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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS TRÊS REINOS / Sandra Carvalho
OS TRÊS REINOS / Sandra Carvalho

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A SAGA DAS PEDRAS MÁGICAS

 

 

Livro V

OS TRÊS REINOS 

 

Os brados de Freya, filha do jarl Throst e da feiticeira Catelyn da Ilha dos Sonhos, ecoavam por entre as árvores robustas e frondosas da Floresta Sombria. O guerreiro que a fizera cativa resmungava, enquanto a arrastava sobre o solo coberto de neve. Como é que uma rapariga tão pequena e franzina podia oferecer tamanha resistência? Se não conseguisse silenciá-la, em breve os viquingues que cercavam a sua aldeia escutariam o berreiro... A rainha Aesa avisara-o de que, se algo sucedesse à prisioneira, a sua família estaria condenada. E a feiticeira que regia a sorte do povo vândalo jamais ameaçava em vão!

— Cala-te imediatamente ou corto-te a língua! — fremiu o homem, detendo-se para impor a sua vontade. Porém, em vez de acatar, a jovem estrebuchou com tal veemência que acabou por se escapar.

Livre do aperto das mãos de ferro, Freya desatou a correr às cegas, buscando forças no pânico que a assolava. Sabia perfeitamente que, se voltasse a ser capturada, a aguardava um destino pior do que a morte. Por isso, invocou a magia que vivia no seu sangue, para que a escuridão da noite não lhe guardasse segredos; para que os pés não tropeçassem nas armadilhas do terreno; para tornar-se invisível aos olhos do vândalo. Tinha de encontrar a irmã... Não podia ser demasiado tarde!

No seu encalço, o guerreiro praguejava, esbarrava nos troncos das árvores e enfiava as botas nas raízes ocultas pela neve e pela lama. Caiu. Levantou-se. Voltou a cair. Bravejou a sua ira. Cuspiu pragas. Freya continuou a correr, ganhando vantagem. O peito ardia-lhe e o coração doía-lhe, tal o esforço, mas nem pensou em desistir. O silêncio que se seguira ao clamor de Edwina era um mau presságio; um vazio que alimentava o seu horror.

Subitamente, uma sombra mais negra do que as trevas barrou-lhe o caminho. Freya sufocou um grito e tentou desviar-se. Uma mão raspou-lhe o braço... E esse fraco contato bastou para que as suas forças se extinguissem. Caiu desamparada sobre o manto de neve; as pernas moles como geléia. Antes que pudesse reagir, um homem puxou-a contra o peito... O mesmo que, há pouco, Freya vira prostrar Edwina. Abriu a boca para troar a sua revolta, mas descobriu-se sem voz. Quem era esse ser abominável que devorava todo o seu alento? Quem era essa criatura... capaz de sujeitar a Guardiã da Lágrima do Sol?

— Muito bem, Snari! Serás recompensado pelo excelente desem­penho que tiveste esta noite!

Freya voltou a cabeça a custo, na direção da voz gélida. A chama de uma tocha fulgiu e iluminou o trilho. Aesa, rainha do povo vândalo e mestra da Arte Obscura, surgiu de entre as árvores, arrastando o corpo envelhecido. Porém, apesar de arquejar de cansaço, não desmanchava o sorriso que lhe encarquilhava ainda mais as faces. O pote de ferro que carregava parecia pulsar com vida própria, exalando uma maldade tão intensa que consumia o ar. Quedou-se diante da jovem, esboçando um gesto reprovador, enquanto retrucava:

— Onde julgavas que ias, princesinha abençoada? Socorrer a tua querida irmã? — Deitou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada. — Lamento...

O guerreiro que deixara Freya fugir irrompeu do meio das árvores e estacou bruscamente, ao ver a sua presa nas garras de outro predador. O olhar esbugalhado de medo fixou-se na rainha, que interrompera o discurso para o mirar com um esgar de desprezo. Suspirou de alívio, ao verificar que a sua atenção regressava à cativa do príncipe Snari. A feiticeira rangeu os dentes e silvou:

— Já me fizeste perder muito tempo!

Freya tentou mover-se mais uma vez... Porém, já mal conseguia respirar. Aterrada, viu a bruxa estender uma mão ao encontro da sua testa; dedos esqueléticos, que terminavam em unhas aguçadas... cobertas de sangue! O coração da jovem falhou uma batida. Os pulmões recusaram-se a receber o ar e todo o seu ser foi percorrido por uma dor violenta. Aquele sangue pertencia a Edwina! A sua irmã estava morta!

Então, uma voz tormentosa que pouco tinha de humano estron­deou-lhe dentro da mente, carregando uma ordem simples:

«Dorme! »

E os olhos de Freya fecharam-se.

Helga, filha de Vestein, sentiu uma pontada trespassar-lhe o peito. Perdeu o fôlego e tombou de joelhos no chão, amparando a queda com as mãos. Cerrou os olhos e mal conteve um grito. Concentrou-se em respirar, em manter-se consciente...

À sua volta, a escuridão condensava-se, como se a luz que alimen­tava a Terra estivesse a fenecer; como se o próprio Sol agonizasse. A angústia estrangulava-lhe a garganta qual coleira de ferro. Deixou escapar um gemido sufocado, na sua ânsia por reagir. Um ganido ecoou através da névoa que lhe toldava os sentidos e uma língua quente encharcou-lhe as faces pálidas. Essa sensação molhada ajudou-a a agarrar-se à realidade. Aos poucos, a dor atenuava-se... A mente recuperava o discernimento.

As mãos da princesa vidente do povo vândalo envolveram o pescoço de Conselheiro, o seu cão-lobo, que gania em aflição enquanto lhe lambia o rosto. Abraçou o animal e tranquilizou-o. Já vislumbrava o brilho do seu corpo, assim como a névoa ardente libertada pela lareira que aquecia a casa. Apesar de ter nascido cega, Helga possuía o dom da percepção. A energia dos seres vivos e das coisas inanimadas chegava até si sob a forma de partículas de luz, que lhe permitiam distinguir não só as feições exteriores, como a natureza das essências. Mais calma, respirou fundo e murmurou, acariciando o pêlo cinzento do cão:

— Não te preocupes, fiel amigo. Eu estou bem...

O silêncio tornou a instalar-se na modesta cabana. Helga manteve os olhos fechados e aprofundou a concentração. Não tinha dúvidas de que a indisposição que a prostrara resultará de um acontecimento funesto. Só sentira semelhante tormento na noite em que o pai fora assassinado. Recordava a aflição que experimentara, ao tentar descobrir o que lhe estava a acontecer. Nesse dia falhara... Falhara miseravel­mente, porque um poder superior lhe bloqueara a Visão! O seu povo convencera-se de que os Viquingues haviam sido responsáveis pela morte do rei vândalo. A princesa sabia que tal não era verdade... No entanto, a desconfiança que lhe retalhava o coração era tão cruel que jamais se atrevera a expressá-la. Se Aesa tivera coragem de derramar o sangue do próprio neto, após este a ter contrariado, o que lhe faria se ela a desafiasse?

Nesse instante de indefinição, Helga receou por Helgi. No dia anterior, o seu gêmeo embrenhara-se nas trevas dos Pântanos Nebulosos, liderando um grupo de jovens, entre os quais se encon­travam Koll e Ymir, os irmãos mais novos, e Villi, o melhor amigo. O bloqueio imposto pelos Viquingues impedia os Vândalos de caçar na floresta e, na estação amena, a terra recusara-se a prover-lhes sustento. Ante o desespero do povo, o príncipe decidira enfrentar as brumas gélidas, aproveitando uma brecha no cerco inimigo que lhes permitia alcançar a costa. Caçar nos fiordes, no pico do Inverno, era desafiar a morte. Porém, Helgi dispusera-se a correr o risco, na derra­deira tentativa de evitar que as crianças da aldeia se finassem de fome. Raud, o seu irmão mais velho, feito rei dos vândalos após a morte do pai, inquietara-se ao vê-los partir. Contudo, a rainha aplaudira a iniciativa... Sem Helgi por perto, era-lhe mais fácil dobrar a vontade de Helga.

O último confronto com a Guardiã da Lágrima do Sol deixara Aesa tão debilitada, que dependia da bisneta para realizar os sortilégios que requeriam maior poder. Ainda nessa noite, a jovem vidente tivera de acompanhá-la até à barreira de espinheiros, no limite da aldeia, a fim de lançar um encantamento sobre as trevas, para que a feiticeira e a sua escolta passassem despercebidos aos olhos e ouvidos dos Viquingues, enquanto se esgueiravam através da floresta. Helga não ousava contrariar a bisavó, principalmente desde que Snari se tornara a sua sombra. Sabia do que o primo era capaz... Por isso engolia em seco e obedecia, mesmo quando não lhe era prestada nenhuma justificação.

Assim que sentiu a magia inundar-lhe o sangue, a princesa encheu-se de coragem e libertou a mente, perscrutando a noite em busca do fenômeno que a perturbara. Deixou para trás a barreira de espinheiros e atravessou a Floresta Sombria, até atingir a fronteira com o território da Gente Bela. Então, deparou com um brilho resplandecente que lacerava as trevas... Uma luz que brotava do solo e se fundia com um nevoeiro úmido e quente, palpitante de vida, fulgurante de poder. Para seu assombro, não existia uma gota de malignidade naquela manifestação. A sua origem era pura... Maravilhosa!

Fascinada, a essência de Helga abeirou-se do remoinho colorido, estendendo os braços ao encontro do calor que este emanava, ofegando de antecipação. No momento em que os dedos trêmulos tocaram a névoa, esta dissipou-se, revelando um trilho verdejante, ladeado por árvores majestosas. Não havia neve nesse caminho. Não existiam pedregulhos, nem raízes mortas. O Vento Norte fora domado e ronronava melosamente contra a sua pele. A princesa do povo vândalo entreabriu os lábios para libertar um suspiro de satisfação... E foi nesse preciso instante que viu o lobo.

No meio do trilho, como se aguardasse a sua chegada, estava uma fera colossal, quase tão imponente como a forma mística do seu irmão gêmeo. Porém, em vez de negro, aquele lobo possuía pêlo cinzento e brilhante. E os olhos que a fixavam eram verdes... tão verdes como a floresta virgem que os rodeava. Helga enterneceu-se sob aquele olhar intenso; o coração assolado por uma estranha sensação que a forçava a sorrir, a respirar com mais força, a desejar aproximar-se da besta, apertar os braços em torno do seu pescoço e afundar o rosto na suavidade do seu pêlo. Todavia, mal se atreveu a dar um passo, a figura do lobo estremeceu.

Assustada, a princesa apelou a toda a sua vontade para suster a energia que alimentava a Visão. Contudo, uma sombra brotara do nada e consumia a luz que a acalentava. A fera ainda se quedava no trilho, desfrutando da magia radiosa... Mas Helga jamais a conseguiria alcançar. Não era digna de tal honra!

Ouviu o seu próprio brado, enquanto a essência era arrastada até ao corpo. Ao tomar consciência da realidade, arfou de surpresa... Porém, a macieza do pêlo que lhe acariciava a face pertencia a Conselheiro e não à criatura sagrada que a encantara. O cão manteve-se imóvel, como se compreendesse a gravidade do momento. A princesa estreitou-o com afeto e permitiu-se ceder às lágrimas. Desde menina que ouvia falar da Montanha Sagrada, o berço da magia da Terra; um refúgio abençoado, onde o Conhecimento era oferecido aos puros de coração. Jamais imaginara que, um dia, haveria de vislumbrar os trilhos desse lugar místico... Todavia, nessa noite, ainda que por breves instantes, tal graça fora-lhe concedida!

No fim, ficara tão absorvida pela surpresa, que esquecera o verdadeiro propósito da sua incursão. O pressentimento que a transtornara permanecia um mistério. Porém, crescia em Helga a certeza de que não tardaria a conhecer a verdade. Fora da sua porta uma multidão reunia-se, saudando o regresso da rainha Aesa com um clamor aguerrido. E o calafrio instintivo que percorria a princesa era quanto bastava para lhe provar que algo terrível acontecera.

Na aldeia do povo vândalo as casas despertavam. Homens e mulheres agasalhavam-se à pressa, para contrariar o ar gélido da noite, e saíam ao encontro da rainha. Depressa o terreiro ficou iluminado pelas chamas dos archotes. Ao lado de Aesa, Snari saboreava a vitória. Hoje, todo o povoado admitiria a sua excelência, a sua supremacia! Só lamentava que Helgi tivesse partido para caçar. Ver o choque do primo, no instante em que se deparasse com a presa que ele carregava nos braços, sublimaria o seu triunfo. Dos varões de Vestein, apenas Raud, o novo rei, estava presente. Snari mal conteve a vontade de cuspir de desprezo, ao ver o primo aproximar-se. Tinha de manter a calma... Um a um, aqueles que se colocavam entre ele e o trono haveriam de tombar! Porém, não podia precipitar-se. Devia ser paciente e hábil, para que o seu destino se cumprisse. Um dia, não só os Vândalos se vergariam ao seu poder, mas todos os reinos do Norte.

A voz de Aesa elevou-se, extasiada, declarando a morte da princesa Edwina do povo viquingue. Snari aguardou por elogios, por reconhecimento... Afinal, fora ele quem forçara o Guardião da Lágrima da Lua a roubar o pote de cinzas da feiticeira Gwendalin, da guarda do Povo da Terra! E fora ele quem subjugara a Guardiã da Lágrima do Sol... Todavia, esperou em vão. A rainha chamava a si toda a glória pelo êxito da campanha.

Snari cerrou os dentes com força, empurrando o céu-da-boca com a língua. Se se rebelasse contra essa injustiça, perderia o pouco que conquistara. Enquanto azedava de frustração, os seus olhos ficaram cativos da jovem que rompia caminho por entre a multidão. Susteve o fôlego, fulminado pela visão do corpo voluptuoso, enfeitado por cabelos rubros e olhos tão verdes como o mar bravio. Por que é que, quando ela surgia, tudo o resto se desvanecia na sua mente?

Aesa anunciava a captura da loba prateada e os guerreiros soltavam exclamações de assombro. Gríma conseguiu chegar à frente e sorriu carinhosamente, ao deparar com o meio-irmão. Snari voltou o rosto com brusquidão, engolindo em seco. Odiava-a! Odiava-a pela sua simpatia! Odiava-a pela sua beleza! Odiava-a... Tanto quanto a desejava! Como pudera o destino impor-lhe o tormento de se apaixonar pela filha bastarda do seu próprio pai? Siguror era o culpado da sua desventura! Ele... e a rameira que usurpara o lugar da sua mãe!

Os seus tortuosos pensamentos assumiram forma quando Halldora surgiu, empurrando aqueles que se interpunham entre ela e a prisioneira.

— Essa cadela é filha de Throst... — gritava, desvairada. — O maior inimigo dos Vândalos! Exijo a sua morte!

O burburinho que se erguia em torno da mulher extinguiu-se abruptamente, mal o príncipe Siguror avançou para conter o seu ímpeto. Os olhos de Snari faiscaram de rancor, ao encarar o pai. Por mais anos que vivesse, jamais haveria de perdoá-lo!

Halldora, filha do poderoso chefe viquingue Arngrim, fora entregue a Bror, rei dos Vândalos, por Arnorr, seu irmão mais velho, para firmar uma aliança contra o rei Steinarr e o jarl Throst, a quem declarara guerra. No entanto, a escrava não aquecera a cama do seu senhor. Impossibilitado de aumentar a descendência e perante o entusiasmo que o filho mais novo revelara pela jovem de cabelos de fogo, Bror condescendera em entregá-la a Siguror. Apesar da tenra idade, Snari lembrava-se perfeitamente da tarde em que o pai trouxera a escrava para casa... Das incontáveis vezes que vira a mãe chorar, desgostosa por ter perdido o afeto do marido. Do dia em que Gríma nascera... E da noite em que a mãe fora encontrada morta, no fundo de um precipício. Um lamentável acidente, tinham-lhe dito... Contudo, Snari crescera com a convicção de que fora Halldora quem empurrara a sua mãe para a queda fatal. E magoava-o pensar que a bisavó sabia a verdade e nada fazia para castigar a maldita criatura. Um dia, seria a sua mão a impor justiça!

Enquanto observava o pai a acariciar os cabelos da escrava, quase suplicando que se acalmasse, Snari mastigava uma ira sem limites. Gríma veio confortar a mãe e, de novo, as entranhas do vidente enodaram-se. Um dia, haveria de matar os três: o pai e a madrasta, porque os execrava... A meia-irmã, porque a amava. Gríma nunca compreendera a razão por que ele lhe voltava as costas, quando o procurava para conversar. E acreditava que a antipatia de Snari por Helgi se devia à preferência da rainha pelo outro bisneto. Em parte, tal era verdade... Porém, o que realmente enlouquecia Snari era o fato de Gríma estar prometida ao Espírito da Escuridão. Se Helgi não fosse tão arredio, ter-se-iam casado há muito... E imaginar a mulher que desejava nos braços do seu detestável primo, o prodigioso guerreiro abençoado pelos deuses, inflamava o seu ódio.

Exclamações de pasmo brotaram da multidão, no momento em que Aesa puxou pelos longos cabelos negros e encaracolados da prisioneira, exibindo-lhe o rosto inanimado. Alguns homens recuaram instintiva­mente. Aqueles que tinham participado na última batalha contra os Viquingues podiam testemunhar que se tratava da guerreira do prín­cipe Ivarr, cuja destreza em combate era apregoada por todo o Norte. Inclusive, Ozur, um respeitado general, vira-a defrontar o príncipe Helgi... e prostrá-lo! Passada a surpresa, os guerreiros exprimiram o seu asco... Muitas vozes juntaram-se à de Halldora, demandando uma morte exemplar para a loba prateada, que provasse aos inimigos a superioridade do povo vândalo.

— A prisioneira não será molestada de nenhuma forma — ordenou Aesa com brusquidão. — Tenho planos para ela.

— Com todo o respeito, minha rainha... — atreveu-se Ozur. — Para além de pertencer à guarda de Ivarr, essa mulher é filha de Throst, o Primeiro Homem de Steinarr. Não demorará muito até que o exército viquingue venha reclamá-la.

— Não tendes o que recear! — contrapôs a feiticeira, sorrindo deliciada. — Só a Guardiã da Lágrima do Sol possuía poder para destruir os espinheiros... A sua morte deixou os Viquingues desprovidos de magia. Quem se atrever a aproximar-se dos meus domínios, enfrentará o seu fim!

— Talvez os Viquingues não possam transpor a barreira de es­pinhos... — ousou contestar o general. — Mas irão reforçar o cerco! E a nossa aldeia está a definhar à fome! Não suportaremos mais uma estação...

— Não me ouviste, Ozur? — impacientou-se a rainha. — Sem magia, em breve o poderoso exército de Steinarr estará reduzido a cinzas. E esta rapariga há de tornar-se a nossa melhor arma! Garanto-vos que, após cumprir o destino que lhe tracei, os Viquingues serão os primeiros a desejar a sua morte.

Helga pôs uma capa sobre os ombros e enfrentou a noite. Conselheiro marchava ao seu lado, nada incomodado pela neve que prendia as botas dos humanos. Toda a aldeia afluía ao terreiro. O alarme passava de boca em boca. A rainha fizera uma prisioneira na floresta...

— Este dia ficará assinalado na história dos Vândalos! — discursava Aesa, gesticulando com uma mão, enquanto a outra apertava um pote de ferro junto ao peito. — Hoje bati-me contra a minha maior inimiga... e derrotei-a! Sim, meu povo! Finalmente, a Guardiã da Lágrima do Sol está morta!

Helga estacou, paralisada. De repente, era como se o gelo que cobria o solo lhe trespassasse a carne e a impedisse de se mover, de respirar, de pensar... até o coração parar de bater. Não! Não podia ser verdade! Porém, assim se explicava a agonia que, há pouco, a subjugara. Helga e Edwina partilhavam uma ligação especial, impossível de justificar. Em nome desse elo, muitas regras tinham sido quebradas de ambos os lados da guerra que opunha os Vândalos aos Viquingues. Fora por acreditar que a Guardiã da Lágrima do Sol seria capaz de pôr fim ao conflito sangrento que dividia os dois povos, que Helga convencera o rei Vestein a procurar o rei Steinarr. Agora, o seu pai estava morto... Se Edwina também se finara, já não havia esperança de alcançar a paz!

Conselheiro ganiu levemente e bateu-lhe com a pata na perna. Helga cambaleou e levou as mãos ao peito, empurrando o ar para dentro dos pulmões. Precisava de reagir... Se a rainha surpreendesse o seu horror, haveria de associá-lo a fatos do passado que lhe tinham causado grande estranheza... e concluiria que a bisneta a traíra. Foi então que Aesa exibiu a prisioneira, qual valioso troféu de caça. Esta jazia nos braços do príncipe Snari, vítima da sua terrível capacidade de sugar a vitalidade dos seres.

— Não... — Um gemido dolente escapou dos lábios de Helga. Ofegante de aflição, reviu o momento em que o irmão gêmeo fora trazido à sua presença, após a cruenta batalha contra os Viquingues. A jovem chorara de felicidade por verificá-lo a salvo, pois julgara que o Espírito da Escuridão iria tombar às mãos do Espírito da Luz. Contudo, não tardara a aperceber-se de que, apesar de ter escapado à morte, Helgi jamais voltaria a ser o mesmo. O seu coração recebera um rude golpe. No instante em que o seu destino se cumprira, descobrira que a guerreira do príncipe Ivarr, conhecida como «loba prateada», não era outra senão Freya, a menina por quem se apaixonara durante a sua missão de conquista das pedras mágicas da feiticeira Aranwen. Freya fora incapaz de matá-lo... mas marcara-o com o seu ódio. Agora, por obra do destino, encontrava-se à mercê dos Vândalos!

Talvez a princesa viquingue merecesse o castigo que a rainha lhe preparava... Afinal, era responsável pela infelicidade de Helgi! Porém, a percepção de Helga forçava-a a ver para além da revolta e do ressentimento ancestrais. A energia espargida pela essência da pri­sioneira chegava até si como uma onda de calor, que lhe abraçava o coração e apaziguava o espírito; a mesma sensação sadia e restauradora que Edwina sempre lhe transmitira. Algo estava errado! Essa rapariga não podia ser a mulher fria e implacável que cuspira o seu rancor na cara de Helgi!

Movida pelo instinto, a vidente ajoelhou-se diante de Conselheiro e desatou o fio que trazia ao peito, de onde pendia o medalhão gravado com o símbolo da sua linhagem — um corvo com um ramo de espinheiro no bico. Atou-o ao pescoço do cão e murmurou:

— Traz o Helgi para casa, meu amigo! Depressa!

Susteve-se a custo, tremendo como uma árvore débil sob a fúria do vento. Aesa calara os argumentos de Ozur e distribuía ordens. Helga respirou fundo, ao ouvi-la chamar o seu nome. Vacilou um passo... Contudo, o segundo já detinha a mesma firmeza que se expressava no seu rosto, ao inclinar-se reverentemente diante da rainha.

Helga abriu a porta da sua cabana e Aesa entrou, olhando em redor com manifesto desagrado. Apesar de poder partilhar da sua riqueza, a bisneta teimava em dormir no chão, sobre almofadas; comer em tigelas rachadas; cobrir-se com mantas gastas pelo tempo... O único presente que aceitara das suas mãos fora uma harpa, quando ainda era criança. Durante anos, tocara-a com verdadeira paixão. Todavia, há muito que a bonita música que os seus dedos extraíam do instrumento não alegrava a aldeia. No dia em que a jovem nascera, Aesa convencera-se de que teria uma aliada na magia da sua essência. Agora, duvidava seriamente que assim fosse... Helga era demasiado melindrosa, excessivamente dedicada ao próximo para se tornar uma mestra da Arte Obscura. Nos últimos anos, essa constatação enfurecera a feiticeira. Contudo, finalmente o coração mole da bisneta haveria de servir os seus propósitos!

Os guerreiros pousaram o corpo inerte da prisioneira sobre as almofadas que forravam o canto onde Helga dormia. Após dispensá-los, Aesa fixou a bisneta, exibindo um sorriso de satisfação:

— Sabes quem é essa rapariga? — perguntou.

A expressão da jovem manteve-se tão vazia quanto o olhar cego, ao negar com a cabeça.

— Toca-lhe! — desafiou a rainha. — Sente o seu poder! No seu sangue corre a magia de «O Que Tudo Vê»! Graças a essa fedelha concretizarei a profecia do filho do dragão... E livrar-me-ei do exército viquingue de uma vez por todas! Se Throst e Catelyn quiserem salvar a filha, terão de convencer o arrogante Steinarr a retirar-se da Floresta Sombria e a jamais voltar a pisar solo vândalo!

Helga engoliu em seco, apreensiva. Mal pousou as mãos na testa da princesa viquingue, a sua mente foi invadida por estranhas formas e sons. Pelos olhos da cativa, presenciou o instante em que, arrebatado pela paixão, o Espírito da Escuridão lhe entregara o amuleto que Vestein lhe pusera ao pescoço, no dia em que nascera... O mesmo instante em que Freya correspondera, oferecendo-lhe a pedra mágica azul, que se encontrava à sua guarda, como prova de amor e garantia de que o seguiria, qualquer que fosse o rumo que tomasse. E testemunhou muito mais! Tanto, que recuou atordoada.

— Diz-me, Helga! — quase gritou Aesa, com fervorosa ansiedade.

— O que te foi revelado?

A vidente susteve o fôlego. O que fazer? Menosprezar o valor da presa não lhe concederia a liberdade... Condená-la-ia à morte! Precisava de ganhar tempo... Tempo para refletir. Tempo para assimilar todas as informações que a haviam fulminado, numa batida de coração. Tempo para salvar a jovem que jazia diante de si, à mercê dos caprichos da mais terrível e impiedosa das feiticeiras — a sua bisavó. Devia-o a Helgi... A Edwina... E a Vestein, seu amado pai.

— Ela é forte... — começou, orando para que a rainha julgasse que o seu tremor se devia à impressão causada pela energia de Freya.

— Muito, muito poderosa! E valiosa! Do seu ventre pode nascer o homem que libertará o Conhecimento Superior das Lágrimas do Sol e da Lua.

— Eu sabia! — exclamou Aesa, triunfante. — Agora, só me resta comprovar a sua virtude...

— Não é necessário! — atalhou Helga, reprimindo o sobressalto.

— Se ela já tivesse conhecido homem, a magia tê-lo-ia denunciado! A feiticeira negou com a cabeça, objetando num tom mordaz:

— A magia ainda te guarda muitos segredos... E eu estou dema­siado fraca para vislumbrar além da sua carne. — Deteve o novo protesto da bisneta com um gesto firme. — O herdeiro de Steinarr é um predador. Nenhuma mulher está segura ao seu lado! Custa-me acreditar que uma fêmea tão perfeita tenha escapado incólume ao seu ardor... Iremos esclarecer essa dúvida à maneira dos humanos. Se o príncipe a desonrou, ela não poderá servir o meu propósito.

A percepção chegou lentamente e trouxe consigo a dor. Por um instante, Freya só sentiu um tormento lancinante, como se todos os seus ossos estivessem quebrados e um incêndio lhe deflagrasse no interior do corpo. Depois, as lembranças começaram a fustigá-la, cobrindo-a qual onda gigante que a arrastou para um remoinho de confusão e horror. Recordava tudo o que acontecera, até ter sido capturada por aquele homem abominável. O que se seguira parecia-lhe irreal; fragmentos de um nefando pesadelo: dezenas de archotes brilhavam na noite. Uma multidão abrasada pelo ódio agitava os punhos. A feiticeira maldita lutava com as suas roupas, invadindo-lhe a intimidade com dedos gélidos e afiados como lâminas. E uma voz suave deslizava na sua mente; um murmúrio carinhoso, capaz de resgatá-la às garras da loucura. «Confia em mim.» — dizia. — «Vou ajudar-te...»

Sentou-se com um grito apavorado; a pele coberta de suores frios. A esperança de que os seus temores fossem infundados depressa se desvaneceu. Estava numa casa estranha, deitada no chão entre almo­fadas e mantas. As chamas de uma lareira iluminavam um espaço exíguo e modesto. O cheiro de ervas curativas perfumava o ar... E uma mulher flutuava ao seu encontro, trazendo uma malga fumegante nas mãos. Um vestido simples, de lã gasta, cobria-lhe o corpo alto e esguio, contrastando fortemente com o castanho acobreado dos seus longos cabelos lisos.

Freya recuou até as costas baterem na madeira da parede. Apesar do medo, reconhecia naquela figura etérea algo de familiar e benigno. Ainda que se esforçasse a cada instante, a negridão da sua magia era incapaz de devorar a luz que lhe envolvia a essência... E o seu rosto era igual ao de Helgi! A jovem viquingue deixou escapar um gemido de temerosa comoção; os pensamentos como raios a queimarem a mente. Então, a outra falou:

— Este chá irá restabelecer-te. Bebe! Não temos muito tempo. Freya aceitou a malga, mas foi incapaz de a levar aos lábios. As lágrimas escorreram-lhe pelas faces, ao indagar num tom angustiado:

— A Edwina está morta?

Helga não se moveu. Sem fôlego, viu a jovem cativa rutilar, numa mistura de prodigiosas cintilações. A sua essência era constituída por partículas de luz tão perfeitas como as de Edwina. Porém, existiam tonalidades que se fundiam com o brilho das estrelas... As mesmas que a vidente reconhecia da pedra mágica que, durante algum tempo, Helgi guardara junto do coração — a cor maravilhosa denominada «azul».

— Não estou certa — declarou por fim, com franqueza. — A rainha anunciou a morte da Guardiã da Lágrima do Sol... Ainda assim, recuso-me a acreditar! Eu tive uma Visão de luz... Vi os trilhos da Montanha Sagrada! Teria tal sucedido se a esperança houvesse findado?

Freya engoliu em seco, observando a jovem de pele branca, olhar vazio e cabelos de cobre. Por várias vezes, Edwina garantira-lhe que a salvação do povo vândalo repousava nas mãos da princesa vidente. Todavia, depois do que sofrerá, não lhe era fácil encarar a irmã de Helgi como uma aliada no infortúnio. Afinal, essa simpatia podia não ser mais do que um plano para que descuidasse a sua defesa! Obrigou-se a beber o chá, enquanto pensava no destino da Guardiã da Lágrima do Sol. Se a irmã estivesse morta, as sombras cobririam o mundo; os homens livres afogar-se-iam no sangue da guerra e os mestres da Arte Obscura escravizariam os sobreviventes... O líquido quente apaziguou a sua consumição. Contudo, mal se permitira respirar fundo, já Helga lhe segurava as mãos, dizendo gravemente:

— Uma grande tempestade marcha sobre ti... Terás de te armar com todas as forças para lhe resistir.

O coração de Freya quase parou de bater, tal o ardor das suas palavras. E o pior ainda estava para vir:

— A rainha planeia fazer nascer do teu ventre aquele que há de concretizar a profecia do Guardião da Montanha, unir o conhecimento das Lágrimas do Sol e da Lua e tornar-se um deus na Terra. Dentro de dois dias, estarás pronta para conceber... E um dos seus herdeiros irá impor-te a sua vontade.

Aturdida, Freya só conseguiu tartamudear:

— Mas... Como é possível que Aesa não saiba...? — Calou-se abruptamente, tomando consciência de que quase cedera o mais valioso dos seus segredos. No entanto, Helga já respondia, com uma firmeza que a arrepiou:

— Ela ignora a tua história e não deve sequer desconfiar que o teu ventre já deu fruto! Eu iludi a sua percepção; fi-la crer na tua virtude. Mesmo quando decidiu confirmá-la com os seus próprios olhos, mantive a verdade fora do seu alcance. Não foi difícil! Ainda que tente disfarçar diante do povo, o poder da rainha é uma sombra de outrora.

A voz da vidente denunciava orgulho, por ter sido capaz de enganar a bisavó. Freya sacudiu a cabeça, mais confusa e assustada do que nunca:

— E por que o fizeste? Poupar-me-ias a humilhação...

— A rainha ter-te-ia morto, sem hesitar!

— Não seria a morte um destino menos cruel do que aquele que me reservam?

— A morte física, talvez! — retrucou Helga, ignorando a sua indignação. — Porém, Aesa haveria de te usurpar a essência, para se apoderar da tua magia. O teu espírito subsistiria dentro do seu corpo, sujeito aos mais bárbaros tormentos. As tuas recordações tornar-se-iam suas! A traição de Helgi seria exposta, assim como os segredos da tua família... E o teu segredo!

Freya arquejou, apertando a testa entre as mãos com a cabeça prestes a explodir. Nesse momento de desespero, fixou Helga e suplicou:

— Por favor, tens de ajudar-me a fugir!

— Não posso...

— Pela amizade que partilhaste com a Edwina...

— Eu não posso! — Helga debruçou-se e pousou-lhe as mãos nos ombros. — O poder da rainha enfraqueceu, mas não se extinguiu! No instante em que se sentir ameaçada, não terá pejo em atacar o seu próprio povo e cobrir esta terra de sangue; em sugar as essências de homens, mulheres e crianças numa cegueira predatória, para recuperar a energia que a torna magnânima. Todos aqueles que amo, e tento proteger desde o dia em que nasci, perecerão... E, com Snari por perto, não me atrevo a desafiá-la! Sinto muito, mas terás de fazê-la acreditar que o seu plano se concretizou. Assim, voltará a atenção para outras questões e dar-nos-á tempo para buscar uma solução.

— Jamais me submeterei a tamanha perversidade! — reclamou Freya, afastando as mãos da vidente. — Prefiro morrer, a entregar-me aos caprichos de um monstro!

— Eu posso convencê-la a escolher o Helgi — afirmou Helga, estudando a reação da jovem. — Se estiveres sob a proteção do meu irmão, ninguém ousará molestar-te.

O coração de Freya soluçou dentro do peito. Tantas coisas terríveis tinham acontecido, que nem sequer se lembrara que «ele» estava por perto; que assistira ao seu sofrimento, sem mover um dedo para socorrê-la.

— O teu irmão pensa que fui eu que o enfrentei, na última batalha que opôs os nossos povos — arfou, lutando para não perder a voz.

— Sei que me odeia...

— O Helgi odeia a guerreira do príncipe Ivarr — objetou Helga, aliviada por constatar que a sua observação não a deixara indiferente.

— Não por ela o ter subjugado... Mas por ter desprezado o seu amor! Sim... O meu irmão nunca deixou de te amar! Quando descobrir que não és a loba prateada, fará tudo para te ajudar.

Freya encarou a vidente e estremeceu. O poder de Helga era muito superior ao seu. Ela fora capaz de entrar na sua mente, iludindo a própria Aesa! Sabia que a loba prateada era sua irmã gêmea... E descobrira a existência de Thorson! No entanto, não parecia disposta a usar essa informação para prejudicá-la. Aliás, a menos que fosse uma mestra de falsidade, capaz de enganar a Guardiã da Lágrima do Sol acerca da pureza do seu coração, Helga estava a arriscar a própria vida, ao tentar divisar uma forma de pôr termo ao reinado de terror da feiticeira. Nesse instante decisivo, a jovem viquingue decidiu seguir o instinto e ceder-lhe a sua confiança. Respirou fundo e apelou, suplantada pela emoção:

— Gostaria de vê-lo... Quero ser eu a explicar-lhe o que se passou, desde o dia em que nos separamos na Ilha dos Sonhos.

Helga deixou escapar um suspiro que denunciou inquietação, ao replicar:

— Esse é o maior problema... Helgi não se encontra na aldeia.

— O quê? — gemeu Freya, sentindo o sangue gelar. — Mas, então...

— Eu já mandei chamá-lo. Temos de acreditar que chegará a tempo.

— E se não chegar? — objetou a jovem; o alento reduzido a cinzas. — Se o Helgi não vier... que esperança me resta?

Helga envolveu-lhe as mãos, contrapondo:

— Temos de unir energias para guiar os seus passos. A rainha quer que eu conquiste a tua confiança, por isso não estranhará a nossa proximidade. Deves ser forte... Não só por ti, mas por todos aqueles que amas!

Aesa acordou restabelecida e jubilosa. Depois de sujeitar Magnor, o escravo viquingue que a servia, ao ardor insaciável da sua luxúria, ordenou que o rei Raud, o príncipe Siguror, o príncipe Snari e a princesa Helga viessem à sua presença. Era tempo de pôr em marcha o seu plano genial.

Mal conteve uma exclamação de desprezo, quando os seus herdeiros a reverenciaram. Todos eles, de alguma forma, representavam uma decepção. Siguror, o neto, vivia obcecado com a idéia de combater os Viquingues. No entanto, mal a noite caía, transformava-se num cachorro submisso; rastejava e gania à mercê de uma mulher que carregava o sangue que ele tanto detestava. Não admirava que o próprio filho o odiasse! Se Aesa não estivesse atenta, Snari já teria estripado o pai e a madrasta! Apesar de se ter revelado uma fonte crescente de poder obscuro, o bisneto vidente possuía uma perso­nalidade altamente instável. A rainha não se fiava na sua lealdade. Snari era demasiado egoísta, rancoroso, ambicioso... Todavia, nesse momento, dependia da sua ajuda, já que aqueles que elegera para se tornarem seus guerreiros em corpo e em espírito pareciam determi­nados a contrariá-la.

Helgi e Helga eram dois insurrectos! Aesa tinha de os manipular e ameaçar para que se vergassem aos seus desígnios. Esperara que a desventura do pai lhes tivesse ensinado que, para lá dos espinheiros, longe da sua proteção, só existia sofrimento e morte. Após o assassinato de Vestein, o espírito de Helgi regressara ao seu domínio... Porém, o de Helga ainda lhe resistia. Na noite anterior, a mestra da Arte Obscura deixara claro que, se a bisneta falhasse na missão que lhe atribuíra, enfrentaria a sua fúria e cairia em desgraça diante da rainha e do povo. Devia ganhar a confiança da herdeira de «O Que Tudo Vê»; apelar a todos os argumentos, para que esta a encarasse como uma aliada. Aos poucos, sem que a prisioneira se apercebesse, Helga teria de lhe dominar a mente e escravizar a vontade. Um dia, Freya seria libertada... E quando Throst e Catelyn menos esperassem, a sua princesinha abençoada estaria a conduzi-los para uma armadilha letal, tal como sucedera com Steinarr e Magnor.

Raud começou a tremer no instante em que Aesa anunciou os seus planos para a jovem viquingue. A expressão da mestra da Arte Obscura severizou-se ainda mais quando ele a questionou com manifesta repulsa:

— E quem se deitará com a escrava, para concretizar a profecia de que falais, minha rainha?

— Não me parece que devas ser tu! — intrometeu-se Snari, enfrentando o esgar desagradado da bisavó. — Afinal, não queremos que o primogênito do rei dos vândalos nasça com sangue viquingue, pois não?

— Eu podia oferecer-me para a tarefa — começou Siguror, em tom de gracejo. — Só que a minha mulher não ficaria nada satisfeita!

O olhar furibundo de Snari abateu-se sobre o pai. Tal zombaria soava-lhe aos ouvidos como a confirmação de que fora Halldora quem assassinara a sua mãe. Os ânimos ter-se-iam encrespado se Raud não tivesse interferido, obviamente aliviado com o apoio do primo:

— Snari falou com sabedoria! Que seja um dos meus irmãos a sacrificar-se!

— Os teus irmãos partiram para caçar — objetou Aesa, denun­ciando impaciência.

— Talvez seja melhor aguardar o seu regresso, minha rainha — sugeriu Helga com candura. — A escolha da semente que fecundará o ventre da prisioneira deve ser ponderada...

— Eu deitar-me-ei com a escrava! — insurgiu-se Snari, avançando com tamanha brusquidão, que Helga foi obrigada a recuar. — O filho da profecia deve ter sangue forte... E tendes de concordar, querida rainha, que nenhum dos meus primos supera a magia da minha essência!

Aesa fitou-o, perplexa. Jamais lhe passara pela cabeça que o bisneto se oferecesse para desempenhar aquela missão. Hesitou, refletindo... Então, Helga tornou a intervir:

— O pai dessa criança tem de ser o Helgi! Ele é o Espírito da Escuridão, agraciado pelos deuses. Não existe poder entre os Vândalos que exceda o seu!

As últimas palavras foram dirigidas a Snari, ríspidas e glaciais. O primo abriu a boca para cuspir a ira mas conteve-se, pois a rainha já replicava:

— O Helgi seria a minha escolha, se aqui estivesse. Porém, não está e é-me impossível aguardar o seu regresso! Quero a escrava prenhe, logo que a Lua reclame o domínio do céu.

— Mas, minha rainha... — Desta vez, Helga teve de se concentrar para que a voz não tremesse. — A profecia fala do filho de um guerreiro e de uma vidente...

— Não! — atalhou Snari, com deletéria convicção. — A profecia fala de uma criança que resultará da mistura de sangue guerreiro com sangue vidente, provenientes de uma Rainha do Sol e de um Rei da Lua. Eu sou um Rei da Lua e a prisioneira é uma Rainha do Sol! Eu sou um vidente... e ninguém contesta o valor da loba prateada como guerreira!

Foi a vez de Helga abrir a boca... e forçar-se a fechá-la. Contrariar as declarações do primo seria expor o segredo de Freya e condená-la. Restava-lhe esperar que a rainha escutasse a voz da razão. No entanto, Aesa acenava em concordância e determinava:

— Se o destino ditou a ausência de Helgi, neste momento crucial, tu darás vida à profecia, Snari. Prepara-te de corpo e espírito para essa missão. Amanhã, ao início da noite, a escrava viquingue ser-te-á entregue. Continua a servir-me bem e saberei recompensar-te!

A aldeia do povo vândalo estava em festa. As chamas das fogueiras elevavam-se acima da barreira de espinheiros e os gritos dos guerreiros anunciavam ao Norte a supremacia da rainha Aesa. A morte da Guardiã da Lágrima do Sol silenciara aqueles que se atreviam a questionar se não teria sido melhor ceder ao domínio do rei Steinarr, em vez de definhar de fome. A feiticeira era louvada enquanto exibia o cristal mágico no centro do terreiro, elevando-o para que a Lua testemunhasse a sua vitória. As densas nuvens negras que ocultavam a face da rainha da noite começaram a tingir-se de vermelho. Em pouco tempo, os trovões estremeciam a terra e os relâmpagos guerreavam quais espadas de fogo, forçando os Homens a susterem a respiração, ante o ímpeto violento da tempestade que se aproximava.

A porta da casa de Helga foi escancarada sem cortesia. O rei vândalo entrou e surpreendeu a escrava viquingue abraçada à sua irmã, pranteando copiosamente. Enquanto os dois guerreiros agarra­vam a prisioneira e a arrastavam para a rua, a gritar e a espernear, os olhos de Raud fixaram-se na vidente, repletos de censura e temor. Aguardou que ficassem sós, para indagar:

— O que pensas que estás a fazer? Aquela mulher é nossa inimiga...

— A rainha mandou-me conquistar a sua confiança — atalhou a irmã, sem se dar ao trabalho de ocultar a revolta que lhe consumia as entranhas. — É isso que estou a fazer! Todos nós nos inclinamos diante de Aesa... a bem ou a mal!

— Tu não me enganas, Helga! Estás a tramar alguma... Essa rebeldia ainda será a tua morte!

— Não te preocupes, querido irmão! — replicou a vidente, mordaz. — Se, um dia, a rainha me castigar, não apelarei à clemência... e muito menos à bravura do meu rei, para me defender!

Raud engoliu um rugido, cerrou os dentes e saiu, batendo com a porta. Helga deixou-se cair de joelhos sobre as almofadas que, na noite anterior, tinham acolhido o seu sono e o sono de Freya. Nesse instante, toda a esperança parecia desfeita. Cruzou os braços sobre o peito e deitou a cabeça para trás; o olhar cego descortinando para além do telhado coberto de neve, acima das nuvens de fogo e de cinza, até encontrar o olhar igualmente branco da Lua, fonte do seu poder. Deixou a essência fundir-se com a magia dos seus antepassados... E entregou uma prece à rainha da noite.

Lá fora, o clamor dos aldeões subia de tom, desafiando o fragor da tempestade. O tempo escorreu, até perder o significado. Absorvida pela energia que lhe abrasava o espírito, Helga mal percebeu que a porta da cabana se tornara a abrir. Foi só quando um corpo robusto e peludo a derrubou, e uma língua quente e ensopada lhe banhou as faces, acompanhada por um latido de alegria, que a vidente despertou para a realidade.

Freya gritou até a garganta se lacerar. Lutou com toda a veemência, ignorando a dor do aperto das mãos dos guerreiros, que quase lhe separavam os braços do tronco. Deixou o corpo pesar e fincou os pés na neve. Quando um terceiro vândalo se aproximou dos companheiros, ganhou impulso, levantou as pernas e pontapeou-o na face com um berro raivoso. O homem praguejou, cuspindo sangue para o chão. À sua volta, a multidão regozijava, ao ver a loba prateada ser conduzida para a cabana, onde teria lugar o ritual que a rainha feiti­ceira preparara.

Em pânico, a filha de Throst e Catelyn viu as nuvens rasgarem-se sobre a sua cabeça, até a forma redonda e sorridente da Lua surgir, rodeada por rios de fogo. Um violento aguaceiro abateu-se sobre a aldeia, transformando a neve em lama e exaltando os ânimos do povo, levando-os ao delírio. O rosto da mestra da Arte Obscura pairou sobre a face aterrada de Freya, denunciando a forma abominável da sua essência. Enquanto a jovem clamava de horror, as mãos encarquilhadas da feiticeira deslizaram pela sua testa, pelos seios, até ao ventre; os lábios mirrados bramindo palavras que carregavam sombras de perdição.

Freya sentiu as forças abandonarem-na e pendeu nos braços dos seus algozes. A visão enevoava-se... A audição distorcia-se... Como se envolvida pelas malhas perversas de um pesadelo, foi incapaz de reagir quando a ergueram no ar. Combatendo a inconsciência, percebeu que a transportavam, até sentir o corpo repousar numa superfície macia e seca. Depois, uma porta bateu... E os brados dos Vândalos e a veemência da tempestade afastaram-se da sua percepção atormentada.

Durante algum tempo, nada aconteceu. Por entre os olhos semi-cerrados, Freya discerniu o brilho quente de uma lareira. Os estalos da madeira que o fogo consumia eram trompas de alarme a massa­crarem-lhe a mente. Porém, não tinha ânimo para se mover. O medo e a luta contra os seus captores haviam-na esgotado. Jazia inerte, sobre mantas de lã perfumadas com essências que lhe invadiam o nariz, incendiavam o sangue e queimavam a carne... Aos poucos, esse ardor incômodo ajudou-a a contrariar a inação. Ergueu-se sobre um braço e os seus olhos esbugalharam-se de horror, ao verificar que um homem alto e magro abandonava a obscuridade onde se ocultara, até se deter em frente da lareira; as vestes negras contrastando com o brilho escarlate das chamas que o envolviam numa aura flamejante.

— A rainha ordenou-me que fosse rápido... — A voz grave de Snari cingiu Freya qual mortalha sufocante. — Era seu desejo que estivesses desacordada no instante em que eu te subjugasse. Tencionava poupar-te, para que as recordações não te levassem a rejeitar a criança que se formará no teu ventre. Contudo, eu tenho outros planos! Quero-te bem desperta, rameira viquingue... Bem consciente de tudo o que se irá passar! Nos últimos dias, sonhei com o momento em que estarias à minha mercê... Em que o teu corpo se contorceria sob o meu, renegando a união. Em que o teu olhar me imploraria para parar. Em que a tua voz carpiria por misericórdia...

— És um monstro! — cuspiu Freya; o desprezo assimilando o medo.

Lentamente, Snari começou a avançar. Apreciou o rubor que inundava as faces da mulher que o encarava com um misto de temor e desafio; as labaredas de ódio que se acendiam no olhar verde. Sem pressa, ajoelhou-se diante do corpo debilitado e levou os dedos aos caracóis negros que lhe cobriam os ombros e o peito, antes de responder:

— Sim, miserável... Sou um monstro! O ser mais terrível e impla­cável que caminha sobre a Terra! E esta noite tu experimentarás o meu poder!

— Não te darei o prazer que almejas! — mastigou Freya, sus­tentando o olhar do príncipe. — Não me ouvirás suplicar! Não me ouvirás gritar...

— Ai, não? — Os dedos compridos e magros enterraram-se nos cabelos da presa, até alcançarem o pescoço. Mal lhe tocou, a energia que a animava extinguiu-se e a jovem caiu para trás, arquejando em busca de ar. — Quem pensas que és, loba prateada, para me arrostar? Farás o que eu quiser! E eu quero ouvir-te uivar!

Snari prostrou Freya sob o seu peso, com um urro selvagem. Sem vestígio de compaixão ou pudor, rasgou-lhe o vestido e expôs-lhe os seios. Todavia, em vez de desfrutar da visão luxuriante das formas firmes e rosadas, cerrou as mãos na garganta da rapariga com um ímpeto assassino; as unhas dilacerando a pele macia quais garras, ao mesmo tempo que libertava a magia obscura da sua essência com uma exaltação alucinada.

Freya sentiu a energia do carrasco penetrar-lhe a carne e gelar-lhe o sangue, sem alento para afastá-lo. Snari esquecera a missão que a sua rainha lhe atribuíra e só rosnava:

— Grita! Grita! Uiva, maldita!

A funesta essência cortava quais lâminas, causando uma dor indescritível; um martírio que ganhava consistência, subia e concen­trava-se na garganta de Freya, forçando-a a abrir a boca, exigindo escapar-se sob a forma de um berro ensurdecedor. Apelando à razão que lhe restava, a jovem cerrou os dentes e estrangulou a respiração dentro do peito. A magia que vivia no seu sangue podia não ser rival para a de Snari... Contudo, ainda assim, seria sua aliada! Deixar-se-ia tombar no esquecimento, muito antes de ele alcançar o seu intento.

— Grita, cadela! — rugia agora o vândalo, enlouquecido de raiva. — Grita ou juro que te mato!

Ao perceber que a consciência da vítima se desvanecia, libertou-lhe o pescoço e forçou a magia negra a recuar. Frustrado, agarrou um punhado de cabelos e arrancou a cabeça da jovem da almofada, desferindo-lhe um par de bofetadas que ecoaram pela cabana... e encobriram o estrondo da porta que se abria. No instante em que o punho de Snari se preparava para aumentar a violência da agressão, duas mãos fecharam-se sobre os seus ombros, ao mesmo tempo que uma voz trovejava:

— Sai de cima dela, animal!

O corpo do vidente voou pelo ar, como se não tivesse peso, e esmagou-se no chão. Atordoado, piscou os olhos, sem acreditar no que estes lhe revelavam. Helgi encontrava-se diante dele, rubro de ira, bufando de indignação. Como era possível? Por trás do seu odiado primo, ocultava-se a sombra da irmã gêmea. Helga era a mentora dessa calamidade... Bastava de humilhações! Essa noite, Snari teria a sua vingança! Era tempo de os irmãos escolhidos pelos deuses mergulharem nos confins do submundo!

— Cuidado, Helgi! Não deixes que ele te toque...

