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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


PECADOS MORTAIS / Alex Kava
PECADOS MORTAIS / Alex Kava

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

PECADOS MORTAIS

 

Em 17 de julho, Ronald Jeffreys, condenado pela morte de três meninos, é executado. Mas, antes de levar para o túmulo uma verdade terrível, ele a revela em confissão.

Três meses depois, um quarto cadáver é encontrado com marcas idênticas às das três vítimas de Jeffreys.

Será que há um assassino copiando o estilo de Jeffreys para despistar a polícia? Ou teria sido condenado à morte o homem errado?

Nick Morrelli, xerife de Platte City, pequena cidade em Nebraska onde ocorrem os crimes, não tem à sua disposição recursos suficientes para investigar o caso. Sua equipe é pequena e limitada. E ele mesmo sente que precisa de apoio especializado.

Então, o FBI envia a agente Maggie O’Dell, especialista em traçar o perfil psicológico de assassinos psicóticos. Aos poucos, Maggie começa a identificar as principais características do criminoso.

Quando uma nova vítima é encontrada morta, e outra, raptada, Nick e Maggie percebem que o tempo está contra eles. Pior: que uma terrível verdade terá de ser revelada, colocando em dúvida a culpa de Jeffreys.

 

Penitenciária do Estado de Nebraska

Lincoln, Nebraska

Quarta-feira, 17 de julho

— Perdoa-me Pai, por eu ter pecado. — Áspera e monótona, a voz de Ronald Jeffreys fez da frase mais um desafio do que uma confissão.

O padre Stephen Francis olhava fixamente para as mãos do penitente, impressionado com os dedos curtos e grossos, de nós grandes e unhas roídas até o sabugo. Os dedos torciam... não, estrangulavam... a bainha de sua camisa azul, parte do uniforme de presidiário. O velho padre imaginava aqueles mesmos dedos torcendo, sufocando, tirando a vida do garoto Bobby Wilson.

— É assim que começamos?

A pergunta de Jeffreys assustou o padre.

— Assim está ótimo — respondeu imediatamente.

Suadas, as palmas das mãos do padre grudavam no couro da capa da Bíblia. A gola da camisa ficou de súbito mais apertada. A cela destinada à última oração antes da execução não tinha ar suficiente para os dois homens, comprimidos pelas paredes cinzentas de concreto. Só havia uma pequena janela. O cheiro azedo de pimentão e cebola enjoava o padre. Ele passou os olhos pelos restos da última refeição de Jeffreys, bordas de pizza e manchas de água tônica. Uma mosca zumbia sobre as migalhas do que havia sido uma fatia de bolo.

— E agora? — perguntou Jeffreys.

Padre Francis não conseguia pensar. Não sob o olhar destemido de Jeffreys. Não com o barulho que fazia a multidão lá embaixo, do lado de fora do presídio. Os refrões ficavam mais altos com a proximidade da meia-noite e à medida que o álcool fazia efeito. Era uma celebração amargurada, uma desculpa mórbida para uma confraternização ao ar livre.

— Frita! Frita! — repetiam as pessoas, como se entoassem um verso infantil ou um canto de torcida. Melódico e contagiante. Repugnante e assustador.

Jeffreys, no entanto, parecia não se abalar com o barulho.

— Não tenho certeza se me lembro como isso funciona. E agora? Sim, e agora? Deu um branco na cabeça do padre Francis. Meio século de confissões e, de repente, aquele branco.

— Os pecados — desatou o nó na garganta. — Conte-me os seus pecados.

Jeffreys hesitou. Enrolou a ponta da camisa no indicador e apertou até que o próprio dedo inchasse e ficasse vermelho. O padre espiava o homem esparramado na cadeira. Não era o mesmo homem das fotos granuladas de jornal ou das rápidas aparições na tevê. Barbeado e com a cabeça raspada, Jeffreys parecia desmascarado, quase um garoto malcomportado, mais jovem do que deveriam mostrar seus 26 anos. Engordara durante os seis anos no corredor da morte, mas ainda guardava o ar de menino. O padre ficou triste por saber que aquele rosto de garoto não viveria a ponto de ter rugas. A melancolia durou até Jeffreys mirá-lo de novo com os olhos azuis. Uma tonalidade fria de azul, como a de um vidro, vidro cortante, vago e transparente. Sim, é essa a cor da maldade. O padre piscou e virou a cabeça.

— Diga-me os seus pecados — repetiu, dessa vez desapontado com o tremor de sua voz e mal conseguindo respirar. Teria Jeffreys sugado todo o ar de propósito? Pigarreou e esclareceu: — Os pecados dos quais você esteja verdadeiramente arrependido.

Jeffreys encarou-o e, sem nenhuma insinuação, soltou uma gargalha­da. Padre Francis deu um salto, e o condenado riu ainda mais alto. O padre segurou sua Bíblia com os dedos trêmulos, atento às mãos do penitente. Por que havia aceitado que o guarda tirasse as algemas? Nem Deus poderia salvar aquele insano. O suor escorria pelas costas do padre. Pensou em fugir antes que Jeffreys percebesse que não tinha nada a perder com um último assassinato. Lembrou-se, porém, que a porta estava tran­cada por fora. A gargalhada do preso cessou tão subitamente quanto começou. Silêncio.

— O senhor é como todos eles. — A acusação em voz rouca veio de um lugar profundo e já morto de Jeffreys. Ele sorria, mostrando os dentes pequenos e pontiagudos, os incisivos maiores do que os outros. — Está esperando que eu confesse alguma coisa que eu não fiz. — Rasgou a parte de baixo da camisa em tiras finas, um ruído desagradável e duradouro.

— Não estou entendendo o que você quer dizer. — Padre Francis afrouxou o colarinho. Suas mãos tremiam. — Pensei, quando você pediu a presença de um padre, que gostaria de se confessar.

— Sim... sim, eu quero. — A voz monótona e fria estava de volta. Jeffreys titubeou, mas apenas por um breve momento. — Eu matei Bobby Wilson — disse ele, calmo como se estivesse pedindo um sanduíche para viagem. — Coloquei minhas mãos... meus dedos em volta do pescoço dele. Primeiro, o garoto balbuciou, tossiu, como se fosse vomitar, depois, silenciou. — Na voz abafada e contida, quase técnica, desenvolvia-se um discurso ensaiado. — Ele se debateu só um pouco. Um solavanco apenas. Acho que ele sabia que estava morrendo. Não lutou muito, nem mesmo quando fodi com ele. — Jeffreys parou, observou o padre Francis, buscan­do um sinal de choque, e sorriu ao encontrá-lo. — Esperei ele morrer para meter nele. Ele não sentiu nada. Meti de novo, de novo e de novo. Então, fodi com ele pela última vez. — Jeffreys virou a cabeça para o lado, subitamente distraído. Teria finalmente percebido a festa lá fora?

O padre esperou. Teria sido a batida acelerada de seu coração que o distraíra? Lembrando uma imagem de Poe, o coração parecia querer rom­per seu velho peito e, tal como as mãos, desmascarava seu nervosismo.

— Já confessei uma vez — continuou Jeffreys. — Logo depois que aconteceu, mas o padre... Vamos dizer que o padre ficou um pouco surpreso. Agora, estou confessando para Deus, o senhor entende? Estou confessando que matei Bobby Wilson. — Ele continuava rasgando a camisa, agora em movimentos repentinos e exaltados. — Mas não matei os dois outros garotos. O senhor ouviu? — Sua voz se elevara. — Eu não matei Harper nem Paltrow.

Jeffreys calou-se por uns instantes e, então, sorriu de forma sarcástica.

— Mas isso Deus já sabe. Não é, padre?

— Deus sabe a verdade — respondeu padre Francis, tentando enxer­gar dentro dos olhos frios e azuis, mas logo vacilou e desviou o olhar. O que aconteceria se a culpa do próprio padre se revelasse ali de alguma maneira?

— Eles querem me executar porque pensam que eu sou uma espécie de serial killer que mata garotinhos. — Jeffreys mantinha os dentes trinca­dos. — Matei Bobby Wilson e desfrutei do que fiz. Talvez eu mereça morrer mesmo por isso. Mas Deus sabe que não matei os outros garotos. Em algum lugar lá fora, padre, ainda há um monstro. — Outro sorriso irônico. — E ele é ainda mais terrível do que eu.

O barulho de metal chocando-se com metal no corredor assustou padre Francis, que deixou a Bíblia cair no chão. Dessa vez, Jeffreys não riu. O velho padre sustentou o olhar do preso, mas nem um, nem outro se mexeu para pegar o livro sagrado. Estariam os guardas vindo para levar Jeffreys? Parecia muito cedo. Por outro lado, era absolutamente imprová­vel a possibilidade de uma ordem judicial de última hora que suspendesse a execução.

— Você se arrepende de seus pecados? — sussurrou o padre, como se estivesse no confessionário de sua igreja.

Os passos pelo corredor aproximavam-se da cela. Chegara a hora. Jeffreys paralisou-se na cadeira ao ouvir o ruído da marcha das botas.

— Você se arrepende de seus pecados? — insistiu padre Francis, como se desse uma ordem. Oh, meu Deus, era difícil respirar. A ladainha do lado de fora ficara ainda mais alta e forçava a passagem através da janela vedada.

Jeffreys levantou-se e, de novo, encarou o padre. O ruído do tranco para abrir as fechaduras ecoou contra as paredes de concreto. Jeffreys encolheu a barriga e estufou o peito. Estaria com medo? Padre Francis buscou indícios nos olhos dele, mas nada pôde ver além do azul metálico.

— Você se arrepende de seus pecados? — tentou o padre uma vez mais, incapaz de absolvê-lo sem a resposta.

A porta se abriu, sugando o ar que ainda havia no ambiente. Guardas parrudos bloquearam a passagem.

— Chegou a hora — informou um dos homens.

— É a hora do show, padre — ratificou Jeffreys, rangendo os dentes, os olhos azuis firmes e claros, mas vazios. Virou-se para os três homens uniformizados e lhes ofereceu os pulsos.

O rosto do padre Francis cobriu-se de dor ao estalo das algemas. Os guardas deram meia-volta e carregaram o prisioneiro. A marcha das botas se distanciou pelo longo corredor.

Uma brisa de cheiro enjoativo penetrou através da porta aberta, refres­cando a pele molhada e pegajosa do padre e lhe provocando um arrepio na espinha. Asmático, ele inspirou o ar com gula. Finalmente, os estron­dos em seu peito perderam a força. Permaneceu a dor no coração.

— Deus ajude Ronald Jeffreys — sussurrou padre Francis para nin­guém.

Pelo menos, Jeffreys falara a verdade: não havia assassinado todos os três garotos, e o padre sabia disso não porque Jeffreys lhe houvesse con­tado. Sabia porque, há três dias, o monstro sem rosto que assassinara Aaron Harper e Eric Paltrow lhe revelara o que fizera, escondido atrás da parede vazada do confessionário da igreja de Santa Margarete. Devido a seus votos sagrados, porém, padre Francis não poderia dizer o que sabia a nem uma só alma.

Nem mesmo a Ronald Jeffreys.

 

Oito quilômetros de Platte City, Nebraska

Sexta-feira, 24 de outubro

Nick Morrelli desejava que a mulher por baixo dele estivesse menos maquiada. Sabia que aquela noite não o levaria a lugar nenhum. Distraía-se com os gemidos dela. Na verdade, ela ronronava. Como um gato, a mulher roçava nele, esfregando as coxas ainda com meias nas laterais do corpo dele. Ela já estava no ponto. Ainda assim, Nick só conseguia pensar no exagero de sombra azul naquelas pálpebras. Mesmo com as luzes apagadas, a imagem seguia gravada na mente dele.

— Oh, baby, o seu corpo é tão gostoso, tão duro — ronronou ela, enquanto o acariciava nas costas e nos braços com as unhas longas.

Ele se virou antes que ela descobrisse que nem todo o seu corpo estava duro. O que havia de errado com ele? Precisava se concentrar. Nick lambeu a ponta da orelha da mulher, esfregou o nariz no pescoço dela e desceu para o que o motivara estar ali. O instinto levou sua boca a um dos seios. Ele o provocou com beijos suaves e molhados. Ela já gemia antes que a língua dele brincasse com o mamilo. Nick adorava os sons que as mulheres faziam: os suspiros curtos e, então, os gemidos baixos. Espe­rou pelos ruídos para rodear com a língua o mamilo e sugá-lo com a boca. As costas dela se curvaram para a frente, e ela estremeceu. Ele se inclinou para absorver o arrepio dela, o tremor suave daquele corpo macio contra o dele. Normalmente, isso lhe proporcionaria uma ereção. Naquela noite, nada aconteceu.

Oh, Deus, estaria perdendo a forma? Não, era muito jovem para ter esse tipo de problema. Apesar de tudo, ainda faltavam quatro anos para os 40.

Quando, neste mundo, pensou que contaria a idade tendo os 40 como referencial?

— Oooh, meu amor, não pare!

Nick nem percebera que tinha parado. Impaciente, ela gemeu e come­çou a mover os quadris para baixo e para cima, lentamente, em ritmo sensual. Sim, ela estava definitivamente no ponto. E ele, definitivamente, não. Pelo menos uma vez na vida as mulheres poderiam chamá-lo pelo nome, em vez de baby, meu amor, gostoso, essas coisas. Será que, como os homens, elas também se preocupavam com a possibilidade de gritar um nome errado?

Os dedos dela encontraram um caminho por entre seus cabelos curtos e densos, puxando-os com força, e a dor repentina o surpreendeu. A mulher agarrou-o pela cabeça e trouxe sua boca de volta para junto dos seios. A meia-luz, notou que a marquinha triangular do sutiã estava invertida. O vér­tice estava virado para a parte de baixo do seio. O que havia de errado com ele? Uma loura bonita o desejava. Por que sua reação ofegante não o excita­va? Ele precisava manter o foco. Tudo parecia muito mecânico, muito roti­neiro. O jeito era recorrer mais uma vez aos dedos e à língua. Afinal, Nick tinha uma reputação a preservar.

Começou a descer pelo corpo dela, devorando-a com beijos e mordi­das. A mulher se retorcia a cada toque. Já se revirava antes de os dentes dele puxarem a calcinha de renda. Nick abriu com beijos o caminho entre as coxas dela. De repente, um barulho imobilizou-o sob as cobertas, e ele tentou identificar o ruído.

— Não, por favor, não pare — gemeu ela, puxando-o de volta. Batidas. Alguém batia na porta da frente.

— Já volto. — Nick gentilmente livrou-se das mãos dela e deixou a cama num movimento brusco, quase tropeçando nos lençóis. Vestiu o jeans, enquanto checava a hora no relógio sobre o criado-mudo: 22h36.

Mesmo no escuro, ele sabia de cabeça todos os pontos em que os degraus da escada rangiam. Desceu na ponta dos pés, embora seus pais não morassem na velha fazenda há mais de cinco anos.

As batidas na porta ficaram mais altas e insistentes.

— Um minuto — ordenou ele, impaciente, mas aliviado pela interrupção. Ao abrir a porta, Nick reconheceu o rosto, mas não recordou o nome do filho de Hank Ashford. O garoto, de 16 ou 17 anos, era linebacker no time de futebol americano. Com o corpo que tinha, o menino podia conter ao mesmo tempo o avanço de dois ou três jogadores. No entanto, em pé diante da porta de Nick, ele se encolhia com as mãos nos bolsos, olhos excitados e rosto pálido. Tremia de frio, apesar da testa suada.

— Xerife Morrelli, o senhor tem que vir... à estrada da Igreja Velha... por favor, o senhor tem que...

— Alguém se machucou? — O ar seco e frio da noite arrepiou sua pele nua. Uma boa sensação.

— Não, não é isso... Ele não está machucado... Meu Deus, xerife, é horrível. — O garoto olhou para trás, em direção ao carro. Só então Nick viu a menina no assento da frente. Mesmo contra a luz dos faróis, ele percebeu que ela chorava.

— O que está acontecendo? — A entonação exigente de sua voz provocou no rapaz uma reação silenciosa, uma espécie de dança em que ele movimentava os braços e jogava o peso de uma perna para a outra.

Qual seria a brincadeira estúpida agora? Na semana passada, na noite anterior à festa dos ex-alunos do colégio, um grupo fez uma brincadeirinha de pega com os tratores de Jake Turner. O perdedor caiu dentro de um fosso cheio de água da chuva, e ficou preso sob o veículo. Teve sorte por não se afogar e por escapar com apenas algumas costelas quebradas. Como punição, suspensão por duas partidas do torneio de futebol ameri­cano.

— O que aconteceu dessa maldita vez? — gritou Nick para o trêmulo line backer.

— Nós encontramos... no final da estrada... no meio do mato. Meu Deus, encontramos... encontramos um corpo.

— Um corpo? — Nick não tinha certeza se deveria acreditar nele. — Você quer dizer um cadáver? — Estaria o rapaz bêbado? Sob o efeito de drogas?

O garoto balançou a cabeça positivamente, com lágrimas escorrendo dos olhos. Esfregou a manga do moletom no rosto, olhou para a garota no carro e, depois, para Nick de novo.

— Espere um minuto.

Nick voltou para dentro, deixando a porta se fechar. Era provavelmen­te a imaginação deles. Talvez tentassem pregar uma peça antecipada de Halloween. Tinham ido a alguma festa, certamente. Ambos estavam alucinados. Calçou as botas, sem meias, pegou a camisa sobre o sofá, onde a havia tirado nas primeiras horas da noite. Incomodou-o notar que seus dedos tremiam quando a abotoavam.

— Nick, o que foi?

A voz vinda do topo da escada assustou-o; esquecera-se de Angie. Fora da cama, os cabelos louros, longos e despenteados lhe cobriam os ombros. Dessa distância, mal se notava a sombra azul nos olhos. Ela vestia uma de suas camisetas, transparente à luz suave do corredor. Agora, mirando-a, Nick ficou se perguntando por que se sentira aliviado ao deixá-la.

— Tenho que sair para checar algo.

— Alguém se machucou?

Ela soava mais curiosa do que preocupada. Procuraria uma fofoca? Algu­ma coisa para contar aos clientes matutinos da lanchonete da Wanda?

— Não sei.

— Alguém achou o filho dos Alverez?

Jesus, ele não havia pensado nisso. O garoto estava desaparecido desde domingo, sumira antes de começar a entregar os jornais.

— Não, acho que não — murmurou Nick. Até o FBI estava certo de que o menino teria sido levado pelo pai, que eles tentavam localizar. Uma simples briga pela custódia do filho. O que se passava ali era uma brinca­deira entre adolescentes. — Posso demorar um pouco, mas você pode ficar, sem problemas.

Ele pegou as chaves de seu jipe e encontrou Ashford sentado nos degraus da frente da casa, com o rosto enterrado nas mãos.

— Vamos. — Com firmeza, mas sem rispidez, Nick levantou o garoto pelas costas do moletom. — Por que vocês dois não vêm comigo?

Pensou que deveria ter demorado um pouco mais, porém colocado uma cueca. Agora, no jipe apertado, o jeans áspero o arranhava cada vez que ele pisava na embreagem e mudava a marcha. Para piorar as coisas, a estrada da Igreja Velha estava esburacada devido às chuvas da semana anterior. Nick jogava o volante de um lado para o outro a fim de evitar as valas, e o cascalho batia contra a lataria do carro.

— O que vocês dois estavam fazendo aqui nesta buraqueira? — Assim que fez a pergunta, deu-se conta do óbvio. Nick passara dos 30, mas ainda podia lembrar-se da utilidade de uma estrada deserta para adolescentes. — Esqueçam — acrescentou, antes que um dos dois tivesse tempo de responder. — Apenas me mostrem o caminho.

— Ainda tem um quilômetro e meio mais ou menos até a ponte. Lá, pegamos uma estrada de terra, que segue a margem do rio.

— Certo.

Percebeu que Ashford não gaguejava mais; talvez estivesse ficando sóbrio. A garota, entretanto, sentada entre os dois, não havia pronuncia­do uma palavra sequer.

Nick diminuiu a velocidade quando o jipe começou a sacolejar pela ponte de ripas. E achou o caminho, antes de Ashford apontá-lo. Com um solavanco, derraparam para a estrada de terra, que consistia em trilhas de pneus cheias de água e lama.

— Direto, em direção às árvores? — Nick perguntou, e Ashford fez sinal de positivo, mantendo os olhos fixos no caminho. Quando se apro­ximavam do bosque, a garota escondeu o rosto no moletom do rapaz.

Nick parou, desligou o motor, mas não os faróis. Debruçou-se sobre o casal para apanhar uma lanterna no porta-luvas.

— Essa porta está emperrada — disse a Ashford. Observou a troca de olhares entre os dois adolescentes. Nenhum dos dois esboçou qualquer movimento para sair do carro.

— Você não disse que teríamos que ver aquilo de novo — sussurrou ela para Ashford, agarrada no braço dele.

Nick bateu a porta do carro. O eco cortou o silêncio do lugar. Não havia nada num raio de muitos quilômetros; nem outros veículos, nem luzes de alguma fazenda. Até os animais da noite pareciam adormecidos. Ele perma­neceu do lado de fora do jipe, à espera. O garoto o olhou, mas permaneceu sentado. Em vez de insistir, Nick apontou a lanterna para uma área próxima à beira do rio. O facho de luz atravessou a grama alta e espessa, alcançando um trecho de água. Ashford examinou o ponto iluminado, hesitou, virou-se para Nick e balançou a cabeça, mostrando que sim.

Só, Nick entrou no mato. A vegetação batia em seus joelhos, farfalhando ao movimento do xerife e camuflando a lama que sugava suas botas. Meu Deus, estava escuro. A lua alaranjada escondia-se atrás de uma fina camada de nuvens. Folhas e gravetos estalavam à medida que ele avançava. Nick checava em volta e direcionava o facho de luz de árvore para árvore. Algum movimento? Lá, naquela vegetação? Poderia jurar ter visto uma sombra se esquivando da luz. Ou teria sido apenas a sua imaginação?

Fixou os olhos tentando avistar algo através da mata densa. Prendeu a respiração e escutou. Nada. Provavelmente, apenas o vento. Apurou nova­mente os ouvidos e se deu conta de que não havia vento. Um arrepio sur­preendeu-o. Por que não trouxera um casaco? Aquilo era loucura. Ele se negava a ser feito de trouxa por estudantes. Quanto mais cedo se certificasse de que não havia nada, mais cedo estaria de volta a sua cama quente.

À medida que se aproximava do rio, o ruído de seus calçados afundan­do na lama ficavam mais altos. Era difícil avançar, tinha de mover um pé de cada vez, com cuidado, para evitar escorregões. Suas botas novas estavam sem dúvida arruinadas; já podia sentir os pés molhados. Sem meias, sem cueca e sem casaco.

— Droga — resmungou. — E melhor que isso seja para valer. — Ele se irritaria como nunca se descobrisse que um grupo de adolescentes brincava de esconde-esconde.

O facho de luz iluminou um objeto na lama, perto da água. Nick marcou o local com os olhos e acelerou o passo. Estava quase lá, quase livre do mato alto. De repente, ele tropeçou e se estatelou no chão, amparando a queda com os cotovelos. A lanterna voou de sua mão para dentro da água escura. O facho de luz afundou em rodopios.

Nick ignorou a dor nos braços. A lama escorreu de seu corpo quando ficou agachado para se levantar. Um cheiro de podre impregnava o lugar. Mais do que o fedor do rio. O objeto prateado estava praticamente a seu alcance. Identificou então um crucifixo. O cordão arrebentara, e alguns elos estavam espalhados pela lama.

Nick procurou atrás dele o que o havia desequilibrado. Alguma coisa sólida, uma árvore caída, supôs. No entanto, a menos de um metro, repousava um corpo branco de menino sobre lama e folhas.

As pernas de Nick bambearam, e o estômago se contraiu. O cheiro, agora inconfundível, dominava o ambiente e invadia suas narinas. Apro­ximou-se do cadáver com cuidado, como se não quisesse despertar o garoto, que parecia adormecido, apesar dos olhos arregalados para as estrelas. Notou então a garganta do morto cortada. O peito estava reta­lhado, a pele, rasgada e descolada da carne à mostra. O estômago de Nick veio à boca, e seus joelhos desabaram diante da cena.


 

“Basta uma maçã podre", digitou Christine Hamilton, para, em seguida, pressionar a tecla delete e observar as palavras desaparecerem. Ela nunca conseguiria terminar aquela matéria. Inclinou-se para trás a fim de con­sultar o relógio, único ponto iluminado do corredor escuro. Quase 23h. Graças a Deus Timmy tinha ido dormir na casa de um amiguinho.

Os faxineiros haviam novamente desligado o interruptor e deixado aquela ala às escuras. Apenas mais um sinal do quão importante era o encarte "Vida Atual". No fim do corredor, as luzes brilhavam por baixo da porta que isolava a redação dos outros departamentos. Mesmo distan­te, Christine ouvia o zumbido das máquinas de fax e dos terminais ligados às agências de notícias. Do outro lado daquela porta, meia dúzia de repórteres e editores engolia xícaras de café, redigia matérias de última hora e revisava a edição do dia seguinte. Logo ali, do outro lado daquela porta, as notícias ferviam, enquanto ela perdia tempo com receitas de torta de maçã.

Impaciente, Christine abriu uma pasta e folheou sem maior atenção notas e receitas. Mais de 100 possibilidades para fatiar, picar, amassar e assar maçãs, e ela não dava a mínima. Quem sabe sua criatividade não se havia esgotado na semana anterior com as entradas quentes à base de tomate e as 12 maneiras para disfarçar legumes e verduras na dieta da família? Christine tinha consciência de que desperdiçara tempo precioso de sua vida, de que era uma profissional enferrujada, graças à teimosia e à insistência de Bruce em ser o chefe da casa, "o responsável da família, aquele que vestia as calças para ir trabalhar". Acabou que o cretino não conseguiu manter as tais calças fechadas.

Christine jogou as receitas sobre a mesa. A pasta deslizou e terminou no chão. Os papéis espalharam-se pelo piso de resina rachado. Por quanto tempo permaneceria amarga desse jeito? Não, a pergunta era: por quanto tempo isso ainda a machucaria? Por que a separação ainda dói assim? Afinal, já faz mais de um ano.

Afastou-se do computador e ajeitou com os dedos os cabelos volumo­sos e louros. Precisava apará-los. Tentou calcular quanto tempo ainda restaria até que as raízes voltassem a escurecer. O novo visual fora o presente de divórcio que se dera. Os resultados iniciais da tintura mostra­ram-se recompensadores. Perceber cabeças virando para vê-la passar foi uma experiência nova. Seria bom se Christine conseguisse acrescentar à sua vida regrada visitas regulares ao cabeleireiro.

Ignorando os avisos para não fumar no edifício, puxou um cigarro do maço que mantinha na bolsa. Acendeu-o imediatamente e tragou, na expectativa de que a nicotina a acalmasse. Antes que exalasse a fumaça, escutou uma porta bater. Apertou o cigarro num prato de sobremesa, abarrotado de baganas manchadas de batom, restos demais para uma pessoa que tentava se livrar do vício. Os passos rápidos ecoavam pelo corredor. Christine pegou o prato e procurou um lugar para escondê-lo, enquanto espalhava a fumaça com a mão. Nervosa, um pouco paranóica, jogou o prato na lata de lixo sob sua mesa. Ainda ouvia o barulho da louça contra o metal da lixeira quando Pete Dunlap entrou na sala.

— Christine. Que bom você ainda estar aqui. — Ele passou a mão pelo rosto pálido, um esforço sem êxito para remover o cansaço. Pete trabalhava no Omaha Journal há quase 50 anos; começou como entregador de jornais. Com os cabelos brancos, óculos bifocais e artrite nas mãos, era um dos pou­cos que poderia sozinho fechar e despachar o Omaha para as ruas, pois tra­balhara em todos os departamentos e editorias.

— Um artigo importante. — Christine sorriu ao tentar explicar por que alguém estaria trabalhando até tão tarde na seção "Vida Atual". Sentia-se aliviada por deparar-se com Pete, e não com Charles Schneider, geralmente o editor da noite, que comandava o lugar como um oficial nazista.

— Bailey ligou informando que está doente, Russel ainda está termi­nando a matéria sobre o escândalo sexual envolvendo o parlamentar Neale e acabei de mandar Sanchez cobrir um engavetamento de três carros na auto-estrada 50. Há algum alvoroço pelos lados da estrada da Igreja Velha, perto do rio, no condado de Sarpy. Ernie captou uma comu­nicação entre radiotransmissores de policiais, mas não conseguiu deduzir de que se trata. Uma frota de carros da polícia está indo para lá. Pode ser, eu sei, apenas garotos bêbados brincando com os tratores dos pais nova­mente. Você não faz parte da equipe de repórteres, mas se importaria de ir lá dar uma olhada?

Christine precisou esforçar-se para conter a emoção. Tentou disfarçar o sorriso de contentamento com uma virada de olhos para o texto inaca­bado na tela do computador. Finalmente, uma oportunidade para lidar com uma notícia de verdade, mesmo que ela se resumisse a um bando de adolescentes bêbados.

— Dou-lhe cobertura se Whitman se zangar por você deixar o que está fazendo — Pete anunciou, interpretando mal a hesitação dela.

— OK. Acho que posso checar isso para você. — Escolhera as palavras cuidadosamente, para enfatizar que aquilo era um favor. Embora estivesse na equipe há apenas um ano, sabia que os jornalistas eram promovidos de maneira mais rápida devido a favores, e não ao talento.

— Pegue a rodovia interestadual, porque a 50 deve estar congestiona­da por causa do acidente que mencionei. Pegue a saída 372, em direção à auto-estrada 66. A estrada da Igreja Velha está ao sul da 66, mais ou menos a dez quilômetros.

Ela quase o interrompeu, pois, quando adolescente, freqüentara bas­tante aquela estrada. No entanto, tal revelação poderia arruinar todo o seu trabalho para se livrar das raízes e do estigma de caipira. Sendo assim, rabiscou algumas das orientações de Pete.

— Volte antes da uma hora para termos alguns parágrafos na edição matutina.

— Voltarei. — Pegou sua bolsa e precisou controlar-se para não sair em carreira pelo corredor, o que lhe permitiu ouvir Pete resmungando:

— Agora, se eu conseguir que Russel escreva tão rápido quanto fala, eu serei um homem feliz.

A salvo, na escuridão da área de estacionamento, ela socou o ar e comemorou com um grito. Era sua oportunidade de passar para o outro lado da porta, das receitas e amenidades do lar para as verdadeiras notí­cias. Não importa o que estivesse acontecendo perto daquele rio, ela captaria todo o drama e os detalhes mais importantes da situação. E, se não houvesse nenhuma história... Bem, certamente um bom repórter pode sempre garimpar alguma coisa.

 

Ele corria, quebrando os galhos caídos no solo. Os estalos da madeira mais pareciam explosões na noite silenciosa. Eles o seguiam? Estavam na sua cola? Não ousava olhar para trás. Tenso, escorregou na lama e caiu na água gelada do rio. Encharcado e suado, moveu os braços e as pernas, em pânico, espalhando água ao som de breves estalidos. Afundou no lodo até ficar com água na altura do queixo. A correnteza, forte e barulhenta, golpeava-o, sacudia-o e ameaçava carregá-lo para o lugar de onde esca­para.

A água fria anestesiava os músculos. Precisava respirar. A falta de ar já lhe provocava pontadas no pulmão. Respire, ordenou a si mesmo, sufocado. Ele emergiu e inspirou com força, ao mesmo tempo que engoliu um estômago inteiro de água do rio. Engasgou e golfou a maior parte.

Não avistava mais os holofotes. Talvez tivesse corrido o suficiente. Concentrou-se para escutar além de sua respiração ofegante.

Não havia mais correria, latidos de cães farejadores nem motores em alta velocidade. Essa passou perto. O cara com a lanterna. Como o intruso não o tinha visto encolhido na grama? Sim, estava certo de que ninguém o seguira.

A verdade é que ele não deveria ter vindo de novo. Isso se tornara um hábito estúpido, um risco, um perigo, um vício prazeroso, uma excitação espiritual. A vergonha alastrou-se dentro dele, líquida e quente, apesar da água fria. Não, não deveria ter vindo mais uma noite. Contudo, nin­guém o vira, ninguém o seguira. Estava a salvo. Ele, e o garoto também.

 

Nick cheirava a podre. O fedor de lama com sangue já penetrava seus poros. Tirou a camisa molhada e agradeceu a Bob Weston pelo casaco de náilon do FBI. As mangas do agasalho, de tão curtas, mal cobriam seus pulsos, o tecido esticado apertava o peito, e o zíper travou na metade do caminho. O xerife sabia que estava parecendo um idiota, suspeita que se confirmou quando Eddie Gillick, um de seus assistentes, abriu passagem com os cotovelos pela turma de investigadores federais e policiais só para lhe entregar uma toalha úmida.

A cena parecia uma antecipação do Halloween. Luzes de holofotes rodopiavam e ofuscavam a visão, fitas amarelas ao redor das árvores demarcavam o território, a chiadeira e a fumaça dos foguetes sinalizadores se misturavam com o cheiro horrível de morte. No centro daquele cenário macabro, deitado sobre a grama, o pequeno e esbranquiçado fantasma de um menino.

Nos dois anos como xerife, Nick Morrelli já retirara três vítimas de acidentes de trânsito dos escombros de carros. A adrenalina fizera-o ignorar o bolo de metal e carne humana. Vira uma ferida de bala, coisa pequena: alguém limpava sua arma enquanto tomava uma dose de uís­que. Separara inúmeras brigas, e saíra com cortes e cicatrizes. Nada, entretanto, o preparara para aquilo.

— O Canal 9 está aqui — Gillick anunciou, apontando para os faróis que quicavam pela estrada irregular. O alaranjado e fosforescente, pintado na capota da caminhonete, reluzia.

— Merda. Como descobriram?

— Pelos transmissores da polícia. Sabem que alguma coisa está acon­tecendo, mas, provavelmente, não têm nem idéia do que seja.

— Diga para Lloyd e Adam manterem-nos o mais distante possível da linha das árvores. Sem câmeras, sem entrevistas, sem espiadelas dissimu­ladas. Isso vale para os outros sanguessugas que chegarem. — Era tudo o que ele precisava, uma ponta no noticiário da manhã, vestido com uma jaqueta de palhaço e calças enlameadas, para revelar sua incompetência ao estado inteiro.

— Ah, que ótimo! Mais uma merda de marca de pneu — ironizou Weston diante dos agentes ajoelhados na lama, mas com os olhos em Nick, como se quisesse deixar bem claro a quem se destinava o comen­tário.

O rosto de Nick ficou vermelho, mas engoliu uma réplica e se afastou. Weston não fazia segredo de que o considerava um xerife caipira de cidadezinha do interior. Disputavam entre si desde o domingo, quando Danny Alverez desapareceu como fumaça, deixando para trás uma bici­cleta novinha e uma bolsa cheia de jornais para entregar. Nick queria chamar o maior número possível de pessoas para realizar uma busca nos campos e parques, enquanto Weston insistia em esperar por algum bilhete de resgate. Nick dobrara-se aos 25 anos de experiência no FBI de Weston, em vez de seguir sua intuição.

Por que tinha aceitado a versão de Weston de que o garoto tinha simplesmente sido levado pelo pai insatisfeito? Um pai furioso com a ex-mulher, que o mantinha longe do único filho. Droga, os jornais estão repletos de casos semelhantes. Quando não conseguiram localizar o major Alverez, a tese fez ainda mais sentido. Portanto, por que Nick não seguiria a orientação do agente especial Bob Weston, apesar da antipatia irracio­nal que nutria por ele?

Ressentia-se da arrogância de Weston. Com l,70m, o desafeto lembra­va um pequeno Napoleão, sempre com a porcaria da língua afiada pronta Para compensar a baixa estatura. Weston era pelo menos 20 centímetros mais baixo do que Nick, e magricela, se comparado ao corpo atlético do xerife. Ainda assim, naquela noite, tudo que o agente dizia fazia Nick sentir-se o menor dos homens. Tinha consciência de que estava enrasca­do e de que merecia o deboche do rival. Violara a cena do crime e não assegurara a demarcação de área suficiente para acolher aquele número absurdo de policiais. Nick suspeitava de que Weston lhe arrumara aquela jaqueta tamanho mínimo como castigo.

O xerife relaxou um pouco ao avistar a figura familiar de George Tillie esbarrando e cruzando o amontoado de gente. George parecia ter saído diretamente da cama. A jaqueta esporte amarrotada, com botões presos a casas erradas, cobria a camisa do pijama rosa. Com o cabelo grisalho despenteado, o legista abraçava a bolsa pequena e preta bem junto ao peito e pisava cuidadosamente o lamaçal com pantufas de pelúcia, que, se Nick não estava enganado, reproduziam a cara de um cachorro. O xerife sorriu e perguntou-se por que os sentinelas do FBI teriam dado passagem ao amigo.

— George — chamou Nick. O legista ergueu as sobrancelhas, espan­tado com a aparência do xerife. — O garoto está logo ali. — Nick pegou-o pelo braço e amparou George durante a travessia do lamaçal, em direção à área isolada em que estava o corpo.

Um policial com uma polaróide disparou um último flash e abriu espa­ço para o dois. Uma espiada no cadáver, e George gelou. Seus ombros caídos se endireitaram, e ele ficou pálido.

— Meu Deus. De novo, não.

 

A mais de um quilômetro de distância, já se avistava o terreno, ilumina­do como um estádio em dia de jogo. Christine pisou o acelerador, fazendo o carro avançar pelo cascalho.

Algo digno de interesse ocorria ali. A excitação ferveu em seu estôma­go, o coração batia mais rapidamente, e ela suava nas mãos. A sensação era melhor que a de sexo, se é que ela ainda se lembrava da última vez que transara.

As transmissões da polícia davam muito pouca informação. "Oficial pede assistência e apoio imediatos."

Poderia significar qualquer coisa. À medida que Christine avançava pela estrada de terra, à margem do rio, sua emoção só aumentava. Carros de resgate, duas vans de tevê, cinco viaturas policiais e vários veículos particulares estacionados na lama nos mais diferentes ângulos. Três assis­tentes do xerife guardavam o local, delimitado pela fita amarela típica das cenas de crime. Fitas amarelas? Então era sério. Definitivamente, não se tratava de meia dúzia de adolescentes baderneiros.

Foi quando lhe veio à cabeça o seqüestro do menino entregador de jornais, cuja foto estava em todas as redações e todos os jornais desde o início da semana. O resgate fora pago? Havia carros de salvamento. Talvez a operação estivesse em andamento.

Ao saltar do carro, notou que o veículo se movia sobre o lamaçal e voltou depressa para trás do volante.

— Não seja estúpida, Christine — sussurrou; engatou a primeira e abaixou o freio de mão. — Fique fria, fique calma. — Orientou-se, pegan­do o bloco de anotações.

No primeiro passo, suas sapatilhas de couro ficaram presas na lama. Livrou-se delas com dois chutes e guardou-as na parte de trás do carro. De meias, marchou pelo lamaçal até a concentração de jornalistas.

Os policiais mantinham-se em posição de sentido e inabaláveis, apesar das perguntas atiradas contra eles. Além das árvores, holofotes ilumina­vam a área perto do rio. O mato alto e o muro de homens uniformizados bloqueavam a visão do que se passava.

O Canal 5 enviara um dos âncoras de seu noticiário da noite. Darcy McManus vestia-se de modo impecável, pronta para a câmera. O casaco bem justo, os cabelos pretos e sedosos, a maquiagem, tudo no lugar. Estava calçada. No entanto, era tarde para uma entrada ao vivo, e o equipamento de filmagem permanecia desligado.

Christine identificou Eddie Gillick, o assistente do xerife, na barreira humana. Aproximou-se devagar, para também ser vista por ele, certa de que qualquer movimento em falso colocaria tudo a perder.

— Assistente Gillick? Oi. Christine Hamilton. Lembra-se de mim? Ele a encarou com uma expressão de soldado de brinquedo, relutante em ceder a distrações. Relaxou, porém, quando a reconheceu, ensaiou um sorriso, mas controlou o impulso.

— Sra. Hamilton. Claro que eu lembro. E a filha de Tony. O que a traz aqui?

— Eu trabalho para o Omaha Journal agora.

— Ah. — A expressão de soldado de brinquedo instalou-se novamente. Christine precisava pensar e agir rápido ou perderia a oportunidade.

Reparou no cabelo dele penteado para trás com gel, sem nenhum fio fora do lugar. Sentia-se a distância o uso exagerado de loção pós-barba. O homem aparava o bigode, mesmo fino como um rabisco, de maneira meticulosa. Seu uniforme não apresentava um único amassado. A gravata de nó perfeito apertava-lhe o pescoço e fixava-se à camisa por um prendedor dourado. Nada de aliança no dedo. Ela poderia apostar que ele se achava o conquistador.

— Como está tudo enlameado aqui. Não posso acreditar. Sou uma burra, perdi até mesmo os sapatos — lamentou-se Christine, apontando para os pés envolvidos por barro e para as meias já furadas. Gillick seguiu com a cabeça o movimento de mão, e ela ficou satisfeita quando, na volta, o olhar dele percorreu a extensão de suas longas pernas. A desconfortável saia curta fez, enfim, jus ao incômodo.

— É uma pena. Muita confusão. — Ele cruzou os braços e moveu as pernas, visivelmente balançado. — Deve tomar cuidado para não pegar uma gripe. — O agente observou-a de novo, e, dessa vez, seus olhos examinaram mais do que as pernas. Christine percebeu que eles topavam com seus seios e levantou os ombros, abrindo um pouco mais o blazer, para facilitar o trabalho de Gillick.

— Toda essa situação é uma confusão. Não é mesmo, Eddie? E Eddie o seu nome, não é?

— Sim, senhora. — Parecia feliz pelo fato de ela ter lembrado seu nome. — Mas não estou autorizado a falar sobre o caso.

— Ah, claro. Eu entendo. — Christine inclinou-se para perto dele, apesar do cheiro de gel para cabelo. Mesmo sem sapatos, era quase tão alta quanto Gillick. — Eu sei que você não está autorizado a falar sobre o caso do menino Alverez — cochichou ao pé da orelha do assistente.

Demonstrando surpresa, ele ergueu uma das sobrancelhas antes de baixar a guarda.

— Como é que sabe? — Gillick verificou em volta se alguém os escutava.

Bingo. Tirara a sorte grande. Cuidado, agora. Controle-se, mantenha a calma, não desperdice a oportunidade.

— Você sabe, Eddie. Eu não posso revelar as minhas fontes. — Acha­ria ele aquela voz baixa e grave atraente ou canastrona? Ela nunca fora muito boa em sedução. Pelo menos, isso era o que Bruce falava.

— Claro, eu sei. — Ele acenou com a cabeça, mordendo a isca.

— Você, provavelmente, nem pôde ver a cena. Preso aqui, fazendo o verdadeiro trabalho sujo.

— Não, eu dei mais do que uma simples olhada. — Gillick estufou o peito, como se situações como aquela fizessem parte do seu dia-a-dia.

— Deixaram o garoto num estado lastimável, hein?

— E, parece que o filho da mãe estripou o menino — contou baixinho, sem exibir emoção.

Christine, ao contrário, sentiu a circulação acelerar e os joelhos balan­çarem. O garoto estava morto.

— Ei! — gritou Gillick. Ela pensou, por um instante, que ele havia descoberto a armação. — Desligue essa câmera! Com licença, Sra. Ha­milton.

O policial avançou contra a câmera do Canal 9, e Christine recuou em direção ao carro. Sentou-se, manteve a porta do veículo aberta e abanou-se com o bloco de anotações em branco. Respirava, concentrada, para tomar fôlego. Mesmo com o clima frio, a blusa colava na pele.

Danny Alverez morto, assassinado. Como descreveu o assistente Gil­lick: "Estripado."

Ela conseguira seu primeiro furo, apesar de isso lhe ter custado a transformação da excitação em náusea.

 

Sábado, 25 de outubro

Nick franziu o rosto e tomou um gole de café forte e frio. Por que se surpreendia por constatar que a bebida, apesar de fria, era tão amarga? A experiência lembrou-lhe o quanto ele odiava café, o que, porém, não o impediu de encher novamente a caneca.

O problema talvez não fosse exatamente o gosto, mas as lembranças que a bebida trazia. As noites sem dormir quando estudava para entrar na faculdade de Direito. A aflição da viagem de carro para ver o avô à morte, visita pela qual a avó implorara, e ainda mais necessária porque o pai de Nick, Antônio, recusara-se a estar ao lado do velho naquele momento. Desde estão, Nick julgava essa viagem uma espécie de presságio de sua relação com o pai. Imaginava se o grande Antônio Morrelli não enfren­taria a ironia de também ver o filho lhe recusar uma última visita, no leito de morte.

De vez em quando, a associação automática entre o aroma forte do café e a pele acinzentada e enrugada do avô, sob os lençóis manchados de urina, o desestabilizava. Não mais, porém. A partir de agora, o odor da bebida irá para sempre lembrar-lhe a tristeza, os gritos de dor de uma mãe que identifica o corpo destroçado do único filho. Dificilmente, alguma outra experiência poderá competir com essa.

Nick pensou na primeira vez em que se encontrara com Laura Alverez, no último domingo. Meu Deus, menos de uma semana atrás. Danny desaparecera há quase 12 horas, e Nick interrompera um fim de semana de pescaria para conversar ele próprio com a mãe. Aquela altura, ele não duvidava de que se tratava de uma daquelas brigas pela guarda do filho, um daqueles casos de mulher que usa a cria para punir ou recuperar o marido; mas, isso fora antes de ele conhecer Laura Alverez.

Ela era uma mulher alta, um pouco acima do peso, mas imponente e sexy. De olhos um pouco mais claros do que os cabelos, longos e escuros, ela aparentava menos idade do que os 45 anos que tinha. Parecia uma fortaleza, na silhueta marcante e no caráter.

Graciosa apesar do tamanho, Laura Alverez, naquela noite, andou várias vezes da pia para o armário da cozinha e de lá para a pia de novo, sem contudo mostrar ansiedade no caminhar. Respondeu calma a todas as perguntas que o xerife preparara. Calma demais. Nick levou dez, 15 minutos para se dar conta de que, para cada xícara ou prato que lavava e guardava, ela trazia outro limpo, do armário para a pia. Mais, o agasalho estava vestido pelo avesso, e os sapatos eram de pares diferentes. A calma aparente disfarçava o estado de choque.

Laura Alverez assim permaneceu durante a semana. Mostrava-se firme como uma rocha, servindo café e sanduíches para os homens que lotavam todos os dias sua pequena casa. Se tivesse deixado escapar uma mínima emoção, possivelmente não teria sido tão difícil para Nick ver aquela mesma fortaleza partida em duas, arrasada, deitada no piso frio do necro­tério. Seus gritos rasgavam as paredes do ambiente esterilizado. Nick reconhecia aquele som. Era o uivo agudo de um animal ferido. Nenhuma mulher deveria ter que passar pelo que Laura Alverez, solitária, enfrenta­va. Nick pensava agora em como localizar o ex-marido e, assim, varrer aquele peso de dentro dele.

— Morrelli. — Bob Weston entrou no escritório de Nick, sem bater, e sentou-se, sem ser convidado. O estofado da cadeira diante do xerife acusou com um ruído o peso do agente. — Vá para a casa, tome um banho, mude de roupa. Você fede.

Nick decidiu discutir somente os fatos, em vez de rebater os insultos.

— E o ex-marido? Weston balançou a cabeça.

— Eu sou pai, Nick. Não me importa o quanto a mulher dele o chateou, simplesmente não acredito que um pai possa fazer aquilo com um filho.

— Então, de onde começamos? — Nick estava realmente cansado, pois acabara de pedir conselho a Weston.

— Eu começaria com uma lista de criminosos sexuais, pedófilos e de quem já explorou sexualmente crianças.

— Pode ser uma lista longa.

— Com licença, Nick — interrompeu Lucy Burton, da porta do escri­tório. — Só para informar que equipes das quatro estações de tevê de Omaha e dos dois canais de Lincoln estão lá embaixo. Há também um corredor cheio de repórteres de jornais e rádio. Eles pedem um comuni­cado ou uma entrevista coletiva.

— Droga — grunhiu Nick. — Obrigado, Lucy. — Percebeu Weston virar-se na cadeira para obter uma vista melhor das pernas de Lucy. Talvez fosse o momento de adverti-la sobre as minissaias e os saltos finos e longos, uma vez que o departamento do xerife virará notícia. Uma pena. A secretária tinha pernas adoráveis e um andar treinado para ressaltá-las.

— Evitamos a imprensa a semana inteira — afirmou Nick, retornando sua atenção para Weston. — Vamos ter que falar com eles.

— Concordo. Você precisa falar com eles.

— Eu? Por que eu? Pensei que você fosse o sabe-tudo por aqui.

— Sim, quando se tratava de um seqüestro. O caso agora é homicídio. Lamento, mas a bola está com você.

Nick jogou-se para trás na cadeira, enterrando a cabeça no encosto de couro e girando de um lado para o outro. Aquilo não podia estar aconte­cendo. Logo, ele acordaria e encontraria Angie Clark a seu lado, na cama. Meu Deus, sua impressão era que uma vida inteira tinha se passado desde a noite anterior.

— Olha, Morrelli. — A voz terna e condolente de Weston despertou a suspeita de Nick, que o ouviu sem levantar a cabeça. — Estou aqui pensando. Como esse caso envolve uma criança, eu poderia requisitar alguém para ajudar a identificar o perfil do criminoso.

— Como assim?

— Pode ser cedo para as pessoas começarem a notar as semelhanças entre esse caso e o de Jeffreys, mas, quando elas se tocarem, isso vai virar uma histeria.

— Histeria? — Histerias não tinham sido incluídas em seu treinamen­to. Nick engoliu o gosto amargo que ainda tinha na boca. Sentiu-se, de repente, enjoado novamente. Ainda sentia o cheiro do sangue de Danny Alverez impregnado em seu jeans.

 

— Temos especialistas que podem traçar um perfil psicológico do assassino. Passar uma peneira nos suspeitos. Dar alguma idéia de quem é esse canalha.

— E. Isso poderia ajudar. Isso seria bom. — Nick não deixou o deses­pero vazar por sua voz. Não era hora de revelar suas fraquezas, apesar da súbita compaixão de Weston.

— Li alguma coisa sobre a agente especial O’Dell, perita em traçar perfis de assassinos. Descobre até o número que os criminosos calçam. Eu poderia ligar para o FBI, em Quântico.

— Quando você acha que eles poderiam mandar alguém para cá?

— Não deixe Tillie cortar o garoto. Vou telefonar agora e perguntar se poderíamos ter alguém aqui na segunda-feira pela manhã. Quem sabe O’Dell? — Weston levantou-se em um só impulso, com ener­gias renovadas.

Nick descruzou as pernas e também se pôs de pé, mal acreditando que seus joelhos o agüentavam.

O assistente Hal Langston entrou na sala e pegou Weston já na porta.

— Achei que vocês ficariam interessados em dar uma olhada na edição do Omaha Journal. — Hal abriu o jornal. A manchete bradava em letras garrafais: "Assassinato de garoto ao estilo de Jeffreys."

— Que porcaria é essa? — Weston arrancou o jornal das mãos de Hal e começou a ler em voz alta.

"Na noite passada, o corpo de um garoto foi encontrado no rio Platte, nos arredores da estrada da Igreja Velha. Relatos iniciais sugerem que o menino ainda não identificado foi esfaqueado até a morte. Um policial presente no local, que preferiu não se identificar, disse: 'Parece que o filho da mãe estripou o menino.' Feridas de corte no peito eram a marca registrada de Ronald Jeffreys, serial killer executado em julho. O xerife ainda não divulgou comunicado oficial sobre a identidade da vítima e a causa da morte."

— Oh, Deus! — exclamou Nick.

— Droga, Morrelli. Você vai ter que baixar uma lei da mordaça entre os seus homens.

— O pior não é isso — disse Hal, virando-se para Nick. — A matéria é assinada por Christine Hamilton.

— Quem é? — perguntou Weston para Nick. — Não, por favor. Não me diga que é mais uma de seu harém particular.

Nick encolheu-se na cadeira. Como ela pôde fazer isso com ele? Teria tentado alertá-lo, contatá-lo? Os dois homens o encaravam. Weston esperava uma explicação.

— Não — afirmou Nick, devagar. — Christine Hamilton é minha irmã.

 

Maggie O'Dell tirou os enlameados tênis de corrida antes de entrar em casa, como pedira o marido, Greg. Ela sabia que sentiria falta do pequeno e bagunçado apartamento em que eles moravam em Richmond, mas se rendera à necessária conveniência de morar entre Quântico e Washing­ton. Contudo, desde que haviam comprado o apartamento novo, num prédio residencial com serviços de Crest Ridge, uma área nobre, Greg desenvolvera uma obsessão por aparência. Ele queria que o local estivesse sempre imaculado, uma tarefa até que fácil, pois o trabalho de ambos os mantinha com freqüência afastados dali. Ainda assim, Maggie se ressentia de morar em um lugar que devorava seu salário e que não era diferente dos hotéis com que ela se acostumara.

Tirou o agasalho úmido e logo sentiu o ar fresco, agradável. Embora fosse um daqueles dias secos de outono, conseguiu suar após mais uma noite de ansiedade, virando-se de um lado para o outro na cama. Embolou o moletom e, no caminho para a cozinha, arremessou-o na lavanderia, mas, desastrada, errou o cesto de roupa suja.

Parou em frente à geladeira aberta, uma simples olhada resultou numa descoberta patética de sua falta de talento doméstico: uma embalagem com sobras de comida chinesa, meio bagel embrulhado em plástico e uma quentinha com alguma coisa pegajosa dentro, difícil de identificar. Pegou uma garrafa de água e bateu a porta da geladeira. Vestindo apenas short, uma camiseta ensopada de suor e um top de lycra colado à pele, Maggie tremia de frio.

O telefone tocou. Procurou o aparelho pela bancada e, antes do quarto toque, avistou-o sobre o microondas ainda não usado.

— Alô.

— O'Dell, é Cunningham.

Ela passou os dedos pelos cabelos escuros, curtos e molhados e, atenta, esticou-se em posição de sentido, ao ouvir a voz. — _Oi. Como estão as coisas?

— _Acabei de receber um telefonema do escritório da região de Omaha.

Eles têm uma vítima de assassinato, um garotinho. Alguns dos ferimentos são iguais aos feitos por um serial killer da mesma área, há seis anos.

— O homem está em ação de novo? — Ela começou a andar pela casa.

— Não, o assassino era Ronald Jeffreys. Não sei se você se lembra desse caso. Ele matou três meninos...

— Lembro, sim — ela o interrompeu, sabendo que ele detestava longas explicações. — Ele não foi executado em junho ou julho?

— Isso... Em julho, eu acho. — A voz dele parecia cansada. Embora fosse uma tarde de sábado, Maggie o imaginava no escritório, atrás de pilhas de documentos sobre a mesa. Podia até ouvi-lo remexendo os papéis. O diretor Kyle Cunningham já deveria ter todo o arquivo sobre Jeffreys espalhado diante de si. Muito antes de Maggie estar sob seu comando na Unidade de Ciência Comportamental, ele fora apelidado de Falcão, pois nada lhe escapava. Posteriormente, a visão afiada ganhou olheiras, resultado do acúmulo de noites mal dormidas.

— Temos então um imitador do estilo de Jeffreys. — Ela parou e abriu várias gavetas à procura de uma caneta e um pedaço de papel para rabiscar algumas anotações. Só achou panos de prato meticulosamente dobrados e utensílios de cozinha caprichosos, enervantemente arrumados em fileiras perfeitas. Mesmo os instrumentos de uso mais corriqueiro, um saca-rolhas e um abridor de latas, encontravam-se em seus respectivos espaços, sem se tocar. Mexeu numa concha, deixando-a propositalmente virada e atravessada sobre outros talheres, fechou a gaveta e, satisfeita, voltou a andar.

— Pode ser, sim, alguém copiando os procedimentos de Jeffreys — afirmou Cunningham, em tom distraído. Maggie sabia que ele lia os arquivos enquanto falava, com as tradicionais marcas de preocupação entre as sobrancelhas e os óculos apoiados na ponta do nariz. — Pode ser, também, um caso isolado. A questão é que eles pediram alguém que traçasse o perfil psicológico do bandido. Na verdade, Bob Weston pediu especificamente você.

— Quer dizer que sou uma celebridade até em Nebraska? — Maggie ignorou o incômodo na voz do chefe ao citá-la. Há um mês, o sentimento não teria estado ali. Há um mês, ele teria ficado orgulhoso por requisi­tarem uma protegida dele. — Quando eu viajo?

— Não tão rápido, O’Dell. — Ela apertou o telefone e aguardou o sermão. — Tenho certeza de que a pilha de relatórios elogiosos nas mãos de Weston não incluem seu último caso.

Maggie parou e se recostou na bancada; pressionou a palma da mão contra o ventre, esperando, preparando-se para a náusea.

— Eu espero sinceramente que você não vá ficar balançando o caso Stucky sobre minha cabeça cada vez que eu for para a rua. — A hesita­ção na voz dela pareceu raiva. Melhor assim. Raiva era melhor do que fraqueza.

— Você sabe que não é isso que estou fazendo, Maggie.

Meu Deus. Ele a chamou pelo primeiro nome. Esse vai ser um sermão daqueles sérios; permaneceu na mesma posição e cravou as unhas numa toalha de mão próxima.

— Estou apenas preocupado — continuou ele. — Desde o caso Stucky, você não tirou folgas nem consultou o psicólogo.

— Kyle, eu estou bem — mentiu ela, irritada com o tremor repentino que tomou conta de suas mãos. — Não é meu primeiro caso. Já vi muito sangue e tripas nos últimos oito anos. Não há muito mais que possa me chocar.

— É exatamente com isso que estou preocupado. Maggie, você estava no meio daquele banho de sangue. Foi um milagre não ter morrido. Não me importo se você se acha ou não durona. Não estamos falando aqui da agente que chega depois do crime ou que prende o bandido. Você foi parte daquilo, tripas e sangue espirraram em você, o que vem a ser um pouco diferente do que ir e vir...

Maggie não precisava do lembrete. Não levou muito tempo para visua­lizar Albert Stucky retalhando aquelas mulheres, uma performance san­grenta interpretada para uma platéia de uma pessoa só: ela. Ainda escu­tava a voz dele no meio da noite: "Eu quero que você veja. Se você fechar os olhos, vou matar mais uma e outra e outra."

Formara-se em Psicologia. Não necessitava de um psicólogo para lhe dizer por que ela não conseguia dormir, por que a imagem ainda a perse­guia. Não havia sido capaz nem mesmo de contar a Greg sobre aquela noite. Como conversaria sobre isso com alguém de fora do meio policial?

É claro que Greg não estava por perto quando ela cambaleou de volta para o quarto de hotel. Ele se encontrava a milhas de distância quando ela teve de arrancar dos cabelos pedaços do cérebro de Lydia Barnett, quando esfregou da pele o sangue de Melissa Stonekey, quando enfaixou a própria ferida, um corte no abdômen. Não era o tipo de coisa sobre a qual alguém conversasse por telefone.

"Como foi o seu dia, querido? O meu? Oh, nada demais. Apenas presen­ciei duas mulheres sendo estripadas e golpeadas até a morte."

Mais do que isso, a verdadeira razão pela qual ela não contara a Greg foi que ele se desesperaria se soubesse. Insistiria para que ela desistisse, saísse das ruas e se transferisse para um laboratório do FBI, onde exami­naria sangue e tripas no conforto de um microscópio, e não sob as unhas. O marido reclamara e esbravejara na última vez em que ela havia confia­do e se aberto com ele, a última vez em que os dois conversaram sobre o trabalho dela. Greg demonstrava não ligar para a falta de comunicação. Nem mesmo lhe notava a ausência na cama durante a noite, quando Maggie andava em círculos para evitar as imagens, para silenciar os gritos que ainda ecoavam em sua cabeça. A falta de intimidade com o marido lhe permitia guardar as cicatrizes — físicas e mentais — para si mesma.

— Maggie?

— Preciso continuar trabalhando, Kyle. Por favor, não tire isso de mim. — Manteve a voz enérgica, grata pela tremedeira se concentrar nas mãos e na barriga. Ele detectaria a vulnerabilidade, de qualquer modo? Cunningham seguia a pista de criminosos lendo nas entrelinhas. Como ela esperava poder enganá-lo?

Houve silêncio, e Maggie cobriu o bocal do telefone para impedi-lo de ouvir a respiração ansiosa.

— Vou passar um fax com os detalhes — disse ele, finalmente. — Seu vôo sai pela manhã, às 6h. Me ligue se tiver qualquer dúvida após ler o fax.

Ela ouviu o telefone bater no gancho e esperou o sinal de linha, para confirmar o fim da ligação. Com o aparelho ainda junto à orelha, suspirou e, então, inspirou profundamente. A porta da frente bateu, e Maggie deu um salto.

— Maggie?

— Estou na cozinha. — Ela desligou o telefone e bebeu um copo de água em poucos goles para diluir o enjôo que sentia. Precisava desse caso. Precisava provar a Cunningham que, embora Albert Stucky houvesse abusado e brincado com seu estado mental, o criminoso não lhe roubara o animo nem o profissionalismo.

— Oi, amor. — Greg deu a volta na bancada da cozinha. Ensaiou um abraço, mas parou quando notou a transpiração da mulher. Simulou então um sorriso para disfarçar a repulsa. Quando ele começara a usar seu talento de advogado contra ela?

— Temos reserva para as 18h30. Você acha que vai dar tempo de ficar pronta?

O relógio da parede marcava apenas 16h. Estaria tão feia assim?

— Claro — respondeu, tomando mais água e, propositalmente, dei­xando o líquido escorrer pelo queixo. Flagrou a expressão de nojo do marido, que franziu a boca em reprovação.

Greg malhava na academia do escritório, o lugar apropriado para suar, gemer e babar. Depois, tomava uma chuveirada e trocava de roupa, sem deixar nem um fio dourado de cabelo fora do lugar. E, assim, aparecia novamente em público. E esperava que ela fizesse o mesmo, chegando até a observar que não gostava de que a mulher corresse pela vizinhança. De início, ela pensara que a preocupação dele fosse com sua segurança.

— Eu sou faixa preta, Greg. Posso me virar sozinha — tinha dito então, de maneira amável, para tranqüilizá-lo.

— Não estou falando sobre isso. Meu Deus, Maggie, você fica com uma aparência horrível quando corre. Não quer causar uma boa impres­são nos vizinhos?

O telefone tocou, e Greg virou-se para atender.

— Deixe tocar — ela balbuciou com a boca cheia de água. — E um fax do diretor Cunningham. — Sem o olhar, pôde sentir o desagrado dele. Maggie correu até o escritório, conferiu o remetente e deu o sinal de fax.

— Por que ele está mandando um fax no sábado?

Greg a assustou. Não se dera conta de que ele a seguira. Estava ali de pé, na porta, com as mãos na cintura e o ar mais severo possível, em calça esporte e mole tom.

— Ele está me mandando alguns detalhes de um caso para o qual fui convocada. — Maggie evitou observar o marido, temendo os lábios con­traídos de irritação e os olhos intimidadores. Normalmente, era ele quem interrompia os sábados que os dois passavam juntos, mas ela se conven­ceu da infantilidade de relembrá-lo do fato. Em vez disso, pegou a men­sagem e passou a transferir os dados do papel para a memória.

— Pensei que teríamos uma noite a sós, um jantar legal e quieto.

— Assim será — ela respondeu calmamente, ainda sem o olhar. — A diferença é que talvez a noite precise terminar cedo. Eu tenho um vôo amanhã às 6h.

Silêncio. Um, dois, três...

— Droga, Maggie. É nosso aniversário de casamento. Este deveria ser nosso fim de semana juntos.

— Não, era o fim de semana passado. Só que você esqueceu e foi jogar o torneio de golfe.

— Ah, entendi — bufou. — E o troco.

— Não, não é o troco. — Ela manteve a frieza, apesar de estar cansada desse tipo de cena. Tudo bem se era ele que arruinava os planos de casal com uma meia desculpa e um simpático e convencido "Vou compensá-la, meu amor".

— Se não é o troco, é o quê?

— Trabalho.

— Trabalho, muito bem. É bem conveniente. Chame como você qui­ser. E um troco, sim.

— Um garotinho foi morto, e talvez eu possa ajudar a encontrar o psicopata que fez isso. — A raiva borbulhava perto da superfície, mas a voz continuava incrivelmente serena. — Desculpe, eu o compensarei. — O sarcasmo lhe escapou, mas ele não deu a impressão de notar. Ela apanhou o fax e virou-se para sair do aposento. Cruzava a porta e passava pelo marido, quando ele a segurou pelo punho e a trouxe de volta para junto dele.

— Diga para mandarem outra pessoa, Maggie. Precisamos deste fim de semana juntos — implorou, agora com voz meiga.

Ela o mirou direto nos olhos claros e se perguntou quando eles haviam perdido a cor original. Procurou um lampejo da inteligência e da compai­xão do homem com quem se casara há nove anos, quando os dois termi­navam a universidade, prontos para deixar as suas marcas no mundo. Ela correria atrás de criminosos, e ele ajudaria vítimas indefesas. Então, Greg conseguiu o emprego em Washington na Brackman, Harvey & Lowe, e suas vítimas indefesas se tornaram empresas bilionárias. Mesmo assim, em apenas um momento de silêncio, Maggie pensou ver algo de sinceridade nos olhos dele. Encontrava-se a ponto de ceder, quando o marido a apertou com mais força e trincou os dentes.

— Diga-lhes para mandarem outra pessoa ou estará tudo terminado. Ela soltou o punho com um puxão. Greg voltou a agarrá-lo, e Maggie p afastou com um soco no peito. Os olhos dele arregalaram-se de surpresa.

— Nunca mais me agarre desse jeito. Se essa única viagem significa que está tudo terminado, então tudo terminou entre nós há tempos.

Ela saiu como uma flecha em direção ao quarto do casal, torcendo para os joelhos a sustentarem e para segurar as lágrimas nos olhos um pouco mais.

 

Domingo, 26 de outubro

Assim são as coisas, ele pensou enquanto bebericava o chá escaldante.

A manchete de primeira página era digna do National Enquirer, e não de um jornal de respeito como o Omaha Journal. "Da sepultura, serial killer ainda mobiliza comunidade após o recente assassinato de um garoto." Quase tão histérica quanto a manchete da véspera, mas necessária para que a edição de domingo, maior e tradicional, atraísse mais leitores.

Assinava de novo a matéria Christine Hamilton. Ele reconhecia o nome, ela escrevia para o "Vida Atual". Por que teriam dado a matéria para uma iniciante, uma foca?

Virou as páginas rapidamente em busca do restante do texto, que continuava na primeira coluna da página dez, toda dedicada ao tema. Havia uma foto da turma de escola do garoto. Ao lado, em detalhes, a saga do menino entregador de jornais, que desaparecera antes de iniciar o trabalho do dia. A matéria descrevia como o FBI e a mãe esperaram em vão, durante uma semana, um bilhete de resgate. Finalmente, o xerife Morrelli descobrira o corpo da vítima num matagal à margem do rio.

Ele retornou ao parágrafo. Morrelli? Não, esse era Nicholas Morrelli, não Antonio. Que legal, pensou, pai e filho tendo a mesma experiência.

O artigo continuou com as similaridades entre o recente crime e o assassinato de três garotos na mesma vizinhança há mais ou menos seis anos. Todos os corpos, estrangulados e esfaqueados até a morte, foram achados em bosques isolados, dias depois do desaparecimento das vítimas.

A matéria, contudo, não mencionou detalhes, descrições da elaborada incisão em cada lado do tórax. Será que a polícia esperava esconder esse indício novamente? Balançou a cabeça e continuou a leitura.

Ele usava a faca de carne para espalhar geléia na torrada queimada. A estúpida torradeira não funcionava direito havia semanas, mas isso era melhor do que descer para a cozinha e tomar o café com os outros. Pelo menos, no quarto, ele desfrutava o desjejum e o jornal, sem o fardo das conversas formais.

O quarto era bem simples, paredes brancas e piso de madeira. A pequena cama de solteiro mal acomodava seu corpo de l,80m. Algumas noites, ele acordava com os pés dependurados e balançando no fim do colchão. Acrescentara uma mesa com tampo de fórmica e duas cadeiras, embora não permitisse a visita de ninguém. No canto, um carrinho de chá abrigava a torradeira de segunda mão, presente de um dos paroquianos, a chaleira e a chapa elétrica.

Sobre o criado-mudo, destacava-se seu mais rebuscado objeto de de­coração, um requintado abajur, cuja base era esculpida em forma de querubins e ninfas harmonicamente dispostos. Era um de seus poucos supérfluos, comprado com o dinheiro do escasso salário. Tinha também três quadros, reproduções naturalmente. Penduradas na parede em frente à cama, ele as contemplava enquanto pegava no sono, sono que não chegava facilmente nesses dias. Era sempre assim quando as pontadas e a dor começavam, invadindo sua vida pacata, provocando todas aquelas lembranças infames. No quarto simples e despretensioso, ele experimen­tava períodos curtos de conforto, autocontrole e solidão na vida que não mais lhe pertencia.

Conferiu o relógio e passou a mão pelo queixo. Não precisaria fazer a barba; mantinha o rosto de menino ainda liso do barbear do dia anterior. Havia tempo para concluir a leitura, embora não agüentasse mais os artigos ridículos sobre Ronald Jeffreys. Jeffreys nunca merecera essa aten­ção e ali estava sob os holofotes, mesmo depois de executado.

Terminou a refeição e meticulosamente limpou a mesa, sem deixar uma migalha escapar dos movimentos ágeis com o pano molhado. Da pequena pia marrom do banheiro, ele removeu o par de Nikes, posto ali para secar, depois de esfregado. Se os tivesse descalçado antes naquela noite, o tênis não se sujaria tanto de lama. Pôs os tênis limpos de lado para lavar o único prato que considerava seu, um Noritake frágil pintado a mão, que há muito tempo pegara por empréstimo do armário coletivo com porcelanas chinesas. Encheu até a borda com mais água escaldante a xícara, outro empréstimo, assim como o pires em que a apoiava, ambos também do mesmo conjunto chinês. Delicadamente, mergulhou na xíca­ra o saquinho de chá que usara e esperou que a infusão ganhasse a característica cor âmbar. Quando atingida a meta, ele retirou o saquinho com rapidez e o estrangulou, como se o fizesse entregar até a última gota.

Com o ritual da manhã completo, ele se ajoelhou no chão e apanhou uma caixa de madeira, guardada sob a cama. Botou a caixa sobre a mesa e sentiu com os dedos o complexo relevo talhado na tampa do recipiente. Cuidadosamente, recortou os artigos do jornal, ignorando os referentes a Ronald Jeffreys. Retirou a tampa e posicionou as matérias dobradas sobre uma pilha de outros recortes, alguns já ganhando uma coloração amare­lada. Verificou os demais pertences na caixa: um pano de linho branco, duas velas e um vidrinho de óleo. Então, lambeu o resto de geléia da faca de carne e recolocou o talher dentro da caixa, junto ao algodão macio de duas cuecas de menino.

 

Timmy Hamilton empurrou os dedos da mãe para longe do rosto. Os dois permaneciam parados nas escadas da igreja de Santa Margarete. Já era chato o suficiente o fato de Timmy estar atrasado. Não precisava dos paparicos da mãe na frente de todo mundo.

— Pára, mãe. O pessoal está olhando.

— Esse machucado é novo. — Ela segurou o queixo do filho e inclinou com delicadeza a cabeça dele para trás.

— Dei um encontrão com Chad durante o treino de futebol. Não é grande coisa. — Timmy pôs a mão no quadril para disfarçar o hematoma ainda maior escondido lá.

— Você tem que tomar cuidado, Timmy. Você se machuca com faci­lidade. Eu devia estar louca quando autorizei sua entrada no time de futebol.

Ela abriu a bolsa e começou a revolvê-la.

— Vou chegar atrasado. A missa começa em 15 minutos.

— Pensei que tivesse comigo sua ficha de registro e o cheque para pagar pelo acampamento.

— Mãe, já estou atrasado.

— Tudo bem, tudo bem. — Ela fechou a bolsa com um estalo. — Diga ao padre Keller que vou pôr tudo no correio amanhã.

— Posso ir agora?

— Sim.

— _Tem certeza de que não quer conferir a etiqueta das minhas cuecas ou mais alguma coisa?

— Espertinho. — Ela riu e lhe deu uma palmadinha no traseiro. Timmy gostava quando ela ria, algo raro desde que o pai partira.

Quando a mãe sorria, os traços de seu rosto se suavizavam, e abriam-se covinhas nas bochechas. A mãe era a mulher mais bonita que ele conhe­cia, especialmente agora com os novos cabelos louros e sedosos. Era quase mais bonita do que a saudosa professora Roberts, da quarta série. Agora, aturava a professora Stedman, mais velha. Embora estivesse no início do ano letivo, ele odiava a quinta série. Vivia para os treinos de futebol e para ajudar o padre Keller na missa.

Em julho, quando a mãe o mandou para o acampamento da igreja, Timmy havia ficado furioso. No entanto, padre Keller garantiu a diversão no acampamento. Acabou sendo um verão incrível, e Timmy quase não sentiu a falta do pai. Para completar, o padre o convidara para ser coroi­nha. Apesar de ele e a mãe só freqüentarem a igreja desde a primavera, Timmy sabia que os coroinhas do padre Keller formavam uma elite, escolhida a dedo e bem recompensada. Um dos benefícios: a viagem para um acampamento especial naquela semana.

Timmy bateu na ornada porta do vestíbulo da igreja. Ninguém respon­deu. Ele a abriu vagarosamente e deu uma espiada antes de entrar. Depa­rou-se com uma batina do seu tamanho entre as penduradas no closet e tirou-a do cabide, tentando compensar o tempo perdido. Jogou a jaqueta sobre uma cadeira no meio do cômodo e deu um pulo de susto ao ver o padre ajoelhado, quieto, perto da cadeira. Com a coluna reta como uma bengala, o religioso posicionava-se de costas para Timmy, mas o garoto reconheceu o cabelo escuro e encaracolado do padre Keller sobre a gola da vestimenta. Mesmo de joelhos, sua figura magra era mais alta do que a cadeira. Apesar de Timmy quase o ter atingido com a jaqueta, o padre permanecera quieto e imóvel.

Com a respiração presa, o garoto fitou-o, à espera de alguma reação, um movimento, um suspiro. Finalmente, o padre ergueu o braço para fazer o sinal-da-cruz. Levantou-se sem esforço, virou-se para Timmy e Pendurou a jaqueta na cadeira.

— Sua mãe sabe que você sai jogando por aí suas roupas de domingo? O padre Keller sorriu com seus dentes perfeitos e brancos e os olhos azuis brilhantes.

Desculpe, padre. Eu não o vi, quando entrei. Achei que estava atrasado.


— Não se preocupe. Temos muito tempo. — O padre acariciou a cabeça do coroinha, como o pai de Timmy costumava fazer com o filho.

No início, Timmy se incomodava quando o padre o tocava. Agora, em vez de tensão, ele experimentava uma sensação de segurança. Embora não pudesse admitir isso em alto e bom som, gostava mais do jeito do padre Keller do que do jeito do pai. O padre nunca berrava, sua voz era doce e leniente, baixa e poderosa. As mãos grandes acariciavam e toca­vam de leve, nunca batiam. Quando o clérigo falava com ele, Timmy tinha a impressão de ser a pessoa mais importante na vida do padre. Sentia-se especial, e, em contrapartida, queria agradar o amigo, embora ainda se confundisse com os rituais da missa. No último domingo, trou­xera a água para o altar, mas se esquecera do vinho. Padre Keller apenas sorriu, cochichou para ele e esperou pacientemente. E ninguém sequer suspeitou do engano.

Não, o padre não era como o pai, que desperdiçava a maior parte do tempo no trabalho, apesar de ter uma família. O padre Keller lembrava mais um amigo de escola do que um padre. Algumas vezes, aos sábados, jogava futebol com as crianças no parque, permitia que elas tirassem a bola dele e se enlameava como todos ali. No acampamento, contava histórias assustadoras de fantasmas, aquelas que os pais proibiam. Às vezes, após a missa, trocava figurinhas de jogadores de beisebol. O padre Keller tinha algumas das mais cobiçadas, como Jackie Robinson e Joe DiMaggio. Não, o cara era muito legal para se parecer com o pai de Timmy.

O garoto terminou e aguardou o padre colocar as últimas peças do paramento. O religioso checou a aparência no espelho e dirigiu-se a Timmy.

— Pronto?

— Sim, padre — respondeu ele e seguiu o líder pelo curto corredor até o altar.

Timmy não pôde conter o riso ao perceber os Nikes brancos e brilhan­tes, aparecendo abaixo da batina longa e preta do padre.

 

Platte City parecia parada no tempo, lembrando a Maggie as cidadezinhas do interior retratadas em séries de tevê dos anos 70. Ela nunca entendera os atrativos das cidades pequenas. Pitoresca e amigável fre­qüentemente significavam chata e enxerida. Missões em lugares assim deixavam-na irritada. Odiava a suposta intimidade dos "Como vai?" ou "bom dia". Imediatamente, dava pela falta dos sons de buzinas de táxis, das vias de seis pistas. Pior ainda era pedir comida chinesa para viagem de lugares chamados Big Fred's e tomar cappuccino aguado das máquinas automáticas em lojas de conveniência.

Maggie tinha que admitir, porém, que a viagem de carro de Omaha havia sido uma beleza. A folhagem ao longo do rio Platte exibia cores espetaculares: laranja reluzente e vermelho-fogo misturados com verde e dourado. O odor inebriante das sempre-vivas e a chuva iminente enchiam o ar com um agradável aroma. Apesar do frio, ela manteve aberta uma fresta da janela.

Um jato cruzou o céu com estrondo. Maggie freou bruscamente para Parar num cruzamento. O repentino movimento fez o carro estremecer, e ° rangido ressoou pelas ruas silenciosas. Ela recordou que o Comando Estratégico da Aeronáutica localizava-se a 15, talvez a 20 quilômetros dali. OK, até que Platte City possuía alguns ruídos familiares.

