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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


PÓ MORTAL / Heinz Konsalik
PÓ MORTAL / Heinz Konsalik

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

PÓ MORTAL

Primeira Parte 

 

Era uma tarde soalheira e amena de Maio, em 1991. No relvado das margens do rio Moscova brilhavam pequenos jardins de flores, os primeiros barcos de passeio brancos navegavam na água azul cintilante do rio. Estavam apinhados de pessoas saudosas da Primavera, pois apenas no fim de Abril o Inverno se retirara para, depois, súbita e literalmente durante a noite, afastar-se e deixar um sol radioso inundar a Terra. Todos se precipitaram para o Moscova, para os parques, tomaram os barcos de assalto, e no enorme Parque Gorki iniciou-se a estação das diversões, à medida que toda a Moscovo inspirava profundamente, vestia roupas ligeiras e se estendia ao sol, como que espreguiçando-se sob um duche reconfortante. Também Natalia Petrovna Vietorova se dirigira ao rio, se sentara num banco, levantara a saia ampla acima das pernas e das coxas, o que incitara muitos passeantes a olhá-la longamente. Tinha a cabeça reclinada, a blusa florida justa ao corpo... era assim que devia ser a Primavera! Assim, e não de outra forma. Vida! Cheia de vida! Saudades sob o sol dourado. Céus, o que brota do cinzento do Inverno!

 

Natalia tinha dezanove anos, mas carregados com a experiência de uma pessoa de trinta. o seu pai, um comunista convicto, ficara desempregado depois da glasnot; a fábrica onde trabalhara como fogueiro no forno de bulha fora a primeira, em 1987, a mudar para a combustão a óleo, tudo
automático, o que tornava desnecessário um fogueiro. o novo director, formado em Bóston, um homem elegante e ainda jovem, com a melhor das educações, não lhe enviou simplesmente uma carta de despedimento, chamou-o ao seu gabinete. Olhando uma grande fotografia de Gorbachev, peti Nikolaievich Victorov encontrava-se sem qualquer desconfiança perante o simpático director, até mesmo na esperança de ser promovido a capataz. Merecera-o.

 

- Há quanto tempo está connosco? - perguntou o dírector, jovialmente. Victorov contraiu-se involuntariamente.

- Há quase vinte e quatro anos, camarada director. Em 1987 ainda se falava assim.

 

- E nem uma queixa. Temos muito orgulho em si, camarada.

 

-Cumpri apenas o meu dever.

 

- Nós também o reconhecemos. Vinte e quatro anos ao forno, no quente submundo... Isso esgota as forças do corpo.

- Sinto-me saudável, camarada director. Um homem habitua-se a tudo. Eu gosto dos meus fornos. Mas agora está tudo mudado. Agora queima-se óleo, sentam-se à frente de um grande painel de comando, funciona tudo automaticamente, e eu e quatro colegas, um já está connosco há trinta anos, devemos agora esvaziar as salas dos armazéns. Só ferro-velho.

 

- Pois é, Victorov, é isso mesmo! - o jovem director sorriu amavelmente. - Já merece passar uma velhice calma.

- Só tenho quarenta e quatro anos, camarada director. -Quarenta e quatro! E desses, vinte e quatro no sub-mundo incandescente. Vá para casa, camarada, e goze a vida. Com isto o liberto para o descanso merecido... Víctorov primeiro não percebeu nada. Como poderia também suspeitar do humor gélido do jovem e moderno gestor? Mas quando, finalmente, entendeu a última frase, suspirou baixinho.

 

- Camarada... estou despedido? - balbuciou. -Vai para a reforma.

 

- E vivo de quê?
-A União paga-lhe uma pensão. -Quanto, posso perguntar?

 

-A nossa secção de pessoal está a fazer os cálculos.

- Mandam-me para a rua ao fim de vinte e quatro anos?! Não pode ser!

 

-A nova política é racionalização, redução de custo, adaptação ao mercado mundial. A velha rotina estatal acabou.

- E é esta a nova Rússia, camarada director?! - Victorov respirava com força. - É isto a perestroika?

 

- Vai receber o seu documento por correio. - o jovem director perdeu um pouco da sua amabilidade. - Pode ir, camarada. Felicito-o pela sua reforma. Goze os próximos anos.

 

Victorov não deu qualquer resposta. Também não agradeceu a sua «liberdade», fechando, pelo contrário, a porta com estrondo atrás de si. Mas na sala de espera disse em voz alta:

 

-Deviam besuntá-lo de merda!

 

A secretária olhou-o brevemente por cima da sua máquina de escrever.

 

- Está a falar do novo chefe? - Ela fez um sorriso pálido. - A situação na nossa Rússia ainda vai piorar.

 

Em casa, Victorov vivia com a mulher e a filha Natalia numa casa apertada de três assoalhadas num bloco de apartamentos. Peti Nikolaievich bebeu primeiro um decilitro de vodca pura, e não misturado com limonada, como de costume, e que lhe sabia especialmente bem, estendeu-se no sofá forrado a pelúcia vermelha, onde já o seu pai ressonara, e cruzou as pernas.

 

- Minhas queridas, vêem aqui um homem que levou um pontapé no cu - disse com voz grave.

 

Sonia, mulher de Victorov, olhou para a sua filha Natalia e acenou com a cabeça lentamente.

 

Kombinat, Do original. Termo que significa uma união de empresas do mesmo ramo industrial. (N. da T)


- o teu pai está bêbedo - disse ela. - Ninguém lhe dava um pontapé no traseiro sem depois acordar no hospital.

 

- Se eu tivesse podido esganá-lo! - Victorov vírou-se de lado e arrotou. - Fui despedido! Dispensado. Posto na rua. Enxotado como uma mosca maçadora!

 

-Meu Deus, como ele está bêbedo! - Sonia acenou apaziguadoramente a Natalia, que se levantara de um pulo, horrorizada. Com os seus quinze anos, estava já bem desenvolvida... Não era apenas a rapariga mais bonita do Liceu Feminino Stanislavski; distinguia muito bem os olhares cobiçosos que os professores deitavam aos seus seios e às suas pernas. Pior tinha sido o director, Kyril Stepanovich, que uma vez até lhe dissera: «Nataliazinha, dou-te meio quilograma da melhor carne de vaca se levantares bem a tua saia. Mas com a condição de ser sem calcinhas.» Ela rira-se, dera meia volta, espetara o rabo e correra dali para fora. Era um divertimento secreto dela: excitar os homens e rapazes do Liceu Pushkin vizinho, de forma a ficarem de olhos arregalados... e depois ria-se deles à gargalhada. Um engodo secreto, pequeno, encantador, que incitava a -escola a apostar: quando será ela violada? Quem dormirá primeiro com ela?

 

Fora Juri VIadimirovich Krepkin, um estudante folgazão, mas ninguém o sabia. Ainda todos acreditavam na sua virgindade, especialmente os pais. E, depois daquela hora tardia, Natalia também nunca mais voltara ao parque com Juri. Ficara desapontada... não sentira nada, mas mesmo nada, e os gemidos dele no fim até a repugnaram. E foi assim que Natalia se voltou a recolher na sua castidade.

 

- Estás mesmo desempregado, papá? - exclamou ela. -É verdade, filhinha. Já posso andar à boa vida e a cuspir pelos cantos. Quem é que agora, com tudo modernizado, vai querer um fogueiro de quarenta e quatro anos? Outro trabalho? Aceitava-o já... mas onde é que há trabalho? Minhas queridas, sou um homem despedaçado.

 

Naquele momento, também Sonia se apercebeu da gravidade da situação e do futuro sombrio. Levou as mãos à cabeça e começou a lamentar-se como as carpideiras num funeral por trás do caixão aberto.
- E agora? - chorava ela. - E agora? Vamos passar fome, definhar. Vamos ser lixo que facilmente se deita fora. Vamos ter de mendigar, procurar comida nos caixotes de lixo, e vão enxotar-nos como cães sarnosos! oh, meu Deus, meu Deus... não merecíamos ser castigados desta maneira!

 

Victorov ouviu a palavra «Deus», virou-se para o outro lado e arrotou sonoramente.

 

-Isto é trabalho de Deus! - e adormeceu rapidamente. Nesse dia, Natalia tomou uma decisão para toda a vida. Enquanto o papá Peti vadiava por Moscovo, se dirigia a

inúmeras empresas e se oferecia como trabalhador, naturalmente em vão, encontrava outro grupo de insatisfeitos e desempregados, que amaldiçoavam Gorbachev e disparatavam sobre uma nova revolução, e a mãe Sonia pedia emprego como mulher da limpeza nas grandes empresas, o que também era inútil, dado que estavam a enxotar à vassourada dos escritórios as empregadas já contratadas para limpar, durante esta luta pela simples sobrevivência, Natalia descobriu a tantas vezes referida luz ao fundo do túnel.

 

Logo após as aulas, dirigiu-se à guarnição do 1.o Regimento da Guarda. Com um andar baloiçante e ancas bamboleantes subiu a rua onde se situavam as casas dos oficiais. Um simples soldado não entraria no seu corpo... já que tinha de ser, ela queria proporcionar o proveito a um alto oficial, mesmo um jovem tenente encontrava-se no fim da escala das meretrizes.

 

Foi com o capitão Tchutcharin, um siberiano, que Natalia falou em primeiro lugar e foi para sua casa. Era um homem pesado, de cara avermelhada com um abdômen proeminente que, quando ele se libertou da farda ficando nu, ficou ainda mais saliente. Natalia observou-o com os lábios cerrados. Nunca, nunca ela teria deixado um homem daqueles aproximar-se dela, se não se tratasse agora do papá e da mamã, eles não podiam passar fome, não podiam afundar-se no desespero... e, principalmente, com barriga ou sem ela, não iria sentir nada como acontecera com o estudante Juri, nem o mínimo sentimento... jazia ali, notava uma pressão cada vez mais repetida, ouvia a respiração pesada, os últimos gemidos... e já estava. Levantar-se, lavar-se, vestir-se e ir-se embora.

 

Tchutcharin sentou-se na sua nudez inchada num canto da cama e observou, com olhos cintilantes, Natalia a despir-se. -Irra, és mesmo bonita... - comentou em voz rouca, depois de ela ter tirado as cuecas e se virar, de pé em frente dele.

 

-Eu sei, camarada. -Vem cá, anjo.

 

- o paraíso paga-se. Quanto pagas?

- Duzentos rublos...

 

- Por esse preço não tocas sequer nos meus caracóis. Foi horrível, mas por sorte durou apenas vinte minutos, o urso siberiano rendeu-se, jazia de costas gemendo e transpirado e só se ergueu quando Natalia voltou da casa de banho já vestida.

 

- Foste fantástica - elogiou ele em voz rouca, passando as mãos pelo abdômen e encharcado em suor. - Voltas?

- Se pagares, porque não?

 

- Fazemos um acordo: de duas em duas semanas. -Vou tomar nota.

 

No metropolitano, durante o trajecto para casa, Natalia admirou-se que aquela entrada no mundo das meretrizes a afectasse tão pouco. No bolso do seu casaco rangiam quatrocentos rublos... só isso era importante e assinalável. Irra, que fria que és», pensou ela e começou a analisar-se. «Entregares o teu corpo, isso não te afecta... só tens de aprender a reprimir a tua repugnância. Pensa num campo de trigo ondulante com o vento estival quando ele estiver sobre ti e se mover em ti, e pensa no grito dos gansos bravos que voam sob o céu luminoso quando ele te abraça e atinge o clímax. Pensa em tudo o que já fazes. Mantém-te sempre fora do teu corpo. Mantém-te gélida.

 

Natalia, vais tornar-te uma mulher que ama apenas a si própria. Uma mulher de gelo, a quem os homens se apegam, pois o gelo queima na pele... »

 

Durante algumas semanas, o papá Victorov acreditou na sua filha, que ela ganhava o dinheiro que lhe entregava diariamente num hospital, como auxiliar na secção das doenças das mulheres. Uma colega da escola, cujo pai era médico, arranjara-lhe o lugar, explicara ela, e Victorov não tinha razões para não acreditar. Abraçava a filha, e beijava-a várias vezes.

 

- Que sacrifício que tu fazes por nós, meu cisne. A escola e depois o trabalho pesado num hospital... estou muito orgulhoso de ti. Mas isto não vai continuar. Hei-de arranjar um trabalho algures; a Rússia não pode continuar como está. o Gorbachev vai conseguir.. para tudo é preciso tempo... uma nova Rússia não se cria de um dia para o outro. Depois de sessenta e sete anos de União Soviética, é preciso primeiro respirar e habituarmo-nos, finalmente, ao que significa democracia e livre economia de mercado - observou ele, comovido.

 

Foi uma frase inteligente. Victorov ouvira-a numa discussão na rua, num grupo de desempregados insatisfeitos que não chegava a acordo sobre se as reformas de Gorbachev eram realmente uma felicidade para a Rússia, pois as críticas subiam cada vez mais de tom e o número de crimes estava a aumentar, à medida que as rédeas estatais iam sendo soltas através da liberdade pessoal.

 

Até um dia, em que um conhecido do confiante Víctorov o chamou à parte.

 

- Já tens um genro, Peti Nikolaievich? Parabéns. A Natalia ainda é jovem, mas o seu corpinho... Como é que um homem como tu tem uma filha tão bonita?! - perguntou-lhe discretamente.

 

-Como, um genro? - perguntou Victorov, espantado. - Que disparate estás a dizer? Não existe nenhum genro!

 

-Não estou a inventar. Caçou um bom partido, a tua filhinha querida. Um major, um homem bem-parecido, robusto. Quando se tornar general vais ser um príncipe. Parabéns, amigo.

 

Victorov olhou pensativamente para o amigo. «Não, não está bêbedo», pensou ele, «e louco também nunca foi.»

- Deves ter-te enganado - disse, depois de reflectir. De certeza que te enganaste.

 

- Impossível. Foi ontem. A Natalia veio na minha direcção, passou por mim, tão perto como estamos os dois hoje. E estava de braço dado com esse belo major; chilreava como um passarinho e rolava os olhos e abanava o traseiro de tal forma que fiquei com a garganta seca. E depois vi-os a entrar num hotel... o Hotel Dunja... um hotel pequeno. Ora, o que é que os apaixonados fazem num hotel, hum? peti Nikolaievich, não armes em inocente. Um alto oficial é um bom seguro de vida.

 

Victorov arquejou. Lembrava-se de que na véspera à noite Natalia trouxera mais rublos para casa do hospital do que nos outros dias. «Um prémio, papá!», exclamara ela. «Imagína... recebi um prémio por ser tão competente!» E ele enchera-se logo de orgulho paterno.

 

Nessa noite, Natalia não foi recebida com um abraço como de costume. Quando entrou em casa, alegre como sempre, e pousou quinhentos rublos em cima da mesa, Victorov atirou as notas para o chão com um gesto violento. Só nessa altura Natalia reparou na mãe Sonia sentada por baixo da imagem da Nossa Senhora emoldurada a ouro, de avental, a chorar. E quando olhou para o pai com um ar interrogador, viu a sua cara averrnelhada e os seus olhos esbugalhados, com um olhar fulminante.

 

- Quem foi desta vez? - gritou, encolerizado, o corpo estremecendo de raiva. - Um primeiro-tenente ou um coronel? Quinhentos rublos, que cabrão tão sovina!

 

Respirou fundo; o coração batia convulsivamente... «E agora, agora caio e morro de coração destroçado», pensou ele, «morto pela minha filha»... Cerrou os punhos e agitou-os à frente da cara de Natalia.

 

- Prostituta! - gritou ele, e a sua voz esganiçou-se. A minha filha é uma prostituta! Rebola-se em camas de hotel e passa-me o seu ordenado de prostituta. Com quinze anos, a prostituta dos oficiais! Eu cuspo-te em cima, eu cuspo...

 

Natalia baixou a cabeça. Naquele momento já estava preparada, alguma vez teria de acontecer.

 

- Papá... - disse ela em voz clara, fria mas infantil.

- Não me chames isso! - Victorov virou-lhe as costas. - Eu já não sou teu pai!

 

-Eu faço-o por vocês. - Natalia baixou-se, apanhou os rublos do chão e voltou a pô-los em cima da mesa. - Só por vocês! Para não passarem fome e não serem infelizes. Sou uma boa filha, que cuida de vocês. Quando voltares a ter um emprego, papá, eu paro imediatamente. Mas de que queriam vocês viver? Da pensão exígua com que, hoje em dia, só conseguem comprar uma fatia de toucinho no mercado negro? Deviam estar agradecidos e não me amaldiçoar. Nós queríamos sobreviver; com que meios, já ninguém pergunta.

 

Levou três semanas até Victorov se resignar a que a sua bela Natalia lhes oferecera uma vida sem preocupações.

- Hoje em dia não se vive da moral, tudo mudou. Vivemos mal? Não! Pensando bem, a Natalia é uma boa filha. Dá-nos todos os rublos, estes rublos ganhos com tanto esforço! Está bem, é uma prostituta... mas ganha dinheiro. Alguém vê se o dinheiro foi ganho numa fábrica ou numa cama? Temos de pensar nisso, mamã. E já está quase ultrapassado. Vou continuar à procura de trabalho - prometeu ele, pensativamente, à sua mulher Sonia, enquanto olhava para um quilograma de carne que ela comprara.

 

É claro que Victorov não arranjou trabalho. A «classe baixa» aumentava de semana a semana; Natalia começou a ter aulas de dança, não com uma professora de ballet do Teatro Bolchoi, mas sim com uma professora de striptease, que a ensinou a despir-se ao som de música sensual de forma tão provocante que os novos-ricos atiravam rublos, e até dólares, para que as dançarinas continuassem o espectáculo num dos quartos traseiros.

 

Quando, segundo a sua professora, Natalia estava pronta para a nova carreira, ela abandonou o liceu e assinou um contrato com o Bar Tropical. Era um local in, como às vezes se dizia, frequentado por uma nova classe social, que (quem sabe o que faziam durante o dia) atirava fora dinheiro e comprava tudo o que fosse comprável. E, -na Rússia, naquela altura tudo era comprável, à medida que aquele país se abria ao Ocidente. Comprar uma dançarina por uma noite fazia parte das despesas frívolas de uma vida agradável.

 

Isso fora já há quatro anos. Actualmente, em Maio de 1991, Natalia era a estrela do Tropical, ganhava mais rublos do que o presidente da Rússia, e o pai Victorov, ainda desempregado, vivia como um marchalnikl bem alimentado, visitava de vez em quando o bar e observava a sua bela filha, como ela ia despindo o fato e como, por fim, dançava nua em cima do palco. E quando alguém lhe perguntava como estava Natalia, respondia com orgulho: «Ela é dançarina, dançarina expressionista. Uma verdadeira artista. Não é nenhuma Pavlova, essa não tem igual... mas, mesmo assim, é uma estrela. Estamos satisfeitos com ela.»

 

Naquela tarde soalheira de Maio, estava, portanto, Natalia sentada num banco na margem do rio Moscova, a sentir o calor do sol e a pensar num novo número de dança que queria ensaiar. Um número bastante sensual, no qual um ursinho de pelúcia brincava entre as suas pernas. E essa era a cena mais inocente da coreografia.

 

De repente, teve a sensação de já não estar sentada sozinha no banco. Baixou a cabeça e abriu os olhos. Realmente, a seu lado estava sentado um homem de meia-idade, vestido elegantemente, a cheirar a um acre perfume masculino. Nos seus cabelos castanho-escuros apareciam alguns fios brancos, mas o mais notável eram os seus olhos azul-esverdeados, uma mistura de cores que Natalia nunca tinha visto. Esses olhos desafiadores fixavam-na, enquanto as mãos como que acariciavam já o corpo dela.

 

As mãos! Natalia olhou-as. As mãos encontravam-se pousadas na sua coxa esquerda, enfeitadas com quatro anéis grossos de brilhantes e safiras, que, contudo, não conseguiam disfarçar que a mão esquerda só tinha quatro dedos. Devia ser um defeito de nascença, dado que não havia cicatrizes a indicar que perdera o quinto dedo num acidente.

 

o homem fez uma pequena vénia no lugar. Quando começou a falar, a sua voz profunda e quente soou simpática.

- Bom dia - disse ele. - Pode-se finalmente respirar

 

Chefe. (N. da T)

 

como deve ser depois do longo Inverno. E quando a vemos, Natalia, sabemos o que significa a Primavera.

 

- Conhece-me? - Natalia ergueu uma parede de vidro entre si e o homem. À noite era uma pessoa diferente do que era durante o dia. - Suponho que do Tropical.

 

- Sou um cliente habitual desde que começou a dançar lá. A forma como se despe... isso é que é classe, e tem raça. O que quer? - A sua repulsa era suficientemente clara para não haver mal-entendidos. Mas o elegante homem fingiu não ouvir o tom de rejeição e sorriu a Natalia, como se os dois tivessem combinado passar a noite juntos.

 

- Sou Igor Germanovich Sybin - respondeu ele. Disse o nome como se esperasse sonoros aplausos. Mas Natalia não pareceu nada impressionada.

 

-E depois? - perguntou ela. -Não me conhece?

 

- Como é possível conhecer todos os clientes que frequentam o bar, mesmo que sejam clientes habituais?

 

- Excepto aqueles que tenham a sorte de, com mil rublos, abrir a porta do seu camarim.

 

- Está a confundir o local e a hora, Igor Germanovich. À noite, esse é o meu trabalho, agora é de dia, estou sentada num banco junto do Moscova a apanhar sol e quero estar sozinha. Se pensa que eu sou a dançarina, está enganado. Sou Natalia Petrovna Victorova, que o senhor não conhece. Mostrou-se altiva, fechou os olhos e continuou a desfrutar impassível do calor envolvente do sol de Maio.

 

Sybin observou-a por um momento, hesitando, e pensou como aquele corpo era fascinante no palco. Um escultor no apogeu da Grécia não conseguiria cinzelar nada melhor em mármore branco. Uma beleza perfeita.

 

- Porque é tão fria, Natalia? - perguntou ele.

 

- Durante o dia sou fria. Talvez possamos conversar à noite. Se vier ao Tropical...

 

-No bar, não! E no seu camarim, também não! Não sou do tipo que leva uma mulher bonita às costas com um maço de rublos. Eu não quero ser um dos seus clientes à hora.

 

Natalia não mudou a sua postura. Manteve os olhos fechados e continuou a bronzear-se. Directa e ofensiva, disse apenas:

 

-E que faz ainda aí sentado a dizer disparates?

 

- Gostava de lhe fazer um convite para depois da sua última dança.

 

- o que é que eu disse?! Diga isso à dançarina no bar!

- Não, não no bar, Natalia. Eu convido-a para jantar no Kasan,

 

Natalia abriu os olhos, mas não o olhou. Fixou o céu azul e uma rápida nuvem branca e redonda que flutuava indolente no infinito.

 

- No Kasan só se entra com uma reserva muito antecipada. E, além disso, já fechou há muito quando eu termino o meu espectáculo.

 

- Eu entro sempre. Se disser que sim, que vem, o cozinheiro espera por nós, os empregados, o pianista. Só nós os dois, sozinhos.

 

Agora Natalia mudou de posição. Virou-se para Sybin, lançou um olhar aos seus dedos iluminados pelos brilhantes e depois olhou-o de frente.

 

-Gosta de preliminares?

 

-Não! Não tenho intenções de ir para a cama consigo... se é isso que quer dizer.

 

-Que mais quer, então?

 

- Queria conversar consigo. Apenas conversar. Conversar de forma racional. Creio que já disse isso. É um desejo tão difícil de satisfazer?

 

- Seria o primeiro homem a considerar a minha presença de forma diferente, e a não me tratar como uma mercadoria.

 

-Eu não sou como os outros homens.

- É um perverso?

 

-Às vezes, sim, também o posso ser. - o sorriso de Sybin manteve-se igual. - Mas eu só quero conversar! Conversar é uma perversidade?

 

- Cada pessoa tem as suas peculiaridades. Sei lá eu! Ela acenou com a cabeça. - Portanto, conversemos...

 

-Aceita, Natalia?

 

-Por curiosidade, aceito. E agora deixe-me sozinha, Igor Germanovich. o Sol põe-se mais depressa do que desejaríamos... e quero aproveitar o tempo.

 

- Aproveitar o tempo... é uma boa expressão. - Sybin levantou-se do banco, agarrou na mão direita de Natalia, levou-a aos lábios e beijou-a. - Até logo à noite, Natalia Petrovna.

 

Ele afastou-se depressa, com passos vigorosos e desapareceu na multidão que gozava o dia quente de Maio a passear junto do rio.

 

«Um homem estranho», pensou Natalia e voltou a fechar os olhos. Estava-se sempre a aprender. Um homem que queria apenas conversar e, por mil rublos, poder andar de braço dado com o corpo mais bonito de Moscovo. Sybin. Igor Germanovich Sybin. Sybin? Onde é que ela já ouvira esse nome? De repente, soube que ele não era um desconhecido... Sybin, havia algo sobre a sua reputação de que não conseguia recordar-se. Já ouvira algures aquele nome.

 

Tentou lembrar-se, martirizou a memória, mas não se fez luz. Quando o Sol empalideceu, levantou-se do banco, atravessou a rua, em direcção à praça de táxis, seguindo para casa. Agora pertencia aos privilegiados que podiam pagar um táxi. De caminho, fez uma paragem, comprou um ramo de flores para a mãe Sonia e um pouco de vodca para o papá peti, e depois mergulhou em profunda meditação até à porta de casa.

 

Sybin. Sybin! Quem era aquele Sybin? Um homem com quatro dedos na mão esquerda. Um homem que só queria conversar com o corpo mais bonito que se podia comprar.

 

«Igor Germanovich, você provoca-me um certo desconforto mas também suscita a minha curiosidade. Vai ser uma noite muito interessante... »

 

A última entrada em cena chegara ao fim.

 

Os clientes do bar aplaudiram entusiasticamente; em cima da mesa do camarim estavam quatro sobrescritos com rublos, mas Natalia dissera logo à sua chegada a Semion, o gerente: «Hoje não! Vai lá e diz aos tipos que hoje não há nada para ninguém. Nada... nem que ofereçam dez mil rublos.» E Semion olhara para ela, incrédulo, e só acreditara quando ela lhe metera os sobrescritos na mão.

 

Ela vira Sybin, logo na sua primeira entrada em cena, sentado numa mesa redonda na primeira fila. Usava um fato azul-escuro feito à medida e uma gravata estampada, e, quando os projectores iluminavam o palco, faziam cintilar os dedos. Os brilhantes, para exibir a riqueza. Os ricaços da nova sociedade russa, que não se preocupavam muito com o reformista radical Ieltsine, eleito em 1990, constituíam uma força dominante na obscuridade, que intervinha em todos os domínios que gerassem dinheiro. o abismo entre pobres e ricos era maior do que antes, e a memória do antigo reino dos czares surgia novamente, existindo aristocratas e conselheiros e, depois, apenas o povo, os latifundiários, os jornaleiros e os mendigos. Já só não existiam os servos... ou então tinham outro nome. Quem dependia da benevolência do seu empregador sentia-se, com efeito, livre, pois acreditava em tudo quanto ele lhe dizia; todavia, na realidade, nada mudara na escravatura... simplesmente já não era tão visível.

 

Na última dança, Natalia intensificou algumas variações. No final, colocou-se em frente de Sybin, na beira do palco, ele ali sentado, ao alcance da mão, com os seus brilhantes, e, «é agora, Sybin», pensou ela, abriu as pernas e moveu as ancas ritmadamente para a frente.

 

«Observa bem, Sybin», pensou ela. «Observa apenas, Igor dos Brilhantes. Só queres conversar comigo?! Conversar! Deixa-te completamente calmo, isto que vês? É assim que eu sou. Assim, e não de outra forma. A rapariga sentada no banco é outra pessoa, que não tem nada em comum com a que agora te faz frente! »

 

Natalia abandonou o palco entre grande algazarra e fortes aplausos. Os clientes estavam completamente fora de si, talvez nunca tivessem visto algo assim de Natalia. Que brasa... de certeza que a partir daquele dia iria exigir um preço mais alto.

 

Sybin esperou lá fora, na rua, até os clientes dispersarem e Natalia sair, sozinha, do bar por uma porta lateral. Dirigiu-se a ela e cumprimentou-a imediatamente, como a uma irmã, com um abraço ofegante.

 

- Foste fabulosa! - exclamou ele. o tratamento por tu era já natural. - Vamos, entra. Estão todos à nossa espera no Kasan.

 

Sybin apontou para um grande carro preto, que estava estacionado a alguns metros da porta do bar. Um Mercedes 600, a brilhar de tão limpo. Natalia ficou parada e olhou para Sybin.

 

-Aquele ali? - perguntou.

- Sim.

 

Um motorista saiu do carro e abriu a porta. Tal como entre os capitalistas ocidentais, até tirou o boné da cabeça. -Tens um motorista? - Natalia começava a ficar inquieta.

 

- Como vês. Chama-se Vladimir, conhecido por Vladi. Um homem dedicado, de confiança. Dava a vida por mim se fosse preciso. Um homem forte... sabe karaté e kung-fu e parte três tijolos com as próprias mãos.

 

Natalia não se mexeu. o carro caro, o motorista que sabia kung-fu, os dedos cheios de anéis de brilhantes, o Restaurante Kasan, que ficava aberto depois da meia-noite só para ele, com o pessoal todo...

 

- Quem és tu? - perguntou ela.

- Sybin...

 

-E mais?

 

- Igor Germanovich.

 

- Não digas disparates! Eu quero saber quem és tu.

- queria conversar sobre isso no Kasan.

 

- Es o dono de algum clube secreto para homens? Não.

 

Controlas as prostitutas de Moscovo? Vamos andando.

 

.Alguma coisa na voz de Sybin fez Natalia abster-se de fazer mais perguntas. Deixou que lhe desse o braço e avanÇaram, para o grande carro preto. Cumprimentou Vladi com um aceno de cabeça antes de entrar no carro e se deixar cair nos estofos de couro espesso. Sybin sentou-se a seu lado e pousou o braço nos seus ombros.

 

«Vai começar a mexer não tarda», pensou Natalia. «Ele não é diferente dos outros tipos. Mas eu vou bater-lhe nos dedos. Sim, é isso mesmo.»

 

Todavia, Sybin comportou-se com decência. Durante o caminho falou sobre uma viagem a Bucareste e, quando pararam à porta do Kasan, ajudou-a exemplarmente a sair do carro.

 

Entraram no Kasan, o templo dos manjares de luxo de Moscovo, como um casal de czares. o pianista tocava num piano de cauda, os empregados estavam em fila como numa parada,o gerente inclinou-se.

 

É uma honra. Por favor, é aquela mesa com o ramo de rosas.

 

o chefe cozinheiro aguardava à porta da cozinha com uma folha de papel na mão, onde escrevera as propostas para um jantar exclusivo.

 

Durante a refeição, acompanhada de um vinho tinto da Geórgia, Sybin conversou sobre todo o tipo de futilidades; porém, depois de um café e um conhaque suave da Crimeia e de ter sido servida uma garrafa de champanhe da mesma região, proferiu, de repente:

 

- Natalia, és de lamentar por mostrares o corpo a toda a gente. És de lamentar por seres uma prostituta nocturna. És de lamentar por levares a vida que levas. Há outro mundo à tua espera.

 

Queres tornar-me tua amante permanente? - Ela riu-sybin abanou a cabeça. - Eu não sirvo para isso, para trocar a minha liberdade por uma cama única. - E, de repente, ficou muito séria e olhou para Sybin com olhar duro. - Eu odeio os homens!

 

-E, no entanto, leva-los para o teu quarto...

 

Isso é um trabalho, mais nada. Como se vendesse batatas no mercado ou meias e sapatos numa loja, ou o meu corpo, onde é que está a diferença? Quem paga, recebe a sua mercadoria. o que sobra depois é nojo e ódio.

 

Nunca te apaixonaste?

 

- Não!

 

- Que idade tens? Sinceramente?

 

- Dezanove, mas a minha alma é a de uma pessoa de setenta anos.

 

-Ela pode rejuvenescer.

 

- E és tu o elixir da juventude? Essa deve ser para rir, Igor Germanovich.

 

Sybin observou o local deserto e depois levantou a mão. Acenou, chamando um empregado.

 

- Quero ficar sozinho. Saiam todos... já... todos! - ordenou, autoritário.

 

As suas palavras funcionaram como se tivesse brandido um chicote. Todos os empregados desapareceram imediatamente pela porta da cozinha, o gerente voou para o vestiário e o pianista, baixo e grisalho no seu fato preto, reuniu as pautas, fez uma vénia a Sybin e desapareceu por uma porta lateral. Natalia observou tudo com assombro.

 

- Diabos, quem és tu? - voltou a perguntar. - Eles obedecem às tuas ordens. És um novo czar?

 

- Isso nunca quereria ser. Os que governam mantêm-se nos bastidores. Os verdadeiros governantes reinam na obscuridade.

 

-E tu és um desses?

- Quem? o Gorbachev?

 

- Pensas que eu sou estúpida? o presidente da URSS. -E quem é o Ieltsine?

 

- o presidente do Soviete Supremo. Natalia afastou o copo de champanhe. - É esta a conversa que querias ter comigo? Um inquérito estúpido?

 

- Queria falar-te do futuro. - Sybin agarrou a mão dela, beijou-a e prendeu-a entre as suas mãos enfeitadas. A glasnost e a perestroika, bendito seja Gorbachev, mudaram a Rússia. Abertura chama-se liberdade... mas, o que significa a liberdade para um povo que, durante sessenta e sete anos, foi governado pelo Partido, K.GB, funcionários, comissários e planos anuais malucos que nunca ninguém cumpria? Estás de repente perante um vasto pedaço de terra e dizem-te: «Isto pertence-te.» Mas o que vais fazer com essa terra? Onde estão as máquinas que a devem trabalhar? Onde está a mão-de-obra que surge com os novos tempos? Onde está a inteligência que fará avançar a nova Rússia? Os antigos natchalniks foram postos na rua, os novos ainda se enganam nas suas funções, as reformas vão-se multiplicando, na teoria implicam uma mudança de costumes, mas na prática significam uma insegurança paralisante. Seria necessário criar novas estruturas. sybin bebeu um pouco de champanhe. - Compreendes?

 

-Não. Só compreendo que existem cada vez mais desempregados, cada vez mais miséria, uma quantidade enorme de pessoas desiludidas e enganadas. Só precisei de ver o meu pai. Não só lhe tiraram o trabalho como a vodca.

 

-A proibição do álcool foi um grande erro do Gorbachev. Ele devia ter previsto a situação observando a América. A proibição americana, nos anos vinte, foi a base dos grupos de gangsters. Surgiu a Mafia, a Cosa Nostra, Al Capone, Bugsy Siegel, Lucky Luciano, todos os grandes nomes do submundo governaram cidades como Nova lorque, Chicago e Los Angeles e daí a América toda... sim, e é assim que a nova Rússia se encontra. Na ribalta vêem-se os heróis do povo, os grandes reformadores à luz da popularidade... mas por trás deles, fortes e poderosos, encontram-se homens invisíveis que puxam os cordelinhos.

 

Natalia olhou para Sybin com olhos esbugalhados, tão descrentes que este teve de se rir.

 

- Já compreendes, minha linda? - perguntou ele e beijou novamente a sua mão.

 

- Tu... és um deles? - inquiriu Natalia, hesitante. Como? o que és?

 

-Nós somos uma organização de especialistas. Até agora existem doze grupos, que trabalham não só na Rússia, mas também a nível mundial. Temos delegações na Alemanha e na Áustria, em França e na Polónia, na Hungria e no Irão, nos Estados Unidos e até na Itália.

 

-E tu... és o chefe desses doze...

 

-Não. Cada grupo tem o seu próprio... director, é como lhe chamamos. Eu dirijo o Grupo Três, mas passam pelas minhas mãos muitos cordelinhos relacionados com as áreas económicas mais importantes.

 

-Agora já compreendo. - Natalia repreendeu-se a si própria. A percepção de quem Sybin era deixou-a petrificada e, ao mesmo tempo, sentiu o medo a percorrer-lhe o corpo, o sangue a rumorejar nos seus ouvidos. - Tu és um dos chefes da Mafia, de quem toda a gente fala. Tu és um criminoso!

 

-Eu sou um homem de negócios. Não, não olhes assim para mim, Natalia, vou fingir que não ouvi a palavra maldosa «criminoso». Presentemente, pertencem ao nosso consórcio (é uma boa palavra) vinte e sete mil empresas de todos os sectores, novecentos bancos e cerca de setenta mil casas. As maiores empresas de construção da Rússia, na sua maioria, pertencem-nos, e aquelas que ainda não possuímos pagam-nos uma taxa para poderem construir. Setenta por cento de todas as empresas, lojas, fábricas e empreitadas pagam um contributo para protecção, que as defende de serem dinamitadas ou liquidadas. Ao princípio havia uns mais renitentes, e os sacerdotes ortodoxos tiveram um período de prosperidade económica com os funerais... era impossível evitar uma situação dessas, a construção de um negócio exige firmeza e consequências. É uma lei antiga da natureza, desde que existe vida na Terra: só os mais fortes sobrevivem.

- Tu... mataste pessoas?

 

-Não. Isso é da responsabilidade do Grupo Um. Sybin acariciou a mão de Natalia. Ela suportou a carícia; estava gelada, um bloco de gelo que não conseguia mexer-se. - Com o meu grupo, organizei o tráfico de estupefacientes e, mais tarde, por ser um complemento e se adaptar, o tráfico de mulheres. Os países capitalistas ocidentais estão ávidos de mulheres russas. Dantes, as preferidas eram as Prostitutas da Tailândia, das Filipinas, da China e da Malásia, agora são as prostitutas do leste. A onda asiática já está ultrapassada... pedem russas, polacas, mulheres da Chechénia e da Hungria com as suas formas cheias e arredondadas. Para os bordéis, as asiáticas são demasiado pequenas e magras... quer-se novamente ter onde pôr as mãos.

 

Sybin recostou-se. Leu o pavor nos olhos de Natalia e lamentou ter de dizer tudo aquilo. Mas era necessário para o plano que ele queria levar a cabo com a ajuda de Natalia.

 

- Desde o ano passado - continuou ele -, dei também início ao roubo e contrabando de automóveis através da fronteira polaca. Um bom negócio, mas, de uma maneira geral, ainda apenas um negócio secundário. Interessa-me principalmente conseguir contactos nos circuitos criminais da Alemanha, de forma a criar um grupo novo, ainda clandestino e universal. Um negócio de milhões... nada de rublos, mas sim dólares, marcos alemães, francos franceses, xelins austríacos e francos suíços. Milhões, digo-te eu. É um mercado até agora totalmente desconhecido, dado que os moralistas do mundo ocidental não conseguem imaginar tal coisa. Mas a moral não nos torna ricos, não nos dá poder, não nos permite governar o mundo. Nós, Natalia, nós vamos poder fazê-lo. Vamos ser ricos e ter o poder sobre este mundo nas mãos.

 

Ele deteve-se, esvaziou o champanhe e encheu novamente o seu copo e o de Natalia. Em seguida, ergueu o copo, brindou e esperou que ela também erguesse o seu. Mas ela permaneceu hirta e imóvel à sua frente, olhando-o apenas.

 

-Compreendes o que te digo? - perguntou ele, bebendo metade do copo de champanhe.

 

- Sim e não. - Estas foram as primeiras palavras que ela pronunciou, com voz abafada e a garganta apertada. Por que razão me contas tudo isto? Deves ter receio que eu telefone ainda hoje para o KGB.

 

-Minha linda... - Sybin riu-se como se depois de uma declaração de amor. - Tu não vais contar uma única palavra do que conversámos. Tenho a certeza. Ninguém trai um Sybin. A primeira norma do nosso código de honra é o silêncio. Quem não a cumpre...

 

Sybin encolheu os ombros, e Natalia percebeu-o imediatamente. Acenou ligeiramente com a cabeça, o que foi doloroso de fazer.

 

- Queres vender-me a um bordel da Alemanha? - perguntou, incrédula.

 

-Natalia, que ideia! Se eu quisesse tal coisa, já estavas a caminho da fronteira.

 

O que queres, então?

 

- Quero tornar-te uma das mulheres mais ricas e bonitas do mundo. Os homens vão rastejar aos teus pés... mesmo que os odeies.

 

-E que tenho de fazer em troca?

 

-Serás o meu Sol, que brilha em todo o lado. -Que poético. o Sol de um criminoso!

 

- Deixa-me continuar para perceberes a tua função. Sybin pousou as mãos uma em cima da outra. A mão esquerda sobre a direita... a mão esquerda com os quatro dedos. «Não tem mesmo cicatrizes», pensou ela. «É um defeito de nascença. Que homem tão presunçoso. Procura a perfeição e é ele próprio um aleijado. Como isso o deve abalar.»

 

- Criámos o nosso império de poder na Rússia. Os nossos homens de confiança ocupam todas as posições importantes deste país: nos ministérios, no KG13, no Soviete Supremo, na organização militar, em todos os serviços públicos, no abastecimento de energia, no corpo diplomático. Todos eles, estes amigos, estendem a mão e nós pagamos-lhes. Sempre foi assim na Rússia, apenas hoje em dia é o nosso consórcio que paga. Isso significa que sabemos tudo. o fluxo de informação assemelha-se a um lençol de água subterrâneo e torrencial. Natalia, o que sabes sobre o Gorbachev? - o que todos sabemos, tem problemas com as suas reformas.

 

- Ele quer ir viver rapidamente para a sua casa de campo em paz e sossego. - Sybin olhou para o tecto, como se quisesse ler aí as suas últimas palavras. - Há um plano para tirar o Gorbachev do poder com um golpe de Estado rápido e indolor. Deve ter lugar em Agosto, e o Boris Ieltsine deve ocupar o seu lugar. o presidente do KG13, Vladimir Kriutchkov, é um dos chefes dos golpistas. Vai mudar tudo depois do golpe de Estado... no partido, na economia, no domínio militar, na política externa. Sabemos que o Ieltsine planeia assinar um pacto de desarmamento nuclear com os Estados Unidos, que proibirá todos os ensaios nucleares; a produção de urânio e plutónio preparado para o uso em armas deve ser suspensa, os actuais mísseis nucleares serão destruídos. Nunca mais deverá haver uma guerra nuclear. o mundo deve ser seguro e sem medos.

 

- Sabes tudo isso antecipadamente?

 

-Já te disse, os nossos informadores estão em todo o lado. Isso coloca-nos na situação de poder planear tudo com grande antecedência. Se a Rússia assinar esse pacto de desarmamento nuclear, haverá uma consequência dramática: os institutos de investigação nuclear serão encerrados, de hoje para amanhã milhares de investigadores especializados ficarão desempregados, as cidades nucleares como Semipalatinsk, Krasnoiarsk, Tomsk, Cheliabinsk, e as outras cidades de investigação secretas na Sibéria e no Cazaquistão ficarão mortas, e os desempregados sentar-se-ão nos parques e aceitarão qualquer trabalho para mitigar a fome. Podemos recorrer a eles... e podemos recorrer aos investigadores nucleares desempregados e às suas equipas; É nos centros de investigação e nas empresas nucleares que se encontram os nossos milhões. Estão lá como numa loja de self-service... só é preciso recolhê-los! - o que queres recolher?

 

- Plutónio duzentos e trinta e nove, urânio duzentos e trinta e cinco, varetas de combustível de plutónio, lítio seis preparados para o uso em armas, bombas atómicas e mísseis nucleares prontos a disparar..

 

- E para que serve isso?

 

- Com plutónio, com apenas cinco quilogramas, é possível construir uma bomba, que faz a de Hiroxima parecer uma pequena brisa. Com lítio seis constrói-se a bomba de hidrogénio, com urânio a bomba de urânio.

 

- Bombas! Bombas! Bombas! Quem as quer?

 

- oh, Natalia! Há muitos países que querem ser uma potência nuclear: o Irão, o Paquistão, a Líbia, a Coreia, soberanos da África negra... interessados não faltam.

 

- Igor Germanovich... é um negócio com milhões de mortes. Queres acabar com a humanidade?

 

- Eu sou um comerciante, nada mais. Eu forneço onde existe procura. o que o comprador faz com aquilo... é culpa minha? É como com as batatas: podem ser cozinhadas e comidas, ou podem ser utilizadas para fazer aguardente proibida. Devemos, por isso, acusar todos os vendedores de batatas? Natalia, em breve cerca de seis mil trabalhadores da indústria atómica vão ser postos na rua, e revelaram-nos que nos armazéns se encontram cento e oitenta toneladas de plutónio. Cento e oitenta toneladas... chega para trinta e seis mil bombas atómicas! - Sybin respirou fundo. - Já averiguei os preços. Por um quilograma de plutónio duzentos e trinta e nove, os interessados pagam sessenta e dois milhões e meio de dólares. Isso significa que cinco quilogramas para fabricar uma bomba correspondem a duzentos e doze milhões e meio de dólares! Por cinco quilogramas! E nós temos cento e oitenta toneladas na Rússia! Este é o maior negócio que existe neste mundo!

 

Natalia ficou impressionada com aqueles números, mas para si eram justamente apenas números que não lhe serviam para nada.

 

-E que tenho eu a ver com isso? - perguntou ela.

- Tu vais abrir a porta atrás da qual estão os milhões. -Eu? o que é que eu tenho a ver com o plutónio?

- o plutónio é comigo... tu vais convencer os clientes.

 

Uma mulher tão maravilhosa como tu não conhece portas fechadas. Tu vais abrir o mercado, como abres as pernas. o teu trabalho adquire agora um significado maior.

 

o riso de Sybín não foi de forma alguma sarcástico ou irónico... foi um riso como se tivesse feito a sua declaração de amor. Mas Natalia ficou, subitamente, hirta, como se uma mão gelada tivesse passado pelas suas costas.

 

- Eu devo passar a ser a prostituta da máfia... - balbuciou.

 

- Tu passarás a ser o nosso intermediário mais sedutor. Trabalhas como representante de um consórcio... É contra a tua honra? Acabaram-se as noites de uns irrisórios mil rublos... tu mereces melhor. Os homens que passarás a entreter são personalidades internacionais. E em cada actuação deves pensar: um milhão... e mais um milhão... e mais um milhão... Não adormeças, Mustafá ou como te chamas...

 

- Igor Germanovich, és um porco! Um porco a chafurdar na lama! E pensas mesmo que eu vou na conversa? Sybin acenou afirmativamente com a cabeça.

 

- Sim. Vais ser uma mulher rica. Mas não penses que as centenas de milhões de dólares me pertencem só a mim. Elas pertencem ao consórcio. A ideia é minha, mas a nossa empresa baseia-se em amizade e irmandade. Um rublo apenas no próprio bolso, e um tribunal de honra dos teus amigos decide que já não mereces viver.

 

- Não recebes nada dos milhões? -Vinte por cento de cada venda paga.

 

- Isso significa que... - Natalia susteve brevemente a respiração - por cinco quilogramas de plutónio, que dizes que chega para uma bomba, recebes sozinho trinta e um milhões e meio de dólares?

 

- Sabes fazer contas muito bem, Natalia. Cinco quilogramas... e existem toneladas de plutónio e de urânio. Só temos de ir até elas.

 

-E isso é difícil!

 

- Mas não impossível. Toda a nossa organização está a trabalhar nisso, com subornos, chantagens, ameaças e «trabalho de convencimento» corporal e pressão moral na cama. Esse vai ser o teu departamento, minha linda. Até o cientista nuclear mais íntegro acaba por ceder às suas hormonas. Quem deseja o corpo, perde o juizo. A central de comando de todos os homens é o seu pénis, e quem o dominar, domina o homem no seu todo.

 

-Não gosto desse palavreado ordinário, Sybin! - Natalia agarrou no seu copo de champanhe e esvaziou-o num só trago. Retirou a mão das de Sybin, que ainda estavam juntas.

 

- Dez por cento - disse ela, de repente, num tom de voz mais duro.

 

- Dez por cento, o quê? - retorquiu Sybin, surpreendido.

 

- Se me tornar a principal prostituta da máfia... dez por cento de cada negócio.

 

-Natalia, estás doida! - Sybin fez um esgar e o seu rosto belo e másculo alterou-se. - Estávamos a pensar num bom ordenado. o ordenado de um director, como nenhum gestor recebe. Um ordenado que faria empalidecer os directores alemães ou americanos.

 

- Uma missão importante exige um grande investimento. Não me disponho a fornicar por um ordenado mensal. -Agora és tu que estás a ser ordinária!

 

- Com esta linguagem talvez nos entendamos melhor. Sybin calou-se e fixou-a longamente em silêncio. o seu olhar deslizou pelo seu rosto, o seu pescoço, desceu para o decote profundo do seu vestido e para o peito meio descoberto. Um olhar perigoso e enigmático.

 

«Que pensa ele agora?», reflectiu Natalia, e inspirou levemente. «Será o olhar de um assassino, a avaliar a sua vítima, para decidir se aponta para a testa, entre os olhos ou para o coração? Natalia, serão os teus últimos minutos? Foste longe de mais, violaste a regra fundamental da máfia: nunca fazer exigências! Chantagem é a última coisa que a máfia tolera... chantagem vem logo a seguir à traição.»

 

- E então? - perguntou ela, esforçando-se por dar firmeza à voz. - Estás a pensar?

 

- Estou a pensar numa determinada possibilidade. Sybin estendeu os braços na mesa e apoiou o queixo nas mãos cruzadas. Todavia, o seu olhar continuou fixado em Natalia. - Seria possível dizer: «Muito bem!» Deixá-la ir-se embora. Esquecer tudo. E equacionar: ela sabe de mais, tornou-se um perigo, e os perigos devem ser eliminados. Acompanhá-la à saída do Kasan, levá-la até ao carro, fazer um sinal ao Vladi, e ele encarrega-se de a estrangular com um arame de aço. Silenciosa e rapidamente. A Polícia, que alguém chamaria de manhã, manda vir um carro e leva-a. Mais um, diriam eles. o quarto assassínio esta noite. E, como se percebe pela roupa, uma prostituta. Quase nem compensa fazer um relatório. Alguns mortos por noite fazem Parte do quotidiano de Moscovo. Sim, podemos pensar assim e resolver o problema.

 

- Tu nunca farás uma coisa dessas, Igor Gerrnanovich declarou Natalia. A sua voz soou rouca de medo. - Tu não consegues matar-me.

 

-Não, não consigo matar-te. - Ergueu a cabeça das suas mãos. - Também a mim me tornaste um idiota... eu amo-te.

 

- Mal nos conhecemos! Queres dormir comigo? Queres dormir com um cubo de gelo?

 

- Ofereço-te três por cento.

- Cinco!

 

- Quatro.

 

- Cinco... ou esquece. - Comprimiu os lábios por um instante e continuou com voz firme. - Ou mata-me se conseguires. Tens alguma arma contigo?

 

- Sempre. Uma Makarov. Queres vê-la?

 

- Se quiseres. Receio ser obrigada a vê-la se a disparares. Fui estúpida em cá vir. E a estupidez tem consequências... Por isso, agradeço que mantenhas a pistola guardada.

 

- De acordo. - Sybin recostou-se e riu. - Cinco por cento! Como é que alguma vez te poderia matar? Mas amaldiçoo a primeira noite no Tropical em que te vi. «Igor Germanovich», disse a mim próprio, «esta é a mulher da tua vida. Não negues, não vale a pena.»

 

-Nunca serei a mulher da tua vida.

 

- A partir daí sentava-me todas as noites no bar e olhava o palco onde te despias e mostravas o teu corpo de deusa a todos aqueles bodes libidinosos que te acenavam com rublos ou dólares. Esta «nova sociedade», esta malta perdida, este lixo pestilento, que reluz a ouro, estes meninozinhos e os sacos de rugas pré-históricos que enganam o povo como homens de negócios sem escrúpulos...

 

-Um momento! - Natalia ergueu a mão.             Tu por acaso és diferente, seu príncipe da máfia?

 

- Eu não me comparo a essa escumalha!             Sybin olhou em volta. A garrafa de champanhe estava vazia. Levantou-se, dirigiu-se à mesa grande, pegou numa garrafa de vinho de Bordéus e voltou para junto de Natalia. Como não tinha nenhum saca-rolhas, mas também não queria chamar nenhum empregado, cortou o gargalo da garrafa com um golpe de faca e deitou o vinho tinto, despreocupadamente, nos copos de champanhe. Em seguida, provou-o, deu estalos com a língua e bebeu com prazer um longo gole.

 

- Sabes que poderia ter morto todos os que deveriam ir ter contigo ao camarim depois do espectáculo? Essas ratazanas imundas! Mas depois disse a mim próprio: «Igor, tu vais tirá-la daqui. Nunca mais haverá gajos a mil rublos... »

 

-Mas por uns milhões... é diferente?

- Sim.

 

- A vossa gente adorada... aprendeu a nova moral! Também aqui existem reformas!

 

- Vamos ser uma equipa, uma sociedade, a sociedade mais próxima que existe. Tudo o que vamos fazer será feito para nosso proveito. É para nós.

 

-Isso soa como se fôssemos um casal. -Na cama não, mas no êxito.

 

- Odeio-te, Igor Germanovich! - exclamou Natalia. Cerrou os punhos e pressionou-os contra o peito. - Meu Deus, como te odeio!

 

- E assim será! - Sybin deu uma gargalhada. - É o melhor requisito para o amor.

 

Pouco tempo depois deixaram o Kasan, subiram para o carro, e Vladi levou Natalia a casa. Quando pararam à frente do bloco de apartamentos, um caixote de betão frio e feio, Sybin ajudou novamente Natalia, com toda a delicadeza, a sair do carro e olhou para a fachada lisa e repulsiva.

 

- É aqui que moras?

 

- Sim. Com os meus pais. -Eles sabem o que fazes?

 

-Vivem disso... é por isso que o faço. -A filhinha valente.

 

- Tu não sabes o que é a fome e a miséria, o desespero, o vazio interior. És um parasita.

