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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS OSSOS TAMBÉM FALAM / José Torres Gomes
OS OSSOS TAMBÉM FALAM / José Torres Gomes

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS OSSOS TAMBÉM FALAM

 

O muro estava agora caiado, em lugar da velha, esburacada e ferrugenta rede, os zeladores do cemitério puseram um gradeamento à mesma altura. Do lado de fora, só se avistava um vulto no interior daquele campo santo. Encontrava-se quase sempre prostrado sobre uma sepultura. Do lado de fora ainda, ele reforçou o olhar na tentativa de reconhecer a pessoa que, pelo ângulo da sua visão, deveria estar a umas três ou quatro sepulturas da sepultura onde jaziam duas das pessoas que ele mais amou, e que há quase vinte anos ele não visitava. Ainda não conseguira desvendar se a pessoa era homem ou mulher. Ela, do lado de dentro, e num melhor ângulo, olhou de esguelha e viu ainda, montado num belo cavalo branco, um homem que deveria rondar os trinta anos. Estava em cima do cavalo, e ela, do lugar em que se encontrava, não conseguia observar se era um homem alto ou baixo. Parecia-lhe ser alto, possante, usava os cabelos compridos e presos, eram cabelos bastante gastos pelo sol, ruivos e grossos. A senhora ergueu-se por fim. Ele estava ainda na esquina do cemitério,   lentamente,   e   notando-se   alguma   falta   de   coragem,   foi andando até parar em frente à entrada. Olhou o interior daquele lugar que só lhe trazia dolorosas recordações. O largo corredor central mesmo em frente ao portal não era agora em terra batida, mas em belos arranjos artísticos feitos com paralelos. Enfim, o cavaleiro que morava não muito longe da cidade, mas que para tentar fugir à dor não mais a visitara desde o dia do último funeral, apeou. Prendeu o cavalo e empurrou o portal entreaberto e, ao fazê-lo, os gonzos secos pelo tempo chiaram. A senhora, agora   mais   perto,   voltou   a   olhar,   contudo,   não   o   reconheceu.   Ele, arrastadamente, dirigiu-se para a sepultura. Agachou-se pegando no ramo de verdes para espargir a tumba. Mergulhou na mais profunda dor e desatou a chorar em alto pranto, sentia uma forte revolta misturada com dolorosas   saudades.   Os   seus   joelhos   derrearam-se   e   durante   longos minutos ele manteve-se prostrado sobre aquela pedra branca, simples e fria, que encobria a terra que guardava os ossos de quem ele muito amava. No mesmo correr das campas, a senhora, mesmo sem o ter reconhecido, soube, no instante em que ele desatou a chorar, que era o Lipe. O franzino rapazinho, que há vinte anos vira pela última vez, era agora um homem feito. Olhava para ele disfarçadamente e via-o a limpar as lágrimas às compridas mangas azuis da camisa. Usava também umas calças de ganga e umas fortes botas um pouco sujas de terra lamacenta. Ao vê-lo assim combalido, também ela não se conteve e chorou. Entretanto, ela espargiu a campa e foi-se embora. Pôs-se a caminho e seguiu o trajecto normal para dali sair, passou rente ao Lipe, que se recompôs à sua passagem. Agora era ele quem olhava de frente para a senhora, na rua não a teria reconhecido, mas ela só poderia ser a mãe da Clara. Não era mais aquela forte mulher, alta, cheia e de cabelos soltos pelos ombros, e com ares de pessoa alegre. Ao invés, era agora uma senhora abatida, envelhecida para a idade que deveria ter, o seu semblante era triste, sem expressão, e vestia-se de um luto cerrado. Ao passar bem junto a ele e quase a roçar o seu corpo, ela olhou para ele com algum desdém, por muito tempo o culpou pelo sucedido, porém sabia que ele na altura tinha dez anos, e que entre crianças não existia maldade alguma.

 

Ele de pé e a fungar, mirou a senhora de cima a baixo, se ela lhe tivesse falado, ele ter-lhe-ia respondido, no seu íntimo era isso que ele desejava, desculpar-se de uma coisa que sentia não ter culpa, mas que sempre soube que, de uma maneira ou outra, os familiares da Clara o culpavam. A senhora afastou-se, sem nunca falar, puxou o portal e deu uma última olhada para o Lipe. Ele viu que a mulher limpava também o rosto. Foi a derradeira vez que a viu. Agora estava sozinho no cemitério, poderia desabafar à vontade sem olhos a devassá-lo. O seu olhar e os seus pensamentos voltaram-se unicamente agora para a sepultura. Recordou a sua mãe e a sua tia Dinha. A memória do malvado sargento veio também por arrasto. Os acontecimentos estavam a consumi-lo, era disso que ele fugira durante quase vinte anos, no entanto já que ali estava, tinha que deixar tudo vir ao de cima. Desabafar só lhe iria fazer bem e, quem sabe, só passados outros vinte anos voltasse àquele lugar. Por fim, foi visitar a sepultura de onde, há pouco, a mãe da Clara saíra. Também lá chorou, e em catadupa as recordações o atormentaram de novo. Lembrou-se dos seus tempos de menino, quando tinha menos de dez anos. Recordar é viver,   viver por vezes é   sofrer.   E ele   sofreu   muito.   Mas sobre   isso falaremos desde o início, pois só deste modo se compreenderá a história de duas crianças, uma que se tornou adulta e outra que não teve a feliz sorte de a esse estado chegar…

 

Lipe vivera com os seus pais e a sua tia avó, numa pequena fazenda situada não muito distante de um grande rio. Era uma humilde família de agricultores que na terra labutava de sol a sol, e unicamente da terra provinha o sustento de todos. Esta família, embora trabalhasse muitas terras, tinha como propriedade a pequena casa e um exíguo quintal. Anexaram vários terrenos adjacentes, alguns pertença de familiares e outros arrendados; desta maneira formaram uma pequena fazenda. A vida, que por vezes é terna e querida, preenchida de bons momentos, de súbito sacode o tapete, como que tomada duma fúria irracional; faz uma família entrar num turbilhão de desgostos, de perguntas sem respostas e tem a capacidade de nos fazer pensar que as divindades em que acreditamos piamente se encarniçam frenéticas contra nós.

 

Lipe era um franzino rapaz de olhos e cabelos castanhos que sempre ansiara por outros irmãos. Apesar da sua tenra idade, ele ajudava os seus pais   nas   árduas   tarefas   do   campo,   guardava   a   pequena   manada   e pastoreava de igual modo as ovelhas. Conduzia as juntas de bois, quando faziam a recolha de lenha que servia de combustível caseiro — embora já existissem fogões a gás, na casa dos pais do Lipe essas mordomias eram ainda um sonho distante; máquinas motorizadas também não marcavam presença naquela pequena fazenda. Nos meios urbanos, o progresso era já bem patente, mas nas regiões agrestes do sertão brasileiro, a vida rude e austera permanecia inalterada desde os primórdios do desenvolvimento. Era um exímio condutor de bois, com muito treino nas colheitas do milho, do   feijão,   da   batata,   das   abóboras,   do   café   e   em   muitas   outras sementeiras.

 

Tratava os animais como tratava as pessoas. Baptizara os quatro animais que em conjunto puxavam o carro. O boi da parelha da frente, do lado esquerdo, o seu preferido, baptizou-o de Sebastião; o outro que compunha a parelha era o Isidoro. Os dois da parelha de trás eram o Lucas e o Mateus. Estes nomes foram dados por si aos animais em homenagem muito especial aos quatro santos da sua devoção. Conduzia os bois do lado esquerdo, mesmo junto ao boi Sebastião, assim chamado em homenagem ao mártir que se celebra no dia em que seu pai ia somando umas já longas e cansadas primaveras — o dia vinte de Janeiro, dia solene dedicado a São Sebastião. Usava sempre um aguilhão — não para desferir aguilhoadas nos bichos, pois sempre tratou com carinho os seus belos bois — mas sim para impor respeito aos animais e para se sentir o verdadeiro condutor de um belo carro de tracção animal.

 

— Lipe, a mangueira já está engatada, vai tocar a bomba para encher o depósito.

 

— Sim, paizinho, dois minutos e já estou a caminho!

 

— Ah, não te esqueças de seguida de encher o tanque da roupa e o tanque dos animais!

 

— Sim, paizinho, eu não me esqueço! Depois posso ir brincar?

 

— Tanto brincar, tanto brincar… Podes, desde que não seja com aquela ranhosa da Clara!

 

Clara era a sua melhor amiga, nove meses mais velha que ele. Quem para eles olhasse, pensaria que ele tivesse menos dois anos que ela, de cabelos completamente brancos e olhos de um azul intenso, era em tudo mais desenvolvida do que ele, sabia ler desde muito novinha, os seus pais pagavam uma professora para que fosse ensinar a filha lá em casa, uma vez por semana. A amizade que os unia já durava há vários anos e a menina tentava ensinar o Lipe a ler, contudo os resultados não foram os melhores, ele só vivia para os animais e para as brincadeiras. Clara era também sua vizinha. Convém, todavia, salientar que os vizinhos mais próximos chegam a morar a centenas de metros de distância. A amizade entre ambos foi travada nas pastagens: Clara, à semelhança do Lipe, também pastoreava as ovelhas e, por conseguinte, encontravam-se com muita frequência. No início, a amizade entre eles surgiu como uma pequena raiz de trepadeira, começou bem por baixo, foi subindo pouco a pouco, até se entrançar no coração dos dois. Viviam, por assim dizer, como que grudados. Seus pais aprovavam a forte amizade que os unia. No entanto, um dia os dois foram brincar logo após o almoço.

 

— Dona Clotilde, senhor Araújo!

 

— Quem chama?

 

Os pais do Lipe saíram de sua casa e depararam com os pais da pequena

Clara.

 

— Ah, são vocês, entrem!

 

— Não é necessário — recusou o senhor Sousa.

 

— Mas porque é que os senhores mostram essas caras? — perguntou dona

Clotilde, ao notar a sombra que caía nos rostos fechados dos pais da Clara.

 

— O traste do vosso filho desgarra todos os dias a nossa menina para passear e ainda por cima a esta hora, já são cinco e meia e ainda não voltaram!

 

— Ora, senhor Sousa, traste aqui é o senhor! Eles são só duas crianças, e nós bem sabemos que tanto desgarra o nosso filho a vossa filha, como a vossa filha desgarra o nosso filho!

 

— Traste, eu?! O senhor Araújo está a chamar-me de traste?

 

— Quem chamou de traste o meu filho?

 

— Chamei e volto a chamar! Foi ele quem levou a minha filha!

 

 

O senhor Sousa era um típico marido machão, autoritário, que subjugava a

esposa, dando-lhe poucas vezes a oportunidade de falar em sua presença. Ele fazia-o bem pelos dois…

 

— Não foi o nosso filho quem levou a vossa filha, eles foram os dois de boa vontade! Por isso não acusem o Lipe!

 

— Nós não estamos acusar o vosso garoto, mas…

 

Dona   Clara,   que   dera   seu   nome   à   sua   filha,   tentou   falar,  sendo interrompida pelo marido:

 

— Estamos a acusar sim o vosso filho, que é um malvado! Se não fosse ele, a minha Clara não teria saído!

 

O senhor Araújo, ao constatar que o senhor Sousa não passava de um obstinado e malcriado homem, cortou o relacionamento entre as famílias.

 

— O único malvado e traste aqui é o senhor! Por favor, peço-lhe, quando passar por mim nestes caminhos da vida, faça meia volta e nunca mais me dirija a palavra!

 

— O senhor Araújo é outro malvado como o seu filho! O mesmo recado eu lhe dou, nunca mais cruze o meu caminho!

 

Estas duas famílias, de relacionamentos amistosos, chegaram deste modo ao fim   do bom entendimento. Dizem que por vezes é preciso uma vida para se fazer um amigo. E que são precisos somente uns poucos instantes para se criar uma inimizade. Interromperam-se estes laços de amizade entre estas duas famílias, por ser desconhecido o paradeiro de um membro de cada lado. Estes divertiam-se entretanto, inconscientes de que um deus invejoso da sua ingenuidade se insinuara nos corações de seus pais.

 

Assim fora que, mal terminara o almoço, Lipe resolveu sair de casa no intuito de encontrar Clara. Corria, saltitava, cantarolava e dava-se a todas as manifestações de alegria, próprias duma criança que sente um grande contentamento. A vontade de estarem juntos era mais que recíproca, talvez suas mentes tivessem uma maneira de comunicar. Clara saíra de casa em direcção à casa do Lipe, com a mesma intenção. Encontraram-se, sem medições feitas, mais ou menos a meio do caminho entre ambas as casas.

 

— Clarinha, vamos para o morro das araucárias!

 

 

— Sim, vamos!

 

— Hoje peguei um novelo de fio de sediela e bastantes sacas plásticas, podemos construir papagaios!

 

— Que bonito, vai ser bonito!

 

No caminho em direcção ao morro das araucárias, um pouco distanciado das casas de Lipe e da Clara, agora não é só um menino a correr, a saltitar

e   a cantarolar.   Se   alguém   presenciasse, depararia com   duas alegres crianças que ao darem largas à alegria esfuziante, corriam, saltitavam, cantarolavam — as crianças, de forma inata, demonstram sem disfarces tudo o que lhes vai na alma.

 

Bem por detrás dos grandes pinheiros, tão ricamente enfeitados de pinhas cheias de pinhões, alguns bem no ponto de serem consumidos, as densas e carregadas nuvens formavam uma muralha natural que, por vezes, com o movimento de se aconchegarem mais umas nas outras, lá deixavam o astro rei espreitar o mundo em baixo.   Irrompia por entre as nuvens, tendo a capacidade de causar o efeito de se observar os raios através de grandes plásticos.   Por   instantes,   as   sobrecarregadas   nuvens   emaranhavam-se, voltando a fazer o tempo ficar escuro, e fechavam o horizonte quais Andes peruanos, cobertos no sopé negro e no topo nevado, a ameaçar uma avalanche iminente.

 

As duas crianças, destemidas e inconsequentes, procuram canas de bambu. Com um canivete Lipe cortou as canas, atou-as em cruz e prendeu um plástico previamente preparado. Num outro fio de cinco metros, ataram pedacinhos do moldável material e   obtiveram   assim uma   cauda que serviria de leme à obra que estava prestes a ser concluída. Por fim, faltava tão-somente prender a guita, que suportaria o papagaio de papel em pleno ar. Lipe adquiriu o fio de sediela e o canivete na Chalana. Trocou uma gralha azul por todo aquele material de grande utilidade para as suas brincadeiras.

 

— Clarinha, agarra o papagaio! Eu vou na frente a correr, tu acompanhas a corrida. Depois, quando eu disser, larga e verás como ele parecerá um pássaro.

 

Lipe, com o dedo polegar da mão direita, segurava a guita e com a mão esquerda segurava o novelo, de olhos reluzentes e coração em grandes e descontroladas batidas, provocadas pela incerteza e insegurança na obra a que dera forma. Esmerou-se na construção daquele papagaio, não queria agora que tudo se transformasse num grande fracasso. Já fizera outros e todos eles voaram, mas nunca na presença de tão grande admiradora. Ele sabia que ela depositava toda a certeza no seu êxito, e agora se o maldito papagaio resolve em não voar? Tem de ser um bendito, tem de voar, ficar mal perante a Clara seria o pior que a sorte lhe reservaria. Correu, e atrás dele Clara corria também, de papagaio preso numa das mãos. Olhava inquietamente para a frente, para ver o caminho que trilharia por entre a pequena vegetação e para trás, para o papagaio, de modo a certificar-se que tudo estaria a postos para a descolagem. Quando sentiu a pressão do vento a puxar a sua mão, correu um pouco mais rápido: “Clarinha, larga!”

 

Clara largou, o êxito foi completo. O papagaio de cauda multicolor afastava-se dos dois em direcção às nuvens densas. Lipe, lentamente, cessou a corrida, dava guita e o papagaio parecia querer baixar. Puxava e o renitente voltava a subir. Com o soltar da guita e o puxar do barbante vezes sem conta, os seus dedos ficaram feridos, a escorrer sangue. Mas que importância poderia ter aquele fracasso dos seus dedos, quando o papagaio já se elevava nos céus? Era o culminar de todo um esforço, de toda uma grande vontade de querer provar capacidades e conseguir fazer algo   para   atrair   a   atenção   da   pessoa   a   quem   se   atribui   a   maior importância. Dizem que «de pequenino é que se torce o pepino…»; Lipe, um pequeno garoto de dez anos, ainda em idade imatura para as questões do coração,  despertava      inconscientemente, envolvido num doce sentimento de amor infantil. Mas já o seu íntimo lhe impunha que teria de se esforçar para tudo fazer na perfeição, e com esses êxitos impressionar o sexo oposto, levando-o a pensar muitas vezes em si.   Os dois, felizes da vida, divertiam-se a olhar para o céu. Como era bonito ver o papagaio no ar, a balançar ao vento. Como era agradável ouvir o chilrear dos pássaros, como era belo o escurecer repentino do tempo, e o súbito clarear do horizonte, provocado pela aglomeração das nuvens e desvanecimento das mesmas. Clara sentia-se felicíssima ao contemplar o papagaio no ar. Olhou para o Lipe e perguntou:

 

— Lipe, será que eu serei capaz de também o fazer voar?

 

Lipe assentiu e puxou o barbante, provocando a descida daquele pássaro de cauda comprida e desajeitada. Quando este se imobilizou no chão, Clara pegou a guita. Lipe, depois de ter dado todas as explicações sobre o manuseamento do papagaio, segurou-o nas mãos e correram. O rapaz lutou por instantes com a cauda que lhe envolvera o rosto:

 

— Clarinha, vou largar! Mais rápido, é agora!

 

Clara correu  o mais rápido que pôde. Desgraçadamente para ela, o entusiasmo, o querer ver o papagaio a levantar vôo fez com que olhasse para trás. Embateu de súbito num grosso pinheiro. Um grito estridente, um clarão, e um baque surdo no chão. Num ápice todo aquele entusiasmo se desvaneceu. Clara estava no chão, o papagaio jazia mais adiante, com breves frémitos como num estertor. O rapaz torcia as mãos numa aflição:

 

— Clarinha, Clarinha, estás a ouvir?

 

Com voz quase imperceptível, ela respondeu:

 

— Sim, Lipe… dói!

 

Felizmente que a miúda se encontrava a olhar para o papagaio, e embateu com o peito e com a cara de lado. Tinha um pequeno arranhão na orelha esquerda e doíam-lhe o peito e as costas.

 

Lipe sentou-se na posição e colocou a cabeça da Clara nas suas pernas. Pediu-lhe que não falasse, talvez assim as dores acalmassem. Os dois mantiveram um silêncio ansioso. As dores e todo aquele silêncio fizeram com que a Clara adormecesse rapidamente. Lipe colocou vários plásticos debaixo da sua amiga e procurou um abrigo. Não muito longe, encontrou um encerado com aproximadamente dois metros de largo por três de comprido. Dirigiu-se a um local ode se erguiam três pinheiros; atou o encerado a uma das árvores, o mais alto que pôde, e prendeu duas pontas aos outros troncos, rente ao chão. Fez desta maneira uma pequena tenda, à semelhança de um leque semi-erguido. Acordou Clara e ajudou-a a entrar para a improvisada tenda, deitando-a em cima dos plásticos que havia trazido para a construção do papagaio. Clara voltou a   adormecer. Lipe, vendo que ali nada fazia a não ser atrapalhar, resolveu fazer voar novamente   a   sua   obra.   Obteve   total  êxito,   mas   desta   feita   sem espectadores. Prendeu a guita a um pequeno arbusto e depois deitou-se junto à combalida miúda. Juntou o sono da Clara à sua vontade de dormir, e foi um dormir só.

 

Quando   os   pais   de   ambos   romperam   relações,   deram   início   a   uma desenfreada procura. Por caminhos diferentes, mas num único sentido, com o objectivo de encontrarem os seus filhos preciosos. A distância percorrida pelos garotos não fora muita, mas procurar alguém no meio da mata, sem nenhuma referência, é um pouco difícil. Eram seis horas e a atmosfera carregava já as cores do crepúsculo. Trovejava a intervalos. Teriam de ser bastante rápidos antes que as nuvens os brindassem com água  abundante.   Viviam   num   clima   tropical,   de   quando   em   vez   as descargas torrenciais mostravam o seu poder. Tanto do lado do Lipe, como do lado da Clara, os pais não desistiriam de forma nenhuma, estavam motivados a tudo fazerem para os encontrar. Os dois amiguinhos dormiam profundamente.

 

Haviam-se passado oito anos. Depois duma longa separação, dera-se o reencontro.

 

— Clarinha, tive tantas, mas tantas saudades!

 

— Eu também, que foi feito de ti? Estive a morar com o meu pai, noutro estado!

 

— Clarinha, eu sempre sonhei com o dia do nosso casamento. Nós vamos casar-nos um dia. Vamos, pois vamos?

 

— Não sei, Lipe, eu gosto de ti, mas talvez não dessa forma!

 

Lipe agarrou as mãos da Clara e puxou-a para si, tentando beijá-la.

 

— Não, Lipe, eu sempre gostei de ti, mas penso não ser amor de homem e mulher!

 

- Como assim?

 

— Eu gosto de ti como se gosta de um irmão, um irmão muito querido!

 

— Irmão? Não entendo! Eu sempre sonhei contigo como minha mulher!

 

— Para mim, tu és um irmão! Enquanto morámos separados, como fiquei triste! Permaneci uma semana deitada na cama, pensei que iria morrer de tantas saudades.

 

— Mas… Clara, eu… julguei que era amor!

 

— Sim, Lipe, isto que sentimos é amor, mas não o amor de que falas!

 

O miúdo agitava-se imenso, a ponto de acordar, o sonho que estava a sonhar não era um sonho, mas sim um pesadelo.

 

 

A chuva, embora suave, já caía. Os quatro pais, sem qualquer tipo de

agasalho para se protegerem da água, calcorreavam todos os caminhos possíveis e procuravam nos mais inimagináveis sítios onde seus filhos pudessem estar.

 

Lipe, de terno e gravata, com botas de cavaleiro, de rosa ao peito e feliz da vida, esperava à entrada da igreja. Os seus olhos deliciavam-se a ver tantas   charretes,   tantos   amigos   e   principalmente   seu   pai,   que   se encontrava finalmente em estado de liberdade. Alguém lhe havia dito para subirem para o altar, a noiva estava a chegar. Lipe, bem junto ao altar, ao aperceber-se de que a sua noiva entrava na igreja, olhou para trás, em direcção à porta principal. Que linda era a sua noiva, toda vestida de branco, a cabeça enfeitada da flores! Flores para enfeitar a mais bela flor! Como se ela, possuidora de tanta beleza, precisasse de qualquer enfeite! Pura mania, simples vaidades, enfeitar um lindo jardim, puro desperdício de tempo e de flores!

 

— Mas… não pode ser, o rosto não é o da Clara!

 

Lipe ficou estarrecido, a imagem que se vislumbrava não era a cara da Clara.

 

— Será que ela desistiu? Será que me trocaram a noiva? Ela é linda, mas … Um forte trovão acordou os dois.

— Lipe, tenho medo, os meus pais vão ralhar!

 

— Os nossos pais. Clara! Mas não tenhas medo, estamos juntos!

 

— Já anoiteceu, e agora?

 

— Agora temos de nos manter aqui, está a chover muito, quando passar podemos ir para nossas casas!

 

Os relâmpagos eram cada vez mais, a chuva teimava em cair com mais intensidade. Os pais deles, esses de forma involuntária, encontraram-se.

 

— Pelo menos nesta hora vamos esquecer as nossas desavenças!

 

Tentou fazer uma trégua o senhor Araújo. Obtendo a seguinte resposta por parte do senhor Sousa:

 

 

— Só enquanto procuramos os nossos filhos. Você ameaçou-me e eu vou ter

isso em conta, até ao fim!

 

— É mesmo para ter em conta, você disse mal do meu filho!

 

— Disse e volto a dizer!

 

Os orgulhos feridos levam-nos muitas vezes a termos atitudes agressivas. Quando, se tivéssemos a capacidade de reflectir bem, facilmente o perdão seria dado. Ou até mesmo desnecessário!

 

Deslocavam-se, sem nada o fazer prever, para o morro das araucárias. Por breves instantes, a chuva cessou, o vento amainou, a escuridão era densíssima, mas a normalidade parecia voltar. O silêncio era total, só interrompido pelos passos dados pelos quatro caminhantes.

 

Dona Clotilde, de uma sensatez inata, pediu que parassem e não dissessem nada. Vindo da direcção dos pinheiros, ouvia-se um ruído estranho.

 

— São eles, estou a ouvi-los!

 

Alegrou-se dona Clara. Sendo levada de imediato à sua real condição, de mulher enganada e em tudo contrariada pela má sorte de na vida ter cruzado   o   seu   caminho   com   o   marido   que   possuía.   Aquele   homem obstinado sentia contentamento em ir sempre contra as afirmações da esposa, mesmo que esta tivesse por de mais carregada de razão. E ainda que a razão dela trouxesse momentos felizes para ambos, ele sentia que ao admitir e   atribuir-lhe razões, tudo aquilo fazia sair a esposa da condição imposta por si, de submissão.

 

— Ora, mulher, você está a sofrer alucinações! O que todos estamos a ouvir é nada mais que o barulho do vento nas araucárias!

 

— Não, desculpe, senhor Sousa, este barulho é-me bastante familiar! Julgo ser barulho de plásticos no ar! — confirmou o senhor Araújo. Desvendando

o mistério, a mãe do Lipe disse:

 

— Sim, querido, é verdade. Isto parece barulho de um papagaio de papel!

 

— Bem. Do mal, o menos. O malvado do vosso filho tem o hábito de andar para cima e para baixo com essa coisa. Devem ser eles que estão por perto!

 

 

— “O malvado do meu filho” não costuma andar com o papagaio “para cima e para baixo”! Ele anda com ele sempre em cima, é um bom lançador de papagaios de papel! — retorquiu deste modo, zoando, o senhor Araújo.

 

— Bem, minha boa gente, vamos pôr um pouco de água na fervura! Vamos procurar os nossos filhos, que se o papagaio for do Lipe eles devem estar por perto. A não ser que algo de mal lhes acontecesse! — sugeriu dona Clara, que se sentia mais protegida para falar. O seu marido, sempre possuidor de grande arrogância e acidez, mais uma vez tentou contrariar e ferir susceptibilidades.

 

— Ora, mulher, mesmo que sejam a nossa filhinha e o estúpido do filho destes aqui, eles…

 

— Você, se volta a maltratar o meu filho, eu perco as estribeiras!

 

— Senhor Sousa, por favor, não provoque mais meu marido! E por favor, afastem-se de nós, nossos filhos penso que devem estar perto, por isso vamos procurar!

 

Preocupados, uns em se defenderem e um outro em ofender, nenhum dos quatro havia ainda tido o discernimento de chamar alto pelos garotos. Mais uma vez dona Clotilde pôs o seu bom senso em prática.

 

— Lipe, meu filho, Clara, Clarinha, onde estão vocês? — a voz da senhora ecoou por toda a mata.

 

— Lipe! Clara! — chamavam os três em simultâneo, ficando de fora da chamada o senhor Sousa. Desta vez o chamamento ecoou de maneira mais forte pela pradaria; a união faz a força, e talvez desta vez eles ouvissem.

O silêncio, interrompido pelas suas vozes e pelo vento a ir de encontro aos pinheiros e ao papagaio, continuava sinistro.

 

Debaixo da tenda, os dois estavam assustados, e ainda não tinham dado conta   de   que   a   chuva   cessara.   As   grossas   gotas   caíam   das   árvores incessantemente. De súbito, o rosnar de uma onça pintada foi bem escutado por seis criaturas, consideradas seres pensantes. O silêncio era agora mais que aterrador. Lipe abraçou-se à sua amiga. Os quatro, que se mantinham juntos, agora mais que nunca desejavam permanecer nesse estado. Por momentos, os seus medos quase os levavam a fugir, mas os seus filhos estavam desaparecidos e, quem sabe, ali bem perto e a necessitarem de ajuda. Era hora, mais que nunca, de juntarem forças, e de se preciso fora, lutar com aquele predador. Os rosnidos do animal vinham dos lados dos pinheiros. Os progenitores humanos sentiam que seus filhos estariam por perto nalgum abrigo, mais que provavelmente, no lado de onde soava o miar. Encheram-se de coragem e partiram para junto das árvores.

 

Encontravam-se   agora   perto   do   aglomerado   de   pinheiros.   Sentiam   a companhia indesejada de um ou mais seres. Sentiam do mesmo modo, nos seus íntimos, que os garotos ali se encontravam refugiados.

 

O   senhor   Sousa,   o   mais   agressivo   daquele   grupo,   possuidor   de   uma têmpera mais estranha, era o único com hábitos de senhor armado. Existem males que vêm por bem. Encontrava-se de arma em punho, pronto para desferir um tiro no predador. No seu íntimo, ele sentia-se uma presa indefesa, mas porra, será que aquele animal, que supostamente seria um só, teria a audácia de enfrentar quatro pessoas? Não, ele não seria assim tonto...   Como ele   ansiava   jogar taco a   taco com o   animal no que respeitava à coragem! Suas calças ainda não estavam sujas, porque o seu poder de retenção era eficaz. Não fazia tanto tempo assim que ele havia expulsado todas as matérias que naquela hora o deixariam ficar mal e fedorento perante os acompanhantes?!

 

Dona Clara, que se encontrava atrás, olhou em direcção a um ruído que ouvira naquele instante.

 

— Não, dois olhos brilham ali atrás!

 

O senhor Sousa olhou e viu uns olhos reluzentes, a uns dez, quinze metros deles. Disparou dois tiros na direcção do animal. O senhor Sousa e o animal ficaram assustados. Naquele momento não estavam somente os quatro pais apavorados, sem eles saberem estavam assustadíssimos o Lipe e a Clara. E

a juntar aos seis, o animal já havia dado de frosques; dos sete qual o mais amedrontado. Do lado oposto àquele onde o animal se encontrava, os gritos   estridentes   faziam-se   ouvir   ao   longe.   Dois   seres   pequenos   e aterrados corriam…

 

— Clarinha!... Lipe!...

 

Em uníssono, os pais chamavam-nos pelos seus nomes, loucos de alegria. Seus filhos encontravam-se sãos e salvos!

 

Abraçaram-se, formando dois grupos familiares, seis braços e um corpo só de um lado, e seis braços e um só corpo de outro. O primeiro a desfazer o bom momento foi o senhor Sousa. Olhava de soslaio para Lipe. Afinal era ele o único culpado, e se ele pudesse satisfazer a sua ira, era bem capaz de lhe dar uns bons açoites...

 

Regressaram em conjunto para os seus lares, sempre os pais de ambos a darem instruções para que aquelas atitudes não fossem repetidas. Numa encruzilhada, as famílias separaram-se. Os Araújos voltaram à direita, e a família Sousa, à esquerda. Durante oito dias, Clara foi enclausurada como forma de castigo pelo seu pai. Recebeu mil e uma admoestações para não mais   falar   com   Lipe.   Claro   que   ela   não   obedeceria,   e   na   primeira oportunidade trairia a vontade do vingativo pai. Rezou muito à senhora da sua devoção, Senhora da Aparecida. Pediu que a porta do seu quarto se abrisse. Um dia, enquanto dormia, sua mãe, uma mãe que se esmerava para fazer sempre o bem à sua filha única, foi visitá-la ao quarto e sem querer deixou a porta aberta. Clara pensou, por momentos, que suas preces foram ouvidas. Saiu do quarto para a sala contígua. Chegou à triste conclusão que não se tratava de um milagre: as duas portas da sala, uma que dava acesso ao exterior, e a outra que ligava a cozinha, estavam fechadas à chave. Sua mãe bem que queria abrir as malvadas portas, mas não queria nem podia contrariar a ordem do marido.

 

Lipe, embora fosse alertado para que algo semelhante não se repetisse, não recebeu qualquer tipo de repreensão.

 

Sem a companhia da sua amiga Clara, os dias do Lipe tornavam-se cada vez mais sombrios. Obedecia aos seus pais, fazendo todos os trabalhos que lhe ordenavam. Nas horas vagas, e tinha a sorte de por vezes usufruir de algumas, dava passeios solitários pelos campos. E foi num desses passeios que se viu em grandes dificuldades.

 

— Alguém me ajude, alguém me ajude!

 

“Estou a ouvir vozes, quem será? Ou o que será? Acabei de me deitar na rede! Já não se pode tirar um cochilo como deve ser? Ai, ai, ai ai!”

 

— Alguém me ajuda! Esta cobra quer comer-me! Se me está a ouvir, venha cá!

 

“Cobra que quer comer! Isto parece voz de um miúdo assustado, é melhor inteirar-me do que se está a passar!”

 

Levantou-se da rede, aquele sujeito que vivia sozinho numa caverna escavada num pequeno morro, longe de qualquer habitação. Tinha sido escavada ainda no tempo do pai deste solitário. Quando para ali foi viver, este senhor tentou acrescentar algum espaço. Não teve muito sucesso, pois o terreno argiloso era duro e quase impossível de se escavar. Se quis ter um lugar um pouco maior para viver, teve de o acrescentar com umas chapas de zinco, fazendo um pequeno alpendre vedado com zinco, tábuas e ramos de árvores. Este senhor, que era alto, cheio, de farta cabeleira e doces feições, vivia desprendido de qualquer tipo de bens que não fossem os essenciais.

 

Seguiu apressadamente em direcção à voz aflita. Não precisou de andar muito. No carreiro que dava acesso à caverna estava uma cobra-cascavel, de cabeça levantada, a tentar morder o garoto. Cheio de autoridade perante os animais, disse-lhe o solitário:

 

— Vai-te daqui! Vai, anda, deixa o miúdo em paz! Não vês que ele é inofensivo, nem sequer tem um pau, vai-te embora!

 

Dizia isto fazendo gestos com as mãos e cabeça. O animal retirou-se, com uma   obediência   quase   incompreensível   para   qualquer   pessoa   não habituada a lidar com animais selvagens. Este senhor conquistou o respeito de todos os seres residentes naquelas matas. Vivia, há alguns anos, isolado na mata, e tratava os animais como seres seus semelhantes. Sempre que avistava cobras ou outros seres de trato difícil, mudava a rota para não incomodar aqueles que, na sua óptica, eram os donos daquele território. Ele achava que quem ali estava a mais eram os humanos.

 

— Olha, garoto, há quanto tempo estavas em apuros com esta cobra- cascavel?

 

— Desculpe, senhor, há quanto tempo estava em quê?

 

— Ah, entendo… Há quanto tempo tinhas esta cobra a tentar morder-te?

 

— Não sei bem, mas faz algum!

 

— Sabes, miúdo, este bicho está em sua casa. O intruso aqui és tu! Melhor dizendo, tu vieste meter-te na casa dela. Porque não deste meia volta quando a encontraste?

 

— Sabe, senhor, eu estava a fugir de outra que vinha atrás de mim, foi ali bem perto!

 

— Ah! Sei, está certo! Vamos para minha casa, tomas um golo de água e já te acalmas!

 

Entraram na caverna e o solitário pegou num pequeno frasco contendo açúcar; pegou também numa garrafa de água e um copo. Encheu-o com o precioso líquido, deitou um pouquinho de açúcar e deu a beber ao garoto para este se acalmar — é um dos remédios mais ancestrais e mais eficazes para aquietar corações que   batem a duzentos.   O ainda assustado e ofegante miúdo bebeu o copo de um só trago. Depois de se acalmar, fixou o olhar estupefacto, pois na sua curta existência jamais tinha visto um armário construído daquela maneira. No chão havia um bidão com cerca de   vinte   centímetros de   altura,   dentro do bidão que continha água nasciam quatro pernas de madeira, a partir dos sessenta centímetros de altura surgiam vários andares de prateleiras, onde o   solitário guardava todos os alimentos.

 

— Sabes, miúdo, eu sei que estás admirado com esse armário. Fi-lo assim para proteger os alimentos das formigas, das centopeias, dos ratos e de outros pequenos bichos sem número. Eu gosto deles, mas não dentro da minha humilde casinha! Eles são teimosos, mas já cá moravam quando eu aqui cheguei! Não os posso matar, eles são muito importantes para a manutenção do ecossistema.

 

Lipe olhou-o de soslaio, sem nada entender daquele palavreado difícil.

 

— Certo, miúdo, desculpa! Ecossistema… Acorda, homem, não te dás conta que estás a falar com este garoto puro e tão docemente inocente, que não entende estas coisas complicadas. Eu quis dizer que não devemos matar os bichinhos, eles fazem bem às matas, entendes?

 

— Sim, senhor, entendo! Você diz que os bichos fazem bem às matas, só não entendo uma coisa: o meu pai diz que os malditos bichos têm de morrer, diz ele que fazem mal ao milho, aos pés de café, aos feijões, aos embondeiros e a outras plantas que temos lá na fazenda.

 

— Sabes, miúdo, de uma maneira ainda que distorcida, o teu pai tem razão. A todas essas plantas que os agricultores cultivam nas fazendas, os bichinhos, ainda que de maneira involuntária, fazem mal, mas eles fazem isso sem querer, entendes? Nas fazendas fazem mal, mas nas matas é exactamente o contrário, fazem falta para o equilíbrio da natureza, eu explico-te. Sabes o que são as formigas? Sabes, eu sei que sabes! Elas alimentam-se   de   restos   de   frutas;   algumas   comem   carne   de   outros animais. Quando alguma árvore cai, elas destroem essa mesma árvore, para que, algum tempo após morrerem, deixem de embaraçar. Estás a entender alguma coisa de tudo isto que te falo?

 

— Sim senhor, estou a perceber bem. O senhor fala muito bem!

 

— Eu explico melhor! Como te disse, imagina que uma árvore cai, com a idade ou com o vento. Se ninguém fizesse nada, essa mesma árvore ficaria ali caída tempo sem conta. Como deves saber, iria embaraçar. Como existem as formigas e outros pequenos seres, ou seja, outros bichos que se alimentam das árvores putrificadas, eles comem essa árvore e esta, ao fim de algum tempo, desaparece. Agora imagina que as formigas e os outros bichos tivessem tudo aquilo que queriam, e que ninguém se alimentasse deles. Eles iriam multiplicar-se tanto que se iriam transformar numa praga! Felizmente que, por exemplo, existem os ursos-formigueiros, os ursos-formigueiros são os apitis, eles gostam de comer formigas; ao fazê-lo controlam essas mesmas formigas, impedindo que elas sejam em tão grande número que destruam as matas e plantações.

 

— Sei, senhor. Por isso é que meu pai deita água com remédios; diz ele que é para matar os bichos.

 

— Eu sei, miúdo, as pessoas deitam insecticidas, é esse o nome que o tal remédio tem. As pessoas deitam esses remédios de uma maneira tão desenfreada,   que existem   espécies   de   animais   que   já   acabaram, extinguiram-se, já não há nenhum exemplar em toda a terra. Deveriam ter isso em conta! Deveriam, sim, usar os insecticidas para controlar as pragas nas plantações, mas com a consciência de que existe um determinado número de factores aos quais devem ter atenção! Eu sei que tudo isto é muito complicado para um miúdo como tu entender, mas sei também que és suficientemente inteligente para entenderes tudo isto.

 

— Sim, senhor, antes havia formigas que já estavam mortas, é isso?

 

— É mais ou menos isso, formigas e outros animais.

 

Tendo   entendido   quase   nada   daquele   palavreado   difícil,   o   garoto continuou:

 

— O meu avô já morreu, já deixou de existir!

 

— Sei, sei! Tenho a certeza que tu um dia irás entender todas estas coisas! Então o teu avô morreu; foi há muito tempo?

 

— Foi há já dois anos!

 

— Fala um pouco da tua família. Quantas pessoas vivem contigo?

 

 

— Sou eu, o meu pai, minha mãe, e a tia do meu pai! Sabe, senhor, a tia

Dinha é muito velhinha! Ah! Ela é cega!

 

— Sabes qual a doença que ela tem?

 

— Não senhor! Ela é cega mas vê! Não acredita? É verdade, ela vê: quando eu chego perto dela, mesmo sem falar, ela sabe que sou eu! Diz: “Lipe, queria um copo de água! Lipe anda conversar comigo! Lipe, anda, vamos passear lá fora!” Sabe, senhor, ela faz isto para me prender à beira dela. Eu já a vi a encher o copo de água sozinha e anda sem ninguém a guiá-la! Tem um pau sempre com ela, nunca o larga. Eu porto-me sempre bem à beira dela. Ela nunca me bateu, mas como tem o pau… eu faço cuidado!

 

— Sei, sei! Tu dizes que ela vê, sim é verdade vê à sua maneira. Sabes miúdo! As pessoas cegas perdem a visão mas apuram outros sentidos. Por exemplo, elas ouvem de uma forma muito mais atenta do que nós que vemos bem. Por isso é que tu dizes que quando chegas perto dela ela sabe que és tu. Como não vê, ela fica atenta e conhece os teus passos, a maneira como andas. Distingue bem as vozes, sabe bem quando és tu ou teu pai, ou outra pessoa qualquer. Normalmente têm um bom sentido de orientação, andam sozinhos dentro das casas com a bengala. Sabes, a bengala é aquilo que tu chamas de pau! Lá em casa deves dizer aos teus pais que devem manter as coisas sempre no mesmo lugar, para que ela saiba que pode andar à sua vontade sem nunca ir de encontro a nada! Entendes?

 

— Sim senhor, meu pai manda nós fazer sempre isso! Diz ele que ela tem teias de aranha nos olhos.

 

— Sei, sei! Ela deve ter cataratas! Deve ser essa a doença dela, se vocês morassem na cidade ela poderia ser operada e ficar a ver bem!

 

— É isso, ela tem cascatas, meu pai e minha mãe diz que ela tem cascatas!

 

— Sei, cascatas… Diz-me uma coisa, tu gostas da tia Dinha?

 

— Sim, senhor, eu gosto muito dela!

 

— Fico contente, deves fazer companhia a ela e passeares muito com ela para que se sinta amada. Sabes, os miúdos novinhos como tu, aprendem muito com as pessoas idosas, com os mais velhinhos, mas os mais crescidos também aprendem! Estamos sempre a aprender uns com os outros. Sabes miúdo, se todas as pessoas existentes no mundo fizessem de conta que somos todos da mesma idade, o mundo seria muito mais feliz! Os velhinhos não se sentiriam empecilhos na sociedade, as crianças não se sentiriam chatas. Quantas vezes os adultos dizem: cala-te rapaz, cala-te rapariga, estás a ser chato, ou chata, falas tanto, puxa! Por essas e por outras as crianças ganham medos, têm receios que quando estiverem com pessoas estranhas sejam humilhadas. Com esses medos elas ficam retraídas e parece que mudam de personalidade. Parece não parecerem as mesmas que em casa, entre pessoas queridas, brincam e inibem-se. Estas vivências sentem de igual modo os mais velhos.

 

— Sim senhor, o senhor diz que devemos tratar os mais velhos como se fossem da mesma idade, como se fossemos todos do mesmo tamanho, é isso?

 

— Não é bem isso! Uns nasceram primeiro do que os outros. Aqueles que nasceram muito primeiro devemos fazê-los sentir que   têm o mesmo tempo, que têm os mesmos anos! Claro que tu, que és um garoto, não podes querer que tua tia Dinha fique por aí a jogar a bola! Não podes querer que uma pessoa que já tem alguns anos, fique por aí a mamar nos peitos de sua mãe! Ao longo da vida, vamos deixar de fazer umas coisas e inevitavelmente começar a fazer outras. Temos de respeitar os mais velhos, mas não temos necessariamente sempre que estar a lembrá-los que já têm muitos anos.

 

— Sim senhor, o meu pai diz isso também! Sabe senhor tenho de ir para casa, meus pais devem estar preocupados

 

— Vá lá miúdo. Lipe é esse o teu nome, verdade?

 

— Sim senhor, e o seu qual é?

 

— Digo-te para a próxima, assim sei que voltas!

 

— Sim senhor, eu volto! Se perguntarem a mim com quem estive, o que digo?

 

— Diz que estiveste com um amigo, certo amigo?

 

— Sim senhor, eu já vou, até depois!

 

— Até depois, vai com cuidado, desvia-te das cobras e dos outros bichos!

 

 

Lipe foi de regresso a casa, sem esquecer alguns dos conselhos que aquele

senhor amigo mencionou, lembrava-se principalmente daqueles que havia entendido. Ia seguindo o caminho em direcção à pequena fazenda dos seus pais, com um único pensamento, o de ser amigo da tia Dinha. Pensava:

«cada vez mais vou ser mais amigo da tia Dinha, ela tem de ter alguém que a entenda!»

 

A senhora Dinha era uma senhora de cabelos brancos, a face enrugada com

a passagem dos anos. No inicio da sua cegueira tinha muita mobilidade, fazia inúmeras tarefas, porém, à medida que os anos se iam passando, ela acomodou-se e passou a estar horas a fio sentada; a arteriosclerose múltipla foi debilitando os movimentos, a pouco e pouco ficou com uma pequena corcunda. Nos primeiros anos da sua viuvez ela reagiu muito mal. As consequências foram nefastas, envelheceu precocemente. Quando um casal se ama muito e um dos cônjuges morre, o que sobrevive sofre muito

e os resultados por vezes são drásticos, por consequência surgem as debilitações físicas e mentais, em alguns casos o tempo tem a capacidade de repor a sanidade. Seu marido morreu quando tentava apanhar um boi em estado selvagem, os roceiros tinham muitas vezes por hábito caçar bois para fazerem o cruzamento com as vacas. Estavam convictos que deste modo apuravam a raça. Numa manhã de Outubro, mal raiava o dia, foi com

dois amigos para a mata. Procuravam, por entre árvores de grande porte e arbustos, um macho de boa qualidade. Tanto surgiam da densa mata para uma clareira, como se embrenhavam novamente naquele denso matagal. Estavam convictamente certos que o animal andaria por perto. Mais convictos ficaram, quando um dos três caçadores encontrou dejectos ainda fumegantes   de   um   animal,   suspeitando   tratar-se   de   um   macho. Combinaram então estratégias para fazerem a emboscada ao tão desejado animal, que, a partir do momento que fosse capturado, iria ter tratamento monarquista. Ao avistarem o bicho seguiram-no efusivamente, separando- se o grupo para uma mais eficaz captura. Despercebidamente, entraram no território de uma tribo índia, não sabiam que muitíssimas vezes por ali, naquela tribo, se travavam várias batalhas pela conquista dos terrenos entre os índios e os camponeses. É uma luta desigual entre a tribo e os senhores   sedentos   pela   conquista   de   novas   terras   com   o   intuito   de aumentarem a produção de cana-de-açúcar, girassol, café, e até mesmo aumentar a área das pastagens para o gado. Estes, munidos com as mais sofisticadas armas, levavam vantagem sobre os milenares índios, que quase   seguem   à   risca   as   ancestrais   tradições,   mantendo-se   não predispostos à abertura às novas tecnologias, consequentemente as únicas armas que possuíam eram as rudimentares lança setas e as catanas. Em todas as batalhas, os mais prejudicados em número de baixas eram os índios. Quando suspeitavam que estaria iminente   alguma emboscada, posicionavam-se estrategicamente nos esconderijos e davam assim início ao   ataque   surpresa.   O   marido   da   dona   Dinha   atalhou   caminho   na perseguição ao tão desejado boi, que os locais apelidam de marruá; seguia montado a grande velocidade ao enfaixar-se no meio dos esconderijos dos índios, três destes dispararam as lanças em simultâneo, acertando um pelas   costas,   outro   pelo   lado   direito,   e   outro   pelo   lado   esquerdo. Acertaram mesmo ao direito do antebraço, suspeita-se que as lanças se tocassem as três no interior do corpo. Ao ser perfurado pelas setas, o malogrado homem soltou alguns gritos estridentes, que rapidamente se desvaneceram e que se transformaram em desesperantes urros abafados. Desorientado,   o   cavalo   corria   cada   vez   mais   rápido,   indo   a   vítima dependurada e presa na sela e nos estribos. Os amigos de empreitada, apercebendo-se   do   acontecido,   tentaram   com   um   esforço   desalmado alcançar o cavalo para socorrerem a vítima, porém a velocidade era tanta que fez com que os dois amigos, desesperados, disparassem vários tiros na cabeça   do   animal,   para   que   deste   modo   o   fizessem   parar.   Este, relinchando, deu alguns pinotes estatelando-se no chão. Os dois apearam e abraçaram o senhor desprendendo-o do cavalo. Estava quase desfalecido, inspirava   e   expirava   de   forma   barulhenta,   agonizava   em   grande sofrimento. Os dois amigos estavam de queixo caído, um de joelhos segurava entre os seus próprios joelhos a cabeça do ferido. O outro andava em círculos, completamente desorientado e estarrecido. Decidiram por fim, eles mesmos, porem termo a todo aquele sofrimento do amigo. Ambos concordaram, tiraram sortes para obterem o atirador. Concordavam que a única solução era aquela mesma, um deles assassinar o amigo para este não mais sofrer. Nem um nem outro queria sozinho fazer aquilo que dolorosamente julgavam ser o certo, mas, em conjunto, sabiam que carregariam aquele fardo, que era de ter de se tornarem em assassinos, ainda que fosse por uma boa causa. Uma causa santa que daria fim a todo aquele   horrível   sofrimento.   Este   querido   amigo,   como   eles,   única   e simplesmente, queria apanhar um boi em estado selvagem, para que este com o seu sémen apurasse a raça, e que os índios inocentemente atingiram com as suas setas e quase mataram. O amigo que o sustinha entre os joelhos ergueu-se, com cuidado pousou a cabeça do ferido no chão. Os dois sobreviventes abraçaram-se, alguns segundos depois abraçaram o ferido, despedindo-se daquele moribundo ser humano. O barulho foi de um tiro só, mas dois foram disparados, um por cada um deles. Foram dois tiros certeiros no coração que findaram um tremendo sofrimento. Novamente o abraço dos dois, desta vez bem mais demorado, as lágrimas caíam em fio pela cara de ambos.

 

Várias horas depois, decidiram que eram horas da partida, não sem antes retirarem as setas do corpo do senhor, prenderem o cadáver em cima dum cavalo e, por fim, iniciarem a marcha. Os índios saíram-lhes ao carreiro e, com ares de zangados, exigiram saber porque os seus territórios haviam sido invadidos. Os dois sobreviventes, assustados, atónicos e indefesos, tentaram explicar aos membros da tribo que a intenção deles era somente apanhar um boi, não sabiam que eles ali residiam. Foi um diálogo difícil, pois os índios falavam uma mistura de português com uma língua nativa. Foram retidos muitas horas, só quando um deles foi dizer ao chefe da tribo onde jazia o cavalo e lhe disse que poderiam consumir toda aquela carne que   derivava de   um cavalo   ainda novo e   saudável,   só então foram autorizados a partir e despediram-se dos índios sem guardar grandes mágoas. Debaixo de um sol abrasador, caminharam durante as restantes horas daquele dia. À noite, foram obrigados a parar em consequência de uma escuridão cerrada. De manhãzinha, ainda envolvidos em alguma penumbra, quando o sol ao longe irrompia da escuridão, resolveram seguir viagem. O sol estava como à semelhança do dia precedente, forte, e no céu não se vislumbrava nenhuma nuvem. Cinco horas depois estavam na aldeia mais próxima. Enviaram um mensageiro para dar a triste notícia à viúva. Naquela pequena aldeia não havia memória de se avistar tão grande número de abutres e outras espécies de necrófagos, que seguiam o cheiro do cadáver já em estado de decomposição. A senhora Dinha veio ao encontro para a despedida, e horas depois o defunto foi sepultado como indigente no cemitério local. Foi uma despedida triste e dolorosa, mais como é evidente por parte da dona Dinha. A coitada da senhora, que já se havia   tornado   amblíope,   estava   inconsolável.   Bastantes   foram   os transeuntes   que   assistiram   a   toda   aquela   cerimónia.   Uma   cerimónia simples de um homem não local, que morreu numa circunstância bem usual por aquelas terras. Dona Dinha conseguiu alojamento na casa de uma senhora que se enchera de compaixão dela e a convidara para lá pernoitar. Permaneceu dois dias após o funeral, não queria de forma alguma deixar seu marido ali abandonado. Passou os dois dias, excepto as noites, de joelhos,   prostrada   na   sepultura   do   falecido   marido.   Rezou   muito   e simultaneamente falava com o marido, como se este ainda a ouvisse. A sua mente ainda não tinha compreendido que seu grande amor a deixara para sempre.   Os   dois   companheiros   de   caça   fizeram   questão   de   não abandonarem   a   viúva   naquele   momento   de   grande   consternação. Decorridos então os dois dias, finalmente haviam convencido dona Dinha a voltar para o seu doce lar. Doce lar fôra enquanto que seu marido vivia, a partir daquele fatídico homicídio, as qualidades açucaradas da felicidade conjugal extinguiram-se, dando como consequência lugar a qualidades vinagrentas de sabor a horrível fel. A senhora recém viúva viveu quinze dias na mais profunda solidão em sua casa. Após essas duas semanas, chegou à conclusão que não conseguiria viver mais tempo sozinha. Estava, por aqueles dias, a fazer três meses que ela e o seu finado marido tinham visitado o casal Araújo, aquando do nascimento do pequeno Lipe. Foram muito bem acolhidos, e ela agora tinha a esperança que os seus sobrinhos a acolhessem, e o desejo dela era passar a viver com eles. E assim quis a

realidade que o fosse…

 

                    Fuga do Lipe

Lipe regressava da fazenda do Senhor Matos, era o melhor amigo do seu Pai. Sempre que o seu Pai ou o Senhor Matos iam à cidade procuravam saber se havia correspondência para ambos. Vinha montado no seu cavalo predilecto, era um belo cavalo branco, era de pernas curtas, de uma altura um pouco reduzida, mas bastante rápido. Foi por causa dessa característica que Lipe o baptizou, dando-lhe o nome de Rápido. O tamanho do animal era bem adequado ao tamanho do seu dono. Pois o nosso menino era um pré-adolescente de estatura não muito desenvolvida para a sua idade. Havia já percorrido cerca de metade da distância, entre a fazenda do vizinho e a pequena fazenda propriedade de seu Pai, quando, vindo do lado do desfiladeiro, que se situava perto do rio, ouviu um barulho   ensurdecedor.   Era   o   barulho   das   hélices   e   do   motor   dum helicóptero. Curioso com a visão daquele ser estranho, nunca até então visto por si, Lipe picou o Rápido com os esporões e dirigiu-se para o desfiladeiro, de onde surgira o tal ser estranho. Ao aproximar-se do desfiladeiro,   avistou   quatro   montadas,   em sentido contrário.   Eram o Senhor Faustino, um homem esguio, de falas doces e boa compleição, proprietário da fazenda esperança; o Senhor António Maciel, conhecido na região como o sargento; devia esse apelido à sua prepotência, à sua arrogância, fazia-se valer destas características por ser proprietário duma das maiores fazendas das regiões circundantes. A importância das pessoas era-lhes atribuída pelo número de cabeças de gado e pelos hectares de terra que se possuía, dono da fazenda olho de água, entre várias outras; era um homem em tudo rude, para si não haviam semelhantes, era superior a todos e nem na sua própria sombra confiava; baixo em estatura, contudo de alta voz, vangloriava-se, ao fazer questão de usar arma à cintura e sempre à vista de todos, de se fazer amigo daqueles de que sentia poder tirar proveito…

 

Vinha também o Senhor Manuel (“Arranca-orelhas”), homem corpulento, de grande altivez com todos, excepto com o sargento por quem era subjugado. E o Senhor Martinho (o lentinho), este, um pouco mais alto que o Sargento, era gordo e não tão altivo como o Manuel.

 

Ao avistar Lipe, o Senhor Sargento, como gostava de ser tratado, disse ao miúdo:

 

—Pára aí, rapaz filho de um cobarde assassino! Teu Pai tentou matar uma criança!

 

— Desculpe senhor António…

 

— Não! — interrompeu o Sargento.

 

— Senhor, não! D. António, ou melhor D. António, o Sargento da zona; Seu miúdo estúpido, não tens educação mas eu com a minha autoridade de sargento estou bem a tempo de ta dar!

 

— Sim Senhor D. António, não entendi o que o Senhor disse a respeito do meu   Pai,   o   que   foi   que   meu   Pai   fez?   —   perguntou   Lipe,   enquanto simultaneamente pensava: “Quando crescer ainda te vou tirar esse D. António, filho de um cabrão cheio do que a tua mãe está carregada, que são cornos!»

 

O   tal   António   viveria   ainda   tempo   suficiente   para   se   arrepender amargamente de todos aqueles insultos.

 

Disse o senhor Martinho, o lentinho:

 

— Olha pequeno rapaz, tudo aquilo que o senhor Sargento disse é verdade, o teu Pai é um grande cobarde, empurrou uma menina para o precipício do desfiladeiro, eu vi e existem várias pessoas que assistiram quando o cobardolas do teu Pai empurrou a Clara abaixo!

 

— A Clara! Qual Clara? — respondeu desta vez o Arranca-orelhas.

 

— A tua amiguinha, aquela com quem tu vives como um carrapato, sempre colado a ela!

 

— Ó, meu santo António de Lisboa, onde está e como está ela?

 

Respondeu-lhe o Sargento, com a mesma estupidez já há muito patenteada por si:

 

— Seu fedorento, como querias que ela estivesse, depois de cair de uma altura daquelas, saiu dali quase morta! E olha, não penses que estou a ser exagerado, seu fedelho!

 

— Quase morta! Ela onde está?

 

Dos   quatro,   o   senhor   Faustino   era   o   mais   sensível,   e   explicou   ao desesperado garoto:

 

— Sabes meu rapaz, não viste há pouco tempo atrás um helicóptero a passar por estas bandas? Veio buscar a Clara e levá-la para o hospital.

 

— Num hele-hele, veio o quê busca-la? — perguntou Lipe, sem saber do que se tratava.

 

Respondeu amargamente o Sargento:

 

— Garoto estúpido! Nem sequer sabes o que é um helicóptero?

 

— Não sei o que é isso, o senhor…o D. António bem sabe que não sei!

 

— Claro que não sabes, eu às vezes parece que sou estúpido como tu! Como é que eu queria que um filho de um camponês sem terra, burro choco como o teu Pai, que quando lhe parar o coração vai ter de ser lançado às piranhas! Como tu irias saber o que é um helicóptero.

 

— Não sei!

 

— Não interrompas! Eu ainda não te dei autorização para falares! Bem, meus amigos, vou descer ao nível deste fedelho para lhe explicar o que é um helicóptero.

 

Dos quatro, três deram altas gargalhadas, e entrando em conformidade disseram:

 

— Prossiga D. António, nós se for necessário ajudamo-lo!

 

Continuaram a rir às gargalhadas, quando timidamente o senhor Faustino tentou defender o Lipe.

 

— Então compadres, o miúdo ainda é…

 

 

Foi interrompido severamente pelo Sargento:

 

—   Cale-se   lá   Faustino!   Está   para   aí   a   defender   este   fedorento   e despenteado fedelho. Eu nunca me enganei a seu respeito, só há pouco tempo é que deixou a mesma classe dessa gente!

 

O senhor Faustino tentou continuar:

 

— Bem senhor D. António, eu só queria diminuir o sofrimento deste pequeno garoto!

 

— Isso eu sei Faustino, é um molengão! Esquece-se que está a falar comigo, o Sargento, bem sabe que não gosto, nunca gostei, e jamais irei gostar de ser contrariado! Lembre-se que basta uma palavra minha para que o seu gado não tenha entrada no matadouro, se isso acontecer será um homem falido! Falido você já é quanto mais não seja em carácter, em dureza, em capacidade de ter mão firme com a sua mulher, os seus filhos e com os seus negócios. Nunca mais tenha a ousadia de me contrariar!

 

Receando a reacção do Sargento,   o senhor Martinho tentou   pôr um pouquinho de água na fervura:

 

— Bem senhores, tenham calma, essa discussão não os vai levar a lado algum! Eu vou tentar explicar aqui ao garoto o que aconteceu. Sabes rapaz, teu Pai empurrou a Clara abaixo daquele precipício. Como ela ficou mal tratada, quase morta, tiveram que mandar um helicóptero da cidade para levar a tua amiguinha para ser tratada no hospital. Eu sei que tu nem sequer sabes o que é um helicóptero, não fiques triste, eu também até aqui só na cidade é que tinha visto alguns, por estas bandas quase que nunca passam, viste aquela espécie de pássaro que passou há pouco tempo por aqui?

 

— Pássaro, aquele grande que fazia muito barulho? Aquele é que era o tal heli…

 

— Sim meu rapaz, aquele pássaro grande e barulhento era o helicóptero, e foi ele que levou a Clara para o hospital!

 

Sem entender quase nada Lipe, assustado, perguntou:

 

— A Clara ia dentro daquele pássaro barulhento?

 

O senhor Martinho tentou explicar da melhor maneira possível ao miúdo:

 

— Sim, a Clara foi levada por aquele pássaro, ela ia lá dentro.

 

Sem ouvir mais uma palavra que fosse, Lipe picou o cavalo fazendo meia volta e seguiu a toda velocidade em direcção do ser estranho que na sua mente roubara a Clara.

 

Irado pela atitude do Lipe, o Sargento grazinou:

 

— Miúdo sem educação! Volta cá, ninguém me vira assim as costas, ainda te apanho e se isso acontecer vais ver as chibatadas que apanharás! O teu Pai é um assassino, eu farei tudo que estiver ao meu alcance para ele apodrecer na esquadra!

 

Por muito alto que aquele ser que mais parecia um animal tivesse gritado, de nada adiantou. O garoto, com a mente perturbada, nada ouviu. Na sua cabeça ele não compreendia como um pássaro teve forças para levar uma criança como se fosse um pedaço das presas que aqueles grandes pássaros apanhavam para se alimentarem.

 

Quantas vezes nós, seres humanos, que temos acesso a tudo que de bom e de ruim se passa no mundo, não compreendemos a razão das guerras, da fome   que   inevitavelmente   surge   com   estas   mesmas   guerras.   Não entendemos   tanta   especulação   nos   combustíveis,  que   aumentam escandalosamente, as contas bancárias dos magnatas, e diminuem o poder de compra à grande parte da população, e, consequentemente, aumenta o já quase incontável numero de pessoas que vivem abaixo do limiar da pobreza.

 

Como   um   menino,   que   vivia   numa   região   subdesenvolvida,   iria compreender que o progresso teve capacidade para fazer um pássaro artificial que voava, e que, ainda por cima, podia transportar pessoas no seu interior. Era um miúdo inteligente, que não teve oportunidades de obter um discernimento intelectual muito forte, pois jamais vira televisão, ouvira rádio, ou privara com alguma espécie de máquinas. Todas estas coisas eram quase inexistentes por ali.

 

Lipe, montado no Rápido, deslocava-se a uma rapidez desmedida. À sua passagem deixava um rastro de poeira e de lama chapinhada nos beirais dos caminhos. O barulho dos cascos ecoava nas pastagens e no arvoredo, as aves e restantes animais fugiam sem rumo, atirados para todas as direcções.   Seguindo,   sem   se   dar   conta,   em   direcção   ao   grande   rio Carinhanha, ora voltava à esquerda na primeira encruzilhada, ora voltava à direita, ora continuava em frente, sempre pensando que estava a seguir o caminho escolhido do pássaro. Fez a travessia do pequeno riacho por uma pequena ponte de madeira, por ele inúmeras vezes já passada, sem reduzir a velocidade da marcha correndo sérios riscos de uma qualquer trave se quebrar, e fazer com que ele e o Rápido se estatelassem no chão. Sem se dar conta dos perigos, alcançou o grande rio Carinhanha, entrou nas suas águas sem temer os jacarés ou as anacondas, que são a maior espécie de cobra existente no mundo. Sempre foi alertado para o perigo que as temidas piranhas ofereciam, no entanto, naquele momento, de nada se lembrava a não ser a perseguição ao pássaro. Quando deu conta que o Rápido nadava já com muitas dificuldades, fez meia volta para as margens. Desmontou o animal, correu ao longo do rio, mas não o teve de fazer   durante   muito   tempo   pois   ali,   bem   perto,   estava   uma   canoa abandonada   por   um   qualquer   pescador.   Desprendeu   a   canoa,   subiu, esquecendo-se completamente do seu querido cavalo, abandonando-o à sua sorte. No interior da canoa jazia um remo para lá de rudimentar, inexperientemente segurou-o nas mãos e remou com todas as forças. Enquanto perto das margens a calma corrente do rio parecia a melhor amiga de Lipe, à medida que se embrenhava no seu interior tudo foi se alterando.

