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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS TRÊS RATOS CEGOS / Agatha Christie
OS TRÊS RATOS CEGOS / Agatha Christie

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS TRÊS RATOS CEGOS

 

                       

 

Estava muito frio. O céu, cinzento e carregado de neve ainda por cair.

 Um homem metido num sobretudo escuro, o cachecol em volta do rosto e o chapéu puxado sobre os olhos, desceu Culver Street e subiu as escadas do número 74. Apertou a campainha e ouviu-a tocar no subsolo.

 A Sra. Casey, as mãos ocupadas com louças na pia, disse, ríspida:

 — Droga de campainha. Nunca a gente tem paz. Ofegando um pouco, ela subiu as escadas e abriu a porta.

 O homem, cuja silhueta se recortava contra o céu, perguntou num sussurro:

 — Sra. Lyon?

 — Segundo andar — disse a Sra. Casey. — Pode subir. Ela está esperando?

 O homem balançou a cabeça, devagar.

 — Bem, pode subir e bater.

 Ela o observou enquanto subia a escada forrada de tapetes surrados. Depois ela disse que ele "lhe dera uma impressão estranha”. Mas, na verdade, só pensara que ele devia estar horrivelmente resfriado para sussurrar assim. Também, com um tempo desses...

 Quando chegou à curva da escada começou a assoviar baixinho. A música era Os Três Ratos Cegos.

 Molly Davis deu um passo atrás na calçada e olhou para o cartaz recém-pintado, perto do portão.

 

 Monkswell Manor

 Pensão

 

 Com um movimento de cabeça expressou sua aprovação. Parecia, realmente parecia, bastante profissional. Ou, talvez, podia-se dizer, quase profissional. O S de Pensão ficara um pouco acima da linha e o fim de Manor estava um pouco juntinho demais, porém, no todo, Giles tinha feito um belíssimo trabalho. Giles era mesmo muito inteligente. Sabia fazer tantas coisas. Sempre descobria coisas novas sobre seu marido. Ele havia falado tão pouco sobre si mesmo que só aos poucos lhe ia descobrindo os vários dotes. Um ex-marinheiro era sempre um homem prático, é o que dizem.

 Bom, Giles iria necessitar de todos os talentos neste novo empreendimento. Eram totalmente crus na tarefa de administrar uma pensão. Mas seria bem divertido. E resolvia o problema de habitação.

 Foi idéia de Molly. Quando tia Katherine morreu, e os advogados escreveram para ela comunicando-lhe que herdara Monkswell Manor, a reação natural do jovem casal foi a de vendê-la. Giles lhe perguntara: — Como é a casa? E Molly respondeu: — Ah, é uma casa grande e antiga, cheia de sufocantes e antigas mobílias vitorianas. Tinha um jardim bonito, mas muito mal cuidado desde a guerra, pois só restou um velho jardineiro.

 Então decidiram colocar a casa à venda e só conservar alguns móveis para mobiliar um pequeno apartamento ou uma casinha para eles.

 Mas logo apareceram duas dificuldades: primeiro, não encontravam nem casinha nem apartamento pequeno e, em segundo lugar, todos os móveis eram enormes.

 — Bom — disse Molly —, temos que vender tudo. Acha que alguém compra?

 O advogado assegurou-lhes que se vende qualquer coisa hoje em dia.

 — Com toda a certeza — disse ele —, alguém irá comprá-la para usar como hotel ou pensão, e assim irá gostar de comprá-la com toda a mobília. Felizmente a casa está em muito bom estado. A falecida Srta. Emory fez várias reformas e modernizações antes da guerra, e houve muito poucos estragos. Ah, sim, está em muito bom estado.

 E foi aí que Molly teve a idéia:

 — Giles — disse ela —, por que não a dirigimos como pensão? A princípio o marido achara a idéia absurda, mas Molly insistiu.

 — Não precisamos hospedar muita gente, pelo menos no começo. É uma casa fácil de se dirigir — tem água quente e fria nos quartos, aquecimento central e fogão a gás. E podemos ter galinhas, patos, nossos próprios ovos e vegetais.

 — Quem faria todo o serviço — não é difícil encontrar empregados?

 — Más faríamos o serviço. Em qualquer lugar que morássemos

 teríamos que fazer isso. Algumas poucas pessoas a mais não justificariam empregados. Depois arranjaríamos alguém, quando já estivéssemos estabelecidos. Com cinco pessoas, cada uma pagando sete guinéus por semana — Molly partiu para os reinos, um tanto otimista, da aritmética.

 — E pense, Giles — concluiu —, seria nossa própria casa. Com nossas coisas. Do jeito que vai, parece que levaremos anos até encontrarmos um lugar para morar.

 Isso, admitiu Giles, era verdade. Tiveram tão pouco tempo juntos depois do apressado casamento que ambos desejavam um lugar para morar.

 E então passaram das palavras à ação. Colocaram anúncios nos jornais locais e no Times e receberam várias respostas.

 E agora, hoje, o primeiro dos hóspedes estava para chegar.

 Giles havia saído cedo para comprar uma cerca de arame que estava em liquidação, do outro lado da cidade. Molly teve necessidade de andar até a aldeia para fazer as últimas compras.

 O único toque ruim era o tempo. Nos últimos dois dias, o frio era intenso e agora começava a nevar. Molly apressou-se, grossos e fofos flocos de neve caindo-lhe sobre a capa à prova d'água e os brilhantes cabelos encacheados. A previsão do tempo não era nada animadora. Devia-se esperar uma grande nevasca.

 Ela tinha esperança de que a água não congelasse nos canos. Seria péssimo se tudo saísse errado logo quando estavam começando. Olhou para o relógio; já passava da hora do chá. Será que Giles já tinha voltado? Estaria imaginando onde ela se encontrava?

 — Tive que ir até à aldeia de novo comprar algumas coisas de última hora — ela diria. Ele iria rir e perguntar: — Mais latas?

 Os enlatados eram uma piada deles. Estavam sempre comprando alguns. A despensa apresentava um farto estoque para os casos de emergência.

 E, pensou Molly, fazendo uma careta ao olhar para o céu, as emergências não tardariam a aparecer.

 A casa estava vazia. Giles ainda não voltara. Molly foi primeiro à cozinha, e depois subiu para fazer a inspeção dos quartos recém-preparados. A Sra. Boyle no quarto sul, o de mobília de mogno e cama de quatro colunas. Major Metcalf no quarto azul com a de carvalho. Sr. Wren no quarto leste com a janela de sacada. Todos os quartos estavam muito bem arrumados e era uma bênção Tia Katherine ter um estoque esplêndido de lençóis. Molly deu uma esticadela na colcha e desceu de novo. Escurecia. De repente a casa caiu no silêncio e no vazio. Era uma casa solitária a quatro quilômetros de uma aldeia e, como dizia Molly, a quatro quilômetros do nada.

 Já ficara sozinha muitas vezes antes, mas nunca estivera tão consciente desse fato.

 Rajadas macias de neve batiam contra a vidraça. Fazia um barulho sussurrante, incômodo. E se Giles não conseguisse voltar — se a neve estivesse tão grossa que o carro não passasse? E se tivesse que ficar sozinha aqui — sozinha por dias, talvez?

 Ela olhou a cozinha; grande, confortável, pedia uma cozinheira também grande e confortadora presidindo a mesa, os maxilares movendo-se ritmicamente enquanto comia açúcar-cande e bebia chá preto; esta seria ladeada por uma arrumadeira alta, de meia-idade e por uma governanta rechonchuda e corada, uma cozinheira no outro extremo da mesa observando os superiores com olhos assustados. E, em vez disso, só havia, ela, Molly Davis, desempenhando um papel que não lhe parecia muito natural. Toda sua vida, no momento, parecia irreal — Giles parecia irreal. Ela desempenhava um papel — era só isso.

 Uma sombra passou pela janela e ela pulou; um estranho aproximava-se. Ela ouvia os rangidos da porta lateral. E o estranho ficou lá, na soleira da porta, sacudindo-se para tirar a neve, um homem estranho entrando na casa vazia.

 E então, de repente, a ilusão desapareceu.

 

 — Oh, Giles — exclamou ela —, ainda bem que chegou!

 — Alô, querida! Que tempo horrível! Meu Deus, estou congelado.

 Ele bateu os pés e bafejou para aquecer as mãos.

 Num gesto automático, Molly apanhou o casaco que ele jogara sobre a arca, muito ao seu estilo. Pendurou-o no cabide tirando, antes, dos bolsos cheios, um cachecol, um jornal, um rolo de barbante e a correspondência da manhã que enfiara no bolso toda misturada. Dirigindo-se para a cozinha, ela colocou os artigos sobre o aparador e, em seguida, a chaleira no fogo.

 — Conseguiu o arame? — perguntou ela. — Você demorou séculos.

 — Não era do tipo exato. Não iria servir. Fui a outra loja, mas o que tinha lá não servia também. E você, o que fez? Ninguém apareceu ainda, não é?

 — A Sra. Boyle só vem amanhã.

 — O Major Metcalf e o Sr. Wren devem chegar hoje.

 — O major mandou um cartão dizendo que só chegaria aqui amanhã.

 — Assim, jantamos nós e o Sr. Wren. Como você acha que ele é? Na minha opinião, o protótipo do funcionário público aposentado.

 — Não, acho que é um artista.

 — Neste caso — disse Giles —, é melhor cobrarmos uma semana de aluguel adiantado.

 — Ah, não, Giles, eles estão trazendo bagagem. Se não pagarem, reteremos as malas.

 — E se nas malas só tiver um monte de pedras enrolado em

 jornal? A verdade, Molly, é que não temos a mínima idéia do que vamos enfrentar neste tipo de negócio. Tomara que não reparem que estamos iniciando.

 — Com certeza a Sra. Boyle vai notar — disse Molly. — Ela é deste tipo.

 — Como você sabe? Nunca a viu, já?

 Molly voltou-se. Abriu um jornal sobre a mesa, apanhou um pouco de queijo e preparou-se para ralá-lo.

 — O que é isso? — perguntou o marido.

 — Torradas ao forno — Molly informou-lhe. — Farelos de pão, batatas, purê de batatas, e um tiquinho de queijo, só para justificar o nome.

 — Que cozinheira esperta! — disse o marido com admiração.

 — Fico pensando que posso fazer uma coisa de cada vez. Quando junta tudo é que é preciso prática. O café da manhã é o pior.

 — Por quê?

 — Porque tudo acontece ao mesmo tempo — ovos, bacon, leite quente, café e torradas. Ou o leite entorna, ou a torrada queima, ou o bacon fica todo encrespado ou então os ovos ficam duros. A gente tem que ficar ativa como gato escaldado, observando tudo ao mesmo tempo.

 — Amanhã de manhã, tenho que entrar de mansinho, sem que ninguém me veja, para assistir a essa personificação do gato escaldado.

 — A chaleira está fervendo — disse Molly. — Vamos levar a bandeja para o escritório e ouvir o rádio? Está quase na hora do noticiário.

 — Já que vamos passar a maior parte do tempo na cozinha, era melhor colocar um rádio lá, também.

 — É mesmo. Como são bonitas as cozinhas. Eu adoro essa. Acho que é, de longe, o lugar mais bonito da casa. Gosto do aparador e das prateleiras, e simplesmente adoro esta sensação de exuberância que uma cozinha enorme me dá, embora, é claro, esteja muito contente por não ter que cozinhar nela.

 — Aposto que as provisões de combustível para o ano se gastariam em um dia.

 — Com toda a certeza. Mas pense bem nas carnes que deviam assar aqui: filé mignon, coxas de carneiro. Potes colossais de geléia de morango feita em casa com quilos e quilos de açúcar. Deve ter sido adorável a Era Vitoriana. E a mobília lá de cima, grande, sólida, toda enfeitada, mas, ah!, que conforto e quanto espaço para guardar as roupas, e cada gaveta abrindo e fechando sem emperrar.

 Lembra-se daquele lindo apartamento, todo moderno, que íamos alugar? Era tudo embutido e corrediço, só que nada corria, sempre emperrava. Para fechar as portas, tinha-se de empurrá-las, mas nunca ficavam fechadas e, quando fechavam não se conseguia abri-las.

 — Isto é que é o pior desses inventos. Se não funcionam, você está perdido.

 — Bom, venha, vamos ouvir as notícias.

 O noticiário consistia, principalmente, em assustadoras previsões do tempo, o habitual impasse nas negociações com o exterior, ardorosas discussões no parlamento e um assassinato na Culver Street, Paddington.

 — Nossa — disse Molly desligando o rádio. — Só notícias ruins. E não vou ficar ouvindo apelos para que se economize combustível. O que eles querem que se faça, sentar e congelar? Acho que não devíamos ter começado a pensão no inverno. Devíamos ter esperado até a primavera. — Depois acrescentou num tom de voz diferente: — Como era esta mulher, a que foi assassinada?

 — Sra. Lyon?

 — Como é o nome dela? Fico pensando em quem a quis matar e por quê.

 — Talvez guardasse uma fortuna debaixo do colchão.

 — Quando se diz que a polícia está ansiosa para fazer perguntas a um homem que foi visto nas vizinhanças, quer dizer que ele é o assassino?

 — Geralmente é assim. Só um modo delicado de dizer as coisas.

 O som estridente da campainha fez com que ambos se levantassem de um salto.

 — É a porta da frente — disse Giles. — Entra um assassino — acrescentou, brincalhão.

 — Seria, numa peça de teatro. Depressa. Deve ser o Sr. Wren. Agora vamos ver quem está certo sobre ele, se você ou eu.

 O Sr. Wren e uma rajada de neve entraram juntos, de supetão. Tudo o que Molly pôde ver da porta da biblioteca era a silhueta do recém-chegado contrastando com o mundo branco lá de fora.

 Como se pareciam, pensou Molly, os homens com este uniforme de civilização: sobretudo escuro, chapéu cinza, cachecol em volta do pescoço.

 Pouco depois, Giles fechava a porta contra os elementos. O Sr. Wren desenrolava o cachecol, descansava no chão a maleta e tirava o chapéu — tudo, parecia, ao mesmo tempo, e também falava. O tom de voz era alto, quase que lamurioso, e, à luz “do vestíbulo, revelou ser um homem jovem, de claros cabelos emaranhados, e olhos pálidos, inquietos”.

 — Medonho, medonho — dizia ele. — O pior do inverno inglês — uma reversão a Dickens — Scrooge e Tiny Tim e tudo o mais. A pessoa tem que ser muito saudável para agüentar isso tudo. Não acha? E fiz uma viagem horrível do País de Gales até aqui. É a Sra. Davis? Mas que prazer! — Mãos fortes e ossudas apertaram a de Molly- — Completamente diferente da idéia que fazia da senhora. Pensava que fosse a viúva de um general do exército indiano. Terrivelmente feia e Mem-sahibish* e bibelô de Varanasi — um bibelô da Era Vitoriana. Adorável, simplesmente adorável. Tem flores de cera? Ou pássaros do paraíso? Mas eu vou amar este lugar. Pensei que fosse estilo Velho Mundo — muito, muito casa Senhorial sem o brasão de Benares, quero dizer. Em vez disso, é maravilhosa — austeridade da Era Vitoriana. Por acaso vocês têm daqueles bufês lindos — de mogno avermelhado, com grandes frutas incrustadas?

 

 *N.T.: Forma de tratamento dada às mulheres européias na Índia.

 

 — Para falar a verdade — disse Molly um tanto sem fôlego sob esta torrente de palavras —, nós temos.

 — Não! Posso vê-lo? Aqui mesmo?

 Sua agilidade chegava a ser desconcertante. Ele havia girado a maçaneta da sala de jantar, e acendido a luz. Molly entrou atrás dele, ciente do perfil de Giles, desaprovador, à sua esquerda.

 Sr. Wren passou os longos e ossudos dedos pelos entalhes do maciço bufê, soltando pequenos gritos de elogio. E então lançou um olhar de reprovação à dona da casa.

 — E a mesa de jantar? Por que não é daquelas grandes de mogno? Por que todas essas mesinhas espalhadas?

 — Pensamos que as pessoas preferissem assim — disse Molly.

 — Querida, é claro que está certíssima. Meu gosto por essa época me influenciou. É claro que, se tivesse a mesa, teria que ter a família certa em volta dela. Um pai severo, bonito, de barba — a mãe fértil e apagada — onze filhos, uma governanta feia e alguém chamado "pobre Harriet" — o parente pobre — que age como conselheira e é muito, muito grata por lhe darem uma boa casa. Olhe para a lareira — pense nas labaredas subindo pela chaminé e fustigando as costas da pobre Harriet.

 — Vou levar sua bagagem para cima — disse Giles. — Quarto leste?

 — É — disse Molly.

 Sr. Wren já estava de novo no vestíbulo, enquanto Giles subia as escadas.

 — Tem uma cama de quatro colunas com pequenas rosas de chintz? — perguntou ele.

 — Não, não tem — disse Giles, que desapareceu na curva da escada.

 — Acho que seu marido não vai gostar de mim — disse o Sr. Wren. — Onde ele serviu? Na Marinha?

 — Isso mesmo.

 — Foi o que pensei. São bem menos tolerantes do que o Exército e a Aeronáutica. Há quanto tempo está casada? Está muito apaixonada por ele?

 — O senhor não quer subir para ver o quarto?

 — Sim, claro que esta pergunta foi impertinente. Mas gostaria mesmo de saber. Sabe, acho interessante conhecer tudo sobre as pessoas, não acha? O que sentem e pensam, e não só o que são e o que fazem.

 — Suponho — disse Molly, recatada — que é o Sr. Wren, não? O jovem parou, segurou os cabelos com ambas as mãos e os puxou.

 — Mas que horror! Nunca começo pelo princípio. Sim, sou Christopher Wren, mas não ria. Meus pais eram muito românticos. Tinham esperanças de que eu fosse arquiteto. Então pensaram que seria uma idéia esplêndida batizar-me Christopher — meio caminho andado.

 — E o senhor é arquiteto? — perguntou Molly, incapaz de reprimir um sorriso.

 — Sim, sou —-disse o Sr. Wren, triunfante. — Pelo menos, quase. Ainda não me formei. Mas é realmente um exemplo notável de racionalização de desejo, produzindo resultados imediatos. Veja bem, realmente o nome será um empecilho. Nunca serei o Christopher Wren. Mas os Ninhos Pré-fabricados de Chris Wren podem alcançar a fama.

 Giles desceu novamente as escadas e Molly disse: — Vou-lhe mostrar o quarto agora, Sr. Wren.

 Quando ela voltou, poucos minutos depois, Giles disse:

 — Bem, ele gostou da bonita mobília de carvalho?

 — Ele estava louco por uma cama de quatro colunas, e, por isso, lhe dei o quarto rosa.

 Giles grunhiu e resmungou qualquer coisa que terminou com: cara ridículo.

 — Agora, escute aqui, Giles — Molly assumiu uma postura séria. — Isto aqui não é uma festa onde entretemos os convidados. Isto é comércio. E goste você de Christopher Wren ou não...

 — Não gosto — atalhou Giles.

 — Pouco importa. Ele está pagando sete guinéus por semana e é isso que interessa.

 — Se ele pagar.

 — Ele concordou em pagar. Temos a carta dele.

 — Você levou aquela mala dele para o quarto rosa?

 — Ele a carregou, é claro.

 — Muito galante. Mas você poderia carregar facilmente. Nem se deve desconfiar de que haja pedras enroladas em jornal lá dentro. Está tão leve que deve estar é vazia.

 — Sshh, ele está vindo — advertiu Molly.

 Christopher Wren foi levado à biblioteca, que parecia muito bonita, pensou Molly, com as cadeiras grandes e a lareira. O jantar, disse-lhe ela, seria servido dentro de meia hora. Em resposta a uma pergunta, ela explicou que não havia outros hóspedes no momento. Neste caso, disse Christopher, que tal ir até a cozinha para ajudar?

 —Posso fazer uma omelete se o senhor quiser — disse, cativante.

 Os fatos subseqüentes desenrolaram-se na cozinha, e Christopher ajudou a lavar os pratos.

 Por algum motivo Molly achava que não era a maneira certa de se começar uma pensão convencional — e Giles não gostou nada. Ah, bom, pensou Molly quando ia adormecendo, amanhã, quando vierem os outros, será diferente.

 A manhã chegou com céu escuro e neve. Giles parecia preocupado, e Molly sentia o coração apertado. O tempo tornaria tudo difícil.

 A Sra. Boyle chegou no táxi local; foi necessário usar correntes nas rodas, e o motorista fez observações quanto ao péssimo estado da estrada.

 — Nevascas, com certeza — profetizou.

 A Sra. Boyle não ajudou a alegrar a atmosfera. Tratava-se de uma mulher corpulenta, de aparência intimidativa, voz ressonante e despótica. A agressividade natural fora aumentada por uma carreira de grande utilidade e persistência durante a guerra.

 — Pensei que este fosse um estabelecimento de profissionais, caso contrário, não teria vindo — disse ela. — Pensei, naturalmente, que fosse uma pensão bem-estabelecida, administrada adequadamente, de acordo com linhas científicas.

 — Se não estiver satisfeita, não há nada que a obrigue a ficar, Sra. Boyle — disse Giles.

 — Não, realmente, não penso em fazê-lo.

 

 — Talvez, Sra. Boyle — disse Giles —, ainda pudesse chamar um táxi. As ruas não estão bloqueadas, por enquanto. Se houve algum equívoco, talvez fosse melhor a senhora se hospedar em outro lugar. — Ele acrescentou: — Temos tido tantos pedidos que vamos lotar isto aqui com a maior facilidade; futuramente, cobraremos preços mais altos.

 A Sra. Boyle olhou-o, agressiva. — Claro que não vou embora antes de experimentar o lugar. Gostaria de uma toalha de banho grande, Sra. Davis. Não estou acostumada a me secar em lenços.

 Depois que a Sra. Boyle se retirou, Giles deu um risinho irônico.

 — Querido, você foi maravilhoso — disse Molly. — A maneira com que a enfrentou.

 — Os arrogantes logo caem do galho quando tomam o próprio remédio — disse Giles.

 

 — Meu Deus, como será que vai se relacionar com Christopher Wren?

 — Não vai.

 E, realmente, naquela mesma tarde, a Sra. Boyle observou: — Este rapaz é muito excêntrico — com um distinto tom de desagrado na voz.

 O padeiro chegou parecendo um explorador do Ártico e, ao entregar o pão, avisou que a próxima ida, dali a dois dias, podia não acontecer.

 — Trânsito interrompido em tudo quanto é lugar — anunciou.

 — Têm bastante coisa estocada, não é?

 — Ah, sim — disse Molly. — Temos uma porção de enlatados. Mas acho que é melhor comprar mais farinha.

 Ela lembrou-se vagamente de que os irlandeses faziam alguma coisa chamada pão-de-soda. Se as coisas piorassem muito, ela poderia lançar mão disso.

 O padeiro também lhe trouxera os jornais que ela espalhou sobre a mesa do vestíbulo. Os assuntos do exterior diminuíram em importância. O tempo e o assassinato da Sra. Lyon ocupavam a primeira página.

 Ela olhava para a reprodução pouco nítida da assassinada, quando a voz de Christopher Wren disse-lhe por trás das costas: — Um crime muito sórdido, não acha? Uma mulher de aparência vulgar numa rua tão vulgar. Dá para sentir que tem alguma coisa por trás disso, não é?

 — Sem dúvida — disse a Sra. Boyle com um bufido — essa criatura teve o que mereceu.

 — Ah! — O Sr. Wren voltou-se para ela com vivo entusiasmo.

 — Então acha que é, indiscutivelmente, um crime sexual, não?

 — Não sugeri nada parecido, Sr. Wren.

 — Mas ela foi estrangulada, não foi? Fico pensando — e ele esticou as longas e alvas mãos — qual deve ser a sensação de se estrangular alguém.

 — Francamente, Sr. Wren!

 Christopher aproximou-se dela, baixando a voz: — Já imaginou. Sra. Boyle, qual a sensação de ser estrangulada?

 A Sra. Boyle disse novamente, mais indignada: — Francamente, Sr. Wren!

 Molly leu alto: — O homem que a polícia está ansiosa por interrogar vestia um sobretudo escuro e chapéu de feltro claro; de estatura média, usava um cachecol de lã.

 — Na verdade — disse Christopher Wren — se parecia com todo mundo. — Ele riu. .

 — Sim — disse Molly —, com todo mundo.

 Na sua sala, na Scotland Yard, o inspetor Parminter disse ao Sargento-detetive Kane: — Vou falar com os dois operários agora.

 — Sim, senhor.

 — Como são eles?

 — Operários decentes. Reações um tanto lentas. Dependentes.

 — Certo — o inspetor Parminter aquiesceu.

 Pouco depois, dois homens um tanto embaraçados, vestidos com a melhor roupa de que dispunham, entraram na sala. Parminter estudou-os com uma rápida olhada. Era hábil em conseguir colocar as pessoas à vontade.

 — Então acham que têm alguma informação que possa ser útil no caso Lyon — disse ele. — Foi bom terem vindo. Sentem-se. Fumam?

 Ele esperou os dois acenderem o cigarro que lhes ofereceu.

 — Que tempo horroroso.

 — É sim, senhor.

 — Bom, vamos ao que interessa.

 Os dois homens entreolharam-se, receosos das dificuldades da narração.

 — Fala você, Joe — disse o mais forte dos dois.

 Joe falou: — Foi assim, sabe. A gente não tinha fósforo.

 — Onde isso?

 — Jarman Street — 'távamos trabalhando na rua lá — gaseiros. O inspetor Parminter anuiu. Depois pediria os detalhes exatos quanto ao tempo e lugar. Ele sabia que Jarman Street ficava bem próxima a Culver Street, onde ocorrera a tragédia.

 — Não tinham fósforos — repetiu, à guisa de estímulo.

 — Não. Minha caixa tinha acabado e o isqueiro de Bill não funcionava. Então falei com um cara que 'tava passando. Eu disse: pode emprestar um fósforo pra gente, senhor? Não pensei em nada, naquela hora, não. Ele 'tava só passando, como os outros, só que perguntei pra ele.

 Parminter anuiu novamente.

 — Aí ele deu o fósforo pra gente. Não disse nada. "Que frio medonho", disse Bill, e ele respondeu assim, sussurrando: "É, está”.Pegou uma pneumonia, pensei. Bom, estava todo encasacado. Eu disse: "Obrigado, senhor", e devolvi para ele a caixa e ele saiu tão depressa que, quando eu vi, ele tinha deixado cair alguma coisa mas já era tarde. Era um caderninho que deve ter caído do bolso dele quando tirou a caixa de fósforos. "Ei, senhor”, eu chamei, "deixou cair uma coisa". Mas ele não ouviu; apressou o passo e desapareceu na esquina, não foi, Bill?

 — Foi — concordou Bill. — Como um coelho apressado.

 — Seguimos ele pela Harrow Road, mas a gente não encontrou ele, e já 'tava tarde e também como era só um caderninho, não era nem uma carteira sem nada, vai ver que não era importante. "Cara engraçado", eu disse. "O chapéu todo em cima do olho e todo abotoado, como um bandido dos filmes", disse para Bill, não disse?

 — Foi o que você disse — concordou Bill.

 — Engraçado eu dizer isso — não que 'tivesse pensando alguma coisa. Com pressa de chegar em casa, com toda razão. Com aquele tempo!

 — É mesmo — concordou Bill.

 — Então disse pro Bill: "Vamos dar uma olhadinha no caderninho pra ver se é importante”.— Bom, eu olhei. "Só alguns endereços", disse para Bill. "Culver Street, no 74 e algum maldito solar”.

 — Chique — disse Bill, desdenhoso.

 Joe continuou a narrativa com um certo entusiasmo.

 — "Culver Street, 74", eu disse para Bill. "É aqui pertinho. Quando a gente largar, a gente leva", e então eu vi uma coisa que 'tava escrita em cima da página. "O que é isso?", disse para o Bill. E ele pegou e leu: "Os Três Ratos Cegos", e nesse exato momento — sim, foi nesse exato momento, senhor —, a gente ouviu uma mulher berrando: "Assassinato!", numa rua perto dali.

 Joe fez uma pausa neste clímax artístico.

 — Ela berrou, não foi? — recomeçou ele. — Então, disse para Bill: "Vai até lá”.Aí ele voltou e disse que tinha um monte de gente e que a polícia estava lá, e que tinham cortado a garganta de uma mulher ou ela tinha sido estrangulada, e que a proprietária tinha achado ela e estava gritando, procurando a polícia. "Onde foi isso?", perguntei a ele. "Na Culver Street", ele disse. "Que número?", perguntei, e ele disse que não tinha visto bem.

 Bill tossiu e esfregou os pés com o ar tímido de quem foi injustiçado.

 — Então eu disse pra gente dar um pulo lá pra ver, e quando a gente descobriu que o número era setenta e quatro, aí a gente discutiu e Bill disse que talvez o endereço do caderninho não tivesse nada a ver, mas eu disse que talvez tivesse e, bem, depois que a gente discutiu e ouviu que a polícia queria interrogar um homem que saiu de lá por esta hora, bom, nós veio aqui e perguntemos se podia ver o home que tomava conta do caso, e tenho certeza, espero, que não 'tamos tomando seu tempo.

 — Agiram acertadamente — elogiou Parminter. — Trouxeram o caderninho? Bem, obrigado. Agora.

 Suas perguntas tornaram-se rápidas e profissionais. Anotou lugares horas, datas — a única coisa que não perguntou foi a descrição do homem que deixara cair o caderninho. Em vez disso, obteve a mesma descrição que obtivera da histérica proprietária, a descrição de um chapéu enterrado até os olhos, um casaco todo abotoado, um cachecol cobrindo o rosto, a voz que não passava de um sussurro, mãos enluvadas.

 Quando os homens saíram, ele continuou a olhar para o livrinho que permanecia aberto sobre a mesa. Daqui a pouco iria para o departamento apropriado para ver se havia algum indício, ou impressões digitais. Mas agora sua atenção estava voltada para os dois endereços e para a linha da caligrafia miúda no topo da página.

 Ele voltou-se quando o Sargento Kane entrou na sala.

 — Entre, Kane. Olhe.

 Kane permaneceu detrás dele e assoviou baixinho ao ler: — Os Três Ratos Cegos! Não é possível!

 — É isso mesmo. — Parminter abriu uma gaveta e tirou um pedaço de papel que colocou ao lado do caderninho. Este fora preso cuidadosamente na vítima.

 Neste estava escrito: Este é o primeiro. Abaixo, um desenho infantil de três ratos, e uma pauta musical.

 Kane assoviou a melodia: Três Ratos Cegos, vejam como correm...

 — É, é isso mesmo. É este o tema.

 — Que loucura!

 — É mesmo — Parminter franziu o cenho. — E a mulher já foi identificada?

 — Foi sim, senhor. Está aqui o relatório do departamento de impressões digitais. A Sra. Lyon, como se chamava a si própria, era, na realidade Maureen Gregg. Foi libertada de Holloway há dois meses, quando completou a sentença.

 Parminter disse, pensativo: — Ela foi a Culver Street, setenta e quatro, dizendo ser Maureen Lyon. Ela bebia de vez em quando, e sabe-se que levou um homem para lá uma ou duas vezes. Não demonstrava medo de nada, nem de ninguém. Não há razão para se pensar que estivesse em perigo. Este homem toca a campainha, pergunta por ela e a proprietária lhe diz para ir ao segundo andar. Ela não pode descrevê-lo, mas sabe que é de estatura mediana e que deve ter pego um terrível resfriado, pois perdera a voz. Ela voltou de novo lá para baixo e não ouviu nada de que pudesse desconfiar. Não ouviu o homem sair. Cerca de dez minutos depois, foi levar o chá para a hóspede e encontrou-a estrangulada.

 — Não foi um crime casual, Kane. Foi cuidadosamente planejado. — Ele calou-se e depois acrescentou abruptamente: — Quantas pensões na Inglaterra que se chamam Monkswell Manor?

 — Só deve haver uma, senhor.

 — Seria sorte demais. Bom, não vamos perder tempo.

 Os olhos do sargento demoraram-se nas duas anotações do caderninho: Culver Street, 74; Monkswell Manor. Ele disse: — Então o senhor acha... Parminter atalhou: — Ora, e você, não?

 — Pode ser. Monkswell Manor, ora! onde... Sabe, posso jurar que vi este nome recentemente.

 — Onde?

 — É isto que estou tentando me lembrar. Espere um pouco... jornal — Times. Ultima página. Espere um minuto — Hotéis e pensões — só um instante, senhor — é um jornal velho. Eu estava fazendo palavras cruzadas.

 Ele saiu apressado da sala, e voltou triunfante.

 — Está aqui, olhe.

 O inspetor seguiu-lhe o dedo indicador.

 — Monkswell Manor, Harpleden, Berks. — Ele puxou o telefone para junto de si. — Ligue-me com a polícia do Município de Berkshire.

 Com a chegada do Major Metcalf, Monkswell Manor entrou na rotina de uma empresa em funcionamento. Major Metcalf não era tão difícil quanto a Sra. Boyle, nem excêntrico como Christopher Wren. Era um homem fleumático, de meia-idade, trajado com distinção, e que servira a maior parte do tempo na índia. Ele parecia satisfeito com o quarto e a mobília, e, enquanto ele e a Sra. Boyle não encontravam amigos comuns, ele conhecera primos de amigos dela — "do ramo dos Yorkshire" — em Poonah. Sua bagagem, entretanto, duas pesadas malas de couro de porco, satisfez até mesmo a natureza desconfiada de Giles.

 Verdade seja dita; Molly e Giles não tinham muito tempo para especular sobre os hóspedes. Eles mesmos faziam o jantar, o serviam, comiam e lavavam satisfatoriamente. Major Metcalf elogiou o café, e Giles e Molly foram-se deitar, cansados mas vitoriosos — para se levantarem mais ou menos às duas horas da manhã por um persistente toque na campainha.

 — Droga — disse Giles. — É a porta da frente. Que diabos...

 — Apresse-se — disse Molly. — Vá ver quem é.

 Lançando um olhar reprovador a Molly, Giles enfiou-se no roupão, e desceu as escadas. Molly ouviu os ferrolhos sendo abertos e vozes no vestíbulo. Pouco depois, levada pela curiosidade, ela saiu da cama e foi espiar do alto da escada. Lá embaixo, Giles ajudava um estranho barbudo a tirar o casaco coberto de neve. Fragmentos da conversa lhe chegaram aos ouvidos.

 — Brrrr. — Era um som explosivo. — Meus dedos estão tão gelados que não estou nem sentindo. E meus pés... — Ouviu-se o barulho de pés batendo no chão.

 — Entre aqui. — Giles abriu a porta da biblioteca. — Está quente. É melhor esperar aqui, até eu preparar o quarto.

 — Realmente tenho muita sorte — disse o desconhecido, delicadamente.

 Molly espiava inquisitivamente pelo corrimão da escada. Viu um homem já maduro, com uma barba curta e preta e sobrancelhas mefistofélicas. Um homem que se movimentava com passadas de jovem e lépidas, apesar das têmporas grisalhas.

 

 Giles fechou a porta da biblioteca, deixando-o lá dentro, e subiu apressadamente as escadas. Molly, que estava agachada, levantou-se.

 — Quem é? — perguntou.

 Giles sorriu. — Outro hóspede para a pensão. O carro capotou por causa da neve. Ele conseguiu sair, andou como pôde — a nevasca continua, está ouvindo? — pela rua, quando viu nossa pensão. Disse que foi como uma resposta às suas orações.

 — Você acha que ele é... legal?

 — Querida, esta noite não é nada propícia para um ladrão sair por aí.

 — Ele é estrangeiro, não é?

 — É. O nome dele é Paravicini. Vi a carteira dele — até acho que ele mostrou de propósito —, simplesmente recheada de dinheiro. Que quarto a gente dá para ele?

 — O quarto verde. Está prontinho. Só temos que fazer a cama.

 — Acho que tenho que emprestar meu pijama a ele. Todas as coisas ficaram no carro. Ele disse que teve de sair pela janela.

 Molly apanhou lençóis, fronhas e toalhas.

 Enquanto faziam a cama rapidamente, Giles disse: — A neve está caindo grossa. Vamos ficar cercados, completamente isolados. Por um lado é emocionante, não é?

 — Eu não sei — duvidou Molly. — Acha que consigo fazer pão-de-soda, Giles?

 — Claro que sim. Você pode fazer qualquer coisa — disse o fiel marido.

 — Nunca tentei fazer pão. É o tipo da coisa que a gente aceita e pronto. Pode estar fresco ou dormido, mas o padeiro traz de qualquer jeito. Mas se ficarmos isolados pela neve, não vai haver padeiro.

 — Nem açougueiro, nem correio. Nada de jornais. E, com toda a certeza, não teremos telefone.

 — Só o rádio nos dizendo o que fazer?

 — De qualquer jeito, a luz elétrica só depende do nosso gerador.

 — Você tem que fazer ele funcionar de novo amanhã. E temos de manter o aquecimento central bem provido.

 — Acho que nosso suprimento de carvão não virá agora. E temos bem pouco.

 — Oh, Meu Deus! Giles, acho que vamos enfrentar um tempo duro. Vá depressa e traga para... sei lá qual é o nome dele. Vou voltar para a cama.

 A manhã trouxe a confirmação das previsões de Giles. A neve chegava a quase um metro e meio de altura, batendo contra portas e janelas. Lá fora, ainda nevava. O mundo estava branco, silencioso e, de um modo sutil, ameaçador.

 A Sra. Boyle sentou-se para o café. Não havia mais ninguém no refeitório. Na mesa ao lado, o lugar do Major Metcalf acabara de ser limpo. A mesa do Sr. Wren ainda estava posta. Presumivelmente, um madrugador e um dorminhoco. A Sra. Boyle sabia que, sem dúvida, só havia um horário adequado ao café da manhã: nove horas.

 A Sra. Boyle acabara de degustar a excelente omelete e trincava a torrada entre os alvos e fortes dentes. Sentia-se indecisa, relutante. Monkswell Manor não se parecia em nada com o que imaginara. Pensou que jogaria bridge, que fosse encontrar solteironas apagadas às quais impressionaria com sua posição social e seus contatos, além das insinuações que faria à importância e sigilo de seu serviço de guerra.

 O fim da guerra deixara a Sra. Boyle abandonada como que no meio do deserto. Sempre fora uma mulher ocupada falando fluentemente de eficiência e organização. Seu vigor e sua energia evitavam que as pessoas realmente duvidassem que ela fosse uma organizadora boa e eficiente. As atividades de guerra lhe caíram como uma luva. Mandava nas pessoas, intimidava-as, preocupava os chefes de departamento e, para conseguir o que queria, não se poupava. Mulheres subservientes andavam de lá para cá, horrorizadas, quando fazia menção de franzir o cenho. E agora, toda essa vida agitada acabara. Voltara à vida privada, e esta já havia desaparecido. Sua casa, que fora requisitada pelo exército, precisava de reforma total, além de ser redecorada antes que ela voltasse a morar lá. Mas as dificuldades domésticas tornaram sua volta impraticável. Os amigos estavam espalhados, dispersos. Qualquer dia encontraria seu cantinho, mas, no momento, passava o tempo. Um hotel ou uma pensão pareciam ser a resposta. E ela escolhera ir para Monkswell Manor.

 Ela olhou à sua volta, desesperada.

 Muito desonesto, disse para si mesma, não me haverem dito que estavam somente começando.

 Ela afastou o prato de si. O fato de o café estar excelente e bem servido, o leite muito bom, geléia feita em casa curiosamente a aborrecera ainda mais. Assim, fora-lhe retirada uma causa legítima para queixa. A cama também; era macia, os lençóis bordados, e travesseiro confortável. A Sra. Boyle gostava de conforto, mas também gostava de encontrar defeitos. Aliás, esta última era uma paixão mais forte do que a primeira.

 Levantou-se com toda a pompa e saiu do refeitório, cruzando, na porta, com o extraordinário jovem de cabelos vermelhos. Esta manhã, usava uma gravata xadrez, de fundo verde berrante, e uma gravata de lã.

 Grotesco — disse para si mesma. — Grotesco.

 A maneira com que ele a olhou, de soslaio, também não lhe agradou. Tinha qualquer coisa de incomum, perturbador naquele olhar ligeiramente zombeteiro.

 Deve ser um desequilibrado — pensou a Sra. Boyle.

 Ela respondeu à sua reverência floreada com um seco movimento de cabeça e marchou em direção à grande sala de visitas. Que cadeiras confortáveis, principalmente esta rosa, grande. Era melhor ela deixar bem claro de uma vez que esta cadeira era dela. Colocou o tricô sobre a mesma, a título de precaução andou pela sala e depois colocou a mão na calefação. Como desconfiava, estava apenas morna, e não quente. Os olhos da Sra. Boyle brilharam, beligerantes. Poderia reclamar disso.

 Olhou pela janela. Que tempo horroroso — horroroso. Bem, ela não ficaria aqui por muito tempo; a não ser que viessem mais pessoas e tornassem o lugar divertido.

 Um monte de neve deslizou pelo telhado maciamente. A Sra. Boyle pulou. — Não — disse alto. — Não vou ficar aqui muito tempo.

 Alguém soltou uma risadinha de escárnio. Ela voltou a cabeça. Da soleira da porta, o jovem Wren observava-a com aquela curiosa expressão que lhe era peculiar.

 — Não — disse ele. — Suponho que não vá ficar.

 O Major Metcalf estava ajudando Giles a tirar neve da porta dos fundos. Era um bom trabalhador, e Giles chegou a ser clamoroso nas expressões de gratidão

 Como se estivesse lendo os pensamentos de Giles, o major disse: — Foi ótimo sua esposa ter-me servido um café da manhã àquela hora. E os ovos então... fresquinhos.

 Giles levantara-se antes das sete, devido às exigências de serviço. Ele e Molly comeram ovos quentes, tomaram chá e foram arrumar as salas de estar. Tudo brilhava de tão arrumado. Giles não pôde deixar de pensar que, se ele mesmo fosse hóspede deste estabelecimento, nada o teria tirado da cama numa manhã como aquela.

 Entretanto o major já se levantara, tomara o café da manhã, e vagueava pela casa, aparentemente cheio de energia, à procura de uma válvula de escape.

 Bent — pensou Giles —, há muita neve para ser tirada.

 Olhou de esguelha para o companheiro. Um homem nada fácil de se analisar: obstinado, por volta dos sessenta, alguma coisa de sempre atento nos olhos. Um homem a quem nada escapava. Giles perguntava-se por que teria ele vindo a Monkswell Manor. Reformado, talvez, e sem emprego.

 O Sr. Paravicini desceu tarde. Tomou café com uma torrada — uma refeição frugal típica do Continente.

 Molly ficou um pouco desconcertada quando lhe levou o café, e ele se levantou, fez uma mesura exagerada e exclamou: — Minha encantadora anfitriã? Estou certo, não estou?

 Molly admitiu um tanto vagarosamente que ele estava certo. Não se sentia com disposição para receber elogios àquela hora.

 — E por que — pensou ela ao empilhar a louça um tanto descuidadamente, na pia — cada um tem que tomar o café numa hora diferente? É um pouco duro.

 Deixou os pratos e subiu correndo para arrumar as camas. Não podia esperar a menor ajuda de Giles, esta manhã. Tinha que limpar o caminho que levava ao boiler e ao galinheiro.

 Mais do que depressa, Molly fez as camas, sem muito esmero, admitiu, alisando os lençóis e puxando-os para cima, tão rápido quanto possível.

 Ia começar a cuidar dos banheiros quando o telefone tocou.

 A princípio, Molly praguejou por ser interrompida, mas, depois, sentiu um ligeiro alívio pois, afinal, o telefone funcionava ainda, e correu para atendê-lo.

 Quando chegou à biblioteca estava um tanto sem fôlego; apanhou o receptor:

 — Alô!

 Uma voz cordial, com um ligeiro e agradável sotaque, perguntou:

 — É da Monkswell Manor?

 — Monkswell Manor, Pensão.

 — Gostaria de falar com o Comandante Davis, por favor.

 — No momento não pode atender — disse Molly. — Aqui fala Sra. Davis. Quem está falando, por favor?

 — Superintendente Hogben, Polícia de Berkshire. Molly ficou um pouco ofegante: — Ah! pois não...

 — Sra. Davis, surgiu um assunto muito importante. Não quero falar muito ao telefone, mas enviei o Sargento-detetive Trotter; chegará a qualquer minuto.

 — Não vai conseguir chegar aqui. Estamos isolados por causa da neve. As estradas estão bloqueadas.

 Não houve nenhuma hesitação na voz do superintendente:

 — Trotter chegará aí, com certeza. E, por favor, Sra. Davis, diga a seu marido para ouvir atentamente o que Trotter tem a dizer-lhes e para seguir à risca suas instruções. Isto é tudo.

 — Superintendente Hogben, o que...

 Mas ouviu-se um clique definitivo. Hogben dissera claramente tudo o que havia para ser dito, e desligou. Molly bateu uma ou duas vezes no gancho, e depois desistiu. Ela voltou-se quando a porta abriu.

 — Ah, Giles querido, você chegou.

 Giles trazia neve no cabelo e fuligem de carvão no rosto. Parecia encalorado.

 — O que é, meu amor? Já enchi as caixas de carvão e trouxe lenha. Daqui a pouco cuido das galinhas e vejo o boiler. Está bem? O que houve, Molly? Parece assustada.

 — Giles, era a polícia.

 — A polícia? — Giles parecia não acreditar.

 — É. Mandaram um inspetor ou sargento, sei lá.

 — Mas por quê? O que foi que fizemos?

 — Não sei. Será que é por causa daqueles três quilos de manteiga da Irlanda?

 — Mas tenho certeza de que obtive licença, não foi?

 — Sim, o telegrama está na escrivaninha. Giles, a velha Sra. Bidlock me deu cinco dos seus cupons por aquele meu velho casaco de tweed. Acho que está errado — mas também acho que é bastante justo. Tenho um casaco a menos, então por que não posso ficar com os cupons? Oh, meu Deus, que mais que fizemos?

 — Outro dia tirei um fino com o carro. Mas foi culpa do outro, sem dúvida. Sem dúvida.

 — Alguma coisa a gente fez — suspirou Molly.

 — O problema é que, hoje em dia, quase tudo o que se faz é ilegal. Por isso é que as pessoas vivem sentindo-se culpadas. Com certeza tem alguma coisa a ver com a administração deste lugar.

 Dirigir uma pensão deve ser uma atividade cheia de empecilhos dos quais nunca ouvimos falar.

 — Pensei que o único problema fosse a bebida. Não demos bebida a ninguém. Fora isso, por que não podemos dirigir a pensão como bem entendermos?

 — Eu sei. Parece legal. Mas tudo é mais ou menos proibido, hoje em dia.

 — Ah, meu deus — suspirou Molly. — Seria melhor nunca termos começado. Vamos ficar isolados durante dias, todos vão ficar zangados, vão comer todas as nossas reservas de enlatados...

 — Anime-se, querida — disse Giles. — Estamos com azar, agora, mas tudo vai dar certo.

 Ele beijou-lhe o alto da cabeça, um tanto distraído e, soltando-a, disse com a voz diferente: — Sabe, Molly, pensando bem, deve ser alguma coisa muito séria para mandar um sargento até aqui com toda esta neve. — Ele apontou lá para fora. — Deve ser alguma coisa realmente urgente...

 Quando se entreolharam, a porta abriu e a Sra. Boyle entrou.

 — Ah! até que enfim o encontrei, Sr. Davis — disse a Sra. Boyle. — Sabe que o aquecimento central da sala de estar está praticamente frio?

 — Ora, desculpe, Sra. Boyle. Estamos com pouco carvão e... A Sra. Boyle interrompeu-lhe a frase implacavelmente.

 — Estou pagando sete guinéus por semana — sete guinéus. Não quero congelar.

 Giles corou. Disse simplesmente: — Vou colocar mais carvão. Ele saiu, e a Sra. Boyle voltou-se para Molly:

 — Se não se incomoda que lhe diga, Sra. Davis, há um jovem muito excêntrico se hospedando aqui. Seus modos, suas gravatas — e será que nunca penteia o cabelo?

 — É um arquiteto extremamente brilhante — replicou Molly.

 — Como?

 — Cristopher Wren é um arquiteto e...

 — Minha jovem senhora — retrucou a Sra. Boyle. — É claro que já ouvi falar de Sir Christopher Wren. Claro que era um arquiteto. Construiu St. Paul. Parece que os jovens pensam que a cultura foi introduzida junto com a Lei da Educação.

 — Me refiro a este Wren. O nome dele é Christopher. Seus pais o batizaram na esperança de que se tornasse um arquiteto. E ele é, ou pelo menos, quase, de modo que deu certo.

 — Hummmmm — resmungou a Sra. Boyle —, esta história me parece muito mal contada. Se fosse você, faria umas investigações. O que sabe sobre ele?

 — Tanto quanto sei sobre a senhora, isto é, que ambos me pagam sete guinéus por semana. É o que preciso saber, não? E é o que me interessa. Pouco me importa se gosto de meus hóspedes ou se — Molly olhou fixamente para a Sra. Boyle — não gosto.

 A Sra. Boyle enrubesceu de cólera. — Você é jovem e inexperiente e devia acolher os conselhos de quem tem mais conhecimentos. E este estrangeiro? Quando chegou?

 — De madrugada.

 — Francamente. Muito estranho. Uma hora nada convencional.

 — Não aceitar viajantes legítimos é contra a lei, Sra. Boyle. — Molly acrescentou docemente: — Talvez não saiba disso.

 — Tudo o que sei é que esse Paravicini, ou coisa parecida, tem a aparência de...

 — Cuidado, cuidado, cara senhora. Fala-se do diabo e então...

 A Sra. Boyle sobressaltou-se como se, realmente, o próprio diabo a estivesse interpelando. O Sr. Paravicini, que entrara com passinhos miúdos sem ser notado por nenhuma das duas mulheres, riu e esfregou as mãos, numa espécie de regozijo satânico.

 — O senhor me assustou — disse a Sra. Boyle. — Não o ouvi entrar.

 — Entrei na ponta dos pés — disse o Sr. Paravicini. — Nunca ninguém me ouve entrar ou sair. Acho isso muito divertido. Às vezes ouço conversas, por alto. Isso, também, me diverte. Mas não me esqueço do que ouço.

 A Sra. Boyle disse um tanto parva: — Realmente? Tenho que pegar meu tricô. Deixei-o lá na sala.

 Ela saiu apressada. Molly ficou olhando para o Sr. Paravicini como que perplexa. Ele aproximou-se dela meio que saltitando:

 — Minha adorável anfitriã parece aborrecida. — Antes que pudesse evitá-lo, ele tomou-lhe as mãos e beijou-as. — O que foi, minha querida dama?

 Molly deu um passo para trás. Não sabia ao certo se gostava muito do Sr. Paravicini. Olhava-a de soslaio como um antigo sátiro.

 — Tudo está um tanto difícil hoje — disse. — Por causa da neve.

 — Sim. — O Sr. Paravicini voltou a cabeça para olhar pela janela. — A neve torna as coisas bastante difíceis, não é? Ou então as faz muito simples.

 — Não sei o que quer dizer.

 — Não — disse, pensativo. — E há muita coisa que não sabe. Acho que, antes de tudo, não conhece muito sobre a administração de uma pensão.

 Molly levantou o queixo, beligerante. — Não sabemos mesmo. Mas vamos fazer o melhor.

 — Bravo, bravo.

 Afinal de contas — a voz de Molly deixou transparecer uma ligeira ansiedade —, não cozinho muito mal...

 — Na verdade, a senhora é uma cozinheira maravilhosa. "Que cacetes, estes estrangeiros", pensou Molly.

 Talvez o Sr. Paravicini lhe tenha lido os pensamentos. O fato é que seu comportamento mudou. Falou calmo e sério.

 — A senhora me permite um conselho, Sra. Davis? Não devem confiar em todo mundo. Tem referências de seus hóspedes?

 — É costume fazer isso? — Molly parecia preocupada. — Pensei que era só as pessoas virem.

 — É sempre bom saber alguma coisa sobre as pessoas que dormem sob o mesmo teto. — Ele inclinou-se para frente e bateu-lhe no ombro, de maneira um tanto ameaçadora. — Eu, por exemplo. Apareço de madrugada. Meu carro, eu conto, capotou. O que sabe sobre mim? Nada. Talvez não saiba nada também dos seus outros hóspedes.

 — A Sra. Boyle — começou Molly, mas calou-se quando a própria voltou, tricô na mão.

 — Aquela sala de estar é muito fria. Vou-me sentar aqui. Ela encaminhou-se para a lareira.

 O Sr. Paravicini deu uma pirueta, adiantando-se: — Deixe-me avivar o fogo para a senhora.

 Molly impressionou-se, assim como na noite anterior, com aqueles passos lépidos, de jovem. Ela notara que ele parecia ter sempre a preocupação de estar sempre contra a luz e, agora que ele se ajoelhara, para atiçar o fogo, ela pensou ter encontrado a razão para isso: o rosto do Sr. Paravicini estava hábil, mas indubitavelmente "maquiado".

 Então o velho idiota tentava parecer mais jovem do que era na realidade? Bem, não o conseguia. Parecia até mais velho. Só aquele andar é que parecia incoerente. Talvez fosse, também, cuidadosamente forjado.

 A entrada barulhenta do Major Metcalf a trouxe de volta às desagradáveis realidades.

 — Sra. Davis, creio que os canos do... — ele baixou a voz — vestiário lá embaixo estão congelados.

 — Meu Deus! Que dia horrível. Primeiro a polícia e depois os canos.

 O Sr. Paravicini deixou cair o atiçador na lareira com um estrondo. A Sra. Boyle parou de tricotar. Molly, olhando para o Major Metcalf, ficou confusa com a súbita imobilidade e indescritível expressão. Não conseguia defini-la. Era como se toda a emoção tivesse sido sugada de seu rosto, deixando atrás alguma coisa talhada na madeira.

 Disse numa voz curta, de staccato: — Polícia?

 Ela tinha consciência de que, atrás daquela dura imobilidade, uma forte emoção se estava processando. Podia ser medo, atenção ou excitação — mas havia alguma coisa. Este homem, ela disse para si mesma, pode ser perigoso.

 Ele disse de novo, e desta vez sua voz só revelava uma certa curiosidade: — O que tem a polícia?

 — Eles telefonaram — disse Molly. — Agora mesmo. Mandaram um sargento para cá. — Ela olhou em direção da janela. — Mas não creio que consiga chegar aqui — disse esperançosa.

 — Por que estão mandando a polícia para cá? — Ele aproximou-se dela, mas antes que ela pudesse responder, a porta abriu-se e Giles entrou.

 — Veio muita pedra junto com este carvão — disse, zangado. Depois acrescentou: — Aconteceu alguma coisa?

 Major Metcalf virou-se para ele. — Ouvi dizer que a polícia vem até aqui — disse ele. — Por quê?

 — Ah, não é nada — disse Giles. — Ninguém pode passar. A neve chega a um metro e meio de altura. Todas as estradas estão interrompidas. Ninguém vai chegar aqui hoje.

 E neste momento ouviu-se distintamente, três batidas na janela.

 Isto os assustou. Por alguns momentos não localizaram o som. Este veio com a ênfase e a ameaça de um aviso fantasmagórico. E então, com um grito, Molly apontou para a porta-janela. E ali estava um homem, batendo na vidraça e o mistério de sua chegada era explicado pelo fato de usar esquis.

 Com uma exclamação, Giles atravessou a sala, lutou com o ferrolho e abriu a porta envidraçada.

 — Obrigado, senhor — disse o recém-chegado. Sua voz era animada e o rosto bronzeado.

 — Sargento-detetive Trotter — apresentou-se.

 A Sra. Boyle olhou-o por sobre o tricô, com descrédito. — Não pode ser sargento — disse, com reprovação. — É muito jovem.

 O rapaz, que era mesmo muito jovem, enfrentou a crítica e respondeu um tanto aborrecido: — Não sou tão jovem quanto pareço.

 Passou os olhos pelo grupo e viu Giles.

 — Ê o Sr. Davis? Posso tirar esses esquis e guardá-los em algum lugar?

 — Claro, venha comigo.

 Quando a porta do vestíbulo se fechou, a Sra. Boyle disse, azeda: — Com certeza é para isso que pagamos à polícia, hoje em dia. Para que se divirtam com os esportes de inverno.

 Paravicini aproximara-se de Molly. Foi com uma espécie de assovio na voz que perguntou, baixinho: — Por que mandou chamar a polícia, Sra. Davis?

 Ela encolheu-se um pouco diante da malignidade daquele olhar. Este era um novo Paravicini. Por um momento sentiu medo. E disse, desanimada: — Mas eu não chamei. Eu não chamei.

 E então Christopher Wren entrou porta adentro, animado, dizendo num sussurro penetrante: — Quem é o homem ali no vestíbulo? De onde veio? Tão cordial e cheio de neve.

 A voz da Sra. Boyle fez-se ouvir, mais alta do que o clique das agulhas de tricô: — Acredite ou não, mas este homem é um policial. Um policial — esquiando!

 "A ruptura final das classes mais baixas chegara", pareciam dizer seus olhos.

 Major Metcalf murmurou para Molly: — Desculpe-me, Sra. Davis, mas posso usar o telefone?

 — Claro, Major Metcalf.

 Ele dirigiu-se ao aparelho enquanto Christopher Wren dizia, estridente: — É muito bonito, não acha? Sempre achei os policiais muito atraentes ““.

 — Alô, alô — Major Metcalf batia no telefone, irritado. Voltou-se para Molly: — Sra. Davis, este telefone está mudo, completamente mudo.

 — Estava funcionando agora mesmo. Eu...

 Ela foi interrompida. Christopher Wren estava rindo, um riso alto, estridente, quase histérico. — Então estamos mesmo isolados agora. Ilhados. Isso é engraçado, não é?

 — Não vejo motivos para risos — disse o Major Metcalf, muito sério.

 — De jeito nenhum — concordou a Sra. Boyle. Christopher continuava a ter ataques de riso. — É uma piadinha particular — disse ele. — Shhhhh — colocou o dedo nos lábios —, o detetive está chegando.

 Giles entrou com o Sargento Trotter. Este se livrara dos esquis, retirara a neve e vinha segurando um caderno grosso e um lápis. Trouxe com ele uma atmosfera de lento processo judicial.

 — Molly — disse Giles —, o sargento quer falar conosco em particular.

 Os três saíram da sala.

 — Vamos ao gabinete — disse Giles.

 Entraram numa salinha atrás do vestíbulo, que fora honrada por esse nome. O Sargento Trotter fechou cuidadosamente a porta.

 — O que foi que fizemos, sargento? — Molly perguntou, chorosa.

 — Fizeram? — O sargento olhou-a durante alguns segundos. Depois deu um largo sorriso. — Ora, não é nada disso. Desculpe se houve uma interpretação errônea. Não, Sra. Davis, é algo completamente diferente. É mais uma questão de proteção policial, entende?

 Não tendo a mínima idéia do que se tratava, ambos olharam para ele de maneira inquisitiva.

 O Sargento Trotter prosseguiu, fluente: — Relaciona-se com a morte da Sra. Lyon, Maureen Lyon, que foi assassinada em Londres há dois dias. Talvez tenham lido sobre o caso.

 — Lemos — disse Molly.

 — A primeira coisa que quero saber é se conheciam a Sra. Lyon.

 — Nunca tínhamos ouvido falar dela — disse Giles, e Molly concordou.

 — Bom, é o que esperávamos. Mas, na verdade, este não era o nome verdadeiro da vítima. Ela era fichada e, pelas impressões digitais, foi fácil identificá-la. O verdadeiro nome dela era Gregg; Maureen Gregg. O falecido marido era fazendeiro e morava na Fazenda Longridge, não muito distante daqui. Talvez tenham ouvido falar no caso da Fazenda Longridge.

 A sala estava muito quieta. Só um som quebrou a quietude, um macio e inesperado prop da neve que deslizou pelo telhado para cair no chão. Era um som secreto, quase que sinistro.

 Trotter continuou. — Três crianças evacuadas alojaram-se com os Greggs na Fazenda Longridge, em 1940. Uma destas crianças veio a morrer como resultado de negligência criminosa e maus-tratos. O fato causou sensação, e ambos os Greggs foram condenados à prisão. Gregg escapou a caminho da prisão, roubou um carro e sofreu um acidente quando fugia. Morreu na hora. A Sra. Gregg cumpriu a pena e foi libertada há dois meses.

 — E agora foi assassinada — disse Giles. — Quem o senhor acha que é o assassino?

 Mas o Sargento Trotter não se deixava apressar. — Lembra-se do caso, senhor? — perguntou.

 Giles balançou a cabeça. — Em 1940 eu era um aspirante e servia no Mediterrâneo.

 Trotter olhou então para Molly.

 — Acho que me lembro de ter ouvido falar — disse Molly um tanto ofegante. — Mas por que veio aqui? O que temos com isso?

 — É questão de estar em perigo, Sra. Davis.

 — Perigo? — repetiu Giles, incrédulo.

 — Isso mesmo, senhor. Apanharam um caderninho perto da cena do crime. Nele havia dois endereços. O primeiro era Culver Street, setenta e quatro.

 — Onde a mulher foi assassinada? — disse Molly.

 — Sim, Sra. Davis. E o outro endereço era Monkswell Manor.

 — O quê? — A voz de Molly revelava incredulidade. — Mas que estranho.

 — Por isso o Superintendente Hogben achou imperioso saber se tinham conhecimento de alguma conexão com vocês, ou com essa casa ou com o caso da Fazenda Longridge.

 — Não há nada, absolutamente nada — disse Giles. — Deve ser alguma coincidência.

 O Sargento Trotter disse com brandura: — O Superintendente Hogben não acha que seja coincidência. Ele teria vindo pessoalmente se fosse possível. Devido ao tempo, e já que sou exímio esquiador, ele mandou-me aqui com instruções para saber de todos os detalhes sobre os que se encontram aqui, relatar-lhe tudo por telefone e tomar todas as medidas que julgar convenientes para a segurança da casa.

 Giles disse, sério: — Segurança? — Meu Deus, homem, não acha que alguém vai ser morto aqui, acha?

 Trotter disse, como que se desculpando: — Não queria aborrecer a senhora, mas, na realidade, é justamente isso que o Superintendente Hogben acha.

 — Mas que motivos podia haver...

 Giles fez uma pausa, e Trotter disse: — É justamente para descobrir isso que estou aqui.

