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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


EVA LUNA / Isabel Alende
EVA LUNA / Isabel Alende

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

EVA LUNA

 

Chamo‑me Eva, que quer dizer vida, segundo um livro que minha mãe consultou para escolher o meu nome. Nasci no quarto dos fundos de uma casa sombria e cresci entre móveis antigos, livros em latim e múmias humanas, mas isso não conseguiu tornar‑me melancólica, porque vim ao mundo com um sopro de selva na memória. O meu pai, um índio de olhos amarelos, oriundo do lugar onde se juntam cem rios, cheirava a bosque e nunca olhava o céu de frente, porque tinha sido criado debaixo da copa das árvores e a luz parecia‑lhe indecente. Consuelo, minha mãe, passou a infância numa região encantada, onde durante séculos os aventureiros têm procurado a cidade de ouro puro que os conquistadores viram quando espreitavam os abismos da sua própria ambição. Ficou marcada pela paisagem e, de certa maneira, incutiu‑me essa marca.

Os missionários recolheram Consuelo quando ainda nem sequer sabia andar e não passava de uma cachorra nua, coberta de barro e excrementos, que entrou a arrastar‑se pela ponte do embarcadouro como um minúsculo Jonas vomitado por baleia de água doce. Ao darem‑lhe banho, comprovaram sem margem de dúvida, que era menina, o que lhes deve ter criado certa confusão, mas já que ali estava não era caso para a atirar ao rio, por isso colocaram‑lhe um pano para lhe tapar as vergonhas, deitaram‑lhe algumas gotas de limão nos olhos para curar a infecção que a impedia de os abrir e baptizaram‑na com o primeiro nome feminino que lhes veio à cabeça. Educaram‑na sem procurar explicações sobre a sua origem e sem muitos excessos, seguros de que se a Divina Providência a tinha conservado com vida até a encontrarem, também velaria pela sua integridade física e espiritual ou, no pior dos casos, a levaria para o céu juntamente com outros inocentes. Consuelo cresceu na rígida hierarquia da Missão sem um lugar determinado. Não era exactamente uma serviçal, não pertencia à mesma categoria dos índios da escola e quando perguntou qual dos padres era o seu pai, levou uma bofetada por ter sido insolente. Contou‑me que tinha sido abandonada por um navegante holandês, num barco à deriva, mas de certeza que isso é uma lenda que mais tarde inventou para se livrar do assédio das minhas perguntas. Na realidade, creio que nada sabia dos seus progenitores nem da maneira como apareceu naquele lugar.

A Missão era um pequeno oásis no meio de uma vegetação luxuriante, que cresce emaranhada em si mesma, desde a borda da água até ao sopé das monumentais torres geológicas, erguidas até ao firmamento como erros de Deus. Ali, o tempo é sinuoso e as distâncias enganam a vista humana, induzindo o viajante a caminhar em círculos. O ar, húmido e espesso cheira por vezes a flores, ervas, suor de homens e bafo de animais. O calor oprime, não sopra uma brisa que alivie, fervem as pedras e o sangue nas veias. Ao entardecer o céu enche‑se de mosquitos fosforescentes, cujas picadas provocam intermináveis pesadelos e pela noite, escutam‑se nitidamente os pios das aves, os guinchos dos macacos e o estrondo longínquo das cascatas que nascem nos montes a grande altura e rebentam cá em baixo com um fragor de guerra. O modesto edifício, de palha e barro, com uma torre de paus cruzados e um sino para chamar à missa, equilibrava‑se como todas as palhoças, sobre estacas enterradas na lama de um rio de águas opalescentes, cujos limites se perdem na reverberação da luz. As casas pareciam flutuar à deriva entre canoas silenciosas, lixo, cadáveres de cães e ratazanas e inexplicáveis flores brancas.

Era fácil distinguir Consuelo mesmo de longe, com o seu longo cabelo ruivo como um vergão de fogo no verde eterno daquela natureza. Os seus companheiros de brincadeira eram alguns indiozinhos de ventres protuberantes, um papagaio atrevido que recitava o Pai Nosso intercalado de palavrões e um macaco atado por uma corrente à perna de uma mesa, que ela soltava de vez em quando, para ir à procura de uma noiva no bosque, mas que regressava sempre a coçar‑se de pulgas no mesmo sítio. Nessa época, já andavam por aquelas paragens os protestantes a distribuir bíblias, predicando contra o Vaticano e carregando debaixo de sol e chuva os seus pianos em carroças, para fazer cantar os convertidos em actos públicos. Esta rivalidade exigia tanta dedicação dos sacerdotes católicos que estes se ocupavam pouco de Consuelo e ela sobreviveu curtida pelo sol, mal alimentada com mandioca e peixe, infestada de parasitas, picada pelos mosquitos e livre como um pássaro. Para além de ajudar nos trabalhos domésticos, assistir aos serviços religiosos e a algumas aulas de leitura, aritmética e catecismo, ela não tinha outras obrigações, vagueava farejando a flora e perseguindo a fauna, com a cabeça cheia de imagens, cheiros, cores e sabores, de contos trazidos da fronteira e mitos arrastados pelo rio.

Teria uns doze anos quando conheceu o homem das galinhas, um português tisnado pelas intempéries, duro e seco por fora, cheio de riso por dentro. As suas aves vadiavam devorando todo o género de objecto reluzente que encontravam pelo caminho, para que mais tarde o dono lhes abrisse o papo de um golpe de navalha e recolhesse alguns grãos de ouro, insuficientes para o enriquecer, mas o bastante para lhe alimentar as ilusões. Uma manhã, o português descobriu essa menina de pele branca com um como que incêndio na cabeça, saia arregaçada e pernas mergulhadas no pântano e julgou estar com outro ataque de febre intermitente. Lançou um assobio de surpresa, que soou como a ordem de fazer andar um cavalo. O sinal cruzou o espaço, ela ergueu a cara, os olhares encontraram‑se e ambos sorriram da mesma maneira. A partir desse dia encontravam‑se frequentemente, ele para a contemplar deslumbrado e ela para aprender a cantar canções de Portugal.

‑ Vamos procurar ouro ‑ disse um dia, o homem.

Meteram‑se pelo bosque até perder de vista o sino da Missão, espessura adentro, por caminhos que só ele conhecia. Procuraram durante todo o dia as galinhas, chamando‑as com cacarejos de galo e apanhando‑as no voo quando as vislumbravam através da folhagem. Enquanto ela as apertava entre os joelhos ele abria‑as de um golpe preciso e enfiava os dedos para tirar as pepitas. As que não morriam eram cosidas com agulha e fio para continuarem a servir o dono; as restantes eram metidas num saco, umas para serem vendidas na aldeia outras para servirem de isco e, com as penas, porque traziam má‑sorte e provocavam a pevide das galinhas, faziam uma fogueira. Ao entardecer, Consuelo regressou com o cabelo desgrenhado, feliz e manchada de sangue. Despediu‑se do amigo, trepou pela escada suspensa desde o bote até ao terraço e deu com o nariz nas quatro sandálias imundas de dois frades da Estremadura, que a aguardavam de braços cruzados sobre o peito e uma terrível expressão de repúdio.

‑ Já é tempo de partires para a cidade ‑ disseram‑lhe.

Nada ganhou com as súplicas. Nem sequer a autorizaram a levar o macaco ou o papagaio, dois companheiros impróprios para a nova vida que a esperava.

Levaram‑na juntamente com cinco raparigas indígenas amarradas pelas canelas para as impedir de saltar da piroga e desaparecer no rio. O português despediu‑se de Consuelo sem lhe tocar, com um demorado olhar, deixando-lhe como recordação um pedaço de ouro em forma de mó, enfiado num cordão. Ela usá‑lo‑ia pendurado ao pescoço durante quase toda a sua vida, até que encontrou a quem o dar como prova de amor. Ele viu‑a, pela última vez, com o seu avental de percal desbotado e um chapéu de palha enfiado até às orelhas, descalça e triste, a dizer‑lhe adeus com a mão.

A viagem começou por canoa pelos afluentes do rio, através de uma paisagem de loucura, a seguir no lombo de uma mula por montes abruptos onde de noite os pensamentos congelavam e finalmente em camião por planícies húmidas, bosques de plátanos selvagens e pinheiros anões, caminhos de areia e sal, mas nada disto surpreendeu a menina, porque quem abriu os olhos no território mais alucinante do mundo, perde a capacidade de assombro. Durante esse longo trajecto chorou todas as lágrimas que guardava dentro de si, sem deixar espaço para posteriores tristezas. Uma vez esgotado o choro, cerrou a boca, decidida, daí em diante, a abri‑la só para responder o indispensável.

Passados vários dias chegaram à capital e os frades conduziram as raparigas aterrorizadas ao convento das Irmãzinhas da Caridade, onde uma freira lhes abriu a porta de ferro com uma chave de carcereiro e as conduziu a um pátio amplo e sombrio, rodeado de corredores, em cujo centro se erguia uma fonte de azulejos pintados onde bebiam pombos, tordos e colibris. Várias jovens em uniforme cinzento, sentadas em roda à sombra, cosiam forros de colchões com agulhas curvas e teciam canastros de vime.

‑ Na oração e no esforço encontrarão alívio para os vossos pecados. Não vim para curar os sãos, mas para cuidar dos enfermos. Mais se alegra o pastor quando encontra a ovelha tresmalhada do que com todo o seu rebanho junto. Palavra de Deus, louvado seja o seu Santo Nome, Amen ‑ ou qualquer coisa parecida recitou a freira com as mãos ocultas debaixo das pregas do hábito.

Consuelo não percebeu o significado daquele arrazoado nem lhe prestou atenção, porque estava extenuada e esmagava‑a a sensação de clausura. Nunca tinha estado entre muralhas e ao olhar para cima e ver o céu reduzido a um quadrilátero, julgou que morria asfixiada. Quando a separaram das suas companheiras de viagem e a levaram ao gabinete da Madre Superiora, não imaginou que o motivo fosse a sua pele e os seus olhos claros. As Irmãzinhas não recebiam há anos uma criatura como ela, só meninas de raças misturadas, oriundas dos bairros mais pobres ou índias trazidas à força pelos missionários.

‑ Quem são teus pais?

‑ Não sei.

‑ Quando nasceste?

‑ No ano do cometa.

Consuelo já então substituia por rodeios poéticos o que lhe faltava em informação. Desde que ouviu falar pela primeira vez no cometa decidiu optá‑lo como data de nascimento. Durante a infância, alguém lhe contara que, naquela altura, o mundo esperava aterrorizado o prodígio celeste. Supunha‑se que surgiria como um dragão de fogo e que ao entrar em contacto com a atmosfera terrestre, a sua cauda envolveria o planeta com gases venenosos e que um calor de lava fundida acabaria com toda a forma de vida. Algumas pessoas suicidaram‑se para não morrerem queimadas, outras preferiram aturdir‑se com comezainas, bebedeiras e fornicações de última hora. Até o Benfeitor se impressionou ao ver o céu tornar‑se verde e saber que sob a influência do cometa o cabelo dos mulatos se desfrisava e o dos chineses se encrespava e mandou soltar alguns oposicionistas, presos há tanto tempo, que já tinham esquecido a luz natural, embora alguns ainda conservassem intacto o germe da rebelião e estivessem dispostos a legá‑lo às gerações futuras. Consuelo foi seduzida pela ideia de ter nascido no meio de tanto terror, apesar dos boatos de que todos os recém‑nascidos dessa altura eram horrorosos e continuariam a sê‑lo anos depois de o cometa ter desaparecido como uma bola de gelo e pó sideral.

‑ A primeira coisa a fazer é acabar com este rabo de Satanás ‑ decidiu a Madre Superiora, agarrando com as duas mãos a trança de cobre brilhante que cobria o ombro da nova interna. Deu ordens para lhe cortarem a cabeleira e lavarem‑lhe a cabeça com uma mistura de lixívia e Aureolina para matar os piolhos e atenuar a insolente cor, o que lhe fez não só cair metade do cabelo como o que restou adquirir um tom de argila, mais adequado ao temperamento e aos fins da instituição religiosa que o manto de chamas original.

Consuelo passou três anos nesse lugar, com frio no corpo e na alma, astuta e solitária, sem acreditar que o sol esquálido do pátio fosse o mesmo que fazia fervilhar a selva onde tinha deixado a sua casa. Ali não chegava o alvoroço profano nem a prosperidade nacional iniciada quando alguém cavou um poço e, em vez de água, saltou um jorro negro, espesso e fétido, como porcaria de dinossauro. A Pátria estava sentada num mar de petróleo. Isso espevitou um pouco a sonolência da ditadura, porque aumentou tanto a fortuna do ditador e dos seus familiares, que alguma coisa transbordou para os outros. Nas cidades e nos campos petrolíferos surgiram alguns progressos, o contacto com os abastados capatazes vindos do norte abanou as velhas tradições e uma brisa de modernismo encurtou as saias das mulheres, mas no convento das Irmãzinhas da Caridade nada disso tinha importância. A vida começava às quatro da madrugada com as primeiras orações; o dia decorria com uma ordem imutável e terminava com as badaladas das seis, hora do acto de contrição para limpeza do espírito e preparação da eventualidade da morte, já que a noite podia ser uma viagem sem regresso. Longos silêncios, corredores de lages enceradas, cheiro a incenso e açucenas, sussurro de ladainhas, bancos de madeira escura, paredes brancas sem enfeites. Deus era uma presença totalitária.

Com excepção das freiras e de duas serviçais, apenas viviam no vasto edifício de adobe e telhas dezasseis raparigas, na sua maioria órfãs ou abandonadas, que aprendiam a usar sapatos, comer com garfo e alguns elementares trabalhos domésticos para se empregarem, mais tarde, em humildes tarefas de serviçais, porque não se punha a hipótese que tivessem capacidade para outra coisa. Pelo aspecto, Consuelo distinguia‑se das outras e das freiras que, convencidas de que aquilo não acontecia por acaso mas constituía um sinal da boa‑vontade divina, esmeravam‑se por isso em cultivar a sua fé na esperança de que se decidisse a tomar o hábito e servir a Igreja, mas todos os seus esforços chocavam contra a resistência da rapariga.

Ela tentou‑o com boa‑vontade, mas nunca conseguiu aceitar esse deus tirânico que as religiosas lhe predicavam, preferia uma divindade mais alegre, maternal e compadecida.

‑ Essa é a Santíssima Virgem Maria ‑ explicaram‑lhe.

‑ Ela é Deus?

‑ Não, é a mãe de Deus.

‑ Sim, mas quem manda mais no céu, é Deus ou a mãe dele?

‑ Cala‑te, insensata, cala‑te e reza. Pede ao Senhor que te ilumine - aconselharam‑na.

Consuelo sentava‑se na capela a olhar o altar coroado por um Cristo de aterrador realismo e tratava de recitar o terço, mas depressa se perdia em aventuras intermináveis onde as recordações da selva se misturavam com as personagens da História Sagrada, cada um com a sua carga de paixões, vinganças, martírios e milagres. Devorava tudo com ânsia, as palavras rituais da missa, os sermões dos domingos, as leituras pias, os ruídos da noite, o vento por entre as colunas do corredor, a expressão tola dos santos e anacoretas nos nichos da igreja. Aprendeu a ficar sossegada e guardou o seu imenso caudal de fábulas como um tesouro discreto até que eu lhe dei a oportunidade de desatar essa torrente de palavras que trazia consigo.

 

Consuelo passava tanto tempo imóvel na capela, de mãos postas e placidez de ruminante, que correu no convento o boato de que estava benta e tinha visões celestiais; mas a Madre Superiora, menos inclinada a acreditar em milagres que as outras freiras da congregação, deu conta de que não se tratava de santidade alguma mas apenas de uma incurável distracção. Como a rapariga não demonstrava qualquer entusiasmo em coser colchões, fazer hóstias ou tecer cestos, deu por terminada a sua educação e pô‑la a servir em casa de um médico estrangeiro, o professor Jones. Levou‑a pela mão até uma mansão que se erguia um pouco decrépita, mas ainda fascinante na sua arquitectura francesa, nos limites da cidade, junto de um monte que as autoridades recentemente tinham convertido em Parque Nacional. A primeira impressão que Consuelo teve daquele homem, perturbou‑a tanto, que passou meses com medo dele. Viu‑o entrar na sala com um avental de carniceiro e um estranho instrumento metálico na mão, não as cumprimentou e mandou embora a freira com meia dúzia de frases ncompreensiveis e a ela mandou‑a com um grunhido para a cozinha, sem sequer a olhar, demasiado ocupado com os seus projectos. Ela, por seu lado, observou‑o demoradamente, porque nunca tinha visto uma pessoa tão ameaçadora, mas não conseguiu deixar de pensar que era tão bonito como uma estampa de Jesus, dourado, com a mesma barba loura de príncipe e os olhos de uma cor impossível

O único patrão que Consuelo haveria de ter na sua vida, passou anos a aperfeiçoar um sistema para conservar os mortos, cujo segredo acabou por levar para a tumba, para alívio da humanidade. Trabalhava simultaneamente numa cura para o cancro, porque tinha observado que esta doença era pouco frequente nas zonas afectadas pelo paludismo e naturalmente deduziu que podia tratar as vítimas desse mal expondo‑as às picadas dos mosquitos dos pântanos. Com a mesma lógica, fazia experiências dando pancadas na cabeça dos idiotas de nascença ou por vocação, porque tinha lido na Gazeta de Galeno que devido a um traumatismo cerebral, uma pessoa se tinha transformado num génio. Era um anti‑socialista convicto. Calculou que se fossem divididas as riquezas do mundo, a cada habitante do planeta caberia menos de trinta e cinco centavos, logo as revoluções eram inúteis. Exibia um aspecto saudável e forte, sofria de constante mau‑humor, possuía os conhecimentos de um sábio e as mãos de um sacristão. A sua fórmula para embalsamar era de uma admirável simplicidade, como o são quase todos os inventos. Nada de retirar as vísceras, esvaziar o crânio, mergulhar o corpo em formol e enchê‑lo com breu e estopa, para no final o deixar enrugado como uma ameixa e de olhar estupefacto com olhos de vidro pintado. Extraía simplesmente o sangue do cadáver ainda fresco e substituía‑o por um liquido que o conservava como em vida. A pele, se bem que pálida e fria, não se deteriorava, o cabelo permanecia firme e até nalguns casos as unhas ficavam no lugar, continuando a crescer. O único inconveniente era, talvez, um certo cheiro acre e penetrante, mas, com o tempo, os familiares acostumavam‑se. Nesse tempo poucos doentes se prestavam voluntariamente quer às picadas dos insectos curativos quer às cacetadas para aumentar a inteligência, mas o seu prestígio de embalsamador tinha atravessado o oceano e frequentemente vinham visitá‑lo cientistas europeus ou comerciantes norte‑americanos ávidos de lhe arrancar a fórmula. Partiam sempre de mãos a abanar. O caso mais célebre ‑ que espalhou a sua fama pelo mundo ‑ foi o de um conhecido advogado da cidade que teve em vida tendências liberais e que o Benfeitor mandou matar à saída do Teatro Municipal na estreia da zarzuela A Pomba. Levaram o corpo ao professor Jones, ainda quente, com tantos buracos de balas que não se podiam contar, mas de cara intacta. Ainda que considerasse a vitima como seu inimigo ideológico, pois era partidário de regimes autoritários e desconfiava da democracia, que lhe parecia ser muito próxima do socialismo, entregou‑se ao trabalho de preservar o corpo, com tão bom resultado que a família sentou o morto na biblioteca, vestido com o seu melhor fato e segurando na mão direita uma caneta. Defenderam‑no da traça e do pó durante várias décadas, como uma recordação da brutalidade do ditador, que não se atreveu a intervir, porque uma coisa é discutir com os vivos, outra, muito diferente, é atacar os mortos.

Uma vez que Consuelo conseguiu ultrapassar o susto inicial e compreendeu que o avental de magarefe e o cheiro a tumba do seu patrão eram pormenores infimos, porque na verdade se tratava de uma pessoa fácil de aturar, vulnerável, e até simpática nalgumas ocasiões, sentiu‑se à vontade nessa casa, que lhe parecia o paraíso comparada com o convento. Ali ninguém se levantava de madrugada para rezar o terço pelo bem da humanidade, nem era necessário pôr‑se de joelhos sobre um punhado de ervilhas secas para pagar com o próprio sofrimento as culpas alheias. Como no antigo edifício das Irmãzinhas da Caridade, também naquela casa circulavam discretos fantasmas, cuja presença todos sentiam, excepto o professor Jones, que fazia questão em negá‑los porque careciam de fundamento científico. Ainda que tivesse a seu cargo as tarefas mais duras, a rapariga tinha tempo para as suas fantasias sem que ninguém a incomodasse e interpretasse os seus silêncios como virtudes milagrosas. Era forte, nunca se queixava e obedecia sem perguntar, tal como lhe tinham ensinado as freiras. Para além de carregar o lixo, lavar e passar a roupa a ferro, limpar as retretes, receber diariamente o gelo para as geleiras trazido em burros e conservado em sal grosso, ajudava o professor Jones a preparar a fórmula em grandes frascos de farmácia, cuidava dos corpos, tirava‑lhes o pó e a remora das articulações, vestia‑os, penteava‑os e coloria‑lhes as faces com carmim. O sábio estava satisfeito com a sua criada. Até ela ir trabalhar para si, funcionava sozinho no maior segredo, mas com o tempo acostumou‑se à presença de Consuelo e permitiu‑lhe que o ajudasse no laboratório, pois achou que aquela mulher calada não representava perigo algum. Seguro de a ter sempre por perto quando dela necessitava, tirava o casaco e o chapéu e, sem olhar para trás, deixava‑os cair para ela os apanhar no ar antes de chegarem ao chão e como nunca falhava, acabou por ter nela uma confiança cega. Foi assim que para além do inventor, Consuelo foi a única pessoa possuidora da fórmula maravilhosa, mas esse conhecimento não lhe serviu para nada, porque a ideia de atraiçoar o patrão e vender o segredo jamais lhe passou pela cabeça. Detestava mexer nos cadáveres e não compreendia a razão de serem embalsamados. Pensava que se isso fosse necessário, a natureza tê‑lo‑ia previsto e não permitiria que os mortos apodrecessem. No entanto, no fim da vida, encontrou uma explicação para esse antigo desejo da humanidade, de conservar os seus mortos, ao descobrir que tendo os corpos ao alcance da mão era mais fácil recordá‑los.

Passaram muitos anos sem sobressaltos para Consuelo. Não conhecia as novidades à sua volta, porque do claustro das freiras passara para o da casa do professor Jones. Havia lá um rádio para ouvir as notícias, mas raramente se ligava, só se ouviam os discos de ópera que o patrão punha na sua magnífica grafonola. Também não chegavam jornais, apenas revistas científicas, porque o sábio indiferente aos factos que ocorriam no país ou no mundo, estava muito mais interessado em conhecimentos abstractos, factos históricos ou prognósticos de um hipotético futuro, do que nas emergências vulgares do presente. A casa era um imenso labirinto de livros. Ao longo das paredes, desde o chão até ao tecto, acumulavam‑se os volumes misteriosos, com encadernações a cheirar a couro, macias ao tacto, rangentes, com os

títulos e os cantos em ouro, folhas transparentes e delicadas gravuras. Todas as obras do pensamento universal se encontravam naquelas prateleiras colocadas sem uma ordem aparente, embora o professor soubesse exactamente o lugar de cada uma. As obras de Shakespeare repousavam junto de O Capital, as máximas de Confúcio ombreavam com a Vida das Focas, mapas de antigos nayegantes jaziam junto de novelas góticas e poesia da India. Consuelo passava várias horas do dia a limpar os livros. Quando terminava a última estante tinha de começar tudo de novo, mas isso era o seu trabalho mais agradável. Pegava‑lhes delicadamente, sacudia‑lhes o pó como se os acariciasse e folheava‑os como se mergulhasse por minutos no mundo privado de cada um. Aprendeu a conhecê‑los e a localizá‑los nas prateleiras. Nunca se atreveu a pedi‑los emprestados, por isso retirava‑os às escondidas, levava‑os para o quarto, lia‑os pela noite dentro e no dia seguinte colocava‑os nos seus lugares.

Consuelo nunca soube muito de conflitos, catástrofes ou progressos da sua época, mas inteirou‑se pormenorizadamente dos distúrbios estudantis no país, porque ocorreram quando o professor Jones andava pelo centro da cidade e por pouco ia sendo morto pelos guardas a cavalo. Coube‑lhe a ela pôr‑lhe emplastros nas equimoses e alimentá‑lo com caldo e cerveja pelo biberão, até que os dentes que haviam ficado soltos se tornaram de novo firmes. O doutor tinha saido para comprar alguns produtos indispensáveis para as suas experiências, sem se lembrar que era Carnaval, uma festa licenciosa que todos os anos tinha um saldo de feridos e de mortos, se bem que nessa ocasião as brigas de bêbados passassem despercebidas face ao impacte de outros acontecimentos que abalaram as consciências adormecidas. Jones atravessava a rua quando rebentou o barulho. Na realidade, os problemas tinham começado dois dias antes, quando os estudantes universitários elegeram a rainha de beleza através da primeira votação democrática do país. Depois de a terem coroado e pronunciado discursos profusamente floridos, nos quais a alguns se soltou a língua começando a falar de liberdade e soberania, os jovens decidiram desfilar. Nunca se tinha visto algo de semelhante, a polícia demorou quarenta e oito horas a reagir e fê‑lo precisamente no momento em que o professor Jones saia de uma farmácia com os seus frascos e pacotinhos. Viu avançar, de sabre em riste, os guardas a galope e não se desviou do caminho nem apressou o passo, porque ia distraído a pensar em algumas das suas fórmulas químicas e todo aquele barulho lhe parecia de muito mau‑gosto. Recuperou os sentidos numa padiola a caminho do hospital dos indigentes; balbuciou então que mudassem de caminho e o levassem a sua casa, segurando os dentes com a mão para evitar que rebolassem pela rua. Enquanto ele recuperava submerso nas suas almofadas, a polícia prendeu os cabecilhas da revolta e meteu‑os numa masmorra, mas não

os espancou, porque entre eles se encontravam alguns filhos das famílias mais distintas. Estas detenções produziram uma tal onda de solidariedade que no dia seguinte se foram apresentar nos cárceres e quartéis dezenas de rapazes oferecendo‑se como presos voluntários. Fechavam‑nos à medida que chegavam, mas poucos dias depois tiveram de os libertar porque já não havia lugar nas celas para tantos rapazes e os gritos queixosos das mães começavam a perturbar a digestão do Benfeitor.

Meses depois, quando o professor Jones já tinha conseguido firmar a dentadura e começava a recuperar das amolgadelas morais, os estudantes tornaram a revoltar‑se, desta vez com a cumplicidade de alguns jovens oficiais. O Ministro da Guerra esmagou a rebelião em sete horas e os que conseguiram escapar partiram para o exílio, onde permaneceram sete anos, até à morte do Santíssimo da Pátria, que se deu ao luxo de morrer tranquilamente na sua cama e não pendurado pelos testículos num candeeiro da praça, como desejavam os seus inimigos e receava o embaixador norte‑americano.

Com a morte do velho caudilho e o fim daquela longa ditadura, o professor Jones esteve quase a embarcar de regresso à Europa, convencido como muitas outras pessoas ‑ de que o país se afundaria irremediavelmente no caos. Pelo seu lado, os Ministros de Estado, aterrados com a possibilidade de um levantamento popular, rapidamente se reuniram e alguém propôs chamar o médico, pensando que se o cadáver de Cid o Campeador atado LO seu corcel pudera dar trabalho aos mourôs, não havia razão para que o corpo embalsamado do Presidente Vitalício não continuasse a governar nO seu cadeirão de tirano.

O sábio apresentou‑se acompanhado por Consuelo que lhe levava a rialeta e observava impassível as casas de telhados vermelhos, os eléctricos, 5 homens com chapéu de palha e sapatos de duas cores, a invulgar mistura e luxo e espalhafato do Palácio. Durante os meses de agonia, as medidas

e segurança tinham sido desleixadas e nas horas que se seguiram à morte reinava a maiór confusão. Ninguém deteve o visitante e a sua empregada. Atravessaram corredores, salões e finalmente entraram no quarto onde jazia aquele homem poderoso ‑ pai de uma centena de bastardos, senhor da vida e da morte dos seus súbditos e possuidor de uma incalculável fortuna ‑ em

camisa de dormir, com luvas de pelica e encharcado de mijo. Do lado de honra, os membros do seu séquito e algumas concubinas tremiam, enquanto 5 ministros hesitavam entre escapar para o estrangeiro ou ficar para ver se a múmia do Benfeitor podia continuar a dirigir os destinos da Pátria. O professor Jones deteve‑se junto do cadáver observando‑o com interesse de entomólogo.

- Doutor, é verdade que você pode conservar os mortos? ‑ perguntou um homem gordo com bigodes semelhantes aos do ditador.

- Sim.

‑ Então aconselho‑o a que não o faça, porque agora sou eu quem governa, eu, que sou o irmão dele, da mesma fibra e do mesmo sangue - ameaçou o outro mostrando uma enorme pistola metida no cinturão.

O Ministro da Guerra apareceu nesse momento e pegando por um braço o cientista, puxou‑o para um canto para lhe falar a sós.

‑ Não está a pensar embalsamar‑nos o Presidente...

- Estou.

‑ É melhor não se meter nisso, porque agora sou eu quem manda, quem tem o exército na mão.

Desconcertado, o professor saiu do Palácio seguido de Consuelo. Nunca chegou a saber nem quem nem a razão de o terem chamado. Saiu a resmungar que não havia maneira de compreender estes povos tropicais e que o melhor seria regressar à sua querida cidade de origem, onde funcionavam as leis da lógica e do civismo e de onde nunca devia ter saido.

O Ministro da Guerra tomou posse do Governo sem saber exactamente o que devia fazer, porque tinha estado sempre debaixo da férula do Benfeitor e não se lembrava de alguma vez, em toda a sua carreira, ter tomado uma única iniciativa. Houve momentos de incerteza, porque o povo se negou a acreditar que o Presidente Vitalício estivesse realmente morto e pensou que o velho estendido naquele féretro de faraó era uma aldrabice, um outro truque de bruxo para enganar os seus inimigos. As pessoas fecharam‑se nas suas casas, sem se atreverem a pôr o nariz na rua, até que a polícia entrou pelas casas dentro para as obrigar à cacetada a sair e fazerem fila para prestar homenagem póstuma ao Sereníssimo, que já começava a feder por entre as velas de cera virgem e os lírios mandados por avião da Florida. Ao ver as magníficas exéquias presididas pelos diferentes dignitários da Igreja em trajo solene, o povo, finalmente convencido de que o tirano tinha falhado a imortalidade, saiu para o celebrar. Numa questão de horas, o país despertou de um longo sono e acabou a sensação de tristeza e cansaço que o tinha oprimido. As pessoas voltaram a sonhar com uma tímida liberdade. Gritaram, dançaram, atiraram pedras, destruíram janelas e até algumas vivendas dos favoritos do regime foram saqueadas. Queimaram o enorme "Packard" negro, de inconfundível buzina, em que o Benfeitor se transportava semeando medo à sua passagem. Então, o Ministro da Guerra dominou a desordem, sentou‑se no cadeirão presidencial, deu ordens para acalmar a tiro os ânimos e em seguida, pela rádio, dirigiu‑se ao povo anunciando uma ordem nova. Pouco a pouco, regressou a calma. Os cárceres esvaziaram‑se de presos políticos para deixar lugar a outros que iam chegando e começou um governo mais progressista que se comprometeu a colocar a nação no século vinte, o que não era uma ideia disparatada, já que esta levava um atraso de mais de três décadas. Naquele deserto político começaram a surgir os primeiros partidos, organizou‑se um Parlamento, houve como que um renascer de ideias e projectos.

No dia em que sepultaram o advogado, a sua múmia favorita, o professor Jones teve um ataque de raiva que culminou num derrame cerebral. Por solicitude das autoridades, que não desejavam carregar com os visíveis mortos do regime anterior, os familiares do célebre mártir da tirania fizeram um funeral grandioso apesar da generalizada opinião de o estarem a enterrar ivo, porque ainda se mantinha em bom estado. Jones tentou impedir por todos os meios ao seu alcance que a sua obra de arte fosse parar a um mauzoléu, mas tudo foi inútil. Colocou‑se à porta do cemitério de braços abertos tentando impedir a passagem da carreta funerária que transportava o caixão de acaju com rebites de prata, mas o cocheiro continuou em frente e se o doutor não se tivesse afastado tê‑lo‑ia esmagado sem o menor respeito. Quando o gavetão foi fechado, o embalsamador caiu fulminado pela resignação, uma metade do corpo hirta e a outra metade em convulsões. com aquele enterro desapareceu, por detrás de uma lápide de mármore, o testemunho contundente de que a fórmula do sábio era capaz de enganar a decomposição por tempo indefinido.

 

Estes foram os únicos acontecimentos relevantes dos anos em que Consuelo serviu em casa do professor Jones. Para ela a diferença entre ditadura e democracia, eram as idas de vez em quando, ao cinematógrafo para ver as fitas de Carlos Gardel, anteriormente proibidas a senhoras e o facto de que, a partir do acesso de raiva, o seu patrão se tornara um inválido a quem devia tratar como a uma criança. A sua rotina pouco mudou, até àquele dia de Julho quando o jardineiro foi mordido por uma víbora. Era um índio forte, de feições suaves, mas de expressão hermética e taciturna, com quem ela não tinha trocado mais de dez palavras apesar de ser ele que a costumava ajudar com os cadáveres, os cancerosos e os idiotas. Pegava nos doentes como se fossem penas, colocava‑os ao ombro e trepava a grandes passadas a escada do laboratório, sem dar mostras de curiosidade.

‑ O jardineiro foi mordido por uma surucucu ‑ disse Consuelo ao professor Jones.

‑ Quando morrer traz‑mo ‑ ordenou o cientista com a sua boca torida, preparando‑se para fazer uma múmia indígena em posição de podar os arbustos e pô‑la a decorar o jardim. Já estava nessa altura bastante velho e começava a ter delírios de artista, sonhava ter representantes de todas as profissões formando assim o seu próprio museu de estátuas humanas.

Pela primeira vez na sua silenciosa existência, Consuelo desobedeceu a uma ordem e tomou uma iniciativa. Com a ajuda da cozinheira arrastou o índio para o seu quarto, no último pátio, e deitou‑o na sua enxerga, decidida a salvá‑lo, porque lhe pareceu uma tristeza vê‑lo transformado em adorno para satisfazer um capricho do patrão e também porque noutras ocasiões, ela tinha sentido uma inexplicável inquietação ao ver as mãos daquele homem, grandes, morenas e fortes, a tratar das plantas com especial delicadeza. Limpou‑lhe a ferida com água e sabão, fez‑lhe dois cortes profundos com a faca de matar frangos e durante um largo pedaço de tempo chupou‑lhe o sangue envenenado que ia cuspindo para um recipiente. Entre duas chupadelas enxaguava a boca com vinagre, para não morrer também. Em seguida envolveu‑o em panos ensopados em terebentina, purgou‑o com infusões de ervas, aplicou‑lhe teias‑de‑aranha na ferida e permitiu que a cozinheira acendesse velas aos santos, embora ela duvidasse desse recurso. Quando o doente começou a urinar vermelho, surripiou do gabinete do professor o Sândalo Sol, remédio infalível para os fluxos das vias urinárias, mas apesar de todo o seu esmero, a perna começou a decompor‑se e o homem entrou em agonia, lúcido e calado, sem se queixar uma única vez. Consuelo notou que, para além do pânico perante a morte, a asfixia e a dor, o jardineiro respondia arrebatadamente quando ela lhe esfregava o corpo ou lhe aplicava as cataplasmas. A inesperada erecção conseguiu comover o seu coração de virgem amadurecida e quando ele lhe pegou por um braço e a olhou suplicante, ela compreendeu que tinha chegado o momento de justificar o seu nome e de o consolar de tanta desgraça. Fazendo as contas aos seus trinta e tal anos de vida, chegou à conclusão que não tinha, nem conhecido nem procurado o prazer, convencida que estava de que era um assunto que só dizia respeito aos protagonistas dos filmes. Resolveu dar‑se esse prazer e simultaneamente oferecê‑lo ao doente, tentando que assim ele partisse mais feliz para o outro mundo.

Conheci tão intimamente a minha mãe, que posso imaginar a cerimónia que se seguiu mesmo que ela não me tenha contado todos os pormenores. Não tinha inúteis pudores e respondia sempre às minhas perguntas com a maior clareza, mas quando se referia a esse índio costumava ficar repentinamente silenciosa, perdida nas suas boas recordações. Tirou a bata de algodão, o saiote, os culotes de linho, desfez a trança que, como exigia o patrão, trazia enrolada na nuca. O longo cabelo caiu‑lhe pelo corpo e assim vestida, com o seu melhor atributo de beleza, montou no moribundo com grande delicadeza, para não lhe perturbar a agonia. Não sabia lá muito bem como fazer, porque não tinha experiência nenhuma dessas coisas, mas o que lhe faltava em conhecimento foi‑lhe dado quer pelo instinto quer pela boa‑vontade. Debaixo da pele escura do homem, os músculos retesaram‑se e ela teve a sensação de cavalgar sobre um animal grande e bravo. Sussurrando‑lhe palavras recém‑inventadas e secando-lhe o suor com um trapo, deslizou até ao sítio exacto, movendo‑se com discrição, como uma esposa acostumada a fazer amor com um marido velho. Ele virou‑a para a abraçar com a pressa imposta pela proximidade da morte, e o breve gozo de ambos alterou as sombras dos cantos. Assim fui concebida, no leito de morte do meu pai.

No entanto, o jardineiro não morreu, como esperava o professor Jones e os franceses do Serpentário, que queriam o seu corpo para fazer experiências. Contra qualquer lógica, começou a melhorar, a temperatura baixou, a respiração normalizou‑se e pediu para comer. Consuelo compreendeu que sem ter feito nada por isso tinha descoberto um antídoto para as mordeduras venenosas e continuou a administrá‑lo com ternura e alegria tantas vezes quantas ele o pediu, até que o doente se pôde pôr em pé. Passado pouco tempo o índio despediu‑se sem que ela o tentasse deter. Agarraram as mãos durante um ou dois minutos, beijaram‑se com uma certa tristeza e então ela tirou a pepita de ouro, cujo cordão já estava gasto pelo uso, e pendurou‑o ao pescoço do seu único amante, como recordação dos galopes partilhados. Ele partiu reconhecido e quase curado. A minha mãe disse que ia a sorrir.

Consuelo não manifestou qualquer emoção. Continuou a trabalhar como sempre, ignorando as náuseas, o peso das pernas e os pontos coloridos que lhe enevoavam a vista, sem mencionar o extraordinário medicamento com que tinha salvo o moribundo. Não o disse, nem sequer quando começou a crescer‑lhe a barriga, nem quando o professor Jones a chamou para lhe dar um purgante, convencido de que aquele inchaço se devia a um problema digestivo, nem tão‑pouco o disse quando, na devida altura, deu à luz. Aguentou as dores durante treze horas sem deixar de trabalhar e quando já não podia mais, fechou‑se no quarto disposta a viver plenamente esse momento, como o mais importante da sua vida. Penteou o cabelo, entrançou‑o apertadamente, atou‑o com uma fita nova, despiu‑se, lavou‑se dos pés à cabeça, depois estendeu um lençol limpo no chão e sobre ele pôs‑se de cócoras, tal como tinha visto num livro sobre costumes dos esquimós. Coberta de suor, com um trapo na boca para abafar os gritos, fez força para trazer ao mundo a criança obstinada que se agarrava a ela. Já não era jovem e não foi tarefa fácil, mas o hábito de esfregar o chão de gatas, de carregar com pesos pela escada e de lavar a roupa até à meia‑noite, tinha‑lhe dado músculos firmes com os quais pôde finalmente parir. Primeiro viu surgir dois minúsculos pés que se moviam como se tentassem dar o primeiro passo num árduo caminho. Respirou profundamente e com um último gemido sentiu que algo se rompia no centro do seu corpo e uma massa estranha deslizava entre as suas coxas. Um enorme alívio comoveu‑a até à alma. Ali estava eu envolta num cordão azul, que ela separou com cuidado do meu pescoço, para me ajudar a viver. Nesse momento abriu‑se a porta e entrou a cozinheira que, tendo notado a sua ausência, adivinhara o que se estava a passar e acudiu a socorrê‑la. Encontrou‑a nua, comigo deitada sobre o ventre, ainda unida a ela por um laço palpitante.

‑ Mau sinal, é fêmea ‑ disse a improvisada parteira quando deu o nó e cortou o cordão umbilical e me pegou nas suas mãos.

- Nasceu de pés, é sinal de boa sorte ‑ sorriu a minha mãe logo que pôde falar.

‑ Parece forte e grita bem. Se você quiser, posso ser a madrinha.

‑ Não tinha pensado baptizá‑la ‑ disse Consuelo, mas ao ver que a outra escandalizada se persignava não quis ofendê‑la. ‑ Está bem, um pouco de água benta não vai fazer‑lhe mal e quem sabe se até vai ter algum proveito. Vai chamar‑se Eva, para que tenha vontade de viver.

‑ Qual é o apelido?

‑ Nenhum, o apelido não é importante.

‑ Os seres humanos precisam de um apelido. Só os cães podem andar por aí com um só nome.

‑ O pai pertencia à tribo dos filhos da Lua. Que fique Eva Luna, então. Dê‑ma cá, comadre, para ver se é perfeita.

Sentada no charco do seu parto, com os ossos moídos e ensopada de transpiração, Consuelo procurou no meu corpo um sinal fatídico transmitido pelo veneno, mas suspirou aliviada ao descobrir que não tinha qualquer anormalidade.

 

Não tenho dentes de elefante nem escamas de serpente, pelo menos nenhuma que se veja. De certa forma, as estranhas circunstâncias da minha concepção tiveram consequências bem mais benéficas: deram‑me uma saúde inalterável e essa rebeldia que demorou um pouco a manifestar‑se mas que me salvou a vida de humilhações para a qual estava, sem dúvida, destinada. Herdei do meu pai o sangue forte, porque aquele índio devia ser muito forte para resistir tantos dias ao veneno da serpente e em plena agonia dar prazer a uma mulher. Tudo o resto devo‑o a minha mãe. Aos quatro anos tive uma dessas pestes que deixam o corpo marcado por crateras, mas ela curou‑me, amarrando‑me as mãos para eu não me arranhar, untando‑me com sebo de ovelha e evitando que me expusesse à luz natural durante cento e oitenta dias. Aproveitou esse período para me tirar os parasitas com infusão de abóbora e a bicha solitária com raiz de feto e a partir de então fiquei boa e sã. Não tenho marcas na pele, apenas algumas queimaduras de cigarro e espero chegar a velha sem rugas, porque o sebo tem um efeito perene.

A minha mãe era uma pessoa silenciosa, capaz de se dissimular entre os móveis, de se perder no desenho do tapete, de não fazer o menor alvoroço, como se não existisse; contudo, na intimidade do quarto que compartilhávamos, transformava‑se. Começava a falar do passado ou a contar as suas histórias e o quarto enchia‑se de luz, desapareciam as paredes para dar lugar a paisagens incríveis, palácios a abarrotar de coisas nunca vistas, países longínquos inventados por ela ou subtraidos da biblioteca do patrão; colocava a meus pés todos os tesouros do Oriente, a lua e tudo o que havia para lá dela, reduzia‑me ao tamanho de uma formiga para sentir o universo desde o mais ínfimo, colocava‑me asas para o ver desde o firmamento, dava‑me uma cauda de peixe para conhecer o fundo do mar. Quando ela narrava, o mundo povoava‑se de personagens, algumas das quais chegaram a ser tão familiares, que ainda hoje, tantos anos depois, posso descrever as suas roupas e o tom das suas vozes. Conservou intactas as suas memórias de infância na Missão dos padres, guardava as anedotas ouvidas de passagem e com o que tinha aprendido nas suas leituras, elaborava a essência dos seus próprios sonhos e com esses materiais construiu um mundo só para mim. As palavras são de graça, dizia, e se se apropriava delas, todas eram suas. Semeou na minha cabeça a ideia de que a realidade não é apenas o que se vê à superfície, tem também uma dimensão mágica e se alguém o deseja veementemente é legitimo que a exagere e lhe dê uma cor para que a passagem por esta vida não seja tão aborrecida. As personagens convocados por ela no encantamento dos seus contos, são as únicas recordações nítidas que conservo dos meus primeiros anos, o resto parece envolto numa névoa onde se fundem os criados da casa, o velho sábio, prostrado no seu cadeirão inglês com rodas de bicicleta e o desfile de doentes e cadáveres, a quem o doutor atendia apesar da sua doença. As crianças desconcertavam o professor Jones, mas como era muito distraído, quando dava comigo nalgum canto da casa, mal me via. Eu tinha um certo medo dele, porque não sabia se fora ele a fazer os embalsamados ou se, pelo contrário, tinham sido eles que o haviam engendrado, pareciam ser todos da mesma árvore genealógica; mas a sua presença não me incomodava, porque ambos vivíamos em mundos diferentes. Eu circulava na cozinha, nos pátios, nos quartos de serviço, no jardim, e quando acompanhava a minha mãe pelo resto da vivenda, fazia‑o com muito segredo para que o professor me confundisse com o prolongamento da sombra dela. A casa tinha tantos e tão diversos cheiros, que eu podia percorrê‑la de olhos fechados e adivinhar onde me encontrava; os cheiros de comida, roupa, carvão, medicamentos, livros e humidade juntaram‑se às personagens dos contos, enriquecendo aqueles anos.

Criaram‑me com a teoria de que o ócio engendra todos os vícios, ideia semeada pelas Irmãzinhas da Caridade e cultivada pelo doutor através da sua despótica disciplina. Não tive brinquedos que se vissem, ainda que em verdade tudo o que houvesse em casa servisse para as minhas brincadeiras. Durante o dia não havia momentos de descanso, considerava‑se vergonhoso manter as mãos paradas. Com a minha mãe, eu esfregava as tábuas do chão, punha a roupa a secar, migava os legumes e à hora da sesta tentava tecer e bordar, mas não me lembro de que essas tarefas fossem humilhantes. Eram como brincar às casinhas. As sinistras experiências do sábio também não eram motivo de inquietação, porque ela explicou‑me que as pauladas e as picadelas dos mosquitos ‑ felizmente pouco frequentes ‑ não eram manifestações cruéis do patrão mas sim métodos terapêuticos do maior rigor científico. Com a sua maneira confiante de tratar os embalsamados como se fossem parentes desaparecidos, a minha mãe cortou pela raiz qualquer assomo de medo e não permitiu que os outros empregados me assustassem com ideias macabras. Julgo que procurava manter‑me afastada do laboratório... na verdade quase nunca vi as múmias, sabia apenas que estavam do outro lado da porta. Essa pobre gente é muito frágil, Eva, dizia‑me, é melhor que não entres nesse quarto, olha que com um empurrão podes partir‑lhes algum osso e o professor ficava furioso. Para meu sossego pôs a cada morto um nome

e inventou‑lhes um passado transformando‑os também a eles em seres benéficos como os duendes e as fadas.

Raramente saíamos à rua. Uma das poucas ocasiões em que o fizemos foi na procissão da seca, quando até os ateus se dispuseram a rezar porque mais do que um acto de fé era um acontecimento social. Contam que o país estava há mais de três anos sem uma gota de chuva, a terra estalou, sedenta, morreu a vegetação, pereceram os animais com os beiços enterrados no pó, e os habitantes da planície caminharam até à costa para se venderem como escravos em troca de água. Perante a catástrofe nacional, o Bispo decidiu fazer sair para a rua a imagem do Nazareno para implorar o fim desse castigo divino e como era a última esperança acorremos todos, ricos e pobres, velhos e novos, crentes e agnósticos. Bárbaros, índios, negros selvagens!, vociferou furiosamente o professor Jones quando o soube, mas não conseguiu evitar que os seus criados se vestissem com as melhores roupas e fossem na procissão. A multidão com o Nazareno à frente partiu da Catedral, mas não chegou a alcançar os escritórios da Companhia de água Potável, porque a meio do caminho desabou uma incontrolável carga de água. Em menos de quarenta e oito horas a cidade estava transformada num lago, entupiram‑se os esgotos, alagaram‑se os caminhos, inundaram‑se as mansões, a corrente levou as cabanas e numa povoação da costa choveram peixes. Milagre, milagre!, clamava o Bispo. Anuíamos sem saber que a procissão se tinha organizado depois de o Boletim Meteorológico ter anunciado tufões e chuvas torrenciais em toda a zona do Caribe, como denunciava Jones, da sua cadeira de hemiplégico. Supersticiosos! Ignorantes! Analfabetos!, ululava o pobre homem, mas ninguém fez caso dele. Este milagre fez o que nem os frades da Missão nem as Irmãzinhas da Caridade tinham conseguido: a minha mãe aproximar‑se de Deus, viu‑o sentado no seu trono celestial sorrindo da humanidade e pensou que devia ser muito diferente do temível patriarca dos livros religiosos. Era possível que uma das manifestações do seu sentido de humor consistisse em manter‑nos confundidos sem nos revelar nunca os seus projectos e intenções. Todas as vezes que nos lembrávamos do milagroso dilúvio desatávamos a rir.

O mundo acabava nas grades do jardim. Lá dentro o tempo regia‑se por normas próprias; em meia hora eu podia dar seis voltas em redor do globo terrestre e, no pátio, uma lua brilhante podia preencher‑me os pensamentos de uma semana. A luz e a sombra determinavam mudanças fundamentais na essência dos objectos; os livros, quietos durante o dia, à noite abriam‑se para deixarem as personagens vaguearem pelos salões e viverem as suas aventuras; os embalsamados, humildes e discretos quando o sol da manhã entrava pelas janelas, transformavam‑se em pedra na penumbra do anoitecer e na obscuridade cresciam até ao tamanho de gigantes. O espaço dilatava‑se e encolhia‑se segundo o meu desejo; o vão por debaixo da escada continha como que um sistema planetário e o céu visto através da clarabóia do ático era apenas um pálido círculo de vidro. Uma palavra minha e, zás!, a realidade transformava‑se.

Naquela mansão junto da colina, cresci confiante e livremente. Não me dava com outras crianças e não estava acostumada a falar com desconhecidos porque não se recebiam visitas, exceptuando um homem de fato e chapéu negro, um protestante com uma Bíblia debaixo do braço, com a qual afligiu os últimos anos do professor Jones. Eu tinha muito mais medo dele do que do patrão.

 

Oito anos antes de eu nascer, no mesmo dia em que, como se de um inocente avô se tratasse, o Benfeitor morreu na sua cama, numa aldeia ao norte da áustria veio ao mundo um menino a quem chamaram Rolf. Era o último filho de Lukas Carlé, o mais temido professor do liceu. Quer os castigos corporais quer a caligrafia escrita com sangue faziam parte da educação escolar e não só eram apoiadas como se encaixavam na sabedoria popular e na teoria docente, de tal maneira que nenhum pai em seu perfeito juízo reclamara contra esta medida. Mas, quando Carlé partiu as mãos a um rapaz, a direcção do colégio proibiu‑lhe o uso da palmatória, porque era evidente que ao começar a bater uma vertigem de luxúria fazia com que se descontrolasse. Para se vingarem, os alunos perseguiam o seu filho Jochen e se conseguiam apanhá‑lo desfaziam‑no a murro. A criança cresceu a fugir das pandilhas, recusando o apelido, escondido como um descendente de carrasco.

Lukas Carlé impusera em sua casa a mesma lei do medo praticada no colégio. Um casamento de conveniência unia‑o à mulher, o amor não entrava em nenhum dos seus planos, considerando‑o tolerável em argumentos literários ou musicais mas impróprio na vida quotidiana. Haviam casado sem terem tido ocasião de se conhecerem profundamente e ela começara a odiá‑lo desde a noite de núpcias. Para Lukas Carlé a sua mulher era uma criatura inferior, mais próxima dos animais que do homem, o único ser inteligente da Criação. Ainda que em teoria a mulher fosse um ser digno de compaixão, na prática, a sua conseguia pô‑lo fora de si. Quando depois de muito caminhar chegou à povoação, deslocado do seu país de origem pela Primeira Guerra Mundial, tinha cerca de vinte e cinco anos, um diploma de professor e o dinheiro suficiente para sobreviver uma semana. Primeiro procurou trabalho e em seguida uma esposa, escolhendo a sua não só por ter gostado do ar aterrorizado que bruscamente se lhe insinuava nos olhos mas também das amplas ancas, que lhe pareceram condição necessária para gerar filhos varões e efectuar os trabalhos mais pesados da casa. Influiram também na sua decisão dois hectares de terra, meia dúzia de animais e um pequeno rendimento que a jovem tinha herdado do pai e que meteu ao bolso como legítimo administrador dos bens conjugais.

A Lukas Carlé agradavam os sapatos femininos com saltos muito altos e preferia‑os em verniz vermelho. Nas suas viagens à cidade pagava a uma prostituta para caminhar nua, sem qualquer enfeite a não ser aquele calçado desconfortável, enquanto ele, vestido dos pés à cabeça e com sobretudo e chapéu, sentado numa cadeira como um alto dignitário, atingia um indescritível prazer à vista daquelas nádegas ‑ de preferência exuberantes, brancas e com covinhas ‑ bamboleando‑se a cada passo. É evidente que não lhe tocava. Núnca o fazia porque tinha a mania da limpeza. Como os seus rendimentos não lhe permitiam dar‑se a esses luxos com a frequência desejável, comprou uns lindos botins franceses que guardava escondidos no sítio mais inacessível do armário. De vez em quando fechava os filhos à chave, punha discos no máximo volume e chamava a mulher. Esta tinha aprendido a perceber as mudanças de humor do marido e conseguia adivinhar, antes de ele mesmo o saber, quando ficava com desejos de a maltratar. Começava então, antecipadamente, a tremer e a loiça caía‑lhe das mãos e partia‑se no chão.

Carlé não tolerava barulho em casa, já basta, dizia, que eu tenha de aturar os alunos do liceu. Os filhos aprenderam a não chorar nem rir na sua presença, a moverem‑se como sombras e a falar por sussurros. A destreza desenvolvida para passarem desapercebidos foi tanta, que por vezes a mãe julgava ver através deles ficando aterrada ante a possibilidade de se tornarem transparentes. O professor estava convencido de que as leis da genética lhe tinham pregado uma partida. Os filhos eram um fracasso total. Jochen era lento e desajeitado, um péssimo aluno, dormia nas aulas, urinava na cama, não servia para nenhum dos projectos traçados para ele. De Katharina preferia nem falar, a miúda não passava de uma imbecil. De uma coisa estava certo: não havia taras congénitas na sua estirpe, de forma que ele não podia ser responsável por essa pobre doente, e quem sabe se na realidade era sua filha, não devia pôr as mãos no fogo pela fidelidade de ninguém e muito menos pela da própria mulher; felizmente que Katharina tinha nascido com um sopro no coração e o médico prognosticara que não viveria muito tempo. Tanto melhor.

Face ao pouco êxito obtido com os dois filhos, Lukas Carlé não sentiu qualquer alegria com a terceira gravidez da mulher, mas quando nasceu um menino grande, rosado, de olhos cinzentos muito abertos e mãos firmes, sentiu‑se reconfortado. Talvez esse fosse o descendente que sempre tinha desejado, um verdadeiro Carlé. Tinha de impedir que a mãe o estragasse, não havia nada de tão perigoso como uma mulher para corromper uma boa semente de varão. Não o vistas com roupa de lã, para que se acostume ao frio e se torne forte, deixa‑o às escuras, assim nunca terá medo, não o tragas ao colo, não interessa que chore até ficar roxo, isso é muito bom para

o desenvolvimento dos pulmões, exigia ele, mas, às escondidas do marido, a mãe agasalhava o filho, dava‑lhe doses duplas de leite, acalentava‑o e cantava‑lhe canções de embalar. Este sistema de lhe pôr e tirar a roupa, de lhe bater e de lhe dar mimos, sem razão aparente, de o fechar num quarto escuro e depois consolá‑lo com beijos, teria levado qualquer criança à loucura, mas Rolf Carlé teve muita sorte, pois não só nasceu com uma força mental capaz de resistir ao que teria destruído outros, mas também porque rebentou a Segunda Guerra Mundial e o pai se alistou no Exército livrando‑o, assim, da sua presença. A guerra foi o período mais feliz da sua infância. Enquanto que na América do Sul os embalsamados se acumulavam em casa do professor Jones e a vitima de uma serpente copulava gerando uma menina a quem a mãe chamou Eva para que lhe trouxesse desejos de viver, também na Europa a realidade não era pequena. A guerra submergia o mundo na confusão e no espanto. Na altura em que a miúda andava agarrada às saias da mãe, do outro lado do Atlântico assinava‑se a paz sobre um continente em ruínas. Entretanto deste lado do mar poucos perdiam o sono por essas violências remotas. Bem mais ocupados estavam com as suas próprias violências.

 

Quando cresceu, Rolf Carlé tornou‑se observador, orgulhoso, tenaz e com uma certa inclinação romântica que o envergonhava como se fosse um sinal de fraqueza. Nessa época de exaltação guerreira, ele brincava com os seus companheiros às trincheiras e aos aviões derrubados, mas em segredo emocionava‑se com os rebentos de cada Primavera, as flores no Verão, os dourados do Outono e a alvura triste do Inverno. Em cada estação caminhava pelos bosques para recolher folhas e insectos que observava com uma lupa. Arrancava folhas aos cadernos para escrever versos, que logo escondia nos buracos das árvores ou debaixo das pedras, com a inconfessável ilusão de que alguém os encontrasse. Jamais falou disso a alguém.

O rapaz teria uns dez anos na tarde em que o levaram a enterrar os mortos. Nesse dia estava satisfeito, porque o seu irmão Jochen tinha apanhado uma lebre e o cheiro do guisado feito em lume brando, temperado com vinagre e rosmaninho enchia toda a casa. Há muito tempo que não sentia esse aroma e o prazer antecipado dava‑lhe tanta ansiedade que só a severa educação recebida o impedia de levantar a tampa e meter uma colher na panela. Era também o dia de acender o forno. Gostava de ver a mãe inclinada sobre a enorme mesa da cozinha, os braços metidos na massa, movendo‑se cadenciadamente ao ritmo de fazer o pão. Amassava os ingredientes fazendo uns rolos compridos que cortava e de cada pedaço fazia um pão redondo. Anteriormente, nos tempos da abundância, separava um pouco da massa, juntava‑lhe leite, ovos e canela para fazer bolos que guardava numa caixa, um para cada filho em cada dia da semana. Agora misturava a farinha com farelo e o que resultava era tão escuro e áspero, como um pão de serradura.

Essa manhã começou com uma revolta na rua, movimento de tropas de ocupação, vozes de comando, mas ninguém se sobressaltou demasiado porque já tinham esgotado o medo no desconcerto da derrota e não lhes ficara muito para o empregar em pressentimentos de mau agoiro. Depois do armistício, os russos tinham‑se instalado na aldeia. Os boatos sobre a sua violência preçediam os soldados do Exército Vermelho e a população aterrorizada esperava um banho de sangue. São como bestas, diziam, abrem a barriga às mulheres grávidas e atiram com os fetos aos cães, trespassam os velhos com as suas baionetas, metem dinamite no cu dos homens e fazem‑nos voar em pedaços, violam, incendeiam, destroem. Mas não foi assim. O alcaide procurou uma explicação e concluiu que certamente eles tinham tido sorte, porque os que ocuparam a aldeia não provinham das zonas soviéticas mais assoladas pela guerra e por isso tinham menos rancores acumulados e menos vinganças pendentes.

A comando de um jovem oficial de rosto asiático, entraram arrastando pesados veículos com todos os seus apetrechos, requisitaram todos os alimentos, meteram nas suas mochilas quantos objectos de valor puderam apanhar e fuzilaram ao acaso seis membros da comunidade acusados de colaborar com os alemães. Acamparam nos arredores e ficaram sossegados. Nesse dia, os russos reuniram as pessoas chamando‑as com altifalantes e espreitando nas casas para espevitar os indecisos com ameaças. A mãe colocou um pequeno xaile a Katharina e apressou‑se a sair antes que a tropa entrasse e lhe confiscasse a lebre do almoço e o pão da semana. Com os seus três filhos, Jochen, Katharina e Rolf, caminhou em direcção à praça. A aldeia sobrevivera a esses anos de guerra em melhores condições do que outras, apesar da bomba que caiu sobre a escola num domingo à noite, transformando‑a em escombros e espalhando estilhaços de carteiras e ardósia pelos arredores. Parte do empedrado medieval já não existia, porque as brigadas tinham usado as lages para fazerem barricadas; em poder do inimigo encontravam‑se o relógio da Câmara, o órgão da igreja e a última colheita de vinho, únicos tesouros da aldeia; os edifícios mostravam fachadas sem cor e alguns buracos de balas, mas o conjunto não tinha perdido o encanto adquirido ao longo de séculos de existência.

Os habitantes da aldeia juntaram‑se na praça, rodeados pelos soldados inimigos, enquanto o comandante soviético, com o uniforme em farrapos, as botas rotas e uma barba de vários dias, percorria o grupo observando cada um. Cabisbaixos, encolhidos, perplexos, ninguém susteve o seu olhar, apenas Katharina fixou os olhos mansos no militar e meteu um dedo no nariz.

‑ É atrasada mental? ‑ perguntou o oficial apontando a menina.

‑ Nasceu assim ‑ respondeu a senhora Carlé.

‑ Então não se põe o caso de a levar. Deixe‑a aqui.

‑ Não pode ficar sozinha, por favor, deixe‑a ir connosco...

‑ Como quiser.

Sob um fraco sol de Primavera esperaram mais de duas horas em pé, com as armas apontadas, os velhos apoiando‑se nos mais fortes, as crianças adormecidas no chão, os mais pequenos ao colo dos pais, até que por fim deram ordem de partida e obrigaram todos a andar atrás do jipe do comandante, vigiados pelos soldados que os faziam andar numa fila lenta encabeçada pelo alcaide e pelo director da escola, únicas autoridades ainda reconhecidas na catástrofe dos últimos tempos. Caminharam em silêncio, inquietos, virando‑se para olhar os telhados das suas casas que assomavam por entre as colinas, perguntando‑se cada um para onde os conduziam, até que foi evidente que tomavam a direcção do campo de prisioneiros e a alma encolheu‑se‑lhes como um punho fechado.

Rolf conhecia o caminho, porque tinha andado por ali muitas vezes quando ia com Jochen à caça de cobras, pôr armadilhas às raposas ou apanhar lenha. Por vezes os irmãos sentavam‑se sob as árvores frente à cerca de arame farpado, ocultos pela folhagem. A distância não lhes permitia ver distintamente e limitavam‑se a escutar as sereias ou a farejar o ar. Quando soprava vento, esse cheiro peculiar entranhava‑se nas casas, mas ninguém parecia notá‑lo, porque nunca se falava disso. Esta era a primeira vez que Rolf Carlé ou qualquer outro habitante da aldeia, transpunha as portas metálicas e chamou‑lhe a atenção o solo corroido, limpo de vegetação, ermo como um deserto de pó estéril, tão diferente dos campos da região nessa época do ano, cobertos de uma suave penugem verde. A coluna avançou por um longo caminho, atravessou várias barreiras de rolos de arame, passou sob as torres de controlo e os postos onde anteriormente estavam as metralhadoras e chegou finalmente a um grande pátio quadrado. Num dos lados erguiam‑se barracões sem janelas, no outro uma construção de tijolos com chaminés e ao fundo as latrinas e os cadafalsos. A Primavera detivera‑se às portas da prisão, tudo era cinzento, envolto pela bruma de um Inverno que ali se tinha eternizado. Os aldeãos detiveram‑se próximo das barracas, todos juntos, tocando‑se para se darem ânimo, oprimidos por aquela quietude, aquele silêncio de caverna, aquele céu tornado cinza. O comandante deu uma ordem e os soldados empurraram‑nos como gado, levando‑os até ao edifício principal. Então todos puderam vê‑los. Estavam ali dezenas deles, amontoados no chão, uns por cima dos outros, confundidos, desmembrados, uma montanha de lenhos pálidos. A princípio não puderam acreditar que fossem corpos humanos, pareciam títeres de um qualquer teatro macabro, mas os russos empurraram‑nos com as espingardas, bateram‑lhes com as coronhas e foram obrigados a aproximar‑se, cheirar, olhar, permitir que esses rostos ossudos e cegos lhes ficassem gravados a fogo na memória. Cada um ouviu o ruído do seu próprio coração e ninguém falou, porque não havia nada para dizer. Permaneceram imóveis por longos minutos até o comandante pegar numa pá e a passar ao alcaide. Os soldados distribuiram outras ferramentas.

‑ Comecem a cavar ‑ disse o oficial sem levantar a voz, quase num murmúrio.

Mandaram Katharina e as crianças mais pequenas sentar‑se ao pé das forcas enquanto os outros trabalhavam. Rolf ficou com Jochen. O chão estava duro, os calhaus enfiavam‑se‑lhe nos dedos e metiam‑se‑lhe entre as unhas, mas não parou, de cócoras com os cabelos para a cara, estremecendo com uma vergonha que não poderia esquecer e que o perseguiria ao longo da vida como um interminável pesadelo. Não levantou o olhar uma única vez. Em seu redor, ouviu apenas os sons do ferro contra as pedras, as respirações ofegantes, os soluços de algumas mulheres. A noite caíra quando terminaram as sepulturas. Rolf notou que tinham acendido os holofotes de segurança nas torres de vigia e que a noite se tornara clara. O oficial russo deu uma ordem e as pessoas da povoação tiveram de ir, duas a duas, buscar os corpos. O menino limpou as mãos esfregando‑as nas calças, sacudiu o suor do rosto e avançou com o seu irmão Jochen até àquilo que os aguardava. Com uma exclamação rouca a mãe tentou detê‑los, mas os rapazes seguiram em frente, inclinaram‑se e pegaram num cadáver pelos pulsos e pelos tornozelos, nu, careca, pele e osso, lívido, frio e seco como porcelana. Levantaram‑no sem esforço agarrados a essa forma rígida e caminharam em direcção às sepulturas abertas no pátio. A carga oscilou levemente e a cabeça descaiu para trás. Rolf voltou‑se para olhar a mãe, viu‑a dobrada pelas náuseas e quis fazer‑lhe um gesto de conforto, mas tinha as mãos ocupadas.

A tarefa de sepultar os prisioneiros terminou passava da meia‑noite. Encheram as fossas e cobriram‑nas com terra, mas ainda não chegara o momento de partir. Os soldados obrigaram‑nos a percorrer as barracas, a entrar nas câmaras de morte, a examinar os fornos e a passar sob as forcas. Ninguém se atreveu a rezar pelos mortos. No fundo sabiam que a partir desse momento tentariam esquecer, arrancar aquele horror da alma, dispostos a nunca o mencionar, com a esperança de que o passar dos anos o pudesse apagar. Regressaram, por fim, às suas casas arrastando os pés, muito lentamente, esgotados. O último era Rolf Carlé, caminhando entre duas filas de esqueletos, todos iguais na desolação da morte.

 

Uma semana mais tarde apareceu Luk as Carlé, que o filho Rolf não reconheceu, porque quando partira para a frente de combate ele ainda não tinha o uso da razão e o homem que, nessa noite, entrou bruscamente na cozinha não se parecia nada com o da fotografia sobre a chaminé. Durante os anos que viveu sem pai, Rolf inventou um, de dimensões heróicas, deu‑lhe um uniforme de aviador e cobriu‑lhe o peito de condecorações, tornando‑o num militar soberbo e valente, de botas lustrosas nas quais um menino podia olhar‑se como num espelho. Essa imagem não tinha relação nenhuma com a personagem surgida de súbito na sua vida, de modo que não se preocupou em cumprimentá‑lo, confundindo‑o com um mendigo. O da fotografia tinha um bigode bem cuidado e olhos plúmbeos como nuvens de Inverno, autoritários e frios. O homem que irrompeu na cozinha vestia calças demasiado grandes, amarradas com uma corda na cintura, um casaco roto, um lenço sujo amarrado ao pescoço e em vez de botas reluzentes, os seus pés estavam envoltos em trapos. Era um tipo bem mais pequeno, mal barbeado, com o cabelo eriçado e cortado em farripas. Não, não era ninguém que Rolf conhecesse. O resto da família, pelo contrário, recordava‑o com precisão. Ao vê-lo, a mãe tapou a boca com as duas mãos, Jochen pôs‑se de pé fazendo cair a cadeira na pressa de retroceder e Katharina correu para debaixo da mesa, num gesto que não fazia há muito, mas que o seu instinto não esquecera.

Lukas Carlé não voltou com saudades do lar pois nunca sentira que pertencia verdadeiramente àquela aldeia ou a qualquer outra ‑, era um ser solitário e apátrida ‑, mas porque estava esfomeado e desesperado e preferiu o risco de cair nas mãos do inimigo vitorioso a continuar a arrastar‑se pelos campos. Já não aguentava mais. Tinha desertado e teve de sobreviver escondendo‑se de dia e caminhando de noite. Apoderou‑se da identificação de um soldado morto, pensando mudar o nome e apagar o passado, mas depressa compreendeu que naquele vasto continente destroçado não tinha para onde ir. A recordação da aldeia com as suas casas acolhedoras, hortas, vinhedos e a escola onde trabalhara tantos anos, tornava‑se pouco atraente para ele, mas não tinha outra escolha. Durante a guerra conseguiu alguns galões, não por actos de coragem, mas por exercício de crueldade. Agora era outra pessoa, pois tendo chegado ao fundo pantanoso da sua alma, sabia até onde era capaz de chegar. Depois de ter atingido os extremos, de ter ultrapassado o limite da crueldade e do prazer, parecia‑lhe um ínfimo destino voltar ao passado e resignar‑se a ensinar um grupo de ranhosos malcriados numa sala de aula. Considerava que o homem nasce para a guerra, a história demonstra que o progresso não se obtém sem violência, cerrem os dentes e aguentem, fechem os olhos e avancem, que para isso somos soldados. O sofrimento acumulado não conseguiu provocar‑lhe qualquer saudade pela paz, mas sim agudizar na sua mente a convicção de que só a pólvora e o sangue podem gerar homens capazes de conduzir a barca soçobrante da humanidade a bom porto, abandonando nas ondas os débeis e inúteis, de acordo com as leis implacáveis da natureza.

‑ Que se passa? Não estão contentes por me ver? ‑ disse fechando a porta atrás de si.

A ausência não diminuira a sua capacidade em aterrorizar a família. Jochen quis dizer alguma coisa, mas as palavras enovelaram-se‑lhe no peito e só conseguiu emitir um som gutural, colocando‑se diante do irmão para o proteger de um perigo indefinido. Assim que conseguiu reagir, a senhor Carlé foi à arca, pegou numa grande toalha branca e cobriu a mesa para que o pai não visse Katharina e, talvez, pudesse esquecer a sua existência. Num relance, Lukas Carlé tomou posse da casa e recuperou o controlo sobre a família. A esposa pareceu‑lhe tão estúpida como sempre, mas conservava ainda intactos o olhar aterrorizado e a firmeza das ancas; Jochen tornara‑se um jovem tão alto e forte que não conseguiu compreender como se livrara de ser recrutado para os regimentos juvenis; quase não conhecia Rolf, mas bastou‑lhe um instante para compreender que aquele garoto fora criado debaixo das saias da mãe e precisava de ser sacudido para perder o ar de gato mimado. Ele se encarregaria de fazer dele um homem.

‑ Prepara água quente para me lavar, Jochen. Há alguma coisa para comer nesta casa? E tu, deves ser o Rolf... Anda cá e cumprimenta o teu pai. Não me ouves? Vem cá!

A partir dessa noite, a vida de Rolf mudou por completo. Apesar da guerra e de todas as privações que tinha suportado, não conhecia verdadeiramente o medo. Lukas Carlé ensinou‑lho. O menino só anos mais tarde recuperou o sono tranquilo, quando encontraram o pai a baloiçar numa árvore do bosque.

Os soldados russos que ocuparam a aldeia eram rudes, pobres, sentimentais. Sentavam‑se à tarde com as armas e instrumentos de batalha, à volta de uma fogueira a entoar as canções da sua terra, e quando o ar se enchia de palavras nos doces dialectos regionais, alguns deles choravam de nostalgia. às vezes embebedavam‑se e lutavam ou dançavam até ficarem extenuados. Os habitantes da aldeia evitavam‑nos, mas algumas raparigas iam até ao acampamento oferecer‑se em segredo, sem os olhar na cara, a troco de um pouco de comida. Conseguiam sempre alguma coisa, embora os vencedores passassem tanta fome como os vencidos. As crianças também se aproximavam para os observar, fascinadas com o seu idioma, as suas máquinas de guerra, os seus costumes estranhos e atraidos por um sargento com a cara marcada por profundas cicatrizes, que os divertia fazendo malabarismos com quatro facas no ar. Rolf aproximava‑se mais do que os companheiros, apesar da terminante proibição da mãe, e depressa se encontrou sentado junto ao sargento, tentando compreender as suas palavras e aprendendo a atirar facas. Em poucos dias os russos identificaram os colaboracionistas e os desertores escondidos e iniciaram‑se os julgamentos de guerra, muito breves porque não dispunham de tempo para formalidades e com pouca assistência de público, porque as pessoas estavam esgotadas e não queriam continuar a ouvir acusações. Apesar disso, quando chegou a vez de Lukas Carlé, Jochen e Rolf entraram em segredo e esconderam‑se na parte de trás da sala. O acusado não se mostrou arrependido dos factos cometidos e só disse a seu favor que cumpria ordens superiores, que não tinha ido para a guerra para tecer considerações mas para a ganhar. O sargento malabarista deu conta de que Rolf estava na sala, teve pena dele e quis levá‑lo, mas o menino manteve‑se firme no seu lugar, decidido a escutar até ao fim. Ter‑lhe‑ia sido difícil explicar àquele homem que a sua palidez não se devia a compaixão pelo pai, mas ao desejo secreto de que as provas fossem suficientes para o colocarem frente a um pelotão de fuzilamento. Quando o condenaram a seis meses de trabalhos forçados nas minas da Ucrânia, Jochen e Rolf consideraram que era um castigo muito leve e rezaram em segredo para que Lukas Carlé morresse lá longe e nunca mais regressasse.

Com a chegada da paz não acabaram as privações, conseguir alimentos tinha sido durante anos a principal preocupação e continuou a sê‑lo. Jochen mal sabia ler, mas era forte e obstinado e quando o pai partiu e a pólvora destruiu os campos, ele encarregou‑se de abastecer a família, cortando lenha, vendendo amoras e cogumelos silvestres, caçando coelhos, perdizes e raposas. Rolf iniciou‑se rapidamente nos mesmos ofícios do irmão e aprendeu como ele a realizar pequenos furtos nas aldeias vizinhas, sempre às escondidas da mãe que mesmo nos períodos de maior angústia actuava como se a guerra fosse um pesadelo alheio e distante com o qual ela não tinha nada a ver, e nunca fraquejou quando se tratava de inculcar nos filhos as normas da sua conduta. O rapaz acostumou‑se de tal maneira à sensação de vazio nas tripas, que muito tempo depois, quando os mercados estavam atafulhados com todos os produtos da terra e se vendiam batatas fritas, caramelos e salsichas a cada esquina, ele continuava a sonhar com o pão ressequido, escondido num buraco entre as tábuas, debaixo da cama.

A senhora Carlé conseguia manter o espírito sereno e a fé em Deus até ao dia em que o marido regressou da Ucrânia para se instalar definitivamente em casa. Nesse momento ela perdeu a coragem. Pareceu encolher e ensirtiesmou, num diálogo obsessivo consigo. O temor que sempre lhe tinha tido acabou por paralisá‑la, não pôde dar saída ao seu ódio e este acabou por derrotá‑la. Continuou cumprindo as suas funções com a mesma eficíência, servindo trabalhando desde o amanhecer até à noite, tratando de Katharina e o resto da família, mas deixou de falar e de sorrir e não voltou à igreja, porque não estava disposta a continuar a ajoelhar‑se perante esse deus desapiedado que não escutava o seu justo pedido de mandar Lukas Carlé para o inferno. Também não tentou proteger Jochen e Rolf dos excessos do Pai; Os gritos, as pancadas e as lutas acabavam por lhe parecerem naturais e já não provocavam qualquer resposta da sua parte. Sentava‑se frente à janela com os olhos perdidos, refugiando‑se assim num passado onde o marido não existia e ela ainda era uma adolescente que a desdita não tocara.

