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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


PAIXÃO MORTAL / Anne Stuart
PAIXÃO MORTAL / Anne Stuart

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

PAIXÃO MORTAL

 

            Depois da misteriosa morte de seu pai, Annie Sutherland tenta procurar respostas com James McKinley, antigo membro da CIA. O que a jovem desconhece é que o homem a que recorre está longe de ser um aborrecido burocrata. Ao contrário. Trata-se de um duro e perigoso fugitivo com uma missão: matá-la.

            Juntos, embarcam em uma arriscada busca da verdade que os levará através de um mundo cheio de sombras ocultas e horror. E em meio a todo esse caos, surge uma escura e incontrolável paixão, que fará com que James tenha que escolher entre a morte de Annie… ou seu amor.

            Provavelmente, o amor que sentia por ela era a maior armadilha de todas…

 

 

            Ela não se dava conta de que se encontrava mais perto da morte do que o tinha estado nunca. Parou junto à porta da desmantelada cabana, com a roupa de algodão branco enrugada pela longa viajem. Em outros tempos, essa mão levantada que acabava de chamar a sua porta teria levado uma luva branca imaculada e um chapéu cobriria os cabelos macios.

            Ele estava escondido entre as sombras, vigiando-a. Ele havia escolhido esse lugar, essa pequena ilha na costa do golfo do México, por uma razão: ninguém podia aproximar-se sem que ele o ouvisse quilômetros antes. Não havia possibilidade de chegar até ali pela praia de rochas, e o estreito caminho que atravessava a espessa vegetação não conduzia a nenhuma outra parte.

            Ele estava deitado em sua rede, bebendo uma garrafa de tequila, quando tinha ouvido o táxi que se aproximava. O velho Buick do Matt era inconfundível para um homem de sua experiência, por muito bêbado que estivesse. Era estranho que alguém tentasse aproximar-se dele em um táxi, pensou entrando silenciosa e rapidamente dentro da casa. Apenas agarrou uma pistola. Com uma seria suficiente.

            A princípio não reconheceu a esbelta figura vestida de branco que tinha saído do táxi do Matt com uma mala. Perguntou-se que tipo de armas levaria exatamente ali dentro, e como as tinha arrumado para passá-las através do surpreendente rigoroso controle da ilha.

            Devia levar algo mais, mas pelo que podia observar, nesse corpo tão magro não havia espaço para nada, a não ser que fosse uma arma minúscula. Poderia levar uma faca presa à coxa, mas não tinha o aspecto de alguém que era perito em facas, e seu instinto, aperfeiçoado com o passar do tempo, era infalível.

            O táxi partiu e ficaram sozinhos na clareira do bosque. A noite já tinha caído, chegava logo em outubro, e a lua estava começando a surgir, alagando o lugar com sua luz prateada.

            À luz do luar, sangue fresco parece preto.

            Ele ficou entre as árvores, quieto, relaxado, mas alerta. Podia acabar com ela em questão de segundos. Para isso o tinham treinado isso era o que fazia melhor. Podia lhe transpassar o cérebro com uma bala, justo por detrás da orelha, calculando a distância rapidamente, e fazer-lhe a cabeça explodir.             Ou poderia situar-se detrás dela sem que o ouvisse. Embora tivesse a mesma formação que ele, não podia ser tão boa. Ninguém o era.

            E a mulher era muito jovem. Embora fosse inteligente, não contava com todos seus anos de experiência.

            Perguntou-se por que duvidava. Não havia razão alguma para que alguém fizesse todo esse esforço por encontrá-lo, exceto para matá-lo. E sua regra de ouro consistia em acabar com os bastardos antes que estes acabassem com ele.

            Eles haviam tentado uma vez, mas pensei que haviam desistido. Era óbvio que não.

            Levantou a pistola. Não queria lhe pôr as mãos em cima: tinha passado muito tempo desde que tinha estado com uma mulher e não era dos que mesclavam o sexo com os assassinatos. Uma das questões era uma necessidade básica que se podia ignorar se não vinha ao caso. A outra era seu trabalho.             A jovem subiu os maltratados degraus para a porta principal e ele notou que levava uns elegantes sapatos de salto alto. Nenhum assassino o procuraria com saltos.

            Baixou a pistola lentamente e esperou. Não tinha se dado conta de ter estado contendo a respiração. Ela bateu na porta e ele decifrou sua linguagem corporal à luz da lua. Estava nervosa. Não, mais que isso: estava aterrorizada.

            Assim a mulher tinha que saber quem e o que era. O que queria dele?

            A curiosidade era um luxo que não podia permitir-se. Tinha duas opções: matá-la ou fazer que partisse dali.

            Ele encarregou-se de que não houvesse nada suspeito na cabana em ruínas.    Seu contrabando de armas estava tão bem escondido que os melhores profissionais seriam incapazes de encontrá-lo. Podia ocultar-se na noite e esperar a que ela fosse embora.

            Estava começando a retroceder metendo a compacta Beretta pelo cinturão e sentindo a frieza do metal contra sua pele quente, quando ela virou a cabeça. Uma lembrança lhe atravessou a memória, como se lhe tivessem dado um murro no estômago. Sabia quem era.

            A filha do Win Sutherland. A única e querida filha de seu mentor, seu pai adotivo, a pessoa em quem confiava e a que tinha apreciado mais em toda sua vida. O homem que havia-lhe proporcionado uma nova vida e um começo do zero.

            E não tinha sabido o preço de todo aquilo até que já tinha sido muito tarde.

            Mas que fazia Annie ali? Não a tinha visto desde o funeral, e ele tinha mantido sua máscara protetora durante todo o tempo. A jovem estava passando tão mal que apenas se deu conta de que ele tinha permanecido a seu lado junto ao tumulo, mas a verdade é que sempre se assegurou de que ela não notasse sua existência. Era bom nisso, bom em ser como um camaleão. Era uma das razões pelas quais tinha conseguido sobreviver durante tanto tempo.

            Mas agora estava ali. E não sabia que demônios ia fazer com ela.

            Tinha sido uma estupidez ir, pensava Annie, esfregando as palmas das mãos suadas contra o tecido enrugado de sua saia. Tinha demorado mais de doze horas para chegar ali, estava esgotada e faminta, e sua cabeça doía.

            Mas o pior de tudo é que estava morta de medo.

            Não podia pensar por que se assustava com alguém como James McKinley. Conhecia-o toda a vida. Tinha sido um amigo da família, o confidente de seu pai, um homem agradável e educado que não representava uma ameaça para ninguém.

            Houve um momento que tinha parecido mais que isso, mas fazia tanto tempo que agora tão somente o via como um sonho adolescente que mal podia recordar.

            McKinley tinha tomado muito mal a morte de seu pai, quase tão mal quanto ela, e não era de sentir saudade. Sua morte não tinha nenhum sentido. Winston Sutherland não era desses homens que não calculam bem o álcool que é capaz de agüentar.            Tampouco era desses que quebram o pescoço ao cair pelas escadas de sua casa do Georgetown. E certamente não era dos homens que deixam que seja sua filha que encontre seu corpo na manhã seguinte, já rígido. Inclusive morto, controlava totalmente as circunstâncias que o rodeavam.

            Durante os seis últimos meses não tinha sido capaz de apagar essa imagem de sua mente. Ela penetrava nos pesadelos e não havia nada que pudesse fazer para que não ocorresse. Não podia ter bebido tanto. Não podia ter caído.

            Mas ele tinha feito. Segundo a autópsia, a polícia, as amáveis e capacitadas pessoas que tinham trabalhado com seu pai em seus diversos postos governamentais, não se tratava mais que de um trágico acidente. Tinha tido sorte de que lhe deixasse uma boa herança. E por acaso, não estaria interessada em vender essa casa em que seu pai havia falecido e começar assim uma nova vida?             Foi então, depois da primeira quebra de onda de dor e negação, quando começou a suspeitar que algo estava errado, quando começou a fazer perguntas. E também foi nesse instante quando começou a reconhecer as mentiras pela primeira vez.

            Nunca antes se deu conta de quão protegida tinha estado. Em seus vinte e sete anos de vida, não se tinha percebido do pouco que sabia da profissão de seu pai.      Burocrata chamava a si mesmo, rindo. O trabalho trocava segundo as diferentes administrações, mas essencialmente não era mais que um "funcionário pretensioso", assegurava-lhe ele. Os títulos mudavam, mas o trabalho seguia sendo o mesmo. Mas aparentemente seu posto não se manteve. Ninguém tinha ocupado o lugar de seu pai no Departamento de Estado, e seu pequeno escritório parecia ter desaparecido.     Quando por fim se recordou dos nomes de seus colegas de trabalho, deu-se conta de que tinham sido mandados aos mais remotos lugares do planeta, incluindo o que tinha estado mais perto do que ninguém, inclusive mais que sua própria filha: James McKinley.

            Se não fosse por Martin, nunca houvesse descoberto aonde tinha ido. James McKinley tinha sido o primeiro e o mais próximo de todos os protegidos de seu pai.      Alem disso, Annie não podia lembrar-se de nenhum momento de sua adolescência no qual McKinley não tivesse estado. Mas nos anos posteriores, outras pessoas tinham ido e vindo. Gostava de alguns, havia alguns inclusive aos que tinha querido. Seu ex-marido, Martin, era inteligente, charmoso e simpático, tudo o que ela pudesse desejar em um homem ou em um amante. Ainda não tinha conseguido entender por que não tinha funcionado, quando ambos tinham lutado por isso. Tinha havido outros amigos, como Alicia Bennett, que tinha morrido fazia alguns anos. Um número surpreendente de protegidos de Winston haviam falecido.

            A alguns os tinha desprezado, como ao Roger Carew, um homem pretensioso com aspecto de sapo que sempre parecia estar zombando dela. Carew foi afastado de seu pai, e se este ficou decepcionado, nunca havia dito.

            E depois estava James McKinley. Se para ela Martin era mais um irmão que um marido, McKinley era um enigma. Distante. Inalcançável. Educado e irreal.

            O homem que conhecia os segredos. Assim o tinha definido seu pai fazia uns anos. Se alguma vez ocorria algo, algo inexplicável podia ir a ele para encontrar a resposta, havia-lhe dito Win em uma estranha explosão de sinceridade.

            Tinha demorado meses em lembrar-se. Mas agora estava ali, depois de ter pesquisado com a ajuda relutante de Martin, em busca de respostas.

            Voltou a bater a porta. Não queria dizer em voz alta seu nome, já que nunca tinha estado segura de como dirigir-se a ele. Seu pai, às vezes, chamava-o Jamey, mas esse nome tinha sido uma brincadeira entre os dois. McKinley nunca poderia ter sido chamado de "Jamey". Esse nome era muito austero, muito remoto.             Martin e Carew o chamavam normalmente Mack. Annie não o chamava de maneira nenhuma.

            Tentou-o de novo. Estava escuro e havia dito ao taxista que se fosse, temerosa de que se pedisse que a esperasse, voltaria atrás.

            —Olá? —disse, evitando ainda utilizar seu nome—. Há alguém?

            —Logo atrás de você.

            Ela deu a volta imediatamente, golpeando o cotovelo com na porta. Não o tinha ouvido aproximar-se e sentiu por um instante que o pânico se apoderava dela, ao contemplar o rosto de um completo estranho à luz da lua.

            —O que faz aqui, Annie?

            Depois de tudo não era um completo estranho. Reconhecia essa voz, fria e distante, irritantemente tranqüila. Mas não conhecia o homem que se encontrava tão perto.

            Era da altura do McKinley, alto, mais de um metro oitenta. Mas ali acabavam todas suas semelhanças.

            Não se lembrava de ter cuidadoso desde tão perto ao McKinley quando tinha estado com seu pai, ao menos não desde anos atrás. Sabia que era alto, que não podia concretizar sua idade, que era um ser anônimo, que levava elegantes trajes escuros e que sua aparência tranqüila lhe causava irritação e uma vaga tranqüilidade ao mesmo tempo.

            Este homem não tinha nada que ver com essa lembrança. Seu cabelo devia lhe chegar aos ombros e o tinha preso atrás de maneira que deixava descoberto seu rosto sem barbear. Seus olhos eram escuros e levava umas calças curtas e uma camisa aberta sobre o peito. Não havia nada de educado em sua aparência. Ao contrário. Parecia rodeado de uma aura perigosamente selvagem e cheirava a álcool.

            —Jamey? —perguntou incrédula, utilizando instintivamente o nome com o que lhe chamava seu pai.

            Ele piscou como se lhe tivesse dado um murro. E depois deu a impressão de que se endireitava e que esse sentimento de perigo desaparecia.

            —Seu pai era ao único que permitia me chamar assim.

            Ela sorriu hesitantemente:

            —Win quase sempre as arrumava para sair-se com a sua.

            —Não sempre. O que faz aqui, Annie? E como me encontraste?

            —Martin me disse isso.

            A moça pôde perceber como os ombros lhe relaxavam um pouco. Uns ombros musculosos. Pensava que seria da idade de seu pai. Começou a rebaixar esse cálculo ao menos vinte anos.

            —Por quê? —perguntou ele de novo com voz brusca.

            —Quero averiguar o que realmente aconteceu com meu pai.

            Ele ficou olhando-a fixamente um momento.

            —Morreu Annie. Não se recorda? Bebeu muito, caiu pelas escadas de atrás e rompeu o maldito pescoço.

            —Não acredito.

            —Fizeram-lhe a autópsia. Estou seguro de que lhe deixarão lê-la, se tiver estômago para fazê-lo, claro...

            —Já a vi. E sigo sem acreditar nisso. Alguém mente. Alguém está tentando tampar algo.

            O silêncio se impôs durante um instante.

            —E você o que crê que aconteceu?

            —Eu acredito que o assassinaram — respondeu ela antes que pudesse arrepender-se.

            Estava escurecendo mais ainda, e pálidos raios da lua se filtravam a seu redor.            Seu rosto estava na penumbra e ela não podia distingui-lo claramente. Só o brilho de seus olhos escuros.

            —O que quer de mim?

            A jovem se surpreendeu de que ele não negasse a possibilidade de que suas suspeitas pudessem ser certas.

            —Você foi seu amigo — disse ela—. Não quer saber a verdade? Não quer se vingar?

            —A verdade é que não.

            A garota o olhou e a frustração lhe fez adotar um aspecto desalentado.

            —Pois eu sim. E se você não quer me ajudar, terei que me arrumar sozinha. Vou averiguar o que ocorreu a meu pai. Não vou deixar que continuem mentindo.

            O homem não se moveu. Pareceu de repente, sem saber por que, que estava em perigo. Em um grande perigo. Não se atrevia a olhar a suas costas. Se o fizesse, seria como admitir que estava assustada. Assim se manteve erguida, embora McKinley se encontrasse tão perto que podia cheirar o álcool em seu fôlego. Notava a tensão no ambiente, procedente de seu corpo tão surpreendentemente forte.

            E repentinamente, pareceu que se desvanecia.

            —De acordo — disse ele com voz fria, posando uma mão sob seu cotovelo no que devia ter sido um gesto educado—. Pode passar. Falaremos deste assunto.

            Ela fez um movimento brusco e depois ficou quieta.

            —Isso significa que vais ajudar?

            —Isso significa — continuou ele com sua voz rouca em que se percebia um ligeiro acento do leste do Texas—, que você vai me dizer tudo o que sabe tudo o que suspeita, e depois veremos o que se pode fazer.

            Abriu a porta de um empurrão e ela não teve outra opção senão entrar na cabana na escuridão diante dele. Uma vez mais, resistiu ao impulso de olhar por cima do ombro.

            Observou o interior enquanto McKinley acendia a luz. Estavam em uma pequena casa desordenada. Os móveis estavam puídos e quebrados, e os pratos se empilhavam sobre a mesa. Voltou-se a olhá-lo sob a débil luz.

            —Por que está vivendo aqui? —perguntou-lhe—. Não é seu estilo.

            Em sua boca se desenhou um débil sorriso, absolutamente tranqüilizadora.

            —Claro como você me conhece tão bem... Não, Annie?

            —Conheci-te durante quase toda minha vida — respondeu ela na defensiva.

            —Quantos anos tenho?

            Ela pestanejou.

            —Está bêbado.

            —Não te perguntei isso. E de fato — comentou, agarrando uma cadeira e sentando-se montado sobre ela enquanto se servia um copo de tequila—, ainda não estou o suficientemente bêbado. Não tenho feito mais que começar com minha ração noturna—. Encheu outro copo e o empurrou para a jovem sobre a mesa.

            —Não bebo.

            —Esta noite sim — repôs ele—. Quantos anos tenho?

            A moça agarrou o copo de tequila e lhe deu um pequeno sorvo. Odiava tequila, sempre tinha odiado.

            —Pensava que era mais jovem que meu pai — admitiu.

            —Seu pai tinha sessenta e três anos quando morreu.

            —Já sei — respondeu ela com irritação, bebendo um pouco mais.

            —Sente-se, Annie e me diga quantos anos tenho.

            —Não tantos como eu pensava.

            —Me diga, por que não crê que a morte de seu pai foi um acidente?

            —Diz-me isso meu instinto.

            —Deus — sussurrou ele—. Intuição feminina. Se isso for tudo, está-me fazendo perder tempo.

            —Meu instinto é excelente. Meu pai sempre dizia.

            —Sim — assentiu o homem, esvaziando de um gole seu copo—. Mas não é infalível.

            —Há algo mais.

            Não podia imaginar que tanta tensão coubesse em um lugar tão pequeno.

            —Que mais?

            —Na casa falta algo. Eu não havia percebido até há pouco tempo e tenho certeza que ele estava ali, pouco antes de morrer. Ele tinha ido na semana anterior e teve ...

            —O que havia Annie? De que demônios está falando?

            —Um quadro. Não o tinha desde fazia muito, mas sempre se encontrava junto a ele. Dizia que tinha um valor sentimental.

            —Seu pai não fora um homem muito sentimental. Como era o quadro?

            —Era de um santo irlandês estranho. Nunca entendi por que o tinha em um marco de prata, mas disse que continha os mistérios do universo.

            —Dizia isso? —perguntou ele arrastando as palavras—. E você crê que existe alguma conspiração homicida depois de uma antiga pintura de um santo?

            —Se não ocorresse nada estranho não teria por que ter desaparecido ao menos não na semana depois que morrera.

            —Tem lido muitas novelas de mistério, Annie. Um trágico acidente e um quadro de arte religiosa desaparecida não convertem o assunto em uma conspiração. —afastou-se dela, movendo-se com a deliberada elegância de alguém que tenta aparentar que está sóbrio.

            —Desde quando é um bêbado? —inquiriu a jovem de forma cortante—. Nunca tinha se comportado assim.

            —Desde dois de abril.

            A resposta ficou suspensa entre os dois. Esse era o dia em que seu pai tinha morrido.

            Então ela se aproximou, rodeou a mesa e se ajoelhou frente a ele, sem duvidar sequer.

            —Você o queria tanto como eu. Não podemos ignorar o que aconteceu. Alguém o matou, e temos que averiguar quem e por que. Se não me ajudar, farei-o eu mesma. Mas o fará, verdade?

            O homem lhe sorriu, e possivelmente queria que fosse um gesto tranqüilizador, mas a Annie não convenceu. Não o conhecia: tentava encontrar ao McKinley em vão, depois da barba de vários dias e o perigo, depois da tequila e sua surpreendente aparência. Tinha que estar ali, em alguma parte.

            —OH, ajudarei-te, Annie — lhe respondeu com suavidade—. Obterá as respostas a todas essas perguntas que lhe rondam a cabeça. Mas não estou seguro de que você goste.

            —Que eu goste ou não, não tem nada que ver com isto. Não vou deter-me até que não saiba tudo.

            Ele voltou o olhar com uma estranha expressão nos olhos.

            —Sei que não o fará — afirmou em voz baixa—. E o lamento.

            Ia ter que fazer algo com ela. Estava ajoelhada a seus pés, olhando-o, toda inocência e confiança. Um pouco mais jovem que seu pai? Por Deus, tinha trinta e nove anos. Estava claro que tinha feito seu trabalho muito bem.

            Annie tinha razão: tinha-a conhecido durante quase toda sua vida. Desde que ela tinha sete anos e ele tinha irrompido em sua vida como James McKinley, recém enviuvado e licenciado desde fazia pouco. Disposto a seguir ao Winston Sutherland aonde fosse e a fazer tudo o que lhe mandasse. Disposto a expirar os pecados que manchavam sua alma. Era uma vida que tinha levado durante mais de vinte anos. Converteu-se em sua segunda pele.

            Sabia exatamente o quanto era tenaz, obstinada e brilhante Annie Sutherland. Não o deixaria de qualquer jeito. Não até que se inteirasse da crua realidade de todos eles. Uma verdade que o próprio James não conhecia exatamente.

            Enquanto Win tinha estado vivo, tinha sido capaz de ocultar-lhe. Lhe davam muito bem essas coisas: era capaz de atar um montão de mentiras juntas de maneira que pudesse convencer ao mais perito. Com o Annie jogava com vantagem, claro. Ela o queria, confiava nele. Nunca lhe tivesse ocorrido desconfiar de seu pai, pensar que ele era outra coisa do que aparentava: um funcionário encantador, ligeiramente estirado.

            Mas Win já não estava ali para protegê-la. E ela tinha herdado sua inteligência, embora não a utilizasse para os mesmos fins que ele. Apenas uma questão de tempo antes que começasse a criar alguns inimigos perigosos.

            Isso não lhe incumbia, recordou a si mesmo. Ele já estava morto, assim, que mais dava se acrescentavam a Annie Sutherland a sua lista de vítimas?

            E a verdade é que não lhe importava absolutamente que se inteirasse de todo o pestilento assunto. Já tinha perdido todo interesse no que estava bem ou mau, em quem eram os maus e os bons. Tinha passado muito tempo de sua vida ocupando-se de justiceiro para outros. Já nada importava.

            Olhou a Annie. Provavelmente não tinha nem idéia de tudo o que estava passando por sua cabeça, de todo aquilo que nenhuma quantidade de tequila podia deter. Observou sua esbelta e delicada garganta e pensou quanta pressão precisaria exercer para romper-lhe Seria fácil, simples, apenas um movimento de punho e ela e suas perguntas já não representariam uma ameaça para ninguém.

            Não era uma mulher especialmente chamativa: Winston tinha se ocupado disso. Levava o comprido cabelo castanho claro arrumado de forma singela, sua roupa não era muito atrativa e a maquiagem resultava discreta. Se se arrumasse com mais cuidado seria uma mulher impressionante, mas Winston arrumava muito bem para manipular as pessoas. Tinha desejado uma filha que fora atrativa até certo ponto, inteligente e que se encontrasse fora de seu mundo. Uma beleza glamurosa teria chamado muito a atenção, assim que a perfeita figura do Annie Sutherland ficava oculta depois de um corte de cabelo descuidado e um estilo modesto, que era quase tão eficaz como a máscara protetora do McKinley, embora ele não fosse consciente disso.

            Olhou-a e se perguntou como reagiria ela se lhe colocasse a mão por detrás da cabeça e empurrasse sua boca para o zíper de sua calça.

            Provavelmente nem sequer saberia o que fazer, pensou amargamente. Win tinha afugentado a todos seus noivos, exceto aos mais inofensivos. Só tinha permitido que se aproximasse dela seu eleito, Martin. Nunca tinha sabido se Win tinha destruído seu matrimônio ou se simplesmente tinha chegado a seu fim por qualquer outra causa.           Disse a si mesmo que nunca tinha importado.

            Ao final, James não a tocou, porque não estava seguro do que teria feito. Não havia nenhuma pressa. Ninguém podia aproximar-se dali sem que ele soubesse, e no momento não lhes tinha dado muito bem sua caça e captura. Que Annie estivesse ali punha as coisas mais difíceis, é obvio, mas o certo é que tinham permitido que chegasse. A não ser que Martin tivesse sido capaz de ocultá-lo, mas estaria louco se contasse com isso.

            —Por que não pediu ajuda a seu ex-marido? —perguntou-lhe repentinamente. Ou lhe negou isso?

            —Não quero a ajuda do Martin. Quero a tua.

            As palavras ficaram suspensas entre eles. Observou surpreso, em sua embriaguez, que uma ligeira capa de cor cobria suas bochechas. Estava ruborizando-se.

            —Annie — propôs, sentindo-se débil subitamente—, Vai para a cama.

Ela olhou a seu redor:

            —Onde?

            —Há uma cama la em acima. Utiliza-a você. Bebi muito esta noite para poder me ocupar de você. Falaremos de tudo isto manhã.

            —Quer dizer que vai me ajudar?

            Ele se levantou, agarrou-a pelo braço e a fez sentar-se. Era magra, tinha o traje branco enrugado, mas ainda podia cheirar nela um ligeiro e sexy aroma. Não o tipo de perfume que ele tivesse escolhido para ela.

            —Possivelmente — respondeu—. No momento, faz o favor de mover o traseiro e desaparecer de minha vista.

            Então lhe sorriu. Deus tinha esquecido seu sorriso. Tinha passado muito tempo desde que o tinha visto, e alias mais desde que o tinha dirigido a ele. Continuava sendo igual e poderoso.

            —Sabia que não me decepcionaria — disse Annie. Inclinando-se e o abraçou. Foi um abraço sem nenhum apelo sexual, e se afastou antes que ele pudesse agir em um impulso de sua bebedeira.

            —Eu não disse que...

            —Até manhã. —apressou-se a interrompê-lo escapando pelas estreitas escadas. Sem ter nem idéia de por que estava escapando.

            Era uma casa muito pequena. A sala da parte de acima não era mais que um loft. Tampouco havia porta em seu dormitório.

            Nas profundezas de seu coração, James sabia o que ia ter que fazer, e que toda a tequila do mundo não poderia mudar as coisas.

            Ou convencia à aguda e inteligente Annie Sutherland de que seu pai não era mais que um burocrata incapaz de matar uma mosca, que tinha tido a desgraça de falecer em um estúpido acidente... Ou teria que acabar com ela ele mesmo.

 

            A luz da lua se refletia na janela do escritório. Era tarde, muito tarde no Langley, Virginia e o edifício estava relativamente tranqüilo.

            —Temos um problema, senhor.

            —Define-o.

            —Trata-se do McKinley, senhor.

            —Isso não é nada novo. Sabíamos que teríamos que nos ocupar dele cedo ou tarde. Escondeu-se nessa ratoeira do México, mas não vai à parte alguma sem que nós saibamos. Também sabemos que será muito difícil de apanhar se nos decidimos ir buscá-lo. Que pressa há?

            —Não está sozinho, senhor.

            —Maldito seja. Deveria ter sabido. Um homem com a capacidade do Mack pode vender-se a melhor oferta. Sempre se necessita gente com seu talento. De quem se trata? Os iraquianos? O IRA? As Brigadas Vermelhas?

            —Muito pior, senhor. Annie Sutherland.

            Houve uma pausa intencionada.

            —Então, teremos que agir sobre o assunto. Estivemos brincando de esperar, e chegou o momento de agir. Tem os homens apropriados para o assunto?

            —Pensei que poderia me ocupar sozinho, senhor.

            —De maneira nenhuma. Mack é muito para você, e além do mais, esta não é sua especialidade. Manda uma equipe com os melhores. Não podemos permitir enganos neste caso. É uma maldita máquina de matar. Já é bastante mau que tenhamos tido que perdê-lo. Não quero nenhuma outra baixa se podemos evitá-lo.

            —Sim, senhor. E sobre a filha do Sutherland?

            —Qual é o problema? Sabe tão bem como eu que não há lugar para fios soltos, nem para testemunhas ou perguntas. Sua gente sabe como lidar com estas coisas.

            Sim, senhor. Quando?

            —Quanto tempo esta lá?

            —Minhas fontes me informaram que chegou à ilha hoje à tarde, e a sua casa ao anoitecer.

            —Está seguro de que ele não resolveu já a metade do problema? O último homem que mandamos acabou morto. Não é o tipo de pessoa que espere e pergunte antes de agir. Possivelmente o cadáver do Annie Sutherland já esteja flutuando no mar.

            —Não, senhor. O condutor do táxi esteve a nossas ordens durante meses. Diz que McKinley a deixou entrar.

            —Maldita seja.

            —Sim, senhor.

            —Quanto demorará para reunir à equipe? Gente em que se possa confiar, sem sentimentos para um antigo colega?

            —Dois ou três dias. Quando muito quatro.

            —Quero que isto acabe amanhã de noite. Não podemos permitir que nos arruíne, filho. Sua pele e a minha dependem disso. Você percebe né?

            —Sim, senhor. Cuidarei do assunto.

            —Para amanhã?

            —Para amanhã.

            —Bem — disse o General, reclinando-se em sua cadeira. Brindemos a isso.

 

            Annie estava deitada sobre a estreita cama sem poder dormir, inquieta, escutando os sons procedentes da parte de baixo. Tinha sido uma estúpida ao ir, sabia. Mas já estava dizendo-se a si mesma isso fazia três dias, desde que tinha decidido ir pedir ajuda a James McKinley.

            Averiguar o ocorrido não ia devolver o seu pai. Nada o faria, e sua absurda cruzada não era provavelmente nada mais que um caso extremo de negação. E o que se o acidente parecia absurdo ou estranho? As maiorias dos acidentes eram assim.

            Tinha passado pelos primeiros estágios do luto. A raiva, a negação sem medida, a dor surda. Tinham passado mais de seis meses até que tinha podido voltar a si e seguir com sua vida.

            Tinha uma vida agradável e cheia de satisfações. Contava com boa saúde, era jovem e atrativa até certo ponto. Embora seu curto matrimônio não tenha funcionado, o divórcio tinha sido amistoso e civilizado, e Martin e ela seguiam sendo amigos. Embora seus relacionamentos seguintes não tenham dado exatamente o que tivesse desejado, tinham sido agradáveis, satisfatórios, e não tinham causado dores de cabeça.

            Tinha amigos, bons amigos e um trabalho que adorava: orientadora no mesmo exclusivo centro aonde tinha estudado. Voltou de novo à casa do Georgetown, cheia de lembranças, é obvio, mas se tratava de boas lembranças em geral. E tinha suficiente dinheiro para permitir-se algum luxo de vez em quando. Mais que isso, de fato. Nunca tinha se dado conta de quanto dinheiro tinha seu pai até que o tinha herdado.

            A única coisa que faltava a essa vida tão cômoda era o amor. Não havia modo de fazer seu pai voltar à vida. Possivelmente deveria comprar um cachorrinho, em vez de embarcar-se em uma cruzada daquele tipo. Possivelmente deveria casar-se de novo.

            Durante os três últimos dias, ir ali lhe tinha parecido o mais lógico. Tudo que podia fazer: procurar o homem que conhecia as respostas. Sempre tinha pensado que chamar assim ao McKinley tinha sido absurdamente melodramático por parte de seu pai. Winston Sutherland sempre tinha dramatizado um pouco, inclusive romantizado as coisas de algum jeito, mas isso simplesmente tinha feito que sua filha o quisesse ainda mais.

            Agora não estava segura de que seu pai exagerasse absolutamente. O James McKinley que ela recordava era um homem de negócios sóbrio, cujas únicas respostas tinham que ver com contratos governamentais e coisas parecidas.

            Mas a pessoa com a que se encontrou essa noite era outra coisa.

            Tinha esperado encontrá-lo sentado com um de seus trajes cinza cor piçarra, bebendo café e com aspecto paternal, e que então se daria conta de quão estúpida tinha sido ao começar a imaginar conspirações, assassinatos e álibis.

            Mas a criatura perigosa a que tinha deixado na cozinha da pequena casa a tinha alarmado. Tinha pensado em abordar o assunto da morte do Win de forma gradual, inclusive casual. Em troca, expressou suas dúvidas frente a um estranho que tinha conhecido durante toda sua vida.

            Não deveria ter vindo, sabia. Enquanto dava voltas de um lado a outro da cama, deu-se conta de que a primeira coisa que tinha que fazer na manhã seguinte era desculpar-se e partir.

            Se é que era o suficientemente sensata.

 

            Não sabia que ele a estava observando. James não era do tipo de homens que cometiam enganos, e aquela noite não ia ser uma exceção apesar da quantidade de tequila que tinha ingerido, apesar da surpresa que sua aparição lhe tinha causado.

            Annie estava deitada na estreita cama de ferro, com seus cabelos espalhados pelos ombros. Levava uma espécie de Top que deixava descoberto seus compridos e bronzeados braços, e o lençol lhe tinha enrolado nas pernas. Tinha demorado bastante em dormir e ele ficou enquanto isso embaixo, bebendo tequila e escutando o som de sua respiração. Escutando o batimento do seu coração.

            E então tinha subido pelas estreitas escadas para observá-la enquanto dormia. Se não tivesse bêbado, não teria tocado os seus cabelos, afastando-os de seu bronzeado pescoço. Pareciam de seda, deslizavam entre seus dedos enquanto deixava descoberta à garganta. Voltou a olhá-la fixamente, sabendo que seria fácil exercer a pressão adequada nela. Morreria muito rapidamente.

            Retrocedeu, tremendo. Maldito seja, estava ficando velho para aquilo. Tinha bebido muito, tinha muito no que pensar. Matar alguém não era algo que se pudesse debater. Ou se fazia seguindo ordens ou por instinto.

            Mas já não seguia ordens de ninguém, e seu instinto, ao menos no que se referia a Annie Sutherland, atrofiou-se. Teve que recordar a si mesmo a tarefa que lhe correspondia. Embora seu cérebro não funcionasse corretamente, fez por pura rotina.

            Pegou sua bolsa sem emitir nenhum ruído, metodicamente. A jovem gostava da roupa intima de seda e algodão. Nem muito vulgar, nem muito simples. A metade de caminho, conservadora. Como Win a tinha criado.

            O mesmo passava com sua roupa. Clássica, tradicional e politicamente correta. Perguntou-se que classe de idéias políticas lhe teria inculcado Win.

            Não havia nem rastro de armas, o que não lhe surpreendeu. Tinha chegado já à conclusão de que Annie Sutherland era exatamente o que aparentava ser.

            Tinha levado consigo vitaminas suficientes para abastecer uma loja de produtos naturais. Também calmantes e remédios para dormir, ambos com suas receitas. E uma caixa de camisinhas. Perguntou-se sem muita vontade com quem planejava deitar-se.

Duvidava que fosse com ele.

            Agarrou sua bolsa e a levou ao andar de abaixo, esvaziando-a sobre a desordenada mesa da cozinha. Servi-se de outro copo de tequila enquanto se sentava para continuar procurando.

            Cheques de viagem no valor de dez mil dólares: uma quantidade bastante respeitável para ter viajado de improviso. Mas a verdade é que Win lhe tinha deixado uma herança das mais obscenas. Obscena considerando de onde procedia o dinheiro. Cartões de crédito, maquiagem, dinheiro solto. E um par de cartas.

            Reconheceu a letra de ambas. Abriu primeiro a do Martin. Martin Paulsen era o mais parecido que tinha tido de um amigo, o que não era dizer muito, a verdade seja dita. Leu a carta dirigida a Annie rapidamente, captando os detalhes com a velocidade do raio, sem ver-se afetado pela quantidade de álcool que tinha consumido. Parece que se deitou com Martin, seu ex-marido não fazia muito tempo. O seu casamento terminou, embora possivelmente pudesse voltar a tentar. E Martin não suspeitava nada de estranho a respeito da morte de seu pai. O mais importante de tudo é que não pensava que McKinley tivesse nada que contribuir.

            Um homem inteligente pensou um tanto agradecido. Por desgraça, Annie não tinha escutado seus bons conselhos. E ambos iam viver para lamentar. Embora provavelmente não por muito tempo, em nenhum dos dois casos.

            Estava evitando a outra carta. Conhecia a letra do Win tão bem como a sua própria e não queria lê-la. Agarrou-a, em repentino ataque de suscetibilidade, e jogou uma olhada à data: 28 de março. Cinco dias antes de sua morte.

            Então já devia saber que era homem morto. O que é que havia dito exatamente a Annie para lhe fazer vir procurá-lo? Tinha adivinhado a verdade, inclusive adiantado? Winston Sutherland tinha percebido esse tipo de coisas de uma maneira quase sobrenatural. Possivelmente tinha sabido quando e por que. Inclusive possivelmente tivesse sabido também quem.

            Alisou a enrugada carta durante um instante. Depois a abriu e a leu.

            A primeira vista não havia nada suspeito nela. Só conselhos paternais escondidos depois da elegância ligeiramente zombadora do Win. Não soava necessariamente como alguém que estivesse despedindo-se.

            Mas estava. Win tinha sido informado de que o tinham desmascarado. Sua segunda e lucrativa identidade tinha sido descoberta e se ditou a sentença.

            James cerrou os olhos.

            Estou desejando ver à bênção irlandesa que está bordando, querida Annie, dizia a carta. Quando a tiver frente a mim, pensarei em ti e no Jamey. É um bom homem. Se alguma vez necessitar ajuda, e eu não estiver não tenha duvidas em procurá-lo.

            Teve que se conter para não amassar o papel formando uma bola. Dobrou-o com cuidado e voltou a colocar dentro do envelope.

            E depois agarrou de novo a garrafa de tequila.

            Quando Annie despertou, encontrou-se desorientada. A cama afundava, tinha os lençóis enrolados nas pernas, e cheirava a bacon frito misturado com um forte aroma a café. Alguém cantarolava em voz alta à distância.

            Sentia-se esgotada, confusa, com ressaca. Arrastou-se para fora da cama, revolveu sem prestar atenção em sua mala e tirou um pouco de roupa. Quando chegou ao pé das escadas, ficou parada no lugar, sem poder acreditar no que viam seus olhos.

            A pequena sala estava diferente. Os pratos sujos que no dia anterior tinham ocupado todo o espaço livre tinham desaparecido; também as pilhas de jornais e livros, assim como a desordem.

            Tampouco estava la o estranho. McKinley se encontrava junto ao fogão da cozinha, removendo o bacon e bebendo uma xícara de café.

            Tomou banho, barbeou-se e tinha de novo um aspecto formidável. Desta vez não trajava cinza e ainda tinha o cabelo comprido, mas estava úmido da ducha e penteado para trás, e sua roupa era de uma elegante cor cáqui.

            —Já está aqui, preguiçosa — recebeu ele com tom afável e seu ligeiro acento texano—. Pensava que não fosse se levantar o dia todo.

            Durante um momento, ela ficou quieta, olhando-o. De algum jeito, este James McKinley, de novo familiar, era ainda mais surpreendente.

            —Quer café? —continuou ele sorrindo abertamente.

            —Sim — respondeu ela depois de um instante.

            —Sente-se. O café da manhã estará pronto em um segundo. O dia não pode começar bem sem um café da manhã adequado — disse ele, lhe dando as costas e assobiando de novo.

            A jovem não falou até que bebeu ao menos meia xícara de café amargo. Esperou que ele estivesse sentado frente a ela, pondo pratos carregados de colesterol entre ambos.

            —O que está acontecendo, James?

            Não a olhou nos olhos, simplesmente seguiu com seu café da manhã.

            —Temo que me pegou em um mau momento ontem de noite, Annie. Provavelmente não sabe, mas tenho um problema com o álcool — mentiu—. Sou muito bom ocultando-o, mas às vezes não é fácil. Você apareceu justo quando estava me recuperando de uma ressaca.

            A jovem o olhou fixamente.

            —Sinto muito. Não tinha nem idéia.

            —Não, como te disse sou muito bom em ocultar os efeitos — comentou ele voltando ao assunto—provei de tudo durante os últimos vinte anos, e pensava que o tinha sob controle, mas a morte do Win me afetou muito.

            —Faz vinte anos que é alcoólatra? —perguntou ela, desconfiando subitamente.

            —Pode-se dizer que sim — respondeu James—. Seu pai tentou me ajudar. Era um bom homem, Annie. O melhor que conheci. Mas não há nada que possamos fazer para ressuscitá-lo.

            A jovem o observou, pestanejando um instante, perguntando-se o que era o que via. Tinha a pele bronzeada, firme sobre os afiados ossos de seu rosto. Não havia sinais de olheiras, nem de desalinho.

            —Você não crê que foi vítima de um assassinato? — perguntou com precaução.

            —Não, não acredito. Por que alguém mataria Win? Todos o queriam. Foi um acidente, Annie. Sabe tão bem como eu.

            Cometeu o engano de cruzar o olhar com o seu nesse momento. Seus olhos pareciam sinceros, entretanto, eram os olhos do estranho que ela tinha conhecido na noite anterior.

            O pouco apetite que Annie tinha se foi. Gostaria de pensar que a noite anterior foi um pesadelo, uma mescla de paranóia por seu esgotamento e a bebedeira inesperada de James. Queria que a tranqüilizasse que lhe dissesse que imaginou tudo.

            Sem dúvida isso era exatamente o que ele ia fazer. O único problema era que não poderia acreditar. Não depois de ter olhado no fundo de seus olhos vazios.

            —Por que não trabalha James? —perguntou em voz baixa.

            —Pedi uma licença. A crise dos quarenta e tudo isso — respondeu ele com um olhar que não correspondia com a exagerada humildade de seu tom de voz.

            —Então, por que não pude encontrar nem sinal de quando te telefonei? O que aconteceu com as pessoas que trabalhavam a serviço de meu pai no Departamento de Estado? Por que desapareceu seu cargo quando ele morreu? Por que seu nome não aparece em nenhum registro de pessoal do governo federal quando trabalha para eles desde que te conheço? O que está acontecendo, James? Por quem me toma?

            Reclinou-se na cadeira, com uma de suas enormes mãos ao redor da xícara de café, seus gestos relaxados, estudados.

            —A verdade é que faz um montão de perguntas, Annie — disse por fim—. Pensei que seu papai teria ensinado as vantagens de não ser muito curiosa.

            —Meu pai está morto — alfinetou ela —. E vou seguir perguntando o que seja até que descubra algo.

            —Temia que fosse dizer algo assim — admitiu ele brandamente, tirando um revólver de debaixo da mesa.

            A jovem o observou. Era grande, de cor azul escura, de cano comprido e se acomodava bem em sua mão. Contemplou a implacável expressão de seu rosto. A perigosa criatura da noite anterior se evaporou, mas também o burocrata cinza que ela pensava que era James McKinley. Esta era outra pessoa de novo. Alguém que podia matá-la.

            Pôs-se a rir, em uma reação nervosa.

            —Por Deus, James, o que esta tentando fazer, me assustar? Por um momento acreditei nisso. Por que tem uma arma? Ele a deixou sobre a mesa entre os dois, com cuidado.

            —Esta parte do mundo é perigosa, Annie.

            —Provavelmente não sabe nem como se usa.

            —Pode apostar que sim.

            A moça se mordeu o lábio, frustrada.

            —Não vais responder minhas perguntas, não?

            —Não acredito que você gostasse das respostas — respondeu ele.

            —Cedo ou tarde as tirarei de alguém.

            —Está-me ameaçando, Annie? —Disse em tom zombeteiro.

            Ela levantou a cabeça e olhou aqueles olhos estranhos.

            —Talvez.James suspirou: — De acordo.

            —De acordo, o que?

            —Está bem, me pergunte o que quiser.

            —Por que não pude encontrar nem rastro de ti no Departamento de Estado? Por que não tem registro seu?

            —Possivelmente não trabalhava para eles.

            —Trabalhava com meu pai.

            —Sim.

            —Quer dizer que meu pai tampouco trabalhava para o Departamento de Estado?

            —Não estou dizendo nada. Tão somente estou respondendo a suas perguntas.

            —Para quem trabalhava?

            —Ah, agora a coisa se torna um pouco escorregadia. É uma mulher inteligente, por que não trata de adivinhar por você mesma? —sugeriu afetadamente.

            —CIA — disse ela, confessando em voz alta o pior de seus temores.

            —Acertou na primeira.

            —E meu pai?

            —Ele foi quem me recrutou.

            A jovem ficou olhando, assombrada.

            —Quer dizer que meu pai mentiu durante toda minha vida?

            —Se chama "ocultar informação", Annie. A política da CIA é não informar a ninguém desnecessariamente a respeito de nosso trabalho.

            —Desnecessariamente? —repetiu ela enquanto lentas labaredas de fúria começavam a lhe queimar por dentro—. Não crê que eu tinha direito de saber?

            —Não.

            —E o que vocês dois faziam? Iam pelo mundo fingindo ser James Bond?

            —Você lê muito, Annie. Fomos burocratas, simples e sinceramente. A Agência tem tanta papelada como qualquer outro ramo do governo, embora o mantenha mais em reservado. Seu pai era legislador, eu contador.

            —Contador — repetiu ela, vendo-o mais claramente agora—. E então, por que me custa tanto acreditar nisso.

            —Possivelmente porque se encontra em um estado de paranóia que está imaginando que há segredos em toda parte.

            —Estou encontrando segredos em toda parte — contra-atacou—. Descubro que meu pai era um espião para a CIA, e que seu inofensivo melhor amigo era também. Quantos anos têm? Perguntei-lhe isso ontem à noite, e te negou a responder.

            —Trinta e nove.

            —Meu deus! —exclamou Annie, observando-o com atenção—. Como te meteu nisso?

            —Quer dizer, o que faz um bom menino como eu fazendo um trabalho como esse? —Alfinetou ele—. Já conhece os detalhes. Cresci no Texas, fui a Harvard, casei-me, tive um filho, e depois minha mulher e o menino morreram em um acidente de carro. Estava passando uma época ruim e não me preocupava absolutamente viver ou morrer. Seu pai me ajudou a me recuperar. Deu-me algo no que acreditar.

            —Espiar para o Governo — lhe ajudou a jovem.

            —Por assim dizer. Não vou me incomodar em lhe explicar isso ou justificá-lo. As coisas mudaram durante os últimos anos. Seu pai pensava que estava fazendo o melhor para o mundo. Por que não o deixa assim? Por que não deixa que descanse em paz?

            —Mataram-no?

            Durante um momento, pensou que não ia responder.

            —Talvez— reconheceu ele finalmente—. É possível.

            —E não tem feito nada a respeito?

            —O que quer que faça?

            —Algo mais que escapar e beber como um louco — replicou ela. E então voltou a olhar a pistola que descansava entre ambos—. Sabe utilizá-la de verdade?

            —Todos os que trabalham para a CIA recebem formação militar, inclusive os empregados de escritório.

            Ela não tinha nem idéia se estava dizendo a verdade ou não, mas parecia uma resposta razoável:

            —Por que decidiu a final me contar tudo isto?

            —Porque estava claro que não fosse partir sem isso, se esquecendo de tudo isto. E estou mais que farto de mentir. Suponho que tem tanto direito como qualquer outra pessoa de conhecer a verdade sobre seu pai.

            —Obrigado — disse ela depois de uma pausa—. Martin sabe? Não pôde evitar um ligeiro tom ferido em sua voz. Tinha acreditado em Martin inteiramente. Tinha estado casada com ele durante três anos, inclusive tinha pensado em voltar com ele. De algum jeito, pensar que tinha estado ocultando coisas, inclusive quando se deitavam juntos, era a traição final.

            —Seu pai também o recrutou.

            Ela recebeu o golpe, ocultando sua reação desses olhos tão surpreendentemente observadores que a olhavam do outro lado da mesa.

            —O que vai fazer então?

            —A respeito do que?

            —Sobre o assassinato de meu pai.

            —Nem sequer sabe com total certeza se o assassinaram.

            —Sim, sei — respondeu a jovem com raiva. Passou a mão no peito sobre a fina camiseta de algodão—. Me diz isso meu coração e minha cabeça. E você sabe também, por mais que tente ignorá-lo.

            —Não o estou negando.

            —Me ajudará a descobrir a verdade?

            O se recostou de novo; em seus olhos se lia a resignação. —Não me deixa muita escolha, não, Annie? —falou com pesar, agarrando a arma.

 

            Annie o observou durante um bom momento, enquanto ele sustentava a pistola em uma de suas grandes e hábeis mãos. Conteve o fôlego, sentindo-se estranhamente desorientada. Como se tivesse perdida, apesar de não ter cruzado nenhum fuso horário ao ir ao encontro de McKinley.

            Sabia utilizar essa pistola. Por trás da atitude profissional que havia tornado a adquirir, ocultava-se um homem que era muito mais perigoso do que ela nunca tivesse suposto.

            Obrigou-se a afastar-se dele, servindo-se de outra xícara desse café tão forte, e quando voltou a olhar, a arma tinha desaparecido. Não sabia se tinha levado ou se tinha escondido em outra parte, e a verdade é que não lhe importava. Já não estava com ela, e isso bastava. Ver o James McKinley com uma pistola nas mãos a desconcertava.

            O silêncio entre ambos se tornou pesado e incômodo, e ela se viu forçada a rompê-lo:

            —O que vamos fazer agora?

            As pestanas do homem que era um enigma para a jovem se fecharam sobre seus inquietantes olhos, e quase teria podido jurar que se tratava do James confiável e seguro de sempre.

            —Deixe-me pensar um pouco — respondeu ele a final—. No momento estamos seguros, se é que ninguém além do Martin sabe que está aqui. Vamos ter calma. Você pode me dizer o que sabe o que suspeita, todos os detalhes, por muito insignificantes que pareçam. Sobre o quadro desaparecido, sobre tudo o que ele disse ou fez. Tudo o que te pareça diferente ou estranho. E depois, tomarei uma decisão, se decidir que se possa fazer algo.

            —E se decidir que não? —atreveu-se a perguntar ela com voz cortante, sem incomodar-se em ocultar a irritação que lhe causava seu ar prepotente.

            —Então poderá voltar para casa em paz contigo mesma.

            —Isso não é tão fácil. O que acontece se não aceitar o que você disser? O que acontece se você decidir que não o assassinaram que não há nada estranho no assunto?

            se reclinou, a expressão de seu rosto deliberadamente em branco.

            —Isso nos causaria um pequeno problema, não? —respondeu arrastando as palavras—. Diga-me, Annie. Por que veio procurar por mim? Por que não foi ao Martin para que te ajudasse? Vocês dois compartilharam muito mais do que nós dois.

            —O que quer dizer? —inquiriu a jovem em tom cauteloso.

            —Só o que estou perguntando. Por que não pediu ajuda ao Martin?

            —Eu pedi.

            —Pediu-lhe que te ajudasse a averiguar quem matou a seu pai?

            —Não exatamente. —Essa era outra mudança que se operou nela desde que seu pai tinha morrido, pensou Annie. Já não era uma perita em mentiras educadas—. Pedi que me ajudasse a te localizar.

            —Não crê que ele tivesse te ajudado?

            —Não sei — se viu obrigada a admitir—. Win sempre disse que se algo estivesse errado, devia ir ate você. Que você saberia as respostas.

            —Ah sim? —Não havia forma dela ler a expressão de seu rosto—. E você segue fazendo o que seu pai te dizia, não, Annie?

            Não era uma pergunta, e, entretanto a jovem queria lhe responder negativamente. Olhou-se a camiseta amarrotada, afastou o cabelo que caia em seu rosto sem maquiagem e o olhou nos olhos com calma.

            —Diga-me isso você, James.

            Aquilo foi um engano. Sempre que ele mantivera os olhos semicerrados, ela poderia se iludir de que aquele homem era a presença segura e protetora que ela procurava. Quando seus olhares se cruzavam, essa ilusão se desvanecia.

            —Boa resposta — reconheceu-o depois de considerá-lo um momento—. Suponho que já não dorme com o Martin.

            Ela derramou o café. A xícara estava quase vazia, mas o líquido negro se derramou pela mesa como se fora petróleo... Ou sangue.

            —E o que te importa?

            —Tudo o que tenha relação com Win é importante, se é que espera que descubra por que o mataram. Deitar-se com o protegido de seu pai pode ter conseqüências, embora se trate de seu ex-marido.

            —Pensava que você era o protegido de meu pai.

            —E você não se deitou comigo.

            Ainda. A palavra, que não chegou a pronunciar, tomou forma em sua mente. Perguntou-se se também lhe tinha passado pela cabeça.

            —Além de saber por que mataram meu pai, preciso saber quem o fez.

            —E o que fará quando o souber?

            —Matá-lo.

            O sorriso do James foi breve e frio.

            —Poderia tentar.

            —Ou você.

            —Primeiro temos que nos certificar de que não foi um acidente.

—Nos dois sabemos muito bem que não foi.

            Voltou a pôr a xícara de café sobre a mesa com meticulosa atenção, limpando o líquido derramado com um guardanapo de papel:

            —Ainda não me disse como sabia que havia voltado com o Martin.

