores. Outras raças usadas são o pastor alemão, colly, golden retriever e cruzamentos de todas essas.

       “Uma vez feita a seleção, os filhotes são entregues a pessoas chamadas de treinadores de filhotes, que moram perto dos centros de treino e que ficam em suas casas com cães-guias potenciais durante aproximadamente um ano. Nesse período, devem ensinar aos animais o básico. Os cães aprendem a se comportar e ser asseados, a evitar os móveis, não pedir comida e a obedecer a ordens como "sentar", "parar", "deitar" e "vir". E assim por diante. Aprendem a caminhar com a coleira, mas não ao lado dos treinadores, porque deverão caminhar na frente das pessoas cegas a quem servirão como guias. De um modo geral, os treinadores de filhotes devem levar os animais a toda parte para que eles não se assustem com o tráfego, ônibus ou trens. Ou com ruídos súbitos que possam ouvir. São instruídos especificamente para levar os cães às compras. Durante esta fase os filhotes crescem e acostumam-se à vida na cidade e ao mesmo tempo devem se manter corajosos e amistosos.”

       Nesse ponto, Brian me informou, são enviados aos centros para receberem o treinamento como guias, o que leva aproximadamente cinco meses. Os treinadores de filhotes fazem um trabalho maravilhoso. Eu não poderia fazer isso: ficar com um cão por um ano e depois entregá-lo; e depois receber outro e vê-lo partir e assim por diante.

       Realmente admiro aqueles que fazem tanto para moldar a primeira ligação básica entre o cão e o cego.

       Naturalmente que, ao saber disso, eu quis que Brian me dissesse quem treinara Emma quando ela era filhote. E ele respondeu:

       — Alguém chamada Paddy Wansborough. Ela é uma mulher formidável. Deu nove ou dez cães à associação depois de treiná-los quando eram filhotes. Emma foi entregue a Paddy muito pequena. Recebeu o treinamento básico por um ano e depois foi doada à associação.

       Decidi que uma das primeiras coisas que faria ao voltar para casa seria entrar em contato com Paddy Wansborough. No dia seguinte, saí com Emma novamente. À medida que o treinamento prosseguia, eu me acostumava mais a ela. Usávamos um microônibus para nos levar a passeio por Leamíngton. Isso era uma parte vital do aprendizado porque nos ensinava como usar o transporte público. Quando estávamos dentro do ônibus, com os cães deitados embaixo dos bancos, ouvi um grito de Brian.

       — Estou vendo duas patas marrons do lado de fora.

       Devem ser de Emma, pensei.

       Ele prosseguiu:

       — Você quer que alguém pise nela? Não, claro que não. Então faça alguma coisa.

       Fiquei imaginando se minha impressão sobre Brian fora errada. Mas embora ele estivesse gritando muito comigo, devia saber o que eu estava pensando.

       — Ninguém vai dizer essas coisas a você, Sheila. Se não aprender aqui, Emma sofrerá, não você.

       Minha confiança em Emma crescia a cada dia, mas só senti que ela tinha transferido sua afeição de Brian para mim no décimo dia de minha estada no centro. Até então, ela dormira sempre na caminha dela, que ficava ao lado do meu leito. Mas naquela noite, na hora de deitar, ela se recusou a ir para sua cama. Em vez disso, enrolou-se no chão, na direção do meu travesseiro, e ficou ali, o mais perto de mim que pôde. Senti então que tinha conseguido conquistá-la.

       Éramos uma equipe, cada uma de nós precisando da companhia da outra. Acordei na manhã seguinte com uma sensação estranha. Parecia estar embaixo de um rolo compressor.

       Emma tinha-se sentado em cima de mim, tocando-me com o focinho e dizendo, não tenho a menor dúvida, que já era hora de descermos. Estava cheia de vida e exuberância, e não podia esperar mais. Quando me levantei senti que ela estava pulando de alegria, por antecipação, e ficou balançando a cauda perto da porta.

       Uma das engenhosas maneiras de o centro nos familiarizar com o programa do dia era usar mapas tácteis. Calçadas, prédios e tudo mais era feito em madeira, formando um mapa de Leamington, de modo que podíamos sentir com as mãos, previamente, o caminho que faríamos mais tarde. Podíamos localizar tudo. As faixas de pedestres e as paradas de ônibus, inclusive. Emma encontraria essas coisas para mim, mas era preciso que eu estivesse na rua certa e o mapa ajudava bastante a mantermos a rota determinada. Nossos passeios tornavam-se cada vez mais complicados e Brian procurava lugares onde houvesse obras para certificar-se de que dominávamos bem o desvio dos obstáculos. As viagens de ônibus e saídas para compras também faziam parte do currículo e eu realmente adorava fazer compras com Emma. Ela não apenas encontrava a loja mas também levava-me até o balcão. Comecei a esquecer que era cega. Ninguém mais me deixava nervosa. Todos se interessavam muito por Emma.

       Mas as coisas nem sempre iam tão bem. Eu não estava muito segura para desviar de obstáculos. Emma sempre reagia rapidamente e de um modo geral eu não era tão rápida para acompanhá-la. Ela via o obstáculo, avaliava-o e tomava uma decisão instantânea sobre que direção seguir. Antes que eu entendesse o que tinha acontecido, ela já tinha mudado de curso, de um lado para outro, deixando-me confusa.

      Brian parecia estar sempre por perto quando eu cometia erros, mesmo quando pensava que ele estivesse acompanhando algum outro aluno. Subitamente eu ouvi um grito a meu lado:

       — Quando ela pular, pule também.

       É mais fácil falar do que fazer. Em ocasiões como essas, Emma perdia a confiança e sentava imediatamente. Era como se dissesse:

       “Não adianta eu fazer minha parte se você vem atrás e acaba numa pilha de lixo.” A única forma de fazê-la voltar a trabalhar era me desculpando e prometendo agir melhor da próxima vez.

       Foi durante o curso de obstáculos que aprendi uma das aversões de Emma. Chegou nossa vez e estávamos nos saindo bem. De repente Emma saiu correndo como um foguete e senti que eu estava sendo carregada para o alto de uma inclinação toda gramada.

        Quando finalmente paramos, eu perguntei, quase sem fôlego:

       — 0 que aconteceu, afinal? Por que ela fez isso?

       — Foi o Napoleão.

       — Napoleão? Quem é Napoleão? — pensei que Brian havia perdido o juízo.

       — Bem, é o gato. 0 gato Napoleão — respondeu Brian.

       — Ali!

       Mas ainda não tinha entendido por que Emma subira naquela inclinação.

       Brian, ainda rindo muito, explicou que Emma não suportava gatos. Ela sabia correr atrás deles, mas se visse um saía disparada na direção oposta, que desta vez era a inclinação gramada. Brian congratulou-me por minha vivacidade e velocidade ao segui-la. E disse que pensaria em nós duas se ficasse sabendo de alguma expedição ao Monte Everest. Fiquei pensando que o único modo de curar Emma da aversão que sentia por gatos seria arranjar um. E coloquei isso na minha lista de coisas a fazer quando chegasse em casa.

       À noite, quando estávamos sentados no saguão, Brian foi até lá e rimos novamente, lembrando de Emma e do gato. Depois fiz-lhe uma pergunta cuja resposta deixou-me mais encantada ainda à medida que o curso prosseguia. Como os cães eram treinados para fazer as coisas espantosas que conseguiam fazer para nós? Eu conhecia um pouco sobre treinamento de cães pela experiência que tivera com eles. Mas jamais podia imaginar que esses cães possuíam certas habilidades.

       Já é muito treinar um cão para que ele se sente no meio-fio. Mas como treiná-lo para desobedecer?

       Perguntei a Brian:

       — Por exemplo, disse a Emma para ir em frente ontem mas não tinha escutado que um carro estava se aproximando. Ela não avançou porque tinha visto o automóvel.

       Como vocês treinam os cães para fazer isso?

       Brian respondeu:

       — Uma vez tendo-se um cão basicamente treinado, vai-se à rua com ele e espera-se que venha um carro. Depois ordena-se que ele atravesse a rua. 0 cão, naturalmente, obedece. Mas o treinador continua parado e o carro, dirigido por outro instrutor, freia e faz muito barulho. E o cão volta para a calçada. Pela repetição desse tipo de treino, o animal fica condicionado a associar o veículo em movimento com perigo e por isso, a despeito do instinto de obedecer, ele se recusa a andar quando recebe a ordem.

       Lógico que somente cães inteligentes responderão satisfatoriamente. E é por isso que temos de ser minuciosos com os testes que fazemos. Testamos o caráter e a aptidão do animal antes de começar.

       — E os obstáculos?

       Brian explicou que ensinar um cão a não levar seu dono para cima de obstáculos significa associar os obstáculos com desprazer, para usar uma palavra branda, e angústia.

       Começa-se por algo simples como um poste. 0 cão leva o treinador em direção ao poste, é imediatamente detido, bate-se no poste para chamar atenção, e mostra-se o caminho certo. Da próxima vez um NÃO bem forte é gritado quando se bate no poste e mostra-se o caminho certo novamente. Então, através da repetição, o cão finalmente entende a mensagem e ao mesmo tempo aumenta-se a variedade de obstáculos, procurando-se incluir os mais freqüentes encontrados numa calçada: pessoas.

       Parecia algo simples, mas sei que existe um trabalho muito difícil por trás de tudo. Os treinadores, Brian contou-me, trabalhavam com uma venda quando consideravam que o cão havia atingido um certo nível de desempenho. Faziam isso durante 15 dias, aproximadamente, para criar reais condições de trabalho para o cão e dar-lhe confiança.

       Era interessante ouvir Brian dar essas explicações e particularmente com o que veio no último período do curso: a desobediência.

       Estávamos nos aproximando do final de nosso mês em Leamington e saímos mais uma vez no microônibus.

       As patas de Emma, desta vez, estavam bem escondidas debaixo do banco.

       Brian disse-nos que iríamos à estação ferroviária para um último teste.

       Eu sempre detestara estações ferroviárias por causa do barulho, dos diversos e múltiplos obstáculos e do senso geral de alvoroço que, para quem é cego, é terrível.

       Esses lugares eram tão odiados por mim que jamais ia a uma estação ferroviária, muito menos andava de trem, mesmo tendo alguém que enxergasse como companhia. Mas Brian foi inflexível.

       — Você precisa se acostumar. Pode precisar andar de trem algum dia ou ir esperar alguém que chegue de trem. E agora você tem Emma para guiá-la. Ela sabe fazer seu trabalho muito bem. Não haverá problemas.

       Não fiquei convencida. Fomos para a estação. Coloquei a guia em Ema. Brian disse:

       — Certo. Vou estacionar o carro. Você vai entrando, Emma conhece o caminho. Daqui a pouco estarei com vocês.

       Emma levou-me através das portas, desceu alguns lances de escada, passou aqui e ali por pessoas, desviando delas; chegou finalmente à plataforma e sentou-se. Eu não fazia a menor idéia do lugar onde me encontrava. Fiquei parada, esperando por Brian. Pouco depois ele chegou.

       — Certo, Ema, está sentada na beira da plataforma. Há uma pequena distância entre o lugar onde você está e a linha. Agora diga a ela para ir em frente.

       Fiquei petrificada e podia sentir minha espinha latejar.

       —Você só pode estar brincando — respondi.

       — Não, vá em frente. Diga para ela ir em frente.

       Fiquei parada, sem saber o que fazer. Este foi realmente um teste terrível. Será que tenho coragem? Eu estava tão assustada que me sentia mal. Naquele momento não sentia a menor vontade de ter um cão-guia. Tudo que ouvira contar sobre esses cães, todo o treinamento que havíamos feito, tudo que eu sentia por Emma, tudo passou por minha cabeça, mas não significava nada. Eu queria apenas, naquele momento, deixar a guia sobre o pêlo de Emma e ir embora, sair dali, fugir, qualquer coisa.

       Mas num murmúrio rouco dei conta de mim dizendo:

       — Em frente.

       Imediatamente ela se levantou e quase que com o mesmo movimento empurrou seu próprio corpo contra minhas pernas. Depois começou a me empurrar para trás, afastando-me da beirada da plataforma.

       Nunca me senti tão envergonhada na vida. Que vontade de me esconder.

       Como pude ser tão hesitante, tão vil com Emma? Estava completamente humilhada. Brian disse:

       — Muito bem. Eu disse que Emma cuidaria de você, qualquer que fosse sua atitude. Pode dizer qualquer coisa a ela; se houver algum perigo diante de você ela a afastará.

       E assim era. Conseguimos. A sensação de liberdade era incrível.

       Venci meus sentimentos de vergonha porque senti que Emma os entendia e os desculpava. Naquela tarde caminhei com ela num desfile em Leamington. A rua principal da cidade estava lotada. Caminhei com um grande sorriso, acenando para aquelas pessoas que ali estavam e pensando: não me importa que vocês vejam que sou cega. Também posso enxergar: tenho Emma e ela é tudo de que preciso.

      

                   NOVAMENTE EM CASA

       Logo chegou o dia de irmos para casa, Emma e eu. Por estranho que pareça, foi um dia triste. Estava chovendo torrencialmente, e a atmosfera refletia o que eu sentia por dentro. Mesmo não podendo ver a chuva, estava muito abatida e deprimida. Detestava a idéia de ter de ir embora do centro, de afastar-me de todos aqueles amigos que ali fizera. E, além disso, eu não queria voltar para casa, embora agora tivesse Emma e tentasse me convencer o tempo todo de que as coisas certamente seriam diferentes quando eu voltasse para Nottingham. Eu receava que por algum motivo pudesse ser engolfada pelos velhos hábitos, apesar da presença de Emma. Eu ainda não compreendera que ela mudaria minha vida por completo. Ainda precisava colocar minha confiança nela.

      Cheia de apreensões, deixei Leamington com Emma, presa pela guia.

       Chegamos a Nottingham. Estavam nos esperando e fomos para casa. Uma vez lá, tirei a guia e deixei Emma solta: ela adorou. E todos gostaram dela. Ela percorreu a casa inteirinha, cada cômodo, cada cantinho; eu podia ouvi-la remexendo tudo, empurrando os tapetes, parando para cheirar as cadeiras e os pés da mesa. Ouvia também a cauda de Emma agitando-se no ar. Ali, ela obviamente percebeu, seria o lugar em que ela moraria a partir daquele dia. Era um animal completamente diferente da Emma responsável que eu conhecera presa à guia, e pela primeira vez vi que havia duas partes distintas em seu caráter: uma delas quando estava trabalhando, tomando conta de mim; e a outra quando estava solta, totalmente alegre, cheia de graça e energia, e tão longe de qualquer senso de responsabilidade quanto uma criança. Minhas apreensões começaram a desaparecer.

       Na primeira noite que passamos em casa, Emma dormiu nos pés da cama; ela decidira que não havia outro lugar melhor para ela e pela manhã acordou-me com a insistência habitual. Lembrei-me então de que naquela manhã estávamos começando uma nova vida, juntas. Sairíamos por Nottingham sozinhas.

       Levantei-me e comecei a me vestir. Não era hábito meu fazer isso, porque sou normalmente lenta, sonolenta.

       Mas naquele dia não podia esperar. Queria descobrir como Emma e eu, colocadas em teste, nos sairíamos.

       Depois do café resolvi visitar alguns velhos amigos, Norman e Yvorme, que eu não via há muito tempo, embora não morassem longe. A decisão de sair era um reflexo da liberdade que eu sentia.

       Com Emma poderia percorrer Nottingham inteira!

       Eu estava com o endereço da casa deles na mente depois de fazer uma consulta telefônica. Não havia problema: o que eu precisava fazer era sair do portão, dizer a Emma para virar à direita, para o alto da rua, dobrar à direita novamente, ir em frente até o fim, virar à esquerda e pedir-lhe para achar o primeiro portão. E lá fomos nós.

       Vinte minutos depois de sair estávamos chegando à casa de Norman e Yvorme e eu estávamos tocando a campainha. Havíamos conseguido. Para qualquer pessoa que passasse por aquela rua de Nottingham cheia de árvores e com as casas bem afastadas umas das outras, construídas na década de 20, não havia nada de extraordinário naquela cena: uma moça com um cão esperando que abrissem a porta. Mas dentro de mim havia uma grande sensação de triunfo: aquilo era um marco.

       — Boa menina, Emma — fiquei dizendo para ela. Estava muito orgulhosa de Emma.

       Norman e Yvorme ficaram muito contentes ao me ver e mais surpreendidos ainda ao conhecer Emma, Fizeram muita festa com ela. Algumas horas mais tarde voltamos para casa. Encontramos a avenida principal pela qual deveríamos seguir e caminhamos por ela. Mas de repente percebi que tinha falhado. Com a empolgação de que tudo seria Diferente com Emma, esqueci de contar quantas ruas tínhamos atravessado. No caminho de ida para a casa dos meus amigos não houve necessidade de contar as transversais porque iríamos até o final da avenida, que acabava num T. Mas para voltar para casa era preciso ter contado. E fiquei sem ter noção de onde mandar Emma dobrar à esquerda. Depois de todo um mês de treinamento eu me esquecera de uma das regras básicas: contar as ruas transversais.

       0 que fazer agora? Pensei: desta vez não há instrutor nenhum para me salvar. Emma, sem saber de nada, estava me conduzindo com seu passo acelerado e eu me sentia como se estivesse numa corrida sem fim. Não era só isso. Senti que tinha abandonado Emma. Parecia ter-me esquecido dela devido à minha indecisão. Mas tinha certeza, também, de que ela jamais cometeria um erro que nos colocasse em perigo. Emma não estava nem um pouco amedrontada e, ignorando minhas ordens, entrou numa das transversais.

       Tentei detê-la.

       — Não, Emma. Não! Volte, volte!

       Mas ela não me dava a menor atenção. Eu por minha vez não a largava e então era obrigada a segui-la. Depois de algum tempo, ela dobrou à esquerda novamente e sentou-se.

       Instintivamente estendi a mão. Reconheci as luminárias e a porta de madeira, que tinha algumas bolhas na pintura. Era a porta dos fundos de minha casa. Se eu esquecera de contar as transversais, Emma certamente havia lembrado de fazê-lo!

       Passado algum tempo que tínhamos voltado de Leamington, escrevi a Paddy Wansborough, a maravilhosa mulher que ensinara as primeiras lições a Ema. Quando digo "escrevi", na verdade quero dizer falei, porque enviei a ela uma fita gravada contando o que Emma significava para mim como guia, depois de ter sido treinada por ela. Ali começava uma correspondência por fita cassete e também uma amizade que perdura até hoje.

       Através das fitas dela fiquei sabendo muitos detalhes sobre Emma.

       Paddy a recebera com dois meses de vida e enviou-me uma foto dela com essa idade. Embora tivesse de confiar na descrição que outras pessoas faziam da foto, era maravilhoso ter uma fotografia de Emma da época em que ela foi retirada da ninhada para começar a ser treinada como cão-guia. Emma já tinha um ano e meio quando a conheci e, portanto, eu não sabia de muitas coisas sobre sua vida. Mas escutar as fitas de Paddy era a melhor forma de suprir essa falta. Ela disse que Emma sempre pareceu uma cachorrinha ativa, interessada em fazer coisas, e que parecia ter sempre algo em mente. Isso confirmava a impressão que eu formara sobre ela.

       Numa das fitas, Paddy contou-me uma história que achei mais divertida do que ela deve ter achado quando o fato aconteceu. Paddy tinha plantado algumas cebolas no quintal. Depois de terminar a plantação, foi para casa e deixou Emma brincando no gramado, Cerca de meia hora mais tarde Emma entrou em casa parecendo muito satisfeita. Quando Paddy olhou pela janela, viu então uma pilha de cebolas cuidadosamente arrumadas junto à porta dos fundos. Emma tinha cavado cada broto com muito carinho e energia, e estava agitada por tê-los devolvido à sua dona!

       Logo que começamos a nos corresponder, Paddy convidou-me a visitá-la em Yorkshire. Estavam organizando uma festa para arrecadar fundos para o treinamento de cães-guias e ela acertadamente achou que eu gostaria de levar Emma. Ao longo de nossas conversas através de fitas cassete, senti que já conhecia Paddy, mas fiquei imaginando se Emma se lembraria dela. Assim que descemos do trem ouvi a voz de Paddy nos gritando:

       — Ei, Sheila. Como está?

       Foi o bastante para Emma ficar agitada. Ela pulava em Paddy, fazia festa, mas voltava sempre para perto de mim. Como se dissesse: “Estou alegre por estar aqui, mas “Não esqueci que sou sua.”

       Emma e eu começamos a ir juntas para o trabalho, assim que retornei à atividade. Nessa época morávamos em Carlton, num dos extremos de Nottingham, e eu trabalhava no outro extremo, Bulwell. Precisava apanhar dois ônibus, tendo de passar por Market Square, bem no centro da cidade, no percurso entre as duas conduções. 0 ponto do primeiro ônibus era no final da nossa rua, de modo que esta parte do caminho era fácil. Emma corria pela rua com sua cauda levantada; eu podia senti-la enquanto andávamos. Com o passar do tempo, fui aprendendo como podia saber o que ela estava fazendo através da guia. Podia saber se as orelhas dela estavam deitadas ou em pé, se estava com a cabeça voltada para a esquerda ou para a direita e todos os pequenos movimentos que ela fizesse.

       A partir de então Emma passou a adorar andar de ônibus. Não era propriamente pelo ônibus, contudo. Um fator importante era a admiração com que era recebida toda vez que entrávamos num ônibus, desde aquela primeira vez.

       ”Oh, que adorável! Que cor linda”!”E assim por diante”. Eu podia sentir Emma adorando aquela sensação de glória. Ela escolhera o segundo banco à direita. Por alguma razão especial, era esse o lugar que sempre escolhia nesse ônibus. Sentei-me e ela entrou debaixo do banco. Por estranho que pareça, este,era o único ônibus em que ela demonstrava ter sua preferência: tinha de ser sempre no mesmo lugar. Depois que já íamos trabalhar juntas por três semanas, estávamos nos aproximando do ônibus certa manhã quando comecei a ouvir um grande tumulto dentro do veículo. Ao me aproximar mais, escutei uma mulher dizendo:

       — 0 senhor não pode sentar aí. Estou lhe dizendo que este banco é de Emma. Vamos, daqui a pouco elas chegarão.

       Em outros ônibus, Emma simplesmente procurava um lugar vazio, de preferência, pelo menos no inverno, junto aos aquecedores. Mas já que normalmente viajávamos no horário do rush, os ônibus estavam geralmente cheios, com exceção do primeiro. Nos ônibus lotados, Emma usava uma técnica especial. Puxava-me pelo corredor, afastando as pessoas, se houvesse passageiros em pé, até escolher o lugar em que desejava que sentássemos, Depois de feita a escolha, ficava olhando para quem estivesse ocupando o banco até que o homem ou a mulher que ali estivesse me cedesse o lugar. Para ser justa, devo dizer que todos geralmente ofereciam o assento rapidamente, antes que houvesse algum tumulto. Isso, é claro, agradava a exibicionista Emma. Depois de se certificar de que agradara, voltava-se para mim, punha a cabeça nos meus joelhos e olhava-me, imagino, especialmente devotada e de modo um tanto patético. A partir deste momento tinha conquistado o ônibus.

       Mas vamos voltar àquela manhã. Quando entrei no escritório, havia um comitê de recepção. Embora todos dissessem "Olá" para mim, estavam mais interessados em ver como era Emma. Novamente ela respondeu àquela festa com muito contentamento. E quando retirei sua guia, percorreu toda a sala com a cauda abanando, para ver todos.

       Ela foi um verdadeiro sucesso. Depois que cada um voltou ao trabalho, Emma inspecionou sua cestinha e brincou algum tempo com um boneco de borracha que eu levara Para mantê-la ocupada. Depois acalmou-se. 0 telefone já começara a tocar e logo seria como nos velhos tempos, com a grande diferença de que agora eu tinha aquela reconfortante amiga que dormia debaixo da minha mesa. A manhã correu tranqüilamente e enquanto eu esticava a mão para acariciar sua cabeça, pensei como Emma era calma. Mas onde deveria estar a cabeça dela minha mão não encontrou nada. Corri a mão ao redor. Nada.

       Emma tinha desaparecido! Imediatamente levantei-me e fui ver se a porta do escritório estava aberta.

       Sim, estava. Chamei por ela mas não obtive resposta. Uma grande ansiedade tomou conta de mim. Será que ela tinha saído? E se tivesse ido para a rua? E se estivesse... perdida... E se... Então escutei o som de patinhas caminhando tranqüilamente no corredor. Graças a Deus. Emma entrou e eu perguntei:

       — Onde você esteve?

       A resposta dela foi colocar alguma coisa sobre meu colo. Não quis acreditar no que meus dedos tocavam. Era uma bolsa. Fiquei horrorizada:

       — Emma! Onde você apanhou isso?

       A resposta desta vez foi um gesto costumeiro: ela começou a pular sobre as patas da frente e a abanar a cauda. A mensagem era clara: “Que tal isso para mostrar como sou inteligente? Apanhei a bolsa de alguém! Como um relâmpago” passou por minha cabeça a idéia de um assaltante de quatro patas.

       Tomei a carteira dela e a guardei, esperando que alguém aparecesse procurando uma carteira roubada. E que aceitasse minhas desculpas.

       A dona da bolsa finalmente sentiu falta dela e perguntou se alguém a tinha visto. Mas ninguém acreditou que eu não tivesse ensinado a Emma aquela travessura, o que Me deixou intranqüila, antevendo o que poderia acontecer no expediente da tarde e pensando se permitiriam que eu continuasse trabalhando para a Industrial Pumps.

       Foi um alívio sair com Emma do escritório e levá-la para um passeio no parque. Isso era algo que eu decidira fazer todos os dias.

       Já que ela trabalhava duro, era justo que vivesse alguns momentos de liberdade sempre que possível.

       Sentei-me num banco para comer os sanduíches e a deixei solta. Emma saiu correndo pela grama. Logo em seguida ouvi um latido ao longe e a reconheci. Mas de vez em quando ela voltava onde eu estava, tocava minhas mãos com o nariz e depois saía correndo outra vez. Era algo que ela nunca deixava de fazer quando íamos ao parque.

       Ela me tranqüilizava: "Estou aqui, não esqueci de você.”

      Naquela tarde eu me sentei-me à mesa telefônica e. entre um chamado e outro, esperava ansiosa pela presença de Emma, temendo que ela me trouxesse outro presente.

       Mas ela se deitou e dormiu e depois daquela vez nunca mais chegou com lembranças para mim, pelo menos no escritório. Talvez aquilo fosse um jeito de Emma marcar sua presença e agradecer as boas-vindas. Fosse lá o que fosse, fiquei satisfeita que tivesse terminado.

       Na primeira semana correu muito bem. Ir e voltar do trabalho tornava-se cada vez mais fácil. Eu já não precisava dizer direita e esquerda para Emma porque logo ela aprendeu a me levar corretamente ao ponto do ônibus. Comecei a apreciá-la mais ainda. E isso era algo que provou ser verdade à medida que o tempo passava: para Emma bastava fazer um percurso uma só vez; depois ela já sabia a rota sem nenhum auxílio. Mas descobri também que há certas Desvantagens em se ter um cão inteligente.

       Por volta da metade da segunda semana, ao sairmos para o trabalho, eu Simplesmente disse a Emma que íamos para o escritório. Eu sabia que ela era capaz de fazer isso sem qualquer orientação. Descemos do primeiro ônibus e chegamos à Market Square. Ia tudo bem. Mas na hora de atravessarmos a primeira rua da praça, Emma sentou-se em vez de seguir. Prestei atenção ao ruído do tráfego e quando percebi que não vinha nenhum carro disse para ela ir em frente. Mas ela não saiu do lugar. Continuou sentada. Eu não conseguia entender o que estava acontecendo. Pensei que tivesse me enganado quanto ao tráfego. Quando não ouvi mais nenhum ruído de carro, disse-lhe novamente para ir em frente. Em vez disso, ela ficou de pé, dobrou à direita e foi me levando pela calçada.

       —Emma perguntei, já desesperada, enquanto era quase que arrastada — onde você está me levando? Onde fica a parada do ônibus? Pare.

       Mas ela parecia não me escutar. E se escutava não dava a menor importância. Continuamos por aquela rua, depois fizemos uma curva fechada à esquerda e atravessamos outra rua. Depois ela se sentou novamente. Eu não fazia a menor idéia de onde estávamos. Tinha perdido por completo meu senso de direção e estava muito confusa quanto ao caminho que deveria seguir para o ponto de ônibus.

       Perdera meus pontos de referencia, que são provavelmente equivalentes aos das pessoas que enxergam ao irem de um ponto a outro: à direita da St. Marys Church, depois da casa de W. H. Smith, à esquerda do Royal Oak e assim por diante.

       Eu não estava apenas desapontada com Emma, mas levemente frustrada e preocupada com ela.

       — Emma, vamos chegar atrasadas ao serviço - eu disse em tom de reprovação.

       Como dizer ao patrão que foi Emma a culpada pelo atraso? Pensando bem, deve ter sido engraçada a cena para quem a tenha presenciado.

       — Por favor — falei ao ouvir passos se aproximando pode me dizer como chegar ao ponto do ônibus 43?

       Houve um instante de silêncio durante o qual pensei: a pessoa não sabe informar; estamos mesmo perdidas, Em seguida, uma voz de homem disse, parecendo-me um tanto preocupada:

       — Ponto do 43? Você está no ponto do ônibus 43. Seu cachorro está encostado no poste do ponto.

       Senti-me aliviada, atônita e completamente confusa. Pegamos o ônibus e eu esqueci o incidente. Até a manhã seguinte. Desta vez Emma dobrou à esquerda em vez de virar à direita. Atravessou outra rua e dobrou à direita; atravessou outra rua, caminhou alguns metros e sentou-se. Estávamos novamente no ponto do ônibus 43. Eu estava irritada, mas acostumando-me àquilo. No escritório perguntei a Carol, uma amiga que também passava pela Market Square, se havia alguma obra no percurso que eu mentalizara.

       Ela disse que não e que também não havia nenhum prédio novo nem qualquer tipo de obstrução.

       Eu me sentia completamente perdida. Pensei e repensei e então cheguei à única explicação possível: Emma, depois de aprender um caminho, cansou-se de segui-lo todos os dias. E então criou variantes. A partir de então ela descobriu uma série de rotas novas pela Market Square, independente de qualquer orientação minha. E a cada dia escolhia um desses trajetos. Logo me habituei a isso e comecei a levantar 10 minutos mais cedo para o caso de Emma cometer algum engano, Mas isso, logicamente, jamais aconteceu.

      

                    ANITA

       Agora eu sabia que Emma me dera certa liberdade, não apenas para    ir aonde eu quisesse, mas também para fazer o que desejasse, Os limites não eram tão grandes quanto se pode imaginar, Muitos assuntos sempre me interessaram e decidi inscrever-me num curso sobre "a arte de escrever". As aulas eram à noite e foi nesse curso que conheci Anita.

       Durante um dos intervalos ouvi uma voz tema e educada dizendo:

       — Olá, você é uma cachorrinha muito bonita. Depois para mim:

       — Você se importa se eu conversar com ela? Nunca tinha visto um cão-guia antes. Ela tem uma cor realmente muito bonita. Aquela moça, com um forte sotaque de Yorkshire, finalmente apresentou se como Anita. E ali começou uma grande amizade, tudo por causa de Emma. Anita estava com 19 anos, a mesma idade que eu, e tinha ido a Nottingham à procura de emprego. Fiquei sabendo mais tarde que ela era atraente e tinha o cabelo escuro e curto. À medida que as semanas passavam, eu esperava as aulas com ansiedade para encontrá-la no curso. Ela estava interessada em escrever contos, enquanto eu tentava escrever poemas. Nós sempre conversávamos muito no intervalo.

       Certa noite perguntei a ela o que fazia nos fins de semana.

       - Vou para Ilull - respondeu - mas no próximo fim de semana vou cavalgar.

       Cavalgar! Meu coração deu um salto. Era uma coisa que eu sempre desejara tentar. Algo que muitas de minhas amigas praticavam e cujas histórias eu ouvia fascinada.

       Mas mamãe tinha proibido terminantemente que eu montasse. Eu já podia ouvir o que ela diria: “Claro que não, Sheila. Não, não vou perder nem um minuto pensando nisso.”

       Mas agora Anita, ao falar nesta atividade proibida, deu-me uma idéia; e mamãe não precisaria jamais ficar sabendo de nada. — Que maravilha — exclamei. — Você me leva com você? Pelo tom de sua voz, percebi que Anita tinha ficado realmente muito surpresa.

       — Levar você? Você quer mesmo ir, Sheila? Quer dizer, você não tem medo? Bem... Porque você não consegue enxergar direito.

       Esta era uma reação para a qual eu não estava nunca preparada, por estranho que possa parecer. Nunca pensara em minha cegueira como um obstáculo.

       — Nunca pensei nisso — respondi.

       — Bem, vou arranjar um lugar para você, então. Ligo para o seu trabalho amanhã.

       Esperei pela ligação ansiosamente. Anita só telefonou no final da tarde e sua voz já anunciava que alguma coisa saíra errada.

       — Sheila, não sei como lhe dizer. Conversei com o pessoal da hípica. Eles não aceitaram que você monte. Liguei para outros lugares e foi a mesma coisa. Todos se recusaram terminantemente. Acho que pelo fato de você não enxergar.

       Houve uma pausa enquanto eu absorvia aquilo. Em seguida ela acrescentou:

       — Cancelei minha reserva também.

       — Anita, por que você fez isso?

       — Porque se não aceitam você eu também não quero ir. Por que discriminar só porque você não enxerga?

       A gentileza dela me fez despertar para o fato de ninguém me aceitar.

       O gesto era típico de Anita — uma pessoa amável e altruísta. Mesmo assim, senti-me culpada por estragar o fim de semana dela e disse-lhe isso.

       — Não, Sheila, não me importo. Vamos colocar você sobre um cavalo de qualquer maneira. Nem que seja preciso fingir que você enxerga.

       Dentro de instantes a mesa telefônica soou novamente. Era Anita, desta vez com um tom de alegria na voz.

       — Consegui fazer reservas para nós duas.

       Fiquei excitada. E apreensiva.

      — Como vamos fazer? Como esconder o fato de que não enxergo? Vão perceber e você ficará numa situação difícil. E mais: tenho de levar Emma. Todos verão que ela é um cão-guia por causa das correias.

       — Deixe tudo comigo — respondeu Anita. — Vamos pensar em alguma coisa. Tenho certeza de que encontraremos alguém para tomar conta de Emma.

       Eu não podia resistir à insistência dela. Ela estava fazendo aquilo por mim. Quando chegou o fim de semana, vesti um suéter e, como não tinha roupas adequadas para andar a cavalo, pus uma calça velha. Minha mãe não gostou da roupa que eu estava usando, mas não discuti. Emma e eu encontramos Anita, conforme o combinado, e depois que tomamos o ônibus ela me contou o que tinha planejado.

       — Já resolvi tudo. Vamos encontrar uma amiga minha que ficará com Emma do lado de fora da pista. Depois nós duas entramos de braços dados e vamos direto até o seu cavalo. Aí então deixo bem claro que estou ajudando porque você nunca montou antes. Quando você tiver montado lhe direi o que fazer. E ficaremos conversando o tempo todo depois que começarmos a cavalgar, para que você saiba onde estou.

       A idéia me pareceu boa. Mas não pude deixar de sentir um pouco de pânico. Ao mesmo tempo sabia que não podia voltar atrás. Pensei:

       "Tenho de fazer isso por Anita.”

       Encontramos a amiga de Anita e eu lhe entreguei a guia de Emma, que.

       Seguiu-nos até junto das pistas. Lá perto, então, uma sensação estranha me invadiu. Podia ouvir todos os tipos de vozes. Tinha certeza de que alguém se aproximaria e Diria: “Você não enxerga! O que está querendo ao tentar montar um de nossos cavalos?”“

       Mas estavam todos muito ocupados para reparar em mim, e acabei montando um cavalo depois de tatear à procura do estribo. Anita trouxera o animal até perto de mim e dissera que se chamava Rocky. Sentei-me em cima dele, sentindo-me pouco à vontade.

       — E agora, o que faço?

       — Não se preocupe — disse-me ela, ainda junto de mim. Dê-me sua mão. É assim que se segura a rédea. Assim! Não, o polegar para fora. Isso! Agora segure firme e quando estiver pronta para começar toque os flancos do cavalo de leve com os calcanhares ... Não toque com força...

       E começamos a cavalgar, Anita logo atrás de mim, comentando:

       — Aquela árvore ali não é maravilhosa?... Que tal o Rocky? Ele é muito altivo, não? Que beleza aquela colina lá, você não acha? — E assim por diante, a fim de me tranqüilizar com sua presença.

       Tudo ia bem e eu me sentia relaxada enquanto trotávamos. Imaginava ser Marian cavalgando tranqüilamente na floresta para encontrar Robin Hood quando, subitamente, alguma coisa deve ter assustado Rocky. Ele se empinou um pouco e depois partiu a todo galope. Fiquei petrificada. Larguei a rédea e me agarrei à sela, debruçando-me sobre o dorso do cavalo.

       O vento cortava meu rosto. Escutei Anita gritando: -- Puxe a rédea para trás. Sente-se direito.

       Mas todas as instruções dela não adiantaram. Eu continuava sendo carregada em meu mundo de trevas, sacudindo muito e deitada sobre o dorso do animal.

       Em seguida, tão subitamente quanto começara a disparada, Rocky deteve-se. Abaixou a cabeça e começou a pastar. Este era o único ruído que ouvia. Senti medo. Tinha Perdido completamente a noção de direção. Eu não devia ter vindo cavalgar. Pensei: “Agora vão descobrir que sou cega e culparão Anita”.

       “Por isso.”