 — Mas isso tudo é uma loucura.

 — E, por ser uma loucura, achamos perigoso.

 — Há mais alguma coisa que ainda não nos contou, não é, sargento? — perguntou Molly.

 — Há, sim, senhora. No alto da página do caderninho estava escrito "Os Três Ratos Cegos". Pregado ao corpo da vítima, um pedacinho de papel onde se lia: "este é o primeiro”.Abaixo, um desenho de três ratos e uma pauta musical. A música é a daquela historinha infantil em verso Os Três Ratos Cegos.

 Molly cantou baixinho:

 

 Três Ratos Cegos

 Vejam como correm

 Todos correram atrás da mulher do fazendeiro!

 Ela...

 

 Ela cessou bruscamente. — É horrível — horrível. Havia três crianças, não é?

 — Isso mesmo, Sra. Davis. Um menino de quinze, uma menina de quatorze e o menino de doze que morreu.

 — O que aconteceu com os outros?

 — Acho que a menina foi adotada por alguém. Não conseguimos localizá-la. O menino deve ter uns trinta e três anos agora. Nós o perdemos de vista. Contam que ele sempre foi um tanto — efeminado. Alistou-se no Exército com dezoito anos. Depois desertou. Desde aí, desapareceu. O psiquiatra do Exército afirma que ele não é, absolutamente, normal.

 — Acha que foi ele quem matou a Sra. Lyon? — perguntou Giles. — E que ele é um maníaco homicida capaz de aparecer aqui por alguma razão desconhecida?

 — Achamos que deve haver uma ligação entre alguém aqui e o •negócio da Fazenda Longridge. Quando pudermos esclarecer qual é essa ligação, então ficaremos de sobreaviso. O senhor disse que não tinha nada a ver com o caso. O mesmo se aplica a senhora?

 — Eu... é claro, claro.

 — E se me disser quem mais está hospedado aqui?

 Eles deram-lhe os nomes. Sra. Boyle, Major Metcalf, Sr. Christopher Wren, Sr. Paravicini. Ele os anotou no caderno.

 — Empregados?

 — Não temos nenhum empregado — disse Molly. — E isso me faz lembrar que tenho de colocar as batatas no fogo.

 Ela saiu do gabinete abruptamente.

 Trotter voltou-se para Giles. — O que sabe sobre estas pessoas?

 — Eu — nós — Giles hesitou. Depois disse, calmamente: — Na verdade, não sabemos nada sobre eles, Sargento Trotter. A Sra. Boyle escreveu do hotel Bournemouth. Major Metcalf, de Leamington. o Sr. Wren de um hotel particular em South Kensington. O Sr. Paravicini é que apareceu assim, do nada, ou melhor do branco — o carro dele capotou aqui perto. Mesmo assim, devem ter carteira de identidade, cartões de racionamento, esse tipo de coisa.

 — Vou ver tudo isso, é claro.

 — Por um lado, é bom que o tempo esteja assim. O assassino não vai poder locomover-se, vai?

 — Talvez ele não precise, Sr. Davis.

 — O que quer dizer com isso?

 Sargento Trotter hesitou por um momento e então disse: — Tem que pensar que ele pode já estar aqui. Giles olhou-o fixamente.

 — Como assim?

 — A Sra. Gregg foi morta há dois dias. Todos os hóspedes chegaram depois disso, Sr. Davis.

 — Sim, mas fizeram reservas anteriormente, a não ser no caso do Paravicini.

 Sargento Trotter suspirou. Parecia cansado quando disse: — Estes crimes foram premeditados.

 — Crimes? Mas só houve um crime por enquanto. Por que tem tanta certeza de que haverá outros?

 — Que haverá, não. Espero evitar isso. Que será tentado, sim.

 — Mas então, se estiver certo — Giles falava agitado —, sô pode ser uma pessoa. Só há uma com a idade certa. Christopher

 Wren!

 Sargento Trotter foi ter com Molly na cozinha.

 — Ficaria agradecido, Sra. Davis, se viesse comigo à biblioteca. Desejo fazer uma exposição a todos. O Sr. Davis, muito gentil, já se adiantou para preparar tudo...

 — Certo; deixe só eu acabar de preparar estas batatas. Às vezes desejo que Sir Walter Raleigh nunca tivesse descoberto estas coisas abomináveis.

 O Sargento Trotter manteve um silêncio de desaprovação. Molly disse, como que para se desculpar: — Não consigo acreditar, sabe, é

 tão fantástico...

 — Não é fantástico, Sra. Davis — são fatos concretos.

 — Tem a descrição do homem? — perguntou Molly, curiosa.

 — Altura mediana, franzino, usava casaco escuro e chapéu claro, falava sussurrando, e escondia o rosto com o cachecol. Como vê — pode ser qualquer um. — Ele fez uma pausa e acrescentou: — Há três casacos escuros e chapéus claros pendurados no cabide do vestíbulo, Sra. Davis.

 — Acho que nenhuma dessas pessoas veio de Londres.

 — Não? — Com um rápido movimento, o Sargento Trotter foi ao aparador e apanhou um jornal.

 — O Evening Standard de 19 de fevereiro. Dois dias atrás. Alguém trouxe esse jornal aqui, Sra. Davis.

 — Mas que coisa estranha! — Molly parou, tentando lembrar-se — De onde pode ter vindo este jornal?

 — Não deve julgar ninguém pelas aparências, Sra. Davis. Não conhece nada sobre estas pessoas que hospedou. — E acrescentou: — Pelo que concluí, a senhora e o Sr. Davis são novos neste ramo, não são?

 — Sim, somos — admitiu Molly. De repente ela sentiu-se jovem, tola e infantil.

 — Não está casada há muito tempo, talvez.

 — Há um ano. — Ela corou ligeiramente. — Aconteceu tudo

 tão de repente.

 — Amor à primeira vista — disse o Sargento Trotter, compreensivo.

 Molly sentia-se incapaz de tratá-lo com aspereza. — Foi — disse ela, e acrescentou, confidencialmente: — Só nos conhecíamos há quinze dias.

 Seus pensamentos voltaram àqueles quatorze dias de estonteante namoro. Não havia dúvidas, ambos sabiam. Num mundo agitado e de preocupações, eles haviam descoberto o milagre um do outro. Deu um leve sorriso.

 Quando voltou ao presente, encontrou o Sargento Trotter olhando-a, com deleite.

 — Seu marido-não é daqui, é?

 — Não — disse Molly vagamente. — Ele é de Lincolnshire. Ela conhecia muito pouco da infância e adolescência de Giles.

 Os pais estavam mortos, e ele sempre evitava falar no passado. Ele deve ter tido, pensava ela, uma infância infeliz.

 — São ambos muito jovens, permita-me dizê-lo, para dirigir um lugar desses — disse o sargento.

 — Ah, não sei. Tenho vinte e dois anos e...

 Ela fez uma pausa brusca quando a porta se abriu e Giles entrou.

 — Está tudo preparado. Já dei a eles uma pequena idéia da coisa. Está bom assim, Sargento?

 — Me poupa tempo — disse Trotter. — Está pronta, Sra. Davis?

 Quatro vozes falaram ao mesmo tempo quando o Sargento Trotter entrou na biblioteca.

 A mais alta e estridente era a de Christopher Wren que dizia que isto também era muito emocionante, que não dormiria nada à noite e, por favor, será que podiam dar-lhe todos os detalhes sanguinolentos?

 Partia da Sra. Boyle uma espécie de acompanhamento de contrabaixo: — Um desmando absoluto — pura incompetência. — A polícia não pode deixar os criminosos vagando por aí.

 O Sr. Paravicini era eloqüente, sobretudo com as mãos. Os gestos diziam mais do que as palavras, as quais eram abafadas pelo contrabaixo da Sra. Boyle. Podia-se ouvir o Major Metcalf vociferar de vez em quando. Ele pedia fatos.

 Trotter esperou alguns momentos e, então, levantou a mão, autoritário e, surpreendentemente, fez-se silêncio.

 — Obrigado — disse ele. — Bom, o Sr. Davis já disse mais ou menos o porquê de minha presença. Quero só saber uma coisa, uma coisa só e quero saber com rapidez. Quem de vocês tem ligação com o caso da Fazenda Longridge?

 Ninguém quebrou o silêncio. Quatro rostos sem expressão olhavam para o sargento. As emoções de momentos atrás — animação, indignação, histeria, curiosidade — apagaram-se como uma esponja apaga as marcas de giz numa lousa.

 O Sargento Trotter falou de novo, mais insistente. — Por favor, procurem entender. Um de vocês, temos razão para acreditar, corre sério risco — risco de morte. Tenho que saber quem é.

 Mas ninguém falou ou se mexeu.

 A voz de Trotter revelava uma certa raiva. — Muito bem, vou perguntar a um por um. Sr. Paravicini?

 Um sorriso muito desmaiado oscilou no rosto do Sr. Paravicini. Ele levantou as mãos num gesto de protesto tipicamente estrangeiro.

 — Mas sou estrangeiro, inspetor. Não sei nada, nada mesmo, desses assuntos locais já passados.

 Trotter não perdeu tempo. Perguntou direto: — Sra. Boyle?

 — Realmente, não vejo por que, quero dizer, ora, por que teria eu alguma coisa a ver com este negócio horrível?

 — Sr. Wren?

 Christopher disse com a voz estridente: — Eu era apenas uma criança naquela época. Não me lembro nem de ter ouvido falar sobre isso.

 — Major Metcalf?

 O Major disse abruptamente. — Li sobre isso nos jornais. Naquele tempo servia em Edinburgh.

 — Isso é tudo o que têm a dizer? Silêncio de novo.

 Trotter soltou um suspiro exasperado. — Se um de vocês for assassinado — disse ele —, só poderá se culpar a si mesmo. Ele voltou-se subitamente e saiu da sala.

 — Meus queridos — disse Christopher. — Que melodramático!

 — E acrescentou: — Ele é muito bonito, não é? Realmente admiro a polícia. Tão ríspidos e decididos. Que coisa emocionante. Os três ratos cegos. Como é mesmo a melodia?

 Ele assoviou a área, baixinho e Molly gritou involuntariamente:

 — Não!

 Ele rodopiou em direção a ela e riu: — Mas querida, este é meu prefixo. Nunca me confundiram com um assassino, e estou me divertindo muito.

 — Puro melodrama — disse a Sra. Boyle. — Não acredito em nem uma palavra.

 Os claros olhos de Christopher dançaram, maliciosos. — Mas espere, Sra. Boyle — ele baixou a voz —, até que eu lhe pule em cima e a senhora sinta minhas mãos em volta do pescoço.

 Molly encolheu-se.

 Giles disse, zangado: — O senhor está aborrecendo minha esposa, Wren. De qualquer forma, é uma brincadeira sem graça.

 — Não chega nem a ser brincadeira — disse Metcalf.

 — Ah, mas é — disse Christopher. — É justamente isso — brincadeira de um homem louco. Ê o que a torna tão deliciosamente macabra.

 Ele olhou à sua volta e riu de novo. — Se pudessem ver suas caras — disse ele.

 Depois saiu apressadamente da sala.

 A Sra. Boyle foi a primeira a se recuperar. — Um neurótico mal-educado — disse ela. — Provavelmente se nega a cumprir com certas obrigações.

 — Ele me contou que ficou enterrado durante um ataque aéreo durante quarenta e oito horas — disse o major. — Isso explica muita coisa, na minha opinião.

 — As pessoas têm tantas desculpas para perder o controle dos nervos — disse a Sra. Boyle, amarga. — Acho que na guerra sofri como todos e meus nervos vão muito bem.

 — Talvez isto não faça diferença para a senhora — disse Metcalf.

 — O que quer dizer?

 Major Metcalf disse, calmamente: — Acho que a senhora era, na verdade, o oficial encarregado dos alojamentos neste distrito, em 1940. Sra. Boyle. — Ele olhou para Molly que anuiu, séria. — É isso mesmo, não é?

 A Sra. Boyle corou, irada. — E daí? — perguntou.

 Metcalf disse, momentoso: — A senhora foi responsável por mandar três crianças para Longridge.

 — Francamente, Major Metcalf, não vejo como podem responsabilizar-me pelo que aconteceu. O pessoal da Fazenda parecia muito bom e ansioso por ter crianças. Não sei como podem culpar-me ou me responsabilizar... — sua voz foi sumindo aos poucos.

 Giles disse vivamente: — Por que não contou ao Sargento Trotter?

 — Não é assunto da polícia — retrucou a Sra. Boyle. — Posso cuidar de mim mesma.

 Major Metcalf disse calmamente: — É melhor tomar cuidado. E então, também ele saiu da sala.

 Molly murmurou: — É claro, a senhora era encarregada dos alojamentos. Agora me lembro.

 — Molly, você sabia? — Giles olhou-a, surpreso.

 — A senhora tinha aquele casarão na comunidade, não tinha?

 — Já requisitado — disse a Sra. Boyle. — E completamente arruinado — acrescentou com amargura. — Devastado. Muito injusto.

 E então, o Sr. Paravicini começou a rir baixinho. Depois jogou a cabeça para trás e riu a não mais poder.

 — Queira me desculpar — disse, ofegante. — Mas, realmente, acho isso tudo muito divertido. Estou me divertindo muito, muito mesmo.

 Neste momento, o sargento reentrou na sala. Lançou um olhar reprovador para o Sr. Paravicini. — Fico contente — disse, irado — que todos achem isso tão engraçado.

 — Peço desculpas, meu querido inspetor. Realmente peço desculpas. Estou estragando o efeito de seu solene aviso.

 Sargento Trotter deu de ombros. — Fiz o que pude para tornar clara a situação — disse ele. — E não sou inspetor. Sou apenas um sargento. Gostaria de usar o telefone, por favor, Sra. Davis.

 — Peço mil desculpas — disse Paravicini. — Vou sair de mansinho.

 E lá foi ele, os passos lépidos e elegantes que Molly notara antes.

 — Ele é um sujeito esquisito — disse Giles.

 — Tipo do criminoso — disse Trotter. — Não confiaria nem um pouco nele.

 — Ah! — exclamou Molly. — Você acha que ele — mas ele é muito mais velho... ou será que não chega a ser velho? Ele usa maquiagem — e muita. Tem o andar de um jovem. Talvez esteja maquiado para parecer mais velho. Sargento Trotter, o senhor acha...

 O Sargento Trotter foi ríspido com ela. — Não vamos chegar a nada com especulações inúteis, Sra. Davis. Tenho que me comunicar com o Superintendente Hogben.

 Ele encaminhou-se para o telefone.

 — Mas o senhor não pode — disse Molly. — O telefone está mudo.

 — O quê? — Trotter voltou-se com uma pirueta. O alarma de sua voz impressionou a todos.

 — Mudo? Desde quando?

 — Major Metcalf tentou falar um pouco antes do senhor chegar...

 — Mas estava funcionando antes disso. Recebeu o recado do Superintendente Hogben?

 — Recebi. Acho que desde aí o telefone emudeceu — por causa da neve.

 O rosto de Trotter continuou sério. — Será que... talvez tenha sido cortado.

 Molly arregalou os olhos. — O senhor acha?

 — Vou me certificar.

 Ele saiu apressado da sala. Giles hesitou, e depois saiu também. Molly exclamou: — Minha nossa! Está quase na hora do almoço. Se não me apressar, não teremos nada para comer. Quando saiu apressada da sala, a Sra. Boyle resmungou:

 — Pirralha incompetente! Que lugar. Não vou pagar sete guinéus por este tipo de coisa.

 O Sargento Trotter abaixou-se, seguindo os fios. Perguntou a Giles: — Tem extensão?

 — Tem, no nosso quarto, lá em cima. Quer que vá lá para examinar?

 — Sim, por favor.

 Trotter abriu a janela e pendurou-se, tirando neve do parapeito. Giles subiu correndo.

 O Sr. Paravicini encontrava-se na sala de estar grande. Dirigiu-se ao magnífico piano e o abriu. Sentado no banco, começou a tocar uma melodia com apenas um dedo.

 

 Três Ratos Cegos

 Vejam como correm...

 

 Christopher Wren estava no quarto. Andava de um lado para o outro, assoviando vivamente. De repente o assovio foi diminuindo até desaparecer. Ele sentou-se na beira da cama. Depois enterrou o rosto nas mãos e pôs-se a soluçar. Murmurou infantilmente: — Não posso continuar.

 E então, sua disposição alterou-se. Ele levantou-se, endireitou os ombros. — Tenho que continuar. Tenho que ir até o fim com isso.

 Giles estava ao lado do telefone do seu quarto. Curvou-se até o rodapé. Ali encontrou uma luva de Molly. Apanhou-a. De dentro dela caiu uma passagem de ônibus cor-de-rosa. Giles ficou-lhe observando a queda. Examinando-a bem, seu rosto mudou. O homem que andou vagarosamente, como num sonho, abriu a porta e ficou um momento com o olhar perdido, parecia outro.

 Molly terminou de descascar as batatas, jogou-as dentro de uma vasilha e colocou-as no fogo. Olhou para o forno. Tudo saía de acordo com o planejado.

 Sobre a mesa da cozinha, uma cópia do Evening Standard de dois dias atrás. Ao vê-lo, franziu o cenho. Se ao menos pudesse se lembrar...

 De repente, levou a mão aos olhos. — Ah, não — disse Molly. — Ah, não!

 Aos poucos afastou as mãos dos olhos. Olhou à volta da cozinha como alguém que está num lugar estranho. Tão quentinha, confortável e espaçosa recendendo ligeiramente a comidas saborosas.

 — Ah, não — repetiu baixinho.

 Foi andando devagar, como sonâmbula, em direção ao vestíbulo. Abriu a porta. A casa estava mergulhada em silêncio, a não ser por alguém que assoviava.

 Aquela melodia...

 Molly estremeceu e recuou. Esperou um pouco, olhando mais uma vez para a cozinha que lhe era familiar. Sim, tudo estava em ordem e progredindo. Dirigiu-se uma vez mais para a porta da cozinha.

 Major Metcalf descera tranqüilamente pelas escadas dos fundos. Ele esperou alguns momentos no vestíbulo, abriu a porta do grande armário sob as escadas e examinou-o curiosamente. Tudo parecia quieto. Ninguém por ali. Não podia haver melhor hora para cumprir o que determinara fazer...

 A Sra. Boyle, na biblioteca, girou os botões do rádio com alguma irritação.

 Na primeira tentativa, pegara uma conferência sobre a origem e significação das histórias infantis em verso. A última coisa que queria ouvir. Mudando, impaciente, de estação, foi informada por uma voz refinada: “A psicologia do medo deve ser totalmente entendida. Vamos dizer que você se encontre sozinha numa sala. Uma porta se abre suavemente por trás de você...”.

 A Sra. Boyle, terrivelmente sobressaltada, virou-se rápida. — Ah, é você — disse aliviada. — Que programas idiotas. Não consigo encontrar nada que valha a pena ouvir.

 — Não me daria ao trabalho de ouvir, Sra. Boyle.

 A Sra. Boyle vociferou: — E que mais posso fazer? — perguntou. — Trancada com um possível assassino — não que acreditasse naquela história melodramática, por nenhum momento...

 — Não acredita, Sra. Boyle?

 — O que — o que quer dizer?

 A faixa de uma capa de chuva se enrolara tão depressa em volta do pescoço que ela mal percebeu seu significado. O rádio agora tocava mais alto. O conferencista sobre a psicologia do medo gritou as cultas observações na sala e abafou quaisquer barulhos eventuais concomitantes à morte da Sra. Boyle.

 Mas não houve muito barulho.

 O assassino era muito esperto para deixar que isso acontecesse.

 Estavam todos amontoados na cozinha. No fogão, as batatas borbulhavam alegremente. O delicioso cheiro de torta de fígado, que emanava do forno, enchia a cozinha.

 Quatro pessoas abaladas entreolhavam-se; a quinta, Molly, pálida e trêmula, dava pequenos goles no uísque que a sexta pessoa, o Sargento Trotter, forçava-a a beber.

 O próprio Sargento Trotter, zangado, olhava para todos reunidos. Apenas cinco minutos se haviam passado desde que os gritos apavorados de Molly fizeram com que ele e os outros corressem para a biblioteca.

 — Ela acabava de ser morta quando a encontrou, Sra. Davis. Tem certeza de que não viu nem ouviu ninguém quando atravessou o vestíbulo?

 — Alguém assoviando — disse Molly, a voz apagada. — Mas foi um pouco antes, acho. Não tenho certeza, mas creio que ouvi uma porta fechar-se suavemente, em algum lugar, assim que eu... que eu entrei na biblioteca.

 — Que porta?

 — Não sei.

 — Pense, Sra. Davis — tente pensar — em cima, embaixo, à esquerda, à direita?

 — Não sei, estou lhe dizendo — gritou Molly. — Vai ver que nem ouvi nada.

 — Não pode parar de importuná-la? — disse Giles, irado. — Não está vendo o estado em que se encontra?

 — Estou investigando um assassinato, Sr. Davis, desculpe-me, Comandante Davis.

 — Não uso minha patente de guerra, sargento.

 — É verdade, senhor. — Ele fez uma pausa como se tivesse dito alguma coisa sutil. — Como dizia, estou investigando um assassinato. Até agora ninguém tinha levado a coisa com seriedade. A Sra. Boyle me sonegou informação. Aliás, todos vocês. Bom, a Sra. Boyle está morta. E, a não ser que se vá ao fundo disso — e rapidamente —, pode haver outra morte.

 — Outra? Tolice. Por quê?

 — Porque — respondeu o sargento, circunspecto — havia três ratinhos cegos.

 Giles disse, incrédulo: — Uma morte para cada um deles? Mas teria que haver uma ligação — quer dizer — uma outra ligação com o caso.

 — Sim, teria que haver.

 — Mas por que outra morte aqui?

 — Porque só havia dois endereços no caderninho. Só existia uma possível vítima em Culver Street, setenta e quatro. Ela está morta. Mas em Monkswell o campo é mais vasto.

 — Bobagem, Trotter. Seria uma coincidência improvável, duas pessoas vindas aqui por acaso, ambas com uma parcela de culpa no caso da Fazenda Longridge.

 — Devido a certas circunstâncias, não seria tanta coincidência assim. Pense um pouco, Sr. Davis. — Ele dirigiu-se também aos outros. — Já me disseram onde estavam quando a Sra. Boyle foi morta. Vou verificar a versão de cada um. O senhor estava no seu quarto, Sr. Wren, quando ouviu a Sra. Davis gritar?

 — Estava, sargento.

 — Sr. Davis estava lá em cima no quarto examinando a extensão telefônica?

 — Estava — disse Giles.

 — O Sr. Paravicini, na sala de estar, tocava melodias ao piano. Ninguém o ouviu tocar, Sr. Paravicini?

 — Estava tocando muito, muito baixinho, sargento, só com um dedo.

 — E o que tocava?

 — OS Três Ratos Cegos, sargento. — Ele sorriu. — A mesma coisa que o Sr. Wren assoviava lá em cima. A melodia que está na cabeça de todo mundo.

 — É uma música horrível — disse Molly.

 — E o fio do telefone? — perguntou Metcalf. — Foi cortado deliberadamente?

 — Foi, major. Uma secção foi cortada do lado de fora da janela da sala; acabara de localizar o corte quando a Sra. Davis gritou.

 — Mas é uma loucura. Como podemos esperar resolver alguma coisa? — perguntou Christopher, estridente.

 O sargento observou-o atentamente.

 — Talvez ele não ligue muito para isso — disse ele. — Ou, talvez tenha certeza de que é muito esperto para nós. Os assassinos ficam assim, sabe? — Ele acrescentou: — No nosso treinamento, fazemos um curso sobre psicologia. A esquizofrenia é muito interessante.

 — Vamos deixar de muita conversa? — disse Giles.

 — Certamente, Sr. Davis. No momento devemos nos preocupar com duas palavras curtas: uma é morte e a outra, perigo. É nisso que nos concentraremos. Agora, Major Metcalf, quero esclarecer bem seus movimentos. O senhor disse que estava no porão — Por quê?

 — Só estava dando uma olhada — disse o Major. — Espiei aquele armário sob a escada e então notei uma porta; quando a abri vi um lance de escadas e resolvi descer. Vocês têm bonitos porões — disse a Giles. — Cripta de um antigo monastério, eu diria.

 — Não estamos interessados em pesquisas sobre coisas antigas, Major Metcalf. Estamos investigando um assassinato. A senhora pode escutar por um momento, Sra. Davis? Vou deixar a porta aberta. — Ele saiu. Uma porta fechou-se com um leve rangido. — Foi isso o que ouviu, Sra. Davis? — perguntou ele ao reaparecer.

 — É, parece que sim.

 — Foi a porta do armário que fica sob as escadas. Pode ser que, depois de matar a Sra. Boyle, o assassino, esquivando-se pelo vestíbulo, a tenha ouvido sair da cozinha e tenha ido esconder-se neste armário, fechando a porta ao entrar.

 — Então, suas impressões digitais estarão do lado de dentro do armário — disse Christopher.

 — As minhas já estão lá — disse o Major Metcalf.

 — É verdade — disse o sargento. — Mas temos uma explicação satisfatória para elas, não temos?

 — Escute aqui, sargento — disse Giles —, é claro que está encarregado deste caso. Mas esta é minha casa e, até certo ponto, me sinto responsável pelas pessoas aqui hospedadas. Não deveríamos tomar medidas preventivas?

 — Tais como?

 — Bom, para ser franco, prendendo a pessoa claramente indicada como o principal suspeito.

 Ele olhou diretamente para Christopher Wren. • Christopher Wren deu um pulo para frente, a voz lhe saiu alta, estridente, histérica. — Não é verdade! Não é verdade! Estão todos contra mim. Estão sempre todos contra mim. Vai-me incriminar por isso. Isso é perseguição — perseguição...

 — Calma, rapaz — disse o Major Metcalf.

 — Está tudo bem, Chris. — Molly aproximou-se. Colocou-lhe a mão sobre o braço. — Ninguém está contra você. Diga a ele que está tudo bem — disse ela ao sargento.

 — Não incriminamos as pessoas — disse o sargento.

 — Diga-lhe que não vai prendê-lo.

 — Não vou prender ninguém. Para fazer isso preciso de provas e, até agora, não há nenhuma.

 Giles perdeu a paciência: — Acho que está maluca, Molly. E você também, sargento. Só uma pessoa se encaixa e...

 — Espere, Giles, espere — interrompeu Molly. — Oh, fique quieto, Sargento Trotter, posso — posso falar com o senhor um instantinho?

 — Eu fico — disse Giles.

 — Não, Giles, você também, por favor.

 Giles ficou muito carrancudo. Ele disse: — Não sei o que aconteceu com você, Molly.

 Ele saiu da sala junto com os outros e bateu a porta.

 — Sargento Trotter, quando nos contou sobre o caso da Fazenda Longridge, parecia acreditar que o menino mais velho fosse o responsável por tudo isso. Mas não tem certeza disso?

 — Realmente, não tenho certeza. Mas as probabilidades levam a isso — instabilidade mental, deserção do Exército, relatório psiquiátrico.

 — Ah, eu sei, e portanto tudo leva a apontar Christopher. Mas não acredito que seja ele. Deve haver outras possibilidades. Estas três crianças não tinham parentes, por exemplo, os pais?

 — Tinham. A mãe já havia morrido. Mas o pai servia fora.

 — E ele? Onde está ele agora?

 — Não temos informação. Foi reformado no ano passado.

 — E se o filho era desequilibrado, o pai também podia ser.

 — É verdade.

 — Assim sendo, o assassino pode ter meia-idade ou ser velho. Lembre-se de que o Major Metcalf ficou terrivelmente aborrecido quando lhe disse que a polícia acabara de telefonar. Realmente ficou.

 O Sargento Trotter disse, calmo: — Por favor, acredite-me, Sra. Davis, desde o começo tinha todas as possibilidades na cabeça. O menino — Jim, o pai, até mesmo a irmã. Poderia ser uma mulher. Não negligenciei nada. Tenho cá minhas convicções, mas ainda não sei. É muito difícil saber sobre alguma coisa ou alguém, principalmente hoje em dia. A senhora nem imagina o que anda a polícia, ainda mais com os casamentos apressados, casamentos por causa da guerra. Não se tem o histórico da pessoa. Sem famílias nem parentes. As pessoas aceitam a palavra das outras. O cara diz que é piloto ou major do Exército e a garota acredita. Às vezes ela descobre, passados um ou dois anos, que ele é um bancário foragido, com mulher e filhos, ou um desertor.

 Ele fez uma pausa e continuou:

 — Sei muito bem o que lhe vai pela cabeça, Sra. Davis. Só há uma coisa que gostaria de lhe dizer. O assassino está se divertindo. Disso, tenho plena certeza.

 Ele dirigiu-se à porta.

 Molly permaneceu muito quieta, as faces em fogo. Ficou estática por alguns momentos e depois encaminhou-se lentamente para o fogão, ajoelhou-se e abriu a porta do forno. Sentiu um cheiro bom, familiar. Sentiu o coração mais leve. Era como se, de repente, voltasse à querida rotina de todos os dias. Cozinha, trabalho de casa, enfim, uma vida comum e prosaica.

 Pois, desde tempos imemoriais, as mulheres cozinham para os homens. O mundo do perigo, da loucura, fica para trás. As mulheres em suas cozinhas estão a salvo, eternamente.

 A porta da cozinha se abriu. Ela voltou a cabeça quando Christopher Wren entrou. Ele estava um tanto sem fôlego.

 — Minha querida — disse ele. — Que baderna! Alguém roubou os esquis do sargento.

 — Os esquis do sargento? Mas por que alguém haveria de fazer isso?

 — Realmente não consigo imaginar. Quer dizer, se o sargento decidisse ir embora e nos deixar, penso que o assassino só possa ficar muito contente. Não faz o menor sentido, faz?

 — Giles os colocou no armário sob as escadas.

 — Não estão mais lá. Que estranho! — Ele riu alto. — O sargento está muito zangado com isso. Rabugento como uma tartaruga. Jogou a culpa no pobre do Major Metcalf. Este insiste em dizer que não notou se estavam lá ou não quando ele olhou o armário, pouco antes da Sra. Boyle ser assassinada. Trotter diz que ele deve ter notado. Se quiser saber — Christopher baixou a voz e inclinou-se para frente —, este negócio está deprimindo o sargento.

 — Está deprimindo a todos nós — disse Molly.

 — A mim, não. Estou achando muito estimulante. Ê tudo tão deliciosamente irreal.

 Molly disse, ríspida: — Não diria isso se fosse o senhor que a encontrasse. A Sra. Boyle. Continuo pensando nisso. Não consigo esquecer. O rosto dela, todo inchado, roxo.

 Ela estremeceu. Christopher aproximou-se. Colocou-lhe a mão no ombro.

 — Eu sei. Sou um idiota. Não pensei.

 Molly reprimiu um soluço. — Agora mesmo parecia tudo tão bom, tão certo, cozinhando — a cozinha — ela falava de maneira confusa e incoerente. — E então, de repente, tudo voltou, como num pesadelo.

 Christopher Wren permaneceu olhando-a, uma expressão estanha no rosto.

 — Compreendo — disse ele. — Compreendo. — Ele começou a afastar-se. — Bom, é melhor eu sair para não interrompê-la.

 Molly gritou: — Não vá! — assim que colocou a mão sobre a maçaneta.

 Ele voltou-se, o olhar inquisitivo. E então voltou devagar.

 — Fala sério?

 — Sobre o quê?

 — Realmente não quer que eu vá?

 — Não, não quero. Não quero ficar sozinha. Estou com medo de ficar sozinha.

 Christopher sentou-se perto da mesa. Molly inclinou-se, apanhou a torta e colocou-a na prateleira de cima, fechou a porta do forno e foi para junto dele.

 — Isso é muito interessante — disse Christopher, monocórdio.

 — O quê?

 — Que não esteja com medo de ficar sozinha comigo. Não está, não é?

 Ela balançou a cabeça. — Não, não estou.

 — Por que não está com medo, Molly?

 — Não sei. Não estou.

 — No entanto, sou a única pessoa que se encaixa na descrição do assassino.

 — Não — disse Molly. — Há outras possibilidades. Estive conversando com o Sargento Trotter sobre elas.

 — Ele concordou?

 — Não discordou — disse Molly, devagar.

 Certas palavras ficaram-lhe girando na cabeça. Especialmente esta última frase: Sei muito bem o que lhe vai pela cabeça, Sra. Davis. Sabia mesmo? Seria possível? Ele também dissera que o assassino estava se divertindo muito. Seria verdade?

 Ela disse para Christopher: O senhor não está exatamente se divertindo, está? Apesar do que acaba de dizer.

 — Meu Deus, não — respondeu Christopher, perplexo. — Que coisa estranha de se dizer.

 — Oh, não fui eu quem disse. Foi o sargento. Detesto aquele homem. Ele — ele põe coisas na cabeça da gente, coisas que não são verdadeiras, não podem ser verdadeiras.

 Ela colocou as mãos na cabeça, cobrindo os olhos. Muito suavemente, Christopher pegou-lhe as mãos.

 — Escute, Molly, o que há?

 Ela deixou-se levar até a cadeira perto da mesa. Seus modos não eram mais histéricos nem infantis.

 — O que há, Molly?

 Molly olhou-o, um longo olhar aquilatador. Ela perguntou, despropositadamente: — Há quanto tempo o conheço, Christopher? Dois dias?

 — Mais ou menos. Está pensando que, embora seja um curto espaço de tempo, nos conhecemos bem.

 — Sim; é estranho, não é?

 — Ah, não sei. Há uma espécie de compreensão mútua. Possivelmente porque nós dois passamos por apuros.

 Não era uma pergunta. Era uma afirmação. Molly deixou passar. Disse para si mesma, várias vezes, que era uma afirmação, e não uma pergunta. — Seu nome verdadeiro não é Christopher Wren, é?

 — Não.

 — Por que você...

 — Escolheu esse? Bom, me pareceu uma extravagância agravável. Na escola, o pessoal costumava zombar de mim chamando-me de Christopher Robin. Robin, Wren... associação de idéias, acho.

 — Qual o seu verdadeiro nome?

 Christopher disse, sereno: — Acho que não devemos entrar nesse campo. Não significaria nada para você. Não sou um arquiteto. Na verdade, sou desertor do Exército.

 Por um segundo, os olhos de Molly revelaram apreensão.

 Christopher notou. — Sim — disse ele. — Como nosso assassino desconhecido. Eu lhe disse que era o único que se enquadrava nas especificações.

 — Não seja estúpido — disse Molly. — Já lhe disse que não acredito que seja assassino. Por que desertou? Crise nervosa?

 — Por estar com medo? Não, embora seja curioso, não estava com medo, quer dizer, com mais medo do que os outros. Para falar a verdade, ganhei alguma reputação de ser um tanto frio sob tiroteio. Não. Foi por uma coisa bastante diferente. Minha mãe.

 — Sua mãe?

 — Sim, sabe, ela foi morta durante um ataque aéreo. Soterrada. Tiveram que tirá-la de sob os escombros. Não sei o que aconteceu comigo quando ouvi isso — acho que fiquei um tanto louco. Pensei que tivesse acontecido comigo. Senti que tinha que ir depressa para casa e... e me desenterrar; não sei explicar bem, estava tudo tão confuso. — Ele apoiou a cabeça nas mãos e falou com a voz abafada: — Vaguei durante muito tempo à procura dela, ou de mim, não sei. E então, quando as idéias ficaram claras, tive medo de voltar, de me apresentar. Sei que nunca poderia explicar. Desde aí... não sou nada.

 Ele encarou-a, o jovem rosto em desespero.

 — Não deve sentir-se assim — disse Molly docemente. — Pode começar de novo.

 — Será que poderei mesmo?

 — Claro que sim; você é muito jovem.

 — Sei, mas... cheguei ao fim.

 — Não — disse Molly. — Você não chegou ao fim, só pensa que chegou. Acho que todo mundo se sente assim, pelo menos uma vez na vida, pensando que é o fim, que não pode continuar.

 — Você se sentiu, não foi, Molly? Para falar assim, tem que ter sentido.

 — É verdade.

 — E o que aconteceu?

 — Aconteceu comigo o que acontece com uma porção de pessoas. Estava noiva de um jovem piloto de caça e ele foi morto.

 — E não foi nada além disso?

 — Acho que sim. Tive um choque tremendo quando era mais moça. Tive que enfrentar algo bastante cruel e desumano. Isto me fez pensar que a vida fosse sempre horrível. Quando Jack foi morto, confirmou minha crença de que a vida era cruel e traiçoeira.

 — Entendo. E então, suponho, apareceu Giles.

 — Foi — ele percebeu o sorriso quase tímido que lhe passou pelos lábios. — Giles apareceu e tudo ficou seguro, feliz, Giles!

 O sorriso desapareceu-lhe dos lábios. Ela estremeceu como se tivesse frio.

 — O que houve, Molly? O que a assusta? Você está assustada, não está?

 Ela anuiu.

 — E tem a ver com Giles? Alguma coisa que tenha dito ou feito?

 — Não é o Giles, propriamente. É aquele homem horrível.

 — Que homem horrível? — Christopher estava surpreso. — Paravicini?

 — Não, não. O Sargento Trotter.

 — Sugerindo coisas, insinuando coisas, colocando idéias horríveis na minha cabeça sobre Giles, idéias que não sabia que já existiam. Odeio ele, odeio.

 Christopher foi aos poucos levantando as sobrancelhas, surpreso. — Giles? Giles! Sim, claro, ele e eu somos mais ou menos da mesma idade. Ele me parece mais velho do que eu, mas suponho que não seja. Sim, Giles também se enquadra na descrição do criminoso. Mas olhe aqui, Molly, isto não faz o menor sentido. Giles estava aqui com você no dia em que aquela mulher foi assassinada em Londres.

 Molly não respondeu.

 Christopher olhou-a, curioso.

 — Não estava?

 Molly falou de um só fôlego, as palavras jorrando, incoerentes.

 — Saiu o dia todo, de carro, foi ao outro lado da cidade para ver uma cerca que estava em liquidação, pelo menos foi o que disse, e foi o que pensei até... até...

 — Até o quê?

 Lentamente Molly esticou a mão e passou o dedo sob a data do Evening Standard que cobria uma parte da mesa.

 Christopher olhou-o e disse: — Edição de Londres de dois dias atrás.

 — Estava no bolso de Giles quando ele voltou. Ele... ele deve ter estado em Londres.

 Christopher arregalou os olhos, fixando-os primeiro no jornal e depois em Molly. Franziu os lábios e começou a assoviar, mas parou abruptamente. Não adiantaria assoviar aquela melodia justamente agora.

 Escolhendo as palavras com todo o cuidado e evitando olhá-la, ele perguntou: — Até que ponto você realmente conhece Giles?

 — Não! — gritou Molly. — Não pergunte isso! Foi justamente o que aquele animal do Trotter disse ou insinuou. Que as mulheres raramente conheciam alguma coisa sobre o homem com o qual se casavam, principalmente durante a guerra. Sempre aceitam o que eles dizem.

 — Acho que isso é verdade.

 — Você também? Não posso agüentar isso. Tudo porque estamos arrasados, nervosos. Acreditamos em qualquer sugestão fantástica. Não é verdade! Eu...

 Ela calou-se. A porta da cozinha se abriu.

 Giles entrou. Havia cinismo em seu olhar. — Estou interrompendo alguma coisa? — perguntou ele.

 Christopher deslizou pela mesa. — Estou tomando algumas aulas de culinária.

 — Verdade? Escute aqui, Wren, tête-à-têtes não são indicados para o momento atual. Fique fora da cozinha, ouviu?

 — Ah, certamente...

 — Fique longe de minha esposa, Wren. Ela não vai ser a próxima vítima.

 — Ê justamente isso o que me preocupa — disse Christopher. Giles não prestou atenção se aquelas palavras faziam sentido ou não. Simplesmente voltou o rosto rubro de ira mal contida. — Pode deixar que eu me preocupo — disse ele. — Posso cuidar de minha mulher. Dê o fora daqui.

 Molly disse numa voz clara: — Por favor, Christopher, vá.

 Christopher encaminhou-se lentamente para a porta. — Não irei muito longe — disse ele, e as palavras se dirigiam a Molly, carregadas de um significado bastante definido.

 — Quer fazer o favor de sair?

 Christopher soltou uma risadinha alta e infantil. — Sim senhor, comandante.

 Saiu fechando a porta. Giles voltou-se para ela.

 — Pelo amor de Deus, Molly, você não tem juízo? Fechada aqui com um perigoso maníaco homicida!

 — Ele não é... — ela alterou a frase rapidamente —, ele não é perigoso. De qualquer jeito, estou alerta. Posso cuidar-me.

 Giles riu de maneira desagradável. — A Sra. Boyle também podia.

 — Oh, Giles, pare com isso.

 — Desculpe, minha querida. Estou com os nervos em frangalhos. Mas aquele mísero rapaz... não sei o que vê nele.

 Molly disse, devagar: — Tenho pena dele.

 — Pena de um lunático homicida?

 Molly lançou-lhe um olhar curioso. — Poderia ter pena de um lunático homicida.

 — E chamando-o de Christopher, também. Desde quando se tratam pelo primeiro nome?

 — Oh, Giles, não seja ridículo. Todo mundo usa o primeiro nome hoje em dia. Você sabe disso.

 — Mesmo depois de dois dias? Mas talvez seja mais do que isso. Talvez o conhecesse antes, este falso arquiteto Christopher Wren. Talvez sugerisse sua vinda para cá. Talvez os dois tenham tramado tudo isso.

 Molly arregalou os olhos. — Giles, você ficou louco? Por Deus, o que está sugerindo?

 — Estou sugerindo que Christopher Wren é um velho amigo e que vocês mantêm um relacionamento mais íntimo do que querem aparentar.

 — Giles, você deve estar louco.

 — Acho que você vai sustentar que nunca o viu antes que entrasse aqui. É meio estranho que tenha vindo parar num lugar tão contramão, não é?

 — Mais estranho do que a vinda do Major Metcalf e... e da Sra. Boyle?

 — É, acho que é. Sempre li que estes lunáticos têm fascinação pelas mulheres. Parece que é verdade. Como o conheceu? Há quanto tempo isso vem acontecendo?

 — Não seja absurdo, Giles. Nunca tinha visto Christopher Wren antes de ele chegar aqui.

 — Você não foi a Londres há dois dias para se encontrar com ele e combinar de se encontrarem aqui como estranhos?

 — Você sabe muito bem que há várias semanas que não vou a

 Londres.

 — Não? Isso é muito interessante. — Pescou no bolso uma luva e mostrou-a. — Esta é uma das luvas que você usava anteontem, não era? No dia em que eu estava em Sailham para comprar a cerca.

 — No dia em que você estava em Sailham para comprar a cerca — disse Molly, olhando-o fixamente. — Sim, usei essas luvas quando saí.

 — Você disse que foi até a Cidade. Se só foi até lá, o que isso está fazendo dentro da luva?

 Acusadoramente, mostrou a passagem rosa de ônibus. Houve um momento de silêncio.

 — Você foi a Londres — disse Giles.

 — Está certo — disse Molly levantando o queixo. — Fui a Londres.

 — Para encontrar esse cara, Christopher Wren?

 — Não, não foi para encontrar Christopher.

 — Então, para que foi?

 — Não vou contar-lhe neste momento, Giles.

 — Quer dizer que vai dar tempo a si mesma para inventar uma boa história.

 — Acho que o odeio — disse ela.

 — Eu não a odeio — disse Giles, lentamente. — Mas quase que gostaria que isso fosse verdade. Sinto que... que não a conheço mais. Não sei nada sobre você.

 — Sinto a mesma coisa — disse Molly. — Você é apenas um estranho. Um homem que mente para mim...

 — Quando menti para você?

 Molly riu. - Acha que acreditei naquela história da cerca? Você esteve em Londres também, naquele dia.

 — Com certeza você me viu lá — disse Giles. — E não confiou em mim o bastante...

 — Confiar em você? Nunca mais vou confiar em ninguém, nunca.

 Nenhum dos dois notou que a porta se abrira suavemente. O Sr. Paravicini tossiu um pouco.

 — Tão embaraçoso — murmurou. — Realmente espero que vocês não estejam dizendo coisas que realmente não sentem. Isso é tão comum na discussão entre amantes!

 — Discussão entre amantes — disse Giles, sarcástico. — Essa é boa.

 — Sem dúvida, sem dúvida — disse o Sr. Paravicini. — Sei como se sentem. Já passei por isso quando era jovem. Mas só vim para dizer que o inspetor insiste para que passemos à sala de estar. Parece que tem uma idéia. — O Sr. Paravicini soltou um risinho abafado. — A polícia tem pistas, ouve-se isso freqüentemente. Mas uma idéia? Duvido muito. Um oficial zeloso e esforçado, nosso Sargento Trotter, mas não é muito dotado de inteligência.

 — Vá, Gilles — disse Molly. — Tenho que acabar de fazer o almoço. O Sargento Trotter pode arranjar-se sem mim.

 — Por falar nisso — disse o Sr. Paravicini, saltitando agilmente pela cozinha e aproximando-se de Molly —, já experimentou fígado de galinha servido na torrada previamente recheada com grossa camada de foie gras e uma fatia fininha de bacon, salpicada de mostarda?

 — Não se vê muito foie gras hoje em dia — disse Giles. — Vamos, Paravicini.

 — Quer que fique para ajudá-la, querida dama?

 — Você vem para a sala, Paravicini — disse Giles. O Sr. Paravicini riu suavemente.

 — Seu marido teme por você. Muito natural. Não quer nem saber de deixá-la sozinha comigo. Teme minhas tendências sádicas, não as desonrosas. Me rendo. — Curvou-se graciosamente e beijou a ponta dos dedos.

 Molly disse, sem jeito: — Oh, Sr. Paravicini, tenho certeza...

 O Sr. Paravicini balançou a cabeça. Disse para Giles: — Você é muito sábio, meu jovem. Não se arrisque. Posso provar a você, ou ao inspetor, que não sou um maníaco homicida? Não, não posso. Negativas são coisas difíceis de se provar.

 Ele cantarolou, alegre.

 Molly retraiu-se.

 — Por favor, Sr. Paravicini, esta melodia horrorosa, não.

 — Os Três Ratos Cegos! A melodia ficou na minha cabeça. Agora que prestei mais atenção... é realmente uma musiquinha horrorosa. Não são versos bonitos. Mas as crianças gostam de coisas que assustam. Já notou isso? Esta é bastante inglesa. — O cruel e bucólico campo inglês. "Cortou o rabo deles com um trinchante”.Claro que as crianças adorariam isso; poderia contar para vocês coisas sobre crianças...

 — Por favor, não faça isso — pediu Molly, baixinho. — Acho que o senhor é cruel também. — Sua voz foi ficando mais alta, histérica. — O senhor ri e sorri, como um gato brincando com o rato, brincando...

 Ela começou a rir.

 — Calma, Molly — disse Giles. — Venha. Vamos juntos para a sala. Trotter vai ficar impaciente. Não se incomode com o almoço. Assassinatos são mais importantes do que comida.

 — Não tenho certeza de concordar com você — disse Paravicini, seguindo-os com passos lépidos e saltitantes. — O condenado tomou um lauto café da manhã — é o que sempre dizem.

 Christopher Wren juntou-se a eles no vestíbulo, e Giles o recebeu muito carrancudo. Olhou para Molly ansioso, mas ela, de cabeça alta, caminhava olhando para frente. Marcharam quase que como uma procissão para a sala. Paravicini vinha atrás com os passinhos saltitantes.

 O Major Metcalf estava de pé, esperando na sala. Parecia mal-humorado. O sargento, corado e enérgico, disse ao entrarem:

 — É isso mesmo. Queria todos juntos. Quero fazer uma certa experiência e para isso necessito de cooperação.

 — Vai levar muito tempo? — perguntou Molly. — Estou um tanto ocupada na cozinha. Afinal de contas, temos que comer alguma coisa.

 — Sim, também gostaria muito, Sra. Davis. Mas, a meu ver, há coisas mais importantes do que refeições! A Sra. Boyle, por exemplo, não precisa de outra refeição.

 — Francamente, sargento — disse o major. — Que maneira inábil de colocar as coisas.

 — Desculpe, major, mas quero que todo mundo coopere com o que vou fazer.

 — Encontrou os esquis, sargento? — perguntou Molly.

 O jovem enrubesceu. — Não, não os encontrei, Sra. Davis. Mas posso adiantar que tenho sérias suspeitas sobre quem os apanhou. E por que os apanhou. Por enquanto, não direi mais nada.

 — Por favor, não diga — pediu Paravicini. — Sempre achei que as explicações devem ser guardadas para o finalzinho, o último e emocionante capítulo.

 — Isso não é uma brincadeira, senhor.

 — Não é? Agora acho que o senhor está errado. Acho que é uma brincadeira para alguém.

 — O assassino está se divertindo — murmurou Molly. Os outros a olharam, perplexos. Ela corou.

 — Só estou repetindo o que o Sargento Trotter me disse.

 O Sargento Trotter não parecia muito satisfeito. — Está muito bem; o Sr. Paravicini mencionando últimos capítulos e falando como se isso fosse um romance policial — ele disse. — Isto é real. Está acontecendo.

 — Contanto que — disse Christopher Wren, passando delicadamente a ponta dos dedos pelo pescoço — não aconteça comigo.

 — Ora, vamos — disse o Major Metcalf. — Pare com isso, rapaz. O sargento vai nos dizer o que quer que a gente faça exatamente.

 Trotter temperou a garganta. Sua voz tornou-se autoritária.

 — Anotei as declarações de cada um de vocês há pouco tempo atrás. Estas dizem onde se encontravam na hora em que a Sra. Boyle foi assassinada. O Sr. Wren e o Sr. Davis estavam cada um no seu quarto. A Sra. Davis estava na cozinha. Major Metcalf no porão. O Sr. Paravicini nesta sala...

 Ele fez uma pausa e depois continuou.

 — Foi isso o que disseram. Não tenho meios de verificar essas afirmações. Podem ser verdadeiras, ou não. Falando claramente, quatro dessas declarações são Verdadeiras — mas uma delas é falsa. Qual?

 Olhou para um de cada vez. Ninguém falou.

 — Quatro estão falando a verdade; um está mentindo. Tenho um plano que pode me ajudar a descobrir o mentiroso. Se descobrir aquele que me mentiu — então saberei quem é o criminoso.

 Giles disse rispidamente: — Não, necessariamente. Alguém pode ter mentido por outras razões.

 — Duvido muito, Sr. Davis.

 — Mas qual é o plano, homem? Acabou de dizer que não tem meios de verificar essas afirmações.

 — Não, mas vamos supor que todos fizessem os mesmos movimentos pela segunda vez?

 — Ora! — exclamou o Major com desagrado. — Reconstituição do crime. Idéia estrangeira.

 — Não é uma reconstituição do crime, Major Metcalf. Uma reconstituição dos movimentos de pessoas aparentemente inocentes.

 — E o que espera saber de nós?

 — Desculpe-me, mas não vou esclarecer isso agora.

 — O senhor quer uma repetição do desempenho? — perguntou Molly.

 — Mais ou menos, Sra. Davis.

 Fez-se silêncio. De alguma maneira era um silêncio constrangedor.

 "É uma armadilha", pensou Molly. "É uma armadilha. Mas não sei como...”.

 — Você poderia pensar que havia cinco culpados na sala em vez de um culpado e quatro inocentes. — Todos lançaram olhares de soslaio para o sorridente e ousado rapaz que propôs esta manobra aparentemente inocente.

 Christopher disse, estridente: — Mas não entendo, simplesmente não entendo, o que espera descobrir fazendo as pessoas agirem como agiram antes. Para mim parece bobagem!

 — Parece, Sr. Wren?

 — Claro que o senhor é quem manda, sargento — disse Giles. — Nós vamos cooperar. Temos que fazer exatamente o que fizemos antes?

 — As mesmas ações serão desempenhadas, sim.

 Uma ligeira ambigüidade na frase fez o Major Metcalf olhar repreensivamente para o sargento. Este continuou:

 — O Sr. Paravicini nos disse que foi ao piano e tocou uma certa melodia. Pode, por gentileza, mostrar o que fez exatamente, Sr. Paravicini?

 — Certamente, meu caro sargento.

 O Sr. Paravicini atravessou agilmente a sala e sentou-se no banquinho do piano.

 — O maestro ao piano irá tocar o prefixo musical de um assassino — disse, fazendo uma reverência.

 Ele arreganhou os dentes e, com elaborada afetação, tocou com um dedo a melodia de Os Três Ratos Cegos.

 "Ele está se divertindo", pensou Molly. "Ele está se divertindo".

 Na grande sala, aquelas notas macias, quase em surdina, tiveram um lúgubre efeito.

 — Obrigado, Sr. Paravicini — disse o sargento. — Pelo que entendi, foi exatamente assim que tocou a melodia da... da outra vez?

 — Sim, sargento. E a repeti três vezes.

 Sargento Trotter voltou-se para Molly. — Toca piano, Sra. Davis?

 — Toco, sargento.

 — Poderia tocar esta melodia, como o Sr. Paravicini fez, tocando exatamente da mesma maneira?

 — Claro que sim.

 — Então quer fazer o favor de sentar-se ao piano e fazê-lo quando lhe der o sinal?

 Molly ficou um pouco espantada. Depois dirigiu-se lentamente ao piano.

 O Sr. Paravicini levantou-se protestando, veemente: — Mas, sargento, pensei que cada um fosse repetir o papel anterior. Eu estava sentado aqui.

 — Serão realizadas as mesmas ações mas, não, necessariamente pelas mesmas pessoas.

 — Eu não vejo o objetivo disso — disse Giles.

 — Há um objetivo, Sr. Davis. Ê um meio de verificar as afirmações anteriores e, devo dizer, de uma afirmação em particular. Agora, vou-lhes passar as tarefas. A Sra. Davis ficará aqui, ao piano. Sr. Wren, quer ter a bondade de ir para a cozinha? Dê uma olhadinha no forno para a Sra. Davis. Sr. Paravicini, quer ir para o quarto do Sr. Wren? Lá, pode exercitar seu talento musical assoviando Os Três Ratos Cegos, como ele. Major Metcalf, quer ir para o quarto do Sr. Davis e examinar o telefone? E o senhor, Sr. Davis, quer olhar no armário do vestíbulo e depois descer ao porão?

 Houve um momento de silêncio. Depois as quatro pessoas movimentaram-se lentamente em direção à porta. Trotter seguiu-os. Olhou por sobre o ombro.

 — Conte até cinqüenta e comece a tocar, Sra. Davis — disse ele.

 Saiu junto com os outros. Antes da porta se fechar, Molly ouviu Paravicini dizer, a voz aguda: — Nunca soube que a polícia gostava de jogos de salão.

 — Quarenta e oito, quarenta e nove, cinqüenta. Obedientemente, ao acabar de contar, Molly começou a tocar.

 Mais uma vez a musiquinha cruel foi penetrando na sala enorme.

 

 Três Ratos Cegos

 Vejam como correm...

 

 Molly sentiu o coração bater cada vez mais depressa. Como dissera Paravicini, esta era uma melodia obcecante, horrenda. Continha aquela incompreensão infantil da piedade, tão aterrorizante para um adulto.

 Lá de cima chegava-lhe, baixinho, a mesma melodia assoviada por Paravicini, fazendo o papel de Christopher Wren.

 De repente, na sala contígua, o rádio foi ligado. Devia ser o sargento Trotter. Então ele estava desempenhando o papel da Sra. Boyle.

 Mas por quê? Qual o objetivo disso tudo? Onde estava a armadilha? Pois havia uma armadilha, quanto a isso não tinha a menor dúvida.

 Uma corrente de ar frio soprou-lhe o pescoço. Rapidamente ela voltou a cabeça. A porta fora aberta, tinha certeza. Alguém entrara na sala... Não, a sala estava vazia. Mas, de repente, sentiu-se nervosa, amedrontada. E se entrasse alguém? E se o Sr. Paravicini viesse, saltitante, se aproximasse lépido do piano, torcendo os longos dedos...

 — Então está tocando sua própria marcha fúnebre, querida senhora, uma idéia acertada — Bobagem, não seja estúpida, não imagine coisas. Além do mais, você pode ouvi-lo assoviar, lá em cima. Da mesma maneira que ele pode ouvir você.

 Ela quase tirou as mãos do piano quando teve esta idéia! Ninguém ouviu o Sr. Paravicini tocar. Seria essa a armadilha? Será que o Sr. Paravicini chegou mesmo a tocar? Será que, em vez de estar na sala, estivera na biblioteca? Na biblioteca, estrangulando a Sra. Boyle?

 Ele ficara muito aborrecido, muito mesmo, quando Trotter a fez tocar. Ele enfatizara bem que tocou muito baixinho. Enfatizou na esperança de que, de tão baixo, não pudesse ter sido ouvido fora da sala. Porque se alguém ouvisse agora o que não ouviu antes, ora, então, Trotter conseguiria o que planejara: pegar a pessoa que mentira.

 A porta da sala de estar foi aberta. Molly, na expectativa de encontrar Paravicini, quase gritou. Mas foi apenas o Sargento Trotter que entrou, assim que ela acabava de repetir, pela terceira vez, aquela melodia.

 — Obrigado, Sra. Davis — disse ele.

 Parecia bastante satisfeito consigo mesmo, e seus movimentos eram rápidos, confiantes.

 Molly tirou a mão do teclado. — Conseguiu o que queria? — perguntou.

 — Sim — exultou. — Consegui exatamente o que queria.

 — Quem? Qual?

 — Não sabe, Sra. Davis? Ora, vamos, não é assim tão difícil. A propósito, a senhora foi muito tola. Me deixou caçar a terceira vítima. Conseqüentemente, esteve correndo sério risco.

 — Eu? Não sei o que quer dizer.

 — Quero dizer que não foi honesta comigo, Sra. Davis. Sonegou informação, assim como a Sra. Boyle.

 — Não compreendo.

 — Ah, sim, compreende. Quando falei pela primeira vez no caso da Fazenda Longridge, a senhora sabia tudo sobre ele. Sabia, sim. Ficou perturbada. E foi a senhora quem confirmou que a Senhora Boyle era a encarregada do alojamento desta parte da cidade. A senhora e ela são daqui. Então, quando comecei a especular sobre quem seria a próxima vítima, dei meu voto imediato à senhora. Demonstrou conhecimento sobre o assunto da Fazenda. Nós, policiais, não somos tão burros quanto parecemos ser.

 Molly disse, baixinho: — O senhor não compreende. Eu não queria me lembrar.

 — Isso eu posso compreender. — A voz dele alterou-se um pouco. — Seu nome de solteira era Wainwright, não é?

 — Exatamente.

 — E é um pouquinho mais velha do que diz ser. Em 1940, quando isto aconteceu, a senhora era professora da Escola Abbeyvale.

 — Não!

 — Era sim, Sra. Davis.

 — Não era, estou-lhe dizendo.

 — A criança que morreu conseguiu obter uma carta endereçada à senhora. Ele roubou o selo. A carta pedia ajuda — ajuda de sua bondosa professora. É assunto da professora descobrir por que um aluno não vai ao colégio. A senhora não descobriu. A senhora ignorou a carta do pobre-diabo.

 — Pare. — O rosto de Molly estava afogueado. — O senhor está falando de minha irmã. Ela era a diretora do colégio. E não ignorou a carta. Estava doente, com pneumonia. Ela só chegou a ver a carta depois que o menino já estava morto. E isso a perturbou terrivelmente, terrivelmente. Era uma pessoa muito sensível. Mas não foi culpa dela. E, como ela ficou assim tão magoada, nunca consigo me lembrar do caso sem ficar perturbada. Para mim, foi sempre um pesadelo.

 Molly cobriu os olhos com as mãos. Quando as tirou do rosto, Trotter a estava fitando.

 E disse, suavemente: — Então era sua irmã. — Ele sorriu de maneira estranha. — Já não importa muito, não é? Sua irmã, meu irmão... Ele tirou alguma coisa do bolso. Sorria agora, feliz.

 Molly olhou para o objeto que segurava. — Pensei que os policiais não andassem de revólver — disse ela.

 — Os policiais não andam — disse o rapaz. E continuou: — Mas sabe, Sra. Davis, não sou um policial. Sou Jim, irmão de Georgie. Pensou que eu fosse um policial porque telefonei do posto telefônico, na aldeia, e disse que enviaria o Sargento Trotter. E então cortei os fios telefônicos da casa quando cheguei, de modo que não pudessem telefonar para a delegacia.

 Molly arregalou os olhos. O revólver estava apontado para ela, agora.

 — Não se mexa, Sra. Davis e não grite, senão puxo o gatilho. Ele continuava a sorrir. Era, percebeu Molly, horrorizada, um sorriso infantil. E sua voz, ao falar, estava se transformando na voz de uma criança.

 — Sim, sou o irmão de Georgie. Georgie morreu na Fazenda Longridge. Aquela malvada nos mandou para lá e a mulher do fazendeiro foi muito má com a gente e a senhora não nos ajudou — três ratinhos cegos. Então eu disse que mataria cada um de vocês quando crescesse. E realmente tinha intenção de cumprir o planejado. Vivi pensando nisso. — De repente, franziu o cenho. — Eles me amolaram muito no Exército — o médico vivia me fazendo perguntas, eu tinha que fugir. Tinha medo de que eles me impedissem de fazer o que tinha que ser feito. Mas agora já estou crescido. Os adultos podem fazer o que quiser.

 Molly controlou-se. — Fale com ele — disse para si mesma. — Distraia-o.

 — Mas ouça, Jim, você nunca vai escapar com segurança. Seu rosto ficou sombrio. — Alguém tirou meus esquis. Não consigo encontrá-los — ele riu. — Mas está tudo bem. Este é o revólver de seu marido. Tirei da gaveta. Vão pensar que ele atirou na senhora. De qualquer maneira, não me interessa. Foi tudo muito distraído. Fingir! Aquela mulher em Londres, a cara dela quando me reconheceu. Aquela estúpida mulher, hoje de manhã.

 Claramente, com efeitos lúgubres, chegava-lhes ao ouvido um assovio. Alguém assoviava a melodia dos Três Ratos Cegos.

 Trotter arregalou os olhos, o revólver oscilou — uma voz gritou: — Abaixe-se, Sra. Davis.

 Molly jogou-se no chão enquanto o Major Metcalf, saindo do esconderijo atrás do sofá, perto da porta, voou em cima de Trotter. O revólver disparou, e a bala foi-se alojar numa das medíocres telas, tão apreciadas pela falecida Srta. Emory.