 

- Eu cresci numa barraca de chapa nas proximidades de Kisilmov. Não conheces Kisilmov? Quem conhece! Uma aldeia junto do pântano. No Inverno gela, no Verão fica debaixo de uma nuvem de mosquitos. o meu pai era salsicheirO, muito procurado por causa da sua mistura de especiarias, que não revelava a ninguém. E a minha mãe... ela satisfazia-se com estar sempre grávida. Depois do décimo segundo filho, disse ao meu pai, corajosamente: «Stepan, se vier mais algum, corto-te a pila!» Isso ajudou. o meu pai tornou-se mais atento, ele sabia que ela cumpriria o que prometera. Aos doze anos fugi Para Moscovo. Apanhei um combóio de mercadorias e roubei para comer. Esse foi o princípio. E onde estou eu agora? - Apontou para o Mercedes e para Vladimir, que se encontrava à espera, com as suas luvas brancas. - Só é preciso ter coragem e não ter alma.

 

Pegou novamente na mão de Natalia, beijou-a e depois apontou para a fachada da casa.

 

- Diz aos teus pais que em breve vão estar a viver numa bela casa de campo e que, no Verão, vão estender-se ao sol na praia de Sochi. E tudo isso porque a filhinha deles vai ganhar, por cada número... um milhão, mais um milhão... dez milhões... Voltamos a ver-nos amanhã.

 

Regressou ao carro, Vladi fechou a porta e afastaram-se com rapidez. Natalia observou-os até desaparecerem na curva.

 

- E continuo a odiar-te! - exclamou ela, e ergueu bem a cabeça em desafio. - Igor Germanovich, ainda vais ter muitas surpresas comigo...

 

Imediatamente após a queda do Muro de Berlim, o general Alexander Nikolaievich Petchin abandonou a sua bela casa em Karlshorst e regressou a Moscovo.

 

Tinha imensa pena. Ao longo do ano, fizera muitos amigos, frequentava a casa de Mielke, o chefe da Segurança de Estado da R.D.A, conhecera personalidades importantes do governo, fora convidado para o café por Wolf, chefe de espionagem, e tornara-se um convidado bem recebido junto dos chefes da economia, com quem participava em festas ruidosas no sumptuoso Grand Hotel, o hotel que exibia os camaradas alemães. Estava sempre reservada uma suíte isolada... Era ali que o elegante general recebia as suas companheiras e também os homens aparentemente pouco vistosos que o representavam em discretas relações comerciais.

 

Nesses encontros, naturalmente, Petchin não usava uniforme, mas sim um fato azul vulgar. Quando avançava pela obra-prima do Grand Hotel, a escadaria enorme e larga, forrada com um tapete vermelho até ao salão circular, ninguém pensaria que ele era um dos homens mais importantes da potência de ocupação soviética. Responsável por toda a logística do destacamento de Berlim, era essa posição que significava poder. Nada se passava em Berlim sem o general Petchin.

 

No seu gabinete, efectuavam-se todos os fornecimentos da guarnição soviética, incluindo o controlo de armas, apesar de haver um departamento próprio para tal, dirigido pelo seu amigo Kusina. Mas Kusina não era apenas um amigo, mas uma espécie de membro ilegal da família, era o amante de Olga, a cunhada de Petchin, irmã da sua mulher. Uma relação deste tipo é, também, um compromisso. Para Petchin não havia nada que ele não conseguisse... para um aumento do ordenado, na melhor das hipóteses.

 

Assim, era compreensível que o general Petchin não só jantasse no Grand Hotel com os chefes do governo da R.D.A, mas também mantivesse contactos com os «círculos secundários». Ali, principalmente na Stasi, o Serviço de Segurança do Estado, encontrava os homens que dispunham das melhores relações nos países ocidentais e proporcionavam vários negócios lucrativos. Obviamente a troco de uma perCentagem, sendo isto tão evidente na vida de negócios que já não é preciso mencionar o assunto; no entanto, havia que chegasse para todos.

 

Dois dias depois da queda do Muro de Berlim, o general Petchin encontrou-se como um civil inofensivo em Moabit, na popular taberna Zum Dicken Adolf («O Adolfo Gordo»), com dois homens de aparência muito séria: o advogado Dr. Paul Sendlinger e o major da Stasi, Ludwig Waldhaas. A eles juntou-se o taberneiro, Adolf Hãssler, um homem bastante volumoso, a quem o nome da taberna enchia de orgulho.

 

Isto, porém, não passava de coincidência. o típico café de Moabit já existia há mais de setenta e dois anos, e tornara-se muito conhecido quando, em 1934, o departamento de inspecção profissional, dirigido pelo seu novo director do Partido Operário Nacional-Socialista alemão, exigira a mudança de nome. Aconteceu com o outro Adolf e só depois com o «gordo» (dicken). Em vez disso, fora sugerido, à luz da longa tradição da taberna, o nome «Deutsche Eiche» («O Malte Alemão»). Mas o pai de Adolf Hãssler Julius, recusou-se a mudar o nome só por causa do Adolfo magro. E quando Julius Hãssler, em 1943, caiu na via de transporte na direcção de Moscovo e o seu filho ficou à frente da taberna, nunca mais ninguém pensou em considerar dicken Adof uma alcunha.

 

Como sempre, Hãssler trouxe primeiro uma aguardente de cereais dupla e uma cerveja Pilsener para a mesa reservada. Sabia do que o general gostava. Apenas o major Waldhaàs recebeu um copo de vinho tinto. A cerveja fazia-lhe azia, o que era muito invulgar.

 

- Agora estamos todos na merda! - exclamou o general Petchin, em vernáculo. Falava bem a língua alemã. Em primeiro lugar, aprendera alemão na escola da sua cidade natal, Minsk, e, em segundo, cinco anos como oficial da guarda de ocupação em Karlshorst eram um bom tempo de aprendizagem. - Gorbachev, o reunificador da Alemanha! Não pensem que é possível. Porque eu posso profetizar-vos uma coisa, meus senhores: isto não vai ficar pela queda do Muro! Vai ser criada uma nova Alemanha unida. E este é o início de uma nova era europeia a que nos devemos adaptar. Especialmente para si, Waldhaas, vai ser crítico. Como oficial da Stasi...

 

- Espero conseguir safar-me. - Waldhaas, um homem de estatura média e franzino, que ficava muito melhor de uniforme do que à civil, acenou, seguro de si. Era um agente da Stasi responsável por quatro outros agentes da R.F.A. e desde há longo tempo fora informado acerca de muitos outros agentes antes de estes serem descobertos. - Por intermédio do nosso amigo doutor Sendlinger, encontrei-me há uma semana com um procurador-geral da República de Berlim Ocidental e ofereci-me como informador e penso que isto compensará.

 

- Quer mudar de lado? - perguntou Petchin. Soou um pouco consternado.

 

- Não! - Adolf Hãssler riu-se, mesmo antes de Waldhaas conseguir responder. - Se ele já não constar da lista, vai entrar para o negócio de materiais de construção do meu cunhado. Este é o negócio do futuro. Os Ocidentais vão consttuir como uns loucos, das ruínas farão palácios, e vão correr milhares aqui no Leste, não é, Ludwig?

 

- Veremos. - Waldhaas foi muito contido. - É ainda demasiado cedo para celebrar. Primeiro vou tratar de evitar sentar-me no banco dos réus.

 

- Mas devíamos ter cuidado - avisou o Dr. Sendlinger, um homem um pouco mais gordo e de cara avermelhada, de ombros largos e um bigode elegantemente aparado. - A sabedoria do Gorbachev, «quem chega tarde de mais é castigado pela vida», não deve ser encarada como uma citação bonita... Por trás destas palavras esconde-se o inesperado. Novidades de que nós nem suspeitamos. Transformações que vão mudar a cara da Europa. Temos de estar preparados para tudo.

 

- Também era nisso que estava a pensar quando propus que nos encontrássemos. - o general Petchin bebeu a sua cerveja Pilsener. - Eu fui mandado de volta para Moscovo.

 

-Não são boas notícias! - o Dr. Sendlinger acendeu um charuto e deitou a primeira fumaça na direcção do tecto.

- o que se pode fazer? Um oficial obedece! Sinceramente, lamento deixar Berlim... Por outro lado, vou para o Estado-Maior das Forças Armadas Ocidentais assumir o planeanento central.

 

- Isso, em contrapartida, já soa bem. - Waldhaas sorriu, trocista, com à-vontade. - Acima de tudo as nossas relações devem ser aprofundadas e alargadas.

 

- Queremos falar sobre isso esta noite. - Petchin emPurrou o seu copo em cima da mesa. Hãssler levantou-se de um salto e foi buscar um copo novo. - Disseram-me, de MOscovo, na maior das confidências, que, depois da reunificaÇão das duas Alemanhas, as nossas tropas na R.D.A. devem ser reduzidas. Claro que ainda não se fala de uma retirada total, também não conseguia imaginar tal coisa. E redução significa que vão estar disponíveis armas e equipamentos. -Ah! - exclamou Waldhaas.

 

-Tenho de ser mais claro?

 

- De modo algum, camarada general. - Waldhaas parecia ter acabado de ser contemplado com uma riqueza. o que pode fornecer?

 

- Isso só poderei dizer depois de ter dado uma olhadela. A minha pergunta fundamental é: o que vos poderá fazer falta?

 

- Tudo. - o Dr. Sendlinger voltou a dirigir o fumo do charuto para o tecto. - Em termos de armas e munições... tudo. Bom seria lança-granadas, antimísseis, artilharia ligeira... mas isso não vai conseguir, general.

 

- Não se fazem negócios com pessimismo. Veremos. Tem um comprador?

 

- Tenho conhecimentos. - o Dr. Sendlinger mostrava-se muito cauteloso. Até dos amigos era preciso esconder a verdade. Saber de mais só prejudicava.

 

-Têm de ser, como até agora, negócios seguros. Petchin queria discrição. A nova situação, que se delineava, poderia reforçar o controlo estatal, ou talvez não... Era possível que, com a união das duas Alemanhas, as autoridades fossem demasiado exigentes e perdessem a noção. A euforia cegava, e depois vinha o grande vazio que era preciso encher com novas ideias. Não era fácil engolir um país anteriormente independente e mudá-lo. Havia muita coisa que se perdia de vista, e essa era a grande oportunidade que tanto Petchin como Waldhaas e o Dr. Sendlinger reconheciam. Mas agora era preciso aguardar os novos desenvolvimentos e usar de precaução. - Também não vai ser fácil manter um contacto estreito com vocês a partir de Moscovo. Quem sabe o que vai mudar? Por isso, instalei um contacto em Berlim Ocidental. Na Wilmersdorfer Strasse, um comerciante de peles. Juri Nikolaievich Spasski. Podemos confiar nele. Na grande guerra patriótica, foi sargento no meu batalhão e ferido várias vezes. Um bom homem! As nossas encomendas serão processadas através dele.

 

-Mais um parceiro é sempre um risco, general.

 

o Dr. Sendlinger não se preocupava em esconder os seus pensamentos. Mas Petchin fez um gesto de indiferença. -Eu confio no Spasski como em mim próprio.

 

- Se o diz. - Waldhaas olhou de soslaio para o Dr. Sendlinger. Como sempre, estavam de acordo. - Nós estávamos interessados em urânio altamente concentrado.

 

- Impossível! - Petchin olhou para Waldhaas, horrorizado. - Isso ninguém consegue! Urânio! Para que o querem?

 

- Temos alguns interessados... -Na Alemanha?

 

- Não.

 

- Nos países árabes?

 

- General... - o Dr. Sendlinger colocou-se novamente à defesa. - Forneça-nos, se possível, urânio duzentos e trinta e cinco, nós pagamos... e depois esqueça!

 

-Isso é um negócio louco! - o general Petchin abanou a cabeça. - Esqueçam!

 

-Material pronto a ser utilizado em armas vai ser a mercadoria do futuro. Nada será vendido tão caro como o urânio duzentos e trinta e cinco, o plutónio duzentos e trinta e nove, o lítio seis, o césio cento e trinta e sete, o óxido de urânio U trezentos e cinco e o novo califórnio. Só para lhe dar um exemplo, general: nós conseguimos vender o calífórnio por dois milhões de dólares por grama.

 

- Disparate! - Petchin começou a suar. - Isso é uma loucura!

 

-Mas o maior negócio vai ser o plutónio duzentos e trinta e nove. E a Rússia possui-o! General, deve começar a estabelecer relações com as centrais nucleares e os centros de investigação nuclear. Compensa: por um quilograma de Plutónio, preparado para uso em armas, os compradores Pagam hoje em dia cerca de cinquenta milhões de dólares! E os preços vão aumentar. A margem de lucro é francamente fabulosa. Digamos que o general compra aos cientistas nucleares um quilograma de plutónio duzentos e trinta e noVe por um milhão ou milhão e meio de dólares e vende-o por cinquenta milhões. Isto é um lucro bruto de quarenta e oito milhões e meio. Desses, dez por cento são para si, general... o que faz quatro vírgula oitenta e cinco milhões de dólares num só negócio!

 

- E quem é que vos vai pagar a quantia maluca de cinquenta milhões de dólares?

 

- Sem comentários. - o Dr. Sendlinger deu uma gargalhada. - Quem recebe quatro vírgula oito milhões numa conta da Suíça deve ficar contente e não fazer perguntas.

 

- Ainda assim, mantém-se uma utopia. As nossas instalações nucleares, que fornecem material radiactivo para as armas nucleares do Exército Vermelho, pertencem às fábricas mais bem vigiadas do mundo. Ali nem um rato consegue entrar! Caros amigos... sobre o tráfico de armas ainda falamos... mas sobre armas nucleares não! Plutónio no mercado negro... uma ideia impossível!

 

Nessa noite, no Zum Dicken Adolf, o general Petchin despediu-se com uma pequena festa dos seus amigos. Mais tarde, pensava com saudade no seu tempo em Berlim, e vinham-lhe as lágrimas aos olhos. A alma russa... despedir-se é como uma meia morte. Sobretudo, quando não se sabe o que espera alguém em Moscovo e o futuro que lhe está reservado na nova Rússia de Gorbachev.

 

Quem chega tarde de mais é castigado pela vida. Céus, quantos chegariam tarde de mais? Seria possível apagar tão facilmente mais de meio século de ideologia soviética? E o que se seguiria?

 

Foi uma despedida triste. Petchin abraçou os seus amigos alemães, beijou-os três vezes na face segundo a velha tradição e em seguida voltou para Karlshorst. o Dr. Sendlinger, Waldhaas e Hãssler ficaram à porta da taberna a acenar-lhe.

 

-Acham que o negócio com ele vai correr bem? perguntou Hãssler. - Ele está com medo.

 

-Mas é ganancioso... isso acalma-lhe os fígados. o Dr. Sendlinger soltou uma gargalhada sonora.

 

Em 31 de Agosto de 1990, depois da assinatura do acordo de reunificação, passou a haver apenas uma Alemanha. As premonições de Petchin cumpriram-se.

 

Graças aos conhecimentos do Dr. Sendlinger, o major da Stasi, Ludwig Waldhaas, não foi perseguido pela Polícia e tornou-se comerciante de materiais de construção na empresa do cunhado de Adolf Hãssler em Berlim-Tegel. o consultório de advocacia do Dr. Sendlinger foi invadido pelos «Orientais», que procuravam conselhos sobre os comerciantes alemães ocidentais astuciosos, os garimpeiros modernos, que tentavam passar a perna aos seus irmãos alemães orientais em todos os sectores. Adolf Hãssler renovou a sua taberna e acrescentou um pequeno restaurante. o Zum Dicken Adolf tornou-se um local muito na moda. Parecia que bastava o nome para atrair mais clientes. Uma tal Associação de Nacionalistas Alemães escolheu-o para ponto de encontro habitual, algo com que Hãssler não concordava. Mas os tipos tinham dinheiro e eram apoiados por grupos desconhecidos. E quando Hãssler farejava dinheiro, ficava logo alerta. De vez em quando, mencionava casualmente em conversa que uns oficiais russos, que haviam sido recolocados na Rússia com as suas tropas, tinham deixado de boa vontade um míssil e levado em troca uma máquina de lavar para casa.

 

Do general Petchin sabiam os três pouca coisa, mas o contacto com o comerciante de peles Spasski funcionava extremamente bem. Através de caminhos secretos, conseguiam armas de todos os calibres para a Jugoslávia, o Gana e a Nigéria, a Somália e Angola, e algumas ditaduras africanas tinham-lhes expressado o desejo de completar o arsenal com algumas bombas atómicas utilizáveis.

 

No entanto, o general Petchin não reagia às encomendas de plutónio, urânio ou de lítio.

 

- Um cagarolas! - vociferou Waldhaas, decepcionado. - Temos de procurar outra fonte. Não deve ser assim tão difícil conseguir material radiactivo. Não devemos perder a actual oportunidade. o Petchin não entende que é preCiso investir para conseguir lucros. Encosta-se ao seu dinheiro na Suíça, mas em vez dos ovos de ouro, só choca o vazio! É demasiado agarrado ao «salário de intermediário». Qualquer outro dos atomchtchikil dos reactores de Tomsk-Sete e de Krasnoiarsk-Vinte e Nove será fácil de convencer, se se lhe pagar um milhão de dólares a pronto. Todas as pessoas estão à venda, tudo depende do montante, é um conhecimento muito antigo. Doutor Sendlinger, como representante destes presidentes africanos...

 

- Eu não posso oferecer o que não tenho. Mas vou até Moscovo nos próximos dias procurar novos caminhos.

 

- Ia sugerir isso mesmo. Vai encontrar-se também com o Petchin?

 

- Claro.

 

- Então explique-lhe bem que os dólares não são para estar parados, são um capital de investimento. Ele não aproveita como deve ser o seu lugar de coronel controlador do material bélico do Exército Vermelho. Se ele não consegue manter relações com a indústria de armamento, quem manterá? E também deve estabelecer relações de todos os tipos nas centrais nucleares secretas e totalmente protegidas. É tudo uma questão de dinheiro. Faça-o abrir os cordões à bolsa, doutor.

 

Três dias antes da viagem do Dr. Sendlinger à Rússia, o comerciante de peles Spasski telefonou para o armazém de venda de materiais de construção, em Tegel.

 

- Pode vir ter comigo? - perguntou ele a Waldhaas.

- Porquê?

 

- Um projecto importante do general Petchin! - respondeu Spasski em tom de conspiração.

 

- Ele conseguiu arranjar cinco carros blindados T-Cinquenta e Dois para o Estado africano?

 

- Não... mais pequeno. Cabe num bolso.

 

Waldhaas foi cauteloso. Cabe num bolso? Projecto importante? Céus... Teria Petchin descoberto um túnel para uma central nuclear?

 

-Quando? - perguntou ele.

 

Trabalhadores das centrais nucleares. (N. da T)

 

- Hoje à noite na minha casa.

 

- Está bem. Estaremos lá por volta das vinte horas. Pontualmente, às oito horas da noite, o Dr. Sendlinger, Waldhaas e Adolf Hãssler entraram na Wilmersdorfer Strasse e estacionaram a vinte metros da porta da loja. Vinham no carro de Hãssler, uma carrinha VW que tinha pintado de lado, em grandes letras, o lema «Vem ao ZUM DICKEN ADOLF - e, quando vieres, serás um amigo.» Esta máxima era conhecida por todos os berlinenses.

 

Pararam brevemente em frente das montras iluminadas antes de tocarem. Hãssler, que. raramente vinha ter com Spasski, dava estalos com a língua.

 

-São modelos bonitos. Não percebo nada de peles, mas estas aqui devem ser daquelas que custam um dinheirão. Quem é que as pode comprar?

 

O Spasski não consegue viver das suas peles. o Dr. Sendlinger riu-se. - o nosso caro Juri Nikolaievich põe as suas mãos noutras coisas. Não sabemos tudo o que se passa à nossa volta... e eu também prefiro não saber. o importante é que ninguém se meta no nosso caminho.

 

Spasski mostrou-se tão contente por ver os amigos de Petchin que Waldhaas observou uma certa reserva. Sentaram-se todos na sala de estar da casa ostentosa de Spasski, observando silenciosamente o anfitrião no seu bar a misturar um cocktail de vodca, cassis e um cheirinho de licor de hortelã-pimenta, uma criação própria, a que ele chamara Pôr do SÓl e que afirmava fazer as mulheres mais bonitas deitarem-se no sofá ao fim de três copos.

 

- o que se passa com o general Petchin? - perguntou o Dr. Sendlinger, depois de terem experimentado o cocktail. Spasski, não nos deixe ansiosos por mais tempo.

 

- o general pode enviar-lhes uma amostra. -Uma amostra de quê?

 

- Lítio seis - respondeu Spasski, com desenvoltura. o Dr. Sendlinger e Waldhaas olharam-se, espantados. Adolf Hãssler teve de assoar-se... Uma comichão nervosa fê-lo espirrar de repente.

 

- Lítio seis verdadeiro? - perguntou Waldhaas.

 

- Sim. - o rosto de Spasskí reluzia, como se tivesse sido oleado. - Eu próprio também confirmei. o general Petchin repetiu-mo três vezes ao telefone.

 

- Ao telefone! - Waldhaas suspirou. - Ao telefone! Ele é mesmo um cagarola! Qualquer pessoa pode ouvir! Mesmo que telefonasse através de uma linha do Exército... até essas são vigiadas.

 

O que é que o general Petchin considera ser uma amostra? - perguntou o Dr. Sendlinger. Ele não achava que o telefonema fosse assim tão perigoso.

 

- Entre cento e vinte e duzentos gramas. Insuficiente para uma bomba de hidrogénio. - Spasski sorriu ironicamente. Fazê-lo de parvo era um erro: ele sabia muito bem o que se podia fazer com o lítio 6. E também sabia que a bomba atómica que explodira em 1945 em Nagasáqui, no Sul do Japão, era uma bomba de plutónio. Nessa altura haviam morrido dezenas de milhares, nunca se soube quantos ao certo, e além disso muitos tinham morrido ainda de lesões posteriores, de leucemia ou de cancro dos ossos, dos pulmões ou do fígado. Mesmo anos mais tarde, o número de crianças deformadas de nascença continuava alarmantemente elevado.

 

-E o que devemos nós fazer com essa amostra? perguntou Waldhaas.

 

- Apresentá-la aos clientes como prova. - o Dr. Sendlinger irritou-se com a pergunta idiota do seu companheiro. - Que quantidade consegue o general fornecer?

 

- Ele disse que o suficiente para construir uma bomba de hidrogénio ou de neutrões.

 

O preço?

 

- o general confia nos seus conhecimentos da situação do mercado.

 

-E quanto é que você recebe, Spasski?

 

- Em comparação com vocês, uma migalha.

- De nós?

 

-Do general.

 

o Dr. Sendlinger ainda não estava satisfeito com aquelas informações. Se o negócio com o lítio 6 seguisse em frente,

se o general tivesse mesmo descoberto, como sempre, uma brecha na secreta união de empresas da indústria nuclear supostamente bem vigiada... quem garantia que todo o negócio não ficasse pendurado por causa do controlo policial? Quanto mais cúmplices, tanto maior o perigo de o negócio ser descoberto. A expressão muitas vezes utilizada, «o elo mais fraco da cadeia», podia, neste caso, ser destruidora.

 

-Quem mais sabe do lítio? - perguntou o Dr. Sendlinger. Spasski levantou as mãos exprimindo pesar. -Isso só o   general sabe.

 

-E você o que sabe?

 

-Apenas o que lhes transmiti. - Spasski acabou o seu cocktail. Teve a sensação de que a sua garganta secara. Também tinha a consciência de estar a meter-se por um caminho desconhecido e perigoso. - Eu sou apenas a escala na vossa ligação a Moscovo. Tenho de dar a vossa resposta já amanhã. o general Petchin deu-me um número de telefone secreto, um número de telefone militar, que liga directamente a ele, sem intermediários. - Spasski tossiu. A sua garganta parecia estar inchada. - o que devo responder?

 

-Queremos ver a amostra. Só nessa altura, e se for realmente lítio seis, encetaremos contactos com alguns interessados.

 

-Com certeza.

 

-E como é que o material vem até Berlim?

 

- o general não falou sobre isso. Mas eu penso que seja através de um correio.

 

- Mais dois olhos! - exclamou Waldhaas.

 

- De outra forma não dá. - Spasski levantou-se, dirigiu-se ao bar e serviu-se de mais um cocktail do copo misturador, que bebeu de um trago.

 

- E quando?

 

- Isso o general ainda tem de dizer. Penso que não há Outro caminho senão através da Polónia ou da Chechénia. Mas vamos esperar. Está combinado que o correio me contactará.

 

-Você está bem metido nisto, Spasski! - afirmou o Dr. Sendlinger. A colaboração com Spasski em termos do tráfico de armas nunca causara, até então, problemas; apesar disso, porém, o Dr. Sendlinger mantivera sempre uma certa distância. Ele simplesmente não gostava de Spasski. Todavia, não conseguia apontar nenhuma razão. Era uma sensação inexplicável que tinha sempre que o encarava. «É demasiado insinuante, demasiado adulador», dissera uma vez a Waldhaas. «E os seus olhos indicam coisas diferentes do que ele está a dizer. Tenha cuidado: ele diz uma piada, mas o seu olhar é ameaçador. Não o compreendo bem. Na minha opinião, é uma raposa com pele de carneiro.» Também dessa vez o Dr. Sendlinger tinha a sensação de que Spasski jogava em dois campos ao mesmo tempo.

 

Spasski encolheu os ombros. «Mas, que pergunta», pensou ele. O que é que significa isso: você está bem metido nisto?»

 

- o Petchin foi meu general, era eu seu sargento. Ainda lhe obedeço. Sou uma pessoa leal, consciente da tradição. Eu respeito-o.

 

Uma resposta tão tipicamente russa que o Dr. Sendlinger desistiu de fazer mais perguntas.

 

Mais tarde, no regresso ao Zum Dicken Adolf, o Dr. Sendlinger voltou-se para Waldhaas.

 

O que acha disto tudo?

 

- Se for mesmo lítio seis, pode ser um negócio explosivo... literalmente. - Waldhaas riu-se do jogo de palavras. Desde que o Petchin consiga fornecer mais do que apenas uma amostra. Então seria andarmos a fazer malabarismos com milhões de dólares.

 

- E se a amostra for verdadeira, mas mais tarde a quantidade encomendada não prestar? - Hãssler estava sentado ao volante da sua carrinha VW. Durante a conversa com Spasski limitara-se a apenas dois ou três comentários. que acontece?

 

- Perdemos a confiança dos nossos clientes. O Dr. Sendlinger não tinha dúvidas do que aconteceria nesse caso. o risco era inesperadamente alto.

 

- Ou as nossas vidas. - Hãssler agarrou o volante com mais força. - Num negócio destes, não há desculpas para ninguém. Ficamos na mira e alguém puxa o gatilho. Metemo-nos num negócio muito perigoso.

 

-Por sabermos isso, vamos manter o risco o mais reduzido possível - replicou Waldhaas.

 

- E como? - Hãssler buzinou, furioso, quando um carro apareceu da esquerda, cruzou-se à frente dele e desapareceu velozmente numa rua lateral. - Viram estes idiotas?

 

- Um bom exemplo. Mais cedo se morre na estrada do que no nosso negócio. Vamos dizer ao cliente que o risco é muito alto. Vamos explicar-lhe que só forneceremos aquilo que nos enviarem. De qualquer modo, só paga depois de os peritos terem afirmado que se trata de lítio seis puro. Nessa altura passa os dólares.

 

-E se o cliente nos enganar?

 

- Não consegue. Ele recebe o material aos bocados. Tantos dólares, tanto de lítio.

 

- E onde armazenamos o material? - Hãssler parou num cruzamento. o semáforo estava vermelho.

 

- Na sua cave.

 

- Nem pensar! - exclamou Hãssler, horrorizado.

Isso nem se discute!

 

- E porque não?

 

- É contaminar o Zum Dicken Adolf e todos os clientes? E a mim também?

 

- Hãssler.. o lítio não é radiactivo. - o Dr. Sendlinger encostou-se para trás. A sua voz adquiriu um tom catedrático. - o lítio é um metal leve muito maleável, branco, com o brilho da prata, do grupo dos metais alcalinos. Não é radiactivo, mas em geral entra numa liga com uma molécula de hidrogénio, que o transforma num material sólido. o hidrOgénio a ele ligado é facilmente extraído e funciona como um forte agente de redução. A sua reactividade é assombrosa... o hidreto de lítio é muito adequado para gerar hidrogénio e é utilizado como agente propulsor de mísseis. Uma outra liga química com um deutério, o deutério de lítio, é a Componente principal da bomba de hidrogénio.

 

- Isso não me sossega nada! - retorquiu Hãssler e Continuou a conduzir. - Eu não quero o material na minha cave!

 

- A questão principal é não ser radiactivo. É um material inofensivo, quando nessa situação. Mas, através da cisão nuclear, torna-se um elemento irrenunciável para o fabrico de uma bomba de hidrogénio. Reduzindo a onda de pressão, não quero explicar agora os pormenores técnicos, consegue-se a bomba de neutrões que destrói tudo. Mas a mais perigosa é a bomba de plutónio. Cinco quilogramas de plutónio duzentos e trinta e nove chegam para matar centenas de milhares de pessoas.

 

- Mas em que mundo de merda vivemos nós! - exclamou Hãssler, sombriamente. - E nós ainda metemos a colherada!

 

-E também havemos de ter uma oportunidade com o plutónio, Hãssler. A política trabalha por nós. Quanto mais desarmamento, tanto mais fácil será conseguir esse material. Vamos apoderar-nos desse negócio para nós...

 

-E ficar ricos!

 

- Exactamente, Hãssler. - o Dr. Sendlinger voltou-se para o lado e deu uma cotovelada nas costelas de Waldhaas. - Em mil novecentos e oitenta e nove, você teve a melhor ideia que alguma vez existiu. Agora está a tornar-se realidade.

 

Nessa altura só explorei umas informações vagas. De facto, tinha receio que o Petchin, apesar da amostra de lítio, não fosse a pessoa certa. Não porque ele seja demasiado cobiçoso para «gratificações» razoáveis, mas porque, apesar do seu uniforme de general e das três filas de condecorações, no fundo ele é um cobarde. Para este negócio é preciso alguém que não tenha escrúpulos, mas o Petchin prefere a segurança e tem medo de todos os riscos. E por isso não os corre. - Waldhaas olhou para a estrada. Começara a chover, os anúncios luminosos brilhavam por cima do asfalto molhado, um casal de passeantes tardios esgueirava-se sob guarda-chuvas ou com as golas levantadas ao longo das paredes das casas. - Ainda não falámos sobre isso, doutor.

 

-Sobre o quê? - perguntou o Dr. Sendlinger, surpreendido.

 

- Quem quer visitar em Moscovo.

 

-Nem eu sei ainda.

 

- Não há um endereço de contacto?

 

-Não. Pelo menos, eu não tenho nenhum... mas todos nós sabemos que existe, na Rússia, desde a «renovação», uma espécie de máfia. Não segundo o modelo italiano... Para um russo, isso não é suficientemente eficaz. Dizem que a máfia russa, que cresce que nem cogumelos, é, ao lado das tríades chinesas, a organização mais impiedosa e cruel que existe actualmente no submundo. E eu hei-de lá entrar!

 

- É maluco, doutor! - Waldhaas olhou-o, horrorizado. - Não gosta de viver?

 

- Eu vivo com entusiasmo.

 

-E quer entrar na máfia? Acha que o vão receber de braços abertos se estiver num hotel qualquer?

 

- Tal e qual. - o Dr. Sendlinger riu-se. - Quando regressar, já trarei alguma coisa.

 

-Na mala de mão...

 

- Isso ainda não. Estou a referir-me à palavra do sindicato russo de que vamos colaborar.

 

- Deus esteja consigo! - Waldhaas deu uma pancadinha no joelho do Dr. Sendlinger. - Mesmo tendo um trabalho amaldiçoado por Deus.

 

- Você é comerciante de materiais de construção, eu sou advogado... Onde é que está a desonra? E o HãssIer tira cervejas berlinenses... para homens leais e íntegros.

 

Seguiu-se um minuto de silêncio, e depois desataram a rÍr sonoramente.

 

o Dr. Sendlinger raramente dizia piadas, mas, quando o fazia, era de morrer!

 

E foi assim que três homens da noite bem-dispostos se sentaram no Zum Dicken Adolf já fechado, a comer almôndegas e a beber vinho tinto francês.

 

Dois dias depois, o Dr. Sendlinger voou para Moscovo, no âmbito da honesta empresa Falcão Vermelho.

 

Falcão... sinónimo de liberdade sem fronteiras.

 

Como sempre, fora aborrecida e ao mesmo tempo empolgante aquela patrulha nocturna da fronteira polaca.

 

o primeiro-sargento Lukas da Polícia de Fronteira Federal percorrera centenas de vezes aquela zona ao longo do ano, num jipe Mercedes, com tracção às quatro rodas, motor potente, pneus espessos, seis faróis e um projector manual, em frente ao radiador a protecção de aço, no tejadilho um altifalante e uma luz azul rotativa com uma sirene, que berrava quando era ligada. Ao seu lado, de cócoras, estava o seu camarada, o sargento da Polícia de Fronteira Federal Heiner Pflaume, que se ressentia do seu nome e já pensara muitas vezes se não devia mudá-lo. Os seus camaradas, que lhe chamavam Ameixinha ou até Docinho, e os desconhecidos, que sorriam quando ele se apresentava, provocavam nele ímpetos violentos que só conseguia reprimir graças à sua boa educação. Muito mau fora quando ele e Lucas, que tinha nome de profeta, numa ronda de controlo nocturno, apanharam um tractor polaco, que ali se encontrava para fazer entrar furtivamente, pela fronteira alemã, seis prostitutas russas realmente bonitas e com umas belas formas.

 

«A nossa Ameixinha anda a colher ratinhas!», exultara todo o posto da Polícia de Fronteira Federal. Fora uma noite em que Pflaume teria sido capaz de provocar um massacre.

 

Nessa noite, seguiam por uma zona constituída por matas e bosques pouco densos, atravessados por atalhos e caminhos estreitos não fortificados, através dos quais os construtores transportavam a madeira das matas ou se dirigiam para os campos. Era corrente a alfândega ser uma espécie de «fronteira aberta»... apesar de haver uma cerca de rede podre, cuja função era apenas simbólica. o caminho terminava junto da cerca. Ali só era possível passar a pé para a Alemanha, sendo essa possibilidade utilizada, como provavam os buracos na cerca, que estavam sempre a ser feitos e a ser remendados. Era impossível vigiar permanentemente a «fronteira verde». Assim, a patrulha só aparecia quando, por acaso, se descobria pessoas a passar ilegalmente a fronteira.

 

Não obstante, o destacamento da Polícia de Fronteira

 

pflaume: ameixa. (N. da T)

 

Federal em Francoforte do óder tinha muito que fazer. Na passagem de fronteira oficial, deparavam sobretudo com carros roubados algures na R.F.A., rapidamente pintados de novo, providos de documentos falsos e munidos de um número de matrícula não registado... o grande negócio dos traficantes de automóveis polacos, que, muito bem organizados, regressavam a casa como visitantes inofensivos da Alemanha. Quantos conseguiam passar despercebidos (não era possível investigar cuidadosamente todos os carros sem perturbar o trânsito todo) ninguém sabia. Só se tinha a certeza de que existia uma máfia polaca, que se especializara no roubo de automóveis em grande escala. Geralmente, os carros caros, como os Mercedes, BMW, Volvo, Jaguar ou Saab, eram enviados imediatamente para a Polónia e daí novamente encaminhados para os países do Leste, para África e países árabes do deserto. Os ladrões de automóveis viviam bem desse ofício, sobretudo devido a um negócio de permuta perfeitamente coordenado: raparigas por BMW cabriolet. No mercado da prostituição, as prostitutas do Leste conseguiam os melhores preços, dizia-se que satisfaziam todas as fantasias na cama.

 

- Pára aí, Heiner.. tenho de mijar - disse Lukas, cerca de duas horas mais tarde, quando estavam já a caminho. Pflaume desligou o motor, bem como os dois faróis normais, algo que, mais tarde, não foi capaz de explicar porquê. Em seguida, desceu também do carro, colocou-se ao lado de Lucas pronto para urinar quando, de repente, parou perplexo. Com Lukas passou-se o mesmo e ergueram ambos a cabeça, à escuta.

 

- Está ali alguma coisa! - exclamou Pflaume, em voz baixa. - Ouves?

 

- Parece o barulho de um motor... - Lukas abotoou as calças.

 

-É um motor. Raios, lá vem um pela floresta passar a fronteira.

 

- Aqui? Com um carro? - Lukas suspendeu a respiração, de modo a concentrar-se totalmente no ruído. É mesmo! De certeza. Vem de lá para cá. Rapaz, rapaz...

 

- Nunca vimos nada assim. - Pflaume olhou para o jipe. «Vamos embora», pensou ele, tal como Lukas. «Andar alguém por estes caminhos intransitáveis à noite de automóvel é mais do que suspeito». - Deve ser um condutor espertalhão! Sem luzes por esta zona.

 

- Um especialista, é o que dirão. - Lukas acenou com a cabeça. - Isso vemos nós.

 

Correram para o jipe, saltaram lá para dentro e Pflaume pôs o motor a trabalhar. Sem luzes, deslizaram devagarinho pelo terreno; conheciam cada depressão, cada grupo de arbustos atrás dos quais alguém se podia esconder, cada pressão dos pneus dos tractores dos lavradores que revolviam o solo.

 

De vez em quando, Pflaume parava e desligava o motor para ouvir os sons da floresta.

 

- Deviam inventar jipes eléctricos - disse ele. o nosso motor faz uma barulheira. Assim eles também nos ouvem!

 

Continuaram em frente, parando junto de uns arbustos, como caçadores aproximando-se sorrateiramente de animais selvagens. Lukas tirou a sua espingarda automática do suporte e engatilhou-a.

 

- Achas que vamos precisar? - perguntou Pflaume.

- A precaução é o colete à prova de balas do polícia. Lukas levantou novamente a cabeça. - Ali está! Vem directo a nós. Tem de ser um espertalhão com muito sangue-frio. Heiner, tira a tua arma do coldre.

 

Ficaram a olhar para a escuridão sem cor. A Lua estava em quarto minguante, encontrando-se reduzida a um terço, mas ainda iluminava o suficiente para se reconhecer um objecto como um carro. E nesse momento viram-no... um automóvel pequeno para os ladrões de automóveis polacos, não era um Mercedes ou um BMW, mas sim um carro japonês da classe média baixa. À luz da Lua viam-se claramente os faróis.

 

-Este não transportará grande coisa - sussurrou Lukas. - No máximo quatro raparigas, não conseguem encaixar mais. Devem ser mulheres de categoria... a maioria vem como turistas de autocarro.

 

A sombra escura aproximou-se devagar, a apalpar terreno como um animal que fareja, parou de repente e ali permaneceu.

 

- Anda lá, rapaz - resmungou Pflaume. - Aproxima-te. Estarás bem iluminado não tarda.

 

- Ele não conhece a zona. Está aqui pela primeira vez. Queres apostar? - Lukas apoiou a armma nos joelhos. São os mais perigosos.

 

- Anda lá, rapaz... - Pflaume inclinou-se sobre o volante. - Vem ao papá. Vais cair direitinho nos meus braços. o carro da Polónia avançou. Lukas tacteou o interruptor que ligaria a luz azul, a sirene e o altifalante no tejadilho. A mão de Pflaume agarrou a chave da ignição. À sua frente, o automóvel desapareceu momentaneamente numa depressão no terreno, reapareceu no cimo e ali ficou como se fosse um alvo.

 

-Arranca! - exclamou Lukas. - Vamo-nos a ele! Ao mesmo tempo que os seis faróis se acenderam, a sirene disparou e a luz azul começou a cintilar. Com a mão esquerda, Lukas rodou o projector de busca e dírigiu-o directamente para o «objecto», como era chamado na gíria profissional. A sua voz atravessou a noite pelo altifalante.

 

- Pare! Controlo fronteiriço! Pare imediatamente!

 

o carro polaco, que obviamente trazia uma matrícula alemã falsa, ficou paralisado por um momento, depois o motor rugiu, o carro disparou em frente, fez um pião e regressou ruidosamente para a orla do bosque.

 

- o tipo está a raspar-se! - gritou Lukas.

 

- Vamos atrás. - o pesado motor Mercedes rugiu e o jipe disparou em perseguição do polaco fugitivo. E Lukas continuou a gritar pelo altifalante.

 

- Pare! Pare imediatamente! Stoj! Stoj! - Isto também um polaco que não falasse alemão percebia. - Pare ou disparamos...

 

o condutor do automóvel pequeno não parecia estar a pensar cumprir a ordem. Saltava por cima dos sulcos do terreno, das poças de água e atravessava os arbustos de volta à fronteira. Nesse momento já tinha ligado os faróis, via o caminho e aproveitava essa vantagem. Pflaume ia o mais depressa possível e ligara a tracção às quatro rodas. Para ele só havia caminho livre... atravessava os arbustos, derrubando-os com a protecção de aço e os pneus espessos cilindravam tudo.

 

- o tipo sabe conduzir! - exclamou Lukas e abriu a janela. Pegou na arma e gritou mais uma vez pelo altifalante. - Pare ou disparamos.

 

- Ele está-se a borrifar para nós! - Pflaume desligou a sirene. Diante dos seus faróis o pequeno automóvel dançava no terreno sinuoso, como um diabrete na noite. - Digo-te que este gajo tem cá um sangue-frio!

 

Lukas disparou. Primeiro para os pneus e depois, como o polaco continuava a não parar, para o vidro traseiro. Fora uma decisão difícil: se acertasse na cabeça do condutor, seguir-se-ia um longo inquérito sobre o acidente. o tiro fora necessário? Fora em legítima defesa? Não? Então? Como justificava o uso da arma? Explique-nos qual a necessidade. Não havia? Então porque disparou? No seu relatório de serviço diz que...

 

Ao quarto tiro o polaco parou. Um pneu estava completamente em baixo, o vidro traseiro despedaçado. A porta escancarou-se e um homem surgiu à luz forte do projector. Agarrou-se à porta do automóvel e curvou-se.

 

- Este já apanhámos - disse Pflaume e diminuiu a velocidade, avançando lentamente até ao homem. - Esperemos não ter apanhado também uma rapariga.

 

Travaram junto do carro japonês e saíram do jipe. Lukas levava a espingarda encostada à anca, pronta a disparar, caso o homem fizesse algum movimento suspeito. Quase que o desejava... assim seria legítima defesa.

 

Primeiro, Pflaume olhou para dentro do automóvel. Estava vazio. Nenhuma rapariga, nenhum embrulho, apenas um jornal diário polaco e o banco de trás coberto de estilhaços do vidro traseiro.

 

- Que grande chatice! - exclamou Pflaume em voz alta. Lukas, que estava de lado e não sabia o que Pflaume vira, sentiu os pêlos do pescoço eriçarem-se. Então tinham encontrado uma rapariga. Que nojo!

 

- o que se passa, Heiner? - perguntou, com voz rouca de aflição. o ferido cravou os dedos na moldura da porta, esforçando-se por se manter em pé.

 

- Nada. -Nada, como?

 

-Nada: o carro está vazio. -Como vazio?

 

- o nosso gangster levava um jornal a passear.

 

- Não pode ser. - Lukas deixou a espingarda escorregar e dirigiu-se ao automóvel. Pflaume não estava a brincar, o banco de trás estava vazio. - Mas isto é impossível! -Bem podes dizê-lo. Até podemos vê-lo.

 

- Espera. Aposto o que quiseres que a matrícula alemã é falsa.

 

- Nenhum ladrão de automóveis polaco rouba um carro pequeno japonês.

 

- Este estava por conta própria. - Lukas voltoú-se para o polaco curvado. - Fala alemão?

 

- Muito pequeno... - arquejou o ferido.

- Quem é você?

 

- Pobre turista...

 

- Foi o que pensei. - Pflaume apalpou os bolsos e as pernas das calças do polaco. - Está limpo. Nada de armas.

- Dar um passeio de carro por prazer. - o polaco estremeceu e cambaleou. - Não saber bem o caminho... estar no bosque... não saber da fronteira aqui... de repente, tu aí fazes pum, pum... sangro... olho para... ombro direito...

 

-Está a gozar connosco! - observou Lucas, impassível. - Ferido está, mas ninguém acredita no passeio. Voltou-se para o ferido. - Tens uma matrícula falsa.

 

-Não falsa. Trabalho na Alemanha. Em Colónia. Na Ford.

 

-Isso bate certo. - Pflaume acenou afirmativamente com a cabeça. - É uma matrícula de Colónia. Mas isso vimos nós logo.

 

-De Colónia, hem? - Lukas não desistiu. - E que faz, então, na fronteira germano-polaca?

 

- Férias. Mamã vive na aldeia. Ali atrás.

 

-E dizes que te perdeste no caminho? Se cresceste aqui, conheces os cantos todos! - Pflaume levou a mão ao queixo do polaco e levantou-lhe a cabeça. - E porque fugias, então?

 

- Medo...

 

- Quem não deve, não teme. -Preciso ir médico...

 

- Já vai. Por que razão querias raspar-te?

 

-Não dizer mais nada até médico. - o polaco inclinou-se e encostou a cabeça à porta. - Por favor... médico... - E, depois, como que a revoltar-se. - Não dizer mais nada...

 

-Então, vamos lá!

 

Lucas e Pflaume arrastaram o polaco quase desmaiado para o seu Mercedes, deitaram-no no banco traseiro e, enquanto Lukas regressava ao pequeno automóvel, pegava na chave e o trancava, Pflaume contactou o posto da Polícia de Fronteira.

 

-Chamem uma ambulância! Temos um ferido. Estamos aí em dez minutos.

 

- ó Ameixinha!!!!! - o camarada ao telefone regozijava. - Desfizeste-te em compota russa?

 

- Estúpido! - Pflaume cerrou os punhos. - Já falamos sobre isso! É preciso um médico de emergência com um carro de reserva. É urgente! Terminado.

 

Lukas regressou, olhou para o polaco que gemia e colocou a sua espingarda no suporte.

 

- Tudo bem? - perguntou.

 

- Da minha parte, sim. Mas, e contigo? Se aquilo que o tipo disse for mesmo verdade... então estás tramado.

 

- Ele fugiu. Não respondeu a vários avisos. Simplesmente fugiu. É uma situação que exige uma intervenção imediata. Ele até podia ser um jovem criminoso procurado pela Polícia. Ainda é preciso ver isso.

 

Lukas inclinou-se para trás, revistou os bolsos do ferido, encontrando, por fim, um passaporte polaco. o polaco não se mexeu, gemeu apenas quando Lukas lhe tocou no ombro direito.

 

-Como é que ele se chama? - perguntou Pflaume, enquanto Lukas observava o passaporte.

 

- Supostamente Karel Londricky. Mas ainda falta saber se o passaporte é verdadeiro. Até a autorização de residência e de trabalho registada pode ser falsa. Mas outro que se preocupe com isso, nós não.

 

Dez minutos mais tarde chegaram ao posto da Polícia de Fronteira Federal. Pflaume viera a toda a velocidade. À sua espera estavam já quatro funcionários, que transportaram para dentro Londricky, que gemia de dores.

 

- Onde está o Ewald? - gritou Pflaume. - Foi com ele que eu falei. Ewald, seu porco imundo, não te escondas! Anda cá!

 

Mas Ewald não apareceu. Pouco depois do telefonema saíra em patrulha.

 

Pflaume acalmou-se, bebeu uma cerveja, sentindo-se contente por aquela noite ter chegado ao fim para si. Para Lukas não foi, contudo, tão fácil. Partindo do princípio de que o repreendiam, ele queria pelo menos saber por que razão Londricky fugira e procurara refúgio do outro lado da fronteira polaca. «Tive medo», dissera ele, mas isso era uma desculpa. Medo de quê, se não tinha nada a esconder? Ninguém fugia só porque passara uma fronteira e se encontrava num país estrangeiro. E ninguém acelerava o carro quando era interpelado pela Polícia, a não ser que tivesse a consciência pesada.

 

- Há alguma coisa que não bate certo! - declarou Lukas aos colegas. - Não acredito que ele seja um turista inofensivo.

 

- Isso agora é da responsabilidade da Polícia Judiciária, profeta! - o polícia de fronteira abanou a cabeça. - É suficiente que o tenham apanhado.

 

- Eu disparei contra ele, isso pode significar um processo. Mas eu não deixo que dêem cabo de mim. Quero provar que a arma foi necessária.

 

- E se não houver nada para provar? Não te preocupes, profeta.

 

Lukas não vacilou. Ainda de noite, começou a desmontar o carro japonês à luz de dois projectores de halogéneo. Tirou os bancos, a roda sobressalente do porta-bagagens, as rodas todas, desaparafusou o painel de instrumentos, retirou o revestimento das portas... Já tinha experiência disso e sabia como é que os contrabandistas escondiam as suas mercadorias. Quantos carros já ele desmontara e descobrira sempre qualquer coisa. Nos locais mais improváveis encontrara cocaína ou heroína, uma vez até diamantes em bruto da Sibéria numa discreta caixinha de aço por cima da panela de escape.

 

Desta vez, porém, Lukas não encontrou nada. Sentou-se num dos bancos do automóvel desmontado e olhou para a porta à sua frente. E agora? Era quase certo um processo contra ele devido a má utilização da arma. Nesses casos, os oficiais nos lugares de comando não mostravam qualquer compreensão... Especialmente na fronteira com a Polónia, as pessoas eram alérgicas a incidentes de que resultassem feridos. Os meios de comunicação aproveitavam-se bem e surgiam cabeçalhos dizendo: «Será a nossa Polícia demasiado rápida no gatilho?»

 

Para Lukas havia uma última possibilidade: desmontar o motor. Mas para isso era preciso levar o carro para uma oficina. Além disso, não era possível agitar uma parte do motor, mesmo que pequena, com as mãos. E se mesmo isso não revelasse nada?

 

Lukas não precisou de pedir que levassem o carro para a oficina.

 

Abriu a tampa do radiador, observou o motor com todos os seus inúmeros cabos e bomes e reservatórios, iluminou todos os cantos com uma forte lanterna de halogéneo e não encontrou nenhum «corpo estranho» na máquina, o que para um leigo seria desconcertante. Mas Lukas não era um leigo... iluminou novamente o motor e descobriu uma pequena caixa de metal. Estava enfiada entre o recipiente da água para o limpa pára-brisas e o recipiente de óleo dos travões. Lukas iluminou-a... não havia nenhum fio a ligá-la, não tinha qualquer ligação ao motor ou a qualquer outra peça, mas estava bem soldada.

 

Soldada? Uma soldadura no motor? Esta era nova. E que função tinha uma caixa sem qualquer ligação? Uma caixa pequena, lacada a preto, discreta e facilmente ignorada à primeira vista.

 

Lukas sentiu um formigueiro no couro cabeludo. Pegou num martelo e bateu cuidadosamente na parede lateral do recipiente de aço. Ouviu-se um som abafado e, em seguida, a caixa partiu-se... a soldadura fora feita apenas em alguns pontos e só era preciso uma pancada para a soltar. E assim mostrava que não pertencia ao motor, nem tinha nenhuma função.

 

Lukas respirou fundo umas vezes, retirou a caixa do motor e levou-a para dentro do posto.

 

-Vejam! - exclamou ele. - Encontrei isto. Digam-me lá, agora, se esse Londricky é um inocente perdido. -E o que está lá dentro? - o oficial de guarda, um jovem tenente, agitou a caixa. - É pesado como chumbo. o que poderá ser? Quem é que vai hoje de manhã à cidade?

- Eu. - Um jovem funcionário levantou a mão.

 

- Vais levar a caixa e entregá-la na Polícia Judiciária. Profeta, talvez tenhas sorte e não haja nenhuma participação. - o tenente pousou a caixa em cima da mesa. - E se forem novamente diamantes russos? Então o sentido está errado: o tráfico é feito de Leste para Oeste, e não ao contrário. Bom, amanhã logo saberemos o que andava pendurado no motor.

 

De manhã, o funcionário alfandegário, Richard Hemmer, dirigiu-se a Francoforte do óder e entregou a caixa na esquadra à Polícia Judiciária.

 

- Depois comunicam-nos o que encontrarem? - perguntou ele. Claro. Mesmo que seja só ar e vento... É demasiado pesado para isso.

 

- Deixemo-nos surpreender. E foi mesmo uma surpresa.

 

Após terem aberto a caixa a muito custo com uma serra para aço, um dos agentes da Polícia retirou um tubo de chumbo que encaixava perfeitamente no recipiente de transporte. o tubo tinha as duas extremidades fechadas com tampas de chumbo. o inspector-geral, Jürgen Plotze, chefe do Décimo Segundo Comissariado para Crimes Financeiros, abanou a cabeça.

 

- Não vamos abrir o tubo de chumbo! - disse ele, inseguro. - A decisão cabe aos especialistas. Enviem isso para o SNP. Isso é da sua competência. Não quero ter nada a ver com essa coisa.

 

E assim a caixa com o tubo de chumbo foi transportada para o SNP, o Serviço Nacional de Polícia, e foi parar ao laboratório mais bem equipado. Sob as maiores medidas de segurança, o tubo de chumbo foi aberto.

 

Tratou-se de um momento que nenhum dos assistentes de laboratório jamais esqueceria. E a primeira análise do conteúdo foi imediatamente enviada ao chefe do SNP.

 

A partir daí, os telefones não mais pararam: para Bona para o Ministério da Defesa, para Colónia para a Direcção de Fiscalização do Território, para Wiesbaden para o Departamento de Investigação Criminal, para Karlsruhe para a Procuradoria Federal, para Munique-Pullach para o Serviço de Informações e até para a Chancelaria Federal.

 

Nível de alarme mais alto. Nível de perigo UM. Segredo absoluto.

 

Aviso a todos os postos fronteiriços: não abrir recipientes iguais ao encontrado na fronteira com a Polónia! Enviar imediatamente para o SNP! Por estafeta. Silêncio total!

 

Uma onda de pavor espalhou-se pelas autoridades notificadas. No Serviço de Informações, em Munique-Pullach, e no Departamento de Investigação Criminal, registaram-se reacções rápidas: peritos voaram para Francoforte do óder.