     Naquele instante ouvi o som de outro cavalo aproximando se. E depois a voz de Anita:

       — Vamos, Sheila. Faça com que ele ande. Toque os flancos do cavalo com os calcanhares. Não fique aí parada. Finalmente, depois de certa insistência e persuasão de Anita, que continuou dando-me instruções, fiz com que Rocky andasse. Quando voltamos para deixar os animais nos estábulos, ninguém suspeitou de que eu fosse cega. Só escutei palavras de elogio.

       Tínhamos conseguido! E apesar do comportamento inesperado de Rocky, Devo admitir que gostei muito da experiência. E a partir de então, sempre que podíamos, Anita e eu íamos cavalgar.

       Certo dia Anita convidou-me para ir a seu apartamento. Enquanto tomávamos chá ela falou:

       — Sabe, Sheila, não gosto deste apartamento. É muito pequeno e apertado. Gostaria de morar num lugar maior, mas está tudo tão caro.

       Outro dia fui ver um apartamento adorável. Uma sala grande e o quarto separado. Não como este aqui, em que sou obrigada a fazer a cama de sofá e onde a cozinha é do tamanho de um armário. Se eu encontrasse alguém que quisesse dividir o aluguel comigo, poderia mudar. Mas acho que isso não passa de um sonho... como conseguir publicar meus contos!

       Nós duas rimos. Mas as palavras dela plantaram uma semente em minha cabeça. Eu decidira que gostaria de sair de casa e ser Independente, agora que tinha Emma para me guiar. Em casa fazia minhas tarefas domésticas e sabia que poderia fazê-las em qualquer outro lugar. Contudo, independência nunca passara de um sonho para mim.

       O que Anita diria se eu sugerisse dividir o apartamento com ela? Pensei por um instante e depois perguntei:

       — O que você acha de dividir o apartamento comigo? A reação dela foi melhor do que eu tinha esperado.

       — Oh, Sheila, que idéia maravilhosa!

       Mas achei melhor certificar-me de que ela compreendia todas as implicações de tal convivência.

       — Você acha mesmo que pode ser uma boa idéia? E quanto a Emma, por exemplo?

       — Você não pode vir sem ela. Acho que não há nada de mal nisso.

       — Bem, o que eu quero realmente dizer é... O f ato de eu não enxergar não faz nenhuma diferença? Diferença? Não, é claro que não. Você consegue fazer as coisas em casa. Por que não faria morando comigo?

       Era uma idéia genial. Contudo, eu não queria que ela tomasse uma decisão da qual mais tarde viesse a se arrepender. E para mim significaria tantas mudanças que achei melhor não decidir nada apressadamente. Sugeri que pensássemos naquilo durante a noite. Anita concordou, mas ao me ver saindo com Emma, disse:

       — Estou certa de que sei qual será a resposta.

       Havia, porém, uma possível complicação que eu esquecera de mencionar durante nossa conversa: Tiss. Tiss era meu gatinho. Uma das primeiras coisas que eu quis fazer ao voltar com Emma de Leamington foi comprar um gato, com a esperança de que Emma aos poucos fosse perdendo sua aversão pelos felinos.

       Fomos até a loja de animais e, depois que o homem descreveu todos os gatinhos que havia lá achei que um gatinho ruivo devia ser lindo. E aí então aquela bolinha peluda foi colocada em minhas mãos: quentinha e muito pequena, o coração agitado. Emma deve ter olhado para ele de modo curioso. Mas não precisou correr e ele não demonstrou nenhuma reação ao vê-la. Então ele foi o primeiro.

       Era adorável, mas depois de maior tornou-se estranho. Era um gato esquizofrênico.

       Tiss (um nome que me ocorreu) foi para nossa casa e era um gatinho amistoso. Ele acostumou-se a Ema e ela ao novo companheiro, só que no início ela pensava que ele fosse um brinquedinho animado. Ela o agarrava e o jogava de um lado para outro. Ele, porém, lambia as orelhas e o focinho de Emma com sua minúscula língua, e ronronava para ela. Os dois sentavam-se na beira da lareira. Eu os imaginava como o retrato da felicidade.

       Depois então Tiss começou a mostrar o outro lado da sua personalidade: ficava esperando, deitado sobre o braço da cadeira, e Quando Emma passava ele pulava sobre a orelha dela. Emma nunca protestou; parecia achar que era outra brincadeira de Tiss. Ele nunca ia dormir sem ela e se enroscava em cima dela dentro da cama de cachorro.

        Agia tão silenciosamente que eu nunca sabia onde estava e tinha medo de pisar nele. Até que resolvi colocar-lhe uma coleira com um sininho.

       Brincadeiras à parte, Tiss demonstrava gostar muito de Etrima, que, apesar da aversão que sempre mostrara pelos gatos, parecia fazer uma exceção para ele.

       Tiss, por tudo isso, era um assunto em que pensar quando decidi mudar para um apartamento com Anita. Mas finalmente pensei: "Por que não?”

       Anita disse que não se importava de dividir a casa com uma cadela labrador e um gatinho ruivo.

       E então começamos a ir às imobiliárias e a andar pelas ruas de Nottingham a fim de encontrar um apartamento.

       Primeiro, eu precisava conversar com minha mãe. Ela se preocupava muito comigo e por isso não esperei uma reação muito entusiástica. Calculei, porém, que aprovasse minha decisão porque um dos seus princípios era que uma pessoa cega devia integrar-se ao mundo até onde fosse possível. Ela estava lavando louça quando cheguei em casa. Expliquei tudo a ela e, em parte por ela ter dificuldade em ouvir e também devido ao ruído da água e da louça, achei que não tinha ouvido o que dissera. Depois ela me perguntou:

       — Tem certeza de que deseja fazer isso?

       — Sim, mamãe, tenho certeza.

       — A minha dúvida é se você poderá se arranjar sozinha. É uma grande mudança.

       — Sim, estou certa de que poderei me arranjar. E esta é uma oportunidade de realmente tornar-me independente. Naquele momento, Graham chegou do trabalho. Ele trabalhava como afinador de pianos, embora seu grande desejo fosse tocar guitarra. Quando soube do que eu estava falando, disse:

       — Acho ótimo. Você vai conseguir, não é, Sheila?

       Minha mãe ficou calada e senti que ela estava dividida entre a natural ansiedade materna e o desejo de me ver praticando tudo aquilo que ela mesma sempre me ensinara.

       Finalmente se conformou:

       — Bem, filha, você sabe melhor do que ninguém o que pode fazer. E se precisar de alguma ajuda ou de alguma coisa, não se preocupe. O seu lugar estará sempre aqui.

       Realmente não foi fácil encontrar um apartamento. As dificuldades não advinham da falta de unidades para alugar. Mas sim do fato de eu ser cega. Muitas vezes fomos tratar do aluguel de um apartamento e a fisionomia do futuro proprietário, como Anita depois me contava, se transformava ao perceber que eu não enxergava. Que tipo de problemas eles esperavam de mim? Será que eu tropeçaria em tudo e destruiria os móveis, inundaria o banheiro e arrancaria o revestimento das paredes? Ou será que colocaria fogo no apartamento? Os que não se importavam com minha situação apunham obstáculos por causa de Emma e Tiss. Parecia não haver saída. Então, depois de quase três meses de procura e de muitas decepções, encontramos um pequeno apartamento. Ficava na Peel Street, uma série de grandes casas de campo do século XIX, já um pouco arruinadas; ficavam perto da antiga Victoria Station de Nottingham. A estação fora derrubada para dar lugar a um shopping center. Era um apartamento de três peças que cheirava a mofo e que estava mobiliado com um mínimo de cadeiras, que rangiam ao serem usadas., e mesas muito velhas. A cozinha parecia ter sido aproveitada do que em outros tempos tinha sido um armário. Ficamos encantadas com a pia e o fogão, que Anita descreveu para mim como uma verdadeira relíquia da arca de Noé.

       Anita era muito prática na administração da casa. Logo que nos Mudamos ela disse:

       — Acho que devemos dividir tudo igualmente. E precisamos ter algumas reservas, especialmente para comida. Vou apanhar uma latinha e nós duas colocaremos nela a mesma quantia.

       Estávamos decidindo este importante assunto quando recebemos nossa primeira visita. Era Graham, que havia comprado algumas roupas para mim.

        Ele deu sua opinião.

       — Não está mal. Nada mal, mesmo. Mas precisa de um toque mais alegre. E vocês também não têm relógio.

       — Sim, eu tenho - respondi. - Está no quarto.

       — Mas aquele é o seu despertador em braile. Estou falando de um relógio que outras pessoas possam usar. Anita também vai precisar ver as horas.

       No dia seguinte, Graham voltou com um relógio de cozinha e o pendurou na parede para nós. Era um presente para dar um toque especial à casa. Era uma característica dele escolher sempre algo que me ligasse ao mundo das pessoas que enxergavam.

       Havia outros apartamentos no prédio e pouco depois da mudança começamos a conhecer alguns vizinhos. Mas por diversos motivos nunca conseguimos fazer amizade com o bombeiro que morava no apartamento de baixo, no térreo. Em parte a culpa era minha. Anita costumava sair muito nos fins de semana com os pais e também com o namorado, em Hull. Eu ficava sozinha. No início isso me deixava nervosa, mas logo acostumei a ficar só, com a ajuda de Emma. Parecia para mim um grande passo no sentido de me tornar mais independente. Num dos primeiros fins de semana em que Anita saiu, antes que eu estivesse completamente acostumada ao lugar, resolvi levar a cesta de lixo para esvaziar no latão que havia do lado de fora da casa. Os latões ficavam além do jardim da frente. Para chegar a eles era preciso passar por um corredor onde havia um portão. Ficavam dispostos em fila junto ao jardim da casa do bombeiro. Emma desceu comigo, embora não estivesse na guia.

       Ela teria me salvado se estivesse presa. Mas não achei necessário, já que não iríamos a lugar algum. Um tijolo estava caído no meio da corredor. Na guia, Emma teria feito com que eu o evitasse. Solta, porém, ela limitou-se a parar e olhar. Tropecei no tijolo e joguei todo o lixo em cima do bombeiro, que acabara de sair de casa. Ele ficou coberto de pontas de cigarro, cascas de banana e outras coisas.

       Nosso relacionamento não melhorou nada no sábado seguinte. Anita tinha ido passar o fim de semana fora novamente. Achei que a cozinha precisava de uma boa limpeza, principalmente a cesta de lixo, a grande responsável pelo incidente da semana anterior. Coloquei duas chaleiras com água para ferver e depois coloquei água e desinfetante na lata de lixo, deixando-a de molho por cerca de uma hora debaixo da pia. Quando fui esvaziá-la, pareceu-me muito leve. Enfiei a mão lá dentro. Nada de água. Como eu poderia saber que havia um furo no plástico? Ou que a água escorreria pelo chão e cairia na cozinha do bombeiro? As coisas entre nós nunca voltaram a ser as mesmas.

       O engano mais sério que cometi ocorreu num outro fim de semana. Já morávamos no apartamento há algum tempo. Eu estava muito habituada a percorrê-lo. Além de Ema e Tiss, a população animal da casa tinha aumentado; Anita havia comprado dois ratinhos. Chamavam-se Ilk e Moke. Suponho que o dono da loja de animais tenha vendido os dois como ratinhos mansos e, se tivesse certeza disso, eu o teria processado com base no Código Comercial. Era impossível colocar a mão na gaiola deles para apanhá-los sem ficar arranhada. Tiss os irritava. Quando Anita saía, eu me encarregava de alimentar os pequenos monstros.

       Nesse sábado, coloquei a gaiolinha sobre a mesa na cozinha e tive o cuidado de arrumar alguns livros sobre ela, a fim de evitar que Tiss subisse na gaiola e os assustasse.

       Na manhã de domingo, levantei-me e fui com Emma até a cozinha fazer chá. Sabia que tinha deixado os ratinhos em cima da mesa e tateei à procura deles. Então senti algo se mexendo perto da minha mão. Quase desmaiei de susto. Continuei procurando a gaiola e então ouvi o som novamente: pequenas unhas.

       Fiquei petrificada. Ali devia haver um rato.

       Fiquei nervosa. Pensei que tivesse deixado um deles escapar quando fui colocar a comida. O que Anita diria?! E se o ratinho tivesse fugido?

       Como conseguiria apanhá-lo?

       Fiquei tremula, ainda vestida com a camisola, sem condições de tomar qualquer atitude. Então tive uma idéia. Por mais que detestasse aquilo, era preciso agarrá-lo. Eu sabia que havia uma latinha ali à mão.

       Apanhei-a e coloquei-a na ponta da mesa. Fiquei esperando, sem fazer ruídos, durante alguns minutos. Foi pura sorte. Ouvi um movimento, Depois senti o ratinho. Seria 11k? Ou Moke? Não me importava.

       De qualquer forma, eu o senti dentro da latinha. Rapidamente o empurrei para o fundo da lata e pus minha mão sobre a abertura dela. Antes que ele pudesse me arranhar, eu o coloquei na gaiola novamente e fechei a portinhola.

       Precisei tomar muito chá para me recuperar. Mas pelo menos tinha conseguido repor o ratinho no seu lugar. Quando Anita chegou, à noite, uma das primeiras coisas que fez foi inspecionar llk e Moke.

       — Sheila — exclamou ela. — O ratinho!

       — Sim - respondi de modo alegre, meu coração disparado (será que deixei os dois saírem quando abri a gaiola?).

       — O que aconteceu, Sheila? Há três ratinhos.

       — Três?

       — Sim, três. Os dois branquinhos que eu comprei e um cinza.

       Um cinza! Logo entendi o que acontecera. Muito confusa, expliquei tudo a ela. Achamos muita graça daquilo tudo. Era o contrário do que acontecera aos Três Ratinhos Cegos, da conhecida cantiga de ninar.

       De um modo geral, porém, as coisas corriam bem, especialmente quando Anita estava em casa. Ela era uma pessoa muito divertida, fácil de se conviver. Eu me sentia muito feliz por ter meu próprio apartamento, o que muita gente que enxerga não consegue. Ríamos muito e eu sempre achava divertida as expressões de Yorkshire que de vez em quando ela usava. Num novembro muito frio, escolhi um vestido muito fino.

        — Você não pode usar isso — disse Anita.

       — Por que não?

       —Você pegará a tosse-rainha se sair com essa roupa.

       — Tosse-rainha? O que é isso?

       — Sua mãe nunca lhe contou? A tosse-rainha é três vezes pior do que qualquer tosse e pode-se morrer por causa dela, Impressionada com a idéia e com a possível força da tosse rainha, resolvi vestir algo mais quente.

       Imagino que quando Anita me convidou para morar com ela deve ter pensado que haveria desvantagens em viver comigo. De minha parte, era difícil admitir que não pudesse fazer tudo que uma pessoa com visão normal faz. E eu estava disposta a mostrar que a situação não era tão ruim quanto podia ter sido imaginada. Na verdade, acho que devo ter surpreendido Anita ao fazer tudo que eu conseguia fazer mesmo sendo cega. Isso exigia muito trabalho e concentração. Mesmo assim nós persistimos. Ás vezes, em meio ao ruído do aspirador de pó, eu ouvia o riso dela.

       Desligava o aparelho e perguntava:

       — De que você está rindo agora?

       —É que você já aspirou essa parte do tapete seis vezes e pertinho de você está uma outra parte cheia de poeira.

       E assim eu ia trabalhando, esperando algumas orientações, até que todo o tapete estivesse limpo.

       O armário de mantimentos era uma constante fonte de diversão depois das compras. Se fosse minha vez de ir ao mercado, eu só comprava o que fosse necessário para as próximas 24 horas, porque muitas latas e pacotes confundiam-me.

       Toda tarde eu comprava o que desejávamos comer no jantar, café da manhã e hora do chá. E tentava manter os alimentos separados no armário: uma prateleira para os legumes, um pedaço de outra prateleira para as latarias, outra parte para a ração de Emma e assim por diante. Às vezes meu planejamento não funcionava. Acho que certa noite Emma deve ter adorado o bife à caçarola. E até hoje não sei onde foi parar a latinha de comida para cachorro que eu devia ter dado a ela. Pacotes e vidros eu identificava pelo cheiro, é lógico. De modo que, se quisesse comer marmelada, era obrigada a retirar todos os vidros do armário, abri-los e cheirar. Com geléia, picles e outras coisas era fácil, embora desse trabalho; mas isso também desenvolveu muito meu olfato. Mas para encontrar coisas como sal e açúcar, era preciso enfiar o dedo e provar - e assim mesmo às vezes havia surpresas.

       Uma das atividades que realmente fascinava Anita era me ver cozinhar.

       —- Não consigo entender como você consegue cozinhar dizia ela.

       Na verdade não era tão difícil quanto podia parecer. Eu tentava explicar que, enxergando ou não, grande parte do serviço é feito pelo tato. Para sentir se as batatas estão cozidas basta enfiar um garfo nelas. Se a carne estiver assando, usa-se um espeto, que é enfiado no assado de vez em quando. É claro que as pessoas que enxergam não confiam totalmente nisso, mas era uma forma de eu explicar como conseguia cozinhar. Eu usava o fogão guiada pelo tato e além disso tinha um relógio em braile adaptado ao forno. A única coisa de que não gostava era fazer frituras, porque a gordura espirrava e também, é claro, porque não podia usar um espeto para ver se já estava no ponto.

       Outro sentido muito usado por mim era o olfato, que talvez fosse de maior serventia para evitar que a comida queimasse do que propriamente para cozinhar. Depois que já estávamos no apartamento há algum tempo, acho que convenci Anita de que era capaz de trabalhar normalmente.

       Eu precisava confiar em Anita na hora de me vestir. Tínhamos praticamente o mesmo manequim e às vezes eu usava algumas roupas dela.

       Ela me ajudava bastante. É muito difícil apanhar a roupa certa se não se pode ver a cor do tecido.

       Pode-se apenas sentir pelo tato qual o tipo da fazenda e o feitio.

       Quando ia comprar roupas, antes de morar com Anita, geralmente dizia: "Não importa a qualidade, o importante é o tamanho". Mas com o auxílio dela, era maravilhoso poder usar roupas que eu sabia estarem bem. Ela me acompanhava às lojas ou, se eu fosse com Emma, levava as roupas para casa sem compromisso. Vestia tudo novamente e pedia a opinião sincera de Anita. "Não, essa roupa não fica bem em você", ela podia dizer.

       Ou: "Acho que não. Faz você parecer ter 90 anos." Então eu voltava à loja para trocar. Acho que eu estava usando roupas de que Anita gostava, em vez de usar   roupas que preferiria se pudesse enxergar. Mas achava isso muito bom. Porque Anita, além de ter a minha idade, estava atualizada com as revistas de moda e pela primeira vez na vida me sentia também como parte do mundo moderno.

       Da mesma forma como   me ajudava com as roupas, Anita dizia se meu cabelo estava bem ou não. Ela era o meu espelho. Mas acima de tudo, o mais importante era que ela me tratava como um integrante da raça humana. Tinha grande senso de honestidade e jamais aconteceu de fazer alguma concessão embaraçosa pelo fato de eu não enxergar.

       Dito isto, havia algo em que eu precisava tomar cuidado com ela. Era quando saíamos para fazer compras. Eu gostava muito que Anita se encarregasse de me guiar, porque assim ela ficava livre da guia e podia ficar presa numa coleira como qualquer cachorro. Mas nem sempre essa situação era boa para mim, porque às vezes eu ia de encontro a um poste de iluminação, sentindo dor em conseqüência da pancada. E Anita dizia então:

       — Oh, Sheila, sinto muito. Eu estava olhando aquela vitrine. Nem reparei no poste.

       Depois de algum tempo, voltei a confiar inteiramente em Emma, mesmo quando saíamos as três.

      Certa vez, no apartamento, fiquei pensando em como nascera um vínculo entre Emma e eu, e não apenas da minha parte. Quando Emma veio para mim, era esplêndida em seu trabalho, apesar de sua independência em escolher os trajetos que fazíamos. Mas eu tinha a impressão de que ela não precisava de mim. Tomava conta de mim na rua, mas dentro de casa, quando morava com meus pais, nunca latia quando alguém batia na porta. Não tinha um instinto protetor para comigo.

       Mas depois que mudamos para o apartamento, e quando, após a agitação da mudança e da troca de ambientes, ela viu que continuávamos juntas, seu comportamento em relação a mim mudou gradualmente.

       Passamos a ficar muito tempo sozinhas e logicamente Emma passava comigo 24 horas por dia. Ela me seguia por toda parte em casa - o que jamais fizera antes - e nunca me perdia de vista, mesmo no banheiro. Além disso, começamos a caminhar com o mesmo ritmo, e ao mesmo tempo parecíamos desenvolver o instinto que permitia que cada uma soubesse o que a outra estava pensando — um tipo de telepatia. Pode parecer impossível, mas é absolutamente verdadeiro.

       A Industrial Pumps mudara-se para Colwick e habituei-me a fazer as compras para o fim de semana na hora do almoço, às sextas-feiras, numa pequena área chamada Netherfield.

       Emma sabia sempre quando era sexta-feira. Eu não precisava dizer nada, ela simplesmente me levava até Netherfield, enquanto que nos outros dias dávamos nosso costumeiro passeio. Mas, numa certa segunda-feira, precisei levar meu relógio ao concerto e o relojoeiro mais próximo era em Netherfield. Nunca havia ido lá e por isso pedi orientação a Carol. Por ser uma segunda-feira, pensei que Emma achasse que íamos fazer nossa caminhada de sempre. E sei lá por que não disse a ela aonde iríamos, que nosso plano tinha mudado. Saímos do escritório e pegamos a rua principal.

       Mas em vez do percurso que normalmente fazíamos às segundas-feiras, ela resolutamente cruzou a ponte e me levou até o shopping center de Netherfield. Caminhou por dois quarteirões, entrou numa loja e sentou-se. Fiquei perplexa.

       Estávamos na joalheria. Como ela podia saber que iríamos lá, se era uma segunda-feira? Mais espantoso ainda, como ela podia saber que iríamos àquela loja? Eu não tinha dito nada a ela sobre isso.

       — Como você sabia, Emma? — perguntei. Pude ouvir sua cauda batendo no chão. — Está bem, eu desisto. Nunca mais vou deixar de contar as coisas a você. — E assim o fiz.

      

                   DON

       Enquanto morávamos no apartamento, nossa estação de rádio local, a Rádio Nottingham, entrou no ar. Um dos programas apresentados, Clube das Quartas-Feiras, era dedicado especialmente aos cegos. Seu apresentador, George Miller, era um repórter cego. Sempre achei surpreendente que alguém que não enxergasse pudesse fazer esse tipo de trabalho. Contudo, George não apenas vivia do jornalismo mas desempenhava suas funções de modo magnífico. Certo dia ele entrou em contato comigo para saber se eu podia ir ao Clube das Quartas-Feiras para falar sobre os cães-guias. Eu disse que sim, mas não estava gostando muito da idéia de me sentar diante de um microfone e falar uma série de coisas sobre os cães-guias. Achei que isso não interessaria à audiência. Um jeito melhor de mostrar o que os cães guias podem fazer seria apresentar uma demonstração prática com Emma e eu. Sugeri, então, que fosse feita uma aposta como eu iria de qualquer ponto de Nottingham a outro mais depressa que uma pessoa que enxergasse.

       George sorriu e disse que pensaria no assunto. Dois ou três dias depois ele me telefonou e disse que concordava com a idéia e que Tony Church, o produtor do programa, seria a pessoa contra quem eu faria a aposta. Ele deixou bem claro, no entanto, que todo mundo na Rádio Nottingliam achava que eu estava ruim da cabeça e que Emma e eu tínhamos tanta chance de vencer a corrida quanto um cavalo com apenas três patas poderia ganhar uma corrida no jóquei.

       Tony Church escolheu um trajeto que revelaria no dia da corrida. Emma e eu comparecemos à estação. Na porta da emissora, Tony estava à nossa espera com o gravador e o microfone.

       — Bem, senhores, esta é a famosa Emma. Ela vai ganhar de mim, não é mesmo?

       — Sim, é isso mesmo - respondi, enquanto imaginava Emma olhando para ele de modo penetrante, confirmando minha resposta.

       — Muito bem, então — continuou Tony. — Você conhece Trinity Square?

       Trinity Square? Essa foi grande.

       — Sim — respondi — conheço muito bem.

       —Em que parte de Trinity Square você gostaria que terminasse a corrida?

       Pensei por um instante e depois respondi:

       —No ponto do ônibus 49.

       — Está bem assim - concordou Tony.

       E partimos. Era preciso atravessar algumas ruas de muito movimento a fim de chegar a essa praça. Logo no início ouvi a voz de Tony, que estava gravando um comentário sobre o evento. Depois a fala dele foi abafada pelo ruído do tráfego.

       Emma e eu estávamos caminhando e ela parecia mais ágil e esperta que nunca. Finalmente chegamos a Trinity Square e à parada do ônibus escolhida para o término da corrida. Tony só conseguiu chegar alguns minutos depois. Sem fôlego e admirado, ele me cumprimentou: — Parabéns. E minhas desculpas. Você estava certa e nós, errados.

       Só quando ouvi a gravação da corrida, no estúdio da rádio, é que percebi o que acontecera: a corrida fora não só interessante para os ouvintes mas me ensinara também o modo como Emma trabalhava. Em primeiro lugar, fiquei surpresa com o número de obstáculos que ela fez com que eu evitasse e que eu desconhecia. Ela me atravessara por uma faixa de pedestres. Eu tinha parado no meio-fio enquanto Emma ficara sentada. íamos esperar até não passar nenhum carro. Lembro que nesta hora Emma levantou-se antes que eu desse a ordem de seguir e atravessamos a rua. O que eu não sabia era que um ônibus parara na faixa de pedestres e que o motorista acenara para Emma atravessar. Quando chegamos do outro lado da rua, Tony vinha ofegante.

       Mas o ônibus começou a andar naquele instante e ele foi obrigado a ficar na calçada aguardando uma chance para continuar a corrida. Ele então correu daquele lado da rua, tentando manter-se junto a nós. Quando finalmente atravessou a rua e nos alcançou, seguiu atrás de Emma, o que não deu resultado.

       Depois, ao tentar atravessar outra rua, aconteceu a mesma coisa novamente. O tráfego nos deixou passar, mas não esperou por Tony.

       Quando chegamos a Trinity Square, estávamos bem na frente dele e Emma, segundo a gravação, ainda teve tempo de parar e olhar uma vitrine que a interessou. Na loja havia um grande cartaz: "Vende-se.”

       Aquele programa para a Rádio Nottingham foi o início de minha amizade com George Miller. Ele era uma pessoa extremamente amável, cheio de alegria e interesse pela vida. A partir de então, costumava me telefonar para conversarmos sobre o Clube das Quartas-Feiras. Sentia-se muito contente em ajudar outras pessoas cegas e achava que todo aquele esforço valia a pena. As vezes me telefonava e falava sobre alguma notícia a respeito de cegos; ou me consultava sobre os cães-guias.

       Certa noite George telefonou dizendo que estava com um amigo, alguém chamado Don Hocken. Perguntou se eu gostaria de falar com ele. Don estava na mesma sala e podia ouvir a conversa graças ao alto-falante adaptado ao telefone de George, que assim ficava com as mãos livres para usar a máquina em braile. Don começou cumprimentando-me e, caso seja possível uma pessoa se apaixonar imediatamente ao conhecer outra, foi isso o que aconteceu comigo. Quando Don falou-me sobre seu trabalho (ele era pedicuro), temo que tenha dado uma risada: imaginei alguém eternamente condenado a cortar as unhas dos outros. Ele me explicou melhor o que fazia.

       Segundo ele, o trabalho era um pouco mais complicado que isso. O mais importante de tudo é que ele não pareceu se incomodar com meu riso, embora eu viesse a saber mais tarde quanto sua profissão significava para ele e como Don se interessava por seus clientes.

       Don gostava muito de cães e ouvira George falar sobre Emma e por isso conversamos algum tempo sobre ela; e o coitado do George quase não teve tempo de dizer nada.

       Depois que desligamos, eu não conseguia esquecer o suave e profundo som da voz de Don nem a conversa que tivéramos reprisando-a mentalmente. Fiquei sabendo algum tempo depois que Don conhecera George como paciente, no dia da primeira consulta, não sabendo que o outro era cego, achou que seu modo hesitante de andar era devido à bebida. Começaram então a amizade e George tinha ajudado Don com alguns de seus escritos.

       Alguns dias depois George telefonou outra vez e Don estava lá com ele.

       Fiquei muito agitada. Quando Don começou a falar comigo, fiquei imaginando como ele seria.

       Mas senti-me em igualdade de condições com ele, de uma forma que seria impossível se tivéssemos sido apresentados frente a frente.

       Pois já que nos "conhecemos” no   telefone, ele também não fazia idéia de minha aparência.

       Então ele me disse que fora convidado para visitar a Rádio Nottingham no sábado seguinte, e ao ouvir fiquei nervosa. Eu também fora convidada e, depois que ele desligou, fiquei imaginando se teria coragem de ir até lá.

      Simplesmente não queria encarar o fato de que, se ele tivesse ilusões, elas desapareceriam ao me ver.

       Além do mais, nunca acreditei que um homem com visão normal pudesse se interessar por uma mulher cega. Pensei muito em tudo isso, mas ao final venceu minha curiosidade.

       Decidi que iria.

       Lembro-me muito bem daquele dia, em agosto de 1968. Fui ao armário e fiquei indecisa sobre o que usar. Finalmente decidi-me pelo vestido verde e calcei os sapatos novos. Nunca pude usar sapatos com salto alto porque esse tipo de salto me criava muitas dificuldades para caminhar sobre ralos e na hora de pisar no meio-fio. Mas a moda na época eram os saltos baixos que eu tinha de usar e assim tinha comprado um par de sapatos considerado muito elegante. Fui ao cabeleireiro e a toda hora perguntava a Anita:

       - Estou bem? Meu cabelo ficou bom? Estou realmente apresentável? O que você pensa? Honestamente ...

       Anita me tranqüilizava — Sheila, você está ótima. Realmente está muito bem. Não se preocupe.

       Mas para mim era impossível fazer uma idéia real de minha aparência, já que não tinha condição de me comparar com outras pessoas. O resultado é que eu acabava pensando que não podia estar tão bem vestida ou que meu cabelo não estaria tão bem quanto o   das outras mulheres, Quando as pessoas diziam, como geralmente faziam:

       "Você está ótima", nunca tinha certeza se aquilo era uma impressão sincera ou se estavam fazendo concessão pelo fato de eu ser cega.

       Finalmente, depois de tantos preparativos, Emma e eu saímos. Ela sabia que eu estava excitada, porque fazia força na guia e abanava a cauda enquanto caminhávamos. Contei a ela tudo sobre Don.

       — Ele parece ser muito bom, Emma, mas não sei o que achará de nós.

       Emma continuou a balançar a cauda. E à medida que caminhávamos, mais nervosa eu ficava. Achava uma bobagem, mas era assim que me sentia.

       Na época não pude analisar bem o significado desse encontro, mas ele me parecia muito, muito importante e especial.

       Chegamos à Rádio Nottingham e, uma vez lá dentro, ouvi o barulho produzido pela multidão que se encontrava na emissora. Finalmente encontrei alguém que pudesse localizar George para mim. Demorou alguns minutos e em seguida escutei a voz dele.

       Fomos sentar num canto e ficamos conversando, enquanto muitas pessoas se aproximavam para falar com ele, sendo que todas elas terminavam falando com Emma também. No meio do vozerio, ouvi aquela voz inconfundível, a meia distância de onde estávamos. Fiquei pensando: será que ele me viu? O que estará pensando? Talvez tenha me visto mas não queira se aproximar depois de saber como sou.

       Consegui pegar a conversa dele.

       Ele estava falando com uma moça de voz atraente, e dizia:

       — A última vez que nos vimos você estava na cama. Fiquei atônita e pensei: "Será possível? Será que ele é do tipo que arrasta as moças para a cama?" Senti-me muito mal com aquilo. Mas em seguida ouvi o resto da conversa. Ficou claro então que quando ele esteve no hospital para visitar a mãe, a moça estava deitada na cama ao lado da mãe de Don.

       Depois ouvi quando ele se despediu dela, escutei seus passos aproximando-se e a mesma voz, muito mais perto, dizendo:

       — Olá, Sheila.

       Senti logo que ele estava sorrindo. Emma ficou de pé e ele a cumprimentou efusivamente. Brincou com ela, mas rapidamente voltou sua atenção para mim. Sentou-se e começou a conversar e parecia que nos conhecíamos há muitos anos.

       Descreveu em detalhes o estádio para mim, os painéis de controle, as divisórias de vidro e tudo que lá havia, inclusive as pessoas. Mas não era a descrição em si que era maravilhosa, embora também o fosse, mas o fato de Don saber que eu tinha limitações e imediatamente fazer tudo que estivesse a seu alcance para eu tomar conhecimento do que estava acontecendo.

       — Você gostaria de andar pelo estúdio comigo? — ele finalmente perguntou.

       Aceitei o convite e fiquei ao mesmo tempo surpresa e encantada por ele não me segurar pelo braço e tentar me arrastar atrás dele. Em vez disso, ofereceu-me o braço para que eu segurasse, o que é a melhor e mais fácil maneira de se guiar uma pessoa cega. Ele não estava nem um pouco embaraçado e quando estávamos diante do painel de controle, insistiu para que eu sentisse com as mãos todos os comandos ali existentes.

       — Este é o painel de controle, Sheila. Sinta o controle aqui. Este é o visor que dá para o estúdio. . . - Don parecia ter uma noção instintiva de como tornar interessantes as coisas para uma pessoa cega. Senti-me totalmente à vontade e feliz ao lado dele.

       Mais tarde ele sugeriu a George que saíssemos para tomar chá (e quando digo chá refiro-me a algo de mais gabarito que temos em Nottingham; algo mais substancial que sanduíches de picles). A princípio não me agradou muito a idéia, pois eu não queria me expor muito a Don, já que tudo até ali tinha sido maravilhoso. Tentei arranjar desculpas, dizendo que precisava voltar para casa. Mas ele parecia não ouvir minhas justificativas.

       — Vamos, Sheila. Conheço um excelente lugar aqui perto. Ele acabou me convencendo. Emma e eu seguíamos na ferem de George, que estava sendo guiado por Don. Ele me havia dito exatamente onde ficava o restaurante e nós duas chegamos um pouquinho na frente deles, o que foi bom para mim, porque queria mostrar que, com a ajuda de Emma, conseguia me arranjar.

       Uma vez lá dentro, e tendo conseguido permissão para que Emma também entrasse (sempre um problema em restaurais, onde as palavras mágicas "cão-guia" nem sempre resolvem), ela enroscou-se debaixo da mesa e Don descreveu, minuciosamente, ambiente, inclusive a decoração, carpetes e cortinas, e tornou lugar cheio de vida para mim. Pedimos carne. Don ofereceu-se para cortá-la para mim. Como sempre, recusei, mas depois paguei caro por esta demonstração de independência. Na segunda vez em que levei o garfo à boca sem nada espetado nele, ouvi Don sorrir e dizer:

       — Você não acertou outra vez.

       Fiquei tão embaraçada que enrubesci da cabeça aos pés. Eu queria que ele me aceitasse como uma pessoa normal. Contudo seu riso não foi nenhuma falta de cortesia; ao contrário, o modo como ele sorriu acabou por tornar as coisas mais fáceis para mim.

       Depois da refeição, Don nos levou para casa, em Peel Street. Quando nos despedimos na porta do prédio, pouco antes de ele entrar no carro, deu-me algo. Tateei o presente e vi que era uma rosa. Acho que ele a tirou de sua lapela.

       Quando cheguei em casa, coloquei a rosa num vaso e a acariciei.

       Guardei-a por muito tempo; por mim nunca a jogaria fora.

       Nos dias seguintes eu costumava tocar a rosa, cujo vaso ficava em meu quarto, enquanto revivia os momentos daquele sábado inesquecível. Ao mesmo tempo, tinha uma desagradável sensação de que jamais tornaria a estar com Don, que aquele fora um dia maravilhoso mas que não se repetiria. Em minha imaginação, ele era alto e bonito e tinha bigode. Sabia que ele era alto porque sua voz vinha de cima, e sabia também que tinha os ombros largos desde que o segurara pelo braço para caminhar pelo estúdio. Achei bom que Anita não estivesse lá e que não houvesse mais ninguém para me fazer uma descrição de Don, pois sempre preferi as pessoas como eu as imaginava e não como eram descritas por outras pessoas.

       Alguns dias se passaram, e eu estava começando a pensar que meus medos quanto a não estar mais com ele fossem se concretizar, quando uma voz  que eu reconheci instantaneamente irrompeu pela mesa telefônica. Eu sabia que Don não telefonaria para encomendar nosso mais novo modelo de bomba para esgotos. Ele queria sair comigo aquela noite.

       Aquela noite! Fiquei tão agitada que durante o restante da tarde fiz uma série de ligações erradas, deixando todos do escritório aturdidos com meus enganos,

       A caminho de casa contei a Emma tudo que estava sentindo. Àquela altura, eu já lhe tinha mencionado o nome de Don tantas vezes que ela já devia achá-lo familiar e em resposta abanava a cauda. Acho que Emma já estava ansiosa pelo passeio. Anita ainda estava trabalhando quando chegamos em casa, de forma que só havia Emma com quem dividir minha excitação. Lembro que senti o calor do sol em meu quarto quando comecei a trocar de roupa, e que pensei como o mundo tornara-se um lugar aconchegante e adorável.

       Quando saímos naquela noite de verão, que parecia mais perfumada que qualquer outra de que possa me recordar, pensei: alguém deseja me ver, realmente deseja me ver.

       Meus sapatos pareciam não tocar a calçada enquanto Emma me conduzia ao encontro com Don. E enquanto isso eu ia pensando que, se não fosse por Emma, nada disso seria possível.