De propósito, optou pelo caminho que não a levaria diretamente ao Centro da cidade. O desvio tomaria poucos minutos e com sorte lhe propiciaria uma idéia melhor sobre o lugarejo. Um Pizza Hut dominava uma esquina. Na rua em frente, a obrigatória loja de conveniência e um McDonald's brilhando de novo. Os arcos dourados do fast-food, mais altos do que qualquer outra coisa em volta deles, só competiam no horizonte com um silo e a torre da igreja.

O crucifixo de ferro pontiagudo no topo da torre atravessava as nuvens pesadas que começavam a se concentrar. A área de estacionamento da igreja começou a esvaziar-se, e as tartarugas ao volante envolveram Mag­gie em um engarrafamento. Pacientemente, ela observou cada um dos motoristas abrir espaço para que outro entrasse na fileira de carros. Não, era tudo muito organizado. Eles arruinavam até mesmo um bom conges­tionamento.

Maggie aguardou até ter espaço suficiente à sua frente para dar uma guinada de 180° no Ford alugado, com uma só cantada de pneus. Atenção chamada, a fila de lesmas parou para assistir a seu escape na direção oposta. Pelo espelho retrovisor, constatou que nenhum carro de polícia a seguia, embora não tivesse ficado surpresa se o contrário acontecesse.

A informação que obtivera na página do órgão de turismo de Nebraska na internet descrevia Platte City (3.500 habitantes) como uma comuni­dade-dormitório emergente, lar de muitas pessoas que trabalhavam em Omaha (30 quilômetros ao nordeste) e em Lincoln (45 quilômetros ao sudoeste). Isso explicava as casas bonitas e bem-acabadas, várias recém-construídas, sem que houvesse indústrias por perto.

Pequenas lojas alinhavam-se na praça central: uma agência de correio, a lanchonete Wanda's, um cinema, um lugar chamado "A Loja do Cons­trutor", uma pequena mercearia e, sim, até mesmo uma farmácia. Toldos vermelhos reluzentes pendiam de alguns dos estabelecimentos. Outras lojas tinham nas janelas vasos com gerânios em flor. No meio da praça, o edifício-sede do condado, de tijolos vermelhos, era o prédio mais alto. Construído numa época em que o orgulho guiava os gastos, a fachada apresentava em relevo símbolos da história de Nebraska — carroças com cobertura de lona e cavalos com arado, separados pela balança da Justiça.

O complexo era pomposamente cercado com ferro forjado, pintado não há muito de preto. O palácio em si ocupava apenas metade do espaço. Passadiços de pedras arredondadas, estátuas de bronze, um chafariz de mármore, bancos e postes antigos faziam do restante da área um refúgio tranqüilo, como um jardim. O que impressionou Maggie, ao caminhar sobre a irregularidade das pedras, foi a ausência de lixo. Nem um único guardanapo de papel ou copo descartável ousava sujar a terra sagrada. Em vez disso, grandes folhas de figueiras e bordos cobriam a trilha de dourado e vermelho.

Dentro do saguão do prédio, os saltos de Maggie estalaram no piso de mármore, enviando seu eco até o suntuoso teto em abóboda. Não havia seguranças nem sequer um recepcionista. Ela passou os olhos na lista fixada na parede com os ramais. O departamento do xerife, diversas salas de tribunal e a cadeia do condado estavam instalados no terceiro andar.

Maggie ignorou o elevador e subiu a escada, em espiral aberta, que lhe permitia uma visão geral do salão principal. Mármores caros, cinza e branco, revestiam o vão da escada e os pisos. Madeira maciça e latão lustroso decoravam o corrimão e os arcos das portas. Ela se deu conta de que andava na ponta dos pés.

A sala de entrada do departamento do xerife estava vazia. O aroma de café fresco e o zumbido da máquina de xerox escapavam de alguma das salas dos fundos. O relógio de parede mostrava 11h30. Maggie verificou o seu. Ainda estava no fuso do leste. Ela o ajustou enquanto observava a vista pela janela. Nuvens cinzentas e pesadas bloqueavam todas as evi­dências da existência do sol e do azul do céu. Abaixo, as ruas continua­vam quietas. Alguns clientes, vestidos com suas roupas de domingo, deixavam a lanchonete Wanda's. Atrás do cinema, um homem baixo e grisalho jogava o lixo dentro de um grande coletor.

Ainda não era meio-dia, e ela estava exausta, esgotada por sua batalha com Greg e outra noite mal dormida, fugindo dos pesadelos com Albert Stucky. Para completar, o vôo turbulento da manhã a sacudira e balan­çara a quilômetros acima de seu controle. Odiava voar, e a experiência nunca se amenizava.

O motivo era que ela precisava manter sempre as coisas sob seu con­trole, lembrava-lhe sua mãe sempre que possível.

Você precisa deixar rolar, linda. Você não pode ter a expectativa de estar no comando das coisas 24 horas por dia.

Isso vinha de uma mulher que, depois de 20 anos de terapia, ainda se debatia com o significado de autocontrole. Uma mulher que afogara o luto pela morte do marido embebedando-se todas as noites de sexta-feira e trazendo para casa qualquer estranho que lhe pagasse a bebida. Só quando um de seus parceiros sugeriu um ménage à trois — filha, mãe e ele — ela parou de trazer as companhias para casa e passou a exigir quarto de motel, aparentemente não por repugnância à idéia de dividir sua filha de 12 anos, mas antes intimidada com a possibilidade.

Maggie esfregou a nuca, os músculos enrijecidos pela freqüente tensão decorrente desses pensamentos. Questionou-se se não deveria ter ido primeiro ao hotel, comido algo, em vez de ir direto para ali. No entanto, sentia-se pronta para dar a partida, depois de horas de vôo absorta nos relatórios sobre Ronald Jeffreys. O recente homicídio assemelhava-se ao estilo de Jeffreys, principalmente por causa do X sinuoso talhado no peito do garoto. Imitadores de um criminoso são detalhistas, reproduzindo cada mínimo procedimento para ampliar a excitação. As vezes, isso os faz mais perigosos do que o assassino original. Remove a paixão e, dessa maneira, a tendência a cometer erros.

— Posso ajudá-la?

A voz assustou Maggie, que se virou de supetão. A mulher jovem que apareceu do nada estava longe do que Maggie podia esperar de alguém que trabalhava no escritório de um xerife. O cabelo longo e armado demais, a saia de malha muito curta e apertada. Uma adolescente pronta para a paquera.

— Procuro o xerife Nicholas Morrelli.

A jovem a encarou com suspeita, mantendo-se no vão da porta que dava para as salas dos fundos. Maggie sabia que o blazer e a calça em austero azul-marinho lhe davam a aparência de oficial, escondendo o corpo delgado que costumava trair sua autoridade. Desde o início de sua carreira, desenvolvera maneiras abruptas, quando não rudes, para exigir atenção e compensar a figura franzina. Com l,65m e 55 quilos, ela quase não atendera às exigências físicas para a admissão.

— Nick não está aqui agora — respondeu a mulher com voz que revelou a Maggie a falta de disposição para conceder qualquer outra informação. — Ele a está esperando? — A jovem cruzou os braços na tentativa de enfatizar sua autoridade.

Maggie olhou em volta de novo, ignorando a pergunta, sem se mostrar impressionada.

— E possível contatá-lo? — Maggie fingia estar interessada num quadro de avisos com uma foto do início dos anos 80 de alguém procurado pela polícia, um folheto de uma festa de Halloween e um anúncio de venda de uma picape Ford 1990.

— Desculpe, não é intromissão — afirmou a jovem, não tão mais segura de si — , mas sobre o que exatamente precisa falar com Nick... com o xerife Morrelli?

De relance Maggie voltou a dirigir o olhar para a mulher, que não parecia mais tão garota assim, com as marcas do rosto evidentes em volta da boca e dos olhos. A jovem buscava o melhor equilíbrio sobre os saltos pontiagudos, de uns sete centímetros, e mordia o lábio inferior.

Maggie enfiou a mão no bolso do blazer para pegar sua credencial quando dois homens, ruidosamente, entraram no departamento. O mais velho usava o uniforme marrom de assistente do xerife, a calça impecavelmente passada e a gravata bem justa em torno do pescoço. O gel no cabelo não permitia que um fio escapasse do penteado. Em contraste, o mais jovem vestia uma camiseta cinza encharcada de suor, short e tênis de corrida. Tinha o cabelo castanho-escuro desgrenhado, com pequenas mechas molhadas sobre a testa. Apesar do visual desleixado, era bonito e estava definitivamente em boa forma, com pernas musculosas e longas, quadril estreito e ombros largos. Maggie ficou de imediato aborrecida consigo mesma por ter reparado em seus músculos.

Os dois homens interromperam a conversa ao deparar com ela. Duran­te o instante de silêncio, olharam para a jovem estressada ainda de pron­tidão junto à porta.

— Oi, Lucy. Está tudo bem? — indagou o mais jovem, enquanto examinava o corpo de Maggie. Quando seus olhos chegaram ao rosto dela, riu, como se a tivesse aprovado.

— Estou apenas tentando descobrir o que essa senhora...

— Estou procurando o xerife Morrelli — interrompeu Maggie. Come­çava a se impacientar pelo tratamento digno do dispensado a um auditor fiscal do condado.

— Por que o procura? — Era a vez do assistente interrogá-la. A testa dele franziu de preocupação. Aprumou a postura, colocando-se em posi­ção de alerta.

Maggie passou a mão pelo cabelo, dando um tempo para que a impa­ciência se assentasse, antes que o sentimento se tornasse raiva; sacou o distintivo e o apresentou.

— Sou do FBI.

E o agente especial O’Dell? — perguntou o mais jovem, talvez mais constrangido do que surpreso.

— Sou.

Desculpe todo este interrogatório. — Ele limpou a mão na camiseta antes de estender. — Nick Morrelli.

Maggie teve certeza da surpresa estampada em seu rosto, pois ele riu de sua reação. Já trabalhara com um número suficiente de xerifes de cidadezinhas para aprender que eles não se pareciam com Nick Morrelli, cujo aspecto era de atleta profissional, daqueles cujos charme e beleza faziam com que sua arrogância fosse perdoada. Tinha olhos azuis como o céu, difíceis de ignorar, em contraste com a pele bronzeada e o cabelo escuro. Apertou a mão dela com firmeza e fixou o olhar em Maggie como se ela fosse a única pessoa ali. Sem dúvida, um hábito que ele reservava apenas para o sexo feminino.

— Este é o assistente Eddie Gillick, e acho que já conheceu Lucy Burton. Lamento muito. É que estamos no nosso limite. Tivemos algumas noites bem longas, e muitos repórteres estão bisbilhotando por aqui.

— Conseguiu um disfarce bem interessante. — Foi a vez de Maggie examinar o corpo do xerife. Quando os olhos dela chegaram nos dele, um vestígio de constrangimento substituiu a arrogância de atleta.

— Não, é que eu acabei de voltar de Omaha. Disputei uma corrida. — Ele se mostrou ansioso para explicar, quase desconfortável, como se des­coberto fazendo algo que não devia. Jogava o peso do corpo de uma perna para a outra. — Uma corrida para angariar fundos reservados à prevenção e ao tratamento de doenças do pulmão... Não, do coração... Não lembro direito, mas foi por uma causa nobre, de qualquer maneira.

— Não me deve explicações, xerife Morrelli — Maggie, interrompeu-o, de certa forma feliz pelo fato de sua presença aparentemente exigir uma satisfação.

Seguiu-se um momento de embaraço. Finalmente, o agente Gillick falou.

— Preciso voltar para as ruas. — Sorriu para Maggie. — Foi um prazer conhecê-la, senhorita.

— Agente, agente O’Dell — corrigiu-o o xerife.

— Claro. Desculpe. — Desconcertado pela gafe, Gillick evidenciava sua aflição em partir.

— Estou certa de que nos veremos de novo — acrescentou Maggie ao mal-estar de Gillick.

— Lucy, tem algo aqui cheirando a café fresco? — perguntou Morrelli, com um sorriso de menino.

— Acabei de preparar um bule. Vou pegar para você. — A voz de Lucy tornara-se melosa e uma oitava mais aguda.

Maggie riu internamente quando a pose rígida e autoritária da jovem deu lugar ao andar ritmado para executar a missão confiada pelo xerife bonitão.

— Você se importaria em pegar uma xícara para a agente O’Dell também? — Ele sorriu para Maggie, enquanto Lucy virava e a fuzilava com um olhar furioso.

— Creme ou açúcar?

— Eu não quero. Obrigada.

— Quem sabe um refrigerante? — ofereceu o xerife, ansioso por agra­dá-la.

— Melhor. — Quem sabe o açúcar não lhe ajudaria a enganar o estômago vazio.

— Esqueça o café, Lucy. Duas latas de Pepsi, por favor.

Lucy fitou Maggie, com desprezo. Tornou a se virar e saiu batendo os saltos.

Ficaram só os dois. Morrelli esfregou os braços, como se pretendesse expulsar o frio do corpo. Ele aparentava constrangimento, e Maggie tinha consciência de que era ela que causava a sensação. Talvez devesse ter telefonado antes. Etiqueta, um de seus pontos fracos, era provavelmente seguida em Platte City, em Nebraska.

— Após quase 48 horas de trabalho contínuo, decidimos dar um tempo hoje. — Mais uma vez, ele demonstrava agonia para justificar sua aparência e o silêncio no departamento. — Eu realmente não imaginei que fosse chegar antes de amanhã. Como sabe, hoje é domingo.

Maggie especulou consigo se ele havia sido nomeado ou eleito. De qualquer forma, seu charme de garoto possivelmente pesara mais do que sua competência.

— Meus superiores me deram a impressão de que tempo poderia ser importante nesse caso. Não liberou o corpo, liberou?

— Não. Ele está... — Morrelli esfregou a mão na barba por fazer. Maggie notou uma cicatriz pequena, um franzido branco em seu queixo que, não fosse aquela falha, seria perfeito. — Estamos usando o necrotério do hospital. — Ele pressionou os dedos nos olhos, sem que Maggie pudes­se decidir se o gesto significava simples exaustão ou uma tentativa de bloquear a imagem que o perseguia. O relatório indicava que Morrelli havia encontrado o corpo. — Se quiser, eu a levo até lá — completou ele.

— Obrigada. Tenho que ir lá, mas, primeiro, há outro lugar para onde precisa levar-me.

— Evidente. Você precisa deixar suas malas. Está hospedada aqui na cidade?

— Desculpe, não foi isso o que eu quis dizer. Quero ver a cena do crime. — Ela viu Morrelli empalidecer. — Quero que me mostre onde encontrou o garoto.


 

A estrada de terra dissolvera-se, consistia agora em mato amassado e raízes à mostra. As marcas de pneu gravadas na lama cruzavam-se. Nick engatou a segunda marcha no jipe, que deu uma guinada e avançou, as rodas afundando mais ainda na lama.

— Suponho que ninguém pensou que todo esse movimento de carros por aqui pudesse vir a destruir provas.

Nick mostrou uma expressão frustrada para a agente O’Dell. Começa­va a se cansar de ser lembrado de seus erros.

— Antes de o corpo ser encontrado, pelo menos dois veículos passa­ram por aqui. Sim, nós nos demos conta do problema, mas tarde demais.

Nick mal a olhou enquanto falava, atento para que o jipe não derrapasse para os trechos da estrada mais enlameados. Embora agisse como uma mulher experiente, ele apostava que a agente tinha os seus vinte e poucos, 30 anos, jovem demais para ser uma especialista. Não só a idade, porém, o desarmara. Por trás do jeito frio e abrupto, ela se revelava muito atraente. O tailleur tradicional não escondia o que ele suspeitava ser um corpo espetacular. Sob circunstâncias normais, o xerife estaria planejan­do uma estratégia para tomá-la de assalto, mas, oh, Deus, havia alguma coisa nela que o desorientava. A agente tinha pose, exibindo segurança e autoconfiança no trabalho. Comportava-se como se soubesse exatamente onde pisava. Isso fazia Nick ainda mais consciente de seu despreparo profissional e o incomodava como o diabo.

Num solavanco, o jipe parou em frente ao cinturão de árvores, e imediatamente a náusea que atacara Nick naquela noite voltou à carga. A tonteira surpreendeu-o. O som da briga de O’Dell com a tranca da porta do passageiro o embaraçava, o já familiar ruído do atrito entre metais.

— Espere, a porta está agarrando. Eu abro. — Sem pensar, debruçou-se sobre ela para alcançar a porta. Já tinha a mão na trava antes de perceber os rostos de ambos perigosamente próximos. Ela se encolheu no assento para evitar o contato, e o xerife de imediato tirou a mão da porta e retornou ao seu lado do carro.

— Vou abrir pelo lado de fora.

— Boa idéia.

Fora do jipe, Nick se penitenciou. Agira como um estúpido. Nada profissional. Estava certamente fazendo jus a sua reputação de xerife playboy e incompetente.

Patinhou até o outro lado do veículo. Antes, no escritório, havia tomado uma chuveirada rápida, vestido um jeans e trocado o tênis pelas mesmas botas usadas naquela noite. A lama ressecada ainda cobria o couro caro do calçado, que foi instantaneamente devorado de novo pelo lodo viscoso. As nuvens cinzentas rumavam em direção a um mesmo ponto e ameaçavam precipitar-se a qualquer momento, garantia da per­manência do lodo por mais alguns dias.

A porta do jipe abriu-se facilmente pelo lado de fora. Pensaria O’Dell que a porta quebrada fora uma desculpa esfarrapada para que ele chegasse mais perto dela? Não importa. Alguma coisa lhe dizia que aquela mulher era imune a seu charme, o pouco que lhe restara.

— Um minuto — pediu a ela. — Acho que tenho um par de botas aqui. — Nick apoiou-se no degrau da porta para investigar atrás dos bancos, de novo por cima da agente. No meio do movimento, conteve-se por se dar conta, mais uma vez, da própria inconveniência. Evitou os olhos da agente e esperou até que ela se afastasse um pouco para o lado, para uma distância segura. Então, esticou-se sobre o banco, e, felizmente, as botas de borracha encontravam-se ao alcance do braço.

— Tem certeza de que elas são necessárias? — Ela examinou as botas pretas como se fossem grilhões.

— Não vai chegar a lugar nenhum sem elas. A lama é pior na beira do rio. Nick já começara a desfazer o laço do cordão de uma das botas. Entregou-lhe a desamarrada e passou a desatar a outra, distraído pelo movimento de Maggie tirando as sapatilhas de couro. Cobertos apenas por meias transparentes, os pés da agente mostraram-se pequenos, finos e delicados. Ele a observou encaixar o pé sem dificuldade na botina de tamanho visivelmente maior do que o dela. O calçado engoliu o pé de O’Dell, e mesmo a idéia de enfiar a borda da calça para dentro da bota não garantiria a firmeza no andar.

Ao caminharem pela trilha lamacenta adentro, ela impressionou Nick por poder segui-lo no ritmo dele, apesar do calçado precário e da passada mais curta. A área permanecia marcada por fita amarela presa às árvores. Trechos da demarcação tinham se rompido e balançavam à brisa, que se intensificava à medida que as nuvens se concentravam velozmente sobre os dois. Com o cabelo ainda úmido, Nick levantou a gola da jaqueta para se proteger do frio. O'Dell abotoou o paletó e não deu outro sinal de que o frio cortante a afetava.

A agente andou cuidadosamente em volta do amassado que o corpo pequeno deixara sobre a grama alta. Agachou-se, analisou a relva, cole­tou uma amostra da lama com o dedo e a cheirou. Nick estremeceu ao recordar o cheiro de azedo. Sua pele ainda estava áspera de tanto que ele a esfregara para tirar o fedor.

De pé, O´Dell parou de frente para o rio, cheio, a cerca de um metro dali. As águas batiam contra os barrancos que o margeavam, fato pouco comum.

— Onde você encontrou a medalha? — perguntou ela, sem tirar a atenção do rio.

Nick caminhou até o ponto requisitado e achou o marco branco que um dos seus homens fincara ali.

— Aqui — respondeu, apontando para o cilindro de plástico afundado na lama, quase invisível.

Ela olhou o local e voltou então a cabeça para onde repousara o garoto. A distância entre os dois pontos era inferior a um metro.

— A medalha pertencia ao garoto. A mãe a identificou — explicou Nick. Ainda lamentava não poder tê-la devolvido a Laura Alverez, quan­do ela implorou. — O cordão rompeu-se. Deve ter sido puxado durante a briga.

— Não houve nenhuma briga.

— Como assim? — Ele a mirava à espera de uma explicação, mas a agente se ajoelhara de novo e esticava uma pequena fita métrica entre o marco branco e a impressão do cadáver na grama.

— Não houve briga — repetiu, calmamente, pondo-se de pé e batendo na calça para se livrar das folhas e da lama.

— O que a leva a dizer isso? — Ele estava irritado com a atitude blasé da agente, que passara poucos minutos no lugar e dava a impressão de já ter o caso resolvido.

— Você caiu aqui quando tropeçou, certo? — certificou-se, indicando a grama amassada e a depressão na lama.

Nick mais uma vez expressava seu embaraço. Até o relatório que ele havia escrito o pintava como um idiota.

— Certo — admitiu.

— Todo esse pisoteio em volta da área é do corre-corre dos seus homens.

— E do FBI — acrescentou Nick, na defensiva, sabendo que ela não estava interessada nesse tipo de detalhe. — A incumbência era do FBI até descartarmos a hipótese de seqüestro.

— Além do local onde se achava o cadáver, não há mais marcas de nenhum tipo na grama. Os pés e as mãos da vítima estavam amarrados quando você a encontrou?

— Estavam. Por trás do corpo.

— Minha suposição é de que ele tenha chegado aqui assim. O legista já tem a hora aproximada e o local da morte? — Ela pegou um bloco e tomou notas.

— O garoto foi morto na região, provavelmente menos de 24 horas antes de eu deparar com o corpo. — O enjôo se restabelecia. Conseguiria um dia apagar de sua cabeça a imagem do menino morto? Os olhos inocentes arregalados para o céu?

— Quando a vítima desapareceu?

— No último domingo, de manhã, bem cedo. Encontramos sua bici­cleta e a bolsa de jornais encostadas em uma cerca. Ele nem havia iniciado o trabalho.

— O assassino o teve com ele então por pelo menos três dias inteiros?

— Meu Deus — murmurou Nick e balançou a cabeça. Não pensara sobre o tempo entre a captura e o assassinato. Todos estavam seguros de que o garoto havia sido seqüestrado pelo pai ou por alguém que pediria um resgate. O xerife acreditara que o menino recebia bom tratamento.

— Como então o cordão do menino arrebentou? — Nick se esforçava para deduzir alguma coisa que não a possibilidade de a vítima ter sofrido tortura.

— Não sei ao certo. Talvez o assassino o tenha arrancado. Tinha um crucifixo de prata, certo? — A agente buscou com o olhar a confirmação dele. Nick fez que sim com a cabeça, espantado pela maneira minuciosa com que ela estudara o relatório que ele escrevera. O’Dell prosseguiu como se pensasse alto. — Quem sabe o criminoso não gostou da imagem do crucifixo? Talvez ele não se sentisse capaz de fazer o que pretendia enquanto a vítima o usasse. O assassino pode ser religioso o suficiente para que o crucifixo o intimidasse, o constrangesse.

— Um assassino religioso? Fantástico.

— Que outras pistas você tem?

— Pistas?

— Outras evidências: objetos, pedaços de tecido ou corda? O FBI foi capaz de encontrar algo além de marcas de pneu?

As marcas de pneu novamente! Quantas vezes ele seria lembrado de suas trapalhadas?

— Encontramos uma pegada.

Ela o encarou, e ele pôde detectar a impaciência da agente.

— Uma pegada? Desculpe, xerife. Não quero que isso soe a ceticismo, mas como vocês puderam isolar uma pegada? Pelo que eu posso ver, há pelos menos 12 pares de pegadas por aqui. — Ela agitou o braço no ar para ressaltar as marcas de sapatos misturadas na lama. — Como você sabe que a pegada encontrada não é de um dos seus homens ou dos agentes do FBI?

— Porque nenhum deles estava descalço. — Sem esperar a reação dela, Nick dirigiu-se ao rio. Agarrou-se a um galho de árvore para escorregar pela ribanceira sem cair na água. Reparou que O’Dell já o supervisionava.

— Bem aqui. — Ele apontou para o conjunto de dedos impressos na lama, destacado pelo que restava do pó de identificação.

— Não há nenhuma garantia de que seja do criminoso.

— Quem mais seria pirado o suficiente para andar por aqui sem sapatos? Apoiando-se no mesmo galho, ela deslizou para perto de Nick.

— Importa-se em me dar uma mãozinha? — Estendeu o braço para ele, que a segurou pela mão, permitindo que a agente se dependurasse e se espichasse para examinar a impressão.

A mão de O’Dell era macia e cabia dentro da sua, que ela segurava com força. O blazer da agente se abriu, e Nick obrigou-se a olhar para o outro lado. Meu Deus, aquele não era o corpo que ele esperaria de uma agente federal.

Após alguns segundos, ela se ergueu e, imediatamente, soltou a mão de Nick. De volta ao plano, fez mais algumas anotações, enquanto Nick conferia de novo as nuvens pesadas e acinzentadas, desejando não estar ali embaixo delas. As últimas 48 horas o haviam esgotado. As panturrilhas doíam em decorrência da prova de dez quilômetros que se forçara a correr pela manhã. E, agora, lá estava uma vez mais diante de sua incom­petência e sua náusea, à lembrança do corpo de Danny com os olhos arregalados para as estrelas. Um grupo de gansos grasnou ao cruzar o céu e Nick se perguntou qual teria sido a última visão de Danny. Gansos, desejou, ou alguma outra coisa tranqüila e familiar.

— As marcas de facadas e o desenho talhado no peito do garoto eram exatamente como os feitos por Jeffreys — afirmou ele, tentando se con­centrar no trabalho. — Como alguém poderia ter informação tão precisa?

— A execução de Jeffreys foi recente. Julho, certo?

— Certo.

— Muitas vezes a imprensa divulga retrospectivas sobre os assassinatos quando da execução dos criminosos. E possível colher muitas informações nesses relatos.

— A boa e velha mídia — suspirou Nick, recordando a punhalada nas costas que Christine lhe acertara.

— Também se pode obter informações detalhadas das transcrições do tribunal. Elas se tornam públicas depois que o caso é encerrado.

— Supõe, então, você pensa que o assassino seja um seguidor, um fiel imitador de Jeffreys?

— Sim. Seria muita coincidência a reprodução de tantos detalhes.

— Por que alguém imitaria um criminoso como esse? Por curtição?

— Infelizmente, não sei — respondeu O'Dell, enfim olhando para ele, e não para o bloco. — O que eu sei é que esse cara vai fazer isso de novo. E logo.

 

O necrotério do hospital localizava-se no subsolo, onde qualquer som, por mais baixo que fosse, ecoava pelas paredes brancas de tijolos. Canos bombeavam água e um ventilador em movimento chiava. Atrás deles, o elevador se fechou. Os cabos rangeram ao puxar o compartimento de volta para cima.

O xerife Morrelli dava a impressão de andar na ponta dos pés para evitar o ruído dos saltos de suas botas contra o piso de azulejo. Maggie olhou-o de relance. Caminhavam lado a lado. O xerife procurava fingir que executava um procedimento de rotina, mas era fácil perceber seu disfarce. Perto do rio, ela o flagrara trêmulo uma ou duas vezes, traindo a aparência calma, a frieza exterior.

Mesmo assim, Morrelli insistiu em acompanhá-la até ali, após desco­brir que o legista havia tirado o dia para caçar e, portanto, estava inco­municável. A idéia de um legista caçando pareceu irônica a Maggie que, entretanto, depois de examinar tantos cadáveres, quando o fim de sema­na começara, não poderia imaginar que passaria a agradável tarde de domingo envolvida com mais uma morte.

Ela esperou, dois passos atrás de Morrelli, que ele se desenrolasse do emaranhado de chaves antes de descobrir que a porta do necrotério não estava trancada. O xerife segurou o peso da porta com o corpo para Maggie, o que a obrigou a roçar nele para entrar no recinto. Maggie não sabia ao certo se era intenção de Morrelli criar esse tipo de situação. Já era a segunda ou a terceira vez que uma ação dele obrigava seus corpos se tocarem.

Em geral, seu estilo autoritário e frio rapidamente inibia os avanços masculinos, mas Nick Morrelli parecia não compreender a mensagem. Talvez considerasse toda mulher que lhe passava pela frente uma transa em potencial. Conhecia essa espécie de homem, sabia que o jeito de eles flertarem e lisonjearem, somado a um charme de garotão e ao visual de atleta, os levava com freqüência aonde pretendiam. Enervante, sim, mas, no caso de Morrelli, à primeira vista, inofensivo.

Maggie havia lidado com coisa muito pior antes. Acostumara-se com os comentários vulgares de homens pouco à vontade por trabalharem com mulheres. Suas experiências, que incluíam variadas formas de assé­dio sexual, desde flertes tímidos a apalpos violentos, deixaram-lhe a lição de que a melhor proteção contra o problema é o escudo da indiferença.

Morrelli encontrou o interruptor, e as lâmpadas fluorescentes, em linha, acenderam com piscadas em seqüência. A sala revelou-se maior do que Maggie esperava. Tudo limpo, imaculado. Imediatamente, o cheiro de amônia chegou-lhe às narinas e queimou seus pulmões. Uma mesa de aço inoxidável posicionava-se no centro do piso azulejado. Uma enorme pia dupla ocupava uma das paredes e uma bancada, base para vários instrumentos, incluindo uma serra óssea, diferentes microscópios, frascos e tubos de ensaio, prontos para o uso. A parede oposta continha cinco gavetões refrigerados para cadáveres. Maggie duvidou de que alguma vez o pequeno hospital tivesse usado todos simultaneamente.

Ela tirou o blazer, ajeitou-o com zelo sobre um banco e começou a arregaçar as mangas da blusa. Titubeou um instante e olhou em volta, procurando um jaleco ou um avental. A cara blusa de seda fora um presente de Greg. Chamaria a atenção do marido, sem nenhuma dúvida, se a mulher não voltasse a vesti-la por causa de manchas irremovíveis. Ele a chamaria de desmiolada e irresponsável, exatamente como lhe dissera que tinha sido com a aliança de casamento, agora em algum lugar nas profundezas do rio Charles. Fazer o quê? Maggie desistiu de encontrar um avental e terminou de arregaçar as mangas.

Trouxera a pequena bolsa preta em que carregava tudo de que preci­saria ali. Iniciou, então, os preparativos. Colocou sobre a bancada um Potinho de Vick Vaporub e aplicou a pomada ao redor das narinas. Aprendera há muito tempo que mesmo corpos congelados exalavam um cheiro que era melhor evitar. Antes de tampar o recipiente, virou-se para Morrelli, que a observava da porta, e o arremessou para ele.

— Se vai me acompanhar, é melhor usar um pouco.

Nick examinou a embalagem, desconfiado, e relutante seguiu-lhe o exemplo.

O próximo passo foi tirar da bolsa um par de luvas cirúrgicas. Ofereceu um segundo ao xerife que, entretanto, recusou com um movimento de cabeça.

— Não precisa ficar — ela observou, ao notar que ele empalidecera novamente. E nem tinham sequer aberto a gaveta.

— Não, eu vou ficar. Só... Só não quero ficar no seu caminho, atrapa­lhando.

Maggie não soube precisar se o comportamento dele se devia a senso de dever ou reputação de macho. Preferia examinar o corpo sozinha, mas lembrou-se de que o território e o caso pertenciam a Morrelli. Assumindo ou não o papel, ele era, teoricamente, o chefe da investigação.

Maggie prosseguiu como se o chefe não estivesse ali. Pegou um grava­dor portátil, verificou a fita dentro do aparelho e o programou para gravar automaticamente ao som da voz. Em seguida, sacou da bolsa uma polaróide e se certificou de que a câmera tinha filme.

— Qual é a gaveta? — indagou, de frente para os refrigeradores, com as mãos na cintura, pronta para começar. Espiou Morrelli, que olhava fixamente para os gavetões, com ar de quem acabava de descobrir que um corpo teria de sair dali.

O xerife moveu-se devagar, hesitante, e, então, soltou a tranca da gaveta do meio e puxou. As rodinhas de metal rangeram com o atrito e travaram, quando o compartimento tomou boa parte do espaço da sala.

Maggie chutou a trava das rodas da mesa de aço e a deslocou para baixo do gavetão. Juntos, desprenderam o fundo da gaveta e apoiaram o saco com o pequeno corpo sobre o tampo da mesa. Os dois levaram a mesa de volta para o centro, sob as luzes especiais, para o exame. Maggie chutou de novo a trava, dessa vez para prendê-la, enquanto Morrelli fechava o gavetão. Assim que ela tocou o zíper do saco, o xerife recuou para o canto.

O corpo pequeno e frágil do garoto ressaltava a violência dos ferimen­tos. Ele fora um menino bonito, Maggie pensou. Tinha um cabelo aver­melhado, cortado bem curto. As sardas em volta do nariz e nas bochechas contrastavam com a pele branca, já desbotada, leitosa. Apresentava uma ferida extensa abaixo do pescoço. A corda deixara sulcos exatamente acima dos cortes no peito.

Maggie deu início à análise tirando fotografias, doses das perfurações de faca, dos traços tortuosos do X talhado no tórax, dos hematomas azuis e roxos nos pulsos e do pescoço cortado. Esperou que cada uma das fotos da polaróide se processasse, para se certificar de que a luz fora suficiente e obtivera o ângulo correto.

Com o gravador na mão, começou a documentar o que via.

— A vítima apresenta hematomas abaixo e em volta do pescoço, feitas pelo que parece ter sido uma corda. Ela pode ter sido amarrada. Há um aparente arranhão abaixo da orelha esquerda, talvez causado pelo nó. — Gentilmente, ela levantou a cabeça do garoto para examinar a nuca. Era tão leve, sem peso. — Sim, as marcas estão em toda a volta do pescoço. Isso indicaria que a vítima foi estrangulada, sofrendo depois um corte na garganta. A ferida na garganta é profunda e longa, de uma orelha à outra. Os hematomas nos punhos e tornozelos são similares aos do pescoço. A mesma corda pode ter sido usada. — As mãos do garoto eram tão peque­nas perto das dela. Maggie as segurou com zelo e reverência, para verificar as palmas. — Há marcas profundas de unhas nas palmas das mãos, o que pode indicar que a vítima vivia quando se deram alguns dos ferimentos. As unhas estão limpas... bem limpas. — Ela arrumou cada uma das mãos ao lado do garoto e dirigiu a sua atenção para as feridas. — A vítima tem oito, não, nove perfurações de faca na cavidade torácica. — De luvas, ela tocou cada uma das feridas, observando seu dedo indicador afundar em vários dos orifícios. — Pelo que parece, foram feitas por uma faca de lâmina simples. Três são rasas, e pelo menos seis bastante profundas, possivelmente até o osso. Uma delas pode ter atravessado o coração. E há muito pouco... ora, não há sangue nenhum. Xerife Morrelli, por acaso choveu enquanto o corpo estava a céu aberto?

Ele não respondeu. Ela se virou para o xerife, e o surpreendeu escorado na parede como hipnotizado pela imagem do cadáver sobre a mesa.

— Xerife Morrelli?

Saiu do transe, dando-se conta de que o interlocutor da agente agora era ele, e não mais o gravador. Esticou-se, ainda apoiado na parede.

— Desculpe, o que disse? — Ele sussurrava, como se evitasse acordar o menino.

— Lembra-se de ter chovido enquanto o corpo estava lá no rio, a céu aberto?

— Não, não choveu. Choveu muito na semana anterior.

— O legista limpou este corpo?

— Pedimos a ele que nada fizesse antes de sua chegada. Por quê?

Maggie examinou o corpo novamente. Arrancou uma das luvas e prendeu atrás da orelha o cabelo que lhe caía no rosto. Algo ali não fazia sentido.

— Algumas dessas perfurações são profundas. Mesmo se feitas com a vítima já morta, jorrariam sangue. Se me lembro corretamente, a cena do crime estava repleta de sangue.

— Muito sangue. Levei uma eternidade para tirá-lo de minhas roupas. Ela suspendeu a pequena mão uma vez mais. As unhas limpas, sem terra, pele ou sangue, apesar de o garoto tê-las enterrado nas próprias palmas em determinado momento. Os pés também não apresentavam vestígios da lama do rio. Com os pulsos e tornozelos atados, o garoto não teria podido oferecer muita resistência, o que, entretanto, não garantiria necessariamente a absoluta limpeza.

— E como se o corpo tivesse sido lavado — falou para si mesma. Quando levantou a cabeça, percebeu Morrelli a seu lado.

— Você está dizendo que o assassino lavou o corpo depois de terminar o trabalho?

— Olhe aqui o talho no peito. — Colocou a luva de volta e delicada­mente pressionou com o dedo por baixo da pele. — Ele usou uma faca diferente neste corte, uma com serra, que em alguns pontos rasga a pele. Veja. — Ela correu a ponta do dedo pela borda tortuosa do ferimento. — Deveria haver sangue aqui. Teria que haver sangue aqui, pelo menos inicialmente. E as perfurações são profundas. — Ela meteu o dedo dentro de uma para mostrar-lhe. — Quando se faz um buraco deste tamanho, desta profundidade, sangra bastante, até o sangue ser estancado. Este aqui, tenho quase certeza, penetrou o coração. Estamos falando de importantes artérias, de sangramentos volumosos. E a garganta... Xerife Morrelli?

Morrelli escorava-se na mesa. Seu peso balançava o tampo de aço inoxi­dável, provocando o ruído do atrito entre o metal e o azulejo do piso. Estava branco. Antes que pudesse reagir ao chamado de Maggie, ele caiu sobre ela. Maggie agarrou-o pela cintura, mas não suportou o peso, escorregou e aca­bou no chão, de joelhos, espremida pelo corpo dele contra seu peito.

— Morrelli, você está bem?

Contorcendo-se para escapar de baixo dele, ela conseguiu apoiar as costas do xerife em uma das pernas da mesa. Morrelli estava consciente, mas tinha os olhos perdidos e sem brilho. Maggie ficou de pé e procurou uma toalha para molhar. Nenhum pano, jaleco ou toalha no que até então considerava bem equipado laboratório. Recordou ter visto uma máquina de refrigerantes perto do elevador. Foi lá e voltou antes que ele se movesse.

As pernas do xerife cruzavam-se sob seu corpo. A cabeça descansava contra a mesa. Pelo menos, o foco dos olhos retornara quando Maggie se ajoelhou junto a Morrelli, entregando-se a lata de Pepsi.

— Obrigado, mas não estou com sede.

— Não é para beber... é para sua nuca. Aqui... — Ela pressionou delicadamente a cabeça dele para baixo e lhe aplicou a lata de Pepsi na nuca. O xerife se inclinou em direção a Maggie. Mais uns centímetros e sua cabeça repousaria entre os seios dela. Vulnerável, Morrelli parecia completamente alheio a suas ações. O ego de macho poderia possuir um lado sensível, quem sabe? Maggie começou a se afastar assim que ele segurou a mão dela e moveu devagar e em círculos a lata de Pepsi sobre a nuca. Mirou dentro dos olhos dela, o azul finalmente brilhando.

— Obrigado. — O xerife mostrou-se encabulado, mas manteve os olhos fixos nos dela. Apesar de um pouco desorientado, se Maggie não estivesse enganada, ele continuava flertando.

Como resposta, ela se livrou imediatamente da mão dele, de uma maneira muito mais abrupta do que seria necessário. Passou-lhe a lata de Pepsi e ajoelhou-se mais afastada.

— Não posso acreditar no que aconteceu — ele murmurou. — Estou um pouco envergonhado.

— Não fique. Gastei muito tempo no chão antes de me acostumar com isso.

— Como se acostumou com isso? — Voltou a fitá-la, em busca de uma resposta.

— Não sei direito. Você desliga, não pensa sobre o que está fazendo. — Tirou os olhos de sua mira e, sem hesitar, se pôs de pé. Maggie odiava o fato de Morrelli dar a impressão de poder enxergar bem fundo dentro dela. Interpretava isso como uma simples manobra, um engenho do char­me dele. Também temia que o xerife pudesse vislumbrar as fraquezas que ela escondia. Meses atrás, não haveria nada para ocultar. Albert Stucky, Porém, a suprira da própria vulnerabilidade que, aliás, ela detestava per­ceber tão perto da superfície, onde outras pessoas poderiam vislumbrá-la.

Antes que Maggie lhe oferecesse ajuda, Morrelli vagarosamente esti­cou as pernas longas e se levantou sem cambalear. Outros no lugar dele teriam desmaiado, mas o xerife, Maggie notou, movia-se tranqüilo e con­fiante.


Sorrindo para ela, Morrelli esfregou a lata na testa, molhando os cabe­los, que grudaram na pele.

— Você se importa de me encontrar na cantina quando terminar?

— Claro que não. Não vou demorar mais muito aqui.

— Acho que vou dar um tempo e tomar esta Pepsi. — O xerife levantou a lata para ela, como se brindasse. Dirigiu-se para a porta, olhou de relance o corpo do garoto uma última vez, e saiu.

O estômago de Maggie roncava, e ela se arrependeu de não aceitar o desjejum oferecido no vôo. Estava frio no necrotério, mas a confusão com Morrelli provocara-lhe calor, e ela transpirava; tirou uma das luvas e passou a mão pela testa, enxugando o suor. No mesmo momento, reparou na fronte do menino. Daquele ângulo, ela pôde ver uma marca na testa dele.

Debruçou-se sobre a mesa, aproximando os olhos da mancha transpa­rente no centro da testa. Passou o dedo e cheirou a substância. Conside­rando que o corpo tivesse sido limpo, a aplicação daquele líquido oleoso ocorreu depois da suposta lavagem. Instintivamente, Maggie atentou para os lábios azuis do garoto e encontrou ali uma mancha igual. Não precisou nem checar para saber que havia mais do mesmo óleo no peito do cadáver, exatamente acima do coração. Os anos de catecismo serviram afinal para alguma coisa. Sem eles, ela não perceberia que alguém, possi­velmente o assassino, dera ao menino a extrema-unção após a morte.

 

Christine Hamilton tentava melhorar o texto que rabiscara no bloco de anotações, enquanto fingia prestar atenção no jogo de futebol disputado no campo abaixo de onde estava sentada. As arquibancadas de madeira eram terrivelmente desconfortáveis, não importa o quanto ela mudasse de posição. Queria um cigarro, mas contentava-se em morder a ponta da caneta.

De repente, aplausos, gritos e assobios chamaram sua atenção bem a tempo de assistir aos meninos do time de vermelho se cumprimentando e comemorando. Ela perdera outro gol, mas quando o garoto baixinho e ruivo a olhou do aglomerado de crianças, Christine sorriu e levantou o polegar, como se tivesse acompanhado todo o lance.

Ele era bem mais baixo do que os colegas, embora na opinião da mãe o filho crescesse muito rápido e, infelizmente, parecendo cada dia mais, fisicamente, com o pai.

Ela levantou os óculos escuros para cima da franja desfeita pelo vento. O sol desaparecia por trás da faixa de árvores que delimitavam o parque, e as nuvens, que encobriam o céu, cruzaram a região sem despejar mais chuva. Melhor assim. Bastava já terem reprogramado o jogo do filho para o final de um domingo.

Christine isolou-se no degrau mais alto da arquibancada, longe do fã-clube de pais e mães. Não ligava se não se entrosava com aqueles pais obsessivos, que vestiam o uniforme do time, aos berros, arrasavam o técnico. Mais tarde, dariam tapinhas nas costas do treinador e o cumpri­mentariam por mais uma vitória.

Virou a página do bloco, prestes a retomar a tarefa jornalística, quando percebeu três das outras mães divorciadas cochichando entre si. Em vez de acompanhar o jogo, apontavam para a lateral do campo. Christine olhou na mesma direção e descobriu o que as distraía. O homem andando pela linha lateral ilustrava o clichê "alto, bonito e gostoso". Vestia jeans justo e um agasalho com a inscrição "Nebraska Cornhuskers" estampada no peito. Uma versão mais amadurecida do jogador de futebol americano, do lançador que um dia ele fora. Caminhava... não, desfilava pela late­ral, de olho na partida. Christine sabia que o cara tinha consciência do alvoroço que provocava nas arquibancadas. Quando ele finalmente olhou para cima, ela acenou para o foco das atenções e desfrutou a inveja no rosto das outras mães, quando o homem escalou os degraus em sua direção.

— Qual o placar? — perguntou Nick, sentando perto da irmã.

— Cinco a três, acho. Você sabe que acabou de me fazer o alvo da inveja de todas as mães divorciadas e babonas daqui?

— Está vendo as coisas que eu faço para você? E você só me maltrata.

— Maltratar? Nunca bati em você na minha vida — disse ela ao irmão mais novo. — Bem, nunca bati forte.

— Não estou falando disso, e você sabe. — Ele não estava brincando. Christine sentou-se corretamente, preparando a defesa, mesmo com a culpa a remoendo por dentro. Está certo, ela deveria ter telefonado para ele antes de publicar a história. Mas e se ele pedisse para não publicar? Aquela matéria a transferiu para o outro lado da porta. Em vez de estar empacada na seção de dicas úteis para o lar, ela dera duas manchetes assinadas em dois dias. Mais, amanhã teria uma mesa só sua na editoria de Cidade.

— Como eu posso consertar isso? Jantar amanhã à noite? Preparo um espaguete com almôndegas com o molho secreto da mamãe.

Ele a encarou e desviou o olhar para o bloco na mão dela.

— Você não está falando sério.

— Ah, Nick, por favor. Você sabe quanto tempo eu esperei para largar o "Vida Atual", não sabe? Se eu não tivesse dado a matéria, algum outro jornalista a daria.

— Ah, é? E ele colocaria na matéria as aspas de uma autoridade que lhe deu uma informação em off?

— Ele não pediu para eu não colocar as aspas em nenhum momento. Se Gillick disse isso, ele está mentindo.

— Na verdade, eu nem sabia que tinha sido Gillick. Caramba, Chris­tine, você acaba de jogar fora uma fonte anônima.

O rosto de Christine ficou vermelho de raiva.

— Dane-se, Nicky. Você sabe o quanto eu batalhei. Estou um pouco enferrujada, mas posso ser uma repórter muito boa.

— Verdade? Até agora, você foi uma repórter irresponsável.

— Ah, vai amolar outro, Nicky. O fato de você não ter gostado do que eu escrevi não faz disso jornalismo irresponsável.

— E a manchete? — Nick falava entre os dentes trincados. Christine não conseguia lembrar a última vez em que o irmão se chateara com ela. Nick evitava olhá-la. — De onde você tirou as comparações entre esse assassinato e os crimes de Jeffreys?

— Há semelhanças básicas.

— Jeffreys está morto — disse ele em voz baixa, verificando com um olhar em volta se alguém os ouvia. Nick uniu e apertou as mãos e bateu o pé repetidas vezes no assento em frente, uma reação nervosa que o acompanhava desde a infância.

— Cresça, Nicky. Qualquer um com metade de um cérebro compara­ria os casos. Apenas escrevi o que todos pensam. Você está dizendo que eu dei uma informação errada?

— Eu estou dizendo que não precisamos de mais pânico em uma comunidade que apenas começa a acreditar que seus filhos vivem de novo seguros. — Ele cruzou os braços, dando mostras de que não sabia ao certo o que fazer com os punhos cerrados. — Você me fez parecer um idiota, Christine.

— Ah, então é isso. Esta é a questão. Você não está nem aí para o Pânico na comunidade; só está preocupado com você. Não sei por que isto me surpreende.

Nick olhou-a com fúria. Por um momento, ensaiou uma reação, mas, em vez disso, voltou-se para o campo, em silêncio. Ela odiava quando o irmão assimilava aquelas tiradas baratas e não contra-atacava. Ainda criança, ele se perturbava com os insultos dela e não revidava. Christine de fato amadurecia, pois agora se arrependia de feri-lo.

Ao mesmo tempo, porém, ficava cada vez mais impaciente com o jeito do irmão, que constantemente optava pelo caminho mais fácil. E por que não? Nick pulava de um emprego para o outro e de uma mulher para a outra, sem muito esforço, remorso ou reflexão. Quando o pai se aposentou e insistiu para que ele disputasse o posto de xerife, Nick abandonou o trabalho de professor universitário, sem hesitação (pelo menos Christi­ne não testemunhara nenhuma), mesmo consciente de que adorava o campus e o posto de mito ambulante perseguido pelas aluninhas deslum­bradas. Sem maiores contratempos e de maneira bem previsível, o irmão se elegeu para o posto de xerife do condado. Ele seria o primeiro a admitir que teriam favorecido o nome e a reputação do pai. Contudo, Nick não aparentava ligar para isso. Aceitava as coisas do jeito que elas vinham.

Christine, ao contrário, precisou ralar, esfolar-se para conseguir o que queria, principalmente após a partida de Bruce. Merecia se dar bem. Recusava-se a se desculpar por capitalizar a repentina sorte que lhe apa­recera.

— Se há alguém por aí imitando, seguindo os passos de Jeffreys, você não acha que as pessoas devem ser alertadas? — Ela conservou a voz sincera. Não pretendia e não precisava se justificar. Isso era notícia. Sabia o que fazia. Os leitores tinham o direito de saber todos os detalhes macabros.

Nick não respondeu. Em vez disso, apoiou os dois pés no assento diante dele, inclinou o corpo para a frente, cotovelos nos joelhos e o queixo sobre os punhos ainda fechados. Os irmãos permaneceram silen­ciosos em meio aos gritos e ruídos da torcida. Havia algo diferente nele, algo não familiar, e tal mudança era desconcertante.

Depois do que pareceu um longo período, Nick falou calmamente, em voz baixa:

— Danny Alverez tinha um ano menos do que Timmy. — Ele não desviava o olhar do campo de futebol.

Christine observou o filho saltando na grama, ziguezagueando entre os meninos mais altos do que ele. Rápido e ágil, tirava vantagem da baixa estatura. Sim, ela notara a semelhança. Timmy lembrava muito o Danny da foto da turma do colégio, publicada pelo jornal. Ambos tinham cabelo avermelhado, olhos azuis e sardas salpicadas no rosto. Como o filho, Danny também era menor do que se esperava de um garoto da sua idade.

— Acabei de passar a tarde no necrotério. — A voz do irmão a trouxe de volta à realidade.

— Por quê? — indagou ela, fingindo não estar interessada. Assistia à partida, mas vigiava Nick com o canto dos olhos. Nunca o tinha visto tão sério.

— Bob Weston chamou uma especialista para nos ajudar a traçar o perfil psicológico do criminoso, a agente especial Maggie O’Dell, de Quântico. Ela chegou esta manhã e não vê a hora de começar a trabalhar.

Ele olhou a irmã primeiro de relance e, depois, voltou o rosto para checar se tinha visto bem. Ela rabiscava umas frases no bloco de anota­ção. — Meu Deus, Christine! — disparou ele, tão subitamente, que a fez pular. — Tudo que eu disser vai ser publicado?

— Sim, e se quisesse off, deveria ter pedido. — Christine viu o irmão esfregar a mão no queixo, como se ela o tivesse esmurrado. — Além disso, amanhã todo mundo vai saber a respeito da agente O’Dell, quando ela sair por aí fazendo perguntas. Por que você está tão preocupado, Nicky? Chamar uma expert é algo bom.

— É mesmo? Ou vai apenas espalhar a impressão de que eu não tenho uma única maldita idéia sobre o que eu estou fazendo? — Disparou outro daqueles olhares contra ela. — E não ouse escrever isso.

— Relaxe. Não sou sua inimiga, Nicky. — A festa das crianças pela vitória, em meio aos apertos de mão de praxe entre os adversários, distraiu a atenção dela. A partida acabara, e escurecia no parque. Os postes de luz acendiam um a um, em ritmo lento. — Você lembra? Papai não tinha medo da relação com a imprensa.

— Eu não sou papai. — Ela agora o atingira de verdade. A comparação era terreno proibido, mas Christine odiava quando ele a tratava como uma oportunista. E se o irmão não gostava das comparações, que não seguisse os passos do pai. Como de costume, ela tentou sair pela tangente.

— Estou apenas dizendo que papai sabia como usar a mídia a seu favor.

— A seu favor? — indagou Nick, com incredulidade e voz mais alta do que o burburinho pela vitória à sua frente. Imediatamente ele reparou em volta, dando-se conta de que falava muito alto. Abaixou o volume. — Papai usava a mídia por adorar estar sob os holofotes. Vazavam tantas informações que eu não sei como eles capturaram Jeffreys.

— Vazaram que informações? Sobre o que você está falando?

— Esqueça — ele sugeriu, prestando atenção no bloco da irmã. Christine virou os olhos em sua direção, perguntando-se se ele não estava apenas lhe jogando uma isca.

— E, mas eles prenderam Jeffreys, e papai solucionou o caso — recor­dou-lhe.

— Ê, eles pegaram Jeffreys. Méritos para o bom e velho papai.

— Nicky, ninguém está lhe pedindo que siga a trilha de papai. Você é que se coloca nesse papel. — Pronto, lhe escapara mais uma comparação.

Um lapso, um lapso inocente. Aguardou a reação do irmão.

Nick simplesmente balançou a cabeça e lhe ofereceu um sorriso frus­trado com um dos cantos da boca. A expressão passava a idéia de que ela não poderia entender a situação.

— Você nunca se perguntou... — Ele hesitou, virado para o campo, com os pensamentos longe dali. — Você nunca pensou que tudo aconte­ceu rápido demais, tudo muito bem bolado, muito conveniente?

— Sobre o que você está falando?

Não era esta a resposta que ela esperava. A noite chegava fria, e Christine sentiu um arrepio nas costas. Esfregou os braços e olhou o irmão nos olhos, um pouco assustada pela raiva e pelo jeito calado dele. Nor­malmente, Nick brincava o tempo todo, sem levar nada muito a sério, nem as rixas de irmãos. Fora a menção dela ao pai que provocara aquilo tudo? Não, havia algo mais. O que ele saberia? O que tinha deixado seu arrogante e confiante irmão caçula tão inseguro?

— Nicky, não estou entendendo. O que você quer dizer com isso?

— Esqueça — afirmou ele, levantando-se, alongando o corpo e encer­rando a discussão.

— Tio Nick, tio Nick! Você viu o meu gol? — gritou Timmy ao subir as arquibancadas na carreira, mas atento a cada passo largo que dava.

— Claro que sim — mentiu o tio.

Ela presenciou o rosto de Nick mudar completamente, relaxado e sorridente. Ele suspendeu e envolveu o sobrinho nos braços. O garoto se debatia, e ele lutou para domá-lo e, então, abraçá-lo.

Christine sabia que o irmão lhe escondia alguma coisa, e ela iria des­cobrir o quê.


 

Dirigiu ao redor do parque outra vez, agora mais devagar. O jogo final­mente terminara. Parou o carro em uma vaga distante dos outros veícu­los, sozinho num canto do estacionamento. Desligou os faróis e esperou que o rompante de cordas do concerto de Vivaldi abrandasse, e que a música, assim, pudesse aliviar o incômodo em sua cabeça.

Estava acontecendo de novo, e mais cedo do que ele imaginava. Não podia conter, não conseguia controlar. Não podia e, o que era pior, não queria. Sentia-se cansado. Tentou recordar a última vez que havia dormi­do por uma noite inteira, sem ficar vagando pelas ruas. Esfregava os olhos, atenuando a exaustão. Seus dedos tremiam, alheios a sua vontade.

— Meu Deus, faça com que isso pare — sussurrou, afastando os cabelos das têmporas. Por que isso não podia parar? A cabeça latejava, martelava, doía.

O grupo de garotos em uniformes sujos de grama e terra atraiu sua atenção. Pareciam tão felizes, revigorados pela vitória, braços sobre os ombros dos outros, cumprimentos pelo êxito. Tocavam-se casualmente, sem precauções. À medida que se aproximavam, os incompreensíveis refrões que entoavam se tornavam mais altos, encobrindo Vivaldi.

A lembrança dos tempos de criança voltou a tomá-lo, inundá-lo, paralisando-o sobre o couro desconfortável do banco do carro. Tinha 11 anos de idade quando o padrasto o obrigara a entrar para o time da escola, barganhando com o treinador, com o objetivo de tirar o enteado de casa nas manhãs de sábado. Seu padrasto queria era trepar com sua mãe todas as manhãs, sem exceção, e ele sabia disso.

Acidentalmente, os surpreendera uma semana antes, quando entrara no quarto da mãe para dizer que o leite havia acabado. Tal recordação continuava a dominá-lo, poderosa, mesmo após tantos anos. Apresenta­va-se tão clara e vivida, que ele se agarrou ao volante do carro para susten­tar o peso da cabeça.

Permanecera imóvel na porta do quarto, paralisado pela visão da mãe nua. O crucifixo de prata balançava entre os seios grandes e brancos, que também chacoalhavam para a frente e para trás. A mulher se apoiava sobre as mãos e os joelhos, e o padrasto a montava, como se ela fosse uma cadela no cio.

E fora o padrasto quem primeiro o avistara. Ofegante e agitado, o homem berrara com ele. Os olhos da mãe arregalaram-se de horror. Ela se revirara e se soltara do padrasto, tentando cobrir a nudez com um lençol. Acabara por se desequilibrar e se estatelar no chão. Nesse momen­to, ele saíra em disparada pelo corredor, tropeçando e caindo, até chegar a seu quarto. Preparava-se para bater a porta e se trancar, quando o padrasto interrompera o movimento e forçara com violência a entrada no aposento.

O homem ainda estava nu. Pela primeira vez, o menino viu o pênis de um adulto, e a imagem foi horrível: grande, duro e ereto, protuberante em meio aos cabelos grossos e pretos. O padrasto o pegara pelo pescoço e esfregara seu rosto contra a parede.

— Interessado em espiar? Quem sabe você não quer um pouco tam­bém? — Ele podia ainda ouvir a voz irritada do homem, que, sem fôlego, ofegava em sua orelha.

O menino não movera nem um único músculo. Mal conseguia respi­rar. Com uma das mãos, o padrasto comprimia seu pescoço, com a outra, arrancava-lhe a calça do pijama. Do lado de fora, a mãe gritava e socava a porta fechada a chave. E, então, ele sentiu. A pressão intensa, a dor tão sufocante, que pensou que suas entranhas explodiriam. Continuou quieto e parado, apesar de querer berrar. Seu rosto ralava contra a superfície áspera da parede do quarto. Tudo o que ele podia fazer era concentrar-se no crucifixo pendurado na mesma parede, perto de seus olhos, até que o padrasto se cansasse de martelar seu pequeno corpo.

Uma buzina de carro soou, estridente. Ele se assustou e apertou o volante com mais força. Transpirava pelas palmas das mãos, e os dedos ainda tremiam. Caiu em si de frente para os garotos que entravam nos carros e caminhonetes dos pais. Quantos deles escondiam segredos como o seu? Quantos escondiam marcas e cicatrizes? Quantos esperavam algu­ma forma de alívio, de salvação do sofrimento em que viviam? Daquela tortura?

Observou um dos meninos acenando para os demais, rumo à calçada. Ficou atento para ter certeza de que ninguém o levaria para casa naquela noite, que o garoto caminharia até lá sozinho, como sempre fazia.

Escurecia. Os postes de iluminação pública acendiam após piscarem uma ou duas vezes. Ele escutou o cascalho chiar sob os carros que deixa­vam a área de estacionamento do parque. Os faróis dos veículos lhe ofuscaram a visão. Ninguém se deu conta dele, incógnito, naquele canto. Ninguém desperdiçou um instante para olhar em sua direção. Se alguém o reconhecesse, sorriria, lhe acenaria, pois não era nada extraordinária sua presença ali, durante um jogo de futebol da vizinhança.

A meio quarteirão, o garoto ainda andava sozinho, jogando a bola de futebol de uma das mãos para a outra. O uniforme folgado do time fazia-o magro, baixo e vulnerável. O menino saltitava, contente, pelo caminho, apesar de nenhum parente ou amigo ter aparecido para prestigiar o jogo. Talvez tivesse crescido acostumando-se com a solidão.

O último carro saiu do estacionamento. Ele silenciou Vivaldi em meio aos acordes de As quatro estações: outono. Sem que precisasse olhar, seus dedos encontraram a pequena ampola de vidro dentro do porta-luvas. Habilmente, ele rompeu a ampola e umedeceu o lenço branco, brilhante de tão limpo. Preferia que as precauções extras não fossem necessárias, mas havia sido imprudente com Danny. Pegou o gorro preto de esqui, que só lhe deixava os olhos de fora, e saiu do carro, fechando a porta sem ruído. Notou de imediato que as mãos não mais tremiam. E, finalmente retomara o controle. Seguiu então quieto pela calçada.


 

Segunda-feira, 27 de outubro

Maggie derramou o resto de uísque da minigarrafa no copo de plástico. Os cubos de gelo estalaram e chacoalharam uns contra os outros. Ela tomou um gole, fechou os olhos e desfrutou a ardência agradável na garganta. Mais tarde, preocupou-se ao pensar que poderia ter herdado da mãe o gosto pelo álcool ou, pior, o vício na prazerosa letargia provocada pela bendita bebida.

Coçou os olhos e consultou o rádio-relógio vagabundo sobre o criado-mudo, do outro lado do quarto. Passava das duas da manhã, e ela não conseguia dormir. A lâmpada fraca do abajur da mesa lhe provocara dor de cabeça, pensou. Provavelmente, o motivo real fora o uísque, mas, mesmo assim, fez uma anotação para não se esquecer de pedir à recepção lâmpada mais potente.

As fotos da polaróide tiradas no dia anterior ocupavam todo o tampo da pequena mesa. Ela as dispusera em ordem cronológica: mãos amarra­das, pescoço estrangulado e, depois, cortado, marcas de perfuração. Aquele louco era metódico, sem pressa. Ele cortou, fatiou e arrancou a pele com precisão assustadora. Mesmo tortuosas, as diagonais do X saíam meticulosamente das pontas de cada ombro.

Ela espalhou também sobre a mesa duas pastas cheias de relatórios policiais e recortes de jornal, narrações e detalhes macabros o suficiente para garantir os pesadelos de uma vida inteira — a não ser pelo fato de não ser possível ter pesadelos sem adormecer.

Tirou os pés do chão e encaixou as pernas descobertas sob o corpo, para se fazer mais confortável na cadeira dura. Seu agasalho do Green Bay Packers já esgarçava e se deformava, resultado das muitas lavagens. Mal protegia suas coxas, mas ainda era sua roupa de dormir mais confortável. Tornara-se seu objeto de estimação, com o qual se sentia em casa não importa onde dormisse. Ela se recusava a jogá-lo fora, apesar das reclama­ções de Greg.

Voltou a ver as horas. Deveria ter telefonado para o marido quando de volta ao hotel, agora era tarde. Melhor assim, pois os dois necessitavam de tempo para esfriar a cabeça.

Minuciosa, ela analisou os papéis espalhados e suas anotações: páginas de detalhes, pequenas observações, algumas que pareceriam insignifican­tes para qualquer outra pessoa. Daqui a mais um pouco, juntaria tudo aquilo e traçaria o perfil psicológico do assassino. Fizera isso diversas vezes antes. Em algumas, teve a capacidade de descrever o peso, a cor do cabelo e até a marca da loção pós-barba que o criminoso usava. No entanto, agora, esperava mais dificuldades. Em parte porque o principal suspeito já fora executado, mas também por ser mais complexo descobrir o que se passa na mente doente e repugnante de um matador de crianças.

Pegou seu cordão com a medalha de prata, jogado no canto da mesa, semelhante ao que Danny Alverez usava. Maggie o recebera de presente do pai na primeira comunhão.

— Enquanto você usar isso, Deus a protegerá dos perigos — lhe dissera o pai. Contudo, um crucifixo idêntico ao que dera à filha não o salvara. Ela se perguntou se o pai teria entrado naquele edifício em chamas com a fé de que a medalha o protegeria.

Até um mês atrás, ela usara confiante o cordão, fiel ao hábito e à memória do pai, e não a algum sentimento religioso. Havia parado de rezar no dia em que o caixão do pai desceu à terra fria. Nenhuma das professoras de catecismo conseguiu explicar à menina de 12 anos por que Deus resolvera levar seu pai embora.

Maggie colocou de lado o catolicismo até entrar no laboratório forense de Quântico, há oito anos. De repente, os desenhos toscos do catecismo de Baltimore, as imagens de demônios com trombetas e olhos vermelhos, passaram a fazer sentido. A maldade, o diabólico existia, sim. Ela os tinha visto nos olhos dos assassinos. Vira-os nos olhos de Albert Stucky. Ironi­camente, foi a maldade que a levou a acreditar novamente em Deus. E foi Albert Stucky que a fez perguntar-se se Deus, simplesmente, não ligava mais para o mundo. Na noite em que assistiu a Stucky retalhar duas mulheres, Maggie chegou em casa e tirou o cordão com o crucifixo do pescoço. Apesar de não mais sentir vontade de usá-lo, continuava a mantê-lo por perto.

Tateou a medalha e tentou imaginar o que sentira Danny Alverez. O que pensara quando aquele louco rompeu o cordão, considerado talvez pelo menino a última proteção. Como o pai dela, Danny teria depositado no metal sua última esperança?

Apertou com força a medalha em uma das mãos e estava a ponto de arremessar contra a parede aquela superstição sem valia quando a batida de leve na porta do quarto a interrompeu. O toque na madeira foi quase inaudível. Por instinto, Maggie, ao levantar-se, puxou o revólver .38 Smith & Wesson do coldre. Descalça, em passos firmes, acercou-se da porta, sentindo-se vulnerável por vestir só o agasalho e calcinha. Através do olho mágico viu o xerife Morrelli, e a tensão lhe fugiu dos ombros. Abriu a porta, uma fresta para pôr a cabeça.

— O que houve, xerife?

— Perdão. Tentei telefonar, mas o recepcionista está ao telefone há mais de uma hora.

Ele parecia exausto, seus olhos azuis inchados e avermelhados, o cabe­lo curto despenteado, e a barba por fazer. A camisa amarrotada, por fora da calça, sobrava abaixo da bainha da jaqueta jeans. Tinha a gola aberta e dois ou três botões fora das casas, o que expunha os cabelos escuros do peito. Ela, de pronto, afastou os olhos dali, contrariada consigo mesma por prestar atenção em tal detalhe.

— Alguma coisa aconteceu? — perguntou ela.

— Outro garoto sumiu — anunciou ele, engolindo a saliva com difi­culdade, como se lhe fosse custoso liberar as palavras.

— Não é possível — reagiu ela, mesmo consciente de que era possível, sim. Albert Stucky fizera a quarta vítima menos de uma hora após acha­rem o corpo da terceira. A bonita estudante loura fora cortada em peda­ços. Algumas das fatias forraram quentinhas, jogadas depois em latões de lixo, atrás do restaurante em que Stucky jantara horas antes.

— Tenho homens indo de porta em porta na vizinhança e checando ruelas, parques e terrenos abandonados. — Morrelli esfregou as mãos no rosto cansado e coçou o queixo, áspero devido à barba. Os olhos azuis lacrimejavam. — O garoto voltava para casa após o jogo de futebol. São apenas cinco quarteirões do parque até a casa dele. — Num gesto brusco, o xerife virou a cabeça para o corredor deserto. Escondia os olhos de Maggie, fingindo certificar-se que ninguém os ouvia.

— Melhor você entrar.

Maggie segurou a porta para ele. Morrelli hesitou antes de entrar devagar. Parou ali mesmo, após alguns passos, e reparou discretamente no quarto. Virou-se de volta para Maggie, e sua atenção foi direto para as pernas expostas. Ela se esquecera do traje íntimo que vestia. Ele trouxe com rapidez os olhos para cima, constrangido. O xerife Nick Morrelli, o charmoso conquistador, estava constrangido.

— Desculpe. Eu a acordei? — Outra espiada, e, quando os olhos de um bateram com os do outro, ela se sentiu corar. Da maneira mais casual e tranqüila possível, Maggie abriu caminho entre ele e a parede até o armário.

— Não, eu ainda estava de pé.

Ela recolocou a arma no coldre e garimpou um jeans pelas gavetas. Encontrou um e o vestiu, enquanto observava Morrelli andando de um lado para o outro entre a cama e a mesa.

— Eu disse que tentei ligar antes de vir?

Ela se olhou no espelho e o flagrou reparando nela pelas costas. Os olhos de ambos se cruzaram de novo, agora pelo espelho.

— Sim. Sem problemas — disse ela, puxando o zíper. — Eu ainda checava minhas anotações.

— Eu estava naquele jogo — a voz dele era contida.

— Que jogo?

— O jogo de futebol. A partida que o garoto desaparecido jogou antes de ir para casa. Meu sobrinho jogou também. Meu Deus, Timmy deve conhecer o menino. — Ele continuava a andar de um lado para o outro do quarto, em longas passadas que faziam o ambiente parecer ainda menor.

— Tem certeza de que o garoto não foi para a casa de um amigo?

— Nós telefonamos para outros pais. Os amiguinhos lembram de ele Pegar a calçada para casa. E nós achamos a bola de futebol dele, autogra­fada por um jogador famoso. A mãe disse que é um dos bens mais valiosos do filho e insiste em afirmar que ele não o deixaria jogado por aí.

O xerife esfregou uma das mangas da camisa no rosto. Maggie consta­tou seu estado de pânico. Não estava preparado para administrar uma situação como aquela. Ela duvidava de que ele dispunha de experiência em gerenciamento de crises. Maggie suspirou e jogou os cabelos para trás com os dedos. Já percebera que caberia a ela mantê-lo centrado.

— Xerife, por que não senta?


— Bob Weston sugeriu que eu compilasse uma lista de pedófilos e conhecidos criminosos sexuais. Começo a arrastá-los para interrogató­rios? Você pode me dar uma idéia de quem eu estou procurando? — Ele viu de relance em uma de suas idas e vindas os papéis espalhados pela mesa.

— Xerife Morrelli, por que não senta?

— Eu estou bem.

— Não, eu insisto. — Ela o alcançou, agarrou-o pelos ombros e, com educação, forçou-o a sentar-se em uma das cadeiras perto da mesa. Ele fez menção de levantar-se de novo, refletiu melhor e esticou as longas pernas.

— Quando Alverez sumiu, você tinha algum suspeito? — indagou Maggie.

— Apenas um. O pai. Os pais são divorciados. O pai teve a custódia e visitas negadas por causa do hábito de beber e dos abusos que cometera. Nunca conseguimos descobrir seu paradeiro. Merda, nem mesmo a Aero­náutica sabe onde ele está. Ele era major em uma base, mas sumiu sem se justificar há dois meses; fugiu com uma garota de 16 anos que conheceu pela internet.

Maggie pegou-se andando, assim como fazia Morrelli. Talvez tivesse errado ao fazê-lo sentar-se. O fato de ele agora lhe dedicar toda a atenção desmantelou sua linha de pensamento. Maggie estava exausta também. Quanto tempo uma pessoa poderia funcionar sem dormir o suficiente?

— Fez algum avanço na tentativa de encontrá-lo?

— Nós paramos de tentar.

— Como assim?

— Após encontrarmos o corpo de Danny, Weston disse que não poderia ser o pai o assassino. Um pai não faria aquilo com o próprio filho.

— Eu já vi o que pais podem fazer com seus filhos. Lembro-me de um caso há três, não, quatro anos, em que um pai enterrou o filho de seis anos no quintal, dentro de uma caixa. Enfiou um pedaço de mangueira da superfície até a caixa para que a criança pudesse respirar. Foi uma punição por alguma coisa banal. Nem me recordo agora o que o menino tinha feito. Depois de dias de chuva, a mangueira deslocou-se, e o pai não sabia mais precisar onde estava a caixa. Em vez de cavar o quintal inteiro, ele tentou fazer parecer que o filho tinha sido seqüestrado. A mulher acabou revelando a maluquice dele. Provavelmente, ela não queria também ser enterrada dentro de uma caixa. Acho que deve manter a busca ao Alve­rez. Não disse que ele cometeu abusos no passado?

— É, o cara é um animal. Batia regularmente na mulher e no filho, mesmo divorciado. Ela fez uma meia dúzia de queixas contra ele. O que eu não entendo é que ligação isso pode ter com o desaparecimento de agora. Acho que Matthew Tanner nem mesmo conhecia Danny Alverez.

— Pode ser que não tenha mesmo. Não há ainda nem mesmo certeza de que esse garoto foi levado. Ele pode aparecer na casa de um amigo ou ter fugido, quem sabe?

— OK. — Morrelli suspirou, pouco convicto. Deslizou na cadeira para apoiar a nuca no encosto. — Mas você não acredita realmente que ele fugiu, acredita?

Os olhos dela buscaram os dele. O xerife mostrava pânico, confusão, mas queria a verdade. Ela decidiu pela franqueza.

— Não. Provavelmente, não — replicou. — Eu não duvidava de que o assassino atacaria de novo, apenas não imaginei que seria tão cedo.

— Então me diga por onde começar. Teve tempo de concluir alguma coisa sobre esse cara?

Ela examinou a miscelânea de fotos, anotações e relatórios sobre a mesa.

— Ele é meticuloso, mantém as coisas sob controle, não tem pressa. Não só com o ato de assassinar, mas ao lavar tudo depois. A lavagem, porém, não é para não deixar pistas, parece antes parte de um ritual. Suponho que ele já tenha feito isso antes. — Ela folheou as anotações. — Definitivamente, ele não é jovem nem imaturo — continuou. — Não havia sinais de briga ou resistência da vítima onde o corpo foi encontrado, o que mostra que ela foi amarrada de antemão. Logo, ele tem que ser forte o suficiente para carregar um garoto de uns 40 quilos por uma distância de pelo menos 300 ou quase 500 metros. Suponho que tenha por volta de 30 anos, l,80m e 90 quilos. Ele é branco, educado e inteligente.

Num determinado ponto da descrição, Morrelli ajeitou-se na cadeira, alerta e interessado na bagunça de papéis que ela remexia. Maggie pros­seguiu:

— No hospital, depois que examinei o cadáver, lembra-se de que eu lhe disse que o assassino talvez tenha dado a extrema-unção ao garoto? Isso significaria que o criminoso é católico. Talvez não praticante, mas a sua culpa católica é grande, forte o suficiente para ele se incomodar com o crucifixo e arrancá-lo. A extrema-unção pode ter sido uma espécie de penitência pelo seu pecado. Você poderia checar se esse garoto, Matthew Tanner... — olhou para Morrelli a fim de confirmar se o nome estava correto. Ele moveu a cabeça afirmativamente, e Maggie continuou: — Se esse garoto pertence à mesma igreja que Alverez.

— De cara, acho improvável — antecipou-se Nick. — Danny freqüen­tava a escola e a igreja da base militar. A casa dos Tanner está a poucos quarteirões da igreja de Santa Margarete, a não ser que os Tanner não sejam católicos.

— Pode ser que o assassino nem conhecesse as crianças — ponderou Maggie. — Pode ser que ele simplesmente busque os alvos fáceis, isto é, meninos na rua sozinhos, sem ninguém por perto. Eu realmente acho que o criminoso tem algum tipo de ligação com a Igreja Católica, e, possivel­mente, nesta área. Estranho como possa parecer, esses caras não agem muito longe da área que lhes é familiar.

— Soa como se ele fosse um verdadeiro psicopata. Você disse que talvez ele já tenha feito isso antes. É possível que ele tenha um registro policial? Abusou de crianças ou molestou alguém sexualmente? Quem sabe não espancou o amante gay?

— Está presumindo que ele seja gay ou pedófilo?

— Um homem adulto que faz isso com garotinhos... Não é uma supo­sição lógica?

— Claro que não. Ele pode estar preocupado, inquieto por ser ou por se achar gay. Ele pode ter tendências homossexuais, mas não, eu não acho que ele seja gay nem acredito que seja pedófilo.

— E você me diz isso a partir apenas das evidências que encontramos?

— Não. Estou supondo a partir das evidências que não encontramos. A vítima parece não ter sofrido abuso sexual. Não há vestígios de sêmen na boca ou no reto, apesar de que esses traços poderiam ter sido lavados. Não há sinais de penetração nem indicação de estimulação sexual. Mes­mo entre as vítimas de Jeffreys, apenas uma, Bobby Wilson... — disse, lendo as anotações. — Só Bobby Wilson apresentava sinais de abusos sexuais, sinais muito óbvios. Penetrações múltiplas, um monte de ruptu­ras e hematomas.

— Um minuto. Se esse cara está copiando Jeffreys, como podemos ter certeza de que o que ele faz é uma indicação de quem ele é realmente?

— Esses imitadores planejam ações que atendem, freqüentemente, a suas próprias fantasias. Algumas vezes, acrescentam um toque pessoal. Eu não pude achar nenhuma prova de que Jeffreys tenha dado a extrema-un­ção a suas vítimas, embora isso possa ter sido facilmente ignorado.

— Eu sei que ele chamou um padre para se confessar antes da execução.

— Como? — Ela olhou para baixo em direção a ele, notando, enfim, que se apoiava no braço da mesma cadeira em que sentava o xerife. Sua coxa roçava no braço de Morrelli. Imediatamente afastou-se dele.

— Você provavelmente sabe que meu pai foi o xerife que prendeu Jeffreys. Ele tinha um lugar na primeira fila para a execução.

— Ele nos responderia a algumas perguntas?

— Ele e mamãe compraram um trailer há alguns anos e passam o ano todo viajando. Só fazem contato de tempos em tempos, e não sei como localizá-los. Estou certo de que quando eles souberem o que está aconte­cendo vão ligar, mas isso pode demorar.

— E se formos atrás do padre?

— Tudo bem. Padre Francis ainda está aqui, na igreja de Santa Mar­garete. O que eu não sei é que ajuda ele poderia dar. Duvido que ele fale alguma coisa sobre a confissão de Jeffreys.

— Mesmo assim gostaria de conversar com ele. Também temos que conversar com os Tanner. Você, obviamente, já os encontrou.

— A mãe. Os pais são divorciados.

Maggie encarou o xerife e se pôs a remexer a papelada.

— O que foi? — Nick se espichou sobre a mesa, quase resvalando no corpo dela.

Maggie achou o maço de folhas que procurava e as percorreu até parar em uma delas.

— Todas as três vítimas de Jeffreys eram filhos de casais divorciados, e as mães os criavam sozinhas.

— E?

— E pode ser que a escolha das vítimas não seja algo aleatório. Talvez eu estivesse errada quando disse que ele poderia simplesmente atacar um menino sozinho na rua. Ele escolhe cada um deles com muito zelo. Você disse que Alverez deixou a bicicleta e a bolsa de jornais encostadas a uma cerca?