            A final tinha voltado a surpreendê-lo.

            —Não sabia que ainda estavam juntos.

            —É que não estamos. Como sabia?

            —Revistei sua bolsa — informou com frieza—. Li as cartas.

            —As duas?

            —As duas. Win escreveu que se algo acontecia, devia me procurar por que demorou tanto?

            —Não acredito nos pressentimentos. E não queria ter que pensar nisso.

            —Mas agora sim?

            —Quero saber quem o matou.

            James a olhou fixamente durante um bom momento.

            —Está disposta a aceitar que possivelmente saber pode ser a ultima coisa que faça? Por que não volta para casa e se casa de novo? Por que não têm filhos e gasta o dinheiro que te deixou Win e deixa de pensar no passado?

            —E com quem sugere que me case? Com o Martin? A primeira vez não deu certo.

            —Ainda segue procurando alguém que te arrume a vida? —perguntou ele—. Não me importa nada com quem se case. O que estou te sugerindo é que é melhor que se esqueça de sua Santa cruzada.

            —Não é tão fácil.

            —Nem sempre é — concedeu—. Está disposta a aceitar o risco?

            —Sim — respondeu a jovem sem duvida nenhuma—. E você?

            Seu sorriso não foi absolutamente tranqüilizador.

            —Já faz tempo que isso não me importa, Annie. —inclinou-se para frente, e a moça se deu conta de repente de que ia tocá-la. Não queria que o fizesse. Não estava segura do por que, a única coisa que sabia é que não queria sentir suas mãos nela.

            Levantou-se da cadeira, atirando-a ao chão para afastar-se dele, e só então se deu conta de que seu interlocutor não se moveu. Limitava-se a olhá-la, como se fosse capaz de ler sua mente, sentir seu pânico absurdo, e por alguma razão desconhecida, isso lhe divertisse.

            —Não vale à pena morrer por Win, Annie — afirmou com inesperada suavidade—. Deixa-o em paz. Se esqueça.

            —Não posso. Era meu pai — respondeu. Por seu tom de voz notava que estava a ponto de chorar.

            —Então, que Deus te ajude — acrescentou James.

 

            Não pensava ser capaz de fazê-lo. Tinha arrumado para barbear-se, tomar banho e tornar-se por cima o último que ficava de anonimato, assim como ficar elegante na roupa de uso militar escondida no fundo do armário. Levantou-se com um montão de planos para fazer Annie Sutherland acreditar em uma falsa segurança e depois a mandar de volta com o Martin. Não era responsabilidade dela, e não o tinha sido durante anos. Martin podia deitar-se com ela de novo, protegê-la, e tentar convencer de que tudo isso era um delírio causado pelo esgotamento e a dor. Que a última e critica carta de Win, cheia de inverossímeis conselhos paternais, não tinha nada a   ver com que suspeitasse algo de sua iminente morte.

            Ainda não podia entender por que demônios Martin a tinha deixado ir procurá-lo. Nunca tinha se dado conta de que fizesse algo que ele não quisesse, e aquilo não ia lhe beneficiar a longo prazo. Possivelmente pensou que a visão do McKinley em plena ruína alcoólica, devolveria Annie a seus braços, a sua cama, onde poderia ocupar-se adequadamente dela.

            Ou possivelmente não. Martin ainda estava ali, no centro de tudo, e tinha que saber mais que James nesse momento. Pode ser que necessitasse que ele a protegesse. Ou que inventou um álibi efetivo, como tinha feito outras muitas vezes ao longo dos anos. Não tinha mandado nenhuma mensagem com Annie, e não havia maneira de que pudesse falar com ele e perguntar-lhe Não sem arriscar-se a que muita gente se inteirasse.

            Estava sozinho, ao menos no momento. Com um peso pendurado ao redor do pescoço, um peso com muitas perguntas. Oxalá pudesse convencer-la de que não havia nada que suspeitar.

            Mas já não podia voltar atrás. Já tinha contado muitas coisas, e não podia utilizar a desculpa de ter bebido muita tequila. Nunca tinha permitido que o álcool lhe soltasse a língua no passado.

            Algo tinha se quebrado em seu interior com a morte de Win, e todos seus anos de treinamento para não sentir nada pareciam ter desaparecido. Ao olhar os furiosos olhos do Annie Sutherland, sentia vontade de lhe contar a verdade.

            Mas ainda não tinha ido tão longe. Nunca lhe diria a verdade, embora para evitá-lo tivesse que matá-la.

            A jovem estava de pé com as costas apoiada na parede, olhando-o como se ele fora seu pior pesadelo. Era suficientemente inteligente para dar-se conta disso, pensou James amargamente.

            Tinha estado a ponto de tocá-la, e isso teria sido um engano para ambos. Não estava seguro do que fosse acontecer. Se teria feito mal. Se teria fechado para sempre aqueles olhos azuis que eram capazes de vê-lo com muita clareza, embora ela não se desse conta.

            Ou se a teria beijado.

            Não recordava quando tinha sido a última vez que tinha beijado alguém. Não era uma parte habitual em seu repertório sexual, e nem sequer recordava havê-lo desejado alguma vez. Queria beijar Annie Sutherland. Maldita seja sempre a tinha desejado.

            —Acredito que vou sair e dar uma volta — comentou ela naquele tom ofegante que não podia ocultar todo seu nervosismo. Não queria que ele se desse conta, e por alguma razão, James estava disposto a lhe deixar acreditar que não se dava conta de até que ponto a assustava—. Necessito de ar fresco.

            —Não. —Seu tom foi cortante.

            —Por que isso? —respondeu-lhe ela imediatamente—. Não vou ficar trancada aqui, enquanto decide se estou sofrendo alucinações paranóicas...

            —É perigoso que saia. Se quiser dar um passeio, irei contigo, mas acredito que isso não teria sentido, não é? Se o que quer é me perder de vista um momento, vá para o quarto.

            —E por que iria querer te perder de vista?

            Sorriu, embora a jovem não parecesse que isso lhe tranqüilizasse muito.

            —Diga-me você.

            —Não devi ter vindo — reconheceu ela com amargura.

            —Provavelmente não — concordou—. Mas já é um pouco tarde para mudar as coisas.

            —Poderia ir embora.

            —Não até que eu te diga que pode fazê-lo.

            Annie o olhou assustada.

            —Não pode me obrigar a ficar.

            —Posso fazer o que quiser. E se realmente deseja parar tudo isto, volta com o Martin, pode fazê-lo com minha colaboração entusiasmada, logo que me assegure de que tudo está tranqüilo.

            —E por que não ia estar?

            —Se alguém matou seu pai, não estará muito contente de que estejamos juntos neste momento. Foi você que começou com os delírios paranóicos, Annie. Agora terá que me suportar durante uns dias até que eu averigúe até que ponto são loucos.

            Via o aborrecimento e a frustração que se refletiam no pálido rosto feminino, e se perguntou até onde podia chegar. Agora não era o momento para comprová-lo.

            A jovem se separou da porta, passando uma mão pelos desordenados cabelos. Viu que roia as unhas. Isso estava muito longe de sua manicura habitualmente perfeita.

            —Possivelmente durma um pouco — comentou Annie com estudada indiferença—. Você pode ficar aqui bebendo café e meditando.

            —Muito bem — respondeu ele em tom ausente. Mas não meditou. E não bebeu o café puro. Tomou tequila, primeiro só um pouco, porque descobriu que suas mãos tremiam. Podia ouvir como se movia no piso de acima e se serviu de mais, esperando assim que seu cérebro se concentrasse no que devia fazer.

            Podia mandá-la de volta para Martin. Só que deveria ter alguma razão para fazer com que ela se reunisse com ele ali.

            Podia matá-la. Possivelmente era isso o que Martin tinha em mente, mas não acreditava. Inclusive em uma profissão tão pouco sentimental como a sua, às pessoas não gostava especialmente de matar a suas ex-mulheres. E embora James estivesse acostumado a assassinar normalmente com tranqüila indiferença, não estava seguro de que pudesse comportar-se como uma máquina no caso da filha de Win Sutherland.

            Ou podia fazer o que ela queria. Averiguar por que tinham matado Win. Averiguar quem e o que é que tinha saído mal.

            Conhecia as razões oficiais por que tinha morrido. Tornou-se um ser sem consciência, fazendo armadilhas, montando seu próprio exército de assassinos que tinha percorrido o mundo, ignorando que suas sangrentas missões respondiam aos interesses de Win e não aos do Governo. Tinha sido o responsável pela morte de dúzias de pessoas sem ter permissão oficial, isso sem mencionar a de seus próprios subordinados. Tinha feito sem nenhuma outra razão que enriquecer-se. Merecia morrer, era inegável.

            Existiam rígidas leis em sua pequena e desconhecida Divisão dedicada que gostava de denominar como "trabalho úmido". Nenhum dos empregados sabia quantos trabalhavam nela, e pelo general, nem sequer se conheciam uns aos outros. Por isso sabia James, podia ter-se tratado de um pequeno exército de pessoas treinadas para matar, como era ele. Ou poderiam ter sido somente uns quantos.

            Ao longo dos anos tinha conhecido alguns de seus colegas. A maioria já tinham morrido. Mas ele estava vivo, no momento. Tratava-se de uma espécie de cruel ironia. De todos eles, ele era o que mais merecia morrer. Que mais desejava morrer.

E o destino tinha reservado um golpe devastador. Em vez de expiar seus pecados, tinha-os aumentado. Depois dos primeiros trabalhos, já não tinha perguntado mais, e Win não lhe tinha devotado informação. Tinha havido assassinos, pedófilos, ditadores e torturadores, e todos eles caíram sob suas hábeis mãos. Tinha seguido adiante por que tinham merecido.

            Mas seu mentor tinha mentido. E ele não tinha estado sozinho em sua pequena empresa. Os seres anônimos e poderosos que deram a ordem da execução poderiam ter pensado que matar Win solucionaria o problema, mas James sabia que não o tinha feito. Havia outros que tinham esticado a corda. Outros, que tinham provocado para que fosse descoberto.

            Ele queria chegar a esses outros. Não podia lembrar-se de ter desejado matar antes, mas agora isso tinha mudado. Se Sutherland tinha tido que morrer, também o fariam outros. E se ele ia fazer o que Annie queria procurar a verdade, tinha a intenção de assegurar-se de acabar com eles.

 

            —General? —A secretária, de traseiro firme e peitos exuberantes se aproximou.           Tinha-a contratado justamente por esse traseiro. Não porque pensasse aproveitar-se dele, ou inclusive que o desejasse. Mas conseguia que os homens que passavam por ali se distraíssem, e ele era dos que tentavam aproveitar todas as oportunidades possíveis—. O senhor Carew deseja reunir-se com você.

            O General lhe dedicou um sorriso paternal, um desses que enganavam a quase todos.

            —Conhece meu horário melhor que eu. Chame-o quando puder. Amanhã, possivelmente.

            —Disse que era urgente senhor.

            —Tudo é urgente para essa pequena doninha — respondeu ele afetadamente—. Não estou de humor para escutar seus discursos. Esse é o problema com o governo de hoje em dia, carinho. Muitos civis estragam o exército. —Nunca a chamava por seu nome. Conhecia-a, igual a todos os detalhes de sua vida, incluindo sua adolescência de cleptomaníaca, seus experimentos com a cocaína, suas inclinações sexuais e como gostava do café. Sabia muito mais dela do que ela jamais saberia sobre ele, e isto lhe proporcionava uma fonte infinita de diversão.

            —Sim, senhor — respondeu a secretária, ocultando a careta com que sempre respondia a cada um de seus motes carinhosos. Pensava que ele não se dava conta. O que ela não podia imaginar era que se um dia não reagisse assim, ele deixaria de lhe chamar de coisas como "carinho".

            —Diga que manhã pela tarde — ordenou o General, dirigindo-se para o corredor.         Amanhã a tarde seu próprio e particular traseiro estaria a salvo, McKinley e a filha do Sutherland pareceriam picadinho, e Carew poderia dizer o que quisesse. O General se deteve no final do vestíbulo e se voltou para sua sofrida secretária—: Averigua o que quer enquanto isso, de acordo, coração?

            Os olhos da jovem fecharam mostrando uma ligeira repugnância.

            —Disse que tinha a ver com Winston Sutherland.

            O General se permitiu uma risada entre dentes.

            —Já imaginava. Amanhã. Tarde.

            Já podia Carew destrambelhar o que quisesse quando averiguasse que se encarregaram de McKinley. Tampouco gostaria de saber que tinham incluído no pacote à filha do Sutherland, mas com um pouco de sorte a equipe se ocuparia dessa parte do assunto para que ficasse suficientemente coberta, sempre que à imprensa não chegasse à notícia. Importava-lhes muito pouco quantos soldados morriam, mas no caso de que se tratasse de uma mulher, sempre montavam uma confusão. Para o General em particular, podia-se prescindir muito mais de mulheres e meninos que de um bom combatente. Mas o mundo estava repleto de sentimentaloides.

            Amanhã, há essas horas, Carew estaria tendo um ataque de apoplexia, e ele teria tudo sob controle. Tudo pelo que tinha lutado. Tudo com o que Winston Sutherland tinha jogado e feito perigar, como um menino mimado.

            Mas o General já se ocupou de Sutherland. E agora empreenderia com tudo o que se interpor-se em seu caminho.

            Incluindo qualquer um que pudesse saber algo a respeito da noite em que este morreu.

           

            Só havia um banheiro na pequena cabana, e se encontrava situado na parte de abaixo. Já estava escurecendo e Annie tinha estado atrasando o máximo possível o momento de descender pelas estreitas escadas. Não se encontrava em condições de enfrentar James de novo. Ao menos não até que conseguisse controlar seu aborrecimento e seu receio.

            Mas seu corpo não lhe deixava outra opção. Não se ouvia nenhum som procedente da parte de baixo, e o escuro do crepúsculo logo conseguia romper à penumbra em que mergulhava a agora ordenada casa. Quando saiu do banho, procurou a seu redor, com cautela, sinais de seu anfitrião.

            Não estava em nenhuma parte. Não havia nenhuma porta em seu dormitório, e por alguma razão sentiu a urgente necessidade de olhar La dentro. Parecia a cela de um monge. Uma cama estreita, feita com precisão militar. Qualquer sargento de instrução poderia fazer saltar uma moeda nela, pensou distraidamente. Não havia nada mais. Nem livros nem fotografias nem objetos pessoais. Nada para encher os dias e as semanas que levava ali. O lugar estava vazio, sem alma.

            Tinha lavado os pratos. Encontrou uma lata de chili com carne e a esquentou no fogão a gás, junto com algumas bolachas salgadas passadas. Estava sentada à mesa totalmente entregue, ingerindo a pouco apetitosa comida com tenaz perseverança, quando ouviu um som no alpendre.

            Seu pânico foi instantâneo. Havia dito que esse não era um lugar seguro e lhe vieram à mente toda classe de pensamentos terríveis. Alguém a tinha seguido, algum assassino louco, e James se encontrava no exterior da casa, sobre um atoleiro de sangue, vítima inocente de sua irresponsável resolução. O homem que tinha matado a seu pai estava ali fora, sentia-o como uma intensa paranóia que se aproximava da certeza. Podia ficar na cozinha, escondida, até que viesse procurar por ela.

            Ou podia sair e enfrentá-lo.

            Afastou-se da mesa silenciosamente. Ouviu de novo o ruído, um débil arranhão, uma respiração, possivelmente inclusive o revelador pulsado de um coração, justo atrás do painel oscilante da porta.

            Moveu-se devagar, com cuidado, mais perto, concentrando sua atenção na figura que se adivinhava a silhueta: alta, com aspecto forte. Encontrava-se na esquina do alpendre, olhando para a selva que rodeava a casa, e pensou que possivelmente poderia correr para as árvores sem que ele se desse conta.

            E ao mesmo tempo sabia que não ia fazer-lo.

            Precisava olhar nos olhos do assassino de seu pai, embora lhe custasse à vida. Precisava ver o que seu pai tinha visto na última vez, e o risco não lhe importava. Aproximou-se da silhueta escura em completo silêncio, ergueu a mão...

            Um momento depois, tinham-na empurrado contra a parede de maneira tão violenta, que a visão ficou fora de foco, a respiração abandonou seu corpo, e tudo o que podia sentir era uma dor aguda que se apoderava dela. Cravou as unhas na pessoa que a tinha aprisionado, no braço que tinha saltado como uma mola, à mão que a tinha agarrado o pescoço, e soube que estava perdendo a consciência. Não o veria. Morreria antes de saber quem matou seu pai, e essa derrota era mais do que podia suportar. Reuniu os últimos vestígios de energia que tinha, começou a lhe pegar pontapés, e de repente se viu livre.

            A surpresa foi quase pior que o ataque. Caiu rapidamente sobre o duro chão do alpendre, apertando a garganta com as mãos, tentando recuperar o fôlego. O corpo inteiro doía como se lhe estivessem cravando com agulhas.

            Quando levantou a vista para o monstro que se inclinava sobre ela, quando seus olhos puderam voltar a focar-se, viu que James a estava olhando com uma falta total de compaixão.

            —Não volte a me espiar — advertiu ao mesmo tempo em que lhe estendia a mão para ajudá-la a recompor-se. A mesma mão que a tinha agarrado pelo pescoço, talhado o fornecimento de oxigênio, que quase tinha conseguido matá-la.

            —Pensei que fosse a pessoa que tinha assassinado meu pai.

            Ela esperava que mostrasse alguma reação para esse comentário. Entretanto, não deu nenhuma amostra de surpresa:

            —Em cujo caso, sua busca teria acabado inclusive antes de começar.

            A jovem ignorou a mão que lhe oferecia e utilizou a parede da casa para ficar em pé e manter o equilíbrio.

            —Quase me matou — disse.

            —Não. Eu nunca o deixo no "quase".

            Estava bêbado. Não fedia, nem cambaleava, nem parecia que o álcool o tivesse cegado. Só estava tão bêbado como a noite anterior, com essa fúria selvagem liberada pela tequila, que emergia justo por cima de uma superfície que em caso contrário não mostraria nenhuma emoção.

            Devia ter lido a mente. Sua boca se curvou em um sorriso zombador.

            —Quer tomar algo, Annie?

            —Eu disse a você que ...

            —Já sei o que me disse. E me parece uma estupidez. Por que não quer beber?

            —Deixei-o quando Win morreu. Pensar que ele tinha bebido tanto que caiu pelas escadas... —Sua voz se quebrou.

            —Bom, então — disse ele—, parece que pode revogar sua promessa com a consciência tranqüila. Win não morreu por culpa de um acidente por excesso de álcool: assassinaram-no. Bebe um pouco.

            Estendeu uma garrafa de tequila quase vazia.

            —Está bêbado — repôs à jovem, decepcionada.

            —O suficiente — admitiu.

            —Vou embora daqui. Não pode me ajudar nem a mim nem a ninguém. Não admira que lhe deixaram partir. —Começou a afastar-se dele, aproximando-se das escadas.

            Como tinha esquecido em tão somente uns minutos, do forte e rápido que ele podia ser? Agarrou-a, agarrou-a pelas costas e a fez debruçar contra ele. Dado a quantidade de álcool que tinha ingerido, tinha pensado que o desestabilizaria, mas se manteve firme e sólido como uma rocha.

            —Já te falei, não é seguro — assinalou com voz áspera.

            —E acaso contigo estou mais segura? Em seu estado?

            —O que crê que vou fazer Annie? Te violentar? —Era uma brincadeira. Tinha que ser absurdo. Mas o certo é que não foi assim.

            Ela ignorou o sarcasmo.

            —Está claro que não está em condições de me proteger desses escuros perigos que tenta me convencer que me espreitam.

            —Annie, ninguém vai te tirar do meu lado, se eu não deixar.

            De novo esse estranho tom em sua voz áspera, com ligeiro acento texano. Por alguma razão pensou no Martin, não em nenhum homem anônimo sem rosto. Mas James não tinha falado de sexo, não? Ele se referia à vida e a morte.

            —Decidi voltar para casa — informou ela—. Falarei com o Martin, e possivelmente ele possa perguntar por aí com discrição. Simplesmente para ficar tranqüila.

            —De acordo — aceitou James—. Mas hoje não.

            Ela se deu conta de repente de que estava apoiada contra ele. Podia sentir seus músculos e sua dureza por debaixo da camisa tipo militar, que a esta hora já se encontrava enrugada. O intenso calor, o batimento constante de seu coração. Era a estabilidade dessa pulsação o que a convenceu. Se o houvesse sentido pulsar freneticamente, teria escapado correndo, e ao inferno com as conseqüências. Mas ele estava absolutamente tranqüilo e sereno, apesar de todo o tequila que levava no corpo.

            E então se separou dela, afastou-se e ela sentiu um enjôo. James lhe interrompeu o passo de propósito, esvaziou o conteúdo da garrafa em sua garganta, e depois a olhou.

            —Volta para a cama, Annie — insistiu—. Amanhã já veremos o que fazemos.

            —Amanhã volto para Washington.

            —Muito bem — aprovou ele—. Enquanto isso, por que não desaparece?

            —Por quê? —Agora que James a estava deixando partir, ela queria ficar por pura obstinação.

            —Porque, como já assinalaste, estou bêbado. E estive aqui sozinho durante três meses. E embora não é meu tipo, nestes momentos estaria disposto a evitar esse detalhe. Assim ou vai para cima e se afasta de mim, ou tira as calças.

            Annie não lhe obedeceu. Não estava segura exatamente de por que não o fez. Possivelmente porque sabia que lhe devolveria o golpe. Ou porque lhe tocar, inclusive com raiva, poderia acender algo que era inclusive mais aterrador que o fantasma da morte.

            Ou porque suspeitava que James estivesse tentando intimidá-la de propósito.

            Não importava. Afastou-se lentamente, e ele a deixou partir.

            —Vai me dizer a verdade alguma vez? —perguntou-lhe a jovem, parando-se na porta.

            —Sobre o que?

            —Sobre tudo.

            Entre ambos surgiu um estranho sentimento de nostalgia. Durou um instante, e ele se apoiou no corrimão lhe devolvendo um olhar indiferente.

            —Duvido-o, Annie. Duvido-o.

 

            À manhã seguinte, Annie desceu as escadas com cautela, esperando obviamente que seu reticente anfitrião lhe saltasse em cima. Entretanto, ele tinha se arrumado de novo para disfarçar-se de James McKinley, e se acaso tinha mais ressaca do que queria admitir, supunha que o merecia. A jovem o olhou fixamente um momento, sem saber o que fazer.

            Com uma mescla de admiração e desespero, James se fixou em que ela não estava com sua roupa de viagem. Não parecia aterrorizada nem um pouco. Só muito prudente.

            —Acreditei que tinha te convencido para que partisse — foi sua saudação.

            —E por que queria fazê-lo?

            —É melhor que siga com sua vida. Remexer as coisas pode ser perigoso.

            —Parece-me que não tenho opção —respondeu ela—. Não posso me esquecer do motivo que me trouxe até aqui.

            Ele suspirou. Ia ter que cortar o cabelo. Já tinha se barbeado duas vezes nos últimos dois dias, e os velhos hábitos estavam voltando. Tinha que decidir-se. Durante sua longa noite de insônia tinha chegado a duas possíveis soluções O único problema é que não estava seguro de qual ia levar a cabo.

            —Imaginava que não o faria — comentou afavelmente—. E isso não me deixa muitas opções, não?

            —Não?

            No exterior havia três deles. Annie não tinha nem a mais remota idéia, mas James os tinha contado com precisão. Tinham chegado mais depressa do que se esperava. A morte do Win e de seu Departamento não tinha feito minguar suas habilidades.

            Tinha sido bastante simples se desfazer do primeiro que tinha ido ate ele fazia já dois meses. Era muito jovem, novo na profissão e para completar estava sozinho. Não era um rival adequado para um homem de sua capacidade. Não tinha havido testemunhas e o mar estava perto.

            Mas esta vez haveria uma testemunha. Uma civil inocente. Annie Sutherland, que o observava com seus olhos limpos, sem ter consciência do perigo que lhes rodeava.

            A eles também a carregariam se pudessem, sabia com segurança, porque tinha recebido a mesma formação que eles, e era exatamente o que ele teria feito em seu lugar.

            Foi para o armário, sobre o fogão, e tirou sua 9 mm. Abrindo o seguro para assegurar-se de que estava preparada. Era a menos inofensiva de todas as armas que tinha guardado na casa, e a segunda mais perigosa, depois de suas mãos.

            —O que esta fazendo? —perguntou-lhe Annie, olhando a pistola com receio.

            Ainda não tinha notado nada estranho.

            —Vou dar uma volta —respondeu ele, levantando e ajustando a pistola no cinturão.

            —Não terminamos que falar.

            Estava claro que seu pai não era o único perito em manipulações.

            —Escuta —lhe advertiu em um tom de cansaço que lhe parecia adequado—.    Estou com ressaca e mau humor. Preciso de ar fresco, pensar um pouco sobre o assunto. Tenho um par de idéias. Quando voltar, falaremos.

            —Isso significa que me ajudará?

            —Isso significa que vou pensar. Enquanto isso, por que não toma uma demorada e refrescante ducha? Não tem muito bom aspecto.

            A verdade é que lhe resultava atrativa e deliciosa, a pesar do cansaço e do mau humor. Muito tempo sem uma mulher, recordou-se a si mesmo. Quase tinha esperado que se ruborizasse, mas a filha do Win parecia totalmente desprovida de vaidade. Limitou-se a passar uma mão pelo cabelo e fez uma careta.

            —Não sente saudades. A isto não chamaria eu exatamente umas férias de luxo.

            Estava acostumada a centros de férias luxuosos, pensou ele com amargura. Com acompanhantes escolhidos pelo Win.

            —Tome seu tempo na ducha —recomendou, com uma benevolência que estava muito longe de sentir—. Até dentro de uma hora não estarei de volta antes.

            Não queria que suspeitasse nada. O banheiro se encontrava no meio da casa. Ali estaria mais segura que em qualquer outra parte, e o som da água esconderia o ruído dos disparos. Sua Beretta estava equipada com um silenciador, mas inclusive assim resultava muito ruidosa. Teria que trabalhar rápido e esperar que ela não se desse conta.

            Desceu do alpendre e contemplou a manhã tropical enquanto a escutava mover-se dentro da casa. Acendeu um cigarro, respirou profundamente o ar marinho, o sutil aroma desconhecido na brisa, esperando que começasse a soar a ducha. Supunha que tinha dez minutos como máximo, vinte com muita sorte. Nos velhos tempos poderia ter terminado com três atacantes em menos da metade. Mas esses tempos já tinham passado, e se sentia fatigado e zangado. As emoções sempre o faziam zangar-se.

            Outro dia no paraíso, pensou com sarcasmo, dando um profundo trago em seu cigarro. Escutava os pássaros na distância, nervosos e agitados pela presença de estranhos. O murmúrio da maré penetrava através da espessa moleza selvagem. Em um lugar com tanta vegetação como no que se encontrava havia centenas de esconderijos. E experimentou em um breve relâmpago esse odioso e de uma vez sedutor sentimento de expectativa.

            Encontrou o primeiro detrás da casa, com a pistola na mão, tentando aproximar-se do alpendre traseiro. James ficou atrás dele e lhe rompeu o pescoço, rápida e eficazmente, deixando cair o corpo em silencio sobre o suave e esponjoso chão.

            Ficavam dois, pensou com indiferença, rodeando a casa. O primeiro tinha sido muito fácil. O próximo intruso expor uma provocação maior, já que estava justo fora de seu alcance.

            James se deu conta repentinamente de que se aproximava da casa. Por muito bom que fosse o espião, não poderia chegar até Annie. Se queria entrar na cabana, teria que deixar-se ver, e acabaria com ele de um só disparo.

            A equipe de ataque poderia ter trazido consigo algum aparelho explosivo de curta distancia. Nesse caso, teriam que sair correndo como quem foge do diabo, e James duvidava que então pudesse acabar com eles e desativar de uma vez qualquer dispositivo que sua querida empresa tivesse achado por bem levar.

            Ao menos, seus compatriotas, por muito perfeccionistas e profissionais que fossem, nunca tinham se dedicado às missões suicida. Estar vivo sempre tinha sido mais importante que terminar o trabalho. Era uma lástima que este último lote não fora a cumprir com nenhum dos dois objetivos.

            Só havia um pequeno problema: ainda não sabia onde se encontrava o terceiro membro da banda.

            Sua presa tinha cometido o engano de deter-se em seu resolvido avanço para a cabana. James o encontrou a quatro passos entre os matagais, a uns oito metros do alpendre principal, enchendo carregadores de reserva da 9 mm com balas de ponta oca.             Se não tivesse sido por isso, James teria considerado deixá-lo partir, mas essas balas estavam desenhadas para mutilar e causar muita dor. O homem pareceu sentir sua presença.

            Olhou para cima e houve um instante no que ambos se reconheceram. James não o tinha visto em toda sua vida. Mas o conhecia, e o assaltante a ele também. Disparou a queima-roupa.

            Só ficava um. Tinha atirado o cigarro, e distinguia no ar o aroma acre do sangue, o forte aroma da morte. E algo mais, algo que reconheceu.

            —Merda — murmurou.

            —Não desta vez, James.

            Voltou-se devagar para enfrentar o último espião que tinham mandado para buscá-lo. Mary Margaret Hanover. Uma mulher com rosto de anjo e alma de... Maldita seja ela carecia de alma.

            —Comportaste-te com a mesma eficácia de sempre, James —reconheceu ela com indiferença, girando ao redor dele com extrema precaução, com a pistola dirigida justamente para a cremalheira de sua calça—. Não esperava menos de ti. Tratei de precaver aos outros, mas eles pareciam acreditar que você foi um mero humano. Eu te conheço melhor.

            —Vai me matar, Mary Margaret? —perguntou ele sem nenhuma emoção.

            —Claro. Lamentarei, é obvio, mas não duvide um instante. Sigo ordens. Não é nada pessoal, James. Passamos bons momentos juntos, mas meu trabalho tomo muito a sério. Acredite, não vou desfrutar te matando.

            —Que pena —murmurou ele—. Normalmente sim o faz.

            O afável sorriso dela se esfumou por um instante.

            —Não se preocupe por mim, James. Depois que me tenha ocupado de ti, irei a ate a mulher que esta no banho. Acabar com ela sim que me divertirá isso te asseguro.

            —Sabe quem é?

            —Crê que conservo algum sentimento pelo Win? Sou tão pouco sentimental como você, James. Faço o que se tem que fazer. Com mais prazer do que você nunca mostrou em sua especialidade, isso é certo. Embora eu diria que a tua é pura maestria.

            —Arrepende-te de algo, Mary Margaret? —inquiriu com suavidade.

            O amplo e inocente sorriso da mulher arrepiou os cabelos da nuca.

            —De nada, céu. É diabolicamente criativo na cama e um brilhante estrategista, embora sempre foste muito mais ético do que te convinha. Se tivesse conhecido o alcance da operação, haveria-te posto difícil até o aborrecimento. Foi melhor que a maioria de nós nem sequer se conhecesse nem tampouco soubesse qual era exatamente o objetivo. Mas nunca lamentarei te haver conhecido, James. —Sorriu com doçura—. E sua morte acabará com muitos cabos soltos.

            —Sempre me agrada ser de utilidade, Mary Margaret. Diga-me apenas mais uma coisa. Carregou ao Billy Arnett?

            —Esse inocente pardal? Não pertencia a nosso grupo, James. Não servia para nada treiná-lo para nossa divisão. A verdade é que disparava inclusive melhor que você, mas era um pirralho. Em realidade era um patriota do mais pesado.

            —Matou-o?

            —Ah, é verdade. Era seu tutelado, não? Inclusive reuniu dinheiro para sua esposa. Ela está muito melhor sem ele, asseguro-lhe isso. Deitou-se comigo e era uma pena. Não agüentava nada. Não como você.

            —Matou-o?

            —Claro que sim—respondeu ela com irritação—. O que tem que ver isto com todo o resto?

            Seus frios olhos azuis se aumentaram com súbita surpresa. Um segundo depois o buraco da bala apareceu em metade de sua fronte, e se derrubou sobre o chão como uma marionete rota. Ele a observou um momento antes de baixar a pistola.

            —Tudo —concluo em voz baixa, antes de passar por cima do corpo para voltar para a casa.

            Mau aspecto, pensava Annie ensaboando o cabelo sob a ducha. Não devia ter incomodado, mas a verdade é que tinha feito. Não tinha nada a ver com o James McKinley, disse-se a si mesma, deixando que a água morna lhe escorregasse pela cara.            Não gostava que ninguém em particular pensasse que tinha má aparência. Win lhe tinha inculcado toda classe de prioridades, e enfrentar o mundo bem arrumado e em controle da situação era uma delas. Era graciosa, mas agora isso parecia ser a menor de suas preocupações. Nos meses que tinham seguido à morte de seu pai, pouco a pouco tinha deixado de usar esses trajes cor bolo que ocupavam a maior parte de seu armário.   Tinha deixado de fazer a unha uma vez por semana, fazia meses que seu cabelo já não recebia o cuidadoso corte habitual, e ontem era a primeira vez que pôs saltos no que lhe pareceu séculos.

            Era certo que tinha escolhido o pior momento para usá-los. Havia se sentido tentada a atirá-los ao lixo antes que voltassem a torturar os pés.

            Ouviu o som quando saía da ducha. Uma explosão afogada, e por alguma estranha razão pensou que já tinha ouvido o mesmo som antes, sufocado pela água que lhe caía sobre a cabeça. Ficou quieta um momento, escutando, mas já não se ouvia nada. Só o silêncio.

            Vestiu-se rapidamente, sem incomodar-se apenas em secar-se. Com mau aspecto, havia dito ele. Negou-se a olhar-se no espelho. Não tinha nenhuma razão para arrumar-se para James McKinley. Não havia nenhuma necessidade de vestir a insípida e bonita roupa que seu pai comprava.

            Sentiu-se culpada imediatamente. Seu pai a tinha querido e tinha desejado o melhor para ela. Era um perito em temas estéticos. Sabia muito mais que ela a respeito da roupa e as cores que ficam bem, o vinho e os carros que gostava. Não importava que no fundo de seu coração sempre tivesse sonhado com um clássico e chamativo Corvette. Tinha uma Mercedes último modelo. Um carro perfeito e elegante, adequado para a pessoa que ela sabia que era.

            Vestiu umas calças brancas enrugadas e uma camiseta de seda púrpura. Nunca tinha levado essa cor: era muito brilhante, muito estridente, mas a tinha comprado de toda forma; depois a tinha deixado no fundo do armário e se esqueceu dela. Tinha-a metido na mala no último momento, e agora se sentia desafiante. Ninguém podia ter um aspecto derrotado se levava um pouco de cor púrpura.

            Ao sair do banho, não o viu o princípio. Estava sentado à mesa, com uma xícara de café na mão. Parecia tranqüilo, descansado, um homem em paz consigo mesmo.        Quase invejava essa paz. Exceto por alguma razão não estava segura de que estivesse certa.

            —Não tinha me dado conta de que havia retornado — disse, passando uma mão pelo cabelo úmido e embaraçado.

            —Não demorei tanto como esperava —respondeu ele.

            —Em fazer o que?

            —Em tomar uma decisão — bebeu um gole de café—. Por que não sobe e faz a mala?

            —Vou a alguma parte?

            —Vamos os dois. Decidi que te ajudarei, se ainda quiser.

            —Claro que ainda quero —se apressou a responder—. Aonde vamos?

            —Tudo ao seu devido tempo, Annie. Agora vai ter que confiar em mim. Terá que seguir confiando em mim.

            A jovem duvidou, contemplando a possibilidade.

            —De acordo —aceitou.

            —Assim de fácil?

            —Você não confia em ninguém?

            —Em ninguém absolutamente.

            Ela sacudiu a cabeça.

            —Sua vida deve estar muito vazia, James.

            O homem lhe sorriu com frieza e ferocidade.

            —E não conhece nem a metade, Annie.

 

            James se reclinou na cadeira, escutando seus golpes no piso de acima, que expressavam a irritação que sentia com ele de uma maneira nada sutil. Sorriu com ironia. Annie nunca teria mostrado sua raiva se seu pai fosse vivo. Win tinha ensinado que as boas maneiras eram de suma importância e que a imagem era tudo. A gente sempre tinha que parecer equilibrado e no controle a situação, inclusive se não fosse assim.

            Seu professor não tinha tido que seguir seus próprios conselhos. Tinha controlado tudo e a todos os que cruzaram em seu caminho, até o último dia de sua vida. James tinha aceitado essa desagradável verdade nos últimos meses, uma verdade que tinha evitado enquanto seu mentor tinha estado vivo.

            Tinha deixado seu rastro em todos, e só agora, depois de sua morte, estavam começando a emergir de sua sombra. Martin Paulsen, o submisso protegido do Win, escolhido para casar-se com sua filha, uma alma inteligente, leal e honesta. Carew, a escorregadia desculpa para um superior, que ao final havia dito a última palavra, e que já não tinha que preocupar-se com que Win julgasse o ato de seu patrício. Annie, vestida com mau gosto, olhando-o com fúria, dando portadas por toda parte.

            E inclusive ele mesmo. Estava saindo da escuridão, quisesse-o ou não. Estava tirando o chapéu, convertendo-se em um ser vivente para as pessoas que alguém, possivelmente Carew, tinha mandado matar.

            Seguiriam vindo, certamente. A próxima vez poderia tratar-se de uma força de ataque a grande escala com marine inclusive, se é que podiam tirar uma desculpa acreditável da manga para levá-los até ali.

            Mas não ia haver uma próxima vez. Já tinha esperado o suficiente. Eles não deixavam que gente deixasse sua profissão de qualquer jeito, ao menos não com seu histórico. Cansou-se de seus ineptos intentos de acabar com ele. Desde que não sabia quem ou o que o estava procurando. Ia levar a guerra a casa deles.

            Mas primeiro devia tomar uma decisão. Se tinha um pouco de julgamento, ia ter que terminar o que tinha começado. Subiria ali em cima e mataria a filha de Winston Sutherland.

            Deu-se conta, enquanto arrastava o corpo da Mary Margaret para os arbustos, de que não tinha outra opção. Poderia tirá-la dali sem que se desse conta da sangria que lhes rodeava, mas cedo ou tarde voltariam a encontrar de frente. E mantê-la com vida só complicaria as coisas.

            Não lhe servia para nada, e a James tinham ensinado a seguir uma disciplina cruel. Era um obstáculo em seu caminho, e a única solução era desfazer-se dela.

            A alternativa era impensável. Não tinha nenhuma razão para deixá-la com vida, exceto por sentimentalismo. Emoção. Velhas lembranças, um carinho passageiro por uma menina, um momento em uma casa vazia um Dia de Ação de Graças fazia muitos anos, quando ela era muito jovem e estava sozinha, e ele tinha baixado a guarda durante um momento. Annie parecia ter esquecido, mas podia recordar de um momento a outro. E ele não podia permitir que isso acontecesse.

            A sorte da jovem estava lançada. Sua origem e sua curiosidade o tinham deixado claro. Podia comportar-se bem com ela. Fazer de forma rápida, sem dor. Se alguém ia matar Annie Sutherland, tinha que ser ele.

            Não teria sido igual se tivesse tido uma consciência que logo pudesse aporrinhá-lo. Tinha matado em muitas ocasiões. Era muito bom nisso, e não causava sofrimento, levava a morte quem merecia sem parar para pensar ou lamentar.

            E se alguma vez tinha lamentado, tinha convertido em penitência. O preço que tinha que pagar era viver o resto de seus dias expiando e agravando seus pecados. Era uma penitência originada por sua educação católica.

            Sempre tinha burlado de si mesmo pensando que a fé de sua mãe tinha transpassado o coração e a alma, chegando até seus ossos, como se tratando de um câncer.

            Isso também era parte de sua penitência.

            Subiu as escadas silenciosamente. A adrenalina lhe golpeava ainda nas veias, um efeito secundário natural da passada meia hora. Seu pulso estava estável, as mãos não tremiam. Isto era o que melhor fazia. Mary Margaret o tinha chamado "mestre". Duvidava que Annie considerasse seu cadáver uma obra de arte.

            Estava de costas a ele quando chegou ao alto das escadas. Colocava a roupa na mala e seus movimentos eram rápidos, convulsos, zangados. Agarrou os absurdos sapatos de salto alto, sustentou-os nas mãos por um momento e depois os atirou ao cesto de papéis do canto. Esta caiu pela força de seu lançamento e a jovem murmurou um palavrão.

            Aproximou-se ainda mais, tanto que podia ter erguido o braço e meio doido esse esbelto pescoço que se ocultava sob o úmido cabelo. Ela nunca saberia o que tinha acontecido. Um momento de pressão e estaria morta antes que caísse ao chão. Poderia agarrá-la, com cuidado, e depositá-la sobre a cama. Fechar-lhe-ia os olhos, e depois possivelmente queimaria o lugar que lhe rodeava, como se se tratasse de uma pira funerária. Deu-se conta de que não queria que outros a tocassem, nem sequer a roçassem, quando estivesse morta.

            Só tinha que levantar a mão. Ela não sabia que estava ali detrás, preparado para atacar, mas se duvidava muito tempo mais se voltaria e o veria, e reconheceria a morte em seu rosto. Assustar-se-ia e ele não queria isso. Se é que ia fazer, tinha que ser da forma mais singela e indolor possível.

            Seus músculos se esticaram. Levantou a mão, e lhe roçou com os dedos o cabelo molhado.

            se girou e o olhou com aborrecimento.

            —Deste-me um susto de morte —lhe espetou—. É tão bom como Win, indo nas pontas dos pés de um lado a outro e espiando as pessoas. Faz parte de sua especialidade? Das "Instruções para Espiões Principiantes"?

            Então ele pôs-se a rir; foi um som grosseiro, áspero, e perguntou a si mesmo quanto tempo fazia que não o ouvia. Possivelmente dez anos ou mais. Baixou a mão, flexionando os dedos duros.

            —Tem mais descaramento que cérebro —comentou, arrastando as palavras com seu melhor acento texano.

            —Isso é muito de dizer. Era membro da irmandade Phi Beta Kappa da Universidade de Washington.

            James encontrou a si mesmo sorrindo. Sentia como se as rígidas rugas de seu rosto fossem se romper pela inesperada diversão.

            —Annie, esta fora de mão.

            —Já tinha notado. O que sugere que faça a respeito? Que escape e me esconda?

            Não existia nenhum lugar para onde pudesse fugir nem nenhum onde pudesse estar segura. Ele sabia, embora ela não. O lugar mais seguro era a seu lado. O homem que tinha estado a ponto de matá-la.

            Não ia fazer. Pelo menos não agora, não enquanto tivesse outra opção. Sabia suficiente sobre a vida para reconhecer que as coisas mais estranhas que pudesse imaginar podiam acontecer. O destino estava contra ambos, e se tivesse sido jogador tivesse apostado que os dois estariam mortos para o Halloween.

            Mas a probabilidade não significava nada quando introduzia seres humanos na equação. Annie podia salvar-se. E se tivesse a oportunidade, ele ia ocupar-se de que assim fosse.

            Não estava contente absolutamente com sua decisão. Era pouco prática, emocional, uma debilidade. Mas quanto mais pensava, mais se dava conta de que não queria matar Annie Sutherland, a menos que se visse obrigado a fazê-lo.

            Esticou o braço para agarrar a mala, tendo muito cuidado de não tocá-la. Seu cabelo já estava começando a secar ao calor do meio-dia, e podia cheirar o aroma de seu corpo, a leveza de sua pele. E, na brisa, o forte fedor de sangue e morte.

            —Vamos — comunicou ele—. Antes que deva buscar alguém mais.

            —Veio alguém?

            —Uma mulher pesadíssima chamada Annie Sutherland — respondeu com seu preguiçoso tom sulino—. Não quero me arriscar a que apareça também seu ex-marido.

            —Pensava que Martin era teu amigo.

            —E é. Ou ao menos o mais parecido a um amigo que tenho.

            —Aonde vamos?

            —Confia em mim?

            Ela olhou o homem que ia matá-la, inclinando a cabeça para um lado enquanto pensava. Os olhos de Annie eram de um azul claro e limpo. A mesma cor que os de seu pai, embora sem sua malícia ou astúcia. Aquele dia não pôs maquiagem, mas por estranho que parecesse estava mais bonita sem a capa protetora que levava habitualmente. Tinha a pele suave, toda, com uma cor natural. Suas pestanas tão espessas e frisadas como seus cabelos. Sua boca era grande, de lábios cheios e pálidos, e tinham umas quantas sardas ao redor de seu diminuto nariz.

            Meu deus, o que estava fazendo aí parado pensando em suas sardas?

            —Posso confiar em ti? —inquiriu ela.

            Queria lhe dizer a verdade. Queria lhe dizer que corresse tudo o que pudesse, que se afastasse dele o mais rápido possível. Mas seria uma perda de tempo. Se Annie conseguisse escapar, ele a apanharia. Se a apanhava, faria-lhe mal. Mentir era sua única opção.

            —Claro que sim — respondeu deixando que o acento texano alagasse suas palavras, conhecendo seu habitual efeito cativante—. Seu pai confiava em mim, não?

            —Com toda sua alma —afirmou Annie.

            Umas palavras muito mal escolhidas, embora James não deixasse que se esfumasse seu ligeiro e sexy sorriso.

            —Então, você também pode. Tenho um carro estacionado na estrada. Teremos que atravessar a selva, mas hoje vai melhor equipada para isso que ontem. —Olhou-lhe as sapatilhas que levava postas. Se necessitasse, poderia correr com elas. Levaria-a em braços se fosse preciso.

            —De acordo —disse ela—. Vamos.

            Seu repentino consentimento pôs em jogo todas suas suspeitas habituais. A gente não era tão direta, tão honesta, tão confiante como parecia ser Annie Sutherland. Provavelmente lhe afundaria uma faca nas costas antes que estivessem na metade do caminho do carro.

            Ou ao menos podia tentá-lo. Se Mary Margaret não tinha podido com ele, então Annie tampouco poderia. Quase desejava que o fizesse. Então já não teria que pensar já não teria que decidir. Resolveria o assunto com total facilidade.

            Mas a vida não era feita de coisas fáceis. Seguiu-o pelas escadas, e enquanto uma parte dele estava tentada a empurrá-la contra a parede e revistá-la para assegurar-se de que não levava uma arma, a outra sabia que o pior que podia fazer era tocá-la.

            Dirigiu-se para o alpendre principal. Havia três cadáveres por aí. Se conseguisse que ela seguisse o atalho que margeava o mar sem olhar nem à direita nem à esquerda, nunca se inteiraria do que tinha passado essa manhã.

            —Não vais fazer as malas? —perguntou ela.

            —Não se preocupe por mim, Annie —respondeu James enquanto a esperava—. Posso cuidar de mim mesmo.

            A jovem encolheu os ombros descendo do alpendre. E então, seu perfeito e sardento nariz se enrugou com um súbito desgosto. —O que é esse cheiro?

            —Por aqui crescem umas flores tropicais mais estranhas. Provavelmente está cheirando a lilás sangrenta.

            —Nunca tinha ouvido falar dela.

            —Estão em perigo de extinção.

            —É bom saber — murmurou Annie—. De toda forma, cheira mais a tanque de assepsia.

            Era muito observadora.

            —Também há algo disso —comentou ele—. Vai ficar aqui parada inalando os resíduos tóxicos ou vem comigo?

            —Vou contigo — murmurou à jovem—. Por mais que não goste, confio em ti.

            Por alguma razão, isso não tranqüilizou muito James.

            Enquanto tentava seguir seu ritmo pelo caminho, deixando cada vez mais atrás a pequena cabana, Annie pensava que James tinha uma expressão mais estranha quando tinha ido procurá-la no dormitório; entre sonhadora, erótica e de uma vez ameaçadora, e lhe havia exigido toda sua força de vontade para dizer algo mordaz.

            Aquela expressão se desvaneceu, e ela pôde respirar enfim. Só agora, seguindo-o através da espessa relva, dava-se conta de quão inquietante tinha sido. Seus olhos negros e vazios, olhando-a, sua mão levantada.

            Tinha estado a ponto de tentar seduzi-la? Era a única explicação lógica que lhe ocorria, e a jovem tinha a suficiente experiência para reconhecer que parte da tensão que se apalpava entre eles era provavelmente sexual. Não queria recordar que uma vez tinha pensado em James dessa maneira. Encontrava-se muito mais segura considerando-o como alguém muito maior, inofensivo, tal como tinha feito desde muitos anos. Durante um tempo, inclusive tinha chegado a supor se não seria assexuado, sempre discreto e educado, mas depois o tinha descartado.

            Por alguma razão, tinha sido importante para ela considerar James como alguém assexuado. Agora mesmo, olhando suas fortes costas, perguntou-se como tinha conseguido fazê-lo. Algumas lembranças escondidas no mais profundo de sua memória estavam lutando para sair à luz, mas ela não estava preparada para enfrentar-se com elas. O que tinha sentido por ele não tinha sido mais que o típico amor de adolescente, Santo Deus, algo que tinha superado rapidamente quando conheceu um homem de verdade, um homem apropriado para ela. Embora não tivesse sido bom, casar-se com o Martin tinha sido algo razoável.

            Olhou James e um estremecimento lhe percorreu o corpo. Não queria recordar. James estava vazio. Sem alma. Era uma máquina, uma das criações do Win.

            Uma vez mais tentou sossegar esse pensamento desleal. Esses julgamentos tão duros lhe assaltavam quando menos esperava, e por muito que tentasse apagar de sua mente, sempre voltavam de uma forma nova e perturbadora.

Por Deus, seu pai não tinha sido um santo. Tinha sido um homem preparado, embora tivesse que reconhecer que também manipulador, eficaz controlando os que lhe rodeavam e fazendo com que todos dançassem ao som de sua música. Annie tinha sido sua marionete, igual a James. Mas o professor de marionetes se foi, cortando os fios que os manipulavam. E ela ainda estava lutando por ficar direita.

            —James — soltou—. Quem crê que matou meu pai?

            Esperava que ele o negasse de novo, mas continuou caminhando, com passos suaves e elegantes.

            —Alguém que ele queria — respondeu ao final—. Ninguém mais poderia ter-se aproximado.

            Annie conteve o fôlego.

            —Crê que ele sabia?

            James a olhou por cima do ombro.

            —Sem dúvida — disse. E seguiu caminhando, com a cabeça baixa e os ombros em tensão.

 

            Ele não bebeu no avião. A jovem notou imediatamente, mas teve o tato de não mencioná-lo. Seus assentos eram de primeira classe, os licores fluíam com total liberdade, e James McKinley bebia água mineral, sem limão.

            Annie se assombrou da eficácia que ele tinha demonstrado para lhes fazer chegar até ali. A excursão até o carro tinha sido a pior parte, com esses mosquitos lhe destroçando a pele, esse terrível fedor alagando o ar, sobrepondo-se à fresca brisa do oceano. Não lhe tinha deixado nem respirar, e não foi até que se encontrou sentada com o cinto de segurança no assento dianteiro do singelo Sedan cinza quando seu instinto cobrou vida.

            —O que havia na casa? —perguntou. James já tinha arrancado o carro, e tinha entrado pela estreita e enlodada estrada sem olhar nem a direita nem a esquerda, conduzindo muito depressa. Não lhe respondeu, mas lhe viu jogar uma olhada ao relógio do painel. —James...

            —O que?

            —O que havia na casa?

            Uma explosão respondeu a sua pergunta. Sua força fez tremer a estrada, fazendo com que o carro patinasse para um lado antes que James pudesse endireitado com brutalidade. Não lançou nenhum olhar à torre de fumaça que ondeava na distância, onde tinha estado sua cabana.

            Annie se recuperou do susto. A fria eficácia do assunto era quase pior que a destruição, e sentiu que a ansiedade lhe devorava as vísceras. Demorou uns segundos em voltar a falar.

            —Não foi um pouco radical? —perguntou em tom irônico.

            —Não —respondeu o condutor. Depois de um momento interminável continuou—: Sempre existe a remota possibilidade de que pensem que morremos na explosão. Ao menos os fará parar durante um tempo.

            —Do que está falando? Parar?

            Voltou-se para olhá-la e ela quase desejou que não o tivesse feito.