Tarde demais! O vidente saltou com a velocidade e a eficácia de uma fera, tombando sobre o primo e arrastando-o na queda. Surpreendido pelo ardor aguerrido do homem que sempre fugia quando o uso da força era exigido, Helgi caiu, prostrado sob o corpo ossudo. Então, Snari apertou-lhe o pescoço e cuspiu o seu rancor:

— Desde criança que sonho com este momento! Onde estão os deuses que te concederam a sua graça, Espírito da Escuridão? Por que não té açodem? Também eles se submetem ao meu poder!

Helgi sacudiu a cabeça; a ira fundindo-se com o assombro. O discurso do primo só podia significar uma coisa: Snari enlouquecera! Furioso, agarrou-lhe os pulsos e contrariou o seu arrebatamento, obrigando-o a erguer-se sem sequer se esforçar. O vidente parecia cada vez mais desvairado. Mirava-o com olhos arregalados. Abria e fechava a boca como um peixe prestes a sufocar. Enterrava as unhas nas suas mãos, como se acreditasse ser possível suplantá-lo com arranhões. De repente, desatou a praguejar:

— Cai! Desfalece! Verga-te ao meu poder, maldito!

Impaciente, o guerreiro empurrou-o para longe com um bramido que estremeceu a cabana. Snari cambaleou e caiu sobre o traseiro, ganindo de raiva. Sem acreditar que o seu ataque falhara, levantou-se de um salto e tornou a investir, berrando como um possesso. Helgi rangeu os dentes e, com uma rapidez impressionante, lançou o punho ao rosto do primo. Este rodou sobre si próprio e embateu na parede, sob a força do impacto. Já não se levantou.

— A sua magia não te causa dano! — arquejou Helga, sem esconder o espanto e o alívio.

Porém, Helgi não a escutava. A sua atenção voltava-se para a mulher que o fixava, por trás de uma cortina de lágrimas. Freya pressionava uma manta contra o peito e ofegava, tremendo como uma folha entregue à fúria do vento. O guerreiro deu um passo na sua direção, sem saber o que dizer ou fazer...

Nesse instante, a rainha Aesa irrompeu pela cabana.

Freya apertava a manta entre os dedos, incapaz de suster o tremor que a invadia. Piscou os olhos, para se libertar das lágrimas e fixar com clareza o guerreiro por quem se apaixonara, há muitos anos, e que acreditara jamais tornar a ver. Helgi continuava a ser um homem robusto... No entanto, perdera a luz que outrora o fizera rutilar entre os demais. Os seus ombros dobravam-se sob o peso de uma exaustão que não era apenas física. E o rosto... O rosto estava envelhecido para a idade e marcado rudemente pelo punhal de Thora.

A lâmina da loba prateada dilacerara a face direita de Helgi, desde o maxilar até à testa, privando-o de um dos seus lindos olhos. Parte da impressionante cicatriz estava oculta por uma tira de couro preto, atada em redor da cabeça. A vista que lhe restava, de um azul celeste inconfundível, buscava-a agora, preenchida por uma violenta comoção. Nesse breve instante em que o mundo prendeu o fôlego, Freya interrogou-se se Helga teria tido tempo de lhe revelar a verdade... Então, a feiticeira Aesa fez a sua aparição, clamando exaltada:

— O que julgas que estás a fazer, Helgi? Como te atreves a profanar o ritual?

O bisneto encarou-a e interrompeu a altercação:

— Ouvi rumores de que a minha rainha pretende concretizar a profecia do filho do dragão. Vim reclamar o meu direito de sangue de ser o pai dessa criança.

— Ouviste rumores... — repetiu Aesa num rosnado sarcástico, voltando-se para Helga. — Vós andais a conspirar nas minhas costas!

— Não nego que mandei chamar o meu irmão — Helga inclinou-se em reverência, mas manteve a firmeza na voz. — Como sacerdotisa do povo vândalo, é meu dever defender os interesses do nosso sangue e da coroa. Helgi é o Espírito da Escuridão; o campeão da minha rainha! — O seu olhar cego virou-se para Snari, que se sentava onde tombara, espargindo uma energia púrpura tal a indignação que o assolava. — Se a profecia for concretizada por alguém... inferior, os deuses ficarão ofendidos e irão negar-nos a sua graça.

— Não vos deixeis enganar, minha rainha! — reagiu Snari intem­pestivamente. — A única vez que Helga agiu por sua iniciativa foi para envenenar o rei Vestein contra vós! E Helgi jamais deixaria a sua heróica caçada e atravessaria os Pântanos Nebulosos, de regresso a casa, sem um motivo bastante forte!

— É verdade, Helgi... — sibilou Aesa, arrastando as palavras, enquanto destruía a distância que a separava do bisneto e mergulhava no olhar azul. — Ainda que a justificação de Helga faça sentido, a tua presença aqui obriga-me a cogitar... Por que abandonaste a tua missão e arriscaste enfrentar a minha ira, para tomares o lugar de Snari neste ritual?

— Por ódio! — respondeu o guerreiro, sem pestanejar. — Esta mulher marcou o meu corpo e o meu espírito... Chegou a minha vez de retribuir! Demando de vós a oportunidade de servir o meu povo, enquanto sacio a fome de vingança.

— Helgi mente! — acusou Snari, erguendo-se a custo. — Ainda há pouco atacou-me como um louco, tentando proteger a escrava!

— Como te atreves? — fremiu Helgi, ameaçador. — Por que defenderia uma mulher que me humilhou? O único mentiroso aqui és tu!

— Minha rainha... — recomeçou Snari, mas Aesa interrompeu-o:

— Chega de discussão! A Lua sobe no céu e o filho do dragão tem de ser gerado. Após o cumprimento da profecia, eu indagarei dos motivos de cada um, para que nada do que aqui se passou fique por explicar. Agora, deixem-me decidir...

— Não há o que decidir! — estrebuchou Snari, agitando os punhos na direção da bisavó. — Vós concedestes-me o direito de me deitar com a escrava! Ides voltar com a palavra atrás?

Helga fechou os olhos e suspirou de alívio. A sua frieza e o domínio de Helgi haviam sido recompensados. Com esta explosão, o primo acabara de comprometer a sua causa. Aesa já bravejava:

— Como te atreves a questionar-me, Snari? Eu sou a senhora do destino dos Vândalos! Eu determino o que é melhor para o meu povo! Além disso, se desejasses cumprir a profecia tão ardorosamente como reclamas, terias feito o que é devido muito antes de Helgi te inter­romper! — Voltou-se para o Espírito da Escuridão e sentenciou: — Apesar de já me teres decepcionado mais do que uma vez, devo admitir que continuas a ser o melhor entre os meus herdeiros. Estou disposta a ceder ao teu apelo, com uma condição.

— Tudo o que a minha rainha quiser — respondeu Helgi irrefletidamente.

— Se, por ódio, és capaz de superar a aversão ao sangue viquingue, deveras fazer o mesmo para me aprazer — retornou a feiticeira, implacável. — Estou farta das tuas desculpas para fugir ao casamento! Se te deitares com a escrava esta noite, desposarás Gríma na próxima lua cheia. — Sorriu triunfante, ao ver o bisneto empalidecer. — Agora, se esta imposição te desagrada, sai da cabana, para que Snari conclua o ritual!

Helga reteve o fôlego. Não previra essa complicação! Esperava que o irmão mantivesse o discernimento, ou tudo estaria perdido e a jovem viquingue seria abandonada à mercê dos caprichos de Snari.

Helgi apertou os maxilares e cessou de respirar. Tinha de con­centrar-se no seu objetivo e esquecer o resto. Por entre a comoção, distinguia os soluços atormentados de Freya, que aguardava a sua resposta. Soprou o ar com força e aquiesceu:

— O desejo da minha rainha é a minha vontade!

Muito poderia ter sido declarado de seguida, mas o urro animalesco de Snari mergulhou a cabana em silêncio. O vidente saiu desembestado, incendiado por um ódio capaz de derreter glaciares. Ciente da fragilidade da sua vitória, Helga não tardou a segui-lo. Aesa ainda se deteve, fitando o seu herdeiro com uma expressão grave, antes de acrescentar:

— Não te distraias! O tempo da magia esgota-se...

Quando a porta se fechou atrás da feiticeira, Helgi libertou um gemido de dor. Incapaz de se conter, deixou-se cair ao lado da mulher que amava e tomou-a nos braços, buscando os lábios trêmulos para um beijo carregado de paixão. As lágrimas de ambos misturaram-se; os corpos derretendo-se no calor da proximidade. No instante em que se apartaram para recuperar o fôlego, Freya acariciou a cicatriz profunda que lhe marcava a face, balbuciando:

— A Helga contou-te? Não fui eu...

— Freya! — atalhou ele, silenciando-a com a ponta dos dedos.

— Enquanto aqui estiveres, serás a loba prateada! Jura-me que tudo farás para sobreviver... — Ao vê-la hesitar, elevou o tom de voz:

— Jura!

— Eu juro — soluçou a jovem, estremecendo. — Mas tenho medo...

Helgi calou-a com um beijo que a fez esquecer o perigo que enfrentavam. Nada mais importava, além do sentimento que lhe enchia o peito. Dia após dia, durante os duros anos de separação, Freya repetira a si própria que morreria feliz se tivesse oportunidade de abraçá-lo uma vez mais. Agora que o reencontrara, só pensava em viver... Viver para amá-lo! Viver para vê-lo acalentar Thorson...

De súbito, o corpo másculo ficou tenso. Assustada, ela procurou o olhar azul, apelando:

— Helgi...

— Luta comigo! — ordenou o guerreiro com firmeza, deixando-a estupefata.

— O quê...?

— Luta comigo! — repetiu, com uma urgência quase desesperada. Só então Freya sentiu o que a percepção de Helgi já alcançara. Aesa deixara a cabana... Todavia, a sua essência erguia-se sobre eles como a sombra maligna e implacável da morte. Vinha certificar-se de que a sua vontade era cumprida... Confirmar que o arrebatamento do Espírito da Escuridão resultava realmente do ódio e não de um propósito escuso, como Snari insinuara.

Os olhos de Freya tornaram a encher-se de água, quando os braços poderosos de Helgi a subjugaram e as mãos fortes lhe afastaram a roupa com rudeza... Esse não era o momento de recordar, de desfrutar do amor que acordava no seu peito e encontrava resposta no olhar do homem que escondia o rosto nos seus cabelos. Tinha uma dura batalha pela frente! Uma batalha que não podia perder... Por si, por Helgi... Por Thorson!

No instante em que as lágrimas lhe ruíram pelas faces, a jovem viquingue começou a debater-se contra o ardor crescente do príncipe vândalo.

 

As estrelas fulgiam em tons de branco, amarelo, azul e vermelho. Depois, surgiam cintilações verdes, laranja, violeta... Por fim, as cores misturavam-se para originar reflexos aos quais o conhecimento humano nunca atribuíra nome. Estes cobriam-me como chuva e colavam-se à pele; dissolviam-se na água.

Eu flutuava no líquido morno de um sonho maravilhoso. Bolhas de ar estalavam junto ao meu corpo; cada uma com o poder de sarar. Por vezes despertava submersa, observando aquela estranha realidade através da cortina aquosa. Os meus pulmões estavam cheios de água mas, ainda assim, respirava livremente. Teria mor­rido? Não! Contudo, também não me sentia viva. Estava... suspensa. O tempo era-me indiferente. Se não fosse pelas estrelas resplan­decentes, julgaria ter recuado até ao instante em que aguardava no ventre da minha mãe pelo momento certo para nascer. Até escutava as batidas de outro coração... Ou seria o eco do meu? Pouco importava! De bom grado passaria a eternidade mergulhada naquela harmonia.

Não existiam dias nem noites nesse sonho. A medida que a cons­ciência regressava, questionei se o meu corpo teria perecido, deixando a mente cativa da essência da Lágrima do Sol. De que outra forma podia justificar as cores brilhantes, o calor ameno... a serenidade absoluta?

Então, num desses intervalos de tempo indeterminado, a dor fulminou-me. O meu ventre ardia como se fosse alimento para uma fogueira. Queria respirar, mas o sangue que me inundava a boca sufocava-me. Estava a morrer... E eu não queria morrer!

Gritei e consegui escutar o meu clamor. Dei por mim rodeada de água, esbracejando freneticamente, numa luta desesperada para não me afogar. A luz que até então me acalentara tornava-se agressiva, cegava-me de tão rutilante. No âmago desse desespero, senti-me presa e debati-me com um ardor efêmero. O meu corpo estava dormente, massacrado, como se todos os ossos tivessem sido esmagados. Ainda assim, estrebuchava em busca de ar. O aperto que me impunha a imobilidade fortaleceu-se. O mundo rodopiou. As luzes separaram-se da água. A água pairou sobre os meus olhos. Comecei a enjoar sem controlo; um líquido viscoso jorrando-me em cascata dos lábios... Não era água. Não era sangue. Seria, talvez, uma mistura de ambos e de algo mais; uma substância negra, com laivos esverdeados, sabor a fel e cheiro pútrido.

Quando a náusea cessou, fiquei vazia. A luta para respirar por entre as golfadas de vômito deixara-me esgotada. A força que me condicionara os movimentos já somente me amparava. Sem alento para reagir, percebi-me desfalecida contra um peito robusto... O peito de um homem! Havia conforto e segurança nessa sensação, como se um halo protetor me abrigasse de todo o mal. Essa era a impressão que o meu pai me transmitia, sempre que me abraçava.

Obriguei-me a abrir os olhos.... Todavia, em vez do azul celeste do olhar do jarl Throst, deparei com o verde luminoso de uma floresta exuberante de vida... E a ansiedade de um rosto que me era tão familiar como a minha própria essência. Num fôlego de agonia, as recordações afloraram-me à mente, dilacerando-me a razão. Eu queria voltar para a tranqüilidade do esquecimento, onde nada nem ninguém me poderia magoar! Apelei ao alento que me restava para cerrar os olhos. Recusava-me a acordar! Não suportava sofrer mais! Negava a verdade... Renunciava à consciência... E abraçava o nevoeiro colorido com um alívio arroubado.

— Edwina...

Ergui a cabeça devagar, receosa do que ia descobrir para lá da dormência mística onde me refugiara. A névoa colorida afastou-se para ceder passagem a uma senhora de excelsa beleza e magia. Suspirei de alívio e sorri ao reconhecer a minha mãe. A feiticeira Catelyn retribuiu o sorriso e estendeu-me as mãos. No instante em que os nossos dedos se enlaçaram, a sua energia envolveu-me. Senti-me inundar por uma tranqüilidade restauradora... Todavia, assim que a minha mãe me conduziu para fora da bruma cintilante, sofri um sobressalto. Não fora o meu corpo que despertara, mas o espírito. Aos pés da forma brilhante da minha essência, uma mulher e um homem jaziam abraçados: Edwin dormia... Eu estava inconsciente.

Ainda que subjugado pelo cansaço, o meu primo estreitava-me com firmeza, mantendo-me imóvel sobre a pedra polida que reinava no centro de uma lagoa animada por milhares de bolhas de ar quente, de modo a que apenas os meus ombros e a cabeça se sustinham acima do nível da água. Prendi o fôlego, ao achar-me nua. Contudo, não tive tempo de experimentar a vergonha, pois o alvor da minha pele realçou grosseiramente a enorme ferida que me marcava o ventre. O punhal de Aesa retalhara-me do umbigo até ao peito. Eu mais parecia um animal desviscerado, pronto a servir de repasto num banquete de horrores!

— Como é possível que esteja viva? — sussurrei, perplexa.

Então, a luz que me abençoava os olhos findou bruscamente. Se não fosse o aperto da mão da minha mãe, teria gritado de susto. O eco de um cântico divino chegava-me aos ouvidos:

«Um futuro para aqueles que sonham...»

De imediato, compreendi o que a Visão tencionava revelar-me. Na escuridão opressora de uma floresta cerrada, distinguiam-se as formas de dois corpos prostrados sobre a neve. Edwin rastejava ao meu encontro... Eu agonizava, engasgada em sangue.

«Um futuro para aqueles que amam...»

Edwin puxava-me para os seus braços. Chorava compulsivamente, desesperava... mas tentava alentar-me, segurar-me à vida por mais um instante, mesmo sabendo que não havia esperança. Eu aninhava-me no seu peito, respirando a custo. Ainda recordava o esforço que fizera para dizer que nunca deixara de amá-lo e que o amaria para além da morte.

«Um futuro para aqueles que lutam...»

Edwin desenterrava o punhal do meu ventre. Eu fechava os olhos... E, nesse momento, um esplendor brotava do solo e iluminava a floresta. Quando o clarão se tornou suportável, o Rei da Lua deparou com algo que nunca vira antes: um nevoeiro colorido e quente, que se colava à pele, invadia os pulmões e restabelecia a essência. Onde há pouco só existiam árvores robustas, abria-se agora um trilho forrado de erva virgem e perfumada, ladeado por arbustos carregados de flores exuberantes. Edwin sabia o que isso significava... E não estava em posição de questionar o caprichoso destino. Ajeitou-me nos seus braços, clamando com ardor:

— Não desistas, Rainha do Sol... Eu não hei de perder-te esta noite!

E carregou-me ao colo através do caminho esplendoroso, rumo ao berço da magia da Terra. Enquanto as nossas figuras se dissipavam na névoa, a voz da minha mãe acariciou-me a mente, trazendo-me de volta à luz de outra realidade:

— As forças que governam o destino do mundo pousaram os olhos em ti. Se tivesses perecido, o Homem estaria condenado à escravidão, sob o jugo dos feiticeiros malditos.

Dentro da lagoa onde Edwin me mantinha, as bolhas de ar quente desviavam-se do seu rumo e aglomeravam-se sobre a minha barriga, adquirindo insalubres tons de amarelo, verde e púrpura, até formarem uma espuma de vurmo que flutuava ao sabor de uma corrente quase imperceptível, desaparecendo entre as rochas. Com o fôlego suspenso, depreendi que a água era responsável pelo meu restabelecimento. A sua natureza mística sarava-me por dentro e por fora. Todas as respostas surgiam diante dos meus olhos... Porém, ainda assim, não conseguia acreditar!

Catelyn da Ilha dos Sonhos alcançou-me os pensamentos e volveu:

— É verdade! Este é o coração da Montanha Sagrada; a caverna onde, um dia, o Dragão do Conhecimento repousou, enquanto a Terra enfrentava o caos... E o santuário onde a fusão da tua essência com a essência de Edwin se consolidou, no instante em que vós fostes gerados. Apesar de terdes seguido rumos distintos, a sorte uniu finalmente o Rei da Lua e a Rainha do Sol, neste berço de magia, quando o futuro do Homem se decide.

Sacudi a cabeça, atordoada.

— Mas... Como é possível estarmos aqui, se a Montanha rejeita a essência de Edwin?

Catelyn tomou o meu rosto entre as mãos, antes de contrapor:

— Terás de procurar essa resposta dentro do coração, querida! Não podes continuar a renunciar à consciência. Deves abandonar as sombras e despertar... — Beijou-me as faces, concluindo solenemente: — Enfrenta o teu destino com determinação! A jornada de Edwina, filha da Montanha Sagrada, ainda mal se iniciou.

A sua essência principiou a desvanecer-se... Tentei detê-la, sentindo-me desamparada e terrivelmente assustada. Contudo, descobri-me só, cativa de uma periclitante realidade que balançava entre a vida e a morte. A minha mãe viera ao meu encontro para me forçar a reagir. Eu não queria ceder às brumas do esquecimento, desistir, fenecer... Porém, também não possuía alento para retomar uma guerra mais do que perdida! Que futuro podia existir para a Guardiã da Lágrima do Sol e o povo que dela dependia? As pedras mágicas de Aranwen tinham caído nas garras de dois mestres da Arte Obscura. Aesa apoderara-se das cinzas da feiticeira Gwendalin... Até o cristal do Sol se perdera para o inimigo! Despertar para quê? Para descobrir que Freya morrera? Que eu negligenciara a minha missão e condenara o reino viquingue, por causa de um homem que me mentira, roubara e traíra?

Deixei escapar um soluço. Aos pés da minha essência, o corpo permanecia desacordado, mas duas grossas lágrimas escorriam-me pelas faces. Sofri um sobressalto quando os olhos de Edwin se abriram. De imediato, amparou-me junto do peito e apelou, numa voz rouca e ansiosa:

— Edwina... Estás a ouvir? Por favor, suplico-te... Acorda! Acorda, amor...

O meu coração contraiu-se. Amor? Como se atrevia Edwin a invocar tal sentimento, depois do que fizera? Eu, sim, amara-o! Amara-o para além da razão, contra tudo e contra todos. Amara-o, mesmo ator­mentada pela certeza de que ele seria o causador da minha desgraça. Bastaria que o Rei da Lua tivesse honrado o elo que ligava as nossas essências; que tivesse confiado em mim e partilhado as dificuldades com que batalhava, para que Aesa jamais saboreasse a vitória.

Talvez devido à energia curativa que Edwin me cedia, ou à indignação e desencanto que me fustigavam, senti a essência regressar à carne com um ímpeto doloroso. E abri os olhos... Sem que estivesse preparada, dei por mim a fixar o olhar verde-floresta, nua nos braços do meu primo, com a sua respiração a esbrasear-me as faces e os cabelos a cobrirem-me os seios. Engasguei-me com o ar e comecei a debater-me veementemente; a recordação da batalha que a Floresta Sombria testemunhara devorando qualquer réstia de razão que me pudesse apaziguar o espírito. Eu quase matara o Rei da Lua nesse confronto... Eu quase morrera! Escutei o meu clamor como se não me pertencesse, misto de desespero, confusão e raiva:

— Fica longe de mim!

Edwin não se moveu, demasiado surpreendido para reagir. Porém, quando a ordem se repetiu, num tom ainda mais agudo, os seus olhos escureceram e os lábios cerraram-se. Recuou devagar, como se mortalmente ferido... E mergulhou na lagoa, sem um protesto ou um queixume, deixando-me sobre a pedra, tremendo sem controlo, chorando copiosamente, torturada pelas memórias de um passado funesto... E convicta de um futuro de desesperança.

 

A água tornou-se o meu mundo. Embalava-me. Confortava-me. Restituía-me a vitalidade ao corpo e a magia ao espírito. Saciava-me a fome e a sede. A medida que as forças se restabeleciam, o nevoeiro colorido abandonava os meus sonhos. Estes eram agora povoados por imagens que desafiavam o discernimento:

Uma coluna de guerreiros percorria florestas sem fim. As suas vestes confundiam-se com os troncos das árvores e a folhagem de Inverno. O solo coberto de neve não lhes dificultava os movimentos. Eram filhos da terra, do vento, da chuva... Eram a Gente Bela.

Um menino de cabelos castanhos acobreados e olhos azuis celestes contorcia-se no chão, gritando sem parar. A senhora Doralia, nativa do Povo dos Penhascos, recorria aos seus conhecimentos místicos para lhe serenar o espírito. Porém, era inútil. O meu sobrinho Thorson lutava contra um chamamento que só ele conseguia ouvir; um apelo que eu própria testemunhara em criança, nas noites em que a minha essência viajara ao encontro de Edwin, para amenizar o seu tormento — o estridor tenebroso da Arte Obscura. Nos alvéolos de rocha negra da Ilha do Fogo, o Rei da Lua assimilara a minha energia curativa para escapar à loucura... Thorson não tinha ninguém suficientemente poderoso a. quem recorrer. Até Oriana fugia do quarto, mal as sombras se precipitavam contra o com­panheiro! O petiz só se tranqüilizava junto de Thora... Mas por quanto tempo?

O espectro maligno de Aesa elevava-se sobre a barreira de espinheiros, perscrutando a noite tempestuosa com uma sofreguidão assassina. Necessitava de almas para apaziguar a fome insaciável da sua essência. Estava demasiado fraca para rejuvenescer o corpo e seduzir os guerreiros incautos com um beijo mortal. Por isso caçava-os, usando as trevas como escudo, para, no fim, se atirar às suas gargantas qual predadora voraz, bebendo o néctar das suas vidas com arrebatado júbilo.

Sobre a copa das árvores da Floresta Sombria, os relâmpagos rasgavam o céu. Numa modesta cabana da aldeia do povo vândalo, uma jovem de longos caracóis negros e intenso olhar verde desper­tava, coberta de suores frios. Outra mulher estreitava-a... Desde criança que Freya receava os temporais. Porém, Helga entendia a sua aflição e consolava-a. As duas quedavam-se, tão próximas como se unidas por um elo invisível. Aos seus pés, um cão-lobo fixava-as com uma devoção apaixonada; as chamas da lareira refletindo-se no olhar azul cristalino... E esse sonho prosseguia, fortalecendo-se como uma Visão:

A porta da casa abria-se e Helgi, Espírito da Escuridão, entrava, solicitando a ajuda da irmã gêmea. A terrível doença que prostrava os mais jovens e fracos, de entre o seu povo, não cessava de alastrar. Desta vez, o infortúnio abatera-se sobre o lar de Delling. A viúva ainda não recuperara da perda do marido, já o seu primogênito caía à cama, delirando de febre, desfazendo-se em suor, tossindo sem parar.

Helga apressou-se a socorrer o sobrinho. Helgi deteve-se com os olhos presos na jovem viquingue que puxava as cobertas sobre o peito. O maior desejo do seu coração era abraçá-la. Porém, sabia que uma simples fraqueza arruinaria a diminuta esperança que lhes restava. Respirou fundo, derrotado, e voltou as costas à mulher que amava, sem dizer uma palavra. Assim que a porta se fechou, Freya tapou a cabeça com a manta e entregou-se novamente ao choro. Só que, desta vez, não era o medo da tormenta que a fazia soluçar.

A Visão dissipava-se... A água envolvia-me. Era o meu universo. Era a minha vida. Já não sentia dor, só dormência. Estava preparada para enfrentar a realidade, que me aguardava para lá do conforto ameno e silencioso. Estava pronta para encarar Edwin!

Despertei sobre a pedra que reinava no centro da lagoa e tive de piscar os olhos, encandeada pelo esplendor dos cristais que forravam as paredes da caverna. Nesse berço de magia, as noites e os dias da Terra perdiam o significado. A Montanha Sagrada era senhora do tempo... E mestra da nossa sorte.

Instintivamente, levei os dedos à ferida que me marcava o ventre. O único vestígio que restava da brutalidade de Aesa era uma linha avermelhada e fina. Pressionei-a, temerosa, mas não me doeu. A água sarara o meu corpo, introduzindo-se em lugares que as mãos do mais hábil curandeiro seriam incapazes de alcançar, estancando as hemorragias, limpando e restaurando as entranhas que o punhal retalhara, reconstruindo-me com uma perícia que nem a magia do Povo da Terra podia igualar.

O Rei da Lua não se encontrava ao alcance do olhar e a minha essência estava demasiado fraca para buscá-lo. Teria partido? Deparei com a sua túnica sobre a pedra e vesti-a, sem me fazer rogada, uma vez que a camisa de noite que trouxera da casa da rainha Lyria devia estar em farrapos. No entanto, Edwin enganava-se, se julgava que tal cortesia bastaria para alcançar o meu perdão! Apesar de lhe dever a vida, não me esquecia de que ele era o responsável pela desgraça que se abatia sobre nós.

Por um instante, desejei que o meu primo tivesse descido a Montanha; desaparecido para sempre... Então, vi-o surgir do interior da cascata que alimentava a lagoa, como se nascido da própria água. Um ser poderoso, belo... quase sublime! Sob o brilho dos cristais, a sua pele cintilava como se coberta de pó de estrelas. Os músculos dos braços, peito e barriga fariam inveja ao mais possante dos guerreiros. As calças encharcadas pouco deixavam à imaginação...

Cerrei os olhos e os dentes, sufocada por uma emoção que me incendiava o sangue e usurpava as forças. Não queria sentir-me assim... Não podia sentir-me assim! O desejo que Edwin despertava em mim quase me condenara à morte. Combati a exaltação que me assolava, até recuperar o fôlego. Pensar que ele estava a gargalhar de contentamento, ao verificar o quanto me perturbava, ajudava a esfriar o ardor. Todavia, quando abri os olhos, constatei que se sentara na margem e fixava a cascata com uma expressão perdida. Como podia eu libertar a ira, ante tamanha vulnerabilidade?

Deslizei para a água e as bolhas de ar envolveram-me, esgueirando-se para o interior da túnica, beijando-me a pele. Senti um prurido sobre o corte do punhal e percebi que a magia ainda não concluíra o seu trabalho. Nadei devagar, receando ser subjugada pela dor. Contudo, não tardei a assentar os pés no fundo branco e liso. Poucos passos e estava diante do Rei da Lua.

Edwin manteve os olhos no chão, parcialmente encobertos pelos cabelos compridos; a madeixa rubra flamejando entre o ouro dos caracóis molhados... E o corpo robusto mirrou sob o meu olhar, retraiu-se e estremeceu como se temesse uma agressão. Nós havíamos lutado, na Floresta Sombria, antes da aparição de Aesa. Eu derrotara-o facilmente, porque ele se negara a resistir. Só o apelo do coração me impedira de matá-lo... O mesmo malfadado apelo que, agora, me vergava as pernas e forçava a sentar.

Quedei-me em silêncio, dominando a respiração. Tinha de ser forte, ou mais valia atirar-me à lagoa e deixar-me afogar! Concentrei-me na Visão que me abalara o espírito. Freya enfrentava um perigo colossal! Urgia resgatá-la aos Vândalos... Contudo, para isso, eu necessitava de compreender o que nos estava a acontecer, a fim de definir opções. As respostas oscilavam à distância de uma pergunta... Porém, por mais que me empenhasse, não conseguia falar.

O Rei da Lua parecia igualmente estonteado. Engoliu em seco, com tamanha dificuldade que o som chegou-me aos ouvidos. O seu olhar atreveu-se a procurar o meu, enquanto murmurava num tom quase inaudível:

— Julguei que te ia perder...

Não! Não! Esse caminho era proibido! Eu devia ser fria, objetiva, dura, se queria vencer essa guerra e salvar aqueles que dependiam de mim. Impulsionada pela comoção, a voz brotou-me do âmago, carre­gada de ressentimento:

— A tua mestra fez um bom trabalho!

As faces de Edwin empalideceram e a mágoa inundou-lhe a expressão, ao replicar:

— Aesa não é minha mestra! Só cumpri as suas exigências porque não tive escolha...

— Tomas-me por parva? — retruquei, azeda.

— Tu conhece-a! Juro que tentei ludibriá-la! Na cidade do Povo da Terra cheguei a acreditar que me poderia fortalecer o suficiente para enfrentá-la e àquele demônio que a serve... Contudo, Snari descobriu o meu plano e fez-me um ultimato.

— Um ultimato? —- repeti jocosamente.

— Ele sabia que te preparavas para regressar a casa — defendeu-se, quase suplicante. — Ameaçou emboscar-te na Serra Rochosa, se eu não cumprisse as suas exigências.

— E como a Serra Rochosa é um território demasiado hostil, preferiste atrair-me para a Floresta Sombria, onde os vândalos se moveriam com maior impunidade. Assim, para além do que tinhas acordado com Aesa, ainda lhe oferecerias a Guardiã da Lágrima do Sol!

A acusação foi cortante. O Rei da Lua exclamou o meu nome, num protesto. Depois, ao verificar que nenhum dos seus argumentos me impressionava, socou a pedra do chão e praguejou:

— Raios! Eu pedi-te... supliquei-te que voltasses para trás! Por que não me deste ouvidos?

— Estás a troçar de mim? — exprobrei. — Querias que confiasse em ti, depois do que fizeste? Tu és um mestre da Arte Obscura e nunca deixarás de o ser! A maldade está enraizada na tua essência, no teu sangue... — Vi o seu olhar arregalar-se de choque e de dor, mas fui incapaz de conter o vômito de fúria que me envenenava as entranhas. — É a voz da tua mãe que te ecoa na mente, sempre que tens de tomar uma decisão! Foi para deitar as mãos às suas cinzas, que te vendeste a Aesa? O que te prometeu essa maldita? Que te entregaria o poder da bruxa que te pôs no mundo, se me deixasses à sua mercê?

— Basta! — trovejou ele, erguendo-se de um salto. — Tu não sabes o que estás a dizer! Como pude alimentar a ilusão de que... Não passas de uma menina mimada e presunçosa, tão cheia de si mesma que não vê um palmo para além da arrogância!

— O quê? — brami, levantando-me atrás dele e agitando os punhos cerrados. — Como te atreves a ofender-me? Tu, que és o maior dos mentirosos! Um ladrão! Um assassino...

— Um assassino que te salvou a pele! — fremiu com desdém.

— Só o fizeste pela oportunidade de subir a Montanha Sagrada! O meu grito ecoou pela gruta, prolongando-se até ao infinito.

O funéreo silêncio que se seguiu caiu sobre mim qual chuva de granizo, despojando-me da raiva e estrangulando-me de angústia. Eu quisera demonstrar o quanto a sua perfídia me magoara. Todavia, acabara por deixar-me subverter pelo rancor e dissera coisas terríveis... coisas que nem sequer sentia! Sem fôlego, vi o olhar verde-floresta encher-se de água. E a voz de Edwin atingiu-me como uma chicotada:

— Não tornes a dirigir-me a palavra!

Antes que eu pudesse reagir, mergulhou na lagoa. Atravessou-a com braçadas vigorosas e desapareceu por trás da cascata.

As forças abandonaram-me. Deixei-me tombar na margem, apertando a cabeça entre as mãos. Por que me sentia tão contristada, se fizera o que era devido? Não podia admitir que Edwin se aproxi­masse de mim; que me enredasse na sua sedução. Ele traíra-me e voltaria a trair-me, se a oportunidade o favorecesse. Era a sua natureza! Todavia, por mais que uma parte de mim clamasse que era impossível lançar luz sobre o negrume da essência do meu primo, a outra continuava a defendê-lo. Que execrando sentimento era esse, que me subjugava o corpo e perturbava a razão? Que me tornava fraca, mesmo ridícula, aos olhos do inimigo? Eu não queria amar o Rei da Lua! Porém, cada vez mais se afigurava que arrancar o coração do peito era a única maneira de pôr termo a tamanha maldição.

Sentia a água... Porém, também ouvia distintamente o galope dos cavalos. Abri os olhos e vi-me diante da rainha Lyria do Povo da Terra. Os guerreiros que ela liderava tinham chegado ao castelo do rei Steinarr. Os pesados portões de madeira abriam-se para conceder passagem aos aliados do povo viquingue. O rei Cyrus seguia a esposa como uma sombra; a expressão austera comprovando que esse era o último sítio onde desejava estar.

Tentei manifestar-me a Lyria quando ela desmontou. Afinal, estávamos tão próximas que podia escutar as batidas descompassadas do seu coração. O seu nervosismo era óbvio! A rainha da Gente Bela não ia apenas rever o pai do seu filho... Ia também anunciar o desaparecimento de duas princesas da casa. Essa era a minha oportu­nidade de lhe dizer que estava bem e pedir que concentrasse os seus esforços no resgate de Freya. Porém, por mais que apelasse; por mais que estendesse o braço ao seu encontro, não conseguia declarar-lhe a minha presença. Será que a fraqueza que me prosternava impedia a minha essência de se revelar?

Esforcei-me por chamar a atenção de Lyria, até temer que a perseverança me esgotasse e condenasse a recuar, antes de testemunhar o que ia acontecer. Nessa estranha existência, que se dividia entre o sonho e a realidade, vi o príncipe Ivarr avançar para receber a soberana. A afável troca de cortesias não ocultava a apreensão que constrangia ambas as partes. Ao lado do rei-lobo, Thora lutava contra a ansiedade. O seu rosto denunciava uma aflição crescente, como se tivesse guar­dado, até ao último instante, a esperança de que Lyria lhe traria boas novas. Essa expectação acabara de se finar.

O rei Steinarr recebeu Lyria na sala de reuniões, acompanhado exclusivamente por Ivarr e Thora, em resposta à solicitação da rainha para que a sua conversa fosse resguardada dos ouvidos dos demais. Comportou-se como um cavalheiro, inclinando-se respeitosamente diante de uma das poucas mulheres que o perturbavam, para, depois, lhe beijar a mão com uma suavidade estudada. Era evidente que se preparara para esse reencontro, refreando vigorosamente os seus sentimentos. O rei Cyrus manteve uma distância fria, quase desrespeitosa, guardando a porta como se temesse que alguém desobedecesse às ordens do soberano viquingue e irrompesse pela sala. Steinarr ignorou-o. A antipatia que os separava tinha raízes pro­fundas... Todavia, pelo menos por hoje, as rivalidades deviam ser esquecidas.

Os ventos selvagens que fustigavam o Norte esgueiravam-se por entre as sólidas paredes do castelo; desafiavam as chamas dos archotes e da lareira. Os seus assobios tenebrosos assombravam o silêncio do aposento. Steinarr parecia incapaz de parar de fixar a mulher alta e esguia, que o contemplava com olhos azuis de noite estrelada. As fitas prateadas que enfeitavam os longos cabelos lisos de Lyria impunham-lhe recordações pouco adequadas à sobriedade da ocasião. Por baixo da barba cerrada, as faces do rei viquingue adquiriam um tom rosado, à medida que o seu coração debelava o controlo da mente. A passagem do tempo fora generosa para com o guerreiro-urso. Steinarr ainda exibia o vigor da juventude no corpo poderoso e o ardor da determi­nação no olhar verde cristalino. Só os fios grisalhos, que se imiscuíam entre os cabelos negros, traíam a sua idade. Contudo, aos olhos da rainha do Povo da Terra, o humano continuava tão atraente como no dia em que o vira pela primeira vez.

Um som pouco lisonjeiro escapou da garganta de Cyrus, relem­brando Steinarr e Lyria do propósito da visita. Thora ousou dirigir-se à rainha, numa voz que revelava inquietação:

— Por favor, dizei-me, senhora... Como estão as minhas irmãs? Estranhos rumores têm chegado até nós, vindos do Norte. Falam da captura de uma princesa viquingue pelos Vândalos...

Os olhos de Steinarr procuraram os do filho, numa recomendação muda. Ivarr agarrou o braço da sua guerreira, obrigando-a a recuar. Contudo, Lyria não se mostrou afrontada pela audácia de Thora. Pelo contrário, fitou-a com complacência antes de declarar:

— Deixemos de lado as cerimônias, Steinarr, pois o assunto que me traz à tua presença é extremamente sério e desagradável. Como sabes, recebi Edwina e Freya na minha casa, durante algum tempo... Na noite que antecederia o seu regresso a este castelo, algo estranho aconteceu. Ao despertarmos, descobrimos que as princesas tinham desaparecido, assim como o pote de cinzas da feiticeira Gwendalin.

— O quê?

O grito de Steinarr fez estremecer as paredes de pedra e sobrepôs-se ao estrondear da trovoada. Thora levou as mãos aos lábios para conter um gemido. Sentindo o seu tremor, Ivarr desprezou o comedimento e amparou-a nos braços; a expressão rígida revelando que se preparava para o pior. Foi ele quem solicitou, ante o sobressalto do rei e o horror da guerreira:

— Continue, senhora... Nós precisamos de saber a verdade! Lyria esboçou um gesto de desalento, antes de prosseguir:

— Durante dias, os meus guerreiros perscrutaram a floresta. Não restam dúvidas de que Freya está cativa dos Vândalos. Quanto a Edwina... — A voz falhava-lhe, como se se recusasse a proferir as palavras fatais. — Lamento...

— A minha irmã está morta? — balbuciou Thora, num sussurro estrangulado.

Os lábios de Lyria apartaram-se, mas foi incapaz de falar. Todos se surpreenderam quando Cyrus interveio:

— Nós deparamos com vestígios de sangue, na fronteira com a Floresta Sombria. Todavia, foi impossível determinar o paradeiro da Guardiã da Lágrima do Sol e do Guardião da Lágrima da Lua. As marcas deixadas na neve eram, no mínimo, estranhas... Juraria que se sumiram no ar!

— O Guardião da Lágrima da Lua? — inquiriu Steinarr, fixando Lyria com o cenho franzido.

A rainha recuperara a compostura e já afirmava:

— A Edwina deixou a minha cidade em perseguição do seu primo Edwin...

— O primo da Edwina está no Norte? — bradou Ivarr, dividido entre a surpresa e a indignação.

Só então a rainha do Povo da Terra se apercebeu de que muito ficara por esclarecer na mensagem que eu enviara ao meu marido. Passou a mão pela testa; o cansaço assimilando o brilho da pele alva. Pela primeira vez, senti-a decepcionada, até zangada comigo. Ainda assim, não havia censura na sua voz, quando relatou a forma como eu surgira nos seus domínios, suplicando-lhe que salvasse Edwin, após o ataque dos lobos negros de Aesa. Esse não era o momento de julgar... O equilíbrio entre as forças do bem e do mal oscilava à beira do abismo. Era premente achar uma solução para contrariar a vantagem da mestra da Arte Obscura... e salvar Freya de um destino tenebroso.

Antes que a reunião findasse, a minha essência afastou-se do castelo de Steinarr. Tentei resistir à mudança, desejosa de conhecer o juízo daqueles que me eram queridos. Porém, a Visão ou o delírio que me arrastava nesse rodopio insano impôs-me a escuridão. De novo, dei por mim rodeada de água. Acreditei ter regressado à Montanha Sagrada... Todavia, descobri-me ao relento, à mercê da violenta tempestade que assolava o Norte. A água tombava do céu com tal ímpeto, que quase me arrancava a pele. E, ao meu lado, encharcada até aos ossos, tremendo sem controlo e respirando aos borbotões, encontrava-se Freya.

«Quem me dera que a Edwina estivesse aqui!» — Pensava, por entre lufadas de agonia. — «A minha irmã saberia o que fazer.»

Fora o seu apelo que me guiara até à aldeia dos Vândalos. Freya estacara diante de uma das habitações viradas para o terreiro. A chuva apagara os archotes e as trevas engoliam com voracidade o fogo dos relâmpagos. As rajadas de vento chicoteavam o corpo frágil da minha irmã, empurrando-a para longe da porta. Choros e gritos ecoavam, vindos do interior da casa, quase sempre abafados pelo ribombar dos trovões.

«A Edwina saberia o que fazer!» — Tornou, sem me pressentir a um passo de distância. Tal como sucedera junto de Lyria, a minha essência era incapaz de interferir nas revelações da Visão.

Apreensiva, decidi investigar o que se ocultava por trás daquela porta, que tanto angustiava Freya. Deslizei através da madeira, qual alma penada de um conto sombrio, e penetrei numa sala decorada com tapeçarias de cores festivas, onde cada ponto confirmava a devoção e o rigor da mão que o bordara. Todavia, há algum tempo que a alegria se apagara no olhar da dona da casa e as suas mãos pouco mais faziam do que enxugar lágrimas. A jovem de cabelos e olhos cor de mel não sorria desde que a morte do marido fora anunciada. Agora, era o seu primogênito que se finava, sem que ela nada pudesse fazer para salvá-lo.

Um rapaz pouco mais velho do que Thorson jazia sobre a arca de madeira que, um dia, o pai entalhara com belas cenas de caça, enrolado em cobertas manchadas de suor. Os cabelos acobreados colavam-se à testa e os olhos azuis celestes fixavam o teto, delirantes de febre. Entre cada fôlego, os lábios inchados e gretados entreabriam-se, e o corpo sacudia-se penosamente, deixando escapar arrepiantes sons guturais. A sua debilidade era tão extrema, que já nem tinha forças para tossir. Ao seu redor, um grupo de mulheres carpia como se lhes estivessem a arrancar a pele. Só duas continham as emoções: uma, a jovem ruiva que cingia os ombros da mãe do enfermo, confortando-a; outra, a vidente que se inclinava sobre a criança.

Helga tentava que o sobrinho bebesse o chá que ela preparara, mas o pequeno não reagia. Os seus olhos fechavam-se, derrotados. A mãe agitava os braços e soluçava de aflição. Um coro de guinchos desvairados sobrepunha-se ao seu pranto. No âmago dessa confusão, um homem emergiu das sombras da parede, apelando alarmado:

— Helga...

A vidente fechou os olhos cegos e respirou fundo. Os seus ombros descaíram, quando respondeu ao irmão gêmeo:

— Sinto muito, Helgi! Fiz tudo o que estava ao meu alcance!

— Não! — gritou a mãe do petiz, tentando lançar-se em frente para abraçá-lo. — Os deuses já me tiraram o Delling! Não podem levar o nosso filho...

Helgi interferiu, puxando a cunhada contra o peito. Nesse preciso instante, a porta abriu-se e uma figura franzina e encharcada fez a sua aparição.

Todos os rostos se viraram para Freya. Uma mulher ruiva, com olhos de mar açoitado pela tempestade, destacou-se das restantes, sacudindo os punhos e vociferando:

— O que faz essa rameira aqui? — E, antes que alguém reagisse, acometeu sobre a minha irmã, que só conseguiu entaramelar:

— Eu posso ajudar o menino...

As suas palavras transformaram-se em gemidos de dor. A mulher que a sujeitava apelou à robustez do corpo fenomenal para lhe ferrar os dedos nos cabelos e sacudi-la como se fosse uma boneca de trapos, enquanto rugia:

— Vieste contemplar os frutos da tua obra, bruxa? Pois vou ensinar-te...

— Chega, Halldora! — A voz de Helga rasgou o ar, paralisando a agressora. — As ordens da rainha foram claras. A prisioneira não deve ser molestada!

Halldora! Quantas histórias eu já escutara acerca da maldade daquela mulher? A irmã do sanguinário Gunnulf devia estar a delirar de satisfação, por o caprichoso destino lhe ter concedido a oportuni­dade de pôr as garras em cima de uma filha da sua odiada Catelyn. Temi que ignorasse a ordem da princesa... Contudo, libertou os caracóis negros e empurrou Freya com desprezo, rosnando:

— Um dia hei de banhar-me no teu sangue traiçoeiro! Não sossegues no sono... Eu sou paciente! — Encarou as mulheres que a observavam, mudas de pasmo, e acrescentou: — Foi assim que a mãe desta cadela entrou na casa do grande Gunnulf, com passos suaves, palavras mansas... A escrava que tinha o poder de curar! Eu entreguei-lhe a minha confiança; tratei-a como uma irmã... Quando dei por mim, já me tinha roubado o noivo, destruído a harmonia da minha família e envenenado o povo da Terra Antiga contra o seu líder. Se hoje os Vândalos vivem confinados a esta aldeia, sob o ferro de um tirano que se intitula rei do Norte, vendo os filhos perecerem de fome e de doença, podem agradecer a Throst e Catelyn! — Como se isso não bastasse, ainda se voltou para Helga. — A rainha ficará satisfeita por saber que a bisneta favorita se certifica do cumprimento da sua vontade. É pena que, em outras ocasiões, não tenha sido assim! Não é verdade, princesa? Será que esta súbita dedicação à rainha não é um pretexto para dissimular uma cumplicidade com a prisioneira?

— Basta, Halldora! — A voz de trovão de Helgi fez as mulheres saltarem de susto. — Não admito que questiones a lealdade da minha irmã! Põe-te daqui para fora, antes que tenha de te recordar que também és uma escrava em solo vândalo.

A hedionda criatura berrou de raiva, mas retrocedeu assim que o Espírito da Escuridão ameaçou um passo. Na sala erguia-se um burburinho de espanto e indignação. Diante do olhar relampejante de Helgi, Halldora rodou nos calcanhares e saiu, deixando a porta escancarada; a chuva que caía em torrente do céu, inundando o chão. As outras mulheres reuniam, agora, coragem para protestar. Impa­ciente, o príncipe vândalo enxotou-as para a rua:

— Chega de confusão! Se estes são os últimos instantes do meu sobrinho, que desfrute deles em paz! Fora! Fora!!!

Uma jovem afrontou-o, fixando o seu olhar como se não o temesse:

— Começo a acreditar que a minha mãe tem razão, quando afirma que essa maldita te enfeitiçou, na noite em que se deitaram juntos para cumprir o ritual. De que outra forma se explica a tua irrascibilidade? Sabes que te amo, Helgi... E tenho suportado muitas humilhações, chorado miríades de lágrimas em nome desse amor! Porém, garanto-te que não permitirei que a história da minha mãe se repita conosco! Essa escrava não se há de intrometer entre nós dois, nem que eu tenha de matá-la e ao vosso bastardo...

— Helgi! Não!

O brado de Helga deteve a mão do guerreiro, que se projetava contra o rosto da rapariga. A vidente puxou o irmão para trás, enquanto apelava:

— Vai para casa, Gríma... Por favor, não piores as coisas! A outra dardejou-a com o olhar, retrucando acusadora:

— Não precisas de fingir que te preocupas comigo, Helga! Sei perfeitamente que é por tua causa que o Helgi tem vindo a adiar o nosso casamento. Mas o teu domínio acabará na próxima lua cheia! — E com a voz pejada de ira voltou-se para a dona da casa, rematando: — Põe a cadela viquingue na rua, Sissa, antes que os deuses te castiguem por receberes tão abominável criatura sob o teu teto!

E dito isso saiu, batendo com a porta.

O Espírito da Escuridão respirou fundo várias vezes, antes de encarar Freya e arguir:

— O que fazes aqui? Viste o sarilho que armaste?

A minha irmã suportara com valentia a agressão de Halldora e o rancor de Gríma. Porém, diante da reprovação de Helgi, lançou as mãos ao rosto e desatou a chorar. Helga puxou-a para os seus braços, exprobrando:

— Não a ouviste? Ela lançou-se às feras para ajudar o Brunn! O mínimo que podes fazer é louvar a sua coragem.

— Helga! — mastigou o irmão em tom de aviso, recordando-lhe que não estavam sozinhos. Porém, a viúva de Delling não parecia intrigada pela simpatia que a princesa devotava à escrava. Ao invés, o seu olhar expressava uma ansiedade suplicante, ao indagar:

— É verdade que essa rapariga pode salvar o meu filho?

— Ela herdou o dom de curar da sua mãe — respondeu Helga com convicção. — A maleita de Brunn evoluiu para além da ajuda das ervas ou da minha magia. Não sei se Freya conseguirá salvá-lo, Sissa... Mas, neste momento, não perderemos nada se a deixarmos tentar.

Era impossível dizer se a viúva de Delling estava mais assustada com a idéia de ver o primogênito finar-se ou de depositar esperanças numa inimiga. Contudo, acabou por se afastar e ceder espaço à minha irmã, numa prova de confiança.

Freya fitou Helgi de esguelha, com o ressentimento declarado no olhar verde, antes de se aproximar do pequeno. A respiração descompassada do príncipe denunciava a violenta comoção que o abalava. Após uma luta sem tréguas para se acalmar, também ele deixou a casa.

A minha irmã hesitou quando a porta bateu. Porém, logo de seguida, forçou-se a esquecer os dilemas do coração e dedicou-se à sua Arte, com uma mestria e devoção que não conheciam rival. Durante algum tempo observei-a a instruir Helga e a viúva de Delling. A pró­pria vidente surpreendia-se com a mistura de ervas que Freya preparava, esmagava e espalhava sobre o peito nu da criança. Quando repousou as mãos sobre a papa verde e esta começou a brilhar, espargindo uma cintilação branca que se fundiu com o corpo mori­bundo, Sissa soltou uma exclamação de perplexidade e encanto... E Helga sorriu. Não demoraria para que os olhos do pequeno príncipe se tornassem a abrir.