— Disse, sim. Ele nem havia iniciado a entrega dos jornais.

— E não havia nenhum sinal de luta ou de resistência por parte dele?

— Nenhum. A impressão era que ele tranqüilamente deixou a bicicle­ta ali e acompanhou o cara. Por isso nós pensamos que havia sido alguém que ele conhecia. Esses garotos são do interior, mas são espertos. Eu não acho que Danny entraria no carro de um estranho.

— A menos que ele pensasse que o cara fosse alguém em quem ele Pudesse confiar.

Maggie percebeu Morrelli mais e mais preocupado. Reconheceu o nervosismo, a expressão das pessoas quando vislumbram que o assassino pode ser alguém conhecido, alguém da própria comunidade.

— Como assim? Alguém que fingia conhecê-lo ou conhecer a mãe?

— Pode ser. Alguém que passasse a idéia de que era uma autoridade, alguém que vestisse um uniforme, por exemplo. — Maggie testemunhou dúzias de casos assim. Ninguém questionava se uma pessoa em uniforme pertencia realmente àquele uniforme.

— Uma farda militar, como a do pai?

— Um traje de médico ou mesmo um uniforme marrom dos seus assistentes.

 

Timmy sentou-se no chão e manteve a porta do banheiro sob vigilância. Apertado, esperava para fazer xixi, mas preferia não interromper a mãe. Se batesse na porta, ela insistiria para que ele entrasse e saciasse a vonta­de, mas continuaria lá, dando os últimos retoques na maquiagem. Ele estava ficando velho demais para mijar na presença da mãe.

Ouviu o cantarolar dela e decidiu amarrar e desamarrar o tênis. O buraco em uma das solas alargava-se. Teria logo que pedir um novo par, apesar de saber que a mãe não dispunha de dinheiro para isso. Escutara por acaso um telefonema entre ela e o pai e se inteirara de que o ex-chefe da casa não pretendia enviar a pensão mensal estipulada pelo juiz.

Era uma música de A pequena sereia que a mãe cantava. O ritmo jamaicano deixava a desejar, apesar de a mãe ter assistido àquele filme tanto quanto ele havia visto Guerra nas estrelas. O telefone tocou. Ela nunca conseguiria ouvir o aparelho sob "o mar". Mole, Timmy demorou mais tempo do que o necessário no movimento para ficar de pé.

— Alô?

— Timmy? Aqui é a mãe de Chad. Sua mãe está?

Por pouco ele não anunciou que fora Chad quem batera primeiro. Se o filho negava e invertia a história, era um mentiroso. Em vez disso, Timmy se limitou a responder:

— Um minuto. Vou chamá-la.

Chad Calloway era um valentão, mas se Timmy houvesse dito à mãe que Chad propositalmente o machucara, ela o obrigaria a deixar o time de futebol. E agora o valentão deveria estar mentindo sobre os seus próprios machucados.

Timmy bateu suavemente na porta do banheiro. Se ela não respondes­se, ele teria que dizer à Sra. Calloway que a mãe não podia atender no momento. A maçaneta porém girou e a porta abriu. Seu coração arriou até os pés.

— O telefone tocou? — A mãe, cheirosa, deixava um rastro de perfume.

— Tocou. É a Sra. Calloway.

— Quem?

— A mãe de Chad.

Ela o olhou de lado, sobrancelhas levantadas, em busca de explicações.

— Não tenho idéia do que ela quer. — Ele deu de ombros e a seguiu até o telefone, apesar de mais apertado do que nunca para ir ao já liberado banheiro.

— Alô, Christine Hamilton. Sim, claro. — Ela se virou para Timmy e falou baixo com a mão sobre o bocal do telefone: — Calloway?

— É a mãe de Chad — sussurrou ele. Ela nunca o escutava.

— Sim, você é a mãe de Chad.

Ele não tinha como deduzir o que a Sra. Calloway contava para sua mãe. Ela caminhava para lá e para cá, como normalmente fazia quando fala ao telefone, e balançava a cabeça como se o interlocutor pudesse vê-la. As respostas eram curtas: dois ou três "Hum-hums" e "Claro".

De repente, ela parou e fez cara de espanto. Chegara o momento. Timmy precisava preparar a sua versão. Espere um minuto. Ele não ne­cessitava de uma desculpa, pois a verdade estava do seu lado. Chad o azucrinou. Não, bateu nele até não poder mais. E sem razão para isso, por puro prazer.

— Obrigada por me avisar.

A mãe desligou o telefone e olhou pela janela. Se brava ou não, Timmy não era capaz de dizer. Não poderia obrigá-lo a desistir do time de futebol. Isso, não. Ele estava pronto para fazer sua defesa quando ela se virasse para proferir tal sentença.

— Timmy, um de seus colegas do futebol está desaparecido.

— O quê?

— Matthew Tanner não voltou para casa na noite passada depois do jogo.

Então não tinha nada a ver com Chad?


— Os pais de alguns outros garotos do time vão se encontrar na casa dos Tanner nesta manhã para ajudar a procurá-lo.

— Matthew está em apuros? Por que ele não voltou para casa? — Ele queria não parecer aliviado, como na verdade estava.

— Não quero que você se preocupe por hora, Timmy, mas você se lembra das minhas matérias sobre Danny Alverez?

Ele fez que sim com a cabeça. Como não recordaria? Ela o mandara sair ontem pela manhã para comprar cinco edições do jornal, mesmo podendo conseguir quantas cópias quisesse na redação.

— Não temos certeza ainda, não quero que você fique com medo, mas o homem que levou Danny pode ter levado também Matthew.

A mãe parecia realmente preocupada. Aquelas linhas em volta da boca apareciam todas as vezes que isso acontecia.

— Vá ao banheiro. Vou levá-lo à escola hoje. Não quero ver você andando sozinho por aí.

— Tudo bem. — Ele correu, enfim, para fazer xixi. Coitado do Matthew, pensou. Que droga que não foi Chad o raptado.

 

Christine não conseguiu acreditar na própria sorte, mas tentou conter a emoção. Enquanto Timmy utilizava o banheiro, ela ligou para Taylor Corby, seu novo editor no jornal. Tinham conversado algumas vezes por telefone durante o fim de semana, e embora não tivessem sido apresenta­dos, Christine sabia muito bem como ele era. Os colegas de "Vida Atual" o chamavam de o cê-dê-efe da redação. Ele usava óculos clássicos com aros finos de metal e pequenos. Dava a impressão de só ter no guarda-rou­pas calças pretas e camisas sociais, além de uma coleção de gravatas da turma do Pernalonga. Para piorar as coisas, ia para o trabalho de bicicleta mesmo no inverno, por vontade própria e não porque não pudesse com­prar um carro.

Naquela manhã, depois de ouvir em silêncio os comentários de Chris­tine sobre Matthew Tanner, ele perguntou:

— Christine, você sabe o que isso significa?

Fácil entender por que ele havia escolhido jornalismo impresso, e não rádio ou tevê. O volume e o tom de sua voz nunca se alteravam, apresen­tando sempre absoluta ausência de emoção. Sem prestar atenção nas palavras que seu novo chefe escolhia, era às vezes difícil concluir se ele estava empolgado, entediado ou desinteressado.

— Se você bancar essa história para a edição vespertina, vamos ter furado a concorrência três dias seguidos.

— Ainda preciso convencer a mãe do menino a falar comigo.

— Falando com ela ou não, você já tem o suficiente para uma grande história. Certifique-se apenas que possa sustentar os fatos. — Claro.

No caminho para a escola, Christine reparou no filho, que, ela supôs, estaria ansioso por causa do amigo. Não protestara sequer uma vez quan­to ao fato de a mãe o levar à escola. Permanecera quieto no carro durante a maior parte da viagem. Christine virou a esquina para entrar na rua do colégio e, num reflexo, pisou o freio. Carros, em fila, aguardavam a vez para deixar as crianças na porta da escola. Nas calçadas, pais caminhavam com os filhos na mesma direção. Em cada cruzamento, voluntários con­trolavam a travessia e o próprio trajeto dos estudantes de casa até a escola.

O barulho da buzina atrás deles fez Christine e Timmy pularem. Ela passou a primeira e encaixou o carro na fila de veículos.

— O que está acontecendo, mãe? — Timmy se libertou do cinto de segurança e ficou de pé no banco para ganhar uma visão além do painel do carro.

— Pais e mães estão garantindo que os filhos cheguem ao colégio a salvo. — Alguns adultos, visivelmente agitados, apressavam-se e punham uma das mãos em suas crianças, como se o contato propiciasse mais proteção.

— Por causa de Matthew?

— Não sabemos ainda o que aconteceu com Matthew. Ele pode ter ficado triste com alguma coisa e fugido de casa, por exemplo. Você não deve ficar comentando sobre Matthew. — Fizera mal em falar com Tim­my a respeito de Matthew. Ela prometera ser honesta e aberta com o filho após a partida de Bruce, mas o caso Matthew não era algo para compar­tilhar com o menino. Além disso, muito pouca gente sabia o que ocorrera. O pânico dos pais nas ruas vinha das matérias que ela havia escrito. A simples menção de Ronald Jeffreys incitava a superproteção. A reação se equiparava ao comportamento geral das famílias nos tempos de Jeffreys.

Christine reconheceu Richard Melzer da rádio KRAP. Ele apertava o Passo pela calçada, em sua capa de chuva, com a maleta em uma das mãos e uma garotinha loura na outra. Christine precisava contactar Michelle Tanner o mais rápido possível. Não demoraria muito até que os concorrentes tomassem conhecimento de tudo.

A fila de carros se arrastava, e ela procurou uma brecha em meio ao congestionamento. Poderia deixar Timmy ali mesmo. Ele não se importaria mas a mãe chamaria a atenção de todos.

— Mãe?

— Timmy, estamos indo o mais depressa que eu posso.

— Mãe, eu estou convencido de que Matthew não fugiria de casa. Ela viu pelo canto dos olhos o filho empoleirado no banco de trás, assistindo à parada incomum pela janela. As pontas do seu cabelo faziam pequenas curvas nas partes em que ele usara água para pentear. As sardas tornavam seu rosto ainda mais branco. Quando teria esse garoto ficado tão esperto? Ela deveria ter sentido orgulho, mas naquela manhã entris­teceu-se por não mais poder preservar a inocência do filho.


 

As imagens bíblicas dos vitrais coloridos contemplavam de camarote celeste os mortais aqui embaixo. Maggie sentia o aroma de incenso e vela queimando. Por que voltava a seus 12 anos de idade quando entrava em uma igreja católica? Simultaneamente conjeturava se eram adequados o sutiã e a calcinha de renda preta. O cano de seu revólver machucava sua barriga. Por baixo da jaqueta, ela reajustou o coldre de ombro. Deveria portar uma arma dentro de uma igreja? Claro que sim, não seja ridícula, repreendeu-se.

Olhou sobre os próprios ombros, instintivamente, como se esperasse deparar com um caixão sendo transportado atrás dela pelo corredor. Conservava na memória o rangido que faziam as rodinhas, a batida suave de uma dúzia de sapatos de couros marchando em uníssono ao lado do carrinho com o caixão do pai. De volta ao mundo real, surpreendeu-se com Morrelli, que a aguardava já no altar. — Tudo bem?

Ele partira de seu hotel às cinco horas para ir em casa, tomar banho, barbear-se e trocar de roupa. Retornava irreconhecível duas horas depois. O cabelo curto cuidadosamente penteado para trás. O rosto limpo e barbeado realçava a cicatriz branca do queixo, um toque selvagem em sua bela aparência. Sob a mesma jaqueta jeans, ele vestia camisa branca e gravata escura, combinando com um jeans desbotado e um par de botas pretas lustrosas de caubói. Fugia do padrão dos uniformes marrons usados por seus homens, mas não perdia o tom oficial. Isso talvez se devesse menos à roupa do que ao jeito como ele se apresentava: alto, ombros eretos, seguro de si, com passadas longas e confiantes.

— O'Dell, tudo bem? — indagou pela segunda vez.

Ela observou o interior da igreja, grande para uma cidade do tamanho de Platte City, com filas e mais filas de bancos de madeira. Não era possível imaginar todos eles ocupados.

— Estou bem — ela respondeu por fim, arrependida por demorar tanto, pois ele exibia uma expressão de real preocupação. Os olhos dele, inchados devido à falta de descanso, traíam o visual de barba feita e cabelo úmido. Ela tentara disfarçar sinais de cansaço com um pouco de maquiagem.

— Parece muito grande — ela comentou, para justificar a distração, ao se aproximar do xerife.

— Ela é relativamente nova. A igreja velha era pequena, rural, oito quilômetros ao sul da cidade — contou ele. — A população de Platte City praticamente dobrou nos últimos dez anos. Muita gente cansada de viver em cidades maiores, como Omaha e Lincoln. Irônico, não? As pessoas vêm para cá fugindo da violência, imaginando criar os filhos em um lugar quieto e seguro e... — Morrelli enfiou as duas mãos nos bolsos e ergueu o olhar sobre a cabeça de Maggie.

— Precisam de ajuda, amigos? — Um homem apareceu de trás de uma cortina do altar.

— Estamos procurando o padre Francis — informou Morrelli, sem mais explicações.

O homem os olhou, desconfiado. Embora carregasse um espanador, vestia uma calça social, camisa também social e bem passada, gravata e um casaco de malha longo. Parecia jovem, apesar de alguns fios brancos despontarem entre os cabelos pretos. Quando se aproximou, Maggie no­tou que ele mancava levemente e calçava um par de tênis impecavelmente branco.

— O que querem com o padre Francis?

Morrelli virou-se para Maggie como se perguntasse o quanto poderiam revelar. Antes que tivesse possibilidade de dizer alguma coisa, o homem deu a impressão de reconhecer o xerife.

— Um minuto. Eu sei quem você é — disse em tom de acusação. Você não era o lançador do Nebraska Cornhuskers? Você é Morrelli-Nick Morrelli, 1982 e 83.

— Torce para o Cornhuskers? — Morrelli abriu um sorriso, obviamente satisfeito com a fama. Maggie notou as covinhas nas duas bochechas. Lançador de futebol americano. Por que ela ficaria surpresa?

— Claro, sou um grande torcedor. Meu nome é Ray... Ray Howard.

Mudei para cá na última primavera. A tevê não mostra muitos jogos no Leste, o que é péssimo. Eu joguei um pouquinho também — ele prosse­guiu, visivelmente acelerado. — No ensino secundário, no Omaha Cen­tral. Alguns treinadores foram até me ver jogar. Então, eu ferrei meu joelho. No nosso último jogo, contra os Creighton Prep, um time de fracotes. Foi uma torção grave. Nunca mais pude jogar.

— Lamento muito — afirmou Nick.

— Foi a vontade do Senhor. Esta é sua esposa? — Howard, enfim, reagiu à presença de Maggie. O fã de Morrelli olhou-a de cima a baixo, e ela resistiu ao reflexo de abotoar o blazer.

— Não, não somos casados. — Morrelli mostrou-se encabulado.

— Sua noiva, então? Ah, é por isso que querem falar com o padre Francis. Ele já casou centenas.

— Não, nós...

— É um assunto oficial — interrompeu Maggie, para alívio de Morrel­li. O homem voltou a atenção para ela, à espera de uma explicação. Maggie cruzou os braços para enfatizar sua autoridade e reprimir os olhos erráticos dele. — O padre Francis está?

Howard virou-se para Morrelli e se deu conta de que não obteria mais informações.

— Acho que ele está lá trás se trocando. Ele rezou uma missa pela manhã. — O servente não deu indicações de que se moveria dali.

— Você se importaria de chamá-lo para nós, Ray? — No lugar de Morrelli, Maggie não teria usado tanta educação.

— Claro. — Ele ensaiou uma reação, mas parou. — E a quem eu devo anunciar? — Howard fitou Maggie, esperando uma apresentação. Maggie suspirou. Morrelli pediu-lhe calma com o olhar e disse: — Diga-lhe apenas que Nick Morrelli está aqui, certo? — Ah, sim.

Howard desapareceu por trás da cortina. Dessa vez, Maggie mirou Morrelli de cima a baixo e sorriu.

— Lançador, hein?

— Isso foi há muito tempo. Parece que foi há uma vida.

— Você era bom?

—Tive a oportunidade de continuar e jogar pelos Dolphins, mas meu pai insistiu para que eu estudasse Direito.

— Você sempre faz tudo o que seu pai pede?

Maggie falara de brincadeira, mas Morrelli se ouriçou, e seus olhos sinalizaram que aquele era um tema delicado. O xerife enfim sorriu e rebateu:

— Aparentemente, sim.

— Nicholas. — Um padre baixo e grisalho entrou pelo altar com uma batina longa, que lhe cobria os pés. — Howard me disse que você tem assuntos oficiais para conversar comigo.

— Como vai, padre Francis. Perdão por não telefonar antes de aparecer.

— Não tem o menor problema. Você é sempre muito bem-vindo aqui.

— Padre, esta é a agente especial Maggie O'Dell. Ela é do FBI e está aqui para nos ajudar no caso Alverez.

O padre segurou a mão de Maggie com as duas mãos, firmemente. Veias grossas azuladas marcavam o relevo da pele, cheia de pintas. A mão dela tremeu, quase um arrepio. O clérigo olhou-a fundo nos olhos, e ela, subitamente, se sentiu invadida, exposta, como se ele enxergasse até a alma. Maggie desviou o olhar, e o arrepio chegou até suas costas.

— É um prazer conhecê-la. — Quando a soltou, ele se escorou no pedestal mais próximo. Dependia do apoio para manter o equilíbrio. — O filho de Christine, Timmy, me lembra muito você, Nicholas. Ele é um dos coroinhas do padre Keller. — Para Maggie, ele informou: — Nicky foi meu coroinha anos atrás, na igreja velha.

— Ah, foi? — Maggie olhou para Morrelli, ansiosa para testemunhar o desconforto dele, quando algo atrás do xerife chamou-lhe a atenção. A cortina se moveu, sem que houvesse nenhuma corrente de ar. Ao exami­nar, percebeu as pontas de dois tênis brancos, sobressaindo abaixo do pano. Em vez de acusar a presença do intruso, ela sorriu para Morrelli, envergonhado por causa da revelação do padre.

— Padre Francis. — O xerife estava agoniado para mudar de assunto.

— O senhor responderia a algumas perguntas nossas?

— Certamente. Em que eu posso ajudar? — O padre dirigira-se a Maggie.

— O senhor, eu acredito, tomou a última confissão de Jeffreys, não? — continuou Morrelli.

— Sim, tomei, mas não posso conversar sobre isso. Espero que você entenda. — A voz dele se transformou, perdeu o vigor, deu a sensação de que aquele assunto drenava suas energias.

Maggie perguntou-se se por acaso o padre estaria enfermo, alguma doença terminal, algo que explicasse a tonalidade acinzentada, pálida de sua pele. Ele respirava com dificuldade, erguendo os ombros ossudos num ritmo esquisito para sugar o ar.

— Claro que entendemos — mentiu Maggie. Na verdade, ela não entendia e cuidou para que a impaciência não se manifestasse no tom de sua voz. — Mas se o senhor tiver alguma informação que nos ajude no caso Alverez, eu gostaria que o senhor a dividisse conosco.

— O'Dell. Este nome é católico, da Irlanda, não é?

Maggie ficou surpresa e contrariada com a esquiva dele.

— Sim, católico e irlandês. — Respondeu, permitindo que um pouco da impaciência lhe escapasse, mas ele pareceu não notar.

— E Maggie vem da nossa muito querida Santa Margarete.

— Suponho que sim. Padre Francis, o senhor entendeu que, se Ronald Jeffreys confessou algo que possa nos levar ao assassino de Dany Alverez, o senhor precisa dividir isso conosco?

— As confissões são invioláveis até mesmo para assassinos condena­dos, agente O’Dell.

Maggie suspirou e voltou-se para Morrelli, que também demonstrava impacientar-se com o padre.

— Padre — Morrelli o interrompeu — , o senhor pode ajudar-nos em outra coisa. Quem, além do padre, pode ou tem permissão para dar os últimos sacramentos?

A mudança de assunto produziu em padre Francis uma expressão de confusão.

— O sacramento da extrema-unção tem que ser administrado por um Padre, mas em circunstâncias extremas isso não é necessário.

— Quem mais, além do padre, saberia ministrar a extrema-unção? Antes do Vaticano II, isso era ensinado no catecismo. Vocês dois são muito jovens para lembrar. Hoje, penso, é ensinado no seminário, mas pode ainda ser parte de treinamento para diácono. — E quais são os requisitos para se tornar um diácono? — perguntou Maggie, frustrada por constatar que a sua lista de suspeitos provavelmente se ampliava.

— Há requisitos rigorosos. Tem que ser obviamente uma pessoa com vivência na igreja. Infelizmente, só homens podem ser diáconos. Não estou entendendo o que tudo isso tem a ver com Ronald Jeffreys.

— Sinto, padre, mas acho que não podemos dividir isso com o senhor. — Morelli sorriu. — Com todo o respeito. — Morrelli aguardou um instante e, ao atestar pelo silêncio de Maggie que não havia mais perguntas, despediu-se: — Obrigado pela ajuda, padre Francis.

Com um gesto, o xerife indicou para ela que os dois deviam partir Maggie, entretanto, seguiu encarando o padre, na expectativa de descobrir algo no olhar ambíguo dele. Era como se os olhos do clérigo aguardassem que ela descobrisse o que eles escondiam. O padre a cumprimentou com um aceno de cabeça e um sorriso.

Morrelli tocou-lhe o ombro. Ela deu meia-volta sem tirar os calcanha­res do chão e marchou para sair, ao lado do xerife. Na escadaria da igreja, já do lado de fora, ela parou subitamente. Morrelli continuou até a calça­da, antes de notar a ausência dela. Vendo Maggie ainda na escada, ele moveu os ombros, impaciente.

— O que houve?

— Ele sabe algo. Ele sabe algo sobre Jeffreys e não nos disse.

— Ele não pode nos dizer.

Ela deu nova meia-volta e correu escadaria acima.

— O’Dell, aonde você vai?

Ela escutou Morrelli no seu encalço, no momento em que empurrou a pesada porta da frente e entrou apressada pelo corredor central da igreja. O padre Francis acabava de passar para o outro lado das cortinas de tecido grosso.

— Padre Francis — gritou Maggie. O eco deu-lhe, instantaneamente, a sensação de que havia desrespeitado alguma regra, cometido algum pecado. No entanto, o barulho paralisara o padre e o trouxera ao centro do altar, de onde ele a viu aproximar-se com rapidez. O xerife colado atrás.

— Se o senhor tem conhecimento de algo... Se Jeffreys lhe disse algu­ma coisa que possa ajudar a evitar outro assassinato... Padre, não vale a pena trair a confiança de um serial killer confesso para salvar a vida de um garoto inocente?

Só agora Maggie se dava conta de que ofegava. Ela aguardou, mirando aqueles olhos que sabiam muito mais do que pretendiam ou eram capazes de revelar.

— O que eu posso dizer é que Ronald Jeffreys não disse nada além da verdade.

— Como? — A impaciência dela transformava-se em revolta.

— Do dia em que ele confessou o crime até o dia em que foi executado, Ronald Jeffreys falou somente a verdade. — Os olhos do padre demora­ram a se desviar dos de Maggie. Mas se havia neles alguma coisa mais do que dizia o clérigo, ela não pôde ver. — Agora, se me dá licença.

Morrelli estava do lado dela. Permaneceram ali quietos, enquanto o padre desaparecia por trás das cortinas.

— Meu Deus — sussurrou o xerife, finalmente. — Que diabos significa isso?

— Significa que nós temos que ler a confissão original de Jeffreys — afirmou ela, fingindo ter as coisas sob controle. Saiu da igreja lentamente, com cuidado para que os saltos não fizessem muito barulho contra o piso de mármore.

 

O carro derrapou ao deixar o estacionamento da igreja. A bolsa com mantimentos virou sobre o assento e as compras se esparramaram pelo chão do veículo. Laranjas rolaram para baixo de seus pés e do banco no instante em que ele pisava fundo o acelerador.

Precisava se acalmar. Checou o espelho retrovisor. Ninguém o seguia. Eles tinham ido à igreja para fazer perguntas. Perguntas sobre Jeffreys. Não tinha por que se preocupar. Eles não sabiam de nada. Até mesmo o jornal insinuara que o assassino de Danny era um imitador de Jeffreys. Por que nenhum deles se tocara de que era Jeffreys quem o imitava? O fato de Jeffreys também assassinar a sangue-frio fez do executado um bode expia­tório perfeito.

A quarteirões da escola, avistava-se a procissão de pais apressados, como ratos amedrontados, a conduzir suas crias. Amontoavam-se nos cruzamentos. Transportavam os filhos até a porta do colégio e os obser­vavam até o último degrau da escada, até que as crianças se pusessem seguras no interior do edifício. Antes, não ligavam para elas, deixavam-nas solitárias em casa por horas, com a desculpa de que demonstravam afeto ao tomá-las "independentes". Pais e mães infligiam feridas e cicatrizes nos filhos, que durariam pela vida inteira. Agora, os irresponsáveis aprendiam. Ele estava fazendo na verdade um favor, lhes propiciando um serviço precioso.

O vento, que sugeria neve, batia contra saias e casacos, que, dentro pouco, se tornariam impróprios para o clima. Isso o fez lembrar do cober­tor no porta-malas. Ainda estaria manchado de sangue? Tentou se lem­brar, tentou refletir, enquanto assistia aos ratos cobrirem as calçadas e obstruírem os cruzamentos. Ele freou ao sinal de "pare". Uma onda de ratos cruzou a rua diante dele. Um deles o reconheceu e acenou, e ele sorriu e acenou de volta.

Não, ele lavara a coberta. Não havia mais sangue. A água sanitária fazia milagres. A peça de cama esquentaria o coitadinho sem problemas, se o tempo esfriasse.

Ao sair da cidade, ele se distraiu com um grupo de gansos voando em fila, como jatos militares. Abaixou a janela do carro e ouviu. Os ruídos das aves cortavam o ar seco da manhã. E, dessa vez, as nuvens espessas e grandes trariam neve, e não chuva. Podia pressentir isso pelo frio que lhe batia nos ossos.

Ele odiava o frio, odiava a neve. O clima lhe recordava os Natais em que desembrulhava calado os poucos presentes que a mãe deixava em segredo perto da árvore. Seguia as instruções da mãe e acordava cedo na manhã de Natal para abrir as lembranças. Quieto o suficiente para ouvir a mãe mantendo o padrasto ocupado no quarto. O homem nunca suspei­tou de nada, distraído com o próprio presente que a mulher lhe dava. Se tivesse um dia descoberto, bateria nos dois pela futilidade na qual eles haviam desperdiçado o dinheiro suado dele. A surra que levaram no primeiro Natal, do padrasto, deu início à tradição secreta de mãe e filho.

Ele virou no cruzamento, saiu da estrada da Igreja Velha e dirigiu ao longo do rio. A margem parecia em chamas devido ao vermelho, ao laranja e ao amarelo da vegetação. As folhagens acenavam para ele, e a grama alta tinha pontas cor de mel. A neve arruinaria tal paisagem. Soterraria as cores vividas com o branco da morte.

Não estava muito longe. De súbito lembrara-se das figurinhas de beisebol. Paranóico, verificou com tapinhas cada bolso de sua jaqueta, ao mesmo tempo que controlava a direção com uma das mãos. O carro derrapou para a direita, e um dos pneus chocou-se contra uma raiz, antes que ele desse uma guinada na direção e retomasse o controle do veículo. Finalmente, sentiu o volume no bolso traseiro de seu jeans.

Reduziu a velocidade, saiu da estrada e estacionou na relva, embaixo de ameixeiras. Os galhos e as folhas camuflaram o carro. Ele catou as frutas esparramadas e segurou o saco do mercado entre o braço e a barriga. Destrancou o porta-malas. Uma corda amarrava o cobertor grosso de lã, cuidadosamente enrolado. Ele pegou a coberta e a jogou sobre o ombro. Bateu o porta-malas, quebrando o ambiente de paz e quietude apesar do vento que chiava entre os galhos e anunciava o frio. O vento também trazia o aroma bruto da água do rio, uma mistura maravilhosa de lodo, peixe e decomposição orgânica. Ele se deteve um minuto para contemplar as marolas da correnteza do rio movendo-se com velocidade e transportando pedaços de madeira e outros fragmentos da natureza Água viva e perigosa, com poderes de destruição. Viva e redentora, com poderes para cicatrizar e purificar.

A folhagem enlameada escondia a porta de madeira tão bem que mesmo ele tinha de explorar a área para localizá-la. Tirou todo o entulho de cima e, com as duas mãos, forçou a entrada, que se abriu com um estalo. Um fio de luz iluminava precariamente os degraus para que ele descesse terra abaixo. Imediatamente, o cheiro de terra molhada, mofo e umidade tomou os seus pulmões. Assim que alcançou o fundo, aliviou-se do saco de mantimentos e do cobertor enrolado.

Do bolso da jaqueta, sacou a máscara de borracha. Era melhor do que o gorro de esqui, menos amedrontador e mais condizente com a época do ano. Detestava aquilo. No entanto, detestava ainda mais lembrar-se dos olhos de Danny reconhecendo-o, confiando nele, para depois acusá-lo de traição. Se Danny pudesse entender. Mas aquele olhar e aquela droga de cruz pendurada no pescoço quase o desconcertaram. Não, ele não podia dar mais oportunidades ao azar. Vestiu a máscara. Em segundos, seu rosto começou a transpirar.

Como um zumbi, com os braços e as mãos esticados, caminhou em passos curtos até se chocar com a prateleira de madeira. Tateou para achar o lampião e os fósforos. Pêlos roçaram contra a sua pele. Agitou a mão com o susto, batendo no lampião, mas pôde agarrá-lo, mesmo sem o ver, antes que ele se espatifasse no chão.

— Droga de ratos — resmungou.

Seus dedos suspenderam o metal enferrujado. Riscou o fósforo e acen­deu o lampião na primeira tentativa. A escuridão cedeu ao amarelo brilhoso. Crostas de sujeira grudadas na parede se esfarelaram e caíram sobre ele. Evitou olhar para cima, de onde escutava o zanzar em fuga das criaturas da noite. Esperou. Em mais alguns instantes, elas encontrariam outro recanto escuro e, seguras, silenciariam de novo.

Empurrou com o ombro a prateleira grossa de madeira. A pesada estrutura rangeu, acusou seu esforço e começou a se mover. O suor escorreu de suas costas. A máscara o sufocava de calor, tinha o rosto preso numa arapuca. Finalmente, a passagem secreta se revelou. Ele se espre­meu pelo buraco, espichando o braço para trazer o cobertor e o saco que ficaram para trás.

Tomara que Matthew fique feliz com as figurinhas de beisebol.

 

A casa dos Tanner ficava nos limites da cidade. Depois dela, estendia-se um campo aberto, onde guindastes e escavadeiras enormes e amarelos varriam a paisagem, como monstros famintos que removiam árvores com uma só mordida. A cena, resultado do crescimento veloz de Platte City, não agradava a Nick. Pradarias cheias de rosas selvagens e ervas nativas davam repentinamente lugar a lotes bem demarcados de grama e asfalto, salpicados com balanços e triciclos de plástico.

— Meu Deus — murmurou ele diante do aglomerado de carros esta­cionados junto à entrada da casa dos Tanner.

— Destacou alguns homens para o caso de ter que conter as coisas por aqui? — indagou O’Dell. Nick fez cara de contrariado ao lado dela no jipe. — Perguntar não ofende, Morrelli. Não precisa ficar na defensiva.

Estava certa. Não houvera acusação em seu tom de voz. Deveria lembrar-se de que a agente jogava no mesmo time que ele. Informou-lhe então os procedimentos que tomara, coisas sobre as quais não tinham tido tempo de discutir nas primeiras horas da manhã.

Na noite anterior, à beira do pânico, ele e Hal Langston armaram um miniposto de comando na sala de estar de Michelle Tanner. Relutante­mente, baseara-se nas lições que o desagradável Bob Weston lhe dera durante o episódio Alverez. Minutos após o telefonema desesperado de Michelle Tanner, Nick mandou Phillip Van Dorn grampear os telefones e montar um esquema de vigilância ao redor da casa dos Tanner. Antes da meia-noite, Lucy Burton agia para converter a sala de reuniões do escritório no centro de monitoramento do novo caso. O QG contava com mapas e fotos de Matthew fixados em quadros de cortiça e uma linha de telefone exclusiva.

Dessa vez, Nick não titubeou em ligar para os chefes de polícia do condado das vizinhas Richfield, Stalon e Bennet, com o objetivo de requisitar mais homens para as buscas em ruelas, terrenos e margens do rio. Seus próprios comandados bateram em todas as portas da vizinhança em busca de alguma informação, orientados, contudo, no sentido de não alastrar o pânico. Se é que isso era possível. Poderia já ser tarde demais, especulou naquele momento e, principalmente, naquela manhã, ao teste­munhar a apreensão das famílias a caminho da escola. A histeria come­çara, e graças a sua irmã. Nick não gostava de pensar no que aconteceria quando todos descobrissem sobre Matthew. Ele sabia que se enganava se imaginasse que poderia evitar ou mesmo conter a catarse.

O portão da casa de Matthew estava aberto. Escutava-se o burburinho de vozes desde o jardim. O’Dell bateu na porta e esperou. Nick teria entrado sem bater. Ao lado dela, tão perto, percebeu que a agente não era mais de 15 centímetros mais baixa do que ele. Inclinou-se para aspirar seus cabelos. A brisa jogou algumas mechas longas contra o queixo dele, um carinho suave.

O’Dell rearrumou os cabelos com os dedos, quase roçando nele. Nick recuou um passo e a observou prender a mecha rebelde atrás da orelha, expondo a pele suave e branca. Ela vestia um conjunto de blazer e calça grená. A cor tornava sua pele ainda mais suave e macia.

A porta rangeu nos batentes e um homem que Nick não reconheceu os atendeu.

— Quem é você? — perguntou o estranho, desconfiado, olhos nos olhos, sem perder tempo com boas maneiras.

— Está tudo bem. — Hal Langston vinha atrás dele e gentilmente bastou o homem para o lado, abrindo a porta para lhes dar passagem. O estranho olhou feio para Hal, mas afastou-se. Hal exibia uma pose dos diabos quando desejava. Ele havia jogado futebol americano com Nick no colégio. Depois disso adicionara algumas gordurinhas ao físico então pri­vilegiado, mas continuava em boa forma.

— Vida de casado — ele explicava toda vez que Nick debochava do Peso extra. — Você deve tentar, camarada — sempre acrescentava. E, créditos para Hal, o amigo havia fisgado uma das mulheres mais bonitas da cidade.

Tess Langston mudara-se para Platte City há dez anos a fim de lecionar História aos estudantes de segundo grau. Linda e inteligente, havia inti­midado todos os bacharéis do lugar, que a esnobavam. Todos, menos Hal. Por quase três semanas, ele engordara a conta de telefone com ligações diárias para Nick, que estudava Direito, no Leste. Em meio a códigos e processos, o amigo auxiliou Hal a armar o bote.

Nick escreveu versos, recomendou que flores comprar (margaridas, e não rosas) e aconselhou até quando e onde tocá-la (carinhos com a língua na ponta da orelha nos momentos de maior intimidade, sem escorregar as mãos para os seios). Chegou a ter a impressão que ele, e não Hal, corte­java a moça. Tantas eram as instruções, de que desligar o telefone lhe proporcionava um sentimento de perda. Mais tarde, ele se tocou de que a perda que lhe vinha não era do amigo, mas da mulher que havia encontrado apenas uma vez. Mesmo assim, os relatos de Hal a tomaram íntima dele, íntima a ponto de Nick se apaixonar por ela.

Hal e Tess casaram-se após seis meses de namoro. Ainda hoje, Nick sentia-se próximo dela de uma maneira que não sabia explicar. Não queria explicar, para falar a verdade. Não fazia a mínima idéia se Hal um dia revelara os segredos da sedução. Às vezes, suspeitara que sim, pelo jeito com que Tess o olhara, como se lhe agradecesse.

Seus assistentes e policiais, que Nick nunca havia visto, entupiam a sala de estar da família Tanner. Alguns bebiam café e outros se emara­nhavam com mapas e anotações. Nick procurou Michelle, em dúvida se a reconheceria ali. Na noite anterior, num roupão rosa de chenille, olhos vermelhos e cara inchada, a mulher, desorientada, tinha a aparência de uma bêbada. Parte do cabelo ruivo havia se soltado do coque e esvoaçava sobre a cabeça. As mechas lembravam cobras selvagens. O corpo peque­no parecia em convulsão, os braços a balançar e as pernas num caminhar compulsivo.

Mais gente se reunia na cozinha.

— Porra, Hal, quem é esse pessoal todo?

Nick virou-se de supetão, esbarrando em Hal, logo atrás dele. O’Dell andava pela confusão e, ao sondar Phillip Van Dorn, sem mal se apresen­tar, foi informada de todos os segredos sobre os equipamentos e a tática de vigilância implantados ao redor da casa.

— A idéia foi da mãe — cochichou Hal, em defesa própria. — Ela chamou os vizinhos, a mãe, os pais dos garotos que jogavam futebol com seu filho.

— Meu Deus, Hall. Todo o time de futebol está aqui!

— Apenas alguns pais e mães.

Com o auxílio dos cotovelos, Nick se preparou para cruzar o aglome­rado de curiosos. Empurrou um e outro e espantou-se ao reconhecer a mulher sentada à mesa, que bebia café com Michelle Tanner.

— Que diabos você está fazendo aqui? — urrou ele, silenciando todo o aposento.

 

Antes que Christine pudesse responder-lhe, o irmão avançou contra o grupo, derrubando o café de Emily Fulton e quase nocauteando Paul Calloway. Todos assistiram a Nick apontando o dedo para ela, ao mesmo tempo que inquiria Michelle Tanner:

— A senhora sabe que essa mulher é uma repórter?

Michelle Tanner era uma pessoa baixa, magra, delicada, de aspecto frágil. De acordo com a idéia que Christine formulara até ali, ela se intimidaria facilmente. O rosto pequeno de Michelle ficou branco, seus olhos cor de avelã, ainda mais arregalados. Ela se virou para Christine e, então, para a caneca de café, que segurava de forma desajeitada. As batidas de suas unhas contra a louça, depois sobre a mesa, amplificaram-se sob o repentino silêncio. Por fim, encarou Nick.

— Sei, xerife Morrelli. Tenho plena consciência de que Christine é uma repórter. — Juntou as duas mãos e, aparentemente, percebeu que elas tremiam, pois as escondeu no colo, sob o tampo da mesa. Com o olhar baixo, fixo no café, ela prosseguiu: — Pensamos que seria benéfico ter algo publicado no jornal desta noite... sobre Matthew. — O tremor pas­sara para a sua voz.

Christine percebeu Nick se desarmando. Se havia uma coisa que des­concertava o irmão macho, era uma mulher em lágrimas. Ela usara a tática várias vezes no passado, mas a emoção de Michelle Tanner não tinha nada de manipuladora.

— A senhora me desculpe, por favor, mas eu não acredito que isso seja uma boa idéia.

— Não, ao contrário, a idéia é muito boa.

Christine espichou a coluna para ver da cadeira a mulher que surgia por trás de Nick. Ela poderia ter sido modelo, com a pele perfeita, as maçãs do rosto elevadas e adoráveis, lábios carnudos bem delineados e cabelos curtos e sedosos. O tailleur vestia uma figura esguia e atlética, com curvas suficientes para tirar a concentração de todos os homens ali. Voz e postura, entretanto, revelavam que ela não tinha a total dimensão dos efeitos de sua feminilidade. Apresentava-se confiante e com um ar de autoridade. Essa mulher não se intimidaria facilmente com algo ou al­guém, muito menos com uma casa cheia de gente sem a menor idéia de quem era ela. De cara, Christine gostou dela.

— Como? — Nick mostrou-se irritado.

— Acho que seria uma idéia muito boa envolver o quanto antes a mídia nessa história.

Visivelmente perturbado, o xerife reparou em volta.

— Posso falar com você um minuto? A sós. — Ele pegou a mulher pelo braço, e ela o fez soltá-la com um puxão. Mesmo assim, tomou o caminho da porta. A pequena multidão lhe deu passagem, e Nick a seguiu.

— Com licença. — Christine deu um tapinha na mão de Michelle e pegou seu bloco de anotações. Enfrentaria a fúria do irmão para conhecer a mulher que o havia colocado em seu devido lugar. Essa certamente era a especialista do FBI, de Quântico. A agente especial Maggie O’Dell. Que tipo de informação a agente O’Dell queria divulgar? Informações que Nick trancaria em um cofre, se isso significasse proteger sua reputação.

Nick e a agente O’Dell conversavam em particular num canto da sala de estar, perto do basculante que dava para o jardim. Vários policiais assistiam à cena. Escaldados, os homens de Nick fingiam estar ocupados com o trabalho.

— Eu lhe disse que ele ficaria chateado ao encontrá-la aqui — afirmou a voz atrás dela.

Christine virou-se e viu Hal.

— Parece que alguém o está fazendo mudar de idéia. — É... Ele definitivamente achou alguém que seja páreo para ele. Vou fumar um cigarro lá fora. Me acompanha?

— Obrigada, estou tentando largar.

— Boa sorte.

Ele se dirigiu à porta principal e saiu. Nick e a agente O’Dell nem o notaram passar. O irmão mantinha o tom de voz baixo, mostrando sua raiva nos dentes cerrados. A mulher permanecia impassível diante de seus argumentos e falava com voz equilibrada.

— Desculpem interrompê-los. — O olhar de Nick para a irmã equivaleu a uma bofetada. Ela se esquivou da agressividade do irmão. — A senhora deve ser a agente especial O’Dell. Eu sou Christine Hamilton.

Ofereceu-lhe a mão, e O’Dell a aceitou sem hesitar.

— Sra. Hamilton. — A agente apertou sua mão com firmeza.

— Em seu acesso de raiva, tenho certeza de que Nick se esqueceu de mencionar que é meu irmão.

O’Dell voltou os olhos para Nick, e Christine teve a impressão de ser o esboço de um sorriso na até então expressão de estátua da agente.

— Eu me perguntava se não haveria alguma relação pessoal entre os dois.

— Nick obviamente está irado comigo. É difícil para ele perceber que estou aqui para ajudar.

— Tenho certeza.

— Então a senhora não se incomodaria em responder a algumas per­guntas?

— Perdão, Sra. Hamilton...

— Christine.

— Claro, Christine. Apesar de minhas opiniões, esse caso não é meu. Só estou aqui para traçar o perfil do criminoso.

Sem perder tempo para verificar a reação do irmão, Christine sabia que ele sorria agora, o que a irritou.

— O que isso significa, então? Um novo boicote à imprensa, como ocorreu no caso Alverez? Nicky, isso só vai piorar as coisas.

— Na verdade, Christine, eu acho que o xerife Morrelli mudou de idéia — afirmou O’Dell, olhando para Nick, cujo sorriso se desfez dos lábios.

Ele passou a mão na testa. O’Dell cruzou os braços e aguardou. Chris­tine passou o olhar de um para o outro e, sob a crescente tensão daquele canto da sala, recuou.

Finalmente, Nick engoliu o nó da garganta, alojando a irritação em algum lugar entre a laringe e a língua.

— Haverá uma entrevista coletiva amanhã no saguão da sede do condado às 8h30.

— Posso publicar isso?

— Claro — replicou Nick, relutante.

— Mais alguma coisa para o artigo desta noite?

— Não.

— Xerife Morrelli, não havia mencionado umas cópias da foto do garoto? — Novamente, a pragmática agente O’Dell, sem papas na língua. — Pode estimular algumas memórias se Christine incluir uma delas no jornal.

Ele enterrou as mãos nos bolsos, e Christine soube que era isso ou um duplo estrangulamento: ela e a agente.

— Passe na sede do condado e pegue. Vou orientar Lucy a deixar uma na recepção. Na recepção, Christine. Não quero você bisbilhotando meu escritório.

— Relaxe, Nicky. Já lhe disse que não sou inimiga. — Ela se preparou para partir, mas parou na porta. — Você ainda vai jantar conosco hoje, não vai?

— Acho que vou estar muito ocupado.

— Agente O’Dell, gostaria de comer conosco? Nada sofisticado. Vou improvisar um espaguete, e muito vinho.

— Obrigada, parece ótimo.

Christine quase explodiu em gargalhadas com a cara de surpresa do irmão.

— Vejo os dois às sete. Nicky sabe o endereço.

 

O nervosismo dominava o departamento do xerife. Nick o sentiu no ar no instante em que passou pela porta com O’Dell. Ele, que se preocupava para que a histeria não tomasse conta da comunidade, se deparava com o caos no próprio lugar de trabalho.

Os telefones tocavam sem parar. Máquinas apitavam. Teclados de computadores martelavam. Fax zumbiam. A interferência nos rádios era grande, e a comunicação entre as salas se fazia aos berros. Todos corriam, sendo inacreditável que não se chocassem uns com os outros.

Pela segunda vez no dia, havia policiais que ele nunca vira e equipamentos que não saberia identificar. Dependia de pessoas desconhecidas para lidar com coisas que mal entendia. Chegara ao inferno.

Lucy mostrou-se aliviada ao vê-lo. Do outro extremo do recinto, ela sorriu e acenou. Alvejou O’Dell com uma piscada de desprezo, mas a agente ou não notou, ou nem se importou.

— Nick, nós checamos cada milímetro desta cidade — gemeu o exaus­to Lloyd Benjamin. Ele tirou os óculos e enxugou o suor da face. As marcas de preocupação em sua testa eram mais visíveis, permanentes. Integrante mais velho da equipe de Nick, Lloyd, ao lado de Hal, consis­tia no mais preparado e confiável. — Os homens de Richfield conti­nuam as buscas perto do rio onde achamos Alverez. O pessoal de Staton está no norte da cidade. Eles vão checar aquela trilha de cascalho e o lago Northton.

— Boa, Lloyd. Muito bem. — Nick contemplou-o com dois tapinhas nas costas. Havia algo mais. Lloyd esfregou o queixo, sensível à presença de O’Dell.

— Estávamos comentando — prosseguiu ele, quase num sussurro. — Stan Lubrick lembrou que Jeffreys tinha um parceiro... você sabe... um... namorado, quando foi preso. Eu posso, sim, recordar de trazermos um cara aqui, que nunca chegou a testemunhar. Um tal de Mark Ryddell — acrescentou, folheando um bloco com rabiscos ilegíveis. — Estava pen­sando se não seria o caso de dar uma busca, ver se esse cara ainda está por aí, por algum lado.

Os dois olharam para O’Dell, que, entretanto, tinha a atenção perdida na confusão. Nick não estava nem convicto de que ela escutara o relato de Lloyd. As mãos da agente encontravam-se bem guardadas dentro dos bolsos do blazer. Os olhos, agitados, esforçavam-se para acompanhar a comoção. Caiu em si, um pouco nervosa, ao perceber a expectativa deles em relação a ela.

— Não tinha conhecimento de que Jeffreys era gay. Como você sabe que esse cara era amante dele? — De novo, pragmática e sem condes­cendência. Era capaz de transformar a especulação mais persistente na mais estúpida das banalidades.

Lloyd afrouxou a gravata e abriu o colarinho. O assunto não lhe permitia a melhor das desenvolturas.

— Bem, eles moravam juntos.

— Podiam simplesmente dividir o aluguel.

O’Dell era tão dura e impiedosa quanto linda. Nick aliviou-se por, dessa vez, não ser o alvo das indagações da agente. Lloyd virou-se para o chefe, em busca de socorro. Nick limitou-se a mostrar resignação com os ombros.

— É possível checar se Rydell manteve contato com Jeffreys após a sentença? — O’Dell perguntou a Lloyd, em vez de descartar o palpite do agente.

— A penitenciária pode ter alguma informação.

— Você poderia checar que visitas Jeffreys recebeu ou quem mais entrou em contato com ele. Veja se ele ficou amigo de algum preso ou mesmo de guardas. No corredor da morte, os condenados ficam isolados dos demais prisioneiros, mas pode sempre haver alguém.

Nick admirava a velocidade com a qual a agente processava as infor­mações, sem pôr de lado o mínimo detalhe. A pista que ele considerava há pouco sem importância materializou-se em uma linha de investigação.

Mesmo Lloyd, orgulhoso de pertencer a uma geração cujas mulheres ficavam em casa, parecia satisfeito. Adicionou outros rabiscos em seu bloco durante o raciocínio da agente, fez um sinal de positivo para ambos e partiu à procura de um telefone desocupado.

Nick impressionara-se mais uma vez. O’Dell flagrou-o observando-a, e ele simplesmente sorriu.

— Ei, Nick, aquela mulher ligou novamente — gritou Eddie Gillick da mesa em que trabalhava, com um telefone preso sob o queixo.

— Agente O’Dell, um fax de Quântico para você. — Adam Preston lhe entregou um rolo de papel.

— Que mulher? — perguntou Nick a Eddie.

— Sophie Krichek, lembra? Ela é a mulher que disse ter visto uma picape azul velha na área em que Alverez foi agarrado.

— Deixe-me adivinhar. Ela viu a picape outra vez. Agora com um garoto dentro que era a cara de Matthew Tanner.

— Um minuto — interrompeu O’Dell, que desenrolara o fax até o chão e começava a ler. — Por que você acha que ela não está falando sério?

— Ela está sempre telefonando — explicou ele.

— Nick, suas mensagens. — Lucy passou para suas mãos uma pilha de papéis cor-de-rosa, cada um com a inscrição "enquanto você esteve au­sente" e recados escritos a mão. Entrega feita, deixou-se ficar diante dele, esperando ordens. Como sempre, ela desfilava com uma minissaia justa. Seria muito mais fácil mudar aquele hábito, se ela não tivesse medidas tão privilegiadas.

— Deixe-me entender o que está acontecendo. Você não vai checar aquela pista porque essa mulher já ultrapassou a cota diária de recados? — O’Dell adotou o tom, já conhecido, sinalizador de que Nick beirava a incompetência. Ele se perguntou se a estocada teria algo a ver com a distração que lhe provocaram as listras azuis e verdes da colante minissaia da secretária.

— Há três semanas ela nos ligou para dizer que viu Jesus brincando com uma garotinha no balanço do quintal. Ela não tem quintal, mora num bloco de apartamentos com uma área de estacionamento de concre­to. Lucy, as transcrições da confissão e do julgamento de Jeffreys já che­garam?

— Max avisou que ela mesma traria aqui o mais cedo possível. — Lucy deu uma voltinha sob os saltos altos, e Nick não teve dúvidas de que a performance fora dedicada a ele. — Eles vão fazer cópia de tudo, xerife, porque Max não vai emprestar os originais. Oh, agente O’Dell, Gregory Stewart telefonou para a senhora três ou quatro vezes. Disse que era importante, e que a senhora tinha o telefone dele.

— O patrão a está fiscalizando? — Nick zombou de O’Dell, que se desnorteara com o recado.

— Não, meu marido. Posso usar algum telefone?

O sorriso de Nick desintegrou-se. Não havia aliança no dedo, ele conferira antes, um procedimento habitual seu. Ela aguardava uma res­posta.

— Pode usar o de minha sala — afirmou ele, remexendo a pilha de mensagens para simular desinteresse. — Direto no corredor, a última porta à direita.

— Obrigada.

Assim que ela desapareceu pelo corredor, Eddie Gillick fez uma escala ao lado de Nick, no caminho para o aparelho de fax.

— Por que tão surpreso, Nick? Ela é uma mulher e tanto. Por que estaria sozinha?

Era ridículo. De manhã, na casa de Michelle Tanner, esteve prestes a esganá-la de raiva. E, agora, reagia como se tivesse levado um soco no estômago.

 

A sala era simples e pequena com uma mesa grande de metal cinza e outra menor ao lado, do mesmo material e da mesma cor, formando um L. As prateleiras expunham uma variedade de troféus, todos de campeo­natos de futebol americano. Fotografias decoravam a parede atrás da mesa. Maggie afundou no couro macio da cadeira, a única extravagância no escritório. Ao pegar o telefone ainda reparava nos souvenirs da época da fama.

Diversas fotos de garotos uniformizados de vermelho e branco. Uma delas, como não poderia deixar de ser, mostrava o jovem Morrelli suado e sujo. Fazia pose, orgulhoso, ao lado de um idoso senhor, que, pelo autógrafo ali estampado, chamava-se Osborne e era o treinador.

No extremo da parede, praticamente escondidos por um arquivo, dois diplomas emoldurados e empoeirados. Um deles da Universidade de Nebraska. O outro, de Direito, da... Por pouco Maggie não derrubara o telefone no chão. Bacharel em Direito pela Universidade de Harvard. Levantou-se para examinar melhor o documento. Sentou-se de novo, um pouco envergonhada por ter achado por alguns instantes que se tratava de uma imitação, uma brincadeira. Não, era Universidade de Harvard mesmo.

Olhando novamente as fotos do jogador, Maggie pensou que o xerife Nicholas Morrelli era um homem cheio de surpresas. Quanto mais conhe­cia a seu respeito, mais curiosa ficava. Contribuía para isso o fato de um inquietar o outro com uma intensidade insalubre. Essa troca de energia era parte da personalidade e da atitude de Morrelli, mas não, entretanto, uma característica dela. Daí, o incômodo que sentia.

Ela e Greg estabeleceram desde o início uma relação confortável, sem muita paixão ou química entre eles, e sim baseada em amizade e metas comuns. Objetivos que mudaram com o correr dos anos, e amizade que se deformou em indulgência. Já nem mais compartilham as cortesias de uma verdadeira amizade. Maggie se perguntava se haviam tomado rotas diferentes, sem notar quando exatamente, ou se nunca tinha estado pró­ximos.

Não importava. Casamento implicava dedicação e esforço, apesar das mudanças e problemas. Ela acreditava nisso ou não teria chegado até onde estava. Agora, pelo menos, Greg a procurava, tomava a iniciativa para a reconciliação. Bom sinal.

Discou o número da empresa do marido e, pacientemente, ouviu o telefone chamar quatro, cinco, seis vezes.

— Brackman, Harvey & Lowe. Posso ajudar?

— Greg Stewart, por favor.

— O Sr. Stewart está em reunião. Gostaria de deixar algum recado?

— Por favor, seria possível interrompê-lo? É a esposa dele. Ele tentou falar comigo durante toda a manhã.

Pausa enquanto a recepcionista decidia o quão inaceitável era o pedi­do dela.

— Um momento, por favor.

O momento transformou-se em dois, três e, enfim, após cinco minutos, Greg atendeu:

— Maggie, graças a Deus, eu a encontrei finalmente. — Havia urgência na voz dele, mas não remorso. Ela ficou desapontada, em vez de alarmada. — Por que seu celular está desligado? — A situação era urgente, mas não faltaria tempo para uma repreensão.

Esqueci de recarregá-lo. Estará comigo a partir desta noite.

— Não importa. — O marido expressava irritação, como se fosse ela que o tivesse perturbado. — É sua mãe. — A voz dele mudou automaticamente para aquela simpática, empregada com os clientes que acabavam de perder alguma causa. Ela cravou as unhas no couro dos braços da cadeira e aguardou a seqüência. — Ela está no hospital.

Maggie inclinou a cabeça para trás, fechou os olhos e engoliu em seco

— O que houve dessa vez?

— Acho que a coisa está ficando séria, Maggie. Ela usou uma gilete dessa vez.

 

Maggie desligou o telefone e massageou as têmporas. Uma forte pulsa­ção invadiu sua cabeça, alcançou o pescoço e se espalhou pelos ombros. Gastara os últimos 20 minutos num bate-boca com o médico responsável por sua mãe. Ele fora o primeiro da turma, o arrogante, o pequeno bastar­do lhe garantira. Recém-saído da escola de Medicina, pretendia ter res­postas para tudo. Não tinha, pelo menos, para o caso de sua mãe. Nem mesmo havia analisado seu histórico. Quando Maggie lhe sugeriu conver­sar com o terapeuta da mãe, ele pareceu aliviado, agradecido até pelo nome e o número do psicólogo. Quantas pessoas carregam o telefone do terapeuta da mãe na memória da agenda?

Eles concordaram que de fato era desnecessário Maggie tomar o pri­meiro avião para Richmond. A mãe implorava atenção, mas, se a filha largasse tudo e corresse para o lado dela, isso só recompensaria aquele tipo de comportamento. Pelo menos, fora assim nas últimas cinco vezes. Meu Deus, Maggie pensou, um dia, por um acidente qualquer, a mãe vai ter êxito em uma dessas simulações. Embora concordasse com Greg que uma gilete constituía um avanço nos métodos, os cortes, segundo o doutor Gênio Precoce, eram horizontais, não verticais.

Maggie afundou a cabeça latejante no encosto macio da cadeira de couro e voltou a fechar os olhos. Ela cuidava da mãe desde os 12 anos de idade. E o que sabia uma menina de 12 anos, que acabara de perder o pai, sobre cuidar de alguém? Algumas vezes, lhe vinha a sensação de que magoara, decepcionara a mãe. Isso até se lembrar de que fora a mãe que a trocara pelo estado constante de embriaguez.

Alguém bateu de leve no vidro da porta da sala. Sem outro aviso, ela abriu o suficiente para uma espiada de Morrelli.

— O’Dell, está bem?

Ela continuou imóvel, o corpo sugado pela cadeira. Braços, pernas, tudo parecia muito pesado para mexer.

— Estou bem, sim. — Conseguiu murmurar, ciente da própria falta de convicção.

A testa do xerife franziu, e seus olhos azuis mostraram-se consterna­dos. Ainda hesitante, entrou na sala e colocou uma Pepsi diet diante de Maggie. A lata suava, e a água escorreu sobre a mesa. Ela tentou calcular quanto tempo Morrelli havia ficado do lado de fora do escritório tomando coragem para alguma atitude.

— Obrigada. — O corpo dela não reagia, o que embaraçou Morrelli. Permaneceu ele ali, primeiro com os braços cruzados e, depois, com as mãos nos bolsos.

— Você parece mal — opinou, por fim.

— Muito obrigada, Morrelli. — Ela, também por fim, sorriu.

— Você pode me fazer um favor? Me chame de Nick. Todas as vezes que você me chama de Morrelli ou de xerife Morrelli, eu olho em volta em busca de meu pai.

— Tudo bem, vou tentar. — Mesmo as pálpebras pesavam como bigornas. Se ela as cerrasse neste exato minuto, dormiria enfim?

— Lucy vai pedir comida na lanchonete da Wanda. O que quer? O prato do dia hoje é empadão de carne, mas eu recomendo o sanduíche de filé de frango.

— Não estou com muita fome.

— Estamos juntos desde as duas da manhã, e não a vi comendo nada. Precisa comer, O’Dell. Não quero ser o responsável por você emagrecer demais e estragar essa gracinha... — Ele se conteve, mas tarde demais. Coçou a base do queixo, como se quisesse apagar a gafe. — Vou pedir um de queijo e presunto para você. — Virou-se para cumprir o prometido.

— Em pão de centeio?

Ele parou e a observou por cima do ombro:

— OK.

— E mostarda picante?

Então ele sorriu, e as covinhas surgiram.

— Você é uma chatinha. Sabe disso, não sabe?

— Nick. — Ela o interrompeu pela terceira vez.

— O que é agora?

— Meu nome é Maggie.

 

— Você não gostou das figurinhas? — A máscara abafava a voz, como se falasse embaixo d'água. Com todo o suor que lhe escorria pela face, ele sentia exatamente assim.

Da cama no canto do quarto, Matthew o olhava. Sentara-se sobre um bolo de lençóis e cobertas e abraçava um travesseiro contra o peito. Tinha os olhos vermelhos e inchados. O cabelo desgrenhado, o uniforme do time de futebol amarrotado. Nem mesmo tirara os sapatos para dormir durante a noite.

O que restara de uma janela proporcionava o pouco de luz disponível através das brechas entre as tábuas que a vedavam. A medida que ventava, os vidros quebrados estalavam contra a madeira velha. Ao penetrar a abertura, o vento assobiava, uivava e balançava as pontas descoladas dos pôsteres que cobriam as paredes rachadas. Os únicos ruídos no ambiente fantasmagórico. O garoto não tinha dito uma única palavra durante toda a manhã.

— Você está confortável? — perguntou ele.

O menino reagiu à aproximação encolhendo-se mais ainda no canto do quarto, espremendo-se contra o revestimento improvisado das paredes. A corrente que prendia sua perna ao pé da cama de ferro chocou-se contra a cabeceira. A amarra tinha cumprimento suficiente para permitir que o garoto chegasse até o centro do quarto. Mesmo assim, ele não tocara no hambúrguer e na batata frita servidos em uma bandeja de metal.

Até o copo com o milk-shake triplo de chocolate permanecia cheio até a borda.

— Você não gostou do jantar? Prefere cachorro-quente? Peça o que quiser.

— Eu quero ir para casa — gemeu Matthew, apertando o travesseiro, com uma das mãos viradas para roer as unhas. De alguns dedos, ele havia tirado sangue durante a noite, que manchara o algodão da fronha branca. Lavar aquilo daria um trabalho do cão.

— Talvez prefira revista em quadrinhos a figurinhas. Tenho umas velhas do Flash Gordon. Estou certo de que você vai gostar. Vou trazê-las da próxima vez.

Ele terminara de desembrulhar as compras: três laranjas, um pacote de Cheetos, duas barras de chocolate, uma caixa com seis cervejas, dois sacos de macarrão instantâneo e bolinhos de chocolate. Colocou tudo sobre a madeira de uma velha caixa de vinhos, que achou no que deveria ter sido a despensa. Dera-lhe um certo trabalho reunir as guloseimas preferidas de Matthew.

— Acho que vai esfriar esta noite — afirmou ao desenrolar o cobertor de lã sobre a cama. — Perdão, mas eu não posso pôr uma luz aqui. Você precisa de mais alguma coisa?

— Eu quero ir para casa — gemeu de novo.

— Sua mãe não tem tempo para cuidar de você, Matthew.

— Eu quero minha mãe.

— Ela nunca está em casa. E eu aposto que traz homens estranhos para casa à noite, não traz? Desde que ela mandou seu pai embora. — Ele mantinha a voz calma e carinhosa.

— Por favor, deixe eu ir para casa.

— Ela deixa você sozinho o tempo todo. Ela trabalha até tarde. Tra­balha até nos fins de semana.

— Eu só quero ir para casa. — O garoto começou a chorar. Assoava o nariz na fronha.

— E você não pode nem ficar com seu pai. — Calma e frieza. Ele tinha que se manter calmo, apesar de a raiva já lhe roçar as entranhas. — Seu pai bate em você, não bate, Matthew?

— Eu só quero ir para casa. — O menino se punha cada vez menos quieto.

— Vou ajudá-lo, Matthew. Vou salvá-lo, mas você tem que ser pacien­te. Veja, eu trouxe tudo de que você gosta.

Não adiantava. O garoto chorava. Uma manha aguda, que lhe apertava os olhos e entortava a boca. Sentiu a explosão subindo, como um jato, da barriga. Precisava controlar-se. Calma, por que não conseguia continuar calmo? Isso, frio e calmo.

— Eu quero ir para casa. — O choro se tornara intenso.

— Porra! Cale a boca, seu bebê chorão de merda.

 

A matéria de Christine na edição vespertina chegou às bancas do Cen­tro de Omaha às 15h30. As 16h, entregadores arremessavam o canudo de jornal para os jardins e varandas de Platte City. Por volta das 16hl0, os telefones passaram a tocar ininterruptos no departamento do xerife.

Nick delegou a Phillip Van Dom a tarefa de providenciar mais linhas e aparelhos telefônicos, até mesmo sugerindo que requisitasse os ramais da recepção no saguão de entrada do edifício. Ocorria exatamente o que ele tentara evitar. Inaugurava-se oficialmente o frenesi e Nick vivenciava o transtorno decorrente.

Cidadãos nervosos exigiam informações sobre o que estava sendo feito. A administração da cidade questionava quanto custariam os funcionários e equipamentos extras. Jornalistas insistiam em entrevistas exclusivas, antes da coletiva do dia seguinte. Alguns acampavam na entrada do prédio, contidos por policiais, que seriam de melhor uso nas ruas.

Evidentemente, também surgiam novas pistas. Maggie tinha razão. A foto de Matthew reavivou a memória de muita gente. O problema era peneirar as boas indicações dos delírios que apareciam. Maggie reiterou que mesmo as maiores alucinações não deveriam ser postas de lado sem investigação. Ele mandaria até alguém checar a história de Sophie Krichek sobre a picape velha e azul, embora acreditasse que consistiria em perda de tempo. Sophie, idosa e solitária, buscava apenas um pouco de atenção, mas Nick não desejava que depois alguém o acusasse de negligência, principalmente Maggie.

— Nick, Angie Clark ligou quatro vezes. — Lucy esbarrou com ele no corredor, irritada com o papel de pombo-correio de namoradas.

— Da próxima vez, diga-lhe que lamento, mas que não tenho tempo para falar com ela.

A secretária, satisfeita, obstruiu de novo seu trajeto.

— Ah, já ia esquecendo, Max está vindo com as transcrições de Jeffreys.

— Ótimo. Você pode avisar a agente O’Dell, por favor?

— Onde eu coloco as transcrições? — Ela encostou as costas na parede para liberar a passagem para ele.

— Não pode entregar à agente O’Dell?

— As cinco caixas?

Então, ele parou por conta própria no percurso até sua sala particular. O movimento súbito e inesperado resultou em um encontrão entre o chefe e a subordinada. Nick segurou-a pelos cotovelos, ajudando-a a manter o equilíbrio sobre os saltos de sete centímetros.

— São cinco caixas?

— Você conhece Max. Ela é muito organizada. Está tudo etiquetado e catalogado. E pediu que eu lhe avisasse que incluiu cópias de todas as evidências do processo e também dos juramentos das testemunhas que acabaram não depondo.

— Cinco caixas? — Ele balançou a cabeça. — Mande pôr tudo na minha sala.

— Ainda preciso avisar a agente O’Dell?

— Avise, sim. Por favor. — A desconfiança, o desprezo, fosse lá o que fosse, de Lucy por Maggie aproximava-se do limite do aceitável.

— Ah, o prefeito quer falar com você na linha três.

— Lucy, não podemos segurar ligações em nenhuma dessas linhas.

— Eu sei, mas ele insistiu. Eu não podia desligar na cara dele.

É verdade, Nick não duvidava de que Brian Rutledge teria insistido era um pé no saco.

Refugiou-se em sua sala. Esparramou-se na cadeira, com o nó da gravata já frouxo. Engalfinhou-se com o botão da gola da camisa, quase o arrancando. Pressionou com força os olhos com os indicadores e os polegares e, na escuridão, calculou o quanto teria dormido desde sexta-feira.

Sem uma conclusão, pegou o telefone e enfiou com vontade o dedo na linha três.

— Oi, Brian. É Nick.

— Nick, que diabos está acontecendo? Estou esperando quase 20 minutos.

— Lamento a inconveniência, Brian. Estamos um pouco ocupados por aqui.

— Também tenho as minhas crises, Nick. A Câmara pensa que nós devemos cancelar o Halloween. Droga, Nick, se cancelar o Halloween, eu vou ser o Herodes da cidade.

— Herodes tem mais a ver com Natal do que com Halloween, Brian.

— Droga, Nick. Não tem graça nenhuma.

— Não estou fazendo graça, Brian. Na verdade, tenho alguns proble­mas um pouco mais sérios do que o Halloween para resolver.

O rosto de Lucy insinuou-se pela fresta da porta, e ele acenou para que a secretária entrasse. Seguiram-na quatro homens, que despejaram caixas de documentos sob o batente da janela.

— Halloween é coisa séria, Nick. E se esse maluco à solta apronta alguma coisa quando todos esses garotos estiverem correndo por aí no escuro?

A voz fina e birrenta de Brian o exasperava. Ele sorriu e disse um "obrigado" com os lábios, sem emitir som, para Maxine Cramer, que entregou pessoalmente a última caixa. Mesmo no final da tarde e após carregar um caixote pelo corredor, Max conservava o tailleur azul-real como se recém-passado e vestido. Os cabelos pintados de um azul-acizentado mantinham-se penteados e combinavam com o conjunto que vestia. Ela sorriu de volta para Nick e tomou o caminho da porta.

— Brian, o que você quer afinal?

Eu quero saber se essa droga é muito séria ou não. Você tem suspeitos? Vai prender alguém? Que diabos você está fazendo agora?

Um garoto morreu e outro desapareceu. O que você acha, Brian? Isso é sério ou não? Pelo que eu sei, quem comanda essa investigação sou eu. Esse assunto, portanto, não é da porra da sua conta. Precisamos desta linha liberada para coisas mais úteis do que pajear suas babaquices, portanto, não ligue de novo. — Ele bateu o telefone e deu de cara com O'Dell, em pé, na porta.

— Perdão. — Ela mostrava constrangimento por ter testemunhado, oculta, a ira do xerife. Duas vezes no mesmo dia. Talvez o considerasse louco, um lunático enfurecido ou, pior, um simples incompetente. — Lucy me disse que as transcrições chegaram.

— Sim, entre. Feche a porta.

Ela hesitou, averiguaria talvez o quão seguro era estar sozinha com ele em uma sala fechada.

— Era o prefeito — explicou Nick. — Queria se informar se eu pren­deria alguém até sexta para que ele não tivesse que cancelar o Halloween.

— O que lhe disse?

— Nada mais do que você ouviu. As caixas estão perto da janela. — Ele deu um giro na cadeira e as apontou. Aproveitou o movimento e verificou o tempo. Nublado. Não agüentava mais nuvens e chuva, não conseguia mais recordar o último dia ensolarado. Dava-lhe a impressão de que o condado de Sarpy era uma paisagem dentro daquelas bolas transparentes, aqueles souvenirs vendidos em lojas de conveniência e de turistas. Você balança o globo e a neve cai sobre a paisagem. Aqui, você pode balançar, balançar, e as nuvens passam e passam, sem parar. As mesmas nuvens, pelo mesmo lugar.

O’Dell ajoelhara-se e abrira a maioria das caixas, já ilhada por pastas e papéis no chão.

— Quer uma cadeira? — ofereceu ele, sem sair do lugar.

— Não, obrigada. E mais fácil assim.

Ela se comportava como se tivesse achado o que procurava. Passou os olhos nos maços de papel de uma pasta específica. Num deles, o exame demorou mais tempo. Com expressão mais séria do que a anterior, leu as primeiras páginas, e sentou-se sobre as panturrilhas.

— O que é isso? — Nick, curioso, debruçou-se sobre a mesa para espiar.

— A confissão original de Jeffreys. O primeiro depoimento depois de preso. E bem detalhado. Vai do tipo de fita que ele usou para atar pés e mãos até os talhos que desenhava com faca de caça. — Ela falava sem pressa e sem tirar a atenção do documento.

— OK, padre Francis afirmou que Jeffreys não mentiu. Logo, tudo que está aí é verdade. E agora?

— Você sabia que Jeffreys só confessou o assassinato de Bobby Wilson?

— indagou ela. Folheava o documento de forma mais veloz. — E, mais, Jeffreys alegou, determinado, que não tinha nada a ver com as mortes dos outros dois garotos.

— Não me lembro disso. Provavelmente consideraram que fosse uma mentira.

— E se não tiver sido? — A agente encarou-o, enfim, os olhos casta­nhos zonzos por algo que não estava escrito ali.

— Tudo bem. Se Jeffreys não mentiu e matou apenas Bobby Wilson... — Nick não concluiu. Assombrou-se antes que Maggie completasse:

— Então, o serial killer verdadeiro ficou livre e... agora está de volta.

 

Christine torcia para que o irmão não detectasse seu alívio durante o telefonema em que ele cancelou o jantar. Se a dica passada para a repórter fosse quente, ela emplacaria outra primeira página, na próxima edição matutina.

— Por que não fazemos amanhã? — indagou Nick, em tom de desculpas.

— Claro, sem o menor problema. Algo de bom vai ocorrer esta noite? — ela provocou.

— O sucesso repentino não lhe caiu bem, Christine. Ficou feio. — Ele aparentava cansaço, esgotamento.

— Feio ou não, a sensação é maravilhosa.

— E este número que o jornal me deu? E um celular?

— E, apenas uma das regalias de meu novo e feio sucesso. — Precisava mudar de tema antes que ele lhe perguntasse onde estava ou aonde ia. — Você pode me trazer o saco de dormir amanhã, então? Timmy quer pegá-lo emprestado para o acampamento. Lembra?

— Eles vão acampar durante o Halloween?

— Eles voltarão na sexta à noite. O padre Keller tem que rezar a missa do Dia de Finados. Você não esquecerá o saco de dormir?

— Não, não esquecerei.

— E não se esqueça também da agente O’Dell.

— Certo.

Ela virou na esquina seguinte para entrar no estacionamento. Fechou o celular e jogou-o na bolsa. Nick se enfureceria mais uma vez se suspei­tasse onde ela acabava de chegar.

O edifício de quatro andares caía aos pedaços. Os tijolos, muitos deles quebrados, descascavam. Aparelhos de ar-condicionado enferrujavam-se abaixo das janelas, pendurados a suportes bambos. O prédio parecia um penetra na vizinhança, repleta de casinhas antigas, bem-conservadas, com acabamento em madeira. Os quintais guardavam caixas de areia para as crianças brincarem e balanços. Os bordos altos, tão ou mais velhos do que as construções, eram perfeitos para abrigar em seus galhos cabanas impro­visadas pelas crianças, bem como para sustentar as redes dos adultos.

O cheiro de madeira queimada de alguma lareira impregnava o ar. Um cão latia no final da rua. Christine também escutava pequenos guizos que, presos na porta de alguma casa, tilintavam uns contra os outros, ao sopro do vento. Nessa área, morava Danny Alverez. A bicicleta nova e verme­lha do garoto fora encontrada junto da cerca que separa o estacionamen­to do prédio deteriorado do resto do bairro. Começou aqui o pesadelo dos últimos dias de vida do menino, no lugar que ele provavelmente conside­rava o mais seguro de todos.

Na entrada do edifício, uma lata de lixo mantinha aberta a porta de trava eletrônica. O recipiente transbordava de pontas de cigarro. Chris­tine ultrapassou com cautela o primeiro obstáculo.

O elevador fedia a cigarro e urina de cachorro. Ela reparou no capacho manchado, que revestia o piso. Apertou o botão do quarto andar. Aper­tou pela segunda vez. Na terceira, as portas bateram. O elevador subiu entre engasgos, sacudidas e zumbidos, e parou. Christine se pôs a pressio­nar o botão para abrir a porta. Roldanas travaram e rangeram, e a porta não se mexeu

Ela odiava elevadores. Odiava cubículos. Por que não subira pela escada? Procurou um interfone de emergência. Não havia. Passaram-se alguns segundos, e o marcador mostrou que Christine só alcançara o segundo andar. Pressionou o três, na expectativa de que pudesse abreviar a viagem. Pressionou com mais força. O botão rachou em pedacinhos. Nervosa, Christine catou os maiores pedaços sobre o tapete manchado e começou a encaixá-los no painel, como um quebra-cabeça. Dois ficaram, um caiu pela fresta rumo ao poço, os outros voltaram para o chão. Num espasmo, o elevador moveu-se novamente e, em outro, parou. As portas liberaram meia passagem, e a repórter por ali passou, antes que elas se abrissem completamente.

Ficou no corredor, encostada à parede, até recuperar o fôlego. A luz era fraca, o carpete, mais uma vez, manchado. O fedor já sentido de mijo de cachorro misturava-se ao mofo de jornais velhos e a algum jantar que queimava. Como alguém poderia viver num buraco como esse?

O apartamento 410 ficava no fim do corredor. Do lado de fora da porta lascada e arranhada, um capacho de boas-vindas, bordado a mão, absolu­tamente limpo.

Christine bateu e segurou a respiração para evitar os cheiros sufocan­tes do corredor. Várias trancas estalaram pelo lado de dentro, e uma fresta da porta se abriu. Sob a testa enrugada, um par de olhos azuis, atrás de lentes grossas, a observou.

— Sra. Krichek? — perguntou Christine, da forma mais educada pos­sível para alguém que prendia a respiração.

— Você é aquela repórter?

— Sou eu mesma. Meu nome é Christine Hamilton.

A porta se abriu por inteiro, e Christine avançou aos poucos pelo hall de entrada, no ritmo da velhinha, que ia à frente. Sophie Krichek arras­tava os chinelos, apoiada em um andador, que a ajudava na locomoção.

— Algum parentesco com Ned Hamilton, o dono do mercadinho aqui da esquina?

— Não, acho que não. Hamilton é o sobrenome de meu ex-marido, e ele não é desta área.

— Hum. — A Sra. Krichek conduziu o andador sala adentro.

Três gatos grandes, rajados de amarelo e cinza, assediaram Christine, roçando e se enrascando em suas pernas.

— Acabei de preparar um bule de chocolate quente. Você me acom­panha?

Ela não aceitou por um triz. Apenas agradeceu, constrangida ao ver um quarto gato dar algumas lambidas no chocolate, sobre a mesinha.

— Não, obrigada. — Torceu para que tivesse disfarçado o nojo que sentira.

Tirando os gatos, o cheiro do apartamento era incomparavelmente melhor do que o do corredor do prédio. A amônia na discreta caixa de areia dos animais era óbvia, mas suportável. Bordados e almofadas colo­ridas decoravam o sofá e a cadeira de balanço. Plantas de folhas verdes e longas cobriam xaxins pendurados ao teto e sobre o peitoril da janela. Descansos de linho com bordados enfeitavam as superfícies do bufê, uma antigüidade, e da escrivaninha. Também sobre os dois móveis, fotos em preto-e-branco de militares em serviço e de um jovem casal em frente a um Buick de modelo antigo. As três imagens coloridas exibiam uma garotinha em diferentes estágios da vida.

— Sente-se — considerou a mulher, acomodando-se na cadeira de balanço. — Hum... A dor neste osso... — queixou-se, friccionando o calombo em um dos ombros, visível sob a suéter. — Não desejaria essa dor nem ao meu pior inimigo.

— Eu lamento.

Seus ossos pareciam mesmo frágeis. Como nos ombros, os joelhos pontudos destacavam-se sob o vestido simples de algodão. A face, oval, era completamente enrugada. As lentes grossas dos óculos aumentavam e distorciam os olhos que, de tão azuis, brilhavam. Os cabelos brancos estavam meticulosamente presos num coque atrás da cabeça, fixado por bonitos pentes de vivo azul-turquesa.