            —Os que mataram a seu pai. No fim, não é do que se trata tudo isto? Disse que queria averiguá-lo. Meteu-te na boca do lobo quando veio a me buscar e agora não há marcha atrás. Assim é como se joga a isto, Annie. É o momento de pensar e encontrar o ritmo que vem depois.

            —Não gosta de dançar.

            —É uma marcha fúnebre.

            Depois disso, ela não voltou a pronunciar nenhuma palavra. Montaram-se em um pequeno navio para sair da ilha, e ele dirigiu a situação com a mesma fria destreza com a que fazia tudo; ela o seguiu cegamente.

            Este era o terceiro avião que tinham pego hoje. McKinley tinha pago o bilhete com um cartão american express ouro com um nome que nunca tinha escutado. Ela não disse nada a respeito.

            Mas agora, enquanto voavam para o entardecer, a jovem agarrou uma taça de champagne gelado, a bebeu de um gole e ficou a contemplar o homem que estava sentado junto a ela.

            —Por que nos dirigimos ao oeste? Pensei que íamos voltar para Washington. A última noticia que soube é que se encontrava neste Costa. Ou a CIA arrumou para trocar as coisas?

            —Se fosse você, cuidaria de minhas palavras — advertiu ele com bastante amabilidade. Mas não havia nenhuma dúvida da luz de advertência de seus olhos—. Nunca se sabe quem pode estar escutando.

            —Não acredito nessa tua paranóia da Guerra Fria.

            —Não tem por que. Somente tem que fazer o que te digo.

            —Aonde vamos?

            —Procurar as respostas. Começaremos em Los Angeles e seguiremos dali.

            —Há alguma razão particular para este desvio? Ou é que simplesmente três aviões em um só dia não são suficientes para você? —Estendeu a mão para pegar uma segunda taça de champagne, sabendo que não devia fazê-lo. Estava muito cansada, muito inquieta, muito faminta para estar bebendo champagne sem parar.

            —Eu gosto do sul de Califórnia.

            —Sempre disse que odiava. Lembrava de ter visto o Win e a você queixando-se de que tinha que passar três meses ali.

            —Tem boa memória —assinalou ele com indiferença—. Mentia.

            —Quando? Agora ou então?

            —Sempre, Annie —disse James com indiferença—. Sempre.

            Custou-lhe cinco taças de champagne dormir. Estava a ponto de ajudá-la um pouco, exercendo uma ligeira pressão em um ponto de seu pescoço que a deixaria fora de combate durante ao menos duas horas, quando finalmente fechou esses endiabrados olhos azuis.

            Maldita seja, aquela mulher era um problema. Não importava quão cansada estivesse, quanta tensão tivesse tido que agüentar. Com a morte do Win parecia que o véu se levantou, e ela via tudo o que precisamente James não queria que visse.

            Também teria gostado de um pouco de champagne. A verdade é que o que realmente teria sido uma maravilha era um par de garrafas mescladas com uma quinta parte de tequila. Não se atrevia a tocar algo mais forte que água com gás.

            Agora tinha voltado para mundo real. Na ilha tinha controlado seu redor. Ninguém podia aproximar-se sem que ele soubesse. Mas agora, a cabana e ao menos dois hectares dos arredores se converteram em cinzas, incluindo todo rastro de seus mais recentes visitantes. E estava levando Annie para um perigo que já não estava seguro de poder lidar.

            Faltava uma peça do quebra-cabeça, estava seguro, mas durante os últimos meses tinha deixado de se importar. Entrincheirou-se, esperando simplesmente que eles mandassem alguém para matá-lo, e tinha conseguido manter sua mente e suas lembranças afastadas. Não tinha querido recordar, nem a noite do dia dois de abril, nem as espinhosas perguntas que a rodeavam.

            Em primeiro lugar não queria saber como se colocou nessa confusão. A Divisão para a qual trabalhava era pequena, tranqüila, eficaz, que fazia que a justiça fosse cumprida e limpava as confusões políticas quando os organismos "oficiais" se mostravam impotentes. Fazia sua parte, sem precaver-se nunca de que ele tinha contribuído de forma substancial para piorar as coisas.

            Toda a tequila do México não poderia apagar essa certeza de sua mente, e então apareceu Annie, e todas essas perguntas saíram ao exterior de novo.

            Win Sutherland não tinha atuado sozinho em seus truques, seus jogos, em sua lucrativa atividade suplementar, mandando matar pelo preço adequado e enviando a cumprir seus letais planos a seus leais subordinados. Seus bodes expiatórios.

            Carew possivelmente acreditava que a Divisão se deteve com a morte do Win. Mas James tinha outra certeza. Até o momento não tinha importado. Que se matassem uns aos outros se gostavam. Ele tinha se retirado do assunto, somente estava esperando que chegasse alguém tão bom e tão rápido que fosse capaz de acabar com ele.

            Agora tudo tinha mudado; ainda não tinha acabado a missão. Não podia deixar passar e deixar que eles solucionassem o assunto, não com Annie metendo-se onde não a chamavam. Não podia contar com que Martin a protegesse, já que não era sua especialidade. Isso James sabia, não tinha disparado uma pistola em sua vida. Não seria de nenhuma utilidade se fossem procurar sua ex-mulher.

            Assim havia voltado, quisesse ou não. E desta vez não ia parar até que encontrasse as respostas. Agarraria Carew pelo fraco pescoço e obrigaria que lhe contasse tudo. Este o queria morto, igual aos sócios de Win. Ao menos poderia pactuar com ele uma trégua bastante larga para encontrar as respostas.

            Que diabos era esse estúpido bordado de que Annie não parava de falar? Provavelmente uma pista falsa ou possivelmente algum tipo de código. Oxalá pudesse ignorá-lo e concentrar-se no que Win tinha visto na última vez, em onde se encontrava ele.

Mas era um bom profissional e sabia que não podia permitir-se deixar de lado nada, embora se tratasse de uma ridícula tapeçaria de origem irlandesa.

            Necessitava de respostas e não ia parar até que as encontrasse. O conhecimento era poder. O conhecimento era controle e suportava segurança. Duvidava que ele pudesse conseguir segurança para si mesmo, mas possivelmente sim conseguisse salvar à mulher de língua solta que dormia tão profundamente a seu lado. Com sorte, isso seria suficiente.

 

 

            —Temos um problema, senhor.

            —E agora que demônios esta acontecendo? —perguntou bruscamente o general.        Era pela tarde, mas desta vez o escritório não se encontrava absolutamente deserto. O homem que estava frente a ele tinha razões de peso para lhe visitar, que não teria que ser muito preparado para adivinhar. Devia tratar-se de algo grave para tê-lo levado até ali.

            —Vai dizer que McKinley escapou, não? Não quero ouvir.

            —Não estou seguro. O lugar voou pelos ares e não pudemos contatar nossos enviados ainda. Com sorte, será Hanover que o tenha matado e terá acabado com os dois.

            —Quem diz que podemos esperar ter sorte neste assunto? —disse o general amargamente—. McKinley é um perito em explosivos: muito melhor do que era Hanover.

            —Era, senhor?

            —Pode você não estar seguro, filho, mas eu sim. Sua gente desapareceu. McKinley se saiu com a sua de novo, maldito seja. E provavelmente levou a filha de Sutherland com ele. Estamos de merda até as orelhas.

            —Sim, senhor.

            O General se reclinou na poltrona com um suspiro de cansaço. Estava ficando muito velho para tudo aquilo. Já era hora de pensar em batalhas mais agradáveis para ganhar. Tinha planejado todo seu futuro. Possivelmente começasse por algum posto "sem importância" como secretário de defesa. Sabia como retorcer braços, como lubrificar carteiras; era o perfeito político assim como um estrategista consumado, e tinha estado aperfeiçoando sua imagem pública durante toda sua vida. Era o momento que lhe reconhecessem. Sua lucrativa atividade suplementar tinha quebrado, mas era um homem inteligente e reconhecia quando chegava o momento de soltar as amarras. Agora terei que pensar no futuro. Não se deteria até que obtivesse poder absoluto. Preferivelmente chefe do estado maior. Ou possivelmente um pouco mais tranqüilo, como por exemplo presidente. Mas com uma bomba relógio aí a solta como McKinley não ia se aproximar da Casa Branca de maneira nenhuma. Tinha que assegurar-se de que em seu armário não havia nenhum esqueleto que incomodasse e os ossos desse capanga estavam começando a lhe amargurar a existência.

            —Muito bem, filho —disse pesadamente—. Daqui em diante eu me ocuparei disso.

            A escória yuppie com seu maldito traje italiano e cabelo muito comprido o olhou com surpresa.

            —Senhor?

            Não teria durado nenhuma semana no antigo exército. Mas agora, neste novo, abarrotado de mulheres e homossexuais, encaixava perfeitamente.

            —Tenho outras alternativas. Falhaste filho. É o momento de deixar que te releve um velho soldado.

            Não pareceu haver gostado muito, pensou o General um tanto divertido. Mas sabia que não podia fazer nada absolutamente para remediá-lo. Havia momentos, pensou em que a vida ainda podia ser agradável. E lhe dar alguns socos no nariz era um desses momentos.

            —Ocuparei-me de McKinley e da garota. Não se preocupe mais com eles — particularizou em tom pomposo—. Esqueça.

            —Senhor?

            —Sim, filho?

            —Se fosse você, não subestimaria McKinley. Não é a toa que o chamam o "Doutor Morte".

            O General franziu o cenho. O menino não ficou abalado durante muito tempo.

            —Acredito que pode confiar que eu me ocuparei do assunto da forma apropriada. Tenho recursos que não estão conectados com sua pequena operação. McKinley não suspeitará. Logo que averigúe onde se encontra, acabarei com ele e com a garota.

            —Como você quiser senhor.

            —Não parece muito convencido, filho. Você gostaria de apostar algo?

            O homem fez uma careta.

            —Não, obrigado, senhor.

            —Pensa que é de mau gosto, não, filho?

            —Não, senhor. É só que não faço apostas que penso que posso perder.

            O General se reclinou de novo em sua poltrona, sentindo-se subitamente generoso com o mundo.

            —É um homem inteligente. Terei-o em conta.

            —Obrigado, senhor.

            Imbecil, pensou o General com simpatia, enquanto a porta se fechava detrás dele. Mas era um imbecil com estilo.

 

            Fez ela passar pela alfândega rapidamente enquanto Annie caminhava atrás dele tropeçando, obedecendo no momento, sem poder ou sem querer perguntar mais, sem acender novas discussões. James supunha que por ela teria seguido dormindo ao aterrissar o avião e teria se deixado conduzir por ele apoiada em seu ombro.

            Mas para isso ele teria que pôr as mãos nela, e isso teria sido um grande engano para ambos. A jovem estava esgotada e não muito sóbria, e embora ele compartilhasse o primeiro desses estados, teria dado qualquer coisa para compartilhar também o segundo.

            Clancy os esperava onde tinham ficado, e no momento em que viu aparecer McKinley, dirigiu-se para a saída, com a segurança de que eles o seguiriam a uma distância discreta. Annie não murmurou mais que um protesto simbólico, quando seu acompanhante a depositou sobre o assento traseiro de um velho Toyota e depois fechou a porta, situando-se no assento dianteiro junto ao Clancy. Podia sentir que seus olhos disparavam flechas a nuca enquanto se confundiam entre o tráfico vespertino, e a olhou um momento.

            —Durma, Annie. Tudo está sob controle.

            Ela não disse nada. Simplesmente se reclinou para trás e fechou os olhos, mas a McKinley não enganava. Não tinha nenhuma dúvida de que não perderia nenhuma das palavras que pronunciassem.

            Clancy mantinha seus olhos na estrada.

            —Quem é?

            James considerou distintas respostas. Ele também estava cansado, e a lembrança do breve e eficaz banho de sangue daquela manhã ainda flutuava em algum lugar escondido de sua memória. Iria persegui-lo sempre o fazia.

            —Não quis ficar — comentou em tom ligeiro.

            —Não acredito. Nunca permite que sua garota te diga o que tem que fazer, e não teria a trazido a não ser que tenha uma boa razão.

            —Quer saber de verdade, Clancy?

            Observou como este refletia. Tinha sido um de seus colegas durante mais de dez anos, mas fazia três que se retirou; vivia de sua pensão e só procurava ocasionalmente algum serviço de consultoria. Win tinha mantido a seus subordinados e seus objetivos cuidadosamente segregados, mas algumas vezes seus caminhos se cruzavam. James o tinha conhecido no Panamá, cada um deles em missões separadas, enviados pelo mesmo homem. Ambos manchados de sangue.

            Clancy tinha sido um assassino pragmático. Matar era seu trabalho, e nenhuma das pessoas que se carregou era de nenhuma utilidade para o mundo. Causavam muito mais dano do que benefícios, e acreditava que estava fazendo um favor à sociedade.

            James não via tão claro. Essa culpa, arrastada de sua educação católica, atormentava-lhe. A lembrança de uma praça infestada de cadáveres e mulheres chorando, permanecia em algum lugar escuro de sua mente.

            Mas a pesar do modo quase frio do Clancy, confiava nele mais que em ninguém no mundo. O que tampouco era dizer muito, pensou com amargura.

            —Não —respondeu Clancy—. Suponho que é melhor que não saiba detalhes.

            —Aonde vamos?

            —Tenho uma casa segura preparada para ti nas montanhas. Pode ficar ali o tempo que quiser.

            Seu antigo companheiro fez um gesto para a silhueta tombada do Annie.

            —É uma dos nossos? Podemos falar? —Até certo ponto. —Não alterou no mais mínimo o tom de sua voz.

            —Averiguaste o que aconteceu ao Win?

            Ela não se moveu, mas James quase pôde sentir como se agitava sua adrenalina.

            —Ainda não.

            —Crê que Carew sabia?

            —Sim.

            Clancy pensou um momento e depois assentiu:

            —Eu imaginava. Merda.

            —Sim.

            —Tem idéia de por que?

            A James nem passou pela cabeça contar a Clancy, pois vivia sua vida segundo suas decisões. Não tinha por que saber a verdade sobre o asqueroso trabalho a que tinha dedicado sua vida. Não tinha por que saber que algum desses objetivos se tratou simplesmente de um inconveniente para alguém, que os tinha carregado por um preço.

            —Não vou perguntar se pretende fazer algo a respeito — continuou seu antigo colega—. Te conheço o suficientemente bem para saber a resposta. Tão somente te ofereço minha ajuda se a necessitar.

            —Clancy — respondeu James com cansaço—, ganhaste um descanso.

            —Como você, amigo.

            —Temo que não há descanso para gente como eu.

            A casa era pequena, remota e se encontrava ao final de um estreito caminho. As árvores a rodeavam por ambos os lados, e a parte traseira davam a um canhão, um escarpado tão pronunciado e tão cheio de pedras, que somente um exército equipado poderia ser capaz de subir. De novo, ninguém podia aproximar-se sem que se inteirasse, e não tinha nenhuma dúvida de que Clancy tinha preparado um fuzil de franco-atirador para afugentar aos intrusos. Seu amigo nem sequer desligou o motor quando se colocou frente à porta principal coberta de farpas:

            —Há um montão de comida e bebida, e me ocupei de tudo o que me pediu. Ligarei esta noite para ver se necessitar algo mais.

            —Arrumou a entrevista?

            —Sim. Não disse quando. Já conhece o Carew.

            —Conheço-o. A linha telefônica está segura?

            —Estava-o a última vez que o comprovei. Tem três repetidores instalados para que não possam te localizar. Carew sabe onde está, mas ninguém mais pode averiguá-lo, a não ser que ele diga.

            —Possivelmente — respondeu vagamente—É um bom homem.

            —Oxalá pudesse fazer mais.

            McKinley saiu do carro, detendo um se momento ante a porta de atrás. Annie tinha descoberto que o Toyota vinha equipado trava para crianças e que não podia abrir a porta por si mesma. Não estava muito contente.

            Não lhe deu a oportunidade de começar a discutir. Tirou-a do carro e a levou rapidamente a casa, antes que pudesse começar a gritar, e desta vez, não teve remédio a não ser tocá-la. Tampou-lhe a boca com a mão, empurrou-a contra a porta, e a manteve ali, no silêncio da casa escura, enquanto tentava descobrir se havia algum intruso.

            Agora não havia ninguém. Sabia com uma segurança que não saberia explicar, mas que lhe tinha salvado a vida em infinitas ocasiões. O lugar estava vazio e se achavam a salvo.

            Então Annie ficou a tremer.

            Olhou-a. Seus grandes olhos azuis o observavam fixamente, e o aborrecimento que tinha brilhado neles até aquele momento, desvaneceu-se. Parecia assustada, enjoada, vulnerável, e James era consciente de que não tinha nada que ver com a morte nem com seu pai, a não ser com seu corpo, que se apertava contra o seu no pequeno e escuro vestíbulo.

            Sentia-a cálida, forte e viva contra ele, e descobriu que de seu interior surgia um impulso irrefreável de posar sua boca sobre a base de seu frágil pescoço, pressioná-la e provar o sabor de sua pele. Queria tocar seus peitos, tirar a camiseta e sentir sua ardorosa pele contra a sua. Maldita seja, desejava-a.

            Soltou-a, e retrocedeu antes de que ela pudesse perceber sua resposta mais imediata. Clancy havia dito que nunca estava acostumado a pensar em sua garota. Não sabia que os tempos tinham mudado.

            —O que estamos fazendo aqui? —perguntou a jovem com voz tremula.

            —Esperando uma pessoa.

            Afastou-se dela, esquadrinhando a ordenada distribuição do pequeno chalé. Era um edifício antigo, desenhado segundo o modelo de uma casa de campo inglesa, com janelas de múltiplos cristais e com roseiras ao redor. Podia cheirar o aroma das rosas no ar, e lhe causava uma aguda dor. A casa dos Sutherland em Georgetown também estava rodeada de rosas. No funeral de Win tinham posto um vaso de rosas cheirosas sobre seu tumulo.

            —Carew. Por quê? Crê que ele sabe quem matou meu pai?

            —Provavelmente. Mas imagino que não me fornecera por bem a informação.

            Achava-se em um salão pequeno com papel florido na parede e capas creme nos sofás. Parecia que a chaminé funcionava e que seria perfeita para esconder um microfone. A mesa estava em um canto e, um pouco mais longe, havia uma pequena cozinha. James se dirigiu para ela, lançando a continuação de sua resposta por cima do ombro.

            —Quem matou seu pai não importa — afirmou, abrindo a porta batente para dentro. Tinha reformado a cozinha da casa, em algum momento dos anos vinte ou trinta. perguntou-se se Annie saberia cozinhar.

            —Essa é sua opinião. — A jovem se encontrava justo detrás dele, muito perto, e se retrocedesse tropeçaria nela. Não queria que ocorresse isso—. Ainda não me disse o que esperas conseguir do Carew.

            Ele se voltou e, sem pretendê-lo, seu braço lhe roçou o peito.

            —Uma trégua. Possivelmente algum tipo de informação, embora duvide de que ele seja de alguma ajuda. O que necessito do Carew é que me prometa que sossegará aos cães. Que me dê uma semana, duas quando muito, para averiguar...

            —Para averiguar o que?

            —A razão pela qual decidiram acabar com seu pai.

            —E você crê que Carew saberá?

            —Pode ser; era ele quem dava as ordens.

            Ela olhou nos olhos dele assombrada.—Sabia e não fez nada? —perguntou, furiosa repentinamente—. Bastardo sem coração, como pôde deixar que se saísse com a sua?...

            Cometeu o engano de tocá-lo, como ele supunha. Agarrou-o pelos braços, tentando sacudi-lo com raiva, mas ele se limitou a girar as mãos sobre as suas e segurou suas mãos. Não se esforçou em partir seus frágeis ossos, tal como poderia ter feito sem nenhum esforço. Simplesmente a manteve imóvel, retendo-a como se fosse uma prisioneira. Desfrutando-o, maldita seja sua alma.

            —Por que pensa que estava no México, Annie? —murmurou com suavidade—. Carew não me disse nenhuma só palavra a respeito. Tratei de matar a esses imbecis. Duas vezes. A segunda vez ninguém acreditou realmente que se tratava de um acidente, e me dava conta de que não teria uma terceira oportunidade durante um tempo, e que me agarrariam primeiro.

            —Disse que foi um burocrata. Um engomadinho. Um contador, pelo amor de Deus. Você não tenta matar ninguém.

            —Menti que era um contador para a Cia para uma pequena e escura subdivisão dela, e agradece ao céu que seja tão escura. É melhor que não saiba nada dela.

            —Era o trabalho de meu pai, não? Quero saber mais.

            —Já sabe muito. Agora se acalme e nos limitemos a esperar ao Carew.

            —Vai tentar matá-lo outra vez?

            Pensou nisso, e como sempre, a opção resultou atrativa.

            —Possivelmente —disse depois de um momento—. Embora de acordo com algumas respostas e uma trégua a curto prazo.

            —Sabe, está louco.

            —Você é que veio procurando respostas. Mudou de idéia, Annie? — Quase esperava que dissesse que sim. Mereceria a pena o risco de mandá-la com o Clancy e tratar com o maldito ele sozinho. Existia ainda a remota possibilidade de que não soubessem que ela o tinha encontrado. Muito remota, pensou.

            —Não — se negou Annie, empalidecendo subitamente—. Não mudei de opinião.

            —Quer as respostas?

            —Sim —reconheceu—. Quero me vingar.

            Depois de tudo, era a filha do Win. Olhou esses cristalinos olhos azuis, tão parecidos com os de seu pai.

            —Do Carew?

            —Do homem que o matou.

            Ele assentiu antes de liberá-la e voltar-se para verificar o conteúdo do pequeno refrigerador. Já sabia que haveria licores no armário, também sabia que haveria armas. Clancy era um homem cuidadoso, e conhecia sua paixão pelo álcool e as pistolas.

            —O que pretende fazer quando averiguarmos quem o fez, quem deu as ordens e quem as cumpriu? Poderia estar equivocado a respeito de Carew. Poderia estar equivocado a respeito de tudo. O que aconteceria se alguém descobrir? Um amigo? Denunciaria-o?

            —Não — se apressou a dizer a ela—. Mataria.

            Ele manteve seu rosto dentro do refrigerador, estudando as garrafas de cerveja. Quando girou, sua expressão era indecifrável.

            —Pensa que é capaz de fazê-lo? —inquiriu com um tom de voz perfeitamente razoável.

            —Embora você não tenha podido? Sim. Já sabe, ele era meu pai. Queria-o.

            —Está-te esquecendo de algo. Ele era como um pai para mim.

            A idéia a surpreendeu claramente.

            —Olhe — repôs James antes que a jovem pudesse protestar—. Por que não vai ver como são os dormitórios e tira um cochilo? Não sei quando aparecerá Carew, mas...

            —O que te faz pensar que aparecerá?

            Permitiu responder com um pequeno e perigoso sorriso.

            —Virá — assegurou—. Lhe prometo isso.

            Por um momento, Annie pareceu insegura. Como se ainda não soubesse o que pensar dele.

            —De acordo —respondeu—. Possivelmente o faça.

            Voltou-lhe as costas e abandonou a cozinha, enquanto James se perguntava por um instante se Clancy teria sido tão descuidado de deixar as armas à vista. Duvidava-o. Um treinamento como o do Clancy e o seu não se esquecia tão rapidamente, embora tivesse passado muito tempo desde que se ocupou de assuntos como aquele.

            Ela tinha um aspecto enganosamente forte com as costas erguida. Entretanto, ele sabia a verdade e, por estranho que parecesse, entristecia-lhe.

            —Annie — chamou.

            A jovem parou no vão da porta, voltando à vista para ele.

            —Sim?

            —Está-te esquecendo de algo. O homem que matou seu pai. O homem que quer matar...

            —O que?

            —Ele tentará te matar primeiro. E é um profissional; em geral, não comete enganos.

            —Como sabe?

            —Confia em mim. Sei.

            A jovem assentiu.

            —De acordo. Estarei alerta. E você também, verdade, James?

            Ele também assentiu, tentando sossegar o sentimento de pesar que estava instalado como uma pedra ardente em seu vazio interior.

            —Estarei preparado, Annie —disse em voz baixa.

            Esperou até que escutou que seus passos se perdiam nas escadas, e então se voltou para os armários, para a garrafa de tequila que sabia que encontraria ali. Clancy sempre cuidava dos detalhes.

            Rompeu o selo, desenroscou o plugue, e se bebeu um bom gole, desejando que lhe alagasse esse calor familiar que tão bem conhecia.

            Teve que tornar um segundo gole. Estremeceu, deixando a garrafa sobre a mesa. E depois foi em busca das armas.

 

            Em cima havia dois quartos e só uma cama, já que um dos quartos era utilizado como armazém. A outra estava arrumada com uma breguice que dava náusea: cortinas venezianas nas janelas de vidro, um cobertor creme e tapetes de algodão no chão. A cama era bastante grande para duas ou três pessoas, mas Annie não tinha nenhuma intenção de compartilhá-la com McKinley. Não tinha nenhuma intenção de compartilhá-la com ninguém.

            Foi para a janela e olhou o caminho que se estendia ante seus olhos. Nunca tinha passado muito tempo na Califórnia, pois sempre tinha parecido muito estranha para sua sensibilidade esta costa. Win estava acostumado a dizer que os adultos não viviam na Califórnia, e Annie tinha estado de acordo.

            Agora não estava segura do por que. De por que não gostava da Califórnia, de por que tinha estado de acordo com tudo o que seu pai tinha decretado. Seu pai nunca tinha parecido prepotente, mas a tinha influenciado mediante seu tenro e zombador encanto.

            Abriu a janela deixando que a ligeira brisa enchesse o quaro. Cheirava a queimado na distância e se perguntou se Los Angeles estaria ardendo uma vez mais. Deu-se conta de que na realidade não importava.

            Sentou-se na cama e tirou os sapatos, atirando-os ao lado. Sentia-se muito cansada para permanecer acordada, muito esgotada para dormir. Estirou-se, tentando separar de sua mente tudo menos o céu azul claro que se via pela janela, embora tudo o que podia ver era sangue, morte e perigo.

            Se dormisse, possivelmente quando despertasse tudo teria voltado para a realidade. Pode ser que James voltasse a ser o amável companheiro de Win que ela sempre imaginou de uma maneira tão prática. Possivelmente seu pai estaria descansando em paz em sua tumba em vez de atormentá-la, lhe pedindo que se vingasse. Talvez poderia voltar para sua segura e cômoda vida de novo.

            Mas não acreditava que fosse assim. A vida tinha dado um giro mudando de forma irrevogável durante os últimos seis meses, de uma forma que a princípio nem sequer se precaveu. Tudo tinha culminado nas últimas quarenta e oito horas, com as fantasias paranóicas de morte e guerra de McKinley.

            Queria que tudo acabasse de uma vez. E não custaria muito fazer que acontecesse: podia voltar a causar os sapatos, descer e chamar um táxi. Dizer a James que tinha mudado de opinião, que já não queria encontrar nenhuma resposta nem vingar-se.

            Não estava gostando de nada das respostas que estava recebendo, e a vingança era uma arma de dois lados.

            Ficou deitada sobre a cama, com os olhos abertos, sem poder dormir. Podia escutar como James se movia pela casa sem fazer barulho. O som metálico que fazia ao manipular algum tipo de maquina no armazém do lado que dava sobre a sinuosa estrada, o sussurro da roupa, o mover dos sapatos, alguns sons apagados do vale que havia lá abaixo. Todos eles ruídos normais. Todos com explicações sinistras.

            Desceu da cama, sem preocupar-se com os sapatos, e cruzou o pequeno vestíbulo. A porta do armazém estava entreaberta e a empurrou para abri-la toda, esperando encontrar James La dentro.

            A habitação estava vazia. Apenas havia caixas e móveis que já tinha descoberto em sua anterior exploração. Mas agora havia algo mais. Um rifle montado sobre uma espécie de tripé que apontava para a estrada.

            Olhou-o horrorizada. Não podia ser que houvesse trazido com ele: na alfândega tinham registrado tudo e só tinham levado o que podiam carregar. Mas essa arma não estava montada fazia uma hora. O que planejava fazer com ela? Seria capaz de utilizá-la?

            —Se por acaso vierem visitantes indesejados. — Sua voz se ouviu a suas costas, respondendo a sua pergunta não pronunciada.

            Ela se voltou. James estava mais perto do que esperava, e controlou um ligeiro estremecimento de inquietação.

            —Sabe usar isso?

            —É um rifle de franco-atirador — respondeu—. Poderia recitar de cor as características, mas não acredito que te interesse muito. E sim, sei utilizá-lo.

Mudou de roupa. Levava uma camiseta negra, uns jeans e tinha o cabelo úmido. Parecia totalmente em forma, e muito perigoso.

            —Já sei — Contemplou o brilho de seus olhos e seu desgosto aumentou—: Bebeu?

            —Não o suficiente para que ser notado. Não se preocupe, Annie. Manterei afastado o homem do saco.

            —E se você for o homem do saco?

            Suas palavras surpreenderam a ela mesma, mas afetaram muito mais a James. Parecia como se tivessem dado um murro no estômago.

Recuperou-se tão rapidamente que a jovem quase acreditou que tinha imaginado sua reação.

            —Tem razão, Annie. Não confie em ninguém. Nem sequer em mim.

            —Você não me faria mal — afirmou ela, acreditando. Ou não teria se assegurado de que saísse do México sem problemas. Não teria me trazido até aqui se fosse me fazer mal. E, além disso, por que o faria?

            —Porque está perguntando coisas perigosas. Está se metendo em assuntos que é melhor esquecer, e cedo ou tarde vais descobrir algo que poderia desencadear uma tormenta. Para mim só teria sentido te fazer calar antes que cause danos permanentes.

            —Me fazer calar? Como? Não sou fácil de silenciar.

            —Claro que sim — repôs ele com voz sedosa. Deslizou-lhe uma mão pelo pescoço, sob seus cabelos, acariciando com as gemas de seus dedos a sensível pele que havia debaixo de sua orelha. Ela sentiu que seu pulso se acelerava, e não havia nada que pudesse fazer para pará-lo.

            —Só teria que exercer um pouco de pressão. Aplicá-la com habilidade, no lugar certo, e já estaria resolvido.

            —De verdade crê que poderia me deixar inconsciente tão facilmente? —inquiriu ela, absorvendo o medo.

            —Não falo de te deixar inconsciente, Annie, mas sim de te matar —Sua voz soou ausente, monótona.

            A jovem tremia, e rezava para que James não se desse conta.

            —E por que iria querer fazer isso?

            —Possivelmente eu seja o homem que matou seu pai.

            Ela não podia mover-se. Sentia-se hipnotizada por ele, pela vazia intensidade de seus olhos, o calor e a força de seu corpo, sua mera presença. James a afligia assustava-a e lhe custou toda sua concentração voltar a rir, romper o laço de sexo e violência que a tinha aprisionado.

            —Não engane James. — Separou-se dele, de seu contato, do brilho de seus olhos      —. Queria a Win tanto quanto eu, nos dois sabemos. Não se incomode em negá-lo.

            —Não vou fazer. É certo.

            Ela sacudiu a cabeça.

            —Não sei se acredito em uma só palavra do que diz. Provavelmente é tão capaz de matar alguém como eu sou. Só está tentando me convencer de que temos uma oportunidade no inferno contra... contra as pessoas que mataram a meu pai.

            —E te convenci, Annie?

            A jovem levantou o olhar para ele, para os escuros olhos sem alma que uma vez lhe tinham parecido tão tranqüilos e pouco ameaçadores.

            —Sim —disse em voz baixa—. Me convenceu.

            —Muito bem. —Ele passou a seu lado para olhar para a estrada, pondo uma mão sobre o rifle. Era uma mão possessiva, como se se tratasse da carícia de um amante, e Annie sentiu um estremecimento na medula espinhal—. Quer comer algo? —acrescentou com indiferença.

            —Não tenho fome.

            —Se fosse você, comeria algo —assinalou—. Sempre que puder, tem que jogar com vantagem

            James tinha uns dedos largos e fortes, unhas cortadas com perfeição, e uns ombros fortes e elegantes. Eram umas mãos preciosas, e acariciavam o frio metal da arma com ar ausente, com uma elegância erótica que a inquietava de uma maneira que se negava a definir.

            Queria lhe afastar a mão do rifle. Sair de la, escapar. Em lugar disso, encontrava-se hipnotizada, olhando, incapaz de evitá-lo.

            —Quanto tempo nos vamos ficar aqui? —perguntou, dando a sua voz um tom de normalidade.

            —O quanto for necessário. Até que Carew venha e pensemos aonde ir depois. — voltou-se a olhá-la, e com uma simples olhada se deu conta da fascinação que ela estava experimentando.

            Separou-se da arma, sem envergonhar-se, e se meteu a mão no bolso.

            —Embora você não tenha fome, eu sim — comentou afavelmente—. Não foi muito acertado por minha parte beber com o estômago vazio e sem dormir.

            Isso a pôs em movimento, como se não tivesse esperado outra coisa.

            —Prepararei algo —disse a contra gosto—. Mas sei que está tratando de me manipular. Não crê que vai se sair bem.

            —Por que não? Win sempre o fazia.

            Fechou a porta na sua cara. A portada foi bastante satisfatório, embora descalça não pudesse descer as escadas tão ruidosamente como tivesse desejado. A garrafa de tequila se encontrava sobre a mesa, e pelo menos um terço dela tinha desaparecido.

            Uma súbita apreensão se apoderou dela. Agarrou a garrafa e a esvaziou sobre a velha pia de aço. O acre fedor do álcool alagou a habitação e teve um momento de dúvida.

            Separou-o de sua mente. De maneira nenhuma ia deixar sua vida nas mãos de um engomadinho da CIA com fantasias de cowboy e muito álcool no sangue. Ainda tinha que pensar até que ponto o perigo era real. Mas até que chegasse a uma conclusão, não ia descuidar se nem um instante. Ia deixar o dique seco, quisesse-o ou não.

            Annie fez uns ovos mexidos, que tirou dos limitados conteúdos da geladeira. Chamou James, mas não respondeu assim se sentou e comeu sua parte, observando como a dele esfriava e ficava como uma massa gelatinosa no prato.

            Encontrou-o dormindo sobre a cama, com seu comprido corpo vestido de negro totalmente estirado sobre o cobertor. Tinha fechado as janelas e o ar da habitação estava um pouco carregado. Olhou-o um momento, vendo-o pela primeira vez sem que distraísse seu próprio olhar sobre ela.

            Era mais alto do que pensava. Enchia a enorme cama, apesar de estar deitado de lado. Tinha um corpo de atleta: músculos largos e esbeltos, ossos enormes, poderosos e fortes. Seu cabelo úmido já secou e se enrolava ligeiramente na nuca; era castanho escuro misturado com cinza. Estava um pouco grande na parte traseira de sua cabeça.            Por um momento, sorriu: era sua única imperfeição, o que o fazia de algum jeito mais humano. Mudou de posição enquanto seguia dormindo, ficando de barriga para cima, e ela se fixou em seu rosto. Tinha rugas ao redor dos olhos e em volta da boca, sendo visíveis inclusive enquanto dormia. Essas rugas não tinham aparecido por sorrir precisamente. Não era estranho que sempre tivesse parecido muito mais velho. Seu rosto e seu corpo eram de trinta e tantos anos, entretanto, seu coração e sua alma já eram anciões. E este pensamento surgiu em sua mente repentinamente: Por Deus, o que lhe tinha feito Win? Queria tocá-lo. Uma pequena e enlouquecida parte dela, queria subir nessa cama e fazer com que desaparecessem as rugas que marcavam seu rosto.

            Nesses momentos, deveria ter um aspecto inocente, de menino. Em troca, parecia um soldado do exército da Morte. Retrocedeu rápido antes de que pudesse cair na tentação. O que estava se passando? James McKinley não era um homem que precisasse ser consolado, acariciado, como um gatinho perdido. Era um ser perigoso: estava começando a dar-se conta cada vez mais, por muito improvável que lhe tivesse parecido no princípio. Muito perigoso para ela. Tinha sido uma estúpida ao ir procurá-lo para lhe pedir ajuda. Seu pai a manipulava inclusive do outro mundo, e chegado a este ponto, já deveria estar farta disso.

            Agarrou os sapatos, fechando a porta ao sair e desceu nas pontas dos pés as escadas. Poderia estar dormindo durante horas. Deixaria-lhe uma nota, desculparia-se por tê-lo metido nisso, e sairia dali. Quando ele despertasse, ela poderia estar já a meio caminho de Washington. De volta a casa de seu pai, rodeada de todas suas coisas, à exceção do quadro do santo irlandês com quadro de prata. Ali é onde ela tinha que estar.

            A nota, escrita em uma folha de papel tirada de um bloco, foi curta. Deixou-a junto à garrafa de tequila vazia, agarrou sua bolsa, e saiu à quente luz do sol californiano. Não havia carro: Clancy havia dito que voltaria em algum momento da tarde, mas Annie calculou que lhe custaria uns quinze minutos ir andando até a auto-estrada. Então, tentaria chegar pedindo carona, e ali conseguiria ir até o aeroporto em algum meio de transporte.      Por alguma razão, pedir carona lhe parecia mais seguro que esperar naquela casa com o James dormido no andar de acima.

            Estava a metade da entrada, quando percebeu de novo esse aroma tão desagradável. Como tinha chamado James, a lilás sangrenta? Cheirava a poço séptico e sangue. A morte.

            Parou na metade do caminho, cravada no chão, enquanto um odioso e inoportuno pensamento lhe penetrava no cérebro como um verme que se introduzira na carne de um morto. Olhou para cima, para um falcão que dava voltas sobre sua cabeça. Não era um falcão: tratava-se de um abutre.

            Tinha vontade de dar a volta e correr. Mas não tinha nem idéia de onde. James estava na casa, com todo seu conhecimento de armas e segredos em seus frios e desumanos olhos. Ali não se sentia segura.

            Obrigou-se a olhar a seu redor. Não podia livrar-se da inquietante impressão de que a estavam vigiando, embora sabia que era ridículo. Quem poderia estar fazendo-o? James se encontrava alheio para o mundo, nessa grande cama do piso de acima, e não havia ninguém mais à vista, ninguém que pudesse estar vigiando-a, ninguém que soubesse onde estavam, ou que sequer lhe importasse. Estava sozinha sob o brilhante sol californiano, com um abutre como única companhia.

            Inspirou profundamente para tranqüilizar-se. Estava abatida, exausta, e se assustava até de sua própria sombra. O que tinha que fazer era seguir caminhando, pôr um pé diante do outro, até que chegasse à estrada principal. Não havia perigo nem morte a seu redor. Era um esplêndido dia típico de Califórnia.

            Conseguiu mover-se e descer pelo poeirento caminho cheio de buracos. Na distância podia ver um raio de luz, o sol que se refletia sobre uma superfície brilhante e uma vez mais parou e semicerrou os olhos para olhar entre a vegetação.

E então distinguiu um carro.

            Deveria ter seguido andando. Deixar atrás essa incitante vegetação. Mas não pôde evitá-lo. Aproximou-se passo a passo, reconhecendo a cada passado o velho Toyota cinza azulado no que Clancy os tinha recolhido.

            O carro tinha que estar vazio. Devia ter saído da estrada e o ocupante ter ido em busca de ajuda. Mas não parecia tratar-se de um acidente. Tinham conduzido o carro até ali e o tinham escondido com muito cuidado.

            Afastou os arbustos, assediada pelo fedor. Não havia nada que se parecesse com uma flor por nenhuma parte, e, entretanto o aroma, muito familiar, seguia-lhe assaltando.

            Depois de tudo, o carro não estava vazio. Podia ver uns ombros que se desabaram sobre o volante, a mancha de sangue sobre o pára-brisa quebrado...

            Não havia nenhuma razão para aproximar-se. Soube imediatamente que estava morto: tinham-lhe acertado a nuca. Retrocedeu cambaleando ao mesmo tempo em que um grito passou por sua garganta. Mas não saiu nenhum som, só um débil ofego, enquanto lutava por recuperar o fôlego.

            Alguém lhe passou um braço pelo pescoço, arrastando-a para trás com um brusco puxão, cortando ainda mais sua respiração. O pânico se apoderou dela, e lutou com todas suas forças, dando pontapés, tentando separar de si o desconhecido que havia detrás dela.

            A dor foi tão repentina, tão intensa, que todo ficou escuro. Seu corpo inteiro se convulsionou em agonia, e começou a cair através da escuridão da dor e do vazio, sendo consciente de que estava morrendo, e de que ninguém a ajudaria, ninguém a salvaria. Levantou uma mão enquanto aterrissava no chão, e ainda teve forças para pronunciar um nome antes de que seus olhos se fechassem.

            McKinley a olhou. Encontrava-se caída sobre o chão poeirento, escondida pelos arbustos. Passou por cima de seu corpo e se dirigiu ao carro, tomando cuidado de não tocar nada. Com uma só olhada calculou que Clancy estava morto ao menos um par de horas, e que, portanto era impossível que Annie o tivesse feito.

            Não considerava seriamente que fosse capaz, mas em sua vida tinha por norma não dar nada como sendo certo. Uma vez, quase lhe fez migalhas uma senhora de idade. Depois de tudo, Annie Sutherland era a filha do Win. Não podia saber do que era capaz nem para quem trabalhava.

            Afastou-se do carro, mantendo a calma deliberadamente. Sempre tinha gostado de Clancy. Tinham compartilhado algumas boas garrafas de uísque escocês, e mais de uma aventura. Já não ficavam muitos de seus velhos amigos. Nenhum, com exceção do Martin. E podia ser que este tampouco durasse muito.

 

            Ajoelhou-se junto ao corpo da jovem. Tinha uma péssima cor, a respiração apagada e ofegante, e se perguntou por que se deteve. Um pouco mais de pressão, e podia ter deixado seu corpo no carro, junto ao do Clancy, e ter partido.

            Maldita seja não havia por que perguntar-lhe. Sabia. Ela o tinha chamado por seu nome, e ele a tinha deixado cair. Tinha pronunciado seu nome, e ele tinha mostrado seu primeiro sinal de fraqueza.

            Ia ser sua perdição. Sabia com uma certeza que lhe gelava os ossos. Afastou-lhe o cabelo da cara com um gesto deliberadamente negligente. Estava fazendo um hematoma na base da garganta. Tinha um tipo de pele muito sensível, pálido e suave. Olharia-se no espelho e saberia o que lhe tinha feito.

            Deveria tê-la deixado partir. Mas não confiava nela. Ao ouvir como escapava da casa às escondidas, lançou-se em sua busca. E quando tinha visto que colocava a cabeça entre os arbustos, tinha estado seguro de que tinha estado com um cúmplice.

            Em vez disso, o que estava fazendo era encontrar um cadáver. O segundo em menos de seis meses. Primeiro tinha sido Win, agora Clancy.

E não ia ser o último.

 

            Despertou pela dor, na escuridão. Sentia o pescoço rígido, paralisado, e quando tentava girá-lo, rajadas de agonia lhe açoitavam o corpo. sentia-se embriagada, com ressaca em metade da tenebrosa noite, e fechou os olhos de novo, tentando invocar a generosa luz do amanhecer.

            Ouvia vozes. Baixas, murmurando em algum lugar da casa. Demorou um momento em recordar onde estava: o pequeno chalé de estilo inglês que dava aos canhões de Los Angeles. Tinha encontrado A.... como se chamava?, Clancy? E alguém a tinha seguido e tinha tentado matá-la.

            Não, isso não podia ser verdade. Se alguém tivesse tentado matá-la, estaria morta. E não era só "alguém": sabia exatamente, agora que pensava com atenção, quem tinha sido. James.

            Ao mover-se, não pôde controlar um suave gemido de dor. Levou-se uma mão tremula à garganta, afastando o cabelo ao mesmo tempo. Estava áspera e palpitava. O que lhe tinha feito aquele homem?

            Dirigiu-se para a porta e depois se deteve. As vozes se ouviam mais claramente agora: a do James, com seu acento texano, enganosamente suave e tranqüila. E a de outra pessoa, cheia de preocupação contida e severa desaprovação. Também a conhecia. Recordava-a. Carew.

            —Importa-me uma merda o que pensa — dizia James serenamente—. Se você não carreg   ou ao Clancy, quero saber quem o fez.

            —Se estivesse relacionado de algum jeito com a morte do Clancy, não estaria agora aqui. Esteve conosco durante anos, McKinley, e criou um montão de inimigos. Sabe tão bem como eu.

            —Muito oportuno por parte desses inimigos ter escolhido o dia de hoje para ocupar-se dele.

            —De acordo, eu tampouco acredito nas coincidências. Mas estou aqui, não? Vim logo que recebi sua mensagem. O que posso fazer por ti, Mack?

            Annie se aproximou mais da soleira, olhando às escondidas para o vestíbulo. encontravam-se ao pé das escadas, supunha, suas vozes vinham diretamente para ela, e não faziam nenhum esforço para ser discretos. Ou Carew não sabia que ela estava de testemunha ou não lhe importava.

            —Proponho-te um trato, Carew. Os dois sabemos que tentei te matar duas vezes. Estava bêbado nesse momento. Agora não estou bêbado, e sabe que sóbrio, não há outra pessoa mais perigosa. Se me propuser isso, é homem morto.

            —Sempre teve delírios de grandeza — respondeu Carew desdenhosamente.

            —Me dê uma semana. Deixe-me averiguar quem ficou do grupo de Win. Quem lhe ajudava. Ele não trabalhava sozinho, por mais que finja que sim. Era um homem inteligente, mas se tratava de uma operação muito complicada para dirigi-la por si só. Quero saber quem fica. Quem estava com ele quando se deu a volta. Quem está tentando que tudo siga adiante.

            —E se for eu?

            —Então é homem morto de toda forma.

            —Não sou eu. —Não havia forma de ocultar a inquietação na voz do Carew.

            —Não —disse James depois de um momento—. Não acredito que você seja. Quero que te retire, Carew. Que faça que seus homens se detenham. De todas as maneiras, não sabe em quem pode confiar. Quem deles poderia estar tentando substituir ao Win...

            —Confio em todos! —exclamou o homem bruscamente.

            —Então é um pobre idiota. Admita-o ou não, segue tendo um grave problema. Dê-me uma semana e me ocuparei de tudo. Não cometo enganos, e não deixo cabos soltos.

            —E como chamas à mulher que tem la em cima?

            Produziu-se um silêncio, e Annie conteve o fôlego enquanto esperava que respondesse.

            —Uma complicação —disse ao final—. Mas uma da que me posso cuidar.

            A jovem desceu um degrau em silêncio, embora lhe parecesse que a cabeça ia explodir de dor.

            —Estou disposto a fazer um trato —cedeu Carew em tom amargo—. Sempre o soubeste.

            —Claro que está disposto. Quando está entre a espada e a parede, sabe que não há escapatória. Mas, desta vez, não há saída.

            Ela já estava na metade das escadas, no silêncio mais absoluto da tenebrosa escuridão. Podia ver suas pernas: encontravam-se no meio do salão, e o antigo companheiro de seu pai levava calças de linho bege, enquanto que James estava de negro.

            —Tenho que admitir que não acredite nesta repentina nobreza, Mack. Trata-se de dinheiro? Nunca esteve interessado nisso, ou teria trabalhado para nós.

            —Não necessito dinheiro.

            —Então, que merda quer de mim? —O tom de voz do Carew se converteu em um chiado frustrado.

            —Annie quer saber quem matou seu pai. Não vai descansar até que o averigúe, e depois quererá vingança. Silêncio mortal.

            —Deus —sussurrou o outro—. Qual é o problema, então? Soluciona-o.

            —Não.

            —Não tinha visto nenhum sinal de que estivesse ficando sensível agora que está aposentado, mas sempre posso encarregar à outra pessoa. Pressupondo que fique algum quando você tiver se ocupado deles — acrescentou com amargura.

            —Não te atreva a tocá-la. Por isso estou aqui. Não permitirei que seja ameaçada.

            —Maldito seja, James, o que se passou? O que te importa o que ocorra à filha do Win?

            —Não me importa — respondeu ele subitamente—. A única coisa que quero é que você se ocupe de solucionar a confusão que deixou detrás de ti. Não vou deixar que te escape tão facilmente.

            —E depois? —aduziu Carew—. Se encarregará pessoalmente de que não lhe aconteça nada?

            —Isso não te importa. Vou levá-la a aonde ela queira.

            —É seu funeral, Mack. De verdade vai ajudar a averiguar quem acabou com seu pai?

            —Vou ajudar a procurar as respostas que necessita. Goste ou não.

            —Deus — repetiu o outro de novo—. Em que confusão está se colocando, McKinley? O que crê que vai ganhar mexendo nesse assunto?

            —Tranqüilidade de espírito, possivelmente.

            —Não é muito tarde para isso? —O tom zombador de seu colega resultava desagradável—. Perdeu a oportunidade de conseguir a paz faz anos.

            —Talvez tenho curiosidade. Ou possivelmente o que quero é encontrar as peças que faltam aos quebra-cabeças.

            —Que peças? Sabe muito bem que está mais claro que a água.

            —Odeio a morte, Carew, mas nunca pensei que fosse estúpido —repôs James sem nenhuma inflexão na voz. Houve uma pausa.

            —Por que não me pergunta e já termina?

            —Porque você sabe o mesmo eu. A única coisa que quer é que nada se mova em seu pequeno mundo. Dessa maneira seguirá com seu trabalho e seu poder. Mas pode que eu não queira jogar terra sobre o assunto.

            —Isso deixou muito claro.

            —Proponho-te uma trégua. Eu deixo de tentar te matar, e você deixa de tentar matar a mim.

            —Parece-me razoável — se apressou a dizer Carew.

            —Não tão rápido. Não acredito. Parece-me que necessitará um pequeno incentivo.

            —É um homem perigoso, McKinley. Não te parece que o instinto de sobrevivência já é suficiente incentivo?

            —É muito preparado, Carew, mas também um arrogante. Olha desta maneira: se me passar algo, ou a Annie, tudo te explorará na cara. Armará-se um escândalo de tais dimensões que não te liberará nunca dele.

            —Poderia ocorrer de todas formas —comentou o homem em tom apagado.

            Annie baixou um degrau mais, agachando-se depois do corrimão, apertando os punhos com raiva.

            —Não tem por que. Sei que estão reagrupando. Posso pará-los —assegurou James.

            —Como? E não me fale de seu maldito instinto: não acredito nisso.

            —E por isso sempre foi um mau trabalhador de campo.

            —Se tivesse tido um tutelado, a eleição mais lógica teria sido você.

            —Seria-o. Mas não foi assim. —A jovem podia escutar o gelo instalar-se em seu tom de voz—. Vamos averiguar quem é. E me ocuparei dele em seu lugar. Esclarecerei a confusão que está tentando ignorar.

            —Está louco. Manda de volta a Washington à filha do Sutherland e nos arrumaremos isso. Podemos protegê-la, nos assegurar de que não lhe acontece nada...

            —Ela fica comigo. É a única maneira que tenho de mantê-la a salvo. Além disso, não acredito que vá me deixar outra opção, não, Annie? —dirigiu a voz para as escadas, e a jovem ficou em silêncio, agarrando-se ao corrimão.

            —Maldita seja —exclamou Carew, girando-se—. Assim que essa maldita estava escutando?

            Annie desceu as escadas devagar, expondo-se sob a luz. Carew tinha o aspecto que recordava, surpreendentemente atrativo para uma alma tão mesquinha. Sempre tinha suposto que era dez anos mais jovem que James, mas agora já não estava tão segura. Baixo essa pele cuidadosamente bronzeada e os olhos com lentes de contato, ocultava-se um homem muito, muito ancião.

            —Lembra-te do Carew, não Annie? —perguntou James, arrastando as palavras e com deliciosa educação.

            A jovem, aturdida, começava a pensar que todos os homens que a tinham rodeado, tinham-lhe mentido ocultando sua maldade sob uma máscara de ordem e normalidade.

            —Foi um período muito difícil para você, senhorita Sutherland — disse Carew, adiantando-se e agarrando sua mão sem forças. Apertou-a com firmeza e calor, o que contrastava com a fria pele da moça—. Não sei o que acredita que pode ter acontecido, mas fique segura que faremos todo o possível para ser de utilidade.

            Ela afastou a mão. Custou-lhe muito não impor um sorriso educado em seu rosto e não murmurar a resposta tranqüilizadora e apropriada. Também lhe tinham treinado, pensou. Todos um professor.

            —Há alguma razão pela que tivesse que acreditar? —espetou-lhe friamente—. As mentiras com você, não?