Fazia um esforço desmedido para controlar a canoa na correnteza do rio. Algumas dezenas de metros distanciado da margem, a pressão da corrente ia aumentando e com isso, o miúdo, a pouco e pouco, perdia o controlo da canoa. Duas braçadas do lado esquerdo e aquele tronco mal escavacado seguia descontrolado para o lado direito, tentava corrigir a marcha, remava   pela   direita   e   aquele   desobediente   transporte   fugia   para   a esquerda. Completamente desorientada, lá ia serpenteando pelo rio a nossa criança assustada. Sem se dar conta e nada poder fazer para o impedir, foi arrastado pelas águas até encalhar nuns arbustos da margem. Sem muitas dificuldades, desencalhou-se das plantas, e, por fim, sentiu-se em terra firme.

 

Embrenhou-se na mata, sempre na expectativa de encontrar o grande pássaro. Por entre árvores de grande porte, pequenos arbustos, e um sem número de plantas, encontrou-se numa pequena clareira onde assentou arraiais. Apanhou um cacho de bananas e outras frutas que estavam ao seu alcance, e matou quem há já algum tempo estava a tentar matá-lo. Estendeu a corda, fazendo uma laçadas sempre com a esperança que, tal como ele, o pássaro também sentiria fome e quem sabe, talvez aparecesse por ali para comer. Permaneceu escondido por entre uns arbustos quando, subitamente, ao longe, vindo em sua direcção, começou a ouvir um barulho muito forte do que parecia ser um animal de grande porte. Enchendo-se de coragem, pé entre pé, e sempre de remo na mão, Lipe foi-se aproximando. Quando sentiu que estava mesmo juntinho do animal, levantou o remo o mais alto que pôde e desferiu o golpe de misericórdia. Acertou em cheio na ponta do comprido focinho de um urso-formigueiro. Coitado do inofensivo animal, com aquela forte pancada e sem nada ter feito para a merecer, em plena luz do dia, viu mais estrelas do que formigas no formigueiro. Qual dos dois o mais assustado, fugiram ambos: Lipe para o local onde tinha a corda enlaçada, e o urso-formigueiro no sentido contrário, dizendo mal da sua vida, pois nem no seu território podia andar sossegado.

 

Pensava o urso: «Que grande besta que este miúdo me saiu. Deu-me uma castanhada na minha linda carinha com aquele remo, nem daqui a quinze dias vou saber qual a razão porque ele me bateu. O pior é que só consegui comer vinte mil formigas. O mundo tá tolo!»

 

Já perto da corda, o garoto permaneceu quieto, mas algum tempo depois resolveu ir ao local onde tinha acertado no urso. Foi então que reparou que o urso, na sua fuga, tinha deixado um rasto de sangue à sua passagem.

 

Das poucas histórias que ele conhecia, isto do urso deixar sangue à sua passagem,   fê-lo   recordar   aquela   história   de   dois   amigos   que,   ao caminharem na floresta, iam marcando o caminho com pedras e tremoços, para não se perderem.

 

Então Lipe deduziu, pensando: «Se o urso marcou o caminho com sangue, é porque certamente deseja voltar a este lugar e eu cá estarei para lhe dar outra pancada!»

 

Cansado   de   esperar   sem   nada   acontecer,   resolveu   continuar   a   sua perseguição, regressando novamente às margens do rio, onde há quatro horas atrás deixara a canoa, e voltou a navegar...

 

                   Prisão do pai de Lipe

José Ramos Araújo, pai de Lipe, acabava de chegar de lavrar umas terras alugadas, que ficavam não muito longe do desfiladeiro onde Clara sofreu o acidente. Fazia-se acompanhar pelas duas juntas de bois aparelhadas no carro, com as charruas, o arado e a grade. Juntamente com ele vinha o seu ajudante, chamado Lourenço. Apesar da sua tenra idade, Lipe ajudava os seus pais em muitas tarefas. Porém, naquele dia, devido a uma pequena indisposição   ficou   em   casa   a   fazer   trabalhos   menos   esforçados. Encontrava-se a desaparelhar os animais quando subitamente começou a ouvir imenso barulho provocado pelos cascos de vários cavalos e por uma charrete.   Eram   o delegado   que   estava na   charrete   com outros dois soldados, acompanhado por mais quatro, montados em cavalos. Com as forças de segurança vinham também o senhor Martinho, o senhor Faustino, o Manuel Arranca-orelhas e o senhor mauzão, o Sargento. Lentamente, e em poses de grande autoridade, ostentando o que não se tem, o delegado desceu da carroça. Sem cumprimentar o dono da casa, sem ter um qualquer gesto que fosse digno de boa educação, o delegado mandou que o algemassem.

 

— Porquê tudo isto? — perguntou indignado o senhor José, que de homem respeitado e honesto foi como, por acto de maldição, transformado no pior dos assassinos.

 

Respondeu-lhe severamente o delegado:

 

— Vais para a cadeia, cabrão assassino!

 

— Assassino eu, mas porquê? De que me acusam? Eu não fiz nada, acabo agora de chegar de lavrar umas terras, o meu ajudante pode confirmar!

 

Sem dar ouvidos ao senhor Araújo, o delegado disse-lhe que havia pessoas que o viram atirar Clara do desfiladeiro abaixo.

 

— É verdade, senhor delegado, foi esse maldito assassino! Nós vimos e existem outras pessoas que também viram! — acusavam desta maneira os quatro   acompanhantes   dos   agentes   de   segurança.   Para   uma   maior consistência na acusação, o Sargento reforçou:

 

— Coitada daquela pobre menina! Foi ele sim quem atirou a criança para o precipício, leve-o para a cadeia! É lá que ele tem de ficar para sempre!

 

Ainda não satisfeito o sargento deu algumas passadas em direcção ao senhor Araújo e ao ouvido falou-lhe:

 

— Anda lá José Ramos, já estás a ficar sem folhas, vá lá não resistas, nem te preocupes com a tua mulher, dessa cuido eu! Eu prometo que trato bem dela, vou-lhe dar certos tratamentos aos quais ela nunca foi habituada!

 

Com as mãos algemadas o senhor Araújo foi arrastado para uma prisão improvisada, montada na charrete. Era uma minúscula jaula onde mal deveria caber um cachorro sarnento, e naquela reles jaula, que em dignidade não era generosa nem que fosse para um cão, muito menos para um homem trabalhador e honrado que, com a sua humildade, conquistou o respeito das pessoas da roça, excepto os inimigos criados pela conquista de terras.

 

Estavam a iniciar a marcha para a prisão, quando vinda de lavar roupa, chegou Dona Clotilde, esposa do prisioneiro. Ao deparar com todo aquele cenário, e quando reparou que seu marido estava feito um condenado, naquela nojenta sela ambulante, com todas as suas forças ela gritava a pedir que soltassem o seu marido, que sempre fora um homem honrado, não dado a cometer crimes com crianças indefesas. Não obstante ele não apreciar a amizade que unia seu filho com aquela miúda, ele jamais se daria a tais actos.

 

Fazendo-se de bonzinho, o Sargento aproxima-se dela e coloca o seu braço direito no seu ombro esquerdo, e diz:

 

— Vá lá, mulherzinha, porque choras? O teu marido assassino vem logo, só vai à cadeia passar umas férias, tu não vês que ele tem trabalhado muito! Bem sabes que ele precisa de descansar. Eu bem sei que lá no fundo tu estás contente, vais-te livrar dele por algum tempo, e, acredita, consolo não te vai faltar!

 

Dona   Clotilde,   destemida   e   decidida   a   livrar   o   seu   amor,   deu   uma tremenda estalada na cara do sargento, de seguida cuspiu-lhe na orelha, e correu para junto do marido.

 

— Querido, amor! Eu vou fazer tudo para te tirar da cadeia! Do que te acusam?

 

— Eles dizem que eu tentei assassinar a Clara, não fui eu! O Lipe? Onde está o Lipe?

 

— Querido, eu não sei dele! Se lhe foram dizer que foste tu, e se ele acreditou talvez tenha fugido à procura da Clara, e não queira voltar para casa!

 

— Promete que vais procurar o nosso filho? Diz-lhe que não fui eu, ele tem motivos para pensar que fui eu, mas não fui eu!

 

— Sim, prometo amor! Sempre que possa vou à cadeia visitar-te! Numa hipócrita consolação, o Sargento abeirou-se do casal e disse:

— Vá lá, senhores! Tenham calma, os soldados só estão a cumprir com o dever deles! Eu vou ver o que posso fazer para te tirar da choça. Até lá, não te preocupes com a tua mulher, eu trato dela!

 

Desta vez, foi o senhor José quem cuspiu na cara do Sargento.

 

Entre risos cínicos, os três amigos do Sargento divertiam-se à brava como quem assistia a um rodeio, ou a uma achega de bois, que era uma tradição muito enraizada não somente no Sertão brasileiro, mas também em muitos outros estados compatriotas.

 

Comentou o senhor Faustino:

 

— Grande senhor António! Já está a tentar consolar a esposa viúva de marido vivo, é por essas e por outras que eu admiro este grande senhor, dobra as mulheres que quer como ninguém! Grande homem, grande homem!

 

Ao reparar que o Sargento foi agredido daquela forma pelo prisioneiro, o delegado perguntou à mais que merecida vítima:

 

—   Senhor   António,   o   senhor   quer   que   eu   abra   a   cela   desta   cobra cuspideira? Eu posso perfeitamente abri-la e o senhor pode mesmo aqui ajustar as contas, ele bem que as está a pedir!

 

— Abra então lá a jaula deste cão, eu quero ajustar contas com ele! Voz de delegado:

— Abram rápido a jaula deste atrevido, ele faltou ao respeito a sua excelência!

 

Abriram a cela e obrigaram o senhor José a descer da charrete prisão; então, o Sargento aproximou-se. De chibata levantada na mão direita, foi ter com Dona Clotilde, e, agarrando a senhora com a mão esquerda, puxou-a para junto do seu marido e disse:

 

— Estás a ver do que sou capaz? Se prometeres ser boazinha comigo eu paro!

 

A senhora, exasperada, deu-lhe tamanha bofetada que ele sem contar deixou cair a chibata. Quando o senhor António teve de dar uns passos para apanhar a arma, Dona Clotilde, com uma coragem nunca vista por ali, muito menos por uma mulher, deu um empurrão no Sargento, que caiu estatelado   no   chão.   Levantou-se,   sacudiu  o   pó   das   calças,   pegou novamente na chibata, e foi desferir uma grande chibatada nas costas do senhor Araújo. Dirigiu-se à esposa do agredido e disse:

 

— Sua cabra assanhada! Esta chibatada só não foste tu que a levaste porque não bato em mulheres!

 

Contorcendo-se com dores, o algemado senhor José pediu à esposa:

 

— Querida, pára! Não sabes do que ele é capaz! Por favor pára, ele ainda vai pagar por tudo isto, juro que vai! E eu não vou ser cobarde como ele, que bateu num homem de mãos presas!

 

Sem atender ao pedido do marido, Dona Clotilde, não satisfeita com o que tinha feito e dito ao sargento, continuou:

 

— Você, Sargento sem farda nem honra, é um grande cobarde, não honra as calças que traz vestidas! Disse que não me batia, porque não bate em mulheres,   grande   diferença   bateu   num   homem   de   mãos   algemadas. Cobardolas, porco imundo!

 

Em   toda   aquela   assembleia   não   houve   uma   só   pessoa   que   ficasse indiferente a toda aquela afronta de Dona Clotilde. O Sargento, esse, que até então nunca tinha sido enfrentado por quem quer que fosse, sentia-se humilhado e desautorizado, desautorizado daquela mania de autoridade máxima por aquelas terras, onde toda a gente o temia, o respeitava, inclusivamente as próprias autoridades, que por actos submissos perderam a própria autoridade que lhes era incutida por lei, e que por elas foi perdida para um homem que, pela própria lei, legalmente, não podia usurpar assim a própria lei. Sem pronunciar qualquer palavra, gesticulando com as mãos, o Sargento ordenou que iniciassem a marcha em direcção à cadeia da pequena cidade. Por estradas tortuosas de terra batida seguia uma caravana de doze cavalos e treze homens. Isto se contarmos o senhor José, que, dentro daquela jaula quase que não se poderia considerar um ser humano, mais rapidamente se poderia achar que era um animal enjaulado, ou escravo recém-capturado pelo dono. Aliás, foi essa a posição que o Sargento quis assumir, um senhor de escravos que triunfantemente regressa a casa com os capitães do mato, após a captura de um escravo fujão. Apesar de todo aquele tratamento, que em nada dignificava as ordens de segurança, o senhor José Araújo, ainda que de uma maneira irrisória, teve melhor tratamento que os escravos. Esses, na altura da escravatura, quando capturados, eram arrastados, presos em ferros, e obrigados   a   caminhar   pelos   próprios   pés.   Embora   grande   parte   da população mundial possa pensar que a escravatura esteja extinguida, desenganem-se!   Infelizmente,   em   muitos   e   variadíssimos   países,   a escravatura é ainda um facto, de uma forma quase sempre camuflada. É uma   triste   realidade   que   poderia   perfeitamente   ser   erradicada   da sociedade, bastava que para o efeito os governantes deixassem o lado selvático que persiste em acompanhá-los, que fizessem algum esforço para que   o   lado   humanitário sobressaísse,   e   fosse   posto   em   prática   na governação que exercem. A fome, a escravatura, as guerras e outros males da sociedade talvez venham um dia a ter fim, mas isto está muito além das vontades dos puros e mansos de coração!

 

Sempre sem controlar a pequena embarcação, o miúdo foi arrastado pelas correntes fluviais, indo embater nos grandes ramos de uma árvore. Sem perder tempo, prendeu a corda a essa árvore, subiu pelos ramos e desceu pelo tronco, sentindo-se, por fim, em terra firme. A sorte estava do seu lado, pois pouco teve de andar até se deparar com as primeiras casas duma pequena aldeia. Avistou de imediato duas freiras e perguntou:

 

— Vocês por acaso viram passar um pássaro por aqui? Era um muito grande que levava a Clara!

 

Escandalizadas, as irmãs retorquiram:

 

— Ai irmã Francisquinha, a irmã já viu que grande blasfémia? Um pássaro que leva uma rapariga!

 

— Virgem, nossa senhora dos pecadores, irmã Jacinta, este rapaz de alma perdida deve ser um daqueles bruxos pecadores não temente a Deus, nosso senhor Jesus Cristo! — dizia isto em quanto se benzia.

 

— Olhe meu filho… Meu Deus, perdoai-me, que este garoto nem sequer pode ser tratado assim por nós, nós que somos santas e ele que é um traste pecador!

 

— Ámen, ámen, irmã Francisquinha, nós que somos santas, nós que

dedicamos a nossa vida toda a Cristo, e este infame que vive no mundo das trevas e das feitiçarias!

 

— Olhe meu rapaz, você não tem educação, chegou ao pé de nós, e não nos cumprimentou, como toda a gente!

 

—Tem   razão,   irmã   Jacinta!   Sabe,   miúdo,   as   pessoas   quando   nos cumprimentam, dizem: “Olá irmãs”, e pedem-nos a bênção. Você não reparou que nós somos irmãs de Cristo, usamos hábito de freiras!

 

Diz o Lipe:

 

— Vocês são irmãs de Cristo?

 

— Sim, claro que somos, não vê o nosso hábito?

 

— Mas esse tal de Cristo não viveu há dois mil anos?

 

— Sim, o nosso senhor Jesus Cristo viveu há dois mil anos!

 

— E vocês dizem que são irmãs dele?!

 

— Sim, nós somos irmãs de Cristo!

 

— Porra lá para vocês, estão muito bem conservadas! E já agora o que é isso que vocês tanto falam?

 

— O hábito? É isso?

 

- Sim, isso!

 

— Virgem, nossa senhora das causas perdidas, este rapaz é mais pecador do que pensávamos. Nem sabe o que é o hábito de freira, é mesmo um ser perdido para Deus, quando morrer vai direitinho para as trevas do inferno! Nem sequer vai ser purificado no purgatório!

 

Sem   entender   rigorosamente   nada   daquela   linguagem   beatificada   e santificada   pelas   próprias   santas,   apercebendo-se   que   daquelas   duas macacas fardadas não obteria qualquer resposta a respeito do pássaro ladrão, virou costas e tentou continuar a sua busca. Foi de imediato interrompido por elas, que lhe deitaram a mão e disseram:

 

 

— Não, filho do demónio, não vai embora sem antes se confessar ao nosso santinho, senhor prior, o nosso querido padre Miguel!

 

— Um padre? Na minha casa já esteve um, mas este também é irmão do vosso irmão o tal de Cristo?

 

Dizem as duas, simultaneamente a fazerem as cruzes vezes sem conta à frente do peito, e cada vez mais escandalizadas:

 

— Sim, o nosso santinho senhor prior é irmão do nosso senhor Jesus Cristo, aliás, ele é a própria palavra de Deus! Ele tem o santo poder de perdoar os pecados a todos os pecadores como você! Apesar de toda a ajuda divina, vai ter de fazer um esforço enorme para conseguir lhe dar a santa absolvição, que Deus o ajude! Coitado dele, que tem uma alma purificada pelas sagradas mãos de Deus, com a ajuda de todos os seus santos. Consigo acho que vai envelhecer alguns anos, e então ele que é tão jeitoso! Acho até que vou rezar um terço para que o esforço dele seja minimizado!

 

Enquanto diziam isto, deram início à caminhada em direcção à igreja, sem nunca tirarem as mãos de Lipe. Pouco tempo depois avistaram o padre, que estava debaixo de uma árvore, situada no pequeno adro da igrejinha, que era pequena como o adjectivo o diz. Em redor dela existia um muro baixinho, ladeado por árvores bem tratadas. O padre, à semelhança do muro, era também ele baixo, tinha por hábito fazer-se acompanhar pelo seu cão rafeiro, que respeitosamente o aguardava fora da porta do templo.

 

— Senhor prior, senhor prior! — cacarejaram as duas, que mais pareciam duas galinhas após a postura dos ovos.

 

— Ora viva irmãs Francisquinha e Jacinta. Que fazem por aqui? E quem é esse lindo garoto que seguram em mãos?

 

Enquanto se aproximavam do padre, até ficarem a uns escassos metros daquele homem que interruptamente usava batina, a irmã Franscisquinha, que das duas era a mais gorda, mais velha e frustrada, a rondar os cinquenta anos, disse:

 

— Senhor prior, encontrámos este pobre pecador perto daquela velhinha giquiteba-rosa, ali bem perto do cruzamento das maçãs. Mas antes de mais nada senhor prior, deixe-me dar a educação a este ser não domesticado. Olhe rapaz, quando vemos um senhor padre de batina, temos que lhe beijar a mão e lhe pedir a santa bênção. Faça isso! Beije-lhe a mão! E faça a vénia sem se esquecer de pedir a bênção, vamos, já!

 

Ao ouvir todas estas ordens, que para as freiras eram as obrigações que o comum dos cidadãos teria de dedicar ao homem que das mãos do senhor bispo recebera a sagrada ordenação, e com isso passou a ser um ser superior a todos pela fé, ou mesmo que ela não existisse, e elas bem que sabiam que nem todos olhavam para as questões da igreja com o mesmo fervor, no entanto, padre era padre, ou seja, o senhor prior era o senhor prior, e fosse como fosse todos o deveriam respeitar como tal. Lipe, com todas aquelas recomendações sentia-se retraído. Já vira um padre na sua casa, porém os seus pais não o obrigaram a nada daquilo. Meio cabisbaixo, com aquela pressão pensou: «O mundo está tolo! Beijar a mão de um padre, pedir a bênção! Anda vestido de preto, quem morreu da família dele? O mundo está tolo!»

 

De seguida perguntou:

 

— Como se faz a vénia? Qual a mão que tenho de beijar? Ele tem duas! A batina é isso preto que ele usa e que está cheio de formigas? Benzem-se os três em simultâneo e dizem em coro:

— Meu Deus, Virgem, nossa senhora dos animais sem dono! Esta criatura desalmada não tem qualquer tipo de respeito pelas coisas divinas, que somos nós, seres puros e santos!

 

— Olhe rapaz, não se preocupe com qual a mão que deve beijar, o senhor prior dá-lhe a mão certa! A batina é esta santa vestimenta que o senhor prior usa!   — explicou   todas estas coisas igregisticas   a   irmã Jacinta, continuando, — Este rapaz, senhor prior, abordou-nos a perguntar se nós havíamos visto um grande pássaro que levava a sua amiguinha.

 

Continuou a irmã Francisquinha:

 

— Um pássaro que voa e leva crianças, já viu senhor prior, que blasfémia! Isto é mesmo um caso de feitiçaria, se vivêssemos há cem anos atrás iríamos ter de acender uma fogueira para queimar este não crente em Deus! E olhe o senhor prior, bem falta fazia esse tempo ainda existir, era uma boa forma de limpar a sociedade, separar o trigo do joio!

 

— Ora, irmãs em Cristo... — disse o padre, sem tirar os olhos das duas montanhasinhas que sobressaíam do peito da irmã Jacinta.

 

Tinha bom gosto feminino, pois a irmã Jacinta tinha talvez à volta de trinta anos.   Era de média estatura, não muito gorda, cabelos um pouco abaixo dos ombros, curvas bem feitas que demonstravam bem a perfeita obra criada por Deus.Tinha os olhos reluzentes, e que em algumas ocasiões revelavam um fortíssimo desejo de masculinidade por perto, ou até mesmo de ser tocada na sua delicada pele de seda macia. O sacerdote fez questão de ouvir da boca da freira Jacinta tudo o que se tinha passado com o garoto, e ela prazerosa, lhe explicou:

 

— Foi isso senhor prior, este miúdo perguntou por um pássaro que levava uma menina; já viu uma menina levada por um pássaro?

 

— Ora, irmã Jacinta, deixe para lá o pássaro, este menino deve estar confuso!

 

Com um desejo canino, o padre tocou no ombro da irmã Jacinta, e ateado disse:

 

— Um pássaro, um pássaro! Como um pássaro estou eu só lhe queria dar uma picada, irmãzinha de Deus!

 

— Ora, senhor prior, não seja maroto! — disse-lhe ela, e ao mesmo tempo, com a mão esquerda fechada em punho, deu um murro na pançuda barriga do padreco, que se poderia parecer com tudo menos com um sacerdote. Ele encontrava-se de costas voltado para uma árvore, quase encostado ao tronco, com o golpe da freirinha. Ainda que não dado com muita força, no entanto, apesar dela o ter feito em sinal de aceitação, ele não esperava aquela pancada, e ainda por cima na barriga, e com o impulso recuou. Bateu   com   o   rabo   num   galho   saliente   e   soltou   um   intenso   ai… Instantaneamente, como a querer fugir daquela ferroada, deu uns passos em frente, indo de encontro à irmã Francisquinha, que por sua vez deu um encontrão à irmã Jacinta, que por sua vez foi de encontro a Lipe que, por sua vez, caiu (pois claro, ninguém o quis fazer por si) estatelado no chão,

e muito zangado, gritou:

 

— Porra para vocês os três! O mundo está maluco! Vocês não vêem o que fazem!

 

Novamente lá surge a bênção colectiva em cruz. Com a mão direita, o padre benzia-se, e com a esquerda coçava o rabo. A freira Francisquinha, das duas como sabemos a mais severa, exasperada resmungou:

 

— Está a ver senhor prior, o palavreado que este infame rapaz usa à sua frente! Não tem mesmo respeito algum pela santa batina que o senhor usa!

 

 

Volta a dizer a irmã Jacinta:

 

— Este miúdo diz estas blasfémias à frente do senhor! O senhor que é um santinho, que não está habituado a ouvir estas coisas, e que ainda por cima só nos faz bem! Que seria de nós sem a sua protecção?

 

A irmã Francisquinha que há já algum tempo não sentia a protecção do prior, disse meia entristecida:

 

— Olhe irmã Jacinta, o senhor prior há já muito tempo que só lhe faz bem

a si! Eu já pareço estar morta para o mundo!

 

— Ora! Ora! Irmã Francisquinha, os meus dentes já não são o que foram em tempos atrás! Tem que compreender isso, santo morto não ressuscita!

 

Desculpou-se de imediato o padre, olhou para o garoto e disse:

 

— Peço-lhe mil desculpas, de qualquer maneira tem de se confessar e explicar melhor essa história de pássaro que voa e leva crianças.

 

Entram na igreja, o padre e Lipe à frente, seguidos pelas duas freiras, que mais pareciam dois soldados, de espada empunhada, prontas para dar a machadada final, sempre no intuito de proteger quem sempre as protegeu.

 

Temos muitíssimas vezes a necessidade de pensar que fazemos falta em lugares e em acontecimentos onde na realidade somos, quase na maioria das vezes, dispensáveis.

 

Já no interior da igreja, o padre sentou-se no confessionário e tentou inteirar-se de toda a situação. Depois de tudo bem explicado por parte do Lipe, o padre mandou-o rezar vinte avé- marias e outros tantos pai-nossos. Por muito que o padre tenha explicado que o tal pássaro deveria ser um helicóptero que, certamente tinha levado Clara para o hospital, para o pequeno rapazinho todas aquelas explicações foram como orações caídas em saco roto, não entendeu rigorosamente nada. Saiu do confessionário e foi rezar as tais vinte avé-marias e vinte pai-nossos. O padre, que teve de sair para dar a santa extrema-unção a dona Conceição Meneses, com noventa anos, e que tinha uma saúde frágil, deixou as freiras encarregues do árduo trabalho de vigiar o pequeno bruxo pecador, enquanto que ele rezava a penitência. Colocaram-se perto da porta de saída, sentadas no grande banco de igreja, sempre convictas que tinham de se manter afastadas do mal.

 

Cochichavam de tudo e de mais alguma coisa, sempre de olhos postos no Lipe, se este fazia algum gesto já temiam que ele fosse fazer-lhes mal, e aos santos, e talvez, quem sabe, ao próprio Senhor Jesus Cristo. Pois com tamanha montanha de malvadez que aquele rapaz tinha, nem o todo- poderoso deveria ter forças para dominar ou elas, cheio de maldades.

 

Dizia a irmã Francisquinha:

 

— Sabe, irmã Jacinta, ele deve ser irmão do Satanás! Ou, quem sabe, o seguidor do santo Cipriano.

 

— Ora, irmã, tem algumas dúvidas? Assim como nós somos irmãs de Jesus, ele é de certeza irmão do Satanás, se não irmão, primo deve ser de certeza!

 

Houve uma determinada altura da penitência em que Lipe direccionou firmemente o olhar para a estátua de Jesus, como quem quer saber o porquê tudo aquilo.

 

Porquê? Ele de joelhos ali a cumprir uma penitência não merecida…

 

Porquê? Clara foi quase morta pelo seu próprio pai. era o seu melhor amigo que bem sabia que a Clara era uma das pessoas que ele mais gostava…

 

Porquê? Foi o pássaro que levou Clara no seu interior. Tantas presas para aquele maldito pássaro apanhar, foi logo apanhar a Clara…

 

Porquê? Tanta capivara, tantos tamandulos, tantos quatis, tantas cabras, e ele preferiu ela…

 

Depois de tantos porquês, falou em voz baixa para Jesus. “Olhe, você, que aquelas duas dizem é o todo poderoso, porque está de cabeça inclinada para o lado direito? Olhe, porque tem os joelhos dobrados? Eu estou também com os joelhos dobrados, e olhe este chão é duro! Afinal o que foi que você fez? Para estar de braços alargados e não se mexer? Eu não fiz nada, não sei da Clara, disse àquelas duas que vi um pássaro grande levar a Clara. Só por isso estou aqui de joelhos, só por isso! Agora você que está aí sem se mexer, imagino o que deve ter feito.. Ainda lhe digo mais se é mesmo irmão daquelas duas, merece isso e muito mais!

 

As duas, sentadas ao fundo da igreja, observando todos os movimentos do pequeno, notaram que o olhar dele era fixo para a estátua de Jesus, inquietaram-se e comentaram:

 

— Ai, meu santíssimo sacramento da eucaristia, meu nosso Senhor Jesus

Cristinho, protegei-vos, esse malvado ainda vos vai roubar do santo altar onde vós reinais há dois mil anos!

 

Asneiras atrás de asneiras, continuaram os receios…

 

— Ai irmã, ele com aquele olhar fixo de bruxo ainda vai atirar o nosso bom deus abaixo, e eu suspeito bem que ainda vai conseguir, pois os pregos já devem estar com ferrugem! Há tanto tempo que aí estais, meu deus!

 

Quando concluiu a penitência, e depois de ter tentado uma explicação para todas as suas dúvidas, Lipe levantou-se e direccionou-se para a porta de saída. Assustadas e temendo a reacção do rapaz sem a protecção do padre, as freiras levantaram-se a pressa e dirigiram-se à frente dele para a porta. À saída,   sem antes o revistarem, as freiras pediram para se converter.

 

Respondeu-lhes com a sua inocência e com alguma maldade à mistura:

 

— Vocês aí, que dizem que são irmãs do tal Jesus, se fossem boas irmãs como dizem que são, deviam estar a fazer companhia a ele pregadas num pau cada uma de vocês, assim como ele está! Só dessa maneira podiam dizer que eram boas irmãs!

 

A última parte de todas estas declarações não foi ouvida por alguma das duas. Ao ouvirem tamanhas blasfémias as duas caíram duras no chão.

 

De regresso às margens do rio Carinhanha, Lipe avistou duas senhoras já bastante idosas e perguntou:

 

— Olá irmãs, vocês por acaso não… — foi interrompido de imediato.

 

— Irmãs! Irmãs! Vossemecê ouviu isto, comadre Josefina?

 

— O mundo está perdido, comadre Clara! Irmãs! Um fedelho destes a tratar a gente por irmãs!

 

Diz a comadre Josefina:

 

— Olha, garoto sem educação, nós não somos tuas irmãs! Temos idade para sermos tua avó! Tens de dizer: vocês as senhoras, é assim que deves dizer!

 

— Pois mas eu hoje encontrei duas senhoras que me obrigaram a trata-las

por irmãs!

 

— Diz uma coisa: elas estavam vestidas como nós? — perguntou a comadre

Clara, ao que Lipe respondeu de imediato:

 

— Elas andam vestidas as duas com a mesma roupa!

 

— Pois, pois, deve estar a falar das freirinhas! — disse a comadre Clara, com a manga da camisola a limpar os lábios molhados.

 

— É isso, elas são freiras!

 

— Sabes meu rapaz, elas sim, deves trata-las por irmãs, a nós não, que somos pessoas normais. Mas o que querias saber?

 

— Queria saber se vocês por acaso viram um grande pássaro passar por aqui?

 

A senhora Josefina, tentou avivar a memória da sua amiga, e ao mesmo tempo desligar-se do miúdo.

 

— Oh, comadre Clara, este garoto deve estar a falar daquele abutre que ia há bem pouco tempo atrás, em direcção ao rio.

 

— Pois, pois, é isso aí! Olha rapaz, o pássaro que tanto falas seguiu naquela direcção! — dizia, enquanto apontava para o lado poente do sol.

 

Cheio de pressa, novamente entusiasmado com a perspectiva de apanhar o pássaro,   despediu-se   das   duas   senhoras   e   correu   em   direcção   do Carinhanha. Subiu o grosso tronco da árvore, desceu os ramos, estava de volta à canoa. E melhor nãoo tivesse feito…

 

                   O Solitário procura o Lipe

O sol, na sua máxima intensidade, brilhava por entre as poucas árvores existentes no jardim da pequena casa dos pais de Lipe. Dona Dinha, ainda que muito angustiada, vivia um daqueles dias em que fisicamente se sentia com forças e vontade para caminhar. De bengala na mão, percorria de forma ininterrupta o chão, na iminência de encontrar algum obstáculo, pois a sua visão era quase nula. Encontrava-se perto da entrada quando começou a ouvir e sentir a vibração do trotear de um cavalo. Vinha a galopar a uma velocidade reduzida. Ao aproximar-se da entrada da casa, o cavalo relinchou. Era um relinchar de grande contentamento de um animal inteligente, que conhecia bem aquele lugar e que, mesmo sendo animal, sentia que era o seu lugar de residência. Dona Dinha, com o seu sentido auditivo bem apurado, reconheceu de imediato o relinchar que lhe era bem familiar.

 

— Lipe, és tu, meu filho? Eu sabia que estavas bem, meu amor! — dizia isto em tom desesperado, há já dois dias que não tinham notícias de Lipe.

 

— Desculpe, minha senhora, certamente que não sou a pessoa que a senhora gostaria que fosse, mas não sou o Lipe!

 

— Mas, esse cavalo, eu tenho a certeza que é o Rápido, é ele o cavalo do Lipe!

 

— Eu sei minha senhora, eu encontrei o cavalo do Lipe ali perto do…, quer dizer que vocês não sabem do Lipe?

 

O Solitário quase dizia à senhora Dinha que tinha encontrado o Rápido perto do rio, mas acabou por não lhe dizer para não a alarmar.

 

— Aqui em casa ninguém sabe do Lipe faz dois dias. A amiga dele, a Clara, está muito mal no hospital. O meu sobrinho Zé está na cadeia, dizem que foi ele quem empurrou a rapariga. A Clarisse foi à cadeia ver o homem, já não come há dois dias. Eu estou para aqui a falar e nem sequer sei quem é vocemessê! Sabe, meu rapaz, posso lhe chamar assim?

 

— Pode sim, senhora!

 

— A Clara, que é a grande amiga do Lipe, foi atirada abaixo de um morro que tem lá perto do riacho. Aquele malvado do sargento esteve aqui com a polícia e prenderam o meu sobrinho. Dizem que foi ele, não foi não, eu sei que não foi! Os maus são eles e querem que seja o Zé o culpado.

 

— Tenha calma, minha linda senhora, conte-me tudo! Eu sou amigo do Lipe, posso-lhe dizer que gosto dele como se gosta de um filho! E o Lipe também pensa que foi o seu sobrinho o culpado?

 

 

— Sabe, meu rapaz, o meu sobrinho não gostava daquele anda para baixo e para cima do Lipe com a sua amiguinha Clara. Dizia muitas vezes ao próprio filho que queria que aquela rapariga desaparecesse. Talvez o Lipe pense mesmo que tenha sido o pai quem atirou a rapariga para o fundo!

 

— Quer dizer que desde o acidente o Lipe nunca mais deu a cara por aqui?

 

— É isso, meu rapaz, ele não mais apareceu, nós não sabemos dele se ele está vivo ou não! Que o meu padrinho Padre Cícero queira que nada de mal tenha acontecido com o meu menino!

 

O Solitário, que através da muita convivência com o miúdo lhe ganhara uma afeição paterna, ficou de tal modo desesperado que de imediato todas as hipóteses, boas ou más, lhe ocorreram. Talvez o miúdo, o seu miúdo, tenha ido procurar a sua amiga, talvez não tenha ainda encontrado o hospital. O cavalo estava perto do rio Carinhanha, quem sabe ele tenha desaparecido nas suas águas, e algo de muito ruim lhe tenha acontecido.

«Não penses nisso, Paulo Gracindo, estás a ser pessimista! De certeza que ele se orienta muito bem, mas mesmo assim tenho de o procurar.»

 

— Sabe, minha doce senhora, eu vou tentar encontrar o Lipe! Diga à sua sobrinha que um amigo do Lipe está no encalço dele e que o vai achar! Diga-lhe também para mandar alguém buscar o Rápido, eu deixá-lo-ei entre o rio e o riacho!

 

— Vai com Deus, meu rapaz, eu vou rezar muito à nossa Senhora da Aparecida!

 

— Fique com ele, minha senhora! Eu dou notícias quando encontrar o Lipe. Vou de imediato avisar seu sobrinho à cadeia!

 

Fez um carinho, com a mão esquerda na face, e afagou-lhe os cabelos com um sorriso ternurento. De seguida, saiu a grande velocidade aquele homem que há alguns anos a esta parte se tinha desprendido de todos os bens materiais e humanos. Vivia completamente sozinho. Afeiçoou-se a Lipe quando aquela bendita cobra-cascavel o tentou morder.

 

Seguiu em direcção à sua humilde caverna. Muniu-se de uma pistola e duas grandes facas, prendeu-as a um cinturão e voltou a galopar a toda a velocidade   para   as   imediações   do   local   onde   há   duas   horas   tinha encontrado, completamente abandonado à sua sorte, o Rápido. Já bem perto do Carinhanha, lembrou-se que o garoto poderia perfeitamente ter pedido uma canoa a qualquer caboclo que com muita frequência por ali pescava. Foi ao seu esconderijo por entre os arbustos, onde habitualmente escondia a sua canoa, que usava para pescar e dar alguns passeios fluviais. Qual não foi o seu espanto quando constatou que a sua canoa ali não estava. Pensou:

 

«Seria ele quem pegou nela, deve ter sido, ele era bem capaz.»

 

Seguiu a corrente do Carinhanha pela margem direita, bastante tempo sem nada encontrar ou alguém avistar. Foi quando viu nas margens calmas do rio duas senhoras de meia-idade, que usavam lenços da cabeça e grandes chapéus para se protegerem do forte sol, lavavam roupa e ele falou-lhes:

 

— Boa tarde, senhoras! As senhoras por estes dias, por acaso, viram algum garoto por estas bandas?

 

— Boa tarde. Senhor moço, faz logo mais dois dias, que vimos sim um caipira numa canoa assim pequerruchinha a passar naquelas águas além!

 

— E que direcção ele tomou?

 

— Ia para além, no correr das águas! — respondeu a outra lavadeira, até então calada. — Sabe, senhor moço, aquele pequeno caipira não sabia lá muito bem pegar naquele pauzinho que os homens usam para fazer andar os barcos!

 

— Sim, sei senhoras, o pior é que eu queria ir ao seu encontro, mas não tenho canoa! Ele deve ter pegado a minha que além estava escondida!

 

— Ele é seu filho?

 

- Não….Sim… É como se fosse!

 

As duas ficaram sem nada entender, e julgaram tratar-se de um meliante que tinha filhos por vários lados espalhados, mas pelo menos este mostrava algum interesse por aquele rebento gerado por terras de nosso Senhor.

 

— Sabe, senhor moço, nós não entendemos o que o senhor moço disse, mas ali bem perto tem um barquinho escondido, venha comigo!

 

Foram as duas mostrar uma canoa do género da sua, estava escondida tal como   a   dele   por   entre   uns   arbustos.   O   Solitário   agradeceu-lhes encarecidamente e, sem mais demoras, pôs-se a remar nas águas do grande rio. Tinha uma grande experiência, adquiriu-a ao longo de muitos anos a pescar e a fazer passeios fluviais. Os passeios e a pesca eram dos seus passatempos preferidos. Fazia da pesca, da caça e da apanha de frutos silvestres, o seu único meio de subsistência. Uma vez por semana havia   uma   chalana   (espécie   de   barco   fluvial   brasileiro)   que   fazia   a travessia do Carinhanha  para fornecer alimentos ferramentas, combustíveis   para   os   geradores   e   outras   pequenas   máquinas.   A electricidade ainda não tinha chegado àquela região. Estas embarcações eram dos poucos meios de comunicação entre as pequenas populações existentes na floresta. Por aquelas andanças muitas eram as pequenas vilas que   unicamente   eram   ligadas   por   água   ou,   quando   ligadas   por   vias terrestres, eram tão-somente ligadas por caminhos de terra batida, onde só os coches podiam transitar. Quando havia passagem semanal daquela embarcação, o Solitário aproveitava para fazer trocas comerciais. Trocava peixe   fresquinho   dourado,   surubim,   curimatá-pacu,   curimatá-pioa, matrinchã, piau-verdadeiro, pacu, piau-branco, piranha, traíra e pacamã apanhados   naquelas   águas,   outrora   bem   mais   generosas.   O   Solitário apanhava de igual modo frutas, carambolas, castanhas variadas, cerejas, coco, cherimoya, ceriguela, duriao, framboesa, figo, graviola, groselha, granadina, entre muitas outras frutas que abundantemente existem na mata. Também recolhia folhas de guaco, alecrim, camomila, capim-limão, usadas   para   fins   medicinais.   Trocava   todos   estes   produtos   por   bens alimentares,   arroz,   açúcar,   azeite   para   a   candeia,   e   outros   bens essenciais. De quando em vez lá adquiria uma arma para defender-se de algum eventual ataque de um qualquer animal selvagem, ou mesmo de alguma pessoa que sem motivo criasse por ele inimizade.

 

No largo leito do Carinhanha, seguia aquela canoa que, sem ser comprada, ganhara   há   pouco   tempo   atrás   novo   dono.   As   águas   do   grande   rio mantinham-se calmas, reluziam o azul do céu e o verde predominante dos mangais tão ricamente munidos do chilrear dos pássaros. Contornava pequenas   ilhas,   uma   ou   outra   foz   dos   muitos   rios   e   riachos,   que desaguavam no Carinhanha e este, por sua vez, desaguava no grande São Francisco que durante uma grande extensão faz a divisão dos estados de Minas   Gerais   e   Baía.   O   Solitário   remava   naquela   canoa,   em   tudo semelhante à sua, com a calma que poucos seres humanos adquirem e com uma ligeireza que poucos conseguem. Em várias partes o Carinhanha tem uma largura de tal forma grande, que do meio do seu leito é impossível reconhecer quem quer que seja.

 

Algumas milhas percorridas, algumas ilhas pequenas passadas, o Solitário tinha nas águas daquele rio como companhia, a companhia que sempre teve na sua modesta habitação , a presença dos pássaros, e desta vez não os répteis ou outros animais da mata, mas sim os peixes. Na caverna, onde vive há já alguns anos, a segurança certamente é bem mais consistente pois   nas   águas   daqueles   rios   por   vezes   encontram-se   com   bastante frequência piranhas, jacarés, sucuris, (espécie de anaconda, a maior cobra existente no mundo), enguias eléctricas e muitas outras espécies piscícolas que oferecem grande perigosidade. As até então calmas águas estavam a ficar agitadas. O rio começava a afunilar, pedras surgiam à tona, o vértice de uma ilha começava a ficar para trás. O rio já estava dividido em dois e as águas cada vez mais rápidas. Poucas tinham sido as vezes, mas o nosso navegador já havia passado por ali. Tinha-o feito pelo lado direito da ilha onde as águas eram mais calmas. O leito desse lado era mais largo e não havia pedras, bem sabia que deveria ter optado por seguir à procura do Lipe por aquele lado da margem. O seu estado emocional estava muito abalado pelo desaparecimento do rapaz, não se deu conta do grave erro que cometeu ao seguir por aquele caminho fluvial tortuoso, com muitas pedras   e   correntes   fortíssimas.   Remava   com   toda   a   precaução   e desconforto, tentava desviar-se de uma pedra, de outra, mais uma, mais outra. Remava tudo a estibordo em algumas ocasiões. Tudo a bombordo em outros momentos para lá de aflitivos, sempre na iminência de ir de encontro às pedras que, como consequência, fariam com que caísse da pequena embarcação e sofresse graves danos físicos.

 

Havia alturas em que usava o remo para evitar esbarrar-se, em outras tinha unicamente que o levantar, para que não se prendesse nas rochas e se perdesse irremediavelmente. Era uma pessoa que, quando se deparava com algum problema mais sério, tinha uma frieza e um poder de controlo que só o levava a reagir no momento exacto. Vários foram os momentos aflitivos que, na sua existência de quarenta e poucos anos, já havia passado. Ataques de onças pintadas, de cobras, de caçadores furtivos que indiscriminadamente caçavam jacarés para comercializarem as suas peles. Podia-se considerar um ermitão e um ambientalista inato, com um único objectivo, a preservação dos animais e do ambiente. Sabia com toda a certeza, que se eventualmente a canoa se virasse e fosse de encontro a alguma   pedra,   se   machucaria.   Ao   machucar-se,   provavelmente   faria sangue. As perigosíssimas piranhas são dos peixes mais ferozes daqueles rios, dizem os habitantes locais que estas pressentem o cheiro a sangue a longas distâncias e que, ao fazê-lo, atacam sem dó nem piedade. Em poucos minutos são capazes de devorar um animal de grande porte.

 

Pensava o quase desesperado e desorientado Solitário: «Oh meu padrinho Padre Cícero, oh meu Deus Criador e Senhor de todas as coisas! Eu bem sei que poucos são os momentos em que me lembro de vós! Vivo o meu dia-a- dia sem lembrar-me que existirá algo de superior e sobrenatural que terá nas suas mãos o poder de reger o destino das coisas.»

 

Rezava assim, pensando, pois ao deparar-se naquela situação em que humanamente pouco poderia fazer, tudo serviria de tábua de salvação. Não se sentia muito convicto ao fazer todas aquelas orações nem na ajuda que delas obteria, pois a sua fé já há muito que estava para lá de abalada. Não acredita convictamente no destino, acredita sim que há algo que hereditariamente passa de geração em geração. Acredita que quase todos os acidentes são evitáveis, que as doenças se podem prolongar e que a morte é adiável. Muitas são as pessoas, principalmente as mais convictas na religião em que crêem, que acreditam que os acidentes, as doenças, os azares e a morte são fruto da vontade dos deuses ou profetas em quem acreditam. O destino das populações, embora muita gente não concorde, está em grande parte nas mãos dos políticos governantes. Nas guerras que declaram, nas atitudes que são prejudiciais para os seres vivos, numa qualquer batalha que se trava, numa guerra em que morrem por vezes milhares de vítimas inocentes. Haverá muita gente que dirá, que morreram porque tinham que morrer, foi o destino! Não, não é o destino se essas vítimas não fossem apanhadas por obra do acaso, no meio dessas malvadas guerras, muitas delas atingiriam certamente a longevidade! É certo e sabido que nem tudo está somente nas mãos dos governantes, o comum do cidadão é muitíssimas vezes responsável por muitas mortes causadas! Ao conduzir sem respeitar as regras de trânsito, assassinatos cometidos no egoísmo   de   ter   cada   vez   mais   bens   materiais   e   deixar   que   o   seu semelhante morra de fome. Em experiências mal calculadas e que de forma ainda que involuntária causam ferimentos graves como amputações, ou consequências ainda piores. Nós, humanos, deveríamos deixar o nosso lado humanitário vir mais ao de cima e abandonarmos o lado selvático que tanto mal tem causado à sociedade. Esta sociedade progressista, que de todo não trata bem o mundo em que vive. Este mundo que muitos dizem ser uma bola de algodão que cabe na nossa mão, tal como uma bola que tem dois lados, o lado de dentro e o lado de fora. O mundo tem de igual modo dois lados, o lado bom e o lado mau!

 

Dentro da canoa, por entre rochas e correntes fortes, o Solitário tinha de fazer   um   esforço   incomensurável   para   se   equilibrar,   parecia   um profissional   de   circo,   um   autêntico   trapezista   a   fazer   malabarismo. Encontrava-se   quase   no   final   daquela   zona   de   pequeníssimas   ilhas rochosas, quando sem nada poder fazer para o evitar, foi contra uma rocha. A canoa voltou-se, ele submergiu naquelas águas abundantes em correntes, em peixes perigosos, em diversos e eminentes perigos. Ao mergulhar de forma involuntária embateu numa pedra submersa, que lhe desferiu um golpe rotular na perna esquerda, causando-lhe uma dor intensa. As águas tingiram-se de imediato de tons encarnados, lançando um apelo à repentina visita das piranhas. Segurou-se, com todas as forças possíveis e inimagináveis, a uma rocha com ambas as mãos. De seguida, sentou-se na rocha e tentou restabelecer as forças. Felizmente que a canoa não se encontrava muito longe dele, tinha ficado presa entre duas pedras, a cerca de oito a dez metros de distância. A sua consciência dizia- lhe que não dispunha de muito tempo para tentar recuperá-la, sabia de igual modo que só tinha uma maneira e que essa maneira era um risco desmedido, teria obrigatoriamente que mergulhar para alcançar o único meio de transporte que dispunha de momento. Rasgou a camiseta com uma grande faca que usava ao cinturão e fez uma espécie de ligadura na tentativa de estancar o sangue que lhe escorria de forma ininterrupta pela perna. Lançou-se às águas, apelando à sorte para o não desamparar. As águas   estavam   com   uma   cor   amarelada,   barrenta,   devido   às   fortes chuvadas que tinham caído oito dias antes. A visibilidade era quase nula, ainda não tinha alcançado a canoa quando subitamente sentiu picadas numa das pernas. Sentiu naquele instante que todo o seu esforço tinha sido em vão, que o amor que ganhara pelo Lipe talvez tivesse ali ditado o seu fim. Em nada se sentia arrependido, sentia sim, uma grande frustração ao constatar que a sua vida estaria na fase terminal, e não sabia se a vida do Lipe estaria irremediavelmente perdida, ou se estaria a salvo, quem sabe, no início de uma hipotética longa vida. Talvez ele encontrasse Clara, talvez perdoasse ao pai, talvez tudo corresse bem e esse era o seu único desejo!

 

Apesar das picadas nunca perdeu o sentido de orientação, era um sentido de tal forma apurado que, quando emergiu à superfície, se sentou de um só impulso numa das rochas onde a canoa se encurralara. Pôs-se de pé de imediato, deixando um burburinho nas águas. Eram as malvadas piranhas que ali acorriam, na tentativa de darem o golpe de misericórdia, seguindo os   seus   instintos   inatos,   atacando   todo   e   qualquer   ser   vivo   que demonstrasse ter algum ferimento. Agora, para além do golpe que fizera na queda, tinha também outros ferimentos desferidos pelas piranhas e que, por sorte, não eram muitos nem profundos. Sabia agora, melhor do que nunca, que tinha de se manter sereno, cauteloso e que teria de sair dali, e que a única maneira de o fazer seria naquela canoa. Canoa essa que se encontrava voltada e que ele teria de ter todos os cuidados para a endireitar,   caso   contrário   poderia   perfeitamente   desprender-se   e   ser arrastada pelas correntes. Este seria o pior dos cenários, se esta hipótese se concretizasse, aí sim, estaria irremediavelmente perdido. Com o que lhe restava da camiseta limpava o sangue das pernas para não manchar mais as águas, provocando ainda mais os terríveis predadores. Manteve-se o mais imóvel possível, na expectativa de que o burburinho causado pelas piranhas acabasse. Quando sentiu que sim, que estava tudo mais calmo, deitou as mãos à canoa, endireitando-a. Nesta operação usou de um cuidado tão efusivo, que mais parecia tratar-se do lançamento de uma nave espacial. Nos lançamentos das naves tanto o perigo como os cuidados a ter eram igualmente tidos em conta, e, para além disso, os astronautas têm seguros de tal forma avultados que, se eventualmente algum acidente acontecesse,   os   viúvos,   ou   viúvas,   receberiam  tanto   dinheiro   que facilmente conseguiriam novos maridos ou novas esposas. A sua vida sim, valia bem mais, seguro não existia e para além disso, morrer assim desta forma inglória, e ainda por cima aos dentes daquelas feias e horríveis criaturas que o devorariam com uma ferocidade tal, que demonstrariam ser os seres mais egoístas, invejosos e sovinas existentes à face das águas. Finalmente, estava de novo sentado na sua pequena embarcação, poucos eram os barcos que tinham uma tão grande consonância com aquelas águas.   Sem   remo   seguia   ao   sabor   das   correntes   fortes,   que   talvez julgassem que aquela canoa seria um aglomerado de espuma colorida. As pedras, como por um acto de magia, estavam a acabar.

 

Ao deparar-se, no fim de todas aquelas ilhotas maléficas, que tanto mal e tanto medo lhe causaram, com um brilho nos olhos, pensava de si para consigo: «Acho que o pior já passou! Com sorte as correntes irão levar-me para a margem e aí sim, eu arranjo outro remo, ou sigo viagem por terra. Lipe, Lipe, onde estás? Espero que não tenha tido o azar de vir por este lado como eu tive! Se o meu menino veio por aqui acho que o pior aconteceu! Não, não! Por aqui não! Eu vou te achar, espera eu vou, prometo!»

 

Enquanto pensava, deu-se conta que a canoa andava em círculos.

 

«Que se passa agora? Porquê isto? Pensava que o pior já havia passado! Calma,   Paulo   Gracindo,   a   canoa   está   andar   às   voltas   por   causa   do redemoinho que as águas fazem quando acabam a sua passagem pelas pedras! Eu vou conseguir, só tenho de manter-me calmo!»

 

A desgraça assolou mais uma vez o Solitário, a canoa desenhava círculos infindáveis,        as   tonturas provocadas      por   aqueles        movimentos descontrolados estavam a deixá-lo inconsciente. A inconsciência provocada por aqueles movimentos levaram-no a ter a inconsciência de se deitar na canoa. Quando alguém se encontra num estado de grande sonolência e se deita para dormir, sente que, ainda acordado, o inconsciente toma forma relevante.   Sentimos   que   estamos   acordados   mas   simultaneamente sentimos que o sonho, a imaginação, nos colocam em transe. Não eram sono nem sonho o que naquele momento o amigo do Lipe sentia. As voltas e   mais   voltas   que   aquele   redemoinho   fazia   a   canoa   dar   fizeram-no mergulhar no estado de sonolência e transe imaginativo. Lembrou-se do seu pai, de quem há já muito tempo deixara de ter notícias.

 

«Pai, Pai! Será que é um velhinho, a quem as pessoas maltratam e fazem sentir um estorvo? Será que se encontra no leito de um qualquer hospital? Estará   num   lar   de   idosos,   onde   se   colocam   aqueles   que   não   são desejados?»

 

Por vezes, são as circunstâncias da vida que fazem com que muitas pessoas idosas vão parar a esses hotéis da terceira idade. Vários são os casos em que realmente essa é a única solução. Vários são os casos em que muito se poderia fazer para conciliar a vivência destes inatos conhecedores da vida no seio familiar, ou a ida para esses locais. Certamente que existirão bons profissionais de geriatria, e que sejam muitos os idosos que por pura opção queiram usufruir da vivência diária na companhia dos seus semelhantes.

 

«Pai, como serão as suas feições? Onde está agora? Porque me abandonou?

A última vez que o vi disse-me, lá na caverna, para esperar por si, disse- me que voltava. É isso que tenho feito, vivo há vários anos na caverna à sua espera!»

 

O seu pai, trinta e cinco anos mais velho, provavelmente será (ou não) um septuagenário em fim de dezena. Há muitos anos atrás, os pais do Solitário, que residiam na cidade, foram visitar as terras onde se situa a caverna. Estas terras eram pertença da família paterna, era uma área de terrenos não muito grande, mas pelos quais o seu pai tinha uma verdadeira afeição. Saíram da cidade, onde possuíam um pequeno café com uma sala de jogos anexada, do qual provinha o sustento da família de quatro elementos, o Solitário, a sua irmã e os pais. A cidade não era muito grande, mas a concorrência também não o era, e por isso eles viviam com uma qualidade de vida acima da média. A charrete     foi o transporte utilizado   até   ao   pequeno   porto   fluvial   onde   apanharam   a   Chalana. Desceram   o   São   Francisco   e   posteriormente   fizeram   a   subida   do Carinhanha, seu afluente. Foi uma viagem inesquecível para ambos, uma espécie   de   segunda   lua-de-mel.   As   paisagens   deslumbrantes   do   São Francisco que tanto os comovia, a imensidade das suas águas, deixavam- nos   assustados.   Na   borda   da   Chalana,   o   casal   aproveitava   todos   os momentos para apreciar as inúmeras espécies de plantas, de árvores de grande   e   menor   porte.   Que   lindos   eram   os   peixes   que,   a   par   da embarcação, saltavam e mergulhavam com uma mestria digna de seres domesticados e treinados para o efeito. As cores dos pássaros, tão belos e exóticos, os seus cantares, tão melodiosos que possuíam o poder de arrepiar a superfície do corpo. Quão belas e magníficas eram as aldeias, vilas e cidades construídas ao longo dos séculos, primeiramente pelos colonizadores, e depois pelos já possuidores de uma grande pátria. O dobrar dos sinos das igrejas e capelas também atraíam os seus gostos e atenção.

 

— Querido, este toque deve ser a finados!

 

— Sim, pode ser a finados, pode de igual modo ser toque de festa, algum casamento,   baptizado   ou   quem   sabe   para   uma   qualquer   celebração religiosa!

 

— Sabes, querido, as pessoas nascem e morrem, eu sei que é a lei da natureza, se o dobrar dos sinos for de festa, tal como nós as pessoas estarão contentes, caso contrário nós estamos alegres e os familiares e amigos da vítima certamente que estão tristes, que contraste!

 

— Sabes, querida, sempre gostei de conhecer novas terras, outras gentes e culturas, quão feliz eu seria se me tornasse a sombra da alegria, da farra, de todas as coisas boas existentes na vida, passasse ao lado das dores alheias e familiares. Penso não poder falar daquilo que vai na mente das pessoas, acredito que pouquíssima gente se lembrará que neste instante, neste preciso minuto, tudo de bom ou de ruim que possa acontecer no universo, está efectivamente a acontecer!

 

Na confluência dos dois rios, a entrada no Carinhanha foi uma manobra bem   difícil,   causando   arrepios   aos   passageiros.   O   comandante   da embarcação, ainda longe do lugar onde o Carinhanha desagua, mandou todos   os   passageiros   para   o   interior   do   barco.   Os   pais   do   Solitário permaneceram abraçados com os olhares fixos, tão irradiantes e brilhantes que mais pareciam a luz do Sol. Como era amistoso e amoroso aquele abraço. Dois adolescentes fora de prazo que conservavam a paixão, o respeito, o carinho e a sensualidade, perpetuando assim a jovialidade de um grande amor. Algumas centenas de metros após o fim do Carinhanha, a tranquilidade voltou. As bordas da embarcação novamente se encheram de pessoas sedentas de magníficas paisagens, dos belos cânticos das aves e dos espectáculos dados pelos peixes. Como era lindo ver as lavadeiras de roupa nas margens, como eram simpáticas. Estas mulheres simples e humildes, habitantes das povoações costeiras, acenavam à passagem do barco. Ficavam longos minutos erguidas a soltar frases imperceptíveis, tanto pela distância, como pelo barulho provocado pelo trabalhar das máquinas. Eram várias as paragens feitas ao longo do percurso. A Chalana era encostada a uma estrutura de madeira, por onde as pessoas faziam o embarque e desembarque. Estas estruturas ficavam por vezes distanciadas algumas dezenas de metros de terra firme, construídas em plenos mangais. Para ter acesso a estas estruturas, as pessoas tinham obrigatoriamente de seguir   em   pontes   construídas   de   madeira,   onde   podiam   apreciar   as inúmeras espécies de plantas aquáticas e crustáceos existentes nestes mangasais. Os pais do Solitário, pessoas muito atentas a tudo que as rodeava, comoviam-se imenso com a forma ternurenta e amistosa como o comandante e muitíssimas pessoas se tratavam. A maneira carinhosa com

que toda esta boa gente se tratava, era fruto de muitos anos de convívio.

 

— Bom dia, senhor comandante Roberto!

 

O comandante, um homem com uma aparênciaque não escondia os seus sessenta e poucos anos, a pele muito queimada do sol, usava um chapéu de palha e um cachimbo que raramente tirava da boca, nem mesmo para falar. Andava com ele descaído para o lado direito, e conseguia ter a boca fechada, os maxilares encostavam na perfeição, o que deixava as pessoas de olhos pregados nele.

 

— Bom dia, senhor Devaír, esse lindo garoto é seu neto?

 

— Ora, senhor Roberto, este é o meu filho do meio!

 

— Desculpe, senhor Devair, não era minha intenção ofender o senhor!

 

— Não tem de pedir desculpas, sabe a vida aqui na roça é muito dura a gente se desgasta muito! É a lida do gado, é lavrar as terras para as sementeiras, é as colheitas, a gente trabalha de sol a sol e o tempo parece não chegar para nada!

 

A vida na roça era muito dura, o sustento provinha do árduo trabalho em que homens, mulheres e crianças se esforçavam por dar o melhor de si. O desenvolvimento por aquelas andanças em pleno final do século XX, parecia estar nos primórdios do próprio desenvolvimento. Toda a labuta diária era feita com carros de bois, charruas e com a força humana. No entanto, as pessoas tinham uma alegria de viver que causaria inveja ao maior progressista existente na face da terra.

 

— Muito bem, senhor Devair, a sua conta é de dez reais e meio, como o ofendi, mesmo sem querer, ofereço-lhe o azeite!

 

— Obrigado, senhor Roberto, para a próxima não me importo que você me pergunte se ele é meu bisneto!

 

Dizia isto em tom um pouco magoado, mas com alguma ansiedade, talvez para ganhar outro presente. De que importa ser-se ofendido, quando dessa ofensa provier uma recompensa que atenua a dor, ou que prove que o agressor que nem usou de grande maldade...

 

— Ah, antes que me esqueça, para a semana traga um gerador, pode ser dos médios!

 

O comandante disse que sim e deu sinal que iria seguir viagem.

— Tá minha boa gente! A Chalana vai seguir viagem, adeusinho para todos! Algumas pessoas tinham terminado ali a sua viagem, mas outras davam-lhe

o início. Os pais do Solitário despediam-se de uns e apresentavam-se aos novos   companheiros   de   viagem.   Nas   suas   vidas   profissionais   sempre lidaram com muita gente, por conseguinte, tinham uma grande facilidade em comunicar com as pessoas, e eram de igual modo detentoras de uma cultura geral razoável. Ao longo do rio aconteceram muitas peripécias. Uma situação que, muitos anos depois, seu pai recordaria, foi quando a Chalana teve de parar para dar passagem a uma comitiva de gado. O rio, nesse local, era bastante mais estreito, os peões (era assim chamados os homens que guiavam o gado) aproveitavam esses locais para que os animais permanecessem o menor tempo possível dentro de água. Cada vaca, cada boi obedecia ao toque do berrante, como um cão fiel obedece ao chamamento do dono. (O berrante é um instrumento feito de chifres, que o peão da frente usa para comandar a manada.)

 

Lamentava ter visto uma vaca afogar-se, pois, assustada com um jacaré, desviou-se para um fundão onde não mais deu conta de si. Os peões, depois de muitas e relutantes tentativas para o seu salvamento, desistiram sem nada poder fazer. Poucas horas após este acontecimento, estavam finalmente nos terrenos pertencentes à família paterna. Não antes de navegarem   algumas   milhas   no   Carinhanha,   e   de   terem   feito   uma caminhada de cerca de uma hora. A distância entre o desembarque e a caverna fez-se em menor tempo, mas, tendo eles de transportar os seus pertences a pé, a viagem demorou um pouquinho mais. O pai do Solitário recordou de forma emocionada algumas das traquinices que, enquanto pequeno e quando de visita àquelas terras, aconteciam. Tencionavam ali permanecer   de   férias   durante   uns   quinze   dias   a   três   semanas.   Nos primeiros dias, o senhor alargou um pouco as instalações da caverna. A vida estava estava a ser bela e generosa para ambos, as suas peles pareciam rejuvenescer alguns anos, tal era a felicidade de juntos poderem usufruir daquela tranquilidade. Longe das fofocas de café, longe da rotina diária que tem a enorme capacidade de cansar o cérebro de todos aqueles que dessas rotinas não se desprendem. No meio da imensidade de toda aquela mata, os dois pareciam estar num parque de campismo. Dormiam em redes, cobertos por finos lençóis para se protegerem de eventuais ferradas de mosquitos. De manhã, mal raiava o dia, os dois juntinhos como um casal de pássaros em altura de nidificação, iam pescar, apanhar frutas frescas, e, por vezes, caçar animais terrestres e aves. As suas dietas eram dignas de um rei. No início de Janeiro, num dia de um ano ao qual nunca quis fixar qualquer número atribuído a uma data. Assim seria, uma data para ficar registada para a posteridade, fosse seu pai um homem de coração mais rígido e baseado em normas tradicionais. Nunca ninguém soube, a não ser o próprio pai, o dia certo dessa fatídica ocorrência. A noite estava quente, a refeição do dia anterior tinha sido baseada em frutos afrodisíacos. Depois de poucas horas de sono, os dois acordaram com um cúmplice desejo de se amarem loucamente. Fizeram daquela noite uma noite de intenso amor que levou os seus corpos à mais profunda exaustão. A rede, colocada no exterior da caverna, foi transformada no mais luxuoso hotel. A lua em fase de lotação esgotada, iluminava toda a área e dava uma claridade e visibilidade raramente vistas por ali. As sombras projectadas no chão eram magistrais, pareciam obra de um artista a tecer gentilmente sombras chinesas. Um objecto comprido era reflectido no chão complementado por um outro que na parte superior era largo, e onde se adivinhava o cabelo solto da senhora. Por vezes, com as mãos, ela prendia seus cabelos, e as sombras reflectiam uma figura semelhante à letra y, que como um par de tesouras em que falta uma das lâminas.