 

Nada de pânico. Nem uma palavra podia transpirar! Segredo absoluto!

 

Não existia nenhum Karel Londricky...

 

A operação correu sem complicações.

 

Os médicos retiraram a bala de espingarda do ombro direito; era uma ferida muscular simples, o osso não estava fracturado. o projéctil devia ter sido travado pelas costas do assento, caso contrário teria atravessado a omoplata. Londricky tivera muita sorte.

 

Agora, jazia num quarto, recebera a vacina do tétano e antibióticos e sentia-se muito fraco. Perdera bastante sangue, pois decorrera longo tempo até Lukas e Pflaume o terem trazido para a esquadra. A Polícia Judiciária, aconselhada pelo médico-chefe, desistira de o interrogar.

 

- Amanhã - propusera o médico. - Neste momento ele encontra-se num estado de inconsciência. Já para não falar dos narcóticos... Amanhã de manhã já estará novamente em condições.

 

Fora designado um polícia para vigiar o quarto do doente. Estava sentado numa cadeira, lendo uma revista, e era substituído de duas em duas horas.

 

No dia seguinte, Londricky parecia mais restabelecido. Duas infusões deram-lhe mais forças, até bebeu duas chávenas de café pela manhã, acompanhadas de um pãozinho com presunto; quando o polícia de guarda espreitou uma vez para dentro do quarto, chegou a sorrir-lhe.

 

No entanto, a sua boa disposição mudou durante a tarde. De Wiesbaden e Munique chegaram os investigadores especiais, no Serviço Nacional de Polícia tinham debatido mais uma vez as notícias da Polícia de Fronteira, e entravam, agora, seis homens, no quarto de Londricky. Um especialista do Serviço de Informações (SI), o inspector-geral Egon Wallner do Departamento de Investigação Criminal (DIC), onde, atendendo ao «assunto explosivo», tinha sido constituída imediatamente uma comissão especial, o director-geral Julius Berger, também do DIC, dois comissários da Décima Segunda Secção de Francoforte do óder e o chefe do Serviço Nacional de Polícia. Entraram igualmente o cirurgião que operara Londricky e a enfermeira de serviço. Esta foi imediatamente dispensada.

 

- Não queremos ser interrompidos! - ordenou o representante do SI. - Esqueça que tem aqui um doente.

 

- Mas... vem aí o jantar. -Ele ainda não tem fome.

 

É preciso tirar a temperatura primeiro. Ele também não vai rebentar de calor.

 

A enfermeira olhou interrogativamente para o médico. Este acenou com a cabeça... está tudo bem, eu estou aqui. Deixou rapidamente o quarto e, no corredor, respirou fundo. Seis polícias de uma só vez, seria o ferido realmente um criminoso tão perigoso?

 

Os homens colocaram-se à roda da cama. o interrogatório seria dirigido pelo inspector-geral Wallner enquanto chefe da comissão especial do DIC. Posicionou-se sozinho num canto da cama e observou Londricky longamente e em silêncio. Londricky não aguentou o olhar muito tempo... Voltou a cabeça para o lado.

 

- Vamos deixar-nos de comédias - disse Wallner, num tom quase benevolente. - A transacção passou por si. Tinha conhecimento do que estava preso ao seu motor? De onde vinha?

 

- Colónia. Fábrica da Ford. - Londricky tinha o olhar fixo no joelho do agente do SI, que se encontrava ao seu lado.

 

- Acha que andamos a dormir? - interrompeu um dos comissários da Décima Segunda Secção. - Em Colónia não existe nenhum Londricky e a Ford não tem nenhum trabalhador com esse nome...

 

- Sou ilegal.

 

- E justamente na Ford! Eles não empregam trabalhadores clandestinos. E o seu passaporte também é falso. Quem é você?

 

-Eu não dizer nada... - Londricky fechou os olhos, como se se sentisse novamente muito fraco. Mas o médico abanou a cabeça quando Wallner olhou para ele. É tudo teatro, este tipo está bem. As infusões equilibraram a tensão arterial, e foi-lhe igualmente injectado um medicamento para a circulação.

 

- Encontrámos e abrimos a sua caixa de metal. Sabia o que transportava no seu motor?

 

- Eu não dizer nada.

 

- Lítio seis puro, duzentos e setenta gramas!

- Não perceber nada.

 

-Onde devia entregar o lítio?

 

Silêncio. Londricky estendeu-se na cama. «Deixem-me em paz, chuis, acham mesmo que eu vou cantar? Só por cima do meu cadáver.»

 

-Não nos faças zangar, rapaz. - o inspector-geral Wallner inclinou-se um pouco para a frente. o seu estilo jovial e paternal já obtivera anteriormente resultados, e ele tentava o mesmo neste caso. - Alguém te encarregou de transportar o lítio seis para um comprador. Por isso levas no máximo cinco anos de cadeia; se disseres a verdade, podemos até tratar disso. Podemos arranjar maneira de te ser aplicada apenas uma sanção pecuniária... por infracção à lei. A nossa legislação é tão idiota, quem é que pensaria que alguém contrabandearia material nuclear na Alemanha? Os nossos políticos andam a dormir perante a situação actual... alguns gramas de lítio ou de urânio, e já está! - Wallner sentou-se novamente. - Já em Janeiro de oitenta e oito, o então ministro-presidente de Hessen, Walter Wallmann, alertara o governo federal para um tráfico de material nuclear. Wallner olhou para o agente do SI, que desapertara a sua gravata. Estava bastante quente no pequeno quarto. - Mas isso é do conhecimento do SI.

 

-Mas era no sentido contrário. - o agente dos serviços secretos não estava satisfeito com a nova referência a esta velha história. - Nessa altura foram acusadas centrais nucleares alemãs de terem enviado conhecimentos técnicos e material nuclear para o Paquistão, a fim de tornar novamente operacional a central nuclear de Pinstech, em Carachi, que se tornara obsoleta. Através de um desvio por Hong Kong, foram enviadas cinquenta e nove remessas de documentos, os planos de construção completos para produção independente de material inflamável, além de fotocópias sobre tecnologia de reacção, concentração de urânio e fusão nuclear. Foram exportadas, por diversas vias, sessenta e oito remessas individuais de planos para a produção de material inflamável. Fornos de sinterização, aparelhos de soldadura por feixe de electrões, aço especial para produção de material inflamável, matéria-prima para a construção de centrifugadores de urânio, invólucros e depósitos especiais para o material necessário para concentração de urânio: o hexafluoreto de urânio. Mas o mais desagradável foi o envio dos conhecimentos técnicos para equipamento com objectivos puramente militares de recuperação de trítio puro. o trítio é um gás radiactivo que é fornecido em pequenas quantidades como mistura para aumentar a força explosiva de bombas atómicas. E, como habitualmente, eram até enviadas pequenas amostras de trítio... zero vírgula oito gramas. Não é muito? Estes zero vírgula oito gramas de trítio correspondem a uma radiação de duzentos e noventa e seis mil gigabecquerel!

 

- Meu Deus! - exclamou o chefe do Serviço Nacional de Polícia, chocado. - Não fazia a menor ideia.

 

- Só se registou uma pequena agitação em Bona, no Parlamento Federal, nos meios de comunicação e no grupo diplomático. o Ministério Público levou a cabo investigações relativas à infracção das leis sobre economia externa e controlo de armas de guerra. Pena máxima: dez anos! Todos nós, meus senhores, conhecemos a legislação. Dez anos para os cúmplices numa máquina de extermínio que pode custar milhões de vidas humanas! É assim na Alemanha hoje em dia: dez anos... uma ninharia por genocídio. - o agente dos serviços secretos respirou fundo. - Nós, no SI, sabíamos perfeitamente o que se passava no Paquistão. A CIA americana tinha-nos enviado relatórios secretos: na central nuclear Pinstech, circundada por muros de dois metros reforçados com arame farpado, guardada por militares e com todos os edifícios camuflados a verde... ali, segundo informações da CIA, havia quem se ocupasse a fazer uma bomba atómica. Na instalação para o trítio, também segundo os documentos não existentes (assim se chamavam os relatórios secretos), estavam armazenados sessenta gramas de trítio puro num abrigo profundo. Alertámos todas as autoridades competentes, houve uma grande agitação em Bona, no Parlamento Federal foram proferidos discursos inflamados, falava-se com grande indignação de «repreensões incríveis e vergonha infindável», os outros países censuravam a Alemanha por ter tornado o Paquistão autónomo em termos nucleares. Isto foi em mil novecentos e oitenta e oito. E desde então voltou a instalar-se a indolência em Bona.

 

o inspector-geral Wallner olhou para Londricky, que procurava desempenhar na perfeição o papel de exausto.

- Nós, no DIC, fomos mais tarde informados de mais dois casos. - prosseguiu ele. Peixe miúdo... uma vez meio grama de urânio, outra vez cem gramas de césio cento e trinta e sete. o urânio era medíocre, o césio pertencia aos desperdícios das centrais nucleares. Ambos, portanto, uma vigarice. Agora estamos em noventa e um... e parece que encontrámos um novo mercado de lítio seis. o lítio é absolutamente de grande valor!

 

-Mas quem é que o compra? - o médico abanou a cabeça. - Quem são os receptores?

 

- Isso não sabemos. - Wallner virou-se novamente para Londricky. - Na minha opinião, estes duzentos e setenta gramas de lítio seis são apenas uma amostra para confirmar a sua pureza e que é possível enviar mais.

 

-Aqui há alguma tramóia. - o chefe da Décima Segunda Secção exprimiu o que todos sentiam. - Isto pode ter como resultado um escândalo de enormes proporções!

 

- o nível de segredo um vai evitá-lo. Por enquanto. Mas se aparecer mais material radiactivo, mais cedo ou mais tarde os meios de comunicação vão ficar a saber. E, nessa altura, que Deus nos valha! - Wallner inclinou-se novamente para Londricky. - Rapaz, não brinques comigo, que comigo não funciona. De onde vem o lítio?

 

-Eu não dizer nada. - Londricky manteve os olhos fechados.

 

-Para onde ia ser enviado?

- Eu não dizer nada.

 

- E, sobretudo... tu tomaste o caminho inverso. Devias levar o material para oeste, mas quiseste raspar-te para leste! Há alguma coisa que não bate certo! o sentido não está certo!

 

- Eu não dizer nada nem ouvir mais nada...

 

- Como quiseres. Vou levar-te para Wiesbaden e lá amaciamos-te.

 

- Tortura não... não deves...

 

- Nisso tens razão. Preferia arrancar-te a verdade à pancada. - Wallner olhou em volta. - Meus senhores, ninguém ouviu nada. Estamos entre nós, e eu sei o que cada um pensa. Mais uma vez, Londricky, ou seja como for que se chame: uma confissão só virá melhorar a sua situação.

- Eu não dizer nada.

 

- Como quiser. - Wallner voltou a tratá-lo por você. Temos meios legais para o fazermos falar.

 

Levantou-se do canto da cama. Todos os que se encontravam naquele quarto sabiam que era uma ameaça vazia... quem não queria falar não podia ser obrigado a fazê-lo. Os métodos de tortura como existiam noutros países, especialmente nos países associados da Ásia, África e América do Sul, eram proibidos pela Convenção dos Direitos Humanos. As pessoas tinham direito a depor ou testemunhar voluntariamente... mas como conseguir o seu testemunho?

 

- Ele está em condições de ser transportado? - perguntou Wallner ao médico.

 

-Está. A bala ainda estava dentro da ferida, mas não foi nada de grave. Só tivemos de tratar da tensão alta. -E já está tratada?

 

- Já. Mas podemos dar mais uma infusão por uma questão de segurança.

 

- Agradeço-lhe. Amanhã de manhã vamos levá-lo connosco para Wiesbaden.

 

- Mas ele ainda tem de ser mantido sob vigilância médica. - o médico encolheu os ombros, como que a lamentar. - No mínimo uma semana. Nessa altura, teremos a certeza de não haver infecções na ferida ou outras complicações. A bala acabou por penetrar nas costas depois de ter atravessado o banco, havia fios dos estofos na ferida e não é possível saber se se conseguiu retirar todos os resíduos ou poeiras. Num ferimento destes há sempre o perigo de inflamação.

 

-Não se preocupe. Nós levamo-lo a um hospital. Wallner voltou-se para o chefe do SNP. - Levamos também o lítio. Não há perigo de radiação. - Lançou mais uma vez um olhar a Londricky. Este continuava a desempenhar o papel de exausto e tentava até ressonar. - É um actor talentoso! - comentou Wallner, laconicamente. - Rapaz, comigo não. Não gosto de teatro, mas sim de música. E por isso vou fazer-te cantar.

 

Na manhã seguinte, Wallner e o seu assistente Berger voaram de regresso a Wiesbaden. Londricky foi transportado numa cadeira de rodas. Continuava a tentar deslizar na cadeira e a fingir ataques de fraqueza até Berger o amarrar de tal forma à cadeira de rodas que já não conseguia mexer-se.

 

- A tortura! - gritou Londricky, indignado. - Eu contar imprensa!

 

- Esses nunca chegarás a ver, rapaz - avisou-o Wallner com um sorriso irónico. - o procurador federal vai manter-te sempre afastado do público.

 

Em Wiesbaden encontravam-se uma ambulância e três polícias do DIC à sua espera. Pegaram em Londricky e levaram-no ao hospital. Ali, foi colocado num quarto na ponta mais afastada do corredor do primeiro andar, com um novo polícia de guarda, sentado numa cadeira em frente à porta.

 

Dois dias mais tarde, ainda antes do início do interrogatório, Londricky estava morto.

 

Alguém lhe cortara a garganta. Uma morte silenciosa. A janela que dava para o jardim fora arrombada. o autor, de acordo com a reconstituição, trepara por umas roseiras até ao primeiro andar. Um caminho bastante simples.

 

- E isto significa - disse Wallner, bastante chocado que estamos a lidar com algo de grande envergadura...

 

A SURPRESA

Era a primeira vez que o Dr. Sendlinger se encontrava em Moscovo.

 

Imaginara que a passagem pelo controlo de passaportes e pela alfândega no Aeroporto Cheremetievo fosse bastante problemática... mas olharam para o seu passaporte, registaram que vinha da R.F.A. e carimbaram a autorização de entrada. Os cidadãos da R.F.A., da nova Alemanha reunificada, eram agora amigos. Isso começara com Gorbachev e continuara com Ieltsine. Com ainda mais afecto do que se poderia imaginar.. o Leste acolhia toda a gente de braços abertos. A inexplicável alma russa! Ainda recentemente a Guerra Fria e uma ameaça nuclear à paz universal, hoje em dia pancadinhas nos ombros e apertos de mão e banquetes no palácio do Kremlin de Moscovo. A situação mundial podia mudar com esta rapidez.

 

o Dr. Sendlinger tirara informações exactas antes da sua viagem a Moscovo. Onde viviam as pessoas com quem estabelecer contacto? Em hotéis gigantescos como o Rossija, ou o Uraina, ou o venerado Monopol, onde, no tempo de Hitler, o comunista alemão Ulbricht e os seus camaradas se tinham alojado, prontos a assumir o governo em Berlim após a queda do Terceiro Reich. Aqui Pieck e Grotewohl fizeram os planos para a sua Alemanha, aqui aguardaram o fim da guerra a fim de fundar um país que, com a perfeição alemã, se tornaria o aluno exemplar do comunismo.

 

o Dr. Sendlinger decidiu-se pelo Monopol. Tinham-lhe dito que fora renovado e modernizado, e que o restaurante e o bar ainda eram frequentados por importantes personalidades russas. A consciência da tradição dos Russos não desaparecera. Aquilo de que os pais tinham gostado era também do gosto dos filhos. Apenas a vida exterior tinha mudado: já não era preciso reflectir bem antes de falar; hoje em dia era possível dizer «Gorbachev desiludiu-nos imenso!» Ou «Como será com o Ieltsine?» «Quem sabe, amigo? Boa vontade ele tem, mas há muitos obstáculos pelo caminho. E a maldita e amada vodca. Viste, anteontem, no discurso na televisão... os olhos vítreos? Esperemos que tudo corra bem.» Esperança... o bálsamo centenário dos Russos.

 

No Monopol, o Dr. Sendlinger ficou num quarto bonito e espaçoso. A empregada do andar, sem a qual nada funcionava num hotel russo, que via tudo, sabia tudo e conseguia sempre tudo, desde chá com aroma de incenso até champanhe da Crimeia, levou-lhe como boas-vindas um cesto de fruta fresca e um bule de chá. Um serviço que dantes não havia.

 

- Fala alguma língua, alemão ou inglês? - perguntou o Dr. Sendlinger, esticando-se para agarrar uma maçã.

 

- As duas, senhor. - A empregada do andar não parecia ter vergonha de admitir que espiar também fazia parte das suas funções. o KGB, os serviços secretos e de espionagem russos, ainda estava omnipresente, nisso nada mudara. o Dr. Sendlinger verificou-o sem qualquer emoção, mas decidiu ser cauteloso.

 

-Gostava de experimentar alguma coisa hoje à noite. É a primeira vez que venho a Moscovo e as noites moscovitas têm uma grande reputação. - o Dr. Sendlinger riu-se. o que os clientes do seu escritório, que viajavam muitas vezes à Rússia em trabalho, contavam excedia fosse o que fosse... Evidentemente que ali não era tudo tão público como na «zona da grande liberdade» em Hamburgo. - Conhece, com certeza, algumas moradas?

 

Colocou uma nota de dez dólares em cima da mesa, que a empregada do andar agarrou silenciosamente.

 

- Não são permitidas visitas no quarto. – Sendlinger percebeu que ela já dissera aquilo inúmeras vezes. Aparentemente, quase todos os hóspedes estrangeiros faziam aquela pergunta. Raparigas russas, um furacão na cama. - Aqui não!

 

- Não estava a pensar nisso. - o Dr. Sendlinger deu uma dentada na maçã. Tinha bons dentes, podia permitir-se tal coisa, não sendo obrigado a ter medo de ficar com os dentes agarrados à fruta. - Estava a pensar mais numa noite divertida. Variedades, um espectáculo de dança, um bar agradável...

 

- Com um bordel?

 

- Não necessariamente. Tem de ser algo especial. Bordéis temos muitos em Berlim.

 

- Posso recomendar-lhe o Tropical, senhor.

- Soa bem. Tropical... o que é?

 

- Um restaurante elegante com bar e espectáculo. Danças com beldades. No Ocidente chamam-lhe striptease. Os estrangeiros gostam muito de lá ir. Tem uma boa escolha de raparigas, mas não podem trazê-las aqui para o hotel!

 

-Compreendo. - A maçã rangia entre os dentes do Dr. Sendlinger. - É preciso reservar?

 

É melhor. Está sempre cheio.

 

Pode fazê-lo por mim? Já agora, como se chama?

- Ludmila.

 

- Claro. Para que perguntei? Ludmila. o nome é adequado a mulheres bonitas.

 

Aquilo foi extremamente exagerado. A empregada do andar Ludmila era roliça e pesada, na casa dos cinquenta, tinha uma cara rude de camponesa e um nariz achatado como os jogadores de boxe. Ninguém a julgaria capaz de dominar duas línguas estrangeiras. Mais depressa a imaginavam num tractor num campo de batatas. Ludmila não reagiu ao elogio e dirigiu-se para a porta.

 

- Precisa de mais alguma coisa? - perguntou ela, indiferente.

 

-Não, obrigado. Já esteve no Tropical?

 

- Não é o meu ambiente. É onde se encontram os ricaços; eu represento apenas a arraia-miúda.

 

Para evitar a continuação da conversa, deixou rapidammente o quarto.

 

Sendlinger dirigiu-se à janela, abriu-a e olhou para a rua. um trânsito como na baixa: automóveis, pessoas, um vaivém contínuo. Tão diferente do que ele imaginara. São os malditos preconceitos. Lera alguns livros sobre Moscovo, incluindo um de Konsalik... aí a Rússia era descrita de uma forma completamente diferente da que se lhe apresentava agora. Escritores! Os glorificadores de ideais ou os observadores tendenciosos.

 

Desfez a mala, pendurou fatos e calças nos cabides, foi para a casa de banho, tomou um duche e vestiu uma camisa lavada. Para a noite, escolheu o seu fato azul-escuro e uma gravata às riscas vermelhas e azuis, meias até ao joelho azul-escuras, pois nada era mais ridículo do que as pernas nuas de um homem com peúgas que deslizam. Guardou quinhentos dólares no bolso; não queria gastar mais, acontecesse o que acontecesse.

 

À porta do Monopol esperavam três táxis. Dirigiu-se ao primeiro automóvel, abriu a porta e sentou-se no banco traseiro. Nesse momento lembrou-se novamente do que lera sobre Moscovo: quando quiseres um táxi, não perguntes, senta-te apenas, e o motorista é obrigado a transportar-te. Se lhe perguntares, ele responde «Niet», porque não lhe apetece. É funcionário público, por isso recebe o seu salário mesmo que não conduza.

 

Mas também ali a situação era diferente. Agora a maioria dos taxistas trabalhava por conta própria e ficavam satisfeitos com todos os clientes.

 

-Para o Tropical - indicou Sendlinger.

 

- Para   o Tropical - respondeu o taxista em alemão. Sendlinger inclinou-se para ele.

 

- Fala   alemão? -Um pouco.

 

- Onde aprendeu?

 

- Em Karl-Marx-Stadt.

 

- Agora voltou a chamar-se Chemnitz.

 

-Tudo mudar. - o motorista ligou o carro. - Aqui também. Mas não melhor..

 

- Já não existe a União Soviética. É um homem livre.

- Liberdade? Que ser isso? Quem ser pobre, ficar ainda mais pobre... quem ser rico, ficar ainda mais rico. E mais ricos ainda ficarem os vigaristas.

 

o Dr. Sendlinger sentiu um aperto no peito.

- Conhece algum vigarista desses?

 

- No Tropical haver suficientes. Quase todos ser vigaristas.

 

-Isso é um exagero. Como pode sabê-lo?

 

-Você ir ver. Fatos caros, dedos cheios de anéis, mulheres bonitas sentar ao seu lado... esses serem vigaristas mais grandes. Agora governarem, não Ieltsine. Terem tudo nas mãos. Todos pagarem protecção...

 

-Você também?

 

- Eu também. Querer viver. Quem não pagar.. carro estragado, mais tarde pessoa estragada. Pessoas habituarem-se a gangsters.

 

Pararam em frente ao Tropical e Sendlinger pagou em dólares, o que entusiasmou o taxista. Na rua estavam estacionados vários Mercedes e BMW, um Rolls-Royce e um Cadillac com uma matrícula - CI Corpo Diplomático, um carro de uma Embaixada.

 

- Várias felicidades. - o taxista examinou o seu cliente, parado na rua. - Poder dar conselho?

 

- Se for bom.

 

- Afastar-se de Natalia Petrovna.

- Quem é Natalia?

 

- Dançar no palco. Nua. Mulher bonita. Mas diabólica! Você ir ver..

 

- Obrigado pelo aviso. - Sendlinger acenou ao taxista e dirigiu-se à entrada. Ele já sabia que ia encontrar essa Natalia, quer dizer, devia encontrar. Quem tem uma reputação dessas, também conhece os ricos. As melhores ligações são conseguidas através de mulheres, especialmente naqueles círculos. Já tivera exemplos suficientes disso mesmo no seu escritório de advocacia... uma cama não serve só para dormir. Uma mulher abre muitas portas bem trancadas.

 

o porteiro do Tropical olhou rapidamente para Sendlinger e abriu a porta. o seu olhar treinado viu imediatamente que era um turista. Um do Ocidente. Um novo-rico russo tresandava a perfume. Via-se que os bolsos estavam cheios de dinheiro.

 

Sendlinger foi recebido, na antecâmara, pelo chefe de mesa. Olhou interrogativamente para o cliente e esperou a fim de perceber em que língua devia falar.

 

-Doutor Sendlinger - disse Sendlinger. - Tenho uma reserva.

 

-Please, sir... - o chefe de mesa avançou, apontou para uma mesa redonda próximo do palco e puxou a cadeira para trás enquanto Sendlinger se sentava. No palco, um par dançava uma dança erótica. A rapariga vestia apenas uma tanga exígua e cintilante, o seu parceiro escondia a sua masculinidade num pedaço de couro. Roçavam-se um no outro, rolavam e viravam-se e fingiam um coito que terminava num orgasmo igualmente simulado. Os aplausos foram moderados. Se era sexo, então que fosse como deve ser.

 

o Dr. Sendlinger olhou em volta. Àquela hora, o local estava apenas meio cheio, mas o primeiro relance mostrou-lhe logo que nem todos os que ali bebiam champanhe e olhavam fixamente para os decotes meio despidos das mulheres pertenciam à categoria dos homens de bem. «Cheguei demasiado cedo», pensou Sendlinger. «Daqui a uma hora vai estar diferente. As solanáceas só acordam com o escuro e florescem a partir daí. Esperemos para ver o que lá vem. Estou ansioso sobretudo por ver essa Natalia, esse diabo, como lhe chamou o taxista.»

 

Foi com grande satisfação que o Dr. Sendlinger estudou a ementa, que estava escrita em russo, inglês, francês e árabe, Mas não em alemão. o que ele encomendou deixou-o verdadeiramente entusiasmado: uma fantástica sopa borchtchl com uma camada grossa de natas, seguida de um prato de peixe, um filete de esturjão cozinhado ao ponto, um bife de veado

 

Sopa de legumes russa com carne, beterraba, entre outros, (N da T.)

 

meio-passado com cogumelos selvagens e doce de framboesas, emoldurado por blinis, pequenos e estaladiços, e como sobremesa um parfait de gelado, que justificava a fama, negada por italianos ofendidos, de o gelado russo ser o melhor do mundo. A acompanhar bebeu um esplêndido e aromático vinho tinto da Crimeia, que deixava inicialmente um perfume de groselhas-pretas.

 

o Dr. Sendlinger, sempre um grande apreciador, verificou que havia já muito tempo que não comia tão bem. Permitiu-se ainda um copo de conhaque da Geórgia e um café forte do Azerbaijão.

 

E, então, eram já vinte e três horas, como Sendlinger verificou, entrou no Tropical um cliente a quem até o gerente se dirigiu, encaminhando-o pessoalmente a uma mesa na primeira fila junto ao palco, onde se encontrava um grande ramo de rosas vermelhas. Nas mãos do homem brilhavam imensos anéis de brilhantes e safiras.

 

«Este é o chefe!», pensou Sendlinger. «Com esta aparência só pode ser alguém que maltrata toda a gente e sai impune.» Um regresso da sociedade de AL Capone. Bugsy Siegel

 

ficaria contente e Mayer Lanski torceria o nariz. Uma excelente cópia, e isto em 1991 na nova Rússia!

 

Dois empregados dirigiram-se imediatamente para a mesa e colocaram-se muito direitos, como se se tratasse do czar. o chefe de mesa apressou-se a trazer a ementa.

 

O costume. - Igor Germanovich Sybin passou os olhos pela ementa.

 

-Caviar em gelo?

 

-Não faça perguntas parvas. Onde está a beberagem da Crimeia? Estou a morrer de sede.

 

Os empregados desapareceram rapidamente. Sybin olhou rapidamente em volta. o seu olhar encontrou o do Dr. Sendlinger, que observava a cena recostado e agora sorria. Sybin também sorriu e depois virou-se.

 

-Quem é o estrangeiro da mesa nove? - perguntou ele ao gerente.

 

Pequenas panquecas. (N. da T.)

 

-Alguém da Alemanha. Chama-se Sendlinger. Doutor Sendlinger. Está alojado no Monopol.

 

-Como sabes isso?

 

-Foi de lá que reservaram a mesa. -E que mais sabes?

 

-É advogado em Berlim. É tudo.

 

Sybin acenou com a cabeça, mas não voltou a olhar para Sendlinger.

 

-Diz à Natalia que o deve provocar. - Sybin bebeu o conhaque que o empregado lhe trouxera em passos rápidos. - o que comeu ele?

 

-A ementa número um e o melhor vinho.

 

-Ou seja, não é um turista curioso. Esses são agarrados ao dinheiro. «Advogado, é? Ele quer fazer negócio aqui. Vê-se à distância.»

 

-Devo convidá-lo para a sua mesa?

 

- Claro que não, seu idiota! - o tom de voz de Sybin soou zangado. - A Natalia deve esticar o traseiro à frente da cara dele... o resto descobre-se sozinho.

 

No palco surgia agora uma mulher com uns seios enormes. Ela fazia-os balançar ao som da música, como abóboras cor de carne, afagando-os de quando em vez; em seguida começou a gemer ao microfone, arrancou a roupa do corpo e desnudou um ventre descaído. Os estetas teriam tapado os olhos. Também Sendlinger se perguntou por que razão um sítio como o Tropical se permitia um espectáculo daqueles. Mas também aquela mulher foi aplaudida, ao deixar o palco.

 

Sybin voltou-se para o Dr. Sendlinger. Mais uma vez cruzaram o olhar e Sendlinger abanou a cabeça. Com um sorriso irónico, Sybin acenou igualmente.

 

«Espere, doutor. A seguir vem a Natalia Petrovna. Aí vais ter calor dentro desse fato. E quando ela se sentar no teu colo em toda a sua bela nudez... até agora nenhum homem aguentou impassível. o mais tardar numa hora vou saber o que queres daqui de Moscovo. Nessa altura ou me interessas, ou és apenas um bode rico que enfia cem dólares no decote da Natalia.»

 

A música tocou uma fanfarra. As luzes fortes do palco apagaram-se, soou uma antiga canção popular russa: Olhos Negros - Saudades da Taiga.

 

Natalia entrou em palco com um traje da Quirguízia: botas brancas, uma saia plissada ampla, uma blusa vermelha e por cima uma jaqueta multicolor. o cabelo longo e preto estava puxado para cima e atado com fitas de várias cores. Entrou flutuando como uma sílfide, modesta, sonhadora, transportada pela melodia. A sua cara tártara tinha sido coberta de pó dourado.

 

o Dr. Sendlinger olhou-a fixamente. «É a mulher mais bonita que alguma vez vi», pensou ele, «um milagre da feminilidade. E ela é supostamente diabólica...? Mas a Lucrécia Bórgia também não foi primeiro uma bela mulher e, depois, Satanás? E Catarina de Médicis, cuja beleza foi celebrada por todos, ordenou, na noite de vinte e quatro de Agosto de mil quinhentos e setenta e dois, a matança de São Bartolomeu, em que foram mortos mais de vinte mil huguenotes. Existem muitos, muitos exemplos de mulheres encantadoras que por detrás da sua beleza escondiam crueldade, perversão mortal, ódio sem piedade e prazer na destruição.

 

Como é que, de repente, começo a pensar na História só de olhar para a Natalia? Ela é uma dançarina num clube nocturno moscovita, mais nada. Paul, o que se passa contigo? E tal como eu imaginara, e também esperara, ela vai despir-se em cima do palco, provocando lentamente e com movimentos lascivos, estimulando os sonhos mais ansiados dos clientes do sexo masculino. Ela vai ser delirantemente aplaudida e será tudo. Não percebo por que razão o taxista lhe atribuiu qualidades diabólicas.»

 

A música continuava numa melodia provocadora e ritmada. Natalia desatou as fitas que seguravam o cabelo e atirou-as para as mesas. Os homens agarraram-nas avidamente, e como ela dançava perto de Sendlinger, ele recebeu no colo uma delas, fina e dourada. Pegou nela e colocou-a em cima da mesa redonda. Aparentemente impassível, como se lhe tivessem atirado uma serpentina de Carnaval.

 

Um truque velho mas com provas dadas, a indiferença é aquilo que mais irrita uma mulher.
Sybin olhou novamente para o Dr. Sendlinger. Sorria abertamente, mas Sendlinger respondeu-lhe com um encolher de ombros. O que foi? é preciso que me caia mais do que uma fitinha dourada no colo.

 

Natalia fechou os olhos por breves instantes. «Seu ocidental impertinente! Eu vou mostrar-te que também se escondem em ti desejo e luxúria. Olha bem: primeiro caem a jaqueta e a blusa! Os meus seios deixam-te indiferente? Ainda estão presos num soutien, mas eu já solto o fecho. Vou atirá-lo à tua cara e vai cheirar a rosas, um perfume a almíscar que estimula os homens como o chicote do cocheiro os seus cavalos.»

 

E assim foi... Natalia movia o corpo em contracções selvagens, soltou o fecho do soutien, deixou os seus seios magníficos e firmes dançar e, enquanto os clientes aplaudiam e lhe gritavam qualquer coisa que Sendlinger não entendia, ela atirou-lhe com toda a pontaria o soutien para a cara.

 

Ele peggu-lhe e colocou-o com indiferença junto da fita dourada. «és mesmo uma diabinha, e até mesmo sensacional, mas não verás o Paul Sendlinger descontrolado. Isso pelos vistos ainda não conheces... uma cabeça sóbria e pensante, que pode desligar-se do corpo.»

 

Ele bebeu um golo de champanhe da Crimeia e olhou admirado para cima quando uma figura surgiu entre ele e o palco.

 

Sybin. sorria-lhe e falou-lhe em inglês.

 

- Está com sorte com a Natalia, uma sorte descarada. Ela nunca mostrou tão declaradamente a sua simpatia por nenhum homem.

 

-Um jogo. Faz parte do seu número. - Sendlinger também falava agora em inglês.

 

-A Natalia não é fantástica?

 

- Existem muitas mulheres bonitas neste mundo.

- Mas nenhuma como a Natalia Petrovna.

 

o Dr. Sendlinger apontou para a cadeira vazia na sua mesa.

 

- Sente-se, por favor

 

- Se me dá licença. - Sybin sentou-se e inclinou-se um pouco de forma a não ficar entre Natalia e Sendlinger. Sou Igor Germanovich Sybin - apresentou-se ele, despreocupadamente.

 

- Doutor Sendlinger.

 

- De Berlim. Advogado... - Sybin sorriu ironicamente a Sendlinger.

 

- De onde me conhece? - Sendlinger estava agora perplexo e, simultaneamente, na sua cabeça soou uma campainha de alarme. «Atenção! Alguma coisa não bate certo. Estou em Moscovo pela primeira vez, e em Berlim não tive contactos com russos, à excepção do general Petchin. Como, e de onde, pode conhecer-me este Sybin?»

 

- Informei-me sobre si junto de Semion, o gerente.

- E porquê?

 

- Você chamou-me a atenção.

 

- Suponho que muitos visitantes do Ocidente são clientes do Tropical. Porquê logo eu?

 

-Um tipo de intuição. - Sybin esperou até o empregado ter trazido o seu vinho para a mesa de Sendlinger. Um... como devo dizê-lo... pressentimento. Eu confio muito nos pressentimentos. Senti-o na minha pele como um choque eléctrico invisível. Nunca sentiu nada assim?

 

- É perigoso deixar-se levar pelos pressentimentos. É mais importante uma cabeça fria.

 

A sua conversa foi interrompida. Natalia dançava novamente em frente de Sendlinger e atirou-lhe a saia que já despira. Agora tinha vestida apenas uma tanga justa e dourada... já atirara as meias e as botas para os bastidores. o Dr. Sendlinger colocou a saia distraidamente junto das outras peças de roupa.

 

- Sinto-me um bengaleiro. Vem lá mais alguma coisa? Sybin deu uma gargalhada e um toque no braço de Sendlinger. Nessa altura, Sendlinger reparou que faltava um dedo na mão esquerda do seu convidado. Mas também viu os anéis de brilhantes. Dois e três quilates, certamente da maior pureza. «Ricaço!», pensou ele. «Um dos novos-ricos russos.» E, de repente, suspeitou que aquele Sybin pertencia ao tipo de russos que, através da glasnost e da perestroika, haviam podido trazer para a luz os seus negócios até agora escuros. As ratazanas engordavam.

 

- Ela ainda tem a tanga vestida! - disse Sybin, alegremente. - Se a Natalia a atirar à sua cara, deve convidá-la para um copo de champanhe.

 

-Veremos o que vai sair dali? Eu nunca invisto em negócios incertos. Investimento significa ganhos.

 

Você agrada-me, Gospodin Sendlinger. - Sybin acenou rapidamente a Natalia. Devia ter sido discreto, mas Sendlinger, alerta como sempre, reconheceu o aceno. Sentiu uma tensão dentro de si, que lhe percorreu o corpo todo.

 

O que quer isto dizer?», questionou-se. «Onde leva este jogo? Quem é este Sybin? É óbvio que utiliza a Natalia como isco... mas para que me querem apanhar? o que querem comigo? Colocarem-me em cima deste corpo magnífico e depois roubarem-me? Não compensa, minha querida. Só tenho quinhentos dólares. Para um furto ao cliente da prostituta, como se costuma dizer na minha gíria profissional, não compensa. E além disso sou bom ao boxe. Campeão de pesos-médios na turma de estudantes. Já foi há bastante tempo mas ainda tenho um bom soco.»

 

- O que o traz a Moscovo? - perguntou Sybin.

- Negócios.

 

- Era o que eu pensava. Não parece um turista inocente. Pressenti logo isso.

- Os seus famosos pressentimentos! Na sua opinião, por que razão não sou inocente?

 

Você vem do Ocidente para fazer negócios na Rússia. Isso significa que quer explorar a Rússia.

 

- Ah! Mas isso soa muito marxista e militante.

 

- Soa sincero. Conheço suficientes capitalistas ocidentais que, após a renovação da Rússia, vieram à caça do ouro.

- Interessante! E como consegue pagar esses anéis de brilhantes?

 

- Com negócios... como você. - Sybin sorriu, amavelmente, fingindo não ouvir a provocação subjacente à pergunta de Sendlinger.

 

- Não me parece. Vai dizer-me com quem ou em que negoceia?

 

- Não.

 

- Vê, eu também penso assim. - o Dr. Sendlinger olhou para o palco. Natalia preparava-se para o final. - Dediquemo-nos, então, à nossa beldade.

 

Natalia olhou para Sendlinger e Sybin, tirou a tanga dourada e virou para eles o seu sexo agora nu. Na sala os homens aplaudiam e assobiavam, as mulheres presentes faziam caretas com os seus rostos maquilhados. Dos bastidores laterais voou um urso de pelúcia, que Natalia habilmente apanhou. E então foi como se a sala entrasse em apoteose: ela pressionou bem o urso contra si, fechou as pernas, movendo-se e contraindo-se como se se diluísse num superorgasmo. De repente, parou, pegou no ursinho, fê-lo deslizar ao longo das suas ancas e atirou-o para o Dr. Sendlinger. o público delirou.

 

- Isto merece uma garrafa de champanhe! - exclamou Sybin e abraçou impulsivamente o Dr. Sendlinger. - Gospodin, conquistaste o coração dela... e não só...

 

Natalia desapareceu do palco. o Dr. Sendlinger colocou o urso em cima da mesa. Sem que fizessem qualquer pedido, um empregado trouxe uma garrafa de Roederer Brut Cristal.

 

Sybin olhou para Sendlinger.

 

- o champanhe dos czares - disse ele. - A garrafa foi escolhida expressamente para si. Quero dizer, a Natalia merece beber um champanhe principesco. Ela é a rainha da vida nocturna de Moscovo.

 

«É assim que isto funciona», pensou o Dr. Sendlinger, atento e distante. «Com o corpo de uma mulher atrai-se a vítima. Meu caro camarada Sybin, ainda não me conheces. Nunca um Sendlinger foi uma vítima, mas sim o carniceiro. Agora começa a tornar-se realmente interessante.»

 

Em menos de dez minutos, Natalia apareceu num vestido amarelo, justo, e sentou-se na mesa de Sendlinger, como se tivesse estado ausente apenas uns segundos. o vestido era tão justo que parecia não ser de tecido; era como se tivessem pintado o seu corpo nu de amarelo. Não havia qualquer curva, qualquer vale daquele corpo magnífico que não estivesse realçado. o longo cabelo preto estava solto, esvoaçando por cima dos ombros como fios de seda brilhantes. os lábios discretamente pintados de vermelho realçavam o rosto, aquele rosto tártaro fascinante, com os ossos salientes e uns profundos olhos castanho-escuros, fogosos.

 

o Dr. Sendlinger cumprimentou-a acenando com a cabeça.

 

- Sente-se - disse ele, apesar de ela já se ter sentado. Falou em inglês, mas Sybin fez um gesto de rejeição com a mão.

 

-A Natalia sabe falar alemão. - o seu sorriso alargou-se. - Ela teve um amante alemão durante cinco meses. Um director da indústria pesada. É mais fácil aprender línguas na cama...

 

- Ele está a mentir. - A voz de Natalia era tão excitante como o seu corpo... uma voz profunda, cujo timbre deixava adivinhar saudade, sedução e entrega. E foi essa mesma voz que seduziu o Dr. Sendlinger para fora da sua reserva simulada.

 

- Onde aprendeu alemão? - perguntou ele. -Aprendi na escola. Era uma disciplina facultativa. -E por que razão escolheu precisamente essa língua?

- Não sei. De repente pensei que a devia escolher. Mas o meu alemão é fraco.

 

- É excelente. Eu nunca aprenderia a falar russo tão bem.

 

- Tem de encontrar um bom professor. -Ou uma boa professora.

 

Ela não entrou naquele jogo dissimulado; em vez disso observou o empregado a abrir a garrafa de champanhe e a encher os copos. Sybin, que não entendera nada da conversa em alemão, estava, não obstante, satisfeito. o contacto entre -Natalia Petrovna e aquele Dr. Sendlinger fora estabelecido. Estava a decorrer conforme planeado.

 

- Podemos unir-nos - disse Natalia, quando o empregado se afastou. - Você melhora o meu alemão, eu ensino-lhe russo.

 

o Dr. Sendlinger olhou para o conjunto de peças de roupa em cima da mesa.

 

-Já me fez uma demonstração das suas capacidades. o que espera receber em compensação?

 

É preciso pagar sempre tudo?

 

Nós costumamos dizer que de graça só a morte, e mesmo essa custa-nos a vida.

 

-Nós, os Russos, dizemos que o vento na estepe é o pai de todas as formas de vida.

 

- Isso é muito poético. - o Dr. Sendlinger pegou no seu copo e brindou a Natalia e a Sybin.

 

- Delicioso! - disse ela, depois de ter bebido um gole.

- o champanhe foi escolhido por Herr Sybin.

 

- Igor Germanovich tem sempre bom gosto.

 

«Até nos dedos cheios de brilhantes», pensou Sendlinger. «A mim parece-me uma cópia que restou dos anos trinta de Chicago. Mas não nos devemos iludir, os novos criminosos russos têm ainda menos consciência e escrúpulos do que os seus antecessores americanos ou italianos. Já se ouviu falar muito deles sem ter sido preciso aproximar-se. Assumem lenta e secretamente o governo do país sem ser possível localizá-los. E eu estou apenas há um dia em Moscovo e um desses tipos abraça-me e quer meter a sua amiga na minha cama. Serei um sortudo ou um idiota?»

 

Voltou-se para Sybin e falou novamente em inglês.

 

- Estou à procura de um sócio na Rússia - afirmou ele sem rodeios ou insinuações dissimuladas. - Contactos para, digamos, produções fora do vulgar. Para um mercado pequeno, mas lucrativo. Já existem diversas ligações, mas essas não chegam e são muito incertas. Sobretudo, o mercado tem um público muito sensível. Entende, Mister Sybin?

 

- Entendo apenas que se trata de negócios a realizar por baixo da mesa...

 

-Nem sequer deve existir uma mesa...

- Então é um negócio clandestino.

 

- A sua capacidade de entendimento é louvável, Mister Sybin.

 

-Diz que será um negócio. Isso é um conceito muito alargado. Pode-se negociar em sementes de girassol, petróleo, caviar ou armas.
-Gostaria de dizer que está a ficar cada vez mais quente.

 

-Então são armas!

 

-Não directamente... apenas em sentido figurado. -Não entendo - disse Sybin, com sinceridade. Naquele momento, a explicação de Sendlinger parecia-lhe confusa.

 

«Devo dizer tudo?», questionou-se Sendlinger. «Devo arriscar? Ele não vai correr ao KG13, isso é certo. Não vai enviar munições aos seus inimigos. No entanto, é um jogo arriscado. Mas sem risco o nosso negócio desaparece, nem sequer será preciso começá-lo.»

 

Sendlinger resolveu arriscar. Ao longo da vida sempre o fizera e ganhara sempre, com a sorte de jogador do seu lado.

- Está a caminho uma amostra de duzentos e sessenta gramas de lítio seis.

 

Proferia estas palavras como se negociasse em bananas. Sybin olhou para ele, estupefacto, e depois assobiou baixinho entre dentes.

 

- Ah... ah... lítio seis! Será que ouvi bem?

- Ouviu.

 

-é uma amostra? Quer dizer que vem mais?

- Exacto.

 

-Para quem?

 

-E eu pergunto-lhe de onde vem a sua riqueza. Era impossível ter-se tornado milionário em tão pouco tempo, na Rússia, de uma forma honesta. Há pouco disse que vivia de negócios de vários tipos. Mister Sybin, sinceramente: tem ligações à indústria nuclear ou a institutos de investigação nuclear?

 

- Nós temos ligações em todo o lado. - Sybin desistiu de se esconder por trás de uma máscara. Só a expressão «em todo o lado» escancarou a porta. - De que precisa, doutor Sendlinger?

 

- Urânio duzentos e trinta e cinco, altamente concentrado, e, sobretudo, plutónio duzentos e trinta e nove.

 

- Quanto?

 

- Tanto quanto for possível arranjar.

 

- Isso é muito tentador. - Sybin bebeu o seu champanhe como se, de repente, tivesse um fogo na garganta. É suficientemente sólido em termos financeiros?

 

- Sim!

 

- Pode chegar às centenas de milhões de dólares, deve ter essa noção.

 

-Não há problema.

- E quando?

 

- Sempre que for possível enviar.

 

-E aí é que está o busílis. - Sybin lançou um olhar zangado a Natalia. Ela começara a afagar a mão de Sendlinger. - Deixa-nos em paz! - exclamou ele, rudemente. Vai à procura de outro que te passe uns dólares.

 

- Sacana! - Os olhos de Natalia faiscaram perigosamente. - Tu mandaste-me...

 

- Isso já passou. A situação mudou. Já não precisamos de ti. Bebe o teu champanhe, e depois desanda!

 

O doutor alemão gosta de mim...

- Podes tê-lo mais tarde, hoje não.

- És um merdoso!

 

- Põe-te a andar!

 

- Que disse ela? - perguntou Sendlinger, e registou o olhar enraivecido de Natalia.

 

-Ela gosta de si. Quer tê-la?

 

- Agora? Neste momento, não. Vou ficar oito dias em Moscovo; ainda há tempo suficiente para essas actividades.

- Avaliei-o bem, novamente os meus pressentimentos! As mulheres são-lhe indiferentes.

 

- Engano seu! Só quando atrapalham os negócios. A excepção do trabalho, tenho um grande fraco por mulheres como a Natalia.

 

Sybin acenou compreensivamente. Esperou que Natalia acabasse o seu copo e depois dirigiu-se-lhe novamente.

- Agora desaparece! - ordenou-lhe, autoritário.

 

Ela obedeceu em silêncio, agarrou no soutien, na tanga, na fita dourada e no urso de pelúcia, meteu tudo debaixo do braço direito e afastou-se da mesa. Sendlinger seguiu-a com o olhar e abanou a cabeça.

 

- Escorraçou a feiticeira, Sybin? -Tal como você disse: ela atrapalha.

 

- Tenha atenção! As mulheres têm tendencia para o ódio e para o rancor. Uma mulher que sabe de mais é sempre um perigo. o seu conhecimento é poder.. poder sobre o homem.

 

- A Natalia sabe que eu sou invulnerável.

 

Pois, pois, pois... isso soa muito arrogante. Todos são vulneráveis. Só temos de encontrar as armas certas.

- Ou controlar as defesas necessárias. - Aquilo soou a orgulho, e Sendlinger questionou-se novamente sobre quem era na realidade aquele homem. - Posso fornecer-lhe plutónio.

 

-   Era esta a surpresa que Sendlinger esperava, a esperança que o levara a Moscovo. Encontrar um caminho nos meandros da investigação nuclear russa, no santuário do poder militar. o precursor não seria um general Petchin, mas sim (o que era agora óbvio para Sendlinger) um dos padrinhos da máfia russa.

 

-Que quantidade consegue enviar? - perguntou. -A quantidade que quiser.

 

-Isso não é um bocadinho presunçoso? Um Sybin cumpre a sua palavra.

 

- E quando?

 

-Talvez daqui a dois anos.

 

- Como disse? - Sendlinger inclinou-se sobre a mesa. Achou que não tinha ouvido bem.

Isso é uma piada?

- é uma afirmação muito simples e realista. - Sybin encheu novamente os copos. Resolveu não esperar até conseguir chamar um empregado. No palco, uma contorcionista actuava, nua, naturalmente. o novelo formado pelo seu corpo parecia inextricável. - Queremos correr o menor risco possível.

 

- Obviamente.

 

- Na indústria nuclear russa estão empregadas cerca de seis milhões de pessoas. Desses, entretanto, cerca de um mi` lhão vai ficar desempregado, pois a investigação e a produção de armas serão reduzidas devido aos acordos entre o Ocidente e o Oriente. Sei por círculos governamentais que ainda estão planeados vários passos para uma paz duradoura, que se referem aos peritos nucleares na Rússia, Cazaquistão, Bielorrússia e Ucrânia. Aí serão, pelo menos, dois milhões de desempregados. Em Moscovo, fazem-se malabarismos com um pacto de desarmamento nuclear, mas ainda não está concluído. Talvez daqui a dois anos ou só em mil novecentos e noventa e quatro, quem sabe? Os cientistas e técnicos nucleares desempregados dificilmente arranjarão outro trabalho, especialmente se a produção nuclear geral regredir, sobretudo no domínio militar. o desemprego vai torná-los ambiciosos, pois não querem armar uma barraca na rua como mendigos académicos modernos. E você já ficou com alguma coisa: os seus conhecimentos e também o acesso aos locais de produção, aos seus antigos colegas que deverão continuar a trabalhar. Sabe quanto ganha um cientista nuclear altamente qualificado, um professor universitário até, no Centro Nuclear de Cheliabinsk-Sessenta e Cinco?

 

- Nada comparado com os nossos cientistas, imagino.

- Por este ordenado, um operário da construção civil da Alemanha Ocidental recusar-se-ia sequer a atirar uma pá de areia para dentro da betoneira. Um professor universitário muito conceituado recebe por mês o equivalente a cem marcos!

 

- Impossível!

 

- E agora até esses cem marcos lhe tiram, É, portanto, evidente que ele irá vender os seus conhecimentos e, decididamente, será inevitável que desvie material nuclear para poder comprar um pedaço de carne para si todos os dias. E aqui temos os nossos fornecedores.

 

-Pensei exactamente a mesma coisa no caminho para Moscovo.

 

-Mas ainda não chegou o momento certo. - Sybin abanou a cabeça, como se quisesse sublinhar as suas palavras. - A União que engloba Tomsk-Sete, Krasnoiarsk-Vinte e Seis e, sobretudo, Cheliabinsk-Sessenta e Cinco denunciar-nos-ia porque costumava ser o principal fornecedor de plutónio para o armamento soviético. Krasnoiarsk e Tonisk são, hoje em dia, ainda oficialmente os locais de produção de plutónio preparado para armas. Estas centrais nucleares nos Urales e na Sibéria estão totalmente protegidas contra o mundo exterior. E também se sabe que existem produções nucleares secretas e desconhecidas na Sibéria, cidades recém-fundadas, que não estão assinaladas em nenhum mapa nem têm nome, apenas número. De acordo com os planos ministeriais, Krasnoiarsk-Vinte e Seis deverá ser convertida na maior instalação de reciclagem do mundo, que, conforme o que se planeia, a partir de dois mil e quatro, deverá transformar materiais inflamáveis da Coreia do Sul, Formosa e outros países para produção de energia nuclear. Obviamente que, nessa altura, vai sobrar plutónio, dado que o plutónio é um subproduto nos reactores nucleares. Existem quinze tipos diferentes de plutónio... o plutónio duzentos e trinta e nove é o mais perigoso e o mais tóxico. - Informou-se bem, Sybin - disse Sendlinger, com grande respeito. - Fala como um perito.

 

-Antes de se começar um negócio, devemos interessar-nos pela sua alma. E a alma do negócio é a informação. Assim, sabemos, por exemplo, que os sindicatos dos atomchtchiki, que é como chamamos aos trabalhadores das centrais nucleares, disfarçam a sua raiva por haver cada vez mais despedimentos e o Estado pagar os ordenados tarde e a más horas. Não há dinheiro, a Rússia está à beira da bancarrota, e, quando não há dinheiro, corre-se atrás dele. E, por isso, digo que devemos esperar. Daqui a dois anos vamos poder comprar o plutónio muito mais facilmente do que uma caixa de vodca. Hoje ainda existem barreiras morais... Em dois anos, até talvez num ano, tudo estará diferente. A moral não mata a fome. Uma consciência não enche o estÔmago esfomeado. E nessa altura o preço...

 

- Isso é interessante! - o Dr. Sendlinger recostou-se. A exposição de Sybin impressionara-o. - Tem ideia de números?

 

- Também nisso somos mais especuladores do que todos os outros. Neste momento um quilograma de urânio custa duzentos mil dólares, um quilograma de plutónio, quatrocentos mil dólares, uma ogiva nuclear SS-Vinte cerca de setenta mil dólares, um míssil nuclear completo do tipo SA-Onze ou SA-Dezanove custa cerca de oito vírgula cinco milhões de dólares. Tudo preço de compra... ofertas internas. o tempo de expedição nunca é inferior a três meses. E o que paga o seu cliente, doutor Sendlinger?

 

- Tenho uma oferta para quatro quilogramas de plutónio duzentos e trinta e nove, pronto a ser utilizado e altamente concentrado, de trezentos e oitenta milhões de dólares.