            Carew nem sequer pestanejou, limitando-se a conservar a mesma expressão preocupada. Como se não tivesse sugerido fazia tão somente uns minutos que James "ocupasse-se dela":

            —Não sei o que você crê saber, senhorita Sutherland. Ignoro o que James lhe contou, ou o que imaginou, mas o mais possível é que esteja pensando só seja uma parte da verdade. Se contaram mentiras, foi para protegê-la. Seu pai se ocupava de um assunto governamental secreto de suma importância. Quanto menos pessoas soubessem, melhor.

            —Mas não resultou ser muito seguro para meu pai. Quem o matou?

            Carew seguiu sem pestanejar.

            —Sinto muito, senhorita Sutherland.

            —E por quê? Por que o assassinaram? Quem deu a ordem? Foi você?

            O homem intercambiou um olhar com McKinley. Este estava apoiado contra a chaminé, olhando-os na crescente escuridão, e Annie não tinha a mais remota idéia do que havia detrás de seu impassível olhar.

            —Terá que perguntar a McKinley — repôs com um ligeiro tom de desprezo—. É o homem das respostas.

            A frase ressonou na cabeça da jovem como um carrilhão de tom desagradável, que cedo ou tarde lhe levaria a loucura.

            Mas Carew já se esqueceu dela.

            —Adiante com a oferta, Mack —propôs—. Baixemos as armas. Não posso prometer que seja para sempre. Ponhamos uma semana, e depois lavo as mãos. Sabe que cumpro ordens dos chefes.

            —Sim —assinalou James—. E também recordo.

            Carew ignorou o sarcasmo e se voltou para o Annie.

            —Oxalá me tivesse pedido ajuda — lamentou com seu suave e ligeiramente queixosa voz—. Possivelmente tivéssemos podido encontrar as respostas sem pedir a ajuda do McKinley.

            —Sinto-o —respondeu a jovem, massageando-se sem dar-se conta o dolorido pescoço com uma mão—. Confio no James.

            Os olhos do Carew, em seu atrativo rosto, resultavam estranhamente incolores, como os de um réptil. Seguiram com o olhar a mão que se levava a pescoço, e sua expressão trocou tão somente ligeiramente.

            —Espero que não se arrependa o resto de sua vida, porque aí mora o problema, na verdade. Podemos te proteger dos homens que mataram a seu pai. Mas não estou convencido de que Mack possa. Ou de que o faça.

            James não disse nada. As sombras cresceram ainda mais na casa, mas ele não fez nenhum movimento para acender as luzes.

            —Estou disposta a me arriscar —assegurou Annie com obstinação.

            O sorriso do Carew era doce e depreciativo:

            —Não vou discutir com você. É sua vida. Mas se mudar de opinião, não duvide em ficar em contato comigo. Quero dizer, se Mack deixar. Ponho ao seu dispor o melhor amparo que seu governo pode lhe oferecer.

            —Não serviu muito a meu pai, não?

            Ele pestanejou e depois olhou de novo ao James.

            —Está claro que te desvalorizei, McKinley. Conseguiste transformar um ser humano razoavelmente inteligente em uma idiota, tão somente colocando entre suas pernas. Nunca tinha pensado que fosse tão bom na cama.

            Annie não se deu conta de quão rápido podia ser James. Nem tampouco seu antigo colega. Em questão de segundos o tinha contra a parede, com uma mão na garganta e seus largos dedos a ponto de fechar-se sobre ela. Parecia como uma carícia, e entretanto Annie não tinha nenhuma dúvida de quão perigosa podia resultar essa manobra. O suor que banhava face do Carew enquanto tentava desenhar em seus lábios um sorriso indiferente o delatava.

            O sorriso de James não ajudava muito tampouco. Era frio e terrificado, e a moça se sentia aliviada de que não estivesse dirigida para ela.

            —Não está preparado para morrer, não Carew? —murmurou em voz baixa.

            —Não te atreverá —respondeu ele com voz afogada—. Não pensará que vim aqui sem nenhuma escolta. Conhece-me o suficientemente bem para saber que me guardaria as costas. Se não sair daqui são e salvo, este lugar voará como um paiol de pólvora.

            —Arriscando que você voe com ele? Não acredito. —Flexionou os dedos, e Carew deixou escapar um pequeno gemido afogado.

            —Me solte McKinley — ofegou—. Solte-me O...

James o soltou tão bruscamente que o homem se escorou contra a parede, deslizando-se quase até o chão.

            —Merda —murmurou, esfregando-a garganta—. Cuide-se, senhorita Sutherland. E se necessitar ajuda, eu me ocuparei. Se ele a deixar.

            — Deixe — ordenou James com uma educação sem mancha—. Estaremos em contato.

            Annie se deu conta, para seu horror, que tinha vontade de rir. James se comportava como um chefe que estivesse se despedindo de um candidato que não reunisse os requisitos. Colocou a mão de novo na garganta, deixando-a ali como uma espécie de amparo inconsciente, enquanto Carew se apressava a retirar-se.

            Por um momento James ficou de costas a ela na escuridão. Ela se aproximou do interruptor da luz, pois de repente se sentia incapaz de suportá-lo mais, mas lhe agarrou a mão, o braço e a fez girar sobre si mesma antes que pudesse acendê-la.

            —O mais seguro é que tenha franco-atiradores mirando nas janelas — assinalou com voz tranqüila e segura—. Provavelmente contam com infravermelhos também, mas não vamos facilitar acendendo as luzes.

            —Por que ia querer nos matar? Pensava que tinha negociado uma trégua.

            —Ele não é o único com quem temos que nos preocupar. De fato, ele é o que menos me preocupa. Há um montão de gente que não está contente conosco. Não crê que ele pode te proteger. Sem mim, é uma mulher morta, Annie. Sem condições nem desculpas.

            —E contigo?

            —Tem a oportunidade de lutar.

            Não era muito consolo. Ela o olhou. A escuridão era tão intensa que logo não podia distinguir seu rosto, e por alguma razão, assim se sentia segura.

            —O que vai nos acontecer, James? —sussurrou.

            —Provavelmente vamos morrer.

            —É muito reconfortante — ironizou ela—. Poderia mentir, embora só fosse para me fazer sentir melhor.

            Notava sua imobilidade. Ainda tinha a mão sobre seu braço, agarrando-a, e percebia milhares de emoções sem nome ocultas sob sua fria superfície.

            —Posso mentir —disse ele.

            Soltou-a, mas a jovem não se separou.

            —Seu amigo... —começou a dizer Annie—. Clancy...

            —O que acontece ele?

            —Morreu.

            —Sei. Vi-o.

            —Isso é o que vai acontecer a nós?

            —Se não tivermos sorte.

            —O que tem a ver com isto a sorte?

            —Tudo.

            —Você... Você me trouxe de novo à casa? — Não estava segura de querer escutar a resposta, mas o problema era que já a conhecia.

            Ele se aproximou na escuridão e lhe passou uma mão pela garganta. Tinha umas mãos grandes, fortes, com dedos largos que eram capazes de lhe rodear mais da metade do pescoço. Largos dedos que a acariciavam muito brandamente, posando-se no lugar exato onde mais lhe doía.

            —Sim —reconheceu em voz baixa e indiferente—. Deixei-te inconsciente e te trouxe aqui de volta.

            —Por quê?

            Ele riu. O som lhe causou uma impressão fria e ligeiramente inquietante na escuridão que lhes envolvia.

            —Por quê? — repetiu James—. Porque não queria te matar.

            A jovem se afastou bruscamente, e ele a soltou, sem fazer nenhum esforço para detê-la.

            —Bode —lhe espetou ela, furiosa—. Imagino que se ache muito gentil.

            —Muito, Annie — murmurou enquanto ela saía desvairadamente da casa—. Muito.

Estavam partindo. Sua visão noturna era excelente, mas ainda assim, era esse instinto de que se safou Carew quem o indicou. Os franco-atiradores se foram, e no momento estavam a salvo.

            Não se iluda a respeito de quanto duraria. De qualquer forma, aproveitaria dessa oportunidade tudo o que pudesse, durasse o que durasse.

            Era o único em quem podia confiar.

            Algo era certo: não podia pedir ajuda a nenhum amigo mais. Clancy não mereceu morrer assim, outra alma para sua consciência. O problema era que não tinha consciência. E nenhum amigo mais que pôr em perigo, além do ex-marido do Annie, Martin.

            Não, de agora em diante se arrumaria sozinho. Quer dizer: se arrumariam sozinhos. Annie Sutherland era como um marisco, uma sanguessuga, uma pesada cruz que levava no pescoço da qual não podia livrar-se.

            Não a entendia muito bem. Ela não tinha nenhuma razão em confiar nele mais que no Carew. Já sabia que quase a tinha estrangulado essa tarde, e ver que fazia o mesmo a seu visitante deveria ter arrepiado os cabelos da nuca.

            Em lugar disso, parecia que sua resolução se fortaleceu. Pôs-se em suas mãos por completo.

            Podia ouvi-la na cozinha fazendo um ruído considerável. Olhou suas mãos. A lua subia sobre o canhão, iluminando fracamente com seus raios prateados a casa, e podia ver com bastante clareza. Mãos de artista.

            O artista da morte.

            Teria que enfrentar muito mais que a morte se queria que Annie estivesse a salvo. Já tinha tomado uma decisão, e por muito que o lamentasse, não ia se retratar: ela ficava com ele.

            Seu primeiro problema era pensar em um modo para mantê-la razoavelmente dócil. Não é que essa palavra e Annie parecessem ter muito em comum agora que seu mentor tinha morrido. Enquanto que em um momento de sua vida tinha feito tudo o que seu pai lhe havia dito, agora começava a dar mostras de rebeldia.

            Ele necessitava que se comportasse como fazia com o Win. Que mostrasse uma obediência cega e indiscutível. Necessitava que ela pensasse o que ele queria que pensasse que tivesse colocado o que ele queria que colocasse que fizesse o que ele quisesse. Ela não devia ter pensamentos, nem vontade própria durante aproximadamente uma semana, enquanto procuravam o homem que tinha traído seu pai.

            E fazendo-o, tinha traído ao próprio James.

            Havia várias formas de submeter Annie. Podia fazê-lo mediante ameaça, força bruta e intimidação. Fácil e efetivo, mas a vítima era mais propensa a desenvolver ataques de rebeldia.

            Podia confiar na amizade, nas lembranças compartilhadas e o afeto por seu pai. Era seu ponto fraco, e não queria apostar sua vida ou a dela nisso.

            Podia utilizar medicamentos, várias maneiras de controlar a mente, uma vez que conseguisse acesso a eles. Nunca tinha gostado particularmente de utilizar drogas, mas era um verdadeiro perito em aplicá-las em seus inimigos.

            Ou podia usar o sexo.

            Era a menos atrativa de todas as possibilidades. O sexo era uma arma de dois gumes: ele era um homem com um poderoso controle sobre si mesmo, mas ultimamente esse controle estava debilitando. Era arriscado. Não estava convencido de sua capacidade de manter-se alheio, embora só se tratasse de uma mulher.

            A lembrança da Mary Margaret Hanover veio sem querer à memória. Mary Margaret na cama, seus largos cabelos esparramados pelas costas, sua cabeça para trás enquanto ria, seus seios grandes e perfeitos oscilando para cima e para baixo enquanto cavalgava sobre ele.

            E Mary Margaret fria, ligeiramente surpreendida enquanto a bala penetrava em seu cérebro e se precavia de que tudo tinha terminado.

            Sabia que podia fazer sexo e matar se era necessário.

            O perigo era que não sabia se poderia transar com Annie Sutherland e matá-la.

            —Quer comer algo? —Não a tinha ouvido voltar. Sua silhueta se recortava na porta do salão à luz da cozinha, e ele se voltou devagar, sabendo que seu rosto estava nas sombras. Não havia forma de que ela pudesse saber o que pensava.

O que ele poderia lhe fazer.

            —Sim —respondeu—. Tenho fome. E caminhou para ela.

 

            Não podia dormir. Annie se encontrava na única cama da casa, observando como a luz da lua criava sombras sobre o chão de madeira gentil, e se perguntava se alguma vez poderia dormir de novo.

            Cada vez que fechava os olhos, via o corpo sem vida de Clancy caído sobre o volante. Estava vivendo um pesadelo que tinha começado na manhã em que tinha encontrado o corpo de seu pai. Tudo no que tinha acreditado, tudo o que considerava sagrado tinha desaparecido durante os últimos seis meses. Seu pai era um estranho para ela; o quente, ligeiramente severo cavalheiro se estava convertendo em tão somente um conto de fadas.

            James também era uma mentira. O tranqüilo amigo de seu pai se evaporou. Tinha ido a ele em busca de ajuda, esperando força e calma sem limite. Em troca encontrou com...

            Não sabia com o que se encontrou. Não sabia nada do homem que pensava que conhecia toda a vida. Exceto que era perigoso.

Mas o mais estranho, o mais desconcertante de tudo, era o fato de que tampouco reconhecia a si mesma. As decisões mais simples já não eram fáceis. Cada vez mais freqüente, encontrava a si mesma dividida entre seus próprios desejos, e o que seu pai tivesse querido. E o mais curioso era que os desejos de seu pai eram os que pareciam inapropriados.

            Se tivesse se comportado de uma maneira sensata, faria uma terapia, voltado para suas cores veladas e sua apagada vida, e seguido com seu ritmo de vida. Teria escutado Martin quando tinha aconselhado que não remexesse o passado, que deixasse James em paz.

            Em lugar disso, tinha deixado tudo e tinha fugido com o homem que conhecia as respostas, embora não estava segura de tudo de estar preparada para escutá-las.

            Perguntou-se onde estaria. Não havia outra cama na casa, e o sofá creme parecia muito pequeno e delicado para um homem como McKinley. Possivelmente fosse capaz de dormir de pé. Ou melhor, nem sequer dormia.

            Carew havia dito que podia mudar de opinião e lhe pedir ajuda. James tinha dito que ele era o único que podia mantê-la com vida. E ela não tinha nem idéia de em quem acreditar ou em quem confiar.

            Jogou uma olhada ao delicado Rolex que seu pai lhe tinha presenteado. As três e quarenta e cinco da madrugada, e la fora, nas sombras do exterior, havia um homem morto. Possivelmente pela manhã ela também estaria morta.

            Quando despertou, a casa estava escura como a boca do lobo. A lua se ocultou, tinha começado a soprar o vento e não se ouvia mais que o murmúrio das folhas. Abriu os olhos e soube que não estava sozinha.

            —James? —disse com uma voz que quase soava muito tranqüila.

            —Quem poderia ser? —Parecia estar incrivelmente cansado—. É hora de sairmos daqui. Aproximou-se da cama, apenas visível na sufocante escuridão.

            Ela teve a estranha sensação de que ia tocá-la, e não queria que o fizesse. Apressou-se a sair da cama, afastando-se dele. James não fez nenhuma ameaça de segui-la.

            —Como vamos fazer? —perguntou Annie. Levava calças jeans e uma camiseta solta, e o ar da madrugada era frio. Não ia dizer se ela estremeceu.

            —Clancy.

            Ela se estremeceu.

            —Não vou entrar nesse carro...

            —Já o levaram. Desapareceu. Carew e seus homens podem ser muito eficazes quando se propõem.

            —O que fizeram?

            Na tênue luz, viu como James encolhia os ombros aparentemente despreocupado:

            —Não encontrará seu corpo. Seu desaparecimento passará despercebido: Não tinha família nem amigos fora desta profissão. Aprendeu a levar uma vida solitária. Ninguém se dará conta nem sequer de que faleceu, e tampouco chorarão por ele.

            Seu tom de voz estava estranho, destacando ainda mais na escuridão que lhes rodeava:

            —É isso o que acontecerá com você? — perguntou ela.

            —Se tiver sorte, não.

            —O que ocorrerá se tiver sorte?

            Ele se aproximou ainda mais, e não havia nenhum lugar para onde fugir. Annie se encontrava contra a parede, e a única coisa que podia fazer enquanto James se aproximava, era ficar ali, com os ombros para trás.

            O homem se deteve a poucos milímetros, tão perto que a jovem podia sentir a tensão que corria por seu corpo. Tão perto que podia fechar os olhos e respirar sua força, sua presença, seu poder e perigo.

            —Se tiver sorte —respondeu ele—. Sairei vitorioso e desfrutarei de meu momento de glória.

            Durante uns instantes, ela não se moveu. Não a tocou, mas o certo é que não precisava fazê-lo. Annie se sentia acariciada, possuída, invadida por sua mera presença, mas de algum jeito conseguiu encontrar sua voz e suas defesas.

            —Tem certeza que tem trinta e nove anos? —perguntou-lhe secamente—. Parece um macho adolescente.

            A casa ficou congelada no silêncio durante um minuto eterno. Então ele se moveu, colocou suas fortes mãos sobre os ombros e ela não pôde evitar pestanejar ao olhar seu rosto nas sombras.

            Seus longos dedos se deslocaram sobre seus ombros e com o dedo polegar lhe acariciou a clavícula.

            —Tome cuidado, Annie — sussurrou aproximando a cabeça da sua.

            —Não tem medo que eu te machuque? — espetou a jovem com uma voz que tremia ligeiramente.

            —Não me machuca. — Os dedos polegares baixaram um pouco mais, explorando a parte superior de seus seios—. Você...

            Deteve-se, como se não soubesse como seguir, mas James McKinley não era um homem que se deixasse invadir pela incerteza, e ela esperou que ele terminasse.

            —Eu... o que? — perguntou ela.

            James a soltou bruscamente e Annie se chocou contra a parede ruidosamente:

            —Já falaremos quando sairmos daqui.

            —E como vamos sair?

            —Já te falei isso, Clancy terá se ocupado de que disponhamos de um veículo. A única coisa que espero é encontrá-lo antes dos que nos seguem.

            —Os que nos seguem? Pensava que Carew ia nos deixar em paz esta semana.

            —Ele não é nossa única preocupação, Annie. Além disso, não confio em ninguém. Pode ser que cumpra sua promessa, ou pode ser que não. Não vou arriscar sua vida acreditando na sua palavra.

            —E a tua?

            —Da minha se pode prescindir. — passou uma mão pelo cabelo—. Temos algo a nosso favor. Enfrentamos uns inimigos capitalistas, mas eles não sabiam como funcionava a mente do Clancy.

            —E você sim?

            —Conhecia-o faz tempo. Confiava nele. Sei como pensava.

            Em sua voz não transparecia a dor, a não ser tão somente o sentido comum. Annie agarrou a bolsa de lona e a pendurou do ombro, preparando-se para segui-lo.

            —Não se importa?

            Ele já tinha saído e não se deteve, devolveu-lhe a pergunta por cima do ombro.

            —O que?

            —Que Clancy tenha morrido. Foram amigos, bons amigos. Não te importa?

            Começou a descer as estreitas escadas e ela quase perdeu sua resposta:

            —Estou acostumado.

            Não teve que lhe recomendar que não fizesse ruído, que fizesse o que lhe dizia. Já tinha aprendido a lição. Fundiu-se com as sombras a suas costas, movendo-se quase tão silenciosamente como James. Nesse momento o céu estava começando a voltar-se de um azul pálido pelo leste, e a jovem voltou a jogar uma olhada à tela luminosa de seu relógio. Era um pouco antes das cinco.

            —Há alguém por aqui? —sussurrou.

            —Dois, possivelmente três —respondeu James—. Os homens do Clancy, provavelmente, e isso é bastante, se preocupe. Se o que acabou com ele, também está por aqui, estamos em perigo.

            —Quer dizer que antes não estávamos? —perguntou ironicamente. Uma vez mais, ele ficou parado no lugar olhando-a.

            —Escolhe mal os momentos para dar rédea solta a seu senso de humor. — Não lhe deu tempo para responder—. Fica alerta.

            momento depois se desvaneceu na escuridão, deixando-a só na cozinha.

            Ela inspirou profundamente. Então se deu conta de forma ausente de que suavam as palmas das mãos, que o coração palpitava apressadamente e lhe custava respirar. Tinha medo.

            Não tinha por que surpreender-se. Enquanto se mantinha imóvel na casa vazia, precaveu-se do que esperava ouvir. O som das pistolas. O som da morte de James.

Parecia tudo tão irreal. Queria cruzar a casa, acender as luzes, o rádio. Desejava ruído, normalidade. Isso tinha que ser um sonho mal.

            Mas a lembrança do corpo do Clancy surgiu de novo sem ter pedido. E soube que não era um sonho.

            Deixou-se cair ao chão, abraçando os joelhos contra o peito. Tinha frio, estava assustada, e se tivesse tido um pouco de sentido comum, nunca teria embarcado nessa cruzada de loucos, onde nada era como parecia. Morreria sozinha nessa cozinha e não haveria ninguém que chorasse por ela. Colocou a cabeça sobre os joelhos fechando os olhos, concentrando-se. O amanhecer seguia absolutamente em calma.

            —Annie?

            Quase gritou, mas lhe tampou a boca com a mão tão rapidamente que golpeou a cabeça contra a parede. Não podia vê-lo na escuridão, mas reconheceu o som de sua voz e sua presença. James se deu conta e afastou a mão quando viu que já não ia gritar.

            —Assustou-me — sussurrou ela—. Não te ouvi voltar.

            —Assim tinha que ser.

            —Há alguém aí fora?

            —Agora não —disse ele com calma—. Acredito que sei onde Clancy poderia nos haver deixado um carro. Há um velho abrigo na metade da colina que é seu estilo. Vamos.

A jovem ficou em pé, resistindo que a tocasse. Não sabia por que pensava que ele queria.    Mas estava ali, entre eles. E estava segura de que James acabaria fazendo cedo ou tarde. No ar da manhã flutuava um ligeiro e inesperado aroma. Metálico, ácido, apanhado na suave brisa. Tentou ignorá-lo, enquanto seguia a sombra masculina pelo caminho cheio de moitas sob a luz do amanhecer, tratando de não procurar no ar outros aromas mais óbvios.

            —James. —Chamou-o com um tom de voz que não era mais que um sussurro. Esperava que não a escutasse, mas ele se dava conta de tudo, e se deteve por um instante, embora não se incomodou em dar a volta.

            —O que?

            A luz era mais brilhante agora. Débeis tons de laranja e rosa se estendiam pela colina da emaranhada colina. Se alguém os estava vigiando, seriam brancos perfeitos, e, entretanto parecia que isso não preocupava James no momento.

            —Existe realmente a "lilás sangrenta"?

            Não respondeu. Somente seguiu descendendo a montanha. E não ficou mais remédio do que lhe seguir, lutando contra a terrível certeza que a ameaçava invadindo.

            Não necessitou mais que um olhar de James quando chegaram à clareira perto do velho abrigo. Dispôs-se a esperá-lo agachada entre os arbustos, ficando no meio.

            Sabia que ele tinha uma arma; tinha-a visto quando se deteve frente à porta do abrigo. Era estranho que Annie não pudesse acostumar-se à visão das armas. Seu pai sempre se mostrou depreciativo a respeito delas, e a jovem tinha seguido suas crenças. Agora começava a se sentir agradecida de que existissem.

            James desapareceu no interior do abrigo e ela conteve a respiração, escutando: um tiroteio, o som de uma luta, sua voz lhe dizendo que não havia perigo.

Nada.

            O sol estava saindo a suas costas, e a inquietante penumbra estava voltando brilhante e aguda. Disse a si mesma que podia contar até cem; faria-o em francês para que fosse mais lento. Quando tinha chegado a oitenta e oito se deu conta de que não podia esperar mais, levantou-se, quase esperando que uma bala se incrustasse em sua nuca.

            Ao entrar no abrigo não o viu a princípio. Estava escuro, só se filtravam débeis raios de luz pelas gretas da velha madeira. Ele estava de pé no canto, com ar sombrio e silencioso, e a jovem seguiu seu olhar, pensando que haveria um cadáver.

            —Maldito seja — exclamou, entre divertida e exasperada—. Nos deixou uma moto.

            —Não é só uma moto. — A voz do James soava estranha, afogada, distante—. É uma Vincent Black Shadow, provavelmente de 1954 mais ou menos.

            —Assim nos deixou uma moto velha— disse Annie—. Crê que funciona ainda?

            —Funciona — afirmou James. Passou-lhe seu capacete, e ela o agarrou, olhando como ele ficava seu. Com sua roupa escura e sua altura tinha um aspecto inquietantemente perigoso.

            —Nunca tinha pensado que você fosse dos que se preocupavam com os capacetes    — comentou, fitando-o — Sim.

            —Não sou. Mas assim é mais difícil que nos reconheçam. —Subiu na moto com a estudada elegância de alguém que sabe exatamente o que está fazendo.

            —Suponho que sabe como conduzir esta coisa.

            —Sim.

            —Clancy sabia?

            —Sim.

            —Pressuponho que a moto tinha algum valor sentimental...

            —Faz o favor de te pôr aqui atrás, Annie, e deixa de falar — lhe indicou com voz áspera—. Temos que sair daqui, não perder tempo falando de passatempos.

            Ela fez o que pôde para aparentar indiferença ao avançar para ele. Sabia o que tinha que fazer —obviamente havia um lugar para ela justo detrás dele no grande assento. A única coisa que tinha que fazer era passar uma perna por cima e subir. Não se moveu.

            —O que esperas?

            —Nunca subi em uma moto — admitiu ela, olhando a grande máquina negra com desconfiança.

            —Eu deveria ter imaginado isso. Win te manteve em uma bolha, não? Sua princesinha perfeita, sem um pensamento ou preocupação própria. Maldita seja, passa a perna por cima da moto e se segure.

            —Mas... —Não teve tempo para discutir mais. Ele a agarrou pelo braço e a arrastou. A única coisa que podia fazer era subir ou derrubar, derrubá-los. acomodou-se cautelosamente.

—Coloque os braços ao redor da minha cintura — grunhiu James.

Ela tampouco queria fazer isso.

            —Não há outro lugar onde possa me agarrar?... —Sua voz acabou sendo um chiado ao sentir como lhe agarrava pelas mãos e a obrigava a aproximar-se de seu corpo. Seus seios se esmagaram contra suas largas costas, mas teve suficiente sensatez para não soltar-se.

            O motor ganhou vida. Não parecia que tivesse quarenta anos, nem muito menos: soava novo e elegante. Um momento depois lançaram-se a toda velocidade através da luz cegadora e tudo o que pôde fazer foi fechar os olhos e tentar evitar ficar gritando.

            Perdeu a noção do tempo. Tinha medo de abrir os olhos, de abrir sua mente. Enquanto deslizavam colina abaixo, podia sentir que outros olhos a observavam. Podia sentir o branco em sua nuca.

            Também notava o coração do James, que pulsava através de seus corpos. Duas finas camisetas os separavam, e notava seu calor, seus ossos, sua respiração, seu pulso, enquanto ele fazia rugir o motor e os levava cada vez mais longe do encantador chalé rodeado pelo fedor da morte.

            Com o capacete era impossível apoiar a cara contra suas costas, o que era uma vantagem e de uma vez uma desvantagem. Pois a única coisa que podia fazer era confiar completamente nele. Decidiu-se, e agora tinha que arcar com as conseqüências.

Já não importava saber aonde iam. Tinha apostado no James. Apertou-se mais e deixou de pensar.

 

            A Vincent ronronava sobre a estrada, uma magnífica máquina de tempos melhores. Jogou-lhe uma olhada a brilhante luz do dia. Um presente de despedida muito apropriado de seu velho amigo Clancy

            Disse-se a si mesmo que não importava. Seu colega tinha vivido com a realidade da morte a seu lado igual a ele, sabendo que podia aparecer de forma inesperada a qualquer momento. Tinha ido em sua ajuda sabendo que poderia significar o fim, e o tinha feito voluntariamente. Cedo ou tarde lhe teria ocorrido outra coisa. Fez muitos inimigos no meio do caminho, e Carew, ou qualquer outro casulo que estivesse atrás do assunto, contava com uma rede muito capitalista.

            James tinha aprendido a não sentir culpa nem remorso. A não chorar, a nem sequer pensar no passado. Tinha examinado o corpo de Clancy com tranqüila indiferença, tratando de definir a técnica que tinha disparado o gatilho, quanto tempo levou para morrer, etc., antes de levar Annie à casa.

            Não havia sentido nada durante a larga noite de insônia, enquanto dava voltas às opções que tinham e como diabos as arrumariam para sair dali. Quando tinha se acalmado um pouco, tinha começado a pensar em seu amigo. Nos tempos de sua juventude, cheios de paixão, patriotismo e justiça.

            E em quanto tinham envelhecido. Vazios por dentro. E agora Clancy estava morto.

Tinha que ter sabido. Todos os bons tinham um sexto sentido. E os bons eram os únicos que tinham sobrevivido tanto tempo. Quando Clancy tinha metido a Vincent Black Shadow no abrigo, devia haver sentido que seria James quem ia usar ela.

            Estava sentindo muito e era perigoso. Se tivesse havido alguém escondido aí dentro, esperando-o, agora ele também estaria morto. E Deus sabe o que teriam feito com Annie.

            Não pensaria nisso. Podia fechar-se por completo aos sentimentos, de forma total, cirurgicamente. Só tinha que seguir adiante, passo a passo. Chegar etapa seguinte, tão rápido como pudesse, e depois encarregar-se do resto.

            Ela se segurava forte, agarrada contra ele. Seu olhar estava começando a adotar esse aspecto como de neurose de guerra, uma vez que começava a aceitar a realidade, só para rechaçá-la imediatamente. Não era possível que uma mulher como Annie pudesse viver com a realidade de sua vida. Ou com a de seu pai. Melhor estar morta antes que enfrentar-se a ela.

            Naquele momento não tinha planejado fazê-lo. Levaria-a consigo, protegeria-a, enquanto ele descobria suas próprias respostas. E ao final, quando soubesse quem tinha estado trabalhando com Win, quem tinha movido os fios, e o matasse, faria que as coisas chegassem a seu fim. E Annie deixaria de sofrer.

            Era o que podia oferecer a Win, o homem que tinha querido como o seu próprio pai.

Ela não sabia que abraçava com força a um matador. Não sabia que tinha voltado para a cozinha com a sombra da morte flutuando a seu redor. Não sabia, e não podia saber. Ou lhe faria ficar tão louca como ele estava ficando.

 

            —Sinto muito, senhor. McKinley e a mulher partiram.

            —Maldita seja! Mandei meus melhores homens. Disse-me que era impossível que um carro pudesse entrar ou sair, que o lugar estava muito isolado para escapar.

            —Sim, senhor. Pelo visto me equivoquei.

            —Pelo visto sim, filho. —O General se reclinou, fazendo girar um copo de uísque escocês em sua mão de dedos curtos. Custaria-lhe uma boa quantidade de álcool chegar a esquecer algo desse desastre, e ele era um homem que vigiava cuidadosamente o que bebia. Muito licor era um sinal de fraqueza, e o General era um homem sem fraquezas.

            Olhou fixamente ao yuppie babão que tinha na sua frente. Era dos da nova geração de burocratas, educados nas melhores universidades dos Estados Unidos e politicamente corretos. Por desgraça tinha visto muitos durante os últimos anos, e se fosse por ele os abandonaria a todos no Oriente Médio para que se arrumassem sozinhos. partiriam correndo a esconder-se sob as saias de sua mamãe em um abrir e fechar de olhos. Entretanto, este era diferente e o General sempre tinha sabido. Este tinha a moral de um chacal e o cérebro e o coração de um tigre. E nem rastro de alma. Só tinha que olhar esses olhos vazios e inteligentes para saber que era um homem capaz de tudo.

            Era uma ferramenta útil. E era dele, disso não cabia dúvida. Mas como todas as ferramentas, terei que cuidá-la. Respeitá-la como a arma mortal que era.

            —E o que pensa fazer? —perguntou o General com bastante tranqüilidade.

            —Posso me ocupar disto. Minha pergunta é tão somente quanto tempo temos para finalizar o assunto.

            —Muito pouco, filho! —cuspiu o General—. James McKinley vem sendo um grão em meu traseiro durante meses, desde que se converteu em um desertor. É um cabo de alta tensão, e esta organização é muito delicada para arriscar-se. Tampamos nossos rastros o melhor que pudemos, mas fomos uns estúpidos ao desvalorizá-lo, embora tenha-se tornado tão caprichoso. Se quisermos fazer que isto volte a funcionar como antes, temos que eliminá-lo antes que seja muito tarde. Antes que possa contar a alguém o que é que esteve passando. Poderia nos implicar, filho. Poderia nos colocar em um beco sem saída se não fazermos algo.

            —Gostaria que me encarregasse eu, senhor?

            —Por todos os diabos, claro que eu gostaria que te ocupasse você! Não lhe hei dito isso já meia dúzia de vezes?

            —E se Carew começar a suspeitar?

            —Arruma isso com ele também. Maldito seja, termina com todos. Sempre podemos culpar aos terroristas. Ou ao próprio McKinley. Crê que a garota do Sutherland sabe algo?

            —Duvido-o. Se soubesse, não teria ficado com ele, e Carew disse que ela era quem tinha tomado a decisão.

            —Aí está sua saída então. Solta um pouco de informação chave aqui e lá. Que ela saiba a que se dedica ele, de onde veio. Isso deveria lhe dar um susto de morte.

            —Como sugere que o faça sem lhe dizer tudo sobre a organização, sobre nós?

            O General o olhou. Não deveria ter havido nenhuma emoção, nenhum pesar nesses olhos sem alma, mas havia. Inclusive a melhor ferramenta tinha seus pontos fracos, pensou ausentemente.

            —Se não poder fazê-lo, filho, tenho um montão de gente que sim que podem. Não importa o que saiba o que imagine. Não terá a oportunidade de contar a ninguém mais. Diga que se afaste do McKinley. Nos ocuparemos dela, você dele. Faz rápido. Está claro?

            —Como a água, General.

            —Então, adiante. Encontra-os antes de que eles nos encontrem .

 

            Estavam no deserto. Tinha perdido a conta de quanto levavam na moto ou de por onde tinham passado. Limitou-se a fechar os olhos e a deixar-se levar com os braços ao redor de sua cintura, os joelhos em suas coxas, deixando que sua mente voasse para um lugar seguro e tranqüilo onde não existia nem o sangue nem a morte. A lua não acabava de levantar-se sobre a paisagem vazia. Só a luz brilhante e cálida lhe torrava as costas, enquanto percorria a toda velocidade as tormentosas estradas para seu destino, o que fosse que tivesse James em mente.

            Lembrava-se de que tinham parado ao menos uma vez para ir ao banho e comer algo, mas logo que era consciente disso. O tempo se fundiu, e parecia que levava anos na parte de atrás dessa elegante moto quando a estrada pela que viajavam se voltou tão instável que James teve que acelerar e ela apertar-se mais contra suas amplas costas, por medo de cair, e que ele não voltasse a recolhê-la se isto acontecia.

            Finalmente pararam, apagou-se o motor e não ficou mais remédio que voltar-se para trás e olhar a seu redor, pestanejando pela confusão. Parecia um camping para trailers tirado do inferno. Havia meia dúzia de caravanas com ar abandonado situadas desordenadamente, rodeadas de automóveis e velhas caminhonetes. Via-se lixeira quebrada fora de um dos barracões com pior aspecto, e um cão sarnento oculto nas sombras os olhava fixamente. O sol já estava se pondo e o ar frio mordia Annie através de sua fina camiseta.

            —Já estamos aqui —anunciou James desmontando. A jovem não se moveu:

            —Onde é "aqui"? —Parecia um lugar deprimente, inóspito, como saído de um pesadelo, e por muito que quisesse que deixasse de conduzir, não estava segura de querer ficar aí. Ele não respondeu e olhou a seu redor com uma falta de curiosidade que Annie encontrou preocupam-se ao extremo. Conhecia esse lugar, conhecia-o bem. Tinha decidido ir ali por alguma de suas retorcidas razões.

            James se voltou e olhou-a.

            —Vem ou fica?

            —Tenho alternativa?

            —Duvido que fosse capaz de seguir com a Vincent. Neste momento não parece que pudesse nem com um triciclo. Teria que lhe pôr rodas atrás.

Estendeu-lhe uma mão, mas ela já tocado ele o suficiente esse dia. Não tinha tido vontade na moto. Agora sim que a tinha.

            Passou uma perna por cima e se deslizou até o chão duro acabou caindo de joelhos.

            É obvio, ele a ajudou a levantar-se, com todo o cuidado impessoal de um enfermeiro, pondo a de pé e sustentando-a pelos braços até que se estabilizou. Depois a soltou, tão reticente ao contato físico como ela, obviamente.

            Esse pensamento a surpreendeu e o olhou confusa. mostrava-se quase resistente a tocá-la, e se perguntou por que. E também por que incomodava isso a ela.

            —Por que me olha assim? —perguntou-lhe James com irritação

            Ele viu o encolher de ombros ligeiramente.

            —Só estava sonhando acordada. Há mais gente aqui? —Olhou para os decrépitos trailers.

            —Eles se mantêm afastados. Igual faremos nós. — Pôs-se a andar para uma das estruturas mais lúgubres. Estava oxidada e tinha umas pequenas janelas tão cobertas de graxa e imundície que ela duvidou que a luz pudesse sequer penetrar.

            A luz se esvaia com rapidez. Estava cansada, faminta e precisava de um banho. Olhou a caravana, perguntando-se se viria equipado com encanamentos internos.

            —Nos vamos ficar aqui? — perguntou sem mover-se.

            —É um lugar seguro — lhe esclareceu ele a contra gosto—. Pode que não seja o Ritz, mas nos vem melhor agora. A não ser que tenha uma idéia melhor.

            Ela pensou um instante.

            —Não —disse—. Este é possivelmente um dos últimos lugares que alguém pensaria em me encontrar.

            Seguiu-o pelos degraus quebrados até a porta metálica amassada.

            Foi então que se deu conta de que havia cadeados. O trailer em si mesmo podia ser uma pilha de metal sarnento de má qualidade, mas a fila de ferrolhos das portas poderiam ter protegido o Forte Knox. E James tinha as chaves nas mãos.

            Por um momento se permitiu pensar que o interior do trailer poderia ser igualmente surpreendente, mas quando chegou o aroma da cerveja derramada, e o chili e o ar quente e rançoso lhe golpeou em plena cara, deu-se conta de que sua esperança tinha sido em vão. Seguiu James até o interior, entretanto, algo lhe fez deter um segundo para olhar por cima do ombro à caravana de frente.

            Não se viam luzes na escuridão do entardecer, mas se notava movimento depois das janelas e sentiu um calafrio.

            —Estão-nos vigiando —disse apressando-se a entrar.

            —Não se preocupe — tranqüilizou-a—. As pessoas que vivem aqui estão mais preocupadas com sua pele que pela tua.

            Fechou a porta de um empurrão, deixando-os a ambos na escuridão e o forte cheiro. Ela não podia distingui-lo, mas o sentia perto, muito perto, e quando seu braço quase lhe roçou o rosto lhe invadiu o pânico.

            Desapareceu imediatamente quando James acendeu a luz e se afastou.

            Respirou profundamente para tranqüilizar-se.

            —Tem melhor aspecto na escuridão —comentou.

            Do teto pendurava uma lâmpada nua que iluminava o desmantelado interior. Havia uma cozinha em um extremo, uma espécie de sala de estar no meio, e no extremo oposto uma cama. Uma cama com um simples colchão e uma manta puída dobrada cuidadosamente a um lado.

            —Não há nada como o lar —comentou ela ironicamente—. Tem banheiro?

            —A sua esquerda. Inclusive funcionam os encanamentos.

            —Como sabe?

            —Sei.

            O banheiro era minúsculo. Tinha um chuveiro oxidado, um sanitário deslocado e um pequeno lavabo. Não lhe importava. Necessitava essa ducha.

            Ouviu vozes enquanto lavava as mãos. A água também tinha aspecto oxidado, quase marrom. Tampouco lhe importava.

            Abriu a porta devagar, com cuidado, esperando encontrar Deus sabia o que. Mas só estava James, estirado sobre o sofá agarrado com uma cerveja fria em uma mão, olhando a tela em branco e preto de uma televisão diminuta.

            Annie queria lhe pegar. Golpear-lhe com os punhos, lhe amassar a cabeça contra a parede e lhe fazer perguntas. De novo parecia outra pessoa. Esta vez um bom menino, convexo, vendo um jogo de futebol na televisão. Mas não estava vendo nenhuma partida, a não ser a CNN. E aquele não era a classe de lugar no que alguém esperasse encontrar televisão por cabo.

            —Há comida na cozinha — lhe disse ele—. E cerveja.

            —Já te falei, não bebo.

            —Eu sim.

            Não havia nada que responder a esse comentário. Estava totalmente estirado no sofá, com seu comprido corpo coberto de negro aparentemente relaxado, enquanto olhava as imagens que passavam no televisor, mas também podia ver a coronha de sua pistola bem presa ao cinturão.

            Havia água engarrafada, latas de chili com carne, guisado de vitela, sopa, macarrão chineses e atum. Decidiu-se por uma sopa de tomate e umas bolachas salgadas, sem incomodar-se em perguntar se ele queria.

            Não havia outro lugar onde sentar-se além do velho sofá. Acomodou-se a seu lado, tão longe como foi possível, concentrando-se na televisão.

            —Jogam algo interessante? —perguntou em um intento tardio de ser sociável.

            —Incêndios nos bosques de Califórnia —lhe informou ele com indiferença—. Pensam que começou em um dos canhões. Uma casa velha se queimou e se estendeu por ali.

            Ela deixou de comer:

            —Foi você?

            —Eu o que?

            —O causador do incêndio.

            —Não. Acredito que podemos agradecer ao Carew. Tenta cobrir seus enganos.

            —Que enganos?

            —Nos deixar partir — respondeu James terminando de um gole a cerveja—. Vou sair. Fica alerta. Não responda à porta nem ao telefone.

            —Telefone? —repetiu sem poder acreditar o que ouviam seus ouvidos.

            —Há um telefone no dormitório.

            —Pode-se saber o que é este lugar? — perguntou ela de novo—. Onde estamos?

            —Um chiqueiro amuralhado — esclareceu—. Isso é tudo o que tem que saber. Estaremos a salvo durante um par de dias.

            —O mesmo disse quando chegamos à casa.

            —Sim, mas a única pessoa que conhece este lugar além de mim é Clancy. E ele está morto.

            Nem sua voz nem seu rosto denotaram nenhum tipo de emoção. Ou não lhe importava ou era um mentiroso consumado. Não estava segura do que preferia.

            —Aonde vai? — Esperava que seu tom de voz não soasse tão triste como se sentia. Não queria que a deixasse sozinha nesse lugar estranho. Não é que ele fora de muita ajuda, mas era melhor que nada.

            —As compras.

            —O que vai comprar?

            —Tequila, comida, informação.

            —De acordo — aceitou Annie, até sabendo que não estava pedindo permissão—. Acredito tomarei uma ducha e irei à cama. Onde quer que durma?

            Pensou que a tensão que aflorou entre ambos tão somente era culpa de sua imaginação.

            —Pode utilizar a cama de novo —disse ele lentamente—. Eu não preciso dormir muito.

            —Suponho que não haverá roupa por aqui, não?

            —Pode pôr a minha. Está nas gavetas sob a cama.

            —Então este lugar é teu?

            Uma vez mais, ele não respondeu.

            —Passa o ferrolho quando tiver saído — ordenou James—. Se levantou do sofá deixando de um golpe a lata vazia de cerveja sobre a mesinha que havia ao lado, e um momento depois, já não estava la.

            Ela se reclinou, olhando sem ver a televisão enquanto escutava como ficava em marcha a moto e depois o som do motor que se perdia na distância. E se perguntou se voltaria a procurá-la.

 

            As chamas devoravam as colinas vizinhas aos Anjos, e pestanejou ante essa visão. Deveria ter tido um aspecto menos ameaçador em branco e preto. Mas em troca as imagens se pareciam ainda mais com o inferno.

            —No momento só houve seis mortos, embora fontes oficiais temam que este número aumente. Os quatro corpos na casa das colinas perto de Los Angeles ainda não foram identificados, mas o juiz de instrução espera novos dados de um momento a outro.

Quatro corpos. Não haviam dito nenhum dado da casa queimada, mas não importava. Sabia que casa era. Sabia de quem se tratava um dos corpos. Clancy, com o sorriso irônico e sua moto Vincent. O homem que James se negava obstinadamente a chorar.

Mas quem eram os outros três? E como tinham morrido?

            Possivelmente tampouco queria sabê-lo. Desligou a televisão e se dirigiu à ducha. A água estava quente, o marrom oxidado quase se tornou transparente quando tinha terminado, e se envolveu em uma toalha puída antes de encaminhar-se ao diminuto dormitório.

            A roupa de debaixo da cama foi de utilidade. Ficou com uma camiseta enorme e bermuda de esporte, e se meteu na cama, tratando de ignorar as caixas de munição que se encontravam sob a roupa interior cuidadosamente dobrada.

            A cama era tão dura e tinha tantos buracos como parecia, e a manta era muito fina e picava. Não lhe importava. Sentia também que o corpo doesse pela viagem sem fim sobre estradas com buracos. Ao apoiar a cabeça no travesseiro, deu igual ter o cabelo úmido e enredado. Nem sequer lhe preocupavam os quatro mortos da casa que tinham abandonado essa mesma manhã.

            O que realmente lhe inquietava é que estava sozinha. E que não tinha nenhuma garantia de que James ia voltar.

            Apagou a luz e ficou deitada em meio à escuridão. A lua tinha saído e seus débeis raios penetravam pelas janelas manchadas de graxa. O resto do pequeno e decrépito trailer estava surpreendentemente limpo, para o decadente e oxidado que se encontrava, e se deu conta de que as janelas tinham sido obscurecidas por uma razão.

            Havia uma razão para tudo o que James fazia, e essa idéia não lhe tranqüilizava muito. Ainda não sabia realmente quem era ou a que se dedicava. Mas tinha a certeza, apesar de suas dúvidas, que voltaria por ela. E que a protegeria. Ninguém poderia chegar até ela, ninguém lhe faria mal. O velho amigo de seu pai se encarregaria de que assim fosse.

            Fechou os olhos, deixando-se levar pelo sonho.

            Carew desprezava o General Donald com toda sua alma, e contava os dias que restavam para não ter que tratar com ele nunca mais. Durante os anos que tinha passado trabalhando para o Win Sutherland, seguindo as ordens de seu mentor, tinha tido vários encontros com o exército, em particular com o General Donald. Aquele homem tinha feito tudo o que podia para interferir com o tranqüilo funcionamento da organização, e tinha estado metendo-se em tudo desde que Sutherland tinha desaparecido.

            Bom, que o tente, pensou mal humoradamente. Se tão somente pudessem arrumar um pouco os cabos soltos que tinham ficado, toda a confusão poderia se ocultar à perfeição. Gente como McKinley servia pouco hoje em dia. Uma vez que tudo se solucionasse, tinha a intenção de dedicar-se a assuntos financeiros. A espionagem não resultava tão emocionante como o dinheiro.

            E as pessoas como o General Donald nunca se ocupavam dos problemas monetários, exceto para pedir mais. Carew estava totalmente decidido a negar tudo.

            —Pode-se saber o que tem feito com o McKinley e a garota? — o General nem sequer esperou o convite entrou e sentou no escritório forrado de madeira de nogueira—. Pensava que podia te encarregar de um assunto tão singelo como esse. Não podem ter desaparecido da face da Terra.

            Carew se limitou a encolher os ombros.

            —E quem iniciou o fogo, maldita seja? Supunha-se que não tinha que haver vítimas civis. Os meios de comunicação ficam muito pesados, e é muito pior se houver crianças no meio. É como se não tivesse morrido nunca nenhum menino na guerra — assinalou o General com um gesto desdenhoso de mão—. Sempre hei dito que esta operação deveria estar sob jurisdição militar. Mas acaso alguém me escutou?

            —Não sei, General.

            —Pois bem, filho, não é que saiba muito, não? —levantou-se, e se aproximou ameaçadoramente dele ele.

            Carew nem sequer pestanejou. Estava acostumado a homens da índole do General. Pessoas que tentavam utilizar sua altura, sua voz forte para intimidar aos outros, mas a ele não lhe atemorizava facilmente. Era um sobrevivente: tinha que sê-lo para ter durado tanto, para ter chegado tão longe. E não ia deixar que um valentão de pouca subida como o General o detivera em sua carreira.

            —Não, senhor —respondeu educadamente, olhando-o.

            —Quer um cigarro? —ladrou o General e Carew se deu conta de que era uma dessas estúpidas provas de dignidade que ele sempre empreendia.

            —Não, obrigado, senhor. Não fumo.

            O General murmurou algo em voz baixa, lançando um olhar furioso.

            —O que dizem os de seu bando? Alguns de seus homens estavam acostumados a trabalhar com o Sutherland e com o McKinley. Devem ter alguma idéia de aonde podem ter ido. E Hanover? Clancy? Paulsen?

            —Hanover e Clancy estão mortos —lhe informou seu subordinado com cuidado—. McKinley se encarregou de Hanover quando ela foi a ele no México. E não sei quem se encarregou do Clancy. Não fomos nós, e duvido que foi James. Conheciam-se a vida toda.

—E eu duvido que McKinley se veja influenciado por razões sentimentais — espetou o General—. E Paulsen?

            —Se souber algo, não diz nenhuma palavra.

            —Merda — explorou o General—. E deixa que se saia com a sua? Eu teria levado cinco minutos.

            —Não acredito que saiba nada.

            —Acreditar não é suficiente, Carew. Quero essa informação. Quero McKinley e à filha do Sutherland. Quero que alguém se ocupe deles, ouve-me?

            O espião levantou o olhar. Quase desejou ter fumado: podia ter jogado uma boa nuvem de fumaça a rechonchuda cara vermelha do General.

            —Por quê? —perguntou com calma.

            —São um perigo. Sabe tão bem como eu. McKinley deveria ter sido neutralizado faz meses. Mas deu sorte, e agora a filha do Sutherland também está metida na confusão. Você se ocupe de encontrá-los, e eu me encarregarei do resto. Não podemos permitir mais enganos. Não se quer conservar seu trabalho e se pretendermos que a organização siga adiante. Ouve-me, filho?

            Carew se levantou. Tinha odiado a seu próprio pai com paixão adolescente e se alegrou que o bode morreu em um acidente de carro. Não era nada comparado com o ódio que sentia do General.

            —Falarei com Paulsen — disse em um tom de voz enganosamente suave—. Posso me encarregar do assunto.

            —Isso espero, filho. Porque se você não pode, eu sim. E enquanto ia, lamentou uma vez mais a morte da Mary Margaret Hanover. Se McKinley não a tivesse carregado, teria cortado o pescoço do General de sua parte. Essa idéia agridoce, fez-lhe sorrir pela primeira vez em dias.

 

            Não estava sozinha. A cama era dura, ampla, e quando abriu os olhos na turva luz, pôde ver que James estava deitado a seu lado profundamente dormido. Começou a levantar-se, mas a mão dele se fechou ao redor de seu pulso.

            —Volte a dormir — ordenou logo movendo os lábios, com os olhos ainda fechados.

            —Disse que ia dormir no sofá.

            —Disse que não dormia muito. Não especifiquei onde ia dormir.

            Tentou retirar o braço, mas seus dedos pareciam algemas. Estava cansada, zangada e assustada. Sem pensar, golpeou-lhe com a outra mão no peito.

            Sua resposta foi igual rápida e terrível. Em menos de um segundo, tinha-a tombada de costas e com uma mão ao redor do pescoço. Não era a carícia de um amante. Com o dedo polegar lhe pressionava a mandíbula e a dor não lhe permitia respirar.

            —Não volte a fazê-lo. —Sua voz era um mero sussurro.

            Sua advertência foi absolutamente efetiva. Não podia mover-se, nem tampouco assentir com a cabeça ou inclusive falar. Ela se limitou a olhá-lo com os olhos muito abertos, esperando que ele aumentasse a pressão. Para matá-la. Ou para soltá-la.

            Não sabia o que é que ia acontecer. Suspeitava que nenhuma das duas coisas, ao menos no momento.

            Então ele deixou cair a mão e se afastou para o lado, inspirando profundamente, como se tivesse estado correndo muito depressa.

            Custou-lhe toda sua força de vontade não golpeá-lo de novo. Não a deixaria ir longe, sabia, e desta vez poderia matá-la. Ficou deitada a seu lado, com a respiração igualmente alterada como a sua e esperou.