 

Acordei sozinha sobre a pedra no centro da lagoa. Edwin devia continuar para lá da queda de água, recolhido no que eu imaginava ser outra gruta. Será que a saída para o exterior se fazia através de uma passagem existente naquele lugar? Não me apetecia confirmá-lo. Esgotaria as restantes possibilidades, antes de tornar a defrontar o Rei da Lua.

Enrolei a túnica com cuidado para observar o ventre. Apesar de bastante melhor, o ferimento ainda não sarara. Há quantos dias a Montanha me guardava no seu seio? Pelo menos os suficientes para o Povo da Terra escrutar a floresta, tirar as suas conclusões e viajar até ao País dos Viquingues. Era incrível como me sentia saciada, apesar de não comer nem beber desde a última vez que me sentara à mesa da rainha Lyria. Obviamente a caverna albergava um poder fenomenal! Eu devia explorá-la e desvendar os seus segredos. Tinha de descobrir uma forma de regressar ao castelo do rei Steinarr e salvar Freya do jugo de Aesa.

Ao nadar em direção à margem, recordei a Visão que me perturbara o sono. Fora um alívio verificar que a minha irmã des­frutava da proteção de Helga e Helgi. Se a rainha feiticeira lhe impusera que se deitasse com o Espírito da Escuridão, era porque ainda ignorava que a profecia do filho do dragão já se concretizara! Tal bafo de sorte permitia-me acreditar que, pelo menos por agora, Thorson se mantinha em segurança. Porém, também significava que Freya estava novamente grávida! E isso não era uma boa notícia, pois colocava um troféu colossal nas mãos da mestra da Arte Obscura.

Ao meu redor, formações reluzentes como lágrimas de estrelas pendiam do teto e elevavam-se do solo, desafiando a imaginação e extasiando o olhar com a sua beleza. No passado, eu já visitara esse berço de magia, em sonhos secretos. Todavia, nenhum deles corres­pondia à dura realidade. Edwin e eu jamais seríamos felizes aqui ou em qualquer outro lugar! As trevas que habitavam a sua essência acabariam sempre por corromper-lhe a razão. Engoli as lágrimas, enquanto tateava cada palmo da rocha salpicada de cristais coloridos, que deslumbravam com o seu esplendor... No entanto, por mais que buscasse, por mais que palpasse e esgaravatasse, nada descobri que indiciasse a existência de uma passagem dissimulada. A saída para o cume da Montanha Sagrada não se localizava nessa galeria. E isso só podia significar...

Virei-me para a cascata, desgostosa. Não me restava outra opção, senão entrar no covil de Edwin! Então, as minhas entranhas revol­veram-se. Num estalar de dedos, a água cessou de cair; simplesmente secou perante o meu olhar, deixando um enorme buraco a descoberto. A sua agradável melodia pairou no ar, resultado do eco que as rochas devolviam... e calou-se. A caverna encheu-se com um silêncio profundo, atemorizador. E esse vazio opressivo trouxe-me a certeza de que algo estava errado. O meu primo encontrava-se para lá do conforto da luz, envolto pelo negrume da bruma...

Subitamente, um grito carregado de dor deteve o meu coração.

Trepei pelas rochas, até chegar à cavidade que a Montanha revelara, bradando em resposta a Edwin. A passagem estava preenchida por uma escuridão impenetrável. Porém, não tive de me esforçar para me habituar à ausência de claridade. Mal os meus pés se atreveram ao primeiro passo, as paredes do túnel de pedra incendiaram-se.

Vacilei e quase caí, tal o horror. De imediato, ergui defesas contra o calor e o fumo sufocantes. Dir-se-ia que entrara no estômago de um vulcão! Era como reviver a minha infância; os dias em que buscara Edwin na Ilha do Fogo, para amenizar o seu sofrimento. Só que, dessa vez, não era a minha essência que enfrentava a flamas. Era o corpo! E o Rei da Lua não me aguardava com um sorriso nos lábios e a esperança no olhar... O meu primo estava a ser devorado pela rocha candente.

O poder de Edwin era insuficiente para combater as línguas de lava que o envolviam, arrastando-o para o interior do braseiro. Não havia como sobreviver a tamanho martírio! As suas forças extinguiam-se, mais rápido do que o raciocínio. Quando tornei a apelar e me precipitei em seu socorro, ele clamou:

— Não, Edwina! Volta para trás!

Ignorei-o e continuei a avançar, tão rápido quanto a dor permitia. Esse inferno era produto da magia da Montanha. Porém, não deixava de ser letal! Eu tinha de esquecer a minha natureza humana e ser apenas feiticeira. De outra forma, pereceria antes de alcançar Edwin. A sua carne ardia diante do meu olhar. Os cabelos tinham desapa­recido... Agarrei-o e tentei puxá-lo para fora da rocha. O Rei da Lua usou os braços para me afastar; a pouca força que lhe restava declarada nos movimentos débeis e na voz que se desvanecia:

— Este é o meu destino, não o teu... Salva-te...

— Não saio daqui sem ti! — rugi, conseguindo resgatar-lhe os ombros para, no instante seguinte, perdê-los de novo.

— É tarde...

— Luta, Edwin!

— O mundo precisa de ti...

A sua voz extinguiu-se. Os dedos de fogo envolviam-lhe a garganta. Os olhos verde-floresta cintilaram só para mim, uma última vez. Depois fecharam-se. E as chamas começaram a descer-lhe pela testa. Os seus braços penderam nas minhas mãos... Ia perdê-lo! E eu não suportaria perdê-lo! O Rei da Lua era... Era parte de mim! Sem ele, a minha vida não fazia sentido! Eu podia viver longe de Edwin... Mas seria incapaz de viver sem Edwin!

— O mundo precisa de nós dois! — retruquei com toda a convicção. E mergulhei atrás dele.

Os meus braços penetraram na lava; os dedos cerrando-se em redor do pescoço de Edwin. Senti a rocha cingir-me e esmagar-me qual espartilho de flamas. Ignorei a dor e a minha mente envolveu a do Rei da Lua, entregando-lhe a única mensagem que interessava:

«Amo-te...»

O seu corpo estremeceu de encontro ao meu... Será que ainda possuíamos carne e ossos? Ou seriam as nossas essências que se fundiam? Podia jurar que escutava os nossos corações, batendo em uníssono, enquanto a energia de Edwin se misturava com a minha, até cessar de existir uma Rainha do Sol e um Rei da Lua. Nós éramos um único ser; uma só consciência. Éramos luz e obscuridade, pulsando ao mesmo ritmo. E, nesse momento de excelsa perfeição, um coro celestial atravessou o infinito, arrastando-nos no remoinho da sua magia:

«Um futuro para aqueles que sonham; Um futuro para aqueles que amam; Um futuro para aqueles que lutam...

Vara que aqueles que sonham, amam e lutam possam tocar as estrelas.»

De repente, estávamos a cair. Já não havia fogo. Já não existia rocha. A água juntava-se a nós nessa queda no abismo e sustinha os nossos corpos. Mergulhamos numa vastidão morna e suave. Rodopiamos por entre bolhas de ar quente... E o cântico divino findou.

A melodia da cascata que alimentava a lagoa mágica acariciava-me os ouvidos. Como era possível? Sustive-me sobre um braço, respirando a custo. Estava deitada em cima da pedra que me guardara nos últimos dias... Com Edwin ao meu lado!

Vi-o escancarar os olhos, manifestando igual assombro. Levou as mãos à cabeça, ao peito, ao ventre, libertando sopros de perplexidade; a mesma perplexidade que me deixava muda e paralisada. Edwin não exibia um arranhão e o seu cabelo estava intacto, assim como as nossas vestes.

— Será... Será que sonhei? — tartamudeou, dando voz à primeira questão que me assaltara.

— Se foi um sonho — arquejei —, eu também o sonhei!

A sua mão trêmula tocou-me numa madeixa de cabelo. Não me afastei e os seus dedos deslizaram-me pela face, numa carícia quase desesperada. Mais parecia que sentia necessidade de se certificar que a mulher diante de si era real! E, antes que eu pudesse extrair um significado daquela loucura, Edwin puxou-me contra o peito e beijou-me, como se desejasse mergulhar dentro de mim e tocar o meu coração. Correspondi com arroubo. De certa forma, era bom que a nossa magia estivesse esgotada, pois, se o poder que nos tornava Rainha do Sol e Rei da Lua se manifestasse, seria de­vastador.

— Meu amor... — murmurou, enquanto recuperava o fôlego. — Minha vida...

Escondi a cabeça no seu pescoço e abracei-o. Não me podia consentir um pensamento. Se o fizesse, teria de me afastar... E não queria afastar-me! Queria inspirar o perfume dos seus cabelos, assimilar o calor do seu corpo, imaginar que, de alguma forma, o nosso amor era abençoado... Que nenhum acontecimento infausto tornaria a erguer barreiras entre nós.

Estava tão enlevada, tão perdida em sensações, que me sobressaltei ao verificar que Edwin chorava. Afastei-me para encará-lo, julgando que a realidade se abatera sobre a sua consciência. Porém, quando lhe fixei o olhar, constatei que a causa da sua perturbação não era o estranho incidente que, há pouco, nos subjugara. O motivo de tamanha comoção era um cristal de forma redonda e brilho negro translúcido, que repousava ao nosso lado, em cima da pedra, como se ali tivesse sido cuidadosamente pousado por uma mão divina.

A Lágrima da Lua regressara ao seu Guardião!

O quarto de Thora era um simples aposento de soldado, com uma fresta exígua por onde a débil luz do Norte apenas espreitava. A minha irmã dormia sobre uma tábua suspensa na parede, enrolada em mantas de lã singela, e guardava os seus haveres numa arca de madeira, talhada pelo nosso pai. Em cima desta, encontrava-se uma toalha e um jarro de água. O seu escudo e armas estavam encostados à parede, à distância de um gesto rápido. Não havia tapeçarias, esculturas, castiçais ou qualquer tipo de ornato nesse recanto privado. A única coisa bela que saltava à vista repousava cuidadosamente sobre um banco — a pele prateada da loba que a guerreira matara na noite da sua iniciação.

Dominada pela estranha forma de consciência que se dividia entre a Visão e o sonho, vi o olhar da minha irmã abandonar a fres­ta, quando três pancadas sacudiram a porta. Respirou fundo e observou a entrada de Ivarr em silêncio, tentando escrutinar para lá da solidez da sua expressão. O rei-lobo fechou a porta atrás de si e encarou-a, sem dizer uma palavra. No fim, foi Thora quem cedeu à ansiedade:

— Fala, Ivarr! O que resolveu o rei Steinarr? Vamos marchar contra o reduto dos Vândalos?

Ele passou a mão pela testa e a sua voz denunciou cansaço, ao replicar:

— Sem a magia da Edwina somos impotentes perante os espinheiros... Além disso, tememos que a feiticeira não hesite em matar Freya, se se sentir ameaçada.

— Quer dizer que não tencionais fazer nada? — indignou-se a guerreira.

— O meu pai enviará alguns homens à Floresta Sombria, a fim de indagar das intenções de Aesa e tentar negociar a libertação de Freya.

— E tu vais liderá-los?

— Não — Ivarr frustrou a sua expectativa, com firmeza. — Nós não sabemos o que a feiticeira planeia... Ainda creio que a captura da tua irmã foi um percalço do destino e que os Vândalos desconhecem o seu valor. A minha presença denunciaria a nossa agonia e prejudicaria Freya. Vamos agir com cautela! Talvez se consiga resolver esse impasse sem que haja derramamento de sangue. O meu pai nomeou um dos seus melhores generais para a missão... E eu concordei. Acho que, atendendo às circunstâncias, foi a decisão correta.

A loba prateada soprou e agitou os punhos, objetando angustiada:

— E se a bruxa se recusar a soltar Freya? E se pretender transfor­má-la numa criatura decrépita, sem vontade própria, como fez com o Magnor?

Ivarr retraiu-se, lembrando-se das atrocidades infligidas ao seu irmão. Depois, sacudiu a cabeça e argumentou:

— Devemos guardar a esperança de que tudo se resolverá pelo melhor! A rainha Lyria acredita que Helgi e Helga manterão Freya a salvo da feiticeira. Bem sei que eles são nossos inimigos, mas até a Edwina os tinha em elevada consideração.

Thora estremeceu e fixou os olhos no chão, tentando ocultar a dor ante a incerteza do meu destino. O desejo de abraçá-la declarava-se em cada traço do rosto de Ivarr. Porém, continha-se, temeroso de que o seu carinho fosse considerado inoportuno ou até mal interpretado. Não queria que Thora julgasse que ele tencionava ganhar vantagem, aproveitando-se da sua vulnerabilidade. Acabou por esboçar um gesto de impotência e murmurar, tomado pela emoção:

— Daria a vida para te poupar a este sofrimento!

A minha irmã suspirou e tocou-lhe levemente na face, replicando:

— A tua perda seria o meu fim.

A respiração de Ivarr alterou-se. Levou a mão à dela e pressionou-a, sussurrando:

— Amo-te tanto, minha loba! Mais do que sou capaz de colocar em palavras ou expressar por gestos.

— Eu sei — respondeu a guerreira com a voz embargada. — Sinto o mesmo.

Ivarr libertou uma exclamação abafada e estreitou-a. Eu quase podia ouvir os seus pensamentos; a culpa que os destroçava por dentro... Eram incapazes de desfrutar do amor que os unia. Cada um à sua maneira achava que o assumir desse sentimento fora a bola de neve que iniciara a avalanche que nos esmagava. Se eu lhes conseguisse falar, diria que estavam profundamente enganados. No meio de tantas adversidades, a paixão do rei-lobo e da loba prateada era a única coisa certa e pura; talvez a última esperança que restava ao nosso povo.

— A Edwina está bem — afirmou Thora subitamente.

— Deveras? — indagou Ivarr, fitando-a ansioso. — Ela manifes­tou-se, de alguma forma?

— Não — contrapôs a guerreira. — Não sei explicar... É algo que sinto!

— Mas, como? — O rei-lobo abanou a cabeça, confuso. — Por mais encantada que a Edwina estivesse pelo vosso primo, jamais permitiria que Freya se mantivesse prisioneira dos Vândalos! Regres­saria a casa...

— Talvez não possa regressar! — interrompeu Thora, refletindo. — Talvez esteja ferida... Afinal, o rei Cyrus descobriu o seu sangue na floresta. Contudo, tenho a certeza de que está viva! Se não comunica conosco, é porque a sua magia se esgotou no confronto com Aesa.

Perante isto, eu jamais tornaria a questionar o poder de intuição da minha irmã guerreira! Ivarr voltava a estreitá-la, asseverando:

— Tomara que tenhas razão... Tomara!

A loba prateada permitiu-se repousar a cabeça no seu peito. Ivarr esboçou um sorriso triste e beijou-lhe os cabelos com ternura. O momento estava longe de ser perfeito... mas era quanto bastava para confortar os seus corações.

As marés revoltas da Visão enrolaram-me na sua obstinada determinação. Não resisti. Quem sabe se, dessa vez, Freya não se aperceberia da minha presença? Talvez eu pudesse avisá-la da intenção do rei Steinarr... Constatar que o soberano viquingue planeava abordar Aesa com prudência era um alívio! Tal como Ivarr alegara, sem a proteção da minha magia o seu exército seria presa fácil para os espinheiros assassinos. Um ataque precipitado ao reduto da rainha feiticeira resultaria na morte inglória de dezenas de guerreiros. Só negociando com os Vândalos, Steinarr resgataria Freya. Ainda assim, não obstante a sua argúcia, eu duvidava que a bruxa aceitasse libertar a minha irmã.

Freya continuava à cabeceira do primogênito de Delling, velando o seu sono. As cores do rosto do pequeno revelavam que, embora debilitado, se encontrava livre de perigo. Ressonava baixinho, num gemido dolente que despertava a vontade de amimá-lo no colo e cobri-lo de beijos. Helga cedera ao cansaço e adormecera com a cabeça pousada na cama. A dona da casa também se rendera ao mundo dos sonhos. Dormia, sentada num cadeirão, com o filho mais novo aninhado nos braços. Quando o primeiro brado rasgou a noite, só a jovem viquingue o escutou.

Os olhos da minha essência viram Freya levantar-se com uma expressão alarmada. Não teve de aguardar muito, para que o grito de cruciante dor se repetisse. Horrorizada, vi-a afastar-se da cama e caminhar pé ante pé, até à porta. Tentei detê-la, quando pôs sobre os ombros a capa mágica que a rainha do Povo da Terra me oferecera. Eu sabia perfeitamente o que aquele alvoroço significava. Aesa, mestra da Arte Obscura, estava a alimentar-se... E não desejava, de forma nenhuma, que a minha irmã presenciasse tamanha abominação! No entanto, mais uma vez falhei no esforço de me manifestar. Logo Freya perscrutava a noite gélida, antes de se aventurar no terreiro.

Não havia sentinelas na rua. Para quê privar os guerreiros do sono, se ninguém era capaz de trespassar a proteção mágica que circundava a aldeia? O fogo dos poucos archotes que ainda ardiam provocava a fúria do vento. A neve que cobria o solo era tão espessa, que engolia as botas de Freya. No entanto, ela avançava, intrigada por verificar que mais ninguém saía de casa a fim de indagar o que se passava. Hesitou, ao constatar que os apelos provinham do covil da feiticeira. Tive esperança de que tomasse consciência do perigo que corria e voltasse para trás. Porém, a minha irmã prosseguiu, sem pensar que a sua curiosidade era um desafio à morte.

A cabana de Aesa destacava-se das demais pela sua grandiosidade. Eu já estava tão indignada com a iniciativa de Freya, que acreditei que ela seria tola ao ponto de empurrar a porta e arrostar a feiticeira. Contrafeita, vi-a rodear a casa, em busca da origem dos gemidos de pungente martírio. Depois, colou o nariz às tábuas de madeira para espiar através de uma fresta... Recuou abruptamente, levando as mãos aos lábios e mal contendo um grito. O seu corpo tremia convulsiva-mente, tal o horror que a assaltara. Não obstante, engoliu em seco e tornou a espreitar, no momento em que outro berro arrepiava a escuridão.

No quarto da rainha, um homem jazia num leito de sangue... ou os despojos do que outrora fora um homem! Os seus braços tinham sido esticados e as mãos amarradas à cabeceira da enorme cama. Estava nu e a sua magreza era tão extrema, que os ossos pareciam prestes a furar-lhe a pele. O seu peito ostentava cortes profundos, como se lacerado pelas garras de um falcão. Os cabelos grisalhos brilhavam à luz da lanterna, encharcados em suor. E o vermelho escuro e pegajoso que o cobria destacava ainda mais a cor cinzenta luminosa do seu olhar — o único vestígio que lhe denunciava a identidade. Ao lado do infeliz, a mestra da Arte Obscura rutilava, exibindo uma expressão de puro deleite, que lhe rejuvenescia a face encarquilhada. O seu corpo banhara-se no sangue do amante e agora rendia-se à languidez da paixão consumada.

A minha irmã apreendeu a hedionda visão, num fôlego de incomensurável terror. As suas pernas bambolearam e o estômago contraiu-se em agonia, forçando-a a dobrar-se sobre si própria... Então, sem que nenhuma de nós o pudesse prever, uma sombra deixou as trevas e saltou sobre ela, capturando-a e arrastando-a para longe da casa.

Demasiado apavorada para reagir, Freya foi carregada pelos braços da noite, sufocada no próprio enjôo. Não conseguia respirar. Não conseguia ver nem ouvir nada, além do coração que lhe ribombava dentro da cabeça. A forma colossal que se movia como o vento levou-a através do povoado, até que, por fim, os seus pés tocaram novamente o solo. De imediato, tombou de joelhos e libertou o vômito. Duas mãos fortes sustiveram-na, impedindo-a de se prostrar na neve. Por entre as lágrimas de aflição, a minha irmã distinguiu o azul intenso do olhar de Helgi... E percebeu que estava em apuros. Mal recuperara o fôlego já ele a sacudia, mastigando um sussurro exasperado:

— Estás assim tão desejosa de morrer?

Extenuada, ela levou os dedos aos lábios doridos, enquanto gaguejava:

— Magnor... Era o Magnor!

— Quase deitaste tudo a perder! — cortou o guerreiro aspera­mente.

— Ela esquartejou-o! Bebeu-lhe o sangue!

— Fazes idéia da sorte que tivemos na outra noite, por escapar ilesos àquele ritual torpe?

— Como é possível tamanha perversidade... ?

— Seria o teu sangue que a rainha beberia, se te tivesse apanhado! Falavam ao mesmo tempo, sobrepondo as palavras, atrapalhando-se na respiração, misturando argumentos. Freya engasgou-se, estrangulada pelas lágrimas. Helgi prosseguiu, movido por uma inquietação distinta da sua:

— O que te passou pela cabeça, para deixares a guarda da minha irmã?

A rapariga engoliu em seco, enfrentando-o a custo:

— Tu sabias o que estava a acontecer! Não te importas...?

— Os apetites da rainha não me dizem respeito!

— Mas aquilo é... odioso, bárbaro, repugnante...

— Freya — Helgi deteve-a, envolvendo-lhe o rosto entre as mãos e respirando fundo para dominar a ira. — Magnor deitou-se naquela cama de livre vontade, depois de ter traído o seu povo e cuspido no nome do próprio pai. Só tem o que merece! Por minha vontade, há muito estaria morto!

— Nem o mais vil dos traidores merece sofrer assim! — contestou a minha irmã, transtornada.

— Meu amor... — suspirou o guerreiro, estreitando-a contra o peito. — És tão pura, tão inocente! Quero resguardar-te desta provação... Porém como conseguirei, se insistires em desafiar a sorte? Ninguém questiona Aesa e vive para se vangloriar da ousadia! Ninguém!

A jovem entregou-se ao seu calor, murmurando angustiada:

— Dói-me o coração de pensar que terás de te unir à tua prima, por minha causa!

Helgi beijou-lhe os cabelos, replicando sobriamente:

— Não te apoquentes! Existem destinos piores do que desposar Gríma...

Talvez não tenha sido as suas palavras, mas a forma como as proferiu, que incitou o ciúme da minha irmã. Reagiu intempes­tivamente, empurrando-o e resmungando zangada:

— Compreendo! Realmente há sinas menos ditosas do que desposar uma mulher bonita, disposta a tudo para ganhar os teus favores!

— Freya! — protestou ele, tentando retê-la. — Não foi isso que eu quis dizer...

Porém, a rapariga tornou a estrebuchar e Helgi deixou-a partir. Ficou a vê-la entrar na casa da viúva de Delling, com uma expressão perdida. Por mais voltas que desse à cabeça, não descortinava uma solução para aquele impasse. E eu continuava aprisionada pela vontade da magia, incapaz de ajudá-los.

Edwin girava a Lágrima da Lua entre as mãos, como se não acre­ditasse que o cristal tornara à sua posse.

— Achas que foi um teste? — indagou subitamente. — Terá a Montanha decidido submeter-nos a uma prova extrema, para nos avaliar?

Talvez ele estivesse certo! De que outro modo se justificava o sucedido? Depois de quase termos perecido, devorados pela rocha ardente de uma gruta que durante dias se revelara gélida e sombria, havíamos despertado sobre a pedra onde nos sentávamos, sem uma beliscadura ou um fio queimado nas roupas. Até os cabelos de Edwin, que eu vira desaparecer sob as flamas, estavam brilhantes, uma tentação para os dedos...

Deparei com o seu olhar sorridente e baixei o rosto, corando até à alma. Perante o meu desconforto, o Rei da Lua apertou-me a mão, murmurando:

— Sei que não posso remediar o que fiz... Porém, estou arre­pendido! Devia ter-te procurado assim que cheguei ao Norte, em vez de me submeter à chantagem de Aesa. Todavia, o meu maior erro foi não partilhar a verdade contigo e com a rainha Lyria. Tu terias ficado furiosa, mas acabarias por me desculpar. E Lyria ter-me-ia ajudado.

— Sim! — concordei, num tom mais frio do que o necessário. — Ela acreditava em ti.

— Mas tu não! — constatou, gravemente. — Sempre viste através de mim!

— Se assim fosse, não estaríamos aqui! — repliquei, mordaz. Edwin suspirou, antes de afirmar:

— Logo que deixemos a Montanha, pedirei perdão à rainha do Povo da Terra. Imagino que Aesa queira o pote para assimilar o poder das cinzas... Contudo, se nós os três unirmos forças, havemos de destruí-la!

— Para isso, a Montanha terá de nos libertar! — contestei, pungente.

A caverna mágica estava em permanente mutação. Por trás da esplendorosa cortina de água da cascata, erguia-se agora uma parede de pedra lisa como a que forrava o fundo da lagoa. A gruta onde Edwin se refugiara após a nossa discussão, prenhe de trevas ou de fogo, desaparecera sem deixar rasto.

— Por que questionas a boa vontade da Montanha? — interpelou o Rei da Lua. — Durante anos, eu vivi na exclusão desta magia, clamando de raiva porque o acesso à Pedra do Tempo me era negado. Porém, no instante em que te finavas nos meus braços, a floresta ganhou vida. Um trilho estendeu-se diante dos meus olhos e a luz que brotava do interior da terra guiou-me até aqui. Esta água recebeu-nos! Sarou o teu corpo. Apaziguou o meu espírito... Mesmo quando voltei a ter dúvidas; quando questionei se valeria a pena lutar contra o lado negro da minha essência, a Montanha recordou-me de onde vim... E comprovou a solidez do nosso elo! Porque, apesar da tua revolta, foste incapaz de me abandonar à morte, ainda que ciente de que partilharias o meu destino!

Tentei deter o seu discurso e esfriar-lhe o ardor; silenciar as palavras que me tocavam o coração. No entanto, Edwin ignorou-me e pros­seguiu:

— Tu seguiste-me até ao submundo e arrastaste-me de volta à luz. Ofereceste-me uma nova vida, quando toda a esperança se perdera! A minha alma está curada, Rainha do Sol... E a prova está aqui! — Exibiu a Lágrima da Lua, com uma expressão deslumbrada. — Agora, só tenho de me prostrar diante da Pedra do Tempo e orar para que o Guardião da Montanha reconheça o meu poder.

Tal seria maravilhoso, não só para Edwin, mas para todos os que sustinham o estandarte do bem. Admitia que ver a Lágrima da Lua entre os seus dedos era o maior dos prodígios! Contudo, apesar de o meu coração estar rendido, a mente continuava a questionar cada um dos seus gestos, palavras, sorrisos e intenções. O Rei da Lua era um mestre de manipulação...

— Amo-te, Rainha do Sol!

A sua declaração esbarrou nos meus pensamentos e trouxe-me lágrimas aos olhos. O sobressalto foi tão violento, que Edwin se apossou das minhas emoções. O seu semblante ensombrou-se, tomado por uma tristeza profunda que se refletiu na voz, ao replicar:

— Tu não acreditas que a Pedra do Tempo esteja disposta a conceder-me a sua graça... Perdeste a confiança em mim!

Incapaz de encará-lo, fechei os olhos e as lágrimas rolaram-me pelas faces. Quando tornei a abri-los, Edwin era a imagem da desesperança. Estávamos tão próximos... No entanto, parecia que nunca estivéramos tão apartados. Era como se uma barreira invisível separasse as nossas essências... Não! Eu já sentira essa dor antes e por nada no mundo queria voltar a experimentá-la! Antes que a consciência me subjugasse os sentidos, inclinei-me sobre ele e cedi ao mais premente dos meus anseios.

Os meus lábios tocaram os de Edwin, numa carícia suave, numa súplica de entrega. Porém, em vez de corresponder, ele recuou. A sua respiração transformou-se num arquejo gorgolejante, como se estivesse a sufocar. E os seus olhos encheram-se de luz; tornaram-se o meu mundo: verde-floresta, verde-esperança... verde-vida! Soltei um gemido de antecipação, quando as suas mãos se fecharam nos meus braços, atraindo-me para mais perto, forçando-me a mergulhar no seu olhar, enquanto avisava roucamente:

— Não faças isso, se não tiveres a certeza do que queres! Tentei responder-lhe, mas descobri-me sem voz. Escutava o troar descompassado do seu coração... do meu coração. Como se animada por vontade própria, a minha mão ergueu-se ao encontro do seu rosto. E Edwin não me deteve. Os seus músculos estavam tensos... Todavia, reprimia-se, ostentando um controlo extraordinário; um domínio que eu estava longe de igualar! Os meus dedos afloraram-lhe os lábios e deslizaram pela face, delineando a curva firme do maxilar, apreciando a textura da barba, afundando-se nos seus cabelos... Subitamente, fui atraída contra o peito másculo e quase gritei quando as suas mãos se enterraram na minha nuca, impedindo-me de mover, aprisionando-me no verde-paixão.

— Diz-me, Edwina! — exigiu sem cortesias. E eu rendi-me com um suspiro arrebatado:

— Quero-te... Quero-te!

Os seus lábios cobriram os meus e o nosso sangue transformou-se em fogo líquido. Não havia um pingo de gentileza no seu toque ou no seu beijo. Apenas uma fome louca; uma necessidade arrasadora. Bradei dentro da sua boca, enlouquecida pelo desejo. As nossas essências fundiam-se a uma velocidade vertiginosa, como se a magia que partilhávamos tencionasse consumir-nos, para renascer como energia pura. Era maravilhoso... Era demasiado! Fora esse arrebata-mento que nos roubara a consciência, no castelo viquingue. E eu não queria desmaiar!

— Edwin... — apelei extasiada.

O Rei da Lua compreendeu a súplica e obrigou a sua magia a recuar, lenta e dolorosamente. Eu imitei-o, até debelar a feiticeira que vivia em mim; até tornar-me apenas mulher... Uma mulher nos braços de um homem! Já conseguia sentir os contornos do seu corpo, pressionando-me contra a pedra, o calor das mãos, a ternura dos lábios, a doçura da língua, o mel da saliva... os nossos corações batendo como um só.

Acariciei-lhe os ombros largos, os músculos firmes das costas e do peito, deleitando-me com o calor úmido da sua pele. Um incêndio violento devorava as florestas do olhar de Edwin... E a madeixa rubra que rasgava a harmonia dourada dos seus cabelos deslizava-me pela face, qual animal esquivo, buscando abrigo na curva do meu pescoço. Não resisti a envolvê-la entre os dedos... E o corpo do Rei da Lua saltou como se varado por uma espada. A sensação foi tão intensa que o fez gritar, atiçando-me ainda mais. Enrolei a mão na seda escarlate e puxei-a com determinação, buscando o seu olhar. A expressão de Edwin era arrebatadora! Um sorriso enfeitava-lhe o rosto abrasado pelo desejo... Um sorriso que misturava o ardor de um macho convicto de ter a fêmea à sua mercê, com a felicidade de um menino que realiza o maior dos seus sonhos e o respeito de um homem, ciente de que a mulher nos seus braços não é sua escrava, mas sua companheira.

— Não voltarei a perder-te, Rainha do Sol! — arquejou. E apossou-se dos meus lábios, tragando-os com sofreguidão. As mãos fortes cobriram-me os seios, afagando-os sobre a lã da túnica, fazendo-me arquear o ventre em delírio. Só o tecido rude das suas calças impedia a nossa união. Rugi, contrariada, e iniciei uma luta com o nó que as cingia. Os nossos beijos refletiam a impaciência que nos inflamava. Por fim, Edwin tentou ajudar-me... E, na veemência do nosso esforço, acabamos por rolar pela pedra, caindo desamparados dentro da lagoa.

Engoli água e principiei a asfixiar, confundida pela turbulência resultante dos nossos movimentos e das bolhas de ar quente, sem noção de onde ficava o fundo e a superfície. A luz espalhava-se ao meu redor, trespassava-me a mente, devorava-me os sentidos. Nesse instante de alucinação em que nada parecia real, a voz límpida de Thora chegou-me aos ouvidos:

— A Edwina está aqui!

Diante do meu olhar, as partículas de luz principiaram a sobrepor-se, até ganharem cores e as cores definirem formas. Divisei claramente o tempestuoso céu do Norte, a exuberante Pedra do Tempo... o rei-lobo e a loba prateada. Tentei gritar; combater a estranha energia que me paralisava. Mesmo à minha frente, Thora asseverava:

— Tenho a certeza absoluta!

— Se a Edwina estivesse na Montanha, não nos responderia? — objetava Ivarr, pousando-lhe as mãos nos ombros para confortá-la.

— Mas eu sinto a sua presença! — replicava a minha irmã, angustiada. — É como um apelo mudo, que me ressoa dentro da mente e arrepia...

— O que tu sentes é conseqüência da ansiedade que te rouba o sono — contrapôs o príncipe, sobriamente. — Tens de te acalmar ou ficarás doente!

— Ivarr...

Ele calou o seu protesto com firmeza:

— A Edwina desapareceu! E, por mais que nos doa, tudo leva a crer que...

— Não! — vociferou a loba prateada, sacudindo-o. — Não te atrevas, sequer, a insinuar que a minha irmã está morta!

— Thora...

— A Edwina está viva! — Rodou sobre si própria, clamando com estridor: — Edwina! Edwina, por favor, responde!

«Thora!» — bradei. No entanto, nenhum som rasgou o ar. Pisquei os olhos e vi-me novamente rodeada de água, incapaz de respirar. Então, duas mãos determinadas arrastaram-me para fora da lagoa. Debati-me, numa última tentativa de me agarrar à Visão. Depois, comecei a tossir; a tossir sem parar, até sentir o peito rasgar-se.

— Está tudo bem, meu amor — dizia o Rei da Lua.

— Não, não está! — refutei, entre soluços. — A magia da Montanha impede a minha essência de se manifestar!

— A Montanha deve ter as suas razões, Edwina! — retorquiu, amimando-me contra o peito. Não resisti. Necessitava de sentir o seu calor para confirmar que estava viva. No centro de tamanha loucura, começava a questionar a minha própria sanidade.

— Tenho tido Visões — confessei, frustrada. — A Freya está viva, mas corre grande perigo. Precisamos de salvá-la de Aesa...

Detive-me abruptamente, ao verificar que o incluíra na minha intenção. Fixei-o, apreensiva, mas Edwin não escondia a satisfação pela oportunidade de partilhar da minha vida. Deixou a cabeça pender até as nossas testas se encostarem, declarando:

— Aconteça o que acontecer, não tornarei a decepcionar-te! Eu já escutara essa promessa dos seus lábios...

O Rei da Lua afastou-se o suficiente para me encarar, prosseguindo com solenidade:

— Lamento que Freya esteja a sofrer por minha culpa. Jamais me perdoarei, se lhe ocorrer algum mal! Disseste que tens tido Visões... Queres partilhá-las?

Comecei hesitante, mas a confidencia aliviou o fardo que me vergava os ombros.

— Temo pela Freya — concluí. — Ela é ingênua e impulsiva... Não resistirá às armadilhas da feiticeira. E a filha de Halldora não me engana! Jamais admitirá que Helgi assuma um bastardo. Mal o seu casamento seja consumado, conspirará com a mãe para se livrarem da minha irmã.

Edwin inclinou a cabeça, franzindo o cenho.

— Essa Halldora... Já não esteve noiva do teu pai?

Estremeci, só de recordar os tormentos que Catelyn da Ilha dos Sonhos enfrentara às mãos daquela mulher desprezível.

— Sim... Mas essa história é muito longa e complicada.

— Conte-me, por favor! — volveu ele. — Se quero entrar na casa do meu pai de cabeça erguida, como é sua vontade, é bom que conheça o passado da nossa família.

Respirei fundo e não disfarcei a ansiedade, ao interrogar:

— Serias mesmo capaz de começar de novo? Edwin susteve o meu olhar, respondendo:

— Não me resta outra opção, se quiser ficar ao teu lado. E nós não nos tornaremos a separar... Isto é, se tu assim o desejares!

Corei ligeiramente e um sorriso subiu-me aos lábios.

— Depois do que aconteceu, ainda duvidas? O meu primo manteve-se sério, ao revidar:

— Eu não ponho em causa o teu afeto, Edwina. Todavia, preciso de mais... Necessito da tua confiança! — Pousou-me um dedo sobre os lábios, impedindo-me de reclamar. — Quero que a nossa união seja perfeita, mas sei que tal só será possível no dia em que tu fores livre e o meu espírito esteja curado. Fazer amor contigo teria sido mara­vilhoso. .. Porém, agora, estaria a ser confrontado com o teu arrepen­dimento. E não seria capaz de viver com tamanho pesar.

Isso era verdade! Se tivéssemos consumado a nossa paixão, eu estaria a remoer medos e incertezas; a sentir-me miserável! Não obstante o amor que lhe dedicava, ainda não me sentia segura ao lado do Rei da Lua. Ele tinha um longo caminho a percorrer, até provar que merecia a minha confiança. Será que a magia da gruta interferira mesmo no nosso desvario, forçando-nos a mergulhar na lagoa, em vez de submergirmos na loucura dos sentidos? Talvez a apreciação de Edwin estivesse correta e o nosso afastamento da realidade tivesse um propósito! No fim, nada podia fazer, além de me sujeitar à vontade da Montanha Sagrada. Suspirei e aninhei-me no seu colo, gracejando sem constrangimentos:

— O meu pai haveria de gostar de saber que a filha está sob os cuidados de um homem respeitador!

O Rei da Lua soltou uma gargalhada, entrelaçando os dedos nos meus caracóis, como fazia quando éramos crianças. No entanto, a sua voz nada tinha de inocente, ao requestar:

— Fala-me dessa Halldora... Ou acabarei por esquecer as boas intenções e chamarei as labaredas a esse olhar de céu e de mar, que me faz perder a cabeça!

 

Sonhei com fogo. Sonhei com ferro. Sonhei com morte. Por entre as árvores cerradas de uma floresta onde as sombras imperavam, as armas dos guerreiros cruzavam-se com uma veemência letal. Em reduzido número, surpreendidos e esmagados pela violência do ataque, os Viquingues tentaram incendiar a barreira de espinheiros, de onde os Vândalos irrompiam qual enxame maligno. Porém, as flamas eram tão eficazes contra os ramos enfeitiçados quanto a água da chuva ou o sopro do vento. Um a um, os escudos com o brasão do rei Steinarr tombaram na lama e o sangue do meu povo alagou o solo. Quando os únicos sons que ecoavam na bruma eram os urros de vitória dos seus homens, o rei Raud queimou o estandarte inimigo, sorrindo altivo, enquanto as labaredas consumiam as figuras majestosas do carvalho e do falcão. A bandeira branca, hasteada para solicitar uma audiência com o soberano vândalo, sofreu o mesmo destino. Por fim, Raud aproximou-se dos cadáveres e iniciou a busca.

Entre os corpos tombados, um mereceu especial atenção. Tratava-se de um jovem robusto, cujos olhos verdes cristalinos ainda fixavam o rei com declarado ódio... Um ódio que não podia ser expresso em palavras, pois o guerreiro gorgolejava, sufocado no próprio sangue. Raud fez questão de arrancar a pele de lobo que lhe ornava as costas, num derradeiro ato de desprezo. Depois, puxou pelos seus longos cabelos negros, a fim de lhe expor o pescoço, para que a lâmina da espada fizesse um corte perfeito. O ferro rasgou o ar com um silvo mórbido... E o sangue jorrou em repuxo do tronco estrebuchante. Embriagado de poder, o rei exibiu o macabro troféu aos seus homens, antes de atravessar o anel de espinheiros.

A aldeia aguardava o soberano em silêncio. Até os guerreiros que o haviam acompanhado se detinham, expectando o desfecho de outro conflito igualmente arrasador.

— Helgi! — O rugido de Raud troou, qual prenuncio de tempestade. Poucos passos adiante, o Espírito da Escuridão deteve-se e voltou-se para encará-lo. Com um forte impulso de braço, o rei arremessou a cabeça decapitada para os seus pés, rugindo:

— Toma, irmão! Trouxe-te uma lembrança da batalha... Pendura-a numa estaca, à entrada de casa, para que jamais te esqueças de que envergonhaste o nosso povo, a tua família e o teu soberano.

Helgi olhou de esguelha para o despojo humano, sem esboçar um gesto. O seu rosto manteve-se gélido, mesmo quando a prisioneira viquingue surgiu a correr de entre a multidão, gritando aflitivamente:

— Não! Não! Ketill! Não! Porquê? Porquê?

O choro convulsivo de Freya ecoou no silêncio lúgubre, qual cometa de revolta. Assolada pelo desespero, prostrou-se na neve ao lado da cabeça do guerreiro, acariciando-lhe os cabelos pegajosos de sangue. Na sua agonia, recordava o dia em que Ketill lhe declarara um amor profundo...

— Talvez o meu rei possa explicar por que pende sobre mim tamanha vergonha? — A voz poderosa de Helgi absorveu as atenções, neutra e glacial; um claro desafio à fúria do irmão.

As faces de Raud tornaram-se escarlates sob a espessa barba acobreada, até parecer que os olhos azuis iam saltar das cavidades.

— Estás a troçar de mim? — vociferou, inflamado pela ira. — Tu questionaste a minha ordem de ataque!

— Na ausência da rainha Aesa, o rei vândalo deu a sua palavra em como escutaria a mensagem do rei viquingue e deixaria o general partir com os seus homens, em segurança — contrapôs o Espírito da Escuridão, sem um pingo de temor. — Nenhum sangue deveria ter sido derramado naquele encontro!

— Como te atreves? — Raud arremeteu em frente, mas Helgi não se desviou e acabou por ser o mais velho a recuar na agressão.

— Aqueles cães são responsáveis pela morte do nosso pai, dos nossos irmãos... Deveria tê-los deixado partir incólumes?

— A rainha ordenou que os guerreiros de Steinarr não fos­sem molestados, quando viessem negociar a libertação da escrava

— revidou o outro com convicção.

— Estás enganado! A rainha mudou de idéias, antes de partir para os Pântanos Nebulosos. — O soberano fez uma pausa, apreciando a surpresa do irmão. — Sim, Helgi! A sua vontade é acabar de vez com aquela raça maldita! E, mesmo que assim não fosse, tu deves-me respeito! Deves-me obediência! Como pode o homem que jurou jamais embainhar a espada enquanto um viquingue respirasse contestar o seu rei diante do inimigo?

— Escutaste essa nova ordem da boca da rainha? — mastigou Helgi entre dentes, ignorando a provocação.

Raud hesitou, parecendo confuso. Todavia, logo objetava:

— Não tenho de te dar satisfações! Aliás, a tua atitude só veio confirmar as minhas piores suspeitas! — O seu tom tornou-se jocoso, instigador: — Como mudaste, irmão! Jamais esperei ver o dia em que o Espírito da Escuridão, o melhor guerreiro do povo vândalo, rastejaria para se deitar com a loba prateada, uma reles assassina. A tua frieza não me engana! Foi por causa dessa rameira que porfiaste a minha autoridade...

A voz de Raud morreu-lhe abruptamente na garganta, quando Helgi destruiu a curta distância que os separava, afrontando-o olhos nos olhos:

— Que autoridade possui alguém que espezinha a sua honra na lama, ao desembainhar a espada diante de uma bandeira branca? O que fizeste foi indigno de um rei... Foi indigno de um homem! E mesmo que a ordem tenha partido da rainha, o que eu duvido, tudo o que provaste aos Viquingues foi que o soberano dos Vândalos não tem palavra!

— Basta! — ribombou Raud, possesso. — Talvez Snari tenha razão, quando te acusa de cobiçares o meu trono! Estás a planear uma traição, Helgi? Responde!

Durante algum tempo, só o assobio do vento minaz que casti­gava o terreiro encheu os ouvidos da aldeia. Helgi sentiu a raiva estilhaçar o controlo que mantinha a grande custo. Teria explodido, se a energia da sua gêmea não o alcançasse e cobrisse de serenidade. Por entre os rostos ansiosos da multidão, as faces pálidas de Helga desmereciam o alvor da Lua. A vidente estava aterrada! Contudo, aguentava-se com bravura, pois sabia que um gesto precipi­tado podia significar a desgraça dos dois irmãos... e a morte de Freya. Por elas, o Espírito da Escuridão engoliu o fel da ira, antes de volver:

— Se acreditas no que acabaste de dizer, é porque não me conheces! E eu também não reconheço em ti o meu irmão mais velho, compassivo e justo. É a vontade do rei Raud que governa o povo vândalo? Ou a voz venenosa do príncipe Snari lidera em seu nome? Se achas que sou um traidor por tentar chamar-te à razão, manda-me prender e julga-me como tal!

— O que é que se passa aqui?

Uma voz aguda ecoou pelo terreiro, com tal estridor que mais parecia que o céu cinzento, raiado de negro, se despenhava sobre a aldeia. Aesa surgiu de surpresa, seguida por Snari e os poucos guer­reiros que a haviam acompanhado na sua misteriosa empresa. O andar da feiticeira vacilava de fraqueza, mas as labaredas que lhe flamejavam no olhar afastavam quaisquer dúvidas quanto ao seu poder e malignidade. Nenhum Vândalo era capaz de manter-se indiferente diante da rainha! Algumas mulheres correram para casa. As mais afoitas esconderam-se atrás dos homens. Os guerreiros que haviam partici­pado na batalha sustiveram o fôlego. Helga avançou até Freya, antevendo uma tempestade. A jovem viquingue enrolou-se aos seus pés e abraçou o pescoço de Conselheiro, esgotada de tanto chorar. Raud e Helgi ainda se arrostavam, mas o mais velho acabou por desviar o olhar e dirigir-se à feiticeira, vomitando rancor:

— Exijo que o príncipe Helgi seja castigado por desrespeito ao rei!

— O Helgi faltou-te ao respeito? — inquiriu Aesa como se não acreditasse.

— Contestou as minhas ordens... — prosseguiu Raud. — As suas ordens, minha rainha!

A mestra da Arte Obscura quedou-se diante do bisneto que coroara rei, resmungando:

— Não irás impressionar o povo e muito menos ganhar os favores dos guerreiros, comportando-te como um rapazola choramingas e queixinhas! A que ordens te referes, afinal? E a quem pertence esta cabeça, que encontro perdida no meu terreiro?

— Ao príncipe Ketill, minha rainha — esclareceu o soberano, engolindo em seco ante a reprimenda. — O rei Steinarr enviou o sobrinho favorito, juntamente com um dos seus generais, para discutir a libertação da escrava...

— E tu mataste-o? — cortou Aesa, num tom cavernoso de péssimo agouro.

— Sim, senhora! — prosseguiu Raud, tão transtornado que nem se apercebeu do perigo. — Reguei o solo vândalo com o sangue dos nossos inimigos, como vós ordenastes!

— Eu mandei que não tocassem num fio de cabelo viquingue! — rugiu a feiticeira, agitando os punhos. — Serás tão néscio que não compreendas uma ordem tão simples? Achas que Steinarr aceitará negociar, agora que aniquilastes os seus mensageiros?

— Mas... — balbuciou Raud, assombrado; as faces passando de escarlate a cinza num estalar de dedos. — O Snari disse... Ele garantiu-me que era esse o vosso desejo!

Aesa virou-se para o vidente com os olhos em chamas. Snari era a representação da inocência; do mais profundo ultraje. Sob a observação atenta da bisavó, sacudiu fervorosamente a cabeça e objetou:

— Eu jamais faria tal coisa! Sei que a minha voz é fraca, face às acusações do rei dos vândalos, mas suplico-vos que acrediteis na minha inocência, senhora! O meu primo está a usar-me para justificar as suas falhas.

— Seu pérfido mentiroso! — vociferou Raud. E deitou a mão à espada, marchando na direção do vidente. — Vou cortar-te a língua...

— Chega! — estrondeou Aesa, tão furibunda que espargiu cen­telhas de luz púrpura.

Raud nem viu o raio cortar o ar. Apenas sentiu o efeito da sua energia flamante em todos os músculos e ossos do corpo. Caiu desamparado e ficou estendido no chão. Estava vivo... Contudo, somente devido à força do seu sangue misto.

Helga quis precipitar-se em seu socorro, mas a rainha impediu-a, bradando furiosa:

— Quem se atrever a tocar-lhe, sofrerá a mesma sorte! Estou cansada de tanta fraqueza; farta de tamanha estupidez! A partir deste instante, ninguém tomará decisões em território vândalo, além de mim! Entendido? — O povo recuou, temeroso da sua ira. A feiticeira já se voltava para o rei prostrado e determinava: — Quando este inepto acordar e conseguir montar a cavalo, irá pessoalmente diante de Steinarr impor as minhas condições.

Ouviu-se um burburinho atemorizado e apenas Helgi ousou manifestar discordância:

— Os Viquingues irão matá-lo para vingarem o que se passou aqui!

Em menos de nada, a mestra da Arte Obscura estava diante do Espírito da Escuridão, devassando-lhe o olhar com espigões de gelo, enquanto rabujava:

— Por que o defendes, se ainda há pouco exigia o teu couro? Helgi enfrentou-a, replicando:

— Raud é meu irmão.

— Por isso mesmo! — volveu a feiticeira com brusquidão. — Se os Viquingues o matarem, o reino vândalo ganhará um líder de valor!

O Espírito da Escuridão recuou, atônito. Não podia acreditar que a bisavó se expressara como se realmente desejasse a morte de Raud... só para vê-lo tornar-se rei.

Despertei banhada em lágrimas, percorrida por arrepios de horror e espasmos de revolta. Os gritos de Freya ainda me ecoavam na mente, sobrepondo-se ao clamor da minha garganta. O que fazia Ketill ao lado do general enviado pelo rei Steinarr? Há muito que o seu rosto fora marcado pelos Vândalos, não só por ser um dos guerreiros-lobo do herdeiro do trono inimigo, mas porque os Viquingues faziam questão de enaltecer o seu heroísmo, na resolução da primeira batalha que opusera Aesa ao Povo da Terra, quando, para me salvar, a sua espada derrubara Arkin, o primogênito do rei Vestein. Ivarr jamais permitiria que o primo avançasse numa missão que exigia extrema prudência e diplomacia! Como pudera, então, tamanha desgraça ocorrer?

Não tardei a descobrir que, mais uma vez, Edwin e eu partilháramos a Visão. Porém, no momento, esse fenômeno era a última coisa que me preocupava. Chorar entre os seus braços revelou-se um conforto, na turbulência do desgosto. Ketill fora um bom amigo... O seu espírito leal e brincalhão encantara aqueles que tinham tido a ventura de conhecê-lo. O rei Steinarr estimara-o como a um filho. Ivarr amara-o como se fosse seu irmão... Apesar de desfrutar de elevada popularidade entre as mulheres, o guerreiro apenas tivera olhos para Freya. Esse amor fora tão intenso e sincero que, mesmo sabendo da existência de uma paixão secreta no passado da minha irmã, não desistira de conquistar o seu coração. Quem diria que um sentimento tão nobre o condenaria à morte? Quanto mais ponderava, mais me convencia de que Ketill agira por sua iniciativa, sem o conhecimento dos companheiros.

— Tenho de sair daqui — balbuciei, estrangulada pela angústia. — Depois do que aconteceu, é inútil alimentar ilusões. A guerra irá rebentar entre viquingues e vândalos! E eu não estarei lá, para proteger o meu povo da tirania da Aesa e salvar a minha irmã...

— Vem — disse Edwin, apertando-me a mão. — Vamos procurar a saída.

