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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


PETER CAMENZIND / Herman Hesse
PETER CAMENZIND / Herman Hesse

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

PETER CAMENZIND

  

«Agora, ao olhar e meditar nas minhas viagens e tentativas na vida, sinto alegria e irritação por viver também em mim a velha experiência de que os peixes pertencem à água e os camponeses à terra, e que um Camenzind de Nimikon, apesar de todas as suas artes, não pode transformar-se num homem da cidade ou do mundo.»

Assim se conclui a história da formação do jovem Peter Camenzind, um aldeão à descoberta das glórias e misérias da vida moderna, até ao momento em que o círculo se fecha e ele regressa, num derradeiro apaziguamento, à sua terra natal.

«Em Peter Camezind Herman Hesse justapõe à parábola do filho pródigo o mito da viagem iniciática. Uma história inspirada, contada num tom de rara beleza do grande escritor alemão que foi Prémio Nobel de Literatura 1946.»

 

 

No princípio, era o mito. E assim como o grande Deus fazia poesia na alma dos hindus, gregos e germanos, procurando expressar-se, assim de novo ele faz poesia, dia após dia, na alma de cada criança. Então, eu ainda não sabia como se chamavam o lago, os montes e ribeiros da minha terra; mas olhava a vastidão lisa, verde-azul do lago ao Sol, recamada de pequenas luzes, as montanhas abruptas em redor, como uma corda espessa, nas gargantas mais elevadas, as falhas reluzentes de neve e as pequenas, minúsculas quedas de água, e no sopé as luminosas veigas salpicadas de árvores de fruto, cabanas e vacas cinzentas dos Alpes. E estando a minha pobre pequena alma tão vazia, silenciosa e anelante, os espíritos do lago e das montanhas escreveram nela os seus belos e ousados feitos. As hirsutas escarpas e rochas falavam, insistentes e plenas de respeito, dos tempos de que descendem e trazem as cicatrizes. Falavam do tempo em que a Terra quebrava e vergava e, do seu seio atormentado, gemendo nas dores do parto, fazia irromper picos e cristas. Montanhas de rocha erguiam-se bramindo e retumbando e, aguçando-se sem medida, partiam; montes gémeos lutavam desesperadamente por espaço, até que um deles vencia, e se elevava, e lançava o seu irmão para o lado, despedaçando-o. Desde esses tempos, nos desfiladeiros, jaziam ainda aqui e além, cumes partidos, rochas expelidas e fendidas, e de cada vez que a neve derretia, a queda das águas lançava para baixo blocos tão grandes como casas, estilhaçava-os como vidro ou, com golpes colossais, cravava-os profundamente em veigas macias.

Estes blocos de rocha diziam sempre o mesmo. E era fácil compreendê-los, ao ver as suas escarpas abruptas, camada sobre camada, quebradas, retorcidas, rebentadas, cada qual repleta de feridas vivas.

- Sofremos horrores - diziam eles - e continuamos a sofrê-los.

Mas diziam-no com orgulho, austeros e retesados, como velhos guerreiros invencíveis.

Guerreiros, sim. Eu via-os lutar com a água e os ventos, nas tremendas noites dos fins de Inverno, quando o exasperado foehn (1) bramia em torno das suas velhas cãs, e quando as torrentes dos ribeiros arrancavam novos pedaços ásperos dos seus flancos. Nessas noites, mantinham-se de pé, de raízes tenazmente fincadas, soturnos, sem respirar; crispados, expunham à tempestade as escarpas e picos fendidos do temporal, e retesavam todas as forças, em obstinado recolhimento. E a cada ferida, lançavam o pavoroso ribombar da cólera e do medo, e por todos os mais longínquos aludes, abafado e irado, soava de novo o seu pavoroso gemido.

E eu via veigas e taludes e frinchas de rochas cobertas de ervas, flores e musgos, a que a antiga voz do povo havia dado notáveis nomes cheios de premunição. Filhas e netas das montanhas, elas habitavam, coloridas e cândidas, as suas moradas. Eu tocava-as, observava-as, aspirava o seu aroma e aprendia-lhes os nomes. Mais severa e profundamente, impressionava-me a visão das árvores. Via cada uma delas fazer a sua vida, criar a sua forma e copa particulares, e lançar a sua sombra própria. Pareciam-me eremitas e combatentes, mais aparentadas às montanhas, pois cada uma delas, especialmente as que se erguiam no alto dos montes, travava a sua silenciosa e tenaz batalha pela existência e crescimento, contra ventos, tempestades e rochas. Cada uma tinha de carregar o seu peso e cravar-se firmemente, e daí advinha a cada uma a sua forma específica e feridas particulares. Havia pinheiros bravos a que a tempestade apenas permitira manter um dos seus ramos, e outros cujos troncos vermelhos se haviam retorcido como serpentes sobre rochas proeminentes, de forma que a árvore e a rocha se apertavam uma contra a outra, amparando-se. Olhavam-me como homens aguerridos e infundiam receio e respeito no meu coração.

Mas os nossos homens e mulheres assemelhavam-se-lhes, eram rijos, asperamente enrugados, parcos em palavras, quanto melhores tanto mais parcos.

 

*1. Vento quente e seco dos Alpes Suíços e Austríacos. (N. da T).

 

Aprendi assim a olhar os homens como árvores ou rochas, a pensar sobre eles, a respeitá-los, nem menos, nem mais que aos silentes pinheiros.

A nossa aldeiazinha de Nimikon fica situada numa faixa triangular junto ao lago, entalada e pendente entre dois flancos de montes. Um caminho conduz ao convento próximo, um outro a uma aldeia vizinha, distante quatro horas e meia; as outras aldeias junto ao lago alcançam-se pela água. As nossas casas são de madeira, construídas no velho estilo, e não têm idade determinada; quase não aparecem construções novas, e as velhas casinhas são reparadas por partes, segundo as necessidades, este ano os soalhos, noutra vez um pedaço do telhado; e alguma metade de viga ou prancha que pertencia, talvez, à parede do quarto, encontra-se agora de reserva no forro, e ainda que não mais sirva para o mesmo, sendo boa em demasia para queimar, usar-se-á no próximo arranjo do estábulo ou do palheiro, ou como travessa na porta da casa. O mesmo se passa com os que habitam lá dentro: cada qual desempenha o seu papel enquanto pode, entra depois, renitentemente, no círculo dos inúteis, e mergulha por fim nas trevas, sem que isso provoque grande alarido. Aquele que, após uma ausência de anos, regressa para junto de nós, não encontra maiores mudanças que uns telhados velhos renovados e outros novos envelhecidos; os antigos anciãos finaram-se, mas há outros anciãos que habitam o mesmo casebre, usam os mesmos nomes, olham pelo mesmo rancho de crianças de cabelos escuros, os quais, no rosto e nos modos, mal se distinguem dos entretanto falecidos.

A nossa freguesia carecia de um afluxo mais frequente de sangue fresco e vida do exterior. Os habitantes, uma raça aceitavelmente robusta, são quase todos estreitamente aparentados, e uns bons três quartos usam o nome Camenzind. Ele enche as páginas do livro de registo paroquial e vê-se nas cruzes do cemitério, sobressai nas casas a tinta de óleo, ou num grosseiro trabalho de talha, e lia-se no carro do carroceiro, nos baldes dos estábulos e nos barcos do lago. Também sobre a porta da casa de meu pai estava pintado: «Esta casa foi construída por Justo e Francisca Camenzind», contudo, isso não se referia a meu pai, mas ao seu avô, o meu bisavô; e ainda que eu, como é provável, venha a morrer sem deixar filhos, sei que de novo um Camenzind ocupará o velho ninho, se acaso estiver de pé ainda e tiver um telhado a cobri-lo.

Apesar da aparente monotonia, havia, contudo, na nossa comunidade, maus e bons, nobres e medíocres, poderosos e pequenos, e a par de alguns espertos, também um divertido pequeno grupo de tolos, sem falar já dos cretinos. Como em toda a parte, era uma pequena imagem do vasto mundo, e pois que grandes e pequenos, espertalhões e tolos estavam indissoluvelmente ligados por laços familiares e parentesco, pisavam-se mutuamente em azeda soberba e estúpida imprudência, não raro sob o mesmo tecto, de forma que a nossa vida oferecia vasto campo à profundidade e ao cómico do humano. Contudo, um eterno véu de dissimulada ou inconsciente opressão poisava sobre tudo isto. A dependência das forças da natureza e a carga de uma existência repleta de trabalhos, com o rolar dos tempos, tinham emprestado à nossa comunidade, já de si envelhecida, uma tendência para a melancolia, que embora não quadrasse mal aos rostos ásperos e rudes, não produzia, porém, qualquer tipo de frutos ou, pelo menos, que fossem satisfatórios. Precisamente por isto, alegrávamo-nos pelos poucos tolos que, sendo suficientemente sossegados e sérios, traziam no entanto algum colorido e ocasião de riso e zombaria. Quando algum deles, por uma nova travessura, fazia que se falasse nele, perpassava um relampejar sobre os rostos enrugados e tisnados dos filhos de Nimikon, e ao gáudio do próprio gracejo, juntava-se ainda o delicado condimento do saborear farisaico da própria superioridade, restalejando de prazer por sentir-se ao abrigo de tais erros e asneiras. Àqueles, inúmeros, que se achavam a meio, entre justos e pecadores, e que com gosto participariam das prerrogativas de ambos, pertencia também o meu pai. Não amadurecia partida atrevida que o não enchesse de ditosa excitação e, então, ele vacilava comicamente entre a admiração pelo instigador e a mais rotunda consciência da própria integridade.

Ao próprio grupo dos tolos, pertencia o meu tio Conrado, sem que, por isso, em inteligência, ficasse o que quer que fosse atrás de meu pai ou de outros heróis. Pelo contrário, ele era um espertalhão, impelido por um espírito inventivo incansável, pelo qual os outros bem poderiam invejá-lo. Mas de facto, nada lhe saía bem. O facto de ele não deixar pender a cabeça por isso e não se tornar inactivo e melancólico, de encetar sempre novas coisas e nisto ter uma percepção notavelmente viva do tragicómico das suas iniciativas, era sem dúvida uma prerrogativa, mas era-lhe imputado como singularidade ridícula, pelo que ficava incluído entre os bufões gratuitos da comunidade. A relação de meu pai com ele era de um constante oscilar entre a admiração e o desprezo. Cada projecto novo do seu cunhado, colocava-o num estado de violenta curiosidade e excitação, que em vão procurava ocultar sob perguntas e alusões irónicas com que o espiava. Quando o tio se julgava certo do seu êxito e começava a fazer-se de espertalhão, ele deixava-se convencer e associava-se ao génio em especulativa fraternidade, até que chegava o impreterível malogro, a que o tio encolhia os ombros, ao passo que o pai, cheio de cólera, o cobria de desdém e injúrias, e durante meses a fio não lhe concedia nem mais um olhar ou palavra.

Era a Conrado que a nossa aldeia devia a primeira visão de um barco à vela, e foi o barquito de meu pai que teve de prestar-se a isso. A vela e o cordame foram executados com perfeição pelo tio segundo xilogravuras de calendários, e o facto de o nosso barquito ter sido construído demasiado estreito para um barco à vela, no fundo, não era culpa de Conrado. Os preparativos demoraram várias semanas; o meu pai ficou sobre brasas pela excitação, ansiedade e medo, e até no resto da aldeia se falava essencialmente do novo projecto de Conrado Camenzind.

Foi para nós um dia memorável aquele em que o barco, numa manhã ventosa de fins de Verão, pela primeira vez, seria lançado ao rio. O meu pai, no receoso pressentimento duma possível catástrofe, manteve-se afastado, e a mim, para minha grande desolação, proibiu-me de ir no barco. O filho do padeiro, Fuessli, acompanhou sozinho o mestre de vela. Mas a aldeia estava toda sobre a nossa praia de cascalho e no pequeno jardim, e presenciou o inaudito espectáculo. Soprava um vento rápido de Leste, lago abaixo. De início, o padeiro teve de remar até o barco entrar na brisa, enfunar a vela e desaparecer orgulhosamente, a toda a brida. Maravilhados, vimo-lo sumir-se por detrás do flanco do monte seguinte, e preparávamo-nos para felicitar como vencedor o astuto tio aquando do seu regresso e envergonhar-nos dos nossos pensamentos maldosos. Contudo, quando o barco regressou, à noite, já não tinha vela, os barqueiros estavam mais mortos que vivos, e o filho do padeiro tossiu e disse:

- Perdeste uma boa festança; por um triz, não houve dois banquetes de funeral neste domingo.

O meu pai teve de colocar duas pranchas novas no barco e, desde então, nunca mais uma vela se espelhou na superfície azul. Durante muito tempo, sempre que Conrado tinha pressa nalguma coisa, atiravam-lhe:

- Tens de pôr a vela, Conrado.

O meu pai engoliu a fúria e, durante longo tempo, sempre que o pobre cunhado passava por ele, olhava para o lado e cuspia num grande arco, em sinal de indizível desdém. Isso durou até que, certo dia, Conrado lhe apresentou o seu projecto de forno à prova de fogo, que trouxe ao inventor enorme troça e custou ao meu pai quatro sonantes táleres. Ai de quem ousasse recordar-lhe esta história dos quatro táleres! Muito mais tarde, quando, certa vez, houve de novo carências em casa, a mãe comentou que seria bom que o dinheiro gasto pecaminosamente ainda ali estivesse. O pai ficou vermelho-escuro até ao pescoço, mas dominou-se e disse apenas:

- Prouvera que os tivesse bebido num só domingo.

No final daquele Inverno, veio o foehn com o seu rugido cavo, que o alpino ouve com tremor e horror, e pelo qual, estando longe, anseia com pungente saudade.

Quando o foehn se avizinha, sentem-no muitas horas antes os homens e mulheres, montes, animais bravios e gados. A sua chegada, quase sempre anunciada por frios ventos contrários, prenuncia uma ventania profunda e quente. O lago

azul-esverdeado torna-se, por momentos, negro como breu, e ergue, de súbito, irrequietas cristas brancas de espuma. Pouco depois, aquele que há minutos ainda jazia pacífico e silencioso, ruge com exasperada ressaca, como o mar contra a costa. Logo toda a natureza se encolhe amedrontada. Nos cumes que, normalmente, tostavam ao longe, podem agora contar-se as rochas, e nas aldeias que habitualmente se avistavam à distância, apenas como manchas cinzentas, distinguem-se agora telhados, empenas e janelas. Tudo se achegava, montes, veigas e casas, como um rebanho assustado. E então, começa o ribombar rancoroso, o estremecer do chão. As ondas do lago, fustigadas, são levadas pelo ar como fumo e, sem cessar, especialmente durante a noite, ouve-se o combate desesperado entre a tempestade e as montanhas. Pouco tempo mais tarde, espalha-se então pelas aldeias a notícia de ribeiros que transbordaram, casas abatidas, botes desfeitos e pais e irmãos desaparecidos.

Nos meus tempos de infância, eu receava o foehn, odiava-o mesmo. Mas com o despertar do furor da juventude, comecei a amá-lo, àquele rebelde, o eternamente jovem, o lutador insolente que trazia a Primavera. Era maravilhoso como ele, pleno de vida, de exaltação e esperança, iniciava a sua batalha selvática, trovejando, rindo e gemendo, como ele passava uivando pelos desfiladeiros, devorava a neve dos montes e, com mãos rudes, vergava os tenazes pinheiros velhos fazendo-os gemer. Mais tarde, aprofundei o meu amor e, no foehn, eu saudava então o doce, belo e superabundante Sul, de onde brotavam renovadas torrentes de desejo, calor e beleza, para se despedaçarem nas montanhas e, por fim, emurchecerem no Norte plano e frio. Não há coisa mais estranha e maravilhosa que a doce febre do foehn, que a seu tempo assalta as gentes das montanhas, especialmente as mulheres, que rouba o sono e com um afago inflama todos os sentidos. Isto é o Sul que, intempestivo e flamejante, se lança sempre de novo ao peito do áspero e pobre Norte, e anuncia às aldeias dos Alpes cobertas de neve, que já nos lagos purpúreos das terras do Romando, as prímulas, os narcisos e os ramos de amendoeira florescem de novo.

Depois, quando o foehn deixou já de soprar e os últimos aludes sujos terminaram de rolar, vem então o mais belo. Por todos os lados, estiram-se, montanha acima, as floridas veigas amareladas e, nos cumes, puros e felizes, os picos de neve e glaciares; o lago torna-se azul e quente, e espelha de novo o Sol e o passar das nuvens.

Tudo isto pode preencher já uma infância e, se necessário, uma vida até. Porque tudo isto proclama, alto e com vigor, a voz de Deus, como nunca ela perpassou pelos lábios de um humano. Quem assim a escutou na sua infância, ouvi-la-á ecoar pela vida fora, doce, vigorosa e terrível, e nunca escapará ao seu encantamento. Quem seja natural das montanhas, poderá, durante anos, estudar filosofia ou história natural, e pôr de lado o velho Deus: se de novo ele sentir ou escutar um alude romper por entre as árvores, o coração estremecer-lhe-á no peito e pensará em Deus e na morte.

Junto à casita de meu pai havia um minúsculo jardim vedado. Crescia ali uma alface áspera, cenouras e couves. Além disso, a mãe tinha plantado um alegrete perfumado e enternecedoramente estreito para flores onde estiolavam, miseravelmente e sem esperança, dois pés de rosas estivais, um pé de dália e umas quantas resedas. Com o jardim, confinava uma faixa de cascalho ainda mais estreita, que ia até ao lago.

Havia ali dois barris estragados, algumas tábuas e barrotes e, ao fundo, na água, estava preso o nosso barquito, que então ainda era reparado e betumado de dois em dois anos. Os dias em que isso sucedia ficaram-me gravados na memória. Eram tardes quentes de início de Verão, sobre o jardinzinho esvoaçavam ao Sol as borboletas amarelo de enxofre, o lago estava azul, liso e nacarado, cintilando suave e levemente; sobre os cumes dos montes havia uma ténue névoa e, na pequena praia de cascalho, um cheiro forte a betume e tinta de óleo. E depois ainda, durante todo o Verão, o bote exalava um perfume de alcatrão. Sempre que, muitos anos mais tarde, algures junto ao mar, me veio ao nariz o aroma peculiar, misto de cheiro de água e vapores de alcatrão, surgia-me logo diante dos olhos a nossa praiazinha do lago, e eu via de novo o pai em mangas de camisa, brandindo o pincel, via as nuvenzinhas azuladas subir do seu cachimbo pelo calmo ar estival, e as borboletas relampejar amarelas nos seus voltejos inseguros e tímidos. Nesses dias, o meu pai mostrava um extraordinário bom humor, assobiava melodias, coisa que fazia primorosamente, e soltava até um eventual iodler (1) curto e desgarrado, mas este apenas a meia voz. A mãe cozinhava então alguma coisa saborosa para a noite, e penso agora que o fazia na contida esperança de que o Camenzind, naquela noite, não fosse para a taberna. Mas ele lá acabava por ir.

Não posso afirmar que os meus pais tenham estimulado especialmente ou perturbado o desenvolvimento da minha jovem índole. A mãe não tinha mãos a medir com trabalho, e o meu pai, por certo, nunca se debruçara tão pouco sobre o que quer que fosse como sobre questões de educação. Ele tinha afazeres suficientes com o manter da sua meia dúzia de árvores de fruto num estado lastimoso, cuidar da leirita das batatas e tratar do feno. Mas de duas em duas semanas, à noite, ele pegava-me pela mão antes de sair, e desaparecia comigo em silêncio no campo de feno que ficava por trás do estábulo. Ali, cumpria-se então uma estranha cena de punição e expiação: eu recebia uma valente tareia, sem que o meu pai ou eu soubéssemos exactamente porquê. Eram sacrifícios silenciosos no altar de Némesis, oferecidos sem ralhos da sua parte ou gritos do meu lado, como tributo devido a um misterioso poder.

 

*1. Iodler - música de modulações guturais, característica do Tirol e dos Alpes Suíços. (N.T.)

 

Sempre que, em anos posteriores, eu ouvia falar do destino cego, estas cenas misteriosas vinham-me à memória e pareciam-me uma representação sobremaneira plástica deste conceito. Sem o saber, o bom do meu pai seguia aqui a pedagogia simples que a própria vida costuma usar para connosco, ao fazer cair, de um céu estrelado, raios e coriscos sobre nós, deixando à nossa conta o meditar sobre com que delitos, afinal, provocámos os poderes supremos. Infelizmente, esta meditação nunca, ou só raras vezes, se iniciava em mim, antes eu aceitava resignadamente aquele castigo a goles, sem a desejável autocrítica ou mesmo com obstinação; em tais noites, alegrava-me sempre por, uma vez mais, estar saldado o meu tributo, e ter diante de mim duas semanas livres de punição. Mas foi com muito maior independência que enfrentei os esforços do meu velho para me iniciar no trabalho. A natureza incompreensível e esbanjadora havia reunido em mim dois dons contraditórios: uma força física incomum e uma não menor repulsa pelo trabalho. O pai envidava todos os esforços para fazer de mim um filho útil e um colaborador, mas eu esquivava-me com todas as trapaças ao trabalho que me era imposto; mesmo no liceu, não havia herói da antiguidade pelo qual eu sentisse tanta comiseração como por Hércules, por ele ter sido forçado àqueles famosos trabalhos árduos. Entretanto, eu não conhecia nada de mais belo que vaguear ociosamente por sobre as rochas e veigas, ou junto à água.

Montanhas, lago, tempestade e Sol, eram esses os meus amigos, que me falavam e educavam, e durante longo tempo me foram mais caros e mais profundamente conhecidos que qualquer pessoa ou destino humano. Os meus eleitos, todavia, os que eu preferia ao lago espelhado e aos tristes ventos quentes e rochas ensolaradas, eram as nuvens.

Mostrai-me por esse vasto mundo o homem que melhor conheça ou mais ame as nuvens que eu! Ou mostrai-me a coisa deste mundo que seja mais bela que as nuvens! Elas são brinquedo e consolo do olhar, são bênção e dom de Deus, são a cólera e o poder da morte. Elas são delicadas, suaves e calmas como as almas dos

recém-nascidos, são belas, ricas e dispensadoras como anjos bons, são negras, irrevogáveis e fatais como os mensageiros da morte. Elas pairam prateadas em ténues camadas, vogam ridentes, brancas com bordos doirados, elas param para repousar com cores amarelas, vermelhas e azuladas. Elas avançam soturnas e lentas como assassinos, galopam desenfreadas, de cabeça erguida, como cavaleiros loucos, pendem tristes e sonhadoras em pálidas alturas como melancólicos eremitas.

Elas têm a forma de ilhas maravilhosas e de anjos a abençoar, assemelham-se a mãos ameaçadoras, velas adejando, grous em migração. Pairam entre o céu divino e a pobre terra, quais belas metáforas da nostalgia humana, pertencendo a ambos - sonhos da terra, em que esta roça a sua alma conspurcada no céu puro. Elas são a imagem eterna de todo o caminhar, da busca, da ânsia e da saudade do lar. E assim como elas pendem entre a terra e o céu, apreensivas, ansiosas e obstinadas, assim pendem apreensivas, ansiosas e obstinadas as almas dos homens, entre o tempo e a eternidade.

Oh, as nuvens, belas, pairando, sem repouso! Eu era uma criança ignorante, e amava-as, olhava-as e não sabia que também eu atravessaria a vida como uma nuvem - caminhante, por toda a parte um estranho, pairando entre o tempo e a eternidade. Desde a infância que elas foram para mim queridas amigas e irmãs. Eu não consigo passar pelas ruas que logo nos não acenemos, cumprimentemos e, por um momento, fitemos olhos nos olhos. E também não esqueci o que então aprendi com elas: as suas formas, as suas cores, os seus traços, os seus jogos, danças de roda, bailes e repousos, e as suas singulares histórias a um tempo terrenas e celestes.

Por exemplo, a história da Princesa da Neve. O seu cenário é a montanha média, nos inícios do Inverno, com ventos quentes rasantes. A Princesa da Neve surge com um pequeno séquito, vinda de enormes alturas, e procura um local de repouso em vales largos de montanha, ou sobre um cume arredondado. Cheia de inveja, a traiçoeira ventania do Leste vê a inocente deitar-se, lambe, dissimuladamente, montanha acima, e ataca-a, furiosa, com grande bramido. Lança contra a princesa trapos de nuvens esfarrapados, escarnece dela, grita-lhe, quer escorraçá-la. Por um momento, a princesa fica desassossegada, espera, suporta e, por vezes, sobe de novo para as suas alturas, meneando a cabeça, silenciosa e escarnecendo. Outras vezes, contudo, ela reúne subitamente em seu redor as amigas amedrontadas, desvenda o seu rosto ofuscante e principesco, e repele o duende com um frio aceno de mão. Ele vacila, uiva e foge. E ela deita-se em sossego, envolve o seu trono, largamente, com uma névoa esbranquiçada, e quando a névoa se vai, os vales e os cimos estão límpidos e brilhantes, cobertos de neve fresca, pura e macia.

Nesta história, havia algo de tão nobre, algo de tão espiritual, de triunfo da beleza, que me encantava e tocava o meu pequeno coração como um alegre mistério.

Em breve veio o tempo em que também eu pude aproximar-me das nuvens, andar entre elas e contemplar de cima parte do seu rebanho. Tinha dez anos quando subi ao primeiro cume, ao Sennalpstock, em cujo sopé jaz a nossa aldeiazinha de Nimikon. Foi então que, pela primeira vez, vi os terrores e as belezas das montanhas. Gargantas profundamente rasgadas, repletas de neve e águas do degelo, glaciares com um vidrado verde, asquerosas morenas e, por cima de tudo, como um sino, alto e redondo, o céu. Uma pessoa que tenha vivido durante dez anos entalado entre uma montanha e um lago, assediada a toda a volta por picos próximos, não esquecerá o dia em que, pela primeira vez, teve por cima de si um céu extenso e, pela frente, um horizonte sem limites. Logo durante a subida, fiquei espantado por as escarpas e superfícies de rocha que tão bem conhecia lá de baixo, me surgirem tão desmesuradamente grandes. E eis que, inteiramente subjugado por aquele momento, cheio de medo e júbilo, via, de súbito, a tremenda vastidão penetrar em mim. Que fabulosamente grande era, de facto, o mundo! Toda a nossa aldeia, perdida agora lá no fundo, era apenas uma pequena mancha clara. Os cumes que de lá de baixo se julgavam bem vizinhos, ficavam a muitas horas de distância.

Comecei então a pressentir que apenas tivera um pequeno vislumbre, que não havia tido ainda uma visão alargada do mundo, e que, lá longe, se erguem montes, e caem, e sucedem grandes coisas de que jamais chegará a mais leve notícia ao nosso isolado buraco de montanha. E logo em mim algo estremeceu como a agulha da bússola, com uma inconsciente atracção poderosa por aquelas grandes distâncias. Só então compreendi também inteiramente a beleza e a melancolia das nuvens, pois via que infindáveis distâncias elas percorriam.

Os meus dois acompanhantes adultos louvaram a minha boa escalada, repousaram um pouco sobre o cume gélido, e riram com a minha alegria desconcertante. Eu, porém, depois de passado o primeiro grande assombro, de alegria e excitação, berrei alto como um touro pelos ares límpidos. Foi o meu primeiro canto, inarticulado, à beleza. Esperava um eco estrondeante, mas o meu grito soou nas alturas calmas sem deixar sinal, como um fraco pipilar.

Fiquei envergonhado, e mantive-me em silêncio.

Este dia quebrara qualquer gelo na minha vida. É que, agora, os acontecimentos sucediam-se. Primeiro, levavam-me com frequência nas escaladas das montanhas, mesmo que difíceis, e penetrei com uma estranha volúpia opressiva os grandes mistérios das alturas. Seguidamente, fui escolhido para guardador de cabras. Numa das encostas, onde costumava conduzir os meus animais, havia um recanto protegido do vento, todo recoberto de gencianas azul-cobalto e saxífragas de um vermelho suave, o lugar do mundo que mais me aprazia. Dali, a aldeia não podia enxergar-se, e até mesmo do lago se vislumbrava apenas uma pequena faixa brilhante por sobre as rochas; em seu lugar, as flores ardiam em risonhas cores viçosas, o céu azul poisava como uma tenda sobre os aguçados cumes de neve e, a par do delicado tinir das campainhas das cabras, ressoava ininterrupta e não longe a queda de água. Ali, eu estendia-me ao calor, observava as pequenas nuvens brancas e cantava iodler a meia voz, de mim para mim, até que as cabras notavam o meu entorpecimento e faziam menção de realizar as mais diversas travessuras e folias proibidas. Logo nas primeiras semanas, a minha felicidade feácia sofreu um rude golpe, quando eu, juntamente com uma cabra tresmalhada, me precipitei num desfiladeiro. A cabra morreu e a mim doía-me a cabeça, além de que fui deploravelmente açoitado, fugi aos meus velhos e me reconduziram a casa em meio de juras e lamentações.

Estas aventuras facilmente poderiam ter sido as primeiras e as últimas. Então, este livrinho teria ficado por escrever, e algumas outras aflições e loucuras não se teriam dado. Eu teria provavelmente casado com uma qualquer prima, ou talvez jazesse algures, gelado nas águas glaciares. E isso não teria sido mau. Mas tudo sucedeu de forma diversa, e não me compete comparar o sucedido com o não sucedido.

Ocasionalmente, o meu pai prestava pequenos serviços no mosteiro de Welsdorf. Sucedeu que, certa vez, ele se encontrava doente e me ordenou que o substituísse. Contudo, não o fiz, e pedi emprestados ao vizinho papel e uma caneta, escrevi uma carta elegante aos irmãos do mosteiro, entreguei-a à mulher do mensageiro e, de minha própria iniciativa, fui para a montanha.

Na semana seguinte, ao chegar certo dia a casa, encontro ali sentado um padre à espera daquele que escrevera a linda carta. Eu sentia algum receio, mas ele louvou-me e procurava convencer o meu velho a deixar-me ir aprender junto dele. O tio Conrado, precisamente nessa ocasião, estava de novo em boas graças e pediram-lhe opinião. Claro que ficou imediatamente entusiasmado com a ideia, que eu tinha de ir aprender e mais tarde ser estudante e tornar-me num sábio e num senhor. O pai deixou-se convencer e, assim, o meu futuro passou a incluir-se entre os perigosos projectos do tio, tal como o forno à prova de fogo, o barco à vela e inúmeras quimeras similares.

Demo-nos logo a um enorme estudo, nomeadamente em latim, história bíblica, botânica e geografia. Tudo isto me entusiasmava muito, e eu nem pensava que aquelas coisas latinas me custariam, talvez, a terra natal e belos anos. E decerto não foi apenas o latim. O meu pai ter-me-ia feito um camponês, ainda que eu soubesse de cor todo o De viris illustribus de trás para diante e de diante para trás. Mas aquele homem inteligente havia-me perscrutado até ao âmago do meu ser onde, como centro de gravidade e virtude cardeal, residia a minha invencível indolência. Eu furtava-me ao trabalho onde quer que ele estivesse prestes a iniciar-se e, em seu lugar, corria para os montes ou o lago, ou estendia-me longe, escondido na encosta, lia, sonhava e preguiçava. Reconhecendo isto, acabou por me deixar ir.

É ocasião de dizer umas curtas palavras acerca de meus pais. A mãe fora bonita em tempos, mas disso apenas restava o porte firme e escorreito e os graciosos olhos escuros. Ela era alta, muito vigorosa, trabalhadora e silenciosa. Apesar de ser tão inteligente quanto o meu pai e o exceder em força física, não era quem reinava na casa, senão que deixava o governo ao seu marido. Ele era de estatura mediana, tinha membros delgados e quase delicados, e uma cabeça casmurra e esperta com um rosto de cor clara, repleto de pequenas rugas extremamente móveis. A estas, juntava-se ainda uma curta ruga perpendicular na fronte, que escurecia sempre que ele movia as sobrancelhas, causando-lhe um soturno ar sofredor; dava então a impressão de procurar lembrar-se de alguma coisa muito importante, sem que ele mesmo tivesse esperanças de jamais vir a recordá-lo. Poder-se-ia aperceber nele uma certa melancolia, mas ninguém prestava atenção a isso, pois os habitantes da nossa região são quase todos tomados de um leve e permanente abatimento de ânimo cuja causa são os longos Invernos, os perigos, o esforço do dia-a-dia e o isolamento do mundo.

Recebi de ambos os pais traços importantes do meu ser; da mãe, um discreto sentido prático, um quanto de confiança em Deus e um modo de ser silencioso, parco em palavras; do pai, pelo contrário, um receio das decisões firmes, a incapacidade de administrar o dinheiro e a arte de beber muito e bem. Este último traço, porém, não se manifestava ainda naquela tenra idade. Externamente, tenho do pai os olhos e a boca, da mãe o andar e a constituição física pesados e robustos, e a vigorosa força muscular. Do pai e da nossa raça em geral, recebi na vida uma inteligência esperta de camponês, mas também a turbação de espírito e o pendor para a melancolia sem fundamento. Estando eu destinado a debater-me por longo tempo entre estranhos, longe da minha terra, melhor fora que, em lugar disso, eu trouxesse alguma vivacidade e um pouco de alegre leviandade.

Assim equipado e provido de um fato novo, encetei a viagem para a vida. Os dons paternos comprovaram o seu valor, pois eu andei pelo mundo e por lá me mantive pelos meus próprios meios. Todavia, algo deve ter faltado, que nem mesmo a ciência e a vida no mundo jamais me deram. É que hoje, tal como nesse tempo, eu posso vencer um monte, marchar ou remar durante dez horas e, em caso de necessidade, matar um homem apenas com as mãos, mas para saber viver falta-me, hoje ainda, tanto como então. A familiaridade precoce e exclusiva com a terra e as suas plantas e animais fizera desenvolver em mim poucas aptidões sociais, e ainda hoje os meus sonhos são uma prova notável de quanto eu, infelizmente, tenho tendência para uma vida puramente animalesca. De facto, sonho com frequência que estou deitado na praia, à beira-mar, que sou um animal, normalmente uma foca, e sinto nisso um tão grande agrado que, ao acordar, de forma alguma experimento a reassunção da minha dignidade de humano com alegria ou orgulho, mas, pelo contrário, com tristeza apenas.

Eu fui educado num liceu da forma habitual, com ensino e alimentação gratuitos, e estava destinado a ser filólogo. Ninguém sabe porquê.

Não há disciplina mais inútil e enfadonha nem estudo que menos me quadrasse. Os anos de estudante passaram-se rapidamente. Por entre brigas e escola, vieram horas plenas de saudade, horas cheias de atrevidos sonhos de futuro, horas repletas de respeitosa veneração da ciência. De tempos a tempos, também aqui a minha natural indolência vinha ao de cima, trazia-me todo o tipo de aborrecimentos e castigos e dava, assim, lugar a qualquer novo entusiasmo.

- Peter Camenzind - dizia o meu professor de grego - tu és um casmurro, um intratável, ainda hás-de rachar a cabeça contra as paredes.

Eu observava o rubicundo caixa-de-óculos, escutava as suas palavras e achava-o grotesco.

- Peter Camenzind - dizia o professor de matemática - és um génio na preguiça, e tenho pena que não haja uma nota mais baixa que o zero. Ao teu trabalho de hoje avalio-o em menos dois e meio.

Eu olhava-o, lamentava-o por se zangar, e achava-o muito enfadonho.

- Peter Camenzind - disse, certa vez, o professor de história - tu não és bom aluno, mas, apesar disso, hás-de vir a ser um bom historiador. És preguiçoso, mas sabes distinguir entre o que é válido e o que é insignificante.