       Don dissera que nos apanharia num determinado ponto da Mansfield Road, por um motivo que colocou a única nuvem naquela noite estrelada. A única nuvem existente em nosso relacionamento. Don ainda era casado e por isso era difícil achar um local e tempo para um encontro. Alguns amigos já me haviam dito que Don e a mulher não continuaram juntos, que o casamento já não dava certo e, como os amigos têm o hábito de dar conselhos gratuitamente, disseram que eu era tola de me envolver com um homem casado. Contudo, tinham me dito também, esses mesmos amigos, que Don não era homem dado a ter casos passageiros. Por isso eu achava que se ele havia me convidado para sair é porque devia ter pensado nas implicações e (esta era uma esperança e uma conclusão em que eu mal ousava pensar) porque devia ter pensado muito em mim. De minha parte, eu não tinha o menor desejo de encorajar ninguém a deixar a esposa. Isso era algo sério para mim e só me sentia mais aliviada devido ao fato de que ficara sabendo sobre Don e seu casamento através de meus amigos.

       Naquela primeira vez ele me levou a um pub chamado The Three Wheatsheaves, nos arredores de Nottingham, perto da universidade.

       Lembro-me vagamente dos detalhes, a não ser que tudo para mim pareceu mágico. O pub tinha atmosfera aconchegante e um aroma agradável no ar. Emma ficou deitada sob a mesa enquanto conversávamos e num determinado instante Don tocou minha mão levemente. Ele era 15 anos mais velho que eu e tinha esta tremenda capacidade de fazer com que eu, aos 21 anos, me sentisse a única pessoa que realmente importava em todo o universo. Parecia que tinham se passado somente alguns minutos (embora já estivéssemos no pub por cerca de duas horas) quando ouvi o dono do lugar gritando: "Tempo", significando que só atenderia a mais um pedido. Ele tinha uma voz extraordinariamente profunda. Na verdade, sempre que íamos àquele pub nós nunca dizíamos: "Vamos ao The Three Wheatsheaves." Começamos a chamá-lo de "Bar do Homem da Voz Rouca" e este tornou-se o nome daquele lugar especial que fomos na primeira vez que saímos juntos.

       Nos dias que se seguiram, tive certeza de que estava apaixonada por Don.

       E ele, estaria me amando também? De qualquer modo eu achava um tanto incorreto de minha parte esperar tal coisa. Contudo, Don nunca demonstrou que minha incapacidade de enxergar fosse algo importante para ele. Sua total aceitação, na verdade, é que me deu força para continuar e ser como qualquer outra pessoa, superando a frustração de ser cega. A partir de então, quando alguém me dizia: "Deve ser ótimo para você sair com Don. Ele deve ajudá-la muito", eu geralmente ficava furiosa. Detestava a idéia de que uma pessoa com visão normal fosse uma espécie de acessório para fazer as coisas para mim. Viesse o que viesse, queria manter minha independência.

       Mas as dúvidas continuavam. Pensar que um homem com visão normal, especialmente um homem atraente, estava apaixonado por mim era algo muito distante do que sempre esperara, e fez com que eu sentisse meu mundo de pernas para o ar. A lógica parecia inevitável. Don enxergava. Eu era cega. Por isso com toda certeza ele não podia estar apaixonado por mim. Ao mesmo tempo, tinha certeza, embora com certo ceticismo, do meu amor por ele. O amor era algo sobre o qual lia em meus livros em braile e que invariavelmente acontecia com as pessoas que enxergavam. Como poderia acontecer comigo?

       Certa noite Don telefonou-me e disse que o carro tinha enguiçado e que por isso não poderia vir falar comigo. Mal consegui escutar o que ele disse a seguir:

       — Telefonei para a oficina e alguém está vindo para cá. Ligo para você se o mecânico conseguir consertar o carro.

       Só consegui pensar assim: "Pronto, ele decidiu que não quer me ver mais. Isso que ele disse foi uma desculpa. Ele não quer se envolver com uma mulher cega.”

       — Sim - respondi - está bem.

       Desliguei o telefone e comecei a andar de um lado para outro, fazendo força para não chorar. Emma aproximou-se de mim quando finalmente resolvi fazer um pouco de café e me sentar. Ela encostou o focinho no meu joelho. Ficamos assim durante horas. "Ela entende minha situação", pensei.

       O telefone tocou e meu coração disparou. Era Don novamente.

       - Sinto muito, Sheila. O mecânico deu uma olhada e disse que o alternador não está funcionando. Só poderá trocá-lo amanhã. Sinto muito...

       Eu não queria conversar com ninguém. Nem fui deitar. Fiquei sentada, em meio a um pesadelo mesmo acordada.

       No dia seguinte, fui para o trabalho como uma autômata e assim fiquei até por volta das 10 horas, quando recebi um telefonema com aquela voz familiar. Don. Como se nada tivesse acontecido, ele disse que o carro já estava pronto e sugeriu que saíssemos à noite. Como ele poderia saber de tudo por que passei, ou que minhas ansiedades, nascidas de minha cegueira e por ela alimentadas, haviam surgido tão rapidamente? A partir daquele dia nunca mais duvidei do meu amor por Don. Cerca de uma semana depois, Don e eu estávamos sentados dentro do carro.

       Lá fora uma chuva forte — que talvez tenha feito com que nos sentíssemos mais perto um do outro.

       Don subitamente voltou-se para mim e disse:

       — Não será sempre assim, você sabe.

       Eu não sabia o que dizer. Acho que fiz algum comentário evasivo, embora soubesse que a situação estava se alterando, tornando-se algo mais concreto.

       Don prosseguiu:

       — Você esperará até que eu fique livre?

       Eu me senti como se tivesse aberto a porta do carro e começado a dançar com Emma na calçada, apesar da torrencial e fria chuva de dezembro.

       Se eu esperaria? Claro que sim!

      

                   INDEPENDÊNCIA

       Assim, minha vida ficou centrada em Don: encontrando-me com ele sempre que possível e sentindo-me completamente só quando estávamos longe um do outro. Foi mais ou menos nesta época que senti necessidade de mudar de emprego. A Industrial Pumps fora comprada por outra firma e, embora eu continuasse totalmente capacitada para prosseguir trabalhando lá, o longo trajeto para ir e vir do trabalho começou a me aborrecer. Emma e eu levávamos quase uma hora para completar o percurso. Assim, quando a nova administração assumiu, resolvi começar a procurar outro lugar para trabalhar. Se soubesse quanta frustração e sofrimento isso me infligiria, acho que jamais teria tomado esta decisão. Levei meses para conseguir outro emprego.

       Antes disso eu nunca percebera por completo quanto uma pessoa cega pode ser terrivelmente discriminada. A pior dificuldade, que começou a se tornar uma obsessão, era que os outros não me aceitavam. Don aceitou-me sem questionamento, como Anita; contudo, suas atitudes esclarecidas tinham me protegido contra a indiferença e a rejeição total de tantas pessoas do restante da raça humana.

       Eu tinha cerca de oito anos de experiência com uma mesa telefônica congestionada e era tão eficiente quanto qualquer outra telefonista.

      Mas apesar disso não era boa o suficiente, pelo menos aparentemente, para a maioria dos empregadores. Eu costumava levar o Nottingham Evening Post para casa e quando Anita voltava do serviço lia para mim a coluna de "Empregos Oferecidos", enquanto eu anotava os números em braile. Quando eu telefonava para as firmas que haviam publicado os anúncios, o diálogo era quase sempre assim:

       — Estou ligando para saber sobre o emprego de telefonista.

       — Ah, sim. Você pode me falar um pouco sobre sua experiência?

       Eu então falava sobre meu trabalho e como estava acostumada a operar uma mesa de PABX número dois.

       — Ótimo, isso parece bom. Depois eu soltava a bomba:

       — Há uma coisa mais que quero dizer ao senhor. Sou cega, mas isso não altera minha capacidade para operar a mesa telefônica e eu tenho um cão-guia.

       Não era preciso nem me aborrecer. Podia sentir a repentina falta de interesse, como um balão murchando.

       —Ah, sim. Obrigado por telefonar. Vamos ficar com seu nome anotado, mas já se apresentaram algumas outras candidatas. Isso, pelo menos, era uma forma de amortecer o choque. Mas de vez em quando a recepção era bem grosseira:

       — Ah, sinto muito, mas não podemos nem pensar em dar emprego a uma cega. O escritório onde você trabalharia não fica no térreo.

       — Mas meu cão-guia e eu subimos e descemos escadas todos os dias.

       — Sinto muito, mas não podemos nem pensar em você. Temo que seria um risco muito grande.

       Quando eu tentava argumentar com o chefe de alguma firma, ele acabava desligando o telefone.

       O pior de tudo, talvez, era a maneira como as vagas magicamente tornavam-se preenchidas logo que eu mencionava que era cega. Esse tipo de desonestidade e hipocrisia me dava vontade de gritar. Finalmente achei que só havia uma forma de contornar o problema. Se era considerada inapta somente por causa da cegueira, eu simplesmente não mencionaria mais isto. Daria minhas qualificações e, se convidada para uma entrevista, enfrentaria meu provável patrão. Bem sei que isso era um recurso extremo, mas não tinha nada a perder.

       E foi o que fiz. Como resultado, duas firmas imediatamente demonstraram interesse em me entrevistar no mesmo dia. Na primeira firma em que estive, uma fábrica de renda - como tantas outras que há em Nottingliam, do tempo em que os huguenotes lá se fixaram - senti que as pessoas ficaram surpresas ao ver o cão-guia. Mas Emma deitou-se imediatamente e enrolou-se a meu lado quando me sentei diante do homem que fez uma série de perguntas. Tudo correu sem problemas. O gerente foi então chamado e me levou até onde ficava a mesa telefônica. Passei a mão nela para ver se era do mesmo tipo daquela com que estava acostumada. Era.

       — Mas — perguntou o gerente — como você a opera? Ela não está adaptada para uma pessoa cega.

       Expliquei que o Departamento dos Correios fazia a conversão gratuitamente e o emprego foi-me oferecido imediatamente. Era maravilhoso poder ir à segunda entrevista sabendo que qualquer que fosse o resultado eu já havia conseguido um novo emprego.

       A outra colocação era na Whytecliffe's, uma grande garagem não muito distante do centro de Nottingham. Lá também ficaram surpresos com Emma, mas apesar disso não criaram obstáculos em seguir o procedimento usual para seleção. Emma também ficou deitada tranqüilamente, só que debaixo da cadeira onde eu estava. Mas embora tenha ficado ali, quieta, teve um importante papel no desenrolar da entrevista. O gerente de pessoal, que me fez as perguntas, era, como me foi dito depois, um criador de springer spaniels. Suas indagações foram tanto sobre Emma quanto sobre minha experiência com a mesa telefônica e logo percebi que ele havia ficado estupefato com a cor de chocolate daquela criaturinha que estava sob a minha cadeira. Eu lhe contei todas as coisas incríveis que Emma fazia para mim e tenho toda certeza de que isso contribuiu decisivamente para o êxito da entrevista. Foi-me oferecido o emprego e eu o aceitei, em vez de ficar com o primeiro, em parte porque ali ganharia mais e também porque a Whytecliffe's ficava perto de minha casa cerca de 15 minutos a pé.

       Comecei logo que terminei de cumprir meu aviso prévio na Industrial Pumps, tempo em que o Departamento de Correios converteu a mesa telefônica da Whytecliffe's Garage, um serviço excelente, merecedor de todo crédito. As outras moças da empresa ficaram surpresas quando apareci para trabalhar pela primeira vez com aquela grande labrador.

       A maioria percebeu que Emma era um cão-guia, mas uma garota aproximou-se de mim e perguntou:

       — Como você conseguiu trazer seu cachorro para o trabalho? Não está correto. Eu gostaria de trazer o meu também. Ela se espantou quando expliquei por que Emma estava ali, uma ou duas moças começaram a duvidar de que eu fosse realmente cega. Elas tinham me visto pela janela do escritório atravessando a faixa de pedestres e vindo direto para a porta do prédio e não podiam acreditar que Emma fosse a responsável por aquilo. Além disso, Emma era tão eficiente para me levar a qualquer parte do escritório que logo aprendi a andar sozinha por lá. A despeito do fato de elas terem visto que eu operava a mesa telefônica pelo tato, escrevia recados em braile e tateava meu livrinho de telefones à procura de números, acharam que tudo aquilo não passava de um charme que eu fazia.

       Pensavam que de alguma forma, por um motivo que eu jamais pude imaginar, eu estivesse pregando uma grande peça em todos.

       Decidiram, então, que iriam resolver a charada. Eu trabalhava no andar de cima de um escritório comprido. Ficava no final do corredor e para lá chegar era preciso passar por diversas mesas, arrumadas dos dois lados do caminho. A passagem por entre as mesas era estreita. Do lado oposto ficava a cantina. Depois que Emma havia-me levado até lá, durante os primeiros dias, na hora do chá, deixei de me preocupar em colocar-lhe a guia para esse pequeno trajeto. Eu sabia a direção da cantina e podia me guiar bem até lá, tocando os obstáculos no caminho; era só seguir em frente, por entre as mesas, dobrar à direita e lá estava a porta da cantina. Emma também ia comigo, mas sempre corria na minha frente, pois sabia que havia uma tigela de leite à sua espera.

       O que aconteceu na manhã em que as moças decidiram descobrir se eu era realmente cega pode parecer sórdido, até mesmo cruel; foi com certeza algo impensado, mas tenho certeza de que foi motivado por uma suspeita pura, embora estúpida. O que elas fizeram foi deixar cadeiras e outros objetos no meu caminho. Então, quando chegou a hora do chá, pela manhã, Emma saiu correndo na minha frente e eu fui batendo em todos os obstáculos que encontrei. Acabei no chão, rolando alguns degraus. Fiquei furiosa mas mantive-me calada, em meio a um profundo embaraço por tudo aquilo. Uma das moças mais tarde me procurou e disse que sentia muito, mas que elas achavam que eu enxergava. Minha reação, após tudo ter serenado, foi de maior orgulho ainda por Emma, pois ela podia convencer os outros de que eu não era cega.

       Morando em Peel Street e trabalhando na Whytecliffe's, Emma tornou-se muito conhecida no centro de Nottingliam. Ela aprendeu os nomes de todas as lojas e estações de ônibus que eu usava. Fizemos muitas compras na grande Coop, no Parliament Street.

       Bastava eu lhe colocar a guia e dizer: "Vamos à Coop, Emma", e lá íamos nós, a cauda dela agitando-se.

       Ela adorava fazer compras. Um dos motivos de gostar tanto assim é porque era ela que ditava as regras. Regra um: podíamos fazer compras em qualquer lugar que quiséssemos, qualquer lugar mesmo, mas a primeira loja a ser visitada era uma loja de artigos para animais. Aonde quer que fôssemos, era preciso escolher um trajeto que passasse por uma dessas lojas. Entrávamos lá e depois de comprar biscoitos em forma de osso, ou goma ou pastilhas de chocolate com vitamina, a operação podia continuar. Contudo, no caminho para a Co-op tínhamos de passar por uma segunda loja de artigos para animais, embora "passar" não seja o termo exato, Ao chegarmos diante da loja, Emma, parava com as patas dianteiras na soleira da porta, com a expressão de quem diz: "Bem, aqui estamos em outra loja de artigos para animais, caso você tenha esquecido de comprar alguma coisa na outra." Eu dizia então: "Não, não, Emma, vamos para a Co-op." E ela tinha o temperamento bom o suficiente para aceitar que sua sugestão não fora aceita.

       A regra dois sobre fazer compras era que não devíamos jamais deixar escapar uma oportunidade de visitar um açougue, não importa o que estivesse acontecendo ou quantos açougues houvesse no nosso percurso. Esta era uma terrível fraqueza de Emilia e ficamos conhecidas em todos os açougues do centro de Nottingliam, num raio de cerca de cinco quilômetros.

       Estamos caminhando tranqüilamente e eu, embora concentrada em Emilia, vou pensando o que fazer para Anita e eu no jantar. Quando de repente, sem qualquer aviso, sinto-me numa loja com serragem no chão e um cheiro inconfundível e sem a menor intenção de comprar carne moída. Muito embaraçoso.

       Mas o açougueiro aceitava tudo com bom humor e tratava Emma tão bem que às vezes lhe dava algum brinde por sua iniciativa e, é claro, por sua beleza também.

       No entanto, uma vez levando   a sério a atividade de fazei compras, Emma era espantosa. Sua mente era uma enciclopédia cheia de nomes de lojas. Era preciso apenas eu dizer o nome e logo estávamos lá. Ela era igualmente extraordinária, se é que isso não é pouco, dentro de uma grande loja como a Co-op.

       Sabia não apenas como chegar lá mas também a localização de todos os departamentos e de todos os balcões. Eu dizia apenas: "Emma, procure a seção de alimentos" ou: "Procure a seção de remédios" ou: "Procure a seção de calçados", e era levada aonde quisesse sem que jamais ela cometesse um engano. Sem qualquer hesitação, abria caminho entre as outras pessoas, desprezando os diversos aromas tentadores.

       Ela também sabia o que significavam as palavras "escada" e "elevador".

       Adorava andar de elevador na Co-op, mas não gostava muito da escada.

       Quando eu dizia a palavra elevador, ela saía meio apressada, puxando-me, querendo ser a primeira a entrar nele, houvesse ou não uma fila a ser seguida. Ás vezes eu queria subir apenas um andar e então dizia: "Não vamos esperar pelo elevador, Emma, vamos mesmo pela escada. Procure a escada." Procurar a escada? Ao ouvir este comando Emma seguia imediatamente para o elevador.

       Certa noite na primavera de 1969, Anita chegou em casa parecendo muito deprimida.

       — Sheila — disse ela — tenho algo para lhe dizer: o escritório vai me transferir para Granham.

       — Oh! — exclamei. — Quando?

       —Depois de julho, mas sinto-me mal porque sei que você sozinha não pode pagar o apartamento.

       Era verdade. Eu ganhava nove libras por semana naquela época e o nosso aluguel era de seis libras semanais. Aquela noticia pegou-me desprevenida. foi um verdadeiro choque e além disso fiquei triste também pela perspectiva de perder minha companheira.

       O que mais desejava, logicamente, era casar com Don. Mas ele ainda queria esperar um pouco, pois era pai de uma menina, Susan, e sentia que tinha a responsabilidade de esperar até que ela ficasse mais velha e pudesse compreender o que estava acontecendo em casa. Ele achava que deveríamos esperar até que ela completasse 14 anos.

       E Susan não tinha nem 10 ainda. Estava temeroso de que Susan não me aceitasse e que crescesse culpando-o por romper a vida em família. Na verdade eu não concordava com ele mas respeitava sua posição. A espera, porém, era muito difícil para nós dois; parecia uma eternidade.

       Eu tinha de esperar sempre por Don, porque invariavelmente ele ficava trabalhando até cerca de nove da noite e constantemente ainda ficava com os clientes por mais algum tempo. Ás vezes, quando começava a chover, Emma e eu estávamos ensopadas quando ele chegava. Certa vez me disse que ao nos ver ali de pé, esperando por ele como duas órfãs, eu com meu chapéu de lã encharcado e Emma com o pêlo todo molhado e a cauda caída, é que percebia quanto eu gostava dele. Comentou depois:

       — Eu encostei o carro no meio-fio e você não ouviu por causa do barulho da chuva. E vocês duas formavam uma cena triste, terrível. E eu pensei: essa garota deve mesmo me amar.

       A perspectiva de morar sozinha encheu-me de ansiedade. Embora fosse o último degrau para a independência completa, significava também que eu tinha de ser capaz de me arranjar sozinha. Eu não sentia medo de ficar só, porque Emma estaria comigo e com a ajuda dela eu me sentia apta a lutar. Mas não haveria ninguém para ler as cartas para mim, ninguém para ler as instruções escritas na embalagem da sopa ou da mistura para bolo. O que eu faria se um fusível queimasse? A luz não me importava, mas o ferro de passar e as tomadas de eletricidade sim. Havia também o lado positivo da questão, pois morando só eu poderia arrumar o apartamento de modo a que eu soubesse exatamente onde tudo ficava: como o sofá ficaria em relação à mesa, a posição da mesa em relação à poria, e assim por diante. E ninguém faria qualquer alteração, por menor que fosse, nas coisas.

       Não havia outra coisa a fazer a não ser procurar outro lugar para morar. Mas pelo menos havia algum tempo para essa procura. Felizmente eu estivera por algum tempo na lista do conselho de habitação; ia sempre procurar os funcionários do conselho, mas nada havia para mim. Eram, porem, muito amáveis e compreendiam minha situação.

       As semanas escoavam. Não saía nos jornais nada que eu tivesse condições de pagar. Nem nas imobiliárias eu conseguia alguma coisa. Decidi, então, voltar ao conselho: com o passar do tempo eu estava ficando desesperada. Dessa vez os funcionários disseram que fariam o que fosse possível e o mais depressa que pudessem. E eu pensei .que talvez devesse aquele resultado mais a Emma, sentada ali com expressão patética, do que a minha força de persuasão; pois o homem que me entrevistou naquela ocasião brincou muito com ela e ela respondeu aos agrados dele da forma mais simpática. Em uma semana recebi uma carta oferecendo-me um apartamento na keston Road, cerca de cinco quilômetros além do lugar onde eu morava na época.

       Fiquei muito aliviada; mas depois veio a má notícia. Não era permitido ter animais no apartamento e, embora pudesse ser feita uma exceção a Emma, por ser um cão-guia, eu teria de me desfazer de Tiss. Regras à parte, teria sido cruel deixá-lo no quarteirão, mas isso não me deixou menos abatida.

       Ele e Emma eram muito ligados um ao outro. Tiss sempre esperava por nós, à noite, sentado no porão de Peel Street e geralmente passava a noite deitado em cima de Emma.

       Pensei qual seria a melhor solução e decidi colocar um anúncio no Nottíngham Evetúng Post. Depois de um dia ou dois recebi um telefonema de uma família de Beeston. Indaguei tudo sobre a família, porque eu estava decidida a que Tiss fosse para um bom lar. Eles pareciam o tipo certo de pessoas e marcamos um dia para que viessem conhecer o gato. Uma coisa curiosa é que no dia que eles deveriam aparecer Tiss parecia saber o que estava para acontecer e desapareceu. Finalmente o encontramos no sótão. Fiquei sabendo mais tarde que Tíss se adaptara bem e que parecia feliz, mas não pude aceitar o convite para ir visitá-lo. Ele fora uma parte muito importante de nossas vidas e achei que não devia me encontrar com ele num ambiente estranho.

       Quando estava perto do dia da mudança para Peel Street, havia caixas de papelão por toda parte e Emma sabia o que estava acontecendo.

       Longe de estar perturbada com a perspectiva da mudança, estava determinada a não ficar de fora do que lhe pareceu uma animada brincadeira. Toda vez que eu iniciava a arrumação de uma das caixas ela me trazia todos os seus brinquedos de borracha cheios de apitinhos e os colocava, um a um, dentro da caixa. Não se pode negar que era algo construtivo.

       Mas infelizmente, logo que eu começava a arrumar outra caixa, descobria que lá dentro, onde devia estar vazio, havia brinquedos com apitinhos etc. O jeito então foi encaixotar todos os pertences de Emma, formalmente, depois desencaixotá-los e transferi-los para a outra caixa. Era uma enorme perda de tempo, mas Emma não se importava. Ela ficava perto de mim e abanava a cauda de modo aprovador.

       Quando o novo apartamento finalmente ficou a minha disposição, mamãe foi até lá para me ajudar na limpeza. Chegamos ao quarteirão onde ficava o apartamento e todos os edifícios pareciam iguais, cada um deles uma pequena caixinha dentro da qual eu imaginava uma série infinita de corredores, todos idênticos, e para os quais havia acesso por elevador, escada ou rampa. Foi uma experiência terrível esse encontro com nossa nova casa. Minha mãe demorou muito até encontrar o número 103, o nosso apartamento; quando finalmente entramos e pusemos no chão o material de limpeza, mamãe disse-me:

       — Sheila, é terrível. Estou muito preocupada. Você nunca achará o caminho certo para entrar e sair daqui. Onde o pessoal do conselho estava com a cabeça ao destinar este apartamento para uma pessoa cega?

       — Mas, mamãe - respondi - eu tenho Emma. Não preciso de um lugar especial somente porque não enxergo. Não quero esse tipo de coisa.

       Mas ela insistia:

       — Não, amanhã mesmo irei ao conselho para cuidar disso e conseguir outro apartamento.

       — Não, mamãe, não — pedi. — Realmente não quero tratamento especial. Está ótimo para mim. Emma é capaz de me ajudar a entrar e sair daqui.

       Finalmente consegui convencê-la e começamos a limpeza. Deixamos tudo pronto para a chegada da mudança, que vinha num pequeno furgão que Bob, um amigo nosso, nos alugara. Nas semanas que antecederam a mudança, consegui, através da boa vontade de algumas pessoas, uma mobília que seria o suficiente para começar, pois o apartamento de Peel Street fora alugado mobiliado e não pude retirar nada de lá.

       Minha mãe deixou que eu levasse um sofá e uma cama, alguns amigos arranjaram-me mesas e cadeiras melhores do que eu estava esperando conseguir e assim por diante. Don me deu uma mesinha para o telefone, quando fosse instalado, e a única coisa que comprei foi um fogão a gás. Quando o apartamento já estava mais ou menos limpo, segundo os padrões de minha mãe, paramos para tomar um pouco de chá. Mas ainda não havia nada em casa e uma de nós tinha de ir à mercearia. Minha mãe imediatamente disse:

      — Eu vou.

       — Não, não — respondi. — Eu vou com Emma. Assim começamos a conhecer melhor o lugar.

       Ela ficou horrorizada. Era evidente que ainda estava preocupada.

       —Não, Sheila. Não vou deixar que você saia sozinha. E então voltamos à velha discussão.

       — Mas, mamãe, eu não estarei só. Tenho Emma. Temos de começar algum dia, e pode ser agora mesmo.

       Eu sabia que provavelmente Emma era mais capaz do que eu e minha mãe juntas, mas não disse isso. Finalmente, depois de relutar muito, ela concordou com minha saída.

       Quando Emma e eu estávamos já no corredor minhas palavras foram:

       —Se não voltarmos dentro de três dias chame a Sociedade Protetora dos Animais.

       Para falar a verdade, minha mãe nunca vira a atuação de Emma num lugar desconhecido, já que ao virmos para o novo apartamento mamãe me guiara e Emma teve um período longo de folga. Teria sido mais rápido e mais fácil se eu tivesse confiado em Emma. Mesmo assim, fomos andando pelo corredor de laterais abertas. Emma não teve nenhuma dificuldade para encontrar o elevador e chegamos ao térreo.

       Mas já que eu não conhecia nada por ali, não podia seguir meu comportamento costumeiro de pedir a Emma para encontrar determinada loja. Em vez disso, eu precisava pedir a ela para achar uma loja, qualquer que fosse, onde eu pudesse pedir informações. Eu disse a ela enquanto caminhávamos:

       — Emma, vamos comprar chá, açúcar e leite.

       Se por sorte ou porque Emma realmente reconheceu sua aparência nunca saberei, mas a primeira loja em que entramos era uma mercearia de esquina. Depois de comprar tudo que desejava, saímos e voltamos para casa. No elevador eu precisava contar os botões para apertar o que correspondesse ao quinto andar. Seguimos pelo corredor e voltamos sem hesitação até em casa. Minha mãe ficou admirada mas apesar das evidências continuava achando difícil aceitar a habilidade de Emma.

       Saí para telefonar para Don. Mamãe disse-me onde tinha visto uma cabine de telefone público. Ficava do outro lado da rua principal, diante dos prédios. Emma ouviu a expressão "cabine telefônica" e me levou direto para o outro lado da rua, no lugar certo. Mas quando entrei na cabine e procurei pelo fone, não o encontrei. Corri minha mão pelo fio e este acabou sem que eu achasse o fone. A cabine certamente fora alvo de algum tipo de depredação. Senti-me terrivelmente frustrada; e o pior é que não tinha idéia do que fazer. Estava ansiosa para ligar para Don e lhe contar como correra a mudança e como era o novo apartamento. Eu disse a Emma:

       — Não tem telefone, Emma. O que vamos fazer? Finalmente resolvi que era melhor procurar ali por perto por outra cabine. Esperava encontrar alguém que pudesse me dizer onde ficava a mais próxima. Então disse a Emma para seguir pela rua principal. Mas ela não obedeceu. Em vez disso, levou-me de volta e enquanto andava imaginei que ela devia ter achado que eu fizera a ligação e que devíamos voltar ao apartamento.

       — Não, Emma, ainda não fiz o chamado. Precisamos achar outra cabine. Volte, vamos descer por esta rua,

       Mas ela continuou na direção que havia escolhido e, segundo eu pensava, estávamos indo para os prédios. Ela continuava andando, apesar dos meus protestos. Depois então levou-me para uma rua transversal. Senti no chão pedaços de tijolos e cascalho (fiquei sabendo algum tempo depois que ali havia algumas construções e demolições de casas velhas). Tentei fazer Emma parar, mas ela prosseguia de maneira determinada por aquela rua cheia de altos e baixos. Em seguida dobrou numa outra rua e sentou se. Senti que havia alguma coisa ali, estiquei o braço e tateei a estrutura de metal e vidros de uma cabine telefônica.

       — Emma — exclamei — como você pode ser tão espúria? Como você sabia?

       Ouvi a cauda de Emma batendo no chão. Como ela descobriu aquela cabine continuou sendo para mim um mistério insolúvel. Nenhuma de nós estivera antes naquela rua.

    

                   CURSO NOTURNO

       As aulas noturnas que eu freqüentei juntamente com Anita refletiam nossas paixões distintas por ler e escrever. Minha leitura era feita com o auxílio de livros sonoros, um maravilhoso sistema de fitas cassete criado para os cegos, com a gravação de um grande número de autores, de Thomas Hardy a lan Fleming.

       Mais tarde, porém, recebi outra sugestão. Kath Hill, outra Proprietária de cão-guia, telefonou-me certa noite e perguntou:

       — Sheila, o que acha de fazer um curso noturno especial para cegos?

       Minha reação imediata foi:

       — Parece maravilhoso. Mas que tipo de curso?

       — Maquilagem e beleza. Recebi o telefonema de uma pessoa que está querendo iniciar uma turma para cegos, desde que haja número suficiente. Você acha que haverá muita gente interessada?

       — Eu certamente me interesso. E acho que muitos outros também gostarão.

       Conversamos um pouco mais sobre as possibilidades e quanto mais discutíamos o assunto mais atraente a idéia nos parecia. Eu usava sempre maquilagem, mas jamais tive condições de fazer algo mais elaborado, Colocava base e batom; a base era fácil de usar porque tinha de espalhá-la por todo o rosto; o batom também era simples porque eu conseguia sentir meus lábios e dessa forma não passava o batom por fora deles. A perspectiva de poder fazer mais coisas em termos de maquilagem era algo encantador.

       O curso foi coordenado pelo Derbyshire, Education Committee e em particular por David Selby, que na época era chefe das atividades educacionais para adultos. Era um homem de multa visão, cujas idéias estavam muito além dos limites normalmente ensinados em cursos noturnos. E tinha um interesse especial em ensinar aos cegos.

       As vagas, logicamente, eram limitadas, a fim de que o professor pudesse dar a devida atenção a todos. Telefonei para todas as minhas amigas cegas e obtive uma boa resposta. Um dos maiores problemas, como chegar a Sandiacre, cerca de 15 quilômetros além de Derbyshire, foi resolvido antes do início das aulas. Foi feito com contato com o Instituto de Cegos de Nottingham solicitando um microônibus para levar os alunos às aulas.

       A primeira noite trouxe um grande alvoroço. Cerca de dez pessoas inscritas, seis delas com cães-guias. Quando nos juntamos no microônibus houve muita, alegria e caudas abanando, particularmente entre Emma e a cadela de Kath, Rachel.

       Nossa professora chamava-se Joan Dickson e, apesar do fato de ela não ter experiência anterior com cegos, era muito encorajadora. Na primeira aula ela tratou dos cuidados com a pele. Disse a cada uma de nós qual nosso tipo de pele e a cor do cabelo e como escolher a base; por exemplo, uma base cor de pêssego, meio-tom, ficava bem para cabelos castanhos e olhos escuros, como no meu caso.

       Falou, também, sobre as bolsinhas para maquilagem, algo que as mulheres cegas jamais tinham em mente. Porém, a parte mais importante do curso veio mais tarde, quando tivemos de usar diversos tipos de maquilagem em que nunca havíamos pensado: sombra para os olhos, rímel e delineador. Eu não fazia a menor idéia de como usar tudo isso. Joan começou a falar, então:

       — Em primeiro lugar, vocês precisam escolher a cor que vão usar. Se forem usar um vestido verde, então precisarão de uma sombra verde.

       Pode parecer estranho, mas aquilo nunca me ocorrera, e era algo tão simples.

       — Depois — Joan continuou — devem combinar a cor do batom com a cor do vestido e da sombra. Em caso de vestido e sombra verdes, o ideal é um batom rosa.

       Eu estava fascinada.

       Mas ainda restava um problema: como aplicar a sombra? Joan aproximou-se de cada uma de nós e fez a demonstração. E através da percepção táctil conseguimos aprender.

       Ela aplicou a sombra em mim e percebi que poderia fazer a mesma coisa pelo tato, e que o osso que fica acima dos olhos e ao lado deles poderia ser um bom guia, ao mesmo tempo que os cílios serviriam como limite para a sombra. O rímel era algo um pouco mais difícil e mesmo com certa prática só conseguimos um sucesso parcial.

        Ninguém achou possível colocar o rímel nos cílios inferiores. O delineador era fácil porque a linha existente acima dos cílios podia ser sentida e depois era só segui-la. Mas embora eu diga que era mais fácil, levou algum tempo, durante o qual praticamos muito e com cuidado, até que conseguíssemos fazer corretamente uma maquilagem. E Joan tinha uma paciência infinita. Aproximava-se de cada uma e dizia como estava saindo o trabalho. Com certa freqüência era preciso retirar o que estávamos usando e começar tudo outra vez.

       Cuidar das unhas foi outra coisa que Joan nos ensinou. Até então eu usara esmalte, mas pintava as unhas e parte do dedo também. Depois que o esmalte secava, eu o retirava da pele. Uma colega de trabalho certa vez me viu fazendo isso e comentou:

       — Você está retirando todo o esmalte que está em tomo das suas unhas. Sempre imaginei como você conseguia se pintar.

       — Bem — respondi — agora você sabe como faço isso. Mas Joan ajudou-me a passar o esmalte de maneira correta e eficaz, tocando primeiro a parte da unha sobre a cutícula; depois passando o pincel para cima até o fim.

       O curso foi um grande sucesso e fez com que eu me sentisse maravilhosamente bem quando saía com Don, porque finalmente eu tinha condições de me arrumar adequadamente.

       Algumas pessoas às vezes perguntavam:

       — Quem fez sua maquilagem? Agora eu podia responder:

       — Eu mesma.

       E isso me dava uma grande sensação de bem-estar e de ser igual aos outros.

       O curso sobre maquilagem e beleza de fato foi ótimo, e David Selby ficou tão impressionado com os resultados que se animou a promover outros cursos noturnos exclusivamente para cegos. O próximo assunto foi arranjos florais. As cores, obviamente, eram um obstáculo. Contudo, algumas flores tinham o formato das folhas e das pétalas tão diferentes que era possível distingui-las pelo tato; a partir daí podíamos começar a conhecer as cores. Como os narcisos são inconfundíveis aos dedos, pode-se saber imediatamente que se está com uma flor amarela nas mãos. Da mesma forma os crisântemos são fáceis de ser identificados; e assim podemos distinguir o vermelho fechado ou o amarelo e ter condições de fazer um arranjo.

       Além disso, o que tínhamos aprendido no curso de maquilagem sobre combinação de cores foi-nos útil nesta outra atividade. Os outros me diziam quais as cores que combinavam e quais as outras que jamais poderiam ser colocadas lado a lado, mas foi somente depois deste curso noturno que gravei realmente as várias combinações possíveis e impossíveis. Aplicando todo este conhecimento e usando os prendedores com os quais aprendemos a trabalhar, fizemos alguns arranjos bem interessantes.

       O próximo curso, corte e costura, foi uma aventura maior ainda. Na escola eu tivera aulas de costura mas nunca me deixavam chegar perto da máquina para praticar.

       E as poucas tentativas que fiz não deram bons resultados. As professoras não haviam sido treinadas para ensinar a um aluno cego algo para o que a visão era um recurso indispensável. Mas o curso noturno, com suas duas professoras, Trene e Hazel, foi muito diferente.

       Começamos pelas técnicas básicas. Todas nós recebemos pequenos retalhos de fazenda, enquanto as professoras mostravam como costurar com lã ou com um fio mais forte., em vez de usai algodão fino. Dessa forma podíamos saber, pelo tato, o que estávamos fazendo. Depois recebemos moldes de saias. Mas no lugar de moldes feitos de tecido ordinário, as professoras usavam moldes de papel mais grosso, com uma textura parecida com a do papel de parede. A idéia de Irene e Hazel era de que com um papel mais resistente nós mesmas teríamos condição de cortar os moldes. Elas haviam marcado toda a volta do papel, cerca de uma polegada a partir da beira da folha, de modo que depois de cortarmos os moldes pudéssemos dobrá-los e, sentindo essas marcações, fazer a costura. Elas tinham colocado pequenas marcas onde deviam ficar os pontos e então podíamos costurar em torno dessas marcas enquanto tínhamos os moldes sobre o tecido. Depois de retirar o molde, podíamos sentir com as mãos onde a costura havia passado. O método era uma maravilhosa inovação para os cegos e as duas professoras haviam conseguido esse aperfeiçoamento depois de passarem algum tempo costurando com venda nos olhos. Após muitas tentativas descobriram o que uma pessoa cega pode ou não fazer.