 

Havia momentos em que as figuras invertiam as posições, os cabelos soltos da figura superior davam lugar a um ser calvino e mais rechonchudo. As sombras não transmitem qualquer som, mas as respirações ofegantes complementavam o espectáculo. Espectáculo esse feito de modo não propositado pelos artistas que, no palco, tentam dar o que de melhor sabem fazer para agradar a um público exigente. Não havia espectadores, não se realizaram ensaios prévios, mas tudo estava a sair na perfeição. Os representantes tinham uma vocação e um desempenho extraordinários, que causariam inveja ao maior dos encenadores. A terra onde as sombras eram projectadas transformava-se momentaneamente numa grande tela, passando assim a fazer parte daquele magnífico cenário. A lua, talvez a única assistente, a ninguém contaria o que tinha visto. Os pássaros, que fazem   das   copas   das   árvores   o   seu   habitat,   teriam   provavelmente recolhido, talvez julgando tratar-se toda aquela agitação de um qualquer oportunista predador noctívago que, com a maior das astúcias, estivesse pronto para dar o golpe final. Quando na tela, ou seja na terra, as sombras tomaram a figura inicial da letra y, a corda de um dos lados da rede rompeu-se. O grito rasgou a planície, ouviu-se ao longe o bater das asas dos   pássaros   que   assustados   fugiam   à   procura   do   nada,   sem   nada perceberem do que ali acontecia. O elemento calvino não projectava mais figuras   na   tela,   era   agora   um   tronco   imobilizado   no   chão.   O   outro elemento, o dos cabelos soltos, projectava-se como o tronco de uma árvore que, por acto de magia, fazia movimentos circulares. A figura do tronco erguido baixava-se regularmente na tentativa de socorrer o que jazia no chão.

 

— Sentes-te bem, querido?

 

— Sim, querida sinto-me bem, foi mais o susto!

 

— Maldito seja o nosso desejo, que nos levou a fazer tanto amor!

 

— Maldito seja o desejo não! Maldita seja sim a rede, o desejo é para lá de bom!

 

Dizia isto aquele macho que possuía uma virilidade juvenil, e que com um olhar   penetrante   e   reluzente,   demonstrava   o   forte   desejo   de   dar continuidade a toda aquela encenação. Ela, uma fêmea que à fome juntava a vontade de comer, não deixava em graus percentuais o seu desejo atrás do de seu marido. A tela foi abandonada, pois os movimentos lunares tinham deslocado a sombra da caverna para o local onde se encontravam,   pondo   deste   modo   fim   ao   magnífico   espectáculo   das sombras projectadas pela lua. Estavam estendidos no chão, ela de barriga para cima e ele deitado do lado do ombro direito da senhora. Com a língua, roçava o seio direito e com os dedos polegar e indicador, apertava suavemente o seio esquerdo. Talhou um caminho desde o seio até ao pescoço, e, seguidamente, beijou-a intensamente na boca causando a ambos grandes sensações e prazeres. O dia raiava e o sol, ainda bebé, começava   no   horizonte   a   estender   os   seus   raios   àquela   hora   pouco quentes, consequência de uma brisa fresquinha matinal. A senhora exausta adormeceu após entrar na caverna. Ele, feliz da vida, dava graças a Deus por ter tido a sorte de se ter cruzado, na vida, com aquela maravilhosa mulher, os quais sentiam um amor enorme, sem fingimentos. Sem sono, tratou da higiene pessoal, muniu-se da pequena pistola e embrenhou-se na mata, com o intuito de passear e, ao mesmo tempo, colher algumas frutas tropicais. Adorava o chilrear dos pássaros que, felizes como ele, pareciam dar graças a Deus pelas suas existências.

 

Passou várias horas na mata, observando as plantas, os animais e sentindo- se feliz e livre como os próprios animais. Já perto do meio-dia regressou para   a   modesta   habitação,   e   fê-lo   apressadamente   pois   o   tempo transformara-se repentinamente. O sol tinha-se escondido, os trovões ecoavam de forma ensurdecedora nos matagais. A intensa claridade que até aí se dispunha transformou-se numa imensa escuridão. Toda aquela escuridão parecia proveniente de um eclipse que, de tempos a tempos, com alternância, mostra o poder da sua força e esplendor, deixando os menos entendidos em causas naturais estupefactos e assustados.

 

— Querida, querida, onde estás tu? — chamava em voz alta.

 

Procurou no interior da caverna, nas traseiras, nas imediações e nada de encontrar a sua amada. O suor caía em bica pela cara e pelos seus poucos cabelos, começava a sentir arrepios de tanta aflição. Tentava manter a calma, mas sabia bem que a sua amada não sairia dali sozinha, até porque ela foi alertada por ele sobre os riscos que corria em andar desarmada por aquele   lugar,   onde   não   estivesse   protegida   por   alguém   corajoso   e conhecedor dos eminentes perigos.

 

«Tenho de manter a calma! Nada de mal aconteceu! O mundo, o mundo não pode ser assim tão mau com nós os dois! Não pode, claro que não pode! »!

 

Estas palavras, apesar do desespero, foram ditas em tom baixo. De homem feliz e corajoso passou, como acto de feitiçaria, a homem medroso e desamparado   pela   sorte.   Calcorreou   todos   os   lugares   possíveis   e imaginários por onde a sua querida pudesse ter ido. Não registou nem a hora, nem o dia, nem o sítio certo. Disse, mais tarde, que talvez a cerca de trezentos metros da caverna, num carreiro de passagem humana, a sua amada jazesse, imóvel, de bruços. Agarrou-se a ela, voltou-a para cima e fez-lhe respiração boca a boca.

 

— Fala, fala! Fala, fala! Responde, responde! Não estás a cumprir a promessa que me fizeste, de nunca me abandonares! Porque me fazes isto! Porquê? Porquê? Diz-me!

 

Abraçava-se ao corpo da mulher, pegava na cabeça dela e abanava-a, julgava que com isto ela lhe respondia, tudo fazia para conseguir alguma resposta, mas nada!

 

Correu à caverna para pegar água, e enquanto corria disparava tiros julgando   que   desta   maneira   afugentava   a   maldita   morte   que   sentia avizinhar-se dele. A pior das vizinhas, a pior das companhias, que agora levava aquela que melhor companhia lhe oferecia.

«Água, água, corre, corre.» Falava assim de si para consigo.

 

«Vai conseguir reanimar! Tem de ser! Era o que faltava! »

 

De regresso ao sitio onde jazia sua amada, pum; pum; disparava tiros sem cessar.

 

Estava completamente descontrolado. Colocou-se de joelhos e apoiou a cabeça nas suas coxas. Tentou dar-lhe água, com as mãos tentou abrir-lhe

a boca, mas já nada podia fazer, era tarde de mais… Aquela pele clara, de senhora que na vida profissional permanece muito do seu tempo debaixo de telhas, tinha ficado roxa. As causas da morte eram desconhecidas. Não havia gente por ali, pelo menos assim se julgava. Os relâmpagos, seguidos pelos estrondos,   pareciam   que   estavam ao lado daquele   homem em sofrimento. Dois milénios foram riscados dos calendários, viam-se três cruzes. Ao meio estava aquele que muitos acreditam ser o salvador do mundo. Ao lado esquerdo, o mau ladrão, e ao lado direito o bom ladrão.

 

Dizem que Jesus disse ao bom ladrão que naquele mesmo dia os dois estariam juntos no paraíso. Como aquele sofrido homem, agora imóvel, estático, destruído pela má sorte de perder a mulher que tanto amava, e com lágrimas ininterruptas a correr pelo rosto, gostaria de ouvir da boca da esposa, que ficariam juntos para sempre. Seu rosto transformou-se numa alta montanha da Etiópia que, em dois sítios distintos, dá nascente ao belo Nilo, de um lado o Nilo Azul, e do outro o Nilo Branco, e que num lugar escolhido pela natureza cedem passagem ao que é considerado mais comprido rio do mundo.

 

Aquelas duas lágrimas que escorrem pelo rosto dão lugar a uma só causa, a causa da morte que tanto pranto, tanta dor, tanto isolamento, por vezes tanta desolação e tanto sofrimento provoca naqueles que perdem alguém a quem um dia prenderam o seu coração. Permanecia ao lado daquela mulher que há bem pouco tempo deixara a sua companhia, gostaria que tudo não passasse de um pesadelo, como muitos que já tivera ao dormir. Que importa agora que Jesus fosse complacente com aquele ladrão e com eles não. Esse sentimento nada ajudava a trazer de volta a exuberância de um ser vivo que goza da vida e que dava felicidade a quem a fazia feliz. Ao lado da esposa sem vida, pacientemente esperou uma, duas, três, quatro não sabe ao certo quantas horas. Sempre na esperança, talvez julgando que a sua esposa, quem sabe cansada, resolvesse abandonar o lado físico do ser humano e vaguear pelas matas, pelos rios, ou quem sabe, fosse ver como lá longe, na pequena cidade, estavam os seus filhos. Não, nada de novo acontecia, e foi então que ao fim de muito tempo pegou no cadáver da amada e aos ombros a levou para perto da caverna. Improvisou um esquife e acendeu umas velas, no mesmo local onde horas antes se tinham amado intensamente. A noite foi passada deitado, sem dormir, ao lado da esposa. Uma noite longa na contagem dos minutos, parecendo-lhe, no entanto, pouco todo o tempo que passou a velar o corpo da esposa, tempo veloz e esquivo como água a escorrer na palma da mão. Amanheceu o dia à medida que o sol ia ganhando força e aquecendo aquele triste amanhecer. Teve de espetar quatro paus, pôr uns panos e alguns ramos para arranjar sombras.   Deste   modo,   sabia   que   estava   a   adiar   a   mais   que   certa decomposição. Na sua mente, mais um dia que passou rapidamente. A noite, já a segunda vivida por ele naquele triste pesar, foi passada mais uma vez imóvel, sem dormir e sem nada comer. No seu imaginário estava a imitar, ao mais ínfimo pormenor, os actos da pessoa amada. Ao meio dessa noite, a segunda daquela dolorosa despedida teve, esforçadamente, de acender uma fogueira para afugentar alguns animais que instintivamente perseguiam o cheiro de animal putrificado. Dando assim seguimento ao bom funcionamento do ecossistema, que a um qualquer ser vivo que o deixe de ser, só permite que se perpetue a memória, alguma obra que com o corpo de alguns seres vivos é construída. Ou alguma obra que alguém constrói ou, com a sua contribuição, ajuda a construir.

 

Ao terceiro dia, mais uma vez à semelhança do início da cristandade, depois   das   suas   forças   se   terem   evaporado,   depois   de   quase   ter desfalecido, com uma grande faca cortou um coco. Bebeu um pouco da sua água em pequenos tragos, comeu umas frutas que há três dias tinham sido frescas, e tomou a mais sensata decisão. A decisão de se desfazer daquele cadáver que pertencera à mulher que mais amou, mas que finalmente havia dado conta que não mais lhe pertencia. Quando arduamente alargou a caverna utilizou uma pá, essa mesma que já assistiu ao maior dos contrastes, a alegria que ele sentia quando trabalhara no intuito de alargar a caverna, e a tristeza de com ela fundar a sepultura da própria esposa. Não o fez muito longe da caverna. Sem querer remexer no passado, não divulgou a ninguém o sítio exacto. Ao lado direito da caverna, a cerca de meia dúzia de metros, escavou a pior das sepulturas, aquela que iria conter os restos mortais da queridíssima esposa. Não lhe deu muita profundidade, pois até na própria sepultura não queria que ela ficasse

muito longe dele. Quando sentiu que já havia escavado o suficiente, foi finalmente buscar o corpo da mulher que jazia no esquife improvisado. Ao aproximar-se matou com um tiro de pistola um abutre que, feliz da vida, saltitava em direcção ao cadáver, julgando que teria refeição para ele e para a sua prole naquele dia.

 

Falou em voz baixa, à esposa.

— Desculpa querida, por eu ter usado esta arma perigosa aqui bem perto de ti. Sei que interrompi o teu descanso, mas este malvado bicho queria fazer-te mal! Mas eu não deixo, sabes? Eu estou aqui para te proteger e deste modo não deixar estes maus te fazerem mal! Tu confias em mim,

pois confias? Ora que dúvida a minha, claro que confias! Nem podia ser doutra maneira, sempre confiaste e vamos continuar a confiar um no outro!

 

Só   então   pegou   no   improvisado   esquife,   constituído   por   dois   paus compridos e um lençol preso em ambos os paus, assemelhando-se aquela simples construção mais a uma maca hospitalar do que a um verdadeiro esquife. De frente para o cadáver da esposa, arrastou-a até à sepultura, tirou os paus e embrulhou-a no lençol. Quando estava prestes a acabar de a embrulhar, lembrou-se que deveria fazer algo para que os dois, que tinham sido unidos pelo santo sacramento do matrimónio, ficassem, a partir daquele momento, também ligados para todo o sempre. Com uma pequena faca, fez um golpe na palma da sua mão esquerda. Todo o sangue que provinha daquele golpe caiu no rosto da sua senhora. Quis, deste modo, que para além do amor e das memórias, permanecesse alguma coisa do seu próprio corpo para sempre junto ao que restava do lado físico do seu grande amor. Na vida, este bom neto, de avós que já não tem, bom sobrinho,   bom   marido,   bom   pai,   bom   irmão,   bom   amigo,   bom ambientalista   e   muitas   outras   qualidades   que   agora   não   interessa referenciar para os não maçar. Este bom homem teve muitos amores, amou os pais que já haviam passado a estafeta da vida a outros. Amou os clientes e os fornecedores. Amou os amigos, amou as mulheres que conheceu até ao dia que conheceu aquela que viria a ser a sua mulher. A partir   daquele   momento,   o   seu   amor   pelo   sexo   oposto   passou   à singularidade de quem na vida sente um grande amor e que faz com que esse grande amor seja único e direccionado para uma só pessoa. Amou os filhos, com verdadeiro amor paterno. Devagar, com todo o cuidado, depositou o corpo no fundo da escavação. Ergueu-se, e no cimo da sepultura permaneceu estático, durante muito tempo. Quando pegou na pá para tapar a cova, lembrou-se que a sua esposa merecia um funeral digno de uma pessoa católica como sempre fora. Foi ao interior da caverna, pegou uma malga de água e procurou um ramo de oliveira. Quando o conseguiu encontrar, correu apressadamente para a sepultura. Com a mão esquerda pegou na malga, meteu o ramo no bolso e olhou para o céu, proferindo a seguinte oração:

 

— Oh meu Deus, vós que com um dedo dais alegrias e com os restantes dais tristezas,   aliviai a minha dor!   Que   os meus filhos,   ao saberem que perderam a mãe, sintam alívio nas suas dores! Com a mão direita fez a cruz, continuando: — Abençoai esta água em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!

 

Tirou o ramo do bolso, introduziu-o na malga e espargiu o corpo daquela que recebeu sepultura ao terceiro dia, mas que não ressuscitaria. Só depois de cumpridos os rituais religiosos é   que começou a cobrir a sepultura. Quando esta já estava rasa, pegou nos dois paus com que fizera o esquife. Deitou o mais direito ao centro. O segundo, cortou-o em duas partes iguais e colocou-os em cruz. De pé, certificou-se de que lado soprava o vento, ao sentir que a brisa soprava do sul, voltou-se nesse sentido e bradou aos céus, com voz trémula mas forte:

 

-Um dia também eu quero ter o meu descanso eterno aqui neste lugar…

 

                     Finalmente encontrou o Lipe

As inúmeras voltas que com reincidência a canoa teimava em dar deixaram o Solitário num estado de inconsciência quase irrecuperável. Deitado na canoa, lembrou-se de alguns dos mais queridos familiares. Quando a lembrança dos seus progenitores se esvaneceu, ocorreu-lhe de imediato a imagem de uma jovem e linda mulher acompanhada por um belo menino.

A par com os seus pais, foram as pessoas que mais amou. Perdeu-as num brutal   acidente   de   viação.   Sendo   ele   um   homem   resignado,   este acontecimento fora, para si, incompreendido e inaceitável. A sua mente perturbada levava-o a ter visões. Via um jardim grande e bonito, contendo todo o tipo de plantas, desde o pequeno e recém-nascido feto à gigantesca sequóia, a maior árvore existente no mundo, e flores de todas as cores e variedades,   que   lançavam   uma fragrância agradável e   tranquilizante. Enfim, um jardim do Éden, onde não residia a Eva e o Adão, nem a tentadora serpente, que com a mais pura astúcia incentivava à prática do mal.   Neste   paradisíaco   jardim   residiam   também   anjos,   pequenos   e grandes, que trajavam da mesma maneira. Formavam uma grande roda em torno de um pequeno lago. O mais pequeno deveria rondar os dez anos e corria à volta do lago com um lenço numa das suas mãos pequeninas e suaves. Deixou cair o lenço aos pés da mulher mais bela que naquela imensa roda angelical estava. Era de altura acima da média, seus cabelos lisos, de um preto muito carregado e compridos. Estava com eles soltos, seus olhos castanhos e com um olhar afectuoso que fazia antever que em vida teria sido uma rica mãe e boa esposa. Esta correu e num instante apanhou o pequeno anjo. Os dois olharam para a entrada daquele lugar e viram ao longe, algures no meio de um enorme rio, uma canoa e, dentro dela,   um   homem   que   permanecia   imóvel.   No   mesmo   instante,   foi reconhecido por ambos. E como eles o amavam…

 

A vozinha terna e doce daquele menino de cabelos pelos ombros, olhos resplandecentes que davam sinal de estar muito contente por rever seu pai, instalou-se na canoa tendo adoptado aquela embarcação como seu transporte. Carinhosamente, sussurrou baixinho ao ouvido de seu pai, aquele comandante que há já muito tempo perdera o controlo da canoa:

 

— Como é, papá? O que é que se passa consigo? Está deitado neste barco, porquê? Assim não vai a lugar nenhum! Está com sono? Deve estar, senão, não estava aí deitado! Levante-se, vá lá, siga! Lave essa carinha e siga viagem! Vá, então? Eu não sabia que você era assim tão preguiçoso! Preguiçoso, o meu pai é um grande preguiçoso! Sabe, papá? Num dos lados deste barco tem uma corda, levante-se e puxe essa corda, vai ver que vai ficar contente quando vir o que está preso a ela!

 

O Solitário, como quem acaba de acordar de uma noite bem dormida, esfregou os olhos, espreguiçou-se e apoiando-se nas bordas, subitamente tocou com a mão esquerda na corda. A seguir, com ambas as mãos, puxou-a e reparou que emergia do fundo das águas do Carinhanha uma preciosa arma. Era de todas a mais útil arma que qualquer guerreiro na sua situação desejaria ter em mãos. O velhinho e rudimentar remo. Agarrou-o com toda a garra e tentou controlar a canoa. Milagrosamente, os círculos incontáveis que involuntariamente dera apagaram-se.

 

Remando com toda a força, apesar de fraco, consequência do tempo perdido e de toda aquela inquietação, afastava-se por fim daquele lugar.

 

Ciente de que necessitaria urgentemente de alimentos para restabelecer as suas forças, e também de tratar os ferimentos, remava na expectativa de encontrar uma clareira, para assim poder tranquilamente aportar. Algum tempo depois, não muito longe, avistou o lugar ideal para o fazer. Era um pequeno porto, que dava acesso a um lugar exíguo, por onde só se passaria em fila indiana. Numa árvore de grande porte existia uma corda, talvez ali colocada por algum índio ou algum habitante das redondezas, à qual prendera o barco. Não poderia ter tomado a decisão de procurar alimentos e curar-se em melhor momento e local. Bem perto da margem, ainda teria dado poucos passos, ouviu barulhos que surgiam do interior de um emaranhado de arbustos, dos quais saiu um índio de arco e flecha em mãos,   pronto   a   disparar   uma   seta   venenosa,   caso   aquele   forasteiro oferecesse algum grau de perigosidade. Não, claro que não, tratava-se de um pacífico homem que única e simplesmente desejava restabelecer as forças. Dialogaram com bastante dificuldade, pois o índio falava um dialecto próprio, uma mistura de português e linguagem indígena. O índio, que bem sabia olhar nos olhos dos forasteiros e descobrir de imediato se vinham por bem, ou com más intenções, ao reparar que aquele homem estava exausto, faminto, abatido e com vários ferimentos, fê-lo apoiar-se no seu ombro e procurou um lugar mais confortável para que pudesse descansar. Caminharam assim abraçados durante uns longos minutos, um curto percurso para alguém em estado normal, mas que para ele se tornou distante e doloroso devido aos seus ferimentos.

 

Presa entre duas árvores encontrava-se uma rede onde o ferido Solitário se sentou. O índio fez-lhe sinal para aguardar e afastou-se. Pouco tempo se passou até o índio regressar, acompanhado por outro índio, aparentemente bastante mais novo. Mais tarde ficou a saber que aquele jovem era o filho mais velho do seu índio protector. O mais jovem trazia um naco de carne de veado, assada no espeto, juntamente com outras iguarias. O índio pai tinha entre mãos um coco que cortou com uma faca e deu-o a beber ao ferido. Os índios, por natureza, andam sempre munidos com facas, lança setas e outras pequenas armas rudimentares. Enquanto que o nosso ferido se   deliciava   com   aquele   manjar   dos   deuses,   preparado   para   lhe restabelecer as forças e o ânimo, o mais velho e experiente, conhecedor dos iminentes perigos que a mata oferece, com a sua abundância de animais e plantas, embrenhou-se no seu interior regressando meia hora depois. Trazia presa ao ombro uma saca feita com pele de animais que tinha um volume bem notável. Pousou o saco em cima da rede abrindo-o de imediato. Uma, duas, três, quatro, cinco qualidades de frutas tropicais.

A sacola continha também raízes e cascas de árvores. Descascou as frutas com uma agilidade inigualável, cortou-as em cubos e de seguida ralou-as obtendo   uma   massa   que   lhe   deu   a   comer   dizendo-lhe   que   assim recuperava todas as forças. Amassou outras frutas, utilizando o mesmo método, e também algumas raízes de plantas e fez uma mistura medicinal. Com a faca limpou os ferimentos das pernas, e naqueles mais pequenos provocados pelas piranhas, colocou o tal remédio. No ferimento mais profundo,   consequência   da   queda   da   canoa,   depois   de   o   limpar minuciosamente, colocou a mesma massa medicinal e com a casca de uma árvore fez uma espécie de ligadura que fixou, atando um pano para não se desprender.

 

Nas suas memórias o Solitário escreveu, mais tarde e para recordar, (porque recordar é viver). Muitas vezes pegava no caderno onde escrevera as memórias e lia-as. Fazia-o e de cada vez ficava a compreender melhor como tudo se passara, as dificuldades, os perigos, as amizades que travou, enfim, sentia a necessidade de o fazer e quando o fazia, arrepiava-se e tremia…

 

“Lembro-me das dores intensas que senti, quando o bondoso índio me colocou aquele emplastro. Remédio santificado, poucos dias depois estava novo em folha, completamente restabelecido.”

 

Foi difícil explicar aos dois amigos ágeis e prestáveis que eu procurava desesperadamente o meu menino de quem há já três dias não havia notícias. Prontificaram-se de imediato a procurar o Lipe. (Infelizmente, pessoas com estas qualidades de têmpera assim bondosa, em querer ajudar o próximo, penso serem cada vez menos). Grande parte das nossas conversações aconteciam em linguagem gestual. Deram-me sinal para esperar breves momentos. Correram rapidamente em direcção às palhotas, ou tendas, ou cavernas da tribo local que não cheguei a visitar, pois tinha urgência em seguir à procura. Regressaram munidos de mais armamento. E, já bem perto das margens do rio, puseram a descoberto duas canoas escondidas nos arbustos. Ainda sentia algumas dores, suportáveis, mas um pouco incómodas, que me dificultavam os movimentos. Contudo, continuei à procura com esperança de o encontrar. Sim, não devemos sofrer por antecipação, mas em casos extremos como este, de não haver notícias de um   garoto   indefeso,   inexperiente   que   desesperado   procura   a   sua amiguinha que sofrera um atentado, e também o estado emocional deste pequeno apaixonado, ainda que seja uma amizade transformada em amor, faz com que tema seriamente que ele ande a vaguear no nada à procura de coisa nenhuma, temo que o pior possa ter acontecido. Tenho que controlar o ímpeto das minhas emoções e ter sempre pensamento positivo, que esse sim é tranquilizante e não provoca desgaste físico.

 

Nas águas do Carinhanha já não me sentia sozinho, tinha a fiel companhia dos dois índios que elevavam ao máximo o gráfico da solidariedade. Três canoas a par, contendo o mesmo número de homens, empenhados em obter resultados positivos na procura de um garoto, vasculhávamos ao ínfimo pormenor as águas, os ramos das árvores, todos os possíveis e imaginários lugares onde a canoa pudesse ter ficado retida. A ansiedade começava a invadir-me. No interior das águas, mas em maior número nas margens, viam-se troncos de árvores, assim nos enganava a ilusão óptica, pois, quando nos aproximávamos, constatávamos que eram jacarés. Existia a esperança de que não fossemos por eles atacados, cientes que teríamos cuidados a tomar, remámos o mais distante possível dos animais para não sofrermos alguma surpresa desagradável, conhecendo a ferocidade deles.

O rio ziguezagueava por entre uma mata imensa e densa. Durante uma grande distância aquele belo rio tinha-se tornado num lugar inóspito e sombrio. Necessitámos de uns minutos longos, até passarmos aquele lugar arrepiante. Enquanto isso, o índio jovem, de vez em quando, para se descontrair, disparava uma flecha, e de todas as vezes que o fazia, havia um pássaro que se despedia do coração, mandando-o para o desemprego, pois possuía uma pontaria que certamente causaria inveja ao campeão olímpico da modalidade. Seu pai, que só matava caça para subsistência, ordenou que parasse com aquelas habilidades, tendo ele imediatamente acatado as suas ordens. Esse homem ostentava um instinto natural de animal   predador,   que   faz   com   que   mate   unicamente   para   comer   e alimentar a prole.

 

A   claridade   estava   a   voltar,   uma   clareira   começava   a   avistar-se   no horizonte. Continuámos a remar, sempre com rapidez, ansiosos por sair daquele lugar assustador. Quando a nossa visão começava a decifrar tudo o que se via ao longe, reparámos que estávamos prestes a alcançar uma praia fluvial. O índio filho, dos três, aquele que usufruía de uma visão mais apurada talvez por conservar grande da sua jovialidade, ficou inquieto na canoa, de tal modo que por momentos temi que esta se iria voltar, começou a dizer continuamente:

 

— Canoa, canoa! Canoa, canoa! — apontava para a praia fluvial e dizia com voz aflitiva:

 

— Virada, estar virada!

 

Eu, que sempre tive uma visão bastante apurada, depois do índio pequeno nos alertar sobre a canoa, decifrei que sim, que se tratava de uma canoa voltada sem ninguém dentro. A temperatura estava um pouco gelada, os meus pés começavam a ficar gelados, aliás acho até que não foram somente os meus pés, também todos os meus ossos gelaram. A sensação que   tive   era   que   vagueava   perdido   no   deserto   do   Sahara   onde   as temperaturas diurnas atingem quarenta graus centígrados, e como que um telefonema que é instantâneo, o dia passou rapidamente a ser noite, e a temperatura   passou   drasticamente   dos   quarenta   graus   para   uma temperatura negativa. Todo o meu corpo gelou, perdi assim todo o meu controlo emocional, a minha canoa começava a atrasar-se, os dois vieram auxiliar-me, fazendo gestos para que eu de alguma forma me acalmasse, mas meus pensamentos deram vida à sonoridade:

 

— Não! Não, o Lipe não pode ressuscitar a dor de perder alguém a quem muito ama!

 

Há vários anos perdi, da forma mais trágica, duas pessoas a quem dei todo o meu amor. Uma não tinha qualquer ligação sanguínea comigo, mas eu ainda a amo desmedidamente. A outra sim, era sangue do meu sangue, carne da minha carne. O Lipe, no que a ligações sanguíneas diz respeito, não   estava   ligado   a   mim,   mas   em   termos   afectivos   sentia   por   ele verdadeiro amor de pai, conquistou o meu amor com aquele olhar doce e terno, aquele olhar inocente, carinhoso que sem maldade olhava para tudo que o rodeava. Cativou-me ao falar da sua tia ceguinha. E como os seus olhos brilhavam quando falava dos pais e da sua amiguinha Clara. A forma com que ele demonstrava o seu amor por alguém era tão penetrante que eu não podia de forma alguma, ter ficado indiferente. Sempre que tinha disponibilidade visitava-me e dizia que não gostava quando eu ficava sozinho, eu explicava-lhe que vivia sozinho por pura opção, contudo, a sua mente não era capaz de compreender tal atitude de minha parte. Era um garoto   livre   como   um   passarinho,   puramente   ingénuo,   doce   e inconsequente. A sua inconsequência levou-o a procurar a sua amiga Clara que sofrera um atentado que certamente mexeu com o seu coração e que ele ainda não conseguira digerir. O encontro com o malvado sargento, que até então eu não conhecia, deve ter deixado a sua mente perturbada. Seu pai foi acusado por aquela quadrilha de cães peçonhentos; a forma rude e arrogante do sargento deixou-o certamente a sentir-se como o mais desprezível lixo, e, talvez, por essas e por outras, deu vida ao acto impensado de procurar Clara sem avisar os seus familiares, deixando-os em estado de aflição.

 

Chegamos bem perto da canoa, e reconheci que se tratava da minha canoa que há dias tinha escondida na folhagem. Meu coração nesse instante ficou negro, o suor corria em bica por todos os meus poros. Eu, que sofri a perda de quem mais amava, eu, que abdiquei de ter outros amores para não sentir a dor de os perder novamente, tinha-me prendido àquele garoto, e mais uma vez estava a passar por outro momento doloroso na minha vida. Os prazeres que um amor intenso nos causam são enormes, e muito mais quando   somos   brindados   com   um   rebento   que   aumenta   em   termos percentuais a felicidade à escala máxima, esses mesmos prazeres são imensos (não há dinheiro que os pague), como diz o dito popular, no entanto, o desprazer da perda desses seres responsáveis por todos esses sentimentos é muito mais forte e por vezes tem a capacidade de nos arrebatar a vontade de novas vivências.

 

Numa linguagem verbal e intercalada por gestos, o índio pai tentou explicar-me que a canoa poderia perfeitamente ter-se desprendido do local onde eu a deixara.

 

— Não! — contestei eu, para de seguida reflectir melhor: —Sim, pode ser que você tenha razão! Tenho de me manter confiante, pode bem ser que o Lipe nunca se tenha sentado nesta canoa!

 

Fizemos uma busca minuciosa a todo aquele lugar, sempre de armas em punho, a postos para alguma má eventualidade. A praia não era muito extensa, a vegetação era rasteira nas imediações. Sentíamos, pelo chilrear e pelos rosnidos, que a vida animal era bem notável, debrucei-me na canoa para tentar sentir o cheiro do Lipe, todavia nada consegui sentir. Decidimos que era hora de nos aventurarmos no interior daquela mata, no intuito de descobrirmos algo que se relacionasse com o Lipe. Sempre juntinhos, afastamo-nos das margens do rio. Cada metro quadrado daquela rasteira e densa mata era por nós vasculhado sem que nada ficasse por mexer. Já se tinham passado alguns minutos, quando reparámos que na mata havia rastos, deixados por algum animal ou algum ser humano, e seguimos naturalmente aquele rasto. Várias dezenas de metros à frente a vegetação foi-se extinguindo, dando a sensação que estávamos no local de pastagens de búfalos, ou de outro qualquer herbívoro. Quando alcançámos aquele lugar parámos para observar. Eu, de forma natural, lentamente, dei uma volta, rodando os pés da esquerda para a direita. Tinha dado uma volta de noventa graus completa quando, repentinamente, vi a meia dúzia de metros uma sucuri enorme que talvez rondasse os oito metros. Reparei que esta anaconda estava imóvel, mas tinha a barriga muito dilatada. Desta vez o inconsequente fui eu, peguei na minha pequena pistola 6.65 e disparei tiros sem conta. O animal, que sossegadamente ali se encontrava a descansar   depois   da   refeição,   começou   a   rosnar,   aquele   animal sossegado com o efeito dos tiros tornou-se agressivo, dava voltas e mais voltas derrubando a vegetação. A inquietação na grande cobra e em nós tornou-se para lá de significativa. Os dois índios puseram à prova toda a arte de bons lançadores de setas, uma, mais outra, e mais outra, mais duas, e mais duas, lançavam os dois em simultâneo as setas com intenções de imobilizar o agitado animal. Esgotaram todas as suas munições, embora mais tarde grande parte delas fosse recuperada, lançando toda aquela quantidade de setas, mas a uma distância que nos proporcionava uma segurança que fazia com que não corrêssemos riscos desnecessários que pudessem pôr em causa as nossas vidas. Eu, que felizmente tinha uma caixa de balas no bolso, também não cessei fogo. Não posso precisar mas talvez   meia   hora   depois   do   início   dos   bombardeamentos,   a   cobra começava a dar mostras de esgotamento das suas forças e resistência. Mais uma vez cometi outro acto inconsequente. Corri para junto do gigantesco animal, sacando a grande faca que habitualmente usava e desferi um golpe no ventre do animal, que, apesar de imobilizado, ainda tinha vida. Ao sentir a faca a perfurar o seu corpo, deu um salto para o lado onde me encontrava. Caí subitamente sem me ter dado conta do quanto fora precipitado e fiquei sob aquele pesadíssimo ser, feroz e selvagem. Feliz de mim que tinha comigo dois anjos protectores, incapazes de serem criados por um qualquer Deus ou um qualquer profeta, pelo menos assim com tantas qualidades protectoras. Os dois correram em minha direcção, e num esforço incomensurável retiraram o animal de cima de minha anca. O mais jovem, num ímpeto, pegou na minha faca e começou a desferir golpes sem conta na cobra, e seu pai, vendo a atitude do filho, pressentiu que o melhor a fazer era seguir os actos do seu rebento, e com uma faca mais pequena golpeou do mesmo modo a sucuri, e por fim, o animal, depois de muito se debater para defender a vida que se estava a esvair, morreu heroicamente. A vida que   para ela foi generosa para atingir aquele tamanho, pois teve de viver muitos e bondosos anos. No entanto, o seu fim de vida, esse sim não foi generoso, para que uma incógnita fosse posta a descoberto: a existência ou não de um rapazinho no interior do seu estômago. Seu tamanho era de sete metros e oitenta e cinco centímetros, medido pelo índio jovem mais tarde. Eu pedi aos dois para verificarem o que se encontrava no estômago da comprida cobra, pois não consegui arranjar coragem suficiente para assistir ao esventramento, se eram os restos mortais do Lipe ou se seria o corpo de uma qualquer presa apanhada instintivamente por um predador que segue as leis naturais de todos os animais com esse estatuto. Retirei-me para muito longe e agarrei-me a tudo que me servisse de fé, e como implorava à sorte para que não fosse o meu Lipe que estivesse na barriga daquele horrendo animal. Maldita seja a sua fome, maldito seja o seu instinto de predador, maldita seja a sua boca, maldita seja a sua dimensão, malditas sejam as cobras que devoram seres humanos e este não seria um caso isolado. Permanecia quieto, não muito longe da margem do grande rio, lançando os meus apelos para assegurar a continuidade da minha felicidade. Tudo me assustava, estava com medo da minha própria sombra, o cantar dos pássaros assustava-me, o vento a bater nas árvores assustava-me, os peixes, que felizes da vida saltitavam das águas, assustavam-me. Desejava má sorte a todos aqueles seres que permaneciam alheios, indiferentes à minha sorte, ao meu sofrimento. Porque é que quando existe alguém que se encontra em estado de euforia, toda a alegria que esse alguém sente não é extensiva a todas as pessoas? Tudo bem, se assim fosse não existiria tristeza no mundo! Viveríamos em sonho eterno, num permanente paraíso, em que o bem levaria a melhor sobre o mal. Mas bolas, será que a malvada tristeza é assim tão indispensável? Temos que aprender a saber viver com as coisas boas e as más! Embora as más nos desgastem, e as boas nos rejuvenesçam! Não consegui contabilizar o tempo, recordo-me que para mim a espera foi muito longa e penosa. Os dois aproximaram-se da água e lançaram coisas para o rio, e quando eu me direccionava para eles, deram-me sinal para permanecer quieto. Perguntei o que era tudo aquilo que ambos lançavam para o interior das águas, explicaram-me que haviam esquartejado a cobra e que iriam lançar todo o seu conteúdo para que os peixes do rio tivessem alimento. Quis saber se era ou não o Lipe que jazia na barriga da cobra. Os dois apoiaram os seus braços nos meus ombros e encaminharam-me para o local onde os três havíamos ditado o fim da existência daquela enorme anaconda, e temi, naquele momento, com mais convicção, que realmente se   tratasse   do   Lipe   no   interior   do   bicho.   Os   meus   passos   não acompanhavam os passos dos dois índios. Eles davam-me palmadas nas costas e com gestos diziam que não se podia reagir daquela maneira. Ao chegarmos à pastagem voltamos à direita, paramos ao pé de uma coisa já meia   digerida,   não   consegui   detectar   o   que   seria   aquilo,   os   dois abraçaram-me com força e o mais novo, de seguida, pegou naquela coisa nojenta e disse que aquilo eram os restos de uma capivara, era aquele animal que provocara o inchaço na barriga da cobra. Meu Deus, como, naquele momento, me senti aliviado! O meu coração, que há bem pouco tempo estava negro, deve ter-se transformado em coração camaleão, penso que naquele mesmo instante voltou à sua cor natural. Sentia-me mais aliviado, mas as minhas incertezas em relação ao Lipe expandiam-se de forma involuntária. O que seria dele, onde estaria? Tentei viver de forma positiva aquele momento em que desfizemos as dúvidas, não era o Lipe que morrera aos dentes da cobra! Saltámos, ainda que de forma contida, porém. Uma batalha estava ganha, havia portanto motivos para festejar, foi então que ajudei os dois benfeitores a lançar os restos daqueles dois animais para as águas. Um era vitima, outro era carrasco que sentenciava para matar a fome, sendo necessário agir assim para não ser esta a sentenciar a sua vida. Na segunda empreitada do transporte dos restos mortais dos bichos, tivemos de os lançar a uma certa distância da água pois o apelo feito pelo sangue da cobra atraíra o interesse das piranhas, estas já eram mais que muitas a comer do repasto. A grande experiência e prudência dos dois fez com que quando lançaram o primeiro pedaço da sucuri às águas o fizessem a uma distância considerável das canoas, deste modo pudemos dar sem demoras seguimento à nossa busca. Eu nunca fui materialista, não dei portanto importância a uma das poucas coisas que naquele momento possuía, a minha canoa que ali estava abandonada. O índio com mais idade — não gosto do termo mais velho — certificando-se   que   a   tal   canoa   permanecia   ainda   em   bom   estado, prendeu-a com uma corda à sua canoa, e em boa hora o fez! Seguimos imediatamente viagem em direcção à foz do rio Carinhanha, pois fora aquela a direcção tomada pelo Lipe. Ao reiniciarmos a procura, fizemo-lo em direcção à outra margem até menos um pouquinho do meio do rio, com um   único   intuito,   passarmos   ao   largo   do   burburinho   causado   pelas piranhas, preferimos que elas comessem tranquilamente. Na parte da tarde daquele dia, as nossas esperanças estavam a esgotar-se, mesmo assim continuámos para dar o benefício da dúvida. Ao longe, uma árvore com a folhagem completamente caída, só composta de galhos secos e um grosso tronco, jazia no meio do leito do rio. Naquela nossa viagem, nada ficava sem ser vasculhado. Seguindo estes princípios com naturalidade fomos até ela para nos certificarmos se algo ali se encontrava. O índio jovem, dos três o mais destemido, adiantou-se e chegou em primeiro lugar, e abeirando-se da árvore exclamou:

 

— Canoa com miúdo! O miúdo estar dentro!

 

Tinha de ser ele, sim, tinha mesmo de ser ele! “Oh céus, que esteja vivo! Mais uma vez te peço Deus, só me lembro de ti nas horas de maior aflição, mas que seja ele e que ainda permaneça vivo! Eu já to havia pedido!”

 

Voltei-me   para   Deus   e   proferi   todos   aqueles   pedidos   enquanto   me aproximava da árvore onde se encontrava retida uma pequena canoa. Sim, era ele! O Lipe encontrava-se deitado inerte naquela canoa. A primeira impressão que tive foi de que ele teria morrido. Mas o índio pai, depois de ter testado a segurança da árvore, subiu para o seu cimo e debruçou-se na canoa do Lipe, e escutando o seu coração, pôs dois dedos na sua boca e exclamou:

 

— Ainda vive!

 

Ao ouvir aquela afirmação, o meu coração bateu de forma mais efusiva. Aproximei-me cuidadosamente da canoa, olhei para o Lipe que estava em estado de hipotermia, desidratado, emanando um cheiro nauseabundo. Levei as minhas mãos em forma de concha à água e dei-lhe um pouco, tinha a esperança que ele me ouviria e falei-lhe baixinho ao ouvido:

 

— Lipe, Lipe, sou eu o teu amigo da caverna, já estás a salvo! Aguenta mais um pouco, vamos levar-te a ver a tua mãe e a Clara. Sim, a Clara já apareceu, está bem em sua casa! Eu e estes nossos amigos vamos tratar de ti, tu és forte, aguenta!

 

Ainda em cima da árvore, o índio pai pegou na sacola e tirou duas frutas que lhe restavam. Depois de as descascar, cortou-as em pedacinhos e entre suas mãos ralou-as, adicionando um pouquinho de água, e obtendo uma papa meia líquida que, cuidadosamente, metia na boca do quase desfalecido garoto. Enquanto isso, o índio jovem prendeu uma corda que ligava a sua canoa à canoa do Lipe, e de seguida iniciámos a subida do Carinhanha, bem mais desgastante do que no sentido inverso. Aportámos na pequena praia onde pouco tempo antes encontráramos a cobra. Já em plena praia, sem corrermos qualquer tipo de risco, retirámos o Lipe com a máxima atenção da sua canoa nauseabunda, despimo-lo das suas roupas para lá de fétidas, e demos-lhe um banho. Felizmente estávamos no verão e a temperatura da água era morna. Na sacola do índio sénior existia um pano com o qual embrulhava as setas, com ele fez uma tanga, como as usadas pelos membros masculinos da tribo. Até hoje não entendi como ele obteve aquela tanga, artes de índios. Gentilmente, o índio júnior despiu a sua camiseta azul muito desgastada pelo uso e vestiu o miúdo. Como eu gostaria de ter feito isso pelo Lipe, não pude pois havia rasgado minhas roupas quando voltei minha canoa, com as roupas que possuía sentia-me um   maltrapilho.   Colocámos   o   miúdo   na   minha   antiga   canoa,   apoiei fixamente o meu pé esquerdo no chão e com o direito empurrei a fétida canoa na qual o Lipe permanecera perdido, contendo as roupas sujas. Quisemos assim dar fim a uma fraca recordação e pusemos os nossos remos em água reiniciando o trajecto de volta. Estávamos novamente no inóspito canal fluvial. Sabíamos que iria ser difícil a passagem, e na verdade   foi! Uma experiência assombrosa e quando atingimos o seu final, percebi que eles, os dois índios, sentiam, como eu, um grande alívio. Sabíamos com toda a certeza que não faltava muito tempo para chegarmos ao pequeno portinho que dava acesso para a tribo, e foi um esforço enorme o que fizemos para arrastar a canoa do Lipe. Alternávamos continuamente, um de nós seguia a par com a canoa ambulância e os outros dois puxavam em fila indiana esta mesma canoa ambulância na qual seguia um paciente especial, mais para mim do que para eles. Acho até que não me sinto muito convicto a dizer isto, ninguém passa tanto sacrifício para salvar alguém, sem sentir por ele um grande grau de afectividade. Não, é impossível de todo, os índios sentirem o mesmo que eu sentia por este menino!   Foi   a   forma   desesperada   com   que   falei   do   Lipe   que   os sensibilizou, mas posso-lhes assegurar que as fábricas que produzem almas assim bondosas estão a falir umas atrás das outras…lamentavelmente, pois como dizia um profeta cujo nome era Jesus Cristo: “Nem só de pão vive o homem!”

 

Eu que não sou profeta nem para tal proeza tenho aspirações digo: nem só para o progresso, para o materialismo, para o mergulho no individualismo deveria viver o homem!

 

Que   bom   que   seria   que   todas   as   pessoas   existentes   no   mundo   se transformassem na sombra da bondade, da solidariedade, da preocupação

e lembrança de todos aqueles que humana e emocionalmente se sentem mais desamparados… quantos dos nossos vizinhos gostariam e necessitam, não que se perca uns minutos com eles mas sim, que lhes seja dado um sorriso, um acenar com a mão, um olá, melhor seria que algo mais fosse feito. No entanto, estes pequenos gestos já seriam suficientes para alegrar os corações de muitos que se sentem na mais profunda solidão. Solidão que poderia perfeitamente ser minimizada por todos nós, bastava que olhássemos menos para a nossa própria sombra e olhássemos mais para a luz que é inalada por todos aqueles que no dia-a-dia cruzam os nossos caminhos, os nossos empregos, as nossas camas de hospital, os nossos lares, os nossos passeios etc. Em suma, por todos os lugares frequentados por todos nós, seres pensantes e errantes.

 

A viagem estava a correr tranquila, poucas dezenas de metros à frente surgia uma curva à direita. Ultrapassámos a curva, deparámo-nos com um aglomerado de jacarés. Sabíamos de antemão que não havia riscos a correr. Abrandámos a marcha, olhámos uns para os outros. Os jacarés permaneciam por todo o lado, não tínhamos solução para aquela situação. De repente, bem à nossa frente, uma capivara, que não possuía o senso da precaução, entrou nas águas, talvez no intuito de passar para a outra margem.   Repentinamente,   surgiu-me   uma   ideia   meia   impensada   e provavelmente inconsequente. De arma em punho dei dois tiros certeiros na coitada da capivara, talvez o devesse ter feito a um dos inúmeros jacarés… quem sabe os restantes fossem ao seu funeral e o caminho ficasse livre para a nossa passagem! O sangue desta jorrou para longe, poucos   instantes   depois   formou-se   o   nosso   familiar   burburinho   das piranhas. Os jacarés assistiram a todo aquele espectáculo, mas tal como nós não quiseram fazer parte desse mesmo espectáculo. Debandaram em massa uns atrás dos outros, deixando assim o caminho livre para a nossa passagem. Quando disparei os tiros estava crente que algo se passaria, não esperava era que a eficácia fosse completa. Sem demoras, contornámos o local de repasto das ferozes piranhas e chegámos, pouco tempo depois, ao portinho. Depois de prendermos as nossas três canoas, pegámos a peso na canoa ambulância e transformámo-la desta feita em canoa maca. Pelo estreito caminho, andámos até alcançarmos a clareira. Cuidadosamente, pousámos a maca no chão. Os índios ordenaram-me que permanecesse com o Lipe e o índio pai embrenhou-se na mata. O filho seguiu rapidamente pelo carreiro que certamente o levaria ao local da tribo. Alguns breves minutos, embora eu transformasse aqueles breves minutos em eternidade, pois o estado do Lipe inspirava grandes preocupações. Juntamente com o índio júnior chegaram duas mulheres, uma jovem rapariga e uma menina e um menino, mostrando sinais de se encontrarem na fase de transição da meninice para a adolescência. Tive a impressão que na tribo essa transição ocorre de uma forma mais precoce. As mulheres, incluindo as jovens, usavam os cabelos presos em tocos, e as roupas muito gastas, roupas certamente trocadas por caça ou artesanato feito pela tribo, na chalana. O rapaz vestia-se do mesmo modo que os meus companheiros, calções e camisas e havaianas, com uma diferença, o jovem tinha o cabelo comprido pelos ombros, ao passo que os meus amigos o tinham curto. Aqueles membros da tribo vinham munidos de bons e saborosos alimentos, eu estava para lá de faminto. Traziam roupas, alguns utensílios hospitalares, ou seja tribais, que eles usavam e com eles obtinham bons resultados. A matriarca embrulhou o Lipe que tremia continuamente. Fiquei muito comovido ao constatar a forma maternal com que aquela mulher índia cuidava do miúdo adoentado. Não muito mais tarde, chegou o índio sénior e trazia a sua fiel sacola cheia. Revivi tudo de novo, recordei a minha primeira passagem por aquele lugar restabelecedor.

 

Entretanto, uma das jovens índias tirou do interior de uma sacola um frasco contendo leite de cabra. De seguida, pegou num biberão e encheu-o com o precioso alimento, introduzindo o bico do biberão na boca do Lipe. Como difícil foi fazer com que o Lipe tomasse o leite. Este parecia querer tomar o caminho inverso ao do seu estômago. Escorria pelos finos lábios do miúdo. Ao reparar   no jeito da jovem índia, a calma, a insistência em tentar que ele ingerisse o leite, por um instante quase que lhe perguntei se   ela   havia   frequentado   o   curso   de   enfermagem   numa   qualquer universidade. Felizmente que digo quase sempre o que penso, mas com prudência quase penso sempre naquilo que digo. Não o fiz, sabia bem que nas tribos essas coisas não se usam. Eles vivem freneticamente os usos, costumes   e   tradições   milenares,   em   que   aprendizagens literárias   e formações superiores não são usuais. Aos poucos o leite ia baixando no biberão, o Lipe com muita relutância ingeriu algum do líquido nutritivo. Eu comecei naquele mesmo instante a aquietar o meu coração. O Lipe já se estava a alimentar e isso era um óptimo presságio.

 

Com   muitas   incertezas,   tínhamos   todos   muita   esperança   que   ele   se restabelecesse.

 

Não posso precisar, talvez meia hora depois do garoto ingerir o leite, o índio pai fez o Lipe engolir um chá.

 

Este continha capacidades medicinais, era constituído por folhas de limão e raízes de capim. Disse a matriarca, num português fluente, que aquele remédio era muito bom para baixar a febre. A índia matriarca provinha de uma tribo onde grande parte dos elementos se comunicava em português, e a partir da sua chegada a minha comunicação foi muito mais facilitada. Como o Lipe estava a dar sinais de alguma recuperação, resolvemos levá-lo para o acampamento. Foi a melhor atitude tomada, lá, naturalmente que as condições para o miúdo se curar da sua enfermidade eram superiores. As condições para o levarmos para sua casa não estavam de todo reunidas. Bem ao centro do acampamento onde os índios residiam fomos instalados numa palhota exígua. Continha um colchão a ar onde depositámos o Lipe. Uma rede presa nas extremidades da palhota, essa era-me destinada. Com bastante frequência os índios faziam o Lipe ingerir papa constituída de frutas raladas e carne desfiada. Em simultâneo eram-lhe dados a tomar vários chás, chá de alface para combater a hipotermia, de hortelã e pimenta para combater a expectoração, as tosses e a asma. Não me ausentei   um   instante   que   fosse   de   perto   do   Lipe,   excepto   quando necessitei de satisfazer o lado fisiológico. Durante a noite fui dialogando com ele, era um diálogo entre dois seres, um falante e o outro mudo. Encontrava-me na mais dolorosa penumbra, ansiava uma luz que me tranquilizasse, que me desse alguma indicação se o Lipe iria melhorar, algum sinal que aquietasse meu coração. Eu tinha esperanças que fosse ouvido, que do outro lado houvesse receptividade, mas sabia que não obteria qualquer tipo de resposta pois o seu estado de saúde encontrava-se muito debilitado. De manhãzinha, ao raiar da aurora, depois de algumas horas dormidas em prestações, queria a todo o custo ouvir a voz do meu Lipe. Tinha-lhe repetido vezes sem conta que a Clara estava de boa saúde. Subitamente, ele sussurrou com voz trémula:

 

— A Clara? O pássaro, onde está o pássaro?

 

Não entendi rigorosamente nada daquele assunto sobre o pássaro. Mas a minha felicidade era estonteante e o bom presságio que se antevia tornou- se efectivo. Pude, a partir daquele instante, aquietar meu coração e tinha naturalmente de rapidamente ir aquietar os corações de todos os seus familiares e amigos. Fui falar com o índio chefe, disse-lhe que a sua família   estava   toda   muito   preocupada   sem   notícias   e   que   devia urgentemente partir para levar as boas novas. Claro que concordou de imediato, dizendo que era o melhor a ser feito. Expliquei-lhe onde residia o Lipe, no intuito dele me   indicar   o caminho,   pois   sentia-me completamente deslocado. O senhor, possuidor de um grande carácter e conhecimento geográfico, com as mãos alisou a terra e fez, com um dos dedos, uma espécie de mapa. Apontou os riachos que eu teria de passar, indicou-me o local exacto onde atravessar o grande rio, cedeu-me um cavalo, dos vários que possuía, e deu-me a oportunidade de escolher aquele de que mais eu gostava. Eu disse que de cavalos não entendia muito, que simplesmente queria um manso. Fez sinal ao seu filho e dirigiram-se ambos para as traseiras do local onde se situavam as palhotas. Entretanto, eu disse ao Lipe:

 

— Sabes, vou agora mesmo falar com a tua Mãe e a tia Dinha, vou falar também com a tua amiguinha Clara e com o seu pai, dizer-lhes que tu estás bem, e que dentro de poucos dias já podes voltar para casa.

 

Ele contestou de imediato:

 

— Não, não quero que fale ao meu pai! A Clara, onde está ela? Respondi de forma a não o contrariar muito:

— A Clara está bem, foi a mãe dela quem me disse! Se tu não queres eu faço-te a vontade e não falo com ele! Sabes, Lipe, eu não sou teu pai, mas gosto de ti de tal forma que nunca faria mal à tua amiga, ao fazê-lo, tinha a consciência que seria o mesmo que o fazer a ti, por isso eu tenho certeza que teu pai não empurrou a Clara, ele ama-te muito, era incapaz de fazer tamanha maldade!

 

— Foi ele! O sargento, o senhor Martinho, o senhor Manuel e o Faustino dizem que foi ele!

 

Não discuti mais sobre o assunto, naquele momento ele estava convencido que havia sido seu pai quem fez aquela horrenda tentativa de assassinato.

A maldita quadrilha de raposas deu-lhe a volta à cabeça. Qual a razão para eles quererem de forma tão abrupta incriminar um inocente não sei! Nisto, os dois índios chegaram com um belo cavalo, de crina bem apurada, alto e bem mantido, branco, a raça não sei qual era, pois como disse de cavalos nada entendo. Questionei-me como poderia ser que numa tribo houvesse animais tão bem tratados. Antes de eu montar o bicho, o índio filho fez uma série de habilidades com o animal, um prévio aquecimento para que eu pudesse seguir em segurança. Por fim, subi para o cavalo. Como eu tremia, adoro animais, mas de cavalos mantenho uma certa distância, mantenho um respeito como súbdito respeita o seu rei. Segui o meu destino até à casa dos pais do Lipe, passei por alguns sustos, o cavalo assustou-se com uma cobra enorme, por pouco que não me atirava para o chão, mas o pior foi quando atravessei o rio, temi que nos fossemos afogar.

 

Depois de eu a informar do estado de saúde do seu filho Lipe, dona Clotilde   ganhara   outro   ânimo   na vida.   Ficou   num   estado   de   grande ansiedade, para rapidamente visitar o seu querido filho. Lembro-me de lhe dizer que iríamos no dia seguinte, primeiro iria à cadeia avisar o seu marido. Dona Clotilde, eufórica com a boa notícia, deixou cair esse estado de   euforia   ao   chão   numa   fracção   de   segundos,   quando   eu,   o   bom mensageiro lhe disse que iria à cadeia.

 

Disse-me ela resignada:

 

— Sabe senhor, já fui à cadeia várias vezes mas os malditos não me deixam ver meu home!

 

Com uma convicção acima da média afirmei:

 

— Fique   sossegada minha senhora,   eles a mim,   garanto-lhe   que   me deixam! Não me chame eu Paulo Gracindo!

 

— Sabe senhor Paulo, o maldito do sargento mandou os polícias não deixarem eu ver o meu home!

 

— Quem é esse sargento? Lá na cadeia existe um sargento? Eu pensava que nestas cadeias pequenas somente existisse um delegado, e não em todas!

 

Perguntei eu, que embora já tivesse ouvido falar do tal sargento, não conhecia bem a sua reputação de manda chuva.

 

— Sabe senhor, o sargento é um fazendeiro muito poderoso que manda na polícia, aliás ele não manda só na polícia, ele manda em toda a gente, todos o temem e lhe obedecem!

 

— Sabe senhora Clotilde, é esse o seu nome? Com um gesto de cabeça assentiu.

— Como eu ia a dizer, na vida tem de existir alguém que tenha a primeira atitude desafiadora! Esse alguém vou ser eu! Não nos podemos resignar assim aos caprichos de um malvado pré-histórico, eu passo-lhe a explicar minha senhora! Nos primórdios da monarquia, e não só, ou seja, no tempo dos reis e até mesmo mais tarde, haviam homens que pensavam que mandavam em toda a gente. Esses costumes passaram por várias gerações e infelizmente ainda persistem, ainda se mantêm! Mas isso tem de acabar, essas rudes e arrogantes pessoas não têm esse direito, enquanto as pessoas mostrarem medos dessas mesmas pessoas, elas continuam a reinar. Essas coisas estão fora de moda, ou seja, não podem continuar! Acolha o meu conselho, não obedeça a esse tal sargento sem farda, nunca lhe mostre medo nem submissão!

 

Expliquei e tentei aconselhar, ao que a dona Clotilde respondeu:

 

— Sabe, senhor Paulo, quando prenderam o meu Zé, foi isso que eu chamei ao maldito sargento. Chamei a ele sargento sem farda! Ele quase me bateu, só não o fez porque disse que não batia em mulheres. Mas ficou muito zangado e descontou no meu Zé!

 

— Grande mulher, a senhora é uma grande mulher!

 

Elogiei-a dando-me conta de que existem momentos em que falamos desnecessariamente, pois conselhos bem dados nunca são demais, mas esta senhora mostrou ser uma mulher corajosa que pensava e agia em conformidade com meus pensamentos e actos.

 

O Solitário foi visitar o prisioneiro. Dona Clotilde seguiu com as suas tarefas do dia-a-dia e resolveu fazer a lavagem das roupas no riacho. Um lugar magnifico, mas ermo, de paisagens luxuriantes, onde existe uma represa bem antiga construída pelos moleiros e num dos lados existem ainda duas grandes rodas de madeira que, movidas pela força das águas, arrastam as mós de onde sai a preciosa farinha. No outro lado, restam somente as paredes que deveriam ser antigos armazéns. Era por esse lado que as senhoras entravam no riacho, pois até meio a água tinha pouca profundidade. Eram águas límpidas, dona Clotilde bebia delas sem receio algum,   por vezes viam-se   umas   manchas   de   espuma   provocadas   por lavadeiras como ela, e por outras vezes ainda, a água corria um pouco turva, mas todos sabiam que era somente quando alguma manada de búfalos   ou   de   vacas   bebiam   daquelas   águas.   Apesar   das   azenhas ocasionalmente ainda moerem, raramente se via gente por ali. Dona Clotilde, já de pés dentro de água, no local onde todas as mulheres da região limítrofe o faziam, feliz da vida com alguma contenção cantarolava:

 

— Lipe, meu Lipe... Que alegria tu me dás, dentro de poucos dias, bom tu estarás! Quando voltares, a nossa casa vai ficar cheia, e a alegria vai ser grande! Quando teu pai sair da cadeia, o sargento vai meter o rabinho entre as pernas… A alegria vai ser grande, dentro de pouco tempo. Ele não tem mais, em quem mande!

 

Cantarolava contente, trazendo ao de cima a sua veia poética, quando, subitamente, apeia da montada o malvado sargento. Sargento de quem ela nos instantes precedentes pronunciara o nome numa rima espontânea. Entretida, sem dar-se conta da chegada do mau homem, continuava a cantarolar mais rimas, mas agora não é importante referenciá-las. Já em pleno chão, o sargento desabotoou os botões da camisa. Seguia com rigorosa reincidência, à risca, os hábitos que tão bem o caracterizavam. Primeiro tirou a camisa, depois as botas e posteriormente as calças, afagando em simultâneo as virilhas com uma das mãos. Ao entrar nas águas do riacho, com o barulho destas a chapinharem-se, dona Clotilde olhou de lado e teve de súbito a visão daquele mafarrico transformado em homem, um dos piores existentes em toda a raça humana.

 

Disse-lhe o maldito, com a sua imaginação sexual a vaguear nas alturas:

 

— Eu venho cumprir a promessa feita no dia da prisão do seu marido assassino! Sabe, mulherzinha, eu sou um grande homem que sempre honro a palavra dada! Como vê, cá estou eu para honrar a palavra e satisfazer os nossos desejos!

 

Boca aberta, sem nada dizer e fazer perante aquele cenário, dona Clotilde tentou pôr a sua respiração em funcionamento.

 

— Maldito home! — bradou ela de voz furiosa, continuando, — O que é que você quer de mim? Eu não tenho medo de você, maldito sargento sem farda! Sem farda e sem pêlo! Olhe por você abaixo e veja a triste figura que faz!

 

Calmamente, o sargento caminhava para junto dela, na sua mente, mais que certa a vítima. Sem o demonstrar, sentia-se furioso, pois não tolerava qualquer atitude desafiadora, muito menos que lhe chamassem sargento sem farda. E dona Clotilde era até então a primeira pessoa a fazê-lo.

 

— Cuidado com essa língua, mulherzinha! Sou o mesmo sargento de sempre, você diz que eu não tenho farda nem pêlo, mas sou muito mais gostoso e perigoso assim!

 

— Pode ser que você, maldito sargento sem farda, seja mais perigoso assim. Mas de mim não vai conseguir nada!

 

A senhora, sempre em tom desafiador, não mostrava qualquer tipo de intimidação.

 

— Ah! Desculpe, dona Clotilde! Bem, dona Clotilde é de mais, não acha dona Clotilde? Não a devo tratar por dona Clotilde mas sim por minha parceira de desejos! A partir de hoje eu vou matar todas as suas vontades, eu sei muito bem que são muitas! Sim, são muitas, pois seu marido está no lugar certo onde alguém como ele deve estar. Na cadeia, o lugar dos assassinos, e de lá não pode dar conta das suas vontades!

 

Dizia todas estas coisas no intuito de humilhar a senhora e conseguir seus intentos. Dando continuidade a todas aquelas provocações e desejos:

 

— Ah! Desculpe, ainda não apresentei o nosso amigo!

 

Enquanto disse isto, com ambas as mãos descia as cuecas atirando-as para terra enxuta. Em gestos sexuais gingava os quadris para os lados, para frente e para trás. Dona Clotilde permanecia calada e horrorizada com tudo aquilo. Sim, ela tinha pensado, por variadíssimas vezes, que ele um dia tentaria concretizar as promessas feitas no difícil dia da prisão do senhor José Ramos Araújo. Como era um dia especialmente alegre para ela, esqueceu-se de qualquer tipo de protecção.

 

— Então mulherzinha, que me diz aqui do meu amigo? É lindo, lindo e gostoso! Tenho certeza que você vai ficar deliciada com ele! Não precisa de oferecer resistência, já fiz isto a muitas mulheres como você que no início resistiram mas depois estavam super contentes! Verdade, com você vai ser igual! Ah! Antes que fique tarde ensaboa aqui o nosso amigo. Faça isso! Adoro quando me passam sabão, fica mais macio e gostoso! Vá lá, mulherzinha esfomeada, faça tudo o que lhe ordeno!