 Um momento depois, virou um pandemônio: Giles entrou correndo, seguido por Christopher e pelo Sr. Paravicini.

 O Major Metcalf, sem soltar o braço de Trotter, falou em frases curtas, explosivas:

 — Entrei enquanto tocava — escorreguei para trás do sofá — desconfiei dele desde o princípio, quer dizer, sabia que não era um policial. Eu sou um policial — Inspetor Tanner. Combinei com Metcalf ficar no lugar dele. A Scotland Yard achou aconselhável ter alguém aqui. Agora, meu rapaz — falou de maneira suave com o agora dócil Trotter. — Venha comigo. Ninguém vai-lhe fazer mal. Está tudo bem. Vamos cuidar de você.

 Numa voz infantil e chorosa, o bronzeado rapaz perguntou: — Georgie não vai ficar zangado comigo?

 Metcalf disse: — Não, ele não vai ficar zangado.

 Murmurou para Giles quando passou por ele: — Completamente louco, coitado.

 Eles saíram juntos. O Sr. Paravicini tocou o braço de Christopher Wren.

 — Você também, amigo. Venha comigo.

 Giles e Molly, sozinhos, entreolharam-se. Momentos depois estavam um nos braços do outro.

 — Querida — disse Giles —, tem certeza de que ele não a machucou?

 — Eu estou bem, Giles. Fiquei tão confusa. Cheguei a pensar que você... por que foi a Londres naquele dia?

 — Querida, queria comprar um presente de aniversário de casamento para amanhã. Era uma surpresa.

 — Puxa! Eu fui a Londres para comprar um presente de casamento para você. Era uma surpresa.

 — Fiquei bestamente enciumado daquele neurótico. Devia estar louco. Desculpe-me, querida.

 A porta abriu e o Sr. Paravicini entrou saltitante. Estava felicíssimo.

 — Interrompendo a reconciliação; que cena encantadora. Mas, infelizmente, tenho que dizer adeus. Um jipe da polícia conseguiu chegar aqui. Fui pedir a eles uma carona. — Ele se inclinou e segregou misteriosamente no ouvido de Molly: — Pode ser que no futuro próximo eu tenha dificuldades mas tenho certeza de que posso dar um jeitinho e caso receba uma mala com um ganso, digamos, um peru, algumas latas de foie gras, um presunto, meias de náilon, hein? Bom, será com os cumprimentos para uma dama encantadora. Sr. Davis, meu cheque está na mesa do vestíbulo.

 Ele beijou a mão de Molly e foi andando, agilmente, até a porta.

 — Náilons? — murmurou Molly. — Foie gras! Quem é o Sr. Paravicini? Papai Noel?

 — Contrabando, eu acho — disse Giles.

 Christopher Wren esticou timidamente o pescoço, ao abrir a porta. — Meus queridos — disse ele — espero não estar interrompendo, mas está um cheiro horrível de queimado na cozinha. Quer que faça alguma coisa?

 Com um angustiado grito de: "Minha torta!", Molly saiu voando da sala.

 

ESTRANHA CHARADA

— E esta — disse Jane Helier, terminando as apresentações — é Miss Marple!

 Como toda atriz, conseguiu o seu intento. Aquilo era realmente o clímax, o triunfante final! O tom de sua voz era igualmente respeitoso.

 O estranho é que a pessoa tão efusivamente apresentada não passava de uma solteirona afável e bisbilhoteira. No olhar dos dois jovens a quem Jane, tão gentil, a tinha apresentado, havia incredulidade e uma certa decepção. Eram ambos bonitos; a moça, Charmian Stroud, morena e elegante, e o rapaz, Edward Rossiter, louro, alto e amável.

 — É um prazer enorme conhecê-la — disse Charmian, um pouco ofegante. Mas lançou um rápido olhar, cheio de dúvidas, para Jane Helier.

 — Querida — disse Jane, em resposta a seu olhar —, ela é uma pessoa maravilhosa. Deixe tudo por conta dela. Prometi que a traria e cumpri a promessa. — E voltando-se para Miss Marple: — Você resolverá tudo para eles, tenho certeza. Não será difícil.

 Miss Marple volveu os calmos olhos azuis para Edward: — Poderia dizer-me do que se trata?

 — Jane é uma grande amiga nossa — disse Charmian, impaciente. — Edward e eu estamos com um problema sério. Então, Jane nos convidou para esta festa, dizendo que nos apresentaria a alguém que poderia... bem, que talvez pudesse...

 — Jane nos disse que a senhora é uma excelente detetive, Miss Marple — completou Edward.

 Os olhinhos da solteirona piscaram, mas ela protestou, humilde: — Não, Não! De forma alguma. É que quem mora em uma cidadezinha como essa sempre acaba conhecendo um pouco melhor a natureza humana. Mas agora vocês me deixaram curiosa. Qual é o problema?

 — Acho que é algo terrivelmente corriqueiro... um tesouro enterrado — informou Edward.

 — É mesmo? Isso parece muito interessante!

 — Pois é. Como a Ilha do Tesouro. Pena que no nosso caso falte o romantismo de costume. Não há mapas marcados com uma caveira ou um fêmur, nem indicações como "quatro passos à esquerda, a oeste pelo noroeste". É bastante prosaico o lugar onde devemos procurá-lo.

 — Vocês já tentaram?

 — Nós cavamos cerca de dois acres. O local foi preparado para virar uma horta. Agora estamos decidindo se devemos plantar verduras ou batatas.

 — Será que, realmente, devemos falar-lhe a respeito disso? — interrompeu Charmian.

 — Mas é claro, minha querida!

 — Então, só precisamos encontrar um lugar tranqüilo. Venha, Edward. — Ela saiu da sala apinhada e sufocante de fumaça e dirigiu-se a uma saleta no segundo pavimento.

 Sentaram-se, e Charmian disse, de chofre:

 — Bom, é o seguinte. Tudo começou com tio Mathew, quer dizer, um tio de nosso avô, meu e de Edward. Ele era muito velhinho, gostava bastante de nós e sempre dizia que, quando morresse, nos deixaria todo o seu dinheiro. Tio Mathew morreu em março e deixou tudo o que tinha para ser dividido igualmente entre Edward e eu. Pode até pensar que é mentira, mas sua morte não me alegrou absolutamente. Gostava dele, de verdade. Mas já estava doente há algum tempo.

 — O problema é que tudo o que ele deixou era praticamente nada. Isso, francamente, foi um choque para nós, não foi, Edward?

 Edward concordou, dizendo: — Sabe... nós estávamos contando com isso. Quando se espera receber uma bolada, não se faz muito esforço pra ganhá-la... de outra forma. Sou da Marinha e só tenho o meu soldo, e Charmian não possui nada. Trabalha como assistente de diretor num teatro de segunda categoria. É um trabalho interessante que ela gosta de fazer, mas não ganha quase nada. Pretendíamos nos casar e não estávamos preocupados com dinheiro porque sabíamos que, algum dia, ficaríamos bem.

 — E como vê, não estamos! — disse Charmian. — E, o que é pior, Ansteys, a propriedade da nossa família, provavelmente terá que ser vendida. Edward e eu a amamos tanto! Acho que não suportaríamos isso! Se não encontrarmos o dinheiro de tio Mathew, é o que teremos de fazer.

 — Charmian, ainda não tocamos no X do problema — disse Edward.

 — Fale, então.

 Edward encarou Miss Marple. — À medida que tio Mathew envelhecia, ia-se tornando cada vez mais desconfiado. Suspeitava de tudo e de todos.

 — Muito sensato de sua parte — retrucou Miss Marple. — A ambição dos homens pode chegar a limites inacreditáveis.

 — É. Tem razão. Era o que tio Mathew também pensava. Ele tinha um amigo que perdera todo o dinheiro em negociatas bancárias, e outro que fora arruinado por um advogado desonesto e ele próprio já havia perdido o dinheiro que investira em uma companhia fraudulenta. Tio Mathew ficou tão impressionado com esses acontecimentos que decidiu de uma vez por todas, transformar o dinheiro em tesouro, e enterrá-lo.

 — Ah — disse Miss Marple. — Começo a compreender.

 — Os amigos argumentaram com ele, fazendo-o ver que não obteria nenhum lucro desta forma, mas ele estava irredutível. Dizia que seu dinheiro deveria ser guardado em uma caixa debaixo da cama ou ser enterrado no jardim.

 — E, quando morreu, deixou muito pouco em ações, apesar de ser muito rico. Por isso acreditamos que tenha, realmente, feito o que dizia — concluiu Charmian.

 Edward continuou a explicação. — Descobrimos que tinha vendido algumas ações e retirado grandes somas em dinheiro, mas ninguém sabe o que fez dele. É provável que tenha agido de acordo com seus princípios, ou seja, comprado ouro e enterrado.

 — Ele não disse nada antes de morrer? Não deixou nada escrito? Um documento, uma carta...?

 — É isso o que nos deixa loucos. Ele não deixou nada. Ficou inconsciente por alguns dias, mas voltou a si pouco antes de morrer. Olhou-nos e suspirou levemente. Depois disse: — Vocês estarão bem, meus queridos pombinhos. — Então piscou o olho direito e morreu. Pobre Tio Mathew!

 — Ele piscou o olho... — repetiu Miss Marple, pensativa. Edward replicou ansioso: — Isso lhe diz alguma coisa? Fez-me lembrar de uma história de Arsène Lupin. Havia alguma coisa escondida no olho de vidro de um homem. Mas tio Mathew não tinha olho de vidro.

 Miss Marple abanou a cabeça. — Não... Não me ocorre nada no momento.

 Charmian estava desapontada. — Jane jurou que você diria logo onde deveríamos cavar.

 Miss Marple sorriu. — Bem, não sou mágica. Não conheci seu tio, não sei que tipo de homem era ele e não conheço nem a casa nem o solo.

 — E se o conhecesse? — perguntou Charmian.

 — Talvez fosse fácil dizer alguma coisa — respondeu Miss

 Marple.

 — Ótimo — disse Charmian. — Venha conosco a Ansteys para ver o que pode fazer.

 Ê possível que Charmian não imaginasse que Miss Marple fosse levar o convite a sério; porém, ela disse logo: — É muita gentileza sua, minha querida. Sempre desejei procurar um tesouro escondido, e — continuou olhando para eles com um jeito romântico e cúmplice — ainda mais havendo amor em jogo!

 

 — Aqui estamos — disse Charmian, gesticulando vivamente. Acabavam de visitar as dependências de Ansteys. Estiveram no jardim (que mais parecia uma trincheira), andaram pelo pequeno bosque, onde, em volta de cada árvore, havia uma escavação, e olharam tristemente para as alamedas outrora limpas e belas. Estiveram também no sótão, onde velhos baús e cômodas foram esvaziados. Entraram em porões onde lajes foram retiradas à força dos suportes. Mediram e deram tapas nas paredes e mostraram a Miss Marple todas as peças do antigo mobiliário que pudessem abrigar uma gaveta falsa.

 Uma pilha de papéis jazia sobre uma mesa do escritório — todos os documentos deixados pelo finado Mathew Stroud. Nenhum fora destruído e Charmian e Edward sempre voltavam a relê-los, examinando cuidadosamente cada promissória, convite ou correspondência, na esperança de se deparar com uma pista que, até então, tivesse passado despercebida.

 — Será que sobrou ainda algum lugar? — perguntou Charmian, ansiosa.

 Miss Marple abanou a cabeça. — Parece que nada foi esquecido, minha querida. Talvez tudo tenha sido vasculhado demais. Sempre achei que se devia ter um plano. É como diz uma amiga minha, a Sra. Eldritch, cuja criada era especialista em polir assoalhos. Um dia ela tanto se esmerou em polir o chão do banheiro que a Sra. Eldritch, ao sair do banho, escorregou, caiu e quebrou a perna. Foi um lamentável acidente porque a porta do banheiro, como era de se esperar, estava fechada e o jardineiro teve que subir numa escada e entrar pela janela, situação muito embaraçosa para a Sra. Eldritch, uma mulher de respeito.

 Edward mexia-se na cadeira impacientemente.

 Desculpem-me, por favor. Estou sempre me desviando do assunto. E que uma coisa lembra outra, e isso, às vezes, ajuda. O que quis dizer é que se tentássemos imaginar um lugar...

 Edward interrompeu. — Pense, Miss Marple. O meu cérebro e o de Charmian não são mais capazes disso!

 — É claro, meu querido! É muito cansativo para vocês. Se não se importam, gostaria de examinar tudo isso — e apontou os documentos que estavam sobre a mesa. — Isto é, se não forem confidenciais. Não quero parecer bisbilhoteira.

 — Esteja à vontade. Mas acho que não vai encontrar nada. Miss Marple sentou-se e começou a examinar aquele amontoado de papéis. Ã medida que os examinava, ia organizando-os em pequenas pilhas. Quando terminou, ficou olhando para elas por alguns minutos.

 Edward perguntou, com um toque de malícia na voz: — Então, Miss Marple?

 Ela sobressaltou-se. — Desculpe-me. Estava distraída.

 — Encontrou alguma coisa importante?

 — Não, não. Mas acho que descobri que tipo de pessoa era seu tio Mathew. Bem parecido com meu tio Henry — amigo de brincadeiras óbvias. Um solteirão, evidentemente, não sei bem por que, talvez uma desilusão na juventude... metódico, não gostava de se sentir preso; poucos solteirões gostam!

 Por trás das costas de Miss Marple, Charmian fez um sinal para Edward indicando que Miss Marple estava ficando gagá.

 Miss Marple continuou a falar animadamente de seu tio Henry. — Gostava de charadas. Algumas pessoas sentem-se mal com charadas; um simples jogo de palavras pode ser irritante. Era desconfiado também. Estava definitivamente convencido de que os criados o estavam roubando. E, às vezes, eles estavam mesmo, é claro. Isso tomou conta dele de tal maneira — pobre homem! — que, no final, desconfiava de que estivessem envenenando sua comida. Passou a só comer ovos quentes. Costumava dizer que ninguém pode envenenar um ovo quente. Querido tio Henry! Eu o conheci tão alegre... gostava tanto de um cafezinho depois do jantar... Costumava dizer: — Este café está muito frio — o que se podia traduzir por: — Quero mais um.

 Edward sentiu que se ouvisse mais alguma coisa a respeito do tio Henry iria enlouquecer.

 — Gostava dos jovens — continuou Miss Marple —, mas tinha certa tendência a instigá-los. Costumava colocar sacos de balas fora do alcance das crianças.

 Deixando a educação de lado, Charmian disse: — Ele me parece horrível!

 — Ah, não, querida! Era apenas um velho solteirão não muito ligado a crianças. Até que ele não era de todo ruim. Guardava uma boa quantia em dinheiro em casa, dentro de um cofre seguro, e fazia muito alarde sobre isso. Por causa de todo o seu falatório, uma noite ladrões entraram em sua casa e arrombaram o cofre.

 — Bem feito! — disse Edward.

 — Ah, mas não havia nada no cofre — disse Miss Marple. — Ele guardava o dinheiro em outro lugar — atrás de algumas obras religiosas na biblioteca. Dizia que ninguém retirava um livro desse tipo da prateleira!

 Edward interrompeu. — É uma idéia! Que W olharmos na biblioteca?

 Charmian sacudiu a cabeça com desdém.

 — Você acha que ainda não tinha pensado nisso? Procurei atrás de todos os livros. Foi terça-feira passada, quando você foi a Portsmouth. Tirei todos os livros das prateleiras. Sacudi-os. Nada!

 Edward suspirou. Depois levantou-se e tratou de livrar-se estrategicamente de sua indesejável hóspede. — Foi muito gentil de sua parte ter vindo e tentado nos ajudar. Sentimos muito desapontá-la e tomar seu precioso tempo. Vou tirar o carro e a senhora poderá apanhar o trem das 15 e 30...

 - Mas... — disse Miss Marple — precisamos encontrar o dinheiro! Você não pode desistir, Edward. Se não conseguir a princípio, tente, uma, duas, três vezes, mas tente novamente!

 — Quer dizer que devemos continuar tentando?

 — Exatamente — disse Miss Marple. — Eu ainda nem comecei. "Primeiro cace sua lebre..." como ensina aquele famoso livro de receitas. Um livro maravilhoso, mas caríssimo e a maioria das receitas começa assim: "Tome meio litro de leite e uma dúzia de ovos”.Mas onde é que estava mesmo? Ah, sim. Acho que nós, de alguma forma, caçamos nossa lebre, ou seja, seu tio Mathew, e só nos falta descobrir onde ele escondeu o dinheiro. E isso deve ser bastante simples.

 — Simples? — exclamou Charmian.

 — Sim, querida. Estou certa de que ele teria feito o óbvio. Uma gaveta secreta, este é meu palpite.

 — Ninguém poderia esconder barras de ouro em uma gaveta secreta — disse Edward, secamente.

 — Não, não, é claro que não. Mas não há razão para crermos que o dinheiro esteja em ouro.

 — Mas ele sempre dizia...

 — Meu tio Henry também. Lembra-se do cofre? Eis por que acredito que aquilo fosse uma pista falsa. Diamantes, por exemplo, poderiam estar em uma gaveta secreta.

 — Mas nós procuramos em todas as gavetas secretas! Clamamos um carpinteiro para examinar a mobília.

 — Verdade? Você é esperta. Eu sugeriria... a gaveta da escrivaninha de seu tio. É aquela ali, perto da parede?

 — É. Vou mostrar. — Charmian foi até ela. Retirou a tampa. Dentro dela havia caixilhos e pequenas gavetas. Abriu uma portinhola central e tocou uma mola por dentro da gaveta da esquerda. O fundo da parte central soltou-se. Charmian retirou-o, revelando uma cavidade vazia.

 — Isso não é uma coincidência? — exclamou Miss Marple. — Tio Henry tinha uma escrivaninha semelhante a esta; apenas a madeira era diferente.

 — De qualquer forma — disse Charmian —, não há nada lá, como se pode ver.

 — Acredito — disse Miss Marple — que o carpinteiro fosse muito jovem para conhecer tudo a respeito de sua profissão. Antigamente, os carpinteiros eram mais engenhosos quando fabricavam esses esconderijos. Há segredos dentro de segredos.

 Ela apanhou um grampo do coque dos cabelos grisalhos e impecáveis; espetou em um orifício quase imperceptível, que havia num dos lados do segredo. Com um certo esforço, puxou uma gavetinha dentro da qual se via um maço de cartas amareladas e um papel dobrado.

 Edward e Charmian debruçaram-se sobre o achado, ao mesmo tempo. Com os dedos trêmulos, Edward desdobrou o papel para logo deixá-lo cair com um grito de decepção.

 — Uma receita! Presunto ao forno.

 Enquanto isso, Charmian desatava a fita do maço de cartas. Escolheu uma e leu-a rapidamente. — Cartas de amor!

 Miss Marple exclamou romanticamente: — Que lindo! Talvez esteja aí a razão por que seu tio nunca se casou.

 Charmian lia:

 — "Meu querido Mathew: Devo confessar que parece ter passado muito tempo desde que recebi sua última carta. Tento ocupar-me com minhas tarefas e sempre penso que sou mesmo muito feliz por ter a oportunidade de conhecer o mundo e que nunca poderia imaginar que viajaria tanto por essas ilhas, desde que cheguei à América”.

 Charmian interrompeu bruscamente a leitura:

 — De onde é esta carta? Do Havaí! — E prosseguiu:

 Por incrível que pareça, esses nativos são mesmo de um primitivismo incrível. Não se vestem, são selvagens e passam a maior parte do tempo nadando, dançando e adornando-se com guirlandas de flores. O pastor Gray já fez algumas conversões, mas o trabalho é quase sempre inútil, e tanto ele quanto sua esposa estão muito desmotivados. Tenho feito o que posso para encorajá-los, mas também às vezes me sinto triste por um motivo que você conhece, meu querido. A distância é uma prova muito severa para um coração apaixonado. As suas sinceras manifestações de carinho e afeto animaram-me muito. Agora e sempre você é dono de meu devoto e fiel coração, querido Mathew. Seu verdadeiro amor, Betty Martin.

 P.S. — Esta está endereçada à nossa amiga Matilda Graves, como sempre. Espero que Deus me perdoe este pequeno subterfúgio.

 Edward assoviou. — Uma missionária! Eis o romance de Tio Mathew! Por que será que nunca se casaram?

 — Ela parece ter viajado pelo mundo inteiro — disse Charmian, examinando o resto das cartas. — Mauritânia, toda espécie de lugares. Provavelmente morreu de febre amarela ou coisa parecida.

 Um leve suspiro chamou-lhes a atenção. Miss Marple estava muito intrigada. — Muito bem — disse ela. — Vejam isto agora.

 Ela lia a receita de presunto ao forno. Sentindo seus olhares inquiridores, começou a ler em voz alta: "Presunto ao forno com espinafre. Tome um bom pedaço de presunto defumado, recheie com cravo-da-índia e cubra com açúcar mascavo. Assem em forno morno e sirva com purê de espinafre”.O que acham disso?

 — Que estranho — disse Edward.

 — Não, talvez fosse até gostoso. Mas o que acham disso tudo? De repente o rosto de Edward iluminou-se. — Acha que isso

 pode ser um código? — Apanhou o papel. — Olhe, Charmian. É evidente! Por qual outro motivo ele guardaria esta receita numa gaveta secreta?

 — Exatamente — disse Miss Marple. — Isto é muito significativo.

 — Quem sabe não é o truque da tinta invisível? Vamos aquecer o papel. Acenda o fogo — disse Charmian.

 Edward assim o fez mas não havia sinal de tinta invisível.

 Miss Marple pigarreou. — Realmente acho que vocês estão tornando tudo muito difícil. A receita deve ser apenas uma pista. As cartas é que devem ser importantes.

 — As cartas?

 — Sim, especialmente a assinatura.

 Mas Edward nem a ouviu. Gritava, animado:

 — Charmian, venha cá! Ela está certa! Veja, os envelopes são antigos, sim. mas as cartas foram escritas há pouco tempo.

 — Exatamente — disse Miss Marple.

 Elas foram envelhecidas. Aposto como foi o próprio tio Mat quem as envelheceu!

 — Exatamente — disse Miss Marple.

 — Tudo deve ser código. Nunca houve missionária alguma! -Minhas queridas crianças! Não há razão para dificultar as brincadeiras. Realmente um homem muito simples. Quis apenas brincar.

 Pela primeira vez os dois jovens deram total atenção a Miss Marple.

 — O que quer dizer com isso, Miss Marple? — perguntou Charmian.

 — Quero dizer, querida, que você tem o dinheiro em suas mãos neste momento.

 Charmian fitou as próprias mãos.

 — A assinatura, querida! É a chave de tudo. A receita é apenas uma pista. Cravos-da-índia, açúcar mascavo e tudo o mais, o que significa? Ora, presunto e espinafre. Presunto e espinafre! Significam... nada! Está claro, então, que as cartas, sim, são importantes. Principalmente se levarmos em consideração tudo o que seu tio fez pouco antes de morrer. Ele piscou o olho, não foi o que disse? Muito bem. Eis a pista!

 — Quem está louco aqui, nós ou a senhora? — perguntou Charmian.

 — Sem dúvida, minha querida, você já deve ter ouvido uma expressão que indica que alguma coisa não é o que parece, ou será que já não é mais usada? numa situação como esta costumava-se dizer: "um piscar de olhos e Betty Martin”.

 Edward ficou sem ação. Seus olhos estavam fixos no papel que tinha nas mãos. — Betty Martin...

 — É claro, Edward. Como você mesmo disse, não existe ou não existiram tais pessoas. As cartas foram escritas por seu tio e acredito que ele se tenha divertido muito com isso. Os envelopes são bem mais antigos; não poderiam pertencer às cartas porque o selo postal data de 1851.

 Ela estacou e repetiu bem devagar. — 1851. Isso explica tudo, não?

 — Não para mim — disse Edward.

 — Claro! — exclamou Miss Marple. — Também não faria sentido para mim se não fosse meu sobrinho-neto, Lionel. Um menino maravilhoso e um apaixonado filatelista. Sabe tudo sobre selos. Foi ele quem me contou a respeito de um tipo de selo raro e valiosíssimo. Um deles foi achado recentemente e leiloado. Era um selo de dois centavos, datado de 1851. Foi arrebatado por 25.000 libras, se bem me lembro. Imagino que os outros selos também devam ser raros e valiosos. Sem dúvida seu tio os comprou através de intermediários e tomou todo cuidado para não deixar pistas, como se diz nas histórias policiais.

 Edward resmungou alguma coisa, sentou-se e escondeu o rosto nas mãos.

 — O que houve? — perguntou Charmian.

 — Nada. Apenas um mau pensamento. Se não fosse por Miss Marple, nós teríamos queimado essas cartas sem dar-lhes maior atenção.

 — Ah! É isso que esses velhinhos espirituosos nunca imaginam. Meu tio Henry, por exemplo, certo Natal enviou uma nota de cinco libras para sua sobrinha favorita. Colocou a nota dentro de um cartão de Boas Festas, fechou-o e escreveu: "Todo o meu amor e votos de felicidades. Sinto só poder enviar-lhe isso este ano”.

 — A moça, desiludida com a mensagem, atirou o cartão na lareira sem ao menos abri-lo. E ele acabou tendo que enviar-lhe outra nota.

 A impressão de Edward a respeito de tio Henry sofreu uma completa transformação.

 — Miss Marple — disse ele — vou abrir uma garrafa de champanha. Vamos beber à saúde de seu tio Henry.

 

O CRIME DA FITA MÉTRICA

Politt segurou a argola da porta e bateu levemente. Após alguns segundos, tornou a bater. O embrulho que trazia no braço esquerdo ameaçou cair, e ela voltou a arrumá-lo. Este continha o vestido verde da Sra. Spenlow, que ela havia acabado de aprontar. Na mão esquerda, Politt carregava uma sacola de seda preta com uma fita métrica, uma almofada de alfinetes e uma tesoura.

 Politt era alta e esquálida; possuía nariz e lábios finos, cabelos ralos e acobreados. Ela hesitou um pouco antes de bater pela terceira vez. Lançou os olhos pela rua e viu alguém que se aproximava a passos largos. Era a Srta. Hartnell — vinte e cinco anos, alegre, um tanto envelhecida — que cumprimentou-a com sua voz de contralto:

 — Boa tarde, Politt!

 — Boa tarde, Srta. Hartnell — respondeu a costureira. Sua voz era excessivamente fina, e o sotaque um pouco afetado. Seu primeiro trabalho tinha sido como dama-de-companhia de uma senhora.

 — Por favor — continuou Politt —, sabe dizer se a Sra. Spenlow está em casa?

 — Não faço a menor idéia — retrucou a Srta. Hartnell.

 — Não sei o que fazer. Combinamos que hoje, às três e meia, ela experimentaria o vestido novo — disse Politt. A Srta. Hartnell consultou o relógio:

 — Já passa um pouco das três e meia.

 

 — É. Eu já bati três vezes, mas ninguém atendeu. Acho que a Sra. Spenlow precisou sair e esqueceu o combinado. É estranho, porque ela não tem o hábito de esquecer seus compromissos e ainda mais que ela precisa do vestido para depois de amanhã.

 A Srta. Hartnell abriu o portão e aproximou-se de Politt.

 — Por que será que Gladys não abre a porta? — perguntou. — Ah, já sei! Hoje é quinta-feira e ela está de folga. Provavelmente a Sra. Spenlow está dormindo. Creio que você não bateu o suficiente.

 Dizendo isso, agarrou a argola e bateu violentamente na porta. Não satisfeita, bateu também com toda força nas almofadas da porta e gritou:

 — O de casa! Há alguém aí? Não houve resposta.

 Politt murmurou: — Acho mesmo que ela esqueceu e saiu. Eu volto outra hora. — E dirigiu-se para a saída.

 — Tolice! — disse a Srta. Hartnell com firmeza. — Ela não pode ter saído. Encontrei-me com ela ainda há pouco. Vou olhar pela janela, e ver se ela dá algum sinal de vida.

 Ela soltou uma risada para indicar que era brincadeira, e olhou, sem muito interesse, pela veneziana da janela mais próxima. -Digo sem muito interesse porque ela sabia que a sala da frente raramente era usada. O casal preferia a saleta dos fundos. Mesmo desinteressado, o olhar da Srta. Hartnell encontrou o que procurada. De fato, a Sra. Spenlow não deu sinal de vida, mas de morte, caída sobre o tapete ao lado da lareira.

 — Sem dúvida — disse a Srta. Hartnell ao relatar o que se passara. — Eu tive que me controlar. Politt não saberia o que fazer. Disse-lhe que precisávamos manter a calma: ela ficaria lá e eu iria falar com o Investigador Palk. Ela disse que não queria ficar sozinha, mas não dei atenção. Era preciso ser firme com ela. Sempre achei que esse tipo de pessoa gostava de criar problemas. Assim eu já estava de saída quando o Sr. Spenlow surgiu de um dos lados da casa.

 Neste ponto, a Srta. Hartnell fez uma pausa significativa que levou as pessoas que a ouviam a perguntar: — Como estava ele? A Srta. Hartnell prosseguiu:

 — Sinceramente, eu suspeitei dele imediatamente. Estava calmo demais. Não parecia nem um pouco surpreso, e não creio que seja natural um homem saber que a esposa está morta e não demonstrar o menor sinal de emoção.

 Todos concordaram.

 A polícia também concordou. Tão desconfiados estavam do alheamento do Sr. Spenlow que nem perderam tempo em verificar em que situação ele ficara com a morte da mulher. Quando descobriram que ela era rica e que com sua morte o marido seria o único herdeiro, de acordo com um testamento feito pouco depois do casamento, as suspeitas aumentaram ainda mais.

 Miss Marple, a doce — e, alguns diziam, um tanto maldizente velhinha que morava ao lado da igreja, foi chamada a depor cerca de meia hora após a descoberta do crime. Foi interrogada pelo Investigador Palk, que folheava um livro com ar de importante.

 Se não se importa, senhora, gostaria de fazer-lhe algumas perguntas.

 — A respeito da morte da Sra. Spenlow? — disse Miss Marple. Palk ficou surpreso. — Desculpe, senhora, mas como soube disso?

 — Um passarinho me contou... — disse Miss Marple.

 Palk compreendeu logo a resposta. Provavelmente o filho do dono da pensão ter-lhe-ia contado, quando foi levar-lhe o jantar. Miss Marple prosseguiu calmamente:

 — Deitada no chão da sala de estar, estrangulada — talvez com um cinto bastante estreito. Mas, com o que quer que tenha sido, já não estava lá.

 Palk estava intrigado... Como é que o pequeno Fred sabe disso?...

 Miss Marple interrompeu o investigador:

 — Há um alfinete no seu paletó.

 Palk não esperava o comentário, mas não perdeu a calma.

 — Como diz o velho ditado, encontre um alfinete em sua roupa, retire-o e terá sorte o resto do dia.

 — Espero que seja verdade. Mas... o que deseja saber? Palk pigarreou, esticou os ombros e consultou seu livro:

 — De acordo com o que ouvi do Sr. Spenlow, marido da finada, às duas e meia ele atendeu a um telefonema de Miss Marple, que lhe perguntou se ele poderia ir até sua casa por volta das três e quinze, porque ela precisava muito falar com ele. Isto é verdade?

 — Evidente que não! — disse Miss Marple.

 — A senhora não telefonou para o Sr. Spenlow às duas e meia?

 — Nem às duas e meia e nem em qualquer outra hora.

 — Ah! — fez o investigador, passando a mão pelo bigode com grande satisfação.

 — Que mais disse o Sr. Spenlow?

 — Disse que veio até aqui, como lhe fora solicitado, tendo deixado sua casa às três e dez. Chegando aqui, foi informado pela criada de que Miss Marple não se encontrava em casa.

 — Isso é verdade — disse Miss Marple. — Ele esteve aqui, mas eu estava numa reunião da Sociedade Feminina.

 — Ah! — fez novamente o investigador.

 — Diga-me, Sr. Palk: suspeita do Sr. Spenlow?

 — Ainda é cedo para dizer, mas... é como se alguém, sem querer citar nomes, tivesse sido... bastante engenhoso.

 Miss Marple disse quase que para si mesma:

 — O Sr. Spenlow?

 Ela gostava do Sr. Spenlow. Ele era baixo, magro, rígido e convencional — o máximo em respeitabilidade. Era estranho que ele tivesse vindo morar no interior, pois vivera a maior parte da sua vida na cidade. A Miss Marple ele contou por quê:

 — Sempre pretendi, desde criança, ir viver no campo um dia, e cultivar um jardim. Sempre adorei flores. Minha esposa tinha uma floricultura. Foi lá que a conheci.

 Esta frase, aparentemente seca, deixava entrever todo um romance. A Sra. Spenlow, jovem e bonita, rodeada de flores.

 O Sr. Spenlow, entretanto, nada sabia a respeito de flores. Não entendia de sementes, de podas, de canteiros, de temporadas. Vislumbrava apenas a imagem de um jardinzinho em uma pequena casa de campo, repleto de flores perfumadas e coloridas. Havia pedido a Miss Marple algumas informações, e anotado todas elas cuidadosamente em um caderninho.

 Era um homem metódico. Talvez por causa disso a polícia tenha se interessado tanto por ele quando sua esposa foi encontrada morta. Com paciência e perseverança, os homens da lei aprenderam muito a respeito da Sra. Spenlow — e logo toda a cidade de St. Mary Mead também.

 A Sra. Spenlow começou a vida como criada em uma mansão. Deixou o emprego para casar-se com o jardineiro, e com ele montar uma floricultura em Londres. O negócio prosperou, mas o jardineiro, que há muito andava doente, morreu pouco depois. A viúva deu continuidade ao negócio, aumentou-o e fê-lo prosperar. Depois, vendeu-o por um bom preço e casou-se pela segunda vez — com o Sr. Spenlow, um joalheiro de meia-idade, que havia herdado uma pequena loja que não dava lucros. Algum tempo depois, venderam a joalheria e foram morar em St. Mary Mead.

 A Sra. Spenlow tinha uma boa situação. Os lucros provenientes da venda da floricultura tinham sido investidos, sob orientação espiritual, como ela fazia questão de explicar. Os espíritos tinham-na aconselhado com surpreendente sagacidade. Todos os seus investimentos prosperaram, alguns de forma inesperada. Ao invés desse fato aumentar a sua crença no espiritualismo, o casal Spenlow praticamente abandonou os médiuns para envolver-se completamente com uma seita de inspiração hindu. Entretanto, quando a Sra. Spenlow chegou a St. Mary Mead, voltou-se por um certo tempo para a igreja ortodoxa inglesa. Estava sempre na paróquia, e ia aos cultos regularmente. Patrocinava obras sociais da cidade, interessava-se pelos acontecimentos do local e jogava bridge. Levava uma vida rotineira. E, de repente, foi assassinada.

 Coronel Melchett, o delgado, chamou o Inspetor Slack. Slack um homem firme. Uma vez tendo formado uma opinião, tinha realmente certeza do que dizia; e desta vez já tinha vaticinado:

 — Foi o marido!

 — Você acha mesmo?

 — Acho. Basta olhar para ele. Culpado dos pés à cabeça. Nunca demonstrou o menor sinal de pesar ou emoção. Voltou à casa sabendo que ela estava morta.

 — Não acha que ele poderia ter representado o papel de marido desesperado?

 — Ele não faria isso. Está muito contente. Há pessoas que não sabem fingir. São insensíveis demais.

 — Havia alguma outra mulher em sua vida? — perguntou o Coronel Melchett.

 — Não descobri nada a respeito. Ele é esperto. Evidentemente deve ter encoberto suas pistas. Acho que ele simplesmente estava farto de sua esposa. Ela tinha dinheiro, e creio que devia ser mesmo horrível viver com ela — sempre falando de religião. Então, decidiu livrar-se dela e viver confortavelmente sozinho.

 — Isso pode muito bem ter acontecido.

 — Foi o que aconteceu. Planejou tudo com cuidado. Fingiu receber um telefonema...

 Melchett interrompeu-o: — Fingiu?

 — Sim. E isso também quer dizer que ele mentiu ou que aquela chamada foi feita de um telefone público. Os únicos telefones públicos da cidade são o da estação e o do correio. Do correio não pode ter sido. A Srta. Blade vê todas as pessoas que entram lá. Da estação, sim. Há um trem que chega às duas e vinte e sete, e sempre se forma um certo tumulto. O principal é que ele disse que Miss Marple telefonou para ele e isso certamente não é verdade. A chamada não partiu de sua casa. Ela própria estava na Sociedade Feminina.

 — Você não está considerando a possibilidade de o marido ter sido deliberadamente afastado da casa por alguém que desejasse assassinar a Sra. Spenlow, está?

 — O senhor está pensando em Ted Gerard, eu sei. Já investiguei isso também. Não creio nessa possibilidade. Ele não ganharia nada com isso.

 — Mas ele não presta. Já deu um desfalque uma vez.

 — Não estou dizendo que ele preste, e sim que, de uma forma ou de outra, ele restituiu o dinheiro daquele desfalque. Seus chefes é que não tiveram bom senso.

 — E está ligado ao tal Grupo Oxford — disse Melchett.

 — Mas arrependeu-se e fez tudo o que pôde para emendar-se. Admito que ele tenha sido astuto. Devia saber que suspeitavam dele e resolveu bancar o penitente.

 — Você é um céptico, Slack — disse o Coronel.

 — Já falou com Miss Marple?

 — E o que ela tem com isso?

 — Nada. Mas ela sabe de tudo o que acontece na cidade. Por que não bate um papo com ela? E uma velhinha bastante esperta.

 Slack mudou de assunto:

 — Gostaria de perguntar-lhe uma coisa: aquele primeiro emprego da falecida — a casa do Sr. Robert Abercrombie... Não foi lá que houve um roubo de jóias? Esmeraldas... Uma fortuna. Os ladrões nunca foram apanhados. Estive investigando isso. Deve ter acontecido quando a Sra. Spenlow ainda trabalhava lá, embora ela fosse quase uma menina na época. Ela não poderia estar metida nisso? Spenlow era um desses joalheiros pobretões — a pessoa indicada para isso.

 Melchett abanou a cabeça:

 — Não acredito nisso. Ela nem conhecia Spenlow naquela época. Lembro-me bem do caso. Na polícia, era voz corrente que um dos filhos de Abercrombie, Jim, estava envolvido no caso. Um perdulário! Nadava em dívidas e, logo depois do roubo, elas foram saldadas. Disseram que fora ajudado por uma mulher muito rica, mas eu não me convenci. Principalmente porque o velho Robert tentou afastar a polícia do caso.

 — Foi apenas uma idéia — disse Slack.

 Miss Marple recebeu o Inspetor Slack com alegria, principalmente quando soube que ele tinha sido enviado pelo Coronel Melchett.

 — Foi uma gentileza do Coronel. Não sabia que ele se lembrava de mim.

 — É claro que se lembra. Contou-me que aquilo que a senhora não sabe a respeito de St. Mary Mead não vale a pena procurar saber...

 — Ele é realmente muito gentil, mas eu não sei mesmo nada a respeito desse assassinato.

 A senhora sabe como se comenta sobre isso.

 — Sim, claro! Mas de que adiantaria ficar repetindo fofocas? Slack tentou ser esperto:

 — Isto não é um interrogatório. Ê uma conversa informal.

 — Quer mesmo saber o que as pessoas estão dizendo, e se é verdade ou não?

 — Isso mesmo!

 — Bem, as pessoas sempre exageram muito as coisas. Além disso, há duas correntes de opinião: uma acredita que foi o marido. O companheiro é, de uma forma ou de outra, a primeira pessoa de quem se desconfia, não é mesmo?

 — Pode ser — disse o inspetor, com cautela.

 — Há também o lado financeiro. Soube que o dinheiro que possuíam era dela e que o Sr. Spenlow seria beneficiado com sua morte. Neste mundo corrompido, as piores maldades acabam tendo justificativa.

 — Ele ficou com uma soma respeitável.

 — Exatamente. Seria plausível que ele a tivesse estrangulado, deixado a casa pelos fundos, vindo pelo campo até minha casa, perguntado por mim, fingindo ter recebido um telefonema e voltado para casa, encontrando a esposa assassinada. Esperava, por certo, que o crime fosse atribuído a algum vagabundo ou ladrão.

 O inspetor concordou:

 — E o dinheiro? Eles poderiam não estar se entendendo bem ultimamente.

 Miss Marple não o deixou continuar:

 — Eles se entendiam muito bem!

 — Como pode estar tão certa?

 — Todos saberiam se eles brigassem! A criada, Gladys, teria espalhado o fato por toda a cidade.

 O inspetor murmurou entre os dentes:

 — Ela provavelmente não sabia... — e recebeu um olhar descrente como resposta.

 Miss Marple prosseguiu:

 — Há quem diga que foi Ted Gerard — um rapaz bem apessoado. Acho que o senhor sabe, a aparência às vezes influencia mais do que deve. Lembra-se do último vigário que tivemos? Foi um achado! Todas as moças compareciam à igreja, de manhã à noite, e muitas senhoras tornaram-se anormalmente diligentes no trabalho da paróquia. Isto sem contar os casacos e os cachecóis que faziam para ele. Muito embaraçoso para o rapaz!

 — Mas, o que eu estava dizendo? Ah, sim! Esse tal Ted Gerard... Têm falado nele. Vinha vê-la com freqüência, embora a própria Sra. Spenlow tenha dito que ele era membro do tal Grupo Oxford — um movimento religioso. São bastante sinceros e fervorosos e a Sra. Spenlow estava muito impressionada com isso.

 Miss Marple fez uma pausa e continuou:

 — Eu estou convencida de que não havia nada além disso, mas sabe como é o povo. Muita gente acha que a senhora Spenlow estava encantada com o rapaz e que lhe havia emprestado uma soma considerável. Além disso, ele foi visto na estação naquele dia, saltando do trem das duas e vinte e sete. Mas é claro que seria mais fácil para ele pular para o outro lado da linha, entrar pelo atalho, saltar a cerca e contornar a sebe, sem passar pela estação. Assim, evitaria ser visto a caminho do sítio. E, logicamente, a roupa que a Sra. Spenlow estava usando era um tanto... imprópria.

 — Imprópria?

 — Um quimono, e não um vestido. — Miss Marple enrubesceu. — Esse tipo de coisas não deixa de ser sugestivo para algumas pessoas.

 — A senhora também acha?

 — Não, não. Eu não acho! Para mim, isso é perfeitamente normal.

 — A senhora acha normal?

 — De acordo com as circunstâncias, sim. — O olhar de Miss Marple era frio e pensativo.

 O Inspetor Slack disse:

 — Isso poderia ser mais uma prova contra o marido: ciúme.

 — Não creio. O Sr. Spenlow nunca seria ciumento. Não é do tipo observador. Se sua esposa o tivesse abandonado e deixado um bilhete de despedida, esta seria a primeira vez que ele pensaria no assunto. — O Inspetor Slack estava intrigado com a maneira decidida pela qual ela o olhava. Tinha a impressão de que a conversa tinha por objetivo tocar em algum ponto que ele ainda não havia captado. Ela disse com firmeza:

 — O senhor não tem nenhuma pista, inspetor?

 — Ninguém deixa pegadas ou pontas de cigarro hoje em dia, Miss Marple.

 — Mas esse eu tenho a impressão de ter sido um crime à antiga — sugeriu ela.

 Slack retrucou:

 — O que quer dizer com isso? Miss Marple respondeu calmamente:

 — Acho que o Investigador Palk poderá ajudá-lo. Ele foi a primeira pessoa a chegar ao local do crime, como se costuma dizer.

 O Sr. Spenlow estava sentado em sua espreguiçadeira. Parecia perplexo. Após algum tempo, disse, com um fio de voz:

 — Posso imaginar o que ocorreu. Já não escuto tão bem quanto escutava antes, mas ouvi distintamente um garotinho dizer na rua: "Quem é o assassino?" Isso... Isso me deu a impressão de que ele estava querendo dizer que eu matei minha querida esposa.

 Miss Marple, despetalando delicadamente uma rosa, disse:

 — Essa era a impressão que ele queria dar, sem dúvida.

 — Mas o que poderia ter sugerido essa idéia a um menino? Miss Marple pigarreou:

 — Sem dúvida, a opinião dos pais.

 — A senhora realmente acredita que outras pessoas pensem assim?

 — Quase a metade do povo de St. Mary Mead.

 — Mas, minha senhora, o que poderia ter dado ensejo a essa suposição? Eu gostava muito da minha esposa. De fato, ela não se adaptou tão bem à vida no campo quanto eu gostaria, mas ninguém pode concordar em tudo. Isso é um ideal impossível. Asseguro-lhe que senti muito perdê-la.

 — E provável. Mas, se o senhor me desculpar a indiscrição, não parece.

 O Sr. Spenlow ergueu-se e disse:

 — Minha senhora há alguns anos li que um filósofo chinês, quando perdeu sua esposa, continuou calmamente a tocar um gongo pela rua — um costume chinês, eu acho — como se nada houvesse acontecido. O povo da cidade ficou muito impressionado com isso.

 — Mas — disse Miss Marple — o povo de St. Mary Mead reage de maneira um pouco diferente. A filosofia chinesa não tem muito prestígio por aqui.

 — E a senhora? Entende? Miss Marple fez que sim:

 — Meu tio Henry — explicou — possuía um autocontrole fora do comum. Seu lema era nunca demonstrar emoção e também gostava muito de flores.

 — Eu estava pensando — disse o Sr. Spenlow com certo entusiasmo — que poderia cultivar ramadas no lado oeste do sítio. Rosas vermelhas e glicínias também. E há um tipo de flor estrelada, cujo nome não me lembro agora e que...

 Usando o mesmo tom com que falava com seu sobrinho-neto de três anos, Miss Marple disse:

 — Tenho um catálogo de flores ilustrado, que é muito interessante. Gostaria de dar uma olhada? Preciso ir até à cidade.

 Deixando o Sr. Spenlow no jardim a examinar o catálogo, Miss Marple subiu até seu quarto, embrulhou rapidamente um vestido num pedaço de papel pardo e saiu em direção ao correio. A Srta. Politt, a costureira, morava num pequeno apartamento, no segundo andar do edifício.

 Todavia, Miss Marple não subiu imediatamente até lá. Eram duas e trinta, e uma perua estacionou na porta do correio. Isso acontecia todos os dias em St. Mary Mead. A funcionária do correio andava de um lado para outro, despachando pacotes, porque, além de cuidar do correio, ela vendia balas, livros de bolso e brinquedos.

 Por alguns minutos, Miss Marple viu-se sozinha nas dependências do correio.

 Antes que a funcionária retornasse, Miss Marple subiu até o apartamento da Srta. Politt e explicou que gostaria de reformar seu vestido cinza — torná-lo um pouco mais moderno, se fosse possível. A Sta. Politt disse que ia ver o que podia fazer.

 O delegado ficou surpreso quando soube que Miss Marple desejava vê-lo. Ela entrou na sala e foi logo pedindo desculpas:

 — Desculpe incomodá-lo. Eu sei que o senhor é um homem muito ocupado, mas tem sido sempre tão atencioso, que eu preferi vir falar diretamente com o senhor ao invés de procurar o Inspetor Slack. Eu não gostaria de criar problemas para o Investigador Palk. Quero dizer: acho que ele não deveria cuidar desse caso.

 O Coronel Melchett olhou-a espantado:

 — Palk? Mas ele é o investigador de St. Mary Mead! O que foi que ele fez?

 — O senhor não se lembra? Havia um alfinete no seu paletó no dia do crime. Ocorreu-me que o alfinete poderia ter ido parar lá porque ele estivera na casa da Sra. Spenlow.

 — É possível. Mas, afinal, o que representa um alfinete? Ele pode ter ficado preso na roupa dele quando ele estava examinando o corpo. Ele veio aqui ontem e contou isso a Slack. Acredito que ele o tenha feito falar. Não deveria ter agido assim, é claro, mas como eu já disse, o que pode representar um alfinete? Era um alfinete comum — o tipo da coisa que qualquer mulher usa.

 — Não, não, Coronel Melchett. Aí é que o senhor está enganado. Um homem não saberia distinguir um alfinete comum de um especial, e aquele era especial, muito fino, geralmente usado por costureiras.

 Melchett ficou paralisado. Aos poucos, parecia ir compreendendo tudo. Miss Marple sacudia a cabeça veementemente.

 — Mas é claro! Para mim está claro como água! A Sra. Spenlow estava usando um quimono porque ia experimentar um vestido novo. Ela foi até a sala de estar e a Srta. Politt disse alguma coisa a respeito de tirar medidas e colocou a fita métrica em torno do seu pescoço. Depois, foi só puxar a fita. Fácil, não parece? Então ela saiu e ficou do lado de fora batendo a porta como se tivesse acabado de chegar. O alfinete prova, no entanto, que ela já havia estado lá.

 — E foi Politt quem telefonou para Spenlow?

 — Sim. Do Correio, às duas e meia. Exatamente na hora em que a perua chega e o local fica vazio.

 — Minha cara Miss Marple, por que motivo ela faria isso? Por Deus! Não se pode assassinar alguém sem motivo.

 — Eu acho, Coronel, que isso é uma velha história. Fez-me lembrar meus dois irmãos: Anthony e Gordon. Tudo o que Anthony fazia dava certo, o que não acontecia com Gordon. Cavalos adoeciam, a lavoura não progredia e a propriedade ia cada vez pior. Acho que isso deve ter acontecido com as duas mulheres. Elas devem ter trabalhado juntas no passado.

 — Em quê?

 — No roubo. Há muito tempo. Eram esmeraldas valiosíssimas, pelo que eu sei. A dama-de-companhia e a criada. Porque... uma coisa não está clara. Como a criada casou-se com o jardineiro e logo montou uma floricultura? Logicamente, com a sua parte do roubo. No final tudo deu certo. O dinheiro foi bem aplicado — rendeu. Mas a outra moça não deve ter sido bem-sucedida e acabou se tornando apenas uma costureira de cidade do interior. Aí novamente se encontraram. Tudo parecia ir bem até Gerard aparecer. A Sra. Spenlow tinha crises de remorso, tornara-se fervorosamente religiosa. O rapaz, sem dúvida, instigava-a a purificar-se, e não duvido que ela própria estivesse realmente inclinada a fazê-lo. Miss Politt, porém, não pensava assim. Começou a achar que poderia ir para a cadeia por um roubo que praticara há muito tempo e resolveu acabar com a Sra. Spenlow. Acredito que ela sempre tenha sido um pouco fraca. Provavelmente não moveria uma palha se o Sr. Spenlow fosse incriminado. O Coronel Melchett disse bem devagar:

 — Há um dado da sua hipótese que podemos verificar: o fato de a dama-de-companhia dos Abercrombie e a Srta. Politt serem a mesma pessoa, mas...

 Miss Marple insistiu:

 — Não será difícil. Ela é o tipo da mulher que confessará tudo no momento em que for acusada. Além disso... ontem eu apanhei sua fita métrica quando fui experimentar uma roupa. Ela vai dar falta do objeto e pensar que poderá ir parar nas mãos da policia. É uma pessoa ignorante e pensará que isso é uma prova decisiva contra ela.

 Miss Marple sorriu encorajando-o:

 — O senhor não terá trabalho, pode estar certo.

 Falou como lhe falara sua tia, dando-lhe certeza de que iria passar na prova para a Academia de Polícia. E ele passou.

 

O CASO DA EMPREGADA PERFEITA

— Por favor, madame, podia falar com a senhora um instante? Podia-se pensar que este pedido estivesse ao nível do absurdo, já que Edna, empregada de Miss Marple, na realidade falava com a patroa naquele momento.

 Reconhecendo o estilo de linguagem, entretanto, Miss Marple disse prontamente: — É claro, Edna, entre e feche a porta. O que é?

 Fechando a porta obedientemente, Edna avançou, torceu a ponta do avental entre os dedos e engoliu em seco uma ou duas vezes.

 — Pode falar — Miss Marple encorajou-a.

 — Oh, por favor, madame, é minha prima, Gladdie.

 — Minha nossa — disse Miss Marple, pensando na pior hipótese, por ser a mais comum. — Não... não está em apuros?

 Edna apressou-se em tranqüilizá-la. — Oh, não, não, madame, nada disso. Ela não é dessas. É só que ela está aborrecida. Sabe, perdeu o emprego.

 

 — Ora, que pena. Ela estava em Old Hall, não estava, com a Srta... com as Srtas. Skinner?

 — Estava, sim senhora. E Gladdie está muito aborrecida com isso, muito mesmo.

 — Mas Gladys estava sempre trocando de emprego, não é?

 — É verdade, madame. Parece que nunca se estabelecia, entende? Mas foi sempre ela que se despediu, compreende?

 — E dessa vez, foi o contrário? — perguntou Miss Marple, secamente.

 — Sim, senhora, e isso a aborreceu muito.

 Miss Marple parecia surpresa. Lembrava-se de Gladys, que nos dias de folga ia tomar chá na cozinha, como uma moça forte, risonha, de temperamento estável.

 Edna prosseguiu: — Sabe, madame, foi o jeito que aconteceu, o jeito que a Srta. Skinner 'tá pensando.

 — E como — perguntou Miss Marple pacientemente — a Srta. Skinner pensa?

 Desta vez Edna fez um amplo relatório da situação.

 — Oh, madame, foi um choque horrível para Gladdie. Sabe, um dos broches da Srta. Emily desapareceu e houve muito barulho, pois, claro, ninguém gosta que uma coisa dessa aconteça; a gente fica aborrecida, não é? E Gladdie ajudou a procurar em todo lugar, e depois que a Srta. Lavínia disse que ia na polícia, então o broche apareceu de novo lá no fundo da gaveta da cômoda, e a Gladdie ficou muito contente.

 — Mas, no dia seguinte, quebrou um prato, como sempre, e a Srta. Lavínia veio falando grosso e disse a Gladdie que 'tava dando pra ela o aviso prévio. E a Gladdie sente que não pode ter sido por causa do prato, o prato é só uma desculpa, que foi por causa do broche e que elas acham que ela pegou ele e botou ele de volta na gaveta porque falaram na polícia e a Gladdie num ia fazer uma coisa dessas, nunca que ela ia, e ela acha que elas vão denunciar ela e é uma coisa muito séria pra uma moça, a senhora sabe.

 

 Miss Marple concordou. Embora não tivesse simpatia pela buliçosa e obstinada Gladys tinha absoluta certeza da honestidade da moça e imaginava como aquele caso deve tê-la aborrecido.

 Edna disse, sequiosa: — Com certeza a senhora não pode fazer nada, não é? Ela está tão agitada!

 — Diga-lhe para deixar de ser boba — falou Miss Marple, ríspida. — Se ela não pegou o broche, e disso tenho certeza, então não tem motivos para ficar aborrecida.

 — Isso passa — disse Edna, desanimada.

 Miss Marple disse: — Bem... vou passar por aqueles lados hoje de tarde. Dou uma palavrinha com as Srtas. Skinner.

 — Ah, obrigada, madame.

 Old Hall, uma grande casa em estilo vitoriano, era cercada por bosques e jardins. Como não pôde ser alugada e também não foi vendável, um especulador dividiu-a em quatro apartamentos, com um sistema de água quente central, tendo os inquilinos direito a usar os jardins. A experiência foi satisfatória. Uma senhora rica e excêntrica ocupava um apartamento, junto com a empregada. Esta senhora, amante dos pássaros, acolhia uma multidão alada para alimentar, todos os dias. Um juiz indiano aposentado e a mulher alugavam o segundo. Um jovem casal, recém-casado, ocupava o terceiro, e o quarto havia sido alugado há dois meses por duas solteironas de nome Skinner. Estes inquilinos apenas se cumprimentavam, já que não tinham nada em comum uns com os outros. Ouviu-se o proprietário dizer que isso era excelente. O que temia eram amizades, seguidas de entreveros e de conseqüentes queixas.

 Miss Marple familiarizara-se com todos os inquilinos, embora não os conhecesse muito bem. A mais velha das irmãs Skinner, Srta. Lavínia, era o que chamamos de membro ativo da firma. A Srta. Emily passava a maior parte do tempo na cama, queixando-se de coisas que, na opinião de St. Mary Mead, não passavam de pura imaginação. Só a Srta. Lavínia acreditava piamente no martírio da irmã e, com disposição, corria até a cidade para comprar coisas que "minha irmã teve repentina vontade de comer".

 Era opinião de St. Mary Mead que se a Srta. Emily sofresse a metade do que dizia sofrer, teria, há muito tempo, mandado chamar o Dr. Haydock. Quando insinuaram isso, a Srta. Emily fechou os olhos, superior, e murmurou que seu caso não era simples; os melhores especialistas de Londres haviam ficado confusos e que um homem maravilhoso ministrava-lhe um tratamento revolucionário e que ela esperava, realmente, que a saúde melhorasse. Nenhum enfadonho clínico geral poderia entender seu caso.

 — E minha opinião é a de que ela é muito esperta em não mandar chamá-lo — disse a falante Srta. Hartnell. — O querido Dr. Haydock, naquele jeito brincalhão dele, iria dizer que ela não tinha nada, para se levantar e não fazer muito estardalhaço! Isso iria fazer-lhe muito bem.

 Entretanto, tendo fracassado este tratamento arbitrário, a Srta. Emily continuava a deitar-se nos sofás, a cercar-se de estranhos vidrinhos de remédio, e a rejeitar quase tudo que fora cozido para ela, pedindo sempre outra coisa — geralmente alguma coisa difícil de se conseguir.

 "Gladdie" abriu a porta para Miss Marple, mais deprimida do que nunca. Na sala de estar (uma parte da antiga sala de visitas, que fora dividida em sala de jantar, sala de visitas, banheiro e dependências de empregadas), a Srta. lavínia levantou-se para cumprimentar Miss Marple.

 Lavínia Skinner era uma mulher alta, magra e ossuda de cinqüenta anos, voz áspera e modos abruptos.

 — Que prazer — disse ela. — Emily hoje está acamada, muito deprimida, coitada. Espero que ela possa vê-la, isso iria animá-la, mas há dias em que ela não quer ver ninguém. Pobrezinha, tão paciente.

 Miss Marple respondeu educadamente. Empregadas eram o assunto principal das conversas de St. Mary Mead, de modo que não foi difícil levar a conversa para este lado. Miss Marple disse que ouvira falar que aquela ótima menina, Gladys Holmes, ia embora.

 Srta. Lavínia aquiesceu. — Vai sim. Quebrava coisas. Não dá para ficar com ela.

 Miss Marple suspirou e. disse que todos nós tínhamos que agüentar certas coisas hoje em dia. Era tão difícil conseguir moças para o campo. A Srta. Skinner realmente achava prudente despedir Gladys?

 — Sei que é difícil conseguir empregadas — admitiu Lavínia. — Os Devereuxs não têm ninguém, mas também, pudera! sempre brigando, jazz a noite toda, refeições a qualquer hora; aquela menina não sabe nada sobre a direção de uma casa. Tenho pena do marido. E os Larkins acabaram de perder a empregada. Mas também, com o gênio do juiz indiano, querendo chota hazri, como ele diz, às cinco da manhã, e a Sra. Larkin sempre alvoroçada, não é de se estranhar.

 — Então não acha que devia reconsiderar sua decisão sobre Gladys? Ela é boa moça. Conheço toda a família; pessoal muito honesto.

 Srta. Lavínia balançou a cabeça.

 — Tenho meus motivos — disse, misteriosa.

 Miss Marple murmurou: — Pelo que sei, perdeu um broche...

 — Quem foi que disse? Aposto que foi aquela Gladys. Falando francamente, tenho quase certeza de que ela o tirou. Depois ficou assustada e o colocou de volta, mas, claro, não se pode dizer nada, a menos que se tenha certeza. — Ela mudou de assunto. — Venha ver a Srta. Emily, Miss Marple. Sei que fará bem a ela.

 Miss Marple seguiu-a documente; Srta. Lavínia bateu à porta, foi-lhe dada a permissão para entrar, e ela acompanhou a convidada entrando no melhor quarto da casa, mergulhado na semi-escuridão, com as cortinas fechadas. A Srta. Emily, deitada, desfrutava aparentemente aquela semi-obscuridade e os próprios e indefiníveis sofrimentos.

 À meia luz lhe pareceu ser uma criatura magra, de aparência indefinível, abundantes cabelos louro-acinzentados presos de qualquer jeito no alto da cabeça, e rompendo em cachos; o penteado mais parecia um ninho do qual nenhum passarinho que se desse ao respeito, sentiria orgulho. O quarto recendia a água de colônia, biscoitos mofados e cânfora.

 Com olhos semicerrados e voz fina e fraca, Emily Skinner explicou que aquele era um "de seus péssimos dias".

 — O pior da doença — disse Emily, melancólica — é que se sabe o peso que a gente é para todo mundo.

 — Lavínia é tão boa para mim. Lavvie, querida, detesto dar-lhe trabalho, mas se ao menos minha garrafa de água quente pudesse ser enchida da maneira que gosto... muito cheia, é peso demasiado para mim. Por outro lado, se não está suficientemente cheia, fica logo fria.

 — Desculpe, querida. Vou esvaziar um pouquinho.

 — Já que vai fazer isso, talvez possa tornar a enchê-la. Não há bolachas em casa, não é? — não, não, não faz mal. Posso passar sem elas. Um pouco de chá fraco com limão — não tem limão? Não, realmente não poderia beber chá sem limão. Acho que o leite estava um pouquinho azedo hoje de manhã. Não faz mal. Posso passar sem chá. Só que me sinto tão fraca. Dizem que as ostras são muito nutritivas. Talvez se eu comesse algumas? Não, dá muito trabalho arranjar ostras a esta hora. Posso jejuar até amanhã.

 Lavínia saiu do quarto murmurando alguma coisa incoerente sobre ir de bicicleta até a cidade.

 A Srta. Emily sorriu levemente para a visita, e disse mais uma vez que não gostava de causar problemas a ninguém.

 Naquela noite, Miss Marple contou a Edna que sua diplomacia não lograra êxito.

 Ela começou a ficar preocupada por descobrir que os boatos quanto à possível desonestidade de Gladys, estavam-se espalhando pela cidade.