 

- Portanto, as minhas contas estavam praticamente correctas. Uma espantosa margem de lucro. Assim dá prazer negociar. Esperemos mais um ou dois anos, nessa altura conseguimos o material mais barato e podemos ditar os preços. E receberemos tanto quanto quisermos.

 

- Dois anos é demasiado tempo, Sybin. Temos de ser os primeiros e, dessa forma, os líderes. Se outros se anteciparem, bem podemos sentar-nos a olhar para ontem enquanto envelhecemos.

 

-Ninguém se antecipa a um Sybin.

 

-Isso parece novamente um pouco exagerado.

 

- o urânio e o plutónio virão da Rússia... e o que acontece na Rússia, nós ficamos a saber ainda antes de acontecer. Os nossos colaboradores estão em todo o lado.

 

- Nossos? - o Dr. Sendlinger fez aquela pergunta idiota, de forma a ouvir da boca de Sybin aquilo que ele já percebera há muito. - Como devo entender isso?

 

-Nós somos um consórcio que abrange toda a Rússia.

- Um sindicato.

 

- Não temos esse nome pois suscita algumas emoções. A palavra sindicato tem uma conotação negativa... Consórcio é melhor.

 

-Mas são irmãos.

 

-Não! Não existe amor fraterno entre nós. Quero apenas dizer que se alguém se antecipar a nós no novo mercado, será apenas um negócio pontual para essa pessoa. E depois só vai precisar de dois metros quadrados de terra.

 

- Assassínio! - exclamou Sendlinger, sem respeito.

- Chamemos-lhe antes ossos do ofício. - Sybin sorriu, satisfeito. Entendiam-se muito bem. Havia ainda uma questão em aberto: seria este Dr. Sendlinger o sócio certo para o negócio do século? Já negociava em lítio... A quem o enviaria? Até então, os informadores do consórcio tinham falhado nesse campo. Ia ser necessário confrontar os referidos senhores com as consequências. - De onde vem o seu lítio? perguntou Sybin, despreocupadamente. - Entre sócios chegados, a verdade e a confiança são condições essenciais, se não, tudo se resume a castelos construidos na areia.

 

- Dos militares. - Sendlinger também via as coisas da mesma forma: franqueza em troca de franqueza.

 

- Directamente dos armazéns?

 

-Isso não sei. É tudo tratado por um general.

- Quem?

 

- General Alexander NikoIaievich Petchin. Agora encontra-se no estado-maior. Conheço-o de Berlim, onde era responsável pela logística das tropas.

 

-Um homem de bem?

 

- Um pouco cauteloso e cobarde.

 

- Isso não é bom. - Sybin abanou a cabeça e esticou o dedo indicador. - Um factor de insegurança que não nos podemos permitir. Cobardia é como um buraco num barco de borracha... Causa um naufrágio lento. Vou falar com o Petchin.

 

Sendlinger sentiu, de repente, um arrepio gelado percorrer-lhe a espinha.

 

- Consegue entrar no estado-maior?

 

- Para nós não existem portas fechadas. -Quer matar o Petchin?

 

- Claro que não. Nunca ando armado. -Então um dos seus «homens»?

 

- Doutor Sendlinger, negócios destes não toleram perguntas ambíguas. Quando chegar a altura certa, poderá comprar plutónio como se estivesse na feira...

 

o Dr. Sendlinger voltou para Berlim ao fim de uma semana. Estava extremamente satisfeito com os resultados da sua viagem, elaborara um «plano de exportação» preciso com Sybin, e selara a sua relação comercial não por escrito mas com três beijos fraternos. Nestes círculos, isso valia mais do que acordos escritos, que podiam cair em mãos estranhas. Até se podiam tratar por tu, disseram Paul e Igor Germanovich um ao outro, numa noite em que beberam até cair no faustoso Clube Nocturno Stanislavski, onde raparigas nuas andavam de mesa em mesa, mostrando a sua beleza, a fim de suscitar nostalschi (saudades) junto dos homens solícitos. Eram raparigas verdadeiramente bonitas e não só profissionais, mas também estudantes que, como Sybín competentemente explicou, assim financiavam os seus estudos e uma vida confortável, ou jovens que durante o dia eram donas de casa honradas, que com estas actividades conseguiam comprar uma televisão ou novos móveis.

 

- irmãozito, como é que é? - perguntou Sybin, bem bebido, abraçando Sendlinger. - Quando é que finalmente vais para a cama com a Natalia? Ela está à tua espera. Não, não penses que te vou matar por ciúmes... Ter ciúmes da Natalia seria como se tu mijasses para dentro do vinho: totalmente absurdo! Ela fornica apenas com o corpo, ninguém entra na sua alma. Ela odeia os homens e cuspir-lhes-ia se se pudesse livrar deles. Por isso, não imagines nada quando ela diz que gosta de ti. Só tu ganhas alguma coisa com isso, e eu desejo-te boa sorte. És meu amigo, Paul.

 

Sendlinger, porém, voltou para Berlim sem ter ido para a cama com Natalia Petrovna. «Isso ia causar dependência», disse para si próprio. «Ela podia ganhar ascendente sobre mim e eu ficar dependente dela. As maiores cortesãs foram, a maior parte das vezes, agoureiras... Com os seus corpos destruíram reinos. Eu posso viver sem o abraço da Natalia.» Apesar disso, Sendlinger ficou contente por ela ter ido despedir-se ao aeroporto, num fato discreto, uma senhora bastante inacessível, bonita como um girassol puro. Sybin não apareceu... A presença da Polícia provocava-lhe reacções alérgicas. Sendlinger beijou Natalia na testa e apressou-se a passar a entrada.

 

Em Berlim, foi recebido pelo comerciante de materiais de construção, Ludwig Waldhaas. Cumprimentaram-se como bons amigos, e quando se sentaram no carro de Waldhaas, um VW Gof modesto, aquele começou a titubear, dizendo apenas frases soltas. o Dr. Sendlinger olhou-o de soslaio, surpreendido. Ele nunca vira Waldhaas tão confuso e inseguro.

 

- o que se passa? - perguntou ele.

- Hum, hum... - suspirou Waldhaas.

 

-Agora fala. Alguém te desmascarou como major da Stasí?

 

- Não, Paul. - Waldhaas engoliu em seco, antes de responder. - o nosso lítio desapareceu.

 

- o quê?! - Sendlinger estremeceu como se tivesse levado uma pancada. - o que é que isso quer dizer?

 

- Agora está armazenado no DIC, em Wiesbaden.

 

- Conta lá isso. - Sendlinger dominou a sua fúria. «Não sejas como o Sybin», disse a si próprio. O Sybin esbofetearia o Ludwig e puxar-lhe-ia os cabelos.» - No DIC, como?

 

- Apanharam o correio, um polaco, Karel Londricky, na fronteira de Francoforte do óder.

 

- Azar.

 

- Não é assim tão simples. - Waldhaas respirou fundo. Esperara uma explosão de fúria de Sendlinger. o Londricky estava no caminho errado.

 

- Que significa isso?

 

- Ele estava no caminho de regresso à Polónia. Aparentemente teve a ideia maluca de trabalhar por conta própria com o lítio.

 

-Mas ele não conhece nenhum contacto.

 

- Em todo o caso, conhece o general Petchin. E através dele, presumo eu, queria ter acesso aos endereços, por meio de chantagem. E também já sabia quem eram os receptores do lítio: nós!

 

- Se o amolecerem no DIC... não podem provar nada. Nós nem o conhecemos, o que é verdade. Se ele chegar a falar..

 

-Ele não vai falar. -Tens a certeza?

 

- Tenho. - Waldhaas acenou várias vezes com a cabeça. - Ele nunca mais vai falar. Deram-lhe um tiro na fronteira, o DIC levou-o para um hospital de Wiesbaden, para o primeiro andar. Foi fácil entrar no quarto...

 

o Dr. Sendlinger expirou ruidosamente pelo nariz. Olhou para Waldhaas com um olhar inquieto.

 

- Isso significa... -Sim. É isso mesmo. -Quem fez o trabalho?

 

- Ainda temos conhecimentos antigos. - Waldhaas sorriu ligeiramente, como se se sentisse orgulhoso. - Os velhos laços mantêm-se. São especialistas excelentes nesse domínio.

 

- A primeira morte. Quantas mais se seguirão?

 

- Isso vai depender da evolução do negócio. - Waldhaas bateu com a mão esquerda no volante. Que pergunta! Ninguém fala de mortos. - o que conseguiste em Moscovo?

 

o Dr. Sendlinger recostou-se no assento e pousou as mãos por cima da barriga, como se tivesse comido muito.

- Tudo... - disse ele, com satisfação. - Vamos ter uma filha...

 

UMA PISTA

No DIC, estabelecera-se um ambiente de nervosismo. O inspector-geral Wallner tinha sido chamado pelo chefe. Este criticara-o, de forma discreta e cortês, como era habitual entre funcionários superiores, mas para Wallner havia representado uma enorme repreensão. Um importante contrabandista de material nuclear, facto que devia ter sido comunicado aos militares, fora morto nas barbas da Polícia. No hospital. Com um guarda à porta! Que idiota tinha colocado Londricky no primeiro andar?

 

o tipo de morte (garganta cortada), segundo a experiência da Polícia Judiciária, apontava para um homicídio da máfia. Em Itália, era prática corrente, também utilizado pelas tríades chinesas... mas não era provável que o polaco Londricky tivesse alguma coisa a ver com os chineses ou os italianos. A nova máfia russa, que já era sabido que ultrapassava em crueldade todos os outros sindicatos, não tinha motivos para liquidar um dos seus correios. Para Wallner e para os especialistas do DIC era óbvio que o lítio 6 só poderia provir de antigas uniões de empresas soviéticas. Depois do parecer do Serviço de Informações, estudou-se uma série de centrais nucleares. Também através de uma análise do lítio salvaguardado não foi possível determinar a sua proveniência.

 

De Bona e Colónia chegaram as primeiras reacções. o chanceler federal mostrou-se perplexo e exigiu uma investigação aprofundada do caso, naturalmente no maior secretismo. o presidente da Direcção de Fiscalização do Território interveio pessoalmente; através dele um DIC atónito soube que em Colónia tinha havido indicações da existência de buracos na protecção da indústria nuclear. o aviso viera de um oficial russo, cujo nome ninguém revelava. Na Direcção de Fiscalização do Território ninguém levara o telefonema a sério, e a nota sobre o mesmo desaparecera na pilha de documentos. Além disso, o oficial russo exigia dinheiro por mais informações, bastante dinheiro mesmo. Dado que tudo aquilo era demasiado fantástico para ser verdade, o departamento não quis desperdiçar marcos.

 

Todavia, agora, a informação adquiria outra dimensão. A grande questão subjacente era se aquele contrabando de lítio 6 tinha sido um caso único ou apenas a ponta do icebergue. Haveria mais material radiactivo a atravessar a Alemanha? Mas a pergunta mais importante era quem seria o comprador. Encontrava-se na Alemanha, ou seria a R.F.A. apenas um ponto de escala de onde seria distribuída a mercadoria?

 

Para o DIC e o SI, o tráfico de material nuclear não era nenhuma novidade. Havia já documentados quarenta e um casos, mas nunca tinham tido motivos de preocupação. Wallner informou o seu chefe dessa investigação para se libertar das suspeitas de que a sua divisão era desleixada.

 

- Foram sempre casos inofensivos - disse ele e apresentou uma lista. o chefe do DIC passou apenas um olhar rápido pelos documentos. - Simples casos de vigarice. Ofereciam césio de centrais nucleares, ósmio inutilizável, que queriam vender ao engano como «material para armas nucleares». A coisa mais absurda ocorreu apenas há dois meses. Um contrabandista de material nuclear russo ofereceu «venezuelânio» puro. A questão é que este elemento não existe! Um nome inventado. As nossas averiguações foram quase ridículas. Chegámos também à conclusão de que não havia material que pudesse ser aproveitado para fins militares. Até agora! Pela primeira vez surgiu material realmente perigoso da Rússia, disso estamos certos. Receio que, após a redução do armamento russo e da indústria nuclear, que conduz inevitavelmente ao aumento do desemprego e à deterioração do nível de vida, se comece a organizar o roubo de material pronto a utilizar em armas.

 

-Está à espera de um tipo de máfia nuclear? - perguntou o chefe.

 

- Receio que algo parecido.

 

- Então que Deus nos proteja, pois isso há-de atingir-nos. Esperemos que os seus medos não se concretizem.

- Esperemos que sim. Estamos a levar a cabo uma série de averiguações secretas, em colaboração com o SNP. Temos esperança de que essas acções nos dêem uma ideia do novo mercado. o problema é que, até agora, só conseguimos investigar vendedores e nunca compradores. E os traficantes de material nuclear, obviamente, não falam. No caso do Londricky, registou-se uma variante nova: homicídio para evitar uma declaração. Isso mostra-nos como a situação do contrabando de material nuclear se tornou grave... e a alta qualidade do material que é possível fornecer!

 

- As nossas investigações têm de ser mais eficientes. Wallner concordou com a cabeça, mas os seus pensamentos eram contraditórios. «É muito fácil falar, quando se é chefe e não se encontra na frente de batalha. Mais eficiente! Isto custa-nos os olhos da cara. Primeiro ainda só temos uma pista que nos conduziu à Rússia e daí, até agora, a nada. Não conseguimos provar absolutamente nada. Duzentos e setenta gramas de lítio seis não representam ainda uma ameaça para o mundo, mas de certeza que vem aí mais. Estará já a caminho? Será que já anda a circular material cindível pela Alemanha ou pela Europa? E novamente a questão de quem precisa disso entre nós. Ou seremos realmente apenas a plataforma giratória de um negócio multinacional?»

 

A conversa com o chefe do DIC não trouxe nada para além da expressão de desapontamento, que o mesmo claramente transmitiu a WaIlner. E rigorosamente falando, ele até tinha razão.

 

Quem sabia do mensageiro de material nuclear Londricky? Quem sabia que o polaco estava no hospital em Wisbaden? Quem dera a ordem de eliminação? Fora este o primeiro cartão-de-visita da máfia russa?

 

o inspector-geral Wallner convocou a sua divisão para uma reunião extraordinária. Os experientes polícias da Judiciária, sentados ou de pé na sala de reuniões, olhavam para Wallner na expectativa. «Vou surpreender-vos», pensou este e sentou-se na mesa comprida.

 

- Vim agora do chefe... - disse, em voz calma, e olhou lentamente em volta. - Não vou esconder nada: ele descompôs-me severamente. Repreendeu-me verbalmente, e eu faço o mesmo a vocês. Exige mais eficiência da nossa parte. Por outras palavras, somos todos preguiçosos, vagabundos, merdosos. o azar com o Londrícky não veio ajudar. Cortaram a garganta à única testemunha mesmo à frente do nosso nariz. Não é importante que o director do hospital tenha colocado o Londrícky no primeiro andar, possibilitando a qualquer um trepar pelas roseiras. Nós devíamos ter reconhecido isso e exigido a sua transferência para mais acima, para o último andar. Não me digam que ninguém podia ter previsto isto! Já vi gente importante derrubada por ter dado um peido. - Os agentes sorriram. Aquilo era típico de Wallner, o senhor inspector-geral dizia o que lhe apetecia. Já propus mais investigadores disfarçados, em colaboração com o Serviço Nacional de Polícia. Eles devem não só espiar, como também apresentar-se como contactos, interessados, intermediários, negociantes de material nuclear. Os seus preços de compra devem ser aliciantes e ultrapassar todos os outros, e atrair assim os vendedores para fora das suas tocas. Temos de nos infiltrar nestes caminhos escuros. A descoberta do lítio seis mostra-nos que está a desenvolver-se e a avançar uma nova forma de criminalidade no domínio nuclear. Neste momento não podemos fazer mais nada, se não conseguirmos outra captura como o Londricky.

 

- Isso significa esperar - disse um dos agentes.

- Tem alguma ideia melhor? - rosnou Wallner.

 

- Um contacto mais estreito com as autoridades de segurança russas.

 

- Isso vai ser levado a cabo pelo SI. Mas olhe que dizer a um russo que a sua protegida indústria nuclear, afinal, está cheia de buracos... ele vai desmentir categoricamente. E além disso, não podemos provar que nos foi enviado material nuclear da Rússia. Nós apenas supomos, porque a Rússia é a única fonte que interessa. E eles estão-se a cagar para as suposições! - Wallner acenou com a cabeça a todos. - Muito obrigada, meus senhores.

 

o ambiente de nervosismo manteve-se. Era difícil aceitar uma derrota.

 

Durante a noite, eram exactamente três horas e dezassete minutos, como verificou o Dr. Sendlinger no despertador, o telefone tocou. Sentou-se na cama e pegou no auscultador.

 

- Seja quem for.. isto não são horas para telefonar disse, de mau humor.

 

- Sai de cima da mulher, Paul - respondeu uma voz em inglês, que ele conhecia muito bem. No entanto, tinha um tom mais duro do que ele se lembrava. - Cumprimentos da parte do tio Alexander Nikolaievich...

 

Isso queria dizer o general Petchin. Sendlinger ficou bem desperto.

- Obrigado. Como é que ele está? - Comprimiu os lábios. o sindicato tê-lo-ia morto?

 

- Está muito deprimido. - Sendlinger respirou fundo. Petchin ainda estava vivo. Sybin pigarreou. - Está preocupado.

 

- Porquê?

 

-Por tua causa. Tiveste... tiveste um acidente?

 

o poder da máfia... sabiam tudo. Sendlinger encostou-se com força às costas da cama.

 

- Sim - retorquiu ele. -Como é que isso aconteceu?

- Fraquezas humanas.

 

Tal como Sybin, ele falava de forma inocente, quem podia saber se o KG13 não estava a ouvir a conversa em Moscovo?

 

- Tiveste sorte.

 

- Depende da perspectiva. A pessoa que me acompanhava perdeu a vida.

 

-Foi lamentável que ele não levasse o cinto de segurança apertado.

 

Também isso ele sabia! «Igor Germanovich, és sinistro. Onde tens os teus informadores? Também no DIC e até no SI?»

 

- o tio Alexander diz que devias ter-te enganado no caminho.

 

- o meu companheiro queria impreterivelmente ir para casa. E depois acabou por tomar o caminho errado.

 

- o tio Alexander está preocupado.

 

- Desnecessariamente. o carro ainda funciona. Foi apenas uma pequena avaria.

 

- Essas avarias são, por vezes, perigosas para a vida. o tiozinho teve um pequeno choque. Ele já não quer andar contigo.

 

Então era isso. o general Petchin afastava-se, tinha medo. A primeira tentativa de tráfico de material nuclear fracassara. Agora, abrigava-se. Para sempre?

 

- Essa decisão é dele. Eu continuo a conduzir.

 

- o acidente prejudicou-o muito. - Sybin pigarreou novamente. - Parece doente, o bom do Alexander Nikolaievich. o seu coração não aguenta outro aborrecimento destes. Achamos que ele já não dura muito. Toda a família está a cuidar dele. o seu coração pode parar um dia destes... uma grande perda para o Exército.

 

sentença de morte!

 

O Dr. Sendlinger sentiu um formigueiro pelo corpo todo. Esta era a máxima da máfia: quem se torna inútil, tem de desaparecer. Sem piedade. Também podia acontecer-lhe o mesmo a ele, se deixasse de ser útil a Sybin. Um pacto com o diabo era sempre assinado com o próprio sangue. Acabaria como Fausto, que vendera a sua alma a Mefistófeles. Mas no caso de Fausto tratava-se do desejo da juventude eterna; no seu caso, era o desejo de centenas de milhões de dólares.

 

- Esperemos que tudo corra bem! - replicou Sendlinger. Sentiu-se como se tivesse obrigado as palavras a saírem da sua garganta. - Pode ser que o tio Alexander recupere.

 

-A família não acredita nisso. Ele está já tão fraco...

- Como estão a correr os negócios? - Sendlinger queria mudar de assunto.

 

- Estou satisfeito. A empresa de exportação indica um grande interesse. Mas, como tu sabes, tudo tem o seu tempo. -Como está a Natalia?

- o passarinho parece outro quando fala de ti. - Sybin Sendlinger viu a cara dele à sua frente: o cabelo brilhante, o fino lábio superior, os olhos inquietos; depois os -dedos com anéis, o fato feito por medida, a camisa de seda, os sapatos de verniz... um novo-rico que não aparentava ser a morte em pessoa.

 

- Cumprimentos à Natalia. -Ela talvez vá a Berlim.

 

-Quando? - Sendlinger estremeceu involuntariamente. «Afasta-a de mim, Sybin. Se tu és a morte, ela é o teu anjo da morte.»

 

-Quando for o momento certo, meu irmão. - Sybin despertou a curiosidade de Sendlinger com a frase seguinte. - Assim que a mercadoria de exportação começar a ser

expedida, a Natalia vai fazer uma volta à Europa. É claro que também irá a Berlim.

 

-Fico contente - mentiu Sendlinger.

 

- Ela também. E agora volta para a cama, Paul. Depois volto a ligar.

 

Um estalido e a conversa terminou. Mas Sendlinger não Conseguiu voltar a adormecer. Esteve sentado na cama a reflectir mais uma vez no telefonema de Moscovo.

 

Uma coisa era certa: Sybin telefonara-lhe para lhe mostrar que o poder da máfia russa chegava até às autoridades policiais alemãs. Sendlinger não acreditava que houvesse Uma «toupeira» no DIC, apesar de na Alemanha, logo após a transição, tudo ser possível. Ele apostava mais no que agentes duplos não eram uma raridade, muitas vezes só era possível o fluxo de informações indirecto. E também tinha a Certeza de que o consórcio» de Sybin possuía gente no sector militar russo. o que se passava ou era debatido à porta fechada na Rússia era imediatamente comunicado a Sybin.

 

Era terrível e maçador, mas Sendlinger ficou à espera de mais notícias de Moscovo.

 

Dez dias mais tarde, o telefone tocou, não durante a noite, mas durante o dia, no escritório do advogado Dr. Sendlinger. Ele já lá se encontrava a aconselhar um cliente, que se preparava para se divorciar da mulher. Um caso sem remédio. o casal vivia em comunhão de bens, o que significava que tudo o que tivesse sido ganho ou adquirido durante os anos de casamento tinha de ser dividido. o seu constituinte, durante os vinte e dois anos de casados, construíra uma fábrica de material de construção a partir do nada, pois quando casara era ainda estudante, tal como a mulher, e ambos tinham, com grande sacrifício pessoal, tomado a fábrica a empresa líder do seu ramo. Agora era milionário, possuía uma vivenda em Marbella e uma jovem amante em Porto Banus. Como por vezes acontece na vida, afastara-se da mulher. Já não tinham nada a dizer um ao outro, viviam juntos sem qualquer interesse. Animais de hábitos, que se mordiam de vez em quando e, no íntimo, se odiavam. Todavia, um divórcio levaria a fábrica à ruína, a alteração total da vida confortável. A legislação alemã relativa aos divórcios não permitia compromissos que não fossem provenientes dos elementos do casal.

 

Fora isso que o Dr. Sendlinger explicara ao cliente chocado. Um divórcio significaria para ele o colapso financeiro. Nesta situação difícil, tocou o telefone. A secretária na primeira sala desculpou-se.

 

- Uma chamada interurbana. o senhor insistiu. Diz que é urgente.

 

o Dr. Sendlinger estremeceu novamente.

 

-Pode passar, Monika. - E depois virou-se para o constituinte, que empalidecera. - Peço desculpa. Não demora muito. É uma chamada interurbana.

 

Sybin não esteve com rodeios e foi directo ao assunto.

- o tio Alexander Nikolaievich morreu ontem. Não sofreu muito. Foi tudo muito rápido.

 

Sendlinger comprimiu os lábios e voltou-se controladamente para o seu cliente farto de estar casado.

 

Uma notícia triste. o meu tio.

 

Ah! - As minhas condolências. - o fabricante torceu a boca.   Morrem sempre as pessoas erradas.

 

Estamos todos aliviados. - Sendlinger ouviu a voz de Sybin. - Agora já está em descanso.

 

- Foi um ataque de coração? - Sendlinger esforçou-se por falar com calma,

 

-Não. Uma hemorragia interna. Os médicos não puderam fazer nada.

 

Que trágico. Igor, põe uma grande coroa de flores na sua campa em meu nome. - Respirou fundo. - Mais alguma coisa?

 

Não. Como estás?

 

- Como sempre, Reza uma oração pelo tiozinho.

 

- Parvo!

 

Sybin desligou. Em Moscovo já não havia testemunhas, a pista fora apagada. Era a lei da selva: os fracos eram mortos. Ele tornara-se um peso. A vida pertence aos mais fortes.

 

o Dr. Sendlinger voltou-se novamente para o seu constituinte.

 

- É preciso pensar - disse ele, sobriamente - se terá sentido um divórcio nestas condições. Essa decisão é sua. Uma coisa é certa: utilizando uma expressão popular, o senhor vai à viola. Infelizmente, as nossas leis nada têm a ver Com a realidade.

 

Três dias mais tarde apareceu uma pequena notícia num jornal berlinense que dizia: O general Alexander N. Petchín morreu em Moscovo. Petchin era conhecido como responsável pelo abastecimento das tropas soviéticas em Berlim. Era um amigo da Alemanha e considerava Berlim a sua segunda casa. Petchin morreu de uma rotura da artéria abdominal.»

 

o que ninguém sabia é que, no dia da sua morte, Petchin recebera a visita de dois homens vestidos com o uniforme do Exército... um tenente e um primeiro-tenente. Foram até à casa particular onde o seu camarada vivia sozinho.

O que se passa? - perguntou ele, surpreendido. Agora, a estas horas? Já são dez horas da noite, meus senhores. Quem os mandou?

 


- o general Sovkov - respondeu o tenente. Era um homem alto e forte. Também o primeiro-tenente era um homem possante com cara de jogador de boxe.

 

- Sovkov? Sovkov? Não conheço nenhum general Sovkov. Eles entraram em casa, fecharam a porta e desferiram-lhe um pequeno golpe na testa. Ele cambaleou para trás, mas, antes de poder gritar ou defender-se, foi atingido por uma segunda pancada no queixo.

 

Petchin caiu redondo no chão, o sangue começou a escorrer-lhe da boca, instintivamente encolheu-se, mas um pontapé nas costas fê-lo endireitar-se novamente. E, depois, os «oficiais» atacaram com toda a força o seu corpo, uma vez e mais outra, mesmo quando Petchin já há muito perdera os sentidos... pontapearam-no sucessivamente até a sua cara ficar amarelada e as artérias abdominais rebentarem.

 

Sem serem vistos, os dois oficiais deixaram a casa, entraram para um carro parado na rua e arrancaram. Em Moscovo não estava nenhum guarda em frente à casa, também... para quê? Na pátria homenageiam-se os generais, mas não se protegem. Aos olhos dos Russos, um general é uma personalidade inatingível.

 

E assim morreu Petchin de «hemorragia interna», sendo enterrado três dias mais tarde com todas as honras militares. Ninguém se lembrou de que podia não ter sido uma morte natural. Era demasiado absurdo.

 

Sybin só voltou a ter notícias de Sendlinger quando, depois da primeira tentativa de golpe de Estado dos antigos comunistas instáveis contra Gorbachev em Agosto de 1991, o segundo golpe de Estado em Dezembro de 1991 conduziu a uma mudança no poder. Boris Ieltsine, que salvara Gorbachev em Agosto e se mostrara solidário com ele, dirigiu a substituição e assumiu ele próprio o poder. o desmoronamento da União Soviética, ainda existente até àquela altura, foi concluído. A mãe do comunismo estava moribunda. Com uma declaração de princípio, a chamada Declaração de Minsk, o presidente fundou com a Bielorrússia, a Ucrânia e a Rússia, em Dezembro de 1991, a Comunidade de Estados Independentes, que agora, sob a sigla CEI, iria mudar a história da Rússia. o presidente da Rússia era Boris Ieltsine. o grande reformista Gorbachev, o parteiro da Alemanha reunificada, desapareceu numa vida privada que lhe foi imposta. Perestroika... a palavra adquiriu uma nova conotação. Aquilo que Gorbachev planeara como reformas e para as quais considerara razoável e justificável um período de tempo de quinze a vinte anos, seria realizado a uma velocidade vertiginosa. o povo russo, que há séculos só conhecia na teoria o conceito liberdade, ansiava por prosperidade e liberdade de escolha. Foram esses mesmos erros que fizeram com que os movimentos democráticos de muitos países subitamente «livres» de África e da América do Sul regressassem às suas origens políticas. A liberdade enfraquecia o seu poder, e a ordem pública, pilar de um Estado, desmoronava-se.

 

Sybin estava muito entusiasmado quando telefonou ao Dr. Sendlinger, em Dezembro de 1991.

 

-Agora é que é, finalmente! - exclamou ele ao telefone. - As portas abrem-se... para nós! A velha União Soviética passou à história. Até um grupo de fanáticos, velhos comunistas, destronar os generais e os seus prebendeiros corruptos, os influentes partidários esperavam por melhores dias. Mas o Ieltsine da vodca também vai soçobrar. o desemprego vai aumentar, a miséria vai espalhar-se, todo o sistema económico abana, só a política externa vai ser um show. A Rússia vai ser corroída por dentro, e o cancro chama-se desregramento, o melhor requisito para o nosso negócio.

 

- Quando podes começar a fornecer, Igor? - perguntou Sendlinger. A euforia de Sybin não o contagiou. Ele seguira, com grande expectativa, na televisão, a evolução dramática na Rússia e chegara a uma outra conclusão. Gorbachev fora demasiado brando para a Rússia em ebulição, demasiado cauteloso, demasiado hesitante... a sua noção de uma Rússia democrática com um governo comunista fora uma ideia muito fantasiosa, que necessitava de um longo processo de amadurecimento, sem garantias de sucesso. Tinha sido o mesmo sonho de Deng Xiaoping, quando abrira a China ao Ocidente. Os primeiros resultados foram visíveis, destruição dos campos, corrupção e suborno, um aumento dramático da criminalidade, o declínío dos velhos costumes e uma caça paranóica ao dinheiro. Também aqui o povo «despertado» escapou da mão controladora.

 

o que iria Ieltsine fazer? Seria ele o touro que dominaria na arena? Sybin profetizava a queda, Sendlinger acreditava antes numa centralização radical da política. Ele nem sequer era russo...

 

- Fornecer? - A voz de Sybin adquiriu um tom profissional. - Por acaso Roma foi construída num dia? Para negociar em plutónio, ou seja, para motivar os fornecedores, ainda têm de se passar mais coisas. Estamos prontos, mas a impaciência é a mãe do fracasso.

 

- Com sabedoria russa não sustento os meus clientes. Eles estão a ficar impacientes.

 

-Mas eles dependem de nós. Em mais lado nenhum conseguem plutónio ou urânio enviado gratuitamente para casa, sem desencadear represálias internacionais. Eles sabem disso! Vale a pena esperar.

 

E o tempo foi passando. SybÍn dava notícias uma vez de três em três meses, falava de Natalia, que desistira da dança e trabalhava no consórcio como contacto, como Sybin propusera, e com um risinho na voz indicou que ela era um sucesso, e que outra coisa não seria de esperar. A sua ascensão na nova sociedade moscovita fora uma sensação. Os homens ricos e influentes da confiança de Ieltsine segredavam entre si os seus feitos na cama, a sua capacidade de deixar um homem exausto e de o fazer sentir um vencedor. o facto de ela não sentir nada, mas mesmo nada, era ocultado a todos os seus amantes. Eles apaixonavam-se apenas pelo seu corpo encantador e pelos seus movimentos ritmados que os levavam até ao céu!

 

Através do trabalho de Natalia, Sybin conseguiu conhecimentos e contactos importantes. É uma particularidade dos homens, quando estão nos braços de uma bela mulher, não falarem apenas de amor, mas também da sua vida privada e, sobretudo, do seu trabalho. Informações que estavam trancadas em cofres-fortes com a advertência estritamente confidencial eram reveladas sem cerimónia a Natalia. Assim, Sybin sabia exactamente, muitas vezes melhor do que as autoridades de controlo do armamento nuclear, o que se passava nas centrais nucleares. E dado que Natalia viajava muito pelo país, os directores e os cientistas também desfrutavam das suas artes amorosas e desabafavam os seus problemas nos braços de Natalia.

 

Através das artes amorosas de Natalia, Sybin construiu uma estrutura de poder perigosa.

 

Em Berlim, esperava-se pacientemente.

 

o escritório do Dr. Sendlinger florescia como nunca. Cidadãos simplórios da ex-R.D.A., que lutavam pelo seu património, em virtude de os tubarões do negócio imobiliário terem vendido as suas casas ou terrenos a preços irrisórios e, mais tarde, reconhecido que poderiam ter ganho milhões; negociações com a Treuhandl para compra de antigas empresas públicas; e também acções cíveis de pessoas surpreendidas por se reencontrarem na documentação que reunia os dossiês de todas as pessoas da Stasi, tornavam o escritório do Dr. Sendlinger um dos maiores escritórios de advocacia.

 

Na realidade, Sendlinger nem tinha necessidade de se virar para negócios sujos, mas continuava a adorar o seu sonho de milhões. Um palácio em Barbados ou Granada, um jardim tropical enorme, um iate de alto mar, um pequeno paraíso privado... e a Eva desse Jardim do Paraíso, de onde ninguém poderia ser expulso, seria uma mulher bonita. Natalia Petrovna?

 

Seria mesmo possível um homem apaixonar-se por uma prostituta?

 

Ele não podia analisá-lo, mas, sempre que Sybin relatava os exercícios de ginástica sexuais de Natalia, sentia uma pontada no coração e ficava taciturno. De vez em quando,

 

1 Organização de administração e privatização do património da antiga RDA. (N. da T)

 

aquilo atormentava-lhe a alma, apesar de ele não o querer admitir.

 

Da mesma forma, a ascensão de Ludwig Waldhaas esteve estreitamente ligada à reunificação da Alemanha. o seu negócio de materiais de construção expandiu-se para uma grande empresa.

 

Quando dizia «a minha empresa» era mesmo verdade. Em meados de 1991, comprara o negócio de materiais de construção com o dinheiro que ganhara no mercado negro paralelamente à empresa. Vários antigos colegas da Stasí, que se encontravam actualmente em lugares importantes, ajudavam-se entre si e traziam os seus amigos para uma vida confortável e burguesa. Waldhaas também pertencia a um destes «grupos de salvadores». Conheciam bem, sobretudo, o sector da construção, e quando era preciso demolir quarteirões de casas e arruamentos completos, a fim de arranjar espaço para construções de luxo supermodernas, grandes escritórios, lojas, hotéis e supermercados (sonhos arquitectónícos que agora se tornavam realidade, pois neste caso o dinheiro não era importante), a Empresa Baumarkt 2000, do ex-major da Stasi, Waldhaas, encontrava-se no lugar cimeiro da lista de fornecedores.

 

De vez em quando, Waldhaas saía à noite para passear, depois de ter jantado no antigo Grand Hotel, actualmente Grand Hotel Mantíra. Descia devagar a Friedrichstrasse que era, ela própria, um estaleiro, e representava a nova Berlim: edifícios civis sob a forma de palácios. Betão, vidro, mármore, técnicas modernas, fantasias arquitectónicas ousadas e megalomanias concretizadas. Berlim lavara a cara. A cidade do superlativo queria mostrar que a Alemanha voltara a ser alguma coisa! A cidade totalmente derrotada voltava a estar nos píncaros. E quando Waldhaas percorria a rua e observava as fachadas das construções de luxo semiacabadas, podia dizer com orgulho que também ali se trabalhava com o seu material.

 

A transformação de Waldhaas fora plenamente conseguida. Quem pensaria ainda no chefe dos agentes e no major da Stasi Waldhaas? o seu processo pessoal pertencia aos documentos que tinham sido destruidos ou queimados por camajudas. o comerciante de material de construção da Baumarkt 2000 era um homem estimado.

 

o Zum Dicken Adolf, o restaurante de Moabit, fora mais uma vez renovado por Adolf Hãssler. De taberna e pequeno restaurante passara a ser um local da moda. Ali reuniam-se industriais e economistas, advogados e médicos e, de vez em quando, uma tertúlia de antigos oficiais da Stasi, mas nisso ninguém reparava. No Zum Dicken Adolf eram concluídos negócios de milhões, e quando isso acontecia encomendava-se uma garrafa de champanhe para festejar o novo contrato.

 

Hãssler honrava, agora, o nome do seu estabelecimento: ficara gordo, ficara gordo e comodista. o que lhe pesava agora era a sua amizade com o Dr. Sendlinger e Waldhaas. Já não queria ter nada a ver com material nuclear; chegava-lhe perfeitamente que o Zum Dicken Adolf se tivesse tornado um local muito concorrido. Preferia a segurança, e o tráfico de material nuclear significava riscos. Ao contrário do Dr. Sendlinger, ele não sonhava com uma ilha nas Caraíbas. Só queria sossego. Sossego e amor. Sybine era responsável por este último. Uma empregada jovem e elegante do seu restaurante. Nascida, como ele, em Moabit, criada num ambiente muito pobre, agradecida por qualquer palmadinha nas costas. Era com ela que queria passar a velhice. A sua mulher satisfizera-se com cento e cinquenta mil marcos... desaparecera para Maiorca e nunca mais dera notícias. Hássler contava esta história a quem quer que perguntasse, e as pessoas acreditavam nele. Sybille era uma companheira. Mantinha-se de pedra e cal com ele.

 

Uma sorte não ser possível ver o futuro...

 

Estava tudo calmo na frente nuclear, mas era uma calma enganadora e artificial, Decretada pelo Departamento de Investigação Criminal e pelo Serviço de Informações com a aprovação expressa do ministério de Bona e da Chancelaria Federal. Era espantoso o funcionamento exacto do sigilo, nem uma vez os órgãos da imprensa mais bem informados como Der Spiegel, Focus ou BILD, conseguiram penetrar no

silêncio. Os gabinetes de imprensa nas direcções do Serviço Nacional de Polícia, do Departamento de Investigação Criminal e do governo federal bloqueavam todos os pedidos de informação. De vez em quando passavam notícias de informadores, mas eram informações não comprovadas e, sobretudo, não eram sensacionalistas.

 

No final de Abril de 1993, o Dr. Sendlinger recebeu novamente uma chamada de Moscovo. Sybin saudou-o.

 

- Ainda estás vivo? - exclamou Sendlinger, aborrecido. - Aqui ouve-se falar tanto de máfia russa, só de ti nada. Entretanto, quase oitenta por cento dos nossos bordéis estão ocupados por raparigas do Leste. Um tráfico de seres humanos nunca visto até agora.

 

- Eu não me dedico a bordéis! - respondeu Sybin. Ele parecia ofendido. - Isso pertence a outro departamento da nossa união.

 

- Aqui já temos uma guerra entre os russos e as tríades chinesas por causa do tráfico de estupefacientes e da extorsão de dinheiro para protecção. Por toda a parte, os russos entram em domínios anteriormente controlados pelos italianos e chineses. Uma competição de repressão da forma mais brutal com tortura, mutilação e morte.

 

-Isso já é do meu departamento. - Sybin não viu qualquer razão para mentir ao seu amigo Paul. Ele tinha orgulho na sua Companhia como ele lhe chamava por ter uma organização paramilitar. Para além disso, a companhia também podia chamar-se sociedade comercial ou cooperativa, como também se lia por vezes, estava sempre certo. Esse é o pão nosso de cada dia e, tal como o meu avô costumava dizer, é isso que nos mantém no poder. - Riu-se, e depois voltou a ficar sério. - Já começou!

 

o Dr. Sendlinger estendeu o lábio inferior e tirou os óculos. Havia já um ano que precisava deles.

 

- o que podes enviar? - perguntou, sem manifestar o seu alívio.

 

- É isso que me irrita. - A voz de Sybin vacilou. Estão a caminho vinte gramas de plutónio duzentos e trinta e nove pronto a ser utilizado em armas... mas não fui eu que enviei!

 

Sendlinger estremeceu.

 

- Igor! Mas isso é uma catástrofe!

 

- Ainda não. É a tentativa de um estranho que quer ganhar muito dinheiro e pensa que consegue montar um negócio privado. Uma espécie de aventureiro.

 

- o facto é que alguém nos passou à frente, não vale a pena estar com rodeios.

 

- Vinte gramas...

 

- Quem consegue enviar vinte gramas, tem mais no armazém.

 

- Errado. Trata-se de um chefe de secção despedido de Tomsk-Sete, que tem acesso aos desperdícios das varetas de combustível. E o plutónio é um desperdício de elementos combustíveis contendo urânio depois de terem sido queimados...

 

- Eu sei o que é o plutónio - interrompeu Sendlinger, com uma rudeza que era dispensável.

 

- o chefe de secção chama-se Kyril Simferovich Poltchov.

 

- Sabem isso?

 

-Não te esqueças de que os nossos ouvidos ouvem tudo em todo o lado. o Poltchov não consegue atrapalhar-nos... Amanhã vai a enterrar.

 

- Ah! - disse Sendlinger.

 

-Mas a amostra de vinte gramas está a caminho.

- Portanto, temos problemas.

 

- Não. o correio é um alemão. o motorista de camião Freddy Brockler, de Colónia.

 

-Como é que sabem isso?

 

- Antes de o Poltchov deixar este mundo sentiu necessidade de abrir o seu coração. Um homem conversador. Conseguimos dele sessenta e sete moradas de interessados em negociar material nuclear. Sessenta e sete, Paul! Estão incluídos alguns que admiram a arte de cavalgar da Natalia. Os nossos fornecedores estão a postos.

 

- E o que se faz com esse Freddy Brockler? - A referência ao trabalho de Natalia incomodou imenso Sendlinger.

- Estamos à caça dele. Ainda deve estar na Rússia, o máximo na Polónia. Conduz um camião MAN, de dez toneladas. Vamos apanhá-lo!

 

-E se não conseguirem? -Então, o assunto é vosso.

 

- Obrigado pela bela encomenda - replicou Sendlinger, sarcasticamente. - Não tenho nenhum batalhão de polícias de fronteira à disposição.

 

- Prometo-te, Paul... ele não avança mais de cem metros depois da fronteira alemã. Um pequeno aviso põe-no a andar.

 

O que é que isso significa?

 

- Um bom camarada do serviço secreto ucraniano, chamado SBU, um sucessor do KG13, fez um telefonema para o vosso SI.

 

-És louco! - gritou Sendlinger, horrorizado. - Tu lanças esses cães de caça no nosso rasto?!

 

-Não no nosso rasto, no do Poltchov. Mas o Poltchov já não existe. Oficialmente desapareceu. Um fugitivo da CEI, como se diz em Tornsk.

 

-E se o Brockler falar?

 

-E o que é que ele sabe? Aceitou uma encomenda e recebeu por isso dois mil marcos, é tudo.

 

-Digas o que disseres, ele ameaça o mercado. Sendlinger estava, agora, verdadeiramente zangado. Será que se enganara em relação a Sybin? Primeiro, o cobarde Petchin e agora um fanfarrão? Seria Sybin apenas fogo-de-vista? Um tagarela com um enorme poder de persuasão? Era capaz de matar.. mas valeria alguma coisa para aquele negócio difícil relacionado com material nuclear? Tinham passado quase dois anos sem quaisquer resultados. o que significavam sessenta e sete moradas? Uma chegava se fornecessem plutónio 239 de qualidade.

 

Sybin pareceu perceber o que o Dr. Sendlinger estava a pensar. Ouvia-se pelo telefone o tamborilar dos seus dedos na mesa. Nove dedos cheios de brilhantes e pedras preciosas.

 

- Observa o que se passa - disse ele, consoladoramente. - Acredita quando digo que a Polícia nos vai ajudar. Eles trabalham para nós, sem suspeitarem, tirando silenciosamente esse BrockIer da rua. Quem ganha somos nós!

 

A informação anónima sobre os vinte gramas de plutónio foi levada muito a sério pelo Serviço de Informações, em Munique-Pullach. Recebiam todos os dias muitas indicações anónimas, a maioria das quais se revelava falsa, mas, quando se falava de contrabando de material nuclear, os servÍços secretos eram todos ouvidos.

 

Logo após o telefonema, o Departamento de Investigação Criminal foi alertado, informando, por sua vez, o ServiÇO Nacional de Polícia. Um grande dispositivo policial estava pronto para receber Freddy Brockler.

 

Na fronteira junto de Guben, que se chamava Wilien Pieck-Stadt do lado da R.F.A., inspeccionou-se o camião WAN, os documentos de Brockler eram irrepreensíveis, os da Polícia de Fronteira efectuaram delicadamente todas as formalidades e deixaram Freddy passar. Este dirigíu-se, assobiando, para o seu camião e atravessou a fronteira para a Alemanha.

 

- Ele está cá! - informou o oficial de serviço da Polícia de Fronteira Federal. - Não o retivemos, de acordo com as ordens. Está na estrada que liga Guben a Cottbus. É possível que siga até Dresden. Boa sorte, colegas!

 

A partir desse momento, Brockler foi vigiado ininterruptamente. Foi passando em todos os postos da Polícia. o DIC tem ordens específicas para o deixarem em paz, seguirem-no discretamente e apenas o vigiarem. Era preciso determinar qual o seu destino final.

 

Brockler seguiu mesmo até Dresden. Aí pernoitou numa área de serviço perto de Radebeul, sem suspeitar de que os seus dois companheiros de mesa no restaurante eram agentes do SNP de Dresden. Durante a conversa, verificaram que Freddy era de Colónia, tinha um humor típico renano, era comunicativo e um bom copo.

 

-Radebeul... - comentou ele, sorridente, com os dois companheiros de mesa. - Foi onde viveu o Karl Marx. Devorei-o quando era jovem. Tinha-o sempre comigo. E à noite lia-o debaixo da colcha da cama com uma lanterna. Agora leio o Konsalik.

 

- Também debaixo da colcha?

 

Riram-se à gargalhada e despediram-se como amigos. No dia seguinte, Brockler seguiu para Francoforte do Meno. Atravessou Chemnitz e passou Gera, Jena, Weimar, Erfurt, Gotha, Eisenach, Fulda. No DIC, em Wiesbaden, o inspector-geral Wallner tinha diante de si um mapa e seguia o caminho de Brockler, que lhe era transmitido por telefone pelos agentes que o vigiavam.

 

- Uma viagem de farsa - disse ele, abanando a cabeça. - Primeiro o transporte de Torrisk para Moscovo, aí recebe o plutónio e depois atravessa a Europa, para onde saberemos brevemente. Mas era mais confortável ir de avião! E suspeito que ainda não encontrámos o peixe graúdo...

 

- Talvez o destino seja Colónia - sugeriu o comissário Berger. Nos últimos dois anos passara a ser o braço direito do chefe.

 

- Isso era bom de mais! Nessa altura tê-lo-íamos mesmo aqui. Rapazes, estou tão ansioso como no jogo do FC Colónia contra o Bayern.

 

E Freddy Brockler seguiu, efectivamente, para Colónia.

 

Antes de o DIC deitar a mão a Freddy, Walhner realizou uma grande conferência de informação, na presença do chefe. o inspector-geral Wallner preparara-se bem... foi carregado com uma grossa pasta de documentos para a sala de reuniões e colocou uma pilha de papéis em cima da mesa.

 

- Convoquei-os - disse ele, dando início à sua comunicação - para lhes dar uma ideia geral do que se passa com o tráfico de material nuclear. Desde a descoberta deste novo domínio da criminalidade há dois anos, em que o assassínio do criminoso, o polaco Londricky, mesmo debaixo do nosso nariz, não nos trouxe glória nenhuma, o comércio de material nuclear tem tardado a desenvolver-se... pelo menos, de acordo com o que sabemos. Não ocorreram casos espectaculares, o que é surpreendente. Em todo o caso, registou-se um aumento nítido do tráfico de material nuclear. Na Alemanha, em mil novecentos e noventa e um, houve quarenta e um casos, em mil novecentos e noventa e dois, o número aumentou para cento e cinquenta e oito. Até hoje, mil novecentos e noventa e três, soubemos de quarenta casos só em Bayern... parece que Bayern se tornou uma plataforma de distribuição popular. A Divisão Seiscentos e Trinta e Três da Sexta Secção, em conjunto com a Divisão Seiscentos e Trinta e Dois, encontra-se numa agitada fase de investigação e operacional contra a criminalidade organizada. os colegas do SNP de Munique não estão de modo algum satisfeitos, apesar dos bons resultados. Andam a bater com a cabeça nas paredes, dizem eles.

 

Walner espalhou os documentos sobre a mesa. Os melhores peritos criminais da Alemanha observavam-no ansiosos, pois Wallner era conhecido pelas suas surpresas.

 

- Tenho aqui uma lista dos casos mais espectaculares de contrabando de material nuclear dos últimos dois anos. Neste período de tempo, tivemos conhecimento de mais de duzentos delitos.

 

«Alguns exemplos:

 

«Em Julho de mil novecentos e noventa e dois, dois austríacos e dois polacos compraram, em Berlim, um vírgula oito quilos de urânio, césio cento e trinta e sete e trezentas cápsulas de plutónio, que costumavam ser utilizadas como detectores de fumo.

 

«Em Outubro de mil novecentos e noventa e dois, foi descoberto, em Francoforte, o tráfico de material nuclear de maior envergadura até agora. Na estação central e num carro estacionado, a Polícia encontrou césio cento e trinta e sete e estrôncio noventa, um subproduto das centrais nucleares como o plutónio, em recipientes com vinte e dois quilos desse material nuclear.

 

«Em Dezembro de mil novecentos e noventa e dois, foram presos dezasseis traficantes de material nuclear em Bayern e na Áustria. Tinham posto à venda material radiactivo com um valor de mercado de dez mil marcos por cem milhões de marcos! Expedidor desconhecido, destinatário por

descobrir. No tribunal, fizeram-se de parvos. Resultado: a sentença proferida pelo tribunal para dois dos criminosos foi apenas multa por contravenção. Só me apeteceu gritar.. Entretanto, já nos habituámos a sentenças absurdas.
«Em Março de mil novecentos e noventa e três, conseguiu-se uma captura importante em Berlim. Um polaco vendeu cinco quilos de óxido urânico U trezentos e cinco altamente tóxico. A quem? A pergunta continua sem resposta.

 

«Abril de mil novecentos e noventa e três. Grande alerta em Bremen. Um aviso do SI... não me perguntem como é que os tipos sabiam. Quatro traficantes, três alemães e novamente um polaco, vendiam plutónio pronto a ser utilizado em armas. No laboratório, determinou-se que o plutónio era, afinal, urânio de baixa qualidade. Ou seja, uma tentativa de vigarice. A origem do urânio... também não fazemos ideia.

 

Wallner fez uma pausa, juntou os papéis e limpou a testa.

- Resumindo, o que conseguimos até agora em termos de conhecimentos foi nada! Nem país de origem, nem comprador. Suspeita-se, e sublinho, suspeita-se, que a origem sejam as centrais nucleares ou os institutos de investigação nuclear russos. Provas ainda não temos. E o que pudemos confirmar até agora, falando bem e depressa, era sucata. Mas isso pode mudar. Se os vinte gramas de plutónio que o Brockler está a trazer para Colónia, e que só se pode tratar de uma amostra, for realmente plutónio altamente concentrado, encontramo-nos perante a maior ameaça ao nosso mundo. Porque onde existem vinte gramas, existe mais. Prontos a serem enviados! Ainda não sabemos, neste momento, o que vai recair no âmbito da nossa competência.

 

Wallner folheou novamente os seus documentos e tirou uma tabela com alguns valores. Os polícias sentados na mesa longa aguardavam, curiosos. o que teria Wallner ainda na manga? Ele portava-se como um mágico que tirava coelhos brancos do seu chapéu. - Todos sabem o que é plutónio. - Walner olhou para o chefe. Atenção! Até um chefe pode aprender. - Mas conhecerão também as particularidades? Mesmo que lhes pareça enfadonho... este enfado é mortal!

 

Colocou os documentos seguidos e começou a lê-los em voz alta. Parecia uma aula de Física.

 

- o plutónio pertence ao grupo dos metais raros, e na natureza encontram-se apenas escassos vestígios. No minério urânio, o metal-base, encontra-se apenas um átomo de edónio em milhares de núcleos de urânio! Na crosta terrestre, existem apenas alguns quilos de plutónio natural. Por isso, não merecia ser mencionado. Isso mudou quando, em mil novecentos e trinta e oito, em Berlim, os físicos alemães Otto Halin. e Friedrich StraBinann tiveram êxito nas suas experiências com a desintegração nuclear. A desintegração nuclear mudou o mundo. Logo após este êxito, a tentativa foi repetida na Universidade de Berkeley, na Califórnia. Aí, o americano Edwin McMillan descobriu que a desintegração Nuclear originava outros elementos, Ao novo elemento por si analisado chamou-lhe neptúnio. o seu colega Glenn T. Seaborg analisou um segundo elemento desintegrado, que fora anteriormente avaliado pelo físico teórico e era especialmente fácil de desintegrar. Seaborg chamou-lhe plutónio. Um nome derivado do último planeta do nosso sistema solar a ser descoberto, Plutão. Que é, então, este plutónio criado através da desintegração do urânio?

 

Walner bebeu um gole de água mineral. Todos os polícias tinham várias garrafas à sua frente. Quando olharam para aquele carregamento de garrafas pensaram logo que ia ser uma longa reunião, não uma comunicação normal. Talvez Walner tivesse compaixão e permitisse de vez em quando uma pausa para fumar. E nada de almoço na cantina, nem de cervejinha a borbulhar.. não se podiam distrair com nada.

 

- o plutónio emite raios alfa. - Walner prosseguiu a sua lição. - Isso significa que a radiação tem um alcance de apenas alguns centímetros. Portanto, mal atravessa a pele para o corpo, ao contrário da radiação do urânio. No entanto, pode ser absorvido através da respiração e dos alimentos E extremamente perigoso inalar poeiras de plutónio... a radiação destrói em pouquíssimo tempo os pulmões, os

brÔnquios e os vasos linfáticos. o centro de investigação da GSFI, de Munique, calculou que um milionésimo de grama de plutónio é suficiente para matar uma pessoa! Em resultado

 

GSF, Gesellschaft fúr Straffien- und Umweltforschung (Comunidade de Investigação da Radiação e do Ambiente). (N. da T.)