Carlé defendia a teoria de que os seres humanos se dividem em bigornas e martelos, uns nascem para bater e outros para serem batidos. POr certo, desejava que os seus filhos varões fossem martelos. Não lhes tolerava nenhuma fraqueza, especialmente a Jochen, com quem experimentava os seus sistemas de ensino. Enfurecia‑se quando como resposta o rapaz gaguejava mais e roía as unhas. Desesperado, de noite, Jochen imaginava diversas maneiras de se livrar de uma vez para sempre daquele martírio, mas com a luz do sol tinha consciência da realidade, baixava a cabeça e obedecia ao pai sem se atrever a fazer‑lhe frente, ainda que fosse mais alto vinte centímetros e tivesse a força de um cavalo de lavoura.

Foi submisso até uma noite de Inverno em que Lukas Carlé decidiu utilizar os sapatos vermelhos. Os rapazes já tinham idade para adivinhar o que significava aquele ambiente pesado, aqueles olhares tensos, aquele silêncio carregado de presságios. Como de outras vezes, Carlé ordenou aos filhos que os deixassem sós, que levassem Katharina, fossem para o quarto e que não voltassem por motivo algum. Antes de sair, Jochen e Rolf conseguiram vislumbrar a expressão de terror nos olhos da mãe e perceberam o seu tremor. Pouco depois, tensos nas suas camas, ouviram o estrépito da música no máximo volume.

‑ Vou ver o que está a fazer à mãe ‑ decidiu Rolf, quando já não conseguia suportar a certeza de que do outro lado do corredor se repetia um pesadelo que desde sempre tinha existido naquela casa.

‑ Não te mexas. Vou eu, sou o mais velho ‑ disse Jochen.

E em vez de se meter debaixo das mantas tal como fizera durante toda a vida, levantou‑se com o pensamento em branco, vestiu as calças, o casaco e o gorro de lã e calçou as botas de neve. Acabou de vestir‑se com gestos precisos, depois saiu, atravessou o corredor e tentou abrir a porta da sala, mas o ferrolho estava corrido. Com a mesma lentidão e precisão que empregava para colocar as suas armadilhas ou partir lenha, levantou a perna e com um pontapé certeiro fez saltar a fechadura. Rolf, em pijama e descalço, tinha seguido o irmão e quando a porta se abriu, viu a mãe totalmente nua, encavalitada nuns absurdos botins vermelhos de salto alto. Lukas Carlé gritou‑lhes furioso que se retirassem imediatamente, mas Jochen avançou, passou em frente da mesa, afastou a mulher que tentou detê‑lo e aproximou‑se com tal determinação, que o homem recuou vacilante. O punho de Jochen acertou no rosto do pai, com a força de um martelo atirando‑o pelo ar sobre o aparador, que caiu com um estrondo de madeira em estilhaços e de pratos quebrados. Rolf observou o corpo inerte no chão, respirou fundo, foi ao seu quarto, pegou numa manta e voltou para cobrir a mãe.

‑ Adeus, mãe ‑ disse Jochen da porta da rua, sem se atrever a olhá‑la.

‑ Adeus, meu filho ‑ murmurou ela, aliviada porque pelo menos um dos seus estaria a salvo.

No dia seguinte Rolf enrolou as bainhas das calças compridas do irmão e vestiu‑as para levar o pai ao hospital, onde lhe puseram a mandíbula no lugar. Durante semanas ele não pôde falar e teve de ser alimentado com líquidos através de uma pipeta. Com a partida do filho mais velho a senhora Carlé acabou por se fechar no rancor e Rolf teve de enfrentar sozinho aquele homem detestado e temido.

Katharina tinha um olhar de esquilo e a alma livre de recordações. Era capaz de comer sozinha, avisar quando precisava de ir à retrete e correr a meter‑se debaixo da mesa quando o pai chegava, mas isso foi tudo o que conseguiu aprender. Rolf procurava pequenos tesouros para lhe oferecer, um escaravelho, uma pedra polida, uma noz que abria com cuidado para extrair o fruto. Ela retribuia‑lhe com uma total devoção. Esperava‑o durante todo o dia e ao sentir‑lhe os passos e ao ver‑lhe o rosto, inclinado entre as pernas das cadeiras, emitia um murmúrio de gaivota. Passava horas debaixo da grande mesa, imóvel, protegida pela madeira tosca, até que o pai adormecesse ou saisse e alguém a tirasse dali. Acostumou‑se a viver sob a sua protecção, ouvindo os passos que se aproximavam ou se afastavam. às vezes não queria sair, mesmo que não houvesse perigo algum; então, a mãe estendia‑lhe um prato e Rolf pegava numa manta e deslizava para debaixo da mesa para com ela se taparem e passarem a noite. Muitas vezes, quando Lukas Carlé se sentava a comer, as pernas tocavam os filhos debaixo da mesa, mudos, quietos, de mãos dadas sozinhos naquele refúgio, onde os sons, os cheiros e as presenças dos outros chegavam amortecidas pela ilusão de se encontrarem debaixo de água. Tanta vida ali passaram os dois irmãos, que Rolf Carlé guardou a recordação da luz leitosa debaixo da toalha e muitos anos mais tarde, no outro lado do mundo, acordou um dia a chorar debaixo do mosquiteiro branco onde dormia com a mulher que amava.

 

Numa noite de Natal, teria eu uns seis anos, a minha mãe engoliu um osso de frango. O professor, sempre obcecado pela insaciável cobiça de possuir mais conhecimentos, não tinha tempo para essa festa nem para nenhuma outra, mas os empregados da casa celebravam a Consoada todos os anos. Armavam um Presépio na cozinha com toscas figuras de argila, entoavam cânticos e todos me davam um presente. Com muitos dias de antecipação preparavam um guisado crioulo que fora inventado pelos antigos escravos. No tempo da Colónia as famílias poderosas reuniam‑se a vinte e quatro de Dezembro à volta de uma grande mesa. As sobras do banquete dos amos iam parar às escudelas dos criados, que as migavam, envolviam em massa de milho e folhas de bananeira e as ferviam em grandes caldeiras com tão delicioso resultado que a receita perdurou através dos séculos e ainda se repete todos os anos, embora já ninguém disponha dos restos da ceia dos ricos e seja necessário cozinhar cada ingrediente em separado, num trabalho esgotante. No último pátio da casa os empregados do professor Jones criavam galinhas, perus e um porco que engordavam todo o ano para essa ocasião única de pândega e comezaina. Uma semana antes começavam a enfiar nozes e tragos de rum pelo gasganete das aves e a obrigar o porco a beber litros de leite com açúcar mascavado e especiarias para que as carnes estivessem tenras no momento de serem cozinhadas. Enquanto as mulheres fumegavam as lâminas, preparavam as panelas e os braseiros, os homens matavam os animais numa orgia de sangue, penas e grunhidos de porco, até ficarem bêbados de álcool e morte, fartos de provarem pedaços de carne, beberem o caldo concentrado de todos aqueles manj ares e de cantarem louvores ao Menino Jesus em ritmo festivo, até enrouquecerem, enquanto no outro lado da mansão o professor vivia um dia igual aos outros, sem se dar conta de que estávamos no Natal. O osso fatídico passou dissimulado na massa e a minha mãe só o sentiu quando se lhe cravou na garganta. Ao fim de algumas horas começou a cuspir sangue e três dias mais tarde apagou‑se

tão silenciosamente como tinha vivido. Eu estava a seu lado e não esqueci esse momento, porque a partir de então tive de aperfeiçoar a percepção para que ela não se me perca entre as inapeláveis sombras onde vão parar os espíritos difusos.

Para não me assustar, morreu sem medo. Talvez o pedaço de osso de frango lhe tivesse arrancado algo essencial e tenha sangrado por dentro, não sei. Quando compreendeu que estava a morrer, fechou‑se comigo no nosso quarto do pátio para estarmos juntas até ao fim. Lentamente, para não apressar a morte, lavou‑se com água e sabão para tirar o cheiro a almíscar que começava a incomodá‑la, penteou a sua grande trança, vestiu‑se com um saiote branco que tinha cosido nas horas da sesta e deitou‑se no mesmo enxergão onde me concebeu com um índio envenenado. Embora nesse momento não compreendesse o significado daquela cerimónia, observei‑a com tanta atenção que ainda recordo cada um dos seus gestos.

‑ A morte não existe, filha. A gente só morre quando nos esquecem ‑explicou‑me a minha mãe pouco antes de partir ‑ se puderes recorda‑me, estarei sempre contigo.

‑ Lembrar‑me‑ei de ti ‑ prometi.

‑ Agora, vai chamar a tua madrinha.

Fui buscar a cozinheira, aquela mulata grande que me ajudou a nascer e, a seu tempo, me levou à pia do baptismo.

‑ Cuide‑me da miúda, comadre. Entrego-lha ‑ pediu a minha mãe limpando discretamente o sangue que lhe corria pelo queixo. Pegou‑me então na mão e com os olhos foi‑me dizendo quanto gostava de mim, até que o olhar se lhe nebulou e a vida se lhe desprendeu sem ruido. Por alguns instantes pareceu que algo translúcido flutuava no ar imóvel do quarto, iluminando‑o com um resplendor azul e perfumando‑o com um sopro de almíscar, mas depois tudo voltou a ser quotidiano, o ar apenas ar, a luz outra vez amarela, o cheiro de novo o simples cheiro de todos os dias. Segurei‑lhe a cara entre as minhas mãos e abanei‑a chamando‑lhe mãe, mãe, assustada com aquele silêncio novo que se tinha instalado entre as duas.

‑ Toda a gente morre, não é assim tão importante ‑ disse a minha madrinha cortando‑lhe o cabelo com três tesouradas, pensando vendê‑lo mais tarde numa loja de perucas. ‑ Vamos tirá‑la daqui antes que o patrão a descubra e me obrigue a levá‑la para o laboratório.

Peguei naquela grande trança, enrolei‑a no pescoço e acocorei‑me num canto com a cabeça entre os joelhos, sem lágrimas, porque não conhecia ainda a magnitude da minha perda. Estive assim horas, talvez toda a noite, até que entraram dois homens que lhe envolveram o corpo na única manta da cama e a levaram sem comentários. Então um vazio inclemente ocupou todo o espaço à minha volta.

Depois de a modesta carreta funerária ter partido, a minha madrinha foi buscar‑me. Teve de acender uma vela para me ver, porque o quarto estava às escuras, a torcida do candeeiro tinha‑se queimado e a luz da manhã parecia ter ficado no umbral da porta. Encontrou‑me agachada, um pequeno vulto no chão, e chamou‑me duas vezes pelo meu nome e apelido, para me devolver o sentido da realidade, Eva Luna, Eva Luna. A luz da chama vacilante vi os seus grandes pés dentro das chancas e a barra do seu vestido de algodão, levantei os olhos e dei com o seu olhar húmido. Sorriu‑me no momento em que se apagava a chama incerta do fósforo, depois senti que se inclinava na escuridão, me pegava nos seus grossos braços, me acomodava no colo e começava a embalar‑me adormecendo‑me com um suave lamento africano.

 

‑ Se fosses homem, irias para a escola e depois estudavas para advogado para assegurar o pão da minha velhice. Os advogados são os que mais ganham, sabem enredar as coisas. Em águas turvas são eles quem ganha - dizia a minha madrinha.

Achava que era melhor ser homem, porque até o mais miserável tinha uma mulher em quem mandar, e anos mais tarde cheguei à conclusão de que talvez tivesse razão, embora não conseguisse imaginar‑me dentro de um corpo masculino, com pêlos na cara, com a tentação de mandar e com algo incontrolável abaixo do umbigo, o que, para ser franca não saberia muito bem onde colocar. à sua maneira, a minha madrinha tinha‑me afecto e se não chegou a demonstrá‑lo foi porque pensou ser necessário formar‑me no rigor e porque perdeu a razão muito cedo. Nessa altura não era a ruína que é hoje, era uma morena arrogante de seios generosos, cintura fina e ancas opulentas como uma mesa debaixo das saias. Quando saía à rua os homens viravam‑se quando ela passava gritavam‑lhe piropos grosseiros, tentavam dar‑lhe beliscões e ela não fugia com as nádegas, mas retribuia com uma carteirada contundente, quem pensas tu que és, negro insolente, e ria‑se para mostrar o dente de ouro. Tomava banho todas as noites, de pé numa selha, deitando água com um jarro e esfregando‑se com um trapo ensaboado, mudava de blusa duas vezes por dia, perfumava‑se com água‑de‑rosas, lavava o cabelo com ovo e escovava os dentes com sal para os tornar brilhantes. Tinha um cheiro forte e adocicado que toda a água‑de‑rosas e o sabão não conseguiam abrandar, um cheiro de que eu gostava muito porque me fazia lembrar leite queimado. à hora do banho eu ajudava‑a, despejando‑lhe água pelos ombros abaixo, extasiada ante aquele corpo escuro, de mamilos rosados, púbis sombreado por uma penugem encaracolada, nádegas fofas como o cadeirão de couro acolchoado onde se estendia o professor Jones. Acariciava‑se com o trapo e sorria, orgulhosa da abundância das suas carnes. Caminhava com uma graça insinuante, muito direita, ao ritmo de uma música secreta que trazia dentro de si. Nela tudo o resto era rude, até o riso e o choro. Aborrecia‑se sem pretexto, dava murros no ar, palmadas esvoaçantes que, se aterravam sobre mim, tinham o efeito de um tiro de canhão. Foi desse modo que, sem más intenções, me rebentou o ouvido. Apesar das múmias, pelas quais nunca sentiu a mínima simpatia, serviu como cozinheira do doutor durante muitos anos, ganhando um ordenado miserável de que gastava a maior parte em tabaco e rum. Tomou conta de mim porque tinha adquirido um dever, mais sagrado que os laços de sangue, e quem descuida um afilhado não tem perdão, é pior que abandonar um filho, dizia, a minha obrigação é criar‑te bem, limpa e trabalhadora, porque disso me pedirão contas no dia do Juízo Final. A minha mãe não acreditava em pecados congénitos e por isso não tinha considerado necessário baptizar‑me, mas ela insistira com uma tenacidade sem apelo. Está bem, se isso te dá prazer, comadre, faça o que lhe der na gana, mas não lhe mude o nome que lhe escolhi para ela, aceitou por fim Consuelo. A mulata passou três meses sem fumar nem beber para poupar algumas moedas e no dia marcado comprou‑me um vestido de organdi cor‑de‑morango, pôs‑me um laço nos quatro miseráveis cabelos que me coroavam a cabeça, perfumou‑me com água‑de‑rosas e levou‑me ao colo até à igreja. Tenho uma fotografia do meu baptismo, pareço um alegre presente de aniversário. Como não lhe sobrava dinheiro, pagou o serviço com a limpeza completa do templo, desde varrer o chão até limpar os ornamentos com cré e encerar os bancos de madeira. Assim fui baptizada com toda a pompa e cerimónia, como menina rica.

‑ Se não fosse eu, ainda eras herege. Os inocentes que morrem sem sacramento vão para o limbo e de lá não saem mais ‑ lembrava‑me sempre a minha madrinha. ‑ Outra no meu lugar tinha‑te vendido. É fácil colocar as raparigas de olhos claros, dizem que os gringos as compram e as levam para o seu país, mas eu fiz uma promessa à tua mãe e se não a cumpro vou cozinhar nas panelas do inferno.

Para ela os limites entre o bem e o mal eram muito precisos e estava disposta a preservar‑me do vício à força de pancada, único método que conhecia, porque a tinham educado assim. A ideia de que a brincadeira ou a ternura fossem boas para as crianças é uma descoberta moderna, a ela, isso nunca lhe passou pela cabeça. Tratou de me ensinar a trabalhar depressa, sem perder tempo em sonhos, incomodavam‑na a distracção e a lentidão, queria ver‑me correr quando recebia uma ordem. Tens a cabeça cheia de fumo e a barriga das pernas cheias de areia, dizia ela, e friccionava‑me as pernas com Emulsão de Scott, um tónico muito barato mas de grande prestigio, fabricado com óleo de fígado de bacalhau, que, segundo a propaganda, era a pedra filosofal dos reconstituintes.

O cérebro da madrinha estava um pouco transtornado por causa do rum. Acreditava nos santos católicos, noutros de origem africana e em alguns outros de sua invenção. Tinha colocado no quarto um pequeno altar, onde se alinhavam junto à água benta, os fetiches do vudu, a fotografia do seu falecido pai e um busto que ela acreditava ser de São Cristóvão, mas que mais tarde eu descobri ser de Beethoven, apesar de nunca a ter desenganado, porque é o mais milagroso do seu altar. Falava constantemente com as suas divindades em tom coloquial e altaneiro, pedindo‑lhes favores insignificantes e mais tarde, quando se afeiçoou ao telefone, ligava para o Céu, interpretando o zumbido do aparelho como a resposta alegórica dos seus divinos interlocutores. Desse modo recebia instruções da corte celestial, mesmo para os assuntos mais triviais. Era devota de São Benito, um mocetão louro e folião que as mulheres não deixavam em paz, e que foi posto no fumo do braseiro para ficar chamuscado como um madeiro e só então pôde adorar Deus e fazer os seus prodígios tranquilos, sem aquele bando de luxuriosas agarradas à sua túnica. Rezava‑lhe para aliviar a bebedeira. Era especializada em tormentos e mortes horrorosas, conhecia o fim de todos os mártires e virgens que figuravam no livro dos santos católicos e estava sempre pronta para mos contar. Eu escutava‑a com um terror mórbido e pedia‑lhe sempre novos pormenores. O suplício de Santa Luzia era o meu favorito, queria ouvi‑lo a toda a hora com todos os pormenores: porque razão Luzia repudiou o imperador que dela se enamorou, como lhe arrancaram os olhos, se era verdade que aquelas pupilas tinham lançado um olhar luminoso da bandeja de prata onde repousavam como dois ovos solitários, cegando o imperador, enquanto nela surgiam dois esplêndidos olhos azuis, muito mais bonitos do que os originais.

A fé da minha pobre madrinha era inabalável e nenhuma desgraça posterior pôde abalá‑la. Há pouco tempo, quando o Papa veio cá, consegui autorização para a tirar do sanatório, porque teria sido uma pena não ver o Pontífice com o seu hábito branco e a cruz de ouro, pregando as suas convicções indemonstráveis, num perfeito espanhol ou no dialecto dos índios, conforme a ocasião. Ao vê‑lo avançar no seu aquário de vidro blindado pelas ruas recém‑pintadas, entre flores, cartazes, bandeirinhas e guarda‑costas, a minha madrinha, já muito velha, caiu de joelhos, persuadida de que o Profeta Elias andava em viagem de turismo. Tive medo de que a multidão a esmagasse e quis levá‑la dali, mas ela não se moveu até eu lhe comprar um cabelo do Papa como relíquia. Nesses dias muita gente se tornou boa, alguns prometeram perdoar as dívidas e não mencionar a luta de classes ou os anticoncepcionais para não dar motivos de tristeza ao Santo Padre, mas a verdade é que eu não me entusiasmei com o insigne visitante, porque não guardava boas recordações da religião. Num domingo da minha infância a madrinha levou‑me à paróquia e fez‑me ajoelhar numa cabina de madeira com cortinas. Eu tinha os dedos entorpecidos e não os podia cruzar como ela me tinha ensinado. Através de uma rede chegou‑me um bafo forte, conta‑me os teus pecados, ordenou‑me, e nesse momento esqueci‑me de todos os que tinha inventado, não soube que responder, atrapalhada tratei de pensar em algum, mesmo que fosse venial, mas nem o mais insignificante me veio à cabeça.

‑ Tocas o corpo com as mãos?

‑Sim...

‑ Muitas vezes, filha?

‑ Todos os dias.

‑ Todos os dias! Quantas vezes?

‑ Não sei quantas... muitas vezes...

‑ Isso é uma ofensa gravíssima aos olhos de Deus!

‑ Não sabia, padre. E se eu puser luvas também é pecado?

‑ Luvas! Que dizes tu, insensata! Estás a brincar comigo?

‑ Não, não... ‑ murmurei aterrada, imaginando que de qualquer maneira seria bem difícil lavar a cara, escovar os dentes ou coçar‑me com luvas.

‑ Promete que não tornas a fazer isso. A pureza e a inocência são as melhores virtudes de uma menina. Vais rezar quinhentas Avé‑Marias de penitência para Deus te perdoar.

‑ Não posso, padre! ‑ respondi, porque só sabia contar até vinte.

‑ Não podes como! ‑ rugiu o sacerdote e uma chuva de saliva atravessou o confessionário e caiu‑me em cima.

Saí a correr, mas a madrinha apanhou‑me em voo e reteve‑me por uma orelha enquanto falava com o padre sobre a conveniência de me pôr a trabalhar, antes que o meu carácter mudasse mais e a minha alma acabasse por se perder.

Depois da morte da minha mãe chegou a hora do professor Jones. Morreu de velhice, desiludido com o mundo e com a sua própria sabedoria, mas eu podia jurar que morreu em paz. Face à impossibilidade de se embalsamar a si próprio e permanecer dignamente entre os seus móveis ingleses e os seus livros, deixou instruções no testamento para que os seus restos fossem enviados para a sua distante cidade natal, porque não queria acabar no cemitério local, coberto por pó estrangeiro, debaixo de um sol inclemente e em promiscuidade com vá lá saber‑se que classe de gente, costumava ele dizer. Agonizou debaixo da ventoinha do quarto, cozido no suor da paralisia, sem mais companhia do que o religioso da Biblia e eu. Perdi os últimos resquicios do medo que ele me inspirava, quando compreendi que não podia mover‑se sem ajuda e quando trocou a voz de trovão por um interminável arfar de moribundo.

Nessa casa fechada ao mundo, onde a morte tinha instalado os seus quartéis desde o dia em que o doutor iniciou as suas experiências, eu vagueava sem vigilância. A disciplina dos empregados relaxou, assim que o professor deixou de poder sair do quarto para os repreender sentado na cadeira de rodas e confundi-los com ordens contraditórias. Vi como de cada vez que saiam levavam as salvas de prata, os tapetes, os quadros e até os frascos de cristal onde o sábio guardava as suas fórmulas. Já ninguém servia à mesa do patrão com toalhas engomadas e louça reluzente, ninguém acendia os lustres nem lhe chegava o cachimbo. A minha madrinha deixou de preocupar‑se com a cozinha e passou a fazer bananas assadas, arroz e peixe frito a todas as refeições. Os outros abandonaram os seus trabalhos de limpeza e a imundície e a humidade avançaram pelas paredes e pelos sobrados de madeira. O jardim não tinha sido tratado desde o acidente com a surucucu, muitos anos antes, e como resultado de tanto descuido uma vegetação agressiva estava prestes a devorar a casa e a invadir o passeio. Os criados dormiam a sesta, iam passear a qualquer hora, bebiam rum em demasia e passavam o dia com o rádio aceso onde ribombavam os boleros, as cumbias e as rancheras. O infeliz professor, que nos seus tempos de saúde não tolerava senão os seus discos de música clássica, sofria horrores com a barulheira e era em vão que tocava a campainha para chamar os empregados, pois ninguém acudia. A minha madrinha só subia ao seu quarto quando ele estava a dormir para o aspergir com água‑benta surripiada na igreja, porque lhe parecia uma maldade muito grande deixá‑lo morrer sem sacramento, como um mendigo.

Na manhã em que uma das criadas abriu a porta ao pastor protestante vestida apenas com soutien e cuecas porque tinha muito calor, suspeitei que o desleixo tinha atingido o máximo e já não havia razão para me manter a uma prudente distância do patrão. A partir desse momento comecei a visitá‑lo com frequência, a princípio espreitando da ombreira, depois invadindo a pouco e pouco o quarto, até acabar a brincar na sua cama. Passava horas junto do velho tentando comunicar com ele, até que consegui entender os seus murmúrios de hemiplégico estrangeiro. Quando eu estava a seu lado, o professor parecia esquecer por alguns momentos a humilhação da sua agonia e os tormentos da imobilidade. Eu tirava os livros das prateleiras sagradas e segurava‑os diante dele, para que pudesse lê‑los. Alguns estavam escritos em latim, mas ele traduzia‑mos aparentemente encantado por me ter como aluna e lamentando em voz alta nunca se ter apercebido de que eu vivia na sua casa. Talvez nunca tivesse tocado numa criança e descobriu demasiado tarde que tinha vocação para avô...

‑ De onde saiu esta criatura? ‑ perguntava mastigando o ar. ‑ Será minha filha, minha neta ou uma alucinação do meu cérebro doente? É morena mas tem os olhos parecidos com os meus... Anda cá pequena, para te ver de perto.

Não conseguia relacionar‑me com Consuelo, apesar de recordar bem a mulher que o serviu com lealdade durante mais de vinte anos e que numa ocasião inchara como um zepelim, com uma forte indigestão. Falava‑me frequentemente dela, certo de que os seus últimos momentos teriam sido diferentes se a tivesse tido junto da cama. Ela não o teria atraiçoado, dizia.

Introduzi‑lhe tampões de algodão nas orelhas para não enlouquecer com as canções e as novelas da rádio, lavava‑o e punha‑lhe toalhas dobradas debaixo do corpo, para evitar que ensopasse de urina o colchão, e arejava‑lhe o quarto e metia‑lhe na boca papa de bebé. Aquele velhote de barba prateada era o meu boneco. Um dia ouvi‑o dizer ao pastor que eu era mais importante para ele do que todos os êxitos científicos obtidos até então. Disse‑lhe algumas mentiras: que tinha uma família numerosa à sua espera na terra, que era avô de vários netos e que possuía um jardim cheio de flores. Havia na biblioteca um puma embalsamado, uma das primeiras experiências do sábio com o líquido prodigioso. Arrastei‑o até ao seu quarto, deitei‑o aos pés da cama e disse‑lhe que era o seu cão de estimação, não se lembrava dele? O pobre animal estava triste.

‑ Escreva no meu testamento, pastor. Desejo que esta menina seja a minha herdeira universal. Tudo será dela quando eu morrer ‑ conseguiu balbuciar ao religioso que o visitava quase todos os dias, arruinando‑lhe o gosto da própria morte com ameaças de eternidade.

A madrinha instalou um catre junto da cama do moribundo. Uma manhã o doente acordou mais pálido e cansado do que o costume, não aceitou o café com leite que lhe quis dar, em contrapartida deixou‑se lavar, pentear a barba, mudar a camisa de dormir e refrescar‑se com colónia. Esteve até ao meio‑dia reclinado nos seus almofadões, silencioso, a olhar para a janela. Recusou as papas do almoço e quando o aconcheguei para a sesta, pediu‑me que ficasse a seu lado em silêncio. Estávamos os dois a dormir sossegadamente quando a vida se lhe apagou.

O pastor chegou ao entardecer e tomou a seu cargo todas as disposições. Mandar o corpo para o seu país natal tornava‑se pouco prático, principalmente se não havia ninguém interessado em recebê‑lo, por isso ignorou as instruções e enterrou‑o sem grandes cerimónias. Só nós, os criados, assistimos àquele triste funeral. O prestígio do professor Jones tinha‑se diluído, ultrapassado pelos novos avanços da ciência e ninguém, apesar de a notícia ter sido publicada na imprensa, se incomodou a acompanhá‑lo ao cemitério. Após tantos anos de clausura, eram poucos os que o recordavam e quando algum estudante de medicina o citava era apenas para gozar as suas cacetadas para estimular a inteligência, os seus insectos para combater o cancro e o seu líquido para conservar os cadáveres.

Com a morte do patrão, o mundo onde eu tinha vivido desmoronou‑se. O pastor fez o inventário dos bens e apropriou‑se deles, partindo do princípio de que o sábio tinha perdido o juízo nos últimos tempos e não tinha capacidade para tomar decisões. Foi tudo parar à sua igreja, menos o puma do qual não me quis separar não só porque o tinha cavalgado desde pequena mas porque de tanto dizer ao doente que se tratava de um cão acabei por acreditar nisso. Quando os carregadores quiseram metê‑lo no camião de mudanças, armei um tal chinfrim que o presbítero, ao ver‑me deitar espuma pela boca e gritar, preferiu ceder. Suponho também que o animal não deveria ter qualquer utilidade para alguém, assim pude ficar com ele. Não foi possível vender a casa porque ninguém a quis comprar. Estava marcada pelo estigma das experiências do professor Jones e acabou por ser abandonada. Ainda hoje existe. Com o decorrer dos anos tornou‑se numa mansão de terror, onde os rapazes provam a sua coragem passando lá a noite entre gemidos de portas, correrias de ratos e soluços de almas. As múmias do laboratório foram transferidas para a Faculdade de Medicina, onde estiveram arrumadas numa cave durante muito tempo, até que de súbito renasceu a ânsia de descobrir a fórmula secreta do doutor e três gerações de estudantes dedicaram‑se a arrancar‑lhes pedaços e a passá‑las por diversas máquinas até as reduzirem a um desprezível picado.

O pastor despediu os empregados e fechou a casa. Foi assim que saí do lugar onde tinha nascido, carregando o puma pelas patas de trás, enquanto a minha madrinha o levava pelas da frente.

‑ Já estás crescida e não posso continuar a sustentar‑te. Agora vais trabalhar para ganhar a vida e te tornares forte, é assim que deve ser ‑ disse a madrinha. Eu tinha sete anos.

 

A madrinha esperou na cozinha, sentada numa cadeira de palha, costas direitas, um bolso de plástico bordado com missangas na saia, metade dos seios entrevendo‑se pelo decote da blusa, as coxas transbordando do assento. De pé, a seu lado, eu passava revista com o rabinho do olho aos tarecos de ferro, à geleira oxidada, aos gatos deitados debaixo da mesa, ao aparador com a rede onde se estilhaçavam as moscas. Tinha deixado a casa do professor Jones fazia dois dias e ainda não me sobrepusera à desordem. Em poucas horas tornei‑me intratável. Não queria falar com ninguém. Sentava‑me num canto com a cara escondida entre os braços e então, tal como agora, aparecia a minha mãe, fiel à promessa de continuar viva enquanto eu a recordasse. Entre as paredes daquela cozinha estranha trabalhava uma negra seca e rude que nos observava com desconfiança.

‑ A rapariga é sua filha? ‑ perguntou.

‑ Como é que pode ser minha, não vê a cor? ‑ respondeu a minha madrinha.

‑ De quem é então?

‑ É minha afilhada de baptismo. Trago‑a para trabalhar.

Abriu‑se a porta e entrou a dona da casa, uma mulher pequena, com um complicado penteado de tranças e caracóis rijos, vestida de luto rigoroso e com um relicário grande e dourado como uma medalha de embaixador pendurado ao pescoço.

‑ Aproxima‑te para te ver ‑ ordenou‑me, mas eu estava pregada ao chão, não consegui mexer‑me e a madrinha teve de me empurrar para a frente para que a patroa me pudesse examinar: o couro cabeludo para ver se tinha piolhos, as unhas à procura das linhas transversais próprias dos epilépticos, os dentes, as orelhas, a pele e a força de braços e pernas. ‑ Tem lombrigas?

‑ Não minha senhora, está limpa por dentro e por fora.

‑ Está fraca.

‑ Desde há algum tempo falta‑lhe o apetite, mas não se preocupe, é enérgica para o trabalho. Ela aprende facilmente e tem muito juízo.

‑ É chorona?

‑ Não chorou nem quando enterrámos a mãe, que descanse em paz.

‑ Ficará à experiência por um mês ‑ determinou a patroa e saiu sem se despedir.

A madrinha fez‑me as últimas recomendações: não sejas insolente, cuidado não partas nada, não bebas água de tarde porque podes molhar a cama, porta‑te bem e obedece.

Esboçou um movimento para me beijar, mas mudou de ideias e fez‑me uma carícia desajeitada na cabeça, deu meia volta e saiu pela porta de serviço com passos firmes, mas apercebi‑me que estava triste. Tínhamos estado sempre juntas, era a primeira vez que nos separávamos. Fiquei no mesmo sítio com os olhos fixos na parede. A cozinheira acabou de fritar umas rabanadas de banana, agarrou‑me pelos ombros, sentou‑me numa cadeira, e por sua vez sentou‑se a meu lado e sorriu.

‑ És então a nova criada... Bem, passarinho, come ‑ e colocou um prato à minha frente. ‑ A mim chamam‑me Elvira, nasci no litoral, num dia que foi domingo a 29 de Maio, mas do ano não me recordo. O que tenho feito na minha vida tem sido só trabalhar e pelo que vejo esse há‑de ser também o teu caminho. Tenho as minhas manias e os meus costumes, mas vamos dar‑nos bem se não fores atrevida, porque eu sempre quis ter netos, mas Deus fez‑me tão pobre que nem família me deu.

Nesse dia começou uma nova vida para mim. A casa onde me empregaram estava cheia de móveis, quadros, estatuetas, plantas em colunas de mármore, mas esses ornamentos não conseguiam esconder o musgo que crescia nas canalizações, as paredes manchadas pela humidade, o pó de anos acumulado debaixo das camas e por detrás dos armários, tudo me parecia sujo, muito diferente da casa do professor Jones, que, antes do ataque cerebral, se arrastava pelo chão para passar o dedo pelos cantos. Cheirava a melões podres e apesar das persianas fechadas para tapar o sol, fazia um calor sufocante. Os proprietários eram um casal de irmãos solteirões, a senhora do relicário e um gordo sexagenário, com um grande nariz polpudo, cheio de buracos e tatuado com um arabesco de veias azuis. Elvira contou‑me que a senhora tinha passado uma boa parte da sua vida num cartório escrevendo em silêncio e contendo o desejo de gritar que só agora, reformada e em sua casa, podia satisfazer. Todo o dia dava ordens com voz esganiçada, apontando com um peremptório indicador, incansável na sua ânsia de maltratar, enojada com o mundo e consigo mesma. O irmão, limitava‑se a ler o jornal e a gazeta hípica, a beber, a dormitar numa cadeira de balanço no corredor, a passear‑se em pijama, arrastando as pantufas pelos ladrilhos e a coçar‑se entrepernas. Ao anoitecer despertava da sonolência diurna, vestia‑se e saía para jogar dominó nos cafés, todas as tardes menos ao domingo em que ia ao hipódromo para perder o que ganhava durante a semana. Também lá viviam uma criada de servir, de ossos grandes e cérebro de canário, que trabalhava desde a madrugada até à noite e que durante a sesta desaparecia no quarto do solteirão; a cozinheira, os gatos e um papagaio taciturno meio depenado.

 

A patroa deu ordens à Elvira para me dar banho com sabão desinfectante e queimar toda a minha roupa. Não me rapou o cabelo como então se fazia às criadas para evitar os piolhos, porque o irmão a impediu. O homem com nariz de morango falava suavemente, sorria muito e eu achava‑o simpático mesmo quando estava bêbado. Compadeceu‑se da minha angústia perante as tesouras e conseguiu salvar a melena que a minha mãe tanto escovava. Que estranho, não consigo recordar‑me do seu nome... Naquela casa eu usava um avental feito pela senhora na sua máquina de costura e andava descalça. Depois do primeiro mês à experiência, disseram‑me que devia trabalhar mais porque agora ganhava um salário. Nunca o vi, quem o recebia era a minha madrinha, de quinze em quinze dias. Ao princípio esperava as suas visitas com impaciência e mal chegava pendurava‑me no seu vestido, implorando‑lhe que me levasse com ela, mas depois acostumei‑me, apeguei‑me a Elvira e fiz‑me amiga dos gatos e do pássaro. Quando a patroa me lavou a boca com bicarbonato para me tirar o hábito de murmurar entredentes, deixei de falar com a minha mãe em voz alta mas continuei a fazê‑lo em segredo. Havia muito que fazer, aquela casa parecia uma maldita caravela encalhada, e apesar da vassoura e da escova nunca estava limpa essa imprecisa florescência que avançava pelas paredes. A comida não era nem variada nem abundante, mas Elvira escondia as sobras dos patrões e dava‑mas ao pequeno‑almoço, porque tinha ouvido na rádio que é bom começar o dia com o estômago cheio, para que aproveites os miolos e um dia sejas instruída, passarinho, dizia‑me. à solteirona não lhe escapava nada, hoje vais lavar os pátios com creolina, não te esqueças de passar a ferro os gurdanapos e cuidado não os queimes, tens de limpar os vidros com papel de jornal e vinagre e quando acabares vem cá para te ensinar a puxar o brilho aos sapatos do senhor. Eu obedecia sem problemas, porque depressa descobri que se mandriasse com cuidado, podia passar o dia sem fazer quase nada. A senhora do relicário começava a dar ordens desde que se levantava de madrugada, fazendo brilhar, desde essa hora, a roupa negra dos seus lutos sobrepostos, o seu relicário e o seu complicado penteado, mas enredava‑se nas suas próprias ordens e era fácil enganá‑la. O patrão interessava‑se muito pouco pelos assuntos domésticos, vivia ocupado com as corridas de cavalos, estudando os antepassados dos animais, calculando a lei das probabilidades e bebendo para se consolar dos seus fracassos nas apostas. às vezes, o nariz punha‑se‑lhe como uma beringela, então chamava‑me para o ajudar a meter na cama e a esconder as garrafas vazias. Por seu lado, a criada não tinha qualquer interesse em se relacionar com ninguém, muito menos comigo. Só Elvira se ocupava de mim, obrigava‑me a comer, ensinava‑me a lida da casa e poupava‑me dos trabalhos mais pesados.

Passávamos horas a conversar e a contar histórias uma à outra. Por essa altura começaram algumas das suas excentricidades, como o ódio irracional contra os estrangeiros de cabelo louro e as baratas, as quais combatia com todas as armas ao seu alcance, desde cal viva até vassouradas. Em contrapartida não disse nada quando descobriu que eu dava de comer aos ratos e tratava das crias para que os gatos as não devorassem. Tinha medo de morrer na penúria e acabar com os ossos numa vala comum e para evitar essa póstuma humilhação comprou um caixão a prestações que guardava no quarto, usando‑o como armário para guardar os seus trastes velhos. Era um caixão de madeira vulgar que cheirava a grude de carpinteiro, forrado em cetim branco com fitas azul‑celeste, com uma pequena almofada. De vez em quanto tinha o privilégio de me deitar lá dentro e fechar a tampa, enquanto Elvira fingia um pranto inconsolável e entre soluços recitava as minhas hipotéticas virtudes, ai, Deus Santíssimo, porque levaste o passarinho de junto de mim, tão boa, tão limpa e arrumada, quero‑lhe mais do que se fosse minha própria neta, faz um milagre, devolve‑ma, Senhor. A brincadeira durava até que a criada perdia o controlo e começava a uivar.

Os dias para mim eram todos iguais, excepto à quinta‑feira, cuja proximidade calculava pelo calendário da cozinha. Toda a semana aguardava o momento de passar as grades do jardim e partir para o mercado. Elvira calçava‑me as chinelas de borracha, mudava‑me o avental, penteava‑me com um rabo de cavalo e dava‑me um centavo para comprar um chupa‑chupa quase invulnerável aos dentes humanos, pintado de cores brilhantes, que se podia lamber durante horas sem diminuir o seu tamanho. Esse doce dava‑me para seis ou sete noites de intenso prazer e para muitas chupadelas vertiginosas entre dois trabalhos pesados. A patroa caminhava à frente apertando a carteira, abram os olhos, não se distraiam, não saiam do meu lado, isto está cheio de ladrões, avisava‑nos. Avançava com passos decididos, observando, apalpando, regateando, estes preços são um escândalo, os especuladores deviam ir parar à cadeia. Eu caminhava atrás da criada, um saco em cada mão, o chupa‑chupa no bolso. Observava as pessoas tentando adivinhar as suas vidas e segredos, as suas virtudes e aventuras. Regressava a casa com os olhos a arder e o coração em festa, corria para a cozinha e enquanto ajudava Elvira a descarregar, aturdia‑a com histórias de cenouras e pimentos encantados, que ao cair na sopa se transformavam em príncipes e princesas e saíam aos saltos por entre as panelas, com ramos de salsa entrelaçados nas coroas e escorrendo sopa das roupagens reais.

‑ Xiu!... vem aí a senhora! Agarra na vassoura, passarinho.

Durante a sesta, quando o silêncio e o sossego se apoderavam da casa abandonava as minhas tarefas para ir à casa de jantar, onde estava pendurado um grande quadro de moldura dourada, janela aberta para um horizonte marinho, ondas, rochas, céu brumoso e gaivotas. Ficava de pé, com as mãos nas costas e os olhos cravados naquela irresistível paisagem de água, a cabeça perdida em viagens infinitas, em sereias, delfins e raias que um dia tinham surgido da fantasia da minha mãe ou dos livros do professor Jones. De entre tantas histórias que ela me contou, eu preferia aquelas em que figurava o mar, porque me faziam sonhar com ilhas remotas, vastas cidades submersas, caminhos oceânicos para a navegação dos peixes. Tenho a certeza de que temos um antepassado marinheiro, dizia a minha mãe, todas as vezes que eu lhe pedia outra dessas histórias. Assim nasceu finalmente a lenda do avô holandês. Em frente desse quadro, eu recuperava a emoção de antigamente, quando me sentava junto dela para a ouvir falar ou quando a acompanhava na azáfama da casa, sempre próxima para sentir o seu aroma ténue a trapos, lixívia e fécula.

‑ Que fazes aqui! ‑ vociferava a patroa se me descobria. - Não tens nada para fazer? Este quadro não é para ti!

Deduzi que as pinturas se gastam, que a cor se mete pelos olhos de quem as vê e assim vão desbotando até desaparecer.

‑ Não, filha, como te passou isso pela cabeça, não se gastam. Vem cá, dá‑me um beijo no nariz e deixo‑te ver o mar. Dá‑me outro e dou‑te uma moeda, mas não digas nada à minha irmã, ela não compreende. Tens nojo do meu nariz ‑ e o patrão escondia‑se comigo por detrás dos fetos para essa carícia clandestina.

Para dormir, tinham‑me destinado uma rede que se pendurava na cozinha, mas quando todos se deitavam, eu escapava‑me até ao quarto de serviço e enfiava‑me no catre que a criada e a cozinheira compartilhavam, uma virada para a cabeceira, a outra para os pés. Enrolava‑me junto de Elvira e oferecia‑lhe um conto em troca de me deixar ficar com ela.

‑ Está bem, conta‑me aquele do homem que perdeu a cabeça por amor.

‑ Esse esqueci‑o, mas lembro‑me de outro, de animais.

‑ A tua mãe tinha com certeza um ventre muito líquido para te dar essa imaginação que tens para contar histórias, passarinho.

 

Lembro‑me muito bem, era um dia de chuva, havia um cheiro esquisito a melões podres, mijo de gato e um bafo quente que vinha da rua, um cheiro que enchia a casa, tão forte que se podia agarrar com os dedos. Eu estava na casa de jantar viajando por mar. Não ouvi os passos da minha patroa e ao sentir a sua garra no pescoço, a surpresa trouxe‑me de muito longe, num instante, paralisando‑me na incerteza de não saber onde me encontrava.

‑ Outra vez aqui? Vai fazer o teu trabalho. Para que é que julgas que te pago?

‑ Já terminei, patroazinha...

A patroa pegou na jarra do aparador, voltou‑a e despejou no chão a água suja e as flores já murchas.

‑ Limpa!, ordenou‑me.

Desapareceram o mar, as rochas envoltas em bruma, o emaranhado rubro das minhas nostalgias, os móveis da sala de jantar e só vi aquelas flores sobre os ladrilhos, a inchar, a moverem‑se como se tivessem vida e aquela mulher com a torre de caracóis e medalhão ao pescoço. Cresceu dentro de mim um não monumental, que me afogava, senti‑o sair num grito profundo e vi‑o amachucar‑se contra o rosto empoado da patroa. Não me doeu o bofetão na cara, porque já muito antes a raiva me enchera completamente e eu fizera o gesto de lhe saltar em cima, atirá‑la ao chão, arranhar‑lhe a cara, agarrá‑la pelos cabelos e puxar‑lhos com todas as minhas forças. Então, a trança cedeu, os caracóis desmoronaram‑se, o chinó desprendeu‑se, todo aquele amontoado de cabelos ásperos ficou nas minhas mãos, como um rapozinho agonizante. Aterrorizada, compreendi que lhe tinha arrancado o couro cabeludo.

Saí disparada, atravessei a casa e o jardim sem saber onde punha os pés e corri para a rua. Em pouco tempo, a chuva morna de Verão ensopou‑me e quando me vi encharcada parei. Atirei fora o peludo troféu e deixei‑o cair na valeta, de onde a água do esgoto o arrastou navegando com o lixo. Fiquei vários minutos a observar aquele naufrágio de cabelos que vogava tristemente sem rumo, convencida de que chegara ao limite do meu destino, certa de que não encontraria onde esconder‑me depois do crime cometido. Deixei para trás as ruas da vizinhança, passei o sítio do mercado das quintas‑feiras, abandonei a zona residencial das casas fechadas à hora da sesta e continuei a caminhar. A chuva parou e o sol das quatro horas evaporou a humidade do asfalto, envolvendo tudo num véu pegajoso. Gente, tráfico, ruído, muito ruído, construções onde rugiam máquinas amarelas de proporções gigantescas, pancadas de ferramentas, travagens de veículos, buzinas, pregões de vendedores ambulantes. Um vago cheiro a pântano e fritos emanava dos cafés e lembrei‑me que era a hora do lanche, deu‑me fome mas não levava dinheiro e na fuga tinha deixado para trás os restos do chupa‑chupa semanal. Calculei que andava às voltas há várias horas. Tudo me parecia assustador.

Nessa época a cidade não era o desastre irremediável que é hoje mas já crescia disforme, como um tumor maligno, agredida por uma arquitectura demencial, mescla de todos os estilos, palacetes de mármore italiano, ranchos texanos, mansões Tudor, arranha‑céus em aço, residências em forma de barco, de mausoléu, de salão de chá japonês, de cabana alpina e de bolo de noiva com enfeites de gesso. Senti‑me atordoada.

Ao entardecer cheguei a uma praça cercada de ceibas, árvores solenes que vigiam o local desde a Guerra da Independência, coroada por uma estátua equestre em bronze, do Pai da Pátria, com a bandeira numa mão e as rédeas na outra, humilhado com tanta caca de pombo e tanto desencanto histórico. Numa esquina vi um camponês vestido de branco, com chapéu de palha e alpergatas, rodeado de curiosos. Aproximei‑me para o ver. Falava a cantar e por algumas moedas mudava de tema e continuava a improvisar versos, sem pausa nem hesitação, de acordo com os pedidos de cada cliente. Comecei a imitá‑lo em voz baixa e descobri que rimando é mais fácil recordar as histórias, porque o conto vibra com a sua própria música. Fiquei a escutar até que o homem recolheu as gorgetas e partiu. Durante um bocado entretive‑me à procura de palavras que soassem parecidas: era uma boa maneira de memorizar as ideias e assim poderia repetir os contos a Elvira. Ao pensar nela veio‑me à memória o cheiro a cebola frita e dei‑me conta da minha situação e senti uma coisa fria pelas costas. Voltei a ver o chinó da minha patroa a flutuar na vala como um cadáver de sarigueia e as profecias que a minha madrinha me fizera mais do que uma vez, martelaram‑me os ouvidos: má, menina má, vais acabar na cadeia, começa‑se assim, desobedecendo e faltando ao respeito e depois acabas atrás das grades, digo-te eu, esse vai ser o teu fim. Sentei‑me na borda do tanque a olhar os peixes coloridos e os nenúfares murchos devido ao clima.

‑ Que se passa? ‑ Era um rapaz de olhos escuros, vestido com umas calças de cotim e uma camisa grande de mais para ele.

‑ Vão‑me prender.

‑ Quantos anos tens?

‑ Nove, mais ou menos.

‑ Então não podem meter‑te na cadeia. És menor.

‑ Arranquei a cabeleira da cabeça da minha patroa.

‑ Como?

‑ Com um puxão.

Sentou‑se ao meu lado olhando‑me de soslaio, esgaravatando a porcaria das unhas com um canivete.

‑ Chamo‑me Huberto Naranjo, e tu?

‑ Eva Luna. Queres ser meu amigo?

‑ Eu não ando com mulheres. ‑ Mas ficou e estivemos até tarde mostrando‑nos cicatrizes, trocando confidências, conhecendo‑nos, iniciando assim a longa relação que nos conduziria depois pelos caminhos da amizade e do amor.

Assim que começou a andar, Huberto Naranjo viveu na rua, primeiro a engraxar sapatos e a distribuir jornais, depois sobrevivendo através de transacções insignificantes e roubos. Tinha uma habilidade natural para enrolar os incautos e tive ocasião de apreciar o seu talento no tanque da praça. Atraía os transeuntes com gritos até juntar uma pequena multidão de funcionários públicos, reformados, poetas e alguns guardas destacados para o local a fim de impedir que alguém cometesse a irreverência de passar sem casaco em frente da estátua equestre. A aposta consistia em agarrar um peixe da fonte introduzindo metade do corpo na água, remexendo entre as raízes das plantas aquáticas e tocando às apalpadelas o fundo escorregadio. Huberto tinha cortado a cauda a um e o pobre do bicho só podia nadar em círculos como um pião ou permanecer imóvel debaixo de um nenúfar, onde ele o apanhava com uma sapatada. Enquanto Huberto exibia triunfante a sua pescaria, os outros pagavam a aposta com mangas e dignidade ensopadas. Outra maneira de ganhar alguns cobres consistia em adivinhar qual era a carica marcada entre três que ele movia a toda a velocidade sobre um pedaço de pano estendido no chão. Podia tirar o relógio a um transeunte em menos de dois segundos e fazê‑lo desaparecer no ar em igual tempo. Alguns anos mais tarde, vestido com uma manta de vaqueiro e chapéu mexicano venderia desde chaves de parafusos roubadas até camisas com defeito, conseguidas nos excedentes das fábricas. Aos dezasseis anos seria chefe de um bando, temido e respeitado, controlaria vários triciclos de venda de amendoim torrado, salsichas e sumo de cana, seria o herói do bairro das putas e o pesadelo da polícia, até que outros negócios o levassem à montanha. Mas isso foi muito tempo depois. Quando o encontrei pela primeira vez ainda era um menino, mas se eu o tivesse observado com mais atenção, talvez tivesse descoberto o homem em que se tornaria, porque já nessa altura tinha os punhos decididos e o coração ardente. É preciso ser bastante macho, dizia Naranjo. Era o seu estribilho, baseado nalguns atributos masculinos que em nada diferiam dos de outros rapazes, mas que ele punha à prova medindo o pénis com um metro de costureira ou mostrando a pressão do jacto de mijo, como vim a saber muito mais tarde, quando ele próprio gozava com esses métodos. Nessa altura alguém o tinha informado de que o tamanho daquilo não era prova irrefutável de virilidade. De qualquer modo, as suas ideias sobre a virilidade estavam arreigadas nele desde a infância e tudo o que experimentou depois, todas as batalhas e paixões, todos os encontros e discussões, todas as revoltas e derrotas, não foram suficientes para o fazer mudar de opinião.

 

Ao anoitecer saímos à procura de comida pelos restaurantes do bairro. Sentados numa viela estreita, em frente à porta das traseiras de um refeitório, partilhámos uma piza fumegante que Huberto trocou com o criado por um bilhete postal onde sorria uma loira de seios saltitantes. Em seguida percorremos um labirinto de pátios, atravessando cercas e violando propriedades alheias, até chegar a um parque de estacionamento. Deslizámos por uma clarabóia de ventilação para evitar o gordo que vigiava a entrada e escapulimo‑nos até à última cave. Num canto escuro entre duas colunas, Huberto tinha improvisado um ninho de papel de jornal para dormir quando não conseguia um lugar mais acolhedor. Assim instalados, dispusemo‑nos a passar a noite deitados lado a lado na penumbra, envoltos pelo cheiro do óleo de motor e o monóxido de carbono que impregnava o ambiente como um fumo de transatlântico. Aninhei‑me entre os papéis e ofereci‑lhe um conto em paga de tantas e tão finas atenções.

‑ Está bem ‑ aceitou ele, um pouco desconcertado porque, creio, em toda a sua vida nunca ouvira nada que se parecesse remotamente com um conto.

‑ De que é que queres?

‑ De bandidos ‑ disse ele, para dizer alguma coisa.

Evoquei alguns episódios das novelas de rádio, letras de rancheras e outros ingredientes da minha invenção e comecei imediatamente com a história de uma donzela apaixonada por um bandoleiro, um verdadeiro chacal que resolvia até o mais pequeno contratempo com balázios, semeando a região de viúvas e órfãos. A jovem não perdia a esperança de o redimir com a força da sua paixão e a doçura do seu carácter e, assim, enquanto ele andava a fazer as suas patifarias, ela recolhia os próprios órfãos produzidos pelas insaciáveis pistolas do malvado. A sua chegada a casa era como um vento do inferno, entrava aos pontapés nas portas e a disparar para o ar, ela suplicava‑lhe de joelhos que se arrependesse das suas crueldades, mas ele gozava com ela dando tremendas gargalhadas que estremeciam as paredes e gelavam o sangue. Que se passa, beleza?, perguntava aos gritos enquanto as crianças aterrorizadas se escondiam no armário. Como estão os miúdos?, e abria a porta do móvel para os puxar pelas orelhas e tirar‑lhes as medidas. Ora ai está!, estou a ver que estão muito crescidos, mas não te preocupes, que num abrir e fechar de olhos vou à aldeia e faço-te outros órfãozinhos para a tua colecção. E assim decorreram os anos e foram aumentando as bocas para alimentar, até que um dia a noiva, cansada de tanto abuso, compreendeu a inutilidade de continuar à espera da redenção do bandido e sacudiu a bondade. Fez uma permanente, comprou um vestido vermelho e transformou a casa num lugar de festa e diversão, onde se podiam comer os mais saborosos gelados e o melhor leite com malte, fazer toda a espécie de jogos, dançar e cantar. As crianças divertiam‑se muito a atender a clientela, acabaram‑se as penúrias e misérias e a mulher estava tão contente, que esqueceu as desgraças de antigamente. As coisas corriam muito bem; mas os falatórios chegaram aos ouvidos do chacal e uma noite apareceu como de costume, batendo nas portas, disparando para o tecto e perguntando pelas crianças. Teve uma surpresa. Ninguém tremeu na sua presença, ninguém foi a correr para o armário, a jovem não se atirou aos seus pés a implorar compaixão. Todos continuaram alegremente nas suas ocupações, uns a servir gelados, outros a tocar bateria e tambores e ela a dançar o mambo em cima de uma mesa com um espalhafatoso chapéu decorado com frutas tropicais. Então o bandido, furioso e humilhado, partiu com as suas pistolas em busca de outra noiva que tivesse medo dele e, vitória, vitória, acabou‑se a história.

Huberto Naranjo escutou‑me até ao fim.

‑ É uma história idiota... Mas, está bem, quero ser teu amigo ‑, disse.

Vagueámos pela cidade uns dias. Ele ensinou‑me as vantagens da rua e alguns truques para sobreviver: foge da autoridade, porque, se te agarram estás fodida, para roubar nos autocarros põe‑te atrás e aproveita quando se abre a porta para meter a mão e saltar fora, a melhor comida consegue‑se a meio da manhã entre os desperdícios do Mercado Central e a meio da tarde nos latões dos hotéis e restaurantes.

Seguindo‑o nas suas correrias, experimentei pela primeira vez a bebedeira da liberdade, aquela mescla de ansiosa exaltação e vertigem de morte que a partir de então me aparece em sonhos com tal nitidez que é como se a vivesse acordada. Mas na terceira noite, dormindo ao relento, cansada e suja, tive um arrebatamento de nostalgia. Pensei primeiro em Elvira, lamentando não poder regressar ao local do crime, e depois na minha mãe e quis recuperar a sua trança e ver de novo o puma embalsamado. Então, pedi a Huberto Naranjo que me ajudasse a encontrar a madrinha.

‑ Para quê? Não estamos bem assim? És uma parva.

Não atinei na explicação das minhas razões, mas insisti muito e por fim ele resignou‑se a colaborar, depois de me advertir que me arrependeria por todos os dias da minha vida. Conhecia bem a cidade, viajava pendurado nos estribos ou nos pára‑choques dos autocarros e pelas minhas vagas indicações e graças à sua facilidade em esconder‑se chegou à ladeira de uma colina onde se amontoavam barracas erguidas com materiais provenientes de demolições, cartões, chapas de zinco, azulejos, pneus usados. Na aparência era igual a outros bairros, mas reconheci‑o imediatamente pela lixeira que acompanhava os barrancos do cerro. Nesse local os camiões municipais esvaziavam a sua carga de imundície e vistos de cima, brilhavam com a fosforescência verde‑azul das moscas.

‑ Aquela é a casa da minha madrinha! ‑ guinchei ao ver de longe as tábuas pintadas de anil, onde só tinha estado uma ou duas vezes, mas de que me recordava bastante bem porque era o que eu possuía de mais parecido com um lar.

A barraca estava fechada e uma vizinha gritou do outro lado da rua que esperássemos porque a madrinha tinha ido às compras ao mercado e já vinha. Tinha chegado a altura de nos despedirmos e Huberto Naranjo, com as faces afogueadas estendeu a mão para apertar a minha. Deitei‑lhe os braços ao pescoço, mas ele deu‑me um empurrão e quase me atirou de costas. Eu agarrei‑o com todas as minhas forças pela camisa e preguei‑lhe um beijo que se destinava à boca, mas que lhe acertou em cheio no nariz. Huberto desatou a correr monte abaixo, sem olhar para trás, enquanto eu me sentava à porta a cantar.

A madrinha não demorou muito a regressar. Vi‑a subir o cerro pela rua sinuosa, com um embrulho nos braços, a suar com o esforço, grande e gorda, ataviada com uma bata cor‑de‑limão. Chamei‑a aos gritos e corri ao seu encontro, mas não me deu tempo de lhe explicar o que acontecera, já sabia tudo pela patroa, que a tinha informado do meu desaparecimento e do imperdoável agravo recebido. Levantou‑me em peso e meteu‑me na barraca. O contraste entre a luz do meio‑dia lá fora e a escuridão no interior deixou‑me cega, e não cheguei a acomodar a vista, porque voei pelo ar com um bofetão e aterrei no chão. A madrinha bateu‑me até chegarem os vizinhos. Depois curaram‑me com sal.

Quatro dias mais tarde, fui levada de regresso ao meu emprego. O homem de nariz de morango deu‑me uma palmadinha carinhosa na bochecha e aproveitou um descuido dos outros para me dizer que estava contente por me ver, tinha sentido a minha falta, disse‑me. A dona do relicário recebeu‑me sentada numa cadeira da sala, severa como um juiz, mas pareceu‑me estar reduzida a metade, parecia uma velha boneca de trapos vestida de luto. Não tinha uma careca envolta em ligaduras avermelhadas, como eu esperava, mas sobressaía intacta a torre de tranças crespas e duras noutra cor. Maravilhada, tentei encontrar uma explicação para aquele espantoso milagre, sem dar atenção ao sermão da patroa nem aos beliscões da madrinha. A única coisa compreensível da reprimenda foi que a partir daquele dia passaria a trabalhar o dobro, assim não teria tempo para perder em contemplações artísticas, e o portão do jardim ficaria fechado à chave para me impedir outra fuga.

‑ Eu vou domar‑lhe o carácter ‑ assegurou a patroa.

‑ à pancada todos entendem ‑ acrescentou a minha madrinha.

‑ Olha para o chão quando falo contigo, minha ranhosa. Tens os olhos endemoninhados, não te vou permitir insolências, estás a perceber? ‑ advertiu a senhora.

Olhei‑a fixamente sem pestanejar, depois dei meia volta com a cabeça muito levantada e fui para a cozinha, onde Elvira me esperava espiando a conversa através da porta.

‑ Ai, passarinho... Vem cá para te pôr compressas nas nódoas negras. Não te partiram nenhum osso?

A solteirona não voltou a maltratar‑me e como nunca mencionou o cabelo perdido, acabei por considerar o assunto como um pesadelo que se escoou por uma frincha. Também não me proibiu de admirar o quadro, porque certamente adivinhou que, se fosse necessário, eu lhe teria feito frente à dentada. Para mim aquela marinha, com as suas ondas espumantes e as suas gaivotas imóveis, chegou a ser fundamental; representava o prémio dos esforços do dia, a porta para a liberdade. à hora da sesta, quando os outros se deitavam para descansar, eu repetia a mesma cerimónia sem pedir autorização nem dar explicações, disposta a tudo para defender esse privilégio. Eu lavava a cara e as mãos, penteava‑me, alisava o meu avental, calçava as sapatilhas de sair e ia para a sala de jantar. Colocava uma cadeira em frente da janela dos contos, sentava‑me de costas direitas, as pernas juntas, as mãos sobre a saia como na missa e partia em viagem. As vezes reparava que a patroa me observava da ombreira da porta, mas nunca me disse nada, eu metia‑lhe medo.

‑ Assim está bem, passarinho ‑ animava‑me Elvira. ‑ Há que dar muita guerra. Com os cães raivosos ninguém se atreve, pelo contrário aos mansos, dão‑se pontapés. Há que lutar sempre.

Foi o melhor conselho que recebi na minha vida. Elvira assava limões nas brasas, cortava‑os em cruz, punha‑os a ferver e dava‑me a beber a mistura, para me tornar mais valente.

 

Trabalhei vários anos em casa dos solteirões e nesse tempo mudaram muitas coisas no país. Elvira falava‑me disso. Depois de um breve período de liberdades republicanas, tínhamos outra vez um ditador. Tratava‑se de um militar de aspecto tão inócuo que ninguém se apercebeu do alcance da sua cobiça; mas o homem mais poderoso do regime não era o General, mas sim o Homem da Gardénia, chefe da Polícia Política, um tipo de modos afectados, penteado com brilhantina, vestido com impecáveis fatos de linho branco, flor na lapela, perfumado à francesa e com as unhas envernizadas. Ninguém podia acusá‑lo de uma única vulgaridade. Não era maricas, como diziam os seus numerosos inimigos. Dirigia pessoalmente as torturas, sem perder quer a elegância, quer a boa educação. Nessa altura reconstruíram a Penitenciária de Santa Maria, um recinto sinistro situado numa ilha a meio de um rio infestado de caimões e piranhas, nos confins da selva, onde os presos políticos e os delinquentes, tratados como iguais na hora da desgraça, morriam de fome, pancada ou doenças tropicais. Elvira mencionava frequentemente estes assuntos, dos quais se inteirava através de boatos nos seus dias de folga, já que nada disso se ouvia na rádio ou era publicado na imprensa. Afeiçoei‑me muito a ela, avó, avó chamava‑lhe, nunca nos havemos de separar, passarinho, prometia ela, mas eu não estava tão certa, já então pressentia que a minha vida seria uma infinita série de despedidas. Como eu, Elvira tinha começado a trabalhar quando menina e ao longo de tantos anos o cansaço tinha‑se‑lhe metido nos ossos e afectava‑lhe a alma. O esforço acumulado e a pobreza perpétua tiraram‑lhe a força para prosseguir e começou a dialogar com a morte. à noite dormia no seu ataúde, por um lado para

se ir acostumando e perder‑lhe o medo, por outro para irritar a patroa, que nunca pôde tolerar com naturalidade aquele caixão na sua casa. A criada não foi capaz de suportar a visão da minha avó dentro do seu leito mortuário no quarto que compartilhavam e foi‑se embora sem avisar sequer o patrão, que ficou à espera dela à hora da sesta. Antes de partir marcou todas as portas da casa com cruzes de giz branco, cujo significado ninguém conseguiu decifrar e que por isso mesmo não nos atrevíamos a apagar. Elvira portou‑se comigo como uma verdadeira avó. Aprendi com ela a trocar palavras por outros bens e tive muita sorte, porque encontrei sempre alguém disposto a essa transacção.

Durante esses anos não mudei muito, continuei a ser muito magra e frágil, com os olhos bem abertos para chatear a patroa. O meu corpo desenvolvia‑se com lentidão, mas por dentro qualquer coisa desbocada corria como um rio invisível. O vidro da janela reflectia a imagem imprecisa de uma rapariguita quanto eu já me sentia mulher. Cresci pouco, mas o suficiente para que o patrão se ocupasse mais de mim. Tenho de ensinar-te a ler, filha, dizia‑me, mas nunca teve tempo de o fazer. Já não pedia só beijos no nariz, também me dava uns cobres para o acompanhar quando tomava banho e para lhe passar uma esponja por todo o corpo. Depois estendia‑se na cama e eu secava‑o, esfregava‑o com pó de talco e vestia‑lhe a roupa interior, como a um recém‑nascido. às vezes ele ficava horas de molho na banheira brincando comigo às batalhas navais, noutras alturas passava dias sem me prestar a mínima atenção, ocupado com as suas apostas ou atordoado com o seu nariz de beringela. Elvira tinha‑me avisado com inquestionável clareza que os homens têm entre as pernas um monstro tão feio como uma raiz de iuca, por onde saem os meninos em miniatura, entram depois na barriga das mulheres e ali se desenvolvem. Não devia tocar essas partes por motivo algum, porque o animal adormecido, levantaria a sua horrível cabeça, saltar‑me‑ia em cima e o resultado seria uma catástrofe; mas eu não acreditava, e soava‑me como outra das suas extravagantes divagações. O patrão só tinha uma lombriga gorda e lamentável, sempre triste e da qual nunca saiu nada parecido com um bebé, pelo menos na minha presença. Era parecido com o seu nariz batatudo e descobri então ‑ mais tarde comprovei‑o ‑ a estreita relação entre o pénis e o nariz. Basta‑me olhar para a cara de um homem para saber como é nu. Narizes compridos ou curtos, finos ou grossos, altivos ou humildes, narizes ávidos, farejadores, atrevidos ou narizes indiferentes que servem apenas para fungar, narizes de todas as classes. Com a idade quase todos engrossam, tornam‑se flácidos, batatudos e perdem a arrogância de pénis bem projectados.

Quando assomava à janela calculava que teria sido melhor ficar do outro lado. A rua era mais atractiva que aquela casa onde a existência decorria monótona, com a repetição de rotinas sempre com a mesma lentidão, dias atrás de dias, todos da mesma cor, como o tempo dos hospitais. Durante a noite olhava o céu e imaginava que conseguia transformar‑me em fumo para deslizar através das ripas da gelosia fechada. Brincava imaginando que um raio de lua me batia nas costas e me nasciam asas de pássaro, duas grandes asas cheias de penas para começar a voar. às vezes concentrava‑me tanto nessa ideia que conseguia voar sobre os telhados da cidade; não penses maluquices, passarinho, só as bruxas e os aviões voam de noite. Não tornei a saber de Huberto Naranjo senão muito depois, mas pensava nele com frequência, dando o seu rosto moreno a todos os príncipes encantados. Cedo intuí o amor e o corporizei nos contos, quando me rondava em sonhos e me surgia. Observava as fotografias da crónica policial, tentando adivinhar os dramas de paixão e morte contidos nas páginas dos jornais, estava sempre pendente das conversas dos adultos, escutava por detrás das portas quando a patroa falava ao telefone e cansava Elvira com perguntas, deixa‑me em paz, passarinho. O rádio era a minha fonte de inspiração. Na cozinha havia um rádio aceso de manhã até à noite, único contacto com o mundo exterior, que proclamava as virtudes daquela terra abençoada por Deus com todo o tipo de tesouros, desde a sua posição no centro do globo e a sabedoria dos seus governantes, até ao pântano de petróleo sobre o qual flutuávamos. Com a rádio aprendi a cantar boleros e outras canções populares, a recitar os anúncios publicitários e this pencil is red, is this pencil blue?, no that pencil is not blue, that pencil is red seguindo um curso de inglês para principiantes, meia hora por dia, conhecia os horários de cada programa, imitava as vozes dos locutores. Ouvia atentamente todos os folhetins, sofria o indizível com aqueles seres fustigados pelo destino e no final surpreendia‑me sempre que as coisas corressem tão bem à protagonista, porque durante sessenta capítulos tinha actuado como uma cretina.

‑ Acho que Montedónico vai reconhecê‑la como filha. Se lhe der o seu apelido ela pode casar‑se com Rogelio de Salvatierra ‑ suspirava Elvira com a orelha colada ao rádio.

‑ Ela tem a medalha da mãe. Isso é uma prova. Porque não diz a toda a gente que é filha de Montedónico e pronto?

‑ Não pode fazer isso ao autor dos seus dias, passarinho!

‑ Porque não? Se ele a teve dezoito anos encerrada num orfanato!

‑ Porque ele é perverso, sádico como se diz...

‑ Olha, avó, se ela não muda, será sempre uma chata.

‑ Não te preocupes, tudo vai acabar bem. Não vês que ela é boa?

Elvira tinha razão. Os perseverantes triunfavam sempre e os malvados recebiam o seu castigo. Montedónico caía fulminado por uma doença mortal, pedia perdão no leito de agonia, ela cuidava dele até à morte e depois de receber a herança casava‑se com Rogelio de Salvatierra, fornecendo‑me muito material para as minhas próprias histórias, ainda que raras vezes eu respeitasse a regra básica do final feliz. Ouve, passarinho, porque é que nos teus contos ninguém se casa? Quase sempre bastavam duas sílabas para desencadear um rosário de imagens na minha cabeça. Uma vez ouvi uma palavra doce e estranha e voei até onde estava Elvira, avó, que é a neve? Pela sua explicação deduzi que se tratava de merengue gelado. A partir desse momento converti‑me em heroína de contos polares, era uma abominável mulher das neves, peluda e feroz, lutando contra uns cientistas que tentavam caçar‑me com destino a experiências de laboratório. No dia em que uma sobrinha do General fez quinze anos e o acontecimento foi tão anunciado pela rádio que Elvira não teve outra alternativa senão levar‑me a ver o espectáculo de longe, averiguei como era realmente a neve. Nessa noite milhares de convidados chegaram ao melhor hotel da cidade, transformado para a ocasião numa réplica de Inverno do Castelo da Gata Borralheira. Podaram os filodendros e os fetos tropicais, decapitaram as palmeiras e no seu lugar plantaram pinheiros de Natal trazidos do Alasca, cobertos de lã de vidro e cristais de gelo artificial. Para se andar de patins instalaram uma pista de plástico branco a imitar as regiões do Pólo Norte. Pintaram os vidros das janelas e espalharam tanta neve sintética por todo o lado, que uma semana depois ainda entravam flocos na sala de operações do Hospital Militar, a quinhentos metros de distância. Como não puderam congelar a água da piscina, porque as máquinas trazidas do norte falharam e em vez de gelo se obteve uma espécie de vómito gelatinoso, optaram por pôr a navegar dois cisnes pintados de cor‑de‑rosa que arrastavam penosamente uma faixa com o nome da aniversariante em letras douradas. Para dar mais brilho à festa foram trazidos de avião dois membros da nobreza europeia e uma estrela de cinema. à meia‑noite, desceram a festejada do tecto do salão, sentada num baloiço em forma de trenó, coberta de martas zibelinas, oscilando a quatro metros de altura sobre as cabeças dos convidados, meio desmaiada de calor e vertigem. Isso nós, os curiosos especados nos arredores, não vimos, mas apareceu em todas as revistas e ninguém se surpreendeu ante o milagre de um hotel da capital submerso no clima do árctico, coisas ainda mais espantosas tinham ocorrido no território nacional. Nada me despertou a atenção, excepto umas enormes bandejas cheias de neve verdadeira instaladas à entrada da festa para que a elegante assistência brincasse a atirar bolas e a fazer bonecos, como tinham ouvido dizer que fazem no frio de outras paragens. Consegui safar‑me de Elvira, escapuli‑me por entre empregados e guardas e aproximei‑me para segurar esse tesouro nas minhas mãos. De início pensei que me queimava e gritei de susto, mas já não o consegui largar, fascinada pela luminosidade que emanava daquela matéria gelada e porosa. Um vigilante esteve prestes a apanhar‑me mas baixei‑me e corri por entre as suas pernas levando comigo, apertada contra o peito a neve. Quando desapareceu entre os meus dedos como um fio de água, senti‑me enganada. Dias depois Elvira ofereceu‑me meia esfera transparente, dentro da qual havia uma cabana e um pinheiro, que ao ser agitada fazia voar flocos brancos. Para teres o teu próprio Inverno, passarinho, disse‑me.

Eu não tinha idade para me interessar pela política, mas Elvira enchia‑me a cabeça de ideias subversivas para me pôr contra os patrões.

‑ Neste país está tudo corrompido, passarinho. Há muito gringo de cabelo amarelo, digo‑te eu, qualquer dia levam‑nos a terra para outro sítio e damos por nós sentados no mar, só te digo isso.

A senhora do relicário opinava exactamente o contrário.

‑ Azar o nosso, termos sido descobertos por Cristóvão Colombo em vez de um inglês; temos de trazer gente de ânimo, de boa raça, que rasgue caminho pela selva, abra planícies, crie indústrias. Não foi assim que se formaram os Estados Unidos? E vejam onde chegou esse país!

Estava de acordo com o General, que abriu as fronteiras a quantos quiseram vir da Europa escapando às misérias do pós‑guerra. Os emigrantes chegaram às centenas, com as mulheres, filhos, avós e primos afastados, com os seus idiomas variados, comidas típicas, lendas e feriados, com a sua cayga de nostalgias. Tudo a nossa exuberante geografia engoliu de um trago. Foi também permitida a entrada a alguns asiáticos, que uma vez cá dentro se multiplicaram com assombrosa rapidez. Vinte anos mais tarde, alguém notou que em cada esquina da cidade havia um restaurante com demónios coléricos, candeeiros de papel e tectos de pagode. Nessa altura a imprensa informou que um rapaz chinês abandonou os clientes na sala de jantar, subiu ao escritório e cortou a cabeça e as mãos ao patrão com as facas da cozinha, porque ele não guardou o devido respeito a uma norma religiosa e pendurou a imagem de um dragão junto à de um tigre. Durante a investigação do caso, descobriu‑se que todos os protagonistas da tragédia eram emigrantes ilegais. Cada passaporte era usado umas cem vezes, porque se os funcionários mal podiam adivinhar o sexo dos orientais, muito menos conseguiam distinguir um de outro na fotografia do documento. Os estrangeiros chegaram com a ideia de fazer fortuna e regressar ao seu país de origem, mas ficaram. Os descendentes esqueceram a língua materna e foram conquistados pelo aroma do café, o ânimo alegre e o encanto de um povo que ainda não conhecia a inveja. Foram poucos os que partiram para cultivar as fazendas oferecidas pelo Governo porque faltavam caminhos, escolas, hospitais e abundavam doenças, mosquitos e bichos venenosos. Terra adentro era o reino dos bandoleiros, dos contrabandistas e dos soldados. Os emigrantes ficaram nas cidades a trabalhar afincadamente e poupando cada centavo, perante a zombaria dos nacionais que consideravam o esbanjamento e a generosidade como as melhores virtudes de qualquer pessoa decente.

‑ Eu não acredito em maquinazinhas. Essa coisa de copiar os gringos é mau para a alma ‑ sustentava Elvira escandalizada com O esbanjar dos novos ricos, que pretendiam viver como nos filmes.

Os solteirões não tinham acesso ao dinheiro fácil porque viviam das respectivas pensões de reformados, de tal modo que o supérfluo não entrava em casa mas podiam apreciar como ele se espalhava à sua volta. Cada cidadão quis ser dono de um automóvel de magnata até ser quase imposssível circular pelas ruas atravancadas de veículos. Trocaram petróleo por telefones em forma de canhão, de conchas marinhas, de odaliscas; importaram tanto plástico que as estradas ficaram ladeadas por uma lixeira indestrutível; chegavam diariamente por avião os ovos para o pequeno‑almoço da nação, fazendo‑se imensas tortilhas sobre o asfalto escaldante do aeroporto, todas as vezes que na descarga as caixas se viravam.

‑ O General tem razão, aqui ninguém morre de fome, estendes a mão e colhes uma manga, por isso não há progresso. Os países frios são mais civilizados porque o clima obriga as pessoas a trabalhar ‑ dizia o patrão, estendido à sombra, abanando‑se com o jornal e coçando a barriga, e por isso escreveu uma carta ao Ministério do Fomento sugerindo a hipótese de trazer a reboque um bloco de gelo, para o esmigalhar e lançar do ar, a ver se mudava o clima e melhorava a preguiça dos outros.