       Em seguida começou o trabalho na máquina de costura elétrica. Em todos os comandos da máquina havia instruções em braile. Irene e Hazel haviam providenciado um protetor para a agulha e também uma guia, na forma de um pedaço de metal comprido, para que tivéssemos certeza de que o material usado estava seguindo na direção certa.

       Embora eu admirasse tudo isso e sentisse que era capaz de manejar a máquina adequadamente, fiquei relutante em fazer meu primeiro trabalho. Estava ouvindo todas as outras usando a máquina, aquele barulho intermitente da costura.

       Então Hazel aproximou-se de mim e disse:

       — Sheila, é sua vez agora.

       — Já?   perguntei.   Deve haver alguém na minha frente.

       — Não respondeu todas já trabalharam na máquina. Venha, ela não vai morder você.

       Fui até a máquina e passei a mão sobre ela cuidadosamente. Depois disse:

       — E se enfiar minha mão na agulha e me machucar?

       — Não acontecerá isso — respondeu Hazel. - Há um protetor para a agulha.

       Tive então de começar e depois de colocar meu material na máquina tudo correu razoavelmente bem. Senti que precisava ter cuidado, quanto à velocidade, que era controlada por um pedal. Escolhi uma velocidade mais lenta, de modo que pudesse sentir o que estava fazendo e evitar erros. A princípio sentia o material correndo por entre meus dedos, mas não sabia o que estava acontecendo com ele. Eu estava com o corpo um pouco curvado sobre a máquina, mas Hazel estava a meu lado para me ajudar. E finalmente dominei a técnica, embora isso não tenha evitado que cometesse alguns erros. Erros que teriam me custado o emprego caso trabalhasse como costureira numa empresa.

       Eu estava fazendo, por exemplo, uma calça e fui deixada sozinha na máquina. Mas quando senti o resultado do meu trabalho, não consegui entender o que acontecera. Em vez de uma calça eu tinha feito uma blusa muito comprida! Tinha costurado as partes de modo errado. De outra vez fiz um vestido que tinha uma manga para fora e outra para dentro. Embora soubesse que jamais trabalharia para Hardy Amies, passei momentos muito agradáveis no curso, como todas as outras. Muitas delas tinham muito mais habilidade do que eu e fizeram roupas muito bonitas. Embora precisássemos de alguma ajuda vinda de pessoas que enxergassem — apesar de certos recursos como fita métrica em braile — todas sentimos, ao final do curso, que tínhamos conseguido algo de muito valor para nos.

       Mesmo assim eu contava sempre com o apoio de Don na hora de fazer uma bainha ou tirar uma medida sem erros.

       O principal mérito dos cursos noturnos foi o de aumentar a confiança em nossas possibilidades. Tanto é verdade que muitas de nós resolvemos formar um grupo teatral para os cegos de Nottingham. Sabíamos da existência de grupos similares em outras cidades. Em Londres, por exemplo, havia um no Centro Israelita para Cegos. Pusemos a idéia em prática.

       Tivemos permissão do Instituto para Cegos de nossa cidade para fazer ensaios em suas dependências e encontramos dois professores de teatro que nos ajudaram.

       Na primeira reunião enfrentamos alguns problemas. Havíamos escolhido duas pequenas peças com apenas um ato cada uma: Acompanhante para uma Dama, de Stanley Houghton, e O Prezado Defunto, de Mabel Constanduros e Howard Agg. Mas precisávamos decidir como cada um faria para decorar sua parte.

       Um dos professores sugeriu que a peça fosse gravada e que decorássemos nossas falas a partir da fita gravada. Foi ótimo assim.

       O outro problema era como caminhar pelo palco. É claro que não podíamos levar nossos cães-guias conosco. Ficou acertado no final que o palco seria devidamente dimensionado para nós, da mesma forma que as distâncias entre as peças do cenário. Além disso, seria colocado um tapete na extremidade do palco, antes dos refletores, para evitar que alguém ultrapassasse aquele limite e fosse cair na fila A. Isso funcionou bem, embora significasse que além de decorar nossas falas tínhamos de decorar cada movimento: sete passos no fundo do palco e virar para a direita, cinco passos da lateral e voltar-se para a platéia, ou dois passos à esquerda e sair de cena pela direita.

       Nós nos divertíamos muito durante os ensaios, até que chegou finalmente a noite do ensaio com os trajes da peça. Tínhamos feito contrato de duas noites com um teatro amador local e todos os ingressos já haviam sido vendidos. Eu precisava entrar correndo em cena porque alguém tentara matar minha tia; correr até a extremidade do palco, sobre o carpete de marcação (onde minha tia estava deitada na cama), sentar-me a seu lado e confortá-la. Depois ir até o telefone, do lado esquerdo do palco, e chamar a polícia. Durante os ensaios não havia telefone e eu apenas fingia que estava no aparelho. No dia do ensaio com os trajes da peça, a maioria das partes do cenário estava em cena, mas haviam me dito que só haveria o aparelho telefônico no dia da estréia.

       Infelizmente, as coisas não correram tão bem quanto desejávamos.

       Minha participação, na verdade, foi um, fracasso do principio ao fim. Entrei em cena rapidamente e gritando: "Titia, estou aqui, estou aqui" e me precipitei para o lugar onde ela se encontrava. Senti o carpete de marcação sob meus pés e voltei me para sentar na cama, mas calculei mal a distância e empurrei a cama e minha tia para dentro do palco e acabamos nós duas sentadas sobre uma pilha de roupas e madeira. E morremos de rir com aquilo. Para desespero meu, ouvi muitas gargalhadas, vindas da platéia, e só então fiquei sabendo que algumas pessoas haviam sido convidadas para assistir àquele ensaio. Senti-me muito embaraçada. Depois que me recuperei e recompus, corri para o lugar onde deveria ficar o telefone, fingi que apanhava o fone e disquei para a polícia. Depois saí de cena enquanto a audiência murmurava alguma coisa que não entendi direito.

       Corri para os braços da diretora, nos bastidores, e ela imediatamente disse:

       — Por que você ficou brincando? E o telefone?

       — Fiz a parte do telefone, eu fiz - respondi.

       — Não, o telefone estava lá, sua boba. Você estava a uma polegada do aparelho e ficou fingindo que estava com o fone na mão. A audiência não entendeu a brincadeira.

       Mas as desgraças daquela noite não terminaram aí. Todos nós, depois de encenada a peça, ficamos no palco para o pano se abrir novamente e podermos agradecer os aplausos.

       A moça que fizera o papel de minha tia tinha perdido um de seus chinelos.

       Quando estávamos todos no palco, ela disse:

       — Depressa, perdi um dos meus chinelos. Ajudem-me a encontrá-lo.

       E quando a cortina se abriu novamente, estávamos todos de quatro, no chão, procurando o pé de chinelo dela. Suponho que coisas mais estranhas devam ter acontecido na história do teatro inglês, mas não consigo imaginar o quê.

       Foi mais ou menos nessa época que me tornei uma vendedora da Avon.

       Certa noite Don e eu estávamos conversando sobre minhas finanças (nunca havia dinheiro sobrando) e perguntei-lhe se havia alguma coisa que eu pudesse fazer para ganhar algum dinheiro a mais, além do salário que recebia na garagem. Eu bem sabia que, por não poder enxergar, tinha menos oportunidade de conseguir algo. Por acaso uma vendedora da Avon havia ligado para Don àquela noite e ele achou que eu poderia fazer aquilo.

       A princípio fiquei hesitante.

       — Oh, Don, não posso ir de casa em casa tentando vender coisas aos outros. E há uma série de fichas para preencher. E você sabe que eu não poderia fazer isso.

       — Sim, você pode. E se houver muitas fichas para preencher posso fazê-lo para você. Por que não liga para a Avon amanhã e pede para falar com uma das representantes?

       Afinal fiquei convencida, particularmente porque eu podia levar um pequeno gravador comigo e gravar todos os detalhes das vendas. Telefonei para a representante local da Avon e ela me falou tudo sobre o esquema de comercialização da empresa e como processar os pedidos. E dessa forma comecei a trabalhar. Decidi que me limitaria, pelo menos no início, a 30 apartamentos do meu quarteirão e dos quarteirões adjacentes. Eu sabia andar por ali sem muita dificuldade.

       E lá fomos nós, Emma e eu.

       Acredito que ela tenha ficado meio confusa, já que parávamos em todas as portas para que eu fizesse a visita. Mas as coisas deram certo.

       Os números nas portas eram grandes e eu podia me situar bem. Caso alguém não estivesse em casa quando eu passasse por lá, eu simplesmente anotava o número do apartamento na fita para que pudesse voltar na noite seguinte.

       A resposta foi muito melhor do que eu podia imaginar. Encontrei muita gente interessada nos produtos de beleza que eu estava vendendo e muitas vezes eu era convidada a tomar uma xícara de chá. Mas meu sucesso devia-se em grande parte a Emma. A maioria das pessoas daqueles prédios já a conhecia, por tê-la visto comigo na rua. E além do interesse nos produtos Avon, todos gostavam da oportunidade de brincar com ela. É bem provável que a expressão de Emma, que se mantinha quieta, quisesse dizer: "Compre alguma coisa, caso contrário ela não poderá me dar comida amanhã." Por isso ou não, só sei que as encomendas eram feitas. Uma vez por semana nós retirávamos os pedidos da fita e Don levava horas preenchendo as fichas de venda.

       Aquilo era algo interessante, não apenas financeiramente. Através desse serviço formei um novo círculo de amizades. Além disso havia muitas donas-de-casa que quase não saíam, a não ser para fazer compras, e que recebiam poucas visitas. Havia muitas pessoas vivendo sozinhas naqueles apartamentos e acho que gostavam de que eu as procurasse, pois só assim tinham oportunidade de conversar um pouco. Era surpreendente, também, como me sentia capaz de ajudar de outras maneiras. Já que tinha feito o curso de maquilagem, dava alguns conselhos. Muitas mulheres pediam orientação sobre o tipo de sombra que deviam usar. Eu costumava perguntar: "Qual a cor dos seus cabelos? E dos olhos? Qual a tonalidade de sua pele?" Conforme a resposta, eu dizia qual o tipo de sombra que considerava o mais recomendável.

       Esse trabalho era realmente maravilhoso e me dava muita confiança. Eu pensava então: "Sou cega mas posso ajudar essas pessoas. Espero que a partir do que eu diga ninguém saia por aí usando a cor errada de batom!”

      

                   EMMA SALVA MINHA VIDA

       Depois de ter Emma comigo por quase um ano, resolvi tornar-me uma oradora oficial sobre os cães-guias: ou seja, falar às pessoas sobre o trabalho desses animais e ajudar a levantar fundos para a associação. Emma fizera muito por mim e por isso eu queria tentar ajudar. Não apenas por isso. Mas estava ansiosa para contar como era maravilhosa e tudo mais sobre ela.

       A primeira palestra que fiz foi conseguida através de Anita. Ela me convidou a participar de uma das reuniões da igreja que ela freqüentava. Disse que tinha falado muito sobre Emma com as pessoas que conhecia e que por isso todos desejavam conhecê-la. Fomos até a igreja e me senti muito bem; era isso o que eu queria fazer.

       Chegamos ao saguão, onde Anita estava nos esperando, e sentamo-nos numa das últimas filas da igreja. Eu podia sentir que havia muita gente (cerca de 150, fiquei sabendo depois). Primeiro entoaram hinos e depois começaram as orações. No meio do "Guia-nos, Pai Celestial, Guia-nos" subitamente senti-me enrijecida. E pensei: o que me levou a querer fazer isso? Terei que ficar de pé diante de toda essa gente e falar. Devo estar louca. Quando o hino acabou, houve um terrível e pesado silêncio.

       Ouvi alguém anunciando que haveria uma oradora. Pior ainda foi quando ouvi meu nome sendo chamado.

       Pediram para que eu fosse até a parte da frente da igreja. Coloquei a guia em Emma, segurei-a bem e disse-lhe para ir em frente. Ela seguiu pela nave central até o altar. Eu esperava contar com seu apoio moral; mas é claro que não houve qualquer manifestação dela. Assim que ela se voltou e viu a audiência, foi para trás de mim e deitou-se, com o focinho entre meus pés, numa atitude que dizia tudo: “Você pode fazer o que tem a fazer; eu estou bem escondida aqui.”

       Acredito que falei durante uns cinco minutos. Que me pareceram cinco horas. Contei de modo hesitante, gaguejando um pouco, o que acontece no centro de treinamento e tentei explicar o que Emma significava para mim. A única vantagem era que, ao contrário dos oradores que enxergam, eu não podia sentir-me confusa com todos aqueles rostos voltados para mim. Ao mesmo tempo, não tinha como avaliar a reação da audiência nos momentos em que hesitava, tropeçava e dizia alguma coisa errada, apoiando-me sempre num "Aí... " ou “Sem. . . " Quando acabei de dizer tudo que queria, o que não demorou muito tempo, continuei de pé, tremendo.

       Mas, para meu espanto, recebi uma grande ovação.

       Eu quase não conseguia acreditar. Emma imediatamente se levantou-se e saiu de trás de mim, abanando a cauda (achando que os aplausos eram para ela). Depois pegou a guia no chão e foi caminhando até o final da igreja, passando por todas as fileiras de cadeiras, e é lógico que todos ficaram encantados com ela. A partir daquela vez Emma certamente não sentiu mais medo de ir a palestras; quando eu lhe dizia o que íamos fazer, não havia quem a segurasse: Emma andava muito mais depressa que o usual.

       Tudo isso representou muito trabalho, pois era preciso manter os registros, e novamente Don me ajudou muito. Comprei agendas e as mantinha sempre atualizadas e todas as semanas nós planejávamos o trabalho dos próximos dias. Nas tardes de domingo, Don apanhava as agendas e me dava todas as informações de que eu necessitasse. Em seguida eu transcrevia os dados para o braile, na minha máquina, e durante a semana carregava as instruções comigo nas diversas palestras que fazia.

       Apenas uma coisa atemorizava Emma antes das palestras: a chuva. Ela não gostava de sair quando estava chovendo e isso tornava as coisas um tanto difíceis. Era preciso empurrá-la para fora de casa, dizendo:

       — Vamos, você não vai ficar molhada. Vou colocar seu grande capote de pele.

       Mas Emma, sabia que mesmo com o capote tinha quatro grandes patas para deslizar na lama. Ir para o trabalho, ou melhor, convencê-la a me levar ao trabalho quando estava chovendo era um custo. Ela firmava as patas no chão e recusava-se a andar.

       Eu pedia, implorava, prometia coisas e até fazia ameaças (da forma mais polida possível). Finalmente ela resolvia sair, de modo relutante, contudo, mas aí eu já estava atrasada e não podia dizer ao meu chefe: "Foi culpa de Emma.”

       Quando comecei a fazer as palestras, fiquei perplexa com as perguntas que as pessoas faziam depois que eu encerrava minha explanação. Por Exemplo: “Como você consegue achar suas roupas pela manhã?" Isso me pegava de surpresa. Jamais pensara sobre o assunto. O que eu podia responder além de: "Geralmente sobre a cadeira onde as deixei pela noite"? Eu sabia onde essas indagações queriam chegar mas algo que uma pessoa que enxergue pode achar muito difícil ou inconveniente não é tão complicado assim para um cego. Você sabe onde estão as coisas; é a sua vida.

       A única coisa que me desagradava nas palestras era o jantar que às vezes precedia a exposição. Lembro-me especialmente de uma terrível ocasião em que tive de segurar um coquetel de frutas, no qual havia grossos pedaços de abacaxi. Para se ter uma idéia melhor da situação basta qualquer um colocar uma venda nos olhos e tentar apanhar um pedaço de abacaxi com a colher. Como esses pedaços da fruta são ardilosos!

       Comecei a caçada e, já que não estava ouvindo os ruídos de talheres, percebi que estavam todos me olhando. Senti a tensão aumentar. Era uma agradável noite de verão e eu estava com um vestido curto. Depois de algum tempo, consegui pegar um pedaço do abacaxi e o levantei com minha colher, mas descobri então que aquela parte estava presa a diversos outros pedaços da mesma fruta, formando uma cadeia.

       Pior de tudo foi que deixei a colher cair e com ela foi-se também a pequena corrente de pedaços de abacaxi. Não era a melhor maneira de começar uma noite!

       Havia sempre as "ajudas" bem intencionadas, particularmente quando eu chegava. Geralmente sentavam-me numa cadeira e diziam: "Pronto, agora não se mexa." Acho estranho que as pessoas considerem os cegos como perigosos, como se fossem um material explosivo que, à menor chance de vida independente e de movimentos, pudessem provocar desastres cósmicos. Além disso, os cegos são de um modo geral tratados também como surdos e até como débeis mentais. A advertência: "Não se mexa” era freqüentemente um tipo de comando militar: "SENTIDO!" Eu ficava então sentada ali tensa e com medo de que alguém me segurasse e me fizesse ir a algum lugar.

       Eu retirava a guia de Emma e despia o casaco. Isso era sempre fatal. No momento em que me levantava para tal, era agarrada por todos os lados:

       — O que você deseja? O que houve? Por que está se mexendo?

       O que me recompensava durante essas pequenas torturas era o fato de saber que, quando eu me levantasse para falar, todos eles não poderiam se mexer e eu poderia então demonstrar que era como qualquer outro ser humano e que apenas não podia enxergar. Assim que eu me levantava, podia sentir a tensão gerada pela perspectiva de se ouvir uma cega: a última coisa que todos desejavam fazer era rir. Mas eu acabava conseguindo que eles fizessem justamente isso, embora quase sempre demorasse um pouco.

       Outra coisa que me recompensava nas palestras era que muitas vezes as organizações que eu visitava não apenas faziam uma doação à associação mas também tentavam levantar dinheiro para comprar um cão-guia. O custo total de um animal chega a 500 libras, incluindo a fase de treinamento como filhote, o treinamento do cão no centro e o treinamento da pessoa cega junto com o animal. O custo apenas do treinamento do cão no centro é estimado em 250 libras. Quando uma pessoa recebe seu cão-guia, não precisa, logicamente, pagar esta quantia (se fosse necessário eu teria de roubar um banco ou ainda estaria sentada em casa economizando para juntar o dinheiro). Tudo que se exige é o pagamento de 50 pennies, o que habilita o cego a receber seu cão-guia a despeito de sua situação financeira; isso, porém, não significa aceitar caridade. Esse processo mostra somente que um grande esforço foi feito para levantar dinheiro para os cães-guias, com muitas pessoas de todas as partes do país devotando tempo e energia a esta causa. De forma que, quando minha platéia dizia ter vontade de contribuir para a aquisição de um cão-guia, eu me sentia muito bem.

       Certa vez planejei um evento para levantar fundos. Decidi realizar uma caminhada patrocinada de cerca de 30 quilômetros (com Emma na frente, é lógico). Don e eu levamos muito tempo para planejar tudo. Saíamos de casa de carro e pensamos em cada detalhe. Em seguida era preciso decidir como realizar o evento. E neste particular tive muita sorte. A Universidade de Nottingliam tem um departamento que trata da mobilidade dos cegos, e o futuro Dr. Alfred Leonard sugeriu que um pequeno gravador de bolso poderia ser utilizado como orientação, digamos, retirada de um mapa.

       O percurso seria gravado e bastaria levar o gravador e ouvir a fita enquanto caminhava. Fizemos contato para conseguir que a universidade nos emprestasse um pequeno gravador (esse tipo de aparelho acabara de ser lançado no mercado e custava caro). Depois Don e eu colocamos na fita o trajeto.

       Don ajudou-me a percorrer todo o caminho, registrando quantas travessias havia no percurso, onde dobrar à esquerda e à direita, que tipo de calçamento existia, os diversos sons que poderiam ser ouvidos, as áreas comerciais mais movimentadas e a parte do caminho que ficava no campo. Don era maravilhoso para registrar todas as informações. Não apenas "então dobre à esquerda perto dos Correios", mas uma informação mais pormenorizada. Ele tinha um incrível instinto para isso, embora fizesse algumas restrições à caminhada em si.

       — Acho um trajeto muito longo para você andar, mais de 30 quilômetros — ponderou ele depois de mais uma sessão de informação sobre a rota a seguir.

       — Não se preocupe — respondi. — Emma estará comigo.

       — Sim, sei disso, mas não gosto da idéia de você sair por aí sozinha; ou melhor, vocês duas. E se vocês se perderem?

       O percurso ia de Nottingliam a Wollaton, Stapleford, Nuthall e voltava pela Alfreton Road até o apartamento. Ele persistia em sua dúvida, apesar de a caminhada ser feita com Emma e de eu sempre dizer:

       — Posso me informar no caminho. Eu sei falar.

       — Eu sei, mas ainda assim não gosto da idéia.

       A principal causa da preocupação de Don era que eu não queria que ele fosse comigo no dia da caminhada, porque a presença dele tiraria toda a força da promoção.

       Mas no final chegamos a um acordo. Don concluiu:

       — Teremos alguns pontos de checagem. E assim encontrarei você em diversos lugares ao longo do caminho.

       Assim estava ótimo. Eu tinha na caminhada a companhia de outra proprietária de cão-guia, uma amiga minha chamada Wendy, que desejava participar com sua cadela, Candy.

       Mas Don, e isso era tranqüilizador, estaria por trás de tudo, certificando se de que nada sairia errado. E aquela acabou sendo uma manhã gloriosa.

       Coloquei o gravador no bolso e nós quatro partimos.

       Havíamos planejado a caminhada de tal modo que não passássemos pelo centro de Nottingham. No trajeto havia muitos parques, de forma que Emma e Candy pudessem ter bastante espaço livre para correr. Combinamos que, se elas ficassem cansadas, nós desistiríamos imediatamente. Na verdade não importava muito se nós estivéssemos cansadas; era importante pensarmos nas cadelas, pois elas é que fariam a parte pior.

       Wendy e eu levávamos mochilas com sanduíches, tigelas e muita provisão de água, além de comida para Emma e Candy. Tudo correu bem. Em nenhum momento pareceu que já havíamos ultrapassado os limites de Nottingham e entrado no campo, já em Derbshyre. Don comparecia nos pontos de checagem, certificava-se de que estava tudo bem e determinava que continuássemos, sempre com palavras de encorajamento. Na parte da tarde, ainda continuávamos com muita resistência. Liguei o gravador para saber qual seria a próxima parte do percurso e disse a Wendy:

       — Agora vamos passar por baixo de uma ponte. Procure prestar atenção. Depois de passar por baixo dela, dobramos à direita e pegamos a rua principal para voltar a Nottingham.

       — Está bem — respondeu Wendy e nós prosseguimos. Parecia-nos ter percorrido uma grande distância, mas não apareceu nenhuma ponte. E então as duas cadelas pararam.

       — Você ouviu passarmos por baixo da ponte? — perguntei.

       — Não, não ouvi nada.

       — Bem, não podemos ficar as duas perdidas. Você fica aqui que eu vou averiguar.

       Disse a Emma para seguir. Ela pareceu um tanto relutante. Mas finalmente consegui que ela atravessasse a rua em que estávamos. Quando cheguei do outro lado senti que estava pisando em cascalho e pedrinhas, em vez de estar pisando numa calçada.

       — Estranho, Emma. Fico imaginando para onde estamos indo. - Ela parou novamente, mas eu ordenei: — Não, prossiga. Isso aqui deve ser a continuação da rua principal. Estamos no campo e talvez ela entre aqui em algum lugar.

       Ficamos muito tempo procurando pelas ruas em volta da estação rodoviária, até que finalmente senti o cheiro inconfundível e extremamente atraente de peixe e batata frita.

       Não faço a menor idéia se foi Emma que nos levou até lá ou se encontramos a lanchonete casualmente. Mas de qualquer modo ela recebeu sua recompensa e dividiu comigo o prato de comida. Depois da refeição voltamos à estação rodoviária e cerca de uma hora mais tarde estávamos de volta a Nottingham.

       Eu não conseguia imaginar o que poderia ter saído errado. A viagem fora uma total perda de tempo. E o pior foi que voltara sem qualquer doação para os cães-guias.

       Pouco depois de chegarmos em casa, tocou o telefone. Do outro lado falaram:

       — Aqui fala da Mansfield Young Wives.

       — Oh, sim.

       — Onde você estava?

       — Onde eu estava?

       — Onde eu estava? Quando?

       — Esta noite.

       Então tudo se esclareceu. Enquanto ficamos perambulando pelas ruas de Newark, um impaciente grupo de senhoras estava à minha espera em Mansfield. Bem, acho que isso teria de acontecer mais cedo ou mais tarde, mas eu não tinha como me desculpar. Como ficou esclarecido depois, Don havia escrito de forma bem clara "Mansfield Young Wives" na minha agenda. Mas por algum motivo que não sei explicar, ao passar a anotação para braile escrevi Newark!

       De um modo geral eu gostava de fazer palestras no Women's Institute, Rotary Clubs e em mesas-redondas. Numa dessas descobri que Emma e eu éramos as únicas representantes do sexo feminino. Mas gostava igualmente de encontros com lobinhos e bandeirantes. Depois de falar algum tempo para os adultos, achei as crianças muito evoluídas, desembaraçadas e reconfortantes. As perguntas que faziam eram sempre criativas e todas me aceitavam sem questionamentos ou reservas. Eu nunca sentia que elas estivessem pensando: "Que pena, ela não pode enxergar." Encaravam o fato de maneira natural e além disso ficavam mais fascinadas por Emma e pelas coisas que ela fazia. O que mais lhes interessava era como Emma trabalhava comigo. Queriam sempre uma demonstração. Mas isso criava certas dificuldades. Quando me tornei oradora oficial da Associação de Cães-Guias ficou acertado que de modo algum eu poderia fazer demonstrações. Os motivos são fáceis de ser entendidos: os animais, nessas circunstâncias, estavam cercados por pessoas e sujeitos a todo tipo de distrações; trabalhariam em condições artificiais, o que não era justo para eles. Isso funciona muito na teoria. Mas Emma jamais gostara muito dessa restrição e parecia ficar muito contente quando havia oportunidade para se mostrar.

       Na verdade, seria preciso alguém com uma determinação maior que a minha para detê-la.

       Descobri que para satisfazer a curiosidade das crianças bastava uma coisa bem simples. De onde eu estivesse, no canto de uma sala, dizia para eles:

       — Vou pedir a Emma que me leve até a porta, pela nave central. Se vocês quiserem colocar alguns obstáculos na minha frente, poderão ver como Emma faz seu trabalho e impede que eu esbarre neles.

       Emma ficava sempre contente quando chegava esse momento. Ela o considerava uma oportunidade excelente para demonstrar sua inteligência. As crianças espalhavam muitas coisas pela nave central, desde casacos até cadeiras. Emma satisfazia-se em vencer todos os obstáculos. Caso não conseguisse achar uma passagem pela nave central, ela imediatamente me conduzia por uma das laterais e então recebia muitos aplausos.

       Certa noite, no entanto, numa reunião de lobinhos, as coisas saíram um pouco diferentes. Acabei de fazer a palestra, Emma fez a demonstração e eu deixei a palavra livre para quem desejasse fazer perguntas. Um menino muito esperto, de cerca de sete anos, foi o primeiro a ficar de pé e a perguntar:

       — Emma atende a outras pessoas?

       — Não, é claro que não — respondi, sem imaginar o que ele estava pensando, depois de ouvir com muita atenção eu falar sobre o que Emma gostava e não gostava.

       — Se eu disser para ela ir comigo ela não irá?

       — Não, receio que não.

      — Posso tentar?

       — Claro — respondi com convicção. —Tente.

       — Emma, Emma — ele gritou.

       Emma permaneceu a meu lado e imagino que eu deva ter dado um leve sorriso. Depois ele tentou algo diferente. Gritou, então, para ela:

       — Emma, venha cá, olha o açougueiro ...

       Ela saiu correndo tanto que chegou do outro lado do salão em dois segundos.

       Embora eu gostasse de fazer palestras para crianças, ficava um pouco hesitante quando o convite partia da Woods School. Esta é uma escola para crianças doentes que fica nos arredores de Nottingham. Quando falei com a diretora, ela me explicou que a maioria das crianças vivia confinada a cadeiras de rodas, vítimas de doenças como esclerose múltipla e disseminada e espinha bífida. Todas as crianças tinham deformações nos membros ou no tronco. Algumas delas, aparentemente, locomoviam-se em cadeiras motorizadas porque o grau de sua paralisia era tal que só conseguiam apertar o botão que comandava as rodas da cadeira.

       A diretora perguntou se eu gostaria de fazer uma palestra lá, pois as crianças adorariam conhecer Emma e gostariam de ver como uma pessoa cega enfrenta a vida. Fiquei apreensiva. Senti-me, talvez, como uma pessoa que enxergue se sente com a perspectiva de se confrontar com alguém cego. Mas pensei: devo ir, e marcamos uma data.

       Quando Emma e eu chegamos, perguntei à diretora:

       — Não será difícil explicar a eles o que é cegueira? São muito mais limitados do que eu. Será que para eles cegueira significará alguma coisa?

       Para surpresa minha, ela respondeu:

       — Falamos sobre o assunto na aula. E as crianças não conseguem entender como você pode andar sem enxergar. Eles acham que deve ser muito pior uma pessoa cega do que uma pessoa paralítica.

       Achei a resposta estranha e não concordava com o que havia dito.

       Contudo, ela achou que eu devia falar primeiro com as crianças mais novas. Entrei na sala de aula e escutei os alunos se aproximando em suas cadeiras de rodas e o barulho das cadeiras elétricas. Ficaram todos muito silenciosos enquanto eu falava sobre Emma. Suponho que ela estivesse um pouco confusa com as cadeiras de rodas. Ela não sabia o que fazer com crianças que tinham rodas embaixo delas. Como resultado, Emma ficou mais quieta ainda do que nas outras palestras que eu fizera. Fiquei fascinada com as perguntas das crianças. Eram muito inteligentes. Como já disse, a maioria das crianças para as quais eu falava não conseguia imaginar alguém que não pudesse enxergar. Simplesmente aceitavam o fato. Mas aquelas crianças, com suas próprias limitações, tinham mais consciência. Quando fui falar com as crianças mais velhas, achei-as mais receptivas ainda e compreensivas também. E enquanto lhes falava, meu coração sentia uma profunda mágoa, pois eu sabia que muitos que ali estavam não viveriam por muito tempo. Mas mesmo assim, não consigo esquecer a incrível alegria delas e seu entusiasmo pela vida, quando se aproximaram para ver Emma melhor e brincar com ela.

       Dois meninos aproximaram-se de mim e disseram:

       — Você precisa conhecer nossa piscina.

       Eu não sabia que havia piscina, mas eles me explicaram que ela era usada para terapia. Algumas crianças que não podiam andar conseguiam mover-se na água.

       Um dos meninos estava numa cadeira de rodas e o outro usava muletas. Eu ouvi a muleta ao longo do corredor enquanto eles me levavam até a piscina. Depois percebi que o garoto que usava muletas estava andando cada vez mais depressa e estava tornando-se difícil para que Emma, eu e o menino da cadeira de rodas o acompanhássemos. Subitamente ocorreu-me que eles estavam apostando corrida! Uma corrida! Senti o som das muletas mais distantes ao mesmo tempo em que a cadeira de rodas ganhava mais velocidade. Pouco depois fiquei horrorizada ao ouvir o menino das muletas, que se chamava Robin, cair no chão, misturando-se ao som de sua queda o barulho das muletas de metal indo de encontro ao solo. E não pude entender por que Philip, o garoto que estava na cadeira de rodas, estava rindo tanto! Robin continuava no chão e fazia uns ruídos estranhos. Eu me ajoelhei ao lado dele e perguntei:

       — Você está bem?

       Não obtive qualquer resposta além dos horríveis ruídos. Só então percebi que ele também estava rindo muito. Era contagiante. E depois que o coloquei de novo nas muletas, nós três continuamos a caminhar pelo corredor sem conseguir parar de rir. Não faço a menor idéia do que Emma achou de tudo aquilo.

       Chegamos à piscina e fiquei fascinada ao ouvir as crianças descreverem as pequenas canoas com que cruzavam de um lado para o outro. Havia uma atmosfera agradável ali e nós nos sentíamos bem juntos. Tive coragem de perguntar como era ficar numa cadeira de rodas. Um deles resumiu para mim o que os outros pensavam:

       — Bem, isso é uma coisa normal ... Não pensamos muito sobre isso. Podemos fazer uma porção de coisas, podemos ver, podemos ler, podemos jogar e. . . — Ele sentiu pena de mim, porque eu não enxergava. Foi muito tocante.

       Outro local para crianças com problemas que visitei foi Clifton Spinney, que é um centro de reabilitação para crianças cegas; fica perto de Nottingham. O centro oferece um clima residencial e recebe pessoas que acabaram de perder a visão. Através de um curso com duração de um ou dois meses, elas aprendem a reestruturar sua vida sem o auxílio da visão. Sempre me considerei mais feliz que as pessoas que deixam de enxergar de um momento para outro. Porque no meu caso fui perdendo gradualmente a pouca visão que possuía. É claro que eu tinha a frustração de ser cega, mas nunca parei para pensar: "No ano passado eu enxergava e agora não vejo nada. Não me acostumo a esta situação. O que fazer agora?”

       Eu sempre achava embaraçoso conhecer alguém que perdera a visão pouco tempo antes. É a pior maneira de se ficar cego.

       O homem é um animal basicamente visual e isso supera todos os demais sentidos. Sentir-se sem visão de uma hora para outra é uma coisa terrível. A cegueira física provoca também uma espécie de cegueira mental. A anêmona-do-mar fecha-se imediatamente se alguém a toca. As pessoas que se tornam subitamente cegas parecem fechar-se mentalmente do mesmo modo. E mantêm-se sempre isoladas do mundo.

       Por isso, se eu tinha ficado hesitante em começar a falar para crianças paralíticas, fiquei duplamente preocupada com a idéia de falar para os cegos de Clifton Spinney.

       A questão era que um dos principais aspectos que eu ressaltava era provar as pessoas que enxergavam que os cegos eram pessoas normais; como eram capazes de levar a vida e como eu conseguira superar o meu problema. E, claro, como Emma havia me ajudado. Como dizer tudo isso a essas pessoas?

       A Spiney era dirigida pelo casal Spencer. A Sra. Spencer enxergava, mas seu marido era cego. Era bom que um cego fosse o responsável pelo centro, porque ninguém melhor para saber do que necessita um cego do que alguém que não enxergue. A Sra. Spencer era muito gentil. Ela me apanhou e levou-me ao centro e, uma vez lá, foi comigo até o salão em que eu deveria fazer a palestra e onde uma audiência formada somente por cegos já me aguardava. Deixou-me ali e disse que seu marido logo chegaria para me apresentar. Ouvi a porta fechando-se. Sentei-me, com Emma a meu lado, num pequeno palco e percebi então que não apenas eu não os via como eles também não me viam. Esta idéia tomou conta de mim de modo muito intenso, mas não gostei de pensar nisso. Eu não estava acostumada a conviver com cegos. Escolhera sempre a companhia de pessoas que enxergavam, e se tinha alguns amigos cegos era porque gostava deles. Como pessoas e não por sua condição ou fazendo qualquer concessão à sua incapacidade de ver.

       Fiquei ali sentada, mais apreensiva a cada minuto, e a minha garganta cada vez mais seca, enquanto aguardava o Sr. Spencer. Podia ouvir a audiência conversar sobre- assuntos pessoais e percebi, não pela primeira vez, que as pessoas totalmente cegas, especialmente aquelas cuja cegueira era recente, tinham um tom de voz monótono, de certa forma refletindo a idéia de que a perda da visão significava também a perda do interesse e esperança na vida. Em seguida ouvi o Sr. Spencer entrando no salão.

       - Old, Sheila. Meu nome 6 Charles Spencer.

       Levantei-me e caminhei na direção da voz dele e estiquei a mão para cumprimentá-lo. Esbarramos um no outro. Minha mão entrou no paletó dele e a mão dele encostou em minha orelha esquerda. Senti-me confusa e desalentada e pensei: e isso o que acontece quando os cegos se encontram.

       Comecei do modo como sempre iniciava minhas palestras, mas poucos minutos depois percebi que seria preciso mudar minha tática. Eu não conseguiria arrancar nenhuma reação da audiência. Ninguém sorria; todos permaneciam quietos, ouvindo. Foi uma sensação terrível para mim, como se estivesse falando numa sala vazia. Eu precisava tocá-los de algum modo e finalmente consegui. Mas foi um trabalho muito difícil, talvez a palestra mais difícil que já fiz.

       A hora das perguntas também foi drástica: não houve uma seqüência natural de perguntas, ou seja, uma pessoa falando de

       cada vez. Ás vezes três indagações se misturavam no ar e eu não conseguia entender nenhuma delas. Isso ocorreu não porque as pessoas que ficaram cegas há pouco tempo sejam estúpidas ou porque não respeitem os outros. O que acontece é que se sentem isoladas, subitamente jogadas nesta ilha de escuridão e fazem o melhor possível para de lá saírem. Muitos ainda estavam sob o efeito do choque de terem perdido a visão, de terem de começar uma vida totalmente diferente, de perderem o principal sentido com que sempre contaram.

       Manifestei muita simpatia a todos eles. Uma das dificuldades que afetam os cegos logo depois de perderem a visão é que as pessoas de visão normal tendem a piorar as coisas, a encorajar a sensação de que eles, subitamente, ficaram perdidos, sem nada na vida praticamente. Os que enxergam normalmente querem tomar conta dos cegos e fazer para eles coisas que, se fossem treinados, poderiam fazer sem a ajuda de ninguém. De tal forma que muitas vezes o cego se convence de sua incapacidade.

       Um dos objetivos de Clifton Spinney era neutralizar esse tipo de tratamento.

       À medida que as perguntas se sucediam, ficou evidente que todos estavam interessados nos cães-guias e Emma fez a parte dela para convencê-los de que, a despeito da cegueira, todos ali poderiam ter liberdade e mobilidade.