 No correio, a Srta. Wetherby provocou-a: — Minha querida Jane, deram a ela referências por escrito dizendo que tinha boa vontade, era sóbria, respeitável, mas não falaram nada sobre honestidade. Isto me parece bastante significativo! Ouvi dizer que houve problemas por causa de um broche. Acho que deve ter algum fundamento porque ninguém dispensa uma empregada, hoje em dia, sem sérios motivos. Vão ver como é difícil conseguir outra. As moças simplesmente detestam ir para Old Hall. Ficam loucas para ir para casa nos dias de folga. Você vai ver, as Skinner não vão encontrar ninguém e então, talvez, aquela terrível irmã, aquela hipocondríaca, se levante e faça alguma coisa.

 Todos na cidade sentiram muito quando souberam que as Skinner tinham contratado, através de uma agência, uma nova empregada, a qual tudo indicava, era perfeita.

 — Referência de três anos recomendando-a claramente, prefere o campo e pede um salário menor do que o de Gladys. Acho que tivemos a maior sorte.

 — Bom, realmente — disse Miss Marple, a quem estes detalhes foram fornecidos pela Srta. Lavínia, na peixaria. — Parece bom demais para ser verdade.

 Em St. Mary Mead, todos passaram a ser de opinião que, à última hora, a empregada-modelo iria dar o bolo e não chegaria.

 Entretanto nenhum destes prognósticos se tornaram realidade, e a cidade pôde observar o tesouro doméstico, Mary Higgins, atravessar a cidade de táxi para chegar a Old Hall. Tinha-se que admitir que sua aparência era muito boa. Uma mulher de aparência respeitável, muito bem vestida.

 Quando Miss Marple fez outra visita a Old Hall, por ocasião do recrutamento de paroquianos para a festa da igreja, Mary Higgins abriu a porta. Sem dúvida era uma empregada de aparência superior, dos seus quarenta anos, cabelos negros, corada, uma figura imponente no seu discreto uniforme preto, avental branco e touquinha — "o tipo da boa empregada de antigamente" como explicou depois Miss Marple, isso sem falar na voz baixa, discreta, tão diferente daquela adenoidal e alta de Gladys.

 Srta. Lavínia parecia bem menos atormentada do que o costume e, embora lamentasse, não poderia estar presente devido à preocupação com a irmã mas, mesmo assim, contribuiria com uma grande quantia e prometeu conseguir abatimentos na compra de meias de bebê e limpadores de canetas.

 Miss Marple comentou sobre sua aparência sadia.

 — Realmente acho que devo muito a Mary. Dou graças a Deus por ter tomado a decisão de mandar a outra embora. Mary não existe. Cozinha bem, serve bem, mantém nosso apartamentinho bem limpo... vira o colchão todos os dias. E também é maravilhosa com Emily.

 Rapidamente, Miss Marple perguntou por ela.

 — Ah, coitadinha, tem estado muito mal ultimamente. Sei que não pode fazer nada, mas, às vezes, ela torna as coisas um tanto difíceis. Quer certas coisas cozidas e, quando ficam prontas, diz que não pode comer naquele momento; meia hora depois quer de novo. Desperdiça tudo porque tem que ser feito outra vez. É claro que dá muito trabalho mas Mary parece não se importar, ainda bem. Ela disse que está acostumada a lidar com inválidos e que os entende. É um descanso.

 — Minha nossa — exclamou Miss Marple. — A Srta. tem sorte.

 — Ê, realmente. Acho mesmo que Mary nos veio como resposta às nossas orações.

 — Para mim ela parece até boa demais para ser verdade. Eu teria... bem, teria um pouco de cuidado, se fosse você.

 Lavínia Skinner não percebeu o significado da observação. Ela disse: — Ah, pode ficar tranqüila que faço tudo para que se sinta confortável. Não sei o que faria se ela fosse embora.

 — Com certeza não vai embora até que esteja pronta para fazê-lo — disse Miss Marple e olhou muito duro para a dona da casa.

 Srta. Lavínia disse: — Quando não se tem preocupações domésticas, tira-se um peso dos ombros, não acha? Como está sua Edna?

 — Está indo muito bem. Não é excepcional. Não é como Mary. Ainda não sei tudo sobre Edna porque ela é moça daqui da cidade.

 Quando se dirigiu ao vestíbulo, ouviu a voz da inválida, gritando: — Esta compressa ficou seca. Dr. Allerton insistiu que tinha que ser constantemente renovada. Pronto, pronto, deixe aí. Quero uma xícara de chá e um ovo duro — só três minutos e meio de fervura, não se esqueça, e peça a Lavínia para vir aqui.

 A eficiente Mary emergiu do quarto e, dizendo para Lavínia "Srta. Emily quer vê-la, madame", adiantou se para abrir a porta para Miss Marple, ajudando-a a vestir o casaco, entregando-lhe o guarda-chuva de maneira irretocável.

 Miss Marple apanhou o guarda-chuva, deixou-o cair, tentou apanhá-lo, deixou cair a bolsa que se abriu. Mary, delicadamente, colheu várias bugigangas: um lenço, um vidro de anotações, uma antiga bolsinha de couro, dois shillings, três pennies e um pedaço de papel de bala de hortelã.

 Miss Marple recebeu este último, um tanto confusa.

 — Oh, meu Deus, deve ter sido o menino da Sra. Clement. Ele estava chupando bala, me lembro bem, e pegou minha bolsa para brincar com ela. Deve ter colocado aí dentro. Está muito pegajoso, não está?

 — Quer que o jogue fora, madame?

 — Você faria isso? Muito obrigada.

 Mary abaixou-se para apanhar o último item, um espelhinho, e, ao recuperá-lo, Miss Marple exclamou vivamente: — Mas que sorte não ter quebrado.

 Recolhidos todos os itens ela se foi, Mary esperando, educadamente, perto da porta, segurando um papel de bala, o rosto completamente sem expressão.

 Durante mais dez dias St. Mary Mead teve que agüentar ouvir sobre as excepcionais qualidades do tesouro da Srta. Lavínia e Srta. Emily.

 No décimo primeiro dia, a cidade acordou para viver sua grande emoção.

 Mary, a perfeição, desaparecera! Sua cama não fora desfeita, e a porta da frente ficou encostada. Saíra furtivamente durante a noite.

 E Mary não foi a única a desaparecer! Dois broches e cinco anéis de Srta. Lavínia; três anéis, um pingente, uma pulseira e quatro broches da Srta. Emily também haviam sumido!

 Começara o capítulo da catástrofe.

 A jovem senhora Devereux perdera os diamantes, que guardava numa gaveta sem chave e também algumas peles valiosas que lhe foram dadas como presente de casamento. O juiz e a mulher também deram por falta de algumas jóias e dinheiro. A Sra. Carmichael foi a que mais sofreu: além de valiosas jóias, ela guardava no apartamento uma grande quantia. Desapareceu tudo. Era a noite de folga de Janet, e a patroa tinha o hábito de dar voltas nos jardins, à noite, chamando pássaros e atirando-lhes farelos.

 Parecia bastante claro que Mary, a empregada perfeita, tinha a chave de todos os apartamentos.

 A verdade é que, em St. Mary Mead, as pessoas sentiram um certo prazer sádico. A Srta. Lavínia jactara-se tanto das maravilhas de sua Mary.

 — E não passava de uma ladra, minha querida!

 E as surpresas não pararam aí! Não só Mary desaparecera como também a agência que a mandara e fornecera suas credenciais estava alarmada por descobrir que Mary Higgins, inscrita lá e cujas referências haviam tomado, nunca existiu. Era o nome de uma empregada que morava com o irmão de um deão, mas a verdadeira Mary Higgins vivia, pacificamente em algum lugar de Cornwall.

 — Uma bolação muito inteligente — o Inspetor Slack foi forçado a admitir. — E, se quer saber minha opinião, acho que a mulher trabalha com uma quadrilha. Houve um caso parecido em Northumberland, há um ano. Nem um sinal das coisas e nunca a pegaram. Entretanto, nos sairemos melhor em Much Benham!

 O inspetor sempre fora um homem confiante.

 Mas as semanas se passaram, e Mary Higgins continuava triunfalmente em liberdade. Em vão, o Inspetor Slack redobrou a energia que desmentia seu nome.

 Srta. Lavínia continuava chorosa. A Srta. Emily ficou tão perturbada e sentiu-se tão alarmada que realmente mandou chamar o Dr. Haydock.

 A cidade inteira ansiava por saber o que ele achara das queixas da Srta. Emily, mas, naturalmente, não lhe podiam perguntar. Mas dados satisfatórios foram revelados através do Sr. Meek, o assistente do farmacêutico, que estava saindo com Clara, a empregada da Sra. Price-Ridle. Soube-se, então, que o Dr. Haydock lhe prescrevera uma mistura de assa-fétida e valeriana que, de acordo com o Sr. Meek, era o remédio que se dava no Exército aos soldados que se fingiam doentes a fim de escapar do serviço.

 Pouco depois soube-se que a Srta. Emily, insatisfeita com o atendimento médico que lhe fora dispensado, declarava que, devido a seu estado, sentia que era necessário ficar perto do especialista em Londres que entendera tão bem o seu caso. Era justo, também, disse ela, para Lavínia.

 Anunciou-se que o apartamento estava para ser alugado.

 Poucos dias depois disso, Miss Marple, muito agitada, foi até a delegacia de polícia em Much Benham, e chamou o Inspetor Slack.

 O inspetor não gostava de Miss Marple. Tinha consciência, porém, de que o delegado, Coronel Melchett, não compartilhava desta opinião. Um tanto contrariado, ele a recebeu.

 — Boa tarde, Miss Marple, em que posso servi-la?

 — Ah, meu Deus, vejo que está com pressa.

 — Muito trabalho a fazer, mas posso dispensar-lhe uns minutinhos.

 — Ah, meu Deus, tomara que consiga concatenar minhas idéias — disse Miss Marple. — É tão difícil a pessoa se explicar, não acha? Não, talvez o senhor não ache. Mas sabe, não fui educada no estilo moderno, só tive uma governanta que ensinava os nomes dos reis da Inglaterra e conhecimento geral — Doutor Brewer —, três tipos de doenças do trigo: praga, míldio e, qual era mesmo a terceira? Fungo?

 — A senhora quer falar sobre fungo? — perguntou o inspetor, enrubescendo.

 — Ah, não, não. — Mas do que depressa Miss Marple assegurou-lhe de que não queria falar sobre fungo. — Só uma ilustração, sabe? E como são feitas as agulhas. Discursiva, sabe, mas nada objetiva. Que é o que pretendo ser agora. É sobre a empregada da Srta. Skinner, a Gladys.

 — Mary Higgins — disse o Inspetor Slack.

 — Ah, sim, a segunda empregada. Mas me refiro a Gladys Holmes, uma garota impertinente e muito orgulhosa, mas extremamente honesta, e é importante que se reconheça isso.

 — Até agora não houve queixa contra ela — disse o inspetor.

 — Não, sei que não há nenhuma queixa, mas isto piora a situação. Porque as pessoas pensam em certas coisas. Ah, meu Deus, como é difícil de explicar. O que quero dizer é que o importante é encontrar Mary Higgins.

 — Certamente — concordou o inspetor. — Tem alguma idéia?

 — Bom, para falar a verdade, tenho — disse Miss Marple. — Posso fazer-lhe uma pergunta? Não se usa mais impressões digitais hoje em dia?

 — Ah, neste ponto ela foi espertíssima. Parece que fazia todo o serviço de luvas de borracha. E teve o cuidado de apagar as do quarto dela e da pia. Não pudemos achar nenhuma impressão digital naquele lugar.

 — E se encontrasse, ajudaria?

 — Poderia ajudar, madame. Pode ter ficha na Scotland Yard. Não é o primeiro golpe dela, na minha opinião.

 Miss Marple, com um gesto de cabeça, concordou, entusiasmada. Abriu a bolsa e tirou uma pequena caixa de papelão. Dentro, enrolado em algodão cru, um espelhinho.

 — Pronto — disse Miss Marple. — As impressões digitais da empregada estão aí. Devem ser satisfatórias. Ela, momentos antes, havia pego numa substância extremamente pegajosa.

 O Inspetor Slack olhou-a. — Pegou as impressões dela de propósito?

 — Claro.

 — Desconfiava dela, então?

 — Bom, me pareceu que ela era boa demais para ser verdade. Foi o que disse à Srta. Lavínia. Mas ela não entendeu a dica. Sabe, inspetor, não acredito em perfeições. Nós todos temos nossos defeitos — e estes aparecem logo no serviço doméstico!

 — Bem — disse o inspetor, recuperando o equilíbrio —, estou grato à senhora. Vou mandar estas impressões para a Scotland Yard, e vamos ver o que dizem.

 Ele calou-se. Miss Marple inclinara um pouco a cabeça e o olhava com bastante interesse.

 — O senhor não acolheria a idéia, suponho, de examinar um pouco mais perto de casa?

 — O que quer dizer, Miss Marple?

 — É muito difícil de explicar mas quando a gente se depara com alguma coisa diferente, a gente nota. É claro que certas peculiaridades não têm importância. Foi o que senti o tempo todo; quero dizer, com Gladys e o broche. Ela é honesta; ela não tirou o broche. Então por que a Srta. Lavínia pensou que fosse ela? Ela não é tola, muito pelo contrário! Por que estava tão ansiosa em dispensar a menina, boa empregada, quando as boas empregadas estão tão difíceis de se encontrar? Bastante estranho. Então pensei. Pensei muito. E notei outra coisa estranha! Srta. Emily é hipocondríaca, mas é a primeira hipocondríaca que não chama um médico, pelo menos de vez em quando. Os hipocondríacos adoram médicos. A Srta. Emily, não.

 — O que está sugerindo, Miss Marple?

 — Bem, estou sugerindo que a Srta. Lavínia e a Srta. Emily são pessoas excêntricas. A Srta. Emily passa quase que o tempo todo em um quarto escuro. E se aquele cabelo dela não é uma peruca... macacos me mordam! O que quero dizer é o seguinte: é perfeitamente plausível para uma mulher magra, pálida, cabelos acinzentados e lamurienta ser uma mulher de cabelos negros, corada, rechonchuda. E ninguém chegou a ver a Srta. Emily e Mary Higgins juntas, ao mesmo tempo.

 — Houve muito tempo para fazer as chaves dos apartamentos, saber tudo sobre os outros inquilinos e, então, livrar-se da moça. A Srta. Emily sai durante a noite e, no dia seguinte, chega na estação como Mary Higgins. E então, chegado o momento exato, Mary Higgins desaparece e todos querem ir no seu encalço. E eu lhe digo onde encontrá-la, inspetor. No sofá de Emily Skinner! Pegue as impressões digitais dela, se não acredita em mim, e verá que estou certa. Um par de ladras inteligentes, é o que são as Skinners. Mas desta vez não vão escapar. Não vou deixar que pairem dúvidas sobre a honestidade de uma moça de nossa cidade. Gladys Holmes é honesta como o dia, e todos vão saber disso! Boa tarde!

 Miss Marple já havia saído quando o Inspetor Slack se recuperou.

 — Hummmm! Quem sabe ela não está certa?

 E logo descobriu que Miss Marple estava certa de novo.

 Coronel Melchett parabenizou Slack por sua eficiência, Miss Marple convidou Gladys para tomar chá com Edna, e falou seriamente com ela para estabilizar-se numa boa situação, quando aparecesse uma.

 

O EPISÓDIO DA CASEIRA

— Bem — indagou o doutor Haydock a sua paciente —, como é que vamos hoje?

 Miss Marple, recostada em seus travesseiros, deu-lhe um sorriso sem emoção.

 — Sinceramente, acho que estou melhor, mas sinto-me tão deprimida! Acho que melhor seria se tivesse morrido. Sou uma mulher velha. Ninguém me quer ou se preocupa comigo.

 O doutor Haydock interrompeu-a com sua habitual aspereza. — Sim, sim, típica reação posterior a este tipo de gripe. A senhora está precisando de um pouco de distração, de um tônico mental.

 Miss Marple suspirou e balançou a cabeça.

 — E mais — continuou o doutor Haydock —, eu trouxe este remédio comigo!

 Ele jogou um envelope grande sobre a cama.

 — Feito sob encomenda para a senhora. A espécie de quebra-cabeça que a senhora aprecia.

 — Quebra-cabeça? — Miss Marple pareceu interessada.

 — Um esforço literário meu — respondeu o médico, levemente ruborizado. — Tentei fazer uma história bem exata: "Ele disse", "ela disse", "a moça pensou" etc. Os fatos da história são reais.

 — Mas por que um quebra-cabeça? — perguntou Miss Marple. O doutor Haydock sorriu. — Porque a interpretação fica a seu cargo. Quero ver se a senhora é tão esperta como parece.

 Com esta observação, retirou-se.

 Miss Marple pegou o manuscrito e começou a ler:

 “— E onde está a noiva? — perguntou Miss Harmon alegremente”.

 Toda a aldeia estava ansiosa para ver a jovem rica e bela esposa que Harry Laxton trouxera do exterior. Havia um alegre consenso generalizado de que Harry — o jovem mau elemento — tivera uma grande sorte. Todos sempre foram muito tolerantes para com Harry. Mesmo os donos de vidraças quebradas por estilingue tinham visto sua indignação dissipar-se ante a expressão de profundo arrependimento do jovem Harry. Ele quebrara janelas, roubara pomares, coelhos, e mais tarde se enchera de dívidas, metera-se em complicações com a filha do dono da tabacaria local — conseguira livrar-se delas e fora mandado para a África — e o vilarejo, representado pelas várias solteironas envelhecidas, murmurara indulgentemente: — Ah, bem! Coisas da juventude. Ele criará juízo!

 E agora, o filho pródigo voltara — não em aflição, mas em triunfo. Harry Laxton "dera-se bem", como diz o populacho. Tomara juízo, trabalhara arduamente e finalmente conhecera e namorara uma jovem anglo-francesa, dona de considerável fortuna.

 Harry poderia ter morado em Londres, ou comprado uma propriedade em alguma estação elegante de caça, mas preferira voltar para esta parte do mundo que era seu lar. E lá, da forma mais romântica, comprara a propriedade em ruínas; a casa na qual passara a infância.

 Kingsdean House esteve desocupada durante quase 70 anos. Entrara gradualmente em decadência e abandono. Um vigia de idade avançada e sua mulher viviam no único canto habitável da propriedade. Era um solar vasto, grandioso, os jardins repletos de vegetação luxuriante e cercado de árvores frondosas que pareciam guardar um recanto encantado.

 A casa era agradável, despretensiosa, e fora alugada por longos anos ao Major Laxton, pai de Harry. Em garoto, Harry correra por toda a propriedade e conhecia cada pedacinho do bosque emaranhado: a casa sempre o fascinara.

 O Major Laxton morrera há alguns anos, de forma que, aparentemente, não existiam mais laços que trouxessem Harry de volta — entretanto, era para a casa de sua infância que Harry levara a esposa. A arruinada Kingsdean House foi demolida. Um exército de construtores e empreiteiros infestou o lugar, e, quase miraculosamente, em curto espaço de tempo — o dinheiro fala alto — ergueu-se a nova casa, branca e brilhante, entre as árvores. Depois veio um enxame de jardineiros e, em seguida, uma procissão de caminhões de mudança.

 A casa estava pronta. Os empregados chegaram. Por último, uma limusine luxuosa deixou o senhor e senhora Harry na porta da casa.

 A aldeia correu para as visitas, e a Sra. Price, dona de uma mansão e que se considerava a "locomotiva" local, mandou convites para uma festa "a fim de apresentar a noiva".

 Foi um grande acontecimento. Diversas senhoras encomendaram vestidos novos para a ocasião. Todos estavam excitados, curiosos, ansiosos para ver aquela criatura fabulosa. Diziam que era tudo tão parecido com um conto de fadas!

 Miss Harmon, uma solteirona alegre, rosto curtido, fazia perguntas enquanto se esgueirava através da sala apinhada. A pequenina Miss Brent, uma solteirona magra, acidulada, confundia as informações.

 — Oh, querida, tão encantadora. Lindos modos. E bem jovem. A gente sente até inveja de ver alguém que tem tudo isto. Beleza, dinheiro, educação — tão distinta, não há nada de vulgar com ela — além do querido Harry, tão devotado!

 — Ah — disse Miss Harmon —, ainda é cedo para falar!

 O nariz fino de Miss Brant tremeu apreciativamente. — Oh! querida, você acha mesmo?

 — Todos nós sabemos quem é o Harry — respondeu Miss Harmon.

 — Sabemos o que ele era! Mas espero que agora...

 — Ah, os homens são sempre os mesmos. Uma vez impostor alegre, sempre impostor alegre. Conheço o tipo.

 — Que lástima! Pobrezinha! — Miss Brent parecia muito mais feliz. — Sim, acho que ela terá problemas com ele. Alguém deve preveni-la. Será que ela já ouviu algo sobre a velha história?

 — Parece tão injusto — retrucou Miss Brent — que ela não saiba de nada. Tão desagradável. Especialmente quando só se tem uma farmácia na aldeia.

 Porque a filha do dono da tabacaria estava agora casada com Mr. Edge, o farmacêutico.

 — Seria tão mais fácil — disse Miss Brent — se a Sra. Laxton ficasse freguesa de Boots, em Much Benham.

 — Aposto que o próprio Harry Laxton sugerirá isto — disse Miss Harmon.

 E de novo as duas trocaram um olhar cheio de significado.

 — Mas eu acho que ela deve saber — disse Miss Harmon.

 — Animais. Algumas pessoas são perfeitos animais — exclamou Clarice Vane, indignada, conversando com seu tio, o doutor Haydock.

 Ele olhou-a com curiosidade.

 Ela era uma jovem morena, alta, bonita, de bom coração e impulsiva. Seus grandes olhos castanhos brilhavam de indignação, ao dizer: — Todas aquelas pessoas dizendo coisas, insinuando coisas.

 — Sobre Laxton?

 — Sim, sobre seu caso com a filha do dono da tabacaria.

 — Ah, isto. — O doutor deu de ombros. — Muitos jovens têm casos desta espécie.

 — Claro que têm. E está tudo acabado. Para que ficar tocando no assunto? Trazendo-o à tona depois de tantos anos. Parecem abutres vorazes refestelando-se sobre os mortos.

 — Pode parecer assim para você, minha querida. Mas, você sabe eles têm tão pouco assunto aqui que tendem a falar de escândalos passados. Mas estou curioso para saber: por que isto a preocupou tanto?

 Clarice Vane mordeu os lábios e corou. Disse, numa voz abafada: — Eles — eles parecem tão felizes. Os Laxton, quero dizer. São jovens e apaixonados, e é tudo tão belo para eles. Detesto pensar que isto seja arruinado por murmúrios, insinuações, falatórios e maldade geral.

 — Hum, entendi.

 Clarice continuou. — Ele, há pouco, estava conversando comigo. Está tão feliz, vivo e entusiasmado — e, sim, empolgado — por ter realizado seu sonho e reconstruir Kingsdean. Parece uma criança. E ela — bem, acho que nada deu errado para ela em toda sua vida. Ela sempre teve tudo. O senhor a viu. O que pensa dela?

 O médico não respondeu logo. Para outras pessoas, Louise Laxton poderia ser um objeto de inveja. Uma filha mimada da fortuna. Ela evocara para ele apenas o refrão de uma música popular ouvida há muitos anos, "Pobre menina rica...”

 Uma figura pequena e delicada, de cabelos louros e crespos emoldurando o rosto, grandes e pensativos olhos azuis.

 Louise estava ficando cansada. A longa fila de cumprimentos cansara-a. Estava ansiosa pela hora de partir. Quem sabe se Harry não decidiria que já era tempo. Olhou-o de soslaio. Tão alto, ombros largos, divertindo-se tanto nesta festa monótona e horrível.

 Pobre menina rica —

 — Ufa! — Era um suspiro de alívio.

 Harry olhou para a mulher com o ar divertido. Eles estavam saindo de carro da festa.

 — Querido, que recepção terrível! — disse ela.

 Harry riu. — Sim, horrorosa. Não importa, amor. Tinha que ser feita. Todas estas velhotas conheceram-me quando eu era um garoto e morava aqui. Elas ficariam muito desapontadas se não tivessem visto você de perto.

 Louise fez uma careta. — Temos que estar com elas muitas vezes?

 — O quê? Oh, não. Elas farão algumas visitas de cerimônia, deixarão seus cartões, você retribuirá as visitas e depois não tem mais com que se preocupar. Você pode convidar os seus próprios amigos para virem aqui, ou o que você quiser.

 — Não há ninguém divertido por aqui? — perguntou Louise, depois de alguns momentos.

 — Oh, sim. Há os Country. Mas você pode achá-los um pouco chatos, também. Muito interessados em cebolas, cachorros e cavalos. Você monta, não? Você gostará disto. Há um cavalo em Englinton que quero que você veja. Um lindo animal, bem treinado, sem nenhum vício, mas muito esperto.

 O carro diminuiu a velocidade para entrar nos portões de Kingsdean. Harry deu um golpe de direção e praguejou quando uma figura grotesca pulou no meio da estrada, e ele mal conseguiu desviar-se.

 Ela ficou lá, brandindo o punho e gritando contra eles.

 Louise agarrou o braço do marido. — O que é aquilo — aquela mulher horrível?

 O sobrecenho de Harry estava carregado. — Ela é a velha Murgatroyd. Ela e o marido eram caseiros da velha casa. Moraram lá quase 30 anos.

 — Por que ela brandiu o punho contra você?

 Harry ficou vermelho. — Ela — bem, ela não se conformou com a demolição da casa. E ela também foi despedida, é claro. Seu marido morreu há dois anos. Dizem que ela ficou meio amalucada depois de sua morte.

 — Ela está na miséria, não está?

 As idéias de Louise eram vagas e melodramáticas. A riqueza a impedia de entrar em contato com a realidade.

 Harry estava indignado. — Por Deus, Louise, que idéia! Eu lhe dei uma pensão, é claro — e muito boa! Achei uma casinha para ela e tudo mais.

 Louise perguntou, espantada: — Então por que ela se importa?

 Harry franziu a testa: — Como é que eu vou saber? Loucura! Ela adorava a casa. — Mas estava em ruínas, não estava?

 — Claro que sim — caindo aos pedaços — o teto esburacado —, mais ou menos perigosa. Ela morou lá durante muito tempo. Ah! Sei lá! A pobre coitada enlouqueceu, eu acho.

 Louise disse, pouco à vontade: — Ela... acho que ela nos amaldiçoou. Oh! Harry, preferia que ela não o tivesse feito.

 

 Parecia a Louise que sua nova casa estava maculada e envenenada pela figura malevolente de uma velha louca. Quando saía de carro, quando montava, quando caminhava com os cachorros, lá estava sempre a mesma figura. Agachada, um chapéu velho de palha sobre os cabelos grisalhos, e o lento desfilar de maldições.

 Louise começou a acreditar que Harry estava certo — a velha era louca. Mesmo assim, isso não tornava as coisas fáceis. A Sra. Murgatroyd nunca veio até à casa, nem usava ameaças definidas, nem cometia violências. Sua figura acocorada estava sempre lá, um pouco fora dos portões. Chamar a polícia de nada adiantaria e, de qualquer modo, Harry era contra isto. Serviria apenas para despertar a simpatia local pela velha. Ele encarava as coisas com mais facilidade que Louise.

 — Não se preocupe, querida. Ela acabará se cansando deste praguejar idiota. Talvez ela esteja apenas tentando esgotar a nossa paciência.

 — Não, Harry. Ela nos odeia! Posso sentir isto. Ela... ela está nos rogando praga.

 — Ela não é uma feiticeira, querida, se bem que pareça! Não seja mórbida.

 Louise ficou silenciosa. Agora que a primeira excitação de se instalar terminara, ela sentia-se curiosamente solitária e sem saber o que fazer. Acostumara-se com a vida de Londres e da Riviera. Não conhecia e não sentia nenhuma atração pela vida de campo inglesa. Não entendia de jardinagem, a não ser pelo ato final de "arrumar" as flores. Não ligava muito para cães. Os vizinhos que conhecia a entediavam. Gostava mais de montar — algumas vezes com Harry, e outras, quando ele estava ocupado com a propriedade, sozinha. Ela corria pelos bosques e alamedas, gozando o trote fácil de um belo cavalo que Harry comprara para ela. Mas mesmo Prince Hal, o cavalo castanho muito sensível, relinchava e assustava-se com a figura da velha mulher malevolente.

 Certa vez Louise encheu-se de coragem. Ela estava passeando a pé. Passou por Mrs. Murgatroyd, fingindo não vê-la, mas de repente virou-se e foi direto até ela.

 — O que há? O que está acontecendo? O que a senhora quer? A velha piscou para ela. Tinha um rosto astuto e escuro de cigana, os cabelos grisalhos, olhos desconfiados e turvos. Louise indagou-se se ela bebia.

 Ela falou com voz queixosa mas, mesmo assim, ameaçadora.

 — Você pergunta o que é que eu quero? Eu quero o que foi tomado de mim. Quem me expulsou de Kingsdean House? Eu morei lá, garota e mulher, durante quase 40 anos. Foi uma má ação expulsarem-me de lá, e isto lhes trará muita má sorte, tanto para você como para ele.

 — Você tem uma boa casinha e... — disse Louise.

 Não chegou a terminar. A velha levantou os braços e gritou: — De que adianta isto? Quero meu próprio lar e minha lareira, ao lado da qual eu me sentei durante todos estes anos. Quanto a você e a ele, eu lhes digo: não haverá felicidade para você naquela linda casa nova. A mais negra aflição a visitará! Tristeza, morte e minha maldição. Que seu belo rosto apodreça.

 Louise virou-se e saiu correndo. Pensava: "Tenho que sair daqui! Devemos vender a casa! Temos que ir embora".

 Naquele momento tal solução parecia fácil para ela. Mas a completa incompreensão de Harry pegou-a desprevenida. Ele exclamou: — Partir daqui? Vender a casa? Por causa das ameaças de unia velha? Você deve estar louca!

 — Não, não estou. Mas ela me assusta. Sinto que algo vai acontecer.

 Harry Laxton disse carrancudo: — Deixe a Sra. Murgatroyd comigo. Vou dar um jeito!

 Entre Clarice Vane e Miss Laxton nascera uma grande amizade. As duas moças tinham a mesma idade, se bem que fossem bem diferentes, tanto no caráter como nos gostos. Na companhia de Clarice, Louise encontrou segurança. Clarice era tão segura de si, tão decidida. Louise contou o caso da Sra. Murgatroyd e suas ameaças, mas Clarice pareceu encarar o fato mais como algo desagradável do que assustador.

 — Esta espécie de coisa é tão estúpida. E muito aborrecida para você.

 — Sabe, Clarice, eu... eu fico muito amedrontada às vezes. Meu coração dispara.

 — Tolice, você não deve impressionar-se com estas tolices. Em breve ela se cansará.

 Ela ficou silenciosa por uns momentos. Clarice perguntou: — O que há?

 Louise titubeou um pouco, depois sua resposta veio num jato só. — Eu odeio este lugar! Detesto estar aqui. Os bosques, esta casa, e o horrível silêncio à noite e os ruídos estranhos nos campos. Oh! e as pessoas e tudo o mais.

 — As pessoas, que pessoas?

 — As pessoas da aldeia. Estas solteironas faladeiras e curiosas. Clarice perguntou abruptamente: — O que elas andam dizendo?'

 — Não sei. Nada em especial. Mas elas têm as mentes sujas. Quando você conversa com elas, sente que não deve confiar em ninguém... em ninguém mesmo.

 — Esqueça-as. Elas não têm nada a fazer senão fofocar. E muito das sujeiras de que falam é pura invencionice.

 — Desejaria nunca ter vindo para cá. Mas Harry adora isto aqui — disse Louise. Sua voz abrandou-se.

 Clarice pensou: "Como ela o adora". Disse abruptamente: — Tenho que ir agora.

 — Eu vou mandar levá-la de carro. Volte breve.

 Clarice assentiu. Louise sentiu-se retemperada pela visita da nova amiga. Harry alegrou-se ao vê-la mais contente e dali em diante insistia com ela para convidar Clarice mais vezes.

 Então, um dia ele disse: — Boas novas, querida.

 — Qual?

 — Eu dei um jeito na Murgatroyd. Ela tem um filho na América, sabe? Bem, eu providenciei para ela ir embora e encontrar-se com ele. Paguei a sua passagem.

 — Oh! Harry, que maravilha! Acho que acabarei conseguindo gostar de Kingsdean.

 — Conseguir gostar? Por favor! É o lugar mais maravilhoso do mundo!

 Louise sentiu um pequeno arrepio. Ela não se livraria tão cedo do medo supersticioso.

 Se as senhoras de St. Mary Mead estavam contando com o prazer de dar informações sob o passado de Harry para a esposa, este lhes foi negado pela pronta ação de Harry Laxton.

 Miss Harmon e Clarice Vane estavam na loja do Sr. Edge, uma comprando naftalina e a outra um pacote de ácido bórico, quando Harry Laxton e a mulher entraram.

 Depois de cumprimentar as duas senhoras, Harry voltou-se para o balcão e estava pedindo uma escova de dentes, quando parou no meio da frase e exclamou alegremente: — Bem! Veja quem está aqui! Bella, quem diria!

 A Sra. Edge, que viera dos fundos da loja para ajudar no trabalho, sorriu alegremente para ele, mostrando os grandes dentes brancos. Ela fora uma bela jovem morena e ainda era uma mulher vistosa, se bem que tivesse engordado, e os traços do rosto se tornassem mais vulgares; mas seus grandes olhos castanhos eram cordiais enquanto respondia: — Bella mesmo, Sr. Harry, e contente em vê-lo depois de todos estes anos.

 Harry virou-se para sua mulher: — Bella foi uma antiga namorada, Louise. Estive apaixonadíssimo por ela, não é verdade, Bella?

 — Isto é o que o senhor diz — respondeu a Sra. Edge. Louise riu, dizendo: — Meu marido está muito feliz vendo os

 velhos amigos outra vez.

 — Ah! — disse a Sra. Edge —, não esquecemos do senhor, Sr. Harry. Parece um conto de fadas vê-lo casado e construindo uma nova casa, no lugar daquela Kingsdean House arruinada.

 — Você está muito bem e bonita — disse Harry, e a Sra. Edge riu e respondeu que tudo estava bem com ela, e a escova de dentes?

 Clarice, vendo o olhar frustrado de Miss Harmon, pensou com seus botões: — Bem feito, Harry, você atrapalhou seus planos.

 Doutor Haydock perguntou, de repente, para sua sobrinha: — Que tolice é esta da Sra. Murgatroyd ficar rondando Kingsdean e maldizendo o novo regime?

 — Uma tolice, mas é verdade. Preocupou muito Louise.

 — Diga-lhe que não precisa impressionar-se; quando os Murgatroyds eram caseiros, eles nunca paravam de resmungar sobre o lugar; só ficavam porque Murgatroyd bebia e não conseguia outro emprego.

 — Contarei para ela — disse Clarice, hesitante —, mas acho que ela não acreditará no senhor. A velha chega a gritar de raiva.

 — Ela sempre gostou de Harry quando ele era criança. Não posso entender isto.

 — Eles, em pouco tempo, ficarão livres dela. Harry pagou sua passagem para a América.

 Três dias mais tarde, Louise foi atirada de seu cavalo e morreu.

 Dois homens num carro de padeiro testemunharam o acidente. Viram Louise cavalgar para fora dos portões, viram a velha pular e ficar na estrada agitando os braços e gritando, viram o cavalo assustar-se, empinar e depois disparar enlouquecido pela estrada, jogando Louise para fora.

 Um deles ficou perto da figura inconsciente, não sabendo o que fazer, enquanto o outro correu para a casa a fim de conseguir auxílio.

 Harry Laxton veio correndo, o rosto apavorado.

 Eles tiraram uma porta do carro e levaram-na para a casa. Ela morreu sem recobrar a consciência e antes do médico chegar.

 (Fim do manuscrito do doutor Haydock)

 Quando o doutor Haydock chegou no dia seguinte, alegrou-se em ver que havia uma cor rosada no rosto de Miss Marple, e muito mais animação em suas maneiras.

 — Bem — disse — qual é o veredicto?

 — Qual é o problema, doutor Haydock? — contrapôs Miss Marple.

 — Oh! minha cara senhora, tenho que lhe contar isto?

 — Acho que é a conduta peculiar da caseira. Por que ela se comportou de modo tão estranho? As pessoas não gostam de serem expulsas de suas casas antigas. Mas não era a casa dela. Na verdade, ela costumava reclamar e resmungar enquanto estava lá. É, parece muito suspeito! O que aconteceu com ela, por falar nisto?

 — Disparou para Liverpool. O acidente a assustou. Se bem que tenha esperado lá por seu navio.

 — Tudo muito conveniente para alguém — disse Miss Marple. — Sim, acho que o "Problema de Conduta da Caseira" pode ser resolvido facilmente. Suborno, não foi?

 — Esta é sua conclusão?

 — Bem, não era natural que ela se comportasse daquele modo; ela devia estar "representando" como diz o outro, e isto significa que alguém pagou para ela fazer o que fez.

 — E sabe quem é este alguém?

 — Acho que sim. Dinheiro, outra vez, acredito. E sempre reparei que os homens tendem a admirar sempre o mesmo tipo.

 — Agora não estou entendendo.

 — Mas tudo se ajusta muito bem. Harry Laxton admira Bella Edge, um tipo moreno e vivaz. Sua sobrinha Clarice é assim. Mas a pobre mulherzinha era bem diferente — loura e dependente —, nem de longe o seu tipo. Assim que deve ter-se casado com ela por dinheiro. E assassinou-a por dinheiro, também.

 — A senhora usou a palavra "assassinato"?

 — Bem, ele me parece o tipo certo. Atraente para as mulheres e completamente sem escrúpulos. Acho que queria ficar com o dinheiro da mulher e casar com sua sobrinha! Ele pode ter sido visto conversando com a Sra. Edge. Mas acho que ele não gosta mais dela. Se bem que ela tenha feito a pobre mulher achar que sim, para seus próprios fins. Acho que, em breve, ele a terá em suas mãos.

 — Como a senhora acha que ele a matou?

 Miss Marple fitou o espaço por algum tempo com olhos azuis sonhadores.

 — Foi muito bem cronometrado — com o carro do padeiro como testemunha. Eles podiam ver a velha e, é claro, eles atribuíram o susto do cavalo a isso. Mas eu imaginaria que um revólver de ar comprimido, ou talvez uma atiradeira — ele era muito bom com o estilingue. Sim, assim que o cavalo atravessou os portões. O cavalo empinou, é claro, e a Sra. Laxton foi atirada.

 Ele parou, franzindo o cenho.

 — O tombo pode tê-la matado. Mas ele não estava certo disto. E ele parece o tipo de homem que não deixa nada ao acaso. E a senhora Edge podia dar-lhe algo apropriado sem o marido saber. De outro modo, por que Harry se preocuparia com ela? Sim, acho que ele tinha alguma droga poderosa à mão, que podia ser administrada antes de sua chegada. Ademais, se uma mulher é atirada de seu cavalo e sofre ferimentos graves, morrendo sem recobrar a consciência, bem... um médico não suspeitaria de nada, não é mesmo? — O doutor Haydock assentiu.

 — O que o levou a suspeitar? — perguntou Miss Marple.

 — Não houve nenhuma esperteza especial da minha parte — respondeu o doutor Haydock. — Apenas o fato comum bem conhecido do assassino ficar tão encantado com sua habilidade que esquece de tomar as precauções apropriadas. Estava dizendo algumas palavras de consolo para o viúvo — e sentindo muita pena dele, também —, quando ele se atirou no sofá para representar um pouco e uma seringa caiu de seu bolso.

 — Ele agarrou-a depressa e pareceu tão assustado que eu comecei a pensar: Harry Laxton não toma drogas; está em perfeita saúde, o que estava fazendo, então, com uma seringa? Fiz a autópsia prevendo certas possibilidades. Descobri estrofantina. O resto foi fácil. Laxton tinha estrofantina em seu poder, e Bella Edge, inquirida pela polícia, admitiu tê-la dado para ele. E, finalmente, a velha Sra. Murgatroyd confessou que foi Harry Laxton que a fez representar as maldições.

 — E sua sobrinha consolou-se?

 — Sim, ela sentia atração pelo cara, mas não amor. O médico pegou seu manuscrito.

 — Nota máxima para a senhora, Miss Marple — e nota máxima para mim pela minha receita. A senhora praticamente voltou a ser o que era antes.

 

OS DETETIVES DO AMOR

O pequeno Sr. Satterthwaite olhou, pensativo, para seu anfitrião. A amizade entre os dois era bastante peculiar. O coronel era um nobre simplório que vivia no campo. Sua maior paixão na vida era o esporte. As poucas semanas em que se via obrigado a passar em Londres, ficara de má vontade. O Sr. Satterthwaite, por outro lado, era um homem da cidade. Autoridade em culinária francesa, moda feminina, sabia tudo sobre todos os últimos escândalos. Sua grande paixão era observar a natureza humana — e era um perito no seu campo: observador da vida.

 Poderia parecer, portanto, que ele e o coronel tivessem pouco em comum, já que este não se interessava pela vida de seus vizinhos e tinha verdadeiro horror a qualquer tipo de emoção. Os dois homens eram amigos principalmente porque seus pais o foram também, pois freqüentavam as mesmas pessoas e tinham pontos de vista reacionários quanto aos nouveaux riches.

 Eram, aproximadamente, sete e meia. Os dois homens estavam sentados no confortável escritório do coronel, e Melrose descrevia uma caçada do inverno passado com vivo entusiasmo de um caçador. O Sr. Satterthwaite, cujo conhecimento sobre cavalos resumia-se, basicamente, à visita matinal às cocheiras — hábito ainda em voga em algumas casas de campo mais tradicionais —, ouvia a narrativa, polidamente.

 A campainha do telefone interrompeu Melrose. Este se dirigiu à mesa e pegou o fone.

 — Alô! Sim, aqui é o Coronel Melrose. O que deseja? Melrose alterou todo seu comportamento — ficou rígido e formal. Naquele momento, quem estava na sala era o chefe de polícia, e não o desportista.

 Escutou por alguns instantes e depois disse, lacônico: — Certo, Curtis. Estarei aí daqui a pouco. — Recolocou o fone no gancho e voltou-se para seu hóspede. — Sir James Dwighton foi encontrado em sua biblioteca — assassinado.

 — O quê?

 O Sr. Satterthwaite estava perplexo, impressionado.

 — Devo ir imediatamente a Alderway. Você quer acompanhar-me?

 

 O Sr. Satterthwaite lembrou-se de que o coronel era chefe de polícia do condado.

 — Se não for atrapalhar — disse, hesitante.

 — De modo algum. Foi o Inspetor Curtis quem chamou. É um sujeito bom e honesto, mas nada esperto. Gostaria muito que você me acompanhasse. Tenho a impressão de que isto vai transformar-se num caso bastante desagradável.

 — Já prenderam o autor do crime?

 — Não — respondeu secamente Melrose.

 O ouvido treinado de Satterthwaite detectou uma sutil reserva por detrás da curta negativa. Ele começou a recordar tudo o que sabia sobre os Dwightons.

 Sir James era um velho pomposo de modos bruscos. O tipo do homem que devia fazer inimigos com facilidade. Provavelmente na casa dos sessenta, cabelos grisalhos, rosto corado. Consideravam-no um homem de pulso forte.

 Voltou o pensamento agora para Lady Dwighton. A imagem dela apareceu-lhe na mente: jovem, cabelos ruivos e corpo esguio. Lembrou-se de vários rumores, insinuações, fofocas. Então era isto: esta era a razão de Melrose estar tão mal-humorado. Tornou a concentrar-se; sua imaginação o estava levando longe demais.

 Cinco minutos mais tarde, o Sr. Satterthwaite sentou-se no carro ao lado do anfitrião, e partiram rumo a Alderway.

 O coronel era um homem taciturno. Já haviam percorrido mais de dois quilômetros sem que houvessem trocado uma só palavra. Repentinamente, ele perguntou: — Você os conhece?

 — Os Dwightons? É lógico que sei tudo sobre eles. — O Sr. Satterthwaite sempre sabia tudo sobre todo mundo. — Encontrei-o apenas uma vez, que me lembre. E com ela estive mais vezes.

 — Bonita mulher — disse Melrose.

 — Linda! — declarou Satterthwaite.

 — Você acha mesmo?

 — Uma verdadeira beleza renascentista — declarou Satterthwaite, acrescentando: — Ela representou numa peça de caridade na primavera passada, sabia? Fiquei muito impressionado. Não tem um traço moderno. É pura antigüidade. Podemos facilmente imaginá-la em um palácio de Doge, ou como Lucrécia Bórgia.

 O coronel deixou o carro virar ligeiramente e Satterthwaite parou de falar, de repente. Imaginou que tipo de fatalidade poderia ter acarretado sua menção a Lucrécia Bórgia. Naquelas circunstâncias...

 — Dwighton não foi envenenado, foi? — perguntou repentinamente.

 Melrose olhou-o de soslaio, um pouco curioso. Por que você me fez esta pergunta?

 — Ah, eu... eu não sei. — Satterthwaite estava nervoso. — Passou pela minha cabeça.

 — Bom, ele não foi envenenado — disse Melrose, lacônico. — Se quer saber, foi golpeado na cabeça.

 — Com um instrumento rombudo — murmurou Satterthwaite, balançando a cabeça sabiamente.

 — Pare de agir como um maldito detetive de romances policiais, Satterthwaite. Ele. foi golpeado na cabeça com uma estátua de bronze.

 — Ah! — disse Satterthwaite, e retomou o silêncio.

 — Sabe alguma coisa sobre um homem chamado Paul Delangua? — perguntou Melrose após um minuto.

 — Sei. É um cara bonitão.

 — É, acho que as mulheres o classificariam assim — murmurou o coronel.

 — Você não gosta dele?

 — Não, não gosto.

 — Eu pensaria justo o contrário. Ele monta a cavalo muito bem.

 — Como um forasteiro em um rodeio; cheio de truques.

 O Sr. Satterthwaite reprimiu um riso. Pobre Melrose, era tão britânico no seu modo de agir. Agradavelmente consciente de um ponto de vista cosmopolita, o Sr. Satterthwaite deplorava a atitude bitolada das pessoas em relação à vida.

 — Ele está aqui neste fim de mundo? — perguntou.

 — Há algum tempo que trabalha em Alderway, com os Dwighton. Fala-se que Sir James o despediu semana passada.

 — Por quê?

 — Encontrou-o na cama com a esposa, acho. Que diabos... Houve uma virada violenta e um impacto estridente.

 — As estradas mais perigosas da Inglaterra — disse Melrose.

 — São todas iguais. O outro motorista devia ter tocado a buzina. Estamos na preferencial. Acho que o carro dele ficou mais avariado do que o nosso.

 Melrose, de um pulo, saltou do carro. Um homem saiu do outro veículo e aproximou-se. Satterthwaite ouviu fragmentos da conversa.

 — A culpa foi minha — disse o estranho —, mas não conheço bem estas redondezas e não há nenhuma sinalização indicando a preferencial.

 O coronel, mais calmo, aprumou-se adequadamente. Os dois homens recostaram-se no carro do estranho que estava sendo examinado por um motorista. A conversa tornou-se bastante técnica.

 — Questão de meia hora, acho — disse o estranho. — Mas não quero retê-lo por mais tempo. Fico feliz por seu carro não ter sofrido danos maiores.

 — Na realidade... — começou a dizer o coronel, mas foi interrompido.

 O Sr. Satterthwaite, agitado, pulou para fora do carro em dois tempos e segurou o estranho amigavelmente pela mão.

 — Não acredito! Pensei ter reconhecido a voz — disse, animado. — Que coisa fantástica! Realmente incrível.

 — Hein? — disse o Coronel Melrose.

 — Sr. Harley Quin, Melrose; estou certo de que já ouviu falar muito dele.

 O coronel não parecia se lembrar. Mas assistiu à cena educadamente, enquanto Satterthwaite falava: — Não o vejo desde... deixe-me ver...

 — Desde aquela noite no Bells and Motley — disse o outro calmamente.

 — Bells and Motley? Guizos e Bufões? — disse o coronel.

 — Um motel — explicou Satterthwaite.

 — Que nome estranho para um motel!

 — Apenas um nome antigo — disse o Sr. Quin. — Houve um tempo em que isto estava mais em voga na Inglaterra do que atualmente.

 — É, acho que sim... sim... com toda certeza. Você está com a razão — disse Melrose vagamente. Ele piscou os olhos. Devido a um curioso efeito de luz — os faróis de um carro e as lanternas do outro — o Sr. Quin pareceu, por um momento, estar vestido como um bufão. Mas fora apenas um efeito de luz.

 — Não podemos deixá-lo aqui, parado no meio da estrada — continuou Satterthwaite. — Venha conosco. Há espaço de sobra para três no carro, não é, Melrose?

 — Oh, claro. — Mas a voz do coronel não apresentava muita certeza. — O problema é que... — observou ele — estamos trabalhando, você se lembra, Satterthwaite?

 Satterthwaite ficou estático por um momento. A cabeça girava-lhe num turbilhão. Positivamente, vibrou de alegria.

 — Não — disse ele. — Não! Como não pensei nisso antes! Isto não foi por acaso, Sr. Quin. Não foi um mero imprevisto nos encontrarmos, esta noite, nesta estrada.

 O Coronel Melrose olhou para o amigo, perplexo. Satterthwaite pegou-o pelo braço.

 — Lembra-se do que lhe falei sobre nosso amigo Derek Capei? A razão do suicídio, que ninguém conseguia explicar? Pois foi o Sr. Quin quem solucionou o problema — assim como desvendou outros mistérios desde então. Ele lhe mostra as provas que estiveram no local do crime o tempo todo, mas que não conseguimos ver. Ele é fantástico!

 — Meu caro Satterthwaite, você está me deixando sem graça — disse o Sr. Quin, sorrindo. — Pelo que me lembro, foi você quem fez estas descobertas, e não eu.

 — Vieram à tona porque você estava lá — disse Satterthwaite com grande convicção.

 — Bem — disse Melrose, tossindo com embaraço. — Não devemos perder mais tempo. Vamos.

 Pôs-se a dirigir. Não estava gostando muito da presença do estranho, imposta pelo entusiasmo de Satterthwaite; não tinha, porém, qualquer objeção válida para apresentar e queria chegar a Alderway o mais rápido possível.

 O Sr. Satterthwaite deixou o Sr. Quin sentar-se no meio, e tomou o lugar perto da janela. O carro era bastante espaçoso e levou os três sem grande desconforto.

 — Então o senhor se interessa por crimes, Sr. Quin ? — disse o coronel, fazendo o máximo para ser simpático.

 — Não, não é bem por crimes.

 — Pelo quê, então?

 O Sr. Quin sorriu. — Vamos perguntar ao Sr. Satterthwaite. Ele é um observador bastante astuto.

 — Acho — disse Satterthwaite, lentamente — que posso estar equivocado, mas acredito que... o Sr. Quin se interessa por... amantes.

 Ele corou ao proferir a última palavra, que um inglês não pronuncia sem um certo constrangimento. O Sr. Satterthwaite falou como que se desculpando, como se falasse entre aspas.

 — Nossa! — exclamou o coronel, surpreso, e depois calou-se. Pensou consigo mesmo: — Que amigo estranho este. Olhou-o de soslaio. Tinha boa aparência, a pele escura, mas não parecia estrangeiro.

 — E agora — disse Satterthwaite enfático — devo colocá-lo a par do caso.

 Falou durante aproximadamente dez minutos. Sentado ali na escuridão, correndo pela noite, tinha a sensação extasiante do poder. Qual a importância de ele ser um mero observador da vida? Dominava as palavras, unia-as em um padrão, um estranho padrão renascentista composto da beleza de Laura Dwighton, com seus braços brancos e cabelos ruivos — e a figura escura e nebulosa de Paul Delangua, o galã das mulheres...

 Tudo isso posto contra o cenário de Alderway, construída nos tempos de Henrique VII e, dizem, até mesmo antes disso. Alderway, totalmente inglesa, com seus teixos, celeiros e lagos, onde monges guardavam as carpas para as sextas-feiras.

 Em poucas palavras, ele descreveu Sir James, um Dwighton, um verdadeiro descendente dos antigos De Wittons, que há muito tempo enriqueceram e trancaram o dinheiro em cofres, de modo que, quando chegasse a época das vacas magras, os donos de Alderway nunca se vissem em apuros.

 Finalmente Satterthwaite parou de falar. Tinha certeza da receptividade de sua audiência. Ele esperava agora pelo elogio que merecia e ouviu-o.

 

 — Você é um artista, Sr. Satterthwaite.

 — Eu... eu faço o que posso. — O pequeno homem tornou-se, repentinamente, humilde.

 Eles haviam transposto, há pouco, os portões da casa. O carro parou diante da entrada principal, e um policial desceu correndo as escadas para recebê-los.

 — Boa noite, senhor. O Inspetor Curtis está na biblioteca.

 — Certo.

 Melrose subiu as escadas com pressa, seguido pelos outros dois homens. Ao cruzarem um amplo saguão, um mordomo idoso olhou da porta, apreensivo. Melrose cumprimentou-o.

 — Boa noite, Miles. Este é um acontecimento muito triste.

 — De fato — respondeu o outro. — Mal posso acreditar, senhor; é muito difícil de se crer. Pensar que alguém poderia matar o patrão...

 — Sim, é verdade — disse Melrose, interrompendo-o. — Falarei com você daqui a pouco.

 Entrou na biblioteca. Lá, um inspetor alto e com ar de soldado o cumprimentou respeitosamente.

 — Negócio sórdido, senhor. Não toquei em nada. Não há impressões digitais na arma. Quem quer que tenha feito isso, é um entendido no assunto.

 O Sr. Satterthwaite olhou para a figura debruçada sobre a grande escrivaninha e desviou rapidamente o olhar. O homem fora golpeado pelas costas, um golpe tão forte que lhe quebrara o crânio. A visão não era das mais agradáveis.

 A arma jazia no chão — uma figura de bronze, com uns setenta centímetros de altura, cuja base estava manchada e molhada. O Sr. Satterthwaite abaixou-se para vê-la, curioso.

 — Uma Vênus — disse, calmo. — Então ele foi golpeado com uma Vênus.

 Encontrou campo para devaneios poéticos neste pensamento.

 — As janelas — disse o inspetor — estavam todas fechadas e trancadas por dentro.

 Fez uma pausa significativa.

 — O que leva a crer que foi alguém de casa — disse o chefe de polícia com relutância. — Bem, bem, veremos.

 A vítima vestia roupas de golfe, e uma sacola de tacos fora jogada, displicentemente, sobre uma grande poltrona de couro.

 — Tinha acabado de chegar do jogo — explicou o inspetor, seguindo o olhar do chefe de polícia. — Isto ocorreu às cinco e quinze. Pediu que o mordomo trouxesse o chá aqui. Mais tarde, pediu ao criado que lhe trouxesse um par de chinelos. Pelo que sabemos, o criado foi a última pessoa a vê-lo com vida.

 Melrose aquiesceu e voltou mais uma vez a atenção para a escrivaninha.

 Grande parte dos enfeites fora derrubada e quebrada. Dentre eles. destacava-se um grande relógio preto esmaltado, bem no centro da mesa.

 O inspetor tossiu.

 — Isto é o que se chama sorte, senhor — disse ele. — Como pode ver, o relógio parou. Às seis e meia. Isto nos dá a hora exata do crime. Muito conveniente.

 O coronel olhava o relógio.

 — Como você disse — observou —, muito conveniente. — Parou por um momento, e então acrescentou: — Conveniente demais! Não gosto disso, inspetor.

 Olhou para os outros dois homens. Seus olhos procuraram os do Sr. Quin, súplices.

 — Droga — disse ele. — Está tudo muito arrumado. Sabe o que isto significa. As coisas não acontecem assim.

 — O senhor quer dizer — murmurou Quin — que os relógios não caem à toa?

 Melrose olhou-o por alguns momentos, depois voltou o olhar para o relógio, que tinha aquela aparência patética e inocente, familiar aos objetos que foram repentinamente privados de sua dignidade. Com muito cuidado, o Coronel Melrose recolocou-o de pé. Deu um soco violento na mesa. O relógio balançou, mas não caiu. Melrose repetiu o gesto e, muito lentamente, com uma certa má vontade, o relógio tombou para trás.

 — A que horas foi descoberto o crime? — perguntou rispidamente Melrose.

 — Por volta das sete horas, senhor.

 — Quem descobriu?

 — O mordomo.

 — Traga-o aqui — disse o chefe de polícia. — Quero vê-lo agora. Por sinal, onde está Lady Dwighton?

 — Descansando, senhor. Sua criada disse que está muito nervosa, e que não pode receber ninguém.

 Melrose abanou a cabeça e o Inspetor Curtis foi procurar o mordomo. Sr. Quin olhava, pensativo, para a lareira. Satterthwaite seguia-lhe o exemplo. Olhou durante alguns minutos para as toras apagadas e então, algo brilhante caído na grelha chamou-lhe a atenção. Curvou-se e apanhou um pequeno pedaço de vidro côncavo.

 — Quer falar comigo, senhor?

 Era o mordomo ainda trêmulo e ressabiado. O Sr. Satterthwaite colocou o achado no bolso do paletó, e voltou-se. O velho estava parado no vão da porta.

 — Sente-se — disse, delicadamente, o chefe de polícia. — Você está tremendo. Acho que deve ter sido um choque para você.

 — Foi sim, senhor.

 — Bom, não o deterei por muito tempo. Seu patrão chegou em casa um pouco depois das cinco, não é?

 — Sim, senhor. Ele me pediu que lhe trouxesse o chá aqui. Depois, quando voltei para apanhar a bandeja, pediu-me que chamasse Jennings, o valete.

 — A que horas foi isto?

 — Aproximadamente seis e dez, senhor.

 — Sim... então?

 — Falei com Jennings, senhor. E foi apenas quando voltei aqui para fechar as janelas e cerrar as cortinas, às sete horas, que eu vi...

 Melrose interrompeu-o. — Sim, sim, você não precisa reviver tudo isso. Tocou no corpo ou em qualquer outro objeto?

 — Oh, não! Corri o mais rápido que pude para chamar a polícia.

 — E depois?

 — Contei a Janet — a criada de madame — para que falasse com a patroa.

 — Você não esteve com ela durante toda a tarde?

 O Coronel Melrose fez a pergunta distraidamente, más os ouvidos astutos de Satterthwaite captaram uma certa ansiedade naquela interrogação.

 — Não falei com ela não, senhor. Madame ficou nos aposentos desde a hora da tragédia.

 — Você a viu antes disto?

 A pergunta foi incisiva, e todos na sala observaram a hesitação do mordomo, antes de responder.

 — Eu... eu só a vi, senhor, quando ela descia as escadas.

 — Ela entrou aqui?

 O Sr. Satterthwaite prendeu a respiração:

 — Eu... eu acho que sim, senhor.

 — A que horas foi isso?

 Poderia ter-se escutado uma agulha cair. Será que o homem se apercebia da importância daquela resposta? — pensou Satterthwaite.

 — Deviam ser umas seis e meia, senhor.

 O Coronel Melrose deu um profundo suspiro. — Está bem, obrigado. Peça a Jennings, o valete, para vir aqui, por favor.

 Jennings chegou em seguida. Era um homem de rosto miúdo, passos felinos. Havia algo de fortuito e misterioso nele.

 Um homem, pensou Satterthwaite, que mataria tranqüilamente o patrão se tivesse certeza de que não seria descoberto.

 Satterthwaite escutou atentamente as respostas dadas às perguntas que lhe eram feitas pelo Coronel Melrose. Mas sua história parecia certinha demais. Trouxera os chinelos para o patrão e levou os sapatos.

 — O que fez depois disso, Jennings?

 — Voltei para meu quarto, senhor.

 — A que horas deixou seu patrão?

 — Deviam ser seis e quinze.

 — Onde estava às seis e meia, Jennings?

 — No meu quarto.

 O Coronel fez sinal para que o homem saísse. Olhou para Curtis, com ar inquiridor.

 — Confere, senhor. Já verifiquei. Ele esteve em seu quarto das seis e vinte às sete horas, aproximadamente.

 — Então isto o deixa fora do caso — disse o chefe de polícia, com pena. — Além do mais, não havia nenhum motivo.

 Eles se entreolharam. Alguém bateu à porta.

 — Entre — disse o coronel. Apareceu uma criada com ar apavorado.

 — O senhor poderia fazer o favor de me acompanhar? Madame soube que o Coronel Melrose estava aqui, e deseja vê-lo.

 — Claro — disse Melrose. — Irei imediatamente. Onde é? Mas uma mão afastou a garota para o lado. Uma pessoa totalmente diferente estava agora no umbral da porta. Laura Dwighton parecia um ser de outro planeta.

 Trajava um vestido de brocado azul, estilo medieval. Repartia os ruivos cabelos no meio e os prendia atrás da cabeça. Consciente de que possuía um estilo próprio, Lady Dwighton nunca cortava os cabelos. Prendia-os em um coque simples. Trazia os braços descobertos.

 Apoiava um dos braços contra o arco do umbral e, no outro, trazia um livro. Parece, pensou Satterthwaite, uma madona extraída de uma tela italiana.

 Ela ficou parada ali, oscilando levemente de um lado para o outro. O Coronel Melrose dirigiu-se a ela.

 — Vim aqui lhe dizer... lhe dizer...

 Sua voz era baixa, melodiosa. O Sr. Satterthwaite, tão enlevado pelo valor dramático da cena, esquecera sua realidade.

 — Por favor, Lady Dwighton... — Melrose rodeou-a com o braço para apoiá-la. Ele a levou até uma pequena ante-sala, cujas paredes eram revestidas de seda de cores suaves. Quin e Satterthwaite o seguiram. Ela afundou-se no sofá, a cabeça recostada em uma almofada colorida, as pálpebras fechadas. Os três homens a olhavam. De repente, ela abriu os olhos e sentou-se. Falou lentamente:

 — Eu o matei — disse ela. — Foi isso que vim lhe dizer. Eu o matei!

 Houve um momento de angustiante silêncio. O coração de Satterthwaite disparou.

 — Lady Dwighton — disse Melrose —, a senhora sofreu um grande choque, está muito abalada. Acho que não está certa do que diz.

 Será que ela se desculparia agora — enquanto havia tempo?

 — Estou plenamente consciente do que digo. Fui eu quem o matou.

 Dois dos homens engoliram em seco, o outro não emitiu nenhum som. Laura Dwighton curvou-se ainda mais para frente.

 — Será que o senhor não entende? Eu desci e atirei nele. Admito minha culpa.