Também isto foi para mim extremamente importante. Todavia, eu tinha respeito pelos professores, pois pensava que eles estavam na posse da ciência, e ante ela, eu sentia uma enorme e obscura veneração. E apesar de, quanto à minha preguiça, todos os professores estarem de acordo, sempre ia avançando, situando-me acima da média. Eu bem notava que a escola e o saber escolar eram fragmentários e insuficientes; contudo, aguardava o que havia de vir. Por detrás destes preparativos e maçadas escolares, entrevia o puramente espiritual, uma ciência segura, incontestável, da verdade. Ali, eu viria a saber qual o significado da obscura confusão da história, das lutas dos povos e do angustiante enigma de cada alma.

Mas havia em mim uma outra ânsia ainda mais forte e viva: eu gostaria de ter um amigo.

Havia lá um rapaz de cabelos castanhos, sério, dois anos mais velho que eu, chamado Gaspar Hauri. Tinha uma forma de andar e de estar segura e calma, caminhava de cabeça firme e ar grave, como um homem, e não falava muito com os camaradas. Durante vários meses, eu olhei-o com grande veneração, nas ruas, mantinha-me atrás dele, e esperava ansiosamente que me notasse. Sentia inveja de todo o burguês que ele cumprimentava e de toda a casa onde o via entrar ou sair. Mas eu estava duas classes abaixo e, provavelmente, ele sentir-se-ia superior até à sua. Nunca trocámos uma palavra entre nós. Em lugar dele, ligou-se a mim, sem que eu fizesse algo por isso, um rapaz enfezado. Este era mais novo que eu, tímido e pouco dotado, mas tinha uns belos olhos e traços dolentes. Como era fraco e um pouco deformado, sofria na sua classe muitas faltas de educação, e procurava em mim, que era forte e considerado, um protector. Em breve ficou tão doente que deixou de poder frequentar a escola. Não me fez falta e depressa o esqueci.

Mas na nossa classe havia um louro folgazão, capaz de mil habilidades, músico, mimo e bobo. Conquistei a sua amizade, não sem esforço, e o pequeno folgazão comportava-se sempre para comigo com certa superioridade. Em todo o caso, sempre tinha agora um amigo. Eu visitava-o no seu quartito, lia alguns livros com ele, fazia-lhe os trabalhos de grego e, em paga, ele auxiliava-me na matemática. Por vezes, também íamos passear juntos; devíamos parecer o urso e a doninha. Era sempre ele quem falava, sempre alegre, galhofeiro, jamais se embaraçava, e eu escutava, ria e sentia-me contente por ter um amigo tão folgazão.

Certa tarde, porém, inopinadamente, eu aproximei-me no momento em que o pequeno charlatão, à porta da escola, apresentava a alguns camaradas uma das suas representações cómicas preferidas. Ele acabara de imitar um professor, e gritou:

- Adivinhem quem é este! - e começou a ler alto alguns versos de Homero.

Ele imitava-me com grande minúcia: a minha postura acanhada, a leitura receosa, a pronúncia rude de montanhês e também o meu permanente gesticular provocado pela concentração, o piscar e cerrar do olho esquerdo. Tinha um ar muito cómico e mostrava-se tão burlesco e ridículo quanto possível. Quando fechou o livro e recebia o justo aplauso, cheguei-me a ele por trás e vinguei-me. Palavras, não as achei, mas expressei toda a minha indignação, vergonha e cólera, concentradas num único e gigantesco bofetão.

Logo de seguida, iniciou-se a aula, e o professor notou os gemidos e a bochecha vermelha e inchada do meu antigo amigo que, para mais, era o seu preferido.

- Quem te fez isso?

- O Camenzind.

- Camenzind, apresente-se! É verdade?

- É sim.

- E por que lhe bateste assim?

Não houve resposta.

- Não tinhas razão nenhuma?

- Não.

Fui pois, severamente punido, e saboreei estoicamente o prazer do mártir inocente. Mas como eu não era nem estóico nem santo, e sim um rapaz de escola, depois da pena sofrida, deitei ao meu amigo a língua de fora, em todo o seu comprimento. Horrorizado, o professor berrou-me:

- Não tens vergonha? Que significa isso?

- Significa que aquele ali é um tipo infame e que o desprezo. Além de que também é um cobarde.

Assim terminou a minha amizade com o mimo. Ele não teve sucessor, e eu tive de passar o período da maturação juvenil sem qualquer amigo. Mas apesar de a minha visão da vida e dos homens se ter modificado algumas vezes desde então, nunca recordo aquela bofetada sem uma profunda satisfação íntima. Oxalá o louro a não tenha esquecido.

Aos dezassete anos, enamorei-me pela filha de um advogado. Ela era bonita, e sinto orgulho por, ao longo da minha vida, me ter enamorado sempre por lindos rostos de mulher. Aquilo que sofri por ela e por outras, contá-lo-ei noutra altura. Esta chamava-se Rosa Girtanner, e ainda hoje é digna do amor de homens muito superiores a mim.

Na altura, o vigor da juventude fervilhava em todos os meus membros. Envolvia-me com os meus camaradas em enormes batalhas, sentia orgulho em ser o melhor lutador, o melhor no jogo da péla, o melhor corredor e remador e, todavia, trazia uma permanente melancolia. E isto nada tinha a ver com a história amorosa. Era simplesmente a doce melancolia do início da primavera que me tocava mais fortemente que aos outros, de forma que sentia prazer em imagens pesarosas, em pensamentos de morte e ideias pessimistas. É claro que surgiu também um camarada que me deu a ler «O Livro dos Cânticos», de Heine, numa edição barata.

No fundo, não se tratava já de leitura - nos versos vazios, eu verti o meu coração repleto, sofria com eles, fazia poesia com eles, e acabei num delírio lírico que provavelmente me quadrava como um peitilho a um porco. Até então, eu não fizera a menor ideia do que fossem as «belas letras». Agora, seguia-se-lhe Lenau, Schiller, depois Goethe e Shakespeare, e a pálida ideia da literatura transformou-se em mim numa grande divindade.

Com um doce arrepio, eu sentia fluir ao meu encontro, a partir destes livros, o condimentado ar fresco de uma vida que nunca houve sobre a Terra, e todavia existia de facto, e queria agora rebentar as suas ondas e viver os seus destinos no meu coração arrebatado. No meu canto de leitura do quarto do sótão, onde só chegavam o soar das horas do relógio da torre próxima e o bater seco dos bicos das cegonhas que nidificavam ali ao lado, as personagens de Goethe e Shakespeare entravam e saíam. Eu descobri o lado divino e o ridículo do ser humano: o enigma do nosso coração cindido e indómito, a profundidade do ser da história mundial, a poderosa maravilha do espírito que transfigura os nossos curtos dias e, por meio da força do conhecimento, eleva a nossa pobre existência à esfera do necessário e do eterno. Quando eu metia a cabeça pela estreita frincha da janela, via o Sol brilhar sobre os telhados e ruelas, escutava maravilhado os pequenos ruídos do trabalho e do dia-a-dia subirem confusos, e sentia a solidão e o mistério do meu recanto do sótão, repleto de grandes espíritos, envolver-me como um conto maravilhosamente belo. E aos poucos, quanto mais eu lia, quanto mais maravilhosa e estranha me tocava a visão sobre os telhados, as ruas e o dia-a-dia, tanto mais frequentemente surgia em mim, hesitante e opressiva, a sensação de que também eu seria, talvez, um vidente; e o mundo que diante de mim se estendia, aguardava que eu elevasse parte dos seus tesouros, os libertasse do véu do acaso e da mediocridade, e que o assim descoberto, pela força da poesia, o viesse a arrancar à destruição, eternizando-o.

Timidamente, comecei a fazer alguma poesia e, aos poucos, fui enchendo alguns cadernos com versos, com projectos e pequenos contos. Eles perderam-se, e provavelmente teriam pouco valor, mas proporcionaram-me grande e sincera excitação e um secreto prazer.

Só aos poucos a crítica e a autocrítica se seguiram a estes ensaios, e apenas no último ano escolar surgiu a primeira e indispensável grande desilusão. Eu começara a pôr de lado os meus poemas de principiante e a olhar os meus escritos em geral com desconfiança quando, por acaso, me caíram nas mãos alguns volumes de Gottfried Keller, que eu logo li duas e três vezes seguidas. Vi então, numa percepção súbita, quanto os meus sonhos imaturos estavam longe da autêntica, crua e verdadeira arte, queimei os meus poemas e novelas e olhei sóbria e tristemente o mundo, com o doloroso sentimento de ser um miserável.

 

No que respeita ao amor... nisso, toda a minha vida permaneci um garoto. Para mim, o amor pela mulher sempre foi uma adoração purificadora, uma chama erguida libertando-se do meu coração turvado, mãos postas levantadas para o céu azul. Devido à minha mãe, e também por um sentimento impreciso proveniente de mim próprio, eu venerava as mulheres em geral como um sexo diferente, belo e enigmático, que nos é superior em beleza e unidade do ser, que devemos considerar santo porque, quais estrelas e cumes dos montes, se acha distante de nós e parece mais próximo de Deus. Como as agruras da vida lhe ajuntaram abundantemente o seu condimento, o amor pela mulher trouxe-me tanta amargura como doçura; permanecendo elas embora no seu alto pedestal, para mim, o festivo papel do sacerdote adorador transformou-se facilmente naquele outro, penoso e cómico, do tolo troçado. Rosa Girtanner encontrava-me quase todos os dias quando eu ia comer. Era uma moça de dezassete anos, rija e ágil. No rosto oblongo, moreno e viçoso, ressaltava a beleza silenciosa e viva que a sua mãe possuía ainda nessa altura e, antes dela, a sua avó e bisavó haviam tido. Desta antiga casa distinta e abençoada saiu, geração após geração, uma garbosa série de mulheres, todas elas silenciosas e distintas, todas viçosas, nobres e de imaculada beleza. Há um quadro de uma jovem da família Fugger, pintado por um mestre desconhecido no século dezasseis, um dos quadros mais maravilhosos que os meus olhos jamais viram. Assim eram as mulheres Girtanner e assim era Rosa também.

Tudo isto, é certo, eu ainda não o sabia. Eu via-a apenas caminhar na sua dignidade silenciosa e alegre, e sentia a nobreza do seu ser simples.

Depois, à tardinha, sentava-me pensativo, ao lusco-fusco, até conseguir representar ante mim, com nitidez, e tornar presente a sua aparição; perpassava, então, um temor secreto e doce por sobre a minha alma de rapaz. Em breve sucedeu que estes momentos de prazer se enevoaram e me provocaram amargas dores. Senti, de súbito, como ela me era estranha, me não conhecia, nem por mim inquiria, e que o meu belo sonho era um assalto ao seu ser bem-aventurado. E precisamente quando sentia isto com tamanha acutilância e dor, via a sua imagem por momentos tão autêntica, viva e palpitante diante dos olhos, que uma onda escura e cálida preenchia o meu coração e provocava uma estranha dor até à pulsação mais distante.

Durante o dia, sucedia que, em meio de uma lição ou em pleno ardor de uma batalha, essa onda voltava. Então, cerrava os olhos, deixava pender as mãos, e sentia-me deslizar para um abismo cálido, até que o chamamento do professor ou a pancada do punho de um colega me acordava. Eu afastava-me, corria para o ar livre, e fixava o mundo perdido em maravilhosos sonhos. Depois, de repente, eu via como tudo era belo e cheio de cor, como a luz e o alento fluíam por todas as coisas, como era de um verde límpido o rio, e vermelhos os telhados, e quão azuis eram os montes. Contudo, esta beleza que me rodeava não me distraía, senão que a gozava em silêncio e triste. Quanto mais belo era tudo, mais distante parecia estar de mim, porque não tinha parte nisso e estava de fora. Os meus pensamentos sombrios reencontravam ali o caminho para Rosa: se nessa hora eu morresse, ela não o saberia, não perguntaria por mim, não se perturbaria com isso! E contudo, não sentia desejo de me tornar notado por ela. Eu gostaria de fazer por ela, ou ofertar-lhe, algo de inaudito, sem que soubesse de quem provinha.

E fiz de facto muito por ela. Surgiu um curto período de férias, e mandaram-me para casa. Ali, eu realizava diariamente todo o tipo de manifestações de força, tudo para, segundo a minha maneira de ver, honrar Rosa. A um pico difícil, escalei-o pelo lado mais árduo. No lago, eu dava voltas desmesuradas no barquito, grandes distâncias em curto espaço de tempo. Após uma viagem destas, voltando esgotado e esfomeado, ocorreu-me permanecer até à noite sem alimento nem bebida. Tudo por Rosa Girtanner. Eu levava o seu nome e louvor a cumes distantes e desfiladeiros jamais visitados.

Entretanto, a minha juventude maltratada de tanto me sentar nos bancos da escola, desforrava-se. Os ombros alargavam poderosamente, o rosto e a nuca ficaram castanhos e, por todo o lado, os músculos se distendiam e avolumavam.

No penúltimo dia de férias, fiz ao meu amor uma oferenda de flores bem árdua. Eu sabia da existência do edelweiss(1) em vertentes e estreitas faixas de terra, mas esta doentia flor de prata, sem cheiro nem cor, sempre me pareceu carecida de encanto e pouco bela. Em compensação, conhecia alguns tufos de rosa dos Alpes, levados pelo vento para os sulcos de uma ousada escarpa rochosa, serôdios e atraentemente difíceis de alcançar. Agora tinha de o conseguir. E pois que à juventude e ao amor nada é impossível, alcancei o meu objectivo, de mãos esfaceladas e cãibras nas coxas. Na minha perigosa posição, não podia soltar gritos de alegria, mas o meu coração rejubilava e saltava de alegria quando quebrei cuidadosamente os ramos rijos e segurei nas mãos o troféu. Tinha de retroceder, de flores na boca, a escalar de costas, e só Deus sabe como eu, moço atrevido, terei alcançado são e salvo a base da escarpa. Em todo o monte, a flor da rosa dos Alpes há muito que tinha passado, eu tinha na mão o último ramo do ano, em botão, florindo delicadamente.

No dia seguinte, durante as cinco horas da viagem, segurei nas mãos as flores. De início, o meu coração batia fortemente, ao encontro da cidade da bela Rosa; mas quanto mais longe se encontrava a zona das altas montanhas, tanto mais fortemente o amor à terra me puxava para trás. Como recordo bem essa viagem de comboio! Há muito que o Sennalpstock já não era visível, e já também os montes serrilhados do sopé se abatiam, um após outro, e cada um deles libertava-se do meu coração, com uma acutilante sensação de dor. Agora, todos os montes familiares haviam desaparecido, e irrompia uma vasta e plana paisagem verdejante. Na primeira viagem, isso em nada me impressionara. Desta vez, porém, eu era tomado de desassossego, medo e tristeza, como se tivesse sido condenado a viajar sempre por terras planas adentro, e perder irreparavelmente os montes e o direito de cidadania na minha terra. Ao mesmo tempo, eu via incessantemente o belo rosto oblongo de Rosa diante de mim, tão delicado, estranho e frio, sem se ocupar de mim, que o rancor e a dor me suspenderam a respiração.

 

*1. Edelweiss - planta de flor prateada e aveludada típica dos Alpes. (N. T.)

 

Diante das janelas, deslizavam, uma após outra, as alegres e limpas povoações, com torres esguias e empenas brancas, e as pessoas subiam e desciam do comboio, conversavam, cumprimentavam, riam, fumavam e diziam gracejos - tudo gente alegre das terras baixas, gente ágil, franca e de boas maneiras - e eu, rapaz taciturno das terras altas, mantinha-me sentado em silêncio, triste e crispado entre elas. Sentia que já não estava na minha terra. Senti que fora arrancado para sempre às montanhas e, contudo, nunca viria a ser como a gente das terras baixas, nunca seria tão alegre, tão ágil, afável e seguro. Gente como aquela, sempre se riria de mim, um como aqueles viria um dia a casar com a Girtanner, e alguém como aqueles sempre estaria no meu caminho e um passo à minha frente.

Cheguei à cidade com tais pensamentos. Ali, após os primeiros cumprimentos, subi ao sótão, abri a minha caixa e retirei de lá uma grande folha de papel. Não era do melhor, e quando enrolei nele as minhas rosas dos Alpes e atei o embrulho com um fio trazido especialmente de casa, não se parecia nada com um presente de amor. Com grande seriedade, levei-o até à rua onde vivia o advogado Girtanner e, no primeiro momento propício, penetrei pelo portal aberto, olhei em redor o vestíbulo na semi-obscuridade do lusco-fusco, e poisei o meu ramo pouco convencional sobre a larga escada senhorial.

Ninguém me viu, e eu nunca vim a saber se Rosa chegou a ver a minha saudação. Mas eu trepara escarpas rochosas e arriscara a vida a fim de poisar um ramo de rosas sobre a escada de sua casa, e nisso havia algo de doce, de tristemente alegre, de poético, que me era benfazejo e que ainda hoje sinto. Só em horas de descrença em Deus me parece por vezes que aquela aventura das rosas, como todas as minhas histórias amorosas posteriores, não passou de um acto quixotesco.

Este meu primeiro amor nunca teve uma conclusão, apagou-se, interrogador e sem resolução, nos meus anos de juventude, e a par dos meus amores posteriores, prosseguia silencioso como uma irmã mais velha. Ainda hoje não posso imaginar nada de mais nobre, puro e belo que aquela jovem patrícia bem nascida e de olhar calmo. E quando, alguns anos mais tarde, numa exposição em Munique, vi aquele quadro anónimo, enigmático e encantador da filha dos Fugger, pareceu-me que tinha diante de mim toda a minha juventude apaixonada e triste, olhando-me imperscrutável, profunda e absortamente.

Entretanto, fui mudando a pele, lenta e pausadamente, e aos poucos tornei-me por completo num jovem. A fotografia que tirei então, mostra um jovem camponês ossudo, de alta estatura, com um fato de estudante de fraca qualidade, olhos um tanto apagados e membros inacabados e desmedidos de labrego. Só a cabeça tinha algo de precoce e definitivo. Com uma espécie de espanto, eu via-me a pôr de lado os modos da infância, e esperava com obscura e alegre ansiedade o período de estudante universitário.

Eu deveria ir estudar para Zurique, e para o caso de resultados excepcionais, os meus protectores referiram a possibilidade de uma viagem de estudos. Tudo isso me surgia como um belo quadro clássico: um austero e agradável caramanchão com os bustos de Homero e Platão, no meio do qual eu estava sentado, debruçado sobre in-fólios, e de todos os lados uma larga e límpida vista sobre a cidade, o lago, as montanhas e belos horizontes. O meu ser tornara-se mais sóbrio e, contudo, mais brioso, alegrava-me com a felicidade futura, na firme confiança de ser considerado digno dela.

No último ano liceal, apaixonei-me pelo estudo do italiano e tive o primeiro contacto com os novelistas, cujo estudo mais aprofundado me propunha como primeiro trabalho facultativo para os semestres de Zurique. Veio então o dia em que disse adeus aos professores e ao meu hospedeiro, arrumei e preguei o meu caixote e, com doce melancolia, passei diante da casa de Rosa para me despedir.

O período de férias que então se seguiu deu-me uma prova amarga da vida, e rápida e rudemente esfarrapou-me as belas asas do sonho. Comecei por encontrar a minha mãe doente. Ela estava de cama, quase não falava, e não ligou grande importância à minha chegada. Eu não era muito mimalho, mas sempre me doía não encontrar eco para a minha alegria e orgulho juvenil. Depois, o meu pai explicou-me que embora nada tivesse contra o facto de eu querer ir para a universidade, ele não poderia dar-me dinheiro para isso. Se o pequeno estipêndio não chegasse, eu teria de procurar ganhar para mim próprio o mais indispensável. Que na minha idade já ele comia há muito o pão ganho com o suor do seu rosto, e assim por diante.

Também quanto a caminhadas, remo e alpinismo, pouco se me ofereceu desta vez, pois tive de auxiliar nos trabalhos da casa e do campo, e nos meios-dias livres, já nem sequer me apetecia ler.

Revoltava-me e fatigava-me ver como a comum vida diária cobrava os seus direitos a grandes tragos, e devorava tudo quanto de ardor e entusiasmo eu trouxera comigo. Aliás, o meu pai, uma vez aliviado da questão do dinheiro, embora rude e de poucas palavras, segundo a sua índole, não era antipático para comigo e, todavia, eu não sentia qualquer prazer nele. Também o facto de a minha formação escolar e os meus livros lhe inspirarem um respeito semi-desdenhoso me perturbava e fazia sofrer. E depois, eu recordava Rosa frequentemente, e tinha de novo o perverso e obstinado sentimento da minha incapacidade campesina para alguma vez, no «Mundo», me transformar num homem seguro e flexível. Cheguei mesmo a considerar, durante alguns dias, se não seria melhor permanecer ali, e esquecer o meu latim e as minhas esperanças na vida, nas tenazes e soturnas obrigações da vida miserável na terra natal. Vagueava atormentado e acabrunhado, e nem junto ao leito da mãe doente eu encontrava consolo ou paz. A imagem daquele caramanchão quimérico, com o busto de Homero, surgiu-me de novo, escarnecedora, e eu destruí-a, e lancei sobre ela toda a raiva e animosidade do meu ser atormentado. As semanas tornaram-se insuportavelmente longas, como se neste período desesperado de dissabores e dilemas eu devesse perder a juventude.

Eu ficara atónito e revoltado por ver a vida dos meus sonhos felizes tão rápida e profundamente destruída; agora, porém, espantava-me com o quão súbita e poderosamente nascia um triunfador dos tormentos presentes. A vida havia-me mostrado o seu lado cinzento de dia de labuta; agora, de repente, surgia diante dos meus olhos atónitos nas suas eternas profundezas, e carregava a minha juventude com uma experiência cândida e poderosa.

Certa madrugada de um dia quente de Verão, senti sede na cama, e levantei-me para ir à cozinha, onde havia sempre uma cuba cheia de água fresca. Para isso, tinha de atravessar o quarto dos pais, onde notei o estranho gemer da mãe. Cheguei-me à sua cama, contudo, ela não me viu nem me deu resposta, e continuava os gemidos secos e angustiados, as pálpebras estremeciam e o rosto estava azulado e pálido. Isto não me assustou especialmente, apesar de me sentir um pouco receoso. Mas vi-lhe depois as duas mãos poisadas sobre o lençol, quietas, como duas irmãs adormecidas. Nessas mãos, reconheci que a minha mãe estava a morrer, porque estavam já tão estranhamente fatigadas e sem acção, como nenhum ser vivo as tem. Esqueci a minha sede, ajoelhei junto ao leito, coloquei a mão sobre a fronte da moribunda, e procurei-lhe o olhar. Quando este me encontrou, era bondoso e sem tormento, mas prestes a extinguir-se. Não me veio à ideia que deveria acordar o pai a dormir ao lado com uma respiração profunda. Assim, mantive-me ajoelhado quase duas horas, e olhei a minha mãe sucumbir à morte. Ela aceitava-a em silêncio, com gravidade e coragem, como era de sua índole, e ofereceu-me um bom exemplo.

O quartinho estava em silêncio e enchia-se lentamente com a claridade da manhã nascente; a casa e a aldeia repousavam no sono, e eu dispus de tempo para acompanhar em pensamentos a alma de um moribundo, por sobre a casa e a aldeia, o lago e os cumes de neve, pela fresca liberdade de um céu puro de madrugada adentro. Dor, mal a senti, pois estava repleto de espanto e veneração por me ser dado ver como se desvanecia um grande enigma, e como o anel de uma vida se cerrava com um leve estremecer. A coragem sem queixume da moribunda era tão nobre que, da sua acerba glória, recaiu também sobre a minha alma um raio refrigerante e límpido. Que o pai dormia ali ao lado, que não havia ali um padre, que nem um sacramento ou a oração santificadora acompanharam a alma que voltava à pátria, nada disso eu notei. Eu sentia apenas um arrepiante sopro de eternidade inundar o quartito obscuro e misturar-se com o meu ser. No último momento, os olhos já extintos, beijei pela primeira vez na vida a boca fria e emurchecida de minha mãe. Depois, o estranho frio do contacto causou-me um súbito calafrio, sentei-me na borda da cama, e senti que, lentas e hesitantes, uma após outra, grandes lágrimas me corriam pelas faces, o queixo e as mãos.

Pouco depois, o pai acordou, viu-me ali sentado e perguntou-me, bêbedo de sono, o que havia. Eu queria responder-lhe, mas não pude dizer nada, saí do quarto, entrei como que em sonhos no meu e, com lentidão e sem consciência, vesti as minhas roupas. Em breve o velho apareceu junto de mim.

- A mãe está morta - disse ele. - Já sabias? Eu acenei afirmativamente.

- Por que me deixaste dormir? E nem sequer esteve um padre presente! Que te...

E soltou uma grave imprecação.

Então, algo na minha cabeça começou a doer, como se uma veia tivesse rebentado. Aproximei-me dele e segurei-lhe firmemente as mãos - em força, ele era como um rapazito, comparado comigo - e olhei-o no rosto. Eu nada podia dizer, mas ele ficou silencioso e impressionado, e quando em seguida nos acercámos da mãe, também ele foi tomado pelo poder da morte e pôs um ar distante e solene. Depois, debruçou-se sobre a falecida, e começou a gemer baixinho, infantil, quase como um pássaro, em sons agudos e leves. Eu saí e dei a notícia aos vizinhos. Eles escutaram-me e não fizeram perguntas, mas apertaram-me a mão e ofereceram o seu auxílio para o trabalho da nossa casa. Um correu ao convento para ir buscar um padre e, quando regressei, já uma vizinha estava no nosso estábulo a cuidar da vaca.

Veio o reverendo, e vieram quase todas as mulheres da aldeia, tudo decorreu pontual e correctamente, como que por si, e até o caixão foi comprado sem disso termos de ocupar-nos; pela primeira vez pude ver nitidamente como, em situações difíceis, é bom estar na nossa terra, e pertencer a uma comunidade pequena e coesa. No dia seguinte, eu teria talvez ocasião de meditar nisto ainda mais profundamente.

É que, após o caixão ter sido benzido e descido à cova, e o estranho bando de hirsutos chapéus de coco, tristes e antiquados, incluindo o do meu velho, desaparecer cada um em sua caixa e armário, o meu pobre pai teve um acesso de fraqueza. Começou de repente a lastimar-se e em estranhos discursos, em grande parte bíblicos, expunha-me a sua desgraça, que agora a sua mulher estava enterrada, e teria ainda de perder o filho e vê-lo partir para longe. Ele não se calava, e eu escutava aterrorizado e quase disposto a prometer-lhe a minha permanência ali.

Neste momento, tinha eu já começado a dar-lhe resposta, sucedeu algo de notável. De súbito, condensado num único segundo, tudo quanto eu desde pequeno pensara, desejara e ardorosamente ansiara, surgiu-me numa repentina visão interior. Vi belos e grandiosos trabalhos aguardando-me, livros a ler e a escrever. Escutei o foehn correr, e vi longínquos lagos e margens brilhando nas cores do meridião. Vi passar pessoas de rostos inteligentes e plenos de espiritualidade, e belas damas delicadas, vi seguir estradas e caminhos por desfiladeiros, conduzindo através dos Alpes, e comboios correndo à desfilada pelas terras, tudo a um só tempo, e contudo, cada coisa de per si e nítida, e por trás de tudo, a ilimitada lonjura de um horizonte límpido, recortado de nuvens esfumando-se. Estudar, criar, observar, caminhar - toda a plenitude da vida refulgia diante do meu olhar, numa fugaz visão argêntea, e uma vez mais, como nos tempos de criança, algo em mim estremeceu com uma inconsciente e poderosa atracção pelo grande e vasto mundo.

Fiquei silencioso e deixei o pai falar, meneei a cabeça e aguardei, até que o seu ímpeto amainou. Isto deu-se apenas pela noite. Então, expus-lhe a minha firme decisão de ir estudar e procurar a minha pátria futura, possuidor já da riqueza do espírito, sem pretender dele qualquer apoio. Ele deixou de insistir, e olhou-me apenas tristemente, abanando a cabeça. Também ele compreendia que, a partir desse momento, eu seguiria o meu próprio caminho, e rápido me tornaria inteiramente estranho à sua vida. Quando hoje, ao escrever, recordei este dia, vi de novo o meu pai, da forma como nessa tarde estava sentado na cadeira junto à janela. Uma cabeça de camponês, arguta, inteligente, imóvel, sobre um pescoço delgado, o cabelo curto que começa a encanecer, e nos traços duros e austeros, o sofrimento e a idade que avança e luta com a tenaz masculinidade.

Dele e do período dessa minha estada sob o seu tecto, resta-me contar ainda um curto acontecimento, não de todo sem importância. Na última semana antes da minha partida, em dado serão, o meu pai pôs o seu barrete e colocou a mão na maçaneta da porta.

- Onde vais? - perguntei.

- Que tens a ver com isso? - respondeu.

- Sempre mo podias dizer, se não é nada de mal - comentei eu.

Então, ele riu e exclamou:

- Podes vir também, já não és nenhum garoto.

E fui com ele para a taberna. Havia ali alguns camponeses sentados diante de uma caneca de Hallau, dois condutores de fora que bebiam absinto, e uma mesa cheia de rapazes novos a jogar às cartas, em grande alarido.

Eu estava habituado a beber um copo de vinho, uma ocasião por outra, mas era a primeira vez que, sem necessidade, penetrava numa taberna. Que o meu pai era um bêbedo inveterado, já o sabia de ouvir dizer. Ele bebia muito e de boa qualidade, daí que a economia do lar se atolasse numa miséria sem esperança, sem que, de resto, a negligenciasse verdadeiramente. Notei quanto respeito o taberneiro e os clientes lhe manifestavam. Ele mandou vir um litro de vinho de Vaud, disse-me para servir e ensinou-me como isso deve fazer-se. Há que começar a deitar bastante baixo, depois alongar um pouco o fluxo e, por fim, baixar a garrafa tanto quanto possível. De seguida, começou a falar de diversos vinhos que conhecia e que em circunstâncias raras costumava apreciar, quando ia à cidade ou ao país do Romando. Falou com profundo respeito do vinho de Valtellina vermelho-escuro, de que distinguia três qualidades. Depois, com uma voz mais baixa e incisiva, acabou por falar de certas garrafas do Vaud. Quase num sussurro e com a expressão de um contador de histórias, falou por fim do vinho de Neuchâtel. Deste, havia três colheitas, cuja espuma, ao servir, formava no copo uma estrela. E com o dedo humedecido, desenhava a estrela sobre a mesa. Em seguida, mergulhou em espantosas crenças sobre a qualidade e sabor do Champagne que nunca bebera e acerca do qual supunha que uma garrafa bastaria para pôr dois homens bêbedos que nem cachos.

Calando-se, pensativo, acendeu o cachimbo. Nisto, reparou que eu nada tinha para fumar, e deu-me dez rappe(1) para cigarros. Ficámos então sentados frente a frente, a lançar o fumo sobre o rosto um do outro, e bebemos lentamente, em pequenos sorvos, o primeiro litro. O Vaud, amarelo e picante, sabia-me maravilhosamente. Aos poucos, os camponeses da mesa ao lado ousaram entrar na conversa e, por fim, um após outro, tossicando, foram-se mudando cuidadosamente para junto de nós. Em breve me tornei também o centro das atenções, e se evidenciou que a minha fama como alpinista não fora esquecida ainda. Contaram-se, discutiram-se e defenderam-se todo o tipo de ascensões arrojadas e quedas fantásticas, envoltas numa névoa mística. Entretanto, acabávamos já o segundo litro, e o sangue injectava-me os olhos. Inteiramente contra a minha natureza, eu comecei a gabar-me alto, e narrei também a temerosa ascensão à escarpa superior do Sennalpstock, onde fui buscar as rosas dos Alpes para a Rosa Girtanner. Não me acreditaram, reiterei, riram-se e fiquei furioso. Desafiei para uma luta todo o que me não acreditasse

 

*1. Rappe - moeda da Suíça alemã, que a partir de meados do século XIX correspondia ao cêntimo francês. (N. T.)

 

e fiz notar que, em caso de necessidade, os derrubaria a todos juntos. Então, um velho camponês, corcovado, foi ao aparador, trouxe uma grande caneca de faiança, e poisou-a de lado sobre a mesa.

- Vou dizer-te uma coisa - ria ele. - Se és assim tão forte, esmaga a caneca com o punho. Pagar-te-emos tanto vinho quanto ela leva. Mas se não fores capaz, pagas tu o vinho.

O meu pai concordou de imediato. Então levantei-me, enrolei o meu lenço à volta da mão e dei um murro. As duas primeiras pancadas não surtiram efeito. À terceira, a caneca ficou em pedaços.

- Paga você! - gritou o meu pai, brilhando de prazer, e o velho parecia estar de acordo.

- Certo - disse ele. - Pago tanto vinho quanto cabe na caneca. Mas já não há-de ser muito.

Claro que o caco já não levava nem um quartilho, e para além da dor no braço ainda suportei a troça. Agora, também o meu pai zombava de mim.

- Bem, foi assim que ganhaste - gritei eu, enchendo o caco com o vinho da nossa garrafa e vertendo-o sobre a cabeça do velho. Agora, éramos nós de novo os vencedores e tínhamos o aplauso dos clientes.

Exageraram-se ainda as brincadeiras rudes como esta. Depois, o meu pai arrastou-me para casa, e atravessámos aos tropeções, excitados e coléricos o quarto onde há apenas três semanas se encontrava o caixão da mãe. Eu dormi que nem uma pedra e, de manhã, estava arrasado e todo partido. O pai troçava e estava cheio de energia e bem disposto, e alegrava-se visivelmente pela sua superioridade. Eu, porém, jurei para mim nunca mais me embebedar, e aguardava ansiosamente o dia da partida.

O dia chegou e eu parti, contudo, não guardei o juramento. Desde então, o Vaud amarelo, o Valtellina vermelho-escuro, o vinho das estrelas de Neuchâtel e muitos outros são-me bem conhecidos e meus bons amigos.

 

Saído da atmosfera sóbria e oprimente da minha terra, dei grandes voos de prazer e liberdade. Se é certo que, no resto da minha vida, sempre sofri restrições, eu saboreei, contudo, o singular e apaixonado entusiasmo da juventude com abundância e plenitude. Qual jovem guerreiro repousando na orla florida da floresta, também eu vivia numa deliciosa inquietação entre o combate e a brincadeira; e como um vidente repleto de sabedoria, abeirava-me de obscuros abismos, escutando o rumorejar de grandiosas torrentes e tempestades, com a alma preparada para escutar a ressonância das coisas e a harmonia de toda a vida. Profunda e ditosamente, eu esvaziei o cálice pleno da juventude, sofri em silêncio doces penas por belas mulheres timidamente veneradas, e saboreei até ao âmago a mais nobre felicidade juvenil de uma alegre e viril amizade pura.

Com um fato novo de buckskin (1) e um pequeno caixote cheio de livros e outros haveres, apeei-me pronto a conquistar uma parcela do mundo e, tão depressa quanto possível, demonstrar aos broncos lá da terra que era de uma massa bem diferente da dos outros Camenzind. Durante três anos maravilhosos, habitei uma mansarda de largos horizontes, exposta aos ventos; estudava, fazia poesia, ansiava e sentia toda a beleza da Terra envolver-me num caloroso amplexo. Nem todos os dias tinha algo de quente para comer mas, dia após dia, noite após noite e hora após hora, o meu coração cantava e ria e chorava, pleno de vigorosa alegria, e abraçava a vida bem amada com ardor e paixão.

