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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


POR ORDEM DO TIGRE / Heinz Konsalik
POR ORDEM DO TIGRE / Heinz Konsalik

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

POR ORDEM DO TIGRE

 

Atrás do banco de areia, na curva onde o rio desaparecia na floresta, três faixas de luz estendiam-se sobre a superficie da água, cortando a escuridão. Brilhavam como prata forjada. A água era negra, como verniz líquido.

Ela estava deitada de lado, com a pata esquerda estendida, e observava a luz. Não se movia. Apenas dobrava a ponta da cauda de vez em quando. Mais nada.

Há uma hora que permanecia nesta posição. Escutava os ruídos vindos da floresta, como o deslizar de uma cobra ou o cântico de um pássaro e fitava as faixas de luz. Já não tinha fome. Nem sequer se sentia fraca. Afinal apanhara meia dúzia de enormes sapos que encontrara à beira dos pauis. Levara-os aos seus dois filhotes, mas os pequenos tinham recusado comê-los, por isso ela própria os devorara. Também caçara um enho, mas era pequeno, quase só feito de ossos.

Agora estava calma. A situação estava sob controlo. Teria apenas de esperar. O primeiro raio de luz apagou-se. Depois o segundo. A sua enorme cabeça às riscas avançou um pouco para a frente. Passou os lábios pelos dentes caninos e inspirou, atenta. Nada... Contraiu os músculos e ergueu-se.

O terceiro raio de luz - apagado. A Lua escondera-se definitivamente atrás das nuvens, que cobriam progressivamente a floresta, mas a mãe tigre manteve-se escondida atrás dos fetos. o seu coração batia lentamente. Sentia-se como que imersa numa corrente infinita de paciência, Não cometeria nenhum erro. Teria de arranjar carne para os filhotes.

A luz?...
Mais abaixo, onde as montanhas ficavam mais altas e o vale se tornava mais profundo, costumava haver uma luz semelhante durante a noite. Eram faixas de luzes. E no ar pairavam odores desconhecidos. Ouviam-se vozes. Vozes ameaçadoras. Misturadas com um barulho abafado, contínuo, que nem sequer parava quando a noite caía e o luar aparecia - um barulho abafado e ameaçador que soava pela floresta como as batidas de um enorme coração doente. Representava perigo. Por isso, ela percorrera o rio, juntamente com os seus filhotes, até encontrar aquele novo esconderijo.

 

Mas não permaneceria ali durante muito tempo. Avançou a pata esquerda e sentiu um ramo. Rapidamente transpôs o peso do corpo para as patas traseiras, a fim de evitar que o ramo se partisse. Agora a outra pata. A terra estava húmida, coberta de ervas, o que lhe permitia avançar silenciosamente até à pequena clareira, onde na noite anterior abatera o javali. Um macho. Os machos por vezes eram pérfidos. Esse provocara-lhe três cicatrizes com os seus colmilhos. Duas no flanco direito e uma do lado esquerdo do peito. A cicatriz no peito ainda lhe doía.

 

Surpreendera o javali na noite anterior. Quando ele quis defender-se, já era tarde de mais. Rasgara-lhe o músculo das costas com o primeiro golpe e com o segundo partira-lhe a coluna. Apesar de já nem ser necessário, ainda lhe mordera a garganta... Era um javali inexperiente, jovem, mas felizmente bastante grande. Só depois de o ter arrastado da clareira para o esconderijo, para o estripar, é que reparara como ele era novo. Tinha uma carne tenra e fresca e seu sangue era claro e bom. Como era hábito, começara seu trabalho pela parte de trás. Abrira a barriga e retirara o estômago com todo o cuidado para não o danificar Pousara-o cautelosamente ao lado do cadáver e depois arrancara pedaços tão grandes quanto possível das coxas e das costas dojavali e regressara ao esconderijo, onde os filhotes a esperavam.

 

Na noite seguinte não precisava de ir à caça. Conseguia cheirar o cadáver do Javali

de longe. Era um cheiro agradável,
melhor que no dia anterior. Os vermes e escaravelhos que cobriam o cadáver como uma segunda pele móvel não a incomodavam. Quando chegou, um pássaro picava o javali morto. Afugentou-o com um movimento de cabeça. Tirou o máximo de carne que conseguia segurar e voltou para o esconderijo.

 

Os filhotes ouviram-na chegar

 

Na noite anterior ainda estavam demasiado fracos, mas nessa noite já corriam ao seu encontro. o mais velho empurrara-a com a cabeça e, mesmo antes de entrarem no esconderijo, tentara arrancar um pedaço de carne. A mãe rosnou levemente, enfraquecida pelo peso da carne. Entretanto, o mais pequeno sentou-se simplesmente e fitou-a, atento. Era muito bonito. Ela adorava-o.

 

A mãe tigre deixou cair a carne no chão e observou como os doisfilhotes a devoravam, enterrando as cabeças na carne. Tinham de ser alimentados. Precisavam de comer muito. Em breve continuariam a caminhada para norte...
Ao longe ouvia-se o barulho monótono do trânsito nas duas principais auto-estradas, a East Coast Parkway e a Keppel-Road. Podia-se ver as cadeias de luzes formadas pelos faróis dos automóveis. Aquilo a que em Singapura se chamava «vida nocturna» estava prestes a começar. As pessoas saíam a correr dos cinemas e dirigiam-se para o rio ou para o mar, com o intuito de aproveitar a brisa refrescante. Aqueles que tinham fome passeavam pelas barraquinhas, ao longo do rio, onde se podia comprar um biryani
indiano ou um prato com massa chinesa picante.

 

Deste lado, porém, reinava o silêncio. Os enormes armazéns estavam submersos na escuridão. Apenas o edifício grandioso do World Trade Center, iluminado com fortes holofotes, brilhava como um majestoso bloco de gelo branco. Onde é que se metera o maldito barco, diabos!

 

Maya olhou para o relógio: uma e cinco da manhã. Permaneceu imóvel. Usava um fato de treino de um fino tecido preto e enfiara uma máscara, uma meia de nylon, na cabeça. Não passava de uma sombra, assim, em frente de um muro escuro de cimento.

 

Olhou de novo para a água, hesitou e depois, num gesto decidido, pegou no seu saco. o cais estava vazio. Percorreu rápida e silenciosamente os dez metros que separavam o muro do primeiro contentor. Dirigiu-se para uma escada de ferro que descia para a água.

 

Pôs a alça do saco sobre o ombro e o peito, a tiracolo,
para que pudesse movimentar livremente os braços, e agachou-se. Trechos de música, intercalados com gritos e risos, sopravam sobre a água. Tratava-se de um tongkang, uma das grandes embarcações chinesas de diversão da empresa Eastwind Cruises, que partia do outro lado, do cais de Clifford, para o passeio «Singapur até Night» com jantar incluído. o barco iluminado, com os dragões talhados a ouro e os ornamentos de madeira pintados a verniz verrnelho, aproximava-se lentamente e parecia quase tão irreal como um enorme brinquedo. Podiam-se distinguir vultos na popa. Cabeças à janela. A proa do barco formava uma onda que distorcia as manchas das luzes coloridas que se reflectiam na superfície da água, transformando-as em círculos que se mexiam, irrequietos.

 

De repente, Maya avistou um pequeno bote que surgiu por trás da popa, por entre os reflexos de luz e as cores que dançavam na água. Era um bote preto, pequeno e estreito... Aproximava-se silenciosamente do cais.

 

Maya inclinou-se para a frente.

- Bila bis dalang?

 

Era a voz de um homem que falava em malaio.

- Tiaphari - respondeu Maya. Era o código.

 

o homem estendeu-lhe a mão. Maya agarrou-a e saltou para o bote que baloiçava na água.

 

-Tudo em ordem?

- Sim.

 

-Continua tudo como combinado?

- Sim.

 

o homem do bote usava um boné de basebol com a pala virada para trás. Tinha uns olhos negros, rasgados, muito atentos. Não era malaio, era chinês. Sentou-se ao leme e fez marcha atrás. Recuou muito lentamente e, depois de ter virado o barco, acelerou.

 

-Como te chamas?

 

- Isso tem alguma importância?... Queres mesmo saber?

 

Havia quatro sampanas ancoradas a cerca de uma milha de distância da margem e afastadas umas das outras cerca de seiscentos metros. Eram simples embarcações de carga, com motores fora de bordo, ornamentadas.

 

Nos seus cascos quadrados, no meio ou na popa, havia pequenas casotas cobertas com esteiras ou lonas. Apenas a maior das quatro sampanas tinha uma grande cabina de madeira, As companhias que organizavam os passeios pelo porto haviam chegado a um acordo com os proprietários dessas embarcações: durante cada passeio faziam uma pequena paragem para que os turistas pudessem provar uma especialidade chinesa, malaia ou indiana. Esse acordo fora estabelecido há dois anos e, como tudo em Singapura, tivera de obter a permissão estatal e estava submetido a um rígido controlo.

 

o bote aproximou-se da sampana onde havia a cabina. A uma distância de cem pés, o homem abrandou e deixou o bote flutuar pela água com o embalo do motor.

 

- Eu vou sozinha para bordo - disse Maya. o homem abanou a cabeça.

 

- Nem pensar.

 

Atou o cabo do bote à sampana. Fê-lo com gestos rápídos e ágeis e Maya reparou nas suas finas mãos, delicadas e cuidadas. Não era nenhum coolie. Também não era daqueles homens que se contratava à hora, por alguns dólares. Sobretudo, parecia ser bom naquilo que fazia. Tinha de ser bom. Não poderiam correr riscos naquela cidade e num caso como aquele.

 

o bote não era visível a partir da sampana, mas o mar brilhou com mais intensidade e, de repente, Maya achou a água assustadoramente clara. Não havia uma única nuvem no céu.

 

-Eu ajudo-te a subir.

 

Maya abanou a cabeça, apalpou o degrau no barco com a ponta dos dedos e, ágil como um gato, subiu a bordo. Ele seguiu-a. Esconderam-se entre dois caixotes, Maya enfiou a mão no saco e retirou uma segunda máscara. -É melhor pores isto.

 

Ele hesitou, mas acabou por aceder. Tirou o boné da cabeça e enfiou a meia de nylon, com buracos para os olhos e a boca.

 

Maya retirou a pilha do saco e pô-la no bolso da camisa sem, no entanto, ligá-la. Havia luz suficiente. Luz que parecia cobrir como uma fina camada de verniz brilhante o convés, os caixotes, os cabos enrolados, os cabrestantes e a cabina na popa.

 

Tirou uma peça de metal do bolso e dirigiu-se para a cabina. A porta tinha um suporte de ferro e a fechadura era simples, abrindo-se com facilidade.

 

Entrou na cabina, ligou a pilha e olhou à sua volta. Havia bancos compridos ao longo das paredes. Grande parte do espaço era ocupada por cadeiras e mesas dobradas e arrumadas que de dia provavelmente eram postas no convés.

- Anda - sussurrou Maya.

 

Ao fundo da cabina avistava-se uma parede separadora com uma porta vermelha. Abriu a porta sem fazer barulho. Sentiu um forte cheiro a carne, ou antes a peles de animal apodrecidas. Era um cheiro tão forte que parecia sair do tecto e das paredes. Um cheiro desagradável e intenso que parecia penetrar pela máscara de Maya. Sentiu o seu corpo a transpirar. E o calor húmido e pesado...

 

- o armário - apontou Maya. Ele acenou com a cabeça e Maya sugeriu: - É melhor ficares de alerta no convés. o chinês voltou a acenar com a cabeça, em sinal de acordo.

 

- Ouve - prosseguiu Maya. - Estamos a coMportar-nos como dois estranhos nos transportes públicos. É verdade que eu cheguei depois de ti, mas tu sabes quem eu sou, por isso eu também quero saber como te chamas. Qual é o teu nome?

 

- Tan - respondeu, desaparecendo silenciosamente. Maya voltou a virar-se para a cabina, suspirou e retirou a câmara Sony do saco.

 

Acendeu a luz e começou a filmar. Os trezentos watts da lâmpada de halogéneo iluminavam todos os pormenores: as baratas que corriam pelo soalho, desaparecendo nas fendas, a roupa de cama suja no beliche estreito. o olhar vazio da louraça americana de olhos azuis e de peito erguido no poster da revista Playboy que alguém afixara com fita-cola sobre a cama.

 

E o armário...

 

Era um armário em cor de areia, com cerca de dois metros e cinquenta de comprimento que ia até ao tecto. Quando Maya tocou no armário com os tornozelos, reconheceu que era de metal, provavelmente de alumínio. Tinha uma alavanca daquelas que normalmente são utilizadas nas grandes arcas frigoríficas. Maya pôs a mão na alavanca e durante alguns segundos permaneceu silenciosa. Tudo o que ouviu foi uma onda a bater contra o casco do barco... Mas havia outro ruído: o de um motor que parecia encontrar-se dentro do armário. Porquê? Qual seria o conteúdo do armário? Seria um aparelho de ar condicionado? E para que serviria?...

 

De repente, Maya compreendeu. Viu o tubo de plástico que saía da base do armário e que passava pela parede da cabina, e encaminhando-se provavelmente a partir daí em direcção ao mar. Devia ir directamente para fora, pois o buraco pelo qual passava estava isolado com um anel de borracha.

 

Era um desumidificador! Claro que sim. Sentiu o fino tecido de algodão do seu fato de treino colado às costas. A máscara que usava na cabeça começou a tornar-se insuportavelmente quente. Havia uma janela, mas alguém a fechara com parafusos. Porque é que o idiota do dono da sampana não mantinha a escotilha aberta? Claro, para não sobrecarregar o desumidificador..

 

Maya empurrou a alavanca da porta do armário para baixo. A porta abriu-se. Recuou dois passos para captar uma imagem mais ampla com a câmara. Sentiu a borda do beliche cravar-se-lhe nos jarretes.

 

Enquanto filmava, rezava para que ninguem reparasse na luz no interior do barco. Sentiu o coração a acelerar. o mais importante era aguentar-se naquela situação. Não fraquejar... Não era a primeira vez que enfrentava uma situação desse tipo. Sempre que tal lhe acontecia, concentrava-se na ideia de superá-la o mais rapidamente possível. o mais importante era que filmasse tudo. Mais tarde teria tempo para reflectir sobre aquilo que vira no armário. Mais tarde, quando as imagens estivessem classificadas...

 

Desligou a câmara e pousou-a no beliche. Tirou umas luvas de borracha do saco e calçou-as. Acendeu a pilha, mas era difícil reconhecer o conteúdo do armário. Os seus olhos levaram algum tempo a habituar-se à fraca luz que surgia agora na cabina, mas que apesar de fraca poderia chamar a atenção de alguém que passasse perto do barco. A polícia costeira andava sempre atenta aos barcos atracados. Sobretudo quando se encontravam iluminados como aquele, que parecia um autêntico estúdio de filmagens de Hollywood. Existia também o perigo de algum curioso lembrar-se de visitar um dos barcos...

 

Voltou a concentrar-se no armário.

 

Tinha seis prateleiras. Não havia gavetas. Na prateleira inferior encontrava-se uma caixa de aço rectangular.

 

Foi nessa caixa que pegou primeiro. Era pesada e estava fechada à chave. Analisou a fechadura e chegou à conclusão de que seria incapaz de a abrir.

 

Voltou a pôr a caixa no lugar e continuou a observar o conteúdo do armário.

 

Quatro cestos de verga... E, ao lado, meia dúzia de frascos, cujo vidro reluzia. Pareciam garrafas, com cerca de um palmo de altura e um gargalo estreito, com bonitas tampas cónicas, de vidro. Dois dos frascos continham um pó fino, cor de lama, e nos outros dois outros havia um líquido, cuja cor variava entre a cor de mel e um castanho-escuro.

 

Maya pegou num dos frascos, agitou-o e ergueu-o contra a luz. o líquido formou borbulhas e Maya lembrou-se dos frascos indianos, nos quais a sua avó guardava licores de ervas medicinais. Mas aquilo nada tinha a ver com ervas, era outra coisa, era aquilo a que chamava «essência de tigre». Havia também «vinho de tigre» e «comprimidos de tigre». Na China, e sobretudo em Taiwan, existiam fábricas de produtos farmacêuticos que ganhavam somas astronómicas com essas substâncias vergonhosas. E era a partir do pó que ela agora segurava nas mãos que essas substâncias eram fabricadas.