       Não obstante, senti-me realmente contente ao deixar Clifton Spinney: pode ser uma coisa terrível de se admitir, mas é verdade. Como eu era agradecida por ter Emma e pelo modo como minha vida fora encaminhada. Eu não poderia nunca trabalhar lá como o Sr. Spencer. Seria muito parecido com minha casa, muito real. Os problemas em Clifton Spinney estavam todos expostos e as pessoas tentavam resolvê-los. Mas no fundo nenhum cego quer admitir que não poder ver é um problema.

       Algumas semanas depois, senti-me muito agradecida por Emma estar comigo.

       Estávamos no centro da cidade e ela me conduziu a uma faixa de pedestres num dos pontos mais movimentados. Ouvi um ônibus ou caminhão parar para nos deixar atravessar. Dei a Emma o sinal de ir em frente e começamos a andar sobre a faixa para pedestres.

       Mal tínhamos dado dois passos quando Emma parou e começou em seguida a voltar para a calçada, puxando-me pela guia. Não pude entender o que ela estava fazendo e não confiei nela.

       — Emma, vamos, está tudo bem, o caminhão parou para  nós.

       Ela não se mexeu e eu achei que deveria seguir em frente para mostrar que estava tudo certo, pois eu ouvia o motor do ônibus ou caminhão, que continuava parado à nossa espera. Então avancei e Emma fez a coisa mais incrível do mundo. Colocou-se na minha frente e quase me derrubou na sarjeta. Ao mesmo tempo ouvi de repente o ruído de um carro aproximando-se, passando velozmente pela faixa de pedestres e seguindo pela rua. Se eu estivesse um pouco mais à frente, se Emma não tivesse me detido, eu teria morrido. O incidente levou alguns segundos apenas, mas depois que passou o susto fiquei algum tempo parada na faixa de pedestres, petrificada.

       Em seguida, ouvi o barulho de outro motor se aproximando e parando junto a mim. A porta do carro, um táxi, se abriu e alguém com a voz muito nervosa perguntou:

       — Você está bem?

       — Sim - respondi.

       — Nunca vi nada igual. Infelizmente não consegui anotar a placa do carro. Ele devia estar correndo a uns 80 quilômetros por hora - disse o motorista.

       Eu concordei com ele, ainda muito trêmula.

       — Nunca vi também nada igual a seu cão. Ainda bem que ele estava aí. Você tem um excelente cão, moça.

       Depois ele entrou no táxi novamente, ligou o motor e partiu. Emma, por sua vez, estava ansiosa para continuar nosso trajeto e enquanto caminhávamos tranqüilamente eu me lembrava das palavras do motorista. Sim, realmente tinha um excelente cão-guia. Emma tinha salvado minha vida.

      

                   A OPERAÇÃO DE EFEMINA

       O Centro de Pesquisa de Mobilidade de Cegos, da Universidade de Nottingham, estava sempre apresentando novas idéias e pedindo que as pessoas cegas da comunidade ajudassem nos testes. Uma das criativas invenções da instituição foi a confecção de um mapa em braile do shopping center de Victoria. O centro comercial, localizado ao lado da antiga estação ferroviária de Victoria, é um lugar enorme, com dois andares de lojas dotadas de ar condicionado e situadas entre jardins e fontes. [] um lugar maravilhoso, mas que apresenta problemas para os cegos. Não há degraus a serem contados, nem meio-fio ou qualquer outra coisa que uma pessoa sem visão possa utilizar como orientação. Então o Centro de Pesquisa de Mobilidade elaborou um mapa em braile e afixou cartazes e avisos, também em braile, por toda parte, no shopping Center. A área principal tem grandes colunas de concreto que vão até a parte central da construção. Foram colocados números em todas as colunas, em braile, logicamente. Assim, bastava que a pessoa identificasse o número da coluna e consultasse o mapa para saber quais as lojas que ficavam naquela área.

       O mapa era algo sensacional - toda a parte central era uma imagem táctil: linhas mostravam as áreas das lojas, as colunas indicadas através de desenhos redondos e As escadas indicadas por uma sucessão de linhas que davam a impressão real de uma escada ao se passar a mão.

       O Centro de Pesquisa resolveu fazer um filme sobre como o esquema funcionava e fui convidada a participar do projeto juntamente com Emma Ian, o câmera, resumiu para mim o que deveria acontecer na filmagem e o que ele queria que nós duas 122 fizéssemos. A idéia era dar a impressão de um dia normal de compras para uma pessoa cega, a começar pela estação de ônibus.

       Geoffrey, o que dirigia a filmagem, perguntou se eu fazia alguma idéia de como os filmes eram feitos e eu lhe disse que tinha uma vaga noção sobre tomadas e cortes porque lera alguma coisa a respeito.

       — É isso mesmo — disse ele. — Fazemos as tomadas e depois editamos o filme usando as seqüências que desejamos. Há uma coisa porém: podemos querer mostrar uma mesma coisa de diversos ângulos e neste caso você terá de fazer algo duas ou três vezes. Acho que não haverá problema, embora seja um pouco cansativo.

       Prometi esforçar-me para cometer o menor número de erros. Emma e eu fizemos o que nos disseram e as câmeras começaram a rodar. Mas eu tinha dado apenas uns poucos passos quando alguém me segurou pelo braço e foi logo dizendo:

       — Olá, não vejo você há muito tempo. Como Emma está indo?

       Era um dos inspetores do ônibus, que nos conhecia muito bem. Ouvi Graham gritar:

       — Corta!

       Depois de conversar com o inspetor durante algum tempo (não disse a ele que estávamos fazendo um filme porque ele podia querer participar das filmagens), começamos novamente. Desta vez Emma e eu fomos até a entrada do shopping.

       — Por que não olha para onde está indo? — ouvi alguém dizer e pensei que estivesse falando comigo. E em seguida: Não está vendo que ela é cega?

       Tan, o câmera, aproximara-se de mim para fazer uma tomada melhor quando eu estava chegando perto da entrada do centro. Mas uma pessoa que passava por ali na hora achou que ele poderia esbarrar em mim e o puxou pelo braço. E com isso outro pedaço do filme estava perdido e tivemos de começar tudo novamente. Posso garantir que a essa altura Emma já estava cansada de fazer o mesmo trajeto, mas de qualquer modo a filmagem saiu razoavelmente boa desta vez. Em seguida, procurei o número em braile numa das colunas e depois consultei o mapa que levava, que era o que eles queriam filmar. Quase imediatamente ouvi uma voz de mulher dizendo:

       — Aonde você quer ir, querida? Eu posso levar você.

       Era um gesto maravilhoso da parte dela. Mas atrás de mim ouvi novamente aquela ordem: "Corta!" Depois que a mulher foi embora conseguimos fazer a tomada da maneira certa.

       A locação seguinte era mais difícil. Tínhamos de ir para a parte norte do shopping center e encontrar um café onde seríamos filmadas enquanto eu tomava uma xícara de chá. O problema é que eu não conseguia encontrar as colunas e não tinha como pedir a Emma que localizasse uma para mim. De qualquer modo, ela passara a vida toda tentando evitar essas coisas e obviamente não iria aprender algo novo agora. Eu tinha de ficar atenta para pressentir uma coluna e então parar e esticar o braço.

       Deve ter parecido tudo muito estranho. Mas finalmente achei que tinha encontrado uma e coloquei o braço em torno dela. A coluna, no entanto, não parecia ser de concreto.

       Percebi então que estava abraçando um cabide de casacos. O homem que estava segurando as roupas desculpou-se não sei por quê. Talvez tenha achado que eu era maluca.

       Em outra tentativa encontramos a coluna certa e eu tomei o chá. O filme estava finalmente pronto e acho que ficou muito bom, sem deixar transparecer nada do drama que foi sua execução.

       Foi nessa época que uma coisa começou a me preocupar um pouco: no prédio onde morávamos não havia jardim para Emma correr. Isso me ocorreu num dia de agosto. Eu estava sentada em casa e sabia que lá fora fazia um dia lindo, ensolarado. E pensei como seria maravilhoso ter um jardim. Perto do meu prédio havia parques, onde eu levava Emma para que ela andasse à solta. Mas não era a mesma coisa que simplesmente abrir a porta e deixá-la à vontade a qualquer hora. Seria diferente se Emma tivesse seus próprios limites e um pedacinho de grama só para ela.

       Depois de remoer o problema durante algum tempo, tive uma idéia. Emma faria aniversário dali a dois meses, a 16 de outubro, e um jardim seria o melhor presente que eu poderia lhe dar. Peguei o telefone e liguei para o departamento de habitação. A idéia era trocar meu apartamento por uma casa.

       Lá não me ajudaram muito. O que me disseram, em resumo, foi que achavam muito improvável que alguém desejasse trocar uma casa por um apartamento do tipo do que nós morávamos. Disseram, porém, que eu podia tentar sozinha e ver se conseguia a troca. Tentei e consegui. Lembrei-me de que Emma tinha uma amiga no conselho. Era uma mulher muito agradável, chamada Brenda Borritt, que quase sempre nos encontrava no parque e demonstrava muito interesse por Emma. Na próxima vez que a encontrei no parque contei-lhe meu problema e ela disse que veria o que poderia fazer. Duas semanas já haviam passado e eu começava a achar que minha idéia não resultaria em nada, quando recebi um telefonema. A Sra. Borritt encontrara alguém que desejava mudar-se de um dos bangalôs do conselho e ir para um apartamento. Ela me disse que era um bangalô pré-fabricado e muito antigo — mas tinha um jardim!

       E então Emma recebeu seu presente: e no dia certo.   Mudamos para lá no dia do aniversário dela. Emma adorou a casa imediatamente, ou melhor, o jardim.

       Lá havia muito espaço para ela correr sempre que quisesse, com muita grama, flores e plantas.

       A mudança lembrou-me novamente que eu não enxergava. Isso pode parecer estranho. Mas com Emma eu nunca me sentia como uma cega quando saía. Eu enxergava através dela: não no sentido visual, obviamente, mas sabia o que estava acontecendo a meu redor, já que ela reagia a tudo que havia no ambiente. Todas as impressões dela passavam para mim através da guia. Eu era capaz de dizer quando havia um obstáculo à frente pelo modo como ela reduzia o passo e hesitava por um instante. Eu sabia quando cruzávamos com outro cão porque sentia que ela se voltava para trás e abanava a cauda.

       Mas andar numa casa é diferente. Ir de um cômodo para outro ou movimentar-se dentro de um mesmo cômodo é sempre, para a pessoa cega, algo mentalmente planejado.

        Ao se mudar para uma outra casa é preciso começar tudo de novo.

       Don ajudou-me muito na mudança e tivemos um tempo de muito trabalho: ele colocou os trilhos das cortinas e mudou os interruptores das lâmpadas enquanto eu cuidava de uma tarefa que parecia interminável: desencaixotar a mudança.

       Emma e eu caímos exaustas na cama por volta de duas horas da madrugada. Pouco depois ouvi alguém batendo na porta (na verdade era Don) e levantei-me rapidamente. E então percebi que não conseguia lembrar-me direito de onde ficava a porta. Fui passando a mão por uma parede e depois por outra até que abri a porta. Mas era o guarda-roupa. Depois de passar a mão por outra parede e de voltar ao mesmo armário, consegui finalmente encontrar a porta. Parei apenas quando esbarrei no sofá que eu esquecera que havia ficado no meio da sala de estar. Quando abri a porta da frente, não havia ninguém.

       Então lembrei-me de que havia outra porta nos fundos, onde Don estava esperando, pacientemente. Levei muito tempo até me acostumar com tantas portas, depois de estar habituada com o apartamento, em que só havia uma porta de entrada e poucos cômodos.

       Isso não foi tudo. Lembro de um dia em que desejei ir ao banheiro e não o encontrei. Eu estava no cômodo errado, como acabei descobrindo depois de passar cinco minutos à cata das louças e do vaso sanitário. Cheguei a me perder no jardim em outra ocasião. Eu tinha deixado Emma na cozinha, fechado a porta dos fundos e saído para estender algumas roupas. Mas perdi o senso de direção por completo e não me lembrava de onde ficava a porta dos fundos. Procurei em torno da cerca, fui até o portão e voltei até os fundos e só então a encontrei. Fiquei imaginando depois se Emma teria ficado me olhando de maneira reprovadora através da janela.

       Emma, porém, logo se acostumou ao seu jardim. Mal conseguia esperar o momento de ficar lá, solta, correndo de um lado para outro e cheirando os mourões da cerca na trilha de gatos há muito desaparecidos.

       Claro que não apenas a casa, mas principalmente sua localização, apresentou seus problemas. Havíamos mudado para o bairro de Beechdale e havia muitos caminhos novos para nós duas aprendermos, inclusive o trajeto até o meu emprego.

       Pouco depois da mudança, precisei ir à Farmácia Bocits mandar aviar uma receita. Emma conhecia o lugar muito bem: ficava na principal rua de Nottingham, a Parliament Street, do lado esquerdo, e ela me levou até lá logo que descemos do ônibus. Puxou-me pelos degraus até a porta e eu estiquei o braço. Mas a porta não se abriu. Achei muito estranho, porque geralmente a Boots ficava aberta noite e dia.

       — Você tem certeza — perguntei a Emma — de que estamos no lugar certo?

       Descemos a pequena escada, para irmos embora, enquanto imaginava o motivo do fechamento da farmácia. Emma me levava pela calçada. Senti que íamos atravessar a rua.

       Quando o tráfego parou, atravessamos e ela me levou a uma loja.

       Pensei: - bem, pelo menos posso indagar aqui. Mas quando entramos ouvi uma voz conhecida. Era a assistente de Bocits dizendo:

       — Olá, Emma. — Depois de brincar com ela um pouco, voltou-se para mim:

       — Vi vocês do outro lado da rua e já ia até lá buscá-las. Mas então vi Emma atravessando a rua, Nós fechamos aquela loja. Com certeza ela deve ter visto o cartaz dizendo que a loja está fechada!

       Na agência local dos Correios, uma das atendentes logo fez amizade conosco e ficou muito amiga de Emma íamos lá com, freqüência porque eu tinha de enviar meus livros sonoros. Esses livros sonoros são fitas cassete grandes que não cabem num gravador comum. São usadas em aparelhos especiais. E são uma verdadeira maravilha para os cegos. As fitas — a empresa que .as distribui fica em Bolton,  Lancashire - cobrem todos os gêneros literários, desde os clássicos até obras de ficção mais simples. As gravações são feitas por locutores de primeira categoria, geralmente da BBC. A biblioteca de livros sonoros envia um catálogo aos sócios (pode-se escolher impressão normal ou em braile) para uma assinatura anual que custa três libras. Há cerca de 30 títulos à disposição cada vez que se faz o pedido. A biblioteca despacha dois ou três em cada remessa, de forma que, quando se devolve uma fita, ainda se tem material para ouvir antes da chegada de outra remessa. Deste modo "li" muita coisa, de Jane Austen a James Bond.

       Há uma vantagem nesse processo: pode-se fazer outras coisas enquanto se ouve a fita. Eu geralmente ligava meu aparelho enquanto dava comida a Emma, passava a ferro ou lavava a cozinha. Ao terminar qualquer uma dessas tarefas, já tinha avançado três capítulos.

       A agência dos Correios faz a remessa dos livros sonoros gratuitamente e este é outro excelente serviço que o Departamento de Correios proporciona aos cegos. As fitas chegam em caixas de plástico em cuja parte frontal há um espaço destinado à colocação de um cartão que contém o endereço do destinatário; e para se devolver a caixa com a fita, basta que se vire o cartão, colocando-o no mesmo lugar. O endereço do centro de atendimento da biblioteca está no verso do cartão.

       Ás vezes me perguntavam como eu poderia saber se Emma não estava bem. Lógico que eu não podia ver se o nariz dela estava seco, ou se havia algum problema em seu pêlo ou se o seu modo de andar apresentava alguma alteração. Certas pessoas não gostavam muito do vínculo que havia entre ela e eu logo que levantávamos pela manhã, eu poderia dizer como ela estava e como estava seu humor. Ela poderia estar um pouco menos entusiasmada do que o normal para ir trabalhar e, embora eu não pudesse ver o nariz dela, podia tocá-lo e saber quando estava quente. Ela podia pedir para ir até o jardim mais do que o normal. Eu saberia dizer se ela estivesse com algo diferente.

       Além disso, pelo fato de ela ser um cão-guia (há uma pequena medalha em torno do pescoço dela onde está escrito: "Sou um cão-guia", fazia um check-up a cada seis meses no veterinário. Esse exame é gratuito para o dono do cão-guia e é uma boa maneira de evitar complicações. Só havia um problema com esse exame semestral: Emma detestava ir ao veterinário.

       Eu precisava mentir para ela para poder cuidar de sua saúde. Antes de sair para o veterinário eu nunca lhe dizia nada, porque a rua da clínica ficava em nosso trajeto.

       Seu passo sempre diminuía ao nos aproximarmos da porta da clínica, até que finalmente ela colocava uma pata e em seguida a outra. Depois, ao perceber que não iríamos para nenhuma consulta, ela parecia ligar um motor e saía dali correndo, como se estivéssemos atrasadas para um compromisso.

       Mas quando íamos realmente fazer uma consulta eu precisava esperar que a coitada parasse perto dos degraus da clínica e resolvesse subi-los.

       Somente depois é que eu tocava a campainha, esperava que abrissem à porta e fazia um pouco de força para empurrá-la para dentro do consultório.

       Ela detestava aquilo. Mas certo dia, antes de chegar o tempo do exame semestral, senti uma inchação no peito de Emma. Passei alguns dias examinando-a e me pareceu que aquele ponto estava aumentando. Decidi então levá-la ao veterinário. Depois de superarmos todo aquele patético ritual na porta da clínica e de esperarmos o atendimento, em meio a latidos e ganidos de outros cães, fomos chamadas pelo Dr. Davidson: um homem muito delicado, grande amante de labradores e em especial de Emma.

       Ele examinou o tumor e disse-me que o melhor seria retirá-lo. Em resumo, eu teria de levar Emma à clínica novamente na manhã seguinte. Normalmente os cães que sofrem alguma intervenção cirúrgica ficam internados o dia inteiro, mas com Emma eu não queria que fosse assim. O veterinário concordou que se eu arranjasse um carro ela não precisaria ficar lá mais do que algumas horas: eu só não desejava que ela permanecesse ali muito tempo sem mim.

       Claro que eu estava horrorizada à idéia de o tumor ser maligno.

       Contei o caso às minhas colegas de trabalho e elas ficaram preocupadas também. Todas acharam que se Emma ia ser operada eu deveria ser levada por um dos carros da empresa até a clínica e depois para casa. E ficar o resto da semana em casa para cuidar de Emma.

       As coisas não funcionavam assim, mas foi uma idéia gentil.

       Na manhã seguinte levei Emma, que protestou como de costume, para ser operada e depois que o Dr. Davidson lhe aplicou a anestesia fiquei ao lado dela até que adormecesse.

       Um dos motoristas da garagem, homem muito delicado e compreensivo, levou-me até o trabalho e lá fiquei por duas horas. Minha mente estava agitada: sentia uma terrível ansiedade, aliada a uma preocupação com os problemas que teria de enfrentar para sair com ela. O tumor no peito ficava bem na direção por onde passava a guia e certamente ela não poderia usá-la durante algum tempo. Aquelas duas horas foram terríveis para mim. Eu estava preocupada não apenas porque Emma estava anestesiada no veterinário mas instintivamente meus pés tocavam sua caminha, que ficava debaixo da minha mesa de trabalho. A todo momento eu esperava sentir seu nariz tocando meu joelho. Era como se eu tivesse deixado uma parte de mim em outro lugar. Era horrível. Dava-me uma sensação de vazio. Eu não podia nem imaginar alguma coisa acontecendo a Emma.

       Finalmente chegou a hora do almoço e o motorista da garagem levou-me novamente até o consultório do veterinário, estacionou o carro e esperou que eu fosse apanhar Emma. Subi os degraus segurando-me na grade. Toquei a campainha e fiquei aguardando na sala de espera. Em seguida o Dr. Davidson trouxe Emma. Ela ainda não tinha recuperado a consciência totalmente e pude perceber pelo seu modo de caminhar que ela ainda estava meio zonza. Mas sua recepção para mim foi maravilhosa! Abanava tanto a cauda que quase se desequilibrou e caiu; ouvi o ruído de suas patinhas agitando-se quando me viu. Mesmo naquele estado ela demonstrou muita alegria ao me ver.

       Depois de agradecer ao Dr. Davidson, coloquei a coleira em seu pescoço, em vez de usar a guia, e saímos. Eu fui andando bem devagar, tanto por mim quanto por Emma.

       Mas quando abri a porta, Emma adiantou-se e caminhou na minha frente. Eu não tinha certeza, mas achei que estávamos no alto da escada e ela tinha feito aquilo para me avisar sobre os degraus, já que não estava usando a guia e assim não podia me ajudar da maneira habitual; e por isso ela estava segurando a coleira com a boca para me guiar.

       Fomos para casa e Emma dormiu tranqüilamente diante da lareira a maior parte do dia, enquanto estava sob efeito da anestesia. Mas eu estava terrivelmente preocupada, imaginando qual seria o resultado do exame feito com o material do tumor. Tive um pesadelo de que me encontrava no centro de Nottingham, sozinha, sem Emma e sem Don, e havia algumas pessoas em torno de mim. Havia muito barulho e confusão. Eu estava tão aterrorizada que não conseguia dar um passo. Dois dias depois havia boas notícias na agência dos Correios: o resultado do exame dera negativo. Aquilo que eu descobrira em seu peito não passava de um quisto sebáceo e não havia nada maligno.

       Senti um enorme alívio.

       Emma ficou com um pequeno corte com cerca de quatro pontos. Para evitar qualquer contato, resolvi cobrir a incisão com um curativo. Emma deve ter ficado muito estranha com aquilo. Porque peguei um pedaço de pano, fiz um furo para que a cabeça dela passasse por ali, e amarrei as pontas do tecido que envolvia o curativo em suas costelas.

       Assim, não havia jeito de entrar poeira no ferimento. Todo dia eu trocava o curativo e, sempre que chegava o momento dessa troca, Emma adorava. Acho até que ela se sentia orgulhosa de sua nova imagem.

       Durante o período em que Emma não pôde trabalhar, senti-me desamparada. Acho que eu poderia ir fazer compras sozinha mas sem ela não sentia ânimo nem para ir ao portão de casa para levar o lixo. Ela estava comigo por tanto tempo que a simples idéia de deixá-la e sair sozinha era inconcebível.

       Felizmente logo depois ela pôde voltar a usar a guia porque a incisão cicatrizou depressa. Quando voltamos a sair juntas novamente, achei ótima aquela sensação de liberdade outra vez. E saber o que era viver sem aquela liberdade tornou a sensação maior ainda.

      

                   OS GATOS

       Pouco depois que me mudei para o novo bangalô de Beechdale ocorreu-me que eu poderia ter novamente um gato. Não tivemos gato em nossas vidas desde Tíss, mas agora eu podia satisfazer meu desejo: ter um gato siamês. Desde que eu, certa vez. quando levei Emma ao veterinário, conhecera uma senhora que tinha um filhotinho siamês, desejei ter um também. Segurei o gatinho em minha mão e fiquei encantada com sua maciez, elegância e tamanho, além do som gracioso que ele fazia.

       Pedi a Don para ver se no jornal havia algum anúncio de gatos siameses. Ele começou a procurar, até que certa noite achou o que desejávamos.

       — Siameses mancha vermelha — disse Don. — O que é isso?

       — Não faço a menor idéia, mas parece bem atraente, não acha? Qual o telefone?

       Telefonei para a criadora e ela me descreveu os gatos como tendo as orelhas, patas, cauda e focinho com coloração vermelho dourada. Os olhos eram cor de safira e o manto quase branco. Achei-os deslumbrantes. Marcamos um horário para eu conhecer os animais. Emma foi também, é lógico, pois além de me levar à casa da criadora ela também tinha de aprovar a escolha. Escolhemos um gatinho macho, com quatro meses, chamado Ohpas, que em siamês significa luz do sol.

       Algum tempo depois de ele estar conosco descobri que tinha pulgas e outros probleminhas e a conta do veterinário ficou bem alta para deixá-lo com a saúde perfeita.

       Mas não sabíamos disso naquela tarde em que o levamos para casa.

       Quando chegamos, deixei-o fora de sua caixinha, mas ele sentia tanto medo de tudo que se mexesse que foi esconder-se atrás da poltrona e não saiu mais de lá. Tentei tudo, mas sem êxito, para que ele deixasse o esconderijo. Algumas horas depois, quando eu estava sentada na mesa jantando, cortando um bife suculento, senti algo subindo em meu joelho: era Ohpas, obviamente. Então, para encorajá-lo (erradamente, como fiquei sabendo depois) cortei um bom pedaço de carne e lhe dei. Depois senti um toque um tanto mais autoritário no outro joelho. Era Emma. Sempre fora uma regra Emma não ganhar nada do que estivesse na mesa. Mas o que eu podia fazer? Para ser justa, tive de dar um pedaço de carne a ela também. E logo meus dois joelhos estavam recebendo ataques.

       Na verdade, Ohpas e Emma acabaram comendo juntos mais carne do que a dona. E eu estava com tanta vontade de comer aquele bife! Mas tive de me contentar com os tomates, já que os dois não se interessaram por eles.

       O mais maravilhoso em Ohpas era que ele adorava Emma. Sentava-se no sofá e ficava lambendo o focinho e as orelhas dela. Da mesma forma que Tiss, Ohpas parecia saber que Emma era algo especial dentre os cães e esse sentimento tornou-se evidente em todos os gatos que tivemos depois: era uma estranha comunicação de conhecimento entre os animais que fazia com que a relação entre eles e os seres humanos fosse claramente definida. E o papel e importância de Emma eram inconfundíveis para os gatos.

       O lado de professor distraído da personalidade de Ohpas tornava-se evidente quando ele comia. Os siameses gostam de levar a comida para o local em que deseja comer; não comem necessariamente direto da tigela onde estiver o alimento.

       Ohpas não era uma exceção e geralmente preferia levar sua comida para a sala de estar e sentar-se diante da lareira com todo o conforto. Sua rotina nunca mudava. Don, mais uma vez, descreveu-me exatamente o que. acontecia. Ohpas apanhava a comida na tigela, colocava-a junto da lareira e depois então, minuciosamente, lambia-se antes de tocar na refeição. Infelizmente, Emma ficava espiando o que acontecia. E no tocante à comida ela não conseguia deter sua tentação. Conseqüentemente a comida desaparecia num piscar de olhos e depois o ar enchia-se de um miado indagador: "Sei que havia um pedaço de carne ali, mas onde ele está agora?" Em seguida eu sentia um toque no joelho e ouvia novo miado interrogativo: — “Você sabe o que aconteceu com minha comida?" A solução mais simples, obviamente, era dar outro pedaço de carne para ele. Mas geralmente Emma estava observando tudo e à espreita, com o nariz no tapete, como um crocodilo, e a operação se repetia.

       Quando comprei uma siamesa, para fazer companhia a Ohpas, ela também gostou imediatamente de Emma. Era mais inteligente e tinha um nome de rainha: Ming. Emma, por sua vez, reconhecendo uma inteligência do mesmo nível da sua, moldou-a para que ela se tornasse uma parceira em seus crimes. A constante ganância de Emma só encontrava um obstáculo na casa. Ela não conseguia alcançar a estante de secar louça. Mas Ming foi treinada adequadamente para salvá-la. Não tenho idéia de como isso foi feito. Mas Emma a ensinou a subir na estante de secar louças (com o silêncio e a agilidade próprios da raça) e a jogar para ela qualquer sobra de comida ou até coisas mais gostosas. Don costumava observar esse desempenho extraordinário (quando as duas não sabiam que estavam sendo observadas). Foi ele quem me disse que Ming estava tão preocupada em conseguir comida para Emma que para ela mesma reservava apenas uma pequena parte.

       Eu passei a alimentá-los separadamente e Emma tinha o bom costume de não roubar comida das tigelas dos gatos enquanto eles comiam. Mas Ming sempre deixava um pouquinho e quando se afastava da tigela era o sinal para Emma se aproximar como um vândalo capino sobre a fartura de Roma e saquear não apenas o que Ming reservara para ela, mas qualquer resto que Ohpas tivesse inconscientemente deixado escapar.

       Tendo um macho, Ohpas, e uma fêmea, Ming, o casal produziu um resultado inevitável: uma ninhada de gatinhos siameses. Não foi nenhuma surpresa. Na noite em que Ming teve as crias, Don não estava comigo e tive a estranha sensação de que se alguma coisa saísse errada eu não saberia o que fazer. Mas tudo correu quase sem problemas.

       Primeiro ouvi um leve grito, anunciando que um filhote havia nascido; e logo depois senti Ming colocar alguma coisa nos meus pés. Avancei minha mão cautelosamente e toquei uma pequena e úmida bolinha peluda.

       Fiquei surpresa, pois sempre soube que os gatos eram muito possessivos com as crias. Por isso, peguei aquele animalzinho e o enrolei num lenço de papel; depois o entreguei a Ming. Pouco depois, ouvi novo gemido e Ming trouxe-me o segundo filhote... depois o terceiro... e aquela rotina repetiu-se cinco vezes.

       E ali estava eu com uma ninhada de cinco gatinhos! Depois da terceira semana, eu tive de me ocupar do desmame deles, o que foi um tanto difícil para mim. A regra é preparar um pouco de leite em pó, daqueles usados para recém-nascidos, molhar a ponta do dedo no leite e deixar os gatinhos mamarem no dedo. Minha dificuldade era encontrar-lhes a boca e por isso às vezes eles recebiam leite na orelha! Mas afinal conseguimos.

       Não demorou muito para que eu decidisse mostrar os siameses, o que pode parecer um disparate. Mesmo assim achei que devia tentar. Os amigos me ajudaram e apesar de não poder enxergar eu sabia como tratar dos gatos e como saber se estavam limpos. Ohpas, que era branco, ficava cheio de marcas de poeira, mas Don ajudava-me, dizendo onde elas estavam, e assim eu podia limpá-las. As orelhas eu limpava com algodão e Don depois fazia a inspeção. Minhas viagens com os gatos necessitaria de um livro à parte, mas basta dizer que o saguão de minha casa está cheio de recordações e elogios das exibições feitas por todo o país.

       Na verdade, exibir Ohpas era menos problemático do que exibir a nova geração: os cinco gatinhos de Ming. Quando eles começaram a crescer, comecei a me perguntar se eu não estava ruim da cabeça. Os siameses não possuem apenas inclinações belicosas, mas são delinqüentes em alto grau. Eles subiam e desciam pelas cortinas e corriam pela sala de estar a mais de 70 quilômetros por hora, por cima das mesas, cadeiras e da cornija da lareira; pareciam uma miniatura concentrada dos Anjos do Inferno quando começavam a bagunçar tudo pela casa.

       Eu vivia me desculpando por causa deles. Certa noite, Don veio me ver e disse, surpreso:

       — Eu não sabia que você ia começar a rasgar o papel de parede.

       Já que sabia que ele não aprovaria, tive de dizer que de repente tinha resolvido que o banheiro precisava ser redecorado; não preciso nem dizer que a ninhada de Ming era a responsável por aquilo.

      Os problemas que eles causavam eu não podia ver, mas sabia que estavam acontecendo. O pior é que eu nunca podia saber onde cada um deles estava em determinado momento e às vezes isso me preocupava. De vez em quando eu fazia uma chamada geral. Aprendera a reconhecer pelo tato todos os gatinhos, o que era agradável, já que visualmente era difícil identificá-los. Mas eu conseguia distingui-los até pelo peso, que variava levemente, ou pelo formato das cabeças, ou até pelo comprimento do corpo e da cauda.

      Nessa época estava surgindo em mim uma nova ansiedade sobre Emma. Uma vez por ano ela devia passar por um teste na Associação de Cães-Guias. Devia ir a esse exame em janeiro de 1975, mas fiquei preocupada porque ela já estava com mais de 10 anos. Eu temia que ela pudesse ser aposentada só por causa da idade. Alguns amigos meus que tinham cães-guias naquela faixa de idade estavam recebendo avisos para aposentar os animais e irem apanhar outro cão. Eu não gostava nem de pensar nisso. Falava sempre com Don a respeito e ele dizia:

       — Não precisa se preocupar. Mesmo se ela tiver de se aposentar posso levá-la todos os dias para o trabalho comigo. Ela ficará bem. Será feliz.

       Bem, talvez ficasse, pensava, mas era uma perspectiva terrível e desoladora a encarar.

       Eu sabia que na verdade não perderia Emma, mas a simples idéia de qualquer outro cão fazendo o trabalho dela, de estar na guia junto comigo, parecia uma deslealdade.

       Era algo inimaginável. Eu ficava pensando em todos aqueles anos, minha primeira noite no centro de treinamento e como Dotty tinha chorado. Agora, diante da mesma situação, eu podia entender por que ela se sentia desgostosa em ter de substituir seu primeiro cão.

       Eu não aceitava ter de desfazer a nossa parceria. Emma já fazia parte de mim. Mas a carta da Associação de Cães-Guias dizia que o treinador chegaria na quinta-feira às duas horas e eu temia o que ele poderia me dizer, embora soubesse que Emma trabalhava tão bem quanto qualquer outro animal mais novo; era esperta, cheia de energia como sempre.

       O treinador não analisa apenas se o cão continua bom para o serviço, mas também se o dono do animal está ajudando no trabalho de equipe e se não foram adquiridos hábitos não condizentes com o trabalho desde a última visita.

       Fiquei imaginando, então, como provar isso, embora considerasse o caso irrelevante diante de minha preocupação com Emma.

       Ele chegou às duas horas e Emma estava ótima naquele dia, depois que coloquei sua guia e ela ficou concentrada no serviço.

       — Vou pelo centro da cidade — sugeri — se não houver problema para o senhor. É nosso caminho habitual para a estação de ônibus.

       O treinador era um homem muito gentil, Sr. Soames, e disse que estava bem. Não estava um dia dos melhores. Soprava um vento muito forte e levamos uma lufada de neve no rosto. Mas prosseguimos a caminho da parada de ônibus e Emma. parecia a menos perturbada de todos. Caminhava pela calçada como sempre fazia. Numa esquina, ouvi dois cachorros rosnando e latindo um para o outro; torci para que nada acontecesse. Emma não lhes deu atenção e continuou seu trajeto.

       Enquanto andávamos, percebi mais uma vez como ela gostava de trabalhar no centro da cidade. Ela se desviava aqui e ali das pessoas na calçada movimentada, atravessava os cruzamentos sinalizados ao ouvir o sinal e parecia andar mais depressa que o normal. Quando chegamos à parada de ônibus, onde terminava o teste, eu estava exausta.

       Esperei pela decisão. Estava resolvida a dizer que me recusaria a aposentar Emma, caso a decisão fosse negativa. Depois de algum tempo, o Sr. Soames disse:

       — Eu vi Emma há quatro ou cinco anos.

       — Ah, é? — respondi, imaginando aonde ele queria chegar.

       — É sim. Você não passou graxa marrom no nariz dela, passou?

       — Graxa de sapato? Claro que não. - (Aonde queria chegar com aquilo? O que estaria querendo dizer?).

       — Bem, mas é muito estranho. Ela não tem nenhum pêlo branco.

       — Sim, as pessoas me dizem que ela não tem pêlos brancos e, que ainda parece muito nova.

       — Parece mesmo - respondeu o Sr. Soames — parece muito nova.

       Ainda tive tempo de pensar: ele vai me dizer que ela parece nova, mas que apesar disso já tem idade... Quando então ele disse:

       — Não, ela não mudou nada. Parece ter a mesma idade que tinha quando a vi pela última vez.

       — Não mudou mesmo — concordei.

       Mas o Sr. Soames não disse mais nada e eu subitamente perguntei:

       — Quer dizer que não vai aposentá-la, não é?

       — Aposentá-la? — ele indagou, parecendo muito surpreso. Aposentar Emma? Não, não, claro que não. Meu Deus! Depois riu. - De acordo com o seu comportamento hoje, acho que ela vai trabalhar até os 18 anos.

       Era como se o sol de repente surgisse e brilhasse em meu rosto: que maravilha! Despedi-me do Sr. Soames e então Emma e eu fomos para casa. No caminho de volta, parei para comprar um novo osso de borracha para ela. E à noite Don e eu saímos para comemorar.

       Pouco depois disso tivemos uma felicidade maior ainda. Depois de todas as incertezas e das noites de solidão, durante cinco anos de espera, Don estava finalmente livre para casar-se comigo.

       No entanto, eu não quis sair correndo para contar a todo mundo e fazer um casamento muito pomposo. Achava que nosso amor era algo muito particular e queria dividi-lo apenas com minha família e mais uma ou outra pessoa amiga. Quando convidei essas pessoas, ficaram todas muito emocionadas.

       — O que devo vestir? - perguntei a Don.

       — Bem, querida, depende de você.

       — Vou usar alguma coisa verde — disse eu, pois associava verde à primavera e a todas as coisas agradáveis e bonitas. No dia seguinte, saí para fazer compras com minha mãe. Ela olhou uma porção de vestidos até escolher um que lhe agradasse a vista e me agradasse ao tato. Mas Emma estava lá para opinar também. Achei que talvez ela devesse colocar alguma coisa na cabeça. Mas depois Don e eu decidimos que isso não ficaria bem para nossa dama de honra.

       Finalmente chegou o dia. Estava muito frio quando Emma e eu saímos de casa para tomar o táxi que nos levaria ao cartório. Mas eu sentia o calor do sol em meu rosto, como a sensação que havia dentro de mim. Emma recebeu permissão especial para entrar no cartório, particularmente porque eu disse que me recusava a casar sem apresenta dela.

       Achei que estava tremendo um pouco quando empurrei a pesada porta. Eu quase não acreditava que aquilo estivesse acontecendo, que Don fosse ficar comigo para sempre.

       Dentro do cartório, ouvi a voz dele dizendo:

       — Olá, querida. — Ele segurou minha mão. — Você está linda.