 

*1. Buckskin - tecido grosseiro de lã de origem inglesa. (N. T.)

 

Zurique foi a primeira cidade que eu, jovem inexperiente, tive ensejo de ver, e durante algumas semanas permaneci extasiado. Não me pus a admirar realmente ou a invejar a vida citadina - que nisso, de facto, eu era um camponês; mas sentia grande alegria na multiplicidade de ruas, de casas e gentes. Eu olhava as ruas pululantes de automóveis, os embarcadouros, as praças e jardins, os edifícios majestosos e as igrejas; vi gente ocupada correr em bandos para o trabalho, vi estudantes a vaguear, pessoas distintas saindo a passeio, peraltas pavoneando-se, estrangeiros deambulando. Elegantes e à moda, quais senhoras da corte, as mulheres dos ricos pareciam-me pavões na capoeira, lindas, orgulhosas, e um tanto ridículas. Eu não era realmente tímido, apenas rígido e teimoso, e não duvidava de todo que seria capaz de conhecer a fundo essa vida activa das cidades e, mais tarde, vir mesmo a encontrar ali um lugar decisivo.

A juventude apresentou-se-me na figura de um belo jovem que estudava na mesma cidade e alugara dois belos quartos no primeiro andar da minha casa. Todos os dias o ouvia tocar piano lá em baixo, e senti, então, pela primeira vez, um pouco da magia da música, a mais feminina e doce das artes. Depois, vi o esbelto rapaz sair de casa, com um livro ou caderno de notas na mão esquerda e, na direita, um cigarro, cujo fumo ficava a voltear por trás do seu andar elegante e elástico. Senti-me atraído por ele, com um amor tímido; todavia, mantive-me à distância, receando estabelecer contacto com uma pessoa ao lado de quem a minha pobreza e falta de maneiras só poderiam humilhar-me, face ao seu ser despreocupado, livre e abastado. Então, veio ele mesmo ter comigo. Certa tarde, bateu à minha porta, e fiquei um pouco assustado; é que nunca tinha recebido uma visita. O belo estudante entrou, estendeu-me a mão, disse o seu nome e mostrou tanta liberdade e boa disposição que mais parecíamos velhos conhecidos.

- Queria perguntar-lhe se não gostaria de fazer um pouco de música comigo - disse ele amavelmente.

Mas eu nunca na vida tinha mexido num instrumento. Disse-lho, e ajuntei que, para além do iodler, não conhecia nenhuma arte; contudo, a sua música ao piano, por diversas vezes me soara lá em cima, bela e sedutora.

- Como podemos enganar-nos! - exclamou ele, divertido. - Pelo seu aspecto exterior, poderia jurar que era músico. Admirável! Mas sabe cantar iodler! Por favor, cante iodler. Gosto imenso de ouvir.

Fiquei completamente estupefacto, e expliquei-lhe que, assim, por encomenda e dentro de um quarto, de forma alguma conseguiria soltar um iodler. Isso teria de ser no cimo de um monte ou, pelo menos, ao ar livre e de puro prazer.

- Então, cantará iodler sobre um monte! Amanhã, talvez? Peço-lho encarecidamente. Poderíamos sair juntos à tardinha. Passeamos e conversamos um pouco; depois, lá no cimo, cantará iodler e, à noite, iremos comer a qualquer aldeia. Tem tempo disponível?

Oh, sim, tempo de sobra. Concordei prontamente. Depois, pedi-lhe para me tocar alguma coisa, e desci com ele a um lindo alojamento. Alguns quadros modernos, o piano, uma certa desordem aprazível e um delicado aroma a tabaco, produziam no belo quarto uma espécie de elegância agradável e um ambiente confortável que me eram inteiramente novos. Ricardo sentou-se ao piano e tocou alguns compassos.

- Conhece isto, não? - acenou-me, magnífico, desviando a bela cabeça do instrumento e olhando-me radiante.

- Não - disse eu - não conheço nada.

- É Wagner - exclamou ele - «Os Mestres Cantores»

E continuou a tocar. Era um som leve e vigoroso, nostálgico e alegre, e envolveu-me como um banho tépido e estimulante. Entretanto, eu observava com secreto enlevo a elegância do pescoço e ombros do artista, e as mãos brancas de músico; com isto, senti-me transbordar daquele mesmo sentimento de carinho e respeito com que antes havia olhado o estudante de cabelos negros, acompanhado da tímida percepção de que aquele ser, belo e distinto, viria, talvez, a tornar-se efectivamente no meu amigo, e realizaria o meu velho e não esquecido desejo de uma tal amizade.

No dia seguinte, fui buscá-lo. Lentamente e conversando, subimos uma colina mediana, olhámos a cidade, o lago e os jardins, e saboreámos a beleza saturada do anoitecer.

- Bem, agora cante iodler - exclamou Ricardo. - E se continua a sentir vergonha, volte-me as costas. Mas, por favor, bem alto!

Ele bem podia estar satisfeito. Eu cantei, furiosa e exultantemente, pela vastidão rosada adentro, em todos os tons e modulações. Quando terminei, ele fez menção de dizer alguma coisa, mas conteve-se de imediato e, escutando, apontou os montes. De alturas distantes, chegava uma resposta, leve, alongando-se e ondulando, o cumprimento de algum pastor ou caminhante, e nós escutámos em silêncio e com alegria.

Nesse acto em que, juntos, escutávamos, senti, com um arrepio delicioso, o prazer de, pela primeira vez, estar junto de um amigo e, assim, a dois, olharmos as belas e rosadas vastidões da vida. Ao cair da noite, o lago iniciava o seu suave jogo de cores; pouco antes do Sol se pôr, eu vi emergir da névoa esvanecente alguns picos dos Alpes ousadamente recortados.

- É ali a minha terra - disse eu. - A escarpa do meio é a Rote Fluh, à direita o Geisshorn, e à esquerda e mais distante, o Sennalpstock arredondado. Tinha dez anos e três semanas quando subi pela primeira vez àquele cume abaulado.

Esforcei o olhar para tentar vislumbrar algum pico ainda mais a Sul. Após um pedaço, Ricardo disse qualquer coisa que não percebi.

- Que disse? - perguntei.

- Disse que já sei qual é a sua arte.

- Qual?

- Poeta.

Corei e fiquei irritado e, ao mesmo tempo, espantado por ele o ter adivinhado.

- Não - exclamei - poeta não sou. É certo que no liceu fiz alguns versos, mas já há muito que não faço nenhuns.

- Deixa-me vê-los?

- Foram queimados. Mas não poderia vê-los, mesmo que não os tivesse queimado.

- Eram de certo coisas muito modernas, com muito Nietzsche.

- O que é isso?

- Nietzsche? Ah, meu Deus, mas não conhece?

- Não. De onde deveria conhecê-lo?

Agora, ele estava deliciado por eu não conhecer Nietzsche. Mas eu fiquei irritado, e perguntei-lhe por quantas geleiras tinha ele já andado. Quando ele respondeu nenhuma, tomei um ar de espanto tão trocista como o fizera comigo. Então, poisou a mão sobre o meu braço e disse muito sério:

- Você é susceptível. Mas nem sabe como é são e quão poucas pessoas há assim. Repare, dentro de um ou dois anos já conhecerá Nietzsche e toda essa tralha muito melhor que eu, porque é mais profundo e mais inteligente. Mas gosto de si precisamente como é. Não conhece Nietzsche nem Wagner, mas andou muito sobre montanhas nevadas e tem um rosto de montanhês inteligente. E de certeza que também é poeta. Vejo-lho no olhar e na fronte.

Também o facto de ele me olhar tão francamente e à vontade, e expressar a sua opinião, me deixava maravilhado e parecia estranho.

Mas muito mais espantado e feliz fiquei quando, oito dias depois, numa cervejaria muito frequentada, bebeu comigo à amizade, se ergueu diante de toda a gente, me beijou e abraçou e, comigo, dançou em redor da mesa.

- Que pensarão as pessoas?! - adverti, envergonhado.

- Vão pensar: aqueles dois estão extraordinariamente contentes ou extremamente bêbedos; mas a maioria não vai pensar nada.

Ricardo, por vezes, apesar de mais velho, mais inteligente, mais bem educado e em tudo mais versado e requintado que eu, parecia-me ser uma verdadeira criança em comparação comigo. Na rua, ele fazia a corte, meio cerimonioso, meio trocista, a raparigas da escola ainda adolescentes; inesperadamente, interrompia as peças de piano mais sérias com brincadeiras absolutamente infantis e, certa vez que, quase por brincadeira, entrámos numa igreja, disse de súbito, em plena prédica, pensativamente e com seriedade:

- Olha, não achas que o pároco tem um ar de coelho velho?

A comparação era acertada, mas eu achei que ele poderia tê-lo comentado depois, e disse-lho.

- Mas se era aquilo mesmo! - amuou ele. - Mais tarde, tê-lo-ia já esquecido.

Que as suas anedotas nem sempre eram espirituosas e, por vezes, não passavam da citação de um verso de Busch, isso não me perturbava a mim nem aos outros, porque aquilo que apreciávamos e admirávamos nele, não eram nem as anedotas nem o seu espírito, mas a indestrutível alegria do seu ser ingénuo, que irrompia a cada momento e o envolvia numa atmosfera leve e jubilosa. Podia expressar-se num gesto, num leve riso ou num olhar jovial, mas ocultá-lo por muito tempo é que ele não conseguia. Estou convencido de que até durante o sono, por vezes, ele teria de rir ou fazer um gesto de alegria.

Ricardo levava-me frequentemente junto de outros jovens, universitários, músicos, pintores, literatos, todo o tipo de estrangeiros, porque quantas pessoas interessantes, amantes da arte e fora do comum andassem pela cidade, todas acabavam por travar relações com ele. Havia entre eles espíritos sérios e vigorosamente lutadores, filósofos, estetas e socialistas, e com grande parte deles eu pude aprender muito. Afluíam a mim, parcelarmente, conhecimentos das mais diversas áreas, e eu ia-os completando e lia muito; fui, assim, adquirindo, aos poucos, uma certa ideia daquilo que atormentava e fascinava as cabeças mais activas daquela época, e ganhei uma visão estimulante e benfazeja do mundo internacional do espírito. Os seus anseios, concepções, trabalhos e ideais atraíam-me e compreendia-os, sem sentir um impulso forte de lutar a favor ou contra. Na maioria deles, encontrava toda a energia do pensamento e a paixão aplicadas às situações e instituições da sociedade, do Estado, da ciência, das artes e dos métodos de ensino, mas poucos me pareciam conhecer a necessidade de, sem fim visível, trabalhar em si mesmos e esclarecer a sua própria posição frente ao tempo e à eternidade. E também em mim próprio este impulso permanecia ainda, usualmente, meio adormecido.

Não travei mais nenhuma amizade, pois amava Ricardo com exclusivismo e ciúme. Até às mulheres com quem ele se relacionava com frequência e intimidade, eu procurava subtraí-lo. Cumpria escrupulosamente os mais pequenos encontros combinados com ele e ficava melindrado se me fazia esperar. Certa vez, pediu-me para ir buscá-lo a determinada hora para fazermos remo. Eu fui, mas não o encontrei em casa, esperando por ele três horas, em vão. No dia seguinte, censurei-o severamente pelo seu descuido.

- Então por que não foste remar sozinho? - riu, admirado. Esqueci-me completamente; afinal, não é nenhuma desgraça.

- Estou habituado a cumprir escrupulosamente a minha palavra - respondi, impetuoso. - Mas é certo que também já me vou habituando a que pouco te importes ao saber que espero algures por ti. Quando se têm tantos amigos como tu!

Olhou-me, muito espantado.

- Levas assim tão a sério todas as bagatelas?

- Para mim, a minha amizade não é nenhuma bagatela.

- «Tal palavra entrou no seu ser

E ali jurou emendar-se...» - citou Ricardo, solenemente.

E segurando-me a cabeça, esfregou a ponta do seu nariz no meu, segundo o rito oriental, e fez-me festas até que eu, rindo irritado, me libertei dele; mas a amizade estava de novo sanada.

Em volumes emprestados e não raro preciosos, eu tinha na minha mansarda os filósofos, poetas e críticos modernos, revistas literárias da Alemanha e da França, novas peças de teatro, folhetins franceses e estetas da moda vienenses. Mas mais séria e entusiasticamente que com estas coisas rapidamente lidas, eu ocupava-me com os meus novelistas italianos e com estudos de história. Era meu desejo que, tão rápido quanto possível, pudesse pôr de lado a filologia para estudar exclusivamente história. A par de obras gerais sobre história e metodologia histórica, eu lia em particular originais e monografias sobre os fins da Idade Média da Itália e da França. Isto levou-me a, pela primeira vez, obter um conhecimento mais profundo do meu favorito entre os homens: Francisco de Assis, o mais bem-aventurado e divino de todos os santos. E assim, o sonho em que vira desvendada ante mim a plenitude da vida e do espírito, realizava-se diariamente e aquecia-me o coração enchendo-o de brio, de alegria e de vaidade juvenil. No auditório, eu ocupava-me com a ciência um tanto árida e por vezes um pouco enfadonha. Em casa, regressava às histórias da Idade Média, afavelmente piedosas ou assustadoras, ou aos agradáveis novelistas antigos, cujo mundo belo e aprazível me envolvia como um recanto de fábula, coberto de sombras e com uma luz velada, ou então sentia a vaga indómita dos ideais e anseios modernos rolar sobre mim. Entretanto, ouvia música, ria com Ricardo, partilhava da sua alegria nos encontros com os seus amigos, convivia com Franceses, Alemães e Russos, escutava a leitura de estranhos livros modernos, entrava, aqui e além, nos ateliers dos pintores, ou participava em tertúlias nocturnas, onde aparecia grande número de jovens espíritos agitados e nebulosos, que me envolviam como um carnaval fantástico.

Certo domingo, Ricardo e eu visitámos uma pequena exposição de Pintura nova. O meu amigo estacou diante de um quadro que representava uma pastagem de montanha com algumas cabras. Estava pintado com cuidado e agradavelmente, mas era um pouco antiquado e, no fundo, sem um cunho verdadeiramente artístico.

Em qualquer salão se podem ver muitos daqueles quadros bonitos mas insignificantes. No entanto, aquele agradou-me como uma representação bastante fiel das pastagens da minha terra. Perguntei a Ricardo o que o atraía naquele quadro.

- Isto - disse ele, indicando o nome do pintor ao canto.

Eu não consegui decifrar as letras a vermelho-acastanhado.

- Este quadro - disse Ricardo - é uma grande obra. Há-os mais belos, mas não há pintora mais bonita do que aquela que o fez. Chama-se Hermínia Aglietti e, se quiseres, poderemos ir ter com ela amanhã, para lhe dizer que é uma grande pintora.

- Conhece-la?

- Claro. Se os seus quadros fossem tão belos como ela, há muito que seria rica e já não pintaria mais nenhum. Ela fá-lo sem prazer e apenas porque, por acaso, não aprendeu mais nada de que possa viver.

Ricardo esqueceu este assunto de novo, e só algumas semanas mais tarde voltou a falar nele.

- Ontem, encontrei a Aglietti. Há pouco tempo, pensámos em ir visitá-la. Portanto, anda! Tens um colarinho lavado? É que ela repara nisso.

O colarinho estava limpo, e fomos juntos visitar a Aglietti, levando eu alguma repulsa íntima, porque a relação despreocupada e um pouco ordinária de Ricardo e dos seus camaradas com as mulheres pintoras e as estudantes nunca me agradara. Os homens eram bastante faltos de delicadeza, ora grosseiros ora irónicos; por seu lado, as raparigas eram práticas, astutas e maliciosas, e nada se notava daquele perfume transfigurador em que eu gostava de enquadrar e venerar as mulheres.

Entrei no atelier um pouco constrangido. É certo que eu estava habituado à atmosfera das oficinas de pintores, mas era a primeira vez que entrava no atelier de uma mulher. Tinha um aspecto bastante sóbrio e arrumado. Havia três ou quatro pinturas acabadas pendendo, emolduradas; uma estava sobre o cavalete, ainda sem a camada inferior terminada. O resto das paredes estava coberto por esboços a lápis, muito limpos e atraentes, e por uma estante meio vazia. A pintora recebeu a nossa saudação com frieza. Pôs de lado o pincel e, de avental de pintor, encostou-se à estante, parecendo não ter intenção de gastar muito tempo connosco.

Ricardo teceu-lhe rasgados elogios sobre o quadro exposto. Ela riu-se dele e não os aceitou.

- Mas, menina, eu poderia ter intenção de comprar o quadro! A propósito, as vacas são de uma autenticidade...

- São cabras - disse ela, calmamente.

- Cabras? Cabras, está claro! Queria eu dizer que são um estudo que me impressionou. São cabras, exactamente como na realidade, é mesmo o jeito das cabras. Pergunte ao meu amigo Camenzind, que é ele próprio um filho das montanhas; ele dar-me-á razão.

Naquele momento, e enquanto escutava perturbado e divertido a conversa, senti-me percorrer pelo olhar da pintora que me inspeccionava. Observou-me longamente e com à-vontade.

- É natural das montanhas?

- Sou sim, menina.

- Vê-se. Bem, e que lhe parecem as minhas cabras?

- Oh, são com certeza muito boas. Pelo menos, não as tomei por vacas, como o Ricardo.

- É muito amável. É músico?

- Não, sou universitário.

Ela não trocou comigo nem mais uma palavra, e tive então tempo para a observar. A figura estava encoberta e deformada pelo longo avental, e o rosto não me pareceu bonito. Tinha um recorte nítido e singelo, os olhos um pouco austeros, o cabelo abundante, negro e macio; mas o que me perturbava e quase causava repulsa era a cor do rosto, Recordava-me grandemente o gorgonzola, e não me admiraria por encontrar nele traços verdes. Eu nunca tinha visto aquela palidez romanda e, agora, à desfavorável luz matinal do atelier, ela tinha um ar assustadoramente pétreo, não como mármore, mas como uma pedra muito descorada pelas intempéries. Eu não estava habituado a analisar o rosto de uma mulher segundo as suas formas, senão que costumava procurar nelas, de forma ainda um pouco pueril, mais a doçura, o rosado, a graça.

Também Ricardo ficou indisposto com a visita desse dia. Tanto mais espantado e assustado fiquei quando, após algum tempo, ele me comunicou que a Aglietti gostaria de poder desenhar-me. Tratava-se apenas de alguns esboços, que ela não necessitava do rosto, mas a minha figura larga tinha algo de típico.

Antes de se falar mais nisto, surgiu outro pequeno acontecimento que alterou toda a minha vida e, durante anos, determinou o meu futuro. Certa manhã, ao acordar, tinha-me tornado escritor.

Incitado por Ricardo, eu descrevera ocasionalmente, puramente como exercício de estilo, alguns tipos da minha terra, pequenos acontecimentos, conversas e outras coisas, esboçados e representados com o máximo de fidelidade, e escrevera também alguns ensaios sobre literatura e história.

Certa manhã, então, estando eu ainda na cama, Ricardo entrou no meu quarto e depôs trinta e cinco francos sobre a coberta da minha cama.

- Isto pertence-te - disse ele, em tom de homem de negócios.

Por fim, tendo eu já esgotado com perguntas todas as conjecturas possíveis, ele retirou uma folha de jornal do bolso e mostrou-me, impressa, uma das minhas pequenas novelas. Ele havia copiado alguns dos meus manuscritos, tinha-os levado a um redactor seu amigo e, sem nada dizer, tinha-os vendido por mim. Eu tinha agora entre as mãos o primeiro a ser impresso e os respectivos honorários.

Nunca sentira uma impressão tão estranha. De facto, os esforços de Ricardo para me dirigir irritavam-me, mas o doce primeiro orgulho do escritor, o metal sonante e ainda a ideia de uma eventual fama literária foram mais fortes e prevaleceram finalmente.

Num café, o meu amigo fez-me encontrar o redactor. Este solicitou-me licença para ficar com os outros trabalhos que Ricardo lhe mostrara, e convidou-me a enviar-lhe outros de vez em quando. Que havia um tom muito próprio nas minhas coisas, especialmente nas históricas, que gostaria de receber mais e me pagaria bem. Só então me dei conta da seriedade do assunto. Não só poderia, diariamente, comer em condições e pagar as minhas pequenas dívidas, como também pôr de lado o estudo que fazia por obrigação, e talvez em breve, trabalhando no meu campo preferido, pudesse viver do meu ganho.

Entretanto, recebi em casa um monte de livros novos enviados por aquele redactor, para fazer recensões. Eu devorei-os e tive bem que fazer durante semanas; mas como os honorários só eram pagos ao fim do trimestre, e eu havia vivido melhor que de costume à conta deles, vi-me, certo dia, sem o meu último rappe; tive, então, de iniciar de novo uma cura de fome.

Durante alguns dias, mantive-me a pão e café no meu quarto, depois, a fome levou-me a um restaurante. Levei comigo três dos livros para recensão, a fim de os deixar ali como fiança para a conta. Já os tinha tentado deixar no alfarrabista, mas em vão. A refeição foi deliciosa mas, ao tomar o café, senti um aperto no coração. Hesitante, confessei à empregada que não tinha dinheiro, mas que queria deixar ali os livros como penhor. Tomou um deles na mão, um volume de poesia, folheou-o com curiosidade, e perguntou se poderia lê-lo. Ela gostava tanto de ler, mas nunca conseguia comprar livros. Senti que estava salvo, e sugeri-lhe que guardasse os três pequenos volumes como pagamento da refeição. Ela concordou e, uns após outros, ficou-me com livros a dezassete francos cada. Por volumes de poesia mais pequenos, eu pedia, por exemplo, queijo com pão, por romances, o mesmo com vinho, e as novelas isoladas valiam apenas uma chávena de café com pão. Tanto quanto recordo, eram em geral coisas de pouca importância, num estilo crispado à maneira moderna, e a bondosa rapariga deve ter ficado com uma impressão estranha acerca da literatura alemã moderna. Lembro com satisfação aquelas tardes em que eu, com grande esforço, acabava de ler mais um volume a galope e escrevia umas linhas acerca dele, a fim de o ter terminado até ao meio-dia e conseguir, em troca, algo que se comesse. Eu procurava ocultar cuidadosamente a Ricardo as minhas dificuldades económicas porque, embora sem necessidade, envergonhava-me diante dele, e era com desagrado e sempre por períodos muito curtos que aceitava o seu auxílio.

Eu não me considerava um escritor. O que escrevia, ocasionalmente, eram folhetins, e não literatura. Mas em segredo, acalentava a secreta esperança de um dia me ser dado escrever um poema, um grande e ousado poema à nostalgia e à vida.

O espelho alegre e límpido da minha alma era de vez em quando ensombrado por uma espécie de melancolia mas, nessa altura, não estava seriamente turbado. Ela surgia aqui e além, por um dia ou uma noite, como uma tristeza sonhadora de solitário, mas desaparecia de novo sem rasto, regressando após semanas ou meses. Eu habituara-me a ela aos poucos como a uma amiga íntima, e não a sentia como atormentadora, mas apenas como uma inquietude e um cansaço que possuíam a sua Própria doçura. Quando me acometia à noite, em vez de dormir, eu deitava-me horas seguidas no vão da janela, olhava o lago negro, as silhuetas dos montes recortadas contra o céu pálido e, por cima, as belas estrelas. Depois, não raro, era tomado por um forte sentimento temeroso e doce, como se toda esta beleza nocturna me observasse com um justo olhar reprovador. Como se as estrelas, as montanhas e os lagos ansiassem por alguém que compreendesse e expressasse a sua beleza e a dor da sua existência silenciosa, como se fosse eu esse alguém, como se a minha verdadeira missão fosse a de, pela escrita, dar expressão à natureza silenciosa. De que forma isto seria possível, era coisa sobre que nunca pensava, senão que sentia apenas a bela noite, grave, esperar por mim numa exigência silenciosa. Também nunca escrevi nada neste estado de espírito. No entanto, tinha um sentimento de responsabilidade frente a estas vozes silenciosas e, usualmente, após noites como esta, eu dava passeios a pé durante dias. Parecia-me que poderia assim manifestar um pouco de amor para com a terra que se me ofertava, numa súplica silenciosa, ideia sobre a qual, depois, eu próprio me ria. Estes passeios tornaram-se numa base da minha vida futura; a partir de então, passei grande parte dos anos como caminhante, em excursões de semanas e meses por diversos países. Habituei-me a fazer longas caminhadas com um naco de pão no bolso, a passar dias a caminho, solitário, e a pernoitar com frequência ao ar livre.

Com a escrita, eu esquecera de todo a pintora. E então, chegou-me um bilhete dela: «Na quinta-feira, alguns amigos e amigas encontrar-se-ão em minha casa para o chá. Por favor, venha também, e traga o seu amigo.»

Nós fomos e encontrámos um pequeno grupo de artistas em convívio. Eram quase só gente sem nome, esquecidos, sem êxito, o que para mim tinha algo de tocante, apesar de todos parecerem inteiramente satisfeitos e divertidos. Havia chá, pão com manteiga, presunto e salada. Como não encontrei ali conhecidos e, além disso, não era falador, cedi à minha fome e comi durante uma meia hora em silêncio e sem parar, enquanto os outros começavam apenas a bebericar o chá, conversando. Quando estes, um após outro, quiseram pegar em alguma coisa, apercebemo-nos de que, sozinho, eu tinha comido todo o presunto. Eu crera, erroneamente, que haveria pelo menos mais uma travessa de reserva. Como começassem a ouvir-se risos abafados e eu apercebesse olhares irónicos, roguei pragas à italiana mais o seu presunto. Ergui-me e apresentei-lhe uma desculpa seca, explicando-lhe que, da próxima, eu mesmo levaria o meu jantar, e peguei no meu chapéu.

Então, a Aglietti arrancou-me o chapéu da mão, olhou-me espantada e calmamente, e pediu-me seriamente para ficar. Sobre a sua face recaía a luz de um candeeiro de pé, suavizada por um quebra-luz de crepe e, em meio da irritação, os meus olhos descobriram subitamente a maravilhosa beleza madura desta mulher. De um momento para o outro, senti-me muito descortês e estúpido, e tomei lugar num recanto afastado, como um garoto de escola repreendido. Fiquei ali sentado a folhear um álbum do lago Como. Os outros bebiam chá, andavam de cá para lá, riam e conversavam em confusão e, algures ao fundo, ouvia-se o afinar de violinos e um violoncelo. Uma cortina abriu-se e vimos quatro jovens sentados diante de estantes improvisadas, prontos a apresentar um quarteto de cordas. Nesse momento, a pintora veio para junto de mim, colocou uma chávena de café sobre a mesinha à minha frente, acenou-me amavelmente e tomou lugar a meu lado. O quarteto começou e foi longo, mas eu nada escutei dele; de olhos esbugalhados, eu observava maravilhado aquela dama elegante, delicada e bem vestida, de cuja beleza duvidara e cujas provisões devorara. Com alegria e temor recordei que ela quisera desenhar-me. Depois, pensei em Rosa Girtanner, na ascensão da escarpa das rosas dos Alpes, na história da Rainha da Neve, parecendo-me tudo apenas uma preparação para este momento.

Quando a música terminou, a pintora não se foi embora outra vez, como eu receara, permaneceu calmamente sentada e começou a conversar comigo. Felicitou-me por uma novela que tinha visto no jornal. Gracejou acerca de Ricardo, em torno do qual se acotovelavam algumas raparigas, cujo riso despreocupado sobrepujava por vezes todas as outras vozes. Depois, pediu de novo licença para me desenhar. Então, tive uma ideia. Sem transição, continuei a conversa em italiano, o que me valeu não só um olhar alegremente surpreso dos seus olhos vivos de meridional, como também o delicioso prazer de a ouvir falar na sua língua, a língua que ficava bem à sua boca, aos seus olhos e à sua figura, a língua toscana, de sons agradáveis, elegante e fluida, com um leve e enternecedor acento do linguajar de Ticino. Eu próprio não falava bem nem com fluência, mas isso não me incomodava. No dia seguinte, deveria ir lá para ser desenhado por ela.

- A rivederla - disse eu como despedida, fazendo uma vénia tão pronunciada quanto possível.

- A rivederci domani - sorriu ela acenando.

Saindo de sua casa, caminhei sempre em frente, até que a estrada chegou ao alto de uma colina e, de repente, a paisagem escura se estendeu bela e majestosa ante mim. Um único barco deslizava sobre o lago e lançava algumas faixas escarlate tremeluzindo sobre a água negra, da qual só aqui e além sobressaía uma delgada crista de onda com uma silhueta estreita e prateada. Num jardim próximo, ouviam-se o toque do bandolim e risos. O céu estava meio encoberto, e sobre as colinas corria um vento forte e quente.

E assim como o vento acariciava os ramos das árvores de fruto e as copas negras dos castanheiros, assim como as fustigava e vergava fazendo-as gemer e rir e estremecer, assim também brincava comigo a paixão. Ajoelhei sobre o cume da colina, estendi-me sobre o solo, ergui-me de um salto, bati os pés contra o chão, lancei o chapéu para longe, esfreguei o rosto contra a erva, abanei os troncos das árvores, chorei, ri, solucei, vociferei, envergonhei-me, sentia-me ditoso e mortalmente angustiado. Após uma hora, tudo em mim estava descontraído e abafado num sombrio torpor. Não pensei nada, não decidi nada, não senti nada; andando como em sonhos, desci a colina, vagueei por meia cidade, vi numa rua apartada uma pequena taberna ainda aberta, entrei maquinalmente, bebi dois litros de Vaud e, pela manhã, voltei a casa tremendamente bêbedo.

Na tarde seguinte, a menina Aglietti ficou muito assustada quando fui ter com ela.

- Que tem? Está doente? Tem um ar completamente transtornado.

- Nada de grave - disse eu. - Parece-me que esta noite estive muito bêbedo, e é tudo. Por favor, comece.

Fui conduzido a uma cadeira, pediram-me que me mantivesse quieto. E assim fiz, porque em breve caía num sono profundo, passando toda a tarde a dormir no atelier. Certamente em virtude do cheiro a terebintina das oficinas de pintura, eu sonhei que o nosso barquito, lá em casa, estava a ser pintado de fresco. Eu estava estendido sobre o cascalho ali ao lado, a manejar a lata e o pincel; a mãe também ali estava, e quando lhe perguntei se não havia morrido, ela disse baixinho:

- Não, porque se não estivesse aqui, tu acabarias por dar num pobre diabo como o teu papá.

Quando acordei, caí da cadeira abaixo e, espantado, dei comigo na oficina da Hermínia Aglietti. A ela, não a vi, mas ouvi-a a fazer tilintar chávenas e talheres na salita ao lado, e depreendi daí que deveriam ser horas do jantar.

- Já acordou? - gritou-me ela.

- Já sim. Dormi muito tempo?

- Quatro horas. Não tem vergonha?

- Tenho sim. Mas tive um sonho lindíssimo.

- Conte lá!

- Conto, se sair daí e me perdoar.

Ela saiu, mas queria guardar o perdão até eu lhe narrar o sonho. Contei então, e com a narrativa do sonho mergulhei profundamente na época da infância; quando me calei e já a noite estava cerrada, tinha-lhe contado, a ela e a mim próprio, toda a história da minha infância. Ela deu-me a mão, endireitou-me o casaco amarrotado, convidou-me a voltar amanhã para o desenho, e senti que tinha compreendido também e perdoado a minha falta de cortesia de hoje.

Nos dias seguintes, posei para ela hora após hora. Quase não falávamos, eu permanecia ali sentado ou de pé, quieto e como que encantado, escutava o roçar macio do carvão de esboço, aspirava o leve cheiro a tintas de óleo, e não tinha outra sensação que saber-me junto à mulher que amava, com o olhar dela permanentemente poisado em mim. A luz branca do atelier derramava-se pelas paredes, algumas moscas sonolentas zuniam nos vidros e, na salinha ao lado, cantava a chama de álcool, pois após cada sessão era-me servida uma chávena de café.

Em casa, pensava frequentemente em Hermínia. Não me incomodava nem minorava a minha paixão, o facto de não poder reverenciar a sua arte. Ela, de si, era tão bela, bondosa, límpida e segura; que me interessavam os seus quadros? Pelo contrário, eu encontrava no seu trabalho aplicado algo de heróico. A mulher em luta pela vida, uma corajosa heroína, silenciosa e paciente. Aliás, não há nada de mais vão que meditar sobre alguém que se ama. Essas correntes de pensamento são como certos cantos populares e guerreiros onde surgem milhares de coisas, mas cujo refrão regressa, contumaz, mesmo quando ele em nada vem a propósito.

É também assim, pois, a imagem da bela italiana que trago na memória, a qual não sendo embora vaga, carece, todavia, das inúmeras pequenas linhas e traços que usualmente vemos muito melhor nos estranhos do que naqueles que nos são próximos. Já não sei que penteado ela usava, como se vestia, e assim por diante, nem mesmo se tinha uma estatura alta ou baixa. Quando penso nela, vejo uma cabeça de mulher de cabelos negros, de formas nobres, um par de olhos penetrantes e não muito grandes num rosto pálido e vivo, e uma boca de um belo arco perfeito, estreita, de severa maturidade. Quando penso nela e nesse tempo de paixão, recordo sempre e apenas aquela tarde sobre a colina em que o vento cálido corria sobre o lago, em que eu chorei, rejubilei e estrebuchei. E uma outra noite que vou agora narrar.

Foi organizada uma pequena festa estival por artistas e seus amigos. Era junto ao lago, num jardim bonito, um serão em pleno estio, brando e quente. Bebíamos vinho e água gelada, escutávamos música e observávamos os lampiões de papel vermelho que pendiam entre as árvores, em girândolas. Cavaqueou-se, fez-se chacota, houve risos e por fim cantou-se. Um miserável aprendiz de pintor dava-se ares de romântico; usava barrete ousado, encostava-se à balaustrada deitado de costas, e tocava qualquer coisa numa guitarra de braço comprido. A meia dúzia de artistas mais importantes não se encontrava ali, ou então estavam à parte, ocultos entre o círculo dos mais velhos. Quanto às mulheres, apareceram algumas jovens em vestidos claros de verão; as outras andavam por ali com os habituais fatos desleixados. Notei, designadamente, uma estudante um pouco mais velha e feia que me repugnou; usava um chapéu de palha masculino sobre os cabelos curtos, fumava charuto, excedia-se no vinho e falava alto e muito. Ricardo, como de costume, estava com as raparigas novas. Eu, apesar de toda a excitação, permanecia frio, bebia pouco e esperava pela Aglietti, que prometera ir comigo num passeio a remos. E veio realmente, ofereceu-me algumas flores e entrou comigo no pequeno barco.

O lago tinha uma superfície lisa como óleo, e estava escuro, sem cor. Impeli rapidamente o pequeno barco pelo quieto lago adentro, bem para longe, vendo sempre diante de mim aquela mulher elegante comodamente recostada e satisfeita no banco do leme. O céu estava alto e ainda azul e fazia surgir lentamente, baça, uma estrela após outra; na margem, aqui e além, havia música e divertimentos nos jardins. A água calma envolvia os remos, num ou noutro ponto vogavam barcos, negros e quase invisíveis já sobre a superfície quieta, mas eu mal os notava; fixava a mulher ao leme sem desviar o olhar e levava a planeada declaração de amor oprimindo-me o coração como uma tenaz. Todo o cenário belo e poético do serão, o passeio no barco, as estrelas, o lago tíbio e sossegado, tudo isto me atemorizava, pois me parecia um belo cenário teatral em cujo centro eu devia desempenhar um papel sentimental. Na minha angústia, opresso pelo profundo silêncio pois ambos nos mantínhamos calados, eu remava com vigor.