 

de doenças derivadas como cancro do fígado, dos pulmões e dos ossos. Por outras palavras, não há fuga possível!

 

Wallner pôs uma folha de papel de lado e pegou noutra. o silêncio consternado que reinava mostrou-lhe que as suas palavras tinham surtido efeito.

 

- Que mais sabemos sobre o plutónio? Funde-se a seiscentos e quarenta e um graus e ferve aos três mil duzentos e trinta e dois graus. Hoje em dia conhece-se quinze isótopos diferentes de plutónio, dos quais o plutónio duzentos e trinta e nove é o mais perigoso. É utilizado em conjunto com o urânio duzentos e trinta e cinco em todas as armas de destruição. Mas voltemos a isso mais tarde. o plutónio duzentos e trinta e nove tem um período de semídesintegração, que é o tempo que leva a desintegrar as metades, de vinte e quatro mil e cem anos! Calculou-se que, depois de dez períodos de semidesintegração de cada tonelada de plutónio, só sobra um quilo. o isótopo duzentos e quarenta e quatro de plutónio que irradia mais tem mesmo um período de semidesintegração de oitenta milhões de anos. Ou seja, não é prático para desintegrar! Ninguém sabe quanto plutónio duzentos e trinta e nove puro existe armazenado, especialmente na Rússia e nos Estados Unidos. Fala-se em cerca de seiscentas toneladas! Isso é suficiente para, apenas através da inalação de poeira de plutónio, matar várias vezes toda a população da Terra! Ou seja, já temos a destruição do nosso mundo encerrada nos armazéns nucleares! E já tivemos uma prova disso,

 

Wallner bebeu mais um gole de água. o medo envolveu-o novamente, apesar de ter decorado estes valores. Fitou a lista de crimes em cima da mesa. Em alguns rostos, Wallner reconheceu dúvidas sobre a sua exposição. Era realmente difícil de acreditar... ele próprio, enquanto estudava a situação, se perguntara se aquilo seria mesmo a realidade ou apenas uma teoria. Meu Deus, era possível destruir um planeta inteiro!

 

-Nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial, os cientistas americanos trabalharam incansavelmente num centro de investigação nuclear, em Los Alamos, no fabrico de uma bomba atómica, cujos materiais de base consistiam em urânio duzentos e trinta e cinco e plutónio duzentos e trinta e nove. Na instalação de desintegração química de Hanford, no estado de Washington, produziu-se mais quilos de plutónio e construiu-se a bomba atómica, para além do explosivo TNT, um explosivo convencional que mediante o aumento da pressão e do calor provoca uma explosão. Essa bomba atómica, baptizada Fat Man pelos americanos, explodiu em nove de Agosto de mil novecentos e quarenta e cinco na cidade portuária de Nagasáqui, no Sul do Japão. Todos conhecemos essa tragédia de destruição total. E em comparação com a bomba de neutrões possível hoje em dia, também à base de plutónio duzentos e trinta e nove, a bola de fogo sobre Nagasáqui foi apenas uma bombinha! Actualmente, o plutónio duzentos e trinta e nove é o explosivo mais utilizado em armas nucleares. É um plutónio especial, a que se costuma chamar plutónio para armas, em reactores especiais, conseguido do urânio duzentos e trinta e nove. o fornecedor principal é a Rússia. Presumível produtor: o sobregerador rápido de Beloiai-sk, na Sibéria Ocidental. Walner levantou os olhos e reuniu os papéis. - Eu sei, meus senhores, que as vossas cabeças estão a fervilhar de números e conceitos. Vou dispensar-vos hoje do segundo produto nuclear perigoso, um metal branco com o brilho da prata, muito maleável, do grupo dos metais alcalinos. o seu nome vem do grego... lithion, a palavra para pedra, pois o metal encontra-se em muitas rochas: o lítio. E com o lítio seis fabrica-se a bomba de hidrogénio! Como vêem, meus senhores, o fim do mundo encontra-se nas mãos do Homem. De descobertas geniais urdimos a morte. Pausa para fumar!

 

Silenciosamente, os grandes criminalistas levantaram-se e abandonaram a sala de reuniões. Apenas o chefe se deixou ficar, dirigindo-se a Wallner.

 

O que acabou de contar é inconcebível! - disse ele, visivelmente atormentado. - é Uma sorte que a população não suspeite de nada.

 

-Ainda não, chefe. - Wallner encolheu os ombros como se perguntasse, resignadamente, como seria possível
esconder aquilo. - Não vai ser possível evitar que os meios de comunicação acabem por farejar alguma coisa. Eles têm excelentes informadores.

 

-E nessa altura, Wallner?

 

- Nessa altura temos de dar a mão à palmatória e dizer a verdade. Não se derrota um inimigo fechando os olhos, mas sim através de um contra-ataque. Contra-ataquemos!

- Quando?

 

- Isso é o que os próximos meses, ou anos, nos dirão. Uma coisa já sabemos: vai ser uma luta dos diabos... e que se vai passar maioritariamente na zona indefinida do crime organizado...

 

A vigilância do suspeito Freddy Brockler (só se fala em criminoso quando se prova a culpabilidade num crime, tão subtil é a nossa linguagem jurídica) ficou num impasse, dado que Brockler não entregou nenhuma caixa isolada com chumbo a um comprador. Deixou o camião na zona de carga de uma empresa de transportes de Colónia e foi de táxi para casa, em Colónia-Ehretiféld. À sua espera encontrava-se a sua namorada, Elfriede, com quem vivia há três anos. Era uma rapariga alegre e segura que, com dezanove anos, fora uma vez a rainha do Carnaval, entusiasmando o seu séquito com as suas pernas esbeltas e a sua curta saia de pregas. Brockler amava-a muito e chamava-lhe amorosamente EM ou Elfchen.

 

Os polícias do Serviço de Fiscalização do Território de Colónia tomavam posição em frente à casa, alternadamente em automóveis diferentes, para não chamar a atenção para os carros estacionados. Um comissário da Polícia Judiciária de Colónia e três polícias, destacados pelo chefe da Polícia, visitaram o proprietário da empresa de transportes internacionais Rund um die Welt, onde Brockler deixara o seu camião.

 

Franz-Ferdinand StüBken, assim se chamava, admirou-se e pensou: «Um dos meus homens lá voltou a fazer asneira! Mas virem quatro homens é um exagero só por causa de um registo de marcha falsificado ou mais de oito horas sentado ao volante, que desperdício. Pelos vistos a Polícia não tem o suficiente que fazer.»

 

Ele recebeu a Polícia no seu gabinete e apontou para umas cadeiras.

 

- Sentem-se, por favor - disse ele. - Onde é o fogo?

- Não queremos sentar-nos, mas sim trabalhar. o comissário Lodemann olhou rapidamente em volta. «Isto também é possível», pensou ele. «Uma empresa de transportes internacionais como intermediário. Ideal. Chegam a todo o lado, conhecem-nos na fronteira e facilitam. Nada de controlos.»

 

- o senhor é o proprietário da empresa de transportes? perguntou Lodemann.

 

- Sou. Chamo-me StüBken.

 

- Tem aqui um camião pesado. Pertence à sua frota?

- Tem o meu nome? Não! Portanto, não me pertence. É de um conhecido meu, que trabalha independentemente com o seu camião.

 

- Freddy Brockler.

 

-Exactamente. Freddy. Ele pode estacionar o camião dele aqui até arrendar o seu próprio local. o que fez o Freddy?

 

-Conhece bem o Brockler?

 

-Pode dizer-se que sim... somos companheiros de bowling. Do clube de bowling, o Jib Jas. Um companheiro impecável. Conduz por vezes um bocadinho mais depressa do que o permitido... mas isso fazemos todos. - StüBken sorriu. - Apanharam-no, foi?

 

-Queremos inspeccionar o camião dele.

 

- Contrabando? Não, o Freddy, nunca. - StüBken abanou as mãos. - Ele é tão honesto que até uma moeda que encontre entrega à Polícia.

 

- Isso queremos nós verificar.

 

- Com certeza. Mas não devíamos falar primeiro com o Freddy?

 

- Não é necessário. - Lodemann abanou a cabeça. Esta é uma missão especial, aprovada pelo chefe da Polícia e solicitada pelo comando da Polícia. Vamos.

 

o comissário Lodemann e os seus três polícias saíram do gabinete. StüBken observou-os pela janela e esperou que eles, engenhosamente, como ladrões de automóveis, arrombassem a porta do condutor. A Polícia também o sabia fazer. Nessa altura, pegou no telefone e marcou o número de Freddy.

 

Brockler já tomara duche e andava nu pela casa, gozando antecipadamente as próximas horas. Estivera quatro semanas longe de EM e agora ela jazia na cama, perfumada e pronta. o telefone interrompeu as cambalhotas de Brockler.

 

- o que se passa? - perguntou ele, mal-humorado. -Aqui é o F.-F. - replicou StüBken.

 

- Seu idiota, não me incomodes agora! Estava prestes a apagar o fogo da EM! - Brockler estava mesmo zangado. - Não estou contactável até amanhã de manhã.

 

-Não creio. - Stüpken não se ofendeu. - Manda um balde de água fria à EM e corre para cá. Aqui é que há fogo! A Polícia está cá para revistar o teu camião de alto a baixo.

 

Brockler ficou calado por uns instantes.

 

- Eles vão desmontá-lo? Merda! - exclamou ele, enervado.

 

- Rapaz, Freddy... fizeste alguma malandragem? o que é que os chuis procuram?

 

-Não sei.

 

-Não brinques. Diz-me, Freddy. Eu talvez possa fazer alguma coisa...

 

-Não podes fazer nada, F.-F. Tenho de desaparecer imediatamente.

 

- Freddy! o que escondeste na carripana?

 

- Não me perguntes. Ciao, velhote. Tenho de me raspar. Brockler desligou, correu para as suas roupas e vestiu-se com grande rapidez. De uma das gavetas da secretária herdada tirou um maço de notas, dólares, e enfiou-o na algibeira. «Eles vão encontrá-lo», pensou ele, «vão encontrá-lo de certeza. Diabos, quem é que me terá denunciado? Ninguém sabia dos vinte gramas, a não ser o professor e o ex-major do KGB. o que se passa aqui?»

 

Na cama, EM espreguiçou-se e refilou.

 

Ê, - o que é, Freddy? - chamou ela. - Onde estás? Já estás suficientemente limpo. Olha como eu estou aqui... Brockler não respondeu. Correu para a porta, abriu-a e

 

fechou-a atrás de si. Enquanto fugia ainda ouviu o grito de EM.

 

Freddy! Freddy!

 

Desceu as escadas a correr até à garagem subterrânea, onde estacionara o seu Audi 80. Com os dedos trémulos, abriu a porta e entrou. Carregou no comando à distância e a porta da garagem abriu-se, rangendo. Brockler acelerou e disparou para a rua.

 

Daquela forma apanhou de surpresa os polícias de guarda do Serviço de Fiscalização do Território, que levaram uns segundos a reagir.

 

Ali vai ele! Está a fugir! - gritou um dos polícias. Atrás dele! Alguém o avisou. Vamos! Se ele nos escapa, bem podemos ir plantar batatas. O carro disparou atrás do Audi. Por sorte, desta vez os polícias não tinham recebido um automóvel pequeno, mas um Mercedes 200. Depressa se aproximou do Audi. o condutor carregou na buzina... o som estridente era enervante. Alguns peões olharam para os carros e um até comentou: «Lá andam novamente a rodar um filme policial idiota cheio de buzinadelas... não gostam de outra coisa... Foi uma perseguição curta. Brockler percebeu que não tinha fuga possível. Sabia que perdera. Carregou umas vezes nos travões, virou à direita para Bordstein, saiu do carro e levantou os braços por cima da cabeça. Nunca se sabia se _um chui nervoso não se enganava e desatava a disparar. Os jornais já tinham contado suficientes casos desses.

 

Um dos polícias aproximou-se de Bockler e acenou. -Pode baixar os braços - disse ele. - É Freddy Brockler?

 

Sabe bem que sim.

 

- Vai ser preso provisoriamente.

- Porquê?

 

- Os meus colegas vão-lhe explicar, eles estão neste Momento a inspeccionar o seu camião. Entre no carro.

No caminho para a empresa de transportes de StüBken, o chefe da vigilância tentou fazer Brockler falar. Fê-lo de forma muito simpática, ofereceu-lhe um cigarro, que Brockler fumou ansiosamente, e falou num tom jovial. No Serviço de Fiscalização do Território, a maneira de falar era diferente da dos polícias normais. Ninguém se irritava, era-se amável, paciente e tinha-se muito tempo. E era isso o que muitas vezes fazia, de repente, soltar torrentes de palavras de bocas silenciosas.

 

- Não se quer abrir, Brockler?

 

- Abrir o quê? Por acaso trago alguma mala comigo?

- Que piada. Não faça fitas. Nós vamos encontrá-los.

- o quê?

 

- Os vinte gramas de plutónio.

 

- o que é plutónio? Pastilhas para comer?

 

- Brockler.. não compreende a sua situação. Você está em perigo de vida.

 

- Estou?! E quem é que se quer livrar de mim?

 

- Já houve outro caso semelhante, em mil novecentos e noventa e um. Um polaco que contrabandeou duzentos e setenta gramas de lítio seis também manteve que não dizia nada e, pouco tempo depois, foi assassinado no hospital. Limpinho: garganta cortada. Também lhe pode acontecer o mesmo.

 

-E onde estava a Polícia?

 

- Estavam sentados à porta... o assassino entrou pela janela.

 

- Típico! - Brockler tentou fazer um sorriso. Mas sentiu um arrepio de medo a percorrer-lhe o corpo. - A Polícia: o teu amigo e ajudante!

 

A partir daí manteve-se calado e não respondeu a mais nenhuma pergunta. Era como se os agentes do S17T falassem para uma parede.

 

No pátio da empresa de transportes, os polícias tinham encontrado o que queriam. o comissário Lodemann tinha uma caixa de aço na mão, bastante pesada para o seu tamanho, mas ele sabia que o peso era do revestimento de chumbo. A caixa encontrava-se num caixote com porcelana russa, embrulhada em palha de madeira, entre cópias de baixelas dos czares em azul-cobalto com decorações a ouro. Na Alemanha, vários compradores esperavam novas encomendas.

 

o comissário não esteve com grandes conversas. Quando Brockler desceu do carro, mostrou-lhe a caixa.

 

- Conhece isto? - perguntou ele, laconicamente.

- Sim.

 

-E aquele é o seu carro?

 

- Não. Ele veio sozinho de Moscovo.

 

- Vai ser imediatamente transferido para Wiesbaden.

- Porquê?

 

-Para o SI. Estão à sua espera.

 

Brockler voltou-se para o agente do S17T que tinha sido simpático.

 

- Isso aconteceu em Wiesbaden? - perguntou ele. Aquilo com o polaco?

 

- Sim.

 

Brockler virOu-se para Lodemann. A sua voz esganiçou-se.

- Protesto contra esta transferência. Quero ficar em Colónia!

 

- Nada a fazer, Brockler. - Lodemann encolheu os ombros. - Você é um caso para o SI. E, infelizmente, é um tipo de segredo de Estado número um. - Acenou para os três polícias. - Podem ir. - E voltou-se ironicamente para Brockler. - Boa viagem.

 

Brockler enterrou a cabeça entre os ombros.

 

- Gostava de lhe dar um pontapé no cu por isso, comissário! - sibilou ele, entre dentes. E quando se dirigia para o carro, ladeado por dois polícias, passou por StüBken.

 

- Freddy, rapaz, que andaste a fazer? Tens areia na cabeça? Tráfico de material nuclear! Foste mesmo estúpido... - disse ele.

 

À noite, pararam à frente do edifício do SI e Brockler saiu do automóvel. Sem algemas, pois prometera portar-se civilizadamente. Fugir? Quem pensaria em fugir? E para onde, a pé? Só os idiotas tentavam fugir.

 

o inspector-geral Wallner ainda estava no seu gabinete, à espera de Brockler. o seu assistente, K. K. Berger, estava sentado numa outra mesa e mordiscava um pãozinho com queijo que trouxera da cantina. Ele não gostava de queijo, mas àquela hora não havia mais nada.

 

- Bem vindo, senhor Brockler - disse Wallner cumprimentando o recém-chegado. - o meu nome é Walner.

- Muito prazer em conhecer - respondeu Brockler, também cordialmente.       Senhor comissário...

 

- Inspector-geral...     resmungou Berger, por trás do seu pãozinho com queijo.

 

- o prazer é meu, senhor inspector-geral. Em primeiro lugar, uma coisa: poupe-se aos truques de interrogatório que tenha na manga. Eu confesso.

 

-Um cigarro? Uma cerveja? - Wallner indicou a cadeira que se encontrava em frente à sua secretária.

 

- Se possível... as duas coisas. - Brockler sentou-se.

- Você confessa. - Wallner reclinou-se na sua cadeira. - Isso não é tudo, senhor Brockler. Quero saber mais.

 

Brockler olhou para Wallner em silêncio, durante uns instantes. Não podia explicar porquê, mas aquele chefe dos chuis parecia-lhe simpático. Não um inimigo, mas sim um conselheiro. Que maluqueira! Como era possível? Mas esse sentimento não desapareceu.

 

- o que recebo em troca se falar? - perguntou ele, por fim. Wallner permaneceu impassível.

 

- Em vez de cinco talvez três anos de prisão. - Sorriu... Um bom homem. - Mas claro que não posso prometer nada... Posso apenas referir ao tribunal e nas actas a sua prontidão em ajudar. Muitas vezes, nessas ocasiões, o juiz é mais brando.

 

Um polícia trouxe a cerveja, Berger deu-lhe um cigarro... Brockler bebeu o copo de cerveja de um só trago e, depois, fumou o cigarro com prazer.

 

- Tinha saudades disto.

 

- De que quer falar, senhor Brockler?

 

- De Tornsk, de Moscovo, do professor Poltchov, do major Pujachev do KG13... e mais.

 

- Estou a ouvir. - Parecia quase indiferente, mas Wallner fervia por dentro.

 

Uma pista! Finalmente uma pista! Agora também o SI era necessário, com os seus polícias e agentes de ligação. Ergueu a cabeça quando Brockler falou novamente.

 

- o senhor inspector-geral fala de três anos dentro em vez de cinco. Para mim não chega. Quero protecção.

 

- Isso quer dizer o quê?

 

Eu sei o que se passou com o polaco da garganta cortada. E isso aconteceu aqui, em Wiesbaden.

 

-Quem é que lhe contou?

 

- Um agente muito simpático do Serviço de Fiscalização do Território.

 

Wallner olhou para o comissário Berger. Este engolira o seu pãozinho com queijo e acenou com a cabeça a Wallner. -Fui eu que contei. Deviam pôr um açaime aos colegas do SFT quando andam à solta. Que tagarelas! - E virou-se para Brockler. - É verdade. Tivemos esse azar. Não volta a repetir-se.

 

- E consegue garanti-lo, senhor inspector-geral? Claro que não. Daí a minha proposta: as minhas informações em troca da minha evacuação para o estrangeiro.

 

- Completamente impossível, senhor Brockler. Wallner inclinou-se para ele. - Você é um criminoso. Não podemos deixá-lo ir embora!

 

- Na América é possível. Lá uma testemunha ameaçada pode receber um novo nome e até uma nova cara.

 

-Na América! o nosso sistema jurídico é diferente.

- É uma merda!

 

- Por vezes, admito. Não o podemos largar livremente na zona de caça... mas podemos escondê-lo num local seguro.

- Numa prisão qualquer? Não! Ninguém está seguro na prisão.

 

- Quem falou de prisão? Há outras possibilidades. Wallner olhou para o seu relógio de pulso. - Senhor Brockler, já é tarde. Amanhã continuamos a conversa. Hoje fica a dormir aqui. Reservei-lhe um belo quarto... fechado por fora e grades nas janelas. Assim ninguém entra pela janela, como aconteceu com o polaco. E amanhã já posso dizer-lhe onde podemos escondê-lo. Boa noite.

 

- Boa noite, senhor inspector-geral.

 

o comissário Berger levou Brockler. Walner ficou sentado e juntou as mãos. Olhou para a parede, para uma estampa emoldurada que a enfeitava.

 

- Uma pista! - disse ele para o quadro. - Finalmente, uma pista! Uma maldita pista! Uma pista que aponta para a Rússia, indiscutível... Era o que nos faltava! Isto vai pôr os cabelos em pé a alguns senhores em Bona. Uma pista danada...

 

A BELA NATALIA

Era preciso possuir a falta de escrúpulos de um Igor Germanovich Sybin para organizar, num espaço de tempo muito curto, um negócio de milhões e dominar quase sozinho o respectivo mercado. Quase! Pois, após o desmembramento da URSS e a consequente redução da produção de armas nucleares, a dispensa dos cientistas e dos trabalhadores das centrais nucleares e o desejo de determinados países de possuírem uma bomba atómica, também outros tiveram a ideia de fazer muito dinheiro com a ameaça ao mundo. E esses interessados encontravam-se mais perto da fonte do que Sybin e o seu «consórcio».

 

Sybin reconheceu imediatamente o problema, mas isso não o afligiu especialmente. Os concorrentes tinham a ideia, mas não possuíam o elemento que vencia tudo, ou seja, todas as resistências a colocar armas refractárias de guerra no mercado: Natalia Petrovna. Ela era literalmente a «tropa de choque» que conquistava todas as fortalezas.

 

Natalia tratava dos contactos em viagens de negócios. Sybin, como sempre bem informado pelos seus homens de confiança, conhecia o seu maior inimigo do Centro de ` Investigação Nuclear Semipalatinsk, num subúrbio barricado dessa cidade no canto mais extremo do Cazaquistão, não muito longe da fronteira com a China. Aí, o físico nuclear, Ivan Semionovich Kunzev dirigia a secção mais secreta de investigação militar, o que significava, pura e simplesmente, continuar a produzir plutónio, urânio e lítio para utilização em caso de guerra. Um coronel do KGB recorrera a Kunzev para, depois de realizado o plano de Ieltsine, mudar o nome e lhe serem atribuídas novas tarefas. Esta fora uma das ideias de Ieltsine que alarmara os antigos comunistas e lhe conquistara um punhado de opositores internos. Com o KG13 caíra o último bastião do Estado soviético, o controlo abrangente em todos os domínios da vida, o poder secreto sobre todo o povo russo. E para esta «velha guarda», Ieltsine foi sempre insuportável... Vingavam-se com um plano secreto: a utilização do poder nuclear da Rússia em benefício próprio.

 

Aos interessados que esperavam ser enviados para a reforma pertencia também o coronel Konstantin Petrovich Micharin. Sobrevivera a três chefes do KG13, recebera diversas condecorações e não compreendia que ele, um oficial e camarada tão condecorado, devesse ser enviado para o deserto só por ser um comunista leal e convicto. À sua secção competia igualmente a vigilância política das três uniões de centrais nucleares, entre elas a secreta Semipalatinsk. Ele próprio tinha o seu escritório em Tomsk. Aí vivia quase como um pequeno rei, a sua residência privada uma antiga vivenda do fim do século, era uma personalidade respeitada, mas também temida, enterrara a sua mulher Jelena há dois anos e vivia agora como viúvo alegre, permitindo-se, de vez em quando, uma companheira. Para cada jovem mulher que passasse a conhecer o seu quarto, isso era uma sorte: nunca mais tinham preocupações. o coronel Micharin tratava de tudo o que precisassem e de que houvesse escassez. E todas elas ficavam contentes por poder ser úteis a Micharin. Estes favores recíprocos sempre tinham feito parte do estilo de vida russo... como em todo o mundo.

 

Como guarda político, Micharin conhecia, obviamente, o bem-aventurado professor Kunzev, bem como a sua filha Nina Ivanovna. Ela trabalhava como médica no Hospital N.O 1 em Semipalatinsk, era especialista em doenças pulmonares, ainda solteira aos trinta e dois anos, apesar de ter uma cara bonita e um corpo elegante. Os colegas diziam saber a razão do seu celibato: «Ela é demasiado inteligente, demasiado esperta, demasiado dominadora. Um homem tem de se submeter perante ela, Que tipo de homem faz isso? Portanto, tem de ser um homem que seja intelectualmente superior a ela. Mas onde há um assim?»

 

o coronel Micharin, depois da morte da sua mulher Jelena, tentara várias vezes convencer Nina Ivanovna de que estaria melhor na cama dele, mas sem sucesso. o título de coronel não a impressionava, de qualquer modo ela odiava o KG13, vinte e cinco anos de diferença de idade também não a atraíam, e como a educação de Micharin também não chegava para ter uma conversa inteligente, ele foi logo posto a correr. Nem sequer sabia quem fora Napoleão 111 e confundia-o sempre com Napoleão 1. Para Nina, isso era intolerável. Apesar disso, o coronel tornou-se um bom amigo do professor Kunzev; Micharin chamava-lhe Ivan e este chamava-lhe Konstantin, tratavam-se por tu e passavam longas noites a falar de política, do futuro da Rússia e do rumo das coisas depois de Gorbachev e Ieltsine. Kunzev também era um antigo comunista, o Partido promovera-o a chefe da investigação nuclear militar. Agora esperava-o ser despedido, quando Semipalatinsk fosse reduzida ou mesmo encerrada.

 

Tudo isso era do conhecimento de Sybin! Tinha um informador na administração central do KG13, que recebia todos os meses uma contribuição pecuniária considerável. o que a central não sabia era do plano de Micharin de organizar um negócio de material nuclear com o professor Kunzev.

 

-Natalia, minha bacorazinha - disse Sybin, em Maio de 1993, depois de terem jantado no Tropical e apreciado a sucessora de Natalia no stríptease. Ela não conseguia substituir de forma alguma Natalia, nem na sua figura, nem no programa de dança, e muito menos no erotismo da sua exibição. o número do ursinho de pelúcia de Natalia fora único. - Vais ter de viajar.

 

- Para onde? - perguntou ela. Que Sybin lhe chamasse bacorazinha, ela já estava habituada. Da primeira vez, respondera-lhe: «Que queres, meu porco?!» Mas depois dissera a si própria que era melhor ser chamada bacorazinha do que levar pancada, como as amantes de outros homens importantes da máfia.

 

- Para a Sibéria. Mais especificamente, para Semipalatinsk, no Cazaquistão.

 

- Cazaquistão? E porque não para a Lua?

 

- Porque na Lua não existe nenhum Micharin, nem um Kunzev.

 

-Quem são esses homens?

 

- Uns idiotas. Estão a intrometer-se no nosso negócio. Tens de ficar a saber exactamente o que eles pretendem e de que forma querem organizar o seu negócio. Sobretudo, se já têm compradores. - Sybin sorriu abertamente. A sua mão esquerda com os quatro dedos adornados de anéis acariciou o braço de Natalia. - Um trabalho fácil para ti, pombinha. o Micharin é viúvo, tem cinquenta e sete anos, anda atrás das mulheres como cão atrás de um osso. o Kunzev é fisico nuclear, professor universitário, tem cinquenta e nove anos, é fanático do seu trabalho, está só com uma filha que é médica, um pessimista a quem só lhe falta uma coisa para sentir novamente alegria em viver: um passarinho como tu! Também a ele lhe tens de dar a volta, saber tudo o que pode ser fornecido pelo seu instituto, quando e em que quantidades.

 

Natalia não gostou minimamente desta nova missão. Bebeu um gole de vinho da Geórgia, olhou aborrecida para o palco, onde a dançarina balançava o seu peito talvez um pouco pequeno, sem qualquer comparação com os seios voluptuosos, mas firmes, de Natalia, e abanou a cabeça.

 

- Não? - Sybin olhou-a, surpreendido. Não podia ser: Ela dissera não?! - Não queres? - perguntou ele, para se certificar.

 

-Eu disse isso?

 

- Abanaste a cabeça.

 

-Estava a pensar que me atiras sempre com homens velhos. Cinquenta e sete, cinquenta e nove... Antes disso, sessenta e até setenta e um, que ainda por cima era impotente. Aparentemente esqueceste que eu só tenho vinte e dois anos!

 

-Os negócios deste tipo exigem sacrifícios. - Sybin respirou fundo. Natalia não estava a tornar-se rebelde... Isso teria sido um grande problema. - Os homens mais importantes têm já uma certa idade, se não, não eram importantes. E quanto mais velhos e libidinosos, melhor para nós, pois esse é o nosso capital nominal. Lembro-me de uma máxima do meu pai que dizia, mais ou menos, que quanto mais velhos nos tornamos, mais desavergonhados ficamos. É isso mesmo, minha bacorazinha, temos de aproveitar esse descaramento para tornar a pessoa submissa. Não perdes a tua alma por isso. Aliás, tu por acaso tens alma?

 

- Não sei.

- Os homens deixam-te fria, só o teu corpo ferve! Comigo também! Não é verdade?

 

- Devias ficar contente por ser assim. De outra forma, seria muito difícil cumprir as tuas ordens.

 

Pedidos. São pedidos, Natalia.

- Quando é que parto?

 

-Já amanhã, -E depressa?

 

Quem chegar primeiro, levará a água ao seu moinho. Eu não me contento com menos do que isso.

 

Saíram do Tropical logo após o primeiro espectáculo. o avião para Alma-Ata, a capital do Cazaquistão, partia `Muito cedo de Moscovo.

 

E assim Natalia Petrovna se encontrou junto da fronteira com a China, perto de Semipalatinsk.

 

Alugou um quarto no Hotel Cazaquistão, dormiu dez horas de seguida depois do longo voo, em seguida tomou um duche, pôs uma maquilhagem muito discreta, mas bem eficaz, e telefonou ao professor Kunzev. Sybin dera-lhe o número de telefone, pois Kunzev não vinha em nenhuma lista telefónica.

 

o instituto informou-a de que Kunzev estava em casa. Dera parte de doente, com o seu velho problema de uma úlcera no estômago. A quarta em dez anos. A sua filha Nina levara-o aos especialistas nos melhores hospitais. Não era cancro, graças a Deus. Apenas as irritações constantes, e toda a gente bem sabe que as irritações provocam úlceras no estômago. Um mistério para a medicina. Por que razão um problema psíquico provoca uma doença física?

 

À tarde, por volta das dezasseis horas, Natalia bateu à porta de Kunzev. Este olhou, perplexo, para a bela mulher.

- Sim? - perguntou ele. - Posso ajudá-la?

 

Kunzev era um homem mediano com uma cor de pele algo amarelada devido às doenças de estômago crónicas, às quais o fígado também estava ligado. o seu cabelo era branco, estava a ficar um bocadinho encurvado com umas costas cifóticas, que ainda não estavam assim tão deformadas que se pudesse dizer que tinha uma corcunda. Em criança ficara raquítico em resultado de subnutrição que, com a idade, resultou numa cifose na adolescência, uma ligeira marreca, como também lhe chamavam. E isto contribuiu, naturalmente, para a sua indisposição psíquica.

 

- Venho de Moscovo. É o professor Kunzev?

- Sou.

 

- Venho cumprimentá-lo da parte de Irena Karlovna.

- Irena Karlovna? Não conheço. Mas, por favor, entre. Natalia observou a pequena casa... uma sala, um quarto, uma cozinha minúscula, uma casa de banho só com duche. Mobilada com móveis dos anos sessenta. o ponto principal era um sofá com uma coberta felpuda verde, o local preferido de Kunzev. A televisão estava em cima de uma cómoda antiga, esculpida, parte da herança da mãe de Kunzev.

 

Natalia sentiu algo parecido com compaixão, quando pensou que tinha de seduzir aquele homem honesto e torná-lo submisso. Mas ele era, tal como Sybin lhe explicara, uma figura essencial no grande jogo do material nuclear.

 

- Posso oferecer-lhe alguma coisa? - perguntou Kunzev e parou à porta da cozinha. - Não tenho grande escolha. Uma fatia de bolo, feito pela minha filha, ou uns bolinhos com cobertura de açúcar. Muito doce... Vêm do outro lado da fronteira, da China. E, para acompanhar, um copo de vinho?

 

- Chamo-me Natalia Petrovna Victorova - disse ela. Um copo de água chega, obrigada.

 

-Mas não, nem pensar! Nunca tinha tido uma visita tão encantadora. Vou ver o que tenho. - Ele desapareceu na cozinha diminuta, ouviram-se portas de armários a abrir e a fechar, algo tiniu e depois ouviu-se a voz de Kunzev. Ah! Ainda tenho meia galinha. Gostaria de um bocadinho de galinha fria e uma cerveja? É uma galinha do campo, não dos malditos aviários, os Gulag das galinhas.

 

- Obrigada, senhor professor, obrigada! - Natalia teve de se rir. Gulag das galinhas, dissera ele. Era mesmo isso... essas máquinas de pôr ovos nas suas gaiolas, uma galinha a seguir à outra, sem se poderem mexer, já a tinham afligido quando vira fotografias. - Um copo de água é mesmo suficiente.

 

-Ninguém poderá dizer que Kunzev é um sovina, que deixa os convidados passarem fome. - Ele voltou com um bolo de passas e uma garrafa de vinho aberta, tirou copos, pratos e colheres do armário de madeira de bétula sem cor e colocou tudo em cima da mesa. Natalia baixou os olhos. O que se passa?», perguntou a si própria. «Estás com vergonha? Estás mesmo com vergonha? Nos últimos anos nunca soubeste o que era a vergonha.» o professor Kunzev sentou-se no seu querido sofá verde.

 

- Natalia Petrovna - disse ele -, lamento... mas eu não conheço nenhuma Irena Karlovna...

 

-Mas ela manda cumprimentos. - Natalia sentiu-se mal, como uma ladra a roubar pessoas de idade. - Ela conhece-o da sua juventude.

 

- Juventude? Isso foi há muito tempo, As recordações podem ter-se desvanecido. De resto, até tenho boa memória... mas uma Irena Karlovna?

 

-Eram amigos.

 

- Amigos? - Kunzev olhou para Natalia, desconcertado. Ele podia contar as suas antigas amigas pelos dedos. Em estudante, nunca fora um mulherengo. Ainda sabia o nome de todas as suas amigas, e nessa lista não constava uma Irena.

 

- Recorde-se, senhor professor. Foi em Moscovo. -Em Moscovo?

 

Sim.

 

-Em toda a minha vida nunca estive em Moscovo. -Então, a Irena deve ter-se enganado.

 

-De certeza. A cidade mais ocidental onde estive foi Sverdiovsk. Estudei lá dois semestres. Tinha vinte e três anos. - Kunzev cortou o bolo de passas e estendeu a Natalia um prato com uma fatia grossa. - Essa Irena disse mesmo o meu nome?

 

- Sim. Chama-se Ivan Semionovich Kunzev, disse ela. Acha que eu teria cá vindo se não fosse isso? De onde poderia conhecer o seu nome?

 

- Um mistério. Um verdadeiro mistério. - Kunzev abanou a cabeça. - Mas agora está aqui, Natalia Petrovna, e é minha convidada. Além disso, é um grande prazer para um homem velho como eu vê-la e ouvi-la.

 

E Natalia sentiu-se novamente vil e envergonhada, ao contrário do que lhe era habitual. Não obstante, já atingira metade do seu objectivo: despertara o interesse de Kunzev por ela. o que agora se seguiria, era rotina... Ia fingir-se tímida e, mais tarde, dentro de alguns dias, sucumbiria envergonhada e hesitantemente ao seu charme maduro. Era a única forma de ganhar a confiança de Kunzev.

 

Natalia ficou duas horas em casa do professor. Falou de Moscovo, da miséria e do desemprego cada vez maiores, dos mercados negros, onde até os polícias iam às compras, em vez de os combater, da prostituição crescente que permitia às raparigas alimentarem-se e às respectivas famílias... «como alimentei o pai e a mãe», pensou ela... e do medo de milhões de que a liberdade anunciada dos Russos conduzisse ao caos.

 

- Também eu só vejo escuridão para o futuro - observou Kunzev, com um olhar triste. - Eu estou na lista de dispensas, como se costuma dizer. Como um lobo velho que atrapalha a alcateia. o instituto de investigação onde trabalho vai ser reduzido, e quem é que está pronto para sair? Nós, os velhos. o que vai ser de nós? Quem quer saber disso? Trabalhei quase trinta anos para a minha pátria e recebi as maiores distinções no domínio científico... e depois? Resta-me uma pensão que me obriga a ficar dependente da
minha filha. Será que na Rússia já ninguém sabe o que é gratidão?

 

- Isso tem um tom muito amargo, Ivan Semionovich.

- Eu estou amargo.

 

-E o que fará a seguir?

 

- Quem sabe? Novas missões? Onde? Não sou o único cientista a levar um pontapé. São centenas, se não milhares, de especialistas que andam para aí sentados nos bancos dos parques. - Ele olhou para Natalia, com olhos lacrimejantes, como se chorasse para dentro. - Falei com muitos. Recebi propostas... do Irão, do Iraque, da Síria e da Líbia, da Coreia e de outros países asiáticos, até mesmo de alguns países africanos. E ofereceram montantes com os quais nunca sonhámos! Nunca ninguém ganhou tanto na Rússia, para além da máfia que reina actualmente! É o cancro da Rússia! Mas devo trair a minha pátria? Devo ir para o Iraque? Eu não posso fazer tal coisa!

 

Natalia respirou fundo, como que libertada de um aperto sufocante. Não ia ser necessário conseguir informações de Kunzev na cama, ele ia dizer, por puro desespero, tudo o que Sybin queria saber. E odiava a máfia, como toda a gente... «E eu posso agarrá-lo por aí.»

 

, - A máfia! - disse ela, com repulsa na voz. - Eu conheço os seus métodos diabólicos! Eles mataram o meu tio -só porque ele não queria trabalhar para eles. Era director de uma fábrica de tractores e recusou-se a pagar dinheiro para se proteger e à fábrica.

 

Claro que tudo aquilo era mentira, mas Kunzev acreditou nela. Comprimiu os lábios como se sentisse fortes dores internas.

 

- Está tudo a desmoronar-se - disse ele; sombriamente.

- E como pensa sobreviver, professor? - Natalia inclinou-se para ele. A sua blusa um pouco aberta mostrou o começo dos seus seios cheios. Não trazia soutien, a sua pele brilhava como madrepérola. Kunzev viu-o, mas desviou o olhar. A sua amargura era mais forte do que o seu instinto masculino.

 

- Tenho um plano, mas não falo sobre ele. Vou começar um negócio com a ajuda de um sócio.

 

«Agora já estamos onde eu queria», pensou Natalia. «É melhor não perguntar mais nada, pode tornar-se suspeito. É mais inteligente dividir tudo por vários dias.»

 

- Desejo-lhe muito sucesso para os seus planos, Ivan Semionovich. - Ela levantou-se para se ir embora, e Kunzev pulou do sofá.

 

-Vai-se embora, Natalia Petrovna? - exclamou ele, perplexo. - Porquê?

 

- É indelicado visitar as pessoas durante demasiado tempo, aprendi eu com o meu pai. Já estamos aqui há imenso tempo.

 

-E ainda nem sequer comeu o seu bolo. -Talvez mais tarde.

 

- o que quer dizer com mais tarde? - Os seus olhos brilharam como se, de repente, tivesse voltado a ter vinte anos. - Vai voltar?

 

- Vou ficar uma semana em Semipalatinsk. Talvez...

- Está convidada, Natalia Petrovna! Amanhã ao jantar?

- Deve poupar o seu dinheiro, senhor professor.

 

- Não me custa nada. A minha filha Nina cozinha para nós.

 

-   Se ela estiver de acordo...

 

- A Nina é uma boa filha. Se ela puder dar uma alegria ao pai, ela dá. E para mim é uma alegria voltar a vê-la como minha convidada. Vem, Natalia Petrovna?

 

- Venho.

 

- Vou dizer à Nina que cozinhe alguma coisa muito especial.

 

Kunzev despediu-se de Natalia à porta, voltou em seguida para o seu sofá verde e comeu o bolo em que Natalia não tocara. Bom... ela comera um cantinho. Kunzev começou por esse canto, que tinha sido tocado pelos seus lábios e, naquele dia, o bolo pareceu-lhe especialmente aromático e doce.

 

Pouco depois, Nina Ivanovna entrou em casa. Atirou o casaco para cima de uma cadeira e olhou interrogativamente para o pai.

 

- Vi de longe uma mulher a sair da tua casa. Ela esteve cá?

 

- Sim. - Kunzev continuou a comer.

 

- Cheira-me... a um perfume incómodo! o que queria ela contigo?

 

- Trouxe-me cumprimentos duvidosos de Moscovo.

- Cumprimentos? De Moscovo? Tu nunca estiveste em Moscovo.

 

- Por isso mesmo são duvidosos. Cumprimentos de uma mulher chamada Irena. Não faço ideia de quem seja. -Não gosto dela - disse Nina, duramente.

 

- De quem? - Kunzev ergueu a cabeça, espantado. Conheces essa Irena, filhinha?

 

- Quero lá saber dessa Irena! Estou a falar dessa mulher..

 

-A Natalia Petrovna?

 

- É assim que ela se chama? Mais uma vez... não gosto dela. Ela passou por mim. Aquele vestido, aquela cara maquilhada, aquele andar... Pareceu-me ordinária.

 

- Moscovo! Assim é Moscovo, minha querida. Na grande cidade, são todas assim. Que sabemos nós? Vivemos aqui, envoltos em silêncio, como exilados numa colónia de leprosos. Os eleitos da ciência!

 

- Papá, ultrapassa lá a tua desilusão. A vida continua. Não vamos morrer à fome. Há milhões pior do que nós.

- Que grande consolo! - Kunzev afastou o prato e esvaziou o copo de vinho. - Como correu o dia no hospital?

- Como sempre. - Nina foi à casa de banho, lavou as mãos e penteou o seu cabelo castanho curto. Pouco possuía que pudesse ter algum efeito num homem. Quando se sentou num dos velhos cadeirões em frente ao pai, pareceu cansada e mais velha do que realmente era. - o Konstantin Petrovich está na cidade.

 

O quê?! Está cá? Não me disse nada.

 

- o senhor coronel foi, obviamente, ter comigo. - A voz de Nina ficou ainda mais dura, quase masculina. - Ele é como um lagarto! Podemos enxotá-lo, mas volta sempre. o Micharin não entende que, para mim, ele é um pedaço de merda.

 

- Nina! É assim que fala uma pessoa formada? Uma médica?


-Estou furiosa, papá!

 

-Ainda vais ficar mais furiosa, filhinha. Amanhã vamos ter uma visita.

 

- Quem?

 

-A Natalia Petrovna.

 

- E eu devo cozinhar para ela? - exclamou Nina, indignada. Levantou-se de um salto e bateu com o punho nas costas da poltrona. - Não!

 

- Deves cozinhar para mim, para ti e para a Natalia... Por favor.

 

- Vou cozinhar ratazanas e temperá-las com veneno para ratos!

 

- Então também vais fazer-me mal. É isso que queres? -Eu enveneno só o bocado dela!

 

-Nina, tu nem a conheces. Ela sabe falar muito bem. E, olha, um tio dela foi morto pela máfia de Moscovo. Kunzev pigarreou. - Nina, não sejas tão má e cruel. Amanhã cozinha alguma coisa bem boa.

 

Foi o tom da sua voz e a expressão dos seus olhos que amoleceu o coração de Nina, e ela cedeu. A sua ligação ao pai era tão forte que lhe fazia tudo. E aturar o coronel Micharin na sua vida era um exemplo disso. E agora também essa Natalia... «Há-de passar», pensou ela. «Uma visita e ela parte para Moscovo. Não vamos chatear o pai mais do que ele já está.»

 

- Está bem, eu asso três pombinhos.

 

- Parece-me uma boa ideia - disse Kunzev, interrompendo os pensamentos de Nina. - o Micharin está cá. Vamos convidá-lo também. Um prato a mais ou a menos à mesa...

 

- Achas uma boa ideia, pai?! - Nina explodiu novamente. - É uma péssima ideia! Assim tenho de cozinhar para duas pessoas asquerosas!

 

-Vai ser uma noite muito divertida e interessante, Nina. Por acaso temos muitas distracções? Tornamo-nos azedos como pepinos em conserva.

 

Novamente aquela voz, aqueles olhos tristes. Nina virou-se e acenou com a cabeça.

 

- Muito bem - anuiu ela. - Eu também engulo essa. Telefona ao Micharin... Ele pode vir.

 

Natalia Petrovna teve uma sorte espantosa.

 

Depois de o coronel Micharin ter abandonado o hospital. desiludido com a rejeição de Nina, atravessou Semipalatinsk no seu carro de serviço cor de terra. Gostava daquela cidade no extremo da Rússia, apesar de só haver estepes e deserto à sua volta, interrompido por pequenas aldeias, cujos agricultores se queixavam da sua sorte mas se agarravam à terra. Excepções eram apenas as aldeias das pessoas de origem alemã: casas bonitas com entalhes elegantes, campos cuidados, a natureza rebelde arrancada, manchas coloridas na imensidão sem fim da terra e sob um céu infinito. Mas, sobretudo, gostava das mulheres. As mulheres do Cazaquistão possuíam um erotismo asiático mágico, ele achava os seus olhos negros e rasgados uma tentação constante, e quando -elas dançavam, parecia que os seus corpos magros eram leves como penas.

Ali, Moscovo estava longe, muito longe. Ali, as pessoas viviam a sua própria vida, com a Natureza, que determinava

o correr do tempo. Também por isso Micharin era uma pessoa respeitada, pois personificava o poder comunista, que era considerado a mãe do povo soviético. Tudo mudara depois da perestroika... o Cazaquistão tornara-se um país independente, ligado à Comunidade de Estados Independentes. As palavras de Moscovo eram, com efeito, ouvidas, mas cada vez mais criticadas. Já não existia a obediência total... Mas havia uma soberania especial: o Cazaquistão era uma potência nuclear. Ali jaziam os locais de produção secretos, ali estavam armazenados o urânio e o plutónio, ali estava escondida dos olhos do mundo uma máquina de destruição nunca imaginada.

 

E também só no Cazaquistão se encontrava o futuro de Micharin, milhões de dólares, se os soubesse apanhar inteligentemente. Toneladas de plutónio 239 pronto a ser utilizado e lítio 6. Um cenário de fim do mundo.

 

Assim, Micharin avançou pelas ruas da cidade, passando pelo mercado negro silenciosamente tolerado, pela igreja e pela mesquita, nas quais os crentes rezavam ao seu Deus e imploravam ajuda. Quando passou pelo Hotel Cazaquistão, viu uma mulher que imediatamente o fascinou.

 

Percebeu que ela não era de Semipalatinsk. Aquela elegância não existia ali, e o andar dessa mulher era tão provocante que Micharin teve de se obrigar a não parar ao pé dela. Mas reduziu a velocidade, deixou o carro deslizar e observou-a pelo espelho retrovisor a entrar no hotel.

 

Micharin respirou com dificuldade pelo nariz, voltou para trás até à porta do hotel, saiu do carro e entrou. o porteiro coçou a cabeça, e quando reconheceu Micharin colocou-se em sentido. Ninguém gostava do KG13, muito menos num hotel.

 

Esperou que Micharin se dirigisse à recepção e apoiou-se no balcão.

 

- Entrou agora uma senhora no hotel. Uma senhora estrangeira - disse Micharin.

 

o porteiro acenou afirmativamente com a cabeça.

 

- Aqui só vivem estrangeiros. Ninguém da cidade fica no hotel, coronel.

 

«Ele nunca tinha dado uma resposta destas», pensou Micharin, de dentes cerrados. «Eu tê-lo-ia prendido imediatamente.»

 

-Quem é ela? Sabe de quem estou a falar? -Coronel, aqui entra e sai muita gente e...

 

-Não seja parvo! A senhora que acabou mesmo agora de entrar. Uma senhora muito bonita.

 

- Ah, essa! Ela é de Moscovo.

 

- Foi o que eu pensei. Como é que ela se chama? o porteiro olhou para o livro de clientes.

 

- Natalia Petrovna Victorova.

- Idade?

 

-Vinte e três, coronel.

- Profissão?

 

- Não está registado.

 

-Ela está cá desde quando?

- Desde ontem, coronel.

 

- Quarto?

 

- Número quarenta e quatro... - o porteiro olhou para Micharin, curioso. - Ela cometeu algum crime, coronel? Dantes, também nunca teria perguntado aquilo. Mas hoje em dia... o Cazaquistão era um país independente.

 

-Está à espera que lhe responda?

 

-Não, coronel. - o porteiro sorriu, com sinceridade. Devo anunciá-lo no quarto quarenta e quatro, coronel? -Não diga disparates! - respondeu Micharin, zangado, Colocou um maço de rublos em cima do balcão. - Envie-lhe um grande ramo de rosas. Anónimo. Nem a mais pequena referência de quem são as flores! Se não, trato imediatamente do seu despedimento.

 

-Ficarei calado que nem um rato, coronel. - o porteiro enfiou o dinheiro numa gaveta por baixo do balcão.

 

E uma garrafa de champanhe também? -Boa ideia. Faça isso.

 

- Então ainda faltam alguns rublos, coronel.

 

Micharin pegou na carteira, tirou mais umas notas e deu-as ao porteiro.

 

- o resto é para si. De qualquer forma, vai intrujar-me. o porteiro calou-se e observou com um sorriso Micharin a sair do hotel. «Seu verme», pensou ele, «sempre o pequeno rei! Espera só, não tarda nada escorraçamos-te do país como um cão sarnoso. Isso de comandar já passou à história... Agora vivemos em democracía!»

 

Fez sinal a um rapaz e incumbiu-o de comprar um grande ramo de rosas amarelas. Uma rua mais à frente, na florísta, rosas amarelas, não vermelhas. Ele esperava que aquela Natalia Petrovna de Moscovo não gostasse de rosas amarelas. Parecia ter mais ar de rosas vermelhas...

 

Natalia tinha acabado de se vestir para o jantar quando o criado trouxe um magnífico ramo de rosas amarelas e ainda um balde de gelo com uma garrafa de champanhe. Ela abanou a cabeça, perplexa.

 

-Deve ser engano - disse ela. o rapaz encolheu os ombros.

 

- Para o quarto quarenta e quatro, gospodina.

 

-De quem?

 

- Pergunte, por favor, ao porteiro Stephan VIadissivich. -Obrigada. - Deu-lhe uma gorjeta. Um dólar americano, que atrapalhou o rapaz de tal maneira que corou e saiu a correr do quarto. Um dólar inteirinho... e, além disso, Natalia tinha muito pouca roupa vestida, o que não deixava um jovem de dezasseis anos indiferente.

 

Como seria de esperar, a conversa de Natalia com o porteiro Stephan não teve grandes resultados. Stephan manteve-se calado, apesar da nota de cinco dólares que Natalia colocou em cima do balcão da recepção.

 

-Não sei - insistiu ele. - Foi um senhor.

- Claro que foi um senhor! Conhece-o?

 

- Como conheceria eu o senhor?

 

-Qual era o aspecto dele? Tinha cabelo branco?

- Trazia um capuz castanho.

 

-Andava um bocadinho inclinado para a frente? Obviamente, Natalia pensou logo no professor Kunzev. -Não reparei nisso. Estavam mais três clientes na recepção. Eu estava muito ocupado.

 

Natalia percebeu que não valia a pena continuar a conversa. Se tinha sido Kunzev a enviar-lhe um grande ramo de rosas amarelas, descobrira por acaso a sua cor preferida.

 

- Se for para entregar mais algum ramo de rosas disse ela -, faça o favor de não o aceitar.

 

- Isso não posso fazer. - Stephan VIadissivich pensou no coronel Micharin. Apesar de os tempos terem mudado, Micharin, na sua fúria, seria capaz de lhe dar umas bofetadas. E eventualmente queixar-se dele. Uma queixa apresentada pelo KG13! Dantes seria praticamente a própria sentença de morte, hoje em dia ainda significava grandes problemas.

 

- Diga ao senhor que a Natalia Petrovna prescinde de flores.

 

- Eu nunca diria uma coisa dessas! - exclamou Stephan, desesperado. - Isso pode a senhora dizer-lhe. E isso será difícil, pois o senhor deseja manter-se anónimo.

 

Natalia desistiu da conversa. Saiu do hotel, chamou um táxi e sentou-se ao lado do condutor. Este ficou envolto na
sua nuvem de perfume, olhou para as suas longas pernas e suspirou baixinho.

 

-Para onde? - perguntou ele.

 

-Ande pela cidade. Quero ficar a conhecê-la.

 

- Aqui não existem grandes monumentos. A universidade, o aeroporto, o porto no Irtiche, a fábrica de peles, as grandes empresas de carnes... e é tudo. Ah, e o Museu de Etnologia do Cazaquistão.

 

-Pode seguir. Estou interessada em tudo.

 

o motorista de táxi fez o seu melhor. Guiou Natalia pela parte velha da cidade, que lhe deixou a impressão de ter sido transportada para o Oriente ou até para a Ásia. Ali ainda se viam os antigos trajes regionais, que eram utilizados especialmente pelas senhoras mais idosas, os mercados estavam repletos de todo o tipo de legumes e frutos cultivados, naquela altura, em Janeiro, em grandes estufas, e havia muita carne pendurada nos ganchos. Semipalatinsk era conhecida como o paraíso oriental da carne. Naquela cidade, ninguém parecia saber o que era fome, pelo menos era a ideia que dava à primeira vista.

 

-Têm aqui muita carne - comentou ela. o motorista soltou uma espécie de assobio.

 

- Ela está aí, é verdade... mas ninguém consegue comprá-la. Demasiado cara! Muitos compram as aparas da carne e fazem uma sopa com elas ou cozinham-nas em gulache. -A cidade parece ser rica.

 

- E era... até chegar a chamada democracia. Glasnost, o que ganhámos com isso? Perestroika... passou-nos ao lado. Os pobres ficam mais pobres, e os ricos ficam mais ricos. Já não há uma mão firme, um punho que bata na mesa. Mas os Russos precisam disso. Precisam de saber o que é preciso fazer! Quem é que ainda o sabe hoje em dia? Está tudo confuso. Naquela altura, os velhos comunistas sabotavam tudo o que havia para sabotar e, agora, os jovens de Ieltsine pedem ajuda à América, Alemanha e a outros países. Isto ainda é a nossa Rússia? E depois são os bandos, os criminosos que estão em todo o lado, até nos lugares importantes. o povo está descontente... e, na Rússia, o descontentamento é perigoso. Lembre-se do tempo dos czares.