 

Deitou um olhar aos cestos. Não precisava de tirá-los do armário para saber o que continham: ossos de tigre. Ossos dos ombros. Omoplatas. Costelas. Ossos da região lombar. Vértebras das coxas. Articulações...

 

«Eles aproveitam tudo», era o que lhe tinham explicado em Londres. «Abatem até mesmo os últimos tigres-de-amur existentes na Rússia para os exportar para Taiwan. Até o tigre-de-bengala voltou a estar em perigo de extinção. E isto apesar de todos os tratados e grandes acordos internacionais... os últimos tigres existentes nos reservatórios da Malásia estão a desaparecer... »

 

Rick Martin, o chefe da organização sediada em Londres, mostrara-lhe um esquema. Era a representação simplificada do corpo de um tigre. De cada um dos membros e órgãos do tigre partia uma fina linha preta que apontava para uma legenda que indicava as doenças curáveis com os extractos dessa parte do corpo do tigre: «Articulação traseira

- artrite no joelho.» Maya lembrava-se desse exemplo, porque lhe tinha parecido particularmente absurdo. Havia também certas partes do corpo do tigre, como os testículos, o pénis, o osso frontal ou as vértebras das coxas, que desde há séculos que eram considerados afrodisíacos pela medicina tradicional chinesa, que os indicava como um meio eficaz de estimulação da potência masculina...

 

«Aqueles tipos bebem um gole de ”vinho de tigre” e julgam-se capazes de possuir qualquer rapariga», exclamara Rick Martin, furioso. «Trata-se de uma essência, ou seja, um concentrado que serve para transformar os velhos senis em jovens cheios de energia. o pior é que eles realmente acreditam que funciona. Pagam somas inimagináveis por essa essência. Um tigre morto, bem aproveitado, pode valer sessenta mil dólares. Nós falámos com contrabandistas na fronteira entre a Rússia e a China, perto do rio Ussuri, que ganham três mil marcos por dez quilos de ossos de tigre secos. E sabe o que ganha um guarda-florestal, quer na Rússia, quer num reservatório de tigres algures em Bengala ou na Indochina? Aquele tipo que tem por função proteger os pobres animais da extinção total? Trinta, talvez quarenta dólares por mês! Se tivermos em conta que o tal vinho miraculoso, quando é extraído desses mesmos dez quilos, vale cinquenta e quatro mil dólares, realmente é um bom negócio!

 

«E quem é que controla essas gotas, os pozinhos e os outros produtos não foram extraídos de uma vaca qualquer, de uma vitela ou de um porco?»

 

Rick não soubera responder.

 

Bem, era verdade que os rinocerontes que Maya filmara num armazém em Cartum também eram vendidos por somas astronómicas. Quando um árabe tinha problemas de potência, eram os rinocerontes que o resolviam, tal como, para os Chineses, eram os tigres. Os xeques do golfo, obcecados pelo sexo, dispunham certamente de especialistas, que sabiam distinguir um pedaço de rinoceronte de um simples osso de camelo ou de um dente de elefante. Rick Martin explicara a situação da seguinte forma: «Tu conheces os Chineses, Maya. Quando se trata de dinheiro eles não brincam... Quem se pode dar ao luxo de recorrer à medicina dos tigres, também tem os seus meios para garantir que realmente se trata de tigres.»

 

Rick tinha razão.

 

«Maya, pouco importa se se trata de superstição, fantasia ou loucura. Uma coisa é certa: a razão pela qual os últimos tigres selvagens existentes nesta terra são mortos sem piedade... é uma mancheia de milionários chineses completamente senis, obcecados pelo sexo e pelas crenças tradicionais.»

 

Isso era verdade, mas existiam razões mais profundas. Maya conhecia melhor a cultura chinesa do que Rick. Ele tinha razão quando dizia que o número de homens que recorria à medicina do tigre estava a crescer, mas a crença em «Da Cherig», como os Chineses denominavam o tigre, a crença no grande espírito da floresta, nos seus poderes, considerados superiores aos de todos os outros animais da floresta, residia há milhares de anos no coração dos Chineses.

 

Um dia, Maya lera num poema que o desenho no pêlo da testa dos tigres formava a palavra wang. E wang significa rei!... o rei dava auxílio. Ajudava em situações de emergência e de doença. E numa sociedade profundamente paternalista como a chinesa, a potência masculina desde sempre representara o poder e o respeito!

 

Apontou a luz da pilha para cima e soltou um pequeno grito de susto, mas logo depois voltou a instalar-se o silêncio total. Sobre o armário encontrava-se uma enorme cabeça de tigre com dois olhos negros que pareciam fitá-la. A cabeça estava intacta. Os proeminentes dentes caninos reluziam à luz da pilha. Nos maxilares estava presa uma tira de papel, uma espécie de etiqueta. Maya pôs-se nas pontas dos pés e leu:

 

«Tenenga», diziam as letras chinesas. «24.10.1994.» «Tenenga?», pensou.

 

Mas que grande acaso...

 

Pegou na câmara e filmou. o zumbir da câmara acalmou-a. o importante era que pudesse executar a sua missão...

 

A sudeste, não muito longe do porto onde estavam ancorados os barcos, os arranha-céus de Singapura projectavam longas sombras sobre Marina Bay. As fachadas dos prédios eram negras e austeras, cortadas apenas pelas filas de luzes que permaneciam acesas em alguns andares.

 

No quadragésimo segundo andar de um dos prédios, o Silver Tower, Kim Long, a quem também costumavam chamar «Polegar Dourado», ajeitava a sua farda branca. Olhou para o relógio. Eram uma e vinte e cinco da manhã.

 

- Chegarei por volta da uma. A essa hora quero encontrar o «paraíso» da forma que eu gosto. Entendeu?

 

o patrão era conhecido pela sua pontualidade. Philip Wang Fu dispunha de toda uma equipa de empregados, que o ajudavam a manter a pontualidade e que garantiam que não faltasse a nenhum dos seus encontros, visitas, conferências,

reuniões...

 

A «reunião» que iria ter lugar essa noite, depois da meia-noite, no apartamento de Wang Fu, na penthouse do Silver Tower, estava a cargo de duas pessoas: da sobrinha, e secretária particular, de Philip Wang Fu, chamada Xia Yu, e de Polegar Dourado, Kim Long, o terceiro assistente pessoal de Wang Fu.

 

Polegar Dourado retirou o quimono de seda do armário. Era azul com riscas verdes. Pendurou cuidadosamente aquela verdadeira preciosidade num cabide. Depois passou à parte mais importante, para a qual necessitava do molho de chaves.

 

Desenganchou o molho da cintura e ao passar pelos sofás, e de repente, deu-se conta de que se esquecera de ligar a música. Rapidamente pôs o leitor de CDs a funcionar e a sala ficou submersa numa melodia doce e suave: instrumentos de corda e piano. Polegar Dourado considerava diabólica aquela música, importada do estrangeiro.

 

Encontrava-se agora defronte da estátua de marfim do deus Yo. Era uma estátua originária de um templo da cidade natal de Wang Fu e a sua compra fora motivo de grande orgulho. Representava um homem obeso com uma enorme barriga branca e um sorriso maquiavélico, que segurava o seu pénis com ambos os punhos, como um soldado segura o seu estandarte.

 

Aquele deus possuía um pequeno pormenor: bastava incliná-lo para trás, para que aparecesse um cofre de aço. Kim inseriu a chave na fechadura e abriu o cofre.

 

E eis que vislumbrou os tão desejados frasquinhos. Um deles continha um pó e já estava quase vazio, o outro estava repleto de um líquido acastanhado, que brilhava à luz. Kim julgou sentir o calor, emanado pelo frasco, algo como um suave ardor, penetrar pelas suas finas luvas de algodão. Mas talvez se tratasse apenas de um efeito psicológico, por estar a pensar nos efeitos do líquido. E na soma astronómica que o patrão pagara por ele.

 

- Queres saber o que custa a essência de tigre, Polegar Dourado? - o farmacêutico da Nankin Street soltara uma gargalhada, mostrando os seus dentinhos acastanhados e apodrecidos. - Essência de tigre, pura e verdadeira? Os deuses concederam-te a honra de seres o empregado de um dos homens mais ricos desta cidade, Polegar Dourado, mas daí até à essência de tigre?! Garanto-te que nunca terás dinheiro suficiente para comprá-la. Mas porquê tanto interesse? A tua mulher já não consegue satisfazer-te? Ou será que existe uma jovem que anda a provocar o teu yang? Será isso?

 

A farmácia na Nankin Street não era tão moderna como as outras. Ficava numa cave, num dos poucos prédios antigos ainda existentes no bairro de Chinatown. o acesso à farmácia fazia-se através de uma escada estreita. A farmácia em si tinha um cheiro estranho que fazia lembrar os mercados malaios. Só Deus sabia a razão por que ainda não tinham despedido o velho Long Fe. Provavelmente porque era um homem bem relacionado. Kim adorava aquela cave, que mais parecia uma caverna. E gostava também do farmacêutico, que se assemelhava a uma sardinha com uma barbicha branca. Fora graças às misturas dele que a sua mulher e os filhos já tinham sido curados várias vezes. Era um homem muito sábio.

 

- Desembucha, Kim! Há alguma razão para além de uma jovem de dezassete anos fresca e apetitosa que te promete o paraíso?

 

- Apenas a curiosidade.

 

- Curiosidade? Bem, a curiosidade é a chave para muitas verdades. Mas, meu filho, como poderei eu saciar a tua curiosidade? Todos os medicamentos têm o mesmo problema: em algumas pessoas provocam milagres, enquanto noutras não fazem efeito nenhum. Apenas a essência de tigre cura sempre. Mas qual é o teu problema?

 

É aquilo que tu estás a pensar, meu honroso amigo. Ah, sim? - o velho farmacêutico voltara a soltar uma gargalhada. - Kim, eu conheço homens tão velhos e fracos que mal conseguem atravessar a estrada. Quando tomaram a essência, cresceu-lhes um yang, duro e resistente como o ferro. - Cuspira para o escarrador. - Apenas existe uma condição, Kim, para que a essência faça efeito: tem de ser extraída de tigres jovens e selvagens.

 

-E onde é que se compra essa essência? Aqui?

 

o farmacêutico fizera um gesto de rejeição.

 

-A essência é proibida. Altamente proibida. Por isso desaparece, Kim, e deixa-me em paz.

 

Kim, o Polegar Dourado, verificou se as duas garrafas de cristal estavam completamente imersas no gelo. Depois passou cuidadosamente um pano nos frasquinhos com o conteúdo misterioso, Champanhe e       essência de tigre. Nessa noite iria haver três mulheres de     uma só vez. Wang Fu, aquele monstro, aquele violador de crianças, aquele consumidor de prostitutas, tinha setenta e quatro anos! «E eu? Uns escassos cinquenta e nove. E se eu pusesse umas dez gotinhas num pedaço de açúcar e as tomasse? Não é esta a quantidade que ele costuma usar? Talvez pudesse até tomar vinte... » Kim, o tigre... Sabia, porém, que nunca ousaria fazer tal coisa. Devido ao medo que tinha dele, do... mandarim? Wang Fu podia ser viciado no seu membro viril e em mulheres, mas um emprego daqueles nunca mais apareceria na vida de Kim.

 

Pousou os dois frasquinhos na bandeja de prata e olhou para eles, reluzentes, entre os biscoitos de mel e os bolos de gengibre. Onde se metera o velho? Se não aparecesse...

 

Kim virou-se bruscamente. o ruído de tambores sobrepôs-se à música clássica que se ouvia na sala. Risos. o som de água. E tudo aquilo tão repentinamente como se alguém tivesse partido uma janela.

 

No entanto, não fora uma janela, mas sim a enorme porta que se abrira. A porta para o «paraíso», pela qual entrara uma rapariga.

 

- Estás louca? Por amor de Deus, Teeny-Sue, tu sabes perfeitamente que não podes entrar aqui assim, sem mais nem menos.

 

- Ai, sei? Achas que realmente sei? Pois bem... acredita em mim quando te digo que isso não me interessa minimamente,

 

- Mas, Teeny-Sue...

 

Ela não lhe deu ouvidos. Entrou na sala como estava, pingos de água escorrendo pela pele dourada. Tinha umas pernas muito longas e calçava uns chinelos pretos de salto alto. o seu cabelo negro formava uma trança. Estava quase nua, com o corpo apenas coberto por uma fina camisa de seda dourada semítransparente. Teeny-Sue... Bastava olhar para ela para esquecer a história das essências. Quem tinha Teeny nos braços não necessitava de nenhuma essência. Olhos como amêndoas numa cara em forma de coração. Uns lábios de verniz. E o seu olhar..

 

- Tenho mais que fazer do que andar a noite inteira às voltas por esta maldita penthouse! Onde é que se meteu o velho?

 

-Não sei. Deve estar quase a chegar.

 

-Quase a chegar? Quem é que ele julga que nós somos? Umas prostitutazinhas de hotel? - Contraiu os lábios brilhantes numa expressão de raiva. Estendeu a mão com as unhas pintadas de vermelho e pegou num biscoito que se pôs a mordiscar. Era possível que tivesse mais experiência do que uma prostituta de hotel, mas não era uma delas. Quando estava em Singapura trabalhava no Sweet Roses, um clube de meninas na Bugis Street que, de facto, era um dos locais mais exclusivos da cidade e que pertencia ao mesmo dono que o Come to Heaven, um clube de Taipé. E era justamente de lá que Teeny-Sue chegara, quando Kim a fora buscar ao aeroporto no Rolls do patrão.

 

- Uma estada de quatro semanas... isso é fantástico, não achas, Teeny?

 

- Fantástico? Veremos - resmungou ela.

 

Todavia, até então não tinha razão de queixa. Já lá estava há uma semana e Philip Wang Fu apenas lhe exigira um fim-de-semana na sua mansão em Tanglin Hill, como uma espécie de teste de boas-vindas. De resto, Teeny-Sue não fazia nada durante todo o dia, permanecendo a maior parte do tempo no apartamento de luxo para os hóspedes de Wang Fu. Por vezes ia às compras. Evidentemente que Singapura era mais cara do que Taipé, mas a escolha, o luxo... impressionante! Podia comprar aquilo que queria, apenas sob uma condição: não abrir a boca. Tinha de seguir essa regra, por mais duro que fosse. Teeny-Sue não ousaria fazer o contrário, imaginando as consequências que isso traria.

 

Nessa noite, estava prevista a segunda actuação de Teeny-Sue. E isso aconteceria no «paraíso» do Silver Tower. E ela não seria a única a actuar, não... Hoje eram três de uma vez. De facto, o mandarim tinha muitas ideias inovadoras, e não só no âmbito dos negócios...

 

-Champanhe! - exigiu Teeny-Sue. - E é para já, Polegar Dourado. A pequena está a ficar nervosa. É melhor dar-lhe qualquer coisa para beber.

 

- Não tenho ordens para tal. É o patrão que trata disso. E além do mais...

 

Não teve ocasião de dar uma explicação a Teeny-Sue, pois, de repente, o telefone tocou. Kim atendeu. Era o porteiro.

 

-Ele acabou de entrar no elevador. Kim pousou o auscultador.

 

-Ele está a chegar.

 

Teeny rolou os olhos e desapareceu...

 

Maya sentiu a câmara a vibrar através das finas luvas de borracha. Era um vibrar que a acalmava e lhe concedia uma sensação de satisfação, porque era a prova de que a fase de preparação, longa e morosa, estava concluida e que finalmente começava a fazer um trabalho concreto. Faltava-lhe apenas analisar o conteúdo das latas que se encontravam na divisão inferior do armário. Enviou um sorriso à cabeça de tigre colocada sobre o armário e pegou num dos recipientes. Abriu-o e no interior descobriu três pedaços de carne alongados, escuros e rugosos, de cor castanha, que pareciam raízes secas.

 

Maya apercebeu-se rapidamente do que se tratava. Rick Martin mostrara-lhe fotografias com órgãos similares. E agora tinha-os à sua frente. Eram repugnantes... pénis de tigres secos.