Enquanto os donos do poder roubavam sem escrúpulos, os ladrões de profissão ou por necessidade mal se atreviam a exercer o seu ofício, porque os olhos da polícia estavam em todo o lado. Assim se propagou a ideia de que só uma ditadura podia manter a ordem. As pessoas comuns, para quem não havia telefones de fantasia, calças de plástico de deitar fora ou ovos importados, continuou a viver como sempre. Os dirigentes políticos estavam no exílio, mas Elvira dizia‑me que, em silêncio e na sombra, se gerava no povo a raiva necessária para se opor ao regime. Por seu lado, os patrões, eram partidários incondicionais do General e quando a Polícia passava pelas casas vendendo a sua fotografia, eles mostravam com orgulho a que já pendia no lugar de honra na sala. Elvira cultivava um ódio absoluto por aquele militar rechonchudo e longínquo com o qual nunca tinha tido o mínimo contacto, amaldiçoando‑o e lançando‑lhe mau‑olhado todas as vezes que limpava o retrato com o pano do pó.

 

No dia em que o carteiro encontrou o corpo de Lukas Carlé, o bosque estava recém‑lavado, húmido e brilhante, do chão desprendia‑se uma emanação intensa de folhas apodrecidas e uma pálida névoa de outro planeta. Desde há quarenta anos o homem percorria na sua bicicleta, todas as manhãs, a mesma vereda. Pedalando por aqueles caminhos tinha ganho o pão e sobrevivido incólume a duas guerras, à ocupação, à fome e a muitos outros infortúnios. Graças ao seu ofício, conhecia todos os habitantes da zona pelo nome e apelido, assim como podia identificar cada árvore do bosque pela sua espécie e idade. à primeira vista, essa manhã não se diferenciava das outras, os mesmos carvalhos, faias, castanheiros e vidoeiros, o mesmo musgo macio e os cogumelos junto dos troncos maiores, a mesma brisa fragrante e fria, as mesmas sombras e manchas de luz. Era um dia igual a tantos outros e uma pessoa com menos conhecimentos da natureza talvez não tivesse notado os avisos, mas o carteiro estava inquieto, com um formigueiro na pele, porque sentia sinais que mais nenhum outro olho humano podia registar. Imaginava o bosque como um enorme animal verde em cujas veias corria um sangue plácido, um animal de espírito tranquilo que nesse dia estava inquieto. Desceu do seu veículo, farejou a madrugada procurando as razões da sua ansiedade. O silêncio era tão absoluto que receou ter ficado surdo. Saltou da bicicleta para o chão e deu alguns passos fora do caminho para examinar os arredores. Não teve de procurar mais, ali estava à sua espera, suspenso de um ramo a meia altura, atado pelo pescoço por uma corda grossa. Não precisou de ver a cara do enforcado para saber de quem se tratava. Conhecia Lukas Carlé desde que chegara ao povoado à tempos atrás, vindo ninguém sabia de onde, talvez de algum local de França, com as suas arcas de livros, o seu mapa‑múndi e um diploma, para se casar com a rapariga mais bonita e, em pouco tempo, tirar‑lhe a beleza até à última gota. Reconheceu‑o pelas botas e pelo guarda‑pó de professor e teve a impressão de já ter visto esta cena, como se tivesse aguardado durante anos um desenlace destes para aquele homem. A princípio não sentiu pânico, apenas um impulso irónico, desejo de lhe dizer, eu avisei‑te velhaco. Demorou alguns segundos a meditar na extensão do sucedido e nesse instante a árvore rangeu, o vulto fez um movimento circular e os olhos sem vida do enforcado prenderam‑se nos seus. Não conseguiu mexer‑se. Estiveram para ali, a olharem‑se, o carteiro e o pai de Rolf Carlé, até não terem mais nada para dizerem. Então, o velho reagiu. Voltou atrás para ir buscar a bicicleta, inclinou‑se para pegar nela e ao fazê‑lo sentiu uma pontada no peito, longa e ardente como um desgosto de amor. Trepou para o veículo e afastou‑se o mais depressa possível, dobrado sobre o guiador, com um gemido atravessado na garganta.

Chegou à aldeia a pedalar tão desesperadamente que o seu velho coração de funcionário público quase rebentou. Conseguiu pedir socorro antes de se estatelar em frente da padaria com um zumbido de vespeiro na cabeça e um clarão de espanto nas pupilas. Os padeiros levantaram‑no e estenderam‑no na mesa de fazer pastéis, onde ficou a ofegar, coberto de farinha, a apontar para o bosque com o indicador e repetindo que finalmente Lukas Carlé estava num patíbulo, tal como já o devia estar há muito tempo, velhaco, maldito velhaco. Foi assim que a aldeia soube do sucedido. A notícia invadiu as casas sobressaltando os seus habitantes, que não tinham sofrido semelhante comoção desde o fim da guerra. Saíram todos para a rua a comentar o sucedido, excepto um grupo de cinco alunos do último ano do colégio, que enfiaram as cabeças debaixo das almofadas fingindo um profundo sono.

Pouco depois a polícia arrancou da cama o médico e o juiz e partiram seguidos por vários vizinhos na direcção indicada pelo trémulo dedo do empregado dos correios. Encontraram Lukas Carlé a baloiçar como um espantalho muito perto do caminho e concluíram que ninguém o tinha visto desde sexta‑feira. Foram precisos quatro homens para o despendurar, porque o frio do bosque e a rigidez da morte tinham‑no empedernido. Ao médico bastou uma olhadela para saber que antes de ter morrido por asfixia tinha recebido uma enorme pancada na nuca e à polícia bastou outra olhadela para deduzir que os únicos que podiam dar uma explicação eram os seus próprios alunos, com quem tinha saido no passeio anual do colégio.

‑ Tragam os rapazes ‑ ordenou o comandante.

‑ Para quê? Isto não é um espectáculo para crianças ‑ replicou o juiz, cujo neto era aluno da vítima.

Mas não puderam ignorá‑los. Na breve investigação realizada pela justiça local, mais por sentido do dever do que por vontade própria em conhecer a verdade, os alunos foram chamados a prestar declarações. Disseram que não sabiam de nada. Tinham ido ao bosque, como todos os anos nessa altura, tinham jogado à bola, feito luta livre, comido as merendas e a seguir tinham‑se dispersado, com os cestos, em todas as direcções para recolher cogumelos silvestres. De acordo com as instruções recebidas, quando começou a escurecer reuniram‑se na orla do caminho, embora o professor não

tivesse assobiado para os chamar. Procuraram‑no em vão, depois sentaram‑se à espera e ao cair da noite decidiram regressar à aldeia. Não lhes ocorreu informar a polícia porque pensaram que Lukas Carlé tinha voltado para casa ou para o colégio. Isso era tudo. Não faziam a mais pequena ideia como acabara os seus dias pendurado no ramo daquela árvore.

Rolf Carlé, vestido com o uniforme do liceu, os sapatos acabados de engraxar e o gorro enfiado até às orelhas, caminhou com a mãe ao longo do corredor da Prefeitura. O jovem tinha aquele ar desajeitado e exigente de muitos adolescentes, era delgado, sardento, de olhar atento e mãos delicadas. Conduziram‑nos a uma sala vazia e gelada, com as paredes cobertas de azulejo, em cujo centro jazia o cadáver, sobre uma mesa, iluminado por uma luz branca. A mãe tirou um lenço de assoar da manga e limpou cuidadosamente os óculos. Quando o legista levantou os lençóis, ela inclinou‑se e durante um interminável minuto observou aquele rosto deformado. Fez um sinal ao filho e ele também se aproximou para ver, então ela baixou os olhos e tapou a cara com as mãos para esconder a sua alegria.

‑ É o meu marido ‑ disse finalmente.

‑ É o meu pai ‑ acrescentou Rolf Carlé, tentando manter uma voz serena.

‑ Sinto‑o muito. Isto é muito desagradável para vocês... ‑ balbuciou o médico, sem perceber a causa do seu próprio rubor. Voltou a cobrir o corpo e os três ficaram de pé, em silêncio, a olhar desorientados a silhueta debaixo

do lençol. ‑ Ainda não fiz a autópsia, mas parece tratar‑se de um suicídio, lamento‑o, verdadeiramente.

‑ Bem, suponho que isso é tudo ‑ disse a mãe.

Rolf deu‑lhe o braço e saíram sem pressa. O eco dos seus passos no chão de cimento ficaria associado para sempre na sua memória a um sentimento de alívio e paz.

‑ Não foi um suicídio. O teu pai foi morto pelos teus colegas do liceu ‑ afirmou a senhora Carlé ao chegar a casa.

‑ Como é que o sabe, mamã?

‑ Tenho a certeza absoluta e ainda bem que o fizeram, porque senão o tivessem feito, teríamos de ter sido nós a fazê‑lo um dia.

‑ Não fale assim, por favor ‑ murmurou Rolf espantado, porque sempre tinha visto a mãe como uma pessoa resignada e não imaginava que o seu coração albergasse tanto ódio contra aquele homem. Pensava que só ele o odiava. ‑ Já passou tudo, esqueça‑se disso.

‑ Antes pelo contrário, meu filho, devemos recordá‑lo sempre ‑ sorriu ela com uma nova expressão.

Os habitantes da aldeia empenharam‑se tanto em apagar a morte do professor Carlé da memória colectiva que se não fosse pelos próprios assassinos, quase o tinham conseguido. Mas os cinco rapazes tinham reunido coragem para aquele crime durante anos e não estavam dispostos a calar‑se, pois pressentiam que esse seria o mais importante gesto das suas vidas. Não queriam que se esfumasse na bruma das coisas por dizer. No enterro do professor cantaram hinos, vestidos com os seus fatos domingueiros, depositaram uma coroa de flores em nome do colégio e conservaram os olhos no chão, para que ninguém os surpreendesse na troca de olhares cúmplices. Nas primeiras duas semanas permaneceram calados, aguardando que numa manhã a povoação despertasse com a prova necessária para os mandar para a prisão. O medo meteu‑se‑lhes no corpo e não os abandonou por algum tempo até que decidiram pô‑lo por palavras para lhe darem forma. A ocasião surgiu‑lhes depois de um jogo de futebol, no vestiário do campo desportivo onde se juntavam os jogadores, encharcados de suor, excitados, tirando uns aos outros a roupa por entre gracejos e empurrões. Sem acordo prévio, demoraram‑se nos chuveiros até que todos os outros se fossem embora, e, ainda nus, colocaram‑se diante do espelho e observaram‑se mutuamente comprovando que nenhum deles tinha marcas visíveis do que se tinha passado. Um deles sorriu, destruindo assim o espectro que os separava e tornaram a ser os mesmos de sempre, deram palmadas uns aos outros, abraçaram‑se e brincaram como meninos grandes que eram. Carlé tinha‑o merecido, era uma besta, um psicopata, concluíram. Examinaram de novo os pormenores e aperceberam‑se com grande admiração, existirem tantos sinais de pistas que se tornava incrível que não tivessem sido presos; compreenderam assim a sua impunidade e souberam que ninguém levantaria a voz para os acusar. O comandante, pai de um deles, estava encarregado da investigação, no julgamento o avô de outro seria o juiz, o corpo dos jurados seria composto por parentes e vizinhos. Ali todos se conheciam, eram familiares uns dos outros, ninguém queria remover a lama daquele assassinato, nem sequer a família de Lukas Carlé. Na realidade suspeitavam que a mulher e o filho tinham desejado durante anos o desaparecimento do pai e que o vento de alívio provocado pela sua morte chegara primeiro à sua própria casa, varrendo‑a de alto a baixo e deixando‑a limpa e fresca como nunca antes estivera.

Os rapazes propuseram‑se manter viva a recordação da sua façanha e conseguiram‑no tão bem, que a história passou de boca em boca, enaltecida por pormenores acrescentados mais tarde, até se transformar num acto heróico. Formaram um clube e uniram‑se com um juramento secreto. Reuniram‑se algumas noites nos limites do bosque para comemorar essa sexta‑feira, única nas suas vidas, mantendo viva a recordação da pedrada com que o atordoaram, do nó corredio preparado de antemão, da maneira como treparam à árvore e passaram o laço pelo pescoço do professor ainda desmaiado, de como este abrira os olhos no instante em que o içavam e se retorcera no ar com espasmos de agonia. Identificavam‑se com um círculo de tecido branco cosido na manga esquerda da jaqueta e toda a povoação adivinhou o significado desse sinal. Rolf Carlé também o soube, dividido entre a gratidão por ter sido liberto do seu algoz, a humilhação de carregar com o apelido do executado e a vergonha de não ter vontade nem força para o vingar.

 

Rolf Carlé começou a emagrecer. Quando levava a comida à boca, via a colher transformada na língua do pai, os olhos espavoridos do morto observavam‑no do fundo do prato e através da sopa e o pão tinha a cor da sua pele. Durante a noite tremia de febre e de dia inventava pretextos para não sair de casa, atormentado por enxaquecas, mas a mãe obrigava‑o a engolir a comida e a ir às aulas. Suportou isto vinte e seis dias, mas na manhã do vigésimo sétimo quando no recreio apareceram cinco dos seus colegas com as mangas marcadas, teve um acesso de vómitos tão agudo, que o director do colégio se assustou e pediu uma ambulância para o mandar para o hospital da cidade vizinha, onde esteve o resto da semana a vomitar a alma pela boca. Ao vê‑lo naquele estado, a senhora Carlé intuiu que os sintomas do filho não correspondiam a uma indigestão vulgar. O médico da aldeia, o mesmo que o tinha visto nascer, e passara a certidão de óbito do pai, examinou‑o atentamente, receitou‑lhe uma série de medicamentos e recomendou à mãe que não lhe desse muita importância, pois Rolf era um rapaz são e forte, a crise de ansiedade desapareceria e em breve estaria a praticar desporto e a correr atrás das rapariguinhas. A senhora Carlé administrou‑lhe pontualmente os remédios mas como não visse qualquer melhora, duplicou as doses por iniciativa própria. Nada fez efeito, o rapaz continuava sem apetite, meio tonto pelo mal‑estar. A imagem do pai enforcado juntava‑se a recordação do dia em que fora enterrar os mortos no campo de prisioneiros. Katharina olhava‑o insistentemente com os seus olhos parados, seguia‑o pela casa e por último levou‑o pela mão e tentou meter‑se com ele debaixo da mesa da cozinha, mas ambos já estavam muito crescidos. Então aninhou‑se ao seu lado e começou a murmurar uma daquelas compridas litanias de infância.

Quinta‑feira, muito cedo, a mãe foi acordá‑lo para ir para o liceu e encontrou‑o voltado para a parede, pálido e exausto, decidido a morrer, porque já não podia suportar o assédio de tantos fantasmas. Ela compreendeu que se consumiria no ardor da culpa por ter desejado ele próprio cometer aquele crime e sem uma palavra, a senhora Carlé foi ao armário e começou a remexer. Encontrou objectos perdidos desde há muitos anos, roupa em desuso, brinquedos dos filhos, radiografias do cérebro de Katharina, a espingarda de Jochen. Estavam lá também os sapatos de verniz vermelho com saltos altos, e surpreendeu‑se por lhe recordarem tão poucos rancores, nem sequer teve o gesto de os deitar para o lixo, levou‑os para a chaminé e colocou‑os junto do retrato do defunto marido, um de cada lado, como se fosse um altar. Por fim deu com a bolsa de lona usada por Lukas Carlé durante a guerra, um saco verde com fortes correias de couro e com o mesmo esmero com que executava os trabalhos de casa e do campo, guardou dentro do saco as roupas do filho mais novo, uma fotografia sua do dia do casamento, uma caixa de cartão forrada a seda onde guardava um caracol de Katharina e um pacote de bolachas de aveia feitas por si na véspera.

‑ Veste‑te, filho, vais para a América do Sul ‑, disse com decisão inalterável.

Desta maneira Rolf Carlé foi metido num barco norueguês que o levou para o outro lado do mundo, para muito longe dos seus pesadelos. A mãe viajou com ele de comboio até ao porto mais próximo, comprou‑lhe um bilhete de terceira classe, embrulhou o dinheiro que sobrava num lenço juntamente com a direcção do tio Rupert e coseu‑lho no interior das calças com a indicação de nunca as tirar por motivo algum. Fez tudo isto sem indícios de emoção e ao despedir‑se deu‑lhe um beijo rápido na testa, tal como fazia todas as manhãs quando ele ia para a escola.

‑ Quanto tempo vou estar longe, mamã?

‑ Não sei, Rolf.

‑ Não devia ir‑me embora, agora eu sou o único homem da família, tenho de cuidar de si.

‑ Eu fico bem. Escrever‑te‑ei.

‑ Katharina está doente, não posso deixá‑la assim...

‑ A tua irmã não viverá muito mais, sempre soubemos que seria assim,

é inútil preocuparmo‑nos com ela. Que se passa? Estás a chorar? Nem pareces meu filho, Rolf, não tens idade para te comportares como um bebé. Limpa o nariz e sobe para bordo antes que as pessoas comecem a olhar para nós.

‑ Sinto‑me mal, mamã, quero vomitar.

‑ Proíbo-lo! Não me faças passar uma vergonha. Vamos, sobe por essa escada, vai até à proa e fica lá. Não olhes para trás. Adeus, Rolf.

Mas o rapaz escondeu‑se na popa para olhar o cais e assim soube que ela não se moveu do lugar até o barco se perder no horizonte. Guardou consigo a imagem da mãe em pé, imóvel e solitária, com a cara voltada para o mar, vestida de preto, com o chapéu de feltro e a carteira de falsa pele de crocodilo.

Rolf Carlé navegou quase um mês na última coberta do barco, entre refugiados, emigrantes e viajantes pobres, sem trocar uma palavra com ninguém por orgulho e timidez, observando o oceano com tal determinação, que chegou ao fundo da sua própria tristeza e a esgotou. Desde essa altura não voltou a sofrer daquela aflição que por pouco o induzira a lançar‑se à água. Ao fim de doze dias de viagem, o ar salgado devolveu‑lhe o apetite e curou

‑o dos pesadelos, passaram‑lhe as náuseas e interessou‑se pelos golfinhos sorridentes que acompanhavam o barco por longas distâncias.

Quando finalmente chegou às costas da América do Sul, as cores tinham‑lhe voltado às faces. Olhou‑se no pequeno espelho do banheiro comum que compartilhava

com os outros passageiros da sua classe e viu que o seu rosto já não era o de um adolescente atormentado, mas o de um homem. Gostou da sua própria imagem, respirou profundamente e sorriu pela primeira vez desde há muito tempo.

O barco deteve as suas máquinas no cais e os passageiros desceram por uma ponte. Sentindo‑se como um filibusteiro dos romances de aventuras, com o vento tépido a agitar‑lhe o cabelo e de olhos deslumbrados, Rolf Carlé foi dos primeiros a pisar terra firme. Um porto incrível surgiu ante os seus olhos, à luz da manhã. Das colinas, como que suspensas, vivendas de todas as cores, ruas tortas, roupa estendida, uma profusa vegetação em todos os tons de verde. O ar vibrava com pregões, cantos de mulheres, risos de crianças e gritos de papagaios, cheiros, uma alegre concupiscência e um calor húmido de cozinhados. No bulício dos carregadores, marinheiros e viajantes, entre fardos, trouxas, curiosos e vendedores de pechisbeque, esperavam‑no otio Rupert com a sua esposa Burgel e as duas filhas, donzelas cheias e rubicundas por quem o jovem se apaixonou imediatamente. Rupert era um primo afastado da mãe, carpinteiro de ofício, grande bebedor de cerveja e amante de cães. Chegara com a família até àquele extremo do planeta, fugindo à guerra porque não tinha vocação para soldado e parecia‑lhe uma estupidez deixar‑se matar por uma bandeira que considerava apenas um trapo amarrado a um pau. Não tinha a menor inclinação patriótica e quando teve a certeza de que a guerra era inevitável, lembrou‑se de uns bisavós longínquos que muitos anos antes tinham embarcado rumo à América para fundar uma colónia e decidiu seguir o seu rastro. Conduziu Rolf Carlé directamente do barco a uma aldeia fantástica, preservada numa bolha onde o tempo tinha parado e a geografia tinha sido iludida. Aí a vida decorria como nos Alpes durante o século dezanove. Para o rapaz foi o mesmo que entrar num filme. Não conseguiu ver nada do país e durante vários meses acreditou que não havia muita diferença entre o Caribe e as margens do Danúbio.

Em meados de mil e oitocentos, um ilustre sul‑americano, proprietário de terras férteis encravadas nas montanhas, a pouca distância do mar e não muito longe da civilização, quis povoá‑las com colonos de boa estirpe. Foi à Europa, fretou um barco e constou entre os camponeses empobrecidos pelas guerras e doenças de que do outro lado do Atlântico os esperava uma quimera. Iam construir uma sociedade perfeita onde reinasse a paz e a prosperidade, regulada por sólidos princípios cristãos, longe do vício, da ambição e dos mistérios que tinham castigado a humanidade desde o começo da civilização. Oitenta famílias foram seleccionadas de acordo com os seus méritos e boas intenções, entre as quais havia representantes de várias profissões artesanais, um professor, um médico e um sacerdote, todos com os seus instrumentos de trabalho e vários séculos de tradição e conhecimentos às costas. Ao pisar aquelas costas tropicais alguns assustaram‑se, convencidos de que nunca poderiam habituar‑se a um tal lugar, mas mudaram de ideias ao subir por um carreiro até aos cumes das montanhas e encontrarem‑se no paraíso prometido, uma região fresca e favorável, onde era possível cultivar as frutas e hortaliças da Europa e onde cresciam também os produtos americanos. Construíram uma réplica das suas aldeias de origem, com casas de vigas de madeira, tabuletas com letras góticas, as janelas enfeitadas com vasos de flores e uma pequena igreja onde estava suspenso o sino de bronze transportado com eles no barco. Fecharam a entrada da Colónia e bloquearam o caminho, para que não fosse possível chegar ou sair e durante cem anos cumpriram os desejos do homem que os levou até àquele lugar, vivendo de acordo com os preceitos de Deus. Mas o segredo da quimera não pôde ocultar‑se indefinidamente e quando a imprensa publicou a notícia armou‑se um escândalo. O Governo, pouco disposto a consentir que existisse no território uma povoação estrangeira com as suas próprias leis e costumes, obrigou‑os a abrir as portas e a dar passagem às autoridades nacionais, ao turismo e ao comércio. Ao fazê‑lo, encontraram uma aldeia onde não se falava espanhol, onde todos eram louros de olhos claros e uma boa parte das crianças tinham nascido com enfermidades hereditárias, causadas pelos matrimónios consanguíneos. Construíram uma estrada para a ligar à capital, transformando a Colónia no passeio preferido das famílias com automóvel, que iam comprar fruta de Inverno, mel, enchidos, pão caseiro e toalhas bordadas. Os colonos transformaram as suas casas em restaurantes e estalagens para os visitantes e alguns hotéis aceitaram casais clandestinos, o que não correspondia exactamente à ideia do fundador da comunidade, mas os tempos tinham mudado e era necessário modernizarem‑se. Rupert chegou quando ainda era um recinto fechado, mas fez tudo para ser aceite, depois de provar a sua estirpe europeia e provar que era um homem de bem. Quando começaram as comunicações com o mundo exterior, ele foi um dos primeiros a compreender as vantagens da nova situação. Deixou de fabricar móveis, porque se tinham passado a poder comprar melhores e com mais variedade na capital e dedicou‑se a fabricar relógios de cuco e a imitar brinquedos antigos pintados à mão para vender aos turistas. Abriu também um negócio de cães de raça e uma escola para os treinar, ideia que ainda não tinha ocorrido a ninguém naquelas paragens, pois até então os animais nasciam e reproduziam‑se de qualquer maneira, sem apelidos, clubes, concursos, tratadores ou treinos especiais. Mas logo se soube que em certo sítio estavam na moda os cães‑polícia e os ricos quiseram ter um com documentos de garantia. Os que podiam pagar, compravam os animais e deixavam‑nos por uma temporada na escola de Rupert, de onde regressavam andando em duas patas, cumprimentando com a mão, transportando na boca o jornal e as pantufas do dono e fingindo‑se de mortos quando recebiam a ordem em língua estranha.

O tio Rupert era dono de um bom pedaço de terra e de uma casa grande, preparada para pensão, com muitos quartos, toda em madeira escura, construída e mobilada pelas suas próprias mãos no estilo Heidelberg, apesar de ele nunca ter posto os pés nessa cidade. Copiou‑a de uma revista. A mulher cultivava morangos e flores e tinha um galinheiro de onde obtinha ovos para toda a aldeia. Viviam da criação de cães, da venda de relógios e das visitas dos turistas.

A vida de Rolf Carlé deu uma volta. Tinha terminado o colégio, não podia continuar a estudar na Colónia, e por outro lado, o tio era partidário de lhe ensinar os seus próprios ofícios, para que o ajudasse e viesse talvez a herdá‑lo, porque não perdia a esperança de o ver casado com uma das suas filhas. Acarinhou‑o desde o instante em que o viu. Sempre quisera ter um descendente varão e aquele rapaz surgiu tal como o tinha sonhado, forte, de carácter nobre e mãos hábeis, com o cabelo alourado, como todos os homens da sua família. Rolf aprendeu rapidamente a manejar as ferramentas de carpintaria, a montar os mecanismos dos relógios, a colher morangos e a atender os clientes da pensão. Os tios aperceberam‑se de que podiam obter dele tudo se o fizessem acreditar que a iniciativa era dele e apelavam aos seus sentimentos.

‑ Que podemos fazer com o telhado do galinheiro, Rolf? ‑ perguntava‑lhe Burgel com um suspiro de impotência.

‑ Deitar‑lhe alcatrão.

‑ As minhas pobres galinhas vão morrer quando começarem as chuvas.

‑ Deixe isso comigo, tia, eu resolvo isso num minuto. ‑ E ali estava o jovem três dias seguidos a remexer uma caldeira com alcatrão equilibrando‑se sobre o telhado e explicando, a quem passava, as suas teorias sobre a impermeabilização, perante os olhares cheios de admiração das primas e o sorriso dissimulado de Burgel.

Rolf quis aprender a língua do país e não descansou enquanto não conseguiu quem lha ensinasse de uma maneira metódica. Tinha um bom ouvido para a música e empregou‑o a tocar no órgão da igreja, sobressaindo perante os visitantes com um acordeão e assimilando o castelhano com um amplo reportório de palavrões de uso corrente, a que só recorria em raras ocasiões, mas que entesourava como fazendo parte da sua cultura. Ocupava os tempos livres na leitura e em menos de um ano tinha consumido todos os livros da aldeia, que pedia emprestados e que devolvia com obsessiva pontualidade. A boa memória permitia‑lhe acumular informação ‑ quase sempre inútil e impossível de comprovar ‑ para deslumbrar a família e os vizinhos. Era capaz de dizer sem a menor hesitação quantos habitantes tinha a Mauritânia ou a largura do Canal da Mancha em milhas marítimas, umas vezes porque se lembrava, mas outras porque o inventava na altura e afirmava‑o com tanta petulância, que ninguém ousava pô‑lo em dúvida. Aprendeu alguns latinórios para salpicar as suas perorações, com as quais adquiriu um sólido prestígio nessa pequena comunidade, ainda que nem sempre os usasse correctamente. Da sua mãe tinha recebido modos afáveis e um pouco antiquados, que lhe serviram para conquistar a simpatia de toda a gente, particularmente das mulheres, pouco acostumadas a essas delicadezas num país de gente rude. Com a tia Burgel, era especialmente gentil não por presunção mas porque realmente gostava dela. Ela tinha o mérito de dissipar as suas angústias existenciais reduzindo‑as a esquemas tão simples que, mais tarde, perguntava‑se como não lhe tinha ocorrido antes essa solução. Quando caía no vício da nostalgia ou se atormentava com as desgraças da humanidade, ela curava‑o com as suas esplêndidas sobremesas e com os seus gracejos inconvenientes. Foi a primeira pessoa, além de Katharina, a abraçá‑lo sem motivo e sem autorização. Todas as manhãs o cumprimentava com sonoros beijos e antes de ir dormir ia ajeitar‑lhe a coberta da cama, desvelos que a mãe, por pudor, nunca tivera.

à primeira vista, Rolf parecia ser tímido, ruborizava‑se facilmente e falava em tom baixo, mas na realidade era vaidoso e ainda estava em idade de se julgar o centro do mundo. Era muito mais sagaz do que a maioria e sabia‑o, mas a inteligência era suficiente para fingir uma certa modéstia.

Nos domingos de manhã, chegavam pessoas da cidade para ver o espectáculo na escola do tio Rupert. Rolf levava‑os até um grande pátio com pistas e obstáculos onde os cães faziam habilidades perante os aplausos do público. Nesse dia vendiam‑se alguns animais e o jovem despedia‑se deles pesaroso, porque os tinha criado desde o nascimento e nada o comovia tanto como aqueles animais. Deitava‑se no enxergão das cadelas e deixava que os cachorros o farejassem, lhe chupassem as orelhas e adormecessem nos braços, conhecia cada um pelo nome e falava com eles em pé de igualdade. Tinha fome de ternura, mas como tinha sido educado sem mimos, só se atrevia a satisfazer essa carência com os animais e foi necessário uma longa aprendizagem para que pudesse abandonar‑se ao contacto humano, primeiro ao de Burgel e depois ao dos outros. A recordação de Katharina constituía a sua fonte secreta de ternura e por vezes na obscuridade do quarto, escondia a cabeça debaixo do lençol e chorava a pensar nela.

Não falava do seu passado por receio de suscitar compaixão e porque não tinha conseguido ordená‑lo no seu espírito. Os anos de infortúnio junto do pai eram um espelho partido na sua memória. Alardeava frieza e pragmatismo, duas condições que lhe pareciam sumamente viris, mas na verdade era um incorrigível sonhador, o mais pequeno gesto de simpatia desarmava‑o, a injustiça conseguia pô‑lo fora de si, sofria desse idealismo cândido da adolescência, que não resiste ao embate com a grosseira realidade do mundo. Uma infância de privação e terror deu‑lhe a sensibilidade para intuir o lado oculto das coisas e das pessoas, uma clarividência que de súbito se lhe apresentava como um clarão, mas as suas pretensões de racionalidade impediam‑no de prestar atenção a esses misteriosos avisos ou de seguir a conduta

indicada pelos seus impulsos. Negava as suas emoções e por isso estas davam‑lhe a volta num qualquer descuido. Também não admitia as exigências dos seus sentimentos e tentava controlar a parte da sua natureza que se inclinava para a preguiça e prazer.

Compreendeu desde o início que a Colónia era um sonho ingénuo onde mergulhara casualmente, mas que a vida era plena de amarguras e mais valia pôr uma couraça se queria sobreviver. No entanto, aqueles que o conheciam podiam ver que essa protecção era só fumo e que bastaria um sopro para a desfazer. Ia pela vida fora com os sentimentos a nu, tropeçando com o seu orgulho e caindo para voltar a pôr‑se de pé.

A família de Rupert eram pessoas simples, corajosas e comilonas. A comida tinha uma importância fundamental para eles, as suas vidas giravam à volta da azáfama da cozinha e a cerimónia de sentar‑se à mesa. Todos eram gordos e não se resignavam a ver o sobrinho tão magro apesar da constante preocupação em o alimentar. A tia Burgel tinha imaginado um prato afrodisíaco que atraía os turistas e mantinha o marido sempre fogoso, olhem para ele, parece um tractor, dizia com o riso contagioso de matrona satisfeita. A receita era simples: numa panela enorme refogava bastante cebola, toucinho e tomate, temperado com sal, pimenta em grão, alhos e coentros. A isso, juntava em camadas pedaços de carne de porco e de vaca, frangos desossados, favas, milho, repolho, pimentão, peixe, amêijoas e lagostins, a seguir polvilhava tudo com um pouco de açúcar mascavado e despejava lá para dentro quatro jarros de cerveja. Antes de tapar a panela e cozinhar em lume brando, atirava para dentro uma mão cheia de ervas cultivadas em vasos na sua cozinha. Esse era o momento crucial, pois ninguém conhecia este último requinte e ela estava decidida a levar o segredo para a cova. O resultado era um incompreensível guisado, que se tirava da panela e se servia pela ordem inversa por que se tinham colocado os ingredientes. No fim servia‑se o molho em xícaras e o efeito era um formidável calor nos ossos e uma paixão luxuriosa na alma. Os tios matavam vários porcos por ano e preparavam os melhores enchidos da aldeia: presuntos fumados, linguiças, mortadela, latas enormes de banha; compravam leite fresco em barris para fazer nata, bater manteiga e fabricar queijos. Desde o amanhecer até à noite vapores aromáticos emanavam da cozinha. No pátio acendiam fogueiras de lenha onde se colocavam as caçarolas de cobre com doce de ameixa, de alperce e de morango, que faziam parte do pequeno‑almoço dos visitantes. Vivendo entre panelas de aromas tão agradáveis, as duas primas cheiravam a canela, cravo‑da‑índia, baunilha e limão. Durante a noite, Rolf escapulia‑se como uma sombra até ao quarto delas para enfiar o nariz nos vestidos e aspirar aquela doce fragrância que lhe enchia a cabeça de pecados.

A rotina mudava durante os fins‑de‑semana. à quinta‑feira arejavam os quartos, enfeitavam‑nos com flores frescas e preparavam lenha para as chaminés, porque de noite corria uma brisa fria e os hóspedes gostavam de se sentar em frente do fogo e imaginar que estavam nos Alpes. De sexta‑feira

a domingo, a casa enchia‑se de clientes e a família ocupava‑se deles desde o amanhecer; a tia Burgel não saía da cozinha e as raparigas serviam à mesa

e faziam a limpeza com vestidos de feltro bordado, meias brancas, aventais engomados e penteadas com tranças e fitas coloridas como as aldeãs dos contos alemães.

As cartas da senhora Carlé demoravam quatro meses e eram todas muito breves e quase sempre iguais: Querido filho, encontro‑me bem, Katharina está no hospital, tem muito cuidado contigo e lembra‑te das coisas que te ensinei, para que sejas um homem bom, beija‑te a tua mamã. Rolf, pelo seu lado, escrevia‑lhe frequentemente, enchendo muitas folhas de um lado e de outro para lhe contar das suas leituras, porque depois de descrever a aldeia e a família dos tios, não tinha mais nada para dizer, tinha a impressão de que nunca lhe acontecia nada de especial para contar numa carta e preferia surpreender a mãe com longas confidências filosóficas inspiradas pelos livros. Também lhe mandava fotografias que tirava com uma velha câmara do tio, registando desta maneira todos os cambiantes da natureza, as expressões das pessoas, os pequenos acontecimentos e os pormenores que à primeira vista passavam desapercebidos. Essa correspondência tinha um grande significado para ele, não só porque mantinha viva a presença da mãe mas também porque descobriu quanto gostava de observar o mundo e de o reter em imagens.

 

As primas de Rolf Carlé eram requestadas por dois pretendentes, que descendiam em linha directa dos fundadores da Colónia, donos da única indústria de velas de fantasia, cuja produção se vendia por todo o país e além‑fronteiras. A fábrica ainda existe e é tanto o seu prestígio, que na ocasião da visita do Papa, quando o Governo mandou fazer um círio de sete metros de altura e dois de diâmetro para o ter aceso na Catedral, não só o moldaram com toda a perfeição, como também foram capazes de o levar num camião, decorando‑o com cenas da Paixão e aromatizando‑o com extracto de pinheiro, desde a montanha até à capital, debaixo de um sol de chumbo sem que perdesse a forma de obelisco, o cheiro de Natal nem o tom de marfim antigo. A conversa dos dois jovens girava em torno dos moldes, cores e perfumes das velas. às vezes zangavam‑se, mas ambos eram elegantes, prósperos e estavam impregnados por dentro e por fora com o aroma da cera de abelhas e das essências. Eram os melhores partidos da Colónia e todas as raparigas procuravam pretextos para irem comprar velas com os mais vaporosos vestidos, mas Rupert tinha semeado nas filhas a dúvida de que toda aquela gente, nascida por gerações das mesmas famílias, tinha sangue aguado e podia produzir descendentes falhados. Em total oposição às teorias sobre as raças puras, acreditava que da mistura é que saíam os melhores exemplares e para o provar cruzou os seus cães de raça com rafeiros vagabundos. Obteve animais horríveis, com incríveis pelagens e tamanhos, que ninguém quis comprar, mas que eram muito mais inteligentes que os seus congéneres com pedigree, como se pôde ver quando aprenderam a andar sobre uma corda bamba e a dançar valsas nas patas traseiras. Era melhor procurar os noivos fora, dizia, desafiando a sua amada Burgel, que não queria ouvir falar dessa possibilidade; a ideia de ver as suas meninas casadas com varões morenos e com um balanço de rumba nos quadris, parecia‑lhe uma horrível desgraça. Não sejas estúpida, Burgel. Estúpido és tu, queres ter netos mulatos? Os naturais deste país não são louros, mulher, mas também não são todos negros. Para acabar a discussão, ambos suspiravam com o nome de Rolf Carlé nos lábios, lamentando não ter dois sobrinhos como ele, um para cada filha, porque ainda que existisse um parentesco sanguíneo e o antecedente do atraso mental de Katharina, poderiam jurar que Rolf não era portador de genes deficientes. Consideravam‑no o genro perfeito, trabalhador, educado, culto, de boas maneiras, mais não se podia pedir. A sua excessiva juventude constituía de momento a sua única falha, mas todo o mundo se cura disso.

As primas demoraram bastante a pôr‑se a par das aspirações dos pais, pois eram donzelas inocentes, mas quando acordaram deixaram muito para trás os preceitos de modéstia e pudor em que tinham sido educadas. Perceberam o fogo nos olhos de Rolf Carlé, viram‑no entrar como uma sombra no quarto delas para remexer furtivamente nos seus vestidos e interpretaram isso como um sintoma de amor. Falaram do assunto entre elas, encarando a possibilidade de se amarem platonicamente entre os três, mas ao vê‑lo de tronco nu, o cabelo de cobre revolvido pelo vento, transpirando com as ferramentas do campo ou da carpintaria, foram mudando de opinião e chegaram à feliz conclusão de que Deus tinha inventado dois sexos com um propósito evidente. Eram de temperamento alegre e estavam habituadas a compartilhar o quarto, o banheiro, a roupa e quase tudo o resto, de maneira que não viram qualquer malícia em partilhar também o amante. Por outro lado, era‑lhes fácil avaliar o excelente estado físico do rapaz, cujas forças e boa vontade chegavam para cumprir as pesadas tarefas exigidas pelo tio Rupert e tinham a certeza que sobrariam para retouçar com elas. No entanto, a coisa não era tão simples. Os habitantes do povoado não tinham mentalidade para entender um triângulo amoroso e até o pai, apesar das suas basófias de modernismo, nunca o permitiria. Da mãe nem falar, era capaz de pegar numa faca e espetá‑la no sobrinho, no sitio mais vulnerável.

Rolf Carlé notou de imediato uma mudança na atitude das jovens. Enchiam‑no com os maiores pedaços de carne assada, deitavam‑lhe uma montanha de nata batida na sobremesa, cochichavam nas suas costas, alvoroçavam‑se quando ele as surpreendia a observarem‑no, tocavam‑lhe ao passarem por ele, sempre de uma maneira casual, mas com uma tal carga erótica em cada um desses roçagares, que nem um anacoreta teria ficado impassível. Até essa altura, ele rondava‑as com prudência e dissimuladamente para não faltar nem às regras de cortesia nem enfrentar a possibilidade de um falhanço, que teria ferido de morte o seu amor próprio, mas pouco a pouco começou a olhá‑las com audácia, longamente, porque não queria tomar uma decisão precipitada. Qual escolher? As duas pareciam‑lhe encantadoras com as suas pernocas robustas, os seios apertados, os olhos de água‑marinha e uma pele de criança. A mais velha era mais divertida, mas também o seduzia a suave garridice da mais nova. O pobre Rolf debateu‑se com tremendas dúvidas até que as raparigas se cansaram de esperar pela sua iniciativa e se lançaram num ataque frontal. Apanharam‑no na horta dos morangos, pregaram-lhe uma rasteira para o atirar ao chão e caíram‑lhe em cima para lhe fazerem cócegas, pondo fim à sua mania de se fazer sério e excitando a sua luxúria. Fizeram-lhe saltar os botões das calças, arrancaram‑lhe os sapatos, rasgaram‑lhe a camisa e meteram as suas mãos de ninfas atrevidas por onde ele nunca imaginara que alguém o pudesse explorar. A partir desse dia Rolf Carlé abandonou a leitura, descuidou os cachorros, esqueceu‑se dos relógios de cuco, de escrever à mãe e até do seu próprio nome. Andava em transe, com os sentidos incenciados e o espírito ofuscado. De segunda a quinta‑feira, quando não havia visitantes em casa, o ritmo do trabalho doméstico diminuía, e os três jovens dispunham de algumas horas de liberdade que aproveitavam para se perderem nos quartos dos hóspedes, vazios nesses dias da semana. Pretextos não faltavam: arejar os edredões, limpar os vidros das janelas, fumigar as baratas, encerar a madeira dos móveis, mudar os lençóis. As raparigas tinham herdado dos pais o sentido de justiça e de organização, enquanto uma ficava no corredor vigiando para dar o alarme se alguém se aproximasse, a outra fechava‑se no quarto com Rolf. Respeitavam os turnos rigorosamente, mas por sorte o jovem não se deu conta desse detalhe humilhante. Que faziam quando estavam sós? Nada de novo, as mesmas brincadeiras de primos que a humanidade conhece desde há seis mil anos. O interessante começou quando decidiram juntar‑se de noite os três na mesma cama, tranquilizados pelo ressonar de Rupert e Burgel no quarto contíguo. Os pais dormiam com a porta aberta para vigiar as filhas e isso permitia às filhas vigiarem os pais. Rolf Carlé era tão inexperiente como as suas duas companheiras, mas desde o primeiro encontro tomou precauções para não as engravidar e pôs nos jogos de alcova todo o entusiasmo e imaginação para suprir a sua ignorância erótica. A sua energia era alimentada sem tréguas pelo formidável deleite das primas, abertas, mornas, rosadas, sempre sufocadas pelo riso e bem dispostas. Além disso, o facto de o fazerem no maior silêncio, aterrados pelos rangidos da cama, enfiados debaixo dos lençóis, envolvidos no calor e cheiro partilhados era um incentivo que punha os seus corações em fogo. Estavam na idade precisa para fazer amor incansavelmente. Enquanto as raparigas floresciam com uma vitalidade estival, os olhos cada vez mais azuis, a pele mais brilhante e o sorriso mais feliz, Rolf esquecia os latinórios, tropeçava nos móveis e adormecia em pé, servia à mesa os turistas meio sonâmbulo, com os joelhos a tremer e de olhar difuso. Este menino está a trabalhar demais; Burgel, está pálido, temos de lhe dar vitaminas, dizia Rupert, sem suspeitar que nas suas costas o sobrinho devorava grandes porções do famoso guisado afrodisíaco da tia, para que não lhe faltassem os músculos na hora de os pôr à prova. Os três primos descobriram juntos os requisitos para levantar voo e nalgumas ocasiões chegaram mesmo a voar muito alto. O rapaz aceitou a ideia de que as suas companheiras tinham maior capacidade de prazer e podiam repetir as suas façanhas várias vezes na mesma sessão, de modo que, para manter o seu prestígio incólume e não as defraudar, aprendeu a dosear as forças e o seu prazer com técnicas improvisadas. Anos depois soube que os mesmos métodos eram empregues na China desde os tempos de Confúcio e concluiu que não havia nada novo sob o sol, como dizia o tio Rupert, de todas as vezes que lia o jornal. Algumas noites, os três amantes eram tão felizes, que se esqueciam de se despedir e dormiam num emaranhado de membros entrelaçados, o jovem perdido numa montanha macia e perfumada, embalado pelos sonhos das primas. Despertavam aos primeiros cantos do galo, mesmo a tempo de saltar cada um para a sua cama antes de que os pais os surpreendessem em tão deliciosa falta. A princípio, as irmãs tiveram a ideia de tirar à sorte o infatigável Rolf Carlé, lançando uma moeda ao ar, mas durante esses memoráveis combates descobriram que estavam unidas a ele por um sentimento brincalhão e festivo, totalmente inadequado para estabelecer as bases de um matrimónio respeitável. Elas, mulheres práticas, consideraram mais conveniente casar com os aromáticos fabricantes de velas, conservando o primo como amante e tornando‑o, dentro do possível, em pai dos filhos, evitando assim o risco do tédio, ainda que não o de eventualmente trazer filhos meio tarados a este mundo. Este convénio jamais passou pela cabeça de Rolf Carlé, alimentado pela literatura romântica, pelas novelas de cavalaria e pelos rígidos preceitos de honra aprendidos na infância. Enquanto elas planeavam audazes combinações, ele só conseguia calar a culpa de as amar às duas, com o pretexto de se tratar de um acordo temporário, cuja última finalidade era conhecerem‑se melhor antes de formarem um casal; mas um contrato a longo prazo parecia‑lhe uma perversão abominável. Debatia‑se num conflito insolúvel entre o desejo, sempre renovado com poderosos brios por aqueles dois corpos opulentos e generosos, e a própria severidade que o induzia a considerar o matrimónio monogâmico como o único caminho possível para um homem decente. Não sejas tonto, Rolf, não vês que a nós não nos interessas? Eu não te quero só para mim e nem a minha irmã, continuemos assim enquanto estivermos solteiras e depois de casadas também. Esta proposta foi um abalo brutal na vaidade do jovem. Submergiu na indignação durante trinta horas, ao fim das quais a concupiscência foi mais forte. Recolheu a dignidade do chão e voltou a dormir com elas. E as adoráveis primas, uma de cada lado, risonhas, nuas, envolveram‑no outra vez na maravilhosa névoa de canela, cravo‑da‑índia, baunilha e limão até lhe enlouquecer os sentidos e acabar com as suas secas virtudes cristãs.

Assim passaram três anos, suficientes para apagar os pesadelos macabros de Rolf Carlé e substitui‑los por agradáveis sonhos. Talvez as raparigas tivessem ganho a batalha contra os seus escrúpulos e ele tivesse ficado junto delas o resto dos seus dias, cumprindo humildemente a tarefa de amante e de pai a meias, se o seu destino não estivesse traçado noutra direcção. O encarregado de o fazer foi o senhor Aravena, jornalista de profissão e cineasta por vocação.

Aravena escrevia no diário mais importante do país. Era o melhor cliente da pensão, passava quase todos os fins‑de‑semana em casa de Rupert e Burgel, onde tinha um quarto reservado. A sua caneta tinha tanto prestígio, que nem a ditadura conseguiu amordaçá‑lo completamente e nos seus anos de profissão ganhou uma tal auréola de honestidade que lhe permitia publicar aquilo que os colegas jamais teriam ousado. Até o General e o Homem da Gardénia o tratavam com consideração, respeitando uma fórmula de equilíbrio mediante a qual ele dispunha de um espaço para se mover sem ser incomodado, dentro de certos limites, e o Governo projectava uma imagem de liberalismo ao mostrar os seus artigos um pouco atrevidos. Homem de evidente inclinação para a boa vida, fumava grandes charutos, comia como um leão e era um bebedor inveterado, o único capaz de derrotar o tio Rupert nos torneios dominicais de cerveja. Só ele se dava ao luxo de beliscar as primas de Rolf nas maravilhosas nádegas, porque o fazia com graça, sem intenção de as ofender mas sim de lhes render um justo tributo. Venham cá, minhas adoráveis valquírias, deixem que este pobre jornalista lhes ponha as mãos no cu, e até a tia Burgel se ria quando as suas meninas se voltavam para que ele lhes levantasse cerimoniosamente as saias de feltro bordado e se extasiasse ante aqueles globos cobertos por cuequinhas infantis. O senhor Aravena tinha uma máquina de filmar e outra de escrever, portátil e barulhenta, com as teclas gastas pelo uso, com quem passava todo o sábado e parte de domingo sentado no terraço da pensão a escrever os seus artigos com dois dedos, enquanto enfardava enchidos e engolia cerveja. Faz‑me bem respirar o ar puro das montanhas, dizia enquanto aspirava o fumo negro do tabaco. às vezes chegava com uma jovem, nunca a mesma, que ele apresentava como sua sobrinha e Brugel fingia acreditar no parentesco, esta casa não é um desses hotéis indecentes, que é que pensavam?, só a ele consinto que venha acompanhado, porque se trata de um cavalheiro muito conhecido, não viram o seu nome no jornal? Para Aravena o entusiasmo pela dama de serviço durava apenas uma noite, depois fartava‑se dela e mandava‑a de volta no primeiro camião de hortaliças que fosse para a capital. Por sua vez com Rolf Carlé podia passar dias a conversar e a passear pelos arredores da aldeia. Comentava‑lhe as notícias internacionais, iniciava‑o na política local, orientava as suas leituras, ensinou‑o a usar a máquina de filmar e alguns rudimentos de estenografia. Não podes ficar nesta Colónia para sempre, dizia, isto serve para que um neurótico como eu venha restaurar o corpo e desintoxicar‑se, mas nenhum jovem normal pode viver neste cenário de teatro. Rolf Carlé conhecia as obras de Shakespeare, Moliére e Calderon de lã Barca, mas nunca tinha estado num teatro, e por isso não podia ver a relação com a aldeia, mas não era caso para discutir com aquele mestre por quem sentia uma imensa admiração.

‑ Estou satisfeito contigo, sobrinho. Dentro de uns dois anos podes tomar conta dos relógios sozinho, é um bom negócio ‑, propôs‑lhe o tio Rupert no dia em que o rapaz completou vinte anos.

‑ Na realidade não quero ser relojoeiro, tio. Penso que o cinema é uma profissão mais adequada para mim.

‑ Cinema? E para que serve isso?

‑ Para fazer filmes. A mim interessam‑me os documentários. Quero saber o que acontece no mundo, tio.

‑ Quanto menos souberes melhor, mas se é disso que tu gostas, faz como quiseres.

Burgel quase caiu doente quando soube que ele iria viver sozinho na capital, esse antro de perigos, droga, política, doenças, onde as mulheres são todas umas velhacas com perdão da palavra, como essas turistas que chegam à Colónia bamboleando a popa e atirando a proa para a frente. Desesperadas, as primas tentaram dissuadi‑lo, negando‑lhe os seus favores, mas vendo que o castigo era tão doloroso para elas como para ele, mudaram de táctica e amaram‑no com tanta fúria que Rolf perdeu peso de uma forma alarmante. Os mais afectados, no entanto, foram os cães, que ao farejar os preparativos perderam o apetite e vagueavam com o rabo entre as pernas, as orelhas murchas e um insuportável olhar de súplica.

Rolf Carlé resistiu a todas as pressões sentimentais e dois meses mais tarde partiu para a Universidade, depois de prometer ao tio Rupert que passaria os fins‑de‑semana com eles, à tia Burgel que comeria os biscoitos, os presuntos e as marmeladas que metia na bagagem, e às primas que permaneceria em castidade absoluta para regressar com energias renovadas para brincar com elas debaixo do edredão.

 

Enquanto estas coisas aconteciam na vida de Rolf Carlé, não muito longe eu saía da infância. Nessa época começou a desgraça da madrinha. Tive conhecimento pela rádio e vi o seu retrato nos pasquins comprados por Elvira às escondidas da patroa, e assim soube que dera à luz um monstro. Cientistas qualificados informaram a opinião pública que a criança pertencia à Tribo III, quer dizer, era caracterizada pela fusão de dois corpos com duas cabeças; do género xifódimo por isso apresentava apenas uma coluna vertebral; classe mononfálica, com um umbigo para os dois corpos. O mais curioso foi que uma cabeça era de raça branca e a outra negra.

‑ Tem dois pais, o pobrezinho, isso é mais que certo ‑ disse Elvira com um esgar de repugnância. ‑ Para mim estas desgraças acontecem por ter dormido com dois homens no mesmo dia. Tenho mais de cinquenta anos e nunca fiz isso. Eu, pelo menos, nunca deixei que se misturassem os humores de dois homens na minha barriga, porque desse vício nascem girinos de circo.

A madrinha ganhava a vida a limpar escritórios durante a noite. Estava a tirar o tapete num décimo andar, quando se manifestaram as primeiras dores, mas continuou a trabalhar porque não soube calcular o tempo do parto e porque estava furiosa consigo mesma por ter sucumbido a uma tentação, pagando‑a com aquela gravidez vergonhosa. Passava da meia‑noite, sentiu um líquido quente correr‑lhe por entre as pernas e quis ir ao hospital, mas era já tarde, faltaram‑lhe as forças e não pôde descer. Chamou a plenos pulmões, mas no edifício solitário não havia ninguém para a socorrer. Resignada a sujar o que tinha acabado de limpar, deitou‑se no chão e esforçou‑se desesperadamente até expulsar o filho. Ao ver o estranho ser bicéfalo que tinha parido, a sua desorientação não teve limites e a sua primeira reacção foi desfazer‑se daquilo o mais depressa possível. Logo que conseguiu pôr‑se de pé pegou no recém‑nascido, foi ao corredor, atirou‑o pela lixeira, e regressou em seguida, arquejante, para lavar novamente o tapete.

No dia seguinte, quando o porteiro entrou na cave, encontrou o minúsculo cadáver entre os desperdícios dos escritórios, quase intacto porque caíra sobre tiras de papel. Aos seus gritos acudiram os empregados do café e em poucos minutos a notícia chegou à rua, e espalhou‑se pela cidade. Ao meio‑dia, o escândalo era conhecido em todo o país e até vieram jornalistas estrangeiros para fotografar o menino, porque aquela combinação de raças nunca se tinha visto nos anais da medicina. Durante uma semana não se falou de outra coisa, fazendo esquecer inclusivamente a morte dos estudantes baleados pela polícia à porta da Universidade por agitarem bandeiras vermelhas e cantarem a Internacional. Chamaram desnaturada à mãe do bebé, assassina e inimiga da ciência porque não quis entregá‑lo para estudo no Instituto de Anatomia e porque tinha insistido em enterrá‑lo no cemitério de acordo com os preceitos católicos.

‑ Primeiro mata‑o e atira‑o para o lixo como se fosse um peixe podre e depois quer dar‑lhe sepultura cristã. Deus não perdoa tal crime, passarinho.

‑ Mas avó, não está provado que a minha madrinha o matou...

‑ E quem foi, então?

A polícia manteve a mãe isolada numa cela durante várias semanas, até que o médico legista se fez ouvir. Tinha afirmado sempre, mas ninguém lhe prestou atenção, que o lançamento pela lixeira não tinha sido a causa da morte, a cria estava morta antes de nascer. Por fim a justiça pôs a pobre mulher em liberdade, que de qualquer modo ficou marcada, porque os cabeçalhos dos jornais a perseguiram durante meses e ninguém acreditou na versão oficial. A truculenta simpatia popular pôs de parte a criança e chamaram à madrinha "Assassina do monstrozinho". Este episódio desagradável acabou com os seus nervos. Não pôde resistir à culpa de ter dado à luz um espantalho e quando a soltaram já não era a mesma pessoa, convencida de que o parto tinha sido um castigo divino por algum pecado abominável cuja origem nem ela própria conseguia recordar. Sentia vergonha de mostrar‑se em público, começou a afundar‑se na miséria e na desolação. Como último recurso recorreu aos feiticeiros, os quais a vestiram com uma mortalha, estenderam‑na no chão, rodearam‑na de velas acesas e sufocaram‑na em fumo, talco e cânfora, até que um grito visceral saiu das entranhas da paciente, o que foi interpretado como expulsão definitiva dos maus espíritos. Depois penduraram‑lhe colares sagrados para impedir que o mal voltasse a entrar nela. Quando fui visitá‑la com Elvira, encontrei‑a na sua própria barraca pintada de anil. Tinha perdido a tonalidade escura da sua carne e esquecido a sua descarada garridice que antes dava malícia ao seu andar, tinha‑se rodeado de gravuras católicas e deuses indígenas e tinha por única companhia o puma embalsamado.

Ao ver que os infortúnios não acabavam com orações, bruxarias ou receitas de ervanários, a madrinha jurou no altar da Virgem Maria, não tornar a ter contacto carnal com homem algum e para obrigar‑se a cumpri‑lo fez com que uma parteira lhe cosesse a vagina. A infecção ia‑a matando. Nunca chegou a saber‑se se foi salva pelos antibióticos do hospital, pelos círios acesos a Santa Rita ou pelas infusões bebidas de empreitada. A partir de então já não conseguiu deixar o rum e a santidade, mudou o rumo e a noção da vida, frequentemente não reconhecia o próximo e vagueava pelas ruas murmurando impropérios sobre o filho do diabo, um bicho de duas raças nascido do seu ventre. Estava transtornada e incapaz de ganhar o seu sustento, porque nesse estado de perturbação e com a sua fotografia nas colunas policiais, ninguém lhe dava emprego. às vezes desaparecia por longo tempo e eu receava que tivesse morrido, mas quando menos se esperava regressava, cada vez mais cansada e triste, com os olhos inflamados e uma corda de sete nós para me medir o diâmetro do crânio, método tirado sabe‑se lá de onde, para saber se eu ainda conservava a virgindade. É o teu único tesouro, enquanto fores pura vales alguma coisa, quando a perderes já não és ninguém, dizia ela e eu não compreendia por que razão justamente aquela parte do meu corpo, pecaminosa e proibida, tinha ao mesmo tempo tanto valor.

Assim como deixava passar meses sem cobrar o meu salário, de repente acorria a pedir dinheiro emprestado com súplicas ou ameaças, vocês maltratam a minha menina, não cresceu nada, está muito fraca e dizem as más‑línguas que o patrão a apalpa, não gosto nada disso, chamam‑lhe corrupção de menores. Quando chegava a casa eu corria a esconder‑me no caixão. Inflexível, a solteirona negou‑se a aumentar‑me o salário e comunicou à madrinha que da próxima vez que a importunasse chamaria a polícia, já te conhecem, sabem muito bem quem és, devias estar‑me agradecida por eu tomar conta da tua miúda, se não fosse eu estaria morta tal como a tua cria de duas cabeças. A situação tornou‑se insustentável e, por fim, um dia a patroa perdeu a paciência e despediu‑me.

A separação de Elvira foi muito triste. Durante mais de três anos tínhamos estado juntas, ela tinha‑me dado o seu carinho e eu tinha‑lhe enchido a cabeça com histórias inverosímeis, ajudámo‑nos, protegemo‑nos mutuamente e, sobretudo, partilhámos o riso. Dormindo na mesma cama e brincando aos velórios no mesmo caixão, cimentámos uma relação inquebrantável que nos preservou da solidão e das asperezas do ofício de criadas. Elvira não se resignou a esquecer‑me e, a partir desse dia, visitava‑me onde eu estivesse. Arranjava sempre as coisas para me localizar. Aparecia como uma avó benigna em todos os sítios onde eu trabalhasse, levando um frasco de doce de goiaba ou alguns chupa‑chupas comprados no mercado. Sentávamo‑nos a olhar‑nos com aquele afecto discreto a que ambas estávamos habituadas e, antes de partir, Elvira pedia‑me um conto longo que durasse até à próxima visita. Vimo‑nos assim durante algum tempo, até que por uma má jogada do acaso perdemos a pista uma da outra.

Para mim começou uma peregrinação de uma casa para outra. A minha madrinha mudava‑me de emprego, exigindo cada vez mais dinheiro, mas ninguém estava disposto a pagar generosamente os meus serviços, tendo em conta que muitas raparigas da minha idade trabalhavam sem salário, apenas pela comida. Perdi a conta desse período e agora não consigo recordar todos os lugares onde estive, excepto alguns impossíveis de esquecer como a casa da senhora da porcelana fria, cuja arte me serviu de fundamento, anos mais tarde, para uma aventura singular.

Tratava‑se de uma viúva nascida na Jugoslávia, que falava um informe espanhol e cozinhava pratos complicados. Tinha descoberto a fórmula da Matéria Universal, como chamava modestamente a uma mistura de papel de jornal demolhado em água, farinha vulgar e cimento dental, com a qual fabricava uma massa cinzenta, que enquanto estava húmida era maleável e ao secar adquiria uma consistência de pedra. Com ela podia‑se imitar tudo menos a transparência do vidro ou o vítreo do olho. Amassava‑a, envolvia‑a num trapo molhado e guardava‑a na geleira até ao momento de a usar. Podia‑se moldar como argila ou espalmar com um rolo para a deixar delgada como uma seda, cortá‑la, dar‑lhe diferentes texturas ou dobrá‑la em várias direcções. Uma vez seca e dura, cobria‑se com verniz e depois pintava‑se segundo o gosto para obter madeira, metal, tecido, fruta, mármore, pele humana ou qualquer outra coisa. A vivenda da jugoslava era um mostruário das possibilidades deste maravilhoso material: um biombo Coromandel à entrada; quatro mosqueteiros, vestidos de veludo e rendas com espadas desembainhadas, presidiam no salão; um elefante adornado à maneira da índia servia de mesa para o telefone; um friso romano fazia de cabeceira de cama. Um dos quartos tinha sido transformado em túmulo faraónico:

as portas ostentavam baixos‑relevos funerários, os candeeiros eram panteras negras com lâmpadas acesas nos olhos, a mesa imitava um sarcófago polido com incrustrações de falso lápis‑lazúli, e os cinzeiros tinham a forma serena e eterna da esfinge, com um buraco no lombo para esmagar as beatas. Eu deambulava por aquele museu com medo de que alguma coisa se quebrasse com o impacte do espanador ou ganhasse vida e me perseguisse para me cravar a espada do mosqueteiro, as presas do elefante ou as garras da pantera. Nasceu assim o meu fascínio pela cultura do antigo Egipto e o horror pela massa de pão. A jugoslava criou no meu espírito uma invencível desconfiança pelos objectos inanimados e a partir de então preciso de lhes tocar para saber se são o que parecem ou se são fabricados com Matéria Universal. Nos meses em que ali trabalhei, aprendi o ofício, mas tive o bom senso de não me viciar. A porcelana fria é uma tentação perigosa, pois uma vez dominados os seus segredos nada impede o artesão de copiar tudo o que imagina até construir um mundo fingido e perder‑se nele.

A guerra tinha destroçado os nervos da patroa. Convencida de que inimigos invisíveis a espiavam para lhe fazer mal, cercou a propriedade com um muro alto, eivado de cacos de vidro e guardava duas pistolas na mesa de cabeceira, esta cidade está cheia de ladrões, uma pobre viúva deve ser capaz de se defender sozinha, o primeiro intruso que pise a minha casa leva um tiro entre os olhos. As balas não estavam reservadas só para os bandidos, no dia em que este país caia nas mãos do comunismo eu mato‑te para que não sofras, Evita, e depois desfaço a minha cabeça com um tiro, dizia. Tratava‑me com consideração e até com certa ternura, preocupava‑se em que eu comesse abundantemente, comprou‑me uma boa cama e todas as tardes me convidava para a sala para ouvirmos juntas a novela da rádio. "Abram‑se as páginas sonoras do ar para vos fazer viver a emoção e o romance de um novo capítulo..." Sentadas lado a lado, trincando bolachas entre os mosqueteiros e o elefante, ouvimos três folhetins seguidos, dois de amor e um de detectives. Sentia‑me bem com esta patroa, tinha a sensação de pertencer a uma casa. Talvez o único inconveniente fosse estar situada num bairro afastado, onde era difícil para Elvira ir visitar‑me, mas mesmo assim, a minha avó fazia a viagem sempre que conseguia uma tarde livre, estou cansada de tanto andar, passarinho, mas mais cansada estou de não te ver, todos os dias peço a Deus que te dê juízo e a mim saúde para te acarinhar, dizia‑me.

Eu teria ficado muito tempo porque a minha madrinha não tinha razões de queixa, pagavam‑lhe pontual e folgadamente, mas um estranho incidente terminou com esse emprego. Numa noite de vento, aí pelas dez, ouvimos um ruído prolongado, como um rufar de tambor. A viúva esqueceu as pistolas, fechou as persianas a tremer e não quis ir à janela para averiguar a causa do fenómeno. No dia seguinte, encontrámos quatro gatos mortos no jardim, estrangulados, decapitados ou estripados e palavrões escritos com sangue na parede. Lembrei‑me de que tinha ouvido na rádio coisas semelhantes, atribuidas a bandos de rapazes, dedicados a esse feroz passatempo e tentei convencer a senhora de que não havia motivos de alarme, mas tudo foi inútil. A jugoslava, enlouquecida de medo, decidiu fugir do país antes que os bolchevistas lhe fizessem o mesmo que aos gatos.

‑ Tens sorte, vou empregar‑te em casa de um ministro ‑ anunciou‑me a madrinha.

O novo patrão era uma personagem anódina, como quase todos os homens públicos nesse período, em que a vida política estava congelada e qualquer assomo de originalidade podia levar a uma cave, onde o esperava um tipo refrescado com perfume francês e de flor na lapela. Pertencia à velha aristocracia por apelido e fortuna o que lhe dava certa impunidade para a sua má‑criação, mas ultrapassou os limites toleráveis e até a família acabou por o repudiar. Foi despedido do seu posto na chancelaria ao ser surpreendido a urinar atrás das cortinas de brocado verde no salão dos escudos e pela mesma razão expulsaram‑no de uma embaixada, mas esse mau costume, inaceitável para o protocolo diplomático, não era impedimento para a chefia de um ministério. As suas maiores virtudes eram a capacidade para adular o General e o talento para passar inadvertido. Na realidade, o seu nome tornou‑se famoso anos mais tarde, quando fugiu do país numa avioneta privada e no tumulto e precipitação da partida esqueceu na pista uma mala cheia de ouro, que de qualquer modo não lhe fez falta no exílio. Vivia numa mansão colonial, no meio de um parque sombrio, onde cresciam fetos tão grandes como polvos e orquídeas selvagens presas às árvores. De noite, brilhavam pontos vermelhos entre a folhagem do jardim, olhos de gnomos e outros seres benéficos da vegetação, ou simples morcegos que desciam dos telhados em voo rasante. Divorciado, sem filhos nem amigos, o ministro vivia sozinho naquele lugar encantado. A casa, herança dos avós, acabava por ser demasiado grande para ele e para os criados, muitos quartos estavam vazios e fechados à chave. A minha imaginação corria por aquelas portas alinhadas ao longo dos corredores, por detrás das quais julgava ouvir sussurros, gemidos, risos. A princípio encostava o ouvido e espreitava pelas fechaduras, mas depressa deixei de precisar de tais métodos para adivinhar os completos universos ali ocultos, cada qual com as suas próprias leis, o seu tempo, os seus habitantes, preservados do uso e da contaminação quotidiana. Dei nomes sonantes às divisões, os quais evocavam contos da minha mãe, Katmandu, Palácio dos Ossos, Gruta de Merlim, e bastava‑me um esforço ínfimo de pensamento para trespassar a madeira e penetrar nessas histórias extraordinárias que se desenrolavam do outro lado das paredes.

Para além dos motoristas e guarda‑costas, que sujavam o encerado e roubavam os licores, na mansão trabalhavam uma cozinheira, um velho jardineiro, um mordomo e eu. Nunca soube para que me contrataram nem qual o acordo comercial entre o patrão e a minha madrinha, passava quase todo o dia sem fazer nada, a andar pelo jardim, ouvindo o rádio, sonhando com os quartos fechados ou contando histórias de espectros aos outros criados, em troca de guloseimas. As minhas funções eram apenas duas: engraxar os sapatos e despejar o bacio do patrão.

No mesmo dia em que cheguei houve um jantar para embaixadores e políticos. Nunca tinha presenciado tais preparativos. Um camião descarregou mesas redondas e cadeiras douradas, das arcas foram retiradas toalhas bordadas e dos aparadores da sala de jantar a baixela do banquete e o faqueiro com o monograma de família gravado a ouro. O mordomo entregou‑me um pano para dar lustro aos cristais e eu maravilhei‑me com o som perfeito do tinir dos copos uns nos outros e com a luz dos candeeiros reflectida como um arco‑íris em cada um. Trouxeram um carregamento de rosas que foram colocadas em jarrões de porcelana distribuídos pelos salões. Dos armários surgiram travessas e garrafas de prata, pela cozinha desfilaram peixes e carnes, Vinhos e queijos trazidos da Suíça, frutas cristalizadas e tortas encomendadas às freiras. Dez criados de mesa com luvas brancas atenderam os convidados enquanto eu os observava por detrás das cortinas do salão, fascinada com aquele requinte que me dava novo material para enfeitar os contos. Agora podia descrever festas imperiais, perder‑me em pormenores que nunca me tinham ocorrido, como os músicos vestidos de fraque que tocaram ritmos para dançar no terraço, os faisões recheados de castanhas e enfeitados com plumas, as carnes assadas regadas com licor, ardendo em chamas azuis. Não quis ir dormir antes que o último convidado se fosse embora. No dia seguinte era necessário limpar, contar os talheres, deitar fora as flores murchas e voltar a pôr cada coisa no seu lugar. Entrei no ritmo habitual da casa.

No segundo piso era o quarto de dormir do ministro, uma sala ampla com uma cama em talha com anjos papudos, o apainelamento do tecto tinha um século de existência, os tapetes tinham sido trazidos do Oriente, as paredes ostentavam santos coloniais de Quito e de Lima e uma colecção de fotografias do próprio na companhia de diversos dignitários. Em frente da secretária de jacarandá erguia‑se um antigo cadeirão episcopal de felpa, de braços e pés dourados com um buraco no assento. Ali se sentava o patrão para satisfazer os apertos da natureza cujo produto ia parar a um recipiente de loiça colocado por baixo. Podia ficar horas instalado naquele móvel anacrónico, escrevendo cartas e discursos, lendo o jornal, bebendo uísque. Quando acabava puxava o cordão de uma campainha que repicava por toda a casa como um aviso de catástrofe e eu, furiosa, subia para retirar o bacio sem compreender porque razão aquele homem não usava a casa de banho como qualquer pessoa normal. O senhor teve sempre essa mania, não faças tantas perguntas menina, disse‑me o mordomo como única explicação. Ao fim de poucos dias senti que sufocava, não conseguia respirar bem, tinha uma opressão perpétua, comichão nas mãos e nos pés, um suor de adrenalina. Nem a esperança de assistir a outra festa ou às fabulosas aventuras dos quartos fechados podiam afastar do meu espírito o cadeirão de felpa, a expressão do patrão quando me indicava com um gesto o meu dever, o trajecto para despejar aquilo. No quinto dia ouvi o toque da campainha, fiz‑me surda por momentos distraindo‑me na cozinha, mas poucos minutos depois a chamada ribombava no meu cérebro. Por fim subi, passo a passo escada acima, em cada degrau mais e mais agitada. Entrei naquele quarto luxuoso impregnado de odor a estábulo, inclinei‑me por detrás do assento e retirei o bacio. Tranquilamente, como se fosse um gesto de todos os dias levantei o recipiente e voltei‑o sobre o ministro de Estado, libertando‑me da humilhação com um único movimento do pulso. Por um longo instante ele manteve‑se imóvel, de olhos esbugalhados.

‑ Adeus, senhor. ‑ Girei sobre os calcanhares, saí apressadamente do quarto, despedi‑me das personagens adormecidas por detrás das portas fechadas, desci as escadas, passei entre os motoristas e os guarda‑costas, atravessei o parque e fui‑me embora antes que o ofendido se recompusesse do espanto.

Não me atrevi a ir procurar a madrinha, porque ficara com medo dela, desde que na confusão da sua loucura ameaçara coser‑me também a mim por dentro. Num café emprestaram‑me um telefone e liguei para casa dos solteirões para falar com Elvira mas disseram‑me que saíra certa manhã, levando o caixão num carrinho alugado e não regressara ao trabalho, não sabiam onde localizá‑la, tinha‑se evaporado sem dar uma desculpa, deixando o resto dos seus haveres. Tive a sensação de já ter vivido este desamparo, invoquei a minha mãe para me dar ânimo e como quem corre para uma entrevista, dirigi‑me instintivamente para o centro da cidade. Na praça do Pai da Pátria quase não conheci a estátua equestre, porque a tinham posto a brilhar e em vez das cagadelas de pombo e da pátina esverdeada do tempo, luziam agora clarões de glória. Pensei em Huberto Naranjo, o ser mais parecido com um amigo que alguma vez tive, sem pensar na possibilidade de ele me ter esquecido ou ser difícil encontrá‑lo, porque ainda não vivera o suficiente para ser pessimista. Sentei‑me na borda do tanque onde ele fazia apostas com o peixe sem cauda, a contemplar os pássaros, os esquilos negros e as preguiças nos ramos das árvores. Ao entardecer, considerei que já esperara demasiado, saí dali e internei‑me pelas ruas laterais, que conservavam o encanto da arquitectura colonial, ainda intocadas pelas pás mecânicas dos construtores italianos. Perguntei por Naranjo nos armazéns do bairro, nos quiosques e nos restaurantes onde muitos o conheciam, porque esses haviam sido os seus locais de actuação desde miúdo. Em todos os lados me trataram com amabilidade, mas ninguém quis arriscar uma resposta, suponho que a ditadura ensinara as pessoas a calar a boca, nunca se sabe, até uma miúda com avental de criada e um pano de pó pendurado no cinto pode ser suspeita. Por fim, houve alguém que se compadeceu e me bichanou uma informação: vai à rua República, à noite ele anda por ali, disse‑me. Nessa época a zona vermelha consistia apenas em dois quarteirões mal iluminados, inocentes em comparação com a fortaleza que veio a ser depois, mas já havia anúncios de raparigas com a faixa negra da censura sobre os seios nus e luzes a assinalar casas de passe, discretos bordéis, baiúcas de jogo. Lembrei‑me de que não tinha comido, mas não me atrevi a pedir ajuda, antes morta que mendiga, passarinho, repisava Elvira. Descobri um beco, acomodei‑me por detrás de umas caixas de cartão e adormeci num instante. Despertei várias horas mais tarde com uns dedos firmes cravados no ombro.

‑ Dizem que tu andas à minha procura, que caralho me queres?

A princípio não o reconheci nem ele a mim. Huberto Naranjo tinha deixado para trás o menino que tinha sido. Pareceu‑me muito elegante com as suas patilhas morenas, popa com brilhantina, calças justas, botas de tacão alto e cinturão de couro com rebites de metal. Havia no seu rosto uma expressão petulante, mas nos olhos bailava‑lhe essa chispa travessa que nenhuma das grandes violências sofridas ao longo da sua existência, conseguiu apagar. Teria pouco mais de quinze anos, mas parecia mais velho pela maneira de se bambolear com os joelhos ligeiramente dobrados, as pernas abertas, a cabeça atirada para trás e o cigarro pendurado no lábio inferior. Essa maneira de gingar como um bandoleiro serviu para eu o identificar, pois caminhava do mesmo modo como quando era um puto de calções.

‑ Sou Eva.

‑ Quem?

‑ Eva Luna.

Huberto Naranjo passou a mão pelo cabelo, meteu os polegares no cinto, cuspiu o cigarro para o chão e observou‑me de alto a baixo. Estava escuro e não conseguia ver‑me bem, mas a voz era a mesma e por entre as sombras vislumbrou os meus olhos.

‑ És a que contava histórias?

‑ Sim.

Então ele esqueceu o seu papel de vilão e tornou a ser o menino corado com um beijo no nariz, que um dia se despediu de mim. Pôs um joelho no chão, aproximou‑se e sorriu com a alegria de quem recupera um cão perdido. Sorri também, ainda tonta pelo sono. Apertámos as mãos timidamente, duas palmas suadas, medindo‑nos, reconhecendo‑nos, envergonhados, olá, olá, e depois não consegui resistir, levantei‑me, abracei‑o e apertei‑me contra o seu peito, esfregando a cara na sua camisa de cantor e no seu pescoço manchado de brilhantina perfumada, enquanto ele me dava pancadinhas de consolo nas costas, e engolia saliva.

‑ Tenho um pouco de fome ‑ foi a única coisa que me ocorreu dizer para disfarçar a vontade de desatar a chorar.

‑ Limpa o nariz e vamos comer ‑ disse ele, ajeitando de um toque a popa, com um pente.

Levou‑me pelas ruas vazias e silenciosas até ao único botequim que permanecia aberto, entrou empurrando as portas como um vaqueiro e encontrámo‑nos numa sala escura, cujos contornos se desvaneciam no fumo dos cigarros. Uma vitrola tocava canções sentimentais enquanto os clientes se aborreciam nas mesas de bilhar ou se embebedavam ao balcão do bar. Levou‑me pela mão por detrás da montra, atravessámos um corredor e entrámos numa cozinha. Um jovem moreno e bigodaças cortava pedaços de carne manejando a faca como um sabre.