— Ficar velha é o inferno. Se não fosse os meus gatos, eu já teria desistido.

Christine reparou sua saia azul-marinho, cheia de pêlos de gato. Dois dos animais ainda lhe rondavam as pernas, enquanto outro pulara para cima do encosto do sofá, tentando avaliação mais minuciosa.

— Rummy, desça daí — censurou a anfitriã, indicando com o dedo de osso torto a direção do chão. O gato, porém, a ignorou.

— Não tem problema, Sra. Krichek. Eu não ligo — mentiu Christine. — Gostaria de ir direto ao que a senhora viu na manhã em que Danny Alverez desapareceu. A senhora se importa?

— Não, claro que não. Estou contente porque finalmente alguém se interessou por isso.

— O pessoal do xerife não veio aqui conversar com a senhora?

— Eu telefonei para eles duas vezes. Uma delas nesta manhã, aliás, depois que eu li seu artigo. Eles ficaram o tempo todo fazendo "Hum, hum", "Hum, hum", como se eu estivesse inventando ou outra coisa qualquer. Então, eu liguei para você. Não me importo com o que as Pessoas dizem. Eu vi o que eu vi.

— E o que a senhora viu?

— Eu vi o garoto parar a bicicleta perto da cerca e entrar em uma picape velha e azul.

— A senhora tem certeza de que era Danny Alverez?

— Claro, já o havia visto dúzias de vezes. Ele era muito bom entrega­dor de jornais. Trazia o meu até minha porta e o deixava sobre o capacho. Era como o garoto que temos agora, que dá dois passos para fora do elevador e joga o jornal. Às vezes, ele acerta, às vezes, não. E não é fácil passar com este andador pelo vão da porta. Acho que seu jornal deveria controlar esses garotos, verificando se estão fazendo um serviço decente

— Vou informá-los sobre isso. Sra. Krichek, por favor, fale-me sobre a picape. A senhora pôde ver quem a dirigia?

— Não, ainda estava um pouco escuro. Eu estava naquela janela. 0 sol mal havia raiado. O motorista entrou no estacionamento, e eu só pude ver o lado do passageiro. Ele deve ter dito alguma coisa para o garoto, porque Danny encostou a bicicleta na cerca, deu a volta e entrou no carro.

— Danny entrou no carro? A senhora tem certeza de que o motorista não o agarrou, não o puxou para dentro do carro?

— Não, não, foi tudo normal. Caso contrário, eu teria ligado para o xerife mais cedo. Só quando eu ouvi que Danny estava desaparecido foi que juntei as peças e telefonei.

Christine não conseguia crer que ninguém havia checado a história dessa mulher. Será que a repórter havia entendido direito? Sim, tratava-se de uma pessoa de muita idade, mas seu relato era verossímil. Christine caminhou até a janela de onde a Sra. Krichek afirmou ter assistido a tudo. A visão da área de estacionamento e da cerca era perfeita. Mesmo alguém que não enxergasse perfeitamente poderia distinguir a cena que a mora­dora descrevera.

— Qual era a picape?

— Eu não sei muito sobre carros e caminhonetes. — A mulher levan­tou-se da cadeira de balanço e dirigiu o andador para junto de Christine. — Era velha, azul, com a pintura descascada e um pouco de ferrugem. Tinha aqueles apoios para subir. Eu sei porque Danny pisou num para entrar. Na caçamba, havia uns suportes de madeira, dessas feitas a mão, do tipo que os fazendeiros colocam quando vão transportar qualquer coisa. Ah, um dos faróis não funcionava.

Se a mulher estava senil, tinha uma imaginação e tanto. Christine anotou as informações.

— A senhora foi capaz de ler alguma coisa na placa?

— Não, meus olhos não são tão bons assim.

Uma porta bateu na área abaixo delas. Uma menina correu para um quintal, do outro lado da cerca, sentou com um pulo em um balanço e gritou para o homem que a seguia. Ele tinha cabelos longos, barba e vestia jeans com uma bata branca.

— Eles se mudaram no mês passado. — A Sra. Krichek moveu a cabeça para fixar a atenção de Christine na dupla, enquanto o homem empurrava a garota, que gritava de alegria. — No primeiro dia que eu o vi, pensei que ele fosse o Senhor, em carne e osso. Ele não é igual a Jesus Cristo?

Christine sorriu e concordou com a cabeça.

 

Maggie fiscalizou os passos cuidadosos, às vezes curtos, às vezes longos, de Nick para se desviar das pilhas de papéis que ela formara por todo o piso do escritório. O xerife remanejara algumas torres de documentos para obter um espaço onde pudesse acomodar a pizza fumegante e as Pepsis. Missão cumprida, ele se juntava a ela no chão. Estirou as pernas longas nos vãos entre os caixotes, próximo às dela. Um dos pés por pouco não a tocou. Durante o dia inteiro, Maggie surpreendeu-se sensível e consciente da presença dele. Apesar do cansaço, o corpo reagia quando um dos cotovelos do xerife a tocava, acidentalmente, ou quando ele aproximava a mão direita dos joelhos dela ao trocar a marcha do jipe.

Descalçou os sapatos horas atrás e sentara-se sobre os pés até que eles ficassem com cãibra. Massageava-os agora enquanto lia os relatórios do legista sobre Aaron Harper e Eric Paltrow, os dois garotos cujas mortes poderiam ter sido atribuídas erroneamente a Jeffreys.

A pizza cheirava bem apesar da descrição assustadora de ingredientes que ela lera. Ao erguer o olhar, atraída pelo sugestivo odor, surpreendeu Nick admirado com a massagem nos pés. Imediatamente, ele virou o rosto para o outro lado, como se estivesse cometendo uma infração, abriu uma lata de Pepsi e a serviu.

— Obrigada. — Ela estava com fome dessa vez. O sanduíche de queijo e presunto da lanchonete da Wanda ficara no prato com apenas duas mordidas até que o assistente Preston se oferecesse para finalizar o servi­ço. E isso fora há horas, antes de escurecer. Os telefones se aquietaram, e o vaivém no departamento diminuiu. Parte do staff descansava em casa, parte voltara às ruas para prosseguir as buscas, mas o menino, pelo jeito, desaparecera da face da Terra.

Nick pegou uma fatia da pizza, com a competência necessária para que uma porção preciosa de queijo não ficasse pelo caminho, e a ofereceu a Maggie num prato de papel. Ela identificou com prazer os aromas do salame e do pimentão. Mordeu além do que podia e se sujou de queijo e molho de tomate.

— O’Dell, você está com pizza no rosto todo.

Ela passou a língua pelo canto da boca, sob a mira do xerife.

— Do outro lado. — Ele apontou. — E também no queixo.

Com as mãos cheias de pizza e documentos, ela moveu a língua para o outro canto, ao mesmo tempo que procurava em volta um lugar seguro para colocar os papéis.

— Não, mais alto. — Nick a orientava. — Deixe que eu...

No que ele encostou o polegar perto da boca de Maggie, os olhos de ambos se encontraram. Os dedos de Nick limparam seu queixo, e o mesmo polegar percorreu o lábio inferior, onde, Maggie estava convicta, não havia nenhum resto de pizza. As inesperadas trocas de olhares e inquietação entre os dois foram evidentes. As pontas dos dedos demora­ram mais tempo do que o necessário no queixo e subiram para uma carícia na bochecha. O polegar não se apressou em deixar a boca. Surpresa pelo gesto, ela se reclinou para trás, saindo do alcance dele.

— Obrigada — conseguiu dizer, sem o olhar. Deixando o prato de pizza no chão, ela arrematou o trabalho com um guardanapo. Comprimiu o papel contra a boca numa tentativa de disfarçar a emoção que sentira.

— Acho que precisamos de mais guardanapos e Pepsis. — Nick, no Pouco espaço do piso que lhe cabia, contorceu-se para ficar de pé.

Maggie aproveitou seu movimento para observá-lo. Tão atordoado Quanto ela, Nick tirou do frigobar mais duas latas de refrigerante e acres­centou guardanapos à pilha original, ainda pela metade. Ao sentar-se, ele se posicionou mais distante dela. Desde o início da tarde, quando ele tomara ciência de Greg, Maggie percebera a interrupção dos flertes e galanteios. Portanto, a carícia e o toque o teriam pego de guarda baixa também.

Há tantas discrepâncias — ela se obrigava a concentrar-se no relatório do legista. — Não descobri por que concluíram que Jeffreys matou os três garotos.

— Mas um serial killer não muda de procedimentos de um crime para outro?

— Eles podem inserir novos procedimentos. Experimentar. Jeffrey Dahmer, por exemplo, tentou diferentes maneiras de manter vivas as vítimas. Chegou a perfurar seus crânios para incapacitá-las, sem lhes causar a morte.

— E por que Jeffreys não teria experimentado novas técnicas?

— O problema é que as mortes de Harper e Paltrow foram idênticas. Os dois amarrados com corda, com as mãos por trás das costas. Os dois estrangulados e com as gargantas cortadas. As feridas no peito parecidas, quase o mesmo número de perfurações. A mesma faca para talhar o X. Ausência de violação sexual, aparentemente. Os dois corpos descobertos em áreas remotas perto do rio.

Maggie apontou diversos documentos no chão à sua frente, com cui­dado, porém, para não os sujar. Sem poder mais enganar o cansaço, sua visão se embaçava durante a leitura. George Tiller, o legista, não havia sido rigoroso como deveria. O relato sobre Paltrow mencionava a limpeza do corpo, o outro não. Nenhum deles citava manchas de óleo na testa ou em outra parte do corpo.

Nick recostou-se na mesa e esfregou os olhos, o que atraiu a atenção de Maggie. De tanto cocar a cabeça, ele se despenteara por completo. Com as mangas da camisa arregaçadas até os cotovelos, exibia os antebraços musculosos. Livrara-se da gravata e abrira alguns botões da camisa amarrotada, expondo o suficiente do tórax para que ela precisasse sacudir a cabeça a fim de não perder o fio de sua argumentação.

— No caso de Wilson, em vez disso...

— Eu sei — Nick a interrompeu, esticando-se. — Suas mãos foram amarradas na frente do corpo, com fita, e não corda. Foi esfaqueado até a morte. Nenhum sinal de estrangulamento. Nenhum ferimento na gar­ganta. Jeffreys usou uma faca de caça. Apesar de terem sido inúmeras perfurações de pequeno diâmetro...

— Vinte e duas.

— Vinte e duas, mas sem cortes ou talhos.

— Wilson foi sodomizado, repetidas vezes.

— E seu corpo foi encontrado na caçamba de lixo do parque. Nada de rio. Meu Deus, essa coisa toda me causa enjôo. — Ele pôs a pizza de lado e esvaziou de um só gole a lata de Pepsi. Limpou a boca com as costas da mão. — Temos um monte de diferenças. Mas Jeffreys não poderia ter mudado o jeito com que fazia as coisas? Mesmo a sodomia, isso não poderia ser... Eu não sei... Uma alteração em seus métodos?

Poderia, mas a seqüência foi Harper, Wilson e Paltrow. Difícil imaginar um assassino mudar, experimentar, alterar e voltar ao esquema original. Ele usou uma faca, provavelmente de lâmina curta, como aque­las com que se corta carne. Depois, trocou para uma faca maior, de caça, e, em seguida, voltou à primeira. Os estilos, aliás, também são diferentes. Os assassinatos de Harper e Paltrow são meticulosos, detalhistas. O cri­minoso não teve pressa, talvez sentisse prazer ao lhes propiciar dor. Bem parecido com o caso de Danny Alverez. A morte de Bobby Wilson, entretanto, parece ter sido uma coisa no calor do momento, muita paixão, emoção, sem preocupação com detalhes.

— Eu sempre achei que foi tudo muito fácil — afirmou Nick, fatigado. — Ficava aqui comigo pensando se meu pai não teria deixado escapar alguma coisa, em meio a todo o circo montado pela mídia.

— Como assim?

— Você ouve falar de coisas que não batem, da pressa para julgar Jeffreys. Meu pai sempre gostou de estar no centro das atenções. Durante todo o primeiro ano em que atuei como lançador do UNL, ele queria sempre me encontrar no vestiário. Sempre, em todas as partidas. Minha mãe dizia que era porque ele estava orgulhoso de mim. Só que, na maioria das vezes, ele acenava para as câmeras de tevê antes de falar comigo.

Maggie ouviu-o pacientemente e, após o desabafo, respeitou seu silên­cio. Filho e pai tinham, obviamente, uma relação complexa. E, apesar do mal-estar que o tema provocava nele, Nick buscava um modo de lhe contar alguma coisa importante, referente ao caso de Jeffreys. Estaria correta supondo que Nick desconfiava de ter havido negligência da parte de seu pai?

Quando ele ergueu a cabeça, encarou-a como se conseguisse ler os pensamentos dela.

— Não estou dizendo que meu pai, de propósito, negligenciou alguma coisa. Ele é muito respeitado há anos. Sei que eu nunca teria sido eleito se não fosse filho dele. O que estou dizendo é que tudo foi muito fácil, a maneira como o meu pai acusou Jeffreys. Num dia, ele recebeu uma denúncia anônima, e, no seguinte, Jeffreys soltou a língua.

— Que denúncia anônima?

Foi um telefonema, eu acho. Não tenho certeza. Não morava aqui, estava dando aulas na universidade e não peguei as informações de primeira mão. Não há nada sobre isso nos relatórios? Maggie verificou diversas pastas. Lera boa parte da papelada e não havia referência a nenhum telefonema. Tampouco no que viu por alto identificou relatos que se assemelhassem a uma transcrição de telefonema.

— Não vi nada sobre denúncia anônima — concluiu ela, entregando-lhe a pasta etiquetada "A prisão de Jeffreys". — Do que você se recorda?

Ele se mostrou confuso, e ela não sabia mais se Nick questionava o pai ou a própria memória enquanto passava os olhos nos papéis que Maggie lhe entregara.

— Os relatos de seu pai são detalhados, incluem uma cronologia da prisão e as evidências encontradas na caminhonete Chevrolet, de Jeffreys. — Com o relatório oficial do antigo xerife, ela folheava suas próprias anotações. — Eles acharam um rolo de fita adesiva, uma faca de caça, corda e... ei, espere um pouquinho.

Maggie bateu os rabiscos de seu bloco com a lista do pai de Nick.

— Uma cueca de menino, que, depois, se constatou ser de... — Ela se virou para Nick, que com a lista do pai agora em mãos acompanhava a leitura da agente. Fixaram os olhos um no outro. Pensavam exatamente a mesma coisa. Maggie continuou:

— Uma cueca de menino que, depois, se constatou ser de Eric Paltrow. Maggie catou o registro do legista para uma rechecagem, mas já tinha consciência do que havia descoberto.

— O corpo de Eric Paltrow estava vestido com uma cueca quando encontrado.

Nick balançou a cabeça, incrédulo.

— Eu aposto que mesmo Jeffreys se surpreendeu ao encontrar aquilo tudo em seu carro.

Encararam-se novamente, sem que nenhum dos dois quisesse expres­sar em alto e bom som a conclusão lógica. Houvera uma armação para acusar e condenar Jeffreys por dois crimes que ele não havia cometido. E eram boas as possibilidades de que tal armação tivesse sido bolada no departamento do xerife.

 

Terça-feira, 28 de outubro

O dia não fora dos melhores, e Nick pôs a culpa nas meras duas horas de sono na cadeira de sua sala. Maggie retornara ao hotel às 3h, e ele pegara no sono debruçado sobre a mesa de trabalho. Durante todo o dia, as costas e o pescoço lhe sinalizavam que faltava pouco, quatro anos, para os 40.

O corpo já não respondia como antigamente, embora suas aflições com desempenho sexual tivessem diminuído, graças à agente O’Dell. Na noite passada, o contato de seus dedos nos lábios dela, o olho no olho, o desejo... Meu Deus, ainda bem que os chuveiros da cadeia do condado só cospem água fria. E olha que ele seguia regras estritas sobre mulheres casadas. Esperava que o corpo não o fizesse esquecer esses princípios.

Infelizmente, o estoque de roupas limpas que guardava no escritório esgotara-se nos últimos dias. Apelara então para o uniforme marrom do departamento, talvez até no fim uma escolha mais apropriada para um dia de entrevista à imprensa. Não que isso tivesse feito alguma diferença. O encontro com os jornalistas transformara-se em minutos num linchamento.

Público, após a manchete de Christine: "Departamento do xerife ignora Pistas no caso Alverez."

Para Nick, Eddie havia checado onde morava a Sra. Krichek há tempos, assim que ela telefonara pela primeira vez. Por que o assistente não se tocara da vista perfeita do apartamento de Krichek para a cena do rapto? Meu Deus, ele queria estrangular seu subordinado ou, pior, oferecê-lo como bode expiatório para a mídia. Limitou-se, porém, a repreen­dê-lo privadamente e dar-lhe uma advertência.

Droga, ele necessitava do máximo de cada um dos seus homens no momento. Não era hora de perder a cabeça, o que quase ocorrera na entrevista coletiva, quando as perguntas se tornaram agressivas. No en­tanto, O’Dell, com autoridade, calma e agilidade, recolocara as coisas em perspectiva. Instigara os meios de comunicação a ajudarem na caçada à misteriosa picape azul, ao assassino, em vez de se ocuparem das falhas da equipe do xerife. Ele não pretendia descobrir o que seria dele sem ela nesses dias.

Dobrou na esquina da rua de Christine, e o sol fez uma de suas raras aparições da semana, metendo-se por um buraco entre as nuvens. Ali ficou por um breve período de tempo, até se pôr atrás de um bosque. Esfriara de ontem para hoje, e o vento incomodava, sinal de que a tem­peratura baixaria mais.

No jipe, Maggie, ao lado de Nick, não tirara os olhos da papelada do caso Alverez nem se pronunciara. Equilibrava no colo fotos da cena do crime e as de sua polaróide, obcecada para finalizar o perfil do criminoso, como se isso representasse a salvação de Matthew Tanner. Depois de uma tarde de pistas contraditórias e uma seqüência de testemunhos insignifi­cantes, Nick imaginava o pior. Desde o desaparecimento do garoto, 175 assistentes do xerife e agentes revistavam a região, e nada. Não faziam idéia do paradeiro de Matthew. Tudo sugeria que o menino, por livre e espontânea vontade, depois de convidado, tivesse embarcado no carro de alguém e pronto, da maneira descrita por Sophie Krichek.

Se fosse verdade, havia uma razoável probabilidade de que o garoto confiasse no assassino. Nick preferia acreditar que o garoto tivesse sumido no ar; era melhor do que imaginá-lo morto e mutilado por uma pessoa íntima da família, moradora do bairro. Quem sabe ele, Nick, não conhecia o criminoso?

Distraído, Nick entrou acelerado na garagem da casa da irmã e freou de forma repentina. Do colo de Maggie, as fotos voaram para o chão.

— Perdão. — Colocou o jipe em ponto morto, tocando acidentalmente a coxa da agente. Retirou a mão rapidamente e a esticou para pegar as fotos. No esforço mútuo, os braços dos dois se cruzaram, e suas testas resvalaram. Entregou as fotografias que apanhara, Maggie juntou-as às que recolhera e agradeceu sem o olhar.

Tinham se evitado um pouco durante o dia, e Nick não saberia dizer se fora para se esquivarem de discutir a descoberta da véspera sobre Jeffreys ou para se resguardarem de novas intimidades.

Bateram na porta de Christine, e o celular de Maggie tocou.

— Agente Maggie O’Dell.

A irmã os convidou com um gesto para entrar.

— Pensei que não viesse — sussurrou Christine para Nick, ao cami­nharem juntos para a sala de estar. Maggie permaneceu no saguão com o celular.

— Por causa de sua matéria?

A expressão da irmã era de surpresa, como se nem houvesse ventilado a hipótese que ele sugeria.

— Não, porque você está atolado de trabalho. Não ficou chateado com a matéria, ficou?

— Sophie Krichek tem um parafuso a menos. Duvido dessa história.

— Ela é bastante convincente, Nick. Não há nada errado com ela. Eu o aconselho a procurar essa picape.

Nick desviou a atenção para Maggie, irrequieta no saguão. Gostaria de poder ouvir a conversa telefônica. O desejo realizou-se subitamente, quando seu grito ecoou no salão.

— Vá para o inferno, Greg. — Fechou o telefone com um estalo e o enfiou no bolso. O celular voltou a tocar.

Nick levantou as sobrancelhas para a irmã.

— Quem é Greg?

— O marido.

— Ela é casada?

— Por que não seria? — replicou de forma abrupta. O arrependimento lhe veio em seguida ao sorriso malicioso de Christine.

— Não é por acaso toda a sua delicadeza com ela, hein?

— Que diabos você quer dizer com isso?

— Se você ainda não notou, irmãozinho, ela é deslumbrante.

— Ela é também uma agente do FBI. Isso aqui é profissional, Christine. — E desde quando isso é obstáculo para você? Lembra-se daquela gracinha de advogada da Procuradoria Federal? Aquilo supostamente também não era uma relação profissional?

— Ela não era casada. — Ou, pelo menos, se ele se lembrasse clara-mente, estava se divorciando.

Maggie juntou-se a eles. O desespero da tarde do dia anterior retornara a seu rosto.

— Mil desculpas — murmurou, escorada no umbral da porta. Recentemente, meu marido adquiriu o hábito irritante de me tirar do sério

— Por isso eu me livrei do meu. — Christine não resistiu ao sarcasmo. — Nicky, por que não serve o vinho? Vou ver como está o jantar. — E acariciou as costas de Maggie ao rumar para a cozinha.

Ele pegou o vinho e as taças, tendo Maggie sob vigilância com o canto dos olhos. Ela deu uma volta, fingindo apreciar a decoração, mas na verdade sua cabeça estava longe dali. Deteve-se na janela, de onde con­templou o jardim. Com uma taça de vinho em cada mão, Nick aproxi­mou-se, e ela estremeceu à presença dele.

— Tudo bem? — Passou-lhe o vinho e, em troca, quis um olhar dela.

— Você já foi casado, Nick? — Ela pegou a taça sem desviar os olhos do jardim, cada vez mais tomado pelas sombras.

— Não, fiz um tremendo esforço para não cair nessa.

Maggie tomou um gole de vinho, e Nick, bem próximo, celebrou o contato do cotovelo dela em seu braço. Desfrutou o calor que o toque, banal, produzira nele. Não se mexeu e ansiou por mais. Ficou à espera de que ela lhe falasse mais, lhe contasse como o casamento ruía. A expecta­tiva deu de imediato lugar à culpa por ter desejado o pior para a relação dela. Talvez para justificar o pensamento, ele disse:

— Eu realmente não havia percebido que você era casada. Você não usa aliança.

Ela ergueu a mão. Para se certificar, quem sabe.

— Está no fundo do rio Charles — explicou com as mãos nos bolsos da jaqueta.

— O quê? — Sem lhe ver a expressão, Nick não poderia afirmar se Maggie brincava ou falava sério.

— Um ano atrás, estávamos puxando um flutuante do rio.

— Um flutuante.

— Isso, um cadáver já na água há algum tempo. A água estava muito gelada, e a aliança deve ter escorregado do meu dedo.

Seus olhos mantiveram-se no horizonte. Conformado, ele seguiu o exemplo e contemplou o crepúsculo, ao mesmo tempo que examinava a silhueta de Maggie na janela. Ela ainda matutava sobre a conversa com o marido. Ele imaginou como seria o tal de Greg, o homem que havia capturado o coração de Maggie O’Dell. Um intelectual esnobe? O cara não deveria ter assistido a uma partida de futebol americano, quanto mais acompanhar o Green Bay Packers.

— Nunca substituiu a aliança?

— Não. Talvez no meu subconsciente eu tenha me dado conta de que todas as coisas simbolizadas pelo anel já se haviam esgotado, antes mesmo de ele ter caído no rio.

— Tio Nick — interrompeu Timmy, correndo pela sala e se atirando nos braços de Nick, sem quase dar ao tio o tempo necessário para se virar. As conseqüências do cochilo na cadeira do escritório se manifestaram de pronto. As costas fizeram um apelo enfático para que botasse o garoto no chão. Contudo, ele o girou como se o sobrinho fosse o ponteiro de um relógio e o abraçou junto ao peito. As pernas de Timmy passaram raspan­do os badulaques da mãe espalhados por uma mesinha próxima.

— Ei — gritou Christine da cozinha com os dois. — E como ter duas crianças em casa. — Reduziu um pouco o volume, ao dirigir-se a Maggie.

Nick aterrissou o sobrinho no chão e trincou os dentes num sorriso. Alongou a coluna e absorveu a dor que a percorria. Meu Deus, como ele odiava que o corpo o recordasse de que estava ficando velho.

— Maggie, este é meu filho, Timmy. Timmy, esta é a agente especial Maggie O’Dell.

— Você é uma agente do FBI como os agentes Mulder e Scully dos X-Files?

— A diferença é que eu não persigo extraterrestres, embora algumas das pessoas que eu persigo sejam de fato assustadoras.

Nick com freqüência se impressionava com o efeito que as crianças provocavam nas mulheres. Ele gostaria que fosse possível engarrafar e comercializar tal poder. Ao arrumar o cabelo atrás das orelhas, Maggie sorria novamente. Os olhos acesos, e o rosto relaxado.

— Tenho pôsteres do X-Files no meu quarto. Você quer ver?

— Timmy, vamos comer logo, logo.

— Ainda temos tempo? — Maggie perguntou a Christine. Timmy aguardou a resposta previsível da mãe.

— Claro.

Ele então pegou a mão de Maggie e a conduziu pelo corredor. Nick não se pronunciou até os dois se afastarem.

— Como é bom vê-lo aprendendo com o mestre. Se bem que eu nunca usei esta tática: "Você quer ver os meus pôsteres do X-Files?"

Christine jogou nele o pano de prato. — Venha ajudar e me sirva vinho também.


 

Como agente do FBI, Maggie rotineiramente experimentava o embara­ço de admitir que nunca assistira a X-Files. Seu estilo de vida não lhe permitia dedicar muito tempo a filmes e tevê. Timmy, entretanto, não mostrou a menor cerimônia. Uma vez em seu quarto, ansiosamente sacou tudo das prateleiras, de modelos miniaturas do seriado Jornada nas estrelas a uma coleção de fósseis. Um, ele anunciou, convicto, era um dente de dinossauro.

O pequeno quarto era maravilhosamente desordenado. Uma luva de beisebol decorava a cabeceira da cama. Uma colcha do Jurassic Park se misturava com um bolo de roupas, que ela apostava ser um pijama do mesmo filme. Em uma estante, no canto do aposento, um microscópio velho sustentava em pé livros infantis e um álbum de figurinhas de joga­dores de beisebol. Nenhum pedaço de parede estava à mostra, tudo co­berto por pôsteres do X-Files, Jornada nas estrelas, Jurassic Park, Batman e do time do Nebraska Cornhuskers. Ela assimilava cada detalhe não por ser uma investigadora do FBI, mas como uma criança de 12 anos que teve o resto da infância roubada.

Da própria infância, os pensamentos pularam para a conversa com Greg e a tensão causada pelo telefonema. Ele a acusara de ignorar a mãe. Maggie rebatera, relembrando-lhe que a psicóloga do casal era ela. Não importa. Ele conservava a mágoa pelo dia em que brigaram, em que ela arruinara o aniversário de casamento. Erguia o rancor como um troféu que ele havia suado para conquistar. Como teriam chegado até esse ponto?

Timmy segurou-a pela mão e apontou um casco de caranguejo em cima da cômoda.

Meu avô me trouxe da Flórida. Ele e vovó viajam pra caramba. Você pode tocar se quiser.

Ao passar o dedo pela concha lisa, Maggie notou, num porta-retratos, a imagem de cerca de dez garotos com camisas e shorts iguais, alinhados dentro de uma canoa, com um píer em segundo plano. Reconheceu o menino à frente na canoa e aproximou o rosto para confirmar. Seu pulso disparou. Suspendeu o porta-retratos, devagar para não perturbar o ca­ranguejo. O garoto era Danny Alverez.

— Que foto é esta, Timmy?

— Do acampamento da igreja. Minha mãe me obrigou a ir. Eu achei que seria uma porcaria, mas foi legal.

— Este aqui não é Danny Alverez?

— É ele, sim.

— Então você o conheceu?

— Mais ou menos. Ele estava no alojamento Red Robins e eu no Goldenrog.

— Ele ia à igreja? — Ela examinava os outros rostos na foto.

— Não, acho que ele ia à escola e à igreja da base da Aeronáutica. Você quer ver as minhas figurinhas de beisebol? — Ele já vasculhava as gavetas do criado-mudo.

Maggie queria mais informações sobre o acampamento da igreja.

— Quantos garotos foram ao acampamento?

— Sei lá. Um monte. — Ele colocou sobre a cama uma caixa de madeira de onde tirava figurinhas. — Eles vêm de todos os lugares, diferentes igrejas do condado.

— E é só para meninos?

— Não, meninas também, mas elas ficam do outro lado do lago. Em algum lugar aqui, eu tenho um Darryl Strawberry, do tempo em que jogava no juvenil. — Ele espalhava figurinhas e mais figurinhas em cima da cama.

Além dos garotos, dois adultos apareciam na foto. Um deles era Ray Howard, o homem que limpava o altar da igreja de Santa Margarete. O outro, bonito, alto, cabelos encaracolados escuros e rosto de menino. Ele e Howard vestiam camisetas cinzentas com a inscrição "Santa Margarete" no peito.

— Timmy, quem é este cara aqui na foto?

— Padre Keller. Ele é muito legal. Eu sou coroinha dele agora. Não é todo mundo que consegue ser coroinha dele, não. Ele é um cara exigente

— Exigente, como? — Ela controlava a respiração para soar interessa­da, não alarmada.

— Sei lá. Ele quer que você seja um cara de confiança, essas coisas. Ele trata a gente de um jeito especial, dá prêmios se você é um bom coroinha.

— Como é isso?

— Por exemplo, a gente vai acampar com ele nesta semana, quinta e sexta. As vezes, ele joga futebol americano com a gente. Ah, e ele troca figurinhas de beisebol. Uma vez eu troquei com ele um Bob Gibson por um Joe DiMaggio.

Ela se esquivou do caranguejo para recolocar a foto no lugar. Uma outra face conhecida se enfileirava não na canoa, mas no píer, atrás. Quase que a fotografia lhe cai das mãos. O coração acelerou. Encoberto por um menino mais alto, o rosto pintadinho de Matthew Tanner.

— Timmy, você se importa se eu levar esta foto emprestada? Só por uns dias. Prometo devolver.

— Tudo bem. Você carrega uma arma?

— Sim, carrego. — Ela manteve a voz imune à excitação. Retirou a foto do porta-retrato. Seus dedos tremiam devido à adrenalina.

— Você está com uma arma agora?

— Sim, estou.

— Posso ver?

— Timmy — cortou a mãe. — Hora da janta. Vá lavar as mãos. — Com a mão esquerda na porta, ela acertou Timmy com o pano de prato quando o filho saiu do quarto. O garoto, já conhecendo a brincadeira, fingiu esquivar-se.

Maggie guardou a foto no bolso da jaqueta, sem que Christine notasse.


 

Após o jantar, Nick insistiu em lavar os pratos com Timmy. Christine sabia que a presteza do irmão visava impressionar Christine e decidiu tirar vantagem da súbita generosidade.

As duas mulheres se recolheram à sala de estar, longe da discussão sobre futebol americano em Nebraska, em altos brados, na cozinha. Christine dispôs os pires e as xícaras no tampo de vidro da mesinha de centro e rezou para que Maggie sentasse e, enfim, relaxasse, desligando-se temporariamente da agente O’Dell. Alvoroçada durante o jantar, ela agora permanecia de pé, desassossegada. Ao mesmo tempo, a agente transparecia cansaço e se comportava de forma agitada. A maquiagem não disfarçava as olheiras. Ela estava no mundo da lua.

— Venha, sente-se — convidou Christine, batendo na almofada do sofá ao lado dela. — Eu não paro quieta um minuto, mas você me bate de goleada.

— Desculpe. Acho que estou dedicando tempo demais a assassinos e cadáveres. Meus modos desintegraram-se.

— Não, não é esse o problema. Você está passando tempo demais é com Nicky.

Maggie achou graça.

— O jantar estava delicioso. Não me lembro da última vez que comi uma refeição caseira.

— Obrigada, mas eu tenho prática. Fui mãe, esposa e dona-de-casa até meu marido decidir que prefere recepcionistas de 23 anos de idade. — Bastou finalizar a frase para perceber que revelara demais muito rapidamente, provocando o desconforto de Maggie. A intenção da anfitriã não era fofocar sobre desilusões matrimoniais.

Sem graça, Maggie cruzou a sala para, afinal, sentar-se, escolheu a poltrona em vez de dividir o sofá. Christine gostaria de apontar para Maggie que a questão não era falta de boas maneiras, mas sim a preservação de intimidade de qualquer tipo. Era fácil reconhecer; Christine vivenciava aquilo: desde a partida de Bruce, estabelecera uma distância de segurança de todos, salvo seu filho.

— Por quanto tempo vai ficar em Platte City?

— O tempo necessário.

Os problemas no casamento não vinham do nada. Ciente de que a pergunta fora uma deixa, Maggie explicou:

— Desenvolver o perfil psicológico de um assassino, infelizmente, toma tempo. Você tem que estar no mesmo ambiente que ele.

— Eu pesquisei um pouco sobre sua carreira. Espero que você não se importe. Bacharelado em Psicologia Criminal, com mérito, mestrado em Psicologia Comportamental e uma bolsa de trabalho forense em Quântico. Oito anos no FBI e já uma das maiores peritas da agência na sua área. Se calculei corretamente, você tem 32 anos. Deve ser bom conseguir tanto em tão pouco tempo.

Christine avaliava se aborreceria um pouco Maggie com os elogios, mas não, o olhar vago da agente não se abalou. Christine resolveu não listar os psicopatas capturados com o auxílio de Maggie. Diante da dureza da convidada, imaginou que o sucesso lhe custara caro.

— E, suponho que seja — comentou Maggie após algum tempo. Chris­tine aguardou algum complemento, que, entretanto, não veio.

— Nicky nunca admitirá, mas está aliviado porque você está aqui. Tudo isso é muito novo para ele. Meu irmão não poderia imaginar tudo isso quando meu pai o convenceu a concorrer ao posto de xerife.

— Seu pai o convenceu?

— Papai estava prestes a se aposentar. Havia sido xerife por muito tempo. Não poderia suportar a idéia de não colocar um Morrelli em seu lugar.

— E Nick?

— Ele estava dando aulas na escola de Direito da universidade. Acho que no fundo ele gostou da idéia. — Christine ansiava por trocar de tema.

Ela, da família, não compreendia as peculiaridades da relação entre o irmão e o pai. Como poderia explicá-las para uma estranha?

— Seu pai deve ser um homem notável — Maggie comentou, sem nada deixar nas entrelinhas.

— Por que diz isso? — Christine a encarou, desconfiada e curiosa para saber o que Nick contara à agente.

Antes de tudo, porque ele capturou Ronald Jeffreys sozinho. — _É, ele foi o herói da história.

— E também porque parece que ele influenciou muito a decisão de Nick.

Ela sabia mais. Era a vez de Christine ficar inquieta. Pôs mais café para si. Caprichou no creme.

— Acho que papai só quis que Nick tivesse as oportunidades que ele, o pai, nunca tivera; que fizesse as coisas que ele não pôde fazer.

— E você ?

— Como assim?

— Ele também não queria as mesmas oportunidades, as mesmas coisas para você?

Christine rendia-se aos fatos. A mulher era boa mesmo. Maggie O’Dell sentara-se em sua poltrona, bebericara seu café e, friamente, a colocava à prova.

— Eu amo meu pai, mas tenho consciência de que ele é um machista, um chauvinista. Portanto, não, ele não queria as mesmas oportunidades para mim. De mim, o que viesse estava bom. Com Nicky, não, com Nicky ele era mais duro. É um pouco mais... complexo. Nick tinha que se provar o tempo todo, quisesse ou não. Acho que esta é uma das razões para ele sempre se irritar comigo.

— Não, não é, não. Na maioria das vezes, é porque você fala demais. — De pé junto da porta da sala, Nicky intrometeu-se na conversa; Timmy posicionava-se atrás do tio, rindo do que jeito que insinuava estar para executar uma ação que a mãe censuraria.

O telefone soou, salvando-a do sermão, e Christine saltou do sofá, por pouco não derrubando a xícara. Atravessou a sala e alcançou o telefone antes do terceiro toque.

— Alô.

— Christine, é Hal. Desculpe o mau jeito, mas Nick ainda está aí? — Um barulho dificultava a audição. Um chiado, um motor. Ele estava no carro.

— Está, e obrigada. Você acaba de salvar a noite.

Ela se virou, mostrando a língua para o irmão; Timmy prendeu o riso e Nick faiscou.

— Pelo menos isso. Salvar a noite de alguém. — A barulheira não abafou o nervosismo dele.

— Você está bem, Hal? O que está acontecendo?

— Posso falar com Nick, por favor?

Antes que ela pudesse rebater, Nick, do seu lado, puxou o telefone. Ela não resistiu, mas tampouco se afastou. A reprovação nos olhos do irmão, por fim, a repeliu.

— Hal, o que houve? — De costas para o restante das pessoas, Nick ouviu. — Não deixe ninguém tocar em nada. — Pânico e urgência explo­diram na voz do irmão.

Maggie respondeu imediatamente, pondo-se de pé. Christine gentil­mente puxou Timmy pelos ombros.

— Timmy, vá para a cama.

— Pô, mãe, é cedo.

— Timmy, agora. — O estresse de Nick era contagiante. Timmy subiu de má vontade para o quarto.

— É isso, então, Hal. — Agora, havia raiva para disfarçar o pânico. Não a enganava. Christine o conhecia bem. — Cerque a área, não deixe ninguém encostar em nada. O’Dell está comigo. Chegaremos aí em 15, 20 minutos.

Assim que desligou o telefone, ele e Maggie se encararam.

— Meu Deus, eles encontraram o corpo de Matthew, não encontra­ram? — Christine constatou o óbvio.

— Christine, eu juro, se você publicar uma palavra... — O pânico raivoso ameaçava converter-se em fúria.

— As pessoas têm o direito de saber.

— Não antes da mãe. Tenha a decência de esperar até que ela saiba, pelo menos.

— Com uma condição...

— Meu Deus, Christine, tenha consciência. — Ele gritou com tanta raiva, que ela deu um passo atrás.

— Prometa que vai me ligar quando eu puder ir em frente. Isto é pedir muito?

Ele balançou a cabeça, em repulsa. Christine olhou para Maggie, que esperava na porta, não mais disposta a interferir na disputa de família. Sem o apoio de antes, fez cena para o irmão.


— Vamos lá, Nicky. Você não quer que eu acampe na porta da casa de Michelle, quer? — Ela sorriu, tentando indicar que brincava.

— Não ouse falar com alguém ou publicar qualquer coisa antes de eu ligar, e, diabos, fique longe de Michelle Tanner.

Christine vigiou da porta de casa até o jipe sair de sua rua. Discou *69. O telefone chamou somente uma vez.

— Assistente Langston.

— Hal, é Christine. — Sem lhe dar tempo para perguntar qualquer coisa, ela blefou. — Nicky e Maggie acabaram de sair. Nicky me pediu para continuar ligando para George Tillie. Você sabe, a terceira guerra mundial estouraria, e George não sairia da cama.

— É? — A única palavra, e repleta de desconfiança.

— Não consegui anotar a localização exata para passar para George. Silêncio. Droga, não caiu. Ela apostou todas as fichas.

— Tem que pegar a estrada da Igreja Velha...

— Isso — afirmou ele, aliviado. — Diga a George para seguir um quilômetro e meio depois do marco do parque. Ele pode deixar o carro no pasto de Ron Woodson, no topo da serra. Ele verá os holofotes no bosque, lá embaixo. Estamos perto do rio.

— Obrigada, Hal. Eu sei que isso vai parecer insensato e improvável, mas eu espero que não seja Matthew, pelo bem de Michelle.

— Não há dúvidas, Christine. E Matthew. Tenho que ir. Diga a Geor­ge para tomar cuidado ao andar por aqui.

Hal desligou o telefone, e ela discou para a casa de Taylor Corby.

 

A fina camada de gelo cobria os faróis do jipe. Estacionaram num declive, de onde avistavam o rio embaixo. Holofotes iluminavam o bloco de árvores e produziam sombras fantasmagóricas, assombrações esguias que se movimentavam com a brisa.

Veio à mente de Maggie uma noite similar, anos atrás, quando perse­guiam um assassino nos bosques escuros de Vermont. Ela lamentou a extensão de sua memória ocupada com histórias de horror, enquanto gente normal arquivava festas de Natal e eventos familiares.

A temperatura despencara nas duas últimas horas. O frio atravessava sua jaqueta de lã como pontadas de estilete. Maggie nem pensara em por um casaco de verdade na mala. Morrelli tremia em sua jaqueta jeans. Em segundos, ela sentiu flocos de neve atingirem os cílios, os cabelos, a roupa, acrescentando umidade aos desconfortos. Para piorar, tinham 500 metros mato adentro para trilhar. Após violar a cena do crime anterior, Morrelli optou pela supercompensação. Reiterava para que seus homens demar­cassem um perímetro amplo, uma área que eles guardavam como sentinelas militares.

O mato era grosso e denso; era como andar com água até os joelhos. Com o frio, a lama se solidificava e estalava a cada passo. A vereda estreita e sinuosa contornava as árvores. Nick, à frente, afastava os galhos e ramos. Os que resistiam a seus golpes chicoteavam Maggie. Poucos, entretanto, lhe provocavam dor, pois a maior parte de seu corpo estava anestesiada pelo frio.

Raízes de árvores brotavam do solo, desequilibrando-a uma vez. A descida final para a margem do rio era íngreme e exigiu que eles se agarrassem a galhos, raízes, cipós, o que pudesse suportar o peso dos dois. A neve acumulara o suficiente para criar uma camada fina e escorregadia sobre o terreno desnivelado. Nick foi vítima da armadilha. Um dos pés derrapou, e ele caiu, feio, de bunda no chão. Mais envergonhado do que machucado, pediu a Maggie ajuda para se levantar.

Ao final da trilha, onde uma faixa de capim cortante e mato alto separava o bosque do rio, Hal os recebeu. O rosado da pele do assistente mudara para um branco pastoso. O comportamento expansivo se aquie­tara. Ele havia chorado. Maggie já presenciara o fenômeno. O homicídio de uma criança reduzia, momentaneamente, homens a conchas. Hal con­duzia-os pelo último trecho da empreitada, enquanto Nick o metralhava com perguntas. O subordinado não falava, apenas balançava a cabeça, afirmativa ou negativamente.

— Bob Weston está mandando a equipe forense do FBI para coletar evidências. Ninguém mais passa, Hal, ninguém. Entendeu?

Hal parou e apontou. De início, Maggie não viu nada. Tudo quieto e tranqüilo, apesar da presença de uns 30 policiais espalhados pelo bosque. Distante dali, o apito de um trem quebrou o silêncio da área. Os flocos de neve ganhavam forma ao cruzar os fachos de luz dos holofotes. Acostu­mou-se com o ambiente à sua volta e, então, pôde vê-lo. O corpo pequeno e branco, com um colar de sangue no pescoço, nu sobre a grama entrela­çada de gelo. O peito dele era mínimo, o X cortava do pescoço até a cintura. Os braços ao lado do corpo, os pulsos fechados. Não fora neces­sário atar esse garoto, que, de tão franzino, não teria representado ameaça nenhuma para seu assassino.

Ela se afastou dos dois homens e se acercou, vagarosamente, do cadáver, com reverência. Sim, o corpo fora lavado. Disso, já era possível ter certeza. Maggie ajoelhou-se e, com um dos dedos, limpou a neve da testa dele. Sem que se aproximasse mais, percebeu o reflexo da mancha de óleo. O mesmo brilho nos lábios azulados e à esquerda, sobre o coração, entre o X.

Ele era tão frágil, tão vulnerável, que Maggie teve vontade de cobri-lo, proteger a pele acinzentada da neve, tapar os cortes vermelhos e as feridas abertas.

Repousava ali há considerável tempo. O ar gelado não pôde disfarçar o cheiro. Maggie notou pequenas perfurações no lado interno da coxa esquerda. Profundas, mas sem traços de sangue. Realizadas depois da morte. Um animal, pensou ela ao sacar da bolsa uma pequena lanterna.


Sem dúvida, marcas de dentes, mas de dentes humanos. Umas sobre as outras, como se feitas num ataque de loucura ou, de propósito, para não deixar impressões. Localizavam-se perto da virilha, mas aparentemente nada havia no pênis. O assassino não havia agido assim antes. O crimino­so adicionava procedimentos a sua rotina, se acelerava, tornava-se impru­dente. Raptara esse garoto há dois dias. Algo mudara. As notícias na imprensa o enervavam? Existia algo diferente, algo errado.

Maggie sentou-se sobre os pés, de repente tonta e enjoada, como nunca mais se sentira na cena de um crime, desde que completara, anos atrás, seu ritual de iniciação. Era assim, pelo menos, que interpretava o primeiro dia em que não vomitara diante de um cadáver. Albert Stucky, por acaso, desmantelara suas defesas? Havia ele atravessado sua armadu­ra? Ou simplesmente a tornara humana de novo? Teria reaprendido a sentir?

Bem devagar, ela iniciava os movimentos para se levantar, quando percebeu um pedaço de papel rasgado preso entre os dedinhos do menino. Matthew Tanner segurava alguma coisa com força. Maggie reparou em Nick e Hal, de pé no mesmo lugar onde os havia deixado. De costas para ela, ambos acompanhavam a descida de um grupo de homens com capas do FBI pelo barranco.

Do modo mais gentil possível, ela forçou os dedinhos, duros e agora inseparáveis devido ao estágio avançado de rigidez cadavérica. Maggie retirou o fragmento de papel. Na verdade, um material mais grosso do que simples papel, e não mais do que uma borda rasgada. Sem examinar de perto, ela distinguiu o que era. Há apenas algumas horas tinha visto dúzias espalhadas na cama de Timmy Hamilton. Dos dedos apertados de Matthew Tanner, Maggie retirava a borda de uma figurinha de beisebol, e estava bem confiante de saber a quem ela pertencia.

 

A equipe forense trabalhou rápido, agora ameaçada por uma nova ini­miga. Nevava com mais intensidade, e os flocos, maiores, cobriam folhas e galhos e enterravam indícios valiosos espalhados sobre a grama.

Maggie e Nick se abrigaram junto das árvores, a salvo do vento impie­doso. Aguardavam em silêncio a chegada de Hal com uma coberta, mais casacos, qualquer coisa que os pudesse agasalhar. Aturdida com a queda tão brusca da temperatura, ela protegeu as mãos e os pulsos nos bolsos da jaqueta, atenta para não amassar a foto que Timmy lhe emprestara. O frio os colocara ombro a ombro. Nick respirava próximo ao pescoço de Mag­gie, que seguia sensível à presença dele, mesmo anestesiada pela baixa temperatura.

— Por que não voltamos para a cidade? — Devido ao frio, ao falar Nick lançava vapor pela boca e pelo nariz. — Não há mais nada que Possamos fazer por aqui. — Ele esfregou os braços, sacudiu o corpo. Maggie escutava os dentes dele batendo.

— Quer que eu o acompanhe à casa de Michelle Tanner? — Ela levantou a gola da jaqueta. De nada adiantou. O frio dominara cada canto do seu corpo.

— Diga-me se eu estiver errado. — Ele hesitou, buscava as melhores Palavras para se expressar. — Eu gostaria de esperar que amanhecesse, não apenas por não gostar da idéia de acordá-la no meio da noite. Ela não deve dormir desde domingo. Mas porque ainda vai demorar até que carreguem o corpo para o necrotério, e com certeza ela vai querer reconhecê-lo. Laura Alverez insistiu em fazê-lo. Ela não acreditou em mim até ver o filho com os próprios olhos. — Os de Nick, um tanto pelo vento um tanto pelas lembranças, encheram-se d'água. Ele enxugou o rosto com a manga da jaqueta.

— Não, não, você está certo. Pela manhã, ela também terá mais gente para consolá-la.

— Vou avisar o pessoal que vamos embora.

Antes que ele se movesse, Maggie reparou em algo e o segurou pelo braço. A menos de cinco metros atrás de Nick havia um par de pegadas descalças, recentemente impressas na neve.

— Nick, espere — sussurrou ela. — Ele está aqui. — Maggie conseguia ouvir as batidas do próprio coração. Claro. Como não pensara nisso antes? Fazia todo sentido.

— Do que você está falando?

— O assassino, o assassino está aqui. — Ela apertou o braço de Nick, cravou as unhas no jeans da jaqueta para sinalizar que ele não se mexesse e para controlar o nervosismo. Os olhos dela investigaram em volta. Maggie evitava movimentos bruscos, não queria indicar ao criminoso, que seguramente os vigiava, a descoberta que havia feito.

— Você pode vê-lo?

— Não, mas ele está aqui — afirmou Maggie, ainda checando a área, certificando-se de que o criminoso não os poderia ouvir. — Fique calmo, fale baixo, acho que ele está de olho na gente.

— O’Dell, acho que o frio congelou seu cérebro. — Pela cara, Nick deduzira que ela enlouquecera, mas obedeceu às ordens e falava baixinho.

— Há uns 30 homens cercando isto aqui.

— Justo atrás de você, perto daquela árvore de tronco torto, há duas pegadas, marcas de pés descalços na neve.

Ela afrouxou a mão em seu braço, permitindo-lhe observar.

— Meu Deus. — Ele olhou para os lados, antes de encará-la de novo.

— Do jeito que está nevando, essas pegadas foram impressas recentemen­te. Eu diria há minutos. O filho da mãe pode ter estado atrás da gente. Que diabos vamos fazer?

— Você fica aqui. Espere Hal. Eu vou em direção à trilha, como se estivesse voltando para o carro. Ele deve estar dentro do perímetro mar­cado pelos seus homens. E não tem como sair daqui sem passar pelo cerco. Lá de cima, talvez eu consiga avistá-lo.

— Vou com você.


— Não, ele vai se tocar, se estiver nos vigiando. Espere Hal. Eu vou precisar do apoio de vocês dois aqui embaixo. Fique calmo, sem olhar para lá e para cá.

— Como vamos saber onde você está?

— Eu dou um jeito. — Ela conservou a voz calma e sem variações, enquanto a adrenalina aumentava. — Atirarei para cima com meu revól­ver. Garanta que nenhum de seus homens dispare contra mim. — Como se eu pudesse controlar isso.

— Eu não estou brincando, Morrelli.

— Nem eu.

— Não, mesmo. Por um momento, ela calculou o quão estúpido seria se infiltrar por entre as árvores de um bosque repleto de policiais armados. No entanto, se o assassino continuava ali, ela não podia vacilar. E ele estava, ele estava olhando. Ela podia pressentir. Era parte do ritual dele.

Maggie iniciou a subida do barranco. A neve grudada nas sapatilhas de couro dificultavam a escalada, agora mais escorregadia. De novo, sustentou o peso em galhos, raízes e ramos. Em minutos, não tinha mais fôlego. Bombeava adrenalina pelas veias e impulsionava o corpo dormente.

Um galho quebrou em suas mãos, e ela derrapou até que a raiz de uma árvore lhe travasse a queda, um tanto amortecida pelo choque de seu quadril contra o tronco da mesma árvore. As mãos estavam duras de frio, mas ela retomou o percurso, enfiando os dedos no barro para se impulsio­nar. Acercava-se da delimitação da área, já ouvindo até do vento batendo na fita amarela e preta que delimitava a área do crime. Escutou vozes, um Pouco acima.

O declive finalmente lhe permitiu ficar de pé sem precisar de apoio. Fizera a pior parte do trajeto. A vista abriu-se, e Maggie enxergou Nick no mesmo lugar onde o deixara. Hal juntara-se a ele. Entre as árvores e o no, a equipe forense mantinha o padrão de agilidade, debruçada sobre o cadáver e ensacando evidências. Tinham trazido em suas mochilas equi­pamentos especiais para lidar com o acúmulo de neve. Mais adiante, depois do capim e do mato, as águas agitadas e escuras do rio.

Um pouco abaixo dela, fora da trilha íngreme, algo se moveu. Maggie contraiu-se. Pôs-se alerta para ouvir além das batidas do coração e da respiração ofegante. Difícil respirar num frio desses. Teria visto ou imagi­nado ver um movimento?

Um ramo se mexeu a não mais de 50 metros dali. Então ela o viu. Embrenhado na vegetação, protegido dos holofotes, ele parecia uma extensão do barro. Alto, magro, escuro da cabeça aos pés descalços e atrás de um tronco, ele se misturava ao ambiente. Ela estava correta. Ele a tudo assistia, contorcendo-se para acompanhar a tarefa da equipe forense Logo, deslocou-se, encolhido, praticamente rastejando de árvore em ár­vore, de esconderijo em esconderijo, sorrateiro como um animal a vigiar a presa. Desceu por uma fenda entre as rochas que contornavam o local onde havia depositado o corpo. Ele partia.

Alerta, Maggie adentrou os arbustos e, de pronto, folhas e gelo pipo­caram às primeiras passadas. Gravetos quebraram. Uma explosão de sons na quietude do barranco. Ninguém percebeu; nem a sombra, veloz a caminho da margem do rio.

Seu coração quicava, a mão direita tremeu quando sacou a arma. Era só o frio, convenceu-se. Tudo estava sob controle. Ela podia realizar o trabalho. Maggie seguiu-o, sem o perder de vista. Ramos e galhos arranha­vam seu rosto e lhe puxavam os cabelos. Os arbustos machucavam suas pernas. Caiu, batendo as coxas contra uma pedra. Cada vez que ele parava, ela se abaixava, se abrigava, torcia para que os fachos de luz dos holofotes passassem longe.

Assim foram até o nível do rio, o limite do bosque. Escutou o bate-papo do pessoal forense na área atrás dela e o ruído de seu equipamento ao vento. Ele se preparava para sair do perímetro, usando as árvores como camuflagem. De repente, ele parou mais uma vez e olhou exatamente na direção de Maggie, que se arrastou para trás de uma árvore, o corpo contra o barro gelado. Prendeu a respiração. Ele a teria visto? Torceu para que os batimentos de seu coração não a denunciassem. O vento a envol­via, um assobio assustador. Aproximara-se o suficiente do rio para ouvir a correnteza e sentir o cheiro do lodo.

Atrás da árvore, ela esticou o pescoço, mas não o avistou. Ele havia sumido. Maggie escutava apenas as vozes dos colegas. À frente e além do alcance dos holofotes, silêncio e escuridão.

Tinham sido apenas poucos segundos. Ele não poderia ter sumido. Maggie insistiu, notou um movimento e apontou a arma, mas eram galhos sacudidos pelo vento. Havia alguém ou algo escondido ali? Apesar do frio. as mãos suavam. Ela andou devagar, perto dos troncos, com o rio adiante, paralelo ao limite das árvores. Avançou até o fim da faixa de capim cortante e mato. Nada mais separava o bosque do barranco de um a dois metros de altura, esculpido pela força do rio. Abaixo, a água escura batia contra a elevação. A correnteza carregava galhos e outros restos do bosque.

Já se distraía, quando um ramo zuniu. Maggie ouviu a carreira, os pés patinhando na grama, antes de vê-lo. Ele cortou para a direita dela, galhos se quebraram, e o estampido a atraiu. Ela se virou e disparou um tiro de alerta, para cima. Dos arbustos, ele surgiu, a sombra enorme tinha Maggie como alvo. Apontou, mas antes que apertasse o gatilho, veio o impacto, e os dois despencaram do barranco.

Nem milhares de picadas de cobra chegariam perto do choque provo­cado pela água gelada. Sem largar o revólver na queda, ela disparou contra o corpo que boiava a menos de um metro dela. O ombro doeu. Mais um tiro. Desta vez, ela sentiu um metal penetrar sua carne e se deu conta de que adernara sobre um monte de entulho e sucata, o que a salvou de ser arrastada pela correnteza. Algo de metal rasgava seu ombro. Tentou soltar-se, mas a ponta foi mais fundo. O sangue escorria até sua mão e sujava a arma.

Acima, vozes berravam umas com as outras. A correria cessou, e meia dúzia de lanternas do topo do barranco a cegaram. Apesar da forte dor que sentia, aproveitou a iluminação e se inclinou em busca da sombra flutuante. Até onde conseguia enxergar, nada boiava na superfície do rio.

Ele havia escapado.

 

A água fria paralisou seu corpo. A pele queimava. Os músculos davam nós. Os pulmões ameaçaram estourar. Ele tomou fôlego e submergiu, pouco abaixo da superfície. O rio o sacudiu, o carregou de forma violenta. Ele não resistiu, aceitou a vontade das águas, aceitou que elas o resgatas­sem mais uma vez.

Eles estavam perto, tão perto, que ele percebia a dança dos fachos de luz sobre a água. A sua direita. A sua esquerda. Acima de sua cabeça. Berravam uns com os outros. Berravam em pânico e confusão.

Ninguém mergulhara depois dele. Ninguém se arriscara nas águas escuras. Ninguém a não ser a agente especial Maggie O’Dell, que acabara encalhada. Ela se emaranhara confortavelmente na surpresinha que ele achara para ela. Caíra-lhe muito bem por pensar que poderia tapeá-lo, emboscá-lo e capturá-lo. A cadela recebera o que merecia.

As lanternas a encontraram. Logo, logo, o pessoal no barranco não o caçaria mais. Subiu à superfície ansiando por ar. O gorro de esqui, molhado, grudava no rosto como uma teia de aranha. No entanto, ele não ousaria removê-lo.

O rio o transportava correnteza abaixo. Os policiais desciam pelo barranco íngreme, iluminado pelas lanternas. Sombras estúpidas derrapando sob as luzes. Ele sorriu, todo prosa. A agente especial O'Dell odiaria ser resgatada. Incapacitada, indefesa e, agora, resgatada. A agente ficaria chocada se soubesse o quanto ele sabia a seu respeito? Essa capeta que clama ser seu algoz. Ela realmente esperava que poderia garimpar sua mente sem que ele retribuísse na mesma moeda? Enfim, uma oponente de verdade para mantê-lo na ponta dos cascos, e não esses cauboizinhos caipiras.

Alguma coisa boiava do lado dele, algo pequeno e preto. Um arrepio de pânico percorreu o seu corpo, mas era um objeto e não um bicho. Pescou a caixinha de plástico duro, abriu-a, e se surpreendeu com as luzinhas. Um telefone celular. Que pena que o aparelho viraria lixo. Resolveu metê-lo no bolso da calça.

Manobrou o corpo para perto da beira do rio. Em segundos, achou o apoio. Pendurou-se num galho que se debruçava sobre a água, que esta­lou, mas não quebrou com seu peso. A correnteza o puxava e o golpeava à altura da cintura. A água possuía uma força, um poder que demandava respeito. Ele compreendia, celebrava o fato e tirava vantagem disso.

Os dedos doíam, duros de frio, agarrados à madeira. Os braços, tam­bém. O barro entre as mãos e a superfície do galho se descolava, prestes a mandá-lo de volta para a correnteza. Só mais um pouco, mais um pé, alguns centímetros. Seus pés pisaram a terra, gelada, coberta de neve, mas ele nem mais os sentia. As solas, revestidas de calos, eram navegadoras experientes. Ele correu pela grama, seus passos estalando e rachando a fina camada de gelo. Ofegante, não diminuiu o ritmo. Os flocos de neve prateados cortavam a noite, pequenos anjos dançando a seu lado, corren­do junto dele.

Localizou seu esconderijo. As ameixeiras, pesadas sob a neve dos ga­lhos, tornavam a já baixa, grossa e arredondada marquise da porta mais semelhante à entrada de uma caverna. Um ruído súbito espantou o alívio e proporcionou um novo frenesi. O alarme durou pouco. O celular no bolso da sua calça vibrava. Nas mãos dele, o aparelho tocou uma, duas, três vezes. Ele atendeu, alguém gritou:

— Alô!

— Alô?

— Esse é o celular de Maggie O'Dell? — Quem chamava estava irritado e, por um segundo, ele pensou em desligar. — É. Ela o largou por aqui.

— Posso falar com ela?

— Ela está meio ocupada agora — informou, mal prendendo uma quase incontrolável gargalhada.

— Ah, é? Diga-lhe que o marido dela,Greg, ligou e que a mãe dela está bem mal. Ela precisa telefonar para o hospital. Você entendeu?

— Claro.

— Não esqueça. — O homem desligou.

Ele sorriu, ainda com o telefone na orelha, a escutar o sinal de ocupado. Muito frio, porém, para desfrutar o novo brinquedinho no momento Retirou o conjunto de moletom preto e o gorro de esqui. Ele os atirou dentro do saco plástico, molhados como estavam. Os cabelos molhados de suas pernas e de seus braços já formavam cristais de gelo. Esfregou o corpo e vestiu um jeans seco e um agasalho de lã.

Sentou-se na bancada de madeira para amarrar o tênis. Se continuasse a nevar, teria que usá-los da próxima vez. Não, os tênis o impossibilita­riam de se deslocar nas águas do rio; funcionam como âncoras. Além disso, odiava sujá-los.

Como gostaria agora de embarcar na aconchegante e quente Toyota Lexus, mas teriam notado se ele pegasse a caminhonete nesta noite. Restou-lhe a velha picape. O motor engasgou até pegar. Tremendo de frio, ele dirigiu para casa no carro caolho, um farol só iluminando a noite, refletindo na neve.

 

Parecera a melhor idéia naquele momento. A casa dele situava-se a um quilômetro dali. Ela estava ensopada até os ossos e sangrava. Agora, porém, Nick não estava tão convicto de que trazê-la para cá fora a melhor opção. Ele torcia as roupas de Maggie e as pendurava perto do aquecedor para secar. Passou o dedo pela renda do sutiã, e não teve como não desejar vê-lo no corpo da dona. Devaneio ridículo, principalmente após tudo o que ocorrera nas últimas horas. O perfume dela, porém, o acalmou, o aquietou, para não dizer que o excitara.

Deixara Maggie no banheiro da suíte, no segundo piso da casa. Ele se banhara no primeiro andar e acendera a lareira, antes de cuidar das roupas dela. Pelo barulho de água, sabia que ela tomava a merecida chuveirada. Ponderou se não seria o caso de ir conferir se tudo estava bem. Apesar da irritante calma e de não admitir, Maggie se abalara com o episódio. Mais, ferira-se. O desgraçado conseguira jogá-la num amon­toado de restos de cerca e arame farpado enferrujado.

A torneira fechou, em cima. Apanhou uma camisa limpa no secador de roupas e se confundiu para abotoá-la. Agia como um adolescente, incapaz de controlar as reações do corpo. Que tolice! Afinal de contas, não era a primeira mulher nua que Nick tinha em casa. Várias por ali haviam passado. Mais do que várias, muitas.

Do bem-abastecido armário de primeiros-socorros, resultado da para­nóia materna, ele selecionou algodão, gaze, água oxigenada e um vidro de mercurocromo, provavelmente tão velho quanto sua mãe. Nick montou a pequena central de atendimento perto do fogo sobre travesseiros e lençóis. A caixa de fogo da lareira fez de novo aquele barulho estranho, e ele lembrou que precisava consertá-la. Botou mais lenha, aquecendo o ambiente com o amarelo crepitante. Obvio que esse calor não chegava nem perto do que Nick já sentia dentro de si. Por uma vez na vida, ele não daria ouvidos a seus hormônios e procederia da forma correta. Sim­ples, como dois e dois são quatro.

Ao se afastar da lareira, Nick deparou-se com Maggie, descendo a escada, vestida com seu roupão atoalhado. A cada degrau, a parte de baixo do robe se abria e deixava à mostra panturrilhas bem delineadas e, de relance, coxas firmes e lisas. Não, de fato aquela situação não seria nada simples.

Com os cabelos molhados, face avermelhada devido à água quente, ela vinha lentamente, insegura. O banho lhe havia tirado as defesas. A vul­nerabilidade se expunha nos deliciosos olhos castanhos.

Assim que viu o arsenal de medicamentos, balançou a cabeça e mexeu a mão.

— Já lavei tudo. Nada disso vai ser necessário.

— Você escolhe. Ou isso ou o hospital. — Maggie fez uma careta para ele. — Não brinca, não. Aquele arame estava cheio de ferrugem. Quando você tomou a antitetânica pela última vez?

— Minhas vacinas estão todas dentro do prazo. De três em três anos, o FBI dá uma geral em todos os agentes. Muito obrigada por tudo, Mor­relli, mas eu estou bem.

Nick abriu a água oxigenada, arrumou os pedaços de algodão e apon­tou para o almofadão à sua frente.

— Sente-se.

Ele não tinha dúvidas de que ela o rechaçaria de novo, mas talvez estivesse muito cansada para discutir. Maggie obedeceu, afrouxou o rou­pão, e, embora hesitante, deixou que ele lhe escorregasse do ombro. Manteve, porém, o braço firme sobre os seios para que dali não passasse-

Nick se desconcentrou diante da pele macia, das curvas do colo e do pescoço, do aroma fresco de seu corpo. Sentiu-se leve e teve uma ereção. Como poderia tocá-la sem querer mais? Não seja idiota. A situação exige3 maturidade dele, que ele pusesse de lado o desejo sexual, coisa que nunca fizera.

Meia dúzia de feridas triangulares e profundas, que ainda minavam sangue, danificavam a pele perfeita. As marcas compunham uma linha do topo do ombro até quase a axila. Em um dos machucados, a pele se rasgara, e a marca se estendia mais do que as outras.

Ele pressionou um algodão com água oxigenada sobre a primeira per­furação, e ela se contorceu, sem fazer ruído.

— Tudo bem?

— Tudo bem. Vamos só acabar com isso logo.

Mesmo com seu cuidado e delicadeza, o rosto de Maggie expressava a dor a cada aplicação. Nick limpou todos os machucados, ansiando para que a água oxigenada esterilizasse tanto quanto ardia, e cobriu os que ainda sangravam com gaze.

Tarefa terminada, ele acariciou com a palma da mão o braço dela, bem devagar, a começar do ombro. Tocou com os dedos o que gostaria de percorrer com a boca. Maggie tremeu, timidamente, mas logo retesou-se, alerta ao perigo ou atenta às vibrações que trocavam. A mão de Nick finalizou o trajeto, desfrutando até o último segundo, e, relutante, reco­locou o roupão sobre o ombro ferido. Ela demorou a reagir, como se surpresa, como se esperasse mais. Ajeitou o robe e o amarrou com firmeza.

— Obrigada — agradeceu, sem o olhar.

— Temos algumas horas até amanhecer. Poderíamos descansar aqui perto do fogo. Quer tomar chocolate quente, brandy?

— Brandy, por favor. — Ela trocou o almofadão por um lugar no tapete perto da lareira. Recostou-se sobre uma pilha de travesseiros e escondeu com o roupão o máximo que podia das pernas torneadas.

— Quer comer alguma coisa?

— Não, obrigada.

— Tem certeza? Posso preparar uma sopa, um sanduíche, é rápido. Ela sorriu.

— Por que está sempre tentando me alimentar, Morrelli?

— Quem sabe porque eu não tenho permissão para fazer com você o que eu realmente gostaria?

O sorriso de Maggie desapareceu, as bochechas coraram, mas ele não tirou os olhos dos olhos dela. O comportamento de Nick beirava a impropriedade, dada a situação. Mesmo assim, o que lhe ocupava a cabeça era a vontade de saber se ela sentia o mesmo calor que ele sentia. Quando Maggie finalmente desviou o olhar, Nick, enquanto ainda podia, retirou-se para a cozinha.


 

A foto que Maggie guardava na jaqueta estava amassada e úmida. As bordas se contorciam à medida que secavam. Fios do roupão grudaram no papel fotográfico. Ela devia uma nova para Timmy, e não tinha idéia de onde conseguiria outra. Pelo menos, não perdera a foto, como ocorrera com o celular. Sentia-se predestinada a largar coisas no fundo de lagos e rios.

Nick demorava na cozinha. Maggie perguntou se, apesar da recusa, ele não acabaria lhe trazendo um sanduíche. Seu último comentário lhe despertara um sentimento de inquietação, nada que ela pudesse descrever sem usar metáforas ridículas de borboletas. Ele se comportava como um autêntico cavalheiro. Maggie não tinha absolutamente nenhuma razão para se preocupar, mesmo encostada em travesseiros que cheiravam a sua loção pós-barba, mesmo sentada em frente a uma lareira vestindo apenas um roupão.

Enquanto Nick tratara de suas feridas, ela celebrara cada pontada de dor, única maneira de se abstrair do toque das mãos dele. Quando Nick afagara seu braço, Maggie ficara chocada consigo mesma por ter prendido a respiração e desejado que o afago prosseguisse. Agora, ela imaginava como seria ter aquelas mãos firmes em seu pescoço, daí para os seus ombros, até atingirem seus seios.

Ouviu-o aproximando-se e, ágil, esfregou uma das mãos no rosto. A pele se avermelhara de novo, mas o fogo levaria a culpa dessa vez. Não havia justificativa, porém, para a falta de ar. Aconchegou-se no tapete e evitou olhá-lo.

Nick entregou-lhe o copo com brandy e sentou-se próximo a ela. Encaixou os pés descalços e longos sob o corpo, projetando o ombro, que raspou no dela.

— Então, esta é a foto sobre a qual você me contou? — ele perguntou enquanto puxava a colcha tecida que cobria o sofá, envolvendo com ela as pernas de ambos. A intimidade do ato despachou imediatamente o calor da face para outras partes do corpo de Maggie.

Ele talvez tenha notado. Sentido. Subitamente embaraçado, justificou:

— A caixa de fogo não está funcionando direito. Preciso mandar consertar. Não é sempre que em outubro faz frio desse jeito.

Entregou-lhe a foto e com as duas mãos balançou levemente o copo de brandy, aproximando-o do rosto para sentir o aroma doce e forte. Tomou um gole, fechou os olhos, inclinou a cabeça nos travesseiros e desfrutou o calor na garganta. Mais alguns goles, e a inquietação desapareceria. Era nesses momentos que ela entendia a estratégia de fuga da mãe. O álcool aliviava tensões e dissolvia sentimentos não desejados. Não há dor, se não se pode senti-la, nem sofrimento, se não há como reconhecê-lo.

— Eu concordo — a voz de Nick invadiu sua moleza, sua sonolência. — E muita coincidência, mas eu não posso simplesmente arrastar Ray Howard para um interrogatório, posso?

Desperta, ela se sentou.

— Não é Howard, é padre Keller.

— O quê? Você pirou? Eu não posso convocar um padre. Você real­mente acredita que um padre católico possa matar garotinhos?

— Ele se encaixa no perfil do assassino. Preciso descobrir mais coisas sobre sua história de vida, mas, sim, eu acredito que um padre seja capaz.

— Eu não. Isso é loucura. — Sem a mirar, ele sorveu a maior parte do brandy. — A população me penduraria pelos polegares se eu convocasse um padre para interrogatório. Especialmente, esse padre Keller. Ele é como o Super-Homem de batina. Meu Deus, O’Dell, você acertou longe do alvo.

Ouça um minuto. Você mesmo disse que sua impressão é de que Danny Alverez não ofereceu resistência. Keller é alguém que ele conhecia, confiava. O padre Francis nos afirmou que dificilmente um leigo, depois do Vaticano II, isto é, qualquer um com menos de 35 anos, saberia administrar os últimos sacramentos, sem um treinamento especial.

— Mas esse cara é o herói das crianças. Como ele poderia fazer uma coisa dessas com elas sem que ninguém percebesse?

— As pessoas que conheciam Ted Bundy nunca suspeitaram de nada. Olha, eu também achei um pedaço de figurinha rasgada na mão de Matthew. Timmy me disse esta noite que o padre Keller troca figurinhas com eles.

Com ambas as mãos, de forma nervosa, Nick penteou os cabelos para trás. Ela sentiu o odor do xampu que usara no andar de cima, no banheiro dele. Ele se deitou sobre os travesseiros, apoiou o copo no peito e acompanhou o rodopio do brandy que lhe sobrava.

— Tudo bem. Você pode checá-lo, mas eu preciso de algo mais além de uma foto e um pedaço de figurinha antes de convocá-lo. Enquanto isso, vou checar Howard. Você tem que admitir, ele é um cara esquisito. Quem vestiria camisa social e gravata para limpar uma igreja?

— Não é crime vestir-se de forma inadequada para o trabalho. Se fosse, você já estaria preso há muito tempo.

Ele tentou manter uma expressão grave, mas não conseguiu disfarçar o sorriso no canto da boca.

— Bem, já está tarde, e nós estamos mortos. Que tal tentarmos dormir um pouco? — propôs ele, antes de esvaziar o copo e colocá-lo ao lado, no chão. Esticou as pernas sob o tecido que os cobria, e alcançou um controle remoto na ponta da mesinha de centro e diminuiu a iluminação da sala. Ela achou graça do brinquedinho que usava em suas investidas românti­cas perto da lareira. Por que, entretanto, experimentou um certo desa­pontamento pelo fato de aquela noite não ser uma dessas empreitadas?

— Acho que devo voltar para o hotel.

— Qual é, O’Dell? Suas roupas estão ensopadas. Porque só podem ser lavadas a seco, eu não pude colocá-las diretamente sobre o aquecedor. Ouça, estou muito cansado para fazer um lançamento longo, se este é o motivo de sua cerimônia. — Ele se ajeitou nos travesseiros, com o corpo perto do seu.

— Não, não é isso — ela rebateu, perguntando-se por que seu corpo não se sentia tão cansado assim. Cada músculo, cada nervo parecia ativa­do pela proximidade do corpo de Nick. Resistiria se ele tentasse o lança­mento? Não havia restado nenhum bom sentimento por Greg? O que exatamente se passava com ela? Aquilo ia além do irritante. — Eu não sou de dormir muito, e isso pode mantê-lo desperto — afirmou ela, mas­carando o real motivo.

— O que você quer dizer com não dormir? — Ele se encolheu ainda mais em sua direção, a cabeça quase lhe tocando o braço. Fechou os olhos, e ela observou que Nick tinha cílios longos.

— Não estou dormindo direito há mais de um mês. E quando durmo, tenho pesadelos.

Ele a fitou, sem tirar a cabeça do travesseiro.

— Imagino que, com tudo isso que você vê, deve ser difícil evitar pesadelos. Provavelmente se tocou de que não demorei muito tempo vendo o corpo de Matthew. Alguma coisa em particular aconteceu com você?

Ela olhou para baixo a fim de ver seu corpo enrolado na coberta. A barba por fazer não ocultava algo de menino que havia nele. O jeito infantil, contudo, desapareceu quando Nick apoiou o cotovelo sobre um travesseiro, e a cabeça sobre a mão. O peito musculoso e seus tufos de pêlo puseram-se ainda mais visíveis através da camisa antes semi-abotoada. Ela fantasiou deslizar a mão por dentro daquela camisa... Pare. Isso é totalmente ridículo. Ele aguardava uma resposta, tinha uma expressão consternada.

— Alguma coisa aconteceu com você? — indagou de novo.

— Nada sobre o que eu queira conversar.

Ele a encarou como se pretendesse enxergar o que se passava em sua mente. E, então, sentou-se.

— Sabe que eu tenho um remédio para pesadelos. Sempre funciona com Timmy.

— Não pode ser brandy, então.

— Não. — Ele sorriu. — Você tem que segurar em alguém bem firme enquanto adormece.

— Nick, eu não acho que isso seja uma boa idéia. Seu rosto voltou a ficar sério.

— Maggie, esta não é uma cantada barata para chegar mais perto. Eu só quero ajudar. Posso? O que você tem a perder?

Ela permaneceu em silêncio, e ele se arrastou para mais perto. Abraçou-a devagar, aos poucos, oferecendo a Maggie diversas oportunidades de protestar. Ela não as aproveitou, e Nick gentilmente puxou-a pelo ombro, de modo que a cabeça dela ficasse contra seu peito. Maggie pôde ouvir o coração dele. O seu batia tão alto que era difícil distinguir os dois. Através da abertura na camisa, sua bochecha roçava a textura fibrosa e fofa dos pêlos, quase a impedindo de resistir à tentação de acariciá-lo. Ele repousou o queixo sobre o topo da cabeça dela, e, quando falou, sua voz fez o corpo de Maggie vibrar.

— Agora, relaxe. Imagine que nada pode atingi-la sem me pegar pri­meiro. Mesmo que não consiga dormir, feche os olhos e descanse.

Como poderia adormecer se estava viva, alerta, em brasa em cada porção que o corpo dele a tocava?

 

Maggie acordou grogue, braços e pernas pesados. Tinha frio. O fogo na lareira apagara, e a sala escurecera. Nick não estava mais ali. Dormia no sofá com a cabeça virada para o encosto.

Através da janela, um facho de luz lhe chamou a atenção. Ela se sentou. Mais uma vez. Uma sombra com uma lanterna passou lá fora. Seu coração acelerou. Ele a seguira desde o rio.

— Nick — ela sussurrou. Nada. Pensava velozmente. Onde ele deixa­ra a arma? — Nick — repetiu, sem obter resposta.

A sombra desapareceu. Ela engatinhou até o pé da escada, mantendo a janela em seu campo de visão. O brilho sinistro da lua consistia na única fonte de luz ali. Maggie havia tirado a arma assim que entrara na casa, no caminho para o piso de cima. Lembrava-se de tê-la colocado numa estante perto da escadaria. O móvel, porém, não estava mais ali. Sumira. Sem sair do lugar, ansiosa, vasculhou o aposento com o olhar. A batida do coração lhe doía no peito. Fazia frio com a lareira apagada. Tão frio, que as mãos tremiam.

Ela ouviu a maçaneta da porta girar. Sem o revólver, procurou qual­quer outra coisa para se defender, algo cortante, pesado. A maçaneta girou de novo, e silêncio. A porta estava trancada. Ela agarrou um peque­no abajur com base de metal e arrancou-lhe a cúpula. Pôs-se a escutar.

Ofegava. Engolia em seco. Tentou segurar a respiração, quando o ruído se repetiu.

Rastejou na direção do sofá com o abajur na mão.

— Nick — sussurrou, cutucando-o. — Nick, acorde. — Ela o sacudiu pelo ombro. O corpo dele rolou ao encontro dela e caiu. A mão de Maggie sujou-se de sangue. Examinou Nick no chão. Meu Deus, meu Deus Tapou a própria boca com a mão manchada de sangue para abafar o grito, conter o terror. Os olhos azuis de Nick arregalavam-se para ela, frios e perdidos. Sangue encharcava a camisa dele. A garganta estava cortada, a ferida ainda sangrava.