            —Tome cuidado — advertiu ele a final, quando sua respiração se tranqüilizou o suficiente—. Atuo por instinto, e posso ser muito perigoso.

            —O que aconteceu com essas pessoas?

            —Que pessoas?

            —Encontraram quatro corpos na casa. Imagino que um deles é Clancy. Quais eram os outros três?

            James não duvidou um instante.

            —Não sei.

            A jovem estava disposta a acreditar nessa parte.

            —O que se passou?

            —Matei-os.

            As palavras, duas simples palavras, ficaram flutuando no ar. Annie esperava que o pânico e o horror a invadissem, mas não passou nada, e entendeu por que.

            —Sabia — admitiu em voz baixa.

            —Ninguém disse que seria fácil. Não vai me perguntar por quê?

            —Imagino que tentavam nos matar.

            Aventurou-se a olhá-lo rapidamente, e apesar de seu rosto sem expressão definida pôde distinguir um ligeiro toque de humor sombrio.

            —Também sabe aplicar à lógica — disse—. Alguma outra pergunta?

Ele estava se comportando de uma maneira surpreendentemente direta e a jovem esforçou o cérebro em busca da pergunta adequada. A que saiu surpreendeu a ela mesma.

            —Quantos anos tinha sua mulher quando morreu?

            —Minha mulher?

            —Quando começou a trabalhar com meu pai — continuou pacientemente—. Sua mulher e seu filho tinham morrido em um acidente de carro, e você foi do Texas Y... —Perdeu o fio—. por que não parece o mesmo? Onde está seu rumo?

            —Não é lógico que o tenha perdido depois de todos estes anos?

            —Não pode ter perdido em alguns dias — repôs ela—. Sempre teve um ligeiro acento texano.

            —Nunca vivi no Texas.

            Suportou a resposta como se tivesse recebido uma bofetada.

            —E sua família? — seguiu.

            —Quer dizer essa fantasia romântica que seu pai inventou? Sabe somar, Annie?         Fui a seu pai faz vinte anos. Tenho trinta e nove. Crê que podia ter uma mulher e um filho?

            —Não.

            —Bingo.

            —Então, onde encontrou meu pai? Como te recrutou para sua misteriosa organização?

            —Digamos que me ofereceu um trabalho quando eu precisava — disse ele sem levantar o tom de voz, apoiando-se nos travesseiros. Olhava-a atentamente e ela queria afastar-se. Mas tinha comprovado quão rápido era, e não se atrevia—. Não precisa saber mais detalhes.

            —Em outras palavras, você não vai dar mais detalhes — murmurou à jovem—. É homossexual?

            Tinha conseguido lhe causar surpresa finalmente, e ele sorriu. Não foi um gesto tranqüilizador.

            —Sentiria-se melhor se fosse?

            A jovem pensou na resposta durante um momento, e depois encolheu os ombros.

            —Seria igual. Você é assexuado. Uma máquina, um enigma, um bom soldado. Suas preferências sexuais, se é que tem alguma, não me dizem respeito.

            —Sim, dizem respeito a você sim.

            As palavras ficaram flutuando no ar, pesadas, como chumbo, carregadas de sentido erótico. Ela reconheceu com um tremor que vinha de dentro, e já não importou se fazia dano ou a matava. Tinha que afastar-se da ameaça que representava.

            Deslizou-se para fora da cama e retrocedeu. James não fez nenhuma ameaça de ir atrás, ficou deitado tranqüilamente, olhando-a com os olhos entreabertos.

            —Não pode fugir a parte alguma, Annie. Só está a salvo a meu lado, e você sabe.

            —Estou a salvo contigo? —O tom de voz lhe resultou muito rouca, mas era incapaz de conseguir falar com mais integridade.

            —Tão a salvo como pode estar nestas condições.

            —E quanto é isso?

            James a olhou, e a jovem soube nesse momento que lhe diria a verdade, inclusive se ela não o desejava.

           — Nunca.

            Annie assentiu, lhe acreditando.

 

            Ela o tinha esquecido. Não deveria ficar surpreso: tinha acontecido fazia um século, e provavelmente a jovem era muito mais feliz fingindo que nunca tinha acontecido.

            Ele conhecia esse sentimento. Durante os últimos anos tinha mantido afastado de sua mente, mantendo a distância com ela para não sentir-se tentado de novo. Win tinha sabido, certamente. Provavelmente lhe tinha divertido muito. Tinha-o mencionado tão somente uma vez, o suficiente para lhe fazer sentir pior.

            Escutava-a mover-se pelo trailer. O lugar era bastante sólido, devido a que as paredes de aspecto débil estavam reforçadas com lâminas de aço a prova de balas que lhe haviam custado uma pequena fortuna. Além disso se encontrava totalmente isolado. O celular estava conectado através de um repetidor tão elaborado que o convertia em impossível de rastrear. Ninguém os encontraria, assim podia pensar tranqüilamente o que fazer com ela e se devia enfrentar seu passado.

            Podia começar com coisas pequenas. Permitir-se recordar o que lhe havia custado tanto esquecer. Aquela noite que tinha passado com Annie Sutherland fazia anos. A última vez que tinha sido bastante estúpido para baixar a guarda.

            Nunca saberia com segurança se Win tinha preparado tudo. Era tão possessivo com sua única filha e seus protegidos, que James achava difícil pensar que os tinha juntado de propósito, arriscando uma aliança que poderia ter feito ficar sozinho. Mas Win era também tão dominante que lhe parecia impossível que tivesse ocorrido por acaso. De toda forma, tal como estavam às coisas, James nunca saberia. Sempre tinha evitado falar de Annie com seu pai, e agora era muito tarde: ele estava morto.

            Ela tinha vinte e um anos. Uma garota de vinte e um anos curiosamente inocente, enquanto que a vida dele empesteava a morte e decadência. Sua inocência não tinha nada a ver com que tivesse tido amantes ou não. Estava imbuída em seu sangue, tinha nascido ali, e Win fazia todo o possível para potencializá-la. Possivelmente tinha querido proteger a sua única filha. Mas também tinha desfrutado da ironia da inocência nascida da corrupção.

            Ela tinha vindo da universidade para passar aquele fim de semana de Ação de Graças, e Win tinha querido que todos seus jovens protegidos fossem jantar ali. Tinha convidado a Mary Margaret, não muito mais velha que Annie, e já uma assassina veterana, ao Martin e ao Clancy. Inclusive ao Billy Arnett e seu jovem companheiro, e um par de pessoas mais cujos nomes já não recordava sequer. A maioria delas tinha morrido.

Annie tinha insistido em cozinhar. James tinha aceitado esse dado um tanto assombrado, devido que sabia que Annie Sutherland se criou com uma cozinheira e uma dama de companhia, e não acreditava capaz de fritar um ovo sequer.

            Chegou no meio da amanhã com documentos para o Win, só para encontrar a casa deserta, e Annie na cozinha chorando desconsolada.

            O pânico se apoderou dele. A final, alguém tinha conseguido acabar com Win, e James não tinha estado ali para protegê-lo. E depois tinha visto o peru.

            —Está congelado! —gemia ela.

            —É o normal.

            —Mas James, deixei-o na geladeira durante dias. Acredito que tenho sintomas de congelamento por tentar tirar essa capa asquerosa de cima. A água fervendo tampouco faz nada e o forno é muito pequeno para que caiba tudo. Inclusive tratei que chamar o do serviço de Buffet de meu pai, mas não responde, e não sei o que fazer! —Tinha lágrimas nos olhos, lágrimas de verdade, e a olhou perplexo por um momento.

            Tinha-a conhecido desde que tinha sete anos e ele dezenove. Tinha vindo a esse país com o Win, feito um monte de nervos e raiva, e só a presença de uma menina tinha conseguido controlar sua fúria e tocar algo de sua já faz tempo perdida humanidade.

            Sempre tinha estado agradecido por isso. Mas ao olhá-la, em lágrimas por um estúpido peru, deu-se conta de que já não era uma menina. E a gratidão não tinha nada que ver com o que estava sentindo.

            O sentimento lhe golpeou com rapidez e dureza, de maneira tão inesperada que não opôs resistência. Queria estreitá-la entre seus braços, lhe secar as lágrimas e depois beijar essa pálida boca tremente. Atirar esse maldito peru gelado ao chão, pô-la sobre a mesa e lhe levantar a larga saia. Possuir sua boca e ver o que acontecia.

Não a tocou.

            —Tem outro avental? —disse com seu perfeito acento texano olhando ao redor.

            Seus olhos se abriram demasiadamente e as lágrimas se foram em um abrir e fechar de olhos:

            —James, sabe cozinhar?

            —Nenhuma mãe texana deixaria sair seu filho ao mundo sem lhe ensinar a valer-se por si mesmo — respondeu, tirando a jaqueta do traje cinza que era parte de sua camuflagem burocrática. De fato, sua mãe tinha ensinado a cozinhar, isso era verdade, mas ela nunca tinha saído da Irlanda do Norte antes que a bala de um franco-atirador acabasse com sua vida aos trinta e sete anos.

            —OH, graças a Deus —respirou aliviada—. Me salvaste a vida.

            Isso era justamente o que ele não estava acostumado a fazer. Era um assassino, um profissional, e o aceitava sem amargura nem rancor. Até que olhou em seus ingênuos olhos.

            Subiu as mangas, tirou a gravata e se aproximou do peru. Ainda estava meio congelado, e a água fervendo que lhe tinha vertido na cavidade abdominal se solidificou.

            —Está aceso o forno?

            —Apaguei-o —admitiu a jovem.

            —Tira a tampa superior e ponha a 250 graus — indicou enquanto punha à ave congelada na enegrecida fonte do forno.

            —Não o pode assar assim —protestou ela—. Não está recheado.

            —Estará. Começaremos, e em meia hora já se encontrará o suficientemente quente para terminar de prepará-lo.

            —E não morreremos todos de salmonela? —perguntou Annie receosamente.

            —Há piores forma de morrer —murmurou ele, colocando o peru dentro do moderno forno de aço. —Que mais vamos comer?

            —Não saberá fazer bolos verdade? —Sua voz soava cheia de lastima.

Limitou-se a olhá-la. Antes não se deu conta de que tinha farinha no nariz. Recolheu o cabelo loiro em uma espécie de coque no alto da cabeça, mas estava desfazendo. Tinha posto um avental e parecia tão normal rodeada desse caos na cozinha, que queria... queria...

            Não estava seguro do que queria. Tudo se relacionava com o sexo e a violência e não ia se permitir nenhuma das duas coisas.

            —Que problema há com os bolos? —perguntou com cansaço.

            Foi um dia estranho, quase surrealista. Uma ligeira nevada estava caindo fora das janelas de múltiplos cristais, mas dentro da espaçosa cozinha do Win Sutherland todo era quente e acolhedor. O ar cheirava deliciosamente a peru assado e a bolos recém feitos, e o que James não podia recordar do que sua mãe lhe tinha ensinado improvisavam com livros de cozinha e risadas. Criaram um festim ligeiramente queimado, mas um festim de todas formas. Uma celebração normal e feliz de uma festividade americana. E durante essas poucas horas, James se sentiu satisfeito fazendo algo muito perigoso: fingir.

            O piso estreito de Belfast com muitos meninos e nunca suficiente dinheiro, já não existia. Não havia franco-atiradores nem bombas, nem trabalhos tão degradantes que devoravam pouco a pouco a alma, secando-a, esmagando-a até que ficou sem ela. Até que só ficou uma casca de ovo vazio.

            Sabia que Annie se sentia atraída por ele. Tinha começado fazia pouco mais de um ano e James fazia todo o possível para evitá-la depois. Win tinha contado muito divertido, mas a James não tinha feito graça. Annie era muito jovem, muito pura, apesar de sua família. Não ia poluir nem em sonhos.

Mas agora estava ali, não havia nem rastro de seu mentor, e rodeado por essa caseira normalidade, James se deu conta de que suas defesas estavam sumindo. Quando sorria, com essa maldita luz em seus olhos azuis, queria ver-se refletido nela.

            Em lugar disso, tinha que conter-se para não agarrá-la em seus braços, empurrá-la contra a parede e lhe advertir:

            —Annie, não sou quem você pensa que sou.

            Mas não podia. A verdade lhe faria mal, muito mais do que ele mesmo. A verdade a poria em perigo e destroçaria a confiança em seu pai.

            Não, não ia dizer nenhuma só palavra. Ia suportar seu suave flerte; inclusive ia devolver cuidadosamente. Porque sabia que doeria a ele muito mais, e queria machucar a si mesmo.

            —Ficou perfeito — sussurrou ela olhando a mesa. Tinham posto o faqueiro de prata e as taças de cristal Waterford, a baixela do Limoges e Damasco. E ao pensar em seus antepassados, morrendo de fome, enquanto os ricos proprietários bebiam bom vinho francês nas taças que seus compatriotas faziam com seu suor e sangue, a raiva voltou a invadir, de maneira que de novo teve dezessete anos, e estava louco pelo idealismo e o que ele considerava que era a verdade.

            Não disse nada e olhou pelas janelas em volta da tarde nevada. A neve estava endurecendo, incrustando-se nas janelas, e se precaveu de que tinha passado um momento desde que tinha visto algum sinal de tráfico nas ruas normalmente lotadas. Estavam sozinhos na casa, Annie Sutherland e ele. Separado-se da realidade, dos constantes perigos mortais de sua vida diária. Estavam a sós, e ele a desejava.

            A escuridão chegou de forma sutil de uma vez que o som de um trovão retumbava a seu redor.

            —Deve ter acabado a eletricidade — anunciou Annie em voz baixa e ligeiramente nervosa, aproximando-se dele no corredor cheio de sombras.

            Ele se deu conta de que se pôs em guarda de forma automática. Respirou fundo, relaxando e se encontrou respirando o perfume feminino e uma vez os suculentos aromas do jantar.

            —Tenho um radio de pilhas em meu dormitório. Possivelmente possamos ouvir o que está passando no mundo exterior —propôs ela.

            —Melhor, não precisamos saber. Não tinha que lhe ver a cara para imaginar sua expressão. Ligeiramente zombadora, mas aberta.

            —A ignorância não proporciona a felicidade —repôs Annie com um ligeiro matiz de ironia na voz.

            —Eu não estaria tão seguro. —separou-se dela, pois necessitava; inclinou-se e acendeu com seu acendedor os candelabros de prata, que em seguida alagaram a habitação com um quente resplendor.

            A jovem tinha um aspecto etéreo à luz das velas. Muito. E não tinha nem a mais remota idéia do que estava fazendo com ele, como estava abrindo caminho através de décadas de defesas, como um ácido que transpassasse o ferro.

            Possivelmente ela percebeu algo. Não se moveu, mas o olhou, e em seus olhos se lia um desejo nebuloso, que James estava decidido a ignorar. Voltou-lhe as costas deliberadamente, voltando a olhar pela janela à rua nevada.

            —Vou procurar o rádio — disse Annie, e se ele não houvesse se sentido tão conectado a ela, não tivesse dado conta do ligeiro tom de resignação de sua voz.

            Até que ouviu um golpe, não se deu conta de que a jovem não levou uma vela. Não se permitiu nem um momento para pensá-lo, para refleti-lo. Estava a metade das escadas, c          om a pistola na mão, quando a encontrou agachada na escuridão.

Ele tampouco havia trazido luz consigo e estava escuro como a boca do lobo. Ajoelhou a seu lado, metendo-a pistola que ela não podia ver pelas costas.

            —O que aconteceu? —Não a tocou. Tinha a desculpa perfeita, mas não se atrevia.Sabia que não se deteria.

            —Sou uma idiota — respondeu—. Pensava que conhecia esta casa o suficientemente bem para saber me guiar na escuridão, mas suponho que me equivocava. —ficou em pé, e ele começou a afastar-se, escutando, tentando sentir se tinha feito mal.

            Mas a jovem o alcançou, tocando-o na escuridão. Colocou a mão sobre o braço, emanando um aroma de flores e inocência.

            Cheirava como os sonhos de sexo adolescente que ele nunca se permitiu e tanto tinha desejado.

            —Importaria-se de me acompanhar? —pediu-lhe ela—. A escuridão me põe nervosa.

            James queria soltar-se. Sabia que não era uma simples paquera. Ou se o era, não sabia o que estava pedindo.

            —Crê que o homem do saco está por aqui? —comentou rápido.

            —Duvido. Meu pai tem medidas de segurança suficientes para proteger a base militar do Forte Knox.

            —Não funcionam sem a eletricidade.

            —Está tentando me tranqüilizar, James? Se for assim, não está conseguindo. Vamos.

            Annie lhe soltou, mas ainda podia sentir onde o havia tocado. O rastro de cada elegante e comprido dedo. E apenas o tinha tocado.

            Foi com ela. Passaram pelo segundo piso, onde Win dormia em um esplendor digno da nobreza, até as estreitas escadas que levavam ao terceiro andar, a um quarto que nunca tinha visto.

            Tinha esquecido que a jovem dormia ali acima. Longe dos quartos a prova de ruído de seu pai e seus costumes estranhos. Recordou vagamente que inclusive podia descer à cozinha por suas próprias escadas na parte de trás. Mas ele se manteve longe do terceiro andar a propósito desde que ela tinha chegado à puberdade.

            Só entrava um pouco de luz de vez em quando, procedente da janela coberta de neve situada em um extremo do vestíbulo do terceiro andar. James se encontrava mais perto dela do que quereria, e se amaldiçoou por não ter trazido uma vela, uma lanterna, algo para romper a linha de penumbra erótica que lhes rodeava.

            Deteve-se justo ao entrar em sue quarto, apoiando-se na porta enquanto a escutava mover-se na escuridão. O característico aroma do Annie era ali mais potente que nunca. Percebia seu perfume, o xampu e a água da ducha, inclusive o da pasta de dente que utilizava. Podia cheirar o detergente dos lençóis de sua cama, o couro de seus sapatos. perguntou-se onde se encontraria a cama.

            Seus olhos se acostumaram rapidamente à escuridão. Sempre tinha tido uma visão noturna extraordinária, algo que lhe tinha servido muito em sua profissão. Podia ver a silhueta da jovem recortada contra a janela, suas formas, suas voluptuosas e cálidas curva. E podia ver a cama justo detrás dela.

            Uma cama alta e grande. Desfeita, os lençóis enrugados e enredadas em torno do que parecia um edredom.

            Fechou os olhos com um suspiro de desespero. Foram os lençóis enrugados o que acabaram por lhe decidir. Se a cama tivesse estado perfeitamente feita, de maneira que uma moeda pudesse ricochetear sobre suas mantas superiores, poderia haver resistido.            Mas sentia a necessidade de recolocar o monte de lençóis brancos resplandecentes sobre o corpo nu do Annie, e sobre o seu. Tirou a pistola do cinturão, deixou-a silenciosamente sobre a cômoda que havia juntado à porta e se dirigiu para a jovem.

            Provavelmente ela o sentiu vir. Girou-se e o olhou sem medo. Tocou-a, lhe rodeando uma face com sua grande mão, e ela se sentiu cálida e frágil contra ele. James sabia perfeitamente quão débeis podiam chegar a ser a carne e os ossos humanos.

            A jovem moveu a cara e pôs a boca contra a palma de sua mão.

            —Tem sabor de canela —sussurrou. E ele quis que ela o provasse.

            Annie levantou o rosto e roçou a boca com a sua, um gesto de comprovação, como se não estivesse segura de ser bem recebida. James lhe passou o braço pela cintura e aproximou o suave e esbelto corpo   feminino do dele, com cuidadosa lentidão, encaixando-a contra ele, deixando-a sentir quão duro estava uma vez que a beijava lhe abrindo a boca.

            Beijou-a acostumando-se com o ritmo dela, sem raiva. Simplesmente a apertou contra ele, enquanto com os lábios, a língua, os dentes não deixava nenhuma zona de sua boca sem tocar, sem beijar. Quando levantou a cabeça, ela ofegava, respirava a pequenas e rápidas baforadas, e tremia em seus braços. James disse que não era medo, mas ele mesmo o havia sentido tantas vezes, que lhe resultava impossível não reconhecê-lo.

            —Não pare — suplicou a jovem com um mero sussurro.

            Tocou os seios posesivamente. A garota estremeceu de novo com medo, mas se apertou contra ele de toda forma, e James aceitou a verdade. A jovem sabia por instinto que ele significava a morte e o perigo, embora se negasse a admiti-lo.

            Isso faria que o sexo fosse ainda mais intenso. Utilizar esse medo para excitá-la proporcionaria muito poder para que pudesse evitar tocá-la. Se tinha um pouco de sentido comum, deveria afastar-se nesse momento dela.

            Mas Annie estava muito perto, muito excitada, muito entregue a ele. Podia saborear sua inocência. Começava a lhe desabotoar os diminutos botões do delicado pulôver que levava, quando as luzes iluminaram a habitação: a eletricidade havia tornado.

            A prudência chegou ao mesmo tempo e se separou dela. Encontrava-se no quarto de uma menina. A cama tinha quatro colunas e um dossel de encaixe. Podia ver uma enorme coleção de bonecas, pelo amor de Deus, e tudo era rosa.

            —Menos mal que voltou a luz — disse ele em um tom deliberadamente rápido.

            Ela não se moveu. Tinha os olhos muito abertos, escurecidos e a boca úmida e torcida. Levava o pulôver desabotoado e lhe notavam os mamilos.

            —Por quê? — perguntou ela tão somente.

            James se afastou, tinha ido para a porta. Não queria que visse sua pistola. Pois isso ela sabia, ele não tinha nenhuma razão para possuir uma arma, e muito menos nesse exato momento. E não estava com humor para explicar nada.

            —Por que o que? — devolveu-lhe a pergunta cautelosamente—. Por que te beijei?

Ela negou com a cabeça.

            —Sei por que me beijaste. Queria fazê-lo. Não sou tola, James. Tinha vontades de me beijar há quase tanto tempo como eu.

            Algo dentro dele se abriu de repente. Seu temperamento, seu controle. Reclinou-se contra a cômoda e agarrou a pistola sem que a jovem se desse conta.

            —Equivoca-te, Annie. Não quero te beijar: quero possuí-la. Mas suspeito que seu pai não esteja muito de acordo com isso, e para ser justifico, nossa amizade é mais importante para mim que me colocar entre suas pernas, por muito largas e deliciosas que sejam.

            Utilizava o acento texano com a perfeição mais absoluta, e isso acalmou algo, o ódio que sentia contra si mesmo nesse momento. De novo era James McKinley. Um bom menino. Não o homem que acabava de beijar Annie Sutherland em seu dormitório.

            —Entendo —repôs ela com voz apagada.

            —Além disso, não teria gostado absolutamente despertar e descobrir que tinha dormido em um quarto rosa.

            —Poderia pintar de outra cor. —Suas palavras, doces e cheias de lastimas perturbaram o lugar, perturbaram-no.

            James negou brandamente com a cabeça:

            —Não, Annie.

            Ela o olhou, e em seus olhos havia tanto dor e desejo que quase fez em pedaços o seu coração. Mas a ele nada conseguiria perturbar. Nenhuma menina inocente disposta a jogar-se em seus pés nem sua própria necessidade voraz de possuí-la. Ele era invulnerável.

            E então a jovem sorriu, ligeiramente vacilante, embora ainda podia ver que sua boca seguia úmida pela sua.

            —Muito bem, pois se for assim, possivelmente seja melhor que desçamos e vejamos como vai o jantar. Que é melhor. Odeio pintar.

            Ele a deixou passar. Não queria que visse a pistola. Quando chegaram ao último lance das escadas, a luz estava indo outra vez, e pôde escutar como as bolas geladas golpeavam a casa.

            —Espero que meu pai esteja bem —comentou a jovem em voz baixa—. Tinha que ter voltado de Los Angeles esta manhã e já tem horas de atraso.

            Winston voava de Beirute, mas Annie não tinha por que saber.

            —Garanto que chama assim que possa.

            —E os outros?

            Ele também se perguntava. A tempestade de neve poderia lhes impedir de chegar, mas teriam ligado. Algo estava acontecendo, e tinha sido um estúpido ao não dar-se conta antes. Tinha estado muito hipnotizado por Annie Sutherland para perguntar-se o que estava acontecendo.

            Win tinha pedido que fosse pela manhã, e ele não estava em nenhuma parte. Nada acontecia sem que Sutherland soubesse e James não duvidava que ele estivesse justamente onde tinha que estar. Teria ajudado saber se Annie se encontrava em perigo, mas era típico de Win não ter dito. Não ter prevenido. Sabia que se alguém podia proteger a sua filha, esse era James. Suspeitasse-o este ou não.

            Maldito Win!, pensou com súbita fúria. Sua arrogância era tão absoluta, seu controle tão completo, que nunca lhe ocorria que podiam existir outros perigos. Um perigo emocional entre ambos.

            —Os outros aparecerão cedo ou tarde — respondeu em tom indiferente, enquanto as luzes se apagavam definitivamente a seu redor—. O forno é elétrico, verdade?

            —Sim. E a calefação também. Crê que a eletricidade voltará logo? Antes só se foi durante uns dez minutos. — Seu tom de voz soava despreocupado. Possivelmente pensava que não corria perigo com ele. Possivelmente pensava que ele não estava a salvo com ela.

            —Voltará. A questão é quanto demorará. La fora é granizo, e enquanto não passar isto, a companhia elétrica não pode fazer muito. Acrescenta que hoje é festa, e possivelmente tenhamos que esperar um bom momento.

            O tênue resplendor das velas penetrava da cozinha.

            —E nos esquecemos o rádio.

            —Parece-me que não deveríamos voltar la em cima para buscá-lo — comentou ele em um tom deliberadamente suave.

            —Provavelmente tenha razão. —Não soava convencida.

            —Por que não leva as velas à biblioteca? — sugeriu—. Eu vou procurar algo quente para beber e tentarei acender um fogo na chaminé. A casa está esfriando.

            —Isso se deve a seu sangue texano —disse ela—. Não está acostumado aos invernos de verdade.

            James se lembrou do frio de um janeiro irlandês em um piso sem calefação.

            —Sim — respondeu com seu acento sulino—. Isto é muito duro para um pobre menino de campo como eu.

            Tomou seu tempo, dizendo-se que precisava manter a distância, que tinha que recordar quem e o que era. Win confiava nele, pelo amor de Deus. Em qualquer lugar que estivesse, contava com que ele protegeria sua filha. Não suspeitaria que tinha estado a ponto de possuí-la grosseiramente.

            Encontrou uma garrafa de xerez e serviu dois copos. Odiava o xerez; era muito espesso e doce, e bebeu lentamente. Normalmente bebia Bourbon para fazê-lo encaixar com seu personagem, embora preferisse o bom uísque irlandês. Mas nesse momento não se atrevia a beber nada mais forte que o vinho. Agarrava-se a seu sentido comum de um fio que não faltava muito para romper-se.

            Encontrou a resposta a uma de suas primeiras perguntas quando tentou realizar umas chamadas telefônicas. Não havia linha. Não tinha nem idéia de se era devido à tormenta de neve ou por interferência humana, mas tinha que assumir que era devido a esta última causa, se queria manter a Annie e a si mesmo a salvo. Tinha-lhe mentido quando havia dito que as medidas de segurança desapareciam quando acabava a eletricidade. Win tinha um sistema de segurança adicional que lhe protegia dos caprichos do tempo de Washington, e só uma unidade de combate fortemente armada poderia entrar na casa. E, além disso, esta teria que ver-se com ele. Mas Annie não entenderia por que seu pai tinha posto essa classe de medidas na casa. E não ia ser ele quem explicasse. Como tampouco ia contar por que levava uma pistola. Ele era muito mais perigoso com suas mãos, mas tudo era tão incerto que precisava aproveitar-se de todas as vantagens possíveis. Se seus piores temores se cumprissem, faria ela acreditar que tinham tentado lhes roubar.

            Ela as tinha arrumado para acender o fogo sozinha. Tinha aproximado o sofá e se encontrava amuada sobre ele, com uma manta. O frio se percebia já no ar e duvidava que o fogo bastasse para esquentar o ambiente. E não se atrevia a oferecer-se para lhe dar calor.

            A luz do fogo criava sombras dançantes sobre seu rosto. Annie aceitou a taça de xerez com um murmúrio de obrigado, e levantou os pés para lhe dar lugar no sofá de respaldo alto.

            Ele se sentou, porque se negasse teria sido como admitir o muito que lhe afetava. Era um sofá amplo e acolhedor. Os dois cabiam perfeitamente. Ambos podiam estirar-se comodamente. Um ao lado de outro. Ele sobre ela. Em baixo ela. Dentro dela.

            —Está a salvo, James — murmurou a jovem—. Prometo que não tentarei te seduzir de novo.

            Ele se reclinou, observando-a com os olhos entrecerrados.

            —Essa é uma boa idéia, Annie. Eu não sou seu tipo. Sou muito velho, muito aborrecido.

            —De verdade?

            — Acredite. — Estirou as pernas, consciente de que de algum jeito ela tinha conseguido aproximar-se um pouco a ele.

            —E o que aconteceria se te dissesse que eu gosto dos homens mais velhos e aborrecidos?

            —Diria que está mentindo. Não vou fazer Annie. Nem a ti nem a Win.

            —Não acredito que meu pai queira deitar contigo —repôs a jovem com um matiz zombador.

            Ele não riu com ela, embora sabia que devia esforçar-se para fazê-lo.

            —Chegará logo, Annie —continuou pacientemente—. E se a eletricidade não voltou então, asseguro que ele consegue. A Win ninguém pode negar nada.

James não esperava que discutisse esse argumento, e assim foi.

            —Isso é verdade —assentiu ela, cortando a distância entre ambos e apoiando-se sobre seu ombro—. Oxalá me parecesse com ele em vez da minha mãe.

            Apesar da cercania, James se deu conta de que ela tinha aceito a derrota. Desejou poder sentir-se satisfeito com a vitória.

            —Dá graças a Deus por não te parecer, Annie —replicou com voz áspera.

Foi muito mais do que devia haver dito. Mas por alguma razão incompreensível, a jovem não lhe fez nenhuma pergunta. Em troca, suspirou e se encolheu mais na manta. James recostou-se para trás e lhe passou um braço por cima, apertando-a contra ele, deixando-a que se apoiasse em seu ombro.

            E dessa maneira os encontrou Win.

 

            As mãos do Annie ainda tremiam enquanto se servia uma xícara de café instantâneo. Odiava café instantâneo. Mas já tinha amanhecido, era uma sombria e deprimente manhã, e não havia outra coisa que beber na decrépita casa.

            Ainda podia sentir suas mãos ao redor da garganta. Seus quadris contra os seus ao ficar sobre ela na cama. Tinha uma poderosa ereção. Ambos se tinham dado conta, e ela o tinha acusado de ser assexuado de propósito. Para ver se podia provocar para que lhe provasse o contrário.

            Era estranho esse impulso enterrado faz tanto tempo de levá-lo até o limite. De obrigá-lo a olhá-la, tocá-la, vê-la. Sentia-o incomodamente familiar, e desejava acreditar em suas próprias palavras.

            Mas James McKinley não era assexuado. Nunca o tinha sido, embora durante os últimos anos tivesse que reconhecer que tinha feito um bom trabalho convencendo-a de que o era.

            Notou que a estava olhando e levantou os olhos. James se encontrava na soleira do dormitório. separou-se da parede, dirigindo-se para ela e a invadiu o pânico repentinamente. Era o que queria, e mais uma vez a aterrorizava. Tinha jogado muita lenha no fogo, e sabia que quando ele a tocasse já não haveria como volta atrás.

            Chegou até onde estava. Agarrou a xícara de suas mãos e colocou sobre a mesa de fórmica. Depois se aproximou ainda mais, encurralando-a contra os armários, deixando-a sem saída, com as mãos ao lado do corpo, aprisionando-a.

            Ficou muito quieta, esperando. Esperando-o. Ele se aproximava, bloqueando a turva luz ao baixar a cabeça, quando o som de um carro rompeu o tranqüilo amanhecer.

            James ficou gelado, e em um instante ela se deu conta de que já se esqueceu de sua existência, concentrando todos seus sentidos no som do automóvel que se aproximava.

            O motor parou. Abriu-se uma porta e depois se fechou. Uns instantes mais tarde ouviram um par de passos sobre a velha escada, e um punho golpeou a porta.

            Annie abriu a boca para dizer algo, mas tão rápido como uma serpente, James se moveu, girou-a para o outro lado e lhe pôs uma mão sobre a boca. Levava a pistola na outra mão e o frio metal contra sua cintura a assustava. Lutou durante um instante, mas ele a controlou rapidamente, dolorosamente, e ela se submeteu, apoiando-se contra seu sólido corpo, tentando recuperar o fôlego.

            —Está aí, McKinley? —A voz do Martin Paulsen chegou do outro lado da porta—. Carew mandou que viesse estourar seus miolos e me desfazer ao mesmo tempo do Annie. Vai me deixar aqui fora, ou vai abrir para que possa apontar melhor a pistola?

O rígido corpo do James se esvaziou da tensão e afastou Annie de lado.

            —Está sozinho? —perguntou baixando a voz de maneira que se pudesse ouvir do outro lado da porta de metal, mas não mais à frente.

            —Vamos, James. Eu não teria deixado que esses bastardos viessem comigo, e você sabe.

            —Poderia não ter tido opção. Carew pode ser bastante persuasivo.

            O suspiro enojado do Martín se escutou perfeitamente:

            —Escuta, James, pode que seja o melhor nesta profissão, mas isso não significa que o resto de nós sejamos uns inúteis. Sou capaz de chegar aonde necessito sem que me sigam. Deixa-me entrar ou vou ter que morrer congelado neste deserto?

            James já estava abrindo os ferrolhos da porta. Pela primeira vez Annie se deu conta da barra de aço que tinha colocado através dela além do jogo de cadeados. Para ela abrir a porta teria levado ao menos cinco minutos. Seu companheiro terminou em menos de trinta segundos.

            Tinha visto seu ex-marido justo antes de empreender aquela louca viagem. Tinha sido quem lhe havia dito onde encontrar McKinley, e agora não sabia se agradecia ou amaldiçoava.

            Parecia o mesmo de sempre enquanto fechava a porta ao entrar tão eficiente como o próprio James. Uma vez feito, abriu os braços, expondo-se ante seu velho amigo.

            —Quer comprovar que não levo armas?

            Annie fechou os olhos por um instante ao lhe invadir uma quebra de onda de náuseas. Sentia-se como Alicia no país das maravilhas; tudo era estranho, estava tudo do avesso. Martin tinha o mesmo aspecto, desde seu belo rosto de facções ligeiramente marcadas, a seu corpo musculoso e em forma, vestido com o melhor do desenhista Eddie Bauer. Ficou totalmente quieto enquanto seu melhor amigo lhe revistava, como se fosse parte de sua rotina diária. E ela se deu conta com imensa surpresa de que em realidade o era.

            Se Win e James não eram o que ela sempre tinha pensado, tampouco era Martin. O homem com o qual tinha estado casada, com que tinha compartilhado três anos de sua vida, com que tinha vivido uma mentira.

            Ele a olhou, e lhe dedicou um sorriso triste.

            —Já não está em Kansas com o Mago de Oz., não, Annie? —comentou com gentileza.

            James retrocedeu, ao parecer convencido de que uma das poucas pessoas nas que supostamente confiava não ia matá-lo.

            —Já faz um tempo que sabe. Por que me mandou isso, Martin?

            —Pensei que tinha chegado o momento de que soubesse a verdade.

            —Mas não sei — respondeu ela com azedume.

            —Não acredito que alguém a conheça — disse Martin—. Fez café, Annie?

            —É instantâneo.

            —Não sou exigente.

            O Martin que ela conhecia com que tinha passado três anos de vida marital insistia em comprar café da Sumatra, de tostado escuro e recém moído. A moça encolheu os ombros, voltando as costas para prepará-lo, enganosamente dócil.

O dono do trailer se atirou no sofá.

            —Como descobriu onde estávamos, Martin? —perguntou com tranqüilidade.

            —Não seja pesado, Mack. Posso averiguar o que preciso saber. O fato é que Clancy confiava em mim, embora pareça que você não. —Não parecia estar ofendido no nem um pouco—. Pensou que possivelmente necessitasse alguém que te cobrisse as costas no caso de que lhe ocorresse algo. E estava certo, não?

            A expressão de James não mudou.

            —Por que veio?

            —Para te ajudar.

            —O que aconteceria se te dissesse que não necessito de ajuda?

            —Não seja imbecil. Necessita toda a ajuda possível. Pode ser quase invulnerável, mas cedo ou tarde alguém ficará a sua altura. Não quero que Annie esteja por aqui quando isso acontecer.

            —Assim decidiu se transformar em meu guarda-costas.

            —Sou bom, já sabe.

            —Não tanto como eu.

            —Querem que procure o metro para medi-los? —perguntou Annie da cozinha.

            A risada do Martin soava despreocupada, familiar.

            —Sempre ganha James —respondeu.

            Agarrou a cadeira vazia, deu-lhe a volta e se sentou estirado sobre ela. Baixou a voz.

            —Sinto sobre Clancy.

            —Sim — respondeu James—. Com o tempo passam.

            —Qual é o plano?

            —Isso depende. Ainda não me disse como arrumou isso para chegar aqui sem que Carew soubesse. Onde crê que está? E como escapou do pequeno detalhe da "limpeza"?

            —Quer dizer em Los Anjos? Neguei-me redondamente. Disse-lhe que não seria de muita ajuda já que era algo muito pessoal. Embora Carew provavelmente sabia a verdade.

            —E qual era?

            —Tinha medo. Não sou um rival para ti, James, nos dois sabemos.

            Este nem sequer pestanejou.

            —Ele enviou Mary Margaret?

            Martin pareceu surpreso.

            —Não sei. Ela já não trabalha para ele. Desapareceu quando morreu Win.

            Annie levou o café. Não havia outro lugar para sentar-se, só junto a James no pequeno sofá. Não queria ficar ali, mas o que tampouco desejava é que notasse que lhe incomodava fazê-lo.

            —Não via Mary Margaret há anos — comentou ela enquanto se sentava com cautela, com cuidado de não roçar James. Sentia os olhos de seu ex sobre ela, observando a cena, e o conhecia o bastante para saber que em seguida tiraria suas próprias conclusões. perguntou-se se seriam as corretas—. Como vai?

            —Está morta.

            A jovem se voltou para o James e algo em seu tom indiferente lhe pôs nervosa.

            —Todos os que lhe rodeiam acabam morrendo?

            Ele piscou. Essa reação tão humana a surpreendeu, mas um momento depois se perguntou se a tinha imaginado.

            —Cedo ou tarde, Annie — respondeu—. Há mais café?

            —Faça você mesmo.

            Em sua boca se desenhou um sorriso que estava longe de ser agradável enquanto se dirigia a Martin:

            —Como pode ver, não é que tenhamos nos tornado bons amigos. Me alegro de que esteja aqui; possivelmente assim evitará que acabe assassinando-a.

            O olhar de inteligência que se cruzou entre ambos foi tão breve que Annie não teve tempo de decifrá-lo. Então Martin sorriu com seu velho encanto, mas, por alguma razão não teve nenhum efeito nela.

            —O que James está tentando dizer é que precisamos falar a sós, Annie. Por que não vai à cozinha e faz um montão de ruído, faz-nos o café da manhã ou algo enquanto ele e eu conversamos?

            A jovem não se moveu.

            —Não pode me acariciar na cabeça e me despedir como meu pai, Martin. Passaram-se muitas coisas durante estes seis meses. Durante estes últimos dias.

Martin ficou parado no chão, olhando-a como se de repente se encontrasse frente a alguém que não conhecesse.

            —Temo que Annie já não seja a criatura dócil e tola que recorda — advertiu James com seu preguiçoso acento sulino—. Se quisermos nos desfazer dela, teremos que ameaçá-la, deixá-la inconsciente ou amará-la.

            —Ainda não me amarrou — espetou ela.

            —Sempre há uma primeira vez —respondeu James com calma.

            —A verdade é que não gostararia muito desta conversa — disse a jovem—. E se for dar uma volta?

            —Sinto— repôs James sem que parecesse que sentisse absolutamente—. Não acredito que seja uma boa idéia ainda. Vai ate à cozinha e liga o rádio.

            Tratava-se de uma ordem que não admitia ser desobedecida. Por um instante, Annie pensou justamente em fazer isso, e depois à fria e crua realidade veio à tona. Não estavam jogando nenhum jogo. Era questão de vida ou morte. Já tinha salvado sua vida uma vez. Em troca esperava obediência.

            Estava farta de ser uma garotinha obediente. De fazer e ser o que as outras pessoas esperavam dela. Estava se transformando na pessoa que desejava ser, e esta não se escapulia sigilosamente quando lhe sugeria que se fosse.

            —Ou te atarei à cama — acrescentou James docemente.

            —Não será necessário — murmurou sem nenhuma educação—. Tem sorte de que tenho fome.

            É obvio, não tinha. O velho rádio de AM só era capaz de sintonizar mal, mas o ligou de toda formas. A CNN era uma alternativa razoável, mas não queria arriscar-se a escutar nada sobre os incêndios da Califórnia, ou os corpos encontrados nesse diminuto chalé coberto de rosas.

            Ficou de pé junto a manchada e oxidada pia, e olhou pela janela obscurecida, ignorando o murmúrio de vozes procedentes da sala de estar. O sol tinha saído, e a brilhante luz do dia no deserto se abria passando pela capa gordurenta da janela. Podia ver um par de trailers na distância, em tão mal estado como a sua, e uns quantos carros abandonados. E a paisagem árida, que se estendia na distância durante quilômetros infinitos.

            Onde se encontrariam? Queria saber realmente? Aonde foram? Encontrariam as respostas que ela necessitava?

            Inclinou-se para frente, descansando a cabeça no antebraço. Havia uma barata pequena arrastando-se pela pia e pensou em esmagá-la, mas se viu incapaz fazê-lo. Já tinha havido suficientes mortes nos últimos dias. Que o fizesse James, o caçador.

            Pensou na vingança. Tinha fantasiado com a idéia durante meses, enquanto crescia nela a certeza de que seu pai tinha sido assassinado. Alguém o tinha matado, o homem que tinha sido o centro de sua vida, sua força, seu barco a motor, seu mentor. Alguém tinha acabado com sua vida em seu melhor momento, cruelmente, e precisava saber com desespero quem o tinha feito, e por que.

            Não tinha que vingar-se necessariamente. Podia confiar que McKinley o faria por ela. Uma vez que ele tivesse dado com o homem que tinha assassinado a Winston Sutherland, destruiria-o. E Annie poderia por fim deixar o passado para trás.

Mas necessitava respostas, e não descansaria até que as conseguisse.

 

            —Até que ponto sabe a verdade? —perguntou Martin baixando a voz de maneira que fosse impossível que Annie lhes ouvisse.

            —O suficiente. Muito.

            —Sabe o que ocorreu a seu pai?

            —Sabe que o assassinaram.

            —Conhece a razão?

            Seus olhares se cruzaram. Nunca tinham falado, mas James não duvidava que Martin sabia tanto a respeito da morte de Win como qualquer outro. Assim como James tinha sido o protegido mais antigo do Sutherland, Martin tinha sido seu preferido.

            Durante um tempo tinha estado ciumento dele. Martín tinha sido moldado e feito para o que Win tinha querido. Tinha-lhe formado para ocupar seu lugar, para casar-se com sua filha, quando se viu claramente que James nunca se dedicaria de corpo e alma a suas causas.

Mas no final ele perdeu a si mesmo. Não era nada mais que um esqueleto sem alma. E Martin tinha sobrevivido.

            —Não —disse James depois de um momento—. Não sabe nada.

—        Vai dizer?

            —Crê que estou louco? Maldita seja, por que teria que dizer-lhe —A verdade a mataria.

            —Porque tem um perverso sentido da honra. Conheço-te. James. Podem-lhe chamar "Dr. Morte", mas no mais profundo de seu ser, ainda és humano. Provavelmente precisa se confessar e que lhe absolvam.

            —Não pratiquei o catolicismo durante trinta anos.

            —Isso não significa que você não vá fazer algo estúpido e abnegado.

            —A verdade a mataria.

            —Sim, é verdade, mas provavelmente encontraria alguma justificativa. Carregou a Mary Margaret, não? Já se deitou com Annie?

Esqueceu-se do frio e cínico que podia ser Martin. Era uma das coisas que mais desprezava nele. Uma das coisas que mais necessitava dele.

            —Não.

            —Por que não? Sabe perfeitamente que a melhor forma de amarrar alguém é possuí-la. Fazê-la dependente emocional e fisicamente. Não é o tipo que deixa que os sentimentos se interponham em seu caminho. Faz o que tem que fazer. Por que não se deitou com ela?

            James jogou uma olhada para onde se encontrava a jovem, junto à pia, olhando pela suja janela, suas costas reta e forte, o cabelo emaranhado por ter dormido. Não ia explicar a Martin que a desejava muito.

            —Possivelmente estava aguardando o momento — respondeu isso prazerosamente—. Imaginava que cedo ou tarde acabaria aparecendo. É seu estilo.

            —Má erva nunca morre. Mas não sou escrupuloso. Não me importa que me deixe as sobras, se tampouco te importa. Essas perversões típicas como Mary Margaret não são o seu modo, mas a verdade é que é o bastante... íntimo na cama. Se ela quisesse, teria-me de novo a seu lado em questão de segundos.

            Íntimo. A expressão era muito provocadora. James obrigou a si mesmo a sorrir.

            —Possivelmente devesse te ocupar você então do assunto. Está acostumada a ti e tudo seria muito mais fácil.

            Martin negou com a cabeça:

            —Não me importaria, foi ela que rompeu nossa relação, não eu. Mas não a assusto tanto como você. Sempre tiveste um efeito letal sobre a gente quando se decide a exercê-lo. Se ela estiver muito aflita para ficar questionando ordens, terá que ser você quem deite com ela. — sorriu em parte para si mesmo—: Qualquer um que nos escutasse, pensaria que estamos falando de uma tarefa desagradável. Acredite, oxalá pudesse justificar a substituição. Mas neste caso, lhes manter com vida aos dois é a prioridade principal, e há mais possibilidades de que aconteça se te ocupa você.

            —Acredito que posso arrumar isso sozinho — declarou James friamente.

            —A única coisa que tem que fazer é sabe levar — continuou seu companheiro, ignorando os sinais de alerta—. É incrivelmente tímida quando se trata de sexo. Sofre de complexos, transtornos. Tem que fazê-lo na escuridão com a camisola posta, e ai de ti se não for assim. Se não, bloqueia-se, e não pode fazer nada para que relaxe. Eu acredito que a culpa é de Win. Provavelmente contratou a alguma instituição wagneriana para que lhe falasse sobre as maldades do sexo.

            —Terminaram já de arrumar o mundo? — Annie tinha dado a volta e levantado a voz por cima do som da rádio.

            —Já estamos terminando. —A voz do Martin soou alegre—. Anda, nos faça o café da manhã.

            O olhar que lhe lançou continha irritação em estado puro, o que agradou ao James. Mas também lhe preocupou. Não gostava de pensar em Annie com Martin na escuridão, sob os lençóis. Desagradava-lhe tanto que lhe estava custando confiar no único homem do Departamento com que podia contar.

—Escuta, desaparecerei durante um momento para que possa ocupar-se do assunto. Quanto necessita? Um par de horas? Mais? Menos?

            James olhou sua mão. Não tinha se convertido em um punho; descansava relaxadamente sobre a coxa. Era incrível como o instinto sempre se metia no meio.

            —Depende — murmurou—. Por que tem tanta pressa? Quer olhar?

            Seu colega sorriu de orelha a orelha.

            —Não através destas janelas, tio. Ela é como uma bomba relógio a ponto de explodir, e só há uma maneira de desativá-la. Se você não o fizer, farei eu.

            —Adiante.

            —Não. Se por acaso não te tinha dado conta ainda, ela não me deseja. Mas sim a ti, e eu quero que sobreviva. Faz-te vulnerável. Se você for vulnerável, então todo o castelo de cartas virá abaixo. Logo que se ocupe disto, ganhará mais controle sobre o resto.

            —Crê que não domino a situação? —murmurou seu amigo com tom preguiçoso.

            —Sempre domina a situação. Mas esta é a maior confusão que nos colocamos. A única coisa que penso é que devemos cobrir as costas.

            —Esse é um modo de fazê-lo. Sempre poderia matá-la.

            —Sim —admitiu Martin com tranqüilidade—. E possivelmente terei que chegar a isso. Mas o certo é que não quer fazê-lo, não?

            —Essa é a melhor razão por que deveria fazê-lo.

Seu colega negou com a cabeça.

            —Ela sabe das coisas, James, sei que é assim. Coisas que não sabe que tem dentro. Se a faz calar agora, nunca as averiguaremos. E se isso ocorre, seremos homens mortos. — Já somos.

            —Fala por você. Eu tenho um montão de planos para o futuro. James olhou seu velho amigo. Tinha ao menos dez anos menos que ele, e era produto do mesmo passado de universidade elitista que Win também inventou para ele: Princeton, Faculdade de Direito de Yale, de boa família. Possivelmente era uma mentira igual à sua. Não importava. O que contava era o conhecimento, os laços que existiam entre eles.

            —A verdade é que seria uma alcoviteira estupenda — disse James secamente—. Perdeu uma grande oportunidade.

            —Não necessariamente — respondeu seu colega. Levantou-se, e James o olhou preparado instintivamente para defender-se de movimentos repentinos. Martin não os faria, mas há coisas que não se podem esquecer. James não confiaria nem na sua mãe, se é que esta seguisse viva—. Vou dar uma volta. Já sabe o que fará depois?

            —Tenho alguma idéia. Win esteve na Irlanda do Norte justo antes de morrer, parece um bom lugar para começar a procurar. Asseguro que foi ali por alguma razão. O sorriso do Martin se debilitou.

            —E o que parece a você? Quanto tempo passou desde que esteve ali?

            —Não me causa nenhum problema —respondeu James sem alterar o tom de voz—. Voltei um montão de vezes.

            —Para se ocupar de objetivos concretos. Isto é diferente sabe. E Annie irá contigo além disso.

            —Crê que não sou capaz de fazê-lo, Martin? —perguntou com o mais suave de seus tons.

            Seu amigo pareceu inquietar-se por um momento, o qual agradou a James.

            —É capaz de quase tudo o que se proponha. —Fez uma pausa—. Volto logo.

            Annie tinha desligado o rádio e os olhava com receio.

            —Terminastes de jogar conspiradores? —perguntou.

            Antes da morte do Win, não teria pronunciado nenhuma só palavra. Inclusive seu ex-marido pareceu surpreender-se de seu tom de voz, e lhe lançou um olhar compreensivo a seu amigo.

            —Já está, Annie —disse com calma—. Voltarei dentro de um par de horas. Tenho coisas para fazer.

            —Posso ir contigo? Tenho claustrofobia.

            —Não. —A voz do James adotou um ar frio e implacável. Esperava um protesto, mas ela não disse nada, limitando-se a olhá-lo com aborrecimento enquanto Martin saía da caravana.

            Seguiu-o até a porta, e James supunha que ela trataria de escapar detrás dele. esticou-se, disposto a saltar e detê-la, mas a jovem se limitou a fechar a porta quando Martin saiu e começar a passar os ferrolhos. Era torpe, mas tinha determinação, e ele a observou fascinado com os olhos entreabertos.

            Custou-lhe quase cinco minutos. Quando terminou, voltou-se para olhá-lo. Não havia forma de ignorar o brilho triunfante que desprendiam seus olhos:

            —Pensei que seria melhor aprender a fazê-lo sozinha. Eu não gosto de ter que depender de ninguém.

            —Não? —disse ele brandamente.

            —Passei vinte e sete anos assim. Já foi suficiente.

            —Não estou seguro de que agora seja o momento adequado para começar a criar uma vida própria — murmurou James.

            —Muito tarde.

            —Muito tarde —repetiu James, observando-a.

            —Do que estavam falando Martin e você? Por que se foi de repente? —Ainda estava fora de seu alcance, mas sabia que podia cobrir a distância rapidamente. Olhou-a prazerosamente e se perguntou como devia possuí-la. Rápido, para que não pudesse protestar? Para que não entendesse o que é que se passava?

Ou melhor, uma sedução lenta que a deixasse como uma gatinha mimosa sobre a cama?

Embora nesses momentos não pudesse começar a imaginar uma Annie Sutherland dócil.