 

Pegou num deles... e voltou imediatamente a pousá-lo. o toque tinha-a assustado, reavivara memórias há muito esquecidas. Um sentimento de veneração, algo de inexplicável, a magia obscura e pesada dos tabus que enfrentara na juventude...

 

Abriu o segundo recipiente e ligou a luz da câmara para ver melhor. Mais pénis... eram provavelmente a parte mais valiosa de todo o tesouro escondido naquele armário. Deveria levá-los? Afinal não haveria prova mais evidente do que aquela para apresentar a Martin. o seu intuito era denunciar aquela situação. As filmagens serviriam de prova, e com elas pretendia chamar a atenção do maior número possível de pessoas, ao mostrar-lhes o que estava a acontecer nas últimas reservas de tigres. E aqueles pénis... tinham um valor inimaginável. Realmente seriam uma boa prova, mas...

 

No preciso momento em que voltou a colocar cuidadosamente os recipientes nos seus lugares, ouviu um ruído. Seria no convés? Ou na cabina? Talvez tivesse ouvido mal... Mas não. De novo um ruído. Uma pancada no convés. E um grito abafado.

 

Atirou a câmara para o saco e foi até à porta.

- Tan?...

 

Não obteve resposta. A cabina estava vazia. A luz fraca da lâmpada com uma armação de metal que se encontrava no canto da cabina projectava longas sombras.

 

- Tan, o que é que se passa? - sussurrou Maya. Ao longo dos últimos anos, aprendera a lidar com o medo. Não permitia que tomasse conta dela. Respirava calma e lentamente. Pôs a mão na pistola que trazia no cinto. Algo de estranho se passava. A Polícia nunca seria tão discreta. Aquele silêncio era suspeito...

 

Destravou a pistola. Era apenas uma pistola que disparava gás, não ousando andar com uma verdadeira num estado policial como Singapura, mas talvez pudesse ser-lhe útil.

 

Através da porta semiaberta conseguiu ver o convés do barco, mergulhado na luz azulada do luar. Mais à direita, porém, avistou... de cabeça inclinada para o lado e estendido no chão... Tan? Devia ser Tan... Estava deitado ao lado de uma pilha de caixotes. Não se mexia. Estaria morto?... Ou apenas desmaiado?

 

Não fazia sentido esperar mais tempo. Sacou da pistola e saltou para o convés. Aconteceu exactamente aquilo que previra: por uma fracção de segundos vislumbrou a sombra de um homem que estivera escondido atrás da porta aberta e agora se preparava para saltar. Maya atirou-se para o lado e rolou pelo chão, escapando à moca em forma de taco de basebol com a qual o homem tentava atingi-la. Escapou por tão pouco que conseguiu sentir a aragem provocada pelo brusco movimento do taco. Atirou a pistola para o chão e atacou o homem com um golpe de ta-kae no pescoço. Foi um golpe forte, ao qual poucas pessoas resistiam, e aquele homem não fazia parte delas. Soltou um gemido e caiu para o chão. Ainda tentou erguer-se, mas, após um novo gemido, permaneceu definitivamente imóvel no chão.

 

- Tan! - exclamou Maya e correu para a popa. Debruçou-se sobre Tan e pressionou o seu pescoço com os dedos. o pulso estava ligeiramente acelerado, mas mantinha-se forte. Passou as mãos pelos seus cabelos brancos, apalpou a cabeça e descobriu um alto na parte traseira. o sangue escorria-lhe pelo pescoço, indo colar-se à mão de Maya.

 

Maya limpou os dedos ao chão de madeira. Descobriu uma torneira na parede exterior da cabina, com um balde ao lado, Pôs um pouco de água no balde e depois atirou-a para a cara de Tan. Tan bufou, gemeu... e em seguida levantou a cabeça e sentou-se.

 

O que foi?

 

Enquanto Tan recuperava a consciência, Maya aproximou-se do homem que a atacara. Era um homem novo, que aparentava ter menos de trinta anos. Usava umas calças de algodão leves e largas, que lhe iam até ao tornozelo, calças de pescador ou coolie. A camisa escorregara para cima e, à luz clara e azulada da Lua, Maya viu as tatuagens no seu tronco musculoso. «Ainda bem que acertaste logo à primeira. Este orangotango não deve ser para brincadeiras.»

 

o bote de Tan ainda se encontrava no lugar onde o tinham amarrado. Junto à popa, Maya descobriu outro bote, pequeno e sem quilha, que parecia uma caixinha de fósforos. Era um barco de madeira de teca com um poderoso fora-de-borda, um motor em forma de caixão que os Chineses utilizavam para aumentar a velocidade do barco. Via-se que os dois remos tinham sido acabados de utilizar. o homem provavelmente remara ao acercar-se do barco, a fim de se aproximar silenciosamente, o que explicava também a razão por que Tan não o ouvira.

 

Maya voltou para junto de Tan e quis ajudá-lo a levantar-se, mas ele recusou. Levantou-se sozinho e abanou a cabeça como um lutador de boxe após uma derrota. Conseguia permanecer de pé.

 

-Vamos! Temos de sair daqui.

 

Maya ajudou-o a descer para o bote e quis pôr o motor a funcionar, mas não sabia como. - Bolas, eu nem sequer sei onde fica o maldito motor de arranque.

 

Tan afastou-a e pegou no leme. Girou o botão, pôs o motor a trabalhar e depois dirigiu um grande sorriso a Maya.

 

- Devagar - disse Maya. - Devagar e sem fazer barulho.

 

Tan abrandou. Do outro lado do porto via-se o estaleiro da Hyunday. E, ao lado, os armazéns dos quais tinham partido. A luz dos numerosos holofotes do estaleiro reflectiam-se na água.

 

-Não estou a gostar disto... Onde está o teu carro? -Está mais para sul, no parque de estacionamento do Three Roses, que é um dos cafés que fica na marina da East Wharf.

 

-Então vamos para lá.

 

Passaram junto aos armazens e aos guindastes. «A noite parece tão pacífica», pensou Maya. À luz do luar até mesmo os montes de sucata tinham o seu toque de magia... Pensou no barco e naquele armário. Ter-se-ia lembrado de trancá-lo? E não se teria esquecido de qualquer coisa? Nada disso tinha importância. Conseguira aquilo que queria, a cassete vídeo encontrava-se no seu saco. E no dia seguinte de manhã partiria de Singapura... E aquele tipo com a tatuagem? O To Yan não dormirá hoje a bordo», era o que lhe tinham dito em Geytang Serai, o bairro de malaios. Maya acreditava nos seus habitantes. Eram informadores de confiança. «Hoje, o To Yan não estará no seu barco. Vai a um baptizado no Boat Quai, no bairro de Chinatown.»

 

Maya não conhecia To Yan. Apenas sabia que esse traficante de produtos extraídos de tigres tinha bastante mais de cinquenta anos. E que era muito rico... Quem teria sido então o homem que os surpreendera a bordo? E trabalharia sozinho? Ou faria parte de uma organização? Quem lhes garantia que não estavam a ser observados naquele preciso momento?

 

-É ali.

 

Tan apontou para uma mancha de luzes coloridas. Maya assentiu com a cabeça, aliviada por terem chegado. Sentiu o barco a abrandar. o ar, que agora estava mais fresco, pareceu-lhe agradavelmente seco.

 

- o carro está no parque de estacionamento, por trás do café - explicou Tan.

 

Reinava um silêncio total. Apenas se via uma luz num dos barcos à vela ancorados no porto e o único ruído que se ouvia era o tilintar dos mastros metálicos a baterem uns contra os outros.

 

Tan cobriu o barco com uma capa de plástico.

 

- Como está a ferida na cabeça? - perguntou Maya. -Não me fales nisso. Ainda me sinto tonto.

 

Tan ajudou Maya a subir para a faixa de cimento que dava a volta ao porto. As janelas do café estavam abertas e de dentro provinham vozes. Ouvia-se o som de uma televisão. Maya avistou o parque de estacionamento. Ao longe, escutava-se o ruído do trânsito da Keppel-Róad. e da Express-Way, que ficavam um pouco elevadas, num aterro.

 

Decidiram dar a volta ao café. Cada vez que Tan punha a mão na cabeça e gemia ou olhava para os seus dedos cobertos de sangue, Maya parava.

 

Apetecia-lhe dizer «Despacha-te» ou «Mais rápido!», mas não o fez... Viram sombras na esquina do café. Eram três homens. Dirigiam-se lentamente para o parque de estacionamento... De repente um deles começou a correr.

 

Maya puxou Tan pelo braço. Ele olhou para trás, compreendeu o que estava a acontecer e também desatou a correr.

 

- o nosso é aquele ali - exclamou com uma voz ofegante. - o Colt encarnado.

 

- Deixa-me conduzir. Tu não estás bem. Dá-me as chaves.

 

Tan entregou-lhe as chaves sem qualquer comentário. Felizmente o carro não estava trancado. Maya abriu a porta num gesto brusco, sentou-se ao volante e arrancou enquanto Tan fechava a porta.

 

- Devem ter-nos observado com infravermelhos - gritou Maya. - Ou então o homem que tentou atacar-nos no barco informou-os via rádio.

 

Meteu a marcha atrás, para sair do estacionamento, Houve um estrondo. Acelerara de mais e batera com a traseira do carro num dos carros estacionados.

 

«A cassete vídeo», pensou...

 

Os pneus chiaram quando contornou os postes de cimento do parque de estacionamento.

 

o carro começou a deslizar, mas Maya controlou-o. Era um carro novo e o pavimento era bom.

 

-Atrás de nós...

 

«Sim, atrás de nós.» Maya viu as duas luzes pelo retrovisor.

 

-Malditos filhos da mãe! -Eles não nos apanham, Tan.

 

Porém, o carro que os perseguia aproximava-se cada vez mais...

 

Tan voltou a praguejar. De repente ouviu-se um tiro. Não podia ter sido um estalido do motor porque este estava a funcionar bem. Era realmente um tiro.

 

-Eles estão a disparar! - gritou Tan.

 

- Claro, de que é que estavas à espera? Também já dei por isso. - Maya descobriu uma rampa, uma rampa perfeita, como que preparada especialmente para eles, que dava acesso à Keppel-Express-Way. E era exactamente para lá que eles queriam ir. Na auto-estrada estariam em segurança. Numa estrada larga, os seus perseguidores não teriam coragem de disparar. E se o fizessem, apareceria logo a Polícia.

 

Ouviu-se uma forte pancada nos amortecedores, o carro foi projectado para cima. Maya não vira a banda sonora no início da rampa.

 

Tan parou de praguejar. Maya voltou a acelerar, mas o carro não aumentava de velocidade e as quatro luzes no retrovisor estavam a tornar-se cada vez maiores. Cento e quarenta, cento e trinta, cento e dez... Maya meteu a terceira. Numa subida daquelas o carro não dava mais do que cento e vinte.

 

Mais um tiro. Não muito barulhento, como que disparado por uma pistola de brincar. Porém, desta vez, não era um único tiro, mas sim vários ao mesmo tempo, um dos quais acertou no pára-brisas, que se rachou e ficou de uma cor leitosa...

 

- Construa-me o paraíso - dissera Philip Wang Fu a Donald McKenzie, o arquitecto canadiano que iria desenhar o Silver Tower, o arranha-céus no qual se situava a empresa particular de Philip Wang Fu.

 

- E o que é para si o paraíso? - perguntara McKenzie.

- o paraíso de um homem com uma certa idade reside na fantasia das mulheres - foi a resposta incompreensível que recebera.

 

McKenzie era um grande arquitecto. E, sobretudo, era conhecido. A nível mundial. A sua fama era o melhor contributo para alugar rapidamente e por muito dinheiro os quarenta e dois andares do Silver Tower. Afinal fora McKenzie quem remodelara por completo a Bolsa de Sydney e desenhara o Hotel Hyatt em Hong Kong. o esboço para o museu de arte moderna em Bóston e a nova sala de concertos em Milão eram igualmente da sua autoria. Mas os planos que fizera para o «Paraíso»... EDfim, a piscina revestida com folhas de prata com acabamentos de mármore e aço e as espreguiçadeiras de pele ainda eram aceitáveis. Mas apesar de todo aquele mármore e da iluminação requintada... era nos pormenores de estilo que se reconhecia a ignorância típica de um quai loh, de um diabo estrangeiro.

 

Philip Wang Fu pagara a quantia de duzentos e cinquenta mil dólares pelo projecto do Paraíso sem comentário e contratara outro arquitecto, desta vez um chinês, que desenhara um paraíso que já correspondia mais àquilo que Wang Fu imaginara.

 

A piscina de mármore era alimentada por uma cascata. Bastava carregar num botão para que a água reluzisse automaticamente numa panóplia de diferentes cores. Havia plantas e até mesmo pássaros, tecidos e almofadas de seda, e o arquitecto mandara forrar as paredes da sala, que formava um semicírculo, com ampliações das mais rebuscadas aguarelas eróticas da dinastia T’ang. Afinal a dinastia T’ang sempre fora a preferida de Philip Wang Fu. Fora a época áurea dos mandarins com grande sensibilidade e amor pela arte. Wang Fu acreditava que era nessa época que se encontravam as raizes da sua alma.

 

A parte que Philip Wang Fu preferia no seu paraíso, era, porém, o conjunto da entrada e do quarto de vestir, a que costumava chamar «salão». Aquelas paredes... uma obra de arte! Gastara uma fortuna em subornos para conseguir importar o material necessário para a decoração das paredes ornamentadas com madrepérola e prata, bandos de garças, dançarinas, crisântemos, pescadores no canavial e monges a orarem em frente a minúsculos templos. o número de pessoas que ansiavam pelos seus dólares! A quantidade de assinaturas que tiveram de ser falsificadas! Philip Wang Fu vira-se obrigado a recorrer à sua vasta rede de contactos que se estendia desde as repartições de finanças e de comércio da República Popular da China até ao comité central do partido. Tivera de mexer os cordelinhos para poder desfrutar dessas preciosidades.

 

Enfim, a euforia inicial já passara; apesar disso, cada vez que entrava na sala no quadragésimo segundo andar do Silver Tower, ainda sentia a mesma agradável sensação de prazer provocada pelo jogo de luzes e a harmonia e a arte da decoração. E essa sensação vinha sempre misturada com a excitação daquilo que o esperava. Isso era inevitável! Não, não estava cansado. E se tal fosse o caso, sabia que Kim lhe preparara a essência. Viu-a, pronta a tomar, ao lado do frappé de champanhe.

 

- Então, Kim - dirigiu-se ao empregado -, está tudo em ordem?

 

- Evidentemente, honorável senhor.

 

- As meninas... Tens tratado delas? Infelizmente a minha reunião acabou um pouco depois da hora.... Não pude fazer nada...

 

- Sim, sim, honorável senhor... As meninas estão à sua espera, impacientes.

 

- Isso é a melhor coisa que me pode acontecer. - Philip Wang Fu soltou um risinho.

 

- A Teeny-Sue veio pedir champanhe...

 

- A Teeny? Para que quer ela champanhe? Ah, deve ter sido para a Olga. A Olga bebe champanhe como um cavalo bebe água. De preferência de um balde.

 

- Não, era para a pequena que foi encomendada para esta noite - mentiu Kim, o Polegar Dourado. - E decerto a Teeny tem razão quando diz que... assim ela fica mais louca!

 

Philip Wang Fu franziu a testa com um ar de desprezo. Kim era um bom empregado, por isso tolerava os seus pequenos defeitos. Além disso era sobrinho da sua velha Amah. Mas Wang Fu não tolerava excessos de confiança como aquele... E não era a primeira vez que isso acontecia. Como não podia despedi-lo tinha apenas uma solução... Mas havia tempo e era uma medida que teria de ser bem pensada. Com calma. E não agora.

 

Kim ajudou-o a despir-se. Enquanto Wang Fu tomava o seu banho, a questão do empregado atrevido não lhe saía da cabeça; porém, rapidamente se acalmou, começando a vestir o quimono que Kim lhe preparara.

 

-Dá-me um copo de champanhe.

- Sim, honorável senhor.