- Que forte que é! - disse a pintora, pensativa.

- Quer dizer gordo? - perguntei.

- Não, refiro-me aos músculos - riu ela.

- Sim, lá forte, sou eu.

Não era um bom começo. Triste e irritado, continuei a remar. Após um pedaço, pedi-lhe que me contasse alguma coisa da sua vida.

- Que deseja ouvir?

- Tudo - disse eu. - Preferivelmente, uma história de amor. Depois, eu conto-lhe a minha, a única. É muito curta e bela, e vai diverti-la.

- Que coisas diz! Conte lá!

- Não, primeiro você! Aliás, já sabe muito mais acerca de mim que eu de si. Desejo saber se já alguma vez esteve realmente enamorada, ou se, como receio, é demasiado inteligente e altiva para isso.

Hermínia meditou durante algum tempo.

- Isto é mais uma das suas ideias românticas - disse ela - durante a noite, aqui sobre as águas negras, pedir a uma mulher que lhe conte histórias. Mas infelizmente, não sou capaz. Vós, os escritores, estais habituados a ter lindas palavras para tudo, e a supor que aqueles que falam pouco dos seus sentimentos não têm coração. Quanto a mim, enganou-se, pois não creio que alguém possa amar com maior paixão e vigor que eu. Amo um homem que está ligado a outra mulher, e ele não me ama menos; contudo, nenhum de nós sabe se alguma vez será possível virmos a unir-nos. Escrevemo-nos e, por vezes, também temos encontros...

- Posso perguntar-lhe se esse amor a faz feliz, miserável, ou ambas as coisas?

- Ah, o amor não existe para nos fazer felizes. Acho que ele existe para nos mostrar quão fortes podemos ser no sofrimento e na paciência.

Eu compreendi isto, e não pude impedir que me saísse da boca um leve gemido em lugar de uma resposta. Ela ouviu.

- Ah - disse - você também já conhece isto? Ainda é tão novo! Também quer confessar-se a mim? Mas só se o quiser realmente...

- Noutra altura, talvez, menina Aglietti. Hoje sinto o espírito agitado e pesa-me que talvez lhe tenha perturbado também a si a boa disposição. Vamos voltar?

- Como queira. A que distância estamos?

Não dei mais resposta, senão que finquei os remos na água com grande marulhar, virei e puxei, como se o vento norte ameaçasse. O barco deslizava rapidamente sobre a superfície, e em meio do turbilhão de desolação e vergonha oculto dentro de mim, eu notava o suor a escorrer-me pelo rosto em grossas bagas, ao mesmo tempo que sentia frio. Quando pensava bem em como estivera prestes a fazer o papel do suplicante que se prostra e do amante maternal e amigavelmente repelido, um arrepio percorria-me a espinha. Isso, ao menos, fora-me poupado, e quanto à restante desolação, tinha agora de resignar-me. Remei para casa como um possesso.

A bela menina estava um pouco desconcertada quando me despedi dela rapidamente e a deixei só. O lago estava tão liso, a música tão alegre e os lampiões de papel tão festivos como antes, mas a mim, tudo isso me parecia agora tolo e ridículo. Muito especialmente a música. O que mais me apetecia era desfazer o fulano do casaco de veludo que ostensivamente continuava a segurar a guitarra pela larga banda de seda. Além disso, o programa previa ainda fogo-de-artifício. Era tudo tão pueril!

Pedi emprestados alguns francos a Ricardo, atirei o chapéu sobre a nuca e comecei a marchar pela cidade fora e mais além, hora após hora, até sentir sono. Deitei-me sobre o prado mas, uma hora depois, acordei de novo encharcado de orvalho, hirto e enregelado, e fui até à aldeia mais próxima. Era manhã cedo. Cegadores de trevo avançavam pelos caminhos poeirentos, criados ensonados espreitavam de olhos esbugalhados à porta dos estábulos, a actividade estival do campo anunciava-se por toda a parte. Devias ter permanecido lavrador, dizia para comigo, envergonhado; avançava pela aldeia e, fatigado, continuei a caminhar até que o primeiro calor do sol me permitiu o repouso. Junto a um arbusto de faia, atirei-me sobre a erva seca da berma e dormi sob o sol quente pela tarde fora. Quando acordei, com a cabeça cheia do perfume do prado e os membros tão agradavelmente pesados como só após jazerem longamente sobre a terra do bom Deus, a festa, o passeio de barco e tudo o mais parecia-me tão longínquo, triste e semi-esvaecido como um romance lido há meses.

Permaneci três dias fora, deixei que o sol me queimasse a pele e perguntava-me se não deveria ir para casa de uma vez por todas para auxiliar o pai na apanha do feno.

É claro que, com isto, nem de longe eliminara a dor. Após o meu regresso, fugi de início ao olhar da pintora, mas não por muito tempo, e sempre que, depois, ela me olhava e falava, a angústia apertava-me a garganta.

 

Aquilo que meu pai não conseguira naquela altura, conseguiu-o agora esta angústia amorosa. Fez de mim um bebedor. Para a minha vida e o meu carácter, isto foi mais importante que tudo o mais que até agora contei. Deus, poderoso e amoroso, foi para mim um amigo fiel e é-o ainda hoje. Quem haverá tão poderoso como ele? Quem haverá tão belo, fantástico, entusiasta, tão alegre e melancólico? Ele é um sedutor, um irmão de Eros. Ele consegue o impossível; enche pobres corações humanos de belos e maravilhosos poemas. De mim, solitário e camponês, fez um rei, um poeta, um sábio. Às barcas vazias da vida, ele carrega-as de novos destinos e, às encalhadas, lança-as de novo para rápidas torrentes da vida.

E assim é também o vinho. Mas quanto a este, passa-se o mesmo que com todos os dons e artes preciosos. Ele quer ser amado, procurado, compreendido e conquistado com esforço. Poucos o conseguem, e ele leva milhares e milhares à morte. Ele torna-os velhos, ele mata-os ou apaga neles a chama do espírito. Mas aos seus eleitos, ele convida-os para festas e constrói-lhes pontes de arco-íris para ilhas bem-aventuradas. Quando estão cansados, coloca almofadas sob as suas cabeças e abraça-os, quando se tornam presas da tristeza, num amplexo suave e bondoso como um amigo ou uma mãe consoladora. Ele transforma a confusão da vida em sublimes mitos e com possante harpa toca o cântico da criação.

E logo ele é uma criança, de sedosos caracóis, ombros estreitos e membros delicados. Ele encosta-se ao teu coração e ergue o estreito rosto para o teu, e olha-te espantado e sonhador com enormes olhos amorosos, no fundo dos quais, em toda a sua frescura e esplendor, pairam um paraíso e uma infância divina não perdida, como um manancial que acaba de brotar na floresta.

E o bom Deus assemelha-se também a uma torrente que atravessa, profunda e rumorejante, uma noite primaveril. E assemelha-se a um mar que embala o sol e a tempestade sobre as frescas ondas.

Quando fala com os seus dilectos, então, com um marulhar, uma embriaguês arrepiantes, inunda-os no mar tumultuoso dos mistérios, da recordação, da poesia, do pressentimento. O mundo conhecido torna-se pequeno e perde-se e, com temerosa alegria, a alma lança-se na vastidão sem trilhos do desconhecido, onde tudo é estranho, tudo é familiar, e onde se fala a linguagem da música, dos poetas e do sonho.

Mas, primeiro, terei de contar.

Acontecia que eu, esquecido de mim e bem disposto, conseguia passar horas a estudar, a escrever e a escutar a música de Ricardo. Mas não se escoava dia algum sem dor. Por vezes, ela sobrevinha só à noite, na cama, e fazia-me gemer, revoltar e adormecer já tarde em lágrimas. Ou então ela despertava se encontrava a Aglietti. Mas, usualmente, surgia à noitinha, quando começavam os belos, cálidos e fatigantes serões estivais. Então, eu ia até ao lago, tomava um barco, remava até suar e me cansar, e parecia-me depois impossível regressar a casa. Ia, pois, para a taberna ou uma cervejaria. Ali, experimentava diversos vinhos, bebia e meditava e, por vezes, no dia seguinte estava quase doente. Muitas vezes era acometido de uma angústia tão horrenda, de tal sensação de nojo, que decidia nunca mais beber. Mas eu voltava e bebia. Aos poucos, comecei a distinguir os vinhos e a sua acção, e saboreava-os com uma espécie de discernimento, mas, geralmente, ainda com bastante inconsciência e ignorância. Por fim, encontrei apoio no vinho vermelho escuro de Valtellina. Ao primeiro copo tinha um sabor adstringente e excitante, depois toldava-me os pensamentos até provocar um sonho calmo e constante, e começava então a sua acção mágica, ele criava, ele próprio fazia poesia. Então, eu via todas as paisagens que alguma vez me haviam agradado envolver-me em deliciosas luminosidades, e eu próprio vagueava por elas, e cantava e sonhava, e sentia uma vida superior e quente rodopiar dentro de mim. E terminava com uma tristeza extremamente agradável, como se ouvisse tocar músicas populares em rabecas, como se tivesse a certeza de encontrar algures uma grande felicidade pela qual tivesse passado sem a notar.

Sucedeu naturalmente que, a pouco e pouco, quase deixei de beber sozinho; encontrava todo o tipo de companhias. Logo que estava rodeado por gente, o vinho tinha outra acção sobre mim. Eu tornava-me conversador, mas não exaltado; sentia uma febre fria e peculiar. Durante a noite, floria uma faceta do meu ser até então desconhecida, a qual se incluía não nas flores de jardim ou decorativas, mas na espécie dos cardos e urtigas. É que, a par da coloquialidade, sobrevinha um espírito arguto e frio, que me tornava seguro, superior, crítico e trocista. Se houvesse pessoas cuja presença me incomodava, eram zombadas e molestadas, ora com fineza e astúcia, ora com rudeza e persistência, até que se iam. Desde a infância que, em geral, as pessoas não me eram nem especialmente queridas nem necessárias; agora, começava a olhá-las de forma crítica e irónica. Tinha especial prazer em inventar e contar pequenas histórias, nas quais as relações entre as pessoas eram rude e satiricamente apresentadas com aparente objectividade, amargamente escarnecidas. De onde me vinha este tom depreciativo, nem eu próprio o sabia; brotava do meu ser como um abcesso que ia amadurecendo, e do qual, durante anos, não me pude libertar.

Mas se, entretanto, passasse de novo um serão a sós, então, eu sonhava outra vez com montes, estrelas e música melancólica.

Nestas semanas, escrevi uma série de meditações sobre a sociedade, a cultura e a arte do nosso tempo, um pequeno livrinho virulento, nascido das minhas conversas de taberna. Dos meus estudos históricos efectuados com bastante ardor, juntou-se-lhe algum material histórico, que conferia às minhas sátiras uma espécie de sólido pano de fundo.

Em virtude deste trabalho, alcancei um posto de colaborador permanente de que quase podia viver. Logo de seguida, surgiram também as crónicas como livro independente que tiveram certo êxito. Pus, então, a filologia completamente de lado. Eu já me encontrava em semestres avançados; seguiram-se relações com jornais alemães que me elevaram da obscuridade e miséria ao círculo dos consagrados. Eu ganhava o meu Pão, dispensei a aborrecida bolsa, e lancei-me a todo o pano rumo à desprezível vida de um pequeno literato de profissão.

E apesar do êxito e do meu orgulho, apesar das sátiras, apesar do meu desgosto de amor, tanto na alegria como no pesar, o cálido brilho da juventude repousava sobre mim. Apesar de toda a ironia e de uma pequena e inofensiva afectação, eu via constantemente em sonhos um objectivo, uma felicidade, uma realização diante de mim. O que viria a ser, não o sabia. Sentia apenas que a vida teria alguma vez de lançar-me aos pés uma felicidade especialmente risonha, uma fama, um amor talvez, a satisfação do meu anseio e a elevação do meu ser. Eu era ainda o pajem que sonha com nobres damas, com ser armado cavaleiro e com grandes honras.

Eu cria encontrar-me no início de um caminho que conduzia ao alto. Não sabia que tudo quanto até agora experimentara eram apenas acasos, e que ao meu ser e à minha vida faltavam ainda o tom profundo e próprio. Não sabia ainda que sofria de um anseio para o qual nem o amor nem a fama são fim ou realização.

E assim, saboreava a minha pequena fama um tanto rude com todo o entusiasmo da juventude. Era-me benfazejo sentar-me diante de um bom vinho, entre gente inteligente e intelectual e, quando começava a falar, ver os seus rostos ávidos e atentos voltados para mim.

Por vezes, apercebia em todas estas almas de hoje como que um grande anseio clamando por libertação, e a que singulares caminhos ele as conduzia. Crer em Deus era considerado estúpido e quase indecoroso, mas à parte isso, criam em inúmeras doutrinas e nomes, em Schopenhauer, Buda, Zaratustra e muitos outros. Havia poetas jovens e sem nome que, em habitações com estilo, celebravam devoções festivas diante de estátuas e pinturas. Eles ter-se-iam envergonhado de fazer uma vénia diante de Deus, mas prostravam-se de joelhos diante do Zeus de Otrikoli. Havia ascetas que se torturavam com continência e cuja toilette bradava aos céus. O seu deus chamava-se Tolstoi ou Buda. Havia artistas que, mediante tapeçarias, músicas, iguarias, vinhos, perfumes ou charutos meticulosamente sopesados e harmonizados, provocavam em si estranhos estados de espírito. Falavam fluentemente e com artificiosa naturalidade, de linhas musicais, acordes de cores, e coisas do género, e por toda a parte procuravam a «nota pessoal» que, usualmente, residia nalguma ingénua auto-ilusão ou extravagância. No fundo, toda esta comédia crispada me parecia divertida e ridícula; todavia, sentia não raro, como um estranho calafrio, quanta ansiedade autêntica e verdadeira força espiritual flamejava ali e em vão se consumia.

De entre todos os poetas, artistas e filósofos da nova moda que fantasticamente faziam a sua aparição e nessa época, espantado e divertido, eu vim a conhecer, não sei de nenhum que viesse a dar algo de notável. Entre eles, havia um alemão do Norte com a mesma idade que eu, uma personagenzinha simpática, pessoa delicada, amável e sensível em tudo o que se relacionava com questões artísticas. Era considerado um escritor promissor, e ouvi ler algumas vezes poemas dele que surgem ainda na minha recordação como algo de extraordinariamente perfumado, belo e inspirado. Talvez que, de entre todos nós, ele fosse o único que poderia vir a tornar-se num verdadeiro poeta. Casualmente, vim mais tarde a conhecer a sua curta história. Perturbado por um fiasco literário, na sua extrema sensibilidade, afastou-se do público e caiu nas mãos de um mecenas que, em lugar de o estimular e chamar à razão, rápido o destruiu por completo. Nas villas daquele senhor abastado, diante das damas histéricas, ele dava-se a um contínuo enfatuamento e, na sua presunção, imaginava-se um herói menosprezado e miseravelmente mal conduzido; com o excesso de música de Chopin e êxtases pré-rafaélicos, levava-se continuamente à perda da razão. É com horror e tristeza que recordo esta plêiade de poetas e belas almas de estranhos vestuários e penteados, quase incapazes de voar ainda, pois só mais tarde compreendi o perigo deste relacionamento. Mas a minha qualidade de camponês das montanhas preservou-me de tomar parte naquela embriaguês.

Mas mais nobre e compensadora que a fama e o vinho, que o amor e a sabedoria, era a minha amizade. No fundo, só ela me auxiliava na minha natural inaptidão para a vida e mantinha os anos da minha juventude com uma frescura e alvor íntegros. Ainda hoje não conheço nada de mais excelente no mundo que uma amizade verdadeira e nobre entre homens, e se alguma vez, em dias de melancolia, sou dominado por algo como a saudade da juventude, sinto-a apenas pela minha amizade de estudante.

Desde o meu enamoramento por Hermínia que descuidara um POUCO Ricardo. De início, isso sucedeu inconscientemente, mas após algumas semanas, a consciência mordeu-me. Confessei-lhe tudo, e ele desvendou-me que, com pesar, vira aproximar-se e crescer toda aquela desventura, e eu liguei-me de novo a ele de todo o coração e com exclusivismo. Tudo quanto aprendi das pequenas artes alegres e livres da vida, tudo veio dele. Era belo de corpo e alma, e a vida parecia não ter mistérios para si. Como pessoa inteligente e activa, ele conhecia bem as paixões e erros dos tempos, que passavam por ele sem lhe causar dano. O seu andar e a sua linguagem e todo o seu ser eram flexíveis, harmoniosos e amáveis. Oh, como ele sabia rir.

No tocante ao meu estudo dos vinhos, ele mostrava pouco entendimento. Por vezes, acompanhava-me, mas dois copos chegavam-lhe, e observava o meu consumo notavelmente superior com um espanto pueril. Mas quando via que eu sofria e, impotente, era dominado pela melancolia, fazia música, lia para mim ou levava-me a um passeio. Nos nossos pequenos giros, não raro íamos descontraídos como duas crianças pequenas. Certa vez, durante o repouso de um meio-dia quente, estendemo-nos num vale com um bosque, atirámos com pinhas um ao outro e cantámos versos de «A Piedosa Helena» com melodias sentimentais. O ribeiro rápido e límpido rumorejava tão insistente e fresco aos nossos ouvidos que nos desnudámos e deitámos na água fria. Então, ele teve a ideia de representar comédias. Sentou-se sobre uma rocha musgosa, fazendo de Loreley, e eu, lá em baixo, como barqueiro, passava navegando no pequeno barco. Ele apresentava um ar tão virginalmente puro e fazia tais momices que eu, que deveria fingir o louco de dor, mal continha o riso. De repente, fizeram-se ouvir vozes, um grupo de turistas surgiu na vereda, e nós, assim desnudos, tivemos de ocultar-nos em grande pressa por sob a margem desgastada pela água, formando um parapeito. Quando o grupo, desprevenido, passou por nós, Ricardo soltou os mais diversos sons estranhos, grunhindo, chiando e bufando. As pessoas estacaram, olharam em redor, fixaram a água e estavam prestes a descobrir-nos. Então, o meu amigo surgiu em meio corpo do seu esconderijo, olhou o indignado grupo, e disse com voz profunda e gestos sacerdotais:

- Ide em paz!

E desapareceu logo de seguida, beliscou-me no braço e comentou:

- Também isto era uma charada!

- E qual? - perguntei.

- Pá, assusta alguns pastores - riu ele. - Infelizmente, também havia mulheres entre eles.

Quanto aos meus estudos históricos, ele interessava-se pouco. Mas a minha predilecção, quase enamoramento, por Francisco de Assis, em breve foi partilhada por si, muito embora ocasionalmente pudesse fazer larachas que me deixavam indignado.

Víamos o bem-aventurado, amável, entusiasmado e alegre como uma deliciosa criança grande a vaguear pelas terras da Úmbria, feliz com o seu Deus e repleto de amor humilde para com todos os homens. Lemos juntos o seu imortal Cântico ao Sol, e sabíamo-lo quase de cor. Certa vez em que regressávamos de um passeio de barco pelo lago e o vento da tarde movia a água dourada, ele perguntou baixinho:

- O que é que o santo diz nesta situação? E eu citei:

- «Laudato si, misignore, per frate vento e per aere e nubilo e sereno e bonne tempo!»

Quando discutíamos e trocávamos ofensas, ele lançava-me, sempre meio a brincar, ao modo de um rapazola, tal quantidade de apodos jocosos que em breve eu era forçado a rir e a irritação perdia a sua agudeza. O meu querido amigo só estava relativamente sério quando escutava ou tocava os seus músicos preferidos. Mas ainda assim, ele podia interromper-se para fazer qualquer brincadeira. Contudo, o seu amor pela arte era repleto de pura e sincera entrega, e a sua sensibilidade pelo autêntico e mais importante parecia-me iniludível.

Ele praticava maravilhosamente a subtil e delicada arte do consolo, do acompanhar no sofrimento ou do alegrar, quando algum dos seus amigos estava em dificuldades. Quando me encontrava de mau humor, ele conseguia contar-me grande número de histórias anedóticas de uma graça grotesca, e no seu tom havia um não sei quê de pacificador e animador a que raro eu podia resistir. Ele sentia algum respeito para comigo, porque eu era mais sisudo que ele; e muito mais impressão ainda lhe causava a minha força física. Gabava-a diante dos outros, e sentia orgulho em ter um amigo capaz de o esmagar com uma só mão. Ele dava muito valor às capacidades e destreza físicas, ensinou-me ténis, remava e nadava comigo, levava-me a cavalgadas e não descansou enquanto eu não soube jogar bilhar quase tão bem como ele. Era o seu jogo preferido, e não só o praticava artisticamente e com mestria, como costumava mostrar-se sempre especialmente activo, gracejador e alegre. Frequentemente, dava às três bolas o nome de pessoas das nossas relações, e a cada tacada, pelo posicionamento, aproximação e distanciamento, construía verdadeiros romances plenos de gracejos, alusões e comparações caricaturais.

Entretanto, ia jogando calmamente, com leveza e extrema elegância, e era um prazer observá-lo.

Aos meus escritos, ele não dava maior valor que eu próprio. Certa vez, disse-me:

- Olha, eu sempre te considerei um poeta, e assim te considero ainda, não pelos teus folhetins mas porque sinto que tens vivo dentro de ti algo de belo e profundo que, mais cedo ou mais tarde, acabará por brotar. E isso, então, será um verdadeiro poema.

Entretanto, os semestres escorriam-nos por entre os dedos como moedas pequenas; inesperadamente, chegou o momento em que Ricardo tinha de pensar no regresso à sua terra. Com uma descontracção um tanto artificial, nós saboreámos as semanas que se esfumavam e, por fim, concordámos que antes da amarga despedida, estes belos anos teriam de ser encerrados por algum alegre e prenunciador acto fulgurante e festivo. Eu propus uma viagem de férias pelo maciço de Bernina mas, de facto, estávamos ainda no início da Primavera, e para os Alpes era demasiado cedo. Enquanto eu matutava noutras propostas, Ricardo escreveu ao seu pai e, em segredo, preparou-me uma grande e alegre surpresa. Certo dia, veio ter comigo com uma avultada letra de câmbio e convidou-me a acompanhá-lo ao Norte de Itália como guia.

O meu coração batia de exaltação e alegria. Iria realizar-se um sonho ansiosamente desejado, acalentado por mim desde a infância e mil vezes fantasiado. Febrilmente, tratei dos meus poucos preparativos, ensinei ainda ao meu amigo algumas palavras de italiano e, até ao último dia, receei que acabasse por não vir a realizar-se.

A nossa bagagem fora despachada previamente, nós íamos sentados no vagão, os campos verdes e as colinas tremeluziam ao passar, veio o lago Uri e o Gothard, depois as aldeolas de montanha e ribeiros, as vertentes de aludes e cumes nevados do Ticino, de seguida as primeiras casas de pedra negra em vinhas planas, e a viagem prenunciadora bordejando os lagos, através da fecunda Lombardia, rumo à ruidosa e viva Milão, estranhamente atractiva e repulsiva.

Ricardo não fazia ideia da catedral de Milão, que conhecia apenas como um edifício grande e famoso. Foi divertidíssimo observar a sua decepção e indignação. Quando superou o primeiro choque e recuperou o humor, ele mesmo propôs subir ao telhado para se passear por entre a fantástica confusão de figuras de pedra lá em cima.

Com alguma satisfação, verificámos que não havia que lastimar grandemente as miseráveis centenas de estátuas de santos sobre os coruchéus porque, na sua maioria, ou pelo menos todas as novas, se manifestavam como um trabalho fabril de fraca qualidade. Estivemos estendidos quase duas horas sobre as largas placas de mármore inclinadas, que o sol de Abril havia aquecido levemente. Com satisfação, Ricardo afirmou-me:

- Sabes, no fundo, não me importo de sofrer mais decepções como com esta louca catedral. Durante toda a viagem, tive um certo receio das inúmeras grandezas que iríamos visitar e nos oprimiriam. E agora, tudo começa de forma tão agradável e humanamente ridícula!

Depois, aquela multidão confusa de figuras de pedra por entre a qual nos encontrávamos estendidos, evocou nele imensas fantasias barrocas.

- Provavelmente - dizia ele - ali em cima do torreão do coro, que é o pico mais alto, deve também estar o maior santo, o mais importante. E como não deve ser nenhum prazer permanecer eternamente como acrobata petrificado em equilíbrio sobre aquele torreão pontiagudo, é fácil que, de tempos a tempos, o santo mais elevado seja liberto e elevado ao céu. Imagina agora a confusão que se gera de cada vez. É que, com certeza, todos os outros santos, precisamente pela ordem da sua categoria, terão de avançar um lugar e, com um grande pulo, cada um terá de saltar para o coruchéu do seu predecessor com grande rapidez, cada qual com inveja de todos os que ainda partirão antes dele.

A partir daquela altura, sempre que passava por Milão, recordava aquela tarde e, com um riso pesaroso, via as centenas de santos de mármore a dar os seus ousados saltos.

Em Génova, enriqueci-me de mais um grande amor. Era um dia claro e ventoso, pouco depois do meio-dia. Eu apoiara os braços sobre um largo parapeito de mármore, por detrás de mim estendia-se a colorida Génova e, mais abaixo, avolumava-se e animava-se a vastidão azul: o mar. Num obscuro marulhar e desejo incompreendido, o eterno e imutável estendia-se para mim, e eu sentia que no meu interior algo firmava amizade para a vida e para a morte com esta imensidão azul e espumosa.

Com igual vigor me impressionou o largo horizonte do mar. Eu via de novo, como nos tempos da infância, um portal aberto aguardando-me. E uma vez mais me subjugou o sentimento de que não havia nascido para uma vida regular e aconchegada entre os homens, em cidades e casas, mas para vaguear por terras estranhas e errar por sobre os mares. Com um impulso obscuro, ergueu-se em mim a antiga e angustiante necessidade de me lançar nos braços de Deus e irmanar a minha vida com o infinito e o intemporal.

Perto de Rapallo, ao nadar, lutei pela primeira vez com a força da maré, provei o áspero sabor da água salgada e senti a fúria das ondas. Rodeavam-me ondas azuis e límpidas, rochas da praia acastanhadas, um profundo céu imóvel e o eterno e imenso rumorejar. Renovadamente, subjugava-me a visão dos barcos vogando à distância, ou o pequeno estandarte de fumo de um vapor passando ao longe. A seguir às minhas bem amadas, as incansáveis nuvens, não conheço imagem mais bela e autêntica do ansiar e do caminhar que um barco assim, a passar ao longe, tornando-se mais pequeno e desaparecendo no horizonte que se lhe abre.

Chegámos a Florença. A cidade estendia-se ali, como a conhecia de centenas de imagens e mil sonhos: luminosa, ampla, acolhedora, atravessada pela corrente verde, transposta por pontes e rodeada de colinas recortadas. A ousada torre do Palazzo Vechio perfurava audazmente o céu luminoso e, lá no alto, ficava o belo coruchéu branco e aquecido pelo sol; todas as colinas se mostravam brancas e rosadas no esplendor das árvores de fruto. A movimentada, alegre e inocente vida toscana revelava-se-me como um milagre, e em breve me senti mais em casa do que alguma vez me sentira na minha terra. Os dias passavam-se em igrejas e palácios, ruas, lòggias e mercados, as noites escoavam-se em sonhos por hortas das colinas, onde os limões amadureciam já, ou na bebida e em conversas por pequenas tabernas rústicas de Chianti. Entremeando, passávamos deliciosas horas enriquecedoras nas galerias de quadros e no Bargello, em mosteiros, bibliotecas e sacristias, as tardes em Fiesole, San Miniato, Settignano e em Prato.

Cumprindo um acordo já feito em casa, eu deixei então Ricardo sozinho por uma semana, e deliciei-me com o passeio mais nobre e maravilhoso da minha juventude através das colinas da Úmbria. Segui os caminhos de São Francisco, e horas houve em que o sentia caminhar junto a mim, o coração repleto de um insondável amor, saudando com gratidão e alegria cada ave, cada fonte, cada roseira brava.

Colhia e comia limões em vertentes brilhando ao sol, pernoitava em pequenas aldeias, cantava e fazia poemas no meu íntimo, e celebrei a Páscoa em Assis, na igreja do meu santo.

Parece-me sempre que estas oito semanas de viagem pela Úmbria foram a coroação e o belo ocaso da minha juventude. Todos os dias brotavam fontes dentro de mim, e eu perscrutava a luminosa e festiva paisagem primaveril como se observasse os bondosos olhos de Deus.

Na Úmbria, eu seguira Francisco, o «trovador de Deus», cheio de veneração; em Florença, apreciara a constante evocação da vida do Quattrocento. Em casa, escrevera sátiras às formas de vida actual. Mas foi em Florença que senti todo o sórdido ridículo da cultura moderna. Ali, pela primeira vez, fui avassalado pela impressão de que, na nossa sociedade, eu seria eternamente um estranho; ali, pela primeira vez, despertou em mim o desejo de prosseguir a minha vida longe da nossa sociedade, se possível, algures no Sul. Aqui, eu podia comunicar com as pessoas, aqui, alegrava-me a cada passo com uma sincera naturalidade de viver, sobre a qual se estendia, enobrecedora e embelezadora, a tradição de uma cultura clássica e da história.

As belas semanas decorriam maravilhosas e deliciosas; nunca tinha visto Ricardo tão entusiasticamente arrebatado. Apaixonados e joviais, despejávamos os cálices da beleza e do prazer. Percorremos aldeias retiradas das colinas, travámos amizade com estalajadeiros, monges, jovens camponesas e pequenos párocos de aldeia acomodados, observámos lojinhas rústicas, oferecemos pão e fruta a lindas crianças morenas; do alto de montes soalheiros olhávamos a Toscana estendida no brilho primaveril e, ao longe, o reluzente mar da Ligúria. Tivemos ambos a forte sensação de ser dignos da nossa felicidade e de caminharmos rumo a uma nova vida de plenitude. O trabalho, a luta, o prazer e a fama apresentavam-se-nos tão próximos, brilhantes e seguros, que era sem precipitação que gozávamos aqueles dias felizes. Até a separação próxima parecia leve e passageira, pois sabíamos com mais certeza do que nunca que tínhamos necessidade um do outro e podíamos contar com o auxílio mútuo para toda a vida.

 

Esta foi a história da minha juventude. Ao revê-la, parece-me que foi curta como uma noite de verão. Um pouco de música, um pouco de espírito, um pouco de amor, um pouco de vaidade - mas foi bela, rica, colorida como uma festa de Elêusis.

E apagou-se rápida e pobremente como uma luz ao vento.

Em Zurique, Ricardo despediu-se. Por duas vezes, desceu da carruagem do comboio para me beijar, e acenou-me ainda carinhosamente da janela enquanto foi possível.

Duas semanas depois, afogou-se em Baden num pequeno riacho ridículo do Sul da Alemanha. Não tornei a vê-lo, nem estive presente quando foi sepultado, pois apenas tive conhecimento disso alguns dias mais tarde, quando já se encontrava no caixão e debaixo da terra. Então, estendido no chão do meu quartinho, maldisse Deus e a vida com perversas e horríveis pragas, chorei e revoltei-me. Até então, nunca compreendera que o único bem sólido durante estes anos fora a minha amizade. Isso estava agora acabado.

Não suportei permanecer por mais tempo na cidade onde, diariamente, uma imensidade de recordações se colava a mim e me sufocava. Pouco me importava o que agora surgiria; estava doente no âmago da minha alma e tinha horror a tudo o que era vivo. Por enquanto, pareciam pequenas as hipóteses de o meu ser transtornado se reerguer e, com novas velas enfunadas, vogar ao encontro da felicidade acre dos anos da maturidade. Quis Deus que eu ofertasse o melhor do meu ser a uma amizade pura e feliz. Como dois barcos velozes, lançávamo-nos em frente; o de Ricardo era o lenho colorido, leve, feliz e amado a que se agarrava o meu olhar, ao qual me confiava, que me arrastaria para belos propósitos. Agora, com um grito, afundara-se, e eu errava sem timão em águas subitamente enegrecidas.

Seria meu dever superar esta dura prova, orientar-me pelas estrelas e, numa nova viagem, lutar pela coroa da vida e buscá-la. Eu crera na amizade, no amor feminino, na juventude. Pois que um após outro me haviam abandonado, por que não cria eu em Deus e não me abandonava à sua forte mão? Mas eu fora desde sempre indeciso e teimoso como uma criança, esperava sempre pela vida autêntica, que ela caísse sobre mim como uma tempestade, me tornasse sensato e rico e, sobre grandes asas, me conduzisse a uma felicidade plena.

A sapiente e sóbria vida, porém, mantinha-se silenciosa, e deixava-me errar. Não enviou tempestades nem estrelas, senão que aguardava até que eu de novo me tornasse humilde e paciente e a minha teimosia estivesse quebrada. Deixou-me representar a comédia do orgulho, daquele que sempre sabe melhor, desviou o olhar e aguardou que a criança perdida reencontrasse a sua mãe.

 

Chega agora o período da minha vida que, aparentemente, foi mais movimentado e colorido que o passado e que, em todo o caso, daria um pequeno romance à moda. Eu teria de narrar como fui chamado para redactor de um jornal alemão, como dei demasiada liberdade à minha pena e à minha boca maldosa e, por isso, fui chicaneado e censurado, como em seguida ganhei fama de bêbedo e, por fim, depois de querelas maledicentes, deixei o cargo e fiz com que me enviassem para Paris como correspondente, como eu errei nesse ninho maldito, como levei vida desregrada e, em diversos campos, provei a devassidão.

Não é por cobardia que desprezo os meus eventuais leitores obscenos, e passo sobre este curto período. Reconheço que, um após outro, percorri maus caminhos, vi toda a espécie de podridão e nela me atolei. Desde então, perdi o gosto pelo lado romântico da vida boémia, e tereis de permitir-me que me atenha ao mais limpo e bom que também existiu na minha vida, e que, ao tempo de perdição, o deixe perdido e liquidado.

Certa tarde, sentado só no Bois, meditava se deveria deixar Paris ou mesmo a vida de uma vez. Assim, em pensamentos, pela primeira vez desde há muito tempo, eu revi a minha vida, considerando que não teria muito a perder.

Mas eis que, de súbito, numa recordação pungente, eu vi um dia passado e esquecido de há muito - uma manhã do início do Verão, na minha terra, nas montanhas, e vi-me ajoelhado junto a uma cama, e sobre ela jazia a minha mãe em agonia.

Estremeci e envergonhei-me de tão longamente ter podido não mais recordar essa manhã. Os loucos pensamentos de suicídio desvaneceram-se.

É que eu penso que nenhum homem sério e inteiramente dissoluto será capaz de tirar a si mesmo a vida, se alguma vez tiver presenciado o apagar de uma vida sadia e boa. Vi de novo a minha mãe morrer. Vi de novo no seu rosto o silencioso e grave trabalho da morte que o enobrecia. A morte tinha um aspecto rude, mas era tão magnificente e também tão bondosa como um pai cauteloso que traz o filho perdido de regresso a casa.

De súbito, eu sabia outra vez que a morte era a nossa irmã inteligente e boa que conhece a hora adequada, e que podemos aguardá-la confiadamente. E comecei também a compreender que o sofrimento, as desilusões e a melancolia não existem para nos deixar contrariados e fazer-nos perder o valor e a dignidade, mas para nos amadurecer e transformar.