 

Tinham chegado ao porto, o ponto de transbordo mais importante do Cazaquistão. A partir dali as barcaças pesadas navegavam pelo Irtiche através da gigantesca Sibéria, até Oinsk e Tobolsk e até à embocadura no Obi. Natalia observou, desanimada, o grande movimento no porto.

 

-Vamos agora à cidade nuclear - disse ela. o homem fingiu não ter ouvido.

 

- Aqui perto há uma cidadela em ruínas. A fortaleza dos primeiros colonos russos. Eram cossacos...

 

Natalia voltou a entrar no carro.

 

- Eu quero ir ver a cidade nuclear - repetiu ela, como uma criança teimosa. - Segundo dizem, ela fica entre isto e a cidade Karnenogorsk Oriental.

 

- Não conheço nenhuma cidade nuclear..

- Porque mente, camarada?

 

- Tenho mulher e três filhos. Além disso, o meu avô e a mãe da minha mulher vivem comigo. Tenho de os alimentar a todos.

 

-E que tem isso a ver com as centrais nucleares? -Não posso dar-me ao luxo de ficar preso dias a fio. A senhora pode? Por isso é que não conheço nenhuma cidade nuclear.

 

-Já alguma vez ouviu o nome do professor Kunzev?

- Não.

 

- o Ivan Semionovich é chefe de secção na central nuclear. Foi ele que me disse que existia um grande instituto de investigação.

 

- Então, o professor que a conduza lá, camarada. Natalia abriu a mala e tirou alguns dólares. o motorista de táxi olhou-os mas não cedeu à tentação. Abanou mais uma vez a cabeça.

 

- Essa excursão não tem preço, camarada. Já houve algumas pessoas parvas que entraram na zona proibida. Os guardas dispararam imediatamente contra elas. Um morto, quatro feridos graves. Os meus filhos devem ficar órfãos?

 

- Eu não quero entrar na zona proibida. Só quero ver de longe...

 

-Assim não vê nada. Absolutamente nada. Talvez no céu algumas nuvens de fumo brancas das chaminés, e o que ganha com isso?

 

-Em casa, em Moscovo, posso contar aos meus amigos que vi o grande segredo da Rússia! Vão ficar cheios de inveja. - Natalia pôs um ar infantil, era a sua última oportunidade de convencer o taxista.

 

- Eu vou até às placas «Proibido continuar! Perigo de vida!» - disse ele, hesitante. - E se encontrarmos uma patrulha do Exército...

 

-Eu digo o mesmo. Eles não vão prender uma mulher curiosa que está fora da zona proibida...

 

- Tudo é possível. Os soldados são muito sensíveis. o taxista pegou rapidamente nos dólares que Natalia ainda tinha na mão, pôs o motor a trabalhar e partiu na direcção sudeste.

 

Meia hora mais tarde pararam junto a uma cerca de arame farpado. Tinha dois metros de altura e bloqueava a estrada. o grande sinal de aviso estava mesmo em frente a Natalia.

 

Ela saiu do carro, foi até à cerca e olhou para a zona mortal. No meio de uma colina, erguia-se uma torre de vigia de madeira.

 

-Eles estão a ver-nos - disse ela.

- Vamos embora, camarada.

 

o taxista estava impaciente. A visão da torre de vigia apertara-lhe o coração. Não queria esperar que aparecesse uma patrulha para os interrogar.

 

- Onde é a entrada do instituto de investigação? perguntou Natalia.

 

-Na parte ocidental. -Podemos lá ir?

 

- Sim... mas não vai servir-lhe de nada. É tão isolado como aqui. Apenas uma estrada larga de cimento, duplamente bloqueada, e uma guarita do Exército. Ali só se entra com uma autorização e depois ainda é preciso andar mais dois quilómetros até se ver o primeiro edifício.

 

-Fala como se já lá tivesse estado.

 

- Uma vez. Por acaso. Encontrava-me no aeroporto; um funcionário veio ter comigo, entrou no carro e gritou: «Vamos! Leve-me ao instituto. -Estou com pressa.» E quando eu respondi: «Camarada, eu não devo lá ir!», ele berrou: «Comigo deves fazer tudo, meu palerma! Vamos ou cuspo-te no pescoço!» Era no tempo do Brejnev. E, na realidade... passámos o guarda. Que até lhe fez continência! Ainda hoje não sei quem era aquele camarada tão importante. Mas o que havia a ver? Alguns edifícíos de um ou dois andares, pessoas a circularem em batas brancas ou com fatos protectores, duas chaminés grandes e redondas... nada secreto. Apesar disso, fiquei contente quando me vi novamente do outro lado da barreira. Depressa, pensei eu. Carreguei no acelerador. Foi como se estivesse a fugir.

 

Já eram nove horas da noite quando Natalia-entrou no restaurante do hotel. Telefonara a Sybin do quarto e contara-lhe o que vira e ouvira.

 

- o convite para casa do Kunzev amanhã à noite é um bom começo! - disse ele, satisfeito. - Põe o velho tão em brasa que até deite fumo! E controla-te na cama. Nós precisamos dele impreterivelmente... Não lhe causes um ataque cardíaco!

 

-Eu sei o que tenho a fazer!

 

-Eu sei... Fala-lhe com boas maneiras.

 

- Vou conversar com versos de Pushkin. Mas a filha dele atrapalha-me.

 

-Vais conseguir aguentá-la, Esforça-te por te fazeres amiga dela. As filhas têm muitas vezes muita influência sobre os pais. Que vais fazer depois do jantar? Hoje à noite, quero eu dizer.

 

- Sei lá. Vou deixar-me surpreender.

 

Foi como se Natalia tivesse visto o futuro. Na sala de refeições olhou em volta e dirígíu-se para uma pequena mesa junto da parede. A parede estava forrada com um tecido de seda amarelo, salpicado de passarinhos vermelhos. Parecia muito chinês.

 

Três mesas antes dela, via-se um homem que já acabara a sua sopa. Estava a limpar a boca e sorriu a Natalia. E assim começou oflirt. o homem era robusto, tinha cabelo encanecido, vestia um fato azul discreto e uma gravata com
riscas azuis e vermelhas. A sua mão forte agarrou no copo de vinho, ergueu-o com o objectivo claro de brindar a Natalia.

 

Natalia voltou a cabeça e olhou friamente para outro lado. «Seu veado velho», pensou ela. «Queres ser abatido? Tens uma cara avermelhada, nas bochechas vislumbram-se pequenas veias vermelhas, arriscas-te a ter uma apoplexia. Como queres aguentar uma Natalia?»

 

o homem pousou o copo de vinho, fez sinal ao empregado, pagou e deixou o local. «Ainda bem», pensou ela. «Desistiu. Um homem sábio.»

 

Lá fora, na entrada do hotel, ele pediu o seu casaco e Stephan ajudou-o pessoalmente a vesti-lo.

 

-Ela está cá, senhor coronel - sussurrou ele. - Entrou há dez minutos no restaurante.

 

Micharin abotoou o casaco.

 

-É óbvio que a vi, seu imbecil. Amanhã mais rosas para o quarto quarenta e quatro.

 

-Não posso, senhor coronel. -Quem proíbe?

 

- Ela própria. Ficou irritada com as rosas amarelas. Então amanhã mande rosas vermelhas!

 

-Ela vai atirar o ramo pela janela.

 

- Ela que atire! Mas ao menos recebeu-as... e é disso que se trata.

 

-Como quiser, camarada coronel.

 

-Já não existem camaradas, Stephan. Agora somos cidadãos.

 

Com passos firmes, Micharin deixou o hotel. Stephan seguiu-o com o olhar até ter desaparecido por trás da porta de vidro.

 

- Idiota! - exclamou ele, a meia voz. - Também tu vais acreditar nisso um dia e desaparecer na escuridão, E nessa altura eu beberei vodca sozinho!

 

É espantoso como os porteiros são muitas vezes dotados de uma certa clarividência.

 

Na noite seguinte, Natalia tocou novamente à porta de Kunzev. Ele parecia já estar à espera, pois a porta abriu-se imediatamente.

 

-Que alegria vê-la! - exclamou Kunzev. - Entre, Natalia Petrovna, entre! Consegue cheirar o que a minha filha Nina tem no forno? Pombos! Pombos grandes e saborosos. Acompanhados de couve-roxa e batatas assadas com cebolas e cogumelos. Uma especialidade dela.

 

Natalia entrou na sala de estar e olhou para a médica Nina Ivanovna. Ela tinha um avental multicolor posto, o cabelo bem puxado para trás, dentro do possível devido ao seu corte curto, e preso com um gancho largo de osso. Examinou Natalia brevemente e os seus olhos brilharam de uma forma estranha, depois estendeu a mão direita e apertou os dedos magros de Natalia.

 

- Seja bem-vinda à casa dos Kunzev - disse ela. A sua voz soou sombria e suave, o que não correspondia ao seu ar duro. - Prazer em conhecê-la.

 

Kunzev deixou de entender o mundo. Olhou espantado para a filha, como se tivesse visto um fantasma. Esperara uma forte rejeição, um cumprimento frio e distante que o horrorizaria... e agora isto?! Vá-se lá entender as mulheres!

 

- Sente-se, Natalia Petrovna! - convidou ele, mais contente ainda, pois tivera algum receio de como correria a noite. - Gostaria de um conhaque como aperitivo? Da Crimeia. o melhor que aqui consigo encontrar. Ou quer um mautai? Sabe o que é um mautai? É uma aguardente da China. Estimula o espírito. Escolha...

 

-Vamos com calma, Ivan Semionovich. A noite ainda está a começar. - Ela olhou para os olhos brilhantes de Nina, talvez o mais bonito que ela tinha. - Teve imenso trabalho.

 

- Para um convidado bem aparecido, trabalhar é um prazer.

 

Kunzev serviu um conhaque e deu o copo a Natalia. -Brindemos à vida!

 

-Não bebe nada?

 

-Nada que seja forte. Uma cerveja, um vinho, issO posso. o meu estômago incomoda-me há vários anos. A propósito, estamos à espera de mais um convidado. Um simpático convidado.

 

-Essa é a tua opinião, pai.

 

-A Nina não gosta dele. Ele é um homem do Estado, viúvo ainda por cima, um bom partido. Ah! Aí está ele. A campainha tocou. Kunzev dirigiu-se à porta.

 

- Que prazer em ver-te! - ouviu-se. - Há três semanas que não vinhas à cidade. Três semanas é muito tempo para um amigo.

 

E depois o convidado entrou na sala, estacou de repente e ficou a olhar para Natalia. Também ela ficou perplexa, mas apenas por um segundo. Tinha um grande controlo e reagiu rapidamente.

 

O senhor? - perguntou ela, com voz arrastada.

 

- E a senhora! - Micharin precisou de mais tempo para se recompor. - Começo a acreditar em milagres, numa fada que realiza desejos secretos. - Micharin esboçou um cumprimento, muito oficial, batendo os tacões. - Chamo-me Konstantin Petrovich Micharin,

 

- Coronel do KG13 - acrescentou Nina. Era possível atingir alguém apenas com palavras.

 

Agora era a vez de Natalia manter-se calma. «Então é este o coronel Micharin. Este é o inimigo do Sybin, que eu devo neutralizar. E ele aparece-me servido de bandeja. Como na ópera Salomé... trazem-me a cabeça do Micharin. o destino não será um alcoviteiro? Estou a atingir o objectivo, vindo o objectivo ao meu encontro.»

 

-Conhecem-se? - perguntou Kunzev, surpreendido.

- Vimo-nos ontem ao jantar, no hotel. Como devo tratá-la?

 

- Natalia Petrovna.

 

-Até temos o mesmo apelido paterno... que bela coincidência! - Micharin pôs o seu charme a funcionar, convencido de que nenhuma mulher conseguia resistir-lhe. Dê-me a sua mão. Quero beijá-la.

 

-Nós somos comunistas, coronel, e não franceses decadentes.

 

- Nós encarnamos uma nova Rússia... e a Rússia continua a gostar da cultura francesa. Todas as famílias ilustres se permitem um preceptor francês.

 

-Isso era no tempo dos czares.

 

- E o Ieltsine não reina como um czar? - Cumprimentou primeiro Nina Ivanovna, acenando com a cabeça. Ela adquirira uma expressão dura, e o seu olhar era devastador. Cheira muito bem na cozinha...

 

- Pombos recheados com folhas de rosmaninho e fígados tenros - disse Kunzev. Ele vira o olhar desagradável. Sentemo-nos, caros convidados. Konstantin, já sei que gostas sempre de um mautai.

 

-Eu bebo tudo o que estimule o sangue. - Micharin olhou para Natalia e sorriu-lhe. E (o coração de Micharin começou a bater mais depressa) ela fez-lhe um sorriso contido. «Hoje à noite ainda vais pensar.. amanhã de manhã vais derreter-te nas minhas mãos.»

 

Foi uma noite agradável, muito ao gosto do professor Kunzev, boa comida, um excelente vinho, harmonia à mesa, um Micharin quase pueril que contou as anedotas da sua juventude e do KG13, que fizeram Natalia rir, e várias vezes, muitas vezes, Kunzev olhou para Natalia e maravilhou-se em silêncio. Aquele rosto com os olhos pretos, rasgados e as maçãs do rosto salientes, aquele pescoço de cisne, aqueles ombros e aqueles seios que se adivinhavam através da blusa fina, o corpo magro e as longas pernas... a Natureza não encanta apenas com flores, mas também com pessoas. Para ele, Natalia era uma filha do Sol.

 

Ficou visivelmente triste quando Natalia olhou para o relógio e disse:

 

- oh, já meia-noite. Professor Kunzev, não deveria ter ficado até tão tarde.

 

- Está a ser tão agradável. - Kunzev olhou para Natalia, suplicante. - A despedida é como um corte que separa tudo.

 

- Eu também tenho de deixar esta casa tão hospitaleira - disse Micharin. - Estou cá em serviço e amanhã tenho muito que fazer. - Ele afastou a cadeira e levantou-se. Depois agarrou a mão de Natalia e ergueu-a. Nina comprimiu os lábios. - Natalia Petrovna, posso conduzi-la no meu carro até ao hotel?

 

-Uma boa ideia. - Kunzev era muito ingénuo. Micharin era seu amigo, o que seria da amizade sem confiança? - Lá fora está a chover. A potes. Agradeço-lhe muito, Konstantin.

 

A despedida foi breve. Mícharin correu para o automóvel para abrir a porta a Natalia, Kunzev foi buscar um chapéu-de-chuva e Nina aproveitou esse momento para se despedir de Natalia.

 

- Foi um prazer conhecê-la - proferiu ela, baixinho. Gostava de a ver mais vezes nos próximos dias. - Abraçou Natalia, apertou-a contra si e deu-lhe um beijo. Mas não foi un beijo vulgar.. A sua língua brincou com os lábios de Natalia, abriu-os, penetrou na sua boca e tocou-lhe no céu da boca. Soltou um gemido e roçou o seu corpo nas ancas de Natalia.

 

Natalia suportou aquilo, empedernida. «Meu Deus», pensou, «ela é lésbica, A Nina Ivanovna, a ilustre médica, é lésbica. Apaixonou-se por mim, à primeira vista, quando me viu. E eu não reparei em nada. Mas também, quem é que pensa numa coisa destas?! Como devo reagir agora?» E, de repente, soube que a sorte lhe oferecera mais um presente: aquilo que Kunzev não lhe contasse, ela saberia através de Nina. Só precisava de ser simpática para com ela. «Mas será que sou capaz? Serei capaz de estar na cama com uma mulher como estou com um homem? Serei capaz de me entregar às mãos e aos lábios de uma mulher, de me deixar possuir por ela? Suportarei que o corpo de uma mulher se roce em mim como uma serpente fogosa?»

 

Libertou-se do abraço de Nina.

 

- Sim, podemos ver-nos. Quando quiseres, onde quiseres... e como quiseres - disse ela, calmamente.

 

- Agradeço-te, Natalia Petrovna. - Nina afastou-se. Micharin voltou a correr. A água escorria-lhe do cabelo.

- o que se passa? - exclamou ele. - Estou encharcado até aos ossos.

 

-Vou já!

 

Desatou a correr, entrou para o carro e fechou a porta. Ainda viu o professor Kunzev a aparecer à porta de casa com um guarda-chuva. «Tarde de mais, professor. Mas a tua ausência abriu-me outros caminhos. Agora vou saber por três pessoas aquilo que o Sybin quer. Ele vai ficar contente.»

 

Micharin conduziu devagar debaixo da chuva torrencial. De vez em quando olhava para Natalia, mas não dizia nada. -Também está alojado no hotel, coronel Micharin? -

 

perguntou ela e pousou, como que casualmente, a mão na sua perna.

 

o ataque começara.

 

- Não. - Micharin parou o carro. Agarrou na mão de Natalia, ergueu-a e beijou-a. - Tenho uma casa de serviço.

- Vigiada?

 

- A mim ninguém me vigia. - Apertou a mão de Natalia. - Alguém lhe enviou flores.

 

-Sabe disso?

 

- Eu sei tudo o que acontece aqui. Especialmente isso... Natalia respirou fundo.

 

- Foi o senhor, coronel?!

- Sim.

 

Vitória! Vitória! Ela bem podia poupar-se aos preliminares. Natalia recostou-se. A sua saia subiu até às coxas.

- Porquê, coronel? - perguntou ela. Fingir-se surpresa era coisa fácil.

 

- Eu admiro-a, Natalia Petrovna. Vi-a pela primeira vez na rua, passei por si de carro e tive o desejo maluco de parar e correr atrás de si.

 

- E porque não o fez? -Não tive coragem.

 

- o senhor, sem coragem. Isso é possível?

 

- Depois encontrámo-nos no hotel, ao jantar. Brindei a si... Virou-se bruscamente.

 

-Ninguém me faz sinais com um copo de vinho. Não sou uma mulher dessas. Não me deixo conquistar com un] olhar.

 

- E também não com ramos de rosas! Que devo fazer, Natalia Petrovna? Dê-me um conselho. Tenha compaixão...

 

- Se o senhor é uma pessoa com uma vontade de ferro, beije-me agora.

 

-Um bom conselho!

 

Micharin puxou Natalia para si e beijou-a. Foi um beijo selvagem, um abraço, uma ânsia vibrante. E, de repente, Natalia estava sentada no colo de Micharin.

 

- Quero estar contigo - arquejou ela, ao seu ouvido. Agora! Já! Com esta chuva ninguém nos vê. - Mexeu-lhe nas calças, mas Micharin parou-lhe a mão.

 

-Aqui não, aqui não... - suspirou ele.

 

- No hotel não podemos... toda a gente nos vê... Procurou o fecho de correr das calças e abriu-o. Na sua mão tacteante, sentiu a sua excitação, a sua forte masculinidade. Quero estar contigo! - gritou ela, enquanto pensava: «És igual a todos os outros. Odeio-te! Nada, não sinto nada... a minha alma está longe.» - Despe-te!

 

-Aqui não - repetiu Micharin. Parecia que estava a ser torturado. - Vamos até minha casa...

 

Ligou o motor, dispararam sob a chuva torrencial, viraram numa rua de cimento... e Natalia ficou paralisada. Uma grande guarita, três cancelas, arame farpado à esquerda e à direita, soldados muito direitos e a fazer a continência, um enorme complexo de edifícios bem iluminados por projectores de halogéneo, chaminés grossas.

 

Natalia pousou a cabeça no ombro de Micharin e beijou-lhe o pescoço.

 

«Obrigada, obrigada. Quase que te adoro, Konstantin Petrovich Micharin.

 

Estou no coração do segredo da Rússia! Consegui tudo, tudo... »

 

A manhã seguinte foi para Micharin um duplo martírio. Por um lado, a noite anterior custara-lhe muito das suas forças. Em toda a sua vida abençoada com mulheres nunca ficara sem fôlego quando um passarinho chilreava nos seus braços. Sempre lhe acontecera as mulheres jazerem esgotadas na sua cama e dizerem-lhe: «Que touro!»

 

Desta vez fora totalmente diferente. o êxtase de Natalia excitara-o de tal modo que só de manhã conseguira adormecer, mais até em resultado do atordoamento. E quando acordou, e Natalia se voltou a deitar sobre ele, insaciável e sem sinais de cansaço, teve de empregar todas as suas forças para a acompanhar. A cabeça ardia-lhe, os músculos das pernas tremiam e sentiu o coração a ser comprimido. Na casa de banho, Natalia tomava duche, fresca e bem-disposta, e cantava uma cantiga alegre sobre o monge Pimen, que ia às mulheres secretamente.

 

Por outro lado, o que o preocupava era a sua prevaricação. Trazer Natalia para o instituto de investigação era uma falta que ele nunca poderia justificar. Tornara o impossível realidade: um estranho vira as instalações mais secretas da investigação nuclear militar. Isso pesava-lhe na alma, e não era desculpa o facto de um homem, em determinadas situações, já não pensar com a cabeça, mas sim com o baixo-ventre.

 

«É preciso oficializar a situação», pensou Micharin, refugiando-se na mentira. «Vou apresentar a Natalia como uma representante de uma comissão que vem inspeccionar a central. Uma alta camarada de Moscovo, uma física conhecida, uma sábia.» Só assim conseguiria explicar a sua presença, e as pessoas iam acreditar nisso porque, de vez em quando, apareciam comissários verdadeiros para passar revista àquela obra exemplar. E Micharin sempre os acompanhara.

 

Naqueles dias, Natalia viu mais do que alguma vez esperara. Micharin e o professor Kunzev, que estava muito orgulhoso por mostrar o seu centro de investigação, fizeram-lhe uma visita guiada. Ela viu os laboratórios e as zonas de experiências por trás das paredes de vidro, vestiu o fato de protecção contra as radiações e o capacete hermético e observou o santuário, o reactor nuclear, onde era produzido o plutónio a partir das varetas combustíveis de urânio, e Micharin e Kunzev excediam-se a explicar-lhe tudo. o coronel estava tão conversador que lhe contou um segredo... o que poderia uma mulher daquelas fazer com aquilo, uma mulher que só sabia de sexo?

 

- Não vais acreditar - declarou ele, cheio de orgulho nacional -, mas é verdade. Nós temos aqui tanto plutónio e lítio armazenado que podíamos mandar o mundo inteiro pelos ares de uma só vez. E, depois, vem uma besta como o Ieltsine e quer reduzir ao mínimo a produção nuclear. Nesta altura, já somos os mais fortes de todos os países. Mas esta política servil vai ter consequências! o Ieltsine vai senti-las! Ainda existem homens corajosos que o vão escorraçar. E nessa altura o mundo vai tremer..

Naqueles dias, Natalia ficou a saber tudo o que Sybin queria. Com Kunzev ela não dormiu, pois tinha pena dele. Se ele, que receava tudo, fosse despedido, se ele tivesse de renunciar ao seu instituto militar, não havia mais nada à sua frente. Isso já ele lhe confessara. E, uma tarde, contou a Natalia tudo sobre o plano de Micharin de traficar plutónio para ganhar muito dinheiro. Foi como que uma confissão.

 

Fá-lo, Ivan Semionovich. Fá-lo. Vinga-te dos ingratos. Não tenhas mais escrúpulos quando todos vivem da corrupção. Se podes fornecer plutónio... - disse Natalia.

 

- Posso! - Kunzev olhou tristemente para ela. - Ao que eu cheguei! Mas eu quero viver, viver, mesmo que seja só mais uns anos. Quando estiver debaixo de terra, podem amaldiçoar-me, pois nessa altura já não ouço.

 

Natalia dormiu todas as noites com Micharin. Ele reagia como um cavalo bem domesticado e contava mais do que devia. Uma vez até dissera:

 

- Amo-te verdadeiramente, Nataliazinha. Não queres casar?

 

E ela respondera a rir:

 

- Consegues imaginar-me como uma senhora casada? Não sobrevivias a isso.

 

- Dentro de uns dias voltas para Moscovo. Quando te volto a ver? Vais a Tomsk? Ou devo ir eu a Moscovo? Tenho de te ver novamente.

 

- As próximas semanas logo o dirão, coronel. - Ela tratava-o sempre por coronel e ele já se habituara. Natalia não estava preparada para nomes carinhosos. - Eu... eu espero voltar a ver-te rapidamente.

 

E Micharin contentou-se com isso.

 

A situação com Nina Ivanovna Kunzeva, a médica, já foi diferente. No fim das visitas ao seu pai, puxava Natalia contra si, acariciava-a furtivamente, roçava-se, enrolava uma perna numa das suas coxas e afagava as suas nádegas. Natalia deixava-a fazer tudo.

 

Uma tarde, Nina apareceu de repente no quarto de Natalia, no hotel, e precipitou-se sobre ela como se fosse uma fera agressiva. Cobriu-lhe o rosto, o pescoço e os ombros de beijos selvagens, abriu-lhe a blusa e enterrou a cara entre os seios grandes e perfumados a água de rosas. Depois, Nina despiu-se com as mãos a tremer e atirou-se nua para cima da cama. Tinha um corpo mais bonito do que Natalia imaginara.

 

-Anda... - arquejou ela. - Se não, desato a gritar... Pela primeira vez, Natalia entregou-se a uma mulher, Também desta vez não sentiu nada quando Nina tremia em êxtase, estremecia, se empinava e virava na cama. Manteve-se calma, deixou-a fazer tudo e apenas se admirou de não sentir repugnância. Depois, também isso acabou, Nina fumou um cigarro e bebeu uma garrafa inteira de água mineral.

 

A partir daí Nina vinha ao hotel todas as tardes e gritava o seu prazer. E depois contava, contava e voltava a contar, e Natalia ficou a saber o que ainda não sabia. De forma tão nua quanto Nina ali jazia, revelou todos os planos de Kunzev e Micharin. A missão de Natalia estava concluída.

 

Um dia de manhã, Natalia voltou para Moscovo, fazendo escala em Alma-Ata, a capital do Cazaquistão. Todos três, Kunzev, Micharin e Nina, foram ao aeroporto e acenaram a Natalia. Ela acenou de volta antes de entrar no avião. «Adieu! Nós nunca nos voltaremos a ver. A partir daqui, é tudo da responsabilidade do Sybin. Foram uns belos dias em Semipalatinsk. Aprendi como é que as lésbicas se arriam. o resto, com Micharin... rotina.»

 

Sybin foi buscar Natalia ao aeroporto, em Moscovo. Beijou-a três vezes nas faces.

 

- Finalmente voltaste, bacorazinha! - saudou, carinhosamente, enquanto entravam no carro. Era um Jaguar, doze cilindros, preto-metalizado, com estofos de couro cinzento-claros; em frente ao banco traseiro estava montado um televisor e um bar de abrir.

 

-Novo! - exclamou Natalia e acariciou os estofos de couro.

 

- Chegou há três dias. - Sybin sorriu-lhe orgulhosamente. - Os negócios vão bem. o que se pode querer mais?

 

Negócios... Consistiam na extorsão de dinheiro para protecção e no tráfico de seres humanos. Raparigas bonitas que eram enviadas para o Ocidente para animar os bordéis. Tinham-lhes dito que iam trabalhar como aias de crianças, empregadas domésticas e enfermeiras. Não suspeitavam do seu futuro como prostitutas.

 

Na casa da cidade de Sybin, que também possuía uma datcha no campo a sul da conhecida zona de mosteiros de Sagorsk, Igor Germanovich abriu uma garrafa de Roederer Brut Cristal, a bebida preferida de Natalia, para comemorar o seu regresso.

 

-Estás cansada? - perguntou ele. -Não. Dormi durante o voo. -Então, conta lá...

 

Natalia bebeu um grande gole e abriu quatro botões do seu vestido. Estava calor em Moscovo. Um dia quente de Maio, como da primeira vez em que Sybin se lhe dirigira, no banco, na margem do Moscova. Tinham passado já dois anos...

 

- Sei tudo - disse ela. O que significa tudo?

 

- Todos os planos do Micharin. o professor Kunzev tem tudo pronto. E se o Micharin quiser, pode enviar já amanhã. Plutónio duzentos e trinta e nove, lítio seis, urânio duzentos e trinta e cinco... tudo o que for pedido. Qualquer quantidade, existe de tudo. Só há uma coisa que os impede de começar já.

 

1 Casa de campo ou de Verão russa. (N. da T)

 

- Ainda não têm nenhum comprador...

 

- Exactamente, Igor Germanovich, mas ele está a apalpar terreno. Na Líbia, no Iraque, na África negra, na América Central. Até grupos de rebeldes podem interessar-se.

- Exactamente os nossos clientes!

 

- Mas o Micharin ainda não está tão avançado.

 

- Isso significa que temos de começar imediatamente a vender antes que ele consiga um contacto definitivo. - Sybin calou-se um momento, para meditar. Em silêncio, bebeu dois copos de champanhe, brincou com os seus anéis, com os olhos semicerrados. - Há uma possibilidade - disse ele, por fim -, vou chamar a atenção dos nossos amigos de Tomsk para Micharin.

 

Natalia sabia o que esta frase significava. Pousou novamente o copo na mesa.

 

-Deixa o Micharin viver.. por favor.

 

-Não é possível gerir os nossos negócios com sentimentos.

 

- Eu não tenho sentimentos.

 

- Eu sei, bacorazinha. - Sybin brindou a Natalia, um adulador diabólico. - Vou informar o doutor Sendlinger. Podemos começar. Vou até Semipalatinsk falar com o professor Kunzev.

 

-A filha dele, Nina, também é importante. -Ele tem uma filha? Não há problema.

 

Natalia comprimiu os lábios. Sybin e Nina na cama... talvez no dia de São Nunca à tarde.

 

- Se conseguires, és um mago, Igor Germanovich... E Natalia contou tudo o que lhe acontecera naqueles dias.

 

Não escondeu nada. Sybin era uma pessoa que recebia tudo, como uma conduta de lixo.

 

No fim de Maio, uns pescadores, que puxavam as suas redes com o seu barco no Obi, descobriram um vulto na margem. Aproximaram-se e viram pelo seu uniforme que se tratava de um coronel, deitado de costas, como se dormisse. -Olá! - chamaram os pescadores. - Olá!

 

Mas o coronel não se mexeu. Os pescadores reflectiram, aproximaram-se da margem e observaram o dorminhoco.

 

-Completamente bêbedo! - comentou um deles.

 

- Mas como é que ele chegou até aqui? E está a dormir na margem?

 

- Sei lá eu! - o pescador apontou para a estrada ao longo da margem. - Está ali um carro. Ele conseguiu chegar até aqui, quis urinar, caiu e adormeceu. Deve ter sido isso.

 

o segundo pescador inclinou-se sobre o oficial e olhou para os olhos arregalados e sem vida e, de repente, recuou dois passos.

 

- Germadi, ele está morto! Diabos, ele está morto! Mais morto é impossível.

 

- Embebedou-se até à morte... - Germadi coçou a cabeça. - Vamos telefonar à milícia... Não podemos simplesmente fugir.

 

No Instituto de Medicina Legal da Universidade de Tomsk, foi realizada uma autópsia exaustiva ao conhecido coronel Micharin. Não havia lesões, não havia marcas de -violência, nem de acções externas. Apenas o coração não estava bem, algumas artérias coronárias estavam esclerosadas. Devia ter sido essa a causa da morte rápida, apesar de o coração ter outro aspecto após um enfarte.

 

Nenhum dos patologistas se lembrou de analisar o sangue de Micharin. Assim, manteve-se em segredo que dois homens o tinham agarrado e injectado nele uma substância tóxica, que actuou no espaço de três minutos. Os assassinos levaram o morto no seu próprio carro até ao rio Obi e deitaram-no na margem.

 

o coronel Micharin foi enterrado com todas as honras militares. Na sua última caminhada foi escoltado só por oficiais... Não houve nenhum cortejo fúnebre, nem ninguém que chorasse por ele. Apenas o seu cão Pravda se sentou, mais tarde, na sua campa e esperou que o seu dono reaparecesse.

 

Sybin telefonou de Moscovo para o Dr. Sendlinger.

- Vamos começar, doutor - anunciou ele, alegremente. - Avise os nossos clientes. Já podemos fornecer.

 

Na manhã seguinte, voou para Semipalatinsk.

 

A VIAGEM DE NEGóCIOS

Estava satisfeito com o seu esconderijo.

 

o quarto bastante grande situava-se num oitavo andar de um edifício moderno, onde também estavam instalados outros consultórios médicos, uma empresa imobiliária, dois consultores fiscais, um armazém de venda por atacado de medicamentos e três advogados. o inspector-geral Wallner do Departamento de Investigação Criminal trouxera Freddy Brockler para o escritório do Dr. Fritz Boehmer, uma decisão única até ao momento, que o próprio presidente do DIC tivera de aprovar e assumir a responsabilidade. Wallner dissera-lhe que, em caso de divulgação da situação e de uma possível ameaça do submundo («veja o caso do Londricky»), seria preferível um esconderijo privado sob guarda oficial. Em caso algum se deviam correr riscos... As informações a que Brockler aludira eram muito importantes e poderiam talvez trazer alguma luz sobre o desenvolvimento do comércio de material nuclear.

 

Assim, uma das salas de reunião do escritório de Bochmer foi transformada, a toda a velocidade, num aposento. Colocou-se um sofá-cama, duas poltronas e uma mesinha e, dado que a casa de banho com lavatório se situava mesmo ao lado, só restava isolar aquela parte do escritório, para evitar a fuga de Brockler.

 

Freddy, porém, não pensava em fugir. Fugir para onde, perguntava ele, constantemente. Desaparecer... para onde? As fronteiras alemãs estavam fechadas para ele, e conseguir um passaporte falso não era viável, pois não conhecia ninguém que fizesse ou vendesse essas falsificações. Fora, realmente, até então, um motorista de longo curso íntegro, honesto (apesar de algumas falsificações do registo de viagem do seu camião quando conduzia mais de oito horas, mas isso faziam muitos motoristas), e também tivera a intenção de se manter sempre íntegro, até a tentação ter ido ao seu encontro, em Moscovo, sob a forma de um major Pujachev. Um dia que ele hoje amaldiçoava e, de preferência, gostaria de esquecer. Era por isso que estava pronto a confessar o que sabia, e que era muito pouco.

 

No dia seguinte, Wallner encontrou-se com ele no esconderijo. Trouxe o comissário Berger e um secretário, para gravar a conversa numa fita magnética.

 

Brockler tinha dormido mal e pensado muito na sua noiva Elfie, que agora estava sozinha na cama e não sabia o que lhe acontecera. Dez minutos depois de Freddy a ter deixado para fugir, dois agentes da Judiciária tinham entrado na casa e quase a haviam deitado abaixo. Quando Elfriede perguntara o que se passava, recebera apenas a resposta brusca: «Vista-se! A senhora vem connosco!» E depois tinham-na interrogado durante toda a noite, perguntando-lhe constantemente O que sabe sobre plutónio?» E ela respondera, na sua ignorância e ingenuidade: O que é plutónio? Um novo detergente?» A Polícia encarara aquela resposta [ como uma insolência provocadora, e detivera Elfriede como possível «cúmplice».

 

Naturalmente que Brockler não sabia disto quando passara a noite a pensar em Elfriede. Às nove horas da manhã, o próprio Dr. Boelmier apareceu no quarto e trouxe-lhe uma cafeteira de café e dois pães do dia, um com fiambre e outro com queijo Edam. Brockler tinha-se lavado na casa de banho ao lado e acomodara-se no sofá-cama, aborrecido e sem conseguir dormir.

 

o Dr. Boehmer sentou-se numa das poltronas à sua frente e estendeu-lhe um maço de cigarros por cima da mesa. Brockler preferiu beber, primeiro, uma chávena de café.

 

- o meu amigo Wallner disse-me que o senhor traz contrabando de material nuclear - começou o Dr. Boehrner.

 

-Não é bem assim. - Brockler pegou no pão com fiambre. Tinha sido mesmo acabado de fazer e estalava entre os dentes a cada dentada. - Foi a primeira vez que o fiz. Uma vez e nunca mais.

 

- Também não vai ter oportunidade para tal nos próximos anos. o que pensou quando o fez?

 

- Nada.

 

- Não pensou que podia estar a contribuir para a morte de milhares de pessoas? Que estava a contaminar pessoas com radiações ou a provocar a sua morte por cancro, se inalassem o pó do plutónio? o senhor não é assim tão estúpido.

 

- Em Moscovo ninguém me disse que era plutónio. -Não lê jornais?

 

- Leio. Mas primeiro a parte desportiva e, de vez em quando, a parte referente ao que fazem os políticos de Bona. Depois chateio-me com o que fazem com o dinheiro dos nossos impostos. Os deputados do Parlamento viajam duas semanas para o Bali para estudar instalações de irrigação. Pois é, com que então vamos para o Bali?! Também pode ser para a Arábia... Em todo o caso, estão a viajar.. e nós, os contribuintes, pagamos para isso.

 

Nesse momento, o inspector-geral Wallner, o comissário Berger e o secretário entraram no quarto. Wallner cumprimentou Brockler com um aperto de mão e até lhe trouxe uma fatia de bolo, um doce que tinha a forma de um oito, recheado com creme de baunilha. Na sua juventude, Brockler conseguia comer cinco fatias daquilo.

 

o Dr. Boehmer saiu do quarto, o secretário montou o seu gravador.

 

- Coma o seu pequeno-almoço com calma, senhor Brockler - disse Wallner amigavelmente. Era a sua velha táctica para inspirar confiança e simpatia. - Como passou a noite?

 

- Como deve imaginar, senhor inspector-geral. -Cama estranha, isolada...

 

- Não foi isso. - Brockler bebeu a sua chávena de café. - Tenho-me censurado. Fui uma besta...

 

-Isso é dizer pouco.

 

- Eu sei. Na sua opinião, cometi uma infracção grave.

- Também não pretendo encarar as coisas dessa maneira. Eu considero que o senhor foi arrastado para isto, contrariado.

 

- Exactamente.

 

- Isso dizem todos - intrometeu-se o comissário Berner. Walner olhou-o reprovadoramente. Mas Brockler endireitou-se devagar.

 

- Bem, nós temos alguma experiência de traficantes. de material nuclear.

 

-Mas eu nunca ouvi falar ou li nada sobre isso. -É um tipo de criminalidade que tratamos com muita discrição em termos públicos. Os processos até agora foram localizados à porta fechada. - Walner recostou-se e acenou com a cabeça; era esse o sinal para o secretário ligar o gravador. - Queria contar-me umas coisas sobre um major PuiRchev do KG13, um professor Poltchov e sobre a central nuclear de Tomsk.

 

- Decorou bem, senhor inspector-geral.

 

- Estava um gravador ligado. - Wallner sorriu a Brockler.

 

Não devia ter-me pedido autorização primeiro?

 

Em casos excepcionais como o seu, utilizo todos os meios. Para mim não se aplica o princípio «A privacidade da pessoa é inviolável»! Agora, já vê o gravador como um auxiliar de registo. Portanto... o que aconteceu na Rússia? Brockler respirou fundo. Quando se lembrava daquele dia em Moscovo, uns arrepios percorriam o seu corpo como se o seu sangue fosse ácido carbónico.

 

- A minha missão era ir buscar porcelana à fábrica esatal, em Moscovo. Reproduções das porcelanas do czar. Fiz isso três vezes, conheço bem o caminho. E também o chefe do serviço de expedição. Um homem simpático, tem quatro filhos e...

 

- Irrelevante! - Walner fez um gesto com a mão. que aconteceu em Moscovo?

 

- Devo ter sido observado.

 

- Porque é que suspeita disso?

 

-Eu fiquei, como sempre, no Hotel Kosmos, na Rua Mira, um bloco enorme com mil setecentos e sessenta quartos. E um átrio de entrada... A pessoa até se perde! E fui interpelado por um homem no bar. Sabia falar bem alemão e estava muito bem arranjado. Quer dizer, tinha um bom fato, a cabeça rapada e uma camisa branca com uma gravata moderna.

 

- o professor PoItchov... - opinou Wallner. -Não, um tal Vitali Igorovich Pujachev... O major do KGB?

 

- Sim. Mas na altura eu não sabia isso. Como poderia saber? Ele sentou-se ao meu lado ao balcão, perguntou de onde eu era, como me chamava, se era casado, etc. Só agora, olhando para trás, me apercebo de que aquilo foi um interrogatório muito requintado. E depois disse: «Quanto é que ganha, caro amigo?» E eu respondi: «Isso depende do tempo que estou na estrada. Mas, normalmente, entre quatro e cinco mil por mês.» E esse Pujachev perguntou: «Gostaria de ganhar cinquenta mil de uma só vez?» Quase caí da cadeira!

 

- Eu também gostaria de ganhar cinquenta mil de uma só vez! - comentou Wallner, sarcasticamente. - Um polícia alemão tem de trabalhar muito tempo para isso. E depois?

 

- Eu repliquei: «Senhor Pujachev, isso só pode ser alguma coisa duvidosa, contra a lei!» E ele respondeu: «Trata-se apenas de um pequeno negócio, nada de inquietante. Obviamente que é ilegal, mas seja sincero, caro amigo, hoje em dia onde é que se consegue negociar em grande honestamente? Em todo o lado só existe corrupção, vigarice. Isto é praticamente a base para se ficar rico.» Ele até tinha alguma razão, reflecti eu. Quando penso nisso, que tudo é possível na nossa profissão de motoristas de longo curso... Vai-se buscar placas de mármore a Carrara e atrás das placas ficam caixotes de antiguidades. Ninguém na fronteira nos vai pedir para desviar as placas e utilizar, para isso, um guindaste, E isso ainda é inofensivo, quando se sabe como é que as coisas são feitas com «carne fresca»... Mas isso não é para aqui chamado. - Brockler olhou para Wallner suplicante. Foi só um comentário, senhor inspector-geral.

 

- Também não é da minha competência. - Wallner sorriu abertamente. Gostava de Brockler. Um tipo simpático, mas infelizmente estava bem metido num crime muito sério. Foi, então, em Moscovo que aceitou?

 

- Não imediatamente. Tinha dois dias de estada e disse ao senhor Pujachev: «Vou pensar nisso. Qual é a encomenda?» E o homem respondeu: «Só tem de levar uma pequena caixa... numa das caixas de porcelana de trás!» Olá, aí percebi, de repente, que aquele encontro não fora um acaso, mas que tinham andado a vigiar-me. Já andavam atrás de mim. «Que tipo de caixa?», perguntei eu. «Alguma arma? Isso não!» Resposta: «Para armas são precisos caixotes. Isto é uma caixinha de metal com uma cobertura de chumbo. Lá dentro estão vinte gramas, mais nada. Para transportar esta amostra pagamos-lhe dois mil marcos, Se regressar a Moscovo e levar um quilograma, garantimos-lhe os cinquenta mil! Como vê, é muito fácil ganhar dinheiro.»

 

- Aquilo não lhe disse nada, Brockler?

 

- Não. Mas é óbvio que perguntei que vinte gramas eram aqueles. E Pujachev respondeu: «É material científico de um laboratório russo, que não pode cair nas mãos erradas cuja exportação é proibida. Daí o transporte ilegal. Desde o tempo de Gorbachev que muita coisa mudou na Rússia.

 

Queremos vender ciência, e você transporta-a. É tudo.» Mais uma vez, havia ali alguma verdade. Sempre que vinha à Rússia, espantava-me. Os carros de luxo à frente dos hotéis dos restaurantes... cada vez mais, Os milionários cresciam como cogumelos. E para mim era óbvio que se tratava, na maior parte das vezes, de bandidos! Agora, brincavam alegremente aos índios e cowboys. E depois pensei: «Queres casar com a Elfriede, queres ter uma bela casa... para isso os cinquenta mil são já um bom começo. Ninguém sabe disto, ninguémm vai inspeccionar-te na fronteira, se nos documentos estiver registada a porcelana... esta é a tua oportunidade única na vida.» Todos pensariam a mesma coisa, senhor inspector-geral.

 

-Nem todos, eu não o faria, por exemplo.

 

- Por causa da sua profissão, senhor inspector-geral. Brockler olhou para Wallner, cordialmente. - Mas no fundo, onde ninguém nos vê e ouve, todos pensariam: «Diachos, ganhar um monte de dinheiro sem fazer nada, tenho de agarrar isto.»

 

- Quem pensa isso não calcula bem os riscos. Os seus ansiados cinquenta mil marcos vão valer-lhe três anos de cadeia. Foi um mau negócio.

 

- Ninguém pensa nisso.

 

- Bom, continuando... Esse Pujachev deu-lhe a caixa com o plutónio... - Wallner esperou que Brockler acendesse um cigarro e começasse a fumá-lo. - Como foi?

 

-Não, não foi assim tão rápido. o Pujachev só voltou ao Hotel Kosmos dois dias mais tarde, acompanhado por um homem baixo e gordo. Tinha uns óculos de ouro e eu comentei comigo próprio que aquilo tinha de ser alguma coisa muito importante, de outra forma como é que ele conseguiria comprar óculos de ouro?! o Pujachev apresentou-me o professor Poltchov. Mas nessa altura eu já sabia quem era o Pujachev. o empregado do bar tinha-me contado. «Qual é a sua jogada com o major?», perguntara ele. «Tenha cuidado, meu senhor, ele é um major do KGB. Muita coisa mudou aqui, podemos dizer coisas que dantes nos levavam directamente à cave do KGB, mas, apesar disso, não queremos ter nada a ver com pessoas como o Pujachev.» Eu tornei-me cauteloso. KGB... o que têm eles a ver com comércio ilegal? Quais eram os planos deles para mim?

 

-Nessa altura devia ter desistido - interrompeu Wallner - Com tantas considerações...

 

- Cinquenta mil marcos, senhor inspector-geral! Brockler sorriu, embaraçado. - Eles foram mais fortes do que tudo o resto. - Respirou fundo e fumou o cigarro. Esse professor Pultchov disse que era cientista nuclear nun instituto de investigação de Moscovo. Trazia uma maleta, onde se encontrava a caixinha de aço. Uma coisa pesada... mas isso já sabem. «Tenha atenção a que o recipiente não seja aberto», disse-me o professor. «Tem uma substância muito tóxica. E nada de acidentes na estrada... Se a caixa ficar danificada... as consequências são imprevisíveis.»

 

- E mesmo assim concordou?

 

- Cinquenta mil marcos, senhor inspector-geral... Brockler limpou os olhos, reconhecendo em seguida que a cobiça lhe turvara a razão. - Deixei-me levar pelos números. Na presença do major, escondi a maldita caixa num dos caixotes de porcelana que estavam mais atrás, bem acondicionada em palha de madeira. Assim não lhe acontecia nada, mesmo que o camião se voltasse em caso de acidente. E pronto, fui-me embora. Em Colónia, apanharam-me. Ainda gostava de saber como. Como é que a Polícia Judiciária de Colónia sabia que eu trazia a caixa?

 

-Meu caro Brockler, esse é um segredo da Polícia. Wallner piscou-lhe um olho. - Nós não somos parvos, como os criminosos acham. - E depois fez a pergunta que mais lhes interessava. - Onde é que devia entregar o plutónio?

 

- Em Paris...

 

-Em Paris?! - Wallner esperara qualquer resposta, menos aquela. - Como, Paris?

 

-Isso tem de perguntar ao major Pujachev. Eu devia receber os dois mil marcos em Paris... Imagino que fosse uma espécie de teste, para ver se eu realmente entregava a caixa. Na próxima encomenda vinham então...

- Os cinquenta mil por um quilograma de plutónio. Sabe quanto é que, hoje em dia, se paga no mercado por um quilograma de plutónio pronto a ser utilizado em armas? Sessenta e dois milhões e meio de dólares.

 

Brockler calou-se, visivelmente perturbado. Ele nem conseguia imaginar quanto aquilo era. Por uns míseros cinquenta mil marcos, devia ter transportado sessenta e dois milhões e meio de dólares? «Intrujaram-me bem», pensou ele. «Ali dentro deviam estar, no mínimo, duzentos mil marcos. Ou mais... e a Elfriede e eu nunca mais teríamos preocupações. Até teria conseguido comprar uma casa nossa. Éóbvio que este major queria enganar-me.»

 

- E qual era a combinação em Paris? - perguntou Wallner, mais uma vez. - Onde é que entregava a caixa?

 

-Num tal Hotel Oriente.

 

- Muito engenhoso. - Wallner não resistiu a ser irónico. Se o comprador fosse de um dos países islâmicos, o Oriente era decididamente macabro. - Estava combinada uma data?

 

-Não. Eu devia receber um telefonema de Paris na minha casa, em Colónia. Depois pegava no meu carro privado e partia para Paris. Alguém estaria à minha espera no hotel. -E depois?

 

-Mais nada.

 

Wallner deu por terminado o interrogatório pouco tempo depois. Brockler não sabia mais nada. Era interessante o caminho por França, um caminho muito lógico: Paris como ponto de escala, depois para Marselha, o grande porto francês, daí atravessava-se o Mediterrâneo para os países islâmicos, por exemplo, para a Líbia. Ou continuava-se até alguns ditadores africanos que queriam poder nuclear. A única coisa espantosa era o tráfico ser realizado através da Alemanha... Para isso o DIC e o SI, em Bona, ainda não tinham encontrado uma resposta lógica. Porquê um desvio tão grande?

 

- Amanhã virão buscá-lo, Brockler - disse Wallner. Vão levá-lo para o estabelecimento penitenciário de Bruclisal sob o nome de Peter Hellmann. Ninguém sabe o seu nome verdadeiro, para além do director do estabelecimento. Tenha bem em atenção que a partir de amanhã se chama Peter Hellmann. Isso garante a sua segurança. Entendido?

 

-Tenho outra escolha, senhor inspector-geral? -Não. - Wallner levantou-se da sua poltrona. Berger e o secretário também se levantaram. - Falta-lhe alguma coisa?

 

- Sim, um jornal e uma televisão. A página desportiva... e saber as notícias.

 

-Com certeza, Brockler. Foi muito cooperante... Nós também o seremos. E vamos salientar no nosso relatório que o senhor nos ajudou muito. Assim o tribunal será mais moderado.

 

Brockler respirou fundo.

 

-Agradeço-lhe, senhor inspector-geral - disse ele, baixinho.

 

-Eu também lhe agradeço.

 

E Freddy Brockler ficou novamente sozinho, ouviu-os a girar a chave na fechadura e abanou a cabeça. «Como se eu quisesse fugir.. eu já estou contente por estar aqui em segurança. Sabe-se lá o que está por trás disto tudo, quem é que está envolvido nisto? Fui atraiçoado, isso é óbvio... mas por quem?»

 

Duas horas mais tarde, uma secretária do Dr. Boehmer trouxe para o quarto uma televisão pequena e dois jornais diários. Brockler sentou-se na poltrona, pôs as pernas em cima da mesinha, comeu os seus bolos e abriu a página desportiva. Uma notícia sobre o FC Colónia... uma leitura familiar.

 

No DIC, o inspector-geral Wallner telefonou para o comando da Polícia de Paris. Passaram-no para um tal Monsieur Jean Ducoux. o chefe de uma unidade especial da Súreté. Ele falava alemão com um belo e elegante sotaque francês.

 

E disse, para grande espanto de Wallner:

 

- o quê? Outra vez? Vocês, alemães, não sabem experimentar nada melhor?

 

o plano de viagem de Sybin incluía muitos encontros.

Com o auxílio de contactos do seu «consórcio», que ele mandara à frente, o caminho já estava traçado e, quando Sybin também chegou, os preparativos estavam já tão desenvolvidos que apenas alguns dias chegaram para considerar a sua visita um sucesso.

 

Começou por Moscovo. Ali funcionava o Instituto Nuclear Kurchatov, onde estavam concentrados os melhores cientistas nucleares russos, um centro nevrálgico da investigação nuclear, plenamente protegido, vigiado e defendido. As experiências que decorriam nos laboratórios de investigação faziam parte dos grandes segredos da política militar russa, conhecidos apenas por alguns eleitos. Para Sybin aquele era o local que poderia significar o acesso a todas as outras centrais nucleares.

 

Ele começou da sua maneira habitual: mandou vigiar os cientistas e os trabalhadores do instituto, informou-se dos seus nomes e dos seus hábitos de vida e depois escolheu duas pessoas que lhe pareceram adequadas para seus «colaboradores». Assim, uma noite, dois «colegas do consórcio» foram buscar o professor Levon Anatolovich Gasenkov, quando este saía do instituto e se dirigia para casa, por ordem do «Centro de Investigação de Segurança Estratégica», cujo director era o físico Anatoli Stepanovich Djakov.

 

Naturalmente que o professor Gasenkov conhecia Diakov, professor do Instituto de Física Técnica de Moscovo, e, dado que o haviam ido buscar num grande automóvel preto, não teve a menor dúvida de que alguém queria falar com ele. Até podia imaginar do que se tratava: no Instituto Kurchatov havia muita coisa que não corria como devia. Exemplo disso eram as técnicas de medição antiquadas, com as quais se pesava o material nuclear para determinar a quantidade de massa nuclear que, no âmbito de controlo do instituto, passava de laboratório para laboratório... Os sistemas de controlo e de vigilância deviam impedir que, no caminho para os diversos locais de investigação, se perdesse um grama sequer. Um grama era suficiente para disparar o alarme. Os problemas de medição eram, sobretudo, as grandes preocupações do professor Gasenkov: um «desaparecimento» significava sempre um perigo, principalmente, para os colegas do Instituto Kurchatov.

 

o professor Gasenkov só começou a desconfiar quando reparou que não iam na direcção de Djakov, pois ele conhecia bem esse caminho, mas sim do Bairro Kalinina, parando momentaneamente em frente a um dos arranha-céus que ali se encontravam, uns ao lado dos outros. E protestou quando entraram numa garagem subterrânea e pararam em frente a uma porta de ferro.