 

Kim, o Polegar Dourado, retirou a rolha com um estalo. A música, um concerto de harpas, era agradável e harmoniosa. Como é que chamavam a essa música? «New Age»? Ligou o gravador que registava os sons do Paraíso. Ouvia-se uma mistura de vozes e muito barulho. Claro, elas eram jovens. Ouviu-se um riso. Seria a pequena? Depois a voz grave de Olga. Olga era originária de Vladivostoque. Contara a Wang Fu que o seu pai viera do Cáucaso, mas, devido ao seu forte sotaque russo, o seu inglês era quase incompreensível.

 

o som de mulheres que se entretinham, enquanto esperavam por «ele». Pois bem, ele iria distrair as pequenas... Agora já...

 

- Dá-me o açúcar, Kim.

 

- E o resto, respeitável senhor? O resto também...

 

Kim foi buscar o açucareiro de prata e a colher.

 

o mandarim pegou no frasco. Lentamente as gotas caíram no açúcar, enquanto Wang Fu contava uma por uma. Desta vez não seriam dez, mas quinze...

 

o coração de Maya batia apressadamente. Sentiu uma onda de calor percorrer-lhe o corpo dos pés à cabeça. Não tiraria o pé do acelerador! De modo nenhum. Apesar de nesse momento não sentir apenas medo, mas sim pânico, puro pânico. Tentou superar essa sensação, mas foi-lhe impossível.

 

E, de repente, um sinal de esperança!... o traço branco no fim da rampa.

 

E as luzes!

 

Eram os carros na Keppel-Express-Way...

 

o vidro desfez-se em estilhaços e Maya sentiu o vento na cara e no cabelo.

 

Tan partira o vidro já despedaçado com o punho.

 

Boa ideia. Graças a Deus!... Assim voltara a ter visibilidade. Visibilidade e ar fresco.

 

«Mas, por amor de Deus, de todos os deuses e de todos os santos», pensou, de repente, «repara nesta situação! o que estás aqui a fazer?... Tens vinte e sete anos. Um curso. Podias estar numa universidade qualquer, confortavelmente instalada numa poltrona, à espera do teu ordenado. Ou em casa, à espera do teu marido. Em vez disso estás a ser perseguida por uns bandidos chineses... Isto, depois de teres assaltado juntamente com um estranho uma sampana misteriosa, na qual filmaste ossos e pénis de tigre. Será que estás boa da cabeça? Como é que vieste parar a uma situação destas no meio de uma cidade absurda como Singapura?

 

«Agora chegou a tua vez! Vais ser crivada de balas no rabo. Ou então enfias-te nos arbustos. E todos se questionarão acerca do sentido da tua vida.»

 

o carro avançava lentamente. Continuavam a subir a rampa, mas já estavam perto do final. Até que avistaram o triângulo branco a indicar a perda de prioridade... E a seta de entrada para a Keppel-Express-Way. Limite de velocidade: noventa quilómetros. Noventa quilómetros! Maya acelerou até aos cento e vinte, cento e trinta, cento e quarenta, cento e cinquenta...

 

o carro estava a portar-se bem. Os perseguidores não tinham conseguido acertar nas rodas. Finalmente, a auto-estrada. Maya enfiou-se por entre os carros, ignorando os sinais de luzes de um enorme Mercedes. Finalmente tinham conseguido... Mas o que era aquilo? Um enorme camião frigorífico que nesse preciso instante se tinha lembrado de ultrapassar um autocarro!

 

Maya colou-se ao camião, e o fumo do escape que passava pelo vidro partido directamente para a sua cara fê-la tossir. Agora os seus perseguidores poderiam aproximar-se sem dificuldades, caso ainda não tivessem desistido... Todavia, o enorme camião azul desviou-se por fim para o lado. Um rápido olhar pelo espelho retrovisor provou que aquilo que Maya temia acontecera.

 

- Lá estão eles de novo! - gritou Tan por entre o barulho ensurdecedor do motor.

 

Pois é, lá estavam eles.

 

No entanto, na auto-estrada pensariam duas vezes antes de disparar.

 

Maya reparou num pormenor: naquele trajecto não existia separador, apenas uma fila de loendros. Pelo que Maya conseguia ver, do lado contrário não havia carros.

 

- Segura-te! - gritou, de repente.

 

Pisou o travão a fundo. Conseguiu controlar o carro que ameaçava rodopiar e logo depois torceu o volante para a esquerda, fazendo o carro deslizar pela relva, por entre os arbustos da faixa separadora, no sentido contrário.

 

- Tu estás completamente doida?! Maya, o que é que estás a fazer? Maya, por amor de Deus! Este lado não é... Um sentido contrário? Pois não, não era! Naquele troço,

 

a Express-Way tinha seis vias, todas no mesmo sentido, no meio das quais havia uma faixa separadora. Ela não estava doida, tinha sido apenas estúpida de mais para reparar nesse pormenor.. E agora encontrava-se em plena auto-estrada em sentido contrário. Viu as luzes dos faróis que apareciam do nada, à sua frente. Ouviu o chiar dos pneus dos carros cujos condutores tentavam desesperadamente desviar-se. Ali também havia loendros na faixa separadora. o carro voltou a obedecer, quando Maya torceu de novo o volante, desta vez para a direita, para regressar ao outro lado. Folhas esvoaçaram e ramos estilhaçaram-se. «Só espero que não venha nenhum carro... por favor!», rezou Maya. Apesar do medo que tinha, conseguia manter um certo distanciamento da situação, o que lhe permitia sentir a emoção do momento e uma certa satisfação.

 

- Os meus filhos! - berrou Tan. - Tens consciência de que eu tenho filhos?

 

Maya não o sabia. Mas isso de qualquer maneira não tinha importância. Muito mais importante era que conseguisse desviar-se do carro que se aproximava de frente a alta velocidade, sem que o seu carro capotasse, Mas pelo menos agora os carros vinham da direcção certa: de trás.

 

Mais uma vez, Maya conseguira superar a situação... Encontravam-se na via da direita, que servia para ultrapassar. Maya abrandou e tentou controlar os seus braços, que tremiam. A testa estava coberta de suor. Tan permaneceu silencioso. Mantinha-se sentado no seu banco, com a cabeça inclinada para a frente.

 

- Tan!

 

Ele não respondeu.

 

Maya reflectiu. Certamente que um dos habitantes de Singapura, obcecado pela ordem, participara via rádio que havia um carro em sentido contrário na auto-estrada. E decerto também anotara a matrícula. Isso significava que tinham de desaparecer imediatamente dali, daquela auto-estrada!

 

Não foi difícil. Três minutos depois descobriram um pequeno caminho do lado direito, com uma placa a proibir a passagem. Deitaram-na abaixo com o pára-choques. Aparentemente, isso fora de mais para o carro: ouviu-se um barulho no motor, a carroçaria inclinou-se para o lado e começou a tremer. Maya travou.

 

-Maldito carro! - exclamou Tan. - São as suspensões.

 

Maya assentiu com a cabeça e aproveitou o embalo do carro para o conduzir até ao pátio de uma fábrica, onde o estacionou entre caixas e tábuas amontoadas.

 

Tan fitou-a. Tinha manchas de sangue na testa.

- oh, meu Deus...

 

Maya desligou o motor, tirou a chave da ignição e devolveu-a a Tan. Desceu do carro, pegou no saco e pô-lo num dos ombros.

 

Encontravam-se em frente a uma enorme parede de betão cinzenta. Sentiram um forte cheiro a serradura e restos de óleo.

 

-Anda, Tan! -E o meu carro?

- Deixa-o aí.

 

Numa das janelas do edifício de betão viu-se uma luz. Uma mulher chamou alguém e uma voz de homem respondeu.

 

- Tan, o que é que tens?

 

Tan encostara-se a um muro do pátio e, enquanto pressionava o punho contra o ventre, vomitava.

 

Maya tentou orientar-se. Conhecia muito bem Singapura. Mas nunca estivera naquela zona.

 

Arrastou Tan, que limpava a boca com um lenço, pelo portão. De repente parou. Viu um carro a aproximar-se lentamente. Era um carro com faróis quadrados. Sentiu o coração apertado.

 

Mas... afinal era apenas um táxi. Ergueu o braço e mandou-o parar...

 

Philip Wang Fu nunca respeitara as leis. Dizia que eram feitas pelos políticos e por isso mudavam como a direcção do vento. Consoante a situação, havia sempre a escolha entre proteger-se do vento ou deixar-se empurrar por ele. Existiam, no entanto, certas regras que Philíp Wang Fu respeitara sempre ao longo de toda a sua vida, por considerá-las importantes...

 

O dinheiro é o sangue ardente da vida», dissera-lhe já o seu avô, um homem muito sábio. Há mais de um século, na época das grandes fomes, To Fu deixara a sua aldeia natal nas montanhas da província chinesa de Yunnan e, passando por Xangai, emigrara para a cidade malaia de Penang, que nessa altura ainda se chamava Georgetown. Pretendia trabalhar para os diabos dos estrangeiros, os ingleses, porque pagavam bem e prometiam uma certa estabilidade. E To Fu, analfabeto, mas com um grande talento para os cálculos, conseguira conquistar o lugar de responsável pelos trabalhadores das minas de zinco inglesas, perto de lpoh.

 

«Nunca deixes as coisas inacabadas. Limpa sempre a tigela antes de voltares a enchê-la.» Outro dos seus princípios. Ou então: «Honra o teu corpo!»

 

Philip Wang Fu apenas compreendera o sentido desta frase algumas décadas mais tarde. Numa altura em que a época pós-revolucionária e as outras catástrofes tinham sido esquecidas e já depois de se ter mudado da Malásia para Singapura, onde transformara uma pequena fábrica no império de East Coast.

 

Contudo, apesar de toda a riqueza, quando se encontrava na cama com febre, mandava chamar o velho Li Tanao, um mestre da medicina de lpoh, que tratara o seu pai e o avô e que já deveria ter pelo menos oitenta anos. Mandara-o buscar no seu avião particular da East Coast Industries. o velho, com o seu traje de algodão castanho, uma bengala de madeira de avelã que ele próprio talhara, dissera sorrindo: «Não te conservaste muito bem, meu filho... Mas ainda vais a tempo...

 

o velho curara-o. E como a partir daí Li Tanao se recusara a regressar à «cidade diabólica», Singapura, Wang Fu vira-se obrigado a voar para lpoh, na Malásia, sempre que queria consultá-lo,

 

«A velhice é a maior dádiva da vida», dissera-lhe o Dr. Li Tanao na sua última consulta antes de morrer. «A velhice reúne o conhecimento profundo com a distância necessária à harmonia. E com o poder sobre ti e os outros. A velhice é limitada pela fragilidade do corpo. Todos sabemos isso. E felizmente que assim é. Todos os círculos se fecham. Mas a forma como se fecham pode ser influenciada. Lao-Tseu diz: ”Quem não age, não tem nada de que se arrepender.. Mas quem decide agir, deverá continuar a agir...” E para que tal aconteça existem pequenas astúcias.»

 

Sempre que Philip Wang Fu recebia as meninas, lembrava-se destas frases do velho Li.

 

o mesmo acontecia dessa vez.

 

Ainda conseguia sentir o gosto agridoce da essência na língua. Esperou que fizesse efeito e olhou pela janela para as luzes e projectores do navio de contentores que lá fora deslizava por Marina Bay. «São as mulheres que nos dão a vida. E é através delas que ela pode ser prolongada, Não sentirás as desvantagens da velhice, se tomares a essência que te prescrevo: essência de tigre!, Nem sempre faz efeito. Mas aqueles que acreditam no poder do tigre sobre a vida e sobre todos os seres sentirá o seu efeito.»

 

Wang Fu acreditava. E como acreditava!

 

Sentiu os dedos dos pés aquecerem. Primeiro os dois mais pequenos, depois o calor passou horizontalmente para os dedos grandes e dali para os calcanhares, subindo pela parte interior das coxas até, bem, até ao lugar onde precisava de toda a força: o yang.

 

Pois bem... As coelhinhas que se preparassem...

 

Tinha três à sua espera. Ou, melhor, duas mulheres: Teeny-Sue e Olga Sekonov, que era uma mulher forte, selvagem e extrovertida. Para além das duas havia ainda Tien, uma rapariga nova, que Kim arranjara através do proprietário de um bordel em Hong Kong, que por seu lado a fora buscar a uma aldeia qualquer perto dos New Territories. «Virgem! Garantido... »

 

Philip Wang Fu pedira que lhe mostrassem fotografias da rapariga.

 

- Quero-a de pêlos rapados.

- Sim, respeitável senhor.

 

Apesar de tudo, levara algum tempo a decidir-se. Olhara longamente para as fotografias, enquanto Kim o observava discretamente e pensava: «Um velho, insaciável violador de raparigas... Olha para ele! E repara como o seu quimono se ergue entre as pernas, enquanto ele sorri, de olhos arregalados... Aquele remédio realmente faz efeito... »

 

- Faça favor, respeitável senhor. Kim abriu a porta.

 

Lá estavam elas. Todas as três nuas. Ouvia-se o som da água, as vozes alegres delas, os seus risos. Que combinação tão estimulante, pensou Wang Fu e ergueu o braço para as cumprimentar.

 

- Philip! o que é isto? Esperámos tanto tempo! Era Teeny-Sue, claro, a rebelde.

 

- Tenho imensa pena, mas por vezes também tenho de pensar em ganhar dinheiro. Afinal é disso que vocês vivem, minhas queridas, não é?

 

oh, o jogo da luz e da água a reflectir-se na pele delas! A pequena estava sentada na concha de mármore, da qual saía um turbilhão de água. Parecia uma esmeralda. A iluminação discreta modelava os corpos daquelas mulheres... Mas a rapariga, a rapariga na concha de mármore... tinha uma pele branca e lisa como marfim. A pele de Teeny-Sue era dourada e Olga, bem, Olga era muito morena, tinha umas pernas fortes e um corpo quase atlético, com uns ombros largos. A marca do biquíni, um triângulo luminoso, reluzia, branco como um pedaço de papel.

 

Wang Fu sentiu uma onda de calor espalhar-se pelo corpo.

 

«Minhas pombinhas! oh, meus rouxinoizinhos... »

 

E todas elas tinham a zona púbica rapada, tal como ele desejara. Todas? Bem, por hoje bastar-lhe-ia a pequena. Philip Wang Fu descontraiu-se, encostou-se para trás na sua poltrona e pôs os pés num banquinho. Através de uma ampla janela redonda atrás da cascata, podia ver o porto com as suas inúmeras luzinhas. Nos enormes arranha-céus negros do lado direito viam-se algumas janelas iluminadas. o Paraíso de Wang Fu encontrava-se no edifício mais alto de todos. Desse modo, impedia-se qualquer participação indesejada.

 

Philip Wang Fu pousou as mãos nos joelhos, afastou o quimono e com as pontas dos dedos apalpou a pele das coxas. Sentiu as rugas e os músculos moles e envelhecidos... mas ELE, olhem só para ele! Redondo, forte, pujante, ainda não estava completamente erecto, mas era igual ao dos jovens e em breve estaria completamente direito - ELE, o senhor, o ceptro da força.

 

-Então, Olga, não tens sede? Vem, bebe só um copo comigo.

 

-Não sejas impaciente, Philip.

- Eu? Não...

 

- Então, mais tarde.

 

«Então, mais tarde» eram as palavras-chave pelas quais esperara. Wang Fu sorriu e olhou para a pequena. Olga acenou com a cabeça e Sue compreendeu imediatamente e atirou-se para dentro da água. A pequena, para quem tudo aquilo era uma brincadeira - o seu riso era enternecedor baixou os braços que mantivera cruzados, expondo os seus seios redondos como maçãs. Agarraram-lhe as mãos, os braços e as ancas e ela continuava a rir. Puxaram-na para dentro da água, como se estivessem a brincar.

 

As brincadeiras de três raparigas no banho... Pois é, antigamente à beira-rio... Quando ele era jovem e observava as raparigas da aldeia a tomar banho...

 

Agora! Seguraram a rapariga. Ela espermeou. Mas porquê, minha pombinha?

 

Philip Wang Fu ergueu-se, despiu o quimono e aproximou-se da piscina, nu e excitado. Era um homem magro e envelhecido, cujas costelas se desenhavam na pele. Tinha os ombros caídos, as mãos fracas e os joelhos rugosos, mas a sua masculinidade estava rejuvenescida.