‑ Faz um bitoque para esta menina, Negro, mas que seja bem grande, ouviste? E põe‑lhe dois ovos, arroz e batatas fritas. Eu pago.

‑ Tu mandas, Naranjo. Não era esta a garota que andava a perguntar por ti? Passou por aqui de tarde. É tua noiva? ‑ sorriu o outro com uma piscadela.

‑ Não sejas cabrão, Negro, é minha irmã.

Serviu‑me mais comida do que a que eu podia consumir em dois dias. Enquanto eu mastigava, Huberto Naranjo observou‑me em silêncio, medindo com olhos de perito as mudanças visíveis no meu corpo, nada importantes

porque só mais tarde me desenvolvi. No entanto os seios incipientes marcavam a minha blusa de algodão como dois limões e já então Naranjo era o mesmo mulherengo que é hoje, de forma que pôde pressentir a futura anatomia das minhas ancas e outras protuberâncias e tirar daí as suas conclusões.

‑ Uma vez disseste‑me para eu ficar contigo.

‑ Isso foi há muitos anos.

‑ Agora vim para ficar.

‑ Vamos falar disso depois, agora come a sobremesa do Negro, que está bem boa ‑ respondeu e uma sombra nublou‑lhe o rosto.

 

‑ Não podes ficar comigo. Uma mulher não deve viver na rua ‑ sentenciou Huberto Naranjo por volta das seis, quando já não havia vivalma no botequim, e até as canções de amor tinham morrido na vitrola. Lá fora despontava um dia igual a todos os outros, começava o vaivém do tráfego e da gente apressada.

‑ Mas antes fizeste‑me essa proposta!

‑ Sim, mas nessa altura eras uma menina.

A lógica deste raciocínio escapou‑me completamente. Sentia‑me melhor preparada para enfrentar o destino agora que era um pouco mais velha e acreditava ter uma vasta experiência mundana, mas ele explicou‑me que a coisa era ao contrário: ao crescer tinha mais necessidade de ser protegida por um homem, pelo menos enquanto fosse jovem, depois tanto fazia, porque não seria apetecível para ninguém. Não te peço que cuides de mim, ninguém me está a atacar, só quero andar contigo, aleguei, mas ele foi inflexível e para ganhar tempo acabou a discussão com um murro sobre a mesa, bom menina, está bem, para o caralho as tuas razões, cala‑te. Logo que a cidade acabou de despertar, Huberto Naranjo pegou‑me por um braço e levou‑me meia de rastos ao apartamento da Senhora, um sexto andar de um edifício na rua República, mais bem tratado do que outros do bairro. Abriu‑nos a porta uma mulher madura em robe e pantufas com pompons, ainda ensonada e resmungando a ressaca de algum cuidado.

‑ Que se passa, Naranjo?

‑ Trago‑te uma amiga.

‑ Como te atreves a arrancar‑me da cama a esta hora!

Mas convidou‑nos a entrar, disse para nos sentarmos e anunciou que se ia arranjar. A mulher apareceu por fim, depois de uma longa espera, acendendo luzes à sua passagem e agitando o ar com o esvoaçar do seu roupão de nylon e o seu terrível perfume. Precisei de alguns minutos para me aperceber de que se tratava da mesma pessoa, tinham‑lhe crescido as pestanas, a pele parecia um prato de argila, os caracóis pálidos e sem brilho erguiam‑se petrificados, as pálpebras eram duas pétalas azuis e a boca uma cereja esmagada; no entanto aquelas assombrosas mudanças não desvirtuavam a expressão simpática do seu rosto e o encanto do seu sorriso. A Senhora como todos lhe chamavam ria por qualquer motivo, e ao fazê‑lo enrugava a cara e semicerrava os olhos, um gesto amável e contagioso que me conquistou de imediato.

‑ Chama‑se Eva Luna e vem viver contigo ‑ anunciou Naranjo.

‑ Estás louco, filho!

‑ Eu pago‑te.

‑ Veremos, menina, dá uma volta para eu te ver. Não estou nesse negócio, mas...

‑ Não vem para trabalhar! ‑ interrompeu‑a ele.

‑ Não estou a pensar empregá‑la agora, ninguém a aceitaria nem de borla, mas posso começar a ensiná‑la.

‑ Nada disso. Faz de conta que é minha irmã.

‑ E para que quero eu a tua irmã?

‑ Para te acompanhar, sabe contar histórias.

‑ Quê?

‑ Conta histórias.

‑ Que espécie de histórias?

‑ De amor, de guerra, de medo, do que tu pedires.

‑ Ufa! ‑ exclamou a Senhora olhando‑me com benevolência. ‑ De qualquer maneira temos de arranjá‑la um pouco, Huberto, olha‑me os cotovelos e os joelhos, tem pele de tatu. Tens de aprender bons modos rapariga, não te sentes como se estivesses montada numa bicicleta.

‑ Esquece essas parvoices e ensina‑a a ler.

‑ Ler? Para que queres uma intelectual?

Huberto era homem de decisões rápidas e já na sua idade estava convencido de que a sua palavra era lei, de modo que meteu algumas notas na mão da mulher, prometeu voltar com frequência, foi‑se embora fazendo recomendações com um firme bater de botas, não te passe pela cabeça pintar‑lhe o cabelo porque te metes num sarilho comigo, que não saia à noite, a situação está fodida desde que mataram os estudantes, todas as manhãs aparecem mortos por aí, não a mistures com os teus negócios, lembra-te que é como se fosse da minha família, compra‑lhe roupa de senhora, eu pago tudo, e dá‑lhe leite, dizem que faz engordar, se precisares deixa‑me recado na taberna do Negro e eu venho logo a voar, ah... e obrigado, já sabes que estou às tuas ordens. Mal saiu, a Senhora voltou‑se com o seu magnífico sorriso, andou à minha volta examinando‑me enquanto eu punha os olhos no chão, com as faces a arder, envergonhada porque até esse dia não tinha tido ocasião de fazer o inventário da minha própria insignificância.

‑ Quantos anos tens?

‑ Treze, mais ou menos.

‑ Não te preocupes, ninguém nasce bonito, isso faz‑se com paciência e trabalho, mas vale a pena porque, se o conseguires, tens a vida resolvida. Para começar, levanta a cabeça e sorri.

‑ Prefiro aprender a ler...

‑ Isso são maluquices do Naranjo. Não faças caso. Os homens são muito soberbos, estão sempre a dar opiniões. O melhor é dizer‑lhes sim a tudo e fazer o que nos dá na real gana.

A Senhora tinha hábitos noctívagos, protegia o apartamento da luz natural com pesados cortinados e iluminava‑o com tantas lâmpadas de cor, que à primeira vista parecia a entrada de um circo. Mostrou‑me os frondosos fetos que decoravam os cantos, todos em plástico, o bar com garrafas e copos diversos, a cozinha impecável onde não se via nem sequer uma panela, o seu quarto de dormir com uma cama redonda sobre a qual repousava uma boneca espanhola com um vestido de folhos.

A casa de banho, cheia de boiões de cosméticos, tinha grandes toalhas cor‑de‑rosa.

‑ Despe‑te.

‑ Ahn?

‑ Tira a roupa. Não te assustes, só te vou dar um banho ‑ riu‑se a Senhora. Encheu a banheira, despejou um punhado de sais que encheram a água de espuma perfumada e ali mergulhei, primeiro com timidez, e depois com um suspiro de prazer. Quando já estava quase a adormecer entre os vapores de jasmim e espuma de sabão, voltou a aparecer a Senhora com uma luva de crina para me esfregar. Depois ajudou‑me a secar, pôs‑me talco nas axilas e umas gotas de perfume no pescoço.

‑ Veste‑te. Vamos comer qualquer coisa e depois vamos ao cabeleireiro

‑ anunciou.

Pelo caminho, os transeuntes voltavam‑se para olhar a mulher, perturbados com o seu andar provocante e o aspecto de toureira, apesar de tudo demasiado atrevido para aquele clima de cores brilhantes e fêmeas de lide. O vestido cingia‑a dando relevo a colinas e vales, no seu pescoço e nos braços brilhavam lantejoulas, tinha a pele branca como giz ainda muito apreciada naquela zona da cidade, se bem que, entre os ricos, fosse já moda o bronzeado da praia. Depois de comer dirigimo‑nos ao salão de beleza, onde a Senhora ocupou todo o espaço com os seus cumprimentos ruidosos, o sorriso imaculado e a presença desembaraçada de soberba messalina. Fomos atendidas pelas cabeleireiras com a deferência reservada às boas clientes e em seguida partimos as duas alegremente, pelas portadas centrais, eu com uma melena de trovador e a mulher com uma borboleta de tartaruga presa nos caracóis, deixando atrás de nós um rasto de patchuli e laca. Quando chegou o momento das compras fez‑me provar tudo quanto havia, menos calças, porque a Senhora era de opinião que uma mulher com roupas masculinas é tão grotesca como um homem de saias. Por último escolheu‑me sapatos de bailarina, vestidos amplos e cintos elásticos, como os que se viam nos filmes. A mais preciosa aquisição foi um minúsculo soutien onde os meus ridículos seios flutuavam como ameixas perdidas. Quando terminámos eram cinco da tarde e eu estava transformada noutro ser, procurei‑me longamente ao espelho, mas não consegui encontrar‑me, o vidro devolvia‑me a imagem de um ratinho desorientado.

- Ao anoitecer apareceu Melecio, o melhor amigo da Senhora.

- Que é isto? ‑ perguntou assombrado, ao ver‑me.

‑ Para não entrar em pormenores, digamos que é a irmã de Huberto Naranjo.

‑ Não estarás a pensar...?

‑ Não, ele deixou‑ma como companhia...

Não te faltava mais nada!

Mas em poucos minutos tinha‑me adoptado e ambos brincávamos com a boneca e ouvíamos discos de rock 'n 'roll, uma extraordinária descoberta para mim, habituada à salsa, aos boleros e às rancheras dos rádios de cozinha. Nessa noite provei aguardente com sumo de ananás e pastéis de nata, base da dieta da casa. Depois a senhora e Melecio foram para os respectivos trabalhos, deixando‑me na cama redonda, abraçada à boneca espanhola, embalada pelo ritmo frenético do rock e com a certeza absoluta de que aquele tinha sido um dos dias mais felizes da minha vida.

 

Melecio arrancava os pêlos do rosto com uma pinça, depois passava um algodão embebido em éter e assim a pele tinha adquirido a textura da seda, cuidava das mãos, longas e finas, e todas as noites escovava o cabelo cem vezes; era alto e de ossos firmes, mas movia‑se com tal delicadeza que conseguia dar uma impressão de fragilidade. Nunca mencionava a família e só anos depois, nos tempos do presídio de Santa Maria, a Senhora averiguou as suas origens. O pai era um urso emigrado da Sicília que quando via o filho com os brinquedos da irmã lhe caía em cima para o espancar aos gritos de ricchione!, pederastal, masca!zone! A mãe cozinhava abnegadamente a ritual pasta e colocava‑se no meio, com a determinação de uma fera, quando o pai tentava obrigá‑lo a chutar uma bola, jogar ao boxe, beber e mais tarde a visitar os prostíbulos. A sós com o filho ela quis averiguar os seus sentimentos, mas a única explicação de Melecio foi que trazia uma mulher dentro de si e que não conseguia habituar‑se àquele aspecto de homem ao qual estava aprisionado como a uma camisa de forças. Nunca disse outra coisa e mais tarde, quando os psiquiatras lhe analisaram pormenorizadamente o cérebro, às suas perguntas, respondeu sempre da mesma maneira: não sou maricas, sou mulher, este corpo é um erro. Nem mais nem menos. Saiu de casa logo que conseguiu convencer a mamã de que seria muito pior ficar e morrer às mãos do próprio pai. Desempenhou várias profissões e acabou a dar aulas de italiano numa academia de línguas, onde lhe pagavam pouco, mas o horário era vantajoso.

Uma vez por mês encontrava‑se com a mãe no parque, dava‑lhe um envelope com vinte por cento dos seus ganhos, quaisquer que fossem, e tranquilizava‑a com mentiras sobre hipotéticos estudos de arquitectura. Deixaram de falar do pai e ao fim de um ano a mulher começou a usar roupa de viúva, porque apesar de o urso se conservar de perfeita saúde ela tinha‑o morto no seu coração. Melecio arranjou as coisas por algum tempo, mas raramente lhe chegava o dinheiro e havia dias em que se mantinha de pé apenas com café. Foi por essa altura que conheceu a Senhora e a partir desse momento começou para ele uma nova etapa mais feliz. Tinha crescido num clima de ópera trágica e o tom de sainete da sua nova amiga foi um bálsamo para as feridas infligidas em casa e as que continuava a sofrer diariamente na rua pelos seus modos efeminados. Não eram amantes. Para ela o sexo constituía apenas o pilar fundamental da sua empresa e na sua idade não estava disposta a desperdiçar energia nessas cavalgadas e para Melecio a intimidade com uma mulher era chocante. Com muita sensatez estabeleceram desde o princípio uma relação da qual excluiram os ciúmes, o sentimento de posse, a falta de delicadeza e outros inconvenientes próprios do amor carnal. Ela era vinte anos mais velha do que ele e apesar dessa diferença, ou talvez por isso mesmo, partilhavam uma grande amizade.

‑ Falaram‑me de um bom emprego para ti. Gostavas de cantar num bar?

‑ propôs‑lhe a Senhora um dia.

‑ Não sei..., nunca fiz isso.

‑ Ninguém te vai reconhecer. Estarás disfarçado de mulher. É um cabaré de travestis, mas não te assustes, é gente decente e pagam bem, o trabalho é fácil, vais ver...

‑ Também acreditas que sou desses!

‑ Não te ofendas. Cantar ali não significa nada. É um emprego como outro qualquer ‑, rematou a Senhora, cujo sólido sentido prático era capaz de reduzir tudo a dimensões domésticas.

Com algumas dificuldades conseguiu vencer a barreira de preconceitos de Melecio e convencê‑lo das vantagens da oferta. A princípio ele sentiu‑se chocado com o ambiente, mas na noite de estreia descobriu que havia não só uma mulher dentro de si, como também uma actriz. Revelou‑se‑lhe um talento histriónico e musical até então ignorado e o que começou como número de ligação acabou por ser o melhor do espectáculo. Iniciou uma vida dupla, de dia o sóbrio mestre da academia e à noite uma criatura fantástica coberta de plumas e de diamantes de vidro. O estado das suas finanças prosperou, pôde dar alguns presentes à mãe, mudar‑se para um quarto mais decente, comer e vestir‑se melhor. Tinha sido feliz se não o invadisse um incontrolável mal‑estar cada vez que se lembrava dos seus órgãos genitais. Sofria quando se olhava nu ao espelho e ao comprovar que, com muita pena sua, funcionava como um homem normal. Atormentava‑o uma obsessão recorrente: imaginava‑se a castrar‑se com a tesoura de jardineiro, uma contracção dos braços e, plaf!, aquele apêndice maldito caía no chão como um réptil ensanguentado.

Instalou‑se num quarto alugado no bairro dos judeus do outro lado da cidade, mas todas as tardes, antes de ir para o trabalho, arranjava tempo para visitar a Senhora. Chegava ao anoitecer, quando começavam a acender‑se as luzes vermelhas, verdes e azuis da rua e as mulheres assomavam às janelas e passeavam com os seus atavios de batalha. Ainda antes de ouvir a campainha eu adivinhava a sua presença e corria a recebê‑lo. Levantava‑me do chão, não aumentaste nem um grama desde ontem, não te dão de comer?, era a saudação habitual e, como um ilusionista, fazia aparecer entre os dedos uma guloseima para mim. Preferia a música moderna, mas o seu público exigia canções românticas em inglês ou francês. Passava horas a aprendê‑las para renovar o seu repertório e ao mesmo tempo ensinava‑mas. Eu decorava‑as sem entender uma palavra, porque nelas não figurava this pencil is red, is this pencil blue? nem qualquer outra frase do curso de inglês para principiantes que segui pela rádio. Divertíamo‑nos com brincadeiras de colegiais que nenhum dos dois tivera a oportunidade de fazer na infância, fazíamos casas para a boneca espanhola, corríamos, cantávamos serenatas em italiano, dançávamos. Eu gostava de o observar enquanto se maquilhava e de o ajudar a coser as missangas nos fatos de fantasia do cabaré.

 

Na juventude, a Senhora analisou as suas possibilidades e concluiu que não tinha paciência para ganhar o sustento com métodos respeitáveis. Iniciou‑se então como especialista em massagens eruditas, a princípio com certo êxito, porque naquelas latitudes nunca se tinham visto tais novidades, mas com o crescimento demográfico e a imigração descontrolada, surgiu uma concorrência desleal. As asiáticas trouxeram técnicas milenárias impossíveis de superar e as portuguesas baixaram os preços desmedidamente. Isto afastou a Senhora daquela arte cerimoniosa, porque não estava disposta a fazer acrobacias de saltimbanco ou a fazê‑lo barato nem ao marido, no caso de o ter tido. Outra ter‑se‑ia resignado a exercer o ofício à maneira tradicional, mas ela era mulher de iniciativas originais. Inventou uns brinquedos estapafúrdios com os quais pensava invadir o mercado, mas não conseguiu ninguém disposto a financiá‑los. Por falta de visão comercial no país, essa ideia ‑ como tantas outras ‑ foi arrebatada pelos norte‑americanos, que agora detêm as patentes e vendem os seus modelos por todo o mundo. O pénis telescópico com manivela, o dedo a pilhas e o seio infalível com mamilos de caramelo, foram criações suas e se lhe pagassem a percentagem a que por justiça tinha direito, seria milionária. Mas era uma pessoa avançada para aquela década, ninguém pensava então que aqueles objectos auxiliares pudessem vir a ter uma procura maciça e não parecia rentável produzi‑los um a um para uso de especialistas. Também não conseguiu empréstimos bancários para montar a sua própria fábrica. Embriagado pela riqueza do petróleo, o Governo ignorava as indústrias não tradicionais. Este fracasso não a desanimou. A Senhora fez um catálogo das suas meninas encadernado em veludo cor‑de‑malva e mandou‑o discretamente às mais altas individualidades. Dias mais tarde recebeu a primeira solicitação para uma festa em Lã Sirena, uma ilha privada que não figurava em nenhum mapa de navegação, defendida por recifes de coral e tubarões, à qual só se pode chegar de avioneta. Passado o entusiasmo inicial, mediu a dimensão da sua responsabilidade e pôs‑se a meditar sobre a melhor forma de agradar a clientela tão distinta. Nesse instante, tal como me contou Melecio anos mais tarde, posou os olhos em nós, que tínhamos sentado a boneca espanhola num canto e do outro lado da sala atirávamos moedas tentando enfiá‑las nos folhos. Enquanto nos contemplava, o seu cérebro criativo pesava as diversas possibilidades e por fim ocorreu‑lhe a ideia de substituir a boneca por uma das suas meninas. Recordou outros jogos infantis e a cada um juntou uma pincelada obscena, transformando‑o numa nova diversão para os convidados da festa. Depois disso não lhe faltou trabalho com banqueiros, magnatas e altas individualidades do Governo, que pagavam os seus serviços com fundos públicos. O melhor deste país é que a corrupção toca a todos, suspirava ela encantada. Com as empregadas era severa. Não as recrutava com enganos de chulo de bairro, era explícita para evitar mal‑entendidos e pôr fim a escrúpulos desde o início. Se alguma lhe faltasse, mesmo que fosse por razões de doença, morte ou imponderável catástrofe, mandava‑a embora imediatamente. Façam‑no com entusiasmo, meninas, nós trabalhamos para cavalheiros de categoria, neste negócio é preciso muita mística, dizia‑lhes. Cobrava mais caro que a concorrência local, porque tinha a prova de que deslizes baratos não se desfrutam nem se recordam. Certa vez um coronel da Guarda, que tinha passado a noite com uma das mulheres, na hora de pagar a conta sacou do revólver ameaçando prendê‑la. A Senhora não perdeu a calma. Ainda não fizera um mês o militar solicitou três damas bem‑dispostas para atender uns delegados estrangeiros e ela amavelmente respondeu‑lhe que convidasse a sua esposa, a mãe e a avó se queria foder de borla. às duas horas apareceu uma ordenança com um cheque e uma caixa de cristal com três orquídeas roxas, que na linguagem das flores significa três encantos femininos de supremo poder, como explicou Melecio, embora o cliente não o soubesse e as tivesse escolhido só pela ostentação da embalagem.

 

Escutando as conversas das mulheres aprendi em poucas semanas mais do que muitas pessoas descobrem ao longo da vida. Preocupada em melhorar a qualidade dos serviços da sua empresa, a Senhora comprava livros franceses que o cego do quiosque lhe vendia às escondidas; suspeito, no entanto, que raramente tivessem sido úteis, porque as meninas queixavam‑se de que no momento das cuecas os cavalheiros de categoria bebiam uns tragos e repetiam os mesmos gestos, de modo que tanto estudo não servia para nada. Quando me encontrava sozinha no apartamento, encarrapitava‑me numa cadeira e tirava os livros proibidos do seu esconderijo. Eram assombrosos. Embora não os pudesse ler, as ilustrações bastavam para me encher de ideias que, estou certa, iam muito para além das possibilidades anatómicas.

Foi um bom período da minha existência, mesmo com a sensação de estar suspensa de uma nuvem, rodeada de omissões e mentiras. Por momentos pensava chegar à verdade, mas de novo me encontrava perdida numa floresta de ambiguidades. Naquela casa as horas estavam trocadas, vivia‑se de noite e dormia‑se durante o dia, as mulheres transformavam‑se em seres diferentes quando se maquilhavam, a minha patroa era um nó de mistérios, Melecio não tinha idade nem sexo definido, até os alimentos pareciam guloseimas de aniversário e nunca pesada comida caseira. O dinheiro também acabou por ser irreal. A Senhora guardava grandes maços de notas em caixas de sapatos, de onde tirava o necessário para os gastos diários, aparentemente sem fazer contas. Eu encontrava notas por todo o lado e a princípio pensei que as deixavam ao meu alcance para provar a minha honestidade mas depressa compreendi que não se tratava de uma armadilha, mas de simples abundância e pura desordem.

Algumas vezes ouvi dizer à Senhora que sentia horror às ligações sentimentais, mas creio que a sua verdadeira natureza a atraiçoava, e tal como aconteceu com Melecio, acabou por se afeiçoar a mim. Vamos abrir as janelas, para deixar entrar o barulho e a luz, pedi‑lhe e ela acedeu; compremos um pássaro para cantar para nós e uma floreira com fetos de verdade para os vermos crescer, sugeri em seguida, e ela também o fez; quero aprender a ler, insisti, e ela dispôs‑se a ensinar‑me, mas outros afazeres adiaram os seus propósitos. Agora, que passaram tantos anos e posso pensar nela através da experiência, creio que não teve um destino fácil, sobrevivia num meio brutal, dispersa em negócios vulgares. Imaginava provavelmente que algures devia existir uma mão‑cheia de seres eleitos que podiam dar‑se ao luxo da bondade e decidiu proteger‑me da sordidez da rua República, para ver se conseguia enganar o destino e salvar‑me de uma vida como a sua. A princípio quis mentir‑me sobre as suas actividades comerciais, mas quando me viu disposta a devorar o mundo com todos os seus erros, mudou de táctica. Eu soube depois por Melecio, que a Senhora fez um acordo com as outras mulheres para me conservar pura e tanto se empenharam nisso que acabei por encarnar o melhor de cada uma.

Quiseram pôr‑me à margem da brutalidade e indecência e ao fazê‑lo as suas vidas ganharam uma nova dignidade. Pediam que lhes contasse a continuação do rádio‑romance do momento e eu improvisava um fim dramático que nunca coincidia com o desenlace da rádio, mas isso não lhes interessava. Convidavam‑me para ir ver filmes mexicanos e à saída do cinema sentávamo‑nos em "A Espiga de Ouro" a comentar o espectáculo. A pedido delas, eu mudava o argumento transformando os delicados amoricos de um modesto aldeão numa tragédia de sangue e espanto. Tu contas melhor que nos filmes, porque se sofre muito mais, soluçavam elas com a boca cheia de torta de chocolate.

Huberto Naranjo era o único que não me pedia histórias, porque as considerava uma diversão estúpida. Vinha de visita com os bolsos cheios de dinheiro e distribuía‑o às mãos cheias sem explicar como o obtivera. Oferecia‑me vestidos com enfeites e rendas, sapatos de menina e carteiras de bebé, que todos apreciavam porque desejavam conservar‑me no limbo da inocência infantil, mas que eu, ofendida, punha de lado.

‑ Isto não serve nem para se vestir à boneca espanhola. Não vês que já não sou nenhuma criança?

‑ Não quero que andes vestida como uma rameira. Estão a ensinar‑te a ler? ‑ perguntava ele e enfurecia‑se ao verificar que o meu analfabetismo não retrocedia nem uma letra.

Eu não lhe dizia que noutros aspectos a minha cultura progredia bem depressa. Amava‑o com uma dessas obsessões de adolescente que deixam marcas para sempre, mas nunca consegui que Naranjo reparasse na minha inflamada disposição e cada vez que tentava demonstrá‑la ele afastava‑me com as orelhas a arder.

‑ Deixa‑me em paz. O que tens de fazer é estudar para professora ou enfermeira, são trabalhos decentes para uma mulher.

‑ Não me queres?

‑ Tomo conta de ti, isso basta.

Sozinha na minha cama abraçava‑me à almofada, pedindo que os seios me crescessem depressa e as pernas me engrossassem, mas sem nunca, apesar disso, relacionar Huberto Naranjo com as ilustrações dos livros didácticos da Senhora ou com os comentários das mulheres que eu conseguia ouvir. Não imaginava que aquelas cabriolas tivessem alguma relação com o amor, pareciam‑me apenas uma maneira de ganhar a vida, como a costura ou a mecanografia. O amor era o das canções e dos romances da rádio, suspiros, beijos, palavras intensas. Queria estar com Huberto debaixo do mesmo lençol, encostada ao seu ombro, dormindo a seu lado, mas as minhas fantasias ainda eram castas.

 

No cabaré onde trabalhava à noite, Melecio era o único artista digno, Os outros formavam um elenco deprimente: um coro de maricas, chamado Ballet Azul, agarrados ao rabo uns dos outros num lamentável desfile, um anão que realizava proezas indecentes com uma garrafa de leite e um cavalheiro de certa idade cuja graça consistia em baixar as calças, voltar o traseiro para os espectadores e expulsar três bolas de bilhar. O público ria a bandeiras despregadas com aqueles truques de palhaço, mas quando Melecio entrava envolto em plumas, com peruca de cortesa e a cantar em francês, reinava na sala um silêncio de missa. Não o assobiavam nem o ofendiam com chufas como ao comparsa porque mesmo o mais insensível dos clientes se apercebia da sua qualidade. Durante essas horas de cabaré, transformava‑se na estrela desejada e admirada, resplandecente sob as luzes, no centro de todos os olhares, cumprindo o seu sonho de ser mulher. Ao acabar a sua representação retirava‑se para o quarto insalubre que lhe tinham destinado como camarim e tirava os enfeites de diva. As plumas, penduradas num gancho pareciam uma avestruz agonizante, a peruca ficava sobre a mesa como um despojo decapitado e as suas jóias de vidro, saque de pirata defraudado, repousavam numa bandeja de latão. Tirava a maquilhagem com creme e o rosto viril surgia. Vestia a roupa de homem, fechava a porta e lá fora apoderava‑se dele uma tristeza profunda, porque para trás ficava o melhor de si mesmo. Dirigia‑se ao botequim do Negro para comer alguma coisa, sozinho numa mesa do canto, pensando na hora feliz que acabava de viver no palco. Depois regressava à pensão caminhando pelas ruas solitárias para apanhar o fresco da noite, subia para o quarto, lavava‑se e deitava‑se em cima da cama a olhar a escuridão até adormecer.

Quando a homossexualidade deixou de ser tabu e se exibiu à luz do dia, tornou‑se moda visitar os maricas no seu ambiente, como se dizia. Os ricos chegavam nos seus carros com motorista, elegantes, barulhentos, aves multicolores que abriam passagem por entre os habituais clientes, sentavam‑se a beber champanhe adulterado, a aspirar um montículo de cocaína e a aplaudir os artistas. As senhoras eram as mais entusiastas, mulheres finas descendentes de imigrantes prósperos, vestidas com roupas de Paris, fazendo brilhar as réplicas das jóias que guardavam nos seus cofres, convidavam os actores para as suas mesas, para brindarem com elas. No dia seguinte compensavam com banhos turcos e tratamentos de beleza os prejuízos da má bebida, do fumo e da noitada, mas valia a pena porque essas incursões eram o tema obrigatório das conversas no Clube de Campo. O prestígio da extraordinária Mimi, nome artístico de Melecio, passou de boca em boca nessa temporada, mas o eco da sua fama não saiu dos salões e, no bairro dos judeus, onde vivia, ou na rua República, ninguém sabia nem lhe interessava saber que o tímido italiano era a Mimi.

Os habitantes da zona vermelha estavam organizados para a sobrevivência. Até a polícia acatava esse código de honra tácito, limitando‑se a intervir nas rixas públicas, patrulhar as ruas de vez em quando e cobrar as suas comissões, entendendo‑se directamente com os seus informadores, mais interessada na vigilância política do que em outros aspectos. Todas as sextas‑feiras aparecia no apartamento da Senhora um sargento, que estacionava o automóvel no passeio, onde todos o pudessem ver e soubessem que estava a arrecadar a sua parte nos lucros, não fossem pensar que a autoridade ignorava os negócios daquela matrona. A visita não durava mais de dez ou quinze minutos suficientes para fumar um cigarro, contar umas anedotas e depois partir satisfeito com uma garrafa de uísque debaixo do braço e a percentagem no bolso. Estes ajustes eram semelhantes para todos e resultavam porque permitiam aos funcionários melhorar o vencimento e aos demais trabalhar com tranquilidade. Eu estava em casa da Senhora há vários meses, quando mudaram o sargento e de um momento para o outro as boas relações foram para o diabo. Os negócios viram‑se em perigo pelas exigências desmedidas do novo oficial, que não respeitava as normas tradicionais. As suas entradas intempestivas, ameaças e chantagens, acabaram com a paz de espírito tão necessária para a prosperidade. Trataram de chegar a um acordo com ele, mas era um indivíduo ambicioso e de espírito tacanho. A sua presença quebrou o delicado equilíbrio da rua República e espalhou a confusão por todo o lado, as pessoas reuniam‑se nas casas de jogo para discutir, assim não é possível ganhar a vida como Deus manda, tem de se fazer alguma coisa antes que este desgraçado nos leve à ruína. Comovido pelo coro das lamentações, Melecio decidiu intervir, apesar de o assunto não ser da sua competência, e propôs escrever uma carta assinada pelos prejudicados e levá ‑la ao Chefe do Departamento de Polícia, com cópia para o Ministro do Interior, já que ambos tinham beneficiado durante anos e tinham, portanto, o dever moral de ouvir os seus problemas. Não tardou a comprovar que o plano não tinha pés nem cabeça e que era uma temeridade pô‑lo em prática. Em poucos dias juntaram as assinaturas da vizinhança, tarefa nada simples porque se tinha de explicar a cada um os pormenores, mas finalmente reuniram uma quantidade importante e foi a própria Senhora que foi deixar o requerimento aos destinatários. Vinte e quatro horas depois, ao amanhecer, quando toda a gente ainda dormia, o Negro do botequim chegou a correr com a notícia de que estavam a vasculhar casa por casa. O maldito sargento vinha com a camioneta da Brigada Contra o Vício, bem conhecida por introduzir armas e droga nos bolsos para inculpar os inocentes. Sem fôlego, o Negro contou que tinham entrado como uma horda de guerra no cabaré e tinham levado presos todos os artistas e parte do público, deixando discretamente a clientela elegante fora do escândalo. Entre os detidos ia Melecio coberto de pedrarias e com a sua cauda emplumada de pássaro de Carnaval, acusado de pederasta e traficante, duas palavras que até então eu desconhecia. O Negro saiu disparado a dar a má notícia ao resto dos seus amigos, deixando a Senhora com uma crise de nervos.

‑ Veste‑te, Eva! Mexe‑te! Mete tudo na mala! Não! Não há tempo para nada! Temos de sair daqui...! Pobre Melecio!

Andava pelo apartamento meio nua, esbarrando contra as cadeiras niqueladas e as mesas de espelho enquanto se vestia à pressa. Por fim pegou na caixa de sapatos com dinheiro e largou a correr pela escada de serviço, seguida por mim, ainda tonta de sono e sem compreender o que se passava, apesar de pressentir que devia ser algo de muito grave. Descemos no mesmo instante em que a polícia entrava no elevador. No rés‑do‑chão demos com a porteira em camisa de dormir, uma galega de coração maternal, que em tempos normais fazia negócio de suculentas tortilhas de papas com chouriço em troca de frascos de água‑de‑colónia. Ao ver a nossa desordem e ao ouvir os gritos dos militares e as sereias das patrulhas na rua, compreendeu que não era altura de fazer perguntas. Fez‑nos sinal para a seguirmos até à cave do edifício, cuja porta de emergência comunicava com um estacionamento próximo, e por aí conseguimos escapar sem passar pela rua República, ocupada integralmente pela polícia. Depois daquela correria indigna, a Senhora deteve‑se ofegante, apoiada à parede de um hotel, prestes a desmaiar. Foi então que pareceu ver‑me pela primeira vez.

‑ Que fazes aqui?

‑ Também fujo...

‑ Vai‑te embora! Se te encontram comigo acusam‑me de corrupção de menores!

‑ Para onde quer que eu vá? Não tenho para onde ir.

‑ Não sei, filha. Procura Huberto Naranjo. Eu tenho de me esconder e conseguir ajuda para Melecio, agora não posso ocupar‑me de ti.

Desapareceu rua abaixo e a última coisa que vi foi o seu traseiro envolto na saia de flores, bamboleando‑se sem vestígios do antigo atrevimento, mas sim com franca incerteza. Fiquei acocorada na esquina enquanto os carros da polícia passavam a apitar e, à minha volta, fugiam meretrizes, sodomitas e proxenetas. Alguém me disse para me pôr a andar dali para fora, porque a carta redigida por Melecio e assinada por todos tinha caído nas mãos dos jornalistas e o escândalo, que estava a pôr em causa o lugar a mais do que um ministro e a várias patentes superiores da polícia, ia cair‑nos em cima como uma machadada. Vasculharam cada edifício, cada casa, cada hotel e as casas de jogo da vizinhança, até o cego do quiosque levaram preso e rebentaram tantas bombas lacrimogéneas que houve uma dezena de intoxicados e morreu um recém‑nascido a quem a mãe não conseguiu pôr a salvo, porque nessa hora estava com um cliente. Durante três dias e três noites não houve outro tema de conversa para além da Guerra aos Vadios como lhe chamou a imprensa. A imaginação popular, no entanto, chamou‑a Revolta das Putas, nome com o qual o incidente ficou registado nos versos dos poetas.

Vi‑me sem um centavo, como tantas vezes me tinha acontecido antes e me aconteceria no futuro, e também não consegui encontrar Huberto

Naranjo, a quem a confusão da batalha surpreendeu no Outro extremo da cidade. Desconcertada, sentei‑me entre duas colunas de um edifício, disposta a lutar contra a sensação de orfandade que noutras ocasiões experimentara e que agora voltava a invadir‑me. Escondi a cara entre os joelhos, chamei

a minha mãe e logo senti o seu cheiro a roupa lavada e farinha. Surgiu‑me intacta, com a sua trança enrolada na nuca e os olhos enevoados brilhando no rosto sardento, para me dizer que aquela rixa não era da minha conta e não havia razão para ter medo, que sacudisse a preocupação e passaríamos a andar juntas. Pus‑me de pé e peguei‑lhe na mão.

Não pude encontrar nenhum dos meus conhecidos, nem tive coragem para voltar à rua República, porque de todas as vezes que me aproximava via patrulhas estacionadas e pensei que me esperavam a mim. Há muito que nada sabia de Elvira e pus de parte a ideia de procurar a minha madrinha que naquela altura já tinha perdido a razão por completo e só se interessava em jogar na lotaria, convencida de que os santos lhe indicariam por telefone o número premiado, mas a corte celestial enganava‑se nas previsões tanto como qualquer mortal.

 

A célebre Revolta das Putas pôs tudo de pernas para o ar. No princípio o público aplaudiu a enérgica reacção do Governo e o Bispo foi o primeiro a fazer uma declaração a favor do punho de ferro contra o vício; mas a situação inverteu‑se quando um jornal humorístico, editado por um grupo de artistas e intelectuais, publicou com o título de Sodoma e Gomorra as caricaturas de altos funcionários implicados na corrupção. Dois dos desenhos pareciam‑se perigosamente com o General e o Homem da Gardénia cuja participação em traficâncias de toda a espécie era conhecida, mas que até esse momento ninguém se tinha atrevido a pôr em letras impressas. A Segurança revolveu as instalações do jornal, partiu as máquinas, queimou o papel, deteve os empregados que conseguiu apanhar e declarou a monte o director; mas no dia seguinte o seu cadáver apareceu, em pleno centro, com marcas de tortura, degolado, no interior de um automóvel estacionado. Ninguém teve dúvidas de quem era os responsáveis pela sua morte, os mesmos do massacre de universitários e do desaparecimento de tantos outros, cujos corpos iam parar a poços sem fundo, com a esperança de que se fossem encontrados mais tarde viessem a ser confundidos com fósseis. Este crime acabou com a paciência da opinião pública, que há anos suportava os abusos da ditadura, e em poucas horas organizou‑se uma manifestação maciça, muito diferente dos comícios‑relâmpago com que, em vão, a oposição protestava contra o Governo. As ruas próximas da Praça do Pai da Pátria encheram‑se com milhares de estudantes e operários que levantaram bandeiras, empunharam cartazes, queimaram pneus. Parecia que finalmente o medo tinha retrocedido para dar lugar à rebelião. No meio do tumulto, uma pequena coluna de estranho aspecto avançou por uma avenida lateral; eram as cidadas da rua República, que não tinham compreendido o alcance do escândalo político e julgavam que o povo se levantava em sua defesa. Comovidas, algumas ninfas subiram a uma tribuna improvisada para agradecer o gesto solidário para com as esquecidas da sociedade, como se autodesignaram. E está bem que assim seja, compatriotas, porque, como poderiam as mães, as noivas e as esposas dormir em paz se nós não fizéssemos o nosso trabalho? Onde desabafariam os seus filhos, noivos e maridos se não cumpríssemos com o nosso dever? A multidão ovacionou‑as de tal forma que por pouco armava‑se um carnaval, mas antes que isso acontecesse o General pôs o Exército na rua. Os carros de assalto avançaram com estrépito de paquidermes, mas não chegaram longe, porque o pavimento colonial das ruas do centro deu de si e a multidão aproveitou os paralelepípedos para atacar a autoridade. Houve tantos feridos e magoados que foi declarado o estado de sítio e se impôs o recolher obrigatório. Estas medidas aumentaram a violência, que explodiu por toda a parte como incêndios de Verão. Os estudantes até puseram bombas de fabrico caseiro nos púlpitos das igrejas, o povoléu derrubou as portas metálicas dos armazéns dos portugueses para se apoderar da mercadoria, um grupo de estudantes apanhou um polícia e passeou‑o nu pela Avenida Independência. Houve muitos destroços e vítimas a lamentar mas foi uma estupenda altercação que deu ao povo a oportunidade de gritar até enrouquecer, cometer desmandos e sentir‑se livre novamente. Não faltaram bandas de músicos improvisadas que tocavam em bidões de gasolina vazios e longas filas de bailarinas bamboleando‑se ao som dos ritmos de Cuba e da Jamaica. A barulheira durou quatro dias, mas os ânimos apaziguaram‑se finalmente, porque estavam todos exaustos e ninguém conseguia recordar com precisão a origem do acontecido. O ministro responsável apresentou a sua demissão e foi substituído por um conhecido meu. Ao passar em frente de um quiosque, vi o seu retrato na primeira página de um jornal. Custou‑me a reconhecê‑lo, porque a imagem daquele homem severo, com o cenho franzido e a mão levantada não correspondia àquele que eu deixara humilhado num cadeirão de veludo episcopal.

Até ao fim‑de‑semana o Governo recuperou o controlo da cidade e o General partiu para descansar na sua ilha privada, pança para cima sob o sol do Caribe, certo de que até os sonhos dos seus compatriotas estavam na sua mão. Esperava governar o resto da vida, porque para isso tinha o Homem da Gardénia a vigiar para que não se conspirasse nem nos quartéis nem na rua e além disso estava convencido de que o relâmpago da democracia não durara o suficiente para deixar marcas importantes na memória do povo. O saldo desse tremendo alvoroço foram alguns mortos e um número indeterminado de presos e exilados. Abriram‑se de novo as casas de jogo, e as casas de passe da rua República e os seus ocupantes regressaram aos trabalhos habituais, como se nada tivesse sucedido. As autoridades continuaram a receber as suas percentagens e o novo ministro manteve‑se no seu posto sem contratempos, depois de dar ordens à polícia para não molestar os vadios e dedicar‑se como sempre, a perseguir os opositores políticos e a dar caça aos loucos e mendigos para lhes rapar a cabeça, esfregá‑los com desinfectante e soltá‑los nas ruas para que desaparecessem pelas vias naturais.

O General não se alterou com o teatro de corrupção.

Andei muitos dias a vaguear de um lado para o outro. Não participei na Revolta das Putas, porque quis evitar as desordens. Apesar da presença visível da minha mãe, ao princípio sentia um vago ardor no centro do corpo e a boca seca, áspera, cheia de areia, mas depois acostumei‑me. Esqueci os rígidos hábitos de limpeza inculcados pela madrinha e pela Elvira e deixei de me aproximar das fontes e torneiras públicas para me lavar. Tornei‑me uma criança suja, que de dia caminhava sem rumo certo, comendo o que conseguisse encontrar e ao anoitecer refugiava‑me num sítio escuro para me esconder durante o recolher obrigatório, quando só os carros da polícia circulavam pelas ruas.

Um dia, aí pelas seis horas da tarde, conheci Riad Halabi. Eu estava na esquina e ele, que passava no mesmo passeio, parou a olhar‑me. Levantei a cara e vi um homem de meia idade, corpulento, de olhos lânguidos e pálpebras grossas. Julgo que usava fato claro e gravata, mas eu lembro‑me dele sempre vestido com aqueles impecáveis e leves casacos de algodão que pouco depois eu própria passaria a ferro esmeradamente.

‑ Ei, miúda... ‑ chamou‑me com voz fanhosa.

Foi então que lhe notei o defeito na boca, uma fenda profunda entre o lábio superior e o nariz, os dentes separados, através dos quais assomava a língua. O homem tirou um lenço e levou‑o à cara para esconder a sua deformidade, sorrindo‑me com os seus olhos de azeitona. Comecei a recuar, mas senti‑me invadida por uma profunda fadiga, um desejo insuportável de me abandonar e dormir, vergaram‑se‑me os joelhos e caí sentada, olhando o desconhecido através de uma neblina espessa. Ele inclinou‑se, pegou‑me ao colo, obrigou‑me a pôr de pé, a dar um passo, dois, três, até que me encontrei instalada num café em frente de uma enorme sanduíche de presunto e um copo de leite. Peguei‑lhes com as mãos trémulas inalando o cheiro do pão quente. Ao mastigar e beber senti uma dor surda, um prazer agudo e uma ansiedade feroz, que só voltei a encontrar algumas vezes num enlace amoroso. Comi com rapidez e não cheguei a terminar porque tornei a ficar enjoada e, desta vez, as náuseas foram incontroláveis e vomitei. As pessoas à minha volta afastaram‑se enojadas, o empregado começou a vociferar, mas o homem fê‑lo calar com uma nota e segurando‑me pela cintura levou‑me dali.

‑ Onde vives, filha? Tens família?

Neguei envergonhada. O homem levou‑me até uma rua próxima onde estava a sua camioneta, a cair aos bocados e cheia de caixas e sacos. Ajudou‑me a subir, tapou‑me com o seu casaco, pôs o motor a trabalhar e dirigiu‑se para leste.

A viagem durou toda a noite por sítios escuros, onde as únicas luzes eram as alcavalas da polícia, os camiões rumo aos campos petrolíferos e o Palácio dos Pobres, que se materializou por trinta segundos à beira da estrada como uma visão alucinante. Noutros tempos foi a mansão de Verão do Benfeitor onde dançavam as mais belas mulatas do Caribe, mas no dia em que o tirano morreu começaram a chegar os indigentes, primeiro timidamente, depois em tropel. Entraram nos jardins e como ninguém os detivesse continuaram a avançar, subiram pelas largas escadas ladeadas por colunas de talha com rebites de bronze, percorreram os faustosos salões de mármore branco de Almeria, rosa de Valência e cinzento de Carrara, atravessaram os corredores de mármores arborescentes, arabescos e cipolinos, entraram nas casas de banho de ónix, jade e turmalina e finalmente instalaram‑se com os filhos, avós, haveres e animais domésticos. Cada família encontrou um lugar para se acomodar, dividindo com linhas imaginárias os amplos quartos, penduraram as redes, partiram os mobiliários rococó para acender os fogões, os meninos desarmaram as torneiras de prata romana, os adolescentes amaram‑se entre os ornamentos do jardim e os velhos semearam tabaco nas banheiras douradas. Alguém mandou a polícia desalojá‑los a tiro, mas os veículos da autoridade perderam‑se pelo caminho e nunca encontraram o local. Não puderam expulsar os ocupantes, porque o palácio e tudo o que havia dentro se tornou invisível ao olhar humano, entrou noutra dimensão na qual continuou a existir sem perturbações.

Quando finalmente chegámos ao destino, já o sol tinha nascido. água Santa era uma daquelas aldeias adormecidas pela modorra da província, lavada pela chuva, brilhando à incrível luz dos trópicos. A camioneta percorreu a rua principal com as casas coloniais, cada uma com a sua pequena horta e galinheiro e parou em frente de uma vivenda caiada, mais resistente e mais bem situada do que as outras. àquela hora o portão estava fechado e não reparei que era um armazém.

‑ Já estamos em casa ‑ disse o homem.

 

Riad Halabi era um desses seres vencidos pela compaixão. Amava tanto os outros que fazia por lhes evitar a repugnância de olharem a sua boca partida, por isso trazia sempre um lenço na mão para a tapar, não comia nem bebia em público, mal sorria e procurava colocar‑se em contraluz ou na sombra, onde pudesse esconder o seu defeito. Passou a vida sem se dar conta da simpatia que inspirava em seu redor e do amor que semeou na minha alma. Tinha chegado ao país aos quinze anos, só, sem dinheiro, sem amigos e com um visto de turista carimbado num falso passaporte turco comprado pelo pai a um cônsul traficante no Próximo Oriente. Trazia como missão fazer fortuna e enviar dinheiro à família e apesar de não ter conseguido a primeira, nunca deixou de fazer a segunda. Educou os irmãos, deu um dote a cada irmã e comprou um olival para os pais, sinal de prestígio na terra de refugiados e mendigos onde tinha crescido. Falava espanhol com todos os modismos crioulos, mas com uma inconfundível pronúncia do deserto e de lá trouxe também o sentido da hospitalidade e a paixão pela água. Durante os primeiros anos de emigrante alimentou‑se de pão, banana e café. Dormia estendido no chão da fábrica de tecidos de um compatriota, que em troca de tecto lhe exigia que limpasse o edifício, carregasse os fardos de fio e de algodão e se ocupasse das ratoeiras, o que lhe levava uma parte do dia, o resto do tempo empregava‑o em diversas transacções. Depressa se deu conta onde estavam os lucros mais substanciais e optou por dedicar‑se ao comércio. Ia pelos escritórios oferecendo roupa interior e relógios, pelas casas da burguesia tentando as empregadas domésticas com cosméticos e colares de pechisbeque, pelos liceus exibindo mapas e lapiseiras, pelos quartéis vendendo fotos de actrizes nuas e gravuras de São Gabriel, patrono da milícia e da recruta. Mas a concorrência era feroz e as suas possibilidades de vencer quase nulas porque a sua única qualidade de vendedor consistia no gosto de regatear, que não lhe servia para obter vantagens, mas que lhe dava um bom pretexto para trocar ideias com os clientes e fazer amigos. Era honesto e falho de ambição, faltavam‑lhe condições para triunfar naquele ofício, pelo menos na capital, por isso os seus conterrâneos aconselharam‑no a viajar para o interior levando a sua mercadoria pelas aldeias mais pequenas onde as pessoas eram mais ingénuas. Riad Halabi partiu com a mesma apreensão dos antepassados ao iniciarem uma longa travessia do deserto. De início fê‑lo de autocarro, até que pôde comprar uma moto a crédito, à qual fixou uma grande caixa no assento traseiro. Nela percorreu os carreiros de burros e despenhadeiros de montanha com a resistência da sua raça de cavaleiro. Depois comprou um automóvel antigo mas brioso e por fim uma camioneta. Com esse veículo percorreu o país. Subiu aos cumes dos Andes por caminhos miseráveis, vendendo em lugarejos onde o ar era tão limpo que se podiam ver os anjos à hora do crepúsculo; bateu a todas as portas ao longo da costa, submerso pelo bafo quente da sesta, suando febril devido à humidade, parando de vez em quando para ajudar as iguanas, cujas patas ficavam coladas no asfalto derretido pelo sol; atravessou as dunas navegando sem bússola num mar de areias revolvidas pelo vento, sem olhar para trás porque a sedução do esquecimento não lhe tinha transformado o sangue em chocolate. Por fim, chegou à região que em outros tempos fora próspera e por cujos rios desciam canoas carregadas de odoríferos grãos de cacau, mas que o petróleo levara à ruína e agora estava devorada pela selva e pela indolência dos homens. Apaixonado pela paisagem, ia por aquela geografia com olhos maravilhados e espírito agradecido, recordando a sua terra, seca e dura onde era preciso uma tenacidade de formiga para cultivar uma laranja, em contraste com aquelas paragens pródigas em frutos e flores, como um paraíso preservado de todo o mal. Ali, tornava‑se fácil vender qualquer traste, até a alguém tão pouco virado para o lucro como ele, mas tinha o coração vulnerável e não foi capaz de enriquecer à custa da ignorância alheia. Ligou‑se às pessoas, grandes senhores na sua pobreza e abandono. Recebiam‑no como amigo onde quer que chegasse, tal como o seu avô acolhia os forasteiros na sua tenda, com a convicção de que um hóspede é sagrado. Em todas as cabanas lhe ofereciam uma limonada, um café preto e aromático, uma cadeira para descansar à sombra. Eram pessoas alegres e generosas, de palavra límpida, entre elas o que era dito tinha a força de um contrato. Ele abria a mala e espalhava a mercadoria pelo chão de terra batida. Os anfitriões observavam aqueles bens de utilidade duvidosa com um sorriso cortês e aceitavam comprá‑los para não o ofenderem, mas muitos não podiam pagar‑lhe, porque raramente dispunham de dinheiro. Ainda desconfiavam das notas, esses papéis impressos que hoje valiam alguma coisa e amanhã podiam ser retirados de circulação de acordo com os caprichos do governante de serviço, ou que desapareciam por descuido, como ocorreu com a colecta de Ajuda ao Leproso, devorada na totalidade por um bode que se introduziu no escritório do tesoureiro. Preferiam as moedas, que pelo menos, pesavam nos bolsos, soavam no balcão e brilhavam como dinheiro de verdade. Os mais velhos ainda escondiam as suas poupanças em panelas de barro e latas de querosene enterradas nos pátios, porque não tinham ouvido falar em bancos. Por outro lado, eram muito poucos os que ficavam sem sono por preocupações financeiras, a maioria vivia da permuta. Riad Halabi acomodou‑se a essas circunstâncias e renunciou à ordem paterna de enriquecer.

Uma das suas viagens conduziu‑o a água Santa. Quando entrou na aldeia, pareceu‑lhe despovoada, porque não se via vivalma nas ruas mas depois descobriu uma multidão reunida em frente do correio. Aquela foi a manhã memorável em que o filho da professora Inês morreu com um tiro na cabeça. O assassino, era o proprietário de uma casa rodeada de terrenos abruptos, onde cresciam mangueiras sem controlo humano. As crianças punham‑se a apanhar a fruta caída, apesar das ameaças do dono, um forasteiro que tinha herdado uma pequena fazenda e ainda não se libertara da avareza de certos homens da cidade. As árvores carregavam tanto, que os ramos se quebravam com o peso, mas tornava‑se inútil querer vender as mangas, porque ninguém as comprava. Não havia razão para pagar aquilo que a terra dava. Nesse dia, o filho da professora Inês desviou‑se do seu caminho para a escola a fim de apanhar fruta, tal como o faziam todos os companheiros. O tiro de espingarda entrou‑lhe pela testa e saiu pela nuca sem lhe dar tempo de adivinhar o que eram aquele relâmpago e aquele trovão que lhe rebentaram na cara.

Riad Halabi parou a camioneta em Agua Santa momentos depois de os meninos terem chegado com o cadáver numa padiola improvisada e de o depositarem frente à porta do correio. Toda a aldeia acudiu para o ver. A mãe olhava o filho sem conseguir compreender o que acontecera, enquanto quatro homens fardados continham as pessoas para evitar que fizessem justiça pelas próprias mãos, mas cumpriam esse dever sem o menor entusiasmo, porque conheciam a lei, sabiam que o homicida sairia impune do julgamento. Riad Halabi misturou‑se com a multidão com o pressentimento de que esse lugar estava assinalado no seu destino, era o fim do seu peregrinar. Assim que averiguou os pormenores do sucedido, sem vacilar, colocou‑se à cabeça de todos e ninguém pareceu estranhar a sua atitude, como se o esperassem. Abriu passagem, pegou no corpo e levou‑o até à casa da professora, onde improvisou um velório sobre a mesa da sala de jantar. Tratou de coar café e de o servir, o que causou certo sobressalto entre os presentes que nunca tinham visto um homem atarefado na cozinha. Passou a noite a acompanhar a mãe e a sua presença firme e discreta levou muitos a pensarem que se tratava de algum familiar. Na manhã seguinte organizou o enterro e ajudou a descer o caixão na cova com uma angústia tão sincera que Inês desejou que aquele desconhecido fosse o pai do seu filho. Quando calcaram a terra sobre o caixão, Riad Halabi voltou‑se para as pessoas reunidas à sua volta e tapando a boca com o lenço propôs uma ideia capaz de canalizar a ira colectiva. Saíram todos do cemitério para colher mangas, encheram sacos, cestos, bolsos, carrinhos de mão e assim marcharam até à propriedade do assassino que ao vê‑los avançar teve o impulso de os dispersar a tiro, mas pensou melhor e escondeu‑se no canavial. A multidão avançou em silêncio, rodeou a casa, partiu as janelas e as portas e despejou o seu carregamento nos quartos. Depois foram buscar mais. Andaram todo o dia a transportar mangas até que não sobrou uma nas árvores e a casa ficou cheia até ao tecto. A fruta rebentava e o sumo impregnava as paredes e corria pelo chão como sangue doce. Ao anoitecer, quando voltaram às suas casas, o criminoso atreveu‑se a sair do rio, pegou no carro e fugiu para não mais voltar. Nos dias seguintes, o sol aqueceu a casa tornando‑a numa enorme marmita onde as mangas foram cozidas em lume brando, a construção tingiu‑se de ocre, amoleceu, deformando‑se, partiu‑se e apodreceu, impregnando o povoado de cheiro a marmelada, durante anos.

A partir desse dia Riad Halabi considerou‑se como natural de água Santa, assim o aceitaram as pessoas e ali instalou a sua casa e o armazém. Como tantas habitações campesinas, a sua era quadrada, com os quartos dispostos à volta de um pátio, onde crescia uma vegetação alta e frondosa para dar sombra, palmeiras, fetos e algumas árvores de fruto, divisão que representava o coração da casa, ali se desenrolava a vida, era a passagem obrigatória de um quarto para outro. Ao centro, Riad Halabi construiu uma fonte árabe, ampla e serena, que apaziguava a alma com o som incomparável da água por entre as pedras. Rodeando o jardim interior instalou caleiras de cerâmica pelas quais corria uma acéquia cristalina e em cada divisão da casa mantinha‑se sempre uma taça de louça para demolhar pétalas de flores e aliviar com o seu aroma o ar abafado do clima. A casa tinha muitas portas como as casas dos ricos e com o tempo aumentou para dar lugar aos armazéns. As três salas grandes da frente destinavam‑se a armazém e na parte de trás estavam os quartos, a cozinha e a casa de banho. Pouco a pouco, o negócio de Riad Halabi chegou a ser o mais próspero da região, ali podia comprar‑se de tudo: alimentos, adubos, desinfectantes, tecidos, medicamentos e se alguma coisa não figurava no inventário, pedia‑se ao turco para o trazer na próxima viagem. Chamava‑se A Pérola do Oriente, em honra de Zulema, sua mulher.

 

Água Santa era uma aldeia modesta, com casas de adobe, madeira e caniço, construída à beira da estrada e defendida a machete de uma vegetação selvagem que ao mínimo descuido podia devorá-la. Até então não tinham chegado nem a onda de emigrantes nem os alvoroços do progresso, as pessoas eram afáveis, os prazeres simples e se não fosse a proximidade da Penitenciária de Santa Maria, teria sido um pequeno casario igual a tantos outros daquela região, mas a presença da polícia e a casa de putas davam‑lhe um

toque cosmopolita. A vida decorria sem surpresas durante os seis dias da semana, mas aos sábados mudavam os turnos da prisão e os guardas apareciam para se divertir, alterando com a sua presença a rotina da população, que procurava ignorá‑los, fingindo que aquele ruído vinha de algum barulho de macacos na mata, mas de qualquer modo tinham o cuidado de trancar as portas e fechar as filhas. Nesse dia os índios também entravam para pedir esmola: uma banana, um gole de licor, pão. Surgiam em fila, andrajosos, as crianças nuas, os velhos reduzidos pelo desgaste, as mulheres sempre prenhas, todos com uma ligeira expressão de troça nos olhos, seguidos por uma matilha de cães anões. O pároco reservava para eles algumas moedas da dízima e Riad Halabi oferecia um cigarro ou um caramelo a cada um.

Até à chegada do turco, o comércio reduzia‑se a minúsculas transacções de produtos agrícolas com os motoristas dos veículos que passavam pela estrada. Cedo, os rapazes montavam toldos para se protegerem do sol e colocavam as suas verduras, frutos e queijos sobre um caixote que tinham que abanar constantemente para espantar as moscas. Se tinham sorte, conseguiam vender alguma coisa e regressar a casa com umas moedas. Riad Halabi lembrou‑se de fazer um contrato com os camionistas que transportavam carga para os acampamentos petroliferos e que regressavam vazios, para levarem as hortaliças de Água Santa para a capital. Ele mesmo se encarregou de as colocar no Mercado Central na banca de um seu conterrâneo, levando assim alguma prosperidade à aldeia. Pouco depois, ao ver que na cidade havia um certo interesse pelo artesanato de madeira, barro cozido e vime, pôs os vizinhos a fabricá‑los para os vender nas lojas de turismo e em menos de seis meses isso constituiu a receita mais importante de várias famílias. Ninguém duvidava da sua boa disposição nem discutia os seus preços, porque nesse longo tempo de convivência o turco deu incontáveis provas de honestidade. Sem o pretender, o seu armazém chegou a ser o centro da vida comercial de Água Santa, através das suas mãos passavam quase todos os negócios da zona. Aumentou a adega, construiu outros quartos, comprou lindas panelas de ferro e cobre para a cozinha, lançou um olhar satisfeito à sua volta e considerou que tinha o necessário para contentar uma mulher. Então escreveu à mãe a pedir que lhe procurasse uma esposa na sua terra natal.

Zulema aceitou casar‑se com ele, porque apesar da sua beleza não tinha conseguido marido e já tinha vinte e cinco anos quando a casamenteira lhe falou de Riad Halabi. Disseram‑lhe que tinha lábio leporino, mas ela não sabia o que isso queria dizer, na fotografia que lhe mostraram via‑se apenas uma sombra entre a boca e o nariz, que parecia mais um bigode torcido do que um obstáculo para o matrimónio. A mãe convenceu‑a de que o aspecto físico não é importante no momento de formar uma família e que qualquer alternativa era preferível, a ficar solteira, feita criada na casa das irmãs casadas. Além disso, acaba‑se sempre por amar o marido, se nisso se põe vontade suficiente; é lei de Alá, disse ela, que duas pessoas que dormem juntas e trazem filhos ao mundo acabem por se estimar. Por outro lado, Zulema pensou que o seu pretendente era um rico comerciante instalado na América do Sul, e embora não tivesse a menor ideia onde ficasse essa terra de nome exótico, não duvidou de que seria mais agradável do que o bairro onde vivia, pejado de moscas e ratazanas.

Quando recebeu a resposta positiva da mãe, Riad Halabi despediu‑se dos amigos de Água Santa, fechou o armazém e a casa e embarcou rumo ao seu país onde não punha os pés há quinze anos. Perguntou‑se se a família o reconheceria na medida em que se sentia outra pessoa, como se a paisagem americana e a inclemência da vida o tivessem transformado, mas na realidade não tinha mudado muito. Embora já não fosse o rapaz magro de rosto devorado pelos olhos e pelo nariz adunco, mas um homem forte com tendência a formar barriga e duplo queixo, continuava a ser tímido, inseguro e sentimental.

A boda de Zulema e Riad Halabi foi efectuada com todos os rituais, porque o noivo pôde pagá‑los. Foi um acontecimento memorável naquela aldeia pobre onde quase tinham esquecido as verdadeiras festas. O único sinal de mau agoiro talvez tenha sido, no início da semana o vento khamin do deserto e a areia infiltrada por todo o lado, invadindo as casas, rasgando as roupas, gretando a pele e, no dia do casamento, colada às pestanas dos noivos, mas esse pormenor não impediu a celebração. No primeiro dia da cerimónia, as amigas e as mulheres das duas famílias reuniram‑se para examinar o enxoval da noiva, as flores de laranjeira, as faixas cor‑de‑rosa, enquanto comiam lúcumas, cornos de gazela, amêndoas e pistácios e ululavam de alegria com um yuyú sustenido, que se repercutia pela rua e chegava até aos homens, no café. No dia seguinte, levaram Zulema em procissão até ao banho público precedida por um ancião que tocava atabaque, para que os homens desviassem o olhar à passagem da noiva coberta com sete leves véus. Quando lhe tiraram a roupa no banho, para que as parentes de Riad Halabi vissem que estava bem alimentada e não tinha marcas, a mãe rompeu em pranto, como é da tradição. Puseram‑lhe henna nas mãos, depilaram‑lhe todo o corpo com cera e enxofre, deram-lhe massagens com creme, fizeram-lhe tranças enfeitadas com pérolas falsas e cantaram, dançaram e comeram doces com chá de hortelã, sem esquecer a moeda de ouro que a noiva ofereceu a cada uma das suas amigas. No terceiro dia foi a cerimónia do Neftah. A avó tocou‑lhe a fronte com uma chave para lhe abrir o espírito à franqueza e ao afecto e em seguida a mãe de Zulema e o pai de Riad Halabi calçaram‑na com sapatinhos untados com mel para que entrasse no matrimónio pelo caminho da doçura. No quarto dia, vestida com uma simples túnica, recebeu os sogros para os presentear com pratos confeccionados pelas suas próprias mãos e baixou modestamente os olhos quando lhe disseram que a carne estava dura e que faltava sal ao cuscuz mas que a noiva era bonita. No quinto dia provaram a honradez de Zulema expondo‑a à presença de três

trovadores que cantaram canções atrevidas, mas ela manteve‑se indiferente atrás do véu e cada obscenidade que lhe era atirada à cara de virgem foi premiada com moedas. Noutra sala, celebrava‑se a festa dos homens, onde Riad Halabi suportava os gracejos de todos os vizinhos. No sexto dia, casaram‑se na alcaidaria e no sétimo dia receberam o cádi. Os convidados colocaram os presentes aos pés dos esposos, gritando o preço que tinham pago por eles, o pai e a mãe beberam a sós com Zulema o último caldo de galinha e entregaram‑na ao marido, com muita má‑vontade, tal como deve fazer‑se. As mulheres da família levaram‑na ao quarto preparado para a ocasião e trocaram‑lhe o vestido pela camisa de casada, foram depois reunir‑se com os homens na rua, esperando que agitassem à janela o lençol ensanguentado da sua pureza.

Por fim, Riad Halabi encontrou‑se a sós com a esposa. Nunca se tinham visto de perto, nem tinham trocado palavras ou sorrisos. O costume exigia que ela estivesse assustada e a tremer, mas era ele quem se sentia assim. Enquanto pôde manter‑se a uma distância prudente, e sem abrir a boca, o seu defeito era menos notório, mas não sabia como ele poderia afectar a sua mulher na intimidade. Perturbado, aproximou‑se dela, estendeu os dedos para lhe tocar, atraído pelo reflexo nacarado da sua pele, pela abundância das suas carnes e pelas sombras do seu cabelo e então viu‑lhe a expressão de asco nos olhos e o gesto gelou‑se‑lhe no ar. Tirou o lenço e levou‑o à cara, mantendo‑o assim com uma mão enquanto com a outra a despia e acariciava, mas toda a sua paciência e ternura foram insuficientes para vencer a recusa de Zulema. Esse encontro foi triste para ambos. Mais tarde, enquanto a sogra agitava o lençol na varanda pintada de azul‑celeste para afugentar os maus espíritos e, por baixo, os vizinhos disparavam salvas de espingarda e as mulheres ululavam com frenesim, Riad Halabi escondeu‑se num canto. Sentia a humilhação como um murro no ventre. Essa dor ficou nele, como um gemido em surdina e nunca mais falou disso até ao dia em que o pôde contar à primeira pessoa que o beijou na boca. Tinha sido educado na regra do silêncio: ao homem é proibido demonstrar os seus sentimentos ou os seus secretos desejos. A sua posição de marido tornava‑o dono de Zulema, não era correcto que ela conhecesse as suas fraquezas, porque poderia utilizá‑las para o ferir ou dominar.

Voltaram para a América e Zulema não tardou a compreender que o marido não era rico nem nunca o seria. Odiou aquela nova pátria desde o primeiro instante, aquela aldeia, aquele clima, aquelas gentes, aquela casa; negou‑se a aprender espanhol e a colaborar no trabalho do armazém a pretexto de incontroláveis enxaquecas; fechou‑se no quarto, deitada na cama, empanturrando‑se de comida, cada vez mais gorda e aborrecida. Dependia do marido para tudo, até para se entender com os vizinhos, com quem ele tinha de servir de intérprete. Riad Halabi pensou que devia dar‑lhe tempo para se adaptar. Tinha a certeza de que ao ter filhos tudo seria diferente, mas as crianças não chegavam, apesar das sestas e noites apaixonadas que passou com ela, sem nunca esquecer de atar o lenço à cara. Assim passou um ano, passaram dois, três, dez, até que eu entrei em A Pérola do Oriente e nas suas vidas.

 

Era muito cedo e a aldeia dormia ainda quando Riad Halabi estacionou a camioneta. Levou‑me para dentro da vivenda pela porta das traseiras, atravessámos o pátio onde corria a água da fonte e cantavam os sapos e deixou‑me na casa de banho com um sabão e uma toalha nas mãos. Deixei correr longamente a água pelo corpo, lavando a sonolência da viagem e o desamparo das últimas semanas, até recuperar a cor natural da minha pele, já esquecida por tanto abandono. Depois sequei‑me, penteei‑me com uma trança e vesti‑me com uma camisa de homem atada na cintura por um cordão e calcei umas alpargatas de lona que Riad Halabi tirou do armazém.

‑ Agora vais comer com calma, para não te doer a barriga ‑ disse o dono da casa, instalando‑me na cozinha em frente de um festim de arroz, carne amassada com trigo e pão sem fermento. - A mim chamam‑me o turco, e a ti?

‑ Eva Luna.

‑ Quando viajo a minha mulher fica sozinha, precisa de alguém que lhe faça companhia. Ela não sai, não tem amigas, não fala espanhol.

‑ Quer que eu seja a sua criada?

‑ Não. Serás como uma filha.

‑ Há muito tempo que não sou filha de ninguém e já não me recordo como se faz. Tenho de obedecer em tudo?

‑ Sim.

‑ Que me fará quando me portar mal?

‑ Não sei, veremos.

‑ Aviso que não suporto que me batam...

‑ Ninguém te vai bater, menina.

‑ Fico um mês à experiência e se não gostar, fujo.

‑ De acordo.

Nesse momento Zulema apareceu na cozinha, ainda tonta de sono. Olhou‑me dos pés à cabeça sem parecer estranhar a minha presença, já que estava resignada a suportar a irremediável hospitalidade do marido, capaz de albergar qualquer pessoa com aspecto de necessitada. Dez dias antes, tinha recolhido um viajante mais o seu burro e, enquanto o hóspede recuperava forças para seguir caminho, o animal comeu a roupa estendida ao sol e uma parte considerável da mercadoria do armazém. Zulema, alta e branca, cabelo negro, duas covinhas na comissura dos lábios e grandes olhos protuberantes e sombrios, apareceu vestida com uma túnica de algodão que a cobria até aos pés. Estava enfeitada com argolas e pulseiras de ouro, sonoras como cascavéis. Olhou‑me sem o menor entusiasmo, certa de que eu era alguma mendiga recolhida pelo marido. Eu saudei‑a em árabe, tal como Riad Halabi

me tinha ensinado, momentos antes, e então um largo sorriso fez estremecer Zulema, tomou‑me a cabeça entre as mãos e beijou‑me na testa respondendo com uma litania na sua língua. O turco deu também uma gargalhada,

tapando a boca com o lenço.

Esta saudação bastou para abrandar o coração da minha nova patroa.

A partir dessa manhã senti-me como se tivesse crescido naquela casa. O costume de me levantar cedo foi‑me muito útil. Despertava com a alvorada, punha as pernas fora da cama, com um impulso enérgico punha‑me em pé

e desde esse instante não tornava a sentar‑me, sempre a cantar, a trabalhar e a preparar o café, segundo as instruções recebidas fervendo‑o três vezes numa cafeteira de cobre e aromatizando‑o com sementes de cardamomo, em

seguida servia‑o numa xícara e levava‑o a Zulema, que o bebia sem abrir os olhos e continuava a dormir até tarde. Em contrapartida, Riad Halabi, tomava o pequeno‑almoço na cozinha. Gostava de ser ele a preparar essa primeira refeição e a pouco e pouco perdeu a vergonha da sua boca disforme e deixou que eu o acompanhasse. Em seguida abríamos juntos a porta metálica do armazém, limpávamos o balcão, arrumávamos os produtos e sentávamo‑nos à espera dos clientes, que não tardavam a aparecer.

Pela primeira vez fui livre de andar pela rua, até então estivera sempre entre paredes, por detrás de uma porta com chave ou vagueando perdida numa cidade hostil. Procurava pretextos para falar com os vizinhos ou para ir à tarde passear pela praça. Aí situavam‑se a igreja, o correio, a escola, a esquadra, ali se tocavam todos os anos os tambores de São João, queimava‑se um boneco de trapos para comemorar a traição de Judas, coroava‑se a rainha de Água Santa e todos os Natais a professora Inês organizava os Quadros Vivos da escola, com os alunos vestidos de papel crepe e salpicados de prateado para representarem cenas imóveis da Anunciação, do Nascimento e do Massacre dos Inocentes ordenado por Herodes. Eu caminhava falando alto, alegre e brincalhona, misturando‑me com os outros, contente por pertencer àquela comunidade.

Em Água Santa as janelas não tinham vidros e as portas estavam sempre abertas, era costume fazerem‑se visitas, passar em frente das casas e saudar, entrar para tomar um café ou um sumo de fruta, todos se conheciam, ninguém podia queixar‑se de solidão ou de abandono. Ali nem os mortos ficavam sozinhos.

Riad Halabi ensinou‑me a vender, pesar, medir, fazer contas, dar o troco e regatear, um aspecto fundamental do negócio. Não se regateia para tirar

proveito do cliente mas para aumentar o prazer da conversa, dizia. Também aprendi algumas frases em árabe para comunicar com Zulema. Em breve Riad Halabi decidiu que eu não podia nem desembaraçar‑me no armazém

nem viver sem saber ler e escrever e pediu à professora Inês que me desse lições particulares, porque eu já estava muito crescida para ir para o primeiro ano da escola. Todos os dias percorria os quatro quarteirões com o livro bem visível para que todos o vissem, orgulhosa de ser uma estudante. Sentava‑me umas duas horas frente à mesa da professora Inês, junto do retrato do menino assassinado, mão, bota, olho, vaca, a minha mamã mima‑me, Pepe pede o pipo. A escrita era o melhor que me tinha acontecido em toda a minha vida, estava eufórica, lia em voz alta, andava com o caderno debaixo do braço, para o usar a cada instante, anotava pensamentos, nomes de flores, vozes de pássaros, inventava palavras. A possibilidade de escrever permitiu‑me prescindir das rimas para recordar e pude complicar os contos com múltiplas personagens e aventuras. Tomando nota de algumas frases curtas recordava‑me do resto e podia repeti‑lo à minha patroa, mas isso foi depois, quando ela começou a falar espanhol.

Para me treinar na leitura Riad Halabi comprou um almanaque e algumas revistas de teatro com fotografias de artistas, que encantaram Zulema. Quando consegui ler correntemente, trouxe‑me novelas românticas, todas do mesmo estilo: secretária de lábios túrgidos, seios mórbidos e olhos cândidos conhece executivo de músculos de bronze, cãs e olhos de aço, ela é sempre virgem, mesmo no caso pouco frequente de ser viúva, ele é autoritário e superior a ela em todos os sentidos, há um mal‑entendido por ciúmes ou por herança, mas tudo se arranja, e ele estreita‑a nos braços metálicos e ela suspira esdruxulamente, ambos arrebatados pela paixão, mas nada disto é grosseiro ou carnal. O final era um único beijo que os conduzia ao êxtase de um paraíso sem regresso: o matrimónio. Depois do beijo não havia mais nada, apenas a palavra fim emoldurada com flores ou pombas. Eu podia facilmente adivinhar a história à terceira página e para me distrair mudava‑a, desviando‑a para um desenlace trágico, muito diferente do imaginado pelo autor e mais de acordo com a minha tendência incurável à morbidez e à violência, em que a rapariga se transformava em traficante de armas e o empresário ia para a índia cuidar de leprosos. Salpicava o tema com ingredientes violentos tirados da rádio ou da coluna policial e com os conhecimentos adquiridos às escondidas nas ilustrações dos livros educativos da Senhora. Um dia, a professora Inês falou a Riad Halabi de As Mil e Uma Noites e na viagem seguinte ele trouxe‑me de presente quatro grandes livros encadernados em couro vermelho nos quais mergulhei até perder de vista os contornos da realidade. O erotismo e a fantasia entraram na minha vida com a força de um tufão, rompendo todos os limites possíveis e pondo de pernas para o ar a ordem estabelecida. Não sei quantas vezes li cada história. Quando as soube todas de cor comecei a transpor personagens de uma história para a outra, a mudar os episódios, a suprimir e a acrescentar, num jogo de infinitas possibilidades. Zulema passava horas a escutar‑me com todos os sentidos alerta para compreender cada gesto e cada som, até que um dia acordou a falar espanhol correctamente, como se durante aqueles dez anos o idiomativesse estado na sua garganta, esperando que ela abrisse os lábios e o deixasse sair.