            —Decidiu então o que vamos fazer? —seguiu perguntando ela.

            —É uma maneira de dizê-lo, suponho. Estávamos falando de quem se deitaria contigo.

            —Com certeza que sim, James — esquivou-se ela—. E quem perdeu?

            —Estou aqui, não?

            —Exato. — deu as costas, dirigindo-se à cozinha— Espero que Martin tenha ido comprar comida. Não há nada mais que feijões requentados, e a verdade é que não estou com humor, por muito melhor que haja no rádio. Quero...

            Não tinha ouvido vir detrás dela. Quando queria podia mover-se silenciosamente, com sigilo. Passou-lhe os braços por cima, pô-lhe as mãos sobre os seios e a apertou forte contra ele.

            Isso a fez calar imediatamente. Ficou muito quieta, e ele pôde sentir o ligeiro tremor que invadiu seu corpo. Não era tão forte como ela desejaria. Como queria fazer acreditar James.

            Envolveu seus seios com as mãos, lhe acariciando os mamilos. Endureceram-se ao mesmo tempo em que seu pênis ficava duro contra ela, e pensou que Martin tinha razão. Quanto antes o fizesse, antes deixaria de pensar nisso. Não podia permitir-se perder nem um segundo de sua atenção fantasiando sobre a suavidade da pele do Annie Sutherland, a calidez de seu fôlego, seu doce e almiscarado cheiro que estava deixando-o louco.

            Passou-lhe uma mão pelo estômago, sobre as folgadas calças e entre as pernas, abraçando-a contra seu corpo, imaginando o calor e a umidade, seu desejo. Ela gritou afogadamente a modo de protesto, mas, além disso, não disse nada mais. Ele não deixou de apertá-la contra ele, enquanto sua forte mão deslizava entre suas pernas.

Martin tinha razão, pensou ausentemente. Agora ela se estremecia, estava tão preparada para explorar que ele quase gozou ao pensar nisso. Pensou em lhe baixar as calças, apoiá-la contra a mesa e possuí-la nessa posição. Sem ter que lhe olhar à cara, sem ter que beijá-la. Sem ter que reconhecer que aquilo não se tratava tão somente de um ato sem mais, de algo que ambos necessitavam.

Introduziu a mão dentro da calça. Não levava roupa interior e estava úmida. Sabia que o estaria.

A jovem tentou liberar-se durante uns instantes, mas ele a ignorou. Era muitíssimo mais forte que ela, e não interessavam seus protestos, de negação, acanhamento ou o que fosse. Penetrou com seus dedos em seu interior, e a fez gozar com o polegar.

Seu gemido foi profundo e desesperado. Ela era como uma feroz massa de reações em seu poder e a manteve ali, prolongando, tocando-a, empurrando-a, sentindo as ondas que lhe sacudiam uma e outra vez.

            —Para — suplicou Annie ofegando, mas James não fez caso do protesto. Ela estava se rompendo em mil pedaços e ele não a soltava, não a deixava descansar. Não estava seguro do que é o que queria dela. Necessitava algo além da rendição total, além dos potentes clímax que lhe estava roubando, acabando com sua luta, lhe tirando a vida. Queria sua alma.

            Obteve-a. Deslizando seus dedos até o mais profundo de seu ser, escutando seu grito entrecortado, roubou-lhe tudo o que lhe pertencia.

            Annie soluçava. Soube quando sentiu que seu corpo atormentado se desabava entre seus braços. Ele a estava sujeitando já que as pernas femininas estavam ficaram desprovidas de força alguma, e tudo o que a jovem podia fazer era chorar em silêncio.

            James a soltou. Tirou a mão de suas calças, fez ela apoiar-se contra a mesa, e retrocedeu. Por um momento pensou em baixar o zíper, e depois se deteve.

            Ela tinha ocultado o rosto. Os soluços soavam mais baixos agora, mas não eram menos comovedores. E se deu conta de que seria muito mais humano por sua parte se inclinasse sobre ela, beijasse-a detrás da orelha e a matasse. Muito mais humano para ambos.

            Deu a volta e abandonou a área da cozinha. Deixou-a sozinha, destroçada, chorando. Ficou vendo a CNN atirado no sofá. E só quando subiu o volume do televisor se permitiu respirar.

            Não tinha nem idéia de quanto tempo passaria ela na cozinha chorando. Quanto tempo poderia suportar estar escutando-a. Tinha ouvido chorar muitas mulheres ao longo dos anos. Mulheres que choravam por seus filhos, destroçados pelo tiroteio dos franco-atiradores. Mulheres queixando de que não lhes queria. Mulheres agonizando, aterrorizadas.

            Nunca permitia que as lágrimas das mulheres lhe inquietassem.

            Mas as de Annie o faziam. E rogava a Deus que cessassem.

            Até que não se fez um pequeno intervalo na televisão não se deu conta do silêncio. Levantou o olhar e a viu de pé na cozinha, observando-o fixamente, com a cara pálida, assustada, e manchada pelas lágrimas. Não a tinha beijado, pensou com desespero e alívio de uma vez. Não tinha cometido o engano de beijá-la.

            E então se deu conta que ela tinha um revólver entre as mãos.

 

            —Vai disparar em mim, Annie? Não te parece um pouco exagerado?

            A jovem sabia disparar. Seu pai tinha desprezado as armas, mas tinha se assegurado de que sua filha soubesse como utilizar uma pistola, e a do James não era muito diferente da 9 mm com a que tinha praticado. Podia mover-se depressa, ela o tinha comprovado, mas não mais rápido que uma bala.

            —Não. —Colocou a arma sobre a mesa com cuidado, o bastante perto para poder agarrá-la de novo rapidamente—. Com a condição de que não volte a me tocar.

            Seu olhar estava fixo, era indecifrável, mas ele não se incomodou em mover-se, em pôr a pistola fora de seu alcance.

            —Então, é melhor que atire — disse voltando a olhar a televisão.

            Ela queria fazê-lo. Desejava agarrar a arma e lhe apagar essa fria e enigmática expressão da cara. Só uma vez queria comprovar se era capaz de sentir algo.

            Durante os longos dias depois da morte de seu pai, ele tinha estado ali, uma sólida e segura presença, ocupando-se dos detalhes dos que a jovem não tinha podido encarregar-se pelo desespero que a embargava, uma força invisível a que recorrer. Mas nem uma vez durante todo esse tempo, nem sequer quando tinham depositado o caixão de castanho e bronze de Win no cemitério do Arlington, tinha deixado entrever nenhuma emoção.

            Annie estremeceu recordando esse frio dia da primavera. A chuva não deixava de cair, um final adequado para a semana, James tinha estado ali junto a ela, com um terno escuro protegendo-a com um guarda-chuva. Ela tinha visto como faziam descer o caixão com uma dor surda que a perseguia depois em sonhos.

            —Quero que me incinerem — falou a James com voz fria.

Isso captou sua atenção. Olhou-a fixamente, depois se inclino e baixou o volume da televisão:

            —Não vais morrer.

            —Todos morreremos cedo ou tarde. Pelo modo em que a situação se desenvolveu ultimamente, suspeito que vai ser mais cedo que tarde.

            —Não vou permitir que ninguém lhe mate.

            —Martin disse que você foi bom, mas não perfeito.

            Tinha os joelhos ainda moles pelo que lhe tinha feito na cozinha. Sentia a umidade entre suas pernas, estava zangada e vulnerável. Separou-se da mesa, da pistola, perguntando-se se o lamentaria.

            —O que te fez pensar nisso? —ele voltou a recostar-se, olhando-a.

            —Eu não gostei nada do funeral de Win.

            —Supunha-se que não devia ser divertido.

            —Insistiu em que queria um serviço completo. Foi horrível. Quando morrer, quero que me incinerem e que ponham minhas cinzas em uma caixa. Pode me colocar sobre sua chaminé.

            Tinha conseguido chegar a alguma parte de sua alma. Algo passou por seu rosto, algo estranhamente parecido com horror, seguido rapidamente pelo aborrecimento.

            —Muito bem — respondeu ele—. Embora preferisse te conservar em uma tupperware.

                        —Não quero plástico —seguiu, levando-o até o limite. Não lhe parecia que fosse um homem capaz de sentir horror. Mas não se equivocou com sua reação—. Mas servirá uma garrafa de tequila vazia. Suponho que não terá problema em encontrar alguma.

            —Sabe, Annie? Pode ser uma filha de puta quando quer — assinalou com calma.

A idéia a surpreendeu.

            —Não —disse ela mais para si mesmo que para ele—. Não sabia. Queria afastar-se de James, mas não havia outro lugar aonde ir dentro desse espaço fechado, outro lugar que escapar. O único lugar que não tinha nenhuma intenção de ir era a cama, assim se sentou na desvencilhada cadeira de vinil:

            —Não acredito que meu pai me reconhecesse no dia de hoje.

            —Dar-lhe-ia um susto de morte.

            —Por quê? —Parecia surpreendida.

            —Porque fez tudo o que pôde para te converter no que ele desejava. Inteligente, educada, vestida de maneira conservadora. Uma filha modelo e a mulher perfeita para quem ele escolhesse para ti.

            —Não tão perfeita, temo, e, além disso, ele não escolheu ao Martin — respondeu ela—. E o que tem de mal em sua descrição?

            —Não é você. É ele quem te criou. E você deixou. Permitiu-lhe te arrancar a vida e a individualidade, até que ficou sem um pensamento ou uma emoção próprios. A jovem republicana modelo com as suficientes idéias liberais para que fosse politicamente correta.

            —Ao menos eu tenho emoções.

            —Não são as suas.

            —Agora sim são. Incluindo o intenso ódio que sinto por ti, James —acrescentou com tom glacial. Ele sorriu. Devagar, incredulamente, e de forma tão exasperada que a jovem desejou ter ainda a pistola a seu alcance.

            —Annie — disse ele brandamente—, se te empenhar em acreditar nisso, não serei eu quem te diga o contrário.

            A jovem o olhou com raiva:

            —É tão egocêntrico que ainda pensa que estou apaixonada por ti? Superei-o faz anos, James. A única coisa que quero de você é o nome do assassino de meu pai, e a razão.

            —Isso é tudo? Não quer se vingar?

            —Tenho suposto que você se encarregaria dessa parte — respondeu Annie com rigidez.

            —Ah sim? Averiguamos quem matou seu pai, e depois me deixa o trabalho sujo. Você enquanto isso pode voltar para sua cômoda vida e seus uniformes com as mãos limpas e a consciência tranqüila, não?

            —A verdade é que tenho vontade de te matar — confessou ela.

            —Parece que sou o único que consegue tirar de ti seus impulsos mais violentos, não? —murmurou—. Possivelmente seria melhor que déssemos fim a nossa profana aliança antes que torne como eu.

            E como seria isso? Ou nem sequer sabe? —provocou-lhe.

            —Já sei o que faremos —Sua voz soou vazia—. Quando voltar Martín, direi que vai com ele. Pode ser que não seja tão bom como eu, mas tem conexões. Poderia te tirar Carew de cima. Se alguém pode te salvar, esse é o Martin.

            —Crê de verdade?

            Esperava uma mentira, uma resposta evasiva.

            —Não sei — respondeu James.

            —Então não irei com ele.

            Agora saíam à luz suas emoções. Aborrecimento. Levantou-se do sofá, chegou até onde estava e ela teve que reunir toda a coragem que restava para não afastar-se quando a tocou.

            —Fará o que eu digo.

            —Me obrigue.

            Ele se deteve, a metade de um passo, voltou-se para olhá-la, e ela se arrependeu do que havia dito imediatamente.

            —Não acabo de te dar uma boa lição de como posso conseguir que faça tudo o que eu quero que faça? Mais avantajado física, emocional e sexualmente. Fará o que te digo.

            —Rebelarei-me.

            Seu suspiro de exasperação foi um pequeno sinal de alarme. Inclinou-se sobre ela, deixando-a apertada na cadeira com suas mãos sobre os braços de vinil e a cara muito perto da sua.

            —Não te sairá com a tua, Annie — sussurrou—. Ninguém pode.

            A jovem olhou nos olhos. Seu rosto estava tão perto que podia distinguir bolinhas de prata em seus olhos escuros, a desolação que tentava ocultar. Não queria pensar no que acabava de lhe fazer, ou por que.

            —Não quero lutar, James — lhe assegurou—. E você tampouco quer. Ajude-me a descobrir o que aconteceu com meu pai e pronto.

            —Não é tão simples.

            —Averigua o que aconteceu a esse quadro do santo, averigua o que é que fez com ele, e nos deteremos ali, se você quiser.

            —Se eu quero —repetiu ele. O trailer estava em silêncio total, só o fraco e apagado som da televisão conseguia penetrar através da espessa tensão que os envolvia—. Está bem. Descobriremos o que fez com o quadro, e depois voltará com Martin.

Não queria voltar com ele, pensou Annie repentinamente horrorizada. Nunca iria querer.

Mas se negasse a considerar o que realmente desejava.

            —Encontra o quadro — lhe insistiu—, e farei o que quiser.

            James a olhou fixamente por um minuto; depois assentiu e se foi à cozinha para se ocupar da cafeteira.

            Annie jogou uma olhada ao televisor. Seguia mudo, mas as imagens eram brilhantes e vividas. Parecia, um nightclub tinha sido bombardeado algum lugar da Europa. Havia corpos estendidos pelo chão, e também mulheres vestidas de negro soluçando com fúria muda.

            Estremeceu afastando o olhar. A morte estava em todas partes. Durante os últimos seis meses, desde que tinha descoberto o corpo de seu pai sob as escadas, tinha estado convivendo com ela. Sempre tinha temido à morte. Tinha evitado os funerais e os filmes trágicos, e inclusive as obrigatórias notas de pêsames. Agora tinha sido lançada ao centro de todo isso, e já não ficava lugar para o medo.

            —Não me mate, James — lhe pediu em voz baixa. Ele não se voltou, e por um momento pensou que não tinha ouvido. Mas sim que tinha feito.

            —Seria melhor se me deixasse o assunto —respondeu ao fim—. Me ocuparei de tudo. Sou bom em tampar as confusões que os outros deixam descoberto.

            —Não quero que o faça. Não quero que carregue outro morto em sua consciência, por muito que o merecesse. Só quero saber o que aconteceu com meu pai. E depois podemos deixar assim.

James deu a volta e a jovem o olhou fixamente, como hipnotizada. Embora fosse meio-dia, o trailer estava escuro, a tênue luz das lâmpadas logo podia atravessar a penumbra:

            —Annie, faz anos que minha alma se condenou.

            Ele acreditava assim. E então foi quando ela se deu conta de que seguia meio apaixonada por James, igual tinha estado quando era mais jovem e lhe parecia um ser forte e misterioso, entre outras coisas.

            Acreditava que tinha perdido sua alma, e estava tentando convencê-la também. Mas Annie não acreditava. Se não tivesse alma, não estaria sofrendo. Seu sofrimento era tal, que chegava até ela fazendo-a estremecer.

Queria levantar-se e abraçá-lo. Aproximar sua cabeça do seu peito e reconfortá-lo. Murmurar palavras tranqüilizadoras para consolá-lo, curá-lo. Desejava levá-lo a essa cama desfeita e lhe abrir seus braços, seu corpo, e lhe demonstrar...

            —Deixa de me olhar assim!

            Tirou-a de seu sonho erótico como se lhe tivessem jogado em cima um balde de água geada.

            —Assim como?

            —Como se fosse um pardal ferido e você fosse São Francisco de Assis.

            Conseguiu lhe fazer rir com o comentário.

            —A verdade é que estava pensando em coisas mais profanas.

            Felizmente, ele não a seguiu por esses roteiros.

            —Annie, não pode me salvar. Só pode salvar a você mesma.

            —Quem está dizendo que queiro te salvar?

            —Seu olhar. Esse olhar que diz "tudo o que precisa é uma boa mulher que lhe queira". É muito maior e inteligente para ter mais julgamento.

            —Não me dava conta de que estava me oferecendo voluntária — lhe espetou ela.

            Ele negou com a cabeça:

            —Tem bom coração, Annie. Win não pôde eliminar isso. Crê que pode melhorar as coisas, mas não pode. Algumas coisas são impossíveis de arrumar, e a única coisa que se pode fazer é limpar o sangue e seguir adiante.

            —A vida não é assim —protestou a jovem.

            —Claro que é! —Ela queria emoções, e agora as recebeu, em uma explosão de fúria—. A vida é algo sujo, sangrento e sem esperança para a maioria das pessoas, e não há nada que possa fazer para mudá-lo. Pode voltar para seu mundo seguro e fazer como se nada tivesse ocorrido. Chora por seu pai e segue adiante. Se case de novo, com o Martin ou com quem quiser, e tenha filhos se gostar. Segue fazendo o amor na escuridão, e não se preocupe, que ninguém tratará de te assustar. Mas se mantém afastada de toda esta confusão.

            —Que confusão?

            —Minha vida.

            Annie ficou pensando por um momento e depois se deu conta de algo brutal, horripilante.

            —O que quer dizer com isso de fazer amor na escuridão? —perguntou com calma.

            —Sei tudo sobre você. Não te dá conta de que não tem secretos? Seu pai podia averiguar tudo o que queria, e logo me passava isso. Sei que teve a regra pela primeira vez aos quatorze anos, e que estava preocupada porque parecia tarde. Sei que te deitaste com cinco homens em toda sua vida. Que você não gosta do sexo oral ou fazê-lo a plena luz, ou em outra postura que não seja a de papai-e-mamãe com os olhos fechados. Temia ser frígida, meias trinta e oito, e esteve louca por mim dos dezenove anos até os vinte e um. Quer que te conte mais?

            —São as notas de meu terapeuta. —Estava completamente aturdida.

            —Ninguém podia ocultar nada de Win.

            —Mas por que lhe contou isso? —Não pôde evitar um tom cansado de derrota. Sentia-se traída por seu pai, pelo homem que tinha em frente e que parecia tão zangado.

            —Queria me atormentar.

            Ela levantou a cabeça de repente. Olhou-o emocionada sem poder acreditar no que ouvia, mas antes que pudesse dizer algo ouviram uns golpes na porta.

            Pegou-se um susto de morte. A James não surpreendeu absolutamente, e a jovem se convenceu de que ele devia ter sabido que havia alguém ali fora durante todo esse tempo. E que tinha realizado essa declaração tão provocadora sabendo que não lhe poderia pedir nenhuma explicação.

            —Sou eu —exclamou Martin do outro lado da porta. James já estava abrindo os ferrolhos.

—Sei — comentou, de costas para Annie.

            Martin entrou com bolsas cheias de provisões e um sorriso falso na cara.

            —Comida — anunciou alegremente deixando as bolsas sobre a mesa da cozinha e tirando batatas fritas, cerveja, congelados e Coca Cola light. Seus olhos se entrecerraram ao ver a expressão de Annie—: O que estiveram fazendo vocês dois enquanto estava fora?

            —Vai para o inferno — respondeu James—. Fique e leve-a contigo quando for. Um momento depois tinha saído do trailer, fechando com uma portada a pesada porta metálica detrás dele.

            Ficaram em silêncio absoluto. Então Martin abriu uma lata de refresco e a estendeu a Annie.

            —Conforme vejo não estão se dando muito bem.

            —Poderia-se dizer que sim — respondeu ela.

            Ele encolheu os ombros.

            —Suponho que deveria dizer que sinto, mas não seria certo. Fui um estúpido ao te mandar procurá-lo, Annie. Cometi um grande engano, mas não me dava conta...

            —Não se deu conta do que? — perguntou.

            Ele negou com a cabeça e depois a olhou por debaixo de suas desgrenhados mechas castanhas.

            —O que sabe a respeito do que faziam Win e ele? O que te contou?

            Annie encolheu os ombros:

            —Parece que jogavam a ser agentes especiais do FBI ou James Bond ou algo assim. Ao que parece eram parte de um esquadrão de espiões. James disse que você também fazia parte disso.

            Martin se apoiou na mesa com o olhar preocupado e escuro.

            —Suponho que tenho que admitir que é verdade. Win era o chefe de uma organização secreta que se ocupava de assuntos de segurança.

            —Espiavam para o Governo — disse Annie simplesmente.

            —Poder-se dizer assim — concedeu Martin—. Recolhíamos dados de forma secreta. Não fazia mal a ninguém, exceto a nossos inimigos, por assim chamá-los, e proporcionava um equilíbrio necessário de poder. Ali entrava eu. Não recolhendo a informação, a não ser ordenando-a, repartindo-a, fazendo que as coisas se mantiveram em segredo.

            —Parece um pouco infantil —assinalou a jovem.

            —Pois não era absolutamente. Havia um Departamento anexo à pequena organização de Win que se encarregava de assuntos sujos. Odeio admitir que ele o conhecesse, mas acredito que já é hora de saber que seu pai não era o cavalheiro doce e avoado que você pensava.

            —Já sei, Martin —repôs ela sem levantar o tom de voz.

            —Era um manipulador brilhante e cruel. Utilizava a todos e a tudo para conseguir o que ele acreditava correto.

            Não queria escutá-lo, pensou ela friamente. Desejava sair correndo, tampar com as mãos os ouvidos, seguir James la fora, sob o sol abrasador.

            Mas não podia evitar que seguisse falando de maneira nenhuma, não havia forma de escapar. Tinha fugido da realidade durante muito tempo, durante toda sua vida. Martin tinha razão: tinha chegado o momento de enfrentar à verdade.

            —Conte-me — lhe pediu com voz rouca.

            —Win montou a Divisão secreta dentro de seu departamento. Nenhum de nós a             conhecíamos; nem Carew, nem eu, nem nenhum dos outros. Não tínhamos que saber. Só Win e seu "filho" favorito e um par de pessoas mais. James era sua criação e fazia o que lhe dizia.

            —E o que lhe pediu que fizesse?

            —Matar.

            Tinha vontades de vomitar. Sabia que a morte lhes tinha seguido lá onde foram, o podre fedor da lilás sangrenta penetrava em seus sonhos. Mas a crua realidade, procedente de um homem que confiava, era repugnante.

            —A quem?

            —Tudo começou de maneira bastante nobre. Todos os que punham em perigo a idéia de Win a respeito de uma ordem mundial adequada. Ditadores, líderes terroristas, políticos, pessoas que pudessem interferir com os interesses dos Estados Unidos no exterior. Win tomava as decisões, dava as ordens e James ou um dos outros as levava a cabo.

            —Que outros?

            —Mary Margaret Hanover, Clancy, não sei quantos mais —respondeu seu ex.

            —E você não sabia de nada? Trabalhou com os dois durante os últimos dez anos! —exclamou ela com incredulidade.

            —Não sou um estúpido, Annie. Suspeitava que algo não ia bem. Muitas coincidências. Muitos desaparecimentos oportunos. Que fique claro: eu estava de acordo com o Win que a maioria dessas pessoas era um verdadeiro perigo para a paz mundial. Maldita seja, inclusive ajudei a escolhê-los. Mas não estava de acordo na forma de tratar o assunto, em como fazia que James se encarregasse disso.

            —Mas por que ele fazia? Por que aceitava? —perguntou Annie, desconcertada.

            —Por patriotismo. James é muito antiquado; não o admitirá, mas seu país é o primeiro para ele e fazia tudo o que Win lhe dizia. A maioria de nós o fazia inclusive você.

Annie estremeceu.

            —O que crê que aconteceu?

            —As coisas começaram sair de controle. Alguns dos objetivos resultaram ser de duvidoso valor político. O dinheiro começou a meter-se no meio. As coisas se corromperam — disse cuidadosamente.

            —Que coisas?

                        —Por Deus, Annie, não quero ter que contar— exclamou isso com desespero—. Está bem, seu pai se corrompeu. Começou a vender a seu pequeno esquadrão de assassinos escolhidos, ao melhor preço. Carew ou alguém por cima dele descobriu o que estava fazendo exatamente. Encarregaram-se de eliminar a seu pai discretamente, sem fazer escândalo. E depois estiveram atrás do James. Não partiu para o Caribe para aquecer suas penas. Tinha fugido para salvar sua vida.

            —E você me mandou para buscá-lo.

            —Já lhe disse isso, não me dava conta de qual era a situação. Ainda não sei nem a metade. Se ainda quer saber o que ocorreu, pergunta ao James. Se não souber, encarregará-se de solicitar a informação. Não é escrupuloso sobre a forma de fazê-lo. Mas tem razão, temos que te tirar daqui antes que te aconteça algo. Annie deixa ele e vêem comigo.

            —Não.

            Martin a olhou com evidente incredulidade.

            —O que quer dizer com isso? Não escutaste o que te contei? James assassina para ganhar a vida. Não te dá conta de quantas pessoas matou desde que está com ele?

            —Não quero saber.

            —Três no México, incluindo a Mary Margaret Hanover. Lembra-se dela, não? Era uma das protegidas de seu pai.

            —Lembro-me — admitiu ela friamente.

            —Mais quatro na Califórnia. Incluindo seu velho amigo Clancy.

            —Ele não o matou! —afirmou Annie.

            —E quem se não ele? Tem que enfrentar a realidade. James é como um animal, uma máquina de matar. Fará o trabalho sem preocupar-se quanto custe. Não pode convertê-lo em um mascote, Annie.

            —Ele confia em ti, Martin.

            Este negou com a cabeça.

            —James não confia em ninguém, incluindo a mim. Que conste que acredito que é um homem brilhante e entregue. Inteirará-se do que ocorreu com seu pai e se ocupará de tudo, antes que alguém ache seu ponto fraco. Mas no momento precisa se afastar dele, e você sabe.

            —Não — repetiu ela.

            —Crê que está a salvo dele? Matará-te se tiver que fazê-lo. Chamam-no o "Dr. Morte". É um artista da execução, Annie. E não duvidaria em te assassinar se o necessitasse.

            —Ele não me mataria —replicou ela com tranqüila certeza.

            —Diz por que te deita com ele? Não seja ingênua. Foi-se à cama com a Mary Margaret e isso não lhe fez duvidar em lhe saltar os miolos.

            —Não estou deitando com o James.

            —Então, pelo amor de Deus, vêem comigo. Inclusive disse que te levasse comigo. É bastante sensato para saber que enquanto siga a seu lado, estará em perigo.

            —E se me afasto dele já não o estarei?

            Martin franziu o cenho.

            —Isso não posso prometer.

            —E você pode me proteger?

            —Farei todo o possível para fazê-lo. Sempre pensei que nos merecíamos uma segunda oportunidade, e você sabe, Annie. Agora é o momento.

            —Mas James poderia me proteger melhor, não?

            —Ele é capaz de matar melhor.

            —Não vou contigo.

            —Annie...

            Ela levantou a mão para lhe deter, precavendo-se de que já não tremia como tinha feito até esse momento. Nem sequer parecia sua mão. Levava as unhas curtas e sem pintar; tampouco levava os formosos anéis que seu pai lhe tinha dado. Eram as mãos de uma estranha, fortes e úteis.

            —Tenho que seguir com isto, Martin —disse lentamente—. Sei que é certo o que me contaste sobre o James. Tem sentido, embora seja horrível. Mas ainda confio nele. Não me importa quão irracional soe: sei que não me faria mal, igual tampouco me faria isso meu pai. Eu queria a meu pai. Tenho que averiguar a verdade para honrar sua memória, não o que o governo está tentando me fazer acreditar.

            —Está em perigo...

            —Estou em perigo em qualquer lugar que esteja — afirmo, terminando—. Ao menos com James tenho a oportunidade de lutar.

            —Existe mais de uma forma de destruir uma pessoa, Annie. Poderia te romper o coração.

            —Já te disse isso. Não me deito com ele. —Suspirou—. Não é isso o que ocorre entre nós. Tenho que permanecer com ele goste ou não.

            Ela esperava um pouco mais de resistência. Em troca, Martin se limitou a negar com a cabeça com um sorriso irônico.

            —Conheço-te bastante bem depois de todos estes anos, Annie —comentou—. Sabia que não viria. Acredito que pode confiar nele, até certo ponto. Te manterá a salvo se puder. E se não tiver outra solução, acabará contigo rapidamente e sem dor.

            Fez um esforço de toda sua coragem para não tocar a garganta. Estava comportando-se como uma imbecil total. Podia ir com o Martin e salvar a sua vida. Ou podia abandonar-se às mãos da morte, à mãos de James.

            —Estarei bem —disse com firmeza.

Martin se inclinou e a beijou em plena boca. Beijou-a com amor, desespero, como se estivesse despedindo-se, mas ela não foi capaz de corresponder.

            —Se necessitar, irei te buscar — assegurou ele com voz rasgada. Um momento depois já estava lá fora, batendo a pesada porta de metal.

 

            O sol ardia e sentia que lhe ardia a cabeça. Dentro do trailer fortificado estava escuro e estava fresco, mas ali fora era como estar no inferno.

            James caminhava. O fazia rapidamente, para evitar girar-se e voltar. Tinha que livrar-se dela. Martin tinha razão: ela o fazia vulnerável, e agora, no momento mais perigoso de sua vida, não podia permitir isso. Não deveria ter tocado ela. Não deveria ter escutado as estúpidas sugestões de seu amigo, mas era justamente o que queria ouvir. Ainda podia sentir a tensão de seu corpo em seus braços, o calor e sua ferocidade enquanto lutava contra ele, assim como sua própria resposta. Podia escutar o som de seus soluços. Provavelmente os seguiria ouvindo durante o curto tempo de vida que restava. Perseguiriam-no em sonhos.

            A verdade é que sua própria segurança não lhe importava absolutamente. Já tinha vivido mais do que o esperado, e cedo ou tarde baixaria a guarda o suficiente para que alguém conseguisse acabar com ele. De algum jeito, seria um alívio.

            Mas não queria que Annie se visse apanhada nesse assunto. E não queria que esses bastardos se saíssem com a sua. Esses gordos burocratas que mandavam a outros assassinar e depois se lavavam as mãos quando se convertia em um problema político.

            Tinha que averiguar todo o referente à Win. Necessitava respostas, necessitava-as desesperadamente. O que tinha ocorrido que o homem no qual confiava e a que adorava se convertesse em um monstro manipulador que jogava xadrez com a vida da gente? E quem tinha jogado com ele? Não o tinha feito sozinho. Ele sozinho não tinha sido o causador de todo esse dano. Tinha trabalhado com outros. Outros que seguiam com a tradição. E não ia morrer até que averiguasse quem era e o matasse. Carew era a opção mais lógica. Desejava que fosse ele, não porque se tratasse de um covarde, um político sujo dentro e fora das atividades secretas. Queria que fosse ele quem dirigisse os fios, simplesmente porque Carew tinha dado a ordem de terminar com Win.

            Mas só porque quisesse que fosse Carew não significava que estivesse cego ante outras possibilidades. Tinha dado ao Martin tempo suficiente para tirar Annie do trailer, e agora poderia começar com suas investigações. Iria aonde tivesse que ir, faria o que tivesse que fazer. E proporcionaria à filha do Sutherland as respostas que necessitava.

Amaldiçoou a Martin e também se amaldiçoou a ele mesmo.

Que Deus os amaldiçoa-se a todos.

 

            Quando retornou ao trailer, não se via nem rastro do carro do Martin. Fazia horas que tinha saído o suficiente para que inclusive o aroma do Annie Sutherland se fosse; agora poderia concentrar-se em sua tarefa.

            O sol estava-se ocultando, o frescor dos últimos dias do outono da noite do deserto o envolveu enquanto abria rápida e eficazmente a complicada série de ferrolhos do trailer, e depois abriu a porta.

            Dentro estava escuro e silencioso. Alguém tinha deixado acesa uma luz, mas logo que iluminava na penumbra. Fechou a porta e tirou a pistola em silêncio.

            Não estava sozinho. Seu instinto lhe tinha conservado a vida até o momento, e ainda funcionava. Havia alguém esperando-o, e nenhuma das possibilidades era muito boa.

            Possivelmente Annie levou o carro do Martin, e o tinha deixado ali. Ou melhor, os dois se foram, mas isso significaria que alguém tinha seguido Martin. Alguém que planejava silenciar as incômodas perguntas de James para sempre.

            Teria preferido esta última opção porque nesse momento teria gostado de uma boa luta. Inclusive teria desfrutado matando.

            Havia uma terceira possibilidade, a mais devastadora de todas. Martin poderia ter partido sem Annie.

            Não havia muitas coisas que assustassem a James McKinley. Annie Sutherland tinha essa habilidade. Seu colega estava certo: ficava vulnerável. Preferiria enfrentar uma dúzia dos melhores homens do Carew, inclusive voltar para a Irlanda, o último lugar que queria viajar, antes de entrar no dormitório e encontrar-se com aquela mulher.

            Tirou a arma enquanto penetrava na pequena sala anexa. Ela estava deitada na cama sem mover-se nem um pouco, e tudo o que podia distinguir era um matagal de cabelos loiros.

            Já tinha explorado o resto do lugar. Além de Annie, estava vazio. Era o único ser vivo que havia no trailer. Mas a verdade é que não sabia se realmente estava viva.

            Aproximou-se da cama em silêncio, procurando uma mancha de sangue sobre seu cabelo, esperando que lhe golpeasse o aroma da morte. Estava completamente quieta e se aproximou com a pistola, lhe afastando o lençol da cara.

            Ela abriu os olhos e o olhou pestanejando sem medo, com o frio canhão de metal da arma quase lhe acariciando a bochecha.

            —Vai atirar em mim, James? —perguntou com voz rouca e desafiante, repetindo as palavras que ele tinha pronunciado umas horas antes.

Guardou a pistola.

            —Deveria —murmurou ele—. Onde está Martin?

            —Suponho que terá voltado para Washington.

            —Sem você?

            —Não é evidente? Eu não queria ir com ele.

            —Não acredito. Martin não aceitaria um não como resposta. Pode ser cruelmente eficiente quando tem que sê-lo.

            —Igual a você.

            Havia algo em sua voz que lhe alertou. Sentou-se na beirada da cama, notando com amarga diversão que ela ficava fora de seu alcance. Perguntou-se do que tinha medo. Do sexo? Da morte?

            —O que te disse Martin? Que mentiras te contou? É muito crédula, sabia? Sempre o foi. Acreditava tudo o que seu pai queria, pensava que a gente era quem dizia ser. Como te convenceu Martin para que ficasse?

            —Ele não me convenceu. Tão somente se deu conta de que não partiria. Não comete o engano de me desvalorizar.

            —E eu sim?

            —Você não é consciente de quão forte posso chegar a ser. Pode tentar me assustar tudo o que queira James. Vou chegar ao final do assunto. Fui a ti a por respostas e você me disse que as encontraria.

            —Foi em busca de vingança.

            —Possivelmente. A princípio. Mas neste momento só preciso é saber. Por favor, James. —Sua voz se suavizou ao lhe suplicar. Ele queria vê-la implorando.

            —Embora saber possa acabar contigo?

            A jovem nem sequer pestanejou:

            —Sim.

            James iniciou um protesto final.

            —Não sabe no que está se metendo, Annie. Todas suas ilusões voarão feitas em pedaços.

            —Não tenho ilusões a respeito de ti.

            —Ilusões a respeito de seu pai — continuou ele impacientemente—. A respeito de sua pequena vida dentro de uma bolha. Não tem nem a mais vaga idéia do que se trata tudo isto. Não sabe quem e o que sou.

            —Vai me dizer isso?

            —É obvio que não.

            —Não importa. Martin já o fez por ti.

            Ele ficou olhando fixamente.

            —O que te contou?

            —O que você faz. O que meu pai mandava você fazer. Me disse que lhe chamam o "Dr. Morte", por que?

            —Porque sou rápido, eficiente e relativamente indolor. E faço visitas a domicílio. —Sua voz adotou um tom gelado Que mais te contou?

            —Que meu pai e você tinham uma organização encoberta, na qual ele escolhia às pessoas que você tinha que... matar. Os outros membros não tinham nem idéia do que acontecia, e quando o averiguaram, assassinaram meu pai.

            —É uma explicação tão boa como qualquer outra — repôs em voz baixa—. O que não entendo é por que ficaste aqui comigo. Já tem a resposta: sabe por que acabaram com a vida de seu pai. Por que não se foi com seu ex-marido?

            —Você também deve ter saber tudo isto. Martin me disse que também te perseguem. Assim, por que aceitou vir comigo? Por que não me obrigou a partir e ficou onde estava? Ao menos ali estava a salvo.

            —Não paravam de mandar gente para acabar comigo, cada vez mais.

            —Matou a Mary Margaret Hanover?

            —Martin disse isso? —reclinou-se contra os pés da cama, olhando-a com ar preguiçoso—. Me pergunto como sabe.

            —E não te custou fazê-lo?

            —A isso é que me dedico—respondeu ele—. Para o que me treinaram. Já nem sequer penso. Já te disse que tinha perdido minha alma, e você não acreditou. É a pura e dura verdade.

            —E meu pai?

            Ela estava a ponto de chorar; seus olhos brilhavam na escuridão apesar do tom firme de sua voz. Perguntou-se se podia poupá-la, mas já era muito tarde.

            —Para começar, não tinha alma —afirmou com dureza.

            A jovem seguiu sem pestanejar.

            —Quem o matou?

            —Por que não o perguntou ao Martin? Parece que ele sabe tudo.

            —Disse-me que você saberia, que me diria isso.

            —Pois melhor será que se esqueça disso.

            —Não posso.

            James se levantou e se afastou.

            —Espero que sobreviva.

            —Eu também —murmurou a jovem.

 

            Não voltou a aproximar dela. Annie ficou deitada na cama, sem poder dormir, inquieta durante a interminável noite.

            Ele estava sentado na sala, vendo a CNN e bebendo. Não parecia que precisasse dormir, um fato que não a tranqüilizava muito. Parecia menos humano que nunca: uma criatura escura com a alma perdida.

Despertava a cada poucos minutos, e seus sonhos eram muito vivos e inquietantes. Pensava que a estava vigiando, mas quando abria os olhos ele não estava em nenhum lugar visível, e dizia a si mesma que era um pesadelo. Ou um desejo.

            A próxima vez que despertou já era de dia, e suas mãos estavam sobre ela. Por um momento pensou que ia matar-la, mas ele se limitou a sacudi-la.

            —É hora de irmos — anunciou bruscamente—. Tem cinco minutos.

            —Aonde vamos?

            —Procurar as respostas. Longe daqui. O truque para que não nos achem, é não ficar muito tempo no mesmo lugar. Sobre tudo quando ao menos uma pessoa sabe onde está.

            —Disse que Martin era teu amigo. Confiava nele! —protestou, aturdida ainda por ter dormido de forma intermitente.

            —Não tenho amigos e não confio em ninguém. Se levante e se arrume, ou te deixo aqui.

            —Você gostaria de ter essa desculpa — murmurou ela enquanto ele saía da habitação.

            James não deveria ter podido ouvi-la, mas se deteve, voltou-se para olhá-la com olhos frios e escuros.        

            —De fato. —Sua voz era gélida—. Assim não me tente.

            Ela não representava nenhum tipo de tentação para James McKinley, e ambos sabiam, pensou a jovem com cansaço. Demorou menos de cinco minutos em tomar uma ducha fria, e colocou um jeans e uma camiseta. Ele já a estava esperando na porta quando saiu com o cabelo úmido, caindo pelas costas.

            Não mostrava nenhuma emoção, simplesmente se voltou para a porta. Ela podia ver a silhueta da pistola sob a jaqueta vaqueira que levava.

            —Parece um membro da organização criminal de Los Angeles do Inferno — comentou ela em tom baixo.

            —Sou muito mais perigoso.

            Annie não discutiu.

            Já fazia calor la fora, apesar de que era cedo. Havia um cão magricela por ali, que se escapuliu por detrás do trailer, e em uma janela se moveram as persianas a seu passo.

            —Prefere na frete ou atrás?

            —Como?

            —É tão pequena que caberia diante de mim e ainda ficaria lugar para conduzir. Se quiser, podemos viajar assim.

            —Que vantagem tem? Não te atrapalharia?

            —Sim — disse—. Mas se for atrás, suas costas seria um alvo perfeito.

            Estava tentando assustá-la, e o estava conseguindo.

            —Se dispararem em ti, a moto se desgovernara e ambos morreremos de toda forma. Irei atrás.

            —Como quiser. Hoje colocou sutiã?

            —Sim — respondeu com acidez.

            —Muito bem.

            Subiu detrás dele, e lhe pôs as mãos na cintura, decidida a não aproximar-se mais a não ser que o necessitasse.

            Mas teve que fazê-lo. A agarrou pelo braço e a apertou contra ele, ao mesmo tempo em que punha em marcha a Vincent. A única coisa em que Annie podia pensar era em suas mãos sobre ela, assim reclinou a cabeça sobre suas costas e lançou um silencioso gemido de tristeza.

 

           Não se deu conta de que tinham voltado para o México até que entraram em um pequeno e desmantelado aeroporto. Não tinha nem idéia de quando tinham saído dos Estados Unidos, e sabia perfeitamente que não tinham cruzado a fronteira de forma legal. Estava claro que a legalidade era a menor das preocupações de James, e fazia uns dias que Annie tampouco tinha muito interesse nisso. Manter-se com vida lhe parecia muito mais importante. Seus conhecimentos de espanhol eram nulos, já que só tinha aprendido latim e francês nos deliciosos colégios nos que Win a tinha matriculado. A rápida conversação que manteve James com os homens do campo de aviação lhe resultava incompreensível, e simplesmente fez o que lhe disseram: subiu em um avião pequeno e tentou esquecer as histórias que tinha escutado a respeito dos freqüentes acidentes que ocorriam neste tipo de aparelhos. Voaram para o céu que começava a obscurecer-se; James ia sentado na frente dela sem pronunciar uma só palavra, olhando a elegante Vincent que desaparecia debaixo deles.

            Fechou os olhos. O interior do avião estava escuro, as pequenas luzes de emergência não iluminavam muito, e não havia nada que ver. Tinha fome, estava cansada, e lhe doía todo o corpo pela tensão de ter estado segurando-se à moto, e a James. Queria voar a um mundo longínquo e seguro onde ninguém pudesse lhe fazer mal, e se deixou levar. Mas não havia nenhuma segurança nesse estado de torpor. Só as lembranças de outros tempos que não queria recordar.

            Win não tinha feito nenhum comentário quando chegou em casa tarde e os pegou juntos. Acomodou-se com eles e se pôs a beber brandy e a queixar-se das horríveis condições da viagem. James e Annie se sentaram separadamente em lados opostos do sofá, bebendo também e assentindo com educação. Aparentando que não lhes tinha surpreendido fazendo nada incorreto.

            Tampouco James parecesse estar sofrendo por um excesso de culpa. Ficou a seu lado, totalmente relaxado, e a jovem se perguntou se não teria imaginado sua momentânea debilidade para ela.

            Conhecia seu pai muito bem. Queria-o muitíssimo, mas reconhecia o olhar especulativo de seus olhos que se moviam de um a outro. Entretanto não disse nenhuma só palavra quando James partiu, apesar de que lhe ofereceram que passasse a noite ali para evitar as estradas ainda geladas e tampouco quando Annie esperou pacientemente que falasse sobre o tema que flutuava entre eles como uma serpente enroscada.

Não disse nada durante o café da manhã, nem durante o resto do fim de semana. Ao menos a ela.

            Mas quando James passou em casa para levá-la ao aeroporto, deu-se conta de que seu pai tinha estado muito ocupado.

            O tráfico para o aeroporto era realmente intenso, e a única coisa que James pôde fazer foi concentrar-se nos condutores suicidas. Na jovem aquilo criou um falso sentimento de segurança, e inclusive pensou que possivelmente se ofereceu a levá-la como um favor. Talvez quisesse estar com ela e não obedecia somente as ordens de Win. O gelo se derreteu, o dia era quente e ensolarado para a época do ano. James estacionou na zona de estadias curtas e desligou o motor.

            A jovem já estava tentando abrir a porta quando lhe agarrou a mão, e fez com que o olhasse.

            —Temos que falar —disse.

            —Quem disse? —perguntou ela intuindo a resposta com um profundo sentimento de pânico.

            —Win.

            —A verdade é que agora não posso James — assegurou tentando afastar-se dele—. vou perder o avião.

            —Ainda falta uma hora e meia para seu vôo, e sabe disso.

            —Eu gosto de embarcar logo.

            Ele ignorou seus protestos:

            —Deixa de lutar, Annie. Permita-me dizer o que tenho que dizer, e poderá partir. Inclusive te levarei as malas.

            Desejava golpeá-lo, detê-lo, mas não o fez. Tinham-na criado para ser educada, discreta, respeitosa. Não podia ter um ataque de raiva frente ao homem com mais controle emocional que tinha conhecido.

Reclinou-se contra o assento de couro do carro.

            —De acordo —aceitou—. O que meu pai te mandou dizer?

            Se não gostou do modo como ela o expôs, não disse. Como de costume dominava a situação, tranqüilo, razoável.

            —Foi um erro.

            —O que foi um erro? Não recordo de termos feito nada particularmente escandaloso ou tórrido. Beijou-me, e o que? Isso foi tudo. Conseguiu se dominar de forma bastante rápida, e minha reputação segue intacta. Que problema há?

            —Isso é o que quero dizer. Quero me assegurar de que estamos de acordo —seguiu ele.

            —Em que foi só um beijo? Não me lembro de nada mais, mas possivelmente me drogou e se aproveitou de mim, e o susto e o terror me levaram a me deprimir como uma mulher da época vitoriana...

            —Cale-se, Annie — pediu ele afetadamente.

            A jovem ainda estava um pouco assombrada ante o frio tom que ela havia usado. Nunca falava assim com alguém. Mas a verdade é que quase nunca se zangava com alguém. Entretanto, agora, mais que zangada estava furiosa.

            —Qual é seu problema, James?

            —Meu problema é você. Sei perfeitamente que está apaixonada por mim...

            —Sabe nada! —protestou ela com veemência.

            —Está assim desde o verão em que fez dezenove anos, quando fui visitá-los no Maine.

            —Isso é uma merda — ironizou Annie, que nunca dizia palavrões. O que James dizia era certo, mas não tinha deixado que ninguém se desse conta.

            —Não quero discutir contigo. A única coisa que quero deixar claro é que não vai acontecer, nem agora nem nunca.

            —O que não vai acontecer?

            —Não vou me deitar contigo.

            —Por quê? —perguntou, aturdida. Tinha conseguido lhe sobressaltar.

            —Por quê? —repetiu ele—. Porque não é uma boa idéia. Porque é mais jovem que eu. Porque trabalho com seu pai. Mas a razão fundamental é que não te desejo.

            Falava com uma franqueza devastadora, e só um cego teria pensado que mentia.

            ela estava se comportando como se estivesse cega.

            —O que quer dizer é que meu pai te recomendou que não me pusesse as mãos em cima.

            —Se for isso o que pensa, é que não conhece Win muito bem. E tampouco a mim.

            —Não faria caso a meu pai?

            Ele suspirou como se estivesse cansado e aborrecido.

            —Annie, não vou discutir contigo. Não há nada a discutir. Agrada-me, mas a verdade é que não estou interessado. Estou saindo com outra pessoa e se não fosse assim, tenho que te dizer que não gosto muito das universitárias.

            Seu pai lhe tinha ensinado a comportar-se como uma dama, a estar serena, e nunca mostrar aborrecimento ou paixão. Tinha-lhe ensinado também a ser forte, e lhe custou toda sua força de vontade sorrir com ar indiferente.

            —Explicaste muito bem — comentou com suavidade—. por que não me solta e deixa que esta universitária volte para a universidade?

            Ele não podia ter esquecido que ainda a segurava pela mão. Mas podia ser que não tivesse notado que a estava acariciando automaticamente com o dedo polegar. A ela não tinha escapado o detalhe.

            James a soltou e saiu do carro ignorando seus protestos de que podia levar sozinha a pequena mala. Acompanhou-a atravessando a multidão de gente que se encaminhava ao terminal, e durante todo o tempo Annie fervia de indignação.

            Tampouco a deixou na porta de segurança.

            —Tem medo de que não pegue o avião, James? —perguntou—. Prometo-te que não vou aparecer em sua porta como se fosse um cachorro perdido.

            —Já sei. Mas minha mamãe me ensinou que tem que assegurar-se de que as senhoritas cheguem sãs e salvas a seu destino — respondeu ele exagerando a propósito seu acento sulino.

            Ela se engoliu a resposta. Assim que ficaram esperando nas duras cadeiras de plástico, rodeados de meninos ruidosos e pais que brigavam avôs preocupados e homens de negócios impaciente. Esperaram, e Annie ignorou anos de doutrinação, negando-se a preencher o tempo com uma conversação corriqueira às que tanto se havia aficionado.

Por fim anunciaram seu vôo. Levantou-se, e James também, ficando a seu lado, com ar ausente e distante. Agora parecia muito maior, como se estivesse a milhares de quilômetros dali, e se perguntou se se sentiria aliviado de haver-se liberado dela por fim. Se seria verdade o que lhe havia dito. Olhou-o sorrindo alegremente.

            —Adeus, carinho —se despediu com voz sedosa. E deixando-se levar por um impulso incontrolável, jogou os braços ao pescoço e pôs sua boca sobre a dele.

            Esperava chateação, tolerância, possivelmente inclusive que se sentisse ligeiramente divertido, mas não foi a reação que obteve.

            Ele a rodeou com seus braços imobilizando-a, apertando-a estreitamente contra si. O contato de seus lábios pareceu desencadear um incêndio. Podia senti-lo em cada centímetro de sua pele, seu corpo esbelto, poderoso e forte sob o traje, o calor e a tentação de músculos e tendões, sua intensidade total. Parecia-lhe como se a estivesse absorvendo um redemoinho, e a única coisa que podia fazer era abraçá-lo enquanto ele a beijava, apoderando-se de sua boca com uma meticulosidade que nunca antes tinha experiente. Suas mãos deslizavam sobre seus quadris, a apertando contra ele, e pôde sentir sua ereção, a necessidade e a tensão que se desprendia de todo seu corpo.

            Era consciente vagamente do ruído que se desencadeou a seu redor. Os comentários dos turistas, uns aplausos isolados. Mas o ouvia na distância, e tudo o que lhe importava era James, sua boca, suas mãos, seu corpo.

            Então ele se afastou. Distanciou-se física e emocionalmente, retrocedendo alguns passos, quando o que ela desejava era agarrar-se a ele, lhe rogar que a levasse ao carro, a um beco escuro, a qualquer parte...

            Mas não ia fazer. Soube ao ver que as defesas bloqueavam sua expressão uma vez mais e voltava a ser o distante amigo da família que nunca ousaria tocá-la.

            E ela não ia ficar a suplicar. O que podia fazer era manter sua dignidade, seu velho senso de humor.

            —Deveria te despedir com mais freqüência, James — disse com rapidez.

            Seus olhos vazios não lhe responderam com calidez.

            —Tenho dito adeus muitas vezes em minha vida — respondeu. E dando meia volta, partiu.

            A lembrança desse beijo a acompanhou durante a viagem de volta a Boston e a fez sonhar acordada durante as semanas seguintes, pensando no natal com uma mescla de temor e prazer. Pois então teria um mês de férias e pensava as concentrar no James, que sempre passava os dias festivos com eles desde que sua própria família tinha morrido.          Uma vez em sua vida, não faria caso da desaprovação de seu pai, acabaria com sua estúpida e nobre reserva, e tudo seria maravilhoso.

            Mas James não passou com eles o natal pela primeira vez em quatorze anos. Win murmurou algo a respeito de que estava na Europa, mas antes que Annie pudesse acusá-lo interferir, conheceu o Martin Paulsen. Martin, que parecia feito para ela. Martin, que lhe dava tudo o que queria na cama, que nunca lhe assustava, nunca lhe pedia nada e a mantinha tão hipnotizada que não podia pensar em nada mais.

            Casaram-se esse junho. James tinha assistido à cerimônia, com um aspecto mais velho e mais distante que nunca, atuando como se nada tivesse ocorrido entre eles. Inclusive tinha dançado com ele nas bodas e aceitado um casto beijo na face.

            Três anos depois, quando a neblina de paixão se esfumou e ela se deu conta do vazio que se encontrava seu matrimônio, obteve um divórcio tranqüilo e de mútuo acordo com a ajuda de seu pai, e não voltou a olhar para trás.

            Agora o estava fazendo. Estava olhando para trás, para diante, de lado, nas esquinas escuras, para tentar compreender seu confuso passado. E enquanto recordava dentro do diminuto avião, um repentino e doloroso pensamento a assaltou, e não havia maneira de rechaçá-lo.