       Quando pegou minha mão, senti que ele também estava tremendo e eu mal pude dizer o "sim" diante do juiz. Emma deve ter sentido a grande tensão, pois no meio da cerimônia ela encostou o nariz molhado na minha mão esquerda, como se estivesse me dando apoio moral.

       Depois tudo acabou. Don e eu saímos de lá de mãos dadas. Senti os confetes que os poucos convidados jogavam; minha mãe e meu pai me abraçaram. Mas acho que só consegui perceber o que estava acontecendo ao meu redor — e o que tinha realmente acontecido — quando Graham aproximou-se e chamou:

       — Sheila, quer dizer, Sra. Hocken.

       Aí fiquei certa de que era tudo verdade. Não precisei me beliscar para ter certeza de que não estava sonhando.

       Sim, disse para mim mesma, lembrando-me de que eu achava que nunca me casaria. Sr. Sra. Hocken. Era o que mais importava no mundo. E no pequeno bangalô que era agora a nossa casa, o champanha espocou até de madrugada, celebrando aquele acontecimento feliz.

      

                  Uma Esperança

       Num frio dia de janeiro de 1975, Emma e eu tínhamos acabado de chegar do trabalho, depois de fazer algumas compras no caminho de volta. Quando coloquei a chave na porta da frente, escutei o telefone tocando. Por alguma razão a chave não queria rodar na fechadura e lembro-me de que comecei a ficar impaciente, tentando virá-la de qualquer jeito, com medo de que desligassem. Quando finalmente consegui entrar em casa e atendi, ouvi a voz do meu irmão Graham.

       Graham, como já mencionei, tinha um problema de visão similar ao meu; mas, apesar de ter perdido completamente uma vista devido a uma cirurgia malfeita, quando era menino, ainda tinha - ao contrário do meu caso - um resto de visão. Além disso, estava constantemente procurando meios de melhorar a pouca visão de que dispunha.

       Estava me telefonando para contar sua mais recente tentativa. Ele tinha ido a um oftalmologista a fim de tentar usar lentes de contato. O médico, porém, aconselhou-o a procurar um especialista chamado Dr. Shearing. Ao fazer a indicação, o médico havia dito:

       — O homem é realmente muito bom. Há muitas técnicas novas que ele utiliza. Vá procurá-lo.

       Assim, a despeito da relutância de minha família, e de Graham em particular, em procurar especialistas ou de envolver-se com cirurgia dos olhos devido à má experiência do passado, Graham fora procurar o Dr. Shearing, que era um cirurgião-oftalmologista.

       Eu estava excitada com o interesse dele e antes mesmo que ele pudesse dizer: "Olá, Sheila", eu perguntei:

       — Como foi? O que aconteceu?

       — Bem — respondeu — boas notícias e más notícias. Ele disse que seria muito simples retirar o cristalino sobre o qual está a catarata, mas que no meu caso ele não gostaria de correr o risco porque só há cerca de oito por cento de possibilidade de êxito. Já que enxergo um pouco, ele acha que seria terrível se a operação não tivesse êxito. Pediu que eu esperasse um pouco para ver se surge alguma técnica nova; de qualquer modo, quanto mais velho eu ficar mais fácil se torna a operação. Porque, como você sabe, com a idade o cristalino endurece e assim fica mais fácil de ser quebrado e retirado, sem afetar o restante do olho.

       Senti-me um pouco desalentada, mas ele continuou falando.

       — Acho que você devia procurá-lo. Ele é um sujeito muito delicado, objetivo e muito simpático. Pode ser que possa fazer alguma coisa por você.

       Achei que Graham estava certo. Que mal haveria em simplesmente expor meu caso a um especialista? No dia seguinte, telefonei para ele e marquei uma consulta. Ao desligar o telefone, percebi que estava trêmula.

       Suponho que isso se deva ao fato de eu ter sempre aceitado, num nível consciente, o fato de ser cega. Mas num nível mais profundo, como todos os cegos, eu jamais aceitara isso. Fica sempre uma vozinha no fundo da mente insistindo:

       "Preciso ver. Não posso continuar assim." Mas essa voz era sempre calada, abafada, posta para fora da mente, porque se a pessoa prestar atenção nela nunca será mais que um monte de tristeza, incapaz de participar das coisas da vida, por se sentir limitada pelo fato de não enxergar.

       Acho que fazer o máximo possível dentro do que pode ser feito é a única forma de se sobreviver apesar da cegueira. Fico sempre angustiada quando conheço pessoas que perderam a visão e que nunca se preocuparam em aprender braile.

       Disse "nunca se preocuparam", mas a frase não está correta. Se eu dissesse que elas eram "incapazes" também estaria errado. O que existe por trás de sua atitude é uma obstinada e mal orientada falta de esclarecimento dos fatos como eles são. Elas preferem sonhar.

       Porque estão realmente convencidas de que um dia recuperarão a visão. Falam sempre sobre o último especialista que visitaram ou sobre a operação que vão fazer ou, pior: "Disseram que a próxima operação. . .” e "Esperam que dentro de alguns anos. . .”

       É tudo compreensível, mas muito triste também, porque esse tipo de esperança impede que a pessoa toque a vida de acordo com o que aconteceu realmente. Eu sempre tentei lidar com a aceitação dos fatos. Somente quando pensei na possibilidade de enxergar novamente foi que a frustração e o completo ódio de ser cega surgiram. E ali estava eu, trêmula, por sentir aquela esperança.

       Era preciso esperar três semanas antes de ser atendida pelo Dr. Shearing. As esperanças aumentaram e a raiva da cegueira tornou-se mais intensa. Minha imaginação vagou à larga. Quando marquei a consulta, disse a Don:

       — Está marcada. Não é fabuloso? Vou começar a economizar para poder comprar um carro. Assim poderei ir a qualquer lugar.

       A idéia de ter de fazer um exame nunca passou pela minha cabeça. E depois continuei:

       — Vou poder me associar à biblioteca pública. Mal posso esperar para percorrer todas aquelas prateleiras. Poderei ler qualquer coisa que escolher.

       — Sim — respondeu Don — é maravilhoso. — Mas a voz dele não me pareceu tão entusiasmada quanto deveria.

       — Qual o problema? — perguntei.

       Então ele tentou me dizer, da maneira mais delicada e jeitosa possível, para não construir muitos castelos de areia. Ele queria me encorajar, mas não desejava que eu me sentisse arrasada se as coisas não dessem certo. Entendi o que ele queria dizer. Ouvi tudo que ele disse; queria apenas me proteger. Mas mesmo assim eu não podia deixar de sonhar. Deixei a alegria tomar conta de mim. Sim, podia não dar certo. Mas e se desse? Era uma pergunta que eu não podia evitar. Deve ter sido uma situação difícil para Don, pois, ao mesmo tempo em que não queria colocar água fria em minhas esperanças, tinha medo de que aquilo que eu mais desejava na vida não acontecesse.

       E durante as três intermináveis semanas que tive de esperar pela consulta do Dr. Shearing minha imaginação percorreu todas as incontáveis possibilidades que a visão significaria para mim. Finalmente chegou o dia da consulta – uma sexta-feira. Graham disse que iria comigo porque o consultório ficava longe e mesmo com Emma seria difícil eu fazer o percurso através de ruas desconhecidas. Queria ser o primeiro a saber a notícia: ele tinha um grande interesse no resultado da consulta.

       Ficou acertado que nos encontraríamos no ponto do ônibus. Eu disse a Emma que íamos encontrar Graham, (ela sabia os nomes de todos os meus amigos e parentes)

e quando chegamos lá senti que ela já o tinha visto. A cauda começou a balançar, fazendo cócegas na palma da minha mão, e ela apertou o passo. Quando chegamos perto dele, ela sentou-se.

       Graham me recebeu dizendo:

       — Você está adiantada. O ônibus ainda não chegou.

       — É, eu sei. Eu não queria perdê-lo e por isso cheguei bem antes.

       Depois ouvi o ônibus se aproximando. Emma puxou-me e encontrou um lugar para mim , como sempre, deitou-se debaixo do banco enquanto Graham sentou-se a meu lado. Ele não gosta muito de conversar e por isso fizemos a viagem calados. Andamos de ônibus cerca de uma hora. Quando deixamos para trás os ecos da estação rodoviária e começamos a caminhar em meio ao tráfego senti-me excitada. E todos os pensamentos sobre a possibilidade de enxergar começaram a passar por minha mente. De repente pensei em Emma e pela primeira vez minha preocupação de ser obrigada a ter outro cão por causa da idade dela desapareceu.

       Pela primeira vez pensei: se eu voltasse a enxergar, Emma não precisaria mais me guiar; eu poderia levá-la para passear como os outros cachorros; a dupla de nove anos, com tudo que isso representava, não teria de ser desfeita. Esta possibilidade era maravilhosa.

       Graham foi nos explicando o caminho do consultório. Quando chegamos na porta ele disse que nos deixaria lá porque precisava fazer algumas compras. Tocamos a campainha e ele se despediu:

       - Dentro de meia hora estarei de volta. Boa sorte.

       A porta foi aberta e meu nariz foi invadido por aquele aroma de limpeza e assepsia misturado com o cheiro de assoalho encerado. A recepcionista levou-me até a sala de espera e fiquei sentada lá, sozinha, com Emma a meu lado.

       Pouco depois ouvi a porta do consultório ser aberta e uma voz muito suave dizer:

       — Sra. Hocken? — Levantei-me imediatamente. — Quer entrar, por favor?

       Ema guiou-me pela sala de espera e depois através de um corredor estreito. Finalmente chegamos ao que me pareceu uma sala bem grande e toda acarpetada. Senti que a lareira ficava diante de mim e Ema foi direto para junto dela.

       — Então, jovem, em que posso servi-la?

       — Desejo saber se o senhor pode me ajudar.

       Houve um silêncio profundo, quando pude escutar o tique-taque do relógio à minha esquerda e o ruído da lareira a gás. Imaginei depois que o Dr. Shearing deve ter tido uma surpresa ao ver alguém entrar em seu consultório conduzido por um cão-guia: diante disso, possivelmente, um caso sem esperança.

       Depois, então:

       — Bem, quer sentar-se?

       Eu disse a Emma para achar uma cadeira. Toquei-a com a mão, depois tirei a guia de Emma e sentei-me.

       — Qual o seu nome, jovem?

       Achei logo que ele tinha uma péssima memória, já que não podia nem lembrar do meu nome.

       — Sheila Hocken - respondi.

       — Não, não. Desta criaturinha adorável que está sentada ao seu lado.

       — Ah, sim. É Emma.

       — Emma. Sim. Combina com você. - Eu ouvi quando ele começou a passar a mão no pêlo dela. Depois voltou a falar: Eu tinha dois boxers.

       — Boxers? Adoro boxers. — Indaguei sobre os animais e ele me contou todos os detalhes sobre eles. Haviam morrido de velhice.

       — O senhor não tem nenhum cachorro agora?

       — É, tenho um bloodhound. São muito voluntariosos os bloodhound. Muito voluntariosos.

       Eu estava gostando de conversar sobre cães, mas fiquei imaginando se estávamos dando voltas para não tocar no assunto principal, por ser algo difícil de se falar.

       Estava ficando nervosa. Mas finalmente ele pediu que eu lhe contasse tudo sobre meus olhos.

       Expliquei-lhe o fator hereditário e que tinha procurado por ele depois da consulta que meu irmão lhe fizera. Ele não dizia nada enquanto eu falava.

       Quando terminei, ele me levou para outra cadeira e colocou algumas gotinhas em meus olhos para dilatar as pupilas a fim de poder fazer o exame.

       - Vou deixá-la aqui um instante, para que o remédio faça efeito.

       Dentro de 10 minutos estarei de volta.

       Ouvi-o sair da sala e fechar a porta. Novamente só podia ouvir o relógio e o chiado da lareira. Só que desta vez o ronco de Emma fazia um estranho contraponto com o tique-taque do relógio. Não conseguia ouvir nada do lado de fora e no ar só identifiquei um leve cheiro de fumaça de charuto.

       Ele voltou, ao que me pareceu, em menos de 10 minutos. Senti-o examinando meus olhos. Sussurrava alguma coisa durante o exame, findo o qual disse-me de modo delicado:

       — Muito bem, venha se sentar numa cadeira mais confortável.

       Ele me levou até onde eu estivera sentada antes e o ouvi brincar novamente com Emma. Pelos sons que fazia ela estava gostando daquilo.

       Eu estava ansiosa para lhe perguntar o que ele achava, o que tinha visto. Mas ele continuou brincando com Emma, dizendo a ela que a achava muito bonita. Quase fiquei impaciente, mas permaneci sentada e esperando.

       — Bem, jovem — disse ele, finalmente. — O que espera que eu diga?

       O que eu esperava? Não sabia. Nem imaginava. Era uma sensação estranha colocar em palavras a possibilidade que eu, desejava tanto ouvir. Mas respondi:

       — Não sei. Eu esperava, depois que meu irmão veio consultá-lo...

       — Bem — disse o Dr. Shearing — você sabe que tem cataratas. Mas sabia desse problema na retina?

       Eu bem sabia daquele problema na retina, mas isso é da natureza humana. Eu havia empurrado aquele desagradável e desanimador pensamento para o fundo da minha mente nas últimas cinco semanas. Só assim conseguira pensar na possibilidade de enxergar. Eu tinha me esquecido daquilo por completo.

       Mas lembrei-me naquele instante.

       — Sim — respondi em tom baixo. — Agora me lembro. Mas o que isso implica? O senhor pode me explicar?

       — Vou tentar. Você tem catarata e é claro que aqui estamos falando de catarata congênita, em que a retina, dependendo da espessura da catarata, não tem como se desenvolver adequadamente. Quanto mais espessa a catarata, menor chance a luz tem de atingir a retina, e assim a retina tem menos chance de se desenvolver.

       Fez uma pausa e depois prosseguiu:

       — Se a catarata for muito espessa, a luz não pode atingir o fundo dos olhos. E como foi isso que aconteceu com você, suas retinas não se desenvolveram.

       — Eu compreendo — respondi, com o coração apertado. Mas o senhor não pode fazer nada?

       Ele ficou calado algum tempo, que me pareceu um século. Senti minha mente ficando como que gelada e vazia e estranhamente entorpecida. Eu me sentia incapaz de raciocinar ou de qualquer reação além de desejar subitamente me levantar e sair e não ouvir mais o que ele tinha a me dizer.

       Mas então, para minha total surpresa, ele respondeu:

       — Sim. Acho que posso fazer alguma coisa. Posso pelo menos tentar. Posso tentar retirar o cristalino, ou parte dele, e ver qual será o resultado.

       Bem, assim seria, pensei. E então entrei numa onda de excitação.

       Perguntei imediatamente:

       — Como seria minha visão? Quanto eu poderia ver?

       Mas a resposta dele pós meus pés novamente no chão. E sentada na cadeira, cercada de escuridão.

       — É uma pergunta muito difícil, jovem. Simplesmente não sei.

       — Mas — insisti, porque precisava saber tudo que fosse possível, apesar das conseqüências — se o senhor fizesse uma operação e ela fosse coroada de êxito, eu ainda precisaria que Emma me guiasse? Eu poderia ler, por exemplo?

       — Bem — disse ele — acho que você ainda precisaria de Emma e, quanto a ler, bem, jovem, não faço milagres.

       Senti-me desolada. Todos aqueles sonhos do que eu faria e não do que talvez pudesse fazer. Eu havia esperado um milagre e devia saber que isso não seria possível.       Ele era um homem muito gentil e deve ter visto minha expressão de desapontamento. Disse depois, com a voz cheia de compaixão:

       — Agora, jovem, não posso lhe prometer nada. Você esperava de mim uma promessa que você mesma sabia que não poderia ser cumprida. Talvez possamos fazer com que você enxergue um pouco, talvez não. Vale a pena tentar, não? Um pouco que fosse seria melhor do que o de agora, não?

       É claro que ele tinha razão.

       — Sim — respondi — qualquer coisa seria melhor do que nada. Nada tenho a perder.

       Quando lhe perguntei por que o caso de Graham tinha possibilidade de recuperação total da visão, ele explicou que as cataratas do meu irmão eram muito pequenas, se comparadas com as minhas, e as retinas não estavam afetadas. Ele disse ainda que as minhas retinas, devido ao seu subdesenvolvimento, não seriam capazes de captar os detalhes. Já não tinham flexibilidade.

       Mas naquele momento eu sabia que deveria tentar o que era possível.

       Perguntei, então:

       — Devo voltar para a operação?

       — Não há motivo para pressa, jovem. Vá para casa, pense e me dê a resposta na segunda-feira.

       Senti-me completamente abatida. Quando saí do consultório do Dr.

       Shearing, Graham perguntou:

       — E então?

       — E então, nada.

       — Nada? O que você quer dizer com isso? Ele deve ter dito alguma coisa.

       Caminhamos até o ponto de ônibus e contei a Graham mais ou menos tudo que havia acontecido durante a consulta. Graham suspirou fundo.

       — Que pena. Pensei que talvez você pudesse recuperar quase toda a visão.

       — É claro que não.

       — O que você   vai fazer?

       —Vou fazer a operação. — Entramos no ônibus e Emma deitou-se debaixo do banco enquanto fazíamos o trajeto de volta a Nottingham. Eu e Graham não trocamos uma só palavra.

       Quando Don chegou tentou me confortar, mas eu fiquei sentada, sentindo-me como uma condenada. Até aquela tarde houvera a esperança de que algum dia as coisas melhorassem. Mas aquelas últimas horas pareciam ter acabado com essa possibilidade que, embora existisse, mais parecia uma formalidade para provar que não havia chance alguma e que nunca houvera.

       Eu precisava fazer a operação, mas tinha de encarar a grande possibilidade de ficar cega para o resto da vida. Então Don me salvou daquela situação. Ele lembrou que quando eu era pequena e ainda enxergava um pouco os especialistas haviam dito que eu me tornaria totalmente cega. Mas, embora eles estivessem quase inteiramente certos, pois haviam predito uma escuridão completa, eu ainda era capaz de distinguir luz e escuridão. O que não me adiantava de nada. Mas eu podia fazer esta distinção.

       E esse pensamento começou a me alegrar. E se o Dr. Shearing estivesse errado também? De qualquer forma, nenhum especialista prometeria um milagre. Os milagres aconteciam, mas prometê-los significava que eles não aconteceriam. E por isso, quando fui me deitar estava um pouco mais alegre por causa do amor e do encorajamento de Don.

       Na segunda-feira, telefonei para o Dr. Shearing e disse que faria a operação. Quando desliguei, minha esperança ainda estava viva.

      

                   HOSPITAL

       Disseram-me que eu teria de esperar um ano para me submeter à operação. A carta dizendo-me que estava tudo pronto para a intervenção chegou em setembro, de forma que o prazo fora reduzido para cerca de nove meses. Mas foram nove meses que eu jamais gostaria de viver novamente.

       A carta chegou me dando um prazo de apenas quatro dias para a data da operação, e isso foi um alívio. Tive de organizar tudo tão depressa que havia poucos instantes para ficar pensando e tornar-me ansiosa. Eu tinha de ir numa quarta-feira, 3 de setembro. A véspera parecia o último dia do ano velho, quando se fica pensando: esta é a última vez que faço isso este ano. No trabalho todos me desejaram sorte e uma das garotas chegou para mim e disse:

       — Espere só até você voltar. Poderá ver todas nós. O que pensará de nós?

       — Não sei — respondi — mas não seria maravilhoso?

      Ela estava mais confiante do que eu. Em mim havia uma enorme esperança, não uma certeza. Mas eu não podia fingir que não havia pensado um sem-número de vezes sobre as identidades visuais das pessoas que eu conhecia tão bem pela voz. Eu tinha uma imagem sobre suas personalidades e sobre como deveria ser o escritório. Na verdade, tinha imagem sobre tudo e sobre todos, mas era estranho pensar que estava saindo daquele lugar pela última vez como cega.

       Quando cheguei em casa, ouvi Emma bebendo água em sua tigela, depois o som de suas patas na sala de estar e pensei: "Esta deve ter sido a última vez que você precisou me guiar a algum lugar, Emma." Depois então eu a segui, sentei-me e comecei a pensar nos últimos detalhes   práticos concernentes a minha ida para o hospital.

       Don, logicamente, ficaria cuidando de Emma. Ele a levaria para o trabalho e ela o acompanharia no carro para onde ele fosse. Como o aviso do hospital chegou muito em cima da hora, não houve tempo para ele desmarcar seus clientes. E por isso Don não poderia me levar ao hospital. Mas Deirdre, uma amiga minha que era enfermeira, me levaria.

       Na manhã seguinte, levantamos bem cedo e, graças a Deus, as providências da véspera evitaram maiores preocupações além de uma leve pontada que eu sentia no estômago.

       Antes de Don sair, eu disse:

       — Não esqueça de dar os biscoitos a Emma. E não esqueça do leite pela manhã...

       Don respondeu de modo paciente:

       — Você sabe que vou tomar conta de Emma. Não se preocupe. Ela é quase tão parte de mim quanto é de você.

       E eu sabia que isso era verdade. Depois ele me beijou e falou:

       — Boa sorte.

       Eu respondi qualquer coisa irreverente como: "Vou precisar mesmo." Mas as palavras serviam apenas para mascarar o que nós dois estávamos sentindo. Quando ele já estava saindo com Emma, eu disse.

       — Não sei como vou enfrentar isso sem vocês dois perto de mim.

       — Não se preocupe. Tudo correrá bem. E estarei lá à noite.

       Depois disso, ele e Emma foram embora. Ouvi o barulho do carro e logo depois o ruído do motor se afastando.

       Eu nunca ficara longe de Emma nesses nove anos, exceto quando ela se operou, e mesmo assim por duas horas apenas. Sem Don e sua constante presença tranqüilizadora, a idéia de que a operação seria bem-sucedida desapareceu.

       Felizmente Deirdre não demorou muito para chegar, e veio com muitas delicadezas e palavras que me restituíram a confiança. Minha mala estava pronta. Conversamos muito no caminho para o hospital. Lá chegando, ela cuidou da internação, e quando me levaram se despediu de mim com as mesmas palavras de Don:

       — Boa sorte.

       — Obrigada, Deirdre.

       Na sala de internação, fui recebida por uma estudante de enfermagem, moça muito agradável chamada Jasmine.

       — Sra. Hocken, quer vir por aqui?

       Ouvi o som de seus passos afastando-se e pensei: "E agora, o que faço?” Ela com certeza não sabia que eu não enxergava. Fiquei parada ali, sentindo-me uma tola, e imaginando se haveria alguém olhando para mim. Depois ouvi a enfermeira voltando e desculpando-se. Acho que ela estava mais embaraçada do que eu. Segurei no braço dela para seguirmos até a enfermaria onde eu ficaria.

       Enquanto caminhávamos, juntamente com todos os outros sentimentos que me invadiam naquele momento, havia a sensação de não gostar de hospitais. Eu tinha medo deles.

       Não entrava num hospital desde os tempos de criança, e ainda os imaginava como lugares sombrios com poderes sobre a vida e a morte.

       Felizmente, nos dias que se seguiriam, essas idéias melancólicas desapareceriam rapidamente. Quando cheguei ao meu leito, Jasmine perguntou se eu queria trocar de roupa.

       — A senhora pode fazer isso?

       — Sim, obrigada — respondi. E acrescentei: — Preciso me deitar?

       — Não — respondeu Jasmine — apenas vista a camisola. Aqui os pacientes só vão para a cama à noite, já que não há ninguém realmente doente. Pode ficar na enfermaria, se quiser, ou ir para a sala de estar.

       — Ótimo — respondi. Em seguida ela perguntou:

       — Quer alguma revista. . . — mas interrompeu a frase. Desculpe, sinto muito. A senhora não pode ler, sinto muito.

       — Não tem problema — respondi — mas eu posso ler. Trouxe algumas revistas em braile comigo.

       Jasmine, como fiquei sabendo, nunca vira nada em braile antes. E ficou fascinada. Observava meus dedos enquanto eu lia uma das revistas e lhe explicava como fazer com as contrações e abreviaturas.

       — Bem — disse ela — acho que eu não saberia fazer isso. Levou-me em seguida da enfermaria para a sala de estar. No caminho, mostrou-me como era a enfermaria para que eu conhecesse o trajeto e soubesse quantos degraus havia do meu leito para o banheiro quantas camas havia de cada lado e assim por diante.

       Na sala de estar havia uma atmosfera completamente diferente da que eu esperava. Era um lugar muito aconchegante, onde me senti muito à vontade. Todos ficaram surpresos pelo fato de eu não enxergar. E na verdade eu nunca enxerguei muito bem. Os pacientes quase todos eram pessoas de mais idade, que estavam ali para remoção de cataratas.

       Por isso alguns estavam muito confusos com a parcial perda de visão e não conseguiam caminhar com facilidade. Tendo se acostumado a ver perfeitamente durante toda a vida, aquilo era algo terrível. Logo percebi que eu era, na verdade, a pessoa que estava na situação menos inconveniente.

       Tive de esperar a operação durante dois dias: a quarta-feira da intemação e a quinta-feira. O Dr. Shearing foi me ver no segundo dia e ficou um pouco comigo em meio às outras visitas que deveria fazer. Eu sabia que ele estava na enfermaria por causa do leve odor de fumaça de charuto que penetrava pela porta: ele devia ter ido à sala da madre para fumar um charuto. Ele me explicou um pouco mais sobre a operação; contou como era feita no passado e falou sobre as novas técnicas de cirurgia nos olhos. Num paciente jovem, a catarata é relativamente mole e aderente (enquanto que nos pacientes mais idosos ela já endureceu) e faziam-se tentativas de abrir orifícios no cristalino ou de se retirar parte dele, o que geralmente resultava em descolamento da retina. Mesmo quando não acontece isso, os orifícios que foram feitos acabam cicatrizando como uma crosta e o paciente ficava pior do que quando tinha entrado no hospital.

       O Dr. Shearing explicou que ele pretendia retirar a parte central do meu cristalino. O cristalino, segundo me explicou, era como uma cebola, com as camadas de tecidos superpostas; de modo que, retirando-se a parte central e deixando-se a parte externa, a retina ficava protegida e a luz entraria no olho pelo centro. Ele não fazia idéia, no entanto, de como estaria minha retina, além do fato de que não tinha se desenvolvido normalmente. Com esse tipo de retina, disse ele, era impossível obter uma visão com detalhes.

       Era maravilhoso conversar com ele e, embora isso não fizesse com que eu perdesse o medo, sentia confiança nele. Don foi me ver nas duas noites antes da operação.

       — Amanhã a esta hora tudo estará terminado — disse eu.

       — Sim — respondeu Don, sem conseguir esconder a ansiedade. — Pensarei em você o dia todo.

       Não conversamos muito além de falar sobre o que Emma havia feito e como gostara de andar de carro com Don. A maior parte do tempo ficamos sentados, unindo nossas esperanças.

       Dormi rapidamente aquela noite e na manhã de sexta-feira acordei com uma sensação agradável, sentindo-me no alto do mundo. Todas as preocupações pareciam ter desaparecido.

       Eu sabia que aquele era o dia da operação, mas em vez de ficar com medo, simplesmente pensei: "Que maravilha, estou contente por estar aqui e não estou preocupada. Que maravilha.”

       Senti-me assim, mesmo diante do estudante de medicina que foi me ver.

       Por volta das nove horas, fui levada para a sala de operações.

       Embora o caminho parecesse muito longo, não alterou a agradável sensação que sentia. Não era felicidade, mas sim uma sensação de que algo realmente importante estava prestes a acontecer e que eu não precisava temer. Na ante-sala o anestesista deu-me a última dose da injeção e lembro-me apenas de, ir pensando: "Este é o momento ... o momento de. . .”, mas as palavras não se formaram.

       Voltei direto para a enfermaria. Cerca de quatro e meia da tarde. Meu primeiro pensamento foi: "Acabou, graças a Deus, acabou." Eu sabia que estava com os olhos vendados, de modo, que não poderia saber imediatamente se a operação produzira bons resultados. Lembro-me de que pensei: "Logo “saberei.” Porém mais que tudo eu sentia sede. Tinha a impressão de que beberia uma cachoeira inteirinha. Mas não conseguia fazer o esforço de pedir água.

       Fiquei deitada ali, ouvindo ao longe as pessoas indo e vindo e o ruído agora familiar das divisórias sendo puxadas e outros barulhos característicos de hospital. Depois de aproximadamente uma hora consegui murmurar:

       —Posso beber alguma coisa, por favor?

       Don ia me ver àquela noite e lembro que fiz um grande esforço para me manter acordada e de certa forma parecer bem e prestar atenção a ele. Eu saberia o momento em que ele chegasse pelo barulho dos passos. Mas só conseguia distinguir os passos das enfermeiras, todos diferentes:

       Annette, Ann, Jasmine, Alison, Linda e da madre. A madre era uma pessoa excepcionalmente boa, que não se achava no hospital no dia em que me internei. As freiras podem ser todo o bem e todo o mal de uma enfermaria e esta era certamente o bem. Em vez de ser uma pessoa rigorosa, era uma mulher que espalhava boa vontade por onde andava. Sua entrada na enfermaria era como o espocar do champanha.

       Ela enchia o lugar de alegria. Fazia com que todos rissem e se divertissem, tornando aquela estada ali algo maravilhoso.

       Quando finalmente reconheci os passos de Don aproximando-se, senti-me tranqüila. A simples presença dele acalmava aquela idéia que permanentemente se agitava em minha mente: deu certo? Não deu certo?

       Don sentou-se ao meu lado e perguntou:

       — Quando vão tirar as vendas? Quando você ficará sabendo?

       — Segunda-feira — respondi, e nós dois sabíamos como aquele fim de semana seria interminável.

       Mas o tempo passou, como sempre aconteceu. Mamãe e papai foram me ver no sábado, e meu irmão Graham também. Todos nós fazíamos conjecturas que não sabíamos transpor para frases adequadas.

       Aposto que você não consegue esperar até segunda. Não, não posso mesmo.

       Havia tanta coisa por trás dessa conversa boba. A história da cegueira de uma família — história de dor e esperança. Quando Don foi me ver outra vez, não conseguia esconder seus sentimentos e tornou-se muito protetor, dizendo:

       - Bem, você sabe, se não tiver dado certo e se você não puder ver não vai haver problema, não é mesmo? Nunca fez diferença no passado, e ainda há tanta coisa para fazermos juntos.

       Don foi maravilhoso ao me dizer isso, ao tentar me proteger contra a pior possibilidade. E sei que lhe custou muito dizê-lo, porque a situação era tão significativa para ele quanto para mim.

       O tempo corria lentamente na enfermaria, dividido entre os horários das refeições, o momento de tomar a temperatura, os comprimidos e o sono. Na noite de domingo, Don estava novamente a meu lado. Estávamos conversando (eu já conseguia sentar; na manhã seguinte à da operação eu já não conseguia mais ficar deitada). Ele disse então:

       — Você me telefona então, certo?

       - É claro.

       — Logo que souber.

       — É lógico que vou ligar.

       Eu sabia que ele gostaria muito de estar no hospital no momento em que as vendas fossem ser retiradas e saber a verdade imediatamente, mas isso era impossível por causa do seu trabalho.

       Na hora de ir embora, Don animou-me:

       — Espero que tudo tenha dado certo. — Depois de uma rápida pausa, acrescentou: — Estas palavras são insuficientes, você não acha?

       — Acho que não — respondi. —Sei muito bem o que você quer dizer com elas. Quando você voltar aqui, já saberemos de tudo.

       E a partir de então, a partir do momento em que ele foi embora, começou a correr um tempo que parecia infinito. Horas de espera, uma interminável contagem para a conclusão da qual eu não poderia escapar.

       O tempo normalmente correria rapidamente de oito horas da noite de domingo às 10 da manhã de segunda, um rápido intervalo entre o jantar e o horário de ir para o trabalho. Mas agora o tempo parecia ampliado. E eu também. Os minutos e segundos pingavam, pingavam, pingavam.

       Passei a mão no meu relógio. Ouvia o tique-taque que ele fazia, mas não me parecia no ritmo normal.

       No leito que ficava ao lado da minha cama estava May. Do outro lado ficava Muriel. As duas tinham sido muito atenciosas e gentis comigo quando cheguei ao hospital.

       Ouvi Muriel dizer, já tarde da noite:

       — Estou ouvindo você passar a mão em seu relógio. Não se preocupe. Logo vai amanhecer. Tente dormir um pouco, Sheila. Mas dormir estava fora de cogitação. Passei a mão nova mente no relógio, meia-noite e sete. Já era segunda-feira! Depois o relógio me informou que era 1:10, depois faltavam oito minutos para as duas e então achei que devia dormir um pouco, pois logo seriam 6:00 e as enfermeiras chegariam e começariam a tirar a temperatura e a trazer o chá.

       Sentei-me. Mais quatro horas, pensei, mais quatro longas horas. Acendi um cigarro, o que não era permitido de todo, mas sentia-me tão nervosa que nem me incomodei.

       Talvez por todos saberem o que estava se passando comigo é que ninguém me pediu para parar de fumar, o que me aliviou um pouco

       As 8:00, alguns cigarros mais tarde, chegou à primeira refeição. Eu não queria comer nada, mas pensei: preciso comer. Isso ajudará a passar o tempo. Vou gastar uns 15 minutos nisso. E então comecei a comer torradas com geléia.

       Quando acabei eram apenas 8:10. O que vou fazer, pensei, durante duas horas? Muriel aproximou-se e perguntou:

       —Você está bem?

       —Sim — respondi — estou ótima, mas acho que vou enlouquecer antes das 10 horas. Não consigo esperar, é terrível.

       — Por que não vai tomar um banho? Assim você ocupa parte do tempo.

       — É uma boa idéia — concordei e comecei a procurar as coisas que levaria para o banheiro. Pensei que se tomasse banho com bastante calma poderia levar cerca de meia hora. Mas embora eu achasse que estava fazendo tudo lentamente, ao final descobri que tinha tomado banho em apenas 10 minutos. Devo ter-me apressado sem perceber.

       Quando voltei à enfermaria comecei a andar de um lado para outro. E novamente Muriel se aproximou e perguntou:

       — Você quer ir para a sala de estar? Podemos ir até lá e ficar ouvindo rádio.

       — Não — respondi — acho que não quero ir para lá. Mas mesmo assim, muito obrigada.

       O problema era que a sala onde minhas vendas seriam retiradas ficava em frente à enfermaria, enquanto que a sala de estar ficava na outra extremidade do prédio; e às 10:00 eu queria estar ali para ouvir meu nome ser chamado.

       Assim, Muriel e May ofereceram-se para ficar perto de mim enquanto eu esperava o tempo passar. Muriel, especialmente, foi maravilhosa para tentar afastar meus pensamentos da interrogação angustiante que tomava conta da minha mente.

       Eu perguntei a ela, depois que as duas sentaram-se perto da minha cama:

       — Como é tudo lá fora? Com que se parece?

       Era difícil para mim formar uma idéia de como era o exterior da enfermaria. Mas ela descreveu-me tudo, falando das muitas árvores que havia lá fora (eu sabia da existência de arvores, pois ouvia o balanço dos seus galhos). Ela falou também sobre as rosas e tudo isso imediatamente fez com que eu sonhasse, como que tocada por algo fantástico. Como era a enfermaria? Eu sabia quantas camas havia ali e também que havia flores nas mesas-de-cabeceira. Mas Muriel disse:

       — Suas flores são lindas.

       Em minha cabeceira havia dálias, mas eu jamais gostara muito de dálias. Pareciam-me agressivas e não tinham perfume. Não conseguia imaginá-las, ao contrário das rosas, ou dos cravos, ou jacintos; cada flor dessas tinha sua própria personalidade através do perfume. Eu não fazia idéia de minhas dálias e por isso estava, embora possa parecer ingratidão, pouco interessada nelas.

       A cada cinco minutos passava a mão no meu relógio e o resto do tempo ficava fumando. Fumei sem parar. Muriel informou-me, de modo muito gentil, quantos cigarros eu havia fumado.

       — Eu sei — respondi. — Sei que não devia fumar mas preciso ficar fazendo alguma coisa.

       Eram 9:40. Então senti vontade de me levantar e começar a andar de um lado para outro novamente. Meu estômago estava embrulhado e eu me sentia péssima. No fundo da minha mente estava sempre presente aquele aviso do Dr. Shearing: "Eu não faço milagres, jovem.”

       Ouvi Annette entrar na enfermaria. Chamei-a e perguntei:

       — Já começaram a fazer os curativos?

       — Ainda não — respondeu — mas não deve demorar muito mais. E não se preocupe, farei com que você seja a primeira. Passei a mão novamente em meu relógio, que a essa altura já devia estar quase gasto. Faltavam 10 minutos ainda.

      

                   AS VENDAS SÃO RETIRADAS

       Quando finalmente a madre entrou na enfermaria e chamou: "Sheila", o estranho é que não aconteceu nada. Continuei sentada. Muita gente conta casos de pessoas que haviam ficado paralisadas pelo medo ou apreensão ou seja lá o que for. Suponho que isso tenha acontecido comigo, literalmente. Eu estava sentada dentro da enfermaria, quase em frente à sala de curativos, e à espera da voz da madre. Eu imaginara dizer: "ótimo, lá vou eu" ou qualquer coisa assim, ficar em pé imediatamente e atender ao chamado. Mas fiquei sentada, toda trêmula, subitamente percebendo que meu coração estava disparado, a pulsação aumentando, e sentindo calor e frio ao mesmo tempo.

       — Venha, Sheila — ouvi a madre dizer novamente com sua voz alegre. — Estamos prontos.

       Junto a mim, minha amiga Muriel sussurrou:

       — Vá, Sheila, estamos todas com você.

       Eu pensei naquele instante: "Esperei por isso durante muito tempo; esse momento deveria ser o início do grande momento, finalmente... ou talvez não seja....” Eu estava aterrorizada.