Eu amava Riad Halabi como se fosse meu pai. Unia‑nos o riso e a brincadeira. Aquele homem, que às vezes parecia sério ou triste era na realidade alegre, mas só na intimidade da casa e longe do olhar dos outros se atrevia a rir e a mostrar a boca. Sempre que o fazia Zulema desviava a cara, mas eu considerava o seu defeito como um presente de nascimento, algo que o tornava diferente dos outros, único neste mundo. Jogávamos dominó e apostávamos toda a mercadoria de A Pérola do Oriente, invisíveis morocotas de ouro, plantações gigantescas, e poços petrolíferos. Cheguei a ser multimilionária, porque ele me deixava ganhar. Compartilhávamos o gosto pelos provérbios, pelas canções populares, pelas anedotas ingénuas, comentávamos as notícias do jornal e uma vez por semana íamos juntos ver os filmes do camião do cinema, que percorria as aldeias montando o espectáculo nos campos desportivos ou nas praças. A maior prova da nossa amizade era comermos juntos. Riad Halabi inclinava‑se sobre o prato e empurrava o alimento com o pão ou com os dedos, sorvendo, lambendo, limpando com guardanapos de papel a comida que lhe escorria da boca. Ao vê‑lo assim, sempre no lado mais sombrio da cozinha, parecia‑me um animal grande e generoso e sentia vontade de lhe acariciar o cabelo encaracolado, de lhe passar a mão pelo lombo. Nunca me atrevi a tocar‑lhe. Desejava demonstrar‑lhe o meu afecto e o meu agradecimento com pequenos serviços, mas ele não mo permitia porque não tinha o costume de receber ternura, embora fosse da sua natureza prodigalizá‑la aos outros. Eu lavava as suas camisas e casacos de linho, branqueava‑os ao sol e punha‑lhes um pouco de goma, passava‑os a ferro com cuidado, dobrava‑os e guardava‑os no armário com folhas de alfavaca e hortelã‑pimenta.

Aprendi a cozinhar hummus e tehina, folhas de videira recheadas de carne e pinhões, falafel de trigo, fígado de cordeiro, beringelas, frango com alcuscuz, endro e açafrão e baklavas de mel e nozes. Quando não havia clientes na loja e estávamos sozinhos, ele traduzia‑me poemas de Harun Al Raschid, cantava‑me canções do Oriente, um longo e belo lamento. Outras vezes cobria metade da cara com um trapo de cozinha, imitando um véu de odalisca e bailava para mim, desajeitado, os braços levantados e a barriga a girar enlouquecida. Assim, no meio de gargalhadas, ensinou‑me a dança do ventre.

‑ É uma dança sagrada, só a dançarás para o homem que mais amares na tua vida ‑ disse‑me Riad Halabi.

 

Zulema era moralmente neutra, como um menino de peito, toda a sua energia tinha sido desviada ou suprimida, não participava na vida, ocupada só com as suas íntimas satisfações. Tinha medo de tudo: de ser abandonada pelo marido, de ter filhos de lábio bífido, de perder a beleza, de que as enxaquecas lhe perturbassem o cérebro e de envelhecer. Estou certa de que no fundo estava farta de Riad Halabi, mas não podia deixá‑lo e preferia suportar a sua presença a ter de trabalhar para se sustentar. A intimidade com ele repugnava‑a, mas ao mesmo tempo fazia por provocá‑la como meio para o prender, aterrada com a ideia de que ele pudesse encontrar prazer junto de outra mulher. Por seu lado, Riad amava‑a com a mesma paixão humilhada e triste do primeiro encontro e solicitava‑a com frequência. Aprendi a decifrar os seus olhares e quando vislumbrava esse fulgor especial, saía para dar uma volta pela rua ou para atender alguém no armazém, enquanto eles se fechavam no quarto. Depois Zulema ensaboava‑se furiosamente, esfregava‑se com álcool e fazia lavagens com vinagre. Demorei muito tempo a relacionar aquele aparelho de borracha e aquela cânula com a esterilidade da minha patroa. Tinham educado Zulema para servir e dar prazer a um homem, mas o seu esposo não lhe exigia nada e talvez por isso ela se tivesse acostumado a não fazer o mais pequeno esforço e acabou por se transformar num enorme brinquedo. Os meus contos não contribuíram para a sua felicidade, só lhe encheram a cabeça de ideias românticas, levando‑a a sonhar com aventuras impossíveis e heróis emprestados, afastando‑a definitivamente da realidade. Só a entusiasmavam o ouro e as pedras vistosas. Quando o marido ia à capital, gastava boa parte dos seus lucros a comprar-lhe jóias toscas, que ela guardava numa caixa enterrada no pátio.

Obcecada pelo medo de lhas roubarem, mudava‑as de lugar quase todas as semanas, mas nunca conseguia lembrar‑se onde as tinha posto e perdia horas à procura delas, até que conheci todos os esconderijos possíveis e vi que os usava sempre pela mesma ordem. As jóias não deviam permanecer debaixo de terra por muito tempo, porque se pensava que naquelas paragens os fungos corroem até os metais nobres e ao fim de algum tempo saem do chão vapores fosforescentes que atraem os ladrões. Por isso, de vez em quando, Zulema punha os seus adornos ao sol, à hora da sesta. Sentava‑me a seu lado a vigiá‑los, sem compreender a sua paixão por esse discreto tesouro, pois não tinha ocasião de o exibir, não recebia visitas, não viajava com Riad Halabi nem passeava pelas ruas de Água Santa, limitava‑se apenas a imaginar o regresso ao seu país, onde provocaria inveja com aqueles luxos, justificando assim os anos perdidos em tão remota região do mundo.

à sua maneira, Zulema era boa para mim, tratava‑me como a um cão de luxo. Não éramos amigas, mas Riad Halabi ficava nervoso quando ficávamos sozinhas por muito tempo e se nos surpreendia a falar em voz baixa procurava pretextos para nos interromper, como se temesse a nossa cumplicidade. Durante as viagens do marido, Zulema esquecia as dores de cabeça e parecia mais alegre, chamava‑me ao quarto e pedia‑me que a esfregasse com nata e rodelas de pepino para aclarar a pele. Estendia‑se de costas sobre a cama, nua, apenas com argolas e pulseiras, com os olhos fechados e o cabelo azul espalhado sobre o lençol. Ao vê‑la assim eu pensava num pálido peixe

abandonado ao seu destino na praia. Por vezes o calor oprimia e sobo roçar das minhas mãos ela parecia arder como uma pedra ao sol

‑ Põe‑me óleo no corpo e depois, quando refrescar, vou pintar o cabelo

‑ ordenava Zulema no seu recente espanhol

Não suportava os próprios pêlos, pareciam lhe um sinal de animalidade apenas tolerável nos homens, que de qualquer modo eram meio a mmais Gritava quando eu lhos arrancava com uma mistura de açúcar quente e limão deixando apenas um pequeno triângulo escuro no pubis. Incomodava-a o próprio cheiro, lavava‑se e perfumava se de maneira obssessiva. Exigia que lhe contasse histórias de amor, que descrevesse o protagonista o compri mento das suas pernas, a força das suas mãos, o contorno do seu peito, que me detivesse nos pormenores amorosos, se ele fazia isto ou aquilo, quantas vezes, que sussurava ele na cama. Aquele calor parecia uma doença. Meti nas minhas histórias uns galãs menos enfeitados com um ou outro defeito físico, talvez com uma cicatriz na cara, perto da boca, mas isso punha‑a de mau‑humor, ameaçava pôr‑me na rua e em seguida caía numa tristeza maliciosa. Com o passar dos meses adquiri segurança, desprendi‑me da nostalgia

e não voltei a mencionar o prazo de experiência com a esperança de que Riad Halabio tivesse esquecido. De certa maneira os meus patrões eram a minha família. Habituei‑me ao calor, às iguanas aquecendo‑se ao sol como monstros do passado, à comida árabe, às horas lentas da tarde, aos dias sempre iguais. Gostava daquela aldeia esquecida, ligada ao mundo por um único fio de telefone e um caminho de curvas, rodeada de uma vegetação tão fechada, que uma vez voltou‑se um camião perante os olhos de várias testemunhas, e quando espreitaram no barranco não o puderam encontrar, tinha sido engolido pelos fetos e filodendros. Os habitantes conheciam‑se pelo nome e as vidas dos outros não tinham segredos. A Pérola do Oriente era um centro de reunião onde se conversava, se faziam negócios, onde os namorados marcavam encontros. Ninguém perguntava por Zulema, ela era apenas um fantasma estrangeiro escondido nos quartos das traseiras, cujo desprezo pelo povo era retribuído de igual forma, mas em contrapartida estimavam Riad Halabi e perdoavam‑lhe que não se sentasse a beber ou a comer com os vizinhos, como exigiam os ritos da amizade. Apesar das dúvidas do padre, que punha objecções à sua fé muçulmana, era padrinho de várias crianças que tinham o seu nome, juiz nas disputas, árbitro e conselheiro em momentos de crise. Acolhi‑me à sombra do seu prestígio, satisfeita de pertencer à sua casa, fiz planos para continuar naquela vivenda branca e ampla, perfumada pelas pétalas das flores nas bacias dos quartos, refrescada pelas árvores do jardim. Deixei de lamentar a perda de Huberto Naranjo e de Elvira, construi dentro de mim uma imagem aceitável da madrinha, e suprimi as más recordações para ter um bom passado. A minha mãe também encontrou um lugar nas sombras dos quartos e costumava aparecer de noite como um sopro junto da minha cama. Sentia‑me apaziguada e contente. Cresci um pouco, mudaram‑se‑me as feições e ao ver‑me ao espelho já não encontrava uma criança hesitante, começavam a surgir os meus traços definitivos, os que tenho agora.

‑ Não podes viver como uma beduína, tens de passar pelo Registo Cívil ‑ disse um dia o patrão.

Riad Halabi deu‑me várias coisas fundamentais para circular pelo meu destino e entre elas, duas muito importantes: a escrita e um certificado de existência. Não havia papéis que provassem a minha presença no mundo, ninguém me registou ao nascer, nunca tinha estado numa escola, era como se não tivesse nascido, mas ele falou com um amigo da cidade, pagou o suborno correspondente e conseguiu um bilhete de identidade, no qual por um erro do funcionário, figuro com menos três anos do que na realidade tenho.

 

Kamal, o segundo filho de um tio de Riad Halabi, veio viver lá para casa ano e meio depois de mim. Entrou em A Pérola do Oriente com tanta discrição que não vimos nele os sinais da fatalidade nem suspeitámos que teria o efeito de um furacão nas nossas vidas. Tinha vinte e cinco anos, era pequeno e magro, de dedos finos e longas pestanas, parecia desconfiado e cumprimentava cerimoniosamente, levando a mão ao peito e inclinando a cabeça, gesto que Riad começou a utilizar imediatamente e todos os meninos de Água Santa passaram a imitar entre gargalhadas. Era homem acostumado a passar miséria. A sua família escapara aos israelitas, fugindo da aldeia depois da guerra, perdendo todos os bens: a pequena horta, herança dos antepassados, o burro e meia‑dúzia de panelas. Criou‑se num acampamento para refugiados palestinianos e talvez o seu destino fosse tornar‑se guerrilheiro e combater os judeus, mas não era talhado para os acasos da batalha e também não compartilhava a indignação do pai e dos irmãos pela perda de um passado ao qual não se sentia ligado. Atraíam‑no mais os costumes ocidentais, ansiava partir para começar outra vida onde não devesse respeito a ninguém e onde ninguém o conhecesse. Passou a infância a traficar no mercado negro e a adolescência a seduzir as viúvas do acampamento, até que o pai, cansado de lhe dar sovas e de o esconder dos inimigos, fez um acordo com Riad Halabi, esse sobrinho instalado num remoto país da América do Sul, de cujo nome não se conseguia lembrar. Não perguntou a opinião de Kamal, pegou‑lhe simplesmente por um braço e levou‑o de rastos até ao porto onde o empregou como grumete num barco mercante, com a recomendação de não regressar a menos que ficasse rico. Assim chegou o jovem, como tantos emigrantes, à mesma costa escaldante onde há cinco anos Rolf Carlé desembarcara de um navio norueguês. Dali seguiu em autocarro até Água Santa até aos braços do seu parente que o recebeu com grandes demonstrações de hospitalidade.

Durante três dias A Pérola do Oriente permaneceu fechada e a casa de Riad Halabi abriu numa festa inesquecível, à qual assistiram todos os habitantes da aldeia. Enquanto Zulema padecia de um dos seus inumeráveis mal‑estares fechada no quarto, o patrão e eu, ajudados pela professora Inês e outras vizinhas, fizemos tanta comida que aquilo parecia uma boda das cortes de Bagdade. Sobre as mesas cobertas por toalhas brancas colocámos grandes bandejas de arroz de açafrão, pinhões, passas e pistácios, pimentos e caril e à volta cinquenta pratos de guisados árabes e americanos, uns salgados, outros picantes ou agridoces, com carne e peixe trazidos do litoral em sacos de gelo e toda a espécie de cereais com os respectivos molhos e condimentos. Havia uma mesa só para sobremesas, onde doces orientais alternavam com receitas crioulas. Servi enormes jarros de rum com fruta, que os primos, como bons muçulmanos, não provaram mas os outros beberam até rebolarem felizes para debaixo das mesas e os que se aguentaram de pé dançaram em honra do recém‑chegado. Kamal foi apresentado a cada vizinho e a todos teve de contar em árabe a sua vida. Ninguém entendeu uma palavra do seu discurso, mas sairam comentando que parecia um jovem simpático e era‑o na verdade, tinha o aspecto frágil de uma rapariga, mas havia algo de aveludado, moreno e equívoco no seu aspecto que inquietava as mulheres. Ao entrar numa casa enchia‑a com a sua presença até ao canto mais recôndito, quando se sentava à porta do armazém a apanhar o fresco da tarde toda a rua sentia o impacte da sua atracção, envolvia os outros numa espécie de encantamento. Só podia fazer‑se entender por gestos e exclamações mas todos o escutávamos fascinados, seguindo o ritmo da sua voz e a áspera melodia das suas palavras.

‑ Agora posso viajar tranquilo, porque há um homem na família para cuidar das mulheres, da casa e do armazém ‑ disse Riad Halabi dando palmadas nas costas do primo.

Muitas coisas mudaram com a chegada daquele visitante. O patrão afastou‑se de mim, já não me chamava para ouvir os meus contos ou para comentar as notícias do jornal, pos de lado as brincadeiras e as leituras a dois, os jogos de dominó tornaram‑se um assunto de homens. Logo na primeira semana adoptou o hábito de ir sozinho com Kamal à projecção do cinematógrafo ambulante, porque o seu parente não estava acostumado à companhia de mulheres. Exceptuando algumas médicas da Cruz Vermelha e missionárias evangélicas que visitavam os acampamentos de refugiados, quase todas enxutas como madeira seca, o jovem só tinha visto mulheres com o rosto descoberto depois dos quinze anos, quando saiu pela primeira vez do lugar onde crescera. Certa vez efectuou uma difícil viagem de camião para ir à capital a um sábado, ao sector da colónia norte‑americana, onde as gringas lavavam os seus automóveis na rua vestidas apenas com calções e blusas decotadas, espectáculo que atraía multidões masculinas vindas das mais remotas aldeias da região. Os homens alugavam cadeiras e guarda-sóis para se instalarem a observá‑las. O lugar enchia‑se de vendedores de bugigangas, sem que elas se apercebessem da excitação, totalmente alheias aos gritos, suores, tremores e às erecções que provocavam. Para aquelas senhoras transplantadas de outra civilização, aquelas personagens envoltas em túnicas, de pele escura e barbas de profeta, eram simplesmente uma ilusão óptica, um erro existencial, um delírio provocado pelo calor. Diante de Kamal, Riad Halabi comportava‑se com Zulema e comigo como um chefe brusco e autoritário, mas quando estávamos sozinhos compensava‑nos com pequenos presentes e tornava a ser o amigo afectuoso de outrora. Atribuíram‑me a função de ensinar espanhol ao recém‑chegado, tarefa nada simples, porque ele sentia‑se humilhado quando eu lhe dava o significado de uma palavra ou lhe mostrava um erro de pronúncia, mas aprendeu rapidamente a algaraviar e em breve pôde ajudar na loja.

‑ Senta‑te com as pernas juntas e abotoa todos os botões da bata - ordenou‑me Zulema. Creio que estava a pensar em Kamal.

O encanto do primo encheu a casa e A Pérola do Oriente, espalhou‑se pela aldeia e foi levado pelo vento ainda mais longe. As raparigas entravam a toda a hora no armazém com os mais diversos pretextos. Perante ele floresciam como frutos selvagens, abafavam sob as saias curtas e as blusas justas, tão perfumadas que depois de sairem a sala ficava impregnada por muito tempo. Entravam em grupos de duas ou três, rindo‑se, cochichando, apoiavam‑se no balcão de maneira a que os seios ficassem expostos e os traseiros se elevassem atrevidos acima das pernas morenas. Esperavam‑no na rua, convidavam‑no à tarde para as suas casas, iniciaram‑no nos bailes do Caribe.

Eu sentia uma impaciência constante. Era a primeira vez que sentia ciúmes e esse sentimento agarrado à minha pele de dia e de noite como uma nódoa, uma sujidade impossível de tirar, chegou a ser tão insuportável que, quando finalmente consegui libertar‑me dele, libertara‑me definitivamente da necessidade de possuir outrem e da tentação de pertencer a alguém. Desde o primeiro instante Kamal transtornou‑me a cabeça, pos‑me em carne viva, sentindo alternadamente o prazer absoluto de o amar e a dor atroz de em vão o amar. Seguia‑o por todo o lado como uma sombra, servia‑o, transformei‑o no herói das minhas fantasias solitárias. Mas ele ignorava‑me por completo. Tomei consciência de mim mesma, observava‑me ao espelho, apalpava o meu corpo, ensaiava penteados no silêncio da sesta, aplicava uma pontinha de carmim, nas faces e na boca, com cuidado para que ninguém notasse. Kamal passava por mim sem me ver. Era o protagonista de todas as minhas histórias de amor. Já não me chegava o beijo final dos romances que lia a Zulema e comecei a viver com ele noites de tormento e ilusão. Fizera quinze anos e era virgem e se a corda de sete nós inventada pela madrinha medisse também as intenções, não teria saído airosa da prova.

A nossa vida alterou‑se durante a primeira viagem de Riad Halabi, quando Zulema, Kamal e eu ficámos sozinhos. A patroa curou‑se como por encanto dos mal‑estares e despertou de uma letargia de quase quarenta anos. Nesses dias levantava‑se cedo, preparava o pequeno‑almoço, vestia‑se com os melhores vestidos, enfeitava‑se com todas as suas jóias, penteava o cabelo para trás, preso na nuca num meio rabo de cavalo, deixando o resto solto sobre os ombros. Nunca se tinha visto tão bela. Ao princípio Kamal evitava‑a, diante dela mantinha os olhos no chão e quase não lhe falava, ficava todo o dia no armazém e à noite saía a deambular pela aldeia; mas foi‑lhe impossível subtrair‑se ao poder daquela mulher, à impressão pesada do seu cheiro, ao calor da sua passagem, ao feitiço da sua voz. O ambiente encheu‑se de secretas urgências, de presságios, de chamadas. Pressenti que à minha volta acontecia algo de prodigioso do qual eu estava excluída, uma guerra privada entre os dois, uma violenta luta de vontades. Kamal batia em retirada, cavando trincheiras, defendido por séculos de tabus, pelo respeito às leis da hospitalidade e aos laços de sangue que o uniam a Riad Halabi. Zulema, ávida como uma flor carnívora, agitava as suas pétalas perfumadas para o atrair à sua armadilha. Aquela mulher preguiçosa e mole cuja vida decorria estendida na cama com panos frios na testa, transformou‑se numa fêmea imensa e fatal, uma aranha branca tecendo incansavelmente a sua teia. Desejei ser invisível.

Zulema sentava‑se na sombra do pátio a pintar as unhas dos pés e mostrava as grossas pernas até meio das coxas. Zulema fumava e com a ponta da língua acariciava em círculos a ponta do cigarro, os lábios húmidos. Zulema movia‑se e o vestido deslizava descobrindo um ombro redondo que, com a sua brancura impossível, captava toda a luz do dia. Zulema comia uma fruta madura e o sumo amarelo salpicava‑lhe um seio. Zulema brincava com o seu cabelo azul, cobrindo parte da cara olhando Kamal com olhos de huri. O primo resistiu como um valente durante setenta e duas horas. A tensão foi aumentando até que se me tornou insuportável e receei que o ar rebentasse numa tempestade eléctrica, reduzindo‑nos a cinzas. Ao terceiro dia, Kamal trabalhou desde muito cedo, sem nunca aparecer por casa, dando voltas inúteis em A Pérola do Oriente para consumir tempo. Zulema chamava para comer, mas ele disse que não tinha fome e demorou mais uma outra hora a fazer a caixa. Esperou que toda a aldeia adormecesse e que o céu estivesse negro para fechar a loja e quando calculou que tinha começado a novela da rádio, meteu‑se secretamente na cozinha procurando os restos do jantar. Mas, pela primeira vez em muitos meses, Zulema estava disposta a perder o capítulo daquela noite. Para o despistar deixou o rádio aceso no seu quarto e a porta entreaberta e decidiu esperá‑lo na penumbra do corredor. Tinha vestido uma túnica bordada, por baixo estava nua e quando levantava o braço a pele leitosa brilhava‑lhe até à cintura. Passara a tarde a depilar‑se, a escovar o cabelo, a massajar‑se com cremes, a maquilhar‑se, perfumara o corpo com patchuli e refrescara o hálito com alcaçuz, estava descalça e sem jóias, preparada para o amor. Consegui ver tudo porque não fui mandada para o quarto, esquecida da minha existência. Para Zulema só Kamal e a batalha que ia ganhar importavam.

A mulher apanhou a sua presa no pátio. O primo levava meia banana na mão e ia a mastigar a outra metade, uma barba de dois dias sombreava‑lhe a cara, suava porque estava calor e era a noite da sua derrota.

‑ Estou à tua espera ‑ disse Zulema em espanhol para evitar a vergonha de o dizer no seu próprio idioma.

O jovem deteve‑se com a boca cheia e os olhos espantados. Ela aproximou‑se lentamente, tão inevitável como um fantasma, até ficar a poucos centímetros dele. Imediatamente começaram a cantar os grilos, num som agudo e sustenido que se me cravou nos nervos como a nota monocórdica de um instrumento oriental. Notei que a minha patroa era meia cabeça mais alta e duas vezes mais pesada que o primo do seu marido, o qual, por seu lado, parecia ter encolhido até ao tamanho de uma criança.

‑Kamal... Kamal... ‑ e seguiu‑se um murmúrio de palavras na língua deles, enquanto um dedo da mulher tocava os lábios do homem e lhes desenhava o contorno num leve roçar.

Kamal gemeu vencido, engoliu o que tinha na boca e deixou cair o resto do fruto. Zulema tomou‑lhe a cabeça nas mãos, puxou‑o para o regaço, onde os seus grandes seios o devoraram com um fervilhar de lava ardente. Reteve‑o ali, acarinhando‑o como uma mãe ao filho, até que ele se afastou e se olharam arquejantes, pesando e medindo o risco, o desejo foi mais forte e abraçados dirigiram‑se para a cama de Riad Halabi. Segui‑os sem que a minha presença os perturbasse. Julgo que na verdade me tinha tornado invisível.

Acocorei‑me junto da porta com a mente em branco. Não sentia qualquer emoção, esqueci os ciúmes, como se tudo estivesse a acontecer numa tarde no camião do cinematógrafo. De pé junto da cama, Zulema envolveu‑o nos seus braços e beijou‑o até que ele conseguiu levantar as mãos e agarrá-la pela cintura, respondendo à carícia com um soluço sofredor. Ela percorreu‑lhe as pálpebras, o pescoço, a testa com beijos rápidos, lambidelas apressadas e dentadas curtas, desabotoou‑lhe a camisa e tirou‑lha com violência. Por sua vez ele quis tirar‑lhe a túnica mas enredou‑se nas pregas e resolveu lançar‑se sobre os seios através do decote. Sem deixar de o acariciar, Zulema deu‑lhe a volta, colocando‑se nas suas costas e continuou a explorar‑lhe o pescoço e os ombros, enquanto os seus dedos lhe abriam o fecho e lhe baixavam as calças. A pouca distância, vi a sua masculinidade apontada na minha direcção sem subterfúgios e pensei que Kamal era mais atraente sem roupa, porque perdia essa delicadeza quase feminina. A sua pequena estatura não parecia fragilidade, mas síntese e tal como o nariz proeminente lhe moldava a cara sem a desfigurar, da mesma maneira o seu sexo grande e escuro não lhe dava um aspecto animal. Sobressaltada, esqueci‑me de respirar durante quase um minuto e quando o fiz tinha um gemido atravessado na garganta. Ele estava na minha frente e os nossos olhos cruzaram‑se por um instante, mas os dele passaram ao largo, cegos. Lá fora desabava uma chuva torrencial de verão e o ruido da água e dos trovões juntou‑se ao canto agonizante dos grilos. Zulema tirou finalmente o vestido e surgiu com toda a sua deslumbrante exuberância, como uma vénus de argamassa. O contraste entre aquela mulher roliça e o corpo mirrado do rapaz pareceu‑me obsceno. Kamal

empurrou-a para a cama e ela deu um grito, prendendo‑o com as pernas grossas e arranhando-lhe as costas. Ele sacudiu‑se umas quantas vezes e desfaleceu com um queixume visceral; mas ela não se tinhha preparado tanto para sair daquilo num minuto, assim tirou‑o de cima de si; deitou‑o sobre os almofadões e fez por reanimá‑lo, sussurrando‑lhe em árabe instruções com tão bom resultado, que em pouco tempo tinha‑o de novo bem disposto. Então, ele abandonou‑se com os olhos fechados, enquanto ela o acariciava até o fazer desfalecer e por fim montou‑o cobrindo‑o com a sua opulência e o festim do seu cabelo, fazendo‑o desaparecer por completo, engolindo-o nas suas areias movediças, devorando‑o, espremendo‑o até à essência e conduzindo‑o aos jardins de Alá onde o exaltaram todas as odaliscas do Profeta. A seguir descansaram calmamente abraçados como duas crianças no tumulto da chuva e dos grilos, daquela noite que se tinha tornado quente como se fosse meio‑dia.

Esperei que se acalmasse o estrépito de cavalos que sentia no peito e em seguida saí a cambalear. Fiquei de pé no meio do pátio, a água a escorrer pelo cabelo, encharcando-me a roupa e a alma, febril, com um pressentimento de catástrofe. Pensei que enquanto pudéssemos permanecer calados era como se nada se tivesse passado, o que não se nomeia quase não existe o silêncio vai‑o apagando até o fazer desaparecer. Mas o cheiro do desejo tinha‑se espalhado pela casa, impregnando as paredes, as roupas, os móveis, ocupava os quartos, filtrava‑se pelas gretas, afectava a flora e a fauna, aquecia os rios subterrâneos, saturava o céu de Água Santa, era visível como um incêndio e seria impossível encobri‑lo. Sentei‑me junto à fonte, sob a chuva.

 

Finalmente aclareou no pátio e começou a evaporar‑se a humidade do orvalho, envolvendo a casa com uma ténue bruma. Tinha passado essas longas horas na escuridão, olhando para dentro de mim. Tinha calafrios, deviam‑se sem dúvida àquele cheiro persistente que desde há uns dias flutuava no ambiente e se entranhava em todas as coisas. Está na hora de varrer a loja, pensei quando ouvi ao longe o tilintar das campainhas do leiteiro mas o corpo pesava‑me tanto que tive de olhar as mãos para ver se se tinham transformado em pedra; arrastei‑me até à fonte, meti a cabeça lá dentro e ao endireitar-me, a água fria deslizou‑me pelas costas, afastando a paralisia daquela noite de insónia e apagando a imagem dos amantes na cama de Riad Halabi. Dirigi‑me ao armazém sem olhar para a porta de Zulema, oxalá seja um sonho, mamã, faz com que seja apenas um sonho. Fiquei toda a manhã refugiada por detrás do balcão, sem assomar ao corredor, com o ouvido atento ao silêncio da minha patroa e de Kamal. Ao meio‑dia fechei a loja, mas não me atrevi a sair daqueles três quartos cheios de mercadoria e acomodei‑me entre sacas de cereais para passar o calor da sesta. Tinha medo. A casa tinha‑se transformado num animal obsceno, respirando nas minhas costas.

Kamal passou essa manhã retouçando com Zulema, almoçaram frutos e doces e à hora da sesta, quando ela adormeceu exausta, ele recolheu as suas coisas, meteu‑as na mala de cartão e saiu discretamente pela porta de trás como um ladrão. Ao vê-lo sair tive a certeza de que não voltaria.

Zulema despertou a meio da tarde com o chinfrim dos grilos. Apareceu em A Pérola do Oriente vestida com uma bata, despenteada, com olheiras escuras e os lábios inchados, mas sentia‑se muito bela, plena, satisfeita.

‑ Fecha a loja e vem ajudar-me ‑ ordenou.

Enquanto limpávamos e arejávamos o quarto, punhamos lençóis limpos na cama e mudávamos as pétalas das flores nas bacias, Zulema cantava em árabe e continuou a cantar na cozinha quando preparou a sopa de iogurte, o kipe e o tabule. A seguir enchi a banheira, perfumei-a com essência de limão e Zulema mergulhou na água com um suspiro feliz, as pálpebras semicerradas, sorrindo, perdida sabe‑se lá em que recordações. Quando a água arrefeceu, pediu os cosméticos, mirou‑se no espelho satisfeita e começou a empoar‑se, pôs colorido nas faces, carmim nos lábios e sombras nacaradas à volta dos olhos. Saiu do banho envolta em toalhas e estendeu‑se na cama para que eu lhe fizesse massagens, depois escovou o cabelo, enrolou‑o num carrapito e pôs um vestido decotado.

‑ Estou bonita? ‑ quis saber.

‑ Sim.

‑ pareço jovem?

‑ Sim.

‑ Com que idade?

‑ Como na fotografia do dia do seu casamento.

‑ Por que me falas disso? Não quero lembrar‑me do meu casamento. Vai-te embora, estúpida, deixa‑me sozinha...

Sentou‑se numa cadeira de balanço de vime por debaixo do alpendre do pátio a olhar a tarde e a aguardar o regresso do amante. Esperei junto dela sem me atrever a dizer‑lhe que Kamal partira. Zulema passou horas a balançar‑se e a chamá‑lo com todos os seus sentidos, enquanto eu cabeceava na cadeira. Na cozinha a comida rançou e no quarto esfumou‑se o discreto cheiro das flores. às onze horas da noite, despertei assustada com o silêncio, os grilos tinham emudecido e o ar estava parado, nem uma só folha se movia no pátio. O odor do desejo tinha desaparecido. A minha patroa ainda se mantinha imóvel no cadeirão com o vestido amarrotado, as mãos crispadas, cara molhada de lágrimas, maquilhagem esborratada, parecia uma máscara abandonada à intempérie.

‑ Vá para a cama, senhora, não o espere mais. Talvez não volte até amanhã... ‑ supliquei‑lhe, mas a mulher não se mexeu.

Estivemos para ali sentadas toda a noite. Batia os dentes e escorria‑me um estranho suor pelas costas, e atribuí esses sinais à má‑sorte que tinha entrado em casa. Não era sequer altura para me ocupar dos meus próprios mal‑estares, porque me apercebi de que na alma de Zulema algo se tinha partido. Senti terror ao olhá‑la, já não era a pessoa que conhecia, estava a transformar‑se numa espécie de enorme vegetal. Preparei café para as duas e levei‑lho com a esperança de lhe devolver a antiga identidade, mas não o quis provar, rígida, uma cariátide com o olhar cravado na porta do pátio. Bebi uns dois goles, mas achei‑o áspero e amargo. Por fim consegui levantar a minha patroa da cadeira e levá‑la pela mão até ao quarto, tirei‑lhe o vestido, limpei‑lhe a cara com um pano húmido e metia‑a na cama. Confirmei que respirava sossegadamente mas o desespero nublava‑lhe os olhos e continuava a chorar, silenciosa e tenazmente. A seguir abri o armazém como uma sonâmbula. Estava há muitas horas sem comer e recordei os tempos da minha desgraça, antes de Riad Halabi me recolher, quando se me fechou o estômago e não conseguia engolir. Pus‑me a chupar uma nêspera fazendo por não pensar. Chegaram a à Pérola do Oriente três raparigas perguntando por Kamal e respondi‑lhes que não estava e que nem sequer valia a pena recordá‑lo, porque na realidade não era humano, nunca tinha existido em carne e osso, era um génio do mal, um efrit vindo do outro lado do mundo para lhes alvoroçar o sangue e lhes turvar a alma, mas já não o voltariam a ver, tinha desaparecido impelido pelo mesmo vento fatal que o trouxera, do deserto até Água Santa. As jovens foram para a praça comentar a noticia e pouco depois começaram a desfilar os curiosos para averiguar o acontecido.

‑ Eu não sei nada. Esperem que chegue o patrão ‑ foi a única resposta que me ocorreu.

Ao meio‑dia levei uma sopa a Zulema e tentei dar‑lha às colheres, mas só via sombras e tremiam‑me tanto as mãos que o liquido se entornou pelo chão. De repente a mulher começou a balançar‑se com os olhos fechados, lamentando‑se, primeiro num monótono queixume e depois num aiaiai agudo e contínuo como um pranto de sereia

‑ Cale‑se! Kamal não voltará. Se não pode viver sem ele, mais vale levantar‑se e ir procurá‑lo até o encontrar. Não há mais nada a fazer. Está a ouvir‑me, senhora? ‑ sacudia‑a, surpreendida com a dimensão daquele sofrimento.

Mas Zulema não respondeu, tinha esquecido o espanhol e ninguém voltou a ouvir‑lhe nem uma só palavra nesse idioma. Levei‑a então outra vez para a cama, deitei‑a e fiquei a seu lado, suspensa dos seus suspiros, até que ambas adormecemos esgotadas. Foi assim que nos encontrou Riad Halabi, ao chegar a meio da noite. Trazia a camioneta carregada de nova mercadoria e não tinha esquecido os presentes para a família: um anel com um topázio para a mulher, um vestido de organdi para mim e duas camisas para o primo.

‑ Que se passa aqui? ‑ perguntou assombrado perante o sopro de tragédia que varria a sua casa.

‑ Kamal foi‑se embora ‑ consegui murmurar.

‑ Foi‑se embora como? Para onde?

‑ Não sei.

‑ É meu hóspede, não se pode ir embora assim, sem me dizer, sem se despedir...

‑ Zulema está muito doente.

‑ Parece‑me que tu estás pior, filha. Estás a arder em febre.

Nos dias seguintes destilei o terror, desapareceu a febre e recuperei o apetite, em contrapartida era evidente que Zulema não sofria de um mal‑estar passageiro. Adoecera por amor e todos assim o compreenderam, menos o marido que não o quis ver e se negou a relacionar o desaparecimento de Kamal com o desânimo da mulher. Não perguntou o que acontecera, porque adivinhava a resposta e ao ver confirmada a verdade ter‑se‑ia visto obrigado a vingar‑se. Era excessivamente bondoso para esquartejar os mamilos à esposa infiel ou procurar o primo até dar com ele para lhe amputar os testículos e meter‑lhos na boca, de acordo com a tradição dos seus antepassados.

Zulema continuou silenciosa e calma, chorando de vez em quando, sem mostrar qualquer entusiasmo pela comida, a rádio ou pelos presentes do marido. Começou a emagrecer e ao fim de três semanas a pele tomara uma suave cor sépia, como um retrato de século passado. Só reagia quando Riad Halabi lhe tentava fazer uma carícia e então encolhia‑se, olhando‑o com um ódio inabalável. Por algum tempo acabaram as aulas com a professora Inês e o trabalho no armazém, também não se repetiram as visitas semanais ao camião do cinematógrafo, porque já não podia separar‑me da minha patroa, passava o dia e uma boa parte da noite a cuidar dela. Riad Halabi contratou duas empregadas para fazerem a limpeza e ajudarem em A Pérola do Oriente. A única coisa boa desse tempo foi que ele voltou a ocupar‑se de mim como antes da chegada de Kamal, pedia‑me de novo que lhe lesse em voz alta ou lhe contasse histórias inventadas por mim, convidava‑me para jogar dominó e deixava‑me ganhar. Apesar da densa atmosfera existente em casa, encontrávamos pretextos para nos rirmos.

Passaram‑se alguns meses sem grandes alterações no estado da doente. Os habitantes de Água Santa e das aldeias vizinhas acorriam a perguntar por ela, cada qual trazendo um remédio diferente: uma raiz de arruda para

fazer infusões, um xarope para a cura do pasmo, vitaminas em pílulas, caldos de aves. Não o faziam por consideração para com aquela estrangeira altiva e solitária, mas por carinho pelo turco. Seria muito bom que fosse vista por uma curandeira, disseram e um dia trouxeram uma mulher de virtude que fumou certo tabaco, soprou o fumo sobre a doente e concluiu que ela não tinha nenhuma doença registada pela ciência, mas sim um prolongado ataque de tristeza amorosa.

‑ Sente a falta da família, pobrezinha ‑ explicou o marido e despediu a índia antes que continuasse a adivinhar a sua vergonha.

Não tivemos notícias de Kamal. Riad Halabi não voltou a mencionar o seu nome, ferido pela ingratidão com que este tinha pago a hospedagem recebida.

 

Rolf Carlé começou a trabalhar com o senhor Aravena no mesmo mês em que os russos mandaram para o espaço uma cadela metida numa cápsula.

‑ Tinham de ser soviéticos, não respeitam nem os animais! ‑ exclamou o tio Rupert indignado ao saber da notícia.

‑ Não é caso para tanto, homem... Além do mais não passa de um animal vulgar, sem qualquer pedigree ‑ retorquiu a tia Burgel sem levantar os olhos do bolo que estava a fazer.

Esse infeliz comentário desencadeou uma das piores discussões que o casal alguma vez teve. Passaram a sexta‑feira a gritar impropérios um ao outro, injuriando‑se com queixas acumuladas em trinta anos de vida em comum. Entre muitas outras coisas lamentáveis, Rupert ouviu a s-a mulher dizer pela primeira vez que sempre tinha detestado os cães, que lhe repugnava aquele negócio de os criar e vender e que rezava para que os malditos pastores‑alemães fossem contaminados pela peste e fossem todos à merda. Por sua vez Burgel inteirou‑se de que ele sabia de certa infidelidade cometida na juventude, mas que se tinha calado para viverem em paz. Disseram‑se coisas inimagináveis e no fim ficaram exaustos. Quando, no sábado, Rolf Carlé chegou à Colónia, encontrou a casa fechada e julgou que toda a família tinha ficado contagiada com a gripe asiática que por essa altura andava a causar estragos. Burgel jazia prostrada na cama com compressas de alfavaca na testa e Rupert, congestionado pelo ódio, trancara‑se na carpintaria com os seus cães reprodutores e catorze cachorros recém‑nascidos, a escavacar metodicamente todos os relógios de cuco para os turistas. As primas tinham os olhos inchados pelo pranto. As duas raparigas haviam casado com os fabricantes de velas, acrescentando ao seu cheiro natural de canela, cravo‑da‑índia, baunilha e limão o delicioso cheiro da cera de abelhas. Viviam na mesma rua da casa dos progenitores, dividindo o dia entre as suas impolutas casas e o trabalho com os pais, ajudando‑os no hotel, no galinheiro ou na criação de cães. Ninguém se apercebeu do entusiasmo de Rolf Carlé pela sua nova máquina de filmar nem quis ouvir, como em outras vezes, o enumerar minucioso das suas actividades ou dos distúrbios políticos na Universidade. A discussão tinha alterado tanto o espírito daquela pacífica casa, que nesse fim‑de‑semana não pôde beliscar as primas, porque as duas andavam com cara de enterro e não demonstraram qualquer entusiasmo em arejar os edredões nos quartos vazios. Domingo à noite Rolf regressou à capital com a castidade em brasa, com a mesma roupa suja da semana anterior, sem a providência

de biscoitos e enchidos que habitualmente a tia lhe metia na mala e com a incómoda sensação de que uma cadela moscovita era mais importante do que ele para a sua família. Segunda‑feira de manhã encontrou‑se com o senhor Aravena, para tomarem juntos o pequeno‑almoço num café à esquina -do jornal.

‑ Esquece esse animal e as embrulhadas dos teus tios, rapaz, vão dar‑se acontecimentos muito importantes ‑ disse‑lhe o protector diante do suculento prato com o qual iniciava cada dia.

‑De que é que está a falar?

‑ Vai haver um plebiscito dentro de uns dois meses. Está tudo combinado, o General pensa governar mais cinco anos.

‑ Isso não é nenhuma novidade.

‑ Desta vez vai sair‑lhe o tiro pela culatra, Rolf.

De acordo com o previsto, pouco antes do Natal realizou‑se o referendo apoiado por uma campanha publicitária que sufocou o país com ruído, cartazes, desfiles militares e inaugurações de monumentos patrióticos. Rolf Carlé decidiu fazer o seu trabalho com cuidado e, dentro do possível, com alguma humildade, começando pelo princípio e por baixo. Com certa antecipação tomou o pulso à situação, rondando as sedes eleitorais, falando com oficiais das Forças Armadas, operários e estudantes. No dia marcado as ruas foram ocupadas pelo Exército e pela Polícia, mas via‑se muito pouca gente nos centros eleitorais, parecia um domingo de província. O General saiu vencedor pela esmagadora maioria de oitenta por cento, mas a fraude foi tão descarada que, em vez do efeito pretendido, caiu no ridículo. Carlé andava a bisbilhotar há várias semanas e possuía muitas informações que entregou a Aravena com petulância de novato, aventurando‑se em complicados prognósticos políticos. O outro escutou‑o com um ar trocista.

‑ Não lhe dês tantas voltas, Rolf. A verdade é simples: enquanto o General era temido e odiado pôde segurar as rédeas do governo, mas mal se transformou em motivo de galhofa, o poder começou a escorregar‑lhe das mãos. Será derrubado antes de um mês.

Tantos anos de tirania não tinham acabado com a oposição, alguns sindicatos funcionavam na sombra, os partidos políticos tinham sobrevivido na clandestinidade e os estudantes não deixavam passar um dia sem manifestar o seu descontentamento. Aravena defendia que o povo nunca tinha decidido o curso dos acontecimentos no país, mas sim um punhado de atrevidos dirigentes. A queda da ditadura, pensava, dar‑se‑ia por um consenso das elites, e o povo, acostumado a um sistema de caudilhos, seguiria o caminho que lhe indicassem. Considerava fundamental o papel da Igreja Católica, porque apesar de ninguém respeitar os Dez Mandamentos e de os homens alardearem o seu ateísmo, como uma outra expressão do machismo, esta continuava a exercer um enorme poder.

‑ É preciso falar com os padres ‑ sugeriu.

‑ Já o fiz. Um sector está a sublevar os operários e a classe média, dizem que os bispos vão acusar o Governo de corrupção e de métodos repressivos. A minha tia Burgel foi confessar‑se depois da discussão que teve com o marido, e o padre abriu a sotaina e deu‑lhe um monte de panfletos para distribuir na Colónia.

‑ Que ouviste mais?

‑ Que os partidos da oposição assinaram um pacto, finalmente uniram‑se todos.

‑ Então, este é o momento de meter uma cunha nas Forças Armadas para as dividir e sublevar. Tudo está no ponto, o meu olfacto não falha - disse Aravena, acendendo um dos seus fétidos havanos.

A partir desse dia, Rolf Carlé não se conformou em registar os acontecimentos, mas aproveitou os seus contactos para ajudar a causa da rebelião e ao fazê‑lo pôde medir a força moral da oposição, que conseguia semear a confusão entre os próprios soldados. Os estudantes ocuparam os liceus e as faculdades, fizeram reféns, assaltaram uma estação de rádio e incitaram o povo a sair para a rua. Saiu o Exército com ordens precisas de semear mortos mas em poucos dias tinha‑se propagado o descontentamento entre muitos oficiais e a tropa recebia instruções contraditórias. Entre eles também começavam a soprar os ventos da conspiração. O Homem da Gardénia reagiu enchendo as suas caves de novos prisioneiros, que ele mesmo recebeu, sem desarranjar o seu elegante penteado de gala; mas os seus métodos brutais não puderam evitar a deterioração do poder. Nas semanas que se seguiram, o país tornou‑se ingovernável. Por todo o lado as pessoas iam falando, finalmente libertas do medo que lhes fechara a boca durante tantos anos. As mulheres transportavam armas debaixo das saias, os estudantes saíam de noite para pintar as paredes e até o próprio Rolf se viu uma manhã com uma bolsa carregada de dinamite a caminho da Universidade, onde o esperava uma rapariga muito bonita. Apaixonou‑se por ela à primeira vista, mas foi uma paixão sem futuro, ela recebeu a bolsa sem lhe agradecer, afastou‑se com os explosivos às costas e ele nunca mais voltou a saber dela. Foi declarada uma greve geral, fecharam as lojas e as escolas, os médicos não atenderam os doentes, os padres fecharam as igrejas e os mortos ficaram sem enterro. As ruas estavam vazias e pela noite dentro ninguém acendia as luzes, como se de repente a civilização tivesse acabado. Toda a gente ficou com a respiração suspensa, esperando, esperando.

O Homem da Gardénia partiu num avião privado para viver um exílio luxuoso na Europa, onde ainda se encontra, envelhecido mas sempre elegante, a escrever as suas memórias para ordenar o passado. No mesmo dia, o Ministro do cadeirão de veludo episcopal fugiu transportando uma grande quantidade de lingotes de ouro. Não foram os únicos. Em poucas horas fugiram por ar, terra e mar muitos que não tinham a consciência tranquila. A greve não chegou a durar três dias. Quatro capitães fizeram um acordo com os partidos políticos da Oposição, sublevaram os subalternos e atraidos pela conspiração juntaram‑se‑lhes os restantes regimentos. Caiu o Governo e o General, bem abastecido de fundos, saiu com a família e os colaboradores mais próximos num avião militar posto à sua disposição pela Embaixada dos Estados Unidos. Uma multidão de homens, mulheres e crianças, cobertos pelo pó da vitória, entrou na mansão do ditador e lançou‑se à piscina, deixando a água como sopa, ao som do jazz tocado por um negro no piano branco de cauda que decorava o terraço. O povo atacou o quartel da Segurança. Os guardas dispararam com metralhadoras, mas a multidão conseguiu arrombar as portas e entrar no edifício, matando quantos encontraram no caminho. Os torturadores que escaparam porque não estavam lá nesse momento, tiveram de se esconder durante meses para evitar serem linchados na rua. Houve assaltos às lojas e às residências dos estrangeiros acusados de terem enriquecido com a política de imigração do General. Partiram as montras das casas de bebidas e as garrafas saíram para a rua, passando de boca em boca para celebrar o fim da ditadura.

Rolf Carlé não dormiu durante três dias, filmando os acontecimentos no meio de um estrépito de multidão excitada, de buzinas de automóveis, bailes de rua e bebedeiras indiscriminadas. Trabalhava como em sonho, com tão pouca consciência de si mesmo que esqueceu o medo e foi o único que se atreveu a entrar com uma máquina de filmar no edifício da Segurança, para captar em primeira mão o amontoado de mortos e feridos, os agentes despedaçados e os prisioneiros libertados das caves malignas do Homem da Gardénia. Também se introduziu na mansão do General e viu a multidão a desfazer o mobiliário, a rasgar à navalhada a colecção de quadros e a arrastar pela rua os casacos de chinchila e os vestidos bordados a lantejoulas da primeira‑dama, e esteve presente também no Palácio quando improvisaram a Junta de Governo composta por oficiais sublevados e civis de nomeada. Aravena felicitou‑o pelo seu trabalho e deu‑lhe o último empurrão ao recomendá‑lo na televisão, onde as suas corajosas reportagens o converteram na figura mais célebre do noticiário.

Os partidos políticos reunidos em congresso lançaram as bases de um entendimento, porque a experiência lhes tinha ensinado que se actuassem como canibais, os únicos favorecidos voltariam a ser os militares. Os dirigentes exilados demoraram uns dias a regressar, a instalar‑se e a começar a desenlear a meada do poder. Entretanto a direita económica e a oligarquia, que tinham aderido à rebelião no último momento, dirigiram‑se rapidamente ao Palácio e em poucas horas apropriaram‑se dos cargos mais importantes, dividindo‑os com tal astúcia que quando o novo presidente ocupou o seu lugar, compreendeu que a única maneira de governar era pactuando com eles.

Esses foram momentos de confusão, mas finalmente a poeira pousou, cessou o ruído e amanheceu o primeiro dia de democracia.

 

Em muitos sítios as pessoas não tiveram conhecimento da queda da ditadura porque, entre outras coisas, nem sabiam que o General tinha passado tantos anos no poder. Viviam à margem dos acontecimentos contemporâneos. Nesta incomensurável geografia existem simultaneamente todas as épocas da história. Enquanto na capital os magnatas telefonam uns aos outros para discutir negócios com os sócios de outras cidades do globo, há regiões dos Andes onde as normas do comportamento humano são as que os conquistadores espanhóis trouxeram há cinco séculos e em algumas aldeias da selva os homens andam nus debaixo das árvores como os seus antepassados da Idade da Pedra. Esta era uma década de grandes convulsões e inventos prodigiosos, mas para muitos em nada se diferenciava das anteriores. O povo é generoso e perdoa com facilidade; no país não há pena de morte ou de prisão perpétua, de modo que os beneficiados pela tirania, os colaboracionistas, os delatores e agentes de segurança, foram logo esquecidos e puderam incorporar‑se de novo nessa sociedade onde havia lugar para todos.

Só muitos anos mais tarde soube pormenores do ocorrido quando, por curiosidade, dei uma vista de olhos pela imprensa da época, já que em Água Santa não foi notícia. Nesse dia houve uma festa organizada por Riad Halabi com o propósito de reunir fundos para reparar a escola. Começou cedo com a bênção do padre, que a princípio se opôs àquele passatempo, porque servia de pretexto para apostas, bebedeiras e navalhadas, mas logo fez vista grossa porque a escola estava a desmoronar‑se desde a última tempestade. Depois procedeu‑se à eleição da Rainha, coroada pelo Chefe Civil com um diadema de flores e pérolas falsas fabricadas pela professora Inês, e de tarde começaram as rixas. Chegaram visitantes de outras aldeias e quando alguém, com um rádio de pilhas, interrompeu gritando que o General tinha fugido e a multidão estava a deitar abaixo as prisões e a estrafegar os policias, mandaram‑no calar, não fosse distrair os galos. O único a abandonar o lugar foi o Chefe Civil, que partiu de má‑vontade para o seu escritório, a fim de falar com os superiores na capital e pedir instruções. Voltou umas duas horas mais tarde para dizer que não se preocupassem com o acontecimento, que efectivamente o Governo tinha caído, mas tudo continuava como dantes, de maneira que já podiam começar a música e o baile e passe‑me outra cerveja para brindarmos à democracia. Pela meia‑noite, Riad Halabi contou o dinheiro recolhido, entregou‑o à professora Inês e regressou a casa cansado, mas contente, porque a sua iniciativa tinha dado bons frutos e o telhado -da escola estava assegurado.

‑ Caiu a ditadura ‑ disse‑lhe mal entrou. Eu tinha ficado todo o dia a cuidar de Zulema numa das suas crises e esperava‑o na cozinha.

‑ Já sei, minha filha.

‑ Disseram‑no pela rádio. Que quer isso dizer?

‑ Nada que nos interesse, isso aconteceu muito longe daqui.

Passaram dois anos, a democracia consolidou‑se. Com o passar do tempo só o sindicato dos motoristas de táxi e alguns militares tiveram saudades da ditadura. O petróleo continuou a jorrar das profundezas da terra, com a abundância de sempre e ninguém se preocupou muito em investir os lucros, -porque no fundo acreditavam que a bonança ia durar eternamente. Nas uniy' versidades, os mesmos estudantes que tinham arriscado a vida para derrubar o General sentiam‑se enganados pelo novo Governo e acusavam o Presidente de se submeter aos interesses dos Estados Unidos. O triunfo da Revolução Cubana tinha feito rebentar um incêndio de ilusões em todo o continente. Por toda a parte havia homens a mudar a ordem da vida e as suas vozes chegavam pelo ar semeando palavras magníficas. Por aí andava o Che com uma estrela na cabeça disposto a combater em qualquer canto da América. Os jovens deixaram crescer a barba e aprendiam de cor os conceitos de Karl Marx e frases de Fidel Castro. Se não existem condições para a revolução, o verdadeiro revolucionário deve criá‑las, estava escrito com tinta indelével nos muros da Universidade. Alguns, convencidos de que o povo jamais alcançaria o poder sem violência, decidiram que era o momento de pegar em armas. Começou a guerrilha.

‑ Quero filmá‑los ‑ disse Rolf Carlé a Aravena.

Foi assim que partiu para a montanha seguindo os passos de um jovem moreno, calado e discreto, que o levou de noite por carreiros de cabras até ao sítio onde os companheiros se escondiam. Foi assim que se tornou no único jornalista em contacto directo com a guerrilha, o único que conseguiu filmar os seus acampamentos e o único em que os comandantes depositavam confiança. E foi também assim que conheceu Huberto Naranjo.

 

Naranjo tinha passado os anos da adolescência assolando os bairros da burguesia, como chefe de uma pandilha de marginais em guerra contra os bandos de meninos ricos que percorriam a cidade nas suas motos cromadas, vestidos com blusões de couro e armados de correntes e facas, imitando os tarados dos filmes. Enquanto os menininhos ficaram na sua área a enforcar gatos, a rasgar as poltronas dos cinemas à navalhada, a apalpar as amas de crianças nos parques, a entrar no Convento das Adoradoras para aterrorizar as freiras e a assaltar as festas das adolescentes para urinar sobre a torta,

o assunto ficava praticamente em família. De vez em quando a polícia prendia‑os, levava‑os à esquadra, chamava os pais para resolverem as coisas como amigos e em seguida soltavam‑nos sem registar os seus nomes. São travessuras inocentes, diziam benevolentes, daqui a poucos anos são crescidos, trocarão os blusões de couro por fato e gravata e poderão dirigir as empresas dos pais e o destino do país. Mas quando invadiram as ruas do centro para untar com mostarda e malagueta o sexo dos mendigos, marcar com uma navalha a cara das prostitutas e apanhar os homossexuais na rua República para os empalar, Huberto Naranjo achou que era de mais. Reuniu os compinchas e organizaram‑se para a defesa. Foi assim que nasceu A Peste, o bando mais temido da cidade que enfrentava as motos em batalhas campais, deixando uma esteira de magoados, desmaiados e feridos de arma branca. Se aparecia a polícia em carrinhas blindadas com cães e equipas antimotins e conseguia cair‑lhes em cima de surpresa, os de pele branca e casaco negro voltavam incólumes para as suas casas. Os outros eram espancados nos quartéis até o sangue correr pelas pedras do pátio. Mas não foi a pancada que acabou com A Peste, mas uma razão de força maior que levou Naranjo para longe da capital.

Uma noite, o seu amigo, o Negro do botequim convidou‑o para uma misteriosa reunião. Depois de dar a contra‑senha na porta, foram conduzidos a um quarto fechado onde havia vários estudantes, que se apresentaram com nomes falsos. Huberto sentou‑se no chão junto aos outros, sentindo‑se à margem porque tanto o Negro como ele pareciam estranhos ao grupo, não vinham da Universidade, nem sequer tinham passado pelo liceu. No entanto, viu logo que recebiam tratamento respeitoso, porque o Negro tinha feito o serviço militar especializando‑se em explosivos e isso dava‑lhe enorme prestígio. Apresentou Naranjo como o chefe de A Peste e como todos tinham ouvido falar da sua coragem, receberam‑no com admiração. Ouviu um jovem resumir em duas palavras a confusão que ele próprio trazia no peito há muitos anos. Foi uma revelação. A princípio sentiu‑se incapaz de compreender a maior parte daqueles discursos inflamados e muito menos de os repetir, mas percebeu que a sua luta pessoal contra os meninos do Clube de Campo e os seus desafios à autoridade, pareciam jogos infantis à luz dessas ideias ouvidas pela primeira vez. O contacto com a guerrilha mudou a sua vida. Descobriu com espanto que para aqueles rapazes a injustiça não fazia parte da ordem natural das coisas, como ele supunha, mas que era aberração humana, tornaram‑se‑lhe evidentes os abismos que condicionam os homens desde o seu nascimento e decidiu pôr toda a sua raiva, inútil até então, ao serviço daquela causa.

Para o jovem, entrar na guerrilha foi uma questão de rectidão, porque uma coisa era bater‑se a golpes de corrente com os blusões negros e outra, muito diferente, era manejar armas de fogo contra o Exército. Tinha vivido sempre na rua e acreditava não conhecer o medo, não recuava nas batalhas

com outros bandos, nem pedia demência no pátio do quartel, a violência era uma rotina para ele, mas nunca calculou os limites a que teria de chegar nos anos vindouros.

A princípio as suas missões foram na cidade, pintar paredes, inaprimir folhetos, colar cartazes, lançar boatos, conseguir armas, roubar medicamentos, recrutar simpatizantes, procurar esconderijos, submeter‑se a treino militar. Com os companheiros aprendeu os múltiplos usos de um pedaço de plástico, a fabricar bombas caseiras, sabotar cabos de alta‑tensão, fazer ir pelos ares carris e estradas para dar a impressão de que eram muitos e estavam bem organizados, isso atraía os indecisos, reforçava o moral dos combatentes e enfraquecia o inimigo. Os jornais fizeram publicidade a estes actos criminosos, como foram chamados, mas logo veio a proibição de mencionar os atentados e o país sabia das coisas através de rumores, por algumas folhas impressas em máquinas caseiras, pelas rádios clandestinas. Os jornais procuravam mobilizar as massas de diversas maneiras, mas o seu ardor revolucionário esbarrava com as caras impávidas ou os sarcasmos do público. A ilusão da riqueza petrolífera cobria tudo com um manto de indiferença. Huberto Naranjo impacientava‑se. Nas reuniões ouviu falar da montanha, estavam lá os melhores homens, as armas, a semente da revolução. Viva o povo, morte ao imperialismo, gritavam, diziam, sussurravam; palavras, palavras, milhares de palavras, boas e más palavras; a guerrilha tinha mais palavras que balas. Naranjo não era orador, não sabia usar todas aquelas palavras inflamadas, mas depressa nasceu em si um critério político e embora não pudesse teorizar como um ideólogo, conseguia comover com O ímpeto da sua coragem. Tinha punhos duros e fama de valentia, por isso conseguiu, finalmente, que o mandassem para a frente.

Partiu uma tarde sem se despedir de ninguém e sem dar explicações aos amigos de A Peste, de quem se tinha afastado desde que começaram as suas novas inquietações. O único que soube do seu paradeiro foi o Negro, mas não o diria, nem morto. Ao fim de poucos dias de montanha Huberto Naranjo compreendeu que tudo o que tinha experimentado até então era uma brincadeira, e que tinha chegado a hora de provar a sério o seu carácter. A guerrilha não era um exército na sombra, como julgava, mas sim grupos de quinze ou vinte rapazes espalhados pelos desfiladeiros, poucos na totalidade, os suficientes para ter esperança. No que eu me meti, estes são doidos, foi o seu primeiro pensamento, logo posto de parte porque tinha uma meta muito nítida: era preciso ganhar. O facto de serem tão poucos obrigava‑os a sacrificarem‑se mais. Primeiro foi a dor. Marchas forçadas com trinta quilos de apetrechos às costas e uma arma na mão, arma sagrada que não se podia molhar ou partir, que não se podia largar um só instante, caminhar, acocorar, subir e descer em fila, calado, sem comida nem água, até os músculos se tornarem num único, imenso e absoluto gemido, até a pele das mãos empolar cheia de um líquido turvo, as picadas dos bichos o impedirem de abrir os olhos e os pés lhe sangrarem, desfeitos dentro das botas. Subir e subir mais, dor e mais dor. E depois o silêncio. Naquela paisagem verde e impenetrável, adquiriu o conhecimento do silêncio, aprendeu a mover‑se como a brisa; ali um suspiro, um roçar da mochila ou da arma soava como uma badalada e podia custar a vida. O inimigo estava muito perto. Era necessário paciência para esperar imóvel durante horas. Disfarça o medo, Naranjo, não contagies os outros, resiste à fome, todos temos fome, aguenta a sede, todos temos sede. Sempre encharcado, incómodo, sujo, dorido, atormentado pelo frio da noite e pelo calor atroz do meio‑dia, pelo lodo, a chuva, as melgas e os percevejos, pelas feridas supuradas, entorses e caibras. A princípio sentia‑se perdido, não via por onde andava nem onde cortava com o machete, por baixo ervas, matagal, ramos, pedras, restolho; por cima as copas das árvores tão densas, que não se vislumbrava a luz do sol; mas depois adquiriu o olhar de lince e aprendeu a situar‑se. Deixou de sorrir, a cara tornou‑se‑lhe dura, a pele cor de terra, o olhar seco. A solidão era pior do que a fome. Acossava‑o um desejo premente de sentir o contacto de outra pessoa, de acariciar alguém, de estar com uma mulher, mas ali todos eram homens, nunca se tocavam, cada um fechado no seu próprio corpo, no seu passado, nos seus medos e ilusões. Por vezes chegava uma camarada e todos desejavam pôr a cabeça no seu regaço, mas isso também não era possível.

Huberto Naranjo foi‑se transformando num outro animal da selva, só instinto, reflexos, impulsos, nervos à flor da pele, ossos, músculos, pele, cenho franzido, mandíbula apertada e ventre firme. O machete e a espingarda pegaram‑se‑lhe às mãos, prolongamentos naturais dos seus braços. Apurou‑se‑lhe o ouvido e aguçou‑se‑lhe a vista, sempre alerta, mesmo quando dormia. Desenvolveu uma tenacidade sem limites, lutar até à morte, até vencer, não há alternativa, vamos sonhar e realizar os sonhos, sonhar ou morrer, avante. Esqueceu‑se de si próprio. Por fora era de pedra, mas com o passar dos meses algo de fundamental amoleceu e partiu‑se no seu íntimo e de dentro surgiu um fruto novo. O primeiro sintoma foi a compaixão, desconhecida para si, porque nunca a recebera de ninguém nem tivera ocasião de a praticar. Algo frouxo crescia por detrás da dureza e do silêncio, qualquer coisa como um afecto ilimitado pelos outros, algo que o surpreendeu mais do que qualquer das mudanças sofridas até então. Começou a amar os camaradas, queria dar a vida por eles, sentia um desejo poderoso de os abraçar e dizer, gosto de ti irmão. Esse sentimento estendeu‑se até abarcar toda a multidão anónima do povo e apercebeu‑se então de que a raiva dera a volta.

Rolf Carlé conheceu‑o nessa época e bastou‑lhe trocar três frases, para compreender que estava ante um homem excepcional. Pressentiu que os seus destinos se cruzariam muitas vezes, mas afastou logo tal sentimento. Evitava cair nas armadilhas da intuição.

 

Dois anos depois da partida de Kamal, o estado de Zulema estabilizou‑se na melancolia, recuperou o apetite e dormia como dantes, mas não tinha o menor interesse por nada, passava as horas imóvel no seu cadeirão de vime a observar o pátio, ausente deste mundo. As minhas histórias e as novelas da rádio eram a única coisa que conseguia acender uma faísca nos seus olhos, embora não tenha a certeza de que as compreendesse, porque não parecia recordar o espanhol. Riad Halabi instalou um aparelho de televisão, mas como ela o ignorou e também de qualquer maneira as imagens chegavam com tantas interferências como se fossem mensagens de outros planetas, decidiu levá‑lo para a loja para que ao menos o aproveitassem os vizinhos e os clientes. A minha patroa já não recordava Kamal nem lamentava o amor perdido, instalou‑se simplesmente na indolência para a qual sempre tivera vocação. A sua doença serviu‑lhe para escapar às fastidiosas pequenas responsabilidades da sua casa, do casamento e de si própria. A tristeza e o tédio eram‑lhe mais suportáveis que o esforço de uma vida normal. Talvez tenha sido nessa altura que a ideia da morte a começou a rondar como um estado superior de inércia no qual não teria de fazer circular o sangue nas veias ou o ar nos pulmões e o descanso seria total, não pensar, não sentir, não ser. O marido levou‑a na camioneta ao hospital local, a três horas de caminho de Água Santa, onde lhe fizeram alguns exames,

deram-lhe pílulas para a melancolia e disseram que na capital poderiam curá‑la com electrochoques, método que ele achou inaceitável.

‑ No dia em que voltar a olhar‑se no espelho ficará curada ‑ dizia‑lhe e punha a minha patroa diante de um grande espelho para lhe ressuscitar a garridice. ‑ Lembra‑se de como dantes a sua pele era tão branca, Zulema?

Quer que lhe pinte os olhos? ‑ Mas o espelho apenas reflectia o contorno incerto de uma medusa do mar.

Acostumamo‑nos à ideia de que Zulema era uma espécie de planta imensa e delicada, retomámos a rotina da casa e de A Pérola do Oriente e voltei às minhas aulas com a professora Inês. Quando comecei só era capaz de ler duas sílabas juntas e tinha uma imperfeita caligrafia de criança, no entanto a minha ignorância não era uma excepção, a maioria dessa aldeia era analfabeta. Minha filha, tens de estudar para que venhas a poder sustentar-te a ti própria, não é nada bom depender de um marido, lembra‑te de que quem paga manda, dizia‑me Riad Halabi. Tornei‑me obcecada com o estudo, fascinavam‑me a história, a literatura e a geografia. A menina Inês nunca tinha saído de Água Santa, mas possuía mapas pendurados nas paredes da sua casa e ao fim do dia explicava‑me as notícias da rádio, assinalando os sítios ignotos onde se passava cada ocorrência. Socorrendo‑me de uma enciclopédia e dos conhecimentos da minha professora, eu viajava pelo mundo. Em contrapartida, era uma nulidade para os números. Se não aprendes a multiplicar, como posso confiar‑te a loja?, reclamava o turco. Eu não lhe dava muita atenção preocupada apenas em conseguir o maior domínio possível das palavras. Lia apaixonadamente o dicionário e podia passar horas à procura de rimas, examinando antónimos e resolvendo palavras cruzadas. Ao chegar aos dezassete anos o meu corpo chegou ao tamanho definitivo e o meu rosto adquiriu a expressão que me acompanharia até hoje. Então, deixei de examinar‑me ao espelho para me comparar com as mulheres perfeitas do cinema e das revistas e decidi que era bela pela simples razão de que o desejava ser. Não pensei duas vezes no assunto. Usava o cabelo comprido atado num rabo de cavalo, vestidos de algodão que eu costurava e alpargatas de lona. Alguns rapazes da aldeia ou os motoristas dos camiões, que entravam para beber uma cerveja, diziam‑me coisas, mas Riad Halabi afastava‑os como um pai zeloso.

‑ Nenhum destes campónios serve para ti, minha menina. Vamos procurar-te um marido com uma boa situação, que te respeite e que goste de ti.

‑ Zulema precisa de mim e aqui sou feliz. Para que me hei‑de casar?

‑ As mulheres têm de se casar, porque senão estão incompletas, secam por dentro, o sangue fica estragado; mas tu podes esperar um pouco mais, ainda és nova. Tens de te preparar para o futuro. Porque não estudas para ser secretária? Enquanto eu viver, nada te faltará, mas nunca se sabe, é melhor ter uma profissão. Quando chegar o momento de procurar um noivo, compro-te vestidos bonitos e vais ao cabeleireiro fazer um desses penteados que se usam agora.

Eu devorava os livros que caíam nas minhas mãos, tratava da casa e da doente e ajudava o patrão no armazém. Sempre ocupada, não tinha vontade para pensar em mim, mas nas minhas histórias apareciam desejos e sobressaltos que eu não sabia que existiam no meu coração. A professora Inês sugeriu‑me que os anotasse num caderno. Passava parte da noite a escrever, e gostava tanto de o fazer, que decorriam as horas sem me aperceber e frequentemente levantava‑me de manhã com os olhos avermelhados. Mas essas eram as minhas melhores horas. Suspeitava que verdadeiramente nada existia, a realidade era uma substância imprecisa e gelatinosa de que os meus sentidos só captam metade. Não havia provas de que todos a percebessem da mesma maneira, talvez Zulema, Riad Halabi e os Outros tivessem uma sensação diferente das coisas, talvez não vissem as mesmas cores nem ouvissem os mesmos sons que eu. Se assim fosse, cada um vivia numa solidão absoluta. Esse pensamento aterrava‑me. Consolava‑me a ideia de que podia pegar nessa gelatina e moldá‑la para criar o que desejasse, não uma imitação burlesca da realidade, como os mosqueteiros ou as esfinges da minha antiga patroa jugoslava, mas um mundo próprio, povoado de personagens vivas, onde eu impunha as normas e as mudava conforme o meu desejo. De mim dependia a existência de tudo o que nascia, morria ou acontecia nas areias inamovíveis onde germinavam os meus contos. Podia colocar‑lhes o que quisesse, bastava pronunciar a palavra correcta para lhes dar vida. Por vezes sentia que esse universo fabricado com o poder da imaginação era de Contornos mais fortes e estáveis que a região confusa onde deambulavam os seres de carne e osso que me rodeavam.

Riad Halabi levava a mesma vida de sempre, preocupado com os problemas alheios, acompanhando, aconselhando, organizando, sempre ao serviço dos Outros. Presidia ao clube desportivo e era encarregado de quase todos os projectos dessa pequena comunidade. Duas noites por semana ausentava‑se sem dar explicações e regressava muito tarde. Quando o ouvia entrar furtivamente pela porta do pátio, apagava a luz e fingia estar a dormir, para não o envergonhar. A parte essas escapadelas, ambos partilhávamos as nossas existências como um pai com a sua filha. Assistíamos juntos á missa, porque o povo via com maus olhos a minha escassa devoção, como disse muitas vezes a professora Inês, e ele tinha decidido que apesar da falta de uma mesquita não lhe causava nenhum dano adorar Alá num templO cristão, sobretudo tendo em conta que não era necessário seguir o rito de perto. Fazia como os outros homens, que se colocavam na parte de trás da igreja e ficavam de pé, numa atitude um pouco displicente, porque as genuflexões eram consideradas pouco viris. Dali ele podia recitar as suas orações muçulmanas sem chamar a atenção. Não perdíamos nenhum filme no novo cinema de Água Santa. Se o programa contemplava um filme romântico ou musical, levávamos Zulema entre os dois, segurando‑a pelos braços, como uma inválida.

Quando terminou a época das chuvas e arranjaram a estrada arrasada pelo rio na última cheia, Riad Halabi anunciou outra viagem à capital, porque a A Pérola do Oriente estava desprovida de mercadoria. A mim não me agradava ficar sozinha com Zulema. E o meu trabalho, menina, tenho de ir senão dou cabo do negócio, mas volto em breve e vou trazer‑te muitos presentes, tranquilizava‑me sempre o patrão antes de partir. Ainda que nunca o mencionasse tinha medo da casa, sentia que as paredes guardavam o feitiço de Kamal. às vezes sonhava com ele e nas sombras pressentia o seu cheiro, o fogo, o corpo nu a apontar‑me com o sexo erguido. Então invocava a minha mãe para que o expulsasse dali, mas nem sempre ela me escutava. Realmente a ausência de Kamal era tão notória, que não sei como pudemos alguma vez suportar a sua presença. De noite o vazio deixado pelo primo ocupava os quartos silenciosos, apoderava‑se dos objectos e saturava as horas.

Riad Halabi partiu quinta‑feira de manhã mas, de repente, na sexta‑feira ao pequeno‑almoço, Zulema reparou que o marido tinha saído e então murmurou o seu nome. Era a sua primeira manifestação de interesse desde há muito tempo e receei que fosse o começo de outra crise, mas ao saber que ele estava em viagem pareceu aliviada. à tarde, para a distrair, instalei‑a no pátio e fui desenterrar as jóias. Já há vários meses que não eram postas ao sol, não conseguia lembrar‑me do esconderijo e perdi mais de uma hora à procura até dar com a caixa. Trouxe‑a, sacudi‑lhe a terra e depositei‑a na frente de Zulema, tirando as jóias uma a uma, limpando‑lhes a pátina com um trapo para devolver o brilho ao ouro e a cor às pedras. Coloquei‑lhe brincos nas orelhas e anéis em todos os dedos, pendurei‑lhe fios e colares ao pescoço, cobri‑lhe de pulseiras os braços e quando a tive assim adornada fui buscar o espelho.

‑ Veja que linda está, parece um ídolo...

‑ Procura um novo sítio para as esconder ‑ ordenou Zulema em árabe tirando as jóias antes de tornar a submergir na apatia.

Pensei que era boa ideia mudar o esconderijo. Meti tudo de novo na caixa, embrulhei‑a num saco plástico para a preservar da humidade e fui por detrás da casa para um terreno abrupto coberto de ervas daninhas. Cavei um buraco junto de uma árvore, enterrei o embrulho, calquei bem a terra e com uma pedra aguçada fiz uma marca no tronco para me recordar do lugar. Tinha ouvido dizer que era assim que faziam os camponeses com o dinheiro. Era tão frequente esta forma de economia por aquelas bandas, que anos mais tarde, quando construíram a auto‑estrada os tractores desenterraram vasilhas cheias de moedas e notas cujo valor tinha sido anulado pela inflação.

Ao anoitecer preparei o jantar para Zulema, deitei‑a e depois fiquei no corredor a costurar até muito tarde. Riad Halabi fazia‑me falta, na casa sombria apenas se escutava o sussurro da natureza, os grilos estavam mudos, não corria uma aragem. à meia‑noite decidi ir para a cama. Acendi todas as luzes, fechei as persianas dos quartos para que os sapos não entrassem e deixei aberta a porta das traseiras, para fugir se aparecesse o fantasma de Kamal ou qualquer outro habitante dos meus pesadelos. Antes de me deitar lancei um último olhar a Zulema e verifiquei que dormia tranquilamente, coberta apenas por um lençol.

Como sempre, despertei com a primeira claridade do amanhecer e fui para a cozinha preparar o café, deitei‑o numa xícara e atravessei o pátio para

o levar à doente. Ao passar, fui apagando as luzes que tinha deixado acesas na noite anterior e notei que as lâmpadas estavam sujas com pirilampos queimados. Cheguei ao quarto da mulher, abri a porta sem ruído e entrei.

Zulema estava deitava com metade do corpo na cama e o resto pelo chão, de braços e pernas abertas, a cabeça contra a parede, o cabelo negro‑azulado espalhado sobre as almofadas e um lodaçal vermelho empapava os lençóis e a camisa. Senti um cheiro mais intenso do que o das pétalas das flores nas bacias. Aproximei‑me lentamente, coloquei a chávena de café na mesa, inclinei‑me sobre Zulema e voltei‑a. Vi então que tinha dado um tiro de pistola na boca e que o disparo lhe tinha rebentado o céu da boca.

Agarrei na arma, limpei‑a e meti‑a numa gaveta da cómoda, entre a roupa interior de Riad Halabi, onde sempre se guardava. Empurrei o corpo para o chão e mudei os lençóis. Procurei uma bacia com água, uma esponja e uma toalha, tirei a camisa de noite à minha patroa e comecei a lavá‑la, porque não queria que a vissem naquele estado de desleixo. Fechei‑lhe os olhos, pintei‑lhe cuidadosamente as pálpebras, penteei‑a e vesti‑a com a sua melhor camisa de dormir. Tive muita dificuldade em metê‑la de novo na cama, porque a morte a tinha-se transformado em pedra. Quando acabei de arrumar toda aquela desordem, sentei‑me ao lado de Zulema a contar‑lhe o último conto de amor, enquanto lá fora rebentava a manhã com o ruído dos índios a chegar à aldeia com os seus filhos, velhos e cães a pedirem esmola, como todos os sábados.

 

O chefe da tribo ‑ um homem sem idade, vestido com calças brancas e chapéu de palha ‑ foi o primeiro a chegar a casa de Riad Halabi. Ia pelos cigarros que o turco lhe dava todas as semanas e ao ver o armazém fechado deu a volta para entrar pela porta das traseiras que eu tinha deixado aberta na noite anterior. Entrou no pátio, a essa hora ainda fresco, passou diante da fonte, atravessou o corredor e espreitou para o quarto de Zulema. Viu‑me da soleira e reconheceu‑me de imediato, porque habitualmente eu atendia‑o por detrás do balcão de A Pérola do Oriente. Olhou para os lençóis limpos, os móveis de madeira escura e brilhante, o toucador com o espelho e as escovas de prata lavrada, o cadáver da minha patroa colocado como um santo de capela com a sua camisa enfeitada de rendas. Notou também o monte de roupa ensanguentada junto à janela. Aproximou‑se de mim e sem dizer palavra pôs‑me as mãos nos ombros. Foi então que senti que regressava de muito longe, com um interminável grito retido dentro de mim.