 

 

            —Disse que Win tinha me moldado — disse abruptamente. James se girou para olhá-la através da turva luz do pequeno aeroplano.

            —Sabe tão bem como eu —respondeu ele com voz rouca.

            —Sugeriu que escolhia por mim os homens com que saía. O que queria dizer?

            James encolheu os ombros, desviando o olhar.

            —Não tenho nem idéia do que fazia, Annie.

            —Sim sabe. Escolheu Martin, não? Parecia-lhe que fazíamos um bom casal, juntou-nos.

            —Eu diria que isso é óbvio.

            —Queria que me casasse com ele? Teve algo a ver nisso também?

            Então ele voltou a girar-se, e ela conteve o fôlego, temendo a resposta. Tinha que ter sabido que James não pouparia neste assunto.

            —Annie, seu pai controlava todos os homens que se aproximavam de ti. Escolheu ao Martin entre seus recrutas, preparou-o para que fosse exatamente o que sonhava, e lhe serviu isso em uma bandeja de prata. Aceitou-o com a gratidão de um escravo.

Não havia forma de ignorar a ligeira amargura na sua voz.

            —Porque queria te manter afastada de mim. Não confiava que eu guardasse a distância e tampouco confiava em ti. Sabia a teimosa que podia chegar a ser, apesar de que tratou de te converter em uma marionete.

            —Por que Martin e não você?

            —Porque podia dominar Martin. Era sua criatura, seu perfeito marido moldado para você. Martín era exatamente como ele em muitos sentidos. Considerava-me uma proposta menos adequada.

            —Assim meu pai organizou um matrimônio desastroso porque tinha medo de que saísse contigo — resumiu à jovem, tentando não subir o tom de voz. Em todas as partes onde olhava, via uma nova traição, e se perguntou até onde podiam chegar—. Que absurdo, tendo em conta que você não queria saber nada de mim.

            Ele se voltou e a olhou. Sorriu-lhe com uma luz estranha em seus olhos. Era o selvagem sorriso de um leopardo.

            —Isso é o que crê, Annie?

 

            Demoraram três dias em chegar a Irlanda. Três horrorosos dias, durante os quais ele a manteve tão drogada que apenas se precavia de onde estava. Ao menos isso deixou que perguntasse. Fechou esses olhos que o seguiam a toda parte. Apagou a preocupação de seu rosto e lhe deu de novo a aparência de alguém muito jovem para ele.

            Tinha que recordar isso. Sempre seria muito jovem para ele, em experiência, nos frios e cruéis atos da vida. Para ela era uma bênção, e para ele, sua perdição.

            Embebedava-se sempre que podia. Durante os longos vôos noturnos, quando não havia maneira de que ninguém pudesse atacá-los, bebia um quarto do vidro de tequila tranqüilamente e observava como dormia a mulher que havia a seu lado. Sempre arrumava para ocultar as substâncias em sua comida, mas uma ou duas vezes, quando ficou muito nervosa, tinha tido que recorrer a uma injeção. Perguntou-se se teria notado as marcas.

            A viajem estava equipada com todo o necessário. Bombas, produtos para fabricar bombas, e psicotrópicos, além de material para criar passaportes e documentos de identidade falsos. Tinha sido bastante fácil reunir as coisas que necessitava mediante um acordo telefônico. Enquanto a jovem dormia, ele podia deixar de pensar em seu corpo e sua boca.

            Agora não podia se distrair com nada, nem sequer o álcool. Ela se dava conta de muitas coisas. Era digna filha de seu pai em certos aspectos que ele não queria reconhecer. Mas nunca enganou a si mesmo sobre nada. Não a respeito de quem e o que era. E sobre o que e a quem desejava.

            Desejava Annie.

            Só não tinha planejado era deitar-se com ela se podia evitá-lo. Porque fazê-lo significaria assinar a sentença de morte da jovem.

            Nem sequer estava seguro de aonde se dirigiam. A Irlanda era um país pequeno e a Irlanda do Norte ainda menor, mas ali havia todo um mundo. Era o último lugar que tinha estado Win Sutherland antes de voltar para casa para enfrentar-se com a morte.

Ao final, limitou-se a seguir seu instinto. Pela primeira vez em mais de vinte anos, voltou para casa.

            Derrymore não tinha mudado. Uns quantos edifícios mais bombardeados, uns quantos tanques menos patrulhando as ruas. Mas o olhar dos pálidos e angustiados rostos da gente seguia sendo o mesmo, dos mais jovens até os maiores. De ódio e terror.

Tinha tido esse mesmo aspecto. Durante mais de vinte anos quando se olhou em um espelho tinha podido contemplar o mesmo ser raivoso de olhos afundados. Mas tinha aprendido a ocultá-lo. A guardá-lo, canalizá-lo, utilizá-lo. Tinha aprendido a matar pelo patriotismo de outro e não pelo seu próprio.

            Podia estar agradecido a Win por isso. Embora também podia amaldiçoá-lo. Tinha-lhe salvado e condenado ao mesmo tempo. E não passava nem um só dia sem que desejasse ter morrido de fome no cárcere do Highroad.

            Annie caminhava a seu lado movendo-se torpemente; ainda tinha a mente intumescida pela medicação que estava ministrando. Conduziu-a através das ruas estreitas até a casa vazia que tinha encontrado rodeada por outros edifícios em ruínas, fechando-se a sua própria reação. Era um lugar pequeno e lúgubre. Nunca tinha estado exatamente nessa casa de amparo oficial, mas a conhecia tão bem como a si mesmo. O aroma. Os móveis baratos escolhidos ao acaso e o papel das paredes feito farrapos. Os luminosos quadros de Santos de cabelo ondulado rezando para seus pobres seguidores.

            Havia dois quartos. Levou-a a mais pequena, a uma cama que não era mais que uma estreita cama de armar, deixando-a sobre o colchão e cobrindo-a com uma manta fina. Ele a observou em silêncio enquanto lhe tirava os sapatos, comprovava que as pequenas janelas estavam fechadas e depois deu a volta. A jovem tinha fechado os olhos de novo, e respirava com o sonho superficial e constante dos drogados.

            Não se atrevia a lhe dar mais. Tinha perdido a conta de quanto tinha tomado, e o que lhe tinha dado ainda era muito experimental para conhecer os efeitos secundários. Estava fora do jogo de novo, e o que esperava é que seguisse assim o tempo suficiente para reconhecer o território, recolher informação preliminar e voltar para seu lado.

Ficou de pé olhando-a. A casa estava escura, fria, e sua cara pálida e imóvel. Como a de uma morta. E tinha sido testemunha da morte com muita freqüência.

            Tocou-lhe a garganta, mas estava quente e podia lhe sentir o pulso. Deslizou uma mão por debaixo de sua blusa, lhe abrindo os botões. Tinha os seios pequenos, protegidos com um sutiã de encaixe, e os mamilos duros pelo frio. Tão duros como ele mesmo estava.

Separou-se dela, voltando a cobri-la com a manta. Seguiu dormindo, sem dar-se conta de nada, e ele se precipitou para fora do quarto antes que pudesse mudar de opinião.

 

            Os sonhos do Annie eram imprecisos, cheios de sangue e morte, altamente eróticos, e pareciam não ter fim. Estava apanhada em uma espessa névoa que não se dissipava nunca, e tinha perdido a noção do tempo, do lugar, de tudo menos do homem que estava a seu lado, tocando-a, abraçando-a, mantendo-a a salvo.

            Sentia-se estranhamente tonta e sonhava que viajava de aviões, mas não podia reunir suficiente energia para perguntar aonde foram. Sabia que tinham aterrissado, mas tudo lhe parecia estranho e escuro.

            Agora era consciente de que estava dormindo; desta vez os sonhos eram mais sólidos, e pôde sentir sua forte mão sobre um seio. Quis gritar, mas não podia mover-se.

Odiava isso. Odiava sentir-se cansada e vulnerável. Indefesa. Queria lhe agarrar a mão e apertar-lhe contra o peito. Arrastá-lo à cama, lhe dizer o que desejava e obtê-lo.

            Mas seu pai estava atrás dele. Não como o tinha encontrado, já morto, quieto e silencioso, a não ser ensangüentado, gritando sem voz, e ela tinha vontades de gritar também. De lhe dizer que se fosse que a deixasse em paz, que deixasse James. Já tinham pago um preço muito alto.

            E então os sonhos mudaram, cessaram, tornaram-se pacíficos campos de margaridas sob um sol brilhante com grama verde ao redor, e tudo estava em calma e em paz, até que olhou para baixo, no homem que estava a seus pés e viu que era James, com o pescoço quebrado, como tinha ocorrido a Win.

            Acordou com um grito que logo que pôde transpassar a barreira de seus lábios. Encontrava-se sozinha em meio da mais completa escuridão, fazia frio, estava desorientada, e sentia tanto pânico que estremeceu.

            Tinha os sentidos surpreendentemente ativos para continuar dormindo por dias. O quarto pequeno, com uma janela alta e estreita. Estava em uma cama totalmente vestida mas sem sapatos, e com a camisa desabotoada até a cintura.

            Voltou a fechar os botões com mãos tremulas. Tinha frio, sentia-se suja e faminta. Isso podia tentar solucionar. O medo e a solidão teriam que esperar.

            Onde estava? E o mais importante, onde se encontrava James? Aonde a tinha levado e por que a tinha abandonado? O chão que pisavam com seus pés descalços era de madeira gasta, e suas mãos, que seguiam tremendo, eram incapazes de encontrar o interruptor de luz nas paredes de gesso. Por fim se encontrou com um cordão que pendia do teto e uma lâmpada nua se acendeu ao puxá-lo, iluminando um quarto que estava melhor se tivesse sido deixado na escuridão.

            Apenas podia dizer que o que havia sobre a cama era um colchão, e este se achava envolto por uma manta magra. As paredes eram cinza, o aquecedor oxidado sob a janela, tinha manchado o chão, e o lugar cheirava a mofo típico dos lugares fechados faz tempo. E a pobreza.

            Que estranho, pensou, que fosse capaz de reconhecer esse cheiro quando tinha vivido toda sua vida como uma privilegiada. Mas reconhecia o fedor do desespero, e isso aumentou sua sensação de desassossego.

            Tinha acreditado que o camping de caravanas era mau. Mas esse lugar era ainda pior, e se perguntou se James passava a vida em lugares como aquele. Se só se encontrava seguro entre a miséria.

            Encontrou um Chuveiro com água morna e uma mochila com roupa limpa, assim pegou uma camiseta e um jeans. Também deu com uma cozinha vazia, um pouco de peixe frio com batatas envolto em papel, três garrafas de cerveja vazias e uma sem abrir. Era evidente que James tinha estado ali.

            O peixe e as batatas não podiam ser mais gordurentos, mas tinha a sensação de não ter comido fazia dias. A cerveja quente estava melhor, e acabou rapidamente. A noite era cada vez mais fria e escura a seu redor, e se sentia debilitada e vulnerável. Onde demônios se colocou seu salvador?

            Disse que voltaria a procurá-la cedo ou tarde. Não tinha nenhuma dúvida. Não a teria mantido a seu lado tanto tempo se pensasse em abandoná-la.

            Mas, e se não tinha outra opção? O que aconteceria as forças da escuridão que lhes tinham estado espreitando tinham dado finalmente com eles? E se James se encontrava morto em algum beco, e ela estava sozinha, indefesa, perdida?

Tentou sobrepor-se. Não tinha se encontrado perdida em toda sua vida. Era forte e tinha recursos. Se James não voltava, sairia para procurá-lo.

            Pareceu ouvir um som na fechadura da porta, seu alívio resultou quase patético. Levantou-se dirigindo-se para o vestíbulo, tentando ocultar seu sorriso de satisfação, quando algo a fez deter-se. Só no estreito e escuro corredor, precaveu-se muito tarde de que não estavam abrindo a porta, mas sim estavam tentando forçá-la.

Retrocedeu com repentino e silencioso terror. Quem quer que estivesse aí fora não tinha escolhido ao azar essa casa para entrar em roubar. Ele ou eles sabiam o que estavam procurando: James e ao Annie.

Não lhe ocorria nenhum lugar para esconder-se. A casa era austera, logo que estava mal mobiliada e não havia armários. Banheiro oxidado não tinha nem porta nem cortina e debaixo da cama não havia espaço suficiente para seu corpo.

            No final não teve opção. A porta cedeu, e não teve outro lugar ao que escapar, que a pequena sala, onde se escondeu atrás da porta contendo o fôlego.

            Entrou tão somente uma pessoa. Annie ficou quieta, escutando, rezando para que fosse James, para que tivesse esquecido as chaves, para que nunca tivesse tido as chaves dessa casa vazia e estranha. Mas o homem se movia fazendo muito ruído, embora justamente estivesse tentando o contrário. Não era quem esperava. portanto, tratava-se do inimigo.

            E se estava se esforçando em ser silencioso, tinha que saber que não estava sozinho na casa. Tinha vindo procurar James? Ou já teria se ocupado dele?

            Tinha frio, sentia um suor frio na nuca e estava descalça. O homem veria sinais de que alguém acabava de tomar banho e a comida que tinha deixado na cozinha. Não podia esperar que a encontrasse. Devia tentar escapar, embora estivesse descalça, quando ele se metesse em um dos dormitórios na parte traseira. Oxalá fosse mais rápida que ele, e pudesse desaparecer pela porta principal, houvesse o que houvesse atrás.

            Conta até cinco, disse-se. Conta até dez. Não o faça precipitadamente, não espere muito. Respira fundo, e se mova, vai já...

            Apanhou-a no vestíbulo. Não era mais que uma silhueta disforme, violenta e sólida, e ao agarrá-la lançou contra a parede com tanta força que ficou sem respiração. Tudo girou e soube que não ia dar tempo de recuperar o fôlego: ia matá-la antes de poder lutar. Ouviu que ele soltava um palavrão em voz baixa e viu o braço que se levantava disposto a golpeá-la enquanto tentava desesperadamente escapulir-se. O agressor tinha uma faca e ia utilizá-la.

            Não queria morrer nesse vestíbulo escuro e fedorento, à mãos de um assaltante impreciso e desconhecido. Conseguiu tomar uma baforada de ar para gritar de forma forte e estridente, e um nome retumbou asperamente na casa quase vazia.

            —James! —uivou, protegendo-se com os braços das navalhadas—. me Ajude!

            Não notou o corte; tão somente sangue quente e úmido que se derramava por seu braço, e soube que se a esfaqueasse de novo, não teria salvação. James voltaria e a encontraria em meio de um atoleiro de sangue. Choraria por ela? Ou já estaria morto também?

            —Filha de puta —murmurou seu atacante com forte acento irlandês—. Maldita ianque filha de puta.

            Dirigiu a faca para o rosto feminino mas nunca chegou a seu destino. Ela não o tinha ouvido entrar, e tampouco seu agressor. Entre a escuridão e o horror, ele não era mais que outra sombra, mais alta, mais esbelta, que levantava o homem e o jogava contra a parede com a facilidade que lhe proporcionava a força da adrenalina provocada pela raiva. Era um estranho perigoso, era James, e Annie soube que a salvaria.

            O assaltante se dobrou sobre si mesmo e a faca patinou pelo chão enquanto se derrubava, ao parecer inconsciente, não representando já nenhuma ameaça. Annie tentou mover-se, tomar ar profunda e tenebrosamente, só para observar paralisada como James recolhia a faca e avançava para o homem cansado.

            —Não —ofegou a jovem. Mas a palavra não foi mais que um sussurro afogado, e se ele a ouviu, ignorou-a totalmente, ajoelhando-se sobre o atacante e ocultando-o a seu olhar. Quando se levantou, o homem estava deitado de barriga para baixo sobre o chão em um atoleiro de sangue.

            James se levantou, girando-se para olhá-la pela primeira vez. Nem sequer lhe faltava o fôlego; simplesmente ficou observando-a durante um longo momento.

            —Mato-o —sussurrou Annie com horror.

            —E o seu amigo ai de fora também — repôs ele—. O que esperava que fizesse, convidá-los a tomar o chá?

            Ela levantou o olhar ainda mais aterrorizado. Não havia nem rastro de acento texano em sua voz, nem sequer de um americano neutro. Era irlandês. Tão irlandês como o homem que acabava de tentar matá-la.

            Estendeu-lhe a mão para ajudá-la levantar-se, mas a turva luz permitiu a Annie distinguir o sangue que lhe manchava a palma, e se separou de seu alcance.

            —De acordo —aceitou James com voz gélida—. Vai à cozinha por seus próprios pés, e eu limparei tudo isto.

            Voltou-lhe as costas e ela ficou em pé ajudando-se com a parede, abraçando-se fortemente o estômago. Rumou para chegar à cozinha e uma vez ali, vomitou na pia a cerveja, o peixe, as batatas, tudo.

            Ouvia como corria a água no banheiro. Sabia que devia recompor-se, oferecer-se a lhe ajudar. Tinha-lhe salvado a vida. Tinha matado ao assassino, e deveria sentir-se agradecida em vez de horrorizada.

            Dr. Morte, tinha-o chamado Martin. Rápido, limpo, e fazia visita domicílio, havia-lhe dito James. Estremeceu olhando o sangue que lhe cobria a roupa.

            A ferida de seu antebraço tinha mau aspecto, mas o sangue parecia que já não lhe brotava com tanta força. Não se atrevia a utilizar nenhum dos imundos trapos de cozinha que havia por ali, e não se viam coisas tão úteis como guardanapos de papel, assim decidiu tirar camiseta e pô-la sob o corte, esperando que a água estivesse razoavelmente pura.

            A navalhada era comprida e pouco profunda, e lhe deixaria uma cicatriz se não desse ponto, mas de alguma forma não imaginava James levando-a ao hospital mais próximo. Seu pai teria se aborrecido, pensou com uma histeria crescente. Não gostava que nada danificasse a perfeição de suas posses.

            Derrubou-se sobre uma cadeira, subitamente enjoada, e envolveu o braço com a camiseta branca. Tinha começado a doer, o suficiente para debilitar seu já transtornado autocontrole.

            Não queria ouvir os ruídos procedentes do vestíbulo. Não queria pensar no que James estava fazendo, e como arrumava para ter tanto sangue-frio. Desejava deixar sua mente estacionada em algum lugar, assim como seus pensamentos e emoções. Mas os golpes seguiam ressonando por toda a casa.

 

            Trabalhava rápida e eficazmente, amaldiçoando a si mesmo por ter cortado o pescoço de seu inimigo e criado essa confusão. Deveria ter-se limitado a lhe partir o pescoço, mas o agressor estava procurando a pistola no bolso; teria disparado em Annie em dois segundos, e ele só tinha tido tempo para reagir, não para pensar.

            Sabia o que estava pensando ela. Tinha visto o horror em seus olhos antes que cambaleasse em direção à cozinha. Pensava que tinha assassinado ao homem sem razão, que lhe tinha talhado o pescoço por um impulso, em vez de por necessidade.

            Não ia se explicar e nem tentar que o entendesse. Já tinha matado muitas vezes sem razão aparente. Embora esta vez estivesse justificado, estava disposto a deixar que Annie o julgasse.

            Até agora tudo tinha sido teoria. inteirou-se das mortes, tinha visto o corpo do Clancy, o de seu próprio pai. Mas nunca tinha visto chegar à morte em toda sua imundície, suor e sangue. Tinha estado a um passo.

            Agora já sabia o que ele era na realidade. Um assassino. Era um alívio, disse-se arrastando o corpo através da porta traseira até o pequeno abrigo do jardim onde já tinha depositado o outro homem. Assim ela se esqueceria de suas fantasias, suas lembranças. Saberia quem era em realidade. Daria-se conta da verdade. Annie estava sentada na escuridão da cozinha, em um canto, mas ele não se permitiu olhá-la, em vez disso, agarrou a chaleira de água e se encaminhou para a pia.

            —Chá — se limitou a dizer com um tom deliberadamente indiferente—. Os ingleses arrumam tudo com isto.

            —Qual é o remédio universal para os irlandeses? —Sua voz não era mais que um débil pigarro, mas a acusação nela era inconfundível.

            Está fora deforma, mas não fora de jogo, pensou James sem saber se lhe aliviava ou o lamentava.

            —O uísque, é obvio. Por desgraça, não temos, assim que nos arrumaremos isso com...

            Permitiu-se olhá-la, agora que já pôs de novo a máscara, mas ao vê-la interrompeu-se.

            Estava sentada vestindo tão somente um jeans e um sutiã. Por um breve momento de loucura se perguntou se estaria tentando seduzi-lo, e então viu a camiseta manchada de sangue que atou fortemente ao redor do braço.

            Por um instante não pôde mover-se. Uma estranha parte de si mesmo estava completamente aturdida. Durante seus trinta e nove anos de vida nunca havia se sentido tão paralisado como estava agora ante a visão de uma mulher ferida.

            Tinha vinte e sete anos, uma relativa experiência sexual, era descarada, rebelde e com mau caráter... E a queria.

            —Esse bode te feriu —disse em voz baixa, controlando-se para não mover-se. Temia que se se movesse muito rápido, assustaria-a, diria algo, faria algo que lamentaria para o resto de sua maldita vida.

            —Parece pior do que realmente é. Quase parou de sangrar.

Ajoelhou-se a seu lado, descobrindo com delicadeza o curativo caseiro. Esperava que se separasse dele, mas não o fez. Deixou que a tocasse, ficando quieta, com os olhos baixos e a respiração ofegante.

            —Tem pior aspecto do que realmente é — falou James com um tom enganosamente frio—. Mas te deixará uma cicatriz.

            —Uma lembrança de minhas férias na Irlanda — comentou Annie em um discordante intento de banalizar a situação—. Porque estamos na Irlanda, não?

            —Sim.

            —Você é daqui, verdade?

            Ele duvidou, mas não havia razão para negá-lo. Não havia nenhuma razão para mentir. Se lhe tivesse perguntado nesse momento quem matou seu pai teria dito a verdade.

            —Sim.

            A hemorragia quase se deteve. Voltou a lhe enfaixar o braço, prendendo a camiseta com tiras dos trapos sujos que havia sobre a pia, e depois ficou a fazer o chá. Não esbanjou seu tempo lhe ordenando que o bebesse. Ou o fazia por si mesmo, ou a obrigaria.

            Bebeu. Fazia frio na casa, e ele tirou sua própria camisa e a pôs nos ombros nus. Annie não lhe disse obrigado. Concentrava-se no chá, bebendo-o a pequenos goles, e parecia perdida em seus pensamentos.

            —Quem eram esses homens? — a pergunta lhe surpreendeu, pois não a esperava.

            —Não sei.

            —Não minta, James — lhe pediu, filtrando-se pela primeira vez um matiz de emoção em sua voz apagada pela comoção.

            —Não estou mentindo. Poderia ser qualquer um. Poderia tê-los mandado Carew, embora não acredito. Não eram de seu estilo. Ou poderiam ter sido antigos companheiros meus, que deviam saldar uma conta pendente, mas não sei como teriam podido se inteirar de que ia vir. Além disso, a maioria da gente que eu conhecia faz tempo que está morta. Suponho que também poderia havê-los mandado Martin.

            —Martin!

            Não gostou da quebra de onda de emoção que se distinguia em sua voz. Ciúmes, pensou ausentemente. Nunca lhe tinha ocorrido que esbanjaria seu tempo com pouco tão insignificante como isso.

            —Não confio em ninguém, Annie —murmurou—. Nos vemos obrigados a confiar no Martin, ao menos em parte, mas não me faz graça. O primeiro que aprendi nesta profissão foi que qualquer um podia ser seu inimigo. Se te servir de algo, ainda acredito que podemos confiar nele na hora da verdade. Provavelmente, os que estão atrás de nós todo esse tempo são os cúmplices de Win.

            —Acreditava que estavam procurando todos de uma vez — murmurou ela com tom aborrecido.

            —Certo. —Bebia a pequenos goles o chá. Não havia nem açúcar, nem leite que o fizessem mais suave, e teria vendido a sua mãe por um gole de uísque, mas por desgraça sua mãe já estava morta—. Mas a uns importa mais que a outros. Os que trabalhavam com o Win querem nos deixar fora de jogo. Perguntamos muitas coisas, causamos muitos problemas. Levam tentando me matar faz um tempo. Quando se aproximou de mim, pô-te também na linha de fogo. Querem-nos mortos aos dois, e provavelmente ao Carew tampouco importaria muito.

            —Como sabem que estamos aqui?

            —Sabem tudo, Annie. Por isso estivemos indo de um lugar para outro.

            —Então por que estamos aqui? Uma peregrinação sentimental pelos velhos tempos?

            O sarcasmo fortalecia sua voz, e curiosamente, ele teve vontades de sorrir:

            —Não exatamente, Annie. Garanto que minhas visitas ao lugar em que nasci sejam as mínimas possíveis. Por desgraça, seu pai sentia um carinho especial por tudo o que fosse irlandês. Irlanda do Norte era um de seus centros favoritos de recrutamento.

            —A que se refere como "centros de recrutamento"?

            —Não finja que o esqueceste, Annie. Seu pai contratava a assassinos. Treinava-os, convertia-os em suas próprias criaturas, e depois os mandava pelo mundo para cumprir com seus objetivos. Deu-se conta de que os irlandeses eram especialmente peritos nessa linha de trabalho. Divertia-lhe que pudéssemos ser tão selvagens.

            —Divertia-lhe? —repetiu ela fracamente.

            —Tinha um estranho senso de humor.

            —Encontrou você aqui?

            Ele o esperava. Tinha começado a falar do tema de propósito, esperando suas perguntas, esperando a pergunta mais importante de todas.

            —Não exatamente. Eu estava no cárcere do Highroad. Levava trinta e quatro dias em greve de fome e me faltava pouco para morrer.

            —Por quê?

            —Nesse momento me parecia que era o que tinha que fazer — respondeu tirando a importância.

            —Quero dizer, por que lhe tinham no cárcere?

            —Quando tinha dezessete anos minhas idéias eram muito radicais. Comecei muito cedo nesta profissão.

            A jovem o olhou sem pestanejar.

            —E o que aconteceu?

            —Seu pai pensou que eu prometia, assim que arrumou para me tirar de um lugar que poucos irlandeses abandonam. Me declarou morto, e entregaram meu corpo para ser enterrado. Levou-me aos Estados Unidos e me converteu em um bom moço. —Sua voz trocou ao tranqüilo acento texano sem esforço.

            —Não pode ser —sussurrou negando com a cabeça—. Não acredito.

            —Olhe a seu redor, Annie. Acredita-o.

            A jovem se levantou, afastando-se da mesa, com sua camisa negra pendurando dos ombros, agitando-se sobre seu estreito torso. Ele queria alcançá-la, tirar essa camisa e atraí-la para si. Não se moveu.

            —O que fez com o corpo? —perguntou ela em voz

            —Quererá dizer os corpos, não? Havia outro homem lá fora. Depositei-os no abrigo do jardim daí detrás. Os abrigos são muito úteis. Quase todas as casas de Grã-Bretanha e Irlanda têm um.

            —Cale-se! — exclamou a jovem estremecendo—. Não quero escutar nenhuma palavra mais.

            —Não quer me perguntar nada, Annie? — perguntou, odiando a si mesmo e levando-os a ambos ao limite.

            —Inclusive se esta vez prometo te dizer a verdade?

            —Não! —repetiu com uma paixão que não deixava dúvidas de que sabia o que queria dizer. Fez ameaça de sair dali, e James repentinamente se levantou, impedindo-a de sair.

            —Em frente, me pergunte, pequena — sussurrou, deixando que voltasse o acento irlandês a sua voz—. Pergunte e te direi tudo o que queira. Farei tudo o que queira.

            —Iria ao inferno? —perguntou ela com aspereza.

            —Já passei por isso, não seria nada novo —murmurou.

            —Diria-me quem matou meu pai?

            —Sim.

            A jovem não se moveu, e James esperou as palavras que fariam com que todo desmoronasse a seu redor.

            —Deitaria-te comigo?

            Ele a olhou. A sua rosada e suave boca, aos olhos escuros e emocionados. Era débil, vulnerável, fácil de romper. Não sabia quem era ou o que queria, e tocá-la agora seria condenar sua alma ao inferno para sempre.

            Mas o certo é que já sabia que não tinha outra alternativa.

            —Sim —respondeu. E agarrando as lapelas de sua camisa, atraiu-a para si.

 

            Annie não tinha nem idéia de onde tinham saído essas palavras. Seu consciente parecia ter-se desvanecido. Tinha levantado o olhar para o rosto desse estranho, e a mente tinha ficado paralisada. Tinha falado seu coração.

            Como tinha emprestado sua camisa, James levava só uma camiseta azul escuro e uns jeans. Não recordava tê-lo visto com essa roupa antes, e em algum lugar de sua mente se perguntou de onde a teria tirado. Via uma mancha escura e úmida sobre a camisa, e se deu conta de que era sangue. Deu-lhe calafrios.

            —O que quer de mim, James? —perguntou com voz áspera—. Por certo, é esse seu verdadeiro nome? James McKinley? Já nem sequer parece.

            —Serve-me —respondeu ele—. Agora é meu. —Agarrava com as mãos as lapelas da camisa que a envolvia, apertando-a, aprisionando-a, sem esforçar-se por aproximar-se mais.

            —O que quer de mim? —repetiu Annie.

            Um fraco e zombador sorriso se desenhou na boca masculina.

            —Quero que se afaste de tudo isto. Que viva tranqüila e feliz nos subúrbios de uma cidade, com um marido rico e sem imaginação, bebes gordinhos e que a única preocupação seja seu colesterol. Quero-te com vinte quilos a mais, preocupada com creches e hipotecas. Que tenha uma vida de verdade.

            Ela não disse nada por um instante.

            —Poderia voltar para casa, me casar com o Martin de novo — lhe provocou.

            —Não! —protestou ele com violência—. Já é muito tarde para isso. Está muito envolta. E Martin...

            —O que acontece com ele? —inquiriu ao ver que parava a metade da frase.

            —Martin é um dos nossos.

            —Um dos nossos?

            —Sabe matar, Annie. É melhor que não tenha um assassino em sua vida.

            A moça aceitou sua falta de ciúmes com indiferença, como dando-o por feito. Apesar do que acabava de ouvir, ela conhecia o Martin. Seu ex-marido nunca mataria a ninguém. Significava segurança e agora sabia que já não desejava essa segurança.

            —O que fazemos agora?

            —No momento nos manteremos alerta. Veremos se aparecem mais intrusos. Se tiver sobrevivido um, outros o seguirão, mas não ganharíamos nada escapando. Encontrarão-nos. Ficaremos aqui e tentaremos averiguar onde está o quadro. Trouxe-o aqui, Annie, mas te juro que não entendo por que. Isso sim descobriremos, e pode ser que outras questões também.

            —Não me refiro a isso — repôs a jovem em um tom enganosamente tranqüilo—. Quero dizer o que fazemos agora. Neste preciso momento.

            Sentia a tensão, o calor, a adrenalina que corria por suas veias. Estava aprendendo a ler seus sinais, apesar da calma externa que ele mostrava. Sentia sua necessidade, que era a mesma que a sua.

            Ele soltou as lapelas da camisa e deu um passo atrás.

            —Tenta dormir um pouco — aconselhou com seu ausente tom de voz—. Eu vigiarei...

            —Estive dormindo durante dias — interrompeu Annie em voz baixa e rebelde—. Já perdi até a conta. Esteve me drogando, não? Deu-me alguma porcaria para me manter à margem. Como pode fazê-lo?

            —Tinha todo o necessário na caravana —respondeu ele, interpretando mal sua pergunta a propósito—. Win sempre se assegurava de que tivéssemos o último do mercado, a melhor tecnologia. Como ia desperdiçar?

            —Como pudeste me fazer algo assim ?Vi as marcas no meu braço. Utilizaste uma agulha, não? Como crê que teria reagido meu pai se tivesse sabido que foste utilizar essas armas contra mim?

            —Não lhe teria importado. —James se aproximou durante um breve e perigoso momento—. Sou capaz de tudo, Annie. Recorda-o.

            Ela pensou no homem deitado no vestíbulo, o atoleiro de sangue estendendo-se por debaixo de seu corpo, e voltou a estremecer-se.

            —Vai para a cama — recomendou de novo, tentando tirar-lhe de cima—. Se não pode dormir, estou seguro de que posso encontrar mais do que estava te dando...

            Não pôde evitar golpeá-lo. Deu-lhe uma bofetada na cara tão forte, que a cabeça do James se voltou, a mão ficou dormente e a camisa que levava sobre os ombros caiu no chão.

            Esticou-se esperando que ele a tocasse, mas o que fez foi lhe dedicar um sorriso torcido:

            —Vai para a cama, Annie — repetiu pacientemente.

            Ela sabia de onde lhe vinha a raiva. Das mentiras, os segredos, o medo. Sabia o que ia fazer com isso.

            —Isso é o que pensava fazer — afirmou sentindo como a fúria lutava por apoderar-se de sua voz— Contigo.

            Aproximou-se e roçou o áspero rastro que sua mão lhe tinha deixado no rosto. Fazia tempo que não se barbeava, e a incipiente barba lhe cravava.

            Não faça, acautelava-lhe uma voz em sua cabeça que soava estranhamente como a do Martin. Não haverá como volta atrás.

            Mas James a olhava impassível, permitindo que o tocasse.

            —Se fosse você não o faria — advertiu bruscamente—. Não está em seu território. Não te darei um beijo e um tapinha no traseiro quando tivermos terminado. Não o faríamos na escuridão, com segurança e delicadeza, você com sua camisola, debaixo dos lençóis, e eu atuando como o perfeito cavalheiro.

            —O que faria? —Suas palavras eram quase inaudíveis.

            Ele as escutou.

            —Roubaria-te tudo: o coração, a alma. Possivelmente inclusive a vida. Foge de mim, Annie. Serei seu fim.

            Fugir dele era impossível. Ela se limitava a olhá-lo, emocionada, ofegante, com desejo. Sem nenhuma vontade de retroceder, de escapar, tal como lhe dizia seu instinto. Seus dedos lhe acariciavam sua áspera face, olhando nos olhos sem medo algum.

            —Possua-me, então — suplicou com voz trêmula.

            Não a beijou. Annie sabia que não o faria, e não procurou sua boca. O que fez foi simplesmente abraçá-la e levantá-la, sem esforço. Não tinha de dado conta de quão forte era. Não tinha se precavido de muitas coisas, e, entretanto estava se pondo a sua mercê.

            Pensou que a levaria ao dormitório, mas não o fez. Aproximou-a de seu poderoso corpo e colocou os estreitos quadris femininos entre suas largas pernas, mostrando-se estranhamente delicado com seu braço ferido. Annie podia sentir sua ereção, algo que a deixou assombrada. Ainda não podia acreditar que ele a desejasse. Que esta vez ia acontecer.

            Mas desta vez não ficaria outra opção. Fechou os olhos passando os braços pelo pescoço, ignorando a dor de sua ferida torpemente enfaixada, apertando seus seios contra seu peito tentando aproximar-se mais a ele.

            A cozinha estava fria e escura, e tremia. Retirou-lhe o sutiã e o deixou cair. Tinha a boca junto a seu ouvido, e seu fôlego era úmido e quente.

            —Excita-te que seja um assassino, Annie? —sussurrou com ironia—. Te excita ver morrer a alguém? Saber que está morto porque tentava te fazer mal?

            Ela tentou liberar-se, horrorizada. Mas James a mantinha apertada contra seu corpo, mofando-se, burlando-se.

            —Mary Margaret estava acostumada a ter um orgasmo ao assassinar alguém. Sabia que algumas mulheres são capazes de chegar a isso? Possivelmente te pareça mais com seu pai do que pensava.

            Agora ela estava lutando sério, desejando livrar-se de sua fria e inquietante voz, com uma estranha mescla do Texas e Irlanda. Os olhos da morte no rosto do amor.

            —Solte-me — exigiu ela com voz rígida e zangada, empurrando-o, ignorando a dor de seu braço.

            —Nunca tinha pensado, mas é provável que tenha talentos sem explorar — repôs ele sem fazer caso de sua luta—. Win nunca matava, mas sabia como fazê-lo mais que ninguém que eu tenha conhecido. Possivelmente tenha herdado esse talento.

            —Cale-se! — exclamou ela empurrando-o.

            James a soltou bruscamente, deixando-a de novo sobre o chão de linóleo e permitindo que ficasse fora de seu alcance.

            —Acredite-me, Annie, deitar com um assassino está supervalorizado. Não foi bem com o Martin, não? — Voltou-lhe as costas, convidando-a com sua atitude a partir—. Vai, Annie. Volta para seu quarto e dê graças a Deus, se é que crê nele, de que tenha te deixado ir.

            A jovem não se moveu.

            —Como sabe que estaremos a salvo? O que ocorrerá se vier alguém por nós esta noite?

            —Matarei-os também. —Esperou um momento, mas a jovem seguiu sem mover-se, lutando entre seu instinto e seu temor.

            —Sai daqui! —gritou repentinamente furioso, e sem voltar-se.

            Annie se foi da cozinha. O vestíbulo estava escuro, o chão úmido, recém esfregado, e ela tremia enquanto caminhava descalça sobre o lugar onde acabava de morrer um homem.

            A lâmpada estava ainda acesa no pequeno quarto, iluminando a estreita cama. Puxou o cordão para deixar o quarto em sombras uma vez mais, e se dirigiu ao outro dormitório. Não era muito maior, e havia inclusive menos móveis: tão somente um grande colchão sobre o poeirento chão, um velho lençol florido cobrindo-o e um edredom imundo por cima. Tirou os jeans, dobrando-os cuidadosamente e deixando-os em um canto.            Depois se deitou sob o edredom, tremendo no ar frio da noite.

            Não pensava que pudesse dormir. O coração pulsava fortemente no peito e o pouco bom senso que ficava gritava que estava louca. Ignorou os gritos. Estava ali, nua, em sua cama. Não havia outro lugar possível onde pudesse estar. Era assim complicado, e assim simples.

            Quando abriu os olhos de novo, a primeira turva luz do amanhecer estava penetrando no quarto. Não estava sozinha.

            James estava sentado na beirada do colchão, observando-a com intensidade.

            —Alguma vez fez caso a ninguém, verdade? —disse em um áspero sussurro.

            A jovem queria negá-lo, mas era incapaz de pronunciar uma só palavra. Ele agarrou o pequeno cobertor e o separou de seu corpo nu para deixá-lo exposto no úmido ar da manhã. Em seus frios olhos azuis se lia o aborrecimento e um rastro de algo indefinível.

            —Maldita seja —resmungou mais para si mesmo que para ela—. matei por ti. Ganhei isso.

            Sem lhe dar tempo de reagir, inclinou-se sobre ela bloqueando o raio de luz. Annie não sabia o que esperar. Os últimos dias tinham estado cheios de sonhos eróticos e fantasias sexuais que lhe faziam sentir-se culpado e que tentava renegar. Mas no momento em que lhe pôs as mãos em cima, tudo mudou.

            Possuiu-a. Sem palavras. Sem beijos. Sem tenras carícias. Sem jogos preliminares nem mútua dança de desejo. Tirou a roupa, e a fez sua com precisão desumana, sujeitando as mãos contra o fino colchão para que não pudesse acariciá-lo, abraçá-lo.

            Seu estreito interior estava seco quando a penetrou, e doeu. Queria gritar para protestar, para lhe rogar, mas não disse nada. Reconhecia o olhar brutal e decidido de seu rosto, o desespero, o ódio contra si mesmo enquanto investia com silenciosa e constante determinação, e fechou os olhos, disposta a suportá-lo.

            Então se deu conta de que estava começando a umedecer-se, e se precaveu emocionada de que seu corpo reagia, respondia. Ele logo estava banhado de suor, com os músculos em tensão, enquanto tentava controlar a ambos, entrando e saindo de seu interior com uma intensidade cruel.

            Annie mordeu o lábio para não proferir nenhum protesto, sentindo que se suavizava que se abria para ele, que o abraço da escuridão a envolvia. Assustou-se, e lutou durante um instante, sentindo falta da comodidade e a familiaridade do sexo seguro.

            Não tinha experimentado aquele amontoado de sensações jamais. Sua mente e sua alma se separaram de seu corpo, e lhe parecia estar em outra parte, flutuando sobre seus corpos entrelaçados, olhando enquanto James McKinley possuía todo seu ser.

            Não queria reagir para ele. Não queria descontrolar-se, mas ainda assim, ele o obteve, e o primeiro orgasmo a golpeou com violência, lhe roubando a vontade.

            Tentou gritar, mas lhe tampou a boca com a mão, fazendo-a calar, e ela teve que provar o sabor de seu próprio sangue.

            Outra sacudida muito mais violenta que a anterior a fez tremer, e o medo a invadiu ao sentir como se deslizava para um poço negro. Lutou aterrorizada, sabendo que se cruzava bordo nunca voltaria, e já não teria escapatória.

            Ele deixou de mover-se. Seu corpo ficou rígido, investindo desapaixonada mente, decididas, que pareciam não ter fim, acabaram. Abriu a boca para lançar um grito que nunca emitiu, e seu corpo se convulsionou com força.

            Não havia salvação para ela. Caiu através do profundo abismo que a reclamava, muito além da negra noite da morte eterna.

 

            Tinha muito frio. Tremia. Abriu os olhos, sobressaltada pelo pânico ao pensar que estava sozinha, e viu que James se encontrava deitado a seu lado, respirando ainda pesadamente apos ter chegado ao clímax.

            Tinha-lhe posto o edredom por cima, mas não a ajudava muito. Sentia que o frio lhe chegava até os ossos; tinha tanto frio e se encontrava tão perdida que pensava que nunca mais ia saber o que era o calor.

            Ele girou a cabeça para olhá-la com olhos sombrios. Agora a luz era mais forte no deserto quarto, e os ângulos e sombras de seu rosto lhe davam a aparência da morte.

            —Adverti-lhe isso. —O tom da voz masculina foi cortante.

            —Sim.

            Os olhos do James se cerraram. Quase contra sua vontade, estendeu a mão e tocou os suaves lábios do Annie. Manchou-se com seu sangue.

            —Fui eu? —Não se notava urgência nem emoção em seu tom de voz. Era uma pergunta formulada de forma tranqüila. E entretanto, ela sabia que o destino estava marcado por sua resposta.

            —Não —respondeu com sinceridade—. Mordi o lábio.

            James ficou olhando sua mão, o ligeiro rastro vermelho sobre as gemas de seus dedos. E depois as levou a boca, e lambeu o sangue.

            Depois a beijou, como ela soube que faria. Afastou o edredom, cobriu-a de novo com seu poderoso corpo na penumbra, e lhe roçou os lábios com os seus. Quando se afastou, o sangue da jovem estava sobre sua boca.

            Annie queria fechar os olhos, isolar a luz, não vê-lo. Sentia-se frágil, exposta, como se tivesse sido espancada, e sua alma ainda queria fugir. Longe dele. Longe deles.

            Mas continuou com os olhos bem abertos enquanto a boca do James tomava posse da sua, aberta, quente, úmida. Já não lhe sujeitava as mãos, e ela levantou os braços e os passou pelo pescoço de forma quase vacilante, com medo de que os afastasse, de que a deixasse, abandonasse-a, agora que já não podia negar quanto o necessitava.

            Se é que ele tinha feito aquilo para provar sua vulnerabilidade, tinha-o conseguido. Sentia-se indefesa, e a única esperança de fortaleza, de sobrevivência se encontrava na úmida e dura boca de James que a devorava.

            Não tinha pensado nele como um homem que gostasse de beijar. Mas o fazia com tanta precisão, tão habilmente, que sentiu que seu esmigalhado desejo despertava de novo. Necessitava que suas mãos percorressem seu corpo, que atormentasse seus peitos. O calor de seu corpo enorme e duro ao voltá-la e para empurrar contra os lençóis.

Estava cheio de cicatrizes. Tantas, que se assustou. Podia as distinguir sob a tênue luz, as sentir sob seus dedos vacilantes. Tinham tentado lhe fazer mal. Tinham tentado matá-lo. E quase o tinham obtido muitas vezes.

            Necessitava sua voz, suas palavras, mas ele não falava, sua boca estava ocupada criando um caminho de pequenos beijos abrasadores por todo seu pescoço.

            Necessitava seu amor, e isso era o que mais lhe horrorizava. Ele não podia proporcionar amor; só morte. Pensar nisso rompeu o encanto erótico de sua tardia sedução, e o empurrou, desejando escapar.

            Era muito mais forte que ela, e podia ter ignorado seus intentos. Mas em troca, soltou-a no momento, afastando-se com essa elegância inconsciente que sempre a assombrava. Annie o olhou monopolizando todo seu valor e viu um brilho triunfante em seus olhos.

            Invadiu-lhe uma raiva tão violenta, tão selvagem, tão intensa que quase eclipsou a insuportável dor que lhe transpassava o coração. James a olhou por sua vez, e sua expressão zombadora se pronunciou até converter-se em fria e cínica.

            —Quer que te empreste uma pistola? —perguntou-lhe com voz tranqüila.

            Se Annie tivesse respondido que sim, o teria feito. Teria procurado debaixo do canto mais afastada do colchão, teria tirado sua Beretta de 9 mm que estava carregada e lhe teria ensinado a utilizá-la. Se ela se parecia em algo com Win, no que fosse certeza que o faria.

            —Quer que lhe mate?

            A voz da jovem logo se resultou audível, mas mantinha a cabeça levantada, olhando-o aos olhos de maneira desafiante. James suspeitava que não se tratasse de valentia para enfrentar a ele, mas sim bem mais de ter tomado a decisão de não olhar seu corpo. E também notava que estava duro outra vez, que desejava fazê-la sua de novo.

            —Alguém o fará cedo ou tarde — replicou utilizando o acento texano de propósito—. Quem melhor que alguém que te deseje de verdade.

            —Para já! —exclamou ela com voz rouca.

            —O que?

            —Esse acento. As mentiras. Deixa de jogar comigo, de me drogar para que não saiba nem onde estou se mudo de pessoas ou fico.

            —Acredito que faz um momento estava fugindo — murmurou, perguntando-se até onde poderia chegar ela.

            Averiguou-o em seguida. Annie se lançou contra ele gritando pela raiva e a humilhação, golpeando-o, amaldiçoando-o com palavras que James nunca pensou que conhecia.

            Deixou que o fizesse. Poderia-a ter reduzido rápida e eficazmente em qualquer momento, mas queria comprovar quão perigosa podia chegar ser quando tinha um ataque de fúria insana.

            Se alguma vez tinha tido dúvidas a respeito da formação em técnicas de luta de Annie, agora se desvaneceram. A jovem lhe arranhava, dava-lhe bofetadas, puxava o cabelo, amaldiçoando-o durante todo o tempo em voz baixa, de uma vez que lutava por rechaçar as mãos que queriam aprisioná-la, mas era óbvio que não sabia defender-se.

Perdeu o interesse em seguida, e estreitou a armadilha sobre suas mãos, lhe apertando os ossos até que ela se deixou cair para trás pela dor e a comoção.

            —Brigas como uma garota —se burlou, mantendo-a cativa.

            Nos furiosos olhos azuis do Annie Sutherland apareceram lágrimas. Derramaram-se por seu pálido rosto e seu magro corpo começou a tremer. Ele observava como lutava desesperadamente por controlar-se, por não deixar ver sua humilhação, mas se tratava de uma batalha perdida.

            E era uma batalha que ele não podia resistir.

            —Por Deus, Annie. —Sua voz adquiriu um estranho tom magoado—. Não faça isto. Brigar comigo.

            A jovem levantou o olhar, com seus olhos banhados em lágrimas.

            —Não posso mais —admitiu, vencida—. Já não posso mais.

            James tinha se mostrado sempre insensível ante as lágrimas das mulheres. Entretanto, as de Annie lhe faziam em pedaços. Soltou-lhe as mãos atraindo-a para si, e ela foi com estupidez, bem disposta, estremecendo-se enquanto ele a abraçava embalava-a, acariciava-lhe os suaves cabelos, apertava seu corpo tremulo sobre o seu e lhe sussurrava brandamente palavras tolas e reconfortantes de sua infância, um consolo que nunca tivesse esperado voltar a ouvir em toda sua vida.

            Beijou-lhe as lágrimas salgadas das faces, a mandíbula, o pescoço. E depois a beijou na boca, primeiro devagar, saboreando sua dor e desespero. Saboreando seu desejo.

            James não soube se foi ele quem a girou ou se ela trocou de posição. Só se deu conta de que se pôs escarranchado sobre ele, com suas largas pernas lhe envolvendo os quadris, e que o beijo já tinha deixado de ser de consolo.

            Em um dado momento, ela enredou os dedos no cabelo de James, e sua faminta boca lhe contou coisas às que suas palavras nunca poderiam contar histórias de necessidade, dor e morte.

            E de amor. James sabia que o amava. Por mais que ele fosse um monstro, ela o queria. E o seguiria amando sempre que não soubesse a verdade.

            Mas nesse momento, a verdade era um inimigo longínquo que deixaria para outro momento, para outro lugar.

            A mão da jovem iniciou um descendente caminho de busca com estupidez, com excitação e ele a guiou até seu grosso membro guiando-a para que o levasse até seu interior.

            Ao penetrá-la, Annie estremeceu fechando os olhos e arqueando as costas, e suas mãos se fecharam sobre seus ombros, lhe cravando as unhas.

            Ficou quieta um instante enquanto os calafrios percorriam sua pele cremosa. Abriu os olhos, uns olhos escuros cheios de confusão e desejo, e o olhou fixamente.

            —Me possua, Annie — sussurrou ele.

            O corpo feminino se esticou sobre o seu para ouvir essas palavras, e James teve que reter-se para não reagir, para não tomar o controle da situação.

            Não lhe surpreendia que a jovem não soubesse o que fazer, que seus movimentos fossem torpes e inseguros. Conhecia muito sobre ela, incluindo sua vida sexual, e sabia que estava assustada pelo que estava fazendo, por isso estava sentindo. Mas tinha certeza de que podia obrigá-la a fazer tudo o que ele quisesse, a pesar do medo.

            Annie o amava o suficiente para sobrepor-se a suas dúvidas, desejava-o tanto que conseguiu lhe roubar o fôlego quando seu corpo encontrou o ritmo adequado. Sua pele se tornou escorregadia pelo suor, seus mamilos se endureceram ao ponto da dor, e ele absorvia cada um de seus estremecimentos, cada uma de suas reações, cada quebra de onda de prazer, desfrutando delas como um homem faminto frente a um banquete.

            A princesa de gelo de Win estava derretendo em uma corrente de calor. Como ele mesmo lhe tinha prevenido, estava-lhe entregando tudo.

            Perdida em um mundo de sensações, baixou a cabeça para capturar um dos mamilos masculinos com os dentes, chegando ao clímax imediatamente, com violência, e ele ficou emocionado ao precaver-se de que também estava a ponto de chegar. Tinha estado tão ocupado observando a paixão de Annie que não se controlou, e a investiu com violência agarrando seus largos cabelos com um punho, apertando seu rosto contra seu ombro enquanto se derramava em seu interior.

            A moça se negava a olhá-lo, a enfrentar a ele ou ao que tinha feito. Ao que se converteu. James deixou que se afastasse dele no fino colchão e que se encolheu em posição fetal com os olhos fechados sem emitir um só som.

            E de repente, ele se deu conta de que, apesar de tudo, podia mostrar piedade. Ainda era cedo; só pouco mais que cinco da manhã, e se alguém tentasse entrar, ele o notaria.

            Enquanto isso podia dedicar-se um pouco verdadeiramente perigoso: podia ceder a seu instinto.

            Cobriu a distância que lhes separava sobre o colchão e a abraçou por detrás.

James esperava que Annie protestasse, mas não foi assim. Ao lhe passar os braços sobre o peito para apertar suas costas contra si, sentiu como o tenso e úmido corpo da jovem se relaxava.

            Um momento depois ela dormia.

 

            —Se quiser, pode tomar banho.

            Suas palavras, duras e sem nenhuma emoção, tiraram-na de um inquieto sonho. O dia tinha amanhecido cinza e escuro. Doía-lhe todo o corpo e não queria olhá-lo.

            —De acordo — murmurou ela, ficando em pé e envolvendo-se no fino edredom com firmeza. Era um obstáculo na saída, assim não teve mais remédio que levantar o olhar um instante.