Lado a lado, esquadrinhamos as paredes de rocha cintilante. Contudo, não existia uma fenda na pedra, nem prenuncio de que alguma energia mística se tencionasse manifestar.

— Não compreendo! — resmungou o meu primo, cravando os dedos nas protuberâncias dos cristais. — Tenho a certeza absoluta de que foi por aqui que entramos!

Temi que arrancasse as unhas, tal o ímpeto com que queria obrigar a rocha a ceder-nos passagem. Segurei-lhe o braço, impedindo-o de continuar. Desconhecia o que fazer para debelar a magia da gruta, mas não seria a arranhar a pedra que abriríamos um corredor para o exterior! Vi a minha desesperação refletida no olhar verde-floresta... Uma ansiedade que se foi agudizando, à medida que os dias e as noites se sucediam no mundo dos Homens, enquanto a Guardiã da Lágrima do Sol e o Guardião da Lágrima da Lua estavam cativos da vontade da Montanha Sagrada.

Apesar de vivermos sob um resplendor perpétuo, eu conseguia sentir a energia do Sol e Edwin a da Lua. O meu corpo sarara graças à água da lagoa, sem que a pele do ventre guardasse vestígios do corte desconforme. Por seu lado, Edwin também fora influenciado pela magia que nos rodeava. Surpreendia-o mais tranqüilo, mais maduro... Os fantasmas do passado jamais cessariam de atormentá-lo! Porém, aparentemente, descobrira uma forma de os silenciar.

Dia após dia falamos sobre coisas que jamais poderiam ser relatadas para lá das paredes cobertas de cristais. As confissões da mente e do coração ficariam para sempre guardadas na memória da caverna de luz, mas apartadas dos ouvidos do Homem. Por fim, eu já acreditava que nenhum segredo nos separava. O passado de Edwin, as suas moti­vações e passos arrevesados ainda me revolviam as entranhas. Todavia, compreendia finalmente a dor irracional que o movera... E admitia que também não me encontrava inocente da desventura que se abatera sobre nós. Se Edwin falhara por rancor, eu falhara por falta de fé.

Por vezes, as forças que nos atraíam manifestavam-se, sedutoras, ardentes... Contudo, não voltamos a deixar-nos tentar pela loucura dos sentidos. O nosso elo estava restaurado, mas havia algumas barreiras a superar, antes de podermos assumir um amor sem ressentimentos, desconfianças ou remorsos. Para o meu primo, o maior desafio era, sem dúvida, a conquista plena da Lágrima da Lua.

Ao partilhar com Edwin a extraordinária experiência de mer­gulhar na essência do seu cristal, confirmei que a energia que o alimentava não era adversa àquela que sustentava a Lágrima do Sol. Em tempos, a minha mãe explicara que a magia era como uma espada. A causa que a arma servia não dependia da matéria de que era feita, mas da natureza do coração daquele que a empunhava.

Durante longos anos, a Lágrima da Lua estivera à mercê de um feiticeiro negro... Porém, a sua magia não tinha de ser maligna! Na substância que distinguia a Arte Obscura da Arte Luminosa havia ensinamentos para aqueles que desejassem praticar o bem, tal como o Povo da Terra já provara.

Contudo, não obstante a minha derradeira expectativa, firmar que a Rainha do Sol e o Rei da Lua podiam ser aliados, em vez de adversários na luta contra o mal, não bastou para satisfazer os caprichos da Montanha Sagrada. Nem a mais esmerada combinação dos nossos poderes foi capaz de evocar uma saída. Entender a razão por que éramos prisioneiros na nossa própria casa decerto ajudar-nos-ia a conquistar a liberdade! No entanto, a magia primordial mostrava-se irredutível... Enquanto isso, a lua crescia por trás das cerradas nuvens negras que cobriam o Norte. E o tempo de Freya esgotava-se.

Ao acordar, avistei as flamas irrequietas de uma lareira e escutei o gemido lúgubre do vento que se esgueirava pelas fendas da parede de madeira. Sustive o fôlego, piscando os olhos para certificar-me de que estava desperta. Não havia dúvida! A cabana que me acolhia era tão real como o ar que me alimentava os pulmões. Senti a essência de Edwin pulsar ao meu lado, qual calor doce que me aconchegava. Voltei a cabeça ao seu encontro... E deparei com Freya.

Gritei instintivamente. Apesar de estar à distância de um braço, a minha irmãzinha não me ouviu. Nem sequer reagiu, quando tentei estreitá-la. Mais uma vez, a Visão impedia-me de interferir na sua sorte.

— Edwin... — apelei, assustada. E a sua voz chegou até mim, clara e segura:

— Não receies. Eu estou contigo.

Por um instante, a figura da minha irmã estremeceu como se feita de névoa. Para lá da sua realidade, vislumbrei o coração da Montanha Sagrada, onde o meu corpo repousava nos braços do Rei da Lua, sobre a pedra polida que rasgava a lagoa mágica. A nossa proximidade permitia-lhe olhar para dentro da minha mente e afirmar:

— Concentra-te, Edwina! Não permitas que a Visão se extinga... Voltei costas ao brilho resplandecente dos cristais da caverna e mergulhei na nuvem mística que ocultava a minha irmã. Freya não se movera. Estava sozinha na casa de Helga, sentada sobre as almofadas que lhe serviam de cama, cega por lágrimas de desespero. O palor das faces evidenciava-lhe as olheiras profundas, testemunho de infindáveis noites de vigília. No terreiro, o cântico de homens e mulheres com­petia com o fragor da tormenta. Era dia de festa na aldeia dos Vândalos. A rainha Aesa vestira-se de sacerdotisa e celebrava o casamento do príncipe Helgi com a princesa Gríma. Eu imaginava a satisfação da feiticeira... Finalmente, o Espírito da Escuridão vergava-se à sua vontade e desposava a prima.

De súbito, a porta abriu-se e uma sombra esgueirou-se para o interior da cabana. Freya retrocedeu, alarmada... Porém, logo o medo se transformava em horror, ante o velho decrépito que se quedava afastado da claridade da lareira.

— Magnor...

— Reconheceste-me! — articulou ele, como se tal fosse motivo de pasmo.

A minha irmã teve de respirar fundo, antes de conseguir reagir. A sua mente era assaltada pela recordação do jovem garboso que lhe estivera prometido. Os cabelos negros e sedosos, que Magnor tanto estimara, haviam-se tornado brancos e desgrenhados. O seu corpo alto e musculado era um despojo esquelético e encurvado. Contudo, os olhos cinzentos mantinham-se iguais: gélidos e determinados. Há muito que eu aprendera a não descuidar a maldade desse olhar. Em sobressalto, desejei que a minha irmã voltasse as costas ao traidor, sem lhe dar ouvidos. Porém, a generosidade do seu coração levou-a a estender a mão e a exclamar contristada:

— O que a bruxa te fez!

— Não! — silvou Magnor num tom quase doloroso, erguendo o ; braço para lhe impor distância. — Fica longe de mim...

Freya levou as mãos aos lábios, transtornada. O príncipe franziu a testa e resmungou:

— Eu não quero a tua piedade! Não desejo a compaixão de ninguém! Fiz a minha escolha... e hei de assumi-la até ao fim!

Chocada perante a sua rispidez, a jovem engoliu em seco e replicou:

— Escolha? Eu ouvi os teus gritos, na outra noite! Vi... Vi ao que ela te sujeita...

A garganta de Magnor emitiu um ruído esquisito, como se estivesse a sufocar. Demorei a perceber que se ria. Depois, a sua máscara de insensibilidade ruiu e o olhar acusou um sofrimento atroz, ao confessar:

— A rainha gosta de beber o meu sangue. Diz que é o mais doce que já saboreou! Acho que... só por essa razão me mantém vivo.

Freya abanou a cabeça, indagando horripilada:

— Porquê? Porquê, Magnor? Tu tinhas tudo...

O príncipe deteve-a com um gesto brusco, arrastando as palavras numa resposta azeda:

— Eu não tinha nada! Ivarr, sim! Ivarr tinha o carinho do nosso pai, o respeito do povo, amigos que dariam a vida por ele, sem hesitar... E o amor de Thora! Sim! O amor de Thora! Eu bem via a forma como se olhavam, mesmo antes da Caçada! Então, a feiticeira surgiu na floresta e disse o que eu almejava ouvir. Seria o seu consorte... Sentar-me-ia ao seu lado no trono e poderia vingar-me da indiferença do meu pai, da soberba do meu irmão, do desprezo de Thora... Teria os reinos vândalo e viquingue aos meus pés. E eu acreditei! Engoli as suas promessas de um só trago. Devorei a sedução, a luxúria... Até ser incapaz de respirar, se Aesa não estivesse por perto. Quando ela revelou a sua verdadeira face, era tarde. Eu já me submetia a tudo, pelo privilégio de me arrastar aos seus pés.

Freya sacudiu os caracóis negros, volvendo atordoada:

— Estás a dizer que nem sequer tentaste fugir?

— E fugiria para onde? — retrucou a miserável figura.

A resposta da minha irmã foi tão firme que me surpreendeu:

— Tu jamais deixarás de ser um príncipe viquingue! Ao contrário do que pensas, o rei Steinarr sofreu muito com o que fizeste; não por se sentir ferido no orgulho, mas por gostar verdadeiramente de ti. E o Ivarr daria a vida para te resgatar! Erraste... Não existe feitiço ou loucura que justifiquem tão vil traição. Contudo, se pedisses perdão, o teu pai receber-te-ia...

— Eu não quero o perdão de Steinarr! — contrapôs Magnor, parecendo terrivelmente cansado. — O reino viquingue nada tem para me oferecer.

— E o reino vândalo tem? Olha para ti! És um homem trans­formado em... em...

— Eu sei o que sou, Freya! Não compreendes... Amo Aesa com loucura. Não posso evitá-lo! Durante algum tempo, vivi na ilusão de que esse sentimento era uma bênção... Hoje, sei que é uma maldição.

A voz faltou-lhe, denunciando o seu abalo. Havia tantas lágrimas aprisionadas por trás do olhar cinzento, que a vida que lhe restava não chegaria para chorá-las. Surpreendi-me ao verificar que, não obstante o que julgara de início, o coração do príncipe mudara. Ele bem queria manter a aparência álgida e inexorável! Porém, a exaustão traía-o. As pernas cederam e tentou agarrar-se à parede, a fim de evitar a queda. Todavia, foi o corpo de Freya que o susteve. Eu mal podia acreditar na abnegação da minha irmã, quando se lançou em frente para ampará-lo. Se Magnor tivesse surgido diante de Thora, teria sido varado pela sua espada antes de pronunciar um som; eu ter-lhe-ia virado as costas... Mas Freya era diferente! Não obstante o que sofrerá, não existia um pingo de ressentimento no seu espírito.

Orgulhoso, o príncipe recuou, declinando o seu auxílio. A minha irmã suspirou, desalentada. Magnor deixara-se cair numa armadilha fatal! Dia após dia, noite após noite, Aesa cegara-o de paixão, enquanto o enredava nas malhas sufocantes da magia negra. Nesse momento, nem toda a dor que a feiticeira lhe pudesse infligir seria tão insuportável quanto viver apartado dela.

— Se amas Aesa, por que não me denunciaste? — interrogou Freya subitamente, levando-me a suster a respiração. — Por que não lhe disseste que a sua presa não é a loba prateada?

O príncipe encolheu os ombros, antes de retrucar:

— A tua desventura não me traria satisfação! Já carrego demasiadas mortes sobre os ombros. Sempre que fecho os olhos, as suas faces assombram-me; os berros ensurdecem-me... — Fez uma pausa, ofegando como se a recordação dos fantasmas que lhe atormentavam a consciência bastasse para gelar o sangue. Depois, o rosto cadavérico assumiu uma expressão altiva e resoluta, ao continuar: — Não posso remediar o mal que fiz... Contudo, ainda vou a tempo de impedir a destruição do reino viquingue! E, para isso, é crucial que a rainha não ponha as mãos na criança da profecia... Tu tens de fugir esta noite, Freya!

Ela fixou-o, sem acreditar no que ouvia. Poderia a estranha atitude de Magnor fazer parte de uma cilada? Porém, a expectação que se refletia no seu olhar era sincera. O espírito do príncipe estava dilacerado pela culpa, pelos remorsos; buscava veementemente um conforto, uma redenção que lhe permitisse dormir em paz. E a sua avidez por tranqüilidade era tal, que se dispunha a contrariar Aesa.

Após um instante de ponderação, a minha irmã volveu cautelosa:

— Mesmo que o ousasse, a feiticeira haveria de me capturar mal pisasse a floresta!

Magnor negou com a cabeça, rebatendo:

— Após o casamento, a rainha tenciona embrenhar-se nos Pân­tanos Nebulosos e aproveitar a influência da lua cheia para celebrar um ritual. Não sei ao certo do que se trata, mas está relacionado com o pote que roubou ao Povo da Terra. Snari e Helga serão chamados a acompanhá-la, por isso não te irão deter. Helgi estará demasiado ocupado com a sua jovem mulher... E a festa há de distrair os guardas e o povo. Não voltarás a ter outra oportunidade de escapar como esta!

Dito isto, afastou os andrajos e revelou um cristal redondo, repleto de faces que adquiriram um brilho resplandecente sob as flamas da lareira. A minha irmã deixou o queixo pender diante da Lágrima do Sol. Esboçou um gesto de incompreensão, enquanto tartamudeava:

— Como... Como foi que conseguiste... ?

— Esqueceste que sou um ladrão nato? — replicou Magnor, envaidecido pela sua surpresa. — Nas mãos de Snari o cristal não passava de um pedregulho. A rainha reclamou-o e escondeu-o num lugar seguro. Eu só tive de aguardar que ela se distraísse.

— Aesa vai matar-te por isto! — declarou Freya, envolvendo o cristal nos dedos trêmulos. De imediato, uma chama acendeu-se no seu interior... E a Lágrima do Sol como que despertou para a vida.

Magnor sorriu, ao observar a cintilação a envolver as mãos da jovem. Por fim, sacudiu os ombros com uma monotonia tenebrosa, replicando:

— Talvez... Mas isso acontecerá, mais cedo ou mais tarde. Não há como evitá-lo!

— Vem comigo! — desafiou Freya com convicção. Todavia, ele declinou sem hesitar:

— Não. Só iria atrasar-te... Além disso, cada passo que me afastasse da aldeia seria como um punhal a cravar-se no meu peito. Eu não existo sem a minha deusa! Prefiro a morte às suas mãos... do que a vida longe dela!

E, sem mais, desapareceu na obscuridade. O estrondo de um trovão fez a minha irmã saltar para trás e apertar a Lágrima do Sol contra o ventre. Demorou algum tempo, até ser capaz de reagir. Por fim, escondeu o cristal no bolso do vestido e espreitou pela porta entreaberta. Uma multidão enchia o terreiro, desprezando a violenta tempestade que se aproximava. Ninguém queria perder um instante do casamento. No topo do altar, montado e enfeitado para a ocasião, a rainha declamara bênçãos e rezas... E Gríma já recitava os seus votos:

— Amo-te desde o dia em que nasci e amar-te-ei até ao dia da minha morte. O meu corpo será o teu abrigo. Os filhos que te darei encherão a nossa casa de orgulho e alegria...

O vento carregou a voz da noiva até Freya, em sopros de ansiedade que lhe vergastaram o coração. A minha irmã cerrou os olhos...

Chegara a vez de Helgi proferir as juras. Todavia, a voz do guerreiro nada tinha de cortês, ao resmungar: — Acabemos depressa com isto!

Pensei que Aesa se enfureceria e o obrigaria a cumprir a tradição. Porém, o Espírito da Escuridão estava tão exasperado, que a própria feiticeira não se atreveu a confrontá-lo. Sem mais delongas, ungiu os braceletes sagrados e deu por finda a cerimônia.

Freya bateu com a porta, abafando um soluço. Deixou-se cair no chão, tremendo e chorando sem controlo. Tinha medo... Tinha muito medo! Instintivamente, as suas mãos buscaram a Lágrima do Sol. Possuiria coragem e forças para lutar pela liberdade, antes que Aesa a avassalasse?

Helgi, filho de Vestein, fixava o olhar desamparado na irmã gêmea. Apesar de partilhar da sua dor, Helga nada podia fazer. A rainha Aesa ordenara-lhe que a seguisse, numa enigmática incursão aos Pântanos Nebulosos. No céu do Norte, por trás do manto cinza e escarlate de nuvens espessas, a Lua redonda e desafiadora observava a aldeia dos vândalos. A princesa sentia a energia mística latejar e alimentar a tempestade... Um prenuncio de que algo terrível estava prestes a suceder.

O Espírito da Escuridão viu a irmã partir, com o sangue a ferver dentro do corpo. Jurara proteger Helga... Jurara proteger Freya... E ali estava, subjugado pela vontade suprema da bisavó, impotente para auxiliar, sequer confortar, as duas mulheres por quem o seu coração batia. Engoliu em seco, diante do sorriso extasiado e sedutor da noiva. Após anos de imensurável expectativa, Gríma via a sua espera recompensada. Mas de que lhe servia? Ele não a amava! Nem sequer a desejava... E, ultimamente, no meio da turbulência de tantas crispações e intrigas, até o respeito que sempre lhe devotara se perdera. Helgi olhava para a sua mulher e experimentava o mesmo despeito, o mesmo asco que nutria por Halldora.

Não demorou para que a sogra convencesse a filha a arrastá-lo até à cabana, onde estava condenado a sofrer o castigo de uma união imposta. O interior da habitação fora decorado com um esmero luxuoso, que desgostou o guerreiro ainda mais. Tamanha extrava­gância era inaceitável, quando as crianças da aldeia morriam de fome! Em silêncio, marchou até à lareira e sentou-se pesadamente no banco almofadado, cerrando os olhos e os punhos. Se ignorasse Gríma, talvez ela percebesse que devia deixá-lo em paz, pelo menos, até a sua raiva arrefecer e se conformar com a inevitabilidade do destino.

Ouviu a esposa deslizar sobre os magníficos tapetes que cobriam o chão... O murmúrio das penas do colchão, quando o corpo voluptuoso repousou na cama e se cobriu com as mantas de lã garrida, aguar­dando... aguardando... O tempo deteve-se para Helgi, enquanto se abstraía da realidade e deixava a mente fluir até um lugar secreto no espírito; um sítio que poucas vezes se permitira visitar, temendo perder a identidade de homem... e tornar-se um rei-lobo, uma fera sagrada. De repente, sentiu o ar gélido a fustigar-lhe o rosto; a neve a soltar-se sob as patas, enquanto corria e corria, misturando-se com as sombras da floresta, deixando para trás a aldeia, fugindo da raiva, fugindo da dor... O perfume da liberdade inundava-lhe os pulmões. Os dedos do vento teciam carícias no seu pêlo negro. O homem dentro de si era um escravo... Ao lobo, jamais conseguiriam impor a servidão!

— Helgi?

O solo da floresta desapareceu-lhe debaixo das patas. A fera escutou o seu próprio uivo de desespero, enquanto se precipitava no abismo. A sua liberdade fora efêmera — uma ilusão! O lobo era tão prisioneiro quanto o homem.

— Helgi? — O apelo de Gríma repetiu-se. A pressão dos seus dedos sobre os ombros do marido tornou-se insistente, incômoda, impossível de desatender. O guerreiro abriu os olhos... Porém, em vez do brilho flamejante da lareira, deparou com dois seios alvos e intumescidos, pendendo a um palmo da sua boca. Teve de apelar a todo o controlo para não recuar. Os cabelos ruivos da esposa choveram sobre ele, enquanto a jovem lhe buscava os lábios com uma sofreguidão excitada. Impaciente, o rei-lobo fechou as suas mãos sobre a cintura nua e afastou-a; a voz rouca denunciando a indignação da fera que lhe habitava a alma:

— O que estás a fazer?

As pernas de Gríma quase falharam ante o seu ímpeto. Os olhos verde-tempestade dilataram-se de assombro, ao replicar:

— Helgi... Nós acabamos de casar!

— E depois? — resmungou o guerreiro, mordendo a ira, enquanto tirava a capa dos ombros com o propósito de cobrir a nudez da prima.

— Vai dormir, Gríma! Amanhã conversaremos...

— Não! — guinchou ela, forçando-o a encará-la. — Não podes fazer isso... Eu amo-te! Tu és a minha vida...

— Pára, mulher! — rugiu o príncipe, sentindo a cabeça latejar. A fera revoltava-se, bravejava, estracinhava-o de dentro para fora.

— O que queres de mim?

Gríma retrocedeu perante a sua irrascibilidade. Com as lágrimas a escorrerem-lhe pelas faces, livrou-se da capa e expôs-se aos olhos do marido, volvendo num tom trêmulo de raiva:

— O que é que eu quero? Quero que te comportes como um homem! Que me leves para a cama e me faças tua! Quero que me desejes... Quero que me ames!

O olhar de Helgi percorreu o corpo lúbrico, sem vestígio de entusiasmo. Por fim, sacudiu a cabeça e objetou entre dentes:

— Hoje dei-te o meu nome, Gríma... E, por enquanto, é tudo o que te posso conceder!

— Não... — arquejou ela, precipitando-se na sua direção. — Por que me castigas? Olha para mim... Tens de me desejar!

Antes que o príncipe pudesse reagir, a jovem saltou-lhe para o pescoço, apertou as pernas em torno da sua cintura e tentou apri­sionar-lhe os lábios. Assolado por uma repulsa instintiva, Helgi empurrou-a para cima da cama, vociferando:

— Deixa-me em paz! Se querias paixão; se querias amor, devias ter escolhido outro homem!

E incapaz de suportar os berros revoltados da esposa que escabujava sobre as mantas, possuída pela fúria, o Espírito da Escuridão virou-lhe as costas e mergulhou na noite.

Paralisada pelas amarras da Visão, testemunhei a corrida desen­freada do príncipe vândalo, através da aldeia. Fundia-se com as sombras como se fizesse parte delas, invisível ao olhar dos comuns mortais que festejavam o seu casamento. Eu sabia para onde se dirigia... Apelei a Edwin para que, num esforço conjunto, a nossa energia tocasse a consciência de Helgi. Tínhamos de impedir que a fera dominasse o homem e lhe impusesse a vontade do seu coração. Porém, nada deteve o rei-lobo! Logo irrompia pela casa da irmã; o corpo trêmulo e o olhar em chamas, lutando para respirar.

Freya levantou a cabeça das almofadas encharcadas pelo pranto. A capa mágica da rainha Lyria envolvia-lhe os ombros — um sinal evidente de que tencionara partir, mas não fora capaz. Preferira resignar-se à crueldade do seu destino, do que deixar o homem que amava... O homem que, contra todas as expectativas, lhe caía nos braços, buscando o calor do seu corpo e a ternura dos seus beijos.

— Helgi...? — apelou, num misto de surpresa e inquietação. Ele demorou a responder, devastado pelas emoções que o faziam soluçar encostado ao seu peito qual criança desamparada:

— Eu... Eu não fui capaz! E como podia? Amo-te, Freya! Sempre te amei... — Fez uma pausa para recuperar o fôlego, antes de prosseguir: — Perdoa-me! Devia ter cumprido a vontade da rainha... Fui fraco! E a minha fraqueza há de perder-nos aos dois!

Freya tocou-lhe nos lábios, impedindo-o de continuar. Sorriu levemente e contrapôs:

— Não imaginas como a tua fraqueza me faz feliz! Arrancaria o coração do peito, se lhe tivesses tocado.

Helgi sufocou-lhe o desabafo com um beijo. O olhar azul celeste fulgurava, ao sussurrar:

— Para mim, nunca existirá outra mulher além de ti... Juro-te! Enfrentarei a rainha... — Com um impulso arrebatado, livrou-se do bracelete de compromisso e atirou-o contra a parede, findando: — E se o meu amor me condenar à morte, morrerei satisfeito!

Esperei que Freya tivesse o bom senso de contrariá-lo, para seu próprio bem. Todavia, ela estreitou-o, enlevada pela declaração, e deixou-se derreter no ardor da paixão que partilhavam. Vi os dedos de Helgi hesitarem sobre a capa de Lyria... Até que as mãos de Freya começaram a debater-se com a sua túnica, buscando-lhe o calor do peito. Então, o rei-lobo perdeu a réstia de domínio que o sustinha e entregou-se à loucura dos sentidos.

Lá fora, a trovoada afastara-se da Floresta Sombria. Contudo, o vento enfurecera-se e começara a nevar. Os Vândalos que ainda teimavam em celebrar foram forçados a recolher-se. Mais uma vez, a porta da casa dos noivos abriu-se... Gríma saiu, vestida para enfrentar o ar gélido da noite, com uma expressão enlouquecida a desfear-lhe o rosto. Comecei por temer que se precipitasse contra Helgi e Freya. Depois, julguei que se dirigia à casa da mãe... Quando lhe contasse o que acontecera, Halldora seria capaz de fazer frente a Aesa e estrangular a minha irmã com as suas próprias mãos. Porém, a intenção de Gríma era ainda mais tenebrosa! Sem hesita­ção, deixou para trás os trilhos do povoado e rumou aos Pântanos Nebulosos.

Apavorada, senti a mente rasgar a cerração que oprimia o Norte. A princesa Gríma depressa ficou para trás, enquanto a Visão me arrastava para o âmago daquele território amaldiçoado pelo Homem e pelos deuses. Sobre a desolação dos pântanos, a tempestade de neve era ainda mais veemente. Só o alento da essência de Edwin me impedia de tombar no desespero.

Longe dos trilhos que os guerreiros se atreviam a pisar, várias pedras sobrepunham-se, formando uma escadaria irregular que se erguia muito acima do nível da água, encoberta por esqueletos de árvores decadentes, na base, e por um nevoeiro místico, negro e espesso, no topo. A guarda da rainha dos vândalos dispunha-se em torno dessa estranha formação rochosa, assegurando-se de que nenhum batedor do rei Steinarr os surpreendia. No centro do altar maldito, Aesa assimilava a energia da Lua e invocava as Entidades perversas que sustentavam o seu poder. A poucos passos, Snari sorria extasiado, com os olhos postos nas duas aldeãs que se abraçavam, terrificadas pela chuva de raios que chicoteavam o céu. Era também nessas jovens que o olhar cego de Helga repousava. Estava gelada de medo, mas mantinha-se calada. Enfrentaria um castigo severo, se fraquejasse diante da feiticeira.

No auge do funesto ritual, as nuvens foram atravessadas por uma luminosidade púrpura, enxertada de preto e roxo, que trespassou a nevasca e caiu como um raio sobre o pote que repousava aos pés de Aesa. Até esse instante, eu acreditara que o ferro abençoado por «O Que Tudo Vê» era inviolável... Porém, este fendeu-se como um trapo gasto pelo uso. E, para meu extremo horror, os restos mortais de Gwendalin, uma das mais perniciosas e implacáveis mestras da Arte Obscura, foram libertados.

Seria de esperar que o ímpeto do vento dispersasse de imediato as cinzas da feiticeira. Contudo, estas mantiveram-se coesas; uma forma negra e densa que se agitava no ar, irradiando uma energia tremenda. Lentamente, a aberração foi adquirindo uma refulgência escarlate, crescendo e pulsando com um ardor descomunal.

Diante de tamanha monstruosidade, as aldeãs gritaram e tentaram fugir. De imediato, Snari acometeu contra elas e paralisou-as com um simples toque. As jovens eram avantajadas, mas o celerado arrastou-as sem dificuldade até Aesa. Os olhos das raparigas expressaram o seu terror, quando a rainha desembainhou um punhal e o elevou sobre a cabeça, entoando louvores à Lua. Depois, sem a menor consternação, lacerou-lhes os pulsos, forçando as suas mãos ao encontro do abomi­nável fenômeno. Enquanto o líquido quente e viscoso regava as cinzas incandescentes, a voz caliginosa declamava:

— Pelo poder da magia que sustenta as nossas essências, aceita a minha oferta de sangue e de carne. Toma o corpo de uma destas virgens para alimento e o outro para abrigo... Renasce mais forte do que nunca e esmaga os nossos inimigos com a tua ira. Desperta das trevas e torna à vida, Gwendalin!

Assim que o odioso nome profanou o ar, o aglomerado de partículas flamejantes precipitou-se sobre uma das aldeãs. Mesmo sob a influência de Snari, a rapariga estrebuchou de dor, ao sentir as cinzas invadirem-lhe o nariz, rasgando caminho para o interior do corpo. Por um momento, a trovoada reprimiu a fúria e até o vento reteve o fôlego, deixando os pântanos mergulhados num silêncio funéreo, enquanto os olhos da jovem se abriam desmesuradamente. Depois, a essência da feiticeira libertou-se da hospedeira, brotando-lhe da boca por entre golfadas de sangue... E a jovem expirou na prisão do braço de Snari.

Sem perda de tempo, a nuvem candente atacou a outra aldeã. Aesa esfregou as mãos de contentamento, acreditando que Gwendalin escolhera aquela que haveria de acolher o seu espírito, durante a nova existência que a magia negra lhe concedera. Porém, a barbaridade repetiu-se: as partículas chamejantes devoraram a essência da virgem sacrificada, transformando o seu corpo num despojo cruento.

Snari livrou-se dos cadáveres e berrou de aflição, quando a execrável poeira o cobriu. O rosto encarquilhado da bisavó denunciou espanto... Contudo, não esboçou um gesto para defendê-lo. Surpreenden­temente, a predadora estudou a presa e recuou. Mas não estava satisfeita! Após uma curta indecisão, lançou-se contra os guerreiros que observavam o ritual com um pavor mudo. Um a um, os homens tombaram sobre as escadas de pedra, engasgados em vômitos de sangue. Os poucos que tentaram escapar não alcançaram a superfície gelada do pântano. Ao regressar ao topo do altar e encarar o olhar cego de Helga, a essência de Gwendalin já não era um amontoado informe de matéria. A nuvem palpitante assumia-se como uma mulher perfeita... uma assassina voraz.

Helga tinha plena consciência do que acabara de acontecer. No entanto, pouco mais pôde fazer além de esbracejar em desespero, quando as cinzas a sufocaram. Descobriu que o aspecto ardente da forma nebulosa não passava de ilusão. A essência da feiticeira era como adagas de gelo a perfurarem-lhe a pele. Finalmente, Gwendalin elege­ra um corpo para habitar.

A princesa tombou de joelhos; a poeira inflamada de perversidade cobrindo-a qual mortalha, até se fundir com a sua carne. Uma luz avermelhada acendeu-se no fundo do olhar branco... Porém, ainda assim, a vidente lutava pela preservação, recusando ceder a vida à mestra da Arte Obscura. Eu podia escutar as batidas descompassadas do seu coração, mas era impotente para ajudá-la. Os dedos de Helga enterraram-se na neve que cobria o altar... Como é que Aesa podia assistir impassível a tamanha selvajaria? Era o seu próprio sangue que se extinguia!

O coração de Helga quase lhe rebentava o peito. Gwendalin estava a vencer! Snari levou as mãos aos lábios, demasiado perturbado para se regozijar com a desventura da prima. A princesa prostrou-se no chão; o corpo esguio sacudido por violentas e sucessivas convulsões, que a impediam de respirar. A sua pele tornara-se cinzenta; os olhos, poços de sangue. Uma espuma amarela saltava-lhe dos lábios aos borbotões... E Aesa sorria, deliciada! O ritual não decorrera de acordo com os seus planos, mas, de qualquer forma, fora bem-sucedido.

Então, quando tudo me parecia perdido, um clarão alvo acendeu-se no peito de Helga, tão intenso e brilhante que se revelou através da lã grossa do vestido. Subiu-lhe para o rosto; desceu-lhe pelo ventre... Em menos de nada, cobria cada palmo do seu corpo, levantando-a do solo, tornando-a etérea — um ser sublime com pele de lua e cabelos de fogo. Um brado horripilante escapou-lhe dos lábios... Contudo, não era a sua voz que guinchava de dor!

Uma explosão de luz rivalizou com os raios que fustigavam o altar, tão intensa que até Aesa foi forçada a proteger os olhos. Ao recuperar a Visão, verifiquei que Helga se encontrava caída, respirando com dificuldade. Um fio de sangue escorria-lhe dos lábios... Mas estava viva! A essência negra e rubra de Gwendalin pairava sobre ela, exuberante de maldade, palpitante de sanha. A sua investida falhara! Fora expulsa do corpo da vidente e não me parecia que ousasse um novo assalto. Aprendera, da pior forma, que a claridade que habitava a alma de Helga era incompatível com as suas trevas.

A rainha dos vândalos quedava-se, assombrada com o desfecho da contenda. Snari observava-a, trêmulo e estupefato. Até ele se questionava como a bisavó admitira que Gwendalin tentasse usurpar a vida daquela que era a sua bisneta preferida; a sua guerreira em espírito! O que faria Aesa agora, ao ver contrariada a sua obsessão de ressuscitar Gwendalin a qualquer custo, a fim de manipulá-la como no passado? Nesse instante, apercebi-me de algo terrível: a rainha feiticeira não interferira na caça sangrenta porque, ao contrário do que esperara, não exercia a menor influência sobre a vontade distorcida da hedionda criatura. A essência de Gwendalin estava descontrolada... E sedenta por vingança!

— Avó! — O apelo de uma voz chorosa trespassou o nevoeiro que encobria o altar de pedra e fez-me prender a respiração. Aesa e Snari também reagiram com surpresa, voltando-se para o vulto que quase se arrastava, tal a dificuldade em avançar sobre a podridão gelada.

— Minha rainha! — tornou Gríma por entre soluços, exausta e destroçada. — Onde está? Por favor, responda! Preciso de ajuda! O Helgi rejeitou-me... O Helgi odeia-me...

Estacou bruscamente, ao deparar com os cadáveres dos guerreiros. O seu olhar atônito seguiu o rasto de morte, através da formação rochosa, até ao cimo do altar... até Aesa.

— Avó? — ofegou, paralisada de horror. Todavia, antes que alguém pudesse reagir, a essência de Gwendalin pôs os olhos na sua figura trêmula. E arremeteu contra ela.

 

— Não!

O clamor de Snari assombrou os pântanos, sobrepondo-se ao furor do Vento Norte. Estupefata, vi-o precipitar-se ao encontro de Gríma, galgando as pedras sem reparar onde assentava os pés, escorregando, caindo, rolando, para voltar a correr com um ímpeto alucinado. Porém, o seu esforço foi vão. Quando finalmente alcançou a jovem, era tarde para contrariar o infortúnio. A essência da feiticeira negra já se apossara do seu corpo.

— Não! — urrou o vidente como se tivesse perdido a razão, prostrando-se ao lado da irmã e apertando-a contra o peito.

Eu desconhecia se Gríma estava viva ou morta, mas o choro com­pulsivo de Snari era um mau presságio. Nunca me passaria pela cabeça que uma criatura tão vil fosse capaz de sofrer por alguém daquela forma arrebatada. Através do nosso elo, verifiquei que Edwin também se pasmava com a comoção do vidente. E as surpresas não terminaram aí! Carpindo de dor, Snari carregou Gríma até ao topo do altar e deixou-se cair aos pés de Aesa, estreitando a jovem, enquanto fremia com o olhar carregado de ressentimento:

— Eu amava-a... Jamais lhe perdoarei esta morte! Jamais! Helga reunira forças para se suster, apoiando-se na pedra. Estava atordoada, mas viveria. Ao apreender o que acabara de suceder, o horror quase voltou a subjugá-la. Contudo, não teve oportunidade de emitir um som. Nesse preciso instante, Gríma abriu os olhos.

Snari gritou, desta feita de sobressalto e temor. O olhar que o encarava, outrora verde-tempestade, tornara-se castanho-avermelhado, intenso e perverso. Também os traços do rosto da jovem pareciam mais perfeitos, mais maduros... Era como se, de um momento para o outro, tivesse envelhecido uma centena de anos sem perder o fulgor da juventude. Essa nova Gríma sorriu para Snari e impediu-o de recuar... Depois, atraiu-o para mais perto e beijou-o nos lábios com ardor.

Aesa já superara o espanto e exultava; as rugas do rosto sobrepondo-se de modo grotesco, repuxadas pelo riso infame. A má sorte da bisneta não a transtornara. Em comparação com a vitória alcançada, o que perdera fora insignificante!

Quando Gwendalin se afastou, o olhar azul de Snari fulgia sob a luz dos archotes, tal o desejo que o inflamava. A sedutora renas­cida das cinzas sorriu ante tamanho enlevo, deslizando as mãos pelo peito magro numa promessa de deleites para além da imagi­nação. O vidente arquejava e quase desfalecia. Eu sempre supusera que as histórias contadas sobre a facilidade com que Gwendalin era capaz de corromper o discernimento de um homem estavam adulteradas pelo exagero. Agora, deixara de questionar a sua veracidade.

Aesa já avançava, saudando-a enfaticamente:

— Minha querida, sê bem-vinda...

O olhar ígneo desviou-se de Snari e encarou a rainha dos vândalos, sem vestígio de gratidão. Quer fosse a vontade de Gríma ou de Gwendalin que imperava, Aesa não lhe inspirava a menor simpatia. Pelo contrário! A outra constatou-o, pois reprimiu o entusiasmo e prosseguiu cautelosa:

— Sou Aesa, a tua melhor amiga! Não me reconheces? Não te recordas das nossas aventuras? Eu resgatei-te à escuridão do submundo e devolvi-te a vida!

— Aesa... — repetiu a morta-viva, numa voz que se assemelhava ao canto de um pássaro. Quantas almas a perfeição desse som já teria condenado? Se desejasse, Gwendalin não necessitaria de apelar a sortilégios para enfeitiçar uma multidão... Bastar-lhe-ia falar!

Surpreendi-me ao verificar que correspondia ao gesto amistoso da rainha, continuando:

— Sim, Aesa... Lembro-me perfeitamente! Como poderia esquecer a minha companheira? — Todavia, ao darem as mãos, a voz harmoniosa transformou-se num bramido: — Jamais esqueceria a traidora que me enganou, que me usou para se apossar da magia da minha irmã, sem ter de arriscar um cabelo... A aleivosa que me virou as costas, quando eu mais necessitava de ajuda!

Aesa gritou quando Gwendalin apelou à força do corpo jovem para sujeitá-la. Tentou evocar um sortilégio para se defender, mas a outra desfez a sua proteção com um sopro de desdém, rugindo:

— Eu acabei de me alimentar, miserável! Sinto o sangue a ferver com o vigor dos guerreiros que deixaste à minha mercê. Foste muito generosa! Não contaste com a minha fome, pois não? Após anos de privações, querias que me satisfizesse com duas camponesas? És patética! Insultas a minha inteligência... Desafias a minha paciência! E, como se tal afronta não bastasse, ainda te pavoneias com aquilo que me pertence!

Sem quaisquer cortesias, arrancou do pescoço de Aesa o colar de onde pendiam as pedras verde, laranja e violeta, guardiãs do poder da feiticeira Aranwen. A rainha dos vândalos estrebuchava debaixo das suas garras, qual coelho nas presas de um lobo. No entanto, Gwendalin ignorava-a, fascinada pela cintilação mágica que lhe atravessava os dedos e ofuscava as chamas dos fachos que iluminavam o altar.

— Eu morri por estas pedras — murmurou extasiada. — E regressei à vida por elas! Desta vez, não me escaparão! E todos aqueles que me ultrajaram; todos os que me traíram conhecerão a fereza da minha vingança!

Helga mal respirava, petrificada de terror. Snari assistia desnor­teado ao duelo das mestras da Arte Obscura. Foi para ele que o braço de Aesa se estendeu, enquanto gorgolejava uma súplica:

— Ajuda-me... Afasta-a de mim...

Gwendalin silenciou-a com uma bofetada. Sem dificuldade, manteve aprisionado o corpo envelhecido da rival, enquanto colocava o colar ao pescoço. Depois, afagou as pedras mágicas com movimentos lentos e lascivos, fixando o vidente e sussurrando na sua voz arrebatadora:

— Snari, meu belo príncipe... Tens um poder impressionante! E uma inteligência digna de louvor! No entanto, nunca mereceste o reconhecimento da tua gente, pois não? Nem sequer o elogio da tua rainha, a quem serviste com devoção... Pois o teu dia chegou! É tempo de provares a tua excelência aos medíocres que te humilharam. Eu posso dar-te tudo aquilo com que sempre sonhaste! Ao meu lado, não serás apenas rei dos vândalos... Serás rei da Terra!

— Ao seu lado? — balbuciou ele; o olhar arregalado preso aos dedos da jovem que conhecera como Gríma... transformada numa feiticeira determinada e lúbrica. Gwendalin sorriu e replicou, ciente do seu desejo:

— Como meu consorte... Meu amante! Li na tua mente o quanto apreciavas Gríma... Contudo, não podias tê-la. Ela era tua irmã... Mas eu não sou! Ainda assim, parte da mulher que amas permanece em mim... E está, finalmente, ao alcance das tuas mãos! Eu posso realizar o mais ardente e proibido dos teus anseios, Snari...

— O que tenho de fazer? — atalhou ele numa voz cavernosa, com o rosto incendiado e o olhar a transbordar cobiça, como se já não suportasse esperar pela concretização dessas promessas.

— Mata a tua rainha! — respondeu Gwendalin, sem hesitar.

— Prova que me serás leal até ao fim dos teus dias... E eu dar-te-ei o trono da Terra.

Aesa gorgolejou um protesto enraivecido. Todavia, foi o brado de Helga que se sobrepôs ao assobio do vento:

— Não, Snari! Não lhe dês ouvidos...

O olhar possesso do primo cortou-lhe a voz. Apavorada, a vidente forçou-se a acrescentar:

— Tu... Tu não podes... A rainha é tua bisavó! O teu sangue... Snari cuspiu para o altar, certificando-se de que Helga recebia cada uma das suas palavras como uma machadada no peito:

— A nossa bisavó não se preocupou com laços de sangue, quando me ordenou que matasse o seu próprio neto... O rei Vestein, teu pai, estimada prima! — Fez uma pausa para apreciar o impacto da revelação, antes de prosseguir com um sorriso infame: — Desde que me lembro, cumpro a vontade da rainha sem questioná-la! E recebi alguma recompensa pela minha servidão? Não! Tu e o Helgi sempre foram os seus preferidos, mesmo quando lhe desobedeciam!

— Desembainhou o punhal que trazia à cintura, num impulso pejado de ira. — Toda a vida aguardei por um simples reconhecimento... Estou farto de esperar!

Em dois passos, destruiu a distância que o apartava das feiticeiras. Gwendalin afastou-se, com uma exclamação deliciada... E Snari deixou-se cair em cima da rainha dos vândalos, libertando um grito aguerrido e usando todo o seu peso para enterrar a lâmina.

Aesa guinchou e estrebuchou debaixo das mãos assassinas. E quanto mais se debatia, mais Snari se exaltava. Apunhalou a figura escanifrada até o sangue espirrar. Até o sangue lhe banhar os braços e as vestes. Até o sangue salpicar as faces deleitadas de Gwendalin e tingir o manto de neve que cobria as pedras do altar. Bramia desvairado, como se encontrasse a libertação na loucura daquele frenesi; uma torpe gratificação, pelas vezes em que fora obrigado a inclinar-se perante a feiticeira. E quantas vezes, ao longo da sua existência reprimida, não tivera vontade de a trucidar?

Aesa já não gritava... Aesa já não se movia... O seu coração estava desfeito, assim como o pescoço e o ventre. Todavia, Snari continuava a desferir golpes, embriagado pelo cheiro do medo que empestava o ar; alucinado pela visão do vermelho que assimilava as restantes cores; extasiado pela ilusão de ter conquistado o poder com que sempre sonhara.

Entretanto, Helga conseguira suster-se e recuava aos trambolhões, com as lágrimas a jorrarem-lhe dos olhos. Eu só podia imaginar o que a sua percepção superior lhe revelava... Talvez a energia vital da rainha a extinguir-se, como as chamas de uma fogueira que se finava sob a violência de um aguaceiro. Aesa buscara uma aliada na amiga de juventude... Contudo, acabara suplantada pelo rancor de Gwendalin e sucumbira às mãos do mais mesquinho dos seus lacaios.

Snari já se levantava, ostentando um sorriso triunfante. O olhar azul enlouquecido abandonou o corpo mutilado da bisavó, para se fixar no punhal que se colava às suas mãos encharcadas de sangue. Depois, fitou Helga... E o sorriso alucinado rasgou-se, ante a expectativa de se livrar de mais um estorvo para os seus planos.

A vidente decerto antecipou o funesto intento, pois precipitou-se na arrojada descida da formação rochosa, tão rápido quanto a fraqueza lhe permitia. A eficácia da sua percepção dependia da energia que brotava das partículas que compunham os seres vivos e inanimados. Porém, naquele instante, Helga não detinha o controlo dos sentidos, nem a serenidade necessária para receber os estímulos do meio que a rodeava. Isso significava que estava verdadeiramente cega! Ainda assim, o pânico concedia-lhe forças para ignorar a dor provocada pelos cortes e contusões, resultantes das inevitáveis quedas da sua fuga desesperada.

Ao ver a prima escapar, Snari lançou-se em sua perseguição. Todavia, Gwendalin deteve-o, agarrando-lhe o braço e obrigando-o a encará-la:

— Deixa-a ir — ronronou. — Trataremos dela depois. Agora, tu e eu temos outras prioridades... A magia de Aesa está ao meu alcance, enquanto o calor não lhe abandonar o sangue. Chegou o momento de consolidar o meu poder e de firmar a nossa união para todo o sempre, meu belo rei!

Eu tinha de interferir! Se Gwendalin assimilasse o poder de Aesa, ninguém a deteria. Contudo, a caprichosa Visão continuava a amarrar-

-me a essência... Desviei o rosto, nauseada, quando a bruxa e o seu servo se debruçaram sobre a rainha dos vândalos. Se estava condenada à inércia, também me recusava a testemunhar aquela perversão!

Entretanto, Helga deixara o altar de pedra para trás. O nevoeiro envolveu-a como uma segunda pele e as suas botas ficaram aprisio­nadas na neve. Terrificada, pensou que não tornaria a ver Helgi... que jamais voltaria a sentir o calor de uma lareira a acariciar-lhe o rosto. Mesmo que Snari e a bruxa não a caçassem, acabaria por se perder nos pântanos e morreria gelada, incapaz de encontrar o caminho de regresso a casa. Como alertaria o seu povo para a calamidade que estava prestes a abater-se sobre a aldeia? Então, quando a desesperança já lhe vergava as pernas, um raio de luz rasgou as trevas. Um corpo quente encostou-se ao seu, empurrando-a, incentivando-a a mover-se, enquanto um som rouco e decidido a arrancava da consumição. Helga suspirou de alívio ao reconhecer Conselheiro. Movida por um novo alento, enterrou os dedos no pêlo macio do pescoço do seu fiel amigo e deixou-se guiar através da bruma.

Freya inspirou o odor da pele de Helgi com manifesto deleite, aninhando a cabeça no seu peito. Fechou os olhos, tentando aprisionar as lágrimas, enquanto os dedos do Espírito da Escuridão se entrelaçavam nos seus caracóis. Não queria pensar que o que acabara de acontecer estava errado. Não queria recordar que, em breve, a felicidade que lhe confortava o espírito e a satisfação que lhe entorpecia o corpo seriam substituídas pela dor, o abandono, o medo... Nem sequer se permitia lembrar que existia um mundo do lado de fora da cabana que testemunhara a exaltação do seu amor. Só desejava desfrutar daquele instante de perfeição.

— Perdoa-me — murmurou o príncipe, perturbando o seu enlevo.

— Não te devia ter procurado, na Festa da Renovação. Se tivesse regressado apenas com a doce recordação do momento em que te estreitei nos meus braços, na Ilha dos Penhascos, não estarias a sofrer. Todavia, o apelo do coração foi mais forte! Sempre acreditei que jamais me apaixonaria... Porém, um olhar teu e o meu mundo virou-se ao contrário; todas as convicções transformaram-se em dúvidas!

— Tocou-lhe levemente no queixo, encorajando-a a encará-lo. — Não receies... Hei de descobrir uma forma de te libertar!

— Eu não quero ser livre, se isso significar ter de viver apartada de ti — objetou a minha irmã, acariciando-lhe os músculos firmes da barriga. — Morreria se te perdesse outra vez!

Helgi sacudiu a cabeça e replicou, estrangulado pela emoção:

— Tens de regressar a casa! Não consentirei que a rainha ponha as mãos na criança que cresce no teu ventre. Ela transformará o nosso filho num monstro sedento de sangue e poder.

— Então, virás comigo...

— Eu não posso abandonar a minha aldeia e o meu povo — atalhou o guerreiro. — Além disso, a tua gente jamais me aceitaria. Steinarr condenar-me-ia à morte, assim que pisasse solo viquingue.

— Não tens certeza disso! — contestou a minha irmã. — E, ainda que seja verdade, não permitiremos que o ódio que divide os nossos povos nos separe. Não somos forçados a regressar ao castelo! O meu pai é um homem compreensivo e justo. Há de receber-nos...

— Freya... — protestou Helgi, mas a minha irmã resistiu:

— Se não quiseres morar na Ilha dos Sonhos, partiremos rumo a um lugar onde ninguém nos conheça; onde possamos recomeçar uma nova vida, com os nossos filhos...

Calou-se abruptamente, ao verificar que falara demais. O Espírito da Escuridão já revidava, com ansiedade:

— Filhos? Achas que será mais do que um?

Naquele instante que determinava a sorte de todos nós, Freya engoliu em seco, uma e outra vez, tentando remediar a indiscrição. Acabou a gaguejar... E Helgi apercebeu-se de que algo estava errado. Confrontou-a e a minha irmã cedeu:

— Eu falava... do Thorson.

Num ápice, Helgi imobilizava-a, envolvendo-lhe o rosto entre as mãos e trespassando-lhe o olhar, enquanto inquiria com pertinácia:

— Quem é o Thorson?

Incapaz de engendrar uma mentira, ela libertou as lágrimas e entaramelou:

— Não desejava que descobrisses assim...

— Eu fiz-te uma pergunta! — O tom de Helgi tornou-se cavernoso. — Quem é o Thorson?

Então, Freya encheu o peito de ar e respondeu com grande coragem... ou total insensatez:

— É o nosso primogênito, fruto da Festa da Renovação.

De imediato, Helgi recuou, arquejando com uma expressão atônita:

— Não sonhei! Ele é real...

Subitamente, a porta da cabana abriu-se, cortando-lhe o desabafo. Helga cambaleou para o interior, arrastando vento e neve consigo antes de tombar no chão, sem sentidos. O seu cão-lobo lambia-lhe a cara, ganindo de aflição. De imediato, Helgi saltou de dentro das cobertas e correu ao encontro da gêmea. Freya imitou-o, encobrindo a nudez com uma manta. Assim que se certificaram de que o sangue que manchava a capa da princesa não lhe pertencia, a minha irmã apressou-se a restabelecer-lhe a consciência. Entretanto, o Espírito da Escuridão já fechara a porta e vestia-se apressadamente, colocando as armas ao alcance das mãos. Mal o perfume das ervas curativas lhe acariciou o nariz, Helga abriu os olhos e arquejou, angustiada:

— Tens de levar a Freya para longe daqui...

— Acalma-te! — pediu o irmão, amparando-a. — O que aconteceu? Onde está a rainha?