 O livro que segurava caiu ao chão. Havia um cortador de papel dentro dele, em forma de adaga, incrustado com jóias. O Sr. Satterthwaite apanhou-o mecanicamente, colocando-o sobre a mesa. Ao fazer isto pensou: este é um brinquedo perigoso. Pode-se matar um homem com isto.

 — Bem... — a voz de Laura Dwighton revelava impaciência —, o que o senhor vai fazer agora? Prender-me? Levar-me daqui?

 O Coronel Melrose teve dificuldade em falar.

 — O que a senhora acaba de me dizer é muito sério, Lady Dwighton. Peço-lhe que vá para o seu quarto até que eu tenha... tomado algumas providências.

 Ela aquiesceu e levantou-se. Dona de si, sua aparência era solene e distante.

 Quando se dirigia para a porta o Sr. Quin falou: — O que a senhora fez com o revólver, Lady Dwighton?

 Um ar de incerteza passou-lhe pelo rosto.

 — Eu... eu deixei-o lá, jogado no chão. Não, acho que o joguei pela janela... ai, não consigo me lembrar. Que importância tem isso? Eu mal sabia o que estava fazendo. Não tem importância, não é?

 — Não — disse o Sr. Quin. — Acho que não tem nenhuma importância.

 Ela olhou-o, perplexa e um tanto alarmada. Então, virou a cabeça e saiu majestosamente da sala. O Sr. Satterthwaite saiu atrás dela. Pensou que ela pudesse desmaiar a qualquer momento. Mas já estava no meio da escada, e não apresentava qualquer sinal de sua fraqueza anterior. A empregada de olhar assustado estava parada ao pé da escada e o Sr. Satterthwaite falou-lhe com autoridade.

 — Tome conta de sua patroa — disse ele.

 — Sim, senhor. — A moça preparava-se para subir, acompanhado aquela figura de vestido. — Por favor, senhor, eles não suspeitam dele, não é?

 — De quem?

 — De Jennings. Juro, senhor, ele não seria capaz de matar uma mosca.

 — Jennings? Não, claro que não. Vá e cuide de sua patroa.

 — Sim, senhor.

 A garota subiu as escadas correndo. O Sr. Satterthwaite voltou para a sala.

 O Coronel Melrose dizia com voz grave: — Bem, com os diabos! Há mais coisas envolvidas nisso do que podemos supor. É como aqueles papéis ridículos que as heroínas desempenham em tantos romances.

 — Não é real — concordou Satterthwaite. — Parece coisa de romance.

 O Sr. Quin concordou. — E, você admira a literatura, não é? E também aprecia uma boa apresentação quando a assiste, não? Satterthwaite lançou-lhe um olhar de censura. No silêncio que se seguiu, um som distante chegou até eles.

 — Parece um tiro — disse o Coronel Melrose. — Um dos vigias, acho. Talvez tenha sido isto o que ela ouviu. Pode ser que tenha descido para ver de que se tratava. Não deve ter-se aproximado nem examinado o corpo. Chegou à conclusão...

 — Sr. Delangua — disse o mordomo, parado educadamente à porta.

 — O quê? — disse Melrose. — O que disse?

 — O Sr. Delangua está aqui, senhor, e gostaria de falar-lhe se possível.

 O Coronel Melrose recostou-se na cadeira.

 — Mande-o entrar — disse, carrancudo.

 Momentos depois Paul Delangua parou à soleira da porta. Como o Coronel Melrose suspeitara, havia algo de estrangeiro nele — a delicadeza dos movimentos, o rosto de pele escura e bonita, olhos um pouco juntos. Parecia envolto numa aura renascentista. Ele e Lady Dwighton sugeriam a mesma atmosfera.

 — Boa noite, senhores — saudou Delangua. Fez uma pequena reverência teatral.

 — Não sei qual o assunto que o traz aqui, Sr. Delangua — disse asperamente o coronel —, mas se não estiver relacionado com o caso em questão...

 Delangua o interrompeu com um sorriso.

 — Pelo contrário — disse ele. — Tem muito a ver com ele.

 — O que é que o senhor está querendo dizer?

 — Quero dizer que vim me entregar como autor do assassinato de Sir James Dwighton.

 — O senhor sabe o que está falando?

 — Sei exatamente o que estou dizendo. Os olhos do jovem se fixaram na mesa.

 — Eu não entendo...

 — Por que me entreguei? Pode chamar de remorso ou de qualquer outra coisa. Eu o apunhalei, um golpe certeiro. — Lançou um olhar para a mesa. — A arma está ali, estou vendo. Um pequeno instrumento muito útil. Lady Dwighton, infelizmente, deixou-o jogado por aí, marcando as páginas de um livro, e eu o peguei.

 — Um momento — disse o coronel. — Será que está querendo insinuar que apunhalou Sir James com isto? — Ele segurou a adaga no alto.

 — Isto mesmo. Entrei pela janela. Ele estava com as costas voltadas para mim. Foi muito fácil. Como entrei, saí.

 — Pela janela?

 — Pela janela, é claro.

 — E a que horas foi isso?

 Delangua hesitou. — Deixe-me ver. Estava falando com o vigia, isto foi às seis e quinze. Ouvi o repicão do sino da igreja. Deve ter sido... bem, digamos, por volta das seis e meia.

 Um leve sorriso brotou nos lábios do coronel.

 — Exato — disse ele. — Seis e meia foi a hora em que morreu. Talvez tenha ouvido alguém dizer isto. Mas este é um assassinato totalmente peculiar.

 — Por quê?

 — Porque tantas pessoas já assumiram a culpa — disse o coronel.

 Ouviram a respiração pesada de Delangua.

 — Quem mais confessou? — perguntou numa voz que mal dava para esconder o nervosismo.

 — Lady Dwighton.

 Delangua jogou a cabeça para trás e riu de um modo forçado. — Lady Dwighton deve estar histérica. Não daria atenção ao que ela diz.

 — Concordo — disse Melrose —, mas há mais um detalhe curioso sobre este assassinato.

 — O que é?

 — Bem, Lady Dwighton confessou que atirou em Sir James, e o senhor confessou que o apunhalou. Mas, felizmente para vocês, ele não foi nem baleado nem apunhalado. Amassaram-lhe o crânio.

 — Meu Deus! — exclamou Delangua. — Mas uma mulher, com toda a certeza, não poderia fazer isto...

 Ele calou-se, mordendo os lábios. Melrose concordou, sorrindo.

 — Sempre li sobre isto — disse —, mas nunca tinha visto acontecer.

 — Dois belos idiotas, cada qual assumindo a culpa por achar que o outro é o autor — disse Melrose. — Agora vamos começar do início.

 — O valete — exclamou Satterthwaite. — Aquela moça, agora mesmo... eu não estava prestando atenção na hora — ele parou, procurando coerência. — Tinha medo de que suspeitássemos dele. Deve haver algum motivo.

 O coronel franziu o cenho e então tocou a campainha. Quando a atenderam, ele disse: — Por favor, peça a Lady Dwighton para fazer a gentileza de vir até aqui.

 Esperaram em silêncio até que ela apareceu. Ao ver Delangua, ela assustou-se e apoiou-se para não cair. O Coronel Melrose veio rapidamente em seu auxílio.

 — Está tudo bem, Lady Dwighton. Por favor, não se assuste.

 — Não estou entendendo. O que faz o Sr. Delangua aqui? Delangua aproximou-se dela. — Laura... Laura, por que você fez isto?

 — Isto o quê?

 — Eu sei, foi por mim — porque você pensou que eu... Afinal, seria até natural, acho eu. Mas, meu amor!

 O coronel tossiu. Ele era do tipo que não gostava de emoções e detestava qualquer coisa que se parecesse com uma "cena".

 — A senhora e o Sr. Delangua tiveram uma sorte enorme. Ele acabou de chegar para "confessar" o crime. Ah, está tudo bem, não foi ele! Mas o que nós queremos é a verdade. Vamos parar com esta encenação. O mordomo disse que a senhora entrou na biblioteca às seis e meia — isto é verdade?

 Laura olhou para Delangua. Ele balançou a cabeça.

 — A verdade, Laura — disse ele. — É isto o que queremos saber.

 Ela respirou profundamente. — Eu lhes direi.

 Laura afundou-se numa cadeira que Satterthwaite lhe oferecera.

 — Eu realmente desci. Abri a porta da biblioteca e vi...

 Ela parou e engoliu em seco. O Sr. Satterthwaite aproximou-se e bateu-lhe na mão, encorajando-a.

 — Sim — disse ele. — Você viu o quê?

 — Meu marido estava debruçado sobre a escrivaninha. Vi sua cabeça... o sangue... oh!

 Ela cobriu o rosto com as mãos. O chefe de polícia inclinou-se.

 — Desculpe-me, Lady Dwighton. Pensou que o assassino fosse Delangua?

 Ela anuiu. — Perdoe-me, Paul — implorou. — Mas como você disse... disse...

 — Que o mataria como a um animal — disse Delangua rispidamente. — Lembro-me disso. Foi quando descobri que ele a maltratava.

 O chefe de polícia prendeu-se estritamente ao assunto em questão.

 — Então, pelo que estou entendendo, Lady Dwighton, a senhora tornou a subir e... não disse nada. Não precisamos discutir os motivos. A senhora não tocou o corpo nem se aproximou da escrivaninha?

 Ela estremeceu.

 — Não, não. Voltei correndo para o meu quarto.

 — Ah, entendo. A que horas, exatamente, foi isto?

 — Eram seis e meia quando voltei para o quarto.

 — Então às, digamos, seis e vinte e cinco, Sir James já estava morto. — O chefe de polícia olhou para os outros. — Aquele relógio — foi preparado! Sempre desconfiamos disso. Nada mais fácil do que se mover os ponteiros para a hora que quisermos, mas fizeram mal em deixá-lo tombado daquele jeito. Bem, isto parece restringir as suspeitas ao mordomo e ao valete, e não posso acreditar que tenha sido o mordomo. Diga-me, Lady, este homem, Jennings, tinha alguma coisa contra o seu marido?

 Laura levantou o rosto. — Não tinha exatamente nada contra, mas... bem... James disse-me esta manhã que o havia despedido. Ele o pegou roubando.

 — Ah! Agora estamos indo bem. Jennings fora despedido sem uma chance. Uma coisa séria para ele.

 — O senhor disse algo sobre um relógio — disse Laura Dwighton — só há uma chance, se quer saber a hora exata... James, com toda a certeza, deveria estar usando o pequeno relógio de golfe. Será que este não se quebrou, também, quando ele caiu?

 — Ê uma idéia — disse vagarosamente o coronel. — Mas temo... Curtis!

 O inspetor entendeu logo e saiu da sala. Voltou um minuto depois. Na palma da mão, um relógio de prata usado por golfistas, no bolso, junto com as bolas.

 — Aqui está, senhor — disse ele. — Mas temo que não terá nenhuma serventia. Estes relógios são resistentes.

 O coronel pegou-o e encostou-o ao ouvido.

 — Parece que parou — observou.

 Ele fez pressão com o polegar e a tampa do relógio abriu. Do lado de dentro, o vidro estava rachado.

 — Ah! — disse, exultante.

 O ponteiro marcava seis e quinze.

 — Um ótimo vinho do porto — disse o Sr. Quin.

 Eram nove e meia e os três homens tinham acabado de jantar na casa de Melrose. O Sr. Satterthwaite estava particularmente exultante.

 — Eu estava certo — disse. — Você não pode negar, Sr. Quin. Salvou dois jovens de se meterem em encrenca.

 — Foi mesmo? Lógico que não. Não fiz nada.

 — Do modo como tudo se desenrolou, não foi necessário — concordou Satterthwaite. — Mas poderia ter sido. Nunca esquecerei o momento em que Lady Dwighton disse "eu o matei". Nunca vi nada tão dramático no palco.

 — Tenho que concordar com você — disse o Sr. Quin.

 — Nunca imaginei que isto pudesse acontecer na vida real — afirmou o Coronel, talvez pela vigésima vez naquela noite.

 — E aconteceu? — perguntou o Sr. Quin.

 O coronel encarou-o. — Diabos! Aconteceu esta noite.

 — Não se altere — disse Satterthwaite recostando-se e bebendo seu porto. — Lady Dwighton esteve magnífica, soberba, mas cometeu um erro. Ela não poderia ter chegado à conclusão de que o marido fora baleado. Do mesmo modo como Delangua foi um idiota por acreditar que fora apunhalado só porque a adaga estava em uma mesa na nossa frente. Foi uma mera coincidência que Lady Dwighton tenha trazido a adaga com ela.

 — Foi mesmo? — perguntou Quin.

 — Agora, se eles tivessem se limitado a dizer que mataram Sir James, sem detalhar como... — continuou Satterthwaite —, qual teria sido o resultado?

 — Acreditaríamos neles — disse o Sr. Quin, sorrindo.

 — A coisa toda foi como um romance — falou o coronel.

 — Foi de onde tiraram esta idéia, acho — disse Quin.

 — Provavelmente — concordou Satterthwaite. — As coisas que lemos às vezes nos voltam à mente nos momentos mais estranhos. — Ele lançou um olhar para o Sr. Quin. — É lógico — disse — o relógio realmente parecia suspeito desde o início. Não nos podemos esquecer de como é fácil se adiantar ou atrasar um relógio. O Sr. Quin concordou e repetiu as palavras.

 — Para a frente — disse ele, e fez uma pausa — ou para trás. Havia algo de estimulante em sua voz. Seus olhos escuros e brilhantes fixaram-se em Satterthwaite.

 — Os ponteiros do relógio foram adiantados — disse Satterthwaite.— Sabemos disso.

 — Foram? — perguntou Quin.

 O Sr. Satterthwaite olhou para ele. — O que quer dizer? Que o relógio foi atrasado? Mas isto não faz sentido. É impossível.

 — Impossível, não — murmurou o Sr. Quin.

 — Bem... absurdo. Quem lucraria com isso?

 — Apenas, acho eu, alguém que tivesse um álibi para aquela hora.

 — Meu Deus! — exclamou o coronel. — Naquela hora o jovem Delangua disse estar conversando com o vigia.

 — Ele disse isso de um modo muito peculiar — disse Satterthwaite.

 Eles se entreolharam. Tinham a sensação de que o chão se lhes escapava dos pés. Os fatos começaram a rodar, apresentando novas e inesperadas faces. E no centro do caleidoscópio, o rosto de tez escura e sorridente do Sr. Quin.

 — Mas neste caso... — começou Melrose — neste caso...

 Satterthwaite rapidamente concluiu a frase. — É tudo exatamente ao contrário. O plano é o mesmo... mas é um plano contra o criado. Ah, mas não pode ser. É impossível! Por que cada um deles assumiu a culpa?

 — Sim — disse o Sr. Quin. — Até então você suspeitava deles, não é verdade? Como algo extraído de um livro, o senhor disse, coronel. E tiraram a idéia de um livro. É o que o herói e a heroína fazem. Nós os consideramos inocentes — há a força da tradição por trás disso. O Sr. Satterthwaite repetiu o tempo todo que parecia uma representação. Vocês dois estavam com a razão. Não era real. Vocês repetiram isto o tempo todo, sem saber o que estavam dizendo. Eles deveriam ter contado uma história muito melhor do que esta se quisessem que acreditássemos nela.

 Os dois homens olharam para o Sr. Quin, sem entender nada.

 

 — Seria mais inteligente — disse o Sr. Satterthwaite — diabolicamente mais inteligente. E pensei em mais uma coisa. O mordomo disse que entrou na biblioteca às sete para fechar as janelas — ele deveria achar que estavam abertas.

 — Foi deste modo que Delangua entrou — disse Quin. — Ele matou Sir James com um golpe, e depois, os dois juntos, fizeram o que tinham a fazer...

 Quin olhou para o Sr. Satterthwaite, encorajando-o a reconstituir a cena. E ele o fez, hesitante.

 — Eles quebraram o relógio e o arrumaram para ajudá-los no álibi. Sim. Alteraram o relógio e o quebraram. Então ele saiu pela janela e ela a trancou, mas há uma coisa sem sentido. Por que se preocupar com o relógio? Por que simplesmente não o atrasaram?

 — O relógio sempre foi muito óbvio — disse o Sr. Quin. — Qualquer pessoa poderia ver através de um artifício tão frágil quanto aquele.

 — Mas, certamente, o relógio era muito artificial. Ora, foi por puro acaso que pensamos no relógio.

 — Ah, não — disse o Sr. Quin. — Foi por sugestão de Lady Dwighton, lembra-se?

 O Sr. Satterthwaite o encarou, fascinado.

 — E ainda mais — disse o Sr. Quin, divagando — a única pessoa que provavelmente não desprezaria o relógio seria o criado. Eles, geralmente, sabem melhor do que ninguém o que seus patrões levam consigo. Se ele tivesse alterado o relógio de mesa, teria alterado o outro também. Aqueles dois não entendem nada da natureza humana. Não são como o Sr. Satterthwaite.

 Este anuiu.

 — Eu estava totalmente equivocado — murmurou, humilde. — Pensei que estivesse vindo para salvá-los.

 — E foi o que fiz — disse o Sr. Quin. — Ah, não aqueles dois mas os outros. Talvez não tenha percebido a criada de Lady Laura. Ela não estava nem vestida de brocado azul e não representava um papel dramático. Mas é uma moça muito bonita e acho que ama muito Jennings. Acho que vocês poderão salvar seu companheiro da forca.

 — Não temos nenhuma prova — disse o Coronel Melrose, sério. O Sr. Quin sorriu. — O Sr. Satterthwaite tem.

 — Eu? — Satterthwaite estava atônito.

 O Sr. Quin continuou: — Você tem uma prova de que aquele relógio não quebrou no bolso de Sir James. Não se pode quebrar um relógio daqueles sem se abrir a tampa. Tente e comprove. Alguém retirou o relógio do bolso de Sir James e o abriu, alterou os ponteiros, quebrou o vidro e o fechou, recolocando-o no lugar. Não perceberam que faltava um pedaço do vidro.

 — Ah! — gritou Satterthwaite, colocando rapidamente a mão no bolso do paletó. Retirou de lá um pedaço de vidro côncavo.

 Foi seu apogeu.

 — Com isto — disse Satterthwaite imponente — posso salvar um homem da forca.

 

 O SINAL VERMELHO

— Mas que emocionante — disse a linda Sra. Eversleigh, arregalando os adoráveis, mas ligeiramente inexpressivos olhos azuis. — Sempre se diz que as mulheres têm um sexto sentido; acha que isso é verdade, Sir Alington?

 O famoso psiquiatra sorriu sarcasticamente. Ele nutria um imenso desprezo por tipos tolos e bonitos, tal como esta convidada. Alington West, uma autoridade suprema em doenças da mente, tinha plena consciência de sua posição e importância. Um homem ligeiramente insolente, cuja presença era marcante.

 — Sei que se fala uma porção de asneiras, Sra. Eversleigh. O que significa isto — um sexto sentido?

 — Vocês cientistas são sempre tão rígidos. E é realmente extraordinário como as pessoas parecem saber certas coisas, algumas vezes — quer dizer, conhecê-las, senti-las —, é realmente misterioso. Claire sabe o que quero dizer, não é mesmo, Claire?

 Ela dirigiu-se à anfitriã fazendo um ligeiro beicinho e inclinando os ombros.

 Claire Trent não respondeu logo. Era um pequeno jantar: ela e o marido, Violet Eversleigh, Sir Alington West e seu sobrinho Dermot West, velho amigo de Jack Trent. O próprio Jack Trent, um homem espalhafatoso, de sorriso bem-humorado e gargalhada agradável, entrou na conversa.

 — Puro farol, Violet! Seu velho amigo morre num acidente de trem, e logo você se lembra de que sonhou com um gato preto na última terça-feira — maravilhoso! Você pressentiu que alguma coisa iria acontecer!

 — Ah, não, Jack! Você está misturando intuição com premonição. Ora, Sir Alington, o senhor tem que admitir que as premonições são reais, não são?

 — Até certo ponto, talvez — admitiu o médico, com cautela. — Mas a coincidência explica várias coisas e há sempre esta tendência de aumentar a história depois — tem-se que levar isto em considerarão.

 — Acho que não existe premonição — disse Claire Trent, de maneira um pouco abrupta. — Nem intuição, nem sexto sentido, nada dessas coisas sobre as quais falamos com tanta loquacidade. Passamos pela vida como um trem que se precipita através da escuridão a um destino desconhecido.

 — Este não é um aspecto muito agradável, Sra. Trent — disse Dermot West, levantando a cabeça pela primeira vez e tomando parte na discussão. Os claros olhos acinzentados, contrastando com a pele bronzeada, brilharam de maneira estranha.

 — Sabe, você se esqueceu dos sinais.

 — Sinais?

 — Sim, verde se tudo está certo, e vermelho — para o perigo!

 — Vermelho — para perigo... que emocionante! — sussurrou Violet Eversleigh.

 Dermot desviou o olhar dela, impaciente.

 — Claro que esta é apenas uma forma de descrever a situação. Perigo à vista! O sinal vermelho! Atenção!

 Trent olhou-o, curioso:

 — Você fala como se fosse uma experiência real, Dermot!

 — E é; ou melhor, foi.

 — Então, conte.

 — Eu posso dar um exemplo. Lá na Mesopotâmia, logo depois do Armistício, entrei na minha barraca com uma forte sensação: Perigo! Atenção! Não tinha a mínima idéia do que podia acontecer. Fiz uma ronda no campo, inquietando-me desnecessariamente, e tomei todas as precauções contra um ataque dos árabes hostis. Depois voltei para minha barraca. Quando entrei, a sensação ficou mais forte do que nunca: Perigo! No fim, levei um cobertor lá para fora', me enrolei nele e dormi ao relento.

 — E depois?

 — Na manhã seguinte, mal entrei na barraca, a primeira coisa que vi foi uma armadilha feita de uma lâmina comprida, de quase meio metro, atravessada na minha cama, bem onde eu devia estar. Logo descobri tudo... um dos empregados árabes. O filho dele morreu como espião. O que você tem a dizer, tio Alington, a respeito deste exemplo do que chamo de sinal vermelho?

 

 O especialista sorriu reservadamente.

 — Uma estória muito interessante, querido Dermot.

 — Mas você não a aceita sem reservas, não é?

 — Não duvido que tenha tido a premonição do perigo, como você mesmo disse. O que discuto é a sua origem. Segundo você, ela veio do exterior, impressa por alguma fonte externa em seu espírito. Hoje em dia. porém, achamos que quase tudo vem de dentro, do nosso ser subconsciente.

 — O velho subconsciente — falou Jack Trent. — Atualmente, é pau para toda obra.

 Sir Alington continuou, sem fazer caso da interrupção.

 — Minha idéia é a de que pelo olhar o árabe se tenha traído. Seu consciente não notou nem se lembrou, o que não aconteceu com o subconsciente. Este nunca se esquece. Também acreditamos que ele seja capaz de raciocinar e deduzir, independentemente da vontade consciente. Assim, o ser subconsciente acreditou que tentariam matá-lo e teve êxito em penetrar na sua percepção consciente.

 — Admito que é bastante convincente — disse Dermot, sorrindo.

 — Mas não tão emocionante — censurou a Sra. Eversleigh.

 — Também é possível que você tenha ficado alerta, no subconsciente, para o ódio deste homem em relação a você. Aquilo que antes se chamava telepatia certamente existe, embora as condições que a governam sejam pouco conhecidas.

 — Houve algum outro exemplo? — perguntou Claire a Dermot.

 — Ah, sim! Mas nada muito pitoresco — acho que todos podem ser explicados pela coincidência. Uma vez recusei um convite para passar uns dias numa casa de campo, simplesmente pelo "hasteamento" do sinal vermelho. O lugar pegou fogo. A propósito, tio Alington, onde entra o subconsciente?

 — Acho que não entra — sorriu Alington.

 — Mas você tem uma explicação igualmente boa. Ora, vamos. Não precisa ficar cheio de dedos com os parentes próximos.

 — Bom, meu querido sobrinho, eu diria que você recusou o convite porque realmente não queria ir e que, depois do incêndio, se sugestionou de que recebera um aviso de perigo, em cuja explicação agora acredita implicitamente.

 — Não adianta — riu Dermot. — Seus argumentos são mesmo convincentes.

 — Não interessa, Sr. West — disse Violet Eversleigh. — Acredito no seu sinal vermelho. A última vez que sentiu isso foi na Mesopotâmia?

 — Foi, até...

 — Como?

 

 — Nada.

 Dermot calou-se. As palavras que quase lhe escaparam dos lábios eram: "Foi, até hoje à noite". Elas vieram de maneira inesperada, dando voz a um pensamento que ainda não fora conscientemente percebido; ele viu logo, porém, que eram verdadeiras. O Sinal Vermelho agigantava-se na escuridão. Perigo! Perigo à vista!

 Mas por quê? Que perigo poderia haver aqui na casa de amigos? Pelo menos... bom, havia esse tipo de perigo. Ele olhou para Claire Trent... sua pele alva, sua elegância, a maravilhosa inclinação da cabeça dourada. Esse perigo já existia há algum tempo... não havia probabilidade de ser aguçado. Afinal, Jack Trent era seu melhor amigo e, mais do que isso, o homem que lhe salvara a vida em Flanders, cujo feito lhe rendeu a medalha Victoria Cross. Jack era um bom rapaz, um dos melhores. Que azar ter-se apaixonado pela mulher de Jack. Mas ela seria esquecida algum dia. Nada poderia machucar assim para sempre. Pode-se viver sem isso... é claro... pode-se viver sem isso. Ela nunca suspeitaria e, se por acaso viesse a desconfiar, não ligaria. Uma estátua, uma linda estátua, uma coisa de ouro, marfim e pálido coral rosa... Um brinquedo de rei, e não uma mulher real.

 Claire... só pensar no nome dela, mencioná-lo em silêncio o feria... ele tinha que superar isso. Já se apaixonara por outras mulheres antes. "Mas assim, não", alguma coisa lhe dizia. "Não assim". Aí estava. Nada de perigo. Mágoa, sim, mas não perigo. Não o perigo do Sinal Vermelho. Isto se devia a outro motivo.

 Ele olhou a mesa e, pela primeira vez, achou que aquela era uma reunião estranha. O tio, por exemplo, nunca jantava fora de maneira informal, trivial. Não era como se os Trent fossem velhos amigos; até aquela noite, Dermot nem se apercebera de que ele os conhecia.

 Bem, havia uma desculpa. Uma célebre médium viria depois do jantar fazer uma sessão. Sir Alington manifestou interesse pelo espiritismo. Sim, certamente havia uma desculpa.

 A palavra ficou a martelar-lhe a cabeça: uma desculpa. Será que a sessão era apenas uma desculpa para tornar natural a presença do especialista no jantar? Em caso afirmativo, qual o verdadeiro propósito de sua presença aqui? Uma série de detalhes cruzaram a mente de Dermot, ninharias até então despercebidas ou, como diria o tio, despercebidas pela mente consciente.

 O grande médico olhara mais de uma vez para Claire, de modo estranho, muito estranho. Ele parecia observá-la. E ela não devia estar à vontade, torcia as mãos de vez em quando. Estava nervosa, terrivelmente nervosa e será que estava assustada? Por que assustada?

 Com um sobressalto, ele voltou a tomar parte na conversa. A Sra. Eversleigh conseguira que o grande homem falasse sobre o assunto de sua preferência.

 — Minha cara senhora — dizia ele — o que é a loucura? Posso assegurar-lhe que quanto mais estudamos este assunto, mais difícil ele se torna. Todos nós experimentamos um certo grau de fantasia mas, quando chegamos ao ponto de acreditar que somos o Czar da Rússia, nos prendem. Contudo até chegarmos a este grau, percorremos um longo caminho. Em que determinado lugar devemos erguer um marco e dizer: "deste lado, sanidade, do outro, loucura?" Não se pode fazer isso. E vou lhe dizer mais: se, por acaso, a pessoa que tem alucinações resolvesse não falar nada sobre isso, com toda a certeza não conseguiríamos distingui-la de um ser normal. A extraordinária sanidade do insano é um assunto muito interessante. Sir Alington tomou um gole de vinho, e sorriu deleitado.

 — Sempre ouvi dizer que são muito espertos — observou a Sra. Eversleigh. — Os birutas, quero dizer.

 — Bastante. E a repressão de uma determinada ilusão muitas vezes tem um efeito terrível. Todas as repressões são perigosas, como mostra a psicanálise. O homem cuja excentricidade é inofensiva, e pode entregar-se a ela como tal, raramente ultrapassa o limite. Mas o homem — ele fez uma pausa —, ou a mulher, que aparenta ser perfeitamente normal pode ser, na realidade, uma constante fonte de perigo para a comunidade.

 Ele lançou um breve olhar a Claire e tomou outro gole do vinho. Dermot sentiu um medo horrível. Era isso o que ele queria dizer? Era a isso que queria chegar? Impossível, mas...

 — E tudo porque a pessoa se reprime — suspirou a Sra. Eversleigh. — Entendo bem que se deve ter muito cuidado sempre para — para expressar a personalidade. Os perigos do outro são assustadores.

 — Minha querida Sra. Eversleigh — advertiu o médico. — A senhora não me entendeu. A causa do mal reside na matéria física da mente — algumas vezes originária de um agente externo, como um golpe; algumas vezes é congênito.

 — A hereditariedade é uma tristeza — suspirou a senhora, vagamente. — Tísica pulmonar e tudo isso.

 — A tuberculose não é hereditária — disse Sir Alington secamente.

 — Não é? Sempre pensei que fosse. Mas a loucura é! Que horror. O que mais?

 — Gota — disse Sir Alington, sorrindo. — E daltonismo também. Este é muito interessante. É transmitido diretamente aos homens, mas é latente nas mulheres. De modo que, enquanto há vários homens daltônicos, é mais difícil encontrar-se uma mulher com estas características já que, para isso, é preciso que o daltonismo esteja latente na mãe e presente no pai — coisa muito difícil de acontecer. É o que chamamos de hereditariedade limitada ao sexo.

 — Que interessante. Mas a loucura não é assim, é?

 — A loucura pode passar tanto para o homem quanto para a mulher — disse o médico, sério.

 Claire levantou-se de repente, afastando a cadeira de um modo tão abrupto que esta virou e caiu no chão. Estava muito pálida, e os movimentos nervosos dos dedos eram aparentes.

 — Você — você não vai se estender muito, não é? — pediu ela.

 — A Sra. Thompson estará aqui dentro de alguns minutos.

 — Só mais um cálice de vinho e estarei com você — declarou Sir Alington. — Vim para ver o notável desempenho dessa Sra. Thompson, não é? Ha, ha, não que eu precisasse de motivos. — Ele fez uma reverência.

 Claire deu um leve sorriso de agradecimento e saiu da sala, a mão pousada no ombro da Sra. Eversleigh.

 — Acho que fiquei falando sobre assuntos profissionais — observou o médico ao voltar a seu lugar. — Desculpe-me.

 — Não foi nada — disse Trent, perfunctório.

 Ele parecia preocupado, tenso. Pela primeira vez, Dermot sentia-se um estranho na companhia do amigo. Entre os dois havia um segredo que nem mesmo um velho amigo poderia compartilhar. E, ao mesmo tempo, tudo parecia fantástico, inacreditável. E em que se baseava? Nada além dos olhares e do nervosismo de uma mulher.

 Bebericaram o vinho, mas por pouco tempo, pois foi anunciada a chegada da Sra. Thompson.

 A médium era uma mulher de meia idade, rechonchuda, pessimamente vestida num veludo carmim; sua voz era alta e comum.

 — Espero não estar atrasada, Sra. Trent — disse alegremente.

 — A Sra. disse nove horas, não foi?

 — A senhora foi muito pontual — disse Claire na sua voz doce, ligeiramente rouca. — Este é o nosso pequeno círculo.

 E não se fizeram outras apresentações, como de costume. A médium os varreu com olhar penetrante e astuto.

 — Espero que obtenhamos bons resultados — observou, animada. — Não podem imaginar como detesto quando não satisfaço as pessoas. Fico louca. Mas acho que, hoje, Shiromako (meu controle japonês, sabem) vai dar conta do recado. Estou me sentindo muito em forma e até recusei as torradas ao forno, mesmo gostando de queijo derretido.

 Dermot ouvia, entre divertido e enojado. Que coisa mais vulgar! E no entanto, será que ele não estaria julgando de maneira tola? Afinal de contas, tudo era natural — os poderes reivindicados pelos médiuns eram naturais, mas imperfeitamente entendidos. Um grande cirurgião toma precauções às vésperas de uma operação delicada. E por que não a Sra. Thompson?

 As cadeiras foram arrumadas em círculo, e as luzes de modo a serem convenientemente acesas ou apagadas. Dermot notou que não houve testes e que ninguém duvidou de que Sir Alington se satisfazia quanto às condições da sessão. Não, este negócio todo de Sra. Thompson era apenas um pretexto. Sir Alington estava ali por motivo bem diferente. A mãe de Claire, lembrou-se Dermot, morrera fora do país. Algum mistério a cercava... Hereditário...

 Com um sobressalto, ele forçou a mente a concentrar-se no que estava acontecendo.

 Todos tomaram seus lugares e todas as luzes, com exceção de uma pequena lâmpada vermelha, sobre uma mesa distante, se apagaram.

 Por algum tempo não se ouviu nada, a não ser a respiração ritmada da médium. Gradualmente, ela foi-se tornando estertorosa. E então, de maneira tão repentina que fez Dermot pular, ouviu-se uma forte pancada vinda da extremidade da sala. Ela se repetiu do outro lado. Depois ouviu-se um perfeito crescendo de pancadas. Estas deram lugar a risadas zombeteiras que encheram a sala. Depois o silêncio, quebrado por uma voz bem diferente daquela da Sra. Thompson, uma voz alta exoticamente modulada.

 — Estou aqui, senhores — disse a voz. — Sim, estou aqui. Querem me fazer perguntas?

 — Quem é você? Shiromako?

 — Sim. Eu, Shiromako. Morri há muito tempo. Eu trabalho. Eu muito feliz.

 Seguiram-se outros detalhes da vida de Shiromako. Tudo muito monótono, sem interesse e Dermot já ouvira isso muitas vezes antes. Todos eram felizes, muito felizes. Mandava recados de parentes, os quais descrevia de maneira vaga e tão imprecisa que se podia encaixar quase que em qualquer contingência. Uma senhora mais velha, a mãe de um dos presentes, passou algum tempo transmitindo máximas de um livro com ar de novidade, dificilmente praticadas por ela mesma.

 — Outra pessoa quer se comunicar agora — anunciou Shiromako. — Tem um recado importante para um dos cavalheiros.

 Houve uma pausa e uma nova voz se fez ouvir, prefaciando sua observação com uma risada diabólica.

 — Ha! ha! Ha! ha! ha! Melhor não ir para casa. Melhor não ir para casa. Ouça meu conselho.

 — Com quem você está falando? — perguntou Trent.

 — Com um de vocês três. Não iria para casa se fosse ele. Perigo! Sangue! Não muito sangue — o bastante. Não, não vá para casa. — A voz foi sumindo — Não vá para casa.

 E sumiu completamente. Dermot sentiu o sangue martelando-lhe as têmporas. Estava convencido de que o aviso lhe era dirigido. De algum modo havia perigo hoje à noite.

 Ouviu-se um suspiro da médium, e depois um gemido. Ela estava voltando. As luzes acenderam-se e, pouco depois, ela sentou-se empertigada, os olhos piscos.

 — Saiu tudo bem, querida? Espero que sim.

 — Muito bom mesmo, obrigada, Sra. Thompson.

 — Shiromako, não é?

 — Sim, e outros.

 A Sra. Thompson bocejou.

 — Estou morta. Completamente arrasada. Tira muito da gente. Bem, estou contente que tenha sido um sucesso. Tinha um pouco de medo que não fosse, que alguma coisa desagradável acontecesse. Hoje, as vibrações desta sala estão estranhas.

 Ela olhou por sobre os ombros, encolhendo-os depois, desanimada.

 — Não está me agradando — disse ela. — Alguma morte repentina entre vocês, recentemente?

 — O que quer dizer — entre nós?

 — Parentes próximos, amigos? Não? Bem, se quisesse ser melodramática diria que, esta noite, a morte paira no ar. Mas é bobagem minha. Até logo, Sra. Trent. Que bom que ficou satisfeita.

 A Sra. Thompson, no seu vestido de veludo carmim, retirou-se.

 — Espero que tenha sido interessante, Sir Alington — murmurou Claire.

 — Uma noite das mais interessantes, querida senhora. Muito obrigado pela oportunidade. Deixe-me desejar-lhe boa noite. Todos vão dançar, não vão?

 — Não vem conosco?

 — Não, não. Tenho como regra já estar deitado antes de onze e meia. Boa noite. Boa noite, Sra. Eversleigh. Ah, Dermot, gostaria de dar uma palavrinha com você. Pode vir comigo, agora? Depois se encontra com os outros nas Grafton Galleries.

 — Claro, tio. Então eu o encontro lá, Trent.

 Durante o curto percurso a Harley Street, tio e sobrinho trocaram poucas palavras. Sir Alington desculpou-se por tê-lo afastado dos outros, mas garantiu que só o deteria por alguns minutos.

 — Você vai querer o carro, meu rapaz? — perguntou, quando saltaram.

 — Não se incomode. Eu tomo um táxi.

 — Muito bem. Não gosto de manter Charlson acordado sem necessidade. Boa noite, Charlson. Mas onde coloquei minha chave?

 O carro afastou-se, enquanto Sir Alington, parado nos degraus da escada, vasculhava inutilmente os bolsos.

 — Devo ter esquecido a chave no outro paletó. Quer tocar a campainha? Johnson ainda deve estar acordado.

 O imperturbável Johnson realmente abriu a porta em sessenta segundos.

 — Não encontrei a chave, Johnson — explicou Sir Alington. — Quer fazer o favor de trazer uísque e soda para a biblioteca?

 — Pois não, senhor.

 O médico encaminhou-se a passos largos para a biblioteca e acendeu as luzes. Pediu a Dermot que fechasse a porta.

 — Tem uma coisa que quero lhe dizer, Dermot. Será fantasia minha ou você tem uma certa... tendresse, digamos, pela Sra. Jack Trent?

 Dermot enrubesceu.

 — Jack Trent é meu melhor amigo.

 — Desculpe-me, mas isso não responde minha pergunta. Sei que você considera minha opinião sobre o divórcio bastante puritana, mas devo lembrar-lhe de que é meu único parente próximo e meu herdeiro.

 — Ninguém falou em divórcio — disse Dermot, zangado.

 — Claro que não, e por um motivo que talvez eu entenda melhor do que você. Não lhe posso dizer agora qual é este motivo, mas quero apenas avisá-lo: Claire Trent não é para você.

 O jovem encarou o tio.

 — Eu entendo e, talvez melhor do que você possa supor. Sei o motivo de sua presença ao jantar de hoje à noite.

 — Sabe? — O médico estava realmente surpreso. — Como é que soube?

 — Chame de suposição. Estou certo em dizer que esteve lá em caráter profissional?

 Sir Alington andava de um lado para o outro.

 — Certíssimo, Dermot. Claro que eu mesmo não podia contar a você, embora ache que, mais cedo ou mais tarde, todos vão saber.

 Dermot sentiu um aperto no coração.

 — Quer dizer que... já chegou a uma conclusão?

 — Já! Há insanidade na família — do lado materno. Um caso triste, muito triste.

 — Não posso acreditar.

 — É difícil mesmo. Para o leigo são poucos os sinais aparentes, se é que há algum.

 — E para o perito?

 — As provas são conclusivas. Em tal caso, o paciente tem que ser internado o mais rápido possível.

 — Meu Deus! — exclamou Dermot. — Mas não se pode trancar alguém por nada.

 — Meu querido Dermot! Só se interna os pacientes quando a liberdade deles resulta em perigo para a comunidade. Um perigo muito grande. Provavelmente, uma forma peculiar de mania de homicídio. Foi o que aconteceu com a mãe.

 Dermot enterrou o rosto nas mãos. Claire — a toda branca e dourada Claire!

 — Nestas circunstâncias — continuou o médico, consolador —, senti-me na obrigação de avisá-lo.

 — Claire — murmurou Dermot. — Minha pobre Claire.

 — Sim, todos devemos ter pena dela.

 De repente, Dermot levantou a cabeça.

 — Não acredito.

 — O quê?

 — Estou dizendo que não acredito. Os médicos se enganam. Todo mundo sabe disso. E estão sempre interessados na própria especialidade.

 — Meu caro Dermot — repreendeu Sir Alington.

 — Estou lhe dizendo que não acredito e, de qualquer maneira, se for verdade, não me importo. Amo Claire. Se ela vier comigo, vou levá-la para longe, muito longe, fora do alcance de médicos intrometidos. Vou cuidar dela, guardá-la, protegê-la com meu amor.

 — Não vai fazer nada disso. Está louco? Dermot riu com desdém:

 — Você diria isso.

 — Quero que me compreenda, Dermot. — O rosto de Sir Alington estava vermelho pela cólera reprimida. — Se você fizer isso — essa coisa vergonhosa — é o fim. Eu retiro sua pensão e faço um novo testamento deixando tudo o que possuo para vários hospitais.

 — Faça o que quiser com seu maldito dinheiro — disse Dermot, em voz baixa. — Terei a mulher que amo.

 — Uma mulher que...

 — Se disser uma palavra contra ela eu o mato! — gritou Dermot.

 Um leve tilintar de copos os fez girar. Eles não haviam atentado para Johnson que entrava, no calor da discussão, com uma bandeja e copos. O rosto estava imperturbável, digno de um bom criado. Mas Dermot pôs-se a pensar no quanto ele teria ouvido.

 — É só isso, Johnson — disse Sir Alington, lacônico. — Pode deitar-se.

 — Obrigado, senhor. Boa noite.

 Johnson retirou-se.

 Os homens se entreolharam. A interrupção momentânea acalmara a tempestade.

 — Tio — disse Dermot. — Não deveria ter falado da maneira que falei. Entendo que do seu ponto de vista, você está certíssimo. Mas há muito tempo que amo Claire Trent. Por Jack Trent ser meu melhor amigo é que nunca falei de amor a Claire. Mas, nestas circunstâncias, isso não interessa mais. É absurda a idéia de que qualquer condição sobre dinheiro possa me deter. Acho que ambos dissemos o que havia para ser dito. Boa noite.

 — Dermot...

 — Realmente não adianta mais discutir. Boa noite, tio Alington. Sinto muito.

 Ele saiu apressado, fechando a porta. O vestíbulo estava escuro. Ele atravessou-o, abriu a porta da frente e emergiu na rua, batendo a porta.

 Dermot apanhou um táxi que acabava de deixar uma pessoa um pouco adiante e encaminhou-se para Grafton Gelleries.

 Parou um minuto à porta do salão de festas, confuso, a cabeça rodando. O som estridente do jazz, as mulheres sorridentes — era como se tivesse entrado em outro mundo.

 Será que havia sonhado? Impossível que aquela terrível conversa com o tio tivesse acontecido realmente. Claire passou por ele, flutuando como um lírio dentro do vestido branco e prateado que lhe caía como uma luva. Ela sorriu-lhe, o rosto calmo e sereno. Com certeza fora tudo um sonho.

 A dança cessava. Pouco depois ela estava perto dele, sorrindo-lhe. Como num sonho, ele convidou-a para dançar. Ela agora estava nos seus braços; a música recomeçava.

 Ele sentiu-a desfalecer.

 — Cansada? Quer parar?

 — Se não se importa, vamos a algum lugar onde possamos conversar. Quero dizer-lhe uma coisa.

 Não era um sonho. Ele voltou à terra com um sobressalto. Será que, alguma vez, o rosto dela fora calmo e sereno? Estava ensombreado pela ansiedade, pelo medo. Quanto será que ela sabia?

 Eles encontraram um cantinho calmo e sentaram-se lado a lado.

 — Bem — disse ele, fingindo uma frieza que não sentia. — Você queria dizer alguma coisa?

 — Sim. — Tinha os olhos baixos. Brincava nervosamente com o enfeite do vestido. — É... bem difícil.

 — Pode dizer, Claire.

 — É que... quero que você se afaste por algum tempo. Ele estava perplexo. Esperava qualquer coisa, menos isso.

 — Quer que me afaste? Por quê?

 — É melhor ser honesta, não é? Sei que você é um cavalheiro e meu amigo. Quero que se afaste porque eu... eu me apaixonei por você.

 — Claire!

 Suas palavras o deixaram mudo, abismado.

 — Por favor, não pense que sou tão pretensiosa a ponto de pensar que você possa, algum dia, apaixonar-se por mim. É só que... não sou muito feliz e... gostaria que fosse embora.

 — Claire, você não sabe que, desde que a conheci, me apaixonei?

 Ela levantou os olhos, espantada.

 — Apaixonou-se? Há muito tempo?

 — Desde o começo.

 — Oh! — exclamou ela — por que não me disse? Na época em que poderia ter ido para o seu lado! Por que me dizer agora? Agora é tarde. Não, eu sou louca — não sei o que estou dizendo. Nunca poderia ficar com você.

 — Claire, o que quer dizer com: "agora é tarde"? É por causa do meu tio? Do que ele sabe? Do que ele pensa?

 Ela assentiu em silêncio, as lágrimas rolando pelas faces.

 — Escute, Claire, você não deve acreditar nem pensar nisso. Venha comigo. Vamos para os mares do Sul, para ilhas que mais parecem jóias perdidas no oceano. Lá você será feliz e eu tomo conta de você — estará a salvo para sempre.

 Ele abraçou-a, puxando-a para perto de si. Ao fazê-lo, sentiu-lhe um estremecimento. De repente, ela soltou-se com um repelão.

 — Não, por favor! Agora não posso. Seria feio, feio, feio. Todo este tempo quis ser boa, e agora seria feio.

 Ele hesitou, frustrado por essas palavras. Ela fitou-o, um apelo no olhar.

 — Por favor — disse ela. — Quero ser boa...

 Sem dar uma palavra, Dermot levantou-se e deixou-a. Suas palavras o haviam tocado, abalado. Foi buscar o chapéu e o casaco, e, ao fazê-lo, encontrou Trent.

 — Olá, Dermot, está saindo cedo.

 — E, não estou com disposição para dançar hoje.

 — Foi uma noite terrível — disse Trent, sombrio. — Mas você não tem as minhas preocupações.

 Dermot ficou em pânico. Não queria que Trent lhe fizesse confidências. Tudo menos isso!

 — Bom, até — disse, apressado. — Vou para casa.

 — Para casa, hein? E o aviso dos espíritos?

 — Vou-me arriscar. Boa noite, Jack.

 O apartamento de Dermot não era muito distante. Ele foi a pé, sentindo necessidade do ar frio para acalmar a mente que fervia.

 Entrou com a própria chave, e acendeu a luz do quarto.

 E de repente, pela segunda vez naquela noite, a sensação de perigo, a que dera o nome de Sinal Vermelho, apoderou-se dele. De tão forte, chegou a varrer-lhe Claire da mente.

 Perigo! Ele estava em perigo! Neste exato momento, neste mesmo quarto, ele estava em perigo.

 Tentou inutilmente ridicularizar o medo para livrar-se dele. Talvez seus esforços fossem secretamente covardes. Até agora, o Sinal Vermelho lhe dera aviso com tempo suficiente para que ele evitasse o desastre. Sorrindo um pouco de sua superstição, ele fez uma ronda cuidadosa no apartamento.

 Era possível que algum malfeitor tivesse entrado e estivesse escondido. Mas a busca deu em nada. Seu empregado, Milson, estava de folga e o apartamento, completamente vazio.

 Ele voltou para o quarto e começou a despir-se, a expressão carregada. A sensação de perigo era cada vez mais forte. Abriu uma gaveta para apanhar um lenço e estacou. Havia uma saliência nada familiar dentro da gaveta — alguma coisa dura.

 Com dedos rápidos e nervosos, ele afastou os lenços e tirou o objeto que ali se escondia: um revólver.

 Mais do que perplexo, Dermot examinou-o com interesse. Não era de um padrão comum e fora usado recentemente. Fora disso, não sabia nada. Alguém o colocara na gaveta nesta mesma noite. Não estava lá quando se vestiu para o jantar — disso tinha certeza.

 Já ia recolocá-lo na gaveta quando a campainha tocou. Soou mais uma vez, parecendo muito alta na quietude do apartamento vazio.

 Quem poderia ser a esta hora? E só lhe vinha uma resposta, uma resposta instintiva e persistente.

 — Perigo — perigo — perigo...

 Guiado por um instinto para ele inexplicável, Dermot apagou a luz, enfiou-se num sobretudo que estava sobre uma cadeira, e abriu a porta do vestíbulo.

 Deparou-se com dois homens. Por trás deles, Dermot vislumbrou um uniforme azul. Um policial!

 — Sr. West? — perguntou o homem que estava em primeiro plano.

 Pareceu a Dermot que passavam-se anos antes que respondesse. Na verdade, passaram-se apenas poucos segundos; imitando a voz inexpressiva de seu criado, respondeu:

 — O Sr. West ainda não chegou. O que querem com ele a esta hora da noite?

 — Ainda não chegou, hein? Muito bem! Então é melhor entrarmos e esperarmos por ele.

 — Não, isso não.

 — Escute, rapaz, meu nome é inspetor Verall da Scotland Yard e tenho um mandado de prisão contra seu patrão. Se quiser, pode ver.

 Dermot leu cuidadosamente o referido documento, ou fingiu fazê-lo, perguntando numa voz aturdida:

 — Por quê? O que fez ele?

 — Assassinato. Sir Alington West, de Harley Street.

 Com a mente em turbilhão, Dermot recuou diante dos temíveis visitantes. Foi à sala de visitas e acendeu a luz. O inspetor o seguiu.

 — Dê uma busca — disse ele para o outro. Depois voltou-se para Dermot.

 — Você fique aqui, rapaz. Nada de fugir para avisar o patrão. E, afinal, qual é seu nome?

 — Milson, senhor.

 — A que horas acha que seu patrão volta, Milson?

 — Não sei, senhor. Acho que ia dançar. Creio que em Grafton Galleries.

 — Saiu de lá há mais ou menos uma hora. Tem certeza de que não passou aqui?

 — Acho que não. Eu o teria ouvido chegar.

 Nesse momento, o segundo homem entrou vindo do quarto contíguo. Nas mãos trazia o revólver. Levou-o ao inspetor um tanto animado. Uma expressão de contentamento passou pelo rosto deste último.

 — Isso explica tudo — observou. — Deve ter entrado e saído sem que você ouvisse. A esta altura já deve ter dado o fora. Ê melhor eu ir andando. Cawley, você fica aqui, no caso de ele voltar, e olho vivo neste rapaz. Ele pode saber mais sobre o patrão do que faz parecer.

 O inspetor saiu alvoroçado. Dermot esforçou-se para obter os detalhes do assunto, e Cawley mostrou-se disposto a falar.

 — Um caso claro — dignou-se a dizer. — O assassino foi descoberto quase que de imediato. Johnson, o criado, acabara de se recolher quando pensou ter ouvido um disparo e voltou. Encontrou Sir Alington morto; levou um tiro no coração. Ele nos telefonou e nós ouvimos a estória dele.

 — O que tornou o caso bem claro? — arriscou Dermot.

 — Totalmente. Este jovem West entrou com o tio e eles estavam discutindo quando Johnson foi levar as bebidas. O velho ameaçava fazer novo testamento e seu patrão falava em matá-lo. Uns cinco minutos depois ouviu-se um tiro. Ah! bastante claro. Que cara bobo.

 Realmente bastante claro. Dermot sentiu um aperto no coração quando percebeu a seriedade das provas contra ele. Perigo — perigo horrível! E, fora a fuga, não via solução. Pôs a cabeça para funcionar. Pouco depois ofereceu-se para preparar um chá. Cawley aceitou logo. Ele já revistara o apartamento: não havia porta de fundos.

 Ele deu licença a Dermot para ir à cozinha. Lá, ele colocou a chaleira no fogo e fez tinir xícaras e pires astutamente. E então, rápido, dirigiu-se às escondidas para a janela e levantou o vidro. O apartamento era no segundo andar, e do lado de fora da janela havia um pequeno elevador usado pelos vendedores, que descia e subia sobre um cabo de aço.

 Como um raio, Dermot pulou a janela e desceu aos solavancos pelo cabo de aço. Este lhe cortou as mãos, fazendo-as sangrar, mas ele continuou, desesperado.

 Poucos minutos depois, emergia cautelosamente no fim do quarteirão. Ao virar a esquina, deparou-se com um homem na calçada. Para seu espanto, reconheceu Jack Trent. Trent estava bastante alerta para os perigos da situação.

 — Meu Deus! Dermot! Depressa, não fique aí parado. Pegando-o pelo braço, desceram por ruas secundárias. Viram um táxi, o qual fizeram parar, e entraram. Trent deu ao motorista o endereço dele.

 — É o lugar mais seguro no momento. Depois podemos pensar no que fazer para tirar estes bobalhões do caminho. Vim na esperança de poder avisá-lo antes que a polícia chegasse, mas já era tarde.

 — Nem sabia que você tinha conhecimento disso. Jack, você não acredita...

 — Claro que não, meu amigo, nem por minuto. Mesmo assim, é um caso complicado para você. Eles vieram fazendo perguntas, a que horas chegou a Grafton Galleries, a que horas saiu etc. Dermot, quem pode ter dado cabo do velho?

 — Não tenho a menor idéia. Mas seja quem for, colocou o revólver na minha gaveta, suponho. Deve nos ter observado bem de perto.

 

 — Esse negócio da sessão espírita foi engraçado. "Não vá pra casa". Isso era para o pobre West. Ele foi para casa e morreu.

 — E se aplica a mim também — disse Dermot. — Fui para casa e encontrei um revólver e um inspetor de polícia.

 — Bom, espero que não me pegue também — disse Trent. — Chegamos.

 Ele pagou o táxi, abriu a porta com sua chave e guiou Dermot escada acima, no escuro, para seu apartamento, uma pequena sala no primeiro andar.

 Abriu a porta e Dermot entrou, enquanto Trent acendia a luz para se juntar a ele.

 — Por enquanto aqui é bastante seguro — observou. — Agora podemos pensar melhor no que deve ser feito.

 — Eu fui um idiota — disse Dermot de repente. — Devia ter desconfiado. Agora vejo com mais clareza. Era tudo uma conspiração... mas, afinal, de que você está rindo?

 Pois Trent recostara-se na cadeira, sacudido por uma alegria mal contida. Havia alguma coisa de terrível nele e um brilho curioso nos olhos.

 — Uma conspiração muito bem bolada — arfou. — Dermot, meu rapaz, você está liquidado.

 Ele puxou o telefone.

 — O que vai fazer? — perguntou Dermot.

 — Chamar a Scotland Yard. Dizer que o que procuram está aqui — preso a sete chaves. Sim, eu tranquei a porta quando entrei, e a chave está no meu bolso. Não adianta olhar para a porta atrás de mim. É do quarto de Claire e ela sempre a tranca. Tem medo de mim, sabe? Há muito tempo que tem medo de mim. Ela sempre sabe quando estou pensando naquela faca — uma faca longa e afiada. Não, você não.

 Dermot ia saltar sobre ele quando este lhe apontou um horrível revólver.

 — Este é o segundo deles — riu Trent. — O primeiro eu coloquei na sua gaveta — depois de matar o velho West. Por que está olhando por cima de minha cabeça? Aquela porta? Não adianta, mesmo que Claire a abrisse — e talvez o fizesse para você —, eu atiraria antes de você chegar lá. Não no coração, não para matar; só para feri-lo, impedindo sua fuga. Tenho uma ótima pontaria, você sabe. Salvei sua vida uma vez. Que tolo! Não, quero vê-lo enforcado, é isso, enforcado. Não é para você que quero a faca. É para Claire, a linda Claire, tão branca e macia. O velho West sabia. Foi para isso que veio hoje à noite para ver se eu estava louco ou não. Ele queria me internar — assim eu não podia atingir Claire com a faca. Fui muito astuto. Apanhei esta chave e a sua também. Saí sorrateiramente da boate logo que cheguei lá. Vi você sair da casa dele e entrei. Atirei e saí depressa. Depois, fui ao seu apartamento e deixei o revólver. Estava de volta a Grafton Galleries de novo quase que ao mesmo tempo que você; coloquei a chave de volta no bolso do seu paletó quando me despedia. Não me importo de lhe contar tudo isso. Ninguém mais vai ouvir e gostaria que você soubesse que fui eu... Meu Deus! Como tudo isso me faz rir! Em que você está pensando? Diabo, para onde está olhando?

 — Estou pensando em algumas palavras que você disse. Teria sido melhor, Trent, você voltar para casa.

 — O que quer dizer?

 — Olhe para trás.

 Trent girou. Parados no vão da porta estavam Claire — e o inspetor Verall...

 Trent foi rápido. O revólver disparou só uma vez e encontrou seu objetivo. Ele caiu por cima da mesa. O inspetor pulou para seu lado, enquanto Dermot olhava para Claire como num sonho. Pensamentos desconexos passavam por sua mente. O tio, a discussão, o tremendo mal-entendido, as leis inglesas sobre divórcio que nunca libertariam Claire do marido insano — "devemos, todos, ter pena dela" — a conspiração entre ela e Sir Alington, a qual o astuto Trent percebera através do grito dela. "Feio, feio, feio!" Sim, mas agora...

 O inspetor levantou-se.

 — Morto — disse, agastado.

 — Sim — Dermot ouviu-se dizer —, ele sempre teve uma ótima pontaria.

 

O QUARTO HOMEM

O Cônego Partiff ofegou um pouco. Correr para pegar o trem não era um bom negócio para um homem da sua idade. Em primeiro lugar, sua silhueta já não era a mesma e, com a perda do corpo esbelto, surgiu a tendência a ficar sem fôlego. O cônego referia-se dignamente a essa tendência com um "Meu coração, você sabe!"

 Ele mergulhou num canto da cabine de primeira classe com um suspiro de alívio. O calor do carro lhe agradava. Lá fora, a neve caía. Que sorte achar uma poltrona de canto numa longa jornada noturna. Caso contrário, seria um tormento. Devia haver um leito nesse trem.

 Os três outros cantos já estavam ocupados e, ao observar isso, o cônego Partiff tomou consciência de que o homem sentado no outro extremo sorria para ele como se o reconhecesse. Estava bem barbeado, tinha o rosto excêntrico, e os cabelos começavam a esbranquiçar nas têmporas. Só podia ser advogado; quanto a isso não havia a menor sombra de dúvida. Sir George Durand era, na verdade, um famoso advogado.

 — Ora, Partiff — observou, com simpatia —, você deu uma corridinha, não foi?

 — Muito ruim para o meu coração — disse o cônego. — Que coincidência encontrá-lo aqui, Sir George. Para onde vai?

 — Newcastle — respondeu, lacônico. — A propósito — acrescentou —, conhece o Dr. Campbell Clark?

 O homem, sentado do mesmo lado do vagão que o cônego, inclinou a cabeça afavelmente.

 — Encontramo-nos na plataforma — continuou o advogado. — Outra coincidência.

 Cônego Partiff olhou para o Dr. Campbell Clark com grande interesse. Já ouvira muito falar naquele nome. Dr. Clark destacava-se como médico e especialista da mente, e seu último livro, O Problema da Mente Inconsciente, fora o mais discutido do ano.

 Cônego Partiff viu um queixo quadrado, olhos azuis muito plácidos, os cabelos avermelhados intocados pelo branco, mas já escassos. Também teve a impressão de ser ele uma personalidade muito forte.

 Por uma associação de idéias perfeitamente natural, o cônego olhou para a poltrona a sua frente, quase esperando receber um olhar de alguém que reconhecesse, mas o quarto ocupante da cabine resultou ser um estranho — um estrangeiro, pensou o cônego. Era um homem ligeiramente moreno, de aparência insignificante. Embrulhado num grande sobretudo, parecia ferrado no sono.

 — Cônego Partiff de Bradchester? — inquiriu Dr. Campbell Clark numa voz agradável.

 O cônego parecia lisonjeado. Aqueles "sermões científicos" realmente fizeram muito sucesso — especialmente quando a imprensa passou a publicá-los. Bom, era disso que a igreja precisava: assuntos modernos, atualizados.

 — Li seu livro com grande interesse, Dr. Campbell Clark — disse ele. — Embora houvesse passagens um tanto científicas para eu seguir.

 Durand interferiu:

 — O senhor prefere dormir ou conversar, cônego? — perguntou ele. — Confesso que sofro de insônia e que, por isso, prefiro conversar.

 — Ah! Claro. É lógico — disse o cônego. — Raramente durmo durante estas viagens noturnas, e o livro que trouxe é muito monótono.

 — Pensando bem, somos um grupo bastante representativo — observou o médico, sorrindo. — A Igreja, a Lei e a profissão médica.

 — São raros os assuntos sobre os quais não podemos opinar, não é? — riu Durand. — A Igreja com o ponto de vista espiritual, eu com o ponto de vista puramente legal e terreno, e o senhor, Doutor, com o campo mais vasto de todos, que vai do puramente patológico ao superpatológico! Creio que nós três podemos cobrir qualquer campo quase que completamente.

 — Não tão completamente quanto você imagina, na minha opinião — disse Dr. Clark. — Há um outro ponto de vista que você omitiu e que é bastante importante.

 — E qual é? — perguntou o advogado.

 — O ponto de vista do homem comum.

 — É tão importante? O homem comum geralmente não está errado?

 — Oh! Quase sempre, mas ele tem uma coisa que falta na opinião dos peritos: o ponto de vista pessoal. Afinal, não se pode fugir das relações pessoais. Descobri isso na minha profissão. De todos os pacientes que vêm a mim realmente doentes, pelo menos em cinco não encontro nada errado, a não ser a inabilidade de viver em harmonia com os habitantes da mesma casa. Dão vários nomes a isso: desde de inflamação no joelho até paralisia dos escrivões, mas é tudo a mesma coisa, a crua superfície produzida pela mente em atrito com a mente.

 — O senhor tem uma porção de pacientes com "histeria", suponho — observou o cônego, desdenhoso. Seu próprio sistema nervoso era excelente.

 — Ah, e o que quer dizer com isso? — o outro voltou-se para ele, rápido como um relâmpago. — História! As pessoas usam esta palavra e riem, exatamente como o senhor fez. Não há nada, fulano, apenas nervos. Mas, meu Deus, o ponto crítico de tudo são os nervos! Não se pode curá-los com um medicamento puramente físico. Mas hoje sabemos só um pouco mais sobre as coisas obscuras de centenas de doenças nervosas do que sabíamos em... bom, no reinado da Rainha Elizabeth!