            Já tinha tomado banho e levava uma xícara na mão. Annie tinha sua dignidade, mas também precisava limpar-se.

            —Isso é café?

            —Chá —respondeu James.

            Até o momento a jovem tinha estado muito interessada em algum lugar próximo a seu ombro esquerdo, mas sua resposta teve a capacidade de fazer que o olhasse aos olhos.

            —Você não bebe chá.

            —É a primeira vez em vinte anos. Se quiser tomar banho, vai agora mesmo. Vamos sair daqui à uma hora.

            —Por quê?

            —Por quê? —repetiu ele com cansaço, bebendo a pequenos goles o chá—. Porque os corpos que estão no abrigo vão começar a cheirar, e nesta cidade há animais de rua dispostos a comer o que puderem. Além disso, este já não é um lugar seguro.

            Encolheu os ombros, afastando-se, como lhe dando permissão para passar.

            —Se prepare ou irei sem ti.

            Assombrada, a jovem observou como partia. Tinha tido toda a intenção do mundo de ignorar a noite anterior, fazendo como se esse desespero selvagem nunca tivesse existido e planejando comportar-se com fria dignidade.

            James tinha sido o primeiro que não lhe tinha dado a menor importância. Estava claro que para ele não tinha significado nada. Mas para o Annie tinha sido diferente. Algo estranho, poderoso, que a tinha metido mais ainda na confusão. Desejava que ele a abraçasse e a consolasse. Queria golpeá-lo de novo.

            À luz do dia, o banheiro tinha pior aspecto, mas ao menos James tinha lhe deixado roupa de cor escura sobre o sanitário. Até que não esteve vestida não se deu conta do sangue seco que havia sob o lavabo.

            Os corpos dos assaltantes iam começar a cheirar, havia dito, e se lembrou do repugnante fedor da lilás sangrenta. A noite anterior o tinha visto matar por ela. Quantas vezes o teria feito sem que Annie se desse conta?

            Ele a esperava na cozinha, e desta vez olhou sem duvidar nos olhos, sem preocupar-se pela vergonha. A noite anterior não tinha existido. Ela também o preferia assim.

            James tinha se vestido de negro e levava um gorro de lã de marinheiro sobre seus escuros cabelos. Parecia maior, inclusive seus olhos pareciam de idade indefinida. Além disso, tinha um aspecto muito irlandês, e se perguntou como tinha podido confundi-lo alguma vez com um texano.

            —Beba o chá — lhe ordenou.

            Annie odiava essa bebida, um fato que Win sempre tinha reprovado, mas procurou evitar pensar em seu elegante pai.

            Agarrou a xícara de porcelana grosa e aranhada que James lhe tendia e bebeu a metade daquele líquido forte e quente.

            —Tenho fome —disse.

            —Não há comida.

            —Já não recordo quando foi à última vez que comi uma comida decente. Pode ser que você seja uma máquina, mas eu sigo sendo humana. Se pretender que me mantenha a sua altura, é melhor que me dê de comer — repôs com bastante calma.

            —Ou mantém a minha altura ou lhe resta ficar só.

            Aí tinha razão, pensou ela, abandonando a discussão. James já tinha aberto a porta e por cima de seu ombro podia ver a fria e úmida cidade. As ruas estavam vazias, os edifícios a seu redor abandonados e, de repente, Annie sentiu um calafrio.

            —Onde estamos? Parece como se estivéssemos no pátio dos fundos do inferno.

            —Não esta muito enganada. Estamos em uma pequena cidade da Irlanda do Norte chamada Derrymore. Faz uns vinte anos era bastante próspera, mas sua única fábrica fechou e, com ela, acabaram-se todos os trabalhos. Agora está quase abandonada; possivelmente não veremos ninguém pela rua.

            —Desde que não nos encontremos com nenhum morto... —Pretendia que seu tom resultasse indiferente e áspero, mas suas palavras resultaram ligeiramente tristes.

            —Isto é a Irlanda, Annie. Os mortos de todas as gerações caminham a nosso lado.

            Ela teve vontade de fazer uma careta.

            —Que tranqüilizador —comentou dirigindo-se para a porta. Uma névoa ligeira e fria começava a cobrir a cidade e já se sentia congelada—. Responderia a uma pergunta, James? —inquiriu detendo-se na soleira.

            —Sim.

            —Assim simplesmente? Inclusive se for algo que não quer responder?

            —Direi tudo o que queira saber.

            Annie acreditou. Pela primeira vez soube que ele não ia mentir, e esse pensamento resultava estranhamente aterrador:

            —Quantas pessoas matou? Não era o que James esperava.

            —Está segura de que quer que responda a isso? A verdade é que não estava tão segura.

            —Não sei.

            —Não acredito. Não pode ser que não saiba a quanta gente mataste em toda sua vida —protestou ela.

            —Acredite Annie. Se me lembrasse, ficaria louco. — Seguiu-a sob a garoa—. Procurarei um bar para que possa comer algo, e depois você responderá algumas perguntas que só você pode saber.           

            —Um bar? Para tomar o café da manhã? —Não pôde evitar a dúvida de seu tom de voz.

            —Por Deus, Annie, crê que vou começar a beber a esta hora? Estando bêbado não seria de muita ajuda para nos proteger, não?

            —Ate agora foi.

            James se limitou a encolher os ombros.

            —É verdade —concedeu—. Mas as coisas vão se pôr mais difíceis de agora em diante e precisamos contar com todas as falhas que possamos.

            —De agora em diante? —repetiu ela olhando-o com horror.

            —Confia em mim, Annie. Ainda não viu nada.

            Chamar pobre à pequena cidade do Derrymore era um eufemismo. As ruas estavam desertas sob a sombria chuva, os edifícios em ruínas, com janelas rotas e portas arrancadas. O bar que encontraram não é que apresentasse muito melhor aspecto, mas ao menos dentro estava escuro, limpo e fazia calor, e sobre tudo, tinham café.

                        James esperou até que ela tivesse devorado um enorme café da manhã inglês, ignorando a graxa, ignorando o horror e o escuro prazer da noite anterior, concentrando-se simplesmente na necessidade de proporcionar energia a seu corpo. Reclinou-se em sua cadeira e a observou bebendo a pequenos goles intermináveis xícaras de chá, sem logo tocar sua comida.

            —Você não precisa comer? —perguntou ela ao final, depois de arrumar-se para deixar completamente vazio seu prato de grossa porcelana.

            —Não.

            Sua terminante resposta lhe preocupou. Olhou-o, e observou suas bochechas afundadas, a perfeita estrutura óssea de seu rosto.

            —Todos precisamos comer, James.

            —Farei-o quando tudo isto terminar.

            —James...

            O suspirou.

            —Annie, trabalho melhor quando não comi. Faz-me apurar meus reflexos, meu nível de observação, sou mais cauteloso. Confia em mim, nossas possibilidades serão maiores se não me obrigar a comer. — voltou-se para trás olhando-a—. Está disposta a responder algumas perguntas?

            —A respeito do que?

            —De seu pai. Sobre o quadro desaparecido do santo.

            —Já te contei tudo o que sabia sobre isso. Estava ali a última vez que o visitei, um par de semanas antes de que falecesse. depois de sua morte tinha desaparecido. Não faltava nada mais da casa, assim não me incomodei em informar à polícia. Só era uma velha imagem, embora possivelmente devesse ter contado.

            —Teria sido uma perda de tempo e, além disso, não acredito que ninguém o roubasse. Estou seguro de que foi Win quem o escondeu. Deve tê-lo escondido aqui por alguma de suas retorcidas razões. Mas não pôde havê-lo feito sem deixar uma pista, uma mensagem. Não pude encontrar nada absolutamente que me guiasse. Assim só fica você, Annie. Tem que ter dito onde o escondeu.

            —Por que teria que fazer isso? Por que está tão seguro de que é tão importante? E se caiu sobre o chão de mármore e se rompeu o cristal? Poderia havê-lo levado a que lhe pusessem um novo e sua morte lhe impediu de ir recolher.

            —O que representava o quadro, Annie? Diga-me isso de novo.

            —Não me lembro muito bem. Só era uma imagem de uma velha pintura religiosa. Um dos primeiros mártires cristãos devorados pelas serpentes. Eu lhe disse que era muito desagradável, mas ele me respondeu que gostava de olhá-lo.

            —Já imagino —murmurou James—. A questão é, por que teria uma coisa assim? Ele era ateu, e não precisamente a classe de pessoa que colecionasse objetos como esse. Preferia coisas menos tangíveis.

            —Como o que?

            —Como as almas das pessoas, Annie. Colecionava almas.

            —Não quero te escutar. —Tentou levantar-se da mesa, mas já lhe tinha pegado a mão e não ficou mais remédio que voltar para sentar.

            —Não me importa o que queira ouvir, Annie —disse brandamente com seu acento irlandês—. Já aconteceu o momento que me esforçava por não ferir sua sensibilidade ou fazia todo o possível para não te fazer mal.

            —É a primeira notícia que tenho de que o estivesse tentando —repôs ela em tom mordaz.

            A boca masculina desenhou um sorriso zombador.

            —Surpreenderia-te. O que te contou Win sobre o quadro? O que recorda?

            —Nunca falamos sobre isso.

            —Alguma vez? Não pensou que era estranho que tivesse algo assim?

            —Meu pai era imprevisível. Adorava tudo o que era irlandês, algo que sempre me surpreendeu, considerando que em nossa família não há nenhuma só gota de sangue irlandês. Supus que tinha algum valor sentimental para ele.

            James lançou um juramento grosseiro.

            —Falaram alguma vez da Irlanda?

            —Não. Por que teríamos que havê-lo feito?

            —Annie, não me importa o porquê ou como. Teve que te dizer algo em algum momento, algo que possa me dar uma pista.

            Uma lembrança lhe veio à mente com um sobressalto.

            —Fez — assinalou.

            Ele ainda a estava retendo pela mão, o que lhe recordou repentinamente como lhe tinha sujeitado as mãos contra a cama a noite anterior para que não pudesse abraçá-lo. As olhou, esperando ver marcas nelas. Mas não lhe tinha feito nada; não tinha deixado nenhuma só marca em seu corpo.

            Mas sim na alma.

            Que curioso, pensou. Se seu pai era um colecionador de almas, era justo que fosse     James quem ficasse com a da jovem.

            —O que te disse, Annie? —A voz do James era como uma canção de ninar tranqüilizadora, e enquanto a olhava, acariciava-lhe a parte interior da mão com o dedo polegar, hipnotizando-a.

            —Foi a última vez que o vi com vida. Lembrava que no momento pensei que era estranho, mas depois, quando morreu, foi completamente da mente e o esqueci.

            —O que?

            —Estávamos sentados em sua biblioteca bebendo conhaque. Já sabe que gostava meu pai de guardar as tradições.

            —Sei —repôs James com um tom de voz estranho.

A jovem fechou os olhos e pôde ver o passado tão claramente como se fosse um filme. Win estava ali sentado em sua cadeira de frente para Anne, com as pernas cruzadas de forma elegante, vestido com um perfeito traje de lã inglesa e uma taça de cristal da prestigiosa assinatura Waterford na mão. Sorria-lhe afetuosamente, e ela se deleitava com sua aprovação, bebendo a pequenos goles com menos entusiasmo, mas disposta a agradar a seu exigente pai.

            —Ainda amuada? —perguntou-lhe Win surpreendendo-a.

            —A verdade é que já não muito — respondeu ela, tomando imediatamente a decisão de desenterrar um de seus muitos projetos parados no meio e acabar, que tinha no apartamento de cobertura de sua casa de Boston—. Queria retomá-lo.

            —Possivelmente pudesse me fazer um favor, querida. Há uma velha bênção irlandesa que eu adoro. Pensava que talvez pudesse bordá-la e me dar de presente como presente de aniversário. Já sei que é um trabalho aborrecido mas é excelente para exercitar a auto-disciplina.

            —Os natais ficam mais perto, papai —respondeu ela—. Não me custará tanto. Sempre que não seja uma transcrição completa do Ulisses de Joyce.

            —Eu não gosto de Joyce —tinha confessado seu pai com um ligeiro sorriso—. Muito indisciplinado emocionalmente para mim.

            —Por que não me escreve isso? Porei-me a trabalhar nisso assim que volte para Boston.

            Seu pai negou com a cabeça.

            —É melhor que o memorize, querida. Dessa maneira te sairá do coração.

            Tinha-lhe parecido uma sugestão muito estranha vindo dele.

            —De acordo. Como é?

            —Que os caminhos vão a seu encontro, que o vento sopre a suas costas, que a chuva caia brandamente sobre seus campos... e que descanse em paz na Irlanda.

Ela pestanejou.

            —Esse é seu provérbio preferido?

            —Repete-o, Annie — lhe pediu ele com uma atitude estranhamente concentrada.

            Assim o fez até que aprendeu de cor corretamente. Justo como o repetiu a James McKinley, enquanto este a observava com seus escuros e indecifráveis olhos.

            —Está mal —disse ele acendendo um grosso cigarro sem filtro. Tinha deixado de fumar quando ela tinha quinze anos—. mesclaste dois provérbios diferentes.

            —Não os mesclei. Asseguro-te que te disse exatamente o que meu pai queria que bordasse. Já tinha começado a fazê-lo quando me anunciaram sua morte.

            —Sempre disposta a agradar, não, Annie? —As palavras resultavam ligeiramente duras—. Até onde teria chegado por seu querido papai? Possivelmente ele poderia ter considerado te recrutar.

            —Não há nada mau em tentar agradar a seu único pai — alfinetou ela.

            —Não se além disso tem outros interesses em sua vida. Mas não vamos discutir sobre isso agora. Pertencia-lhe. Foi sua criação; fazia, vestia e pensava exatamente como ele queria. Deve ser estranho ter que averiguar repentinamente quem é aos vinte e sete anos de idade.

            —Maldito seja... —sussurrou ela, mas James já lhe tinha soltado a mão, e seus olhos pareciam distantes.

            —Que os caminhos saiam a seu encontro —murmurou—. Bobeiras sentimentais. Pode-se saber como pode crer que Win queria isso de verdade?

            —Não me ocorreu que tivesse nenhuma razão para mentir — admitiu a jovem.

            —Cada uma das palavras que te disse eram uma mentira. Que o vento sopre a suas costas. Que o sol brilhe sobre ti. Essas frases vão juntas. Pode as encontrar nessas plaquetas bregas cobertas por trevos de plástico de qualquer loja de lembranças para turistas. Mas o que significará o resto? Não tem nada a ver.

            —Possivelmente tenha te enviado para morrer aqui —aventurou ela em voz baixa.

J          ames a olhou por cima das espirais de fumaça de seu cigarro.

—        fez você vir ate aqui, Annie. —reclinou-se enquanto apagava o cigarro—. Que os caminhos saiam a seu encontro. Que o vento... Maldita seja! —ficou em pé de repente, deixando um montão de moedas sobre a mesa—. Vamos daqui.

            —Queria outra xícara de café... —protestou ela, mentindo.

            —Esqueça do maldito café.

            Virtualmente a tirou arrastando do bar, obrigando-a a enfrentar ao frio e tormentoso dia. A chuva se converteu em granizo, que lhe golpeava a cara, e o grosso pulôver de lã que lhe tinha deixado não a mantinha de tudo a salvo do frio.

            —Aonde vamos?

            —Que descanse em paz na Irlanda —repetiu James amargamente—. Ele sabia que viria me buscar cedo ou tarde. Sabia que eu te perguntaria. Passou muito tempo, mas a verdade é que pensei que inclusive alguém como Win recusaria utilizar a seu próprio sangue. Deveria ter pensado que ele não sentiria pudor ante nada.

            —O que quer dizer?

James a arrastou até uma soleira abandonada e a empurrou contra a porta. Sua enorme figura a protegia da tormenta de gelo, mas uma vez a ameaçava.

            —Sabia que me diria isso cedo ou tarde. Conhecia-nos os dois o suficientemente bem. Imaginou que viria aqui em algum momento em busca do quadro.

            —Pode-se saber o que há de tão importante nesse quadro?

—Eu não sou o guardião das respostas, Annie. Está no quadro. É a chave para tudo: para saber por que seu pai foi assassinado, quem o traiu, quem segue com o programa, seus passos, com seus malditos jogos. É a resposta para saber quem está tentando nos matar, a não ser que o descubramos primeiro.

—Não pode ser, James... —começou a dizer ela, incapaz de acreditar a insuportável verdade sobre a figura de seu pai.

—Que descanse em paz na Irlanda —repetiu James amargamente—. Assim o fiz eu, Annie. Eu morri na Irlanda. Maldita seja, eu faleci em uma prisão irlandesa faz vinte e dois anos. E agora ele está me enviando de volta a esse lugar para que tome parte em um de seus jogos pela última vez. Mas o pior é que sacrificou a ti também.

            Assustava-a. Não era a primeira vez que o fazia, com sua fúria, com sua paixão. Desejava fundir-se com a madeira que havia a suas costas, desaparecer de sua vista, negar tudo o que estava dizendo com esse aterrador e desconhecido acento irlandês dele.

Mas não o fez. Tão somente se apoiou e embalou brandamente entre suas mãos o duro rosto masculino.

            —Aonde nos manda? —perguntou em voz baixa.

Ele ficou em silêncio, com sua fúria aplacada por um momento.

            —Ao cárcere do Highroad, Annie. Não é que fique muito dela agora; fechou-se por razões de segurança e uns quantos soldados do IRA decidiram mandá-la pelos ares para recordar os velhos tempos. Por isso veio a Irlanda, Annie. Para esconder o quadro aqui.

            —Mas por que? —James apertava seu corpo contra o seu e ela podia sentir o calor, a força envolvendo-os aos dois—. Por que teria que tomar tantas precauções? Por que não o deixou onde estava? Por que não me mandou isso ou o deu ao Martin?

            —Porque me conhecia muito bem. Sabia que era a única coisa que eu tentaria evitar fazer: voltar para esse maldito lugar. Deve estar rindo-se a gosto no inferno.

            —Possivelmente —reconheceu ela—. Mas não está sozinho. Agora eu estou contigo. Onde está o cárcere?

            Ele assinalou com a cabeça para a colina que dominava a cidade.

            —Ali em cima.

            As ruínas de pedra se recortavam contra o céu. Tinha suposto que era um velho castelo, mas agora essas paredes continham um significado muito mais sinistro.

            —O que esperamos? —perguntou ela energicamente.

            —Que anoiteça. — James apoiou a frente contra a porta, respirando profundamente—. Iremos ao cair da tarde. Quero evitar que alguém nos siga, e será mais fácil se estiver escuro.

            —Também será mais fácil que nos percamos —repôs Annie.

            —Tirei três homens dali antes que me prendessem — lhe explicou—. Posso encontrar o caminho.

            Retrocedeu olhando-a aos olhos.

            —Não tem por que vir comigo.

            —O que quer dizer?

            —Posso te buscar uma casa segura. Ainda tenho uns quantos amigos, umas quantas conexões pelo condado. Assim é como encontrei a casa no Derrymore. Posso me ocupar de que fique instalada com toda segurança antes que vá.

            —Nem pensar.

            —Fará o que te digo.

            —Esta vez não.

            —Annie, não temos por que passar por isso outra vez. Esteve de acordo em seguir minhas normas...

            —Vou contigo, James. —Esperava a discussão: a raiva fria e zombadora ou a fúria tumultuosa. Esperava que lhe desse razões, que a ameaçasse, que a tratasse com atenção, tudo o que lhe ocorresse para lhe fazer mudar de opinião.

            —Está bem —aceitou ele bruscamente—. Chegaste até aqui, assim merece chegar até o final. Mas te advirto que não vai gostar.

            —O que? As ruínas de um cárcere?

            —O que seja que encontremos ali. As almas perdidas de centenas de homens que morreram por uma causa e a verdade sobre seu pai.

            —Poderei suportá-lo.

            Seu sorriso era frio e amargo.

            —Poderá? Já veremos, Annie, já veremos.

 

            Annie nunca tinha visto um lugar tão desolado e inóspito em toda sua vida. A chuva tinha cessado justo antes do anoitecer e, embora o vento tinha começado a soprar com menos força, o frio se instalou em seu interior.

            Seguiu-o na escuridão pela estrada coberta de matagais, lutando por manter o passo. Apenas lhe tinha dirigido a palavra durante todo o dia. Limitou-se a levar a de um lugar a outro, de um bar a outro, nos que tinha bebido intermináveis xícaras de chá e fumado sem parar.

            Quando caiu a noite, ficaram no caminho para as ruínas no alto da colina.

            Annie tropeçou uma vez no chão irregular, caindo, mas desta vez James parecia que não se dava conta de que a jovem existia. Seguia caminhando pela estrada destroçada, com passo firme, seguro, e ela se pôs em pé e tinha deslocado atrás dele, tentando manter seu ritmo.

            Quando a jovem chegou ao alto da esplanada, deteve-se, buscando-o entre as paredes ruídas e as escuras pilhas de escombros. James se movia com rapidez, e ela tinha sido relegada ao esquecimento. Annie jogou uma olhada por cima do ombro. Se algum de seus inimigos seguiam buscando-os, ele estaria muito longe, muito embebido com sua busca para salvá-la. Abriu a boca para chamá-lo, mas silenciou a necessidade, o medo, sabendo que estavam sozinhos; tinha aprendido o suficiente para confiar em seu instinto.

            Dirigiu-se para James devagar, caminhando com cuidado sobre as pilhas tortas de tijolos e concreto. O vento uivava através dos muros, e se lembrou de suas palavras. Das inumeráveis pessoas que tinham morrido nessa prisão antes de tempo e na raiva que a tinha destruído. Dos fantasmas que ainda visitavam as ruínas.

            Quando era pequena, tinha visto um velho filme do Walt Disney sobre a Irlanda em que um espírito em forma de mulher chorava e chamava os mortos, cavalgando pelo céu como um demônio infernal. Sempre a tinha aterrorizado e agora a imagem lhe voltou para a mente: espíritos que avisavam sobre uma morte próxima. Acaso não soava o vento como um lamento?

            James tinha desaparecido de sua vista, e o pânico que tinha conseguido controlar a invadiu de novo. Insegura, andou uns passos e viu que estava mexendo nos escombros.

Quando chegou até ele, observou que tinha na mão um pacote escuro envolto com plástico.

            Nesse momento apareceu a lua, iluminando a paisagem com um resplendor prateado e frio. Ele olhou fixamente o pacote, e depois começou a desembrulhá-lo.

            —Como sabia onde tinha que procurar? Logo que parecia consciente de sua presença, e ela se perguntou se se lembraria sequer de que estava ali. Então James disse em voz baixa e rouca:

            —Que descanse em paz na Irlanda. —Em sua mão apareceu um marco de prata sem brilho, e uma pequena caixa negra que havia a seu lado caiu ao chão. Recolheu-a de forma ausente, e a jovem se deu conta de que era um pequeno gravador—. Aqui estava minha cela, Annie. Aqui morri. Aqui é onde abri os olhos e vi seu pai me olhando. É curioso... Pensei que era o arcanjo Gabriel que tinha vindo me buscar para meu descanso eterno. —Sua voz tinha um acento ligeiramente zombador—. O que não imaginava que em realidade era Lúcifer, o anjo caído. O Mal.

            —James...

            Ele deu de ombros.

            —Não lhe culpo pelo que eu era. Isso já tinha ficado inscrito em pedra. —Sustentava o gravador à luz da lua—. Quer escutá-lo, Annie? A voz de seu pai da após a morte, suas últimas palavras a seu discípulo favorito?

            Não desejava ouvir. Ele a tinha prevenido a respeito da verdade, e a jovem lhe tinha respondido que estava preparada. Mas agora que tinha que enfrentar à realidade, estava morta de medo.

            —Sim — respondeu.

            Ele ligou o aparelho. A pesar do tempo transcorrido desde que o pacote foi escondido as pilhas ainda funcionavam, e a elegante voz do Win acudiu flutuando sobre a paisagem deserta e banhada pela luz da lua:

            —James, meu querido moço — Ouvir a voz de seu pai fez com que Annie sentisse vontade de chorar—, quando escutar isto já estarei morto e as coisas não se desenvolveram da maneira que eu tivesse esperado. Não tenho nenhuma dúvida de que será você quem encontra o marco do quadro e tudo o que contém. Tampouco tenho alguma dúvida de quem e o que terei visto em meus últimos instantes de vida. Sempre te quis como a um filho. Não podia ter desejado outra coisa.

            Annie deve ter vindo contigo. Esperava que não fosse necessário, mas sabe quão cuidadoso sou para os detalhes. Ela está em perigo, e acudiu para que a ajude.

            Trata-a igual à mim antes de que o façam outros. Com delicadeza e respeito, atendendo a suas necessidades. É tudo o que posso te pedir. Que não seja doloroso.

            O marco contém as respostas. Sei que suspeitava minha traição, mas de certa maneira, querido James, ainda há um pouco de bondade em ti. Não queria enfrentar a tudo o que eu estava fazendo. Meus outros tutelados não conheciam a moralidade. Em troca, você possui um estranho tipo de decência, um sentido da honra que é estranho de encontrar e de uma vez bastante problemático.

            Faz que a informação chegue a Washington. Traíram-me apesar de que estava disposto a deixar tudo. Mas se você está escutando esta mensagem, significa que as coisas foram mau e que já não desejo lhes facilitar o caminho. Quero que caiam comigo.

Se ocupe disso, James. Como o fez comigo. Sem a ternura que mostrou quando me matou.

            A cinta continuou em silencio durante uns instantes mais. Depois James se voltou para olhá-la à luz da lua. Era muito para ela. Nem sequer podia mover-se.

            A ironia deveria havê-la feito rir, mas se encontrava além da emoção. Tinha procurado James em busca de ajuda para encontrar à pessoa que tinha matado a seu pai. Tinha se colocado nas mãos se seu assassino procurando ajuda.

            Deitou-se com ele. Tinha-lhe aberto seu coração, sua alma, seu corpo. Levou-se tudo, como o mesmo James lhe tinha prevenido. E não tinha deixado nada mais que alguém quebrada vazia que esperava que terminassem com ela.

            —Annie... —disse ele brandamente—. Te avisei de que você não gostaria da verdade, não?

            —Sim. —Uma longínqua parte dela estava assombrada de ter voz. Então ele lançou o gravador longe com força. Rompeu-se contra um montão de pedras, partindo-se pela metade, fazendo saltar a fita sob a luz da lua como respingos de sangue.

            O vento uivava a seu redor, como a voz de milhares de espíritos da morte, e empurrava o escuro cabelo do James para a cara, ocultando a indiferente dor que se lia nela. Quando estendeu a mão para Annie, ela a aceitou. Não havia nenhum lugar que escapar.

            Havia um carro estacionado em um estreito beco da pequena cidade. Forçou-o com tanta facilidade como se estivesse utilizando uma chave, pôs em marcha o motor fazendo uma ligação direta, e esperou que a jovem se sentasse a seu lado. Parecia não ter nenhuma dúvida de que o faria.

E assim foi.

            —Prenda o cinto de segurança, Annie — lhe ordenou.

            Sentiu vontades de tornar-se a rir ante a ironia da situação. Ia matar-la igual tinha matado a seu pai. Faria-o como Win lhe tinha pedido, rapidamente, sem dor, sem pensar duas vezes, mas queria que colocasse o cinto de segurança.

            Obedeceu quase sem pensar. Suas emoções tinham decidido hibernar em algum lugar escuro e silencioso onde tudo estava em paz. Observava como conduzia, seu perfil desumano, e sentiu uma curiosidade repentina e latente.

            —Por que esperaste tanto tempo? —perguntou—. Por que me manteve a seu lado?

            —Porque, embora você não soubesse, foi a chave para todas as respostas.

            Ela assentiu, compreendendo suas razões. Sua utilidade terminou. O Dr. Morte não precisava consertar uma entrevista esta vez. A paciente tinha se apresentado por si mesma.

            Levou-a ao campo, para a escuridão, e um débil espírito começou a reviver em seu interior:

            —Como vais fazer? —inquiriu em voz baixa.

            Ele guardou silêncio durante um momento.

            —Não tinha pensado muito.

            —Prefere algum método em particular? —insistiu—. Disparas às pessoas na nuca e joga seu corpo na sarjeta? Isso estaria bem. Quando me encontrassem edentificassem, já estaria de volta nos Estados Unidos.

            —Pode que ser que não lhe encontrem — assinalou-o.

            —Isso não me tinha ocorrido. Não me sentirão falta muitas pessoas. Meu pai me tinha bastante isolada. Nunca aprendi a fazer amigos de verdade. Não acredito que muita gente se dê conta de que já não estou viva. Martin sim. Terá que inventar algo para explicar-lhe Poderia ter estado falando de receitas ou de tipos de interesse.

            —Sim —assentiu James com voz opaca—. Martín se dará conta.

            —Ontem à noite foi muito eficaz com a faca — continuou forçando-se a seguir—. Preferiria que não o utilizasse comigo, entretanto. Suponho que demorará mais. Doerá mais. E eu não gosto do sangue.

            —De acordo —disse ele com tom indiferente—. Nada de facas.

            —Tampouco gostaria muito que me estrangule — acrescentou com voz tranqüila.

            —Nunca gostei dessa técnica. Além disso, acostuma demorar muito.

            Poderiam ter estado falando de receitas ou de tipos de interesse.

            Annie suspirou com alívio.

            —Isso está bem. Né... James? Tampouco quero amputação. Horrorizam-me essas coisas. Às vezes penso que me decapitaram em outra vida.

            Ele a olhou um momento. Suas grandes e elegantes mãos se apoiavam com indiferença sobre o pequeno volante do carro roubado.

            —E quem foi, Annie? Maria, rainha da Escócia? Ana Bolena?

            —Não —respondeu em voz muito baixa—. Tão somente uma dama de companhia que foi apanhada nas tramas maquiavélicas de outros.

            Na boca masculina se desenhou um sorriso frio e irônico.

            —Então, tampouco amputação. Alguma outra petição?

            —Como morreu meu pai? Empurrou-o pelas escadas?

            Ele desviou o olhar enquanto seu perfil se mantinha neutro. Durante um instante não pronunciou palavra, limitando-se a conduzir.

            A lembrança foi a sua mente, tão rápido, seguro e claro como se tivesse sido ontem. Tinha mantido na escuridão durante muito tempo, mas não havia maneira de escondê-lo. Podia jogar a vista atrás com fria exatidão, sabendo o que fez o que tinha que fazer. E que o faria de novo se tivesse que fazê-lo.

            Win Sutherland sempre tinha vivido bem. A casa no Georgetown era um testamento de seu bom gosto e de suas severas exigências. Cada móvel, cada quadro, cada inútil cinzeiro de prata, tinha sido eleito com exatidão, como complemento para seu rigorosamente controlado estilo de vida.

            Tudo o que rodeava a Win Sutherland, da cristaleira, até sua única filha, passando por seus amigos, era um acessório cuidadosamente planejado. Seu domínio tinha sido exercido com suavidade mas de forma inexorável, e tinha incluído inclusive o momento de sua morte.

            James tinha obedecido as ordens como sempre fazia. Quase nunca tinha sido capaz de negar nada a Win, e aquela noite entre todas as noites, teria sido impossível. A casa do Georgetown estava tranqüila e silenciosa, e quase todas as luzes estavam apagadas. Win o esperava na biblioteca de painéis de cerejeira, com uma taça de conhaque na mão, e uma pequena mesa posta para dois, completada com candelabros e reluzente cristaleira Waterford.

            Estava sentado junto ao fogo, impecavelmente vestido com uma jaqueta de casimira, com seu cabelo prateado penteado para trás, retirado do rosto sem uma ruga, e o olhar de seus olhos azuis tinha sido amável e afetuoso.

            —Sabia que podia contar contigo, James — saudou—. Sirva-se uma taça.

            Assim o tinha feito, sem palavras pela primeira vez nos quase vinte anos durante os que tinham aprendido a conhecer e a amar a Win Sutherland. Sentou-se na poltrona de couro que havia em frente, estirando-se, mantendo seus músculos relaxados, preparados.

            —Comeremos em uns minutos. Pedi ao René que cozinhasse massa antes de que partisse. Lembra-te da primeira vez que a comemos juntos? Foi em Veneza. Estávamos procurando o Arnold e o encontramos.

            —Sim — respondeu James. Arnold Catablanco tinha sido seu primeiro objetivo fora do exército. Um cruel membro da Brigada Vermelha que tinha estado evitando a Interpol durante anos. Win lhe tinha guiado até ele, tinha-lhe visto lhe partir o pescoço, e depois se foram a celebrá-lo comendo massa acompanhada de um bom vinho italiano.

            —Deveria ter sido meu filho, James — comentou Win como que meditando, olhando fixamente sua taça de brandy—. Sabe? Queria que tivesse ficado com Annie. Faz anos acreditava que era a opção perfeita. Poderia ter se casado com ela, e então lhes teria tido aos dois.

            —O que te fez mudar de opinião?

            —OH, umas quantas coisas — respondeu como sem lhe dar importância—. Você poderia ter sido muito para ela. Estava melhor com o Martin. Alguém com um caráter mais tranqüilo, mais fácil de dirigir.

            —Não crê que eu seja fácil de dirigir? —permitiu-se um matiz de amargura.

            —Não, você não, querido moço. Nunca cometi o engano de te subestimar. Você sempre foste minha maior provocação, minha estrela mais brilhante, meu filho favorito. Se pudesse te enganar, podia enganar a qualquer. E o fiz.

            —Sim. Fez — concordou James.

            Win esvaziou de um gole a taça.

            —Comamos antes que se esfrie — disse suavemente, ao tempo que se levantava—. Queria desfrutar deste jantar de uma maneira especial.

            A mesa estava posta de forma deliciosa: o perfume das rosas se mesclava com o persistente aroma do bom vinho e a excelente comida. Win Sutherland sempre tinha sido um professor da manipulação. Conseguiu que James se sentisse como se os anos não tivessem passado, como se ele ainda fosse um jovem esperançoso uma vez mais, e seu mentor tivesse aparecido de repente em sua vida e lhe tivesse ensinado como podia salvar o mundo e cumprir sua penitência ao mesmo tempo.

            O preço era tão pequeno... Tão somente uma alma que já tinha perdido.

            Mas, anos depois, já tinha se esquecido de salvar ao mundo. O jantar terminou, seguida por um expresso e uma pequena taça de amaretto.

            —Não deveria beber café de noite. —Win lhe dirigiu um suave sorriso—. Não me deixa dormir. Mas suponho que já não tenho que me preocupar por isso.

            James o olhou fixamente com vontade de gritar.

            —Não —disse—. Não terá que preocupar-se por isso esta noite.

            Win assentiu.

            —Demos um passeio, o que te parece? Faz uma noite esplêndida. Não te importa, não, Jamey?

            Só permitia a Win que lhe chamasse Jamey.

            —Não, não me importa.

            Caminharam pelo perímetro da propriedade em um cômodo silêncio, pois se conheciam muito bem para ter que falar. Subiram pelas escadas exteriores até o alpendre do segundo andar e quando chegaram lá em acima, Win se voltou para olhá-lo envolto na prateada luz da lua.

            —Não vai perguntar por que, James? —murmurou brandamente.

            Não. A verdade é que não quero saber.

            Win sorriu.

            —Sempre me surpreende. Oxalá tudo tivesse sido de outra maneira.

            —Oxalá.

            —Me alegro que seja você, sabe? —reconheceu com voz baixa e tranqüilizadora—. Te quis mais que a ninguém. —Fez uma pausa—. Ponha as mãos no meu pescoço e faz.

            Ficou imóvel durante uns segundos olhando os olhos de seu mentor, a seu pai.            Então Win estendeu os braços e lhe agarrou as mãos com carinho as levando até seu enrugado pescoço.

            —Utiliza suas mãos, Jamey. Faz. Faz agora.

            James o fez; rompeu-lhe o pescoço, matando-o instantaneamente.

 

 

            Sua voz lhe chegou de uma distância fria e mortal, quando a jovem quase se esqueceu do que tinha perguntado.

            —Rompi-lhe o pescoço, Annie. Como ele sabia que faria. Depressa, sem dor, eficazmente.

            Ela absorveu suas palavras em silencioso horror.

            —Então, se não te importar, também eu gostaria de morrer assim —lhe pediu educadamente, como uma menina pequena que estivesse pedindo um doce.

            —Verei o que posso fazer. —Não havia forma de não notar o matiz selvagem que se ocultava em sua voz, enquanto girava o volante para dirigir-se para um pequeno e iluminado edifício.

            Segundos depois, estacionou o carro.

            —Este lugar parece bastante isolado. Perguntarei se houver habitações. —Abriu a porta e se voltou para olhá-la—. Pode escapar se quiser. A lua se ocultará logo; é possível que não consiga te encontrar.

            —Esperarei —respondeu ela.

            James sorriu fria e brevemente, e desapareceu no motel, deixando o carro em marcha.

            Teria sido muito fácil para ela saltar ao outro assento e sair disparada em meio da noite deixando-o ali. Nunca tinha conduzido um carro britânico, mas as estradas eram estreitas e se encontravam vazias e era muito provável que conseguisse sobreviver.

            Mas sabia que ao final alguém a apanharia. Possivelmente a pessoa que tinha matado ao Clancy ou alguém como os que tinham ido por ela a noite anterior. Não podia confiar em que Martin a salvasse. Não podia contar com ninguém.

            Não se moveu. A única pessoa que era capaz de protegê-la era James. Se ele ia ser quem acabasse com ela, que assim fosse.

 

            Desejava matá-la. Queria fazer exatamente o que lhe havia dito que não faria: estrangulá-la.

            Nunca havia se sentido tão furioso; a raiva invadia seu sangue como lava fervendo.     Quando tinha visto o motel se sentiu agradecido de poder sair do carro, de poder afastar-se dela antes de perder o controle por completo.

            Levou alguns minutos para notar o frio e cortante ar da noite, e dar-se conta da ironia que encerrava tudo. Estava furioso com ela por acreditar que seria capaz de assassiná-la.

            A idéia de que possivelmente teria que matá-la tinha estado presente em seu pensamento desde que tinha aparecido na porta de sua casa como um sonho longínquo.

E apesar de tudo, a calma com que ela aceitava o inevitável... o modo em que o olhava com esses malditos olhos cúmplices, pensando que ele era capaz de lhe fazer amor uma noite e estrangulá-la na outra...

            O caso é que podia fazê-lo, recordou a si mesmo. Era um bode desumano, e Annie o tinha comprovado. Mataria-a porque não ficava outra solução. Era uma penitência apropriada que ela o olhasse com esses olhos cativantes sabendo o que ia passar.

            Quando retornou, ainda o esperava, tal e como ele supunha.

            —Não há quase ninguém — disse subindo no carro—. Lhes pedi que nos dessem uma habitação sobre a garagem. Assim não nos incomodará ninguém.

            —Bem —repôs ela fracamente.

            James desejava que gritasse que lhe perguntasse como podia ser um monstro sem alma.

            —Pensam que necessitamos solidão para poder transar sem nenhum tipo de repressão.

            —Como se surpreenderiam... —murmurou a jovem—. Diga James, em algum momento foi incapaz de fazê-lo? Houve alguma vez que as ordens lhe resultaram tão repugnante que não conseguiu cumprir, que não ficou dura, por assim dizer?

            —Não — respondeu ele.

            —E transar comigo não te influi no mais mínimo? —insistiu.

            —Não — repetiu James.

            —A verdade é que nestes momentos só lamento uma coisa. — Sua voz continha um matiz irônico.

            James esperou que derramasse sobre ele todo seu ódio, seu rancor, seu medo.           Esperava-o com uma espécie de desejo retorcido. Mas ela não disse nada, o que lhe obrigou a perguntar:

            —O que lamenta, Annie?

            —Que estou a ponto de voltar a ver meu pai. Não gosto especialmente — respondeu ela com a frieza do gelo.

            As tinha arrumado uma vez mais para surpreendê-lo.

            —Tranqüila, Annie. Estou seguro de que você não irá parar no mesmo lugar.

 

            A habitação era pequena e acolhedora, e a estufa de gás lançava quebras de onda de calor para a tenebrosa noite. Uma cama de casal preenchia o centro, e o vento uivava fora como milhares de almas perdidas. A jovem observou como James acendia as luzes na escuridão que reinava, como se movia com calma, com fria elegância.

            Ele a tinha pego pelo braço de forma solícita enquanto a levava até a habitação situada sobre a garagem do velho motel. Tinha-a instalado comodamente no sofá, e a tinha abrigado com uma manta ao ver que tremia, incapaz de controlar-se. Acendeu o fogo, lhe falando em um tom suave e tranqüilizador sobre sua infância na Irlanda, sua mãe, tenra e trabalhadora, que possuía um temperamento de ferro e uma fé ainda mais forte.

            Annie se limitava a escutar, sem logo acreditar que o que estava acontecendo era real.

            —Pedi que nos tragam o jantar — disse James—. E uma garrafa de vinho decente. Ajudará a te relaxar.

            —Estou tranqüila — assegurou ela, e curiosamente, era verdade. Não sentia nenhuma ansiedade nem impaciência. Simplesmente estava esperando que ele pusesse as mãos em seu pescoço, como sabia o que faria.

            James ligou o rádio. A música era irlandesa, suave e agradável. Embriagadora. A morte se estendia por toda a Irlanda, havia dito ele. E Annie podia escutar aos espíritos que pressagiavam a morte através da janela, chamando-a, esperando-a.

            James abriu a porta à garçonete, negando-se a deixá-la entrar para deixar a comida. Annie supôs que não queria que houvesse nenhuma testemunha que pudesse identificar seu corpo quando o encontrassem. Não lhe importou. Enquanto ele punha a mesa, abria a garrafa de vinho e lhe servia uma taça, ela seguiu sentada com tranqüilidade na acolhedora habitação. Ajudou-a a levantar da poltrona e suas mãos lhe roçaram brandamente ao lhe sustentar a cadeira para que se acomodasse.

            O vinho era seco e delicioso.

            —Você não quer? —perguntou-lhe ao dar-se conta de que ele não tocava sua taça.

            —Não bebo quando tenho trabalho pela frente — lhe recordou James.

            Se Annie não lhe tivesse conhecido, teria pensado que se estava burlando dela.

            —Muito razoável por sua parte — murmurou—. Quero que faça o melhor trabalho de sua vida.

            —Isso é o que tenho pensado. Come, Annie. Não há nada como o cordeiro irlandês.

            Comeu. Curiosamente tinha bastante apetite para ser seu último jantar. Também bebeu; o gosto do James em matéria de vinhos parecia rivalizar com o de seu pai, e o brandy que lhe seguiu era suave e lhe vigoraram.

            Possivelmente não tinha sido muito inteligente por sua parte beber vinho e brandy, mas já não se preocupava por isso. Olhou por cima do prato a James, a sua comida sem provar.

            —Recorda um vampiro — comentou.

            —Por quê?

            —Nunca come. E te alimenta do sangue dos inocentes aos que mata.

            —Você é inocente, Annie?

            —Ainda não estou morta —lhe espetou ela, dando-se conta de que seu temperamento habitual estava retornando.

            —É certo.

            —A quantas pessoas mataste, James?

            —Já te disse que não me lembro.

            —A quantas pessoas vais matar?

            —Além de ti? Não sei. Às que deva, suponho.

            Annie observou seu escuro e austero rosto, seus olhos sombrios, e se deu conta de que tinha olheiras. Durante o tempo que tinham passado juntos parecia ter envelhecido.

ficou em pé e os pratos se cambalearam. Estava um pouco bêbada, supunha, mas dadas as circunstâncias, tinha direito a está-lo.

            —Faça pediu—. Os jogos preliminares me parecem que estão de mais nestas circunstâncias. Faz e se acabou.

            Sem dizer mais, ficou de joelhos com a cabeça baixa, esperando-o.

            Notou que se movia, que sua sombra a cobria. Fechou os olhos, sentindo que as lágrimas iam a seus olhos com facilidade, e as odiou tanto como a ele.

            James se ajoelhou frente a ela e lhe passou uma mão pelo pescoço, sob o cabelo. Jogou-lhe a cabeça para trás sem nenhum esforço, de maneira que a jovem não ficou mais remédio que olhá-lo, enquanto aquelas malditas lágrimas sulcavam suas bochechas. Curiosamente, não sentiu nenhum medo quando lhe devolveu o olhar, enquanto suas mãos a tocavam, acariciavam-na, preparavam-se para acabar com tudo.

            —As últimas palavras da desafortunada dama de companhia? —murmurou James ainda zombeteiramente. Secou-lhe as lágrimas com o polegar, mas ela não duvidava que a enorme mão que seguia lhe sustentando o pescoço podia cumprir sozinha com a tarefa.

Milhares de gritos de raiva e desespero lutavam por abrir-se desde seu interior. Mas só pôde dizer uma coisa.

            —Quero-te, James.

            Ele apertou os dedos como em um ato de reflexo, e ela sentiu que tudo começava a obscurecer-se. Respirou profundamente, ficando imóvel, só para encontrar-se saindo voando pelos ares e caindo sobre o chão de madeira onde ele a tinha jogado. James se encontrava em meio da habitação, respirando com dificuldade, olhando-a como se quisesse fulminá-la.

            —Deveria te matar e se acabou — gritou com fúria—. Maldita filha de puta, se tivesse um pouco de bom censo te cortaria o pescoço e faria que tudo isto terminasse.

            Olhou-o emocionada, incapaz de mover-se, inclusive quando se lançou para ela tão rápido que logo que pôde vê-lo e a agarrou entre seus braços, estreitando-a fortemente contra ele.

            —Maldita seja, maldita seja, maldita seja — murmurava em uma rajada de palavras que já não soavam nem irlandesas nem texanas: era pura dor—. Não posso permitir que me faça isto.

            —O que, James? —sussurrou a jovem, afligida pela comoção e a confusão. Tinha estado a ponto de morrer. Tinha estado disposta a morrer nas mãos dele. Mas não estava segura de que estivesse preparada para seguir vivendo.

            Ele não lhe respondeu. Simplesmente enrolou suas mãos em seus cabelos, abraçando-a de maneira que Annie pôde percebeu como tremia.

            Não sabia o que fazer e, sem pensar, levantou os braços, rodeando suas amplas costas. Seu medo e sua aceitação se desvaneceram; estava viva de novo, cheia de uma fúria escura e banhada pela lua.

            Ele tentou separar-se da jovem, afastar-se dela, mas as emoções de Annie se transbordaram e lutou com uma força nascida do desespero, negando que ele partisse. James a empurrou e ela caiu para trás arrastando o abajur a seu passo, e deixando a habitação em trevas, iluminada tão somente pela fria luz prateada da lua irlandesa.

            —O que acontece, James? —inquiriu ofegando e com tom áspero—. Não pode fazê-lo? É diferente quando se trata de alguém a quem conheceste quase toda sua vida? É mais difícil matar a alguém com quem tenha feito amor? Ou é simplesmente porque sei o que vais fazer e não pode suportar vê-lo em meus olhos?

            —Não posso suportar sua língua de víbora — espetou ele sem tentar aproximar-se.

            —Então acaba sua tarefa — provocou Annie—. Mataste por mim. Mataste ao homem que era um pai para ambos e que nos traiu. Por que não termina com tudo?

            —Se não te calar — lhe advertiu sem piedade—, farei-o.

            —Faz! — ficou em pé e cruzou a habitação.

            James não se moveu quando chegou até ele, mas a raiva de Annie era muito intensa para que o medo fosse se interpor de novo. Olhava-a sem dissimular sua fria fúria, e ela soube que se não lhe levava até o limite nesse instante, até a borda mesmo do abismo, nunca estaria a salvo.

            —Não tenho medo — assegurou sem que sua voz vacilasse.

            —Prova-o.

            Ela ficou imóvel. Havia tanto em jogo... mais que a vida ou a morte, mais que o amor ou a redenção. Lutavam por suas almas.

            —O que quer de mim?

            —Você disse que me quer? Prova-o. Tome em sua boca, Annie, prova meu sabor. Agora.

 

            Ela odiava o sexo oral. Gostava de fazer amor na escuridão, e cada um de seus amantes tinha sido cuidadosamente programado por seu pai para ser justo o que ela esperava.

            Olhou ao homem que podia matá-la, que podia destroçá-la muito mais facilmente se fosse ele quem morresse, e posou suas mãos no largo cinturão de couro que levava ao redor da cintura, tocando com estupidez a fivela de metal.

            Ele não se moveu. Deixou que lutasse com a fivela e que liberasse o couro das fivelas de seu descolorido jeans negro.

            A jovem sentia seu corpo duro e quente sob as mãos. Fora, os espíritos da morte sussurravam, Annie Sutherland ficou de joelhos frente a ele deslizando suas mãos trementes sob a camiseta negra.

            Sua pele era suave, cálida, sedosa. Inclinou-se um pouco e beijou os músculos de seu estômago, mordiscou-lhe, comprovou com sua língua seu sabor salgado e a masculinidade.

            Olhou para cima, esperando aprovação, uma reação, mas James se limitava a estar ali parado, olhando por cima de sua cabeça, com as mãos aos lados enquanto ela se achava ajoelhada a seus pés.

            Sentindo-se vencida, sentou-se sobre as pernas. Então ele a olhou.

            —Segue Annie — ironizou—. Demonstre quanto me quer.

            Sentiu vontade de socá-lo.

            —Tire a camiseta — lhe ordenou a jovem com voz áspera.

            Para seu assombro, obedeceu-a e atirou o objeto para um canto. Depois apoiou as costas contra a parede, observando-a uma vez mais.

            Não posso fazê-lo, pensou Annie deixando cair às mãos sobre o colo. Não pode esperar que eu faça isto. Não quero...

            —Mudou de opinião? — seguiu ironizando.

            —É um exame? — espetou-lhe com fúria.

            —A vida é um exame, Annie. E está a ponto de suspendê-lo.

            —E se conseguir fazê-lo?

            —Então te deixarei partir. Quando estiver de volta aos Estados Unidos, pode contar o ocorrido aos jornais antes que Carew consiga te apanhar. Já tem suficientes problemas com os antigos companheiros de seu pai, mas a gente como Carew não vai gostar que os meios de comunicação saibam de toda esta sórdida história.

            —Então, por que me diz que o faça?

            —Porque está tentando te fazer calar antes que consiga. Uma vez que fale com o suficiente número de pessoas, será muito tarde.

            —Carew sabe que foi você quem acabou com meu pai?

            —Todos sabem, Annie. De fato foi ele quem deu a ordem.

            —E você lhe obedeceu?

            —Quer desculpas? Razões?

            Não —respondeu. Ainda estava de joelhos, olhando-o na escuridão. Podia levantar-se, retroceder e afastar-se dele. A morte se foi sem ela. James não lhe faria mal, deixaria-a partir.

            E precisamente por isso não podia ir-se. Decidida, levantou as mãos e lhe desabotoou o botão de metal de seu jeans.

            Ele continuou sem mover-se para tocá-la. Não podia distinguir sua expressão, por causa da tênue luz da habitação, mas sentia a tensão da espera em seu corpo. Igual podia ver o inconfundível vulto que havia sob o zíper das calças.

            Tocou-o. Colocou a mão sobre ele, deixando que as gemas de seus dedos se deslizassem sobre o tecido. James não se moveu, mas sua carne se sacudiu contra sua mão.

            Inclinou-se para diante e pressionou a face contra sua ereção. Ele não deixou escapar nem um só som, mas a jovem sentiu como tomava ar com brutalidade.

            Fê-la sentir-se estranhamente poderosa. Estava provando, jogando com seus medos, mas estava perdendo a partida. O corpo do James se excitava cada vez mais, esticando-se contra ela e, sem dar-se tempo para pensar, a jovem deslocou o rosto para pressionar a boca contra seu membro.

            Logo que foi um som. Um murmúrio afogado, rapidamente sossegado, mas foi suficiente. O triunfo e o desejo invadiram Annie. Sentou-se, olhando a mancha úmida que sua boca tinha deixado sobre o jeans.

            —Muito bem —disse ele arrastando as palavras a propósito, com seu acento texano—. Aprovada, Annie. Quer-me o suficiente para obrigar a você mesma a realizar atos que a aborrece. Ou possivelmente temia muito à morte. Mudei de opinião.

            Ela o ignorou e começou a lamber a abertura que havia na parte superior de suas calças, provando de novo o sabor de sua cálida carne.

            —Annie, deixa-o! —exclamou, substituindo o acento de seu tom de voz pela tensão     —. Já te disse que não quero que faça.