— A rainha está morta! — exclamou a vidente, sacudindo-o com a veemência do desespero. — O Snari matou-a, por ordem da feiticeira que emergiu daquele maldito pote...

— Snari matou a rainha? — Helgi ergueu-se de um salto, com a mão no punho da espada.

— Gwendalin vive? — assombrou-se Freya.

— A rainha reanimou as suas cinzas — ofegou Helga, sob o praguejar ardoroso do irmão. — E o espírito da criatura usurpou o corpo de Gríma, para tornar à nossa realidade.

— Não pode ser! — vociferou o príncipe, estonteado. — Eu deixei Gríma em casa!

A confusão que agitava a cabana desembocou num silêncio tenebroso e opressivo, cortado pelos silvos ferozes do vento, quando a vidente resumiu o pavoroso ritual que testemunhara.

— Eu matarei essa abominação! — insurgiu-se Helgi.

— Não! — A irmã deteve-o, obrigando-o a escutá-la. — Tens de salvar a Freya! Estás a ouvir? Essa feiticeira anseia por vingança, para si própria e para Gríma, cujo espírito jamais cessará de clamar dentro da sua cabeça.

— Foram os meus pais que mataram Gwendalin... — sussurrou Freya, estremecendo.

— E é contigo que o Helgi está, na noite que desposou Gríma — completou Helga, justificando a convicção de que a jovem viquingue seria a próxima vítima do ódio da bruxa. — Suplico-te, irmão...

De repente, a porta da cabana escancarou-se com a violência de um pontapé. O rei Raud surgiu detrás de um guerreiro colossal, arras­tando uma perna em conseqüência do raio com que Aesa o fulminara. Os guardas que o acompanhavam bloquearam a saída. Conselheiro agachou-se no chão e começou a rosnar, exibindo as presas ameaça­doras. Instintivamente, Helgi colocou-se diante das mulheres, protegendo-as com o seu corpo.

— Eu não queria acreditar na traição dos meus próprios irmãos!

— Já vozeava o soberano vândalo, tremendo de repulsa. — No entanto, eis que esta se declara à vista de todos!

— Que aleive estás para aí a levantar? — volveu o Espírito da Escuri­dão, num tom cauteloso, mas minaz.

— É escusado mentires — retrucou Raud. — Desta vez, não me deixarei iludir pelo teu poder de convicção! Snari já denunciou a tua perfídia... E Gríma confirmou que a abandonaste no início da noite, garantindo-lhe que, a bem ou a mal, a rainha haveria de anular a vossa união. Metes-me nojo! — Apontou um dedo ao irmão, determinando:

— Helgi, filho de Vestein, és acusado da morte da rainha Aesa! E tu, Helga, como sua cúmplice, sofrerás igual castigo pela concretização desse crime hediondo!

— O quê? — titubeou Helgi, boquiaberto.

— Foi o Snari quem matou a rainha! — redarguiu Helga, tentando repor a verdade. — E Gríma também está morta! Aquela que se faz passar por nossa prima é uma feiticeira!

— Basta de falsidades! — cuspiu o rei, voltando-se para os quatro guerreiros. — Prendei os príncipes e matai a escrava.

— Não! — Antes que alguém pestanejasse, já Helgi empunhava a espada. — Isto é loucura, Raud! Como podes cair, de novo, nos embustes do Snari?

— Snari é um bom homem que, desde sempre, foi vítima da tua soberba! — fremiu o irmão em resposta. — Ultimamente, até a rainha reconheceu que devia confiar nele e não em ti! E tu mataste-a, despeitado por já não seres o seu favorito.

— Um bom homem? Snari? — repetiu Helgi, incrédulo. — Esqueceste que foi devido à sua velhacaria que declaraste guerra aos Viquingues e sofreste o castigo da rainha?

— Tomas-me por estúpido? — estrondeou o rei. — Snari sempre me foi fiel, ao contrário de ti! E, mesmo que eu questionasse a sua palavra, tenho o testemunho de Gríma. — Uma chama acendeu-se no interior do seu olhar, consumindo o azul celeste. — A coitadinha está na minha casa, chorando a tua traição, demandando justiça! Como foste capaz de desprezar uma mulher tão formosa, tão perfeita, por causa dessa rameira...

— Tu perdeste o tino! — cortou Helgi, assombrado.

— Não — arfou Helga, por trás do gêmeo. — Ele está enfeitiçado! A cor da sua aura alterou-se, ao pronunciar o nome da... da nossa prima. É escusado tentar chamá-lo à razão!

— Sim... — Raud rangeu os dentes, com uma expressão desvai­rada. — É inútil quererem ludibriar-me, traidores! Não vos darei a oportunidade de me apunhalarem pelas costas, para se apossarem do meu trono! — Tornou a dirigir-se aos guardas, retumbando irado: — Por que esperais? Não vos ordenei que os prendessem?

Os guerreiros entreolharam-se. Sem exceção, reconheciam em Helgi um homem de grande valor; um líder nato, capaz de dar o seu sangue em defesa de um companheiro, no campo de batalha. Parecia-lhes inconcebível que fosse culpado do crime de que o acusavam. Todavia, desobedecer às ordens do soberano representava uma traição!

— Cobardes! — berrou Raud, ante a sua indecisão. — Incapazes! Eu sou rei dos Vândalos! Se não me obedecerdes de imediato, farei com que as cabeças das vossas mulheres e filhos rolem no terreiro, antes de vos esventrar.

O guarda que arrombara a porta tomou a iniciativa, investindo contra Freya com a espada em riste. Helgi rugiu e bloqueou-lhe a intenção fatal, detendo a lâmina a um palmo do peito da minha irmã. Ela gritou de susto e caiu desamparada; o sangue fugindo-lhe das faces. O Espírito da Escuridão obrigou o guerreiro a recuar, mas os outros já marchavam na sua direção. A espada do rei-lobo agitou-se com veemência, como se desenhasse uma linha no ar que as quatro armas que o ameaçavam não podiam transpor. Os guerreiros voltaram a hesitar... E Raud perdeu a paciência. Com um bramido furibundo, desembainhou a sua espada e saltou sobre Helga.

Perplexa, a princesa só teve tempo de se desviar. O irmão errou a acometida, atrapalhado pela perna que não lhe obedecia, mas acabou por derrubá-la. As mãos de Helga empurraram-lhe o braço que empunhava a espada, apelando a toda a força para afastá-lo. Os seus ouvidos eram devassados pelos sons da luta que Helgi travava com a guarda do rei; o estrépito arrepiante das lâminas que se chocavam, o clamor aguerrido dos homens, o estrondo dos pés... Era um combate desigual, mas a vidente nada podia fazer para ajudá-lo. Em cima do seu corpo, a essência de Raud abrasava-se, adulterada na identidade. O irmão mais velho usou a perna sã e o peso dos quadris para imobilizá-la, enquanto apertava os dedos em torno do seu pescoço. Horrorizada, Helga ouviu-o ordenar:

— Matem-nos! Matem-nos a todos!

Subitamente, um corpo possante e peludo chocou contra eles, prostrando Raud e libertando Helga. Dominado pela fúria do instinto, Conselheiro abocanhou o ombro do agressor da sua amiga humana, tentando alcançar-lhe a garganta. O rei conseguiu libertar-se e repeliu o cão com um pontapé. O animal ganiu e sacudiu a cabeça. Contudo, logo exibia as presas fenomenais e tornava a atacar.

A intervenção de Conselheiro permitiu que Helga se arrastasse para longe do alcance da espada. Encostou-se à parede, tossindo estran­gulada, incapaz de se suster, com um incêndio a consumir-lhe a mente. Aos poucos, a sua magia voltava a despertar... Porém, como podia erguer a mão contra o irmão mais velho, sabendo que o seu espírito estava possuído por Gwendalin? Raud não era um homem mau... Era um homem fraco!

O rei praguejava, tentando libertar a perna das terríveis presas do cão-lobo. A sua mão tateava o chão, em busca da espada que lhe escapara dos dedos. Quando finalmente sentiu o frio do punho, não hesitou. Lançou a lâmina sobre o colosso de pêlo, garras e dentes, que lhe dilacerava a carne e os músculos... E, de imediato, o rosnado do animal transformou-se num ganido atroz, abafado pelo grito terrificado de Helga:

— Conselheiro! Não!!!

Raud libertou a perna e pôs-se de pé. Sangrava abundantemente, mas estava tão alucinado que nem revelava dor. Com uma crueldade álgida, revirou a lâmina da espada dentro do corpo do animal, para depois a desenterrar e exibi-la à irmã, arrastando a voz corrompida pela loucura:

— Vês o sangue do teu vira-latas a pingar? Ou só lhe sentes o cheiro, aberração cega? O nosso pai devia ter-te atirado aos lobos, no dia em que nasceste... É tempo de eu corrigir a sua falha!

— Helga! — bradou Helgi aflito, impotente para socorrer a sua gêmea. Um dos guerreiros que o defrontara jazia sem vida. Contudo, os restantes haviam-no encurralado no canto onde as jovens dormiam. Atrás de si, Freya comprimia-se contra as tábuas da parede, sobre as cobertas onde há pouco se tinham amado. Governadas pelo pavor, as suas mãos contorciam-se dentro do bolso do vestido... Então, num ímpeto desesperado, a minha irmã estendeu os braços na direção dos soldados do rei e revelou a Lágrima do Sol.

Decerto o objetivo de Freya era desencorajar os guerreiros. Acalentei a esperança de que fosse bem-sucedida, pois estes retroce­deram, soltando exclamações de intimidada estupefação ante a cintilação mística que se espalhava pela sua pele. Porém, não tardaram a recuperar do choque e a investir com redobrada fúria! Aos seus olhos, o surgimento da Lágrima do Sol nas mãos da escrava era a prova irrefutável de que os príncipes tinham conspirado a morte da rainha Aesa.

Suplantado pela exaltação dos três oponentes, o Espírito da Escuridão sentiu os pés embaterem no corpo da sua amada... Já não havia para onde recuar! Freya fechou os olhos e murmurou uma oração. A poucos passos, Conselheiro ainda respirava, com o magnífico pêlo cinzento mergulhado numa poça de sangue. As lágrimas escorriam em cascata pelo rosto de Helga, enquanto a sua percepção observava o brilho da essência do mais corajoso e fiel dos cães-lobo a extinguir-se. Raud tornava a aproximar-se da irmã, apontando-lhe a espada ao peito, envolto por uma aura que latejava em centelhas de púrpura e negro. E, por trás do seu olhar, Gwendalin gargalhava extasiada.

Do lado de fora da cabana da princesa, a aldeia despertara sob o ardor do confronto. Mais guerreiros acudiam aos apelos do rei... Então, Helgi gritou.

A luz dos cristais encandeou-me. Levei as mãos à testa com um gemido dolente. O desconforto agravou-se, ao recordar-me cativa da Montanha Sagrada enquanto Freya enfrentava a morte. Eu vira Helgi ser ferido! Ouvira-o soltar um brado terrível... Depois, as trevas tinham descido sobre mim, no instante em que tudo se decidia.

Edwin quedava-se ao meu lado, sentado na pedra da lagoa mágica, com as pernas dobradas e as mãos apertadas em torno da Lágrima da Lua. O seu tronco estava rígido e o olhar verde-floresta encarava o vazio. O meu coração disparou a galope, ao perceber que conseguira sustentar a Visão. Pressentindo-me desperta, enunciou com esforço:

— Eles estão a salvo...

Prendi o fôlego quando a voz lhe falhou. A tentativa de se dividir entre duas realidades resultará na perda do frágil controlo que detinha. Deixou escapar um urro de frustração, enquanto o brilho negro da Lágrima da Lua se extinguia. Por fim, piscou os olhos e fitou-me, com o desalento vincado no rosto.

— Desculpa... — suspirou. — Estou exausto!

Apertei-lhe as mãos, indagando ansiosa:

— O que foi que viste? A Freya está viva?

— Sim... Eles fugiram.

— Mas como?

— Helga invocou a magia. Apesar de debilitada, conseguiu prostrar os guerreiros. Depois, embrenharam-se na floresta, sem que ninguém fosse capaz de detê-los. A... a feiticeira não se deu ao trabalho de persegui-los. Limitou-se a alimentar a nevasca; a aguardar que morram enregelados. — Fez uma pausa, acrescentando circunspecto: — O Helgi está muito ferido... Mesmo com a ajuda das mulheres temo que não vá longe.

Já não me fixava e o seu corpo tremia. Era óbvio que a alusão à feiticeira o transtornara. Estreitei-o contra o peito e ouvi-o respirar fundo, como se buscasse serenidade no meu calor. Eu estivera tão absorvida pelo horror da Visão, que me esquecera de que Edwin era filho de Gwendalin. O nosso elo revelara-lhe o renascimento da mãe... e a sua perfídia implacável. Que preço pagaria o seu espírito, pela experiência que partilhara comigo? Seria capaz de reconhecer a monstruosidade da criatura que o trouxera ao mundo?

Procurei o seu olhar e Edwin não me evitou. Pelo contrário, deixou-me surpreendida ante a convicção com que declarou, sem que eu nada afirmasse:

— Aquela mulher não é minha mãe, Edwina... Nunca foi, nem nunca será!

Aquiesci com a cabeça, disposta a ceder-lhe a minha confiança. De qualquer forma, tinha outros problemas mais importantes a ator­mentar-me. A minha irmã estava perdida na vastidão gélida da Floresta Sombria... Eu não podia continuar prisioneira dos caprichos da Montanha Sagrada, aguardando, qual animal enjaulado, pelas migalhas de informação que a sua magia escolhia revelar! Tinha de acudir aos fugitivos!

— Chega de assistir impassível à desgraça de Freya! — exclamei indignada. E, dominada por um impulso mais forte do que a razão, lancei-me à lagoa, nadei para a margem e corri aos tropeções, até alcançar as paredes cobertas de cristais reluzentes.

Arremeti contra a rocha, clamando de fúria... E dei por mim a trespassá-la sem que opusesse resistência. A violência da investida foi tal, que perdi o equilíbrio e estatelei-me no chão. Olhei em volta, com o coração em debandada. Qual não foi o meu espanto ao descobrir-me na gruta que outrora servira de morada a «O Que Tudo Vê»! A Pedra do Tempo reinava para lá da entrada, sob o céu tormentoso do Norte, cintilando com tal intensidade que dir-se-ia que me chamava...

— Edwina!

O apelo fez-me virar a cabeça. Edwin quedava-se a curta distância, sob a aura cintilante da caverna de luz. Via-o indistintamente, como se a parede que nos separava fosse feita de gelo. Ainda aturdida, pus-me em pé e apressei-o:

— De que é que estás à espera? Vem!

Os punhos do Rei da Lua fecharam-se sobre a barreira trans­lúcida e o seu olhar desviou-se. A voz saiu-lhe rouca e trêmula, ao replicar:

— Eu não consigo atravessar a rocha, como tu fizeste.

Senti as forças abandonarem-me. A Montanha Sagrada libertara-me... Contudo, teimava em manter Edwin cativo, condenando-nos, mais uma vez, à separação.

— Não pode ser! — arquejei, forçando-me a reagir. — Tenta de novo! Recorre à magia da Lágrima da Lua! Se eu fui capaz...

— É inútil — atalhou ele num tom sóbrio, reunindo coragem para me encarar. — Se estás livre e eu não, é porque a Montanha ainda espera algo de mim.

— Raios, Edwin! — praguejei, exasperada. — Recuso-me a deixar-te!

O estranho fenômeno que animava a rocha tornou a ceder-me passagem. Era como atravessar um nevoeiro cerrado, que se colava à pele e ardia nos olhos. No entanto, mal dera um passo já Edwin recuava, objetando:

— Não! Não voltes para trás! Quem nos garante que a Montanha te tornará a soltar? A Freya precisa de ajuda... E o teu povo necessita da magia da Guardiã da Lágrima do Sol.

Estaquei, fulminada pela sabedoria das suas palavras. Era evidente que a Montanha só me deixava partir para que salvasse Freya e os príncipes vândalos. No entanto, impunha-me um sacrifício brutal: perder o Rei da Lua novamente.

— Vai, Edwina — ordenou com firmeza, ante a minha hesitação. — Desconheço o que a sorte me reserva... Porém, garanto-te que não ficarei de braços cruzados! Hei de provar que sou digno da graça da Pedra do Tempo e cumprirei o meu destino diante do Guardião da Montanha. Juro-te pela magia da Lágrima da Lua que, logo que tal aconteça, irei ter contigo onde quer que estejas.

— Edwin... — protestei, dividida entre dois destinos que me dilaceravam o coração.

— Amo-te, Rainha do Sol — sussurrou ele, virando-me as costas. E, de imediato, a luz da caverna de cristal apagou-se.

O meu próximo passo determinaria o futuro de todos nós! As lágrimas rolaram-me pelas faces, enquanto corria para a arca que guardava os haveres que «O Que Tudo Vê» deixara na Terra. Jamais imaginara que, um dia, necessitaria de vestir as roupas que tinham pertencido ao meu bisavô! Porém, nesse momento, a sua túnica larga, a capa comprida de lã, até as botas de pele que quase me saltavam dos pés eram bens mais preciosos do que um rico vestido de baile, ornado a seda e ouro.

O ar gélido da noite esbofeteou-me. A magia da Montanha impedia que a malignidade da tormenta violasse a sua aura protetora. Todavia, para lá da barreira de energia emanada pela Pedra do Tempo, o caos abatia-se sobre o Norte. O vento dobrava árvores centenárias, como se os seus troncos não passassem de caules frágeis; instigava as ondas do mar contra os fiordes, com uma violência ensurdecedora. A neve jorrava do negrume do céu e sufocava a terra... Um aldeão que se atrevesse a sair do abrigo do lar, para o centro desse pesadelo, decerto enfrentaria a morte.

De súbito, um brilho fulgurante rasgou a bruma, atraindo o meu olhar para a base da Pedra do Tempo. Engoli em seco, ao compreender do que se tratava. Eu própria enterrara a pedra azul da feiticeira Aranwen no solo abençoado, certificando-me de que mais ninguém, para além daqueles que partilhavam o meu sangue, poderiam recuperá-la. Todavia, eis que ela se erguia da terra como se animada de vida! A própria Montanha Sagrada quebrara o encantamento... E eu não estava em posição de questionar os seus desígnios!

Mal coloquei o amuleto ao pescoço, um relincho avivou o ar e um magnífico garanhão preto saiu das sombras das árvores e correu até mim. Na sua visita, a convicção de Thora fora tão forte que confiara Bravo à Montanha Sagrada, na esperança de que eu surgisse das entranhas da terra e cavalgasse de regresso a casa. Esse gesto representava uma colossal prova de amor, atendendo a que a minha irmã jamais se separava da sua montada... Além disso, podia ter determinado a salvação de Freya!

Em outras circunstâncias, não me passaria pela cabeça montar o fogoso animal... Aliás, ele nunca o permitiria! Bravo detinha uma personalidade forte; atrevia-me mesmo a dizer racional! Era impossível obrigá-lo ao que quer que fosse, contra a sua vontade. No entanto, revelou-se tão dócil quanto a minha égua. Perplexa e um pouco temerosa, subi para o seu dorso... E, sem aguardar uma ordem, o cavalo galopou Montanha abaixo, rumo à floresta.

Tentei não pensar no que me esperava. Neguei-me a recordar o que deixara para trás. Mal saímos do trilho mágico, deparamos com a violenta nevasca que fustigava a Floresta dos Carvalhos. Não obstante ser impossível distinguir um palmo diante do nariz, Bravo não hesitou. Protegi o rosto sob as suas longas crinas e deixei-me conduzir através das trevas cerradas, onde os remoinhos de vento carregavam bátegas de gelo, assombrando o ar com os seus gemidos tenebrosos. Gwendalin instigava a tempestade, obcecada pela ânsia de enterrar Freya, Helgi e Helga sob uma mortalha de neve. A tentação de me socorrer da Arte para contrariá-la era quase incontrolável. No entanto, resisti. Se o olhar da feiticeira se mantivesse nos fugitivos, talvez eu passasse despercebida e chegasse a tempo de livrá-los da morte.

Os contornos das primeiras casas de um povoado revelaram-se subitamente, frágeis ante o rigor da tormenta. Naquele instante de extrema ansiedade, senti um aperto no peito, ao verificar quão longe me encontrava do castelo do rei Steinarr e do auxílio de Ivarr. Acabara de chegar à Terra Antiga, domínio do jarl Eric... Todavia, a minha angústia só durou uma batida de coração. Por entre o cansaço e a aflição, a revolta e o desencanto, concluí que a sorte me encaminhara na direção correta.

 

Helga sentia-se à beira da exaustão. Lutava para libertar os pés do manto de neve que cobria o solo, mas tinha a sensação de que não avançava. A fuga da aldeia deixara-a sem magia na essência, à qual pudesse recorrer para contrariar o inevitável. Se não fosse a energia curativa que Freya lhe cedera, já teria desmaiado. Desesperava-a pensar que iam perecer gelados, depois de tudo o que haviam enfrentado. Se ao menos Conselheiro ali estivesse, correria a buscar ajuda... O seu querido amigo morrera para salvar-lhe a vida! Porém, afigurava-se que o sacrifício do cão-lobo fora vão. A sorte não os abençoava.

Freya recordava o brilho do olhar de Thorson e o calor do seu riso, tentando reunir forças para o próximo passo. O vento empurrava-os para trás. A neve cegava-os e desorientava-os. Valia-lhes a capa mágica da rainha Lyria, que como que se esticara, formando um manto protetor que os mantinha quentes no âmago da tempestade. Contudo, apesar da capacidade de alentar o corpo e o espírito, a capa não possuía o poder de sarar... E a energia curativa de Freya esgotava-se, sem que o ferimento de Helgi parasse de derramar sangue. Se não encontrassem ajuda rapidamente, acabariam por perdê-lo.

De início, o Espírito da Escuridão recusara-se terminantemente a bradar por socorro aos Viquingues, convicto de que seriam esquarteja­dos antes de terem possibilidade de se justificar. Todavia, à medida que a dor o forçava a ranger os dentes e a perda de sangue o enfra­quecia, fora obrigado a sujeitar-se a esse risco. Talvez os guerreiros de Steinarr reconhecessem a filha do jarl Throst e poupassem Helga... Quanto a si, a morte não o assustava, desde que fizesse a passagem com a certeza de que as suas mulheres estavam a salvo. No entanto, nenhum dos seus apelos obtivera resposta. Era como se todas as almas da floresta tivessem sido subjugadas pela nevasca. Só lhes restava buscar o trilho que os conduziria até ao Povo da Terra e esperar que a rainha Lyria lhes concedesse abrigo e proteção.

Helgi conhecia a floresta como a palma da mão... Porém, nesse momento, era incapaz de divisar onde se encontravam. Apertado entre Helga e Freya, começou a aperceber-se de que já não era ele quem as incentivava a avançar. Eram as mulheres que o amparavam! A sua visão turvava-se. As brumas cerravam-se diante dos seus olhos. A saliva misturava-se com o sangue e forçava-o a cuspir para evitar o vômito. Sabia que estava prestes a ceder... E sentiu medo. Se tombasse inconsciente, morreria num piscar de olhos e as jovens estariam condenadas. Isso era mais do que podia suportar! Tinha de se concentrar. Levantar um pé... Depois o outro... Respirar... Esquecer a dor e respirar...

A visão do príncipe vândalo tornou-se inútil. Frustrado, deixou-se conduzir... De súbito, o assobio tenebroso do vento cedeu lugar ao canto de um ribeiro. Helgi escutava-o distintamente, enquanto o perfume da erva virgem lhe inundava os pulmões. Como por encanto, as dores e a fraqueza que o atormentavam desvaneceram-se. Abriu os olhos e deparou com o interior de uma gruta sem teto, onde a luz quente da lua cheia realçava os verdes e os castanhos dos musgos, raízes e trepadeiras que forravam as paredes. Os seus pés nus repousavam sobre uma laje polida, que se erguia acima do nível da água. Helgi conhecia aquele lugar! Já ali estivera, há muito tempo... Como era possível que tivesse regressado à Ilha dos Sonhos?

Arfando de antecipação, virou o rosto... e deparou com a sua amada, observando-o com um enlevo ansioso. A mais bela de entre as mulheres... Não! Freya não era uma mulher! Era uma deusa! Só uma deusa seria capaz de resplandecer com tão fulgurante glória. Só uma deusa podia arrebatar o coração da fera que habitava a sua essência, levando-a a manifestar-se com todo o ardor. E a deusa-menina não temia o lobo, no instante em que se entregava aos braços do homem, com um suspiro arrebatado. A sua pele branca era seda imaculada; os cabelos negros, o mais deslumbrante dos mantos... E o brilho magnificente da pedra mágica, que se aninhava entre a perfeição dos seus seios, marcava o príncipe com dedos de azul rutilante e quente, que lhe penetravam na carne e envolviam o coração. O Espírito da Escuridão não voltaria a ser o mesmo! Helgi, filho do rei Vestein, conhecia, finalmente, o sabor da felicidade...

— Helgi! Não! — Freya chamava-o... Todavia, em vez de deleita­da, a sua voz estridulava pejada de aflição.

— Helgi, abre os olhos! Resiste, irmão! Resiste...

Helga? O que estava a sua gêmea a fazer na Ilha dos Sonhos? Num ápice, o guerreiro viu o Altar da Terra desaparecer, sugado por uma escuridão nefanda e gélida. A dor fulminou-o qual raio amaldiçoado. A custo, distinguiu os rostos aterrorizados de Freya e Helga pairando sobre o seu e recordou a agonia que enfrentavam. Tentou mover-se, mas toda a sua vontade não bastou para animar um músculo.

— Continua, Helga — suplicou, com um esforço supremo. — Tu és capaz! Salva Freya... Salva o meu filho...

— Não! — atalhou Freya, por entre soluços de agonia. — Eu não irei sem ti!

Helgi ainda tentou falar, mas a língua não lhe obedeceu. As suas dores dissipavam-se, substituídas por uma dormência abençoada; um torpor que o arrastava para o esquecimento. Freya afundou a cabeça no seu pescoço, pranteando em desespero. A última percepção do príncipe foi o calor da mão da irmã gêmea sobre a testa; a sua voz terna a acariciar-lhe o espírito:

«Até breve, meu querido... Descansa em paz.»

— Não me deixes! — carpia Freya, destroçada. — Não me deixes...

Lutando contra as lágrimas, Helga abraçou-a e sussurrou:

— O Helgi deu a vida pela nossa liberdade; para que um dia possamos contar aos vossos filhos a história da sua nobreza e coragem. Por mais que nos doa, é demasiado tarde para ele... Mas tu tens de subsistir, pela criança que carregas no ventre... e pelo Thorson! Vem!

— Espera! — suplicou Freya, recusando-se a mover. — Não desistirei enquanto existir uma réstia de calor no corpo do teu irmão. Se permanecermos juntos, a capa mantê-lo-á vivo por mais algum tempo. — Foi a sua vez de sacudir a princesa, com uma convicção inabalável: — A magia há de salvar-nos! Tens de acreditar, Helga! Tens...

Calou-se abruptamente, ao sentir uma oscilação na energia que os rodeava. A princesa também se apercebeu e buscou nas vestes da companheira a causa da súbita perturbação. A Lágrima do Sol surgiu como uma chama rompendo as trevas. O cristal palpitava, prenhe de magia... exuberante de poder! No entanto, só quando o olhar extasiado de Freya trespassou a superfície resplandecente, eu fui capaz de alcançar a sua mente e apelar:

«Aguenta-te firme, irmãzinha... Nós estamos a caminho!»

Uma cometa de alarme estrondeou assim que entrei na Terra Antiga. Não obstante o rigor da tempestade, quando cheguei à casa do jarl Eric já muitos guerreiros tinham saído à rua.

Ao ver-me, o meu primo foi incapaz de conter a alegria. Além da forte amizade que nos unia, Eric também devotava um incomensurável respeito à Guardiã da Lágrima do Sol. Soubera do meu desaparecimento e temera-me morta. Aliás, segundo ele, todo o País dos Viquingues se convencera de que eu tombara, vítima de Aesa. De imediato, enviou mensageiros ao castelo do rei Steinarr com o anúncio da boa-nova. Depois, demandou que lhe contasse o que me acontecera. Porém, não havia tempo para tal. Por entre sopros de aflição, supliquei-lhe que me seguisse até à Floresta Sombria. Qualquer outro teria insistido em saber a verdade... Mas não Eric! A minha palavra bastava-lhe para justificar a urgência e a gravidade da misteriosa campanha.

Em menos de nada, dez homens estavam armados e a cavalo. Bravo continuava disposto a conduzir-me, para surpresa dos guerreiros que conheciam o temperamento exaltado do garanhão da loba prateada. Eric deu ordem de partida e eu respirei fundo, tentando sentir a pulsação da Lágrima do Sol. O elo que me tornava una com o cristal era a minha esperança de encontrar Freya.

A nevasca tornava o nosso progresso lento, quase impossível. Alguns homens estavam com dificuldade em controlar os cavalos. O vento carregava os gemidos dos condenados do submundo; gelava os ossos e assombrava os espíritos. Ainda assim, eu liderava com convicção, apesar de desconhecer para onde nos dirigíamos. Bravo não hesitava e a feiticeira em mim já submetera a sua confiança às forças que o instigavam.

E era essa feiticeira que se arrepiava, a cada passo que nos aproxi­mava da Floresta Sombria. «O Que Tudo Vê» sempre me admoestara para o perigo que Gwendalin representava, mesmo depois de morta, reduzida a cinzas e prisioneira de um pote de ferro escondido no coração da cidade da Gente Bela. Enganavam-se aqueles que opinavam que nenhuma mestra da Arte Obscura podia ser mais terrível do que Aesa. Essa vestira, na perfeição, a pele de uma rainha... Gwendalin não passava de uma rameira sem escrúpulos, que não recuaria diante de nada, nem de ninguém, na prossecução dos seus objetivos. A tormenta que nos sujeitava era a sua declaração de guerra; a prova de que não voltaria a existir paz na Terra, enquanto um descendente de Hakon e de Aranwen respirasse.

Mal entramos na floresta, os cavalos ganharam ânimo. As copas cerradas das árvores escudavam o solo da avalanche que tombava do céu e os troncos robustos combatiam a ferocidade do vento. Pela primeira vez, desde há muito, escutei o apelo da Lágrima do Sol; de início débil, como um tímido sussurro que receia as conseqüências de se fazer ouvir, crescendo em alento à medida que a proximidade garantia segurança. O temor de descobrir a minha irmãzinha gelada cortava-me a respiração. No entanto, mantinha-me firme diante do jarl e dos seus guerreiros. Bravo corria tão rápido, que as outras montadas só nos acompanhavam a custo. Porém, tive a sensação de repisar o tempo, até que a cintilação deslumbrante da Lágrima do Sol se revelou apenas aos meus olhos, avisando que o objetivo fora alcançado.

Saltei do cavalo enquanto Eric detinha o andamento dos homens. Sem delonga, comecei a escavar o monte de neve que uma árvore centenária amparava, sentindo a energia da Lágrima do Sol palpitar ao ritmo do meu coração; forte, cada vez mais forte, até o sangue se transformar em fogo vivo. As mãos de Eric juntaram-se às minhas e não tardamos a vislumbrar um pedaço de lã sob as chamas dos archotes — a capa da rainha Lyria.

Os cabelos castanhos acobreados de Helga brilharam quais flamas sob o alvor do gelo. O jarl puxou-a para o seu colo e eu lancei-me sobre Freya, com o ardor de uma fera que recupera a cria perdida. A voz da princesa vidente chegou-me aos ouvidos, fraca e enleada, tartamudeando algo acerca de um lobo cinzento. Contudo, toda a minha atenção se devotava à jovem que estremecia junto ao meu peito, abrindo os olhos verdes para a vida. A minha mão cobriu as suas, partilhando a magia da Lágrima do Sol, ajudando-a a recuperar a cons­ciência, lentamente, para que a sua mente não sofresse danos. Então, um guerreiro bradou:

— O homem é um príncipe vândalo!

Antes que eu pudesse reagir, o Espírito da Escuridão tinha três espadas encostadas à garganta. Freya soltou um gemido quase imperceptível; um apelo à minha intervenção. Voltei o olhar assustado para Eric e o jarl ordenou:

— Guardai as armas e afastai-vos!

Foi prontamente obedecido. Freya buscou o seu apoio, quando me abeirei de Helgi. Um olhar bastou para revolver-me as entranhas.

O príncipe vândalo mal respirava e a sua pele estava cinzenta. As roupas denunciavam que perdera muito sangue... Mesmo muito sangue! Adivinhava-se demasiado fraco para resistir ao frio, ainda que com o auxílio da capa mágica; excessivamente débil para lutar pela vida.

— Edwina... — suplicou Freya, atormentada. — Pelo amor que me tens... Não desistas de salvá-lo!

O que podia eu fazer? Pousei uma mão sobre o peito do príncipe vândalo e a outra na sua testa. O coração falhava... O espírito não respondia... A magia da Lágrima do Sol parecia não ter nenhum efeito sobre a essência de Helgi! Nessas condições, era tolice sequer pensar em desafiar a morte.

Assim que completei a observação, distingui a forma horripilante da rainha do submundo, deslizando por entre os troncos das árvores. Aproximava-se sem pressa, como se a minha angústia a divertisse. Aguardara que eu chegasse para se manifestar! Nós tínhamos muitas contas a ajustar. E, nesse momento, a minha impotência era o seu deleite.

O grito apavorado de Freya denunciou que também ela via a figura encapuzada de negro, pairando na direção de Helgi. Os guerreiros não possuíam a nossa sensibilidade, mas pressentiam algo funesto no ar. As espadas tornaram a sair das bainhas e os olhos perscrutaram as trevas, em busca de uma ameaça. Então, sem que eu esperasse, a pedra azul de Aranwen despertou; pulsou-me contra a pele com o fulgor de um pequeno sol, emitindo um calor quase insuportável. Levei a mão ao pescoço e o fio que prendia o amuleto desatou-se espontaneamente. Com o fôlego suspenso, pousei a pedra mágica sobre o peito do príncipe... E a essência do Espírito da Escuridão acordou.

Os meus olhos de feiticeira presenciaram o fenômeno que ultrapas­sava a capacidade do olhar humano. O lobo negro que habitava a alma de Helgi libertou-se do seu corpo, como se de uma entidade indepen­dente se tratasse. Os músculos poderosos esticaram-se e o pêlo eriçou-se, enquanto o fabuloso focinho se voltava para a rainha do submundo e a bocarra se escancarava, revelando presas do tamanho de adagas. Um rugido colossal ensurdeceu a tempestade e sacudiu a percepção de Eric, que me interpelou perturbado:

— Pelas barbas de Odin! O que está a acontecer, Edwina?

Fui incapaz de lhe responder, tal a comoção. E, obviamente, a devoradora de vidas também não contava com tamanha reviravolta nos acontecimentos. De repente, a presa que tomara como certa acometia na sua direção, espumando de raiva, com a veemência de um predador que nada tinha a perder. Guinchando terrificada, a horri­pilante figura ergueu as mãos descarnadas para deter o ímpeto da fera. As garras perfuraram o pêlo negro e o sangue do lobo manchou o alvor abominável dos ossos. Então, sem que nada o fizesse prever, a morte recuou e empreendeu uma fuga desenfreada até aos confins do submundo.

Desaparecida a ameaça, o Espírito da Escuridão fixou o olhar em mim, depois em Freya... e saltou sobre o homem que abrigava a sua essência. Prontamente, o olho são de Helgi abriu-se e o seu corpo convulsionou num espasmo violento, enquanto ofegava, sôfrego por ar. As suas mãos fecharam-se nas minhas, esmagando-as com o ardor da ansiedade.

— Freya... — titubeou engasgado. — Helga...

Subjugada pelo espanto e pelo júbilo, ignorei a dor e repliquei:

— Elas estão a salvo... E tu hás de ficar bem!

A sua expressão denunciou incerteza; um temor perfeitamente compreensível. Afinal, por mais que eu desejasse apaziguar os ânimos, Helgi e Helga não deixavam de ser príncipes vândalos, degredados em território viquingue. Ainda que subsistissem àquele pesadelo, enquanto o rei Steinarr não lhes concedesse proteção, qualquer garantia de segurança seria ilusória.

Em tempos, a Terra Antiga fora uma comunidade que prosperara sob a liderança de um valoroso chefe viquingue. Grim fizera grandes conquistas e trouxera abundância e satisfação ao povo que dele dependia. Os seus herdeiros, Arngrim e Thorgrim, seguiram-lhes as pisadas... Porém, os primogênitos destes possuíam valores e determinações completamente distintos. Gunnulf era um guerreiro temível, faminto por poder; Throst, um homem nobre, que sonhava com a paz. Os dois tinham combatido lado a lado, até Throst perceber que a ambição de Gunnulf era insaciável. Quando a história do povo viquingue começou a ser escrita, não só à custa de sangue inimigo, mas também com sangue aliado, intrigas, traições, excídios e mas­sacres, a amizade dos primos desmoronara-se. Enquanto Throst tentara unir os clãs e criar um único reino, Gunnulf e Arnorr, seu irmão mais novo, haviam conduzido a Terra Antiga à ruína.

Não há muito, o rei Steinarr entregara a Eric, filho de Krum, o honroso título de jarl e a colossal tarefa de recuperar a glória do território dos seus antepassados. O jovem guerreiro levara essa missão a peito. Ao entrar desembestada naquela que, respeitosamente, continuava a chamar-se Aldeia de Grim, eu não tivera oportunidade de observar o trabalho exemplar que Eric já realizara. Agora que desfrutava do alívio de ter Freya ao meu lado, livre de perigo, mara­vilhava-me com os progressos alcançados.

O meu primo não só reconstruíra a morada ancestral como convencera muitas famílias a mudar-se para os seus domínios, em busca de trabalho e proteção. Os homens tinham voltado a cultivar as quintas e as mulheres dedicavam-se ao fabrico de produtos para venda, tais como tapetes, mantas e jóias, tão apreciados pelas damas do Império. Sob a mão honesta, firme e justa do novo jarl, as cinzas e a degradação haviam cedido lugar a casas, estábulos, celeiros... Até o velho estaleiro à beira-mar fora restaurado! O próprio rei Steinarr já fizera uma encomenda de dois navios de guerra e um de comércio para a sua frota. Ainda havia muito que fazer, mas o coração da Terra Antiga palpitava novamente, pujante de vida.

O empenho e motivação dos aldeões eram perceptíveis, enquanto se atarefavam no arranjo dos telhados que a selvática tempestade danificara. Não obstante esse entusiasmo, o receio e a desconfiança perturbavam alguns espíritos da comunidade. Dois vândalos tinham sido trazidos para a casa do jarl Eric. O homem era o príncipe Helgi, reconhecido entre os Viquingues como o melhor guerreiro do seu povo. Quanto à mulher pouco se sabia, mas havia quem já a tivesse visto ao lado da rainha Aesa, no interior da barreira de espinheiros. No meio de tanta agitação, só existia um consenso: todos estavam satisfeitos e aliviados ante o regresso da Guardiã da Lágrima do Sol.

Eric regozijava por me ter de volta e guardar Freya em segurança. No entanto, apesar de tentar disfarçá-lo aos meus olhos, era óbvio que a presença dos vândalos sob o seu teto o inquietava. E, ao contrário do que seria de esperar, não era Helgi quem mais o afetava, mas Helga. A jovem como que o... intimidava! De início, quase se recusara a acreditar que ela era cega, devido à facilidade com que se movia. Tentei tranquilizá-lo, explicando que a princesa possuía a capacidade de enxergar com os olhos da mente. Porém, só lhe aumentei o desassossego. Acabei por dar a minha palavra em como Helga não representava uma ameaça para o nosso povo. No entanto, fiquei com a intrigante sensação de que não era o receio de uma traição que transtornava o meu primo.

A tensão que assaltava o dono da casa, sempre que se cruzavam, não passara despercebida à princesa. A fim de evitar mais constran­gimentos, Helga pedira-me que transmitisse a sua gratidão ao jarl, em vez de manifestá-la pessoalmente. Nesses dias conturbados, o irmão gêmeo absorvia-lhe toda a atenção. Contudo, nem mesmo a união dos nossos esforços se revelava suficiente para lhe devolver a consciência.

Após ter enfrentado a rainha do submundo, Helgi tornara a cair no esquecimento. A sua condição não se degradara, mas também não dava sinais de estar a convalescer. O corpo prostrado parecia desprezar a nossa energia curativa e alimentar-se exclusivamente do poder da pedra azul da feiticeira Aranwen. Todavia, por quanto tempo a magia do amuleto manteria o seu coração a bater? O que faríamos, no momento em que a vitalidade da pedra decaísse? Por mais voltas que desse à cabeça, não compreendia por que Helgi não reagia. Era como se, para além de energia curativa e magia, o seu restabelecimento dependesse de um ingrediente secreto; algo que escapava à minha percepção, capaz de concretizar o milagre.

Freya estava inconsolável. Era inútil pedir-lhe que deixasse a cabeceira do amado para repousar. A minha irmã vivia sob a obsessão de observar cada fôlego de Helgi, temendo fechar os olhos e surpreendê-lo morto ao despertar. Eu quase tinha de lhe enfiar a comida dentro da boca, para obrigá-la a alimentar-se! Só a lembrança de que carregava um filho no ventre lhe concedia algum alento. A sorte pregara-lhe uma partida indecente. A felicidade que sempre almejara estava a tão curta distância... Porém, adivinhava-se inatingível.

Nessa noite, enquanto Freya e Helga vigiavam o enfermo, Eric pediu para me falar. Encontrei-o à mesa, mastigando a contragosto uma fatia de pão com geléia. Passara o dia a trabalhar com os aldeões no restauro das casas. O cansaço pesava-lhe os traços bonitos do rosto e fazia-o parecer mais velho. Convidou-me a sentar e ofereceu-me a sua merenda, mas eu também não tinha fome. Algumas palavras de cortesia e avançou sem rodeios para o desagradável propósito da conversa:

— Como está o vândalo? Conseguiram reanimá-lo?

Fui sincera, mesmo sabendo que tal representava sarilhos. Terminei a confessar:

— Por alguma razão, o Helgi reage como se a minha magia fosse vento; uma brisa que lhe agita os cabelos, mas é impotente para o vergar. Entendes o que quero dizer?

Eric confirmou com a cabeça e eu soprei o ar, confidenciando:

— Helga contou-me que o irmão sempre mostrou resistência à influência mística. A própria Aesa era incapaz de lhe profanar a mente.

Foi essa faculdade que o ajudou a deitar as mãos às pedras de Aranwen... e a manter, durante anos, o amuleto azul ao pescoço, debaixo do nariz da sua rainha. Recentemente, até provou ser imune à terrível habilidade do Snari! Porém, nesta provação, esse dom tornou-se o seu maior inimigo.

O olhar do jarl cruzou o salão, até ao quarto onde Helgi re­pousava. Ponderou um pouco, talvez escolhendo as palavras antes de declarar:

— Odin é testemunha de que não morro de simpatia pelos Vândalos! No entanto, abri-lhes as portas desta casa a teu pedido. Sabes o quanto te estimo e respeito o teu julgamento, Edwina... Todavia, deves compreender que Ivarr continua a ser o meu príncipe e senhor. Descobrir que dei guarida a um dos seus maiores inimigos vai deixá-lo furioso! Eu esperava que, por esta altura, o vândalo já estivesse restabelecido e longe da Terra Antiga... O que acabaste de contar coloca-me numa posição delicada. — Fez uma pausa e passou a mão pela testa, desalentado. — Calculo que o Ivarr chegue amanhã. Se Helgi ainda aqui estiver, será feito prisioneiro... E não vejo como impedi-lo!

Respirei fundo e volvi com firmeza:

— Eu falarei com o Ivarr e assumirei total responsabilidade por Helgi e Helga. Prefiro enfrentar a sua ira, ao desgosto de Freya! — Estendi a mão e apertei a de Eric, determinada. — Não te inquietes. Depois de tudo explicado, Ivarr há de reconhecer que fizemos o que era devido!

— Não sei — replicou, apreensivo. — Temo que a nossa boa vontade se vire contra nós! Raios, Edwina! Para além de Vândalos, aqueles dois são bisnetos de Aesa... As suas mãos estão cobertas com o sangue da nossa gente!

Isso era irrefutável. No entanto, não bastava para subjugar a minha convicção. Mantive-me firme e objetei com serenidade:

— Não se passaram muitos anos, desde que o meu pai chegou à Grande Ilha com o coração cheio de ódio e, sob as ordens do teu tio Gunnulf, se bateu contra a família da minha mãe. Catelyn viu o irmão mais velho morrer nessa batalha... Pouco depois, era feita escrava e arrastada para uma terra hostil. Contudo, ao chegar à casa do homem que destruíra a sua vida, a primeira coisa que fez foi ajudar a tua mãe a trazer-te ao mundo. A sua bondade e o seu amor indicaram um novo caminho ao meu pai, ao teu pai e ao povo viquingue! Hoje, aqueles que eram inimigos são aliados...

— Jamais existirá paz entre Viquingues e Vândalos, prima! — contestou Eric, sem me deixar terminar. — E dar guarida a esses dois só aguçará o conflito! Neste momento, eles são traidores para o seu povo e assassinos para o nosso. Onde quer que estejam, façam o que fizerem, serão alvos a abater!

— Tens razão — concordei desgostosa. — Porém, Helgi e Helga merecem uma oportunidade... E eu farei tudo o que estiver ao meu alcance para lhes valer.

«Edwin...»

O apelo da minha mente rasgou a noite, mas não obteve resposta. Fechei os olhos, angustiada. As atribulações dos últimos dias tinham-me mantido distraída. Agora que assentava a cabeça na almofada, o meu coração era confrontado com uma miríade de emoções. Rangi os dentes, banindo os maus pensamentos. Devia confiar que o Rei da Lua se encontrava bem e que a magia da Montanha Sagrada acabaria por regenerar-lhe a essência. De outra forma, como reuniria tranqüilidade para superar os desafios que me aguardavam?

Se Eric estivesse certo, Ivarr chegaria nessa manhã... Eu devia preparar-me para enfrentar a sua ira, o seu rancor e indignação. No fim de contas, ele ainda era meu marido! E, apesar de o nosso casamento estar condenado, eu valorizava imensamente a sua amizade. Só esperava que Ivarr entendesse... Que não misturasse as nossas divergências com os problemas levantados pelo salvamento dos príncipes vândalos. Seria muito triste se decidisse puni-los só para me magoar.

Respirei fundo e fixei as sombras que a lareira projetava no teto de colmo. O ressonar dos homens competia com os silvos do vento. Se não fosse o ar gélido, podia imaginar que estava em casa, na Ilha dos Sonhos... Sim, porque o castelo do rei Steinarr nunca fora o meu lar! Eu detestava a frieza austera das suas paredes de pedra; a forma como todos me fitavam, como se pretendessem arrancar de dentro de mim alguém que não existia. Edwina, a princesa herdeira do trono viquingue... Era um alívio pensar que me livrara desse fardo!

A lembrança da Ilha dos Sonhos causou-me um aperto no peito. Sentia muitas saudades dos meus pais! Se Throst aqui estivesse, seria o primeiro a defender os príncipes vândalos. E Catelyn saberia o que fazer para salvar Helgi... Pelos raios flamejantes do Sol, eu tinha de descobrir uma maneira de lhe restituir a vitalidade! Mas como? Como?

Sobressaltei-me ao ouvir passos do lado de fora da cortina que separava o meu quarto do salão. Quem, além de mim, padeceria de vigília? Deixei-me vencer pela curiosidade e os olhos da minha essência deparavam com Eric, lançando toros na lareira para alimentar as chamas que aqueciam a casa. Os cabelos encaracolados caíam-lhe desgrenhados sobre os ombros e a desordem das suas roupas denunciava as reviravoltas que dera na cama, sem que o sono o abençoasse. Eric era um homem de personalidade forte e sólidas convicções. Todavia, pensar que estava prestes a defrontar Ivarr provocava-lhe agonias. Os dois eram inseparáveis desde crianças e, apesar de se ter tornado jarl, Eric não deixara de pertencer à alcatéia do rei-lobo. Porém, a disputa de Thora abrira uma ferida nessa sólida amizade... Ferida essa que podia transformar-se numa chaga profunda, se o príncipe não aceitasse as suas justificações para a proteção que cedera aos vândalos.

De súbito, a cortina do quarto que acolhia Helgi foi afastada. Prendi o fôlego, ao ver Helga atravessar o salão num passo incerto, levando a mão diante do corpo para evitar os obstáculos daquele ambiente estranho. O fato de sentir dificuldade em distinguir as formas que a rodeavam denunciava o quanto os nervos alteravam a sua percepção.

Eric observou a princesa com o cenho franzido. Helga era uma mulher extremamente bela mas, nesse instante, mais parecia uma assombração. O vestido de lã branca, que a esposa de um dos guardas do jarl tivera a generosidade de lhe oferecer, assentava-lhe dis­formemente no corpo, demasiado largo para realçar as formas esguias. Os cabelos acobreados e lisos estendiam-se até à cintura, contrastando com o palor das suas faces. Em redor dos olhos cegos, manchas negras testemunhavam a mais profunda das tristezas. A princesa estava a consumir-se em vida! Diante do jarl da Terra Antiga, prostrou-se em reverência e suplicou:

— Sei que não é o momento apropriado, senhor... Contudo, peço-vos que me escuteis.

A ruga na testa masculina aprofundou-se. A sua rigidez era notória, quando retorquiu com a voz presa:

— Levantai-vos! Deveis vassalagem ao príncipe Ivarr, não a mim. O olhar branco encarou o olhar verde. A expressão de Helga revelava surpresa ante a simplicidade de Eric. O meu primo hesitou... As boas maneiras obrigavam-no a estender a mão para ajudá-la. No entanto, demorava a concretizar o gesto, como se receasse o contacto. Ciente do seu desconforto, a vidente ergueu-se sozinha e deu-lhe tempo para se recompor. O silêncio pesou entre eles, até Eric reunir alento para indagar:

— Em que vos posso ser útil?

Os lábios de Helga tremeram antes de balbuciarem:

— Não pude deixar de vos ouvir, há pouco. Sei que já fizes­tes muito por nós, mas... Helgi é tudo o que me resta! Se morrer... — A voz principiou a falhar-lhe e terminou apressadamente:

— Suplico-vos que não entregueis o meu irmão ao príncipe Ivarr! Por favor, tende compaixão...

— Sinto muito! — atalhou o jarl. — O que solicitais está para além do meu poder. Eu devo lealdade ao príncipe Ivarr... Será ele quem decidirá o vosso destino.

A jovem vacilou e tentou sufocar um soluço, mas os olhos alvos encheram-se de lágrimas. Suplantada pela comoção, acabou por se arrojar aos pés de Eric, gemendo em desespero:

— Eu colocarei a minha magia ao vosso dispor, senhor! Servirei na vossa casa, até ao fim dos meus dias, se intercederdes a favor do meu irmão!

— Helga... Não...

O fraco protesto de Eric morreu-lhe na garganta. Com uma exclamação condoída, baixou-se e puxou a princesa para os seus braços. Helga tentou resistir, mas o calor desse gesto reduziu as suas defesas a cinzas. Deixou a cabeça tombar no peito do jarl e rendeu-se ao choro, libertando a agonia que a destroçava.