Oito dias mais tarde, as minhas caixas foram enviadas para Basileia, e percorri a pé uma bela parte do Sul da França; sentia de dia para dia os funestos tempos parisienses, cuja lembrança me perseguia como um fedor, dissipar-se e enevoar-se. Assisti a uma «Cour d'Amour». Dormi em castelos, em moinhos, em palheiros e com moços morenos e palradores, bebi o seu vinho quente e luminoso.

Andrajoso, emagrecido, bronzeado e transformado interiormente, cheguei a Basileia ao cabo de dois meses. Foi a primeira vez que fiz uma viagem a pé tão longa, a primeira de entre muitas. Entre Locarno e Verona, entre Basileia e Briga, de Florença a Perúsia, poucas serão as povoações por onde não haja peregrinado duas e três vezes de botas empoeiradas - perseguindo sonhos dos quais nenhum se realizou ainda.

 

Em Basileia, aluguei um quarto nos arredores, desemalei os meus haveres e comecei a trabalhar; alegrava-me viver numa pequena cidade onde ninguém me conhecia. As relações com alguns jornais e revistas ainda se mantinham, e eu tinha trabalho e com que viver. As primeiras semanas foram boas e calmas, depois, aos poucos, a tristeza instalou-se de novo, permaneceu dias seguidos, semanas a fio, e nem com o trabalho desaparecia.

Quem nunca tenha sentido em si o que é a tristeza, não pode compreender isto. Como hei-de descrevê-lo? Tinha a sensação de uma solidão terrível. Entre mim e as pessoas, e a vida na cidade, nas praças, nas casas e ruas, havia continuamente um vasto fosso.

Sucedia um grande desastre, surgiam coisas importantes no jornal - isso nada tinha a ver comigo. Celebravam-se festejos, enterravam-se mortos, faziam-se mercados, davam-se concertos - para quê? Com que finalidade? Eu saía, vagueava por florestas, montes e estradas e, em meu redor, os prados, as árvores, os campos calavam, numa tristeza sem queixume, olhavam-me silenciosos e suplicantes, e tinham desejo de dizer-me algo, de vir ao meu encontro, de saudar-me. Mas jaziam ali e nada podiam dizer, e eu compreendia o seu sofrimento e sofria com eles, pois não podia libertá-los. Fui a um médico, levei-lhe descrições detalhadas, procurei expor-lhe o meu sofrimento. Ele leu,

questionou-me, observou-me.

- O senhor é invejavelmente saudável - cumprimentou-me ele então -, fisicamente, não carece de nada. Procure alegrar-se com leituras ou música.

- Pela minha profissão, leio diariamente grande quantidade de coisas novas.

- Mas também não deveria deixar de fazer algum exercício ao ar livre.

- Todos os dias ando três a quatro horas, e em período de férias, pelo menos o dobro.

- Então, terá de constranger-se a conviver com pessoas. Encontra-se em sério perigo de se tornar insociável.

- E que importância tem isso?

- Tem grande importância. Quanto maior for actualmente a sua falta de vontade de convívio, tanto mais terá de se compelir a ver pessoas. O seu estado ainda não é de doença, nem me parece de inspirar cuidados; mas se não deixar de vaguear de forma tão passiva, poderá acabar por perder o equilíbrio.

O médico era um homem compreensivo e bondoso. Eu fazia-lhe pena. Recomendou-me um letrado em cuja casa havia muito movimento e uma certa vida intelectual e literária. Fui lá. O meu nome era conhecido, foram amáveis, quase afectuosos, e regressei com frequência.

Certa vez, fui lá numa noite de fim de Outono. Encontrei-me com um jovem historiador e uma rapariga morena muito magra; para além deles, não havia convidados. A rapariga cuidava da máquina do chá, falava muito e era contundente para com o historiador. Depois, tocou um pouco piano. A seguir, disse-me que havia lido as minhas sátiras, mas não tinha gostado delas. Ela pareceu-me inteligente, mas um tanto em demasia, e em breve regressei a casa.

Entretanto, haviam descoberto aos poucos que eu andava muito pelas tabernas e que, na realidade, às ocultas, eu era um bebedor. Isto não me espantou, porque era precisamente na sociedade académica, entre homens e mulheres, que os mexericos floresciam com maior viço. A indecorosa descoberta não perturbou os meus relacionamentos, antes pelo contrário, tornou-me desejado, porque havia um entusiasmo precisamente pela temperança, homens e senhoras pertenciam a comissões de ligas de temperança e alegravam-se com todo o pecador que lhes caía nas mãos. Num determinado dia, deu-se o primeiro ataque amável. Incitaram-me a meditar na ignomínia da vida de taberna, na maldição do alcoolismo, e tudo isso sob o ponto de vista sanitário, ético e social, e fui convidado a participar nos festejos de uma liga. Fiquei extremamente surpreso, pois até essa altura não tinha conhecimento de todas aquelas ligas e movimentos. A sessão da liga, com música e uma nota de religião, era penosamente ridícula, e eu não dissimulei esta impressão. Semanas a fio, fui massacrado com importuna amabilidade, tudo aquilo se me tornou extremamente enfadonho e, certa noite, quando me cantavam a mesma música e ansiosamente esperavam a minha conversão, fiquei desesperado e supliquei energicamente que finalmente me poupassem àquela choradeira. A jovem estava de novo presente. Escutou-me atentamente e disse com grande cordialidade:

- Bravo!

Mas eu estava demasiado indisposto para o notar.

Com tanto maior satisfação presenciei um pequeno e cómico desaire que sucedeu numa enorme festividade dos abstinentes. A grande liga, mais os inúmeros convidados, banqueteava-se e convivia na sua sede; proferiram-se discursos, firmaram-se amizades e cantaram-se coros, e o progresso da boa causa era celebrado com um grande hossana. Mas para um dos porta-estandartes contratados, os discursos sem álcool pareceram-lhe demasiado longos, e refugiou-se numa taberna próxima. Quando o cortejo festivo de manifestação pelas ruas se iniciou, pecadores maldosos puderam desfrutar do divertido espectáculo de ver, à cabeça dos grupos entusiastas, um alegre condutor bêbedo e, nos seus braços, a bandeira da Cruz Azul baloiçar como o mastro de um navio prestes a naufragar.

O empregado bêbedo foi afastado; mas o que não foi afastado foi o tropel de vaidades humanas, de invejas e intrigas que se ergueu no seio das diversas ligas e comissões concorrentes e que vicejava cada vez mais num alegre brotar. O movimento dividiu-se, alguns ambiciosos desejavam toda a reputação apenas para si, e invectivavam todos aqueles bebedores que não se haviam convertido em seu nome; abusou-se indignamente dos não poucos colaboradores nobres e abnegados e, em breve, as pessoas mais próximas tiveram oportunidade de observar como também ali, sob uma etiqueta idealista, o fedor de toda a sorte de podridões humanas subia ao céu. Eu tive conhecimento casual de todas estas comédias, por terceiros, senti um prazer silencioso nelas, e imaginei certos regressos nocturnos dos beberetes: «Olhai, nós, os libertinos, sempre somos melhor gente.»

No meu pequeno quarto, alto e com vista desafogada sobre o Reno, eu estudava e meditava muito. Estava inconsolável por a vida passar por mim assim, de não ser arrastado por nenhuma torrente forte, de nenhum forte entusiasmo ou interesse me animar e arrancar ao sonho sombrio. É certo que, a par do quotidianamente indispensável, eu trabalhava nos preparativos de um trabalho que deveria descrever a vida dos primeiros menoritas; mas isto era um trabalho pequeno, apenas uma humilde compilação persistente que não satisfazia o impulso do meu desejo. Recordando Zurique, Berlim e Paris, comecei a compreender os anseios, paixões e ideais dos meus contemporâneos. Um ocupava-se a eliminar os móveis, tapeçarias e fatos usados até então e a habituar as pessoas a ambientes mais livres e bonitos. Outro esforçava-se por divulgar, em escritos e conferências dirigidos ao povo, o monismo de Haeckel. Outros achavam digno de esforço promover a eterna paz mundial. E outro ainda lutava pelas camadas inferiores indigentes, ou fazia colectas e pregava para que fossem construídos teatros e museus e abertos ao povo. Aqui, em Basileia, lutava-se contra o álcool.

Em todos estes esforços havia vida, estímulo e acção; mas nenhum deles era importante e necessário para mim, e não me teria impressionado nem alterado a minha vida se todos aqueles objectivos tivessem sido alcançados hoje. Sem esperança, eu afundava-me recostado na cadeira, afastava livros e papéis e pensava, pensava. Depois, ouvia o Reno a correr defronte da janela, e o vento a uivar, e escutava extasiado esta linguagem de uma grande melancolia e ansiedade espreitando por toda a parte. Via as desbotadas nuvens nocturnas esvoaçar pelo céu como aves assustadas, escutava o Reno no seu caminhar e pensava na morte de minha mãe, em São Francisco, na minha terra nas montanhas de neve e em Ricardo que se afogara. Via-me trepar as escarpas para colher a rosa dos Alpes para a Rosa Girtanner, via-me em Zurique entusiasmado com livros, música e conversas, via-me com a Aglietti a vogar sobre as águas nocturnas, vi-me desesperar com a morte de Ricardo, viajar e regressar, recuperar a saúde e tornar a sentir-me desesperado. Porquê? Para quê? Oh, Deus, seria então tudo isto apenas uma brincadeira, um acaso, um quadro pintado? Não havia eu lutado e sofrido os tormentos da ânsia pelo espírito, pela amizade, pela beleza, verdade e amor? Não continuava a avolumar-se em mim a enorme onda da ansiedade e do amor? E tudo isto para nada, para meu tormento e sem o prazer de ninguém!

Então ficava na disposição que me levava à taberna. Soprava a lamparina, tacteava a velha escada íngreme em caracol, e fazia a minha aparição numa adega de vinhos de Valtellina ou de Vaud. Ali, recebiam-me com respeito, como bom cliente, ao passo que, usualmente, eu era contumaz e por vezes muito grosseiro. Lia o «Simplizissimus», que me aborrecia sempre, bebia o meu vinho e esperava até que ele me consolasse. E o deus amoroso tocava-me com a sua macia mão feminina, tornava os meus membros agradavelmente fatigados e conduzia a minha alma confundida, como hóspede, à terra dos belos sonhos.

Por vezes, admirava-me eu próprio por tratar as pessoas tão rudemente e ter como que prazer em falar-lhes aos berros. Nas hospedarias que costumava frequentar, as criadas receavam-me e detestavam-me como labrego e resmungão que tinha sempre por que reclamar. Se entrava em conversa com outros hóspedes, eu era sarcástico e grosseiro e, naturalmente, as pessoas agiam da mesma forma. No entanto, havia alguns poucos companheiros de taberna, todos eles pecadores e já de certa idade, incorrigíveis, com os quais, por vezes, passava um serão em que conseguia uma relação aceitável. Havia nomeadamente um homem grosseiro entre eles, desenhador de profissão, um misógino, obsceno e beberrão comprovado de primeira classe. Quando o encontrava à noite, só, em qualquer taberna, começava sempre uma valente beberronia. Primeiro, trocavam-se conversas, brincadeiras e, entretanto, bebericava-se uma garrafa de tinto, depois, aos poucos, a bebida tomava o primeiro plano, a conversa amortecia, e mantínhamo-nos um diante do outro em silêncio, chupando cada qual o seu Brissago e esvaziando as suas garrafas. Estávamos os dois à altura um do outro, mandávamos sempre encher de novo as garrafas ao mesmo tempo e observávamo-nos mutuamente com um misto de respeito e malícia. Certa vez, na época do vinho novo, em finais de Outono, fomos juntos por algumas aldeias vinhateiras do Markgraefler, e no «Cervo», em Kirchen, o velho patusco narrou-me a história da sua vida. Creio que era interessante e pouco comum mas, infelizmente, esqueci-a de todo. Apenas me ficou a descrição de uma beberronia já dos seus anos avançados. Encontrava-se ele algures no campo numa festividade popular. Como convidado da mesa de honra, bem cedo levou tanto o pároco como o regedor a um estado de verdadeira embriaguês. O pároco tinha ainda de proferir um discurso. Depois de, com esforço, o carregarem para cima do pódio, proferiu ali frases monstruosas e teve de ser levado, após o que o regedor tomou o seu lugar. Começou a falar vigorosamente, de improviso, mas os fortes movimentos deixaram-no indisposto e terminou o seu discurso de forma pouco habitual e deselegante.

Mais tarde, eu teria gostado de pedir que me contasse esta e outras histórias de novo. Mas numa noite de festa de concurso de tiro, deu-se uma briga irreparável entre nós, puxámos a barba um ao outro e afastámo-nos coléricos. Desde então, sucedeu algumas vezes estarmos ao mesmo tempo sentados numa taberna como inimigos, cada qual, claro está, em sua mesa; mas segundo o velho hábito, observávamo-nos um ao outro em silêncio, bebíamos ao mesmo tempo e ficávamos sentados muito depois dos últimos fregueses e, por fim, pediam-nos que saíssemos. Mas nunca chegámos a reconciliar-nos.

Era infrutífero e fatigante o eterno meditar nas causas da minha tristeza e inaptidão para a vida. Eu não tinha de forma alguma a sensação de estar esgotado e gasto, bem pelo contrário, sentia-me repleto de impulsos obscuros e cria que, na hora certa, conseguiria ainda criar algo de profundo e de bom e de arrancar à vida árida pelo menos uma mão cheia de felicidade. Mas chegaria alguma vez essa hora? Eu pensava com amargura naqueles senhores modernos e nervosos que com mil excitantes artificiosos, se estimulam para o trabalho artístico, ao passo que em mim havia grandes forças inaproveitadas que assim permaneciam. E de novo eu esquadrinhava em mim que embaraço ou demónio me deixaria paralisado no pujante e vigoroso corpo da minha alma e dificultava cada vez mais a respiração. Entretanto, eu tinha ainda a estranha sensação de ser uma pessoa fora do comum, que de alguma forma ficara para trás e cujos sofrimentos ninguém conhecia, compreendia ou partilhava. É o que a melancolia tem de demoníaco, o facto de tornar a pessoa não só doente, como também pretensiosa e de vistas curtas, quase arrogante. A pessoa julga-se o Atlas de mau gosto de Heine que carrega sobre os ombros todos os sofrimentos e enigmas do mundo, como se mil outros não suportassem também os mesmos sofrimentos e errassem no mesmo labirinto. E embora a maior parte das minhas qualidades e peculiaridades não fossem tanto minhas, como herança familiar ou mal dos Camenzind, no meu isolamento e afastamento da terra natal sentia-me inteiramente perdido.

De quinze em quinze dias, eu ia de novo à hospitaleira casa do erudito. Aos poucos, conhecera já quase todas as pessoas que a frequentavam. Eram, na sua maioria, jovens académicos, entre os quais muitos alemães de todas as faculdades, além de alguns pintores, músicos e burgueses com suas mulheres e filhas. Eu olhava muitas vezes com espanto esta gente que me saudava como visitante pouco usual, da qual sabia que semanalmente se encontravam tantas ou tantas vezes. Que conversavam e faziam uns com os outros? Na sua maioria, tinham a mesma forma estereotipada do homo socialis e pareciam-me todos um pouco aparentados entre si, em virtude de um espírito de sociabilidade nivelador que só eu não possuía. Havia entre eles gente fina e importante, a quem a eterna convivência aparentemente nada roubava da sua frescura e força pessoal. Com alguns deles, eu podia conversar longamente e com interesse. Mas andar de um para o outro, permanecer um minuto junto de cada um, atirar galanteios às mulheres, dirigir a um só tempo a minha atenção à chávena de chá, a duas conversas e a uma peça de piano, e nisto mostrar-me animado e deliciado, isso eu não podia. Para mim, era horrível ter de falar de literatura ou de arte. Eu via que nestes campos se pensava muito pouco, se mentia bastante e se palrava também imenso. Portanto, eu mentia também, mas sem qualquer prazer, e achava o inútil falatório, maçador e aviltante.

Preferia escutar, eventualmente, uma mulher a falar de seus filhos ou eu mesmo contava viagens, pequenos acontecimentos do dia-a-dia e outras coisas autênticas. Assim, podia por vezes tornar-me confiante e quase bem disposto. Mas usualmente, no final dessas noites, procurava ainda uma taberna e lavava a secura da garganta e o tédio podre com o vinho de Valtellina.

Numa destas rodas, vi a jovem outra vez. Havia imensa gente ali, faziam música e a sua bulha habitual, e eu estava sentado com uma pasta de gravuras a um recanto de um candeeiro. Eram imagens da Toscana, não as imagenzinhas de efeitos habituais, mil vezes observadas, mas vistas intimistas, esboços privados, na sua maioria ofertas de companheiros de viagem e de amigos do dono da casa. Acabava de encontrar o desenho de uma casinha de pedra, de janelas estreitas, no vale solitário de San Clemente que eu reconheci, pois havia feito por ali diversas viagens. O vale fica muito perto de Fiesole, mas a maioria dos visitantes nunca o vai ver porque não há ali antiguidades. É um vale de uma beleza rude e peculiar, seco e pouco habitado, entalado entre montes elevados, escarpados e imponentes, isolado do mundo, melancólico e pouco frequentado.

A rapariga aproximou-se e olhou-me por cima do ombro.

- Porque está sempre tão solitário, Sr. Camenzind?

Fiquei irritado. Sente que os homens lhe dão pouca atenção e vem agora ter comigo.

- Então, não me dá resposta?

- Perdão, menina; mas que hei-de responder? Fico só porque me agrada.

- Então, estou a maçá-lo?

- A menina é estranha.

- Obrigada. Mas isso é inteiramente assim de parte a parte.

E sentou-se. Eu mantive teimosamente a folha nas mãos.

- Não é um montanhês? - perguntou ela. - Gostava de ouvir contar como é aquilo. O meu irmão diz que na sua aldeia há apenas um apelido; são só Camenzind. É verdade?

- Quase - grunhi. - Mas também há um padeiro que se chama Fuessli. E um estalajadeiro de nome Nydegger.

- E além disso só Camenzind! E são todos parentes entre si?

- Mais ou menos.

Estendi-lhe o desenho. Ela segurou a folha, e notei que sabia como pegar numa coisa daquelas. Disse-lho.

- Louva-me - riu ela - mas como um mestre-escola.

- Não quer também olhar a folha? - perguntei, asperamente. - Senão, posso arrumá-la.

- Que representa?

- San Clemente.

- Onde?

- Perto de Fiesole.

- Já lá esteve?

- Sim, por diversas vezes.

- Como é o vale? Isto é apenas um pormenor.

Pensei. A severa paisagem, de uma beleza rude, surgiu diante do meu olhar, e eu semicerrei os olhos para a fixar. Demorou um pouco até que eu começasse a falar, e soube-me bem que ela permanecesse em silêncio, aguardando. Compreendeu que eu estava a recordar.

Descrevi-lhe San Clemente, como jaz silente, ressequido e majestoso sob o braseiro da tarde estival. Ali perto, em Fiesole, há indústria, entretecem-se chapéus de palha e cestos, vendem-se recordações, ludibriam-se os viajantes ou mendigam-se-lhes esmolas. Mais abaixo, fica Florença, que encerra uma torrente de vida antiga e nova. Mas nenhuma delas se pode ver de San Clemente. Os pintores não trabalharam ali, não houve ali qualquer construção romana, a história esqueceu o pobre vale. Mas ali, o sol e a chuva lutam contra a terra, ali, os pinheiros recurvados lutam arduamente pela vida e os poucos ciprestes palpam os ares com magros cimos, não chegue a tempestade inimiga que lhes encurta a parca vida a que se agarram com raízes ávidas. Uma ou outra vez, passa um carro de bois das grandes quintas próximas, ou uma família de camponeses caminha em direcção a Fiesole, mas não passam de visitantes ocasionais, e as saias vermelhas das camponesas, normalmente tão mexidas e alegres, perturbam aqui, e com prazer as dispensamos.

E contei como na juventude passara por ali com um amigo, como me estendera aos pés dos ciprestes e me recostara aos seus magros troncos; e como a bela magia melancólica da solidão do estranho vale me recordava os desfiladeiros da minha terra.

Calámo-nos por algum tempo.

- É um poeta - disse a rapariga.

Fiz um trejeito.

- O que quero dizer é diferente - continuou. - Não é por escrever novelas e coisas semelhantes. É, sim, porque compreende e ama a natureza. Que importa a outras pessoas se uma árvore rumoreja ou um monte abrasa ao sol? Mas para si, há ali uma vida que pode sentir.

Respondi que ninguém «compreende a natureza», e que ao indagar e procurar compreender, apenas encontramos enigmas e caímos na tristeza. Uma árvore que se ergue ao sol, uma pedra crestada pelos temporais, um animal, uma montanha - eles possuem uma vida, têm uma história, eles vivem, sofrem, teimam, deleitam-se, morrem, mas nós não o compreendemos.

Ao falar, alegrando-me da sua atenção paciente e silenciosa, comecei a observá-la. O seu olhar dirigia-se para o meu e não lhe fugia. O seu rosto estava muito sereno, entregue, e um pouco tenso da atenção. Era como se uma criança me estivesse a escutar. Não, era antes como se um adulto, ao escutar, se esquecesse de si e, sem o saber, ficasse com um olhar infantil. E ao observá-la, percebi aos poucos, com infantil alegria pela descoberta, que era muito bonita.

Quando deixei de falar, a rapariga manteve-se em silêncio. Depois, estremeceu e olhou a luz do candeeiro.

- Como se chama afinal, menina? - perguntei, sem me interessar grandemente por isso.

- Elisabete.

Ela afastou-se e em breve lhe pediram que tocasse piano. Tocava bem, mas quando me aproximei, vi que já não estava tão bonita.

Quando descia a cómoda escadaria antiga dirigindo-me para casa, escutei algumas palavras da conversa de dois pintores que vestiam os seus casacos no vestíbulo da casa.

- Bem, ele passou toda a noite entretido com a linda Elisabete - disse um, rindo.

- Que sonso! - comentou o outro. - E não escolheu a pior.

Então, os macacos já falavam disso. De súbito, apercebi-me de que, quase contra-vontade, desvendara a esta jovem desconhecida recordações íntimas e uma grande parte da minha vida pessoal. Como me sucedeu aquilo? E agora, já as línguas maldosas! - Que corja!

Saí e durante meses não voltei àquela casa. Por acaso, foi precisamente um desses dois pintores o primeiro a questionar-me na rua sobre o assunto.

- Por que não vai mais lá?

- Porque não posso suportar a maldita bisbilhotice - disse.

- Pois é, estas mulheres! - riu o patife.

- Não - respondi - refiro-me aos homens, e muito especialmente aos senhores pintores.

Durante aqueles meses, raramente vi Elisabete na rua, uma vez numa loja e outra numa galeria de arte. Usualmente, apresentava-se esbelta, mas não bonita. Os movimentos da sua figura muito delgada tinham algo de singular que, normalmente, lhe dava garbo e distinção, mas por vezes, mostrava-se um pouco enfatuada e artificial. Bela, extremamente bela, estava certa altura na galeria. Ela não me viu. Eu encontrava-me sentado a repousar um pouco à parte e folheava o catálogo. Ela estava de pé, perto de mim, diante de um grande Segantini, totalmente imersa no quadro. Representava algumas camponesas trabalhando num magro prado, por detrás, os montes abruptos e recortados, recordando talvez o grupo do Stockhorn e por cima, num céu frio e claro, uma nuvem genialmente pintada, cor de marfim. Ela impressionava logo ao primeiro olhar pela sua massa enovelada, enrolada sobre si; via-se que acabava de ser enfunada e encapelada pelo vento e se preparava agora para subir e desaparecer, voando lentamente. Visivelmente, Elisabete compreendia esta nuvem, pois estava totalmente entregue à contemplação. E de novo a sua alma, habitualmente oculta, assomava no rosto, sorria docemente nos olhos agigantados, a boca demasiado delgada, tornava-a infantilmente macia, e entre as sobrancelhas, aplanava o sulco de amarga inteligência na fronte. A beleza e autenticidade de uma obra de arte forçou a sua alma a apresentar-se bela, autêntica e sem véus.

Eu mantinha-me sentado ali ao lado, em silêncio, observava a bela nuvem de Segantini e a bela rapariga encantada com ela. Depois, receei que se voltasse, me visse e falasse, e perdesse de novo a sua beleza, e deixei a sala rapidamente e sem ruído.

Por aquela época, a minha alegria pela natureza silenciosa e a minha relação para com ela começou a transformar-se. Passeava muitas vezes pelas maravilhosas imediações da cidade, preferivelmente pelo Jura.

Via sempre de novo florestas e montanhas erguer-se, prados, árvores de fruto e arbustos, aguardando um não sei quê. Talvez a mim, esperavam, em todo o caso, por amor.

E comecei a amar estas coisas. Surgiu em mim uma forte e sequiosa necessidade que se dirigia à sua silente beleza. Também em mim uma profunda vida e ansiedade crescia obscuramente, que buscava a consciência, ser compreendida, que buscava amor.

Muitos dizem que «amam a natureza». Quer isto dizer que não se recusam a, de vez em quando, extasiar-se com os encantos que ela nos oferece. Eles saem e alegram-se com a beleza da terra, pisam os prados e, por fim, arrancam grande quantidade de flores e ramos para, em breve, os deitarem fora outra vez, ou vê-los murchar em suas casas. É assim que amam a natureza. Recordam-se destas coisas ao domingo, quando o tempo está bom, e ficam enternecidos com os seus bondosos corações. Nem necessitariam disso, porque «o homem é a coroa da natureza». Ah, sim, a coroa!

Portanto, eu olhava sempre com maior avidez a profundeza das coisas. Escutava o vento ressoar em acordes nas copas das árvores, ouvia ribeiros bramando nas gargantas e correntes plácidas e silenciosas espraiar-se por planícies, e sabia que estes sons eram a voz de Deus e que compreender esta linguagem obscura e primordialmente bela, seria reencontrar o paraíso. Os livros pouco sabem disso, só na Bíblia se encontra a maravilhosa palavra do «inexprimível gemido» da criatura. E eu intuía que em todos os tempos, tal como eu, homens houvera que tinham sido tomados por esta impenetrabilidade, tinham deixado o seu trabalho do dia-a-dia e buscado a solidão para escutar o canto da criação, observar o correr das nuvens e, em incansável ansiedade, estender os braços em oração para o eterno, anacoretas, penitentes e santos.

Nunca estiveste em Pisa, no Camposanto? Ali, as paredes estão decoradas com imagens desmaiadas de séculos idos, e uma delas mostra a vida dos anacoretas no deserto da Tebaida. Ainda hoje, nas suas cores esmaecidas, a ingénua pintura jorra a magia de uma paz tão maravilhosa, que sentes uma dor súbita, e a necessidade de chorar algures, em santas lonjuras, os teus pecados e a tua impureza e nunca mais regressar. Inúmeros artistas procuraram assim exprimir a sua saudade em imagens sagradas, e qualquer encantador quadrozinho de uma criança de Ludwig Richter te canta a mesma canção que os frescos de Pisa. Por que razão Ticiano, o amigo do tangível e do corporal, deu por vezes aos seus quadros claros e materiais, aquele fundo do mais maravilhoso azul profundo? É apenas uma pincelada de azul profundo, e quente, não se percebe se pretende representar montanhas distantes ou apenas o espaço ilimitado. Ticiano, o realista, nem ele próprio o sabia. Ele não o fazia, como os historiadores de arte pretendem saber, por razões de harmonia de cores, era antes o seu tributo ao insaciável que, oculto, habitava também a alma deste ser alegre e feliz. Assim, parecia-me, a arte esforçara-se em todos os tempos por nos ofertar na sua linguagem, a silente necessidade do divino.

Mas com maior maturidade e beleza e, todavia, mais ingenuamente, expressava isto São Francisco. Foi então que o compreendi inteiramente. Ao englobar toda a terra, as plantas, as estrelas, os animais, ventos e águas no seu amor para com Deus, ele transmitiu-o à Idade Média, mesmo a Dante, e descobriu a linguagem do eternamente humano. Ele chama a todas as potências e manifestações da natureza seus amados irmãos e irmãs. Quando, em anos posteriores, foi condenado pelos médicos a deixar queimar a fronte com ferro em brasa, em meio do seu pavor de enfermo atormentado, saudou neste terrível ferro «o seu amado irmão, o fogo».

Ao começar agora a amar a natureza como pessoa, a escutá-la como camarada e companheira de viagem que fala uma língua estrangeira, a minha melancolia, embora não curada, ficava enobrecida e purificada. O meu ouvido e olho aguçavam-se, aprendia a compreender delicadas tonalidades e diferenças, e ansiava por escutar cada vez mais perto e claro o pulsar de toda a vida e, talvez um dia, participar do dom de, em palavras poéticas, dar-lhe expressão, para que também outros se aproximassem dele, e o visitassem com melhor compreensão das fontes de todo o refrigério, purificação e ingenuidade. Por enquanto, isso não passava de um desejo, de um sonho... eu não sabia se alguma vez poderia realizar-se, e ative-me ao que me era mais fácil, oferecendo a todas as coisas visíveis o meu amor, e habituando-me a não mais olhar o que quer que fosse com indiferença ou desprezo.

Não me é possível dizer como isto actuou de forma renovadora e consoladora sobre a minha vida obscurecida!

Não há no mundo nada de mais nobre que faça maior felicidade que um amor sem palavras, constante e desapaixonado, e nada desejo mais profundamente que entre aqueles que lerem as minhas palavras, alguns, ou mesmo apenas dois ou um só, por meu incitamento, quisesse iniciar-se nesta arte pura e abençoada. Alguns possuem-na por natureza e praticam-na toda a vida inconscientemente, são os preferidos de Deus, os bons, as crianças entre os homens. Outros aprenderam-na com grande sofrimento: nunca vistes entre os aleijados e os miseráveis, alguns de olhos meditativos, silenciosos e brilhantes? Se não quiserdes escutar-me e às minhas pobres palavras, ide ter com aqueles nos quais um amor sem avidez superou o sofrimento e o transformou.

Desta plenitude que eu louvei em certos pobres sofredores, ainda hoje me encontro miseravelmente distante. Mas ao longo destes anos, raras vezes careci da consoladora fé de conhecer o caminho para ela.

Não posso dizer que também eu o tenha trilhado, antes me sentei pelo caminho em todos os bancos e não deixei de seguir certos desvios perversos. Havia duas tendências egoístas e poderosas que em mim lutavam contra o amor verdadeiro. Eu era um bebedor e um solitário. É certo que cortei substancialmente a minha porção de vinho mas, semana sim semana não, o deus bajulador adulava-me e eu lançava-me nos seus braços. Só muito raramente, porém, sucedeu eu ficar jazendo pelas ruas ou fazer cenas nocturnas, porque o vinho ama-me, e só me atrai até ao ponto onde os seus espíritos se relacionam com o meu num diálogo amigável. No entanto, após cada bebedeira, a má consciência perseguia-me durante longo tempo. Mas, no fundo, não podia retirar o meu amor ao vinho, para o qual herdara de meu pai grande inclinação. Durante anos, acarinhara esta herança, cuidadosa e piedosamente, e havia-me apropriado dela profundamente; por isso, tirei-me de apuros, e estabeleci um acordo meio a sério meio a brincar entre o meu vício e a minha consciência. Incluí no cântico do Sol do santo de Assis «o meu amado irmão, o vinho».

 

Muito pior era o meu outro defeito. Eu sentia pouco prazer no convívio, vivia como um solitário, e ante as coisas humanas, estava sempre pronto a usar de escárnio e desprezo.

No início da minha nova vida, ainda não pensava nisso. Achava correcto deixar os homens entregues uns aos outros e reservar o meu carinho, dedicação e simpatia apenas para a natureza silenciosa. E esta, de início, também me preenchia inteiramente.

À noite, quando me preparava para ir para a cama, recordava de repente uma colina, uma orla de floresta, uma única árvore preferida que há muito não visitara. Agora, ela erguia-se ao vento durante a noite, sonhava, passava talvez pelo sono, gemia e movia os ramos. Que aspecto teria? E eu deixava a casa, procurava-a e via um vulto indistinto na escuridão, observava-o com espantoso carinho e trazia dali, em mim, a sua imagem na escuridão.

Vós ris disto. Talvez este amor fosse mal orientado, mas não era esbanjado. Mas, como haveria eu de encontrar a partir daqui o caminho que conduzia aos homens?

No entanto, quando o primeiro passo está dado, o prémio surge sempre por si mesmo. A ideia do meu grande poema surgia-me cada vez mais próxima e possível. E ainda que o meu amor me levasse alguma vez, como poeta, a falar a linguagem das florestas e das torrentes, para quem seria? Não apenas para os meus bem amados, mas principalmente para os homens, para quem eu queria ser um condutor e professor no amor. E para com essas pessoas, eu era rude, sarcástico e insensível. Senti a discrepância e a imperatividade de lutar contra o meu isolamento, e manifestar também amizade fraternal para com os homens. Isso era difícil porque, precisamente nesse ponto, a solidão e o destino haviam-me tornado duro e irascível. Não bastava esforçar-me por, em casa e na taberna, ser menos rude e, pelo caminho, acenar amavelmente a alguém que encontrava. Aliás, já aqui eu via o quão profundamente havia acerado a minha relação com as pessoas, pois as minhas tentativas amigáveis eram recebidas com desconfiança ou tomadas como escárnio. E o pior era que, há quase um ano, eu evitava a casa daquele letrado, a única das minhas relações, e reconhecia que tinha de ir lá bater de novo à porta e procurar algum caminho naquela forma de convivência.

Sucede que, neste ponto, a minha própria humanidade escarnecida me auxiliou sobremaneira. Mal pensara de novo naquela casa, logo vi em mente Elisabete, bela como a vira diante da nuvem de Segantini, e notei de súbito quanto ela partilhara a minha ansiedade e melancolia. E sucedeu que, pela primeira vez, pensei seriamente em pedir a mão de uma mulher. Até então, estivera tão convencido da minha incapacidade para o casamento, que me tinha entregue a ela com mordente ironia. Eu era um poeta, caminheiro, bebedor e solitário! Agora, julgava reconhecer o meu destino que, na possibilidade de um casamento por amor, me queria lançar a ponte para o mundo dos homens. Tudo parecia tão atraente e firme! Eu sentira e vira que Elisabete me oferecia simpatia; e também que possuía uma natureza sensível e nobre. Relembrei como aquando da conversa sobre San Clemente e depois, diante do Segantini, a sua beleza se avivara. Por meu lado, a partir da arte e da natureza, eu acumulara uma riqueza interior; ela aprenderia comigo a ver a beleza por toda a parte adormecida, e eu envolvê-la-ia de tal forma com beleza e verdade, que o seu rosto e a sua alma esqueceriam todas as perturbações e poderiam desenvolver-se até ao florescer das suas virtualidades. Estranho é que eu não tenha notado a singularidade da minha súbita transformação. Eu, solitário e extravagante, transformara-me de um dia para o outro num enamorado pueril, que sonha com a felicidade do casamento e a construção do seu lar.

Apressei-me a procurar a hospitaleira casa, e fui recebido com admoestações amigáveis. Fui ali diversas vezes e, após algumas visitas, encontrei lá de novo Elisabete. Oh, que bela estava! Mostrava-se como eu imaginara a minha amada: estava bela e feliz. E durante uma hora, saboreei a alegre beleza da sua presença. Ela cumprimentou-me amavelmente, cordialmente mesmo, e com uma amizade confiante que me tornava ditoso.

Recordais ainda aquela noite do lago, no barco, a noite com os lampiões de papel vermelhos, com a música, com a minha declaração de amor abafada à nascença? Essa foi a triste e ridícula história de um rapaz enamorado.