 — É mesmo? — disse o cônego Partiff, um pouco espantado com esta investida. — É verdade?

 — E veja bem, isto é um sinal de graça — continuou o Dr. Campbell Clark. — Antigamente, considerávamos o homem como um simples animal, corpo e alma com ênfase no primeiro elemento.

 — Corpo, alma e espírito — corrigiu o sacerdote suavemente.

 — Espírito? — o médico sorriu de maneira esquisita. — O que vocês sacerdotes querem dizer exatamente com espírito? Nunca foram muito claros sobre isso. Desde priscas eras vocês se esquivam de dar uma definição exata.

 O cônego temperou a garganta preparando-se para falar, mas, para sua tristeza, não lhe foi dada oportunidade. O médico prosseguiu:

 — Será que podemos afirmar que a palavra é espírito, e não espíritos?

 — Espíritos? — perguntou Sir George Durand, levantando as sobrancelhas, zombeteiro.

 — Isso mesmo — Campbell Clark desviou o olhar para ele. Inclinou-se para frente e bateu levemente no peito do outro homem. — Tem certeza — disse sério — de que só há um ocupante desta estrutura, pois é isto a que se reduz, sabe, esta residência desejável a ser alugada mobiliada por sete, vinte e um, quarenta e um, setenta e um anos? E no fim, os inquilinos tiram suas coisas — pouco a pouco —, saem da casa, e esta desaba, uma massa de ruína e deterioração. Você é o dono da casa — admitimos isso, mas não estamos conscientes da presença de outros — criados de passo macio, dificilmente notados a não ser pelo trabalho que fazem — trabalho esse que você não tem consciência de ter feito? Ou amigos ou disposições de ânimo que tomam conta de você e o tornam, durante algum tempo, "um homem diferente" como diz o ditado? Você é o rei do castelo, sem dúvida, mas fique certo de que a "suja ralé" está lá também.

 — Meu caro Clark — falou o advogado, arrastando as palavras. — Você me fez sentir intranqüilo. Será que minha mente é um campo de batalha de personalidades em conflito? Ê esta a última descoberta da ciência?

 Foi a vez do médico dar de ombros.

 — O seu corpo é — disse secamente. — Se o corpo é, por que não a mente?

 — Muito interessante — disse o cônego Partiff — ah! Maravilhosa ciência — maravilhosa ciência.

 E disse para si mesmo: — Posso extrair um sermão imponente a partir desta idéia.

 Mas o Dr. Campbell Clark recostara-se na poltrona, já passado seu momentâneo entusiasmo.

 — Na verdade — observou de maneira seca, profissional —, é um caso de dupla personalidade que me leva a Newcastle esta noite. Um caso muito interessante. Paciente neurótica, é claro, mas bastante genuína.

 — Dupla personalidade — disse Sir George Durand, pensativo.

 — Não é muito raro. Há também perda de memória, não há? Sei que este caso surgiu na Vara de Família outro dia.

 Dr. Clark anuiu.

 — O caso clássico, é claro — disse ele —, foi o de Felicie Bault. Lembra-se de ter ouvido falar nele?

 — Certamente — concordou o cônego Partiff. — Lembro-me de ter lido nos jornais, mas há muito tempo atrás, pelo menos há uns sete anos.

 Dr. Campbell Clark fez um sinal afirmativo com a cabeça.

 — A menina tornou-se uma das pessoas mais famosas da França. Cientistas de todo o mundo foram vê-la. Ela tinha nada menos de quatro personalidades distintas. Eram conhecidas como: Felicie 1, Felicie 2, Felicie 3 etc.

 — Não chegaram a dizer que havia algum truque? — perguntou Sir George, perspicaz.

 — Houve um pouco de dúvida quanto às personalidades de Felicie 3 e Felicie 4 — admitiu o médico —, mas os fatos principais permanecem. Felicie Bault era uma camponesa da Bretanha. Era a terceira de uma família de cinco, filha de um alcoólatra com uma retardada mental. Numa das bebedeiras, o pai estrangulou a mãe e, se me lembro bem, foi deportado. Felicie tinha então cinco anos. Algumas pessoas caridosas interessaram-se pelas crianças e Felicie foi criada e educada por uma senhora solteira, dona de uma espécie de casa para crianças sem recursos. Entretanto, ela não pôde fazer grandes coisas por Felicie. Ela a descreve como uma pessoa de uma lentidão fora do normal, burra, que só aprendeu a ler e escrever com grande esforço e que também era desajeitada com as mãos. Esta mulher, Srta. Slater, tentou treiná-la para o serviço doméstico e, realmente, encontrou vários lugares onde pôde trabalhar quando atingiu idade para isso. Mas ela nunca parou muito tempo em lugar nenhum por causa de sua burrice e profunda preguiça.

 O médico fez uma pausa e o cônego, cruzando as pernas e aconchegando-se mais ao travesseiro de viagem, de repente teve consciência de que o homem à sua frente mexia-se ligeiramente. Os olhos, até então fechados, agora estavam abertos e havia alguma coisa de indefinido e zombeteiro neles que surpreendeu o respeitável cônego. Era como se o homem estivesse escutando e vangloriando-se secretamente do que ouvira.

 — Existe uma fotografia de Felicie Bault com dezessete anos — continuou o médico. — Ela aparece como uma rude camponesa de compleição forte. Nada nesta fotografia indicava que ela se tornaria uma das pessoas mais famosas da França.

 — Cinco anos depois, quando tinha 22 anos, Felicie Bault começou a sofrer de uma doença nervosa muito séria e, na convalescença, os estranhos fenômenos começaram a manifestar-se. Os fatos que vou contar foram atestados por vários cientistas eminentes. A personalidade chamada de Felicie 1 era indistinta da Felicie Bault dos últimos vinte e dois anos. Felicie 1 escrevia pessimamente o francês, não falava outras línguas nem sabia tocar piano. Felicie 2, ao contrário, falava com fluência o italiano e moderadamente o alemão. A letra era bem diferente daquela de Felicie 1, e seu francês, fluente e expressivo. Discutia política e arte e adorava tocar piano. Felicie 3 tinha vários pontos em comum com Felicie 2: era inteligente e instruída mas, quanto ao aspecto moral, era um grande contraste. Parecia ser, na verdade, uma depravada, da maneira parisiense e não provinciana. Sabia todos os argot de Paris e as expressões do demi monde. Seu linguajar era imundo, blasfemava contra a religião e as chamadas "boas pessoas", nos termos mais insultantes. Finalmente havia Felicie 4, sonhadora, quase que imbecil, devota e clarividente confessa, mas esta quarta personalidade era muito insatisfatória e esquiva e, às vezes, considerada como um embuste deliberado por parte de Felicie 3 — uma espécie de brincadeira para com seu crédulo público. Eu poderia dizer que (talvez com exceção da Felicie 4) cada personalidade era distinta e separada e não tinha conhecimento das outras. Sem dúvida, Felicie 2 predominava e por vezes durava quinze dias, e então Felicie 1 aparecia abruptamente por um ou dois dias. Depois disso, talvez, Felicie 3 ou 4, mas estas duas raramente permaneciam em comando por mais que algumas horas. Cada mudança era acompanhada por fortes dores de cabeça e sono profundo, e em cada caso havia completa perda de memória dos outros estados. A personalidade em questão retomava a vida onde a havia interrompido, inconsciente da passagem do tempo.

 — Notável — murmurou o cônego. — Notável. Por enquanto não sabemos quase nada das maravilhas do universo.

 — Sabemos que há vários impostores astutos que nele habitam

 — observou o advogado secamente.

 — O caso de Felicie Bault foi investigado por advogados, assim como por médicos e cientistas — disse o Dr. Campbell Clark, mais do que depressa. — Maitre Quimbellier investigou o caso completamente e confirmou o ponto de vista dos cientistas. E, afinal de contas, por que tanta surpresa? Encontramos ovos com duas gemas, não é? E bananas gêmeas? Por que não a alma dupla — ou, como neste caso, quádrupla —, num único corpo?

 — A alma dupla? — protestou o cônego.

 Dr. Campbell Clark voltou os inquisitivos olhos azuis para ele.

 — De que mais podemos chamar? Quer dizer — se a personalidade é a alma?

 — Ainda bem que este estado de coisas é apenas uma anomalia

 — observou Sir George. — Se o caso fosse comum, daria margem a grandes complicações.

 — A condição é anormal — concordou o médico. — Pena que um estudo mais longo não pudesse ser feito; a morte inesperada de Felicie colocou um ponto final em tudo.

 — Se não me falha a memória, havia algo de estranho — disse, lentamente, o advogado.

 Dr. Campbell Clark aquiesceu.

 — Uma coisa inexplicável. Encontraram a menina morta, na cama, numa manhã. Havia sido estrangulada, sem dúvida nenhuma. Mas, para estupefação geral, foi constatado que, na realidade, ela se enforcou. As marcas no pescoço eram de seus próprios dedos. Um método de suicídio que, embora não seja fisicamente impossível, necessita de uma força muscular tremenda e de uma força de vontade quase que sobre-humana. Nunca se descobriu o que levou a menina a isso. É claro que seu equilíbrio mental deve ter sido sempre precário. Mas é isso: a cortina desceu para sempre sobre o mistério de Felicie Bault.

 Foi aí que o homem do outro extremo riu.

 Os outros três pularam como se tivessem sido alvejados. Haviam esquecido totalmente a existência do quarto homem. Quando olharam em sua direção, ainda embrulhado no sobretudo, o homem riu de novo.

 — Desculpem-me, cavalheiros — disse ele num inglês perfeito, mas, mesmo assim, com sabor estrangeiro.

 Ele sentou-se ereto, revelando um rosto pálido com um pequeno bigode azeviche.

 — Sim, desculpem-me — disse ele, fazendo uma reverência de troça. — Mas, cá para nós, na ciência diz-se a última palavra?

 — Sabe alguma coisa sobre o caso que discutíamos? — perguntou polidamente o médico.

 — Sobre o caso, não. Mas eu a conhecia.

 — Felicie Bault?

 — Sim. E Annette Ravel também. Não ouviu falar em Annette Ravel não é? E, no entanto, a história de uma é a história de outra. Acredite-me, não se sabe nada sobre Felicie Bault se não se conhece também a história de Annette Ravel.

 Ele tirou um relógio do bolso e consultou-o:

 — Meia hora até a próxima parada. Tenho tempo para lhes contar a história, isto é, se estiverem interessados.

 — Por favor, conte-nos — pediu o médico.

 — Ficaria encantado — disse o cônego. — Encantado!

 Sir George Durand simplesmente se colocou numa atitude de profunda atenção.

 — Meu nome, senhores — começou o estranho companheiro de viagem — é Raoul Letardeau. Os senhores acabaram de falar numa senhora inglesa, Srt? Slater, que se interessava por obras de caridade. Eu nasci numa aldeia de pescadores na Bretanha, e quando meus pais morreram num acidente de trem, foi a Srta. Slater quem veio me salvar do que equivale ao asilo inglês. Havia, sob seus cuidados, cerca de vinte crianças, meninos e meninas. Entre elas estavam Felicie Bault e Annette Ravel. Se não puder fazer com que entendam a personalidade de Annette, cavalheiros, não entenderão nada. Ela era filha do que chamamos de uma "filie de joie" que, abandonada pelo amante, definhou até morrer. A mãe fora uma dançarina, e Annette, também, desejava dançar. Quando a vi pela primeira vez, tinha onze anos, um pedaço de gente cujos olhos ora zombavam, ora prometiam, uma criaturinha cheia de fogo e vida. E de saída, isso mesmo, logo de saída, tornei-me escravo dela. Era "Raoul, faz isso pra mim", "Raoul, faz aquilo pra mim". E eu obedecia. Já a adorava, e ela sabia disso.

 Íamos até à praia juntos, nós três, porque a Felicie vinha conosco. E lá, Annette tirava os sapatos e meias e dançava na areia. E então ela se deixava cair, sem fôlego, e nos dizia o que pretendia fazer e ser.

 — Veja bem, vou ser famosa. Isso mesmo, superfamosa. Terei milhares de meias de seda, da seda mais fina. E vou morar num apartamento requintadíssimo. Todos os meus amantes vão ser jovens, bonitos e ricos. E quando eu dançar, toda Paris virá me ver. Eles vão gritar, chamar, berrar, enlouquecer com minha dança. E durante os invernos não danço. Vou para o Sul, para o sol. Há cidades lá com laranjeiras. Serei dona de uma delas. Vou deitar-me sob o sol em almofadas de seda, comendo laranjas. Quanto a você, Raoul, por mais famosa e rica que eu seja, nunca vou esquecê-lo. Vou protegê-lo e fazê-lo subir em sua carreira. Felicie será empregada; não, as mãos dela são muito inábeis. Olhe e veja como elas são grandes e ásperas.

 Felicie zangava-se com isso. E então, Annette continuava a implicar com ela.

 — Ela parece até uma dama, Felicie — tão elegante, tão refinada. É uma princesa disfarçada, ha, ha!

 — Pelo menos meus pais eram casados — Felicie resmungava, rancorosa.

 — É, e seu pai matou sua mãe. Que maravilha ser filha de um assassino.

 — Seu pai deixou sua mãe apodrecer — Felicie replicava.

 — Ah, sim — Annette se tornava pensativa. — Pauvre Maman. A pessoa deve manter-se forte e bem. Manter-se assim é o que importa.

 — Sou forte como um cavalo — Felicie gabava-se.

 E realmente era. Ela tinha o dobro da vitalidade de qualquer menina da casa. E nunca adoecia.

 Mas era burra, entende, burra como uma porta. Me perguntava muitas vezes por que ela rondava Annette daquele jeito. Acho que era um tipo de fascínio. Algumas vezes, penso que realmente odiava Annette e, na verdade, Annette não era nada boa para ela. Zombava da sua lentidão e burrice e atormentava-a na frente dos outros. Vi Felicie ficar lívida de raiva. Algumas vezes pensava que ela fosse apertar o pescoço de Annette e matá-la. Ela não tinha bastante astúcia para responder aos insultos de Annette mas, com o tempo, aprendeu a revidar de uma maneira infalível. Ela viu (coisa que eu sempre soube) que Annette invejava-lhe o físico forte e, instintivamente, investia contra o ponto fraco do inimigo.

 Um dia Annette veio a mim muito animada.

 — Raoul — disse ela —, vamos nos divertir muito hoje com essa estúpida Felicie. Vamos morrer de rir.

 — O que você vai fazer?

 — Venha para trás do galpão que eu lhe conto.

 Parece que Annette pegou algum livro. Parte dele ela não entendeu e, realmente, era muito complicado para ela. Tratava-se de um trabalho antigo sobre hipnotismo.

 — Um objeto brilhante, eles dizem. A bola de metal da minha cama, ela gira. Fiz Felicie olhar para ela a noite passada. "Olhe fixo", eu disse. "Não tire os olhos dela". E depois eu a fiz girar rapidamente. Raoul, fiquei assustada. Os olhos dela ficaram tão esquisitos! "Felicie, você vai sempre fazer o que eu mandar", eu disse. "Eu farei sempre o que você mandar, Annette," respondeu ela. E então, então eu disse: “Amanhã você vai trazer uma vela de sebo para o playground, ao meio-dia, e vai comê-la. E se alguém perguntar, você vai dizer que é o melhor galeto que já comeu. Oh! Raoul, já pensou?”.

 — Mas ela nunca vai fazer uma coisa dessas — objetei.

 — O livro diz que sim. Não que eu acredite, mas, Raoul, se o livro for verdadeiro, como vamos nos divertir!

 Eu também achei a idéia muito engraçada. Espalhamos a notícia para os colegas e, ao meio-dia, todos nós estávamos no playground. Pontualmente, apareceu Felicie com um pedaço de vela na mão. E, sabe que começou, solenemente, a mordiscá-la? Ficamos histéricos! De vez em quando alguém ia perto dela e dizia: — Isso que você está comendo é gostoso, Felicie? E ela respondia: — É o melhor galeto que já comi. — E nós morríamos de rir. Depois rimos tão alto que o barulho deve ter despertado Felicie para o que estava fazendo. Piscou os olhos, como que assustada, olhou para a vela e depois para nós. Ela passou a mão na testa.

 — Mas o que estou fazendo aqui? — ela murmurou.

 — Comendo uma vela — nós gritamos.

 — Eu mandei você fazer isso. Eu mandei — gritou Annette. Felicie olhou-a por um momento. Depois aproximou-se lentamente de Annette.

 — Então foi você — foi você quem me ridicularizou? Parece que me lembro. Vou matar você por isso.

 Ela falou com toda a calma, mas Annette correu e escondeu-se atrás de mim.

 — Salve-me, Raoul! Estou com medo de Felicie. Foi só uma brincadeira, Felicie. Só uma brincadeira.

 — Não gosto destas brincadeiras — disse Felicie — Você entende? Tenho ódio de você. Odeio vocês todos.

 E de repente ela caiu no choro e fugiu.

 Acho que Annette ficou assustada com o resultado da experiência e não tentou repeti-la. Mas, a partir daquele dia, sua ascendência sobre Felicie pareceu cada vez maior.

 Agora acredito que Felicie sempre a tenha odiado mas, mesmo assim, não podia ficar longe dela. Ela costumava seguir Annette como se fosse um cachorro.

 Pouco depois disso, cavalheiros, encontravam trabalho para mim e eu só ia para casa nos feriados. O desejo de Annette de tornar-se bailarina não foi levado a sério, mas ela desenvolveu uma bonita voz quando cresceu, e a Srta Slater consentiu que fosse treinada como cantora.

 Não era preguiçosa aquela Annette. Trabalhava com afã, sem descanso. A Srta. Slater era obrigada a evitar que ela se excedesse. Uma vez me falou sobre ela.

 — Você sempre gostou de Annette — ela disse. — Tente convencê-la a não trabalhar tanto. Ela agora está com uma tosse que não me agrada.

 Meu trabalho levou-me para longe. A princípio recebi uma ou duas cartas de Annette, mas depois disso, nada. E então, fiquei cinco anos fora.

 Por acaso, quando voltei a Paris, um cartaz me chamou a atenção; era um anúncio de Annette Ravel e seu retrato. Reconheci-a de imediato. Nesta noite fui ao teatro em questão. Annette cantou em francês e em italiano. Estava esplêndida no palco. Depois fui ao seu camarim. Ela me recebeu logo.

 — Ora, Raoul — ela gritou estendendo-me as alvas mãos. — Isto é maravilhoso. Por onde você andou estes anos todos?

 Eu teria lhe dito, mas ela não queria ouvir, realmente.

 — Está vendo onde cheguei?

 Ela fez um gesto com as mãos, em triunfo, mostrando o camarim cheio de buquês.

 — A boa Srta. Slater deve ter orgulho do seu sucesso.

 — Aquela velha? não, que nada. Ela programou minha ida para o conservatório. Canto clássico. Mas eu sou uma artista. E é aqui, no palco de variedades, que posso me expressar.

 E foi aí que entrou um senhor de meia idade, bem apessoado. Parecia muito fino. Pelo seu jeito, logo vi que era o protetor de Annette. Ele olhou-me de esguelha e Annette explicou:

 — Um amigo de infância. Estava passando por Paris, viu meu retrato num cartaz, et voilà!

 Então o homem mostrou-se afável, cortês. Na minha presença, apanhou uma pulseira de rubis e diamantes, fechando-a no pulso de Annette. Quando me levantei para ir embora, ela lançou-me um olhar de vitória e sussurrou:

 — Eu chego lá, não chego? Tenho o mundo todo a minha frente.

 Mas quando saí de lá, ouvi-a tossir, uma tosse seca. Sabia o que significava aquilo. Era a herança da mãe tísica. Só a vi de novo dois anos mais tarde. Tinha ido refugiar-se com a Srt. Slater. Sua carreira terminara. Estava num estado adiantado de tuberculose, e os médicos disseram que nada poderia ser feito. Nunca vou esquecer o que vi! Ela estava deitada numa espécie de abrigo no jardim. Ficava ao ar livre dia e noite. Tinha as faces chupadas e rubras, os olhos brilhantes e febris, e tossia repetidamente. .

 Ela cumprimentou-me com tal desespero que me surpreendeu.

 — Que bom ver você, Raoul. Sabem o que eles dizem — que posso não me curar. Dizem nas minhas costas, sabe? Comigo são cheios de palavras de consolo, reconfortantes. Mas não é verdade, Raoul, não é verdade! Não vou permitir-me morrer. Morrer? Com uma vida maravilhosa a minha frente? É a vontade de viver que conta. Todos os grandes médicos dizem isso hoje em dia. Não sou daquelas pessoas fracas que se deixam levar. Eu já me sinto infinitamente melhor — infinitamente melhor, está ouvindo?

 Ela apoiou-se nos cotovelos para fazer-se entender, e depois caiu para trás, tomada por um acesso de tosse que lhe sacudia o corpo.

 — A tosse — não é nada — ela ofegou. — E as hemorragias não me assustam. Vou surpreender os médicos. É a vontade que conta. Lembre-se, Raoul, eu vou viver.

 Foi penoso, entendem? muito penoso. E então surgiu Felicie com uma bandeja. Um copo de leite quente. Ela o deu para Annette e observou-a beber com uma expressão que não pude compreender. Havia uma espécie de satisfação recalcada. Annette também viu aquele olhar. Ela jogou o copo longe, com raiva e este ficou em pedacinhos.

 — Está vendo? Ela agora só me olha assim. Está contente porque vou morrer. E regozija-se com isso. Ela, que é forte e saudável. Olhe para ela, nunca ficou doente! E tudo isso para nada. De que lhe vale essa grande carcaça? Qual a utilidade?

 Felicie abaixou e catou todos os cacos de vidro.

 — Não me importo com o que ela diz — observou em tom monocórdio. — O que interessa? Sou uma menina respeitável, eu sou. Quanto a ela, estará conhecendo o jogo do purgatório muito breve. Sou católica, não digo nada.

 — Você me odeia — gritou Annette. — Sempre me odiou. Ah, mas, mesmo assim, posso enfeitiçá-la. Posso mandar você fazer o que eu quiser. Agora mesmo, se eu pedisse, você se ajoelharia a meus pés nesta grama.

 — Que idéia absurda — disse Felicie, pouco à vontade.

 — Mas, sim, você fará isso. Fará. Para me agradar. De joelhos. Estou pedindo, eu, Annette. De joelhos, Felicie.

 Seja por um forte apelo na voz dela ou por algum motivo profundo, Felicie obedeceu. Ela dobrou os joelhos devagar, os braços abertos, o rosto vazio e estúpido.

 Annette jogou a cabeça para trás e riu — riu, riu, sem parar.

 — Olhe para ela, que cara de burra! Como está ridícula. Pode-se levantar agora, Felicie, obrigada! Não adianta me fazer esta cara. Sou sua dona. Você tem que fazer o que eu mandar.

 Ela recostou-se nos travesseiros, exausta. Felicie apanhou a bandeja e afastou-se devagar. Depois olhou por sobre meu ombro, e o contido ressentimento de seus olhos me surpreendeu.

 Eu não estava lá quando Annette morreu. Mas parece que foi terrível. Queria se agarrar à vida. Lutou contra a morte como uma louca. A todo o momento dizia, arquejante: — Não vou morrer, ouviram? Não vou morrer. Vou viver — viver...

 A Srta. Slater me contou tudo isso quando fui vê-la meses depois.

 — Meu pobre Raoul — disse ela, carinhosamente. — Você a amava, não é?

 — Sempre, sempre. Mas eu não servia mesmo para ela. Não vamos falar sobre isso. Está morta. Ela que era tão brilhante, tão cheia de vida...

 A Srta. Slater era uma mulher compreensiva. Começou a falar de outras coisas. Estava muito preocupada com Felicie, contou-me. A garota teve uma espécie de desequilíbrio nervoso, e desde então tem agido de maneira muito estranha.

 — Você sabe — disse a Srta. Slater depois de um momento de hesitação — que ela está aprendendo piano?

 Eu não sabia, e fiquei muito surpreso. Felicie aprendendo piano! Eu diria que ela não sabia distinguir uma nota da outra.

 — Ela tem talento, é o que dizem — continuou a Srt. Slater. — Não consigo entender. Sempre a subestimei, Raoul. Você mesmo sabe, ela sempre foi muito burra.

 Eu anuí.

 Ela agia de maneira tão estranha às vezes... realmente não cheguei a uma conclusão sobre ela.

 Poucos minutos depois entrei na Salle de Lecture. Felicie estava tocando piano. Era a ária que ouvi Annette cantar em Paris. Vocês podem imaginar como fiquei. E então, ao ouvir-me, ela parou de repente e olhou-me com olhos zombeteiros e cheios de inteligência. Por um momento, eu pensei — bom, não vou dizer o que pensei.

 — Tiens! — disse ela. — Então é você — Monsieur Raoul. Não consigo descrever a maneira como ela disse isso. Para Annette sempre fui Raoul. Mas Felicie, desde que nos encontramos depois de adultos, sempre me chamou de Monsieur Raoul. Mas a maneira de dizê-lo naquela hora foi diferente — como se enfatizasse ligeiramente a palavra Monsieur e isto fosse, de alguma maneira, muito engraçado.

 — Ora, Felicie! — gaguejei. — Você está muito diferente hoje.

 — Estou? — disse, pensativa. — Que estranho! Mas não seja tão formal, Raoul — decididamente vou chamá-lo de Raoul —, não brincamos juntos quando crianças? A vida foi feita para o divertimento. Vamos falar sobre a pobre Annette, ela que morreu e foi enterrada. Fico pensando: será que está no Purgatório?

 E ela cantarolou o trecho de uma canção, bastante desafinada, mas as palavras me chamaram atenção.

 — Felicie! Você fala italiano?

 — Por que não, Raoul? Não sou tão burra quanto fingia ser, talvez. — Ela riu diante de minha perplexidade.

 — Não entendo... — comecei.

 — Mas eu vou lhe dizer. Sou uma ótima atriz, embora ninguém desconfie disso. Posso fazer vários papéis e desempenhá-los muito bem.

 Ela riu de novo e saiu correndo da sala, antes que pudesse alcançá-la.

 Antes de sair, eu a vi de novo. Estava adormecida numa poltrona. Ressonava muito. Parei para observá-la, fascinado e, ao mesmo tempo, com desagrado. De repente, ela acordou como que assustada. Os olhos, sem vida e apáticos, encontravam os meus.

 — Monsieur Raoul — murmurou, mecanicamente.

 — Sou eu mesmo, Felicie. Já estou de saída. Você toca de novo para mim antes de eu sair?

 — Eu? Tocar? Como uma pobre coitada como eu pode tocar? Ela calou-se por um minuto, como se mergulhada em pensamento e depois aproximou-se de mim.

 — Monsieur Raoul, estão acontecendo coisas estranhas nesta casa! Fazem brincadeiras comigo. Alteram os relógios. Sei o que estou dizendo. E é tudo coisa dela.

 — De quem? — perguntei estarrecido.

 — De Annette. Aquela perversa. Quando era viva sempre me atormentava. Agora, que está morta, volta para me atormentar.

 Olhei para Felicie. Percebi que estava aterrorizada, os olhos saltando-lhe das órbitas.

 — Ela é má. Ela é muito má. Capaz de tirar-lhe o pão da boca, deixá-lo desnudo, tirar-lhe a alma do corpo...

 De repente ela agarrou-se a mim.

 — Estou com medo, muito medo. Ouço a voz dela, não no meu ouvido, mas aqui, na cabeça — ela deu uns tapinhas na testa. — Ela vai levar-me para longe, levar-me para longe e, então, o que vou fazer, o que vai ser de mim?

 Ela já estava quase gritando. O olhar era o de um animal acuado, aterrorizado...

 De repente ela sorriu, um sorriso agradável, cheio de astúcia; alguma coisa nele me fez tremer.

 — Se eu chegar a este ponto, Monsieur Raoul, minhas mãos são muito fortes, muito fortes.

 Eu nunca prestara muita atenção nas mãos dela antes. Desta vez olhei-as e estremeci involuntariamente. Dedos brutos, grossos e, como dissera Felicie, terrivelmente fortes... não posso explicar aos senhores o enjôo que senti. Com mãos iguais a estas, o pai deve ter estrangulado a mãe dela.

 Esta foi a última vez que vi Felicie Bault. Logo depois fui para a América do Sul. Voltei de lá dois anos após a morte dela. Li alguma coisa nos jornais sobre a sua vida e a morte repentina. Esta noite ouvi maiores detalhes dos senhores! Fico pensando: Felicie 3 e Felicie 4? Bem, ela era boa atriz!

 O trem começou a perder velocidade. O homem do canto sentou-se ereto e abotoou o sobretudo.

 — Qual a sua teoria? — perguntou o advogado, inclinando-se para frente.

 — Mal posso acreditar que... — disse o cônego Partiff e calou-se.

 O médico não disse nada. Olhava fixamente para Raoul Lepardeau.

 — Deixá-lo desnudo, tirar-lhe a alma do corpo — citou o francês. Ele levantou-se. — Eu lhes digo, senhores, a história de Felicie Bault é a história de Annette Ravel. Não a conheceram. Eu, sim. Ela gostava muito da vida...

 A mão na porta, pronto para saltar, ele voltou-se subitamente, curvou-se e bateu de leve no peito do cônego.

 — O M. le docteur, lá, acabou de dizer que isto — a mão dele deslizou pelo ventre do cônego e este encolheu-o — não passa de uma residência. Diga-me: se encontrar um ladrão em sua casa o que você faz? Atira nele, não é?

 — Não — respondeu o cônego. — Não, quer dizer, não neste país.

 Mas disse as últimas palavras para o vento. A porta do vagão bateu.

 O sacerdote, o advogado e o médico ficaram sozinhos. O quarto canto estava vazio.

 

O RÁDIO

— E, acima de tudo, evite a preocupação e a emoção — disse o Dr. Meyvell naquele modo confortador simulado pelos médicos.

 A Sra. Harter, como quase sempre acontece com as pessoas que ouvem estas palavras reconfortantes mas sem sentido, parecia mais tomada por dúvidas do que aliviada.

 — Realmente existe um certo problema cardíaco continuou o médico, fluente — mas não precisa alarmar-se. Pode ficar tranqüila.

 — Mesmo assim — acrescentou — seria muito bom instalar um elevador. O que acha disso, hein?

 A Sra. Harter parecia preocupada.

 Dr. Meyvell, por outro lado, estava satisfeito consigo mesmo. O motivo pelo qual gostava mais de atender clientes ricos do que pobres era que, com os primeiros, podia exercitar sua fértil imaginação ao prescrever os medicamentos.

 — Sim, um elevador — disse o Dr. Meyvell, tentando pensar em algo ainda mais arrojado, sem conseguir. — Assim evitaremos o esforço desnecessário. Exercícios diários no plano, todos os dias, mas evite subir montanhas e, acima de tudo — acrescentou, alegre —, bastante distração para a mente. Não se concentre na sua saúde.

 Para o sobrinho da Sra. Harter, Charles Ridgeway, o médico foi um pouco mais explícito.

 — Não me entenda mal — disse ele. — Sua tia pode viver ainda muitos anos. Mas os choques ou o excesso de exercício podem tirar-lhe a vida assim! — e estalou os dedos. — Ela tem que levar uma vida calma. Nada de esforços desnecessários. Nada de fadiga. Mas, é claro, não se pode permitir que fique remoendo as coisas. Tem de manter-se alegre e bem distraída.

 — Distraída — repetiu Charles Ridgeway, pensativo. Charles era um rapaz imaginativo. Ele também acreditava em aprofundar as próprias inclinações, sempre que possível.

 Aquela noite, sugeriu a instalação de um aparelho de rádio.

 A Sra. Harter, já bastante aborrecida com a idéia do elevador, não se mostrou de acordo. Charles era fluente e persuasivo.

 — Acho que não me interesso por essas novidades — lamentou a Sra. Harter. — As ondas, sabe, as ondas elétricas. Podem afetar-me.

 Charles, de um modo superior e bondoso, mostrou o absurdo desta idéia.

 A Sra. Harter, cujo conhecimento sobre o assunto era o mais vago possível, mas que era aferrada às próprias idéias, permanecia irredutível.

 — Toda esta eletricidade — murmurou timidamente —, você pode dizer o que quiser, Charles, mas a eletricidade afeta certas pessoas. Sempre tenho uma dor de cabeça terrível antes de uma tempestade com trovões. Eu sei.

 Ela balançou a cabeça, triunfante.

 Charles era um jovem paciente. E persistente também.

 — Minha querida tia Mary — disse — deixe-me esclarecer isso. Ele era bastante entendido no assunto. Fazia agora quase que uma conferência; animado, falou sobre os tipos de válvula, alta e baixa freqüências, amplificações e condensadores.

 Sra. Harter, submersa num mundo de palavras desconhecidas, capitulou.

 — Claro, Charles — murmurou —, se pensa realmente...

 — Minha querida tia Mary — disse ele, entusiasmado —, é a coisa mais apropriada para você, a fim de evitar o tédio e tudo isso.

 O elevador prescrito pelo Dr. Meyvell foi logo instalado e quase causou a morte da Sra. Harter que, como muitas outras senhoras, tinha arraigada objeção a homens estranhos em casa. Desconfiava que todos estavam de olho na sua prataria antiga.

 Depois do elevador, veio o rádio. A Sra. Harter ficou a contemplar o repelente objeto — uma caixa grande, deselegante, cheia de botões.

 Foi necessário todo o entusiasmo de Charles para reconciliá-la com o rádio.

 Charles estava em seu elemento, girando os botões, discursando com eloqüência ao fazê-lo.

 A Sra. Harter, sentava-se na cadeira de espaldar alto, paciente e educada, com a forte convicção de que essas coisas modernas não passavam de amolações.

 — Escute, Tia Mary, estamos pegando Berlim, não é esplêndido? Está ouvindo o locutor?

 — Só estou ouvindo zumbidos e estalos — disse a Sra. Harter. Charles continuou a girar os botões. — Bruxelas — anunciou com entusiasmo.

 — É mesmo? — falou a Sra. Harter com um vestígio de interesse.

 Mais uma vez Charles girou os botões e um uivo sobrenatural ecoou na sala.

 — Parece que estamos no além — disse a Sra. Harter, a quem ainda restava um certo senso de humor.

 — Ha, ha! — disse Charles. — Fazendo suas piadinhas, hein? Muito boa essa!

 A Sra. Harter não pôde deixar de sorrir-lhe. Gostava muito dele. Durante alguns anos uma sobrinha, Miriam Harter, morou com ela. Fora sua intenção fazê-la herdeira, mas Miriam não correspondeu às expectativas. Estava impaciente e nitidamente amolada com a convivência. Estava sempre "vagabundeando", como dizia a Sra. Harter. No fim, meteu-se com um rapaz que a tia desaprovava inteiramente. Miriam foi devolvida à mãe com uma nota lacônica, como se fosse uma mercadoria sob condições. Ela casou-se com o tal rapaz, e a Sra. Harter geralmente lhe manda uma caixa de lenços ou um centro de mesa no Natal.

 Depois de decepcionar-se com as sobrinhas, a Sra. Harter voltou-se para os sobrinhos. Charles, logo de início, fez o maior sucesso. Tinha sempre atitudes de deferência para com a tia, e ouvia com aparência de profundo interesse as reminiscências de sua juventude. Nisto, ele fazia um grande contraste com Miriam, que se aborrecia francamente e o demonstrava. Charles nunca se entediava, sempre de bom humor e alegre. Dizia várias vezes por dia à tia que ela era uma velhinha adorável.

 Altamente satisfeita com a nova aquisição, a Sra. Harter escrevera uma carta ao advogado com instruções quanto à feitura de um novo testamento. Este lhe foi entregue devidamente aprovado por ela e assinado.

 E agora, até no caso do rádio, Charles logo revelou ter seus próprios louros.

 A Sra. Harter, a princípio antagônica, tornou-se tolerante e, finalmente fascinada. Ela divertia-se muito, mas quando Charles não estava. Porque Charles não parava de mexer no rádio. A Sra. Harter sentava-se confortavelmente numa cadeira ouvindo um concerto sinfônico, uma palestra sobre Lucrécia Borgia ou a vida nas montanhas, feliz e em paz com o mundo. Mas não era assim com Charles. Guinchos dissonantes quebravam a harmonia, enquanto ele tentava, entusiasticamente, pegar estações estrangeiras. Mas quando Charles ia jantar fora com os amigos, a Sra. Harter divertia-se muito. Girava os botões, sentava-se na cadeira de espaldar alto e aproveitava o programa daquela noite.

 Foi cerca de três meses depois de instalado que ocorreu o primeiro acontecimento soturno. Charles fora jogar bridge.

 O programa desta noite era um concerto. Uma famosa soprano cantava Annie Laurie e, no meio da Annie Laurie aconteceu uma coisa estranha. Houve uma pausa repentina, a música cessou por um momento, os zumbidos e estalos continuaram e depois sumiram também. Houve um silêncio mortal, e depois um leve zumbido fez-se ouvir.

 A Sra. Harter, sem saber o porquê, teve a impressão de que o aparelho estava sintonizado com algum lugar muito longínquo e depois uma voz masculina, clara e distinta, com um ligeiro sotaque irlandês falou:

 — Mary, está me ouvindo, Mary? É Patrick quem fala... vou buscá-la breve. Você estará pronta, não estará, Mary?

 Então, quase que imediatamente depois, os acordes de Annie Laurie mais uma vez encheram a sala.

 A Sra. Harter retesou-se, as mãos agarradas a cada braço da cadeira. Será que estava sonhando? Patrick! A voz de Patrick! A voz de Patrick nesta sala, falando com ela. Não, tinha que ser um sonho, uma alucinação, talvez. Quem sabe não cochilou por alguns minutos? Que coisa curiosa ter sonhado que a voz do falecido marido lhe falasse do além. Assustou-se um pouco. Quais as palavras que ele dissera?

 "Vou buscá-la breve, Mary. Você estará pronta, não estará?"

 Podia ser uma premonição? Problema cardíaco. Seu coração afinal estava envelhecendo.

 — É um aviso, é isso — disse a Sra. Harter, levantando-se com dificuldade e vagarosamente da cadeira e acrescentou, fazendo um comentário que lhe era típico:

 — E todo este dinheiro gasto no elevador!

 Não comentou com ninguém a experiência mas nos dois dias seguintes, ficou pensativa e um pouco preocupada.

 E então aconteceu de novo. Também desta vez ela estava sozinha na sala. O rádio apresentava uma seleção de músicas orquestradas; com a mesma subtaneidade de antes, esta se extinguiu. De novo o silêncio, a sensação de distância e, finalmente, a voz de Patrick, não como era em vida. Mas rarefeita, longínqua com uma estranha qualidade sobrenatural.

 — Patrick falando com você, Mary. Vou buscá-la muito breve... O estalido, o zumbido e novamente a seleção musical.

 A Sra. Harter olhou para o relógio. Não, desta vez não dormi. Acordada e em plena posse das faculdades mentais, ela ouvira a voz de Patrick. Não era alucinação; tinha certeza disso. De maneira confusa tentou pensar na teoria das ondas etéreas que Charles lhe explicara.

 Será que Patrick realmente falara com ela? Que sua voz fora soprada através do espaço? Faltavam comprimentos de onda, ou algo parecido. Lembrava-se de Charles ter falado em "interrupções na escala". Será que as ondas que faltam explicariam o chamado fenômeno psicológico? Não, não havia nada de impossível nesta idéia. Patrick falara com ela. Ele lançava mão da ciência moderna a fim de prepará-la para o que viria.

 A Sra. Harter tocou a campainha para chamar a empregada, Elizabeth.

 Esta era uma mulher alta, magra, de sessenta anos. Por trás de um exterior inflexível, ela escondia uma profunda afeição e ternura pela patroa.

 — Elizabeth — disse ela quando a fiel criada apareceu —, você se lembra do que lhe disse? A gaveta de cima do lado esquerdo da escrivaninha. Está trancada, a chave comprida com a etiqueta branca. Está tudo lá, pronto.

 — Pronto, madame?

 — Para meu enterro — vociferou a Sra. Harter. — Você sabe muito bem o que quero dizer, Elizabeth. Você mesma me ajudou a colocar as coisas lá.

 O rosto dela mudou de expressão:

 — Oh, madame — ela gemeu —, não pense nessas coisas. Pensei que a senhora tava bem melhor.

 — Mais cedo ou mais tarde todos nós temos que ir — disse a Sra. Harter com espírito prático —; já passei dos setenta, Elizabeth. Ora vamos, não banque a boba. Se tiver que chorar, vá chorar em outro lugar.

 Elizabeth retirou-se fungando.

 A Sra. Harter olhou-a com uma grande dose de afeição.

 — Tolinha, mas fiel — disse ela — muito fiel. Vamos ver: deixei para ela cem libras ou só cinqüenta? Tem que ser cem. Está comigo há muito tempo.

 Esta dúvida a preocupou e, no dia seguinte, ela sentou-se e escreveu ao advogado pedindo-lhe para enviar o testamento de modo que ela pudesse examiná-lo. Neste mesmo dia, Charles surpreendeu-a com algo que disse no almoço:

 — A propósito, tia Mary — disse ele —, quem é aquele cara engraçado ali no quarto de hóspedes? Do quadro, sobre a lareira. Aquele fulano de barba e costeletas?

 

 A Sra. Harter olhou-o, austera.

 — É o seu tio Patrick quando era moço — disse ela.

 — Desculpe, tia Mary. Sinto muito, não quis ser rude.

 A Sra. Harter aceitou a desculpa com um nobre inclinar de cabeça.

 Charles continuou, hesitante.

 — Eu só estava pensando. Sabe...

 Ele parou, indeciso e a Sra. Harter disse vivamente.

 — E então? o que você ia dizer?

 — Nada — respondeu Charles mais do que depressa. — Nada que faça sentido, quero dizer.

 A senhora não disse mais nada naquele momento, mas pouco depois, quando estavam a sós, ela voltou ao assunto.

 — Gostaria que você me dissesse, Charles, o que o levou a perguntar sobre o retrato de seu tio.

 Charles parecia confuso.

 — Já lhe disse, tia Mary. Foi uma bobagem minha, uma coisa absurda.

 — Charles — disse a Sra. Harter com o tom mais autoritário que lhe foi possível —, insisto em saber.

 — Bom, querida tia, se quiser saber eu imaginei tê-lo visto — o homem do retrato — olhando pela janela dos fundos quando eu estava chegando na noite passada. Vai ver que foi algum efeito de luz. Quem poderia ser? O rosto parecia do começo da Era Vitoriana, sabe? E então Elizabeth disse que não havia ninguém, nenhum visitante ou estranho na casa e, mais tarde, por acaso me dirigi ao quarto de hóspedes e vi o quadro sobre a lareira. O mesmo homem! Mas acho que se pode explicar facilmente. Subconsciente! Devo ter visto o quadro sem dar maior atenção, e depois imaginei ver o rosto na janela.

 — Janela dos fundos? — perguntou rápido a Sra. Harter.

 — Foi, por quê?

 — Por nada — disse a Sra. Harter.

 Mas ela estava abismada. Este havia sido o quarto de vestir do marido.

 Na mesma noite, na ausência de Charles, a Sra. Harter sentou-se para ouvir o rádio com profunda impaciência. Se ela ouvisse pela terceira vez a voz misteriosa, provaria que, sem sombra de dúvidas, estava se comunicando com um outro mundo.

 Embora o coração batesse rápido, ela não se surpreendeu quando houve a interrupção, e depois do costumeiro intervalo de silêncio profundo, a voz irlandesa vinda de longe falou mais uma vez:

 — Mary — agora você está preparada... Na sexta-feira venho buscá-la... sexta-feira às nove e meia... Não tenha medo, não haverá dor... Esteja pronta...

 E então, quase que cortando a última palavra, a orquestra irrompeu de novo, estrepitosa e dissonante.

 A Sra. Harter permaneceu sentada, muito quieta, por um ou dois minutos. Seu rosto ficara pálido, e os lábios arroxeados.

 Pouco depois ela levantou-se para ir sentar-se à escrivaninha. Numa caligrafia um tanto tremida, escreveu as seguintes linhas:

 Esta noite, às 9:15 ouvi distintamente a voz de meu falecido marido. Ele me contou que viria me buscar na noite de sexta-feira, às 9:30. Caso eu morra neste dia e a esta hora, gostaria que estes fatos fossem divulgados para provar a indubitável possibilidade de comunicação com o mundo espiritual.

 MARY HARTER.

 A Sra. Harter releu o bilhete, colocou-o dentro de um envelope e endereçou-o. E então ela tocou o sino o qual foi prontamente respondido por Elizabeth. A Sra. Harter levantou-se e entregou o bilhete, que acabara de escrever, à criada.

 — Elizabeth — disse ela —, caso eu morra na sexta-feira à noite gostaria que você entregasse este bilhete ao Dr. Meyvell. Não — disse ela, quando Elizabeth ia começar a protestar —, não discuta comigo. Muitas vezes você me disse que acreditava em premonição. Estou tendo uma agora. E há mais uma coisa: no meu testamento, deixei-lhe 50 libras. Gostaria que recebesse 100. Se não puder ir ao banco, antes de morrer, o Sr. Charles se encarregará disso.

 Como da outra vez, a Sra. Harter abreviou os protestos de Elizabeth. De acordo com seus planos, a Sra. Harter falou ao sobrinho sobre o assunto, na manhã seguinte.

 — Lembre-se, Charles, se alguma coisa me acontecer, Elizabeth deve receber 50 libras extras.

 — A senhora tem andado muito melancólica estes dias, tia Mary — disse Charles à guisa de animação. — O que lhe vai acontecer? De acordo com o Dr. Meyvell, nós vamos celebrar seu centésimo aniversário daqui a uns vinte anos.

 A Sra. Harter sorriu-lhe carinhosamente, mas não respondeu. Pouco depois disse:

 — O que vai fazer sexta-feira à noite, Charles? Charles ficou um pouco surpreso.

 — Bem, os Ewings me convidaram para jogar bridge, mas se a senhora quiser que eu fique em casa...

 — Não — respondeu ela com determinação. — Claro que não. De verdade, Charles. Esta é a noite em que mais quero ficar sozinha.

 Charles olhou-a, curioso, mas a Sra. Harter não deu mais nenhuma informação. Era uma mulher corajosa e decidida. Achava que devia passar por esta experiência sozinha.

 A noite de sexta-feira encontrou a casa muito silenciosa. A Sra. Harter sentou-se, como de costume, na cadeira de espaldar alto, perto da lareira. Fizera todos os preparativos. Naquela manhã fora ao banco, tirara 50 libras em dinheiro e os entregara a Elizabeth, apesar dos chorosos protestos. Selecionou e arrumou todos os pertences pessoais e colocou etiquetas em uma ou duas jóias com nomes de amigos ou parentes, também escreveu uma lista de instruções a Charles. O serviço de Chá Worcester destinava-se à prima Emma. Os vasos Sèvres ao jovem William, e assim por diante.

 Ela olhou para o comprido envelope que segurava e tirou de dentro um documento dobrado. Tratava-se do testamento que lhe fora enviado pelo Sr. Hopkinson, de acordo com as instruções dela. Já o havia lido com todo o cuidado, mas agora o olhara novamente para refrescar a memória. Era um documento curto, conciso. Uma doação de 50 libras para Elizabeth Marshall com reconhecimento aos serviços prestados, duas legações de 500 libras para uma irmã e uma prima em primeiro grau, e o restante ao querido sobrinho Charles Ridgeway.

 A Sra. Harter meneou a cabeça. Quando ela morresse, Charles ficaria rico. Bom, ele sempre fora um amorzinho para ela. Sempre bondoso, carinhoso, com um papo tão alegre que nunca deixou de agradá-la.

 Ela olhou para o relógio. Faltavam três minutos para as 9:30. Bem, ela estava pronta. E calma, muito calma. Embora repetisse estas últimas palavras para si várias vezes, seu coração batia descompassado. Ela mal percebia, mas chegara ao ponto de um colapso nervoso.

 Nove e meia. O rádio foi ligado. O que ouviria ela? Uma voz conhecida anunciando a previsão do tempo ou uma voz longínqua de um homem que já morrera há vinte e cinco anos?

 Mas não ouviu nenhuma das duas. Em vez disso, escutou um som familiar, um som que conhecia muito bem, mas que esta noite a fez sentir como se uma mão de gelo lhe apertasse o coração: passos hesitantes na porta da frente...

 Veio de novo. E então, um vento gelado pareceu varrer a sala. Agora a Sra. Harter não tinha dúvidas quanto às suas sensações. Estava com medo... mais do que com medo, ela estava aterrorizada...

 E, de repente, ela se pôs a pensar: vinte e cinco anos é muito tempo. Patrick é agora um estranho para mim.

 Terror! Era isso o que a invadia.

 Um passo macio do outro lado da porta — um passo hesitante. E então a porta foi aberta silenciosamente...

 A Sra. Harter cambaleou, oscilando ligeiramente de um lado para o outro, os olhos fixos no vão da porta, e alguma coisa escorregou-lhe dos dedos indo cair na lareira.

 Ela deu um grito abafado que lhe morreu na garganta. Na obscuridade do vão da porta, uma figura familiar, de barbas e costeletas castanhas trajando um casaco do começo da Era Vitoriana.

 Patrick viera buscá-la!

 Seu coração deu um terrível salto e permaneceu quieto. Ela desabou no chão enroscada sobre si mesma.

 E ali Elizabeth achou-a, uma hora depois.

 Dr. Meyvell foi logo chamado, e Charles Ridgeway veio correndo do jogo de bridge. Mas não havia nada que pudesse ser feito. A Sra. Harter ultrapassara o plano da ajuda humana.

 Só dois dias mais tarde Elizabeth lembrou-se do bilhete que a patroa lhe entregara. Dr. Meyvell leu-o com grande interesse e mostrou-o a Charles Ridgeway.

 — Uma coincidência curiosa — disse ele — É claro que estava tendo alucinações com a voz do falecido marido. Deve ter chegado a tal ponto de excitação que foi fatal, e quando chegou realmente a hora ela morreu do choque.

 — Auto-sugestão? — perguntou Charles.

 — Alguma coisa deste tipo. Vou lhe dar o resultado da autópsia logo que possível, embora eu não tenha nenhuma dúvida. — Nestas circunstâncias, a autópsia não passava de formalismo.

 Charles assentiu compreendendo.

 Na noite anterior, quando toda a casa dormia, ele retirou um certo fio que ia da parte posterior do rádio ao quarto dele, no andar de cima. E também já que a noite fora fria, ele pedira a Elizabeth para acender a lareira no quarto, na qual queimou uma barba castanha e costeletas. Certas roupas da época vitoriana pertencentes ao falecido tio ele recolocou no baú rescendente a cânfora, no sótão.

 Acreditava estar a salvo. O plano, cujo esboço se formou pela primeira vez quando o Dr. Meyvell lhe contou que a tia viveria por muitos anos se levasse uma vida moderada, tivera um êxito admirável. Um choque repentino, Dr. Meyvell dissera. Charles, este jovem carinhoso, adorado pelos mais velhos, sorriu para si mesmo.

 Quando o médico saiu, Charles entregou-se às tarefas mecanicamente. Alguns preparativos finais para o funeral tinham que ser feitos. Reservas de trens para os parentes vindos de longe. Um ou dois deles iriam passar a noite. Charles desvencilhou-se de tudo de maneira eficiente e metódica, acompanhando uma corrente oculta dos próprios pensamentos.

 Uma ótima tacada comercial! Era este seu maior peso. Ninguém, muito menos a falecida tia sabia da situação periclitante em que Charles se encontrava. Suas atividades, as quais escondera de todos, o jogaram onde o futuro lhe reservava as sombras de uma prisão.

 Seria desmascarado e arruinado se, em poucos meses, não levantasse uma quantia considerável de dinheiro. Bom, agora estava tudo bem. Charles sorriu para si mesmo. Graças a — sim — a uma peça que pregou; nada de criminoso, em relação a isso estava salvo.

 Era agora um homem rico. Não se preocupava, pois a Sra. Harter nunca fizera segredo de suas intenções.

 Fazendo coro, bem oportunamente, a estes pensamentos, Eliza-beth apareceu para anunciar que o Sr. Hopkinson gostaria de vê-lo.

 Já não é sem tempo, pensou Charles. Reprimindo uma tendência a assoviar, vestiu uma máscara de adequada seriedade e dirigiu-se à biblioteca. Ali cumprimentou o meticuloso cavalheiro que, por um quarto de século fora o advogado da Sra. Harter.

 O advogado sentou-se e, com uma tosse seca, pôs-se a falar de negócios.

 — Não entendi a carta que me escreveu, Sr. Ridgeway. O senhor parece ter a impressão de que estamos de posse do testamento da Sra. Harter.

 — Mas é claro — ouvi minha tia dizê-lo.

 — Ah, é verdade. É verdade. Estávamos de posse dele.

 — Estavam?

 — É o que disse. A Sra. Harter nos escreveu pedindo que mudássemos o testamento para ela, terça-feira passada.

 Uma sensação desagradável começou a apossar-se de Charles. Sentiu uma longínqua premonição de contratempo.

 — Sem dúvida estará entre os documentos dela — continuou o advogado, calmamente.

 Charles não disse nada. Não confiava na própria língua. Já procurara nos documentos da Sra. Harter e estava certíssimo de que o testamento não se encontrava entre eles. Pouco depois quando já se tinha controlado, falou com o advogado. A voz soou-lhe irreal e ele teve a sensação de água gelada atravessando-lhe a espinha.

 — Alguém já examinou os pertences dela? — perguntou o advogado.

 Charles respondeu que a empregada, Elizabeth, o havia feito. O Sr. Hopkinson sugeriu chamá-la. Ela veio de imediato, triste e empertigada, e respondeu a todas as perguntas.

 Já examinara todas as roupas e pertences da patroa. Tinha certeza de que não vira nenhum documento. Sabia como era o testamento — a pobre da patroa o tinha nas mãos na manhã de sua morte.

 — Tem certeza? — perguntou o advogado.

 — Tenho, sim senhor. Ela me disse. E me fez aceitar 50 libras em notas. O testamento estava dentro de um envelope azul comprido.

 — Isso mesmo — disse o Sr. Hopkinson.

 — Agora estou me lembrando — continuou Elizabeth — que este mesmo envelope azul estava nesta mesa na manhã seguinte — mas vazio. Eu botei na escrivaninha.

 — Me lembro de tê-lo visto lá — disse Charles.

 Ele levantou-se e dirigiu-se à escrivaninha. Pouco depois voltou com um envelope na mão e entregou-o ao Sr. Hopkinson. Este examinou-o e fez um movimento afirmativo com a cabeça.

 — Este é o envelope no qual mandei o testamento na terça-feira passada.

 Os dois homens olharam para Elizabeth.

 — Mais alguma coisa, senhor? — perguntou respeitosamente.

 — Por enquanto não, obrigado. Elizabeth dirigiu-se à porta.

 — Espere um minuto — disse o advogado. — A lareira estava acesa naquela noite?

 — Sim senhor, sempre estava acesa.

 — Obrigado, é só isso.

 Elizabeth saiu. Charles inclinou-se para a frente, repousando a mão trêmula sobre a mesa.

 — O que o senhor acha? A que conclusão está chegando? O Sr. Hopkinson balançou a cabeça.

 — Ainda devemos ter esperanças de que apareça. Se não...

 — Bem, se não aparecer?

 — Temo que só há uma conclusão plausível. Sua tia pediu o testamento para destruí-lo. Como não queria que Elizabeth saísse perdendo, deu-lhe a quantia em dinheiro.

 — Mas por quê? — gritou Charles, descontrolado. — Por quê? O Sr. Hopkinson tossiu, uma tosse seca.

 — Não teve nenhum... digamos, desentendimento com sua tia, Sr. Ridgeway? — murmurou.

 Charles arfou:

 — Não; na verdade nós nos entendíamos às mil maravilhas, até o fim.

 — Ah! — exclamou o Sr. Hopkinson sem olhar para ele. Com um choque, Charles percebeu que não era acreditado. O que este velho não teria ouvido? Boatos sobre os atos de Charles podem ter chegado aos ouvidos dele. E nada mais natural supor que estes mesmos boatos tenham chegado aos ouvidos da Sra. Harter, e que tia e sobrinho tenham tido uma discussão sobre o assunto.

 Mas não era verdade! Charles conheceu um dos momentos mais amargos de sua carreira: acreditaram nas mentiras dele. Agora que falava a verdade, descrença total. Que ironia!

 Claro que a tia não queimou o testamento! Claro que... estacou de repente. Que quadro era este que lhe aparecia diante dos olhos? Uma senhora com a mão no coração... algo caindo... um papel... caindo nos braços incandescentes...

 Charles empalideceu. Ouviu uma voz rouca — a sua própria voz — perguntar:

 — E se este testamento não for encontrado...?

 — Há um antigo testamento da Sra. Harter, ainda em vigor. É de setembro, 1920. De acordo com ele, a Sra. Harter deixa tudo para a sobrinha, Miriam Harter, agora Miriam Robinson.

 O que este velho tolo estava dizendo? Miriam? Miriam, com o marido indefinível e os quatro fedelhos chorões. Toda sua inteligência para Miriam!

 O telefone soou, estridente. Ele atendeu-o. Era o médico, a voz bondosa e cordial.

 — É você, Ridgeway? Achei que gostaria de saber. Acabamos de fazer a autópsia. A causa é a que antevi. Mas, na verdade, o problema cardíaco era bem mais sério do que supunha quando ela estava viva. Mesmo com o extremo cuidado ela não viveria mais do que dois meses. Pensei que gostaria de saber. Pode servir-lhe de consolo.

 — Desculpe-me — disse Charles —, incomoda-se de repetir?

 — Ela não viveria mais de dois meses — disse o médico, um pouco mais alto. — Tudo caminhou para o melhor desfecho, sabe, meu caro rapaz...

 Mas Charles tinha batido o telefone. Estava consciente da voz do advogado, falando como que a distância:

 — Santo Deus, Sr. Ridgeway, o senhor está doente?

 Que se danassem todos! O presunçoso advogado. Aquele médico venenoso, idiota. Nenhuma esperança à sua frente — só a sombra da parede da prisão...

 Ele sentiu que alguém estivera brincando com ele — brincando com ele como gato e rato. Alguém devia estar rindo...

 

TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO

O Sr. Mayherne ajustou o pince-nez e limpou a garganta com uma tosse sequinha, típica dele. Depois olhou novamente para o homem à sua frente, acusado de homicídio culposo.

 O Sr. Mayherne era baixo, meticuloso, vestido com apuro, para não dizer de maneira afetada, um par de olhos astutos e penetrantes. Não era, de maneira alguma, um tolo; na verdade, como advogado, a reputação do Sr. Mayherne era bem alta. Sua voz, ao falar com o cliente, era seca mas não destituída de compreensão.

 — Devo deixar bastante claro de novo que o senhor corre um sério perigo e que é necessária a maior franqueza.

 Leonard Vole, que estivera olhando, aturdido, para a branca parede à sua frente, transferiu seu olhar para o advogado.

 — Eu sei — disse, sem esperança. — É o que vem me dizendo. Mas acho que ainda não me conscientizei de que me acusam de assassinato — assassinato. Um crime tão pérfido.

 O Sr. Mayherne era prático, nada emotivo. Tossiu de novo, tirou o pince-nez, poliu-o com cuidado para recolocá-lo novamente no nariz. E então, disse:

 — Sim, sim, sim. Agora, meu caro Sr. Vole, vamos fazer um tremendo esforço para libertá-lo e teremos êxito — teremos êxito. Mas tenho que saber de todos os fatos. Quero saber até que ponto as coisas estão contra o senhor para depois traçar a melhor linha de defesa.

 O homem continuava a olhá-lo do mesmo modo, perplexo, sem esperança. Aos olhos do Sr. Mayherne o caso parecia bastante negro, e o prisioneiro, culpado. Mas agora, pela primeira vez, ficou em dúvida.

 — Pensa que sou culpado — disse Leonard Vole, em voz baixa. — Mas por Deus! Juro que não sou! Sei também que o caso está negro contra mim. É como se tivesse sido apanhado por uma rede; para qualquer lado que vire, estou preso. Mas não fui eu, Sr. Mayherne, não fui eu!

 Em tais condições, todo homem protesta inocência. O Sr. Mayherne sabia disso. Mas, involuntariamente, estava impressionado. Podia ser que, afinal de contas, Leonard Vole fosse inocente.

 — O senhor está certo, Sr. Vole — disse, sério. — É negra a situação. Mesmo assim, aceito sua afirmação. Agora, vamos aos fatos. Quero que me conte, com suas próprias palavras, como conheceu a Srta. Emily French.

 — Foi um dia na Oxford Street. Vi uma senhora muito velhinha atravessando a rua. Carregava uma porção de pacotes. No meio da rua ela deixou-os cair, tentou recuperá-los, viu que um ônibus quase a pegou e, cambaleando conseguiu chegar ao meio-fio, sã e salva, perplexa por ver que as pessoas gritavam para ela. Recuperei os embrulhos, tirei a lama da melhor maneira que pude, amarrei de novo um deles e devolvi-os a ela.

 — Quer dizer que não chegou a salvar-lhe a vida?

 — Ah, não. Tudo o que fiz foi ser cortês. Ela ficou extremamente grata, agradeceu-me carinhosamente, disse algo sobre meus modos, diferente dos jovens da minha geração, não me lembro das palavras exatas. Depois tirei o chapéu e fui embora. Não esperava vê-la de novo. Mas a vida é cheia de coincidências. Na noite deste mesmo dia, encontrei-a numa festa na casa de um amigo. Ela reconheceu-me de imediato e pediu que lhe fosse apresentado. Então soube que se tratava da Srta. Emily French e que ela vivia em Cricklewood. Conversamos durante alguns minutos. Acho que era o tipo de pessoa que fantasiava o ato dos outros. Deu um valor enorme ao que fiz, um ato simples que qualquer um teria executado. Ao sair, apertou-me carinhosamente a mão e pediu-me para ir visitá-la. Respondi, é claro, que teria o maior prazer em fazê-lo e ela pediu-me para marcar o dia. Não tinha muita vontade de ir, mas, como seria grosseiro recusar, marquei para o sábado seguinte. Depois que ela saiu, os amigos contaram-me coisas sobre ela. Disseram que era rica, excêntrica, que morava sozinha com uma empregada, e que tinha nada mais nada menos que oito gatos.