Perplexa, vi os olhos do meu primo cerrarem-se, quando o perfume dos cabelos de cobre lhe invadiu o nariz. Então, compreendi que o sentimento que o forçava a evitar a princesa do povo vândalo não era desagrado... Muito pelo contrário! E, se eu podia constatá-lo, a vidente era capaz de assimilá-lo na pele, no ardor da aura que o envolvia e se declarava à sua percepção. Ainda assim não se afastava, como se o corpo de Eric fosse o último reduto seguro da Terra. Fiquei ainda mais pasmada, ao vê-lo aproximar o rosto do seu ouvido e murmurar com firmeza:

— Compreendo a vossa apreensão, Helga! Porém, asseguro-vos que o príncipe Ivarr é um homem justo. Não obstante o abismo que separa os nossos povos, terá em consideração o que fizestes por Freya e a sucessão de acontecimentos que vos conduziram até aqui.

A princesa estava esgotada. Só a grande custo fitou Eric. Temi que o jarl vacilasse perante o olhar cego, mas susteve-o com determinação. E os lábios femininos tornaram a estremecer... Contudo, desta feita, as suas faces roborizaram-se e a respiração aprofundou-se. Vislumbrava para além do homem e apreciava a lisura do seu espírito... A força da sua essência.

— Acreditais realmente na equidade do vosso príncipe? — inqui­riu numa voz rouca.

Eu imaginava as espinhosas recordações que tal pergunta suscitava! Todavia, o meu primo confirmou que ultrapassara quaisquer ressen­timentos ou mágoas que a disputa pela loba prateada pudesse ter despertado no seu ser, ao replicar com uma prontidão sincera:

— Ponho a minha vida nas mãos de Ivarr.

Helga assentiu com a cabeça e retrucou com a mesma resolução:

— Então, também eu me coloco à sua mercê!

Por um instante, fixaram-se em silêncio. Depois, Helga reuniu coragem para se suster. Eric ajudou-a, mas demorou a deixá-la partir. Talvez quisesse assegurar-se de que as pernas não lhe falhavam... Ou, simplesmente, não conseguia apartar-se dela. Pelo menos, o tormento que carregava o semblante da princesa atenuara-se. Deslizou para longe da proteção dos braços do jarl e regressou ao seu quarto. Afastava a cortina quando ele apelou:

— Helga...

Os seus olhos tornaram a encontrar-se e o tempo arrastou-se. Por fim, Eric respirou fundo, exclamando simplesmente:

— Boa noite, princesa!

A jovem brindou-o com um sorriso tímido, volvendo:

— Boa noite, Lobo Cinzento.

E desapareceu antes de lhe permitir resposta. Porém, o sorriso que nascia nos lábios de Eric e a luz que lhe incendiava o olhar faziam prova do seu arroubo. Pouco depois, o meu primo tornava à cama e adormecia sem dificuldade.

A manhã mal despontara quando visitei o quarto de Helgi. Detive-me assim que entrei, paralisada de horror. Helga estava à cabeceira do enfermo, com a mão na sua testa e o rosto banhado em lágrimas. Foram escusadas palavras para justificar a sua angústia. Sobre o peito do príncipe, a cintilação mágica da pedra azul extinguia-se. Eu sabia que esse momento acabaria por chegar, mas não imaginara ter de enfrentá-lo tão cedo, sem nenhuma idéia de como contrariar o infortúnio. O meu olhar fixou-se em Freya que dormia profunda­mente, sentada no chão com a cabeça sobre a cama, alheia à desdita que ameaçava o seu futuro. E a voz de Helga preencheu-me a mente, sem melodia, despida de esperança:

«É inútil, Edwina! Já tentei todos os sortilégios que conheço e entreguei-lhe a minha energia... O meu irmão vai morrer, não importa o que se faça! Não é justo! Era eu quem devia estar no seu lugar. Eu, que não tenho ninguém que dependa de mim ou chore a minha partida...»

«Não digas isso!» — ralhei. — «A vida é uma bênção. Não deves desprezá-la!»

«O Helgi foi ferido por minha culpa! Se não tivesse hesitado diante de Raud... Se tivesse reagido mais cedo... Como queres que me sinta, ao pensar que o meu irmão podia finalmente ser feliz...? E que eu, logo eu, o privei dessa ventura?»

Repousei a mão sobre a sua, replicando apaziguadora:

«Se não fosse por ti, nenhum de vós teria escapado da aldeia. Estais a salvo e não deveis perder a esperança! Temos de combinar esforços para achar uma cura.»

«Que cura? Que esperança nos resta, quando a magia da Guardiã da Lágrima do Sol se revela improfícua?»

Essa era a pergunta para a qual eu não tinha resposta!

Nesse instante de extrema comoção, uma trompa ecoou pela aldeia, fazendo-nos saltar de susto. Fechei os punhos e prendi a respiração, ao ouvir a forma como o toque se desdobrava, numa saudação reservada aos soberanos do País dos Viquingues. Helga escondeu o rosto e começou a soluçar. Freya acordou, assustada. E eu soprei o ar, gelada só de imaginar o que me aguardava. Ivarr não podia ter chegado em pior altura!

O povo encheu as ruas, carregando archotes para iluminar a bruma da manhã e agitando as armas numa calorosa saudação ao herdeiro do trono viquingue. Deixei a casa e quedei-me ao lado de Eric, com as pernas bambas e a mente fustigada por dilemas. Apesar de conhecer Ivarr desde o berço, era incapaz de prever qual seria a sua reação ao encarar-me.

Thora cavalgava ao lado do príncipe herdeiro, seguida por Bryan, Ragnar e Darrin. A minha garganta enodou-se, ao recordar o destino de Ketill. De certa forma, sentia-me responsável pela morte do primo de Ivarr. Enquanto os via aproximar-se — uma mancha colorida de guerreiros a cavalo, com os cabelos desafiando o vento — pensei em como tudo teria sido diferente, se eu não me tivesse precipitado atrás de Edwin, na véspera do Festival de Inverno. Esse ímpeto não só mudara a minha vida, como interferira na sorte de Viquingues e Vândalos.

Uma brisa amena aconchegou-me a essência. Reconheci-a de imediato, mas não pude acreditar que fosse real. Então, verifiquei que

Bryan não cavalgava sozinho. Os meus olhos arregalaram-se, num misto de receio e expectativa, ao vislumbrar Thorson apertado contra o seu peito. Por mais que a razão resmungasse que trazer o meu sobrinho para a Terra Antiga fora uma tremenda irresponsabilidade da parte de Ivarr, o coração jubilava de alegria. Pelo menos, Freya teria o consolo de abraçar o filho, nesse momento de incerteza e aflição.

Thora foi a primeira a saltar do cavalo. Sem hesitar, absorveu-me no seu entusiasmo. Correspondi ao ardor desse abraço, emocionada e confortada pelo seu carinho.

— Eu sempre soube que estavas viva — sussurrou-me ao ouvido. — Estou tão feliz por te ver!

Pelo canto do olho, verifiquei que Ivarr descia da montada e estreitava Eric com a exaltação de sempre. Depois, a minha atenção voltou-se para Bryan. Thorson espinoteava nos seus braços, tentando saltar para o meu colo. Esmaguei-o contra o peito e afundei o rosto nos cabelos castanhos acobreados. A cada dia que passava, o meu sobrinho estava mais parecido com Helgi! Quão cruel era o destino, ao unir pai e filho tarde demais para um beijo, uma palavra de ternura... um simples olhar! A voz embargada de Thora chegou até mim:

— Sei o que estás a pensar, Edwina... Porém, foi impossível deixá-lo para trás!

Fixei-a, sem compreender. Nesse instante, Thorson suplicou-me ao ouvido:

— Leva-me ao papai, tia! Leva-me ao papai... Depressa!

O meu coração disparou a galope, enquanto a luz da esperança se reacendia. Talvez esse fosse o milagre pelo qual tanto ansiávamos.

Thorson e eu partilhávamos um segredo. Há algum tempo, a Lágrima do Sol revelara-lhe a verdade acerca do progenitor. Eu nunca contara o sucedido a Freya, receando que se deixasse suplantar pelo pânico e proibisse o filho de treinar a Arte. Marcado como estava pelo destino, Thorson necessitava da magia do cristal para equilibrar as forças que lhe pelejavam no espírito, pelo controlo da sua vontade. Só podia imaginar o quanto o pequeno sofrerá, privado da influência da Lágrima do Sol por força dos últimos acontecimentos. Todavia, a sua excelsa percepção não parecia afetada. Apesar da tenra idade, sabia exatamente por que viera... E o que necessitava de fazer. Enquanto o carregava ao colo até ao quarto onde Helgi definhava, fui assaltada pela convicção de que Thorson seria melhor Guardião do que eu...

Isso, se sobrevivesse aos sobressaltos que decerto o aguardavam, até estar preparado para assumir a sua herança de sangue — o legado de «O Que Tudo Vê».

Ao ver-nos entrar, Freya saltou da cama e tomou o filho nos braços, chorando compulsivamente. Helga prendeu o fôlego e o seu olhar cego voltou-se para a loba prateada. Instintivamente debruçou-se sobre o irmão, como se temesse que a guerreira desembainhasse a espada e acometesse contra ele. A minha presença tranquilizou-a, pois logo se atrevia a fixar Thorson, extasiada. No entanto, o pequeno não lhe prestou atenção. Mal a mãe o beijara, já se esticava na direção do enfermo. Ao meu lado, Thora justificava:

— Ainda o mensageiro de Eric não chegara ao castelo, já Thorson gritava pelo pai. De início, julguei que vós havíeis cometido a insensatez de lhe contar. Depois, descobri que é constantemente arrebatado por Visões. Nós não fazíamos idéia do que se estava a passar... Porém, Thorson sabia que tinha de vir conosco! Ivarr relutou em trazê-lo, mas eu insisti. O que sucedeu com o tio Edwin, na Ilha dos Sonhos, levou-me a acreditar que tamanha veemência tinha um propósito. Pelos vistos, não me enganei!

Como se guiado pela determinação de uma Entidade superior, o meu sobrinho pousou as mãos sobre a pedra azul da feiticeira Aranwen. De imediato, uma luz resplandecente irrompeu de entre os seus dedos, tão intensa que nos cegou. Era como se o cristal amor­tecido tivesse recebido uma descarga de energia e ressuscitasse, espargindo magia, latejando poder.

Escutei as exclamações de pasmo das minhas companheiras, sem conseguir reagir. Do nada, fui fulminada pela recordação de um quarto quente, onde as chamas vivas dos castiçais projetavam sombras bailarinas nas paredes. Senti o conforto das cobertas macias em redor do corpo como se fossem reais... Depois, um homem enorme surgiu diante de mim, com cabelos de Sol e olhos de mar; um homem que, até àquele momento, eu só abraçara em sonhos. A felicidade brotou-me do peito e explodiu-me na garganta, num grito extasiado: «Papai! »

Naquela noite, na Enseada da Fortaleza, Throst, filho de Thorgrim, descobrira que tinha uma filha. A minha mãe sempre me contara essa história com infinito carinho, mas eu nunca me recordara efetivamente do que acontecera... Agora, era como se revivesse o maravilhoso instante em que abraçara o meu pai e enterrara os dedos nos seus caracóis rebeldes pela primeira vez. Ele chorava... A comoção fazia-o estremecer. E eu ria, gargalhava, saltava de felicidade, enquanto o Líder Supremo do povo viquingue me elevava ao encontro das estrelas, me reconhecia como sua e abençoava.

Aos poucos, fui recuperando a noção da realidade. No quarto onde Helgi repousava, o clarão azul da pedra mágica dissipava-se, restituindo a visão aos olhos encandeados. O amuleto recuperara o seu vigor... Porém, o Espírito da Escuridão continuava inconsciente. E Thorson desfalecera sobre o corpo do pai.

Precipitei-me em frente, com o coração nas mãos e o grito apavorado de Freya a perfurar-me os ouvidos. Suspirei de alívio, ao constatar que o pequeno estava apenas desacordado. A pedra assimilara tanta energia à sua essência que o privara dos sentidos.

Antes que nos pudéssemos pronunciar, a cortina do quarto escan­carou-se com tal ímpeto que o tecido rasgou-se. Ivarr e Eric surgiram, exibindo expressões alarmadas. Thora apressou-se a justificar o estranho fenômeno que havíamos presenciado. O alívio do jarl contrastou com a irrascibilidade do príncipe. O olhar verde cristalino cravou-se em Helga, com uma animosidade fervorosa. A princesa do povo vândalo recuou, como se desejasse que a parede se abrisse para permitir-lhe a fuga. Então, Ivarr fixou Helgi com declarado des­prezo... E o seu rancor manteve-se ao encarar-me. Sem uma palavra, deu-nos as costas e regressou ao salão.

 

Ivarr conhecia-me sobejamente bem. Sabia que a sua indiferença podia ser mais dolorosa do que mil insultos ou uma agressão. Eu decerto rebateria as injúrias ou revidaria, se ele se atrevesse a ameaçar-me. Porém, era impotente contra o seu silêncio; o olhar que me atravessava como se eu fosse transparente. Essa tortura estendeu-se pela tarde e trouxe grande desconforto àqueles que conosco partilha­vam a mesa, durante a refeição da noite.

O assunto que dominou grande parte do jantar também não ajudou a comida a escorregar pela garganta. Inevitavelmente Ketill foi recordado pelos companheiros, por entre gritos de louvor... e de revolta. Tive a confirmação de que o jovem seguira o general do rei Steinarr, até à aldeia da rainha Aesa, à revelia de Ivarr. As suas motivações eram óbvias e ninguém as comentou. No fim, o que importava salientar era que Ketill tombara como um herói, defen­dendo a liberdade de uma princesa viquingue... E que, mais uma vez, os Vândalos se tinham revelado bestas selvagens, que não mereciam o ar que respiravam.

Com o desenrolar da conversa, verifiquei que Eric já transmitira a Ivarr todas as informações que eu própria lhe fornecera acerca do rapto de Freya, do desentendimento entre Helgi e o rei Raud, da morte de Aesa e do ressurgimento de Gwendalin. Contudo, nem por uma única vez o príncipe me questionou sobre o sucedido ou inquiriu da minha opinião. Após o jantar, reuniu-se com o jarl e os restantes lobos da sua alcatéia, ignorando-me como se eu não existisse. A sua intenção de me afrontar ficou declarada, quando solicitou que Freya deixasse a cabeceira do príncipe vândalo e comparecesse diante dele.

Empinei o nariz e dirigi-me ao quarto de Helgi, ansiosa por boas notícias. Todavia, nada se alterara, para além do nervosismo crescente de Helga. A vidente parecia cada vez mais perdida. A alegria de conhecer o sobrinho fora superada pelo temor de que o irmão jamais despertasse para abraçá-lo. Apesar do sacrifício espontâneo de Thorson, o pai mantinha-se inconsciente. Sem dúvida ganháramos algum tempo, pois a pedra de Aranwen recuperara o deslumbrante brilho azul que sustentava o Espírito da Escuridão... No entanto, mal a magia do amuleto voltasse a esmorecer, o desespero sobreviria.

Freya entrou no quarto com os olhos inchados. Ivarr interrogara-a com uma frieza implacável, exigindo saber tudo o que acontecera desde que nós as duas deixáramos o castelo viquingue. Contudo, enfurecera-se de tal forma ao ouvi-la falar de Edwin, que praticamente não lhe tolerara uma palavra a favor de Helgi e Helga. Inclusive, negara-se a revelar a sorte que destinara aos irmãos vândalos. A angústia de Freya foi a gota de azedume que fez a minha impaciência transbordar. Furiosa, marchei através do salão com os punhos cerrados e um nó nas entranhas. A bem ou a mal, haveria de chamar Ivarr à razão!

Ao aproximar-me, surpreendi-o a questionar Eric acerca de Helga:

— Achas que a mulher é perigosa? Afinal, não nos podemos esquecer de que se trata de uma bruxa treinada por Aesa...

Calou-se abruptamente quando me viu chegar. A sua guarda fitou-me, apreensiva. Thora disfarçou um gesto suplicante, tentando avisar que não era o momento de sanar divergências. Porém, eu não me dispunha a aguardar mais! Enfrentei o rei-lobo e mastiguei sem cortesias:

— Não era a mim que devias fazer essa pergunta? Achas que Eric está mais habilitado a certificar o caráter dos príncipes vândalos?

Um silêncio constrangedor pesou ao nosso redor. O verde límpido transformou-se em luz candente, quando Ivarr me trespassou com o olhar. A sua exprobração era tão fervorosa, que o julguei com coragem para me injuriar. Após ranger os dentes, ordenou:

— Deixai-nos sós!

Ninguém ousou contradizê-lo. Thora foi a última a afastar-se, com um suspiro de desalento. Ivarr já respondia à minha provocação, num tom baixo e gélido:

— O juízo do Eric tem muito mais valor do que o teu! Na verdade, Edwina, acho que estás tão transtornada, que devias abdicar da condição de Guardiã da Lágrima do Sol, antes que mais alguém morra devido à tua irresponsabilidade...

— Como te atreves? — atalhei. Porém, ele inclinou-se sobre a mesa, pretendendo intimidar-me com a sua robustez, enquanto pros­seguia inflamado pela ira:

— Por que não és sincera, uma vez na vida? Já que abandonaste a tua casa, o teu marido e o teu povo para fugires com aquele aleivoso, devias ter a decência de assumir a vossa paixão! Arranca o teu primo do buraco onde se esconde e traga-o à minha presença! É tempo de eu conhecer o homem por quem suspiraste, durante as noites em que dormiste na minha cama. Quero olhar nos olhos do facínora que tentou matar-me e aos meus lobos; que traiu e roubou a rainha Lyria; que possibilitou o regresso à vida de uma feiticeira que pode destruir tudo aquilo que Viquingues e Aliados conquistaram.

Eu tinha de manter a calma! Engoli em seco e retorqui a custo:

— Com tantas questões importantes a exigirem decisão, permites-te subjugar pelo orgulho de macho ferido? O que eu fiz está feito, Ivarr! Decerto, hoje não procederia de igual forma... Todavia, na altura, achei que estava a agir corretamente. Se te desses ao trabalho de me escutar, saberias que não segui Edwin por leviandade. E que também ele teve as suas razões...

— Não vou perder tempo a ouvir-te desculpar o teu amante! — cortou com tal ardor, que acreditei que investiria contra mim. Obriguei-me a manter a compostura e retruquei:

— Se é isso que te incomoda, fica a saber que o Edwin não é, nem nunca foi, meu amante! No entanto, é verdade que o amo... Se a Montanha Sagrada o consentisse, haveria de te receber com o Rei da Lua ao meu lado, sem desonra, pois nada tenho de que me enver­gonhar!

Estávamos de pé, com a mesa a separar os nossos corpos tensos, rostos ardentes e olhos flamejantes. A magia de Ivarr latejava-lhe sob a pele, intensa e selvagem; o lobo rugia furiosamente dentro do homem, desejoso de sangue para apaziguar a raiva. Contudo, o príncipe decerto preparara-se para me enfrentar... E sabia como alcançar os seus objetivos. Surpreendi-me ao vê-lo engolir a ira e recuar. A sua respiração ainda se entrecortava quando se sentou, mas a voz já nada revelava além de um frio glacial, ao replicar com uma expressão altiva:

— O que fizeste tornou a nosso convívio insustentável. Mal regressemos ao castelo, virás comigo diante do rei Steinarr e do povo viquingue, anunciar o fim do nosso casamento. Nesse dia, serás livre para viver esse teu... amor. E eu serei livre para desposar a futura mãe dos meus filhos!

Mantive-me de pé, sobranceira e digna. As suas palavras magoa­vam-me mais do que podia deixar transparecer, não pela sua essência, mas pela forma como me haviam sido atiradas à cara. Que moral tinha Ivarr para condenar o meu afeto por Edwin, quando há muito assumira a sua paixão por Thora? Era o divórcio que queria? Pois eu teria gosto em conceder-lho!

— Será como desejas! — aquiesci com desapego.

E principiei a dirigir-me ao quarto. Todavia, após dois passos, enchi-me de coragem e voltei a encará-lo. Tinha algo entalado na garganta que não podia ficar por dizer:

— Nunca te enganei, Ivarr! Quando casamos sabias quem eu era, o futuro que ambicionava... e o passado que lamentava. Ainda assim, espero que tenhas sido feliz ao meu lado, porque eu fui feliz ao teu. Gostaria que continuássemos a colaborar, para o bem do nosso povo... E lastimarei imenso, se tal não for possível!

Ivarr franziu o cenho, atordoado com a minha reação. Apesar de magro e abatido, exalava um poder impressionante. Em tempos, fora agradável deitar a cabeça no seu peito, mergulhar os dedos nos cabelos de seda negra, fechar os olhos e inspirar a ilusão de que a sua força bastaria para me escudar de todo o mal. Porém, o afeto que partilháramos não nos garantira satisfação, pois desenvolvera-se carregado de obrigações, imposições, revolta e culpa. Agora, tal como ele próprio declarara, eu podia buscar a felicidade, livre do peso da coroa viquingue... E Thora haveria de se tornar uma excelente rainha! Se, um dia, os detestáveis conselheiros do reino a tentassem manipular, seriam derrubados pelo seu rugido.

— Edwina... Fico feliz por estares bem!

A exclamação de Ivarr fez-me piscar os olhos, desconcertada. Enquanto imergira em cogitações, os traços do seu rosto tinham-se suavizado. A voz perdera o tom mordaz e soara simplesmente cansada. Ante a sinceridade refletida no olhar cristalino, engoli em seco e volvi a única coisa que me ocorreu:

— Obrigada.

A noite passou e a condição de Helgi não evoluiu. Pelo menos, a pedra azul continuava a brilhar com vivacidade sobre o seu peito. Thorson aconchegava-se junto do pai, ainda demasiado fraco para despertar, mas sem inspirar cuidados. A magia era mesmo assim! Havia um preço a pagar de cada vez que despendíamos grandes quantidades de energia. Com o passar dos anos, a experiência concedia-nos alguma resistência. Porém, até mesmo os Seres Supe­riores padeciam de períodos de fraqueza, após a execução de um sortilégio mais elaborado. Por essa razão, eu acalentava a esperança de que Gwendalin não se manifestaria nos próximos dias.

Ao nascer da manhã, Ivarr ordenou que Helga fosse conduzida à sua presença. Eu ignorei o desagrado do olhar cristalino e mantive -me ao lado da princesa, temendo que o interrogatório se transfor­masse num julgamento. Contudo, a minha intervenção foi escusada. Apesar de combalida e trêmula, Helga respondeu com firmeza às questões concisas que lhe foram colocadas. Não hesitou, mesmo quando confessou a sua participação nas batalhas que, recentemente, haviam oposto Viquingues a Vândalos. Falou dos nevoeiros místicos que criara, das tempestades que alimentara, da energia que cedera aos seus guerreiros para torná-los superiores aos nossos... Felizmente, Ivarr também lhe permitiu justificar a sua influência no sonho de paz que levara o rei Vestein a propor tréguas ao rei Steinarr e as suas malogradas tentativas de escapar ao domínio da bisavó feiticeira.

Ao ser confrontada com os últimos acontecimentos, o palor de Helga tornou-se cadavérico. Ainda assim prosseguiu, contando que Aesa planeara concretizar a profecia do filho do dragão. Estremeceu de horror, ao descrever o ritual celebrado nos Pântanos Nebulosos e a dor quase a prostrou, ao relatar o confronto com o rei Raud, que os forçara a fugir para preservar a vida. No fim, esqueceu o orgulho e arrojou-se aos pés do príncipe viquingue, suplicando clemência para Helgi. Eric aguardou pelo sinal do seu senhor, que lhe permitiu ajudá-la a levantar-se. Apercebi-me de que os dois já haviam debatido os argumentos de Helga... E fiquei convicta de que a jovem passara o teste de confiança. Só esperava que a sua humildade tivesse tocado o coração do Espírito da Luz. Sem a benevolência de Ivarr, os gêmeos vândalos estariam perdidos.

Amparei Helga no regresso ao quarto e, qual não foi o meu espanto, ao encontrar Thora debruçada sobre Freya. A mais nova acabara de vomitar em cima do tabuleiro carregado de iguarias que a sua gêmea lhe trouxera para o pequeno-almoço. O olhar chocado da loba prateada caiu sobre mim. Era óbvio que já não estava tão distraída dos assuntos das mulheres como antigamente. Concentrou-se no alívio da irmã, sem se pronunciar. Todavia, logo que a oportunidade surgiu, arrastou-me para a rua, a fim de não corrermos o risco de ser escutadas, e confrontou-me sem rodeios:

— A Freya está grávida?

Seria inútil mentir-lhe! Logo, o ventre da sua gêmea começaria a crescer e a verdade haveria de se declarar à vista de todos. Respirei fundo e confirmei com a cabeça.

— Do Helgi? — Foi a questão seguinte.

— Sim.

— Ele forçou-a?

Franzi o cenho e enfrentei o seu olhar, replicando:

— Por que não aceitas, de uma vez por todas, que Helgi e Freya se amam? O seu sentimento tem de ser maldito, só porque nasceram em lados opostos do campo de batalha? Imaginas o quanto a nossa irmã padeceu, durante os anos em que a separação lhes foi imposta? Fazes idéia de como sofre, ao observar a energia da pedra mágica que o sustem a extinguir-se? Thorson acabou de conhecer o homem que lhe deu vida e não tardará a vê-lo morrer! E o seu irmão só poderá julgar os feitos do pai através das nossas palavras.

Thora desviou o rosto e soltou uma exclamação pungente. Levou a mão à testa e esfregou-a como se desejasse arremessar para longe os pensamentos que a assolavam. Começou a marchar para trás e para diante, desassossegada pelos espectros de um rancor que alimentava desde o berço. A minha irmã crescera com a convicção de que os Vândalos eram as criaturas mais desprezíveis que pisavam a Terra. Assimilar o que estava acontecer era-lhe bastante difícil. Todavia, eu esperava vê-la tentar...

-— Por que é que o Helgi não desperta?

A pergunta ecoou-me no espírito qual chicotada. Thora parara e fitava-me, expectando uma resposta objetiva. Sacudi os ombros e desabafei a frustração que me corroia:

— Isso gostava eu de saber! Já tentamos tudo. O seu corpo sara, mas o espírito apaga-se como se a morte lhe tivesse fincado as garras...

Essas palavras fizeram-me reviver o momento em que o lobo negro se separara do homem e enfrentara a rainha do submundo; o terrífico instante em que as adagas de osso se haviam cravado no pêlo espesso, até o sangue verter. Eu suspirara, vitoriosa, quando a morte recuara. No entanto, agora compreendia que a molesta figura apenas libertara o corpo do guerreiro porque sabia que lhe tinha marcado a essência e poderia reclamá-la mais tarde. Sob a luz da revelação, percebi que era o Espírito da Escuridão, e não Helgi, quem necessitava de ajuda. Longe da solução, o problema assumia uma complexidade colossal! O homem e a fera eram incapazes de subsistir apartados... E a sua salvação encontrava-se para além do meu poder!

A magia das Entidades que possuíam os reis-lobo era singular — não obedecia às regras da Arte Luminosa, nem da Arte Obscura. Muitas vezes eu sentira a sua complexidade, enquanto vivera com Ivarr; a natureza independente, mesmo selvagem, que sempre me desconsiderara com a sua indiferença. Por isso, nenhum dos nossos esforços para restituir a vitalidade a Helgi fora bem-sucedido! Só uma energia equiparada à sua conseguiria livrá-lo da morte... E, em toda a Terra, apenas existia uma pessoa capaz de concretizar tal prodígio! Como num sonho, ouvi Thora dar voz ao meu raciocínio com a sua simplicidade sem igual:

— Se a morte tocou o espírito do vândalo, há que libertá-lo ou ele perecerá... E como rei-lobo que é, só Ivarr tem poder para ajudá-lo.

Senti a cabeça latejar, ao exclamar sufocada de angústia:

— Ivarr jamais o fará!

Thora fixou o manto de neve que cobria o solo e engoliu em seco. O vento agreste do fim da manhã entrelaçou-se nos seus cabelos, fazendo-os esvoaçar como um estandarte de guerra. Fui percorrida por um calafrio, quando objetou num tom grave e solene:

— Há de acudir-lhe... Se eu lho pedir!

Thorson despertou a tempo de jantar conosco. Durante a refeição, Ivarr cobriu-o de atenções, num alvoroço quase obsessivo. O entu­siasmo do pequeno prodígio para com o pai anunciava-se uma ameaça. O príncipe viquingue sempre estimara o meu sobrinho como se fosse seu filho. Pensar que podia perder o afeto de Thorson para o grande rival deixava-o roxo de ciúme. Porém, quando terminamos, o petiz mostrou-nos que sabia bem o que queria, ao correr para o quarto e aninhar-se junto do peito de Helgi.

Recolhi-me cedo, decidida a fruir de uma boa noite de sono. Thorson restabelecera-se e o seu espírito estava protegido pela magia da Lágrima do Sol. Helga e Freya velavam por Helgi, logo a minha presença ao seu lado era escusada. Se essa fosse a última noite do Espírito da Escuridão, seria passada na companhia daqueles que mais o amavam.

Deitei a cabeça na almofada, mas não fui capaz de fechar os olhos. A minha essência continuava a clamar por Edwin, sem obter resposta. Por outro lado, inquietava-me o silêncio proveniente da Floresta Sombria. O que estaria Gwendalin a tramar, escondida sob a pele da virginal Gríma? Que atrocidades o rei Raud imporia ao seu povo, agora que era escravo da feiticeira? E por quanto tempo Snari sufocaria a sua ambição de se tornar rei dos Vândalos, iludido pelas promessas da amante? O desejo de recorrer à Visão para esclarecer essas dúvidas trazia-me suores à testa. Porém, temia arriscar a viagem da essência. Se Gwendalin adivinhasse a minha iniciativa, a curiosidade haveria de me custar a vida.

Os homens deram por encerradas as conversas. As criadas termina­ram os seus afazeres. A casa adormeceu. Todavia, os meus sentidos permaneceram alerta. Não conseguia dormir! Raios, como podia restabelecer as forças, se a mente me recusava o almejado descanso?

Um ruído chegou-me aos ouvidos, tão subtil que o crepitar da lareira bastava para abafá-lo. Alguém abandonara o aconchego da cama e esgueirava-se através do salão. Sustive o fôlego ao reconhecer a energia de Thora. Após a nossa conversa, até adivinhava para onde se dirigia! Tapei a cabeça com a manta e cerrei os olhos, decidida a confiar na determinação da minha irmã. Imaginava quão difícil lhe seria interceder por Helgi diante de Ivarr. O caprichoso destino colocava novamente a loba prateada entre o Espírito da Luz e o Espírito da Escuridão, troçando impiedosamente dos seus sentimentos e convicções.

Contorci-me na cama, lutando contra a ânsia que me devorava a vontade. Eu não tinha o direito de invadir a privacidade de Thora e Ivarr! Então, abri os olhos... e a Visão tomou-me de assalto, deixando-me à deriva num remoinho de cores e sons. Levei algum tempo a recuperar o domínio da consciência. E, quando finalmente o alcancei, encontrei-me no quarto do herdeiro do trono viquingue, onde a minha irmã se detinha com o corpo trêmulo e o rosto em brasa.

O príncipe despertara com a entrada da guerreira e fixava-a, incrédulo, como se julgasse sonhar. Thora parecia incapaz de reagir sob a intensidade do olhar cristalino. A beleza selvagem e pura do homem que amava roubava-lhe o fôlego, prendia-lhe a voz. No instante em que Ivarr se sentara na cama, as cobertas tinham deslizado, expondo o peito másculo enfeitado não só com os símbolos da linhagem real — o carvalho da sabedoria e o falcão do poder, mas também com as marcas rituais que o uniam aos seus lobos —, cinco cortes perfeitos sobre o coração. Chocada, verifiquei que uma delas já quase desaparecera; o último testemunho da bravura de um guerreiro-lobo. Ivarr decerto enlouquecera de aflição, ao aperceber-se da agonia de Ketill, impotente para lhe valer.

— Thora? — apelou, incentivando-a a falar. Porém, a jovem estava perdida na visão dos cabelos que se espalhavam sobre os ombros largos, libertando reflexos de preto, azul e prata, à luz dançarina da lareira que espreitava pela cortina.

O rei-lobo sorriu levemente, perante o seu encanto. Estendeu a mão devagar, temendo assustá-la, enquanto murmurava num tom rouco e sedutor:

— Vem... Juro que não te mordo!

A guerreira correspondeu com lentidão; a respiração entrecortada empurrando os seios firmes contra a lã da túnica. O contacto com os dedos de Ivarr fê-la estremecer. Mal se sentara na cama, já ele a estreitava e unia as suas testas, sussurrando:

— Imaginas como me dói estar longe de ti? — Deslizou o rosto pela pele macia, traçando linhas de fogo com os lábios. — Amo-te, minha loba... Desejo-te tanto que o meu corpo se consome só de te olhar!

— Ivarr... — arquejou Thora, tentando reunir alento para afastá-lo. — Não foi por isso que vim...

O príncipe riu baixinho, ciente do poder que detinha sobre a jovem. Rodeou-lhe o rosto com as mãos e afundou-se no seu olhar, indagando:

— Por que vieste? Diz-me, antes que esqueça a promessa que te fiz e devore essa boca que me rouba a razão.

— Vim pedir-te que ajudes o Helgi — replicou ela de um só fôlego, valendo-se da última réstia de controlo.

Um mergulho em água fria teria tido um impacto menos violento. Ivarr recuou bruscamente; o gelo substituindo as flamas no seu olhar.

— Tu sabes arrefecer o ardor de um homem! — mastigou, forçando-se a manter a voz baixa, apesar de a ira lhe colorir as faces. — Foi a Edwina quem te encomendou essa tolice?

Thora negou, tentando permanecer calma ante a fragilidade da situação:

— Estou aqui por minha iniciativa.

— O que te importa a sorte do vândalo? Já tiveste a sua vida nas mãos...

— Mas poupei-o, não foi? — interrompeu ela, segurando-lhe o braço para que continuasse a escutá-la. — E muita coisa aconteceu, desde então.

— Deixa-me ver... — ironizou o rei-lobo. — Freya foi raptada. Ketill foi assassinado à traição...

— A morte de Ketill também me dói, Ivarr! — A voz de Thora quase falhou, comprovando a veracidade do seu protesto. Teve de respirar fundo, antes de prosseguir: — Freya jura que Helgi tentou impedir o ataque aos nossos homens. Além disso, a Edwina garante a boa índole dos dois irmãos...

— Os juízos da Edwina já não me impressionam!

O corte do príncipe fez a guerreira engolir em seco. Abanou a cabeça, sustentando o olhar glacial. O silêncio pesou entre os dois, solidificando o ar ao seu redor. Por fim, Thora esboçou um gesto de desânimo e exclamou gravemente:

— Tu és o único capaz de salvá-lo!

— Sim, sou! — confirmou Ivarr num tom ferino, quase agressivo.

— Mas por que raio o faria?

A minha irmã hesitou, sabendo o quanto arriscava ao volver:

— Porque és um homem justo e generoso... — Levou a mão ao rosto do príncipe, acariciando-lhe a barba com a ponta dos dedos.

— E porque eu te estou a pedir!

Ivarr quedou-se como se varado por uma espada. Instintivamente, levou a mão ao peito sobre as marcas rituais. Os seus lábios tremiam, quando a interpelou:

— Tens noção das implicações da minha interferência?

A loba prateada mal conseguia respirar, mas retrucou com prontidão:

— Para salvá-lo terás de unir os vossos espíritos... E, para que a magia se manifeste, necessitas de fazê-lo teu irmão de sangue.

— E ainda assim insistes?

— Eu confio na sorte, Ivarr! — Thora inspirou um fôlego de coragem e envolveu as faces do seu senhor entre as mãos, submergindo no olhar verde. — Amo-te desde que guardo memória... No entanto, jamais imaginei que correspondesses ao meu afeto. Hoje, posso sonhar com o dia em que serei tua mulher; em que receberei a bênção de carregar os nossos filhos no ventre... — Fez uma pausa para dominar as emoções que a suplantavam, antes de concluir: — Helgi foi um dos nossos inimigos mais temíveis. No entanto, acredito que o amor de Freya mudou o seu coração. É inquestionável que arriscou a vida por ela! E, agora, está à tua mercê! Dar-se-ia o destino ao trabalho de colocar o Espírito da Luz e o Espírito da Escuridão frente a frente, após o cumprimento da profecia, sem que existisse um propósito?

O rei-lobo arrastou as mãos da loba prateada até ao peito, replicando numa voz que aquecera sob a influência das suas palavras:

— E que propósito será esse?

Ela arfou ao sentir-lhe as batidas aceleradas do coração. Permitiu que os seus dedos se movessem sobre as tatuagens coloridas, como se apreciasse a suavidade das penas do falcão e a frescura das folhas do carvalho. Eu sabia que o elo que os unia ia muito além do apelo da carne. Arrepiei-me ao ouvi-la declarar:

— Certo dia, a Velha do Tronco Oco disse à minha mãe que Throst, filho de Thorgrim, seria pai de três reinos: um para a profecia, um para a união e um para a paz. Tenho refletido muito acerca do significado dessa predição... E hoje, ao conversar com a Edwina, tudo se esclareceu. Se o reino da paz depende de nós, o reino da união depende da Freya e do Helgi, pois jamais existirá concórdia no Norte, enquanto Viquingues e Vândalos não se entenderem.

O enigma que me amofinava há anos fora interpretado pela minha irmã, em poucas palavras e com uma clareza surpreendente. Ivarr também se impressionara. O olhar cristalino não abandonou Thora, quando o silêncio tornou a envolvê-los. Ela aguardou pacientemente, enquanto o seu senhor ponderava. O ar estalava entre os dois, carregado de energia, de flamante emoção. Por fim, o rei-lobo soprou o ar e perguntou:

— Se eu aceder... estarás ao meu lado? A resposta da loba prateada foi imediata:

— Estarei ao teu lado até ao fim da minha vida.

No dia em que Ivarr iniciara Thora, a minha essência observara secretamente a cerimônia que os tornara irmãos de sangue... E a intimidade daí resultante quase me enlouquecera de ciúme! Agora, os dois dispunham-se a algo diferente, já que Helgi não tinha poder de decisão. Contudo, eu imaginava que seria um ritual igualmente intenso, carnal, bastante desagradável para os olhos de alguém que não possuísse, ou fosse incapaz de compreender, a energia mística que animava os seus espíritos. Felizmente, a Visão libertou-me no instante em que o rei-lobo e a loba prateada firmavam o compromisso que podia salvar Helgi... ou arruinar o precário equilíbrio que nos sustinha à beira do caos.

Pouco depois, abri o meu quarto a Freya, Thorson e Helga, assu­mindo a difícil tarefa de explicar-lhes a razão por que Ivarr ordenara que o deixassem a sós com Thora e Helgi. A princesa dos vândalos inquietava-se por abandonar o irmão moribundo às mãos da mulher que o desfigurara e do homem escolhido pelos deuses para seu émulo. Freya não compreendia por que a proibiam de participar no ritual. Afinal, se a interpretação que Thora fizera da profecia da Velha do Tronco Oco estivesse correta, o seu lugar era ao lado de Helgi. Só Thorson se apresentava tranqüilo, como se suspirasse de alívio ante a resolução dos adultos.

Julguei que íamos enfrentar uma tormentosa e angustiante vigília. Todavia, logo Freya fechava os olhos e adormecia profundamente. Helga também não demorou a ceder ao cansaço... Thorson já ressonava. Mais parecia que uma brisa de restabelecimento soprava sobre a casa do jarl Eric, sarando os corpos e pacificando os espíritos. Tudo era serenidade e harmonia... E o sono que eu tanto almejara no início da noite surgiu finalmente. Porém, não da forma que era esperado! No momento em que fechei os olhos e a consciência se dissolveu no sonho, senti o odor inconfundível dos bosques; o perfume da terra, após uma chuva abençoada... E o cheiro dos lobos.

A noite enchia-se de uivos longos e afinados, enquanto eu sobrevoava a vastidão branca do Norte, salpicada pelo verde e o castanho das densas florestas. Envoltas pelo encanto da magia, três feras corriam em direção ao cume da mais alta das montanhas: uma mancha alva, outra prata e outra negra, avançando ao ritmo das batidas do meu coração. No topo do mundo, com os olhos postos no céu de cinza e flamas, entoaram um cântico a três vozes — um hino à vida, à esperança... uma ovação à liberdade.

Quando acordei, Thorson e Freya dormiam abraçados, com expressões serenas. O sono de Helga também se afigurava tranqüilo. Aconchegada na manta de lã, com os cabelos cor de cobre dispersos sobre a almofada, a princesa do povo vândalo mais parecia uma deusa condenada ao exílio na Terra.

Deslizei para fora da cama com cautela, para não os despertar. Ao entrar no salão, verifiquei que a casa se mantinha adormecida. As criadas já deveriam estar de pé, aquecendo água para os banhos e preparando a refeição da manhã... Todavia, esse não seria um dia normal! Todos fôramos, de alguma forma, enleados pelas forças mágicas que haviam governado a noite. E eu ansiava por conhecer o desfecho do fenômeno que determinara a sorte do Espírito da Escuridão. Tinha de confiar na boa vontade divina... E na abnegação do Espírito da Luz.

Hesitei junto à cortina que guardava o segredo. Porém, o que se revelou aos meus olhos ia além do alcance da mais fértil imaginação. Estaquei, tão pasmada que não emiti um som. Helgi continuava vivo, apesar de a pedra azul lhe pender no peito, sem réstia de magia. A sua pele nua estava marcada por sulcos de sangue seco, provenientes da ferida profunda que o ombro exibia, rente ao pescoço. Sentado à cabeceira da cama, Ivarr ostentava uma marca semelhante. Uma das suas mãos apertava a de Helgi. A outra perdia-se nos caracóis de Thora, que dormia no seu colo. Prendi o fôlego quando o olhar do Espírito da Luz me fixou. O verde cristalino ainda guardava centelhas do fogo que, há pouco, o incendiara. Contudo, não existia um traço de crispação, rancor ou repulsa no seu semblante. Ivarr estava em paz!

— Chama a Freya — solicitou numa voz rouca e profunda, teste­munho da fera que habitava a essência do homem. — Helgi ficará satisfeito se a tiver ao seu lado quando acordar.

Engoli o assombro e apressei-me a obedecer. Na minha cama ninguém se movera. Porém, mal lhe toquei, Freya abriu os olhos com a ansiedade marcada em cada traço do rosto. Fiz-lhe sinal para que me seguisse em silêncio e ela obedeceu, sem delonga. Quase correu até ao quarto do enfermo, tremendo de inquietação. Eu não tinha como prepará-la para o que a esperava. No entanto, surpreendi-me ao constatar que, ao contrário do que sucedera comigo, a intimidade dos guerreiros-lobo não lhe causava transtorno. Abeirou-se da cama e acariciou a testa do seu amor, interpelando Ivarr:

— O Helgi vai ficar bem?

O príncipe respondeu com sobriedade:

— Quando o espírito da fera se libertou das garras da morte, o homem clamou o teu nome. — O olhar cristalino voltou-se para a loba prateada que acabara de despertar. — Confesso que não aceitei esta missão de ânimo leve. Só condescendi por amor... Todavia, se o amor vencer, terá valido a pena!

— Obrigada do fundo do coração, Ivarr! — enunciou Freya, comovida. — Helgi é um bom homem! Saberá agradecer-te...

— Eu dispenso agradecimentos, cunhada! Basta-me que o filho de Vestein reconheça a sorte que tem e aproveite este ensejo para desfrutar de uma nova vida, do teu amor e da graça de ver os filhos crescerem.

Helga chegou nesse momento. Em silêncio, vimo-la avançar até ao irmão e tocar-lhe na fronte. O seu corpo vacilou e as lágrimas saltaram-lhe dos olhos. Prosternou-se diante de Ivarr, balbuciando palavras de reconhecimento, por entre os soluços do pranto. Então, Thora incentivou a princesa do povo vândalo a suster-se, declarando:

— Que este seja o início de uma nova era! Aprendamos com os erros do passado, para que, em vez de chorarem as nossas lágrimas, as gerações futuras possam partilhar do nosso riso. — O seu olhar deteve-se em cada um de nós, antes de regressar a Helga. — Hoje conquistamos uma grande vitória! Não só vencemos a morte, como enterramos o machado de guerra sobre um ódio secular. Resta-me desejar que este exemplo se estenda para lá da cortina deste quarto e das paredes desta casa.

A maturidade do discurso da loba prateada deixou-me perplexa. Há bem pouco tempo, teria sido ela a primeira a desembainhar a espada contra os príncipes vândalos. Hoje, eram as suas palavras que buscavam concórdia. Fixei Ivarr, alentada pela esperança. Se o rei-lobo encontrara dentro de si a generosidade para perdoar Helgi, talvez, um dia, pudesse superar o ressentimento e compreender o meu amor por Edwin! O seu olhar estava preso em Thora, embevecido... E a voz possante transbordava orgulho, ao afirmar:

— Falaste como uma rainha!

A minha irmã sorriu, entrelaçando os dedos nos dele. Senti-me confortada ao observar o seu enlevo. Durante anos, Ivarr e eu deses­peráramos, sem entendermos por que éramos incapazes de nos ajustar. Felizmente, o destino acabara por suprir esse desacerto. De outra forma, teríamos teimado em assumir o nosso casamento, até sermos consumidos pela frustração e pelo rancor, demasiado cegos para ver e ouvir a verdade, mesmo quando esta estrebuchava e bradava à nossa frente.

Cumprida que estava a sua missão, o rei-lobo e a loba prateada partiram. Ao sentir-se privado do apoio do Espírito da Luz, Helgi agitou-se e soltou um gemido. Contudo, não despertou. Nesse instante, Thorson afastou a cortina e espreitou timidamente. Freya estendeu-lhe a mão e incentivou-o a aproximar-se. Sentado no colo da mãe, Thorson não desviava o olhar do homem cujo rosto era um reflexo adulto do seu. Por fim, inclinou-se e pousou a mão em cima do peito do pai, exclamando num tom decidido:

— Acorda!

Os olhos do Espírito da Escuridão agitaram-se por baixo das pálpebras... E abriram-se para a realidade. Freya gritou e caiu sobre o pai e o filho, chorando de alegria. Cerrei os dentes para suster a comoção, ao ver o príncipe vândalo estreitá-los. Helga ensaiou um passo na sua direção... Contudo, acabou por recuar e sair do quarto. Segui-a, mas ela escusou a minha companhia, replicando:

— Desculpa, Edwina. Preciso de estar só.

Quedei-me pregada ao chão, enquanto ela caminhava até à porta num passo incerto e se misturava com o nevoeiro. Desde o dia da concepção, Helga e Helgi tinham vivido um para o outro. Agora, o

Espírito da Escuridão abraçava uma nova família e a possibilidade de iniciar outra existência. Por mais que se alegrasse pela fortuna do irmão gêmeo, a vidente sabia que não tornariam a desfrutar da cumplicidade de outrora. E essa percepção deixava-a à deriva na incerteza do seu próprio futuro.

Quase saltei de susto, quando a voz de Eric se elevou ao meu lado: — Deixa-a ir, prima... Por vezes, a solidão é o melhor bálsamo para uma ferida.

Por mais que me custasse admiti-lo, ele tinha razão.

A força que atraíra Thorson à Terra Antiga estava satisfeita. Agora, a atenção do meu sobrinho voltava-se para a Lágrima do Sol. No quarto que acolhia Helgi, longe de olhares estranhos, entreguei-lhe o cristal para que apaziguasse a voracidade da sua essência. Assim que mergulhou na deslumbrante cintilação, foi transportado até outra realidade, onde o seu espírito podia saciar a fome de conhecimento. Por enquanto, eu devia apenas acompanhá-lo; permitir-lhe descobrir a magia, o seu encanto... e o seu peso. Aperceber-me de que Thorson estava destinado a herdar o legado de «O Que Tudo Vê» deixara-me tão satisfeita quanto apreensiva; temerosa de que a sua personalidade forte, irrequieta e pertinaz, acabasse por desviá-lo do bom caminho, nas fases mais avançadas do treino. Todavia, o pequeno aprendiz parecia sofrer uma transformação salutar, sempre que a energia da Lágrima do Sol o envolvia. Ficava calmo, seguro, determinado na vontade, contudo prudente em cada passo.

Freya não se manifestou perante o arroubo do filho. Eu conhecia bem o seu pavor de ver Thorson abraçar o mundo místico. Não fora há muito que a minha irmã se negara a consentir que o petiz iniciasse o treino da Arte. Porém, também ela tivera de concordar que nada mais havia a fazer. Contrariá-lo seria bastante pior do que orientá-lo na direção da luz. As forças tenebrosas da magia negra não hesitariam em usurpar-lhe a essência, se a oportunidade as favorecesse.

Em contrapartida, Helgi parecia deslumbrar-se com o poder de Thorson. Nas poucas palavras que o príncipe vândalo cedia, descobri que o filho o visitara nos seus sonhos. Comecei por ranger os dentes, desagradada. O meu sobrinho prometera-me que não usaria as suas habilidades para se aproximar do pai, sob nenhum pretexto. Não obstante lhe ter explicado que tamanha ousadia podia ser muito perigosa ou até fatal para os dois, era óbvio que Thorson não resistira à tentação e me desobedecera. O apelo do sangue acabara por ser mais forte do que a distância ou a separação imposta pela nossa atribulada existência. A razão ordenava-me que o repreendesse severamente. Contudo, não tive coragem para tal. Vivíamos tempos difíceis e o pequeno acabara de se comportar como um herói. Mais tarde, conversaríamos sobre esse assunto. Agora, deixá-lo-ia desfrutar da alegria de ter, finalmente, o pai e a mãe ao seu lado.

Ao invés de estar à cabeceira do irmão, Helga preferia juntar-se às mulheres da casa e auxiliar nas tarefas domésticas. A sua iniciativa surpreendeu o jarl. Mal acreditava que a limitação física da vidente não influenciasse a sua destreza. E causava-lhe ainda mais estranheza que uma princesa pudesse gostar de enterrar os dedos na massa do pão, ou se divertisse a cortar os legumes para a sopa e a preparar o molho do guisado. Quem não se queixava era a cozinheira, que não tardou a render-se à simpatia da hóspede.

Confortava-me verificar que a agitação que rodeava a princesa dos vândalos a distraía da sua dor. Ficou especialmente feliz, quando uma das cadelas-lobo do jarl decidiu que era tempo de parir a ninhada. Mais parecia que o animal aguardara a nossa chegada! Sempre atento ao que se passava na casa, Eric fez questão de ajudar a mais velha das fêmeas da sua matilha, na difícil tarefa de pôr cinco crias no mundo. E, com extrema subtileza, conseguiu que Helga lhe falasse do cão-lobo que crescera ao seu lado... e dera a vida para salvá-la. Emo­cionei-me ao ouvir o meu primo oferecer-lhe um dos recém-nascidos. Era um presente valioso, mas não foi essa razão que trouxe lágrimas aos olhos da princesa e lhe coloriu as faces com um sorriso. Sem sequer desconfiar, Eric acabara de derrubar a última barreira que Helga erguera em torno do coração.