Quando mais tarde a polícia irrompeu com presunções de combate, pontapeando portas e repisando instruções, eu não me tinha mexido e o índio ainda lá estava com os braços cruzados no peito, enquanto que o resto da tribo se juntava no pátio numa confusão andrajosa. Atrás deles chegaram os habitantes de Água Santa, cochichando, empurrando‑se, espreitando, invadindo acasa do turco, onde não tinham posto os pés desde a festa de boas‑vindas ao primo Kamal. Ao ver a cena no quarto de Zulema, o Tenente tomou imediatamente conta da situação. Começou por correr com os curiosos e mandar calar a algaraviada com um tiro para o ar, depois tirou toda a gente do quarto para que não desaparecessem as impressões digitais, como explicou, e por fim colocou‑me algemas, ante o assombro de todos, inclusive dos próprios subalternos. Desde os tempos em que traziam os presos da Penitenciária de Santa Maria para abrir estradas, não se via ninguém algemado em Água Santa.

‑ Não saias daí ‑ ordenou‑me, enquanto os seus homens revistavam o quarto à procura da arma, descobriam a bacia e as toalhas, confiscavam o dinheiro do armazém e as escovas de prata e empurravam o índio que continuava no quarto e se punha na frente deles quando de mim se aproximavam. Nesse momento chegou a correr a menina Inês, ainda em robe porque era o seu dia de linpeza. Tentou falar comigo, mas o Tenente não lho permitiu.

‑ Tenho de avisar o turco! ‑ exclamou a professora, mas suponho que ninguém sabia onde o encontrar.

Uma confusão de ruído, correrias e ordens alterou a alma da casa. Calculei que levaria dois dias a esfregar o chão e a arranjar os destroços. Perguntei‑me sem me lembrar que ele andava em viagem, porque razão Riad Halabi pernitia tanta falta de respeito e quando levantaram o corpo de Zulema envolto num lençol, também não encontrei uma explicação razoável. O enorme grito continuava no meu peito, como um vento de inverno, mas não conseguia expulsá‑lo. A última coisa que vi antes de ser arrastada para o jipe da polícia, foi a cara do índio inclinada para me dizer ao ouvido qualquer coisa que não compreendi.

Fecharam‑me numa cela do Quartel, um recinto pequeno e quente. Tinha sede e tentei chamar para pedir água. As palavras nasciam no meu interior, cresciam, subiam, ressoavam na cabeça e afloravam aos lábios, mas não conseguia

expulsá-las, estavam coladas ao céu da boca. Fiz um esforço para invocar imagens felizes: a minha mãe a entrançar‑me o cabelo enquanto entoava uma canção, uma menina galopando no lombo paciente de um puma embalsamado, as ondas a desfazerem‑se na sala de jantar dos solteirões, os velórios de brincadeira com Elvira, uma avó de força. Fechei os olhos e dispus‑me a esperar. muitas horas depois um sargento, a quem eu mesma tinha servido águardente de cana na véspera em A Pérola do Oriente, veio buscar‑me. Deixou‑me de pé em frente do escritório do oficial de dia, sentou‑se ao meu lado, numa carteira de escola, a tomar nota das declarações numa escrita lenta e trabalhosa. A sala estava pintada com um verde pardacento, tinha uma fila de bancos metálicos ao longo das paredes e um estrado de uma certa altura para que a mesa do chefe alcançasse a devida autoridade. As asas de uma ventoinha no tecto moviam o ar espantando mosquitos, sem diminuir o calor, persistente e húmido. Lembrei‑me da fonte árabe da casa, o som cristalino da água a correr por entre as pedras do pátio, o jarro grande

de sumo de ananás que a professora Inês preparava quando me dava aulas. O Tenente entrou e ficou à minha frente.

‑ O teu nome ‑ ladrou‑me e eu tentei dizê‑lo, mas novamente as palavras se me ancoraram algures e não consegui desprendê‑las.

‑ Ela é Eva Luna, a que o turco recolheu numa das suas viagens. Na altura era uma menina, não se lembra de eu lhe ter contado isso, meu Tenente? ‑ disse o sargento.

‑ Cala‑te, não é a ti que estou a perguntar, cabrão.

Aproximou‑se de mim com uma calma ameaçadora e andou à minha volta olhando‑me dos pés à cabeça, sorrindo. Era um moreno alegre e bem parecido que causava estragos entre as raparigas de Água Santa. Vivia há dois anos na aldeia, tinha chegado com a lufada das últimas eleições, quando substituiram vários funcionários, incluindo alguns da polícia, por outros do partido do Governo. Eu conhecia‑o, ia muitas vezes ter com Riad Halabi e às vezes ficava a jogar dominó.

‑ Porque a mataste? Para a roubar? Dizem que a turca é rica e tem um tesouro enterrado no pátio. Responde, puta! Onde escondeste as jóias que lhe roubaste?

Demorei uma eternidade para me lembrar da pistola, do corpo rígido de Zulema e de tudo o que fiz com ela antes da chegada do índio. Assumi por fim a dimensão da desgraça e ao compreendê‑la travou‑se‑me a língua e já não consegui responder. O oficial levantou a mão, lançou o braço para trás e deu‑me um murro. Não me lembro de mais nada. Despertei no mesmo quarto, presa à cadeira, sozinha, tinham‑me tirado o vestido. O pior era a sede, ah! o sumo de ananás, a água da fonte... Desaparecera a luz do dia e o compartimento estava iluminado por uma lâmpada que pendia do tecto perto da ventoinha. Tentei mover‑me, mas doía‑me o corpo todo, sobretudo as queimaduras de cigarro nas pernas. Pouco depois, entrou o sargento sem o dólman, com a camisa suada e a barba crescida de várias horas. Limpou‑me o sangue da boca e afastou‑me o cabelo da cara.

‑ É melhor que confesses. Não penses que o meu Tenente já terminou, isto é só o começo... sabes o que às vezes faz com as mulheres?

Tentei dizer‑lhe com o olhar o que tinha acontecido no quarto de Zulema, mas a realidade tornou‑se a apagar e vi‑me sentada no chão com a cara entre os joelhos e uma trança enrolada no pescoço, mamã, chamei sem voz.

‑ És mais teimosa que uma mula ‑ murmurou o sargento com uma sincera expressão de pena.

Foi buscar água e segurou‑me a cabeça para eu beber, depois molhou um lenço e passou‑o com cuidado pelas marcas da cara e do pescoço. Os seus olhos encontraram os meus e sorriu‑me como um pai.

‑ Gostaria de te ajudar, Eva, não quero maltratar-te mais, mas eu não mando aqui. Diz‑me como mataste a turca e onde escondeste o que roubaste e eu falo com o Tenente para te mandarem agora mesmo para um juiz de

menores. Vamos, diz‑me, que se passa? Ficaste muda? Vou dar‑te mais água

a ver se recuperas as forças e nos começamos a entender.

Bebi três copos seguidos e foi tão grande o prazer do líquido frio a descer pela garganta, que sorri também. Então o sargento, tirou‑me as amarras das mãos, pôs‑me o vestido e acariciou‑me a face.

Pobrezinha... O Tenente vai demorar umas horas, foi ver o filme e beber umas cervejas, mas vai voltar, isso é mais que certo. Quando chegar, vou‑te dar um murro para desmaiares de novo, para ver se te deixa em paz até amanhã... Queres um pouco de café?

 

A notícia do sucedido apanhou Riad Halabi muito antes de sair publicada nos jornais. A mensagem viajou até à capital de boca em boca por caminhos secretos, percorreu as ruas, os hotéis de má fama e os depósitos de quinquilharias até chegar ao único restaurante árabe do país, onde além da comida típica, da música do Médio‑Oriente e de uma sauna no segundo andar, uma crioula disfarçada de odalisca improvisava uma singular dança de sete véus. Um dos criados aproximou‑se da mesa onde Riad Halabi saboreava um prato típico de manjares do seu país e deu‑lhe um recado do ajudante de cozinha, um homem nascido na mesma tribo do chefe índio. Foi deste modo que no sábado à noite tomou conhecimento, conduziu a camioneta de um só fôlego até Água Santa e conseguiu chegar na manhã do dia seguinte, mesmo a tempo de impedir que o Tenente voltasse a interrogar-me.

- Entregue‑me a minha miúda ‑ exigiu.

No quarto verde, outra vez nua e presa à cadeira, ouvi a voz do meu patrão e quase não o reconheci, porque pela primeira vez empregava aquele tom autoritário.

‑ Não posso soltar a suspeita, turco, compreende a minha posição - disse o Tenente.

‑ Quanto custa?

‑ Está bem. Vem ao meu escritório para discutirmos isso em privado.

Mas era tarde de mais para me livrar do escândalo. As minhas fotografias de frente e de perfil, com uma tarjeta negra nos olhos, porque ainda não tinha atingido a maioridade, tinham sido mandadas para os jornais da capital e pouco depois apareciam na coluna policial sob o estranho título de "Morte de seu Próprio Sangue", acusada de ter assassinado a mulher que me tinha recolhido da valeta. Ainda guardo um pedaço de papel amarelo e frágil como uma pétala seca, onde está registada a história desse horrendo crime inventado pela Imprensa, e tantas vezes o li, que em alguns momentos da minha vida cheguei a acreditar que acontecera.

‑ Arranja‑a um pouco, vamos entregá-la ao turco ‑ ordenou o Tenente depois da sua conversa com Riad Halabi.

O sargento lavou‑me o melhor possível e não quis pôr‑me o vestido, porque estava manchado de sangue de Zulema e do meu. Eu transpirava tanto, que preferiu envolver‑me numa manta molhada para me tapar a nudez e, ao mesmo tempo, me refrescar. Compôs‑me um pouco o cabelo, mas de qualquer modo, o meu aspecto era lamentável. Ao ver‑me Riad Halabi deu um grito.

‑ Que fizeram à minha menina!

‑ Não armes sarilhos turco, porque será pior para ela ‑ disse-lhe o Tenente. ‑ Lembra‑te de que te estou a fazer um favor, o meu dever é mantê‑la presa até que tudo isto se esclareça. Quem te diz que ela não matou a tua mulher?

‑ Você sabe que Zulema estava louca e se suicidou!

‑ Eu não sei nada. Isso não está provado. Leva a rapariga e não me chateies, olha que ainda posso mudar de ideias.

Riad Halabi envolveu‑me nos braços e caminhámos lentamente até à saída. Ao transpor a porta e assomarmos à rua, frente ao quartel vimos reunidos todos os vizinhos e alguns índios que ainda permaneciam em Água Santa, observando imóveis do outro lado da praça. Quando saímos do edifício e demos dois passos em direcção à camioneta, o chefe da tribo começou a bater na terra com os pés, numa dança estranha, fazendo um ruído surdo de tambor.

‑ Vão todos à merda antes que os corra a tiro! ‑ ordenou o Tenente furioso.

A professora Inês não conseguiu conter‑se mais e fazendo uso da autoridade conferida por tantos anos a fazer‑se obedecer na aula, adiantou‑se e olhando‑o de frente cuspiu aos seus pés. Que o céu te castigue, desgraçado, disse distintamente para que todos pudéssemos ouvi‑la. O sargento recuou, receando o pior, mas o oficial sorriu manhosamente e não respondeu. Ninguém tornou a mover‑se até que Riad Halabi me colocou no assento do veículo e pôs o motor a trabalhar, então os índios começaram a bater em retirada para a estrada da selva e os habitantes de Água Santa a dispersar murmurando maldições contra a polícia. Estas coisas acontecem por se trazer gente de fora, nenhum destes desalmados nasceu aqui, se assim fosse não actuariam com estas presunções, lançava furioso o meu patrão na camioneta.

Entrámos em casa. As portas e janelas estavam abertas, mas ainda flutuava pelos quartos um ar de espanto. Tinha sido saqueada ‑ foram os guardas, disseram os vizinhos, foram os índios, disseram os guardas ‑ parecia um campo de batalha, faltavam o rádio e a televisão, metade da louça estava partida, os armazéns em desordem, a mercadoria espalhada e esventrados os sacos de cereais, farinha, café e açúcar. Riad Halabi, segurando‑me ainda pela cintura, passou por cima daqueles restos de ciclone sem parar para avaliar os danos e levou‑me para a cama onde no dia anterior jazia a sua mulher.

‑ Como aqueles cães te deixaram... ‑ disse agasalhando‑me.

E então, finalmente regressaram‑me as palavras à boca, saíram como uma incontrolável algazarra, uma atrás da outra, um nariz enorme apontando‑me sem me ver e ela mais branca que nunca, lambendo e chupando, os grilos do jardim e o calor da noite, todos a suar, suando eles e suando eu, não lho disse para que pudéssemos esquecê‑lo, de qualquer modo ele foi‑se embora, evaporou‑se como uma miragem, ela montou‑o e engoliu‑o, choremos Zulema que se nos acabou o amor, delgado e forte, nariz escuro metendo‑se nela, não em mim, só nela, julguei que ela tornaria a comer e a pedir‑me contos e a pôr o ouro ao sol, por isso não lhe disse, Senhor Riad, um tiro e a boca ficou-lhe partida como a sua, Zulema toda de sangue, Qabelo de sangue, a camisa de sangue, a casa inundada de sangue e os grilos com aquele barulho tremendo, ela montou‑o e engoliu‑o, ele foi‑se escapando, todos suando, os índios sabem o que se passou e o Tenente também o sabe, diga‑lhe que não me toque, que não me bata, eu juro, eu não ouvi

o tiro da pistola, entrou‑lhe pela boca e rebentou‑lhe o céu da boca, eu não matei, vesti‑a para que você não a visse assim, lavei‑a, o café ainda está na xícara, eu não a matei, foi ela que o fez, só ela, diga‑lhes que me soltem, que não fui eu, não fui eu, não fui eu...

‑ Já o sei, minha menina, cala‑te por favor. ‑ E Riad Halabi embala-me chorando de desespero e pena.

A menina Inês e o meu patrão curaram‑me as contusões com compresas de gelo e depois tingiram com anilina preta o meu melhor vestido para ir ao cemitério. No dia seguinte eu continuava com febre e com a cara disforme, mas a professora insistiu, que eu me vestisse de luto dos pés à cabeça, com meias pretas e um véu na cabeça, como era costume, para assistir ao funeral de Zuleina, realizado para além das vinte e quatro horas regulamentares, porque não tinham encontrado um médico legista para fazer a autópsia. Temos de ir ao encontro dos mexericos, disse a professora. O padre não apareceu para que ficasse bem claro que se tratava de um suicídio e não de um crime, como andavam a murmurar os polícias. Por respeito ao turco e para irritar o Tenente, toda a gente de Água Santa desfilou em frente ao caixão e um a um abraçaram‑me e deram‑me os pêsames, como se na realidade eu fosse a filha de Zulema e não a sua presumível assassina.

Dois dias mais tarde já me sentia melhor e consegui ajudar Riad Halabi a pôr a casa e o armazém em ordem. A vida recomeçou sem se tocar no que tinha acontecido e sem mencionar os nomes de Zulema ou de Kamal, mas ambos apareciam nas sombras do jardim, nos cantos dos quartos, na penumra da cozinha, ele nu com os olhos ardentes e ela intacta, roliça e branca, com manchas de sangue ou sémen, como se tivesse morrido de morte natural.

 

Apesar das precauções da professora Inês, a maledicência crescia e espalhava-se como fermento e os mesmos que há três meses atrás estavam dispostos a jurar que eu estava inocente, começaram a murmurar porque vivia sozinha com Riad Halabi sob o mesmo tecto, sem estarmos unidos por um laço familiar compreensível. Quando o mexerico se filtrou pelas janelas e entrou na casa, já tinha proporções aterradoras: o turco e essa velhaca são amantes, mataram o primo Kamal, atiraram ao rio os restos para que a corrente e as piranhas o fizessem desaparecer, foi por isso que a pobrezinha da esposa perdeu o juízo e a ela também a mataram para ficarem sozinhos na casa e agora ocupam as noites e os dias num bacanal de sexo e heresias muçulmanas, pobre homem, não tem culpa, esse diabo transtornou‑lhe a cabeça.

‑ Turco, eu não acredito nas pentelheiras de que falam as pessoas, mas não há fumo sem fogo. Tenho de fazer nova investigação, isto não pode continuar assim ‑ ameaçou o Tenente.

‑ Quanto quer agora?

‑ Passa pelo meu escritório para falarmos disso.

Então Riad Halabi compreendeu que a chantagem nunca terminaria e que a situação tinha chegado a um beco sem saída. Nada voltaria a ser como dantes, o povo tornar‑nos‑ia a vida impossível, chegara a altura de nos separarmos. Disse‑mo nessa noite, sentado no pátio junto da fonte árabe, com a sua impecável jaqueta de algodão branco, escolhendo com cuidado as palavras. O céu estava límpido, eu podia distinguir os seus olhos grandes e tristes, duas azeitonas húmidas, e pensei nas coisas boas partilhadas com aquele homem, nas cartas e no dominó, nas tardes a ler a cartilha, nas fitas do cinema, nas horas a cozinharmos juntos... Conclui que o amava profundamente com um amor agradecido. Uma moleza percorreu‑me as pernas, apertou‑me o peito, pôs‑me os olhos a arder. Aproximei‑me, dei a volta à cadeira onde ele estava, coloquei‑me atrás e pela primeira vez em tanto tempo de convivência atrevi‑me a tocar‑lhe. Apoiei as mãos nos seus ombros e o queixo na sua cabeça. Durante um tempo impossível de calcular, ele não se moveu, talvez pressentisse o que ia acontecer e o desejasse porque tirou o lenço do seu pudor e tapou a boca. Não, isso não, disse‑lhe eu, tirei‑lho e atirei‑o ao chão, depois rodeei a cadeira e sentei‑me nos seus joelhos, abraçando‑o, muito próxima, olhando‑o sem pestanejar. Cheirava a homem limpo, a camisa acabada de engomar, a lavanda. Beijei‑o na face barbeada, na testa, nas mãos firmes e morenas. Aiaiai, minha menina, suspirou Riad Halabi e senti o seu bafo morno descer pelo meu pescoço, passear‑se sob a minha blusa. O prazer eriçou‑me a pele e endureceu‑me os seios. Dei‑me conta de que nunca estivera tão perto de ninguém e que havia séculos que não recebia uma carícia. Peguei‑lhe na cara, aproximei‑me lentamente e beijei‑o longamente nos lábios, aprendendo a forma estranha da sua boca, enquanto um calor brutal me incendiava os ossos, me fazia estremecer o ventre. Talvez ele tivesse lutado por um instante contra os seus próprios desejos, mas imediatamente se abandonou para me seguir no jogo e reconhecer‑me também, até a tensão se tornar insuportável e separámo‑nos para apanhar ar.

‑ Ninguém me tinha beijado na boca ‑ murmurou.

‑ Nem a mim ‑ e peguei‑lhe na mão para o levar para o quarto.

‑ Espera, menina, não quero prejudicar‑te.

‑ Desde que Zulema morreu, não voltei a ser menstruada. É por susto disse a professora... Ela julga que eu já não poderei ter filhos ‑ ruborizei.

Permanecemos juntos toda a noite. Riad Halabi tinha passado a vida a inventar fórmulas de aproximação com um lenço na cara. Era um homem amável e delicado, ansioso por agradar e ser aceite, por isso tinha indagado todas as formas possíveis de fazer amor sem empregar os lábios. Tinha feito das mãos e de todo o resto do pesado corpo um instrumento sensitivo, capaz de afagar uma mulher bem disposta até a encher de plenitude. Aquele encontro foi tão definitivo para ambos, que podia ter sido uma cerimónia solene, mas acabou por ser alegre e risonho. Entrámos juntos num espaço próprio onde não existia o tempo real e durante aquelas magníficas horas pudemos viver em completa intimidade, sem pensar em mais nada a não ser em nós próprios, dois companheiros impudicos e brincalhões dando e recebendo. Riad Halabi era sábio e terno e naquela noite deu‑me tanto prazer, que haveriam de passar muitos anos e vários homens pela minha vida antes de me tornar a sentir tão plena. Ensinou‑me as múltiplas possibilidades da feminilidade, para que nunca cedesse por menos. Recebi agradecida o magnífico presente da minha sensualidade, conheci o meu corpo, soube que tinha nascido para aquele prazer e não quis imaginar a vida sem Riad Halabi.

‑ Deixa‑me ficar contigo ‑ pedi‑lhe ao amanhecer.

‑ Menina, tenho muito mais anos que tu. Quando tiveres trinta eu serei um velho caduco.

‑ Isso não interessa. Aproveitemos todo o tempo que podemos estar juntos.

‑ As intrigas nunca nos deixariam em paz. Eu já fiz a minha vida, mas tu ainda não começaste a tua. Tens de partir desta aldeia, mudar o nome, instruir-te, esquecer tudo o que se passou connosco. Ajudar‑te‑ei sempre, és mais do que uma filha para mim...

‑ Não quero ir‑me embora, quero ficar a teu lado. Não faças caso do que dizem as pessoas.

‑ Deves obedecer‑me, eu sei porque o faço, não vês que conheço o mundo melhor que tu? Vão perseguir‑nos até ficarmos loucos, não podemos viver fechados, contigo isso não seria justo, és uma criança.

E depois de uma longa pausa Riad Halabi acrescentou:

‑ Há uma coisa que quero perguntar‑te há uns dias, sabes onde Zulema escondeu as jóias?

‑Sim.

‑ Está bem, não me digas. Agora são tuas, mas deixa‑as onde estão, porque ainda não precisas delas. Dar‑te‑ei dinheiro para viveres na capital, para que vás para uma escola e aprendas uma profissão, assim não terás de

depender de ninguém, nem sequer de mim. Nada te vai faltar, minha menina. As jóias de Zulema estarão à espera, serão o teu dote quando te casares.

‑ Não me caso com ninguém, só contigo, por favor, não me deixes.

‑ Faço‑o porque gosto muito de ti, um dia vais compreender, Eva.

‑ Nunca o compreenderei! Nunca!

‑ Xiu... não falemos disso agora, anda cá, ainda temos algumas horas.

De manhã caminhámos juntos até à praça. Riad Halabi carregava a maleta de roupa nova que tinha preparado para mim, e eu ia em silêncio, com a cabeça levantada e o olhar de desafio, para que ninguém soubesse que eu estava quase a chorar. Era um dia como os outros e àquela hora as crianças brincavam na rua e as comadres de Água Santa tinham posto as cadeiras no passeio, onde costumavam sentar‑se com o alguidar na saia a debulhar milho. Os olhos do povo seguiram‑nos implacáveis até à paragem do autocarro. Ninguém me fez um gesto de despedida, nem o Tenente, que calhou passar por ali no jipe e voltou a cabeça, como se nada tivesse visto, cumprindo parte do contrato com o turco.

‑ Não quero ir‑me embora ‑ supliquei‑lhe pela última vez.

‑ Eva, não tornes as coisas mais difíceis para mim.

‑ Vais ver‑me à cidade? Promete‑me que vais depressa e que vamos fazer amor outra vez.

‑ A vida é longa, menina, está cheia de surpresas, tudo pode acontecer.

‑ Beija‑me.

‑ Não posso, estão a olhar para nós. Sobe para o autocarro e não saias por motivo algum a não ser na capital. Lá tomas um táxi e vais à morada que levas apontada, é um lar de meninas, a professora Inês falou pelo telefone com a directora, ali estarás segura.

Da janela vi‑o com o lenço na boca.

 

Percorri a mesma estrada que fizera anos antes a dormir na camioneta de Riad Halabi. Ante os meus olhos desfilaram as surpreendentes paisagens da região, mas não consegui vê‑las, porque tinha o olhar virado para dentro, ainda deslumbrada pela descoberta do amor. Nesse momento, tive a certeza de que o sentimento de gratidão se me renovaria para o resto da vida sempre que evocasse Riad Halabi, e na verdade assim foi. No entanto, durante essas horas fiz por me libertar da languidez das recordações e conseguir a frieza indispensável para rever o passado e fazer um inventário das minhas possibilidades. Até então tinha vivido às ordens de outros, carenciada de afecto, sem outro futuro que o dia de amanhã e com as minhas histórias como única riqueza. Necessitava de um contínuo esforço de imaginação para suprir tudo o que me tinha faltado. Até a minha mãe era uma sombra efémera que tinha de desenhar todos os dias para não a perder nos labirintos da memória. Recordei, uma a uma, cada palavra da noite anterior e compreendi que aquele homem que, durante cinco anos amei como um pai e agora desejava como a um amante, era um projecto impossível. Olhei as minhas mãos maltratadas pelos trabalhos domésticos, passei‑as pela cara apalpando a forma dos ossos, enfiei os dedos no cabelo e com um suspiro disse basta. Basta, basta, basta, repeti em voz alta. Depois tirei da carteira o papel com o nome do lar de meninas, amachuquei‑o na mão e atirei‑o pela janela.

Cheguei à capital num momento de confusão. Ao descer do autocarro com a maleta, dei uma olhadela à minha volta e notei que qualquer coisa de alarmante acontecia, polícias corriam encostados às paredes ou ziguezagueando por entre os carros estacionados e ouviam‑se tiros por perto. As perguntas do motorista ordenaram‑nos aos gritos que saíssemos dali, porque alguém disparava com uma espingarda de um edifício da esquina. Os passageiros pegaram nas suas bagagens e desataram a correr em todas as direcções. Eu segui‑os aparvalhada, não sabia para onde ir, não reconheci a cidade.

Ao sair do terminal notei que algo flutuava no ar, a atmosfera parecia saturada de tensões, as pessoas fechavam as portas e as janelas, os comerciantes baixavam os estores metálicos das lojas, as ruas começavam a ficar vazias. Quis tomar um táxi para sair dali o mais depressa posssível, mas nenhum parou e como não circulavam outros meios de transporte, não tive outra alternativa senão continuar a andar com os sapatos novos, que me martirizavam os pés. Senti um ruído de tempestade e ao levantar a cara vi um helicóptero às voltas no céu, como um moscardo perdido. A meu lado passavam pessoas apressadas, quis saber o que acontecia, mas ninguém sabia ao certo; golpe de estado, consegui ouvir como única explicação. Eu não conhecia nessa altura o significado dessas palavras, mas o instinto manteve‑me em movimento e segui sem rumo fixo, com a maleta na mão, sentindo‑a cada vez mais pesada. Meia hora mais tarde passei em frente de um hotel de aspecto modesto onde entrei calculando que o dinheiro me chegaria para ali passar algum tempo. No dia seguinte comecei a procurar trabalho.

Saía todas as manhãs cheia de esperança e voltava à tarde extenuada. Depois de ler os anúncios no jornal apresentava‑me em todos os sítios onde se pedia pessoal, mas ao fim de alguns dias percebi que, a menos que eu estivesse disposta a dançar nua ou a atender clientes num bar, só conseguiria trabalhar como criada e disso já tinha tido de sobra. Nalguns momentos de desespero estive quase para pegar no telefone e chamar Riad Halabi, mas contive‑me. Por fim, o dono do hotel, que estava sempre sentado na poltrona e via as minhas entradas e saídas, adivinhou a minha situação e ofereceu‑me ajuda. Explicou‑me que sem uma carta de recomendação era muito difícil encontrar emprego, sobretudo naqueles dias de tantos distúrbios políticos, e deu‑me um cartão para uma sua amiga. Ao chegar à morada reconheci as imediações da rua República e o meu primeiro impulso foi fugir

dali, mas pensei melhor e concluí que não perdia nada em perguntar. No entanto, não consegui encontrar o edifício que procurava, porque me vi envolvida numa agitação de rua. Vários jovens corriam a meu lado, arrastando‑me com eles, até à pequena praça em frente da Igreja dos Seminaristas. Os estudantes agitavam os punhos, vociferavam, gritavam palavras de ordem e eu no meio sem perceber que diabo sucedia. Um rapaz esganiçava‑se acusando o Governo de se vender ao imperialismo e atraiçoar o povo e outros dois treparam para a fachada da igreja para pendurar uma bandeira, enquanto os restantes gritavam em coro, não passarão, não passarão! Entretanto apareceu um grupo de militares e correu tudo à pancada e a tiro. Larguei a correr à procura de um sítio onde pudesse esperar que a desordem da praça se acalmasse e também o ritmo da minha respiração. Foi quando vi que a porta lateral da igreja estava entreaberta e sem vacilar deslizei lá para dentro. O ruído exterior chegava até ali, mas amortecido, como se os factos ocorressem noutro tempo. Sentei‑me no banco mais próximo e ao fazê‑lo, todo o cansaço acumulado naqueles dias apoderou‑se de mim, pus os pés sobre a travessa e recostei a cabeça no espaldar. A pouco e pouco a paz do recinto devolveu‑me o sossego, senti‑me bem naquele refúgio sombrio, rodeada de colunas e santos imóveis, envolta em silêncio e frescura. Pensei em Riad Halabi e quis estar a seu lado, como em todas as tardes dos últimos anos, juntos no pátio à hora do pôr‑do‑sol. Estremeci ante a recordação do amor, mas logo a afastei. Mais tarde, ao perceber que os ecos da rua se tinham dissipado, e entrava menos luz pelos vitrais, apercebi‑me de que tinha passado um bom bocado e dei uma olhadela à minha volta. Vi então sentada noutro banco uma mulher tão formosa, que por um instante a confundi com alguma aparição divina. Ela voltou‑se e fez‑me um gesto amigável.

‑ Também foste apanhada pela confusão? ‑ perguntou a magnífica desconhecida, com uma voz subterrânea, aproximando‑se para se sentar a meu lado. ‑ Há distúrbios por todo o lado, dizem que os estudantes estão entrincheirados na Universidade e que alguns regimentos se sublevaram, este país é uma confusão, assim a democracia não vai durar muito.

Olhei‑a espantada, observando pormenorizádamente os seus ossos de animal de corrida, os seus longos e finos dedos, os olhos dramáticos, a linha clássica do nariz e do queixo e tive a impressão de já a ter visto ou, pelo menos, de a ter pressentido. Ela olhou‑me também, com um sorriso duvidoso nos lábios pintados.

‑ Eu já te vi uma vez...

‑ Julgo que eu também.

‑ Não és a menina que contava histórias... Eva Luna?

‑ Sim...

‑ Não me reconheces? Sou eu, Melecio.

‑ Não pode ser... que te aconteceu?

- Sabes o que é a reencarnação? É como voltar a nascer. Digamos que estou reencarnada.

Apalpei‑lhe os braços nus, as pulseiras de marfim, um caracol do cabelo, com a emoção renovada de estar perante uma personagem da minha própria imaginação. Melecio, Melecio, gritei do fundo com toda a carga de boas recordações reservada àquela criatura desde os tempos da Senhora. Vi lágrimas negras de maquilhagem descerem lentamente por aquele rosto perfeito, puxei‑a para mim para a abraçar, primeiro com timidez e depois com alegria incontida, Melecio, Eva, Melecio...

‑ Não me chames assim, agora o meu nome é Mimi.

‑ Gosto, fica‑te bem.

‑ Como mudámos as duas! Não me olhes assim, não sou maricas, sou um transexual.

‑ Um quê?

‑ Eu nasci homem por engano, mas agora sou mulher.

‑ Como fizeste isso?

‑ Com dor. Soube sempre que não era como os outros, mas foi na prisão que eu tomei a decisão de alterar a natureza. Parece‑me um milagre termo‑nos encontrado... e logo numa igreja. Há vinte anos que eu não entrava numa igreja ‑ riu Mimi secando as últimas lágrimas.

Melecio foi preso durante a Revolta das Putas, esse memorável chinfrim público que ele próprio começou com a infeliz carta ao Ministro do Interior a respeito dos subornos da polícia. Invadiram o cabaré onde trabalhava e sem lhe darem tempo a vestir‑se, levaram‑no com o seu biquini de pérolas e diamantes falsos, a cauda de avestruz rosada, a peruca loura e as sandálias prateadas. A sua entrada no quartel deu azo a uma tempestade de gargalhadas e insultos, deram‑lhe uma sova monumental e meteram‑no durante quarenta horas na cela dos presos mais perigosos. Depois entregaram-no a um psiquiatra, que fazia experiência para a cura da homossexualidade por meio da persuasão emética. Durante seis dias e seis noites, submeteu‑o a uma série de drogas até o deixar meio morto, enquanto lhe mostrava fotografias de atletas, bailarinos e modelos masculinos com a certeza de lhe provocar um reflexo condicionado de repulsa em relação aos do seu sexo. Ao sexto dia Melecio, uma pessoa de carácter habitualmente pacífico, perdeu a paciência, saltou ao pescoço do médico, começou a mordê‑lo como uma hiena e se não o tiram a tempo

estrangulava-o com as suas próprias mãos. Concluíram que criara repulsa contra o psiquiatra, classificaram‑no de incurável e enviaram-no para Santa Maria, onde iam parar os delinquentes sem esperança de julgamento e os presos políticos que sobreviviam aos interrogatórios. Inaugurada durante a ditadura do Benfeitor e modernizada com novas grades e celas durante a do General, a Penitenciária tinha capacidade para trezentas pessoas, mas amontoava mais de mil e quinhentas. Melecio foi levado num avião militar para uma aldeia fantasma, próspera nos tempos da febre do ouro e agonizante desde o auge do petróleo. Dali levaram‑no amarrado como um animal, primeiro numa camioneta e depois numa lancha, até ao inferno onde iria passar o resto da sua vida. Logo à primeira vista compreendeu a proporção da sua desdita. Uma parede de pouco mais de um metro e meio de altura e daí para cima barrotes, por detrás os presos olhando para o verde imutável da vegetação e para a água amarela do rio. Liberdade, liberdade, rebentaram em súplicas quando se aproximou o carro do Tenente Rodríguez, que acompanhava a nova leva de presos para realizar a inspecção trimestral. Abriram‑se as pesadas portas metálicas e entraram até ao último círculo, onde foram recebidos por uma multidão ululante. Levaram Melecio directamente para o pavilhão dos homossexuais; aí, os guardas leiloaram‑no entre os delinquentes veteranos. Teve sorte mesmo assim, porque o deixaram em O Harém, onde cinquenta privilegiados dispunham de um sector independente e estavam organizados para sobreviver.

‑ Nessa altura eu não tinha ouvido falar do Maharishi e não tinha nenhuma ajuda espiritual ‑ disse Mimi tremendo ainda a tais recordações, tirando da carteira uma gravura a cores, onde se via um barbudo com túnica de profeta rodeado de simbolos astrais. ‑ Salvei‑me da loucura porque sabia que a Senhora não me abandonaria, lembras‑te dela? É uma amiga leal, não descansou até me resgatar, passou meses a untar a mão aos juizes, mobilizando os seus contactos no Governo, até chegou a falar com o General em pessoa para me tirar dali.

Quando saiu de Santa Maria, um ano depois, Melecio não era nem a sombra da pessoa que tinha sido. O paludismo e a fome tinham‑lhe tirado vinte quilos, uma infecção no recto obrigava‑o a caminhar curvado como um ancião e a experiência da violência tinha rompido o dique das suas emoções, passava do pranto ao riso histérico sem qualquer transição. Saiu em liberdade sem acreditar no que estava a acontecer, convencido de que era um truque para o acusar de tentativa de fuga e para lhe dispararem pelas costas, mas estava tão debilitado que se resignou à sua sorte. Levaram‑no para o outro lado do rio numa lancha, e depois de automóvel até à aldeia fantasma. Baixa‑te, maricas, empurraram‑no, caiu de joelhos no pó ambarino e ali ficou à espera do tiro de misericórdia, mas nada disso sucedeu. Ouviu o motor do carro a afastar‑se, levantou os olhos e encontrou‑se em frente da Senhora, que a princípio não o reconheceu. Estava à espera dele com uma avioneta de aluguer e levou‑o em voo directo para uma clínica da capital. Durante aquele ano ela tinha juntado dinheiro com o tráfego de prostitutas por via marítima e pô‑lo todo à disposição de Melecio.

‑ Graças a ela estou viva ‑ contou‑me Mimi. ‑ Teve de sair do país. Se não fosse pela minha mamã, arranjava um passaporte com o meu novo nome de mulher e partia para ir viver com ela.

A Senhora não tinha emigrado por sua vontade, mas para fugir da justiça, obrigada pelo escândalo das vinte e cinco raparigas mortas, encontradas num barco rumo a Curação. Eu tinha ouvido isso há uns anos no rádio em casa de Riad Halabi e ainda me lembrava do caso, mas nunca pensei que se tratava da dama do enorme traseiro em cuja casa Huberto Naranjo me deixara. Os cadáveres eram de dominicanas e trinitárias embarcadas clandestinamente numa adega hermética, na qual o ar apenas dava para doze horas. Por confusão burocrática ficaram fechadas dois dias nos porões de carga do barco. Antes de partir, as mulheres recebiam um pagamento em dólares e a promessa de um bom trabalho. Essa parte do negócio dizia respeito à Senhora e ela levava‑a a cabo com honestidade, mas ao chegar aos portos de destino, confiscavam‑lhes os documentos e despejavam‑nas em lugares de infima categoria, onde ficavam presas numa teia de ameaças e dívidas. A Senhora acusada de dirigir a rede de comércio de rameiras pelas ilhas do Caribe, esteve quase a ir parar com os ossos à prisão, mas novamente a ajudaram amigos poderosos e na posse de documentos falsos conseguiu desaparecer a tempo. Durante uns bons dois anos viveu dos seus rendimentos, tentando não dar nas vistas, mas o seu espírito criativo necessitava de uma válvula de escape e acabou por montar um negócio de objectos sadomasoquistas, com tão bom resultado, que dos quatro pontos cardeais lhe faziam encomendas de cintos de castidade para varões, chicotes de sete pontas, coleiras de cão para uso humano e tantos outros instrumentos de humilhação.

‑ Daqui a pouco é noite, é melhor irmo‑nos embora ‑ disse Mimi. - Onde vives?

‑ De momento num hotel. Acabo de chegar, passei todos estes anos em Água Santa, uma aldeia perdida.

‑ Vem viver comigo, estou sozinha.

‑ Acho que devo procurar o meu próprio caminho.

‑ A solidão não é boa para ninguém. Vamos para minha casa, e logo que passe esta confusão vês o que mais te convém ‑ disse Mimi retocando a maquilhagem olhando‑se num espelho de bolso, um pouco alterada pelas vicissitudes daquele dia.

 

O apartamento de Mimi ficava perto da rua República, ao alcance dos candeeiros amarelos e lâmpadas vermelhas. O que antes tinham sido duzentos metros dedicados a vícios moderados, convertera‑se num labirinto de plástico e néon, um centro de hotéis, bares, cafés e bordéis de toda a espécie. Também ficavam por ali o Teatro da ópera, o melhor restaurante francês da cidade, o Seminário e vários edifícios residenciais, porque na capital, como no resto do território tudo se transformara. Nos mesmos bairros, mansões senhoriais e barracas miseráveis ombreavam e sempre que os novos ricos tentavam instalar-se numa urbanização exclusiva, em menos de um ano encontravam‑se rodeados pelas barracas dos novos pobres. Essa democracia urbanística estendia‑se a outros aspectos da vida nacional e por essa razão às vezes era difícil estabelecer a diferença entre um ministro e o seu motorista, porque ambos pareciam do mesmo estrato social, usavam fatos semelhantes e tratavam‑se com um à‑vontade que à primeira vista se poderia confundir com má educação, mas que no fundo era um sólido sentido da própria dignidade.

‑ Gosto deste país ‑ disse uma vez Riad Halabi, sentado na cozinha da professora Inês. ‑ Ricos e pobres, negros e brancos, uma única classe, um único povo. Cada um sente‑se dono do chão que pisa, nem hierarquias, nem protocolos, ninguém supera ninguém por nascimento ou por fortuna. Eu venho de um lugar muito diferente, na minha terra há muitas castas e regras, o homem nasce e morre sempre no mesmo lugar.

‑ Não se engane com as aparências Riad ‑ rebateu a professora Inês

‑ este país é como um mil‑folhas.

‑ Está bem, mas qualquer um pode subir ou descer, pode ser milionário, presidente ou mendigo, consoante o seu esforço, a sorte ou os desígnios de Alá.

‑ Quando é que já se viu um índio rico, ou um negro feito general ou banqueiro?

A professora tinha razão, mas ninguém admitia que a raça tivesse alguma coisa a ver com o assunto, porque todos se vangloriavam de ser mestiços. Os imigrantes chegados de toda a parte do planeta também se igualaram sem preconceitos e ao cabo de duas gerações nem os chineses podiam afirmar que eram asiáticos puros. Só a antiga oligarquia proveniente de épocas anteriores à Independência se distinguia pelo tipo e pela cor, mas entre eles isso nunca se mencionava, tinha sido uma imperdoável falta de tacto numa sociedade aparentemente orgulhosa do seu sangue mestiço. Apesar da sua história de colonização, caudilhos e tiranos, era a terra prometida, a terra da liberdade, como dizia Riad Halabi.

‑ Aqui o dinheiro, a beleza ou o talento abrem todas as portas ‑ explicou‑me Mimi.

‑ Faltam‑me os dois primeiros, mas julgo que a minha ânsia de contar histórias, é um presente do céu... ‑ Na realidade não estava certa de que isso tivesse alguma aplicação prática, até então só me tinha servido para dar um pouco de cor à vida e escapar para outros mundos quando a realidade me era intolerável; contar histórias parecia‑me uma profissão ultrapassada pelos progressos da rádio, televisão e cinema, pensava que tudo o que era transmitido por ondas ou projectado num ecrã era verídico, em contrapartida as minhas narrações eram quase sempre um monte de mentiras, que nem eu mesma sabia onde ia buscar.

‑ Se gostas disso, não deves trabalhar noutra coisa.

‑ Ninguém paga para ouvir histórias, Mimi, e eu tenho de ganhar a vida.

‑ Talvez encontres alguém que pague por isso. Não há problema, enquanto estiveres comigo não te faltará nada.

‑ Não quero ser um peso para ti. Riad Halabi dizia‑me que a liberdade começa pela independência económica.

‑ Em breve verás que o peso sou eu. Preciso mais de ti que tu de mim, sou uma mulher muito só.

Fiquei com ela naquela noite, na seguinte e na outra, e assim vários anos, durante os quais arranquei do peito, o impossível amor por Riad Halabi, acabei por me tornar mulher e aprendi a manejar o leme da minha vida, nem sempre da forma mais elegante, é certo, mas é preciso ter em conta que me tocou navegar em águas revoltas.

Tantas vezes me tinham dito que nascer mulher era uma desgraça, que tive alguma dificuldade em compreender o esforço de Melecio para ser uma delas. Eu não via a vantagem em lado nenhum mas ele desejava sê‑lo e para isso estava disposto a sofrer toda a espécie de tormentos. Dirigido por um médico especializado nessas metamorfoses, ingeria hormonas capazes de transformar um elefante em ave migratória, eliminou os pêlos por depilação eléctrica, pôs mamas e nádegas de silicone e injectou parafina onde achou necessário. O resultado é perturbador, para não dizer mais nada. Nua, é uma amazona de seios magníficos e pele de bebé, cujo ventre acaba em atributos masculinos bastante atrofiados, mas mesmo assim visíveis.

‑ Falta‑me uma operação. A Senhora soube que em Los Angles fazem milagres, podem transformar‑me numa mulher a sério, mas isso ainda está em fase experimental e além disso custa uma fortuna ‑ disse Mimi.

Para ela o sexo é o menos interessante da feminilidade, atraem‑na outras coisas, vestidos, perfumes, tecidos, adornos, cosméticos. Sente prazer com o roçar das meias ao cruzar as pernas, com o ruído quase imperceptível da roupa interior, com a carícia do cabelo sobre os ombros. Nesse tempo desejava ter um companheiro para poder cuidar e servir, alguém que a protegesse e lhe oferecesse um carinho duradouro, mas não tivera sorte. Encontrava‑se suspensa num limbo andrógino. Alguns aproximavam‑se confundindo‑a com um travesti, mas ela não aceitava essas relações equívocas, considerava‑se mulher e procurava homens viris; no entanto esses não se atreviam a sair com ela, mesmo que se sentissem fascinados pela sua beleza, não fossem apelidá‑los de maricas. Não faltaram os que a seduzissem e a namorassem para averiguar como era nua e como fazia amor, era‑lhes excitante abraçar aquele monstro admirável. Se um amante entrava na sua vida, toda a casa girava em volta dele, ela transformava‑se numa escrava disposta a satisfazê‑lo nas mais atrevidas quimeras, para se fazer perdoar pelo facto irrefutável de não ser uma fêmea completa. Nessas alturas quando se humilhava e se afundava em submissão, eu tentava defendê‑la da sua própria loucura, conversar com ela, fazê‑la ultrapassar essa perigosa paixão. Tens ciúmes, deixa‑me em paz, irritava‑se Mimi. O eleito correspondia quase sempre ao género de chulo másculo e castigador que a explorava durante algumas semanas, alterava o equilíbrio da casa, deixava no ar os vestígios

da sua passagem e causava tal transtorno que me punha de péssimo humor a ponto de muitas vezes ameaçar mudar‑me para outro lado. Mas por fim a parte mais saudável de Mimi revoltava‑se, prevalecia e expulsava o seu algoz. Por vezes a ruptura fazia‑se com violência, noutras alturas era ele quem, satisfeita a curiosidade, se cansava e partia, caindo ela à cama doente, desesperada. Por algum tempo, até se apaixonar de novo, voltávamos as duas à rotina normal. Eu vigiava as hormonas, os suporíferos e as vitaminas de Mimi, e ela ocupava‑se da minha educação, das aulas de inglês, dos cursos de gestão, dos livros, recolhia histórias da rua para me trazer de presente. O sofrimento, a humilhação, o medo e a doença tinham‑na marcado profundamente e despedaçado a ilusão do mundo cristalino onde desejara viver.

Já não era uma ingénua apesar de o aparentar como artifício de sedução; no entanto, nenhuma dor, nenhuma violência conseguiram destruir o seu ser intrínseco.

Julgo que eu também não tinha muita sorte ao amor, apesar de não me faltarem homens. De vez em quando, sucumbia a uma paixão violenta que me revolvia até aos ossos. Nesse caso não esperava que o outro desse o primeiro passo, tomava eu a iniciativa, fazendo por recriar em cada abraço a felicidade partilhada com Riad Halabi, mas isso não resultava. Fugiram vários, talvez um pouco assustados pelo meu atrevimento, depois denegriam‑me nas conversas com os amigos. Sentia‑me livre, tinha a certeza de que não podia engravidar.

‑ Tens de ir ao médico ‑ insistia Mimi.

‑ Não te preocupes, estou bem. Tudo voltará ao normal, quando deixar de sonhar com Zulema.

Mimi coleccionava caixas de porcelana, animais de peluche, bonecas e almofadas bordadas por ela nos seus momentos de lazer. A sua cozinha parecia uma montra de aparelhos domésticos e usava‑os todos, porque gostava de cozinhar, embora fosse vegeteriana e se alimentasse como um coelho. Considerava a carne como um veneno mortal, outro dos numerosos ensinamentos de Maharishi, cujo retrato presidia na sala e cuja filosofia guiava a sua vida. Era um avô sorridente de olhos aquosos, um sábio que tinha recebido iluminação divina através das matemáticas. Os seus cálculos tinham‑lhe demonstrado que o universo ‑ e, mais ainda, os seus entes ‑ era governado pelo poder dos números, princípios do conhecimento cosmogónico desde Pitágoras até aos nossos dias. Foi o primeiro a colocar a ciência dos números ao serviço da futurologia. Certa vez foi convidado pelo governo para ser consultado sobre assuntos de Estado e Mimi encontrava‑se entre a multidão que o recebeu no aeroporto. Antes de o ver desaparecer no carro oficial, conseguiu tocar a orla da sua túnica.

‑ O homem e a mulher neste caso não faz diferença, são modelos do universo em escala reduzida, por isso, tudo o que acontecer a nível astral é acompanhado por manifestações a nível humano e cada pessoa experimenta uma relação com determinada ordem planetária de acordo com a configuração básica que lhe está associada desde o dia em que respirou pela primeira vez na vida, percebes? ‑ recitou Mimi, de um fôlego.

‑ Perfeitamente ‑ assegurei‑lhe e a partir desse momento nunca mais tivemos problemas, porque quando tudo falha nós comunicamos na linguagem dos astros.

 

As filhas de Burgel e Rupert ficaram grávidas na mesma altura, sofreram juntas os incómodos próprios da gestação, engordaram como ninfas renascentistas e deram à luz os seus primogénitos com poucos dias de diferença. Os avós deram um profundo suspiro de alívio porque as crianças tinham nascido sem taras aparentes, e celebraram o acontecimento com um faustoso baptizado duplo no qual gastaram boa parte das suas poupanças. As mães não puderem atribuir a paternidade dos filhos a Rolf Carlé, como talvez secretamente o desejassem, porque os recém‑nascidos cheiravam a cera e há mais de um ano que não tinham o prazer de brincar com ele, não por falta de vontade de ambas as partes, mas porque os maridos eram bem mais espertos do que se imaginava e não lhes deram muitas oportunidades de se encontrarem a sós. Em cada uma das esporádicas visitas de Rolf Carlé à Colónia os tios e as duas matronas sufocavam‑no de mimos e os fabricantes de velas enchiam‑no de atenções ruidosas, mas não lhe tiravam os olhos de cima, de tal modo que as acrobacias eróticas passaram para segundo plano por razões de força maior. No entanto, de vez em quando os três primos conseguiam escapulir‑se para um bosque de pinheiros ou para um quarto vazio da pensão onde durante um bocado recordavam os velhos tempos, rindo juntos.

Com o passar dos anos as duas mulheres tiveram outros filhos e acomodaram‑se ao seu papel de esposas, mas não perderam a vivacidade que apaixonara Rolf Carlé quando as viu pela primeira vez. A mais velha continuou a ser alegre e brincalhona, empregava um vocabulário de carroceiro e era capaz de beber cinco canecas de cerveja sem perder a compostura. A mais nova manteve a delicada garridice que a fazia tão sedutora, apesar de já não ter o frescor da adolescência As duas conservaram o cheiro a canela, cravo‑da‑índia, baunilha e limão, que só por si incendiava a alma de Rolf Carlé como lhe acontecera por vezes a milhares de quilómetros de distância, despertando a meio da noite com o pressentimento de que elas também estavam a sonhar com ele.

Por seu lado, Burgel e Rupert envelheceram a criar cães e a dar cabo da digestão dos turistas com as suas fantásticas receitas culinárias, continuaram a brigar por coisas insignificantes e a amarem‑se com bom humor, cada dia mais encantadores. Ao longo dos anos, a convivência apagou as diferenças e com o tempo foram‑se tornando iguais em corpo e alma até parecerem gémeos. às vezes para divertir os netos, ela colava uma bigodaça de lã e vestia a roupa do marido e ele punha um soutien cheio de trapos e uma saia da mulher, criando uma divertida confusão nas crianças. O regulamento da pensão tornou‑se mais brando e muitos casais furtivos viajavam até à Colónia para passar uma noite naquela casa, porque os tios sabiam que o amor é bom para conservar a madeira e na sua idade já não tinham o mesmo vigor de antes, mesmo com as enormes porções de guisado afrodisíaco que consumiam. Acolhiam os namorados com simpatia, sem fazer perguntas sobre a sua situação legal, davam‑lhes os melhores quartos e serviam‑lhes suculentos pequenos‑almoços, agradecidos porque aqueles escarcéus proibidos contribuíam para o bom estado dos tectos e dos móveis.

Por essa altura depois do Governo sufocar a tentativa de golpe e ter conseguido controlar a crónica tendência subversiva de alguns militares, a situação política estabilizou. O petróleo continuou a jorrar da terra como uma infinita torrente de riqueza, adormecendo as consciências e postergando todos os problemas para um hipotético amanhã.

Entretanto Rolf Carlé tinha‑se tornado uma celebridade itinerante. Realizou vários documentários que deram prestígio ao seu nome além‑fronteiras. Andara por todos os continentes e já falava quatro idiomas. O senhor Aravena, promovido a director da Televisão Nacional desde a queda da ditadura, mandava‑o procurar notícias nas fontes de origem, porque era partidário dos programas dinâmicos e arrojados. Considerava‑o o melhor cineasta da sua equipa e secretamente Rolf estava de acordo com ele. Os telegramas das agências noticiosas deturpam a verdade, filho, é preferível ver os acontecimentos com os pró prios olhos, dizia Aravena. Foi assim que Carlé filmou catástrofes, guerras, sequestros, julgamentos, coroações, reuniões de altos dignitários e outros factos que o mantiveram afastado do país. Em certos momentos, quando se encontrava atolado até aos joelhos no Vietname ou à espera durante dias numa trincheira do deserto, meio‑desmaiado de sede com a câmara ao ombro e a morte às costas, a recordação da Colónia devolvia‑lhe o sorriso. Para ele, aquela aldeia de conto de fadas encarrapitada num cerro perdido da América constituía um refúgio seguro onde o seu espírito podia sempre encontrar a paz. Regressava quando se sentia vergado pelas atrocidades do mundo, para se deitar sob as árvores a olhar o céu, rebolar no chão com os sobrinhos e os cães, sentar‑se à noite na cozinha a olhar a tia a mexer as panelas e o tio a ajustar os mecanismos de um relógio. Ali dava rédea solta à vaidade deslumbrando a familia com as suas aventuras. Só à frente deles se atrevia a praticar pedantismos inocentes, porque, no fundo, sabia estar de antemão perdoado.

A natureza do seu trabalho impedira‑o de constituir família, como lhe pedia a tia Burgel cada vez com mais insistência. Já não se apaixonava com a facilidade dos vinte anos e começava a resignar‑se à ideia da solidão, convencido de que lhe seria muito difícil encontrar a mulher ideal, apesar de nunca se ter perguntado se reuniria os requisitos exigidos por ela, no caso improvável desse ser perfeito surgir no seu caminho. Teve alguns amores que acabaram frustrados, algumas amigas leais em diversas cidades que lhe davam as boas‑vindas com a maior ternura se por lá passasse e conquistas suficientes para alimentar o seu amor próprio, mas já não se entusiasmava com relações passageiras e a partir do primeiro beijo, começava a despedir‑se. Tinha‑se transformado num homem enérgico, pele e músculos tensos, com os olhos atentos rodeados de rugas finas, bronzeado e sardento. As suas experiências na primeira linha de tantos acontecimentos violentos não tinham conseguido endurecê‑lo, ainda era vulnerável às emoções da adolescência, ainda sucumbia à ternura e perseguiam‑no de vez em quando os mesmos pesadelos, misturados, sem dúvida, com alguns sonhos felizes de coxas rosadas e cachorros. Era tenaz, inquieto, incansável. Sorria com frequência e fazia‑o com tal sinceridade, que ganhava amigos por todo o lado. Quando estava por detrás da câmara esquecia‑se de si, interessado apenas em captar a imagem, mesmo à custa de qualquer risco.

 

Numa tarde de Setembro encontrei Huberto Naranjo numa esquina. Ele rondava observando de longe uma fábrica de uniformes militares. Tinha descido à capital para conseguir armas e botas ‑ que pode fazer na montanha um homem sem botas? ‑ e de passagem convencer os seus chefes sobre a necessidade de mudar de estratégia, porque os seus rapazes estavam a ser dizimados pelo Exército. Tinha a barba feita e o cabelo curto, vestia um fato de cidade e trazia uma maleta discreta na mão. Em nada se parecia com os cartazes que ofereciam recompensa pela captura de um barbudo com boina preta, que das paredes olhava desafiando os transeuntes. A mais elementar das prudências dizia‑lhe que mesmo que desse de frente com a própria mãe, devia continuar o seu caminho como se não a visse, mas eu surgi de surpresa, e talvez nesse momento as suas defesas estivessem em baixo. Disse que me vira atravessar a rua e reconhecera‑me imediatamente pelos olhos, apesar de já pouco existir da criança que ele deixara em casa da Senhora há vários anos para que a cuidassem como se fosse sua irmã. Estendeu a mão e pegou‑me por um braço. Voltei‑me sobressaltada e ele murmurou o meu nome. Tentei lembrar‑me onde já o vira, mas aquele homem com aspecto de funcionário público, apesar da pele queimada pela intempérie, em nada se parecia com o adolescente de melena com brilhantina e botas de tacão com pregos prateados que tinha sido o herói da minha infância e protagonista das minhas primeiras fantasias amorosas. Cometeu então o segundo erro.

‑ Sou Huberto Naranjo...

Estendi‑lhe a mão porque não me ocorreu outra maneira de o saudar e ambos corámos. Ficamos na esquina a olharmo‑nos atónitos, tínhamos mais sete anos para contar, mas não sabíamos por onde começar. Senti uma languidez quente nos joelhos e o coração a ponto de explodir, voltou‑me de repente a paixão esquecida por tão grande ausência, julguei que o tinha amado sem tréguas e em trinta segundos apaixonei‑me de novo. Huberto Naranjo há muito tempo que não tinha mulher. Mais tarde eu soube que essa privação de afecto e de sexo era para ele o mais difícil de ultrapassar na montanha. Em cada visita à cidade corria ao primeiro prostíbulo que lhe aparecesse e durante uns instantes, sempre demasiado breves, afundava‑se no marasmo abissal de uma sensualidade urgente, raivosa e finalmente triste, que apenas aliviava a fome acumulada sem lhe dar na realidade qualquer felicidade. Quando podia dar‑se ao luxo de pensar em si consumia‑o o desejo de ter nos braços uma rapariga que fosse só sua, de a possuir por completo, de que ela o esperasse, o desejasse e lhe fosse fiel. E passando por cima de todas as regras que impunha aos seus combatentes, convidou‑me a tomar um café.

Naquele dia cheguei muito tarde a casa, levitando em estado de transe.

‑ Que se passa contigo? Tens os olhos mais luminosos que nunca - perguntou‑me Mimi, que me conhecia como a si própria e podia adivinhar os meus desgostos e alegrias mesmo à distância.

‑ Estou apaixonada.

‑ Outra vez?

‑ Agora é a sério. Esperei aquele homem durante anos.

‑ Estou a ver, o encontro de duas almas gémeas. Quem é ele? Não posso dizer‑te, é segredo.

‑ Não podes dizer‑mo porquê! ‑ Agarrou‑me pelos ombros, alterada.

‑ Acabas de o conhecer e já se mete entre nós as duas?

‑ Está bem, não te zangues. É Huberto Naranjo, mas nunca deves mencionar o seu nome.

‑ Naranjo? O mesmo da rua República? E porquê tanto mistério?

‑ Não sei. Disse‑me que qualquer comentário pode custar‑lhe a vida.

‑ Sempre achei que esse tipo acabaria mal! Conheci Huberto Naranjo quando era um rapazinho, estudei‑lhe as linhas da mão e vi o seu destino nas cartas, não é para ti. Acredita em mim, esse tipo nasceu para bandido ou magnata, deve andar metido em contrabando, em tráfico de marijuana ou em qualquer outro negócio sujo.

‑ Não permito que fales assim dele!

Nessa época vivíamos numa casa perto do Clube de Campo, a zona mais elegante da cidade, onde tínhamos encontrado uma vivenda antiga e pequena, ao alcance da nossa bolsa. Mimi tinha atingido mais fama do que alguma vez sonhara, e tinha‑se tornado tão formosa, que não parecia feita de matéria humana. A mesma força de vontade empregue a transformar a sua natureza masculina, utilizou‑a para se educar e para se tornar actriz. Pôs de lado todas as extravagâncias que podiam confundir‑se com vulgaridade, passou a ditar a moda com os seus vestidos de alta‑costura e a sua maquilhagem de contrastes, aperfeiçoou a linguagem, reservando algumas grossarias só para casos de emergência, passou dois anos a estudar representação numa escola de teatro e maneiras num instituto especializado em formação de rainhas de beleza, onde aprendeu a subir para um automóvel com as pernas cruzadas, a morder folhas de alcachofra sem alterar a linha do lápis nos lábios e a descer escadas arrastando uma invisível estola de arminho. Não escondeu a mudança de sexo, mas também não falava disso. A imprensa sensacionalista explorou essa aura de mistério, atiçando a candeia do escândalo e da maledicência. A sua situação sofreu uma reviravolta dramática. Ao passar na rua todos se viravam para a olhar, as colegiais assaltavam‑na para lhe pedir um autógrafo, teve contratos para as telenovelas e peças teatrais, nas quais demonstrou um talento histriónico que não se via no país desde 1917, altura em que o Benfeitor trouxe de Paris Sarah Bernhardt, já velha, mas ainda magnífica apesar de se equilibrar sobre uma única perna. A aparição de Mimi no palco assegurava uma casa cheia, porque as pessoas viajavam da província para verem aquela criatura mitológica de quem se dizia ter seios de fêmea e falo de macho. Convidavam‑na para desfiles de moda, como júri em concursos de beleza, para as festas de caridade. Fez a sua entrada triunfal na alta sociedade no Baile de Carnaval, quando as famílias mais antigas lhe deram umas palmadas nas costas ao receberem‑na nos salões do Clube de Campo. Nessa noite Mimi assombrou a assistência ao apresentar‑se vestida de homem, com um sumptuoso disfarce de rei da Tailândia, coberta de esmeraldas falsas, comigo pelo braço, ataviada como sua rainha. Alguns lembravam‑se de a ter aplaudido há anos atrás num sórdido cabaré de sodomitas, mas isso longe de prejudicar o seu prestígio, aumentava a curiosidade. Mimi sabia que nunca seria aceite como membro daquela oligarquia que de momento a solicitava, não passava de um bobo exótico para decorar as suas festas, mas o acesso a esse ambiente fascinava‑a e para se justificar sustentava que isso era útil para a sua carreira de artista. Aqui o mais importante é ter boas relações, dizia‑me quando eu brincava com tais veleidades.

O êxito de Mimi assegurou‑nos bem‑estar económico. Agora vivíamos em frente de um parque onde as amas passeavam os filhos dos patrões e os motoristas levavam os cães finos a urinar. Antes de nos mudarmos presenteou as vizinhas da rua República com as colecções de peluche e almofadões bordados, e embalou em caixotes as figuras de porcelana fria fabricadas pelas suas próprias mãos. Tive a má ideia de lhe ensinar esse artesanato e durante muito tempo passou os tempos livres a preparar massa para modelar diversos disparates. Contratou um profissional para decorar a sua nova casa e o homem quase sofreu um colapso ao ver as criações de Matéria Universal. Suplicou‑lhe que as mantivesse guardadas onde não pudessem alterar os seus desenhos de arquitectura interior e Mími prometeu‑lho, porque ele era muito agradável, de idade madura, cabelo cinzento, olhos negros. Entre eles surgiu uma amizade tão sincera, que ela se convenceu que tinha encontrado finalmente o par assinalado pelo zodíaco. A astrologia não falha, Eva, na minha carta astral está escrito que vou viver um grande amor na segunda metade do meu destino...

Durante muito tempo o decorador visitou‑nos com frequência, influindo definitivamente na qualidade das nossas vidas. Junto dele aproximámo‑nos de requintes até então desconhecidos, aprendemos a escolher os vinhos, antes julgávamos que o tinto se bebia de noite e o branco de dia, aprendemos a apreciar a arte, a interessarmo‑nos pelas notícias do mundo. Dedicávamos os domingos às galerias de arte, museus, teatros e cinematecas. Com ele assisti pela primeira vez a um concerto e o impacte foi tão formidável que não dormi durante três dias, porque a música ficou a ressoar dentro de mim e quando pude fazê‑lo sonhei que eu era um instrumento de corda, de madeira amarelada e incrustações de nácar e crayelhas de marfim. Durante longo tempo não perdi nenhum pormenor da orquestra, sentava‑me no segundo balcão e quando o maestro levantava a batuta e a sala se enchia de sons, corriam‑me as lágrimas, não conseguia suportar tanto prazer. Decorou a casa de branco, com móveis modernos e alguns pormenores antigos, tão diferente do que tínhamos visto, que durante semanas demos voltas nos quartos, perdidas, com medo de mexer nalgum objecto e não recordar depois o lugar exacto ou de nos sentarmos numa poltrona oriental e desarranjar as plumas com um sopro; mas, tal como nos assegurou desde o princípio, o bom gosto desenvolve‑se, finalmente habituámo‑nos e acabámos por gozar com algumas das grossarias do passado. Um dia esse homem encantador anunciou que ia partir para Nova Iorque contratado por uma revista, fez as malas e despediu‑se de nós com genuína pena, deixando Mimi consumida de desgosto.

‑ Tem calma, Mimi. Se ele se foi embora isso quer dizer que não era o homem do teu destino. O verdadeiro aparecerá em breve ‑ disse‑lhe e a lógica irrefutável deste argumento deu‑lhe algum consolo.

Com o passar do tempo a harmonia perfeita da decoração sofreu alterações, mas o ambiente da casa tornou‑se mais acolhedor. Primeiro foi a marina. Contei a Mimi o que significou para mim o quadro dos solteirões e ela concluiu que a causa do meu fascínio tinha uma origem genética, com toda a certeza vinha de algum antepassado navegador que me tinha transmitido ao sangue a invencível nostalgia do mar. Como isso jogava com a lenda do avô holandês, ambas vasculhámos antiquários e leilões até dar com um óleo de rochas, ondas, gaivotas e nuvens, que comprámos sem hesitar e pusemos em lugar de honra, destruindo de uma penada o efeito das gravuras japonesas seleccionadas com tanto esmero pelo nosso amigo. Depois adquiri pouco a pouco toda uma família para pendurar na parede, antigos daguerreótipos esmaecidos pelo tempo: um embaixador coberto de condecorações, um explorador de grandes bigodes e espingarda de dois canos, um avô de tamancos de madeira e cachimbo de cerâmica olhando para o futuro com altivez. Quando tive um parentesco de estirpe procurámos minuciosamente a imagem de Consuelo. Eu recusava‑as todas, mas ao fim de uma longa peregrinação demos com uma jovem delicada e sorridente, vestida de rendas e protegida por uma sombrinha, num jardim de trepadeiras, suficientemente formosa para encarnar a minha mãe. Na minha infância só vira Consuelo de avental e alpargatas realizando vulgares tarefas domésticas, mas sempre soube que em segredo era como a requintada senhora da sombrinha, porque assim se transformava quando estávamos sós no quarto dos fundos e assim desejo conservá‑la na minha memória.

 

Nesses anos tentei recuperar o tempo perdido. Tirava o secundário numa escola nocturna, para obter um diploma que depois não me serviu de nada, mas que então me parecia indispensável. Trabalhava durante o dia como secretária na fábrica de uniformes militares e de noite enchia os cadernos de contos. Mimi pedira‑me que deixasse esse emprego inferior e me dedicasse só à escrita. Desde que vira uma fila de pessoas frente a uma livraria, esperando a sua vez para que um escritor colombiano de bigodes, em digressão triunfal, autografasse os seus livros, enchia‑me de cadernos, lapiseiras e dicionários. Essa é que é uma boa profissão, Eva, não terias de te levantar tão cedo e ninguém te daria ordens... Sonhava ver‑me dedicada às letras, mas eu necessitava de ganhar a vida e nesse sentido a escrita é um terreno bastante escorregadio.

Pouco depois de eu ter deixado Água Santa e me ter instalado na capital, procurei o rasto da minha madrinha, porque a última vez que soube dela estava doente. Vivia num quarto no bairro antigo da cidade, cedido por umas boas almas que a tinham acolhido por caridade. As suas posses não eram muitas, exceptuando o puma embalsamado ‑ milagrosamente intacto apesar do tempo e dos transtornos da miséria ‑ e dos seus santos, porque é preciso ter o altar em casa, assim só se gasta em velas e não em padres, como dizia. Tinha perdido alguns dentes, entre eles o de ouro, vendido por necessidade, e das carnes opulentas restava apenas a recordação, mas conservava o gosto pela limpeza e ainda se banhava todas as noites com um jarro. A sua cabeça funcionava tão mal, que compreendi a impossibilidade de a tirar do labirinto pessoal onde se tinha perdido, limitei‑me a visitá‑la assiduamente para lhe dar vitaminas, limpar o quarto, levar-lhe guloseimas e água de rosas, para se perfumar como antigamente. Quis interná‑la num sanatório, mas ninguém lhe prestou atenção, disseram que não era uma doente grave e havia outras prioridades, os serviços médicos não contemplavam casos como o dela. Uma manhã a família que a albergava chamou‑me alarmada: a madrinha sofria de um ataque de tristeza, e há doze dias que não parava de chorar.

‑ Vamos vê‑la, eu acompanho‑te ‑ disse Mimi.

Chegámos no exacto momento em que esgotada a sua resistência à melancolia, cortava o pescoço com uma navalha. Ouvimos da rua o grito que fez acudir toda a vizinhança; corremos para o interior da vivenda e ali a encontrámos, num charco de sangue que crescia como um lago entre as patas do puma embalsamado. Tinha um golpe de orelha a orelha, mas estava viva e olhava‑nos paralisada de assombro. Os músculos das queixadas tinham sido cortados cerce, a face tinha sido repuxada e patenteava um espantoso sorriso desdentado. Senti os joelhos moles, tive de me apoiar à parede para não cair, mas Mimi ajoelhou‑se junto dela apertando‑lhe os bordos da ferida com as grandes unhas de mandarim parando assim o jorro por onde se lhe escapava a vida, até chegar uma ambulância. Enquanto eu tremia, ela manteve as unhas no mesmo sítio durante todo o trajecto do veículo. Mimi é uma mulher surpreendente. Os médicos do hospital meteram a madrinha na sala de operações e cerziram‑na como a uma peúga, salvando‑a por milagre.

Ao recolher os seus haveres no quarto onde vivia, encontrei dentro de uma bolsa a trança da minha mãe, vermelha e brilhante como pele de surucucu. Permanecera esquecida durante todos aqueles anos, salvando‑se assim de ser transformada em peruca. Levei‑a juntamente com o puma. A tentativa de suicídio serviu pelo menos para que se ocupassem da doente, e mal lhe deram alta no serviço de emergência foi internada na Casa de Orates. Ao fim de um mês pudemos visitá‑la.

‑ Isto é pior que a Penitenciária de Santa Maria ‑ declarou Mimi. - Vamos tirá‑la daqui. - Atada com uma corda a um poste de cimento no centro de um pátio, com outras mulheres dementes, a madrinha já não chorava, permanecia silenciosa e imóvel, com a costura no pescoço. Pediu que lhe devolvessem os santos, porque sem eles sentia‑se perdida, os diabos perseguiam‑na para lhe tirar o filho, o monstro de duas cabeças. Mimi tentou curá-la com a força positiva, como indicava o manual do Maharishi mas a doente manteve‑se impenetrável às terapias esotéricas. Por essa altura começou a sua obsessão pelo Papa, queria vê‑lo para lhe pedir a absolvição dos seus pecados e para a tranquilizar prometi levá‑la a Roma, sem sonhar que um dia veríamos o Sumo Pontífice em pessoa, distribuindo bênçãos no trópico.

Tirámo‑la do hospital, banhámo‑la, arranjámos o pouco cabelo que ainda conservava na cabeça, vestimo‑la com roupa nova e mudámo‑la com todos os seus santos para uma clínica privada situada na costa, no meio de palmeiras, cascatas de água doce e grandes gaiolas com papagaios. Era um lugar para gente rica mas aceitaram‑na apesar do seu aspecto, porque Mimi era amiga do director, um psiquiatra argentino. Ficou instalada num quarto pintado de cor‑de‑rosa, com vista para o mar e música ambiente, cujo preço

era bastante elevado, mas valia bem o esforço, porque pela primeira vez, desde que me lembro a madrinha parecia contente. Mimi pagou a primeira mensalidade, mas esse é o meu dever.

Comecei a trabalhar na fábrica.

‑ Isso não é para ti. Tens de estudar para seres escritora ‑ dizia Mimi.

‑ Isso não se estuda em parte alguma.

 

Huberto Naranjo apareceu de súbito na minha vida e do mesmo modo se dissipou horas depois sem esclarecer os seus motivos, deixando‑me um rasto de selva, lodo e pólvora. Comecei a viver para o esperar e nessa longa paciência recriei muitas vezes a tarde do primeiro abraço, quando depois de partilhar um café quase em silêncio, olhando‑nos com apaixonada determinação, fomos de mão dada para um hotel, rebolámos abraçados sobre a cama e ele me confessou que nunca me quisera como irmã e que em todos esses anos não tinha deixado de pensar em mim.

‑ Beija‑me, não devo amar ninguém, mas nem por isso posso deixar-te, beija‑me outra vez ‑ sussurrou abraçando‑me e depois quedou‑se com os olhos duros, ensopado em suor, a tremer.

‑ Onde vives? Como vou saber de ti?

‑ Não me procures, eu voltarei quando puder. ‑ E voltou a abraçar‑me como louco, com urgência e lentidão.

Durante algum tempo não tive notícias suas e Mimi achou que isso era a consequência de ceder na primeira saída, é preciso fazer‑se rogada, quantas vezes te disse?, os homens fazem todo o possível para se deitarem connosco e quando o conseguem desprezam‑nos, agora ele considera-te fácil, podes esperar sentada, não vai voltar. Mas Huberto Naranjo apareceu de novo, abordou‑me na rua, fomos de novo para o hotel e amámo‑nos da mesma maneira. A partir de então tive o pressentimento de que regressaria sempre, apesar de em cada oportunidade ele insinuar que era a última vez. Entrou na minha vida envolto numa aragem de segredo, trazendo consigo algo heróico e terrível. Pôs a minha imaginação a voar e creio que por isso me resignei a amá‑lo em tão precárias condições.

‑ Não sabes nada dele. Com certeza está casado e é pai de meia‑dúzia de criancinhas ‑ resmungava Mimi.

‑ Tens o cérebro estragado pelos folhetins. Nem todos são como o ma landro da telenovela.

‑ Eu sei o que digo. A mim educaram‑me como homem, fui para uma escola de rapazes, brinquei com eles, acompanhei‑os ao futebol e aos bares Conheço este tema melhor que tu. Não sei como é noutras partes do mundo mas aqui não se pode confiar em nenhum.

As visitas de Huberto não seguiam um esquema previsível, as ausências podiam prolongar‑se por semanas ou meses. Não me telefonava, não me escrevia, não me enviava mensagens e de repente, quando menos o esperava, interceptava‑me na rua, como se conhecesse todos os meus passos e estivesse escondido na sombra. Parecia sempre uma pessoa diferente, às vezes de bigode, outras de barba ou com o cabelo penteado de outra maneira, como se andasse disfarçado. Isso assustava‑me mas também me atraía, tinha a impressão de amar vários homens ao mesmo tempo. Sonhava com uma casa para nós dois, desejava fazer a sua comida, lavar‑lhe a roupa, dormir com ele todas as noites, caminhar pelas ruas sem rumo, de mão dada como marido e mulher. Eu sabia que ele estava esfomeado de amor, de ternura, de justiça, de alegria, de tudo. Apertava‑me como se quisesse saciar uma sede interminável, murmurava o meu nome e os olhos enchiam‑se‑lhe de lágrimas. Falávamos do passado, dos encontros quando éramos crianças, mas nunca nos referíamos nem ao presente nem ao futuro. Algumas vezes não conseguíamos estar juntos uma hora, ele parecia estar a fugir, abraçava‑me com angústia e saía disparado. Se não estava com tanta pressa, eu percorria‑lhe o corpo com devoção, explorava‑o, contava‑lhe as pequenas cicatrizes, as marcas, comprovava que tinha emagrecido, que as mãos estavam mais calejadas e a pele mais seca, que tens aqui, parece uma ferida, não é nada, vem cá. Em cada despedida ficava‑me um sabor amargo na boca, uma mistura de paixão, desespero e qualquer coisa parecida com piedade. Para o não inquietar, fingia uma satisfação, que estava longe de sentir. Era tal a necessidade de o reter e de o amar que achei melhor seguir os conselhos de Mimi e não pus em prática nenhum dos truques aprendidos nos livros didácticos da Senhora, nem lhe ensinei as sábias carícias de Riad Halabi, não lhe falei das minhas fantasias, nem lhe indiquei as cordas exactas que Riad tinha tocado, porque pressentia que ele me teria enchido de perguntas, onde, com quem, quando o fizeste. Apesar dos alardes de mulherengo que tantas vezes lhe ouvi na época de adolescente, ou talvez por ainda o ser, comigo tinha muitos escrúpulos, eu a ti respeito‑te, dizia‑me, tu não és como as outras, como quais?, insistia eu e ele sorria irónico e distante. à cautela, não lhe falei da minha paixão adolescente por Kamal, do meu amor inútil por Riad, nem dos encontros efémeros com outros amantes. Quando me interrogou sobre a minha virgindade, respondi‑lhe que te importa a minha virgindade, também não podes dar‑me a tua, mas a reacção de Huberto foi tão violenta, que preferi omitir a minha magnífica noite com Riad Halabi e inventei que os polícias me tinham violado quando me levaram presa pela morte de Zulema. Tivemos uma absurda discussão e por fim ele pediu desculpa, sou um bruto, perdoa‑me, tu não tens culpa, Eva, esses canalhas vão‑mo pagar, juro, hão‑de pagar.