 

Desceu devagar, muito devagar, os cinco pequenos degraus para dentro da água tépida que tinha um perfume agradável. Aproximou-se lentamente das suas três belas mulheres.

 

Oh, que imagem! A rapariga gritava.

 

Os seus gritos eram agudos e sonoros... aumentando a excitação de Wang Fu até um ponto insuportável. A rapariga finalmente compreendera o que se estava a passar. A presa sabia o que iria acontecer-lhe.

 

As duas mulheres empurraram a rapariga contra a parede da piscina e seguraram-na pelos braços, de modo a que não conseguisse mexer-se. Ela olhou para o homem e parou de se defender, pois compreendera que apenas lhe restava suportar tudo o que se aproximava...

 

E então sentiu-o e ele sentiu o calor dela, que o recebia. A resistência inicial transformou-se em rendição e humildade, quando ele penetrou pela estreita entrada de jade na sua gruta florida. A rapariga parou de gritar. Apenas se ouvia um leve soluçar..
-Repito a minha pergunta, Mister Ling: onde esteve ontem à noite? Onde esteve entre a meia-noite e meia e as três da manhã? Responda.

 

Silêncio.

- De qualquer maneira, nós descobrimos isso sem dificuldades. Não julgue que nos vai escapar, Está a ouvir?

 

«Está a ouvir?... Não julgue que nos vai escapar... » Tan Ling estava sentado na borda da cama e tremia de frio. Ontem à noite?... Ontem à noite não existira, fora um sonho... um sonho horrível... um sonho assustador, tal como o pesadelo que tivera após a festa do Cheng-Beng, o dia dos finados, no qual ele, juntamente com Sien e os filhos, percorrera um horrível desfiladeiro negro, e era perseguido por formigas, formigas mortíferas, enormes formigas pretas de goelas abertas, que tentavam apanhar os seus filhos. Nessa noite acordara aos gritos e encharcado de suor...

 

- Responda! Responder? Responder..

 

o seu olhar estava colado ao chão e tudo o que via eram botas pretas. Pretas e com grossas solas de borracha. A pele das botas brilhava no círculo de luz proveniente da lâmpada de cabeceira: pele preta e o tecido fino, azul dos uniformes que saía das botas...

 

Eram dois homens, tinham dado murros na porta, às seis da manhã, assustando a mulher, os filhos e os vizinhos... Fora por causa do carro, pensou. Fora muito fácil para eles. «Encontraram o carro, carregaram em alguns botões nos seus computadores e vieram para cá. Pois é, foi tão simples. Já está, já te apanharam! E a doida que ia a conduzir? Essa escapou-se...»

 

- Responda!

 

Contraiu os músculos da nuca e ergueu a cabeça, devagar. Teve a sensação de que o alto na parte de trás da cabeça escorregara para dentro do cérebro, quente e pesado.

 

- Tenho um exame hoje, disse Tan Ling. - Sou o examinador.. Faço parte do júri da escola profissional na Baker Road... Hoje é o último exame dos finalistas... Às dez e meia... Tenho de lá estar às dez... Tente compreender.. A preparação... Preciso de calma... Por isso agradecia que...

 

-Às dez horas estará noutro sítio completamente diferente.

 

Era sempre a mesma voz que falava. Sem emoção. Apenas racionalidade fria.

 

-Mas são os finalistas. E eu sou o examinador... -Nós é que iremos descobrir o que você é. Levante-se! Tan não quis levantar-se. Pensou em Sien. o que lhe teria acontecido? E as crianças, estariam acordadas? -Oiça, a minha mulher...

 

-Já tratámos disso. Ela foi informada.

 

Sentiu uma mão por baixo do ombro. Tentou levantar-se sozinho, mas não foi capaz, os seus joelhos estavam moles como gelatina.

 

-Não faça fitas. Ele cambaleou.

 

-Aquilo ali é a casa de banho?

- Sim.

 

-Então vá buscar as suas coisas.

 

Tan perdeu o equilíbrio. Dirigiu-se para a casa de banho mas se um dos dois homens da FIE, a Força de Intervenção Especial de Singapura, não o tivesse segurado, não teria conseguido lá chegar sozinho..

 

«Serve a comunidade sempre que puderes. Ela é a tua família, que te suporta, protege e envolve.

 

Por isso, lembra-te: apenas se cumprires esta obrigação serás interiormente livre.»

 

Estas frases estavam desenhadas a pincel numa bonita caligrafia, por baixo da imagem emoldurada do homem que as dissera: o presidente, um senhor de idade, com cabelos brancos, com um sorriso nos lábios. A imagem do presidente estava pendurada por cima da poltrona do inspector Ernest Ti Chong, que hoje era o responsável pela força de intervenção. As palavras escritas por baixo da imagem tinham como finalidade impressionar os visitantes. o inspector Chong não precisava de vê-las. Há muito tempo que as interiorizara.

 

Voltou a pegar no auscultador do telefone e discou o mesmo número.

 

- Kuo? Finalmente! Porque é que não atendeu até agora, sargento?

 

- Ainda estamos a fazer o interrogatório, senhor inspector.

 

- Que interrogatório?

 

Todas as manhãs era feita uma triagem daquilo que se apanhara durante a noite anterior. A última noite, de terça para quarta, por exemplo, decorrera muito calmamente, comparando com o que era habitual. A Polícia via-se frequentemente obrigada a requerer a intervenção dos homens da Força de Intervenção Especial. Especialmente quando se suspeitava que o caso tivesse motivações políticas ou mesmo terroristas. Essa era, pelo menos, a justificação dada pela lei para a criação de uma Força de Intervenção Especial. No que dizia respeito aos casos de terrorismo, em princípio, a situação estava controlada. Quem seria a tal ponto louco para ousar praticar terrorismo num estado policial? Os poucos que o haviam tentado, tinham sido imediatamente apanhados. E os casos políticos?... Bem, a Força de Intervenção Especial não se envolvia na actividade dos serviços secretos do departamento de segurança interna. Além disso, política era uma expressão lata, sem forma, e extensível como a borracha. Política, isso podia significar um bando de jovens que, sob a influência nefasta da decadência ocidental que desrespeita os verdadeiros valores, improvisa um concerto de viola numa qualquer estação de metro em Singapura, cantando músicas com textos indecentes e ainda por cima, como cúmulo da provocação, lança colectivamente beatas de cigarros para o chão,

 

Política... Isso relacionava-se também com as chatices com os trabalhadores ilegais provenientes da Malásia, da China ou da Indonésia, gentalha pobre trazida para a cidade por uns quaisquer empresários. Eram pessoas imprescindíveis, mas ninguém lhes pagava um ordenado decente. Davam repetidamente nas vistas de forma indesejável aquando da chegada de turistas ou de outros visitantes devido à sua pobreza e ao seu comportamento indisciplinado. Política... era a tentativa de um qualquer sindicato ilegal de explorar o direito do trabalho através da movimentação de massas. Eram os problemas com as cópias ilegais. E tudo o que acontecia quando havia casos de perseguição de estrangeiros, que eram presos devido a problemas ligados com as drogas. Afinal, o desmantelamento do tráfico de drogas por estrangeiros era uma das tarefas prioritárias! Um dos domínios que estava sob a responsabilidade da Força de Intervenção Especial e que, devido à excessiva sensibilidade da imprensa ocidental e do grande alvoroço que esta costumava fazer nesses casos, se considera altamente «político». Era tudo excessivamente dramatizado. Que choradeira houvera quando, em inícios de Maio, uma jovem holandesa tivera de pagar na forca pelo tráfico de drogas. E o americano, cuja sentença fora concretizada três meses mais tarde numa prisão de Changi... Devido ao envolvimento do próprio presidente americano Clinton, o caso transformara-se numa verdadeira questão política.

 

- Mas... porquê? Eles devem achar que um chinês, um malaio ou um indiano sofre menos quando o enforcam! exaltara-se Karig Yu Seng, o superintendente e chefe da Força de Intervenção Especial. - Julgarão eles que têm outra constituição física?

 

Naquela manhã, no aeroporto, tinham sido presos mais dois estrangeiros, sob suspeita de tráfico de heroína. Haviam sido obrigados a prender o jovem casal sul-africano dentro do avião da Quantas. Estes tinham protestado, causando mesmo um conflito com os restantes passageiros ocidentais...

 

Havia outros casos políticos, cujos contornos eram difusos. o seu carácter não era definido por regras, mas sim pela Presidência, pelo Ministério do Interior ou por outras personagens importantes envolvidas no assunto.

 

A cena que se passara na noite anterior constituía um bom exemplo. Uma história misteriosa que envolvia o assalto a um barco, no qual um homem com a alcunha de «Cabeça de Corvo», que fazia parte do bando de cantoneses, guardava produtos de tigre. Evidentemente que a Força de Intervenção Especial estava ao corrente dessa situação. Mas o superintendente dera ordens para deixarem o homem em paz. Mas pelos vistos houvera alguém interessado em ocupar-se dele. E em causar problemas...

 

- Sargento Kuo!

 

- Sim, senhor inspector.

 

- o que se passa com o caso do barco?

 

- Como lhe disse, estamos a fazer o interrogatório.

- Quem?

 

O Hsi Pei e eu.

 

Então subam. E tragam o homem convosco.

 

Então, é você... - o inspector Chong inclinou-se para trás. Tinha as pálpebras meio fechadas. Através da pequena e alongada abertura, os seus olhos pareciam finos estilhaços de verniz. - Mister Tan Ling, não é verdade?

 

o preso permaneceu silencioso.

 

- Esqueceu-se do seu nome? Porque é que não responde?

 

- Sim. Chamo-me Tan Ling.

 

As calças claras de algodão que Tan vestia estavam penduradas nas ancas e completamente amarrotadas. Tinham-lhe tirado o cinto.

 

- Então? - perguntou Chong a um dos dois sargentos que estavam colocados, de braços cruzados, de ambos os lados do prisioneiro magro, pálido e exausto. Hsi Pei era gordo e baixo e tinha uma cara arredondada e brilhante, enquanto o outro sargento, Will Kuo, era um homem de um metro e oitenta com cicatrizes de varíola na cara e um corpo musculoso. Era o melhor aluno da sua categoria nas disciplinas de luta ensinadas na academia de polícia. Mas o facto de estar constantemente a contrair os bíceps, e de esses malditos bíceps estarem cobertos de tatuagens, não agradava ao inspector. Vestido à civil parecia um proxeneta. Chong fez uma nota nos seus papéis: falar com Kuo sobre aparência e apresentação.

 

- o Tan Ling é o dono do veículo com as marcas de tiros que encontrámos no pátio de uma fábrica atrás do terminal de autocarros de Bukit-Merah. A ele pertence também o barco acerca do qual fomos avisados. Só um momento... Hsi Pei tirou um bloco do bolso da camisa e leu alto e num tom solene: - o barco está registado na marina da East Wharf com o número dois quatro seis três sete.

 

o inspector franziu a testa num gesto de impaciência. -E os tiros? Quem é que disparou contra si?

 

Tan Ling estremeceu. Os seus lábios estavam quase tão pálidos como a sua pele.

 

- Desculpe?

 

- Eu perguntei-lhe quem tinha disparado contra si. -Isso eu não sei.

 

- Ah, não sabe?

 

o inspector deitou um rápido olhar à folha que continha as informações retiradas do computador: «Tan Ling, nascido a 27/3/1958. Formação académica no Seminário Pedagógico do Instituto Pedagógico. Professor de Anglística e Literatura na Escola Profissional Barker há quatro anos.» De resto, os habituais comentários das repartições públicas acerca do seu perfil profissional, informações sobre as contas bancárias, os impostos, a existência de cadastro, etc.

 

«Ora, então: cadastro inexistente. Nunca teve problemas com a polícia...»

 

Ali, porém, já havia algo com interesse: «Mister Tan Ling recebeu variados avisos acerca do facto de a sua participação em organizações ecológicas como a Singapure Friends of the Earth poder não apenas ter influências negativas na sua carreira como também eventualmente representar problemas políticos para a escola, Foi-lhe proibido qualquer tipo de agitação política durante as aulas, ao que Tan Ling concordou com a sua assinatura.»

 

Chong inclinou-se para a frente e, com um suspiro, cruzou as mãos.

 

- Um professor que é perseguido a tiro por bandidos a meio da noite é um professor pouco vulgar, não acha? Tan não respondeu.

 

o sargento continuou com o relatório.

 

- Hoje de madrugada, pouco depois da uma da manhã, Mister Ling foi buscar uma mulher perto do estaleiro da Hyunday e transportou-a no seu bote a motor até uma das sampanas ancoradas na West Wharf. Segundo as suas declarações, não conhecia a mulher, pois apenas agiu por ordem dos seus amigos da organização Singapure Friends of the Earth. Julga-se que pretendiam fotografar produtos de tigre, armazenados no barco.

 

- Pois claro - disse Chong.

 

Eram agora nove e meia da manhã. Seis horas antes, pouco depois das três, o turno da noite recebera uma chamada anónima, o que já por si era estranho, porque o número de telefone da Força de Intervenção Especial era considerado secreto, estando apenas à disposição das unidades policiais. o homem no outro lado da linha falara com um forte sotaque cantonês, Dissera que o seu nome não tinha importância, mas que tinha uma participação a fazer. Houvera um assalto no barco do «respeitável» Tok Yan, o Cabeça de Corvo. Os assaltantes tinham deitado abaixo um parente do Cabeça de Corvo, que os apanhara em flagrante delito, arrombando todos os armários e fugindo com os objectos roubados. Para tal haviam utilizado um carro da marca Colt com a matrícula número 5 402-748-B e um bote do tipo Merlin 12.

 

Pelos vistos estava bem informado. Deveria ter seguido de perto toda a acção... Mas, mesmo assim, tratava-se de uma denúncia que normalmente deveria ser participada à polícia costeira ou à polícia criminal. Em relação à pergunta do funcionário que recebera a chamada, sobre o que fora roubado, o homem do outro lado da linha não soubera dar resposta. Outro aspecto estranho era o facto de ter dito que o assalto poderia interessar o superintendente Karig Yu Seng, pelo que aconselhava a participar-lhe o ocorrido.

 

E isso fora feito. Às nove e vinte da manhã.

 

Nessa altura, o carro e o seu proprietário já tinham sido encontrados e outras informações obtidas...

 

o inspector Chong suspirou e observou como se formava um pingo de suor no nariz pálido como cera de Tan Ling, cujas mãos tremiam. Que tipo tão estranho! Segundo o relatório o homem que fora atirado ao chão no barco fazia parte do Bando de Cantão, um bando formado por homens escolhidos a dedo.

 

o inspector conhecia o Cabeça de Corvo, Mas o que é que tudo aquilo tinha a ver com o superintendente? Enfim, o Cabeça de Corvo sempre usufruíra de uma imunidade especial. Quando se tratava dele, a versão oficial era sempre a mesma: Tok Yan era indispensável como fonte de informações no porto...

 

- Você atirou ao chão um homem que o atacou na sampana. Pode dizer-me como é que fez isso?

 

Tan abanou a cabeça. -Vá lá, fale!

 

- Não fui eu que o fiz. -Não? Então quem foi?

 

-Foi a mulher.. A mulher que eu levei para a sampana.

 

o inspector Chong passou lentamente a ponta do indicador direito pela sobrancelha curva e preta do seu olho direito antes de voltar a falar.

 

-Diga-me, o senhor tem algum problema?

- Como?

 

-Perguntei-lhe o que se passa consigo. Tem algum problema, para além de assaltar sampanas de estranhos a meio da noite? Acho que não? Então, está enganado, Tan. Está mesmo muito enganado. Porque na verdade tem um grave problema. Como ousa pensar que pode fazer pouco de mim no meu próprio gabinete?

 

- Eu... Isso... Eu não quero...

 

A gota soltou-se. Tan passou a mão pelo nariz. A mão tremia.

 

- Está a tentar dizer-me que foi a mulher?... Aquele homem era altamente qualificado. E pesava pelo menos cem quilos.

 

Tan Ling torceu os dedos.

- Responda!

 

- Acredite no que lhe digo... quero dizer, senhor inspector, eu mão posso...