 

- o que é isto? - exclamou ele, indignado. - Era suposto levarem-me a Djakov! - Os dois homens do «consórcio» não responderam, saíram do carro e abriram a porta. Gasenkov abanou a cabeça. - Eu não saio! - gritou ele, irritado. - Isto é inadmissível!

 

- Seria mais inteligente sair do carro. - o motorista interrompeu-o vigorosamente. - Não nos obrigue a ajudá-lo a sair daí. Nós somos dois e vê-se que você é um homem fraco. Não queremos aborrecimentos...

 

- Mas vão tê-los! Vou apresentar uma queixa...

 

- Saia! - o segundo homem agarrou no braço de Gasenkov. - Seja sensato!

 

Gasenkov desistiu de resistir. Que podia ele fazer? Nunca fora um homem forte que se pudesse defender; só dominava uma coisa: o seu trabalho. Suspirando, saiu do carro e seguiu os dois homens até à porta de ferro.

 

No quinto andar do prédio, entraram num apartamento vazio. Havia apenas uma cadeira no aposento grande e despido, que deveria ser a sala de estar. Reinava um ambiente opressivo: as paredes estucadas a branco, as janelas sem cortinas, o vazio ressonante, as lâmpadas incandescentes que iluminavam a partir de um suporte simples no tecto. Gasenkov manteve-se de pé, ergueu a cabeça e olhou para o homem elegante, dois palmos mais alto do que ele.

 

- Seja bem-vindo, Levon Anatolovich - saudou Sybin, cordialmente -, e peço desculpa pelo pretexto que utilizei para o trazer até aqui.

 

-Não desculpo nada! - Gasenkov era corajoso, mas só com as palavras. Em termos físicos, continuava em desvantagem. - Quem é o senhor?

 

-Um amigo que o quer tornar rico. - Sybin fez sinal aos seus dois homens, que deixaram imediatamente a sala despida e fecharam a porta atrás de si. - Sente-se, professor Gasenkov.

 

Obedientemente, Gasenkov sentou-se na única cadeira. Ele não sentiu medo, apenas um sentimento desconfortável de ir ser confrontado com algo fora do vulgar.

 

- De que se trata? o que quer de mim? - prguntou ele.

- Fez a pergunta certa. - Sybin sorriu. - É verdade, eu quero algo de si. E, em troca, recebe algo de mim. o senhor é um dos directores do Instituto de Investigação de Tecnologia Militar, não é?

 

Gasenkov hesitou por um momento e depois respondeu. Sim.

 

- Uma área que me interessa. No seu instituto estão armazenados plutónio duzentos e trinta e nove e lítio seis.

- Não posso falar sobre isso.

 

- Pode sim, professor, pode sim. Só quero chamar-lhe a atenção para o facto de o senhor ter mulher e duas filhas. Uma família saudável... uma família ainda saudável.

 

Gasenkov saltou da cadeira.

 

- o que quer isso dizer?! - exclamou ele, em voz trémula.

 

- Exactamente aquilo que está a pensar. Que gosta da sua mulher e das suas filhas... Que marido e pai não gostaria?! E todos os homens devem esforçar-se por manter as intempéries afastadas das pessoas que lhes são queridas.

 

Gasenkov sentou-se novamente na cadeira, mas parecia ter-se afundado nela.

 

- o que quer de mim? - perguntou ele. Agora a sua voz soava rouca, como se as cordas vocais se recusassem a funcionar. - Devo revelar-lhe segredos de Estado?

 

- Não posso fazer nada com isso, mas com quatro qui logramas de plutónio duzentos e trinta e nove já posso. Gasenkov olhou para Sybin como se este se tivesse, de repente, transformado num animal. Demorou uns segundos até se recompor.

 

- Como disse? - perguntou ele, por fim.

 

- Também pode ser lítio seis ou urânio duzentos e trinta e cinco - respondeu Sybin, com uma simpatia diabólica. -Você é doido!

 

- E você tem as vistas curtas, Levon Anatolovich. Quanto é que ganha como chefe de secção no Instituto Kurchatov? Eu sei. Cerca de setenta e cinco dólares por mês. Com prémios, no máximo cem dólares. Um cientista tão inteligente como o senhor! Um perito nuclear! É vergonhoso! Isso deve afectar a sua auto-estima!

 

- Habituamo-nos a tudo. - Gasenkov cruzou as pernas. - Para lhe esclarecer melhor a minha opinião: um outro país ofereceu-me um ordenado de onze mil dólares para eu emigrar e aí utilizar os meus conhecimentos.

 

- Eu sei. Não foi o primeiro a quem fizeram uma proposta dessas. Foi do Irão. Mas onze mil dólares continuam a ser apenas uns trocos. Eu ofereço-lhe por um quilograma de plutónio duzentos e trinta e nove... esteja quieto na cadeira!... duzentos mil dólares. Garantidos numa conta na Suíça. -Você é maluco!

 

- Falemos então de trezentos mil dólares. É a minha última oferta.

 

-Nem por trezentos milhões! Eu amo a minha pátria! Eu não a atraiçoo! Sou um patriota! Mesmo quando agora, depois daperestroika e sob o governo do Ieltsine, o povo ficou mais pobre e certos círculos, aos quais o senhor pertence, ficaram mais ricos, eu continuo a ser leal à Rússia.

 

- Ela é mais importante do que a lealdade à sua mulher e filhas?

 

- Você... você mata-as se eu me recusar?

 

- Claro que não, Levon Anatolovich! Mas lembre-se, por favor, de que uma navalha não rapa apenas a barba de um homem, mas também pode cortar o rosto de uma rapariga. E que algumas gotas de ácido clorídrico nos olhos têm um efeito devastador.

 

- Seu... seu... demónio... - Gasenkov suspirou alto. Cerrou os punhos, mas permaneceu sentado. - Você não é humano... não, não pode ser humano.

 

- Os insultos não me atingem. Portanto, não continuemos. Quanto é que pode fornecer?

 

-Nada! No instituto só estão armazenadas pequenas quantidades, para fins de investigação. Com isso não consegue fazer nada, como era sua intenção. o que nós temos é pó de plutónio microscópico... está em cápsulas experimentais, pequenos recipientes de transporte revestidos a chumbo, ou simplesmente, devido ao reduzido alcance da radiação, em antigas caixas de sapatos.

 

-Não é possível! - exclamou Sybin, chocado. -Eu sei, é um escândalo. No instituto há muita coisa errada... e por isso devo ficar para poder manter esses inconvenientes o mais reduzidos possível.

 

-Quanto é que pode fornecer desse pó, Gasenkov? -Nada. Mesmo no nosso deficiente sistema de medição notar-se-ia imediatamente...

 

-Pense na sua mulher e filhas... Isso poderá abrir outras possibilidades.

 

- No máximo, dez gramas de plutónio duzentos e trinta e nove. No máximo! - Gasenkov inclinou a cabeça para trás e observou o tecto caiado e as lâmpadas incandescentes. Com isso não consegue fazer nada.

 

- Mas sabe onde estão armazenadas grandes quantidades de plutónio.

 

- Em muitos sítios. Em Tomsk, Krasnoiarsk, no Centro de Armas Nucleares de Arsamas nas proximidades de Novgorod, em Maiak, onde há as quantidades maiores, e em Oziorsk. Também existem reservas em Chevtchenko e Beloíarsk, onde funcionam os sobregeradores mais rápidos. E depois há Cheliabinsk-Sessenta e Cinco. Mas aí nunca conseguirá entrar.

 

- Esse é o meu trabalho. - Sybin estava satisfeito. Gasenkov confirmara as informações que ele recebera do professor Kunzev, através de Natalia. E o coronel Micharin, tão linguareiro na cama, até mencionara números... só em Maiak, o antigo Cheliabinsk-Sessenta e Cinco, estavam armazenados, e deficientemente vigiados, em recipientes de betão mais de vinte e três toneladas de plutónio puro. E Cheliabinsk também era o destino principal da viagem de negócios de Sybin.

 

Sybin percebeu que não havia mais nada a perguntar a Gasenkov. Ele acreditava quando aquele dizia que só seria possível pôr de lado uns poucos gramas do Instituto Kurchatov. Ao princípio pareceu-lhe improvável: o instituto de Moscovo era composto por mais de vinte reactores, laboratórios e armazéns, uma cerca de segurança de cinco quilómetros, equipado com câmaras de segurança e armadilhas de autoprotecção, detonadores de minas electrónicos e uma patrulha de morte com ordem para disparar. E não estarem ali armazenadas grandes quantidades de plutónio ou lítio tinha uma explicação: Moscovo ficaria ameaçada de destruição total em caso de acidente.

 

- Os meus amigos vão levá-lo a casa, Levon Anatolovich. Mas não se esqueça nunca de que uma palavra sua sobre isto... e a sua família vai amaldiçoá-lo. Apenas um aviso para si. A sua filha Marina acabou de rapar o cabelo. Neste momento está com uma careca. Espero que compreenda que nós estamos prontos para tudo e que não existem obstáculos para nós.

 

- Seu demónio! Satanás! - gritou Gasenkov. Levantou-se de um salto e pôs-se a correr de um lado para o outro no quarto vazio. - Mas não cante vitória cedo de mais. Alguém também o vai apanhar!

 

- Dificilmente! - Sybin abanou a cabeça. Parecia bem seguro de si; as suas ligações abrangiam até aqueles que tinham por missão matar pessoas como ele. Mas quando se lhes acenava com dinheiro, não viam mais nada. - o senhor é muito parvo, professor - continuou ele, enquanto se dirigia para a porta e lhe batia. - Abrir! Podia ficar milionário. Em vez disso, é patriota! Onde é que isso existe ainda na Rússia? Nós mudámos tudo, não consegue ver isso? o que vai fazer quando for despedido?

 

-Ninguém vai despedir-me. Eu sei de mais. Não sou rescindível.

 

- Eu não apostaria nisso um copo de vodca. - A porta abriu-se. Sybin apontou para fora. - Tenha uma boa vida, Gasenkov.. e lembre-se sempre da navalha...

 

Com passos rápidos que mais pareciam uma fuga, Gasenkov saiu do aposento vazio com uma cadeira, cujo assento estava húmido... de tanta transpiração.

 

No dia seguinte, Sybín voou para Cheliabinsk.

 

Agora já era possível. Alguns anos antes, toda a região pertencia a uma zona proibida, e existiam, especialmente na parte ocidental da Sibéria, nomes que não constavam em nenhum mapa, apenas existiam nos documentos do Ministério da Energia Atómica. Lugares como Snechinsk, Arsamas-Dezasseis, o Estaleiro de Submarinos Sevrnash a sudeste de Murmansk, ou as centrais nucleares de Balakovo e Bilibinsk eram procurados em vão na enorme extensão da Rússia... mas Sybin soubera, entretanto, que existiam vinte e nove blocos de reactores em nove centrais nucleares do outro lado dos montes Urales, e cerca de quinze mil fábricas nucleares e institutos de investigação que empregavam mais de um milhão de cientistas e operários especializados. Uma fonte de dinheiro decididamente inesgotável se fosse decidido abri-la.

 

Em Cheliabinsk esperava-o um dos seus contactos do «consórcio». Era um antigo capitão do KGB chamado Bogdan Leonidovich Grimaljuk, que deixara os serviços secretos para se mudar para a «livre economia». Até isso, anteriormente impensável, era agora possível. Estava empregado numa grande empresa de imobiliário, que só se tinha estabelecido em Cheliabinsk há um ano e que, naturalmente, pertencia ao «consórcio», mesmo estando registada oficialmente como um grupo de empresários privados.

 

Grimaljuk apareceu no hotel na manhã seguinte à chegada de Sybin para tomar o pequeno-almoço e sentou-se na sua mesa. Pediu dois ovos estrelados com bacon frito e pepinos em vinagre e cebolas, bateu com a faca nos ovos e voltou-se para Sybin.

 

- Também estes estão contaminados com radiação, muito pouco mas estão.

 

- E come-os mesmo assim? - Sybin olhou para o seu prato de pequeno-almoço. Fiambre, salsicha, queijo, pão escuro, manteiga, chá... Naquela região vivia-se melhor do que em Moscovo, os habitantes recebiam facilidades e privilégios especiais. Cheias de inveja, as pessoas chamavam-lhe, por causa da zona rodeada de pequenas lagoas, a «cidade-chocolate», mas a maioria dos trabalhadores de boni grado mudaria para outra cidade, apesar de, como privilegiados, ganharem o dobro de um cidadão russo normal. Bastava parar à porta do Hotel Noref para ficar a saber aquilo de que ninguém falava e que nunca deveria transparecer fora dali: num quadro por cima da entrada do hotel, com números iluminados electronicamente, aparecia não só a temperatura mas também a radiação radiactiva diária. o hotel situava-se em Oziorsk, a cidade secreta, onde fora construída a Central Nuclear e o Centro de Investigação Maiak.

 

- o que podemos fazer? - comentou Grimaljuk e remexeu nos ovos estrelados. - Temos de viver, e para viver

temos de comer. E é indiferente o que se come, pois está tudo contaminado.

 

Sybin empurrou o seu prato do pequeno-almoço para o lado. Era um homem muito corajoso e sem escrúpulos, mas tinha um medo horroroso de doenças. Hoje em dia lia-se muito sobre novos vírus e bactérias, não só da sida, mas

também de micróbios diabólicos que tinham sido descobertos algures nas selvas de África e da América do Sul e para as quais ainda não havia medicamentos. Isso causava em Sybin uma espécie de histerismo, todos os meses era observado por um médico do «consórcio» e, quando tinha alguma

comichão nalgum bocadinho de pele, corria em pânico para uma clínica, que, naturalmente, também era controlada pelo consórcio».

 

Grimaljuk conteve o riso, quando viu a reacção de Sybin.

- Quanto tempo vai cá ficar, Igor Germanovich? Perguntou ele.

 

o tempo que for necessário.

 

Isso pode ser uma semana, mas nessa altura vai passar fome.

 

-Vou mandar vir alimentos de fora.

 

-Que vão ficar contaminados com as radiações assim que forem descarregados. Aqui não é possível fugir delas. Primaljuk tirou algumas folhas de papel da sua pasta e abriu-as. - Posso começar a contar?

 

- Sim. Comece. - Sybin pousou as mãos em cima da mesa. «Será possível voltar a perder a carga de radiação?», questionava-se ele. «Claro que se deve poder, senão iriam perder irremediavelmente todos os trabalhadores das centrais nucleares. Nada de pânico, Igor, vais sobreviver.. e não te esqueças: Quem se vira para o Diabo, tem de saber aguentar o calor do Inferno.»

 

Grimaljuk pigarreou antes de começar a sua exposição.

- Primeiro, a situação geral. o centro da fábrica de plutónio de Maiak é a cidade de Oziorsk, anteriormente chamada Cheliabinsk-Sessenta e Cinco. Não se encontra em nenhum mapa, pertence ao que há de mais secreto na Rússia, e é inatingível para pessoas sem autorizações. E era totalmente impensável que passassem quaisquer informações para o exterior. Maíak é, hoje em dia, a maior e a mais problemática fábrica de plutónio do mundo!

 

Isso sei eu - respondeu-lhe Sybin, indelicadamente.   De outra forma, não estaríamos aqui.

 

Em Maiak trabalham mais de quarenta mil especialistas e operários que são, sobretudo, responsáveis pelo reprocessamento da maior parte dos elementos combustíveis das centrais nucleares existentes na Rússia, de Novovoronech, Saporochíc, Kalinin, Balakovo e Beloiarsk. Conseguem-se grandes quantidades de plutónio. Isso conduziu em anos anteriores à inconcebível contaminação radiactiva da região de Kychtyrn-Karnensk-Uralski-Musliumovo, onde se encontrava a anterior Chefiabinsk-Sessenta e Cinco, que hoje... -... se chama Oziorsk. - Sybin estava impaciente. Isso tudo sei eu. Mais! Coisas concretas...

 

-Nos velhos tempos, quando na fábrica nuclear de Maiak era produzido, sobretudo, plutónio, ocorreram alguns acidentes de que ninguém soube. Assim, em mil novecentos e quarenta e oito, um acidente na produção de plutónio levou à contaminação por radiação de uma grande área do solo, das águas e dos trabalhadores. Os casos de morte por leucemia aumentaram dez vezes, o rio Tetcha está totalmente contaminado porque corre junto de Maiak. A região, hoje, não tem população e representa um perigo de morte! o lago Tetcha é praticamente uma cloaca nuclear. Os especialistas ainda hoje consideram a região em torno de Cheliabinsk como a zona mais contaminada por radiação de todo o mundo, Só agora foi divulgado que, nos últimos anos, foram despejados detritos nucleares com uma radiação de cento e vinte milhões de curie, os chamados resíduos atómicos, no lago Karatchaí, a sul de Maiak. E aí, onde o lixo foi introduzido nas águas, foi medida uma carga de radiação de cinco sievert. Esta é uma dose totalmente mortal! Agora planeia-se cobrir o lago Karatchai com terra e vidrar os detritos com uma radiação de duzentos milhões de curie. Ou seja, fundem-se os detritos em blocos de vidro e depois enterram-se. Uma gota de água no oceano. Há muito tempo que se sabe que nos terrenos que ladeiam tanto o lago como o rio Tetcha até Kamensk-Uralski ainda existem radiações com mais de mil milhões de curie. Mil milhões de curie... isso é cerca de cem curie por metro quadrado! Desde que no estrangeiro se soube disto, começou um grande apoio ao saneamento, sobretudo, da parte dos Estados Unidos da América... Só que, até hoje, ainda não chegou um único tostão às centrais de plutónio!

 

- E que tenho eu a ver com isso? -- perguntou Sybin, zangado. - Eu não quero sanear, quero plutónio!

 

- Este foi o enquadramento exterior, Igor Germanovich, agora vamos ao interior. - Grit-naljuk olhou para as suas pesquisas. - Maiak é uma das cidades de investigação mais bem vigiadas da Rússia. Todas as cidades de produção são controladas pelos militares. Eles são a primeira área de segurança dos reactores e laboratórios. Uma área extensa, pois quem chega à central tem de passar por uma segunda área intermédia, que é vigiada por polícias armados da central. E depois chega-se à última área interior, junto dos laboratórios de produção, onde os militares têm tudo controlado. Na opinião dos Russos, nem um rato ali entra... mas, na verdade, a vigilância é bastante deficiente. Os guardas militares à entrada da zona radiactiva em torno de Maiak estão frustrados, porque sabem que também estão expostos à radiação. Não usam fatos protectores, apenas os uniformes normais. São uns pobres diabos, vêem que os camiões que andam por Maiak e que deixam a zona estão revestidos com grossas placas de chumbo como os carros blindados.

 

- Para que é isso tudo, Bogdan Leonidovich? - Sybin tinha fome, não se atrevia a comer o pequeno-almoço e, por isso, estava maldisposto. - Não tenho a ambição de andar a passear por Maiak. Eu quero que me diga até onde conseguiu contactos.

 

-A questão do transporte está resolvida, Igor Germanovich. - Grimaljuk olhou para Sybín, como que à espera do elogio há muito devido. - Tenho um motorista que está pronto a transportar material para nós no seu camião revestido a chumbo. É muito fácil: ele não é controlado nas três áreas de segurança, pois o carregamento é vigiado nas fábricas. Portanto, quando um camião blindado chega aos postos militares, acenam-lhe apenas. É o que está estabelecido. o problema é, ainda, quem nos fornece o plutónio e como o conseguimos levar para o camião.

 

-E isso ainda não conseguiu!

 

- Deram-me uma informação. Um assistente do Laboratório Três, controlador do plutónio duzentos e trinta e nove, seria a pessoa certa.

 

- Graças a Deus, não é um professor - observou Sybin, sarcasticamente. - Um trabalhador é sempre bom. Os professores são, muitas vezes, uns idealistas... Um trabalhador quer comer, beber e sonha com a sua própria datcha.

 

- Este assistente não é um trabalhador qualquer.. é um perito que ganha um ordenado triplo. Mais do que um cientista! Mas, ainda assim, um teso, apesar de todos os privilégios. Um taxista de Cheliabinsk ganha mais do que ele. E isso chateia-o, claro. Chama-se Lev Andreievich Timski. Trinta e dois anos, casado, uma filha. A mulher e a filha vivem numa casa de duas assoalhadas em Musliumovo junto do contaminado rio Tetcha.

 

- Pode ser o homem certo. Bom trabalho, Bogdan Leonidovich...

 

o louvor esperado. Grimaljuk voltou a sentir-se satisfeito, como meia hora antes.

 

- Pedi ao motorista do camião para entrar em contacto com o Timski. Se tudo correr bem, ou seja, se o Timski aceitar falar connosco, vamos conhecê-lo hoje à noite.

 

-Então, ainda não é certo?

 

- Isto é uma roleta, Igor Germanovich, tudo aqui é um jogo de sorte: ou se apanha leucemia, cancro dos ossos, cancro dos pulmões, cancro de rins, ou chega-se aos setenta anos. Isso também é possível. Espero que o Timski venha... ele vive num lar estatal e tem de avisar o administrador da casa quando quer vir a Oziorsk. Ele só pode visitar a mulher e a filha de quinze em quinze dias. Para isso, recebe uma autorização especial, para poder ir até Musliumovo. Aqui é tudo diferente. - Grimaljuk apontou para o prato de Sybin. - Devia comer qualquer coisa, Igor Germanovich. Não pense na radiação. Ela é, em geral, tão fraca que não consegue causar grandes danos.

 

- Pequenos danos também me chegam.

 

-Nos alimentos, a radiactividade é tolerável. Ela só se torna crítica aquando de uma exposição prolongada. Mas você só fica uma semana.

 

No máximo! Se conseguirmos conquistar o Timski, vou-me logo embora. - Sybin. não prestou atenção ao sorriso de Grimaljuk, e continuou a explicação. - Tenho ainda uma longa viagem à minha frente. De um lado para o outro na Sibéria. E tenho de aproveitar bem o meu tempo.

 

À hora do almoço, a resistência de Sybin foi-se abaixo, a fome falou mais alto. Comeu couve bem condimentada: com molho de cominhos e blinis, bebeu cerveja directamente da garrafa, que não estava, garantidamente, contaminada, e sentiu-se logo melhor. Uma pessoa esfomeada cai facilmente no pessimismo.

 

Perto das quatro horas da tarde, um homem magro e louro entrou no hotel e olhou em volta, como que à procura de algo. Tinha uma cor de pele amarelada e uns lábios um pouco azulados.

 

- É ele - disse Grimaljuk baixinho a Sybin. - Tem de ser ele. o Timski. Já demos mais um passo em frente, Igor Germanovich...

 

Levantou-se, dirigiu-se ao homem, falou com ele e, depois, apontou para Sybin. Este acenou-lhe com a cabeça e fez o seu sorriso mais atraente que até agora tinha seduzido todos e suscitado simpatia. Timski examinou Sybin e decidiu aproximar-se da mesa. Sybin levantou-se cordialmente... o futuro dourado aproximou-se e até lhe estendeu a mão. Ele agarrou-a e apertou-a.

 

- Queria falar comigo? - perguntou Timski, um pouco constrangido. - o meu amigo deu-me o recado. Falou de um negócio...

 

- Sente-se, senhor Timski. - Sybin apontou para a cadeira ao seu lado.

 

-Lev Andreievich... - Timski sentou-se.

 

- Igor Germanovich... - Sybin analisou a cor de pele de Timski. «Ele está doente», pensou, «anemnia ou coisa parecida. A radiação está a corroê-lo com uma lentidão diabólica, ainda indolor. Ele está marcado... e ninguém lhe diz. Não vamos rodear o tema... uma palavra forte e rápida tem sempre efeito.» - Gostaria de ter uma datcha numa paisagem não contaminada pela radiação? Talvez no Don ou na Crimeia ou em Sochi, no mar Negro?

 

Timski não pareceu surpreendido com a pergunta, mas manteve-se calado. Sybin entendeu isso como hesitação e continuou.

 

- Também pode ser uma vivenda em Nassau ou uma pequena moradia nas Caraibas. Ainda não conheço o seu gosto, Lev Andreievich. Mas imagino que a sua mulher e a sua filha se sentirão mais felizes em qualquer outro lado do mundo do que, actualmente, em Musliumovo.

 

- Quer subornar-me? - perguntou Timski, como se estivesse a pedir um cigarro. Sybin ficou admirado e ergueu as sobrancelhas, quando Timski acrescentou: - Você não é o primeiro que me quer comprar.

 

- Eu não o quero comprar, de onde tirou isso? Trata-se de um negócio.

 

- Plutónio, não é? Ou urânio duzentos e trinta e cinco? Ou que mais quer?

 

-Eu não sou o primeiro, não foi o que disse? Isso soa como se Maiak já traficasse plutónio.

 

Sybin pediu um copo de vodca para Timski e esperou até ele ter bebido metade. Timski limpou a boca. -Como é que eu sei se você não é um espião, Igor Germanovich...?

 

-Por acaso, pareço um?

 

- Os espiões nunca o aparentam ser, tal como vemos nos estúpidos filmes policiais. Mas... eu confio em si. Portanto, isso foi há um ano atrás. Apareceu um alemão, alojou-se neste hotel como você e comprou do Reactor Dois exactamente treze quilogramas de césio cento e trinta e sete. Para que o queria, não sei. Nesse negócio, participaram três amigos meus... Foram simplesmente ao armazém e tiraram o césio. Ninguém os impediu. Um camião trouxe o material da zona proibida até ao hotel. o alemão quis pagar só em rublos, em notas pequenas, sabe-se lá onde as conseguiu arranjar. Cinquenta e seis milhões de rublos foi o que ele pagou pelo césío cento e trinta e sete... Nem vai acreditar: eram dois sacos cheios de notas. Dois empregados levaram os sacos para o carro e o negócio ficou concluído.

 

-E como é que o alemão levou o césio daqui?

 

- Isso ninguém quis saber. Os meus amigos foram-se logo embora com os cinquenta e seis milhões de rublos. Perguntou-me o que é possível fazer com o césio? Se tivesse sido plutónio duzentos e trinta e nove...

 

«Agora», pensou Sybin, «agora vamos despejar o saco. Eu não preciso de treze quilogramas, mas sim de quatro a cinco quilogramas de plutónio. Pronto a ser utilizado em armas. Pureza mínima de oitenta e quatro a noventa. o que acha disso, Lev Andreievich?

 

Timski baixou o olhar e observou o seu copo de vodca. Sybin susteve sem querer a respiração; ele sabia que estava a levar a cabo um jogo arriscado. Grimaljuk também achava que Sybin andava na corda bamba... Ou mantinha o equilíbrio ou espalhava-se.

 

- Quatro quilogramas? - Tiraski ergueu novamente o olhar. - É muito... mas não é impossível. - Sybin e Grimaljuk soltaram a respiração. - Mas demora um certo tempo.

 

- Quanto?

 

- Em três meses é possível reunir isso. Em pó muito fino. É mais fácil de transportar. E, sobretudo... o pó de plutónio é pesado e controlado na minha secção. Está numa cave de betão, duzentos metros abaixo de terra. Temos de o retirar grama a grama. Passa totalmente despercebido. E, dado o alcance reduzido da radiação, também é fácil tirar o pó de plutónio da cave em sacos de plástico. Nos bolsos das calÇas! E quando estiver num camião de chumbo, é tão inofensivo como tomates ou pepinos. Já não há reacção dos sistemas de controlo, é impossível descobri-lo. - Timski olhou pensativamente para Sybin. - Mas... como é que você está a pensar levar daqui o material? Imagino que o pó irá para o estrangeiro.

 

- Correcto. Já construímos alguns recipientes especiais para esse efeito. - Sybin pousou a mão nas costas da mão de Timski. - Sinceridade e confiança: temos várias possibilidades de caminho, transporte absolutamente seguro. Um desses caminhos será simplesmente enviar o plutónio de comboio. Num dos vagões de mercadorias, bem no fundo, estão os nossos contentores resistentes às radiações cheios de areia ou pedras. Ninguém os inspecciona, tal como acontece com os seus camiões blindados. Em Moscovo, os contentores serão levados para o aeroporto militar de Tchkalovskoie e daí transportados em aviões do Exército para Brandis via Leipzig. o transporte militar não é controlado pela alfândega, e nenhuma polícia alemã pode entrar numa caserna russa. Os pilotos de Moscovo recebem, por voo, quinhentos dólares em dinheiro. E por essa quantia, eles fazem tudo! E como há encomendas constantes para as tropas que ainda estão estacionadas na Alemanha de Leste, não temos qualquer problema de transporte. - Sybin olhou muito sério para Timski. - Já sabe muito, Lev Andreievich... apesar de eu só lhe ter contado um caminho... Se divulgar estes conhecimentos, não morre de radiação, mas muito mais depressa do que isso.

 

Timski não se impressionou com aquela ameaça, pois já estava à espera de que a conversa tomasse aquele rumo. Quem quer comprar plutónio pronto a ser utilizado em armas não é um corretor de metais normal, como os que estavam agora a surgir em Maiak. Com a autorização do governo e à vista das autoridades de fiscalização nuclear russas de Moscovo, apareciam, em Maiak, cada vez mais delegações estrangeiras e estabeleciam relações comerciais. o director da fábrica de plutónio de Maiak, Vietor Fetisov, não escondia que há dois anos que colaborava com uma empresa inglesa, e com a China fundara duas empresas que recebiam material de Maiak. Principalmente varetas de combustível, que também podiam servir de «subproduto» para a produção de plutónio.

 

Aquele Sybin, porém, era um particular e por trás dele, suspeitava Timski, estava uma organização poderosa com ligações internacionais. Com ela não se brincava, não era -possível enganá-la ou traí-la... Era menos perigoso meter a ponta do dedo húmida no pó de plutónio e lambê-la.

 

- Quanto é que oferece? - perguntou Timski, de repente.

 

Isso quer dizer que vamos trabalhar juntos? - Sybin inclinou-se para ele.

 

- Olhe para mim. Já não tenho grande esperança de vida. Por dentro, estou destruido. Mas a minha mulher e a minha filha devem continuar a viver, sem preocupações, algures, onde não exista a maldita radiação! Como já disse, as Caraíbas são um sonho. Para isso, faço tudo, pela minha mulher e pela minha filha. Eu já não tenho futuro. Reflecti muito sobre o assunto... Como lhe disse, não é o primeiro a aparecer com uma proposta. Mas você teve a sorte de eu me ter fartado. Na sala de controlo, pus-me debaixo de um contador Geiger.. o ponteiro deu um salto que até parecia um cavalo enfurecido! o que é que me espera? Igor Germanovich... a sua proposta!

 

- Como amostra, dois gramas... gratuitos. Depois quatro ou cinco quilogramas de plutónio duzentos e trinta e nove, trezentos mil dólares por quilograma.

 

- Não!

 

-Não? - Sybin olhou para Grimaljuk. - Timski, eu não sou um vendedor de tapetes do mercado de Ispaliam. Eu tenho preços sérios e pago imediatamente!

 

- Um milhão de dólares por quilograma.

 

Sybin riu-se e apontou com o dedo para Timski, enquanto olhava para Grimaljuk.

 

- Ele é maluco, Bogdan Leonidovich! A radiactividade já lhe afectou o cérebro.

 

-E quanto é que você ganha por um quilograma de plutónio? Nem quero saber... mas não pense que nós aqui em Oziorsk vivemos no mundo da Lua. Nós sabemos muito bem o que se passa fora da Rússia.

 

- Timski, eu tenho muitas despesas. - Sybin deitou um bocadinho de vodca para a sua chávena de chá e bebeu-a. «Se ele soubesse», pensou ele. «Por um quilograma de plutónio duzentos e trinta e nove com uma pureza de noventa por cento recebo sessenta milhões de dólares. Foi o que me prometeu o doutor Sendlinger, e eu informei-me junto de alguns corretores moscovitas que se esforçam pelo negócio mas que não têm o capital suficiente para financiá-lo. Os valores estão correctos. Ainda tenho de falar com o Sendlinger sobre isso: como que a apalpar terreno, ofereceram-me ogivas nucleares de mísseis SS-Vinte... por setenta mil dólares. Não sabemos quem as quer, disse o corretor. Podemos enviá-las. Da Ucrânia. Esse pode ser o próximo negócio: ogivas nucleares... os mísseis portadores passavam a ser um problema menor.» - A minha última oferta, Timski - disse ele, e a sua voz ficou dura e ameaçadora. - Um quilograma por quatrocentos mil dólares.

 

-Acha que sou algum idiota?

 

- Sim, se não aceitar, Lev Andreievich. Quatro quilogramas perfazem a bela soma de um vírgula seis milhões de dólares. Líquidos! - Sybin riu-se daquela piada estafada. E se no próximo ano conseguir fornecer ainda mais... a sua mulher e a sua filha vão deixar de ter preocupações e idolatrar o marido e pai.

 

- Vou pensar no assunto, Igor Germanovich.

 

-Não demores muito. Não conheces o ditado: não deixes para amanhã o que podes fazer hoje?! - Sybin utilizou o «tu» por ser mais fácil. - Temos de esclarecer isso já.

 

- Podemos ser sócios por quinhentos mil dólares o qui lograma.

 

- Ele é mesmo um vendedor de tapetes, Grimaljuk!

- Por uma boa mercadoria deve-se...

 

-Nem mais uma palavra! - Sybin agitou as mãos. Estamos de acordo. Quando trazes a amostra?

 

- Quantos gramas?

 

- Dez gramas. Gratuitos.

- Tinha dito dois gramas.

 

- Dez é melhor. Assim podemos apresentá-los a mais interessados ao mesmo tempo.

 

- Vou ver se consigo essa quantidade até depois de amanhã. - Timski levantou-se. «Está certo o que estou a fazer?», questionou-se ele. «Tornei-me um criminoso? Estarei a prejudicar a minha pátria? Mas que faz a pátria por nós? Quantas pessoas serão despedidas por causa dos planos de desarmamento, talvez até eu, ninguém conhece o seu destino... e como será depois? A Rússia preocupa-se com o que vai ser de nós? Recebemos uma pequena pensão, infedor à de um guarda nos controlos da estrada para Oziorsk, e quando eu, mais cedo ou mais tarde, morrer, quem é que vai cuidar da minha mulher e da minha filha? Vão ter de mendigar? Terão de se prostituir? Para a pátria é igual, ela própria

 

. não tem com que se alimentar. Por quatro quilogramas de plutónio, dois milhões de dólares... com isso vai-se a consciência e a moral quando se é tão pobre como eu.» - Tem consigo uma caixa de chumbo? - perguntou ele.

 

Sybin acenou afirmativamente com a cabeça.

 

- Uma caixa de aço, revestída de chumbo. Dez por dez centímetros de tamanho.

 

- Chega. Mas quando se tratar de quilogramas...

 

- Temos tudo preparado. o nosso amigo Grimaljuk manda entregar-te os recipientes por um motorista de camião, tu enches os ditos e o camião de chumbo trá-los de Maiak até Oziorsk e daqui para Cheliabinsk.

 

-E o dinheiro?

 

-É depositado numa conta na Suíça.

- Quem é que me garante?

 

- Eu! - Sybin levantou-se. - É uma questão de confiança. Eu confio nas tuas entregas, tu confias na minha palavra.

 

- Hoje em dia, em quem é que se pode ainda confiar na Rússia?

 

- Em mim, Lev Andreievich.

 

- Um pequeno sinal era mais tranquilizador.

 

Sybin ignorou aquela ofensa dissimulada. Timski era demasiado importante para lhe dar um soco.

 

- Vou ser muito generoso. Se depois de amanhã trouxeres a amostra, recebes mil dólares em dinheiro.

 

- A minha mulher e a minha filha agradecem-lhe, Igor Germanovich. - Timski fez uma ligeira vénia, virou-se e saiu do hotel em passo rápido.

 

O que achas dele? - perguntou Sybin e voltou a sentar-se. Grimaljuk encolheu os ombros. - É um homem honesto?

 

- Não...

 

Sybin encolheu os ombros, também.

- Não?

 

- Se fosse um homem honesto, não nos fornecia o plutónio...

 

Sybin teve de se rir, tão alto que alguns clientes que se encontravam no restaurante olharam para ele. Mas continuou a rír-se à vontade e esvaziou a garrafa. Nessa noite pediu uma companheira de cama, uma rapariga com caracóis pretos com sangue da Manchúria, impetuosa como uma torrente da Sibéria. Na cidade havia muitas... cem mil trabalhadores das centrais nucleares procuravam distracção e uma hora de felicidade.

 

Na manhã do terceiro dia, o motorista do camião veio ao hotel e entregou a Sybin um pacote pesado. Foi parco nas palavras e disse apenas:

 

- Cumprimentos do Lev Andreievich... e mil e quinhentos dólares.

 

O combinado foi mil dólares! - contrapôs Grimaljuk.

 

- Quinhentos é pelo transporte. Nada na vida é de borla. Apenas a morte... essa oferecem-nos aqui.

 

Ele pegou no dinheiro que Sybin colocou num sobrescrito e saiu imediatamente do hotel, sem sequer se despedir. Sybin olhou para o pacote que estava em cima da mesa.

 

- Com isto podemos matar milhares de pessoas, se elas respirarem o pó.

 

- Dez mil de cada vez, Igor Germanovich. Nem quero pensar nisso agora.

 

- Neste negócio temos de desistir de pensar. Bogdan Leonidovich, trata de enviar o material para Moscovo. Amanhã parto para Krasnoiarsk.

 

Krasnoiarsk-26. A cidade que pertencia às dez cidades mais secretas da Rússia.

 

A cidade da Sibéria Ocidental que produzia o plutónio para a bomba atómica. No seu arsenal estava armazenado o material para a destruição do mundo inteiro.

 

Krasnoíarsk-26. o inferno dos atomchtchiki.

 

Sybin não era o único com grandes esperanças e expectativas, pois o Dr. Sendlinger também iniciara as suas viagens. Ludwig Waldhaas acompanhava-o; o seu negócio de material de construção também prosseguia sem ele. Contratara, entretanto, três directores e quatrocentos e trinta trabalhadores, que se esforçavam para enviar o material de construção para os novos grandes construtores de Berlim, Leipzig, Francoforte do Oder, Rostock e StraIsund. Desde a reunificação da Alemanha que a antiga RDA se tornara um grande local de construção. Por todo o lado nasciam novas construções, uma explosão de construção cobriu o país e, principalmente nas grandes cidades, nasceram edifícios modernos com bancos, estabelecimentos comerciais, escritórios, restaurantes e seguradoras, e hotéis e supermercados, como nunca visto até então. Um exército de agentes imobiliários e empresas de construção singrou sem qualquer problema. Milhares de milhões de marcos alemães passavam de um bolso para outro, reinava uma atmosfera de caça ao ouro, mas, em vez de lavarem pequenas pepitas ou grãos da terra, amontoavam notas de mil marcos. Waldhaas também deixou acumular dinheiro na sua empresa... ele próprio cuidava do seu sonho extravagante de negociar material nuclear pronto a ser utilizado com ditadores e terroristas, e até com maníacos, se eles pudessem pagar. Para ele, os compradores eram todos iguais.

 

o Dr. Sendlinger seleccionava as propostas minuciosamente. Elas chegavam aos magotes, pois ele divulgara através de um intermediário árabe que ia ser posto à venda plutónio duzentos e trinta e nove. Aqui registou-se a primeira discussão com Waldhaas.

 

- Para quê seleccionar?! - exclamou Waldhaas, quando o Dr. Sendlinger apresentou a lista dos compradores, Quem paga, recebe. É muito simples.

 

-Querias fornecer uma bomba atómica ao Idi Amin Dada, se ainda for vivo?

 

- Porque não?! Os seus dólares são tão bons como os do Paquistão.

 

- Eu quero ver o plutónio a ser utilizado razoavelmente,

- Será que estou a ouvir bem? Razoavelmente? Waldhaas deu uma risada seca. - Se os fundamentalistas islâmicos andarem para aí a perder tempo é razoável? Paul, o que nós vendemos é a morte, independentemente das mãos a que a porcaria do material vá parar! Se ao Idi Amin Dada, ao Kadhafi ou à Pipi das Meias Altas... não faz diferença nenhuma! Quem quer plutónio, não o utiliza como adubo para a terra. Seleccionar!

 

- Não quero que terroristas alemães ameacem com plutónío. Porque, nessa altura, tu também estarás entre as vítimas. o que se passa na Ásia ou em África, não me afecta. Percebes, Ludwig?

 

- Os terroristas alemães não têm dinheiro para comprar plutónio.

 

- Não, não têm muitos milhões. Mas se comprarem apenas cem gramas, e isso podem conseguir com o auxílio de simpatizantes ou com o apoio de países interessados, então que Deus nos acuda! Com cem gramas podem contaminar toda a Alemanha Ocidental.

 

- E se eles o conseguirem através de compradores islâmicos?

 

- É exactamente isso que vou investigar e evitar.

 

o Dr. Sendlinger e Ludwig Waldhaas viajaram até Paris. Ficaram num hotel mediano, junto da Pont

Sendlinger já ficara ali muitas vezes, era conhecido, o monsieur le docteur da Alemanha, e também fora ali que concluíra o negócio dos treze quilogramas de césio cento e trinta e sete. Ele desconhecia o que se passara em Oziorsk com os dois sacos com cinquenta e seis milhões de rublos em notas pequenas. Conhecera apenas um alemão, que dizia chamar-se Schmitz, e que apresentara a um comprador oriental. Fora tudo. Os dois senhores entraram num quarto, e, quando voltaram a sair e o negócio estava concluído a contento de todos, o Sr. Schmitz surpreendera-o com uma comissão de mais de cem mil marcos. o oriental pagou S mesmo montante e agradeceu-lhe por ter feito o contacto com o Sr. Schmitz. Não havia maneira mais fácil de ganhar duzentos mil marcos. o Dr. Sendlinger descontara os cheques numa conta do Luxemburgo, em nome de Einstein. Ninguém se ofendera com isso.

 

Agora, novamente em Paris e no seu confortável hotel, a agenda de Sendlinger estava cheia.

 

Terça: Sr. Mohammed al Sifra, do Cairo. Quarta: Sr. Jussuf Abbas, de Teerão,

 

Quinta: manhã - Sr. Anwar Awjilah; tarde - Sr. Makar Abha, da Líbia.

 

Sexta: Sr. Pierre Sautin, de Paris, e Sr. Brian Murphy. Sábado: avião para Viena.

 

Desta lista, Sautin e Murphy eram corpos estranhos, mas Sendlinger recebera uma indicação telefónica deles de que podiam ser uma ligação aos países da América Central. Tratava-se de regiões novas, onde havia sempre novas rebeliões, um mercado bom e actual. E bastante longe da Alemanha.

 

Os contactos podiam ser iniciados... agora cabia a Sybin enviar o material encomendado. Ele dissera «Ludwig, começámos!», e Sendlinger andava atormentado com dúvidas sobre se aquilo teria sido apenas uma força de expressão sem compromisso.

 

Depois dessas primeiras rondas de conversações em París, Sendlinger e Waldhaas jantaram no Maxiin’s e brindaram ao sucesso com Dom Pérignon.

 

-Já temos a encomenda maluca de, no total, doze qui logramas de plutónio duzentos e trinta e nove, vinte quilogramas de urânio duzentos e trinta e cinco, dez quilogramas de lítio seis e vinte mísseis nucleares SS-Dezoito, nome de código Satanás, e quinze mísseis nucleares SS-Vinte e Cinco. Para além de dez ogivas nucleares para SS-Vinte e Dois. Ludwig, isto é de loucos!

 

Waldhaas pousou com tanta força o seu copo de champanhe que Sendlinger se admirou de não se ter partido. Além disso, Waldhaas estava tão vermelho que parecia que se tinha maquilhado.

 

- De loucos não é a expressão! - arquejou Waldhaas. Nunca conseguiremos enviar isto tudo!

 

- Não.

 

- Mas tu prometeste a todos que conseguiríamos!

- Com promessas podemos levantar os preços, - Paul, muito sinceramente, eles vão matar-nos! Têm os seus homens em todo o lado, os seus esquadrões assassinos, especialmente os muçulmanos.

 

- Tens medo?

 

- Tenho. Onde vais buscar essa frieza?

 

-Vou enviar as encomendas ao Sybin, e se ele disser que sim a todas, a bola está no seu campo. Ele tem de fornecer, nós somos apenas os intermediários que confiaram no Sybin, nós não merecemos nenhuma censura, pois negociámos com a melhor das intenções. Também seremos prejudicados, mas se o Sybin. conseguir fornecer, então... - Ele ergueu o seu copo de champanhe. - Ludwig, soma esses milhões, o que provavelmente não vais conseguir sem uma calculadora. Um brinde ao desarmamento, onde o ouro está enterrado.

 

Em Viena só falaram com dois compradores. Mas estes eram bem valiosos. Sendlinger não utilizou o seu hotel habitual, o Sacher, para as conversações... Desta vez, ficou no Hilton. A estes dois intermediários também prometeu negociar lítio seis altamente concentrado. Desta vez não utilizou a palavra «comprar», mas sim «negociar». Comprometia menos. Negociar não implicava enviar.

 

Nessa noite, Waldhaas e Sendlinger voltaram a festejar o seu êxito, no Bar Vermelho do Hotel Sacher, e ofereceram a si próprios, na noite seguinte, uma ida à ópera de Viena, Placído Domingo cantava Bajazé. Nas grandes árias «Rodeia-te apenas de futilidades... », Sendlinger tinha os olhos marejados de lágrimas, revelando a sua índole sensível... Ele chorava várias vezes na ópera, especialmente no coro dos peregrinos, em Tannhãuser, e no final do Crepúsculo dos ídolos.

 

Como era possível compreender um homem assim? De volta a Berlim, o Dr. Sendlinger telefonou imediatamente para Moscovo, para o número de telefone privado de Sybin.

 

Não foi ele que atendeu, mas sim Natalia Petrovna.

- o Igor Germanovich não está cá - disse ela, no seu

alemão com sotaque russo e alegre. - Não sei quando é que volta.

 

- E quando é que a Natalia vem a Berlim?

- Assim que for necessário.

 

-Pela parte que me toca, já é muito necessário, Natalia.

 

A sua gargalhada límpida ecoou no auscultador. -Vou dizer isso ao Igor.

 

- Tem de perguntar primeiro ao Igor sempre que quer fazer alguma coisa?

 

-Parece que sim.

 

-Já não tem vida própria?

 

-Eu estou satisfeita com a vida que tenho. E quando quero mais, recebo mais!

 

-E o amor?

 

O que é o amor?

 

- Nunca amou nenhum homem?

 

-Já estive na cama com muitos homens, mas isso foi principalmente negócios ou, por vezes, vontade de ter sexo. Quando tudo acabava, tinha vontade de matar os tipos.

 

- Como a viúva negra os seus companheiros. Nunca teve saudades de um determinado homem? Ou sentiu um aperto no coração quando pensava nele? Noites sem dormir, quando estava sozinha e ele longe de si? Sonhos de se encontrar nos seus braços e sentir uma felicidade divina?

 

- Isso não tem valor nenhum, doutor Sendlinger. Sentir-me-ia ridícula se alguma vez reagisse assim a um homem. Além disso, nenhum tipo o merece! Ainda não conheci nenhum homem que abraçasse a minha alma, só o meu corpo.

 

-E tem uma alma, Natalia?

 

-Não sei. Ninguém ainda se preocupou com isso. Mas eu não acredito que alguma vez apareça um homem que consiga ensinar-me o que é o amor.

 

Ela dissertou mais um pouco sobre o problema até o Dr. Sendlinger a interromper.

 

-Natalia, vamos acabar com a discussão. Então, não vem a Berlim?

 

-Por sua causa? Não! Percebeu bem?

 

- Muito bem. Diga ao Igor que espero por um telefonema dele. Diga-lhe que a tia está à espera das flores... assim ele sabe o que quero dizer.

 

-Não me esqueço.

 

Em Moscovo, Natalia desligou. A conversa telefónica surtiu efeito, ela sentou-se numa poltrona e reflectiu nas palavras de Sendlinger.

 

o que era o amor? Tornar um homem o centro da vida? Ansiar por ele? Não conseguia imaginar que isso alguma vez lhe acontecesse. Os homens eram objectos para jogar e se divertir e tinham de pagar pela ilusão de serem amados. o facto de eles não se aperceberem disso era apenas mais uma prova da sua imbecilidade. Uma mulher é sempre a mais forte e a mais esperta, quando entrega o seu corpo... Depois tem o mundo nas mãos e não apenas uma pontinha da masculinidade.

 

À noite, Igor Germanovich telefonou de Krasnoiarsk.

- Como estás, bacorazinha? - perguntou ele, alegremente.

 

-Tens de telefonar ao doutor Sendlinger. A tia está à espera das flores...

 

Sybin riu-se alto. Estava muito bem-disposto.

 

- Diz-lhe para ter um bocadinho de paciência. o jardineiro está a plantar as flores. São exemplares magníficos. A tia vai gostar muito. E que tens feito?

 

-Estou a ler o Pushkin.

 

- Prepara-te para viajares para a Alemanha. Natalia abanou a cabeça, mas isso Sybin não viu. -Tem mesmo de ser? - perguntou apenas.

 

- Achas que te diria se não fosse? Tens de levar as flores à tia...

 

Ele riu-se novamente e desligou. Natalia pousou o auscultador, furiosa. O que é que ele julga que é? Será que acha que lhe pertenço? Manda em mim como se fosse um cão: Anda! Corre! Salta! Vem cá! Senta! Rebola! Faz gracinhas, faz! Deita! E, supostamente, devo obedecer.. como um animal bem treinado!»

 

Levantou-se de um salto, andou de um lado para o outro na grande sala de estar, parou por um momento e olhou em volta. Agora vivia numa datcha nova e bonita, que Sybin construíra para ela. Em redor, bosques de bétulas e giestas douradas em flor, um jardim de flores com um pequeno lago cheio de peixes vermelhos e prateados, e uma casa de sauna feita de tábuas grossas de madeira. E, depois, a própria casa: boas áreas, mobilada com os móveis mais valiosos que Sybin mandara vir da Alemanha, tapetes do Turquemenistão e da Pérsia, mantas antigas e enfeites de seda de Naim, paredes revestidas de seda chinesa e almofadas de brocado da Tailândia... reflectia a nova riqueza acumulada por Sybin com o seu «consórcio». Por meio de subornos, extorsão de dinheiro para protecção, prostituição, estupefacientes, bares nocturnos e participações em negócios imobiliários, fábricas industriais, empresas de exportação e sociedades comerciais. A coroa de glória seria, no entanto, o tráfico de material nuclear.. Depois, Sybín pensava em mudar-se e ir viver para o oceano Pacífico ou sob o sol das Caraíbas.

 

«Ele comprou isto tudo para mim», pensou Natalia, e atravessou a casa enorme. «Tirou-me do bar, já não preciso de dançar nua e fazer o meu número do ursinho de pelúcia... Ele preparou-me para o mundo dos negócios. Quando entro em qualquer sítio com ele, os homens beijam-me a mão e adivinham os meus desejos. Não devo estar agradecida por isso? Não devo deitar-me aos seus pés como um cãozinho

pronto a ser afagado? E ele não me pode escorraçar como a um cão enfadonho, se quiser? Natalia Petrovna, obedece! Cobriram-te de ouro... não o deites fora que por baixo estás nua.

 

Raios, eu pertenço-te mesmo, Igor Germanovich... mas lembra-te de que te odeio!»

 

Em Krasnoiarsk, um funcionário do «consórcio» esperava, como sempre, pelo seu chefe Sybin.

 

Krasnoiarsk, no Sul da Sibéria, era uma cidade grande e viva, com mais de novecentos mil habitantes. Tinha uma universidade, fábricas de locomotivas, estaleiros e empresas de construção de máquinas, uma das maiores minas de alumínio da Rússia, era conhecida pela sua indústria do couro, da madeira e do papel, e as fábricas de têxteis forneciam para toda a Rússía. Havia algumas fábricas de produtos químicos e uma refinaria de petróleo florescente. o porto junto do poderoso caudal do Jenissei era o ponto de transbordo de todas as mercadorias no Sul da Sibéria, e o aeroporto tinha ligações diárias para Moscovo.

 

Só havia uma coisa que ninguém mencionava, e que, tal como em Cheliabinsk, não vinha indicada em nenhum mapa: a zona de Krasnoiarsk-26. Esta consistia numa área cercada por arame farpado numa altura de três metros, dominada por torres de vigia, onde estavam montados projectores fortes, e que era vigiada por uma unidade especial de três mil soldados do Ministério da Administração Interna, que tinha sido destacada expressamente para vigiar os acessos a Krasnoiarsk. Era uma «cidade fechada», onde só se entrava com autorização, e, se surpreendessem alguém a querer passar pela cerca, os soldados deviam disparar imediatamente, sem aviso.

 

Krasnoiarsk-26 era a cidade secreta onde era produzido o plutónio 239. Três reactores nucleares tratavam do reabastecímento; a quantidade de plutónio produzida a partir das varetas de combustível de urânio utilizadas permanecia um segredo de Estado. Só o Ministério da Energia Atómica sabia a quantidade exacta... se é que era indicada uma quantidade exacta! As toneladas de plutónio ali armazenadas eram suficientes para construir vinte e cinco mil bombas de Nagasáqui ou, sob a forma de pó espalhado pelo ar, destruir silenciosamente a humanidade e a fauna de todo o mundo!