Ela viu o facho de luz mais uma vez. Da janela, a sombra a observava sorrindo. Maggie reconheceu o rosto de Albert Stucky.

Dessa vez, ela despertou agitando os braços com violência, golpeando e derrubando tudo à sua volta. Nick segurou-a pelos pulsos, para que ela não o socassse no tórax. Maggie tentou respirar, mas só engasgava. E tremia, convulsionava.

— Maggie, está tudo bem. — A voz dele era suave, gentil, mas alar­mada e urgente. — Maggie, não há nada aqui.

Ela parou de repente, embora seu corpo ainda tremesse. Olhou nos olhos de Nick. Eram de um azul cálido, cheios de preocupação, e estavam vivos. Maggie examinou a sala. O fogo estava forte, e as labaredas lam­biam os grandes pedaços de lenha que Nick havia colocado mais cedo. A sala estava iluminada pela luz amarelada do fogo. Do lado de fora, a neve cintilava sobre o vidro da janela. Não havia qualquer réstia de luz. Ne­nhum sinal de Albert Stucky.

— Você está bem, Maggie? — Nick trouxe para seu peito os punhos fechados dela, massageando-os.

Eles trocaram olhares. Sua expressão nervosa transformou-se em can­sada, muito cansada.

— Não funcionou — murmurou. — Você mentiu para mim.

— Desculpe-me. Você dormiu tranqüilamente por algum tempo. Acho que não a segurei firme o suficiente. — Ele riu.

Ela relaxou os punhos, ainda pressionados contra o peito dele, enquan­to Nick continuava a lhe acariciar os braços, por dentro das mangas do roupão, vagarosamente, dos ombros aos pulsos. Centímetro por centíme­tro, Nick aqueceu sua pele; no entanto, o calafrio era profundo e a importunava como se corresse gelo por suas veias. Maggie encostou-se nele, que irradiava calor; esfregou o rosto contra o algodão da camisa de Nick, mas tampouco aquilo bastava. Inclinou-se um pouco para dar espaço aos dedos, que desabotoaram o resto da camisa dele. Evitou olhá-lo, mas sentiu o corpo dele firme. Nick parou de acari­ciá-la- Talvez tivesse parado de respirar também. Novamente, ela resistiu em abraçar os músculos bem definidos, em percorrer com os dedos os pêlos no peito dele. Em vez disso, deitou ali a cabeça, ouvindo os estam­pidos do coração, e permitiu que a pele dele a esquentasse. Alimentava a esperança de que ele compreendesse o gesto.

Nick tremia, e ela sabia que ele não sentia frio, muito pelo contrário. Pouco depois, Maggie percebeu que ele relaxava, voltava a respirar. Pri­meiro, rapidamente. Em seguida ficou evidente que ele tentava manter o controle. Os braços a envolveram pela cintura, sem carícias mais ousadas. Ele simplesmente a colou em seu corpo e, dessa vez, a segura­va com força.

 

Christine conteve a euforia e clicou duas vezes em "enviar". Em minutos a impressora da redação cuspiria sua matéria, que depois rolaria pelas rotativas do jornal, que, aliás, haviam sido paradas a fim de esperar seu texto. Nunca, em seus sonhos mais remotos, ela imaginou que ocuparia um dia essa posição.

Apesar de exaurida, a adrenalina manteve o pique de sua mente e a agilidade de seus dedos sobre o teclado do computador. As palmas das mãos ainda suavam. Ela as enxugou no jeans antes de desligar o laptop, fechá-lo e desplugá-lo da tomada de telefone. Tecnologia moderna. Christine não a compreendia, mas era profundamente agradecida a ela. Permitia-lhe que seu filho dormisse o sono dos justos no andar de cima, enquanto embaixo ela digitava a quinta matéria consecutiva de primeira página. Questionava-se se isso não seria o recorde do Omaha Journal

Consultou o relógio no pulso. O jornal demoraria uma hora a mais do que de costume para chegar às ruas, mas Corby mostrara-se bastante satisfeito. Bebeu o último gole do café frio, deixando no fundo da caneca um resto de açúcar e creme. Escrevera e enviara o texto sem fumar um único cigarro. Inacreditável!

Alongou os braços, empurrando o laptop sobre a mesa, derrubando uma pilha de papéis no chão. Catá-los representou o fim instantâneo de sua exaltação. Muitos eram cobranças de contas que não havia pago e não tinha dinheiro para pagar. Uma, do Departamento de Estado de Nebras­ka permanecia fechada. Continha três vias com papel carbono entre cada cópia. Como poderia confiar em um estado que ainda usava papel carbo­no? Esse era o sistema que obrigaria o ex-marido a pagar a pensão do filho? Tudo bem que Bruce houvesse arrebentado com a vida dela. Mas faria o mesmo com o filho? Desagradável que Timmy nem ver o pai pudesse. Christine simplesmente não sabia como contatá-lo. Tudo porque ele não queria arcar com nenhuma das despesas do filho.

Entulhou a papelada atrás de um abajur na mesa, não querendo estra­gar sua alegria. Seu sucesso repentino lhe proporcionara um pequeno aumento de salário, e olhe lá. Até que a diferença se fizesse notar teriam se passado semanas, meses.

Poderia vender a casa. Despencou no sofá e deu uma olhada geral na sala em que gastara horas para colar o papel de parede. Ela própria arrancara o carpete mofado, limpara e lustrara o piso de madeira até ver sua imagem refletida no chão. Do lado de fora, mesmo agora, na escuridão da noite, ela conhecia cada palmo do jardim. Substituíra o mato por rosas. Construíra uma passagem com tijolos que ela mesma carregara. Transfor­mara a área no seu refúgio. Como poderia desistir de tudo isso? A exceção de Timmy, a casa era tudo o que ela possuía.

Nick não entendia, não podia entender. Seu sucesso jornalístico não pretendia feri-lo, mas salvá-la. Pela primeira vez, fazia alguma coisa por conta própria, e não como a filha de Tony Morrelli, a esposa de Bruce Hamilton, a mãe de Timmy, mas como Christine Hamilton. E se sentia bem por isso.

Arrependia-se de sua performance de todos aqueles anos para seus amigos e familiares. Interpretara o papel da esposa solidária e da boa mãe. Todos aqueles anos obcecada em fazer Bruce feliz. Por mais de um ano, ela convivera com o conhecimento de sua aventura extraconjugal. Difícil passar batida pelas contas de cartão de crédito com hotéis nos quais ela nunca entrara, flores que nunca recebera. Isso só a tornou mais obcecada. Se o marido arrumara uma amante, a culpada era ela. Alguma coisa faltava nela, alguma coisa ela não conseguia dar-lhe.

Agora, recordava-se, humilhada, das lingeries caras que comprara para seduzi-lo, reconquistá-lo. O sexo entre os dois, que nunca fora fantástico, convertera-se em peças rápidas e mornas de um ato só. Bruce a penetrava como se a punisse pelos pecados que ele cometia. Depois, rolava para o outro lado e dormia. Ela aguardava seus roncos para ir ao banheiro arran­car a amassada e manchada lingerie e chorar no chuveiro. Mesmo a água escaldante não a recompunha. E o fato de o amor e o desejo se terem desintegrado em seu casamento também com certeza havia de ser culpa dela.

Christine encolheu-se no sofá e puxou a coberta que enfeitava a pol­trona ao lado para proteger-se do frio. Já não era mais aquela esposa fraca e obsessiva. Era uma jornalista de sucesso. Fechou os olhos. Nisto deveria concentrar-se agora: sucesso. Finalmente, após tantos fracassos.

 

Quarta-feira, 29 de outubro

Maggie ofereceu-se para acompanhar Nick até a casa de Michelle Tan­ner, mas ele preferiu ir só. No caminho, deixou-a no hotel. Apesar da intimidade entre os dois, ou talvez por causa dela, ela sentiu-se aliviada quando o xerife partiu. Fora um erro aproximar-se tanto dele. Estava brava e desapontada consigo mesma. Durante a viagem até o Centro da cidade, naquela manhã, punira Nick com o silêncio.

Era primordial que ela se concentrasse na investigação. Para isso, deveria se distanciar. Estúpido para uma agente envolver-se emocionalmente — não só com um indivíduo, mas com toda uma comunidade. Corria o risco de, antes que se desse conta, perder sua objetividade e sua sagacidade. Presenciara episódios assim. Era perigoso para uma mulher envolver-se com um tipo como Nick Morrelli, que espalhava pela casa armadilhas românticas para suas amantes de uma noite e nada mais. Além de tudo, ela era casada. Níveis de felicidade na relação não validam traições. Repetia aquele discurso para justificar a súbita indiferença e se absolver de suas culpas.

Suas roupas úmidas ainda fediam a lama e sangue. As mangas rasgadas da jaqueta e da blusa exibiam o ombro ferido. Bastou que ela entrasse no hotel para que o recepcionista com espinhas no rosto mudasse a cara de

"Bom dia" para uma de "Oh, meu Deus".

— Agente O’Dell, está bem?

— Sim. Recados para mim?

Ele se virou com a deselegância própria dos adolescentes, braços pernas incontroláveis, e quase esbarrou em seu cappuccino. O aroma doce vinha na fumaça da caneca sobre o balcão. Mesmo não sendo um legítima cappuccino, mas um arremedo preparado na lanchonete ao lado, cheirava muito bem.

A neve, que já cobria as ruas e não parava, grudara na bainha da calça e entrara nos sapatos de Maggie, que sentia frio e estava cansada e dolorida.

O recepcionista entregou-lhe meia dúzia de folhas do bloco de mensa­gens do hotel e um pequeno envelope lacrado com a inscrição "AGENTE ESPECIAL O’Dell" em rebuscada caligrafia e tinta azul.

— O que é isso? — Ela ergueu o envelope.

— Não sei. Colocaram na caixa de correio durante a madrugada. Achei com a correspondência esta manhã.

Ela fingiu que não tinha importância.

— Você conhece algum lugar aqui por perto onde eu possa comprar um casaco e um par de botas?

— Não, infelizmente. Há um atacado de uma loja de departamento a um quilômetro e meio para o norte, mas só vende roupas masculinas.

— Você me faria um favor? — puxou uma nota de cinco dólares úmida do bolo de trocados que guardava na carteira do distintivo. O garoto olhou mais interessado para o distintivo do que para o dinheiro. — Poderia telefonar para essa loja e pedir que entreguem uma jaqueta? Não me importa o modelo. Só tem que ser pequena e quente.

— E as botas? — Ele escrevia as instruções num bloco de mesa já rabiscado com desenhos e outras anotações.

— Veja o que eles têm perto do tamanho 37. De novo, não me importo com estilo, mas que elas enfrentem bem a neve.

— Tudo bem. Provavelmente, eles não abrem antes das oito ou nove horas.

— Sem problemas. Estarei no quarto durante toda a manhã. Avise quando chegarem, e eu cuidarei da conta.

— Mais alguma coisa? — E se desdobrava para justificar a recompensa de cinco dólares.

— Vocês têm serviço de quarto?

— Não, mas eu posso pedir algo na lanchonete da Wanda. A entrega é de graça, e podemos pôr na conta do hotel.

— Ótimo. Quero um café da manhã reforçado. Ovos, salsicha, torra­das e suco de laranja. Ah, veja se eles fazem cappuccino.

— É pra já. — Ele estava empolgado, recebendo com seriedade as tarefas, como se ela lhe estivesse atribuindo uma missão do FBI.

Ela partia para o quarto, mas algo a fez interromper o trajeto.

— Ei, qual é o seu nome?

Ele se surpreendeu. Pareceu preocupado.

— Calvin. Calvin Tate.

— Obrigada, Calvin.

De volta ao quarto, Maggie descalçou os bolos de neve em que se haviam transformado seus sapatos e custou para arrancar do corpo o tecido úmido e endurecido da calça. Ajustou o aquecedor para 28° e tirou a jaqueta e a blusa. Seus músculos doíam do pescoço às panturrilhas. Ela mexeu o ombro ferido, esperou a fisgada de dor cessar, e prosseguiu o movimento circular.

No banheiro, abriu a torneira e sentou-se no degrau de acesso ao chuveiro, de calcinha e sutiã, na expectativa da água quente. Nas mãos, os recados, escritos por dois recepcionistas distintos. Um era do diretor Cunningham, às 11h, sem especificação se da manhã ou da noite e sem mensagem. Por que não ligara para o celular? Droga, esquecera. Precisava comunicar a perda e pedir outro.

Três mensagens de Darcy McManus do Canal 5. O recepcionista, obviamente impressionado, anotara o horário preciso das três. Cada men­sagem tinha um novo conjunto de instruções para quando e onde retor­nar os telefonemas, o que incluía os números de casa, do trabalho, celu­lares e um e-mail. Dois recados vinham do doutor Avery, o terapeuta da mãe, ontem à noite, com pedidos para ligar quando possível.

Ela apostava que a insistente Darcy McManus enviara o envelope. A fumaça já ultrapassava a cortina do boxe. Melhor assim. A água em hotéis costuma não passar do morno, quando tanto. Levantou-se para reajustar a temperatura. Seu reflexo no espelho desaparecera com o vapor, e Mag­gie esfregou a superfície com o mão a fim de poder examinar seu ombro. As feridas triangulares estavam bem vermelhas em contraste com a pele branca. Retirou o curativo caseiro de Nick. O sangue seco pontilhava o corte de cinco a dez centímetros. Vai deixar cicatriz. Que ótimo. Combi­nará com as outras.

Em frente ao espelho, ela se virou e levantou o sutiã. Abaixo do seio esquerdo começava outra marca, que avançava dez centímetros até o abdômen, um presente de Albert Stucky.

"Você tem sorte de eu não te trinchar." Ela recordou a fala de Stuck enquanto lhe cortava a pele com a faca. Cuidadosamente, ele enfiara lâmina sob a camada de pele, garantindo a cicatriz. Maggie nada sentira anestesiada e exausta. Talvez já contasse com a morte.

"Você ainda vai estar viva", ele prometeu, "quando eu começar a comer seus intestinos."

Naquele momento, nada mais a chocava. Maggie assistira ele fatiar e picar duas mulheres, arrancando mamilos e clitóris, enquanto elas berra­vam de um jeito horripilante. Então, ele as estripara. Esmigalhara os crânios. Não, não havia mais nada que ele pudesse fazer para chocá-la; deixara-lhe, porém, a memória permanente de sua passagem.

Maggie detestava que seu corpo estivesse se convertendo em um bloco de rascunho; pior, contudo, era ter a mente marcada e tatuada pelas lembranças.

Esfregou as mãos no rosto e jogou os cabelos para trás. Viu-se no espelho, durante o movimento vagaroso. Incrível que ela parecesse tão vulnerável. Apesar de tudo, nada mudara. Era a mesma mulher determi­nada e corajosa que entrara na Academia do FBI oito anos atrás. Um pouco castigada, mais cicatrizes, mas a mesma disposição, que ela perce­bia por trás da fumaça, por trás dos horrores que testemunhara. Albert Stucky representava um mero revés temporário, um bloqueio na estrada que Maggie iria atravessar ou contornar, sem dar meia-volta.

Abriu o sutiã e o deixou cair no chão. Abaixava a calcinha quando se lembrou do envelope ainda lacrado, colocado sobre as outras mensagens na bancada da pia. Rasgou-o e puxou o cartão. Bastou pousar os olhos nas letras de fôrma para que o coração lhe viesse à boca. O pulso acelerou. Apoiou-se na pia para manter o equilíbrio, desistiu e agachou-se ate sentar no piso úmido de cerâmica. De novo, não. Não pode estar aconte­cendo de novo. Ela não iria permitir. Maggie abraçou os joelhos junto ao peito, uma tentativa para silenciar o pânico dentro dela.

Leu o cartão de novo:

SERÁ QUE SUA MÃE VAI PRECISAR EM BREVE DOS ÚLTIMOS SACRAMENTOS?

 

Muito cedo para encontrar qualquer tráfego, Nick rompia com o jipe a camada de neve sobre o asfalto. Os postes das ruas reluziam, pois a massa de nuvens impedia que o sol aparecesse. Ele suava, depois de ter acionado o ar quente do carro ao máximo, para quebrar a camada de gelo no pára-brisa. Ligou o rádio e pressionou vários botões até deixar na KRAP: "Notícias o dia todo, todos os dias."

Nick temia contar a Michelle a respeito do filho. Queria que as ima­gens... não, precisava que as imagens de Matthew e Danny saíssem de sua cabeça, ou não poderia oferecer nenhuma ajuda a Michelle Tanner. Pôs-se então a pensar em Maggie. Ele nunca havia se defrontado com situação tão prazerosamente desconfortável durante toda a sua vasta experiência com o sexo oposto. O’Dell virara-o pelo avesso, coisa que ele nunca imaginou que alguma pudesse conseguir. E, o que era pior, Maggie não armara nada daquilo; isso o importunava e excitava mais. Como apagar da memória seu rosto pressionado contra o peito dele? A sensação de sua respiração na pele? Impossível; nem ele queria. Pelo contrário, apertava o "play" uma vez atrás da outra, até evocar, recompor a totalidade do momento. O cheiro do cabelo dela, a textura da pele, a batida do coração.

Irônico, criminoso mesmo, o fato de ele não poder ter a mulher que mais o mobilizara em toda a sua vida. Nick derrapou um pouco na curva para pegar a rua de Michelle Tanner. O locutor da rádio informava que o prefeito Rutledge cancelara o Halloween por causa da neve, que ainda atingiria a região durante quarta-feira.

— Sortudo desgraçado. — Nick sorriu e balançou a cabeça. Estacionou na entrada da garagem dos Tanner. O carro quase bateu na traseira de uma caminhonete em cuja porta, quando já estava diante da porta da casa, ele viu o logotipo da Rádio KRAP parcialmente coberto pela neve. O pânico invadiu-o. Era cedo, cedo demais para um simples acompanhamento do desenvolvimento do caso. Ele bateu na porta. Ninguém veio, e ele a abriu.

Uma mulher baixa de cabelos grisalhos fez um gesto para que Nick entrasse até a sala de estar. Acenou e logo retomou o lugar no sofá, ao lado de Michelle Tanner. Um homem alto e calvo com um gravador estava sentado diante delas. Na passagem para a cozinha, um homem cujo corpo parecia um barril, cabelo de marinheiro e antebraços grossos, lhe pareceu familiar, e, após uma observação de relance pelo aposento, Nick concluiu que deveria ser o ex-marido, o pai de Matthew. Ainda havia porta-retratos com os três em tempos mais felizes.

Nick ouviu vozes e ruídos característicos vindos da cozinha. O aroma de café fresco misturava-se ao cheiro de cera derretida. Uma fileira de velas queimava sobre a lareira perto de uma foto grande de Matthew e um crucifixo pequeno.

— E verdade? — Michelle Tanner dirigiu o rosto inchado para Nick.

— Você achou o corpo ontem à noite?

Todos o olhavam, esperando a resposta. Meu Deus, faz calor nesta casa. Ele afrouxou a gravata.

— Onde vocês ouviram isso?

— Que merda isso interessa agora? — argumentou o pai de Matthew-

— Douglas, por favor. — A mulher de cabelos grisalhos repreendeu-o-

— O Sr. Melzer, da rádio, disse que está no Omaha Journal desta manhã. Melzer suspendeu e abriu o jornal. "Segundo corpo encontrado", em letras garrafais impressas em toda a extensão da bitola da página. Nick nem precisou ler quem assinava o texto. Não era momento para raiva. pânico lhe desceu pela garganta, deixando um gosto ácido na boca e um caroço lhe obstruindo o ar. Christine lhe passara a perna mais uma vez.

— Sim, é verdade — conseguiu dizer. — Peço perdão por não ter chegado mais cedo.

— Você está sempre uns passos atrás, não é xerife?

— Douglas — repetiu a mulher.

— É ele mesmo? — Michelle implorou.

Nick supôs que tivesse sido claro, mas ela precisava das palavras. Nick odiava aquilo. Enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta e se forçou a olhar nos olhos dela.

— Sim, Sra. Tanner, é Matthew.

Tinha consciência do que iria deflagrar, mas nem por isso estava pre­parado. Michelle despencou nos braços da mulher mais velha, e elas penderam de um lado para o outro, sentadas no sofá. Duas mulheres apareceram junto à porta da cozinha e, quando viram Michelle, caíram em lágrimas e se abraçaram. Melzer, que até então assistia, olhou-o e, em seguida, juntou seu equipamento e partiu calado. A vontade de Nick era segui-lo. Não sabia o que fazer. Douglas Tanner encarava-o, encostado na parede, o rosto vermelho de raiva e os punhos fechados.

Num impulso, com não mais de três passos, o homem se projetou na direção dele. Nick nem viu o gancho de esquerda no queixo, que o lançou contra uma estante. Livros voaram da prateleira, batendo nele e caindo no chão. Antes que recuperasse o equilíbrio, Douglas Tanner acertou-lhe um soco no estômago. Nick tossiu e ajoelhou-se com a pancada. A mulher grisalha berrava com Douglas. A comoção silenciou o choro de dor das outras, que observaram tudo com olhos arregalados.

Nick sacudia a cabeça e buscava apoio, quando percebeu que outro impacto se aproximava. Agarrou o braço de Tanner, mas, em vez de dar o troco, apenas o empurrou. De certa forma, merecia a surra.

Já dava o castigo por encerrado ao ver o reflexo da luz no metal. Num ataque rápido, Tanner retornou, armado com uma faca. Nick saltou para fora do alcance do agressor e sacou a arma. Douglas Tanner paralisou-se. Segurava com destreza uma faca de caça. Pelo jeito que olhava, pretendia usá-la.

A mulher idosa levantou-se do sofá, caminhou até Tanner, arrancou-lhe a faca da mão e lhe deu uma bofetada.

Porra, mãe. Que merda é essa? — Ele estava agora em posição de sentido, rosto vermelho e braços estendidos ao lado do corpo.

— Estou cansada de ver você agredindo as pessoas. Sentei e assisti por muito tempo. Você não pode tratar as pessoas desse jeito. Nem familiares, nem estranhos. Agora peça desculpas ao xerife Morrelli, Douglas. — Porra nenhuma. Se ele tivesse feito o trabalho dele direito, talvez Matthew estivesse vivo.

Nick esfregou o rosto, ainda zonzo. Seu lábio sangrava, e ele o limpou com as costas da mão. Abaixou a arma, e se encostou na estante, torcendo para que o zumbido na cabeça parasse.

— Douglas, peça desculpas. Você quer ser preso por agredir uma autoridade?

— Ele não precisa se desculpar — Nick interveio. A sala ainda rodava, e os pés não lhe pareciam firmes. — Sra. Tanner — disse ele, se afastando da estante e buscando os olhos dela na confusão. — Eu lamento muito a perda de seu filho. E peço desculpas por esperar até amanhecer para lhe comunicar. Não interprete isso como desrespeito, por favor. Apenas pen­sei que seria melhor lhe dizer quando sua família e seus amigos estivessem por perto do que vir aqui bater na sua porta no meio da noite. Prometo-lhe que vamos encontrar o homem que fez isso com Matthew.

— Vai, xerife? — duvidou Douglas Tanner, atrás dele. — Mas quantos garotos ainda vão morrer antes que você tenha pelo menos idéia do que está acontecendo?

 

Não havia necessidade de que ninguém lhe contasse. Timmy já sabia. Matthew morrera, do mesmo jeito que Danny Alverez. Foi por isso que o tio Nick e a agente O’Dell partiram às pressas ontem à noite. Por isso a mãe o mandara para a cama cedo. Por isso ela ficara a noite inteira escrevendo para o jornal no novo laptop.

Bem cedo ele pulou da cama para escutar no rádio notícias sobre a suspensão das aulas. A cidade estava coberta de neve, e a nevasca persis­tia. Condições perfeitas para deslizar de tubing, mas a mãe só lhe permitia esquiar com o lento trenó de plástico. Laranja, sobre o branco reluzente da neve, o brinquedo, de tão chamativo, parecia uma ambulância ou veículo de resgate destacado na colina.

Timmy encontrou a mãe adormecida no sofá, enrolada na colcha tecida pela avó, que costuma cobrir a poltrona. As mãos dela se encaixavam sob o queixo. Estava pregada no sono. Na ponta dos pés, ele se afastou em direção à cozinha.

Sintonizou o rádio na estação de notícias, longe da emissora de música melosa que a mãe adorava, soft rock, segundo ela. A mãe, às vezes, agia como uma velha. O locutor estava exatamente nos informes sobre as escolas, e Timmy aumentou o volume para ouvir em meio à barulheira provocada por seus preparativos para o café da manhã.

Preferiu, em vez de arrastar uma cadeira para junto da bancada, usar uma gaveta aberta como degrau para alcançar o prato fundo no armário.

Estava cansado de ser tão pequeno; era o garoto mais baixo de sua turma menor até do que algumas meninas. Tio Nick recomendara-lhe não es­quentar a cabeça, pois ele, Timmy, daria uma espichada e ultrapassaria todos, mas não havia nem sinal ainda de tal arrancada.

Timmy alegrou-se com a caixa fechada de sucrilhos de chocolate entre as tradicionais, de cereais sem graça. Ou a guloseima estava em liquida­ção, ou a mãe se distraíra nas compras. Ela nunca botava no carrinho as coisas que valiam a pena. Abriu a embalagem, afoito, antes que a mãe descobrisse o engano, e encheu o prato até a borda. Fez espaço para o leite, comendo o excesso a seco. Timmy preparava a mistura, quando o locutor da rádio anunciou:

— A Escola de Platte City ficará fechada hoje.

— Oba — comemorou, contido para não derramar o leite. Porque quinta e sexta-feira estavam reservadas ao conselho dos professores, isso significava cinco dias sem aula. Uau, cinco dias sem aula. Susteve a celebração ao lembrar-se do acampamento. Será que o padre Keller can­celaria a viagem por causa da neve? Tomara que não.

— Timmy? — Ainda enrolada na colcha da avó, a mãe entrou na cozinha, o cabelo desgrenhado e o rosto amassado de sono. — Fecharam a escola?

— E. Cinco dias sem aula. — Ele se sentou rapidamente e comeu uma colherada dos sucrilhos antes que a mãe notasse algo. — Você acha que ainda vamos acampar? — perguntou Timmy, com a boca cheia, aprovei­tando-se do estado sonolento da mãe, muito cansada para lhe corrigir as maneiras.

Ela encheu a cafeteira, zanzando para lá e para cá, quase esbarrando nas gavetas que ele deixara abertas, e fechando-as, sem gritar com ele.

— Não sei, Timmy, ainda é outubro. Amanhã pode fazer dez, 15 graus, e a neve derreter. O que eles estão falando sobre o tempo no rádio?

— Até agora só listaram o fechamento das escolas. Seria muito legal acampar na neve.

— Seria muito frio e estúpido acampar na neve.

— Ah, mamãe, você não tem senso de aventura?

— Não quando significa ter de curá-lo de pneumonia. Você já fica machucado e doente o suficiente sem ajuda externa.

Timmy pensou em relembrá-la de que não ficava doente desde o último inverno, mas tal intervenção poderia suscitar o tema dos machu­cados do futebol.

— Tudo bem se eu for brincar na neve com o pessoal?

— Agasalhe-se bem e só use seu trenó. Tubing, não. O informe das escolas terminou, enfim. A mãe aumentou o volume do rádio. quando o locutor anunciou: "De acordo com o Omaha Journal, o corpo de outro garoto foi encontrado às margens do rio Platte ontem à noite. O departamento do xerife confirmou que se trata de Matthew Tanner, que..."

A mãe desligou o rádio e, na janela, de costas para ele, fingiu interesse por alguma coisa lá fora. Os ruídos da cafeteira quebraram o silêncio. A colher de Timmy estalava contra o prato de louça. O café cheirava gos­toso. Para ele, a manhã só começava a partir daquele aroma na cozinha.

— Timmy. — A mãe deu uma volta na mesa e sentou-se em frente a ele. — O locutor da rádio está certo. Eles acharam Matthew na noite passada.

— Eu sei — respondeu e continuou a comer, apesar de o prazer com os cereais não ser o mesmo de minutos atrás.

— Você sabe? Como?

— Eu me toquei quando tio Nick e a agente O’Dell foram embora correndo ontem, e porque você trabalhou a noite inteira.

Ela estendeu o braço por cima da mesa e lhe tirou os cabelos da testa.

— Que bom que você está crescendo rápido.

A mãe acariciou-lhe a bochecha. Em público, ele a afastaria, mas, em casa, tudo bem. Até que ele gostava.

— Onde conseguiu cereais de chocolate?

— Você comprou. Estava junto dos outros cereais. — Ele encheu o prato de novo, que ainda não esvaziara, para garantir um extra caso a mãe confiscasse a caixa.

— Devo ter comprado por engano.

A cafeteira terminara o serviço. Ela se levantou, largando a colcha no encosto da cadeira e a caixa de cereais sobre a mesa.

— Mãe, como se sente um morto?

Ela derramou café na bancada e com um pano evitou que escorresse até o chão.

— Desculpe — disse ele, percebendo que a pergunta causara o contra-tempo. Adultos perdiam a linha por qualquer coisa.

— Eu realmente não sei, Timmy. Essa pode ser uma boa pergunta para o Padre Keller.

 

Maggie não mexera no café da manhã pedido à lanchonete da Wanda. A refeição esfriava em cima da mesinha, mesmo servida em pratos de cerâmica, cobertos com tampas de alumínio. A comida esfumaçava quan­do o recepcionista com orgulho a exibiu, como se tivesse sido ele o cozinheiro.

Ela tornara-se uma habituée da cozinha da Wanda sem nunca ter colocado os pés na lanchonete. Embora os ovos mexidos dourados, as torradas repletas de manteiga e a salsicha bem vermelha se apresentassem tentadores, ela havia perdido o apetite por completo. Deixara a fome em algum lugar no piso do banheiro, na luta para retomar o controle sobre si e afugentar o pânico. O desjejum se resumiu à caneca do espumante cappuccino. Tomou um gole e agradeceu a Wanda pelo bom senso de adquirir uma máquina de cappuccino.

O laptop ocupava o outro lado da mesa, perto da parede, onde uma tomada de telefone recentemente instalada permitia o marketing do hotel entre viajantes a negócios. Moveu-se pelo quarto enquanto esperava que a lenta conexão com o banco de dados de Quântico fosse completada. Não pudera ter acesso a nenhuma informação sigilosa do FBI, que seguia cético em relação à confidencialidade dos modems e tinha razões para isso. A agência era constantemente alvo de hackers.

Maggie já ligara diversas vezes para o doutor Avery. O obsoleto telefone do hotel não lhe possibilitava andar de um lado para o outro enquan­to falava. Ela, então, alongava o corpo no colchão duro. Depois do banho, vestira um jeans e seu moletom velho. O cansaço a esmagava. Empregara

os resquícios de energia que lhe restavam para se recuperar do susto, e isso a deixava insegura. Como uma simples mensagem lhe provocara tal terror? Recebera recados de assassinos antes. Eram inofensivos, parte do jogo psicológico. Se esperava penetrar a mente de psicopatas, tinha que estar preparada para a reação deles.

As mensagens de Albert Stucky, porém, resultaram em danos. Meu Deus, ela precisava botar uma pedra sobre esse assunto. Ele se encontrava atrás das grades, e logo o executariam. Maggie estava segura. Pelo menos, o bilhete daquela manhã não viera acompanhado de dedos ou mamilos. Além disso, em poucas horas o cartão chegaria a Quântico. O idiota, quem sabe, lhe teria enviado o próprio mandado de prisão. Bastaria que tivesse deixado ali suas impressões digitais ou a saliva no lacre do envelope.

À noite ela pegaria o avião para casa, e o desgraçado perderia a parcei­ra de joguinho psicológico doentio. Fizera seu trabalho, mais até do que lhe haviam pedido. Se assim era, por que se sentia como se em fuga? Porque era exatamente isso o que Maggie estava fazendo. Tinha que partir de Platte City, em Nebraska, antes que o assassino retalhasse sua esgarçada psique. O rasgo de vulnerabilidade mostrara-se claramente no piso frio do banheiro, horas atrás.

Sim, era necessário, urgente, partir. E hoje, enquanto ainda dominasse a situação. Amarraria as pontas que já desfiavam e daria o fora daquele inferno, enquanto ainda inteira, antes que as costuras começassem a se desfazer.

Maggie decidiu dar um telefonema enquanto esperava que se comple­tasse a conexão do computador, ligado à outra linha. Encontrou o núme­ro no fino catálogo da cidade e discou. Depois de vários toques, uma sonora voz masculina respondeu: — Santa Margarete. — O padre Francis, por favor. — Quem gostaria de falar com ele? Ela não poderia dizer com certeza se a voz pertencia a Howard.

— Aqui é a agente especial Maggie O’Dell. Howard? Pausa. Em vez de responder, ele afirmou: — Um momento, por favor.

Foram vários momentos. Ela se virou para a tela do computador conexão, finalmente, completara-se. A logomarca de Quântico, azul-real, piscava no visor.

— Maggie O’Dell, que prazer falar com você novamente. Com voz aguda, o padre Francis falava cantando.

— Padre Francis, eu gostaria de lhe perguntar umas coisinhas mais Isso seria um incômodo?

— Certamente que não. — Ouviu-se um clique na linha.

— Padre Francis?

— Sim, estou aqui.

— O que o senhor pode me falar sobre o acampamento de verão da igreja?

— Acampamento de verão? Esse é um projeto do padre Keller. Você deve conversar com ele sobre isso.

— Claro, eu vou. Foi ele quem começou o trabalho ou isso é uma coisa que a igreja já fazia?

— O padre Keller o iniciou quando chegou aqui, acho que no verão de 1990. Foi um sucesso instantâneo. Ele já tinha experiência nesse tipo de atividade, que costumava organizar em sua paróquia anterior.

— Ah, é? Onde?

— No Maine. Deixe-me ver... eu tenho muito boa memória. Wood alguma coisa, Wood River. E isso, Wood River, no Maine. Tivemos muita sorte em trazê-lo para cá.

— Tenho certeza. Estou ansiosa para conversar com ele. Obrigada pela ajuda, padre.

— Agente O’Dell. — Ele a interrompeu. — Isso é tudo que você quer saber de mim?

— É, e o senhor me ajudou bastante.

— Eu andei pensando se você havia conseguido responder àquelas perguntas sobre Ronald Jeffreys?

Ela titubeou. Não queria soar abrupta, mas tampouco queria discutir o que sabia com outra pessoa ouvindo na extensão.

— Sim, acho que encontrei, sim, as respostas. Obrigada mais uma vez pela ajuda.

— Agente O’Dell. — O padre parecia preocupado. A musicalidade sumira de sua voz. Se ela não se enganava, ele ficara nervoso. — Talvez eu tenha mais informações, embora não esteja certo da importância delas.

— Padre Francis, eu não posso falar agora. Estou esperando um telefonema importante — Maggie interrompeu-o, impedindo-o de revelar qualquer coisa mais. — Posso encontrá-lo mais tarde?

— Claro, seria ótimo. Estarei no confessionário pela manhã e, depois, o hospital, visitando os doentes. Até as 16h ocupado, portanto.

— Eu estarei no hospital nesta tarde. Por que não nos encontramos na cantina às 16hl5?

— Estarei lá, então. Até logo, Maggie O’Dell.

Ela aguardou na linha até que ele desligasse. Ouviu então o segundo clique. Não havia dúvidas. Alguém escutara a conversa.

 

Nick entrou no departamento furioso. Bateu a porta com tanta força que o vidro chacoalhou. Todos pararam o que faziam e o olharam como se ele houvesse enlouquecido. Nick ponderava, aliás, se não seria mesmo o caso.

— Ouçam todos! — berrou ele, mais alto do que o zumbido que persistia dentro de sua cabeça. Deu alguns segundos para que chegassem os que perambulavam por outras salas com canecas de café e croissants. — Se houver uma nova quebra de confiança neste departamento, eu vou pessoalmente chutar a bunda do responsável e cuidar para que essa pessoa nunca mais trabalhe nos órgãos da Justiça.

Sua mandíbula doía como o diabo, especialmente quando as arcadas dentárias se tocavam. A língua achara uma ponta afiada onde um dente tinha sido quebrado pelo soco. A boca sangrava de novo, e ele a limpou com a manga da camisa.

— Lloyd, chame alguns homens e vasculhe cada casebre abandonado num raio de 15 quilômetros em volta da estrada da Igreja Velha. Ele está escondendo esses garotos em algum lugar. Talvez não seja aqui na cidade. Hal, descubra tudo o que você puder sobre um tal de Ray Howard. Ele é servente na igreja. Não só de onde ele é, mas detalhes sobre uma possível infância traumática. Eu quero saber quanto esse cara calça e se ele coleciona figurinhas de beisebol. Eddie, cuide de Sophie Krichek.

— Nick, você não pode estar falando sério. A mulher é pinel.

— Nunca falei tão sério com você.

Eddie deu de ombros, e Nick teve vontade de socar o sorriso debocha­do debaixo do bigodinho do assistente.

— Dedique a manhã a isso, Eddie, e se empenhe como se seu emprego dependesse da tarefa.

Nick esperou outro provável sorrisinho e, depois, prosseguiu:

Adam, telefone para George Tillie e diga-lhe que a agente O’Dell fará com ele a autópsia de Matthew. Ligue também para o agente Weston e se informe sobre as evidências que a equipe dele encontrou. Quero as fotos e o relatório na minha mesa à tarde.

"Lucy, descubra tudo que você puder sobre um acampamento de verão organizado pela igreja. Junte-se a Max e veja se há alguma conexão entre Aaron Harper, Eric Paltrow e o acampamento."

— E Bobby Wilson? — lembrou ela enquanto anotava.

Nick interrompeu-se e examinou todos ali. Refletiu se o Judas, se é que ele ainda trabalhava ali, não se revelaria com uma expressão ou um gesto. Há seis anos, alguém se arriscara para incriminar Ronald Jeffreys pelo assassinato dos três garotos. Alguém pegara a cueca de Eric Paltrow do necrotério e a plantara na caminhonete de Jeffreys. Podia ter sido facilmente uma pessoa do departamento, uma pessoa que ouvia os urros de Nick naquele momento. Nesta hipótese, por que não fazer o desgraça­do suar?

— Se eu ler alguma coisa disso nos jornais de amanhã, eu juro que demito todos aqui. Ronald Jeffreys pode ter matado apenas Bobby Wil­son. Há uma boa possibilidade de que o cara que matou Danny e Matthew também tenha assassinado Eric e Aaron. — Ele percebeu a surpresa de todos, principalmente daqueles que haviam atuado com seu pai e que ganharam os louros pela captura de Jeffreys.

— O que você está dizendo, Nick? — Lloyd Benjamin fora um deles e demonstrava agora irritação pela testa franzida. — Você está dizendo que nós fizemos uma burrada?

— Não, Lloyd, vocês não fizeram burrada. Vocês prenderam Jeffreys, prenderam um assassino, mas o que parece é que Jeffreys não matou os três garotos.

— Isso é o que você pensa, Nick, ou é a agente O’Dell influenciando o seu jeito de pensar? — Eddie exibiu o sorriso debochado pela segunda vez no dia.

Nick segurou a raiva. Não era hora para defender a relação com Maggie. Nem certo estava de que poderia fazer isso sem se enrolar com seus sentimentos. Também não desejava compartilhar com ninguém mais informações sobre Jeffreys, uma vez que questionava a lealdade do departamento que ele comandava.

— Estou dizendo que há uma boa possibilidade. Para ela se confirmar ou não, vamos assegurar que esse desgraçado não saia dessa sem pagar pelo que fez, quem sabe pela segunda vez. — Ele passou diante de Eddie como uma flecha, esbarrando no assistente, e sinalizou para que os outros voltassem ao trabalho. Lloyd alcançou-o na porta da sala.

— Nick, espere. — Com as pernas curtas e grossas, o auxiliar trotou para emparelhar-se com o chefe no corredor. Respirava com dificuldade e afrouxara a gravata. — Não quis criar confusão lá na entrada. Acho que Eddie também não. Está todo mundo com os nervos à flor da pele por causa desse negócio, exatamente como ocorreu antes, com Jeffreys.

— Não se preocupe, Lloyd.

— Sobre velhos casebres e barracões, Nick, não há muita coisa lá que já não tenhamos verificado da primeira vez. Um velho depósito, quase caindo, na propriedade de Woodson; um abrigo deserto, um contêiner de grãos e nada mais. Existe a igreja velha, mas ela está lacrada com tábuas, mais fechada do que virgem em dia de domingo.

Nick fez uma careta à referência.

— Perdão. — Benjamin desculpou-se sem, entretanto, se mostrar arrependido. — Você está sensível demais, Nick. O’Dell nem está aqui.

— Verifique a igreja de novo, Lloyd. Janelas quebradas, pegadas, al­gum sinal de que alguém esteve ali nos últimos dias.

— Que inferno, Nick. Não vamos encontrar nenhuma pegada com essa neve toda.

— Verifique, Lloyd. Apenas verifique.

Nick iniciava a manhã de trabalho já exausto. Ainda não sentara em sua cadeira quando alguém bateu na porta. Ordenou que entrasse com um berro.

Primeiro, só apareceu o rosto de Lucy. Avaliava o humor dele. Com um aceno, Nick autorizou-a a entrar. A secretária trazia uma bolsa de gelo e um café.

— O que aconteceu com você, Nick?

— Nem pergunte.

Ela pôs de lado a cerimônia inicial e chegou mais perto. Inclinou-se na direção dele, e a saia que usava subiu até as coxas. Percebendo que Nick notara, nada fez para abaixá-la. Espichou-se mais ainda para levar a bolsa de gelo até o queixo inchado do chefe. Ele se esquivou, usando a dor como uma desculpa para conseguir um melhor ângulo das coxas da secretária.

— _Pobre Nick. Eu sei que dói — disse ela, uma babá sensual.

Vestia um suéter rosa tão apertado que o sutiã preto aparecia sob a malha, e se debruçava sobre a mesa, cada vez mais próxima. Ele deu um pulo da cadeira.

— Não tenho tempo para bolsas de gelo, Lucy. Vou ficar bem. Obri­gado pelo esforço.

Ela não escondeu o desapontamento.

— Vou deixar no seu frigobar, se você quiser depois.

Ela cruzou a sala, rebolando, para mostrar-lhe o que ele perdia, e guardou a bolsa. Antes de sair, encarou-o pela última vez, como se conferisse se Nick mudara de idéia; depois sorriu e voltou ao posto de trabalho.

— Meu Deus — murmurou Nick, despencando na cadeira. Que tipo de departamento ele criara? O troglodita marido de Michelle Tanner tinha toda razão. Era de esperar que uma equipe como aquela não esti­vesse nem perto de achar o criminoso.


 

Padre Francis juntou os recortes de jornal e guardou-os na pasta de couro, reparando nas próprias mãos, nas pintas marrons, nas veias salien­tes e na tremedeira, não mais novidades, agora lugar-comum.

Apenas três meses haviam transcorrido desde a execução de Ronald Jeffreys. Três meses desde que o verdadeiro assassino confessara-se com ele. Não podia mais se calar. Não podia mais guardar o segredo sagrado, preservar o criminoso. Não sabia se isso faria alguma diferença, mas conve­nceu-se de que era a maneira acertada de agir.

Arrastou os chinelos pelo corredor. Seus passos eram o único som entre as paredes monumentais. Ninguém esperava para se confessar, e a manhã prometia ser calma. Mesmo assim, como de hábito, ele entrou no confessionário e esperou.

Apesar de não ter visto ninguém na igreja, a porta do outro lado do cubículo abriu-se em instantes. Padre Francis ajeitou-se no banco e apoiou o cotovelo no estreito aparador, próximo à abertura que permitia a comunicação entre padre e fiel.

— Abençoe-me, padre, porque eu voltei a matar.

Oh, meu Deus. O medo ricocheteou pelo peito do velho padre. Difícil respirar. O ar no confessionário de madeira tornou-se, automaticamente, quente e fétido. Sua cabeça latejava. Padre Francis aproximou-se mais e contraiu os olhos, tentando ver além do vazado da parede interna do cubículo. Nada. A silhueta do interlocutor se confundia com a escuridão do ambiente.

— _Eu matei Danny Alverez e Matthew Tanner. Estou realmente arre­pendido por esses pecados e peço perdão.

O padre mal podia ouvir a voz, abafada por uma máscara. Haveria algo familiar, alguma característica que ele poderia reconhecer? — Qual é a minha penitência? — A voz queria saber.

Como poderia falar se não era capaz de respirar?

— Como... — Era difícil. O peito doía. — Como posso absolvê-lo de seus pecados... atrozes, pecados horríveis... se você pretende cometê-los de novo?

— Não, o... o senhor não entende. Eu apenas lhes proporciono a paz.

— O volume da voz aumentara. Ele, obviamente, não se preparara para um confronto. Padre Francis percebeu, com certo grau de satisfação, que ele viera apenas para receber a absolvição e ouvir a pena.

— Eu não posso absolvê-lo de seus pecados se você pretende ir embora e cometê-los de novo. — A determinação de padre Francis surpreendeu o assassino.

— Como?... O senhor tem que me absolver.

— Eu já o absolvi antes, e você zombou do sacramento ao cometer o pecado de novo, não uma vez, mas duas.

— Eu estou muito arrependido dos meus pecados e peço perdão a Deus — tentou ele de novo, repetindo a frase mecanicamente, como uma criança que a tivesse decorado.

— Você deve provar seu remorso — disse padre Francis, mais senhor de si. Poderia talvez exercer alguma influência sobre essa sombra, colocá-la frente a frente com os demônios que a levavam a cometer tais atos, tirá-la de ação uma vez por todas. — Você deve demonstrar seu arrepen­dimento.

— Eu vou, eu vou. Apenas me diga qual é a minha penitência. Vá, prove seu arrependimento e volte daqui a um mês.

Pausa.

— O senhor não está me absolvendo?

— Se você provar que merece a absolvição, não voltando a matar, eu vou então avaliar sua absolvição.

— O senhor não está me dando a absolvição? — Volte daqui a um mês.

Silêncio. A sombra não fez menção de partir. Mais uma vez, padre Francis tentou vislumbrar algo do outro lado. Ouviu um pigarro, seguido por um chiado, e um jato de saliva atravessou o espaço vazado do confes­sionário, atingindo seu rosto.

— Eu o vejo no inferno, padre. — A voz gutural detonou arrepios pela espinha de padre Francis. Ele se abraçou à Bíblia e não se moveu nem para limpar a saliva pegajosa que lhe escorria pelo queixo, quanto mais para ver o homem que saía do confessionário.

Ali ficou sentado pelo que lhe pareceu uma eternidade, agradecido por ninguém mais entrar em busca de absolvição. A neve, por certo, afugen­tara outros pecadores, o que garantia o anonimato da sombra que partira.

Finalmente, o coração recuperava o batimento normal. Ele conseguia respirar de novo. Com um lenço, limpou o rosto. As mãos mais trêmulas do que de costume. Amparou-se na parede do confessionário para voltar a se apoiar sobre os frágeis joelhos. Pegou a pasta de couro, a Bíblia e deixou o cubículo. A igreja estava vazia e silenciosa. Do lado de fora, crianças brincavam, provavelmente em direção à colina para se divertir na neve. Pelo menos se deslocavam em grupo.

O padre andou em direção ao altar, escorando-se nos bancos, e daí pelo corredor. O pânico e o terror tinham consumido todas as suas ener­gias. Ele contaria sobre essa visita a Maggie O’Dell. A decisão o revigorou um pouco, tirando-lhe parte do peso da culpa. Sim, era a coisa correta a ser feita. No caminho para a sacristia, sentia-se mais leve, é a dor no peito se reduzira a um incômodo.

Perto de seu escritório, notou a porta da adega aberta. Parou, exami­nou a passagem, os degraus, a escuridão. O subterrâneo cheirava a mofo e umidade. Assustou-se com uma corrente de ar. Teria visto uma sombra? Lá no fundo do recinto, no canto, havia alguém escondido?

Desceu os primeiros degraus, apoiando a mão trêmula no corrimão. Seria sua imaginação ou alguém se escondia entre a parede de concreto e as caixas de vinho empilhadas?

Flexionou o quanto podia os joelhos fracos para observar melhor fundo da adega, sem perceber a figura que por trás o empurrou escada abaixo. O padre rolou adega adentro, bateu a cabeça na queda e, ainda consciente, ouviu um por um os estalos dos degraus. O som instalou o terror no ambiente escuro. Ele encheu o peito para gritar, mas não mais do que um murmúrio saiu do corpo dolorido. Não podia se mexer, não podia fugir. A perna direita o torturava, dobrada em um ângulo anormal sob seu peso.

O último degrau estalou bem acima dele. Ergueu a cabeça a tempo de ver de relance o caixote de encontro ao seu rosto. A partir de então, a escuridão.

 

Para recuperar-se da noite de trabalho, Christine pediu um dos frangos especiais da lanchonete da Wanda, uma sopa de entrada e brioches. Corby a premiara com a manhã de folga, mas ela já listava idéias em seu laptop para a matéria do dia seguinte. Cedo ainda, o refeitório recebia os primeiros clientes da multidão que ali almoçava, e ela conseguiu um dos melhores lugares, no canto. Ao lado da janela, ela assistia aos poucos pedestres que se arriscavam pela neve.

Timmy telefonara. Queria autorização para almoçar com os amigos, na sacristia, sob o comando do padre Keller. O padre havia esquiado com eles e, para compensar o inevitável cancelamento do acampamento, prepararia cachorros-quentes com milk-shake, servidos junto à lareira da igreja.

— Boas matérias, Christine — disse Angie Clark, ao encher a xícara da freguesa com mais café.

Pega de surpresa, Christine engoliu o pedaço de pão quente.

— Obrigada. — Ela sorriu e limpou a boca com um guardanapo. — Os brioches de sua mãe são ainda os melhores da cidade.

— Eu insisto para que ela os venda empacotados, para que as pessoas levem para casa. Ela diz que, se fizer isso, as pessoas não ficarão mais para almoçar e jantar.

Angie cuidava das finanças no negócio da mãe. Fora idéia sua montar o serviço de entrega, e apenas seis meses depois já fora preciso contratar mais um cozinheiro e mantinham dois carros com motoristas ocupados todo o tempo. Sem com isso esvaziar o refeitório que, tradicionalmente, lotava para as três refeições do dia.

Christine perguntava-se por que Angie fincara raízes em Platte City. Tinha tino para negócios e um corpo que atraía bastante atenção. Passara dois anos na universidade, mas, depois de boatos sobre um romance com um político casado, voltara para morar com a mãe viúva.

— Como está Nick? — indagou Angie, simulando uma arrumação de talheres na mesa ao lado.

— Neste momento, deve estar muito bravo comigo. Ele não está gostando de meu desempenho jornalístico. — Não era exatamente a resposta que Angie esperava para a pergunta, mas Christine aprendera há tempos a manter distância da vida amorosa do irmão.

— Quando encontrar com ele, diga-lhe que mandei um oi.

Pobre Angie! Nick provavelmente não telefonara mais para ela desde que toda aquela confusão começara. E, por mais que ele negasse, o irmão só tinha olhos para a adorável e indisponível Maggie O’Dell. Alguém, finalmente, poderia ter partido o coração dele, o que faria o irmão provar de seu próprio remédio.

Angie cumprimentou dois operários musculosos que chegavam e ime­diatamente tiraram as jaquetas, capacetes e outros acessórios de trabalho. Por que as mulheres arrancavam os cabelos por causa de Nick? Christine nunca entendera o fenômeno. O irmão pulava de mulher para mulher, sem maiores explicações ou dúvidas existenciais. Ele era bonito, charmo­so, mas um tanto rude. Ainda assim, mesmo depois de dias, semanas, sem ligar, ela sabia que mulheres como Angie estavam prontas para recebê-lo de braços abertos.

Bebeu do café quente e anotou no bloco "Relatório do legista". George Tillie era um velho amigo da família, um antigo companheiro do pai. Talvez George lhe fornecesse novas informações. Até onde ela sabia, as investigações não avançavam.

De repente, aumentaram o volume da tevê a ponto de todos os fregue­ses interromperem as conversas e olharem para a tela. Wanda Clark acenava para ela.

— Christine, veja isso aqui.

Bernard Shaw da CNN acabara de mencionar Platte City, em Nebrasca. Um mapa atrás dele mostrava a localização da cidade, enquanto Shaw dissertava sobre uma série de assassinatos estranhos. Deram um close da manchete de domingo de Christine: "Da sepultura, serial killer ainda assombra comunidade com a morte recente de garoto", e Shaw explicou o caso Jeffreys, de seis anos atrás.

"Segundo uma fonte que acompanha a investigação, o departamento do xerife ainda não tem pistas sobre os novos crimes, e o principal suspei­to da lista é o assassino executado há três meses."

Christine fez uma careta devido ao sarcasmo de Shaw e, pela primeira vez, solidarizou-se com Nick. O resto do restaurante rompeu em aplausos, e ela recebeu sinais de positivo com o polegar. A cidadezinha de todos ali virará notícia nacional. O que importava o sarcasmo e as referências preconceituosas ao interior caipira do país?

Diminuíram o volume, e Christine retornou a suas anotações. Não demorou muito para que o celular tocasse, fizesse um escândalo no fundo de sua bolsa. Ela espalhou carteira, pente, batom pela mesa sob a atenção dos clientes da lanchonete. Resgatou a geringonça e balançou o aparelho para os conterrâneos, que sorriram, de volta a seus pratos. O telefone soou mais duas vezes antes que ela achasse o botão para atender.

— Christine Hamilton.

— Alô, Christine. Aqui é William Ramsey, da KLTV Canal 5. Espero não estar interrompendo nada. A sua redação me deu o seu número.

— Estou almoçando, Sr. Ramsey. Em que posso ser útil?

Nas últimas noites, os canais de tevê dependeram dos textos dela para transmitir informações sobre os assassinatos. Além de chochos depoimen­tos de parentes e vizinhos, os noticiários careceram da energia indispen­sável para conquistar índices de audiência.

— Gostaria de convidá-lo para tomar café ou almoçar amanhã.

— Tenho andado muito ocupada, Sr. Ramsey.

— E, eu imaginei. Vou direto ao ponto, então.

— Ótimo.

— Você gostaria de trabalhar no Canal 5 como repórter e âncora do noticiário de fim de semana?

— Como? — Ela quase se entalou com o brioche.

— Seu trabalho arrojado sobre esses assassinatos é exatamente o tipo de coisa que queremos aqui, no Canal 5.

— Sr. Ramsey, eu sou repórter de jornal. Eu não...

— Seu estilo de escrever se adaptaria muito bem à tevê, e nós a treinaríamos para apresentar o jornal. Eu já sei que você tem boa expressão para a televisão.

Mais do que lisonjeada, ela ficou ávida por tal oportunidade. Tivera tão poucas no passado. No entanto, Corby e o Omaha Journal lhe tinham dado a grande oportunidade de sua vida. Não, ela não poderia sequer alimentar o ego com a idéia.

— Estou lisonjeada, Sr. Ramsey, mas eu não posso...

— Estou pronto para lhe oferecer cinco mil dólares por mês, para que comece já a trabalhar conosco.

A colher caiu da mão de Christine dentro do prato, espirrando sopa em seu colo. Ela nem percebeu, e muito menos se preocupou em limpar.

— Como?

A surpresa em sua voz teria soado como outra recusa, pois Ramsey, apressadamente retomou:

— Tudo bem, seis mil por mês. E mais, se você começar neste final de semana, eu lhe dou um bônus de dois mil.

O salário representava mais do que o dobro da remuneração de Chris­tine no jornal. Ela poderia quitar suas dívidas, sem se aborrecer com Bruce.

— Posso ligar de volta depois de pensar um pouco sobre a oferta?

— Claro, pense sobre isso hoje e me ligue amanhã de manhã.

— Obrigada, eu ligarei. — Christine desligou o celular e, ainda meio atordoada com o convite, assustou-se com Eddie Gillick sentando-se no mesmo banco que ela e espremendo-a contra a janela.

— O que você pensa que está fazendo? — protestou Christine.

— Já foi uma maldade e tanto você me enganar para colocar uma fala minha na sua matéria. Agora, seu irmãozinho só está me dando missões de merda. Logo, calculo que você também revelou para ele que fui eu a sua fonte anônima.

— Assistente Gillick...

— Não, é Eddie, não se lembra?

Ele bebeu do café dela, adicionou mais uma colher de açúcar e deu outras duas goladas sem saborear. O cheiro de sua loção pós-barba anu­lava o aroma da bebida.

— Eu não contei exatamente para Nick. Ele...

— Não, não precisa se explicar. Mas, agora, você tem uma dívida comigo.

Ele espalmou a mão em seu joelho; o olhar era de desprezo e imobilizou-a. A mão subiu pela coxa sob a saia curta antes que Christine pudesse se livrar do contato. A ponta do bigode de Eddie empinou, devido a um sorriso, e ela ficou rubra de vergonha.

— Quer alguma coisa, Eddie? — Angie Clark, de pé ao lado da mesa, mais do que ciente de que os interrompia, tinha por objetivo fazê-lo.

— Não, Angie querida — respondeu Eddie, ainda só sorrisos para Christine. — Infelizmente, eu não posso ficar. Vou ter que vê-la mais tarde, Christine.

Deslizou para fora do banco, passou a mão pelo cabelo cheio de gel, colocou o chapéu e foi embora com um andar relaxado.

— Você está bem?

— Claro — respondeu Christine. Ela escondeu as mãos trêmulas sob a mesa.

 

A porta do quarto se abriu com um puxão, e a primeira visão de Nick foi Maggie correndo de volta para a mesa onde apoiava o computador.

— Entre — gritou ela, ao sentar-se de frente para o laptop. — Estou acessando informações do banco de dados de Quântico. Há coisas bem interessantes.

Ele a obedeceu em passos lentos, cruzou a porta do banheiro e aspirou o perfume de seu xampu. Maggie vestia jeans e o mesmo moletom surrado, desbotado e sexy da outra noite. A gola deformada expunha parte de um dos ombros e evidenciava que Maggie não usava nada por baixo. Aquilo o excitou, e Nick se reprimiu tentando direcionar a atenção para alguma outra coisa.

Ela, por fim, virou-se para ele e pestanejou confirmando o que vira. — O que aconteceu com seu rosto?

— Christine não esperou. Havia uma matéria no jornal nesta manhã. — E Michelle Tanner a leu antes que você chegasse lá?

— Mais ou menos. Alguém lhe contou. — Ela bateu em você?

— Não — disse nervoso. Deu-se conta segundos depois de que não precisava ficar tão na defensiva. — O ex-marido, o pai de Matthew, fez o trabalho para ela.

— Meu Deus, Morrelli, você não sabe desviar? — A raiva deveria ainda estar nos olhos dele, pois ela rapidamente se corrigiu. — Perdão. Você deveria pôr gelo nesse inchaço.

Ao contrário de Lucy, Maggie voltou à tela do computador e não ofereceu nenhum serviço de enfermagem.

— Como vai o ombro?

Maggie olhou nos olhos dele. Sua expressão suavizou-se com a lembrança, apenas por um instante, pois retornou ao computador de pronto

— Tudo bem, eu acho. — Ela massageou o ombro, como se o examinasse. — Está um pouco ardido.

O moletom do Green Bay Packers escorregou um pouco mais, hipnotizando-o. Ele queria tanto tocá-la, que chegava a doer. A cama desarru­mada a menos de um metro tornava a experiência mais angustiante.

— Você torce para o Packers? — Ele puxou assunto enquanto ela navegava pelo banco de dados.

— Meu pai foi criado em Green Bay — respondeu, com os olhos fixos no computador. As páginas se sucediam, velozes, a seus cliques. — Meu marido insiste para que eu jogue este agasalho velho fora, mas é uma das poucas coisas que tenho que eram de meu pai. Ele costumava vesti-lo quando assistíamos a jogos juntos.

— Não assistem mais?

Ele percebeu que a pausa que seguiu sua pergunta nada tinha a ver com as informações do banco de dados de Quântico. Maggie arrumou o cabelo atrás da orelha, um tique nervoso que Nick já notara.

— Ele foi morto quando eu tinha 12 anos.

— Lamento. Ele também era do FBI?

Ela se esticou na cadeira para ganhar tempo. A pergunta, seguramen­te, despertara nela memórias da infância.

— Não, bombeiro. Morreu como herói. Nossos pais têm isso em co­mum. — Ela sorriu para Nick. — A diferença é que o seu conseguiu manter-se vivo.

— Lembre-se de que meu pai teve muita ajuda.

Maggie fitou-o, e, dessa vez, foi ele que olhou para longe. Não queria revelar algo sobre o que não tinha certeza.

— Você não acha que seu pai teve alguma coisa a ver com a armação para cima do Jeffreys?

Nick aproximou-se e cravou os olhos na tela do computador, para que Maggie não o pudesse encarar.

— Ele foi o maior beneficiado com a captura de Jeffreys. Eu não sei em que acreditar.

— Aqui está — comemorou ela. O monitor do computador cheio títulos de artigos de jornal.


— O que é isso? — Ele próprio leu. — Wood River Gazette, novembro de 1989. Onde é Wood River?

— Maine. — Com o mouse, ela percorreu os títulos, parou e apontou um com a setinha.

— "Corpo mutilado de garoto encontrado perto do rio." Isto me parece familiar. — Nick começou a ler a matéria que tomava três colunas da primeira página.

— Adivinha quem era um dos padres iniciantes da paróquia de Santa Maria, de Wood River?

Nick interrompeu a leitura, olhou para ela e apalpou o queixo inchado.

— Você ainda não tem provas. Tudo é circunstancial. Por que esse caso não apareceu durante o processo de Jeffreys?

— Porque não havia necessidade. Pelo que pude descobrir até agora, um funcionário temporário da igreja levou a culpa.

— Ou a culpa teria sido dele de fato. — Nick não gostava nem um pouco do rumo que a conversa tomava. — Como descobriu isso?

— Conversei com o padre Francis esta manhã, e ele me disse que o padre Keller também organizava um acampamento de verão em sua pa­róquia anterior, em Wood River, Maine.

— E então você procurou assassinatos de garotos na área, na época em que ele morava lá?

— Nem foi necessário procurar muito. O assassinato de lá bate direitinho com os daqui, inclusive o X no peito. Circunstancial ou não, o padre Keller em que ser considerado suspeito. — Ela fechou a página de quântico e desligou o computador. — Vou me encontrar com George em uma hora — Maggie informou. — Depois, com padre Francis. — Ela tirava roupas do armário e as estendia na cama. — Preciso viajar para Richmond hoje à noite. Minha mãe está no hospital. — Evitou olhá-lo quando colocou sobre a cama outras peças do vestuário.

— Meu Deus, Maggie. Ela está bem?

— Está meio... Acho que ela vai ficar bem. Eu gravei informações para você em um disquete. Você tem acesso ao Word?

— Claro... Acho que sim. — A atitude pragmática dela o confundiu. estava realmente preocupada com a mãe, ou havia algo mais? — Vou deixar minhas anotações sobre a autópsia desta tarde com George. Se a conversa com o padre Francis render, eu ligo para você. — Você não vai voltar, não é? — A dedução golpeou-o como outro murro no queixo. Também a fez interromper a arrumação e prestar aten­ção nele. O olhar de Maggie pulava dele para o computador, de lá para ele e dele para a bagunça na cama. Ela nunca manifestara tanta dificuldade em encará-lo.

— Tecnicamente, eu terminei o que vim fazer aqui. Você tem um perfil e acho que também um suspeito. Não estou nem mesmo certa de que deveria me envolver nessa segunda autópsia.

— Então, é isso? — Ele meteu as mãos no bolso, meio tonto com a perspectiva de não voltar a encontrá-la.

— Tenho certeza de que o FBI vai mandar outra pessoa para ajudá-lo.

— Mas não você? — Ele captou alguma coisa até então inédita na expressão dela. Arrependimento, tristeza? Fosse o que fosse, Maggie não permitiu que ele visse. Começou a fazer a mala. — Isso tem alguma coisa a ver com o que aconteceu entre nós?

— Nada aconteceu entre nós — rebateu ela, interrompendo o vaivém até a mala. De costas para ele, Maggie completou: — Lamento se lhe dei uma impressão equivocada. — Olhou para ele, sobre os ombros. — Nick, entenda, não quero parecer mal-agradecida. — O frenesi da arrumação da mala se restabeleceu.

Era óbvio que ela não lhe passara impressões equivocadas. Ele fizera tudo por conta própria. Mas e o calor, e a inquietação de ambos? Isso não tinha sido fruto da imaginação dele.

— Vou sentir sua falta. — As palavras o surpreenderam. Não preten­dera expressar o sentimento em alto e bom som.

Ela parou, ajeitou os ombros e voltou-se para Nick, lentamente. Os olhos castanhos incríveis o enfraqueceram nos joelhos, como se ele fosse um adolescente se declarando para o primeiro amor. Meu Deus, o que estava acontecendo com ele?

— Você é uma chata, O’Dell, mas eu vou sentir falta de suas broncas. — Pronto. Consertara a gafe.

Ela sorriu. Prendeu uma mecha de cabelos atrás da orelha. O cacoete indicava que, pelo menos, Maggie não tinha a situação sob seu absoluto controle.

— Quer uma carona até o aeroporto?

— Não, tenho que devolver o carro que aluguei.

— Boa viagem — desejou de um jeito frio, patético, contido. O que Nick desejava mesmo era abraçá-la e convencê-la a ficar. Cruzou o quarto em três longas passadas, torcendo para que os joelhos o sustentassem.

— Nick.

Na porta, com a mão na maçaneta, ele aguardou. Ela suspirou e, num breve segundo, Nick testemunhou Maggie mudar de idéia a respeito do que pretendia dizer.

— Boa sorte — limitou-se a dizer.

Ele acenou com a cabeça e partiu. Os pés andavam por reflexo. A dor no peito impedia-o de soltar o ar e respirar.

 

Maggie observou a porta fechar-se. Suas mãos apertavam e torciam a blusa.

Por que não contara a Nick a respeito do bilhete, de Albert Stucky? Ele havia sido compreensivo com os pesadelos. Poderia ter entendido a situação, entendido por que ela não permitiria que outro psicótico a pusesse à prova, por que não arriscaria sua sanidade mental. Não, não era o momento. Ela se sentia vulnerável, como se prestes a se quebrar em milhões de pedacinhos. Não deixaria que a fragilidade atrapalhasse seus julgamentos e diagnósticos profissionais.

Talvez já houvesse atrapalhado. Na noite anterior, quando viu o assas­sino se aproximar dela, era tarde. Ele tivera todas as condições para matá-la. No entanto, tal e qual Albert Stucky, esse assassino a queria viva, e, por mais estranho que parecesse, isso a amedrontava mais. Maggie pressentia que compartilhar seus medos com alguém só intensificaria suas fraquezas. Havia sido melhor assim; deixaria Nick e todo o resto plantan­do a idéia de que partia por causa da mãe.

Forrou a mala com as roupas sujas, comprimindo-as e amassando ainda mais. O diretor Cunningham estava certo. Precisava urgentemente de férias. Viajaria com Greg para algum lugar quente, ensolarado, onde não escurecesse às seis da tarde.

O telefone tocou, e Maggie saltou como se tivesse ouvido o estrondo de um tiro. Já conversara com o doutor Avery. A mãe sobrevivera ao período de observação após a tentativa de suicídio e passava bem. Ela era boa nisso, no papel de paciente modelo, devorando a atenção extra que então recebia.

Maggie segurou o fone.

— Agente especial O’Dell.

Maggie, você ainda está aí? Pensei que estivesse a caminho de casa.

Sentou-se na cama. O cansaço tomou-a de súbito.

— Oi, Greg. — Torceu por uma saudação mais afetuosa, ouviu o chiado de papéis do outro lado e descobriu que só tinha metade da atenção do marido. — Embarco à noite.

— Ótimo, aquele boboca, então, deu meu recado ontem à noite?

— Que boboca?

— O imbecil que atendeu seu celular. Ele disse que você o deixara largado e que não poderia atender naquele momento.

Maggie apertou o telefone, seu pulso disparou.

— A que horas foi isso?

— Eu não sei... Tarde, meia-noite aqui. Por quê?

— O que você lhe disse?

— Não me diga que aquele babaca não lhe deu o recado.

— Greg, o que você disse para ele? — O coração batia contra as costelas dela.

— Quem são esses caipiras incompetentes que trabalham aí com você, Maggie?

— Greg. — Ela tentava manter a calma, segurar o grito que lhe subia pela garganta. — Eu perdi meu celular ontem à noite enquanto perseguia o assassino. Possivelmente, foi ele quem falou com você.

Silêncio. O chiado de papel também parou.

— Meu Deus, Maggie. Como eu iria saber? — Ele abaixou o tom de voz.

— Não havia como você saber. Não o estou acusando de nada, Greg. Apenas tente lembrar o que você falou para ele.

— Nada de importante... Pedi que você me ligasse porque sua mãe não estava bem.

Maggie deitou-se, afundou a nuca nos travesseiros e fechou os olhos.

— Maggie, precisamos conversar quando você chegar em casa.

Sim, conversariam em alguma praia, bebendo coquetéis de fruta, en­feitados com pequenas sombrinhas de papel. Conversariam sobre o que realmente importava: reencontrar o amor perdido, o respeito mútuo e os objetivos que os tinham unido.

— Eu quero que você saia do FBI — afirmou o marido, e ela soube então, que nunca haveria uma praia ensolarada para eles.

 

As passadas pesadas penetravam a camada de neve acumulada no chão e lançavam o farelo branco no ar. A neve lhe batia nos joelhos, grudava nas bainhas de sua calça e escorriam para dentro dos sapatos, congelando os pés. Seu próprio corpo não lhe pertencia, impulsionando-o através da vegetação, colina abaixo, numa velocidade que o faria perder o equilíbrio a qualquer momento.

Então, ele os escutou, as risadinhas, os gritos de euforia. Deslizou até se chocar com os arbustos, que serviram como uma barreira e impediram que ele rolasse até o circuito dos trenós. Como caiu, ficou. Enterrado na neve, a morte branca que sugava o calor de seu corpo. Tentava normali­zar a respiração, puxando o ar pela boca e expelindo vapor em seguida.

Deveriam ter ido para casa enquanto sua cabeça, desde então em silêncio, não o infernizava com aquelas batidas. Por que eles ainda esta­vam ali? Escureceria daqui a pouco? Encontrariam uma mesa de jantar arrumada ou um recado e a refeição no microondas? Os pais esperariam em casa para garantir que eles tirassem a roupa molhada? Alguém espe­raria em casa para colocá-los na cama?

Desistiu do esforço para bloquear as lembranças. Com o rosto escon­do na neve, ele torcia para que as palpitações se anestesiassem. Viu-se com 12 anos, vestido com uma jaqueta militar verde, sem o forro adequado para protegê-lo do frio. O jeans remendado possibilitava que a brisa fria tomasse seu corpo de assalto. Não possuía um par de botas. A nevasca parara toda a cidade, e não havia lugar para onde o padrasto pudesse ir a não ser a cama de sua mãe. Recebera ordens para sair de casa, "Brincar na neve com os amigos". O problema era que ele não tinha amigos. Os garotos do local só se dirigiam a ele para ridicularizar as suas roupas surradas e seu corpo franzino.

Após horas sentado no quintal gelado, assistindo aos meninos de trenó, ele voltara para casa, mas a porta continuava trancada. Pela madeira fina e o vidro frágil, ele conseguia ouvir os gemidos e os berros da mãe. Impossível distinguir o prazer da dor. Sexo tinha que ser assim? Não conseguia imaginar que cresceria e se divertiria com aquilo. Ao mesmo tempo, o alívio com o sofrimento da mãe o envergonhava. Ocupado com a mulher, o padrasto não penetraria e desfrutaria o corpo do enteado.

Naquele dia amargo, durante o tempo em que permaneceu sentado na neve, ele arquitetara um plano. Era tão simples, que requereria apenas um rolo de barbante. Na manhã seguinte, o padrasto voltaria de maca da oficina em que trabalhava no subsolo da casa. Nunca mais haveria ali humilhação e medo. No entanto, como ele poderia saber que a mãe desceria ao subsolo antes do padrasto naquele dia? Naquele dia em que a vida dele acabara, no dia em que um garoto mau pusera fim à vida da mãe.

De repente, algum animal obstruiu o fluxo de recordações. Estava em cima dele, fuçando, respirando. Ele se virou devagar e deparou-se com um cachorro preto, a centímetros do seu rosto. O cão lhe mostrava os dentes e grunhia. Com um só movimento preciso e súbito, ele envolveu com as mãos a garganta do animal, apertou e apertou. O grunhido virou gemido, o gemido engasgos, e então, o silêncio.

Observou os garotos saltarem e pularem, com os movimentos limitados pelas roupas grossas. Enfim, reuniam suas coisas e começavam a se despe­dir. Um menino chamou o cão diversas vezes, mas desistiu facilmente para não ficar para trás. Ao pé da colina, eles se dividiram. Três para um lado, dois para o outro, e um, sozinho, cruzou a área de estacionamento da igreja.

O cinza do céu mudou de claro para escuro. Os postes de iluminação pública começaram a piscar e a acender. Um jato atravessou o céu, o estrondo amplificado pela cidade branca e vazia. Não havia um só pedestre ou veículo quando ele entrou em seu carro. Vestiu o gorro de esqui, apesar da transpiração que já lhe tomava a testa e a faixa entre o nariz e o lábio superior. No assento ao lado, ele desdobrou um lenço de maneira meticulosa, como se fora parte de um ritual. Pegou a ampola no bolso do casaco, abriu-a e derramou seu conteúdo sobre o tecido. Manteve os faróis apagados e quase não acelerou o carro. Seguia vagaroso o andar do garoto, que arrastava o trenó laranja e chamativo, a caminho de casa.

 

O departamento do xerife contava com recursos para bancar uma frota de apenas cinco carros equipados para patrulhamento e investigação. Quatro estavam estacionados do lado de fora da sede do condado, quan­do Nick retornou. Ficou revoltado com a cena. O que seria necessário para que aquelas pessoas o ouvissem, o levassem a sério? Mas, afinal, não podia reclamar; a culpa era dele.

Nick vinha empurrando com a barriga o trabalho de xerife, a mesma atitude indiferente e desleixada que pautava sua vida. Agora, isso muda­ra. Mudara depois que caiu sobre o corpo ensangüentado de Danny Alverez. Mudara com Matthew Tanner e a suposição cruel de que um xerife de verdade teria salvo o garoto. No entanto, Platte City tinha no posto um lançador de futebol americano, mulherengo, formado em Direi­to, inexperiente, que se aproveitara da reputação do pai para arrebatar o distintivo, a arma e as demais regalias de autoridade. Arma que, por sinal, ele não usava desde a prática de tiro há dois anos, quando pleiteava o emprego.

O soco do ex-marido de Michelle Tanner lhe propiciara mais do que um queixo inchado. Lamentável que precisasse ter sido esmurrado para ganhar um mínimo de responsabilidade. Com a partida de Maggie, cabia a ele tomar as rédeas da situação. E saber como fazer isso constituía seu maior desejo no momento.

Pelo menos, até ele botar o pé no edifício do condado. Ao defrontar-se com a turba de repórteres conversando de forma estridente no saguão, tudo o que ele quis foi fugir dali. Cabos e fios se embolavam no piso de mármore, flashes e luzes o cegaram, repórteres empunharam uma dúzia de gravadores e microfones contra seu rosto e faziam perguntas, todos ao mesmo tempo.

Darcy McManus, uma ex-miss transformada em repórter de tevê, ar­mara com sua equipe uma barricada na escadaria. Posicionara-se no primeiro degrau com suas pernas longas, dificilmente ignoráveis. A saia curta fingia ser parte de um tailleur. Ela lhe oferecia abrigo a seu lado, diante de seu cinegrafista. Ele apertara o passo em direção à escada, seguido por microfones e gravadores e mantendo distância da ex-miss do Canal 5. No passado, ele teria aproveitado a oportunidade para uma cantada e, quem sabe, não descolaria o telefone dela. No momento, a intenção de Nick era abrir caminho até o escritório.

— Xerife, o senhor já tem algum suspeito? — Ela aparentava mais idade pessoalmente do que na tevê. De perto, a camada de maquiagem aplanando o relevo das rugas tornava-se visível.

— Sem comentários no momento.

— E verdade que Matthew Tanner foi decapitado? — indagou um homem, que trajava um terno caro.

— Meu Deus, onde, diabos, você ouviu isso?

— Então é verdade?

— Não, claro que não.

Nick voltou a ser envolvido pelo grupo de jornalistas.

— Xerife, e sobre o rumor de que senhor ordenou a exumação do corpo de Ronald Jeffreys? O senhor acredita que alguém foi executado no lugar de Jeffreys?

— O garoto sofreu algum abuso sexual?

— O senhor já achou a picape azul?

— Xerife Morrelli, o senhor pode pelo menos nos dizer se o garoto foi assassinado da mesma maneira? Há um novo seriai kiler?

— Em que estado o corpo de Matthew foi encontrado? — Parem! Um minuto — bradou Nick, com as mãos levantadas, para inibir mais perguntas. O burburinho cessou, os microfones e gravadores desceram à altura do seu peito, e os predadores o vigiavam. O silêncio repentino o intimidou. Ao pé da escada, ele examinou em volta, enquanto o suor escorria por suas costas. Arrumou o cabelo com os dedos e se deu conta das mãos trêmulas. Ele se acostumara a lidar com adulações, não com críticas e incredulidade.

Que diabos deveria lhes dizer? Na última vez, Maggie o tirara da dificuldade. Sem ela, estava exposto, vulnerável, e odiava tal situação Alcançou o corrimão para se livrar do cerco e subiu o primeiro degrau da escada, postando-se ao lado de Darcy McManus. Satisfeita, começou a ajeitar os cabelos e a roupa, preparando-se para a câmera. Nick não lhe deu bola e encarou do alto o aglomerado de gente. Canetas, gravadores e microfones prontos. Dentro dele, a vontade era dar-lhes as costas e partir escada acima três degraus por vez. Estaria seguro em seu escritório antes que eles reagissem para segui-lo. Afinal de contas, não lhes devia explicações. Nada disso o ajudaria a prender o assassino. Ou ajudaria?