 

Ditava   estas   ordens   para   dona   Clotilde,   como   com   todas   as   outras senhoras. Tinha-se esquecido que as outras mulheres eram submissas e menos corajosas, e grande parte delas eram esposas de amigos seus. Bem, ele   fazia-se   amigo,   porém,   um   verdadeiro   amigo   não   tem   dessas iniciativas,   embora   realmente   estes factos   por   vezes   sejam   dados   à efectividade.

 

Nunca   aquela   grande   mulher   obedeceria   ao   malvado   sargento   sem relutância.

 

— Maldito seja você, sargento sem farda! Nunca que eu ia pôr sabão nessa coisa nojenta! Eu só tocava nessa porcaria se fosse com uma faca, maldito!

 

— Vá lá mulherzinha, obedeça! Não vê que ele, o meu amigo, quer! Vá lá, se não for por bem vai ser por mal, não se esqueça disso!

 

— Tanto me esqueço que não vou pôr as minhas mãos aí, seu porco sem emenda!

 

Enquanto isso, lançou umas cuecas sujas e molhadas da Tia Dinha que tinha em mãos para a cara do pelado sargento, atirando, de seguida, água para os seus olhos. Este cuspia, sem ver; as azenhas, a água, as árvores, as pedras no fundo do rio e as da levada, nem os pássaros e nem a mulher que mesmo estando vestida, por momentos ele a via sem roupa como na realidade há muito ansiava ver. Sufocado, agarrava-a, tentando tirar-lhe as roupas à força. Dona Clotilde defendeu-se, debateu-se sem nunca esmorecer. Nunca aquele homem tivera uma tal objecção para conseguir seus intentos. Agarrava a senhora, atirava-a para o chão dentro do ribeiro, e quando esta se manteve caída por alguns instantes preparou-se para dar o golpe final. Como ele estava enganado. Dona Clotilde, enquanto caída, pegou numa pedra, não de grandes dimensões, mas de razoável tamanho e peso, e deu com a dita pedra na cabeça de pedra do sargento. Este ficou com   um   grande   macho   de galinheiro   no   crânio,   atordoado   por   uns momentos, mas continuou com as suas investidas. A senhora, de coragem destemida, como a padeira de Aljubarrota, uma senhora dos finais do século XIV que na batalha com o mesmo nome — batalha portuguesa de Aljubarrota —,   lutou   com   uma pá de   forno com vários guerrilheiros castelhanos, pondo fim à vida de todos os guerreiros que a enfrentaram.

 

Esta mulher lutava com a mesma garra, a mesma força e convicção frente a um guerrilheiro que aplicava todos os golpes para tentar ganhar a sua batalha. Batalha desigual entre um bruto animal e uma indefesa mulher. Bem, há aqui correcções a serem feitas, o sargento desarmado como era o caso, não tinha mais força do que aquela senhora. Pelo menos, ela era bem mais corajosa e valente. O sargento, ainda que cansado, e sem conseguir nenhuma das suas pretensões, insistia nas suas investidas sem obter   resultados   positivos.   Agarrados,   a   rebolar   no   meio   do   riacho, continuavam, deste modo, dois seres com intuitos diferentes. Um, com o intuito de conseguir mais uma violação. Outro, no intuito de não deixar que essa violação fosse concretizada, não deixar que aquele demoníaco ser satisfizesse seus desejos sexuais à força. Não se compreende como existem determinados seres humanos, se é que alguém pode ser assim denominado. Como é que alguém, que só pode ser considerado desumano, pode levar a cabo o intento de tentar violar uma criança ou alguma mulher? O amor entre duas pessoas em conformidade mútua sim, é bom! Como pode existir prazer? Será que existe? Conseguido à força, quando se bem sabe que o outro lado da parceria só ali está porque a tal foi obrigado!

 

Muito tempo depois de começar toda aquela luta, de todas as investidas do sargento se iniciarem, de todos os medos da mulher se terem apresentado, era resoluta e o mostrou naquele sufoco que passou, contudo, certezas de que iria sair vitoriosa. O sargento, já cansado e sem conseguir consumar seus objectivos, por fim, desistiu. Deu um empurrão para lá em Clotilde e disse:

 

— Maldita mulherzinha! Você é uma mulher impiedosa, não tem compaixão do meu Quim, que como o meu estômago sente vontade de comer, ele também sente vontade de comer e desta vez era você a escolhida!

 

Dizia isto enquanto afagava o órgão sexual e se encaminhava para a margem. Dona Clotilde, em gesto desprezível, cuspiu para as águas e enfurecida baixou-se rapidamente. Logo da primeira investida no fundo do riacho alcançou uma pedra e num ímpeto lançou-a contra o sargento. Acertou em cheio por entre as nádegas, mesmo no órgão que de forma natural serve para o aliviar, não das suas vontades sexuais, mas das suas necessidades fisiológicas. O sargento, com a dor do impacto da pedra naquele sítio do corpo humano, apelidado por mil e uma forma, mas cujo nome correcto é o de ânus, deu tamanho salto ainda dentro de água, e, com as mãos ambas, coçava o local atingido. Deu de seguida outro salto, mas desta feita para alcançar terra firme. Já em terra disse:

 

— Maldita, de hoje não passa! Vou-lhe dar um tiro, maldita, mas pode ficar contente, vou-lhe fazer uma confissão, você foi a primeira pessoa que me bateu! Pode ficar uns minutos contente, até eu lhe dar um tiro certeiro na cabeça!

 

Fazia esse anúncio e ameaças de pistola em punho, prestes a desferir um tiro certeiro como ele mesmo disse.

 

— Pode-me matar, sargento covarde! Eu borrava minha cara com merda daquela que lhe sai do sítio onde eu lhe acertei com a pedra. Se só conseguisse fazer mal a uma mulher armado com uma pistola, covarde! Devia ter vergonha, enquanto lutámos dentro de água sem arma não conseguiu me dobrar, fraco covarde, qual vai ser seu gosto? Matar uma mulher desarmada?

 

Aquele conjunto de insultos, afirmações e perguntas tiveram um efeito de ricochete, como bala que sai do cano da pistola e regressa ao lugar de origem. Ele, o sargento, no seu íntimo, nunca até então havia sido tão certeiramente   questionado   sobre   os   seus   actos,   considerados   por   si verdadeiros actos de valentia, de coragem e de homem honrado. Mas que aquela humilde mulher, com a sua pouca instrução escolar mas, porém, muita sabedoria adquirida com o decorrer dos anos na escola da vida, conseguiu por momentos abalar a mente do sargento e fazê-lo reflectir sobre sua brutalidade. Baixou a pistola, atirou-a para o chão, e enquanto vestia as roupas foi fazendo ameaças:

 

— Estúpida mulher, por hoje safaste-te mas que fique bem claro, foi a última afronta que você, mulherzinha esfomeada, me fez! Digo-lhe mais, hoje não fiz minha vontade de meter o meu amigo no seu interior, mas juro-lhe que ainda vou meter. Promessa deste seu servo, sargento ao seu dispor, maldita!

 

Em tom sempre corajoso, tido por ele desafiador, ela contestou:

 

— Para isso vai ter de vir armado, sem arma nunca vai levar a bom porto seus desejos!

 

— Ah, se vou! Me aguarde, mulher fedorenta!

 

Posto isto, montou no cavalo e iniciou a marcha em direcção à sua fazenda. Todavia, já no cimo do cavalo e de marcha iniciada, seu desejo não realizado dava-lhe sinais de tal veracidade. Sentia o sangue a ser-lhe bombeado para os órgãos genitais. Seu mestre Quim, como gostava de lhe chamar, por instantes contínuos, parecia querer inflamar. Falava ele, em pensamento, ao seu sexo:

 

— Sossega meu amigo, não foi desta mas havemos conseguir! Ora esta, já nem tu me obedeces, hoje estás inquieto, tem lá calma!

 

Em marcha lenta, lá ia ele a trotear com seu cavalo. Dona Clotilde, ainda dentro de água, tentava dar término à lavagem da roupa. Não, não seria lavada naquela ocasião, a sua mente perturbada interrompia, como um semáforo vermelho, a passagem das ordens do cérebro para as mãos, deixando-a incapaz de dar seguimento à sua tarefa higiénica. Recolheu todas as roupas para a bacia e meteu pés a caminho do seu doce lar. No mundo, não existirá alguém que possa premeditar os acontecimentos que nos   minutos   seguintes   aos   minutos   presentes   poderiam   ocorrer.   Por consequência, ou por conseguinte, tudo de bom ou de ruim pode tornar-se num acontecimento. Com a bacia da roupa apoiada na cabeça, dona Clotilde dirigia-se para a sua casa. Tinha como companhia os medos, as tristes memórias de tudo que lhe acontecera, as estupefacções e todos os sistemas de auto-vigilância accionados. Qualquer aglomerado de arbustos era por ela previamente olhado com muita atenção, para que não lhe acontecessem surpresas indesejáveis. Sua prudência alertava-a para os reais perigos que aquele endiabrado homem poderia oferecer. Ela possuía uma pura convicção de que ele não passava de um covarde, que sem armas não era sequer capaz de matar um mosquito mas que, armado, não era homem para desistir assim do pé para a mão. Seus pensamentos, sua prudência, infelizmente, não lhe provaram o contrário. A meio do caminho entre o riacho e a sua pequena fazenda, seguia ela no seu destino quando, subitamente, é puxada para o interior de uns arbustos. Cá estava a confirmação dos seus temores, o malvado sargento tinha-a desta vez entre braços, e desta feita de arma empunhada. Não teve o simples cuidado de tapar-lhe a boca, o gesto mais familiar dos assaltantes. Sim, porque isto era literalmente um assalto. Assalto à dignidade de uma mulher que ostentava de forma impar a verdadeira dignidade, e sem qualquer tipo de dignidade honrosa o sargento disparatou:

 

— Olá mulherzinha, há quanto tempo! Tinha saudades minhas? Tinha sim, eu sei que tinha!

 

— Largue-me maldito, porque não desiste?

 

Soltando uma tremenda gargalhada, o sargento continuou:

 

— Não diga isso, gata assanhada! Eu só faço isto que estou a fazer por pena! Sabe, enquanto vinha montado no meu cavalo, pensei para com os meus botões: «António Maciel, tens de acabar a obra começada! Então como é? Estás a deixar de ser o velho sargento, que levava a cabo todas as ameaças! Lá no riacho mostraste o docinho a esta esfomeada mulher. E então agora não lho dás?»

 

— Sabe, minha doce Clotilde, eu tinha de dar término à empreitada começada nas quentes águas daquele riacho.

 

— Socorro, socorro… alguém me ajuda?

 

Desta vez, pedia ajuda evidenciando sinais de desespero, pois agarrado a si tinha um indivíduo que não lutava em igualdade de circunstâncias.

 

— Vá, já chega! Vamos ao que verdadeiramente é importante, deite-se! Rápido, vamos!

 

— Isso nunca, nem que me mate!

 

Encostou a pistola na testa da senhora, dando indicações que desta vez tudo era mais sério. O macho assanhado, era essa a sua postura, um animal assanhado que usa o estatuto de ser dominante, usando a própria força.   Em   qualquer   grupo   de   animais   que   se   encontrem   em   estado selvagem,   qualquer   macho   que   se   preze,   luta   em   igualdade   de circunstâncias com os outros animais do mesmo sexo, para que nesta luta sobressaia aquele que será o macho dominante. Este animal, com as hormonas sexuais à flor da pele, para se tornar em ser dominante, não lutou com outro macho, mas sim com uma fêmea inofensiva. O sargento apoiou-se bem na perna esquerda, entrançou o seu membro inferior direito no inferior esquerdo da senhora e, brutalmente, empurrou-a para trás. Inevitavelmente,     dona Clotilde   caiu,        estatelando-se        no        chão. Repentinamente, sentiu o peso daquele corpo no seu corpo. O sargento estava onde sempre quis estar, em cima de dona Clotilde. Esta destemida mulher debateu-se vezes sem conta, mas sentia dolorosamente a certeza que, desta vez, tudo se iria consumar. Num acto de intimidação, o sargento encostou a pistola entre o ombro e o pescoço e deu um tiro. Durante longos minutos os ouvidos da senhora cessaram funções. O barulho do tiro disparado foi ensurdecedor. No chão, bem juntinho ao ombro, um buraco teve de dar início à existência para dar passagem a uma bala. Não havia nada a fazer por parte de dona Clotilde, tinha mesmo de se resignar. Entretanto, o malvado sargento havia tirado todas as suas roupas. Mais uma vez a mãe de Lipe via aquele sujeito despido.

 

— Sou ou não sou, um grande homem corajoso? Você, mulherzinha, nunca devia ter duvidado disso! Minha promessa vai finalmente ser cumprida, e esta vai ser a primeira de muitas vezes!

 

Com os ouvidos ainda entupidos em consequência do tiro, dona Clotilde falou com tom mais do que audível:

 

— Maldito, esta será a primeira e a última! Porco, bode, seu cabrão, seu camelo, um dia vou-o capar! Escreva bem isso, vou-o capar!

 

— Sabe, mulherzinha, já lhe dei o prazer de me ver sem roupinha. É linda a paisagem, verdade? Ah! Estou tolinho para a ver sem roupa também! Vá lá, tire essa roupa!

 

Sendo dona Clotilde uma mulher honesta, não foi mulher de satisfazer o pedido que ele ordenara.   Humilhou-a em todos os sentidos, poderia perfeitamente ter consumado seus desejos sem obrigar a indefesa mulher a despir-se   completamente.   Deu   assim,   deste   modo,   este   horrendo homem, efectividade ao acto de violação, praticado com uma mulher que, como todas as pessoas, vivia momentos menos bons, como a prisão do seu marido. Vivia de forma natural alguns bem mais suaves, como tomar conhecimento do estado de saúde e o paradeiro do seu filho Lipe. O malvado   sargento   concretizou   um   desejo   abrupto   que   não   será pormenorizado.

 

                   Estadia na cadeia

A vida das pessoas, tal como a canoa do Solitário, dá voltas e mais voltas, sem que alguém consiga prever o futuro. Após completar vinte anos, Lipe quis dar um rumo cónico no sentido da felicidade, e passou a viver na tribo tupiguarani. O destino do Solitário e do José Araújo sofreram alterações significativas. Para o Solitário, a mudança foi boa em todos os aspectos, no entanto para o pai de Lipe, após anos de solidão e muita dor, conseguiu encontrar-se e ser feliz. Os dois acabaram por se mudar para outro estado, e vezes sem conta iam visitar o Lipe, que se transformara num índio. Em algumas dessas visitas, os eternos amigos afastavam-se de tudo e todos, e punham-se a recordar o passado. Para o efeito, o Solitário, que escreveu algumas das suas memórias na primeira pessoa, fazia questão de as ler perante o jovem índio, sendo esta a melhor maneira de ele compreender todo o passado.

 

Lembro-me bem do dia em que disse que iria enfrentar o dito sargento. De início, as coisas não correram como o esperado, mas depois melhoraram. Em tudo existe uma forma, uma volta a dar em todas, e quaisquer situações complicadas…

 

Pedi   a   dona   Clotilde   que   aparelhasse   a   charrete,   meus   ossos   não suportariam a caminhada até à pequena cidade onde se situava a cadeia. As horas em cima do cavalo desde a tribo até à casa dos pais de Lipe, tinham-me deixado desconcertado. Deixei o cavalo branco dos índios a pastar, e segui viagem na charrete, mas desta feita era o Rápido a puxá-la. Foi uma viagem de cerca de uma hora, a uma hora e meia. Chegado à cidade, passei em frente da pequena igrejinha, datada dos meados do século XVI, e, na frente desta, separado por alguns metros, existia um campanário de um único sino e era bem notório que se tratava de uma construção posterior à construção da própria igreja. Pensei de mim para comigo:

 

«Talvez ainda hoje venha visitar-te.»

 

Não fui naquele mesmo dia, fui uns dias mais tarde. Recordo-me que quando pude visitar aquela igrejinha estava a celebrar-se a eucaristia. Entrei e notei que as pessoas olhavam meio de soslaio, com certeza devido ao meu simples trajar. A minha imaginação e vivência recuaram quatro séculos, ao ouvir a celebração da missa, ao olhar para o tecto que deixava trespassar a claridade pelas telhas. O tecto era simplesmente composto por ripas que serviam de suporte às telhas, tal qual o original. Imaginava eu, ao ouvir a missa a ser celebrada sem qualquer sistema sonoro, e toda aquela envolvência fez-me recuar os tais quatro séculos, e sentir-me um cidadão não do clero nem da nobreza, mas sim do povo!

 

Quem segue da fazenda do senhor Araújo, e depois passa a igreja, tem de voltar   na   segunda   rua   à   direita.   Foi   exactamente   isso   que   eu   fiz. Aproximadamente trezentos metros depois, avistei a cadeia, prendi o cavalo a uma argola nas traseiras da mesma, ali colocada para o efeito, e dirigi-me para a entrada. No umbral da porta, estava encostado um guarda prisional.

 

— Boa tarde! —   cumprimentei, e estendi a mão. Ele, que se encontrava com o seu ombro esquerdo encostado no umbral, sem mudar de posição, estendeu sua mão mas com muita hesitação.

 

— Boa tarde! — respondeu à minha saudação, mas com voz rude e bastante antipática. Não teve a simpatia de convidar-me para entrar e, ainda fora, comecei a explicar ao que vinha.

 

— Senhor guarda, eu sou amigo de um miúdo que se encontra bastante doente. Encontra-se a restabelecer da sua doença, numa tribo bastante longe!

 

— Você está para aí a falar, parece uma gralha! Que me importa se você é amigo desse garoto! — falou assim friamente comigo, sempre encostado ao umbral.

 

— Eu explico, senhor guarda! Esse miúdo é filho do senhor José Araújo, e penso que este se encontra detido aqui nesta delegacia!

 

— Sim, está cá preso, aliás, está no lugar certo! — respondeu o guarda.

 

— Certo porquê? — questionei.

 

— Porque a cadeia é o lugar dos assassinos, e ele é um assassino!

 

— Ou não! — contestei de imediato, e continuei:

 

— Quem é você para dizer que o senhor Araújo é um assassino? Por acaso existem provas?

 

— Claro que existem! O senhor sargento e seus amigos viram! — afirmou o guarda.

 

Apercebendo-me que aquele homem era um simples pau mandado, que como uma gralha repete tudo o que ouve, mudei de estratégia.

 

— Sabe, senhor guarda, enquanto não for o julgamento ninguém pode afirmar que o senhor José seja culpado! Mas já agora deixe-me que lhe diga, cá fora não é lugar para se conversar!

 

Falei isto porque estava com a sensação de que me encontrava perante um gigante, pois eu encontrava-me ao nível do chão e aquele pouco instruído guarda prisional três degraus acima. À minha observação ele respondeu:

 

— Podemos muito bem falar assim desta maneira! Além disso, não posso deixar ninguém entrar!

 

Estupefacto com tal afirmação por parte do guarda, perguntei:

 

— Mas o senhor disse que não me pode deixar entrar, porquê? Quem lhe deixou essas recomendações?

 

— O senhor sargento deixou bem claro ao senhor delegado, que era para ninguém entrar! E é isso que tem sido feito, a mulher desse tal José já cá esteve mas não entrou!

 

— Eu sei, ela disse-me! Mas pelo menos podemos conversar aí na entrada, seja simpático!

 

Bastante relutante, lá autorizou a minha entrada. Ficámos a conversar junto à porta, desse modo sentia-me bem mais confortado. Podia agora conversar em pé de igualdade, não tinha esforçadamente de olhar para o tal gigante   em que   ele   se transformara.   Quis saber   sobre   o estado emocional do senhor José.

 

— Ele está bem, está numa cadeia e aqui nós não podemos dar doces! Para isso, ele que não tentasse matar a criança e que fosse para uma pousada!

 

O guarda, realmente convencido que havia sido o acusado o culpado, respondia deste modo. Tentei falar tudo sobre o miúdo e continuei:

 

— Senhor guarda, por favor ouça a minha história, peço-lhe que me deixe falar tudo!

 

Sem mostras de grande simpatia por mim, lá foi dizendo:

 

— Fale lá, mas seja rápido!

 

— Sim, eu vou tentar ser breve!

 

Assentiu com um gesto de cabeça, mas percebi nesse gesto que ele queria que eu não falhasse ao prometido.

 

— Sabe, quando o acidente aconteceu, o filho deste senhor, que se chama Lipe, ao saber que a sua amiguinha havia sido transportada para o hospital, tentou ir atrás dela e perdeu-se no rio. Desde esse dia, a sua mãe só hoje soube notícias dele, e estava desesperada, a pobre senhora. Fui eu e uns índios que o encontrámos, quase morto, perdido no rio Carinhanha. Neste momento, encontra-se a ser tratado pelos índios. Eu só aqui estou para tentar dar a boa notícia ao seu pai, que também deve estar maluco sem nada saber do seu filho! Já imaginou como ele, um pai, se deve sentir?

 

O guarda prisional, que com a mão esquerda coçava o rosto e com a palma da mão direita encostada à parede, lhe batia suavemente com os dedos, quando o questionei, parou de bater com os dedos, e meio compadecido lá foi dizendo:

 

— É uma história meio triste, mas ele que se tivesse lembrado nisso quando fez mal à criança! Você disse que ele devia estar maluco sem notícias, pois eu digo, maluco estava ele no dia em que tentou matar a miúda!

 

Eu estava a ficar farto, como habitualmente se diz, de ouvir aquele homem ignorante acusar o senhor José Araújo, sem ter qualquer certeza daquilo que afirmava. Certeza, certamente que ele não poderia ter, mas estava convicto das acusações, inexplicadamente. Tive de mudar a minha forma de abordagem na tentativa de, quanto mais não fosse, fosse ele a transmitir ao pai de Lipe, que ele se encontrava bem, embora o guarda me tivesse dado a entender que o sargento ordenara que nenhuma notícia da casa do prisioneiro lhe fosse transmitida.

 

O Solitário parou de ler, e perguntou:

 

— Estranhas ao ouvir-me dizer o senhor Araújo, a dona Clotilde e quando me refiro a ti e digo o Lipe?

 

— Sim, no início sim! Mas continue, eu sei que estas coisas foram escritas por você há muito tempo, e só assim eu poderei entender o passado!

 

— Tio, e que tal darmos um passeio?

 

— Grande ideia, continuamos mais tarde!

 

Levantaram-se,   foram chamar o Araújo e os três foram passear. O Lipe sentia-se naquele lugar como se sentia na sua antiga casa, vivia ali há já alguns anos. Era um membro da tribo, mas estudara como o comum dos cidadãos, um facto inusitado pois na tribo praticamente só aqueles que se tornaram índios por casamento é que sabiam ler. Durante o passeio, os três, viram uma cobra a engolir um sapo. O Araújo preparava-se já para pegar um pau e matar o réptil, sendo no entanto impedido pelo Lipe e pelo Paulo.

 

— Sabe Tio, foi quando eu me assustei com um animal destes que o conheci!

 

— Pois foi, parece que foi ontem!

 

— Papá, eu sei que estes animais, lá na antiga fazenda, só lhe causavam prejuízos, mas aqui eles são queridos e protegidos, aliás, eu sempre defendi todos os bichos, devo isso ao Tio e agora ao que se pratica aqui!

 

De novo o assunto sobre as memórias, de novo o Pai de Lipe se retirou e foi conversar com as outras pessoas.

 

— Onde estávamos nós? — pergunta o Solitário, agora de pé e junto a uma pequena corrente de água, com o dedo a procurar a linha onde havia parado a leitura das memórias.

 

— Ah, foi aqui onde diz o Senhor Araújo, o teu pai!

 

— Foi Tio, que bem me recordo!

 

— Então lá vai Lipe! E continuou:

— Sim, senhor guarda, tem todo o direito de suspeitar desse coitado! E para além disso, o senhor só está a cumprir ordens, e eu respeito-o! Responda-me só a umas pequenas questões! O senhor não sente qualquer tipo de compaixão por este pobre homem?

 

Respondeu ele, desta vez a dar pequenas passadas de um para o outro lado:

 

— Sim, sinto pena, mas não posso fazer nada, como você já mo disse há pouco tempo, eu só cumpro ordens e elas são bem claras, é para ninguém entrar!

 

— Pelo menos, peço-lhe encarecidamente que diga ao senhor Araújo que o seu filho e a sua mulher estão bem de saúde!

 

— Isso não, eu bem que gostava mas não posso!

 

Eu tinha já chegado à conclusão que, no fundo, bem lá no fundo, aquele simples guarda possuía um bom coração. Concluí de igual modo que idolatrava os seus superiores e que lhes dedicava uma fidelidade canina, ou seria mais inteligente do que fazia transparecer, e tentava com estas fiéis obediências preservar o seu emprego. Tentei então ir directo ao seu coração e fi-lo reflectir sobre os sentimentos das pessoas que nos rodeiam.

 

— O senhor tem filhos?

 

— Não, sou casado mas minha Gisela ainda não me deu filhos!

 

— Seus pais ainda vivem?

 

— Sim, meus pais ainda estão vivos, graças ao meu bom Deus!

 

— Sendo assim, o senhor é filho! Ou será que já nem isso é?

 

Desta pergunta ele não teve nenhum entendimento, perguntando surpreso, e de voz um pouco alterada:

 

— Claro que sou filho! E dos bons! Gosto muito dos meus pais, mesmo muito! Não entendi essa pergunta, se eu sou filho ou se nem isso sou? — e continuou em tom ameaçador, — Você está a ofender a minha pessoa, ponha-se à tabela, ainda o ponho no xelindró a fazer companhia ao tal Araújo. E assim, já lhe pode você dar o tal recado!

 

Longe estava eu de imaginar que, pouco tempo depois, a sua promessa seria inteiramente cumprida, tornando-se aquele homem num político que cumpre todas as suas promessas eleitorais.

 

— Tenha calma, eu não o quis ofender, pelo contrário! O senhor disse que era um bom filho, eu não duvido disso nem um pouquinho! Mas responda- me e pense bem nisto — continuei,   — quando somos bons filhos, como o senhor diz que é, eu, como lhe disse, não duvido que realmente o seja! Lembre-se do sofrimento que o senhor Araújo está a passar, suponha que quem estava daquele lado, ou seja, naquela cela, fosse o seu pai?

 

Contestou de imediato o guarda:

 

— Impossível, meu pai não é um assassino para estar numa cela!

 

 

— Sabe, senhor guarda, eu já criei alguma simpatia por si! O senhor disse, no imediato, que seu pai não é um assassino, isso prova que efectivamente o senhor é um bom filho! Defendeu seu pai com unhas e dentes! Mas eu volto a perguntar… imagine que o senhor guarda…

 

— Pedro, meu nome é Pedro, estou cheio de ouvir você dizer senhor guarda! — interrompeu-me ele.

 

— Sim, guarda Pedro, prazer, meu nome é Paulo Gracindo, mas volto ao assunto. Imagine que o Pedro tivesse desaparecido no meio do rio vários dias, e seus pais não sabiam do senhor! Já imaginou o que eles sentiriam?

 

O guarda Pedro ficou surpreso com aquela possibilidade e deixou o seu lado emocional vir ao de cima.

 

— Eu sei que eles iam sofrer muito, e então meu pai que é muito chegado a mim!

 

Fez esta revelação, e em simultâneo limpava as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto. Continuei:

 

— Posso pôr-lhe outra questão?

 

— Sim, pode! — respondeu comovido.

 

— Se fosse o Pedro que estivesse perdido no rio, gostava que ao ser encontrado, alguém desse a notícia aos seus pais?

 

— Claro que sim, sei que eles iam ficar muito contentes!

— É exactamente isso que eu tenciono, aquietar o coração do senhor José! Tive a impressão que desta vez fui de encontro ao lado humano daquele

guarda prisional. Dei-lhe estes exemplos como exemplo, quis fazer-lhe entender que, por vezes, existem muitas pessoas que se encontram em estado de grande sofrimento e que se nós quisermos, podemos minimizá- lo. Basta que, para tal, tentemos pôr-nos no lugar desses sofredores. É muito bom vibrarmos com a vitória da nossa selecção, num qualquer campeonato europeu ou mundial. Vibrarmos com a vitória do nosso clube, com vitórias dos nossos ídolos, e muitos outros bons acontecimentos. Mas será que paramos para pensar? Ocorreu um tremor de terra, morreram x pessoas. Por acaso até foi longe, no outro lado do mundo e então muita gente diz, como muitas vezes já ouvi:

 

— Paciência, ainda bem que não foi aqui! Foi na China, foi na Índia, lá existe muita gente!

 

Isto, eu não estou a inventar, já ouvi muitíssimas vezes estas afirmações. Sei   obviamente   que   são   proferidas   por   pessoas   não   muito   ricas   em preocupações humanitárias e não muito ricas, culturalmente falando. Sei, de igual modo, que não temos necessariamente de deixarmo-nos abalar em demasia   nas nossas   emoções,   mas   deveríamos   lembrar   que   aquelas pessoas, vitimizadas por essas tragédias, por elas, nada mais se pode fazer.   E   também   que   essas   pessoas   têm   familiares   que   certamente gostavam muito delas, e após esses acidentes, com as perdas, ficam em grande desespero e sofrimento

 

O guarda Pedro imaginou que poderia perfeitamente ser seu pai, que estivesse no desespero de nada saber do estado de um filho. Ao entender a mensagem que eu quis passar, disse meio intimidado:

 

— Sim, vamos lá dar a notícia que o filho dele já apareceu e está bem. Vamos, mas tem de ser rápido! Ah, só lhe peço que não diga nada ao delegado nem ao sargento, que visitou o prisioneiro! E, antes que me esqueça, temos de avisá-lo para ele também não dizer!

 

Como fiquei contente ao ouvir aquela autorização, pois, finalmente, o coração do senhor José ia aquietar-se.

 

—   Sim,   senhor   guarda   Pedro,   eles   nunca   saberão,   obrigado,   muito obrigado!

 

Preparei-me para entrar no interior da cadeia onde iria encontrar um prisioneiro que, na minha óptica, era simplesmente uma vítima, forjada por alguns seres de índole mais do que duvidosa. Enquanto tudo fiz para convencer o profissional de polícia, mantive-me sempre perto da porta. Ao ouvir que sim, que poderia finalmente visitar o senhor José, abandonei o local de permanência e dei alguns passos em direcção ao corredor que me conduziria à cela. Numa entrada abrupta, subitamente, entrou um sujeito de bengala na mão, vestido de fato e gravata, o primeiro cinzento e a gravata preta, e na cabeça um chapéu da mesma cor do fato. Com voz de tom   muito   elevado,   arrogante,   autoritária,   para   simplificar,   um   ser detentor de uma malcriadez sem igual, gritou:

 

— Quem é você e o que faz aqui?

 

Deduzi no imediato que seria o tal autoritário sargento e tudo fiz para não comprometer o guarda Pedro.

 

— O senhor está a falar comigo? — perguntei eu, de voz serena e tentando ser o mais educado possível.

 

— O senhor? Senhor sargento, eu exijo! — retorquiu.

 

— Desculpe, já me apercebi que sim, que está a falar comigo! —   retorqui e continuei a tentar dar algumas, ainda que desnecessárias, explicações.

 

— Bem, vou dizer-lhe o que realmente cá estou a fazer! Estou a tentar entrar à força no interior desta cadeia para falar com o senhor José Ramos Araújo, mas aqui o senhor guarda impede a todo o custo a minha entrada, malvado seja ele!

 

O guarda Pedro, sentindo que eu tudo fizera para o ilibar de qualquer culpa, mostrou um rasgado sorriso em minha direcção e piscou um dos olhos como a querer agradecer a forma com que eu o expulsei do assunto.

E então, falou desta maneira ao sargento:

 

—   Sim,   senhor   sargento,   este   homem   atrevido   queria   falar   com   o prisioneiro, mas eu não o deixei!

 

— E fez você muito bem, aliás, não fez mais do que a sua obrigação! Quero aqui deixar bem claro que as minhas ordens são para ser cumpridas!

 

— Senhor sargento, bem sabe que é isso que eu sempre tenho feito!

 

Falava assim o guarda na tentativa de dar mostras de grande obediência. Ao adoptar aquela postura de submissão, a primeira impressão que nos surge a olhos vistos, é que se trata de um covarde. Atendendo à figura em causa, que criou hábitos de autoridade e em relação a todos a exercia, o nosso guarda prisional não, não era de todo um covarde, era um homem que preservava a sua profissão.

 

Deixei o guarda explicar-se e só depois continuei com a minha infrutífera lenga-lenga.

 

— Sim, eu estou aqui porque quero e acho ter o direito de falar com o senhor que se encontra detido.

 

— Fique certo de uma coisa, nem você nem ninguém vai ver esse assassino!

 

Eu não tinha a mínima vontade de atender a todas aquelas ridículas vontades de um ser que, quanto a mim, não merece o mínimo respeito, e enfrentei-o:

 

— O senhor diz que nem eu nem ninguém vai ver o prisioneiro, e eu pergunto porquê?

 

— Você ouve mal? Eu já lhe disse, senhor não, senhor sargento, entendeu agora?

 

Não me sentia com disposição para aturar mais aquilo e questionei-o:

 

— Por que é que o tenho de tratar por sargento?

 

— Porque eu quero, posso e mando! Você só tem mais é que obedecer!

 

— O senhor já…

 

— Senhor sargento, já disse!

 

Interrompeu-me o tal… sargento… continuei sempre sem o tratar pelo posto patenteado que não possuía.

 

— Só o tratarei por sargento se o senhor estiver fardado!

 

Julgo não existir no mundo pessoa que se sentisse tão ofendida.

 

— Você não está a respeitar a minha autoridade de sargento! Vou metê-lo na cadeia com o outro assassino!

 

— Como eu ia a perguntar ao senhor há dois minutos atrás, certamente que

o senhor já assistiu a um julgamento no tribunal, verdade? Já deve ter visto que o meritíssimo juiz usa uma capa que tem o nome de toga, que usa enquanto está em funções. O que eu lhe quero dizer…

 

— Você não quer dizer mais nada! Eu não estou disposto a ouvir mais nada!

 

— Seja bem-educado, se faz um pequeno favor, e deixe-me acabar…

 

O sargento sem patente tinha razões para não me deixar continuar, andava em círculos à minha volta naquela exígua sala de entrada.

 

— Como eu lhe queria dizer, quanto a mim o juiz só merece respeito como tal, enquanto está no tribunal vestido com a toga! O mesmo se passa consigo, eu só o tratarei por senhor sargento quando o vir vestido com uma farda, enquanto o não fizer, para mim, você é um simples cidadão ao qual eu não respeito como sargento!

 

Sabia bem que, quando acabasse aquelas observações, desautorizando-o perante o guarda prisional, a atitude dele seria agressiva e preparei-me para tudo, observando o mais pequeno movimento que ele fazia. Quando lhe disse que não o reconhecia como sargento, com grande rapidez ele levantou a bengala com intenções mais do que visíveis de me desferir uma bengalada. Fui mais rápido do que ele, apoiei-me bem em ambos os pés, dei meia volta no ar e num ímpeto tirei a bengala da sua mão e atirei-a pela porta fora. Embora eu ache ser homem capaz de lutar taco-a-taco com aquele indivíduo, não compreendi como ele se deixou levar daquela maneira   sem   reagir.   Certamente   que   ele,   habituado   a   dar   leis,   e provavelmente desferir por aí bengaladas nas pessoas e outras coisas mais, sem ter qualquer tipo de reacção de defesa por parte das agredidas, não esperaria que eu, um homem que ele talvez nunca havia visto, reagiria assim, ficando portanto, muito mais enfurecido.

 

— Guarda, vá imediatamente buscar a minha bengala! Rápido!

 

O   guarda   Pedro,   sem   achar   local   para   se   esconder,   respondeu tremulamente:

 

— Sim, senhor sargento… — e foi porta fora buscar a bengala. Adverti o maldito:

— Ele já foi buscar a bengala, aviso-o desde já, nunca mais tenha o atrevimento de levantar a bengala para mim! Caso contrário, tiro-lhe da mão novamente, e dessa vez não a jogo pela porta fora, antes dou-lhe com ela na cabeça!

 

Continuava a andar em círculos, mas desta feita não ao meu redor, pois tinha-me empurrado contra a parede. Eu não reagi, fiquei na expectativa de ver as suas reacções. Bem rápido, como o malvado lhe ordenara, o guarda em poucos segundos pôs-lhe a bengala na mão. Olhou para mim com maldade e voltou a preparar outra bengalada. Eu adoptei uma posição defensiva, fiz um gesto com a mão direita a informá-lo que lha tirava novamente das mãos e lhe daria com ela na cabeça. Fiz questão de lhe dizer em voz alta:

 

— Não se atreva! Eu não brinco, seja inteligente e sinta isso!

 

— Eu não preciso da bengala para nada! Vou dar-lhe o tratamento que você merece, seu estúpido! — dizia isto enquanto tirou a arma da cintura.

 

— Vou dar-lhe um tiro, assim vai ficar a saber com quem se meteu, imbecil, estúpido e burro que brinca com a própria vida!

 

— Então é assim que o senhor mostra que é o sargento? Só recorre à força das armas para mostrar autoridade! Porque não luta de igual para igual, sem armas?

 

Eu confrontei-o, mas devo confessar que senti um friozinho na espinha ao ver aquela pistola apontada na direcção da minha cabeça cabeluda!

 

Ele, ao ser questionado e confrontado com todas aquelas perguntas e afirmações de actos de covardia por sua parte, guardou a arma.

 

— Eu não vou usar arma desta vez! Até que, se a usasse, você nunca iria saber com quem se meteu! Eu vou fazer a sua vida daqui para a frente um verdadeiro inferno!

 

Eu ripostei:

 

— Bem, sem arma está bem melhor! Aliás, quem usa arma para mostrar que tem autoridade não passa de um reles covarde!

 

— Você, maldito, está a brincar com o fogo! Ainda me arrependo e ainda lhe dou um tiro! Guarda… — berrou com voz ensurdecedora, — …guarda, prenda esse homem! Ele faltou-me ao respeito, faltou mostrar obediência e disse que eu, um homem honrado, um homem justo e digno, era um covarde! Guarda Pedro, você acha que eu sou um covarde? Eu que o deixo ser guarda, eu que defendo os interesses de todas as pessoas! Acha que sou covarde, guarda Pedro?

 

Coitado do guarda, que teria que dizer que não, que o sargento não era um covarde, isso eu sei que ele teria obrigatoriamente que dizer. Falta agora saber se sim, ou não, se achava o sargento um covarde.

 

— Claro que não, senhor sargento, o senhor não é um covarde!

 

— Pois claro Pedro, eu não sou covarde, mas também sei que você, Pedro, não tem cacifo suficiente para dizer o contrário se achasse que eu era covarde! Meta esse homem na jaula com o outro maldito!

 

Eu tentei usar de todos os argumentos que ele não tinha autoridade para me mandar prender.

 

— Você, que diz que é sargento, eu vou chamar-lhe sargento pela primeira vez! Você, senhor sargento, não pode mandar prender ninguém! Não tem autoridade para isso! É claro que eu disse senhor sargento, mas ainda não acabei! Você é um reles sargento sem farda!

 

O homem malvado, que de contentamento quase saltava quando eu lhe chamei sargento, ficou agora mais enfurecido do que nunca quando eu lhe chamei sargento sem farda.

 

— Cadeia com ele, Pedro! Imediatamente, sem demoras! Já, guarda Pedro, sem demoras!

 

O guarda Pedro, na situação em que se encontrava, nada mais poderia fazer do que obedecer. E foi exactamente isso que fez, agarrando em mim, e conduzindo-me até ao interior da cela. Não resisti, nada fiz para me opôr ao guarda, pois sabia que ele estava a cumprir ordens. Falando- me baixinho ao ouvido para que o autoritário não ouvisse, confessou:

 

— Desculpe, não posso fazer nada para contrariar o sargento mas prometo que os vou tratar bem!

 

Entrei no interior da cela. Não se poderia dizer que aquela cela era um poço de higiene, mas oferecia os requisitos mínimos aceitáveis para uma cela prisional.

 

O guarda trancou a porta da cela e, a mando do malvado e desfardado sargento, saiu para a sala de entrada. O malvado homem, ostentando uma autoridade que na realidade não possuía, abeirou-se do gradeamento celular e rosnou:

 

— E agora que   tal?   Sou   ou   não sou   sargento?   Tenho ou   não tenho autoridade para o mandar prender?

 

— Claro que não tem autoridade nenhuma! Eu quero ver só quem vai assinar a minha detenção, vai ser você?

 

— Claro que não preciso assinar coisíssima nenhuma! Já mandei prender muita gente e nunca precisei assinar nenhum papel!

 

— Eu garanto-lhe que não vai assinar nenhum papel, porque você sargento sem farda, não tem autoridade para tal! Ainda hoje mesmo saio daqui, o mais tardar amanhã, e agora desapareça que eu quero saudar aqui o meu amigo!

 

Voltei as costas ao homem e abraçamo-nos amistosamente, eu e o pai do Lipe. Poucas foram as vezes mas já havíamos conversado. O energúmeno sargento, enraivecido por lhe voltarmos as costas, vendo que eu não lhe dedicava qualquer obediência, voltou-se desta feita para o senhor Araújo:

 

— Você aí, seu assassino, não me volte as costas, pare já com esse ridículo abraço!

 

Disse eu ao senhor Araújo, baixinho, para o maldito não ouvir:

 

— Vamos demorar mais um pouco, para o desautorizarmos, mas peço-lhe não roa muito a corda com ele, consigo, quero crer que será mais carrasco!

 

Aconselhei deste modo o pai do Lipe, pois sentia uma maior preocupação por ele do que por mim mesmo. Terminamos o nosso abraço, e dirigi novamente a palavra para o falso sargento:

 

— Porque maltratou assim este senhor honrado? A sua quezília é comigo e não com ele!

 

— Que raio está para aí a falar, a minha quê?

 

— Ouça lá, senhor não sei o quê, para quem tem manias de sargento, o senhor é muito mal instruído! A sua rixa, quis eu dizer, é comigo e não com ele, por isso, não o maltrate!

 

— Eu tenho rixas com todos aqueles que não me obedecem e com todos aqueles que andam por aí a empurrar crianças para as matar. Por isso, vocês os dois estão nesse lugar por merecimento!

 

Eu estava convicto que estaria naquela situação de prisioneiro durante pouco tempo e joguei com os meus trunfos.

 

— Exijo falar com o senhor delegado. Somente ele me pode mandar prender temporariamente; para eu permanecer aqui muito tempo tem de ser o juiz a assinar a minha detenção!

 

— O delegado faz tudo que eu mando — respondeu o dito. Reforcei eu:

— Ele, o senhor delegado, pode até fazer tudo o que você manda, mas sem justa causa não me terá aqui dentro por muito tempo! Ah… — continuei eu lembrando-me de um pormenor muito importante, — sabe, sargento, usurpador de autoridade, se não existir nenhum documento assinado pelo juiz a confirmar a detenção aqui do senhor José, garanto que amanhã nós os dois vamos para casa!

 

O   sargento   soltou   uma   enorme   gargalhada,   que   deixou   esmorecer   e exclamou:

 

— Isso é que era doce! É que nem vai ele, esse assassino, nem você, maldito!

 

— Responda-me. Existe algum documento assinado pelo senhor juiz?

 

— Ora isso não faz falta, nunca fez, ia fazer agora. Porquê?

 

Fiquei naquele momento com certeza absoluta que a prisão do senhor José era ilegal e então gritei bem alto para o guarda:

 

— Senhor guarda Pedro! Senhor guarda Pedro! Quero que vá avisar o delegado   que   me   encontro   detido   nesta   delegacia   a   mando   deste ordinário!

 

Ainda   não   tinha   acabado   de   prenunciar   esta   frase,   já   o   guarda   se encontrava encostado às grades.

 

— Sim, senhor Paulo, vou avisar o senhor delegado!

 

— Você não vai a lugar nenhum, ordeno-lhe! — deu mais uma de suas leis o maldito sargento ao guarda, à qual este respondeu:

 

— Claro que não vou, senhor sargento, além disso o senhor delegado hoje não está na cidade; penso que vem amanhã!

 

Fiquei até contente, sabia que pernoitaria na cela a fazer companhia ao pai do Lipe e tratei de dar a notícia pela qual lá fui.

 

— Senhor José, vou pernoitar esta noite consigo; podemos conversar sobre seu filho e sua esposa.

 

— Meu Lipe!.. Como está meu Lipe?

 

— Ele está a restabelecer-se numa tribo, mas está bem de saúde.

 

— Graças ao meu bom Deus e a nossa Senhora da Aparecida.

 

Revelou um fraco acontecimento o maldito sargento, que no imediato, tratou de tirar o doce da boca do senhor José:

 

— Sabe maldito assassino, pode ficar contente pelo seu filho! Ele está bem. Bom para ele. Não tenho nada contra o miúdo! Ele está bem, eu também estou bem como ele, como ele não! Eu estou bem melhor, ele está doente e eu cheio de vigor! Sabe — continuou ele bem seguro de si, — já me esquecia; eu não sabia que este fora-da-lei estava cá para o tentar visitar, por isso quero dizer uma coisa. Eu vinha cá para lhe dizer que a sua esposa… (quando pronunciou a palavra esposa, o Pai do Lipe agarrou-se ao gradeamento. Penso que suspeitou logo do que se tratava), — como eu ia a dizer… — continuou o sargento, — a sua esposa é boa como o milho! Eu já provei e posso dizer isso! Sou um homem de uma palavra só, nunca falho as   minhas   promessas!   Foi   hoje   lá   no   riacho.   Que   coisa   boa!   Fiquei consolado e ela também!

 

O pai do Lipe ficou desesperado e, como se pode imaginar, revoltado e, cuspindo na cara do agora violador, insultou-o:

 

— Nojento, porco estúpido, cabrão, um dia vou-me tornar num assassino de verdade mas vai ser para o matar, ordinário!

 

O sargento que tudo faz para humilhar, mas que simultaneamente tudo faz para não ser humilhado, sentiu-se ultrajado na sua inexistente dignidade, levantou imediatamente a sua bengala para desferir uma bengalada no senhor Araújo. Com toda a pressa, e lá diz o ditado popular «a pressa é inimiga da perfeição», não se apercebeu que entre nós os três existiam umas grades. A primeira pancada, em vez de seguir as intenções do agressor, isto é, de acertar na cabeça de quem há instantes lhe cuspira, acertou num dos ferros do gradeamento. Desta vez, a sorte que para aquele homem se havia tornado madrasta, tinha-se tornado, por acto de magia, ou por acto de má pontaria por parte do sargento, em mãe protectora. A segunda, essa já foi certeira, a bengala passou por entre os ferros. Mas como a primeira errou o alvo tivemos tempo suficiente para nos pormos alerta. A bengala desta vez introduziu-se no interior da cela a grande velocidade sem nos acertar. Atentos que estávamos quando a bengala passou por entre os ferros, eu agarrei-a e puxei com toda a força. Seu gancho, que era segurado pela mão malvada do malvado, ficou presa num dos ferros. Para grande júbilo nosso, entre os ferros do gradeamento

e o gancho da bengala, tinham ficado entalados dois dedos, o indicador e o grande. O senhor José, ouvindo os gritos do sargento, causados pelas dores, puxou juntamente comigo com toda a sua força e raiva. Felizmente para o mau da fita, que os seus dedos se encontravam na posição vertical e desprenderam-se   daquela   junção     de    massas,  caso contrário as consequências para aquele homem rude e agressivo seriam bem mais nefastas.

 

— Guarda Pedro, abra já imediatamente a cela! Vou ajustar contas com estes dois!

 

Rosnava em elevada voz a mão ferida, ao qual o guarda alertou:

 

— Senhor sargento, ainda que mal lhe possa dizer! Já viu como eles os dois estão zangados? Desculpe dizer, mas o senhor ainda que seja com a minha ajuda não os vai conseguir dobrar! Já imaginou? A não ser que o senhor sargento use a arma, mas eu acho que não é uma boa ideia!

 

— Tem razão, guarda Pedro! — concordou o sargento, para de seguida recomendar, — desta vez tem razão! Mas que seja a ultima vez que me dá ideias e conselhos, ouviu bem? Vá lá que desta vez está certo, não quero usar a pistola. No fundo, nós os quatro bem sabemos que eu não ia precisar da pistola, sou homem para lutar com estes dois, e se preciso fosse com outros dois!

 

Paleio de gabarolas para se colocar numa posição que sabia perfeitamente que não alcançava. Voltou-se para o guarda e perguntou para elevar sua auto-estima:

 

— Guarda, você também acha que eu sou homem para lutar com estes dois, sim ou não?

 

— Claro que sim, senhor sargento, eles não conhecem a sua valentia!...

 

Ficamos de risos rasgados mas tentamos ocultá-los para não provocar mais a fera, já eram bem suficientes as cenas ridículas encenadas pelo mauzão. Encostado ao gradeamento pediu-nos a bengala que se encontrava na nossa posse, claro que não lha entregámos; só o fizemos no dia seguinte. Então recomendou ao guarda:

 

— Amanhã venho cá bem cedo, até lá nada de deixar fugir estes dois gatunos. Entendido?

 

— Certo, senhor sargento — respondeu o guarda, enquanto que o mauzão se dirigia para a saída.

 

—   O   maldito   cumpriu   a   promessa   que   fez   no   dia   em   que   eu   fui encarcerado; fez mal à minha Clotilde. — lamentava-se o desesperado homem, enquanto que o guarda acompanhou o manda-chuva.

 

Tentei, num esforço em vão, visto que era inexistente qualquer conforto para toda aquela situação.

 

— Ora, amigo José, esse sargento é um pretensioso, acredito que ele inventou tudo aquilo para o humilhar e mal tratar.

 

— Quem me dera que isso fosse verdade…

 

No mesmo instante em que eu tudo fazia para o consolar, mas nada sabia como o fazer, abeirou-se da cela o guarda. O homem pouco ou nada poderia fazer para nos tirar daquela situação, contudo, estava apiedado por nós, era um amigo.

 

— Desculpe, senhor Paulo, desculpe, senhor José, mas eu nada posso contra aquele homem, tenho de cumprir ordens. Bem que eu queria ajudar!

 

— Obrigado! — agradeci eu para continuar:

 

— O senhor guarda Pedro tudo fez e nós nada esquecemos. Estamos famintos, pelo menos eu estou.

 

— Estamos sim — juntou o senhor José a sua fome à minha vontade de comer…

 

Repetiu o guarda:

 

— Estamos sim, eu também tenho fome, mas aqui existe pouca coisa que se coma e essa pouca coisa não é muito boa!

 

Eu, desde uns anos a esta parte, tornara-me-me um eremita, vivendo desprendido de todos os bens não essenciais. Portanto, dinheiro não uso, tudo o que possuo é quase nada. É tudo através de trocas comerciais, ocorreu-me uma ideia…

 

— Senhor guarda, o senhor tem dinheiro consigo? — perguntei acreditando que iria ouvir um arredondado não.

 

— Não tenho muito, senhor Paulo, mas porque pergunta?

 

— Caso o Senhor tenha e nos possa emprestar, podemos mandar alguém comprar frutas, uns nacos de carne, feijão e mandioca e fazermos um belo jantar. Que me diz?

 

Respondeu ele:

 

— Eu tenho mas… — ficou cabisbaixo, cheio de incertezas. Claro que eu tentei remendar a questão.

— Fique descansado, eu dinheiro não tenho mas posso pescar para o senhor, posso caçar, e se o senhor Pedro quiser, posso trocar todas essas coisas   por   outros   bens   na   Chalana,   e   entregar-lhe   como   forma   de pagamento!

 

— Desculpe, senhor Paulo, mas a coisa assim funciona de outra maneira; eu aceito.

 

— Grande homem. Confia em mim, tem alguma ideia como buscar os alimentos?

 

O guarda que já me tinha dado mostras de bondoso, deu-me naquela altura mostras de ser também inteligente.

 

— Eu sei bem o que fazer para que a comida chegue a nós! Vou escrever um bilhete a pedir a comida, e mais, vou escrever a sugerir a ementa.

 

Deixe isso comigo. No máximo dentro de uma a duas horas temos aqui a comidinha a fumegar.

 

Ficamos a olhar um para o outro, eu e o Pai do Lipe, com perguntas não respondidas nas nossas cabeças. Certamente que aquele caso não era caso inédito naquele local de enclausurados.

 

Estando eu e o amigo José fechados, não vimos como ele fez para enviar o recado a pedir a comida. Disse-nos, durante a nossa refeição, que enviou um bilhete a um seu primo em terceiro grau, para este levar o pedido ao seu tio possuidor de um pequeno restaurante. Por pura precaução, o seu tio transportara a comida para a cadeia dentro de um grande balde. Davam vida a estas artimanhas, não fosse uma surpresa desagradável ocorrer por ali. Caso esta se efectivasse, o senhor do restaurante podia usar a mais fiel das desculpas, dizia ao sargento ou ao delegado que aquele balde continha restos de comida para os suínos. Comemos os três dentro da cela de porta escancarada. Tanto eu como o Pai do Lipe não iríamos comprometer o guarda com a desejada fuga. O guarda tinha uma enorme estima pelo seu tio, este havia-se tornado há uns anos a esta parte num fiel   escudeiro.   Permaneci   sempre   à   porta   a   vigiar   algum   iminente surgimento indesejado. Falei ao amigo José como estavam as coisas na sua fazenda e principalmente do Lipe, assim como os percalços que passei no seu encalço. Por fim, dormimos um repousante sono dos justos. Ao raiar da aurora sentíamo-nos ansiosos pela chegada do delegado e do ser mauzão.

 

De manhãzinha, acompanhado por outro guarda, chegou o delegado. Um homem alto e de largos ombros, um homem fortíssimo, a não ser que a ilusão óptica da sua estatura nos enganasse. O outro guarda era possuidor de um corpo semelhante ao guarda Pedro, embora este me parecesse com menos personalidade; a primeira impressão que tivemos foi de que ele se havia tornado a sombra da submissão.

 

— Guarda Pedro, quem é este novo prisioneiro que cá temos? — interrogou o delegado.

 

O Pedro começou a sua resposta mas eu interrompi:

 

— Senhor delegado Matias… bom dia, senhor delegado Matias!

 

— Bom dia para si também! Que faz o senhor aqui preso na minha delegacia?

 

— Foi um tal de sargento! Eu passo-lhe a contar todo o sucedido.

 

— Não precisa, se foi o senhor sargento quem o mandou prender, está correcto, deixe-se aí estar que está bem!

 

Bem, ao ouvir aqueles disparates todos, pensei:

 

— Com este tenho os meus ovos todos quebrados!

 

— Senhor delegado, como eu ia a dizer, eu sou amigo aqui do senhor José e do seu filho. Ontem vim cá no intuito de dar notícias a este senhor sobre o estado do seu menino, que se encontra doente. Quando estava a tentar falar com ele, chegou um tal de sargento, e exigiu que eu o tratasse por senhor sargento. Ora, eu sei que vocês todos obedecem aos seus mandas e desmandas, mas eu não sou obrigado a ser conivente com isso. O que se passou é que eu lhe disse que ele não tem autoridade para exigir de mim que eu o trate por sargento. Todavia ele insistia no assunto, que eu teria de o tratar com todo o respeito que uma autoridade merece, mas por mim ele não teve o mínimo respeito. Visto que eu não me submeti às suas ordens mandou o guarda prender-me.

 

Atento a tudo o que eu disse, o delegado ouvia e com a mão mandava seguir em frente com a minha explicação. Resolvi então ir ao cerne da questão:

 

— Senhor delegado, posso fazer-lhe umas pequenas perguntas?

 

— Sim claro, mas a mim tem de respeitar!

 

—   Sem   dúvida,   senhor   delegado!   O   senhor   delegado   tem   toda   a legitimidade para exigir isso, e eu tudo farei para o respeitar! Mas, por favor, responda: Por que é que você lhe atribui tanta submissão? Por que é que ele se diz ser a autoridade máxima por estas bandas?

 

Resposta do delegado, que lá no seu íntimo não sabia que resposta dar.

 

— Foi ele quem me colocou à frente desta delegacia; é a ele que eu devo tudo o que sou! E além disso todas as pessoas o respeitam como tal; quem sou eu para contrariar essa linha!?

 

— O senhor é a única pessoa por estas bandas, como o senhor mesmo diz, que tem obrigatoriamente que ser imune à vontade desse homem!

 

— Sim, você disse aí algumas coisas que eu não entendi lá muito bem, mas antes de eu para cá vir o outro delegado também lhe obedecia!

 

— Quer dizer que o seu antecessor agia em conformidade com toda esta situação?

 

— Sim, era como eu!

 

— Certo, senhor delegado, mas bem lá no fundo o senhor delegado deve saber que esse tal sargento sem farda, é um usurpador da lei; ele é a única pessoa fora da lei por estas bandas!

 

Eu, que já me sentia há muito tempo dentro daquela cela, expus os meus direitos:

 

— Esse tal sargento colocou-me aqui dentro sem justa causa, senhor delegado, por favor mande abrir esta cela, quero sair!

 

Bem coçava na cabeça o delegado e continuou:

 

—Como eu dizia, eu acho que o senhor sargento não vai gostar!

 

— Desculpe, senhor delegado, ainda que mal lhe pergunte! O senhor tem honra na sua profissão?

 

— Sim, e muita.

 

— Vai-me desculpar, mas eu acho que não está a honrar a farda que veste!

O senhor tem obrigatoriamente que se opor aos caprichos de mandão desse homem!

 

— Mas eu não tenho como.

 

— Tem sim, mas agora por favor mande abrir a cela para eu sair! Aliás, digo-lhe ainda mais: presumo bem que o senhor vai ter, de igual modo, de abrir a cela aqui para este meu amigo José!

 

A reacção do senhor José foi temer que eu assinasse por ele próprio a sua prisão perpétua; encostou-se a uma das paredes da exígua cela de mãos na cabeça. O delegado estremeceu e afirmou de seguida:

 

— A si quem sabe eu o deixe sair, mas ao seu amigo nunca!

 

— Sim, por favor, deixe-me sair a mim, o resto veremos já a seguir.

 

— Isidoro, vá buscar as chaves e abra a cela! Você, Pedro, vá chamar o senhor sargento.

 

Saí da cela deixando o amigo José sozinho no seu interior, já sentado, não antes de sossegar o meu amigo, falei dos meus conhecimentos legais.

 

— Senhor delegado, eu neste momento não estou a exercer, mas sou professor. Na minha época académica estudei direito, portanto tenho alguns conhecimentos de leis.

 

Nesta minha revelação o delegado ficou sem reacção e sem nada que dizer.

 

— Não sou um grande conhecedor mas sei que tudo que nesta delegacia se passa são autênticas ilegalidades. Sei perfeitamente que a minha detenção nunca poderia ter acontecido! Aliás, eu só me deixei deter porque deste modo pude conversar calmamente com o meu amigo!

 

— O senhor está completamente errado — afirmou o delegado continuando — se o senhor sargento mandou você tinha mais era que ser preso!

 

—   Desculpe,   por   acaso   o   sargento   tem   poder   para   assinar   a   minha detenção?

 

— Isso já não sei.

 

— Pois claro que não! Responda a uma última questão. A detenção do meu amigo José foi assinada por algum senhor juíz aqui da comarca?

 

— A isso não lhe posso responder, mas penso que não há nenhum papel assinado!

 

— Maravilha, óptimo, o meu amigo está aqui detido ilegalmente! Vamos esperar o tal sargento e posso-lhe desde já assegurar que provavelmente terão que soltar hoje mesmo este senhor.

 

— Isso é que era bom! — respondeu o delegado, embora fosse notório algum grau de insegurança, mas lá continuou, — Dê-se por feliz por você estar livre, mas mesmo assim não esteja muito seguro disso, quando chegar o senhor sargento é que vou decidir!

 

— Não leve isto que lhe vou dizer como uma ofensa, senhor delegado!

Honre a farda que traz vestida e decida o senhor delegado sozinho. Dê deste modo ênfase à sua autoridade! Eu explico, dê credibilidade à autoridade que lhe pertence a si, somente a si, não ao tal sargento.

 

— Eu lá no fundo sei que o senhor está correcto, mas eu não tenho forças.

 

— Certo, senhor delegado, ainda está bem a tempo de mudar esta situação. Peço-lhe só um pequeno favor. Quando o sargento chegar, caso ele não me respeite, eu o tratarei da mesma maneira. O favor que lhe peço   é   tão-somente   que   o   senhor   delegado   não interfira,   pode   até continuar a ser parcial mas de uma forma sublime, que nos deixe a sós com a nossa pendência.

 

— Sim, vou atender o seu pedido mas, por favor, não me comprometa muito.

 

— Obrigado, senhor delegado.

 

Ficamos a conversar alguns longos minutos. Entretanto, tive a ousadia de pedir ao delegado, para conversarmos perto da cela para assim fazermos companhia ao pai do Lipe.

 

Enquanto conversávamos os três, o prisioneiro Araújo dava mil e umas explicações para provar que nada fez contra a tua amiga Clara.

 

Dizia isto e olhava para o Lipe:

 

— Eu tive a mais pura certeza que de nada adiantaria; para o delegado ele era o único culpado

 

(A um verdadeiro amigo nunca dês explicações, serão desnecessárias, ele acreditará sempre em ti… a um dos teus inimigos, poderás dar mil, em ti ele nunca acreditará).

 

O Lipe assentiu e ele continuou.

 

Finalmente chegou o malvado sargento, sempre a rosnar como se fosse o único dono do mundo:

 

 

— Bom dia só para si, delegado. Quem autorizou esse maldito a sair da cela? Prendam outra vez esse maldito! Guarda, abra já a cela para meter esse maldito lá dentro.

 

Eu tinha certeza de que desta vez tudo seria diferente.

 

— Bom dia, senhor fazendeiro, seja bem-educado. Que tal vai essa mão?

 

— Maldito, estou para aqui cheio de dores.

 

— Maravilha, como se apercebeu, nunca mais na sua vida me agrida, terá o troco.

 

— Delegado, eu já perguntei. Quem soltou esse homem?

 

— Senhor sargento, esse homem conhece as leis, sabe que o senhor sargento não o pode mandar prender — respondeu o delegado (penso que nem ele próprio soube onde encontrou coragem para tal).

 

— Maldito delegado, quem mandou você deixar esse homem sair da cela?

 

— Senhor sargento, não me maltrate, peço-lhe, mas esse homem sabe das leis.

 

— A lei aqui sou eu. Você, delegado, não está farto de saber?

 

— Sim, eu sei, mas, senhor sargento, eu...

 

— Você, delegado, é um molengão, tem mais é que seguir as minhas ordens!

 

Ora, para mim, aquela foi de mais.

 

— Ora agora é a minha vez de falar. A única pessoa que aqui tem legitimidade   para   dar   leis   é   o   senhor   delegado!   Portanto,   senhor fazendeiro,   senhor   sargento,   já   o   informei   ontem.   Sabe,   senhor fazendeiro, acho que terei de consultar um otorrinolaringologista, existem palavras que eu não ouço bem.

 

— Maldito, está a tentar me dar gozo, metam este tipo na cela; guarda.

 

— Senhor guarda desta vez não obedeça. Eu não irei. Como lhe disse — apontei com a mão para o sargento sem nunca o tratar por esse tão desejado trato por parte dele que na sua mente o levaria ao expoente máximo da sua alegria, — como lhe disse, a mando do senhor eu não irei mais para aquela cela! O senhor não tem poder absolutamente nenhum para prender quem quer que seja. Eu já fiz ver ao nosso digníssimo delegado que, para alguém ser preso, tem que haver uma ordem de prisão assinada pelo juíz. Ainda lhe digo mais, a mim o senhor nunca mais na vida me manda   prender sem justa causa. Conheço bastante gente influente e sei que você é o único fora da lei existente nesta delegacia.

 

— Delegado, quantas vezes já o mandei, desde que aqui cheguei? Acho que quem vai ter de ir ao tal otorrino, não sei das quantas vai ter mesmo de ser você. Prendam-no, rápido!

 

Diz-lhe o delegado na tentativa de lhe explicar:

 

— Senhor sargento, não me mande ao tal médico que os médicos estão pela hora da morte. E, além disso, eu ouço bem, graças ao meu bom Deus! Se ainda o não prendi, claro que estou a falar aqui deste homem, é porque sei que ele tem razão.

 

— Maldito delegado, está a dar razão a este sujeito?