 

Nikita Victorovich Suchanov foi buscar o seu chefe ao aeroporto e levou-o para o seu hotel, na cidade. Tinha reservado uma suíte no recém-construído   Hotel Sibirskaia, muito procurado especialmente por clientes estrangeiros, pois, desde a glasnost e a abertura às cidades capitalistas do Ocidente, chegavam a Krasnoiarsk muitas delegações e gestores para aproveitar a prosperidade da cidade para fins comerciais. Esperavam-se bons lucros, sobretudo, das indústrias da madeira e do papel, dado que os preços do papel na Europa Central tinham disparado. Isso devia-se, principalmente, aos ordenados cada vez mais altos, e a Rússia não tinha problemas desses, pois as pessoas ficavam contentes só por terem trabalho. Como sempre, o mercado externo também se desenvolveu, a Rússia fornecia sem sombra de concorrência. Aqui não havia sindicatos, ao contrário da Alemanha, para exigir determinadas condições de pagamento que iam contra a economia; os ordenados eram simplesmente estabelecidos, e quem não os aceitava era despedido. Foi uma mudança radical, oposta ao socialismo, necessária para que a economia russa conseguisse um lugar no mercado mundial. Como exemplo, tinham a República Popular da China, que levara a cabo de forma coerente as ideias de Deng Xiaoping: ordenados mais baixos, mas maior produtividade; novos negócios à disposição dos investidores estrangeiros que, por uma fracção dos ordenados europeus, conseguiam contratar bons trabalhadores. o milagre da economia resultara apenas disso. Também era possível ser-se comunista de mãos abertas. A prova disso estava à vista, e o tempo dos entusiastas e fanáticos políticos chegara ao fim. A prosperidade era a melhor garantia da paz interior.. as ideologias deviam ser interpretadas de forma correcta e moderna.

 

Sybin instalou-se na sua suíte, muito satisfeito, tomou um duche e, depois, já num fato feito por medida, voltou a descer para a sala de estar do hotel. Suchanov levantou-se rapidamente da sua poltrona.

 

- Estou bastante satisfeito - disse Sybin, com sinceridade. Ele sabia que quem elogiasse um russo ganhava um amigo. - Um bom hotel. Onde podemos conversar sem sermos interrompidos, Nikita Victorovich

 

- Num canto do bar. Nesta altura ainda está vazio. o bar estava apainelado com madeiras valiosas, tinha chão de mármore e um balcão com um brilho de latão, onde podiam sentar-se confortavelmente, segundo calculou Sybin, cinquenta pessoas. Instalaram-se num canto mais afastado, nos bancos de estofos de couro espesso. Ali ninguém os ouvia, e, de qualquer forma, o tempo em que as conversas que decorriam naqueles lugares eram ouvidas por microfones embutidos nas paredes já terminara.

 

- Que queres beber? - perguntou Sybin.

 

- Vodca. Aqui podemos pedir toda a vodca que quisermos, Em Krasnoíarsk, colheitas inteiras de cereais são, clandestinamente, transformadas em álcool. Qualquer coisa que também queira, em Krasnoiarsk consegue tudo! Aqui nada é impossível.

 

- Também no nosso ramo, Nikita?

 

- Isso é mais difícil, Igor Germanovích. - Tal como Grimaljuk, em Chelíabinsk, Suchanov retirou alguns papéis de dentro da sua pasta e pousou-os no tampo de mármore da mesa. - Vem de Ozíorsk, não vem? Como correu por lá?

 

- Um sucesso! - respondeu Sybin, sucintamente. Aguardou até o empregado, sem ser chamado, ter trazido uma garrafa de vodca e dois copos. Suchanov parecia ser conhecido por ali. Serviu os copos e voltou-se para o empregado Não queremos ser interrompidos, Valeri. - Sybín provou a vodca, era óptima. Suave, não arranhava a garganta como muitas marcas «privadas». o pior era o samogon, embrutecia as pessoas.

 

- Bebes sempre uma garrafa inteira? - perguntou Sybin, em tom de crítica. - Um copo chegava.

 

- Oh, não diga isso, Igor Germanovich! - Suchanov ergueu as duas mãos, em súplica. - Não conhece aquele provérbio russo, que diz que cem quilómetros não é longe, cem anos não é idoso, um copo não é vodca? Adoro provérbios. - Pegou nos papéis e puxou-os para mais perto. Vamos começar. Na cidade nuclear hermeticamente barricada de Krasnoiarsk-Vinte e Seis existem três reactores nucleares, construidos em mil novecentos e sessenta e quatro.

Ou seja, caixas velhas, mas ainda perfeitamente funcionais. Depois do pacto de desarmamento nuclear, quiseram encerrar os três, mas tal não foi concretizado, porque significaria o corte de todo o abastecimento de energia de Krasnoiarsk. Mas os planos ainda existem: pensa-se em renovar um dos reactores para uma fábrica de máquinas de ordenhar, o segundo para uma fábrica de cassetes de vídeo! Não há nada mais estúpido! Portanto, só um dos reactores continuará a trabalhar. Já deve imaginar como é que os atomchtchikí se sentem. Como se estivessem sentados numa bomba. E o ordenado? o jornal Rossijkaia escrevia: «Ainda hoje, os trabalhadores da indústria nuclear ganham menos do que os seguranças de uma clínica de desintoxicação.» E quase todas as grandes empresas possuem uma.

 

-Eu sei que o pagamento é muito mau. É o que acontece em todas as centrais nucleares e laboratórios.

 

- o Estado não tem dinheiro. Os trabalhadores de Krasnoiarsk esperam três meses pelo ordenado. Para sobreviverem, vendem tudo o que possa ser vendido.

 

- Isso parece muito prometedor, Nikita. Assim, acenamos com dólares e vêm todos a correr.

 

-Atenção, Igor Germanovich! Só na Krasnoiarsk proibida trabalham cem mil pessoas. A própria fábrica de plutónio, onde o plutónio bruto é transformado em plutónio duzentos e trinta e nove puro e pronto a ser utilizado em armas, encontra-se duzentos metros abaixo do solo. Aí, trabalham dez mil funcionários e cientistas. E aí, também, estão armazenadas as toneladas de pó de plutónio, assim, como se empilham sacos de açúcar, atrás de espessas portas de aço, que, no entanto, não são vigiadas. Mas quem é que leva a morte para casa? É esta a situação.

 

- E onde conseguiste essas informações?

 

- Isso já verá, quando nos encontrarmos com o nosso... contacto. - Nikita sorriu abertamente e bebeu mais um copo de vodca. - Sacrifiquei-me verdadeiramente pela empresa. Vai confirmar isso, Igor Germanovich.

 

- Quando é que nos encontramos com esse contacto? -Hoje à noite... no seu quarto, se for possível.

 

- Combinado! - Sybin olhou para Suchanov, surpreendido. Ele não conseguia explicar aquela alegria. Dois copos de vodca não conseguiam ter esse efeito, muito menos num alcoólico. - o contacto sabe do que se trata? -Eu expliquei-lhe, com cautela, na cama...

 

- Na... - Sybin estremeceu. - Suchanov, a vodca tornou-te homossexual?

 

-Vai ver, Igor Germanovich. Foi uma boa escolha. Suchanov juntou os papéis, pôs a garrafa de vodca dentro do bolso do casaco e saiu do bar. A conta era para Sybin.

 

Sybin cismou naquilo até à noite: ter-se-ia Suchanov realmente entregue a um homem para conseguir um fornecedor de material nuclear? «Eu faço tudo pela empresa», dissera ele... mas seria capaz de tal coisa só para conseguir um contacto? De qualquer modo, Sybin estava impaciente por conhecer o homem que Suchanov lhe ia apresentar nessa noite.

 

Por volta das dezanove horas, bateram à porta de Sybin. Este apressou-se a abrí-la, curioso.

 

Primeiro entrou Suchanov. Ergueu uma garrafa de vodca cheia e estendeu-a ao seu chefe.

 

- Isto é uma aguazinha! - exclamou ele. - Uma osobaia, uma especialidade. E veja a marca, Solotoe Ko1zo! o melhor! Der Goldenen Ring. Nunca bebeu nada assim! E depois virou-se e chamou para o corredor. - Entra, minha querida! Aproxíma-te, meu tesouro!

 

Sybin sentiu um aperto no estômago. Ele chamava querida e tesouro a um homem! «Tenho de me dominar quando vir este tipo. E o Suchanov vai levar na cabeça mais tarde. Tudo pela empresa...

 

E, então, a querida entrou no quarto...

 

Sybin susteve a respiração e os seus olhos esbugalharam-se.

 

No quarto entrou uma mulher jovem, magra, com longos cabelos pretos; não era propriamente bonita à primeira vista, pois tinha um nariz mais comprido do que o normal, o seu rosto era largo e a boca de lábios estreitos, mas tinha, até
. onde se conseguia adivinhar por baixo da blusa, formas redondas e firmes e longas pernas sob uma saia comprida. Ela olhou com curiosidade para Sybin e parou no meio do quarto. À luz dos lustres de cristal, parecia bonita.

 

- Esta é a Vavra Ivanovna JubIonskaia - exclamou Suchanov, com orgulho. - E este é o meu chefe, o Igor Germanovich Sybin. Prometi de mais? Ela é uma jóia, uma jóia, digo eu. E trabalha no controlo da pesagem. Pelas suas mãos passam todos os gramas de plutónio duzentos e trinta e nove. Nenhum grão passa por ela sem ser pesado,

 

- Muito prazer em conhecê-lo, Igor Germanovich disse Vavra. Ela tinha uma voz quente e baixa, que fazia com que cada palavra parecesse uma carícia, - o Nikita Victorovich falou-me muito de si. É muito amável da sua parte querer promovê-lo a director..

 

Sybin olhou de soslaio para Suchanov. «Velhaco! Eu depois trato de ti! Director! Recebes um bónus pelo teu trabalho, e é se o trabalho ficar bem feito.»

 

o Nikita merece uma recompensa! - respondeu Sybin. - Ele vai recebê-la em breve.

 

Constrangido, Suchanov pousou a garrafa de vodca em cima da mesa, junto do grande ramo de flores de boas-vindas e encolheu os ombros. «Não me compreendas mal», era o que significava. «Tive de me esforçar um pouco para a impressionar. Director soa melhor do que chefe de secção. Um título desses inspira confiança. Além disso, a Vavra é uma mulher difícil de contentar, que sabe quão interessante é. Agora tem vestida uma saia comprida e uma blusa larga e discreta... mas é preciso vê-la em biquíni, quando sai das ondas do Jenissei! Foi ali, na margem do rio, que a conheci e imediatamente a agarrei, quando me contou de Krasnoiarsk e do seu local de trabalho. Foi uma sorte, Igor Germanovich.»

 

- Sentemo-nos - convidou Sybin e um sorriso apareceu-lhe nos lábios. - o jantar vai ser servido. Pedi sopa chtchi, depois um pastel pirochki, perca assada à moda de Moscovo, galinha de Kiev panada e para sobremesa moroshenoie, o melhor dos gelados com molho quente de bagas diversas e adoçado com mel. Mas pode escolher outra coisa, Vavra Ivanovna, se não gostar da minha sugestão. Decida...

 

- Primeiro vamos beber um copo de Goldenen Ring exclamou Suchanov. - Pensemos na velha sabedoria dos Russos: «Se a vodca já não te souber bem, então vai para fabricante de caixões!»

 

- Não conhecia esta faceta do Nikita Victorovich! Sybin conduziu Vavra para a sala de jantar da suíte. - Mudou-o por completo! Ficou um outro homem. Tenho de a cumprimentar, Vavra Ivanovna.

 

- É um querido - replicou Vavra, simplesmente. - Fico contente por o ter em tanta consideração e ser seu amigo. Suchanov tossicou, embaraçado, trouxe os copos de vodca e olhou para Sybin, suplicante. «Não me atraiçoe, por favor. Tem aqui um coração com uma nova amada. Olhe para esta mulher, ela não merece que se minta um bocadinho por ela? Seja tolerante comigo, Igor Germanovich.»

 

Eles brindaram e sentaram-se em volta da grande mesa redonda da sala de jantar.

 

- Estou muito satisfeita com a sua escolha de jantar disse Vavra. - Fiquemos por estes pratos.

 

- Dá-me uma grande alegria. - Sybin não perdeu muito mais tempo com preâmbulos. Já não era necessário andar a rodear o tema. - o Nikita contou-lhe a razão do nosso encontro?

 

-Ele deu-me uma ideia, sim.

 

- Então vamos ser mais explícitos: eu preciso de plutónio duzentos e trinta e nove. As quantidades que forem possíveis.

 

Vavra não se mostrou nem espantada, nem horrorizada; a sua expressão, aliás, mudava muito pouco. Era como se tivesse uma máscara, cara de pôquer, como lhe chamam os Americanos, a cara de um negociador empedernido.

 

«Ela é uma pessoa fria», pensou Sybin. «Um pedaço de mármore que é preciso esculpir. Na cama, estas mulheres costumam ser um fenómeno natural, mas fazer negócios com elas é mais difícil. Se continuares com ela, Nikita, no futuro não vais ter mais nada a comunicar. Ela vai castrar-te do modo mais amável.»

 

Para que quer o plutónio? - perguntou Vavra.

 

-Para o vender. - Sybin recostou-se. - Há quem precise dele fora da Rússia.

 

-Um negócio mortal, Igor Germanovich.

 

- Os dólares compensam o risco. Uma pergunta bem clara: consegue arranjar plutónio?

 

-Uma resposta bem clara: sim. - o olhar de Vavra Ivanovna era frio e impessoal. - Estou disposta a colaborar consigo. o Estado abandonou-nos. Há seis meses que não recebemos dinheiro, nem sequer uma parte dele. É possível viver sem dinheiro? Neste momento, as batatas no jardim são mais importantes do que um reactor. Estão sempre a prometer-nos que as coisas vão melhorar, mas não passam de palavras! E agora até querem parar dois reactores... e, nessa altura o que vai ser de nós? Ninguém fala disso, porque ninguém sabe onde nos reempregar depois. Nós, trabalhadores qualificados, vamos juntar-nos ao lixo da Rússia. Isso não acontece só aqui... em todas as cidades nucleares e centros de investigação anda o fantasma da miséria.

- Eu sei disso - replicou Sybin, pacientemente. Sempre as mesmas queixas... o desarmamento da Rússia era uma das causas do colapso interno. Quem é que se admirava se se tivesse tornado a mãe da criminalidade? Quando o Estado falhava, a ilegalidade começava a dominar. Vavra pousou as mãos em cima da mesa. Mãos bonitas, compridas, só as manchas brancas na pele incomodaram Sybin. Marcas de radiação? Ele não sabia. - o que propõe?

 

- Eu forneço-lhe plutónio. A minha condição é participar nos lucros.

 

«Oh, seu diabo em forma de mulher! Então é isso... queres ser sócia! Não ficas satisfeita com um bom pagamento a pronto, queres entrar no negócio. Nikita, isto não é uma mulher carinhosa, isto é uma ave de rapina ambiciosa.»

 

- E como propõe que se faça, Vavra Ivanovna? - perguntou Sybin, calmamente. «Ela pode fornecer, portanto é preciso ser amável. Não a zangues, não feches a porta.»

- Fazemos um contrato, Igor Germanovich.

 

- Nada escrito, de forma alguma. Isso seria equivalente a um anúncio.

 

- Um contrato com um aperto de mão, e o Nikita é testemunha. Como com os agricultores síberianos quando compram cavalos. -

 

-E que deve constar do contrato?

 

- Eu e o Nikita recebemos vinte por cento dos lucros.

- Eu não tenho nada a ver com isso! - exclamou Suchanov,imediatamente, e levantou o braço.

 

- Cala a boca, amorzinho! - Vavra olhou para Sybin, pronta para o combate. - o Nikita é uma pessoa tão bondosa e comedida. Vinte por cento, Igor Germanovich...

 

Sybin fez rapidamente contas de cabeça. Sessenta e cinco milhões de dólares por quilograma, vinte por cento disso eram cerca de treze milhões de dólares para Vavra. Que loucura! Em Cheliabinsk, Timski satisfizera-se com quinhentos mil dólares, e este diabo em forma de mulher queria vinte e três vezes mais!

 

- Isso é perfeitamente irrealista, Vavra Ivanovna! exclamou Sybin, cerrando os dentes. - Assim não.

 

- Eu não menciono números, apenas percentagens. Você também ganha, oitenta por cento são sempre seus! Eu participo no risco. E consigo-lhe o plutónio, que é o ponto principal. Isso não se consegue tirar de um saco como se fosse farinha. o mais difícil é entrar no armazém subterrâneo. Ninguém vai reparar na perda dado que o controlo da pesagem faz parte do meu trabalho, e eu assento quantidades falsas no livro de registos. É muito simples, não pesamos o plutónio duzentos e trinta e nove altamente puro numa balança de precisão electrónica, mas sim numa balança normal para alimentos... modelo de mil novecentos e noventa e seis com pesos de chumbo...

 

- Isso já não existe! - exclamou Sybin, profundamente impressionado. Plutónio numa balança simples, como numa loja de aldeia! Impensável. Isso ultrapassava as visões mais horríveis de um fantasista!

 

- Nós ainda temos. - A expressão de Vavra manteve-se inalterável. - Existem muitas outras impossibilidades destas em Krasnoiaski-Vinte e Seis. Por exemplo, o transporte de lá... o menor dos problemas. Quem quer entrar na zona, tem de apresentar uma autorização. Esta é controlada três vezes pelos militares, existem três áreas de segurança. Mas, Para quem quer sair, é mais fácil. Ninguém precisa de uma autorização, ninguém revista as malas, podemos abandonar aquela zona com uma mochila que ninguém faz perguntas sobre ela. E os postos de controlo só acenam aos camiões e automóveis, como na fronteira entre a Rússia e o Cazaquistão. Ninguém se interessa pelo material transportado pelos camiões.

 

-Então, o cerco da cidade é uma anedota! - replicou Sybin, desconcertado.

 

- Exactamente. A «cidade fechada» desmorona-se. Dantes era diferente, a cidade do reactor nuclear era uma fortaleza, uma cidadela impenetrável... Hoje em dia, os três mil soldados ficam contentes por ninguém os incomodar quando estão de patrulha. Quem é que vão prender? Os seus próprios oficiais? Eles são os maiores gatunos! Transportam livremente em camiões os enormes tubos de metal, de três metros de diâmetro, que foram, anteriormente, o revestimento dos mísseis SS-Dezoito, para os vender como garagens. E no ferro-velho existe de tudo com que se possa fazer dinheiro: prata, ouro, platina e metais não-ferrosos de todos os tipos. Com isso conseguem sobreviver, pois também eles não recebem regularmente o seu ordenado, às vezes estão três meses sem ver um tostão! E é o que acontece connosco. o transporte já não é um problema... esse reside apenas em como chegar ao plutónio. Eu não posso simplesmente tirar da balança e pôr de lado. E isso, Igor Germanovich, tem de ser pago. - Vavra respirou fundo. - Percebe, Igor Germanovich?

 

Sybin estava tão pasmado com aquela explicação sobre uma cidade nuclear moribunda que não conseguiu responder logo. Mas percebeu de forma bem clara que era uma situação vantajosa única: se alguém conseguia arranjar plutónio duzentos e trinta e nove em grandes quantidades, esse alguém era Vavra Ivanovna, pois Krasnoiarsk-Vínte e Seis era o maior armazém de plutónio da Rússia. E isso valeria treze milhões de dólares por quilograma?

 

Sim, valia! Aquele diabo em forma de mulher ganhara, Sybin tinha de reconhecer, mesmo que isso ferisse o seu orgulho.

 

- Dê-me a sua mão, Vavra Ivanovna - disse e levantou-se. Suchanov olhou para ele, incrédulo. «Ele não a estrangula, estende-lhe a mão. Está a tornar-nos milionários! é um sonho a tornar-se realidade. Sybin, quero beijar-lhe os pés, como faziam antigamente os agricultores aos seus fazendeiros.»

 

Vavra também se levantou e estendeu a mão a Sybin. Apertaram-nas vigorosamente e olharam-se bem nos olhos.

- Fico muito contente! - disse Sybin, pesaroso. Quando pode começar a fornecer?

 

-Não sei.

 

Sybin retirou imediatamente a mão.

 

- Um contrato tem de ser cumprido! Os meus clientes estão à espera!

 

- Temos um problema técnico, Igor Germanovich. Vavra voltou a sentar-se. - A produção de plutónio duzentos e trinta e nove, tão puro como o quer.. leva o seu tempo. o urânio é colocado dois meses no reactor em «incubação» até se desagregar e restar o plutónio. Essa é a primeira etapa. Depois da dissociação, pois o plutónio é um subproduto, a composição impura tem de repousar seis meses, e em seguida é decomposta e purificada através de um complicado processo radioquímico. Só nessa altura temos o plutónio duzentos e trinta e nove puro que se utiliza para as bombas atómicas. É armazenado sob a forma de pó muito fino. Apenas aí chega às minhas mãos para ser pesado e guardado em pequenos recipientes de aço, desaparecendo no armazém duzentos metros abaixo de terra.

 

- Isso significa que, durante a pesagem, só pode retirar uns gramas de pó de plutónio. Não consegue ir às reservas guardadas na cave? Vavra... eu não preciso de uma chávena de chá, eu preciso de quilogramas!

 

- Isso não consegue em nenhuma cidade nuclear em tão pouco tempo. Eu sou, acho eu, a única que pode fornecer grandes quantidades, porque a nossa fábrica tem tantos buracos como o queijo suíço.

 

Vavra olhou para Suchanov. Ele apressou-se a oferecer-lhe mais um copo de Goldenen Ring. Ela bebeu o copo de um trago. Nenhum russo bebe vodca aos golinhos, leva-se à boca, verte-se de uma vez e pronto, assim sabe melhor. o estômago fica contente, e os nervos da cabeça começam a dançar.

 

- Conhece a fábrica nuclear e o centro de investigação de Arsamas? Também é um centro de armas nucleares.

- Arsamas está na minha lista. - Sybin confirmou com a cabeça. - Fica perto de Novgorod.

 

-De vez em quando trocamos experiências. Arsamas está especialmente ameaçada pelo pacto das armas nucleares. Este levou a que alguns dos cientistas nucleares altamente qualificados sejam atraídos por pagamentos no exterior. E, de repente... lá vão eles, dispersos pelo mundo, já para não falar do Irão. Em Arsamas, também poderá conseguir alguma coisa. Ali o ambiente é de fim do mundo. E se for a Tomsk ou Surovaticha, Sevmash ou Severodvinsk, Snechinsk ou Beloiarsk... em todo o lado vai conseguir plutónio, mas apenas alguns gramas, nem sequer um quilograma. Se depois juntar as quantidades todas, talvez consiga alguns. - Vavra ergueu a cabeça. - Ou seja, o melhor plutónio e o mais puro só existe em Krasnoiarsk-Vinte e Seis.

 

-Acredito perfeitamente, Vavra Ivanovna. Vou pensar no assunto. - Sybin calou-se. Dois empregados entraram na suíte empurrando um grande carrinho de servir e começaram a pôr a mesa. A sopa chtchi fumegava numa terrina de valiosa porcelana. Uma criação deliciosa e perfumada do chefe cozinheiro que consistia em couve, tomate, cebolas, batatas, aipo, salsa e caldo de carne. Não havia nenhum russo que não adorasse essa sopa de legumes.

 

Foi um jantar opulento, acompanhado por um Zinandali, um vinho da Geórgia, e finalizado por Sowjetskoje Champanskoje sucheje, o famoso champanhe seco russo. Para sobremesa, Sybin decidiu-se pelo doce blinchtchiki, guarnecido por gelado de frutas diversas. Os conhecedores consideravam o gelado russo o melhor do mundo.

 

Vavra e Nikita abandonaram a suíte já muito tarde. Jublonskaia teve de agarrar bem o seu Suchanov e arrastá-lo, pois ele gaguejava, bebera três quartos da garrafa de Goldenen Ring e fitava Sybin de olhos esbugalhados e cara de imbecil.

 

- Igor Germanovich - balbuciava ele, com a língua entaramelada -, nunca te vou esquecer! És o melhor chefe à face da Terra... Dorme bem...

 

Sybin fechou a porta depois de eles saírem e bebeu o resto do champanhe. Contara com dificuldades, mas nunca esperara que fosse tão difícil conseguir quatro ou cinco quilogramas de plutónio puro. «É preciso equilibrar tudo muito bem», pensou ele. «As árvores não nascem do chão como cogumelos, mas quando já tiverem raizes, não há tempestade que as derrube. E, além disso, o tempo está a nosso favor.. A situação não vai melhorar, só piorar. E quanto pior ficar a economia russa, tanto mais garantido é o nosso negócio. Só é preciso termos o nariz certo para farejar o ouro. Eu tenho esse nariz!»

 

Sybin ficou três dias em Krasnoiarsk, Vavra levou-lhe ao hotel uma amostra de cinco gramas de pó de plutónio num dos pequenos recipientes de aço que utilizava para guardar e pesar o plutónio.

 

Durante duas semanas, Sybin ainda viajou entre as cidades nucleares e os centros de investigação, da Sibéria para Vladivostock, de Murmansk para Tomsk, onde mandara eliminar o coronel Micharin. De Torrisk e através de Natalia Petrovna, voltou a enviar um sinal de vida ao Dr. Sendlinger. Natalia telefonou para Berlim.

 

- Vai ser contactado por um correio - disse ela, sem mencionar o seu nome. Mas o Dr. Sendlinger reconheceu-a imediatamente pela voz. - Já vai a caminho e leva-lhe algumas flores para a tia.

 

Algumas flores... amostras de plutónio que o Dr. Sendlinger queria apresentar aos seus clientes para lhes provar que conseguia arranjar o pó mortal. Sybin conseguira-o, finalmente,

 

- Uma boa notícia. A tia Ida vai ficar contente. Quando chegam as flores?

 

- Já disse, estão a caminho. - A voz de Natalia soava distante, mesmo antipática. - o tio manda cumprimentos.

 

- Dê-lhe cumprimentos também da minha parte quando falar com ele. - o Dr. Sendlinger fechou os olhos e viu Natalia à sua frente. Reprimiu um suspiro e esforçou-se por dar um tom profissional à sua voz. - Penso ir em breve a Moscovo.

 

- Espere por notícias do tio. Eu não vou estar em Moscovo.

 

- Natalia Petrovna, por favor..

 

Ela desligou. Ele repugnava-lhe. Um cão que só sabia ganir e queria saltar-lhe para o colo. Mesmo que Sybin lhe ordenasse que dormisse com ele... ela iria recusar-se pela primeira vez. Não tinha nenhuma explicação para aquilo, mas sentia nojo dele.

 

Natalia dirigiu-se ao bar feito de madeiras nobres e espelhos e serviu-se de um conhaque arménío. o sabor amargo como fel dissipou-se rapidamente na sua boca. Ultimamente agarrava-se cada vez mais à bebida e sentia-se mais livre.

 

Atirou-se para o sofá estofado com damasco indiano e pôs música, Borodine, Nas Estepes da Rússia Central. A imensidão infindável, a passagem das caravanas de camelos, o vento quente que levava as nuvens brancas no céu ilimitado... que saudades existiam na música.

 

«Ser um dia tão livre como as nuvens», pensou ela. «Pairar um dia naquele azul tão feliz como uma águia. Galopar um dia sem correntes pela terra como uma manada de cavalos selvagens. Seria magnífico... E que foi feito de mim? Propriedade de Sybin... uma prostituta comercial.

 

Natalia Petrovna, és um pássaro com as asas partidas... »

 

Quatro dias depois do telefonema de Natalia para o Dr. Sendlinger, a encomenda de Sybin chegou a Berlim. Um homem baixo, gordo com pouco cabelo, mas com um bigode farfalhudo e olhar penetrante. Foi ter com o Dr. Sendlinger ao seu escritório, ao fim da noite, quando este já não esperava nenhum cliente. Sendlinger ainda se encontrava a estudar um documento, um processo que começava no dia seguinte, Uma acção por incompetência profissional médica. Numa inofensiva operação ao apêndice, o cirurgião esquecera-se de uma mecha de gaze dentro do abdômen. Uma situação desagradável. o seguro do médico recusara uma compensação e uma indemnização por danos morais. Ia tornar-se uma luta entre peritos, apesar de a situação ser clara. Os seguros gostavam de receber os prémios, mas só pagavam as indemnizações de má vontade. Nos EUA não seria como na Alemanha, mas sim uma acção de milhões.

 

o Dr. Sendlinger abriu a porta e deixou entrar o gordo baixo.

 

- Na verdade, o escritório já está fechado - disse ele. - Mas entre. De que se trata?

 

- Chamo-me Nilin, Burjan Alexandrovich Nilin. Comerciante de peles de Hamburgo.

 

Ele falava bem alemão, quase sem sotaque. o Dr. Sendlinger olhou para o homem baixo. Comerciante de peles, mais um facto danoso. De Hamburgo. «Que quer ele de mim em Berlim?»

 

Apontou para uma cadeira de couro, mas Nilin permaneceu em pé.

 

- o meu amigo Sybin enviou-me - continuou ele. o Dr. Sendlinger sentiu um choque eléctrico a percorrer-lhe o corpo. Era isso, era a encomenda das amostras de plutónio! Ali estava um homem baixo e gordo, com um bigode farfalhudo, com milhões no bolso.

 

- Mas sente-se, senhor Nilin! - exclamou o Dr. Sendlinger. - Estava à sua espera. Quero dizer, não sabia quem viria, apenas que alguém viria.

 

- Só quero entregar uma coisa. - Nilin abriu a sua pasta grossa. o Dr. Sendlinger sentiu um formigueiro no couro cabeludo. Andava com plutónio na pasta, como se quisesse apresentar amostras de peles. Assim era fácil, numa pasta, numa pasta perfeitamente normal. Estes russos...

 

Nilin desembrulhou e colocou tudo em cima da secretária do Dr. Sendlinger. Sete pacotes pequeninos, envoltos num pano de pele de carneiro. o Dr. Sendlinger recuou dois passos involuntariamente.

 

-Foi assim que os transportou? - perguntou ele, rouco. Nilin fixou-o como se procurasse perceber a razão da pergunta.

 

- Sim - respondeu, um tanto irritado -, foi a forma mais segura. Em Moscovo, a alfândega conhece-me, importo muitas peles para a Alemanha, sobretudo dos leilões de peles A, de Sampetersburgo. Tudo passa por mim através de Moscovo, tenho aí grandes amigos e, assim, os meus caixotes não são inspeccionados... As mulheres dos fiscais aduaneiros usam casacos da minha colecção. Foi fácil esconder as caixinhas no meio das peles e trazê-las de avião.

 

- Meu Deus! E se o avião caísse? Se os recipientes tivessem rebentado com o choque? Consegue imaginar essa catástrofe mundial?

 

- Eu voei na Lufthansa. - Nilin sorriu ao Dr. Sendlinger. - Os aviões da Luftansa raramente caem. Eu confio na perfeição alemã na manutenção das máquinas. Eu só voo na Lufthansa,

 

o Dr. Sendlinger olhou para os sete pacotes. Pareciam-lhe sinistros, apesar da sua experiência com materiais radiactivos. o primeiro plutónio puro, pronto a ser utilizado em armas que tinha nas mãos: a morte de milhões na sua secretária.

 

- Tem algumas despesas, senhor Nilin? - perguntou ele, com dificuldade.

 

- Não. Já foi tudo pago pelo Igor Germanovich. Ganhei mais com isto do que com cem casacos de pele. E ele ainda comprou um casaco de zibelina para a Natalia Petrovna. o mais caro que existe! E nada de zibelinas de criação, mas sim animais caçados nas florestas siberianas. - Nilin estava radiante, o seu bigode farto tremia de alegria. - o Sybin pediu-me para continuar a trabalhar para ele. Eu faço muitas vezes o percurso Moscovo-Hamburgo-Moscovo. E posso transportar qualquer coisa.

 

- Os meus parabéns. - o Dr. Sendlinger dirigiu-se ao seu armário esculpido, a peça sumptuosa do seu escritório, e abriu-o. - o que lhe posso oferecer, senhor Nilin? Conhaque, uísque, aguardente, aguardente de cereais, vodca... ou um vinho da Renânia-Palatinado? Também tenho um vinho seco do Loire. Escolha.

 

- Agradeço-lhe. - Nilin inclinou-se cortesmente. Não quero beber nada. Quero apanhar o último avião para Hamburgo. Entreguei tudo e voltaremos a ver-nos de certeza. -De certeza!

 

o Dr. Sendlinger acompanhou Nilin até à escadaria e depois voltou para o escritório. Manteve-se a uma certa distância da secretária e observou os sete pacotinhos embrulhados em pele de carneiro. Parecia-lhe impossível, como se a radiação do pó mortal o atingisse. Com as mãos trémulas, limpou a cara e reparou que estava a transpirar. Suor frio.

 

«Impossível», pensou ele, «é completamente impossível que Sybin me coloque quilogramas de plutónio em cima da mesa! Tem de haver outras formas de enviar o maldito material aos clientes. Este Nilin traz-me a substância para uma bomba de plutónio como quem traz uma caixa de chocolates. Sybin, seu manhoso... eu negoceio em material radiactivo, mas não o quero ter perto de mim! Eu sei o que vais dizer, é problema teu, amiguinho, Eu forneço, tu distribuis. Cada um tem a sua própria área de trabalho. Meu Deus, eu não posso armazenar plutónio duzentos e trinta e nove aqui no escritório! Nem na cave, nem nos armazéns de material de construção de Waldhaas, nem na cave do Zum Dicken Adolf, de Hãssler. Pensei em tudo, menos nesta situação maluca, o Sybin podia pôr-me à porta a morte do mundo inteiro em sacos de batatas!»

 

Entrou no aposento do seu chefe de escritório para telefonar. o seu próprio telefone encontrava-se por trás dos sete pacotes, e Sendlinger não queria aproximar-se deles.

 

Waldhaas estava em casa, como Sendlinger verificou, satisfeito. Mas, ao fundo, ouvia-se uma algazarra.

 

- Não estás sozinho? - perguntou ele. - Parece que estás num bar.

 

- Estamos a festejar uma grande encomenda. Vou fornecer material para uma construção enorme na Friedrichstrasse. Escritórios e apartamentos, por baixo lojas de luxo, uma arquitectura de cair o queixo. Hipermoderna. Sensacional.

 

-Parabéns, Ludwig. A reunificação sempre foi boa, hem? Como major da Stasi terias continuado um pobretanas.

 

- o que queres? - perguntou Waldhaas, irritado. Ele não gostava de estar sempre a recordar esse tempo. Mudara e adaptara-se aos novos tempos. Sempre aqueles velhos comentários... era preciso esquecer de vez o passado. Só tinha cumprido o seu dever.. já ninguém denunciava os empregados do Grand Hotel por terem servido Honecker ao jantar. Conseguir esquecer.. devia-se treinar isso! - Despacha-te. Tenho de voltar para os meus convidados.

- As amostras da Rússia chegaram. Sete pacotinhos. Silêncio. Waldhaas parecia ter de se recompor. A notícia criava uma nova situação: o negócio de milhões com a morte arrancava.

 

-E depois? - perguntou ele.

 

-Vou mandar analisar as amostras ao nosso químico nuclear, Hans Dümstein. Se forem boas, na próxima semana vou a Paris e a Viena. Talvez até mesmo a Damasco. Lá encontro-me com o Mohammed al Sifra. o adido comercial da Embaixada do Irão em Paris, Anwar Awjilah, organiza o encontro. E Makar Abha está à espera no Líbano.

 

E em relação às prometidas ogívas nucleares dos mísseis?

 

- Temos de esperar, esse é o segundo acto. Uma ópera começa sempre com o primeiro acto. Agora estamos na

abertura.

 

-E que esperas de mim, Paul?

- Tu vais armazenar o material.

- Impossível!

- Tens armazéns suficientes.

 

- Mas não para plutónio! Impossível, Paul. Devo contaminar com as radiações os meus trabalhadores, e a mim próprio?

 

-Não digas disparates! - replicou Sendlinger, contrariado. - Tens medo de quê? As amostras estão aqui, em cima da minha secretária. Embrulhadas em pele de carneiro. - És doido! - gaguejou Waldhaas. - Aí, em cima da tua secretária?!

 

- Os Russos transportam o plutónio num saco de plástico para fora da fábrica.

 

-Eu não possuo o fatalismo dos Russos! - A voz de Waldhaas tremia de irritação. - No meu armazém não entra nem um grama de plutónio. Pensa noutra solução!

 

-Ainda voltamos a falar disto, Ludwig. -Não há mais nada a conversar.

 

- De qualquer forma, vais ter de ir até Carachi. Eu não consigo estar em todo o lado. Os Paquistaneses estão à espera de uma amostra. Faz alguma coisa pelo teu dinheiro! Até agora só tínhamos encomendas. Mas o mundo vai parecer completamente diferente quando voltares com a confirmação de duzentos e trinta milhões de dólares no bolso.

 

- Esperemos. Para quando está planeado o voo para o Paquistão?

 

- Assim que eu tenha as análises das amostras.

 

o Dr. Sendlinger terminou a conversa sem esperar pela resposta de Waldhaas.

 

Dois dias depois, apareceu um mensageiro com um cofre de chumbo no escritório do Dr. Sendlinger para ir buscar as sete amostras. Com muitos cumprimentos da parte do Professor Doutor Hans Dümstein do Instituto de Investigação Nuclear.

 

E Sendlinger ficou à espera, impacientemente, dos resultados. Esperou cinco dias, estava inquieto e irritado, não estava contente com nada, gritava com a secretária, rasgava cartas só porque tinham um erro de dactilografia e até se mostrava impaciente com os clientes. Por fim, na noite do quinto dia, o Dr. Dümstein telefonou. Ele era, como Sendlinger, um velho senhor da Associação Académica da Saxónia e membro da tertúlia do local habitual de encontro. Quando se reuniam na taberna, era um dos mais activos e espirituosos.

 

- Amanhã recebes de volta o teu maldito material, Paul! - disse ele. - Nem quero saber de onde vem, não é da minha conta. É melhor eu nem saber de nada. Rapaz, em que é que te estás a meter?

 

- Qual é o resultado da análise? - perguntou Sendlinger, sem prestar atenção aos lamentos de Dümstein.

 

- Seis amostras são plutónio concentrado com um grau de pureza entre oitenta e cinco virgula seis e noventa vírgula três. Uma verdadeira porcaria diabólica!

 

-E a número sete?

 

- Enganaram-te bem. A número sete é açúcar em pó irradiado. E genial! Quem medisse a radiação nunca desconfiaria que tinha açúcar à sua frente.

 

- De onde vem a amostra? - Sendlinger comprimiu os lábios. Nem queria pensar o que teria acontecido se tivesse apresentado açúcar em pó irradiado na Líbia. Uma vigarice dessas era logo descoberta... e depois seria encontrado algures com a garganta cortada. Respirou fundo. - De onde? perguntou ele, novamente.

 

- Deixa-me verificar. - Sendlinger ouviu o barulho de papéis e depois a voz de Dümstein. - No recipiente de metal está apenas K-Vinte e Seis. Diz-te alguma coisa?

 

- Não. Mas agradeço-te, Hans. Vou informar-me. Sendlinger mordeu o lábio inferior. - Quando é que nos vemos?

 

- No próximo encontro na taberna. Boa noite, dorme bem.

 

-Tu também.

 

Sendlinger bebeu um uísque puro para se acalmar e depois olhou para o relógio. Pouco passava das vinte e uma horas... era a altura de Sybin andar pelos locais nocturnos à caça de uma jovem companheira de cama. Na verdade, não suportava essas raparigas mais do que uma noite. Quando acordava de manhã, destapava-a e ordenava «Pira-te!» e punha-a fora da sua penthouse. Na datcha feudal onde Natalia vivia nunca tinha entrado nenhuma outra mulher.

 

Apesar disso, o Dr. Sendlinger marcou o número. «Talvez tenha sorte», pensou ele. O Sybin tem de saber já da vigarice... teria sido uma catástrofe oferecermos um quilograma de açúcar por sessenta e cinco milhões de dólares.»

 

Sendlinger teve sorte... Ao fim de alguns toques, Sybin atendeu o telefone. Como sempre, Sendlinger falou em inglês com ele.

 

-Daqui fala Paul...

 

-Paul! Que bom ouvir a tua voz! Mas tão tarde. As flores da tia chegaram?

 

- Sim. É por isso que estou a telefonar, Igor Germanovich. Sete amostras.

 

- Certo. - Sybin. parecia muito satisfeito. - o Nilin é um bom homem. Leal e honesto.

 

- o material tinha apenas um espinho. -Como, um espinho?

 

- Seis amostras eram plutónio do melhor.. a sétima era açúcar em pó irradiado.

 

Em Moscovo, Sybin calou-se e olhou para o papel de parede de seda do seu escritório.

 

-Tens a certeza?

- Absoluta.

 

O Nilin...

 

- Não, ele não tem nada a ver com isso. Era uma amostra original. No recipiente de chumbo estava escrito K-Vinte e Seis. Diz-te alguma coisa?

 

Novo silêncio. Depois a voz de Sybin soou implacável.

- Sim, diz-me. K significa Krasnoiarsk. Aquela cadela maldita!

 

- De quem falas?

 

- Vavra Ivanovna Jublonskaia. Mas eu conto-te a história noutra altura. Fizeste bem em telefonar-me imediatamente, Paul. Eu vou tratar disso. Não vai voltar a acontecer. E agora uma boa notícia: posso enviar um quilograma e meio de plutónio. Já.

 

-Parto amanhã para Paris e Viena.

 

Um estalido na ligação, Sybin desligara. Sendlinger bebeu mais um uísque e reflectiu sobre como terminar aquela noite perturbadora. O que vai o Sybin fazer?», questionou-se. Tinham-no enganado, e isso era o pior que podiam fazer-lhe. Ninguém enganava um Sybin sem pagar por isso. Com a vida. Nos sindicatos dominavam os velhos costumes. E quem era essa Vavra?

 

o Dr. Sendlinger decidiu ir até ao Zum Dicken Adolf c comer uns medalhões de vitela com espargos no novo restaurante da moda de Adolf Hãssler.

 

De manhã cedo, Nikita Victorovich Suchanov acordou de um salto. o telefone estava a tocar junto da sua cama. Olhou para o despertador, viu que eram sete horas e levantou o auscultador, irritado.

 

-Daqui fala da morgue! - exclamou ele. - Quem devo ir buscar?

 

- Tu próprio, seu cretino!

 

- Chefe! - Suchanov sentou-se muito direito na cama. Ele reconheceu imediatamente a voz de Sybin, além de que nenhum outro lhe podia chamar idiota. - Passou-se alguma coisa?

 

-Disso podes ter a certeza. - Sybin falava em tom ameaçador. - A Vavra está contigo?

 

-Não! Ela esteve no turno da noite. Mas deve chegar por volta das oito horas. Tem notícias para ela?

 

-Para ela não, mas para ti! Uma missão.

- Estou a ouvir, Igor Germanovich.

 

- A amostra de plutónio que a Vavra te deu é açúcar! Açúcar em pó irradiado! - gritou Sybin ao telefone. A monstruosidade da vigarice fazia inchar as veias das suas fontes. Estivera acordado toda a noite a pensar de que forma poderia punir aquela afronta. Nunca na sua carreira como presidente do Grupo Dois alguém se atrevera a enganá-lo. Bom, está bem, há dois anos... um chefe de secção falsificara as contas do dinheiro para protecção cobrado durante alguns meses e metera uns quantos milhares de rublos no próprío bolso. Sybin só se apercebera disso por acaso, quando o pérfido encomendara um Audi alemão para si, pois ele não conseguiria financiar essa compra com o seu próprio ordenado. Nessa altura, Sybin não se enfurecera, apenas telefonara à sua secção especial. Dois dias mais tarde uma embarcação afundara-se no Moscova, aparentemente vazia, mas, quando a Polícia Marítima a tirara da água, encontrara no fundo do barco um homem nu, com um arame apertado à volta do pescoço.

 

A Polícia ficara desnorteada, o assassinado nunca fora identificado e fora enterrado num cemitério com a indicação «desconhecido»... em vários bocados, porque, antes, tinha sido utilizado como objecto de estudo na disciplina de Patologia da Academia Médica. Nele, os estudantes aprenderam a amputar membros.

 

Foi um aviso de Sybin a todos os membros do «consórcio»... e todos o perceberam. Ninguém enganava um Sybin. Suchanov não conseguiu responder. Ficou sentado na cama, a olhar para os pés e, apesar do sol da manhã, começou a sentir-se gelado. «Não pode ser», pensou ele. «Não pode ser.. não pode ser... ». o seu horror não lhe permitia mais. «Não pode ser.. não é possível!»

 

- Açúcar em pó? - Sybin ouviu claramente Suchanov a tentar respirar. - Impossível.

 

- Estás a querer dizer que estou a mentir? - retorquiu Sybin, irado.

 

-Excelentíssimo director, então só pode ser um erro. -Eu nunca me engano!

 

-Claro, não é um erro... mas não consigo pensar que... - De repente, Suchanov começou a transpirar. «Oh, céus», pensou ele. «Oh, céus! Que não se volte contra mim! »

 

- Tu não tens de pensar, tens de negociar! A Vavra enganou-nos. Sabes o que tens a fazer.

 

Suchanov enterrou a cabeça entre os ombros. Um arrepio percorreu-lhe o corpo, mas, ao mesmo tempo, sentiu-se paralisado. Não conseguia mexer-se e esforçou-se por continuar a segurar o auscultador.

 

«Sabes o que tens a fazer... Sim, ele sabia. Ele sabia muito bem.

 

- Igor Germanovich - implorou ele. -Tens de o fazer!

 

- Igor Germanovich...

 

-Ela arrastou a nossa reputação pela lama!

- Suplico-lhe, Igor Germanovich.

 

-Raios, mata-a! - gritou Sybin.

- Eu... eu não consigo. -Consegues e tens de o fazer!

 

- Eu amo-a! - A voz de Suchanov quase parecia um lamento, uma criança a choramingar. - Eu ajoelho-me à sua frente, Igor Germanovich.

 

- Ela vai enganar-nos outra vez, Nikita Victorovich.

- Não! Não! Eu prometo-lhe... Não! – Suchanov começou a chorar. Sybín ouviu os seus soluços, mas compaixão era uma palavra que não existia no mundo dos negócios. Compaixão era uma fraqueza, e só os fortes singravam. Compaixão matava a actividade, era a filosofia de vida de Sybin.

 

- -Não prometas o que não podes cumprir! - replicou Sybin, impiedoso. - o que a Vavra fez não se apaga como uma mancha. Não te lamentes, não me comove. Fá-lo!

 

- Está a destruir a minha vida também, Igor Germanovich - chorou Suchanov. Ele tinha os olhos fechados e as lágrimas corriam-lhe pela cara abaixo. - Eu fui sempre uma pessoa obediente e leal, sabe disso. Dê uma oportunidade à Vavra de corrigir o que fez.

 

-Não! - Sybin estava farto de discutir com aquele Suchanov choramingão. A disciplina era fundamental para qualquer trabalho. Sem disciplina ficava-se à beira do fim do mundo. - Amanhã espero um telefonema teu, Nikita... e só quero ouvir «está tudo tratado».

 

Sybin desligou. Em Krasnoiarsk, Suchanov largou o auscultador como se o estivesse a queimar. Depois, deixou-se cair na almofada, afundou a cara nas penas e chorou como um cão perdido.

 

Pouco depois das oito, Vavra Ivanovna entrou em casa, despiu-se, tomou um duche e atirou-se nua para cima da cama. Aninhou-se junto a Suchanov e acariciou-o com uma imensa ternura.

 

-Ainda dormes, meu querido? - sussurrou ela ao seu ouvido. - Estás tão quente. Dorme...

 

Ela beijou-lhe o pescoço, os ombros, encostou a cabeça ao seu braço e entregou-se a uma sensação de felicidade. Suchanov tinha vontade de gritar. «Vai, vai... foge para

longe, para bem longe, esconde-te onde ninguém te possa encontrar.. corre... corre... Mas abraçou-a com o outro braço, puxou-a para ele e inspirou o perfume da sua pele.

 

Ele queria dizer qualquer coisa, alguma coisa muito terna, mas, nesse momento, reparou que ela adormecera.

 

A sua cara tinha uma expressão de felicidade, como uma criança saudável a dormir..

 

Naturalmente que Suchanov não conseguiu continuar a dormir. Primeiro, o corpo quente, suave e perfumado de Vavra excitava-o, e ele tinha de se dominar, e, segundo, paralisava-o a ideia de, ainda nesse dia, ver Vavra à sua frente, fria e pálida, castigada por ordem de Sybin, com uma única consequêncía, como ele sabia. Já não havia fuga possível com a desculpa de não a ter visto, por ela ter partido em viagem, a irmã mais velha estava muito doente, vivia em Bratsk, junto da grande albufeira do Angara, ela tinha qualquer coisa parecida com cancro, estava muito mal e Vavra fora imediatamente ter com ela... Sybin soltaria uma gargalhada e diria, impassível: «E quando ela tiver chegado a Karnchatka... apanha-a!»

 

Não havia saída.

 

Com cuidado, para não acordar Vavra, Suchanov deslizou para fora da cama e vestiu-se. Depois voltou silenciosamente para o quarto e observou Vavra a dormir. Para ele, era a mulher mais bonita que existia, as horas com ela eram uma viagem pelo paraíso. «Podia esfaqueá-la agora», pensou ele. Deitada de costas, meio destapada, com a parte de cima do corpo à mostra, seria fácil espetar-lhe a faca no coração. Ela não sentiria nada, a morte seria muito rápida. Ou, então, podia sufocá-la com a outra almofada... uma luta breve, desesperada, um revirar e esbracejar até a resistência abrandar. Também podia estrangulá-la... o seu pescoço estava destapado, só era preciso pressionar a laringe com os polegares e esmagar a cartilagem. Mas tudo tinha de ser feito pelas suas mãos, as mãos que tinham acariciado Vavra.

 

Suchanov olhou para as mãos e depois escondeu-as atrás das costas. «Não!», gritou ele, silenciosamente. «Não! Tu não consegues. Tu não consegues matá-la com as tuas próprias mãos. Nunca mais poderás olhar para elas, terás de as amputar e deitá-las fora. Vavra, minha alma, o que devo fazer?»

 

Ele deixou o quarto e andou pela sala de um lado para o outro. «Como posso matá-la sem utilizar as minhas mãos?», questionava-se ele, incessantemente. «Um passeio de barco no Jenissei, o barco vira-se e ela afoga-se. Mas a Vavra deve saber nadar. Eu conhecia-a junto ao rio, quando ela estava a sair da água. Ela nada como um peixe. E se déssemos un passeio de bicicleta? Eu ia atrás dela, perdia os travões numa encosta, atropelava-a, ela caía da bicicleta e partia o pescoço. Também não é muito certo, tinha de ser um rochedo muito escarpado de onde ela caísse. Mas à volta de Krasnoiarsk não existe nenhum rochedo escarpado. Apenas colinas e nessas rola-se até cá baixo sem nos magoarmos. Também se pode tentar com veneno... é doloroso, mas seguro. Só tem de ser o veneno certo.»

 

Suchanov parou subitamente. Veneno! Era isso, era essa a solução. Veneno! E, de repente, soube qual o veneno que queria e onde consegui-lo. Uma morte certa, se se tivesse um bocadinho de paciência. Sybin iria compreendê-lo. E ele não queria sujar as suas mãos.

 

Vavra, esgotada do turno nocturno, dormiu até à tarde. Depois, apareceu feliz e descansada na sala, beijou Suchanov no pescoço que, vendo-a assim de cuecas e soutien, soltou um suspiro.

 

-Já tinhas tido oportunidade. Agora tenho fome disse Vavra, de olhos a brilhar, interpretando mal aquele suspiro.

 

- o Sybin telefonou. - Suchanov esforçou-se por não olhar para ela, dirigindo o seu olhar para a janela.

 

- Um homem caloroso. - Vavra parou à porta da cozinha. - Queres carne ou peixe? Ou papa com cogumelos? Ou uma salada com batatas, frango, pepino e maionese? -Faz aquilo que te apetecer.

 

-Eu quero aquilo que fizer o meu amor feliz. Suchanov suspirou novamente, mas baixinho. «Como é possível matar uma mulher destas? Devia apenas beijá-la continuamente, mas sem lhe tirar o ar. Igor Germanovich, o que exiges que faça... »

 

- o Sybin telefonou... - repetiu ele, desesperado. -Já sei. o que queria ele?

 

-Precisa de mais um grama de plutónio duzentos e trinta e nove. Superpuro.

 

- Vou ver se consigo desviá-lo da balança. Para que precisa ele de mais um grama?

 

- Sei lá! Ele é que sabe. o Sybin precisa disso rapidamente.

 

- Ninguém vai reparar no desaparecimento de um grama. Trago-o amanhã.

 

- Es uma mulher maravilhosa. - Suchanov abriu os braços. - Anda cá, dá-me um beijo...

 

Ela foi até ele, deixou-se abraçar e beijaram-se como se se quisessem fundir um no outro. Mas quando Suchanov começou a andar devagarinho para o quarto, ela desprendeu-se do abraço dele.

 

-Agora não! - disse ela e riu-se como uma menininha. - o meu estômago está a reclamar e ao som dessa música, não...

 

À noite, Vavra saiu de casa para fazer algumas compras. E, como se Sybin tivesse olhos em Krasnoiarsk, telefonou precisamente nesse minuto. o coração de Suchanov ficou-lhe na garganta. Como é que Sybin iria reagir à proposta dele?

 

-Já está? - perguntou Sybin, impassível.

 

- Está a andar, Igor Germanovich - gaguejou Suchanov-

- Isso quer dizer o quê? Ela ainda anda por aí?

 

- Sim, mas não por muito tempo.

 

É assim tão difícil matar uma franganota?! Amanhã vai começar. - Suchanov respirou fundo. Pela minha honra... amanhã, de certeza.

 

-Porque não hoje?

 

- Tenho um bom plano, Igor Germanovich.

 

- Eu não quero planos nenhuns, quero ver a Vavra num caixão!

 

- Ouça-me, por favor. - Suchanov olhou para as mãos como se as quisesse juntar em oração. Mas isso não dava, porque precisava de uma delas para segurar o auscultador. Disse à Vavra que o Igor precisava de mais um grama de plutónio.

 

-Açúcar em pó! - replicou Sybin, secamente. -Também acho. Mas, se for irradiado, cumpre o seu objectivo.

 

-Qual objectivo?

 

-Amanhã vou deitar uns pozinhos de plutónio, ou de açúcar em pó irradiado, no chá da Vavra. Ela não vai dar por nada por ser tão pouco. Mas se um milésimo de grama é suficiente para matar uma pessoa, então também vai resultar com a Vavra. No chá, será dez vezes mais e ninguém vai perceber como é que ela morreu.