— Todos vocês sabem que eu não posso revelar detalhes sobre os corpos das vítimas. Mas, pelo amor de Deus e pelo respeito que devemos à Sra. Tanner, o corpo de Matthew, eu repito, não foi decapitado. Isso não quer dizer que o cara não seja um filho da mãe, um louco.

— Ele é um serial killer, xerife? As pessoas merecem saber se devem trancar suas crianças em casa.

— As primeiras indicações mostram, sim, que Matthew foi morto pela mesma pessoa que assassinou Danny Alverez.

— Algum suspeito?

— É verdade que o senhor não tem nenhuma pista?

Nick recuou um degrau. Ele não tinha que dar satisfações. O acúmulo de pessoas e as luzes quentes o estonteavam. Abriu o zíper da jaqueta e afrouxou a gravata que o sufocava.

— Temos um ou dois suspeitos. Não posso adiantar mais nada. Não ainda. — Virou-se, subiu dois degraus e uma nova enxurrada de pergun­tas lançou-se contra ele.

— Quando o senhor vai poder nos dizer?

— Eles são moradores da cidade?

— Seu pai vai comandar as investigações a partir de agora?

— O senhor encontrou alguma pista da picape azul? Nick girou no degrau e quase perdeu o equilíbrio.

— Meu pai o quê?

Todos os olhos voltaram-se para o homem de terno caro, cabelos escuros, brilhantes, cortados e penteados com maestria. A barba rala. aparada e desenhada de forma perfeita, exibia vestígios grisalhos. Os sapatos de couro, também caros, o rotulavam como um forasteiro. Os sapatos e o jeito como empinou o queixo, com a impaciência de quem tinha coisa mais importante para fazer do que repetir perguntas para um xerife de cidade do interior. Nick quis agarrar o repórter pelo colarinho da camisa bordada com suas iniciais. Decidiu, entretanto, dar mais tempo ao visitante, apesar de sentir-se instável nos degraus de mármore. A neve que escorria de suas botas formava poças escorregadias, que o ameaçavam mandar escada abaixo. — _Por qual razão neste mundo meu pai chefiaria essa investigação?

— Ele prendeu Ronald Jeffreys — informou Darcy McManus voltada para a câmera, relembrando Nick de que seu fiasco era filmado. Desviando-se da câmera, manteve os olhos fixos no repórter almofadinha, irritado com sua expressão de tédio.

— Quando seu pai falou conosco hoje, foi essa a impressão que ele nos

— Ele está aqui? — A pergunta saiu automaticamente com o susto, e Nick logo se arrependeu de tê-la feito, expondo mais uma vez sua incom­petência.

— Sim, e a idéia que ele passou foi de que voltava para ajudar nas investigações. Ele disse literalmente... — Deliberadamente devagar, o homem folheou suas anotações. — "Eu já fiz isso uma vez. Eu sei o que procurar. Você pode apostar que esse cara não escapará deste velho cão de caça aqui." Não entendo muito de cães de caça, mas interpretei que isso significava que ele está aqui para atuar profissionalmente.

Os outros jornalistas concordaram com a cabeça. Nick olhou um por um enquanto suas entranhas se revolviam. A gola o estrangulava, a aquela fazia-o transpirar. Gotas de suor continuavam a escorrer por suas costas. Eles aguardavam. As palavras que soltasse deveriam ser pensadas, os gestos, medidos. Ele fantasiava as pessoas voltando em seus videocas­setes a gravação do noticiário da noite apenas para vê-lo de novo em fuga pelas escadas. Que se danem. Correu pela escada, subindo dois, três degraus de uma vez. Rezava para que não tropeçasse, para que a fita de vídeo não se encerrasse com ele estatelado no saguão.

Nick irrompeu no departamento jogando a porta contra a parede e a lata de lixo. O impacto rachou o vidro da porta, mas ninguém pareceu notar. Todos prestavam atenção nele, e não mais no homem alto e grisa­lho no centro deles.

A mesma equipe que não aceitava uma ordem dele sem um questiona­mento ou reclamação agrupava-se em torno do bem-apessoado cavalhei­ro, um sábio profeta que formava barriga sobre o cinto e que tinha as sobrancelhas grossas erguidas de indignação.

— Calma, filho. Você está danificando propriedade pública — repreendeu Antônio Morrelli, dedo apontado para o vidro rachado.

Mesmo com toda raiva e frustração, Nick encabulou-se, escondeu as mãos nos bolsos, abaixou os ombros e a cabeça. Numa fração de segundo ele se pegou pensando quanto custaria substituir o vidro.

 

Maggie tomou um gole de uísque e adotou como passatempo tentar adivinhar quem no aeroporto viajava a negócios e quem estava de férias. A tempestade atrasara os vôos e lotara o pequeno e mal iluminado sa­guão. O ambiente se resumia a um bar em formato de L, uma dúzia de cadeiras, maquetes de avião penduradas no teto e uma jukebox com mú­sicas como Leaving on a Jet Plane e Outbound Plane.

Pendurara a jaqueta preta e verde de fazendeiro na cadeira em frente para afugentar companhias indesejadas. Já despachara a bagagem, tudo exceto o laptop, escondido sob o casaco. Avaliava se deveria telefonar mais uma vez para a igreja de Santa Margarete. Ponderava se algo ruim Poderia ter acontecido. Caso contrário, por que padre Francis a deixaria plantada a esperar no hospital? Por que ninguém atendia o telefone na sacristia da igreja?

Pensou ligar para Nick. Começou a discar o número, mas desistiu antes de completá-lo. Ele tinha problemas demais para encasquetá-lo com seus Pressentimentos. Além disso, lhe faltavam moedas e gastara sua última nota de dez dólares no uísque que bebia e nos dois que havia tomado antes. Era hora do jantar, mas depois de dedicar a tarde a fatiar o diminuto corpo de Matthew Tanner, pesando pedaços dele e tateando os órgãos, decidira que merecia sim um jantar de scotch.

As marcas na coxa do menino eram mesmo mordidas humanas. O pobre George Tillie tirara da manga mil e uma explicações até conseguir conceber que alguém havia mordido Matthew repetidas vezes no mesmo lugar, impossibilitando o registro da arcada dentária. Mais bizarro ainda, o criminoso fizera isso horas depois da morte do garoto.

O assassino não retornara à cena do crime apenas para assistir ao circo da polícia. O cadáver lhe despertava alguma fascinação absurda, e ele cometia deslizes em seu ritual, antes precavido e cuidadosamente planejado. Alguma coisa o descontrolava e poderia levá-lo a deixar uma pista incriminatória.

Maggie recomendava a George que procurasse manchas de sêmen no corpo, pois existia a hipótese de o criminoso ter-se masturbado enquanto mordia o garoto. O rosto do experiente legista ficara roxo, e ele resmun­gara alguma coisa a respeito de fazer aquele trabalho sozinho.

Ela não culpava George por isso. Obviamente que sua presença ali era desconfortável para ele. A reverência do legista diante do cadáver não se diferenciava muito da que um padre assumia no altar, como se não qui­sesse perturbar a alma do garoto morto.

Ao contrário, Maggie falava alto para que seu gravador captasse sua voz e cortava o garoto com precisão clínica. Aquilo era um corpo sem vida, desprovido de sentimentos ou qualquer coisa. O que tivesse habita­do aquelas cavidades entre carne e ossos partira horas atrás. Apesar do pragmatismo, ela admitia haver algo de profano em cortar em pedaços o cadáver de uma criança. A pele lisa, sem pêlos, quase sem marcas ou cicatrizes, os ossos pequenos e perfeitos davam a impressão de que a vida nem passara por ali. Um desperdício do mundo, uma injustiça. Para isso, servia o uísque, para dar um sentido a tudo, para transportá-la a um lugar de onde não se importaria com nada, mesmo que temporariamente.

— Com licença, madame. — O jovem garçom chamou-a de volta à realidade. — O cavalheiro do outro lado do bar lhe oferece outra rodada de scotch. — Ele colocou o copo sobre a mesa dela. — E pede para entregar-lhe isso.

Maggie reconheceu o envelope e a letra de fôrma antes de botar a mão no bilhete. Seu pulso acelerou e a barriga contraiu. Levantou-se tão assustada, que a cadeira se desequilibrou.

— Que homem? — Ela se espichou para ver sobre o mar de mesas, cadeiras e passageiros. O garçom repetiu o movimento e expressou desapontamento.

— Ele deve ter ido embora.

— Como ele era? — apalpou por dentro do blazer para assegurar-se revólver preso sob seu seio esquerdo.

— Eu não sei... Alto, cabelo escuro, talvez 28 anos, talvez 30. Não prestei muita atenção. Algum problema...

Ela resvalou nele ao correr para a área de acesso ao saguão do aeroporto, em meio à multidão. Frenética, examinou quem ia e vinha, com a visão um pouco embaçada devido à bebida. A cabeça latejava, o coração sacudia.

No saguão, havia uma família com três crianças, vários executivos com suas maletas e laptops, um funcionário do aeroporto, duas mulheres grisalhas e um grupo de homens e mulheres negros em batas e turbantes coloridos. Ninguém alto, ninguém de cabelo escuro, ninguém sem bagagem.

Ele não poderia ter ido além dali. Rumo às escadas rolantes, no final do caminho, ela esbarrou em viajantes e quase tropeçou num carrinho abandonado. Uma escada descia, a outra subia. Ela subiu para ter uma visão geral do trajeto que percorrera. Nada, nenhum homem alto de cabelos escuros nos diversos grupos de passageiros. Ele havia escapado, escorregado por seus dedos mais uma vez.

Tomou o caminho de volta ao saguão, só então se dando conta do laptop sob a jaqueta. Apesar da multidão ociosa, ninguém tentara ocupar a mesa. Lá estavam seus pertences... e o envelope, escorado no copo de uísque, como o garçom o apresentara.

Sentou-se diante dela, engoliu o que restava da bebida em seu copo e o colocou de lado. Aceitou a oferta do oponente e estreou a nova dose, apesar do incômodo zumbido que invadia sua cabeça. Pretendia ficar grogue.

Pegou a mensagem com cuidado, pela ponta do envelope. o lacre rompeu-se facilmente, e, sem o tocar, ela deixou que o cartão caísse sobre o tampo da mesa. Nem uma garrafa inteira de scotch preveniria as pontadas de terror que as palavras lhe provocaram.

lamento que você tenha que partir tão cedo. talvez passe para uma visita ao seu apartamento Na próxima vez em que eu estiver em crest ridge. um abraço para greg.


 

Da passagem iluminada, ele viu Maggie O’Dell em disparada pelos de­graus da escada rolante. Ela corria com desenvoltura, uma atleta. Pressu­pôs que as pernas fortes ficariam bem em shorts apertados, apesar da imagem não despertar seu interesse.

Retirou o quepe e o casaco que pegara emprestado do funcionário dorminhoco do aeroporto e os atirou numa lata de lixo.

Estacionara o Lexus Toyota na área de desembarque com o rádio a todo volume. Com a música e o barulho dos aviões, ninguém nunca ouviria Timmy, caso ele acordasse mais cedo do que o previsto. Além disso, a caminhonete era bem vedada, quase à prova de som, o que também dificultava a passagem de ar.

Entrou no carro no momento em que um guarda de trânsito se acerca­va com o bloco de multas. Com uma só manobra, ele se afastou do meio-fio e contornou os carros que deixavam mais passageiros, malas e encomendas. O céu estaria um breu quando ele acomodasse Timmy no novo lar, mas a parada valera a pena pelo espanto da agente especial O’Dell.

O vento se intensificara, criava redemoinhos de neve e prometia mais frio para amanhã. O aquecedor a querosene, a lanterna e o saco de dormir, arrumados no banco de trás do carro para o acampamento cancelado, mostraram-se úteis, no final das contas. Era possível que parasse, de novo, em algum McDonald's. Timmy amava Big Macs, e ele também tinha fome.

Deixou o aeroporto com um aceno de obrigado para a senhora de cabelos pintados de vermelho, que freou o Mazda para lhe dar passagem. O dia não fora um desperdício, afinal. Exigiu tudo do motor, sem se importar com o escorregadio asfalto congelado. Recuperara o controle novamente.

 

— Esse cara está fazendo de você um trapalhão de merda. — Antônio Morrelli agia bem à vontade, sentado à mesa de Nick, balançando-se na cadeira de couro que lhe pertencera e dando um sermão no filho. A cadeira fora o único móvel da rebuscada mobília do pai que Nick não substituíra após herdar o posto de xerife.

— Você precisa gastar mais tempo com esse pessoal da tevê — prosse­guia o pai. — Repetir e repetir para eles que você sabe o que está fazendo. Na noite passada, Peter Jennings só faltou dizer que você é um caipira que não acha nem a própria bunda com uma lanterna. Droga, Nick, esse Peter Jennings não vale porra nenhuma.

Nick contemplava através da janela as ruas cobertas de neve, o hori­zonte escuro além dos postes de iluminação e a lua alaranjada que des­pontava.

— Mamãe veio com você? — perguntou ele do batente da janela, sem encarar o pai, fazendo ouvidos moucos aos insultos. Os dois jogavam daquele jeito há anos. O pai gritava baixarias e instruções, e Nick fingia que ouvia, quieto. Na maioria da vezes, ele acatava as orientações. Era o mais fácil a fazer, e era o que sempre se esperava dele.

— Ela ficou hospedada com a tia Minnie em Houston. O trailer também está lá — respondeu o pai, sem dar brecha para que o filho redirecionasse a conversa. — Você tem que começar a retirar os suspeitos das ruas.

— Você sabe, a escória de sempre. Traga-os aqui para interrogá-los. Faça parecer que você está por cima.

— Eu tenho mesmo suspeitos — disse Nick, de forma inesperada, o que o recordou que, de fato, tinha.

— Ótimo, vamos trazê-los. O juiz Murphy nos consegue um mandado de busca até amanhã de manhã. Quem são os suspeitos?

Nick se questionou se não fora fácil assim com Jeffreys: um mandado de busca de última hora, usado apenas depois de plantarem a prova contra o suspeito.

— Quem são os seus suspeitos, filho? — repetiu o pai.

Possivelmente, a vontade de chocar o pai o movia. Bom senso o man­teria de boca fechada. Mesmo assim, abandonou a vista da janela e disse para o ex-xerife:

— Um deles é o padre Michael Keller.

O pai parou de se balançar na sua ex-cadeira, a surpresa dando lugar à frustração no rosto do pai. A testa, já de textura de couro, franzira-se ainda mais.

— Que porra é essa que você está tentando fazer, Nick? Um padre, um padre de merda. A mídia vai te crucificar. Isso saiu da sua cabeça ou da cabeça da agente do FBI bonitinha, sobre a qual os rapazes estavam me falando?

Os rapazes. Os rapazes dele, Nick. O departamento dele, Nick. Podia imaginar as gargalhadas e as piadas sobre ele e Maggie.

— O padre Keller se encaixa no perfil traçado pela agente O’Dell.

— Nick, quantas vezes eu tenho que falar? Você não pode pensar com a cabeça de baixo, tem que usar a cabeça de cima.

— E isso que eu estou fazendo. — Fingindo olhar a rua, Nick virou-se para a janela, mas seu rosto estava vermelho de raiva.

— O’Dell faz coisas boas. Tenho certeza de que ela faz um excelente omelete para o café da manhã depois de uma noite de trepadas. Isso não significa que você deve dar atenção a ela.

Nick passou a mão pelo inchaço no queixo e pela boca para prevenir que a raiva se verbalizasse. Concentrou-se, engoliu a ira e voltou-se para o pai.

— Essa investigação é minha, a decisão é minha, e eu vou interrogar o Padre Keller.

— Ótimo. — Mãos para o alto, o pai se rendia. — Faça de você um babaca de merda. — Levantou da cadeira. — Enquanto isso, vou ver se Gillick e Benjamin podem me trazer alguns suspeitos verdadeiros. — Saiu do escritório.

Nick aguardou até o pai alcançar o final do corredor para acertar na parede um murro. O concreto áspero cortou os nós de seus dedos. O impacto lhe doeu até os ombros. Inspirou e expirou profundamente para que o ódio se assentasse, para que a dor suplantasse a humilhação e a frustração. Num impulso, limpou o sangue da parede com a manga da camisa branca. Já teria que pagar pelo vidro da porta e não podia financiar também a pintura da sala.

 

Nenhuma luz acesa em casa. Christine estacionou o carro na garagem, apoiou a caixa quente da pizza sobre o laptop e se conformava com um jantar solitário, pois Timmy se refugiara na casa de algum amiguinho. Dias atrás o filho chegara em casa com um livro de histórias que descrevia coisas como empadão de carne e purê de batatas, refeições não disponí­veis em latas, caixas e embalagens de papelão. Ele com certeza tinha memórias de quando a mãe preparava verdadeiros jantares e reunia todos à mesa, todos os dias, à mesma hora. Ela matutava se Timmy sentiria falta da vida em família. Estaria o filho arcando com os custos de sua luta por respeito próprio?

Tateou pelo saguão escuro até encontrar o interruptor. Por algum motivo, a quietude da casa lhe provocou um frio na barriga. Talvez tivesse sido só o vento. Fechou a porta com o pé e dirigiu-se para a cozinha, com uma escala na secretária eletrônica. Nenhuma luzinha vermelha pis­cando, nenhuma mensagem. Quantas vezes ela já recomendara a Tim­my para ligar e deixar recado? Não havia mais desculpas, principalmente depois que ela ganhara o celular cujo número, aliás, ela ainda não decorara.

Christine arremessou o casaco numa cadeira perto da geladeira e em­pilhou o computador e a bolsa sobre ele. O cheiro de pizza não a deixava esquecer o quão faminta estava. Depois da visita de Eddie Gillick à lanchonete, perdera o apetite pelo almoço de Wanda.

Encheu um copo com vinho, encaixou um jornal debaixo do braço e descolou um pedaço da pizza, usando um guardanapo como prato. Mãos ocupadas, livrou-se dos sapatos com dois chutes e se equilibrou até o sofá da sala de estar. Comer na sala, principalmente no sofá, era proibido, e ela corria o risco de o filho a flagrar a qualquer momento.

Pôs o jantar sobre a mesinha de centro e abriu o jornal. A edição vespertina estampou a mesma manchete da matutina: "Segundo corpo encontrado." De diferente no texto, a confirmação oficial da identidade do cadáver e aspas de George Tillie. Ela atribuiu a George a informação de que os crimes foram obra de um serial killer, uma vez que Nick não confirmaria aquilo.

Encerrara o artigo com uma declaração que Michelle Tanner lhe dera na segunda-feira, um apelo melodramático pelo retorno do filho. Após a citação, Christine acrescentou: "O apelo desesperado de uma mãe, mais uma vez, não mereceu atenção." Lendo, agora, soava exagerado, mas Corby havia amado.

Da própria matéria, foi para a coluna dos leitores para ver se alguma carta a mencionava. Abandonou o jornal ao se dar conta da hora. Fuçou atrás das almofadas pelo controle remoto e, acelerada, ligou a tevê no Canal 5.

Como sempre, Darcy McManus vestia-se de forma impecável, com um blazer roxo-escuro e uma blusa vermelha. Christine reparou no cabelo preto sedoso, nos olhos castanhos grandes, ainda mais expressivos devido à maquiagem. O batom combinava com o vermelho da blusa. Não era capaz nem de sonhar em estar ali, no lugar da ex-miss. Isso demandaria um armário cheio de roupas novas, o que o salário proposto por Ramsey lhe possibilitaria custear.

A idéia de passar do jornal para a televisão a excitava. A afiliada Omaha ABC contava com uma audiência de um milhão de pessoas no leste de Nebraska. Ela se tornaria uma celebridade e talvez até entrasse em rede nacional. Embora tivesse dito a Ramsey que precisava de tempo para avaliar, ela já estava com a decisão tomada. Não podia abrir mão do salário, não com todas as contas penduradas e a remota possibilidade de se desfazer da casa. Não, Christine não consideraria princípios naquele momento. Aceitaria a oferta na manhã seguinte, após conversar com Corby.

Finalizou o copo de vinho. Um outro pedaço de pizza viria bem, mas Christine estava morta para andar até a cozinha. Decidiu fechar os olhos por não mais de 15 minutos e imaginar as coisas que ela e o filho compra­riam com o novo salário. Em instantes, adormeceu.

 

— Por que você não come pelo menos um pedaço do seu Big Mac? — perguntava o homem com a máscara de um presidente já morto.

Timmy se encolhia no canto da cama. Cada vez que ele se movia, a cabeceira se arrastava no chão e produzia um ruído incômodo. Seus olhos perdiam-se pelo quarto, iluminado apenas por um lampião sobre uma caixa velha, cuja luz criava sombras assustadoras nas paredes rachadas. Ele tremia e não podia se controlar, exatamente como no último inverno, quando ficara tão doente que a mãe o levara para o hospital. A barriga também doía agora. Timmy estava desesperado porque não tinha idéia para onde e como fora levado.

O homem alto, de máscara, fora legal até agora. Quando o abordara perto da igreja para pedir informações, ele tapava o rosto com um gorro de esqui, do mesmo tipo que os bandidos usam para assaltar bancos nos filmes. Timmy, porém, não desconfiou. Fazia frio mesmo, e o homem parecia confuso e perdido, não perigoso. Mesmo quando ele saiu do carro para mostrar-lhe o mapa, Timmy não desconfiou de nada. Havia algo familiar nele. Naquele momento, então, o cara o agarrara e comprimira um pano branco contra o nariz dele. Depois disso, a última coisa da qual ele se lembrava era acordar ali.

O vento assobiava através das tábuas quebradas que cobriam a janela, mas o quarto permanecia quente. Timmy notara um aquecedor a quero­ sene no local. O pai acendia um igual quando ia acampar com ele. Isso muito tempo atrás, quando o pai gostava dele.

— Você sabe que precisa comer; não come nada desde o almoço. Timmy o observava, mais ridículo do que amedrontador, com sua suéter, jeans e tênis brancos. O tênis aparentava estar novinho, salvo o cadarço remendado com um nó. O homem guardava um par de botas de borracha grandes, pretas e sujas num saco plástico perto da porta. Intri­gara Timmy o fato de o modelo recente da Nike já ter um cadarço rompido. Se ele ganhasse um par daquele, seria mais cuidadoso.

Timmy reconhecia algo na voz abafada pela máscara, mas não seria capaz de definir o quê. Qual era o nome desse presidente da máscara? O cara de narigão, que renunciou. Como não conseguia se lembrar? Deco­rara os nomes dos presidentes no ano passado.

Gostaria de parar de tremer, mas o esforço para isso doía, então Timmy permitia que os dentes batessem.

— Você está com frio? Posso fazer alguma coisa por você? — indagou o mascarado. Timmy disse não com a cabeça. — Amanhã eu vou trazer as revistas em quadrinhos e as figurinhas de beisebol. — O homem levan­tou-se, apanhou o lampião e preparou-se para deixá-lo.

— Posso ficar com o lampião? — A voz de Timmy o surpreendeu; era calma e clara, apesar da tremedeira do corpo.

O homem olhou para ele, e Timmy pôde ver pelos buracos na máscara os olhos de quem sorria.

— Claro, Timmy. Vou deixar o lampião.

Ele não tinha dito seu nome. Será que o homem o conhecia?

O sujeito recolocou o lampião sobre a caixa, pegou o saco com as botas e partiu, trancando todas as fechaduras. Timmy deu um tempo, ouvindo as batidas do coração. Contou dois minutos e, com a certeza de que o homem não mais voltaria, reexaminou o quarto. As tábuas podres da janela eram a melhor pedida.

Saiu da cama e posicionou o trenó para usá-lo como escada. Quando deu o impulso rumo à janela, algo o puxou pela perna. Ele olhou para baixo e só então percebeu a algema em volta de seu tornozelo que, ligada a uma corrente, o prendia ao pé da cama. Puxou e puxou a corrente, mas não teve força nem para fazer a estrutura de metal da cama se mover. Ajoelhou-se e dirigiu a atenção para as algemas. Novamente, a força que empregara só havia causado danos a suas mãos e seu tornozelo. Desistiu.

Reparou no ambiente mais uma vez e se deu conta de que ali também tinham estado Danny e Matthew. Encolheu-se sobre o trenó como se quisesse se esconder.

— Meu Deus — rezou ele. Gritou, e o tremor em sua voz o assustou ainda mais. — Por favor, não me deixe morrer como Danny e Matthew

Tentou pensar em alguma coisa, alguma outra coisa, e começou a citar os presidentes em voz alta.

— Washington, Adams, Jefferson...

 

Após ligar várias vezes, e o telefone tocar, tocar, e ninguém atender, Nick dirigiu até a casa anexa à igreja, que funcionava como sacristia e residência dos párocos. Não queria ir para casa mesmo. Em algum mo­mento, o pai lá se alojaria. A desvantagem de morar na casa da família era que a família se reinstalava quando bem entendia. E embora a velha sede de fazenda tivesse o espaço necessário para abrigar os dois Morrelli, Nick não pretendia ver nem falar mais com o pai naquele dia.

A sacristia era uma casa rústica, ligada à igreja por uma passagem coberta. A igreja estava às escuras. Uma chama de vela podia ser identificada através dos vitrais. A sacristia, ao contrário, mostrava-se pronta para uma festa. Todas as luzes, externas e internas, acesas. Mesmo assim, Nick ficou em pé na porta por um longo tempo antes que alguém respon­desse a seus chamados.

O padre Keller recebeu-o, vestido com a longa batina preta.

— Xerife Morrelli, desculpe a demora. Estava no banho — disse ele, sem surpresa, como se aguardasse sua visita.

— Tentei ligar um monte de vezes antes de vir pessoalmente.

— E mesmo? Estive aqui a tarde inteira... mas eu confesso que não ouço o telefone do meu banheiro. Entre.

O fogo recém-alimentado ardia na grande lareira, o centro das aten­ções no salão. Um tapete oriental colorido e várias cadeiras no espaço em frente a ela. Livros amontoavam-se perto de um dos assentos. Livros de arte, atentou Nick. Degas, Monet, pintura renascentista. Tolice imaginar que padres só liam sobre religião e filosofia. Eram pessoas normais com outros interesses, hobbies, paixões, vícios.

— Por favor, sente-se. — Padre Keller apontou para uma das cadeiras Apesar de Nick conhecê-lo apenas de algumas missas de domingo, era difícil não simpatizar com o cara. Jeito de criança, alto, forte, bonito, o padre transmitia uma calma que fez Nick se sentir imediatamente confor­tável na presença dele. Verificou as mãos do clérigo. Limpas, sem cicatrizes, unhas cortadas, lixadas e sem vestígio de cutícula. Definitivamente não pareciam mãos de quem estrangulava crianças. Maggie acertara longe do gol. Esse cara nunca mataria garotinhos. Nick deveria estar interro­gando Ray Howard.

— Aceita um café? — ofereceu o padre, que soava genuíno na tenta­tiva de agradar o visitante.

— Não, obrigado. Isso não vai demorar muito. — Nick abriu a jaqueta e puxou uma caneta e um bloco. A mão doía, o sangue minava pelo curativo. Ele a encolheu para dentro da manga do casaco, a fim de não ter que explicar o motivo da ferida.

— Lamento não poder acrescentar muita coisa, xerife. Eu acho que simplesmente ele teve um infarto.

— Como?

— Padre Francis. E isso que o traz aqui, não?

— O que houve com o padre Francis?

— Oh, meu Deus, eu lamento. Eu pensei que fosse por isso que o senhor tinha vindo. Estamos supondo que ele infartou e caiu da escada para o subsolo nesta manhã.

— Ele está bem?

— Infelizmente, ele morreu. Que Deus o tenha. — O padre Keller abaixou a cabeça e evitou o olhar de Nick.

— Meu Deus, eu lamento. Eu não sabia.

— E um choque para todos nós. Você foi coroinha de padre Francis? Na igreja velha?

— A impressão é que isso foi há muitos séculos. — Nick acompanhava o movimento do fogo, recapitulando como padre Francis parecia fraco quando conversara com ele e Maggie.

— Mas xerife, por favor. Se não veio aqui por causa de padre Francis, como posso ajudá-lo?

Por um momento, o motivo da visita lhe escapou. Por um momento, apenas. O perfil traçado por Maggie voltou a sua memória. Padre Keller tinha as mesmas características. O pé descalço batia com o tamanho 44, por aí. Contudo, como as mãos, os pés estavam limpos, sem marcas do frio, de pedras e galhos.

— Xerife Morrelli, o senhor está bem?

— Sim, estou bem. Na verdade, eu gostaria de lhe fazer algumas perguntas sobre... sobre o acampamento de verão que o senhor organiza.

— O acampamento da igreja? — A expressão revelava alarme ou confusão? Não dava para ter certeza.

— Danny Alverez e Matthew Tanner participaram do acampamento no último verão.

— E mesmo?

— O senhor não sabia?

— Nós tivemos mais de 200 garotos no último verão. Seria ótimo se eu pudesse conhecer todos, mas simplesmente não há tempo hábil para isso.

— O senhor tira fotos com todos eles?

— Como?

— Meu sobrinho, Timmy Hamilton, tem uma foto dele e mais 15 ou 20 garotos com o senhor e o Sr. Howard.

— Ah, sim. — Padre Keller passou a mão pelo cabelo e chamou a atenção de Nick o fato de que eles não estavam molhados. — As fotos da canoa. Nem todos os garotos se classificam para as corridas, mas, sim, tiramos fotos com os que se classificam. O Sr. Howard é um instrutor voluntário. Nós tentamos incluir Ray no maior número possível de ativi­dades da igreja, desde que ele deixou o seminário no ano passado e veio trabalhar conosco.

Howard esteve no seminário. Nick aguardou mais informações.

— Timmy Hamilton é seu sobrinho? Ele é um grande garoto.

— É, eu sei. — Questionaria mais sobre a vida de Howard, ou a tática do padre era justamente tirar os holofotes de cima de si mesmo? Qual a necessidade de mencionar que Howard abandonara o seminário?

— O senhor organizava um acampamento similar em sua paróquia anterior, no Maine. Não é verdade? — Nick checava as folhas em branco do bloco para disfarçar. — Wood River, não é isso? — Ficou à espreita de uma reação nervosa, mas ela não veio.

— Ê isso mesmo.

— Por que o senhor deixou Wood River?

— Porque me ofereceram uma posição de padre aqui, com mais in­fluência sobre a paróquia. O senhor pode chamar isso de uma promoção.

— O senhor soube algo sobre o assassinato de um garoto em Wood River um pouco antes de sua partida?

— Vagamente. Não tenho certeza se estou entendendo a lógica de suas perguntas, xerife. O senhor está me acusando de saber algo sobre esses assassinatos?

Ainda não demonstrava alarme, não havia recuado para a defensiva ficara apenas com voz mais serena.

— Estou checando todas as pistas possíveis, padre. — Nick sentiu-se ridículo. Como Maggie conseguira que ele acreditasse que um padre católico era capaz de matar alguém? De repente, veio-lhe o lampejo. — Padre Keller, como o senhor sabia que fui coroinha de padre Francis na igreja velha?

— Não sei. Padre Francis deve ter comentado. — Pela segunda vez, o padre evitou encará-lo. Uma batida na porta os interrompeu. Padre Keller foi atender, rápido como se aflito para sair daquela situação. — Certa­mente, não estou vestido de forma apropriada para receber visitas. — Ele sorriu para Nick enquanto reajustava a batina no corpo.

Nick aproveitou a oportunidade para se aquecer no fogo da lareira. Caminhou pelo salão. Uma estante de livros preenchia uma parede intei­ra. Do lado oposto, uma janela ampla, com suportes no batente para plantas. Na decoração escassa, destacava-se um crucifixo de madeira escura, extremamente polida. O limite da cruz acima da cabeça do Cristo era pontiagudo, como ele nunca havia visto. Quase um punhal. Em torno da imagem, algumas pinturas originais de um pintor obscuro. Interessan­tes, apesar de Nick entender pouco sobre arte. As pinceladas em cores vibrantes eram hipnóticas, misturando amarelos e vermelhos em um cam­po roxo.

Foi enquanto imerso nos quadros que Nick as avistou. Enfiadas por trás do acabamento da lareira de tijolos, botas de borracha pretas, ainda sujas de neve, sobre um velho capacho. Padre Keller mentira sobre estar em casa há horas? O par de botas poderia pertencer a Ray Howard.

Do saguão, Nick escutou vozes alteradas. Um frustrado padre Keller e uma mulher inquisidora. Nick correu até a entrada, onde viu o padre tentando manter a calma e a frieza diante de Maggie O’Dell, que o metralhava com perguntas.

 

Nick não reconhecera de cara a voz de Maggie, mais aguda, mais alta e beligerante. Afinal, tratava-se de uma mulher que se apresentava como a essência do controle.

— Eu quero ver o padre Francis agora — ela gritou, empurrando o padre Keller, sem o deixar falar. Maggie quase carregou Nick junto. Recuou dois passos, assustada com o encontrão. Seus olhos se encontra­vam de novo. O olhar dela, selvagem, combinava com falta de controle da voz.

— Nick, o que você está fazendo aqui?

— Posso fazer-lhe a mesma pergunta? Você não tinha um vôo esta noite?

A jaqueta, visivelmente maior do que o tamanho dela, dava-lhe uma aparência franzina. Sem maquiagem e com o cabelo desgrenhado pelo vento, ela passaria tranqüilamente por uma estudante.

— Os vôos estão atrasados.

— Com licença. — Padre Keller interrompeu a conversa dos dois.

— Maggie, você ainda não foi apresentada ao padre Michael Keller. Padre Keller, esta é agente especial Maggie O’Dell.

— Então, você é Keller? — O tom de acusação na voz dela foi evidente . — O que fez com o padre Francis?

De novo, beligerante. O novo estilo confundia Nick. O que acontecera com a mulher fria que fazia ele parecer o cabeça-quente?

— Eu tentei explicar... — Padre Keller tentou novamente.

— Tem mesmo que dar explicações. Padre Francis combinou de se encontrar no hospital comigo esta tarde, mas não apareceu. — Ela se virou para Nick. — Eu liguei para cá durante toda a tarde, até a noite — Maggie, por que você não entra e se acalma?

— Eu não quero me acalmar. Eu quero respostas. Eu quero saber que diabos está acontecendo aqui.

— Houve um acidente esta manhã — explicou Nick, pois padre Keller não conseguiria. — Padre Francis caiu da escada para o subsolo e morreu

Ela silenciou. Seu corpo inteiro se enrijeceu.

— Um acidente? — De Nick, voltou-se para padre Keller. — Nick, você tem certeza de que isso foi um acidente?

— Maggie.

— Como você pode ter certeza de que ele não foi empurrado? Alguém examinou o corpo? Eu faço isso se necessário.

— Uma autópsia? — repetiu padre Keller.

— Maggie, ele era velho e frágil.

— Exatamente. Por que ele estaria então descendo a escada para o subsolo?

— Ali era a nossa adega — acrescentou padre Keller.

Maggie o encarou e fechou os punhos. Não o surpreenderia se ela acertasse um direto no padre. Nick não sabia que tática ela estava usando. Se estava interpretando a policial má ou a policial boa. Queria que ela lhe desse uma pista, um sinal.

— Onde o senhor está pretendendo chegar, padre Keller? — indagou ela, finalmente.

— Como assim? Não estou querendo chegar a lugar nenhum.

— Maggie, acho que é o caso de irmos embora — afirmou Nick, segurando-a gentilmente pelo braço. Imediatamente, ela se livrou do toque e disparou um olhar contra ele que o fez recuar. Encarou padre Keller mais uma vez e, sem dar aviso, empurrou os dois para o lado e tomou o caminho da porta.

Nick olhou para o padre, que parecia tão embaraçado e tonto quanto ele. Sem dizer uma palavra, seguiu Maggie sacristia afora. Alcançou a mulher na calçada. Pensou freá-la pelo braço, mas refletiu melhor e decidiu dar um trote para se pôr ao lado dela.

— Que diabos foi aquilo? — exigiu ele.

— Ele está mentindo. Eu duvido de que isso tenha sido um acidente.

— Padre Francis era um homem idoso, Maggie.

— Ele tinha algo importante para me falar. Quando nos falamos pelo telefone esta manhã, tenho certeza de que havia alguém na extensão. Minha aposta é que era Keller. Você não pode ver, Nick? — Ela parou e se virou para ele. — Quem escutou a conversa decidiu deter padre Fran­cis, antes que ele tivesse oportunidade de me contar o que queria. Uma autópsia pode mostrar se ele foi empurrado...

— Maggie, pare. Não vai haver autópsia. Keller não empurrou nin­guém e eu acho que ele não tem nada a ver com os assassinatos. Isso é loucura. Precisamos começar a buscar os suspeitos verdadeiros. Precisa­mos...

Ela estampou no rosto uma expressão de náusea, empalideceu, abai­xou os ombros, com os olhos cheios d'água.

— Maggie?

Ela deu meia-volta e partiu na carreira para fora da calçada, para trás da sacristia, sobre a neve e longe da iluminação pública. Protegida do vento e amparada por uma árvore, ela dobrou o corpo e vomitou. Nick fez uma careta e manteve distância. Agora, ele entendia a beligerância. Maggie se embebedara.

Esperou até que ela terminasse, de costas para a cena. Não queria constrangê-la, caso o esforço a tivesse deixado.

— Nick.

Quando ele se virou, Maggie se distanciava dele, por trás da sacristia e na direção das árvores que separavam a propriedade da igreja da colina onde as crianças costumam brincar.

— Nick, olhe. — Ela parou, apontou. Maggie tinha alucinações, de­duziu ele. Quando olhou na direção indicada, imediatamente também sentiu o estômago embrulhar. Estacionada, enfiada entre as árvores, uma picape velha azul com um estrado de madeira na caçamba.

 

— Vou conseguir que o juiz Murphy nos dê um mandado de busca amanhã de manhã. — Nick ainda explicava a história quando eles reocuparam o quarto de hotel. Maggie torcia para que ele calasse a boca. A cabeça a torturava e continuava enjoada. Por que cometera a sandice de beber tanto uísque com o estômago vazio?

Jogou o computador e o casaco de fazendeiro em cima da cama e desabou ao lado deles. Tivera sorte de obter o quarto de volta com tantos motoristas impossibilitados de seguir viagem por causa da neve.

Nick permaneceu na porta, sem saber muito bem o que fazer, mas tampouco sem mostrar intenção de partir.

— Inacreditável o jeito como você enfrentava Keller. Meu Deus, eu jurava que você iria socá-lo.

Da cama, sem mover o tronco e os membros, ela girou a cabeça para o lado da porta.

— Eu sei que você não acredita em mim, mas Keller está envolvido nisso. Agora, entre ou vá embora, mas não fique em pé aí com a porta aberta, pois eu tenho um resquício de reputação a preservar.

Ele riu, entrou, fechou a porta, mas nem por isso relaxou. Passou a andar em círculos pequenos no espaço estreito em frente à cama. Assim ficou até perceber o esforço que ela faria para focá-lo. Pegou então uma cadeira e sentou.

— E aí, o que você aprontou? Organizou uma festinha de despedida?

— Parecia uma boa idéia naquele momento.

— Você não vai perder seu vôo?

— Acho que eu já perdi.

— E sua mãe?

— Eu ligo de manhã.

— Jogou tudo para o alto só para tirar um tasco de Keller?

Ela suspendeu o tronco apoiada em um dos cotovelos, explorou os bolsos da jaqueta ao lado. Entregou-lhe um pequeno envelope e retornou à posição original.

— O que é isso?

— Eu estava no café do aeroporto quando o garçom me entregou, dizendo que um sujeito mandara. Só que esse sujeito deu o fora enquanto o garçom me entregava o envelope com uma dose de uísque.

Ele leu o bilhete, mostrou-se confuso, e ela se deu conta de que não comentara sobre o primeiro bilhete.

— É do assassino.

— Como ele sabe onde você mora e o nome de seu marido?

— Ele está me investigando, jogando comigo, cavucando meu quintal como eu estou fazendo no dele.

— Nossa, Maggie.

— Isso não é uma coisa rara de acontecer. Funciona como uma disputa de território. — Ela fechou os olhos e massageou as têmporas. — Nin­guém atendeu o telefone na sacristia durante horas, mais do que o tempo necessário para ir e voltar do aeroporto.

Quando ela abriu os olhos, Nick a observava. Ela se sentou sem pestanejar, sentindo-se exposta sob sua vigilância preocupada. Nick arrastara a cadeira para bem perto da cama. Os joelhos dos dois quase se tocavam. O quarto começou a girar, pendendo para a direita. A sensação era de que a mobília deslizaria pelo declive.

— Maggie, você está bem?

Ela mirou bem fundo nos olhos azuis dele e a corrente de atração entre os dois se restabeleceu, antes que ele a tocasse e acariciasse seu rosto. Maggie repousou na mão dele, fechou os olhos novamente e deixou que o corpo absorvesse a tontura e a energia transmitida por Nick. Subita­mente, ela fugiu do contato, rolou pela cama e se levantou pelo lado oposto ao que ele estava. De pé, ofegante, escorava-se com as duas mãos abertas na lateral do armário. Pelo espelho, notou a aproximação dele por trás. Os olhos de ambos se encontraram pelo reflexo. A barriga dela se contraiu e, dessa vez, não por causa do excesso de álcool.

Maggie o observava cada vez mais perto, até a distância mínima quando pôde sentir a respiração dele em sua nuca. Ele se curvou e a beijou no pescoço. O moletom velho descera de um dos ombros, e para lá os lábios macios e úmidos dele se deslocaram lentamente. Percorreram as costas, e quando terminaram o circuito, em sua nuca, ela tinha dificulda­des para respirar.

— Nick, o que você está fazendo? — murmurou ela, surpresa com sua reação, sem nenhum domínio sobre a situação.

— Eu quero tocá-la há dias.

A língua alcançou sua orelha. Maggie dobrou os joelhos, e, do armário, passou a se escorar no corpo dele, com medo de cair para trás.

— Essa não é uma boa idéia. — O sussurro, que não convencera nem a ela, não barrou as mãos firmes e grandes, que a envolveram pela cintura. Uma das palmas pressionava de leve sua barriga, provocando-lhe arrepios e um amolecimento nas pernas.

— Nick. — Sem efeito. Ela não podia falar, não podia respirar, e a boca suave e sedenta de Nick a devorava, a explorava. As mãos dele subiam pelas laterais do corpo. Maggie reparou que uma delas estava enfaixada. Quis perguntar o que havia ocorrido, mas só conseguia se concentrar na própria respiração.

Assistiu pelo espelho às mãos de Nick se moverem para o centro, engolirem seus seios e girarem para afagá-los. Maggie se rendia, indefesa. Era demais. Uma sobrecarga para os sentidos. Ela já estava molhada entre as pernas quando uma das mãos dele escorregou para lá. Os dedos gentis e hábeis a puseram perto do limite. Ao discernir isso, buscou forças para se virar e afastá-lo. No entanto, traiu-se quando tocou o peito dele. Agora, era a vez das mãos dela o explorarem, desabotoarem a camisa, desesperadas pelo acesso à pele dele.

Ele estremeceu quando suas bocas finalmente se encontraram. Ela hesitou, surpresa pelos próprios gemidos, pela necessidade que sentia. Urgência intensificada pelas delicadas mordidelas dele, que persistiram até Maggie não poder mais suportar e beijá-lo com a mesma vontade. De novo, parecia entregue. Voltou a buscar o apoio do armário, última saída para romper com o magnetismo entre os corpos quentes. Ela ansiava por ar, quando a boca de Nick liberou a sua e correu pelo pescoço até os seios. Nick sugou os mamilos, mesmo cobertos pela malha do agasalho. O carinho a fez tombar contra o armário. O barulho do choque do ombro contra madeira deu a Maggie uma nova oportunidade para intervir.

— Meu Deus, Nick. — Ela precisava parar, mas não conseguia. O quarto girava novamente. Seus ouvidos zumbiam. O coração batia forte, e o sangue disparava pelas veias. O toque nas orelhas era constante. Não, não eram seus ouvidos. Era o telefone — a realidade resgatando-a do próprio limite.

— Nick... o telefone.

Ele estava de joelhos diante dela; parou e olhou para cima. Tinha as mãos na cintura dela, e os olhos repletos de desejo. Como havia deixado que ele chegasse tão longe? Fora o uísque, a zoada em sua cabeça. Foram aquela boca deliciosa e aquelas mãos fortes. Droga, ela necessitava se controlar.

Livrou-se dele e cambaleou até o criado-mudo. Derrubou a base do aparelho no chão ao atendê-lo, ficando só com o fone na mão. Posicio­nou-se de costas para Nick ou não venceria a tremedeira.

— Alô — disse ela, desapontada por ainda mostrar-se sem fôlego. — Maggie O’Dell.

— Maggie, graças a Deus eu a encontrei. E Christine. Eu não sei o que fazer. Perdão por ligar tão tarde. Tentei localizar Nick, mas ninguém sabe onde ele está.

— Calma, Christine. — Maggie olhou para Nick.

A menção ao nome da irmã despertou-o do transe. Os dedos se atra­palharam para abotoar a camisa, como se acabasse de ser flagrado. Maggie cruzou os braços para conter o frisson nos seios. A passagem da boca dele por ali ainda os excitava, e o moletom estava úmido. Voltou-se para a parede, impedindo-se de se distrair com Nick. Tirou os cabelos do rosto e prendeu-os atrás das orelhas.

— Christine, o que aconteceu?

— E Timmy. Ele não estava em casa quando eu cheguei. Eu pensei que ele tivesse ido brincar na casa de um amigo, mas eu já telefonei para todos, e ninguém o viu desde esta tarde. Eles estavam esquiando na colina perto da igreja. Os outros garotos disseram que o viram caminhando para casa, mas ele não está aqui. Meu Deus, Maggie, ele não está aqui. Isso foi há cinco horas. Eu estou apavorada, não sei o que fazer.

Maggie tapou o bocal do fone, sentou-se na borda da cama, antes que os seus joelhos a derrubassem.

— Timmy desapareceu — disse ela, calmamente, apesar do pânico que revolveu o estômago vazio. Os olhos de Nick se encheram do seu próprio pavor.

— Meu Deus, não pode ser — ele murmurou. Os dois se encararam A atração e o fogo mútuos foram instantaneamente substituídos pela conclusão medonha.

 

Christine roia as unhas, resgatando um hábito de infância. O pai andava de um lado para o outro da sala de estar. Quando telefonara para Nick e o pai atendera, ela, embora surpresa, sentira um mínimo alívio. Agora, no entanto, não lhe transmitia nenhuma paz o homem marchando à sua frente, vociferando ordens para os assistentes do xerife, que lotavam a casa e o jardim. Sua presença enfatizava a sensação de desamparo, ao transformá-la na garotinha invisível de sempre, incapaz de qualquer coisa sozinha.

— Por que você não vai se deitar, meu amor? Descanse um pouco — propôs o pai em uma de suas idas e vindas.

Ela apenas mexia a cabeça, sem forças para responder.

Não sabendo o que mais fazer, ele simplesmente a ignorou.

Quando Nick e Maggie atravessaram o saguão apinhado de gente, Christine saltou e quase correu para abraçar o irmão. Vacilou, conteve-se e tremeu sobre os joelhos fracos. Mesmo em estado de pânico, jogar-se nos braços do irmão caçula provocava-lhe embaraço. Como se compreen­desse o dilema, Nick tomou a iniciativa. Acercou-se, hesitou por alguns segundos, mas puxou-a contra o peito e a envolveu com seus braços fortes, sem dizer uma palavra sequer. Até então, a soldadinha do pai havia se mantido firme, reprimido seus sentimentos. O gesto do irmão, contudo, desencadeou um choro de soluçar, sofrido, descontrolado. Ela abafava os gemidos, com o rosto apertado contra o jeans áspero da jaqueta de Nick.

 

O corpo inteiro doía, devido às tentativas frustradas de estancar os tre­mores.

Gentilmente, Nick sentou-a no sofá, mantendo um braço em seus ombros. Quando enfim levantou o rosto, Maggie lhe oferecia um copo d'água. Esforçou-se para beber sem derramar a água. Buscou o pai, sem se espantar por ele ter desaparecido. Antônio Morrelli não toleraria tama­nha demonstração de fraqueza.

— Você tem certeza de que verificou com todo mundo em todos os lugares? — perguntou Nick.

— Liguei para todos. — O nariz obstruído distorcia-lhe a voz. Era difícil respirar. Maggie entregou-lhe um punhado de lenços de papel. — E todos dizem a mesma coisa: ele foi embora para casa quando a brinca­deira na neve acabou.

— Ele poderia ter parado em algum lugar no caminho? — indagou Maggie.

— Eu não sei. Além da igreja, não há casas entre nós e a colina. Eu tentei telefonar para a sacristia, mas ninguém atendeu. — Christine re­parou na troca de olhares dos dois. — O quê? O que foi?

— Nada — mentiu Nick. — Maggie e eu estávamos na sacristia mais cedo. Vou verificar o que papai ordenou a meus homens. Já volto.

Maggie tirou o casaco e sentou-se perto dela. A impecável agente O’Dell vestia um agasalho desbotado e surrado de um time de futebol e jeans. O cabelo desarrumado, e a pele rosada.

— Tirei você da cama? — perguntou Christine. A indagação constran­geu Maggie.

— Não, de jeito nenhum. — Ela ajeitou os cabelos com os dedos e abaixou o rosto, como se só agora notasse o visual desleixado. — Na verdade, eu estava voltando para casa... para minha casa, na Virgínia. Meu vôo atrasou, eu despachei toda a minha bagagem. — Maggie verifi­cou a hora no relógio de pulso. — Provavelmente, ela deve estar em algum lugar em Chicago neste momento.

— Você pode pegar alguma coisa minha emprestada, se quiser. Maggie avaliou a proposta. Christine apostaria a sua casa que ela recusaria.

— Você não se importaria? — Maggie deu a deixa.

— Claro que não. Venha.

Christine a conduziu até seu quarto, surpresa por encontrar ainda energia no corpo e aliviada por achar algo com que se ocupar. Fechou a porta do cômodo, sem vedar o ruído e a gritaria. Christine abriu o armário e várias gavetas. Era mais alta do que Maggie. Se não por isso e pelos seios mais volumosos da agente, as duas vestiriam o mesmo tamanho.

— Por favor, vá em frente. — Christine sentou-se na beira da cama, enquanto Maggie, apreensiva, examinava uma suéter vermelha de gola rulê em uma das gavetas.

— Acho que você não vai ter um sutiã do meu tamanho.

— Na gaveta de cima, à esquerda, apesar de achar que os meus serão muito pequenos para você. Tem uns com elásticos maiores, pelo menos.

Maggie não aparentava estar muito à vontade. Há muito tempo Chris­tine não assistia a uma amiga se trocar, e vice-versa. Considerou a possi­bilidade de sair do quarto, mas, antes que se mexesse, Maggie tirou o moletom e tentou vestir um sutiã cinza, desses usados para a prática de esportes. Espremeu a peça de roupa contra os seios como se vestisse uma camisa-de-força. Christine pensou em virar de lado, mas a cicatriz no abdômen da agente, transversal à linha dos seios, lhe prendeu a atenção. Pelo espelho, Maggie percebeu.

— Perdão — disse Christine, sem desviar o olhar. — Desculpe pergun­tar, mas é uma cicatriz cirúrgica?

— Não, não é. — Não havia acanhamento na resposta, e sim pertur­bação. Maggie passou o dedo pelo relevo do pontilhado vermelho da cicatriz. O ombro dela também tinha marcas e um corte. — Isso foi um presente — continuou ela, quase com reverência. — Uma lembrança de um assassino que eu ajudei a capturar.

— Não posso nem imaginar as coisas horríveis que você já deve ter vivido.

— E parte do trabalho. Você tem uma camiseta ou um top que eu possa usar em vez do sutiã?

— Na gaveta mais perto do chão, à esquerda. Como você evita que isso a afete?

— Eu não disse que isso não me afeta. — Maggie se libertou do sutiã e optou por uma camiseta creme. Satisfeita, ela a enfiou para dentro da calça. — Eu tento não ficar matutando sobre isso.

A suéter vermelha de gola rulê também ficou justa, mas a camiseta ajudou a amenizar os efeitos. Ela deixou o agasalho para fora da calça. — Obrigada — disse ela, não mais de frente para o espelho.

— Os corpos de Danny e de Matthew foram bem cortados, não foram? Antes, Christine sondava os detalhes mais macabros para enriquecer suas matéria. Agora, os motivos eram pessoais.

O questionamento deixou mesmo a pragmática e direta Maggie con­fusa.

— Nós vamos encontrar Timmy. Nick já ligou para o juiz Murphy. Nós vamos conseguir um mandado de busca e já temos um suspeito.

O lado repórter de Christine deveria estar lançando perguntas à agen­te. Quem é o suspeito? Para que o mandado? No entanto, o lado mãe não afugentava da cabeça a imagem de seu garotinho frágil sozinho, num canto escuro, em algum lugar. Conseguiriam achá-lo antes que alguém perfurasse e marcasse sua pele delicada e branca?

— Ele se machuca tão facilmente.

Christine sentiu os olhos encherem-se d'água. O medo a corroia por dentro. Maggie aquietou-se e onde estava ficou, do outro lado do quarto. Respeitou a distância, ao que Christine ficou grata. Ela não desmoronaria, não agora, diante daquela mulher que suportou um louco cortando o seu corpo. Essa mulher que, aparentemente, drenara toda a emoção de sua vida nela injetara simultaneamente determinação. Era isso que Christine precisava fazer. Chorar não auxiliaria Timmy em nada.

Enxugou as lágrimas que escapavam pela face e pôs-se de pé, fortale­cida, enfrentando o pavor que a assombrava.

— Diga-me o que eu posso fazer para ajudar — dirigiu-se a Maggie, com a voz ainda trêmula.

 

Quinta-feira, 30 de outubro

O sol iluminou o cubículo através das frestas entre as tábuas e despertou Timmy. Não se lembrou onde dormira até sentir o cheiro do querosene e do mofo nas paredes. A corrente bateu contra a cama de metal quando ele se sentou. O corpo doía por ter dormido encolhido dentro do trenó de plástico. O estômago vazio revolvia-se de medo e pânico. Ele precisava se conter dessa vez para evitar as convulsões de antes.

— Pense em coisas boas — falou sozinho e alto.

Com a luz do sol, ele notou os pôsteres que cobriam as paredes racha­das e descascadas. Pareciam os de seu quarto. Vários do Nebraska Cornhuskers, um do Batmam e dois diferentes de Guerra nas estrelas. Prestou atenção nos ruídos. Não havia carros por perto, só o vento assobiando por entre as tábuas e estalando os pedaços de vidro da janela.

Tinha certeza de que, se pudesse alcançar a janela, seria capaz de arrancar a madeira podre de lá. A abertura era pequena, mas ele também. Poderia pelo menos gritar por socorro. Tentou em vão arrastar a cama. Para piorar, a fome o enfraquecia. Sentia-se meio tonto.

Forrou a boca com algumas batatas fritas. Frias, mas salgadas. Debaixo da caixa, achou uma barra de chocolate, um saquinho de Cheetos e uma laranja. Estava um pouco enjoado, mas devorou a laranja, o chocolate e abriu o Cheetos, enquanto examinava a corrente que o prendia à cama.

Pelas fendas dos elos de metal não passaria nada mais grosso do que uma folha de papel. Impossível rompê-los ou desencaixá-los pelas rachaduras Não adiantava. Não dispunha da força suficiente. Como odiava ser tão pequeno e fracote.

Ouviu passos em direção à porta. Subiu na cama e se enfiou debaixo das cobertas. As fechaduras giraram uma a uma, e a passagem se abriu.

O homem entrou devagar, mal conseguindo se movimentar com o casaco grosso de esqui, as botas longas de borracha e uma meia-calça sobre a cabeça e o rosto mascarado.

— Bom dia — balbuciou o recém-chegado. Desta vez, não tirou o casaco nem as botas, sinal de que a visita não se estenderia. Trazia um saco de papel marrom. — Eu tenho umas coisinhas para você. — A voz era amigável.

Timmy chegou para a borda da cama, demonstrando interesse e fin­gindo não estar com medo.

O homem deu-lhe diversas revistas em quadrinhos, todas velhas, mas em bom estado, que, Timmy supôs, ele teria acabado de comprar; os preços — 12 e 15 centavos — , entretanto, fizeram-no mudar de opinião. Do saco, o mascarado também tirou um bolo de figurinhas, amarradas com um elástico. Desempacotou cereais de chocolate, barras de chocola­te, biscoitos salgadinhos de milho e pacotes de macarrão instantâneo, enchendo a caixa onde Timmy descobrira seu café da manhã.

— Tentei escolher suas comidas preferidas — afirmou o cara, obvia­mente querendo agradá-lo.

— Obrigado — agradeceu Timmy, sem que a mãe precisasse lhe cobrar a regra de boas maneiras. Novamente, os olhos do homem brilharam como se ele sorrisse por trás do disfarce. — Como você sabe que eu amo cereais de chocolate?

— Eu apenas não me esqueço das coisas — respondeu. — Não posso ficar. Você precisa de mais alguma coisa?

O homem apagou o lampião, e Timmy voltou a dar-se conta do medo que sentia.

— Vai voltar antes de escurecer? Eu detesto ficar no escuro.

— Vou tentar. — Antes de sair, olhou de novo para ele, na cama. Suspirou e, então, vasculhou os bolsos.

— Vou deixar meu isqueiro com você, para o caso de eu não retornar. Mas cuidado, não vá incendiar a casa. — Jogou o isqueiro de metal lustroso na cama, perto de Timmy, e partiu.

O pânico voltou a incomodar sua barriga. Bem, também poderia ser por causa de todas as porcarias que comera. Não gostava de castigos, não gostava de ficar preso. Se o homem não voltasse, teria o dia inteiro para planejar uma fuga. Apanhou o isqueiro e sentiu o relevo do objeto com o dedo. Timmy examinou o desenho gravado nele e reconheceu o cume de montanha marrom-escuro. Vira-o diversas vezes nas jaquetas que seu avô e seu tio vestiam. Era o símbolo do departamento do xerife.

 

O cheiro do café deixou Maggie enjoada, mas parecia a única medida eficaz contra os efeitos do uísque. Provou dos ovos mexidos e da torrada, enquanto vigiava a entrada da lanchonete. Nick tinha dito que não demoraria mais do que 15 minutos; há uma hora. O pequeno refeitório abarrotava-se — o rush do café da manhã. Fazendeiros ao lado de execu­tivos, estes ao lado de mulheres em tailleur.

Incomodara Maggie abandonar Christine nesta manhã, apesar de ter a consciência de que sua presença não resultava em muito consolo. Pala­vras amigas e pegar na mão nunca tinham sido o seu forte. Afinal de contas, sua única experiência ocorrera aos 12 anos de idade. Uma criança desengonçada rebocando a mãe bêbada por um lance de escadas ate o apartamento deteriorado da família. Nenhuma palavra ou cortesia fora necessária no trato com uma pessoa embriagada. Além disso, para uma agente do FBI, a etiqueta era dispensável. Nesse tipo de situação, cabia a ela lidar com os cadáveres e os psicopatas. Interrogar familiares de vítimas não requeria muito mais do que condolências formais, ou, pelo menos, disso ela se convencera há muito tempo.

Na noite anterior, simplesmente se sentira inútil, impotente. Mal co­nhecia Christine. Um jantar certamente não a obrigava a nenhuma de­monstração de amizade. Mesmo assim, o rosto pequeno e sardento de Timmy permanecia gravado na memória de Maggie. Nos oito anos de perseguição a criminosos, não se envolvera pessoalmente com nenhuma das vítimas. Entretanto, cada corpo a acompanhava, fantasmas em seu inconsciente. Não podia e não queria crer que incluiria Timmy em seu portfólio de imagens torturadas e torturantes.

Finalmente, Nick retomava. Acenou para ela de pronto, mas, no caminho até a mesa, fez várias escalas para cumprimentar e saudar pes­soas. Vestia-se com o tradicional uniforme: jeans, botas de caubói e jaque­ta jeans. Desta vez, variava com um moletom vermelho do Nebraska Cornhuskers por baixo do casaco. O inchaço sumira do queixo, dando lugar a um pequeno hematoma. Ele parecia exausto. Não se preocupara em pentear o cabelo depois do banho ou barbear-se. Estava ainda mais bonito do que a imagem que ela guardara na mente.

Nick ocupou o banco oposto ao de Maggie ao mesmo tempo que pegou o cardápio atrás do porta-guardanapos.

— O juiz Murphy está postergando o mandado de busca para a sacristia — contou em voz baixa, durante a análise do cardápio. — Ele não tem problemas com a picape, mas acha...

— Oi, Nick. O que posso fazer por você?

— Oh, como vai, Angie?

A troca de cumprimentos entre Nick e a linda garçonete loura não deixara em Maggie nenhuma dúvida de que a mulher costumava oferecer mais do que cafés da manhã para ele.

— Como você tem andado? — continuou a garçonete, em tom casual, sem contudo tirar os olhos de Nick.

— Numa correria danada. Gostaria apenas de um café e uma torrada. — Ele se desviou do olhar de Angie. Sem graça, falava mais rápido.

— Torrada de pão integral, certo? E muito creme no café?

— Isso, obrigado — concluiu, aflito para que a loura fosse logo embora.

Assim ela agiu, com um sorriso, sem dar bola para Maggie. Agora, Porque, antes da chegada de Nick, mostrara-se curiosa a ponto de encher três vezes a xícara de café da forasteira.

— Uma velha amiga? — inquiriu Maggie, ciente de que não tinha esse direito, mas se divertindo em vê-lo inquieto e encabulado.

— Quem? Angie? Ah, sim. Acho que você pode chamá-la dessa ma­neira. — Pegou o celular de Christine do bolso de seu casaco, colocou-o sobre a mesa e tirou a jaqueta. — Detesto estes aparelhinhos — disse, numa tentativa desesperada de mudar de assunto.

— Ela é bem interessante — tripudiou Maggie.

Ele fixou os olhos azuis nos de Maggie e lembrou-lhe o que se passara entre os dois na noite anterior.

— Ela é, sim, mas não deixa as palmas das minhas mãos suadas e os meus joelhos bambos como você deixa — disparou Nick em voz baixa sério e lhe provocando o já conhecido frio na barriga.

Maggie olhou para o lado e ocupou-se em espalhar a manteiga pela torrada, como se, de repente, lhe tivesse batido fome.

— Nick, sobre a noite passada...

— Espero que você não pense que eu tentei me aproveitar de você. Quero dizer... Você havia bebido para caramba.

Maggie, de relance, voltou a olhar para ele. Nick se inclinava para a frente com os braços apoiados no tampo da mesa. Sério, genuinamente receoso. A noite passada teria realmente significado mais para ele do que as aventuras corriqueiras com garçonetes? No fundo, esse era o desejo dela.

— Acho que é melhor esquecermos o que aconteceu ontem — senten­ciou Maggie.

Com uma leve careta, ele se mostrou ferido, mas logo se recompôs.

— E se eu não quiser esquecer? Maggie, faz muito tempo que eu não me sinto como eu estou me sentindo agora. Eu não posso...

— Por favor, Nick. Eu não sou uma garçonete ingênua. Sem falas decoradas ou fingimentos...

— Eu não decorei nada. Ontem, quando eu pensei que nunca mais a veria de novo, eu me senti como se alguém tivesse me socado o estômago. E depois, Maggie, à noite, você me virou pelo avesso. Eu fiquei totalmente entregue. Acredite, isso não me acontece com as mulheres.

— Nós estamos gastando muito tempo juntos, estamos os dois exauridos.

— Eu não estava exaurido, e você também não.

Ela o encarou. Era tão óbvio o quanto o desejara ou aquilo era simples­mente o ego dele?

— O que você esperava que acontecesse, Nick? Está frustrado por não poder acrescentar mais um nome a sua lista de conquistas? — Ela reparou em volta. Ninguém parecia notar o intercâmbio nervoso de sussurros entre eles.

— Você sabe que não se trata disso.

— Então é a atração pelo proibido. Eu sou casada, Nick. Talvez não seja o melhor casamento do mundo, mas, mesmo assim, significa algo. Por favor, vamos esquecer a noite passada e pronto. — Maggie abaixou a cabeça e sentiu os olhos dele ainda nela.

— Aqui está: a torrada e o café — interrompeu Angie, sem que o fim da conversa representasse alívio para Maggie. Quem sabe ela também preferiria não esquecer?

A garçonete colocou o prato e a xícara na frente de Nick, forçando-o a recuar, embora mantivesse a atenção em Maggie, que suspeitou de que a jovem bonita percebera a tensão.

— Mais alguma coisa? — perguntou para Nick.

— Maggie, mais alguma coisa? — replicou ele, para constranger Angie.

— Não, obrigada.

— OK — despediu-se Angie, agora ansiosa por sair dali. Houve um momento desconfortável de silêncio.

— Você disse que o juiz Murphy está adiando a busca na sacristia. Por quê? — Maggie redirecionava a conversa, ainda evitando olhá-lo e adi­cionando mais açúcar no café. Antes de responder, Nick dedicou-lhe um suspiro de resignação.

— Murphy e meu pai são de uma geração que crê que com padres e igreja não se brinca — disse ele, espremendo e não espalhando a manteiga na torrada.

— É possível obter o mandado ou não?

— Eu argumentei que nosso suspeito é Ray Howard.

— Você ainda pensa que é Howard?

— Eu não sei. — Ele colocou a torrada de lado, sem dar uma única mordida. Com a mão enfaixada, cocou o queixo machucado e áspero da barba por fazer.

— O que aconteceu com sua mão?

Ele fixou o olhar na mão por alguns segundos, como se fosse incapaz de lembrar.

— Não foi nada. Ouça... — Nick apoiou os braços na mesa e inclinou os ombros para a frente. Com o movimento, Maggie aspirou o que restava da loção pós-barba do dia anterior. Percebera também o nervosismo dele com a pergunta, da qual ele tentava se esquivar. Só não notara que Nick operava sua atenção.

— Desculpe — disse Maggie, largando a colher, recolhendo os braços e, finalmente, olhando-o.

— Padre Keller me disse ontem que Ray Howard deixou o seminário no ano passado. Enquanto aguardava Murphy, eu chequei que Howard foi seminarista em Silver Lake, New Hampshire. Isso é bem perto do limite com o Maine, a uns 700 quilômetros de Wood River.

Agora Nick tinha toda a atenção de Maggie, que se aprumou na cadeira.

— Por quanto tempo ele ficou lá?

— Os últimos três anos.

— Bem, isso o exclui do caso de assassinato em Wood River.

— Talvez, mas, ainda assim, seria uma senhora coincidência. Três anos no seminário, e ele deve saber um pouco também sobre os últimos sacramentos.

— Ele estava em Silver Lake quando os primeiros assassinatos ocorre­ram aqui?

— Hal está checando isso para mim. Eu falei com o diretor do seminá­rio. Padre Vincent não me deu detalhes, mas me contou que Howard foi convidado a se retirar devido a conduta imprópria. — Nick narrou a história como se provasse algo para ela.

— Conduta imprópria num seminário pode ser quebra de voto de silêncio, cuspir na calçada. Eu não sei, Nick. Howard não me parece arrojado o bastante para aprontar essa coisa toda.

— Pode ser que seja nisso que ele queira que as pessoas acreditem. Maggie observou Nick dobrar o guardanapo até o menor tamanho possível e desdobrá-lo até o formato original. Embaixo da mesa, os pés batucavam, nervosos, o piso.

— Tanto Howard quanto Keller teriam tido a oportunidade de se livrar de padre Francis.

— Meu Deus, Maggie. Eu pensei que você dizia isso ontem por causa da bebida. Desconfia realmente de que não foi um acidente?

— Padre Francis me disse ontem pela manhã que tinha algo muito importante para me contar. Eu sei que alguém escutava nossa conversa na extensão. Eu pude ouvir o clique.

— Coincidência.

— Aprendi há muito tempo que poucas são as coincidências. Uma autópsia pode revelar se ele caiu ou foi empurrado.

— Sem evidências; não podemos requisitar uma autópsia. — Irrequieto, Nick abandonara o guardanapo e rodopiava o celular sobre a mesa.

— Podemos falar com família de padre Francis, com a arquidiocese.

— O problema, Maggie, é que nós não temos tempo para esperar permissões, autópsias ou mandados. Eu só quero colocar esse Howard contra a parede, pressioná-lo.

Ele cismara com Howard. Maggie não podia crer. Será que era deses­pero, busca de respostas fáceis? Para não polemizar, ela argumentou:

— Keller ou Howard, nós precisamos de cautela. Se o assassino entrar em pânico...

Maggie não completou a frase. Lembrou-se a tempo que desta vez era Timmy, sobrinho de Nick, e não uma vítima anônima. Ela não havia ainda compartilhado com ele a dedução de que o assassino se adiantava e desvirtuava o ritual de seus crimes. Contudo, de alguma maneira, Nick pressentia o fato.

— Nós não temos muito tempo — disse ele. Nick se tornava especia­lista em ler sua mente. — O maldito está adiantando as coisas, não está?

Ela confirmou com a cabeça.

— Vamos sair daqui. — Ele jogou uma notas sobre a mesa, sem contá-las, e vestiu a jaqueta. Maggie seguiu-o.

— Aonde vamos?

— Eu preciso confiscar uma picape, e você tem que pedir desculpas ao padre Keller pela noite passada.

 

O padre Keller vestia-se de forma mais solene quando abriu a porta da sacristia, logo após celebrar a missa da manhã. No entanto, Nick de imediato reparou no contraste entre os tênis brancos e a longa batina preta.

— Xerife Morrelli, agente O’Dell. Que surpresa.

— Podemos entrar por alguns minutos, padre? — Nick esfregava as mãos para espantar o frio. Apesar de o sol ter dado o ar da graça pela primeira vez em muitos dias, o amontoado de neve e o vento mantinham a temperatura abaixo de zero. Mesmo para a região de Nebraska, esse não era o clima típico de Halloween.

Padre Keller calou-se e, ao passar os olhos em Maggie, deu a Nick a impressão de que se esquivaria de recebê-los. Ao fim, sorriu e abriu

passagem. A grande lareira garantia o mesmo ambiente quente e acon­chegante do salão de estar. A diferença agora era um ligeiro cheiro desa­gradável de queimado, como se algo além de lenha tivesse sido jogado no fogo. Nick, de cara, pensou na hipótese de padre Keller estar escondendo alguma coisa.

— Não sei como posso ajudar vocês. Na noite passada...

— Padre Keller — cortou Maggie, de volta à tradicional frieza. — Eu gostaria de pedir desculpas pelo que aconteceu na noite passada. — Havia uma faísca de indignação nos olhos dela. — Eu bebi demais e lamento pelo meu antagonismo. Não era nada pessoal contra o senhor, e espero que me entenda e aceite minhas desculpas.

— Claro que eu entendo. Estou aliviado por não ser nada pessoal, pois, afinal de contas, nem nos conhecíamos.

A intervenção de Maggie mudou a fisionomia do padre. Mais relaxado, ele trouxe as mãos, antes escondidas atrás das costas, para junto do quadril.

— Estava prestes a preparar um chá para mim. Vocês aceitam?

— Nossa visita é oficial, padre — disse Nick.

— Oficial?

Contrariado, o padre afundou as mãos até o pulso nos bolsos longos da batina, sem alterar porém o tom de sua voz — uma habilidade que os clérigos deveriam aprender no seminário, Nick especulou. Ele sacou da jaqueta e desdobrou o mandado de busca diante do padre, enquanto explicava:

— Na noite passada, notamos que o senhor tem uma picape velha estacionada nos fundos da igreja.

— Picape? — Padre Keller demonstrou surpresa. Ele de fato desconhe­ceria a existência do veículo ou a reação calculada também fazia parte do aprendizado?

— Aquela no meio das árvores. Uma testemunha do rapto de Danny Alverez descreveu que o garoto entrou numa igual no dia de seu desapa­recimento. — Nick aguardou. Maggie não se manifestava, mas ele sabia que ela memorizaria cada piscada de olho do padre.

— Eu não sei nem se aquela velharia ainda anda. Acho que Ray a usa quando vai cortar lenha perto do rio.

Nick entregou o mandado ao padre. O clérigo segurou o papel por uma das pontas e o analisou como quem manuseava um organismo alienígena viscoso.

— Como eu lhe disse na noite passada, padre, nós estamos checando to­das as pistas. O senhor tem conhecimento das críticas recentes ao meu de­partamento. Quero verificar todas as possibilidade para ter certeza de que ninguém vai nos chamar mais de negligentes. O senhor tem as chaves?

— Chaves?

— Da picape?

— Eu duvido de que ela esteja trancada. Deixe-me colocar um casaco e umas botas para eu ir lá atrás com você.

— Obrigado, padre. É muita gentileza. — Nick observou o padre apanhar o par de botas de borracha ao lado da lareira, o mesmo que ele havia visto na noite anterior. Os sapatos sujos eram, então, de Keller, mas ele dissera que não havia arredado pé da sacristia Contudo, considerou Nick, dois passos lá fora para pegar mais lenha já cobririam as botas do padre de neve.

Os três tomaram a direção da saída. De forma inesperada, Maggie se segurou em uma pequena mesa e se debruçou sobre ela.

— Droga, acho que vou passar mal de novo — murmurou ela.

— Maggie, você está bem? — Nick cochichou para padre Keller:_

Ela passou a manhã inteira assim. — Em seguida, para Maggie: — Caram­ba, o que você bebeu na noite passada?

— Posso usar seu banheiro?

— Claro, claro — disse padre Keller. Os olhos fixos no tapete pérola denunciavam que ele zelava mais pela decoração do que por Maggie._

No fundo do corredor, segunda porta à direita — indicou, sem tardar, como se apressasse Maggie.

— Obrigada. Vão que eu os alcanço. — Ela desapareceu pelo corredor, com uma das mãos na barriga.

— Ela vai ficar bem? — Padre Keller exprimiu preocupação.

— Vai, sim. E melhor manter distância, mesmo. Há pouco, ela lambu­zou todo o meu par de botas.

O padre fez uma careta, checou as botas de Nick e o acompanhou até o terreno atrás da sacristia.

A neve bloqueou o acesso ao carro, e eles tiveram que retirar o acú­mulo do caminho com uma pá e, depois, cavar mais para desobstruir as portas do veículo. Nick abriu a picape com dificuldade, forçou até produ­zir um estalo e um rangido. O fedor de mofo armazenado não demorou a atacar suas narinas. A cabine tinha o aspecto de estar fechada e sem uso há anos. Decepcionado, farto de pistas que não o levavam a lugar ne­nhum, Nick se enfiou pelos bancos com sua lanterna e sem idéia do que buscava. Se não fosse a corrida contra o relógio, ele convocaria peritos para a tarefa.

Deitado sobre o estofado sintético rasgado, ele torceu os braços para tatear sob os bancos. O espaço apertado restringia seus movimentos. O volante espremia sua barriga e o câmbio lhe estocava o peito. A situação se assemelhava a namorar no velho Chevrolet do pai, hábito dos seus 16 anos. Naquela época, além de não doer tanto, o corpo dele era certamen­te mais flexível.

— Eu não posso imaginar que encontre alguma coisa além de ratos nessa banheira velha — opinou padre Keller.

— Ratos? — Ele tinha nojo de ratos.

Tirou a mão rapidamente de baixo dos bancos, esbarrando com o curativo numa mola exposta. Fechou os olhos contra a dor e mordeu o lábio inferior para conter o palavrão. Abriu o porta-luvas com um soco e iluminou o buraco com a lanterna.

Revistou o compartimento: uma lata enferrujada de WD-40, um bolo de guardanapos do McDonald's, uma caixa de fósforos de um lugar cha­mado Pink Lady, uma lista dobrada com compromissos, endereços e có­digos estranhos anotados e uma chave de fenda pequena. Examinou a caixa de fósforos, sob o olhar de padre Keller. Antes de fechar o porta-lu­vas, passou os dedos por trás dos objetos, no fundo da cavidade. Achou alguma coisa pequena, lisa e cilíndrica, que colocou sobre a palma da mão, junto à caixinha de fósforos. Guardou os dois itens no bolso, assegurando-se de que estava fora do campo de visão do padre. Percebeu também anotações escritas a mão na lista de endereços. Incapaz de en­tender a letra, enfiou o papel na manga da jaqueta. Bateu a portinha do compartimento.

— Nada aqui — disse ele, passando o papelzinho da manga para o bolso. Deu uma última olhada na cabine. Apesar do cheiro de mofo, tudo — painel, assentos, tapetes — se encontrava bem limpo.

— Lamento que você tenha perdido seu tempo — afirmou padre Keller, já em direção à sacristia.

— Ainda falta a caçamba.

O padre parou, hesitou e voltou. O vento castigava a longa batina. O ruído lembrava o estalo de um chicote. Dessa vez, Nick detectou frustra­ção e impaciência nos olhos azuis de Keller. Se não se tratasse de um padre, Nick diria que ele estava fulo da vida. Não importa o que fosse, havia algo naquela caçamba, algo que deixou Nick apreensivo e ansioso para revistá-la.

 

Através da janela, Maggie certificou-se de que Nick ainda se dedicava à picape, com padre Keller a seu lado. E prosseguiu a busca pelo longo corredor. Encostava o ouvido em cada porta fechada e abria as destranca­das para uma olhada geral no aposento. Vários escritórios e uma dispensa. Finalmente, ela achara um quarto de dormir.

O cômodo era simples, pequeno, com piso de madeira e paredes bran­cas. Um crucifixo pendurado sobre a cama de solteiro. No canto, um mesa com duas cadeiras. No lado oposto, um carrinho de chá com uma velha torradeira e uma chaleira. Um abajur ornamentado sobre o criado-mudo destoava da decoração. Afora o abajur, nada chamava atenção. Não havia pilhas de coisas, gavetas ou caixas.

Preparava-se para partir quando reparou em três gravuras emoldura­das na parede da porta. Uma ao lado da outra, eram reproduções de pinturas renascentistas. Apesar de não reconhecer nenhuma delas, Mag­gie identificou o estilo: os corpos perfeitos congelados em meio à ação, o movimento, a cor. Todas retratavam a tortura de um homem. Aproxi­mando-se, ela leu a inscrição abaixo de cada uma delas.

"O Martírio de São Sebastião, 1475, Antônio Del Pollaivolo" — um São Sebastião resignado, amarrado a um pedestal com flechas sendo lançadas contra seu corpo. "O Martírio de Santo Erasmo, 1629, Nicolas Poussin" — anjos sobrevoando os homens que torturam o santo; um dos agressores arranca um pedaço do intestino do mártir.