 

— Estou a tentar dizer ao senhor sargento que não o podemos prender; ele nada fez para ser preso por justa causa.

 

— Ora qual justa causa qual quê? A justa causa é que sou eu a mandar e chega.

 

— Mas, senhor sargento, este sujeito estudou para ser advogado, conhece bem as leis.

 

Falando em tom menor, ao ouvido do sargento, mas de modo a que que eu entendesse, disse:

 

— Senhor sargento, este não é como as outras pessoas cá da cidade que nada sabem de leis.

 

Eu, seguindo a deixa do delegado, ao qual disse que eu havia estudado para advogado, juntei mais conhecimento ao meu conhecimento de direito

e aleguei:

 

— Sim, senhor delegado, a quem eu reconheço como autoridade máxima aqui nesta delegacia, eu conheço todas as leis e por isso exijo que libertem o senhor José.

 

Se um olhar forte e feroz tivesse poderes para matar, quando eu me referi como autoridade máxima ao delegado, com os olhos da mão ligada cairia estatelado e gelado no chão.

 

— Ah, ah, isso é que era bom! — resmungou o sargento dando gargalhadas e continuando, — Daqui ninguém sai, nem você. Aliás, você vai fazer companhia outra vez ao assassino!

 

— Bem, de um simples fazendeiro, não se poderia esperar outra coisa a não ser burrice; eu já lhe expliquei que você não tem autoridade para dar leis. Bolas, seja chato assim lá na sua fazenda…

 

— Você, maldito, perdeu o respeito por mim, isso basta para ir para o xelindró e vai ser isso que será feito.

 

— Senhor delegado, recuso-me a dialogar mais com este fulano; agora é consigo. Por acaso existe ordem de prisão escrita por mão do meritíssimo juíz desta comarca?

 

— Bem senhor, como se chama mesmo o senhor?

 

— Paulo — informou no imediato o guarda Pedro.

 

— Muito bem, senhor Paulo. Bem, eu não tenho conhecimento de tal documento, mas acho que aqui o senhor sargento, penso que ele deva saber!

 

Apanhado de surpresa, o sargento desfardado ficou, como habitualmente se diz, de calças na mão…

 

— Ora, digo eu que sou o sargento, não há nem tem de haver qualquer documento.

 

— O senhor disse uma coisa que muito me alegrou: não há qualquer documento assinado para que o senhor José Ramos Araújo permaneça preso. Portanto, exijo que ele seja solto de imediato.

 

O malvado relinchava por todos os lados:

 

— Não e não, ele não sai desta prisão!

 

Voltei-me para o delegado:

 

— Senhor delegado, autoridade máxima, quero ver o documento assinado que efectiva a prisão do meu amigo.

 

— Começo a dar razão a si mesmo, o senhor Paulo deve ouvir mal, não existe nenhum documento. Eles poderiam até impedir que o pai do Lipe fosse solto, mas seria outra ilegalidade.

 

— Bem, sendo assim não lhes resta outra alternativa a não ser libertarem o meu amigo! E tem de ser agora, caso contrário alerto o governador.

 

Se dia existiu em que o mau da fita estivesse inseguro aquele era um deles.   O   homem   ficou   sem   reacção   alguma,   sem   nada   saber   como responder e agir.

 

— Ponha-se daqui para fora — rosnou o sargento.

 

Ao ouvir aquela ordem infundada, encaminhei-me para perto do meu amigo.

 

— Você, maldito, ouve mesmo mal, ponha-se para fora.

 

— Senhor fazendeiro, por favor modere o tom de voz; se o senhor quer dar leis vá mandar para a sua casa, ouviu bem?

 

Veio a correr tentar impedir a minha ida para a cela; adverti-o mais uma vez:

 

— Não tenha o atrevimento de cruzar o meu caminho; não me toque pois sabe bem que lhe perco o respeito, aliás ninguém perde uma coisa já perdida. Portanto, eu vou ver o meu amigo e dar-lhe a boa nova.

 

O delegado tentou minimizar a questão e os problemas que no futuro certamente iria ter com o sargento e disse-me:

 

- Bem, senhor Paulo, essa também é demais; o senhor pode sim ir embora mas o seu amigo não.

 

 

— Desculpe, senhor delegado, se não existe documento assinado pelo juíz, vai ter mesmo de soltar o senhor José. Bem sabe que estou a falar a verdade, seja cumpridor da lei.

 

— E é isso que ele tem feito, cumpre a lei que eu lhe ordenei — cacarejava o sargento, imitando um galo expulso do galinheiro.

 

— Aqui o senhor não é lei; por favor, senhor delegado, mande abrir a cela.

 

O meu amigo permanecia pasmado na cela atento a tudo e incrédulo com a minha ousadia e petulância. O delegado voltou-se para o seu superior, porque   para   ele   o   tal   sargento   continuava   sendo   seu   superior   e aconselhou-o:

 

— Senhor sargento, não há mais nada que possamos fazer a não ser libertar o prisioneiro. Se o senhor sargento quiser posso pedir ao senhor juíz que assine o tal papel a legalizar a detenção do homem. Por agora, temos mesmo que abrir a cela.

 

Enquanto o guarda Isidoro abria a porta da cela, o sargento fez questão de dar mais uma de suas ordens, desta vez para o pai do Lipe:

 

— Assassino, vai pagar-mas…passe-me a bengala.

 

— Claro que não lha passo; vá o senhor buscá-la.

 

— Boa, senhor José! — exclamei eu. Saímos abraçados e dirigimo-nos para a charrete. À saída, disse-me ao ouvido o guarda Pedro:

 

— Eu dei palha e água ao cavalo; pode ir sossegado ele está bem alimentado.

 

Bati-lhe no ombro e demos início à caminhada em direcção à casa do meu amigo José Araújo, pai do meu grande amigo Lipe. Se fosse possível tratava-o por meu congénere.

 

Os dias que o Senhor José havia passado na cadeia, até então, tinham sido poucos, mas os seus olhos reluziam de tanta felicidade. Tentei pôr um pouquinho de água em toda aquela fervura; sabia que, infelizmente, a liberdade dele seria sol de pouca dura.

 

— Amigo José, não quero de todo ser desmancha-prazeres, mas temo seriamente   que   eles   o   voltem   a   prender   dentro   em   pouco   tempo. Portanto, aproveite o momento; o melhor será apanharmos rapidamente a Chalana para irmos buscar o Lipe.

 

— Sim, é o melhor; estou cheio de saudades dele, dele e da minha Clotilde e também da Tia Dinha!

 

A ansiedade para chegar a sua casa era demasia, tangia vezes sem conta o cavalo para que a viagem fosse a menos demorada possível. Obtendo resultados   positivos   na   sua   pretensão,   a   viagem   de   regresso   talvez demorasse uma hora.

 

Um dado curioso: o Rápido, ao aproximar-se da casinha dos seus donos, apressou o galopar e relinchou, dando sinal que se sentia feliz pela chegada. Esta foi em apoteose, dona Clotilde que esperaria tudo, menos ver chegar o seu marido, saltava louca da vida de tão feliz. Correu ao seu encontro, e, por sua vez, o senhor José, ainda a charrete não havia parado, já tinha saltado para correr ao encontro da esposa. Esta gritava, dava graças à vida, à sorte e a Deus: era e sempre foi uma pessoa de devoção inabalável. Dona Dinha, que passeava sozinha nas traseiras da casa, ao ouvir aquela algazarra toda veio certificar-se do que se passava.

 

O senhor José, ao avistá-la, foi sorrateiramente ao seu encontro, deu-lhe um forte beijo e falou:

 

— Tia Dinha, voltei!

 

— Oh, meu Zé, voltaste, meu querido!

 

— Sim, tia querida, mas o senhor Paulo teme que eu seja preso de novo!

 

— Deixe isso para lá agora, eu estou morrendo de saudades! E de forma espontânea proclamou estas quadras:

 

«Bendito sejais meu Deus, Que atendestes a minha fé, Trouxestes de volta,

O meu sobrinho Zé…»

 

— Esta não saiu muito bem, lá vai outra:

 

«Bendito sejais meu Deus,

 

que atendestes o meu pedido, trouxestes de volta,

O meu sobrinho querido…»

 

— ´Tá a ver, eu sou boa nestas coisas!

 

— Sempre foi tia Dinha, sempre foi!

 

— Mais uma, mais uma!

 

«Bendita seja,

 

Nossa Senhora Aparecida, Que o trouxe de volta,

Dando mais uma alegria à minha vida…»

 

Eu sentia-me comovido com aquelas demonstrações de amor. Eu que, de há uns anos a esta parte me afastara de todos os afectos de amizade e de amor….

 

Aquele momento de reencontro era lindo, não haverá no mundo cena mais linda. Nunca gostei de interromper relações de tão grande afectividade, porém, sabia que da casa ao pequeno portinho onde se embarcava a distância era bastante razoável, e achei melhor interromper:

 

— Desculpem minha boa gente, penso que seria melhor apressarmo-nos para apanhar a Chalana; já não nos sobra muito tempo se formos hoje, e acho que seria o melhor a fazer. Não posso, como é obvio, garantir mas ele já deve estar bom para regressar.

 

— Sim, vamos agora — disseram em uníssono os três. Pediu dona Clotilde:

 

— Por favor, preparem a carroça!

 

Eu peguei nas rédeas do Rápido e conduzi o animal a dar a volta. O felicíssimo pai do Lipe pediu a um jovem rapaz para fazer a viagem connosco, a fim de trazer a charrete de volta. Uma forte lembrança, e que permanece na minha memória, é a da imensa alegria estampada no rosto de dona Dinha. Sem nada ver, no que diz respeito a termos naturais oftalmológicos, a senhora, surpreendentemente, descrevia tudo à sua passagem.

 

— Olhem, olhem, que linda gralha azul e tem filhotes!

 

— Como sabe? — perguntei.

 

— Fique atento ao seu chilrear, é de ave com filhotes! Já trepei muitas vezes a esta araucária quando era moçoila para tirar pinhões! Era uma araucária, aquela árvore que acabamos de passar, era pois era,   minha filha?

 

— Era sim, tia Dinha!

 

Finalmente, entramos na Chalana. Notei que os cochichos eram mais que muitos em relação ao atentado praticado pelo senhor José, pelo facto de ser apontado como o autor. Embora nem eu, seu amigo, nem quem quer que seja, possa dizer com certeza absoluta «Sim, foi ele», ou «Não, não foi ele!». Sempre que me apercebia que alguém lhe dirigia o olhar, uma palavra ou qualquer gesto a culpabilizá-lo, tentei distraí-lo para que ele não desse      conta.      Como      disse       anteriormente, tinha       conversado ocasionalmente com ele, mas não conhecia ao pormenor a sua forma de estar na vida. É uma pessoa extrovertida, alegre, que transmite alegria e boa disposição aos seus acompanhantes. Naquele momento, sentia-se particularmente feliz, iria ver seu filho e acabava de ser solto. Aquele estado de euforia, que quando nos envolve, nos   leva a fazer actos que habitualmente não fazemos e a dizer palavras ou frases que nem sempre dizemos, levava-o a achar piada e a fazer piadas, em situações para alguns até   um   pouco   dramáticas.   Convidou-me   para   irmos   falar   com   o comandante. Lá fomos e deixamos as senhoras sozinhas. Sei que existem

estados emocionais, tanto de alegria como melancólicos, que nos retiram completamente a capacidade de raciocínio. Foi esse estado que o levou à irresponsabilidade, e a mim a qualquer responsabilidade de ter de sugerir a ele um acto nunca experimentado, encorajando-o a tentar dar vida a esse acto. Acto esse que quase causa uma tragédia, e, seguidamente, o nosso linchamento. Quando se aproximou da cabine do comandante, um homem já muito gasto pelo tempo, ou talvez os muitos anos que teria, lhe conferissem   a   aparência   de   um   idoso;   era   uma   autêntica   chaminé, conservava o cachimbo sempre na boca e sempre aceso. Visto que era recíproca a confiança entre ambos, com um grande à-vontade, pediu ao comandante   para   pilotar   a   pequena   embarcação,   que   mesmo   sendo pequena exigia um certo grau de conhecimento para ser pilotada. Ao seu pedido o comandante perguntou:

 

— Oh, senhor Araújo, se o senhor sabe eu deixo.

 

De imediato reforcei os conhecimentos do meu amigo:

 

— Desculpe, senhor comandante, mas eu acho que a verdadeira vocação aqui do amigo José, era mesmo ser comandante de navios. Ele brinca com qualquer embarcação, seja grande ou pequena.

 

O pai do Lipe olhou para mim, com ar de grande espanto e fez-me sinal que nunca havia pegado num leme. Eu, sempre impensadamente, olhei para ele como a querer dizer:

 

— Se ele o deixar, desenrasque-se.

 

Foi exactamente isso que aconteceu, concordou o comandante:

 

— Oh, meu amigo, se você é assim bom a pilotar vá lá, tome o leme, é todo seu. Eu neste entretanto aproveito para ir ao quarto de banho.

 

Minha Nossa Senhora dos Santos todos! O pai do Lipe olhou para mim com ares de zangado, penso que se pudesse matava-me naquele instante. Como todo o ser humano que quando assume um desafio, temendo passar por covarde, leva esse desafio até às últimas consequências, ele não quis se acovardar e não deu o rumo diferente a essa regra. Seguiu em frente para na mente dele e dos outros não dar uma de fraco e concordou…

 

No início as coisas foram correndo de forma natural; tudo ia bem no reino da Dinamarca. O comandante abandonou-nos para diminuir o volume ao seu ventre (bem, ventre não, pançuda barriga…)

 

Dizia o meu amigo:

 

— Você, senhor Paulo, é um malandreco.

 

— Que nada, senhor José, você parece mesmo um profissional! Está a pilotar   esta   Chalana   lindamente!   Siga   sem   medo,   eu   vou   contar   às senhoras quem vai ao leme.

 

Subi as escadinhas e fui ter com as senhoras para lhes contar as novidades, que elas tinham no seio de suas famílias — um verdadeiro comandante. Mal tive tempo de dar as notícias, em fracção de segundos… pessoas a caírem, fiz um esforço enorme para segurar dona Dinha que, sentada numa cadeira, rolou e quase cai da embarcação. A Chalana gingava de um lado para o outro. Inclinava-se para bombordo num instante, para estibordo no instante seguinte. Gritos, ouviam-se mais que muitos. Fui de gatas ter com o meu amigo para me certificar de tudo o que estava a acontecer. A imagem que ainda guardo é a das mãos do senhor José a rodar o leme de um lado para o outro, o nervosismo tomara completamente conta das suas faculdades.

 

— Que se passa, amigo?

 

— Não sei, não consigo controlar isto! Digo-lhe uma coisa, isso de meu amigo já não sei até que ponto é verdade!   Um amigo não nos mete numa fria destas!

 

— Tem razão, meu amigo, mil desculpas lhe peço; eu pensei que isto não iria dar assim para o torto!

 

Daquele momento em diante fui eu quem segurou o leme, não sei o que se passou na mente do José. O stress que dele tomou conta, deve ter levado

a sua mente a imaginar que teria à sua frente no rio, pedras que ele teria de ultrapassar, ou quem sabe simples bóias de um qualquer desporto náutico e que ele teria obrigatoriamente de contornar para cortar a meta. Quantas   e   quantas   vezes,   quando   ensaiamos   fazer   uma   determinada tarefa, se nos encontramos completamente descontraídos essa tal tarefa corre às mil maravilhas. Ao contrário, se deixamos que o nervosismo tome conta de nós, nada correrá certo. Há algo a fazer-se para extinguir esses medos da vida. De forma inata a vida dá-nos hereditariamente medos, que dificilmente conseguiremos ultrapassar. Medo do escuro, medo do além, da morte, do futuro, do passado, de sermos traídos (e aqui um aparte, existem variadíssimas formas de traição). Existem milhares de medos nas mentes das pessoas, que são ocultos pelos seus proprietários que nunca terão a coragem de perder o medo de por esses medos cá para fora. O simples facto de desabafar com alguém leva a que percamos os medos ao longo      da nossa        existência,      do        mesmo    modo       que perdemos progressivamente os dentes, os pêlos, os cabelos e a pele do corpo. Sim, estudos científicos revelaram que durante uma vida, o ser humano perde quarenta quilos de pele.

 

Depois de eu chegar à cabine, chegou o comandante dizendo coisas sem jeito:

 

— Malucos, vocês são dois malucos! Porra! Disseram-me que sabiam pilotar esta porcaria e vejam o que esta brincadeira ia dando! E então eu, que me encontrava sentado no trono a aliviar a minha barriguinha, e nem tempo tive de gastar papel!

 

Bem, não precisaria de tal acto heróico confessar; isso percebi logo à sua chegada.

 

— Desculpe,   senhor comandante,   a culpa foi inteiramente   minha!   — desculpei-me, para de seguida ser defendido pelo amigo José.

 

—   Desculpas,   mil   desculpas,   a   culpa   foi   toda   minha!   Sabe,   senhor comandante, vou buscar meu filho. Como estou feliz da vida resolvi brincar e acabei por fazer asneiras!

 

— Eu também sou culpado, eu sabia que ele não sabia pilotar, e afirmei que ele era bom nisso! Mas também lhe digo, senhor comandante — continuei   na   tentativa   de   arrumar   ali   com   a   questão   —   o   senhor comandante também foi um pouco irresponsável em autorizar aqui o nosso amigo José a pilotar!

 

— Sim, eu sei que sim! Fica o dito pelo não dito!

 

Todo aquele pequeno incidente foi muito rápido mas mesmo assim houve dois sujeitos altos, musculosos e rudes, um branco e outro mulato, que se aperceberam de quem comandava a Chalana e insultaram o meu amigo.

 

— Assassino, tentou matar uma criança e agora quase nos mata a todos! Vamos atirá-los ao rio, por nós vão já sem demoras!

 

O comandante, que tinha reduzido a marcha após o incidente, alteou o tom de voz e disse:

 

— Calma, meus amigos! Por favor, lhes peço calma! Vocês são todos meus amigos e a razão do meu viver, portanto lhes peço, esqueçam isso! Aqui o senhor José nada fez, ele unicamente se sentiu mal, foi uma indisposição!

 

Felizmente que as hostilidades findaram-se de seguida, mas que por vezes um castiguito é bem aplicado, lá isso é! Embora irmos beber água ao rio isso também era de mais!

 

A viagem foi decorrendo sem muitos percalços. Tive de pedir informações para saber onde dar término à nossa empreitada. O comandante era um velho conhecido meu e sem que os familiares do Lipe notassem, prometi pagar as nossas passagens com o fruto do meu trabalho. Assim foi acordado entre mim e o comandante.

 

Repleta de peripécias, a nossa viagem chegou ao fim. O comandante, grande conhecedor daquelas terras, indicou-nos o caminho para a tribo Tupiguarani. Percorremos algumas centenas de metros, bem menos do que aquelas que imaginava, e alcançámos o caminho já calcorreado por mim, e que nos levaria a terras tribais. À entrada do local das palhotas, bati palmas e nada, chamei pelo chefe e nada, chamei pelo Lipe e nada de obter qualquer resposta. Havia dezenas de palhotas a circundar o sítio da nossa permanência. Entrei na palhota que há dias atrás havia servido de quarto hospitalar ao Lipe. O meu à vontade era inexistente, existiam regras que educadamente teria de cumprir, como pedir autorização. Não havia vivalma que me dissesse:

 

— Está aí, Paulo?

 

O Lipe não estava lá… fiquei aterrorizado. Ninguém nas imediações… Abandonei o interior da tal palhota e disse aos meus acompanhantes:

 

— Cá não está gente, já não sei mais nada!

 

Seus familiares penso que se mantinham calmos, porque não tinham conhecimento que o estado de saúde do Lipe era bastante preocupante. Eles davam vida à invejável calmaria, eu sofria por antecipação. É um estado de espírito desgastante em termos pessoais, e saturante em termos colectivos. Normalmente o local de residência da tribo encontra-se sempre guardado por pessoas. Somente em casos excepcionais, como ataques de latifundiários ou morte de pessoa importante da tribo, é abandonada. A minha imaginação, ou melhor dizendo, o meu apego à pessoa daquele rapazinho tão querido para mim, levava-me a procurar um substituto para a última hipótese. Quando ali estive não tive conhecimento que alguém, para além do Lipe, estivesse doente. Sendo assim, o meu estado de dor alongava-se:

 

“Que estará acontecer por aqui?”, perguntava de mim para comigo. Resolvi averiguar e fomos os quatro emaranhar-nos na mata. Seguimos uma trilha que dava mostras de ter sido pisada recentemente. Vindo das profundezas deu entrada no meu sistema auditivo, julgo que o mesmo se passaria com eles, um som meio imperceptível. Consoante caminhávamos na direcção de onde provinha o dito som, este começava a ser decifrado. No início pareciam toques melodiosos de palmas a serem batidas, viemos a confirmar que sim. Recomendava eu:

 

— Vamos aproximar-nos, mas em silêncio. Eles a mim conhecem, mas temos de ter muita precaução. Podem pensar que a nossa permanência aqui é uma invasão por parte dos seus rivais. Portanto, sempre em silêncio e venham sempre atrás de mim, para eu ser o primeiro a ser avistado. Já bem perto era perceptível que aqueles sons eram palmas ritmadas e bater de pés. Rituais fúnebres. Olhámos em frente e o que víamos era um monte de   terra   remexida,   presumidamente   uma   sepultura.   Do   outro   lado, encontravam-se   reunidos   todos   os   índios,   homens   e   mulheres,   em conjunto. Temi seriamente o pior e não contive o meu temor.

 

— Senhores, trata-se de um funeral! — suspirei em voz trémula...

 

A mãe do Lipe começou uma gritaria imparável:

 

— O meu Lipe, foi o meu Lipe!

 

— Não, isso não! — lamentava o senhor José, juntando-se ao seu pranto a dona Dinha:

 

— Não, o meu menino não! Eu não nasci para ver partir o meu menino!

 

Eu também não tive discernimento para dar alternativas a outras hipóteses e, sem me juntar ao coro, suspirava com muita dor: nós já havíamos sido vistos e os nossos choros foram invadidos por dois índios meus conhecidos, que davam sinais para mantermos silêncio. Perguntei:

 

— Quem está morto?

 

Não obtive resposta. De seguida, todas as mulheres pertencentes à tribo Tupiguarani vieram ao nosso encontro e afastaram-se, levando Tia Dinha e dona Clotilde. Eu e o meu amigo fomos autorizados a permanecer e levados para junto do buraco. Ainda ninguém tivera a amabilidade de nos satisfazer   a   dúvida:   quem   seria   a   vítima!   Observámos   que   todos   os pequenos índios também ali se encontravam, excepto o Lipe. Minhas pernas fracassavam,   o   meu   amigo   era   segurado em   braços   por dois simpáticos membros tribais.

 

— Porque não acabam com isto e me dizem quem morreu? Quero saber se foi o Lipe.

 

Notavam-se rituais a serem cumpridos; talvez fosse essa a explicação por que eles não revelavam o que quer que fosse ou porque talvez não entendiam o que eu perguntara. Mas bolas, eles eram sábios, pelo menos alguns!   Certamente   que   se   teriam   apercebido   do   nosso   sofrimento. Finalmente, o índio chefe retirou o lençol sobe o qual jazia um velho índio. Abraçamo-nos, eu e o José sofredor. O índio era o velho Pajé, da tribo, pai do meu amigo, que eu julgara chefe. Não tive o prazer de o conhecer em vida.

 

O nosso instinto de sofredores levou-nos ao egoísmo de adoptarmos a dor de perder alguém muito querido só para nós, e esquecermos que essa herança pode perfeitamente pertencer a outra família. Família essa que possui os mesmos carinhos, os mesmos afectos, e o recíproco amor de quem parte e de quem fica.

 

Apesar do nosso alívio, também lamentei a dor do meu amigo, aquele que eu pensara fosse índio chefe e que a partir da morte do seu pai, herdaria o título e a responsabilidade de Pajé. Aproximei-me para o abraçar, assentiu que as condolências fossem entregues, mas não retribuiu o abraço. Hábitos de Pajé, ou muita dor, ou quem sabe, porque o ritual fúnebre não acabara. Levaram o corpo a descer à sepultura, quatro índios no fundo do túmulo receberam o cadáver. Enquanto uns índios lançavam terra para o interior da sepultura outros, de arco e flecha nas mãos, disparavam em pontaria a todas as aves que sobrevoavam o local cerimonial. Todas aquelas que tombavam às setas dos índios, e foram inúmeras, eram, sem serem tocadas por mãos indígenas atiradas para a sepultura, não sem antes as setas serem recuperadas. Acreditavam que aquelas setas lhes dariam sorte nas caçadas, sendo com elas que haviam morto as aves que serviam de oferenda ao importante defunto.

 

Quando a sepultura era rasa, o novo Pajé deu sinal a um dos seus súbitos para este fazer algo que eu, no imediato, não entendi. Este obedeceu e tomou a direcção do sol nascente; ouvi um assobio e pouco tempo depois regressava acompanhado de duas crianças. Uma menina, aparentando ter dez ou onze anos, o outro era o tão desejado Lipe. D. Sebastião, o rei português   com   o   cognome   homólogo   (o   desejado),   foi   por   todos   os familiares e súbitos esperado, depois da Batalha de Alcácer Quibir. E foi de igual modo desejado, pois seu avô vira morrer todos os seus filhos, não havendo portanto sucessores ao trono. Foi desejado para a nascença, e desejado pelo regresso da dita batalha,   pois também   ele   não tinha descendência.

 

O   nosso   menino   de   ouro,   também   foi   desejado,   e   como   o   foi!… Desejávamos que nada de ruim lhe tivesse acontecido, desejávamos que fosse rápido o seu restabelecimento, desejávamos que não fosse ele a vítima   mortal   a   quem   os   índios   prestavam   as   últimas   homenagens, desejávamos que ilibasse seu pai de toda e qualquer culpa sobre o atentado da Clara. Devido a ter passado pela sua cabecinha que foi o seu pai o responsável, eu fiz sinal para o meu amigo, o pai do Lipe, que tão ansioso estava para abraçar seu querido filho, para esperar, e fui ao seu encontro. Corri e ele correu, abracei-o e ele abraçou-me.

 

— Lipe, o teu Pai está ali!

 

— Eu sei, já o vi!

 

— Confias em mim?

 

— Sim, sabe que sim.

 

— Ele não é culpado, não foi ele! Certeza que foi o malvado do sargento ou alguém a seu mando.

 

— Largou-me e correu ao encontro do seu pai.

 

— Papá, papá, eu te amo!

 

O senhor José tentou correr mas faltou-lhe terreno. O Lipe, tão rápido, corria tanto que num instante já se lançara para seus braços.

 

— Filho, meu filho! Lipe, meu Lipe, eu também te amo!

 

E então, eu que não tinha lenços, limpei à camisa, vezes sem conta, as minhas lágrimas, que sem cessar corriam pelo meu rosto e não só… Aquele reencontro foi interrompido. Deveria ser condenado a prisão perpétua quem tentou a audácia de interromper um reencontro tão emocionante que, assistido pelo mais duro dos corações, certamente teria a capacidade de transformar coração de pedra em coração de algodão…

 

Em   tudo   na   vida   existem   excepções   à   regra.   Aquele   abraço   só   foi interrompido porque o novo Pajé autorizou o Lipe a assistir à última homenagem prestada ao seu antecessor. A cerimónia estava prestes a terminar e, como já ia longa, o novo soberano queria pôr fim ao cerimonial

e dar continuidade à vida da tribo. Lipe, que fora impedido de presenciar a despedida corporal, era agora autorizado a assistir ao encerrar. Não só o Lipe, como todas as mulheres, incluindo dona Dinha e dona Clotilde. Quando Lipe regressou, juntamente com ele vinha uma jovem índia; foi essa mesma índia quem chamou todas as mulheres para a cerimónia final. Este acto consistia em danças e cantares indígenas. Os homens dançavam de arco e flecha nas mãos, símbolo máximo da tribo, as mulheres, essas, dançavam, batiam palmas ritmadas e cantavam.

 

Ainda durante a cerimónia final Lipe cumprimentou sua mãe e sua tia. Quando os actos fúnebres acabaram, formaram-se duas filas: do lado direito os homens, e do esquerdo as mulheres. À frente, abrindo o cortejo, seguia o novo Pajé, talvez a uns dois metros do primeiro casal. Supus, como ele seguia bem ao centro, que a intenção deles eram simbolizar uma flecha. Atrás de todos os índios, seguia a esposa Pajé. Nós, os últimos de todos,   seguíamos,   como   habitualmente   se   diz,   a   monte;   assim   nos ordenaram que não adoptássemos as suas posições. Julgo que toda aquela simbologia significava que, a partir daquele momento, a tribo devia total obediência ao novo casal.

 

Ao chegarmos ao local de residência tentei despedir-me do novo chefe para tomarmos o caminho de regresso para nossas casas. Fomos convidados a pernoitar com   eles   e   partirmos   no dia   seguinte.   Aceitámos   em conformidade. Notámos que lhes agradou a nossa aceitação. Recordo-me que um dos índios era o responsável por fazer a recolha do leite de seringueira, de onde extraem a borracha. Convidou-nos para assistirmos a uma recolha. Fomos eu, dona Clotilde, senhor José e o Lipe. Dona Dinha preferiu descansar numa das muitas redes existentes na tribo. A perícia, a rapidez   e   o   equilíbrio   com   que   subia   nas   seringueiras,   deixou-nos boquiabertos. Eu nunca fui grande trepador de árvores, o máximo que subi foi ao topo das escadas, à qual chamam, em linguagem indígena, peibode.

A agilidade com que o índio bastante jovem golpeava com uma machada a seringueira impressionou-me. Depois de desferir o golpe, colocou um recipiente para amparar o leite. Esvaziou outro recipiente já cheio para um balde, tarefa que repetiu várias vezes noutras árvores e, por fim, regressámos. Já em plena   aldeia, numa fogueira previamente acesa, colocou um outro recipiente, contendo uma pequena porção de leite.

Manteve-o bastante tempo na fogueira, um pouco distanciado do fogo. O fumo encarregou-se de transformar o leite de seringueira numa pasta. Um índio de mais idade manuseou essa pasta, dividiu-a em duas e, bufando numa das extremidades, concebeu duas bolas. Ofereceu essas bolas ao Lipe, pedindo que brincasse com uma delas, mas que guardasse a outra como recordação. Essa que serve como recordação, encontra-se ainda guardada na caverna.

 

Ofereceram bons manjares, constituídos por carnes assadas, feijão preto e mandioca, regados com um bom vinho, colheita tribal. De manhãzinha, mal raiara o dia, despedimo-nos de todos e partimos, não sem antes prometer ao novo Pajé que lhe traria o cavalo de volta. Notámos que a despedida do Lipe e da pequena Índia que o acompanhou durante as cerimónias foi dolorosa para ambos.

 

Por   fim,   depois   de   uma   desesperada   espera,   chegou   a   Chalana.   O comandante, o nosso velho amigo, que cedia a todos os pedidos, mesmo os mais ousados e arriscados, recomendou-nos:

 

— Amiguinhos, desta vez nada de querer fazer asneiras.

 

— Fique descansado, senhor comandante.

 

Sossegou-o o amigo Araújo. Ficámos juntos ao leme alguns minutos, depois afastámo-nos   para   confidenciar.   O   meu   amigo   José   conservava   um semblante   pesado.   Perguntei   o   que   se   passava   na   sua   mente. Confidenciou-me que sim, que o sargento havia feito mal à sua esposa e que tentara mais vezes mas sem sucesso. Jurei-lhe que a partir daquele dia sua esposa teria a minha protecção, que iria fazer todos os possíveis para a vigiar. Consegui deixá-lo mais descansado quando lhe lembrei que agora a sua esposa teria também a preciosa protecção do Lipe. Ele confessou que tal coisa não lhe havia ocorrido e notei que seu semblante se alterou num instante.

 

A vida é constituída de boas e más ocorrências. As satisfatórias, essas, dão-nos ânimo para enfrentarmos o dia-a-dia com perseverança. As más, essas, têm a capacidade de nos desanimar e fazer-nos pensar qual a razão porque o infortúnio da vida só surge a nós… a vida é uma autêntica aprendizagem, no entanto, como somos bons acolhedores das situações que nos deliciam, temos da mesma forma que aceitar as menos boas. Se uma rosa nos é oferecida, esta oferece-nos a sua beleza, o agradável cheiro. Não nos esqueçamos, que juntamente com a beleza e o cheiro vem o caule e esse contém espinhos e que nós, seres pensantes e errantes, temos de procurar o sítio certo para agarrarmos a rosa sem que nos piquemos nos desagradáveis espinhos. A vida surge-nos como uma rosa com sua beleza, cheiro e espinhos. Nós, humildemente, temos de procurar o lado certo para agarrar a vida, para que esta não seja uma desilusão, frustração, amarga e cheia de maus anseios. Nada existe no mundo por pura obra do acaso. Se a rosa contém espinhos, são para que se possa defender dos predadores. Os espinhos nas nossas vidas são a recordação de que não devemos ofender o nosso semelhante. Se ofendermos alguém, esse  alguém   irá   sentir-se   ofendido   e   ultrajado.   Se,   ao   invés,   for   o semelhante a ofender a nossa pessoa humana, os nossos sentimentos serão exactamente os mesmos. Sentimo-nos ultrajados e ofendidos. Os espinhos da vida recordam que com eles podemos maltratar quem está do outro lado. Mas, por sua vez, quem está do outro lado possui também espinhos e, para desagrado nosso,   pode usá-los contra nós. Teremos mais uma vez de pensar que o tal outro lado pode ser possuidor de espinhos mais afiados do que os nossos e que sairemos mais lesados do que as eventuais lesões que poderemos causar…

 

Fiz   esta   reflexão   para   os   fazer   reflectir   e   para   antecipar   um   mau acontecimento na vida do senhor José.

 

Já prestes a chegar ao portinho, vizinho das nossas residências, era bem notória uma grande movimentação por aquelas lados.

 

Olhamos um para o outro, suspeitamos em sintonia o que se estaria ali a passar. Muita gente, cavalos e policias..

 

— Amigo José, acho que…

 

— Sim, eu sei, deve ser o delegado e o malvado para me prenderem de novo.

 

— Infelizmente, penso que sim. Por favor não resista. Eu vou fazer o possível e o impossível para você ser libertado..

 

O comandante iniciou as manobras para aportar, dirigiu-se para nós e disse:

 

— Temos o caldo entornado! O jactante do sargento está a comandar as operações, julga-se acima da lei.

 

Quando o barco aportou, o sargento, acompanhado pelo delegado e uns quantos polícias, encontravam-se já no passadiço de madeira. O malvado, dando continuidade à ostentação de autoridade, ordenou:

 

— Vocês aí que estão na Chalana... não saiam — entrou para o seu interior e, fixando-nos os olhos, disse: — Eu bem sabia. Eis aqui os fora-da-lei. Tenho comigo dois mandatos de prisão assinados pelo juiz: um é para você, assassino — insultava e falava assim para o meu amigo — o outro é para você que me faltou ao respeito e acredito que seja cúmplice.

 

Voltou a subir para o passadiço e mandou sair o senhor Araújo em primeiro lugar. Este voltou-se para mim e receou as palavras do sujeito:

 

— Amigo Paulo, desta vez ele parece falar a sério! E… você também vem preso!

 

— Sabe, amigo José, por si eu até que gostaria, pois far-lhe-ia companhia. Mas lhe digo uma coisa; certeza não tenho, mas acho que não vou ser preso. Ele não tem como me prender. E, além disso, eu tenho de ficar para tratar da sua libertação!

 

— Homens, prendam este assassino e depois o outro — gritou o sargento dando ordens aos polícias.

 

Exigi ver os mandatos de prisão assinados pelo juiz.

 

— Senhor delegado, mais uma vez digo à autoridade máxima da região que desejo ver os papéis assinados.

 

O sargento, que se encontrava voltado para nós, rodou em bicos de pés ficando, desta feita, voltado para as muitas pessoas, meros espectadores daquela cena de detenção. Querendo sobrevalorizar-se, de voz muito audível e ostensiva, questionou:

 

— Senhores, meus bons senhores cumpridores da lei, e quero dizer e recordar àqueles mais distraídos, que a lei aqui sou eu. Como ia a dizer, senhores, quem é a pessoa que manda aqui nesta região?

 

Uns poucos responderam, afirmando que sim, que era ele. Muitos outros simplesmente não deram sonoridade aos seus pensamentos e convicções. O sargento certamente deve ter notado que não teve o apoio em uníssono. Sempre em bico de pés para se elevar continuou:

 

- Eu só quero fazer com que a lei seja cumprida; temos aqui diante dos nossos bons olhos (bem isso de termos bons olhos, já não sei, não sei se aqui há míopes), mas continuando, temos aqui um assassino e um fora-da- lei que, no meu entender, deve ser cúmplice. Por isso vão os dois para o xelindró.

 

Enquanto o guarda Pedro e o Isidoro algemavam o senhor Araújo, eu subi para o passadiço e, desta vez, fui eu a fazer um comício.

 

— Senhores, um minuto da vossa atenção, por favor. Aqui o meu grande amigo senhor José Ramos Araújo, ainda que não haja provas, é acusado de tentar assassinar a menina Clara. Posso-lhes assegurar que ele é inocente. E, muitos de vocês, tenho certeza que acreditam nisso também.

 

O sargento interrompeu:

 

— Cale-se, seu fora-da-lei. Guardas, sem mais demoras, prendam esse homem.

 

— Senhor delegado — continuei — por favor, deixe-me acabar.

 

O delegado, bem conhecido meu, não tinha como contestar o meu pedido mas,   em   simultâneo,   ficou   sem   reacção   perante   o   seu   sargento.   O sargento, sentindo-se ultrajado, voltou a ordenar:

 

— Não é ao delegado que tem de pedir; já sabe que é a mim que o tem de fazer. E, além disso, já chega. Cale-se!

 

— Cale-se o senhor, eu não lhe dirigi qualquer pedido. E, além disso, como o senhor diz, o senhor aqui não manda. Para dar leis temos cá o senhor delegado.

 

O sargento, ao ser confrontado por mim, deixou cair a hipócrita boa educação e resmungou:

 

— Maldito, quem é você para me mandar calar, maldito!?

 

Eu sempre gostei de boas maneiras, mas não as dedico a quem não as tem:

 

— Maldito seja você, sargento desfardado!

 

Muitas foram as risadas dos mais destemidos; mas devo confessar a alguma pouca coragem dessas pessoas juntavam-se os medos, e esses bem mais fortes. Os risos foram por todos ocultados o mais que puderam, tal era o respeito imposto pelo tal sargento. Este, perdendo completamente as estribeiras, ameaçou-me:

 

— Maldito, ainda lhe meto uma bala na cabeça.

 

— Muito bem, sargento sem farda, eu pergunto. Quem aqui é deveras assassino? Senhores, este senhor que acusa o meu amigo José, chamando- lhe assassino, está a fazer ameaças. Que moral tem ele para chamar assassino ao meu amigo, quando é ele que faz estas ameaças e anda por aí armado?!

 

— Eu ando armado para fazer cumprir a lei.

 

— Você, simples fazendeiro, anda armado porque é um covarde; só assim é que sabe impor respeito.

 

O   sargento   preparou-se   para   me   responder   mas   não   deixei   que pronunciasse um único monossílabo.

 

— Como eu ia a dizer antes de ser interrompido há pouco tempo atrás, aqui o meu amigo é acusado de ter tentado assassinar uma criança. Eu nada fiz. Porque hei-de eu ser preso? Que mal fiz eu? Aqui este homem, a quem vocês obedecem, tratou-me mal; eu unicamente retribuí com a mesma moeda. Quem julga ele que é? Ele vive por aí a maltratar todas as pessoas. Será que ele julga que é o presidente da República? Não, não, isso era uma ofensa ao nosso presidente; ele não é assim tão malvado.

 

— Delegado, faça calar esse maldito. Prenda-o e rápido.

 

— Não, senhor delegado, bem sabe que não pode. O sargento, mais seguro que nunca, disse:

— Claro que pode. Tenho nas minhas mãos dois documentos assinados pelo senhor juiz.

 

— Ah! Bom. Quero ver esses documentos.

 

O sargento tirou do bolso das calças dois documentos, passou-os para as mãos do delegado. Este, por sua vez, analisou-os e autorizou que eu pegasse e disse:

 

— Lamento dizer-lhe mas são deveras dois mandatos de prisão, um para prender o senhor Araújo, e outro a ordenar a sua detenção.

 

Sem que ninguém pudesse prever, auxiliada pelas mãos do Lipe, subiu para o passadiço dona Dinha. Colocou-se entre nós e, com voz de pregador, implorou:

 

— Soltem já o meu Zé. Ele não fez mal à cachopa. Vocês são todos uns malvados.

 

— Tirem essa maluca daqui — ordenou o sargento. Dona Dinha, de bengala em punho, perguntou:

— Quem é que aqui é maluca, seu maldito sargento que vive a espalhar desgraças pela minha família?!

 

Ergueu a bengala e desferiu uma valente bengalada, sem mudar sua posição. Acertou com toda a força no ombro do delegado. E continuou a distribuir bengaladas por todo o lado. Era uma correria desenfreada à sua frente. Pernas para que fostes feitas, todos fugiam para não receberem das   mãos   daquela   septuagenária   uma   pancada.   O   Lipe,   o   maior incentivador da sua querida tia, tentou pôr fim a toda aquela batalha.

 

Eu, que também fugi, não fosse me calhar em rifa uma bengalada, perguntei um pouco afastado:

 

— Está mais calma, dona Dinha?

 

— Sim, estou meu filho; mas penso que não acertei muitas na pessoa que queria acertar.

 

O malvado sargento, que queria pôr cobro a toda a situação, voltou para o passadiço para que fosse consumada a nossa detenção. Passou para a minha frente para se abeirar do meu amigo José que se tinha refugiado no barco. Eu, sorrateiramente, segui mesmo atrás do covarde. Quando este se encontrava bem perto de passar em frente de dona Dinha, fingi um tropeção e fui de encontrão ao sargento. O maldito que só usa a força para pegar em armas, voltou a não a usar para um melhor equilíbrio e, em desequilíbrio, passou aos tropeções mesmo diante da enraivecida invisual.

Quando senti que era o momento exacto, incentivei a senhora:

 

— Agora, dona Dinha, agora.

 

Dona Dinha entendeu muito bem a mensagem que quis passar, novamente começou   a   distribuir bengaladas.   Desta vez   duas foram certeiras no sargento, uma na cabeça e outra nas costas. O malvado, que nunca deixava os seus créditos por mãos alheias, levantou a sua própria bengala para agredir a senhora. Desta vez, uma voz vinda do outro lado, bem de trás de nós, fez-se ouvir:

 

— Agora dona Dinha, só mais uma!

 

Sendo dona Dinha uma senhora bem-educada, tratou de pôr em prática toda a sua boa educação. Para se ser pessoa bem-educada, deve-se atender a um pedido. Foi mais uma vez o que se passou. A senhora usou novamente a sua inesgotável e inexplicável força para matar a fome aos pobrezinhos.   Em   época   de   maré   cheia,   o   sargento   gramou   outra bengalada; desta vez foi na mão levantada, que estava preparada para dar

a tão desejada bengalada na velhinha. Fraco é o guerreiro que abandona sua arma, o sargento pensando que a sua bengala teria sede, deixou que esta fosse beber água ao rio.

 

— Malditos, maldita velha,   malditos sejam todos que não respeitam a minha autoridade e integridade física.

 

Parecia uma barata tonta, de um para o outro lado, disparatava uma ladainha infindável:

 

— Malditos, quem foi o malvado que mandou   a velha dar a última bengalada? Você, maldito, vai para a cadeia. Vocês vão todos presos, se necessário for mando alargar a cadeia. Delegado, aqui, venha cá ao pé de mim. Delegado, por enquanto prenda estes dois. Eu vou averiguar e ainda hoje outros serão presos. A velha, a velha também vai e já. Vão todos, todos; eu quero, posso e mando. Malditos, não se esqueçam disso!

 

Eu, juntamente com os mais destemidos, ríamo-nos em gargalhadas bem audíveis. Entre mãos, eu tinha dois documentos, nos quais diziam estarem dois   mandatos   de   prisão.   Mesmo   sem   razões   aparentes   eu   podia perfeitamente ter de ir parar ao xelindró, mas mesmo assim, estando sujeito a perder a minha liberdade, aquela situação era hilariante, de tirar o fôlego. Eu, que nada tinha a perder, voltei a meter-me com o sargento:

 

— Calma, desfardado e agora também desbengalado fazendeiro, tente parar um pouco, ainda lhe vai faltar o ar. E quero confessar-lhe uma coisa, se o nosso senhor autoridade morre, isto vai ser um pranto só. Irão faltar lenços para enxugar todas as nossas lágrimas.

 

— Calado, maldito, tem nas suas mãos os papéis da vossa prisão, portanto estão os dois presos.

 

— Pode até ser que estes papéis contenham ordem de prisão, mas eu vou verificar, não vá um certo sargento sem farda tê-los falsificado.

 

— Que quer você dizer com isso? Claro que são verdadeiros, assinados pelo senhor juiz!

 

Fiz um gesto com a mão e olhei atentamente para os documentos. O documento dirigido ao senhor José, tinha a assinatura e o carimbo da comarca. Analisei o outro com o meu nome, tinha a assinatura e o mesmo carimbo. Ocorreu-me uma ideia. Sendo o sargento pessoa de índole mais que duvidosa, todas as hipotéticas formas de malandragem poderiam ter sido postas em prática. «Gato escaldado de água fria tem medo!»

 

Li atentamente uma, mais outra vez, qual a razão alegada pelo juiz para prender o meu amigo. No verso do documento estava referenciado, ao abrigo da lei não sei das quantas, que o indivíduo x, acusado de atentar contra a vida de uma criança, ficará preventivamente detido até ao julgamento, o documento dirigido ao meu nome dizia exactamente o mesmo.

 

Tive certeza que ali existia trama e das grandes. Eu poderia ser acusado de muita coisa, mas acusado do mesmo crime, isso é que não. Verifiquei várias vezes a assinatura. De facto, parecia ser a mesma mão a fazer as duas. Mesmo assim algo me intrigava, talvez fosse a minha intensa vontade de não ser preso. Tinha a impressão que existiam diferenças. O sargento tentou apressar a minha verificação. Contestei de imediato e continuei. Notei que o nervosismo havia tomado conta dele. De repente, perguntei ao mau da fita:

 

— Senhor fazendeiro, sargento maldito, o senhor meritíssimo juiz assinou os dois documentos ao mesmo tempo?

 

— Claro que sim, um depois do outro, que o homem não faz milagres.

 

— Sendo assim o senhor jura que ele assinou os dois documentos juntos?

 

— Pois, claro que foi, assinou um e de seguida assinou o outro.

 

— Pode responder-me a outra pergunta: foi com a mesma esferográfica?

 

A esta última pergunta ele hesitou em dar resposta.

 

— Ora, que raio de pergunta é essa? Pois claro que foi com a mesma.

 

— Muito bem — continuei chamando o delegado, — senhor delegado, a assinatura penso que não parece pertencer à mesma pessoa.

 

— Ora, maldito, que quer você dizer com isso? Está a duvidar da minha palavra?

 

— Sim, de você duvido qualquer coisa, sargento maldito.

 

— Ora, senhores, calma — tentava serenar as hostilidades o delegado.

 

— Ia eu a dizer que a assinatura não parece ter sido feita pela mesma pessoa e tem outra diferença. A cor da tinta não é a mesma.

 

O delegado, que acredito nada teve a ver com aquele assunto, fitou-me nos olhos, deu de ombros e disse:

 

— Bem, penso que são iguais, aliás não podia ser de outra maneira.

 

— Podia sim — afirmei e aleguei novamente. — Aqui o maldito sargento, como lhe aproveita dizer, pode ter falsificado uma assinatura. Aliás, eu tenho   certeza   que   sim,   que   ele   falsificou!   Não   foi   com   a   mesma esferográfica que ambas foram feitas.

 

O sargento, que há muito se encontrava stressado, resmungou:

 

— Já chega, já lhe dei tempo a mais, é hora de ir para onde tem de ir, para a cadeia. Guarda, prenda-o.

 

— Ah, ah, ah, primeiro vou fazer um teste.

 

Voltei-me para duas pessoas que bem perto se encontravam e perguntei:

 

— Por favor verifiquem se estas duas assinaturas são da mesma mão e se foram feitas com a mesma esferográfica.

 

O sargento sentia-se agora, mais do que nunca, afrontado e deu mais uma de suas ordens:

 

— Vejam lá isso, mas falem só a verdade seus malditos.

 

Eram   um   jovem   e   uma   senhora,   as   pessoas   a   quem   eu   pedi   para verificarem. Os dois analisaram um e outro documento. Senti que ambos faziam   notar   as   incertezas.   O   jovem,   sem   temer   a   consequência, perguntou ao mauzão:

 

— Senhor sargento, o senhor diz para nós falar a verdade, verdade?

 

— Claro que sim, a verdade e nada mais. E a verdade aqui é aquilo que eu digo.

 

— Então lá vai — continuou o jovem. — Como o senhor sargento quer que nós falemos a verdade, eu digo. As assinaturas são diferentes e foram feitas com canetas diferentes.

 

— Eu também acho isso — afirmou a senhora.

 

— Malditos, hoje mesmo irão todos para a cadeia. Eu ordenei que falassem a verdade.

 

— Desculpe, senhor sargento, foi isso que a gente fez.

 

— Obrigado, meus amigos, podem ir — falei para os dois, sendo contrariado pelo mau.

 

— Não podem não! Eles ficam, eu não dei autorização.

 

— Você não manda neles — lembrei.

 

Os dois, seguindo a embalagem, repetiram:

 

— Sim, o senhor sargento não manda em nós.

 

— Muito bem, senhor delegado, eu creio que, infelizmente, o mandato de prisão do meu amigo é válido, agora o meu é uma farsa. Portanto, a mim ninguém me prende. Mas verifique o senhor mesmo, delegado, como as assinaturas foram forjadas aqui por este animal.

 

O delegado olhou atentamente e disse:

 

— Bem, eu ainda não tinha visto estes documentos, mas posso- lhe assegurar que este com o nome do senhor Araújo é verdadeiro! É a bem conhecida assinatura do senhor juiz. A outra, isso já não sei.

 

— Eu sei, foi obra aqui deste falsificador. Por favor, importa-se de me passar os papéis.

 

— Faz favor, tome.

 

Eu agradeci a amabilidade e entreguei o documento válido ao sargento.

 

— Pegue e repare bem.

 

Este, sem saber que terrenos pisar, ficou embasbacado a olhar para o papel. Voltei-me novamente para ele e disse com o falso papel na mão:

 

— Pode guardar esse que infelizmente é verdadeiro. Este, está a ver este?

 

— Claro, maldito, não sou cego.

 

— Claro que não é cego. Cega é aqui a dona Dinha e de todas as pessoas que conheço, é a mais digna e corajosa!

 

Eu com o papel na mão erguido à altura dos olhos do não cego, voltei a pegar no assunto cada vez mais seguro de mim.

 

— Este, quer guardar este?

 

Ele preparava-se para agarrar no documento e eu neguei-lho:

— Ah, ah, eu vou-lho dar sim, mas vou fazer a multiplicação dos pães. Rasguei o papel e lancei as dezenas de pedacinhos para a cara do desautorizado. Um forte aplauso fez-se ouvir e uma grande vaia por parte dos mais corajosos. Senti, e julgo que ele também sentiu, que aquela manifestação das pessoas era o princípio do fim do seu reinado. Embora eu ache que a sorte é eterna companheira dos maus…

 

— Delegado, prenda este sujeito; já existe justa causa, ele rasgou um documento e faltou-me ao respeito.

 

— Deus lhe dê duas coisas: juízo e uma bengala.

 

Soltei       umas       largas      gargalhadas.   O     delegado dirigiu-me        estas recomendações:

 

— Bem, já chega. Nada de esticar a corda. Quanto ao seu amigo, esse vai mesmo ser enjaulado. Lamento ter de dizer isto, mas tenho de cumprir a lei.

 

Voltou-se para o sargento e recomendou:

 

— Senhor sargento, nada mais posso fazer que cumprir a lei, e essa só permite que prenda um só homem.

 

— Você, delegado, está mancomunado com esta gente, fique certo que não vai ocupar o cargo de delegado por muito tempo.

 

— Senhor sargento, eu posso ser prejudicado, mas lembre-se caso eu perca o cargo de delegado, nada mais tenho a perder. Talvez depois possa falar tudo que sei e aí o senhor sargento também terá algo a perder.

 

— Maldito, está a ameaçar-me?

 

— Claro que não, estou só a alertar o senhor.

 

— Tragam esse assassino e vamos que eu já não posso ver nenhum de vocês à minha frente.

 

— Caminhe de costas, como os caranguejos. Coitados dos animais, isso era uma ofensa para eles serem imitados por um outro animal, bem mais animal — continuei assim a humilhar o dito.

 

Levaram o meu amigo preso. Desta vez foi transportado numa charrete normal. Mais tarde, o delegado contou-me que quis assim dar um pouco mais de dignidade à detenção. Sendo contrariado pelo sargento, alegou que íamos ser dois detidos e a cela não tinha condições para duas pessoas.

 

— Lembro-me como tu pedias ao delegado e ao sargento que não levassem o teu pai preso. A ingenuidade infantil, e não só, a ingenuidade no bom sentido   da   palavra   leva   muitas   e   variadíssimas   vezes   as   pessoas   a acreditarem na boa vontade de alguns humanos. Humanos esses que vivem para a desumanidade. Como tu ainda criança, a chorar e ao mesmo tempo, a pedir que soltassem o teu pai, deixaste os mais humildes com as caras molhadas. A tua tia Dinha, com a sua deficiência, com as suas muitas primaveras que lhe ensinaram tudo de bom e tudo de ruim, também pedia pelo teu pai de quem ela gostava muito. Pedia que soltassem; sabes Lipe, de certo modo ela não pedia, depende da interpretação. Ela fazia-se valer dos direitos que seu sobrinho tinha e afirmava a sua inocência.

 

Da tua mãe escusado será contar, que como uma esposa extremosa que ama o marido, estava inconformada. O caso outras exigências não fazia. Permaneceu sempre ao lado do teu pai e quando, ao despedir-se dele, o sargento ficou perto dela. Nesse mesmo instante, ela ameaçou-o:

 

— Seu nojento, quando cruzar o meu caminho não venha sozinho, traga capangas, ou venha sempre bem armado, um dia destes vou dar cabo de si.

 

Respondeu o safado:

 

— Sim minha querida, bem sabe que eu vou cruzar os seus caminhos, seus caminhos, suas roupas, seu corpo e o resto você já sabe.

 

— Maldito, nunca mais na vida me toca, juro sobre o túmulo de minha mãe e sob a sorte do meu filho!

 

— Tu, ao veres a tua mãe em discussão acesa com o mais que mau sargento, aflito, pegaste na mão dela para lhe dares protecção. Ao assistires à detenção do teu próprio pai, ao veres uma das pessoas que mais   amavas,   algemado e   humilhado,   eu   senti que   a   tua mente   se transformou num turbilhão de acontecimentos inexplicados, recordas-te?

 

— Sim tio, e como! As perguntas que fiz para dentro de mim, acho que ainda as sei todas: porquê isto agora? O meu papá é a melhor pessoa do mundo! Ele brincava comigo quando tinha tempo! Fazia isso poucas vezes porque ele trabalha muito! Oh, ele, às vezes não era assim tão bom, ficava zangado por eu brincar com a Clara! Oh, mas isso já faz tanto tempo! Ele é bom sim, muito bom! E eu gosto mesmo muito dele! Porque levaram o papá? Eu quero o meu papá de volta!

 

O Lipe, ao recordar todos os maus bocados que ele e os seus pais passaram, emocionou-se, e às fraldas da camisa limpou os olhos, fungou e com o antebraço limpou o mariz, e dando uns passos, pediu ao Solitário que parasse por ali, e para que ele lesse o resto em outra ocasião…

 

As mulheres tramam o sargento

 

Sendo o sargento de índole perversa, afastava-se muitíssimas vezes dos seus   três   amigos   que   juntamente   com   ele   formam   a   quadrilha   de malandros. Estes desvios só se realizavam quando ele tencionava efectuar algum negócio do qual não queria que os outros tivessem conhecimento, ou para tentar fazer malandragens…

 

Um dos locais que normalmente o atraía era o pequeno riacho onde muitas mulheres lavam a roupa.

 

Num belo dia após o almoço, dona Clotilde deslocou-se ao riacho para as suas roupas lavar. De súbito, chega o visitante reincidente, seguindo à risca o seu costume, desabotoou a camisa, tirou as botas e desceu as calças. Enquanto que estes rituais decorriam, ouviu-se um chilrear de um pássaro não muito frequente por ali. O sargento iniciou o curto trajecto que o separava da sua tão desejada vítima. Entrou na água fazendo-a chapinhar, e dona Clotilde, embora já o tivesse visto, manteve uma calma anormal.

 

— Cá estou eu outra vez mulherzinha para satisfazer nossas vontades — proferia   todas estas baboseiras esperançado que, desta vez, iria ser bem recebido, pois ela não reagira como de costume.

 

— Venha, meu querido, já estava a ficar triste… pensava que não viria.

 

Estas declarações saídas da boca de dona Clotilde para ele foram como toques melodiosos de sininhos. Entusiasmado, convicto que da primeira vez que a teve à força tinha-se portado como verdadeiro garanhão. Desceu as cuecas e rodou várias rodadas até se agarrar à senhora.

 

— Meu docinho de mulher, eu sabia que toda aquela resistência da outra vez ia ter fim. Que bom. Desta vez vamos ser mais felizes. Oh, se vamos!

 

— Sim, meu querido, tenho certeza. Venha, venha.

 

Dona Clotilde estava a dar mostras de contente e continuava:

 

— Venha, meu garanhãozinho, mas vamos com calma, a pressa é inimiga da perfeição, não acha?

 

— Sim, doce de mulher, bem sabe que eu não sou trapalhão!

 

O homem, entusiasmadíssimo, agarrava a senhora, tentava-lhe tirar as roupas, beijá-la na boca, estava louco de contentamento, não cabia em si de tanta felicidade. Queria dar, o quanto antes, ênfase aos seus desejos que, desta vez, eram também os dela.

 

— Com calma — dizia ela, continuando — com calma, rápidos são os coelhos! E eu nunca gostei de homens apressados para estas coisas!

 

— Coelhos! Ora essa! Coelhos… está a comparar-me aos coelhos? Bem, sabe que eu sou um ás nestas coisas do amor!

 

— Sim, um grande ás! Do melhor que há na terra!

 

A senhora deu entenderes de que gostava de tudo aquilo, mas ele teria de demorar-se. Achava que era mania dela estar a retardar, talvez por pura maluquice. Aquela situação demorou alguns minutos. Subitamente, ouviu- se um relinchar fortíssimo que ecoou por toda floresta. Os cascos do cavalo batiam no chão com rapidez, como baquetas impulsionadas com toda a força nos tambores de uma bateria. Em poucos instantes o barulho dos cascos esvaía-se lentamente, não porque o cavalo estava a parar a sua desenfreada marcha, mas porque se estava a afastar a toda a velocidade.

 

O sargento, que tinha as hormonas sexuais a alterar-lhe os pensamentos, não reflectiu naquilo que poderia estar a acontecer e, com voz doce, disse:

 

— Ora essa, o que se passou com meu cavalo? Ele é um animal manso!

 

— Maldito! — resmungou dona Clotilde. — Seu maldito, vá-se embora atrás do seu animal, seu animal! Pensava que ia conseguir alguma coisa de mim?

 

— Eu não estou a entender nada! — dizia embasbacado o sargento.

 

— O cavalo fugiu e levou as suas roupas, porco imundo! Eu disse da outra vez que um dia ainda o capava, lembra-se? Só não o fiz hoje porque tinha tudo combinado! — continuou dona Clotilde.

 

Ao dizer isto, dona Clotilde pegou uma faca que tinha escondido na bacia da roupa e ameaçou o desgraçado:

 

— Embora! Toca a ir-se embora daqui! Malvado!

 

As gargalhadas da senhora ouviam-se ao longe. Enquanto isso o sargento, desorientado, saía de dentro da água. Ao ver que as suas roupas ali não estavam, resmungou:

 

— Maldita seja você mulherzinha, agora não tenho roupa! Como faço para ir para minha casa?

 

— Vá assim! Um porco pode bem andar nu por aí! Ninguém lhe vai fazer mal algum! É um porco com manias de sargento, mesmo não tendo farda! Desta vez vai em pêlo! Que lindo teatro, que lindo!

 

A senhora ria-se como não há memória.

 

Entretanto o sargento, como sem arma não é homem, procurava a sua. Dona Clotilde, de faca na mão, disse-lhe:

 

— O seu cavalo puxou ao dono! Gosta de andar por aí armado, foi ele quem levou sua arma! Eu, se fosse a você, dava-lhe uma prenda, ele sai mesmo ao pai!

 

— Clotildezinha, Clotildezinha! Eu não posso ir assim sem roupa para casa, como vai ser da minha reputação? Vá lá, empreste-me umas roupas, siga, rápido!

 

— Fale baixo! Está a relinchar muito alto! Eu não lhe empresto roupa nenhuma! Ah! Até por que aqui só tenho roupa de mulher! Lembre-se que meu querido homem está preso! Lá em casa sou eu, o Lipe e a tia Dinha, aqui só tenho roupas de mulher!

 

Sempre com falas e em tom de troça, dona Clotilde perguntou:

 

— Se quiser, posso-lhe emprestar umas roupas da tia Dinha, a senhora quer?

 

— Maldita mulher! Veja lá como fala! Ainda lhe dou umas boas palmadas! — ameaçava a senhora e levantando a mão.

 

— Ah, ah! Desta vez o sargento sou eu! Que lindo conto, de mulher passei a homem e o senhor de homem passou a mulher! Não se esqueça que a única pessoa que está armada aqui sou eu!

 

Dona Clotilde estava muitíssimo segura. O sargento, apercebendo-se que se encontrava em desvantagem, mudou o tom de voz.

 

— Dona Clotilde por favor empreste-me umas roupas, até podem ser as da sua tia! Diz o dito popular que “quem não tem cão, caça com gato”…

 

O   sargento   tentou   disfarçar-se   de   tal   modo   que   mais   parecia   um espantalho desengonçado. A época não era carnavalesca, mas um disfarce daqueles parecia antecipar a quadra festiva. Que coisa feia, meu Deus! Colocou um lenço na cabeça, só se podiam ver os olhos. Vestiu também uma saia, que lhe fazia sobressair o rabo, tão apertada que era. Numa tentativa frustrada de esconder a barriga, vestiu uma camisola mas esta deixava a descoberto parte do umbigo. Ao olhar a sua triste figura pediu, sem demoras, outra camisola. Prendeu-a à cintura na tentativa de encobrir o máximo do seu corpo.

 

Dona Clotilde, sempre com ares de troça, perguntou:

 

— Então minha senhora! Que tal se sente? Por acaso não quer vestir umas calcinhas de mulher? Tenho aqui algumas, minhas e da tia Dinha!

 

Sem resposta a dar, o pobre sargento deslocava-se em círculos, bufava tanto que mais parecia uma ventoinha de escritório. A senhora continuava:

 

— Tome lá estas calcinhas, mas tenha cuidado, não vá por aí aparecer um tolo com manias de militar! Por acaso já faz bastante tempo que não o vejo! Mas, como estava a dizer, faça muito cuidado, pode dar-se o caso de ainda lhe aparecer o tal sargento de que lhe falo e pensar que você é uma esfomeada mulher a atentar um grande garanhão!

 

Ele começava a falar mas pôs-lhe a mão esquerda na boca e continuou:

 

— Chiu, chiu! Dê lá uma voltinha para mim!

 

— Que linda, que jóia de mulher! Ah! — continuou, mas desta feita, com mais   autoridade.   —   Desapareça   das   minhas   vistas   maldito   sargento! Desculpe lá, minha senhora, eu emendo, assim fica melhor. Desapareça das minhas vistas, mulher malvada! Cara sargenta, se volta a cruzar o meu caminho, pego numa faca e corto essa coisa que tem no meio das pernas!