 — Compreendo — disse o Sr. Mayherne. — O fato dela ser rica foi, então, desde logo revelado?

 — Se quer saber se eu perguntei... — começou Leonard Vole, irado, mas o Sr. Mayherne acalmou-o com um gesto.

 — Tenho que considerar o caso da maneira pela qual será apresentado pelo outro lado. Um observador comum não iria supor que a Srta. French fosse uma senhora de posses. Vivia de maneira simples, quase que humildemente. A não ser que fosse informado do contrário, com certeza acharia que ela estava na miséria, pelo menos no início. Quem foi, exatamente, que lhe contou da riqueza dela?

 — Meu amigo, George Harvey. em cuja casa houve a festa.

 — Acha que ele se lembraria de ter contado?

 — Não sei, realmente. Claro que agora já passou algum tempo...

 — É verdade, Sr. Vole. Como sabe, o primeiro objetivo da acusação é afirmar que o senhor estava em má situação financeira — e isto é verdade, não é?

 Leonard Vole corou.

 — Sim — disse baixinho. — Tenho estado numa maré de azar.

 — É verdade — disse o Sr. Mayherne de novo. — E assim, em má situação financeira, encontrou esta senhora rica e cultivou-lhe a amizade. Agora, se pudesse ser dito que não tinha a mínima idéia de que ela era rica e que a visitava por pura bondade...

 — Que é o caso.

 — Acredito que sim. Não estou discutindo. Estou vendo a coisa sob outro prisma. Muita coisa depende da memória do Sr. Harvey. Será que ele se lembra da conversa ou não? A acusação pode confundi-lo, levando-o a pensar que esta conversa ocorreu mais tarde?

 Leonard Vole refletiu por alguns minutos. Depois disse de maneira segura, o rosto um tanto pálido:

 — Acho que esta linha de raciocínio não teria êxito, Sr. Mayherne. Várias pessoas presentes ouviram esta observação, e uma ou duas delas caçoaram de mim por ter conquistado uma velha rica.

 O advogado tentou esconder a decepção fazendo um gesto vago.

 — Infelizmente. Mas dou-lhe os parabéns pela resposta franca, Sr. Vole. Quero situar-me em seu próprio benefício. Seu julgamento é bastante acertado. Persistir nesta linha seria um desastre. Temos que abandonar este ponto. O senhor conheceu a Srta. French, visitou-a, e a amizade prosseguiu. Queremos uma razão clara para tudo isso. Por que o senhor, um jovem de trinta e três anos, boa aparência, apreciador de esportes, querido pelos amigos, devotava tanto do seu tempo a uma mulher mais velha, com a qual, dificilmente, teria alguma coisa em comum?

 Leonard Vole estendeu as mãos num gesto nervoso.

 — Não sei, não sei explicar. Depois da primeira visita ela pressionou-me para voltar de novo, falou da solidão em que vivia, e achei difícil recusar. Ela mostrou claramente que gostava de mim e fiquei numa posição embaraçosa. Como vê, Sr. Mayherne, minha natureza é fraca; não sei dizer não. E, acredite ou não, depois da terceira ou quarta visita, comecei a me afeiçoar realmente pela velha. Perdi mamãe quando era jovem e fui criado por uma tia. Ela também morreu antes que eu completasse quinze anos. Se lhe dissesse que realmente gosto de ser mimado, acho que iria rir.

 O Sr. Mayherne não riu. Em vez disso, tirou o pince-nez e poliu-o de novo, um sinal de que pensava profundamente.

 — Aceito sua explicação, Sr. Vole — disse, finalmente. — Creio, mesmo, que é psicologicamente provável. Mas será que um júri acreditaria? Por favor, continue sua narrativa. Quando foi que pela primeira vez a Srta. French pediu-lhe que cuidasse dos negócios dela?

 — Depois de minha terceira ou quarta visita. Entendia pouco de assuntos financeiros, e estava preocupada com alguns investimentos.

 O Sr. Mayherne olhou-o, sério.

 — Tenha cuidado, Sr. Vole. A empregada, Janet Mackenzie, declarou que a patroa era uma boa mulher de negócios e sabia lidar com o dinheiro, o que é sustentado pelos bancos com os quais operava.

 — Não posso fazer nada — disse Vole ardentemente. — Foi o que ela me disse.

 O Sr. Mayherne olhou-o por alguns minutos em silêncio. Embora não tivesse a menor intenção de dizê-lo, sua crença na inocência de Leonard Vole reforçou-se neste momento. Conhecia um pouco a mentalidade das mulheres mais velhas. Visualizou a Srta. French, fascinada pelo rapaz de boa aparência, caçando pretextos para trazê-lo à sua casa. Nada mais indicado que alegar ignorância do mundo dos negócios, e pedir que a ajudasse nos seus investimentos. Era bastante mulher para perceber que qualquer homem fica ligeiramente lisonjeado por um reconhecimento de sua superioridade. Leonard Vole ficara envaidecido. Talvez, também, ela não fosse avessa à idéia de deixar o jovem saber que era rica. Emily French fora uma mulher de muita força de vontade, disposta a pagar seu preço pelo que queria. Tudo isso passou rapidamente pela cabeça do Sr. Mayherne, mas ele não deu nenhum sinal disso. Pouco depois fez outra pergunta:

 — E o senhor lidou com os negócios a pedido dela?

 — Lidei.

 — Sr. Vole — disse o advogado —, vou fazer-lhe uma pergunta muito séria, para a qual uma resposta honesta é de vital importância. Financeiramente, o senhor estava na lona. Tinha em mãos os negócios de uma senhora — uma senhora que, de acordo com sua própria afirmação, sabia muito pouco ou nada sobre negócios. O senhor alguma vez, de alguma maneira, converteu para o próprio uso os títulos com os quais lidava? Meteu-se em alguma transação, para seu próprio lucro, que não pudesse ser trazida à luz? — Ele sufocou a resposta do outro. — Espere um minuto antes de responder. Há dois caminhos abertos para nós: um é mostrar sua honestidade e probidade ao conduzir os negócios da falecida, salientando que seria pouco provável que o senhor cometesse homicídio para obter dinheiro que podia ser conseguido de diversas maneiras mais fáceis. Se, por outro lado, houver qualquer coisa em suas transações que sirva de trunfo para a acusação ou, em linguagem mais simples, se puder ser provado que o senhor ludibriava a Srta. French de alguma maneira, devemos dizer que não havia motivo para o assassinato, já que ela era uma fonte de renda valiosa para o senhor. Vê a diferença, não é? Agora eu lhe peço que reflita antes de responder.

 Mas Leonard Vole não levou quase nada para responder.

 — Minhas transações com a Srta. French eram todas perfeitamente honestas. Agi, sempre, da melhor maneira, defendendo os interesses dela, como qualquer um pode constatar se fizer uma boa averiguação.

 — Obrigado — disse o Sr. Mayherne. — O senhor me deu um grande alívio. Acredito que seja bastante inteligente para não mentir sobre assunto tão importante.

 — Certamente — disse Vole, ansioso —, o ponto mais forte a meu favor é a falta de motivo. No caso de ter cultivado a amizade de uma velha rica para tirar dinheiro dela, que é a essência do que o senhor estava dizendo, não é? Certamente a morte dela frustra todas as minhas esperanças, não é assim?

 O advogado olhou-o fixamente. Então, bem devagar, repetiu o gesto inconsciente com o pince-nez. Só depois de firmemente recolocado no nariz, ele falou:

 — O senhor não tem conhecimento, Sr. Vole, de que a Srta. French deixou um testamento pelo qual o senhor é o principal beneficiário?

 — O quê? — O prisioneiro levantou-se de um salto. Seu terror era flagrante, genuíno. — Meu Deus! O que o senhor está dizendo? Ela deixou o dinheiro para mim?

 O Sr. Mayherne bateu a cabeça em sinal afirmativo. Vole sentou-se de novo, a cabeça entre as mãos.

 — Finge não saber nada sobre este testamento?

 — Fingir? Claro que não há o menor fingimento. Não sabia de nada.

 — O que diria se lhe contasse que a empregada, Janet Mackenzie, jura que o senhor sabia. Que a patroa lhe contou claramente que o consultara sobre o assunto e que o informara de suas intenções?

 — O que diria? Que está mentindo! Bom, Janet é uma mulher idosa. Sempre foi fiel à patroa, e não gostava de mim. Tinha ciúmes e era desconfiada. Eu diria que a Srta. French confiou-lhe suas intenções e que ela ou não entendeu bem alguma coisa que foi dita ou convenceu-se de que eu persuadi a velha solteirona a fazer isso. Diria que ela agora acredita que, realmente, a Srta. French lhe tenha dito isso.

 — Acha que ela antipatiza com o senhor a' ponto de mentir deliberadamente sobre o assunto?

 

 Leonard Vole parecia chocado, perplexo.

 — Não, claro que não! Que motivo teria ela?

 — Não sei — disse o Sr. Mayherne pensativo. — Mas ela está sendo implacável.

 O desafortunado rapaz gemeu de novo.

 — Estou começando a compreender — murmurou. — É terrível. Eu a cortejei, é isso o que vão dizer, consegui que ela fizesse um testamento deixando o dinheiro para mim e depois fui à casa dela naquela noite em que não havia ninguém — e a encontram no dia seguinte — oh! Meu Deus, que coisa horrível!

 — Está enganado quanto a não ter ninguém em casa — disse o Sr. Mayherne. — Janet, como se lembra, deveria sair naquela noite. Ela foi, mas às nove e meia voltou para apanhar o modelo de uma manga de blusa que tinha prometido a uma amiga. Entrou pela porta dos fundos, subiu, apanhou o tal modelo e saiu de novo. Ouviu vozes na sala de visitas e, embora não pudesse entender o que diziam, irá jurar que uma delas era a Srta. French e a outra de um homem.

 — Às nove e meia — disse Leonard Vole. — Às nove e meia...

 Pôs-se de pé de um salto. — Mas então estou salvo — salvo...

 — O que quer dizer com salvo? — perguntou o Sr. Mayherne, atônito.

 — Por volta das nove e meia estava de volta em casa! Minha esposa pode provar isso. Quando saí da casa da Srta. French faltavam uns cinco minutos para as nove. Cheguei em casa por volta das nove e vinte. Minha mulher estava lá me esperando. Oh! Graças a Deus — Graças a Deus! Bendito modelo de manga de Janet Mackenzie.

 Em sua exuberância, mal notou que a grave expressão do rosto do advogado não se alterou. Mas as palavras deste o trouxeram de volta à realidade.

 — Então, quem matou a Srta. French, em sua opinião?

 — Ora, um ladrão, é claro, como pensaram a princípio. Lembre-se de que forçaram a janela. Ela foi morta por um forte golpe de um pé-de-cabra, e encontraram esta ferramenta no chão, ao lado do corpo. Faltavam várias coisas. Não fosse pela desconfiança absurda e a antipatia de Janet por mim, a polícia nunca se teria desviado da pista certa.

 — Isto vai adiantar muito pouco, Sr. Vole — disse o advogado.

 — As coisas que estão faltando não têm o menor valor; foram levadas para deixar uma pista falsa. E as marcas na janela não são decisivas. Pense bem; o senhor diz que, às nove e meia não estava mais na casa. Quem, então, era o homem que Janet ouviu conversando com a Srta. French na sala de visitas? É bem difícil que tenha tido uma conversa amistosa com um ladrão.

 — É — disse Vole. — É... — Ele parecia confuso e desesperançado. — Mas, de qualquer jeito — acrescentou mais animado —, estou fora disso. Tenho um álibi. O senhor tem que ver Romaine, minha esposa, logo de uma vez.

 — Certamente — aquiesceu o advogado. — Já devia tê-la visto, mas ela estava ausente quando o senhor foi preso. Comuniquei-me de imediato com a Scotland e, pelo que entendi, ela volta hoje à noite. Vou visitá-la logo que sair daqui.

 Vole anuiu, uma expressão de grande alegria tomando conta de seu rosto.

 — Claro, Romaine vai contar-lhe. Meu Deus! Que sorte!

 — Desculpe-me, Sr. Vole, mas o senhor gosta muito de sua esposa?

 — Claro.

 — E ela do senhor?

 — Romaine me adora. Ela faria qualquer coisa por mim.

 Ele falava com entusiasmo, mas o coração do advogado ficou um pouquinho mais apertado. O testemunho de uma esposa apaixonada teria crédito?

 — Alguém mais o viu voltar às nove e meia? Uma empregada, por exemplo?

 — Não temos empregada.

 — Encontrou-se com alguém na rua quando voltou?

 — Ninguém que conhecesse. Percorri parte do caminho de ônibus. O motorista pode ser que se lembre.

 O Sr. Mayherne abanou a cabeça, cheio de dúvidas.

 — Então, não há ninguém que possa confirmar o testemunho de sua esposa?

 — Não. Mas isto não é necessário, é?

 — Pode ser que não — o Sr. Mayherne apressou-se em dizer. — Só mais uma coisa: a Srta. French sabia que o senhor era casado?

 — Ah, sabia.

 — Mesmo assim o senhor nunca levou a esposa para vê-la. Por quê?

 Pela primeira vez Leonard Vole hesitou ao responder:

 — Bem... não sei.

 — Sabia que Janet Mackenzie diz que a patroa acreditava que o senhor fosse solteiro, e que tinha esperanças de futuramente se casar com o senhor?

 Vole riu.

 — Que absurdo! Ela era quarenta anos mais velha do que eu.

 — Não é um fato inédito — disse o advogado secamente. — O fato permanece. Sua esposa não chegou a conhecer a Srta. French?

 — Não... — Mais uma vez o constrangimento.

 — Francamente, não consigo entender sua atitude.

 Vole corou, hesitou, e então disse:

 — Vou falar com a maior franqueza. Como o senhor sabe, eu estava duro. Tinha esperanças de que a Srta. French me emprestasse algum dinheiro. Ela gostava de mim, mas não estava nem um pouco interessada nas lutas de um jovem casal. Mais tarde descobri que estava convencida de que não vivíamos bem, que estávamos separados. Sr. Mayherne, eu queria o dinheiro, por causa de Romaine. Não disse nada e deixei a velha pensar o que quisesse. Ela me disse que era como se eu fosse seu filho adotivo. Nunca se falou em casamento; isto é imaginação de Janet.

 — Isso é tudo?

 — É, isso é tudo.

 Houve um pouco de hesitação nestas palavras? Foi o que o advogado pensou. Ele levantou-se e estendeu a mão.

 — Até logo, Sr. Vole. — Ele olhou o rosto conturbado do rapaz, e falou num raro impulso: — Acredito na sua inocência, apesar dos fatos estarem contra você. Espero prová-lo e fazer-lhe justiça.

 Vole sorriu para ele.

 — O senhor vai ver que tenho um bom álibi — disse, entusiasmado.

 De novo, mal notou que o outro não respondeu.

 — Tudo gira em torno do testemunho de Janet Mackenzie — disse o Sr. Mayherne. — Ela o odeia. Quanto a isso não há dúvidas.

 — Ela não pode me odiar — protestou o jovem. O advogado balançou a cabeça enquanto saía.

 — Agora vamos à Sra. Vole — disse para si mesmo.

 Ficara bastante perturbado pelo rumo que as coisas iam tomando.

 Os Voles moravam numa casinha velha perto de Paddington Green. E para lá o advogado se dirigiu.

 Atendeu a campainha uma mulher desleixada, obviamente uma empregada doméstica.

 — Por favor, a Sra. Vole já chegou?

 — Chegou já faz mais de uma hora. Não sei se o senhor pode vê ela.

 — Se levar o meu cartão, tenho certeza de que ela irá receber-me — disse o Sr. Mayherne calmamente.

 A mulher olhou-o, desconfiada, limpou a mão no avental e apanhou o cartão. Depois fechou-lhe a porta na cara, e deixou-o esperando do lado de fora.

 Mas, poucos minutos depois, ela voltou ligeiramente mudada:

 — Entre, por favor.

 Ela levou-o a uma salinha de visitas. O Sr. Mayherne pôs-se a examinar um desenho na parede e, de repente, se viu diante de uma mulher alta a pálida que entrara tão silenciosamente que ele não ouviu.

 — Sr. Mayherne? O senhor é o advogado de meu marido, não é? Quer sentar-se?

 Até ela falar, ele não se apercebera de que era estrangeira. Agora, observando-a mais de perto, notou as maçãs salientes do rosto, o cabelo negro-azulado, e um ligeiro e ocasional movimento de mãos nada inglês. Uma mulher estranha, muito quieta. Tão quieta que fazia a pessoa sentir-se pouco à vontade. Desde o começo, o Sr. Mayherne teve consciência de que estava diante de algo que não entendia bem.

 — Vamos, Sra. Vole — disse ele — a senhora não deve desanimar...

 Ele calou-se. Era óbvio que Romaine Vole não tinha a menor intenção de desanimar. Estava perfeitamente calma.

 — Conte-me tudo, por favor. Quero saber de tudo. Não tente poupar-me. Quero saber p pior. — Ela hesitou, depois repetiu falando mais baixo, com uma curiosa ênfase que o advogado não entendeu:— Quero saber o pior.

 O Sr. Mayherne repetiu a entrevista com Leonard Vole. Ela escutou atenta, aquiescendo de quando em vez.

 — Entendo — disse ela quando ele terminou. — Ele quer que eu diga que ele chegou às nove e meia aquela noite?

 — Ele chegou às nove e meia, não foi? — perguntou o advogado.

 — Não é esta a questão — ela disse friamente. — Eles vão acreditar em mim?

 O Sr. Mayherne estava estupefato. Ela chegara muito depressa ao X do problema.

 — Isto é o que quero saber — disse ela. — Será o suficiente? Alguém mais poderá confirmar meu depoimento?

 Havia um quê de ansiedade reprimida nos seus modos que o fez sentir-se ligeiramente inquieto.

 — Até agora, ninguém — disse, relutante.

 — Compreendo — disse Romaine Vole.

 Ela permaneceu sentada, bem quieta, por alguns minutos. Um sorriso brincava nos seus lábios.

 O advogado ia ficando cada vez mais alarmado.

 — Sra. Vole... sei como deve estar se sentindo...

 — Sabe? Será que sabe?

 — Nestas circunstâncias...

 — Nestas circunstâncias... pretendia jogar sozinha. Ele olhou-a, aflito.

 — Mas, minha querida Sra. Vole, a senhora está extenuada. Sendo tão dedicada ao marido...

 — Como?

 A rispidez de sua voz o fez estremecer.

 Romaine Vole meneou a cabeça devagar, o mesmo estranho sorriso nos lábios.

 — Ele lhe disse que eu era uma esposa dedicada? — perguntou, calma. — Ah! Claro! Ê claro que disse. Como os homens são estúpidos! Estúpidos, estúpidos, estúpidos.

 Ela levantou-se de repente. Toda a intensa emoção que o advogado sentira no ar, concentrava-se agora no tom da voz dela.

 — Eu o odeio, isso sim. Eu o odeio, odeio, odeio! Gostaria de vê-lo pendurado pelo pescoço até que morresse.

 O advogado recuou diante dela e da paixão que escondia nos olhos.

 Ela deu um passo à frente e continuou, veemente:

 — Talvez eu veja isso. E se eu disser que ele não chegou às nove e vinte mas sim às dez e vinte? O senhor diz que ele desconhecia que herdaria o dinheiro. E se eu disser que ele sabia tudo sobre isso, que contava com isso e que cometeu assassinato para obter o dinheiro? E se eu disser que, naquela noite, ele admitiu o que havia feito? Que havia sangue no casaco dele? E então? E se eu disser todas estas coisas no tribunal?

 Os olhos dela pareciam desafiá-lo. Com esforço, ele escondeu a crescente consternação e tentou falar num tom racional:

 — Não se pode pedir que testemunhe contra o marido...

 — Ele não é meu marido!

 As palavras saíram tão depressa que ele pensou não tê-las entendido bem.

 — Como?

 — Ele não é meu marido.

 O silêncio era tão grande que se podia ouvir uma mosca voando.

 — Eu era artista em Viena. Meu marido está vivo, mas num sanatório. Assim, não pudemos nos casar. Ainda bem.

 — Gostaria que me dissesse uma coisa — falou o Sr. Mayherne. Ele conseguiu parecer calmo e frio como sempre. — Por que está tão zangada com Leonard Vole?

 Ela abanou a cabeça, sorrindo um pouco.

 — Sim, o senhor gostaria de saber. Mas não vou lhe dizer. Vou manter meu segredo...

 O Sr. Mayherne soltou sua tosse seca e levantou-se.

 — Acho que não há mais motivo para prolongar esta entrevista — observou ele. — Terá notícias minhas depois que eu me comunicar com meu cliente.

 Ela aproximou-se dele, olhando-o com os maravilhosos olhos escuros.

 — Diga-me — ela falou —, acreditou, honestamente, que ele era inocente quando veio aqui hoje?

 — Acreditei — disse o Sr. Mayherne.

 — Coitadinho — riu ela.

 — E ainda acredito — atalhou o advogado. — Boa noite, madame.

 Ele retirou-se da sala, levando com ele a lembrança daquele rosto alarmado.

 — Vai ser um negócio dos diabos — disse o Sr. Mayherne para si mesmo, enquanto descia a rua.

 Era tudo extraordinário. Uma mulher extraordinária. Uma mulher perigosa. As mulheres ficam diabólicas quando encostam a faca no peito de alguém.

 O que poderia fazer? Aquele pobre homem não teria onde se apoiar. Claro, possivelmente cometera o crime...

 — Não — disse o Sr. Mayherne para si mesmo. — Não, há muitas provas demais contra ele. Não acredito nesta mulher. Inventou esta história toda. Mas nunca falará no tribunal.

 Ele gostaria de ter mais certeza quanto a isso.

 Os interrogatórios preliminares no tribunal foram breves e surpreendentes. As principais testemunhas de acusação eram Janet Mackenzie, empregada da falecida e Romaine Heilger, austríaca, amante do prisioneiro.

 O Sr. Mayherne sentou-se no tribunal e ouviu a comprometedora história que Romaine contou. Tal e qual lhe dissera durante a entrevista.

 O prisioneiro adiou sua defesa e ficou em prisão preventiva para aguardar julgamento.

 O Sr. Mayherne estava desorientado. Tudo estava contra Leonard Vole. Até o famoso advogado da Coroa escalado para defesa deixava pouca esperança.

 — Se pudermos abalar o depoimento desta austríaca, talvez se possa fazer alguma coisa — disse, sem muita certeza. — Mas está muito difícil.

 O Sr. Mayherne concentrara as energias num único ponto: supondo que Leonard Vole estivesse falando a verdade, e tivesse saído da casa da falecida às nove horas, quem era o homem que Janet ouvira conversando com a Srta. French às nove e meia?

 O único raio de luz aparecia na forma de um sobrinho mau-caráter que, há algum tempo, bajulou e ameaçou a tia por causa de dinheiro. O advogado soube que Janet Mackenzie sempre foi ligada a este rapaz e nunca deixou de defendê-lo perante a tia. Era bem possível que a Srta. French estivesse conversando com o sobrinho depois de Leonard Vole ter saído, sobretudo porque não fora encontrado em nenhum dos lugares que costumava freqüentar.

 Quanto a outras linhas de ação, as pesquisas do advogado foram negativas. Ninguém vira Leonard Vole entrando em sua própria casa nem saindo da residência da Srta. French. Ninguém vira nenhum outro homem entrar ou sair da casa, em Cricklewood. Os interrogatórios não levaram a nada.

 Foi na véspera do julgamento que o Sr. Mayherne recebeu a carta que mudou completamente os rumos de seu pensamento.

 Chegou pelo correio das seis horas. Uns garranchos de pessoa semi-analfabeta, escritos em papel comum e colocados dentro de um sujo envelope sobre o qual se encontrava um selo completamente torto.

 O Sr. Mayherne leu e releu a carta até entender-lhe o significado.

 

 QUERIDO SINHÔ:

 U sinhô é o adivogado do rapais. Se quisé desmascara aquela sirigaita e u montão di mentira vem até Shaw's Rents 16 hoji di noiti. Vai te custa 200 libras. Pregunte pela Sta. Mogson.

 

 O advogado leu e releu a estranha epístola. É claro que podia ser um embuste, mas, quando pesou bem, o Sr. Mayherne ficou convencido de que era genuína e de que era uma esperança para o prisioneiro. O depoimento de Romaine Heilger prejudicou-o completamente, e a linha que a defesa queria seguir, de que o depoimento de uma mulher que vivia uma vida imoral não era digno de confiança, era, pelo menos, muito fraca.

 O Sr. Mayherne tomou uma decisão. Era seu dever salvar o cliente a qualquer custo. Tinha que ir a Shaw's Rents.

 Ele encontrou um pouco de dificuldade em achar o lugar, um edifício em ruínas numa favela malcheirosa. Ao perguntar pela Sra. Morgan, foi levado a uma sala no terceiro andar. Bateu à porta e, não obtendo resposta, bateu de novo.

 Foi aí que ouviu um arrastar de pés e, pouco depois, a porta foi cautelosamente aberta; por trás dela, surgiu uma criatura encurvada.

 De repente, a mulher, pois se tratava de uma mulher, deu um risinho gutural e abriu totalmente a porta.

 — Então é você, querido — disse numa voz roufenha. — Não tem ninguém com você, né? Nada de truques? Está bem. Pode entrar, entra.

 Com alguma relutância, o advogado cruzou a soleira da porta para entrar numa salinha suja, com o lampião tremeluzente. No canto, uma cama ainda por fazer, uma mesa de pinho e duas cadeiras bambas. Pela primeira vez o Sr. Mayherne teve uma visão total da inquilina do repugnante apartamento. Uma mulher de meia idade, desgrenhados cabelos grisalhos e um lenço amarrado em volta do rosto. Ela o viu olhando para o lenço e riu de novo, o mesmo curioso risinho gutural.

 — Quer saber por que escondo minha beleza, querido? He, he, he. Tem medo que possa tentar você, eh? Mas você vai ver, você vai ver.

 Ela afastou o lenço do rosto e, involuntariamente, o advogado recuou diante da quase disforme mancha escarlate. Ela recolocou o lenço.

 — Não está muito a fim de me beijar, não é queridinho? He, he, não me espanto. Mas já fui uma menina bonita e não foi há muito tempo atrás, como deve estar pensando. Ácido sulfúrico, querido, ácido sulfúrico; foi isso que causou essa beleza. Ah! mas ela vai me pagar, aquela...

 E ela despejou uma torrente de blasfêmias que o advogado tentou reprimir, mas em vão. Finalmente ela calou-se, as mãos abrindo-se e fechando-se nervosamente.

 — Chega disso — disse o advogado, ríspido. — Vim até aqui porque tenho motivos para acreditar que você pode me dar informações que podem inocentar meu cliente, Leonard Vole. É isso?

 Olhou-o de soslaio.

 — E o dinheiro, queridinho? — disse com a voz fanhosa. — Duzentos mangos, 'tá lembrado?

 — É seu dever prestar depoimento, e pode ser chamada para fazê-lo.

 — Isso não vai adiantar, querido. Já sou velha e não sei nada. Mas se me der duzentinhos, talvez eu possa dar umas dicas para você. Entende?

 — Que tipo de dica?

 — O que diria de uma carta? Uma carta dela. Não interessa como veio parar aqui. Isso é comigo. Mas quero o dinheiro.

 O Sr. Mayherne olhou-a friamente e tomou uma decisão:

 — Eu lhe dou 10 libras, e só. E isso, só se a carta for o que está dizendo que é.

 

 — Dez libras? — ela gritou e esbravejou.

 — Vinte — disse o Sr. Mayherne. — E esta é minha última palavra.

 Ele levantou-se como que para ir embora. Depois, observando-a de perto, tirou do bolso a carteira e contou: vinte e uma libras.

 — Como vê — disse ele —, é tudo o que tenho comigo. É isso ou nada.

 Mas ele já previra que a visão do dinheiro seria demais para ela. Ela xingou, blasfemou em vão, mas, por fim, cedeu. Dirigiu-se até a cama e tirou alguma coisa debaixo do roto colchão.

 — Está aqui, seu desgraçado! — vociferou. — A que interessa é a de cima.

 Ela jogou-lhe um maço de cartas; o Sr. Mayherne desamarrou-as e pôs-se a examiná-las metódica e friamente, como de costume. A mulher, que o observava ansiosa, não pudera detectar nada daquele rosto impassível.

 Leu cada carta, voltou à de cima e a leu de novo. Depois amarrou novamente todo o maço, com cuidado.

 Eram cartas de amor escritas por Romaine Heilger e não eram dirigidas a Leonard Vole. A carta de cima datava do dia da prisão deste.

 — Falei a verdade, não falei? — gemeu a mulher. — Essa carta acaba com ela, não acaba?

 O Sr. Mayherne colocou as cartas no bolso e fez uma pergunta:

 — Como conseguiu esta correspondência?

 — Isso é dedurar — disse ela lançando um olhar de soslaio. — Mas sei mais uma coisa. Estava no tribunal e ouvi o que a sirigaita disse. Vê se descobre onde ela estava às dez e vinte, a hora que disse que estava em casa. Pergunta no Lion Road Cinema. Eles se lembram — uma mulher fina, elegante — desgraçada!

 — Quem é o homem? — perguntou o Sr. Mayherne. — Só tem o primeiro nome aqui.

 A voz da outra tornou-se rouca, grossa, as mãos se abrindo e se fechando. Por fim colocou a mão no rosto.

 — É o homem que me fez isso. Agora já faz muito tempo. Ela tirou ele de mim — e era uma pirralha naquela época. E quando fui procurar ele, para trazer ele de volta, ele jogou essa coisa desgraçada em mim! E ela riu, aquela desgraçada! Tenho uma raiva danada dela. Nestes anos eu segui ela, espionei mesmo. E agora apanhei ela. Ela vai sofrer por causa disso, não vai, seu advogado? Vai sofrer?

 — Provavelmente será presa por perjúrio — disse o Sr. Mayherne calmo.

 — Presa — é isso que quero. Vai embora, não vai? Onde está meu dinheiro? Onde está este bendito dinheiro?

 Sem dizer uma palavra, o Sr. Mayherne colocou as notas sobre a mesa. E então, respirando fundo, saiu do sórdido aposento. Quando olhou para trás, viu a mulher cantarolando com o dinheiro na mão.

 Ele não perdeu tempo. Foi direto ao cinema Lion Road e mostrou uma fotografia de Romaine Heilger; o porteiro reconheceu-a de imediato. Chegara ao cinema com um homem, pouco depois das dez horas, na noite em questão. Ele não reparara no par, mas se lembrava dela que comentou com ele a fita que estava em cartaz. Ficaram até o fim, cerca de uma hora.

 O Sr. Mayherne estava satisfeito. O depoimento de Romaine Heilger não passava de um monte de mentiras, do princípio ao fim. Por causa de seu ódio inventara tudo. O advogado pôs-se a pensar no que estaria por trás deste ódio. O que teria Leonard Vole feito a ela? Ele parecia perplexo quando o advogado lhe relatou a atitude dela. Ele declarou com veemência que era inacreditável uma coisa dessas — mas, pareceu ao Sr. Mayherne que depois do primeiro momento de espanto, faltava sinceridade aos seus protestos.

 Ele sabia. O Sr. Mayherne estava convencido disso. Ele sabia, mas não tinha a menor intenção de revelar o fato. O segredo entre aqueles dois permanecia um segredo. Saberia da verdade algum dia?

 O advogado consultou o relógio. Já estava tarde, mas o tempo era tudo. Chamou um táxi e deu um endereço.

 — Sir Charles tem que tomar conhecimento disso de uma vez — murmurou ao entrar no táxi.

 

 O julgamento de Leonard Vole, acusado de assassinar Emily French, suscitou o maior interesse. Em primeiro lugar, o prisioneiro era jovem e bonito, acusado de um crime por demais covarde e, para completar, Romaine Heilger, a principal testemunha de acusação. Saíram várias fotografias dela no jornal, e muito se inventou sobre sua origem e história.

 A sessão iniciou-se em ambiente de calma. Vários depoimentos técnicos foram ouvidos. Depois Janet Mackenzie foi chamada. Substancialmente, contou a mesma história de antes. Os advogados de defesa conseguiram fazê-la cair em contradição uma ou duas vezes sobre a amizade de Vole com a Srta. French; eles enfatizaram o fato de que, embora ela tenha ouvido uma voz masculina na sala de visitas aquela noite, não havia nada que indicasse que Vole estivesse lá, e também conseguiram dar a entender que ciúmes e antipatia pelo prisioneiro eram a base de seu depoimento.

 A testemunha chamada a seguir foi Romaine Heilger.

 — Seu nome é Romaine Heilger?

 — É.

 — E austríaca?

 — Sou.

 — A senhora viveu estes últimos três anos com o prisioneiro e se fez passar como mulher dele?

 Por um breve momento, os olhos de Romaine Heilger encontraram-se com os do homem no banco dos réus. Sua expressão trazia algo de curioso e insondável.

 — Vivi.

 E o interrogatório continuou. Os fatos comprometedores foram aparecendo. Na noite em questão, o prisioneiro levou um pé-de-cabra com ele. Voltou às dez e vinte e confessou ter matado a solteirona. Os punhos da camisa estavam sujos de sangue e ele os queimou no fogão da cozinha. Ele a fez calar-se por meio de ameaças.

 Com o desenrolar da história, o tribunal, que a princípio nutrira uma ligeira simpatia pelo prisioneiro, agora se voltava totalmente contra ele. Leonard Vole permanecia de cabeça baixa, melancólico, como se soubesse que seria condenado.

 Entretanto podia-se notar que a acusação procurava diminuir a animosidade de Romaine. Seria preferível uma testemunha menos parcial.

 Imponente e poderosa, a defesa levantou-se.

 O advogado disse a ela que sua história era uma invenção dolosa do princípio ao fim, que nem mesmo estava em sua própria casa na hora em questão, que estava apaixonada por outro homem e que, deliberadamente, tentava levar Vole à condenação por um crime que não cometeu.

 Romaine negou estas alegações com extrema insolência.

 E então, o surpreendente desfecho: uma carta. Foi lida em voz alta em meio ao mais profundo silêncio.

 Max, meu adorado, o destino colocou-o em nossas mãos! Ele foi preso por assassinato — o assassinato de uma velha solteirona. Leonard, que era incapaz de matar uma mosca! Até que enfim vou me vingar. Coitado! Vou dizer que voltou para casa de noite com a camisa manchada de sangue e que me confessou o crime. Vou enforcá-lo, Max, e quando ele estiver lá irá perceber que foi Romaine que o levou à morte. E então, felicidade, meu amor! Felicidade, finalmente!

 Havia peritos presentes prontos para jurar que a letra era a de Romaine Heilger, mas não foi necessário. Em vista da carta, Romaine Heilger confessou tudo. Leonard Vole voltara para casa na hora em que disse ter voltado, nove e vinte. Ela inventara toda esta história para arruiná-lo.

 Com a queda de Romaine Heilger, o caso também terminou para a Coroa. Sir Charles chamou suas poucas testemunhas, o próprio prisioneiro subiu à tribuna e narrou sua história de modo direto e decidido, história essa que se manteve inalterada quando do outro interrogatório.

 A acusação tentou, em vão, voltar ao ataque. O resumo da prova do juiz não foi totalmente favorável ao réu, mas o júri levou pouco tempo para chegar ao veredicto:

 — Declaramos o réu inocente. Leonard Vole estava livre!

 O pequeno Sr. Mayherne levantou-se depressa da cadeira. Tinha que felicitar o cliente.

 Ele pilhou-se polindo o pince-nez vigorosamente; justo na noite anterior sua mulher lhe dissera que isto estava se tornando uma mania. Que coisa curiosa as manias. As pessoas nunca percebem que as têm.

 Um caso interessante, um caso muito interessante. Aquela mulher, Romaine Heilger.

 O que mais o intrigava era a figura de Romaine Heilger. Na sua casa, em Paddington, parecera uma criatura pacata, mas no tribunal ela se inflamou: agitou-se como uma flor tropical.

 Se fechasse os olhos conseguiria vê-la agora, alta, um tanto curvada, a mão direita abrindo e fechando inconscientemente o tempo todo.

 Que coisa curiosa as manias. Este gesto devia ser uma mania dela. Mas ele havia visto alguém fazer a mesma coisa bem recentemente. Ora, quem era mesmo? Bem recente...

 Ele respirou, ofegante, ao se lembrar. A mulher de Shaw's Rents...

 O advogado permaneceu quieto, a cabeça girando. Era impossível, impossível... Mas Romaine Heilger era uma atriz.

 O advogado da Coroa veio por trás dele e bateu-lhe de leve no ombro.

 — Já felicitou nosso homem? Ele esteve por um fio, você sabe. Venha comigo.

 Mas o advogado balançou a cabeça.

 Ele só queria uma coisa: ver Romaine Heilger frente a frente. Mas ele só a viu algum tempo depois; o lugar do encontro é irrelevante.

 — Então o senhor desconfiou — disse ela quando ele lhe contou tudo. — O rosto? Ora, isso foi facílimo, e a luz do lampião era horrível de modo que não pôde ver a maquiagem.

 — Mas por quê? por quê?

 — Porque joguei uma cartada solitária? — Ela sorriu um pouco, lembrando-se da última vez em que usou estas palavras.

 — Uma comédia!

 — Meu amigo — eu tinha que salvá-lo. O depoimento de uma mulher dedicada ao marido não teria sido o bastante — o senhor mesmo o disse. Mas conheço a psicologia das platéias. Quando descobrissem que meu depoimento era falso e comprometedor, estabelecer-se-ia, de imediato, uma reação favorável ao prisioneiro.

 — E o maço de cartas?

 — Uma única carta, a carta vital, pareceria um... como se chama? uma conspiração.

 — Então, o tal Max...

 — Nunca existiu, meu amigo.

 — Eu ainda acho que a senhora poderia tê-lo libertado através do... procedimento normal — disse o Sr. Mayherne, um pouco ofendido.

 — Não quis arriscar. Sabe, o senhor pensava que ele fosse inocente...

 — E a senhora sabia, não é? Compreendo — disse o pequeno Sr. Mayherne.

 — Meu caro Sr. Mayherne — disse Romaine —, o senhor não compreende coisa alguma. Eu sabia — que ele era culpado!

 

 O MISTÉRIO DO VASO AZUL

Jack Hartington analisou tristemente seu frustrado drive. De pé, ao lado da bola, virou-se para olhar o tee, medindo a distância. Seu rosto revelava o desprezo e a revolta que sentia. Com um suspiro, apanhou o taco, executou dois swings defeituosos destruindo, em cada vez, um dente-de-leão e um tufo de grama. Depois concentrou-se firmemente na bola.

 É duro ter-se vinte e quatro anos e a ambição única de reduzir o handicap no golfe, mas, em vez disso, ser forçado a desperdiçar tempo e dar atenção ao problema de ganhar a vida. Durante cinco dias e meio da semana, Jack se vê preso numa espécie de túmulo de mogno, na cidade. A tarde de sábado e o domingo são religiosamente dedicados ao verdadeiro negócio da vida e, num excesso de zelo, ele alugara quartos num pequeno hotel perto dos campos de Stourton Heath e levantava-se diariamente às seis da manhã para praticar durante uma hora antes de tomar o trem das 8,46 para a cidade.

 O plano só tinha uma desvantagem: a esta hora da manhã ele era declaradamente incapaz de acertar qualquer coisa. A uma tacada desastrada seguia-se um drive em falso. Como resultado de suas jogadas, a bola corria alegremente pelo solo, e quatro putts parecia ser o mínimo em qualquer green.

 Jack suspirou, agarrou firme o taco e repetiu as palavras mágicas: "Solte o braço esquerdo, e não olhe para cima."

 Ele girou o corpo e parou, petrificado, quando um grito estridente cortou a silenciosa manhã de verão.

 — Assassinato — dizia. — Socorro! Assassinato!

 Era uma voz feminina que se transformou, no fim, em uma espécie de suspiro gorgolejante.

 Jack largou o taco no chão e correu em direção ao som. Viera de algum lugar bem próximo. Este trecho do campo de golfe era bem deserto e havia muito poucas casas por ali. Na verdade, havia apenas uma perto, um chalezinho pitoresco que Jack muitas vezes notara, pelo seu ar de requinte do velho mundo. E foi na direção deste chalé que ele correu. Este se ocultava atrás de uma subida coberta por urzes, mas ele a contornou e, em menos de um minuto, estava com a mão na fechadura do portãozinho.

 Ele viu uma menina de pé, no jardim e, por um momento, Jack chegou à conclusão muito natural de que fora ela quem gritara por socorro. Mas ele logo mudou de idéia.

 Ela trazia na mão uma pequena cesta, quase cheia de ervas, que, evidentemente, acabara de arrancar de um canteiro de amor-perfeito. Os olhos dela, Jack notara, eram como estas próprias flores, aveludados, macios, escuros e mais violeta do que azuis. O seu todo era o de um amor-perfeito, no seu vestido de linho roxo.

 A menina olhava para Jack entre aborrecida e surpresa.

 — Desculpe-me — disse o rapaz —, mas você deu um grito, agora mesmo?

 — Eu? Não, de jeito nenhum.

 Sua surpresa era tão genuína que Jack sentiu-se confuso. A voz dela era macia e bonita com uma ligeira inflexão estrangeira.

 — Mas você deve ter ouvido — exclamou ele. — Veio de algum lugar próximo.

 Ela olhou-o.

 — Eu não ouvi nada.

 Jack por sua vez olhou-a. Era simplesmente inacreditável que ela não tivesse ouvido o grito angustiado pedindo ajuda. Mas, ao mesmo tempo, estava tão calma que não podia ser mentira.

 — Veio de algum lugar bem próximo — insistiu ele. Ela agora o olhava com desconfiança.

 — E o que gritavam? — ela perguntou.

 — Assassinato — socorro! Assassinato!

 — Assassinato — socorro! Assassinato! — repetiu a menina. — Alguém deve estar-lhe pregando uma peça, Monsieur. Quem poderia ser assassinado aqui?

 Jack olhou ao redor com a idéia confusa de descobrir um cadáver no jardim. Mas, ao mesmo tempo, tinha certeza absoluta de que o grito que ouvira era real, e não produto de sua imaginação. Ele olhou para as janelas do chalé. Tudo parecia perfeitamente calmo e em paz.

 — Quer dar uma busca em nossa casa? — perguntou a menina secamente.

 Ela mostrava-se tão céptica que Jack foi ficando cada vez mais confuso. Ele voltou-se para ir embora.

 — Desculpe-me — disse ele. — Deve ter vindo lá da floresta. Ele tirou o chapéu à guisa de cumprimento e retirou-se. Olhou por sobre o ombro, e viu que a menina voltara calmamente à tarefa de limpar as heras.

 Durante algum tempo ele embrenhou-se floresta adentro, mas não viu sina! de nada estranho. Mas tinha cada vez mais certeza de que ouvira o grito. Por fim, desistiu da busca e correu para casa a fim de engolir o café e apanhar o trem de 8,46, pela costumeira estreita margem de um segundo. Sua consciência o atormentou um pouco quando sentou-se no trem. Será que não deveria ter comunicado logo à polícia o que ouvira? Só não o havia feito por causa da incredulidade da menina do amor-perfeito. Ela claramente desconfiara de que fosse fantasia dele; era bem possível que a polícia pensasse o mesmo. E tinha ele absoluta certeza de que ouvira o grito?

 Nesta altura já não estava tão seguro quanto antes — o resultado natural de tentar recapturar uma sensação perdida. Quem sabe o grito de um pássaro distante que se lhe assemelhasse à voz de mulher?

 Mas, furioso, rejeitou a sugestão. Era a voz de uma mulher, e ele a ouvira. Lembrava-se de ter olhado o relógio pouco antes do grito. Eram sete e vinte e cinco. Este pode ser um fato útil para a polícia caso — caso se descobrisse alguma coisa.

 Naquela noite, ao chegar em casa, leu os jornais na ânsia de ver se havia alguma menção de assassinato. Mas não havia nada, e ele sentiu-se entre aliviado e decepcionado.

 A manhã seguinte foi tão chuvosa — tão, que até o maior entusiasta por golfe teria desanimado. Jack levantou-se o mais tarde possível, engoliu o café às pressas, correu para o trem e, mais uma vez, examinou os jornais, ansioso. E mais uma vez, nenhuma menção sobre alguma hedionda descoberta. Nos jornais da tarde, a mesma coisa.

 — Que estranho — disse Jack para si mesmo —, mas é isso. Vai ver que eram meninos brincando lá no bosque.

 Na manhã seguinte, ele saiu cedo. Quando passou pelo chalé notou, com o rabo do olho, que a garota estava no jardim, limpando ervas daninhas. Obviamente, um hábito. Ele havia feito uma tacada de aproximação bastante boa, e tinha esperanças de que ela tivesse notado. Quando colocou a bola no tee seguinte, olhou para o relógio.

 — Sete e vinte e cinco — murmurou. — Será...

 As palavras congelaram-se nos seus lábios. Por trás dele, o mesmo grito que o deixara perplexo antes. A voz de uma mulher em extrema aflição.

 — Assassinato — socorro! — Assassinato!

 Jack voltou correndo. A menina do amor-perfeito estava perto do portão. Ela parecia surpresa e Jack aproximou-se dela, triunfante, gritando:

 — Desta vez você ouviu.

 Ela arregalou os olhos com uma expressão que não pôde definir, e ele notou que, ao aproximar-se, ela se encolheu e até olhou para a casa como se planejasse fugir em busca de abrigo.

 Ela balançou a cabeça, olhando-o:

 — Não ouvi nada — disse, atônita.

 Era como se tivesse levado um soco em cheio. A sinceridade dela era tão evidente que ele não podia desacreditar. Mas ele não pode ter imaginado, não pode... não pode...

 Ele ouviu-a falar suavemente, quase que em tom de compaixão.

 — Você é neurótico de guerra, não?

 Num repente, Jack compreendeu-lhe o olhar de medo — ela pensava que ele sofria de alucinações...

 E então, como ducha fria, veio-lhe o terrível pensamento: será que ela estava certa? Será que ele tinha alucinações? Obcecado pelo horror deste pensamento, ele voltou-se e foi-se embora aos tropeções, sem dizer uma única palavra sequer. A menina observou a cena, suspirou, balançou a cabeça e voltou à sua tarefa rotineira.

 Jack tentou organizar os pensamentos. — Se eu ouvir esta droga de novo às sete e vinte cinco — disse para si mesmo —, é claro que sofro de algum tipo de alucinação. Mas não vou ouvir.

 Passou o dia agitado e foi-se deitar cedo, disposto a tirar a prova no dia seguinte.

 Como é natural em tais casos, ele permaneceu acordado quase que a noite toda e perdeu a hora. Já eram sete e vinte quando saiu do hotel rumo ao campo. Viu que não poderia chegar ao lugar fatal às sete e vinte e cinco, mas, se a voz era uma alucinação, pura e simples, ele a ouviria em qualquer lugar. Ele continuou correndo, os olhos fixos nos ponteiros do relógio.

 Sete e vinte cinco. De longe veio o eco da voz de uma mulher, chamando. Não podia distinguir as palavras, mas estava convencido de que era o mesmo grito que ouvira antes, que vinha do mesmo lugar, de algum ponto próximo ao chalé.

 Por estranho que pareça, o fato reanimou-o. Afinal de contas, podia ser um embuste. Mesmo que parecesse improvável, a menina podia estar-lhe pregando uma peça. Ajeitou os ombros, resoluto, apanhou o taco da sacola. Jogaria os poucos holes até ao chalé.

 A menina estava no jardim, como sempre. Desta vez ela o encarou e, quando ele tirou-lhe o chapéu, ela disse "bom dia" quase que timidamente... Ele a achou mais bonita do que nunca.

 — Um dia lindo, não é? — disse Jack alegremente, amaldiçoando a inevitável banalidade da observação.

 — É, está lindo mesmo.

 — Bom para o jardim, não é?

 A menina riu um pouco, revelando uma fascinante covinha.

 — Não, não! Minhas flores precisam de chuva. Olha como estão todas ressecadas.

 Jack aceitou o convite do gesto dela, e aproximou-se do murinho que dividia o jardim do campo de golfe.

 — Ora, nem tanto — observou, desajeitado, consciente do olhar ligeiramente apiedado da menina.

 — O sol é bom, não é? — disse ela. — As flores podem ser regadas. O sol dá força, e é bom para a saúde. Monsieur está muito melhor hoje, sem dúvida.

 Seu tom encorajador aborreceu-o muito.

 — Essa não! — disse para si mesmo. — Acho que ela está tentando me curar por auto-sugestão.

 — Estou perfeitamente bem — disse ele.

 — Isso é muito bom — disse ela, reconfortadora.

 Jack tinha a irritante sensação de que ela não acreditava nele.

 Ele jogou mais alguns holes e voltou correndo para tomar o café. Enquanto comia, tinha consciência, não pela primeira vez, de que um homem sentado a uma mesa próxima o observava. Era um senhor de meia-idade, o rosto vigoroso, cheio de força. Tinha uma barba curta e escura, olhos penetrantes e uma atitude relaxada e segura que o colocava entre as posições mais elevadas das classes profissionais. Seu nome, Jack sabia, era Lavington e ouvira vagos rumores de que era um especialista famoso mas, como Jack não era assíduo freqüentador de Harley Street,* o nome não lhe dizia nada.

 

 *N.T.: Uma rua de Londres ocupada, principalmente, por consultórios de membros proeminentes da profissão médica.

 

 Mas nesta manhã ele estava bem consciente de que o observavam, e isto o assustou um pouco. Será que todos liam no seu rosto o que se passava? Será que este homem, por vocação profissional, sabia que havia algo de errado?

 Jack estremeceu. Seria verdade? Será que, realmente, estava ficando louco? Sofria alucinações, ou tudo não passava de um embuste gigantesco?

 E, de repente, ocorreu-lhe uma forma muito simples de testar a solução. Até agora, estivera sozinho no campo. E se alguém fosse com ele? Havia três hipóteses: a voz se silenciaria. Ambos a ouviriam. Ou... só ele a ouviria.

 Ele resolveu levar o plano adiante. Lavington era o homem indicado para acompanhá-lo. Facilmente entabularam uma conversa; o médico parecia ter esperado por essa abertura. Claramente, por uni motivo ou por outro, ele interessava-se por Jack. Este sugeriu naturalmente que ambos jogassem alguns holes juntos, antes do café. Combinaram para a manhã seguinte.

 Eles começaram um pouco antes das sete. O dia estava perfeito, tranqüilo e sem nuvens, mas não muito quente. O médico estava jogando bem; Jack, de maneira deplorável. Concentrara-se completamente na crise que estava por vir. Olhava contínua e sub-repticiamente para o relógio. Alcançaram o sétimo tee; entre este e o hole situava-se o chalé. Eram sete e vinte.

 A menina, como sempre, estava no jardim quando passaram. Ela não levantou os olhos.

 As duas bolas estão no green, a de Jack perto do hole e a do médico um pouco mais distante.

 — Vou tentar a tacada — disse Lavington.

 Ele curvou-se, escolhendo a linha que ia seguir. Jack estava tenso, os olhos grudados no relógio. Eram exatamente sete e vinte e cinco.

 A bola correu ligeira pela grama, parou na boca do hole, hesitou e acabou caindo.

 — Bom putt — disse Jack. A voz parecia rouca, diferente da sua... Com um suspiro de imenso alívio, fez o relógio escorregar mais para cima do braço. Não acontecera nada. Quebrara-se o encanto.

 — Se não se incomoda esperar um minuto — disse ele —, acho que vou fumar um cachimbo.

 Fizeram uma pequena pausa no oitavo tee. Jack encheu o cachimbo e acendeu-o com dedos trêmulos, não conseguiu evitá-lo. Parecia ter tirado um enorme peso dos ombros.

 — Meu Deus, que dia lindo — observou, olhando para o homem à sua frente, cheio de contentamento. — Continue, Lavington, é sua vez.

 E então, aconteceu. No exato momento em que o médico atingia a bola. A voz de uma mulher, alta e aflita.

 — Assassinato — Socorro! — Assassinato!

 O cachimbo caiu das mãos descontroladas de Jack quando ele voltou-se na direção do som e então, lembrando-se, olhou sem fôlego para o companheiro.

 Lavington olhava para o campo, protegendo, com as mãos, os olhos contra o sol.

 — Um pouco curto — quase uma jogada perfeita, creio. Ele não ouviu nada.

 O mundo parecia rodar. Ele deu um ou dois passos, cambaleando. Quando recobrou os sentidos, estava deitado sobre a grama, Lavington inclinado sobre ele.

 — Pronto, calma, calma.

 — O que houve?

 — Você desmaiou, rapaz — ou pelo menos, chegou bem perto disso.

 — Meu Deus! — exclamou Jack.

 — Qual é o problema? Alguma coisa o preocupa?

 — Já vou contar, mas gostaria de perguntar uma coisa antes. O médico acendeu o cachimbo e sentou-se na grama.

 — Pergunte o que quiser — disse ele para reconfortá-lo.

 — O senhor vem me observando já há dois dias. Por quê? Lavington piscou um pouco.

 — Esta pergunta é um tanto esquisita. Um gato pode olhar para um rei.

 — Não brinque, estou falando sério. Por que me observou? Tenho razões vitais para perguntar isso.

 O rosto de Lavington ficou sério.

 — Vou falar-lhe francamente. Percebi em você todos os indícios de um homem sob grande tensão, e fiquei intrigado imaginando o que poderia ser.

 — É muito fácil: estou ficando louco.

 Ele fez uma pausa dramática, mas, como a afirmação não suscitou o interesse nem a consternação esperadas, ele repetiu:

 — Estou ficando louco.

 — Muito curioso — murmurou Lavington. — Muito curioso mesmo.

 Jack ficou indignado.

 — Acho que isso é tudo que pensa. Os médicos são tão insensíveis.

 — Vamos, vamos, meu jovem amigo, está falando sem saber. Para começar, embora tenha me formado, não pratico medicina. Para falar a verdade, não sou médico, quer dizer, não sou médico do corpo.

 Jack olhou-o com vivo interesse.

 — Nem da mente?

 — Sim, de certa maneira, mas a melhor qualificação é a de médico da alma.

 — Ah!

 — Senti o tom de menosprezo, mas devemos usar alguma palavra para designar o princípio ativo que pode ser separado e que existe independente da casa material, o corpo. É preciso ter boas relações com a alma, rapaz; não apenas em termos religiosos inventado por sacerdotes. Mas vamos chamá-la de mente ou de ser subconsciente ou de qualquer coisa que lhe agradar. Você ofendeu-se com o que eu disse, mas posso assegurar-lhe que achei muito curioso que um jovem equilibrado e perfeitamente normal como você tenha a ilusão de que está ficando louco.

 — Eu já estou louco. Completamente maluco.

 — Você vai me perdoar, mas não acredito.

 — Tenho delírios.

 — Depois do jantar?

 — Não, de manhã.

 — Não pode ser — disse o médico, acendendo de novo o cachimbo que se havia apagado.

 — Estou lhe dizendo que ouço coisas que ninguém mais ouve.

 — De mil homens, um vê luas em Júpiter. Só porque os outros novecentos e noventa e nove não as vêem, não há motivo para se duvidar de que as luas existam e, certamente, não há razão para se acreditar que o milésimo homem esteja louco.

 — As luas de Júpiter são um fato provado cientificamente.

 — É bem provável que os delírios de hoje sejam os fatos provados, cientificamente, de amanhã.

 Aos poucos, a maneira direta de Lavington surtia efeito em Jack. Este sentiu-se infinitamente calmo e entusiasmado. O médico olhou-o com toda atenção por alguns instantes, e depois meneou a cabeça:

 — Assim é melhor — disse ele. — O problema é que vocês, jovens, estão tão certos de que não existe nada fora de sua própria filosofia que se alarmam quando algo inesperado acontece. Vamos ouvir os motivos pelos quais acha que está ficando louco; depois disso, decidiremos se deve ser internado, ou não.

 Jack narrou da maneira mais fiel possível, toda a série de ocorrências.

 — O que não posso entender — concluiu ele — é por que esta manhã aconteceu às sete e meia, cinco minutos mais tarde.

 Lavington pensou por alguns momentos. Depois perguntou:

 — Que horas são no seu relógio?

 — Quinze para as oito — respondeu Jack, após consultá-lo.

 — Então, é bastante simples. No meu são vinte para as oito. Seu relógio está adiantado cinco minutos. Isto é muito interessante e um ponto importante — para mim. Na verdade, é de valor inestimável.

 — Como assim?

 Jack começava a interessar-se.

 — Bom, a explicação óbvia é a de que da primeira vez você realmente ouviu algum grito — talvez uma brincadeira, não se sabe. Nas manhãs seguintes você sugestionou-se a ouvi-lo exatamente à mesma hora.

 — Tenho certeza de que não fiz isso.

 — Não conscientemente, é claro, mas o subconsciente nos prega peças engraçadas, você sabe. Bom, de qualquer jeito, esta explicação não é aceitável. Se fosse um caso de sugestão, você teria ouvido o grito às sete e vinte e cinco pelo seu relógio, mas nunca poderia tê-lo ouvido atrasado, como você pensou.

 — E então?

 — Bom, é óbvio, não é? Este grito de socorro ocupa um lugar no tempo e no espaço perfeitamente definidos. O lugar é próximo ao chalé e a hora é sete e vinte cinco.

 — É, mas por que só eu é que ouço? Não acredito em fantasma nem nessas coisas de almas do outro mundo, espíritos se arrastando e tudo o mais. Por que haveria de ouvir essa droga?

 — Ah! Não podemos dizer, no momento. Uma coisa curiosa é que muitos dos melhores médiuns são pessoas sabidamente cépticas. Não são as pessoas interessadas em ciências ocultas que captam as manifestações. Algumas pessoas vêem e ouvem coisas que outras pessoas não vêem nem ouvem tampouco. Não sabemos por que e, entre dez, nove não querem nem ver nem ouvir e se convencem de que estão tendo alucinações, como você. Ê como eletricidade. Algumas substâncias são boas condutoras e outras não; por muito tempo ficamos sem saber por que e tivemos que nos contentar com o fato. Hoje em dia já sabemos o motivo. Algum dia, sem dúvida nenhuma, saberemos por que você ouve e eu e a menina, não. Tudo é governado pela lógica, e o sobrenatural não existe. Descobrir as leis que governam os chamados fenômenos físicos é um trabalho árduo — mas cada pouquinho já ajuda.

 — Mas o que eu vou fazer? — perguntou Jack. Lavington deu uma risadinha.

 — Espírito prático, estou vendo. Bom, meu amigo, você vai tomar um bom café e sair sem se preocupar mais com coisas que não entende. Agora, eu é que vou bisbilhotar por aí para ver o que descubro sobre o chalé. Posso jurar que é ali que se encontra o mistério.

 Jack levantou-se.

 — Está bem, senhor, entendo o que quer fazer, mas...

 — Pode falar.

 Jack corou de maneira embaraçosa.

 — Tenho certeza de que não há nada de errado com a menina — murmurou.

 — Você não me disse que se tratava de uma menina bonita! Vamos, anime-se. Acho que o mistério começou antes dela.

 Jack chegou em casa naquela noite fervilhando de curiosidade. Confiava cegamente em Lavington. O médico aceitara o fato de maneira tão natural, fora tão objetivo e- imparcial que deixara Jack impressionado.

 Quando desceu para o jantar, encontrou, o novo amigo esperando-o no vestíbulo, e o médico sugeriu que jantassem juntos, na mesma mesa.

 — Alguma novidade? — perguntou Jack, ansioso.

 — Agora sei a história da vida do Chalé Heather. Primeiro foi ocupado por um velho jardineiro e a mulher. O velho morreu e a esposa foi morar com a filha. Depois uma construtora o modernizou com grande êxito e o vendeu a um cavalheiro que só o utilizava para os fins de semana. Há cerca de um ano, ele vendeu o chalé para umas pessoas de nome Turner, Sr. e Sra. Turner. Pelo que deduzi, formavam um casal bastante curioso. Ele era inglês, e a mulher, sabidamente, de origem russa, muito bonita e exótica. Eram bastante acomodados, não viam ninguém, e rarissimamente saíam do jardim. Segundo os boatos locais, parece que tinham medo de alguma coisa, mas acho que não devemos nos fiar nisso.

 E então, de repente, foram embora e nunca mais voltaram. Os corretores locais receberam uma carta do Sr. Turner, vinda de Londres, instruindo-os a vender a casa o mais rápido possível. Os móveis foram vendidos, e depois a própria casa foi comprada pelo Sr. Mauleverer. Este só morou lá durante quinze dias; depois colocou anúncio para alugar. Os atuais moradores são um professor de francês, tuberculoso, e a filha. Estão lá, há dez dias.

 Jack assinalou tudo em silêncio.

 — Acho que isso não explica grande coisa — disse finalmente. — Qual a sua opinião?

 — Gostaria de saber mais sobre os Turners — disse Lavington, calmo. — Eles saíram numa manhã, bem cedinho. Pelo que soube, ninguém os viu partir, realmente. Desde então, o Sr. Turner foi visto, mas não encontrei ninguém que tivesse visto a Sra. Turner.

 Jack empalideceu.

 — Mas isso... o senhor quer dizer que...

 — Não se agite, rapaz. A influência de qualquer um no momento exato da morte — e principalmente de morte violenta — sobre o ambiente é muito forte. Tudo aqui deve ter absorvido esta influência, transmitindo-a a um receptor adequado — neste caso, você.

 — Mas, por que eu? — murmurou Jack, revoltado. — Por que não alguém que pudesse fazer alguma coisa?

 — Você está analisando a força como se fosse inteligente e objetiva quando, na verdade, é cega e mecânica. Eu não acredito em espíritos presos à terra, assombrando um lugar por alguma razão. Mas o que tenho visto, e não posso acreditar ser pura coincidência, é uma espécie de tatear cego em direção à justiça — um movimento subterrâneo de forças ocultas trabalhando às escondidas em direção àquele objetivo...

 Ele estremeceu, como que se livrando de alguma obsessão, e voltou-se para Jack, sorrindo:

 — Vamos abandonar o assunto — pelo menos por essa noite — sugeriu.

 Jack concordou de imediato, mas não achou assim tão fácil banir a questão de sua própria mente.

 Durante o fim de semana, ele mesmo se encarregou de fazer as investigações, mas descobriu muito pouco além do que o médico já descobrira. Ele deixara definitivamente de jogar golfe antes do café da manhã.