Maggie perguntava-se por que alguém penduraria imagens como aque­las no quarto de dormir. A última gravura era "O Martírio de Santo Hermes, 1512, Matthias Anatello", um homem amarrado a uma árvore recebendo golpes de facas e machados. Ela já se dirigia à porta, quando algo na reprodução captou de volta sua atenção. No peito do homem torturado, dois cortes ensangüentados e sinuosos atravessados e formavam uma cruz ou, do ângulo de Maggie, um X torto. Claro, agora tudo se encaixava. Os talhos no tórax de cada garoto não eram um X, mas uma cruz, uma cruz que fazia parte do ritual do assassino, uma marca, um símbolo. Acredita­ria que estivesse transformando esses meninos em mártires?

Ela ouviu passos. Cada vez mais próximos. Maggie saiu do quarto no exato momento em que Ray Howard deixava o salão e virava à esquerda para o corredor. Ele ficou confuso, mas não a ponto de não notar a mão dela na maçaneta.

— Você é aquela agente do FBI — acusou ele.

— Sou e estou aqui com o xerife Morrelli.

— O que você fazia no quarto de padre Keller?

— Ah, este é o quarto de padre Keller? Eu, na verdade, procurava o banheiro.

— Está procurando no lugar errado. O banheiro fica do outro lado do corredor — apontou, visivelmente desconfiado dela.

— Ah, sim. Obrigada. — Maggie encolheu-se para passar entre ele e a parede. Parou em frente à porta correta. — É esta?

— É.

— Obrigada mais uma vez. — Permaneceu alguns segundos dentro do banheiro com o ouvido colado na porta. Botou a cabeça para fora e viu Ray Howard desaparecer para dentro do quarto de padre Keller.


 

Nick trepou no monte de neve que enchia a caçamba da picape.

— O senhor pode me passar a pá, padre?

O padre, imóvel, assistia às pernas de Nick afundando na neve. Keller mantinha as mãos sem luvas junto ao peito, os dedos entrelaçados, pron­tos para rezar. O vento desgrenhava seu cabelo ondulado e escuro. As bochechas rosadas de frio contrastavam com os olhos azuis.

— Padre Keller, a pá, por favor? — Desta vez, Nick apontou a ferra­menta e obteve uma resposta do padre.

— Oh, claro. — Foi até a árvore onde a pá estava encostada. — Não creio que vá encontrar algo que lhe possa ser útil aí.

— Veremos.

Nick teve que se abaixar para pegar a pá da mão de Keller, que não se esforçou para erguê-la até ele. A hesitação do padre bombeava adrenalina em Nick. Havia algo ali, pressentia. No início, cavou um pouco exaltado. Depois, deu-se conta de que melhor seria desacelerar, para não se arriscar a jogar fora uma prova com a neve. E era muita neve. Como ele acharia um indício de qualquer coisa ali? A madeira que aumentava a altura das laterais da caçamba vibrava com as rajadas de vento. O frio penetrava a jaqueta de Nick, queimava seu rosto e seus olhos; fazia-o sentir-se como aquelas almofadinhas em que a avó espetava dezenas de alfinetes para não os perder. Mesmo assim, as costas transpiravam, e as mãos suavam dentro das luvas de couro, encontradas junto da pá, no almoxarifado.

O sofrimento cessou no instante em que algo duro, encoberto pela neve, bloqueou a passagem da pá. O barulho seco trouxe padre Keller para junto da caçamba, do buraco que Nick cavara na neve.

Nick retirou com a pá a neve ao redor do objeto. Jogou a ferramenta para o lado, ajoelhou-se e deu seqüência ao trabalho com as mãos, curioso para identificar a forma e o relevo do achado. O gelo grudara no objeto; não importa o que fosse, era quente ao ser arremessado sobre o amontoa­do de neve.

Finalmente, Nick enxergou o que parecia um tecido, uma pele. Seu coração disparou. As mãos, afoitas, forçavam e quebravam pedaços de gelos e neve. Um bloco inteiro cedeu, e Nick recuou a cabeça com surpresa e nojo.

— Meu Deus — disse ele.

Ele se virou para o padre, que se esquivava da cena com os olhos fecha­dos. Comprimido na tumba de neve havia um cachorro morto, com a maior parte do pêlo preto arrancada, a pele talhada e a garganta cortada.


 

Nick e padre Keller se encontravam na entrada da sacristia e subiam os degraus de acesso quando Maggie chegava ao vão da porta. Nick, ansioso por saber sobre a busca pela casa, verificou se a fisionomia dela revelava algo. O sorriso da agente para o padre não lhe deu nenhuma pista.

— Melhor? — Padre Keller ainda soava genuinamente preocupado.

— Muito. Obrigada.

— Foi ótimo você não ter ido conosco — disse Nick, enjoado. Quem faria uma coisa daquelas a um cão indefeso? Sentiu-se ridículo por ainda ter dúvidas. Era óbvio quem havia feito aquilo.

— Por quê? O que você achou? — Maggie quis saber.

— Eu lhe conto mais tarde.

— Vocês aceitariam um chá agora? — ofereceu padre Keller.

— Não, obrigado. Nós precisamos...

— Sim, por que não? — Maggie interrompeu Nick. — Talvez isso acalme meu estômago. Claro, se não for inconveniente.

— Não é, não. Vamos lá. Vou ver se temos alguns brioches ou bolo. Entraram os três de novo na sacristia, Nick atento a algum sinal de

Maggie. Queria entender seu repentino entusiasmo em partilhar o chá com bolo do padre que ela tanto desprezava.

— E bom vê-la prestigiar o comércio local. — Padre Keller brincou ao ajudá-la com o casaco de fazendeiro.

Ela retribuiu o sorriso, sem explicar os trajes, e rumou para o salão da lareira. Nick ficou limpando as botas no capacho da entrada. Dali, acom­panhou o padre, de costas para ele, seguir com os olhos o balanço do jeans justo de Maggie. Foi uma mirada longa, excessiva. Quando Keller se virou para trás, Nick fingiu enfrentar problemas com o zíper da jaqueta. Antes que a suspeita e a raiva perturbassem seu raciocínio, ele deduziu que o padre era um homem como outro qualquer. Maggie estava demais naquela calça e na suéter apertada, e só um homem com o cérebro morto não daria uma boa espiada.

Nick juntou-se a Maggie perto da lareira, e padre Keller deixou os dois a sós.

— O que está acontecendo?

— Você tem o celular de Christine?

— Está na minha jaqueta.

— Pegue, por favor.

Nick ainda aguardava alguma explicação, mas Maggie agachou-se para o fogo e aqueceu as mãos. Quando ele voltou com o aparelho, Maggie fuçava as cinzas da lareira com o atiçador. Nick ficou de guarda, dando-lhe cobertura.

— O que você está fazendo? — Era difícil cochichar com os dentes trincados de frio.

— Cheirava a borracha queimada isso aqui.

— Ele vai voltar a qualquer momento.

— Agora já era, virou cinza.

— Creme, limão ou açúcar? — Padre Keller apareceu com uma ban­deja completa. Quando ele a colocou sobre um banco perto da janela, Maggie já se pusera de pé ao lado de Nick.

— Limão — respondeu Maggie, casualmente.

— Creme e açúcar, por favor — pediu Nick, dando-se conta do pé batendo no chão com nervosismo.

— Se vocês me dão licença, eu preciso dar um telefonema — anunciou Maggie, de repente.

— Há um telefone no escritório — indicou o padre.

— Oh, não, não é necessário. Eu uso o celular de Nick. Posso? Nick entregou-lhe o telefone, aflito para receber alguma indicação do

que se passava. Maggie retirou-se para ter privacidade.

— Quer um brioche? — Ofereceu o padre com um prato de fatias de bolo e pães variados na mão.

— Não, obrigado. — Maggie havia escapado da vista de Nick.

Um telefone começou a tocar, abafado, mas insistente. Primeiramente confuso, padre Keller saiu em passadas velozes para o corredor.

— Meu Deus, o que você está fazendo, agente O’Dell?

Nick largou a caneca na mesa, espirrando chá quente em si mesmo e na mesa lustrada, e foi atrás do padre. Deparou com Maggie, celular na mão, a encostar o ouvido em cada porta do corredor. Padre Keller, no encalço dela, não obtinha respostas para as suas indagações.

— O que exatamente a senhora está fazendo, agente O’Dell? — Ele tentava obstruí-la, mas Maggie forçava a passagem.

Nick correu até eles, com os nervos à flor da pele e a adrenalina a toda.

— Maggie, o que está acontecendo?

Aproximavam-se mais e mais do toque abafado de telefone. Enfim, Maggie empurrou a última porta à esquerda, e o som se tornou cristalino.

— De quem é este quarto?

Padre Keller, paralisado, parecia confuso mas também indignado.

— Padre Keller, o senhor pode por favor pegar o telefone? — pergun­tou ela, educadamente, sem a intenção de entrar no quarto. — Parece que vem de uma dessas gavetas.

O padre, sem se mexer, tinha os olhos fixos no quarto. O ruído de telefone enervava Nick ainda mais. Prestes a cobrar de novo explicações de Maggie, ele compreendeu que fora Maggie que ligara para o número que não parava de tocar. O celular de Christine, na mão dela, piscava a cada chamado do aparelho misterioso.

— Padre Keller, por favor, pegue o telefone — repetiu ela.

— Este é o quarto de Ray. Não seria apropriado que eu mexesse nas coisas dele.

— Apenas pegue o telefone. É um celular preto, pequeno, daqueles que abrem e fecham.

O padre entrou no quarto bem devagar, sem estar convencido do que fazia. O telefone parou de tocar. Ele voltou e entregou a Maggie o apare­lho que ela descrevera. Ela o jogou para Nick.

— Onde está o Sr. Howard, padre Keller? Nós vamos levá-lo agora para o departamento do xerife, onde teremos uma conversa.

— Ele deve estar limpando a igreja. Vou chamá-lo.

Quando o padre deixou o corredor e dobrou para o salão, Nick voltou à carga.

— O que está acontecendo, Maggie? Por que você acha agora que devemos interrogar Howard? E por que você estava ligando no celular dele? Diabos, como você tem o número dele?

— Eu não liguei para o número dele, Nick. Eu liguei para o meu celular. Este aparelho não é dele, é meu. É o que eu perdi lá no rio.

 

A maquiadora resmungava cada vez que Christine se ajeitava na cadeira giratória. Como punição, a mulher ruiva lambuzava ainda mais de blush as bochechas da jornalista.

— No ar em dez minutos — avisou o homem alto e calvo com fones de ouvido.

Christine pensou que o recado fosse para ela e fez que sim com a cabeça. O homem, entretanto, ignorou-a e continuou a conversar pelo bocal que saía do fone de ouvido; depois, debruçando-se sobre ela, pren­deu um mínimo microfone na gola de sua blusa. Christine não teve como não notar o reflexo das luzes em sua cabeça lustrosa. Luzes que a cegavam e cujo calor aumentava seu mal-estar provocado pelo nervosismo. Suava nas palmas das mãos, e seria mera questão de tempo até que o blush rosado e brilhante, a base bege-clara e os extravagantes retoques em preto der­retessem por sua face.

Uma mulher sentou-se na cadeira oposta e, sem sequer olhar para Christine, folheou às pressas os papéis que acabara de receber. Afastou o calvo com um gesto e prendeu em si mesma o microfone de lapela.

— Espero que você tenha consertado aquela merda de TelePrompTer, porque não vou ficar lendo isto. — Atirou o maço de papéis no chão, e uma desesperada assistente de palco correu para catá-los e tirá-los dali.

— Já está consertado — garantiu o homem, paciente.

— Quero água. Não tem água aqui.


A mesma assistente voltou correndo com um copo descartável.

— Me dá um copo de verdade. — Ela quase isolou o copo de plástico da mão da garota. — Um copo de verdade e uma jarra. Pelo amor de Deus, quantas vezes eu tenho que repetir?

Demorou algum tempo até que Christine percebesse que a mulher à sua frente era Darcy McManus, a âncora do noticiário da noite da emis­sora. Talvez a apresentadora não estivesse acostumada com os programas da manhã. Talvez não estivesse acostumada com manhãs. As luzes cruéis acusavam rugas em torno de seus olhos e boca. O cabelo brilhante e preto era armado e artificial. O batom vermelho destoava da pele branca, até que a maquiadora ruiva a salvasse com uma camada grossa de ruge.

— Um minuto, pessoal — gritou o homem com fones.

McManus mandou a maquiadora embora com um aceno. A âncora ficou de pé, ajeitou a curtíssima saia e o blazer, checou o rosto num espelho de bolso e acomodou-se de novo na cadeira. Foi nesse momento que Christine se deu conta de que ficaria frente a frente com a apresen­tadora o tempo todo. A contagem regressiva despertou-a para a realidade.

— Três, dois, um...

Christine lamentou ter concordado com a entrevista.

— Bom dia. — McManus cumprimentou a câmera. Sua expressão contrariada convertera-se em um sorriso amigável. — Temos uma convi­dada especial conosco hoje no Bom dia, Omaha. Christine Hamilton é repórter do Omaha Journal e vem cobrindo os assassinatos de garotos no condado de Sarpy. Bom dia, Christine. — McManus enfim notou a exis­tência de Christine.

— Bom dia. — Luzes e câmeras ganharam vida, e todas viraram para ela. Christine tentou abstrair o fato. Mais cedo, Ramsey lhe dissera que toda a rede ABC transmitiria a entrevista ao vivo. Por isso, aliás, McMa­nus substituíra a apresentadora regular do programa.

— Nesta manhã, porém, você vem aqui não como jornalista, mas como uma mãe preocupada. Não é isso, Christine?

Ela ficou intrigada pela expressão e o tom de consternação fabricados instantaneamente por McManus. Christine recordou que a carreira da âncora começara como Miss Estados Unidos, o que a levara para a tevê, Para as reportagens de rua e, daí, para o topo de mercados de porte médio, como o de Omaha. Christine tinha que admitir: a mulher era competente. Ao mesmo tempo que parecia genuína em sua demonstração de senti­mentos, lia com atenção o TelePrompTer sobre os ombros da entrevista­da. Contraiu os lábios, impaciente pela demora da resposta de Christine.

— Nós achamos que meu filho, Timmy, pode ter sido raptado ontem à tarde. — A boca de Christine tremeu, e ela teve que resistir ao impulso de engolir as palavras.

— Que horror. — McManus inclinou o tronco e deu dois tapinhas nas mãos unidas de Christine sobre a bancada. Retomou a posição original, e Christine quis virar-se para ver se o TelePrompTer incluía gestos. — E as autoridades pensam que foi o mesmo homem que matou de forma brutal Danny Alverez e Matthew Tanner?

— Nós não temos certeza ainda, mas, sim, é uma boa probabilidade.

— Você é divorciada e está criando Timmy sozinha, não é? A pergunta surpreendeu Christine.

— Sim, é verdade.

— Laura Alverez e Michelle Tanner também são divorciadas, não é mesmo?

— Sim, eu acredito que sim.

— Você acha que o assassino está tentando dizer alguma coisa por só escolher meninos filhos de casais separados?

Christine titubeou.

— Não tenho a menor idéia.

— Seu marido se envolve na educação e na criação de Timmy?

— Não muito, não. — Christine limitava sua impaciência às mãos inquietas, agora sobre o seu colo.

— É verdade que você e Timmy não vêem seu marido desde que ele a deixou para viver com outra mulher?

— Ele não me deixou. Nós nos divorciamos. — A impaciência beirava a raiva. Como isso poderia ajudar a encontrar Timmy?

— Alguma possibilidade de que seu marido tivesse raptado Timmy?

— Eu acho que não.

— Você não acha, mas há uma possibilidade, não há?

— Acho muito difícil. — As luzes pareciam mais fortes, o calor se intensificara. O suor escorria pelas costas de Christine.

— O departamento do xerife contactou seu marido?

— Claro que nós entraríamos em contato com ele se soubéssemos como e onde... Você não acha que eu preferiria acreditar na possibilidade de Timmy estar com o pai a um louco que esfaqueia garotinhos?

— Você está aborrecida, Christine. Talvez precisemos de alguns minutos. — McManus inclinou-se de novo, com a mesma expressão cons­ternada de antes, e encheu um copo com água. — Nós todos entendemos o momento difícil pelo qual você está passando. — A âncora ofereceu o copo d'água para Christine.

— Não, você não entende. — A entrevistada não pegou o copo, o que confundiu a âncora.

— Como?

— Você nunca entenderia. Eu também não entendia. Eu só queria uma boa história, exatamente como você.

McManus olhou em volta, procurando o diretor. Tentava aparentar calma, mas sua frustração transparecia. Os lábios finos pintados tremiam levemente sobre os dentes brancos e perfeitos.

— Tenho certeza de que você tem vivido um estresse muito grande, Christine. E isto aqui também deve ser estressante. Vamos para os nossos comerciais, vamos dar um tempo para que você se recupere.

McMannus manteve o sorriso até as luzes das câmeras diminuírem e o diretor acenar para ela. Depois, explodiu de raiva, rachando a maquiagem do rosto. O alvo da irritação, porém, era o homem alto e calvo, não a entrevistada. Na verdade, Christine se tornara invisível de novo.

— Onde diabos nós vamos com isto? Me dêem alguma coisa para que eu possa trabalhar direito.

— Eu tenho tempo para ir ao banheiro? — perguntou Christine ao diretor de palco. Ao sinal de positivo, desprendeu o microfone e o colocou perto do copo d'água recusado.

McManus olhou-a e armou um sorriso lacônico.

— Não demore muito, amor. Aqui não é o seu jornal. Não podemos parar as rotativas. Estamos ao vivo. — Pegou o copo e bebeu com cuidado para não borrar a maquiagem.

Christine duvidou de que McManus soubesse pelo menos o nome de Timmy sem colar do TelePrompTer. A valorizada jornalista de tevê não estava nem aí para Timmy, Danny ou Matthew. Meu Deus, como havia chegado perto de se tornar uma Darcy McManus.

Christine andou devagar por trás do palco, desviando de cabos e fios. No instante em que saiu da mira das luzes brilhantes, sentiu um frescor no corpo. Podia respirar novamente. Marchou então pelo estreito corre­dor, evitando os assistentes de palco e sem prestar atenção nas portas do camarim. Passou pelos banheiros e finalmente escapou pela porta cinza de metal com a inscrição "Saída".

 

Eu estou preso? — indagou Ray Howard, irrequieto na desconfor­tável cadeira de madeira.

Maggie o encarava. Os olhos destacavam-se na pele esbranquiçada do rosto. Olhos de um acinzentado sombrio, com os riscos vermelhos na íris comunicando cansaço. Ela esfregava o seu próprio cansaço da nuca. Um nó apertado atava os músculos entre seus ombros. Tentava recordar a última vez que dormira.

A pequena sala de reuniões chiava e cheirava ao café que já atraves­sava o filtro de papel. O pôr-do-sol alaranjado lançava alguns raios atra­vés das janelas empoeiradas. Ela e Nick gastaram horas ali, obtendo as mesmas respostas para as mesmas perguntas. Apesar de ter sido ela que propusera o interrogatório, não lhe parecia que Howard fosse o assassino. Nada havia mudado em suas deduções, mas tinha esperança de que ele soubesse alguma coisa, qualquer coisa, de que cedesse sob pressão. Nick, entretanto, persistia, certo de que estava diante do criminoso.

— Não, Ray, você não está preso — replicou Nick, finalmente.

— E você só pode me deter aqui por um determinado número de horas.

— Como você sabe, Ray?

— Eu assisto a Nova York contra o crime e Homicide. Eu conheço meus direitos. E também tenho um amigo policial.

— Ah, é? Você tem um amigo?

— Nick. — Maggie pediu moderação.

Nick piscou os olhos demoradamente e arregaçou mais as mangas da camisa. Os punhos estavam fechados, e sua impaciência fervia.

— Ray, quer um pouco de café fresco? — ofereceu Maggie, educada­mente. O bem-vestido servente pensou e aceitou.

— Eu gosto de creme e duas colherinhas de açúcar. Creme mesmo, se você tiver. E açúcar sem ser de cubinhos.

— E não quer nada para comer? Nós interrompemos seu almoço, e já quase hora da janta. Nick, por que não pede algo a Wanda para nós três? A idéia não agradou a Nick, mas Howard aprumou-se na cadeira, muito satisfeito.

— Eu adoro o filé de frango da Wanda.

— Ótimo. Nick, pode pedir um filé de frango para o Sr. Howard, por favor?

— Com purê de batatas e molho barbecue, não o molho branco. E molho italiano para a salada, mas não em cima, do lado.

— Alguma coisa mais? — Nick, sarcástico, não fez nenhum esforço para disfarçar a impaciência. Howard esparramou-se de novo na cadeira.

— Não, nada mais.

— E para você, agente O’Dell? — Ele a olhou com desprezo e frus­tração.

— Um sanduíche de queijo e presunto. Sabe o quanto eu gosto de sanduíche de queijo e presunto. — Ela sorriu, feliz por vê-lo relaxar o rosto.

— É, eu sei. — Era óbvio que a lembrança substituíra o sarcasmo e a chateação. — Já volto.

Ela pôs uma caneca fumegante de café em frente a Howard. Caminhou um pouco pela sala, dando-lhe tempo para se acalmar um pouco. Acendeu as luzes, e as lâmpadas fluorescentes fizeram com que Howard piscas­se. Aos olhos de Maggie, ele se assemelhava a um lagarto, com as piscadas lerdas e deliberadas e a língua pontuda a provar o café. O ex-seminarista prestava atenção nos barulhos do departamento do xerife. Apesar de as paredes abafarem o burburinho, era fácil identificar as passadas, os toques de telefone e uma ou outra voz mais exaltada.

Maggie deu um tempo a Howard, para que ele se esquecesse de sua presença. Depois do que lhe pareceu tempo suficiente, parou atrás dele e disse:

— Você sabe onde está Timmy Hamilton, não sabe, Ray?

— Não, eu não sei. E também não sei como aquele celular foi parar na minha gaveta. Eu nunca o vi antes.

Ela circulou a mesa e ficou exatamente diante dele. Os olhos de lagarto buscaram evitá-la e, por fim, se fixaram no queixo dela. Reparou nos seios, mas desviou o olhar rapidamente. Corou.

— O xerife Morrelli acha que você matou Danny Alverez e Matthew Tanner.

— Eu não matei ninguém — balbuciou.

— Ouça, Ray, eu acredito em você.

Ele se mostrou surpreso e olhou-a nos olhos, tentando perceber se não se tratava de um truque.

— Acredita?

— Eu não acho que você tenha matado esses garotos.

— Ótimo, pois eu não os matei.

— Mas eu acho que você sabe mais do que está nos dizendo. Eu acho que você sabe onde Timmy está.

Howard não protestou, mas revirou os olhos pela sala, um lagarto em fuga. Pegou na caneca de café com as duas mãos e expôs a Maggie os dedos curtos e grossos, de unhas roídas até o sabugo. Certamente, não eram dedos de um homem obcecado por limpeza.

— Se você nos contar, nós podemos ajudá-lo, Ray. Mas, se descobrir­mos que você sabia e não nos disse, bem, você pode ficar na cadeia por um longo tempo, mesmo que não tenha matado esses garotos.

Howard pendeu a cabeça para o lado, atento novamente à atividade no departamento, quem sabe à espera do retorno de Nick ou de alguém para salvá-lo.

— Onde está Timmy, Ray?

Ele trouxe uma das mãos para a frente da face, inspecionou os dedos e começou a cutucar e a roer o que lhe sobrava das unhas.

— Ray?

— Eu não sei onde nenhum garoto está! — esbravejou e conteve a raiva com os dentes amarelos fechados. — E o fato de eu dirigir a picape às vezes para ir cortar lenha não significa nada.

Maggie enfiou os dedos pelos cabelos. A falta de sono e de comida a deixavam meio tonta. Teriam eles desperdiçado a tarde toda? Keller poderia perfeitamente ter escondido o celular no quarto de Howard. No entanto, Maggie não conseguia conceber algo acontecendo naquela sacristia sem o conhecimento de Howard.

— Onde você corta lenha, Ray?

Ele mantinha os dedos na boca. Tentava descobrir o ponto aonde Maggie queria chegar.


— _Eu vi a lareira na sacristia — ela continuou. — Minha impressão é que ela demandará toneladas de lenha durante o inverno; afinal, só estamos em outubro, e já faz todo esse frio.

— É, e padre Francis gosta... — Ele abaixou a cabeça. — Deus o tenha — murmurou para os pés, antes de se corrigir. — Padre Francis gostava que o salão ficasse bem quente.

— E, então, aonde você vai para pegar a lenha?

— Perto do rio. A igreja ainda tem um terreno lá. Perto da velha igreja.

Era uma igreja muito bonita, pequena. Está em ruínas agora. Eu pego olmo e nogueira lá. Tem carvalho e toneladas de bordo. A nogueira é a que queima melhor. — Ele contemplou a vista através da janela.

Maggie seguiu o olhar vago. O horizonte de neve tapava o sol verme­lho-sangue contra o branco. Cortar lenha lembrava-lhe alguma coisa, mas o quê?

Ray Howard sabia muito mais do que ele se permitia dizer. Não basta­riam a ameaça de prisão e o filé de frango da Wanda para estimulá-lo a falar. Eles teriam que liberá-lo.

 

Nick desligou o telefone e sentou em sua cadeira. Coçou os olhos para amenizar a raiva que o remoía. Maggie e, possivelmente, o próprio Ray Howard teriam notado o quanto ele queria golpear alguma coisa. Como conseguia ela manter-se calma e fria?

Timmy não saía de seus pensamentos. Nick se sentia como se uma bomba-relógio tivesse sido acionada dentro do peito, batendo cada vez mais rápido contra suas costelas. Uma dor insuportável. Assim como Timmy, a imagem do cadáver de Danny Alverez não se apagava da sua mente. O corpo de garoto sobre a grama. Os olhos vagos arregalados para as estrelas. O menino pareceria em paz, não fossem o corte no pescoço, os buracos e os talhos no peito.

O tempo estava se esgotando.

O intervalo entre os assassinatos de Aaron Harper e Eric Paltrow fora menor do que duas semanas. A captura de Matthew Tanner ocorreu uma semana depois da de Danny Alverez, e se passaram apenas alguns dias entre os desaparecimentos de Matthew e Timmy. O tempo do criminoso acelerava-se. Algo o alucinava, o impulsionava a agir no limite. E se eles não o agarrassem? Ele desapareceria por mais seis anos? Ou, pior, se diluiria na comunidade como já fizera? Se não era Howard ou Keller. quem, diabos, seria?

Na mesa de Nick, o papel amassado encontrado no porta-luvas da picape chamou sua atenção mais uma vez. Ele o apanhou para uma nova espiada. No verso das obscuras anotações de horários e endereços, uma lista de mercado: cobertor de lã, querosene, fósforos, laranja, barra de chocolate, macarrão instantâneo, veneno de rato. Podiam ser apetrechos para um acampamento, mas Nick tinha a sensação de que não.

Bateram na porta, e Hal entrou sem esperar convite. Os ombros largos caídos de exaustão. O cabelo, normalmente bem penteado, achatado, devido às horas de chapéu. A gola da camisa desabotoada e a gravata frouxa e manchada de café.

— O que houve, Hal?

Ele despencou na cadeira oposta à de Nick, do outro lado da mesa.

— A ampola de vidro vazia que você achou na picape um dia conteve éter.

— Éter? De onde veio isso?

— Muito provavelmente do hospital. Eu chequei com o diretor, e ele me disse ter ampolas semelhantes no necrotério. Eles usam como uma espécie de solvente, mas poderia ser usada para nocautear alguém. Duas cheiradas, e o cara desmaia.

— Quem teria acesso ao necrotério?

— Qualquer um. Eles não trancam a porta.

— Você está brincando?

— Pense, Nick. O necrotério quase não é usado, e quando é, quem vai querer ir lá embaixo?

— Quando há uma investigação criminal, ele tem de ser trancado, e só pessoal autorizado pode entrar. — Nick pegou uma caneta e se pôs a batê-la na borda da mesa. A vontade de golpear alguém persistia.

Hal não comentou. Nick especulou se até mesmo o amigo o conside­raria um caso perdido.

— Alguma impressão digital na ampola? — Somente as suas.

— E a caixa de fósforos?

— Bom, não é uma boate de strip-tease. Pink Lady é um bar-lanchonete no centro de Omaha, a um quarteirão da delegacia. Um monte de poli­ciais freqüenta o lugar. Eddie disse que eles servem os melhores hambúrgueres da cidade.

— Eddie?

— É, Gillick estava na polícia de Omaha antes de vir para cá. Você não sabia? Já faz uns seis, sete anos.

— Eu não confio nele. — Nick balbuciou, arrependendo-se, entretan­to, ao ver a reação de Hal.

— Eddie? Qual a razão que você tem para não confiar em Eddie?

— Não sei. Esqueça que eu disse isso.

Hal sacudiu a cabeça e, apoiando-se nas duas mãos, levantou-se da cadeira. Dirigiu-se à porta, mas voltou-se, como se tivesse esquecido algo

— Você sabe, Nick. Eu não quero que me interprete mal, mas tem um monte de gente neste departamento que se sente da mesma maneira em relação a você.

— De que maneira? — Nick inclinou-se sobre a mesa e parou o batuque com a caneta.

— Tem que admitir, Nick, você só pegou este cargo por causa de seu pai. Qual é sua experiência em repressão a crimes? Ouça, Nick, sou seu amigo e estou sempre a seu lado, mas tenho que lhe dizer: alguns dos caras aqui não estão seguros; acham que você está deixando O’Dell estrelar o show.

estava. A bofetada que ele aguardava há dias. Esfregou a mão sobre o queixo e a boca para se recompor do impacto.

— Isso não é novidade, especialmente quando meu pai comanda suas próprias investigações.

— Isso é outra coisa. Ele mandou Eddie e Lloyd correrem atrás do tal de Mark Rydell.

— Rydell? Quem, diabos, é Rydell?

— Eu acho que ele era amigo ou parceiro de Jeffreys.

— Meu Deus, ainda não caiu a ficha? Jeffreys não matou os três... — Nick engoliu o resto da frase ao deparar com Christine em pé na porta.

— Relaxe, Nick. Não estou aqui como repórter. — Ela hesitou, antes de entrar. Seu cabelo estava uma bagunça, os olhos, vermelhos, e o sobretudo, mal abotoado. Pelo inchaço no rosto e pelas marcas de lágri­mas, chorara muito. A irmã chegara ao fundo do poço.

— Eu preciso fazer alguma coisa. Deixe-me ajudar.

— Aceita um café, Christine? — perguntou Hal.

— Sim, obrigada. Seria ótimo.

Hal mandou o último olhar para Nick, como se lhe pedisse desculpas, e saiu da sala.

— Venha, sente-se. — Nick se segurou para não ir ao encontro dela e ampará-la até a cadeira em que Hal estivera. Tirava-o do sério ver sua irmã mais velha naquele estado. Ele era o emotivo, o intempestivo. Ela, a contida, a racional, mesmo quando Bruce botou o pé na estrada. Agora. Christine mais lembrava Laura Alverez e seu perturbado equilíbrio.

— Corby deu-me uma licença remunerada temporária. Claro, depois que eu lhe garanti exclusividade sobre o que vier a ocorrer.

Libertou-se do sobretudo e o atirou para uma cadeira no canto da sala. Só conferiu o resultado do arremesso após ouvir o casaco cair no chão. Andou nervosa em frente à mesa de Nick, mesmo sem aparentar forças para ficar de pé.

— Conseguiu alguma coisa a respeito de Bruce? — perguntou sem olhar para o irmão, consciente da delicadeza do tema.

— Ainda não, mas acho que ele vai ouvir as notícias e entrar em contato conosco.

Ela fez uma careta.

— Eu preciso fazer alguma coisa, Nick. Não dá para ficar em casa sentada, esperando. O que você está fazendo com isso? — Ela apontou para a lista de mercado, diante dele. O papel tinha a face com os itens anotados virada para a mesa, e os endereços, horários e códigos esquisitos, para cima.

— Você sabe o que é isso?

— Isso é um controle de entregas.

— O quê?

— Os entregadores de jornais recebem um papel desses por dia com os jornais. Veja, os números de cada rota, o código do entregador, quantos jornais ele tem de entregar, se há encartes, os horários das entregas.

Nick pulou da cadeira e, ágil, contornou a mesa até ficar ao lado de Christine.

— Você pode me dizer de quem é isso e de que dia?

— Parece domingo, 19 de outubro. O código do carregador é ALVO436. Pelos endereços e os horários listados, acho... — A conclusão alterou a expressão de seu rosto. Christine arregalou os olhos para Nick. — Essa é a rota de Danny Alverez. E do domingo em que ele desapareceu. Onde você achou isso, Nick?

 

A escuridão chegaria de repente e acelerada. Timmy cobrava calma de si mesmo, mas a inevitável perspectiva de mais uma longa noite demolia suas defesas.

Gastara o dia matutando um plano de fuga ou, pelo menos, um jeito de enviar um sinal para o mundo. Descobriu que não era tão fácil quanto sugerem os filmes de aventura, mas o esforço ajudou-o a manter-se cen­trado. Pensou no Batman, em Luke Skywalker e em Han Solo, seu favo­rito.

O estranho lhe trouxera quadrinhos do Super-Homem e do Flash Gordon. Nem mesmo equipado com toda a esperteza e segredos desses heróis Timmy avançou em suas pretensões. Talvez o fato de ter dez anos, ser baixinho e magricelo explicasse o fracasso. No futebol, entretanto, ele aprendeu a usar o tamanho a seu favor, esquivando-se e driblando os adversários. A situação atual poderia exigir o mesmo.

Difícil raciocinar com a escuridão tomando os cantos do quartinho. O lampião não tinha muito querosene, então ele precisava suportar o quan­to fosse capaz. O pânico, contudo, já se apresentava nos arrepios que iam e vinham por seu corpo.

O querosene do aquecedor poderia virar uma opção. Ele arrumaria uma maneira de drenar o combustível de lá para o lampião. As rajadas de vento, porém, que ainda estalavam e assobiavam contra as tábuas da janela, fizeram-no mudar de idéia. Terrível admitir, mas o aquecimento era mais essencial do que a luz.

Timmy projetou cenas de Guerra nas estrelas na sua mente, recitando alto os diálogos para manter-se ocupado. Acionou o isqueiro para acredi­tar que controlava a escuridão. De vez em quando, acendia e apagava a chama, acendia e apagava. Não era, no entanto, o breu seu único inimigo. O silêncio também o agoniava.

Durante o dia inteiro, ele ficara atento, concentrado, tentando escutar vozes, latidos, motores, sinos, sirenes de ambulância ou polícia. Um trem distante e um jato no céu foi tudo o que conseguira captar. Em que lugar da face da Terra ele estava?

Berrou até a garganta doer, e o vento forte foi a única reação, censurando-o. Quieto demais tudo ali. Não importa onde estivesse, era longe, muito longe para que alguém o pudesse resgatar.

Algo se arrastava pelo quarto, um clique-clique de patinhas na madeira. O coração de Timmy bateu mais forte, e os arrepios se tornaram constantes. Usou o isqueiro, mas não avistou nada. Desistiu. Sem sair da cama, alcançou o lampião sobre a caixa e o acendeu. Deveria ter se sentido aliviado com o brilho amarelo no centro do cubículo. Em vez disso, encolheu-se e cobriu-se até o queixo. Pela primeira vez, desde que o pai abandonara a família e a cidade, Timmy se permitiu chorar.

 

Ela era inteligente, apesar de todas as curvas. Definitivamente, uma adversária digna de respeito. Mesmo assim, ele calculava que a agente especial Maggie O’Dell sabia menos do que demonstrava saber. Parte do jogo dela. Não importa, ele gostava de jogar, distraía-o da angústia, das dores, das pontadas na cabeça.

Os poucos que cruzaram com ele pelos corredores estéreis o cumpri­mentaram com a cabeça e seguiram apressados. Ninguém estranhava a presença dele ali. Nem ali, nem em qualquer outro lugar da comunidade. A máscara que ele usava pela vizinhança não podia ser arrancada, como as de borracha.

Alcançou a escada. Hoje, até ela cheirava a amônia, esfregada, limpa, imaculada. Recordou-se da mãe. Apoiada sobre os joelhos e as graciosas mãos, esfregando quieta o chão da cozinha. Quase sempre às duas, três da manhã, enquanto o padrasto dormia. Esfolava a pele delicada com a pressão e com os produtos de limpeza. Quantas vezes ele silenciosamente a observava, sem que ela soubesse? Contendo o choro e esfregando com raiva, ela parecia querer limpar a sujeira em que havia transformado a própria vida.

Tantos anos depois, ali estava ele, tentando limpar a sua, esfregando as visões do passado com seus rituais secretos. Quantos assassinatos mais para varrer a imagem do garoto manhoso e indefeso que ele fora na infância?

A porta fechou-se atrás dele com um estrondo. Já estivera ali e se sentia confortável no ambiente. No andar de cima, em algum lugar, um ventilador zumbia. Caso contrário, o silêncio seria total, silêncio apropriado para aquele túmulo temporário.

Vestiu as luvas cirúrgicas. Qual seria? Gaveta número um, dois ou três? Quem sabe quatro ou cinco? Escolheu a três. Puxou, produzindo o rangi­do contínuo do metal contra metal, mas acertou de primeira. O saco preto era muito pequeno, comparado à extensão do leito prateado.

Abriu o zíper com cuidado, com reverência, ajeitando o plástico ao lado do corpo cinza. Os cortes precisos e cirúrgicos do legista lhe causa­ram repugnância, assim como as feridas feitas por ele mesmo. O corpinho do pobre Matthew parecia um mapa rodoviário. O menino, no entanto, partira para um lugar muito melhor. Um lugar sem dor e humilhação, livre da solidão e do abandono. O descanso eterno de Matthew seria tranqüilo, ele continuaria para sempre uma criança inocente.

Desembrulhou a faca de carne. Tinha que destruir a única prova que poderia ligá-lo aos assassinatos. Como havia sido descuidado, insano, estúpido. Tarde demais para fazer aquilo? Se fosse o caso, Maggie O’Dell já estaria lhe dando voz de prisão.

Abriu o saco até poder examinar as pernas de Matthew. Lá estava, em uma das coxas, as marcas roxas de dentadas. O resultado da ira do demônio dentro dele. A vergonha, líquida e quente, queimava-o por dentro. Moveu a perna do garoto e pegou a faca.

Em algum lugar naquele andar, uma porta bateu. Suas mãos pararam. Prendeu a respiração. Passos, calçados com sola de borracha, cada vez mais pertos, pararam exatamente do lado de fora do ambiente onde ele estava. Apertava a faca na mão e esperava. Como ele iria explicar aquilo? Era muito estranho. Possível até, mas muito estranho.

No momento em que os seus pulmões não suportavam mais a falta de ar, os passos seguiram, passaram até a porta, até o fim do corredor. Uma Porta bateu, e ele enfim respirou. Inalou de forma generosa, sugando amônia suficiente para irritar suas narinas. O talco dentro das luvas formaram uma pasta com o suor. As mãos cocavam. Transpirava. O fim do suspense deixara-o envergonhado, desapontado consigo mesmo.

É, ele não era mais o precavido de antes. Ficava cada vez mais difícil tomar conta de si, segurar o demônio que se intrometia em suas missões. Mesmo agora, faca na mão, não conseguia se concentrar para fazer o que tinha que ser feito. A mão tremia. O suor da testa caía em seus olhos. Mas fogo aquilo terminaria.

Logo, logo o xerife Nick Morrelli teria seu primeiro suspeito. Ele já havia garantido isso. Preparara o terreno e plantara as provas, as pistas necessárias. Ele se aperfeiçoava nesse tipo de tarefa. E era fácil, fácil como fora com Ronald Jeffreys. Tudo que precisou foi de um punhado de itens na caminhonete de Jeffreys e um telefonema anônimo para o superxerife Antônio Morrelli. Já naquela época, ele se descuidara ao incluir a cueca de Eric Paltrow no baú do tesouro que incriminara Jeffreys.

Ele sempre pegava a cueca de cada menino como um souvenir, mas esquecera a de Eric. Fora fácil recuperá-la no necrotério. Sua falha, en­tretanto, foi colocar a cueca de Eric e não a de Aaron na caçamba de Jeffreys. Nunca soube se ninguém notara sua burrada ou se fora mais fácil para o grande e poderoso Antônio Morrelli ignorá-la. Dessa vez, porém, ele não daria oportunidade ao azar. Dessa vez, ele conseguiria sossegar sua cabeça, estancar aquelas batidas que o infernizavam. Mais umas pontas soltas para amarrar, mais um garoto para salvar, e seus demônios pode­riam então descansar.

O pobre Timmy vai ser por fim resgatado. Quantos machucados, quan­tas cicatrizes. Ele mal podia imaginar o que aquele menino passara nas mãos dos que clamam amá-lo. Ele gostava do garoto, gostava mesmo, mas gostara deles todos, os escolhera a dedo, e salvara todos. Livrara as crian­ças da maldade.

 

Christine pressionou o botão para copiar e acompanhou o sorriso largo do filho deslizar pela bandeja. Timmy odiaria que ela usasse a foto escolar do ano passado, a gola virada e um tufo de cabelo a escapar do penteado. Era uma das favoritas dela. Deu-se conta do quanto ele parecia mais jovem na fotografia. Alguém o reconheceria? Ele mudara um bocado em um ano apenas.

Programou o número de cópias e apertou de novo o botão, observando a seqüência de sorrisos largos, um sobre o outro. A seu redor, o departa­mento do xerife fervia em falatórios, passadas e ruídos de teclados de computador. Apesar da tarefa que lhe coubera, Christine sentia-se isola­da, invisível. Desconfiou de que Nick lhe dera a função só para tirá-la do caminho; ressaltara que, quanto mais fotos eles emplacassem nos meios de comunicação e afixassem nas lojas, maiores as probabilidades de des­pertar a memória de alguém. Um giro de 180° em comparação com a tática do irmão no caso Danny Alverez. Nessa história toda, ele não fora o único a aprender as lições, lições caras, por sinal. Abandonar a entre­vista desta manhã poderia custar-lhe o bem-remunerado emprego na tevê. Dane-se, naquele momento Timmy era a única coisa que importava.

Christine percebeu a presença do homem atrás dela. Sentiu um cala­frio, como se um cubo de gelo escorregasse por suas costas. Virou-se devagar, no momento em que o corpo de Eddie Gillick a espremeu contra a copiadora. Gotinhas de suor espalhavam-se abaixo do nariz, acima do fino bigode. Ele respirava com força, como se houvesse corrido até ali. O cheiro da sua loção pós-barba impregnou o ambiente, e seus olhos percor­reram toda a extensão do corpo dela.

— Com licença, Christine. Eu preciso fazer umas duas ou três cópias destas fotos. — Ele balançou as fotografias como se fizesse questão de que Christine as visse, mas ela não prestou atenção. Gillick insistiu e as colocou sobre a copiadora, com a face voltada para cima, passando uma por uma, demoradamente. O papel brilhante realçava o vermelho vivo das feridas. Um dose da pele arrancada. Uma garganta cortada. E o rosto pálido de Matthew Tanner, os olhos mortos encarando-a.

Christine forçou a passagem e ralou a canela na copiadora para se livrar da pressão do corpo de Eddie Gillick contra o dela. Ele assistiu sorridente ela esbarrar em um policial, bater com o joelho em uma mesa para, finalmente, chegar ao outro lado da sala. Segura, no canto perto do bebedouro, ela se encostou à parede, diante do caos do escritório. Eles estavam todos se movendo em câmera lenta ou era apenas sua imagina­ção? Todo mundo falava devagar, as vozes se misturavam num som único e grave. E esse sino, esse badalo agudo e constante, era o telefone? Uma sirene? O alarme de incêndio? Por que eles não faziam nada? Ninguém pararia com aquele barulho? Será que não o ouviam?

— Christine?

Ela ouviu o chamado de uma outra dimensão. Christine escorou o corpo contra a parede lisa e fria, enquanto a sala se movia, empinava de leve para um dos lados. Ninguém parecia se dar conta. Mais uma empinada, agora para o outro lado.

— Christine, você está bem?

O rosto de Lucy Burton apareceu diante dela, deformado, grande, os olhos saltando da face. Lucy lhe dizia algo. Os lábios pintados se moviam, mas não emitiam som. Onde estaria o controle remoto? Tinha que au­mentar o volume de Lucy.

As mãos que a tocavam vinham do nada, seguravam-na, agarravam-na. Christine as espantava, as golpeava, mas elas voltavam. Não conse­guia respirar. Tinha sede. O bebedouro, junto dela, à esquerda dela, mas a milhas de distância de seu alcance. Ela bateu nas mãos de novo.

— Não, eu não consigo ouvi-la, Lucy — disse ela, mas com as palavras confinadas em seu pensamento.

Christine sentiu-se escorregar pela parede. Não podia controlar o pró­prio corpo, que também se movia em câmera lenta. Quantos pés, sandá­lias, unhas vermelhas, um par de botas de caubói. Alguém apagou as luzes.

 

Nick saiu de sua sala a tempo de ver a aglomeração em volta do bebe­douro. Christine caíra no chão, Lucy a abanava com uma pasta e Hal tentava erguê-la. O pai de Nick observava, com os demais. Com as mãos nos bolsos, Antônio Morrelli chacoalhava moedas, sinal de sua irritação. O filho sabia o que queria dizer a tensão no rosto e a postura rígida do ex-xerife. Como Christine ousava demonstrar tanta fraqueza em público, em meio a seus colegas?, pensaria provavelmente seu pai.

— O que aconteceu? — indagou Nick a Eddie Gillick, que operava a copiadora.

— Não sei, não vi acontecer — replicou Eddie, de costas para a comoção.

Eddie era o único no lado da sala oposto ao bebedouro. Nick checou as cópias que a máquina cuspia na bandeja. Pedaços de Matthew Tanner cobriam o rosto sorridente do sobrinho. Christine não agüentara a emo­ção de copiar a foto do filho desaparecido.

— Você tem as fotos da autópsia — disse Nick, com os olhos na irmã.

— E, eu as peguei no necrotério do hospital. Sabia que você queria algumas cópias.

— Ótimo. Ponha as originais na minha mesa quando terminar.

Pelo menos, Christine recobrava a consciência. Adam Preston deu-lhe água, que ela engoliu como se tivesse sido resgatada do deserto. Nick assistia do outro lado da sala, sem ação. O coração batia com intensidade crescente. Olhou para Eddie de novo. Poderia ele ouvir as batidas?

— OK, todo mundo — bradou o pai. — O shoui acabou, de volta ao trabalho.

Sem pestanejar, todos obedeceram à ordem. Quando o pai o viu chamou-o com um aceno. Nick não se mexeu, uma última oportunidade para recuperar um pouco de sua autoridade. O pai indicou alguma coisa a Lloyd e se acercou, completamente alheio ao gesto rebelde do filho.

— Lloyd achou Rydell. Nós o estamos trazendo para interrogá-lo.

— Você não tem autoridade para fazer isso. — Nick se concentrou. Ele precisava soar calmo, frio, no comando da situação.

O ex-xerife levantou as sobrancelhas grossas e o desafiou.

— Como?

O pai o havia escutado perfeitamente e tentava intimidá-lo. O jogo sempre funcionara... no passado.

— Você não tem mais autoridade para trazer ninguém aqui para inter­rogatório. — Nick encarou os olhos estreitos do pai.

— Estou tentando ajudá-lo, garoto, para que você não pose de idiota de merda para toda essa droga de comunidade.

— Mark Rydell não tem nada a ver com isso.

— Certo. Você está apostando tudo num servente manco de igreja.

— Eu tenho evidências que envolvem Ray Howard no caso. O que você tem contra Rydell?

O departamento novamente parará; com a diferença de que, agora, ninguém ousava amontoar-se em volta da discussão familiar. Em vez disso, cada um acompanhava em silêncio, dos vãos das portas ou atrás das escrivaninhas, fingindo que trabalhava.

— Rydell é gay declarado. Tem uma ficha longa por espancar outros gays. Ele foi o gay de Jeffreys por um tempo. Eu nunca me convenci de que ele não estava envolvido com Jeffreys na coisa toda. Eu aposto a fazenda como ele é o homem que você procura, o assassino imitador. Só você não vê isso, porque você não pode ver além da bundinha charmosa da agente O’Dell.

O calor bloqueou a garganta de Nick. O pai lhe deu as costas, encer­rando a conversa, desprezando-o da mesma maneira de sempre. Nick olhou em volta para as pessoas que simulavam trabalhar. Avistou Maggie em pé, na porta da sala de reuniões. Os olhos de ambos se encontraram, e ele soube que ela ouvira o insulto.

— Esse não é um caso de assassinato por imitação — afirmou Nick.

— Que merda é essa que você está falando? — O pai mal virou-se para ele. Ainda de costas, pegou as fotos da autópsia com Eddie, que as entre­gou na maior boa vontade, sem sequer olhar na direção de Nick.


— Jeffreys só matou Bobby Wilson. — O pai não tirava a atenção das fotos. — Ele não matou os três garotos, o que, aliás, você já sabia. — Nick eu um tempo para que o pai assimilasse o golpe, registrasse do que ele o estava acusando.

Antônio Monelli finalmente lhe dirigiu uma mirada de repreensão, bastante poderosa para transformá-lo em um adolescente franzino. Nick permaneceu em posição de sentido, atento às mãos para não as enterrar nos bolsos. Em vez disso, cruzou os braços. Estava pronto.

— Que merda é essa que você está tentando sugerir?

— Eu li os arquivos do caso de Jeffreys. Vi todos os relatórios de autópsias. Não há nenhuma possibilidade, nem no inferno, de Jeffreys ter cometido os três crimes. O próprio Jeffreys repetiu e repetiu isso para você.

— Ah, agora você acredita num merda de viado assassino, e não no eu pai?

— Os seus próprios relatórios provam que Jeffreys não matou os outros dois garotos. Mas você não queria ver. Você só queria virar herói. Ignorou a verdade e deixou que o assassino escapasse. Quem sabe você até mesmo não o ajudou a plantar as provas? Agora, seu próprio neto vai pagar o preço de seus erros, desse seu orgulho de merda.

O soco pegou Nick totalmente despreparado. Acertou-o no queixo e o jogou sobre a copiadora. Ele recuperou o equilíbrio, mas ainda tinha a visão embaçada, quando o segundo explodiu no meio do seu rosto. Olhou para cima para ver o pai na mesma posição, do mesmo jeito, com as fotos ainda nas mãos e uma expressão de surpresa. Nick só se deu conta de que não foram os punhos do pai que o atingiram, quando viu Hal a seu lado, contendo Eddie Gillick.

 

Após todo o ocorrido, Maggie não se espantou por Nick não ter retor­nado à sala de interrogatório improvisada. Adam Preston entrou com a janta enviada pela Wanda. Ela informou a Ray Howard que ele poderia comer sua refeição ali e que, saciada a fome, estava livre para partir. Howard manteve o olhar de suspeita, até Adam botar na frente dele o prato quente. A partir daí, se lhe restava qualquer mágoa, ela ficou para trás.

Era isso. Maggie tomou o caminho da porta, enquanto Adam termina­va de desembrulhar a comida.

— Agente O’Dell, para você.

— Não estou com muita fome. — Ela olhou para Adam, mas não era um sanduíche que ele lhe estendia, e, sim, um envelope branco e peque­no, era de formato familiar. — Onde pegou isso?

— Estava com a entrega da Wanda. Seu nome está escrito no envelo­pe. — Adam permanecia com o braço esticado sobre a mesa, mas Maggie não fazia menção de apanhar o bilhete. Mesmo o esfomeado Howard esquecera o banquete para assistir à cena.

— Agente O’Dell? O que é isso? Quer que eu abra? — Adam tinha os olhos verdes sérios e uma expressão preocupada.

— Não, pode me dar. — Ela segurou a ponta do envelope, tentando, tarde demais, dar a impressão de que aquilo nada representava. Para comprovar, abriu o envelope sem hesitação sob os olhos fixos de Adam.

Seus dedos estavam incrivelmente relaxados, mas seu estômago executa­va acrobacias.

Maggie leu a mensagem, simples, de apenas uma linha: "EU SEI SO­BRE STUCKY."

Virou-se para Adam.

— Nick está por aí? — Esforçava-se para preservar a respiração con­trolada, para inibir as sensações que a invadiam.

— Não, ninguém o viu desde que...

— Desde que Eddie o nocauteou — Howard completou a frase para Adam e sorriu para os dois em meio a uma garfada de purê de batatas. — Eddie, o meu camarada — acrescentou, antes de encher a boca.

— O que você quer dizer com isso? — Maggie, agressiva e com a voz alta, retomou o interrogatório. A expressão de Howard sinalizou que já se dera conta de que seu entusiasmo fora excessivo. Precisava precaver-se, mas agora já era tarde. Colocou-se, entretanto, de novo na defensiva.

— Nada, ele é só um amigo.

— O assistente Gillick é seu amigo? — Ela olhou para Adam, que, com os ombros, indicou desconhecer o fato.

— E, ele é meu amigo. Não há crime nenhum nisso. Fazemos coisas juntos. Qual o problema?

— Que tipo de coisa?

Inquieto, Howard desviou sua atenção da agente para Adam. Tinha abaixado os talheres e parado de mastigar. Mantinha a coluna reta na cadeira e, quando voltou-se para Maggie, desafiava-a com o olhar.

— As vezes, ele vai à sacristia e joga baralho comigo e com o padre Keller. Às vezes, só eu e ele saímos para comer hambúrgueres.

— Você e o assistente Gillick?

— Você não disse que eu podia ir embora?

Maggie encarou-o. Ela tinha certeza: aqueles olhos inteligentes de réptil sabiam mais, muito mais. Ela duvidava estar diante do assassino, apesar das suspeitas de Nick. Mesmo de posse de seu celular, aquele infeliz não era o criminoso. Manco, ele nunca caminharia com desenvoltura pelos bosques íngremes que rodeiam o rio. Menos ainda carregando um garoto de 30, 40 quilos. Poderia soltar tiradas astutas, mas não apresen­tava inteligência para empreender uma série de assassinatos.

— Disse, eu disse sim que você estava livre para ir embora — respon­deu, por fim, sem tirar os olhos do interrogado. Maggie queria que Howard compreendesse o quanto ela suspeitava dele. Queria que ele come­tesse uma gafe, suasse de nervoso. Ray Howard simplesmente a ignorou e voltou à tarefa de empurrar porções de comida com a faca para o garfo encher a boca e mastigar.

Maggie fez um gesto para Adam, que a seguiu para fora da sala. No corredor, ela parou e, esgotada, se apoiou na parede. Adam esperou pacientemente, embora vigiasse para que ninguém o visse sozinho com a agente. Ele era muito jovem para se tornar um renegado do regime de Antônio Morrelli. Pelo contrário, estava louco para agradar, para ser aceito pelo grupo. Mesmo assim, seu respeito por autoridade se estendia a Maggie, e curvou o corpo magro e alto para ouvi-la.

— Você cresceu aqui em Platte City, certo?

A pergunta surpreendeu-o, como não poderia deixar de ser. Ele con­firmou com a cabeça.

— O que você sabe sobre a igreja velha, a do perímetro rural?

— Nós a checamos, se é isso que quer dizer. Eu e Lloyd fomos lá antes da neve e depois também. O lugar está lacrado com tábuas. Acho que ninguém vai lá há anos. Não há pegadas, nem marcas de pneu.

— Ela é perto do rio?

— É, bem perto da estrada da Igreja Velha, provavelmente é por isso que a rota de terra ganhou esse nome. Oficialmente, a igreja é um marco histórico, por isso não foi derrubada.

— Como você sabe tudo isso? — Ela dava a impressão de estar inte­ressada no prédio, mas buscava mesmo era a localização exata. Howard cortava lenha na região e poderia ter visto alguma coisa lá. Maggie pres­sionava e massageava o nó que travava sua nuca. O cansaço lhe nublava o raciocínio. Quem sabe nem mais raciocinar ela queria?

— Meu pai tem um terreno perto — prosseguiu Adam. — Ele tinha a intenção de comprar a propriedade da igreja e botar tudo abaixo. E terra de primeira para cultivar. Padre Keller disse que ele não podia porque a igreja é registrada como um marco histórico. Eu acho que ela foi parte da ferrovia subterrânea do século XIX. Supostamente, há um túnel do prédio para o cemitério da igreja.

Maggie endireitou os ombros, interessada. Adam alegrou-se com a atenção.

— Eles escondiam escravos fugitivos na igreja. À noite, eles usavam o túnel para dar fuga aos negros, que no rio apanhavam um bote para o próximo esconderijo. Outra igreja velha, perto de Nebraska City, também era usada como esconderijo. Lá, eles a transformaram em atração para turista. Essa aqui está muito deteriorada. Dizem que o túnel é muito perto do rio. Não utilizam nem mais o cemitério. Há poucos anos, uma enchente inundou tudo e carregou alguns caixões com ela. Foi mórbido ver caixões boiando no rio.

Maggie visualizou o cemitério deserto e a correnteza arrancando os corpos dos túmulos. Parecia o lugar perfeito para um assassino obcecado com a salvação de suas vítimas.


 

Maggie decidiu deixar um recado para Nick, apesar de não ter idéia do que dizer.

"Prezado Nick, saí para achar o assassino em um cemitério." Pareceria bizarro, era mais, porém, do que ela havia deixado quando partira ao encontro de Albert Stucky. A diferença era que naquela noite ela não tivera realmente a intenção de deparar com Stucky. Maggie simplesmente checava uma pista, fuçava seu esconderijo. Nunca lhe ocorrera que ele montaria uma emboscada para ela, que estaria lá, à espreita. Estaria esse novo assassino lhe preparando o mesmo? Teria armado uma armadilha para pegá-la?

— Acho que Nick foi embora — anunciou Lucy, do início do corredor, flagrando Maggie com a mão na maçaneta.

— Eu sei, só vou deixar um bilhete.

Lucy não pareceu satisfeita; aproximou-se com as mãos firmes na cintura, como se exigisse mais explicações. Ao notar que Maggie não lhe daria uma, acrescentou:

— Alguém ligou para você mais cedo, da arquidiocese.

— Algum recado? — Maggie conversara com o irmão Jonathon, que ratificara: na opinião da Igreja, padre Francis havia sofrido um acidente, e não sido vítima de alguma ação criminosa.

— Um momento. — Lucy suspirou e checou sua pilha de recados. Aqui está. Irmão Jonathon disse que padre Francis não tem nenhum parente vivo. A Igreja se encarregará do velório e do enterro.

— Nenhuma menção a uma autópsia?

Lucy passou da má vontade à surpresa. Maggie já não ligava.

— Eu mesma anotei a mensagem — respondeu Lucy com a voz mais suave, quase simpática, compreendendo o que significava a necessidade de uma autópsia. — Isso foi tudo o que ele disse.

— OK, obrigada. — Maggie girou a maçaneta da porta da sala de Nick.

— Pode deixar o bilhete comigo, se quiser.

A simpatia desaparecera. Mera curiosidade, agora.

— Obrigada, eu mesma deixo sobre a mesa dele.

Maggie entrou, sem acender a luz, guiando-se com a iluminação dos postes da rua. Esbarrou a canela no pé de uma cadeira.

— Droga — resmungou, abaixando-se para esfregar o local, apesar de a dor já ter subido para a coxa. No movimento, ela se assustou com Nick sentado no chão, no canto da sala. Na penumbra, ele abraçava os joelhos contra o peito, olhos fixos para a janela, aparentemente alheio a sua presença.

Teria sido muito fácil fingir não tê-lo visto. Deixaria o bilhete e sairia. Sem pronunciar uma palavra, ela caminhou até ele e sentou-se a seu lado no chão. Através da janela, pelo ângulo que estavam, só se avistava o céu escuro da noite. Com o canto dos olhos, Maggie examinou o lábio corta­do, o hematoma e o inchaço. O sangue seco manchava o queixo perfeita­mente delineado. Nick não se movia, não se dava conta de ter percebido sua presença.

— Morrelli, para um ex-jogador de futebol americano, você briga como uma menininha.

Maggie queria provocar-lhe a raiva, fazê-lo sentir alguma coisa, qual­quer coisa. Reconhecia aquela letargia, a inércia, o vazio capaz de parali­sar uma pessoa por muito, muito tempo, caso não fosse confrontada. Não obteve nenhuma resposta ou reação. Ela se manteve ali, quieta. Minutos se passaram. Deveria levantar, partir, não podia compartilhar aquela dor. Corria o risco de não resistir a cuidar dele. Sua própria vulnerabilidade já pesava bastante, não conseguiria carregar também a de Nick.

Bastou-lhe mover as pernas a fim de ficar de pé para que ele quebrasse o silêncio:

— Meu pai estava equivocado ao fazer aquele comentário a seu respeito.

Maggie voltou a encostar-se na parede.

— Você quer dizer que eu não tenho uma bundinha charmosa? Enfim, o rastro de um sorriso.

— Tudo bem, meio equivocado.

— Não se preocupe, Morrelli. Eu já ouvi coisas piores. — Apesar de aquele tipo de insulto sempre mexer com ela.

— Sabe, quando tudo isso começou, minha preocupação era com o que as pessoas diriam de mim, se pensariam que sou um incompetente.

Ainda fixo na janela, ele evitava olhá-la. A visão de Maggie se ajustara ao escuro, e ela se pôs a observá-lo. Desarrumado e ferido, Nick não perdia a beleza clássica: forte, queixo quadrado, cabelo escuro, pele mo­rena, lábios sensuais, orelhas perfeitas. Mesmo assim, essas características físicas, que inicialmente tanto a atraíram, tinham se tornado elemento menor. Era a voz suave e firme que a balançava. Eram os olhos quentes, azul-celeste, que lhe enfraqueciam os joelhos. A maneira como ele a abraçara, como se ela, Maggie, fosse a pessoa mais importante do mundo. A maneira como ele a olhava, bem lá no fundo, como se esperasse avistar um pedaço de sua alma. Aqueles olhos a faziam sentir-se nua, viva. Sentados ali na sala, naquele momento em que Nick a privava deles, Maggie tinha a impressão de estar sendo roubada, separada do elo íntimo que se formava entre os dois. Ao mesmo tempo, sabia ser errado aproxi­mar-se tanto de um homem que ela conhecera há menos de uma semana. Quieta, ela esperou. Um lado seu temia que ele revelasse algum segredo que os uniria ainda mais. O outro torcia para que ele agisse exatamente assim.

— Sou um incompetente; não sei nem a primeira lição sobre como conduzir uma investigação criminal. Se eu tivesse admitido isso logo no início... Timmy poderia estar aqui conosco.

A confissão surpreendeu-a. Este não era o mesmo xerife arrogante e metido ao qual ela se apresentara dias atrás. E a admissão não consistia em autoflagelação, não era nem mesmo arrependimento. Ele necessitava dizer aquilo em voz alta para se aliviar.

— Você fez todo o possível, Nick. Acredite. Se eu achasse que algo mais poderia ser feito, algo diferente, eu lhe diria. Você sabe que eu não tenho vergonha quando se trata disso.

Outro sorriso. Nick também se encostou na parede e libertou os joe­lhos do peito, esticando as pernas longas e grossas, e, por um instante, Maggie acreditou que o pior passara.

— Maggie, eu sou tão... Eu fico imaginando vê-lo... deitado na grama, o mesmo olhar vazio. Eu nunca me senti tão... — A voz forte e firme saiu aguda, presa pelo nó na garganta. — Eu me sinto como um merda de um inútil incapaz. — Os joelhos retornaram ao peito, sob o queixo.

Sua mão ergueu-se e parou de súbito no ar, na altura da nuca de Nick.

Maggie desejava consolá-lo, acariciá-lo. Obrigou-se a retirar a mão, afas­tou-se um pouco e reclinou-se contra a parede. Tentou acomodar-se no chão duro e expulsar dela a sufocante vontade de tocá-lo. Outra olhada: por um dos cantos da janela, o brilho da lua iluminava a silhueta de Nick.

O que havia nele que lhe despertava a vontade de se sentir inteira de novo? E o pensamento levou-a a dar-se conta de que, então, não se sentia inteira?

— Durante toda a minha vida eu fiz tudo o que meu pai mandou... me sugeriu fazer. — Nick apoiava o queixo nos joelhos. — Não porque quisesse agradá-lo, mas porque era mais fácil assim. As expectativas dele sempre me pareceram abaixo das minhas próprias. Ser xerife em Platte City significava, supostamente, multar carros, resgatar cãezinhos perdidos separar uma briga de bar aqui, outra ali. Um acidente de trânsito, talvez. Não um assassinato. Eu não estava preparado para um assassinato.

— Não acredito que haja algo que prepare alguém para o assassinato e uma criança, não importa quantos cadáveres esse alguém já tenha visto.

— Timmy não pode terminar como Danny e Matthew. Não pode, mas não há nada que eu possa fazer para impedir. — A voz voltava a falhar. Ela olhou para Nick, que, porém, desviou o rosto. — Não tem merda nenhuma que eu possa fazer.

Ela o ouvia chorar, apesar de todos os esforços de Nick para disfarçar o pranto de raiva. Maggie esticou o braço novamente, titubeou, a mão suspensa. Cedeu finalmente e tocou o ombro dele. Esperava algum tipo de reação, mas ele permaneceu sentado, silencioso. Contornou os ombros e apoiou o braço nas costas dele. Quando o consolo ganhava intimidade demais para seus padrões, Maggie iniciou a retirada. Nick, no entanto, com a mão longa e gentil, a alcançou e segurou o braço que o confortava.

Enfim, ele a encarou e passou a palma da mão de Maggie por seu queixo inchado.

— Estou feliz por você estar aqui — declarou, com os olhos nos olhos ela. — Maggie... Eu acho que eu...

Rapidamente, ela retirou a mão, constrangida pela revelação abortada. Os olhos dele iam além do flerte. Maggie podia ver Nick testando, lidando com sentimentos dos quais ela não queria tomar conhecimento.

— Aconteça o que acontecer, Nick, você não vai ter culpa nenhuma. — Ela mudara de assunto, como se do tema nunca tivessem saído.


Você está fazendo todo o possível. Não pode se cobrar desse jeito. É preciso livrar-se disso.

Nick olhou-a com aquela expressão que fazia Maggie se sentir com a alma exposta.

— Os seus pesadelos, Maggie — disse ele em voz baixa— , não porque você não se livrou de algo, não é verdade? O que é, Maggie? É o tal de Stucky?

 

— Como você sabe sobre Stucky? — Maggie endireitou-se no chão, na tentativa de repelir a tensão que a mera referência lhe causara.

— Naquela noite, na minha casa, você gritou o nome dele várias vezes. Pensei que fosse comentar algo, como não falou nada... Bem, achei que não era da minha conta. Talvez não seja mesmo.

— A esta altura, já é tema de domínio público.

— Domínio público?

— Albert Stucky é um serial killer que ajudei a capturar há pouco mais de um mês. Nós o apelidamos de O Colecionador. Ele raptava duas, três, quatro mulheres ao mesmo tempo e as prendia em um prédio condenado ou em algum galpão abandonado. Quando se cansava delas, ele as mata­va, fatiava os corpos, esmigalhava os crânios, mastigava e cuspia pedaci­nhos delas.

— Meu Deus, e eu que pensei que maluco era o cara que estamos perseguindo.

— Stucky é certamente um exemplar de uma espécie. O perfil que eu fiz ajudou a identificá-lo. Ficamos dois anos em seu encalço. Cada vez que nos aproximávamos, ele se mudava para outro canto do país. Em algum momento, Stucky descobriu que era eu que traçava seu perfil. Foi então que o jogo começou.

A lua chegara diante da janela e iluminava toda a sala agora. Maggie sentia-se desconfortável sob aqueles olhos azuis e penetrantes, interessa­ dos e preocupados com ela. Nick teria mordido o próprio lábio, pois sangrava novamente. Ela se virou, pôs a mão no bolso da jaqueta e pegou um lenço para ele.

— Você ainda está sangrando.

Ele ignorou o lenço e passou a manga do casaco na boca.

— E de surpreender? Eu não brigo como uma menina? — Nick ficou sério. — Fale-me sobre o jogo.

— Stucky vasculhou minha vida. De alguma maneira, descobriu tudo sobre minha família, a morte precoce de meu pai, o alcoolismo de minha mãe. Sabia ou pelo menos aparentava saber tudo a meu respeito. Há um ano comecei a receber mensagens. Isso não é raro, mas Stucky as fazia singulares; nelas incluía pedaços de suas vítimas, um dedo, um pedaço de pele, uma marca de nascença, uma tatuagem e, uma vez, um mamilo.

Nick balançou a cabeça, sem dizer nada.

— Ele começou a promover uma espécie de gincana comigo — conti­nuou Maggie. — Mandava pistas sobre, por exemplo, onde mantinha as mulheres presas. Se eu errava, ele me punia com um cadáver. Eu errei para caramba. Todas as vezes que encontrávamos um corpo em um latão de lixo, eu me sentia culpada, responsável por aquilo.

Maggie fechou os olhos e visualizou os rostos das mulheres. Todas com o mesmo horrível olhar. Ela era capaz de se recordar de cada uma, de recitar seus nomes, endereços, características físicas, uma ladainha, lite­ralmente. Reabriu os olhos, evitou Nick e prosseguiu:

— Stucky parava por algum tempo, mas só para se mudar de cidade, de estado. Nós finalmente o alcançamos em Miami. Depois de algumas pistas, eu estava praticamente certa de que ele usava um galpão perto de um rio. Temi errar de novo. Não poderia carregar mais uma mulher morta em minha consciência. Então, não contei para ninguém, fui sozinha con­ferir. Dessa maneira, se estivesse equivocada, ninguém terminaria morto por isso. O problema foi que eu estava certa, e Stucky me esperava. Ele armou uma emboscada para mim, eu nem o vi se aproximando.

A respiração de Maggie estava instável. O coração, veloz. As palmas das mãos, suadas. Tudo já havia terminado, por que o episódio continua­va a deixá-la nesse estado?

— Ele me atou a um poste de aço e me obrigou a assistir ao seu espetáculo. Torturou e mutilou duas mulheres na minha frente. A segun­da, por sinal, foi uma punição, porque eu fechara os olhos quando ele esmagava o crânio da primeira. Ameaçava me trazer uma depois da outra se eu fechasse os olhos enquanto ele atuava. O homem parecia tão alheio à dor, aos gritos daquelas mulheres.

Meu Deus, era difícil respirar. Quando aqueles olhos suplicantes, os gritos insuportáveis parariam de assombrá-la?

— Eu o vi espancar, fatiar e rasgar duas mulheres e me senti tão... tão... incapaz, droga.

Ela perdeu o olhar na lua e nas estrelas.

— Eu estava tão perto... — Maggie friccionou os ombros. Ela ainda podia sentir o desespero. — Eu estava tão perto, que o sangue delas respingava em mim, partes do cérebro, pedacinhos de ossos espirravam em mim.

— Mas você o prendeu?

— Sim, nós o pegamos. Um velho pescador ouviu os gritos e discou para a polícia. A captura, com certeza, não pode ser creditada na minha conta.

— Maggie, você não é responsável pela morte daquelas mulheres.

— Eu sei disso.

Era óbvio que ela sabia disso, mas isso não aliviava a culpa. Maggie enxugou os olhos, desapontada por já encontrar o rosto molhado, e se levantou, de supetão, de forma demasiado abrupta, mas um pouco revi­gorada por encerrar o assunto.

— Isso me lembra uma coisa — disse ela, tentando recompor-se. — Recebi outra mensagem. — Maggie explorou os bolsos em busca do bilhete mais recente e o entregou a Nick.

Ele pegou o cartão, leu-o e se recostou na parede.

— Meu Deus, Maggie, o que isso quer dizer?

— Não sei. Talvez nada. Talvez ele só esteja se divertindo. Nick desdobrou as pernas e pôs-se de pé, sem se apoiar em nada.

— O que fazemos agora?

— O que você acha de explorar um cemitério?

 

Timmy observava o bailado da chama do lampião. Incrível como um pequeno risco de fogo podia iluminar o quarto inteiro. E liberava calor também. Não como o aquecedor a querosene, mas era possível sentir a quentura. Recordava-lhe mais uma vez os acampamentos dele com o pai, que, a essa altura, pareciam bem distantes no passado.

Seu pai não dispunha de muita experiência. Levava umas duas horas para montar a barraca. Os únicos peixes que eles pescavam eram aqueles pequenos, que se costuma jogar de volta no lago, mas com os quais os dois, famintos, acabavam por se contentar. Por fim, derretiam a panela favorita da mãe, por deixá-la muito tempo na fogueira. Timmy não ligava, o importante era compartilhar da aventura com o pai.

Sabia que os pais agora estavam atazanados um com o outro, mas não entendia por que o pai também se zangara com ele. A mãe lhe contou que o pai o amava e que não revelava para ninguém onde estava porque não queria pagar a pensão. Isso, porém, não explicava por que ele não procu­rava vê-lo.

Ainda voltado para o lampião, tentou lembrar-se da figura do pai. A mãe recolhera todas as fotografias e dissera que as queimara, mas Timmy vira-a olhando algumas delas semanas atrás. Fora tarde da noite, quando ela supunha que ele dormia. Ela bebia vinho, com fotos dos três sobre o colo, e chorava. Se ela sentia tanto a falta do marido assim, por que não pedia que ele voltasse? Muitas vezes, Timmy simplesmente não com­preendia o comportamento dos adultos.

Ele aproximou as mãos do lampião para sentir o calor. A corrente amarrada a seu tornozelo bateu contra o pé da cama. O barulho desviou sua atenção da chama para o metal, e lhe veio à cabeça a imagem da panela da mãe destruída na fogueira do acampamento. Os elos da corren­te não eram grossos. Quanto calor seria necessário para entortá-los? Não precisaria envergá-los muito, um ou dois centímetros, no máximo.

O coração de Timmy acelerou. Rápido, estendeu a mão para a cúpula de vidro do lampião, mas recuou num reflexo para não se queimar. Ar­rancou a fronha do travesseiro e tentou de novo com a proteção impro­visada. Desencaixou a cúpula e puxou-a lentamente, sem quebrá-la. A chama bailou com mais vigor, cresceu e se acalmou novamente. Após recolocar a fronha no travesseiro, Timmy trouxe o lampião para o chão, na frente dele, suspendeu a perna, e com as duas mãos esticou um pedaço da corrente sobre o fogo. Aguardou alguns instantes e começou a puxar. Não estava funcionando, talvez demandasse mais tempo, paciência da parte dele. Precisava pensar em outra coisa para que os minutos passas­sem com mais rapidez. Qual era mesmo a música que a mãe cantava no banheiro numa manhã daquelas? Era de um filme. Ah, A pequena sereia.

— Aqui no mar — testou Timmy a voz de cantor. Ela tremeu um pouco devido à expectativa. Sim, era disso que se tratava, expectativa, não medo. Ele não pensaria sobre o medo. — Vou lhe contar/ Aqui no mar/ Ninguém nos segue — continuou. Forçou a corrente de novo. Nada. Surpreendeu-se pelo número de versos que puxava pela memória. Capri­chou no ritmo de reggae. — Aqui no mar.

Moveu-se. O metal estava cedendo. Ou era a imaginação dele? Puxou com mais vontade. E verdade, a fresta de um dos elos aumentava aos pouquinhos. Mais uns minutos, e ele conseguiria romper a corrente.

As passadas do lado de fora fizeram seu coração disparar. Não, preci­sava só de uns segundos mais. Puxou a corrente com toda a força que tinha, enquanto as trancas giravam e a porta se abria.

 

Christine tentou recordar a última vez que havia comido. quanto tempo Timmy tinha desaparecido? Muito tempo. Não importava exata­mente quanto, era muito tempo. Ela se levantou do sofá velho em que Lucy a havia colocado, numa espécie de sala-depósito com um monte de arquivos e pastas.

O sofá cheirava a cigarro, embora parecesse limpo. Pelo menos, não havia nenhuma mancha aparente. O estofamento áspero de má qualidade lhe deixara marcas na bochecha. Ela podia sentir a impressão do tecido em sua pele.

Os olhos ardiam, seu cabelo estava uma bagunça. Ela também não se lembrava da última vez em que se penteara ou escovara os dentes. Tinha certeza, entretanto, de que havia feito tudo aquilo em algum momento antes da entrevista da manhã. Meu Deus, sua impressão era de que a experiência na tevê ocorrera dias atrás.

A porta se abriu, e o ruído a assustou. Seu pai entrou trazendo-lhe mais água. Se bebesse mais um copo, vomitaria. Ela sorriu e aceitou a oferta, mas bebeu um gole só.

— Melhor?

— Sim, obrigada. Acho que não comi nada hoje. Acho que é por isso que fiquei tão tonta.

— É. Pode apostar que sim.

Livre do copo, ele mostrava insegurança sobre o que fazer com as mãos até resolver o dilema as enfiando nos bolsos, um traço que Nick havia herdado.


— Por que você não pede uma sopa? — propôs ele. — Um sanduíche?

— Não, obrigada. Acho que não agüentaria colocar nada no estô­mago.

— Eu liguei para sua mãe. Ela vai tentar embarcar em um vôo ainda hoje, e, se tudo der certo, estará aqui amanhã de manhã.

— Obrigada. Vai ser ótimo tê-la aqui — mentiu Christine. A mãe entrava em pânico com qualquer coisa. Como lidaria com aquela situa­ção? Tentou imaginar o que o pai teria contado para a mãe, o quanto teria dourado a pílula.

— Não fique chateada, filhota, mas eu também liguei para Bruce.

— Bruce?

— Ele tinha o direito de saber. Timmy é filho dele.

— Claro; eu e Nick tentamos entrar em contato com ele. Você sabe onde ele está?

— Não, mas eu tenho um número de telefone para o caso de uma emergência.

— Então você sabia todo esse tempo como entrar em contato com ele? O pai pareceu chocado. Como ela ousava encará-lo tão irada, tão indignada?

— E você sabia que eu estava tentando achá-lo para obrigá-lo a pagar a pensão do filho há oito meses. Durante todo esse tempo, você tinha o telefone dele?

— Para emergências, Christine.

— O fato de seu neto não ter comida na mesa não é uma emergência? Como você pôde?

— Você está exagerando, Christine. Sua mãe e eu nunca deixaríamos você e Timmy passarem dificuldades. Além do mais, Bruce me disse que deixou bastante dinheiro com você.