 

Nunca houve neste mundo alguém que tratasse de modo tão desprezível aquele homem, habituado a lidar com tratos daqueles, outrora como autor. Sem palavras, embrenhou-se na mata sem seguir os caminhos trilhados pela passagem de pessoas e animais. Dona Clotilde certificou-se que ele já se havia afastado e deu assim início ao tão desejado regresso a casa.

 

Dois olhos reparavam atentos em tudo o que rodeava o seu dono, mais tarde, outros dois reforçaram a vigia. Vários eram os caminhos que, do riacho, davam ligação a outras fazendas. Existia, em paralelo ao pequeno riacho, um estreito carreiro que se ligava ao local de lavagens. No caminho para casa, dona Clotilde, tinha que, forçosamente, seguir por matas com árvores de pouca altitude, pastagens, várias encruzilhadas e paisagens magníficas. Para o sargento o acesso teria de ser o mesmo, com uma agravante para ele. O trajecto de regresso para a sua fazenda impunha-lhe a passagem em frente (ou pelas traseiras) da casa dos pais do Lipe. Caso contrário teria de percorrer uma grande distância, coisa que, certamente, não lhe aprazia.

 

Os quatro-olhos seguiam o seu caminho, sempre atentos — não vá o desejo de vingança do sargento fazer com que se esconda em alguma árvore de grande porte ou algum monte de arbustos para atacar à pedrada dona Clotilde e seu anjo protector. Sendo ele a figura que é pode ser que já tenha conseguido auxílio. Prudência e água benta nunca fizeram mal a ninguém. Algumas centenas de metros percorridos, avistaram a mulher sargenta a caminhar de gatas grande parte do percurso, numa tentativa desesperada de não ser visto.

 

Dona Clotilde, já perto de casa, resolveu deixar as roupas e avisar a tia Dinha que iria demorar um pouco mais. Saiu às pressas para as traseiras da sua   pequena   fazenda,   suspeitando   que   o   sargento   passaria   por   lá, certamente não se atreveria a passar em frente da sua casinha. Dona Clotilde, sempre acompanhada pelo seu anjo protector, espetara um firme pau   num   dos   lados   do   caminho.   Esconderam-se   no   meio   do   milho, seguravam uma fina corda que tinham prendido ao pau e ficaram à espera do meliante. O crepúsculo dava, já, sinais da sua existência. Escureceu rapidamente,   o   que   deixou   o   sargento   satisfeito   pois   retardara   a caminhada justamente para dar tempo ao dia de se tornar noite, e, assim, poder ocultar-se no escuro que a caracteriza.

 

As duas bem escondidas no interior do milho tinham bem alerta o sistema auditivo. Ouviram-se passos. De ouvidos e olhos bem atentos, espreitavam por entre os altos pés daquele cereal. Quando o sargento passou mesmo em frente delas, puxaram a fina corda. Foi bem audível o barulho daquele corpo momentaneamente feminino a cair. As duas fizeram um esforço enormíssimo para que os seus risos não fossem ouvidos e aquela alegria as denunciasse. Riam-se em risos surdos. O tombado e repugnante ser gemia, eram bem notórios os seus ais. Naquele mesmo instante em que o sargento se encontrava caído, apareceram na mesma montada dois sujeitos de índole duvidosa. Ao verem todo aquele cenário desmontaram, e um deles, o mais alto, de pele morena, cabelos castanhos claros e mal vestido, que se encontrava embriagado, exclamou:

 

— Milagre de Deus! Milagre do meu senhor Jesus Cristo! Uma mulher caidinha por mim, deitadinha no chão à minha espera!

 

Diz o outro, que à semelhança do primeiro também se encontrava mal vestido, era mais baixo, mais gordo de cabeleira curta e muito forte e mulato, que ganhou no imediato vocação para sacristão:

 

— Upa alá! Eu estou contigo parceiro, vem mesmo a calhar!

 

Um embriagado e o outro não tanto, mas com indícios, deram espaço ao egoísmo.

 

— Ela é minha! Não lhe toques, é todinha para mim!

 

— Isso é que era doce, eu também tenho os meus direitos! Dizia o mais embriagado:

— Pode até ser que tu, caro amigo, tenhas os teus direitos, mas eu sou o primeiro!

 

O sargento caído com dois bêbados a seus pés, prontinhos para o forçarem a fazer aquilo que nunca desejaria fazer. (Quem com ferros mata, com ferros   morre).   Embora   aqueles   dois   seres   se   encontrassem   meio inconscientes pela inconsciência de beber e não se tenham dado conta que aquele ser fardado de mulher era deveras um homem.

 

O egoísmo e a vontade de se ser o primeiro em coisas que, por vezes, somos os últimos (embora neste caso, se o acto fosse consumado, o primeiro daria de facto jus à classificação). Essas pretensões, esses feitios, essa   forma   de   estar   na   vida,   fazem   com   que   nos   sejam   atribuídas classificações pouco honrosas e com que nos tornemos seres indesejados.

 

Os dois discutiam sem cessar:

 

— Eu sou o primeiro, porque sou o dono do cavalo!

 

— Eu sou o primeiro porque sou mais velho!

 

— Eu sou o primeiro porque estou com mais vontade!

 

— Eu sou o primeiro porque quero e ponto final!

 

— Não eu sou o primeiro porque sou o mais forte!

 

— Estás muito enganado, não és nada o mais forte!

— Quem te disse? Claro que sou! Tu vais ver já se sou ou não o mais forte! Nisto, agarrou-se ao outro e os dois começaram a lutar no intuito de ganharem a presa. Enquanto isso o sargento, estupefacto, levantou-se, deu um empurrão nos dois e, acobardado, escondeu-se entre o milho.

 

Os dois, que mal se seguravam de pé, caíram. Azar dos azares para o sargentão, preocupado em fugir de um perigo. Sem pensar que os perigos são como os números, a seguir a um vem outro. Foi de gatas para o interior dos altos pés daquele milho. Sua atenção estava concentrada nos dois embriagados homens e, sem se dar conta, colocou-se mesmo à frente das causadoras da sua queda, mas sempre voltado para o caminho. O cheiro a suor que provinha do sargento, que até aquela data não havia conseguido tão   grande   colecção   de   medos,   era   nauseabundo.   Suas   ocultas companheiras de milho faziam um esforço imensurável para conterem seus risos. Subitamente, dona Clotilde teve uma visão extraordinária, a saia de dona Dinha, que deixava a descoberto as nádegas do safado, visto que se encontrava aninhado. Rápidos pensamentos maliciosos lhe surgiram na mente, mais rápido tratou de os colocar em prática. Desferiu tamanha palmada naquelas branqueadas nádegas, que o barulho do impacto da sua mão ecoou por todo o campo de milho. O sargento ficou estarrecido, julgava ele ter somente dois bêbados no seu encalço.

 

— Que se passa aqui? Quem me bateu? E agora para onde vou fugir? Estou cercado por todos os lados!

 

Todos   estes   pensamentos   e   indagações   expandiam-se   na   sua   mente, continuando:

 

— Ai, António! O que vai ser de ti! Não sabia que era assim tão gostosa! — corrigiu num instante seus pensamentos. — Ai António, acorda homem, gostoso querias tu dizer! Mas o que importa isso agora! Como queria ter coragem para olhar para trás e ver quem me bateu! Não, isso não! Tenho de sair daqui! Ganhou coragem e, ainda de gatas, andou em direcção ao caminho. Mesmo pertinho da margem, levantou-se e enfrentou os dois lutadores, que se debatiam como dois animais selvagens, para que desta luta fosse encontrado o macho mais forte, que passaria, a partir daquele momento, a ser o macho dominante. Seria um macho dominante de fraco instinto, que sem dar conta desejava gato por lebre… Os dois lutavam a rebolar.

 

Quando o sargento surgiu a seus olhos, cessaram a luta e levantaram-se rapidamente. O mais embriagado, satisfeito da vida, disse com um olhar penetrante:

 

— Bons olhos a vejam minha querida! Eu sabia que voltava, sabia que não conseguia resistir aos meus encantos!

 

Não   teve   tempo   de   pronunciar   estas   frases   de   pé,   em   estado   de embriaguez e machucado pela luta, estatelou-se no chão, não dando mais conta de si. O segundo, que estava num estado que se pode considerar mais sóbrio, exclamou:

 

— Estás a ver! Ela é todinha para mim! Nem com o teu corpo podes, como ias agora dar conta desta boazinha!

 

Cai e não cai, tentou agarrar a sua querida. Esta livrou-se facilmente dele, e meteu pés a caminho a toda a velocidade possível. O homem, bastante mais jovem do que o sargento, refez-se rapidamente da queda e correu atrás do fugitivo. Por natureza o sargento corria lentamente, e como usava roupas de mulher, mais vagaroso se tornou. Fora facilmente alcançado.

 

— Upa alá! Desta vez não te livras de mim! Anda cá minha linda!

 

Agarrava-se entusiasmado ao seu amor, tentava beijá-lo. O sargento desta vez não conseguiu desenvencilhar-se daquele tarado, em tudo semelhante a si próprio, e falou pela primeira vez:

 

— Seu maldito! Eu sou o sargento, não me reconheces?

 

— Oh minha querida porque não te entregas? O que fazes para não seres minha! Até mudas o tom da tua voz!

 

— Maldito seja seu maluco! Eu sou o sargento, já lhe disse!

 

Enquanto barafustava tirou o lenço da cabeça. O bêbado e assanhado homem reconheceu-o no mesmo instante.

 

— Desculpe, senhor sargento, mas assim vestida não o conhecia!

 

— Disse vestida?

 

— Sim, sargento, desculpe, mas que parece uma mulher toda gostosa, lá isso parece!

 

O sargento, irritado por ser comparado a uma mulher, desferiu uma bofetada no pobre homem que ficou estático, sem qualquer tipo de reacção. O posto de sargento era-lhe novamente restituído, infelizmente alguém teria de adoptar o posto de submissão.

 

A idolatração e a submissão caminham lado a lado, mas com objectivos distintos. De um lado, o ridículo papel que alguém desempenha ao supra valorizar-se, e do outro a infelicidade de alguém se subestimar a si próprio, enaltecendo em demasia o seu semelhante. O sargento, depois das   muitas   ameaças   ao   coitado   e   equivocado   homem,   dirigiu-se apressadamente para sua casa. A distância entre ele e o desconsolado era já considerável. O enamorado do sargento, com mil e uma curiosidades e dúvidas na cabeça, enquanto a coçava, perguntou:

 

— Senhor sargento! Ainda que mal lhe pergunte, diga-me uma coisa. Porque é que anda por aí vestido de mulher? Que papelão!

 

— Maldito! Meta-se na sua vida! Isso não lhe diz respeito, eu não o autorizo a fazer esse tipo de perguntas! E mais! Se contar a quem quer que seja que me viu assim deste modo, dou cabo de si! De si e do outro seu amigo! Entendido?

 

— Sim, meu sargento, fique descansado nós não falamos, somos túmulos!

 

O malvado sargento, mesmo vestido de mulher, continuava a manter sua arrogância e autoridade sem mérito nem benemérito. Pensava com os seus botões, seguindo seu caminho em direcção à sua fazenda, sempre a lamentar-se:

 

— Minha nossa Senhora, o que deixei que fizessem comigo! Permiti que uma mulher me enganasse e me roubasse todas as minhas roupas, que dois bêbados malucos quase me agarrassem, e, ainda por cima, fui reconhecido por um deles! Maldita seja a minha sorte! E ainda por cima vou a seco, a seco não, acho até que vou todo mijado!

 

O sargento agia como o último rei árabe quando foi expulso da Península Ibérica. Quando os reis católicos castelhanos expulsaram os últimos reis árabes da região de Granada, estes tiveram esforçadamente de abandonar, com os seus súbitos, as suas casas e o magnífico palácio de Alhambra. Ao fugirem em debandada, e quando já se encontrava longe do seu palácio, o rei árabe olhou para trás no intuito de despedir-se. Ao vê-lo, sabia bem que o estava a fazer pela última vez e então chorou amargamente. Sua mãe, uma sábia rainha, vendo o seu filho a chorar, proferiu esta frase: “Meu filho choras como uma mulher aquilo que não soubeste defender como homem!”

 

Esta secular frase adapta-se na perfeição à personalidade do sargento. As duas   personagens,   escondidas   no   milho,   riam-se   agora   em   altas gargalhadas do ridículo papel que o sargento fez. Este, sem mais demoras, encaminhou-se   para   sua   casa.   Foi   visto   por   algumas   pessoas   que, respeitando a sua autoridade, não tiveram qualquer atitude, tanto de piada   como   de   curiosidade.   As   duas   senhoras   compadeceram-se   do embriagado homem, mas, ao verem o mais sóbrio nas proximidades, resolveram   manter   a   ocultação   para   que a   fúria   do   sargento   não aumentasse e lhes acarretasse consequências maiores.

 

                   Ida ao hospital

As transformações na vida de uma pessoa, quando ocorrem de forma drástica, são difíceis de digerir. Nós, adultos, desenvolvemos, ao longo da nossa existência, capacidades de desfazer o turbilhão de perguntas sem respostas relacionadas com essas mudanças. Uma criança franzina de dez anos ainda não possui essas capacidades, pois a natureza da sua curta existência ainda não lhe facultou esse entendimento. Era assim a vida do Lipe, uma juvenil vida, a caminhar para a adolescência, e não muito rica em experiências. Sempre viveu na pequena fazenda dos seus pais, o máximo que fazia era ir ao rio e passear pelos campos, preferencialmente na companhia da sua amiga Clara. Nunca até então viajou à cidade. Do dia para a noite, perdeu a sua amiga. Da noite para o dia, perdeu-se no rio e, quase, o que tem de mais sagrado, a sua própria vida com a infantil vivência e as juvenis experiências.

 

De uma hora para a outra acordou entre os amigos e médicos índios, que o ajudaram a agarrar uma nova vida. A vida que seus pais lhe deram com a nascença evaporou-se naquele rio, condensou-se na canoa e caiu em gotas na palhota tribal.

 

De um minuto para o outro, viu o seu pai nas últimas homenagens cerimoniais. Seu pai… a quem há poucos dias atribuía culpas pelo atentado que Clara sofrera. Acabou por ser preso, mas um amigo fiel tudo fez para que este regressasse à liberdade.

 

De um segundo para o outro, com um só olhar, viu sua mãe e sua tia quando, no âmbito das cerimónias fúnebres, deveriam permanecer calados e quietos. Para que não existisse uma excepção à regra, vigoravam o silêncio e o máximo respeito.

 

Esta conjuntura de acontecimentos, de novas experiências, de encontros e desencontros, mais do que provavelmente mexeram com a sua frágil condição física e emocional.

 

O Solitário era detentor de um amor enorme pelo Lipe, e sentiu que o melhor que naquele instante poderia fazer era levar o miúdo a ver a sua amiga ao hospital. Ele sabia de antemão que era a única alegria que lhe poderia oferecer. Minimizou, deste modo, o seu sofrimento, sem deixar de lhe recordar que corriam o risco de chegar com as mesmas notícias da partida. As tarefas na fazenda eram muitas, e estavam muito atrasadas, o Solitário e o Lipe adiantaram serviço e, no dia seguinte ao dia da prisão do senhor Araújo, puseram rodas e cavalo na estrada. Enquanto calcorreavam caminhos em direcção ao hospital, as conversas andavam em torno de Clara e de uma tal Juli, pelo que o amigo do Lipe deduziu de imediato que era a pequena índia que, de forma involuntária, mexeu com os seus sentimentos, ou, melhor dizendo, com os seus pensamentos. Quando somos possuidores de um qualquer objecto de estimação e recebemos um novo para ocupar o seu lugar passamos, naturalmente, a valorizar mais este último, em detrimento do usado. No entanto, por vezes, por apego afectivo, continuamos a gostar do usado. Se nos oferecem dois objectos iguais, lindos, novos, do mesmo tamanho, bem… aí ficamos com uma divisão sentimental. O Lipe sempre brincou com a Clara, agora que o fez também com a tal Juli, dividia por fatias iguais as vezes que falava de ambas nas conversas que, de forma natural, fluíam entre os dois. À medida que se afastavam da fazenda e aproximavam da cidade muitas foram as explicações que o Solitário teve de dar sobre as coisas que ele jamais havia visto.

 

— Tio, não estou a ver os papagaios!

 

— Papagaios?

 

— Sim tio, de papel!

 

— De papel? Não entendo!

 

— Sim, papagaios de papel, estou a ver três guitas ali no alto!

 

Custou-lhe a entender que as três guitas às quais o garoto se referia eram os fios eléctricos de uma rede de alta tensão.

 

— Lipe, aquelas três guitas na verdade não são guitas, são os fios que conduzem a electricidade!

 

— Então electricidade, electricidade!

 

— Mas tio, a electricidade também precisa que a conduzam como o Rápido?

 

— A electricidade é a energia eléctrica que é produzida em barragens e que depois segue através destes fios, aos quais chamas de guitas, mas que na verdade são os fios que transportam essa energia para as casas, as fábricas e muitos outros locais!

 

— Para as casas? Lá para casa ela não vai!

 

— Eu sei, a energia eléctrica ainda não chegou à tua casa ou às casas dos teus  vizinhos   fazendeiros,   mas   um   dia   serás   presenteado   com   essa maravilha do progresso!

 

— Tio, como é essa energia?

 

— A energia eléctrica é composta por são átomos, neutrões e outras conjunturas de massas, mas tu não compreenderias mesmo que eu te explicasse! Em suma, é essa energia que, quando usada, faz acender as lâmpadas, faz trabalhar os motores das máquinas, os motores de tirar água dos poços e muitas coisas mais!

 

— Aquela lâmpada que o pai acende lá em casa, é essa energia que a acende?

 

— Não, aquela lâmpada é a lâmpada de um candeeiro a petróleo, é outra energia que não a energia eléctrica!

 

— Tio, tudo isso é muito confuso, não é?

 

— Sim Lipe, um dia eu ensino-te, vais aprender como funcionam todas essas tecnologias!

 

— Tio, veja, as guitas!

 

— Fios Lipe, fios!

 

— Tio, os fios estão presos nestas árvores? Mas elas não têm ramos nem folhas!

 

— Isto que estás a ver são os postes onde os fios são fixados, chamam-se postes de electricidade e não árvores!

 

Lipe tinha uma vocação inata para cocheiro, o cavalo dedicava-lhe uma grande obediência. Quanto ao seu amigo, menos habituado a tais feitos, fazia questão de, provisoriamente se transformar em cocheiro particular do senhor Filipe Araújo. Enquanto isso o Lipe observava, atento, tudo o que surgia à passagem. Num daqueles momentos, silenciados pela atenção que   dedicavam   à   luxuriante   paisagem,   os   espinheiros,   araucárias carregadas   de   pinhas   prontinhas   a   largar   os   pinhões,   os   salgueiros, umbuzeiros, arbustos, e muita vegetação de pequeno porte perfumavam o ar que respiravam. Os belos cantos das aves gralhas azuis, araras, melros, mandarins   e   muitos   outros,   que   lançavam   forte   apelo   ao   silêncio, inebriavam os sentidos deles. Mas, mais uma de muitas vezes em que essa tranquilidade foi quebrada pelo aparecimento de mais uma novidade.

 

— Tio, ouça, ouça o barulho que aquele pássaro faz a voar!

 

Olhou para o Céu viu muitos pássaros mas a não ser o chilrear, não ouviu outro barulho.

 

— Qual pássaro está a fazer barulho?

 

— Aquele lá no alto!

 

E em simultâneo apontou para um avião.

 

— Não Lipe, o que estás a ver não é um pássaro, é um avião!

 

— Avião? Não sabia! Mas tio, o senhor diz que não é um pássaro mas ele voa!

 

— Sim Lipe, ele voa mas o que vês voar é uma máquina feita pelo Homem!

 

— Sabe Tio, eu mais tarde vou procurar o ninho daquele grande pássaro, ele deve pôr grandes ovos e assim a minha mãe já tem comida para muito tempo!

 

— Lipe, teus pais orgulham-se de ti, eu também me orgulho, estás sempre a pensar em tudo que achas ser bom para eles, isso prova que és um bom filho! Mas deixa que te explique que aquele pássaro não foi criado na natureza, foram pessoas que o fabricaram em grandes estaleiros. Portanto, aquele pássaro não põe ovos! Dentro daquela máquina estão pessoas sentadas em bancos!

 

— Tio, foi um pássaro como aquele que levou a Clara! Mas o outro voava mais perto e fazia mais barulho!

 

— Sendo assim, a tua amiguinha Clara, foi levada para o hospital num helicóptero. As pessoas acidentadas são levadas nos helicópteros para serem mais rapidamente assistidas e curadas dos seus ferimentos!

 

— Lá no rio Carinhanha procurei o tal pássaro para ele me dar a Clara de volta. Ele roubou-a!

 

— Roubou mas foi por uma boa causa, sossega nós veremos a Clarinha!

 

Aquela viagem para o hospital, no intuito de visitarem a Clara, decorria calma e tranquila, e começavam a ficar cada vez mais perto da cidade. Coisas até então nunca vistas pelos olhos do Lipe deixavam-no cada vez mais   admirado,   rodava   a   cabeça   para   todos   os   lados,   tinha  tantas perguntas para fazer que, por vezes, parecia que ia abrir a boca porém, nada dizia, talvez não soubesse por onde começar.

 

— Tio, vamos parar!

 

— Porquê?

 

— Quero apanhar aquelas pombas!

 

— Pombas, quais?

 

— Aquelas que estão no ombro daquele senhor!

 

— Sim, mas porque queres aquelas? Lá na tua fazenda tem muitas pombas!

 

— Tem, mas estas pousam no ombro daquele homem!

 

— Lipe, o que estás a ver não é um homem, é a estátua a homenagear alguém!

 

— Como assim, as pombas estão pousadas no ombro daquele senhor e ele deixa-as estar!

 

— Ele deixa-as estar porque não tem vida! Sabes, Lipe, existem pessoas importantes que, quando morrem, são representadas do modo como vês esse homem. São estátuas feitas para prestar homenagem a pessoas ilustres para, assim, perpetuar a sua memória, recordando a todos os que cá ficam dos seus feitos, à partida, gloriosos. Esta foi construída com um metal que se chama bronze. É por isso que as pombas pousam em cima dele, elas sabem que não se mexe e, sendo assim, não as afugenta!

 

Quando o Lipe começou a perguntar sobre as pombas, o Solitário parou o cavalo e fez questão de se aproximar da estátua para lhe explicar.

 

— Vês aqui esta lápide, está escrito o nome da pessoa: Tancredo de Almeida Neves, deputado e grande defensor da liberdade. Está escrito nesta mais pequena abaixo que nasceu em São João del Rei, Minas Gerais, 4 de Março de 1910, e que morreu em São Paulo, 21 de Abril de 1985.

 

— Esta “coisa” foi um deputado?

 

— Não esta coisa mas sim o que ela representa! Este senhor foi eleito presidente da República, mas não chegou a ser empossado, por isso, foi homenageado e fizeram-lhe esta estátua. Sabes, Lipe, se um dia te tornares uma pessoa importante, e bem pode ser que sim, que o venhas a ser! Embora se diga que «o futuro a Deus pertence!», eu prefiro acreditar que será aquilo que cada um de nós quiser, ou puder… Como eu ia a dizer, se um dia fores um escritor, um bom juíz, um deputado, primeiro-ministro ou desempenhares um outro cargo de grande relevo, pode bem ser que façam uma estátua em tua honra…

 

— Tio, cada um desses homens só tem uma coisa destas?

 

— Não, normalmente são feitas várias estátuas e colocadas por diversas vilas ou cidades. Um dia, quando estudares, irás compreender muito melhor e todas estas dúvidas, que como é natural, preenchem a tua cabecinha, vão desaparecer!

 

— Sim tio, eu quero saber melhor tudo isso!

 

— Grande menino, grande menino! Muitas pessoas não querem aprender mais porque acham que tudo que sabem é mais que suficiente. Durante a vida vamos aprendendo, progressivamente, muitas coisas essenciais e, outras, nem tanto. Desde que nascemos até ao dia em que morrermos, estaremos sempre a aprender. Houve um filósofo — um filósofo é um senhor que pensa muito e tem umas ideias meio malucas — chamado Sócrates que disse: «Quanto mais sei, só sei que nada sei!». Pode parecer- te confuso, Lipe, mas esta frase significa que, ao longo da nossa vida, nunca   aprenderemos   tudo.   Por   isso,   devemos   aprender   o   mais   que pudermos. Entendeste alguma coisa, Lipe?

 

— Pouco, tio… compreendi que hoje sei uma coisa e que logo devo saber outra!

 

— Muito bem, no fundo, bem lá no fundo, o miolo da coisa é mesmo esse!

 

— É tio, quer dizer que eu entendi?

 

— Sim entendeste! Mas agora acho que devemos seguir para o hospital!

 

Várias   outras   peripécias   se   passaram   ao   longo   do   caminho.   Lipe questionando sobre tudo o que para si era novidade, sempre pronto a interiorizar mais conhecimentos. No início da vida de um ser humano estuda-se   muito,   para   aprender   mais,   cada   vez   mais.   Por   muito conhecimento que possua um ser humano, quando se menciona muito, diz- se em grande escala, referindo-se a um sobredotado. Um sobredotado não é uma pessoa com muito conhecimento e sim com aptidões acima da média.   Uma pessoa com esta característica ocupa unicamente dez por cento da sua memória. Há quem defenda que o ser humano utiliza 10% da capacidade do cérebro. Mas existem muitas dúvidas a esse nível. Há a possibilidade de um sobredotado utilizar mais. Julga-se que eles utilizam duas partes do cérebro.   Estas pessoas, como todas durante uma fase da vida, vão aprendendo cada vez mais. Chegam a uma determinada etapa da sua existência em que necessitam aprender como exteriorizar todos os conhecimentos armazenados.

 

Aproximavam-se do hospital quando surgiu uma encruzilhada com quatro seguimentos, e voltaram na segunda rua à direita. Era uma rua pouco movimentada   com   mangueiras   de   ambos   os   lados,   vários   automóveis estacionados com os tejadilhos amassados pela queda das suculentas mangas. Pararam a carruagem e o Solitário pegou em duas em bom estado, com um canivete retirou o lado duro não comestível, e cortou o fruto em quadrados. Dois babados que, sem complexos, se deliciavam a comer a saborosa fruta caída, diga-se, de borla, nas suas mãos. Iniciaram a marcha de novo em direcção ao hospital. À esquerda surgia, agora, o estádio de futebol, um espaço ocupado por grama e terra batida. Poucas centenas de metros à frente avistava-se, do lado direito, a prefeitura, acercada desta, separada por algumas poucas árvores, ficava a farmácia. Contornaram a rua que se seguia à esquerda, avistaram de imediato os jardins existentes em frente do local de restabelecimentos. Entre automóveis, bicicletas, motos e um número infindável de outras charretes, estacionaram por fim, prendendo o Rápido a um alto cedro.

 

— Lipe, aguarda aqui, vou tentar entrar e mais tarde volto cá para buscar- te. Julgo que não deixam entrar crianças, mas tudo farei para que vejas a menina Clara.

 

— Sim, tio, eu espero aqui na companhia do Rápido, prometo que me porto bem!

 

— Muito bem, penso não demorar!

 

Dirigiu-se para a porta de entrada. Entre o jardim e a entrada existia uma estrada de faixa única e um pequeno espaço de estacionamentos para carros. Antes de entrar, e como já fazia muito tempo que não via um hospital, pôs-se a observar a fachada. Um edifício de três pisos, onde em algumas janelas podia ver vidros partidos, com as cortinas dançando ao sabor do vento, que por vezes saíam pelo vidro. Via ainda, pedaços de parede descascados, em algumas dessas partes ainda se podia ver o amontoado de entulho. Sua aparência conferia-lhe muita idade e dava indicações de precisar urgentemente de obras de restauro. Já na portaria aguardou alguns minutos para que duas pessoas fossem atendidas. Chegada a sua vez:

 

— Bom dia, senhor porteiro!

 

— Bom dia, o que deseja?

 

Inicialmente parecia-lhe um sujeito de pequena estatura, poucos instantes depois, quando este se ergueu, o Solitário constatou que se tratava de um indivíduo de média altura.

 

— Sabe senhor, eu sou um amigo de família de uma menina que sofreu um atentado num desfiladeiro lá para os lados da fazenda Olho de Água.

 

— Sim, e daí?

 

— Daí que eu gostaria muito de poder visitá-la, para saber do seu estado.

 

— Sabe o nome completo da menina?

 

— Sim sei, Clara Pinto de Sousa!

 

O senhor consultou um livro, poucos minutos depois revelou:

 

— Esta menina está sim cá internada, mas não tenho notícias para lhe dar sobre o seu estado de saúde!

 

— Por favor faça um esforço, vim juntamente com o seu melhor amigo, ele está lá fora desesperado por notícias da sua amiga!

 

— Sim eu acredito, mas não posso dar nenhuma informação a respeito!

 

— Posso pedir-lhe um favor?

 

— Se puder ajudá-lo…

 

— Dê-me autorização para entrar e tentar saber o quarto em que ela se encontra!

 

— Nem que fosse horário de visitas!

 

— Como assim?

 

— Não são horas de visitas, ainda que fossem eu não o deixava entrar!

 

— Mas posso saber porquê?

 

— Sim, é evidente, por acaso o senhor está consciente de como se encontra vestido?

 

Ultimamente ele não podia, nem em sonhos, concorrer num desfile de moda, jeitinho talvez não lhe faltasse, mas roupinhas de luxo, essas, nem no século passado estavam actualizadas.

 

— Desculpe, mas isto de andar bem ou mal vestido, tem influência porquê?

 

— Ora porquê, o senhor não está minimamente apresentável!

 

— Sabe, eu fui professor! Sofri um grande desgosto na vida, culpa de um malvado a quem muitos chamam destino, eu prefiro acreditar que foi um triste acontecimento… mas isso agora não interessa para nada… dizia eu, que sofri um grande desgosto zangando-me com a sociedade. Desde esse fatídico dia passei a viver completamente isolado numa caverna. Um dia conheci um miúdo — é ele que está à espera de notícias — e foi a partir desse dia que voltei a conviver com os seres humanos. Devo dizer-lhe que as minhas intenções são tão-somente ajudar as pessoas. Vivo numa caverna completamente desprendido de todos os bens materiais, não essenciais. Por essa razão é que não tenho muita roupa, faz anos que não visitava uma cidade!

 

O porteiro fitou-o de soslaio, talvez o Solitário tenha ouvido os seus mudos pensamentos… «coitado, deve ser mais um dos muitos malucos, criados por nosso Senhor Jesus Cristo…» pensaria.

 

— A sua história é deveras impressionante, viver sozinho numa caverna deve ser extraordinário mas mesmo assim não o posso deixar entrar!

 

— O senhor não me deixa entrar só por causa do meu trajar?

 

— Sim, é a principal razão!

 

— Posso sugerir-lhe um jogo?

 

— Um jogo? — perguntou embasbacado o porteiro.

 

— O jogo de faz-de-conta!

 

— Que jogo é esse de que fala?

 

— Feche os seus olhos!

 

— Claro que não fecho, se os fecho o senhor entra pelo hospital dentro!

 

O amigo do Lipe deu duas rasgadas gargalhadas que ecoaram na sala.

 

— Desculpe não consigo parar de rir! Não, a minha intenção não é maliciosa, quero apenas elucidá-lo com um teste!

 

— Um teste?

 

— Sim, por favor, feche os olhos!

 

— Já os fechei!

 

Levou as suas duas mãos aos olhos para os tapar.

 

— Não é necessário tapar com as mãos. Feche os olhos e basta!

 

— Já estão!

 

— Agora responda-me, o que está a ver?

 

— Nada, rigorosamente nada, só escuridão!

 

— Eu sei, já fiz essa experiência! O senhor nessa escuridão em que se encontra momentaneamente, acha que tinha condições para desempenhar a profissão de porteiro?

 

— Acho que iria ter muitas dificuldades, mas penso que sim, que conseguia ser porteiro!

 

— Claro que sim, os invisuais desempenham variadíssimas profissões, e posso assegurar-lhe que com muito mais profissionalismo, em comparação a muitos ditos normais!

 

O porteiro concordou em género e palavra.

 

— Imagine agora que o senhor era um invisual, que exercia a sua profissão de porteiro aqui mesmo neste hospital — continuou.

 

— Disse que cheguei aqui mal vestido, mas como? Se não sinto frio algum? Imagine que chegava aqui a esta portaria, o senhor era um invisual, eu dizia-lhe: bom dia eu gostaria de saber notícias de uma menina que cá se encontra hospitalizada. O senhor que nada via a não ser escuridão, como me responderia?

 

 

— Com toda a minha boa educação perguntaria: como se chama a menina?

 

— Eu respondia, Clara Pinto de Sousa.

 

— Sim, e depois?

 

— Imagine agora que continuaria a ser amável e bem-educado, como sempre fui! O senhor, ao ouvir as minhas educadas palavras, certamente que iria imaginar que bem na sua frente se encontrava um doutor, um prefeito, um professor, que é o que sou, mas sem exercer. Resumindo, o senhor   porteiro   de   que   falo,   na   condição   de   invisual,  não   avaliaria meramente a minha apresentação física, consideraria que uma pessoa que fala tão educadamente merece toda a sua atenção e bom desempenho profissional. Por conseguinte o senhor faria tudo para atender ao meu pedido, verdade?

 

— Sim, porque não veria a sua aparência!

 

— Questione-se… Será que apenas a aparência das pessoas é que interessa?

 

— No mundo em que estamos sim, é mesmo o lado da aparência que conta!

 

— Um gravíssimo erro!

 

Enquanto que o porteiro era confrontado pelo Solitário, fazendo uma espécie   de   sermão   religioso,   muitas   eram   as   pessoas   que   se   iam aglomerando à sua volta. Algumas que lá estavam para pedir informações e outras que interrompiam os seus trabalhos ou passeios para assistirem a toda   aquela   palestra.   Ao   ver   que   a   assistência   ia   aumentando,   ele continuou, mas desta feita voltava os olhares para uns e outros.

 

— E as minhas boas intenções? Intenções de pessoa preocupada em saber o estado de uma menina? E as minhas boas maneiras? Boas maneiras de uma pessoa educada, essas são para surdo ouvir?

 

— O senhor professor…

 

— Não me trate por professor, eu não estou a exercer!

 

— Está certo, o senhor está a encostar-me à parede e eu não sei que lhe responder!

 

— Nem sabe o senhor, e penso que não sabe ninguém! A sociedade escravizou-se a si própria com as modas, com o querer fazer bonito perante os outros. Quantas pessoas, ainda que tenham o peso normal, porque acham que uma amiga ou um amigo é o que se pode chamar um pouco mais elegante, arriscam, se necessário for, prejudicar a saúde fazendo   dietas   impensadas   e   incontroladas.   Vêem   alguém   das   suas relações um pouco melhor vestidas, porque até têm poder económico para tal, somente para se igualarem, ou mesmo para se sentirem superiores, compram roupas mais caras mesmo que para tal fiquem sem posses para comprar os bens essenciais. E tudo isto somente por causa da aparência, ou, melhor dizendo, para que se escravizem dela. A isto eu chamo consumismo. Que as pessoas gostem de vestir bem é louvável, que as pessoas tenham   auto-estima   é   louvável,   que as pessoas queiram ser vaidosas, se não for em porção desmedida, é louvável. Mas um pequeno e ao mesmo tempo grande reparo: que as pessoas não tentem dar passos maiores que os seus próprios pés! E o mais importante, que as pessoas respeitem o respeito que aqueles que cruzam os seus caminhos lhes oferecem. Que respeitem o íntimo de cada um, que deixem de olhar para um mal vestido, como eu, mas que reflictam que esse mal vestido pode bem ter um bom coração, uma grande sabedoria, e deseja por vezes repartir essa sabedoria com alguém a troco somente de um sorriso, de um ombro amigo a quem possa desabafar as mágoas. Que as pessoas nunca se esqueçam que as posses económicas não foram, não são e nunca serão repartidas a todos por igual! Que as pessoas nunca se esqueçam que um mal vestido não o é por querer, grande parte das vezes. Se o é terá fortes motivos e o mais importante é sabermos que a nossa liberdade acaba onde começa a liberdade da pessoa que se encontra ao nosso lado! Respeitamos para   sermos   respeitados.   Respondermos   com   palavras   meigas   para ouvirmos palavras carinhosas!

 

Calou-se por um breve momento lançando olhares para os assistentes. De súbito, um aplauso não unificado. Voltou-se novamente para o porteiro e quase a implorar uma autorização para entrar, perguntou:

 

— Sendo o senhor cego, será que agora permite a minha entrada?

 

— Desculpe, mas eu não sou cego coisa nenhuma!

 

— Eu bem sei, mas julguei que o jogo de faz-de-conta ainda não tinha acabado! Deixe que lhe diga só mais uma coisa, o senhor não é cego, claro que não! Não em termos oftalmológicos, porque em termos apreciativos é cego o senhor e grande parte da sociedade!

 

— Deixe que lhe diga uma coisa…

 

— Fale senhor porteiro, tenha a bondade, bondade de falar e de me deixar entrar.

 

— Eu já não entendo mais coisa nenhuma, já nem sei se sou cego da maneira que o senhor fala, ou o que é que sou! Mas quanto a isso de o deixar entrar, quanto a isso eu sei! Não pode, por mim não havia mal algum mas regras são regras, e além disso as visitas não são a esta hora!

 

Naquela já um pouco numerosa assistência, encontrava-se uma pessoa que certamente deve ter demorado a ganhar coragem para falar.

 

— Muito bem, Paulo, é isso mesmo!

 

O Solitário, espantado, olhou para o sítio de onde aquelas palavras saíram repentinamente e não as reconheceu no imediato.

 

— Então nem pela voz chegas lá?

 

Andou uns metros até se imobilizar perto do Solitário, e continuou com as perguntas na tentativa de ser reconhecida, através do timbre da sua voz.

 

— Paulo, responde uma coisa, andas a estagiar para Samana? Pretendes seguir o Budismo?

 

— Como assim?

 

Esperava ouvir mais aquela voz, para procurar atribuir-lhe um dono.

 

— Pode ser que não tenhas pretensões para seguir os passos de Buda, mas que pareces um profeta a espalhar a sua doutrina lá isso pareces!

 

— Nada disso, pretendo tão-somente alertar as pessoas para que não cometam atrocidades com os seus semelhantes.

 

— Desculpe… — continuou quase certo que havia acabado de descobrir um tesouro. — Já se passaram vinte e seis anos, mas eu acho que é a Ivete!

 

— Ufa, ufa, que susto… por momentos pensei ter envelhecido demais, a ponto de tu não me reconheceres!

 

O abraço, o tradicional abraço de quem vagueia vinte e seis anos, sem nada saber de quem, numa fase da vida, mandou no nosso corpo. Quando muitos anos se passam sem se fazer algo, os receios surgem, fazendo-nos desistir e esquecer o sonho. E então lá vem a tão conhecida célebre frase:

 

«Isso é como andar de bicicleta, nunca mais se esquece!»

 

Ele pensava que já se tinha esquecido… mas o seu corpo ainda vibrava quando se encostava ao corpo daquela mulher. Apesar de não ostentar a jovialidade de outros tempos, continuava fresca, elegante, com corpo de modelo… para a casa do estilista anos quarenta. Seus cabelos escorriam- lhe pelos ombros, os olhos verdes condizentes com os cabelos loiros naturais. O espanto generalizou-se — um mal vestido a ser abraçado tão efusivamente por uma senhora doutora.

 

Ivete era uma antiga colega dos tempos de liceu. Estavam no início do ano lectivo, dois meses após o começo das aulas. Na altura, a anatomia fazia parte do seu tempo curricular. Tendo algumas dificuldades em fixar a matéria respeitante aos ossos, deteve-se a estudar, durante o intervalo, os seus   nomes   e   quantos   constituem   o   nosso   corpo.   Estava   sozinho, concentradíssimo na sala de aula, quando ouviu uma chiadeira de porta a abrir. Olhou para trás na direcção da porta e, surpresa das surpresas, caminhava ao seu encontro a mais linda estudante daquele Liceu.

 

— Que fazes aqui sozinho? Não te apeteceu estar com o grupo?

 

— Bem que me apetece, mas a seguir temos anatomia e estou a zero!

 

— Perguntei por ti à Cinda e à Sónia e elas não me responderam!

 

— Pois, eu não lhes disse que ficaria a estudar!

 

— Perguntei depois ao Roberto, e ele disse onde tu estavas!

 

— Sim, ele era o único que sabia!

 

Levantou-se quando ela parou atrás da cadeira e sentou-se na mesa voltado para ela. Olhou fixamente para o seu rosto, tinha os olhos mais lindos e reluzentes de todas as estudantes da sua escola. Com aqueles belos olhos verdes, ela lançou um olhar para ele. Era um olhar penetrante, cativante e feroz ao mesmo tempo. Já na altura os cabelos lhe escorriam pelos ombros, sempre gostou de os ter assim. Com voz doce como mel, declarou-se:

 

— Sabes… fizeste falta lá fora!

 

Ele, inocentemente respondeu:

 

— Também tenho em falta a matéria de anatomia! — disse ele sorrindo.

 

— Eu quis dizer que senti a tua falta! — disse Ivete com veemência.

 

— Que bom… foi a frase que a emoção daquele momento lhe permitiu articular. — Fiquei por cá a estudar o nome dos ossos e tudo referente à anatomia…

 

— Porque não me chamaste?

 

— Para ser sincero faltou-me a coragem…

 

— Sabes, Paulo, eu sou boa em anatomia, posso dar-te explicações.

 

— Como te invejo, para a próxima fica ciente de que te chamarei!

 

— Amanhã pode ser tarde de mais! Porque não agora, tu dizes que precisas estudar anatomia, toda a anatomia está no corpo de uma mulher, podes estudar no meu… queres melhor aula prática?

 

Embasbacado, o seu rosto avermelhou-se, continuou estático e segundos, ou minutos depois, de voz trémula, respondeu:

 

— Bem… acho… que… não deve haver melhor aula!

 

Ela colocou as suas mãos de fada nos seus ombros e puxou o seu corpo para o dela, e beijaram-se com doces e suculentos beijos.

 

Os cabelos longos dela cobriram a sua cara. Fez força fazendo-o deitar na mesa de estudos. Subiu na cadeira, apoiou os joelhos na mesa e iniciou a aula de anatomia. Passaram à frente o capítulo respeitante aos ossos, no entanto,   os    relevos    corporais da    mulher,    esses,     foram pormenorizadamente estudados, ao ritmo do sabor fresco e suave dos seus beijos. Ele, que no começo de toda aquela agitação, se magoou nas costas numa esferográfica, recordou-se que as aulas deveriam estar prestes a recomeçar. Pararam bem a tempo de posicionar correctamente as cadeiras e arranjar os cabelos. Não tiveram tempo de organizar o material que havia caído no rebuliço anatómico. A professora, pessoa de um grande misticismo, que usava os cabelos presos com fita sempre de cor vermelha, em todas as suas aulas vestia religiosamente uma bata azul, gorda e baixa, e que tinha como hábito ser sempre a primeira a entrar para a sala, disse, com um sorriso rasgado e espontâneo:

 

— Meninos, as salas de aulas são locais de estudos teóricos não práticos!

 

Não foram todos, mas houve alunos que, tal como a professora, se aperceberam   da   natureza   do   estudo   de   ambos.   Matérias   tão   bem estudadas não se perdem nos arquivos memoriais, mesmo que se viva duzentos anos! Recomeçaram as aulas, e embora tenha revelado empenho em aprender durante o tempo de intervalo, de toda a matéria sobre a anatomia, ele nada conservou, nem um só osso encaixou. Ele, que durante o intervalo tencionava aprender tudo, ou pelo menos o mais que pudesse, para dar uma de sabichão, perante os seus colegas e a sua professora, ficou a zero sem inaugurar o marcador. Mas nada importava… Finalmente tinha despertado o interesse da rapariga que considerava inacessível para ele, de quem há tanto tempo gostaria de se aproximar. A aula iniciou-se.

 

—   Meninos   sejam   bem-vindos   à   segunda   parte.   Vou   fazer   algumas perguntas, às quais cada um de vocês responderá!

 

Azar dos azares, como a professora era possuidora de um razoável grau de provocação, pôs o conhecimento dele em cheque em primeiro lugar.

 

— Menino Paulo!

 

— Sim, senhora professora!

 

— Muito bem, menino Paulo, quantos ossos constituem o corpo humano?

 

— Dois, senhora professora!

 

— Dois? — os risos ecoavam em toda a sala e arredores.

 

— Sim dois, senhora professora… Lindos, belos, esbeltos, verdes, cor da esperança, reluzentes como o mais forte raiar da luz solar, penetrantes como a mais fina agulha de uma seringa, cativantes como o mais belo cantar de uma sereia, quentes como o mais intenso calor do meio-dia… Senhora professora,   a   sério… mesmo   a   sério… os mais belos  olhos… desculpe! Os mais belos ossos que algum dia vi!

 

Foi pior a emenda que o soneto! Este episódio foi mais tarde revelado por Ivete. Não se lembrava de nada, tal era o seu inebriado estado e o descontrolo emocional que derivava de uma experiência tão extasiante.

 

— Muito bem, senhor Paulo, tenho a impressão de que existe aqui nesta sala alguém equivocado e confuso. A julgar pela convicção com que me responde, temo seriamente que sejamos nós, eu e os seus colegas, que estejamos errados. Já sou professora há bastantes anos e você foi o primeiro aluno que me respondeu que os ossos são verdes. Será que estamos a falar de um extraterrestre? Que tal ele será? Olhos verdes, cativantes e reluzentes, esta agora!

 

Como se não bastasse, ela continuou o questionário:

 

— Muito bem, menino Paulo, se os ossos são só dois, quantos são os dentes?

 

— Muitos, senhora professora! Castanhos, sedosos, taparam-me a cara, que cheiro, que volume, que macios, pena é que alguns entraram no nariz!

 

— Bem, meninos, cinco minutos para que isto se componha, e vejam lá se fazem menos barulho, tentem rir-se baixo! As outras turmas estão em aulas!

 

Só então se apercebeu que as suas respostas estavam a ser alvo de chacota. Os risos eram infindáveis, os seus colegas comentavam:

 

— Boa, Paulo, então não foste para o intervalo connosco para estudar anatomia! Grande anatomia que tu estudaste!

 

— Grande Paulo! — diziam uns.

 

— Que grande lição! — exclamavam outros. Os risos e os olhares não cessavam.

— Menina Ivete!

 

— Sim, senhora professora!

 

— Responda-me, por quantos ossos é o corpo humano constituído?

 

— 206!

 

— Muito bem, menina Ivete! Qual é o osso do nosso corpo que possui menor dimensão?

 

— Penso que é o martelo, que se situa no interior do ouvido!

 

— Correcto, e como se chama o osso maior?

 

— O fémur!

 

— Muito bem, menina Ivete, eu bem sabia que você sabia responder correctamente, permita-me que lhe diga uma coisa, menina Ivete…

 

— Com certeza, senhora professora, faça o favor!

 

— A menina Ivete é uma excelente aluna!

 

— Obrigado, muito obrigado!

 

— Não precisa agradecer, mas cá entre nós, que ninguém nos ouve, a menina é boa aluna, disso não tenho a menor dúvida, mas desde já lhe digo que não tem vocação para ser professora, tem fracos alunos!

 

A Ivete, tal como o Paulo, durante muitos dias não foi capaz de olhar nos olhos da professora.

 

O   amor   deles   perdurou   até   ao   final  do   ano   lectivo.   Amaram-se intensamente, dois corpos reduziram-se a um só!

 

Os dentes duplicaram-se, não mais houve confusões com cheiros, nem estes existiam… Os cabelos sofreram uma mistura, castanhos-claros e pretos cerrados. Longos abaixo dos ombros e curtos bem curtos, aqueles que faziam parte da anatomia dele… Os ossos duplicaram-se em contagem correcta, sem confusões na multiplicação…

 

O amor é bom enquanto dura! O de ambos foi para lá de bom enquanto durou. No final, a Ivete teve que forçosamente mudar de estado por razões familiares, perderam completamente o contacto.

 

— Sabes, Ivete, estou aqui no hospital, na tentativa de ter notícias de uma menina!

 

— Como se chama essa menina?

 

— Clara… sofreu um atentado!

 

— Sim, sei de quem falas!

 

— Sabes? Que bom, podes dizer como está ela?

 

Enquanto falavam sobre Clara, ela colocou a sua mão em cima do ombro do Paulo e caminharam para a entrada.

 

— Sabes, Paulo, eu sou cardiologista, mas só a vi uma única vez. Ela está internada no terceiro piso, cama vinte e três. Não sei muito sobre ela, apenas que está gravemente ferida… bateu com a cabeça e corre risco de vida!

 

— Estou aqui com o melhor amigo da menina Clara, ele gostaria muito de a ver!

 

— Pois, mas é quase impossível, as crianças não podem entrar e de qualquer maneira ainda não estamos no horário de visitas!

 

— Não tens ideia de como posso chegar até ela?

 

— Estou muito atrasada, em cima da hora para entrar no consultório e ainda por cima fica do outro lado da cidade!

 

— Preciso mesmo ver a criança!

 

— Por favor não digas que me conheces, pega a minha bata, entra por aquela porta e o resto já sabes!

 

Apontou para uma porta de serviço.

 

— Piso três, cama vinte e três, faz de conta que és médico ou enfermeiro! Ah, amanhã ou quando puderes, mais ou menos neste horário procura-me, precisamos de conversar!

 

Despediram-se e combinaram a hora para se encontrarem dali a dois dias. Vestiu   a   bata,   ficava   um pouco   curta   mas   de   forma   aceitável.   De sapatilhas havaianas e de bata lá entrou pela tal porta de serviço, o novo doutor sem curso.

 

Mesmo à entrada havia um grande corredor e poucos metros adiante estavam as caixas dos elevadores. Pressionou o interruptor e aguardou um instante. A porta abriu-se, lá dentro estavam duas jovens enfermeiras.

 

— Bom dia! — desejou, sem tirar os olhos do chão.

 

— Bom dia senhor doutor… — continuaram, — um doutor de havaianas não é muito comum!

 

— Sabem, hoje acho que estou um pouco febril, por isso calcei havaianas.

É outra liberdade, outro conforto para quem está febril!

 

— Ah, compreendemos — disseram as duas em uníssono.

 

Finalmente,   o   terceiro   piso.   Saíu   aliviado   da   vida.   Tinha-se   safado daquelas duas enfermeiras vocacionadas para detectives. Embrenhou-se no terceiro piso, tinha de andar à vontade, fazendo parecer que aquele ambiente não lhe era estranho. Do largo corredor onde desembocava o elevador, entrou por uma larga porta, num outro, bem mais comprido mas mais estreito. Voltou à esquerda e na quarta porta do lado direito, numa plaquinha fixada na parede estavam registados três números: 22/23/24. Entrou, na cama do meio jazia inanimada uma pequena menina, era albina, porém deitada na cama e naquelas circunstâncias a sua cor era ainda mais branca, parecia cal viva. Estava ligada a   um ventilador. Abandonou aquele sombrio quarto e procurou a saída para buscar o Lipe. Ao entrar na larga porta, que dava para o corredor no qual o elevador desembocava, surgiu um jovem médico.

 

— Bom dia, colega!

 

Saudou-o cordialmente, tendo o Solitário retribuído com a mesma moeda:

 

— Bom dia, caro colega! Está calor, muito calor!

 

— Desculpe não o estou a reconhecer! Respondeu :

— Sabe caro colega, sou novo neste hospital!

 

— Estou a ver… Como se chama?

 

— Magalhães, Doutor Magalhães!

 

— Sim senhor, já ouvi falar de si!

 

A sorte parecia estar do seu lado, acertou, como se fosse num jogo, no nome de um médico funcionário daquele hospital. Era um bom presságio, se aquele médico curioso dissesse que não conhecia ninguém com o nome Magalhães, ele reafirmaria que era novo por aquelas andanças.

 

— Caro colega Doutor Magalhães, não é comum ver-se um médico andar de havaianas!

 

— Pois é, são os novos tempos!

 

— Pois, pois, mas que é uma forma estranha, lá isso é!

 

— Desculpe, doutor… —   fez um gesto com a mão, como a perguntar-lhe o nome.

 

— Jaime, Doutor Jaime!

 

—   Prazer,   um   criado   ao   seu   dispor!   —   estenderam   as   mãos   e cumprimentaram-se.

 

— O prazer é todo meu, Doutor Magalhães, sinta-se à vontade!

 

— Sabe colega, hoje acordei com temperatura, acho que meio febril, daí as havaianas, coisas do conforto entende?

 

— Entendo, mas num médico… é um pouco peculiar!

 

— Novos tempos, novos tempos!

 

A porta do elevador abriu e, sem demoras, entrou. Colegas de trabalho assim zelosos não agradam.

 

Saiu para a rua e dirigiu-se ao encontro do Lipe. Apercebeu-se que algumas pessoas reparavam espantadas em qualquer coisa. Passou em frente delas, qual foi o seu espanto. O Lipe, do outro lado da rua, partia pedacinhos de pão de trigo e distribuía pelos automóveis que seguiam em marcha lenta.

 

— Lipe, que fazes tu meu lindo?

 

— Tio, tenho aqui na sacola muito pão de trigo que trouxe para o lanche!

 

— Sim, e daí?

 

— Daí que estou a repartir o meu pão com estes animais!

 

— Animais?

 

— Sim, eles devem ter fome!

 

— O que estás a ver não são animais, mas sim automóveis!

 

— Nunca tinha ouvido falar desses animais!

 

— Lipe, não são animais, são máquinas feitas pelo Homem!

 

— Quem é esse Homem que faz tudo?

 

— Tens razão, o Homem faz tudo! E fez também essa máquina, para ser transportado por ela para todos os lugares!

 

— O tio diz que isto, que anda sozinho, é uma máquina. Eu pensei que era um animal grande, como o cavalo, por isso eu estava a tentar dar-lhes de comer!

 

— Sim eu já entendi, Lipe, deixa isso, agora vamos!

 

— Tio, eu gosto de dar de comer aos cavalos, às galinhas, aos patos, às vacas…

 

— Eu sei, Lipe, tu gostas de todos os animais, mas nem tudo o que se mexe

é um animal!

 

— Tio, eu dei também àqueles ali! — apontou para uma série de carros estacionados, para o Lipe tudo o que se movia era um animal.

 

— Já desconfiava, tens de ter mais atenção, só deves dar comida aos animais que conheces, pode ser perigoso. Agora vamos ver a Clara!

 

— Vamos, tio?

 

— Vamos, eu vou pegar em ti ao colo, quando estiveres no meu colo, fecha os olhos e não fales!

 

Pegou na pequena e suave mão do Lipe e caminharam em direcção à porta de serviço. Junto à porta, o Solitário olhou para um e outro lado para se certificar se alguém olhava para eles. Ninguém se encontrava por perto, pegou no pequeno ao colo e porta adentro para nova aventura. Pressionou o botão do elevador, a porta abriu-se sem que alguma pessoa os tivesse visto. Que bom! Horas para o descanso.

 

— Sabes, Lipe, fazes bem em distribuir o pão pelos animais, pois estás gordinho quanto baste!

 

Foi só tempo de o pousar, inspirou e nova etapa, ombros com o doente que a porta impiedosa se abria num instante só. O primeiro corredor, bem conhecido, estava como devia ser, vazio. Abriu a larga porta e pernas para que vos quero. Em passos longos tentou chegar ao quarto da cama vinte e três. Não tiveram tempo. Do quarto das camas, vinte e oito, vinte e nove e trinta, saiu uma senhora em estado aflitivo e implorou:

 

— Senhor Doutor, senhor Doutor, preciso de ajuda! Minha filha entrou em paragem cardíaca!

 

— Aqui o meu filho também!

 

— Mas doutor, é urgente, trata-se de um caso urgente!

 

— Meu filho também se encontra mal, nem sequer tem movimentos. Ali naquela porta é o gabinete dos médicos. Está lá um médico!

 

Ocorreu-lhe voltar para trás, para não ser descoberto. Entrou novamente pela larga porta que dava acesso ao largo corredor. Ficou à espreita e à espera que alguém atendesse aquela desesperada mãe. Viu que vários médicos acompanharam a senhora e a levaram para uma sala. Depois que aquela correria de profissionais de saúde findou, novamente pegou no Lipe ao colo e entrou finalmente no quarto da Clara.

 

— Lipe, esta é a tua amiga?

 

— Sim, tio, mas está mudada! Clara, Clara fala comigo! Eles dizem que foi o meu pai, tu podes dizer, foi ele?

 

— Lipe, ela não pode falar. Fala tu com ela sim, que eu penso que ela escuta. Eu acredito nisso, mas não esperes que ela te responda!

 

— O tio acha que ela está zangada comigo?

 

 

— Claro que não, ela está muito ferida e não pode te responder!

 

— Ah! Pensei que ela não respondia porque não tinha vontade!

 

Lipe, ao dar-se conta que a sua amiga de infância não lhe respondia, não porque se encontrava zangada, mas sim devido ao seu grave estado físico, ficou contente, pois sabia agora que ela não acusaria seu pai. Embora seu pai lhe jurasse inocência, a sua mente ainda não tinha reunido a completa ilibação de culpas por parte dele.

 

Colocou as suas mãozinhas sobre as brancas e frias mãozinhas daquela menina,   que   naquele   estado   fazia   dar   nós   nos   corações   dos   menos sensíveis.

 

— Lipe, estás a sentir-te bem?

 

— Estou!

 

— Lipe, podes falar baixinho para ela. Ela de certeza que não te responde, mas acredito que te ouve!

 

— Sim, os senhores doutores e as enfermeiras falam também com ela! — revelou   este   dado,   mais   que   certo,   uma   senhora   idosa,   de   cabelos branqueados e com um grande sinal na face direita, que colocava uma das placas dentárias na boca, pois enquanto nos falava da Clara, limpava-a a um dos lençóis. Estava internada a recuperar-se de uma pneumonia.

 

— A senhora tem ouvido as conversas dos doutores, a falarem sobre o estado dela?   —   perguntou   o   Solitário,   na   expectativa   de   ter   algum conhecimento que aquela idosa pudesse ter a respeito dos ferimentos da menina, no que foi sendo surpreendido pela mesma idosa.

 

— Desculpe, o senhor usa bata e não sabe? Essa bata é bata de médico, e então o senhor nada sabe?

 

— Por favor, minha senhora, não diga nada! Eu não sou médico, sou amigo deste miúdo, que por sua vez é amigo desta miúda, disfarcei-me para pudermos visitar a Clara!

 

— Ah! Seu malandreco, fique descansado!

 

— Obrigado, minha boa senhora. Como vê é emocionante o carinho entre os dois!

 

— Muito, mesmo muito! — continuou ela — Tentem-se apressar, está chegando a hora dos enfermeiros darem a ronda!

 

— Nós vamos embora imediatamente!

 

Os olhares, a mão do Lipe afagando as pequeninas da Clara e as frases que ele lhe dirigia, vistas e ouvidas, por grande parte da população eram capazes de pôr todos a pensar….

 

Como pode ser que alguém tenha tido a coragem de atentar contra a vida de uma inocente menina?

 

Como pode ser que haja gente imoral, que tanto mal tenha feito a duas crianças?

 

Como pode ser que alguém, por uma simples rixa familiar, tenha armado tudo aquilo, unicamente para obter uma vingança, tentando incriminar outros seres inocentes? Como alguém compreenderá que para isso se deixe uma família destroçada?

 

Uma família destroçada, isto exige importantes correcções, sem alargar, duas: a família da Clara, que riscos seríssimos corre de perder um dos seus membros; e a do Lipe que, de feliz família, passou a ter um honrado membro encerrado numa cela da cadeia, mesmo que para tal o seu grau de culpabilidade seja nulo.

 

— Lipe, temos de sair daqui!

 

— Mas, tio, eu não quero abandonar a Clara!

 

— Prometo que voltamos, agora despede-te!

 

Enquanto alertava o Lipe, abeirou-se da cama da paciente. Das poucas frases que ouviu o Lipe dirigir à sua amiga, houve duas que ele jamais se esquecerá.

 

«Clara, tenho de ir para casa, para a próxima quero que me respondas! Quem não fala é porque está com birra!»

 

O Solitário deu um ternurento beijo na testa da miúda. Era o primeiro e não tinha certeza alguma que voltasse a repetir tal acto. Lipe fez o gesto em tudo semelhante ao seu.

 

— Adeus, minha simpática senhora, e obrigado!

 

— Adeus! Venham cá outra vez, nos visitar! Eu vou rezar para que a menina fique boa depressa!

 

Abandonaram a sala, Lipe tinha o rosto com o semblante carregado. Voltou a pegar nele ao colo, na iminência de alguém os ver e argumentar que era um paciente. Existem momentos nas nossas vidas em que se os lugares onde nos encontramos se tornassem em deserto, seria o melhor que aconteceria.

 

Ao encaminhar-se para a porta, mais ou menos a meio, entre a porta do quarto e a larga porta, surgiu um casal que deveria rondar os quarenta e poucos anos, o senhor estava com ambas as mãos agarradas à cabeça e a senhora correu ao encontro do Solitário, para pedir:

 

— Senhor doutor, senhor doutor, rápido por favor nosso filho está mal!

 

— Aqui o meu filho do meio também está! Está com um enfarte, deve ser a fome!

 

— Mas, doutor, acuda à nossa menina!

 

— Agora tenho de acudir ao meu menino, e tenho à minha espera lá fora mais vinte e dois filhos, todos a precisarem de ajuda!

 

A senhora fitou-o em sinal de reprovação e o senhor engoliu em seco e deu uns passos em direcção a ele, por momentos pensou que o desesperado pai o iria agredir, valeu-lhe ter o Lipe ao colo, caso contrário o senhor tê-lo-ia feito e teria toda a legitimidade. O amigo do Lipe sempre se solidarizou com as pessoas em apuros, e perante aqueles pais desesperados falou daquele modo para que julgassem que ele seria um médico maluco. O restante percurso, ainda no interior do hospital, decorreu sem percalços.

 

Ainda no elevador, tirou a bata, perdeu em segundos o cargo de médico sem curso, mas a julgar o seu lado humanitário talvez desse um excelente profissional de medicina.

 

De regresso a casa, o silêncio era absoluto por parte de Lipe. Unicamente era quebrado pelo adulto dos dois, quando propositadamente puxava conversa. Assentia ou não, sempre com acenar de cabeça. Visitar Clara alterou o seu estado emocional aos limites máximos. Motivos não lhe faltavam, e como o seu amigo o entendia. Tudo indicava que a linda menina sofrera um traumatismo craniano.

 

O tempo de regresso foi bem mais curto do que a ida. Nada chamava a atenção do curioso garoto. Já em casa dos pais do Lipe, com a preciosa ajuda de Lourenço, desaparelharam o Rápido e puseram-no a descansar no estábulo. Dona Clotilde, ao ver o semblante do seu filho, perguntou com ar de grande preocupação:

 

— Ai senhor Paulo, como está a cachopa?

 

— Creia que nada bem, dona Clotilde, receio que o pior venha a acontecer!

 

— Bem que eu desconfiava pela cara do Lipe, ela só podia estar mal!

 

— Sim, dona Clotilde, isto é muito mau. Caso aconteça o pior, ou seja a miúda morra, seu marido estará em maus lençóis!

 

— Ai senhor Paulo, bem que eu desconfiava! Eles vão condenar o meu Zé?

 

— De certeza, mas nós temos de arranjar maneira de o inocentar!

 

— Dona Clotilde diga cá uma coisa, o senhor que trabalha para vocês pode defender seu marido!

 

— Eu já falei com ele, mas ele diz que o meu Zé saiu da beira dele por bastante tempo!

 

— E isso é verdade? Ele saiu?

 

— Naquele dia, eles os dois foram lavrar a terra. O meu Zé diz que estiveram sempre juntos. Já o Lourenço diz que meu marido desapareceu por bastante tempo e que ele não sabe onde o Zé foi!

 

— Hmm, hmm, isso agora… Pois isso é de nos pôr com a pulga atrás da orelha! Para mim, tem o dedo dos culpados a obrigarem o Lourenço a mentir!

 

— Ai, senhor Paulo, não me diga uma coisa dessas! O senhor acha?

 

— Dona Clotilde, dona Clotilde, do malvado do sargento e da sua corja não espere coisa boa!