       Mas levantei-me e depois, em vez de transpor rapidamente aqueles poucos metros, caminhei lentamente e de forma hesitante. Eu mal conseguia andar. Entrei na sala de curativos depois de algum tempo; as mãos de alguém me levaram até uma cadeira. Passei minha mão nela e achei que era uma cadeira muito estranha para um hospital.

       Lembro que no meio de toda a confusão que era minha mente pensei que aquilo mais parecia uma cadeira de escritório. Tinha braços, parecia forrada de couro e tinha um apoio para a cabeça. Sentei-me e agarrei-me nos braços, como se minha vida dependesse daquele gesto. Apertei os braços e minhas unhas se enterraram no couro. Depois senti as vendas começarem a ser retiradas. E subitamente desejei que não fizessem aquilo. Contudo, ao mesmo tempo, eu não podia fazer nada para deter aquelas mãos. Eu queria gritar:

       "Não. Por favor, não façam isso." Agora que chegara o momento, eu não desejava encarar a situação.

       Finalmente as vendas foram retiradas totalmente, mas mesmo assim eu não queria saber o resultado e mantinha meus olhos bem fechados. Ouvi a madre dizer:

       — Vamos, Sheila, abra os olhos, as vendas já foram retiradas...

       Apertei com mais força ainda os braços da cadeira e abri os olhos.

       O que aconteceu então — a única forma como posso descrever aquela sensação — é que fui de repente atingida fisicamente por um grande brilho, como se tivesse recebido um choque elétrico muito forte no cérebro e por todo meu corpo.

       Aquela sensação me invadiu por completo com uma onda de energia que me trouxe um brilho inimaginável, incandescente: diante de mim havia um branco fascinante que eu mal conseguia suportar e um tom de azul muito vívido que eu jamais pensara existir. Foi fantástico, maravilhoso, inacreditável. Era como o princípio do mundo.

       Em seguida virei-me e olhei para o outro lado e deparei-me com o verde, muitos e muitos tipos diferentes de verde, algumas partes mais escuras, tudo inacreditável.

       E ao mesmo tempo havia um jorro de vozes que em meio àquele brilho diziam:

       — Você está vendo? Está vendo?

       Mas estava tão dominada e encantada com aquela sensação que invadia todo meu ser, como se o sol tivesse entrado em meu cérebro e no meu corpo e espalhado todas as partículas de sua luz e cor, que levei algum tempo para responder.

       Olhei novamente para o azul e disse:

       — Oh, é azul, é tão lindo.

       — Sou eu - disse a madre, vindo em minha direção. O azul que eu estava vendo era do hábito dela. E ela aproximou-se de mim, tocou-me e disse:

       — Sheila, você está vendo?

       Mas meu pensamento ainda estava desordenado e por isso voltei-me para o outro lado e falei:

       — Verde, é maravilhoso. — Eram Annette, Linda e Ann que estavam em tomo de mim.

       — Somos nós. É a cor do nosso uniforme.

       Então todos perceberam que eu conseguia ver direito, porque um pouco ao longe havia algo que me pareceu amarelo. Eu não sabia o que era aquilo, mas perguntei:

       — O que é aquilo ali amarelo? E alguém respondeu:

       — É uma lâmpada e realmente é meio amarelada.

       Mas todos tinham certeza de que eu estava enxergando, apesar de não distinguir o objeto como sendo uma lâmpada e de dizer a cor errada.

       Minha lembrança das cores estava um pouco apagada, mas ainda podia identificar as mais fortes.

       Porém, até aquele instante não sabia que havia no mundo cores tão brilhantes e claras.

       Tudo isso, bem sei, levou apenas alguns segundos. Tudo acontecendo ao mesmo tempo. Em seguida, rapidamente também, tudo começou a tornar-se embaçado e confuso. As cores começaram a ficar mais fracas e a se misturar. Então pensei:

       "Não, oh, não, está tudo indo embora. Vai ficar tudo assim, não consigo mais”. Fui invadida por um súbito terror e instintivamente coloquei as mãos sobre os olhos - e senti que havia lágrimas rolando em meu rosto. E pensei:

       "Graças a Deus, não está nada indo embora. São as lágrimas." E comecei a enxugar os olhos de maneira incontrolável, sem parar, por causa da alegria e da surpresa que eu ainda não conseguia controlar por completo. Enquanto isso, ao meu redor, todos, a madre, as enfermeiras e muitas outras pessoas, apertavam minha mão, cumprimentando-me — e eu consegui ver que todos também estavam chorando e que por isso não conseguiam dizer nada.

       A lembrança desses poucos segundos é indelével: a surpresa, a sensação de dúvida, apesar da crença, a súbita descoberta de que eu podia enxergar. Eu podia enxergar!

       Depois foi preciso colocar as vendas novamente, mas não ma importei.

       Eu sabia que havia muita luz além das vendas, mesmo tendo que voltar para o mundo das trevas de onde acabara de sair. E quando as vendas foram recolocadas, compreendi que antes eu nunca conhecera realmente a profundeza daquela escuridão em que vivia, pois a lembrança da primeira visão de luz permanecia em minha mente e as cores bailavam e se misturavam, compondo formas diferentes e intermináveis, girando.

       Enquanto tudo isso acontecia, eu pensava: "Mesmo com os olhos vendados, é tudo tão lindo ainda." E eu sabia que tinha escapado da escuridão infinita.

       Voltei para a enfermaria com as pernas mais trêmulas ainda, se é que é possível, do que quando saíra para a sala de curativos. Eu tinha ímpeto de gritar para todo mundo ouvir: "Eu enxergo, eu enxergo!" Mas minha voz saiu num sussurro.

       Todos na enfermaria já sabiam da novidade. A notícia havia-se espalhado. Senti que estavam todos contentes por aquilo ter acontecido comigo; e isso também, a sensação de que outras pessoas dividiam comigo aquele sentimento, era maravilhoso.

       De repente percebi como era estranho que todas aquelas pessoas me quisessem bem. Era como estar cercada por um gigantesco abraço amigo.

       Fiquei sentada na enfermaria, numa das poltronas que havia lá, saboreando aquela atmosfera, algo mais forte do que era capaz de agüentar. Eu havia conseguido uma coisa por que havia esperado muito; por muitas vezes havia tentado imaginar como seria passar a enxergar; mas a realidade não tinha nada a ver com o que eu imaginara.

       Era encantadora e eu ainda não podia compreender todo seu significado.

       Enquanto estava ali sentada, um pensamento me martelava: "Preciso telefonar para Don, preciso contar a ele." Depois ouvi a voz de Jasmine.

       Ela lembrara-se de que eu poderia querer telefonar, mas como viu que eu ainda estava chorando, perguntou:

       — Posso discar o número? — Havia trazido o telefone até perto de mim. Depois de alguns instantes, ela pediu: — Posso ficar aqui enquanto você conta a ele que já pode enxergar?

       Eu podia sentir a alegria dela como algo material, físico, e sentir contentamento no modo como falava.

       Mas, embora imaginemos as coisas de um modo perfeito, elas nunca são perfeitas. Uma prova disso é que o telefone de Don tocou diversas vezes mas ele não atendeu.

       Devia estar atendendo algum cliente. Depois que o telefone tocou algumas vezes, pensei: "Atenda, preciso falar com você." Mas o aparelho continuou chamando, chamando, até que eu desliguei. Depois tentei o número da central de rádio-recados, que se encarregaria de chamá-lo pelo código de seu aparelho, 269, e lhe dar o recado. Não seria a mesma coisa que falar com ele diretamente, mas de qualquer modo ele ficaria sabendo logo da novidade.

       Liguei imediatamente para a central de rádio-recados.

       —Quero deixar um recado para o 269.

       — Pois não. Qual o recado?

       — Diga a ele apenas que posso enxergar.

       Houve uma pausa e depois a voz da pessoa que me, atendia pareceu-me confusa.

       —Bem, dizer a ele que você pode enxergar?

       —Sim. Diga só isso a ele.

       Desliguei, sentindo-me um pouco deprimida, porque na verdade eu queria sair logo do hospital e dizer a todo mundo na rua, e subir no topo do Everest, ou ir a uma estação de rádio e anunciar para o mundo inteiro, várias vezes:

       "Posso enxergar, sou eu, posso enxergar...”

       Em vez disso, telefonei para o meu irmão e tudo que disse foi:

       — Estou enxergando, é maravilhoso, as cores são fantásticas, nunca soube que o mundo era tão brilhante.

       Depois então liguei para todos os números de que me lembrei, colocando uma moeda atrás da outra no telefone, e dizendo sempre a mesma coisa. Ninguém do outro lado tinha muita chance de dizer algo, mas eu sabia que todos estavam felizes por mim. Gastei quase uma libra em telefonemas.

       Somente por volta de meio-dia Don telefonou. Ele havia recebido meu recado. Disse-me que tinha saído para atender um paciente. Emma ficara no carro esperando. Quando voltou, a luz do aparelho de rádio-recado estava acesa, o que indicava que havia algum recado para ele. Acho que quando ele viu a luz do rádio-recado acesa ficou nervoso, porque durante toda a manhã ele tinha esperado um recado; Don contou-me que ficou sentado algum tempo imaginando qual seria a notícia, se infinitamente boa ou tremendamente desalentadora. Disse que quando pegou o telefone e recebeu o recado não teve resposta. Sentou-se no volante do carro mas sem condições de dar partida no automóvel, maravilhado com o que ouvira. Depois de algum tempo abraçou Emma e disse:

       — Emma, você não precisará trabalhar nunca mais. Quando foi me ver, à noite, não falou muito a princípio. Nem eu. Nenhum de nós tinha condição de avaliar corretamente o que havia acontecido. Nós estávamos tão envolvidos, Don e eu, que levou algum tempo para que puséssemos em palavras o que nos passava pela cabeça, como se uma palavra começasse a se formar, definisse sua forma o depois então se tornasse maior.. cada vez maior.

       Finalmente ele começou a falar:

       — Quando você for para casa...

       E de cada vez havia algo novo que ele me mostraria. Ficamos sentados, conversando e fazendo planos, ali na enfermaria. Ele me disse que as folhas das árvores estavam mudando de dourado para vermelho e pela primeira vez aquilo fazia algum sentido para mim. Contou-me também que fizera umia nova lareira de pedras e que estava ansioso para mostrar-me. Nas férias nós iríamos... e a vida começou a desdobrar-se em projetos e agora, em vez de ficar limitada a meu mundo de trevas, era algo cheio de luz e cor.

       Quando Don me telefonou por volta do meio-dia, as enfermeiras haviam acabado de trazer o almoço e eu estava ansiosa para comer. Estava pensando: "Se aquelas cores que vi são lindas, como não será tudo mais?" As cores ainda estavam dançando em minha mente, atrás das vendas que eu usava, mudando de forma como um caleidoscópio e explodindo como fogos de artifício. Como será tudo lá fora? Eu tinha vontade de arrancar as vendas e correr até a janela para ver.

       Eu queria que o Dr. Shearing chegasse. Lembrei-me das palavras dele: "Eu não faço milagres, jovem." Mas havia feito e queria que ele compartilhasse de minha alegria; e como eu pensava nele! Várias vezes perguntei à madre:

       — Quando o Dr. Shearing vai chegar?

       Eu sabia que ele não estivera na sala de curativos pela manhã porque estava operando.

       — Ele virá assim que puder — ela respondeu. — Ele ainda está na sala de cirurgia.

       Fiquei sentada ali a maior parte da tarde daquela segunda-feira, pensando: "Gostaria que ele viesse correndo; não consigo esperar para lhe dizer como isso é maravilhoso.”

       E ao mesmo tempo ficava imaginando se ele já sabia que a operação obtivera êxito.

       Então, por volta de 4:00, senti ao longe um aroma muito familiar. Era o leve cheiro da fumaça de charuto. O Dr. Shearing.

       Provavelmente deveria estar com a madre conversando sobre o que acontecera. Em seguida escutei seus passos aproximando-se da enfermaria e sentei-me. Quando ele parou, ouví-o dizer:

       —Olá, jovem, como está?

       Subitamente, tudo que eu havia pensado saiu numa torrente de palavras e de emoção.

       — Oh, é tudo tão fantástico, tão maravilhoso, tão fabuloso.

       — É maravilhoso...

       Mas o único comentário que ele fez foi:

       —Sim, não é maravilhoso? O Nottingham Forest venceu no sábado.

       Fiquei surpresa. Eu não podia acreditar no que ouvira. E disse:

       — Notts Forest? Não me importo com o Notts Forest. Posso enxergar, isso é que é maravilhoso.

       Ele bateu meio sem graça em meu ombro e foi embora. Logo em seguida, Muriel aproximou-se e disse:

       - Gostaria que você tivesse visto o rosto dele. Parece que ficou iluminado. Ele ficou parado diante de você, sorrindo.

       E compreendi então que ele não havia encontrado as palavras que desejava me dizer. Uma pessoa muito gentil e humana, o assunto sobre o Nottingham Forest fora apenas um disfarce, pois ele estava muito emocionado para falar.

       Pude, então, entender sua reação. Mas somente quando voltei ao hospital, cerca de um ano depois, é que fiquei sabendo de toda a história do Dr. Shearing. No hospital, uma das pacientes me reconheceu. O pai dela estivera internado na mesma época em que eu fiz a operação. Ela me disse.

       — Depois que o Dr. Shearing foi ver você, ele esteve na enfermaria masculina e contou a todos que você estava enxergando e como você achava tudo tão maravilhoso.

       E que ele achava que tinha valido a pena tentar.

       Lembro-me agora de que naquela época fiquei conversando com ele algum tempo sobre os fracassos cirúrgicos. Ele os considerava algo terrível e achava muito triste não poder fazer nada por esses pacientes cujas cirurgias não haviam obtido êxito Então recordo que lhe disse.

       — Mas o sucesso deve compensar tudo. — Ele concordou comigo. E agora entendo por que ele foi até a enfermaria dos homens e contou a todos sobre minha operação. Ele deve ter sentido — pelo menos espero que tenha sentido - uma grande alegria pelo que fez por mim.

       Depois que o Dr. Shearing foi embora, fiquei esperando o horário de visitas e recebi muitas. Além de Don, que ia ao hospital todos os dias, de mamãe, papai e de Graham, nenhuma pessoa amiga tinha aparecido ainda. Mas naquele dia tive cerca de 10 visitas ao todo. A cada pessoa eu contava o que havia acontecido naqueles dois minutos dentro da sala de curativos, As visitas só tinham chance de dizer: "Olá" e "Até logo" e de me entregarem os presentes, geralmente chocolate ou flores.

       A partir daquele dia, as vendas eram retiradas todas as manhãs por cerca de dois minutos. A enfermeira pingava colírio nos meus olhos e depois uma nova venda. Com exceção daqueles dois claros e incandescentes minutos, eu continuava habitando meu velho mundo de escuridão. Mas a cada dia eu ficava menos acostumada àquilo, à medida que começava a conhecer mais o que havia do outro lado das vendas. Comecei a planejar então o que olharia durante o pequeno intervalo em que ficava com os olhos destapados. Eu sabia que estaria rodeada pelo azul e verde dos uniformes, mas procuraria descobrir outras coisas. Não obstante, toda manhã, quando eu ia para a sala de curativos, sentia uma pequena dúvida. Pensava sempre:

       "Será tão brilhante como antes? Tão bonito?" Toda manhã a sensação se repetia e a ansiedade afastou-se de mim.

       Era difícil escolher alguma coisa para olhar. Numa das manhãs, apanhei o vaso de dálias, pelas quais eu nada sentira quando chegaram, e pensei: "Preciso lembrar de olhar para o meu roupão e para a minha camisola." Pode parecer algo trivial, mas para mim era importante na época. Eu queria saber o que estava vestindo e como ficava. Quando fui para a sala de curativos aquela manhã, ouvi a madre me perguntar:

       — Por que você trouxe o vaso de flores?

       Quando lhe expliquei o motivo, ela riu, mas de modo misterioso. Depois que as vendas foram removidas e eu superei o renovado choque da súbita claridade, olhei para as dálias e vi que elas eram de um amarelo deslumbrante, o mais lindo que eu já imaginara, e que pareciam feitas de modo muito complexo.

       Fiquei tão encantada por todos os detalhes delas e tão pesarosa por não ter sentido nada por elas até então que esqueci de olhar a roupa que estava usando.

       Na manhã seguinte eu lembrei: o roupão era de um azul-turquesa maravilhoso e a camisa, púrpura. A combinação parece terrível, mas não achei isso naquela época, especialmente porque levei um choque. Eu estava olhando para baixo e reparei em minhas mãos. Fiquei assustada. Elas me pareceram horríveis. Não consegui desviar os olhos delas.

       E disse a uma das enfermeiras,

       — Annette, olhe só minhas mãos. Não são horríveis? Ela aproximou-se, olhou-as bem de perto e depois indagou o que há de errado com elas?

       — Olhe bem, veja só as veias e os nós dos dedos. Os ossos estão salientes. Não são horríveis?

       — São perfeitamente normais. Não pode ser.

       — Mas são. Veja as minhas. As suas mãos são como as de todo mundo.

       Então olhei para as mãos dela e vi as veias saltadas.

       — Puxa, não são uma coisa horrível?

       Sempre esperei que as mãos fossem lisas e bonitas, já que são tão perfeitas para o tato. Fiquei realmente frustrada. Quando Don chegou, à noite, eu lho disse:

       — Veja minhas mãos.

       — Estou vendo. Estão perfeitas. Qual o problema?

       — Mas elas são horríveis.

       — Não são horríveis. Suas mãos são lindas.

       — Mas olhe as veias saltadas e os nós dos dedos. São horrorosas.

       — Claro que não são. Espere só até ver as minhas. Você verá veias e muito mais. As mãos de todo mundo são assim.

       Eu realmente não podia aceitar que minhas mãos fossem iguais às das demais pessoas. Fiquei com essa idéia na cabeça por mais um dia, ou dois, até me acostumar com aquilo, e por isso escondia as mãos nas mangas do roupão.

       No dia seguinte, o Dr. Shearing apareceu novamente. Disse que se eu quisesse poderia ir para casa na outra manhã. Era como receber a ordem de soltura e o perdão por um crime que nunca se cometeu. Liguei imediatamente para Don. Fiquei tão excitada com a idéia que não consegui dormir à noite, esperando chegar a sexta-feira, quando eu veria o mundo exterior pelo primeira vez e começaria uma vida realmente nova.

                   À PRIMEIRA VISTA

       Don combinou de me apanhar ao meio-dia e meia. Durante toda a semana ele havia brincado comigo, dizendo que pintaria seu cabelo grisalho.

       — Você vai gostar da nova cor. Porque eu já conhecia você. Desde o início eu sei como você é. Mas você nunca me viu e poderia levar um choque.

       — Não importa como você é — respondi — isso não fará a menor diferença.

       Eu nunca havia pensado o que acharia da aparência das pessoas. Não tinha noções preconcebidas, em nenhum sentido, sobre como elas deveriam ser. Muito menos passou pela minha cabeça que a partir daquele momento a imagem das pessoas ajudaria no conceito que eu formaria delas, como acontece com as pessoas que sempre enxergaram e a quem me juntaria agora. Isso me parecia algo estranho.

       Fiquei esperando por Don. Estava usando óculos escuros, pois meus olhos ainda não estavam acostumados à luminosidade e por isso deviam ser protegidos no início.

       Fiquei andando de um lado para outro da enfermaria, ainda maravilhada com as cores que via, embora um tanto enfraquecidas pelo uso dos óculos. Mesmo a brancura dos lençóis e fronhas nos leitos da enfermaria me impressionava. Eu olhava para os vasos de flores nas mesinhas-de-cabeceira e pensava:

       "Não acredito na evolução. Essas flores foram sempre assim, perfeitas em cada detalhe, mas esperando para que eu as visse, feitas especialmente para mim." Era irracional, mas era assim que eu me sentia.

       Sentei na cama, com as malas já prontas, enquanto imaginava como seria Don - tentando formar seu rosto pelas descrições que havia recebido ao longo dos anos. Mas não achei bom. E aí então escutei a porta da enfermaria sendo aberta ela fazia um ruído característico — e ouvi os passos de Don aproximando-se. Pensei: "Meu Deus, é ele. Chegou o momento." E olhei para cima. Vi um estranho dirigindo-se para mim e nem por um segundo o associei a Don. Pensei rapidamente: "Cabelo castanho, pele bronzeada, bonito", e em seguida: "É Don!" Mas não conseguia dominar aquela idéia, Ele era muito mais charmoso e bonito do que eu poderia imaginar. Num relance vi seu terno azul-marinho, muito elegante, e a gravata com bolinhas e pequenas flores amarelas sobre o fundo azul.

       Ao mesmo tempo, pensei que tinha muita sorte por ter um marido que eu amava não apenas por tudo que não conseguia enxergar, mas por quem me apaixonei instantaneamente logo depois de vê-lo. Ele se aproximou de mim e disse, sorrindo:

       — Olá, flor.

       Meu rosto comunicou-lhe tudo que ele precisava saber sobre o que eu achava de sua aparência. Eu estava sorrindo de orelha orelha quando respondi ao cumprimento dele.

       Ele apanhou minha bagagem e disse:

       — Vamos embora. Venha dar uma olhada no mundo. Emma está esperando no carro.

       E eu pensei: "Emma, querida Emma, vou vê-la pela primeira vez também. Que dia!" Não pude deixar a enfermaria logo, pois havia muitas pessoas acenando para mim e desejando-me boa sorte. Saímos pelo corredor de braços dados e fui me despedir da madre e das enfermeiras. E então, quando chegamos à portaria do hospital, foi como aquele primeiro choque elétrico de visão. Toda aquela inundação de luz se repetiu.

       O sol me inundou e mais uma vez foi como imaginei a criação do mundo. É lógico que eu sabia que aquilo acontecia há milhões e milhões de anos, pelo menos era o que meu lado racional me dizia, mas mesmo assim eu sentia como se fosse a Criação, subitamente repetida para mim. Ao mesmo tempo veio a idéia de que pela primeira vez eu estava vendo algo a que todos já estavam acostumados, e a impressão que isso causou em minha mente foi maravilhosa.

       Além da luminosidade do dia, vi também uma grande área verde.

       —O que é aquilo?

       — Por quê? Aquilo é o gramado.

       — Gramado? Claro. Tinha de ser. Algo que eu conhecia com a sola dos meus pés.

       — Mas é tão verde. Não posso acreditar. É sempre assim? Don respondeu que sim, mas eu me ajoelhei e toquei a grama com a mão para me certificar de que era aquilo que eu sentira antes. E era mesmo.

       — Mas há tonalidades diferentes de verde. Olhe só ali. Até as folhas parecem diferentes entre si.

       — Sim, é sempre assim.

       — É tão maravilhoso, tão lindo.

       Caminhamos até o carro e Don foi um pouco na frente para soltar Emma.

       A próxima coisa que percebi foi Emma pulando do carro e o reflexo do sol batendo em seu pêlo enquanto ela corria para mim. Coloquei os braços em tomo dela e vi sua cauda balançando, fazendo todo seu corpo se mexer. As orelhas caídas. Eu chorei.

       - Oh, Don, ela não é muito bonita?

       Todos diziam que ela era marrom, cor de chocolate. E esta era a principal noção que eu tinha sobre a aparência dela. Eu sabia também que ela tinha uma mancha branca no peito e que o nariz e os olhos também eram castanhos, mas nada disso significava muito para mim. Mas agora eu podia vê-la! Ninguém havia conseguido descrevê-la adequadamente.

       Suas orelhas eram ruivas. Com a luz do sol incidindo nelas, ganhavam uma tonalidade mais suave. Seu gracioso nariz brilhava. Havia uma faixa ruiva que ia do nariz até perto dos olhos e outra, maior, no dorso, esta parte ruiva do dorso ia clareando na direção das patas e dos flancos, tornando-se marrom. Eu não tenho como descrever o efeito que causou em mim vê-la, a não ser dizer que ela era mais encantadora do que eu jamais poderia imaginar. Eu disse:

       — Oh, Emma, você é tão bonita! Ninguém nunca me disse isso. Todos falavam que você era marrom, mas jamais me disseram que você tinha diversas tonalidades de marrom.

       Sua resposta foi sacudir a cauda mais rapidamente ainda e apanhar uma das minhas valises e levá-la pela grama. Nós tínhamos ficado sem nos ver por 10 dias e ela estava tão alegre por me encontrar quanto eu por vê-la pela primeira vez. Foi até o carro com a valise e depositou-a no banco de trás, onde se sentou também, certificando-se assim de que eu não me afastaria dela novamente. Se ela estava com minha valise, isso significava que eu teria de ficar com ela!

       Entrei no carro e Emma ficou encostando o nariz em mim enquanto eu afagava sua cabeça. Era estranho sentar no carro em que eu já estivera muitas vezes, mas sobre o qual não fazia a menor idéia, desde o painel de instrumentos até detalhes da forração. Era estranho, também, observar Don dirigindo, mudando as marchas. Eu nunca pensara nisso e fazia uma vaga idéia de como era dirigir. Fiquei olhando para ele e pensando: "Ele não é bonito? Não é fabuloso? Eu tenho muita sorte!" Ele olhava para mim de vez em quando, mas sem dizer quase nada.

     Depois que deixamos o terreno do hospital, passei a maior parte do tempo olhando pela janela e todos os tipos de coisas despertavam minha atenção.

       — Aquelas linhas cor de laranja ali servem para quê?

       — Ah, são linhas amarelas duplas, mas também há linhas amarelas simples. Elas mostram onde se pode estacionar e onde não se pode.

       — Quando foram colocadas ali?

       — Estão ali há muitos anos.

       — Tem certeza?

       — Bem ... elas estão ali há séculos.

       Era um pouco enervante ver coisas sobre cuja existência eu não fazia a menor idéia.

       — Don, olhe, há vários tipos de linhas brancas na rua.

       — Sim. Essas estão aí há mais tempo ainda.

       Pensei: "Acho que ninguém jamais me diria que há linhas brancas e amarelas nas ruas; ninguém pensaria que isso poderia me interessar.”

       Ao vê-las, fiquei fascinada.

       As laterais também. Eu não sabia que eram gramadas ou que havia tantas árvores.

       — Don, olhe as árvores. Sempre houve tantas árvores assim?

       — Sim. Há árvores por toda parte, centenas delas. Mesmo na cidade.

       É lógico que eu sabia que havia árvores. Sempre soube da existência delas e podia ouvir o barulho que faziam quando ventava.

       Mas nunca imaginei que houvesse tantas, ou que estivessem em toda parte, plantadas nas calçadas, em jardins e, à medida que avançávamos pelo campo em direção a Nottingliam, mais e mais árvores, com formas diferentes. Eu não conseguia determinar todos os tipos; havia algumas redondas, outras altas e de diversas tonalidades de verde.

       Don explicou:

       — Todas as árvores são assim. Até um mesmo tipo de árvore, seja faia, carvalho, castanheiro ou qualquer outra, pode variar de forma.

       E eu olhei para todas as árvores que encontrei no caminho.

       O sol batia nelas e filtrava-se peles galhos e folhas, lançando sombras móveis e por isso pareciam feitas em camadas, como uma saia rodada. Eu via as folhas mexendo-se ao vento e disse:

       — Parecem que estão dançando ao vento.

       Todas as pessoas despertavam minha curiosidade e tenho certeza de que Don, apesar de muito gentil, deve ter sentido vontade de rir de mim.

       — Puxa — exclamei — olhe aquelas pessoas na calçada. Estão todas usando roupas com cores diferentes. É fantástico. Mas Don não riu.

       Apenas disse:

       — Quando você andava de carro antes, não percebia que as pessoas estavam ali porque não podia ouvi-las.

       Ele tinha razão. Eu sabia que havia um sem-número de pessoas em torno de mim, mas, quando não se enxerga, o carro é uma forma de isolamento; não se sabe quantas pessoas estão passando na rua a caminho das compras, ou indo para o trabalho ou indo a um pub ou simplesmente estão de pé conversando.

       Eu prossegui falando com Don:

       - Olhe as casas, são todas diferentes, as cores das portas são diferentes.

       Linhas amarelas, linhas brancas, cartazes, ônibus, sinais de trânsito, lojas. . . era como uma viagem a um lugar desconhecido, um lugar que nunca se imaginou existir, um mundo novo, tudo passando pela janela do carro como um gigantesco carrossel.

       Quando estávamos perto de casa, lembrei-me das minhas flores. Eu tinha buquês tão lindos e braçadas de rosas, dálias e frísias. No hospital disseram que eu poderia levar algumas flores para casa, mas na excitação de ir embora esqueci-me delas. Fiquei um pouco aborrecida ao pensar nas pessoas que tinham levado as flores que eu, sem querer, desprezara.

       — Não podemos voltar? - perguntei a Don.

       — É muito longe e já estamos perto de casa. Não faz mal. Mas as flores me importavam. Outro pensamento, no en tanto, desviou este último. Meus gatos siameses não estavam em casa.

       Pat, uma amiga que criava siameses, levara o macho Lilacpoint. Eu estava ansiosa para vê-los e, agora que eu sabia que as cores não eram como eu imaginava, queria descobrir como cada um deles realmente era.

       — Oh, Don — perguntei — os gatinhos estão bem? Podemos apanhá-los hoje à tarde?

       Mas ele disse simplesmente:

       — Não se preocupe com os gatos. Está tudo bem. Vamos para casa que está tudo bem.

       A essa altura já estávamos na rua onde morávamos. Parecia-me tudo mais lindo do que eu imaginara, com as árvores e as rosas nos jardins das casas. Então paramos diante do portão. Saltei e Emma pulou do carro, ficando na minha frente, balançando a cauda. Quando abrimos a porta, Emma entrou em casa correndo e foi buscar diversos presentes para demonstrar como estava contente por eu ter voltado.

       Entrei na sala de estar, a minha sala de estar, e a vi pela primeira vez. Como tudo mais, era diferente da imagem que eu havia feito: já que na minha cabeça as coisas pareciam um tanto escuras e sombrias, eu não podia imaginar como aquela sala era adorável. Fiquei encantada. De repente achei que Don havia comprado o mais lindo carpete vermelho para mim, mas quando ajoelhei-me e o toquei percebi que não. Era o mesmo carpete que sempre tivemos. Então ele perguntou:

       — O que você acha da lareira?

       Era maravilhosa, com as pedras que ele pacientemente havia colocado ali, em tons amarelo e rosado. A cornija lançava uma discreta sombra sobre o carpete. Reparei os enfeites de metal que eu limpava todas as semanas e pela primeira vez pude ver como reluziam.

       Depois então percebi o maior buquê de flores que se possa imaginar.

       Estava em cima da mesa, com cravos, rosas, dálias; todas transbordando por cima do vaso e dominando todo o ambiente.

       — Don, você não devia ter feito isso. São lindas. Que recepção! Por isso você disse que não fazia mal deixar as flores no hospital!

       Eu havia ficado ansiosa no carro à toa. No instante seguinte, minha outra pequena preocupação desapareceu também. Percebi, ao desviar o olhar das flores, por instinto, que havia alguém mais na sala. Com o canto dos olhos senti algo mexendo-se; olhei e vi uma mulher passar pela janela. Eu não fazia idéia de quem era ela.

       —- Quem é? — perguntei, olhando para ela mas sem reconhecê-la (quem, afinal, eu poderia reconhecer pelo rosto?). Ela começou a rir, mas não disse nada e eu me esforcei ao máximo para identificá-la. Em seguida ela falou:

       — Sou eu.

       Instantaneamente reconheci a voz.

       — Pat! - exclamei. — O que você está fazendo aqui?

       — Bem, vim trazer seus gatos.

       — Quer dizer, Ming e os filhotes? Que ótimo.

       — Não, não apenas Ming e seus filhotes. Trouxe todos os outros também. Achei que você gostaria de vê-los logo que chegasse em casa.

       Pat desapareceu na cozinha e pouco depois Ming surgiu na porta. O que me chamou atenção de imediato foi a tonalidade de azul dos olhos dela; depois reparei em outros detalhes, o focinho preto reluzente, as patas, orelhas. Reagi da mesma maneira que uma hora antes, ao ver Emma pela primeira vez. Com Ming e todos os demais gatos, eu não estava preparada para a variedade de cores e tonalidades que ninguém, nem nenhum livro jamais fora capaz de me dizer. Eu havia escolhido siameses porque os achava macios e elegantes. Mas vê-los foi uma revelação e o maior prazer de todos foi observá-los andando. Pareciam flutuar.

       Finalmente Don precisava voltar para o trabalho e fazer as visitas a seus clientes. E Pat precisava ir embora também. Fiquei sozinha em casa (com os animais) e achei ótimo isso, porque assim teria oportunidade de ver tudo que quisesse.

       Sentei-me no sofá, com Emma perto de mim, e fiquei olhando para ela.

       Don dizia sempre que Emma tinha uma expressão antiquada e eu reparei isso enquanto estávamos sentadas ali: uma expressão que sugeria grande virtude moral. Sorri para ela, colocando minha mão sobre ela para acariciá-la. Ela encostou a cabeça em minha mão e pensei: "Será que ela fazia isso durante esses 10 anos, sempre que eu lhe colocava a mão, sem saber exatamente onde ela estava?”

       Era maravilhoso ficar sentada olhando para Emma (tanto assim que mais de um ano depois eu ainda não havia superado o fascínio de olhar para as pessoas e os animais) e observar sua expressão de contentamento, com as orelhas em pé e a ponta da cauda batendo no carpete. Enquanto ficávamos ali, eu pensava em todas as coisas que desejava fazer, agora que estava em casa.

       Uma das primeiras coisas era olhar-me num espelho. Eu já tinha visto Don, Emma, Ming e os outros gatos. Mas ainda não tinha me visto! Eu poderia ter feito isso no hospital, acho, mas não quis. Preferi deixar essa experiencia pessoal para quando estivesse só, pois eu me sentia um pouco apreensiva. Não fazia idéia do que esperar. Uma parte da minha mente dizia: "Vamos logo, acabe com isso. Isso tem de ser feito e esperar não alterará o resultado." A outra parte insistia em que eu esperasse. Suponho que tenha ficado no sofá por cerca de 15 minutos, acariciando Emma e reunindo coragem para fazer o que precisava ser feito.

       Quando eu não enxergava, nunca liguei muito para a existência de espelhos, e a casa, logicamente, não era cheia deles. Acho que havia um no banheiro para Don poder barbear-se. Enquanto eu estava sentada ali, repassando essas idéias, fiquei olhando ao redor da sala. Além dos espelhos, eu nunca havia pensado muito na existência de quadros nas paredes. Eu sabia que eles estavam ali, mas os objetos com os quais a pessoa cega não entra constantemente em contato através do tato não ficam muito vivos em sua mente. Pelo menos foi assim comigo. Don costumava pintar em suas horas de folga e havia algumas de suas telas na parede. Achei-as intrigantes e lembro-me de ficar olhando para elas, tentando identificar o que era cada coisa que havia na tela.

       Um dos trabalhos dele era uma cópia do quadro de Rembrandt - Homem com Capacete Dourado. Fiquei fascinada pelo ouro e pelo complicado trabalho no capacete. À esquerda, lembrei, havia uma paisagem marinha. Quando fui olhar para essa tela, deparei-me pela primeira vez com uma dificuldade que surgiu naqueles primeiros dias depois de ter recebido alta. Era o problema de transmitir ao cérebro a realidade de uma imagem através dos olhos, fazendo-a sobrepor-se a uma realidade condicionada pelo tato ou pela descrição verbal. Alguns objetos que via pela primeira vez eu podia identificar imediatamente, embora não soubesse por quê. Mas com outros eu não tinha a menor noção do que pudessem ser até tocá-los.

       Não pude fazer idéia da paisagem marinha. Quando Don trouxe-me uma xícara de chá na manhã seguinte, não fiz idéia do que fosse até segurá-la.

       Mas voltemos ao problema do espelho. Finalmente, depois de olhar vários quadros, sentada ao lado de Emma, fui até o banheiro e lá fiquei diante do espelho. Diante de mim. Vi, da mesma forma como aconteceu quando Don entrou na enfermaria, mas de um modo um pouco mais aflitivo, uma pessoa totalmente estranha. Não sabia o que pensar. Os lábios daquela pessoa mexiam-se quando eu mexia os meus, e os olhos piscavam se eu piscasse. Aparentemente, estes eram os únicos pontos de contato entre a imagem no espelho e eu. Depois de algum tempo, passei a achar que eu não deveria esperar mesmo um reconhecimento imediato. Como eu poderia de repente formar uma idéia a meu respeito? Sobre o cabelo pensei: "Não está mal, não está mal, é mais ou menos da mesma cor do pêlo de Emma." Depois fiquei olhando para o meu nariz. Coloquei a mão sobre ele porque não podia acreditar.

       Senti-o como sempre o sentira antes. Não tinha crescido. Mas vê-lo foi um choque terrível. Parecia um grotesco nariz de palhaço, dominando todo o rosto. Por que ninguém me falara sobre o nariz? Don, mamãe, meus amigos e todas as demais pessoas deviam saber disso mas não disseram nada por delicadeza. Fiquei tão frustrada que não quis olhar mais. Senti-me muito deprimida por ter um nariz tão grande assim e levei muito tempo para acreditar que não havia nada de mais com ele.

       Para afastar a idéia do nariz, fui até o quarto e abri o guarda-roupa para ver as roupas que minhas amigas haviam me ajudado a comprar ou que eu havia comprado sozinha, depois que a vendedora me descrevia cada peça. Algumas eram horríveis. Havia cores que não combinavam e outras muito berrantes e que não se coadunavam com meu gosto.

       Fiquei surpresa com alguns vestidos de que anteriormente eu não gostava: a textura da fazenda não me agradava mas achei-os muito bonitos. Era uma sensação estranha - eu tinha usado todas aquelas roupas sem saber como elas realmente eram. Mas agora o empolgante era a perspectiva de poder sair e escolher minha vestimenta e iniciar um novo guarda-roupa. Aquilo alegrou-me muito, apesar do nariz.