 O elo seguinte da corrente surgiu de maneira inesperada. Um dia, ao voltar, Jack foi informado de que uma jovem o aguardava. Para sua grande surpresa, a menina era nada mais nada menos que a menina do jardim, a menina do amor-perfeito, como ele costumava chamá-la em pensamento. Ela estava nervosa e confusa.

 — O senhor me perdoa, Monsieur, por vir procurá-lo assim? Mas tem uma coisa que quero contar...

 Ela olhou em torno, hesitante.

 — Entre aqui — disse Jack prontamente, levando-a para a agora deserta "Sala de Estar de Senhoras", no hotel, um aposento monótono decorado com muita camurça vermelha.

 — Agora sente-se, Srta., Srta...

 — Marchaud, Monsieur. Felise Marchaud.

 — Sente-se, Mademoiselle Marchaud, e conte-me tudo. Felise sentou-se obediente. Vestia-se hoje de verde-escuro e a beleza e o charme do rostinho orgulhoso eram mais evidentes do que nunca. Quando sentou-se ao lado dela, o coração de Jack bateu mais rápido.

 — É o seguinte — explicou Felise —: Estamos aqui há pouco tempo e desde o começo que ouvimos que a casa — nossa doce casinha — é mal-assombrada. Os empregados não param lá. Isso não importa muito — eu posso fazer a ménage e cozinhar com facilidade.

 — Um anjo — pensou o rapaz enamorado. — Ela é maravilhosa.

 Mas, externamente, mantinha uma atitude de atenção puramente comercial.

 — Este negócio de fantasmas... acho que é tudo besteira — quer dizer, pelo menos até quatro dias atrás. Monsieur, por quatro noites seguidas, tive o mesmo sonho. Aquela mulher lá, parada, bonita, alta e muito loura. Tem nas mãos um vaso de porcelana azul. Ela está angustiada — muito angustiada —, e a toda hora estica os braços como se fosse me entregar o vaso, implorando que faça alguma coisa com ele — mas ela não pode falar e eu — eu não sei o que ela está pedindo. Isto foi o que sonhei nas duas primeiras noites — mas anteontem, aconteceu outra coisa. Ela e o vaso azul desapareceram e, de repente, ouvi uma voz gritando — sei que é a voz dela, entende? e, Ah! Monsieur, as palavras que ela diz são as que mencionou para mim aquela manhã: "Assassinato — Socorro! — Assassinato!" Acordei aterrorizada. Digo para mim mesma que tudo não passa de um pesadelo, que as palavras que ouço são por acaso. Mas ontem à noite o sonho veio de novo. Monsieur, o que é isso? O senhor também ouviu. O que faremos?

 Felise estava aterrorizada. Apertava nervosamente as mãos, pedindo, com os olhos, ajuda a Jack. Este fingiu uma falta de interesse que, absolutamente, não sentia.

 — Está bem, Mademoiselle Marchaud. Não deve preocupar-se. Vou dizer-lhe o que gostaria que fizesse, se não se importa: repita toda a história para um amigo meu que está aqui, o Dr. Lavington.

 Felise expressou sua concordância em adotar esta medida, e Jack saiu à procura de Lavington. Pouco depois, vieram os dois.

 Jack fez rapidamente as apresentações; Lavington observou-a com interesse. Com poucas e reconfortantes palavras, ele colocou a menina à vontade e então, por sua vez, escutou-a atenciosamente.

 — Muito curioso — disse ele quando ela terminou. — Falou com seu pai alguma coisa sobre isso?

 Felise balançou a cabeça.

 — Gostaria de não preocupá-lo. Ele ainda está muito doente — os olhos dela se encheram de lágrimas —, e eu oculto tudo que possa agitá-lo.

 — Compreendo — disse Lavington, com ternura. — E me alegro que tenha vindo nos procurar, Mademoiselle Marchaud. Como sabe, Hartington teve uma experiência semelhante à sua. Podemos dizer que agora estamos na pista. Há mais alguma coisa?

 Felise fez um rápido movimento.

 — É claro! Que bobagem a minha. É o ponto central da história. Monsieur, olhe o que achei atrás de um dos armários de cozinha.

 Ela mostrou um pedaço sujo de papel de desenho sobre o qual se via, em aquarela, o esboço de uma mulher. Não passava de uma pintura grosseira, mas a semelhança era bastante boa. Representava uma mulher alta e loura, com algo de sutilmente estrangeiro no rosto. Estava de pé, perto de uma mesa sobre a qual repousava o vaso de porcelana azul.

 — Só encontrei hoje de manhã — explicou Felise. — Monsieur le docteur, este é o rosto da mulher que vi no sonho, e este vaso é idêntico também.

 — Extraordinário — comentou Lavington. — A chave deste mistério é, sem dúvida, o vaso azul. Me parece um vaso chinês e, provavelmente, antigo.

 — É chinês — declarou Jack. — Vi um exatamente igual na coleção de meu tio; sabe, ele é um grande colecionador de porcelana chinesa e lembro-me de ter visto um vaso como esse, há pouco tempo.

 — O vaso chinês — murmurou Lavington. Permaneceu alguns minutos perdido em pensamento, e então levantou a cabeça, um estranho brilho nos olhos. — Hartington, há quanto tempo seu tio tem este vaso?

 — Há quanto tempo? Não sei ao certo.

 — Pense. É uma compra recente?

 — Não sei, acho que sim. Não me interesso muito por porcelana chinesa, mas agora me lembro de que me mostrou as "recentes aquisições" e esta era uma delas.

 — Há menos de dois meses? Os Turners abandonaram o Chalé Heather há dois meses atrás.

 — É, acho que foi isso mesmo.

 — Seu tio às vezes freqüenta leilões no campo?

 — Ele está sempre às voltas com leilões.

 — Então, não há nada que o impeça de ter comprado este determinado vaso no leilão das coisas dos Turner. Uma coincidência curiosa ou, talvez, o que chamo de o tatear da justiça cega. Hartington, você deve saber o quanto antes, com seu tio, onde ele comprou este vaso.

 Jack empalideceu.

 — Isto é impossível. Ele está fora do país. Nem sei para onde poderia escrever.

 — E quanto tempo vai ficar fora?

 — Pelo menos três semanas ou um mês.

 Fez-se silêncio total. Felise olhava ansiosamente de um para outro.

 — Não há nada que se possa fazer? — perguntou ela timidamente.

 — Sim, há uma coisa — disse Lavington, num tom de reprimida animação. — Talvez não seja o usual, mas acho que vai dar certo. Hartington, você tem que se apossar do vaso. Traga-o para cá e. se Mademoiselle permitir, passaremos a noite no Chalé Heather, levando conosco o vaso azul.

 Jack ficou arrepiado.

 — O que o senhor acha que vai acontecer? — perguntou, inquieto.

 — Não tenho a menor idéia, mas acho que o mistério será resolvido, e o fantasma derrotado. Talvez haja um fundo falso no vaso com algo escondido. Se não ocorrer nenhum fenômeno, devemos usar nossa própria engenhosidade.

 Felise entrelaçou os dedos.

 — Acho a idéia maravilhosa — exclamou.

 O entusiasmo trouxe-lhe brilho aos olhos. Jack não se sentia assim tão animado; na verdade, ele estava apavorado, mas nada o faria demonstrar isso diante de Felise. O médico agia como se sua sugestão fosse a coisa mais natural do mundo.

 — Quando podemos apanhar o vaso? — perguntou Felise, voltando-se para Jack.

 — Amanhã — disse este último, a contragosto.

 Agora ele tinha que levar isso adiante até o fim, mas a lembrança do frenético grito pedindo ajuda, coisa que o atormentou a cada manhã, era algo para ser impiedosamente eliminado e no qual não se devia pensar mais do que o necessário.

 Na noite seguinte, ele foi à casa do tio e apanhou o vaso. Convencia-se cada vez mais de que era idêntico ao vaso do desenho, porém, por mais que o olhasse, não conseguia ver nenhum sinal de fundo falso.

 Eram onze horas quando ele e Lavington chegaram ao Chalé. Felise já os esperava, de modo que abriu a porta antes que batessem.

 — Entrem — sussurrou. — Meu pai está dormindo lá em cima, e não devemos acordá-lo. Fiz café para vocês. Venham.

 Ela os levou a uma pequena e aconchegante sala de visitas. Sobre a lareira, uma lamparina a álcool e, inclinada sobre esta, ela preparou-lhes um café muito cheiroso.

 Então Jack foi desembrulhando o vaso chinês, tirando os vários papéis que o envolviam. Felise ficou sem ar ao vê-lo.

 — Meu Deus! — exclamou entusiasmada. — É esse mesmo. Eu o reconheceria em qualquer lugar.

 Enquanto isso, Lavington fazia seus preparativos. Tirou todos os enfeites de uma mesinha e os colocou no meio da sala. Em volta dela dispôs três cadeiras. E então, apanhando o vaso com Jack, colocou-o sobre a mesa.

 — Agora — disse ele —, estamos prontos. Apaguem as luzes e vamos ficar sentados em volta da mesa, no escuro.

 Os outros o obedeceram. A voz de Lavington soou no meio da escuridão.

 — Não pense em nada ou pense em tudo. Não force a mente. É possível que um de nós tenha poderes mediúnicos. Se isso acontecer, esta pessoa entrará em transe. Lembre-se, não há nada a temer. Tirem o medo do coração e deixem-se levar — deixem-se levar...

 Sua voz sumiu e a sala ficou em silêncio. A cada minuto, o silêncio parecia cada vez mais impregnado de possibilidades. Muito fácil para Lavington dizer "tirem o medo do coração". Jack não tinha medo: estava em pânico. De repente ele ouviu a voz dela, baixa e cheia de terror.

 — Alguma coisa horrível vai acontecer. Eu sinto isso.

 — Não tenham medo — disse Lavington. — Não lutem contra a influência.

 Tudo parecia ficar mais escuro, e o silêncio mais profundo. E aquela sensação de ameaça aproximava-se cada vez mais.

 Jack sentiu-se sufocar, asfixiar, aquela coisa má aproximando-se cada vez mais...

 E então, o momento de conflito passou. Ele deixava-se levar, corrente abaixo, os olhos fechados... paz... escuridão...

 Jack moveu-se ligeiramente. A cabeça pesava-lhe como chumbo. Onde estava?

 Sol brilhando... pássaros... Estava deitado, olhando para o céu.

 E então, tudo voltou-lhe à mente. A sessão. A pequena sala. Felise e o médico. O que teria acontecido?

 Ele sentou-se, a cabeça latejando desagradavelmente e olhou à sua volta. Estava deitado num pequeno souto, não muito longe do chalé. Não havia ninguém perto. Ele apanhou o relógio. Para seu total espanto registrava 12:30.

 Jack levantou-se com dificuldade e correu o mais depressa que pôde na direção do chalé. Com certeza haviam ficado alarmados por ele não sair do estado de transe e o levaram para o ar livre.

 Ao chegar no chalé, bateu à porta bem alto. Mas não houve resposta nem sinal de vida lá dentro. Devem ter ido procurar ajuda. Ou então — Jack sentiu um medo indefinido. O que acontecera na noite passada?

 Voltou ao hotel o mais depressa possível. Ia começar a fazer algumas perguntas na recepção quando um soco colossal nas costelas quase o derruba no chão. Voltando-se, meio indignado, deparou-se com um senhor grisalho, ofegante de alegria.

 — Não me esperava, hein? Não me esperava mesmo, não é? — disse o indivíduo.

 — Ora, tio George, pensei que estivesse a milhas de distância, em algum lugar da Itália.

 — Ah! mas não estava. Cheguei a Dover ontem à noite. Pensei em ir para Londres de carro e parar aqui para vê-lo. E o que encontro? Fora a noite toda, hein? Que farra!

 — Tio George — atalhou Jack. — Tenho uma história extraordinária para lhe contar. Aposto que não vai acreditar.

 — Aposto que não vou mesmo — riu o velho. — Mas esforce-se, rapaz.

 — Mas tenho que comer qualquer coisa — continuou Jack. — Estou morrendo de fome.

 Ele dirigiu-se ao restaurante e, em meio a uma refeição substancial, narrou toda a história.

 E sabe Deus o que aconteceu a eles — finalizou. O tio parecia estar à beira de um colapso.

 O vaso — ele conseguiu exclamar finalmente. — O VASO AZUL! Que fim levou?

 Jack olhou-o sem entender, mas, submerso na torrente de palavras que se seguiram, ele começou a compreender.

 — Ming, único, obra-prima de minha coleção, avaliado em, pelo menos, dez mil libras, oferecimento de Hoggenheimer, o milionário americano, o único do tipo em todo o mundo. Que diabo! O que você fez com meu VASO AZUL?

 Jack saiu correndo da sala. Tinha que encontrar Lavington. A jovem da recepção olhou-o com frieza.

 — Dr. Lavington foi embora ontem, tarde da noite, de carro. Deixou um bilhete para o senhor.

 Jack abriu-o, quase que o rasgando. Era curto e objetivo.

 

 MEU JOVEM E QUERIDO AMIGO:

 Já acabou o dia do sobrenatural? Nem tanto — principalmente quando disfarçado em nova linguagem científica. Felise, o pai inválido e eu mandamos lembranças. Temos doze horas de vantagem, o que deve ser mais do que suficiente.

Atenciosamente

AMBROSE LAVINGTON,

 Médico da Alma.

 

A ÚLTIMA SESSÃO

Raoul Daubreuil cruzou o Sena cantarolando. Era um francês jovem, de boa aparência, dos seus trinta e dois anos, rosto corado e bigode preto. Engenheiro por profissão. No devido tempo chegou a Cardonet e entrou no número 17. O porteiro olhou-o de sua toca, resmungando um "bom-dia" ao qual ele respondeu alegremente. Depois subiu as escadas, dirigindo-se ao apartamento do terceiro andar. Enquanto esperava que alguém lhe viesse abrir a porta, cantarolou mais uma vez sua musiquinha. Raoul Daubreuil sentia-se particularmente bem disposto esta manhã. Uma senhora francesa foi quem lhe abriu a porta; seu rosto enrugado abriu-se em sorrisos quando viu quem era o visitante.

 — Bom dia, Monsieur.

 — Bom dia, Elise.

 Ele se passou para o vestíbulo, tirando as luvas ao fazê-lo.

 — Madame me espera, não? — perguntou ele por sobre os ombros.

 — Ah, claro, Monsieur.

 Elise fechou a porta da frente e voltou-se para ele.

 — St Monsieur fizer a gentileza de passar ao pequeno salon, madame estará com o senhor em poucos minutos. No momento está repousando.

 Raoul olhou-a, sério.

 — Ela não está bem?

 — Bem! — vociferou Elise. Ela passou na frente de Raoul e abriu-lhe a porta do pequeno salon. Ele entrou e ela o seguiu.

 — Bem! — continuou ela. — Como ela poderia estar bem, pobrezinha? Sessões, sessões e mais sessões! Não está certo, não é natural, não foi o que o bom Deus nos determinou. Para mim, digo e repito, é o mesmo que negociar com o diabo.

 Raoul bateu-lhe no ombro para reconfortá-la.

 — Pronto, pronto, Elise, não se agite e não esteja tão pronta a ver o diabo em tudo o que não entende.

 Elise balançou a cabeça.

 — Ah, bom — resmungou baixinho —, o senhor pode dizer o que quiser, mas não gosto mesmo. Olhe a Madame, cada dia mais magra, definhando, e aquelas dores de cabeça!

 Ela apertou as mãos.

 — Não, não é bom esse negócio de espírito. Espíritos! Todos os bons espíritos estão no paraíso, e os outros no purgatório.

 — Sua visão da vida depois da morte é animadoramente simples, Elise — disse Raoul ao deixar-se cair sobre uma cadeira.

 A velha empertigou-se.

 — Sou uma boa católica, Monsieur.

 Ela vez o sinal da cruz, dirigiu-se à porta e depois parou, a mão sobre a maçaneta.

 — Depois que estiverem casados, Monsieur — disse ela, suplicante —, isso não vai continuar, vai?

 Raoul sorriu-lhe afetuosamente.

 — Você é uma criatura boa e fiel, Elise — disse ele —, e dedicada à sua patroa. Não tenha medo; quando ela for minha esposa, todo esse "negócio de espírito” , como você chama, irá parar. Não haverá mais séances para Madame Daubreuil.

 Elise fez-se toda sorrisos.

 — É verdade o que está dizendo? — perguntou, entusiasmada.

 O outro anuiu, sério.

 — É — disse ele, falando quase que mais para ele mesmo do que para ela. — Sim, tudo isto tem que terminar. Simone tem um dom maravilhoso e o tem usado livremente, mas agora já fez seu papel. Como você observou, Elise, ela está cada dia mais magra. A vida de uma médium é muito árdua e fatigante, envolvendo terrível tensão nervosa. De qualquer jeito, Elise, sua patroa é a médium mais maravilhosa de Paris — mais, da França. Pessoas do mundo inteiro vêm a ela porque sabem que com ela não há truques nem embuste.

 Elise riu com desdém.

 — Embuste! Claro que não. Madame não poderia enganar nem a um recém-nascido, se tentasse.

 — Ela é um anjo — disse o jovem, com ardor. — E vou fazer — fazer tudo que está ao alcance de um homem para torná-la feliz. Acredita nisso?

 Elise empertigou-se e falou com uma certa dignidade:

 — Trabalho para Madame há muitos anos, Monsieur. Com todo o respeito, devo dizer que a adoro. Se não acreditasse que o senhor a adora como merece ser adorada — eh bien, Monsieur, estaria disposta a fazê-lo em frangalhos, pedacinho por pedacinho.

 Raoul riu.

 — Bravo, Elise! Você é uma amiga fiel e agora deve consentir neste casamento, já que lhe disse que Madame vai abandonar os espíritos.

 Ele esperou que a mulher fosse receber a brincadeira com uma risada, mas, um tanto surpreso, percebeu que ela continuou séria.

 — Vamos supor, Monsieur — disse, hesitante —, que os espíritos não a abandonem...

 — Ei, o que quer dizer com isso?

 — Eu disse — repetiu Elise — para supor que os espíritos não a abandonem.

 — Elise, pensei que não acreditasse em espíritos.

 — Não acredito mesmo — disse, obstinada. — É uma bobagem acreditar neles. Mesmo assim...

 — O quê?

 — É difícil explicar. Sabe, sempre pensei que estes médiuns fossem vigaristas inteligentes que enganassem as pobres almas que perderam o ente querido. Mas Madame não é assim. Madame é boa. Madame é honesta e...

 Ela baixou a voz e falou num tom de respeito e temor.

 — Coisas acontecem. Não é truque, coisas acontecem, e é por isto que estou com medo. Tenho certeza, Monsieur, de que isto não está certo. É contra a natureza e le bon dieu, e alguém vai ter que pagar.

 Raoul levantou-se da cadeira, aproximou-se dela e bateu-lhe de leve no ombro.

 — Acalme-se, minha boa Elisa — disse ele, sorrindo. — Sabe, vou lhe dar uma boa notícia: hoje é a última destas sessões; depois de hoje não haverá mais nenhuma.

 — Então tem uma hoje, não é? — perguntou a mulher, desconfiada.

 — A última, Elise, a última.

 Elise balançou a cabeça, desconsolada.

 — Madame não está preparada... — começou ela.

 Mas suas palavras foram interrompidas; a porta abriu-se e uma mulher alta e loura entrou. Era magra e graciosa, o rosto da Madonna de Botticelli. A face de Raoul iluminou-se e Elise retirou-se depressa e discretamente.

 — Simone!

 Ele tomou as compridas e alvas mãos e beijou uma de cada vez. Ela murmurou o nome dele muito suavemente:

 — Raoul, meu querido.

 — Ele beijou-lhe novamente as mãos e olhou intensamente para seu rosto.

 — Simone, como você está pálida! Elise me disse que você estava descansando; não está doente, está, minha querida?

 — Não, doente, não... — ela hesitou.

 Ele levou-a para o sofá e sentou-se ao seu lado.

 — Então me conte o que há.

 — A médium deu um leve sorriso.

 — Você vai achar que sou boba — murmurou.

 — Eu? Pensar que você é boba? Nunca.

 Simone soltou as mãos. Sentou-se muito quieta por alguns segundos, os olhos fixos no tapete. Depois falou apressadamente e em voz baixa:

 — Estou com medo, Raoul.

 Ele esperou um pouco, pensando que ela fosse continuar. Como ela não o fez, disse, para estimulá-la:

 — Sim, medo de quê?

 — Com medo, só isso.

 — Mas...

 Ele olhou-a, perplexo e ela correspondeu ao olhar rapidamente.

 — Sim, é um absurdo, não é? Mas é o que sinto. Amedrontada, só isso. Não sei de que nem por que, mas estou o tempo todo com esta idéia de que alguma coisa terrível, terrível, vai-me acontecer.

 Ela fitou um ponto no espaço. Raoul passou-lhe o braço delicadamente em volta da cintura.

 — Minha querida, vamos, você não se deve entregar. Sei o que é, Simone; é a tensão, tensão da vida de uma médium. Você só precisa de descanso e de paz.

 Ela olhou-o agradecida.

 — Sim, Raoul, você está certo. É disso que preciso: descanso e paz.

 Ela fechou os olhos e apoiou-se um pouco no braço dele.

 — E felicidade — murmurou Raoul ao seu ouvido.

 Ele puxou-a mais para perto de si. Simone, os olhos ainda fechados, deu um profundo suspiro.

 — Sim — murmurou —, sim. Quando estou abraçada com você, estou a salvo. Esqueço minha vida — a terrível vida de uma médium. Você sabe de tudo isso, Raoul, mas nem mesmo sabe o que significa.

 Ele sentiu o corpo dela enrijecer contra o seu. Os olhos abriram-se de novo.

 — Senta-se na sala, no escuro, esperando, e a escuridão é terrível, Raoul, pois é a escuridão do nada, do vazio. Deliberada-mente, a pessoa se entrega para perder-se nessa escuridão. Depois disso não se sabe nada, não se sente nada, mas, por fim, vem o lento e doloroso retorno, o despertar de um sono, e um cansaço tão grande — terrivelmente grande.

 — Eu sei — murmurou Raoul —, eu sei.

 — Um cansaço tão grande — sussurrou Simone novamente. Todo seu corpo pareceu esmorecer quando ela repetiu as palavras.

 — Mas você é maravilhosa, Simone.

 Ele pegou-lhe as mãos, tentando fazê-la compartilhar do mesmo entusiasmo.

 — Você é inigualável — a maior médium que o mundo já conheceu.

 Ela balançou a cabeça, sorrindo um pouco.

 — É sim — Raoul insistiu. Ele tirou duas cartas do bolso.

 — Olhe aqui, do Professor Roche da Salpêtrière, e essa do Dr. Genir, de Nancy, ambos implorando que você continue a receber, esporadicamente, espíritos para eles.

 — Ah, não.

 De repente, Simone levantou-se.

 — Não, não farei isso. Você me prometeu que isso ia acabar, Raoul.

 Raoul olhou-a, atônito, enquanto ela o olhava, trêmula, como uma criatura acuada. Ele levantou-se e pegou-lhe a mão.

 — Sim, sim, — disse ele. — É claro que está terminado. Mas estou tão orgulhoso de você, Simone, e por isso mencionei essas cartas.

 Ela olhou-o de soslaio, como que desconfiada.

 — Não é verdade que você não quer mais que eu receba algum espírito?

 — É verdade — disse Raoul —, a menos que você mesma queira fazê-lo, talvez, para estes velhos amigos...

 Mas ela o interrompeu, falando irritada:

 — Não, não, nunca mais. Há algum perigo. Estou lhe dizendo. Posso dizer com certeza que há um grande perigo. Eu sinto isso.

 Ela entrelaçou os dedos sobre a testa e dirigiu-se para a janela.

 — Prometa-me que nunca mais — disse ela, mais calma. Raoul seguiu-a e colocou-lhe os braços sobre os ombros.

 — Minha querida — disse, carinhoso. — Eu prometo que, depois da sessão de hoje, você nunca mais vai receber nenhum espírito.

 Ele sentiu o corpo de Simone estremecer.

 — Hoje — murmurou ela. — Ah, sim, tinha-me esquecido de Madame Exe.

 Raoul consultou o relógio.

 — Deve chegar a qualquer minuto agora; mas talvez, Simone, se não está se sentindo bem...

 Simone não parecia escutá-lo; seguia sua própria linha de raciocínio.

 — Ela é uma mulher estranha, Raoul, uma mulher muito estranha. Sabe, tenho quase que horror a ela.

 — Simone!

 Havia reprovação na voz dele, o que não lhe passou despercebido.

 — Sim, sim, eu sei, você é como todos os franceses, Raoul. Para você, a mãe é sagrada e é rude de minha parte sentir-me assim em relação a ela quando está de luto pela criança que perdeu. Mas... não sei como explicar, ela é tão grande e tão negra, e as mãos dela... Já notou as mãos dela, Raoul? Mãos grandes e fortes, tão fortes quanto as de um homem. Ah!

 Ela teve um leve estremecimento e fechou os olhos. Raoul afastou-se um pouco e falou-lhe com frieza:

 — Realmente não posso entendê-la, Simone. Você, na condição de mulher, deveria compartilhar da dor de uma outra mulher, a mãe que perdeu o filho único.

 Simone fez um gesto de impaciência.

 — Ah, é você que não entende, meu amigo! Não se consegue evitar essas coisas. Desde o primeiro momento em que a vi, senti...

 Ela estendeu as mãos.

 — Medo! — Você se lembra que demorei muito até "receber" para ela? Tinha certeza de que, de alguma maneira, ela me traria azar...

 Raoul deu de ombros.

 — Só que, na realidade, ela lhe trouxe justamente o contrário — disse secamente. — Todas as sessões foram um grande sucesso. O espírito da pequena Amelie pôde controlar você de imediato e as materializações foram realmente impressionantes. Professor Roche tinha que estar presente em pelo menos uma delas.

 — Materializações — disse Simone em voz baixa. — Raoul, você sabe que não tenho a mínima idéia do que acontece quando estou em transe; as materializações são realmente assim tão maravilhosas?

 Ele anuiu entusiasticamente.

 — Nas primeiras sessões, a figura da criança tornou-se visível, como se envolta numa névoa — explicou ele —, mas na última séance...

 — O que houve?

 Ele falou suavemente:

 — Simone, a criança que apareceu era uma criança viva, real, de carne e osso. Cheguei mesmo a tocá-la, mas quando notei que o toque não fazia bem a você, não permiti que Madame Exe fizesse o mesmo. Tive medo de que ela perdesse o autocontrole e pudesse causar-lhe algum mal.

 Simone voltou-se de novo em direção à janela.

 — Eu estava cansadíssima quando acordei — murmurou. — Raoul, tem certeza, mas certeza absoluta, de que isto está certo? Você sabe que a querida Elise pensa que estou negociando com o diabo?

 Ela riu um pouco incerta.

 — Sabe o que acho — disse Raoul, sério. — Lidando-se com o desconhecido, há sempre perigo, mas a causa é nobre pois é a causa da Ciência. No mundo inteiro há exemplo de mártires da Ciência, pioneiros que pagaram para que outros pudessem segui-los com segurança. Já faz dez anos que você trabalha para a Ciência às custas de uma tremenda tensão nervosa. Você já fez sua parte; a partir de hoje está livre para ser feliz.

 Ela sorriu-lhe afetuosamente, a calma restaurada. Depois lançou um rápido olhar para o relógio.

 — Madame Exe está atrasada — murmurou ela. — Talvez nem venha.

 — Acho que virá — disse Raoul. — Seu relógio está um pouco adiantado.

 Simone andou pela sala, arrumando uns enfeites sobre a mesa.

 — Quem será esta Madame Exe? — observou ela. — De onde vem, quem é sua família? É estranho não sabermos nada sobre ela.

 Raoul deu de ombros.

 — A maioria das pessoas que recorrem aos médiuns prefere ficar incógnita — observou ele. — É uma precaução elementar.

 — Suponho que sim — concordou Simone sem ouvi-lo realimente.

 Um pequeno vaso de porcelana que segurava escapou-lhe dos dedos e se fez em pedaços no chão da lareira. Ela voltou-se abruptamente para Raoul:

 — Está vendo? — murmurou. — Não me sinto eu mesma. Raoul, seria covardia dizer à Madame Exe que hoje não posso conduzir uma sessão?

 Seu olhar de dolorosa perplexidade a fez corar.

 — Você prometeu, Simone... Ela encostou-se na parede.

 — Não vou fazer, Raoul. Não vou.

 E mais uma vez o olhar dele. docemente reprovativo, a fez tremer.

 — Não é em dinheiro que estou pensando, Simone, embora esta mulher lhe tenha oferecido uma vultosa quantia na última sessão.

 Ela interrompeu-o desafiadoramente.

 — Há coisas mais importantes do que o dinheiro.

 — Claro que há — concordou. — E é isso que estou dizendo. Lembre-se, esta mulher é mãe, uma mãe que perdeu a única filha.

 Se você não está realmente doente, se não passa de um capricho de sua parte, como pode negar a uma mãe uma última visão da filha? A médium esticou os braços para frente, em desespero.

 — Oh, você está me torturando — murmurou. — Ao mesmo tempo, você está certo. Vou fazer o que quiser mas agora sei do que tenho medo: é da palavra "mãe".

 — Simone!

 — Há certas forças elementares primitivas, Raoul. A maioria delas foi destruída pela civilização, mas a maternidade continua como no começo. Animais, seres humanos, são todos a mesma coisa. Não há nada que se iguale ao amor de uma mãe pelo filho. Não conhece lei, nem piedade, tudo ousa e esmaga, sem remorso, o que lhe aparecer no caminho.

 Ela fez uma pausa, um pouco ofegante, e depois voltou-se para Raoul com um sorriso rápido e desconcertante.

 — Como estou boba hoje, Raoul. Sei disso. Ele pegou-lhe carinhosamente as mãos.

 — Deite-se por alguns minutos — aconselhou: — Descanse até que ela chegue.

 — Muito bem. — Ela sorriu para ele e saiu da sala.

 Raoul permaneceu lá, perdido em pensamentos por alguns minutos, e então caminhou a passos largos em direção da porta, abriu-a, cruzou o pequeno vestíbulo. Entrou numa sala do outro lado, uma sala de estar bastante semelhante àquela em que ficara até agora, mas em uma das extremidades havia um vão onde fora colocada uma grande poltrona. Pesadas cortinas de veludo preto estavam arrumadas de modo a serem fechadas, tapando este vão. Elise arrumava a sala. Perto do vão colocara duas cadeiras e uma mesinha redonda. Sobre a mesa encontrava-se um pandeiro, um chifre, alguns papéis e uns lápis.

 — A última vez — murmurou Elise impiedosamente satisfeita. — Ah, Monsieur, gostaria que já tivesse terminado.

 A campainha soou, estridente.

 — Aí está ela, aquela mulher — continuou a velha criada. — Por que ela não pode rezar decentemente pela alma da criancinha numa igreja, acender uma vela para Nossa Senhora como todo mundo? Será que o bom Deus não sabe o que é melhor para nós?

 — Atenda a campainha — disse Raoul com firmeza.

 Ela lançou-lhe um olhar, mas obedeceu. Pouco depois apareceu trazendo a visita.

 — Vou avisar à minha patroa que a senhora está aqui, Madame.

 Raoul aproximou-se para apertar a mão de Madame Exe. As palavras de Simone voltaram-lhe à mente:

 — Tão grande e tão negra.

 Era uma mulher grande e o luto fechado parecia um exagero no caso dela. Sua voz era muito profunda:

 — Acho que cheguei um pouco atrasada, Monsieur.

 — Apenas poucos minutos — disse Raoul, sorrindo. — Madame Simone está deitada. Infelizmente, não anda bem; está nervosa, esgotada.

 Seus dedos apertaram a mão dele como se fossem garras.

 — Mas ela vai "receber"? — perguntou.

 — Ah, vai sim, Madame.

 Madame Exe soltou um suspiro de alívio e deixou-se cair sobre uma cadeira, afrouxando os pesados véus que a envolviam.

 — Ah, Monsieur! — murmurou ela. — O senhor não pode imaginar que alegria que são essas séances para mim. Minha pequenininha! Minha Amelie! Vê-la, ouvi-la, até — talvez — sim, talvez ser até capaz de — estender minha mão e tocá-la.

 Raoul falou rápido e decidido:

 — Madame Exe — como posso explicar? — de maneira nenhuma a senhora deve fazer qualquer coisa a não ser sob minha expressa orientação; caso contrário, o perigo é bastante grande.

 — Perigo para mim?

 — Não, Madame — disse Raoul —, para a médium. A senhora deve entender que os fenômenos que ocorrem, a Ciência explica de certa maneira. Vou explicar de maneira simples, sem usar termos técnicos. Um espírito, para manifestar-se, tem que usar a substância física do médium. A senhora viu o vapor fluido que saiu dos lábios da médium. Este finalmente se condensa e se incorpora na imagem física do espírito do morto. Mas acreditamos que este ectoplasma seja a substância do médium. Esperamos provar isso algum dia através de cuidadosos testes e exames — mas a grande dificuldade é a dor e o perigo do médium quando se quer tocar no fenômeno. Se alguém agarrasse a materialização, poderia resultar na morte do médium.

 Madame Exe ouviu-o com toda a atenção.

 — Isto é muito interessante, Monsieur. Diga-me, será que a materialização chegará a um tal estágio que se desprenda do médium?

 — É uma especulação fantástica, Madame. Ela insistiu.

 — Mas, baseando-se em fatos, é impossível?

 — Hoje é impossível.

 — No futuro, talvez, não?

 Ele livrou-se de responder, pois neste momento Simone entrou. Parecia lânguida, pálida, mas readquirira total controle sobre si mesma. Ela aproximou-se e apertou a mão de Madame Exe; Raoul notou-lhe o estremecimento quando o fez.

 — Lamento ouvir que está indisposta — disse Madame Exe.

 — Não é nada — disse Simone, um tanto rude. — Vamos começar?

 Ela sentou-se na poltrona. De repente, Raoul sentiu passar uma onda de medo.

 — Você não está forte o bastante — exclamou. — É melhor cancelarmos esta séance. Madame Exe entenderá.

 — Monsieur!

 Madame Exe levantou-se indignada.

 — Sim, sim, é melhor cancelar.

 — Madame Simone me prometeu uma última sessão.

 — É verdade — concordou Simone calmamente —, e estou preparada para cumprir minha promessa.

 — Estou contando com isso, Madame — disse a outra mulher.

 — Não costumo faltar com minha palavra — disse Simone friamente. — Não tenha medo, Raoul — acrescentou suavemente —, afinal de contas, é a última vez — última vez, graças a Deus.

 A um sinal dela, Raoul puxou a pesada e negra cortina do recanto. Ele também fechou as cortinas da janela de modo que o quarto caiu na semi-obscuridade. Indicou uma das cadeiras a Madame Exe e preparou-se para ocupar a outra. Madame Exe, entretanto, hesitou.

 — O senhor vai-me perdoar, Monsieur. Acredito totalmente em sua integridade e na de Madame Simone, mas, mesmo assim, para que meu testemunho tenha mais valor, tomei a liberdade de trazer isso comigo.

 Ela tirou da bolsa uma corda fina.

 — Madame! — gritou Raoul. — Isto é um insulto!

 — Uma precaução.

 — Repito que é um insulto.

 — Não entendo sua objeção, Monsieur — disse Madame Exe friamente. — Se não há truque, o senhor não tem nada a temer.

 Raoul riu com escárnio.

 — Posso assegurar-lhe que não tenho nada a temer, Madame. Amarre meus pés e minhas mãos, se quiser.

 Seu discurso não produziu o efeito esperado, pois Madame Exe limitou-se a murmurar de maneira imparcial:

 — Obrigado, senhor — e avançou para ele com o rolo de corda.

 De repente, por detrás da cortina, Simone deu um grito.

 — Não, não Raoul, não a deixe fazer isso. Madame Exe riu, zombeteira.

 — Madame está com medo — observou sarcasticamente.

 — Sim, estou com medo.

 — Lembre-se do que está dizendo, Simone — falou Raoul. — Parece que Madame está com a impressão de que somos charlatões.

 — Tenho que me certificar — disse, inflexível.

 E foi cumprindo metodicamente sua tarefa, amarrando Raoul na cadeira.

 — Está de parabéns pelos seus nós, Madame — observou ironicamente quando ela terminou. — Está satisfeita agora?

 Madame Exe não respondeu. Deu uma volta pela sala examinando os painéis das paredes bem de perto. Depois trancou a porta que dá para o vestíbulo e, retirando a chave, voltou para a cadeira.

 — Agora — disse ela com uma voz indescritível —, estou pronta.

 Os minutos escoavam-se. Por detrás da cortina o som da respiração de Simone tornava-se cada vez mais pesado e estertorante. Esta deu lugar a uma série de gemidos. Mais uma vez se fez silêncio, que foi quebrado por uma repentina batida no pandeiro. O chifre foi apanhado da mesa e jogado no chão. Ouviu-se um riso irônico. As cortinas estavam um pouco mais abertas, e pela fresta podia-se ver o vulto da médium, a cabeça pendida sobre o peito. E então Madame Exe prendeu a respiração: uma corrente de névoa, em formato de fita, saía da boca de Simone. Esta se condensou e, gradualmente, foi tomando forma, a forma de uma criancinha.

 — Amelie! Minha pequena Amelie!

 O rouco sussurro partiu de Madame Exe. A figura enevoada foi-se condensando cada vez mais. Raoul olhava quase que incrédulo. Nunca vira materialização tão perfeita. Ali, certamente, estava uma criança de verdade, uma criança de carne e osso.

 — Mamãe!

 Falou uma voz macia e infantil.

 — Minha filha! — gritou madame Exe. — Minha filha! Ela foi-se levantando da cadeira.

 — Tenha cuidado, Madame — avisou Raoul, apreensivo.

 A materialização atravessou as cortinas. Era uma criança. E ali estava ela, os braços estendidos.

 — Mamãe!

 — Ah! — exclamou Madame Exe.

 E ela continuou a fazer menção de levantar-se.

 — Madame — gritou Raoul, alarmado — a médium...

 — Tenho que tocá-la — disse, rouca.

 Ela deu um passo à frente.

 — Pelo amor de Deus, Madame, controle-se — gritou Raoul. Ele agora estava realmente alarmado.

 — Sente-se de uma vez.

 — Minha pequenininha, tenho que tocá-la.

 — Madame, eu lhe ordeno, sente-se!

 Ele lutava desesperadamente para se soltar, mas o trabalho estava bem feito; não tinha jeito. Uma terrível sensação de desastre iminente apossou-se dele.

 — Em nome de Deus, Madame, sente-se! — gritou ele. — Lembre-se da médium.

 Madame Exe não lhe prestou atenção. Estava transtornada. Seu rosto revelava êxtase e alegria. Sua mão tocou a pequena figura que estava na abertura da cortina. A médium soltou um gemido terrível.

 — Meu Deus! — Exclamou Raoul. — Meu Deus! Isso é terrível. A médium...

 Madame Exe voltou-se para ele soltando uma horrível gargalhada.

 — E o que me interessa a médium? Quero minha filha.

 — Está louca!

 — Minha filha, minha! Minha própria filha. Minha carne e meu sangue. Minha bonequinha voltou dos mortos, viva e respirando.

 Raoul abriu a boca, mas não conseguiu emitir nenhum som. Que mulher medonha! Inconseqüente, selvagem, absorta pela sua própria paixão. Os lábios da criança entreabriram-se e, pela terceira vez, a mesma palavra ecoou:

 — Mamãe!

 — Venha, então, minha querida — disse Madame Exe.

 Com um gesto rápido, ela apanhou a menina. Por detrás das cortinas ouviu-se um longo grito de angústia.

 — Simone! — chamou Raoul. — Simone!

 Ele mal notou que Madame Exe passou correndo por ele, destrancou a porta e desceu as escadas correndo.

 Ainda se ouvia aquele grito longo, alto, terrível — um grito como nunca Raoul ouvira antes. Ele transformou-se num risinho gutural. Depois, a pancada seca de um corpo que cai...

 Raoul esforçava-se como um louco para livrar-se dos nós. No seu frenesi conseguiu o impossível: arrebentou a corda. Enquanto tentava levantar-se, Elise entrou com uma bola, chamando:

 — Madame!

 — Simone! — chamou Raoul. Juntos, abriram a cortina. Raoul recuou.

 — Meu Deus! — murmurou. — Vermelho — tudo vermelho... E ouviu a voz de Elise, áspera e trêmula.

 — Então, Madame está morta. Acabou. Mas diga-me, Monsieur, o que aconteceu? Por que Madame encolheu — por que está metade de seu tamanho habitual? O que aconteceu aqui?

 — Não sei — disse Raoul.

 Sua voz foi num crescendo até se transformar em grito:

 — Eu não sei. Eu não sei. Mas acho que vou ficar louco. Simone! Simone!

 

SOS

— Ah! — disse o Sr. Dinsmead, apreciativamente.

 Ele deu um passo atrás e analisou a mesa redonda, satisfeito. A luz da lareira brilhava na branca e grosseira toalha de mesa, facas e garfos e outros petrechos de mesa.

 — Está... está tudo pronto? — perguntou a Sra. Dinsmead, hesitante. Era uma mulherzinha sem expressão, pálida, os escassos cabelos penteados para trás e maneiras constantemente nervosas.

 — Está tudo pronto — disse o marido com simpatia.

 Era um homem grande, de amplos ombros e um rosto largo e corado. Seus olhinhos avarentos brilhavam sob as bastas sobrancelhas.

 — Limonada? — sugeriu a Sra. Dinsmead, quase num sussurro.

 O marido balançou a cabeça.

 — Chá. Muito melhor em todos os sentidos. Olhe só como o tempo está chuvoso. Nada melhor do que uma xícara de chá quente numa noite como esta.

 Ele piscou o olho, brincalhão, e voltou a olhar a mesa.

 — Um bom prato de ovos, carne enlatada fria, pão e queijo. Este é meu pedido para a ceia. Então venha e apronte. Mamãe. Charlotte está na cozinha esperando para lhe dar uma mãozinha.

 A Sra. Dinsmead levantou-se, tendo o cuidado de enrolar o novelo de lã do tricô.

 — Depois que cresceu ficou uma menina muito linda — murmurou. — É uma doçura.

 — Ah! — disse o Sr. Dinsmead. — O retrato vivo da mãe! Então, vá; não vamos mais perder tempo.

 Ele andou pela sala, cantarolando. Depois se aproximou da janela e olhou para fora.

 — Que tempo horrível — murmurou para si mesmo. — Não há a menor probabilidade de termos visitas hoje à noite.

 E então ele também saiu da sala.

 Uns dez minutos depois a Sra. Dinsmead entrou com uma travessa de ovos fritos. As duas filhas vieram atrás, trazendo o resto das provisões. O Sr. Dinsmead e o filho Johnnie fechavam a marcha. Este se sentou à cabeceira da mesa.

 — E pelo que vamos receber, etcetera — observou cheio de humor. — E bênçãos ao primeiro homem que pensou em comida enlatada. Gostaria de saber o que faríamos, a quilômetros de distância do nada, se não pudéssemos lançar mão das latas de vez em quando, se o açougueiro esquece da entrega semanal.

 E passou a trinchar a carne enlatada com destreza.

 — Gostaria de saber quem teve a idéia de construir uma casa assim, a quilômetros do nada — disse a filha Magdalen, birrenta. — Nunca vemos vivalma.

 — É verdade — disse o pai —, nunca vemos vivalma.

 — Não sei o que o levou a comprá-la, Pai — disse Charlotte.

 — Não, minha menina? Bem, tive meus motivos — tive meus motivos.

 Seus olhos buscaram furtivamente os de sua mulher, mas ela franziu a sobrancelha.

 — E mal-assombrada também — disse Charlotte. — Não dormiria aqui sozinha por nada deste mundo.

 — Quanta bobagem — disse o pai. — Nunca viu nada, viu? Ora, vamos.

 — Ver nunca, mas...

 — Mas, o quê?

 Charlotte não respondeu, porém estremeceu um pouco. Uma pancada de chuva bateu contra a vidraça da janela e a Sra. Dinsmead deixou a colher cair sobre a bandeja, com um estalido.

 — Está nervosa, mãe? — perguntou o Sr. Dinsmead. — Está uma noite terrível, é só isso. Não se preocupe. Estamos a salvo ao lado da lareira, e não há possibilidade de que alguém nos venha perturbar. Ora, seria um milagre se isso acontecesse. E milagres não existem. Não — ele acrescentou mais para si mesmo, com uma ponta de satisfação — os milagres não acontecem.

 No momento exato em que dizia estas palavras, alguém bateu à porta. O Sr. Dinsmead ficou petrificado.

 — O que será isso? — murmurou ele, boquiaberto.

 A Sra. Dinsmead soltou um grito em tom de lamúria, e apertou mais o xale em volta dos ombros. A cor voltou ao rosto de Magdalen e ela inclinou-se para frente e falou com o pai:

 — O milagre aconteceu — disse ela. — É melhor ver quem é, e deixá-lo entrar.

 Vinte minutos antes, Mortimer Cleveland ficara sob a chuva e a névoa examinando o carro. Realmente era um azar danado. Em menos de dez minutos, dois pneus furados, e ali estava ele, abandonado a quilômetros do nada, em meio destas chapadas de Wiltshire, a noite se aproximando e nenhuma possibilidade de abrigo. Era bem feito por ter tentado um atalho. Se pelo menos estivesse na estrada principal! Agora estava perdido nesta trilha da encosta, sem possibilidade de levar o carro adiante e sem saber se havia algum vilarejo por perto.

 Ele olhou à sua volta perplexo, e o brilho de uma luz chamou-lhe a atenção. Pouco depois a névoa escondeu-o, mas, esperando pacientemente, ele avistou-a de novo. Depois de alguns momentos de cogitação, ele abandonou o carro e caminhou a passos largos encosta acima.

 Logo se livrou da neblina e reconheceu a luz que vinha de um pequeno chalé. Ali acharia abrigo. Mortimer Cleveland apressou o passo, baixando a cabeça para defender-se da fúria do vento e da chuva que pareciam fazer o máximo para impulsioná-lo para trás.

 Cleveland era, à sua maneira, uma celebridade, embora, sem dúvida, as pessoas revelassem completa ignorância do seu nome e de suas realizações. Era uma autoridade em ciência da mente e escrevera dois livros excelentes sobre o subconsciente. Era também um membro da Sociedade de Pesquisa Psíquica e um estudioso de ciências ocultas, na medida em que estas afetavam suas próprias conclusões e linha de pesquisa.

 Por natureza, era bastante suscetível à atmosfera e, em conseqüência de um constante treinamento, aguçara seu dom natural. Quando finalmente chegou ao chalé e bateu à porta, teve consciência de uma excitação, de um aumento de interesse, como se todas suas faculdades tivessem sido estimuladas.

 O murmúrio lá de dentro lhe era perfeitamente audível. Quando bateu à porta tudo ficou em silêncio; depois ouviu o som de uma cadeira sendo arrastada. Pouco depois um menino dos seus quinze anos abriu a porta. Por cima de seu ombro, Cleveland viu o interior do chalé.

 Este lhe pareceu semelhante às pinturas dos mestres holandeses. Uma mesa redonda posta para a refeição, uma família sentada em volta dela, um ou dois candelabros tremeluzentes, e o brilho de uma lareira. O pai, um homem grande, sentava-se a um lado da mesa; uma mulher grisalha, de pequena estatura e rosto assustado, ocupava a cadeira de frente a ele. De frente para a porta, olhando diretamente para Cleveland, estava uma menina. Seus olhos alarmados encontraram os dele, o copo na mão, como que esquecida de levá-lo aos lábios.

 Cleveland logo observou que se tratava de uma menina extremamente bonita, e que seu tipo era bastante raro. Os cabelos, acobreados, caíam-lhe em volta do rosto como uma névoa; os olhos, bastante afastados um do outro, cinza-puro. A boca e o queixo eram os de uma Madonna Italiana antiga.

 Houve um momento de profundo silêncio. E então Cleveland entrou na sala e explicou o que lhe acontecera. Ele concluiu a banal história, e houve outra parte mais difícil de se entender. Finalmente, como que fazendo um grande esforço, o pai levantou-se.

 — Entre, senhor — Sr. Cleveland, não é?

 — É, este é meu nome — disse Mortimer, sorrindo.

 — Ah! sim. Entre, Sr. Cleveland. Nem mesmo um cachorro agüenta este tempo do lado de fora, não acha? Aproxime-se da lareira. Feche a porta, está bem, Johnnie? Não fique aí parado a noite toda.

 Cleveland entrou e sentou-se num banco de madeira perto da lareira. Johnnie fechou a porta.

 — Meu nome é Dinsmead — disse o outro homem. Ele era todo simpatia agora. — Esta é minha senhora, e as duas são minhas filhas, Charlotte e Magdalen.

 Pela primeira vez Cleveland viu o rosto da menina que se sentava de costas para ele e notou também que, embora de tipo totalmente diverso, era tão bonita quanto a irmã. Muito morena, uma palidez marmórea, delicado nariz aquilino e lábios austeros. Era um tipo de beleza fria, severa, quase que proibitiva. Ao ser apresentada, limitou-se a inclinar a cabeça e lançar-lhe um olhar atento, penetrante. Era como se o estudasse, pesando-o na balança do próprio julgamento.

 — Bebe alguma coisa, hein, Sr. Cleveland?

 — Obrigado — disse Mortimer. — Uma xícara de chá viria mesmo a calhar.

 O Sr. Dinsmead hesitou um minuto, depois apanhou as cinco xícaras, uma por uma, da mesa e as esvaziou num alguidar.

 — Este chá está frio — disse bruscamente. — Faça mais um pouco para nós, está bem, mamãe?

 A Sra. Dinsmead levantou-se, rápida, e levou o bule para a cozinha. Mortimer teve a impressão de que ela ficara alegre por sair da sala.

 Logo outro chá foi servido, e foram oferecidas iguarias ao visitante.

 O Sr. Dinsmead falava sem parar. Era expansivo, loquaz, simpático. Contou tudo sobre si mesmo ao estranho. Acabara de aposentar-se do negócio de incorporadoras. Sim, tivera muito êxito.

 Ele e a esposa acharam que seria boa idéia morar no campo — nunca o haviam feito antes. Claro que escolheram a época do ano errada, outubro, novembro, mas não queriam esperar. — A vida é cheia de incertezas, como o senhor bem sabe. — Por isso compraram este chalé. A quinze quilômetros do nada e a vinte e cinco de algum lugar que se poderia chamar de cidade. Não, não se arrependiam. As garotas achavam um pouco monótono, mas ele e a mãe gostavam daquela quietude.

 E continuava a falar, deixando Mortimer quase que hipnotizado por aquela fluência. Claro que não havia nada ali, apenas uma vida em família. Mesmo assim, quando olhou o interior da casa, sentiu alguma tensão, alguma ansiedade que emanava de uma das quatro pessoas, não sabia qual. Pura bobagem; estava com os nervos à flor da pele. Ficaram todos espantados com seu súbito aparecimento, era só isso.

 Ele mencionou o problema de acomodações para a noite, ao que o dono da casa replicou:

 — Vai passar a noite conosco — não vai encontrar nada por perto. Podemos oferecer-lhe um quarto e, embora meus pijamas sejam muito grandes, é bem melhor do que nada. Suas roupas estarão secas pela manhã.

 — É muita bondade.

 — Não é nada — disse o outro sempre cheio de simpatia. — Como já disse, não poderia permitir nem que um cachorro ficasse lá fora com uma noite dessas. Magdalen, Charlotte, subam e arrumem o quarto.

 As duas moças retiraram-se. Pouco depois Mortimer ouvia-lhes o movimento lá em cima.

 — Entendo perfeitamente que duas jovens atraentes como suas filhas achem isso aqui monótono — disse Cleveland.

 — Bonitas, não são? — disse o Sr. Dinsmead com orgulho de pai. — Não se parecem muito com o pai nem com a mãe. Formamos um casal sem graça, mas somos muito dedicados um ao outro. Não é verdade, Maggie?

 A Sra. Dinsmead sorriu, formal. Recomeçara a tricotar. As agulhas faziam movimentos rápidos.

 Pouco depois foram avisados de que o quarto estava pronto, e Mortimer, agradecendo mais uma vez, confessou-se cansado.

 — Colocaram uma garrafa de água quente na cama? — perguntou a Sra. Dinsmead, de repente cônscia de seu orgulho de dona-de-casa.

 — Sim, mamãe, duas.

 — Está bem — disse Dinsmead. — Subam com o Sr. Cleveland, meninas, e vejam se ele precisa de qualquer coisa.

 Magdalen precedeu-o na escada, levando a vela no alto. Charlotte veio atrás.

 O quarto era bastante agradável, pequeno e com o teto inclinado; a cama parecia confortável e os poucos e algo empoeirados móveis eram de mogno. Dentro da bacia, uma grande lata com água quente. Sobre a cadeira um par de pijama cor-de-rosa de amplas proporções. A cama estava preparada.

 Magdalen examinou os fechos da janela. Charlotte deu mais uma olhada nas peças do lavatório. E então as duas pararam à soleira da porta.

 — Boa noite, Sr. Cleveland. Tem certeza de que não precisa de mais nada?

 — Tenho, muito obrigado, Srta. Magdalen. Envergonho-me por ter-lhes dado tanto trabalho. Boa noite.

 — Boa noite.

 E então saíram, batendo a porta. Mortimer Cleveland ficou sozinho. Foi-se despindo devagar, perdido em pensamentos. Depois de entrar no amplo pijama rosa do Sr. Dinsmead, apanhou as roupas molhadas e colocou-as do lado de fora, como o anfitrião lhe pedira. Lá de baixo vinha-lhe o som da voz de Dinsmead.

 Como falava! Uma personalidade bastante estranha — aliás, havia alguma coisa de estranho em toda a família, ou seria imaginação?

 Ele voltou devagar para o quarto e fechou a porta. Ficou de pé, perto da cama, perdido em pensamentos. E então ele viu...

 A mesa de mogno ao lado da cama estava completamente empoeirada. Escritas no pó, três letras, claramente visíveis: SOS.

 Mortimer mal acreditava no que via. Afinal, uma confirmação de suas suspeitas e conjecturas. Ele estava certo, então. Havia algo de errado naquela casa.

 SOS. Um grito de socorro. Mas de quem seria o dedo que escrevera no pó? De Magdalen ou de Charlotte? Ele lembrava-se de que ambas pararam à soleira da porta por alguns momentos, antes de sair do quarto. Que mão escrevera secretamente aquelas letras?

 Viu mentalmente o rosto das duas meninas. O de Magdalen, moreno e distante, e o de Charlotte, como o viu da primeira vez, olhos afastados, amedrontada, algo indefinível no olhar...

 Dirigiu-se de novo à porta e abriu-a. Não se ouvia mais a zoeira da voz do Sr. Dinsmead. A casa ficara silenciosa,

 E ele pensou:

 — Não posso fazer nada hoje. Amanhã... bem. Vamos ver.

 Cleveland acordou cedo. Foi para o jardim, passando pela sala de estar. Depois da chuva, uma manhã fresca e bonita. Alguém acordara cedo também. No fim do jardim, Charlotte, debruçada sobre a cerca, olhava para as chapadas. Sentiu o coração bater acelerado quando se aproximou dela. Durante todo o tempo, estivera secretamente convencido de que quem escrevera a mensagem fora Charlotte. Quando chegou perto dela, a moça voltou-se para lhe dizer: — Bom dia. — Seus olhos eram diretos e infantis, sem nenhum indício de que guardava qualquer segredo.

 — Muito bom dia— disse Mortimer, sorrindo. — Que contraste o tempo de hoje com o que fez ontem à noite.

 — Realmente.

 Mortimer arrancou o galho de uma árvore. Com ele começou a fazer desenhos na terra fofa. Fez um S, depois um O e então outro S, sempre observando a menina. Mas não obteve nenhuma reação esperada.

 — Sabe o que estas letras representam? — perguntou abruptamente.

 Charlotte franziu as sobrancelhas. — Não é o que os barcos — navios — mandam quando estão em perigo?

 Mortimer anuiu. — Alguém as escreveu na mesinha de cabeceira ontem à noite — disse ele, calmamente. — Pensei que você talvez as tivesse escrito.

 Ela olhou-o muito espantada.

 — Eu? Ah, não. Então, ele se enganara.

 Uma profunda decepção apossou-se dele. Tinha tanta certeza — tanta certeza. Raramente suas intuições o enganavam.

 — Tem certeza? — insistiu.

 — Ah, tenho.

 Eles foram-se dirigindo vagamente em direção à casa. Charlotte parecia preocupada com alguma coisa. Respondeu aleatoriamente a algumas observações que ele fizera. De repente, desatou a falar em voz baixa e de maneira apressada:

 — É — é estranho que me tenha perguntado sobre estas letras, SOS. Não as escrevi, é claro, mas poderia tê-lo feito, com toda a certeza.

 Ele parou e olhou-a, e ela prosseguiu, falando rápido:

 — Sei que parece bobagem, mas tenho estado tão assustada, tão amedrontada que quando o senhor entrou ontem à noite, me pareceu que era a resposta — a alguma coisa.

 — De que tem medo? — perguntou mais do que depressa.

 — Não sei.

 — Não sabe?

 — Acho... que é a casa. Desde que chegamos aqui, este medo vem-se intensificando. Todos parecem diferentes, de alguma maneira. Papai, mamãe, Magdalen, todos parecem diferentes.

 Mortimer não falou logo e, antes que pudesse fazê-lo, Charlotte continuou:

 — Sabe que dizem que esta casa é mal-assombrada?

 — O quê? — seu interesse foi aguçado.

 — É. Um homem matou a esposa aqui, há muitos anos. Só descobrimos isto depois que chegamos aqui. Papai disse que esse negócio de fantasmas não passa de bobagem, mas eu — não sei.

 Mortimer pensava com rapidez.

 — Diga-me — falou ele num tom puramente profissional —, este crime foi cometido no quarto que eu ocupava ontem à noite?

 — Não tenho a menor idéia — disse Charlotte.

 — Será que... — disse Mortimer, mais para si mesmo — sim, pode ser que seja isto.

 Charlotte olhou-o sem compreender.

 — Srta. Dinsmead — disse Mortimer —, tem alguma razão para acreditar que possua poderes mediúnicos?

 Ela olhou-o fixamente.

 — Acho que você sabe que foi você quem escreveu SOS ontem à noite — disse. — Ah! inconscientemente, é claro. Um crime mancha a atmosfera, digamos assim. Uma mente sensível como a sua pode sofrer esta influência. Você tem reproduzido as sensações e impressões da vítima. Há muitos anos, pode ser que ela tenha escrito SOS sobre aquela mesa e, inconscientemente, ontem à noite, você reproduziu o ato dela.

 O rosto de Charlotte iluminou-se.

 — Compreendo — disse ela. — Acha que esta é a explicação? Alguém a chamou de dentro de casa e ela entrou, deixando Mortimer a andar para cima e para baixo, no jardim. Estaria ele satisfeito com a própria explicação? Será que esta esclarecia a tensão que sentiu ao entrar na casa na noite anterior?

 Talvez, mas mesmo assim persistia a sensação de que sua súbita chegada causara um pouco de consternação. E ele pensou:

 — Não devo deixar-me levar pela explicação psíquica. Pode ser boa para o caso de Charlotte, mas não para os outros. Minha chegada aborreceu-os terrivelmente, menos a Johnnie. Johnnie está fora disso, seja o que for.

 Ele tinha absoluta certeza disso não sabia bem por quê, mas não podia fazer nada.

 Neste minuto, o próprio Johnnie saiu do chalé e aproximou-se do hóspede.

 — O café está pronto — disse, sem jeito. — Não quer entrar?

 Mortimer notou que os dedos do rapaz estavam manchados. Johnnie sentiu-lhe o olhar e sorriu tristemente.

 — Estou sempre mexendo com substâncias químicas, sabe? As vezes papai fica muito zangado. Quer que eu entre para o negócio das incorporações, mas quero fazer química e trabalho de pesquisa.

 O Sr. Dinsmead apareceu à janela, alegre, jovial, sorridente, e, quando o viu, toda a desconfiança e antagonismo de Mortimer despertaram de novo. A Sra. Dinsmead já se sentara à mesa. Ela lhe disse "bom dia", com aquela voz descolorida e sem graça e, mais uma vez, ele teve a impressão de que, por um motivo ou por outro, o temia.

 Magdalen foi a última a entrar. Fez um leve aceno com a cabeça e sentou-se na frente dele.

 — Dormiu bem? — perguntou abruptamente. — Sua cama estava confortável?

 Ela olhou-o, muito séria, e quando ele respondeu cortesmente na afirmativa, notou-lhe uma leve decepção no olhar. O que esperava que dissesse?

 Ele voltou-se para o dono da casa.

 — Parece que este seu rapaz se interessa por química? — disse. Ouviu-se o barulho de algo se espatifando. A Sra. Dinsmead deixara cair a xícara de chá.

 — Vamos, Maggie, ora, vamos — disse-lhe o marido. Pareceu a Mortimer que havia admoestação e advertência em sua voz. Ele voltou-se para o hóspede e discorreu sobre as vantagens da incorporação, e de como não deixar os jovens ficarem fascinados por fantasias.

 Depois do café, ele foi sozinho ao jardim para fumar. Já chegara claramente a hora de ir embora. Abrigo por uma noite é uma coisa, prolongar a estada sem uma desculpa plausível era outra coisa; mas que desculpa poderia ele dar? Na realidade, porém, não tinha a menor vontade de ir-se.

 Sempre pensando e repensando, ele apanhou um caminho que levava ao outro lado da casa. Os sapatos, de sola de borracha, faziam pouco barulho. Passava pela janela da cozinha, quando ouviu lá de dentro as palavras de Dinsmead, palavras estas que lhe chamaram imediatamente a atenção.

 — É uma quantia considerável.

 A Sra. Dinsmead respondeu. Sua voz apagada não permitiu que Mortimer ouvisse as palavras, mas Dinsmead respondeu:

 — Perto de sessenta mil libras, o advogado disse. Mortimer não tinha intenção de escutar às escondidas, mas ele retrocedeu bastante pensativo. A menção do dinheiro parecia cristalizar a situação. De qualquer maneira, sessenta mil libras estavam em jogo, o que tornava a coisa mais clara — e mais feia.