— Foi isso que ele lhe disse? — Ela gargalhou. Pouco ligava se aparen­tava estar à beira de um ataque histérico.

— Ele nos deixou com exatamente 164 dólares e 21 centavos na Poupança e mais de 5 mil dólares em contas de cartão de crédito.

O pai odiava confrontações. Ela passara a vida as evitando, andando na ponta dos pés para não o perturbar, permitindo que as opiniões dele fossem as únicas, e os sentimentos, mais importantes do que os de qual­quer um. A mãe chamava isso de respeito. Christine, agora, de estupidez.

Ele andava diante dela, as mãos ainda nos bolsos, ocupadas em cha­coalhar as moedas.

— Aquele filho da mãe. Não foi isso o que ele me disse — Antônio Morrelli suspirou finalmente. — Mas você o expulsou de sua própria casa Christine.

— Ele estava fodendo com a recepcionista.

A cara do pai tornou-se roxa de desaprovação. Uma dama não usa esse tipo de linguagem.

— Às vezes, Christine, o homem pula a cerca mesmo. Uma indiscrição menor. Não estou dizendo que isso seja certo, mas não é razão para que ele seja expulso da própria casa.

Aí estava então. Christine suspeitava de que ele reprovara sua atitude mas, até aquele momento, nem o pai, nem a mãe, expressara sua opinião. O mundo do pai se baseava em padrões ambíguos. Isso nunca fora segre­do, e ela sempre os aceitou, nunca os enfrentou. A isso se resumia sua vida.

— Não sei se você seria tão misericordioso se eu tivesse pulado a cerca.

— O quê? Não seja ridícula.

— Não. Eu quero saber. Você chamaria de uma indiscrição menor se eu trepasse com o carteiro?

Ele franziu de novo a testa, e Christine ficou na dúvida se por causa da linguagem novamente ou pela imagem sugerida. Afinal de contas, a menininha de Tony Morrelli não trepava.

— Christine, você está mal, triste. Vou pedir que um dos rapazes a leve em casa.

Ela não respondeu; era impossível falar com a raiva que borbulhava dentro dela. Concordou com a cabeça, e o pai fugiu.

Depois de alguns minutos, a porta se abriu de novo, e Eddie Gillick apareceu.

— Seu pai me pediu que a levasse para a casa.

 

Que idiota ele era, concluiu Nick, ao engatar a marcha em seu jipe, acelerar e deixar Platte City para trás. Reparava em Maggie, sentada a seu lado. Nunca deveria ter exposto suas fraquezas, o terror que havia tomado conta dele. Apesar das revelações sobre Stucky, ela permanecia equilibra­da, controlada, distraindo-se com a paisagem da noite através da janela do carro. Como conseguia? Como se mantinha alheia a Albert Stucky e a tantos outros horrores? Como não precisava esmurrar paredes ou rachar vidros de porta?

Ele já não pensava nem se concentrava na estrada escura. O tique-taque da bomba-relógio dentro de seu peito contava os segundos, e cada um deles poderia ser o último de Timmy.

Em meio ao pânico, e quem sabe, por causa dele Nick quase ultrapas­sara os limites e se declarara apaixonado por Maggie. Que idiota, que completo idiota ele era. Talvez não perdesse apenas a virilidade e o charme. Inferno, sua mente também estava em debandada.

Ao mesmo tempo, estar agora ao lado de Maggie, na escuridão quieta, revigorava-o, e Nick tinha que ser forte pelo bem de Timmy. Talvez, e põe talvez nisso, ele pudesse salvar o sobrinho, contanto que não se encarre­gasse sozinho da missão. Meu Deus, isto era uma novidade: Nick Morrelli na verdade precisava de alguém.

Precisava também afastar de seus pensamentos a imagem dos olhos arregalados de Danny Alverez. Timmy tinha que estar bem. Não podia ser tarde demais. Afundou o pé no acelerador, ziguezagueando pelas curvas da rodovia. Os flocos de neve ainda cruzavam a frente do carro, mas o vento diminuíra consideravelmente.

— Talvez você devesse me informar sobre o que vamos fazer — disse ele, tentando parecer tranqüilo. — Por que nós vamos a um cemitério no meio da noite?

— Eu sei que seus homens checaram a igreja velha, mas e o túnel?

— O túnel? Acho que desmoronou há anos.

— Tem certeza?

— Bem, não. Eu nunca o vi. Quando criança, nós pensávamos que era balela, lorota para nos assustar, para nos manter longe da igreja durante a noite. Papos de corpos voltando à vida, cavando suas sepulturas e perambulando pelo túnel. Procurando o caminho da igreja para salvar suas almas.

— Para mim, parece um lugar perfeito para um assassino convencido de que está salvando suas vítimas.

— Você acha que é lá que ele está escondendo Timmy? Num buraco na terra? — Ele recordou a história de Maggie sobre o pai que enterrara o próprio filho no quintal. De novo, pisou o acelerador até o fundo, provocando em Maggie um olhar preocupado.

— É apenas uma intuição — ela justificou, mas seu tom de voz sugeria mais. — A esta altura, acho que nós não temos nada a perder em ir lá e dar uma olhada. Ray Howard mencionou que é lá que ele corta lenha. Ele tem conhecimento de alguma coisa. Talvez tenha visto algo.

— Eu não posso acreditar que você tenha deixado ele ir embora.

— Ele não é o assassino, Nick, mas acho que pode saber quem é.

— Você ainda acha que é Keller, não acha? — Ele a olhou, mas, no escuro, viu apenas o rosto dela virado para o outro lado, contemplando a noite.

— Keller pode ter facilmente plantado meu telefone no quarto de Howard. Ele tem acesso à picape. Ele pendura no quarto aquelas pinturas estranhas de mártires torturados, mártires com cortes em forma de cruz no peito.

— O cara não tem bom gosto para a arte, o que não faz dele um assassino. Além disso, outra pessoa poderia ter visto as pinturas no quarto dele e se inspirado para executar os crimes.

— Keller também conhecia os três garotos.

— Na verdade, os cinco — interrompeu Nick. — Lucy e Max confe­riram as listas de inscrição para o acampamento. Eric Paltrow e Aaron Harper estiveram lá no verão anterior a suas mortes. O que também significa que Ray Howard, assim como Keller, conhecia os cinco meninos.

— É mais do que isso, Nick. Eu acho que, de alguma maneira, o assassino acredita que está transformando esses garotos em mártires, salvando-os de alguma coisa. O serial killer, quase sempre, mata por prazer, por satisfação sexual ou para atender a alguma outra necessidade egocên­trica. Com esse cara, é como se algo clicasse dentro dele e o mandasse para uma missão. O padre Keller se encaixa muito mais nesse perfil.

Quem daria a extrema-unção a suas vítimas se não um padre? E quem mais teria a oportunidade perfeita de empurrar padre Francis escada abaixo sem que corresse o risco de punição?

— Meu Deus, Maggie, você ainda não se convenceu de que o padre morreu num acidente?

— Acho que não terei outra saída. A arquidiocese é responsável pelo corpo de padre Francis, pois não há nenhum parente próximo vivo, e não vê razão para uma autópsia.

Os dois silenciaram. Se padre Francis foi mesmo empurrado naqueles degraus, Nick considerava Howard mais do que capaz de tal ato. Agora, ele se perguntava o que padre Francis queria contar para Maggie.

— Talvez tenhamos chutado essa para fora, Maggie — afirmou Nick, raciocinando enquanto falava. — Talvez Keller esteja envolvido, mas protegendo alguém.

— Como assim?

— Padre Francis não pôde nos falar a respeito da confissão de Jeffreys, lembra-se? E se o assassino se confessou com padre Keller?

Maggie aquietou-se. Refletia sobre o que ele dissera. A idéia não era, portanto, descartável, Nick ponderou. De repente, do nada, Maggie anunciou:

— Você sabia que Ray Howard e Eddie Gillick são amigos?

 

Christine questionou se a raiva não a tornara temporariamente insana. De outra maneira, como poderia ter subido na caminhonete Chevrolet enferrujada de Eddie? Nem sua desculpa sobre o estado do carro soara sincera. Mesmo assim, ali se encontrava ela, chutando copos e embala­gens vazias do McDonald's. Uma mola espetou-lhe as costas, e havia migalhas sobre todo o estofado dos bancos. O veículo fedia a cigarro, batata frita e à repugnante loção pós-barba. Algo cheirava como o motor de sua geladeira.

Eddie ajeitou-se no banco do motorista, arremessando o chapéu para trás e conferindo seu visual no retrovisor. Enfiou a chave na ignição, e o cano de descarga frouxo fez o carro inteiro vibrar.

Christine desejou ter trocado de roupa depois da entrevista abortada. Apesar do sobretudo, sentia as pernas expostas, como se algo andasse sobre a pele. Abriu o casaco para se certificar de que nenhum inseto escalava suas coxas. Ao passar a mão sobre as pernas, Christine notou Eddie observando-a e sorrindo. Fechou novamente o casaco. Antes inse­tos, do que os olhos dele.

Eddie acelerou o carro, e o solavanco jogou-a para trás. Christine buscou o cinto de segurança, que, entretanto, havia sido cortado. Ele passou a toda pela esquina de sua rua. O medo levou-a a agarrar e puxar a maçaneta, que saiu em sua mão, sem abrir a porta. Eddie fez uma careta.

— Relaxe, Christine. Seu pai disse que eu deveria comprar algo para você comer.

— Eu realmente não estou com fome — balbuciou, nervosa. — Estou só apenas cansada. — Melhor assim. Não poderia dar a entender que não confiava nele.

— Posso preparar um bife para você que vai deixá-la com água na boca. Coincidentemente, tenho dois nos esperando no meu congelador.

Meu Deus, na casa dele, não.

— Outra hora, talvez, Eddie. — Christine fez a voz mais doce possível para recusar uma proposta repugnante como aquela. — Estou muito cansada. Você pode simplesmente me deixar em casa?

Ela o vigiava com o canto dos olhos. O bigodinho dele entortava com o sorriso cafajeste. Ele checou de novo a aparência no retrovisor.

— Você foi muito mais flexível naquela noite, perto do rio. Eu real­mente me senti atraído por você — disse Eddie.

Se arrependimento matasse. Como fora burra. Mas outros repórteres sempre jogavam com o sedução...

— Bem, Eddie, eu lamento. — Seja sincera, não o deixe perceber o temor. — Era minha primeira grande pauta, e acho que eu estava um pouco nervosa.

— Tudo bem, Christine. Eu sei que faz mais de um ano que seu marido a deixou. Diabos, você não precisa bancar a encabulada comigo. Eu sei que as mulheres também ficam a perigo, ficam na vontade.

Oh, meu Deus. Isso não vai terminar bem. Os blocos de casa ficaram para trás, e Christine sentia a repulsa tomando conta dela. Mais alguns quarteirões, e não haveria mais postes de luz. Eles saíam da cidade. Ela não estava mais disposta a simular frieza ou calma. Forçou a porta com seu peso, mas ela nem se mexeu. Seu ombro latejou. Eddie franziu o rosto, bravo. A careta evoluiu para um novo sorriso cafajeste, que lhe dizia que pouco importava se ela se dispunha ou não a simulações.

Os olhos dele eram pretos como carvão, e também o cabelo ensebado, meticulosamente penteado. Ele era musculoso, mas não mais alto do que ela. Nocauteara o irmão com um golpe baixo, traiçoeiramente. Nick não vira o primeiro soco lhe atingindo. Christine deduziu que assim Eddie operava. Atacava suas vítimas quando elas menos esperavam. Como uma aranha.

— Eddie, por favor. — Ela não descartava implorar. — Meu filho está desaparecido, eu estou me sentindo péssima. Por favor, me leve para casa.

— Eu sei do que você precisa, Christine. Precisa tirar as preocupações da cabeça por uns momentos. Relaxar.

Seus olhos examinaram em volta. Havia algo... algo que ela pudesse usar como arma? As luzes do painel permitiram-lhe avistar uma garrafa de cerveja vazia no chão, em frente ao assento, uma prece atendida.

Eddie estava dirigindo rápido demais. Ela precisava esperar até que ele parasse, ou os dois acabariam numa vala cheia de neve, atravancados no meio do nada. Poderia conter o pânico até um melhor momento? Poderia conter o grito que lhe subia pela garganta?

— Ser legal comigo não machuca, Christine — disse ele, morosamen­te. — Se você for legal, eu posso até lhe dizer onde Timmy está.

 

Timmy mantinha os pés escondidos sob as cobertas. Ele se movera para o canto da cama, junto à parede, enquanto o estranho andava para lá e para cá na frente dele. Alguma coisa estava errada. o homem parecia contrariado. Não dissera nada desde que chegara. Havia atirado o casaco de esqui para um canto, e começara a caminhar.

Timmy não se pronunciava, só observava. Sob as cobertas, continuava a puxar a corrente amarrada a sua perna. o estranho esquecera-se de fechar a porta, escancarada em frente a eles. o cheiro de sujeira e mofo penetrava com a corrente de ar. Era completamente escuro do outro lado da porta.

— o que aconteceu com o lampião? — perguntou o sujeito subita­mente, vendo a cúpula de vidro sobre a caixa.

— Eu... eu não conseguia acender e então tive que tirar aquela coisa. Desculpe, esqueci de pôr de volta.

O estranho pegou a cúpula e, agressivo, encaixou-a no lampião, sem olhar para Timmy. Quando ele se curvou para executar a ação, Timmy notou o cabelo preto encaracolado aparecendo abaixo da máscara. Richard Nixon. Era esse o presidente morto da máscara. Timmy precisou recitar o nome de todos os presidentes dos Estados Unidos três vezes para se lembrar. E havia realmente algo muito familiar nos olhos azuis daquele Nixon. A maneira como eles o encaravam, principalmente à noite. Como se estivessem pedindo perdão por alguma coisa.

De repente, o homem agarrou a jaqueta e a vestiu nervoso.

— Hora de ir embora.

— Para onde? — Timmy tentou conter a excitação. Seria possível que o mascarado finalmente o levaria para casa? Deu-se conta, enfim, de que se enganara. Desenrolou-se das cobertas e pulou da cama.

— Tire toda a roupa, exceto a cueca. A esperança de Timmy se despedaçou.

— O quê? — A garganta deu um nó. — Está frio pra burro lá fora.

— Não faça perguntas.

— Mas eu não entendo...

— Apenas faça o que eu digo, seu pequeno filho da mãe.

A raiva inesperada doeu como um tapa na cara. Os olhos de Timmy latejaram, e as lágrimas lhe borraram a visão. Não devia chorar, não era mais um bebê. Entretanto, estava amedrontado. Os dedos tremiam ao desamarrar os sapatos. Ele tinha a atenção no buraco na sola do tênis. A neve entrara por ali, quando brincava na colina, quase congelando seu pé. Imaginou o frio que sentiria descalço lá fora.

— Eu não entendo — murmurou ele mais uma vez. O nó na garganta lhe impedia de falar e respirar direito.

— Você não precisa entender. Vamos, depressa. — O estranho conti­nuava a andar de lá para cá. A cada passada, as botas de borracha, de tão molhadas e enlameadas, pareciam que pisavam em poças.

— Eu não me importo de ficar aqui. — Nova tentativa de Timmy.

— Cale essa boca de merda, desgraçado, e vamos depressa.

Lágrimas escorriam pelo rosto de Timmy, e ele as enxugava sem ceri­mônia. Suas mãos tremiam demais quando desafivelou o cinto. Passou para os botões da camisa, quando viu a algema no tornozelo. O mascarado teria de soltá-lo. Descobriria o elo torto? Ficaria mais nervoso? Só o frio da corrente de ar já incomodava Timmy. A barriga doía. Tinha vontade de vomitar. Os joelhos também estavam bambos, e as lágrimas dificulta­vam a visão.

De forma inesperada, o estranho interrompeu os passos nervosos. No meio do quarto, duro como um soldado, o homem inclinou ligeiramente a cabeça para um dos lados. Primeiramente, Timmy pensou que ele o examinava, mas, não, o mascarado escutava. Timmy tentou ouvir além do próprio coração. Fungou o nariz, enxugou as lágrimas com a manga da camisa e, então, também percebeu. Um motor de carro se aproximava. O veículo reduzia a velocidade.

— Merda! — vociferou o estranho, tomando o lampião, em direção a porta.

— Não, por favor, não leve a luz.

— Cale essa boca de merda, seu bebê chorão.

Sem mexer as pernas, o homem virou já com o braço armado e acertou a face de Timmy com as costas da mão. Timmy deu um salto para a cama e se refugiou no canto de sempre, abraçado ao travesseiro. Afastou a proteção ao deparar com a mancha vermelha na fronha branca.

— Esteja pronto quando eu voltar — disse ele em voz baixa. — E pare de sujar tudo de sangue.

O mascarado saiu apressado, fechando todas as trancas da porta e deixando Timmy no breu. Tão veloz ele partiu, que nem enxergou a corrente partida, uma ponta presa ao pé de Timmy, a outra pendurada sobre a beira da cama.

 

Christine não precisava perguntar a Eddie o que ele planejava. Ela reconheceu a estrada de terra sinuosa que subia e descia uma encosta íngreme. A rota serpentava por bordos e nogueira imensos, que anuncia­vam a margem do rio. Era para lá que os jovens iam para ficar a sós, perto do entroncamento com a estrada da Igreja Velha. Era deserta, escura e tinha vista para o rio. E para lá se dirigiam provavelmente Jason Ashford e Amy Stykes na noite em que toparam com o corpo de Danny Alverez.

Eddie saberia mesmo onde estava Timmy? Christine vira um servente da igreja chegando para ser interrogado? Eddie teria ouvido alguma coisa? E se Nick soubesse alguma coisa, qualquer coisa, ele não teria dito a ela? Não, claro que não. O irmão queria vê-la fora do caminho das investiga­ções, dar-lhe tarefas banais como copiar as fotos do filho.

Eddie lhe provocava ojeriza e, o pior, amedrontava-a. Christine o imaginava o tipo de policial que multa um carro a 81 quilômetros por hora numa estrada com limite de 80, só para se vangloriar de sua autoridade. Entretanto, se ele sabia onde Timmy estava... meu Deus, tudo que ela queria era ter o filho de volta, seguro e inteiro. Que preço ela se disporia a pagar por aquilo? Qual o preço que qualquer mãe, Laura Alverez, Michelle Tanner, pagaria para ter o filho de volta? Christine planejara vender a alma por um salário vil. Até onde chegaria para salvar o filho?

Eddie reduziu a velocidade, desviou o carro da estrada e o estacionou em uma clareira com vista para o rio. O pavor percorreu a coluna de Christine. A barriga vazia revirava-se. Sentiu-se tonta outra vez, mas não ficaria à mercê desmaiando naquele momento. Ele, que não se intimidava com uma mulher que o rechaçava, teria muito menos escrúpulos com uma inconsciente.

Eddie desligou o motor e apagou os faróis. A noite os envolveu. O carro parecia flutuar sobre o rio cintilante e as copas das árvores, visíveis abaixo deles. O prateado da lua fornecia a única e patética garantia de que a escuridão não engoliria tudo ali.

— Enfim, sós, longe de tudo — disse Eddie, voltando-se para ela, o que era previsível, mas sem sair de trás do volante. Christine achou com o pé a garrafa de cerveja e pisou-a para que não rolasse para baixo do banco. Sem as luzes do painel do carro, mal conseguia ver o rosto dele. Ouviu então um riscado, seguido por um estalo, e um fósforo se acendeu, inva­dindo suas narinas com o cheiro de enxofre, enquanto ele levava a chama ao cigarro na boca.

— Pode me dar um?

A brasa do cigarro iluminou o sorriso torto de Eddie. Ele lhe estendeu o maço e riscou outro fósforo, que o fogo consumiu depressa, queimando-lhe os dedos enquanto ele acendia o cigarro de Christine.

— Droga — resmungou Eddie, sacudindo a mão. — Detesto fósforos; perdi meu isqueiro em algum lugar.

— Eu não sabia que você fumava. — Ela tragou, deu um tempo, na esperança de que a nicotina a acalmasse.

— Estou tentando deixar.

— Eu também. — Christine riu para ele. Tinham algo em comum. Ela poderia ir adiante, não poderia? Aquela altura, os olhos, já adaptados à escuridão, conseguiam enxergá-lo. Seria mais fácil talvez se não o visse. Eddie mostrava-se tranqüilo e frio, com o braço relaxado sobre o encosto do banco. Ela precisava da mesma frieza para, pelo menos, evitar algum tipo de violência. — Você sabe mesmo onde Timmy está?

— Quem sabe? — disse ele com uma baforada de fumaça. — O que você faria para descobrir? — Eddie inclinou o corpo até que seus dedos curtos e grossos tocassem o cabelo dela, descessem por sua bochecha e chegassem ao pescoço.

— Como vou saber que isso não é um truque?

— Você não vai.

Os dedos se detiveram na gola do sobretudo. Eddie desabotoou-o até expor a blusa e a saia. A pele de Christine formigava a cada toque. Tarefa árdua conter a careta de nojo, mesmo com a nicotina.

— Isso não me parece justo, Eddie. Eu tenho que ganhar alguma coisa com isso.

Ele se fingiu magoado.

— Pensei que os incríveis orgasmos que eu vou lhe propiciar seriam o suficiente.

As pontas daqueles dedos grossos tocaram seus seios. A única alterna­tiva a se esquivar e se comprimir contra a porta do carro foi sentar-se, imóvel, com a coluna o mais reta possível. Não pense, Christine repetia para si mesma. Apague, abstraia. Todavia, ela quis gritar quando a mão dele lhe massageou os seios, beliscou os mamilos, e Eddie se satisfez com a reação deles ao seu toque.

Ele botou o cigarro de lado e deslizou para perto dela, o bastante para que a outra mão a invadisse e desaparecesse sob a saia. Christine se recusava a separar as coxas, o que o levou a gargalhar, o bafo azedo contra o rosto dela.

— Vamos lá, Christine. Solte-se.

— Eu estou um pouco nervosa. — A voz dela tremeu, o que o deixou contente. — Você tem preservativo?

— Você não usa nada, não toma nada? — Ele enfiou a mão entre as pernas dela.

— Eu não... — Impossível raciocinar com a brutalidade daquele toque. Christine tinha ânsia de vomitar. — Eu não estive com ninguém desde Bruce.

— Ah, é? — Ele a machucava na tentativa de puxar sua calcinha e garantir o caminho livre. — Bem, eu não uso camisinha.

Ela perdeu a respiração.

— Eu lamento, mas nós não podemos prosseguir se você não usar. Eddie obviamente confundiu a falta de ar com excitação.

— Sem problemas — afirmou ele, acariciando o rosto de Christine com a outra mão e enfiando o polegar em sua boca. — Há outras maneiras de se divertir.

Christine estava enojada. Vomitaria? Não podia... não podia irritá-lo. Ele abriu o zíper da calça e pôs o pênis ereto, longo e grosso para fora da braguilha. Eddie pegou a mão de Christine, mas ela resistiu. Ele sorriu e insistiu. Acomodou os dedos de Christine e apertou-lhe a mão até que ela sentisse as veias protuberantes e latejantes. Eddie gemeu e se recostou na porta do carro.

Christine não conseguiria. Não havia maneira de ela encostar a boca nele.


— Você realmente sabe onde Timmy está? — indagou ela mais uma vez, tentando se convencer de sua empreitada.

De olhos fechados, Eddie respirava ruidosamente.

— Oh, neném, me aperte e me chupe com vontade, que lhe digo tudo que você quiser ouvir.

Pelo menos, ele havia tirado suas mãos de seu corpo. Christine reparou na outra mão. A cinza equilibrava-se na ponta do cigarro entre seus dedos. Ela tragou mais uma vez para esquentar a brasa. Com a outra mão, ela apertou Eddie. Cravou as unhas até o fundo das veias e da espessura dura.

— Porra!

Os olhos de Eddie se arregalaram. Ele agarrou o pulso de Christine, que espremeu a brasa do cigarro no rosto dele. O homem uivou e afastou-se com as mãos na bochecha queimada. Ela se enfiou por trás de Eddie e alcançou a maçaneta da porta. Ele a segurou pela cintura, mas só até Christine acertar com o joelho o pênis ainda ereto. Eddie ficou sem ar. Ela pegou a garrafa de cerveja e quebrou na testa dele, quando ele, zonzo, partia para cima novamente. Outro berro, um som agudo de animal. Christine voltou para seu lado no carro, apoiou as costas na porta emper­rada, levantou os joelhos e, com toda a força que pôde reunir, meteu os dois saltos altos no peito dele. Eddie voou porta afora.

Ele se estatelou na neve e na lama, mas já se levantava quando ela fechou a porta e verificou as trancas das outras. Eddie golpeava o vidro, enquanto Christine se embaralhava para encontrar no escuro a ignição com a chave. A caminhonete pegou em meio a alguns engasgos e solavan­cos. Gritando, agora de ódio, o homem subiu no capo e chutou o pára-brisa. O vidro rachou. Christine engatou ré e pisou fundo no acelerador. Desgovernado, o carro quase caiu no fosso que limitava a estrada. Eddie foi lançado do capo e tentava levantar-se quando ela engatou a primeira e disparou, derrapando de um lado para o outro da estrada, mandando pedras, cascalhos e terra em todas as direções.

O carro desceu a toda pela estrada rumo a um buraco escuro. Os faróis. Ela apertava os botões que suas mãos encontravam. Ligou o rádio, acio­nou o limpador de pára-brisa. Desviou rapidamente o olhar para baixo e descobriu o botão que iluminou o trajeto. Bem a tempo de ver a curva fechada. Girou o volante com as duas mãos, a caminhonete saiu de lado, e Christine afundou o pé no freio. O veículo atravessou o fosso cheio de neve, rompeu a cerca de arame farpado e se chocou contra uma árvore.

 

Nick tinha a igreja escura em seu retrovisor. O jipe sacolejava pelos profundos sulcos de pneu no terreno, a única coisa a indicar a rota deserta e abandonada.

— Tem certeza de que não viu uma luz? Maggie virou-se para trás a fim de confirmar.

— Pode ter sido um reflexo. Temos lua hoje.

A igreja de madeira, escura e cinza, desapareceu do retrovisor quando Nick fez a curva para o cemitério. Voltou a examinar a construção, agora a sua esquerda. O prédio ficava sobre um campo coberto de neve. O mato algo amarronzado perfurava a camada branca. A tinta já descascara há anos, expondo a madeira podre e crua. Os vitrais haviam sido removidos, quebrados, e as janelas, vedadas com ripas. A grande porta de entrada deteriorava-se por trás das tábuas pregadas umas sobre as outras, de maneira desordenada, em distintas diagonais.

— Parecia uma luz — disse Nick. — Numa das janelas de baixo.

— Por que não verifica? Posso dar uma espiada em volta enquanto isso.

— Eu só tenho uma lanterna. — Ele se esticou até o porta-luvas, com cuidado para não a tocar.

— Tudo bem, eu tenho isso. — Ela acendeu uma pequena lanterna de bolso na direção dos olhos de Nick.

— Ah, ótimo. Isso vai iluminar o condado inteiro.

Maggie riu, e ele notou o quão perto sua mão estava da coxa dela. Pegou a lanterna e retornou rápido a seu lugar.

— Posso deixar os faróis acesos. — Com o carro estacionado naquela posição, porém, as luzes se perdiam em meio às árvores, acima das fileiras de lápides.

— Não precisa. Eu estarei bem.

— Eu não entendo por que sempre constroem cemitérios em colinas

— afirmou Nick, apagando os faróis. Permaneceram sentados, sem que nenhum deles tomasse a iniciativa de deixar o jipe. Alguma outra coisa preocupava Maggie, Nick pressentia desde que tinham saído do escritó­rio. Seria Albert Stucky? O lugar, a escuridão, lhe lembrariam o criminoso condenado?

— Você está bem?

— Sim — ela respondeu imediatamente, os olhos presos ao pára-brisa.

— Só estou esperando que minha visão se adapte ao escuro.

O cemitério era rodeado por uma cerca, uma rede de arame suspensa e esticada por colunas de aço inclinadas e tortas. Uma dobradiça manti­nha de pé o portão, que oscilava para a frente e para trás apesar da ausência de vento. Nick arrepiou-se. Detestava aquele lugar, desde que Jimmy Montgomery o desafiara a correr, tocar o anjo preto e voltar.

Era impossível não notar o anjo, mesmo durante a noite. Daquele ângulo, olhando colina acima, a estátua alta de pedra pairava sobre as outras tumbas. As asas lascadas só a tornavam mais ameaçadora. A recor­dação era de um Halloween, quase 25 anos atrás. E amanhã era sexta-fei­ra, Dia das Bruxas. Por mais estúpido que pudesse parecer, Nick jurava ouvir os gemidos fantasmagóricos de novo. Os gemidos de dor, contínuos, que, segundo os rumores, vazavam do túmulo guardado pelo anjo.

— Você ouviu isso? — Nick percorreu com os olhos as filas de concre­to e mármore. Acendeu os faróis, deu-se conta do papel ridículo que fazia, e os desligou. — Desculpe — murmurou, evitando Maggie, pois sabia que ela o encarava. Outro ato estabanado como esse, e ela se arrependeria de tê-lo convidado. Felizmente, Maggie não disse nada.

Como se adivinhassem os pensamentos um do outro, ambos puxaram as maçanetas de suas portas. Novamente, a dela girou no vazio.

— Droga — resmungou Nick. — Tenho que consertar isso. Espere. Ele saltou do carro e o contornou às pressas para abrir a porta de

Maggie. Em pé ao lado dela, Nick impressionou-se com o reflexo da lua na face do anjo, como se o brilho partisse de dentro da estátua.

— Nick, você está bem?

— Estou, estou bem. — Será que ela não via aquilo? Sacudiu a cabeça para desviar a atenção. — Eu vou... eu vou checar a igreja.

— Você está começando a me assustar.

— Perdão. E apenas... o anjo. — Ele apontou a lanterna e iluminou a estátua.

— Ele não volta à vida à meia-noite, volta?

Maggie estava debochando. Nick a olhou. Ela tinha expressão séria, parte do sarcasmo. Ele começou a se afastar rumo à igreja e, sem se virar para trás, lembrou:

— Lembre-se de que amanhã é Halloween.

— Eu pensei que vocês tinham cancelado — gritou Maggie.

Nick não permitiu que ela o visse sorrir, e seguiu pelo túnel de luz que a lanterna criava. Não ventava, e tudo era insuportavelmente quieto. Ao longe, uma coruja piou sem receber resposta.

Ele tentava concentrar-se no caminho, ignorando a escuridão que o engolia em volta. Era patético deixar que as assombrações de infância atrapalhassem seu trabalho. Afinal de contas, ele tinha aceitado o desafio de Jimmy e cruzado o cemitério naquela noite. Nick tocara o anjo para uma platéia de amigos, nenhum deles mostrou coragem para acompanhá-lo. Era irresponsável e tolo desde então, mais preocupado com o que os outros iriam pensar do que com as conseqüências de seus atos. Ainda sim, se a memória não o enganava, a terra não o havia sugado, como ele, criança, acreditava que fosse acontecer. Houve, sim, o gemido mal-assombrado, mas isso todos ouviram.

Desse lado da igreja, o que dava de frente para a trilha de terra, não havia pegadas. Isso significava que Adam e Lloyd não se deram nem ao trabalho de sair do carro. Teriam apenas dirigido em volta dos escombros para, honestamente, alegar que executaram a tarefa ordenada. Nick des­confiava de que nem mesmo teriam parado. Não culpava Adam. Era um garoto, queria causar boa impressão, entrar para o time. Mas Lloyd, droga, Lloyd era um preguiçoso.

Nick chutava o monte de neve e esmagava com pisadas fortes os blocos que resistiam. Espalhou um que obstruía uma das janelas que davam para o subsolo da igreja e lançou luz entre as tábuas úmidas e podres. Achou caixas empilhadas. Um movimento no canto do lugar. A lanterna flagrou a fuga de um rato através de um buraco na parede. Ratos, meu Deus, como não gostava de ratos.

Continuou até a próxima janela e, subitamente, ouviu um estalo de madeira. O ruído quebrou o silêncio da noite. Nick iluminou as janelas vedadas à sua frente. Esperava ver algo ou alguém atravessando as tábuas carcomidas.

Escutou de novo o barulho de madeira rachando, mais uma vez, outra, e então um vidro se rompeu. Imaginando que o barulho viesse do outro lado, correu com neve até a canela, apagou a lanterna, sacou a arma. Uma, duas, na terceira tentativa engatilhou-a. Os ruídos continuavam. O coração de Nick acelerava mais a cada um deles. Reduziu o passo ao se aproximar do final da lateral da igreja. Deveria gritar, indicar a sua pre­sença? Prendeu a respiração. Contornou o ângulo formado pelas duas paredes com a arma apontada para a escuridão. Nada. Reacendeu a lanterna. Madeira e vidro espalhados pelo terreno branco, à frente da abertura de não mais do que 30 centímetros quadrados.

Ouviu passadas na neve. A lanterna iluminou o movimento de alguém sumindo por entre as árvores. Um vulto pequeno, um brilho alaranjado.

 

Maggie concentrava-se no chão, à procura de alguma rachadura na camada de neve ou buracos recém-cavados. Timmy desaparecera após a nevasca. Se ele estivesse ali, a neve teria sido remexida. Caso o túnel existisse, onde naquela colina toda poderia haver uma entrada?

Maggie reparou no anjo preto acima dela, a vigiar um jazigo. Feridas brancas manchavam a superfície da estátua, indicando que algumas las­cas tinham sido tiradas. A figura ficava a um metro e meio de altura mais ou menos, um nível bem mais elevado do que os de outros marcos do cemitério. Suas asas se abriam para proteger o túmulo abaixo. A criatura ameaçadora emanava poder pela simples presença ali.

Com a pequena lanterna, Maggie, curiosa, iluminou a insrição: "Em memória de nosso amado filho, Nathan, 1906-1916." Uma criança, claro, daí a razão para um anjo da guarda. Seus dedos exploraram os bolsos do jeans justo até encontrar a correntinha com a medalha em um deles. O seu próprio anjo da guarda, que ela não exibia a ninguém. Os anjos também guardam os céticos? Seria ela cética de fato, mesmo carregando um crucifixo para lá e para cá?

Uma brisa veio através das árvores que delimitavam o fim do campo aberto e cruzou colina abaixo pelo cemitério. Os bordos enormes demar­cavam o início do bosque denso, da encosta que daria no rio. Maggie tentou visualizar escravos fugitivos, amedrontados, se orientando na co­lina íngreme sem a ajuda de lanternas ou lampiões. Mesmo com o pratea­do da lua e com o pontilhado de estrelas, a escuridão imperava.

Maggie ouviu ruídos atrás dela. Virou-se de pronto. Algo se mexeu. O barulho parecia um estalido de plástico, causado pela brisa. A lanterna captou o movimento de uma sombra no chão, depois do bloco de lápides Seria uma pessoa? Ela se acercou lentamente, com uma das mãos pari dentro da jaqueta e no revólver. Reconheceu então a lona preta, daquelas impermeáveis, que cobrem covas recém-abertas. Suspirou, mas nem bem havia relaxado, quando se lembrou de que o cemitério não era utilizado há anos. Não fora isso que Adam lhe contara? O corpo voltou a bombear adrenalina.

A lona repousava perto da base da colina, perto das árvores. Poucas lápides haviam neste lado. Dali, ela não avistava o carro nem a estrada por onde chegaram, só parte do telhado da igreja, a distância.

A lona aparentava ser nova, sem buracos ou remendos. Pedras e neve prendiam as pontas ao chão, mas uma delas escapou e esvoaçava. A rocha que a segurava estava ao lado. Colocada ao lado, pois nunca se deslocaria com a brisa da noite.

Maggie suava nas mãos, apesar do frio. As batidas do coração lhe subiam até os ouvidos, fortes e velozes. Ela poderia esperar Nick, voltar para o carro e aguardar. Em vez disso, puxou a ponta solta e arrancou a lona. Não foi necessário luz extra para ver. Descobrira uma porta estreita e longa, madeira grossa, que apodrecia em volta das dobradiças e desgas­tava-se no centro.

Maggie olhou para o ponto mais alto onde estava antes e avaliou a situação. Deveria esperar. Pense em Stucky, censurou-se. Lembrou-se da última mensagem: "Eu sei sobre Stucky." Rumava para outra emboscada? Não, não havia como o assassino saber que ela chegara ali.

Andou em volta da porta. Outra espiada na colina. O barulho do coração não lhe permitia pensar. Precisava acalmar-se. Era capaz de fazer aquilo.

Maggie segurou a lateral da porta. Não havia maçaneta. Puxou e forçou até movê-la. No entanto, a madeira era muito pesada, os músculos não agüentavam, farpas ameaçavam os dedos. Ela soltou, melhorou a pegada e tentou de novo. Desta vez ela se abriu. O fedor de mofo lhe bateu no rosto, o cheiro de podridão e de terra úmida.

Dirigiu a lanterna para o buraco, mas não iluminou nada além do terceiro degrau. Pareceu-lhe amador entrar ali sem equipamento mais compatível do que sua lanterna de bolso. O coração continuava acelera­do. Maggie sacou a arma e se aborreceu com a tremedeira na mão. Avis­tou a colina uma vez mais. Silêncio. Nem sinal de Nick. Devagar, ela desceu pela estreita e escura passagem.

 

Timmy deslizou pelo declive e amparou-se num arbusto espinhento. Ouvira o estranho logo atrás dele, notara o facho da lanterna no seu encalço. Não ousava parar nem olhar para trás. Arrastava o trenó, por mais estranho que isso pudesse parecer. Corria, estabanado, ofegante, topando nos galhos, o rosto atingido pelos ramos. Tropeçou, recuperou o equilíbrio e evitou a queda, sem interromper o avanço. Tentava ser o mais silencioso possível, mas não podia impedir os ruídos dos galhos e folhas sobre os quais pisava. Cada graveto que se quebrava era como uma explo­são no bosque denso. A escuridão o impossibilitava de ver os próprios pés. Até o céu desaparecera.

Parou para tomar fôlego, encostou-se em uma árvore e se deu conta de que esquecera o casaco. Não conseguia respirar. Os dentes batiam de frio. O coração prestes a lhe sair pela boca. Esfregou o rosto e descobriu mais sangue e também lágrimas.

— Pare de chorar — repreendeu-se. Han Solo nunca chorava.

Então ele escutou os estalos de galhos e os passos sobre a neve. Os sons vinham por trás dele, cada vez mais perto. Esconder-se e torcer para o estranho passar direto? Não, ele ouviria seu coração bater.

Partiu embalado por entre as árvores, novamente sem conseguir ver o que lhe aparecia pela frente. Ralou a bochecha e cortou a orelha num galho. A dor lhe provocou novas lágrimas. De repente, o chão sumiu de baixo de seus pés. Timmy segurou no que lhe passou pela frente no declive íngreme, galhos, pedras, qualquer coisa que o impedisse de desli­zar pela encosta. Enfim escorado, ele enxergou o brilho da água abaixo Ele nunca conseguiria. O mato era fechado demais, a descida, quase em vertical. Os estalos de galhos estavam cada vez mais próximos.

Timmy percebeu uma clareira a sua direita. Escalou as rochas que a obstruíam, segurando raízes de árvores com uma das mãos e o trenó com a outra.

Não era uma clareira, e sim uma antiga trilha de cavalos, aberta há tempos entre as árvores, e agora atravessada pelos galhos e pela vegeta­ção. Galhos que se assemelhavam a braços de extraterrestres, com dedos longos e finos a acenar para Timmy. Até onde ele podia ver, o caminho descia direto até o rio, com uma curva mais fechada aqui e ali. Parecia um de seus jogos de videogame: estreito, perigoso e coberto de neve. A camada branca frustraria qualquer tentativa de escalá-lo. Era perfeito. Seria uma loucura, uma irresponsabilidade também. A mãe teria um ataque.

Ruídos cada vez mais próximos o assustavam. Agachou-se na neve e na grama e, mesmo no escuro, viu a figura descendo, se equilibrando, de costas para ele. Lembrava um inseto gigante, com os tentáculos esticados que seguravam e se escoravam em raízes e pedras.

Timmy posicionou o trenó laranja na neve e embarcou com cuidado. Era realmente íngreme, muito íngreme. Permitiu-se uma espiada mais sobre os ombros. O estranho avançava; e o alcançaria em instantes. Timmy embicou o trenó na direção correta e se inclinou para trás, quase deitado. Não havia alternativa. Seja lá o que Deus quiser. Tomou impulso e com um só movimento lançou-se para baixo sobre o trenó.

 

Nick legou até a entrada do bosque, todos os nervos em alerta. Era impossível avistar algo somente com uma lanterna. Os galhos balança­vam com a brisa fria. Passarinhos trocavam chamados. O vulto havia partido. Ou se escondido.

Veio à mente de Nick a estrada, não muito longe dali, que serpenteava através do bosque até o rio. Ele teria mais possibilidades de jipe. Correu de volta para a igreja. Quando guardou a arma no coldre de ombro, resvalou no celular de Christine no bolso do casaco. Ótimo; evitaria os farejadores da imprensa se não usasse o radiotransmissor do carro.

Lucy respondeu no segundo toque.

— Lucy, é Nick.

— Nick, onde você se meteu? Eu estava tão preocupada.

— Não tenho tempo para explicar. Vou precisar de alguns homens e holofotes. Acho que estou na pista do assassino, no bosque atrás da igreja velha. Ele provavelmente está se dirigindo para o rio de novo.

— Para onde eu mando os rapazes?

— Perto do rio. Tem uma antiga rota que cruza o bosque, perto da Gerada da Igreja Velha, depois do parque estadual, perto também do lugar onde encontramos Matthew. Sabe onde é?

— Não é a estrada do Ponto de Encontro? — Ponto de Encontro?

— Bem, é assim que os garotos a chamam. Tem uma clareira com vista do rio. Os garotos vão para lá namorar.

— É, é essa. Lucy, ligue para Hal e diga-lhe que decida quem chamar

— Tudo bem.

Nick fechou o telefone. E se ele tivesse visto apenas um mendigo que se protegia do frio na igreja? Novamente, faria papel de idiota. Ao inferno com as aparências. A única coisa que importava era achar Timmy.

Parou em frente à janela, abriu com os pés o caminho entre vidro e madeira e iluminou o buraco. Havia uma cama, pôsteres na parede e um caixote com comida. Alguém se hospedara ali. A luz refletiu-se na corren­te. Ou alguém havia sido aprisionado ali. Nick viu as revistas em quadrinho, as figurinhas de beisebol e um casaco de criança. O casaco de Timmy. O coração disparou novamente. Ele não podia ter certeza de que perten­cia a Timmy, argumentou sem convicção para si mesmo. Nick sabia que era do sobrinho. Aqui o assassino escondia os garotos. Maggie tinha razão. Por último, ele iluminou o travesseiro manchado de sangue.

 

Maggie escutou pequenos animais deslocando-se pelo teto. Caiu sujeira sobre seu cabelo, mas ela nem ousou olhar para cima. Soprou teias de aranha de sua frente. Algo correu por entre suas pernas, e não foi neces­sário iluminar o chão para saber que se tratava de um rato. Ela os ouvia pelos cantos, atrás das paredes imundas, a escapar por seus próprios minitúneis.

O ambiente era tão reduzido que Maggie o avaliou inteiro com alguns movimentos da pequena lanterna. Havia contado 11 degraus, que a con­duziram para o subterrâneo, onde o ar úmido dava a impressão de que poderia ser tocado. O buraco lembrava um velho abrigo contra ciclones ou tornados, uma comparação não muito adequada, haja vista que os residentes de um cemitério não precisariam de proteção para desastres naturais. A não ser por grossas prateleiras de madeira e um caixote no canto, o cubículo estaria vazio. As prateleiras, cobertas de teias de aranha e fezes de ratos, nada guardavam. Para sua decepção, não havia nenhum sinal da presença de Timmy, nem um túnel. Seu tiro passara longe do alvo. Teria Stucky lhe sabotado também os instintos?

Mas alguém limpara a neve da porta e camuflara a passagem com a lona. Existiria ali algo, uma pista, alguma coisa que pudesse ajudar na localização de Timmy? Maggie reestudou o ambiente, e, dessa vez, ao iluminar um dos cantos, o caixote atraiu sua atenção.

De perto, a caixa de madeira apresentava bom estado. Não estava se deteriorando e não continha mofo. Certamente, estava há pouco tempo no buraco úmido e escuro. Tinha pouca sujeira na superfície, e seu pregos eram novos, ainda reluzentes.

Maggie guardou o revólver no coldre. Puxou a tampa do caixote, mas seus dedos não se mostraram fortes o suficiente contra os pregos. Encontrou uma barra de metal no mesmo canto da caixa e com ela alavancou a tampa. Os pregos entortaram, mas resistiram. Imediatamente, um cheiro de estragado vazou do recipiente e empesteou o buraco. Maggie parou e deu dois ou três passos para trás, avaliando o caixote pela terceira vez Caberia um corpo dentro dele? O cadáver de uma criança? Ela já vira partes de um corpo embalados em espaços até menores. Por exemplo, as quentinhas abarrotadas de pedaços de Emma Jean Thomas deixadas por Stucky em latões de lixo. Quem desconfiaria que um par de pulmões caberia em uma embalagem de alumínio do tamanho de um sanduíche?

Maggie tentou suspender o caixote, na esperança de arrastá-lo escada acima, mas tal empreitada revelou-se ainda mais difícil do que destampá-lo. O caixote mal se moveu. Voltou a forçar a tampa, obteve progressos, mas o fedor de podre a impediu de respirar. Soltou a pequena lanterna que segurava entre os dentes, tomou fôlego e tentou novamente.

Algo se arrastou na sujeira. Maggie virou-se de pronto. Houve um movimento na escuridão. Alguma coisa maior do que um rato. Ela se abaixou e pegou a lanterna no chão. Segurou a barra de ferro acima da sua cabeça, preparada para atacar. Prendeu a respiração e ouviu. Os ruídos e o movimentos cessaram. Iluminou a parede oposta ao lado onde estava. A prateleira de madeira se projetara para a frente, afastando-se da parede. Maggie via agora no lugar uma passagem grande o bastante para ser a entrada do famoso túnel.

No silêncio escuro, alguma coisa se mexeu atrás dela. Maggie não estava mais sozinha. Alguém se encontrava na passagem para a superfície, bloqueando os degraus. Ela sentiu a presença estranha, escutou o chiado da respiração, como se o recém-chegado sugasse o ar por um tubo. O pânico que Stucky deixara nela libertou-se por conta própria e correu em suas veias, gelado e veloz. No momento em que seus dedos buscavam o revólver por dentro da jaqueta, a lâmina afiada de uma faca deslizou de leve sob seu queixo.

 

— Agente Maggie O’Dell, que surpresa agradável.

Maggie não reconheceu a voz abafada em sua orelha. A ponta da faca apertava a maciez de sua pele. A pressão sob o queixo era contínua e a obrigava a jogar a cabeça para trás, até que seu pescoço ficasse completa­mente exposto, completamente vulnerável. Ela sentiu uma gota de san­gue correr para dentro da gola da jaqueta.

— Por que a surpresa? Pensei que me esperava. Você parecia saber tanto sobre mim. — A cada sílaba, Maggie sentia a faca penetrá-la mais. — Jogue fora a barra de ferro. — Ele a puxou contra si e, com o braço livre, a envolveu pelo abdômen, comprimindo-a mais do que o necessário, numa demonstração de força.

Maggie livrou-se da barra de ferro, e ele enfiou a mão dentro de sua jaqueta. Com cuidado, então, puxou a arma do coldre, afastando o braço abruptamente ao roçar-lhe os seios. Arremessou o revólver para o canto escuro, e ela ouviu o choque do metal contra a madeira do caixote. Não a surpreendia que ele se sentisse muito mais à vontade com a faca do que com a arma de fogo.

Maggie tentava assimilar a voz e a figura dele. Era forte, entre dez e 15 centímetros mais alto do que ela; o restante, ele disfarçava. O atrito da borracha contra sua orelha e a voz abafada indicavam que vestia uma máscara. Camuflava as mãos com luvas pretas, fabricadas com couro barato, vendidas às centenas em lojas de departamentos.

— Eu não a esperava. Pensei que você talvez tivesse voltado para casa, para seu confortável condomínio, para o marido advogado e a mãe doente. Como vai sua mãe, a propósito?

— Você deve saber melhor do que eu. Por que não me conta?

A faca afundou mais, e Maggie sugou mais ar, resistindo à urgência de engolir, enquanto mais sangue escorria por seu pescoço e descia por entre os seus seios.

— Sua resposta não foi muito educada — repreendeu ele.

— Desculpe — balbuciou Maggie, quase sem mexer a boca e o queixo. Ela podia fazer aquilo, podia fazer o jogo dele, mas precisava se manter calma, equiparar as condições da disputa, de algum modo. — Esse cheiro realmente está me matando. Por que não conversamos do lado de fora?

— Não, lamento. Isso vai ser um probleminha. Eu acho que você não vai sair mais daqui. O que você acha de sua nova casa? — Ele a girou para que a lanterna iluminasse a área, enquanto cravava a faca em sua carne.

— Ou devo dizer seu túmulo?

O fluxo gelado acelerou-se novamente em suas veias. Calma, ela pre­cisava manter-se fria e calma. Se pelo menos pudesse apagar a imagem de Albert Stucky talhando sua barriga. Se pelo menos conseguisse que esse alucinado diminuísse a pressão da faca...

Um movimento em falso, e ela sentiria o gosto do metal da faca em sua boca.

— O que vai adiantar... livrar-se de mim? — Ela continuou a falar devagar. — Todo o departamento do xerife sabe quem você é. Uma dúzia de assistentes estará aqui em poucos minutos.

— Ah, agente O’Dell, não tente blefar. Eu sei que você gosta de agir por conta própria. Não foi por isso que entrou naquela enrascada com o Sr. Stucky? E tudo o que você tem sobre mim é esse perfilzinho psicológi­co. Eu aposto que sei o que ele diz. Minha mãe abusou de mim quando criança, certo? Isso fez com que eu virasse gay, e agora eu mato garotinhos. — A tentativa de gargalhar soou como um cacarejo maníaco.

— Na verdade, eu não constatei que sua mãe tenha abusado de você.

— Maggie puxou pela memória, desesperada, tentando lembrar o pouco que investigara sobre a história familiar de padre Keller. Obviamente, a mãe o criava sozinha, como as mães das vítimas. No entanto, ela morreu ainda jovem, em um acidente. Por que ela não se lembrava dos detalhes? Por que era tão difícil pensar? Talvez fosse o cheiro, a pressão da faca, a sensação do próprio sangue sobre sua pele. — Eu creio que ela o amou — prosseguiu Maggie, enquanto ele permanecia em silêncio. — E você a amou também. Mas você sofreu abusos, sim. — Ele se contraiu, com um tique nervoso, o que Maggie interpretou como um sinal de que estava certa. — Por um parente... talvez um amigo de sua mãe... não, um padrasto — Ela se recordou de súbito.

A faca se mexeu, um centímetro mais ou menos, mas o suficiente para que ela pudesse respirar novamente. Ele se aquietara, aguardava, ouvia. Maggie captara sua atenção. Era a vez dela no jogo.

— Não, você não é homossexual, mas ele fez com que você duvidasse de si mesmo, não fez? Ele fez você pensar que talvez fosse, sim.

O braço em volta de sua cintura se distendeu. Maggie sentiu que ele respirava de forma acelerada, um movimento constante do peito dele contra as costas dela.

— Você não mata os garotos para extravasar sentimentos, mas para salvá-los, porque eles lembram o menino vulnerável que você foi no passado. Eles lhe lembram você mesmo. Acha que os salvando será capaz de salvar a si próprio?

O silêncio dele não se quebrou. Teria ela ido longe demais? Maggie tentava se concentrar na mão com a faca. Se desse uma cotovelada no peito dele, quem sabe não poderia agarrar a faca antes que a cortasse? A prioridade agora era mantê-lo desatento. Ela prosseguiu:

— Você liberta os coitadinhos do mal, não é isso? Ao inflingir-lhes sua própria maldade, você os transforma em mártires. Você é um herói, meu caro. Você poderia até dizer que a sua é a maldade perfeita.

O braço em volta da cintura de Maggie a espremeu com força contra o corpo dele. Ela tinha ido longe demais. A faca pressionou seu pescoço, e desta vez a lâmina inteira fez contato com a pele. Bastava um movimen­to rápido para que ele abrisse sua garganta.

— Isso é um amontoado de psicologia de merda. Você não sabe sobre o que está falando. — A voz rouca e grave vinha de algum lugar bem no fundo dele. — Albert Stucky deveria tê-la estripado quando teve a opor­tunidade. Agora, eu acho que terei que terminar o trabalho. Nós precisa­mos de mais luz. — Ele a arrastou para a entrada secreta do túnel, de onde tirou um lampião. — Acenda. — Fez com que Maggie se ajoelhasse, mantendo a faca no pescoço dela e jogando uma caixa de fósforos no chão. — Acenda isso para que você assista.

"Eu quero que você assista", ela ouvira Albert Stucky dizer, como se ele estivesse ali no canto, esperando. "Eu quero que você veja como eu faço"

Maggie pegou os fósforos como se seus dedos pertencessem a outra Pessoa. Não havia sensações nele, mas ela acendeu o lampião de primeira.

O brilho amarelo tomou o pequeno ambiente. Sentiu o corpo inteiro dormente. O sangue como se houvesse sido drenado das veias. A mente paralisara, desconectara-se, como uma defesa para a dor. Ela reconheceu todos os sinais. Lá estava Albert Stucky outra vez. Maggie fechou-se como a única resposta possível ao terror que a esmagava.

Não conseguia respirar o ar pesado, naquele momento impregnado do cheiro de carne estragada. Como todo o corpo, os pulmões se recusavam a trabalhar. O fio da faca mantinha a pressão contra sua garganta. A mão dele tremeu. Medo ou raiva? O que importa?

— Por que você não está chorando nem gritando? — Era raiva. Maggie não respondeu, não conseguia. A voz também a abandonara.

Ela pensou no pai, os olhos castanhos calorosos, o homem sorrindo para ela enquanto punha o cordão com o crucifixo no pescoço da filha. "Aon­de você for, ele a protegerá. Nunca o tire, está bem, meu amor?" Mas não protegeu você, papai, ela queria dizer, e não protegeu Danny Alverez também.

O estranho puxou-a pelos cabelos, colocando-a de pé, sem tirar a faca de seu pescoço. Mais sangue escorria entre seus seios.

— Diga alguma coisa — gritou ele em sua nuca. — Implore, reze.

— Termine logo com isso — disse Maggie finalmente, com muito esforço, depois de persuadir a própria voz, os lábios e a garganta cortada a cooperarem para que saíssem apenas as quatro palavras.

— O quê? — Ele demonstrou surpresa genuína.

— Termine logo com isso — repetiu ela, agora mais alto, com mais esforço.

— Maggie? — Do topo da escada, a voz de Nick infiltrou-se no am­biente.

O estranho virou-se para os degraus, confuso e sacudindo Maggie com ele. Ela, como se não participasse da cena e assistisse a tudo de um canto, viu a própria mão partir em busca da faca e segurar o pulso do agressor. Maggie se desatrelou do outro braço dele, no instante em que o criminoso soltava o pulso agarrado. Num golpe veloz, ele cruzou o braço libertado na frente dela, enfiando a faca por dentro da jaqueta de Maggie, cortando tecido, carne e outra vez tecido ao final do movimento. O mascarado a empurrou com força, e o impacto dela contra a parede suja produziu um ruído seco.

O facho de luz de Nick apressava-se pelos degraus. O vulto apanhou o lampião e se meteu pelo buraco. A prateleira de madeira balançou e acabou por despencar no chão, quase atingindo Nick.

— Maggie? — A lanterna cegou-a.

— Pelo túnel. — Ela indicou a passagem, enquanto tentava se ajoe­lhar. Uma fisgada de dor obrigou-a a deitar-se de novo. — Não o deixe escapar.

Nick desapareceu através do buraco, deixando-a na total escuridão. Ela não precisava de luz para perceber que sangrava. Seus dedos acharam com facilidade a ferida grudenta no abdômen. Dali, foram para o bolso da calça e puxaram a corrente e a medalha. Maggie sentiu o relevo do crucifixo. O metal frio lhe recordava a lâmina da faca. O bem e o mal, a fronteira entre os dois era tão tênue assim? Em seguida, ela colocou a cordão no pescoço ensangüentado.

 

Nick procurava não pensar. Principalmente agora que o túnel ziguezagueava e se estreitava, forçando-o a engatinhar. Não conseguia mais avistar o mascarado. A lanterna só mostrava mais escuridão à frente. Ele levantava sujeira e deslocava pedregulhos com cada movimento. Raízes rompidas brotavam da terra e atravessavam o caminho como teias de aranha. A respiração era difícil. Quanto mais avançava, menos ar havia. O cheiro de azedo e podre queimava os pulmões e intensificava a dor no peito de Nick.

Pêlos roçaram por sua mão. Ele bateu com a lanterna, errando o rato e espalhando pilhas por todos os lados. A escuridão súbita primeiro sur­preendeu-o no início e segundos depois aterrorizou-o. Alucinado, Nick tateou em busca da lanterna, enchendo as mãos de terra e mofo. Uma pilha, duas, finalmente três. Por favor, funcione. Ele nem certeza tinha se podia dar meia-volta tão apertado era o espaço. Não concebia percorrer todo o trajeto já feito.

Nick enrascou a tampa da lanterna. Nada. Bateu, apertou a rosca, golpeou-a de novo. Luz, graças a Deus. Só agora ofegava por ar. A escu­ridão poderia ter sugado todo o oxigênio?

Acelerou o ritmo. O túnel se tornava mais e mais estreito. Nick usava os cotovelos e batia os pés como um nadador contra a correnteza. Sempre fora um péssimo nadador: um acrobata exibido no trampolim, mas uma pedra dentro d'água. Agora, sentia-se como se estivesse se afogando, atrás de ar e engolindo sujeira.

Quanto teria avançado por aquele buraco? Quão mais longo o túnel poderia ser? Salvo o movimento dos ratos e a avalancha de sujeira, o silêncio reinava. Ele estava simplesmente se enterrando vivo?

Como o vulto desaparecera tão rapidamente? E se aquele era o assas­sino, quem sumira pelo bosque mais cedo?

Nada fazia sentido, era tudo uma loucura. Ele não conseguiria; não podia respirar. Seus pulmões explodiriam a qualquer instante. A poeira colava nele, invadia-lhe os olhos e a garganta. A boca seca tinha um gosto podre de morte, que o sufocava. Nick ralava as costas e as laterais do corpo nas paredes do túnel, que continuava a se fechar. Ouvia a roupa rasgar, a pele ser cortada por pedaços de pedra, madeira, talvez até ossos, que irrompiam da terra.

Quanto mais? Tratava-se de uma armadilha. Teria perdido alguma entrada no início, onde o túnel era maior? Onde ele andava encurvado, mas ainda andava? Teria passado batido por uma outra passagem secreta? Isso explicaria por que perdera totalmente o estranho de vista. E se este túnel fosse um beco sem saída?

Convencia-se de que não conseguiria avançar mais, quando a lanterna iluminou uma superfície branca mais à frente. Neve bloqueava a passa­gem. Tenso e abstraindo o cansaço, Nick puxou, empurrou, bateu, cavou sua saída para a superfície. O céu preto e estrelado apareceu. E, apesar dos quilômetros que imaginara ter viajado, deu-se conta de que nem o cemitério havia deixado. Ao contrário, emergiu do chão como um corpo voltando à vida entre as lápides. A menos de um metro, o anjo preto flutuava sobre ele. O brilho na face da estátua parecia um sorriso para Nick.

 

O pescoço de Christine doía sempre que ela adormecia no sofá. Viu que galhos atravessavam o vidro. A tempestade lançara galhos contra a janela da sala de estar? Escutara o estrondo. Havia um buraco no teto também. Podia até enxergar as estrelas, milhares delas, bem acima de sua casa.

Onde estava a colcha de vovó Morrelli? Christine precisava de algo para se proteger da corrente de ar, do vento frio. Timmy, ligue o aquece­dor, por favor. Chocolate quente, talvez ela pudesse preparar canecas deliciosas de chocolate quente para os dois. Se pelo menos conseguisse empurrar a mobília que pressionava o seu peito. E onde estavam os braços quando ela precisava? Tinha um deles perto dela. Por que não conseguia movê-lo? Adormecera como o resto de seu corpo?

Aqueles faróis a aborreciam, incomodavam seus olhos. Se encontrasse o botão, poderia desligá-los. Eles faziam os galhos dançarem, uma rumba em câmera lenta, batendo e espalhando vidro. Era difícil manter os olhos abertos. Ela poderia voltar a dormir se aquele ruído desagradável cessasse. Ele vinha de algum lugar dentro de seu casaco, dentro de seu peito. Não importa o que fosse, era desagradável e dolorido... Isso, desagradavelmente dolorido.

O que o presidente Nixon fazia diante dos faróis? Ele acenou para ela. Christine tentou acenar de volta, mas o braço continuava sem reação. O presidente entrou na sala de estar, tirou os móveis de cima dela e a carregou para a cama.


 

Timmy observou a viagem do trenó correnteza abaixo. O chamativo laranja parecia fluorescente sob o brilho da lua. Ele se agachou na neve, escondido pelo mato à margem do rio. O treinamento de se lançar do topo da colina, mesmo contra a vontade da mãe, servira para algo.

Timmy sentia-se confiante. Só agora percebera que havia perdido um dos tênis na descida. O tornozelo doía, apesar da aparência engraçada, inchado, quase o dobro do tamanho do outro. Relaxava, quando enxer­gou novamente o vulto. A sombra descia como uma aranha a encosta, agarrada em galhos e vegetação, esticando-se para apoiar-se em galhos e pedras. Movia-se com agilidade.

Timmy voltou os olhos para o trenó, arrependido por não ter perma­necido a bordo do brinquedo. O estranho chegou à margem do rio e avistou o trenó também. O objeto laranja boiava afastado demais da encosta para que fosse possível ver seu interior. Talvez o vulto imaginasse Que Timmy tivesse ficado no trenó, pois repentinamente a sombra não se mostrava mais tão apressada. Permaneceu parada, de frente para o rio, quem sabe decidindo se mergulhava atrás ou não.

Fora do bosque, o estranho parecia mais baixo e, embora estivesse escuro para ver seu rosto, não usava mais a máscara do presidente morto.

Timmy enfiou-se mais na neve. A brisa do rio aumentava o frio. Os dentes batiam, e os arrepios tornavam a dominar seu corpo. Abraçou os joelhos contra o peito e ficou de olho, à espera. Quando o vulto desapa­recesse, Timmy seguiria pela estrada acima da encosta. A via era uma subida só, mas melhor do que retornar ao bosque. Além disso, o caminho teria que levá-lo a algum lugar.

Por fim, o estranho dava a impressão de que desistia. Apalpou bolsos, achou o que procurava e acendeu um cigarro. Após a primeira tragada, começou a andar na direção de Timmy.

 

Maggie rastejou pelos degraus até a saída, contrariada porque os joelhos não a sustentavam. A lateral de seu abdômen queimava, o calor penetra­va mais e mais, alastrava-se pelos pulmões e pelo estômago. A sensação era de que a faca se quebrara e a lâmina continuava a perfurá-la. Meu Deus, ela estava ficando boa naquilo. A perfeição vinha da prática. Nem tão perita ainda, pois quando enfim se deitou sob a luz da lua a visão do próprio sangue a enjoou, deixou-a tonta. Cobria a lateral de seu corpo e ensopava as roupas, a suéter de gola rulê, antes vermelha, estava preta de sangue e terra.

Maggie afastou os cabelos do rosto, da testa suada e notou a mão suja de sangue. Tirou com cautela a jaqueta e rasgou o forro até obter a quantidade de pano necessária. Encheu o tecido de blocos de neve e o pressionou contra a ferida. As estrelas no céu se multiplicaram, e ela fechou os olhos para amenizar a dor. Quando os abriu, viu um vulto se aproximando, cambaleante como um bêbado, entre as lápides. Maggie buscou a arma, mas apalpou o coldre vazio. Claro, a arma ficara em algum lugar lá embaixo.

— Maggie — chamou o bêbado, e ela reconheceu a voz de Nick. O alívio a inundou de tal maneira que por um segundo ou dois ela se esqueceu da dor.

Nick estava coberto de lama e sujeira ao se ajoelhar ao lado dela. O fedor a fez tossir. Mesmo assim, Maggie escorou-se nele e comemorou a chegada do braço dele ao seu redor.

— Meu Deus, Maggie, você está bem?

— Eu acho que ele cortou apenas carne. Você o viu? Você o pegou? Ela teve a resposta nos olhos dele, com o detalhe que não havia ali só decepção, mas algo mais.

— Eu acho que deve ter um labirinto de túneis lá embaixo — disse Nick, sem fôlego. — E eu peguei o desvio errado.

— Nós precisamos contê-lo. Ele deve estar na igreja. Talvez seja onde ele esconda Timmy.

— Escondia.

— O quê?

— Localizei o cativeiro. O casaco de Timmy ficou para trás.

— Então precisamos encontrá-lo. — Ela tentou ficar de pé, mas caiu de volta nos braços dele.

— Eu acho que chegamos tarde demais, Maggie. — Ela ouviu as palavras escaparem pelo nó na garganta dele. — Também ficou para trás... um travesseiro ensangüentado.

Maggie recostou a cabeça contra o queixo dele e ouviu as batidas, a respiração inconstante. Não, tal respiração era dela.

— Meu Deus, Maggie, você está perdendo muito sangue. Preciso levá-la para o hospital. Inferno, eu não vou perder duas pessoas que eu amo na mesma noite.

Ainda um pouco zonzo, Nick custou a erguer Maggie. Com os joelhos bambos, ela ficou de pé, escorada no ombro dele. A dor vinha em pontadas ardentes, queimando e rasgando, cacos de vidro em brasa cortando cada vez mais fundo. Enquanto se agarrava ao corpo dele, ela se pergun­tou se o escutara corretamente. Ele dissera realmente que a amava?

— Não, Maggie. Eu a levo até o jipe.

— Eu estou vendo o jeito como você está andando, Morrelli. Confio mais nos meus pés. — Ela se livrou do apoio, trincando os dentes contra as pontadas constantes.

Os dois se encontravam bem perto do jipe quando ela se lembrou do caixote.

— Nick, espere. Temos que voltar.

 

Christine arregalava os olhos para as estrelas. Identificou facilmente a Ursa Maior, a única coisa que desde criança ela conseguia achar no céu à noite. Sobre a cama suave de neve e sob um cobertor de lã, que, apesar de pinicá-la, era maravilhosamente quente, Christine mal percebera que se deitava no acostamento. E se pudesse respirar sem engasgar com as crostas de sangue, ela conseguiria até dormir.

A realidade se revelava em fisgadas de dor e flashes de memória. Eddie apalpando seus seios. Metal amassado espremendo suas pernas, seu corpo. E Timmy, meu Deus, Timmy. Ela sentiu o gosto de lágrimas e mordeu os lábios para contê-las. Christine tentou sentar-se, mas seu corpo se recusava a obedecê-la, a compreender seus comandos. Respirar doía. Será Que ela poderia parar de respirar pelo menos por alguns minutos?

Os faróis vieram do nada, contornaram a esquina em sua direção. Christine escutou o ruído dos freios. Cascalhos pipocaram contra o metal. Pneus derraparam. As luzes a cegaram. Quando duas sombras alongadas saíram do veículo, ela imaginou alienígenas com cabeças re­dondas e grandes olhos de inseto. Então notou que chapéus deformavam as cabeças.

— Christine. Oh, meu Senhor, é Christine.

Ela sorriu e fechou os olhos. Christine nunca ouvira tais traços de medo e nervosismo na voz do pai. Como era inadequado naquele momen­to alegrar-se com isso.

Quando o pai e Lloyd Benjamin se ajoelharam a seu lado, a única coisa que Christine conseguiu dizer foi: — Eddie sabe onde Timmy está.

 

Nick tentou convencer Maggie a aguardar no jipe. Haviam conseguido estancar o sangramento, mas ignoravam quanto sangue ela havia perdido. Maggie equilibrava-se em pé com dificuldade, e seu rosto perdera toda a cor. Quem sabe não apresentava alucinações?

— Você não entende, Nick — continuava ela a discutir com ele.

Ele estava a ponto de pegá-la e jogá-la dentro do jipe, mas nesse caso provavelmente ela o atrapalharia e o impediria de dirigir.

— Eu vou lá checar esse estúpido caixote — cedeu Nick. — Espere-me aqui.

— Nick, espere. — Ela cravou os dedos no braço dele, franzindo o rosto de dor. — Pode ser Timmy.

— O quê?

— Dentro do caixote, pode ser Timmy.

A idéia tirou-o de órbita como um murro. Seus joelhos se enfraquece­ram e Nick sentou no capo do jipe.

— Por que ele faria isso? — conseguiu dizer, com a garganta entalada. Não queria visualizar uma caixa forrada com o sobrinho, imaginá-lo mor­to. Todavia, ele já não pensara nessa possibilidade? — Não é o estilo dele.

— Seja lá o que for, o conteúdo desse caixote é dedicado a mim.

— Não entendi.

— Você se lembra da última mensagem? Se ele se informou sobre Stucky, pode ter recorrido a seus métodos. Nick, pode ser Timmy dentro daquele caixote. Nesse caso, isso não seria alguma coisa que você apre­ciaria ver.

Ele a encarou. Sangue e sujeira manchavam seu rosto. Terra e teias de aranha se emaranhavam nos cabelos. Aqueles lábios grossos e lindos se comprimiam contra a dor. Os ombros macios, de pele lisa, desabaram pelo esforço de Maggie em sustentar o próprio corpo. E, mesmo assim, ela queria protegê-lo do pior.

Ele girou sobre os calcanhares e partiu determinado colina acima.

— Nick, espere.

Ele a ignorou. Maggie não poderia, nunca conseguiria, segui-lo sem ajuda.

Nick hesitou junto aos degraus descobertos por Maggie, antes de se obrigar a descer para o subterrâneo. O lugar estava tomado pelo ar quen­te, úmido e fétido. Ele achou uma barra de ferro e o revólver de Maggie, que guardou no bolso de sua jaqueta. Colocou a barra e a lanterna sob o braço e ergueu o caixote, carregando-o devagar pelos degraus. Seus mús­culos lhe ordenavam que o largasse, mas ele não lhes deu ouvidos até deixar o buraco do inferno e poder respirar ar fresco de novo.

Maggie esperava-o na saída, junto a uma lápide, ainda mais pálida.

— Deixe que eu faço — insistiu ela, estendendo o braço, pedindo a barra de ferro.

— Eu posso fazer isso, Maggie. — Nick encaixou a barra sob a tampa e começou a alavancá-la. Os pregos se entortavam, e o barulho ecoava pelo silêncio escuro. Mesmo com a brisa e o frio, o cheiro de morte prevalecia. Quando a tampa se soltou, Nick titubeou mais uma vez. Maggie acercou-se pelo lado dele e a puxou, abrindo a caixa.

Ambos recuaram, mas não por causa do fedor. Embalado com zelo e capricho na caixa, envolto em um pano branco, o corpo pequeno e delicado de Matthew Tanner.

 

Não havia para onde Timmy fugir. Nenhum lugar para se esconder. Ele escorregou para mais perto da água. Poderia atravessar o rio a nado? Flutuar correnteza abaixo? Examinou o curso do rio escuro e agitado. Era muito forte, muito rápido e muito frio.

O estranho terminava seu cigarro. Parará tão próximo que Timmy era capaz de ouvi-lo resmungar consigo mesmo. De vez em quando, o vulto chutava pedras para o rio. A água chegava a respingar em Timmy.

Ele tinha que correr de volta para o bosque, onde poderia se esconder. Nunca poderia escapar pelo rio. Sem agasalho, os calafrios de Timmy já semelhavam convulsões. A água gelada pioraria ainda mais a situação.

Timmy espiou o barranco que margeava o rio. O estranho acendia outro cigarro. Agora. Era o momento de partir. Escalou a encosta, lançan­do terra e pedras para o rio, explosões na água, que o denunciaram. Timmy se aproximava da estrada quando seu tornozelo cedeu. Caiu de joelhos e cotovelos no chão. Arrastou-se, engatinhou para se levantar, mas antes que se recompusesse, seu corpo foi suspenso do terreno. Chu­tou o ar com as duas pernas e arranhava o braço que o prendia pela cintura. Outro braço apertou seu pescoço.

— Calma aí, seu merdinha.

Timmy começou a gritar. O braço apertou com mais força, privando-o de ar, sufocando-o.

No momento em que o carro chegou a toda velocidade pela estrada sinuosa, o agressor ainda mantinha Timmy sob pegada firme. O veículo derrapou para parar diante deles, e, ainda assim, o estranho não se mexeu nem fugiu. Os faróis ofuscaram a visão de Timmy, mas ele reconheceu o assistente Hal. Por que o cara não o soltava? Estava machucando seu pescoço. Timmy arranhou e unhou novamente o braço que o prendia. Por que o agressor não tentava escapar?

— O que está acontecendo aqui? — perguntou o assistente. Ele e outro assistente saíram do carro e se acercaram devagar.

Timmy não compreendia por que eles não sacavam as armas. Será que não se davam conta do que se passava? Será que não viam que o cara o estava machucando?

— Eu encontrei o garoto escondido no bosque — disse o estranho. Ele soava excitado e orgulhoso. — Você pode dizer que eu o resgatei.

— Eu estou vendo — afirmou Hal.

Não, aquilo era mentira. Timmy queria dizer-lhes que o cara mentia, mas não podia falar nem respirar com o braço apertando seu pescoço. Por que eles pareciam acreditar no estranho? Ele era o assassino. Não podiam ver?

— Por que vocês dois não vêm conosco? Venha Timmy, você está seguro agora.

Lentamente, o braço soltou seu pescoço, e seus pés tocaram o chão. Timmy terminou de se livrar com um empurrão e correu em direção ao assistente Hal, tropeçando com o tornozelo inchado.

Hal segurou Timmy pelos ombros e gentilmente acomodou-o no banco de trás do carro. O assistente voltou-se então para o estranho e sacou sua arma:

— Venha, agora. Você tem muito o que explicar, Eddie.

 

Sexta-feira, 31 de outubro

Christine acordou no quarto cheio de flores. Teria morrido, depois de tudo? Com a visão ainda embaçada, viu a mãe sentada perto da cama e se tocou imediatamente de que continuava no mundo dos vivos. Certa­mente, o tailleur azul e rosa da mãe não seria nunca aceito no céu, nem no inferno.

— Como se sente, Christine? — A mãe sorriu e pegou-lhe a mão. A mulher finalmente permitia que seus cabelos ficassem com a cor natural grisalha. Caíra-lhe bem. Christine decidiu comentar mais tarde quando o elogio viria a calhar, em meio à inquisição que por certo sofreria.

— Onde estou? — A mais estúpida das perguntas, mas, depois de horas de delírios e alucinações, tinha o direito de saber.

— Você está no hospital, querida. Não se lembra? Voltou da cirurgia há pouco tempo.

Cirurgia. Só agora ela percebia todos os tubos entrando e saindo do corpo. Num momento de pânico, ela se livrou das cobertas.

— Christine!

As pernas ainda estavam ali, graças a Deus. Ela conseguia movê-las. Uma delas fora enfaixada, mas Christine não ligava, contanto que pudes­se mexê-la.

— Você não quer pegar uma pneumonia. — A mãe rearrumou as cobertas em volta dela.

Christine levantou os dois braços, flexionou os dedos e observou os líquidos que entravam em suas veias. Não faltava nenhuma peça, e todas aparentavam funcionar bem. Pouco importava que sentia seu peito e sua barriga em picadinho. Pelo menos, estava inteira.

— Seu pai e Bruce foram tomar café. Eles vão ficar felizes de vê-la acordada.

— Oh, meu Deus, Bruce está aqui? — A presença do marido fez Christine recordar-se de Timmy, e a apreensão começou a sugar todo o ar do quarto.

— Dê-lhe uma segunda oportunidade, Christine — aconselhou a mãe, completamente alheia à falta de oxigênio no ambiente. — Essa provação realmente o mudou.

Provação? Então este era o último termo usado para classificar o sumiço de seu filho?

Neste momento, Nick botou o rosto para dentro do quarto. O irmão ganhara um novo corte na testa, mas os hematomas e o inchaço no queixo mal se notavam. Ele vestia uma camisa azul de tecido grosso, uma gravata azul-marinho, jeans e uma jaqueta azul-marinho. Meu Deus, por quanto tempo ela dormira? O irmão parecia vestido para um funeral. Christine lembrou-se de Timmy de novo. Uma nova onda de medo adicionou mais peso a seu peito.

— Oi, amor — disse a mãe, quando Nick se abaixou para beijá-la.

Christine observou os dois ali juntos, esperando sinais. Ousaria per­guntar? Mentiriam para preservá-la durante o pós-operatório? Pensariam que ela estava muito frágil?

— Eu quero a verdade, Nicky — balbuciou Christine em voz tão aguda, que nem ela mesma reconheceu. Ambos a encararam, confusos, preocupados. Os olhos do irmão denunciavam que ele sabia sobre o que ela estava falando.

— OK, se é assim que você quer. — Nick voltou-se para a porta, e ela quis gritar para impedi-lo, para pedir que ficasse e lhe contasse tudo.

— Nicky, por favor — suplicou, sem se preocupar com a entonação tão patética.

O irmão abriu a porta, e Timmy estava lá, de pé, como uma aparição. Christine esfregou os olhos. Mais uma alucinação? O filho mancou em direção a ela, exibindo seus machucados e arranhões. Um corte na boche­cha, um lábio inchado roxo. Entretanto, o rosto e os cabelos brilhavam de limpos. Tinha as roupas recém-passadas e um novo par de tênis. Havia tudo sido um pesadelo horrível?

— Oi, mãe — cumprimentou ele, como se aquela fosse uma manhã qualquer. Timmy subiu na cadeira que a avó arrastou para ele e se ajoe­lhou para ver por cima da cama. Christine chorou; não tinha outra coisa a fazer. Ele era real? Ela tocou os ombros do garoto, ajeitou os cabelos e acariciou o rosto do filho.

— Ô, mãe, está todo mundo olhando — repreendeu o filho. Ele era real.

 

Nick saiu sorrateiramente do quarto, antes que a cena se tornasse um dramalhão, antes que e