       Voltei para a sala de estar, sentei-me e olhei tudo ao redor novamente.

       Adorei as cortinas, o carpete e o papel de parede. Era tudo tão colorido e parecia tão novo.

       Eu havia morado ali durante tantos anos, mas era como estar numa outra casa. Não tinha nada a ver com a casa que eu imaginava; era um lugar mais brilhante, mais espaçoso e mais confortável.

       Comecei a sentir fome, especialmente porque não havia almoçado.

       Teria de sair e comprar alguma coisa para o chá. Estava ansiosa para fazer isso. Como eu me sentiria?

       As lojas não ficavam longe, eu as conhecia bem; ficavam na esquina.

       Queria vê-las. Apanhei a sacola de compras no saguão e me dirigi para a porta da frente. Emma sentiu que iríamos sair e ficou toda satisfeita. Mas ao chegar à porta parei. Como faria? Estava apreensiva. Pensei primeiro em levar Emma na coleira. Mas achei melhor que nessa primeira vez ela fosse na guia e me levasse. Depois, quando eu estivesse acostumada a sair, poderíamos dispensar a guia.

       Apanhei a guia no cabide e Emma ficou imediatamente alegre, pulando e latindo muito. Seu contentamento era grande porque depois de tanto tempo nós duas sairíamos juntas novamente. Seria para ela como nos velhos tempos, embora para mim as coisas tivessem mudado. Pedi para Emma me levar às lojas e ela puxou-me pelo portão e lá fomos nós. Mas logo que começamos a andar pela calçada de repente comecei a ver o pavimento correndo sob meus pés. Foi algo tão inesperado e assustador que pedi que Emma parasse. Logo me recuperei e começamos a andar outra vez. Mas então comecei a ver a cerca das casas vindo em nossa direção e as árvores pareciam voar, dando a impressão de que nos jogariam no chão. Olhei para baixo novamente e vi a calçada e a sombra dos postes vindo para cima de mim.

       Eu não estava me sentindo bem. Mais uma vez pedi a Emma que parasse. Eu sabia que aquilo era ilógico. Sabia que quem estava andando era eu e não o poste, ou a calçada, ou as sombras. Mas visualmente parecia o contrário. Resolvi fazer mais uma tentativa.

     Aconteceu a mesma coisa. Fiquei em pânico. Eu precisava parar para me tranqüilizar, para provar a mim mesma que eu é que estava andando. Mas cada vez que parávamos, Emma sentava-se e olhava para mim com aqueles grandes olhos castanhos cheios de curiosidade. Ela queria saber o que estava acontecendo; depois de 12 anos juntas, por que eu estaria me comportando assim? No fim de algum tempo, achei que a melhor solução seria eu fechar os olhos e deixar que Emma me conduzisse como sempre. E foi assim que finalmente chegamos às lojas,

       Emma parou. Abri os olhos e estávamos na porta da mercearia. Fui imediatamente invadida por uma massa de cores, e isso, juntamente com o alívio de ter chegado lá, fez com que eu pensasse: "Valeu a pena o sacrifício." Fiquei maravilhada ao ver as frutas, legumes e flores na mercearia, e para grande surpresa minha vi que não havia duas maçãs iguais, apesar da predominância do vermelho, nem duas batatas iguais, nem cenouras nem nada que estivesse ali à mostra.

       Como podia haver tantas nuances e variedades de cor?

       Além disso, havia uma porção de coisas que eu não conseguia identificar. Mais uma vez apresentou-se o problema de não relacionar minhas impressões tácteis com as impressões visuais. Talvez eu já tivesse forçado a cabeça demais aquele dia. Ver era maravilhoso, mas era preciso, de certa maneira, aprender a ver corretamente.

       Na loja, onde as pessoas me conheciam bem e ficaram contentes pelo sucesso da cirurgia, ninguém se importou com o fato de eu ter de tocar em tudo para reconhecer as coisas. Havia algo sobre o balcão que eu não sabia dizer o que era, por mais que tenha tentado. Eu via a cor vermelha, a cor verde e uma forma determinada. Era tudo que aquilo significava para mim. Não me ocorria nenhuma descrição. Então coloquei a mão e descobri o que estava vendo: eram folhas e flores. Era uma planta.

       Eu não conseguia entender por que não identifiquei imediatamente o que era aquilo. Era uma poinsétia. Em seguida apontei para alguma coisa na prateleira e perguntei:

       —O que é aquilo?

       —Aipo.

       — E ali?

       —- Beterraba. E continuei perguntando. Ao final, comprei tomates porque tinham a cor mais linda de toda a mercearia.

       No caminho de volta, decidi manter os olhos abertos, o que provocou um incidente estranho. Eu estava novamente nervosa, mas resolvi persistir, quando vi um rapaz vindo em nossa direção. Como sempre, eu estava conversando com Emma e disse:

       — Vem alguém aí, Ema, tenha cuidado.

       Não tenho idéia do que ela fez com esse comentário desnecessário, mas ao dizer isso pensei: "Agora preciso agir, preciso desviar do rapaz. Mas como? Como fazer isso?”

       Não me ocorreu que eu estava perdendo minha confiança em Emma.

       Pensei: "Vou desviar para a direita e assim o evitamos." Mas quando o rapaz estava em cima de nós, eu me afastei para o lado, à direita da calçada. No mesmo instante. Emma decidiu que o melhor seria desviar para a esquerda. Soltei a guia e caímos todos no chão, embolados com a guia e tudo - enquanto o rapaz demonstrava ter passado por um grande susto. Senti-me péssima com o incidente e percebi, pela expressão de Emma, que ela não havia entendido o que acontecera. Ela bocejou, certamente não por enfado e sim por embaraço.

       Continuou olhando para mim com uma expressão ansiosa, zombeteira, que devia querer dizer: "Por que afinal você fez isso? Em 10 anos você nunca fez nada igual. O que houve?" Eu disse a ela:

       - Olhe, Ema, sinto muito, eu não devia ter colocado a guia em você.

       Concluí que havia esperado muito dela. O que desejara, na verdade, é que ela ficasse a meu lado até que eu tivesse coragem para sair sozinha. Isso não era justo.

       A partir de então, sempre que saíamos eu colocava apenas a coleira em Emma e aprendi a cuidar de mim.

       Apesar de tudo, chegamos em casa e senti muito prazer em poder esvaziar a sacola de compras e ver a preparação de uma refeição. Uma coisa que eu comecei logo a perceber é que se precisava de muita concentração para se olhar para os objetos. Era algo novo para mim, essa concentração e esforço mental envolvidos em enxergar; eu não esperava por isso. Pensei que uma vez recuperada a visão, eu poderia enxergar e que tudo estaria resolvido. Mas não era bem assim. Era como de repente receber um braço extra e ter de se esforçar para acostumar-se a tirar o melhor proveito dele. Mas era algo excitante também.

       Quando olhei para o interior do armário da cozinha a primeira vez, deparei-me com uma caverna cheia de latas, pacotes e potes que eu não conhecia visualmente, mas que já usara antes. Tinham ganho uma nova vida. Apanhei um pacote vermelho, amarelo e branco e pensei: "O que será isto?" Logicamente que estava escrito SAL no pacote mas, embora eu tivesse lido durante muitos anos, antigamente, recuperar essa capacidade levou algum tempo e a palavra SAL a princípio era apenas uma arrumação de letras com formas diferentes. Eu conseguia lembrar de algumas palavras impressas e era capaz de escrevê-las quando ainda não enxergava.

       Mas ver uma palavra e querer que o cérebro atribuísse um significado a ela era algo diferente e muito difícil, no início, embora tudo tenha voltado a minha mente mais tarde.

       Mas para começar, eu identifiquei o sal pelo método antigo paladar - e fiz uma correlação com a cor da embalagem. As caixas de cereais eram amarelas.ou brancas com desenho, a lata de feijão era azul-turquesa e assim por diante.

       No início era tudo descoberta e eu não me importava. Na verdade, gostei de ir para a cozinha naquela primeira tarde que passei em casa e gostei mais ainda da primeira refeição que fiz, com os vermelhos e verdes da salada me encantando, e até de jogar água sobre as cenouras: o modo como a água brilhava e escorria, captando a luz e formando uma minúscula queda-d'água na pia, fascinou-me. Depois que arrumei a mesa para o chá e estava esperando por Don, fui até o jardim, meu adorado jardim.

       Senti-me orgulhosa dele, enquanto caminhava por ali, tendo Emma correndo perto de mim!

       Quando era cega, havia dias em que eu literalmente odiava as árvores do jardim, pois os galhos sempre se enroscavam em meu cabelo, e se eu fosse andar um pouco sobre a grama, o que acontecia muito pouco, precisava ter sempre em mente a presença e disposição das três macieiras para não me chocar contra elas. As macieiras, na verdade, não passavam de obstáculos a serem evitados. Agora não apenas elas pareciam incapazes de qualquer mal, mas também me pareciam lindas. No final do jardim ficava nosso salgueiro. Eu não me cansava de olhá-lo. As folhas eram verdes de um lado e cinzas do outro. Por um instante achei que meus olhos não estavam vendo direito. Ninguém jamais me dissera que as árvores podiam ter folhas cinzas. Foi então que olhei para o céu pela primeira vez e vi como as nuvens avançavam, passando lá no alto, grandes novelos brancos contra o céu azul. Ouvi o carro parar e depois o ruído do trinco do portão. Era Don.

       Ele foi se juntar a mim no jardim e perguntou:

       — Como passou a tarde? O que você fez?

       — Fiquei olhando tudo.

       — O que está olhando agora?

       — Bem, para dizer a verdade, estou esperando o pôr-do-sol. Don sempre descrevia o pôr-do-sol para mim e ninguém o teria feito melhor, ou de modo mais vívido. Mas ficar com ele, ali no jardim, enquanto o sol se punha e as cores começavam a mudar em fração de segundo, deu-me a certeza de que não havia substituto para a visão.

       Ler sobre qualquer coisa ou ouvir uma descrição (embora não queira desmerecer o que Don fazia) eram substitutos. E até aquele dia eu tivera apenas o pôr-do-sol de segunda mão.

       Naquela sexta-feira ficamos ali e vimos o sol se pôr, juntos.

       O sol desapareceu e as nuvens e o céu ficaram manchados de dourado e púrpura. Foi perfeito; para acabar aquele dia nada teria sido melhor.

 

                   UMA NOVA VIDA

       Durante os primeiros segundos, depois que acordei na manhã seguinte, tudo me pareceu normal. Não havia diferença alguma das outras manhãs, das milhares de vezes em que me levantei. Diante de mim havia uma névoa meio acinzentada.

       Depois lembrei-me. Eu enxergava! Bastava abrir os olhos, pois eu enxergava! Era a primeira manhã de uma nova vida. Mas em meio à sonolência, conjecturei: isso é mesmo verdade? Será que devo abrir os olhos?

       Na noite anterior, embora cansada, eu não queria deitar-me. Pareceu-me um desperdício gastar oito horas com os olhos fechados. Fiquei deitada sentindo-me muito feliz, o dia mais feliz de toda minha vida. Emma deitara-se na sua cestinha, nos pés da cama, e eu fixara-me no papel de parede, de onde não conseguia desviar os olhos.

       Era tão bonito, cheio de flores num fundo cor-de-rosa. Don deitara ao meu lado e lembro que ele disse:

       — Podemos ir a qualquer lugar que quisermos.

       Eu achava realmente que o mundo, finalmente, era meu. Mas ainda estava olhando para o papel de parede quando ele desligou a lâmpada.

       Agora abri os olhos. Vi imediatamente que o papel de parede ainda estava lá. Eu podia ler, podia levar Emma para passear, podia ver tudo que eu conhecia por me contarem mas que na verdade não conhecia bem. Achei que a experiência que eu estava vivendo deveria se comparar à de um astrônomo ao descobrir um novo planeta ou à de um explorador ao chegar ao topo de um platô e ver, a seus pés, quilômetros e quilômetros de um território inexplorado. Enquanto eu ficava devaneando, o sol invadiu o quarto através das cortinas e vi que Emma ainda estava enrolada na sua cestinha.

       Neste instante Don mexeu-se na cama e disse que ia se levantar e preparar o chá, o que fez com que eu voltasse a coisas mais práticas e imediatas. Enquanto eu estava olhando para Emma, ela também se levantou. Saiu da cestinha, espreguiçou-se com os olhos ainda semicerrados contra a claridade do ambiente, mas em seguida olhou para mim, cheia de afeição. Deu seu costumeiro pulinho de bom-dia e depois subiu em nossa cama, com a cauda abanando. Eu ouvira isso todos os dias, ao longo dos anos, mas nunca tinha visto o que acontecia. Era um ritual diário, em que ela tinha de desempenhar seu papel do que Don chamava de "Dança da Cama", em que ela enfiava o focinho sob as cobertas, com as patinhas de trás no ar e a cauda abanando. Ao ver isso pela primeira vez, juntamente com o som a que já me acostumara, recostei-me e ri muito. Era muito engraçado.

       Quando Don entrou no quarto com o chá eu lhe perguntei:

       — Quanto tempo ela levará para saber que eu posso enxergar?

       Emma ainda não compreendera a nova situação e eu ficava imaginando se ela perceberia a mudança aos poucos ou de uma só vez. Então algo estranho se deu. Eu estava observando Don servir o chá e começar a se vestir quando reparei nas pernas dele. Eu não as tinha olhado antes.

       — Don, suas pernas.

       — O que há com minhas pernas?

       — Elas não são um pouco estranhas? — Comecei a rir, porque ele ficou me olhando de modo estranho.

       Pobre Don, ficou sem ação. Ele olhou para as pernas com muita dignidade e ficou observando-as.

       — Minhas pernas são perfeitamente normais.

       — Não podem ser.

       — Mas são.

       — Mas há alguma coisa errada com elas. Elas não parecem pertencer ao resto do seu corpo.

       Ele mais do que depressa vestiu as calças para cobrir as pernas e escondê-las do meu olhar crítico: eu jurava que elas estavam fora de proporção. Não fazia a menor idéia de como as pernas deveriam ser, mas qualquer que fosse minha imagem, as pernas de Don não combinavam com ele. Quando me levantei, logo em seguida, parei de rir. Vi que minhas pernas também pareciam estranhas, muito estranhas e desproporcionais.

       Durante a refeição, descobri mais alguma coisa. Preparei bacon, ovos e tomates. Fiquei pensando quanto eu havia perdido de prazer por não poder ver a comida, e como ver os alimentos aumentava o apetite. Sentamos e coloquei meu garfo no bacon e por alguma razão os dois não se encaixaram. A coordenação motora estava além de mim e por isso, apesar de admitir aquilo como um retrocesso temporário, algo imprevisto, tive de voltar ao meu modo antigo de comer, ou seja, ter de apanhar a comida com o garfo e a faca. Deixei de olhar para o prato e passei a apenas sentir o gosto da comida.

       Enquanto comíamos, Don perguntou:

       — Aonde você gostaria de ir hoje? — Ele conseguira uma semana de folga no trabalho e queria me levar para um passeio de carro. Antes que ele dissesse mais alguma coisa, respondi:

       — Que tal Newstead Abbey, que fica perto daqui? Newstead Abbey, com suas florestas, lagos e jardins, fica a 20 minutos de carro de Nottingliam, junto a Mansfield.

       Foi a residência de Lord Byron. Na década de 30, foi doada à Câmara de Nottingliam. Estive multas vezes lá quando era cega e sempre achei um lugar muito tranqüilo.

       Eu podia praticamente sentir a atmosfera da velha abadia e imaginava Byron escrevendo poemas debaixo das árvores ou correndo a cavalo pelas alamedas. Costumava andar por lá e sentir as árvores, sabendo que havia grandes massas de rododendros, e ouvia as cachoeiras. Estava ansiosa para ver aquilo tudo.

       Havia um lago que se alongava como um grande espelho, com galinhas-d'água e cisnes flutuando junto com suas imagens refletidas.

       Finalmente chegamos às cachoeiras.

       O sol estava brilhando e batia em cheio na água, transformando-a numa cascata de diamantes que dançavam e giravam sobre as rochas. As cores iam mudando ao longo da queda. Eu não conseguia tirar meus olhos daquele espetáculo e Don quase teve de me arrastar para que eu fosse ver as flores que ele havia descoberto: dálias e crisântemos, num esplendor de diferentes tonalidades de amarelo, marrom e escarlate. Para mim, era como se todas as cores do mundo estivessem concentradas ali. Em seguida, reparei numa parede de pedras, uma parte da abadia, e fui até lá para olhar. A parede estava cheia de cores, rosa, amarelo, branco, cinza, marrom, com musgo e líquen desenvolvendo-se nas rachaduras, tudo cheio de muitos detalhes.

       Eu me entregava toda às sensações visuais. Mas havia mais uma coisa que eu precisava ver. O monumento que Byron mandara fazer para seu cão da Terra Nova, Boatswain.

       Chegamos à pequena construção de pedra, que ficava no final de alguns degraus. Emma correu até lá, muito interessada. E eu poderia ler, finalmente, o que Byron havia escrito sobre seu cão. Estava gravado na pedra que Boatswain possuía:

 

              "Beleza sem Vaidade,

              Coragem sem Ferocidade

               e todas as Virtudes do Homem

               sem os seus Vícios".

 

       Eu gostaria de ter escrito isso. Mas como elogio a Emma.

       Todos os dias íamos a lugares diferentes, e pela manhã eu sempre saía no jardim para ver as coisas. Certa manhã, quando estávamos quase saindo, chamei Don.

       — Venha ver este pássaro.

       Ele veio correndo, pensando talvez que estivesse acontecendo alguma coisa estranha.

       — Olha só, o passarinho pousado naquela árvore.

       — Estou vendo — disse ele, confuso — mas o que há com ele?

       — Não, não há nada, mas veja só, ele está pousado lá no galho.

       —Sim — ele respondeu pacientemente — estou vendo. Ele não conseguiu entender o porquê da minha excitação nem eu deveria esperar isso dele. Tive de lhe explicar.

       Eu sempre soube, porque haviam me contado ou eu tinha lido, que os, passarinhos pousavam nas árvores. Sempre percebi a presença de pássaros perto de mim. Era capaz até de saber a diferença do canto de alguns pássaros. Conhecia o cantar do melro e o trinado do pardal. Mas minha mente nunca foi capaz de associar a idéia de árvores.

       Jamais consegui juntar os dois. Pode parecer loucura, mas é verdade.

       Embora tivessem me dito isso várias vezes, eu não conseguia fazer a união. E lá estava eu realmente vendo um passarinho na árvore.

       Na última manhã de nossas férias, Don teve uma excelente idéia.

       — Que tal irmos a Yorkshire, a Flamborough Head?

       Eu sabia que o lugar era considerado lindo e por isso mal pude esperar para entrar no carro e sairmos. Estava ansiosa para ver o mar pela primeira vez.

       Foi uma viagem comprida, mais de 150 quilômetros através do campo, passando pelas Dukeries, regiões carboníferas e cidades industriais, onde se encontram vários solares ducais. E gradualmente subindo as verdes e íngremes colinas de Yorkshire Wolds. A estrada era toda margeada por vastos campos. De vez em quando passávamos por uma igrejinha situada num pequeno declive; logo depois estávamos no alto, vendo lá embaixo a ondulada paisagem verdejante. Lembrei-me das lições de contorno nas aulas de Geografia, mas naquela época não conseguia entender o que o professor queria dizer.

       Seguimos até o final da estrada, lá em cima onde ficava o farol de Flamborough Head, com sua brilhante torre branca. Saltamos do carro e Emma saiu correndo à nossa frente. Pouco depois de ouvir um grande estrondo, avistei o mar. Eu jamais imaginara aquele movimento permanente, tanto brilho, tanta foiça. O mar parecia reunir forças, ficando calmo durante algum tempo de silêncio, depois voltando a bramir, lançando-se violentamente contra o sopé dos penhascos, enquanto que no semicírculo formado pela costa a água parecia em ebulição. Na primeira vez que isso aconteceu, segurei o braço de Don. Tive a sensação de que o penhasco estava tremendo e que se desagregaria diante daquele ataque. Mas quando a onda afastou-se do sopé do penhasco, percebi que aquilo vinha acontecendo há séculos e que eu estava segura.

       Emma também adorou Flamborough. Correu muito e nos ajudou quando finalmente fomos até a praia e recolhemos seixos e conchas. Ela entrava e saía correndo da água, sacudindo-se toda, parecendo muito feliz. Apanhei todos os tipos de pedrinhas que encontrei na praia e as levamos para casa como lembrança.

       Mas, dentre todas as lembranças daquela semana, havia um toque de tristeza também. Eu tive tempo para arrumar todos os armários e gavetas, ler antigas cartas, livros e revistas velhas, e ver fotografias. Foi quando estava vendo as fotos que me ocorreu que havia certas coisas que eu não sabia sobre os anos em que era cega. E preferia continuar ignorando-as. Havia fotos de minha família que pareciam mais velhas do que na verdade eram.

       Encontrei instantâneos de Ohpas, meu gatinho siamês que tinha morrido, e gostaria de não ter visto nada daquilo. Havia também muitas fotografias de Emma, todas ótimas, desde a idade de cinco semanas, algumas delas enviadas para mim por Paddy Wansborough, em que dava para ver como ela devia ter sido um filhotinho bonito, esperto.

       Outras fotos mostravam Emma com mais idade, cheia de vigor e muito bonita, como continua até hoje. O problema era que, olhando uma foto atrás da outra, pude ver o processo de crescimento e envelhecimento de Emma. Eu sabia que ela estava quase com 11 anos, mas jamais pensava nela com essa idade. A idade dela não representara nada para mim até o momento em que vi essas fotografias, o que me deixou abatida, muito embora ela ainda não tivesse pêlos grisalhos e continuasse muito bonita.

       Mas tive de encarar o fato de que, para um cão, Emma estava envelhecendo.

       E tristeza não era a única sensação desagradável. Durante a semana, saí para fazer compras em Nottingham, o que serviu para que eu percebesse que deveria aprender a usar a visão: qualquer esperança que eu tenha tido de que a simples recuperação da visão tornaria minha vida automaticamente fácil desfez-se por completo e de maneira terrivelmente dolorosa. Desci do ônibus e saí da estação. Dizer que fiquei chocada era faltar com a verdade. Fiquei assustada com meu comportamento. Estava com Emma na coleira e quando deixamos a estação de ônibus, além do barulho e da sensação de pressa que eu já conhecia e com a qual realmente contava, entrei em contato com a causa daquilo tudo: as pessoas, milhares delas, todas se movendo, e carros e ônibus e ciclistas circulando, tudo misturado numa grande confusão, dando a impressão de uma múltipla luta corpo a corpo. Eu não conseguia acreditar que houvesse tantas pessoas assim e nenhuma delas pareceu prestar atenção em Emma ou em mim. Por que, afinal, fariam isso? Eu não era mais cega e Emma não estava usando a guia de um cão-guia. Eu sempre confiara em Emma para me levar por entre os congestionamentos de pessoas, mas agora sentia-me empurrada e acotovelada e percebi que não estava fazendo nenhuma tentativa para sair do caminho.

       Foi assustador, mas conseguimos e logo em seguida olhei para cima casualmente e vi um edifício muito alto, no novo centro de Nottingham. Jamais pensei que houvesse uma construção tão alta assim, ou tão ameaçadora. Parecia balançar. Eu sabia que as nuvens estavam muito acima do prédio, mas parecia que eles é que se moviam e não as nuvens. Um pouco tonta, finalmente consegui olhar para a frente e separar as coisas em duas categorias: as que se moviam e as que não se moviam, da mesma forma que Emma fizera isso por mim durante aqueles anos todos. Emma, é claro, ia caminhando na minha frente e embora ainda não estivesse acostumada a andar comigo sem a guia, especialmente no centro, parecia-se com qualquer outro cachorro passeando na coleira. Durante a maior parte do percurso. Porque chegou um momento em que ela sentiu que eu estava em apuros e então voltou imediatamente ao papel que sabia desempenhar melhor. Iamos atravessando uma rua controlada por sinal luminoso. Estava esperando pelo sinal verde e pelo apito, da mesma forma que aguardava que os carros parassem, pois ainda confiava muito na audição; na metade da travessia percebí que havia alguma coisa em nosso caminho; não pude identificar o que era. A imagem estava lá, mas meu cérebro não traduzía aquela imagem num conceito. Parei no meio da rua, diante do obstáculo.

       Então Emma veio me salvar. Ela estava a meu lado, mas neste instante adiantou-se e puxou-me para a esquerda pela coleira. Eu a segui. Ela foi me puxando até chegarmos do outro lado da rua. Quando já estava na calçada, voltei-me e olhei para aquele intrigante obstáculo de um ângulo diferente e descobri o que era: um daqueles trailers compridos. Estava vazio e tinha parado sobre a faixa de pedestres.

       No ônibus que me levou para casa, pude ver pela primeira vez as diversas expressões dos passageiros, o que para mim era uma fonte contínua de divertimento: uns com a aparência feliz, outros com o rosto tristonho; alguns acho que gostaria de conhecer, mas de muitos eu gostaria de ficar bem longe. Em tudo e por tudo eu estava desapontada com a aparência das pessoas. Se tivessem a uniformidade que eu imaginava quando era cega, pelo menos teriam uma certa beleza, pois nunca imaginara os seres humanos feios, grotescos e até mesmo repulsivos. Na minha frente sentou-se uma mulher cujo pescoço e papada caíam sobre o decote.

       Depois entrou um homem careca.

       A calvície, em particular, causou-me um grande choque então, embora agora já me tenha acostumado a ela.

       Fiquei, logicamente, surpresa pelo fato de minha família e meus amigos serem muito diferentes do que eu havia imaginado. Quando fui atender a porta certa vez, deparei-me com um homem (isso foi antes de eu ver as fotografias de meus parentes).

       Não tinha idéia de que era meu irmão Graham até ele começar a falar comigo. E quando minha mãe foi me visitar, olhei para ela e disse:

       — Seus cabelos estão brancos. Quando aconteceu isso? Eu agia sem tato e de maneira descortês, mas não fazia isso de modo deliberado. Era apenas a surpresa com a realidade.

       Levou algum tempo para eu me acostumar à idéia das expressões faciais. Olhava para Don de vez em quando e pensava: as pessoas não têm apenas um rosto, têm uma centena.

       No mundo dos cegos, há apenas uma obscura idéia do que seja um rosto. Não se pensa na possibilidade de os rostos mudarem com a alegria, a tristeza ou por qualquer outro motivo. E meu rosto também estava mudando. Durante aquela primeira semana, nossos amigos Eddy e Mike Blain foram nos ver e, depois de estarem conosco por mais de meia hora, Mike disse:

       — Você mudou.

       — O que você quer dizer com isso?

       — Bem, o seu rosto mudou.

       — Meu rosto? Como?

       — Na verdade, não sei. Mas está diferente... Não sei, mas acho que parece mais vivo, Sheila. Você está usando expressões. E de repente percebi que ele tinha razão e que a leve rigidez que eu sentia no rosto não tinha nada a ver com a operação, como cheguei a pensar; era causada pelo uso dos músculos da face que eu nunca usara antes. Acho que as crianças aprendem as expressões com os pais e com outras crianças. Mas como eu jamais havia visto um rosto de modo nítido o bastante para imitá-lo, estava recuperando o tempo perdido. Fiquei contente por Mike me ter dito que meu rosto estava mais vivo.

       Antes da operação, quando saía com Don para ir à casa de amigos ou para ir a um pub beber alguma coisa, mesmo estando rodeada de gente, precisava que Don falasse diretamente comigo para que eu me sentisse perto dele; ou pelo menos que conseguisse ouvir sua voz. Caso contrário, era como se estivesse isolada. Depois que comecei a enxergar, era maravilhoso poder olhar ao redor de uma sala cheia de gente e poder localizá-lo instantaneamente e, independente do número de pessoas, sorrir para ele e receber seu sorriso como resposta.

       O tempo pareceu voar, e logo terminou aquela semana maravilhosa e Don precisou voltar ao trabalho. Finalmente eu também voltei ao serviço.

       Emma estava ficando um pouco mais acostumada à coleira, mas deve ter sido estranho para ela fazer a costumeira viagem matinal por Nottingham sem ser a responsável por mim. Ela ainda estava um tanto confusa e de vez em quando olhava para mim, antes de sairmos, como se estivesse pensando: "Onde está minha guia? Não compreendo.”

       Na hora de sair para o trabalho, fui até a porta e fiquei pensando um momento: "Acho que aqui é o lugar dela, mas a porta parece estranha". Era como se eu nunca a tivesse visto. Mas logo que coloquei a mão na maçaneta, descobri que era a porta certa,

       O interior do prédio, também, parecia um lugar onde eu nunca havia estado, completamente diferente da idéia que eu fizera dele. Quando vi a mesa telefônica em que trabalhara por tantos anos, mal acreditei nos meus olhos. Minha máquina braile ainda estava lá, pronta para ser usada. Não havia pensado em braile naquelas semanas. Eu me sentia como uma arqueóloga que estivesse descobrindo uma relíquia do meu passado há muito escondida. Emma não pareceu dar importância a isso. Foi para sua cestinha e acomodou-se.

       Não consegui trabalhar do novo jeito. Era difícil operar a mesa telefônica visualmente. Acabei aprendendo, mas no princípio voltei a trabalhar pelo tato. Da mesma forma, era difícil escrever recados em vez de usar minha máquina braile. Em casa comecei a aprender a ler novamente e a escrever também. Mas foi tudo muito lento.

       Uma vez mais, meu cérebro não associava imediatamente o significado correto às formas que eu via no papel. No entanto, apesar de ter sido duro, nada pôde diminuir a alegria genuína de recuperar a capacidade de ler, e eu passava meu tempo livre cercada de livros e revistas.

       Continuei trabalhando na garagem durante algum tempo, até que decidi escrever este livro. A medida que o tempo passava, comecei a aprender a operar a mesa telefônica visualmente e a escrever todos os recados e, como tudo na vida acontece depressa velhos hábitos e costumes, uma vez deixados de lado, são logo esquecidos.

       Lembrei-me do meu passado de forma dramática e penosa quando chegou o momento de treinar minha substituta. Era a minha amiga Kath, que ia para o trabalho guiada por Rachel, sua cadela-guia.

       Tive de treiná-la na mesa telefônica e ao vê-la trabalhar era como se eu estivesse vendo o meu fantasma.

       Era uma sensação estranha e não podia acreditar que alguma vez eu tivesse sido assim. Mas as coisas voltavam a mim de todas as formas.

       Kath pegou minha caneta e o bloco e riu.

       — Não servem para mim — disse ela.

       E lembrei de como me sentia antes: não gostava de admitir que essas coisas existiam, coisas que eu não podia usar. Ao mesmo tempo, havia o lado divertido. Rachel e Emma tinham de dividir a mesma cesta, pelo menos elas tentavam, embora ficasse muito apertado. A pobre Emma deixava a cestinha e ficava olhando para mim sem entender nada, e eu interpretava aquele olhar como querendo dizer: "Ei, o que está acontecendo? Gosto de Rachel, mas estive aqui durante tantos anos e agora ela chega e quer tirar minha cesta!" Depois de algum tempo, ela estava tão contrariada que resolveu deitar no carpete, aos meus pés, a despeito de minhas explicações.

       Mas o treinamento não foi motivo de divertimento para mim. Eu tinha de lembrar como operar a mesa telefônica por tato e treinar Kate para tal, e quando ela se sentou lá a primeira vez tive de fazer as demonstrações pelo tato, a mão dela seguindo a minha pelos indicadores em braile, para que ela soubesse onde ficavam os números e os comutadores. Tive de indicar-lhe o lugar das listas em braile e, enquanto o fazia, ocorreu-me subitamente como as pessoas com visão reagem aos cegos. Sabia muito bem como deviam ter olhado para mim. Contudo, mesmo com minha experiência, não sabia como prestar mais ajuda a Kath.

       Queria ensinar-lhe a fazer as coisas de um modo mais rápido porque eu enxergava. Via o que estava acontecendo. Quando alguém ligava via logo qual o número, mas ao mesmo tempo via Kath correndo a mão pela mesa, procurando sentir o movimento do indicador para atender à ligação. Eu me sentia tão frustrada com isso que tinha vontade de lhe dizer: "Não, você está no lado errado, a chave é a de cima." Mas sabia que, se o fizesse, não a ajudaria. Tudo isso me abatia muito e desde que saíra do hospital nada havia me tocado mais do que aquela situação. Sentia mais intensamente porque Kath era uma pessoa cega muito capaz, além de ser minha amiga, e eu não podia suportar quando as pessoas falavam com ela e ela não as enxergava, ou quando ficava tateando à procura da xícara de chá.

      Mas a vida segue seu curso. Emma percebeu no momento adequado que eu enxergava e isso aconteceu, como eu havia imaginado, como resultado de um incidente especial.

       Ela ainda continuava com seu velho hábito de esperar pacientemente que os gatos acabassem de comer, à noite, e, tendo aperfeiçoado o método de esgueirar-se pelo chão da cozinha sem que eu ouvisse, comer as sobras que porventura eles tivessem deixado. Eu só ficava sabendo o que ela havia feito quando ouvia o barulho das tigelas vazias sendo arrastadas, mas aí já era tarde demais para fazer qualquer coisa. Certa noite vi quando Ming veio da cozinha depois de acabar de comer. Como sempre, havia deixado alguma coisa. Reparei que Emma, de modo dissimulado, dirigia-se para a tigela da gata. Ela já estava pronta para colocar o focinho na tigela quando gritei:

       — Emma, saia daí!

       Foi como se alguém tivesse dado um tiro perto dela. Voltou-se e olhou para mim com uma expressão que eu nunca vira antes: assombro, choque talvez, diria até que sua expressão sugeria um encontro com o sobrenatural.

       — Sim — disse eu — eu enxergo. Você ia limpar a tigela, não ia?

       Ela se aproximou de mim e colocou o focinho em minhas mãos enquanto abanava a cauda, como se quisesse dizer: "Bem, o que está havendo? Não estou entendendo nada.”

       Mas acho que entendia e ficou sabendo, a partir de então, que eu podia ver. Depois disso, quando saía na coleira, ela começou a puxar, a latir para outros cachorros e a parar para cheirar os postes: coisas que a correta, compenetrada e operosa Emma nunca sonharia fazer. Mas agora ela não precisava trabalhar nem, devido a seus 11 anos, seria guia de outra pessoa. Conquistara sua liberdade. Quando estava fora da coleira, era uma beleza vê-la correndo por toda parte com o focinho cheirando tudo, parando para investigar todas as árvores e cada pedacinho dos gramados, com a cauda bem em pé.

       Há certos aspectos de Emma que nunca cheguei a conhecer. Corno, por exemplo, suas orelhas subindo e descendo quando ela corria. Adoro sua energia e seu interesse pela vida e ela parece apreciar a alegria que sinto em poder vê-Ia.

       Outras coisas tornaram-se claras para mim com o passar do tempo. Algo que eu nunca havia visto era um arco-íris. Don certa vez correu para mim durante um temporal e disse, muito alvoroçado:

       — Venha cá, Sheila, venha ver uma coisa.

       Mas quando saí no jardim o céu havia mudado; tudo havia desaparecido, a não ser uma leve risca de cor violeta no lugar onde estivera o arco-íris. Ele ficou desapontado e eu também. Ainda estou esperando para ver um arco-íris.

      Deixando de lado o arco-íris, agora sei realmente o que é o Natal.

       Antigamente eu sempre me sentia triste na época do Natal e frustrada porque sabia que a cidade estava toda decorada com luzes, árvores de Natal e grandes desenhos iluminados de Papai Noel, que eu sempre desejei ver. Nas lojas havia muitas coisas que mamãe descrevia para mim, mas que jamais pude apreciar nas vitrines. Podia esticar a mão e tocar em tudo mas não era absolutamente a mesma coisa. No entanto (Don achava isso estranho), eu sempre enfeitara minha casa. Tinha minha noção de espaço e sabia exatamente onde cada coisa estava e assim imaginava o ambiente enfeitado. Costumava sentar-me, gostando da idéia de saber que a casa estava decorada e que eu havia feito tudo aquilo. Todos aqueles anos em que fiz decoração para mim e ia às lojas, sem poder ver os presentes que estava comprando, desapareceram como se nunca tivessem existido. Poder enxergar e aproveitar o Natal ao máximo, mais que qualquer outra coisa, resumia o que enxergar representava para mim.

       Comprei mais artigos de decoração do que fazia antes e juntei-os aos que já tinha em casa. Consegui uma enorme árvore de Natal e pendurei enfeites por toda parte.

       Don chegou em casa com algumas lâmpadas coloridas e quando as acendeu - azul, laranja, verde - era como se eu tivesse seis anos outra vez, só que muito melhor. E que prazer senti em poder escrever os cartões de Natal e de saber, depois de abrir os que recebia, quem os havia enviado. No dia de Natal foi maravilhoso ver Don abrir seus presentes. Fosse uma camisa ou uma loção para após a barba, eu havia escolhido cada um pessoalmente.

       Agora mais um ano se passou, um ano em que me tornei mais acostumada e prática com o que posso fazer com visão. Mas ainda não perdi meu senso de fantasia. Quando ouço alguém na rua reclamando sobre o preço da batata ou dizendo que o carvão vai aumentar novamente, gosto de lembrar como elas são felizes por terem a capacidade de ver o céu e as nuvens.

       Don e eu nos consideramos particularmente felizes, No último Natal, nossa família aumentou. A 21 de dezembro tive uma menina, Kerensa Emma Louise, que agora tem dois meses e meio (o nome do meio foi escolhido, obviamente, por um motivo cor de chocolate.) Fomos abençoados com uma menininha muito linda. Don e eu somos mais felizes do que podíamos sonhar e só esperamos que um pedido nosso seja atendido: que Kerensa possa enxergar.

 

                                                                                Sheila Hocken  

 

                      

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