 

O Lipe com o olhar melancólico e de fina voz, convidou o seu amigo para pernoitar lá em casa, dona Dinha e dona Clotilde reforçaram o convite que foi aceite de imediato. No dia seguinte bem cedo, foram o Solitário, o Lipe e o Lourenço buscar espigas a um terreno bem próximo do lavrado no dia da tragédia.

 

Duas juntas de bois aparelhadas puxavam o mesmo carro. Era um carro de bois bastante peculiar, de dimensões maiores do que habitualmente é comum de se ver. Chegados ao terreno encheram as tabuletas, feitas de vimes entrançados, até as espigas ficarem rasas. As restantes deitaram-nas para sacos e completaram o carro. Estas espigas foram desfolhadas nos dois últimos dias. O Solitário, que possuía uma grande curiosidade par conhecer o local onde a miúda caíra, perguntou ao Lourenço. Este, bem conhecedor   do   local,   explicou-lhe   os   detalhes   pormenorizadamente. Convidou o Lipe e foram os dois ao local na tentativa de encontrarem alguma pista que ilibasse seu pai. Deixaram o Lourenço a tratar dos animais e puseram botas ao caminho. À saída do terreno voltaram à direita, seguiram um tradicional caminho de terra batida. Ao longe era bem   audível   o   barulho   da   água   a   embater   nas   rochas.   O   ribeiro encontrava-se   à   frente,   e   atravessado,   tiveram   de   voltar   à   direita. Seguiram esse caminho paralelo ao ribeiro, sempre ladeado por muita vegetação.   Avistaram   um   morro,   era   o   malogrado   morro,   um   pouco extenso e não muito alto. O ribeiro, nesse local, fazia um desvio de setenta graus para a esquerda, contornando o morro. Ali bem perto, em quatro pequenas árvores distintas, quatro cavalos presos.

 

— Lipe, silêncio! Temos companhia e quem sabe desagradável. Vamo-nos aproximar agachados para não sermos vistos, pelo menos até sabermos quem será!

 

— Sim, tio!

 

— Lipe, por favor, não faças barulho, nem te afastes de mim de forma alguma!

 

Agachados, tentaram certificar-se de quem se tratava, e continuaram em direcção ao morro. O caminho fazia agora um desvio contornando o morro no sentido contrário ao ribeiro. Ouviam-se vozes e altas gargalhadas vindo de um lugar entre o morro e o ribeiro. Observaram direito e do lugar de onde vinham as vozes, vislumbraram um desfiladeiro que se despenhava a pique. As vozes, essas, surgiam do lado inferior do desfiladeiro. Eles ainda não tinham conseguido desvendar a quem pertenciam.

Esconderam-se numa vasta e não alta vegetação. Ali bem perto do esconderijo existia uma estreita passagem que dava acesso para o ribeiro. O solitário espreitou e finalmente vislumbrou os indivíduos, o sargento, o malfeitor sargento, que era o único que o Solitário conhecia. Encaminhavam-se em direcção a eles, sabiam agora melhor que nunca que não se poderiam mexer. O Solitário pôs a mão na boca do Lipe, fê-lo para recordá-lo que deveria permanecer calado. Ele entendeu a mensagem e assentiu. As vozes agora começavam a dar emprego aos seus sistemas auditivos, mas ainda não eram perceptíveis.

 

Lentamente, eles aproximavam-se da estreita passagem que ligava ao caminho principal, onde assentaram praças. Com naturalidade, à medida que os quatro se aproximavam, as conversas iam-se entendendo:

 

— Ora senhores, ainda não compreendo como podem estar contentes, quando uma inocente criança corre risco de vida no hospital!

 

Não se sabia quem havia proferido aquelas palavras, a única voz que o Solitário conhecia era a tão familiar e desagradável voz do indivíduo mais repugnante que algum dia ele conhecera. Foi essa voz que respondeu deste modo, a quem proferiu aquele sentimentalismo.

 

— Você é um molengão, tem sorte que a mim me convém que seja o Araújo o culpado, caso contrário ainda o culpávamos a si, maldito! E não pense que será difícil! Bastava que para isso nós os três afirmássemos que foi você! Por isso, não esteja para aí com lamúrias porque me posso aborrecer e culpá-lo a si!

 

Era mais que conhecida a personalidade da figura em causa. O sargento era pessoa de tudo fazer sem os mínimos escrúpulos e gostava menos de ser contrariado do que ter uma forte dor de dentes.

 

— Com todo o respeito, senhor sargento, ainda que mal lhe pergunte, qual a razão de tanto ódio para com a pessoa do coitado do Araújo?

 

— Aquele sujeito é um maldito sem tamanho! Ele trabalha umas terras que pertencem a um primo seu, essas terras situam-se entre umas terras de minha propriedade. Eu   quis   comprar   essas terras ao seu   primo,   ele convenceu esse primo a não mas vender, por isso o meu ódio!

 

— Bem, senhor sargento… — continuou uma voz não identificada.

 

O Lipe informou o seu amigo, disse que se tratavam do senhor Martinho, do senhor Faustino e o Manuel. Mas o miúdo não o podia elucidar a quem pertenciam as vozes, isso seria de grande proveito.

 

— Senhor sargento, tem toda a razão, mas no fundo bem lá no seu íntimo, deve haver mais razões?

 

— Você é inteligente, por isso eu me entendo assim tão bem consigo! Aquele maldito é da minha idade, nunca lhe perdoei porque ele ficou com uma das mulheres que mais amei!

 

— O Senhor sargento amou a dona Clotilde?

 

— Bem vamos lá pôr ordem nisto, não era aquela mulherzinha! Era outra, mas está a querer saber demais, basta!

 

— Desculpe, D. António!

 

Era certo que dos três submissos um era o predilecto do sargento.

 

Dizem que Jesus Cristo, dos doze Apóstolos, escolheu um e era esse que, dizem as escrituras, ele mais amava. Ao sargento, compará-lo a Jesus Cristo seria uma gravíssima ofensa para com aquele que milhões de crentes crêem ser o Salvador do mundo. Mas, também como dizem que o Salvador do Mundo tudo perdoa, que me perdoe essa comparação. Aliás, isto não foi uma comparação, foi ir à essência da Cristandade, da religião Católica.

 

Saber que o sargento tinha um daqueles submissos em alta conta era um bom começo. Isto prova que existem dois, pelo menos um, a quem o sargento menosprezava. Esse seria um trunfo a descobrir. Pode ser que com um empurrãozinho esse mal amado esbarre com a língua nos molares, pré-molares e caninos.

 

Dizia um outro:

 

— Bem, senhores, vamos deixar lá as razões de tanto ódio por parte do senhor sargento, e vamos falar de coisas mais divertidas. Parece que ainda estou a ver a miúda a estatelar-se naquele chão!

 

— Foi das melhores imagens que algum dia vi!

 

O Solitário soube quem fez esta última afirmação. Surgiu outra pergunta feita por voz não conhecida:

 

— Senhores, por favor eu perdi essa parte, digam-me o sítio exacto onde ela caiu?

 

Recordaram em uníssono os restantes.

 

— É verdade que aqui o nosso amigo, quando chegou, já a miúda estava ferida!

— Pois é, por essa razão não sei quem empurrou a miúda para o precipício? Retorquiu a tal voz em jeito de indagação. À qual o sargento friamente respondeu de forma interrogativa:

 

— Que raio de questão é essa? Não sabe quem empurrou a miúda, você é burro ou faz-se? Quem atentou contra a miúda foi o Araújo e ponto final! A não ser que você queira tomar as suas dores?

 

— Desculpe D. António, claro que foi o Araújo!

 

— Mas, sargento, se a miúda recuperar, o Araújo será inocentado!

 

— Isso nunca!.. — resmungou o sargento, continuando, — nem que para isso tenhamos que dar fim na tal Clara!

 

— Coitada da cachopa!

 

— Coitado de si, seu maldito! Está a sair um pobre rato sempre com penas e lamentações. O Araújo já está onde eu quero, agora falta o outro malvado que me tem enfrentado!

 

— Sei de quem fala o D. António!

 

— Sabemos! — afirmaram os outros dois.

 

— Claro que sabem, é o amigo do tal garoto, filho do Araújo. A esse, um dia faço-lhe a folha, mando-o para o céu contar estrelas!

 

Naquele instante, o Solitário ganhou, em dose dupla, certeza que teria de ter cuidados e precauções. O malvado, se o apanhasse num lugar daqueles sozinho… estava com o Lipe mas que adiantaria? Era uma criança indefesa e talvez nem ele escapasse à fúria do mal encarado, que seria bem capaz de sugar os ossos dos dois até ao tutano.

 

— Eu penso que ele vive numa caverna a talvez duas milhas a sudoeste daqui!

 

Um dos sujeitos sabia com exactidão onde era a residência do protector do miúdo.

 

— Um dia iremos fazer-lhe uma visita e quem sabe um favor! — falou assim em tom ameaçador o sargento.

 

Era bem notório que os quatro indivíduos tinham todo o tempo do mundo, pois caminhavam vagarosamente ao longo da margem. Finalmente, e depois de uma longa e proveitosa espera, passaram bem perto do lugar de ocultação de duas vítimas com os destinos traçados. O Lipe era filho de um prisioneiro. Triste destino. O outro, era pessoa com destino traçado para se   tornar   em   hipotética   vítima   às   mãos   e   vontades   de   um   ser sobrecarregado de índoles vingativas.

 

Continuaram a ouvir conversas interessantes, mas com outro rumo.

 

— Vamos falar de outro assunto, amigo Manuel, recorde lá a história da sua alcunha, Manuel “Arranca orelhas”.

 

— Lindo apelido, muito lindo! — afirmou o sargento.

 

— Ora, senhores, vocês já sabem, mas eu repito, se é do vosso agrado.

 

— Sim, sim, prossiga. Mas vamos andando, ainda tenho saída hoje! — dizia um deles.

 

— Foi um belo dia, quando eu conduzia a manada para o matadouro, ao atravessar o rio, os meus animais misturaram-se com os de outros peões. No final do rio, dois dos animais do outro grupo, permaneceram juntos com o meu gado. Um dos peões veio reclamar os bois, dois excelentes bois bem gordos. Eu não lhos queria entregar.

 

— Malvadinho, malvadinho os bichos não lhe pertenciam!   — exclamou o sargento.

 

— Ora, D. António, como acha o senhor que eu fiquei rico? Mas deixem-me acabar! Quando o peão veio reclamar, pegámo-nos. Eu como era o mais forte, com os dentes, arranquei uma orelha ao desgraçado, daí essa alcunha!

 

— Não me leve a mal, amigo Manuel, mas nós bem sabemos que depois o sem orelha lhe ferrou no nariz!

 

— Claro que não lhe levo a mal! Foi verdade! Nossa Senhora das Dores, que dores!

 

Por fim, e para grande alívio dos dois, se afastaram. O trotear dos cavalos soava nos seus ouvidos. Cansados de tão longa espera seguiram por fim para o desfiladeiro.

 

— Lipe acho que foi aqui, mais metro, menos metro, que a Clara caiu. Lipe, por favor não tentes imaginar nem recordar tudo o que neste lugar se passou com a tua amiga. Isso só te irá fazer sofrer!

 

— Ela vai ficar boa, pois vai, tio?

 

— Claro que sim, juro que vai, ou não me chame eu Paulo!

 

Sossegou o Lipe, mas não estava absolutamente convicto na sua afirmação.

 

— Deve ter sido aqui, pois deve, tio?

 

— Sim foi, segundo contou o Lourenço. Disse que foi no desfiladeiro. O desfiladeiro é aqui!

 

O Solitário parou naquele instante e inverteu a marcha para observar o lugar e tentar compreender a posição em que a miúda teria caído. Aconselhou o Lipe a não reviver todo aquele trágico acontecimento. Existe uma frase que diz:

 

«Olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço!»

 

Ele,   para   tentar   minimizar   o   sofrimento   do   miúdo   deu-lhe   aqueles conselhos, mas quis naquele instante e naquele lugar fazer a sua mente compreender e dar uma de futurologista se a miúda teria ou não, hipóteses de sobrevivência.

 

Enquanto   ele   recuava,   Lipe   distraído   com   toda   aquela   envolvência, continuou a caminhar, afastando-se bastante. De súbito, novamente o trotear dos cavalos. Regressavam ao lugar por eles abandonado há poucos instantes, certamente algum elemento daquela escumalha deixara lá ficar algo. O Solitário foi o único que se apercebeu do regresso e falou em tom elevadíssimo:

 

— Lipe, esconde-te rápido, são eles de novo!

 

Ele correu uns poucos metros e escondeu-se atrás de uns arbustos. Lipe correu em sentido contrário, até se perder das suas vistas. Inicialmente, o Solitário pensou que o miúdo tivesse encontrado um bom esconderijo onde não seria visto. Era o melhor a ser feito, ocultarem-se daqueles sujeitos. Desta vez vieram montados e abeiraram-se do ribeiro. Um dos homens desmontou   e   abaixou-se   para   apanhar   algum   objecto   esquecido.   Da distância a que o Solitário se encontrava não conseguia saber de que objecto se tratava.

 

— Olhem o malvado do miúdo, o filho do Araújo além! Está além! — exclamou um, tendo outro sugerido:

 

— Ele deve ter escutado a nossa conversa, vamos apanhá-lo!

 

O elemento que permanecia de pé, assim se manteve, dando início a uma curta prova de atletismo. Os restantes fizeram correr os cavalos, por momentos ele ergueu-se tentado em ir socorrer o Lipe. Reconsiderou, pensando que se o fizesse o sargento não hesitaria em dar vida à vontade de sua vingança, sem hesitar poria fim à sua média existência. Dos covardes não reza a história, mas os heróis estão quase todos mortos e com estátuas feitas em suas memórias. Acovardou-se. Imaginou que o Lipe fugiria bem a tempo de não ser alcançado, e mesmo que o fosse, a ele quem sabe não lhe iam fazer mal algum. Ficou ali oculto, encobrindo toda a sua coragem. Coragem essa, que se ele lhe autorizasse nascença, traria por arrasto à tona a sua congénere existente no sargento, que não hesitaria em dar-lhe vida e acabar com a sua coragem e mais do que certo com a sua própria vida. O sargento era homem que não olharia a meios para conseguir os fins...

 

Os   quatro   regressaram   para   junto   do   cavalo   abandonado,   que   se encontrava a poucos metros dele.

 

— Será que o miúdo se afogou?

 

— Isso agora é que falta saber, mas que ele se atirou para a água, lá isso é que se atirou!

 

— É verdade, isso todos nós vimos!

 

Falou depois dos desconhecidos o sargento:

 

— Se ele se afogou ou não, isso nós não podemos saber! O que eu sei, é que o vimos atirar-se para a água e ninguém o viu sair. Portanto o mais certo deve ser isso!

 

— Coitado do miúdo, era ainda uma criança! — lamentou um, tendo o Solitário, de seguida tido conhecimento de uma malvada intenção do sargento:

 

— O raio do garoto nunca me fez mal algum, mas sendo filho de quem o é isso alegra-me! Com um tiro vou matar dois coelhos, vamos à polícia e dizemos em conjunto que foi o tal amigo dele que o matou no rio!

 

Ainda escondido, contorceu as mãos com toda a sua força. Imaginou que por entre as suas mãos tinha aquele maldito. Naquele momento, o Solitário era capaz de pôr para fora de si a percentagem mínima de se tornar um assassino.

 

«Os seres bons têm um por cento de assassinos. Os maus dizem que têm um por cento de santos…»

 

Ao constatar que um só sujeito é possuidor de tanta maldade e sede de vingança, ele predispunha-se a seguir os passos do sargento.

 

Nunca devemos imitar as atitudes dos sem carácter, mas existem casos excepcionais e este era um de se levar aos extremos. Com indivíduos de mente tão perversa e maldosa, tem que, obrigatoriamente, lutar-se com as mesmas armas, sob pena de sermos aniquilados.

 

Num único impulso o sujeito apeado montou no seu cavalo, dando aquela quadrilha   de   malfeitores   início   à   galopada.   O   Solitário,   assustado   e ansioso, levantou-se e correu no intuito de tentar descobrir o paradeiro do Lipe. Não mais se importava que algum deles olhasse para trás e o visse. Dizem que «Deus escreve certo por linhas tortas».

 

Não sabia se tinha agido correctamente, mas perante   esta iminente tragédia o seu coração não escureceu. Talvez com o tempo e os desgostos ele tivesse aprendido já a só sofrer quando as razoes para isso fossem efectivas. Num ímpeto, o seu ânimo se desvaneceu e gritou desesperado:

 

— Lipe! Lipe!

 

A segunda pronunciada atingiu mais altura e distância, sem obter resposta. Procurou ao longo das margens e sempre a dirigir o seu olhar para todos os lados. Lançou-se às águas e mergulhou. Seguiu em direcção à nascente, que se estendia para o lado contrário de onde ele e os sujeitos se encontravam. Estava no lado mais largo e profundo. A visibilidade era razoável e nada via. Voltou para trás e subiu para terra, encontrava-se agora bem numa estreita faixa de terra entre o desfiladeiro e o riacho.

 

— Lipe, Lipe onde estás tu meu querido? Não, não! Por Deus, não! Eu gosto tanto de ti, que perder-te agora era o pior que me poderia acontecer!

 

Desolado desistiu. Quem sabe o Lipe fosse um exímio nadador e tivesse mergulhado para longe. Mas ele gritou o seu nome, de forma a que ele ouvisse mesmo lá longe. Será que a água se infiltrou no interior dos seus ouvidos com a pressão e ele ficou com dificuldades para ouvir? Quem sabe o pânico que com naturalidade se instalou apoderando-se dele, fazendo com que não reconhecesse o seu timbre de voz, e ele julgasse que seria um dos malvados a tentar iludi-lo.

 

Para se conseguir certos objectivos e pretensões, o ser humano tem por vezes a capacidade de exteriorizar o lado artístico existente dentro de si. Enquanto que uns usam esse lado artístico para ganhar a vida, outros usam-no para proveitos vingativos.

 

Sem nada descobrir,   acabou   por abandonar aquele   lugar.   Caminhava lentamente junto ao ribeiro. Rodava de um para o outro lado, sempre expectante que deslumbraria a pequena figura daquele grande garoto. Encontrava-se agora no estreito caminho, que dava ligação ao caminho principal. Seguiu esse caminho, agora em sentido contrário ao inicialmente tomado por ele e o Lipe. Fez um desvio, passou no terreno pertencente aos pais do Lipe, o Lourenço já lá não estava.

 

Lourenço era o benjamim de uma família de quatro irmãos, um solteirão a aproximar-se a passos largos dos sessenta anos. Vivia com duas irmãs, uma viúva   e   outra   também   solteira,   dois   e   quatro   anos   mais   velhas, respectivamente.   Um   cinquentão   em   final   de   carreira,   uma   pessoa exageradamente pura e inocente. A sua inocência assemelhava-se em tudo com a doce e pura inocência do Lipe, com um grande senão para ele: ao passo que Lipe era uma criança ingénua e pura, ele era um adulto que não teve grandes desenvolvimentos intelectuais. Ou porque pôde e não quis, ou porque quis e não pôde. Pode de igual modo ser que ele aspirasse ter outra vida, mas como teve de trabalhar sempre no campo não teve oportunidade de escolher outros horizontes. Para quem sempre viveu no campo cercado de animais, poucas e não muito desenvolvidas pessoas, não teve grandes hipóteses de viajar e por consequência transformou-se num eterno rapagão. Em suma, uma pessoa com asas cortadas para novos voos. Acredito convictamente que nós, seres humanos, somos emoldurados pelo meio em que vivemos. Um sábio disse um dia esta inteligente frase:

«Ponham uma criança nas minhas mãos e eu faço dessa criança, uma criança superdotada».

Sempre   que   o   Lourenço   se   encontrava   sozinho,   ou   mesmo   quando acompanhado, naqueles momentos em que todas as conversas esmorecem, ele dava sonoridade aos pensamentos. Era pessoa não de muitas palavras e quando as proferia, era maioritariamente para conversar consigo mesmo. Existem os relógios falantes, ele pode considerar-se um calendário falante. Dizem que o presente é passado, que seja, mas esse passado para os defensores dessa tese tem uma data bem presente. Quando ele iniciava os seus dotes calendarísticos, fazia sempre a contagem a partir do dia presente.

 

«Hoje sábado, dia onze de Outubro, amanhã domingo dia doze do mesmo mês, depois de amanhã segunda-feira dia treze e… e… e…»

 

Tinha a capacidade de prever em que dia certo da semana coincidia o dia x, ou o dia y, mesmo que estivesse separado por cinco, seis, sete, oito ou mais meses. Por muito interessantes que as conversas estivessem a fluir, as pessoas que o escutavam interrompiam essas conversas para ficarem atentas a ponto de descobrir em que dia da semana faziam anos. Em que dia seria a ceia de Natal. Um dado curioso: era capaz de saber com muitos anos de antecedência em que dia se celebraria a Páscoa. Diziam as pessoas suas conhecidas que ele era possuidor de um dom. O dom calendário!

 

O Solitário, transtornado, encaminhou-se para a casa do miúdo. Bem perto da entrada alcançou o Lourenço que guiava o carro de bois constituído por quatro quadrúpedes.

 

— Onde ficou o Lipe, que aconteceu com ele? — perguntou Lourenço ao notar a falta do miúdo.

 

— Não sei, vamos dizer a dona Clotilde que encontrou um amigo e que devem estar a brincar, pelo menos por enquanto!

 

Trabalharam arduamente, metendo as espigas no espigueiro, uma tarefa um pouco morosa. Dona Clotilde perguntava incessantemente pelo seu filho. Firme e repetitivo nas respostas, respondeu-lhe o combinado entre ele e o Lourenço. À medida que o tempo passava, o coração materno daquela boa mãe deixava-a cada vez mais preocupada e instintivamente inquieta. Coração de mãe   não se engana, e em alturas em que se desconhece o paradeiro de um filho tão querido, os primeiros pensamentos que surgem são os que dizem que alguma desgraça vem por aí. Sempre que dona Clotilde os interpelava, o Solitário não era capaz de olhar nos olhos dela.   Respondia-lhe   nunca voltado para ela,   inventava trabalho para desviar o assunto. À medida que os minutos se iam passando, dona Clotilde ficava mais ansiosa e desconfiada que algo de mal se havia passado. Por fim, teve de dizer toda a verdade, tentando de todas as formas acalmá-la e acalmar-se também. Disse-lhe o que vira e ouvira. Viu o Lipe correr mas não o viu atirar-se ao ribeiro. Viu que os covardes assassinos nada fizeram para socorrer o Lipe e que tencionavam culpabilizá-lo. A corda tanto que se estica que num momento indefinido rebenta sem darmos conta. Dona Clotilde gritava inconsolada, convicta que o pior acontecera. O Solitário, inexplicavelmente, encontrava-se calmo, algo o tranquilizava, o fazia acreditar que o mal desta vez não iria ser tão mau. Dona Dinha, olhos que não vêem não pecam, cantava e tacteava não com o tacto mas com a bengala, que para ela seria igual, tudo que encontrava, ou presumia encontrar à sua passagem.

 

Não era conhecedora da hipotética tragédia que mais uma vez se abatia sobre a família.

 

— Dona Clotilde, caso o delegado e o sargento me acusem, como ouvi prometer o sargento que o fariam, a senhora não vai acreditar que eu fiz mal ao Lipe?

 

— Ora senhor Paulo, fique descansado, claro que eu nunca vou acreditar nesses maldosos! Eles são uns malditos, que só vivem para espalhar desgraças!

 

Quando   se   fala   no   diabo,   dizem   os   crentes   em   acontecimentos sobrenaturais, que ele aparece. No mesmo instante que dele se falava, do diabo em pessoa, o sargento apareceu juntamente com os três pobres ratos e os policiais. O sargento não se sentiria gente, se é que seres assim podem ser considerados gente, tinha necessariamente de comandar as operações.      Literalmente    falando,   até naquelas   expedições     se desclassificava a si próprio, caso não tomasse o lugar dianteiro. À primeira

impressão para quem gosta de brincar com as posturas, que determinados indivíduos adoptam, dir-se-ia que ele, o sargento, será o porta-estandarte.

 

—   Boa   tarde,   mulherzinha,   já   estava   com   saudades   minhas?   — cumprimentou de forma provocadora o ordinário.

 

— Senhor delegado, que faz o senhor aqui na minha casa com estes sujeitos e esta pôrra de homem, que não passa de um cabrão?

 

— Tenha atenção como fala, mulherzinha! — preparava-se para mais um dos   seus   devaneios   o   sargento,   sendo   interrompido   e   impedido   de continuar.

 

— Tenha atenção você, seu porco, você está na minha propriedade, por isso cale-se! Fale só quando eu autorizar!

 

— Você veja como fala!

 

— Veja como fala, você, fazendeiro, dona Clotilde é quem manda aqui! — introduziu-se na conversa o amigo da família, para defender a dona da casa.

 

— Maldito, essa sua petulância vai-lhe acabar já! — ameaçou o mauzão e foi a vez de tomar a palavra o delegado:

 

— Senhor Paulo, estes quatro respeitados senhores afirmam que o viram a atirar   o   filho   desta   senhora   ao   ribeiro.   Eles   dizem   que   o   miúdo desapareceu nas águas, sendo portanto o senhor responsável pela sua morte!

 

— Ora, senhor delegado, estes quatro respeitados senhores? Faça-me um favor,   respeitadas   pessoas,   respeitadas   pessoas!   Eles   de   pessoas respeitadas não têm mesmo nada!

 

O malvado quis interromper mas o senhor Paulo abafou suas palavras.

 

— Este sujeito, que se auto-nomeia sargento, é dos seres humanos mais reles, ordinários e que menos respeito tem pelo seu semelhante! Estes três pobres ratos, que não têm decisão nem vontade próprias, fazem tudo que este ser nojento e sem escrúpulos manda. Se necessário for, fazem mal aos seus próprios filhos só para lamberem as botas deste sujeito!

 

Os três mostraram querer contra responder, mas ele não deixou que tomassem a palavra.

 

— Ora, senhores, vocês estão a dar sinais de quererem ir contra as minhas afirmações. Quando nós bem sabemos que não passam de lagartixas aos pés do sargento!

 

— O senhor está muito enganado, nós só dizemos o que vimos e vimos o senhor atirar o garoto para o fundo das águas! — acusou-o um dos sujeitos, com certeza para se vingar das humilhações que ele os fez passar.

 

— Claro que foi você, todos nós vimos! — reforçou o sargento, dando-lhe, o delegado uma de suas recomendações.

 

— Sendo assim, senhor Paulo, visto que estes quatro senhores afirmam categoricamente que o senhor atentou contra a vida do miúdo, o senhor terá de me acompanhar à delegacia e com toda a certeza vai ser preso!

 

— Para começo de conversa, vocês todos são uns insensíveis! Não têm certeza se o Lipe está realmente morto e disseram isso assim de forma bruta a uma mãe! Primeiro, deviam procurar o corpo e depois sim, poderiam dar a notícia!

 

— Não seja hipócrita, você diz que somos isso tudo e que não nos preocupamos com esta mãe. Você preocupou-se antes de fazer mal ao miúdo?! — foi confrontado deste modo pelo sargento, que era possuidor de grandes astúcias e artimanhas para incriminar pessoas inocentes.

 

No entanto, dona Clotilde surpreendeu tudo e todos ao afirmar o seguinte:

 

— Você é um maldito sargento! Está a acusar aqui o senhor Paulo, está a dizer que ele fez mal para o meu Lipe

 

— E fez, a gente viu! — confirmaram dois dos amigos do sargento ao mesmo tempo.

 

— Vocês só vêem o que o porco do sargento manda, meu filho não morreu! Ele saiu há cerca de meia hora, foi dar um recado a uma pessoa lá na cidade!

 

O Solitário ficou boquiaberto, sabia que tudo aquilo era mentira, e que a dona Clotilde o fizera para o auxiliar contra os intentos do sargento e sua corja. Ficou estupefacto com tamanha inteligência e poder de persuasão para acabar com as intenções vingativas e incriminatórias do sargento e seus lambedores de botas. Estes ficaram completamente estarrecidos e aturdidos com aquele desmentido. Eles juravam convictamente que o Lipe estava morto e o pior de tudo isto, procuravam arrumar com aquele homem que para eles era um intrometido e que só atrapalhava. Com ele na cadeia, as hipóteses de inocência do senhor José seriam inexistentes, pelo menos por enquanto. O delegado mostrou pela primeira vez alguma irritação com o sargento e os outros.

 

— Eu tenho mais que fazer do que tentar prender pessoas inocentes.

 

— Você, delegado, não tem mais que fazer coisa nenhuma, você só tem de fazer o que eu mando!

 

— Desculpe, senhor sargento, mas visto que o miúdo não morreu, vocês não deviam acusar assim este homem!

 

— Maldito delegado, mais uma vez contra mim! Nós só falamos a verdade! Vimos este sujeito atirar o garoto ao ribeiro, não temos culpa que o diabo do rapaz se salvasse!

 

— Homens, preparem-se para partirmos de regresso à cidade! — ordenou o delegado aos polícias.

 

— Eu ainda não o autorizei!

 

— Senhor sargento, eu tenho mais que fazer, vai desculpar mas partiremos do mesmo jeito!

 

As armadilhas armadas em falso pelo sargento eram em tão grande número, que até mesmo o delegado começava a dar mostras de cansaço.

 

O sargento, vendo que seria desobedecido de qualquer jeito, para mostrar ser controlador da situação disse:

 

— Vá lá, podem partir, nós iremos ficar por estas bandas!

 

Partiram finalmente os policiais em direcção à cidade, enquanto os quatro mentirosos seguiram na direcção contrária.

 

— Senhor sargento, desta vez isto correu mal!

 

 

— Ora, Martinho, aquela mulherzinha está a mentir, bem sabemos!

 

— Eu também acho, mas a gente também!

 

— Faustino, Faustino, lá está você com as suas lamúrias, o miúdo caiu dentro de água, verdade?

 

— Sim, lá isso foi!

 

—   Pois   então,   nós   não   mentimos   nisso,   só   tentamos   incriminar   o desgraçado!

 

— Desta vez não deu certo!

 

— Manuel, desta vez não, mas eu pego aquele maldito, não me chame eu António!

 

Dona Clotilde, ainda mal os sete homens tinham virado as costas, virou também ela as costas ficando ela de costas para as costas deles, e chorou amargamente. Certamente que o não fazia pela mentira em si. Caso o fosse, essa atitude recordaria o apóstolo Pedro que depois que negou Jesus mentiu ao dizer que o não conhecia, arrependendo-se e chorando. Ela chorava não pela mentira, em que ela afirmava que seu filho havia ido à cidade,   tendo   com   isso   ilibado   a   inexistente   culpa   do   senhor   Paulo Gracindo. Não chorava motivada por essa mentira, porque nessa mentira teve   uma   atitude   heróica   e   justiceira,   mas   pelo   facto   de   todas   as incertezas sobre o paradeiro, sobre se a vida do Lipe ainda era vivida. O Solitário e o Lourenço, o senhor Inocência, tentaram consolar a senhora. O Lourenço, que tudo dizia na espontaneidade de pessoa que tudo diz e nada pensa, ou se o faz melhor o não fizera, pois não consegue ter a percepção se está ou não a ferir susceptibilidades, disse com tenções de minimizar a dor da senhora.

 

— Patroa, patroazinha, ele não morreu! E também se morreu era só uma criança! Se fosse um cavalo era mais prejuízo!

 

— Bem, Lourenço, essa agora! — tentou remediar o Solitário e continou:

 

— Sabe, dona Clotilde, eu tenho uma intuição que sim, que o nosso menino não morreu!

 

A senhora sempre a chorar entrou para sua casa. Subiu uns degraus que davam acesso a um alpendre mesmo em frente da porta principal, e ainda não tinha pisado a soleira da porta quando, ouviram uma voz juvenil vinda de longe. O grande amigo do Lipe correu para a entrada do quintal, voltou à esquerda e foi ao encontro daquele chamado. Era o garoto são e salvo, com   as   roupas   completamente   enxutas.   O   abraço,   o   tão   familiar   e desejado abraço.

 

— Lipe, corre vai ver tua mãe! Ela está desesperada! Pensámos todos que estivesses morto!

 

Correu com toda a sua rapidez, interrompeu o abraço, o abraço mais curto da história, as mãos de ambos mal tocaram as costas.

 

— Mãezinha, voltei!

 

— Lipe, meu Lipe, estás são e salvo! Graças ao meu bom Deus! Obrigado, meu Senhor!

 

Tirou as mãos do seu filho e ergueu-as para o céu e voltou de seguida a abraçar o filho, que não era pródigo, mas que voltou e como ela ansiava por isso, como ela não queria ter passado por todo aquele sufoco.

 

— O que aconteceu contigo?

 

— Eu tive de fugir dos quatro e lancei-me na água! Mas, mamã, eu voltei e nunca mais a vou deixar!

 

Lipe, ao ver os quatro em sua direcção, correu no intuito de encontrar um esconderijo. Algo lhe soprou no ouvido e disse: «Mergulhe, tome bastante ar nos pulmões, mergulhe e quando estiver lá no fundo sempre em mergulho volte à direita sem medo!»

 

Lipe mergulhou, não mais poderia ser visto, ao entrar em água voltou à direita e em mergulho nadou bastantes metros. Sempre orientado por algo muito estranho. Quando submergiu, encontrava-se num lugar arrepiante nos momentos iniciais. Foi um impulso que rapidamente passou, se ali estava, foi guiado por alguém. Mesmo sem ninguém ver, sentia uma protecção inexplicável. Sentou-se num patamar de pedra, ainda com os pés submersos. Encontrava-se no interior de uma gruta. A escuridão era quase total, travada apenas por um fio de luz, proveniente de umas fendas nas grossas paredes laterais. Entre um lençol de água e as paredes da gruta existia um passeio. Era uma espécie de patamar com algum declive. Levantou-se   e  resolveu   seguir   a   profissão   de   espeleólogo,   fez   um reconhecimento   ao   estranho   lugar   onde   se   encontrava.   Tinha   como companhia a sua pessoa e a companhia dos inúmeros morcegos. No chão, muitos excrementos. Caminhava com toda a atenção para não escorregar. Alcançou o extremo contrário da entrada, e vários socalcos, ou grandes degraus, teve de subir. Nesse mesmo topo, existia uma curta passagem, mas sendo de pequena estatura passou sem dificuldades. Encontrava-se agora numa sala grande com mais claridade do que a primeira, provinha de uma fenda bem razoável que para além da claridade renovava o ar. Nesta sala não existia água, dando-lhe portanto muita mais segurança para explorar bem tudo aquilo com que se deparava. Nesta gruta, existiam poucas estalagmites, talvez derivado de ser uma gruta superficial. Sendo um miúdo muito curioso, tudo teria que ser por ele explorado, e bem em sua frente surgiu uma parede que se assemelhava a um armário de quarto que se sobressai ocupando espaço dessa grande sala. De novo o mesmo timbre de voz parecia lhe entrar pela mente:

 

«Pára, não tenha medo, vai encontrar algo inesperado, não tenha medo! Tente se acalmar!»

 

Inalava um cheiro a excrementos de morcegos e outros que seu olfacto não conseguia decifrar. Novamente a doce e estranha voz: «Avance! Depois desta parede vai ver algo que o vai assustar, mas não se assuste!»

 

Lipe, concordante com aqueles aconselhamentos, seguiu, desviou-se da tal parede, deu uns passos ficando, suponhamos, a meio da porta do armário. Olhando para o seu lado direito gritou, num ímpeto deu dois saltos ficando a cerca de três metros distanciado da estranha visão. Viu o que poucos homens gostariam de ver de forma tão repentina e em local tão isolado. Encontrava-se   na   companhia   dos   noctívagos   morcegos,   que   naquele momento não o confortariam, não teriam uma palavra amiga para lhe dizerem, palavra essa que minimizaria o seu grande susto com aquela súbita e horrenda visão. Já vira muitas coisas parecidas, pois lá em casa seus pais mataram por variadíssimas vezes bois e cavalos. Vira muitos ossos em grandes montes, à medida que os animais eram desmanchados, os ossos eram colocados num monte para posteriormente serem queimados.

 

Sabia que tudo que à sua frente se deslumbrava era uma conjuntura de ossos.   Assim   correctamente colocados   não   tinha   ainda   conseguido desvendar tão estranha visão. Seu amigo, o Solitário, havia-lhe explicado sobre as estátuas, a sua mente anexara a ideia que se trataria talvez de alguma homenagem feita a um qualquer homem importante. Pensava nessa hipótese, mas mil e uma dúvidas se lhe apresentavam no imediato.

 

«Não pode ser! O que são estes dois buracos abaixo da testa? Tem a boca aberta e vejo-lhe todos os dentes! Coitado, tem um braço caído junto ao rabo!»

 

O ser sobrenatural que lhe oferecia amparo e companhia, tudo sabia sobre o que ia na mente daquele garoto. Acalmou-o como um bom pai protector. Embora todas as dúvidas referentes àquela estranha e aterrorizante visão fossem questionadas em pensamento, falou ao íntimo do Lipe dizendo:

 

« — Aproxime-se, não tenha receio! O que está a ver é o que faz com que nos mantenhamos de pé. Normalmente é muito bom quando nunca vemos nenhum dos nossos. Lipe isto que você está a ver, é o meu esqueleto…

 

— O seu quê?

 

— O meu esqueleto, eu já fui como você, Agora pertenço a outro mundo, isto fazia parte de mim!

 

— Você diz que agora pertence a outro mundo, a que mundo?

 

— Ao mundo daqueles que nada de mal podem fazer contra os humanos!

 

— Que mundo é esse?

 

— É o mundo daqueles que um dia foram como você e que um dia tiveram um fim em que nada mais restou que a lembrança e os ossos!

 

— Ossos, eu tenho estes ossos?

 

— Sim tem ossos como estes, embora os seus sejam mais pequenos, são proporcionais, eu explico, são de acordo ao seu tamanho. Quando um dia você for um adulto, os seus ossos também vão ser assim grandes, grandes!

E quando você morrer, vai deixar ossos como os meus!

 

— Eu não sei se entendi bem, mas o senhor já morreu verdade?

 

— Sim, meu pequeno, faz muitos anos!

 

— E onde foi que o senhor viveu?

 

— Sabe, eu já fui um menino como você, cresci mais cada vez mais, transformei-me num jovem, depois num adulto e durante esse tempo todo vivi em muitos lugares, mas desculpe, não posso falar muito mais!

 

— Sabe, senhor, eu estou com muito medo, este sítio dá muito medo, o senhor não estava com medo quando veio parar aqui?

 

— Não tenha medo! Eu naquele dia que vim aqui parar também tive medo, e agora sei que não vale a pena ter medo de nada! Nesse dia estava muito calor, então tirei a pouca roupa que trazia vestida, e lembrei-me de tomar um banho. Quando dei conta estava aqui dentro desta gruta!

 

— Eu quando me atirei para as águas ouvi uma voz, aquela voz era a sua? Foi o senhor quem me chamou?

 

— Sim, você estava em apuros, e a ser perseguido por aqueles homens maus!

 

— Quando o senhor entrou, também foi chamado por alguém?

 

— Sim, creio que sim, mas não ouvi como você alguém chamar por mim e mandar-me entrar!

 

— Sabe, eu não estou a entender nada, então quem foi?

 

— Acredito que foi o destino!

 

— O que é o destino?

 

— Nem todas as pessoas acreditam nele, mas eu acredito. O destino é tudo aquilo que à nossa nascença está marcado e, que um dia nos vai acontecer durante a nossa passagem por este mundo, as coisas boas e as menos boas, mas que nós nunca vamos saber quando essas coisas vão acontecer! Quando nascemos dizem que há um poder que faz com que vivamos muitos ou poucos anos, que faz com que a nossa vida seja uma vida de sorte ou de azar. Sabe, Lipe, a sorte por vezes é uma conquista, não uma herança, eu explico, só temos sorte na vida se fizermos por ela, ela não cai do céu assim sem mais nem menos! Cada um de nós, tem de dar um rumo cónico no sentido da felicidade! Mesmo assim, eu acredito que quando nascemos o nosso destino já está traçado, por muito que lutemos para termos uma boa vida, sempre irão vir as doenças, alguns azares, que sempre irão contrariar a luta que iremos travar para termos sorte. Eu estou para aqui a

 

 

falar sem me dar conta que estou a pôr essa cabecinha confusa, esqueça isso agora, a vida vai-lhe ensinar estas coisas todas!

 

— Sabe, senhor, eu não entendi nada, mesmo nada daquilo que o senhor disse, mas deixe para lá, eu agora só quero saber o seu nome! Como é que se chama?

 

— Eu não tenho nome. Já tive mas sobre isso não posso agora lhe falar!

 

— Foi esse tal de destino que fez com que o senhor viesse para aqui?

 

— Sim, creio que foi!

 

— Foi o senhor que pôs esses ossos aí?

 

— Posso dizer que fui. Eu quando sem querer entrei para esta gruta, fiquei assustado. Deixei que todos os meus medos tomassem conta de mim, lutei muito para vencer esses medos e ganhar coragem para sair deste lugar. Meus medos fizeram com que eu temesse morrer afogado ao tentar mergulhar para sair daqui. Fiquei com tanto medo de morrer afogado quando me atirasse nas águas, que me deixei estar aqui sem nunca daqui sair. Para fugir de uma possível forma de morrer, deixei-me vencer e esperei que minha morte ganhasse à minha vida. Muitas horas depois de cá estar sentei-me e o meu destino fez com que eu abandonasse a minha passagem pela terra!

 

— Esse destino também vai querer que eu me sente e parta também?

 

— Não, o seu destino diz que você irá viver muitos anos!

 

— Então porque eu estou aqui? Alguém me chamou!

 

— Sim, eu já lhe disse que fui eu. Eu tenho um trabalho para lhe dar. Preciso sair daqui, mas não agora!

 

— Jesus, sair daqui? Pois, mas o senhor não passa de um monte de ossos! Como vai ser possível sair daqui?

 

— Tudo a seu tempo, depois lhe digo. Promete que virá aqui mais vezes? Mas sem que ninguém saiba!

 

— Sim prometo, mas como vou eu saber quando for para vir aqui?

 

— Eu o chamarei. Agora escolha um destes ossos, um qualquer mas que seja destes mais pequenos, caso contrário será um embaraço para si!

 

— Mas para quero um dos seus ossos?

 

— Leve um dos pequeninos e a partir de hoje, vai ter de andar sempre com ele no seu bolso. Lipe, responda a uma coisa, você gostou de mim?

 

— Eu ainda não o conheço lá muito bem, mas acredite, gostei sim mesmo de você!

 

— Maravilha, óptimo! A partir de agora se quiser ter a minha companhia tem de andar sempre com um dos meus ossos para todo o lado. Eu serei o seu protector e não só!

 

— Desculpe, senhor, não entendo quando fala, e não só!

 

— Eu quis dizer que vou ser seu protector, vou ser também dos seus pais e daquele seu amigo!

 

— O tio Paulo?

 

— Esse mesmo, ele irá sempre protegê-lo, mas nestes dias vai ter de ser você Lipe, grande Lipe, a protegê-lo!

 

— E como eu vou saber quando o tenho de proteger?

 

— Lembra-se daquilo que eu lhe falei há pouco? Eu lhe disse que a partir de hoje você deverá andar com um dos meus ossos, é que assim eu estarei sempre consigo e quando alguém precisar da sua ajuda eu lhe digo!

 

— Ah, agora entendo!

 

— Ah, digo eu! Não pode dizer a quem quer que seja deste nosso segredo!

 

— Prometo nada dizer, mas quando falar consigo como lhe posso tratar?

 

— Trata-me por Sombra, eu serei a sua sombra!»

 

Lipe   examinou   os   ossos,   pegou   num   pequeno   pertencente   ao   dedo mindinho. Meteu-o no bolso e preparou-se para abandonar aquele sinistro local. Sentiu um vazio, olhava para todos os lados, suas mãos ficaram trémulas, sua feição rosada, num instante mudou de cor, há pouco tempo ouvira aquele senhor lhe dizer que morrera porque lhe faltara coragem para dali sair. O dono do esqueleto tudo sentia, apercebeu-se do medo que assolava o pequeno, contudo, deixou que ele tomasse a iniciativa de perguntar o que fazer.

 

« — E agora como faço para sair?

 

— Lipe, eu estou consigo, enquanto você tiver algum dos meus ossos no bolso eu o ajudo, confie em mim!»

 

Aquelas   palavras   foram   mais   que   suficientes   para   encorajar   Lipe   a mergulhar novamente naquelas águas e abandonar tranquilamente a gruta. Passou na estreita passagem da sala maior, entrou no lado menor da gruta onde existia água. Caminhou pelo estreito corredor sempre pelo lado esquerdo, alcançou o extremo da gruta. Parou para tomar fôlego, inspirou e lançou-se nas águas. Quando avistou a total claridade, submergiu, voltando à esquerda. Estava finalmente no estreito pedaço de terra entre o ribeiro e o desfiladeiro.

 

A vida na casa do Lipe tinha felizmente voltado à normalidade, com um único senão: o seu pai continuava detido.

 

Como o Solitário já há muitos dias que morava na casa dos pais do Lipe, com saudades da sua caverna, seu lar doce lar, resolveu regressar. Levou o cavalo Tupiguarani e achou melhor devolvê-lo à tribo. Para ele, essa visita continua a ser uma das suas grandes recordações. Foi tratado como, habitualmente se diz, um verdadeiro rei. Os olhos e a atenção da pequena Juli concentravam-se todos na figura dele. Bem sabemos, e todos os bons entendedores percebem, que a miúda, ao dedicar-lhe a sua atenção, era porque nele via a pequena figura do seu amigo Lipe. Ele tentou ser o mais discreto   possível   e   disse-lhe   que   o   Lipe   estava   completamente restabelecido. Quando partiu de casa dos pais dele, esteve tentado em o convidar. Não o fez porque iria confundir novamente sua cabeça. A seguir

à tempestade vem a bonança, mas neste caso o Solitário temeu que a seguir à bonança viesse a tempestade. É saudável conhecer novas pessoas, é bom e indispensável, mas quando conhecemos alguém de novo e fica por isso só, as coisas tornam-se divertidas. Quando nos prendemos a essas pessoas, como foi o caso do Lipe, que se prendeu àquela miúda, a separação torna-se dolorosa e ele queria livrar o seu garoto do sofrimento que mais que certamente iria ter. Seria saborear fel, depois de mel. Ele encontrava-se ainda num estado de emoções fortes. Achou que para o Lipe seria melhor permanecer com sua mãe e sua tia, era a melhor atitude a ser tomada.

 

O Solitário permaneceu algumas horas na tribo e mesmo antes da partida já as saudades se haviam apoderado dos seus sentimentos. Presenciou várias caçadas. Os índios ofereceram-lhe carne de veado assada. Era uma das comidas de que ele mais gostava, os chefes da tribo também eram conhecedores desse seu gosto. Talvez por medo, de que ele não gostasse de outro tipo de carnes, os índios ofereciam-lhe repetidamente carne de veado.   Quantas   vezes,   por   meros   medos   existentes   nas   nossas personalidades, falamos só dos assuntos que os nossos interlocutores apreciam. Ou pelo menos assim pensamos, julgamos em consequência desses existentes medos que ao abordarmos outros assuntos nos estamos a tornar indesejados. Tememos oferecer algo de novo, pois repetidamente tememos, que a ou as pessoas em causa não aceitarão de bom grado essas ofertas. Quantas vezes, alguma pessoa já considerada alcoólica, e quando num estado de embriaguez, se dirige a outra pessoa dita normal, fala, fala e fala, às páginas tantas o assunto acaba e a pessoa, que na maior parte das vezes se limita a dizer que sim, quando sai de perto dessa tal pessoa embriagada diz: «ufa, bolas que pessoa chata!». Para essa pessoa o ser alcoólico é verdadeiramente chato, porém, se analisarmos essa pessoa é chata porque entre ambos não existe algo em comum. Se duas pessoas alcoólicas se encontram, verificamos eles falam horas e horas, e nenhum deles acha o parceiro de conversa chato. E porquê? Porque entre eles existem os mesmos ideais, os mesmos gostos, e porque entre eles o entendimento e a compreensão são mútuos.

 

Na vida, os inúmeros assuntos, as infindáveis atitudes e actos são, de forma inevitável, repetidos. Em suma, a vida é um conjunto de repetições.

 

Mais uma vez a despedida, mais uma vez o Solitário se encaminhou para o pequeno portinho, mais uma vez o apanhar da Chalana e o ver novamente o comandante e a imensidão do rio. Finalmente o lar, doce lar, com as indispensáveis arrumações, pois tudo estava numa bagunça! No silêncio patenteado na adjacência da sua residência, interrompido pelos rosnidos e chilrear dos animais, qualquer som estranho era facilmente detectável. Troc, troc, troc, troc! O trotear de um só cavalo se abeirava. Aquele homem, até ao dia que enfrentou o sargento, vivia de forma destemida de toda e qualquer coisas. A partir daquele dia ganhou consciência que teria outros cuidados a ter. vivia com os sensores em alerta máxima.

 

— Tio! Tio!

 

Atenção e água benta nunca fizeram mal a ninguém! Toda aquela atenção foi abençoada pela visita do Lipe.

 

 

— Aqui! Estou aqui! Sê bem-vindo! — informou e saudou desta maneira o Lipe, enquanto saía de casa, desviando as fitas colocadas na porta para se proteger dos insectos.

 

— Hoje já trabalhei muito, ajudei minha mãe lá em casa.

 

— Muito bem!

 

— Sabe, tio, eu pedi à mãe para o tio morar connosco lá em casa. O tio pode dormir comigo.

 

— Eu fico contente, mas não posso aceitar. Sabes, Lipe, quando fizer falta ajudar vocês nas vossas tarefas, eu ajudo de bom grado, mas morar em tua casa não tem cabimento!

 

— Tio, eu ia ficar contente! Fico triste de ver o tio aqui sozinho! Todos os dias à noite, quando estou na cama a rezar, peço ao Jesus para ele fazer companhia ao tio! Lembro-me e fico triste! Você vive sem ter alguém para conversar. Às vezes custa-me dormir, sempre a pensar em você!

 

— Sabes, Lipe, existem estranhas formas de vida. Determinadas atitudes que determinadas pessoas tomam são de difícil entendimento.

 

— Tio, o meu pai às vezes fala que eu não sou muito inteligente, eu penso que ele tem razão! Sabe porquê, tio?

 

Respondeu negativamente, com um acenar de cabeça.

 

— É que eu não entendo tudo o que o Tio fala!

 

— O teu pai diz-te isso para brincar contigo, ele sabe que tu és inteligente e és mesmo! Sabes, Lipe, uma criança da tua idade não pode entender tudo, por isso fazes bem em dizeres que não entendes, certo amigo?

 

Bateram com as mãos, primeiro as do Lipe por baixo e depois ao contrário, e a partir daquele momento faziam sempre aquela brincadeira quando concordavam   com   alguma   coisa.   E   o   Solitário   continuou   com   o   seu raciocínio;

 

— Eu vivo sozinho por pura opção. Por pura opção, não! Sabes, Lipe, eu fui casado onze anos. Minha esposa fez de mim o homem mais feliz do universo! Casámos num belo dia de Outubro! Guardo na minha memória os bons tempos de casado, não guardo as datas. Onze meses após esse magnífico dia solarengo, minha amada deu à luz um bebé. Era um lindo menino,   e   faltavam   dois   dias   para   ele   completar   dez   anos,   quando sofremos um terrível acidente na estrada. Eu fiquei inconsciente durante muito tempo, os meus amores deixaram de viver! Nessa fatídica data, deslocávamo-nos de um estado, onde eu leccionava, para visitar minha irmã que vivia noutro estado. Mantiveram-me internado vinte dias. Quando perguntei pelos dois, disseram que eles haviam partido e que tinham enterrado eles no cemitério da vila. Se os não poderia ver com vida, não os quis ver sepultados! Sei o nome da vila, não o quero pronunciar, mas nunca vi a sepultura. Um dia talvez mude a minha atitude e tente saber o número da campa para me despedir. Todavia, não estou certo que o venha a fazer!

 

— Mas, tio, como se chamavam eles?

 

— Lipe, quando as pessoas deixam o corpo, para mim abandonam seus nomes e transformam-se em doce lembrança, doce memória! Eu sinto que eles me fazem companhia! Acredito que eles me auxiliam, me livram dos males, em suma acredito com muita convicção que eles já me ajudaram! Quando   te   procurava,   Lipe,   eles   ajudaram-me,   minha   canoa   estava descontrolada a rodopiar no meio do grande rio e estranhamente encontrei uma corda sustendo um remo.

 

— Tio, um remo? Que fez o remo?

 

— Com o remo naveguei muito, até que, por fim, consegui alinhar a marcha da canoa e seguir minha busca. Foi nessa busca que eu e os índios te encontrámos desamparado.

 

— Depois que o tio saiu do hospital, veio viver para cá?

 

— Não de imediato. Vivi alguns anos com minha irmã. Só mais tarde é que vim para cá. Sabia que minha mãe havia do mesmo modo abandonado a vida terrena e não sabia de meu pai. E ainda hoje não sei se ele vive ligado ao corpo ou se o abandonou!

 

— Quer dizer que o tio não sabe se tem pai?

 

— Eu tenho pai! Pode ser que ele se tenha cansado do corpo, corpo esse ao qual ele esteve ligado, no qual ele viveu os prazeres e os sofrimentos, as alegrias e as tristezas… Na vida as incógnitas são mais que muitas. Quem sabe meu pai ainda respire o mesmo ar que todos nós respiramos, se molhe com a mesma chuva e se delicie com o mesmo sol? Ele veio viver para cá, pois foi nestes terrenos que ele sepultou minha mãe, mas não sabemos o sítio exacto. Disse que não mais viveria noutro lugar a não ser aqui. Por isso é que eu vim para cá, no intuito de ver meu pai. Afeiçoei-me a este lugar e ainda hoje espero por ele!

 

— Mas porque o tio não vive na cidade? Lá o tio podia conhecer outra mulher e voltar a ter filhos!

 

— Tens razão, Lipe, mas isso eu não quero mais! Minha dor foi tão forte quando perdi os meus amores, que com medo de me prender a outros amores e voltar a sofrer, não mais quis conhecer alguém! Sei que poderia refazer minha vida e talvez o trágico acontecimento não se repetisse. Adivinhar   o   futuro   é   impossível!   Prefiro   continuar   deste   modo,   um eremitão! Assim, não revivo o prazer de novos amores conhecer, mas também não irei reviver os desgostos vividos. São estranhas formas de vida, de difícil compreensão por parte de quem está do outro lado. O outro lado és tu, Lipe, que de forma natural não alcanças. Eu vou tentar explicar. Sabes, Lipe nas grandes cidades existem grandes casas de jogos: os casinos. Lá as pessoas fazem apostas e dessas apostas muitas alegrias sortirão se as pessoas ganharem e multiplicarem o seu dinheiro. Mas as probabilidades de não se ganhar absolutamente nada são muito maiores, sendo portanto muito mais os desgostos que os contentamentos. Se as pessoas não fizerem apostas, nunca sentirão o prazer da vitória, mas por conseguinte nunca sentirão o amargo sabor da derrota. É exactamente disso que eu fujo, como o diabo da cruz!

 

— Tio, como é o diabo? A minha mãe às vezes fala dele. O tio diz que o diabo foge da cruz, tio, você já o viu a fugir da cruz?

 

— Não, Lipe, isso é forma de dizer! Fujo da possibilidade de jogar num jogo em que posso ganhar um amor, mas que também o posso voltar a perder. O dissabor da perda será para mim, já muito sofrido, bem maior do que a nova vivência… Acredita, Lipe, durante vários anos, eu somente trocava bens para a minha sobrevivência, a maior parte eram feitas na Chalana. Nunca me apeguei a nenhuma pessoa. Um dia estava deitado na rede e ouvi um miúdo assustado com uma cobra. Esse miúdo és tu, Lipe! Já tenho um dos meus amores de volta!

 

— Tio, eu acho que entendi, mas se calhar…

 

— O que entendeste?

 

 

— Que eu sou o amor que você sentia pelo seu filho!

 

— Sim, Lipe, eu considero-te meu filho, atribuí o meu amor de pai a ti!

 

— Por isso, tio, eu queria que o tio morasse lá em casa. Eu gosto muito do tio! Gosto do tio como se fosse meu pai, mas eu tenho pai!

 

— Lipe, eu fico contente, mas é isso aí. Tu tens pai e ele adora-te!

 

— Eu sei, tio, minha tia Dinha, que já está muito velhinha, fala muitas vezes do Tio, ela diz que o Tio vive sozinho e que a solidão é triste.

 

— Sim, Lipe, a solidão deve ser muito triste! Mas a solidão só será triste, se as pessoas se deixarem envolver por ela. Aos olhos do comum dos mortais, eu que vivo nesta caverna como um eremitão, para essas pessoas, até mesmo para ti, eu vivo na solidão. Posso-te assegurar que a solidão passa por mim e não tem força suficiente para me atingir. Existe um animal que se chama preguiça, subsiste um dito popular que diz que a preguiça morreu à sede no meio da água… Acho, aliás, não acho, tenho certeza que embora vivendo completamente sozinho, a solidão não se entranha em mim. Tal qual a água não penetrou no interior do corpo da preguiça impedindo-a de morrer de sede.

 

— Tio, nem que todos os santinhos do céu me expliquem isso tudo, eu penso que não entendia!

 

— Às vezes nem eu me entendo! Várias são as atitudes que tomamos connosco, que são tão involuntárias que nem por nós que as tomamos são assentes.   As   pessoas   normalmente   sentem-se   orgulhosas   porque   têm muitos amigos. Isso é óptimo! Mas existem muitos amigos que não são seres humanos, falo: os animais, as plantas, a chuva, o sol e tantas coisas mais. Estás a ver esta árvore?

 

— Sim, tio, é linda!

 

— Sim é, assim como todas! Eu conheço todas as suas folhas. Os amigos que os homens tanto prezam, para mim são como estas folhas. As árvores têm   raiz,   tronco, folhas,   flores   e   frutos.   Muitas   árvores   têm   folhas caducas, ou seja, folhas que numa determinada época caem. Mas existem árvores que são compostas por folhas perenes e essas nunca caem! Os amigos são tal qual as folhas: alguns são caducos e outros perenes, sendo estes os melhores. Ao olhar para estas folhas, eu revejo-me inserido no mais alegre grupo de pessoas amigas. Uma folha caiu, um amigo que se foi!

 

Mas logo nasce outra, outro amigo que surge! Lipe, aprecia o canto dos pássaros, que melodiosos! Nem imaginas como os rosnidos dos animais me tranquilizam! Como é lindo ouvir o bramido da madeira provocado pelo vento a embater nas árvores! Gosto de ouvir as gotas da chuva quando cai ou   aquelas  que   caem   das   árvores   causadas   pelo   orvalho.   Que resplandecente é o nascer do sol e que esplendoroso que se torna com o seu ocaso! O crepúsculo, ou seja, o anoitecer, é fascinante! É o passar de testemunho dos seres diurnos para os seres noctívagos. O sol, esse se foi, mas é chegada a hora das estrelas facultarem toda a sua graça, a luz, as figuras geométricas, as cadentes que cansadas se deslocam para novas vivências. Elas também gostam de jogarem às escondidas, escondem-se nas nuvens e durante o dia.

 

— Pois é, tio, elas de dia ninguém as vê!

 

— O astro-rei é o sol. Como ele tem mais poder, ofusca a luz das estrelas.

À noite, como ele se foi, as estrelas, que são tímidas, sorriem para todos aqueles que assim pretenderem.

 

— Tio, o sol de noite dorme?

 

— Não, Lipe, o sol nunca dorme. Ele desloca-se para outros locais. Como a terra é redonda, ao deslocar-se esconde-se, causando sombra e originando a noite. Quando aqui é noite, em muitos países faz dia, por isso existe o fuso horário. Neste momento são duas e meia da tarde, existem países em que neste momento são seis e meia, sete e meia e por aí fora.

 

— Sendo assim, tio, logo à noite o sol vai estar acordado?

 

— Sempre está acordado! Neste instante permanecem muitas pessoas a dormir, a nascer, a trabalhar, a morrer, resumindo tudo acontece neste preciso momento. Sabes, Lipe, eu não posso prever o que vai na mente das pessoas, mas acredito que pouquíssimas são as pessoas que se lembrarão que tudo de bom ou de ruim que possa acontecer no universo, está efectivamente a acontecer.

 

— Vou ler umas quadras alusivas a tudo isso. Escrevi-as há muito tempo, espera vou buscar o papel.

 

Enquanto que o Solitário se dirigia para a caverna, fitou de esguelha o Lipe, ele olhava para o cimo das árvores. De certeza que estaria a pensar em tudo que o seu amigo lhe dissera. A sua cabeça deveria estar confusa. Enfim, para um miúdo com a educação do Lipe, a forma de pensar e de agir do seu grande amigo não eram de todo fáceis de compreender, ele tinha essa noção, por outro lado, falava-lhe assim para que o miúdo crescesse. Embora o Solitário não pretendesse que o Lipe se tornasse como ele. Acredita-se que as pessoas são moldadas pelo meio em que vivem.

 

Demorou alguns minutos, o papel com as quadras estava misturado com os papéis em que escrevia as suas memórias e em que fazia todos os seus apontamentos. Não se poderia considerar uma pessoa metódica. Por fim, regressou para junto de Lipe, que perscrutava tudo ao seu redor. O Solitário gesticulou para fazerem a brincadeira das mãos, e começou a ler- lhe as quadras:

 

«Há um pássaro que voa, Uma cobra que rasteja, Uma presa que foge,

Ao predador que a deseja;

O necrófago que se lambuza, Com o que dela sobeja.

 

Há o ser dominante,

O ser que é dominado,

Aquele com manias de importante,

Que subestima quem está do outro lado.

 

Muita gente a fazer amor, Muito bebé a nascer,

Muita gente a sofrer de dor, Muita pessoa a morrer.

 

Uma árvore que cai

Com a idade ou com o vento. Quem viva em eterno ai

Em continuo lamento.

 

Há quem passe necessidade, Quem tenha a alma dorida, Quem atinge a longevidade, Quem ponha termo à vida.

 

Há quem seja condenado

Por crimes que não cometeu, Quem seja valorizado

Por mérito, que não seu.

 

A terra está a tremer,

Com menor ou maior intensidade. Gente que tenta Sobreviver!

Da pequena aldeia à grande cidade.

 

Água que se está a evaporar. Nuvem em formação,

Quando esta à terra voltar,

Sente-se a renovação.

 

Ocorrem grandes secas, Ocorrem as monções;

Em simultâneo prosperam,

As quatro estações.

 

Há tempestades em terra, Chuvas e ventos no mar, Aviões a rasgar atmosfera, Navios a navegar.

 

Há quem viva numa mansão,

Numa simples casa ou na cadeia por algum castigo; Sinto mágoa no coração

Constatar a existência de gente sem-abrigo

 

Um filme está a ser rodado, Outros passam no cinema. Poeta inspirado,

A compor seu poema.

 

Países em democracia, Ditaduras com seus regimes, Ainda persistem monarquias,

Os grandes nunca pagam os seus crimes.

 

É real a corrupção,

Da pequena aldeia à cidade.

Eu pergunto, quando acabarão? Com a vergonhosa impunidade.

 

Descobertas científicas,

Invenções exuberantes, Vivemos com estatísticas, De fracos governantes!

 

Aumentam os impostos, Diminui o poder de compra, Ocupam os melhores postos, Cambada de gente tonta!

 

Vulcões adormecidos, Outros em erupção,

Glaciares a serem derretidos, No sol mais uma explosão.

 

Há quem creia em Jesus Cristo, Em Buda ou Maomé.

Dizem que não somos nada sem isto

Que muitos chamam de fé…»

 

— Foi o tio quem escreveu isso?