Mas mais ridícula e triste é a história do homem Peter Camenzind enamorado.

Vim a saber casualmente que Elisabete noivara há pouco tempo. Felicitei-a, conheci o seu noivo, que a foi buscar, e felicitei-o também a ele. Durante todo o serão, poisou sobre o meu rosto um sorriso benevolente de amigo, como uma máscara, que me era penoso. Depois, não corri para a floresta, nem para a taberna, mas sentei-me na minha cama olhando a candeia, estupefacto e boquiaberto, até ela deitar mau cheiro e se extinguir e, por fim, a minha consciência despertar. Então, a dor e o desespero abriram as suas asas negras sobre mim, e eu jazi pequeno, frágil e destroçado, e solucei como um garoto.

De seguida, arrumei o saco, dirigi-me de manhã para o comboio e viajei para casa. Tinha necessidade de trepar uma vez mais ao Sennalps-tock, de pensar na minha infância e verificar se o meu pai era vivo ainda.

Tornáramo-nos estranhos um ao outro. O pai estava completamente encanecido, um pouco curvado e um tanto apagado. Tratou-me com brandura e timidez, não perguntou por nada, queria ceder-me a sua cama e pareceu ficar não menos confundido que surpreso pela minha visita. Possuía a casita ainda, mas havia vendido os pastos e o gado, recebia uma pequena renda e fazia, aqui e além, trabalhos leves.

Quando ele me deixou a sós, cheguei-me ao local onde antes estivera a cama de minha mãe, e o passado perpassou por mim como uma corrente extensa e calma. Eu já não era um jovem, e pensei como os anos se escoariam rápido; também eu seria, então, um homenzinho alquebrado e encanecido e me deitaria para uma morte amarga. No velho quarto, quase nada transformado e miserável, onde eu fora pequeno, onde aprendera latim e havia presenciado a morte da mãe, estes pensamentos tinham uma naturalidade pacificante. Com gratidão, recordei toda a riqueza da minha juventude, e vieram-me então à mente os versos de Lorenzo Medici, que aprendera em Florença:

 

             Quant'è bella giovinezza,

             Ma si fugge tuttavia.

             Chi vuol esser lieto, sia:

             Di doman non c'è certezza. (1)

 

Ao mesmo tempo, admirei-me de trazer recordações de Itália, da história e do grande reino do espírito, para este velho quarto familiar.

Depois, dei algum dinheiro ao meu pai. À noite, fomos à taberna e, ali, estava tudo como dantes, salvo que fui eu a pagar o vinho, e o pai, ao falar do vinho que fazia estrelas e do Champanhe, reportava-se a mim, além de que, agora, eu podia suportar mais que o velho. Perguntei pelo camponês encanecido sobre cuja calva eu vertera o vinho. Ele era um galhofeiro, um génio na batota, mas já havia falecido há muito e as suas facécias iam caindo no esquecimento. Eu bebi o vinho de Vaud, escutei as conversas, contei qualquer coisa e, quando regressava a casa com o meu pai sob o luar e ele, na embriaguês continuava a falar e a gesticular, tive uma tão estranha sensação de encantamento como nunca. As imagens dos tempos passados envolviam-me continuamente, o tio Conrado, Rosa Girtanner, a mãe, Ricardo e a Aglietti; olhei-as como a um belo livro de gravuras, pelo qual nos maravilhamos de nos surgirem ali, tão belas e magníficas, todas as coisas que, na realidade, nem de perto nem de longe são tão belas. Tudo isto passara por mim com grande fragor, ficara para trás, quase esquecido e, contudo, estava registado clara e nitidamente em mim: metade de uma vida que, sem a minha vontade, fora conservada na minha memória.

Só após chegarmos a casa e o meu pai, já tarde, se calar e adormecer, voltei a pensar em Elisabete. Ontem apenas, ela cumprimentara-me, eu admirara-a e desejara felicidades ao seu noivo. Parecia-me ter decorrido longo tempo desde então. Mas a dor acordou, misturou-se com a torrente de recordações revolvidas, e sacudiu o meu coração egoísta e mal resguardado, como o foehn sacode uma cabana de colmo vacilante e arruinada. Não suportei permanecer em casa. Saltei pela janela baixa e dirigi-me para o lago, atravessando o jardinzito, soltei o descuidado barquito

 

*1. Como é bela a juventude / mas vai-se, contudo. / Quem quiser ser folgazão, seja: / o amanhã não é certo. (N. T.).

 

e remei sem ruído pelo pálido lago nocturno. Em redor, os montes prateados mantinham-se num silêncio solene, a lua quase cheia pendia da noite azulada, e quase era tocada pelo cume do Schwarzenstock. Era tal o silêncio, que ouvia rumorejar levemente a distante queda de água do Sennalpstock. Os espíritos da terra natal e os espíritos da minha juventude tocavam-me com as suas asas pálidas, enchiam o meu pequeno bote e acenavam-me suplicantes, de mãos estendidas e gestos dolorosos e incompreensíveis.

Que significado tivera a minha vida, para que haviam passado por mim tantas alegrias e dores? Por que tinha eu a sede do verdadeiro e do belo, se hoje continuava mais sequioso ainda? Por que tinha eu, com pertinácia e em lágrimas, sofrido o amor e a dor por aquelas admiráveis mulheres - eu que hoje, de novo, deixava pender a cabeça, de vergonha e lágrimas, por um amor infeliz? E por que razão tinha o imperscrutável Deus colocado no meu coração a ardorosa ânsia de amor, se me destinara uma vida de solitário e mal amado?

A água rumorejava surda no casco e gotejava prateada dos remos, os montes erguiam-se em redor, próximos e silentes, sobre a névoa das gargantas espraiava-se a luz fresca do luar. E os espíritos da minha juventude erguiam-se mudos em meu redor, e olhavam-me silenciosos e inquiridores, com um olhar profundo. Parecia-me que entre eles eu via a bela Elisabete, e que ela me teria amado e sido minha se eu tivesse chegado a tempo.

Parecia-me também que o melhor seria afundar-me, em silêncio, no lago pálido, e ninguém perguntaria por mim. Contudo, remei mais depressa, quando notei que o reles barquito metia água. De súbito, senti frio, e apressei-me a entrar em casa e meter-me na cama. Jazi ali, fatigado e desperto, a meditar na minha vida, procurando descobrir o que faltava e o que seria necessário para viver mais feliz e com maior autenticidade e aproximar-me mais do coração da existência.

Eu bem sabia que o centro de toda a bondade e alegria era o amor, e que eu teria de começar, apesar da minha recente dor por Elisabete, a amar verdadeiramente os homens. Mas como? E a quem?

E eis que recordei o meu pai e, pela primeira vez, notei que nunca o amara de forma correcta. Em rapaz, havia-lhe amargurado a vida, depois partira, e deixara-o só, mesmo após a morte da mãe, irritara-me muitas vezes por sua causa e, por fim, quase o esquecera. E veio-me a imagem de que ele jazia no leito de morte e eu, só e órfão a seu lado, via evolar-se a sua alma que permanecera estranha para mim e por cujo amor eu nunca lutara.

Assim, comecei a aprender aquela dura e doce arte, não numa bem amada, bela e admirada, mas num velho e rabugento bêbedo. Não mais lhe retorqui com respostas rudes, ocupei-me dele sempre que possível, li-lhe histórias de almanaques, e falei-lhe dos vinhos que se produziam e se bebiam em França e na Itália. O pouco trabalho que fazia, não podia tirar-lho, pois sem ele ficaria desamparado. Também não consegui habituá-lo a beber o seu quartilho do serão em casa, comigo, e não na taberna. Tentámo-lo durante algumas noites. Trouxe vinho e cigarros e esforcei-me por matar o tempo ao velho homem. Na quarta ou quinta noite ficou silencioso e casmurro e, por fim, quando o interroguei, explicou, gemendo, o que lhe pesava:

- Acho que nunca mais queres deixar o teu pai ir à taberna.

- Nada disso - respondi - tu és o pai e eu o garoto, e como tudo deverá continuar, tu é que decides.

Olhou-me de olhos reluzentes, depois, contente, pegou no seu gorro, e marchámos lado a lado para a taberna.

Estava bem de se ver que o meu pai seria contra uma longa permanência em conjunto, apesar de nada dizer acerca disso. Também eu me sentia impelido a aguardar algures, lá longe, o apaziguamento do meu estado de espírito cindido.

- Que te parece se um destes dias eu partisse de novo? - perguntei ao velho.

Ele coçou a cabeça, encolheu os ombros minguados e sorriu, matreiro, aguardando:

- Como queiras!

Antes de partir, procurei alguns vizinhos e as gentes do mosteiro e pedi-lhes que o tivessem debaixo de olho. Também guardei ainda um belo dia para escalar o Sennalpstock. Do seu cimo arredondado e largo, olhei as montanhas e os vales verdejantes, as águas luzentes e as distantes cidades na névoa. Tudo isto me preenchera, quando rapaz, com uma poderosa atracção, eu partira para conquistar o belo e vasto mundo, e agora, ali jazia ele de novo ante mim, tão belo e estranho como então, e eu estava pronto a partir outra vez para lá e, uma vez mais, buscar a terra da felicidade.

Por causa dos meus estudos, há muito que havia decidido ir passar um período a Assis. Primeiro, viajei até Basileia, tratei das coisas indispensáveis, emalei os meus poucos haveres e despachei-os antecipadamente para Perúsia. Porém, viajei apenas até Florença, e peregrinei a partir dali, lenta e calmamente, em direcção ao Sul. Lá em baixo, para ter um contacto amigável com o povo, não necessitamos de conhecer qualquer espécie de artes; a vida desta gente está permanentemente à superfície, e é tão simples, livre e ingénua que, de cidade em cidade, firmamos cândida amizade com imensas pessoas. Eu sentia-me de novo acolhido e em casa, e decidi que, mesmo mais tarde em Basileia, procuraria o calor humano não na alta sociedade, mas entre o povo simples.

Em Perúsia e Assis, o meu trabalho histórico recobrou interesse e vitalidade. E pois que o dia-a-dia era ali um prazer, em breve o meu ser enfermo começou a sanar e a lançar novas pontes para a vida. A minha hospedeira em Assis, uma vendedeira de hortaliças, conversadora e piedosa, em virtude de algumas conversas acerca do santo, travou uma profunda amizade comigo e fez-me fama de sólido católico. Conquanto imerecida, esta honra trouxe-me, todavia, a vantagem de poder relacionar-me com maior intimidade com as pessoas, pois estava livre da suspeita de paganismo que, de uso, pende sobre os estranhos. A mulher chamava-se Annunziata Nardini, tinha 34 anos e era viúva, de corpulência colossal e muito boas maneiras. Aos domingos, num vestido alegremente florido, parecia a personificação do dia de festa; por cima, para além dos brincos de argola, usava também um cordão de ouro ao peito, do qual pendiam, tilintando e fulgindo, uma série de medalhas de ouro. Nessa altura, trazia também um breviário guarnecido a prata, cuja utilização lhe seria difícil, e um belo terço preto e branco de cadeias de prata, que ela sabia manejar tanto mais expeditamente. Quando depois, entre duas visitas à igreja, se sentava na loggetta e apontava às vizinhas espantadas os pecados das amigas ausentes, poisava sobre o seu rosto redondo e piedoso o comovente reflexo de uma alma reconciliada com Deus.

Como o meu nome era impossível de pronunciar para aquela gente, chamavam-me simplesmente Signor Pietro.

Nas belas tardes douradas, sentávamo-nos juntos na minúscula loggetta, vizinhos, crianças e gatos, ou na loja, entre as frutas, cestos de hortaliças, caixas de sementes e os chouriços defumados pendentes, contávamos uns aos outros as nossas experiências, discutíamos as colheitas, fumávamos um charuto ou cada qual chupava sua talhada de melão. Eu falava de São Francisco, contava a história da portiuncula e da igreja do santo, de Santa Clara e dos primeiros irmãos. Escutavam gravemente, faziam mil pequenas perguntas, louvavam o santo, e passavam à narrativa e discussão de acontecimentos mais recentes e sensacionais, entre os quais eram especialmente apreciadas as histórias de ladrões e rixas políticas. No meio de nós, brincavam e brigavam os gatos, as crianças e os cachorros. Por prazer e para manter o meu bom nome, rebusquei a lenda à procura de histórias edificantes e comoventes, e alegrei-me de, entre os parcos livros, ter levado também a «Vida dos Padres da Igreja e Outras Pessoas Piedosas» de Arnold, cujas anedotas ingénuas eu traduzi com pequenas variações para um italiano vulgar. Os passantes paravam, escutavam, conversavam um pouco e, não raro, os convivas mudavam assim três ou quatro vezes numa tarde; só a senhora Nardini e eu é que nos mantínhamos e nunca faltávamos. Eu tinha junto a mim o vinho tinto no frasco e impunha-me àquele povo de vida parca ou mediana, pelo meu substancial consumo de vinho. Aos poucos, as tímidas moças da vizinhança tornaram-se também mais confiantes, participavam nas conversas da soleira da porta, queriam que lhes oferecesse pequenas gravuras, e começavam a crer na minha santidade, uma vez que eu não fazia brincadeiras picantes nem aparentava tentar conquistar a sua confiança. Entre elas, havia algumas de grandes olhos, beldades sonhadoras, que pareciam saídas de quadros de Perugino. Eu gostava de todas, agradava-me a sua presença bem disposta e folgazona, mas nunca me enamorei de nenhuma, pois as mais belas eram tão semelhantes entre si, que a sua beleza me surgia sempre como uma raça e nunca como uma qualidade individual. Frequentes vezes, aparecia também Matteo Spinelli, um jovem, filho do mestre-padeiro, um moço ladino e cómico. Sabia imitar uma série de animais, estava informado acerca de todos os escândalos, e não parava de inventar actos atrevidos e astutos. Quando eu narrava lendas, ele escutava com uma devoção e humildade sem igual mas, depois, gozava colocando questões maldosas acerca dos Santos Padres, fazia comparações e conjecturas, tudo com um ar ingénuo, para escândalo da mulher da fruta e contentamento dissimulado da maioria dos ouvintes.

Muitas vezes também, eu sentava-me sozinho junto da senhora Nardini, escutava os seus discursos edificantes e divertia-me impiamente com as suas inúmeras singularidades cómicas. Não lhe escapava nenhuma falha ou vício do seu próximo, calculando previamente, com meticulosidade, os seus lugares no fogo do Inferno. Mas a mim, tinha-me em grande estima, e confiava-me as mais pequenas experiências e as coisas que observava, abertamente e com a maior minúcia. Depois de cada pequena compra, perguntava-me quanto tinha eu pago, e cuidava que não fosse logrado. Queria que lhe contasse as vidas dos santos e, em compensação, punha-me a par dos segredos da compra da hortaliça e do comércio de fruta e da cozinha. Certa tarde, estávamos sentados no estabelecimento miserável. Para total enlevo das crianças e raparigas, eu cantara uma canção suíça e soltara um iodler. Eles aproximaram-se de prazer, imitaram o som da língua estranha e mostraram-me como, ao soltar o iodler, a minha laringe andava para cima e para baixo. E eis que alguém começou a falar de amor. As moças sussurravam, a senhora Nardini revirava os olhos e suspirava sentimentalmente e, por fim, fui instigado a contar as minhas próprias histórias amorosas. Nada contei sobre Elisabete, mas narrei o meu passeio de barco com a Aglietti e a minha malograda declaração de amor. Tive um sentimento estranho ao contar esta história - da qual, à excepção de Ricardo, eu nunca confiara uma palavra a ninguém - a esta gente da Úmbria, diante daquelas ruelas estreitas e pedregosas, e dos montes do Sul, sobre que pairava o aroma do entardecer rubro e dourado. Contei, sem muito reflectir, à maneira das antigas novelas e, contudo, estava ali o meu coração; receava secretamente que os ouvintes se rissem e zombassem de mim.

Mas quando terminei, todos os olhos estavam postos em mim, tristes e com comiseração.

- Um homem tão belo! - exclamou uma das raparigas com vivacidade. - Um homem tão belo, e com um amor infeliz!

A senhora Nardini, por seu lado, passou cuidadosamente a mão macia e rubicunda sobre o meu cabelo e disse:

- Poverino!

Uma outra rapariga ofereceu-me uma grande pêra, e como eu lhe pedisse para lhe dar a primeira dentada, ela recusou.

- Não, coma-a o senhor! Ofereci-lha porque nos contou a sua amargura.

- Mas, com certeza, ama outra - disse um vinhateiro moreno.

- Não - respondi.

- Oh, ainda ama essa maldosa Hermínia?

- Agora, amo São Francisco, e ele ensinou-me a amar toda a gente, a vós e à gente de Perúsia, e a todos os meninos daqui, e até ao amante de Hermínia.

Surgiu, no entanto, uma certa confusão e perigo nesta existência idílica, quando descobri que a senhora Nardini ardia de desejos por que eu ficasse ali definitivamente e casasse com ela. Esta situação delicada fez de mim um diplomata sagaz, porque não era nada fácil destruir esses sonhos sem destroçar a harmonia ou arruinar a agradável amizade. E tinha também de pensar no meu regresso. Não fora o sonho do meu futuro poema e a minha caixa que ameaçava ficar vazia, eu teria permanecido ali. Talvez eu tivesse também, precisamente devido à caixa vazia, casado com a Nardini. Mas não, o que me impediu foi a ferida por Elisabete ainda não cicatrizada, e o desejo de voltar a vê-la.

A rotunda viúva, contra toda a expectativa, aceitou o irrevogável, e não se vingou pela sua desilusão. Quando parti, talvez a despedida me tenha sido mais penosa do que a ela. Eu deixava muito mais do que alguma vez abandonara na minha terra, e pela minha partida, nunca a mão me fora apertada tão calorosamente por tanta gente amiga. As pessoas ofereciam-me frutas, vinho, licor, pão e um chouriço para levar no carro, e tive a inusitada sensação de me separar de amigos aos quais não era indiferente eu partir ou ficar. A senhora Nardini, essa deu-me à despedida um beijo nas duas faces com lágrimas nos olhos.

Antigamente, eu julgara que deveria ser um prazer singular ser amado sem amar. Eu experimentara agora como pode ser penoso um amor que assim se oferece sem que o possamos retribuir. E contudo, eu sentia algum orgulho no facto de uma mulher estrangeira me amar e desejar para marido. Esta pequena vaidade representou uma semicura para mim. A senhora Nardini fazia-me pena e, contudo, eu não desejava que isso não tivesse sucedido. Aos poucos, compreendia também que a felicidade pouco tinha a ver com a satisfação de desejos exteriores, e que os sofrimentos de jovens amantes, por mais dolorosos que sejam, nada têm de trágico.

Doeu-me não poder ficar com Elisabete. Todavia, a minha vida, a minha liberdade, trabalho e modo de pensar ficaram intactos e, de longe, eu podia continuar a amá-la como antes, quanto quisesse. Estes pensamentos, e mais ainda a ingénua felicidade da minha existência durante os meses na Úmbria, haviam sido sobremaneira salutares para mim. Eu tivera desde sempre um sexto sentido para todo o ridículo e burlesco, e estragara com isso a minha própria alegria por causa da ironia. Agora, aos poucos, abriam-se-me os olhos para o humor da vida, e parecia-me cada vez mais possível e fácil reconciliar-me com a minha estrela e saborear ainda um ou outro petisco do festim da vida.

Certamente que quando regressamos a casa vindos de Itália, é sempre assim. Troçamos de princípios e preconceitos, sorrimos pensativamente, enfiamos as mãos nos bolsos, e julgamo-nos verdadeiros mestres da vida. Durante algum tempo, nadámos no calor agradável da vida do povo do Sul; julgamos, então, que em casa, isso terá necessariamente de continuar assim. Também a mim me sucedeu isso após cada regresso de Itália e, desta vez, mais ainda. Quando cheguei a Basileia e deparei ali com a antiga vida rígida, não rejuvenescida e imutável, fui descendo das alturas da minha alegria, degrau a degrau, até ao fundo, deprimido e contrariado. Todavia, algo do que eu conquistara continuou a germinar e, desde então, o meu bote não mais navegou por águas turbulentas sem ao menos deixar adejar ao vento uma pequena flâmula, atrevida e confiantemente.

Também no restante as minhas concepções se haviam alterado lentamente. Sem grande pena, sentia-me deixar os anos da juventude e amadurecer rumo aos tempos em que a pessoa aprende a ver a própria vida como um curto caminho, e a si mesmo como um caminheiro, cujos trilhos e desaparição final não suscita grande emoção nem preocupação no mundo. Mantemos em mira um objectivo para a vida e um sonho acalentado, mas nem sempre nos julgamos imprescindíveis e, pelo caminho, não raro nos damos ao lazer para, sem peso na consciência, deixarmos de fazer a caminhada de um dia, nos estendermos sobre a erva, assobiarmos um verso e alegrarmo-nos do presente amado sem pensamentos reservados. Até agora, e sem que alguma vez houvesse orado a Zaratustra, eu tinha sido de facto uma pessoa arrogante e não fora parco nem em auto-adulação nem em desprezo para com gente mais humilde.

Agora, e aos poucos, via cada vez melhor que não há fronteiras rígidas, e que no círculo dos pequenos, dos oprimidos e dos pobres, a existência não só é igualmente variada, como geralmente mais quente, mais verdadeira e exemplar que a dos favorecidos pela sorte e os grandes.

Eu regressei a Basileia precisamente a tempo de participar na primeira recepção em casa de Elisabete, entretanto casada. Eu estava bem disposto, ainda fresco e moreno da viagem, e trazia inúmeras pequenas recordações caricatas. A bela mulher tinha gosto em me distinguir com uma delicada confiança, e todo o serão me alegrei com a minha sorte que, em tempos, me poupou a um pedido de casamento tardio. É que apesar das experiências feitas em Itália, eu tinha ainda uma leve desconfiança ante as mulheres, como se elas tivessem um secreto prazer nos tormentos sem esperança dos homens por elas enamorados. Uma pequena história da vida escolar infantil que em tempos ouvi da boca de um rapaz de cinco anos, servia-me de ilustração viva de uma situação igualmente humilhante. Na escola infantil em que andava, reinava um uso estranho e simbólico. Se um rapaz tivesse cometido alguma grande falta e, por isso, devessem chegar-lhe a roupa ao pêlo, ordenava-se a seis meninas que segurassem o transgressor sobre o banco, na desagradável posição necessária à aplicação daquele correctivo. Como o facto de poder segurar era considerado um grande prazer e elevada honra, eram sempre as seis raparigas mais bem comportadas que participavam no cruel prazer daquele temporário prodígio de virtude. Esta engraçada história infantil deu-me que pensar, e chegou mesmo a introduzir-se algumas vezes nos meus sonhos, de forma que, ao menos por experiência onírica, sei como uma pessoa se pode sentir desditosa em tal situação.

 

Ante os meus escritos, como sempre acontecera, eu não sentia respeito algum. Eu podia viver do meu trabalho, pôr de lado pequenas economias e, de vez em quando, enviar até algum dinheiro a meu pai. Contente, ele levava-o para a taberna, cantava ali os meus louvores em todos os tons e pensava mesmo em prestar-me algum serviço como paga. Eu dissera-lhe, certa vez, que ganhava o meu pão principalmente com artigos em jornais. Ele considerava-me um redactor ou correspondente, como os têm os jornais dos distritos rurais, e por três vezes ditou cartas paternais dirigidas a mim, nas quais me comunicava acontecimentos que lhe pareciam importantes e que julgava me dariam assunto e trariam dinheiro. Uma vez foi um incêndio num palheiro, depois a queda de dois turistas nos montes, e o terceiro a eleição de um regedor. Estas narrativas estavam já redigidas num estilo jornalístico, de sabor grotesco, e trouxeram-me verdadeira alegria, porque eram sinal de uma ligação de amizade entre ele e eu e, desde há anos, as primeiras cartas recebidas da terra. Agradaram-me também como involuntário escárnio dos meus escritos; porque, mês após mês, eu discutia certos livros cuja publicação ficava muito aquém daqueles acontecimentos rurais, tanto em importância como em consequências.

Surgiram precisamente naquela altura duas obras de autores que eu conhecera em Zurique como jovens líricos extravagantes. Um deles vivia agora em Berlim e sabia retratar muita podridão que ia pelos cafés e bordéis da grande cidade. O outro tinha construído para si, nas proximidades de Munique, um sumptuoso eremitério, e vacilava, abjecto e desesperado, entre introspecções neurasténicas e excitações espiritistas.

Eu tinha de fazer a crítica aos livros, e naturalmente que pus ambos a ridículo, sem segundas intenções. Do neurasténico, chegou-me uma carta desdenhosa, num estilo verdadeiramente principesco. Pelo contrário, o berlinense fez escândalo num jornal, achou-se incompreendido na sua verdadeira intenção, invocou Zola, e a partir da minha crítica incompreensiva, invectivou-me não apenas a mim, mas ao espírito presumido e prosaico dos suíços. O homem tinha tido então, em Zurique, talvez o único período de algum modo saudável e digno da sua vida literária. E sendo certo que eu não era um grande patriota, aquilo pareceu-me berlinense em demasia, e respondi ao descontente com uma longa epístola na qual, no meu desdém, não deixei de dizer certas verdades aos inchados modernistas das grandes cidades.

Esta querela fez-me bem e forçou-me a debruçar de novo sobre a minha concepção da vida cultural moderna. O esforço foi penoso e demorado, e apresentava poucos resultados compensadores. O meu livro nada perde por não falar dele.

Ao mesmo tempo, contudo, estas meditações forçaram-me a pensar profundamente sobre mim próprio e o trabalho da minha vida longamente planeado.

Como é sabido, eu tinha o desejo de, num poema de vulto, mostrar aos homens actuais e tornar-lhes querida a generosa e silenciosa vida da natureza. Queria ensiná-los a escutar o pulsar da terra, a participar na vida do todo e, na pressão da sua vida mesquinha, não esquecer que não somos deuses criados por nós mesmos, mas filhos e parte integrante da terra e do todo cósmico. Queria recordar que, tal como os cantos dos poetas e os sonhos das nossas noites, também as correntes, os mares, as nuvens que correm e as tempestades, são símbolos e depositários daquela aspiração que estende as suas asas entre o céu e a terra, cujo objectivo é a indubitável certeza do direito de cidadania e da impericibilidade de tudo quanto vive. O núcleo mais íntimo de cada ser está ciente destes direitos, é filho de Deus e repousa sem temor no seio da eternidade. Pelo contrário, tudo quanto em nós trazemos de mau, doente e corrupto, contradi-lo e crê na morte.

Mas eu queria também ensinar os homens a, através do amor fraterno à natureza, encontrar a fonte da alegria e as torrentes da vida; queria pregar a arte do contemplar, do caminhar, do fruir, pregar o gozo pelo presente.

Queria fazer as montanhas, mares e ilhas verdejantes falar-vos numa linguagem aliciantemente poderosa, e queria forçar-vos a ver que vida incomensuravelmente múltipla e viçosa floresce diariamente e jorra fora de vossas casas e cidades. Eu queria conseguir que vos envergonhásseis de saber mais das guerras estrangeiras, da moda, aplausos, literatura e artes, do que da primavera desdobrando o seu indómito brotar ante vossas cidades, do que da corrente fluindo sob vossas pontes, e do que das florestas e maravilhosas campinas através das quais corre o vosso comboio. Queria narrar-vos a corrente dourada de prazeres inesquecíveis que eu, solitário e desajeitado para a vida, encontrara neste mundo, e queria que vós, talvez mais felizes e alegres que eu, com maior alegria ainda, descobrísseis este mundo.

E queria, principalmente, depositar nos vossos corações o belo mistério do amor. Eu esperava ensinar-vos a serdes verdadeiros irmãos de tudo quanto vive, tão repletos de amor, que não receásseis já nem a dor nem a morte, mas que, como verdadeiras irmãs, as recebêsseis verdadeira e fraternalmente quando elas se aproximassem de vós.

Tudo isto, eu esperava apresentá-lo não em hinos e em altos cânticos, mas com simplicidade, veracidade e objectividade, com seriedade e graça, tal como, ao regressar, um caminhante fala aos seus camaradas do exterior.

Eu queria - eu desejava - eu esperava - tudo isto parece agora efectivamente ridículo. Eu esperava ainda o dia em que, para este querer, se formasse um plano e um esboço. Mas, pelo menos, eu recolhera muitas coisas. Não só na cabeça, mas também numa série de pequenos livrinhos que trazia no bolso em viagens e caminhadas, dos quais todos os quinze dias um ficava cheio. Ali, eu escrevera notas curtas e resumidas sobre tudo o que é visível no mundo, sem reflexões nem ligação entre si. Eram cadernos de esboços como os de um desenhador e, em curtas palavras, continham imensas coisas reais: imagens de ruelas e estradas, silhuetas de montanhas e cidades, conversas entre camponeses, moços artífices, vendedeiras de mercado, a par de observações sobre o tempo, notas sobre luminosidades, ventos, chuvas, rochas, plantas, animais, o voo das aves, a formação de ondas, o jogo de cores no mar e formas das nuvens. Uma vez por outra, construíra a partir delas também curtas histórias que publicara, como estudos da natureza e de caminhos, todavia, tudo sem ligações ao humano.

Para mim, a história de uma árvore, a vida de um animal ou a viagem de uma nuvem era suficientemente interessante, mesmo sem adornos humanos.

A ideia de que um grande poema em que não entrassem absolutamente nenhumas figuras humanas era um absurdo, já me tinha passado diversas vezes pela cabeça, todavia, persegui anos a fio este ideal, e acalentava a obscura esperança de que talvez um dia uma grande inspiração viesse a superar este impossível. Agora, eu reconhecia definitivamente que tinha de povoar as minhas belas paisagens de pessoas, e que estas jamais poderiam ser representadas com suficiente naturalidade e fidelidade. Aqui, havia imenso a recuperar, e ainda hoje continuo a recuperar neste aspecto. Até então, os homens em geral haviam sido um todo e, no fundo, estranhos para mim. Recentemente, aprendi como vale a pena, em vez de uma humanidade abstracta, conhecer e estudar indivíduos, e encher o meu livrinho de notas e a minha memória com imagens inteiramente novas.

O início destes estudos foi muito agradável. Saí da minha tola indiferença e ganhei interesse por diversas pessoas. Vi quantas coisas evidentes me tinham escapado, mas reconheci também como o muito caminhar e olhar me haviam aberto e aguçado o sentido da observação. E como desde sempre uma predilecção me impelia para as crianças, eu dava-me com elas com especial prazer e frequência.

Ainda assim, a observação das nuvens e ondas foi mais agradável que o estudo dos homens. Com espanto, apercebi-me de que o homem se diferencia da restante natureza, especialmente por uma escorregadiça gelatina de mentira que o envolve e protege. Em breve observei em todos os meus conhecidos este mesmo fenómeno: o resultado da circunstância de cada qual ser forçado a representar uma personalidade, uma figura nítida, enquanto, de facto, nenhum conhece o mais fundo do seu ser. Com estranhos sentimentos, reconheci o mesmo em mim próprio, e desisti então de pretender penetrar no fundo das pessoas. Na maioria delas, a gelatina era muito mais importante. Deparei com ela por toda a parte, até nas crianças que sempre, consciente ou inconscientemente, preferem representar um papel a apresentar-se inteiramente sem reservas e instintivamente.

Ao cabo de algum tempo, pareceu-me que não fazia já quaisquer progressos e me perdia em jogos de minúcia.

Primeiro, procurei a falha em mim próprio, mas em breve não podia já ocultar-me que estava desiludido e que o meu meio envolvente me não oferecia as pessoas que eu procurava. Não precisava de pessoas interessantes, mas de tipos. E isto, nem o grupo dos académicos nem o círculo das gentes de sociedade me ofereciam. Com saudade, pensei em Itália, e com saudade recordei os poucos amigos e companheiros nas minhas caminhadas, os artífices. Eu caminhara muito na sua companhia, e encontrara entre eles muitos moços excelentes.

Seria inútil procurar a pensão da minha terra e algumas espeluncas. A multidão dos errantes não me servia. E assim, fiquei uma vez mais indeciso por algum tempo, chegava-me às crianças e estudava muito pelas tabernas, onde, claro está, nada havia que buscar. Vieram algumas semanas tristes em que perdia a confiança em mim, achava ridículas e descomedidas as minhas esperanças e desejos, andava muito ao ar livre e queimava noites no vinho.

Sobre as minhas mesas, haviam-se acumulado nessa altura algumas pilhas de livros que gostaria de conservar, em lugar de os deixar no antiquário; no entanto, não havia já lugar nos meus armários. Como solução, dirigi-me a uma pequena carpintaria e pedi ao mestre que fosse a minha casa para fazer as medições para uma estante.

Ele veio, um homem pequeno, calmo, de gestos compassados, mediu a sala, ajoelhou no chão, estendeu o metro até ao tecto; deitava um pouco de cheiro a cola, e anotava, número após número, com algarismos garrafais, no seu bloco de notas. Sucedeu por um acaso que, ao mover-se, embateu num cadeirão cheio de livros. Caíram alguns volumes e ele curvou-se para os apanhar. Entre os livros, havia um pequeno léxico da gíria dos artífices. O pequeno volume cartonado pode encontrar-se em quase todos os albergues para artífices, um livrinho bem feito e delicioso.

O carpinteiro, quando viu o volumezinho que bem conhecia, virou-se para mim com olhar curioso, meio divertido, meio desconfiado.

- O que há? - perguntei.

- Com a sua licença, vejo ali um livrinho que também eu conheço. Estudou aquilo realmente?

- O que eu estudei foi a linguagem dos bandidos, pelas estradas - respondi. - Mas, uma vez por outra, gosta-se de ir procurar uma expressão.

- Não me diga! - exclamou ele. - Então, o senhor também andou na vadiagem?

- Não assim como está a pensar. Mas caminhadas, fiz muitas, e pernoitei em certas espeluncas.

Entretanto, havia empilhado de novo os livros e fazia menção de ir.

- Por onde é que andou a trabalhar no seu tempo? - perguntei-lhe.

- Daqui até Coblença e, mais tarde, até Génova, lá em baixo. Não foram os piores tempos da minha vida.

- Também esteve preso?

- Uma vez apenas, em Durlach.

- Tem de me contar isso, se lhe agradar. Podemos encontrar-nos para um copo?

- Isso não me agrada, senhor. Mas se um dia, após o trabalho, quiser ir ter comigo e me perguntar - como vai a vida? - cá por mim está bem. Isto, se a sua intenção não for apenas vexar-me.

Alguns dias mais tarde, havendo recepção em casa de Elisabete, parei na rua a pensar se não seria preferível ir ter com o meu carpinteiro. Voltei para trás, deixei em casa a sobrecasaca, e fiz uma visita ao carpinteiro. A oficina estava já fechada e escura, eu tropecei ao longo de um corredor escuro e um pátio estreito, trepei a escada das traseiras acima e abaixo e, por fim, encontrei numa porta um letreiro com o nome do mestre. Ao entrar, vi-me de imediato numa cozinha muito pequena, onde uma mulher franzina preparava a ceia e ao mesmo tempo tinha de vigiar três crianças que enchiam a apertada divisão de vida e grande algazarra. Surpresa, a mulher conduziu-me à salita seguinte onde o carpinteiro, sentado à janela, lia o jornal à luz do crepúsculo. Ele resmungou desagradado quando, na penumbra, me tomou por um cliente importuno, mas depois reconheceu-me e estendeu-me a mão.