 

- Responda: quem era a mulher?

 

Chong não gritou, isso não era o seu género. Falava baixo, pronunciando cada palavra muito bem articulada.

 

- Eu vou dizer-lhe o que você não pode: não pode fingir ser um idiota à minha frente. E vou dizer-lhe o que eu posso: se não tomar juizo imediatamente e não me fornecer informações claras sobre tudo o que se passou ontem à noite, faço com que vá directamente daqui para a prisão de Changi, Acompanhado de um paplinho com apenas um número: quinhentos e vinte e cinco... E o número de uma cela. Nessa cela encontra-se uma cambada de homossexuais. Todos eles altamente criminosos... E eles têm a sua própria especialização. Como, por exemplo, dar-lhe cabo desse seu sensível traseiro de professor. Um depois do outro, todos de seguida.

 

A maçã-de-adão no delgado pescoço de Tan estremeceu. Os seus olhos estavam muito abertos, numa expressão de terror e sofrimento.

 

- Se conseguir sair vivo da cela quinhentos e vinte e cinco, Tan, eu garanto-lhe que nas quatro semanas seguintes não conseguirá dar nem um passo.

 

-Mas eu tenho...

 

-Você não tem nada. Tem apenas a intenção de fazer pouco de nós. E isso eu não permitirei.

 

Lançou um olhar a Kuo. Este compreendeu de imediato, inclinou-se rapidamente para a frente e pressionou o seu polegar duro num ponto específico do pescoço de Tan. o corpo de Tan empinou-se e ele gritou de dor, Depois, a boca abriu-se e a sua cabeça caiu para a frente.

 

Kuo puxou-a para cima pelos cabelos.

 

- Bem - prosseguiu o inspector, satisfeito. - Isto serve apenas de aviso. Quem dita as regras aqui somos nós e não você. E uma delas é: eu faço as perguntas e você responde. Correctamente, homem. Você é professor, por isso

deveria saber o que significa uma resposta correcta. É uma declaração clara, verdadeira e correcta, que transmite tudo aquilo que sabe. Estamos de acordo?

 

Tan Ling gemeu. Esfregou o pescoço que lhe doia. A sua cara estava cinzenta. o canto direito da boca arreganhado.

 

- Eu perguntei-lhe uma coisa, -Sim.

 

-Sim, senhor inspector, é como se diz.

- Sim, senhor inspector..

 

-Traga um copo de água, sargento. E um daqueles comprimidos.

 

o sargento Hsi Pei afastou-se para ir buscar a água e o comprimido. Era um comprimido que utilizavam quando a tensão arterial ou o sistema vegetativo do interrogado ameaçavam falhar, Tan pôs o comprimido na boca, obediente como uma criança, e bebeu a água. O nome da mulher.

 

-Não tenho conhecimento,

 

- Acabei de lhe explicar que tentar irritar-me é a táctica errada.

 

- Senhor inspector, acredite em mim! Eu... eu realmente não sei...

 

- Realmente? Não me diga! Sabia que dispomos de outros métodos para o pôr a falar? Posso mandar-lhe dar vinte e cinco pauladas se não falar.

 

As mãos de Tan formaram punhos. Os seus olhos estavam agora mais claros.

 

-Eu não sei. Já expliquei ao sargento como as coisas se passam quando eu aceito uma missão do movimento do SFE. Eles telefonam-me e pedem-me um serviço.

 

-E você vai logo a correr. Quer que lhe diga o que penso desse seu SFE? Aquilo é um bando de comunistas camuflados. Mais nada.

 

- Não. Nós apenas temos projectos legais.

 

- E quer que lhe diga quem era a mulher que você conduziu a meio da noite pelo porto para que pudesse assaltar uma sampana qualquer? Quer saber? Era uma agente chinesa comunista, altamente perigosa. E sabe qual o castigo previsto em Singapura para o apoio a acções inimigas ao Estado e a organizações que ameaçam o direito e a democracia? Posso dizer-lhe.

 

- Por favor...

 

O nome Nandi não lhe diz nada?

 

Tan abanou a cabeça. Abanou-a como uma boneca, não, como um robô.

 

- Maya Nandi?

 

Continuou a abanar a cabeça. A sua testa estava coberta de gotas de suor. Tentou levantar-se.

 

- Por favor, senhor inspector... Estou a sentir-me... O que é que se passa?

 

Tan Ling fraquejou. Inclinou-se para o lado e juntamente com a cadeira caiu no chão.

 

- Levem-no daqui. - o inspector Chong apontou com o queixo para o homem inconsciente, num gesto de repugnância. o interrogatório não rendera grande coisa.

 

o inspector Chong movia os papéis na sua secretária de um lado para o outro com a ponta dos dedos. Teria cometido um erro? Não. Era impossível. Aquele homem era apenas um inútil, um nabo que não tinha qualquer interesse para a solução daquele caso. Apesar disso, pretendia mantê-lo preso durante mais alguns dias, invocando a lei marcial, Apenas o diabo sabia como aquela história iria acabar. Cheirava-lhe a podre.

 

Voltou a debruçar-se sobre as folhas na sua secretária. Anteriormente apenas lhes deitara um olhar rápido. Tan Ling? Não tinha interesse... Mas aquilo sim: o relatório de um espião da Força de Intervenção Especial.

 

Levantou-se e foi ao corredor buscar uma garrafa de Pepsi da máquina. Bebeu metade. o relatório fora-lhe entregue pelo turno da noite. Os rapazes tinham trabalhado bem. Não havia motivo de queixa. o relatório já fora elaborado há três semanas. Tratava de uma conferência daquelas estranhas organizações ambientais, nas quais participavam donas de casa, estudantes, desempregados e professores, claro... Esses estavam sempre metidos nessas coisas. Enfim, tratava-se de uma EIA, uma Enviroranental Information Agency, ou seja, uma agência de informação ambiental, sediada em Londres, que decidira denunciar a comercialização de produtos de tigre em Singapura e na Malásia, proibida pelo tratado de protecção das espécies. Pretendiam enviar um dos seus melhores agentes para a zona. Na conferência decidira-se que esse agente, uma mulher chamada Maya Nandi, deveria usufruir de todo o apoio necessário, o que era «de uma importância vital para que a missão fosse um sucesso, perante a opressão vigente do empenhamento sério no âmbito da protecção das espécies e do meio ambiente».

 

Pois claro. o costume.

 

Mas Maya Nandi?... Vinda de Londres? Nandi não era um nome indiano?... Bem, a colónia indiana em Londres certamente era maior do que a de Singapura. Ou seja, o nome não queria dizer nada, mesmo nada... É líquido pegajoso, esta maldita Pepsi. E nem sequer consegue despertar-nos. Mais vale um café...

 

Chong pegou no auscultador do telefone e pediu um café à secretária:

 

- Rapidamente!

 

Precisava com urgência de um café. o superintendente poderia telefonar a qualquer instante. E para falar com ele precisava de aclarar as ideias.

 

A secretária trouxe-lhe um termo e uma chávena e serviu o café. Bebeu metade da chávena, encostou-se para trás e fechou os olhos: Maya Nandi? Indianos, sim, mas o nome Nandi também existia na Malásia. «Ainda há pouco li esse nome algures... Onde terá sido? Já sei... o relatório Straits-Times, sobre o envolvimento da indústria com a Malásia, é isso.» A sua memória nunca falhava. Tentou recordar-se do artigo, linha por linha. Dizia que Philip Wang Fu, o proprietário da East Coast, face ao eventual aparecimento de novas leis Para a protecção das florestas tropicais, decidira afinal investir grandes somas no negócio da madeira, para desse modo se antecipar ao seu principal concorrente nessa área, o gigantesco grupo coreano Hyunday. Estava especialmente interessado nas madeiras do sultanado malaio de Jorak. Sulei Nandi, o representante de Wang Fu em Jorak e há vários anos defensor dos interesses da East Coast na Malásia, negava qualquer conhecimento desses planos.

 

Sulei Nandi. Jorak...

 

Chong rabiscou algo nas folhas que se encontravam na sua secretária e quis pegar no auscultador, mas nesse momento o telefone tocou.

 

- Chong?

 

- Sim, senhor inspector?

 

- Tinha ficado de me dizer qualquer coisa. o que é que anda a fazer? Está a tomar o seu chazinho? - o inspector nunca mostrava uma voz irritada ou impaciente, não; em todas as situações exprimia sempre o mesmo: indiferença, uma descontracção paterna, por vezes divertida. Mais tarde, sim, exprimia a raiva acumulada por outros meios, como um destacamento, a proibição de férias ou outros castigos. Por vezes chegava mesmo a despedir pessoas.

 

- Claro que não, senhor inspector. Estamos a proceder ao interrogatório.

 

O caso do barco?

 

-Está a ser tratado, senhor inspector. - Pelos vistos não estava minimamente interessado na cena que se passara no Boeing da Quantas em que os sul-africanos tinham sido apanhados com setenta gramas de heroína. - As declarações do proprietário do carro não adiantaram muito, senhor inspector. o barco de facto era dele, mas ele apenas serviu de intermediário. Infelizmente no fim do interrogatório caiu para o lado.

 

- Chong, sinceramente, devia deixar de usar essa expressão «cair para o lado».

 

-Não foi por causa do método que utilizámos, senhor inspector, garanto-lhe. Ele realmente teve um problema de circulação. É professor.

 

-Eu sei, eu sei.

 

- o homem declarou ter agido por ordem de uma organização ambiental.

 

-E a Maya Nandi?

 

Pelos vistos o superintendente não só estava ao corrente da situação, como até sabia o nome.

 

- Andamos à procura dela.

 

-Faça tudo o que estiver ao seu alcance para a encontrar, homem. o secretário está a tratar deste caso, e isso não é de todo aquilo que eu desejava. - Nenhum dos homens da polícia sabia fazer uso do sotaque inglês high-class adquirido durante a formação na academia de Londres de forma tão descontraída como o superintendente Karig Yu Seng.

- Isto torna o caso ainda mais delicado do que ele já é. Por isso, Chong: nem uma palavra à imprensa, nem uma palavrinha.

 

- Sim, senhor inspector.

 

- Se algum jornal lhe fizer perguntas, finja que o caso não tem importância. Diga que tudo acabou com uma simples multa, por infracção das regras de trânsito.

 

- E os acusados...

 

-Os homens da sam’pana? Bem, aquele tipo e o seu bando... como é que ele se chamava?

 

-Cabeça de Corvo.

 

-Bem, mais cedo ou mais tarde teremos de tratar dele e dos seus seguidores. Agora não é a altura certa para isso. Eles não nos causarão problemas, porque já têm cadastro. O nosso problema é outro. É aquela mulher...

 

-A Maya Nandi?

 

-Exactamente. Receio que essa mulher possa causar muitos estragos. Muitos mesmo. E parece que é exactamente isso que ela tenciona fazer. Pelo que dizem os relatórios, é excepcionalmente esperta. E ainda por cima parece ser boa naquilo que faz. Ao contrário desses nabos de defensores do ambiente, esta mulher tem um objectivo claro e as ideias bem definidas. Além disso, os Nandi possuem muitos contactos na Malásia. Mesmo a nível político. o que eu quero dizer com isso é que neste caso não se trata apenas de defender os nossos interesses políticos como também os económicos. Está a entender?

 

Era uma pergunta meramente retórica. Evidentemente que Chong não compreendera o que o superintendente queria dizer. E não tinha nada que compreender. Tinha apenas de saber que não era importante se compreendia ou não. E isso não o punha lá muito bem-disposto.

 

Sim, senhor inspector.

 

Por isso repito, meu caro Chong, seria realmente muito simpático da sua parte se, com a ajuda dos seus homens, tentasse encontrar a Maya Nandi. Utilize todos os meios que estiverem ao seu alcance. Disponha dos homens que quiser. Se precisar de reforços, dirija-se aos seus superiores. Eles já estão informados...
o mais velho sabia nadar Provara-o mais acima, quando tinham encontrado um vau no rio...

 

A mãe rosnou. Quando ofilhote se desviou, assustado, da água, voltou a rosnar e empurrou-o com o peito para dentro do rio, de modo que se colocasse do lado da corrente e fosse pressionado contra o corpo da mãe pela força da água. A outra margem não ficava longe. Era apenas um braço estreito do rio, mas tinham de chegar à outra margem. Os sapais tornavam impossível qualquer movimento naquela margem. Do outro lado haveria uma floresta com rastos de veados, macacos e - quem sabe - de javalis... Estavam agora dentro da água.

 

o mais pequeno mostrava-se nervoso e esperneava, desajeitado. A mãe ouviu-o bufar e soltar ruídos sufocados... Pressionou-o com mais força contra o seu corpo e nadou devagar. Não podia fazer mais nada. Ele teria de passar por aquilo.

 

Do outro lado do rio a mãe tigre encontrou um esconderijo por baixo das raízes de uma enorme árvore arrancada da terra e empurrou os filhotes lá para dentro. o esconderijo era escuro e no seu abrigo o pequeno sentiu-se melhor. Vomitara três vezes na praia. o irmão ficara sentado a seu lado e fitara-o, tentando empurrá-lo encostando o focinho ao seu pêlo encharcado. Mas o pequeno permanecia deitado.

 

Pelo menos tinham conseguido. A mãe posicionou-se por cima do esconderijo, atrás de uma ilha de bambus. A areia estava quente. o seu olhar penetrava a escuridão, sem dificuldade. Para ela existia um mundo diferente, um mundo feito de plantas e presas, de coisas essenciais para a sobrevivência.

 

Estava agora a familiarizar-se com aquela margem. Os macacos berravam do outro lado do rio. Certamente que também havia porcos. Iriam aproximar-se. Mais cedo ou mais tarde.

 

Sentiu o seu corpo enfraquecido. Com a pata direita apalpou a areia, empurrando-a de um lado para o outro, na esperança de encontrar uma concha, um caranguejo, um caracol, ou qualquer coisa comestível. Mas nada...

 

Regressou à sua posição inicial...

 

Van Koonen voltou a puxar o cabo do motor. Ouviu cinco rotações, um ploff e mais nada.

 

o barco flutuava. A porcaria do motor não queria pegar. Um enorme ramo bateu com tanta força contra a proa que se ouviu um plong e Van Koonen estremeceu.

 

Pensou se deveria pegar na vara. Que porcaria de barco! Desde o início que não confiara nele. Mas depois aparecera Hank, o aldrabão americano que era o gerente da empresa e afirmara que o barco era excelente e que estava em óptimo estado.- «Sim, ontem andei às voltas com ele durante três horas, sem problemas, sim senhor.. Para quê então um motor suplementar?» Acrescentara que até mesmo o empresário de Taiwan que fazia parte da administração da United, e que quisera mostrar afloresta tropical à namorada, ficara muito satisfeito com o barco...

 

Todos se mostraram entusiasmados, porque nenhum deles abrira o motor durante as últimas semanas... Tinham-lhe apenas dado ordens para navegar pelo rio até ao acampamento malaio, de cujo nome nunca conseguia lembrar-se. Indicaram-lhe rapidamente o lugar no mapa: «Quatro horas, Will. Homem, isso não é nada.»

 

Pois não, não era nada.

 

Nesse acampamento com um nome impronunciável estaria um qualquer empresário de madeiras, um senhor muito importante da United, à espera que ofossem buscar. «Ele tem de vir de barco, porque o helicóptero está lixado. Tu sabes disso... Quatro horas, Will. Afinal não são os Holandeses que são conhecidos por serem homens do mar?»

 

Holandeses? Sim. Também... Mas como pudera ele ser tão estúpido e deixar-se contratar por uns homens de Taiwan? Por uns bandidos metidos no negócio da madeira que ainda por cima se apelidavam de United.

 

Durante três horas tudo correra bem. Até mesmo durante três horas e meia. Depois, porém, o barco começara a causar problemas.

 

De repente reparou que o barco deslizara para um braço do rio. Devia ter-se desviado enquanto Van Koonen tentara retirar as velas do motor para as limpar.... Ali o rio era estranho, pequeno, estreito e apertado. Havia pauis por todo o lado. Não, aquilo já não era o rio Kualapatani...