 

— Sim, Lipe. Isto é um poema. Ainda existem acontecimentos que nestes versos não foram retratados. Tentei abordar todos, mas há coisas que sempre fogem do nosso conhecimento. Eu aqui, com a vida de eremitão, reflicto em tudo isto referenciado nas quadras. Assim passo o meu tempo, imaginando-me em cada um destes acontecimentos, claro que em alguns era   impossível.   Em   cada   uma   das   posturas   tomadas   pela   sociedade, recordando-me das situações pelas quais já passei, e desejando que as más sejam erradicadas. Recordar é viver… Imaginarmo-nos no lugar daqueles que mais sofrem e tentar minimizar seus sofrimentos, é lutar por uma sociedade melhor… Desejar que todas as coisas boas, pelas quais as pessoas passam, sejam multiplicadas, é ser generoso, ser solidário e ansiar pelo bem da humanidade…

 

— Tio, eu já sei escrever, mas quero aprender mais, para também eu, escrever destas coisas!

 

— Já imaginava! Eu vou-te ensinar cada vez mais, para que tu venhas a ser um adulto com discernimento para lutar por um futuro melhor!

 

Nesse dia, o Solitário, com as mãos, alisou a terra e desenhou todas as letras do abecedário, explicando que juntando as letras se constroem sílabas   e   juntando   estas   se   formam   palavras.   De   forma   natural   e surpreendente, o Lipe aprendeu com facilidade.

 

Por volta das cinco da tarde, ambos resolveram que eram horas de Lipe regressar para casa. Montaram os dois no Rápido e devagarinho partiram. A mãe do miúdo, ao avistá-los, ordenou uma pequena tarefa a seu filho. O Solitário de imediato notou que algo estava errado, o semblante da dona Clotilde estava carregado.

 

Quando o Lipe se afastou, ela revelou a triste notícia: Clara não resistira aos ferimentos e morrera naquela tarde. Triste e trágico acontecimento! Uma criança perdeu a vida, os causadores da tragédia em puro contraste deviam estar joviais! Todas as boas e más revelações terão de ser dadas. Ao Solitário coube a dura tarefa de dar a pior notícia que o Lipe teve até aquele instante. Chamou alto por ele e sem grandes rodeios contou-lhe o sucedido:

 

— Lipe, eu não queria ter que te dar esta notícia, a tua amiga Clara partiu!

 

— Partiu, para onde, Tio?

 

— Lipe, meu lindo, ela morreu, foi para junto do teu Jesus!

 

Ele engoliu em seco, no início não entendeu direito, passados alguns instantes ficou transtornado. O Solitário, a fim de apaziguar o sofrimento do miúdo, tentou explicar-lhe que existe uma força suprema que assim quis e que nós, pequeninos, nada podemos para contrariar esse desígnio. A perda de uma pessoa é irrecuperável, mas ingenuamente o Solitário lhe fez ver que ele tinha outra amiga. Foi quase querer comprar uma peça nova, depois de uma semelhante ter sido partida. Os olhos do Lipe, que sempre tiveram   um   invejável   cintilar,   contudo,   perderam   todo   o   seu   brilho naquele instante. Encheram-se de água, em bica, as lágrimas escorriam- lhe pelo rosto. Deixou-se vencer pelo desespero e pela dor. Sua mãe, desolada, sem nada poder fazer para atenuar a dor do filho, também chorava. O Solitário esforçou-se para conter o choro e ajudar os dois, mas também não foi forte o suficiente e chorou abraçado ao Lipe. A mãe dele gostava da miúda. Seu filho adorava aquela miúda. O pai do Lipe, na cadeia   por   causa   daquela   miúda,   por   causa   da   maldade   de   uns inclassificados que destroçaram as vidas de várias pessoas e findaram uma!

 

A reunião da célebre quadrilha seria totalmente indispensável.

 

—   Senhor   sargento,   senhor   sargento?   —   chamavam o   senhor   Manuel “Arranca Orelhas” e o senhor Faustino, na fazenda do meliante.

 

— Que raio querem a estas horas? Eu hoje estou muito ocupado, tenho de cortar as unhas à minha mulher!

 

O Manuel, o predilecto, revelou:

 

— Senhor sargento venho da cidade, a miúda morreu!

 

— Deus existe, Deus existe! Hoje já não há tempo, mas amanhã vamos falar com o juiz e aquele maldito ficará para sempre preso. Depois quero que vocês os três assistam a eu tomar a mulher dele.

 

No dia seguinte, o Solitário, a dona Clotilde e o Lipe foram visitar o amigo Araújo. Sem surpresas, o malvado do sargento lá estava, com toda a sua altivez. Tudo fez para impedir a visita, Mas a sua vontade foi estéril. Vendo que os três não lhe obedeceram e nem o delegado os impediu, revelou algo já por eles suposto.

 

Visto que a pobre menina sucumbiu, o julgamento fora marcado para dali a três semanas. O amigo Paulo tentou tudo para consolar o senhor Araújo, dizendo que ainda não sabia como fazer, mas que arrancaria a verdade de um dos quatro malfeitores.

 

Quando voltaram o Solitário regressou para a sua caverna, e mãe e filho para casa. Antes porém, o Solitário recomendou ao Lipe para nunca abandonar sua mãe. O maldito, agora mais do que nunca, atentaria contra a integridade dela. Preocupado, o Solitário fitou o Lipe. Mostrava ser possuidor   de   uma   segurança   peculiar.   Só   mais   tarde   o   pequeno   lhe desvendou tamanho mistério.

 

Com a preciosa ajuda do seu amigo, o Lipe aprendeu a ler e, depois de concluir os seus estudos, passou a escrever parte das suas memórias. Ao relatar a história deste pequeno rapazinho, que felizmente chegou ao lado adulto, mas sobre essa fase da sua vida somente fazemos um pequeno esboço, resolvemos, para que o leitor tenha a oportunidade de não só ler os relatos feitos na segunda pessoa pelo narrador, e visto que tanto o Solitário, como o Lipe escreveram algumas memórias, aproveitar esses seus manoscritos e deste modo dentro do contexto, de forma contínua, daremos conta dos factos; Vários anos mais tarde, o Solitário, passou a ir com frequência visitar o Lipe. Passeavam por entre a densa mata, caçavam

e assavam as presas no espeto e conversa puxa conversa, falava-se do presente e do passado. O futuro a Deus pertencia, achavam eles. Foi num dos assuntos sobre velhas histórias que o Lipe e o Solitário, ficaram a compreender tudo o que nas suas vidas se tinha passado. Devido à saudade penosa, o Lipe durante muitos anos a ninguém revelou alguns pormenores. Só naqueles encontros é que tudo se clarificou para ambos…

 

Dois dias depois de visitar meu pai, fui à gruta. Recolhi vários ossos e os sepultei. Dos ossos, uma voz me falou: «Escolha dois ossos distintos, um deles fará com que ouça tudo aquilo que os seus protectores e os seus inimigos falam, o outro fará com que veja tudo o que os mesmos façam».

 

Ouvi os quatro, o sargento e os três lambe-botas, dizerem que iriam ao riacho das lavadeiras para o sargento fazer mal à minha mãe. Troquei de osso, e vi que minha mãe tinha protecção.

 

Ela saiu de casa para lavar a roupa no sítio do costume, como sempre nos últimos tempos foi com a sua amiga. Enquanto que uma lavava, a outra se escondia para vigiar. Estava ela sossegada a lavar as minhas roupas, as da tia Dinha e as suas, quando chegaram o sargento, o Manuel “Arranca Orelhas”, o Faustino e o Martinho, o lentinho. O sargento, como sempre, entrou dentro da água, e desta vez tinha bem perto os três a assistir a tudo. Talvez por timidez ou por outra razão qualquer, ele não se despiu de início, como de costume. Tentou agarrar minha mãe e levá-la para terra. Vindo bem de perto, dado por alguém que se havia escondido no interior de um emaranhado de arbustos, ouviu-se um tiro.

 

— Mostrem ser corajosos, seus covardes! Agarrem o malvado ou a malvada que disparou!

 

— Mas, senhor sargento...

 

— Nem mas, nem meio mas, você é um covarde Faustino!

 

Ela não sabia se o senhor Faustino tinha conhecimento de quem se tratava. Os outros dois desculparam-se pela hesitação do Faustino e emboscaram-se na mata, para descobrirem quem seria o autor do disparo. O senhor Faustino, sempre hesitante, mostrava ou não gostar do sargento, ou ter compaixão da pessoa em causa, ou ainda ter conhecimento de quem se tratava.

 

Poucos instantes depois,   ali   bem perto do local que   minha mãe   se encontrava, fez-se ouvir outro tiro. De seguida, o Manuel e o Martinho traziam em braços, sem reagir, dona Clarisse. Era uma mulher baixa, já com muitos cabelos brancos, algumas rugas na testa e nas faces, mas mesmo assim, aparentava bem para os seus cinquenta e cinco anos, usava um   largo   chapéu   de   palha   dependurado   pelo   elástico   que   se   havia rebentado quando os dois a agarraram, estava assustadíssima e tropeçava. Era ela a protectora e a protegida de minha mãe. O Faustino exclamou:

 

— Querida, que fazes aqui?

 

O marido tencionava abraçá-la, sendo num ápice impedido pelo sargento. De arma em mãos, o covarde ameaçou o Faustino:

 

— Fique aí seu fraco, eu bem sabia que você nunca teve pulso forte com sua mulher!

 

O Faustino, de arma apontada para si, nada pôde fazer a não ser resignar- se. O maldito voltou depois a arma para dona Clarisse e perguntou:

 

— Mulherzinha maldita, que faz aqui aos tiros?

 

— Eu estou aqui para proteger a minha grande amiga Clotilde! Então minha mãe interveio:

— É verdade, seu ordinário, ela me protege e eu a protejo!

 

O sargento furioso, sempre de arma apontada para a cabeça da dona Clarisse, perguntou:

 

— Responda a uma pergunta minha, mulherzinha folgada, foi você quem prendeu minhas roupas ao meu cavalo daquela vez, lembra-se?

 

— Claro que sim…

 

— Claro que não! — tentou defender minha mãe, temendo o pior. Mas dona Clarisse queria acusar o maldito e continuou:

 

— Fui eu sim, você seu maldito já …

 

Pum, pum! Dois tiros foram ouvidos. Dona Clarisse jazia morta no chão. De imediato o Faustino soluçou:

 

— Não, por Deus não!

 

E pegou na sua arma para acertar o assassino. No mesmo instante, o sargento apontou a sua arma para o Faustino. Tudo em simultâneo, o Manuel apontou seu revólver para a cabeça do recém-viúvo e o Martinho apontou o seu para a cabeça do sargento, e disseram ao mesmo tempo os dois:

 

— Não se mexam, caso contrário nós disparamos!

 

Os dois queriam deste modo evitar mais tragédias e exigiram as armas de ambos. O sargento vitorioso, ria-se e jurava:

 

— Eu sou um homem de H grande. Agora vamos à cidade e dizemos todos que quem matou esta mulher foi o tal homem das cavernas! Desta vez, ele vai para o chelindró! Ah se vai!

 

O senhor Faustino chorava em alto pranto, e contrariou o sargento:

 

— Aquele senhor não irá para a cadeia! Eu vou contar ao juiz que foi você, maldito, quem matou minha querida!

 

— Eu também senhor Faustino, eu também! —   juntou a sua voz a minha mãe.

 

— Ora, maldito, não me trate como um igual a você! A sua palavra nada vale perto da minha! E você, mulherzinha, ponha-se no seu lugar! O que vocês os dois podem contra mim? Será a nossa palavra contra a vossa!

 

— Fique certo desta vez, seu assassino, eu e este senhor viúvo, vamos contar toda a verdade e o juiz não vai prender o senhor Paulo!

 

— Isso é o que se irá ver!

 

Os três foram para a cidade. Minha mãe e o desconsolado viúvo ficaram durante muito tempo junto ao corpo.

 

Fui rapidamente ter com o meu tio e disse-lhe para ir comigo ao riacho. Para disfarçar, mostrei temer pela minha mãe, que tinha ido lavar roupa.

 

Fomos a toda a velocidade.

 

Nos relatos da nossa história, e visto que tanto o Lipe como o Solitário escreveram   parte   dos   acontecimentos,   resolvemos   aproveitar   essas memórias, e demos prioridade às escritas pelo Solitário, tudo que se passou na presença dos dois é relatado pelo adulto, e o jovem relata o resto…

 

Quando lá chegámos, deparámos com um cenário medonho. Lipe correu para abraçar sua mãe, eu abracei o senhor Faustino que permanecia abraçado ao corpo do seu amor. Arranquei-o um pouco à força, queria desviar o seu olhar de todo aquele cenário funesto. Dirigi minhas palavras para dona Clotilde, não o fiz para o sofrido viúvo, sabia que o estado emocional não o deixaria raciocinar correctamente.

 

— Aguentem-se aqui e não mexam no corpo. Eu vou com o Lipe chamar as autoridades.

 

Iniciamos uma cavalgada rápida em direcção à cidade. Tivemos mais rápido ainda que a interromper. O delegado acompanhado pelos três, já se dirigiam para o local.

 

— Prenda-o, delegado, foi ele!

 

— Sim, foi ele! — confirmaram as duass falsas testemunhas em uníssono. Com uma reincidência enervante, o delegado exclamou:

— Senhor Paulo, vou ter de o prender! Estes senhores afirmam ter visto o senhor assassinar uma senhora!

 

—   Sim,   senhor   delegado,   mais   uma   vez   estes   covardes   acusam   um inocente!   Vamos ao local,   onde   a senhora repousa para eu   fazer a reconstituição do crime.

 

O sargento, ao ouvir a minha afirmação, encheu-se de júbilo, talvez pensasse que eu concordava com a acusação. Regressamos ao local do crime, o senhor Faustino ao ver o delegado gritou:

 

— Senhor delegado, prenda esse maldito do António, foi ele quem matou minha querida!

 

— Foi ele sim! — reforçou dona Clotilde.

 

— O António! Quem você pensa que é? Para você eu sou o senhor sargento, ou D. António!

 

— Para mim você é um cabrão, assassino! Senhor delegado, prenda esse maldito, ele matou minha querida mulher!

 

Dona Clotilde contou tudo que havia visto e ouvido ao delegado.

 

— Senhor delegado, foi este assassino do sargento quem matou a dona Clarisse. Ele disse que era um homem com H grande e que iriam acusar o senhor Paulo e que assim ele iria para sempre ficar na cadeia. Mais uma vez lhe digo senhor delegado, foi ele!

 

O grupo, que até então era constituído por quatro elementos, agora reduzido a três, mantinha-se de pedra e cal. Os dois obedientes e covardes sujeitos ilibavam o sargento e acusavam a mim, que nada havia feito.

 

O delegado, que sempre foi tendencioso, tentou conseguir argumentos para me incriminar:

 

— Bem, senhores, visto que aqui o senhor sargento e estes dois honrados senhores afirmam categoricamente que quem matou esta infeliz senhora foi o senhor Paulo, e uma vez que eles estão em maioria, vou ter de prender o culpado. Não tenho dúvidas que é o senhor o culpado!

 

Apontou para mim! Seus gestos davam a entender que me iria algemar! O senhor Faustino, que permanecia prostrado junto aos restos mortais de sua esposa, num acto furioso, levantou-se e correu em direcção ao sargento, derrubando-o. Direccionou o seu olhar para o delegado e gritou com toda a força que ainda possuía:

 

— Senhor delegado, faça-se homem uma vez na vida! Prenda este covarde, foi ele!

 

O sargento recompôs-se, dirigiu seus olhares e tentou dirigir seus passos para o viúvo. Era bem patente que tencionava agredir quem o havia humilhado   com   aquela   agressão.  Antes de   ser   agredido,   o   sargento, encontrava-se à minha esquerda, o senhor Faustino junto à sucumbida mulher,   encontrava-se   à   minha   direita.   No   momento   que   agrediu   o malvado, o agressor passou por mim, empurrou com violência o agredido, este em desequilíbrio, deu vários passos para trás estatelando-se a poucos metros de mim. Os policiais foram ajudar o sargento e o senhor Faustino agarrava-se, desesperado, à farda do delegado. Eu desloquei-me para o meio dos dois grupos, previa, e minhas previsões vieram a comprovar-se verdadeiras, que o sargento tentaria esbofetear o pesaroso senhor. Não deixei que nada fizesse e com repugnância voltei-me para ele:

 

— Você, maldito sargento sem farda, arque com as suas responsabilidades, seu irresponsável! Anda nesta vida unicamente para fazer o mal, comete crimes e tem o desplante de se sentir ofendido, quando o viúvo de uma das suas vítimas o atira para o chão! Seja homem pelo menos uma vez na vida! Porém, tipos como você não são homens, são aberrações humanas, você maldito sargento bem sabe que a polícia nada faz contra si, mas seja digno do ar que respira e não tente incriminar inocentes!

 

— Malditos, vocês são todos uns malditos! Onde já se viu, eu o sargento, ser atirado para o chão e desrespeitado assim por um bando de reles criminosos e de mulheres folgadas… Delegado, prenda-os a todos!

 

Não fosse a atitude agressiva do senhor Faustino e eu seria culpado por crimes não cometidos. Perante toda aquela fúria, todos aqueles romperam

a amizade com o sargento. Contra factos não há argumentos, o delegado que era mais parcial que uma autoridade deveria ser, deu-se conta que os mentirosos eram os três senhores da sua confiança. Portanto, nada fez contra mim, dirigiu-se para o sargento e disse:

 

— Senhor sargento, isto vai ficar arquivado como sendo um acidente, não haverá culpados, é a palavra dos senhores contra a deles, fica assim como está, o dito pelo não dito!

 

— Não, claro que não, eu quero este homem das cavernas no xelindró! Quero que ele seja comido pelos ratos e sugado pelas sanguessugas!

 

— Reles sargento, o que você quer reles fazendeiro, não se escreve! — refutei, para de seguida perguntar ao delegado, — Senhor delegado, e agora que se faz ao corpo?

 

— Será levado para a cidade onde irá ser autopsiado, depois entregue ao viúvo…

 

Meteram o cadáver na carroça e levaram-no para o instituto de medicina legal. …

 

Embora eu tivesse todos os motivos para possuir animosidade pelo senhor Faustino, prontifiquei-me em acompanhá-lo e solidarizei-me com sua dor. Sou   ostensivamente   crítico,   em   relação   a   qualquer   proximidade interesseira. Mas, tendo eu sido inúmeras vezes acusado por crimes que não cometi, e aos quais, o senhor Faustino juntou sua voz acusativa, e visto que agora tinha rompido a relação amistosa com os meus acusadores, aproximei-me para tentar provas incriminatórias contra o sargento. Na conversa que ouvimos eu e o Lipe, junto ao ribeiro, foi bem notório, que um   dos   três   era   aviltado   pelo   safardanas.   O   dito   safardanas   fez transparecer que seria o Faustino o menosprezado. Era chegada a hora de abandonar os meus princípios e tudo fazer para ilibar o meu amigo José e evitar que outras acusações me viessem a ser atribuídas.

 

Dona Clotilde, consternada pela assistência nefasta, encaminhou-se para sua casa, levando seu filho. Eu segui a comitiva até à cidade, sempre amparando o viúvo. O moroso processo da liberação do corpo fez com que tenha tido tempo de visitar o Araújo. O senhor Faustino, vendo em mim a única pessoa amiga, acompanhou-me. Chegados à cadeia, eu mal tempo tive de cumprimentar o meu amigo, o Faustino revelou não saber qual dos três fora, pois no momento em que a perecida Clara foi empurrada para o precipício, ele lá não estava, chegou mais tarde e não lhe foi revelado o causador. Confirmou sua vontade em ajudar a inocentar o Araújo e acusar o sargento e sua corja. Vinte minutos após a nossa chegada na cadeia, o guarda Isidoro começou a implicar connosco, dizia temer a reacção do delegado ou do sargento, caso estes surgissem por ali. Prolongámos a nossa estadia   por   mais   dez   minutos.   Foi   então   que   sem   surpresas   fomos surpreendidos pelo sargento, que como sempre soltava lume pelas ventas, ameaçando o guarda Isidoro e tudo que se mexesse.

 

— Calma, o guarda não teve culpa, eu forcei a entrada. E visto ser horário de visitas, ele nada poderia fazer!

 

O sujeito merecedor de tal adjectivo grazinou, tendo seus rosnares sido deitados em saco roto. Eu sabia que a indiferença é a pior das ofensas para pessoas com a compleição do sargento.

 

Saímos da cadeia e o sargento, com anelos provocatórios, acompanhou- nos.

 

Saindo da pequena casa de repasto, aproxima-se uma senhora aparentando ter cinquenta anos, era do meu tamanho, o cabelo tingido de tom louro, uma senhora da cidade. Aproximou-se, como eu tremi meu Deus!

 

— Boa tarde. Eu queria uma informação.

 

Eu olhei para a senhora e, de seguida, para o senhor Faustino. Preparava- me para lhe dar a informação, caso lha pudesse facultar, mas certifiquei- me que o meu parceiro se anteciparia a mim para não falarmos em coro. Eu ali cheio de boas maneiras e o sargento para quem a senhora nem havia falado, contrapôs o senso da boa educação:

 

— Boa tarde, minha doce e bela senhora! Em que posso ajudar?

 

Dizia isto enquanto tirava o chapéu com a mão esquerda e com a direita pegava a mão feminina e a levava à boca para a beijar.

 

— Na verdade, tudo o que eu quero é uma informação e para tal não serão necessárias três pessoas!

 

— Sim, minha doce e bela senhora. A senhora fala assim porque não sabe com quem está a falar!

 

— Evidente que não! Eu sou de outro estado. Mas, se o senhor se apresentar, no mesmo instante ficarei a saber!

 

Eu e o senhor Faustino, estupefactos com a intromissão do ousado sujeito, permanecemos calados, expectantes sobre o descaramento e o rumo que toda aquela cantata teria.

 

O sargento continuou com os seus intentos de fazer-se passar por pessoa simpática.

 

— Eu sou o sargento da região!

 

— Sendo assim, o senhor é o sargento desta delegacia?

 

- Sou sim, o sargento desta delegacia. Bem, eu passo a explicar: eu não sou propriamente o sargento desta delegacia. Eu gosto de assim ser tratado, pois eu sou a pessoa que manda nesta cidade e em toda esta região!

 

Depois de toda esta prosápia, era a hora de eu entrar em cena:

 

— Desculpe, minha senhora! Este sujeito aqui é um pré-histórico, a quem as pessoas obedecem, porém, nem todas!

 

O sargento em baixo tom, disse-me:

 

— Agora se verá quem é o mais poderoso, até mesmo com as mulheres!

 

Sem simpatia alguma, mas fazendo passar-se por tal, abraçou-me pelo meu lado esquerdo e esforçou suavemente um desvio. Foi então que me lançou um repto:

 

— Aquele que de nós os dois conquistar as boas graças desta mulher ou até mais do que isso, terá de ser mais respeitado, pois mostrará ser o mais forte…

 

Presunção e água benta, cada qual toma a que quer.

 

Para o sargento, tudo aquilo teria a máxima importância, mas para mim seria insignificante.

 

— Quer dizer que o senhor é o todo poderoso?

 

— Sim, é como diz!

 

— Vou-lhe fazer uma revelação, eu adoro homens poderosos, satisfazem- me. Mas isso só não basta!

 

— Fico contente, mas rápido a bela senhora se aperceberá que as minhas qualidades são muitas! — prosseguiu o sargento perante o meu silencio e a alteração do rumo da conversa.

 

— Uma das minhas grandes qualidades é possuir uma fortuna sem igual. Outra é o meu cavalheirismo e tenho muitas outras. Gostaria de a convidar para um jantar, aceita?

 

A senhora voltou-se para mim e o Faustino e perguntou:

 

— E aí, vocês não rivalizam com este senhor? Estando o Faustino dorido e sem palavras respondi:

— Este senhor auto-intitula-se o todo poderoso e o mais rico da região. O mais rico sim, deve ser, mas só consegue ser o mais poderoso com o uso das armas!

 

— Ora, o que você está para aí a dizer? Você sabe que esta linda senhora ainda não teve olhos para si, por isso todo esse despeito!

 

— Eu não lhe posso dizer se esta senhora teve ou não olhos para mim. Posso-lhe sim dizer que não estou alistado nessa campanha conquistadora à qual você se propôs e tentou associar-me a toda essa ridícula posição…

 

— Ora, maldito, qualquer pessoa nota que você, homem sem terra e sem casa, está de quatro por esta senhora! É ou não é verdade, Faustino?

 

— Vá-se catar, assassino!

 

— Curioso, o senhor que diz que quem manda em toda esta região, é acusado de assassínio! Hmm, hmm, o senhor todo simpático, com fama de assassino, sim senhor! Realmente o sargento tem cara de quem muito ladra, mas só morde quando usa a força! — observou a senhora.

 

O jogo inverteu-se, o sargento com pretensões a D. Juan, sentiu que toda a sua magnificência foi num ímpeto beliscada por todos nós. Tentando dar a volta por cima, continuou:

 

— Minha doce e simpática senhora, não se deixe levar pelos ditos destes pobretanas, que sabem que perto de mim nada são e por isso tentam denegrir a minha imagem…

 

— Eu acredito, senhor sargento, mas eu prefiro os calados!

 

Com atitude de mulher assanhada, abraçou-se a mim. Sussurrando ao meu ouvido revelou tudo o que à sua chegada eu descobri.

 

— Paulo, querido Paulo!

 

— Idalnice, querida irmã!

 

— Paulo, querido irmão, eu reconheci-te mal meus olhos te viram, por momentos pensei que tu não me reconhecerias!

 

— Sim, eu reconheci-te no mesmo instante, mas responde a uma coisa:

porque fingiste não me teres conhecido?

 

— Irmão querido, depois explico!

 

— Sim. Continua a fingir que te encheste de amores por mim, este sujeito

é o diabo em pessoa!

 

Interrompemos o longo abraço, o abraço que por vezes ansiava dar e que em muitos outros instantes almejava não repetir. Tudo fizemos para levar

o sargento a pensar que o verdadeiro conquistador de belas mulheres era eu. Ele, ferido em toda a sua jactância, olhava para mim com olhares caninos, disposto a morder uma de minhas pernas e fazer passar sua raiva para mim e contaminar meus glóbulos. Fomos de seguida, ao instituto, eu de mão dada com minha irmã, para nos fazermos passar por dois recém- apaixonados. O sargento de brio mordiscado, grazinou:

 

— Mulher que se agarra assim à primeira, é por de mais mulher folgada! Vocês os dois estão bem um para o outro!

 

Nada contrapusemos,

 

Dirigimo-nos para o instituto, onde ficamos a saber que o corpo da finada senhora seria somente liberado no dia seguinte.

 

Minha irmã há vários anos que me procurava, quando chegou na casa de repastos, informada que eu residia nas proximidades, teve conhecimento de   todas   as   tramas   do   sargento,   daí   ela   reagir   daquele   modo surpreendente. Vinha munida das mais avançadas tecnologias, telemóvel, portátil, entre outras coisas que não quis ver, para não me sentir tentado. Disse-lhe que todas aquelas mordomias poderiam ficar na casa do tio do guarda amigo, pois na caverna a electricidade estava   a anos-luz de distância…

 

Convidei-a para viver comigo durante alguns dias. Antes porém, dei-lhe a conhecer as condições de minha vivência lá na caverna. Morou comigo na minha humilde casinha durante dezanove dias, indo embora nas vésperas do primeiro julgamento do senhor Araújo. Foi muito divertido: caçávamos, pescávamos, levei-a a fazer compras na Chalana, ensinei-a a andar de canoa, ela deslumbrou-se com os jacarés, com toda a variedade de peixes e animais. Um dos meus passatempos e, ao mesmo tempo meio de subsistência, era fazer redes de descanso. Ela empenhou-se em me ajudar. Embora o tempo fosse pouco, ela teve um grande desempenho, cortava as pontas, queimava-as com lume oriundo de velas, fazia a medição das cordas. Era uma companhia agradabilíssima que me fez recuar aos meus tempos de meninice.

 

Quando nas nossas vidas perdemos alguém de quem muito gostamos, ficamos com a sensação de um imenso vazio. O Lipe perdeu a Clara, e escusado será dizer o quanto ele gostava dela, em desabafo escreveu:

 

Tendo eu perdido a minha amiga Clara, mergulhei numa dura solidão. Tinha agora como companhia, a minha companhia, o meu amigo dono dos ossos, havia me dito que sempre estaria comigo. Sentia-me só, tinha minha mãe e minha tia, mas sentia falta de ter com quem falar e brincar.

 

Para colmatar a falta de companhia, meti dois ossos no bolso. Senti no mesmo instante, que não mais estava sozinho. A voz terna do dono daqueles   ossos,   falou-me:   «Leve   seus   pensamentos   para   a   casa   do malfeitor, fique muito atento e não combata contra os seus impulsos em ajudar!»

 

Vi o sargento deitado em sua cama, rebolava de um para o outro lado, meus ouvidos e meus olhos, residiam na indesejada casa do repugnante homem. Tomado pela compleição de homem vingativo, deu sonoridade aos pensamentos:

 

— É hoje! Vou dar cabo do homem das cavernas e, se a assanhada mulher lá estiver, vai fazer-lhe companhia!

 

Da minha casa à caverna a distância era menor. Sem perder tempo, avisei minha mãe para não se preocupar e montei o Rápido sem sela e fiz o animal galopar a toda a velocidade. Felizmente que a lua estava em fase de lua cheia e a luminosidade fazia-se sentir em toda a sua magnificência. Escondi o Rápido no interior de uns arbustos, longe do caminho e dei início ao meu plano de armadilhar o local.

 

Troc, troc, o som vinha lá de longe! Troc, troc, cada vez mais perto! Troc, troc, agora bem perto! As aves e animais noctívagos fugiam assustados com aquela coisa, invulgar por ali. Eu encontrava-me bem oculto, por entre uns arbustos onde dificilmente seria visto, era um lugar privilegiado onde poderia vigiar todas as ocorrências. O caminho que me conduzia de minha casa para a caverna era tortuoso, de terra batida. A ligar a caverna a esse caminho existe um pequeno carreiro. Não cheguei a pisar essa estreita ligação, escondi-me um pouco antes do lado direito. No momento exacto que o sargento se preparava para voltar à direita, uma densa nuvem encobriu a lua tornando o ambiente escuro. Tudo estava a decorrer na perfeição. Puxei um dos três barbantes que tinha em mãos, o primeiro a ser puxado foi o da esquerda. Um grande e preto plástico elevou-se nos ares. Eu havia prendido um fio para ligar duas árvores que se encontravam na diagonal. Passei outro fio por cima dessa ligação e prendi o plástico na ponta. Passei todos os fios nos galhos de uma não muito alta árvore, para fazer a linha ficar a uma altura não alcançada pelo sargento.

 

O cavalo que se encontrava a passo lento, deu um pinote, o malvado homem parecia ter os anjos protectores do seu lado, manteve-se em cima do animal contra todas as minhas previsões e vontades. Tive a sensação que estava a fazer lançamentos de papagaios, puxava o barbante e em simultâneo dava guita, o plástico subia e descia.

 

O sargento, surpreso com aquela visão estranha, grasnou em voz alta:

 

— Ora essa! Esta agora, que raio se passa aqui?

 

Não se fazia sentir vento algum. Explicações para tudo aquilo, ele não tinha, mas como homem destemido que quase sempre fora, continuou a dar vida às suas pretensões. A distância que separava a caverna do caminho deveria rondar os cento e cinquenta a duzentos metros. Contudo, ele continuou com a sua montada correndo sérios riscos do barulho provocado pelos cascos do animal ser escutado, alertando o tio para o provável   perigo.   Entrou   no   estreito   carreiro.   A   poucos   metros   do enforcamento   debaixo   de   outro   comprido   galho   que   transpunha   a passagem, outro oculto plástico. Puxei novamente o cordel, agora do lado direito. A cena, igual a uma cena numa gravação de um filme, repetiu-se, mais uma vez outro plástico que se elevava nos ares. Desta feita, talvez porque   o   animal   se   encontrasse   em   estado   assustado   pela   vivência precedente, o pinote foi maior. Com o cordel bem seguro nas mãos, puxei com mais força e dava ao mesmo tempo guita, o plástico sustido pelo fio que das minhas mãos se elevava para um galho e desta feita seguia na horizontal   até   o   galho   da   árvore   vizinha,   tendo   facilidades   de movimentação, com teimosia subia e descia em afinados movimentos. O cavalo, assustadíssimo, pinoteava e tentava inverter a marcha sendo, no entanto, impedido pelo sargento que pagaria caro por essa pose. O animal iniciou uma desenfreada correria, fazendo o cavaleiro dar com os quadris no chão. Durante alguns metros foi de rastos, pois seu pé esquerdo ficou preso nos estribos. Puxou e com sorte descalçou-se dessa bota, indo essa presa no cavalo. Dizem que gato escaldado de água fria tem medo.

 

O cavalo, que há poucos instantes atrás se havia assustado, não voltou à esquerda na direcção da fazenda, voltou em sentido contrário. Todas as hipóteses foram por mim ponderadas, puxei agora desta feita o fio do meio, o animal agora mais assustado do que nunca, relinchava, pinoteava e saiu do caminho iniciando uma cavalgada pelos campos. O sargento era agora um homem, à semelhança do seu animal, assustado! Sem montada, sem   a   bota   esquerda,   recuperou   o   chapéu   que   lhe   havia   caído   e desorientado não sabia que rumo dar à sua vida. Era agora, hora de eu dar vida ao meu segundo plano.

 

Existem três objectos que sempre me acompanham. São eles um canivete, um   isqueiro   e   um   assobio.   Mas,   naquela   noite,   planeei   levar   vários assobios. Nas arrecadações da casa do tio, existia uma fina e comprida mangueira. Cortei a mangueira em duas e coloquei um assobio. Queimei com o isqueiro para o instrumento musical se fixar. Repeti a operação na segunda.   E   prendi   as   duas   pontas   contendo   os   assobios   em   árvores distintas. O desarvorado sujeito, encontrava-se, como eu previra, entre os dois mastros onde as pontas se fixavam. Soprei numa e noutra mangueira.

O som dos assobios fazia-se ouvir. O sargento, situado bem no meio, olhava para a frente e para trás. Estava consciente de que aqueles sons não provinham de qualquer animal. Nada via quando dirigia seus olhares para os locais dos sons, a não ser os troncos. Eu continuei incessantemente a soprar. Meu fôlego já se desvanecia. Julgo que o tom da minha pele se havia tornado roxo. Suplicava aos deuses que o mal intencionado homem desaparecesse dali o quanto antes. Era um homem persistente nos seus intentos, disparou dois tiros para as árvores. Reagiu deste modo em actos impensados,   esquecendo-se   que   tais   atitudes   se   pagam   caro.   O   tio, impetuoso, saiu ao ouvir os tiros e disparou de igual modo a sua arma, gritando, perguntava quem ali estava e aconselhava o meliante a dar as caras.   O   sargento,   apercebendo-se   que  a   sua   hipotética   vitima   se encontrava em alerta máximo, nada mais fez que dar a trotes. Eu aguardei muito tempo, indo-me embora sem nada dizer ao tio, não tinha como explicar porque ali estava.

 

O julgamento do senhor José Ramos Araújo, relatado pelo Solitário

 

O sargento, sempre mancomunado com as autoridades, convém salientar, às quais ele se sobrepunha, havia prometido que o julgamento seria breve. Disse-me isso logo após o falecimento da menina.

 

Sendo o tribunal de instalações reduzidas e como se previa, uma sessão muito assistida, o julgamento foi transferido para o salão paroquial. Fazendeiros,   padres,   familiares   de   ambas   as   vítimas,   familiares   dos cúmplices   e   acusadores,   autoridades   máximas,   centenas   de   pessoas humildes e   desconhecidas ali se   encontravam   para   viverem   um raro acontecimento. Um homem, um senhor de humildes posses, de condição social baixa, que até então nada tinha de mal que lhe fosse apontado, era agora tido por muitos, e de tudo o pior, pelos poderosos da região, como sendo culpado de um horrendo crime que ceifou a curta existência de uma linda e extrovertida miúda.

 

Eu, acompanhado pelo Lipe, sua mãe e sua tia, pelo inconsequente Lourenço e pelo senhor Faustino com os dois filhos, ali estávamos com intenções de defender com unhas e dentes a causa do meu amigo José.

Algemado, vindo no meio dos guardas Isidoro e Pedro, seguro por estes, dando a parecer a toda a assistência que aquele era o pior dos criminosos existentes na face   da terra.   Cabisbaixo e   abatido,   entrou   no salão, assobiado por uns e aplaudido por outros. Aquele era um prenúncio que as coisas não estavam de feição para as pretensões do sargento. Este, intranquilo, pelo menos assim me pareceu, sentia-se acompanhado pelos dois fiéis companheiros.

 

No topo do salão existia um palco de espectáculos, que se elevava a um metro. Ali foi colocada uma mesa longa, na qual os juízes sentenciariam o réu. Entraram, dois juízes, uma juíza e o promotor público. A assembleia toda se ergueu em sinal de respeito. O juiz presidente, com fama de ser o mais   tendencioso   e   parcial   da   comarca,   amigo   pessoal  do   sargento, batendo com o martelo na mesa fez sinal para todo o mundo se sentar. Deu início à sessão:

 

— Senhores e senhoras, estamos aqui reunidos neste tribunal para levarmos a julgamento o senhor José Ramos Araújo, acusado do assassinato da menor Clara Pinto de Sousa.

 

— Assassino! Assassino! Prisão perpétua para ele! — gritou o sargento, tendo recebido sinal pelo presidente para ter calma.

 

— O arguido de pé! — ordenou o presidente, continuando: — O senhor quanto aos seus factos pessoais é obrigado a responder com verdade, quanto aos factos de que vem acusado só responde se quiser, sendo que o silêncio não o prejudica. O seu nome completo, data de nascimento, filiação e morada?

 

— José Ramos Araújo. Nasci a vinte de Janeiro de mil nove centos e cinquenta e dois…

 

— Muito bem. O senhor vem acusado de ter praticado os seguintes factos. No dia …..

 

Após ter lido a acusação, o juiz presidente perguntou:

 

— O senhor quer falar sobre os factos de que vem acusado?

 

— Sim, quero — respondeu o arguido.

 

— Muito bem. Onde estava o senhor quando a miúda sofreu o atentado?

 

— Eu andava com o Lourenço a lavrar umas terras!

 

— Sendo assim visto que andava a lavrar as terras, o senhor sabe a que horas foi o atentado?

 

— Não! Eu não sei. Naquele dia, eu estive sempre com o Lourenço. Ele pode dizer isso ao senhor doutor juiz!

 

—   Lá   chegaremos,   mas   segundo   o   que   consta   nos   autos,   o   senhor abandonou o trabalho por uns instantes e deslocou-se ao local do crime!

 

— Não, eu nunca abandonei o local! — respondeu o arguido

 

— Confesse! Diga a verdade e sua pena será atenuada! — disse o juiz.

 

— Protesto!

 

O advogado de defesa tentou exercer o direito de protesto, mas foi-lhe negado.

 

— Eu quis dizer que estará menos tempo preso se confessar!

 

— Senhor doutor juiz, eu não posso confessar o que não fiz! Aliás, eu nunca fui mentiroso!

 

— Muito bem, lá chegaremos. Senhor promotor pode interrogar o arguido.

 

— Obrigado senhor doutor juiz. Senhor Araújo, naquele dia o senhor que andava com o seu   empregado a lavrar umas terras,   por   momentos, abandonou o seu empregado e o seu trabalho. Foi fazer uma visita à malograda   jovem   e   aí,   empurrou   a   miúda   abaixo   para   o   precipício causando graves ferimentos e posteriormente sua morte?

 

— Não, eu não fui ver a menina Clara!

 

— Meus senhores, vejam só! “A menina Clara”, que maneira intima de pronunciar o nome, “menina Clara”! — disse o promotor.

 

— Ela era amiga do meu Lipe, por isso eu a conhecia bem! — disse o arguido.

 

— Sim, eu sei senhor Araújo. Mas o senhor era literalmente contra essa amizade? — perguntou o promotor.

 

— Isso foi depois que o pai dela insultou meu Lipe!

 

— Sim. E o senhor para se vingar atentou contra a vida dela? Não é preciso responder, eu já sei a resposta, vai negar, mas todas as provas vão contra si!

 

— Isso se verá no final! — intercedeu o advogado de defesa.

 

Eu havia trabalhado de sol a sol, a construir redes, a pescar e caçando para vender e juntar dinheiro para pagar um bom advogado, embora o senhor Faustino, após a morte de sua esposa, se tivesse prontificado para arcar com toda a despesa.

 

Após a inquirição por parte da defesa, diz o juiz presidente:

 

—   Muito   bem,   que   se   prossiga   a   sessão.   Vão   agora   ser   ouvidas   as testemunhas de acusação.

 

Foi   então   chamado   o   senhor   António,   mais   conhecido   por   “senhor sargento”.

 

Após a identificação da testemunha, perguntou o juíz:

 

— Senhor António, pessoa honrada, respeitada e querida nesta região, promete dizer a verdade e só toda a verdade?

 

— Claro que sim! Isso não é pergunta que se faça! Onde é que estamos para duvidar da minha palavra?

 

— Não, eu não duvido da sua palavra! Mas são formalidades indispensáveis!

 

— Comigo não, essas coisas não! — retorquiu o sargento.

 

— Sim, tem razão. Desculpe, senhor António.

 

De seguida passou a palavra ao promotor público, que iniciou a inquirição.

 

— Senhor sargento, onde estava o senhor no dia do atentado?

 

— Naquele dia, eu mais o Manuel, o Martinho e o maldito do Faustino, que agora se passou para o lado dos meus inimigos, andávamos a passear quando vimos o cavalo do Araújo. Seguimos sorrateiramente e quando demos por ela, a criança já estava no chão. Coitadinha! Pobre menina que às mãos deste desalmado tipo, nada pôde fazer para se defender!

 

Dizia isto enquanto limpava as lágrimas de crocodilo, impressionando grande parte da assembleia, inclusive os juízes.

 

— Sim senhor António, estamos todos comovidos. Mas, uma pergunta mais, o senhor tem como provar isso?

 

— Tenho sim, mas minha palavra vale tudo! Pensei que já sabia isso!

 

— Sabia. Mas preciso comprovar o seu depoimento. Quem posso interrogar para confirmar suas afirmações?

 

— O Manuel e o Martinho!

 

—   Desculpem-me   interromper   senhores   doutores   juízes.   Mas,   senhor sargento, pode dizer-me porque deixou de fora o senhor Faustino? — perguntou o advogado de defesa.

 

— Protesto, senhor doutor juiz! — exclamou o advogado de acusação.

 

— Protesto aceite. Pode continuar senhor doutor! — disse o juiz, virando-se para o promotor público.

 

Após a inquirição do promotor público, o juiz sem dar a palavra à defesa, diz:

— Muito bem! Ouvirei só estas duas honradas pessoas.

 

E dito isto, mandou entrar ao mesmo tempo as testemunhas arroladas pelo sargento.

 

— Senhores Manuel e Martinho, os senhores confirmam tudo dito aqui pelo senhor dom António?

 

— Sim, confirmamos! — afirmaram os dois.

 

— Por enquanto, dispenso-os aos três! — disse o juiz, perguntando, de seguida, ao advogado de acusação:

 

— Senhor doutor, tenciona ouvir mais testemunhas?

 

— Sim, senhor doutor juiz. Queria agora ouvir o senhor empregado do arguido!

 

— Muito bem. Pode chamar esse senhor! — disse o juiz.

 

— Obrigado senhor doutor juiz. Senhor Lourenço, naquela manhã, o senhor Araújo   permaneceu   sempre   consigo?   Por   outras   palavras,   ele   esteve sempre ao seu lado ou, pelo contrário, ausentou-se por alguns momentos?

 

O   senhor   Lourenço,   homem   instável   emocionalmente,   olhava   para   o Araújo,   para   nós,   para   o  sargento,   sempre   com   uma   inquietude desconcertante. Era notório que se encontrava coagido pelo sargento e sua corja, de voz trémula e pouco convincente, confessou o pior dos meus temores…

 

— Ele deixou a mim sozinho a lavrar as terras e foi para os lados do precipício!

 

— Quer dizer que o senhor Lourenço confirma que ele foi para o local do crime?

 

— Sim, ele foi para lá!

 

— Muito bem. Senhor doutor juiz, por enquanto não tenciono ouvir mais testemunhas!

 

— Senhor promotor público, deseja ouvir mais alguém?

 

— Por enquanto não, senhor doutor juíz!

 

— Senhor advogado de defesa, quer ouvir alguém?

 

— Naturalmente que sim, senhor doutor juiz. Para começar gostaria de ouvir o senhor sargento! Pois, aquando da sua inquirição, o meretíssimo não me concedeu a palavra, impedindo-me de o interrogar.

 

— Mas eu não quero responder! — gritou o sargento.

 

— Senhor doutor juiz, este tão honrado senhor, segundo palavras do meu digníssimo colega, recusa-se a responder. Pretendo ouvi-lo. Para mim é uma testemunha chave!

 

— Senhor sargento, por favor responda! — pediu o juiz presidente, amigo pessoal.

 

— Sim, respondo a seu pedido! — disse o sargento.

 

— Senhor sargento,   o senhor comoveu-me   com as suas lágrimas!   Se necessário for eu posso-lhe emprestar um lenço, mas continuando…

 

— Maldito, está a querer brincar com a minha pessoa! — exclamou exasperado o sargento.

 

— Bem, senhor sargento moderação com os adjectivos! Em frente, o senhor afirma   ter   visto   o   meu   cliente   atirar   a   menina   para   o   precipício. Anteriormente, não dispensava o testemunho do senhor Faustino, pode dizer-me porquê? Afinal sempre era mais uma pessoa a dizer a verdade, segundo palavras suas!

 

— Protesto!   Se   ele   dispensa é   porque   as testemunhas   que   tem são suficientes! — disse o advogado de acusação.

 

— Protesto negado. Prossiga senhor advogado de defesa, mas com cautela! — disse o juiz.

 

— Obrigado, senhor doutor juiz. Senhor sargento, qual a razão para o senhor dispensar o seu amigo Faustino? Aliás, amigo de longa data!

 

— Porque ele é um malvado e naquela hora ele lá não estava!

 

— Isso eu sei! Mas segundo ele, chegou de seguida! Mas, eu tenciono ouvi- lo no imediato para ele confirmar tudo…

 

E continuou a defesa:

 

— Senhor sargento, tive conhecimento que o senhor quis comprar umas terras, pertença de familiares aqui do senhor Araújo, e que ele lhe roubou uma namorada e que por tudo isso, o senhor criou por ele um ódio incomensurável, confirma?

 

— Protesto! — disse a acusação.

 

— Por amor de Deus! Protesto, protesto, caro colega o colega mais parece uma gralha a repetir uma   palavra!   Necessita de   um dicionário para aprender outros termos? — retorquiu a defesa.

 

— Protesto. O ilustre colega está a insultar minha pessoa, pondo em causa meus conhecimentos linguísticos!

 

—   Esse   protesto   último   é   aceite.   Sem   ofender   o   seu   colega   senhor advogado de defesa, prossiga mas sem entrar em assuntos pessoais! — disse o juiz.

 

— Obrigado, senhor doutor juiz. Senhor sargento, confirma essa quezília?

 

— Ora maldito, que raio é essa porra de que…. não sei das quantas?

 

— Maldito não! Senhor sargento, exijo educação! Mas responda, entre você e o meu cliente existe uma briga antiga?

 

— Eu nunca gostei dele, mas isso nada tem a ver com este assunto. Ele é um malvado que matou a criança e tem de pagar por isso.

 

De seguida, o advogado de defesa, diz para o juiz:

 

— Por enquanto do sargento não quero mais nada. Peço autorização para ouvir o senhor Faustino.

 

— Autorização concedida — diz o juiz, mandando entrar a testemunha.

 

— Senhor Faustino, diga toda a verdade e nada mais. Pode contar-nos tudo a que assistiu naquela fatídica manhã?

 

— Sim, senhor doutor. Naquela manhã eu atrasei-me a fazer uns trabalhos com a minha querida Clarisse. Quando cheguei ao local, já o helicóptero se encontrava lá. Quando este levantou, perguntei ao sargento o que se tinha passado. Ele, muito contente, disse que por obra do acaso a miúda caiu e que nós iríamos acusar o senhor Araújo. Perguntei se ela havia caído sozinha e eles responderam os três, o sargento, o amigo Manuel e o Martinho, que não! Mas que eu nunca iria saber qual deles tinha sido. Disseram que em nada mudaria eu saber quem havia atirado a miúda e que para   todos   os   efeitos   o   culpado   seria   o   Araújo!   Foram   ordens   bem

explicitas do sargento.

 

— Sendo assim, o senhor Faustino afirma que foi um deles, quem sabe o sargento, o Manuel ou o senhor Martinho?

 

— Protesto, o caro colega está a influenciar a testemunha a confirmar falsas verdades! — interveio o advogado de acusação.

 

— No final se verá se são falsas! Aguarde! Mas continuando, senhor Faustino o que se passou entre vocês, para o vosso relacionamento de amizade duradoira se findar?

 

— Este assassino do sargento matou minha mulher!

 

— Protesto, a testemunha está acusando o senhor sargento por factos que não estão em causa neste julgamento! — disse a acusação.

 

— Protesto aceite — disse o juiz.

 

De seguida o juiz virou-se para a defesa e disse:

 

— Senhor doutor, não desvie o assunto! Estamos aqui reunidos para julgarmos um crime perpetrado numa menor e tudo o que o senhor está a chamar para este julgamento é despiciendo e imerecido!

 

— Eu   vou   respeitar sua ordem meritíssimo juiz.   Mas foi-nos dado a conhecer que perante nós está um assassino e parece-me que não é o meu cliente!

 

— Protesto, o caro colega insinuou que o sargento é assassino! — disse a acusação.

 

— Protesto aceite! Senhor doutor moderação nas suas afirmações! — exclamou o juiz à defesa.

 

— Sim, senhor doutor juiz, peço desculpa. Mas peço-lhe que reflicta sobre a hipotética índole criminosa...

 

— Senhor doutor, ainda interrompo a sessão! — vociferou o juiz.

 

— Não voltarei a mencionar esse facto. Senhor doutor juiz, desejo ouvir agora o senhor Paulo, testemunha de defesa.

 

— Prossiga! — respondeu o juiz, mandando chamar a dita testemunha.

 

— Senhor Paulo, conte-nos tudo o que o senhor ouviu perto do precipício.

 

— Um dia, fui com o filho do senhor Araújo ver o local onde sua grande amiga havia sofrido o atentado. Grande surpresa para nós: o Faustino, juntamente com os três senhores ali, lá se encontrava. Eu e o Lipe escondemo-nos   nuns   arbustos   e,   à   medida   que   os   quatro   se   iam aproximando do local do esconderijo, começamos a ouvir as conversas. Nessa altura, eu somente conhecia o sargento, portanto não distinguia as vozes. Apercebi-me que um deles não se encontrava lá na hora do acidente e ouvi também essa voz, que agora sei pertencer ao senhor Faustino, se compadecer da miúda. Ouvi uma importante ameaça por parte do sargento. Ele dizia que a ele convinha ser o senhor Araújo o culpado, caso contrário eles os três acusariam o Faustino e que ele iria para a cadeia no lugar do senhor José. Ah! Antes que me esqueça, acho que devo referenciar um acontecimento para que os senhores tomem conhecimento   das   intenções   do   sargento,   nesse   mesmo   dia.   O   Lipe desapareceu no rio. Todos nós tememos o pior. O sargento, juntamente com os três, nada fez para salvar o miúdo duma hipotética tragédia! Inclusivamente   estes   senhores   acusaram-me   de   ter   morto   o   miúdo! Felizmente para mim, nada de mal havia acontecido ao meu garoto, pois seria eu o culpado de um crime que não havia cometido. Do mesmo modo que o senhor Araújo está a ser acusado, na minha óptica.

 

— Muito bem senhor Paulo. Senhor doutor juiz, posso fazer uma última pergunta ao senhor Faustino?

 

— Sim!

 

— O senhor Faustino confirma todas estas afirmações reveladas aqui pelo senhor Paulo?

 

— Sim senhor doutor. Tudo isso é a mais pura verdade!

— Meritíssimo, gostaria para findar de ouvir o senhor Lourenço! O juiz assentiu.

 

— Senhor Lourenço, tomei conhecimento que o senhor é uma pessoa pura, facilmente dominada e que teme o sargento, é verdade?

 

— Protesto! O caro colega está a dar a volta a uma pessoa inconstante! — disse o advogado de acusação.

 

— Pode até ser que este senhor seja inconstante, mas há pouco tempo neste mesmo julgamento o caro colega atribuiu-lhe importância máxima quando ele afirmou que o senhor Araújo não permaneceu sempre no campo! Mas por favor deixe-me continuar!

 

— Continue! — autorizou o juiz.

 

— Senhor Lourenço, o senhor teme o sargento?

 

— Sim, eu tenho medo dele! Eu fui ameaçado por ele. Ele disse que se eu não falasse o que ele queria, ele fazia mal a eu!

 

— Senhor doutor juiz, peço que não leve em conta as declarações deste senhor! — requereu o advogado de acusação.

 

— Concedo a esse pedido. Estas declarações não devem ser levadas como válidas!

 

E dito isto, o juiz interrompeu a sessão durante vinte minutos. A maioria dos presentes, saíram, excepto os três juízes, o promotor e o sargento.

 

Recomeço dos trabalhos. A aglomeração de assistentes era muito maior na segunda parte da sessão.

 

— Senhores e senhoras aqui presentes, vamos dar continuidade a esta sessão de julgamento do crime contra a vida duma criança. Dou agora a palavra ao advogado de acusação.

 

— Obrigado, senhor doutor juiz. A dignidade do senhor sargento foi aqui posta em causa por alguns inclassificados, sem ética e sem moral, mas tenciono ouvir várias pessoas para explanar o bom carácter do senhor sargento. Para começar, gostaria de ouvir o senhor Martinho. E dito isto, após permissão do juiz, perguntou à dita testemunha:

 

— O senhor concorda com estas falsas imputações feitas contra o sargento?

 

— Com essas e muitas mais!

 

O espanto foi geral. Tudo se poderia esperar naquele julgamento, mas não aquelas revelações vindas por parte do compadre do sargento.

 

— Há muitos anos que eu tenho assistido a todas as maldades cometidas por este senhor, abusos de mulheres, roubos, já assisti a um assassinato cometido… — continuou o Martinho.

 

— Basta, chega! — interrompeu o juiz.

 

— Senhor doutor continue. Estas ridículas denúncias não serão levadas em consideração! Este senhor deve sofrer de perturbações mentais!

 

— Para confirmar que aqui o senhor Martinho repentinamente teve um colapso emocional, vou pedir ao senhor padre que tenha a bondade de proferir algumas declarações para que todos nós, aqui presentes, fiquemos elucidados sobre a boa compleição do sargento — disse o advogado de acusação, virando-se de seguida, inquirindo: — Senhor padre, por favor tenha a bondade!

 

— Sim, eu queria falar! — disse o padre. Era um homem alto, rechonchudo, calvo com os poucos cabelos que ainda mantinha brancos e compridas pistanas.

 

Ergueu-se e subiu para o palco, colocou-se à direita da mesa em cima de um beiral revestido a madeira que se elevava acima do palco e fez daquele lugar um púlpito onde espalharia sua doutrina.

 

— Senhores e senhoras aqui presentes, eu como sacerdote, a quem os sagrados sacramentos sacerdotais incutiram dizer e pregar a verdade, somente a verdade, quero neste Tribunal a todos elucidar que ao olhar fixamente nos olhos deste senhor acusado, tudo o que se depara é inocência, bondade e humildade. Ele é vítima de toda uma cavala montada com   um   único   motivo,   a   vingança!   Aqui   o   senhor   Ramos,   sempre demonstrou ser um cristão temente a Deus. Ao passo que o senhor António que o acusa de ter causado a morte a uma criança, que tanto amor tinha para dar aos seus pais e seus semelhantes, tem revelado com as suas atitudes acusatórias e infundadas ser um espalhador da desgraça. Irmãos, todos nós por puras conveniências deixamos que em frente dos nossos olhos se formem cataratas, que provocam um denso nevoeiro e faz com que só os interesses económicos sejam tidos em conta. Irmãos vos peço, afastem essa pele dos vossos instrumentos visuais e vejam a verdade! E na minha visão cristã, a única verdade está na boca do acusado! Na minha ordenação   sacerdotal,   foi-me   ensinado   manter   segredo  de   todas   as confissões, mas hoje aqui não sei porque graça, mas guiado por uma luz, tenho de fazer algumas revelações, tantas são as senhoras que prostradas de joelhos no meu confessionário revelaram terem sido violadas pelo senhor António.

 

— Amigo doutor juiz, faça calar este demónio de batina! É uma ordem, não um pedido! — vociferou de pé o sargento.

 

— Caro amigo, bem que eu queria, mas a minha fé cristã faz com que tenha grande   respeito pela sagrada batina que   o senhor padre   usa. Portanto, continue senhor padre, tenha a bondade!

 

— Obrigado meritíssimo — disse o padre.

 

Continuou   de   braços   erguidos   à   semelhança   do   Cristo   redentor,   ora olhando para a assembleia, ora ligeiramente para a sua esquerda onde se encontravam os juízes e o promotor.

 

— Como eu dizia, tantas mulheres choraram de joelhos dizendo terem sido violadas por um homem sem temor a Deus, um homem não seguidor dos passos de nosso senhor Jesus Cristo, que tanto pregou a verdade, a justiça, o amor entre os homens e a prática dos bons actos. Guiado pelo santo espírito, vou citar algumas mulheres aqui presentes que dizem, e eu acredito vivamente, que elas só falam a verdade! Dona Clotilde, esposa aqui do senhor acusado, foi uma vez beliscada na sua dignidade e na sua honra, embora por várias vezes o demónio em pessoa do sargento, tenha atentado mas sem nada conseguir, graças às sagradas mãos protectoras de nosso senhor Jesus Cristo.

 

Todos   os   olhos   foram   direccionados   para   o   sargento    em   sinal   de repreensão, contudo o silêncio era total, o respeito pela batina e pelas palavras do padre era absoluto.

 

Continuou o padre dizendo:

 

— Caros irmãos unidos em Cristo, infelizmente as queixas ainda não acabaram. A finada dona Clarisse também foi violentada pelos desejos infames e cruéis do sargento.

 

— Calem este padreco vestido de preto! Reles padreco, fique certo que minha vingança será terrível, a partir de hoje, fixe bem a data, minhas

esmolas com as quais o padre leva a cabo suas obras de caridade, serão cortadas, nem mais um centavo entrará nos cofres da sua igreja! — vociferou o sargento.

 

— Senhor António, por Deus, não demonstre desejos de vingança! Isso leva- nos a todos crentes em Deus, a termos certezas, que sua condição de homem vingativo é capaz de cometer as maiores atrocidades contra as santas acções de Deus e dos homens. Senhores e senhoras aqui presentes, revelei dois nomes de mulheres que sofreram às mãos do sargento, mas muitas mais eu poderia citar, embora ache que deva ficar por aqui. Irmãos em Cristo, abram vossos olhos e vejam este humilde senhor — dizia isto apontando para o amigo Araújo - ele na minha visão cristã e de cidadão praticante da verdade, julgo   que tenha sido apanhado nas malhas do desejo vingativo daqueles que para conseguirem seus intentos de fortunas, de   prazeres   carnais,   o   colocaram   como   culpado   de   um   crime,   não cometido por si mas por gente muito poderosa.

 

Ainda o padre não acabara de articular esta mensagem divina, já a esposa do senhor Martinho se levantara pedindo licença para falar. E disse:

 

— Tudo isto que o senhor padre disse é verdade! Eu também já fui esforçada a fazer coisas que não queria! Já fui obrigada a pegar com as minhas mãos naquela coisa do sargento!

 

Os risos foram gerais. Os olhares enfurecidos do marido pareciam querer matar o sargento.

 

O juiz presidente tentou concentrar todas as desviadas atenções, no único caso que a ele interessava, o crime que para ele foi cometido pelo pai do Lipe.

 

— Senhores, exijo silêncio. Não arranjo justificações para tão grande desvario colectivo, mas, todos nós aqui nos encontramos para levarmos a cabo o julgamento dum horrendo crime. Vamos agora sem demoras nos reunir para dar o veredicto final. Para nós, juízes, não existem dúvidas de quem   cometeu   tal   loucura,   embora   determinadas   pessoas   desejem destorcer a realidade!

 

De rompante, plic, a electricidade foi abaixo. Um intenso oooh foi ouvido.

O juiz ordenou que o funcionário judicial fosse ao quadro eléctrico e ligasse a energia. De cabeça abanando, regressou o funcionário dizendo:

 

— Senhor doutor juiz, o quadro está partido. Não há volta a dar!

 

— Sendo assim, a sessão será adiada. Não estão reunidas as condições para se continuar hoje!

 

Para mim aquelas informações suaram a milagre divino, era certo que o meu amigo era vítima da parcialidade dum corrupto juiz. O meu amigo voltou a ser levado para a cela. Eu, com as mesmas pessoas da vinda, regressei para casa do Lipe. Falando baixinho para mim, o Lipe confessou que foi ele quem partiu o quadro eléctrico. Disse que estava muito atento às palavras do juiz e que sentiu que seu pai seria condenado. Sua alegria era constante. Deu-me       a entender que era responsável pelos entendidos como desvarios do padre e do casal. Realmente, após ele me revelar tudo aquilo,   eu   tentei assimilar   o que   verdadeiramente   havia   acontecido. Quando a segunda parte da sessão começou, o padre e o casal Martinho entraram bem na minha frente. Reparei que o Lipe fingiu um pequeno acidente e encostou-se naquelas três pessoas. Tentei saber o que ele fizera mas minha vontade foi infrutífera, só muito mais tarde é que tudo compreendi.

 

                   Lipe relata a útima parte…

A minha pior recordação, desde o dia que tomei conhecimento da morte da   Clara,   os   meus   dias   tornaram-se   tremendamente   difíceis.   Para desanuviar, fui visitar mais uma vez o local do acidente. O dia estava apelativo para se dar um mergulho, tirei minhas roupas, e completamente nu lancei-me no riacho. As águas estavam quentes, permaneci longos minutos no seu interior. Aquele banho teve a capacidade de pôr em ordem as minhas ideias, e fazer-me   tentar compreender tudo aquilo que na minha vida se estava a passar. Emergi, e estendi-me ao sol de barriga para cima, à espera que meu corpo, de forma natural secasse. O céu estava com um azul muito forte, muito raramente manchado com a passagem de alguma nuvem alta. De súbito, duas sombras circularam ao meu redor e vi dois pássaros negros de bicos entreabertos, que soltavam grasnidos. Foi então que vesti as minhas roupas. Ao fazê-lo, tive de súbito uma estranha e   sinistra   visão.   Os   ossos,   que   como   objectos   de   estimação   sempre andavam comigo, mostraram uma mulher caída no chão inanimada, perto da caverna do tio. Naquele instante não consegui saber de quem se tratava, vi uma mulher de bruços, deduzi quase com toda a certeza que em tudo aquilo havia o dedo do sargento. A sede de vingança que ele sempre fez questão de mostrar teria mais uma vez sido posta em prática.

 

O tio regressava tranquilamente da pesca, sua irmã havia ido embora, quem seria a pessoa deitada? Como ali foi parar?

 

Resolvi que o melhor que eu deveria fazer, era inteirar-me de toda aquela situação. Montei no Rápido, e fiz o animal galopar a toda a velocidade, poucos   metros   após   a   minha   entrada   na   estreita   passagem   que   me conduziria à residência do tio, já ele rodava assustado e desorientado em torno da vítima. Ao avistar-me veio ao meu encontro, abraçou-me e a chorar disse-me:

 

— Lipe, acredita que não fui eu?

 

Sua voz de pesar conferia-lhe um forte grau de culpabilidade, mesmo sem ter ainda reconhecido minha mãe, senti que aquela era a pior vivência que se estava a passar comigo. Minha mãe morta, em frente da casa do meu melhor amigo, daquele a quem eu considero o meu segundo pai, a par com meus pais e tia Dinha, uma das pessoas de quem eu mais confio e gosto.

 

Aceitei o abraço, o carinho que aqueles braços me davam era tudo que naquele momento eu poderia viver. De voz baixa e aos soluços, olhei fixamente para ele e mostrei o quanto eu confiava nele:

 

— Eu tenho certeza que não foi, tio, continue abraçar-me é tudo o que mais preciso!

 

O nosso estado estava de tal ordem alterado q