Como ele ficara surpreendido e embaraçado, dirigi-me às crianças; fugiram de mim para a cozinha, e eu segui-as. E ao ver ali a dona de casa a preparar uma refeição, acordaram em mim as recordações da cozinha da minha padrona úmbrica, e auxiliei no cozinhado. Entre nós, usualmente, o belo arroz é impiedosamente cozido até formar uma espécie de grude, que não sabe a absolutamente nada e é repelente. Também aqui o desastre estava a caminho, e eu apenas consegui salvar a refeição no último momento; precipitando-me para a panela e a escumadeira, prontamente tomei eu mesmo conta da confecção.

A mulher acedeu, espantada, o arroz ficou aceitável, servimo-lo, acendemos o candeeiro e também eu recebi o meu prato.

Nessa noite, a mulher do carpinteiro envolveu-me em conversas tão minuciosas acerca de questões de cozinha, que o marido quase não pôde tomar a palavra, e tivemos de protelar a narrativa das suas aventuras de caminheiro para uma outra vez. Aliás, estas gentes em breve sentiram que só exteriormente eu era um senhor e, no fundo, filho de camponês, descendente do povo humilde; logo na primeira noite, ficámos amigos e confidentes. É que, tal como eles reconheceram em mim uma pessoa de igual nascimento, também eu pressenti na humilde vida caseira a atmosfera cálida das gentes simples. Aqui, as pessoas não tinham tempo para finezas, para poses, para comédias, para eles, mesmo sem o manto da erudição e interesses superiores, a vida agreste e pobre era amável e boa em demasia para ser atapetada com belos discursos.

Regressei com cada vez maior frequência e, junto do carpinteiro, esqueci não apenas as nojentas questões de sociedade como também a minha tristeza e infortúnios. Sentia como se encontrasse aqui um pouco de infância preservada para mim, e continuei aqui aquela vida que em tempos os padres haviam interrompido, quando me enviaram para as escolas.

Sobre um mapa amarelado pelo suor e ameaçando desfazer-se, o carpinteiro seguiu comigo as suas e as minhas viagens, e sentíamos alegria por cada porta de cidade e cada rua que ambos conhecíamos, reavivámos as anedotas dos artífices e, certa vez, cantámos até várias das sempre jovens canções dos caminheiros. Conversámos acerca dos problemas do trabalho dos artífices, da manutenção da casa, das crianças, de coisas da cidade e, aos poucos, sucedeu que o mestre e eu, lentamente, trocávamos de papel, que eu era o devedor e ele quem oferecia e ensinava. Aliviado, sentia que aqui, em lugar das músicas dos salões, me envolviam realidades.

Entre os filhos dele, havia uma menina de cinco anos que sobressaía pela sua delicada singularidade. O seu nome era Agnes, mas chamavam-lhe Agi, era loura, pálida e de membros franzinos, tinha olhos muito grandes e assustadiços e possuía uma suave timidez. Certo domingo em que eu queria ir buscar a família para dar um passeio, Agi estava doente.

A mãe ficou junto dela, e nós caminhámos lentamente até fora da cidade. Por detrás de Santa Margarida, sentámo-nos num banco; as crianças corriam em busca de pedras, flores e escaravelhos, e nós, homens, olhávamos os prados estivais, o cemitério de Binning e a bela cadeia azulada dos Jura. O carpinteiro estava fatigado, deprimido e silencioso, e parecia preocupado.

- Que há, mestre? - perguntei, quando as crianças estavam a distância suficiente.

Ele olhou-me face a face, vago e triste.

- Não vê? - começou ele. - A Agi quer-me morrer. Já sei isso há muito, e admirei-me de ter chegado a esta idade, que ela sempre trouxe a morte nos olhos. Mas agora temos de a aceitar.

Comecei a consolá-lo, mas em breve acabei por desistir.

- Bem vê - riu ele tristemente - nem você mesmo acredita que a criança se venha a salvar. Não sou nenhum beato, sabe, e só vou à igreja quando o rei faz anos, mas sinto bem que agora, o Senhor quer ter uma conversinha comigo. Ela não passa de uma criança, e nunca foi saudável, mas Deus sabe quanto eu lhe queria mais do que aos outros dois juntos.

Com gorgeios e mil perguntas, as crianças chegaram a correr, rodearam-me, pediram que lhes dissesse os nomes das flores e das ervas e, por fim, quiseram que lhes contasse histórias. Expliquei-lhes então que as flores, as árvores e arbustos, tal como as crianças, também têm cada um a sua alma e o seu anjo. O pai também escutava e, aqui e além, dava em voz baixa a sua anuência. Vimos os montes tornarem-se mais azuis, escutámos as Avé-Marias da tarde e regressámos a casa. Sobre os prados, estendia-se uma neblina avermelhada, as longínquas torres das catedrais erguiam-se, pequenas e delgadas, na atmosfera quente, o azul estival do céu passava a uma cor esverdeada e dourada, as árvores lançavam longas sombras. Os pequenos estavam fatigados e mantinham-se silenciosos. Pensavam nos anjos das papoilas, dos cravos e das campainhas, enquanto que nós, os mais velhos, pensávamos na pequena Agi, cuja alma estava prestes a tomar asas e a deixar-nos a nós, pequeno rebanho temeroso.

Nas duas semanas seguintes, tudo correu bem. A menina parecia curar-se, conseguia deixar a cama por horas e nas suas almofadas frias parecia mais linda e bem disposta que nunca. Seguiram-se algumas noites febris, e vimos então, sem tornar a falar nisso, que a criança só por mais algumas semanas ou dias continuaria a ser nosso hóspede. Apenas uma vez o seu pai voltou a tocar no assunto. Foi na oficina. Vi-o remexer na sua reserva de tábuas, e soube desde logo que ele tinha intenção de procurar algumas para um caixão de criança.

- Tem de se fazer rápido - disse ele - e prefiro fazê-lo sozinho, depois de fechar.

Sentei-me sobre um dos bancos de trabalho, enquanto ele trabalhava no outro. Depois de as tábuas estarem bem aplainadas, mostrou-mas com uma espécie de orgulho. Era uma bela madeira de abeto, sã e sem defeito.

- Também não quero pregar-lhe nenhum prego, mas emarchetar bem as peças, para ficar uma boa peça duradoira. Mas por hoje basta, vamos lá para cima ter com a minha mulher.

Os dias corriam, quentes, fabulosos dias de Verão, e todos os dias eu passava uma ou duas horas sentado junto da pequena Agi, falava-lhe dos belos prados e florestas, segurava-lhe a mão infantil, leve e delgada, na minha mão larga, e aspirei com toda a alma o querido e leve encanto que, até ao último dia, se manteve em torno dela.

Depois permanecemos de pé, receosos e tristes, observando como o pequeno e frágil corpo, uma vez mais, recobrava forças para lutar contra a potente morte, que rápida e facilmente a venceu. A mãe manteve-se silenciosa e forte; o pai debruçava-se sobre a armação da cama e despediu-se um cento de vezes, afagando os cabelos louros e acariciando a sua predilecta falecida.

Veio a cerimónia simples e curta do funeral, e os serões de angústia em que as crianças choravam nas suas camas ali ao lado. Vieram os belos passeios ao cemitério em que plantávamos flores sobre o túmulo fresco e, juntos, sem conversar, nos sentávamos no banco nas alas frescas, a pensar na Agi, e com outros olhos, observávamos a terra onde jazia a nossa querida, e as árvores e a relva que sobre ela cresciam, e os pássaros cujo canto alegre e descontraído soava pelo cemitério.

A par disto, decorria o árduo dia de trabalho, as crianças cantavam de novo, bulhavam entre si, riam e queriam escutar histórias, e todos nos habituámos, sem o notar, a não mais ver a nossa Agi e a ter no céu um belo anjinho.

Enquanto isto, eu não mais visitara a casa do professor, e poucas vezes a casa de Elisabeth, onde o tíbio fluir das conversas me deixava desconcertado e opresso.

Eu procurei ambas as casas e em ambas deparei com portas cerradas, porque há muito que todos tinham partido para o campo. Só agora notava com espanto que, devido à amizade com a família do carpinteiro e a doença da criança, esquecera de todo a estação quente e as férias. Antes, ter-me-ia sido de todo impossível permanecer na cidade durante os meses de Julho e Agosto.

Despedi-me por pouco tempo, e encetei uma caminhada a pé pela Floresta Negra, Bergstrasse e Odenwald. Pelo caminho, encontrei um prazer inusitado em enviar aos filhos do carpinteiro, em Basileia, postais ilustrados de lugares bonitos, e imaginar por toda a parte como, mais tarde, lhes contaria a viagem, a eles e ao pai.

Em Francoforte, decidi fazer mais alguns dias de viagem. Em Aschaffenburg, Nuremberga, Munique e Ulma, apreciei com prazer renovado as obras de arte antiga e, por fim, fiz ainda uma paragem inteiramente inocente em Zurique. Até aqui, todos estes anos evitara esta cidade como um túmulo, agora, deambulava pelas ruas conhecidas, visitei as antigas tabernas e jardins e, sem dor, pensei nos belos anos decorridos. A pintora Aglietti tinha casado e deram-me o seu endereço. Pelo serão, fui lá, li à porta o nome do marido, levantei o olhar para as janelas, e hesitei entrar. Nesse momento, os velhos tempos começaram a avivar-se em mim, e o meu amor da juventude semidespertou do seu sono com uma leve dor. Voltei costas, e não destruí em mim a bela imagem da bem-amada mulher romanda com um reencontro inútil. Continuando as deambulações, visitei o jardim do lago onde, naquele tempo, os artistas haviam dado a sua festa, ergui os olhos para a casita em cuja mansarda eu habitara três curtos e belos anos e, acima de todas as recordações, aflorou aos meus lábios, inopinadamente, o nome de Elisabete. O novo amor era de facto mais forte que os seus irmãos mais velhos. Era também mais calmo, mais modesto e grato.

Para preservar a minha boa disposição, tomei um barco e remei com deleitosa lentidão sobre o lago quente e luminoso. Estava a entardecer e no céu havia uma única nuvem branca de neve. Mantive-a continuamente no meu olhar e acenei-lhe, pensando no amor pelas nuvens da minha infância e em Elisabete, e ainda naquela nuvem pintada de Segantini, diante da qual vira certa vez Elisabete, tão bela e extasiada. Esse amor para com ela, nunca turvado por qualquer palavra ou desejo impuro, jamais o havia sentido tão afortunado e purificador como agora, em que, olhando a nuvem, calmamente e grato, eu via todo o bem na minha vida, e em lugar dos antigos tumultos e paixões, sentia apenas a velha ânsia dos tempos de criança - também ela mais amadurecida e calma.

Desde sempre me habituara a acompanhar com uma melodia ou canção, o calmo ritmo do bater dos remos. Também agora eu cantava baixinho de mim para mim, e só ao cantar notei que eram versos. Ficaram-me na memória, e em casa escrevi-os, como recordação do belo serão do lago em Zurique.

 

         Como uma nuvem branca

         no alto céu se queda,

         tão clara, bela e longe

         estás tu, Elisabete.

         A nuvem vai, caminha

         mal tu a apercebeste

         e logo nos teus sonhos

         vai pela noite agreste.

 

         Vai e brilha tão serena

         que d'então e sem repouso

         terás pela nuvem branca

         um doce anelo ditoso.

 

Em Basileia, encontrei uma carta de Assis para mim. Era da senhora Annunziata Nardini, e vinha repleta de boas notícias. Ela sempre acabara por encontrar um segundo marido! Aliás, melhor será eu apresentá-la inalterada.

 

             Digníssimo e muito caro Senhor Peter!

Permita que a sua fiel amiga tome a liberdade de lhe escrever uma carta. Aprouve a Deus oferecer-me uma grande felicidade, e desejo convidá-lo para o dia doze de Outubro para o meu casamento.

Ele chama-se Menotti e tem pouco dinheiro, mas ama-me muito e já antes comerciou frutas. É bonito, mas não tão alto como o senhor Peter. Ele irá vender fruta na Piazza, e eu fico na loja. A linda Marietta do vizinho casará também, mas com um pedreiro estrangeiro.

Todos os dias pensei em si e falei de si a muitas pessoas. Tenho-lhe grande afecto e também ao santo ao qual acendi quatro velas em sua memória. Também Menotti terá muito gosto em que venha ao casamento. Se ele for antipático para consigo, proibir-lho-ei. Infelizmente, confirmou-se que o pequeno Mateo Spinelli era, de facto, como eu sempre disse, um malvado. Ele roubou-me várias vezes limões. Agora, levaram-no porque roubou doze liras ao seu pai, o padeiro, e porque envenenou o cão do mendigo Giangiacomo.

Desejo para si a bênção de Deus e do santo. Tenho grandes saudades suas.

A vossa serva e fiel amiga

       Annunziata Nardini.

 

P.S.

A nossa colheita foi razoável. As uvas estiveram muito más e pêras também não as houve suficientes; os limões foram muito abundantes, mas tivemos de vendê-los muito baratos. Em Spello, sucedeu uma desgraça terrível. Um homem novo matou o irmão com um ancinho, não se sabe porquê; na certa teria inveja dele, apesar de ser seu irmão.

 

Infelizmente, não pude aceitar o sedutor convite. Enviei-lhe as minhas felicitações e perspectivei a minha visita para a Primavera seguinte. Depois, com a minha carta e a prenda para as crianças que trazia de Nuremberga, fui ter com o meu mestre carpinteiro.

Ali, encontrei uma grande e inesperada alteração. Afastado da mesa, junto à janela, uma figura humana grotesca e retorcida estava sentada sobre um assento que, como uma cadeira para crianças, estava munida de um parapeito. Era Boppi, o irmão da mulher do mestre, um pobre estropiado meio paralítico, para quem, após a morte recente da sua velha mãe, não se encontrara lugar em sítio algum. Contra vontade, o carpinteiro recebera-o em sua casa provisoriamente, e a constante presença do doente estropiado pairava como um pavor sobre a vida doméstica perturbada. Ninguém se havia ainda habituado a ele; as crianças tinham medo, a mãe sentia compaixão, constrangimento e opressão, e o pai estava manifestamente desagradado. Sobre uma feia corcunda dupla, sem pescoço, Boppi tinha uma cabeça de contornos maciços, com uma fronte larga, um nariz adunco e uma bela boca sofredora; os olhos eram límpidos mas parados e um pouco temerosos, e as mãos, notavelmente pequenas e belas, estavam brancas e quietas, constantemente poisadas sobre o parapeito. Também eu fiquei perturbado e indisposto por causa do pobre intruso e, ao mesmo tempo, senti-me pouco à vontade por ouvir o carpinteiro contar a curta história do doente, estando ele sentado ali ao lado, olhando as mãos, sem que ninguém lhe falasse. Estropiado fora ele desde a nascença, contudo, tinha feito a escola e, durante anos, pôde ser de alguma utilidade como empalhadeiro, até que crises sucessivas de artrite o paralisaram parcialmente. Há muito tempo que se mantinha ou na cama ou na sua estranha cadeira, apoiado entre almofadas. A mulher pretendia saber que, em tempos, ele cantara de si para si, mas há anos que já não o ouvia e, ali em casa, nunca havia cantado. E enquanto tudo isto era contado e discutido, ele estava sentado ali, com um olhar fixo. Não me senti à vontade, e em breve saí de novo; nos dias seguintes, mantive-me afastado da casa.

Toda a minha vida eu fora forte e saudável, nunca tivera uma doença séria, e olhara sempre com compaixão os enfermos, especialmente os estropiados, mas também com um certo desprezo; agora, não me agradava nada encontrar a minha vida pacata e feliz na família do artífice, perturbada pelo incómodo peso desta existência miserável. Por isso, protelei uma segunda visita de dia para dia, e em vão cogitava como poderíamos ver-nos livres do paralítico Boppi. Devia haver alguma possibilidade de, com baixos custos, o internar num hospital ou hospício. Por diversas vezes quis procurar o carpinteiro para lhe falar sobre o assunto, mas sentia vergonha de encetar essa conversa sem ser questionado, e do encontro com o doente, tinha um asco pueril. Sentia horror de vê-lo constantemente e de lhe ter de estender a mão.

E assim deixei passar um domingo. No segundo domingo, estava já pronto a fugir para o Jura no comboio da manhã, mas acabei por me envergonhar da minha cobardia e fiquei, e após a refeição, fui a casa do carpinteiro.

Foi com repulsa que estendi a mão a Boppi. O carpinteiro estava irritável e propôs que déssemos um passeio; conforme me contou, estava farto daquela permanente miséria, e alegrei-me de o ver aberto às minhas propostas. A mulher queria ficar, mas o aleijado pediu-lhe que fosse, porque bem podia ficar só. Bastava ter a seu lado um livro e um copo de água, e poderíamos deixá-lo fechado em casa, inteiramente descansados.

E nós, que nos considerávamos todos gente decente e de bom coração, deixámo-lo fechado em casa e fomos passear! Andávamos contentes, fizemos as nossas brincadeiras com as crianças, gozámos do belo sol outonal dourado, e nenhum de nós se envergonhou e a nenhum se apertou o coração por ter deixado o paralítico sozinho em casa! Estávamos, sim, contentes por, durante algum tempo, nos vermos livres dele; respirámos aliviados o ar límpido e quente do sol, dando a impressão de sermos uma família grata e íntegra, que goza do domingo do Senhor com compreensão e gratidão.

Somente quando já havíamos entrado na pensão do Corno, em Grenzach, para tomar um copo de vinho, e nos encontrávamos sentados à mesa, é que o pai falou de Boppi. Queixava-se do hóspede importuno, suspirava por causa da exiguidade e o aumento das despesas em sua casa, e terminou rindo com o comentário:

- Aqui fora, enfim, podemos estar em paz pelo menos uma hora, sem que ele nos mace!

Com esta frase irreflectida, eu vi de súbito o pobre paralítico ante mim, implorante e sofrendo, aquele a quem não queríamos, de quem intentávamos livrar-nos e que, agora, abandonado e encerrado por nós, só e triste, ficara sentado no quarto que escurecia. Recordei que em breve cairia o lusco-fusco, e ele não seria capaz de acender a luz ou aproximar-se mais dela. E então, poria o livro de lado, e teria de ficar na semi-escuridão, só, sem uma conversa ou ocupação para o seu tempo, enquanto nós, aqui, bebíamos vinho, nos ríamos e divertíamos. E recordo como, em Assis, eu falara aos vizinhos de São Francisco, e como me vangloriara de que ele me havia ensinado a amar todos os homens. Para que tinha estudado a vida do santo e aprendido de cor o seu maravilhoso cântico do amor, procurado os seus vestígios nas colinas úmbricas, se agora um pobre homem indefeso jazia para ali, sofrendo, quando eu sabia disso e podia confortá-lo?

A mão de um poder invisível poisou sobre o meu coração, comprimiu-o e encheu-o de tanta vergonha e dor, que eu vacilei e sucumbi. Sabia que, agora, Deus queria dizer-me umas palavras.

- Ó poeta! - dizia ele - tu, o discípulo do úmbrio, tu, o profeta que pretende ensinar e dar a felicidade aos homens! Ó sonhador que pretendes escutar a minha voz nos ventos e correntes! Tu amas uma casa - continuava ele - onde as pessoas são amáveis para contigo, onde passas horas aprazíveis! E no preciso dia em que essa casa se tornava digna da minha entrada, tu foges e pensas em expulsar-me! Ó santo! Ó profeta! Ó poeta!

Sentia-me como se tivesse sido colocado diante de um espelho límpido, verdadeiro, e me visse ali como um mentiroso, um fanfarrão, como um cobarde e perjuro. Isto dói, isto é amargo, torturante e terrível; mas aquilo que em mim se desmoronava e sofria tormentos e se revoltava de ferido, isso merecia desmoronar-se e ser arruinado.

Com brusquidão e pressa, despedi-me, deixei o vinho no copo e o pão partido sobre a mesa, e regressei à cidade. Na minha excitação, sentia-me mortificado pelo pavor insuportável de que se teria dado algum desastre. Poderia ter deflagrado o fogo, o pobre Boppi poderia ter caído da cadeira, jazer no chão com dores ou mesmo morto. Via-o estendido, julgava-me a seu lado obrigado a ver a silenciosa acusação no olhar do aleijado.

Ofegante, alcancei a cidade e a casa, precipitei-me pela escada acima, e só então me veio à ideia que estava diante da porta fechada e não possuía nenhuma chave. Mas logo afastei o meu medo. É que, antes ainda de alcançar a porta da cozinha, escutei lá dentro um cantar. Foi um momento estranho. Com o coração a bater e completamente esbaforido, encontrava-me de pé sobre o negro lance das escadas e, acalmando-me lentamente, escutava o cantar do paralítico encerrado. Ele cantava em voz baixa, branda e um pouco dolente, uma canção popular de amor, sobre «A florzinha branca e vermelha». Eu sabia que há muito ele não cantara, e agora sentia-me sensibilizado por estar a escutá-lo, no momento em que ele aproveitava aquela hora sossegada para, de novo e à sua maneira, se alegrar.

E é realmente assim: a vida gosta de colocar o ridículo a par de acontecimentos sérios e emoções profundas. Também eu senti ao mesmo tempo o ridículo e humilhante da minha situação. O meu medo súbito levara-me a correr uma hora pelos campos fora até aqui para, agora, sem chave, ficar diante da porta da cozinha. Ou me ia embora de novo, ou teria de gritar ao paralítico as minhas boas intenções através de duas portas fechadas. Ali estava eu sobre a escada, com o meu propósito de consolar aquele pobre, manifestar-lhe compaixão e ajudá-lo a passar o tempo, e ele, sem nada suspeitar, lá dentro a cantar; e certamente teria ficado apenas assustado se eu manifestasse a minha presença batendo à porta ou gritando. Nada mais me restava que ir-me de novo. Vagueei durante uma hora pelas ruas, com o movimento domingueiro, e encontrei depois a família já em casa. Desta vez, nada me custou estender a mão a Boppi. Sentei-me a seu lado, comecei uma conversa e perguntei-lhe o que havia lido. Oferecer-lhe leituras, era uma coisa de todo natural, e ele ficava grato por isso. Quando lhe recomendei Jeremias Gotthelf, descobri que conhecia quase todos os seus escritos. No entanto, Gottfried Keller era-lhe ainda desconhecido, e prometi emprestar-lhe os seus livros.

No dia seguinte, quando trouxe os livros, tive oportunidade de ficar a sós com ele, porque a mulher queria sair e o homem se encontrava na oficina. Então, confessei-lhe quanto me envergonhava de, no dia anterior, tê-lo deixado só, e que muito me agradaria poder sentar-me, uma vez por outra, junto dele e ser seu amigo.

O pequeno aleijado voltou um pouco a enorme cabeça para mim, olhou-me e disse:

- Obrigado.

E foi tudo. Mas este movimento da cabeça custara-lhe esforço e, assim, tinha muito maior valor que dez abraços de alguém saudável, e o seu olhar era tão claro e infantilmente belo que, de vergonha, o sangue me aflorou ao rosto.

Agora, faltava ainda o mais difícil, que era falar com o carpinteiro. Pareceu-me melhor confessar-lhe abertamente o meu medo e vergonha da véspera. Infelizmente, não me compreendeu, mas admitiu que conversássemos sobre ele. Aceitou manter o doente como hóspede dele e meu, de forma que dividíamos entre nós as poucas despesas do seu sustento, e me era dada permissão de entrar ou sair quando quisesse e considerá-lo meu irmão.

O Outono manteve-se inusitadamente quente e belo. Por isso, a primeira coisa que fiz por Boppi foi arranjar-lhe uma cadeira de rodas e, diariamente, quase sempre na companhia das crianças, levá-lo para o ar livre.

 

Foi sempre destino meu receber da vida e dos meus amigos muito mais do que podia oferecer. Com Ricardo, com Elisabete, com a senhora Nardini e com o carpinteiro, fora assim que sucedera, e agora vivia a experiência de, na idade madura e possuindo grande consciência de mim próprio, me tornar no discípulo atónito e grato de um pobre paralítico. Se realmente vier alguma vez a suceder que eu termine e entregue o meu poema há tanto iniciado, pouco haverá ali que não tenha aprendido com Boppi. Iniciou-se um tempo bom e agradável ao qual, durante toda a vida, poderei ir beber abundantemente. Foi-me concedido olhar, clara e profundamente, o íntimo de uma alma humana maravilhosa, pela qual a doença, a solidão, a pobreza e as incompreensões apenas haviam passado como leves nuvens soltas.

Todos os pequenos fardos com que amarguramos e corrompemos a vida bela e curta, a cólera, a impaciência, a desconfiança, a mentira... estas pústulas dolorosas e imundas que nos desfeiam, haviam sido consumidas neste homem em meio de dores, por um longo e profundo sofrimento. Ele não era nenhum sábio, nem santo, mas um homem cheio de compreensão e dedicação que, através de grandes e terríveis sofrimentos, aprendera a sentir-se fraco e entregar-se nas mãos de Deus sem vergonha.

Certa vez, perguntei-lhe como conseguia ele conformar-se sempre com o seu corpo dorido e sem forças.

- É muito simples - riu, afavelmente. - No fundo, é uma eterna guerra entre mim e a doença. Agora ganho uma batalha, logo perco outra, e assim continuamos a luta; por vezes, mantemo-nos ambos quietos, fazemos tréguas, acomodamo-nos um ao outro e ficamos à espreita até que um de nós se atreve de novo, e a guerra recomeça.

Até então, eu julgara sempre possuir um olhar infalível e ser bom observador. Mas também nisto Boppi se tornou um mestre admirável. Como tinha grande prazer na natureza e nos animais, eu levava-o com frequência ao jardim zoológico. Passámos ali horas deliciosas. Ao fim de pouco tempo, Boppi conhecia cada um dos animais, e como trazíamos sempre pão e açúcar, também alguns animais nos conheciam e criámos todo o tipo de amizades. Tínhamos uma predilecção especial pelo tapir, cuja única virtude é um asseio que falta ao resto da sua espécie. Em tudo o mais, achávamo-lo vaidoso, pouco inteligente, antipático, ingrato e extremamente glutão. Havia outros animais, nomeadamente o elefante, as corças e camurças, e até mesmo o grosseiro bisonte, que mostravam sempre alguma gratidão pelo açúcar recebido, quer olhando-nos confiantemente, quer deixando que eu os afagasse. Mas quanto ao tapir, nem o mais pequeno vestígio disso. Mal nos aproximávamos dele, acercava-se da rede, comia lentamente e com cuidado o que lhe oferecíamos, e afastava-se outra vez sem tugir nem mugir quando percebia que nada mais tínhamos para lhe dar. Encontrámos nisso um sinal de orgulho e carácter, e como ele nem pedia nem agradecia o que lhe destinávamos, senão que o recebia jovialmente como um tributo natural, chamámos-lhe o cobrador de impostos. Como Boppi não pudesse, usualmente, dar ele mesmo o alimento aos animais, levantava-se de vez em quando uma discussão sobre se o tapir já tinha recebido o suficiente ou se teria ainda direito a mais um pedaço. Sopesávamos isso com grande pragmatismo e minúcia, como se fosse uma questão governamental. Certa vez, tínhamos já avançado para além do tapir, quando Boppi comentou que deveríamos ter-lhe dado mais um pedaço de açúcar. Voltámos para trás, no entanto o tapir, que entretanto regressara à sua cama de palha, olhou-nos sobranceiramente e não se aproximou da rede.

- Faça o favor de desculpar, senhor glutão - gritou-lhe Boppi - acho que nos enganámos num pedaço de açúcar.

E seguimos para o elefante, que já andava de um lado para o outro, cheio de impaciência, e nos estendia a sua tromba quente e muito móvel. A este, podia o próprio Boppi dar de comer, e ele observava com infantil deleite como o gigante curvava a tromba até si, retirava o pão da palma da sua mão, e nos olhava com esperteza e amizade com o seu olhinho fiel e minúsculo.

Combinei com um guarda que, quando não tivesse tempo para ficar junto dele, poderia deixar Boppi sentado na sua cadeira de rodas no jardim, de forma que também nesses dias podia permanecer ao sol e ver os animais. Depois, ele contava-me tudo quanto tinha visto. Impressionava-o, muito especialmente, ver como o leão tratava cortesmente a sua consorte. Mal esta se deitava para repousar, ele dava ao seu eterno andar de um lado para o outro uma tal orientação, que não lhe tocava, nem a incomodava ou passava por cima dela. Mas onde Boppi se distraía mais, era junto da lontra. Não se cansava de observar as contorções nos exercícios de natação e ginástica daquele activo animal, e de se deliciar com isso, porquanto ele próprio permanecia imóvel na sua cadeira e, para cada movimento da cabeça e dos braços, tinha de fazer grande esforço.

Estava um dos mais belos dias do Outono quando contei a Boppi as minhas duas histórias de amor. Tínhamos criado uma tão grande confiança entre nós, que não podia já continuar a ocultar-lhe estas minhas experiências sem fortuna nem glória. Ele escutou com amabilidade e seriedade, sem nada dizer. Mais tarde, confessou-me o seu desejo de ver um dia Elisabete, a nuvem branca, e pediu-me que pensasse bem nisso para o caso de alguma vez a encontrarmos na rua.

Como tal não sucedesse e os dias começassem a tornar-se frios, fui ter com Elisabete e pedi-lhe que desse essa alegria ao pobre corcunda. Ela era bondosa e fez-me a vontade e, no dia aprazado, permitiu que a fosse buscar e a levasse ao jardim zoológico, onde Boppi aguardava na cadeira de rodas. No momento em que a bela e distinta dama, muito bem vestida, estendeu a mão ao aleijado e se curvou um pouco sobre ele, e em que o pobre Boppi, com o rosto brilhando de alegria, ergueu os olhos bondosos e quase ternos para ela, eu não seria capaz de decidir qual dos dois, naquele momento, era mais belo e mais querido ao meu coração. A dama disse algumas palavras amáveis, o corcunda não retirava o olhar brilhante dela, e eu, ali ao lado, maravilhava-me de, por um momento, ver ante mim, em tão bom entendimento, os dois seres que mais amava e cujas vidas estavam separadas por um fosso profundo. Durante toda a tarde, Boppi não falou de mais nada que não fosse Elisabete, louvava a sua beleza, a sua elegância, a sua bondade, os seus fatos, as luvas amarelas e os sapatos verdes, o seu andar e o olhar, a sua voz e o seu belo chapéu, ao passo que a mim me doeu e pareceu estranho observar como a minha amada dava uma esmola ao meu grande amigo.

Entretanto, Boppi lera «Henrique, o Verde» e «As Gentes de Seldwyl» e estava tão à vontade no mundo destes livros únicos que ambos encontrávamos grandes amigos no Pancrácio Carrancas, no Alberto Zwiehan e nos justos fazedores de pentes. Durante algum tempo, hesitei em dar-lhe ainda alguns dos livros de Conrad Ferdinand Meyer, mas pareceu-me que ele não apreciaria a precisão quase latina da sua linguagem concisa, e também tive escrúpulos em desvendar a estes olhos silenciosos o abismo da história. Em lugar disso, falei-lhe de São Francisco e dei-lhe a ler as narrativas de Moerike. Eu estranhei a sua confissão de que não teria podido apreciar grande parte da história da bela Lau, se não tivesse estado tantas vezes junto ao tanque da lontra, entregando-se, então, a inúmeras fantasias aquáticas fabulosas.

Engraçado foi como, aos poucos, acabámos por nos tratar por tu. Eu nunca lho havia proposto, e ele também não o teria aceite; assim, sucedeu que nos tratávamos naturalmente por tu com cada vez maior frequência; quando, certo dia, o notámos, sentimos vontade de rir e deixámos que assim continuasse para sempre.

Quando o Inverno, que se aproximava, tornou impossíveis as nossas saídas e eu passava de novo tardes inteiras na sala do cunhado de Boppi, apercebi-me então de que a minha nova amizade ainda me exigia sacrifícios. O carpinteiro estava sempre mal humorado, irritável e parco em palavras. Com o passar do tempo, aborreceu-o não apenas a maçadora presença do comensal inútil, como igualmente o meu comportamento para com Boppi. Chegou a suceder eu conversar animadamente uma tarde inteira com o paralítico, enquanto o dono da casa, irritado, se mantinha sentado ali ao lado a ler o jornal. E também se desentendia com a mulher, normalmente tão paciente, porque agora ela sustentava firmemente a sua vontade, e não admitia de forma nenhuma que Boppi fosse instalado noutro lugar. Por diversas vezes procurei transmitir-lhe sentimentos mais conciliadores, ou propor-lhe novos empreendimentos, mas não era possível fazer nada com ele. Começou mesmo a tornar-se mordaz, a escarnecer da minha amizade com o aleijado e a tornar difícil a vida deste. É certo que o doente e eu, que diariamente passava longo tempo junto dele, éramos um fardo pesado para a apertada economia do lar, mas continuava a alimentar esperanças de que o carpinteiro acabasse por aliar-se a nós, ganhando amizade ao doente. Por fim, já me era impossível fazer ou deixar de fazer o que quer que fosse que não magoasse o carpinteiro ou prejudicasse Boppi. E como detesto todas as decisões rápidas e prementes - já durante o período em Zurique Ricardo me apelidara de Petrus Cunctator - eu deixei passar várias semanas, sofrendo continuamente com receio de perder a amizade de algum deles ou talvez de ambos.

O mal-estar crescente desta relação dúbia levava-me com maior frequência às tabernas. Certa noite, depois de esta malfadada história me ter irritado particularmente, dirigi-me a uma pequena taberna de vinhos de Vaud e ataquei o mal emborcando vários litros. Pela primeira vez desde há dois anos, tive de novo dificuldade em ir de pé para casa. No dia seguinte, como sempre após uma grande bebedeira, eu estava de bom humor e fresco; tomei coragem e fui ter com o carpinteiro, para pôr ponto final naquela comédia. Propus-lhe que me entregasse completamente Boppi, ao que ele não mostrou desacordo e, após alguns dias de reflexão, acabou por aceder.

Pouco tempo depois, eu, mais o meu pobre corcunda, instalávamo-nos numa casa acabada de alugar. Sentia-me como se tivesse casado porque, agora, em lugar do meu habitual quarto de solteiro, eu devia iniciar uma verdadeira vida familiar a dois. Mas tudo correu bem, apesar de no início ter feito algumas experiências infelizes. Para fazer arrumações e lavar, veio uma criada; mandávamos trazer a comida a casa, e em breve ambos nos sentíamos numa convivência calorosa e acolhedora. A necessidade de renunciar futuramente às minhas caminhadas despreocupadas, as grandes e as pequenas, não me assustava por enquanto. Nos trabalhos, achava até tranquilizadora e estimulante a presença silenciosa do amigo. Os pequenos serviços prestados ao doente eram novos para mim e pouco agradáveis de início, muito especialmente o despir e vestir; mas o meu amigo era tão paciente e grato que eu me envergonhava e esforçava para o servir atenciosamente.