‑ Quando tivermos oportunidade de estar tranquilos, as coisas vão funcionar muito melhor ‑ insistia nas conversas com Mimi.

‑ Se não te faz feliz agora, não o fará nunca. Não percebo porque continuas com ele, é um tipo muito estranho.

Durante um longo período a relação com Huberto Naranjo, alterou a minha vida, andava desesperada, apressada, transtornada pelo desejo de o conquistar e de o reter a meu lado. Dormia mal, sofria de pesadelos atrozes, falhava‑me a razão, não conseguia concentrar‑me no meu trabalho e nos meus contos, para sentir alívio roubava tranquilizantes da farmácia e tomava‑os às escondidas. Mas o tempo passou e finalmente o fantasma de Huberto Naranjo foi‑se diluindo, tornou‑se menos omnipresente, reduziu‑se a um tamanho mais cómodo e então consegui viver para outras razões, não apenas para o desejar. Continuei dependente das suas visitas porque o amava e me sentia a protagonista de uma tragédia, a heroína de uma novela, mas pude fazer uma vida tranquila e continuar a escrever à noite. Recordei a decisão tomada quando me apaixonei por Kamal, de não voltar a padecer do insuportável sentimento do ciúme e mantive‑a com uma determinação obstinada e astuta. Não me permiti supor que nessas separações ele procurava outras mulheres, nem pensar que fosse um bandido como dizia Mimi; preferia imaginar que existia uma razão superior para o seu comportamento, uma dimensão aventureira à qual eu não tinha acesso, um mundo viril regido por leis implacáveis. Huberto Naranjo estava comprometido com uma causa que devia ser para ele mais importante que o nosso amor. Procurei compreendê‑lo e aceitá‑lo. Cultivava um sentimento romântico por aquele homem que se ia tornando cada vez mais seco, forte e silencioso, mas deixei de fazer planos para o futuro.

No dia em que mataram dois polícias perto da fábrica onde eu trabalhava, confirmei as minhas suspeitas de que o segredo de Huberto estava relacionado com a guerrilha. Dispararam com uma metralhadora de um automóvel em andamento. A rua encheu‑se imediatamente de gente, patrulhas, ambulâncias, vasculharam toda a vizinhança. Dentro da fábrica pararam as máquinas, alinharam os operários nos pátios, revistaram o local de alto a baixo e por fim soltaram‑nos com ordem de irmos para casa, porque toda a cidade estava em alvoroço. Caminhei até à paragem do autocarro e ali encontrei Huberto Naranjo à minha espera. Havia quase dois meses que o não via e custou‑me um pouco a reconhecê‑lo, porque parecia ter envelhecido de repente. Dessa vez não senti prazer algum em estar nos seus braços e nem quis fingi‑lo, tinha o pensamento noutro lado. Depois sentados na cama, nus sobre uns lençóis grosseiros tive a sensação de que cada dia nos afastávamos mais e lamentei‑o pelos dois.

‑ Perdoa‑me, não estou bem. Hoje foi um dia péssimo, mataram dois polícias, eu conhecia‑os, estavam sempre ali de guarda e saudavam‑me. Um chamava‑se Sócrates, imagina que nome para um polícia, era um bom homem. Assassinaram‑os a tiro.

‑ Executaram‑os ‑ replicou Huberto Naranjo. ‑ Executou‑os o povo. Isso não é um assassínio, deves falar com propriedade. Os polícias é que são assassinos.

‑ Que se passa contigo? Não me digas que és partidário do terrorismo. - Afastou‑me com firmeza e olhando‑me nos olhos explicou‑me que o Governo é que exercia a violência, não eram formas de violência o desemprego, a pobreza, a corrupção, a injustiça social? O Estado praticava muitas formas de abuso e repressão, aqueles polícias eram esbirros do regime, defendiam os interesses dos seus inimigos de classe e a sua execução era um acto legitimo; o povo estava a lutar pela libertação. Durante um longo tempo não respondi. Compreendi logo as suas ausências, cicatrizes e silêncios, a pressa, o ar de fatalidade e o tremendo magnetismo que dele emanava, electrizando o ar à sua volta, apanhando‑me como a um insecto encandeado.

‑ Por que não mo disseste antes?

‑ Era melhor não o saberes.

- Não confias em mim?

- Tenta compreender, isto é uma guerra.

‑ Se o tivesse sabido, estes anos teriam sido mais fáceis para mim.

‑ O simples facto de te ver é uma loucura. Pensa no que aconteceria se suspeitassem de ti, e te interrogassem.

‑ Eu não diria nada!

‑ Conseguem fazer falar um mudo. Preciso de ti, não posso estar sem ti, mas cada vez que venho sinto‑me culpado porque ponho em perigo a organização e a vida dos meus companheiros.

‑ Leva‑me contigo.

‑ Não posso, Eva.

‑ Não há mulheres na montanha?

‑ Não. Esta luta é muito dura, mas hão‑de vir melhores tempos, então poderemos amar‑nos de outra maneira.

‑ Não podes sacrificar a tua vida e a minha.

‑ Não é um sacrifício. Estamos a construir uma sociedade diferente, um dia todos seremos iguais e livres...

Lembrei‑me da tarde longínqua, em que nos conhecemos, dois meninos perdidos numa praça. Nessa altura já ele se considerava um macho com objectivos, capaz de dirigir o seu destino, em contrapartida argumentava que eu estava em desvantagem por ter nascido mulher e ter de aceitar diversas tutelas e limitações. A seu ver eu era sempre uma pessoa dependente. Huberto pensava assim desde que tinha o uso da razão, era improvável que a revolução mudasse esses sentimentos. Compreendi que os nossos problemas não estavam relacionados com as vicissitudes da guerrilha; ainda que ele conseguisse tornar realidade o seu sonho, a igualdade não me atingiria. Para Naranjo e outros como ele, o povo era composto apenas por homens; nós, as mulheres, devíamos contribuir para a luta, mas estávamos excluidas das decisões e do poder. A sua revolução não mudaria na essência o meu destino, de qualquer maneira eu teria de continuar a abrir caminho por mim mesma até ao último dos meus dias. Talvez nesse momento me tivesse apercebido que a minha é uma guerra cujo fim não se vislumbra, por isso mais vale levá‑la com alegria, para que a vida não se me escõe à espera de uma vitória possível para começar a sentir‑me bem. Conclui que Elvira tinha razão, é necessário ser destemida, é necessário lutar sempre.

Naquele dia separámo‑nos indignados, mas Huberto Naranjo regressou duas semanas depois e eu aguardava‑o, como sempre.

 

A escalada do movimento de guerrilha trouxe Rolf Carlé de regresso ao país.

‑ Por agora o turismo pelo mundo acabou‑se para ti, rapaz ‑ disse‑lhe Aravena no seu escritório de director. Tinha engordado bastante, estava doente do coração e os únicos prazeres que ainda lhe excitavam os sentidos eram a boa mesa, o sabor dos charutos e uma ou outra olhadela dissimulada aos traseiros apoteóticos e agora intocáveis das filhas do tio Rupert durante os seus passeios à Colónia, mas as limitações físicas não tinham diminuído a sua curiosidade profissional. ‑ A guerrilha anda a chatear muito e chegou a altura de alguém averiguar a verdade. Recebemos toda a informação censurada, o Governo mente e as rádios subversivas também. Quero saber quantos homens há na montanha, que tipo de armamento têm, quem os apoia, quais os seus planos, em suma, tudo.

‑ Não se pode dar isso na televisão.

‑ Necessitamos de saber o que se passa, Rolf. Julgo que esses homens são uns loucos, mas pode ser que tenhamos outra Sierra Madre em frente do nariz e não a vejamos.

‑ E se assim fosse, que faria?

‑ Nada. O nosso papel não consiste em mudar o rumo da história, mas simplesmente em registar factos.

‑ Você não pensava assim no tempo do General.

‑ Alguma coisa aprendi com a idade. Anda, observa, filma se puderes e conta‑me tudo.

‑ Não é fácil. Não deixarão que vá meter o nariz nos seus acampamentos.

‑ É por isso que te peço a ti e não a outro da equipa. Tu já estiveste com eles há alguns anos, como se chamava esse tipo que te impressionou tanto?

‑ Huberto Naranjo.

‑ Podes pôr-te em contacto com ele novamente?

‑ Não sei, talvez já não exista, dizem que o Exército matou muitos e que outros desertaram. Em todo o caso gosto do tema, verei o que posso fazer.

Huberto Naranjo não tinha morrido nem desertado, mas já ninguém o chamava por esse nome. Era agora o Comandante Rogelio. Tinha passado os anos de guerra, com botas calçadas, arma na mão e os olhos sempre abertos para ver para lá das sombras. A sua vida era uma sucessão de violências, mas também havia momentos de euforia, momentos sublimes. Sempre que recebia um grupo de novos combatentes o coração saltava‑lhe no peito, como perante o encontro com uma noiva. Ia recebê‑los ao limite do acampamento e ei‑los ainda puros, optimistas, perfilados como lhes tinha ensinado o chefe de patrulha, ainda com ar de cidade, com bolhas recentes nas mãos, sem os calos dos veteranos, com o olhar suave, cansados mas sorridentes. Eram os seus irmãos mais novos, os seus filhos, vinham para lutar e a partir desse instante ele era o responsável pelas suas vidas, por lhes manter o moral elevado e os ensinar a sobreviver, torná‑los duros como granito, mais valentes que uma leoa, astutos, ágeis e resistentes para que cada um valesse por cem soldados. Era bom tê-los ali, sentia um nó na garganta. Metia as mãos nos bolsos e saudava‑os com quatro frases bruscas, para não trair a emoção.

Também gostava de se sentar com os companheiros à volta de uma fogueira, nas ocasiões em que isso era possível. Nunca ficavam muito tempo no mesmo lugar, era necessário, segundo o manual, conhecer a montanha, mover‑se no terreno como peixe na água. Mas havia dias de ócio, às vezes cantavam, jogavam às cartas, ouviam música pelo rádio como pessoas normais. De vez em quanto ele tinha de descer à cidade para entrar em contacto com os seus elementos de ligação, caminhava então pelas ruas a fingir que era igual aos outros, sentindo os cheiros já esquecidos de comida, tráfego, lixo, observando com novos olhos as crianças, as mulheres nos seus afazeres, os cães vagabundos, como se fizesse parte da multidão, como se ninguém o perseguisse. De repente numa parede via escrito o nome do Comandante Rogelio em letras negras e ao saber‑se crucificado naquele muro, lembrava‑se com um misto de orgulho e temor que não devia estar ali, não tinha uma vida como a dos outros, era um combatente.

Os guerrilheiros eram oriundos na sua maioria da Universidade, mas Rolf não quis misturar‑se com os estudantes para encontrar a maneira de chegar à montanha. O seu rosto aparecia muitas vezes no noticiário da televisão, era bem conhecido de todos. Lembrou‑se do contacto usado há uns anos, quando entrevistou pela primeira vez Huberto Naranjo nos começos da luta armada e foi ao botequim do Negro. Encontrou‑o na cozinha, um pouco mais envelhecido, mas com a mesma boa disposição. Apertaram as mãos com desconfiança. Os tempos tinham mudado e agora a repressão era trabalho de especialistas, a guerrilha já não era só um ideal de rapazes iludidos com a esperança de mudar o mundo, mas um confronto impiedoso e sem tréguas. Rolf Carlé entrou no assunto com alguns preâmbulos.

- Não tenho nada a ver com isso ‑ replicou o Negro.

‑ Não sou um bufo, nunca o fui. Não te denunciei em todos estes anos, por que o ia fazer agora? Pergunta aos teus chefes, diz‑lhes que me dêem uma oportunidade, ao menos que me deixem explicar‑lhes o que penso fazer...

O homem olhou‑o longamente, estudando cada pormenor do seu rosto e certamente aprovou o que viu, porque Rolf Carlé sentiu uma mudança na sua atitude.

‑ Virei ver‑te amanhã, Negro ‑ disse.

Voltou no dia seguinte e todos os dias durante quase um mês, até que por fim conseguiu a entrevista e conseguiu expor as suas intenções. O Partido considerou que Rolf Carlé podia ser um elemento útil; as suas reportagens eram boas, parecia um homem honesto, tinha acesso à televisão e era amigo de Aravena; era conveniente contar com alguém como ele e o risco não seria muito grande se tratassem o assunto com as devidas precauções.

‑ É preciso informar o povo, uma vitória traz aliados ‑ diziam os dirigentes.

‑ Não alarmem a opinião pública, não quero ouvir nem uma palavra sobre a guerrilha, vamos anulá‑la com o silêncio. São todos uns fora‑da‑lei e serão tratados como tal ‑ ordenava por seu lado o Presidente da República.

Nesta ocasião a viagem de Rolf Carlé ao acampamento foi muito diferente da realizada anteriormente, não se tratou de uma excursão de mochila às costas como um estudante em férias. Boa parte do trajecto fê‑lo de olhos vendados, transportaram‑no no porta‑bagagens de um carro, meio asfixiado e quase desmaiado de calor, a outra parte foi feita de noite através dos campos, sem receber qualquer indício da sua localização, os guias mudavam e ninguém estava disposto a falar com ele, passou dois dias fechado em diversos barracões e celeiros, levado daqui para ali sem direito a fazer perguntas. O Exército, treinado nas escolas anti‑guerrilha, encurralava os guerrilheiros, instalava controlos móveis nos caminhos, mandava parar os veículos, revistava tudo. Não era fácil passar as suas linhas de controlo. Nos Centros de Operações, disseminados por todo o país, concentravam‑se as tropas especializadas. Corria o boato de que eram também campos de prisioneiros e lugares de tortura. Os soldados bombardeavam as montanhas, deixando um rasto de escombros. Recordem o código da ética revolucionária, insistia o Comandante Rogelio, por onde passarmos não pode haver abusos, respeitem e paguem tudo o que consumirem, para que o povo veja a diferença que há entre nós e os soldados, para que saibam como vão ser as zonas libertadas pela Revolução. Rolf Carlé notou que a pouca distância das cidades, onde a vida decorria numa aparente paz, havia um território em guerra, mas esse era um tema oficialmente proibido. A luta só era mencionada nas rádios clandestinas, que davam a conhecer as acções da guerrilha: um oleoduto dinamitado, uma guarita assaltada, uma emboscada ao Exército.

Após cinco dias, durante os quais o transportaram como um fardo, deu consigo a subir um monte abrindo caminho na vegetação a golpe de machete, esfomeado, enlameado e picado pelos mosquitos. Os guias deixaram‑no numa clareira do bosque com instruções de não se mexer por motivo algum, não fazer fogo, nem ruído. Ali ficou à espera sem outra companhia que os guinchos dos macacos. Ao amanhecer, quando estava a ponto de perder a paciência, apareceram dois jovens barbudos e esfarrapados com espingardas nos braços.

‑ Bem‑vindo, companheiro ‑ saudaram‑no com largos sorrisos.

‑ Já não era sem tempo ‑ respondeu extenuado.

 

Rolf Carlé filmou a única longa‑metragem que existe no país sobre a guerrilha dessa época, antes que a derrota acabasse com o sonho revolucionário e a paz devolvesse aos sobreviventes a vida normal, a uns convertendo‑os em burocratas, outros em deputados, ou empresários. Ficou com o grupo do Comandante Rogelio durante algum tempo, movimentando‑se de noite de um lugar para outro por terrenos selvagens e às vezes descansando de dia. Fome, cansaço, medo. A vida era muito dura na montanha. Estivera em várias guerras, mas essa luta de emboscadas, de ataques‑surpresa, de estarem sempre vigiados, de solidão e de silêncio pareceu‑lhe muito pior. O número de guerrilheiros variava, estavam organizados em pequenos grupos para se moverem com maior facilidade. O Comandante Rogelio deslocava‑se de um a outro, encarregado de toda a frente. Rolf assistiu ao treino dos novos combatentes, ajudou a montar rádios e postos de primeiros‑socorros, aprendeu a rastejar sobre os cotovelos e a suportar a dor, e ao conviver com eles e ouvi-los acabou por perceber as razões daqueles jovens para tanto sacrifício. Os acampamentos funcionavam com disciplina militar, mas ao contrário dos soldados, não tinham a roupa adequada, medicamentos, comida, tecto, transporte, comunicações. Chovia durante semanas e não podiam acender uma fogueira para se secarem, era como viver num bosque submerso no mar. Rolf tinha a sensação de caminhar sobre uma corda bamba estendida sobre o abismo, a morte estava ali, escondida, por detrás da árvore mais próxima.

‑ Todos sentimos o mesmo, não te preocupes, acabas por te acostumar

‑ gracejou o Comandante.

As provisões eram sagradas, mas em certas ocasiões ninguém resistia à necessidade e roubava uma lata de sardinhas. Os castigos eram duros, porque não só era preciso racionar a comida, como acima de tudo ensinar o valor da solidariedade. às vezes um ou outro ia‑se abaixo, começava a chorar encolhido no chão, a chamar pela mãe, então o Comandante aproximava‑se, ajudava‑o a levantar‑se e ia caminhando com ele até onde ninguém os pudesse ver, para dar‑lhe um apoio discreto. Se tinha a prova de uma traição, esse homem era capaz de executar um dos seus.

‑ Aqui o normal é morrer ou ser ferido, é preciso estar preparado para tudo. O que é raro é salvar a vida e a vitória será um milagre ‑ disse o Comandante Rogelio a Rolf.

Rolf sentiu que nesses meses envelhecia, que o corpo se consumia. Por fim não sabia o que estava a fazer nem porquê, perdeu o sentido do tempo, uma hora parecia‑lhe uma semana e logo a seguir uma semana parecia‑lhe um sonho. Era muito difícil captar a informação pura, a essência das coisas, à sua volta havia um estranho silêncio, um silêncio de palavras, mas ao mesmo tempo um silêncio carregado de presságios, povoado de ruídos da selva, de guinchos e murmúrios, de vozes longínquas que chegavam através do ar, de queixumes e lamentos de sonâmbulos. Aprendeu a dormir por instantes, em pé, sentado, de dia, de noite, meio‑inconsciente pelo cansaço, mas sempre alerta, um sussurro fazia‑o saltar. Detestava a imundície, o seu próprio cheiro, desejava mergulhar em água limpa, ensaboar‑se até aos ossos, teria dado qualquer coisa por uma chávena de café quente. Em confrontos com os soldados viu morrer destroçados os mesmos homens com quem tinha partilhado um cigarro na noite anterior. Inclinava‑se sobre eles com a câmara e filmava‑os insensivelmente, como se estivesse a uma longa distância olhando aqueles corpos através de um telescópio. Não posso perder a razão, repetia‑se como tantas vezes o fizera antes em situações semelhantes. Regressavam as imagens da sua infância, o dia em que foi enterrar os mortos no campo de concentração, e as visões recentes de outras guerras. Sabia por experiência, que tudo lhe deixava marcas, que na sua memória cada acontecimento punha uma nódoa e que por vezes passava muito tempo antes de se dar conta de que um episódio o tinha marcado profundamente, era como se a recordação se tivesse congelado em qualquer sítio e de repente por algum mecanismo de associação, aparecesse ante os seus olhos com intolerável intensidade. Perguntava‑se também porque continuava ali, porque não mandava tudo para o caralho e voltava à cidade, isso teria sido mais saudável que ficar naquele labirinto de pesadelos, partir, refugiar‑se por algum tempo na Colónia e deixar que as primas o envolvessem em vapores de canela, cravo‑da‑índia, baunilha e limão. Mas essas dúvidas não o fizeram deter, seguia os guerrilheiros para toda a parte, transportando ao ombro a máquina de filmar tal como os outros carregavam as armas. Uma tarde trouxeram o Comandante Rogelio entre quatro rapazes, vinha numa maca improvisada, envolto numa manta, tiritando, retorcendo‑se, envenenado por um lacrau.

‑ Nada de mariquices, companheiros, ninguém morre disto ‑ murmurou. - Deixem‑me, vai passar por si só.

Rolf Carlé tinha sentimentos contraditórios por esse homem, nunca estava à vontade na sua presença, supunha que não contava com a sua confiança

e por isso mesmo não compreendia por que razão o deixava fazer o seu trabalho, incomodava‑o a sua severidade mas também admirava o que conseguia com os homens. Da cidade chegavam uns rapazes imberbes e ao fim de uns meses ele transformava‑os em guerreiros, imunes à fadiga e à dor, duros, mas de alguma maneira tudo fazia para lhes conservar os ideais da

adolescência. Não havia antídoto para a picada do lacrau, a caixa dos primeiros‑socorros estava quase vazia. Ficou ao lado do doente, cobrindo- com a roupa, dando‑lhe água, limpando‑o. Ao fim de dois dias a temperatura baixou e o Comandante sorriu‑lhe com os olhos, então compreendeu que apesar de tudo eram amigos.

A Rolf Carlé não lhe bastou a informação obtida entre os guerrilheiros, faltava‑lhe a outra metade da notícia. Despediu‑se do Comandante Rogelio sem muitas palavras, os dois conheciam as regras e teria sido uma grossaria

falar delas. Sem comentar com ninguém o que tinha vivido na montanha, Rolf Carlé meteu‑se no Centro de Operações do Exército, acompanhou os soldados nas suas incursões, falou com os oficiais, entrevistou o Presidente

e até conseguiu um salvo‑conduto para assistir aos treinos militares. Ao acabar tinha milhares de metros de película, centenas de fotografias, horas de

gravações, possuía mais informações sobre o tema do que alguém no país.

‑ Julgas que a guerrilha terá êxito, Rolf?

‑ Francamente não, senhor Aravena.

‑ Em Cuba conseguiram‑no. Lá mostraram que se pode derrotar um exército regular.

‑ Passaram vários anos e os gringos não vão permitir novas revoluções. Em Cuba as condições eram diferentes, lá combatiam contra uma ditadura e tinham apoio popular. Aqui há uma democracia com imensos defeitos, mas o povo está orgulhoso dela. A guerrilha não conta com a simpatia das pessoas e de uma maneira geral só tem podido recrutar estudantes nas universidades.

‑ Que pensas deles?

‑ São idealistas e valentes.

‑ Quero ver tudo o que conseguiste, Rolf ‑ exigiu Aravena.

‑ Vou tratar o filme para suprimir tudo o que não se pode mostrar agora. Você disse‑me uma vez que nós não estamos aqui para mudar a história, mas para informar.

‑ Ainda não me acostumei aos teus arranques de pedantismo, Rolf. Com que então o teu filme pode mudar o destino do país?

‑ Pode.

‑ Esse documentário tem de estar no meu arquivo.

‑ Não pode cair nas mãos do Exército por motivo algum, seria fatal para os homens que estão na montanha. Não os atraiçoarei e tenho a certeza de que você faria o mesmo.

O director da Televisão Nacional fumou o cigarro até ao filtro, em silêncio, observando o discípulo, através do fumo sem demonstrar sarcasmo, pensando, recordando os anos de oposição à ditadura do General, revendo as suas emoções de então.

‑ Não gostas de aceitar conselhos, mas desta vez tens de me ouvir, Rolf - disse por fim. ‑ Esconde os teus filmes, porque o Governo sabe que existem e tudo fará para tos tirar a bem ou a mal. Publica, suprime, conserva tudo o que te pareça necessário, mas aviso‑te de que é como armazenar nitroglicerina. Enfim, talvez daqui a algum tempo possamos mandar para o ar esse documentário e quem sabe se dentro de uns dez anos possamos também mostrar o que agora julgas que ia mudar a história.

Rolf Carlé chegou à Colónia no sábado, com uma mala fechada a cadeado e entregou‑a aos tios com a recomendação de não falarem disso a ninguém e de a esconderem, até que viesse buscá‑la. Burgel embrulhou‑a numa cortina de plástico e Rupert escondeu‑a debaixo de umas tábuas da carpintaria sem fazer comentários.

 

Na fábrica a sirena tocava às sete da manhã, abria‑se a porta e duzentas mulheres entrávamos em tropel, desfilando em frente das supervisoras, que nos revistavam dos pés à cabeça como precaução contra possíveis sabotagens. Fabricavam desde as botas dos soldados até aos galões dos generais, tudo medido e pesado, para que nem um botão, uma fivela, uma ponta de fio caísse em mãos criminosas, como dizia o Capitão, porque aqueles cabrões são capazes de nos copiar os uniformes e de se misturar com a nossa tropa para entregar a pátria ao comunismo, malditos sejam. As enormes salas sem janelas, eram iluminadas por luzes fluorescentes, o ar entrava à pressão por tubos colocados no tecto, por baixo alinhavam‑se as máquinas de costura a dois metros do chão, ao longo das paredes, tinha um estreito balcão corrido por onde se passeavam os vigilantes, cuja missão consistia em controlar o ritmo do trabalho para que nenhuma hesitação, estremecimento, nem o mínimo obstáculo atentasse contra a produção. Os escritórios, pequenos cubículos para oficiais, contadores e secretárias ficavam a essa altura. O ruído era um formidável ribombar de catarata, que obrigava a andar com tampões nas orelhas e a comunicar por gestos. As doze horas pairava por cima e tudo o barulho atordoador da sirena para a refeição do meio‑dia, chamando para os refeitórios onde serviam um almoço simples mas substancial, semelhante ao rancho dos recrutas. Para muitas operárias isso era a única refeição do dia e algumas guardavam uma parte para levar para casa, apesar da vergonha de passarem em frente das supervisoras com os restos embrulhados em papel. A maquilhagem era proibida e tinha de se usar o cabelo curto ou coberto com um lenço, porque numa ocasião o eixo de uma bobinadora apanhou o cabelo de uma mulher e quando cortaram a electricidade já era tarde, tinha‑lhe arrancado o couro cabeludo. De qualquer modo, as mais novas tentavam pôr‑se bonitas com lenços alegres, saias curtas, um pouco de carmim, para ver se conseguiam atrair um chefe e mudar a sorte, subindo dois metros acima, para o balcão das empregadas onde o salário e o trato eram mais dignos. A história nunca provada de uma operária que dessa maneira chegou a casar com um oficial, alimentava a imaginação das novatas, mas as mulheres mais velhas, não levantavam os olhos para tais quimeras, trabalhavam caladas e depressa para aumentar a percentagem.

O Coronel Tolomeo Rodríguez aparecia de vez em quando para inspeccionar. A sua chegada arrefecia o ar e aumentava o ruido. Era tão grande o peso da sua hierarquia e o poder que emanava da sua pessoa, que não necessitava de erguer a voz nem gesticular, bastava‑lhe um olhar para se fazer respeitar. Passava revista, folheava os livros de registo, entrava nas cozinhas, interrogava as operárias, você é nova?, que comeram hoje?, está aqui muito calor, aumentem a ventilação, você tem os olhos congestionados, passe pelo escritório para que lhe dêem uma licença. Não lhe escapava nada. Alguns subalternos odiavam‑no, todos o temiam, corria o boato que até o Presidente o receava, porque tinha o respeito dos jovens oficiais e em qualquer momento podia ceder à tentação de levantar‑se contra o governo constitucional.

Eu sempre o vira de longe porque a minha secção era ao fim do corredor e o meu trabalho não requeria a sua inspecção, mas mesmo a essa distância conseguia aperceber‑me da sua autoridade. Conheci‑o num dia de Março. Estava a olhá‑lo através do vidro que me separava do corredor, ele voltou‑se e os nossos olhos encontraram‑se. Em frente dele todo o pessoal empregava o olhar periférico, ninguém lhe fixava os olhos, mas eu não consegui pestanejar, fiquei suspensa das suas pupilas, hipnotizada. Pareceu‑me que passava muito tempo. Por fim ele caminhou na minha direcção. O ruído impedia‑me de ouvir os seus passos, dava a impressão de avançar flutuando, seguido a certa distância pelo seu secretário e o Capitão. Quando o Coronel me saudou com uma leve inclinação, consegui apreciar de perto o seu tamanho, as suas mãos expressivas, o seu cabelo forte, os seus dentes grandes e iguais. Era atraente como um animal selvagem. Nessa tarde, ao sair da fábrica, estava um espadalhão escuro parado à porta e uma ordenança deu‑me um cartão com um bilhete com um convite manuscrito do Coronel Tolomeo Rodriguez para jantar com ele.

‑ O meu Coronel espera a sua resposta ‑ disse o homem perfilando‑se.

‑ Diga‑lhe que não posso, tenho outro compromisso.

Ao chegar a casa contei a Mimi, que de passagem me observou que aquele homem era inimigo de Huberto Naranjo e considerou a situação do ponto de vista dos folhetins de amor que alimentavam as suas horas de ócio, concluindo que eu tinha feito o correcto, sempre é bom fazer‑se rogada, repetiu como tantas vezes.

‑ Deves ser a primeira mulher a recusar‑lhe um convite, aposto que amanhã insiste ‑ prognosticou.

Não foi assim. Nada soube dele até à sexta‑feira seguinte, quando fez uma visita‑surpresa à fábrica. Ao saber que estava no edifício, dei‑me conta que o esperara durante dias, espiando o corredor, procurando adivinhar os seus passos através do estrondo das máquinas de costura, desejando vê‑lo e simultaneamente temendo a sua chegada, com uma paciência já quase esquecida, porque desde o começo da minha relação com Huberto Naranjo não padecia de tais tormentos. Mas o militar não se aproximou do meu escritório e quando soou a sirena das doze horas suspirei, com um misto de alívio e desgosto. Nas semanas seguintes tornei a pensar nele algumas vezes.

Dezanove dias mais tarde, ao chegar a casa à noite, encontrei o Corond Tolomeo Rodríguez a tomar café na companhia de Mimi. Estava sentado numa das poltronas orientais, levantou‑se e estendeu‑me a mão sem sorrir.

‑ Espero não a importunar. Vim porque queria falar‑lhe ‑ disse.

‑ Quer falar‑te ‑ repetiu Mimi, pálida como uma das gravuras penduradas na parede.

‑ Já há um tempo que não a vejo e tomei a liberdade de a visitar - disse no tom cerimonioso que utilizava frequentemente.

‑ Veio por isso ‑ acrescentou Mimi.

‑ Aceita o meu convite para jantar?

‑ Quer que vás comer com ele ‑ traduziu de novo Mimi já extenuada porque o tinha reconhecido mal entrara e lhe vieram de repente todas as recordações: era ele quem inspeccionava de três em três meses a Penitenciária de Santa Maria nos tempos do seu infortúnio. Não estava arranjada, mas apesar disso esperava que ele não conseguisse relacionar a imagem de um recluso miserável de O Harém, infectado de paludismo, coberto de chagas e com a cabeça rapada, com a mulher assombrosa que agora lhe servia café.

Porque não me neguei de novo? Talvez não fosse por temor como então pensei, tinha vontade de estar com ele. Tomei um duche para me descontrair, coloquei o meu vestido preto, penteei o cabelo e apresentei‑me na sala, dividida entre a curiosidade e a raiva contra mim mesma porque sentia que estava a atraiçoar Huberto. O militar ofereceu‑me o braço com um gesto um pouco empolado, mas passei‑lhe pela frente sem lhe tocar ante o olhar desolado de Mimi, que ainda não conseguira recompor‑se do choque. Entrei na limusina desejando que os vizinhos não vissem as motos da escolta, não fossem pensar que me tinha tornado na querida de um general. O motorista conduziu‑nos a um dos restaurantes mais restritos da capital, uma mansão versalhesca onde o cozinheiro saudava os clientes de honra e um velho, enfeitado com uma faixa presidêncial e com uma tacinha de prata, provava os vinhos. O Coronel estava nas suas sete quintas, mas eu sentia‑me como um náufrago entre cadeiras de brocado azul, candelabros resplandescentes e um batalhão de criados. Passaram‑me uma ementa escrita em francês e Rodriguez, adivinhando a minha confusão, escolheu por mim. Vi‑me na frente de um caranguejo sem saber como o atacar, mas o criado tirou a carne da carapaça e colocou‑ma no prato. Perante a bateria de facas curvas e rectas, copos de duas cores e gomis, agradeci os cursos de Mimi no instituto para rainhas de beleza e os ensinamentos do amigo decorador, porque consegui desenvencilhar‑me sem cair no ridículo, até me apresentarem um sorvete de tangerina entre a entrada e a carne. Olhei assombrada a minúscula bola coroada por uma folha de hortelã e perguntei porque serviam as sobremesas antes do segundo prato. Rodríguez riu‑se e esse gesto teve a virtude de anular os galões da sua manga e de lhe tirar vários anos do rosto. A partir desse instante tudo foi mais fácil. Já não parecia um alto‑dignitário da nação, examinei‑o à luz daquelas velas palacianas e ele quis saber porque o olhava assim, ao que respondi que o achava muito parecido com o puma embalsamado.

‑ Conte‑me a sua vida, Coronel - pedi‑lhe à sobremesa.

Julgo que esse pedido o surpreendeu e por um instante pu‑lo alerta, mas depois deve ter‑se apercebido de que eu não era uma espia do inimigo, quase pude ler‑lhe os pensamentos, é só uma mulherzinha da fábrica, qual será o seu parentesco com aquela actriz da televisão? Bonita, por certo, muito mais que esta rapariga tão mal vestida, estive quase a convidar a outra, mas dizem que é um maricas, custa a crer, de qualquer modo não posso correr o risco de me verem com um degenerado. Acabou por me falar da sua infância na fazenda da família numa zona agreste, desértica, estepes varridas pelo vento, onde a água e a vegetação têm um valor especial e as pessoas são fortes, porque vivem na aridez. Não era homem da região tropical do país, tinha recordações das longas cavalgadas pela planície, dos meio‑dias escaldantes e secos. O pai, um caudilho local, meteu‑o nas Forças Armadas aos dezoito anos sem lhe perguntar a opinião, para que sirva a pátria com honra, filho, como deve ser, ordenou-lhe. E ele assim fez sem vacilar, a disciplina em primeiro lugar, quem sabe obedecer sabe mandar. Estudou engenharia e ciências políticas, viajara, lia pouco, gostava muito de música. Confessou‑se frugal, quase abstémio, casado, pai de três filhas. Apesar da sua reputação de severidade, nessa noite exibiu bom‑humor e no fim agradeceu‑me pela companhia, tinha‑se divertido, disse, eu era uma pessoa original, assegurou, embora não me ouvisse mais de quatro frases, ele tinha feito as despesas da conversa.

‑ Sou eu quem lhe agradece, Coronel. Nunca tinha estado aqui, é muito elegante.

‑ Não tem de ser a última vez, Eva. Podemos ver‑nos na próxima semana?

‑ Para quê?

‑ Bom, para nos conhecermos melhor...

‑ Quer ir para a cama comigo, Coronel?

Deixou cair os talheres e durante quase um minuto manteve os olhos cravados no prato.

‑ Essa é uma pergunta brutal que merece igual resposta ‑ respondeu por fim. Sim, desejo. Aceita?

‑ Não, muito obrigada. As aventuras sem amor tornam‑me triste.

‑ Não disse que o amor ia estar excluído.

‑ E a sua mulher?

‑ Vamos esclarecer uma coisa, a senhora minha esposa não tem nada a ver com esta conversa e jamais voltaremos a mencioná‑la. Falemos de nós. Não é natural que seja eu a dizê‑lo, mas posso fazê‑la feliz se eu quiser.

‑ Deixemo‑nos de rodeios, Coronel. Calculo que você tem muito poder, pode fazer o que quiser e fá‑lo sempre, não é verdade?

‑ Está enganada. O meu cargo impõe‑me responsabilidades e deveres para com a pátria e estou disposto a cumpri‑los. Sou um soldado, não faço uso dos privilégios e muito menos dos deste tipo. Não quero pressioná‑la, mas apenas seduzi‑la e tenho a certeza de o conseguir, porque ambos nos sentimos atraídos. Hei‑de fazê‑la mudar de opinião e acabará por amar‑me...

‑ Desculpe‑me, mas duvido.

‑ Prepare‑se, Eva, porque não a vou deixar em paz até me aceitar - sorriu.

‑ Nesse caso não percamos tempo. Eu não penso pôr‑me a discutir consigo porque pode parecer mal. Então vamos já, tratamos do assunto rapidamente e depois deixa‑me em paz.

O militar pôs‑se em pé com a cara vermelha. Os criados acorreram solícitos a atendê‑lo e das mesas vizinhas viraram‑se para nos observar. Então tornou a sentar‑se e durante algum tempo esteve em silêncio, rígido, com a respiração agitada.

‑ Não sei que espécie de mulher és ‑ disse por fim, tratando‑me por tu pela primeira vez. ‑ Em circunstâncias normais aceitaria o teu desafio e iríamos imediatamente para um local privado, mas decidi conduzir este assunto de outra maneira. Não vou suplicar‑te. Estou certo de que tu virás procurar‑me e se tiveres sorte, ainda estará de pé a minha proposta. Telefona‑me quando quiseres ver‑me ‑ disse Rodríguez secamente entregando‑me um cartão com o escudo nacional no canto superior e o seu nome impresso em letras cursivas.

Nessa noite cheguei cedo a casa. Mimi achou que eu me tinha portado como uma louca, aquele militar era um tipo poderoso e podia causar‑me muitos problemas, não podia ter sido um pouco mais cortês? No dia seguinte renunciei ao meu trabalho, recolhi as minhas coisas e deixei a fábrica para escapar àquele homem que representava tudo aquilo contra o que Huberto Naranjo arriscava a vida há anos.

‑ Não há mal que não venha por bem ‑ sentenciou Mimi ao comprovar que a roda da fortuna tinha dado meia‑volta para me colocar no caminho onde ela considerava que sempre devia ter estado. ‑ Agora poderás escrever a sério.

Estava sentada à mesa da sala de jantar com as suas cartas dispostas em leque, onde podia ler que o meu destino era ser contadora de histórias e que tudo o resto era trabalho perdido, tal como eu mesma suspeitava desde que li As Mil e Uma Noites. Mimi sustentava que cada um nasce com um talento e a felicidade ou a desgraça consistem em descobri‑lo e que o mundo tenha necessidade dele, porque há habilidades inúteis, como a de um amigo seu que era capaz de aguentar três minutos sem respirar debaixo de água, o que nunca lhe serviu para nada. No que lhe dizia respeito estava descansada porque já conhecia o seu. Acabava de se estrear numa novela da televisão no papel da malvada Mejandra, rival de Belinda, uma donzela cega que no final recuperaria a vista, como sempre acontece nestes casos para se casar com o galã. Os guiões jaziam espalhados pela casa e ela memorizava‑os com a minha ajuda. Eu tinha de representar todos os outros papéis (Luis Alfredo cerra as pálpebras para não chorar, porque os homens não choram.) Entrega-te a este sentimento... Deixa‑me pagar a operação dos teus olhos, meu amor (Belinda estremece, receia perder o ser amado...) Eu queria confiar em ti... mas existe outra mulher na tua vida, Luis Alfredo. (Ele en!renta essas belas pupilas sem luz.) Alejandra nada significa para mim, ela só ambiciona a fortuna dos Martínez de Lã Roca, mas não a vai conseguir. Ninguém poderá separar‑nos, nunca, minha Belinda. (Beija‑a e ela entrega‑se a essa sublime carícia dando a entender ao público que alguma coisa pode suceder... ou talvez não. Grande plano para mostrar Alejandra que os espia da porta, desfigurada pelos ciúmes. Corte no estúdio B.)

‑ As telenovelas são uma questão de fé. É preciso acreditar e mais nada

‑ dizia Mimi entre duas falas de Alejandra. ‑ Se as começas a analisar retiras‑lhes a magia e dás cabo delas.

Assegurava que qualquer pessoa era capaz de inventar dramas como o de Belinda e Luis Alfredo, mas mais facilmente podia fazê‑lo eu, que tinha passado anos a ouvi‑los na cozinha, acreditando que eram casos verídicos e ao comprovar que a realidade não era como no rádio tinha‑me sentido enganada. Mimi expôs‑me as indubitáveis vantagens de trabalhar para a televisão, onde qualquer extravagância tinha o seu lugar próprio, e cada personagem, por extravagante que fosse, tinha a possibilidade de espetar um alfinete na alma desprevenida do público, efeito que raramente um livro conseguia. Nessa tarde chegou com uma dúzia de pastéis e uma pesada caixa embrulhada em papel de fantasia. Era uma máquina de escrever. Para que comeces a trabalhar, disse. Passámos parte da noite sentadas na cama a beber vinho, comer doces e a discutir o argumento ideal, um embróglio de paixões, divórcios, bastardos, ingénuas e malvados, ricos e pobres, capaz de agarrar o espectador desde o primeiro instante e mantê‑lo prisioneiro da tela durante duzentos patéticos capítulos. Adormecemos enjoadas e salpicadas de açúcar e eu sonhei com homens ciumentos e raparigas cegas.

 

Acordei de madrugada. Era uma quarta‑feira suave e um pouco chuvosa, em nada diferente de outras na minha vida, mas esta guardo como dia único, reservado só para mim. Desde que a professora Inês me ensinara o alfabeto, escrevia quase todas as noites, mas senti que esta era uma ocasião diferente, que poderia mudar o meu destino. Preparei um café forte, sentei‑me em frente da máquina, peguei numa folha de papel limpa e branca, como um lençol recém‑engomado para fazer amor e introduzi‑a no carreto. Senti qualquer coisa de estranho, como um arrepio agradável pelos ossos, pelo caminho das veias sob a pele. Suspeitei que aquela página estava à minha espera desde há anos, que eu só tinha vivido para aquele instante e desejei que a partir daquele momento o meu único mester fosse agarrar as histórias suspensas no mais ténue ar, para as fazer minhas. Escrevi o meu nome e em seguida as palavras surgiram sem esforço, uma coisa entrelaçada noutra e em mais outra. As personagens desprenderam‑se das sombras onde tinham permanecido ocultas durante anos e apareceram à luz dessa quarta‑feira, cada uma com o seu rosto próprio, voz, paixões e obsessões. Os relatos guardados na memória do meu nascimento e muitos outros que tinha registado ao longo dos anos nos meus cadernos ordenaram‑se. Comecei a recordar factos muito longínquos, recuperei as historietas da minha mãe quando vivíamos entre os idiotas, os cancerosos e os embalsamados do professor Jones; apareceram um índio mordido por uma víbora e um tirano com as mãos devoradas pela lepra; resgatei uma solteirona que perdeu o couro‑cabeludo como se tivesse sido arrancado por uma máquina bobinadora, um dignitário no seu cadeirão de veludo episcopal, um árabe de coração generoso e tantos outros homens e mulheres cujas vidas estavam ao meu alcance para dispor delas segundo a minha própria e soberana vontade. Pouco a pouco o passado transformava‑se em presente e apropriava‑me também do futuro, os mortos recuperavam vida com a ilusão de eternidade, reuniam‑se os dispersos e tudo o que estava esbatido pelo esquecimento adquiria contornos precisos.

Ninguém me interrompeu e passei quase todo o dia a escrever, tão absorta que até me esqueci de comer. às quatro horas da tarde vi surgir em frente dos meus olhos uma chávena de chocolate.

‑ Toma, trago‑te uma coisa quente...

Olhei aquela figura alta e delgada, envolta num quimono azul e precisei de alguns instantes para reconhecer Mimi, porque eu andava em plena selva tentando apanhar uma menina de cabeleira ruiva. Continuei nesse ritmo sem me recordar das recomendações recebidas: os guiões fazem‑se a duas colunas, cada capítulo tem vinte e cinco cenas, muito cuidado com as mudanças de cenário que são muito caras e com as falas longas que confundem os actores, cada frase importante repete‑se três vezes e o argumento deve ser simples, partindo do princípio de que o público é imbecil. Em cima da mesa crescia um monte de páginas salpicadas de anotações, correcções, hieróglifos e nódoas de café, mas mal começava a desempoeirar recordações e a traçar destinos, não sabia onde ia nem qual seria o desenlace, se é que o havia. Suspeitava que o final só chegaria com a minha própria morte e atraiu‑me a ideia de ser também eu mais uma da história e de ter o poder de determinar o meu fim ou inventar‑me uma vida. O argumento complicava‑se; as personagens tornavam‑se mais e mais rebeldes. Trabalhava ‑ se trabalho se pode chamar àquela festa ‑ muitas horas por dia, desde o amanhecer até à noite. Esqueci‑me de mim, comia quando Mimi me alimentava e deitava‑me porque ela me levava para a cama, mas em sonhos continuava perdida nesse universo recém‑nascido, de mão dada com as minhas personagens, não fossem perder‑se os seus delicados contornos e regressarem à nebulosidade dos contos que ficam por contar.

Ao fim de três semanas, Mimi considerou que tinha chegado o momento de dar um uso prático a esse delírio, antes que eu desaparecesse engolida pelas minhas próprias palavras. Conseguiu uma entrevista com o director da televisão para lhe oferecer a história, porque lhe parecia perigoso para a minha saúde mental prolongar esse esforço se não havia a esperança de o ver na tela. Na data marcada vestiu‑se toda de branco, segundo o seu horóscopo era a cor conveniente para esse dia, colocou entre os seios uma medalha do Maharishi e saiu a arrastar‑me. A seu lado senti‑me como sempre descansada e tranquila, protegida pela luz daquela criatura mitológica.

Aravena recebeu‑nos no seu escritório de plástico e vidro, por detrás de uma secretária imponente que não diminuia o mau efeito da sua barriga de pessoa bem instalada na vida. Decepcionou‑me aquele gordo com olhos de ruminante e um cigarro meio consumido, tão diferente do homem cheio de energia que tinha imaginado ao ler os seus artigos. Distraído, porque o menos interessante do seu trabalho era o espectáculo incontestável do embuste, Aravena cumprimentou‑nos sem olhar para nós, com os olhos na janela de onde se viam os telhados vizinhos e as nuvens da tormenta que se aproximava. Perguntou‑me quanto faltava para terminar o guião, deu um olhar rápido à pasta segurando‑a com os dedos moles e murmurou que o leria quando tivesse tempo. Estendi o braço e recuperei o meu folhetim, mas Mimi arrancou‑mo e voltou a entregar‑lho, ao mesmo tempo que o obrigava a olhá‑la, pestanejava com um ar fatal, humedecia os lábios pintados de vermelho e convidava‑o para jantar no sábado seguinte, só uns quantos amigos, uma reunião íntima, disse com aquele sussurro irresistível que tinha cultivado para dissimular a voz de tenor com que viera ao mundo. Uma bruma visível, um cheiro obsceno, uma fina teia de aranha envolveram o homem. Durante um longo momento ficou imóvel, com a pasta na mão, desconcertado, porque suponho que até então não tinha recebido uma oferta de tal luxúria. A cinza do cigarro caiu sobre a mesa e ele não se apercebeu.

‑ Tinhas de o convidar lá para casa? ‑ censurei Mimi ao sairmos.

‑ Hei‑de fazer com que te aceite aquele guião, nem que seja a última coisa que eu faça na vida.

‑ Não estás a pensar seduzi‑lo...

‑ Como é que tu julgas que se conseguem as coisas neste meio?

 

O sábado amanheceu chuvoso e continuou a chover durante o dia e toda a noite, enquanto Mimi se atarefava preparando um jantar ascético à base de arroz integral, considerado elegante desde que os macrobióticos e os vegetarianos começaram a assustar a humanidade com as suas teorias dietéticas. O gordo vai morrer de fome, resmungava cortando cenouras, mas ela não se comoveu, mais preocupada em arranjar as jarras das flores, acender paus de incenso, escolher música e distribuir almofadões de seda, porque também passara a ser moda tirar os sapatos, e sentar‑se no chão. Eram oito convidados, tudo gente de teatro, excepto Aravena, que chegou acompanhado por aquele homem de cabelo de cobre que costumavam ver com a câmara nas barricadas de alguma longínqua revolução, como era que se chamava? Apertei‑lhe a mão com a vaga sensação de já o ter visto antes.

Depois da refeição Aravena chamou‑me à parte e confessou‑me o seu fascínio por Mimi. Não tinha conseguido afastar‑se dela, sentia‑a como uma queimadura recente.

‑ É a feminilidade absoluta, todos possuímos alguma coisa de andrógino, algo de macho e de fêmea, mas ela arrancou de si o último vestígio do elemento masculino e criou essas esplêndidas curvas, é completamente mulher, é adorável ‑ disse, secando a fronte com o lenço.

Olhei a minha amiga, tão próxima e conhecida, as suas feições desenhadas com lápis e pincéis, os seios e ancas redondas, o ventre liso, estéril para a maternidade e para o prazer, cada linha do seu corpo executada com invencível tenacidade. Só eu conheço a fundo a natureza secreta daquela criatura de ficção, construída com dor para satisfazer os sonhos alheios e privada dos seus. Vi‑a sem maquilhagem, cansada, triste, estive junto dela durante as suas depressões, doenças, insónias e fadigas, quero muito ao ser humano frágil e contraditório que há por detrás das plumas e da quinquilharia. Naquele momento perguntei‑me se aquele homem de lábios grossos e mãos inchadas saberia procurar nela para descobrir a companheira, a mãe, a irmã que é na realidade Mimi. Do outro extremo da sala ela percebeu o olhar do seu novo admirador. Tive o impulso de a deter, de a proteger, mas contive‑me.

‑ Vamos lá a ver, Eva, conta uma história ao nosso amigo ‑ disse Mimi deixando‑se cair junto de Aravena.

‑ De que género?

‑ Uma coisa maliciosa, não achas? ‑ insinuou.

Sentei‑me com as pernas dobradas como um índio, fechei os olhos e durante uns segundos deixei correr o pensamento pelas dunas de um deserto branco, como sempre faço para inventar um conto. Depressa chegaram a essas areias uma mulher com saiotes de tafetá amarelo, pinceladas das paisagens frias tiradas pela minha mãe das revistas do professor Jones e os jogos inventados pela Senhora para as festas do General. Comecei a falar. Mimi disse que tenho uma voz especial para os contos, uma voz que, sendo minha, parece simultaneamente de outra, como se brotasse da terra e me subisse pelo corpo. Senti que a casa perdia os seus contornos, esfumada por novos horizontes que eu convocava. Os convidados calaram‑se.

‑ Eram tempos muito duros no sul. Não no sul deste país, mas no mundo, onde as estações mudaram e o inverno não ocorre no Natal, como nas nações cultas, mas a meio do ano, como nas regiões bárbaras...

Quando acabei de falar, Rolf Carlé foi o único que não aplaudiu como os outros. Confessou‑me mais tarde que demorou algum tempo a regressar daquela pampa meridional por onde se afastavam os dois amantes com um saco de moedas de ouro, e quando o fez estava decidido a transformar a minha história num filme antes que os fantasmas desses dois ladrões se apoderassem dos seus sonhos. Perguntei‑me por que é que Rolf Carlé me parecia tão familiar, não podia ser só pelo facto de o ter visto na televisão. Dei uma vista de olhos pelo passado para ver se já o tinha encontrado antes, mas não me pareceu e também não conhecia ninguém como ele. Quis tocar‑lhe. Aproximei‑me e passei‑lhe um dedo pelas costas da mão.

‑ A minha mãe também tinha a pele sardenta... ‑ Rolf Carlé não se moveu e tão‑pouco tentou reter os meus dedos. ‑ Disseram‑me que estiveste na montanha com os guerrilheiros.

‑ Estive em muitos sítios.

‑Conta‑me...

Sentámo‑nos no chão e ele respondeu a quase todas as minhas perguntas. Falou‑me do seu trabalho, que o levava de um lado para o outro observando o mundo através de uma lente. Passámos o resto da noite tão entretidos que não notámos quando os outros partiram. Foi o último a ir‑se embora e penso que só o fez porque Aravena o levou a reboque. à porta disse que estaria ausente por alguns dias a filmar os distúrbios em Praga, onde os checos enfrentavam à pedrada os tanques invasores. Quis despedir‑me com um beijo, mas ele apertou‑me a mão com uma inclinação de cabeça que me pareceu um pouco solene.

Quatro dias depois, quando Aravena me convocou para assinar o contrato, continuava a chover e no seu luxuoso escritório tinham colocado baldes para recolher a água que caía do tecto. Tal como me explicou o director, sem preâmbulos, o guião não se adaptava nem de longe aos moldes habituais, na realidade tudo aquilo era um enredo de personagens estrambólicas, de historietas inverosímeis, faltava‑lhe romantismo a sério, os protagonistas não eram esbeltos nem viviam na opulência, era quase impossível seguir o desenrolar dos acontecimentos, o público perder‑se‑ia, resumindo parecia‑lhe um embróglio e ninguém com dois dedos de testa correria o risco de o produzir, mas ele ia fazê‑lo porque não resistia à tentação de escandalizar o país com aqueles despropósitos e porque Mimi lho tinha pedido.

‑ Continua a escrever, Eva, tenho curiosidade em saber como vai terminar esse chorrilho de disparates ‑ disse ao despedir‑se.

 

As inundações começaram ao terceiro dia de chuvas contínuas, no quinto dia o Governo decretou o estado de emergência. As catástrofes causadas pelo mau tempo eram normais, ninguém tomava a precaução de limpar as valetas ou desentupir os algerozes, mas desta vez o temporal ultrapassou tudo o que se podia imaginar. A água arrastou as barracas dos montes, transbordou do rio que atravessa a capital, entrou pelas casas, arrastou os automóveis, as árvores e metade do estádio desportivo. Os operadores de câmara da Televisão Nacional subiram para barcos de borracha e filmaram as vítimas nos telhados das casas, onde esperavam pacientemente ser recolhidas pelos helicópteros militares. Ainda que estupefactas e esfomeadas, muitas cantavam, porque seria uma estupidez agravar a desgraça com lamentações. A chuva parou ao fim de uma semana pelo mesmo método empírico empregue anos antes para combater a seca. O Bispo fez sair o Nazareno em procissão e toda a gente foi atrás, debaixo de guarda‑chuvas, rezando e fazendo promessas, perante o escárnio dos empregados do Instituto Meteorológico, que tinham comunicado com os seus colegas de Miami e podiam assegurar que, de acordo com as medições dos balões sondas e os intervalos das nuvens, o águaceiro ia durar nove dias mais. No entanto, o céu desabou três horas depois do Nazareno voltar ao altar da catedral, molhado como uma rodilha, apesar do pálio com que tentaram protegê‑lo. A peruca desbotou, pelo rosto escorreu um líquido escuro e os mais devotos caíram de joelhos convencidos de que a imagem sangrava. Isso contribuiu para o prestígio do catolicismo e trouxe tranquilidade a algumas almas inquietas pelo impacte ideológico dos marxistas e pela chegada dos primeiros grupos mórmones formados por cândidos e enérgicos jovens em camisa de manga curta, que se introduziam nas casas e convertiam as famílias desprevenidas.

Quando a chuva parou e fizeram as contas das perdas para reparar os danos e organizar de novo os cidadãos, apareceu a flutuar perto da Praça do Pai da Pátria um ataúde modesto, mas em perfeito estado. A água tinha‑o feito navegar desde um bairro de lata do monte a oeste da cidade por diversas ruas transformadas em correntes, até o depositar intacto em pleno centro. Ao abri‑lo descobriram uma velha a dormir pacatamente. Vi‑a no noticiário das nove, telefonei para o canal para saber os pormenores e parti com Mimi em direcção aos abrigos improvisados pelo Exército para albergar os sinistrados. Chegámos a umas grandes tendas de campanha onde se amontoavam as famílias à espera do bom tempo. Muitos tinham perdido até os documentos de identidade, mas nas tendas não reinava a tristeza, aquele desastre era um bom pretexto para descansar e uma ocasião para fazer novos amigos, amanhã veriam como sair daquela má situação, hoje era inútil chorar por aquilo que a água levara. Foi assim que encontrámos Elvira, fraca e arrogante, em camisa de dormir, sentada numa enxerga contando a um círculo de ouvintes, como se tinha salvo do dilúvio na sua estranha arca. Foi assim que recuperei a minha avó. Ao vê‑la no ecrã reconheci‑a imediatamente, apesar do cabelo branco e do mapa de rugas em que a sua cara se tinha transformado, porque a nossa longa separação não tinha gasto o seu espírito, no fundo continuava a ser a mesma mulher que me dava em troca dos contos bananas fritas, e o direito de brincar à morte no seu caixão. Abri passagem, debrucei‑me sobre ela e estreitei‑a com a urgência acumulada por aqueles anos de ausência. Em troca, Elvira beijou‑me sem grandes efusões, como se na sua alma o tempo não tivesse passado, nos tivéssemos visto na véspera e todas as modificações no meu aspecto não fossem mais do que um engano dos seus olhos cansados.

‑ Imagina, passarinho, dormir tanto tempo no caixão para que a morte me encontre preparada e no fim o que me agarra é a vida. Nunca mais me deito num ataúde, nem mesmo quando chegar a hora de ir para o cemitério. Quero que me enterrem de pé, como uma árvore.

Levámo‑la para casa. No táxi durante o trajecto, Elvira contemplou Mimi, nunca tinha visto nada parecido, considerou que era como uma grande boneca. Mais tarde apalpou‑a por todo o lado com as suas sábias mãos de cozinheira e comentou que tinha a pele mais branca e mais suave que uma cebola, os seios duros como toranjas verdes e cheirava a torta de amêndoas e outros condimentos da Pastelaria Suíça, colocou os óculos para a observar melhor e não duvidou mais de que não era uma pessoa deste mundo. É um arcanjo, concluiu. Mimi também simpatizou com ela, desde o primeiro instante, porque para além da sua mamã, cujo amor nunca lhe faltara, e eu, não tinha família própria, todos os parentes lhe tinham virado as costas ao vê‑la num corpo de mulher. Também ela precisava de uma avó. Elvira aceitou a nossa hospitalidade depois de lho pedirmos insistentemente, além disso o águaceiro tinha‑lhe levado todos os seus haveres materiais, excepto o caixão, contra o qual Mimi não pôs objecções, mesmo não se harmonizando com a decoração interior. Mas Elvira já não o queria. O ataúde tinha‑lhe salvo a vida uma vez e não estava disposta a correr de novo esse risco. Poucos dias depois Rolf Carlé regressou de Praga e telefonou‑me. Foi‑me buscar num jipe desfeito pelos maus tratos, fomos até ao litoral e a meio da manhã chegámos a uma praia de águas translúcidas e areias avermelhadas, muito diferente do mar de ondas cavadas onde eu tinha navegado tantas vezes na sala de jantar dos solteirões. Chapinhámos na água e deitámo‑nos ao sol até que tivemos fome, então vestimo‑nos e partimos à procura de um restaurante onde se pudesse comer peixe frito. Passámos a tarde a olhar a costa, a beber vinho branco e a falar das nossas vidas. Falei‑lhe da minha infância, quando servia em casa dos outros, de Elvira salva das águas, de Riad Halabi e de outros factos, mas passei por cima de Huberto Naranjo, de quem nunca falava por incontestável hábito de clandestinidade. Pelo seu lado Rolf Carlé relatou‑me a fome na guerra, o desaparecimento do irmão Jochen, do pai pendurado no bosque, do campo de prisioneiros.

‑ É muito estranho, nunca tinha posto estas coisas em palavras.

‑ Porquê?

‑ Não sei, parecem‑me segredos. São a parte mais recôndita do meu passado ‑ disse e depois ficou muito tempo em silêncio com os olhos fixos no mar e com outra expressão nos olhos cinzentos.

‑ O que é que aconteceu a Katharina?

‑ Teve uma morte triste, sozinha num hospital.

‑ Está bem, morreu, mas não como tu dizes. Procuremos um fim bonito para ela. Era domingo, o primeiro dia com sol nessa altura. Katharina acordou muito feliz e a enfermeira sentou‑a no terraço numa cadeira de lona, com as pernas embrulhadas numa manta. A tua irmã ficou a olhar os pássaros que começavam a fazer os ninhos nos beirais do edifício e os rebentos nos ramos das árvores. Sentia‑se confortável e em segurança como quando adormecia nos teus braços sob a mesa da cozinha, realmente naquele momento sonhava contigo. Não tinha memória, mas o seu instinto conservava intacto o calor que tu lhe davas e de cada vez que se sentia feliz murmurava o teu nome. Estava assim, dizendo o teu nome alegremente, quando se lhe desprendeu o espírito sem dar por isso. Pouco depois chegou a tua mãe a visitá‑la, como em todos os domingos e encontrou‑a imóvel, sorrindo, fechou-lhe os olhos, beijou-lhe a testa e comprou‑lhe uma urna de noiva onde a deitou numa toalha branca.

‑ E a minha mãe, tens um bom destino para ela também? ‑ perguntou Rolf Carlé com a voz entrecortada.

‑ Sim. Do cemitério regressou a casa e viu que os vizinhos tinham posto flores em todas as jarras para que ela se sentisse acompanhada. Segunda‑feira era o dia de fazer pão e ela tirou o vestido de sair à rua, pôs a bata e começou a preparar a mesa. Sentiu‑se calma, porque todos os seus filhos estavam bem, Jochen tinha encontrado uma boa mulher e formado uma família em qualquer parte do mundo, Rolf fazia a sua vida na América e agora Katharina, livre finalmente das amarras físicas, podia voar a seu bel‑prazer.

‑ Por que é que achas que a minha mãe nunca aceitou vir viver comigo?

‑ Não sei... talvez não quisesse sair do seu país.

‑ Está velha e só, estaria muito melhor na Colónia com os meus tios.

‑ Nem todos servem para emigrar, Rolf. Ela está em paz, cuidando do seu jardim e das suas recordações.

 

Durante uma semana foi tão grande a confusão provocada pelas inundações, que na imprensa não deram destaque a outras notícias, e se não fosse Rolf Carlé, o massacre num Centro de Operações do Exército passaria quase despercebido, afogado nas águas turvas do dilúvio e das manigâncias do Governo. Um grupo de presos políticos amotinou‑se e depois de se apoderar das armas dos guardas, entrincheirou‑se num sector dos pavilhões. O Comandante, homem de rápida iniciativa e de ânimo sereno, não pediu instruções, deu apenas ordem para os pulverizar e as suas palavras foram tomadas à letra. Atacaram‑nos com artilharia pesada, mataram um número indeterminado de homens e não ficaram feridos porque reuniram os sobreviventes num pátio e os fuzilaram sem demência. Quando a embriaguez sangrenta passou, e os guardas contaram os cadáveres, compreenderam que seria difícil explicar a sua acção à opinião pública e que também não podiam enganar os jornalistas alegando que se tratava de boatos infundados. O estrondo dos morteiros matou as aves que voavam e do céu caíram pássaros mortos vários quilómetros em redor, impossíveis de justificar porque já ninguém estava interessado em acreditar em novos milagres do Nazareno. Como indício complementar, um cheiro fétido implacável, escapava‑se das valas‑comuns saturando o ar. Como primeira medida proibiram a aproximação de qualquer curioso e trataram de cobrir a zona com um manto de solidão e silêncio. O Governo não teve outro remédio senão apoiar a decisão do Comandante. Não se podem atacar as forças da ordem, essas coisas põem em perigo a democracia, resmungou furioso o Presidente na intimidade do seu gabinete. Então inventaram a explicação de que os subversivos se tinham eliminado uns aos outros e tantas vezes repetiram a patranha, que eles próprios acabaram por acreditar. Mas Rolf Carlé sabia demais sobre esses assuntos para aceitar a versão oficial e sem esperar a autorização de Aravena, meteu‑se onde outros não se atreveram. Parte da verdade obteve‑a junto dos seus amigos na montanha e o resto averiguou‑o com os próprios guardas que exterminaram os prisioneiros e a quem bastou umas cervejas para fazer falar, porque já não conseguiam suportar a má‑consciência.

Três dias depois, quando o cheiro dos cadáveres começava a dissipar‑se e os últimos pássaros putrefactos já tinham sido varridos, Rolf Carlé tinha provas irrefutáveis do que acontecera e estava disposto a lutar contra a censura, mas Aravena avisou‑o de que não tivesse ilusões, a televisão não passaria nem uma palavra. Teve a primeira luta com o mestre, acusou‑o de timorato e cúmplice, mas o outro foi inflexível. Falou com dois deputados da oposição e mostrou‑lhes os filmes e fotografias para que vissem os métodos empregues pelo Governo para combater a guerrilha e as condições infra‑humanas dos detidos. Esse material foi exibido no Congresso onde os parlamentares denunciaram a carnificina e exigiram que as valas fossem abertas e se levassem os responsáveis a julgamento. Enquanto o Presidente assegurava ao país que estava disposto a ir até às últimas consequências na investigação, ainda que para isso tivesse de renunciar ao seu cargo, um grupo de recrutas improvisava uma pista desportiva asfaltada e plantava uma fila dupla de árvores para cobrir as fossas, a documentação perdeu‑se nos labirintos da administração judicial e os directores de todos os meios de comunicação foram convocados ao Ministério do Interior para serem advertidos das consequências de difamar as Forças Armadas. Rolf Carlé continuou a insistir com uma tenacidade que acabou por vencer a prudência de Aravena e as evasivas dos deputados, que pelo menos aprovaram uma tíbia repreensão ao Comandante e uma resolução a ordenar que os presos políticos fossem tratados de acordo com a Constituição, tivessem julgamentos públicos e cumprissem as penas nas celas e não em centros especiais onde nenhuma autoridade civil tinha acesso. Como resultado nove guerrilheiros presos no Forte El Tucán foram transferidos para a Penitenciária de Santa Maria, medida igualmente cruel, mas que de qualquer modo, serviu para pôr fim ao caso e impedir que o escândalo crescesse no marasmo da indiferença colectiva.

Nessa mesma semana Elvira anunciou que havia um espectro no pátio, mas não lhe prestámos atenção. Mimi andava apaixonada e só ouvia metade das coisas, demasiado ocupada com as paixões turbulentas do meu folhetim. A máquina de escrever matraqueava todo o dia sem me deixar vontade para os assuntos do dia‑a‑dia.

‑ Há uma alma penada nesta casa, passarinho ‑ insistiu Elvira.

‑ Onde?

‑ Espreita pelo muro das traseiras. É um espírito de homem, seria bom ter cautela, digo eu. Amanhã mesmo compro um líquido contra as almas.

‑ Vais dar‑lho a tomar?

‑ Não menina, que ideia a tua, é para lavar a casa. Temos de o passar pelas paredes, chão, por todo o lado.

‑ Dá muito trabalho, não se vende em spray?

‑ Não pode ser menina, esses modernismos não funcionam com as almas defuntas.

‑ Eu não vi nada, avó...

‑ Mas eu vi, anda vestido de pessoa e é moreno como São Martin de Porres, mas não é humano, quando o vislumbro fico com pele de galinha, passarinho. Há‑de ser alguém perdido que procura caminho, talvez não tenha acabado de morrer.

‑ Talvez, avó.

Mas não se tratava de um ectoplasma transumante, como se soube nesse mesmo dia quando o Negro tocou à campainha e Elvira, espantada, caiu sentada no chão. Tinha sido enviado pelo Comandante Rogelio e rondava a rua à minha procura sem se atrever a perguntar por mim para não chamar a atenção.

‑ Lembras‑te de mim? Conhecemo‑nos na época da Senhora, eu trabalhava no botequim da rua República. A primeira vez que te vi eras uma ranhosa ‑ apresentou‑se.

Inquieta, porque Naranjo nunca tinha usado intermediários e os tempos não eram de molde a confiar em ninguém, segui‑o até uma bomba de gasolina nos arrabaldes da cidade. O Comandante Rogelio esperava‑me escondido num depósito de pneus. Foram‑me necessários vários segundos para me adaptar à escuridão e descobrir aquele homem que tanto tinha amado e que agora me era longínquo. Há várias semanas que não nos víamos e eu não tinha tido oportunidade de lhe contar as mudanças ocorridas na minha vida. Depois de nos beijarmos entre bidões de combustível e latas de óleo queimado, Huberto pediu‑me uma planta da fábrica, porque estava a pensar roubar uniformes para vestir de oficial vários dos seus homens. Tinha decidido introduzir‑se na Penitenciária de Santa Maria para libertar os seus companheiros e ao mesmo tempo dar um golpe mortal no Governo e uma humilhação inesquecível ao Exército. Os seus planos ficaram abalados quando lhe disse que não podia colaborar com ele, porque tinha deixado o meu emprego e já não tinha acesso às instalações do edifício. Tive a má ideia de lhe contar a cena do restaurante com o coronel Tolomeo Rodríguez. Notei que ficou furioso, porque começou a fazer‑me perguntas muito amáveis, com um sorriso trocista que eu conhecia bem. Combinámos ver‑nos no domingo no Jardim Zoológico.

Nessa noite, depois de se admirar no capítulo correspondente da telenovela, na companhia de Elvira, para quem o facto de a ver em dois lugares ao mesmo tempo era mais uma prova da sua natureza celestial, Mimi entrou no quarto para me desejar boas‑noites, como sempre fazia, e surpreendeu‑me a desenhar linhas numa folha de papel. Quis saber do que se tratava.

‑ Não te metas em sarilhos! ‑ exclamou aterrada ao conhecer o projecto.

‑ Tenho de o fazer, Mimi. Não podemos continuar a ignorar o que se passa no país.

‑ Claro que podemos, temo‑lo feito até agora e graças a isso estamos bem. Além disso aqui nada interessa a ninguém, os teus guerrilheiros não têm a menor oportunidade de triunfar Pensa como começamos, Eva? Eu tive a pouca sorte de nascer mulher num corpo de homem, perseguiram-me por ser maricas, violaram‑me, torturaram-me, meteram-me na prisão e olha onde estou agora, tudo por mérito próprio E tu, A única coisa que tens feito é trabalhar e trabalhar, és bastarda com uma miscelânea de sangue de todas as cores, sem família, ninguem te educou nem te deu uma vacina ou uma vitamina. Mas temos vencido. Queres deitar tudo a perder?

De certo modo era verdade que por enquanto tínhamos conseguido ajus tar algumas contas privadas com a vida Tínhamos sido tão pobres que não conhecíamos o valor do dinheiro e ele escorria nos por entre os dedos como areia, mas agora ganhávamos o suficiente para gastar em certos luxos. Julgávamo‑nos ricas. Recebi um pagamento adiantado do folhetim, soma que me pareceu fabulosa e que me pesava no bolso. Mimi, por seu lado, considerava‑se no melhor período da sua existência. Finalmente tinha conseguido o equilíbrio perfeito das pílulas multicolores e sentia‑se tão bem no seu corpo como se tivesse nascido com ele. Nada restava da sua antiga timidez e até podia gracejar com o que antes era motivo de vergonha. Além do seu papel de Alejandra na série da televisão, estava a ensaiar a personagem do Cavaleiro de Eón, um travesti do século dezoito, agente secreto que passou a sua vida a servir os reis de França vestido de mulher e só foi descoberto quando o seu cadáver foi vestido, aos oitenta e dois anos de idade. Tinha todas as condições para o interpretar e o mais célebre dramaturgo do país tinha escrito a comédia especialmente para ela. O que a fazia mais feliz era acreditar que tinha encontrado por fim o homem assinalado pela astrologia, aquele que a acompanharia nos seus anos de maturidade. Desde que se relacionava com Aravena as ilusões da sua primeira juventude tinham renascido; nunca tivera uma relação assim, ele nada exigia, cobria‑a de presentes e lisonjas, levava‑a aos locais mais concorridos onde todos pudessem admirá-la, cuidava dela como um coleccionador de obras de arte. Tudo vai bem pela primeira vez, Eva, não procures sarilhos, suplicou‑me Mimi, mas eu esgrimi os argumentos tantas vezes ouvidos da boca de Huberto Naranjo e respondi‑lhe que éramos dois seres marginais, condenados a lutar por cada migalha e mesmo que rebentássemos as correntes que nos atavam desde o dia da nossa concepção, ainda ficariam os muros de uma prisão maior, não se tratava de modificar as circunstâncias pessoais, mas de mudar toda a sociedade. Mimi escutou o meu discurso até ao fim e quando falou fê‑lo com a sua voz de homem e uma determinação nos gestos que contrastava com a renda cor‑de‑salmão dos punhos do seu vestido e com os caracóis da sua cabeleira.

‑ Tudo o que disseste é de uma soberana ingenuidade. No caso pouco provável de o teu Naranjo triunfar com a sua revolução, tenho a certeza de que em pouco tempo actuaria com a mesma prepotência de todos os homens que chegam ao poder.

‑ Não é verdade. Ele é diferente. Não pensa em si, mas no povo.

‑ Isso é agora, porque não ganha nada com isso. É um fugitivo metido na selva mas havíamos de o ver se estivesse no governo. Olha, Eva, os homens como Naranjo não podem fazer mudanças definitivas, só modificam as regras, mas funcionam sempre na mesma escala. Autoridade, competência, cobiça, repressão, é sempre o mesmo.

‑ Se ele não pode, então quem vai poder?

‑ Tu e eu, por exemplo. É preciso mudar a alma do mundo. Mas enfim, para isso falta muito e como vejo que estás decidida e não posso deixar-te sozinha, irei contigo ao Jardim Zoológico. Do que esse imbecil precisa não é da planta da fábrica de uniformes, mas sim da Penitenciária de Santa Maria.

A última vez que o Comandante Rogelio a tinha visto, chamava‑se Melecio, tinha os atributos de um homem normal e trabalhava como professor de italiano numa escola de línguas. Apesar de Mimi aparecer com frequência nas páginas das revistas e na televisão, ele não a reconheceu, porque vivia noutra dimensão, afastado por completo dessas frivolidades, esmagando víboras no monte e manejando armas de fogo. Eu tinha‑lhe falado muitas vezes na minha amiga, mas de qualquer modo ele não esperava ver junto da jaula dos macacos aquela mulher vestida de vermelho cuja formosura o deixou atordoado e lhe virou os preconceitos de pernas para o ar. Não, não se tratava de um maricas disfarçado, era uma fêmea olímpica capaz de cortar o fôlego a um dragão.

Apesar de ser impossível Mimi passar despercebida, procurámos misturar‑nos com a multidão, deambulando entre meninos desconhecidos e deitando milho aos pombos como qualquer família em passeio de domingo. à primeira tentativa do Comandante Rogelio para teorizar ela travou‑o com um daqueles palavreados reservados para casos extremos. Disse‑lhe claramente que guardasse os seus discursos, porque ela não era tão ingénua como eu; que estava disposta a ajudá‑lo desta vez, para se libertar dele o mais depressa possível e com a esperança de que lhe dessem um tiro e que caísse de cabeça no inferno, para que não continuasse a foder‑nos a paciência; mas que não estava disposta a tolerar que para além do mais a doutrinasse com as suas ideias cubanas, que fosse para o caralho, porque bastantes problemas tinha ela sem ter necessidade de levar em cima com essa revolução alheia, que pensava ele, que a ela nem o marxismo nem essa cambada de barbudos revoltosos lhe interessavam a ponta de um corno, a única coisa que queria era sobreviver em paz e oxalá ele o compreendesse porque senão explicava‑lho de outra maneira. Em seguida, sentou‑se de perna cruzada num banco de cimento a desenhar‑lhe uma planta com um lápis dos olhos, na capa do seu livro de cheques.

 

Os nove guerrilheiros transferidos do Forte El Tucán encontravam‑se nas celas de castigo de Santa Maria. Detidos sete meses antes, resistiram a todos os interrogatórios sem que pudessem quebrar‑lhes a decisão de não falar, nem o desejo de voltar à montanha para continuar a lutar. A discussão no Congresso colocou‑os na primeira página dos jornais e elevou‑os ao nível de heróis aos olhos dos estudantes da Universidade, os quais encheram a cidade de cartazes com os seus rostos.

‑ Que não se torne a saber deles ‑ ordenou o Presidente, confiando na má memória das pessoas.

‑ Digam aos companheiros que os vamos libertar ‑ ordenou o Comandante Rogelio confiando na audácia dos seus homens.