Mal conseguiu levantar-se do leito, o príncipe Helgi do povo vândalo veio inclinar-se diante do príncipe Ivarr do povo viquingue. Não duvidei da sua sinceridade, quando expressou gratidão ao homem que o salvara das trevas do esquecimento. Porém, existia uma amargura no olhar azul celeste impossível de ocultar. O mundo onde o Espírito da Escuridão nascera e crescera cessara de existir. Todas as questões que defendera tinham sido postas em causa. Os seus amigos haviam-se tornado inimigos... E os inimigos que baixavam as armas para o recolher jamais lhe concederiam entrada nos seus corações. Por onde quer que andasse, Helgi seria um proscrito, um estranho olhado com desconfiança e ressentimento. A forma como concluiu o seu discurso revelava desalento, mas também uma extrema solidez de caráter:

— Se assim o desejares, Ivarr, filho de Steinarr, servir-te-ei com lealdade, pois tenho para contigo uma dívida de sangue e de honra. No entanto, devo dizer-te que morrerei antes de erguer a voz ou a mão contra o meu povo!

O salão da casa do jarl Eric susteve o fôlego. A guarda pessoal do Espírito da Luz mantinha-se por trás do seu senhor e mais ninguém se atrevia a aproximar. Contudo, todos os ouvidos assimilavam avidamente cada palavra proferida.

Ivarr não respondeu de imediato. Os deuses haviam determinado que o guerreiro que se prostrava aos seus pés seria seu adversário, até que um dos dois tombasse. Porém, Thora mudara o curso da sorte, ao poupar Helgi na derradeira batalha que decidira os seus destinos... E voltara a alterar a rumo das suas vidas nessa noite, quando o convencera a salvá-lo. Agora, o Espírito da Escuridão já não era seu inimigo, mas seu irmão de sangue. E essa realidade pesava nos espíritos de ambos os reis-lobo com igual veemência. O príncipe vândalo era um líder... E, apesar de ferido no orgulho, a sua nobreza garantia-lhe o direito de ser tratado como tal. A ansiedade já quase nos impedia de respirar, quando Ivarr declarou com firmeza:

— És um homem de vontade forte, Helgi, filho de Vestein... No fundo, não somos assim tão diferentes! Que todos os que nos rodeiam testemunhem que te libero do sangue que me deves. Não te ajudei com o propósito de te humilhar, nem de te usar contra o teu povo, tornando-te prisioneiro de um voto de honra. Fi-lo porque me convenceram de que tens muito para dar à tua terra e à tua gente.

— A minha gente cospe sobre o meu nome — replicou o outro, com a voz embargada pelo desgosto. — Jamais poderei voltar a pisar a terra que me viu nascer... Por isso, se prescindires dos meus serviços, ouso pedir-te que estendas a tua generosidade e me deixes partir com a minha família, a fim de iniciar uma nova vida longe daqueles que conhecem a nossa história.

Um gemido quase inaudível alcançou a minha percepção superior. Helga levava as mãos aos lábios e as suas faces empalideciam. Em contraste, Freya mantinha-se tranqüila. O seu amor era tão forte, que haveria de seguir Helgi até ao fim do mundo, sem pensar duas vezes. Surpreendido com a solicitação do vândalo, Ivarr abanou a cabeça e objetou com sobriedade:

— Deixar o Norte não resolverá os teus problemas! Pelo contrário, aqueles que te acusam de traição hão de aproveitar o ensejo para convencer os que te defendem de que a razão está do seu lado. A tua viagem será apontada como uma fuga; uma prova de culpa... Cairás em desgraça aos olhos do teu povo e, mesmo que te instales no outro lado da Terra, jamais tornarás a dar um passo com a cabeça erguida. O remorso de não teres lutado em defesa da tua honra, nem sequer tentado provar a tua inocência, irá perseguir-te e consumir-te até ao dia da morte.

Um a um, os argumentos de Ivarr foram vergando os ombros de Helgi. O seu olhar era o de um homem derrotado, ao responder:

— Tudo isso é verdade. No entanto, só assim poderei garantir a segurança da minha família.

Engoli em seco, reunindo coragem para intervir. Helgi não podia renunciar à missão que a profecia da Velha do Tronco Oco lhe atribuíra! E, como futuro Guardião da Lágrima do Sol, Thorson tinha de treinar a Arte sob a minha orientação. Todavia, o olhar de Ivarr cortou-me a voz. Foi ele quem contestou no seu tom rígido de comando:

— Discordo de ti mas respeito os teus motivos. Tens permissão para partir com a tua irmã... Porém, Freya e Thorson ficarão!

Ao meu lado, Freya saltou como se lhe tivessem espetado um ferro. Fui obrigada a segurá-la para impedi-la de se manifestar. Ivarr continuava:

— O jarl Throst da Ilha dos Sonhos confiou a sua descendência à guarda do rei Steinarr. Se desejares protestar da minha decisão, poderás submeter a tua causa à apreciação do soberano viquingue. De outra forma, terás dois cavalos, agasalhos e mantimentos à disposição, logo que recuperes as forças.

Helgi arquejava; todos os músculos palpitando sob tensão. Porém, não reagiu com a violência esperada. Talvez porque se sentisse demasiado fraco para reclamar, curvou-se diante do príncipe viquin­gue e tornou ao seu quarto. Freya libertou-se do aperto dos meus braços e seguiu-o, arrastando Thorson consigo. Helga manteve-se imóvel, com uma expressão perdida. Encontrei novamente o olhar de Ivarr e acenei-lhe em agradecimento. Senti-me confortada ao vê-lo devolver a cortesia. Pelo menos por enquanto, não necessitava de me preocupar com a sorte de Freya e de Thorson. Contudo, o instinto avisava-me que permanecesse alerta. Não obstante a sujeição de Helgi, era óbvio que essa divergência de propósitos estava longe de um fim.

 

Terminávamos a refeição da noite, quando a porta da casa do jarl Eric se abriu para ceder passagem a um mensageiro. O guerreiro enviado por um dos generais do rei Steinarr que montava cerco ao reduto vândalo era portador de um alerta inquietante: algo estranho se passava com a barreira de espinheiros. Os arbustos letais e fervilhantes de vida pareciam secar a cada dia, como se atacados por uma praga fatal. Seria uma armadilha destinada a atrair os Viquingues para a morte? A rainha feiticeira já tentara iludir os seus inimigos, muitas vezes! No entanto, eu acreditava que as raízes dos espinheiros podiam estar, efetivamente, moribundas. Após o exício de Aesa e a fuga de Helga, não restara ninguém para evocar o sortilégio que as alimentava. A nova senhora do destino dos Vândalos decerto possuía outras prioridades.

— Diz ao general que mantenha a posição — determinou Ivarr para meu alívio. — A rainha Aesa foi assassinada e outra feiticeira usurpou o seu lugar. Nenhum Viquingue deve avançar, sem que eu ou o rei Steinarr o ordenemos.

— Sim, meu príncipe! — respondeu o guerreiro, inclinando-se em reverência.

— Eric — prosseguiu Ivarr —, envia reforços para a fronteira. Não quero que os nossos homens se vejam em desvantagem, na eventua­lidade de um ataque.

— Talvez eu deva acompanhá-los — sugeriu o jarl.

— Não! — objetou o líder, esboçando um gesto na direção do quarto de Helgi. — A tua presença nesta casa é imprescindível. — De seguida, virou-se para os seus guerreiros-lobo. — Preparai-vos para regressar ao castelo. Tenho de reportar a nova ao rei. Se os espinheiros estão a definhar, esta pode ser a nossa oportunidade de tomar o reduto vândalo e acabar com a guerra.

— E a feiticeira, Ivarr? — indagou Bryan, apreensivo. — A Edwina acredita que Gwendalin é mais poderosa do que Aesa.

O Espírito da Luz mirou-me de esguelha e só depois revidou:

— Se assim for, mais uma razão para a enfrentarmos de imediato, antes que se restabeleça e absorva mais energia.

O seu raciocínio estava correto. Se o poderoso exército do rei Steinarr conseguisse atravessar o anel de espinheiros, a ameaça do povo vândalo cessaria de ensombrar os Viquingues. E, quanto mais cedo se fizesse essa investida, mais hipóteses teríamos de vencer. Contudo, tal admissão era um punhal de dois gumes. Por mais que eu desejasse a paz no Norte, lamentava que esta tivesse de ser conquistada à custa de um novo banho de sangue.

O rei-lobo e a sua alcatéia estavam prestes a enfrentar a noite, de regresso ao castelo, quando uma cometa de alarme troou. O lamento agudo durou um fôlego... e cessou abruptamente. De imediato, o caos abateu-se sobre o salão do jarl. As criadas buscaram refúgio, guinchando em pânico, enquanto as armas voavam para fora das bainhas dos guerreiros. O chão estremeceu sob o peso das suas botas, no instante em que se precipitaram para a rua. Esqueci toda a prudência e corri no seu encalço.

Na Aldeia de Grim, as cometas exaltavam-se, assombrando as trevas. O fogo dos archotes revelava a negridão do céu, onde rios de sangue extravasavam das nuvens baixas. Os soldados do jarl organizavam-se, a fim de contrariarem um possível assalto inimigo. O primeiro som que arrepiara a noite fora o toque de alerta da guarda de fronteira viquingue, acampada na Floresta Sombria. E o modo brusco como se finara não era um bom augúrio!

Juntei-me a Ivarr e aos seus guerreiros-lobo. Thora quedou-se ao meu lado, como sempre fazia quando o perigo espreitava. Á nossa frente estendia-se uma vastidão de terreno acidentado, que terminava numa barreira cerrada de bosque. Se os Vândalos ousassem atacar-nos, seriam forçados a expor-se e sofreriam baixas consideráveis. Os arqueiros já se encontravam em posição, preparados para disparar sob as ordens da loba prateada. Contudo, aparte o vento que agitava as árvores, nada se movia no interior da floresta.

— Terão recuado ao saberem-se descobertos? — cogitou Eric entre dentes.

— Há magia no ar — anunciei, ofegante. — Adensa-se a cada momento...

A nefanda energia colava-se à pele como um espartilho e dificul­tava-me a respiração. Tentei concentrar-me, mas o esforço pôs-me a cabeça a latejar. De repente, escutei um apelo nas nossas costas. Helga tentava abrir caminho por entre os guerreiros. Ao mover-me para encará-la, senti o chão fugir debaixo dos pés. Amparei-me em Thora e quis gritar. Todavia, a voz saiu como um murmúrio:

— Deixai-a passar...

— Deixai-a passar! — clamou Eric, ajudando a minha irmã a suster-me.

Helga alcançou-me e fechou as mãos nos meus braços, suplicando aflita:

— Vós tendes de recuar, Edwina...

— O que estás a dizer? — interveio Ivarr, irritado.

Pisquei os olhos, combatendo a prostração. O toque de Helga era uma baforada de ar fresco a invadir-me os pulmões. Com o seu apoio, já diferençava a magia maligna que empestava o ar e me asfixiava, como se de algo vivo se tratasse.

— Eles estão no céu! — respondeu a vidente, apontando para cima. O olhar dos homens elevou-se e os seus lábios soltaram interjeições de surpresa. As nuvens negras enxertadas de escarlate pareciam ruir sobre nós, quais pedregulhos mortais. De entre a confusão, distingui a voz do meu primo Darrin:

— Não vos assusteis! Isso é um fenômeno provocado pelo nevoeiro...

— Mantende as posições! — ordenava Ivarr.

— Atenção à floresta... — comandava Eric.

— Edwina... — balbuciava Helga, ansiosa.

Nada havia de natural na energia que nos oprimia! A minha vitalidade estava a ser devorada por uma feiticeira esfomeada por vingança e só o sustento de Helga me impedia de desmaiar. Combati o feitiço de decadência e reuni alento para suplantá-lo. A lucidez trouxe-me a consciência da dimensão do perigo. Gelei de horror, ao reconhecer a magia que se agitava por cima das nuvens. Entretanto, Ivarr afrontava a princesa dos vândalos:

— Como te atreves a desafiar a minha autoridade?

— Ivarr! — contestei, obrigando-o a dar-me ouvidos. — Não há tempo para explicações! Temos de buscar abrigo.

— O quê?

Um silvo ressoou sobre as nossas cabeças, crescendo até tornar-se ensurdecedor. Ante o pasmo dos guerreiros, as nuvens começaram a fender-se e sombras aladas tombaram do céu, quais lanças arremes­sadas por um gigante enraivecido.

— Disparem! — gritou Thora, empunhando o seu arco.

As setas trespassaram o ar e atingiram o objetivo. Porém, mesmo varados pelo metal, os colossais vultos negros arrojaram-se contra nós com um ímpeto assassino. Por entre o clamor de perplexidade, escutaram-se berros de dor. As chamas dos archotes revelaram pássaros que se assemelhavam a corvos, mas com uma envergadura de asas que superava os braços abertos de um homem. O vermelho flamejante dos seus olhos destacava-se das penas pretas, qual chuva de estrelas cadentes. Os bicos e garras eram armas capazes de esmagar ossos com a facilidade de machados de guerra. Possuíam menor tamanho do que a criatura que eu vira na cidade da rainha Lyria. Todavia, detinham a mesma proveniência maligna.

O meu coração quase parou, quando o brado de Thora se sobrepôs aos demais. A minha irmã foi arrastada para longe de Ivarr, por entre a agitação frenética da batalha. O príncipe tentou acudir-lhe, mas a chicotada de uma asa retardou-o. A loba prateada debatia-se para se esquivar do bico aguçado, enquanto as garras do corvo lhe laceravam o couro da armadura. A espada escapara-lhe da mão e jazia fora de alcance, parcialmente enterrada na neve. Ergui o braço, tencionando chamar um raio para afastar o monstro. Contudo, nada aconteceu. Incrédula e chocada, verifiquei que o sortilégio de Gwendalin não só me enfraquecera o corpo como drenara a magia do sangue. Quão poderosa era essa feiticeira? Voltei o olhar para a minha irmã, temendo encontrá-la esviscerada. No entanto, já a cabeça do corvo que a sujeitara rodopiava no ar, separada do corpo.

O guerreiro que socorrera Thora segurava uma espada com ambas as mãos e mal se agüentava nas pernas. As criaturas aperceberam-se da sua fraqueza e acometeram sobre ele. Teria sido esquartejado, se Ivarr não interferisse. Ao seu redor, a neve transformou-se em lama, tingida pelo sangue viscoso dos monstros. A loba prateada já se restabelecera, mas foi o príncipe viquingue quem ajudou Helgi a levantar-se, indagando com ardor:

— O que fazes aqui?

— Deveria estar na cama à espera da morte? — replicou o vândalo, arfando devido ao esforço. — Se os corvos invadirem a aldeia, nin­guém escapará com vida!

— Juraste que não lutarias contra o teu povo — redarguiu Ivarr.

— Este não é o meu povo! — volveu o Espírito da Escuridão. E de novo brandiu a espada, impedindo que uma criatura os derrubasse, enquanto fazia ribombar a voz de trovão sobre o estridor da batalha: — Apontem à cabeça ou ao coração...

De fato, essa era a única maneira de cessar a miserável existência de uma alma penada. Ao longo de décadas, os lobos negros de Aesa haviam aterrorizado os Viquingues, que os tinham julgado inven­cíveis. A fraqueza das bestas fora-me revelada pelo próprio Helgi, durante a batalha nos Pântanos Nebulosos. A rainha feiticeira estava morta... Porém, a maldição que evocava os espíritos danados não se finara com ela. Aesa legara o segredo do sortilégio ao seu carrasco. E Snari já provara ser um mestre nessa habilidade. Sem dúvida, os corvos estavam sob o seu comando.

— Fiquem juntos — ordenou Ivarr. — Cubram os arqueiros...

— Baixa-te! — gritou Bryan, empurrando-me a tempo de impedir que um par de garras me estraçalhassem. Arrastei Helga na queda e amparei-a. Sobre as nossas cabeças, a espada do meu primo rasgava o ar como um relâmpago. O sangue espesso e fétido da criatura encharcou-nos as vestes. Sufocada pelo susto, vi Bryan afastar o colosso de penas com um movimento brusco e arremeter contra outro inimigo. A poucos passos, um jovem berrava de agonia, incapaz de defender-se do corvo que lhe cravara as unhas no crânio e usava o bico qual punhal, descarnando-lhe as faces e furando-lhe os olhos. Ragnar tentou salvá-lo... Porém, era tarde.

— Tenho de fazer alguma coisa... — tartamudeei ao ver o rapaz tombar. — Mas o quê? Gwendalin usurpou-me a magia!

— E eu cedi-te a que possuía — arquejou Helga, com o rosto descorado de pavor. — Se o sortilégio não tiver esgotado a feiticeira, estamos...

Calou-se abruptamente e, antes que eu pudesse impedi-la, desatou a correr por entre o furor de lâminas, garras e bicos. Apressei-me no seu encalço, sem compreender a razão de tamanha insensatez. De súbito, os meus olhos depararam com Eric, aprisionado sob os cadáveres de dois corvos, estrebuchando na desesperada tentativa de se pôr de pé, enquanto outro monstro se arrojava sobre a sua cabeça.

— Não! — foi tudo o que consegui articular.

— Eric! — bradou Thora, num alerta terrificado.

— Eric! — clamou Ivarr, lançando-se em auxílio do companheiro. O meu primo acabara de se libertar. Escutou os avisos, mas as suas pernas tornaram a falhar. Fixou o céu e os seus músculos paralisaram-se. Eu cessei de respirar tal a comoção. Eric ia morrer! Como num pesadelo, ouvi os sons desdobrarem-se, multiplicarem-se até ao infinito... Então, no preciso momento em que a besta concluía a ofensiva, Helga irrompeu através da minha visão distorcida pelo pânico e escudou o jarl com o seu corpo.

O corvo chocou contra a princesa, num tumulto de garras e penas aguçadas. O impacto foi tão violento, que ela caiu desamparada sobre Eric, com o predador a esmagá-los. Enraivecido, o monstro sacudiu a cabeça e escancarou o bico, soltando guinchos de gelar a alma. Preparava um novo assalto, com os olhos de fogo cravados no jarl, quando dois braços vigorosos o arrastaram de cima das suas vítimas.

Ao sentir-se sujeitada, a criatura distendeu as asas com toda a veemência. Ivarr quis impor-lhe a sua força, mas foi arremessado pelo ar e sofreu uma queda aparatosa. A aberração tornou a gritar, inves­tindo contra ele... Contudo, a lâmina de Thora surgiu no seu caminho, ávida de sangue, desaparecendo no interior do peito negro com uma fereza brutal.

Alcancei Eric e Helga e suspirei de alívio, ao verificar que apenas estavam desacordados. O jarl batera com a cabeça numa pedra pontiaguda e sangrava, mas o corte não inspirava cuidados. Os ferimentos da princesa também eram menos graves do que eu receara. As garras da criatura tinham-lhe dilacerado a carne, mas os ossos haviam resistido ao embate. Helga era uma mulher forte e, graças à magia do seu sangue, depressa sararia.

Dispunha-me a acordá-los, quando o mesmo silvo que desencadeara o ataque me feriu os ouvidos. Temi outra chuva de inimigos... Contudo, apenas um corvo se precipitava das nuvens raiadas de escarlate. Era consideravelmente maior do que as restantes almas penadas; tão colossal, que seria capaz de embrulhar um homem entre as asas ou de decepar-lhe a cabeça com um golpe do bico. Carregava qualquer coisa nas garras acutilantes... A luz mortiça dos archotes que ainda subsistiam ao ardor da batalha, julguei tratar-se de duas pedras.

— Por todas as serpentes do submundo! — exclamou Ivarr, atônito. — Que bruxaria é essa?

Engoli em seco, horripilada. A ameaça que acometia contra nós não era um espírito condenado a servir os caprichos do vidente vândalo... Era a criatura que atacara Edwin na cidade de Lyria! A manifestação da essência do próprio Snari! E isso significava que aquele que caísse sob a sua sanha estaria perdido.

— Dispara, Thora! — bradei. — Não o deixes aproximar-se!

A minha irmã obedeceu. Todavia, mal os seus dedos libertaram a corda do arco, o monstro largou o estranho fardo que transportava e esquivou-se.

As pedras tombaram sobre nós a uma velocidade vertiginosa. Thora rugiu de raiva e foi obrigada a desviar-se. A sua flecha trespassou uma asa da besta, sem lhe provocar incômodo. Antes que recuperássemos o fôlego, já a loba prateada voltara a atirar. Contudo, parecia incapaz de atingir mortalmente o alvo. Os companheiros detinham-se, perplexos ante a sua ineficácia.

— Falhaste outra vez! — exclamou Darrin, colocando em palavras o assombro dos demais.

Thora rangeu os dentes; a frustração e a ira brotando-lhe das faces como labaredas. O líder dos corvos malditos movia-se com uma destreza prodigiosa, atendendo ao tamanho descomunal.

— A magia da feiticeira protege-o — declarei. — É inútil...

Um novo silvo calou-me a voz. A essência de Snari chamava os escravos, para que estes lhe escudassem a fuga. De imediato, as aberrações suspenderam o assalto e voaram ao seu encontro.

— Isto não fica assim! — rugiu Thora. E apoiou-se sobre um joelho; os olhos fechados e o corpo inclinado para trás, como se ela e o arco fossem um só.

A minha atenção ficou cativa do céu. Porém, a cortina de penas já ocultava o manto de nuvens místicas. Se a loba prateada errara o alvo quando o tivera exposto, como aspirava agora obter um tiro certeiro?

A última flecha cortou o ar e desapareceu entre o negrume dos corvos. Os homens sustiveram a respiração, aguardando... aguar­dando... Então, as almas danadas chiaram uma última ameaça e mergulharam nas nuvens.

Seguiu-se um silêncio tenebroso, perturbado pela respiração ofegosa de Thora. Depois, os gemidos provenientes do campo de batalha arrebataram a nossa atenção. A luta findara e era necessário socorrer os feridos e preparar os mortos para a viagem que os levaria ao mundo dos espíritos. Alguns guerreiros dificilmente empunhariam armas nos próximos tempos. Os seus braços e mãos tinham sido descarnados até ao osso e demorariam a sarar. Contudo, viveriam para exibir com orgulho as cicatrizes aos filhos e netos.

Eric recuperou finalmente a consciência. Sentou-se, mantendo Helga apoiada junto do peito, enquanto esfregava a testa, atordoado. Lembrar-se-ia de que a iniciativa arrebatada da princesa o preservara de uma morte violenta? Confirmei que sim, quando as suas mãos trêmulas afastaram os cabelos acobreados das faces pálidas, numa demonstração espontânea de afeto. Receei que o desvelo do jarl melindrasse Helgi... Todavia, a atenção do príncipe vândalo estava cativa do fardo que a essência de Snari lançara sobre nós.

Helga abriu os olhos brancos como o luar e esboçou uma careta de dor. No momento em que percebeu que era Eric quem a amparava, libertou um suspiro profundo e levou os dedos ao seu rosto. O jarl sorriu calorosamente, mas foi incapaz de proferir uma palavra. Em outras circunstâncias seria um conforto observá-los. Porém, Ivarr e Bryan já resgatavam da neve a carga que tanta curiosidade suscitava. Não se tratava de pedras como eu inicialmente julgara, mas de sacolas de pele. E o sangue que as manchava deixava adivinhar a perniciosidade do seu conteúdo.

Com a determinação de um líder, Ivarr desfez o nó que fechava um dos sacos. Um coro de perplexidade troou na noite, quando a cabeça decapitada de um homem ficou a descoberto. A luz bruxuleante dos archotes divulgava o suplício na expressão do infeliz. O sangue que gelara nos cabelos desgrenhados não disfarçava a sua cor acobreada, inconfundível aos meus olhos. Levei as mãos aos lábios, calando um gemido. A respiração de Eric alterou-se... E Helga esqueceu a compostura, encolheu-se contra o seu peito e desatou a chorar.

Demasiado chocada para reagir, vi Helgi tombar de joelhos como se tivesse recebido uma bordoada nas costas. De entre os guerreiros, alguém indagou:

— Quem é esse homem?

Foi o próprio Ivarr quem respondeu:

— É o rei Raud do povo vândalo. Que nenhum viquingue vire a face ou se vanglorie do seu infortúnio, pois a sua morte não resultou de um confronto honroso.

Percebi-lhe a tensão na voz, nos traços do rosto, em todos os músculos do corpo... O olhar cristalino já fixava o outro saco, torturado pela dúvida. Teria o ataque dos corvos danados sido uma mera distração, para que Snari se pudesse aproximar dos seus inimigos, com o propósito de lhes lançar um desafio? A confirmar-se essa possibilidade, se uma das mensagens era dirigida a Helgi...

Ivarr revelou abruptamente o que a segunda sacola ocultava. Desta vez, o pasmo da multidão extravasou em interjeições de horror e repulsa, diante da cabeça de Magnor. Engoli em seco, ao ver concretizadas as minhas piores suspeitas. Os olhos cinzentos do príncipe rebelde evidenciavam-se no rosto torturado, esbugalhados de pavor. Os lábios roxos escancaravam-se, num grito que jamais cessaria de ecoar nos labirintos glaciais e sombrios do submundo. A sua vida curta e atribulada chegara ao fim, do modo mais deplorável que eu conseguia imaginar.

O nosso povo não esquecera o sofrimento e a humilhação infligidos por Magnor. Todavia, ninguém se quedava indiferente, ao constatar a aviltante morte que sofrerá. Vozes indignadas exaltavam-se, recla­mando vingança. Foi debaixo desse rugido de revolta, que o herdeiro do trono viquingue pousou a cabeça do irmão na neve. Eric deixou Helga ao meu cuidado e dirigiu-se ao amigo. Thora cobriu os despojos humanos com a sua capa, antes de fitar Ivarr com uma expressão condolente. Um a um, os guerreiros-lobo rodearam o seu senhor... Porém, não era sobre eles que a atenção do rei-lobo recaía.

Sob o fogo irrequieto dos archotes, o olhar do Espírito da Luz cruzava-se com o do Espírito da Escuridão — flamas verdes e azuis, que deixavam transparecer um pesar, uma frustração, uma amargura e revolta incomensuráveis. Era extraordinário como ambos se con­tinham de extravasar toda aquela energia obscura; de esmagar os comuns mortais com o poder candente das suas essências. Não obstante as divergências e rancores que separavam Viquingues e Vândalos, nesse instante estabeleceu-se um entendimento mudo entre os dois príncipes; uma partilha de dor, para além da compreensão de qualquer outro Homem. Então, a voz de Ivarr estrondeou com uma ferocidade que me arrepiou por inteiro:

— De pé, Helgi! Não te resgatei aos mortos para te ver curvado de desespero.

O outro susteve o fôlego e cerrou os punhos, retrucando num tom azedo:

— A morte de Raud significa que Snari e a bruxa conquistaram a aldeia. Já não existe esperança para o meu povo...

— O novo rei castigará os assassinos e devolverá a esperança aos Vândalos.

— De quem estás a falar?

— De ti, Helgi! — revidou o Espírito da Luz com uma firmeza arrebatadora. — Ou não és tu o mais velho dos varões do rei Vestein; o legítimo herdeiro do trono vândalo?

A perplexidade do Espírito da Escuridão foi genuína. Subjugado pela comoção, nem se apercebera da reviravolta que o seu destino sofrerá. Com o coração descompassado, recordei uma conversa ocorrida na casa do jarl Throst, quando a sombra da guerra parecia uma ameaça distante. O meu pai e os seus amigos tinham comentado a numerosa descendência do rei Vestein. Quem poderia adivinhar que, desde então, tanta coisa mudaria? Helgi já vira perecer quatro irmãos... Agora, o dever do sangue clamava o seu nome.

— Ainda que tal seja verdade — objetou com a voz a tremer —, o povo não me aceitará. Snari convenceu-os de que eu planeei a morte da rainha.

A resposta de Ivarr foi implacável:

— Se, depois do que sucedeu com o rei Raud, a tua gente continuar a confiar em Snari e se dispuser a segui-lo, é porque merecem rastejar sob as suas ordens!

O tom do príncipe viquingue espicaçou o orgulho do príncipe vândalo, que se ergueu de um salto e defrontou-o com arrojo:

— Mesmo que eu desejasse reclamar o trono, como o faria sozinho? O Espírito da Luz aprofundou o olhar e volveu sem rodeios:

— Não estarás sozinho. O exército viquingue marchará ao teu lado.

O Espírito da Escuridão sustentou a intensidade ardente do verde cristalino... No entanto, os seus lábios tremiam e a respiração descontrolava-se, ao contrapor:

— Estás disposto a ajudar-me? O que ganharás com isso?

— A paz entre Viquingues e Vândalos — retorquiu Ivarr com simplicidade. — As questões que outrora nos dividiam estão ultrapassadas. Hoje tivemos a prova de que enfrentamos o mesmo inimigo. Os meus guerreiros libertarão o teu povo do jugo dos opressores. Em troca, só peço que o rei Helgi reconheça a supremacia do rei Steinarr, com a garantia de que os Vândalos não serão escravos em solo viquingue, mas aliados. Como soberano, a tua voz será ouvida nas questões que vos digam respeito. O teu povo poderá cruzar as fronteiras da Floresta Sombria, viajar e negociar em segurança. Esse era o sonho do teu pai... Tu podes torná-lo realidade!

A sua mão estendeu-se e ficou suspensa diante de Helgi. O prín­cipe vândalo fixou-a, ciente da importância do seu próximo gesto. Na verdade, Ivarr não necessitava de apoio e muito menos da sua aprovação para avançar. O acordo que lhe propunha era uma prova de boa vontade, reflexo da nobreza do seu caráter. O herdeiro do trono viquingue desejava a paz e estava disposto a fazer concessões para obtê-la. Helgi devia-lhe a vida... No entanto, não foi a gratidão nem tão-pouco a promessa de uma coroa que o fez apertar a mão de Ivarr.

Foi o respeito! O lobo negro rendia-se à superioridade do lobo branco. Não obstante a perturbação, a sua voz soou firme ao declarar:

— Aceito as tuas condições... Enfrentaremos Snari e a feiticeira, lado a lado, pela libertação do meu povo!

Para o bem ou para o mal, o destino de Viquingues e Vândalos acabara de ser traçado. Observei as expressões dos guerreiros e verifiquei que várias testas se franziam, em suspeição. Não era fácil entender como adversários mortais se haviam tornado aliados, do dia para a noite. Todavia, nenhum dos lobos de Ivarr contestava a sinceridade e a solidez daquele pacto. A magia que restabelecera o corpo e o espírito de Helgi também fazia parte da sua essência. O príncipe vândalo tornara-se membro da alcatéia. A marca que ostentava provava o quanto o seu mundo se alterara com aquela partilha de sangue. Porém, só o tempo lhe conquistaria a confiança do exército viquingue.

Ivarr sabia a incredulidade que agitava as mentes mais resistentes à mudança. Contudo, também não duvidava que podia contar com a lealdade dos seus guerreiros. Os Viquingues segui-lo-iam, pois reconheciam o seu valor como líder e como homem. Por isso, não hesitou em falar-lhes com ardorosa paixão:

— Esta noite perdi o meu único irmão... No entanto, os seus carrascos não escaparão impunes! Tamanha afronta exige resposta imediata. Que soem as trompas e todos os guerreiros empunhem armas. Antes que a feiticeira e o seu fantoche se vangloriem do sangue dos bravos que aqui tombaram, serão esmagados pela justiça do ferro viquingue. As gerações vindouras recordarão o dia de amanhã como o despontar da paz no Norte. Lutaremos e venceremos com a graça do grande Odin... Pela glória do rei Steinarr!

Um clamor de fervorosa exaltação estrondeou no ar, quando os homens desembainharam as espadas e as elevaram ao céu.

Enquanto as trompas ecoavam, chamando os guerreiros dos povoados vizinhos para a batalha, várias fogueiras foram acesas por ordem de Ivarr. A Aldeia de Grim reuniu-se para prestar uma última homenagem aos homens que haviam perecido a combater as criaturas danadas. Em piras distintas, ardiam os restos mortais do príncipe Magnor do povo viquingue e do rei Raud do povo vândalo. Antes do fogo libertador se iniciar, o Espírito da Luz proferira palavras simples, mas pejadas de significado:

— Por mais que o desejemos, não podemos devolver a vida aos mortos. Contudo, temos obrigação de aliviar o tormento dos seus espíritos. Faço votos para que a passagem destes guerreiros seja pacífica. Que o sublime Odin perdoe as suas faltas e fraquezas, e os receba de braços abertos, no festim da eternidade!

Perecer com uma arma na mão, no ardor do campo de batalha, era considerada a maior honra de um guerreiro. Viquingues e Vândalos concordavam nesse princípio. Talvez por isso, Ivarr e Helgi fixassem as fogueiras com máscaras de frieza, para ocultarem a angústia que lhes assolava as almas. Ambos sabiam que o fim dos seus irmãos fora degradante.

Ivarr fizera questão de que Helgi se quedasse ao seu lado, durante a cerimônia. Assim declarava aos Viquingues que o príncipe vândalo não devia ser descriminado no seu seio. De qualquer modo, todos tinham testemunhado a abnegação e a bravura de Helgi na contenda. E ninguém podia ignorar o fato de que fora a princesa Helga quem salvara a vida do jarl Eric.

Aos poucos, eu sentia as forças restabelecerem-se. O malefício de Gwendalin dissipara-se, assim como as estranhas nuvens que haviam descido do céu. A magia tornava a latejar-me no sangue, mas agora eu estava consciente da minha vulnerabilidade. Urgia melhorar as defesas e concentrar-me nas energias que nos rodeavam, a fim de antecipar um novo ataque. Não me podia distrair com os aconteci­mentos que eclodiam ao meu redor. Nessa noite, algumas mortes teriam sido evitadas, se me tivesse apercebido da alteração no equilíbrio das forças místicas e impedido a feiticeira de quebrar a minha vontade. Tal admissão era uma chaga na alma que jamais sararia.

Não obstante o calor emanado pelas fogueiras, as faces de Helga estavam lívidas. As lágrimas haviam secado no olhar cego, deixando marcas negras e encovadas. Freya detinha-se ao seu lado, amparando-a, ao mesmo tempo que enrolava a pedra azul da feiticeira Aranwen entre os dedos, torcendo-a e retorcendo-a sobre o peito, como se buscasse inspiração no seu brilho renovado para lhe murmurar algumas palavras de conforto... Porém, que consolo se podia oferecer a alguém que acabara de perder um irmão? Apesar de Raud se ter rendido à loucura, Helga não cessara de estimá-lo. A sua morte prostrara-a de tal forma, que nem se manifestara quando, há pouco, Freya suturara o corte profundo que lhe atravessava as costas. Eu segurara-lhe a mão para lhe atenuar a dor, enquanto a curandeira manuseava a agulha, cosendo a carne ponto a ponto com excelsa perícia. Todavia, nenhum suplício podia suplantar o horror que lhe ensombrava o espírito, ao imaginar a sorte daqueles que amava e que se encontravam à mercê da tirania de Snari.

O cheiro da carne e da madeira queimada apossava-se do ar. O fumo negro enredava-se no vento e subia em direção ao céu. O fogo libertava os espíritos da prisão dos corpos. Através das fulgurantes labaredas, deparei com o olhar compungido de Thora. Desde que a batalha findara, a minha irmã não parará de se atormentar. A sua mente esmiuçava as razões por que falhara um alvo maior do que ela própria, a tão curta distância. A minha justificação de que houvera magia envolvida não a satisfazia. A loba prateada orgulhava-se de possuir o arco mais certeiro de todo o País dos Viquingues. Ultimamente, a sua destreza conseguira superar a habilidade reconhecida e elogiada do nosso pai. O seu instinto já vencera desafios muito mais complexos. Como fora possível falhar tantas vezes, quando era crucial acertar?

Recordar Snari fez-me estremecer. A habilidade de deixar o corpo e viajar com a essência para um lugar distinto, a fim de observar ou até interferir nos acontecimentos, tinha um preço. Tamanha ousadia já quase me custara a vida, por várias vezes. Era fácil desprezar o perigo no ardor de uma contenda; esquecer que tudo o que sucedesse ao espírito se refletiria na carne. Nessa noite, Snari arriscara demasiado! A energia que investira para aumentar o poder da sua essência levara-o muito além da manifestação mística. A forma que assumira era tão real, que até aqueles que não possuíam magia no sangue o haviam escutado e visto. Se a flecha de Thora tivesse atingido o objetivo, a morte do vidente seria inevitável, onde quer que o seu corpo permanecesse resguardado.

A minha reflexão foi interrompida pela abordagem de Ivarr. Manteve um distanciamento polido, ao indagar se eu estava em condições de apoiá-lo na ousada campanha a que se propunha. Mais parecia que negociava os serviços da Guardiã da Lágrima do Sol, desprezando o fato de eu ser a mulher com quem ele partilhara momentos determinantes da sua vida. Contudo, o gelo ia derretendo no olhar cristalino... Acabara de garantir que me sentia perfeitamente bem, quando Eric se aproximou e interpelou o príncipe num sussurro:

— Tens a certeza de que não queres esperar pelo parecer do rei Steinarr, antes de investir contra o reduto vândalo?

A apreensão do jarl era compreensível. Sob o domínio das emoções causadas pela horrífica morte imposta a Magnor, Ivarr descuidara a prudência que, no início da noite, o levara a decidir regressar ao castelo para auscultar a opinião do pai. Todos tínhamos consciência de que aceitar o desafio de Snari seria mergulhar de cabeça numa armadilha de Gwendalin. Porém, o instinto do rei-lobo ordenava-lhe que avançasse. E eu não tinha como refutar os seus argumentos:

— O meu pai sustentará a minha decisão. Além disso, estou com um mau pressentimento! Sinto o cheiro de sangue no ar, como uma peste que se alastra ao sabor do vento. A nossa guarda de fronteira necessita de reforços... E os Vândalos precisam da intervenção do seu legítimo rei. O pacto que firmei com Helgi trará benefícios a todos nós. Devemos acreditar que, desta vez, a amizade e a união suplantarão o ódio e conquistarão a paz.

Os guerreiros chegavam em grupos à Aldeia de Grim, ansiosos por ação. O príncipe e o jarl distribuíam as últimas instruções, pre­parando os homens para suplantar a perversidade da Floresta Sombria. Freya horrorizava-se ante a iminência da nossa partida. Porém, até ela reconhecia que Helgi tinha de enfrentar o seu destino.

Helga seguiu-me até ao quarto, para que o príncipe vândalo pudes­se desfrutar de alguns instantes a sós com Freya e Thorson. Agora que as fogueiras se haviam transformado em cinzas, a princesa só se permitia pensar no confronto com Gwendalin. O receio de que a união dos nossos poderes talvez fosse insuficiente para derrotar a feiticeira pesava nas impressões que trocávamos. Sobressaltamo-nos quando Eric espreitou pela cortina e apelou:

— É tempo de partir, Edwina. Os homens aguardam a bênção da Guardiã da Lágrima do Sol... — Deteve-se, ao verificar que Helga tencionava acompanhar-nos. — Vós estais ferida, princesa! Deveis repousar...

— Repousar? — cortou ela, num tom quase indignado. — Como posso repousar, quando o meu povo padece a cada fôlego que inspiro? O meu lugar é na frente de batalha!

— Acalmai-vos, suplico! — pediu Eric com um gesto apaziguador. — Compreendo que estejais apreensiva. Todavia, não posso consentir a vossa presença nesta campanha. Seja qual for o cenário que encontremos, os ânimos hão de exaltar-se e não poderei garantir-vos segurança...

— Não preciso que vele por mim, senhor! Sou uma guerreira como vós!

O protesto exacerbado de Helga fez Eric vacilar. Franziu o cenho e negou com a cabeça, replicando:

— Vós não sois guerreira...

A voz morreu-lhe na garganta, ao sentir a lâmina da própria espada pressionar-lhe o peito. Helga agira tão rápido que nem eu antevira a sua intenção. Num piscar de olhos, a arma de Eric saltara para fora da bainha e voara para a mão da vidente que, com uma perícia impressionante, acometia adiante e defendia o seu orgulho, volvendo sem cortesias:

— O Helgi ensinou-me a manejar a espada, quando ainda éramos crianças, e, ao longo dos anos, fiz da magia o meu escudo. Não me tomeis por inábil, só porque não vemos o mundo da mesma forma, senhor! Sou perfeitamente capaz de me defender... E garanto-vos que estarei nessa peleja, ao lado da Edwina, contra a feiticeira que ameaça o meu povo.

O olhar de Eric flamejava. Eu conhecia-o desde criança e poucas vezes o vira tão alterado. As suas emoções ressaltavam à percepção superior de Helga, com tal intensidade que a jovem estremeceu, baixou a espada e devolveu-lha, com as faces em brasa. O jarl correspondeu ao seu gesto. Todavia, em vez de agarrar na arma, segurou-lhe a mão, murmurando roucamente:

— Jamais me perdoarei, se algo de mal vos ocorrer!

— Não podemos fugir da nossa sorte — declarou ela, com singeleza.

— Eu sei... — revidou Eric. — Acabastes de me provar isso, guerreira!

Sem mais, deixou o quarto com tal pressa, que dir-se-ia que o chão ardia sob os seus pés. Eu observara aquela altercação com o queixo caído. Antes que Helga se pudesse recompor, questionei-a:

— Por que lhe disseste que és uma guerreira?

A princesa encolheu os ombros, justificando confusa:

— Pareceu-me a única forma de convencê-lo do meu valor... Além disso, não menti! O Helgi mostrou-me como se usa uma espada. E a rainha Aesa afirmava que eu era a sua guerreira em espírito... Por que é que as minhas palavras incomodaram tanto o teu primo?

Eu possuía as minhas suspeitas, mas não me atrevia a revelá-las, temendo enredar ainda mais as nossas existências. Afastei da cabeça a profecia que a Velha do Tronco Oco reservara a Eric e respondi simplesmente:

— Tenho a certeza de que ele se explicará, no devido tempo.

A jornada foi rápida e silenciosa. A determinação dos guerreiros exaltava-se nos semblantes e nas passadas vigorosas que marcavam a neve virgem. Nas suas mentes plantava-se a ambição de que essa campanha pudesse trazer a paz ao Norte. Os skald cantariam tão nobre vitória em todos os eventos e os nomes dos homens que a haviam conquistado seriam recordados até ao fim dos tempos, e imortalizados nas Runas, como os dos grandes heróis. Envolvida pelas trevas misteriosas da Floresta Sombria, eu não partilhava dos seus sonhos de glória. Apenas uma questão me devorava a mente: Teria força e magia suficientes para proteger aqueles que amava do ferro e do fogo?

Ivarr e Helgi seguiam lado a lado; o lobo branco e o lobo negro que governavam as suas essências subjugando as defesas místicas da floresta. Ao desbravar as sombras terrificantes, era impossível ignorar a miríade de perigos que estas ocultavam. As árvores cerradas guardavam segredos e armadilhas; abrigavam seres que suplantavam a mais fecunda imaginação. A última vez que nos embrenháramos tão profundamente no seu seio, fôramos confrontados com criaturas de pesadelo: um cruzamento aberrante e grotesco entre Homem e besta, com a assustadora capacidade de sujeitar as nossas mentes. O instinto garantia-me que estávamos perto do covil desses monstros. Porém, o Espírito da Escuridão guiava-nos por um trilho inexplorado que, à primeira vista, parecera intransponível. Afinal, os obstáculos tinham-se revelado uma ilusão para dissuadir os intrusos. Dei por mim a concluir que ninguém, jamais, conseguiria mover-se nesse mundo selvagem com a destreza de Helgi.

Helga acompanhava-me sem dificuldade. Com a percepção restabelecida e os sentidos alerta, mais parecia que flutuava sobre os pedregulhos e as raízes robustas que espreitavam da neve. A sua expressão mantinha-se concentrada, impenetrável. Contudo, era fácil imaginar o turbilhão de sentimentos que se revolviam no seu peito; o temor de descobrir as atrocidades que Gwendalin e Snari haviam imposto aos Vândalos. Por várias vezes, o olhar de Eric pousou em nós; a testa vincada por uma ruga de preocupação. No entanto, afigurava-se que não era eu a causa da sua inquietude.

Aproximávamo-nos do acampamento viquingue, que vigiava o reduto vândalo naquela fronteira, quando escutamos o clamor de um conflito feroz. Gritos ecoavam na bruma e o estridor das armas competia com os gemidos agudos do vento. Ivarr ordenou a investida, temendo que os nossos guerreiros estivessem sob ataque. Porém, ao entrarmos na área de contenção, deparamos com o exército do rei Steinarr num alerta silencioso. Alguns homens serviam-se das árvores como escudo; outros agachavam-se no solo com as armas em punho.

À nossa frente elevava-se a colossal barreira de espinheiros — aquele que fora o mais inexpugnáveis dos fortes. Contudo, tal como o mensageiro relatara em casa do jarl Eric, os ramos intrincados dos arbustos, outrora repletos de aguilhões capazes de varar um homem com a facilidade de uma lança, tinham murchado... E era no interior dessa muralha cinzenta ressequida que deflagrava o caos.

Ao ver-nos, o general do acampamento mal ocultou o alívio. Inclinou-se diante do herdeiro do trono viquingue, sussurrando um desabafo:

— Foi o grande Odin quem vos enviou, meu príncipe! Eu não sabia o que fazer... Mais parece que os vândalos enlouqueceram e se viraram uns contra os outros!

De fato, essa era a única justificação para o tumulto que o anel de espinheiros ocultava. E as nuvens de fumo negro e espesso, que se erguiam até ao céu, deixavam adivinhar que algumas habitações tinham sido incendiadas.

— Helgi... Não!

O grito de Helga pôs-nos em sentido. Sem fazer caso do apelo da irmã, o príncipe vândalo corria desembestado, rumo à sua aldeia, passando pelos guerreiros viquingues como se fosse ar. Ivarr praguejou e precipitou-se no seu encalço, ordenando:

— Sigam-me!

Não havia tempo para explicações. Nem sequer havia tempo para pensar! Vi os espinheiros desfazerem-se em pó, no instante em que Helgi os atravessou. Porém, tal não bastava para me assegurar do fim da maldição! Apelei à magia para suplantar o avanço dos guer­reiros e, com a ajuda do vento, derrubei a muralha que, durante gerações, se alimentara de sangue viquingue. A poeira elevou-se e tocou as copas das árvores, conspurcando o alvor da neve que enfeitava as ramagens. Os homens levaram as mãos ao rosto, prote­gendo os olhos e tossindo. Para além dessa nuvem parda, a voz de Helgi trovejava:

— Rulav!

O meu olhar alcançou o reduto vândalo... E deparou com o inimaginável. A aldeia estava arrasada! O fogo devorava as casas com um entusiasmo brutal, instigado pela fúria do vento. Os guerreiros batiam-se com todo o ímpeto; as armas descarregando golpes vee­mentes, que regavam com sangue a lama onde os pés se enterravam. Os escudos quebravam-se sob a violência dos machados... No entanto, os Vândalos não se batiam entre si, como o general viquingue pensara.

Pelo contrário, lutavam pela sobrevivência, praticamente esmagados pela fereza dos Mercenários do Norte.

Onde estava Gwendalin? A minha percepção buscava ansiosamente a sua energia, sem nada descortinar. E onde estava Snari, que não defendia a sua gente? Então, de entre a exaltação da batalha, um homem baixo, contudo sólido como um tronco, respondeu ao desafio do Espírito da Escuridão com uma gargalhada jocosa:

— Eis que o valoroso príncipe Helgi acorre em auxílio do seu povo! Acreditas ser capaz de bater todos os meus homens, antes de eu saborear o teu sangue?

— O príncipe Helgi não está sozinho, Rulav!

A voz do Espírito da Luz rasgou a nuvem de poeira e paralisou Vândalos e Mercenários. Todos os guerreiros se voltaram para nós, com olhos arregalados de espanto. O pó começava a dissipar-se e revelava o poderoso exército viquingue. Uma cometa troou nas minhas costas, chamando para a batalha os generais do rei Steinarr que montavam guarda em redor do anel de espinheiros. Agora que a muralha de arbustos letais ruíra, estes podiam avançar ao encontro do seu senhor. E as ordens de Ivarr eram claras:

— Aos Mercenários, corajosos Viquingues! Libertem o Norte dessa peste maldita!

Num estalar de dedos, Rulav viu-se rodeado pelos seus maiores inimigos. E percebeu que a vantagem que detinha contra os Vândalos fora irremediavelmente perdida. Sem hesitar, virou as costas aos reis-lobo e desatou a correr em direção aos Pântanos Nebulosos, berrando:

— Retirar! Retirar!

Os pântanos eram um lugar amaldiçoado pela Mãe Natureza. Se os Mercenários se moviam com destreza entre as areias movediças e os nevoeiros perpétuos, o mesmo não sucedia com os Viquingues. A partir do momento em que os selvagens cruzassem essa fronteira, ficariam fora do nosso alcance. Eu podia tentar detê-los; apelar à magia para lhes retardar a fuga. Porém, o meu ouvido apurado surpreendera gritos de aflição, provenientes da casa que pertencera a Aesa. As mulheres e as crianças tinham buscado refúgio na cabana mais robusta da aldeia. Contudo, os guerreiros vândalos haviam sido ineficazes a sustar o avanço dos atacantes. E nem a mais sólida parede de madeira era capaz de resistir à avidez do fogo. Os Mercenários tinham lançado archotes sobre o telhado de colmo, transformando o abrigo numa armadilha mortal. Se eu não interferisse, a catástrofe seria inevitável...

Entreguei a resolução da batalha a Ivarr e corri por entre os guer­reiros que se precipitavam atrás dos Mercenários. Ainda assim, Helga alcançou primeiro a cabana de Aesa. O seu esforço manteve o telhado de colmo no lugar, impedindo-o de ruir para o interior da casa, onde imporia uma morte atroz a dezenas de inocentes. Quedei-me ao seu lado, encarando as flamas que lambiam as paredes de madeira, horripilada pelo temor de ser demasiado tarde. Não havia tempo para evocar a chuva. Restava-me chamar o fogo e orar aos céus.

A magia inflamou-se no meu sangue. As tatuagens que me enfeitavam os pulsos animaram-se e o rugido ensurdecedor do dragão que perseguia o Sol troou-me na mente. Fechei os olhos e inspirei fundo. Tudo o que me rodeava desapareceu, à exceção do calor abrasador que me escaldava as faces. Então, a negridão silenciosa que me abraçava encheu-se com o fulgor das partículas de essência candente que alimentavam o universo. E eu atraí-as até me fundir com elas; até eu própria me transformar numa estrela. Abri os olhos e vi uma onda de chamas afluir ao meu corpo. Recebi-a de braços abertos e assimilei o seu poder destruidor. Escutei o meu nome, proferido numa mistura de brados de aflição, mas não retrocedi. O sacrifício da minha existência salvaria muitas vidas... Essa era a abnegação de um Guardião. «O Que Tudo Vê» entregara-me a magia do Sol. Hoje, eu arderia como a fonte do meu poder.