Poucas mais vezes eu fora a casa do meu amigo professor, mas ia à de Elisabete, cuja casa, apesar de tudo, me atraía com uma constante magia. Eu sentava-me ali, bebia chá ou um copo de vinho, e via-a fazer de anfitriã; por vezes, tinha acessos de sentimentalismo, apesar de, armado de escárnio, travar um combate permanente contra todos os eventuais sentimentos wertherianos em mim. O lânguido e juvenil egoísmo do amor, tinha-me abandonado definitivamente. Assim, a verdadeira relação era um elegante e confiante estado de guerra entre nós e, de facto, poucas vezes nos juntávamos sem que discutíssemos amigavelmente. O espírito perspicaz da inteligente mulher, um pouco esquivo à maneira feminina, não dava mal com o meu ser a um tempo enamorado e rude; e como no fundo nos estimávamos, podíamos tanto mais energicamente entrar em guerra por qualquer miudeza insignificante. Eu achava estranho nomeadamente, defender contra ela o celibato - contra a mulher com quem eu, do fundo do coração, teria casado. Podia até troçar dela e do seu marido, que era um bom rapaz, orgulhoso da sua espirituosa mulher. Em silêncio, o velho amor continuava inflamado, no entanto, não era já o antigo fogo de artifício pretensioso, mas uma brasa benéfica e duradoura, que mantém jovem o coração, e na qual o celibatário, uma vez por outra, em noites invernais, pode aquecer as mãos. Desde que Boppi estava de todo comigo e me envolvia com uma maravilhosa sabedoria e uma constante consciência de ser amado, eu podia sem perigo deixar o meu amor viver em mim como um pedaço de juventude e poesia.

Aliás, Elisabete, aqui e além, com a sua malícia muito feminina, oferecia-me ocasião para me arrefecer e, de todo o coração, alegrar-me pelo meu celibato.

Desde que o pobre Boppi partilhava comigo a minha morada, eu descurava também cada vez mais a casa de Elisabete. Com Boppi, lia livros, folheava álbuns de viagens e diários, jogava dominó; para nos distrairmos arranjámos um cão-de-água, observávamos da janela o início do Inverno, e todos os dias tínhamos imensas conversas inteligentes e tolas. O doente tinha adquirido uma excelente concepção do mundo, uma compreensão da vida realista e adoçada por um humor bondoso, na qual eu diariamente tinha algo que aprender. Quando caíram fortes nevões e, diante da janela, o Inverno desdobrou a sua mais pura beleza, criámos com um prazer infantil um acolhedor idílio caseiro junto do fogão. A arte do conhecimento humano, pela qual eu tão longamente gastara solas em vão, aprendi-a nesta altura sem dar por isso.

De facto, Boppi, como observador silencioso e perspicaz, estava repleto de imagens dos ambientes em que estivera inserido, e quando começava, sabia contar maravilhosamente. Na sua vida, o aleijado não conhecera mais de três dúzias de pessoas, nunca estivera imerso nas grandes correntes e, todavia, conhecia a vida muito melhor que eu, porque estava acostumado a ver até mesmo o mais minucioso, e em cada pessoa encontrar uma fonte de experiências, alegrias e conhecimentos.

O nosso maior divertimento, agora como antes, era o prazer no mundo animal. Com os animais do jardim zoológico que não podíamos já visitar, inventávamos agora histórias e fábulas de todo o género. Na sua maioria, não as contávamos, mas representávamo-las de improviso em diálogos. Por exemplo, uma declaração de amor entre dois papagaios, desavenças familiares entre os bisontes, conversas de serão entre javalis.

- Como tem passado, senhora Marta?

- Obrigada, senhora Raposa, vai-se vivendo. Bem sabe, quando fui capturada perdi o meu querido marido. Chamava-se Cauda de Pincel, como já tive a honra de lhe contar. Era uma pérola, asseguro-lhe, uma...

- Ah, deixe lá essas velhas histórias, senhora vizinha, já me contou isso da pérola por diversas vezes, se me não engano. Santo Deus, afinal vivemos uma vez apenas e não podemos estragar o pouco de prazer que nos cabe.

- Por favor, senhora Raposa, se tivesse conhecido o meu marido, compreender-me-ia melhor.

- Por certo, por certo. Então, ele chamava-se Cauda de Pincel, não é? É um belo nome, mesmo para afagar! Mas o que lhe queria dizer... notou, decerto como a molesta praga de pardais tem aumentado? Eu tenho um plano.

- No tocante aos pardais?

- No tocante aos pardais. Sabe, engendrei-o assim: colocamos um pouco de pão diante da rede, deitamo-nos sossegadas, e esperamos que eles apareçam. Seria o diabo, se não conseguíssemos apanhar umas bestas daquelas. Que lhe parece?

- Formidável, senhora vizinha.

- Tenha então a bondade de colocar aqui um pouco de pão... assim, óptimo! Mas talvez empurrá-lo um pouco mais para a direita, que já serve às duas. Na verdade, infelizmente, estou sem qualquer provisão.

Assim, está bem. Então, atenção! Deitamo-nos agora, e fechamos os olhos - psst, ali vem já um! (Pausa.)

Então, senhora Raposa, ainda nada?

Que impaciente que é! Como se fosse a primeira vez que anda à caça! Um caçador tem de saber esperar, esperar, e esperar mais uma vez. Portanto, vamos de novo!

Ah, mas onde está o pão?

Perdão?

O pão, já não está aqui.

Não é possível! O pão? De facto... desapareceu! Com mil raios! Com certeza foi outra vez o maldito vento.

Ah, tenho cá as minhas desconfianças. Pareceu-me há pouco que a ouvi a comer qualquer coisa.

Como? Eu a comer? Mas o quê?

O pão, naturalmente.

É ofensivamente explícita nas suas suspeitas, senhora Marta. Dos vizinhos, sempre temos de saber ouvir certas palavras, mas isto é demais. Isto é demais, sempre lho digo. Compreendeu-me? ... e agora, eu é que comi o pão! Que é que pretende afinal? Primeiro, tenho de ouvir a enfadonha história da sua pérola pela milionésima vez, depois tenho uma boa ideia, colocamos o pão...

Isso fui eu! Eu é que o dispensei.

...colocamos o pão, eu deito-me a tomar atenção, tudo está a correr bem, depois vem daí com a sua conversa... os pardais, claro, põem-se a mexer, a caçada estragada e, agora, até fui eu que comi o pão! Bem pode esperar que torne a falar consigo.

E nisto, as tardes e os serões passavam fáceis e rápidos. Eu estava de muito boa disposição, trabalhava com prazer e rápido, e admirava-me de antigamente ter sido tão indolente e carrancudo e encarar a vida com tanta dificuldade. Os tempos mais belos com Ricardo não haviam sido mais belos que estes dias calmos e alegres; lá fora, os flocos volteavam e, junto ao fogão, nós dois mais o cão-de-água deixávamo-nos estar confortavelmente.

E precisamente então, o meu pobre e querido Boppi tinha de fazer a sua primeira e última patetice. Eu, na minha satisfação, estava cego, naturalmente, e não via que ele sofria mais que de costume. Mas ele, de tanta humildade e amor, mostrava-se mais bem disposto que nunca, não se queixava, e nem sequer me impediu de fumar; depois, de noite, jazia para ali, e sofria e tossia, gemendo baixinho. Por puro acaso, certo dia em que fiquei a escrever pela noite fora na sala ao lado, e ele me julgava na cama há muito, ouvi-o gemer.

O pobre ficou muito assustado e contristado quando, de súbito, com o meu candeeiro, entrei no seu quarto de dormir. Pousei a luz ao lado, sentei-me na sua cama e encetei um interrogatório. Ele procurou esquivar-se durante muito tempo mas, por fim, lá confessou.

- Não é assim tão grave - disse timidamente. - Só em alguns movimentos é que vem aquela sensação de aperto no coração e, por vezes, também ao respirar.

Desculpou-se logo como se o facto de adoecer fosse um delito!

Na manhã seguinte, fui ter com o médico. Era um gélido dia, bonito e límpido; pelo caminho, a minha opressão e preocupação desanuviaram-se, recordei mesmo o Natal e pensava em como poderia preparar uma alegria a Boppi. O médico ainda estava em casa, e em face das minhas instantes súplicas, acompanhou-me. Fomos no seu cómodo automóvel, subimos a escada, entrámos no quarto de Boppi, e começou um tactear, um martelar, um escutar, e quando o médico se tornou um pouco mais sério e a sua voz um pouco mais bondosa, a minha alegria desvaneceu-se.

Artrite, fraqueza de coração, um caso grave... escutei e registei tudo, e fiquei espantado comigo mesmo por nem sequer me rebelar quando o médico ordenou o internamento no hospital.

À tarde, veio a ambulância e, depois do meu regresso do hospital, senti-me tremendamente desconfortável em casa, com o cão-de-água a meter-se-me debaixo dos pés, a grande cadeira do doente posta para o canto e o quarto ao lado vazio. É assim o amor. Traz consigo a dor e eu sofri muito nos tempos que se seguiram. Mas tem tão pouca importância se sofremos dores ou não! Conquanto haja uma forte convivência e se sinta o estreito e vital laço que liga a nós tudo o que é vivo, e o amor não arrefeça! Eu daria todos os dias alegres que jamais vivi, e todos os meus amores, e ainda todos os planos poéticos se, em troca, pudesse olhar de novo o interior do Santo dos Santos como naquele tempo. Dói amargamente aos olhos e ao coração, e o doce orgulho e a vaidade recebem os seus duros golpes, mas, em seguida, fica-se tão calmo, tão humilde, muito mais maduro e, no fundo, mais vivificado!

Já com a pequena Agi, morrera uma parte do meu velho ser. Agora, eu via sofrer o meu corcunda a quem havia dedicado todo o meu amor e com quem tinha partilhado toda a minha vida, e lentamente, muito lentamente, via-o morrer; todos os dias sofria com ele e tive o meu quinhão em todos os horrores, em toda a santidade da morte. Eu era ainda um novato na ars amandi, e tinha já de iniciar-me com um capítulo sério da ars moriendi. Sobre este tempo, não silenciarei como silenciei sobre Paris. Dele, quero falar bem alto, como uma mulher do seu noivado e um velho dos seus tempos de rapaz.

Eu via morrer uma pessoa cuja vida fora apenas dor e amor. Ouvia-o brincar como uma criança, enquanto sentia a morte trabalhar em si. Eu via como, entre fortes dores, o seu olhar me buscava, não para mendigar junto de mim, mas para me reerguer e mostrar-me que esses espasmos e sofrimentos tinham deixado intocado o que havia de melhor no seu íntimo. Então, os seus olhos ficavam enormes, e já se não via o seu rosto emurchecido, mas apenas o brilho dos seus grandes olhos.

Que posso fazer por ti, Boppi?

Conta-me alguma coisa. Talvez sobre o tapir. Falava-lhe do tapir, ele cerrava os olhos, e eu tinha de fazer esforço para falar como de costume, pois as lágrimas estavam continuamente prestes a saltar. E quando julgava que ele me não ouvia já ou dormia, calava-me. Ele reabria então os olhos.

E depois?

Eu continuava a falar do tapir, do cão-de-água, do meu pai, do maldoso pequeno Mateo Spinelli, de Elisabete.

-     Sim, ela casou com um rapaz tolo. É assim a vida, Peter!

Frequentemente, ele começava de súbito a falar da morte.

-     Não é fácil, Peter. Por mais duro que seja o trabalho, não é tão difícil como morrer. Mas sempre o passamos.

Ou então:

-     Quando os tormentos passam, já consigo rir. Para mim, vale a pena

morrer, livro-me de uma corcunda, de um pé curto e de uma anca paralisada. Quanto a ti, vai ser pena, com esses teus ombros largos e boas pernas saudáveis.

E certa vez, nos últimos dias, ele acordou de um curto sono e disse bem alto:

-     Não há nenhum céu como o de que o pároco fala. O céu é muito

mais belo. Muito mais belo.

A mulher do carpinteiro vinha frequentes vezes e mostrava-se inteligentemente participativa e solícita. O carpinteiro, com grande pena minha, não apareceu nunca.

- Que te parece - perguntou Boppi certa vez - no céu também haverá um tapir?

- Oh, sim - disse eu, acenando afirmativamente. - Há lá toda a espécie de animais, até a camurça.

Veio o Natal, e fizemos uma pequena celebração junto à cama dele. Veio uma grande geada, voltou a degelar, e nova neve caiu sobre o gelo, mas eu de nada me apercebi. Ouvi dizer que Elisabete havia tido um rapaz, e esqueci-o de novo. Chegou uma carta tola da senhora Nardini; li-a de fugida e pu-la de lado. Os meus trabalhos, fazia-os a correr, com a permanente consciência de estar a roubar cada hora a mim próprio e ao doente. Depois, corria assediado e impaciente até ao hospital, onde havia um silêncio alegre, e sentava-me metade dos dias junto à cama de Boppi, envolto numa profunda paz maravilhosa.

Pouco antes do fim, teve ainda alguns dias de melhoras. Era notável como o tempo acabado de decorrer parecia desvanecer-se na sua memória, e como vivia nos seus anos de juventude. Durante dois dias, não parou de falar da mãe. Não podia falar durante muito tempo, mas via-se que até nas pausas, que podiam durar horas, ele pensava nela.

-     Contei-te muito pouco acerca dela - lamentava-se - tu não podes

esquecer nada do que lhe diz respeito, senão, em breve deixará de haver

alguém que saiba alguma coisa dela e lhe seja grato. Seria bom, Peter, se

toda a gente tivesse uma mãe assim. Ela não me pôs num hospício, quando deixei de poder trabalhar.

Ele jazia ali, respirava com dificuldade. Passou uma hora, e recomeçou:

-     Era a mim que ela queria mais entre todos os filhos e manteve-me

junto a si até morrer. Os meus irmãos partiram para longe, a minha irmã

casou com o carpinteiro, mas eu permaneci lá em casa, e embora fosse

muito pobre, nunca mo fez sentir. Não podes esquecer a minha mãe, Peter.

Ela era muito pequena, talvez ainda mais pequena que eu. Quando me dava a mão, era como se um passarito poisasse sobre ela. Basta um caixão de criança, disse o carpinteiro quando ela morreu.

Também para ele teria chegado um caixão de criança. Estava tão sumido e pequeno na sua cama limpa do hospital, e agora, as mãos dele pareciam mãos doentes de mulher, longas e estreitas, brancas e um pouco disformes. Quando deixou de sonhar com a mãe, veio a minha vez. Falava de mim como se eu não estivesse sentado ali ao lado.

É um azarado, é certo, mas não lhe fez nenhum mal. A mãe morreu-lhe demasiado cedo.

- Ainda me reconheces, Boppi? - perguntei.

- Claro, senhor Camenzind - disse ele brincando, e riu baixinho.

-     Se ao menos pudesse cantar - comentou logo de seguida.

No último dia, perguntou ainda:

-     Olha, fica-te muito caro aqui o hospital? Podia tornar-se demasiado

dispendioso.

No entanto, não esperou resposta. Um delicado rubor subiu-lhe ao rosto lívido, cerrou os olhos e, durante algum tempo, parecia uma pessoa extremamente feliz.

-     Está a chegar o fim - disse a irmã.

Mas ele abriu de novo os olhos, olhou-me com um ar travesso e moveu as sobrancelhas, como se quisesse acenar-me. Ergui-me, coloquei a mão sob o seu ombro esquerdo e, com cuidado, levantei-o um pouco, o que lhe fazia sempre bem. Assim deitado sobre a minha mão, contorceu uma vez mais os lábios numa breve dor e, depois, voltou a cabeça um pouco e estremeceu como se tivesse frio de repente. Foi a libertação.

-     Estás bem, Boppi? - perguntei ainda. Mas ele estava já livre dos

seus sofrimentos e arrefecia na minha mão. Foi no dia sete de Janeiro,

uma hora depois do meio-dia. Pela tardinha, arranjámos tudo, e o pequeno corpo disforme jazia pacificamente e limpo, sem outras deformações, até que chegou o momento de o levar e enterrar. Durante estes dois

dias, admirei-me continuamente de nem estar demasiado triste nem indeciso, e nem sequer ter necessidade de chorar. Eu experimentara a separação e a despedida tão profundamente durante a doença que, agora,

pouco restava, e o prato oscilante da minha dor, aos poucos, aliviado,

voltou a subir.

No entanto, pareceu-me chegado o momento de deixar a cidade em silêncio, de ir repousar algures, talvez no Sul, e montar, enfim, no tear a teia apenas grosseiramente urdida do meu poema. Restava-me ainda algum dinheiro, portanto, suspendi as minhas obrigações literárias e preparei-me para, nos primeiros inícios da Primavera, fazer as malas e partir. Primeiro para Assis, onde a vendedora de hortaliças aguardava a minha visita, depois, para um trabalho sério nalguma aldeia o mais sossegada possível. Parecia-me que o pedaço da vida e da morte que tinha visto era já suficiente para poder pretender que outras pessoas me ouvissem discorrer um pouco acerca disso. Numa impaciência agradável, eu esperava o mês de Março; os meus ouvidos estavam já de antemão repletos de pragas italianas e, no nariz, comichava-me um cheiro picante de Risotto, laranjas e vinho de Chianti.

O plano era perfeito, e sentia tanto maior alegria quanto mais pensava nele. Entretanto, eu fazia bem em alegrar-me de antemão pelo Chianti, pois tudo veio a suceder de forma bem diversa.

Num estilo magnífico, uma carta patética do estalajadeiro Nydegger anunciava-me, em Fevereiro, que havia grande quantidade de neve e, na aldeia, tanto com os animais como entre as pessoas, nem tudo andava bem; nomeadamente o estado do senhor meu pai era inquietante e, em resumo, seria bom que eu enviasse dinheiro ou fosse lá pessoalmente. Como o envio de dinheiro não me agradava e o ancião me causava sérias preocupações, tive mesmo de partir. Cheguei num dia inóspito, a queda de neve e o vento não permitiam que se vissem nem montes nem casas, e foi-me muito útil o facto de eu conhecer o caminho até de olhos fechados. Contra as minhas conjecturas, o velho Camenzind não estava de cama, pelo contrário, encontrava-se sentado, frágil e abatido, ao canto da lareira, e era assediado por uma vizinha que lhe havia trazido leite e não cessava de descompô-lo por causa da sua má conduta na vida, no que nem com a minha chegada se perturbou.

- Veje, o Peter 'stá i - exclamou o pecador encanecido, piscando--me o olho esquerdo.

Mas ela continuou imperturbavelmente o seu discurso. Sentei-me, aguardei que o seu amor ao próximo se esgotasse, e encontrei no seu arrazoado alguns capítulos que também a mim me assentavam. Entretanto, eu ia observando como a neve do meu sobretudo e das botas ia derretendo, formando primeiro em redor da minha cadeira uma mancha húmida e, depois, um calmo regato. Só quando a mulher terminou, pôde cumprir-se o ritual do reencontro, em que ela participou muito amigavelmente.

O pai havia perdido muitas forças. Recordei-me do meu antigo e breve esforço para cuidar dele. Nessa altura, a partida não havia solucionado nada, e eu bem podia, agora que ele estava visivelmente mais necessitado, beber o cálice até ao âmago.

No fundo, não pode esperar-se de um velho camponês endurecido, que nem nos seus tempos mais florescentes fora um modelo de virtudes, que nos dias de doença da velhice se torne dócil e se sinta tocado pela cena do amor filial. Também o meu pai o não fez, e quanto mais doente mais voluntarioso se tornava; ele fez-me pagar tudo aquilo com que em tempos o atormentara, se não com juros, pelo menos até ao último tostão. Nas palavras, todavia, ele era parco e comedido frente a mim, mas dispunha de grande quantidade de meios drásticos para, sem palavras, se mostrar descontente, amargo e grosseiro. Por vezes, perguntava-me a mim mesmo, hesitante, se também eu, com a idade, viria a dar uma coruja tão desagradável e insuportável. No tocante à bebida, para ele, estava tudo praticamente arrumado, e o copo de bom vinho do Sul que eu lhe servia duas vezes por dia, saboreava-o de má cara, porque eu levava logo a garrafa para a cave vazia, nunca lhe entregando a chave.

Só pelos finais de Fevereiro chegaram aquelas semanas claras que tornam o inverno nas altas montanhas tão maravilhoso. As altas escarpas dos picos surgiam nítidas contra um céu azul de loio, e naquele ar transparente, surgiam inacreditavelmente próximas. Os prados e encostas estavam cobertos de neve - a neve do inverno de montanha, como tão branca e cristalina e de aroma tão forte nunca se encontra nas terras baixas. Ao meio-dia, sobre pequenas elevações, a luz do sol celebra festejos esplendorosos, nos vales e vertentes há sombras de um azul saturado e, após a queda de neve durante semanas, o ar está tão puro que cada inspiração ao sol é um prazer. Nos declives menos íngremes, os jovens dedicam-se ao esqui, e na hora após o meio-dia, vêem-se velhinhos nas ruas deliciando-se ao sol, ao passo que à noite, os barrotes do telhado estalam com o gelo. Ao centro dos brancos campos de neve, jaz o lago calmo e azul, que nunca gela, mais belo do que no Verão.

Todos os dias antes do almoço ajudava o meu pai a ir até à porta, e ficava a observar como ele estendia os dedos tisnados e nodosos ao calor benfazejo do sol. Mas após algum tempo, ele punha-se a tossir e a queixar do frio. Era um dos seus truques inocentes para me exigir um copo de aguardente; porque nem a tosse nem o frio eram para tomar a sério. Então, ele recebia um copito de Genciana ou um pouco de Absinto, deixava de tossir numa gradação artificiosa e, às ocultas, alegrava-se de me ter enganado. Após o almoço, eu deixava-o a sós, punha as polainas e caminhava umas horas pelos montes acima, até onde calhava, e fazia o caminho de retorno, sentado sobre uma mochila que levava, à maneira de desporto, a escorregar pelas encostas de neve abaixo.

Quando chegou a época em que pretendera viajar para Assis, ainda havia neve com alguns metros de profundidade. Só em Abril começou a Primavera a manifestar-se, e a nossa aldeia foi avassalada por um degelo maligno como há anos não o havia. Ouvia-se o foehn uivar dia e noite, o rugir de longínquas avalanchas, e o rugir ameaçador das enxurradas que lançavam sobre os nossos pobres e estreitos terrenos e pomares, grandes blocos de rocha e árvores partidas. A febre do foehn não me deixava dormir, noite após noite, escutava impressionado e receoso, o gemer da tempestade, o ribombar dos aludes e o lago furioso bramir contra as margens. Neste tempo febril das terríficas batalhas primaveris, fui de novo tão poderosamente avassalado pela doença do amor já superado, que me levantei durante a noite, me debrucei no postigo da porta e, entre dores amargas, gritei à tempestade palavras de amor por Elisabete. Desde a noite quente em Zurique, em que eu correra para as colinas além do casario, fugindo por amor da pintora romanda, nunca mais a paixão tomara posse de mim tão tremenda e irresistivelmente. Era como se a linda mulher estivesse muito perto, diante de mim, me sorrisse e, todavia, retrocedesse a cada passo que eu dava para me aproximar. Os meus pensamentos, viessem eles de onde viessem, regressavam irresistivelmente a esta imagem e, tal como um ferido, eu não podia deixar de coçar continuamente o abcesso que me causava prurido. Tinha vergonha de mim próprio, o que era tão vexante como inútil, amaldiçoava o foehn e, secretamente, a par de todos os tormentos, sentia um oculto e cálido prazer, como nos tempos da juventude, quando pensava na bela Rosa e aquela vaga quente e turva me assaltava.

Compreendi que era por causa desta doença que nenhuma erva tinha crescido, e procurei trabalhar ao menos um pouco. Comecei a tomar entre mãos a edificação da minha obra, desenvolvi alguns estudos, mas em breve reconheci que o momento não era propício. Entretanto, surgiam de toda a parte más notícias sobre o foehn, e na nossa própria aldeia instalou-se a miséria. As represas dos ribeiros estavam semidestruídas, algumas casas, celeiros e estábulos tinham sofrido graves danos e, dos casais afastados, chegava gente sem abrigo; por toda a parte havia lamentos e miséria, e em parte alguma dinheiro. Foi nestes dias que, para felicidade minha, o regedor me mandou chamar ao seu escritoriozinho de conselheiro e me perguntou se eu estaria disposto a participar numa junta de auxílio à miséria geral. Julgavam-me capaz de defender os interesses da comunidade junto do cantão e, nomeadamente através dos jornais, mover o país à comiseração e a conceder auxílio monetário. Convinha-me, precisamente naquela altura, poder esquecer o meu inútil amor próprio com um assunto mais sério e digno, e lancei-me desesperadamente ao trabalho. Em Basileia, por meio de cartas, consegui logo algumas pessoas dispostas a fazer a colecta. O cantão, como sabíamos já de antemão, não tinha dinheiro, e podia apenas enviar alguns trabalhadores. Voltei-me então para os jornais com apelos e crónicas; recebíamos cartas, doações e pedidos de informação, e eu, a par da escrita, tinha ainda de travar batalhas com os caturras dos camponeses.

As poucas semanas de trabalho ininterrupto fizeram-me bem. Quando, aos poucos, a questão foi entrando na ordem e eu me tornava menos necessário, verdejavam já os prados em redor, e o lago mostrava-se azul, inocente e soalheiro às vertentes libertas de neve. O meu pai passava dias suportáveis e os meus sofrimentos de amor haviam-se esvanecido e esfumado, quais restos sujos de aludes. Por esta época, em tempos idos, o meu pai envernizava o barco, a mãe olhava-o do jardim, e eu observava os movimentos do velho, as nuvens do seu cachimbo e as borboletas amarelas. Agora não havia já nenhum barco para pintar, a mãe havia morrido há muito, e o pai sentava-se pela casa descuidada, enfadado. Também o tio Conrado me recordava os tempos antigos. Frequentes vezes, sem que meu pai visse, levava-o comigo para um copito, e escutava-o a contar e recordar os seus inúmeros projectos com um riso bondoso e, contudo, não sem orgulho. Novos, já os não tinha, e também no resto a idade havia-o marcado muito, todavia, nas expressões e, por vezes, no riso tinha algo de rapaz e moço, que me fazia bem. Era amiúde o meu consolo e passatempo, quando eu não suportava mais permanecer em casa junto do velho. Levava-o para o vinho e, então, ele trotava esbaforido a meu lado, esforçando-se temerosamente por manter as suas pernas magras e já recurvadas no mesmo passo que eu.

- Tens de pôr a vela, tio Conrado - estimulava-o, e a partir da vela acabávamos sempre por falar do nosso velho barco que já não existia, e que ele lastimava como um amigo falecido. E como também a mim aquele velho objecto me fora querido e me fazia agora falta, recordávamo-lo e a todas as histórias passadas com ele até ao mínimo pormenor.

O lago estava tão azul como nessa altura, o sol não menos festivo e quente, e eu, um homem, olhava muitas vezes as borboletas amarelas e tinha a sensação de que, desde então, pouco se modificara afinal, e podia, da mesma forma, estender-me nos prados a maquinar sonhos de rapaz. Que assim não era e que eu havia já gasto boa parte dos meus anos, podia vê-lo todos os dias ao lavar-me quando, do alguidar de lata ferrugenta, me olhava a minha cabeça com o nariz adunco e a boca amarga. Melhor ainda cuidava o Camenzind sénior de que me não esquecesse do decorrer dos tempos; e quando eu pretendia voltar inteiramente ao presente, bastava-me abrir a gaveta perra do meu quarto onde jazia e dormia uma obra futura, constituída por um monte de rascunhos já com anos, e seis ou sete projectos feitos em folhas in-quarto. Mas eu raramente abria a gaveta.

A par dos cuidados com o velho, a manutenção da nossa casa degradada dava-me bem que fazer. Nos soalhos, abriam-se abismos, a lareira e o fogão estavam danificados, deitavam fumo e mau cheiro, as portas não fechavam, e a escada do sótão, o antigo palco das punições paternas, estava muito perigosa. Mas antes que pudesse fazer-se algo, o machado tinha de ser afiado, a serra remendada, havia que pedir emprestado um martelo, procurar os pregos e, depois, preparar pedaços aproveitáveis dos restos apodrecidos da antiga reserva das madeiras. Na reparação das alfaias e da velha pedra de amolar, o tio Conrado dava-me uma pequena ajuda, no entanto, estava demasiado velho e recurvado para ser de grande auxílio. Assim, rasguei as minhas mãos macias de escritor na madeira rebelde, dei ao pedal da bamboleante pedra de amolar, subi ao telhado roto por toda a parte, preguei, martelei, cobri de tábuas e cortei a madeira, fazendo o meu Adão um pouco anafado escorrer umas quantas gotas de suor. Por vezes, parava também, nomeadamente durante o aborrecido remendar do telhado; suspendendo uma martelada, sentava-me comodamente, chupava de novo o cigarro meio apagado, olhava o azul profundo do céu, e gozava da minha indolência na alegre consciência de que, agora, o pai não podia já instigar-me nem descompor-me. Se alguém passava por perto, mulheres, velhos ou crianças, para dissimular o ócio, eu encetava amigáveis conversas de vizinhos com eles e, aos poucos, fui adquirindo a reputação de um homem com quem se podem trocar umas palavras ajuizadas.

Vai quent'o dia, Beta?

É verdade, Peter. Que é a lida?

Ver se remendo o telhado.

Ora bem, há muito que tinha precisão.

Pois é.

Como vai o velho? Já há-de ir nos seus setenta.

Oitenta, Beta, oitenta. Que tal, quando lá chegarmos? Não é brinquedo.

Tem razão, Peter, mas tenho de ir indo, que o meu homem quer comer. Até mais ver!

Adeus, Beta.

E enquanto ela continuava o caminho com a malga no pano, eu atirava nuvens para o ar, ficava a olhá-las e pensava por que seria afinal que toda a gente andava tão atarefada com os seus afazeres, enquanto eu passava dois dias inteiros a martelar na mesma tábua. Mas, por fim, o telhado lá ficou remendado. Contra o costume, o meu pai interessou-se por isso, e como de forma alguma eu poderia carregá-lo até ao telhado, tinha de dar-lhe completa satisfação por cada tabuinha, sem me incomodar com as suas bazófias.

- 'stá bom - admitiu ele - .'stá bom, má julgue que nã terminavas esti ano.

Agora, ao olhar e meditar nas minhas viagens e tentativas na vida, sinto alegria e irritação por viver também em mim a velha experiência de que os peixes pertencem à água e os camponeses à terra, e que um Camenzind de Nimikon, apesar de todas as artes, não pode ser transformado num homem da cidade ou do mundo. Vou-me habituando a considerar que isso está bem, e alegro-me de a minha falhada caça à felicidade do mundo, contra minha vontade, me haver trazido de novo ao velho recanto, entre o lago e a montanha, onde é o meu lugar, e onde as minhas virtudes e os meus vícios, mas especialmente os vícios, são algo de comum e tradicional. Lá longe, teria esquecido a terra-mãe e, por pouco, não acabei por considerar-me uma planta rara e exótica; reconheço agora que era apenas o espírito de Nimikon o que em mim se revoltava e não podia adaptar-se aos usos do restante mundo. Aqui, ninguém se lembra de ver em mim um ser à parte, e quando olho o meu velho papá ou o tio Conrado, acho que dei um bom filho e sobrinho. Os meus poucos voos ziguezagueando pelo reino do espírito, e aquilo que se denomina erudição, bem podem comparar-se à famosa viagem em barco à vela do tio, simplesmente, ficaram-me mais dispendiosos no tocante a dinheiro, esforço e belos anos. Também exteriormente, desde que o meu primo Kuoni me apara a barba, uso outra vez calções com suspensórios e ando em mangas de camisa, me tornei inteiramente num autóctone, e quando me tornar grisalho e velho, tomarei imperceptivelmente o lugar de meu pai e o seu insignificante papel na vida da aldeia. As pessoas sabem apenas que passei muitos anos lá fora, e eu guardo-me de lhes dizer que trabalho miserável exerci e em quantos lodaçais me atolei; de outro modo, em breve ficaria sem alcunha nem apelido. Sempre que falo da Alemanha, da Itália ou de Paris, enfatuo-me um pouco, e até mesmo nas passagens mais verdadeiras duvido eu próprio, por vezes, da minha sinceridade.

E que acabaram por dar tantas viagens errantes e anos desperdiçados? A mulher que eu amava e amo ainda, educa em Basileia os seus dois lindos filhos. A outra, que me amava, consolou-se e continua a vender fruta, hortaliça e sementes. O meu pai, por causa de quem regressei ao ninho, nem morreu nem sarou, e senta-se diante de mim, sobre a sua caminha de preguiçoso, olha-me e inveja-me pela posse da chave da cave.

Mas isto não é tudo. Para além da minha mãe e do amigo de juventude afogado, tenho a loira Agi e o meu pequeno corcunda Boppi como anjos no céu. E eu vi as casas da aldeia serem arranjadas de novo e ambos os diques reerguidos.

Se quisesse, estava também sentado no Conselho Municipal. Mas ali, já há Camenzind de sobra.

Há pouco tempo, porém, abriu-se para mim uma nova perspectiva. O estalajadeiro Nydegger, em cuja sala o meu pai e eu bebemos uns quantos litros de vinho de Valtellina, de Valais ou de Vaud, começa a afundar-se e já não sente prazer no negócio. Um destes dias, queixou-se-me do desgosto. O pior é que se não se encontrar ninguém da povoação para o substituir, alguma cervejaria de fora acabará por comprar o estabelecimento e, então, tudo ficará estragado e em Nimikon deixará de haver uma hospedaria acolhedora. Será colocado ali qualquer locatário de fora, que preferirá tirar cerveja a servir vinho, o qual deixará a bela cave do Nydegger maltratada e envenenada. Desde que sei disto, não consigo ficar em paz; em Basileia, ainda tenho algum dinheiro no banco, e o velho Nydegger não me acharia a pior pessoa para o suceder. O problema é apenas que não quero tornar-me estalajadeiro enquanto o meu pai viver. Porque, por um lado, já não conseguiria manter o velho afastado da batoqueira e, além disso, ele não deixaria de cantar vitória por eu, com todo o latim e estudos, acabar como estalajadeiro de Nimikon e não ter chegado mais longe. Isto não pode ser e, assim, começo a desejar o apagar do velho, não com impaciência, mas por amor de uma causa nobre.

O tio Conrado caiu de novo numa sede de invenções, após longos anos de adormecimento, e isso não me agrada. Traz constantemente o indicador na boca e uma ruga de concentração na fronte, dá pequenos passos nervosos pelo quarto e, quando o tempo está limpo, olha muito para a água.

- Quer-me cá parecer que quer construir barcos outra vez - disse a sua velha Cenzine.

De facto, ele tem um ar tão activo e temerário como há muitos anos não mostrava, e traz uns traços de tanta esperteza e superioridade no rosto, que parece saber precisamente como desta vez terá de começar. Mas eu acho que não se trata de nada disso, e que é apenas a sua alma cansada que agora anseia por ganhar asas e, em breve, regressar à pátria. Tens de pôr a vela, caro tio! Mas quando for a hora dele, então os senhores de Nimikon presenciarão algo de nunca visto. É que decidi cá para mim proferir algumas palavras junto ao seu túmulo, depois do padre, como aqui nunca foram ditas. Recordarei o tio como um bem-aventurado e favorito de Deus e, a esta parte edificante, seguir-se-á uma boa mão cheia de sal e pimenta para os queridos enlutados que me não esquecerão nem perdoarão tão cedo. Oxalá o meu pai o veja ainda.

Na gaveta, estão os inícios do meu grande poema. «A obra da minha vida', poderia eu dizer. Mas parece demasiado patético e prefiro não me expressar assim, porque tenho de reconhecer que a sua continuação e conclusão estão ambas muito periclitantes. Talvez chegue outra vez o tempo em que a tornarei a iniciar, em que a continuarei e concluirei; nessa altura, a ânsia da minha juventude terá tido razão, e eu terei sido realmente um poeta.

Isso valeria para mim tanto ou mais ainda que ser conselheiro ou que os diques de pedra. Mas ao passado da minha vida que, contudo, se não desperdiçou, incluindo todas as imagens de entes queridos, desde a elegante Girtanner até ao pobre Boppi, a esses, não os contrabalançaria.

 

                                                                                Herman Hesse  

 

                      

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