 

A água estava a vencê-lo, a deixá-lo sem escapatória. Os ramos das árvores roçaram o pára-brisas do barco. Van Koonen teve de se baixar. Teria de pernoitar no barco? Ali? Não lhe restava qualquer alternativa... A noite já estava a cair e não poderia continuar.

 

Tentou segurar-se a um ramo. Mas o ramo partiu-se.

 

De repente, ouviu o barulho da água dentro do barco. Encalhara entre as árvores.

 

Nafloresta ouvia-se todo o tipo de cânticos, gritos e assobios dos animais. Van Koonen conhecia todos esses ruídos, mas agora estavam a assustá-lo.

 

Bom, o barco estava encravado numa árvore. Descobriu uma raiz, que parecia suficientemente forte, para o amarrar «Tu és holandês, Will. Mereces uma boa cerveja.» Tinham-lhe entregue cervejas Heinecken. Abriu a primeira lata, bebeu um gole, virou a cabeça e olhou para a outra margem.

 

Não ficava longe. A cerca de uns seis metros. Pareceu-lhe clara, provavelmente por causa da areia... Teria sido um lugar melhor para atracar Mas agora era impossível levar o barco para lá. E para quê? Já era noite, a escuridão era total, como se estivesse dentro de um túnel daqueles escorregas aquáticos. Os gritos dos pássaros pareceram-lhe cânticos funerários.

 

Eles eram altos quando andavam direitos. Mas a mãe tigre não acreditava que fosse o tamanho que os tornava perigosos. Era outra coisa, algo de desconhecido, que ela não conseguia definir.. Normalmente eram acompanhados por um barulho horrível, uma luz forte que nunca antes vira e sons e objectos desconhecidos que tinham um cheiro estranho e ameaçador

 

Ela observara-os. Quatro vezes. Da primeira vez, ela própria era tão nova que permanecera sempre perto da mãe. Fora lá em baixo, onde o rio se dividia em dois, formando uma ilha ao meio. Nessa ilha havia um bonito esconderijo. Fora ali também que ela parira os dois filhotes antes da chegada das chuvas. Porém, tivera de deixar o local, porque tinham aparecido aqueles macacos nus, com as suas luzes que permaneciam ligadas mesmo durante a noite. Noite após noite. Hora após hora. Era uma luz clara como dez sóis, que afugentava os pássaros e todos os outros animais, e sob a qual as árvores eram derrubadas, uma depois da outra com um barulho estrondoso.

 

Naquela altura, quando os vira pela primeira vez, eles tinham feito uma fogueira. Ela aproximara-se silenciosamente. Eram quatro e tinham vindo pelo rio. Havia um cheiro a carne queimada. Onde havia carne queimada, também haveria carne viva.

 

Quando quis erguer-se para avançar até à próxima árvore, vislumbrou os olhos da sua mãe à luz da fogueira. Ela não estava a olhar para a fogueira, mas sim para ela. Depois, os olhos da mãe tinham desaparecido e apenas conseguiu reconhecer a sua sombra que se fundia com a escuridão. A sua mãe era uma das maiores caçadoras dafloresta. Não temia nada. Afugentava qualquer tigre macho. E agora parecia ter fome; porém, não atacara...

 

Ela seguira a mãe. Tinham deixado a ilha, atravessado o rio a nado e depois voltado a separar-se.

 

A segunda e a terceira vez que vira esses estranhos seres fora, por acaso, na floresta. Eles tinham vindo pelos trilhos da selva. Ela conseguira superar o nojo que lhe provocava o cheiro que eles emanavam e acompanhara-os de perto. As suas vozes assemelhavam-se ao vagir de grandes rãs.

 

Aquele macaco nu, ali no meio do rio, iria ser a sua próxima presa. Estava sozinho. Não tinha luz nenhuma para além da pequena chama amarelada que se reflectia na superficie da água.

 

Mas aquele cheiro...

 

Não se sentiu enojada. Dessa vez, não. A fome era grande de mais e o seu inimigo era fraco. Os dentes iriam penetrar na carne sem qualquer impedimento. Iria apanhar aquela presa com facilidade.

 

o rio escondia sempre novas surpresas.

 

Van Koonen habituara-se ao piong dos ramos que batiam contra o casco de alumínio do barco. Mas de repente sentiu um mau cheiro. Uma pequena ilha de sargaço apodrecido e algas aproximara-se do barco e envolvia-o. Pegou no remo e, praguejando, tentou afastar o sargaço, enquanto os mosquitos zumbiam à volta da sua cabeça. Apesar de afugentá-los violentamente, pareciam sentir-se bem à volta dele e tentavam até penetrar-lhe nos olhos e nos ouvidos.

 

Finalmente tirou a camisa, a tremer de raiva, e espalhou o líquido venenoso, que lhe tinham dado no acampamento, pelo corpo todo. Fez efeito. o sargaço também acabou por se afastar.. Voltou a estar envolvido apenas pelo barulho do rio e dos peixes a saltarem à superfície da água. E pelos milhares de olhos fosfúricos que brilhavam na escuridão. Além disso, havia todo o tipo de sons vindos das árvores, dos cipós e dos arbustos. Eram gritos, um agourentar e gemer soluçar e murmurar constante...

 

Aquelas horas nunca iriam passar!

 

Bebera duas latas de cerveja Heinecken. Aquela era a terceira. Restavam-lhe mais cinco latas e um garrafão de água. Tinhafome, muitafome... «Em caso de naufrágio reparte bem a comida... » Não lhe apetecia... Mais um maldito mosquito. Deu uma bofetada na sua própria face e sentiu a cara a arder. A cerveja estava quente como chá.

 

«Tens que comer qualquer coisa.»

 

Tirou uma sanduíche da arca e desembrulhou-a. o que segurava na mão nem parecia pão, mas sim dois trapos escorregadios, moles e húmidos... Desligara a pequena arca frigorífica quando o motor falhara, para poupar a bateria dos projectores... Afinal era importante que conseguisse ver alguma coisa.

 

Voltou a ouvir um som estranho. Não era nenhum peixe, era um som raivoso e forte, que lhe causou pele de galinha. Haveria crocodilos naquela zona? Que animais existiriam por ali? o melhor seria nem pensar nisso...

 

Fez um esforço para mastigar e engolir. Bebeu metade da lata de Heinecken e pousou-a no painel de instrumentos. Encostou-se para trás e olhou para o céu, mas não conseguiu ver nada. Estava escuro de mais.

 

A minúscula luz da vela pareceu-lhe ser a única luz no mundo inteiro...

 

A mãe tigre nadara mais para cima, até aos sapais, e encontrara um tronco apodrecido que se encontrava à distância de um salto da pequena luz amarela. Iria ser fácil. A fome dominava todos os pensamentos relativos ao ataque. E havia também um sentimento de raiva, devido à fraqueza que sentia, uma vontade de ultrapassar aquela situação o mais rapidamente possível, imediatamente, sim, agora, já! Saltou...

 

Van Koonen ainda viu a sombra. Uma sombra enorme, gigantesca como as asas de um enorme pássaro nocturno. Não teve tempo de reflectir. Nem sequer teve tempo para ter medo. A adrenalina reagiu provocando uma onda de calor que se espalhou pelo corpo, até às pontas dos pés. Van Koonen gritou.

 

Voltou a gritar. Gritou enquanto o barco se inclinava para o lado, gritou quando sentiu a água do rio entrar pelo barco e uma enorme onda salobra espalhar-se-lhe na cara e depois no corpo. Gritou, gritou, praguejou, teve medo e raiva, medo de morrer e rogou: «Meu Deus! Meu Deus, ajuda-me... » o barco endireitou-se e Van Koonen sentiu o cheiro forte e penetrante característico dos animais selvagens e ouviu o bufar que lhe indicou qual o perigo que se aproximara pelo ar; um berro assustador que ameaçava enlouquecê-lo...

 

Céus! Sentiu um líquido quente espalhar-se-lhe nas suas coxas...

 

Urinara nas calças. Mas encontrara também o maldito projector. Carregou no botão, girou a luz em direcção ao seu agressor e aquilo que viu pareceu-lhe insuportável: a enorme cabeça de um tigre. Assustadora, mas ao mesmo tempo de uma beleza terrível, inesquecível e arrepiante... Os dentes do tigre eram brancos como neve. Brilhavam como facas afiadas. Os riscos no seu focinho eram também brancos, profundamente brancos e pretos. Os olhos do tigre encontravam-se à sua frente: muito abertos, grandes e redondos. Enormes olhos, como esmeraldas, que disparavam ódio, raiva e desejo. o barco voltou a inclinar-se.

 

«Não!», gritou Van Koonen. «Não!... Não!»

 

o tigre tinha as duas patas apoiadas na borda do casco. Nadava com as patas traseiras e segurava-se ao barco com as garras. O maldito barco vai virar-se... oh, meu Deus, vai virar-se!»

 

Não houve tempo para pensar. Neste tipo de situações nunca há tempo para pensar. Van Koonen não soube o que fazer. fez aquilo que lhe veio à cabeça, sem pensar ou sentir, pegou no remo de metal e enfiou-o na enorme goela vermelha do tigre.

 

A cabeça do animal desapareceu...

 

Van Koonen deixou-se cair para trás. Batia o queixo. Pôs as mãos nas pernas, flectiu-as e começou a chorar. Ao longe ouvia-se o estalar de alguns ramos através do murmurar da água.

 

Entorpecido pela dor o tigre alcançara a outra margem do rio. Deitou-se na areia e teve dificuldade em respirar Sentiu o sabor adocicado do sangue na boca. Cuspiu-o para o chão. Engoliu e bebeu o seu próprio sangue.

 

Duas horas depois matou um enho que bebia a água do rio com as suas patas feridas e arrastou-o até aos seus filhotes...

 

Maya Nandi esticou as pernas. Estavam descobertas e bronzeadas. Num dos joelhos tinha um risco azulado, causado por uma pancada. Calçava umas sandálias e usava uns calções de seda verde, uma blusa verde-escura e mais nada... A roupa que trouxera para aquela missão estava pendurada num armário no Hotel Sloane Court na Balmoral Road. o Sloane era um pequeno hotel de categoria média com um pequeno e simpático jardim. o que Maya mais apreciava nesse hotel era o facto de o gerente não fazer muitas perguntas. Apenas poderia roubar o passaporte e isso não era grave, porque de qualquer maneira era falso... e bem falsificado...

 

Apesar disso, Maya não tinha vontade de regressar ao Sloane. Sobretudo depois daquela noite agitada. E provavelmente nunca mais. A Sony encontrava-se num dos cacifos numa estação de metro perto de Raffies Place, e o fato de treino Nike que usara durante o assalto à sampana encontrava-se num caixote de lixo, não muito longe da estação de metro. Após tudo o que acontecera e depois de ter observado numerosos polícias a vigiarem a zona, achou melhor manter-se longe do cacifo. E a sua querida Sony? Enfim, poderia sempre entregar as chaves do cacifo a algum membro da organização. Muito mais importante eram as cassetes vídeo com as imagens da sampana. Não continham apenas as filmagens do assalto, mas também todas as entrevistas e outras coisas que filmara desde a sua chegada a Singapura, há quarenta horas.

 

E agora? o que deveria fazer? Telefonar para Londres?

 

De onde?

 

Teria de conseguir sair da cidade sem dar nas vistas.

 

Sim, mas se aquilo que ela temia fosse verdade, se a Polícia tivesse sido avisada e estivesse a procurá-la por todo o lado, então seria difícil. o que deveria fazer agora?... Estava cansada de mais para pensar claramente.

 

Empurrou o copo com o sumo de laranja para o lado e voltou a pegar na chávena de café. Quando bebera o primeiro gole, queimara a língua, mas agora o café tinha esfriado. Bebeu de uma só vez a meia chávena que restava e voltou a enchê-la. Sentia-se melhor. Fumou um cigarro. Diziam que a nicotina estimulava o raciocínio...

 

Inclinou-se para trás e olhou à sua volta.

 

A sala em que se encontrava tinha paredes verdes e roxas, cadeiras verdes e roxas e um tapete verde e roxo. Era uma sala grande, com um tecto baixo, que estava quase completamente vazia. Poucos instantes atrás, houvera ainda alguns jovens homens de negócios e outros senhores que se julgavam muito importantes debruçados sobre o bufete de pequeno-almoço. Agora, porém, já tinham regressado à bolsa e às agências imobiliárias ou de exportação na Orchard Road. A empregada de mesa, uma pequena chinesa, ajustava o laço preto que usava no pescoço, enquanto o homem do bar dava brilho aos copos. Duas mesas adiante, estava sentado um turista alto com uma cara avermelhada que olhava fixamente para ela, com um ar de cão de guarda esfomeado. Havia outros turistas na sala, que tomavam o pequeno-almoço.

 

Eram quase nove horas. o ar condicionado estava no máximo. Através das janelas de vidro do Royal Lion Breakfast-Club podia-se ver o pátio calcetado a granito, no centro do qual havia um repuxo com uma escultura em crómio e bronze.

 

o Centro Comercial Lions, no qual o restaurante estava integrado, acabara de ser inaugurado e era o lugar da moda. Maya visitava-o pela primeira vez. Os elevadores transparentes e dourados trepavam as paredes de vidro como percevejos. Um grupo de pessoas no pátio observava-os, como crianças. Por enquanto, as lojas ainda estavam fechadas, mas daí a cinco minutos, quando abrissem, iria começar o espectáculo: desde os BMW descapotáveis no rés-do-chão até à Cacharel e à Armani no oitavo andar - o mundo transformado em supermercado!

 

Maya, porém, tinha outras prioridades: o restaurante do Lions dispunha apenas de duas saídas. Uma delas ia dar ao centro comercial e a outra ao pátio interior. As enormes janelas de vidro permitiam controlar tudo o que se passava no pátio.

 

Escrevera o número de telefone da SFE no pulso esquerdo. Mas... e se essa linha já estivesse sob escuta? Não se podia esperar muito dos membros do SFE. Sobretudo depois daquilo que se passara na noite anterior.. Eles não tinham muita experiência. Eram uns amadores idealistas. o que os tornava perigosos naquele tipo de situações.

 

Levantou-se. o turista com o ar de cão de guarda, que bebia um sumo de tomate, rolou os olhos claros e em bico. Maya dirigiu-lhe um olhar tão furioso que ele baixou as pálpebras esbranquiçadas.

 

Perguntou à empregada de mesa onde havia uma cabina telefónica. À saída da galeria? Perfeito...

 

Não teve de procurar o número de telefone. Sabia-o de cor.

 

Carregou nas teclas e olhou à sua volta. Tudo calmo... Um grupo de jovens entrava no centro comercial. Fechou a porta da cabina para não ouvir o barulho vindo de fora.

 

- Residência de Mister Andrew - respondeu uma voz de homem afectada.

 

- Poderia falar com a Julia Andrew?

 

- Sinto muito, mas isso vai ser difícil. Quem devo anunciar?

 

- Sou uma amiga muito antiga. Basta que lhe diga que fala a Maya.

 

- Compreendo... Infelizmente a senhora acabou de se retirar para o seu atelier. Temos ordens para não a incomodar.

 

- Ah sim?

 

Maya inspirou pelo nariz, tentando ter em conta que o empregado que se encontrava do outro lado da linha, e que segundo o seu sotaque era um filipino que tentava ser absolutely british, não tinha a mínima culpa daquela situação. A sua maneira de falar era cem por cento semelhante à de George Andrew... A reacção de Julia fora a mudança para a casinha no jardim, no segundo ano de casamento.

 

- Oiça - disse Maya. - Se quiser evitar problemas, o melhor é carregar já no botãozinho do telefone. Se bem me lembro, o atelier é o número três. Por isso, veja lá se faz a ligação e acaba com esta história de uma vez por todas, está bem?

 

Para espanto de Maya, ouvíu-se imediatamente um «clique» na linha.

 

- Julia, como estás? - perguntou Maya e voltou a percorrer o centro comercial com os olhos.

 

- Espera aí... Não é possível. Maya? -Sim, Maya!

 

- Não é possível! -Pelos vistos é, -Onde é que estás?

- Aqui.

 

-Aqui, onde?

- Em Singapura.

- Não é possível.

 

- Estás sempre a repetir a mesma frase, Julia.