O fogo caiu sobre mim, consumiu-me as vestes, devorou-me a carne, corroeu-me os ossos... e defrontou-me a essência. Eu sucumbia à fraqueza de cada vez que permitia que a condição humana superasse a mística. Se tal sucedesse agora, nada me poderia salvar. Por breves momentos, teria de ser tão grandiosa como um Ser Superior. O meu espírito alimentar-se-ia das labaredas, até a sua ira se extinguir. Edwina-mulher podia morrer, que Edwina-feiticeira emergiria das cinzas com redobrado vigor.

Deixei de ver. Parei de ouvir tudo, à exceção de algo que se assemelhava ao latejar de um coração. No centro do sol em que me transformara, pulsava um cristal de cintilação clara e deslumbrante, aguardando o sacrifício da mulher para sublimar a feiticeira. E, desta vez, eu não necessitava de mergulhar na sua luz, pois esse esplendor já fazia parte de mim. A Lágrima do Sol e a sua Guardiã não mais voltariam a ser Entidades distintas.

 

O apelo insistente de Thora trouxe-me de volta à realidade. Abri os olhos e deparei com o palor das suas faces, que lhe evidenciava ainda mais o verde magnífico do olhar, herança da nossa mãe. Estivera a chorar... E a loba prateada nunca chorava!

— Pregaste-me um susto de morte, Edwina! — murmurou ofegante. — Mas foste excepcional...

A sua voz engasgou-se, toldada pela emoção. Afrouxou o abraço, para que eu pudesse testemunhar os resultados do meu esforço. Helga estava sentada ao nosso lado, com o rosto banhado em lágrimas, mas iluminado por um sorriso. Senti o aperto da sua mão na minha, enquanto sussurrava simplesmente:

— Obrigada, Guardiã.

Por cima do seu ombro, vi Bryan e Ragnar ajudarem as mulheres do povo vândalo a saírem dos escombros daquela que fora a casa da rainha Aesa. Todas traziam crianças pela mão ou ao colo. O pavor que os guerreiros viquingues lhes inspiravam apaziguava-se ao depararem com o príncipe Helgi.

— Conseguiste salvá-los! — forçou-se Thora a continuar. — Nunca ninguém esquecerá o que aqui se passou!

Mais tarde, contou-me que eu proporcionara um espetáculo aterrador aos comuns mortais, de tal forma, que os Viquingues se haviam detido a observar-me, esquecidos de perseguirem os Mercenários do Norte. Começara por gritar como se me estivessem a arrancar a alma. Depois, uma ventania arrebatadora varrera o terreiro e sugara o fogo da cabana de Aesa. As labaredas tinham-se erguido no ar como se possuíssem vida própria, para, de seguida, desabarem sobre o meu corpo qual onda bravia do selvático mar do Norte.

Durante o que parecera uma eternidade, eu quedara-me de pé como uma tocha gigante. Aqueles que tinham ousado aproximar-se haviam sido arremessados para longe pelas chicotadas do vento irascível que me envolvia. A minha irmã acreditara estar a presenciar o meu fim. Todavia, eu ardera e ardera, sem nunca me consumir. De entre as labaredas, a fulgência da Lágrima do Sol ressaltara como uma estrela alva e sublime. Aos poucos, a luz abençoada do cristal assimilara as flamas, até estas se finarem e eu tombar inconsciente sobre a neve.

Thora correra a cobrir o meu corpo nu com a sua capa. Abraçara-me e chorara, convencida de que eu estava morta. Mal pudera acreditar quando sentira o meu coração bater. Helga juntara-se a nós e ajudara-me a despertar. Os Viquingues tinham mais uma história assombrosa para contar nas noites de festa... e os Vândalos rendiam-se ao poder da Guardiã da Lágrima do Sol.

Diante dos seus guerreiros, Ivarr fixava-me com uma intensidade avassaladora. Por minha causa, perdera a oportunidade de eliminar a ameaça dos Mercenários. Contudo, não existia frustração no seu olhar. Antes, algo mais perturbador... tristeza, perda, amargura. Até agora, o Espírito da Luz encarara-me como uma mulher; alguém com habilidades mágicas, mas, ainda assim, humana. Depois do que acontecera, era forçado a admitir que a jovem que fora educada para se tornar princesa herdeira do trono viquingue já não habitava em mim. Eu era Guardiã da Lágrima do Sol, filha da Montanha Sagrada, sacerdotisa da Pedra do Tempo! E tal consciencialização levava-o a cogitar até que ponto o nosso casamento não prejudicara o meu destino... A sorte de todos nós.

Os guerreiros vândalos entreolhavam-se, confusos e transtornados. Decerto recordavam o dia em que Aesa lhes anunciara a minha morte. Afinal, eu estava viva e, em vez de me revelar a abominação que a sua rainha apregoara, acabara de lhes salvar as mulheres e os filhos. Como é que alguém que devotava a sua existência a combater os Vândalos pudera desafiar a morte para ajudá-los? Além disso, eram obrigados a admitir que a batalha contra os Mercenários tê-los-ia aniquilado, se não fosse a interferência do exército viquingue. Feridos, exaustos e despidos de esperança, viravam os semblantes assustados para o príncipe Helgi. Que acordo teria ele firmado com o príncipe Ivarr, que lhes valera a proteção daqueles que eram seus inimigos ances­trais? Será que haviam sido poupados ao extermínio para tombarem na escravidão?

De súbito, um guerreiro destacou-se dos demais. A sua semelhança com Helgi era impressionante. O Espírito da Escuridão recebeu-o nos braços com uma exclamação comovida:

— Que os deuses sejam louvados, Koll! Temi tanto por ti!

— Eu vivi para honrar o nome do nosso pai — respondeu o mais novo, engasgado de emoção. — Para honrar o teu nome, irmão! Sempre soube que estavas inocente...

Não teve tempo de concluir, pois outro guerreiro com o rosto de Helgi, ainda mais jovem, pendurou-se no seu pescoço.

— Ymir... — murmurou o Espírito da Escuridão. — Juro que farei tudo o que estiver ao meu alcance para que esta tenha sido a tua última batalha!

O rapaz tentou conter as lágrimas, mas não conseguiu. Escondeu a cabeça no peito do irmão e soluçou:

— Perdoa-me... Estou sempre a envergonhar-te!

— Tu jamais me envergonhaste — volveu o mais velho, com carinho. — Pelo contrário... Sabes bem o quanto me orgulho de ti.

Ainda abraçado aos irmãos, o Espírito da Escuridão voltou-se para os guerreiros... E todos se inclinaram em reverência. Ozur, o mais idoso e respeitado dos generais vândalos, elevou a voz e discursou:

— Helgi, filho de Vestein, em nome do nosso povo saúdo-te como legítimo herdeiro do trono vândalo. Estamos à mercê da tua vontade, neste momento de provação. O que decidires será obedecido. Assim manda a lei. — Voltou-se para os companheiros e bradou: — Honra e glória para o rei Helgi!

Um coro de louvor troou na bruma. Para meu alívio, estava carre­gado de sinceridade. Os Vândalos sempre tinham reconhecido o valor e a coragem do Espírito da Escuridão. A presença de Ivarr ao seu lado deixava-os apreensivos... Porém, era incontestável que, se existia alguém capaz de salvar a alma daquele povo, esse alguém era Helgi.

O novo rei inclinou respeitosamente a cabeça. Guardou um instante de silêncio para dominar a emoção, antes de volver num tom sóbrio e firme:

— A minha honra e glória serão a honra e a glória do meu povo! Sei que muito ficou por explicar, após a morte da rainha Aesa e o meu exílio. Também sei que, neste instante, olhais em redor com desconfiança e temor pelo futuro. Porém, dou-vos a minha palavra de que tudo será esclarecido. Ficai a saber que os Viquingues são nossos aliados nesta empresa, não inimigos. Eu renovei junto do príncipe

Ivarr o acordo de paz firmado pelo rei Vestein, meu saudoso pai, antes da sua morte. Isso significa que aceitei a supremacia do rei Steinarr, em troca do fim do cerco imposto às nossas fronteiras e da livre circulação de pessoas e bens. — Fez uma pausa, até que serenou o burburinho resultante da surpresa que as suas palavras causavam. Só depois prosseguiu: — O orgulho e o rancor não põem pão nas nossas mesas, nem curam as doenças das crianças. O nosso povo já sofreu demais! Na nova era que hoje se inicia, haverá cooperação entre Vândalos e Viquingues. Com a vossa ajuda, levantarei esta aldeia das cinzas e torná-la-ei próspera e segura. Aqueles que, de entre vós, discordem da minha resolução, são livres para partir com as suas famílias e haveres, sem que existam retaliações.

Eu esperava ver alguns homens tomarem essa iniciativa, afrontados pelo anúncio da aliança com os Viquingues. Todavia, ninguém se manifestou contra a determinação do novo rei. Na verdade, os Vândalos pareciam até ansiosos por começarem a reconstruir a aldeia e prepararem a sua defesa. Os Mercenários haviam debandado, mas podiam regressar com reforços.

— Onde está Snari? — interrogou Helgi, percorrendo a multidão com o olhar. — Esse traidor tem de pagar pelos seus crimes!

Também eu me debatia com essa questão. Onde é que Snari e Gwendalin se tinham enfiado? Ainda que enfraquecidos pela evocação dos corvos danados, como haviam permitido que os Mercenários atacassem a aldeia? Apesar de a coragem não ser o seu forte, não me parecia crível que Snari tivesse conspirado toda a vida, no intuito de se tornar rei, para depois ceder o território a Rulav! Além disso, o líder dos Mercenários sempre fora aliado dos Vândalos... Algo muito estranho se passava! Estaríamos a ser vítimas de uma ardilosa conspiração? Será que a feiticeira me observava, escondida, aguardando por uma oportunidade de tirar vantagem da minha fraqueza?

Helgi deu-nos permissão para nos instalarmos na casa do príncipe Siguror, uma das poucas que escapara ilesa à barbaridade dos Mercenários. O tio não reclamaria da sua decisão, pois tombara na batalha, assim como alguns dos melhores guerreiros do seu povo.

As reviravoltas do destino jamais cessariam de me espantar. Quem diria que, um dia, eu haveria de me deitar na cama da antiga noiva do meu pai? Esperava, a qualquer instante, ver Halldora irromper pela porta a descabelar-se de raiva, berrando ameaças e injúrias contra

Throst e Catelyn. Sentia-me tão incomodada que comentei essa estranheza com Thora. Ela limitou-se a encolher os ombros, re­plicando:

— A história da nossa família está repleta de fenômenos esquisitos e coincidências mórbidas. A cada dia, aumenta a minha convicção de que nada acontece por acaso... Pelo menos conosco! Mais parece que as linhas da nossa sorte são entretecidas por uma criatura alucinada, que se diverte a atormentar-nos; que faz questão de nos manter em permanente sobressalto, revelando-nos a luz da felicidade sem nunca nos permitir alcançá-la. — Torceu os lábios e agitou os punhos, antes de concluir: — Se um dia me deparasse com esse ser demente, juro que lhe rebentava o focinho e partia todos os ossos do corpo!

Acabamos a rir, imaginando que não existiria curandeira que valesse à Entidade que governava os nossos destinos, se esta se visse confrontada com a loba prateada. Thora possuía o dom de me fazer esquecer as preocupações e as tristezas. Contudo, não vivíamos dias de calmaria. Pouco depois, Helgi procurava-me para agradecer a prestação na batalha. Ajoelhou-se aos meus pés e declarou fervoro­samente:

— Devo-te a sobrevivência do meu povo, Guardiã da Lágrima do Sol... Sem as nossas mulheres e crianças, não haveria futuro para os Vândalos. Tamanha dívida jamais ficará saldada! Se com a minha vida ou morte puder servir-te, estarei ao teu lado sempre que necessitares.

Sorri enternecida e pousei-lhe a mão no ombro, contestando:

— Tu nada me deves, cunhado! Tal como Ivarr, tudo o que te peço é que guies os Vândalos pelo caminho da paz. O trilho que te trouxe até aqui foi acidentado! Lembro-me perfeitamente do que senti, quando te vi pela primeira vez... A tua chama ardia com tanto fulgor, que quase te consumia. Hoje és um homem diferente! E deves orgulhar-te das transformações que sofreste. Tenho a certeza de que serás um bom chefe de família e um valoroso líder.

O príncipe vândalo correspondeu ao meu sorriso e apertou-me a mão com cuidado.

— Obrigado pela confiança que depositas em mim. Quedamo-nos em silêncio, sem desviarmos o olhar. Mesmo desfigurado pelo punhal de Thora, Helgi continuava a ser um homem atraente. Eu esperava que o espírito de Gríma não forçasse Gwendalin a persegui-lo, ou o nosso sonho de paz corria o risco de nunca se concretizar. Esse pensamento levou-me a indagar, apreensiva:

— Conseguiste localizar Snari e a feiticeira?

— Não — respondeu ele com um suspiro exasperado. — De­sapareceram sem deixar rasto! Mas hei de encontrá-los, Edwina... E hei de matá-los sem dó nem piedade!

O ódio do Espírito da Escuridão era compreensível. Segundo Koll nos contara, por entre bafos de agonia, Snari desafiara o rei Raud para um duelo de supremacia, logo após a fuga de Helgi. Apesar de a sua perna não estar curada, o soberano quase rira na cara do vidente... Contudo, a vontade de escarnecer da fraqueza do primo depressa se extinguira. Em pleno terreiro, no interior de um círculo de combate, o rei fora incapaz de empunhar a sua espada como se esta pesasse mais do que um carvalho centenário. Então, Snari evocara o terrível poder que lhe animava a essência, subjugando Raud com um simples toque. E, perante o horror da comunidade, decapitara-o sem hesitações.

Ainda ninguém recuperara do choque, já o vidente se proclamava superior aos filhos de Vestein e ao seu próprio pai, e reclamava o trono. Villi, o melhor amigo de Helgi, fora o primeiro a reagir. Destacara-se dos demais e vociferara-lhe o seu desprezo, acusando-o de mentir e matar em nome das mais perversas ambições. Movido pelo ódio que os separava desde crianças, Snari avançara contra o reptador. Todavia, para espanto da aldeia, fora Gríma quem sujeitara Villi e o degolara, ameaçando com igual sorte todos aqueles que desrespeitassem a vontade suprema do círculo de combate. Koll jurava que, ao anunciar o seu apoio ao irmão, Gríma cintilara como uma estrela. Diante da multidão apavorada, reivindicara ser a legítima herdeira da magia da feiticeira Aesa e afirmara o seu direito de governar ao lado de Snari.

Koll quisera intervir mas Ymir impedira-o, temendo a sua desgraça. Entre os Vândalos, tal como sucedia com os Viquingues, a soberania podia ser adquirida por herança de sangue ou conquistada através de um desafio. Todavia, aquele que ousasse lançar a provocação devia confiar na sua capacidade de alcançar o triunfo. De outra forma, seria o mesmo que declarar a própria sentença de morte, uma vez que o vencedor não ofereceria clemência ao vencido. No interior de um círculo de combate, os mais fracos tombavam para que não se erguessem mais fortes... E para que aqueles que assistiam ao duelo não se deixassem tentar pela ambição.

No fim, fora Siguror quem tomara a iniciativa de reconhecer a supremacia dos seus dois filhos. Ainda que desgostosa, a comunidade acabara por imitá-lo. Snari chegara ao trono de acordo com a lei... E, após a revelação do poder de Gríma, ninguém se atrevia a afrontá-la.

Realizado o mais ardente dos seus sonhos, seria de esperar que Snari se acalmasse e desfrutasse dessa glória. Contudo, lançara-se de imediato na perseguição de outro objetivo. Num discurso exaltado, alertara os guerreiros para a decadência da proteção dos espinheiros. Em breve, dissera, os Viquingues haveriam de invadir a aldeia, conduzidos pelo príncipe Helgi, o hediondo traidor. Se desejassem subsistir, teriam de se preparar para combater. A destreza bélica do vidente jamais seria louvada, mas a sua habilidade com as palavras era magnífica. Não demorou a incendiar o sangue dos Vândalos. Ao seu lado, Gríma elevava-se aos olhos dos comuns mortais como uma deusa, bela e inatingível, espargindo uma aura de sedução que faria qualquer homem, do mais jovem ao mais idoso, arrancar o coração do peito para lho oferecer.

No intuito de açular o ódio dos guerreiros e a sua devoção à campanha que lhes propunha, o rei Snari ordenara que Magnor do povo viquingue fosse conduzido à sua presença. Sob o olhar cerrado de Ivarr, Koll assegurara que o filho mais novo do rei Steinarr não soltara um gemido, nem cedera uma palavra, mesmo na iminência da morte. Apesar da sua vida tortuosa, o príncipe rebelde conservara a dignidade nos últimos instantes, cuspindo sobre a ira de Snari.

Depois da execução de Magnor, o novo rei comunicara aos Vândalos que solicitara o apoio dos Mercenários do Norte, na luta contra os Viquingues. Há muito que Rulav era aliado do vidente e, segundo se ciciava, amante de Aesa. A rainha feiticeira estava morta, mas existia outra mestra da Arte Obscura disposta a ceder os seus favores. No dia que coincidira com o ataque dos corvos malditos à Aldeia de Grim, Snari e Gríma tinham-se embrenhado nos Pântanos Nebulosos... E, deste então, ninguém sabia do seu paradeiro.

Nessa manhã, Rulav entrara no território vândalo, bufando de fúria e exigindo falar com Snari. Reclamava que o vidente faltara ao encontro combinado e o fizera esperar, debalde, na imundice gélida dos pântanos. Quando Siguror lhe garantira que o filho não estava na aldeia, o líder dos mercenários exaltara-se. Sem cortesias, asseverara que, se Snari não aparecesse até à tarde, marcharia sobre o povoado, a fim de exigir uma recompensa pelo incômodo de ter deslocado o seu exército em vão.

Após a sua partida, Siguror reunira os generais vândalos, tentando compreender o que se passava. Se Rulav tivesse assassinado Snari e planeasse tomar a aldeia à traição, por que se daria ao trabalho de fazer um ultimato? Por outro lado, se nada sucedera ao novo rei, por que não tornara a casa? Apenas uma certeza resultará dessa reunião: a urgência de se prepararem para defender o povoado da sanha dos Mercenários.

Mal a tarde caíra sobre a Floresta Sombria, Rulav cumprira a ameaça. Ao descobrir que os Vândalos nada tinham para lhe oferecer, nem sequer comida ou bebida, ordenara aos seus guerreiros que pilhassem as casas e tomassem algumas mulheres e crianças como escravos. O orgulho do povo de Helgi levara-os a desembainhar as armas e a resistir. O desfecho dessa história era do nosso conhecimento, pois havíamo-la vivido na pele. Porém, ficava por explicar o que sucedera a Snari e a Gwendalin, após o ataque dos corvos à Terra Antiga.

— Descansaremos esta noite — prosseguiu Helgi. — Amanhã perscrutaremos os Pântanos Nebulosos, para nos certificarmos da retirada dos Mercenários. Virás conosco, Edwina? Sob a tua proteção, nada teremos que recear.

O Espírito da Escuridão não cessava de me surpreender. Apesar de a nossa amizade ser recente, entregava-me a sua confiança incondicional.

— Podes contar comigo — respondi determinada. — Também me sinto apreensiva; tomada por uma ansiedade que não consigo definir... Além disso, devemos trabalhar em conjunto e com os olhos bem abertos, para que a semente da paz não caia em terra árida.

— Juro que tudo farei, para que o muito que foi sacrificado em nome da nossa conciliação não tenha sido vão — volveu ele, gravemente. — O meu povo já sofreu demais! Tanta morte sem sentido... O Villi era como meu irmão! O seu infortúnio feriu-me o coração e obrigou-me a refletir. — Respirou fundo, antes de confessar: — Estou cansado de guerrear! Almejo a bênção de, um dia, desfrutar de uma existência serena, ao lado da minha família.

— E desfrutarás! — repliquei, confiante. — Pelo menos, se depender de mim! Sou testemunha das lágrimas que Freya já chorou, por viver apartada de ti... E Thorson necessita do teu apoio! Pelo que pude observar, a tua presença tranquiliza-o; deixa-o seguro e radiante. Neste momento, é crucial combatermos as sombras que perturbam a sua essência.

Era uma forma quase rude de introduzir o assunto, mas eu precisava de saber se teria em Helgi um aliado ou um adversário, na luta contra as trevas que tentavam dominar o meu sobrinho. Suspirei de alívio, quando retorquiu de imediato:

— Helga explicou-me o significado da profecia que ameaça o futuro de Thorson... E Freya contou-me que tens ajudado o nosso filho a suportar o seu fardo, encaminhando-o na direção da luz, com a ajuda da Lágrima do Sol. Mentir-te-ia se dissesse que não temo pela sua sorte... No entanto, alenta-me saber que o tens sob a tua guarda.

— Fez uma pausa e fixou o olhar no chão, entrelaçando as mãos nervosamente antes de prosseguir: — Só espero ter forças para concretizar o que esperam de mim... É tudo tão complicado!

— Nova paragem, desta feita para me encarar. — Há pouco, tive de explicar aos meus homens que Thora e Freya são duas mulheres distintas. Eles nem queriam acreditar! E ainda lhes parece mais incrível que eu tenha perdoado a loba prateada! — Levou a mão à tira de couro que encobria o olho arruinado. — Se, às vezes, nem mesmo eu entendo a minha mudança dos sentimentos, como posso expectar que os outros a aceitem? Porém, o meu coração transformou-se, Edwina!

— Eu sei. — Procurei-lhe as mãos e apertei-as, comovida com a sinceridade do seu desabafo. — Deixa as poeiras do passado assentarem suavemente. É impossível sarar, em um dia, feridas que foram laceradas durante gerações. Porém, pela primeira vez, Viquingues e Vândalos estão lado a lado, partilhando o mesmo objetivo! Hão de acabar por assumir as suas afinidades e aceitar as respectivas diferenças.

Aguardei pela entrada desembestada de Halldora na casa onde repousávamos, até ao instante da partida para os Pântanos Nebulosos. Contudo, também a inimiga dos meus pais parecia ter-se sumido. Nenhuma mulher se recordava de vê-la na cabana de Aesa, durante o ataque dos Mercenários. Havia até quem afirmasse não lhe ter posto os olhos em cima, nos últimos dias. Também não estava entre os cadáveres que os Vândalos tinham entregue ao cuidado dos deuses. Thora ralhou-me, alegando que eu me inquietava inutilmente. Acabei por pensar que ela tinha razão e releguei a pérfida criatura ao esquecimento.

Caminhar nos Pântanos Nebulosos era como estrebuchar num pesadelo e ser incapaz de acordar. A cada passo, as névoas perpétuas consumiam o alento do mais corajoso dos Homens. Eu apercebia-me da tensão dos viquingues, sobressaltados ao menor ruído, com as espadas em punho, prontos a reagir se alguma ameaça surgisse da bruma. Em comparação, os vândalos moviam-se com relativa faci­lidade. Durante anos, esse ambiente hostil fora a única passagem para fora do território da rainha Aesa que o rei Steinarr não conseguira controlar. Por isso, Helgi e os companheiros conheciam bem os trilhos repletos de armadilhas mortais. Com o solo gelado, podíamos avançar sem o temor de sermos sugados pelas lamas assassinas. Ainda assim, de cada vez que movia um pé eu prendia a respiração, temendo ouvir a capa de água sólida estalar.

A tarde acomodava-se no Norte quando Ivarr e Helgi concordaram que não valia a pena continuarmos a seguir o rasto dos mercenários. Estes tinham-se afastado o suficiente para não constituírem um perigo imediato. Agora, urgia combinarem esforços na proteção da fronteira, para que um eventual ataque fosse contrariado rápida e eficazmente.

Regressávamos à aldeia, quando fui acometida por um estreme­cimento. Desconfortada, perscrutei a obscuridade, sem nada encontrar. No entanto, o instinto avisava-me acerca de uma malignidade exacerbada, cuja energia perniciosa estalava no ar. Apertei a mão de Helga e interroguei:

— Estamos perto do sítio onde Aesa tombou?

A sua respiração engasgou-se e o semblante carregou-se, ao res­ponder:

— Sim... Quanto mais depressa nos afastarmos desse lugar nefando, melhor!

Eu podia imaginar as más recordações que a fustigavam e obriga­vam a acelerar o passo. Todavia, segurei-lhe o braço, replicando:

— Algo me diz que devemos ir até lá.

— Edwina... — tartamudeou a vidente, visivelmente assustada. — Aquele altar é maldito; uma porta aberta para os horrores do submundo! E o mal atrai o mal...

— Por favor, Helga! — interrompi com firmeza. — Não posso ignorar o que sinto!

Ivarr e Helgi perceberam a minha ansiedade e detiveram a marcha dos guerreiros. Depois de lhes explicar o pressentimento que me inquietava, Helga acabou por condescender. Mais pálida do que a neve que cobria o solo, conduziu-nos para o interior das trevas. E logo a execrável formação rochosa surgia diante do nosso olhar.

Um arrepio gélido paralisou-me, ao deparar com o cenário de morte que se estendia à nossa frente e se entranhava na neblina. Os guerreiros que Gwendalin prostrara jaziam sobre a pedra, exibindo um indescritível tormento nas faces conservadas pelo frio. Enquanto subiam os degraus, viquingues e vândalos partilhavam expressões de horripilada indignação... Contudo, o pior estava para vir.

O topo do altar guardava o cadáver de Aesa. Porém, a rainha feiticeira estava irreconhecível! O seu corpo enegrecera como se tivesse sido queimado e o rosto era uma caveira mal coberta de pele esfacelada. Faltavam-lhe os olhos e os lábios mirrados exibiam os dentes escancarados num grito mudo. As mãos encarquilhadas estavam retesadas e as unhas haviam-se cravado na pedra, tal o suplício a que fora sujeita. Os ossos do seu peito tinham sido apartados e deles pendiam dedos de gelo misturados com pedaços de carne. O ventre também fora aberto e as entranhas haviam desaparecido. Se a rainha dos vândalos tivesse sido atacada por uma alcatéia esfomeada, o resultado seria menos violento. Eu estava tão chocada com essa visão, que quase saltei das botas quando Bryan apelou:

— Ivarr, chega aqui... Não vais acreditar!

No instante em que reuni ânimo para me aproximar, já o asco dos guerreiros se tornara ensurdecedor. Pisquei os olhos várias vezes, a fim de me convencer de que não tombara num delírio terrificante. Uma criatura abominável sucumbira no extremo oposto do altar. Possuía a cabeça e o tronco de um homem, mas os seus braços eram as asas de um colossal pássaro. A pele apresentava queimaduras de gelo... e vestígios de penas negras. A causa da sua morte expunha-se à vista de todos: uma seta enterrada no coração.

— Snari? — titubeou Helgi, repugnado.

Por trás de nós, a voz da loba prateada elevou-se, num regozijo mórbido:

— Afinal, sempre acertei!

Engoli em seco, respirando a custo. Sim! Thora acertara! A sua última flecha, disparada em condições adversas e de forma tão peculiar, atingira a essência de Snari durante a fuga. E o vidente investira tanta energia no empenho de tornar real a sua forma mística, que nem conseguira acolher o espírito dentro da carne antes de perecer. Interrompido o sortilégio, a magia abandonara-o, deixando-o preso entre duas realidades. Essa era a prova de que os danos causados à essência se refletiam no corpo. Angustiada, recordei as vezes que eu própria já arriscara a vida, por ousar demais. Será que Snari tivera consciência do que lhe estava a acontecer? A expressão de agonia que lhe desfigurava o rosto provocava calafrios.

— Por isso ele faltou ao encontro com Rulav! — exclamou Helgi, soturnamente.

Aquiesci com a cabeça, incapaz de articular um som. Desta vez, a sorte decidira a nosso favor. Se o vidente tivesse chegado à conversa com o líder dos mercenários, Helgi e os Viquingues teriam passado um mau bocado ao chegarem à aldeia dos vândalos. Dois exércitos estariam a aguardá-los com as armas em punho, sob a liderança do rei Snari e da feiticeira Gwendalin. E o sonho de paz ter-se-ia perdido para sempre. Ao disparar aquela seta, a loba prateada mudara o curso do destino... Salvara o futuro de dois povos!

— Bem... — continuou a minha irmã, com a descontração de quem acaba de varrer a casa e pendura a vassoura. — Este bruxo está arrumado! Que venha o próximo!

O nosso olhar perplexo caiu sobre ela. Thora sacudiu os ombros e retrucou:

— O que foi? Esse aleivoso só teve o que merecia! Aposto que a feiticeira não perdeu tanto tempo a contemplá-lo como vós.

Provavelmente era verdade! Gwendalin não era tola para lastimar a morte do vidente. Mesmo que o espírito de Gríma tivesse clamado de desgosto dentro de si, a mestra da Arte Obscura depressa o silenciara. Já usurpara a magia de Aesa e apoderara-se das pedras mágicas de Aranwen... Sem Snari, os Vândalos nada tinham para lhe oferecer. Nesse instante, já devia estar longe, a preparar o próximo assalto. E o que mais me assustava nessa conclusão era o desconhe­cimento do que ela planeava fazer a seguir.

Como num sonho mau, ouvi Helgi ordenar aos vândalos que reunissem os corpos dos companheiros tombados, enquanto Ivarr solicitava aos viquingues que juntassem toros para as fogueiras. No fim, foi o próprio Espírito da Escuridão quem lançou fogo aos despojos de Aesa. Tal não serviria de alívio ao espírito da feiticeira, mas impediria que mais alguém abusasse do seu cadáver com funestas intenções.

Ainda que cansada, fiz questão de ajudar os homens na desagra­dável tarefa. Quanto mais rápido nos despachássemos, mais depressa tornaríamos à aldeia e nos libertaríamos da aura maligna dos pântanos. Pelo canto do olho, reparei que Helga se encolhera contra um dos degraus de pedra e cedera ao pranto. Todavia, desta vez chorava de alívio e não de dor.

Dois dias após a incursão aos Pântanos Nebulosos, Ivarr decidiu regressar à Terra Antiga. Reuniu os seus guerreiros e indagou sobre quem queria permanecer na aldeia dos vândalos e quem desejava regressar a casa. Dessa forma, certificava-se de que ninguém se quedaria contra vontade e evitava conflitos desnecessários. Ao invés do que eu esperava, grande parte das tropas que tinham montado guarda à barreira de espinheiros e alguns homens do jarl Eric ofereceram-se para ficar. Então, o príncipe entregou a Ragnar o comando desse exército, determinando perante os generais viquingues que qualquer ordem do seu guerreiro-lobo devia ser obedecida com prontidão, como se tivesse sido proferida pela sua própria voz.

O anúncio de que Helgi ia acompanhar-nos não me espantou. O pacto firmado entre o Espírito da Luz e o Espírito da Escuridão necessitava da confirmação do rei Steinarr, a fim de ser reconhecido perante os Viquingues e os seus aliados. Até ao regresso do irmão, Helga ficaria responsável pela administração do território, com o apoio do general Ozur. Ivarr instruiu Ragnar para que colaborasse com a princesa e ponderasse as suas decisões. O entendimento entre Viquingues e Vândalos era crucial. Nos dias difíceis que, decerto, todos iriam enfrentar, uma reação mais exaltada ou uma palavra irrefletida, desencadeadas pelo orgulho ou pelo rancor, podiam arruinar o frágil equilíbrio conquistado. Ainda assim, eu confiava na boa vontade de ambas as partes. Essa era uma oportunidade que ninguém desejava perder.

Dois mensageiros viquingues seguiram para a floresta do Povo da Terra, com o propósito de justificarem à rainha Lyria o que estava a acontecer em solo Vândalo. A soberana era uma construtora de paz e eu tinha a certeza de que os últimos desenvolvimentos a deixariam feliz. Também esperava que ela compreendesse que o meu desejo de visitá-la teria de ser adiado, por força dos novos desafios que se estendiam à nossa frente. Na verdade, eu não acreditava que o encontro do rei Helgi com o rei Steinarr fosse pacífico! Além disso, o soberano viquingue devia estar furioso comigo e não me pouparia a críticas. Tinha de me preparar para enfrentar a sua implacabilidade gélida... Quando irritado, Steinarr sabia ser extremamente desagra­dável e cruel!

Observei a despedida de Eric e Helga e apercebi-me de quão difícil era o seu adeus. Na casa do jarl, a vidente jurara servi-lo com a sua magia, se ele intercedesse a favor de Helgi. Eric cumprira a promessa, mas desobrigara a jovem do seu voto. Agora que o futuro do povo vândalo se definia, Helga devia assumir-se como sacerdotisa e incutir-lhes o espírito da união e da concórdia. Sem ela, a missão do rei Helgi tornar-se-ia quase impossível.

Iniciamos a jornada através da Floresta Sombria, num passo acelerado pelo entusiasmo. Thora seguia ao meu lado, absorvida nos seus próprios pensamentos. Ninguém contestava que ela fora a heroína da campanha! Quando Ivarr lhe perguntara como conseguira trespas­sar a essência de Snari, encontrando-se esta fora do alcance do olhar, a minha irmã respondera que se valera de uma habilidade que o príncipe Galinn lhe ensinara, durante o tempo em que desfrutara da hospitalidade da Gente Bela. Depois calara-se... E o seu silêncio deixara o rei-lobo a remoer. Apesar de não questionar o amor e a lealdade da loba prateada, Ivarr ardia de raiva sempre que o nome do irmão de Lyria era mencionado. Eu esperava sinceramente que o tempo o ajudasse a superar esse amargor! Thora não sacrificaria a amizade com Galinn por causa do seu ciúme.

Senti-me apreensiva, ao ouvir a ordem do príncipe para os guerreiros se deterem e acenderem uma fogueira. Apesar de a obscuridade na Floresta Sombria nunca se alterar, era durante a noite que os seus mistérios e perigos se exaltavam. Ainda assim, não obstante ser verdade que avançar com o corpo cansado tornava a mente descuidada, eu teria preferido prosseguir viagem e deixar para trás aquele lugar tenebroso.

Recolhi-me debaixo de uma árvore e busquei a Lágrima do Sol dentro do bolso do vestido. O cristal reagiu, moldando-se à minha mão. Dei por mim a estremecer. Por mais que me quisesse convencer da nossa segurança, o instinto teimava o contrário. Estaríamos a ser secretamente observados pelas criaturas que colecionavam os ossos das suas presas? Era pouco provável, pois há muito que o seu covil ficara para trás. Além disso, se esse fosse um território hostil, Helgi não teria anuído a parar. Qual seria, então, a razão do meu descon­forto?

Eric veio sentar-se ao meu lado e ofereceu-me o seu pão de viagem. Agradeci e não resisti a provocá-lo, com um sorriso significativo:

— Está delicioso! Foi Helga quem o fez?

O meu primo correspondeu ao sorriso e replicou:

— És incorrigível, Edwina!

— Não sei do que estás a falar! — volvi, mantendo o tom brincalhão.

Decidi não insistir e qual não foi a minha surpresa quando ele declarou:

— Começo a acreditar que Helga é a mulher que a profecia da Velha do Tronco Oco me destinou.

Por dentro, eu sentia a satisfação de uma aranha que vê a traça incauta cair na sua teia. Contudo, fiz-me desentendida e até admirada ao inquirir:

— Por que dizes isso?

— Porque ela já provou ser uma guerreira de corpo e espírito — respondeu o jarl prontamente. — Além disso... Acho que estou apaixonado!

— Achas? — retruquei com o cenho franzido. Eric suspirou antes de se justificar:

— As coisas não são assim tão simples, Edwina! Já me enganei uma vez, com a Thora. Se me enganar de novo, estarei a magoar Helga... E a magoar-me! Nós temos missões de vida que nos afastam. Mesmo ignorando o passado dos nossos povos, eu não posso abandonar a Terra Antiga e ela não deve deixar a sua aldeia.

— Por enquanto assim é — concordei. — Todavia, o futuro trará outra realidade. E é no futuro que deves pensar, Eric! Não acredito que exista vontade que torne a separar Helgi e Freya. Logo que eles estejam juntos, os Vândalos poderão prescindir da magia de Helga, pois ganharão uma curandeira igualmente habilidosa. — Fiz uma pausa, ponderando na melhor forma de concluir o raciocínio. — No fim, terás de ser tu a escutar a voz do coração, pois Helga jamais tomará a iniciativa. Se não lutares pelo seu amor, acabará por se retrair e afastar, com medo de sofrer.

O jarl mastigou as minhas palavras em silêncio. Passado algum tempo, voltou a fixar-me, confessando com um sorriso terno e o olhar repleto de luz:

— Quando tomei Helga nos meus braços, no instante em que a resgatamos à morte, ela chamou-me «lobo cinzento». Na altura fiquei assombrado, sem entender como o espírito que habita a minha essência se revelara ao seu olhar. Depois, de cada vez que me encarava, eu sentia-me incomodado... como se estivesse nu diante dela! Aterrorizava-me pensar que podia ver as minhas emoções, ouvir os meus pensamentos... contemplar a minha alma. Porém, com o passar dos dias, compreendi que a sua magia não é intrusiva. E comecei a desejar a sua companhia como água e pão para a boca. Antes de partirmos, reuni coragem para lhe perguntar se a sua percepção me reconhecia como homem ou como lobo...

— E o que foi que te respondeu? — indaguei, tão ansiosa que mal conseguia respirar.

— Disse que os dois são indissociáveis. Helga acredita que eu sou um líder de alcatéia, um reconciliador... Um executor da paz como o teu pai. Assegura que só a minha mediação garantirá a concórdia entre os nossos povos. — Hesitou, antes de prosseguir: — Eu nunca me senti especial, Edwina. Cresci à sombra do Ivarr, admirando-o como guerreiro, amando-o como amigo... Ele, sim, possuía a excelência! Pensar que uma mulher como Thora me pretendia para marido era o meu único motivo de orgulho. No dia em que descobri que ela amava o Ivarr, senti-me tão insignificante, tão miserável! Abraçar a missão de jarl da Terra Antiga ajudou-me a superar a rejeição, a entender... a perdoar. Agora que o meu coração está sarado, já não me considero um espírito inferior. Helga ajudou-me a encontrar outro caminho.

— E tu queres percorrê-lo ao seu lado — inferi sobriamente. Eric susteve o meu olhar e, após um instante de reflexão, enunciou:

— Sim, quero percorrê-lo ao seu lado!

Voltou a sorrir, desta vez sem sombra de melancolia. Depois, estreitou-me contra o peito, murmurando jovialmente:

— Obrigado, prima... Nunca permitas que te corrijam!

Thora dormia profundamente encostada a mim, aconchegando-me no seu calor. Não me recordava de a ouvir falar desde que deixáramos a aldeia dos vândalos. Algo inquietava a minha irmã... E por mais voltas que desse à cabeça, chegava sempre à mesma conclusão: a loba prateada desentendera-se com o rei-lobo. Tal declarava-se na frieza dos seus gestos, no esforço que fazia para evitar o olhar cristalino. O príncipe também não estava satisfeito, pois fizera questão de repousar no lado oposto do acampamento. Eu desconhecia as razões da sua zanga, mas adivinhava-se algo bastante sério. Restava-me esperar que o novo dia lançasse luz sobre os seus espíritos.

Aparte os sentinelas, poucos homens permaneciam acordados. Eric e Helgi eram exceção. Conversavam com um entusiasmo que me fez sorrir, ao recordar as confissões do meu primo. Eu bem queria prestar-lhes atenção... Porém, os meus olhos começavam a pesar. O sono ganhava a luta contra o desejo de manter a vigília.

Sonhei com céu. Sonhei com mar. Uma infinidade de azul intenso e perfeito, sem princípio nem fim. No topo da Montanha Sagrada, eu contemplava o Norte sob a sombra protetora da Pedra do Tempo. A tatuagem do dragão despertava nos meus pulsos; debatia-se para saltar da carne e mostrar a sua magia ao mundo. Eu era a Guardiã da Lágrima do Sol, soberana da luz do dia, protetora dos Homens de justiça e coragem...

— Edwina!

Virei-me com o fôlego preso. Edwin quedava-se à distância de um braço. No entanto, eu sabia que ele não estava realmente ali, mas sob a guarda da Montanha. A sua essência manifestava-se... Ou será que tudo isso fazia parte do sonho?

— Edwina... Tens de acordar!

Franzi o cenho ante a urgência do apelo. Sobre nós, o céu escurecia; a noite tomava conta dos meus sentidos. O solo verdejante da Montanha Sagrada foi substituído pela neve que cobria a Floresta Sombria. O vento assobiava-me aos ouvidos com o furor de mil demônios... E trazia a voz do Rei da Lua:

— Procura o príncipe viquingue, Rainha do Sol. Apressa-te, antes que seja tarde!

Abri os olhos para a realidade, com o coração a galope. O acam­pamento ressonava, à exceção dos guardas de vigia que con­versavam em redor da fogueira. Thora continuava abraçada a mim. Protestou quando a afastei, mas não acordou. Onde estava Ivarr? O sonho fora demasiado real, para que me atrevesse a descurá-lo. E, aparentemente, tinha razões para me inquietar. O Espírito da Luz desaparecera.

De imediato, levei as mãos ao bolso do vestido e a Lágrima do Sol quase me queimou. Sobressaltada, ponderei bradar o alarme... Contudo, algo me impediu. Dei por mim a evocar a magia para me ocultar dos guerreiros. Talvez Ivarr apenas se tivesse afastado para atender às necessidades do corpo... Não! A Lágrima do Sol estava em brasa! A sua luz verteu entre os meus dedos e espargiu para o interior das trevas, iluminando um carreiro acidentado que conduzia às entranhas da floresta. Não fora por ali que viéramos! Assustada, busquei a essência de Ivarr e respirei fundo, ao surpreendê-lo a curta distância. Aprofundei a percepção... e deparei com algo estranho. Apesar de a energia do rei-lobo ser a única que se manifestava, o instinto garantia-me que ele não se encontrava sozinho.

Corri no seu encalço, com um ímpeto arrebatado. O brilho fulgurante da Lágrima do Sol guiava a minha corrida. Não me restavam quaisquer dúvidas de que algo grave estava a acontecer... Então, quando menos esperava, a luz do cristal apagou-se.

Estaquei, tentando recuperar o fôlego, com o coração na garganta e as entranhas a arder. Pisquei os olhos até me adaptar à obscuridade... E, subitamente, vi Ivarr sentado contra o tronco de uma árvore, com uma mulher no colo. Uma mulher que eu conhecia muito bem! Os longos cabelos negros e encaracolados de Thora caíam-lhe pelas costas desnudas, enquanto ela se movia lascivamente sobre o corpo másculo. O rosto de Ivarr contorcia-se, tal o deleite que o exaltava. Os seus dedos cravavam-se nas carnes da amante, afastando-lhe as vestes, encorajando-a a continuar...

Recuei, chocada. Como podia ser verdade...? Sem cerimônias, Thora rasgava a túnica de Ivarr e enterrava-lhe as unhas no peito, dilacerando a pele, forçando o sangue a brotar. Os lábios do rei-lobo apartavam-se, mas o grito perdia-se entre os beijos ardentes da loba prateada. Extasiado, ele mordia-a e provava o seu sangue... E os dois brilhavam como se a lua fizesse parte da sua essência.

Diante dos meus olhos, o homem e a mulher cederam lugar aos lobos: um majestoso macho branco e uma colossal fêmea... Parei de respirar. A fêmea era prateada, mas a sua essência estava pejada de cintilações negras e escarlates. O delírio de Ivarr cegava-o, impedia-o de se aperceber... Aquela mulher não era Thora! A minha irmã ficara a dormir no acampamento! Aterrorizada pela revelação, distingui perfeitamente a aura abominável da criatura que se contorcia sobre o herdeiro do trono viquingue. Ivarr estava enfeitiçado... Eu tinha de agir antes que fosse tarde!

A minha investida prolongou-se dolorosamente no tempo. Convicta da vitória, a loba sarapintada de maldade crescia até atingir um tamanho descomunal, escancarava a bocarra e engolia o lobo branco, com a mesma facilidade com que uma serpente devoraria um rato... E aquele rato ansiava por ser assimilado, tão enlevado que se oferecia à morte.

— Ivarr! — gritei com todas as forças, tentando despertá-lo, enquanto o esplendor da Lágrima do Sol renascia entre os meus dedos.

Os lobos desvaneceram-se em névoa. Um homem e uma mulher fixaram-me com atemorizado assombro. Os olhos daquela que se fazia passar por minha irmã esbugalharam-se de horror, ante a luz radiosa que se despenhava na sua cabeça. Ivarr tentou proteger a amante... Porém, a energia do cristal atingiu-a com tal violência, que a arrancou dos braços musculados. Nada mais vi, pois o príncipe saltou sobre mim e imobilizou-me, rugindo enraivecido.

— Olha para ela! — supliquei, aflita. — Olha para ela, Ivarr!

A violência do seu aperto cessou de imediato. Apesar de atordoa­da, a mulher tentava suster o disfarce. Um fio de sangue escorria-lhe pela face, proveniente do golpe que a Lágrima do Sol abrira na sua fronte. Julgando ainda controlar a mente do Espírito da Luz, instigou:

— Essa fingida jamais aceitará o nosso amor, meu lobo! Se me queres possuir, tens de matá-la! Mata-a! Mata-a já!

Todavia, para além de me ter servido de arma, a Lágrima do Sol tocara a perversa criatura com a sua resplandecência; contaminara-a com magia luminosa. Não obstante o seu empenho, o negrume dos cabelos começou a tornar-se rubro e o verde-floresta do olhar transformou-se em verde-tempestade... E, por fim, em castanho ardente.

— Pelas barbas de Odin! — praguejou Ivarr. — Ela não é... Não é...

— Não... — Escudei o príncipe com o meu corpo, preparando-me para combater a mestra da Arte Obscura. — Não é Thora!

A feiticeira deixou cair a ilusão e pôs-se de pé. O seu olhar flamejava entre os cabelos ruivos desgrenhados. A pele alva dos seios desnudos rutilava na escuridão, contrastando com o brilho verde, laranja e violeta das pedras mágicas que lhe pendiam do pescoço. Defrontou-me e assanhou-se com o arrebatamento de uma fera. Gwendalin era muito forte! Mesmo recorrendo ao poder de Guardiã, eu necessitaria de sorte para vencê-la. Porém, estava disposta a correr o risco, por todos aqueles que dependiam da minha proteção... E pela herança de Aranwen, finalmente ao meu alcance!

Mantive-me firme e aguardei por uma acometida brutal... Então, contra tudo o que seria previsível, a feiticeira deu-nos as costas e mergulhou nas trevas. Detive-me por um instante, dema­siado atônita para reagir. Depois, esbocei a intenção de segui-la... Todavia, o gemido de dor do príncipe viquingue forçou-me a engolir em seco e voltar atrás. As pedras mágicas não valiam o sacrifício da sua vida!

O rei-lobo tremia tanto que era incapaz de falar. Eu acompanhara-o nas mais duras batalhas e vira-o desafiar a morte com arrojo. Contudo, nesse instante, Ivarr estava perturbado para além da razão. O sangue jorrava-lhe do peito, do nariz e dos ouvidos. Apertei a sua cabeça entre as mãos e libertei a energia curativa. Felizmente, os estragos causados por Gwendalin eram reparáveis... Mas só por um triz o Espírito da Luz não condenara a alma à escravidão!

— Como... Como é possível? — balbuciou, estonteado. Estreitei-o e pressionei-lhe as feridas do peito com as pontas dos dedos, até o sangue estancar. As unhas aguçadas haviam-lhe atassalhado a carne até aos ossos. Mesmo com o auxílio da magia, eu duvidava que do incidente não resultassem cicatrizes feias, que para sempre o recordariam do seu desvario. Logo que o perigo passou e o senti mais calmo, confrontei-o com a dúvida que me dilacerava:

— A bruxa conseguiu o seu objetivo?

O olhar cristalino fixou-me, contundido e confuso.

— Não entendo...

— Entendes, sim! — repliquei, implacável. — Gwendalin quis fazer contigo o mesmo que fez com o meu tio Edwin. Só que, para além da tua semente, também desejava a tua essência.

Ivarr fechou os olhos e rangeu os dentes. O tormento na sua expressão apavorou-me. Será que sacrificara mais do que as pedras mágicas, ao permitir que a feiticeira escapasse? Insisti com brusquidão, disposta a arrancar-lhe a verdade:

— Responde, Ivarr! Tu...

— Não! — cortou ele, impedindo-me de proferir a execrável questão. — Chegaste a tempo.

— Tens a certeza?

O verde puro do olhar cristalino concedeu-me o alívio que o seu transtorno era incapaz de prover. A voz soou-lhe angustiada e embaraçada, contudo sincera, ao replicar:

— Sim, Edwina. Juro pela minha honra! Sinto muito. Eu... Eu pensei...

— Eu sei! — Respirei fundo, permitindo-me confortá-lo. — O teu amor pela Thora...

— Não estás a compreender! — atalhou, ofegante. — Nós discutimos! Quando ela me falou do Galinn, fiquei furioso... Estava tão louco de ciúme, tão cego de paixão que quis seduzi-la; fazê-la minha, de uma vez por todas! Porém, ela resistiu... Resistiu sempre! E zangou-se... Há pouco, quando a sua voz me atraiu, acreditei que tivesse reconsiderado... — Escondeu o rosto entre as mãos e gemeu agoniado: — Isto não pode chegar ao conhecimento da tua irmã! Ela jamais me perdoaria!

— A Thora tem de saber, Ivarr! — contrapus. — E deves ser tu a contar-lhe!

— O que é que eu tenho de saber?

Saltamos desprevenidos, quando a loba prateada surgiu de entre as árvores, com o cenho franzido. Eu só imaginava o que lhe passava pela cabeça, ao deparar com o rei-lobo nos meus braços, longe do acampamento, nas brumas da floresta... O príncipe engasgava-se diante do seu olhar glacial. Decerto escolheria combater sozinho o exército mercenário, a ter de enfrentar novamente a ira da minha irmã. Aquiesci a dar-lhe uma ajuda:

— O Ivarr foi atacado pela Gwendalin.

A expressão de Thora modificou-se de imediato. Correu ao nosso encontro, arfando de preocupação. Só agora reparava que o rei-lobo estava ferido... E no desarranjo das suas roupas. Fixou-o com a respiração suspensa, mas foi a mim que dirigiu a pergunta fatal:

— O que aconteceu aqui, Edwina?

Hesitei, dividida entre o que achava correto e o terror de Ivarr. A minha irmã era implacável nas suas convicções e já o provara. Acreditaria que Gwendalin seduzira o príncipe através de um feitiço? Ou pensaria que ele só caíra na armadilha porque era incapaz de resistir aos apelos da carne? De qualquer modo, não deviam ser os meus lábios a denunciar a verdade. Se Ivarr e Thora desejavam que o seu amor sobrevivesse às agruras da vida, tinham de confiar um no outro! E essa seria a primeira prova a superar.

O rei-lobo caiu finalmente em si e pediu, num tom grave e resoluto:

— Por favor, Edwina, deixa-nos sós.

Acenei com a cabeça e cedi lugar à loba prateada. Porém, em vez de regressar ao acampamento, enveredei pelo trilho que a bruxa tomara. Ivarr e Thora estavam tão enleados, que nem consideravam a hipótese de sofrer um novo assalto. Eu tinha de lhes guardar as costas; de certificar-me que Gwendalin realmente fugira... Nem podia acreditar que perdera a oportunidade de recuperar as pedras mágicas!

 

                                                                                CONTINUA

 

                      

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