Dessa prisão só escapara, anos antes, um bandido francês que conseguiu chegar por rio até ao mar, flutuando numa balsa improvisada sobre cadáveres inchados de cães, mas desde então ninguém o tinha tentado. Esgotados pelo calor, má alimentação, doenças e a violência que sofriam em cada instante da sua condenação, os presos comuns nem forças tinham para atravessar o pátio, muito menos para se aventurar na selva, no caso pouco provável de uma fuga. Os presos especiais não tinham nenhuma possibilidade de o conseguir, a menos que fossem capazes de abrir as portas de ferro, dominar os guardas armados de metralhadoras, atravessar todo o edifício, saltar o muro, nadar entre piranhas por um rio caudaloso e meter‑se pela selva, tudo isso de mãos nuas e no último estado de esgotamento. O Comandante Rogelio não ignorava esses colossais obstáculos, no entanto assegurou, impassível, que os resgataria e nenhum dos seus homens duvidou da promessa, muito menos os nove reclusos das celas de castigo. Logo que foi capaz de ultrapassar a raiva inicial, teve a ideia de me usar como isco para atrair o Coronel Tolomeo Rodríguez a uma emboscada.

‑ Está bem, desde que não lhe façam mal ‑ respondi.

‑ Trata‑se de o sequestrar, não de o matar. Tratá‑lo‑emos como se fosse uma donzela para o trocar pelos companheiros. Porque te interessa tanto esse homem?

‑ Por nada... Aviso-te de que não será fácil apanhá‑lo desprevenido, anda armado e tem guarda‑costas. Não é nenhum tonto.

‑ Suponho que não levará a sua escolta quando sai com uma mulher.

‑ Estás a pedir que vá para a cama com ele?

‑ Não, apenas que marques encontro onde indicarmos e o mantenhas distraído. Nós chegaremos depois. Uma operação limpa, sem tiros nem escândalo.

‑ Tenho de conseguir a sua confiança e isso não é possível numa primeira saída. Preciso de tempo.

‑ Parece‑me que esse Rodríguez te agrada... Era capaz de jurar que queres dormir com ele ‑ gracejou Huberto Naranjo, mas a voz saiu-lhe estrangulada.

Não respondi, porque me distraí a pensar que seduzir Rodríguez poderia ser muito interessante, apesar de na verdade não ter a certeza de ser capaz de o entregar aos inimigos ou se, pelo contrário, tentaria preveni-lo. Tal como dizia Mimi, eu não estava preparada ideologicamente para aquela guerra. Sorri sem me dar conta e julgo que esse sorriso secreto mudou completamente os planos de Huberto Naranjo, que decidiu voltar ao primeiro projecto. Mimi achou que isso equivalia a um suicídio, conhecia o sistema de vigilância, os visitantes anunciavam‑se por rádio e tratando‑se de um grupo de oficiais, como Naranjo pretendia disfarçar os seus homens, o director iria em pessoa esperá‑los ao aeroporto militar. Nem o Papa entraria na Penitenciária sem controlo de identidade.

‑ Então temos de introduzir armas para os companheiros ‑ disse o Comandante Rogelio.

‑ Não deves estar bom da cabeça ‑ riu‑se Mimi. ‑ Nos meus tempos isso teria sido bem difícil, porque revistavam toda a gente à entrada e à saída, mas agora é impossível, têm um aparelho para detectar metais e mesmo que engulas a arma descobrem‑ta.

‑ Não interessa. Tiro‑os de lá seja como for.

Nos dias seguintes ao encontro no Jardim Zoológico, reuniu‑se connosco em diversos locais para esmiuçar os pormenores, que à medida que se acrescentavam à lista punham em evidência a insensatez do projecto. Nada pôde dissuadi‑lo. A vitória é dos mais afoitos, respondia quando lhe assinalávamos os perigos. Eu desenhei a fábrica de uniformes e Mimi o presídio, calculámos os movimentos dos guardas, aprendemos as rotinas, estudámos até a orientação dos ventos, a luz e a temperatura de cada hora do dia. No processo Mimi foi contagiada pelo entusiasmo de Huberto e perdeu de vista a meta final, esqueceu que se tratava de libertar os prisioneiros e acabou por considerar tudo uma espécie de jogo de salão. Fascinada, traçava planos, fazia listas, imaginava estratégias, omitindo os riscos, convencida no fundo

de que tudo ficaria nas intenções sem nunca se chegar à prática, como tantas coisas ao longo da história nacional. O empreendimento era tão audacioso que merecia chegar a bom termo. O Comandante Rogelio iria com seis guerrilheiros, escolhidos entre os mais antigos e corajosos, acampar com os índios nas cercanias de Santa Maria. O chefe da tribo tinha‑se oferecido para os fazer atravessar o rio e guiá‑los na selva, disposto a colaborar com eles depois do Exército ter entrado na sua aldeia deixando um rasto de cabanas queimadas, animais esventrados e raparigas violadas. Comunicariam com os prisioneiros através de dois índios serventes da cozinha da prisão. No dia marcado os presos deviam estar preparados para desarmar alguns guardas e deslizar até ao pátio onde o Comandante Rogelio e os seus homens os libertariam. A parte mais fraca do plano, tal como salientou Mimi, sem que fosse necessário qualquer experiência para chegar a essa conclusão, era que os guerrilheiros conseguissem sair das celas de segurança. Quando o Comandante

Rogelio fixou como prazo máximo a terça‑feira da semana seguinte, ela olhou‑o através das longas pestanas de pêlo de vison e nesse momento teve o primeiro indício de que o assunto ia ser mesmo a sério. Uma decisão de tal magnitude não podia tomar‑se ao acaso, por isso pegou nas cartas, disse‑lhe para cortar o baralho com a mão esquerda, distribuiu‑as de acordo com uma ordem estabelecida na antiga civilização egípcia e começou a ler a mensagem das forças sobrenaturais, enquanto ele a observava com um trejeito sarcástico, murmurando que devia estar demente para confiar o êxito de semelhante empresa àquela extravagante criatura.

‑ Não pode ser terça‑feira, tem de ser no sábado ‑ determinou ela quando virou o Mago e ele saiu com a cabeça para baixo.

‑ Será quando eu disser ‑ replicou ele, deixando bem clara a sua opinião sobre aquele delírio.

‑ Aqui diz sábado e tu não estás em condições de desafiar o Tarot.

‑ Terça.

‑ Aos sábados à tarde, metade dos guardas anda na borga no bordel de Água Santa e a outra metade vê o basebol na televisão.

Este foi o argumento decisivo a favor da quiromância. Estavam nisto, a discutir alternativas, quando me recordei da Matéria Universal. O Comandante Rogelio e Mimi levantaram os olhos das cartas e olharam‑me perplexos. Foi assim sem que para tal me tivesse proposto que acabei na companhia de meia‑dúzia de guerrilheiros a amassar porcelana fria numa cabana indígena a pouca distância da casa do turco onde passei os melhores anos da minha adolescência.

 

Entrei em Água Santa num carro a cair aos bocados com matrícula roubada, conduzido pelo Negro. A aldeia não tinha mudado muito, a rua principal tinha crescido um pouco, viam‑se vivendas novas, vários armazéns e algumas antenas de televisão, mas permaneciam imutáveis o barulho dos grilos, o sufoco implacável do meio‑dia e o pesadelo da selva que começava à beira do caminho. Tenazes e pacientes, os habitantes suportavam o bafo quente e o desgaste dos anos, quase isolados do resto do país por uma vegetação impiedosa. Em princípio não devíamos parar na povoação, o nosso destino era a aldeia dos índios a meio caminho de Santa Maria, mas quando vi as casas com os seus telhados de telha, as ruas limpas pela última chuva e as mulheres sentadas nas cadeiras de palha à porta de casa, voltaram‑me as recordações com uma força iniludível e pedi ao Negro que passasse em frente de A Pérola do Oriente só para dar uma olhadela, ainda que de longe. Tanta coisa ruíra nesse tempo, tantos tinham morrido ou partido sem se despedir, que imaginava a loja transformada num irremediável fóssil, destruída pelo uso e pelos joguetes do esquecimento, por isso mesmo fiquei surpreendida ao vê‑la surgir perante os meus olhos como uma miragem intacta. A fachada estava reconstruída, as letras do nome recém‑pintadas, a montra patenteava ferramentas agrícolas, comestíveis, panelas de alumínio e dois espantosos manequins com perucas amarelas. Havia tal ar de renovação, que não consegui resistir e desci do automóvel para espreitar à porta. O interior também fora remodelado com um balcão moderno, mas os sacos de grão, os rolos de tecidos baratos e os frascos de caramelos eram semelhantes aos de antigamente.

Riad Halabi estava a fazer contas junto da caixa, vestido com um casaco de algodão e tapando a boca com um lenço branco. Era igual ao que eu recordava, para ele nem um minuto passara, estava intacto tal como por vezes se conservava a recordação do primeiro amor. Aproximei‑me timidamente comovida pela mesma ternura dos dezassete anos, quando me sentei sobre os seus joelhos para lhe pedir o presente de uma noite de amor e oferecer‑lhe aquela virgindade que a minha madrinha media com uma corda de sete nós.

‑ Boas tardes..., tem aspirinas? ‑ foi a única coisa que consegui dizer. Riad Halabi não levantou os olhos nem afastou o lápis do livro de contabilidade e indicou‑me com um gesto o outro extremo do balcão.

‑ Peça‑as à minha mulher ‑ disse com o ciciar do seu lábio de coelho.

Voltei‑me com a certeza de encontrar a professora Inês convertida em esposa do turco, tal como imaginei muitas vezes que acabasse por suceder mas em contrapartida vi uma rapariga que não devia ter mais de catorze anos, uma morenita baixa de boca pintada e expressão obsequiosa. Comprei as aspirinas pensando que há anos atrás aquele homem me recusara porque eu era demasiado jovem e naquele momento a sua actual mulher devia andar de fraldas. Quem sabe qual teria sido o meu destino se tivesse ficado a seu lado, mas de uma coisa estou certa: na cama ter‑me‑ia feito muito feliz. Sorri à menina de lábios vermelhos com um misto de cumplicidade e de inveja e fui‑me embora dali sem trocar um só olhar com Riad Halabi, feliz por ele, via‑se que estava bem. A partir desse momento recordo‑o como o pai que na verdade foi para mim; aquela imagem ajusta‑se‑lhe melhor que a do amante de uma só noite. Lá fora o Negro ruminava a sua impaciência, aquilo não estava incluído nas ordens recebidas.

‑ Vamos embora! O Comandante disse que ninguém devia ver‑nos nesta aldeia de merda onde toda a gente te conhece ‑ resmungou.

‑ Não é aldeia de merda. Sabes porque se chama Água Santa? Porque há uma fonte que lava todos os pecados.

‑ Não me fodas.

‑ É verdade, se tomares banho nessa água não voltas a sentir culpas.

‑ Por favor, Eva, sobe para o carro e saiamos daqui.

‑ Não pode ser tão depressa, ainda tenho uma coisa a fazer, mas temos que esperar pela noite, é mais seguro...

Para o Negro foi inútil a ameaça de me deixar na estrada, porque quando se me mete uma coisa na cabeça raras vezes mudo de opinião. Por outro

lado, a minha presença era indispensável para libertar os prisioneiros, assim não só teve de concordar como cavar um buraco logo que o sol se pôs. Levei‑o por detrás das casas até um terreno irregular, coberto de vegetação espessa e indiquei‑lhe um ponto.

‑ Vamos desenterrar uma coisa ‑ disse‑lhe e ele obedeceu porque supôs que, a menos que o calor me tivesse feito mal à cabeça, isso também devia fazer parte do plano.

Não foi necessário cansarmo‑nos muito, a terra argilosa estava húmida e mole. A pouco mais de meio‑metro de profundidade encontrámos um embrulho de plástico coberto de musgo. Limpei‑o com a ponta da blusa e sem o abrir meti‑o no bolso.

‑ O que está aí dentro? ‑ quis saber o Negro.

‑ Um dote de casamento.

 

Os índios receberam‑nos numa clareira onde ardia uma fogueira, única fonte de luz na densa escuridão da selva. Um grande tecto triangular de ramos e folhas servia como varanda comum e por debaixo penduravam várias redes a diferentes níveis. Os adultos usavam um pedaço de pano, hábito adquirido no contacto com os povos vizinhos, mas as crianças andavam nuas porque nos panos sempre impregnados de humidade, multiplicavam‑se os parasitas e germinava um musgo pálido, causa de diversas doenças. As raparigas usavam flores e penas nas orelhas, uma mulher amamentava o filho com um dos seios e com o outro um cãozinho. Observei aqueles rostos, à procura da minha identidade em cada um deles, mas só encontrei a expressão pacífica de quem está para lá de todas as perguntas. O chefe deu dois passos em frente e saudou‑nos com uma leve inclinação. Tinha o corpo erguido, os olhos grandes e afastados, a boca carnuda e o cabelo cortado como um capacete redondo, com uma tonsura na nuca donde sobressaíam orgulhosas as cicatrizes de muitos combates de bordoada. Identifiquei‑o de imediato, era o homem que todos os sábados levava a tribo a pedir esmola em Água Santa, o que me encontrou uma manhã sentada junto do cadáver de Zulema, o mesmo que mandara avisar Riad Halabi da desgraça e quando me prenderam colocou‑se em frente do Quartel a bater com os pés no chão como um tambor de aviso. Desejava saber como se chamava, mas o Negro tinha‑me explicado antecipadamente que essa pergunta seria uma grossaria; para aqueles índios nomear é tocar o coração, consideram uma aberração chamar um estranho pelo seu nome ou permitir que este o faça, assim mais valia eu abster‑me de apresentações que podiam ser mal interpretadas. O chefe olhou‑me sem demonstrar emoção, mas tive a certeza de que também me tinha reconhecido. Fez‑nos um sinal para indicar o caminho e levou‑nos para uma cabana sem janelas, a cheirar a trapo queimado, sem outro mobiliário que dois tamboretes, uma rede e um candeeiro de querosene.

As instruções mandavam esperar o resto do grupo, que se nos juntaria um pouco antes da noite da sexta‑feira marcada. Perguntei por Huberto Naranjo, porque pensei que passaríamos aqueles dias juntos, mas ninguém me pode dar notícias suas. Deitei‑me na rede sem me despir, perturbada pelo barulho incessante da selva, pela humidade, mosquitos e formigas, com o pavor que as víboras e as aranhas venenosas deslizassem pelas cordas ou estivessem escondidas no tecto de folhas de palmeira e me caíssem em cima durante o sono. Não consegui dormir. Passei horas a interrogar‑me sobre as razões que me tinham levado até ali, sem chegar a nenhuma conclusão porque os meus sentimentos por Huberto não me pareciam um motivo suficiente. Sentia‑me cada vez mais distante dos tempos em que apenas vivia para os encontros furtivos com ele, rodopiando como uma borboleta à volta de uma chama vacilante. Penso que só aceitei participar naquela aventura para me pôr à prova, para ver se participando naquela guerra insólita conseguia aproximar‑me novamente do homem que tinha amado sem nada lhe pedir. Mas nessa noite estava sozinha, encolhida numa rede infestada de percevejos que cheirava a cão e a fumo. Nem sequer o fazia por convicção política, porque apesar de ter aceite os axiomas daquela utópica revolução e me comover com a coragem desesperada daquele punhado de guerrilheiros, tinha a intuição de que já estavam derrotados. Não podia evitar esse presságio de fatalidade que me rondava há algum tempo, uma vaga inquietação que se transformava em clarões de lucidez quando estava perante Huberto Naranjo. Apesar da paixão que ardia no seu olhar eu podia ver o ar de desgraça iminente a fechar‑se à sua volta. Para impressionar Mimi repetia os seus discursos, mas na verdade pensava que a guerrilha era um projecto impossível no país. Não queria imaginar o fim daqueles homens e dos seus sonhos. Naquela noite, no alpendre dos índios sem conseguir dormir sentia‑me triste. Baixou a temperatura e tive frio, então saí e aninhei‑me junto aos restos da fogueira para ali passar a noite. Através da folhagem filtravam‑se pálidos raios e notei, como sempre, que a lua me tranquilizava.

Ao amanhecer, escutei o despertar dos índios debaixo do tecto comunitário, ainda entorpecidos nas suas redes, a conversar e a rir. Algumas mulheres foram buscar água e os filhos seguiram‑nas imitando os gritos das aves e dos animais do bosque. Com a chegada da manha pude ver melhor a aldeia, um punhado de cabanas manchadas da mesma cor do barro, inclinadas pelo sopro da selva, rodeadas por uma faixa de terra cultivada onde cresciam matagais de mandioca e milho e algumas bananeiras, únicos bens da tribo, despojada durante gerações pela rapina alheia. Aqueles índios, tão pobres como os seus antepassados do princípio da história americana, tinham resistido à invasão dos colonizadores sem perder completamente os seus costumes, a sua língua e os seus deuses. Dos bravos caçadores que um dia tinham sido, restavam uns quantos indigentes, mas tão grandes infortúnios não tinham apagado a recordação do paraíso perdido nem a fé nas lendas que

prometiam recuperá‑lo. Ainda sorriam muitas vezes. Possuíam algumas galinhas, dois porcos, três pirogas, apetrechos de pesca e aquelas raquíticas plantações resgatadas à selva com um esforço descomunal. Passavam horas à procura de lenha e alimento, a tecer redes e cestos, a esculpir flechas para vender aos turistas à beira do caminho. às vezes um ou outro ia à caça e se tinha sorte voltava com uns pássaros grandes ou com um pequeno jaguar que repartia com os seus, mas que o próprio não provava para não ofender o espírito da presa.

Fui com o Negro para nos desfazermos do automóvel. Levámo‑lo para o mato e atirámo‑lo por um barranco insondável, para além da algaraviada dos papagaios e da distracção dos macacos, e vimo‑lo rolar sem estrondo, amortecido pelas folhas gigantescas e lianas ondulantes e desaparecer tragado pela vegetação que se fechou sobre a sua pista sem deixar rasto. Nas horas que se seguiram chegaram um a um os seis guerrilheiros, a pé e por diversos caminhos, com o aspecto de quem tinha vivido por longo tempo à inclemência. Eram jovens, decididos, serenos e solitários, tinham as mandíbulas fortes, olhos atentos e a pele curtida pela intempérie, os corpos marcados por cicatrizes. Não falaram comigo mais do que o necessário, os seus movimentos eram cautelosos para evitar o desperdício de energia. Tinham escondido parte das armas e não as recuperariam até ao momento do assalto. Um deles penetrou no bosque guiado por um indígena, para se colocar na margem do rio a observar a Penitenciária com os binóculos; outros três foram na direcção do aeroporto certificar-se onde deviam colocar os explosivos, seguindo as instruções do Negro; os outros dois organizaram o necessário para a retirada. Todos cumpriram as suas tarefas até ao fim, mas sem espaventos, nem comentários, como se fosse trabalho de rotina. Ao entardecer chegou um jipe por um atalho e corri ao seu encontro, desejando que fosse finalmente Huberto Naranjo. Tinha pensado muito nele, com a esperança de que uns dias juntos poderiam mudar por completo a nossa relação e, com sorte, devolver‑nos aquele amor que um dia enchera a minha vida e que agora parecia desvanecido. A última coisa que imaginei foi que do veículo desceria Rolf Carlé com uma mochila e a sua câmara. Olhámo‑nos desconcertados, pois nenhum de nós esperava ver o outro naquele lugar e naquelas circunstâncias.

‑ Que fazes tu aqui? ‑ perguntei.

‑ Venho pela notícia ‑ sorriu.

‑ Qual notícia?

‑ A que vai acontecer no sábado.

‑Eia... como é que sabes?

‑ O Comandante Rogelio pediu‑me que a filmasse. As autoridades fizeram por silenciar a verdade e eu vim para ver se a posso contar. E tu, porque estás aqui?

‑ Para amassar.

Rolf Carlé escondeu o jipe e partiu com a sua equipa seguindo os passos dos guerrilheiros, que em frente da câmara cobriam a cara com lenços para não serem reconhecidos mais tarde. Entretanto eu dediquei‑me à Matéria Universal. Na penumbra da tenda, sobre um pedaço de plástico estendido no chão de terra batida, juntei os ingredientes tal como aprendera com a minha patroa jugoslava. Ao papel demolhado juntei igual porção de farinha e cimento, misturei‑o com água e amassei‑o até conseguir uma massa consistente de cor cinzenta, como leite de cinza. Estendi‑a com uma garrafa sob o olhar atento do chefe da tribo e de várias crianças, que comentavam entre si na sua língua cantarolada, gesticulando e fazendo traquinices. Preparei uma massa grossa e flexível e com ela envolvi as pedras, escolhidas pela sua forma oval. O modelo era uma granada de mão do Exército, trezentos gramas de peso, dez metros de raio de acção, vinte e cinco de alcance, metal escuro. Parecia uma pequena anona madura. Comparada com o elefante da índia, os mosqueteiros, os baixos‑relevos dos túmulos faraónicos e outros trabalhos fabricados pela jugoslava com o mesmo mateiral, a falsa granada era muito simples. No entanto precisei de fazer várias tentativas, porque há muito que não praticava e a ansiedade obstruía‑me o entendimento e prendia‑me os dedos. Quando consegui as proporções exactas, calculei que não tinha tempo para fazer as granadas e deixá‑las endurecer, dar‑lhes cor e esperar que o verniz secasse lembrei‑me então de tingir a massa para a evitar pintar depois de seca, mas ao misturá‑la com a tinta perdia a elasticidade. Comecei a proferir maldições e a coçar impacientemente as picadas dos mosquitos até fazer sangue.

O chefe dos índios, que tinha acompanhado cada etapa do processo com a maior curiosidade, saiu da cabana e regressou pouco depois com um punhado de folhas e uma tigela de argila. Acocorou‑se ao meu lado e pôs‑se a mastigar as folhas pacientemente. à medida que as transformava em papa e as cuspia no recipiente, a boca e os dentes tornavam‑se negros. Depois espremeu essa mistela num trapo, obteve um líquido escuro e gorduroso como seiva e deu‑mo. Juntei o cuspo a um bocado de massa e vi que a experiência resultava, ao secar ficava de uma cor parecida à da granada original e não alterava as admiráveis virtudes da Matéria Universal.

Durante a noite regressaram os guerrilheiros e depois de partilharem com os índios alguns pedaços de cassabe e peixe cozido, foram‑se deitar na cabana que lhes tinham indicado. A selva tornou‑se densa e negra, como um templo, as vozes baixaram e até os índios sussurravam. Pouco depois chegou Rolf Carlé e encontrou‑me sentada frente aos madeiros que ardiam ainda, abraçada às pernas com o rosto oculto entre os joelhos. Sentou‑se ao meu lado.

‑ O que é que se passa contigo?

‑ Tenho medo.

‑ De quê?

‑ Dos ruídos, desta escuridão, dos espíritos maléficos, das serpentes e dos bichos, dos soldados, do que vamos fazer no sábado, de que nos matem a todos...

‑ Eu também tenho medo, mas não perderia isto por coisa nenhuma.

Peguei‑lhe na mão e retive‑a firmemente por uns instantes, a sua pele estava quente e tive a renovada impressão de o conhecer desde há milhares de anos.

‑ Somos dois tontos! ‑ e tentei rir.

‑ Conta‑me uma história para nos distrairmos ‑ pediu Rolf Carlé.

‑ Como é que a queres?

‑ Uma que não tenhas contado a ninguém. Inventa‑a para mim.

"Era uma vez uma mulher cujo ofício era contar histórias. Ia por todo o lado oferecendo a sua mercadoria, relatos de aventuras, de suspense, de horror ou de luxúria, tudo a um preço justo. Num meio‑dia de Agosto estava no centro de uma praça, quando viu aproximar‑se um homem altivo, esbelto e enérgico como um sabre. Vinha cansado, com uma arma ao ombro, coberto de pó de lugares distantes e quando se deteve, notou‑lhe um ar de tristeza e soube de imediato que aquele homem vinha da guerra. A solidão e a violência tinham penetrado na sua alma como punhais e tinham‑no privado da faculdade de se amar a si mesmo. Tu és a que conta histórias?, perguntou o estrangeiro. Para te servir, respondeu‑lhe. O homem tirou cinco moedas de ouro e deu‑lhas. Vende‑me um passado, porque o meu está cheio de sangue e de lamentos e não me serve para percorrer a vida, estive em tantas batalhas, que por lá se me perdeu até o nome da minha mãe, disse. Ela não pôde negar‑se, porque receou que o estrangeiro caísse na praça transformado num monte de pó, como acontece normalmente a quem tem falta de boas recordações. Pediu‑lhe que se sentasse a seu lado e ao ver os seus olhos de perto sentiu uma pena imensa e um enorme desejo de o prender nos seus braços. Começou a falar. Toda a tarde e toda a noite esteve a construir um bom passado para aquele guerreiro, empenhando nessa tarefa toda a sua vasta experiência e a paixão que o desconhecido provocara nela. Foi um longo discurso, porque lhe quis oferecer um destino de romance e teve de inventar tudo desde o nascimento até ao presente dia, sonhos, desejos e segredos, a vida dos seus pais e irmãos e até a geografia e a história da sua terra. Amanheceu por fim e à primeira claridade do dia ela verificou que o ar de tristeza se tinha esfumado. Suspirou, fechou os olhos e ao sentir o espírito vazio como o de um recém‑nascido, compreendeu que na ânsia de lhe agradar tinha‑lhe entregue a sua própria memória, já não sabia o que era seu e o que lhe pertência a ele, os seus passados tinham ficado unidos numa só trança. Tinha entrado até ao fundo no seu próprio conto e já não podia recolher as suas palavras, nem o quis fazer, abandonou‑se ao prazer de se fundir com ele na mesma história..."

Quando acabei de falar, pus‑me de pé, sacudi o pó e as folhas da roupa e fui para a cabana estender‑me na rede. Rolf Carlé ficou sentado em frente da fogueira.

 

Na madrugada da sexta‑feira chegou o Comandante Rogelio tão discretamente que os cães não ladraram quando entrou na aldeia, apenas os seus homens deram por ele, porque dormiam de olhos abertos. Sacudi o entumescimento das últimas duas noites e saí para o abraçar, mas ele deteve‑me com um gesto, apenas perceptível para mim, tinha razão, era obsceno alardear intimidades na frente de quem há tanto tempo não fazia amor. Os guerrilheiros receberam‑no com algazarra e palmadas nas costas e pude apreciar quanto confiavam nele, porque a partir desse momento a tensão diminuiu, como se a sua presença fosse uma certeza de vida para os outros. Transportava numa mala os uniformes, dobrados e passados a ferro com esmero, os galões, as boinas e as botas do regulamento. Fui buscar o modelo da granada e coloquei‑lho na mão.

‑ Muito bem ‑ aprovou. ‑ Hoje fá‑la‑emos chegar à Penitenciária. Não surgirá no detector de metais. Esta noite os companheiros poderão fabricar as suas armas.

‑ Saberão fazê‑las? ‑ perguntou Rolf Carlé.

‑ Julgas que íamos esquecer esse pormenor? ‑ riu o Comandante Rogelio. ‑ Mandámos‑lhes as instruções e de certeza que já têm as pedras. Só terão de as forrar e de as deixar secar algumas horas.

‑ Temos de conservar a massa envolvida em plástico para que não perca a humidade. A textura é marcada com uma colher a seguir deixa‑se endurecer. Ao secar escurece e fica como metal. Oxalá não se esqueçam de pôr as falsas espoletas antes que endureça ‑ expliquei.

‑ Este país dá para tudo, até para fabricar armas com massa de empadas. Ninguém vai acreditar na minha reportagem ‑ suspirou Rolf Carlé.

Dois rapazes da aldeia remaram numa embarcação até à Penitenciária, e entregaram um saco aos índios da cozinha. Entre cachos de bananas, pedaços de mandioca e dois queijos ia a Matéria Universal, com o aspecto inocente de pão cru, que não chamou a atenção dos guardas acostumados a receber alimentos humildes. Entretanto os guerrilheiros tornaram a ver uma vez mais os pormenores do plano e ajudaram em seguida a tribo a terminar os seus preparativos. As famílias empacotaram os seus míseros bens, ataram as galinhas pelas patas, recolheram as provisões e os utensílios. Embora não fosse a primeira vez que se viam forçados a emigrar para um outro ponto da região, estavam desolados, porque tinham vivido vários anos naquela clareira da selva, era um bom lugar, perto de Água Santa, da estrada e do rio. No dia seguinte teriam de abandonar o seu pedaço de terra, porque mal os soldados descobrissem a sua participação na fuga dos presos, a represália seria feroz; por motivos menos graves caíam como um cataclismo sobre as povoações indígenas, destruindo tribos inteiras e arrasando toda a recordação da sua passagem pela terra.

‑ Pobre gente... ficam tão poucos! ‑ disse.

‑ Também vão ter um lugar na revolução ‑ afirmou o Comandante Rogelio.

Mas aos índios não interessava a revolução nem nenhuma outra coisa proveniente dessa raça execrável, nem sequer eram capazes de repetir essa palavra tão comprida. Não partilhavam os ideais dos guerrilheiros, não acreditavam nas suas promessas nem entendiam as suas razões e se aceitaram ajudá‑los naquele projecto cujo alcance não eram capazes de medir, foi porque os militares eram seus inimigos e isso permitia‑lhes vingar alguns dos múltiplos danos sofridos ao longo dos anos. O chefe da tribo compreendeu que ainda que se mantivessem à margem, a tropa considerá‑los‑ia responsáveis, porque a aldeia ficava muito perto da Penitenciária. Não lhes dariam oportunidade de se explicar, por isso se de qualquer maneira iam sofrer as consequências, mais valia que fosse por uma boa razão. Colaboraria com aqueles barbudos silenciosos, que ao menos não roubavam os alimentos nem apalpavam as suas filhas, e a seguir fugia. Várias semanas antes decidira a rota a seguir, sempre para o interior da selva, com a esperança de que a impenetrável vegetação detivesse o avanço do Exército e os protegesse por mais algum tempo. Assim tinha sido durante quinhentos anos: perseguição e extermínio.

O Comandante Rogelio mandou o Negro no jipe comprar dois cabritos. De noite sentámo‑nos com os índios à roda da fogueira, assámos os animais nas brasas e abrimos algumas garrafas de rum, reservadas para esse último jantar. Foi uma boa despedida, apesar da inquietação que impregnava o ambiente. Bebemos moderadamente, os rapazes entoaram algumas canções e Rolf Carlé provocou a admiração com uns truques de magia e com as fotografias instantâneas da sua máquina, prodigioso aparelho capaz de cuspir num minuto as imagens dos índios atónitos. Finalmente dois homens dispuseram‑se a montar guarda e nós fomos descansar, porque nos esperava um trabalho árduo.

 

Na única cabana disponível, iluminada por um candeeiro de querosene que bruxuleava num canto, os guerrilheiros acomodaram‑se no chão e eu na rede. Tinha imaginado que passaria essas horas sozinha com Huberto, nunca tínhamos estado juntos uma noite inteira, no entanto senti‑me satisfeita com o que se arranjou; a companhia dos rapazes tranquilizou‑me e pude por fim dominar os meus temores, relaxar‑me e descansar. Sonhei que fazia amor andando de baloiço. Via os meus joelhos e as coxas por entre a roda de renda e tafetá de uma combinação amarela, subia até ficar suspensa no ar e via em baixo o sexo enorme de um homem à minha espera. O baloiço detinha‑se por um instante lá em cima, eu erguia a cara para o céu, que se tinha tornado púrpura e descia velozmente a espetar‑me. Abri os olhos assustada e senti‑me envolvida por uma névoa quente, escutei os ruídos perturbadores do rio ao longe, o clamor dos pássaros nocturnos e as vozes dos animais da mata. O tecido áspero da rede arranhava‑me as costas através da blusa e os mosquitos atormentavam‑me, mas não pude mexer‑me para os afastar, estava aturdida. Tornei a afundar‑me numa sonolência pesada, ensopada de transpiração, sonhando desta vez que navegava num bote estreito, abraçada a um amante cujo rosto estava coberto por uma máscara de Matéria Universal, que me possuía a cada impulso das ondas, deixando‑me cheia de nódoas negras, inchada, sedenta e feliz, beijos tumultuosos, presságios, o canto daquela selva ilusória, uma pepita de ouro entregue como prenda de amor, um saco de granadas que estalavam sem ruído, semeando o ar de insectos fosforescentes. Despertei sobressaltada na penumbra da cabana e durante um momento não soube onde me encontrava nem que significava aquele estremecimento no meu ventre. Não recebi, como noutras alturas, o fantasma de Riad Halabi a acariciar‑me do outro lado da memória, mas a silhueta de Rolf Carlé sentado no chão em frente de mim, as costas apoiadas na mochila, uma perna dobrada e a outra estendida, os braços cruzados sobre o peito, a observar‑me. Não pude distinguir as suas feições, mas vi o brilho dos seus olhos e dos dentes ao sorrir‑me.

‑ O que é que se passa? ‑ sussurrei.

‑ O mesmo que a ti ‑ respondeu, também em voz baixa para não acordar os outros.

‑ Julgo que estava a sonhar...

‑ Eu também.

Saímos sem fazer barulho, dirigimo‑nos à pequena clareira do centro de aldeia e sentámo‑nos junto das brasas agonizantes da fogueira, rodeados por um murmúrio incansável da selva, iluminados pelos ténues raios da lua que atravessavam a folhagem. Não falámos, não nos tocámos, nem tentámos dormir. Esperámos juntos o amanhecer de sábado.

Quando começou a clarear, Rolf Carlé foi buscar água para fazer café. Levantei‑me e tentei despertar, doía‑me o corpo como se tivesse levado uma sova mas sentia‑me finalmente aquietada. Vi então, que tinha as calças manchadas com uma auréola avermelhada e isso surpreendeu‑me, há muitos anos que isso não me sucedia, quase me tinha esquecido. Sorri satisfeita porque soube que não tornaria a sonhar com Zulema e que o meu corpo tinha superado o medo ao amor. Enquanto Rolf Carlé soprava as brasas para avivar a fogueira e pendurava a cafeteira num gancho, fui à cabana, tirei uma blusa limpa da minha bolsa, rasguei‑a em pedaços para os usar como toalhas e dirigi‑me ao rio. Voltei com a roupa molhada, a cantar.

às seis da manhã toda a gente estava preparada para começar esse dia decisivo nas nossas vidas. Despedimo‑nos dos índios e vimo‑los partir silenciosos, levando os seus filhos, porcos, galinhas, cães, haveres, perdendo‑se por entre a folhagem como uma fila de sombras. Para trás ficaram apenas os que iam ajudar os guerrilheiros a atravessar o rio e que os guiariam na retirada pela selva. Rolf Carlé foi um dos primeiros a ir‑se embora de câmara ao ombro e mochila às costas. Os outros homens foram‑se embora também, cada um para o seu trabalho.

Huberto Naranjo despediu‑se de mim com um beijo na boca, um beijo casto e sentimental, toma muito cuidado contigo, tu também, vai directamente para tua casa e não dês nas vistas, não te preocupes, tudo vai correr bem, quando nos voltamos a ver?, terei de me esconder por algum tempo, não me esperes, outro beijo e lancei‑lhe os braços ao pescoço e apertei‑o com força, esfregando a cara na sua barba, com os olhos húmidos porque também me estava a despedir da paixão partilhada durante tantos anos. Subi para o jipe, onde o Negro me esperava com o motor a trabalhar para me levar até ao norte, a uma aldeia distante onde tomaria o autocarro rumo à capital. Huberto Naranjo fez‑me um sinal com a mão e os dois sorrimos ao mesmo tempo. Meu grande amigo, que não te suceda uma desgraça, gosto muito de ti, murmurei certa de que ele estava a balbuciar o mesmo, pensando que era bom contarmos um com o outro e estar sempre por perto para nos ajudarmos e protegermos, em paz porque a nossa relação tinha dado uma volta e acomodara‑se finalmente onde sempre devia ter estado, pensando que éramos dois compinchas, dois irmãos unha com carne e um pouco incestuosos.

Tem muito cuidado contigo, tu também, repetimos.

 

Viajei todo o dia flagelada pelo vaivém do veículo, aos saltos por um insidioso caminho, feito para uso de pesados camiões de carga e gasto até ao esqueleto pelas chuvas, que abriam buracos no asfalto, onde as boas faziam os ninhos. Numa curva da estrada, a vegetação abriu‑se de súbito num leque de verdes impossíveis e a luz do dia tornou‑se branca, para dar lugar à ilusão perfeita do Palácio dos Pobres, a flutuar a quinze centímetros do húmus que cobria o solo. O motorista parou o autocarro e nós os passageiros levámos as mãos ao peito, sem nos atrevermos a respirar durante os breves segundos que durou o sortilégio antes de se esfumar suavemente. Desapareceu o Palácio, a selva voltou ao seu lugar, o dia recuperou a sua transparência quotidiana. O motorista pôs o motor a trabalhar e voltámos aos lugares, maravilhados. Até à capital, onde chegámos muitas horas mais tarde, ninguém falou porque cada um ia à procura do sentido daquela revelação. Eu também não soube interpretá‑la, mas pareceu‑me quase natural, porque tinha‑a visto anos antes na camioneta de Riad Halabi. Nessa ocasião eu ia meia a dormir e ele sacudiu‑me quando á noite se iluminou com as luzes do Palácio, descemos e corremos até à miragem mas as sombras envolveram‑na antes que a pudéssemos alcançar. Não podia afastar o meu espírito do que ocorreria às cinco da tarde na Penitenciária de Santa Maria, sentia uma opressão insuportável nas fontes e maldizia esta minha morbidez, que me atormenta com os piores presságios Que tudo lhes corra bem, que tudo lhes corra bem, ajuda‑os, pedi à minha mãe como sempre fazia em momentos cruciais e verifiquei mais uma vez que o seu espírito era imprevisível, às vezes surgia sem aviso prévio pregando‑me um tremendo susto, mas em ocasiões como esta, em que a chamava com urgência, não dava qualquer sinal de me ter ouvido. A paisagem e o calor sufocante trouxeram‑me à memória os meus dezassete anos, quando fiz aquele trajecto com uma mala de roupa nova, a morada do pensionato de meninas e a recente descoberta do prazer. Naquele momento quis tomar o destino nas minhas mãos e desde então muitas coisas me sucederam, tinha a impressão de ter vivido várias vidas, de me ter tornado fumo todas as noites e de ter renascido pelas manhãs. Fiz por dormir, mas os vaticínios de mau agoiro não me deixavam em paz e nem sequer o fulgor do Palácio dos Pobres conseguiu tirar‑me o sabor de enxofre, que tinha na boca. Uma vez, Mimi examinou os meus pressentimentos à luz das instruções difusas do manual do Maharishi e concluiu que não devo confiar neles porque nunca anunciam nenhum facto importante, mas apenas histórias de cordel, e quando me acontece alguma coisa de fundamental, chega sempre de surpresa. Mimi demonstrou que a minha capacidade rudimentar de adivinhar era totalmente inútil. Faz com que tudo corra bem, tornei a pedir à minha mãe.

Cheguei a casa no sábado à noite com um aspecto lamentável, suja de transpiração e pó, num carro de aluguer que me levou desde o terminal dos autocarros até à minha porta, passando ao longo do parque iluminado por candeeiros ingleses, do Clube de Campo com as suas filas de palmeiras, as mansões de milionários e embaixadores, os novos edifícios de vidro e metal. Estava noutro planeta, a incalculável distância de uma aldeia indígena e de alguns jovens de olhos febris dispostos a lutar até à morte com granadas fingidas. Ao ver todas as janelas de casa iluminadas tive um momento de pânico ao imaginar que a polícia se me antecipara, mas não cheguei a dar meia‑volta, porque antes disso Mimi e Elvira abriram‑me a porta. Entrei como um autómato e deixei‑me cair num cadeirão desejando que tudo aquilo acontecesse num conto surgido do meu cérebro deslumbrado que não fosse verdade que naquele mesmo momento Huberto Naranjo, Rolf Carlé e os outros pudessem estar mortos. Olhei a sala como se a visse pela primeira vez e pareceu‑me mais acolhedora do que nunca, com aquela miscelânea de móveis, os antepassados de empréstimo a protegerem‑nos dos quadros pendurados na parede e num canto o puma embalsamado com a sua ferocidade imutável, apesar de tantas misérias e tão variados transtornos acumulados no seu meio século de existência.

‑ Que bom estar aqui... ‑ saiu‑me da alma.

‑ Que diabo se passou? ‑ perguntou‑me Mimi depois de me revistar para verificar se eu estava intacta.

‑ Não sei. Deixei‑os ocupados com os preparativos. A fuga devia ser por volta das cinco, antes que metessem os presos nas celas. Nesse momento armariam um motim no pátio para distrair os guardas.

‑ Então, já o deviam ter anunciado pela rádio ou pela televisão, mas não disseram nada.

‑ Mais vale assim. Se o tivessem morto já se saberia, mas se conseguiram escapar, o Governo ficará mudo até que possa forjar a notícia.

‑ Estes dias têm sido terriveis, Eva. Não tenho podido trabalhar, adoeci de medo, pensei que estavas presa, morta, mordida por uma cobra, comida pelas piranhas. Maldito Huberto Naranjo, não sei para que nos metemos nesta loucura! ‑ exclamou Mimi.

‑ Ai, passarinho andas com cara de gavião. Eu sou da velha guarda, não gosto de desordens, porque é que uma menina há‑de andar metida em assuntos de homem? Não te dei limões partidos em cruz para isto ‑suspirou Elvira enquanto ia e vinha pela casa a servir café com leite, a preparar o banho e a roupa limpa. ‑ Um bom banho de imersão em água com tília é bom para fazer passar os Sustos.

‑ É bem melhor um duche, avó...

A novidade de ter voltado a ter menstruação depois de tantos anos, foi celebrada por Mimi, mas Elvira não viu razão para se alegrar, era uma imundície e muito bom era ela ter passado a idade dessas desordens, era bem melhor que os humanos pusessem ovos como as galinhas. Tirei do meu bolso o embrulho desenterrado em Água Santa e coloquei‑o sobre os joelhos da minha amiga.

‑ Que é isto?

‑ O teu dote de casamento. Para que as vendas, te operes em Los Angeles e possas casar‑te.

Mimi tirou o invólucro sujo de terra e apareceu uma caixa roída pela humidade e pelo caruncho. Forçou a tampa e ao abri‑la cairam‑lhe na saia as jóias de Zulema, reluzentes como se tivessem sido acabadas de limpar, o ouro mais amarelo que nunca, esmeraldas, topázios, granadas, pérolas, ametistas, embelezadas por uma nova luz. Aqueles adornos que se me afiguravam miseráveis quando os punha ao sol no pátio de Riad Halabi, pareciam agora o presente de um califa nas mãos da mulher mais formosa do mundo.

‑ Onde roubaste isso? Não te ensinei respeito e honestidade, passarinho? ‑ murmurou Elvira espantada.

‑ Não roubei nada, avó. No meio da selva há uma cidade de ouro puro. São de ouro as pedras das ruas, de ouro as telhas das casas, de ouro os carrinhos do mercado e os bancos da praça, e são também de ouro os dentes de todos os habitantes. Aí as crianças brincam com pedras coloridas, como estas.

‑ Não as vou vender, Eva, vou usá‑las. A operação é uma barbaridade. Cortam tudo e depois fabricam um buraco de mulher com um pedaço de tripa.

‑ E Aravena?

‑ Gosta de mim tal como sou.

Elvira e eu tivemos uma dupla exclamação de alívio. Para mim todo esse assunto é uma carnificina desmedida cujo resultado final não pode ser senão uma ridícula imitação da natureza e Elvira achava sacrílega a ideia de muti lar o arcanjo.

IDomingo muito cedo, quando ainda estávamos a dormir, tocou a cam painha de casa. Elvira levantou‑se a resmungar e encontrou à porta um tipo de barba por fazer, a arrastar uma mochila, com um negro artefacto mecânico ao ombro e os dentes a brilhar no rosto escuro de pó, fadiga e sol. Não reconheceu Rolf Carlé. Mimi e eu aparecemos nesse instante em camisa de dormir e não tivemos de fazer perguntas porque o sorriso era eloquente. Vinha buscar‑me, decidido a esconder‑me até que os ânimos acalmassem, porque tinha a certeza de que a fuga desencadearia uma confusão de consequências imprevisíveis. Receava que alguém da aldeia me tivesse visto e me identificasse com aquela que anos atrás trabalhara em A Pérola do Oriente

- Disse‑te que não nos devíamos meter em sarilhos! ‑ lamentou se Mimi, irreconhecível sem a maquilhagem de guerra.

Vesti‑me e preparei uma maleta com alguma roupa. Na rua estava o auto móvel de Aravena, tinha‑o emprestado a Rolf ao amanhecer quando foi a sua casa entregar vários rolos de película e dar‑lhe a notícia mais alucinante dos últimos anos. O Negro tinha‑o conduzido até ali e depois levou o jipe

com a missão de o fazer desaparecer para que não pudessem seguir a pista do seu proprietário. O director da Televisão Nacional não estava acostumado

a madrugar e quando Rolf lhe contou de que se tratava, julgou que ainda estava a sonhar. Para se espevitar tomou meio copo de uísque e acendeu o primeiro cigarro do dia, depois sentou‑se a pensar que fazer com aquilo que lhe tinham posto nas mãos, mas o outro não lhe deu tempo para cogitações e pediu‑lhe as chaves do automóvel porque o seu trabalho ainda não tinha acabado. Aravena entregou-lhas com as mesmas palavras de Mimi, não te metas em sarilhos, filho. Já me meti, respondeu‑lhe Rolf.

‑ Sabes conduzir, Eva?

‑ Tirei a carta, mas não tenho prática.

‑ Sinto os olhos a fecharem‑se. A esta hora não há trânsito, vai devagar e toma o caminho de Los Altos, em direcção à montanha.

Um pouco assustada, sentei‑me ao volante daquela nave forrada de couro vermelho, liguei a ignição com dedos inseguros, pus o motor a trabalhar e partimos aos sacões. Em menos de dois minutos o meu amigo tinha adormecido até que o abanei duas horas mais tarde para lhe perguntar que direcção devíamos tomar numa bifurcação. Foi assim que nesse domingo, chegámos à Colónia.

 

Burgel e Rupert acolheram‑nos com o afecto impertinente e ruidoso que evidentemente lhes era próprio e começaram a preparar um banho para o sobrinho, que apesar da sesta no carro, tinha a expressão desfeita de um sobrevivente de terramoto. Rolf Carlé descansava num nirvana de água quente quando as duas primas chegaram pressurosas, cheias de curiosidade porque era a primeira vez que ele aparecia lá em casa com uma mulher. Encontrámo‑nos as três na cozinha e durante meio minuto esquadrinhámo‑nos, medimo‑nos e avaliámo‑nos, a princípio com natural desconfiança e depois com a melhor boa vontade, dum lado duas opulentas senhoras louras de faces rosadas, com as saias de feltro bordado, as blusas engomadas e os aventais de renda que usavam para impressionar os turistas; do outro eu, bastante menos primorosa. As primas eram tal como eu as imaginava pela descrição de Rolf, embora dez anos mais velhas, e vi com alegria que aos olhos dele tinham ficado numa adolescência eterna. Creio que elas compreenderam à primeira vista, que se encontravam em frente de uma rival e devem ter estranhado que eu fosse tão diferente delas ‑ talvez se tivessem sentido aduladas se Rolf tivesse escolhido uma réplica delas próprias ‑ mas como ambas eram benevolentes puseram de parte os ciúmes e acolheram‑me como uma irmã. Foram buscar os meninos que constituiam a sua família e apresentaram‑me os maridos, grandes, bonacheirões, a cheirar a velas de fantasia. Em seguida ajudaram a mãe a preparar a comida. Pouco depois, sentada à mesa e rodeada por aquela tribo saudável, com uma cria de cão‑polícia aos pés e um pedaço de pernil com puré de batata doce na boca, senti‑me tão longe da Penitenciária de Santa Maria, de Huberto Naranjo e das granadas de Matéria Universal, que quando ligaram o televisor para ver as notícias e apareceu um militar a contar os pormenores da fuga dos nove guerrilheiros, tive de fazer um esforço para o compreender.

A suar e acobardado, o director da Penitenciária informou que um grupo terrorista tinha realizado o assalto com helicópteros, armado com bazucas e metralhadoras, enquanto no interior do recinto os delinquentes neutralizaram os vigilantes com bombas. Com um ponteiro indicou um plano do edifício e pormenorizou os movimentos dos implicados, desde o momento em que abandonaram as suas celas até se perderem na selva. Não pôde explicar como conseguiram as armas enganando as máquinas detectoras de metais, parecia coisa mágica, as granadas tinham surgido, simplesmente, nas suas mãos. No sábado às cinco da tarde, quando os tiravam das latrinas, brandiram os explosivos em frente dos guardas e ameaçaram fazê‑los voar todos juntos se não se rendessem. Segundo disse o director, pálido de insónia e com barba de dois dias, os vigilantes de serviço naquele sector demonstraram valorosa resistência, mas não tiveram outra alternativa e entregaram as armas. Estes servidores da pátria ‑ actualmente internados no Hospital Militar com proibição de receber visitas e muito menos jornalistas ‑ foram feridos impunemente e em seguida encerrados num calabouço de maneira que não puderam dar o alarme. Ao mesmo tempo os seus cúmplices provocaram um escarcéu entre os presos do pátio e os esquadrões de subversivos no exterior cortaram os cabos de electricidade, fizeram ir pelos ares a pista de aterragem do aeroporto a cinco quilómetros de distância, inutilizaram o caminho de acesso aos veículos motorizados e roubaram as lanchas patrulhas. Depois atiraram cabos e ganchos de montanhismo por cima das muralhas, penduraram escadas de corda e por ali se escaparam os presos, terminou o homem fardado, com o ponteiro a tremer na mão. Um locutor de voz estrangulada substituiu‑o para assegurar que era evidente a acção do comunismo internacional, a paz do continente estava em jogo, as autoridades não descansariam até apanhar os culpados e descobrir os cúmplices. A notícia terminava com uma breve comunicação: o General Tolomeo Rodriguez tinha sido nomeado Comandante em Chefe das Forças Armadas.

Entre duas goladas de cerveja, o tio Rupert comentou que deviam mandar todos aqueles guerrilheiros para a Sibéria para ver se eles iam gostar, nunca se soube de ninguém que saltasse o muro de Berlim para o lado dos comunistas, fazem‑no sempre para escapar aos vermelhos, e como estão as coisas em Cuba?, nem sequer têm papel higiénico e não me venham cá com a saúde, a educação, o desporto e essas aldrabices, que no fim de contas não servem para nada na hora de limpar o cu, resmungou. Uma careta de Rolf Carlé disse‑me que era preferível abster‑me de comentários. Burgel mudou de canal para ver o capítulo da telenovela, suspensa desde a noite anterior, quando a malvada Alejandra ficou a espiar, pela porta entreaberta, Belinda e Luis Mfredo que se beijavam apaixonadamente, gosto assim, agora mostram os beijos de perto, antes era uma fraude, os namorados olhavam‑se, pegavam nas mãos um do outro, e logo quando ia a começar o melhor mostravam‑nos a lua, sabe‑se lá quantas luas tivemos de suportar e ficávamos com vontade de ver o que vinha depois, vejam bem, Belinda mexe os olhos, a mim parece‑me que na realidade não é cega. Estive quase a contar‑lhe as intimidades do guião, tantas vezes ensaiadas com Mimi, mas felizmente não o fiz, isso teria destruído as suas ilusões. As duas primas e os maridos continuaram pendentes da televisão, enquanto as crianças dormiam nos sofás e lá fora a tarde caía, aprazível e fresca. Rolf pegou‑me por um braço e levou‑me a dar uma volta. Fomos passear pelas ruas tortuosas daquela insólita aldeia de outro século, incrustada num monte dos trópicos, com as suas casas impecáveis, os jardins floridos, as montras com relógios de cuco, o minúsculo cemitério de túmulos alinhados em perfeita simetria, tudo reluzente e absurdo. Parámos numa curva da última rua para olhar a abóbada do céu e as luzes da Colónia estendida a nossos pés pelas ladeiras do monte, como um largo tapete. Quando já não se ouviam os nossos passos na calçada, tive a sensação de me encontrar num mundo recém‑nascido, onde o som ainda não fora criado. Ouvia o silêncio pela primeira vez. Até então na minha vida, houve ruídos por vezes quase imperceptíveis como o sussurro dos fantasmas de Zulema e Kamal ou o murmúrio da selva ao amanhecer, outras vezes atroadores como o rádio nas cozinhas da minha infância. Senti a mesma exaltação de fazer amor ou inventar contos e quis agarrar esse espaço mudo para o conservar como um tesouro. Aspirei o perfume dos pinheiros, abandonada a esse novo deleite. Por fim Rolf Carlé começou a falar e o encantamento esfumou‑se, deixando a mesma frustração que tive em menina quando um punhado de neve se transformou em água nas minhas mãos. Contou‑me a sua versão do que acontecera na Penitenciária de Santa Maria, parte do qual conseguira filmar e o resto soubera pelo Negro.

No sábado à tarde o director e metade dos guardas encontravam‑se no bordel de Água Santa, tal como Mimi tinha dito que estariam, tão bêbados que ao ouvirem a explosão do aeroporto julgaram que era Ano Novo e não vestiram as calças. Entretanto Rolf Carlé aproximava‑se da ilhota numa piroga com a sua aparelhagem camuflada por um monte de folhas de palmeira e o Comandante Rogelio e os seus homens de uniforme apresentavam‑se à porta principal tocando a sirena como uma barulheira de circo, depois de atravessar o rio na lancha roubada aos guardas no cais. As autoridades não estavam lá para dar ordens e ninguém os deteve, porque aqueles visitantes pareciam oficiais de alta patente. A essa mesma hora os guerrilheiros recebiam nas suas celas a única refeição do dia, através dum postigo nas portas metálicas. Um deles começou a queixar‑se de espantosas dores de barriga, eu morro, socorro, envenenaram‑me, e logo os companheiros do calabouço se uniram ao clamor, assassinos, assassinos, estão‑nos a matar. Dois guardas que entraram para fazer calar o doente, encontraram‑no com uma granada em cada mão e com tal determinação no olhar que não se atreveram a respirar. O Comandante tirou os seus companheiros e os cúmplices da cozinha sem disparar um único tiro, sem violência e sem dificuldade, levou‑os na mesma embarcação até à outra margem onde se internaram na selva guiados pelos índios. Rolf filmou com uma teleobjectiva e deslizou rio abaixo até ao sítio onde devia juntar‑se ao Negro. Quando eles iam no jipe a toda a velocidade para a capital, os militares ainda não se tinham posto de acordo para bloquear a estrada e começar a busca.

‑ Fico contente por eles, mas não sei de que te servem os filmes se tudo isso está censurado.

‑ Mostrá‑los‑emos ‑ disse.

‑ Tu sabes que espécie de democracia é esta, Rolf, com o pretexto do anticomunismo, não há mais liberdade que nos tempos do General...

‑ Se nos proibem de dar a notícia, tal como fizeram com a matança no Centro de Operações, vamos contar a verdade na próxima telenovela.

‑ Que estás a dizer?

‑ O teu folhetim irá para o ar logo que termine essa estupidez da cega

e do milionário. Tens de arranjar as coisas para meter no guião a guerrilha e o assalto à Penitenciária. Eu tenho uma mala de filmes sobre a luta armada.

Muito disso pode servir‑te.

‑ Nunca o irão permitir...

‑ Dentro de vinte dias haverá eleições. O próximo Presidente fará tudo para dar uma impressão de liberalidade e será prudente com a censura. Em todo o caso, sempre se pode alegar que é só ficção e como a telenovela é, muito mais popular que o noticiário, toda a gente saberá o que se passou em Santa Maria.

‑ E eu? A polícia vai‑me perguntar como soube tudo isso.

‑ Não tocarão em ti porque isso era reconhecer que dizes a verdade - respondeu Rolf Carlé. ‑ E a propósito de histórias, fiquei a pensar no significado do conto dessa mulher que vende um passado a um guerrilheiro...

‑ Ainda estás às voltas com isso? Vejo que és um homem de compreensão lenta...

 

As eleições presidenciais decorreram com ordem e serenidade, como se o exercício dos direitos republicanos fosse um longo hábito e não o milagre mais ou menos recente, que na realidade era. A vitória coube ao candidato da oposição, tal como tinha vaticinado Aravena cujo olfacto político, longe de diminuir com a idade, se tinha apurado. Pouco depois Alejandra morreu num acidente de automóvel e Belinda recuperou a vista e casou‑se, envolta em metros e metros de tule branco e coroada de diamantes falsos e flores de laranjeira em cera com o gala Martinez de

la Roca. O país deu um profundo suspiro de alívio porque tinha sido uma tremenda prova de paciência, suportar as desventuras daquelas pessoas todos os dias durante quase um ano. Mas a Televisão Nacional não deixou respirar os pacientes espectadores e pôs imediatamente no ar a minha novela, a que num arrebatamento sentimental chamei Bolero, em homenagem a essas canções que alimentaram as horas da minha infância e me serviram de fundamento para tantos contos. O público foi apanhado de surpresa no primeiro episódio e não conseguiu recompor‑se do espanto nos seguintes. Julgo que ninguém percebeu onde queria chegar aquela extravagante história, estavam acostumados aos ciúmes, ao despeito, à ambição ou, pelo menos, à virgindade, mas nada disso aparecia nos ecrãs e adormeciam todas as noites com a alma perturbada por uma algazarra de índios envenenados, embalsamadores em cadeiras de rodas, professores enforcados pelos alunos, ministros defecando em cadeirões de veludo episcopal e outras truculências que não resistiam a nenhuma análise

lógica e escapavam às regras estabelecidas do folhetim comercial. Apesar da confusão estabelecida, Bolero ganhou asas e em pouco tempo fez com que alguns maridos chegassem cedo a casa para ver o capítulo do dia. O Governo advertiu o senhor Aravena, confirmado no seu cargo pelo seu prestígio e habilidade de raposa velha, que fiscalizasse a moral, os bons costumes e o patriotismo, perante o que tive de suprimir algumas actividades licenciosas da Senhora e dissimular a origem da Revolta das Putas, mas o resto foi mantido quase intacto. Mimi teve um papel importante, representando‑se tão bem a si mesma, que se transformou na actriz mais popular da farândula. A confusão sobre a sua natureza, contribuiu para a sua fama pois ao vê‑la era pouco provável o boato de que alguma vez tivesse sido homem ou pior ainda, de que ainda o fosse em certos pormenores da sua anatomia. Não faltou quem atribuisse o triunfo aos seus amores com o director do canal, mas como nenhum dos dois se deu ao trabalho de o desmentir, a piada extinguiu‑se naturalmente.

Eu escrevia todos os dias um novo episódio, imersa completamente no mundo que criava com a omnipotência das palavras, transformada num ser disperso, reproduzida até ao infinito, vendo o meu próprio reflexo em múltiplos espelhos, vivendo inúmeras vidas, falando com muitas vozes. As personagens chegaram a ser tão reais, que apareceram em casa todas ao mesmo tempo, sem respeito pela ordem cronológica da história, as vivas juntamente com as mortas e cada uma com todas as suas idades às costas, de modo que enquanto Consuelo‑menina abria o bucho às galinhas, havia uma Consuelo‑mulher nua que soltava o cabelo para consolar um moribundo, Huberto Naranjo andava na sala em calções enganando incautos com peixes sem rabo e surgia de repente no segundo piso com a lama da guerra nas suas botas de comandante, a madrinha avançava com um bambolear soberbo de ancas como nos seus melhores anos e encontrava‑se consigo mésma, sem dentes e com uma costura no pescoço, a rezar no terraço perante um cabelo do Papa. Todas passeavam pelos quartos criando confusão no quotidiano de Elvira, que perdia energias a discutir com elas e a arrumar a desordem de furacão que espalhavam à sua passagem. Ai, passarinho, tira‑me estas lunáticas da cozinha, já estou cansada de as enxotar à vassourada, queixava‑se ela, mas ao vê‑las de noite executando os seus papéis no ecrã, suspirava orgulhosa. Acabou por considerá‑las da sua família.

 

Doze dias antes de começar a gravar os capítulos da guerrilha, recebi uma notificação do Ministério da Defesa. Não percebi porque me convocavam àquela repartição em vez de me mandarem alguns agentes da Polícia Política nos seus inconfundíveis carros pretos, mas não disse nem uma palavra a Mimi ou à avó para não as assustar e nem pude avisar Rolf, que se encontrava em Paris a filmar as primeiras negociações de paz do Vietname. Tinha esperado aquela má notícia desde que fabriquei as granadas de Matéria Universal há meses atrás e no fundo preferia enfrentá-la de uma vez por todas, para sair daquela difusa inquietação, que trazia na pele como uma queimadura. Tapei a minha máquina de escrever, pus em ordem os meus papéis, vesti‑me com a angústia de quem prova uma mortalha, enrolei o cabelo na nuca e saí de casa, despedindo‑me com um gesto dos espíritos que ficavam para trás de mim. Cheguei ao edifício do Ministério, subi uma dupla escadaria de mármore, atravessei portas de bronze defendidas por guardas com penachos nos capacetes e mostrei os meus documentos a um oficial de diligências. Um soldado levou‑me por um corredor alcatifado, passámos por uma porta entalhada com o escudo nacional e vi‑me numa sala decorada com cortinados e candeeiros de cristal. Nos vidros das janelas estava Cristóvão Colombo imobilizado para a eternidade com um pé sobre a costa americana e outro no seu barco. Vi então o General Tolomeo Rodriguez atrás de uma mesa de acaju. A sua figura maciça recortava‑se em contraluz entre a flora exótica do Novo Mundo e a bota do conquistador. Reconheci‑o imediatamente pela sensação de vertigem que me fez vacilar, ainda que levasse vários segundos a adaptar a vista e a distinguir os seus olhos de felino, as suas mãos compridas e os seus dentes perfeitos. Pôs‑se de pé, saudou‑me com a sua cortesia algo presunçosa e mandou‑me sentar numa das poltronas. Instalou‑se a meu lado e pediu um café a uma secretária.

‑ Lembra‑se de mim, Eva?

Como esquecê‑lo, se o nosso único encontro não tinha sido há muito tempo e se graças à emoção que esse homem me provocara tinha abandonado a fábrica e começara a ganhar a vida a escrever histórias. Os primeiros minutos gastaram‑se em banalidades, eu na beira do assento, segurando a chávena com a mão vacilante e ele descontraído, observando‑me com uma expressão indecifrável. Esgotados os temas do civismo, ambos permanecemos em silêncio durante uma pausa que me pareceu intolerável.

‑ Chamou‑me para quê, General? ‑ perguntei por fim sem conseguir conter‑me.

‑ Para lhe fazer uma proposta ‑ e passou a informar‑me, sempre com o seu tom doutoral que tinha um registo completo de quase toda a minha vida, desde os recortes da imprensa sobre a morte de Zulema, até às provas da minha recente relação com Rolf Carlé, esse cineasta polémico a quem os Serviços de Segurança também tinham sob mira. Não, não estava nada a ameaçar‑me, pelo contrário, ele era meu amigo, melhor dizendo, meu admirador incondicional. Tinha revisto os guiões de Bolero, onde figuravam entre tantas outras coisas, pormenores contundentes sobre a guerrilha e aquela infeliz fuga dos presos da Penitenciária de Santa Maria. ‑ Deve‑me uma explicação, Eva.

Estive quase a encolher os joelhos sobre a poltrona e a meter a cara entre os braços, mas fiquei quieta, a olhar o desenho do tapete com uma atenção exagerada, sem encontrar no meu vasto arquivo de fantasias nada adequado para responder. A mão do General Tolomeo Rodriguez tocou‑me apenas no ombro, não tinha nada a recear, já mo tinha dito, e mais, não ia interferir no meu trabalho, podia continuar com o meu folhetim, inclusivamente não tinha nada contra esse Coronel do capítulo cento e oito, tão parecido com ele, tinha desatado a rir ao lê‑lo, e a personagem não estava mal, acabara por ser bastante decente, mas isso sim, muito cuidado com a honra sagrada das Forças Armadas, com isso não se brinca. Tinha só uma observação a fazer, tal como lhe tinha dito o Director da Televisão Nacional numa entrevista recente, eu teria de modificar aquela palhaçada das armas fingidas, e evitar toda e qualquer menção ao prostíbulo de Água Santa, que não só metia a ridículo os guardas e funcionários do presídio mas que acabava por ser totalmente inverosímil. Ao ordenar esta alteração estava a fazer‑me um favor, sem dúvida a série ganharia muito se eu acrescentasse uns quantos mortos e feridos de ambos os lados, o público iria gostar e assim evitava‑se essa chalaça inadmissível em assuntos de tanta gravidade.

‑ O que o senhor propõe seria mais dramático, mas a verdade é que os guerrilheiros escaparam sem violência, General.

‑ Vejo que você está melhor informada do que eu. Não vamos discutir segredos militares, Eva. Espero que não me obrigue a tomar medidas, siga a minha sugestão. Deixe‑me dizer‑lhe a propósito, que admiro o seu trabalho. Como o faz? Como escreve, quero eu dizer.

‑ Faço o que posso... A realidade é um enredo, nunca chegamos a medi‑la ou a decifrá‑la, porque tudo acontece ao mesmo tempo. Enquanto você e eu estamos aqui, nas suas costas Cristóvão Colombo está a inventar a América e esses mesmos índios que o recebem no vidro da janela, estão ainda nus na selva, a poucas horas deste escritório e continuarão a estar assim durante cem anos. Eu faço por abrir caminho neste labirinto, por pôr um pouco de ordem em tanto caos, por tornar a existência mais tolerável. Quando escrevo conto a vida como eu gostava que ela fosse.

‑ De onde tira as ideias?

‑ Das coisas que se passam e de outras que se passaram antes de eu nascer, dos jornais, do que dizem as pessoas.

‑ E dos filmes desse Rolf Carlé, suponho.

‑ O senhor não me chamou para me falar de Bolero, General, diga‑me então o que pretende de mim.

‑ Tem razão, o folhetim já foi discutido com o senhor Aravena. Chamei‑a porque a guerrilha está derrotada. O Presidente tem a intenção de acabar com esta luta tão daninha para a democracia e tão dispendiosa para o país. Vai anunciar um plano de pacificação e dará amnistia aos guerrilheiros que depuserem as armas e estejam dispostos a acatar as leis e a incorporar‑se na sociedade. Posso adiantar alguma coisa mais, o Presidente pensa legalizar o Partido Comunista. Não estou de acordo com esta medida, devo dizê‑lo, mas a minha função não é fazer objecções ao Poder Executivo. Isso é verdade, digo‑lhe que as Forças Armadas nunca permitirão que interesses estrangeiros semeiem ideias perniciosas no seio do povo. Defenderemos com as nossas vidas os ideais dos fundadores da Pátria. Resumindo, Eva, estamos a fazer uma oferta única à guerrilha. Os seus amigos poderão voltar à normalidade ‑ concluiu ele.

‑ Os meus amigos?

‑ Refiro‑me ao Comandante Rogelio. Julgo que a maioria dos seus homens aceitará a amnistia se ele o fizer, por isso quero explicar‑lhe que esta é uma saída honrosa, a sua única oportunidade, não lhe darei outra. Preciso que alguém da sua confiança nos ponha em contacto e essa pessoa pode ser você.

Olhei‑o nos olhos pela primeira vez durante a entrevista e mantive‑me sem pestanejar, convencida de que o General Tolomeo Rodriguez tinha perdido o juízo se pretendia que levasse o meu próprio irmão a uma ratoeira, caramba, as voltas que o destino dá, ainda não há muito tempo Huberto Naranjo pediu‑me que fizesse o mesmo contigo, pensei.

‑ Vejo que não confia em mim... ‑ murmurou sem desviar o olhar.

‑ Não sei de que está a falar.

‑ Por favor, Eva, mereço ao menos que não me substime. Conheço a sua amizade com o Comandante Rogelio.

‑ Então não me peça isso.

‑ Se lhe peço é porque é um contrato justo, a eles pode‑lhes salvar a vida e a mim poupa‑me tempo, mas compreendo as suas dúvidas. Na sexta‑feira o Presidente anunciará estas medidas ao país, espero que então acredite em mim e esteja disposta a colaborar para o bem de todos, especialmente desses terroristas, que não têm outra alternativa senão a pacificação ou a morte.

‑ São guerrilheiros, não são terroristas, General.

‑ Chame‑lhes o que quiser, isso não muda o facto de se encontrarem fora da lei e eu tenho todos os meios para os destruir, em troca estou a lançar‑lhes um salva‑vidas.

Aceitei pensar no assunto, calculando que isso me desse um prazo. Por um instante passou‑me pela cabeça a recordação de Mimi a estudar a posição dos planetas no firmamento e a decifrar cabalas nas cartas para prever o futuro de Huberto Naranjo: eu sempre disse isso, esse rapaz vai acabar magnata ou bandido. Não pude evitar um sorriso porque talvez a astrologia e a quiromância se enganassem de novo. Imediatamente tive a fugaz imagem do Comandante Rogelio no Congresso da República numa poltrona de veludo a travar as mesmas batalhas que agora efectuava na montanha com uma espingarda. O General Tolomeo Rodríguez acompanhou‑me até à porta e ao despedir‑se reteve‑me a mão entre as suas.

‑ Enganei‑me consigo, Eva. Durante meses desejei impacientemente o seu telefonema mas sou muito orgulhoso e mantenho sempre a palavra dada. Disse que não ia pressioná‑la e não o fiz, mas agora estou arrependido.

‑ Refere‑se a Rolf Carlé?

‑ Suponho que isso é passageiro.

‑ E eu espero que seja para sempre.

‑ Nada é para sempre, minha filha, só a morte.

‑ Também faço por viver a vida como eu gostaria que fosse... como uma novela.

‑ Então não devo ter esperança?

‑ Receio que não, mas de qualquer modo muito obrigada pela sua galantaria, General Rodríguez. - E pondo‑me nas pontas dos pés para alcançar a sua figura marcial, dei‑lhe um beijo rápido na face.

 

Tal como diagnostiquei, Rolf Carlé é de reacções lentas em alguns assuntos. Este homem, tão veloz quando se trata de captar uma imagem com a câmara acaba por ser bastante desajeitado face às suas próprias emoções. Nos seus trinta e tantos anos de vida tinha aprendido a viver só e estava empenhado em defender os seus hábitos, apesar dos sermões que a tia Burgel lhe impingia, a exaltar as virtudes domésticas. Talvez por essa razão tenha levado tanto tempo a perceber que qualquer coisa tinha mudado quando me ouviu contar uma história, sentada aos seus pés entre coxins de seda.

Depois da fuga de Santa Maria, Rolf deixou‑me na casa dos seus tios na Colónia e regressou nessa mesma noite à capital, porque não podia ausentar‑se da barafunda que se armou em todo o país quando as rádios da guerrilha começaram a difundir as vozes dos fugitivos lançando palavras de ordem revolucionárias e troçando das autoridades. Exausto, mal‑dormido, esfomeado, passou os quatro dias seguintes a entrevistar todas as pessoas relacionadas com o caso, desde a matrona do prostíbulo de Água Santa e o director deposto do presídio, até ao Comandante Rogelio em pessoa, que conseguiu aparecer vinte segundos nos ecrãs de televisão, com uma estrela na sua boina preta e a cara coberta por um lenço, antes que a transmissão fosse cortada por falhas técnicas, como se disse.

Na quinta‑feira convocaram Aravena à Presidência onde lhe recomendaram taxativamente que controlasse a sua equipa de repórteres se quisesse permanecer no seu posto. Esse Carlé não é estrangeiro? Não, Excelência, adquiriu a nacionalidade, veja os seus documentos. Mesmo assim, de qualquer modo avise‑o de que não interfira nos assuntos de segurança interna, porque poderia vir a lamentá‑lo. O director chamou o seu protegido ao escritório, fechou‑se com ele durante cinco minutos e o resultado foi que nesse mesmo dia Rolf voltou à Colónia com instruções precisas de ali ficar, retirado da circulação até que se dissipassem os zunzuns em torno do seu nome.

Entrou na ampla casa de madeira, onde ainda não tinham chegado os turistas de fim‑de‑semana, saudando aos gritos, como sempre fazia, mas sem dar ocasião à tia de lhe meter na boca a primeira ração de pastel nem aos cães de o lamberem dos pés à cabeça. Saiu logo a seguir para me ir procurar porque há várias semanas um fantasma de combinação amarela o molestava em sonhos, tentando‑o, escapulindo‑se, queimando‑o, elevando‑o à glória momentos antes do nascer do sol quando conseguia abraçá‑lo depois de várias horas de veemente perseguição, e afundando‑o na indignação ao despertar só, a suar, chamando. Já era tempo de dar um nome a esta perturbação ridícula. Encontrou‑me sentada debaixo de um eucalipto aparentemente a escrever o meu folhetim, mas na realidade a olhar na sua direcção pelo rabinho do olho. Tentei que a brisa fizesse ondear o tecido do meu vestido e que o sol da tarde me desse um aspecto de sossego, muito diferente da fêmea giutona que o atormentava de noite. Senti que me observava de longe durante alguns minutos. Suponho que finalmente decidiu que já bastava de rodeios, e dispôs‑se a expor‑me os seus pontos de vista com a maior clareza, dentro das normas de educação que lhe eram habituais. Aproximou‑se a passos largos e começou a beijar‑me tal como acontece nas novelas românticas, tal como eu esperava que o fizesse há um século, e tal como eu acabara de descrever momentos antes, no encontro dos meus protagonistas em Bolero. Aproveitei a proximidade para o cheirar disfarçadamente, identificando assim o odor do meu par. Compreendi nesse momento porque razão desde a primeira vez julguei tê‑lo conhecido antes. No fim de contas, tudo se reduzia ao facto elementar de ter encontrado o meu homem, depois de tanto andar à sua procura por todo o lado. Parece que ele teve a mesma sensação e possivelmente chegou a uma conclusão semelhante, ainda que com algumas reservas, tendo em conta o seu temperamento racional. Continuámos a acariciar‑nos e a sussurrar essas palavras que só os novos amantes se atrevem a pronunciar porque ainda estão imunes aos preconceitos do ridículo.

Depois de nos beijarmos sob o eucalipto, o sol pôs‑se, começou a escurecer e a temperatura baixou subitamente, como sempre acontece à noite nas montanhas. Então partimos a levitar para dar a boa‑nova do nosso amor recém‑inaugurado. Rupert foi de imediato avisar as filhas e à adega buscar as suas garrafas de vinho velho, enquanto Burgel, emocionada até ao ponto de começar a cantar na sua língua materna, começava a cortar e a temperar os ingredientes do guisado afrodisíaco e no pátio se armava uma bulha entre os cães, que foram os primeiros a perceber as nossas vibrações radiantes. Puseram a mesa para uma comesaina magnífica, com a louça de festa, enquanto os fabricantes de velas intimamente tranquilizados, brindavam à felicidade do antigo rival, e as duas primas a cochichar e a rir, iam afofar o edredão e pôr flores frescas no melhor quarto de hóspedes, o mesmo onde anos antes tinham improvisado as suas primeiras lições sensuais. Quando o jantar em familia acabou, Rolf e eu retirámo‑nos para o quarto que nos tinham preparado. Entrámos num quarto amplo, com uma lareira acesa com lenhos de espinheiro e uma cama alta, coberta com o edredão mais arejado do mundo e por um mosquiteiro que pendia do tecto, branco como um véu de noiva. Naquela noite e em todas as que se lhe seguiram, retouçámos com um ardor interminável até que as madeiras da casa adquiriram o brilho refulgente do ouro.

E depois amámo‑nos simplesmente durante um tempo prudente, até que o amor se foi desgastando e se desfez em fiapos. Ou talvez as coisas não se tivessem passado assim. Talvez tenhamos tido a sorte de encontrar um amor excepcional e eu não tivesse necessidade de o inventar, mas apenas vesti‑lo de gala para que perdurasse na memória, de acordo com o princípio de que é possível construir a realidade à medida das próprias apetências. Exagerei um pouco, dizendo por exemplo que a nossa lua‑de‑mel foi excessiva, que se alterou o espírito daquela aldeia de opereta e a ordem da natureza, as ruelas estremeceram com suspiros, as pombas nidificaram nos relógios de cuco, as amendoeiras do cemitério floresceram numa noite e as cadelas do tio Rupert entraram em cio antes da época. Escrevi que, durante aquelas abençoadas semanas, o tempo alongou, envolveu‑se em si mesmo, revolteou como um lenço de mágico e fez com que Rolf Carlé ‑ com a solenidade transformada em pó e nas nuvens ‑ esconjurasse os seus pesadelos e tornasse a cantar as canções da sua adolescência e com que eu bailasse a dança do ventre aprendida na cozinha de Riad Halabi e contasse entre risos e goles de vinho, muitos contos, incluindo alguns com final feliz.

 

                                                                                Isabel Alende  

 

                      

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