- Temos que nos ver. Imediatamente.

 

-É por isso que estou a telefonar-te. Não posso falar durante muito tempo. Apenas queria saber se estás em casa. Daqui a vinte minutos estarei aí. Está bem?

 

- Perguntas-me se está bem?!... - Julia gritava de alegria e, enquanto soltava uma gargalhada de contentamento, Maya desligou.

 

Tinha razão: aquele não era o momento indicado para longas conversas telefónicas. Hesitou, na esperança de que os dois homens que tinham entrado pelo pátio, e que olhavam à sua volta devagar e cautelosamente, fossem apenas dois homens à procura de um café, talvez de uma torrada ou de um ovo cozido... Mas se esse era o caso, então por que razão estavam eles a abordar discretamente a empregada de mesa? E porque interrogavam o homem do bar? Porque viravam as cabeças?

 

Pela cor da pele e pelas feições, tratava-se de dois indianos.

 

o mais alto e magro usava um daqueles fatos de linho amarrotados que estavam na moda, o outro uma camisa azul e calças de ganga. Maya sabia que a Força de Intervenção Especial costumava contratar quase exclusivamente chineses para as operações à civil. Mas era lógico que, no caso dela, tivessem escolhido detectives indianos para persegui-la. Saiu da cabina telefónica.

 

No início passeou devagar pelo centro comercial, olhando para as montras com jóias. Andou muito devagar. Mas quando deitou um olhar pelo ombro esquerdo, começou a correr.

 

Tinham-na descoberto.

 

Encontravam-se a uma distância de cerca de vinte a trinta metros. Maya vislumbrou a entrada de uma enorme galeria. Havia vidros, latão, cachos de luzes, pessoas, muitas pessoas.

 

Maya não conhecia o Lions. Fora inaugurado na Primavera. Nesse aspecto, os polícias encontravam-se em vantagem.

 

Corria contra as pessoas. Via cabeças a virarem-se. Caras entorpecidas quando ela passava a correr. Uma curva para a direita no corredor. Uma porta. Era a secção das peles. Maya abalroou uma vendedora, jovem e magra, de vestido esverdeado, que tombou para o chão. A estante à qual estivera encostada pôs-se a oscilar, as carteiras começaram a escorregar e caíram... Uma verdadeira catarata de carteiras pretas! Meu Deus, em frente!

 

Secção de crianças. Afastou um grupo de mães chinesas que conversavam, com os seus dois braços, formando uma espécie de vau entre elas.

 

Uma escada rolante. Que subia. Maya queria ir para baixo.

 

Olhou à sua volta, desesperada.

 

Estava agora na secção de perfumaria. Estée Lauder, Helena Rubinstein... À sua frente, viu os lábios encarnados das vendedoras, que olhavam para ela, irritadas. Um homem exclamou algo. Através de um espelho viu a camisa azul do polícia mais novo. Estava a saltar por cima de um balcão enquanto as vendedoras gritavam. Não podia disparar. Num centro comercial uma pistola de pouco serve. Mas uma porta sim. Sobretudo uma porta de incêndio. Maya avistou uma dessas portas, meio escondida atrás de um cartaz que anunciava férias na Nova Zelândia. Sim, era uma linda porta de incêndio que se escondia por trás do cartaz com o mar azul e praias paradisíacas...

 

Abriu a porta e desceu as escadas de betão. Atrás de si, ouvia os passos dos polícias.

 

-Pare! Não se mexa. Alto! Polícia...

 

A escada tinha dois patamares. No segundo havia um elevador. Estava parado e as portas abertas. Era arriscado de mais apanhá-lo...

 

Mais uma porta do lado esquerdo. Estava aberta. Ia dar a um estacionamento subterrâneo, com uma rampa para o pátio onde se faziam as cargas e descargas dos camiões. Alcatrão... Um monte de caixotes... Um camião... Maya passou por entre os caixotes e o capot quente do camião, ouviu gritos atrás de si, correu para a saída do pátio e agradeceu a Deus o enorme camião que escondia a saída, permitindo-lhe passar despercebida. Correu pelo pátio para a Statrifórd Street.

 

Conhecia aquela rua. Do outro lado ficavam os correios e a Catedral de St. Andrew. À direita havia uma entrada para o metro. Decidiu não correr para não chamar a atenção dos seus perseguidores...

 

Andou devagar, tentando simular um ar descontraído. Sentiu o suor que colava a camisa às suas costas. Andariam ainda atrás dela? Talvez tivessem ficado no pátio de descargas do Lions.

 

Mas não. Lá estava um deles. Reconheceu o seu blazer de linho claro. Avistou um grupo de homens de fato escuro e gravata, que se dirigiam para a entrada do metropolitano. Maya infiltrou-se no grupo, passou por entre os homens e agradeceu os sapatos com solas de borracha que calçara por não escorregarem na borda dos degraus.

 

No túnel do metro havia lojas e muita gente. Maya virou-se para a gare. «New Town» dizia a placa.

 

Pouco importava. Qualquer comboio que a levasse para longe daquele lugar servia. Vasculhou o seu saco, encontrou um bilhete de metro e meteu-o na máquina. Passou pelo torniquete e de repente voltou a ouvir o cloc-cloc dos passos dos seus perseguidores e um grito:

 

- Pare! Pare imediatamente!

 

o comboio entrou na estação. o motor a ar comprimido fazia um barulho ensurdecedor. Maya juntou-se ao último grupo de pessoas e entrou no comboio, sem virar a cabeça, para evitar que os seus perseguidores vissem a sua cara. Assim talvez julgassem que se tinham enganado; afinal havia milhares de raparigas com blusas verdes em Singapura.

 

o comboio abrandou. Lá fora viam-se luzes de néon a passar. Uma placa indicava o nome da estação: «Dhoby Gliaub. Maya desceu do comboio e apanhou as escadas rolantes que a transportaram para o calor sufocante da rua. Chamou um táxi e sentou-se, aliviada, no seu interior climatizado.

 

o condutor virou a cabeça. o facto de ser malaio teve um efeito calmante em Maya.

 

-Para onde vai?

 

- Mac Kenzie, vinte e quatro - respondeu Maya. Fica no...

 

- Já sei. No Parque Mount-Emily.

- Exacto.

 

Maya fechou os olhos e sentiu-os humedecidos, uma lágrima prestes a formar-se. Num gesto rápido passou o dedo indicador pelos olhos. A sua mão tremia. «Não posso fraquejar tão perto do fim», pensou. «Agora estou quase salva... »

 

- Eis o número vinte e quatro - disse o condutor. Chegámos.

 

o taxista abrandou em frente a um enorme e impressionante portão de ferro de cerca de três metros, que dava acesso a um pátio coberto de cascalho.

 

- Sim, é aqui - confirmou Maya. - Mas continue a andar.

 

- Para onde?

 

- Siga a estrada ao longo do muro. Existe outra entrada. Eu dir-lhe-ei quando lá chegarmos...

 

Olhou para a direita. o Silver Shadow estacionado no interior do pátio era verdadeiro, inclusivamente os tampões e as pinas de crómio das rodas. o Sting parado ao lado, com os enormes tubos de escape a saírem sob o amplo porta-bagagens, era verde, um verde britânico, um verde muito elegante. Era um exemplar único e quase parecia uma imitação. Brinquedos daquele tipo não existiam em Hollywood, mas ali, sim, em Singapura. E onde? Na propriedade de George Edward Andrew.

 

Apenas faltava o motorista com calças de veludo cotelé, a polir o vepiz e a prata.

 

-Ali. à direita. Está a ver? - perguntou Maya. o táxi parou em frente a um pequeno portão.

 

Maya pagou e saiu do carro climatizado. Observou o táxi a afastar-se e limpou o suor da testa.

 

Eram nove e quarenta. Apetecia-lhe água, muita água, um duche, sabão - mas nenhum desses desejos era tão grande como o de se deitar numa cama. Aproximou-se do portão. Avançava devagar, experimentando a sensação de andar sobre algodão. Teve de parar. Sentiu-se tonta. Bem, mas pelo menos tinha conseguido. Porém, fora por tão pouco, que quase acreditava no apoio de um batalhão de anjos-da-guarda. Ou na protecção vinda de uma das pequenas estatuetas hindus que estavam expostas nas paredes da casa da sua avó...

 

Segurou-se às varas de ferro do portão, procurou o trinco e abriu-o. E mais uma vez teve o mesmo pensamento: para quê todo aquele esforço?! Quem fora o traidor que alertara a Polícia? Alguém a traíra. Alguém. Talvez um membro da organização... Claro que sim. E não apenas no caso do assalto à sampana. Claro que as suas intervenções nunca lhe tinham rendido muitos amigos, mas também nunca fora perseguida como daquela vez. o que é que se estaria a passar?

 

As escadas tinham dez degraus. Maya conseguiu subir nove. Sentou-se no último e tentou lutar contra a sensação de desespero que ameaçava tomar conta dela. Ficou sentada sem se mexer. Nem sequer se moveu quando sentiu uma mão no seu ombro e ouviu uma voz dizer:

 

- Mas o que é que estás aqui fora a fazer? Está imenso calor. o que é que te aconteceu?

 

Era Julia Andrew.

 

Julia sentou-se ao seu lado, pôs o braço à volta dos seus ombros e abraçou-a.

 

Que bom era senti-la. E que bom era olhar para os seus olhos. Uns olhos cinzentos como fumo e o cabelo escuro com alguns cabelos brancos.

 

Julia tocou com a ponta do dedo no nariz de Maya, como o fazia antigamente. E sorriu como antes... e esse sorriso emanava amizade, simpatia e toda a riqueza das memórias que tinham em conjunto.

 

- Desculpa, Julia - disse Maya - Eu também imaginava esta situação de forma diferente...

 

- Que situação?

 

O nosso reencontro. Mas é que eu estou de rastos, sabes.

 

O que importa é que estejas aqui...

 

- Tigres? Tinham de ser tigres!

 

Os estores de madeira tapavam as janelas do atelier, sombreando com inúmeros raios de sol o chão de azulejos. Havia enormes almofadas de todas as cores espalhadas pelo chão. Julia detestava cadeiras. Havia apenas um único cadeirão num canto, em frente à televisão, onde estavam a transmitir as notícias das dez.

 

Julia encontrava-se no meio da sala, em frente a um dos seus cavaletes. Usava uma bata, um género de cafetã, que a fazia parecer mais alta do que Maya recordava, quase como um pilar verde. Falava num tom acusador.

 

- Sim, Julia, tigres...

 

Maya fitou Julia, que se mantinha imóvel, tentando exprimir a dificuldade que tinha em compreender aquilo que Maya lhe contara. Mas esse era um problema menor. Desde os tempos em que tinham andado juntas na universidade, quando formavam uma equipa imbatível de avançados na equipa de hóquei, Julia Andrew, originalmente Griffith, soubera aliar uma energia imparável a uma rápida capacidade de compreensão e um sentido prático. o problema eram os membros de Maya que estavam cansados e a enorme exaustão que lhe pesava na cabeça.

 

-Eu depois explico-te isso tudo.

 

-Explicar? Tu vens para esta maldita cidade, que já por si é insuportável, e o que é que fazes? Pões a polícia toda a perseguir-te devido a uns malditos pénis de tigre. -Não faz mal, Julia.

 

-Não faz mal?... Queres que te diga uma coisa? Confesso que te admiro. Admiro o teu empenhamento, a vida que levas e tudo o que fazes, caso seja isso que queres ouvir. Além disso sinto uma certa inveja. Sim, podes sorrir à vontade, mas, ao contrário do que acontece com os meus trabalhos manuais, tudo o que tu fazes tem um sentido... Pois, eu adoro tigres... - Parecia estar sem fôlego. - Mas se julgas que podes fazer alguma coisa contra todo esse culto de magia idiota da medicina chinesa estás enganada. Não há nada a fazer. Continua sempre presente e subsistirá por muitas mais gerações. Tu sabes disso, tu cresceste aqui. Por isso, diz-me, para quê esta loucura toda?

 

- Julia deixa-me em paz...

 

Julia, porém, não desistia facilmente.

 

- Quando recebi aquele monte de papéis, todos aqueles artigos e folhetos sobre o problema das florestas tropicais no Sudeste asiático, que me mandaste de Nova lorque, fiquei muito impressionada. Mais ainda, fiquei mesmo furiosa. Afinal essas coisas acontecem em frente à minha porta. E os manda-chuvas estão aqui, em Singapura. o assunto intrigou-me. Trabalhei muito... o Jan Kaufmann quer organizar uma exposição. Não sei se te lembras do Jan. Ele é o dono daquela galeria de arte na North Bridge Road.

 

Dirigiu-se a passos rápidos para o lugar onde guardava os quadros. Os quadros, sem moldura, estavam encostados à parede. De costas para a sala.

 

-Olha para isto!

 

Virou um dos quadros. Mostrava fetos e trepadeiras exóticas em flor em primeiro plano. Atrás podia-se ver montes sem vegetação, de cor castanha, cobertos de troncos de árvores que pareciam espinhos.

 

- Existem pessoas em Singapura que se interessam por este assunto. Sobretudo a população mais jovem está revoltada. É mesmo por isso que o Jan acredita no sucesso desta exposição. Mas daí a arriscar a vida, porque uns velhotes impotentes acreditam nos efeitos de uma suposta medicina ligada ao tigre...

 

- Julia! Lembras-te da nossa viagem a Tenenga?

 

- Se me lembro? Como poderia esquecer? Que idade é que tínhamos nessa altura? Uns dezassete anos. Foi há mais de dez anos... Ainda consigo ouvir os góbios a fazerem hoq-hoq, e os pássaros e os insectos. E nós as duas sentadas à beira-rio a observar as borboletas a dançarem sobre a superficie da água. Todas juntas pareciam enormes lustres às cores, que giravam ao sol. E o teu pai traduzia aquilo que o homem que nos guiava... como era o nome dele?

 

- Pa Lampung.

 

... o que o Pa Lampung nos contava. Ele dizia que mesmo entre as borboletas havia bons e maus espíritos. o importante era saber distingui-los. Dizia também que os espíritos das sanguessugas não faziam mal a ninguém...

 

- Mas as formigas, sim - disse Maya, sorrindo.

- Que horror. Eram uns autênticos monstros.

 

- Não, eram formigas normais.

 

- Que quando nos mordiam provocavam uma dor como a picada das abelhas. Se não fosse o teu pai... É verdade, tens tido notícias dele?

 

- Prefiro não falar nisso, se não te importas.

 

Julia assentiu com a cabeça e fechou os olhos.

 

- Tenenga... Meu Deus, Tenenga... Ainda há um ou dois anos tentei convencer o George a ir passar uma ou duas semanas a Tenenga... e sabes o que ele respondeu? Nem por um segundo. E nem mesmo num fato de astronauta... Eis o meu George!

 

-Pois é, o teu George - disse Maya, sorrindo, e bocejou.

 

Já não conseguia manter-se direita. Puxou uma segunda almofada e deitou a cabeça nela. Já que Julia não lhe oferecia uma cama, tinha de ser assim. o duche também podia esperar. Até mesmo o telefonema que tinha de fazer para Rick Martin não era tão urgente... Tudo isso podia esperar.

 

- Sabias, Julia, que os órgãos de tigres que filmei ontem na sampana eram provenientes de Tenenga?

 

- Eu nem sequer sabia que em Tenenga havia tigres. -Na altura não to dissémos, para que não tivesses medo. São os últimos tigres existentes na Malásia. Era o meu pai que tratava deles.

 

-Isso é incrível. Maya fechou os olhos.

 

Sim - disse. - No fundo, tudo neste mundo é incrível. o que responderias, se eu te dissesse que toda a área protegida de Tenenga me pertence?

 

- Como?

 

-Nada - disse Maya. - Apenas nove mil quilómetros quadrados. Os tigres que lá vivem são meus...
Na sala de musculação do ginásio ouvia-se uma música de fundo, suave e relaxante, mas, cada vez que levantava um peso, Rick Martin tinha a sensação de partir uma vértebra. «Não desistas. Não faças isso... » Sentiu os dedos a fraquejar. Soltou a máquina, que graças às molas voltou à posição inicial emitindo um leve zumbido.

 

Encostou-se para trás com um suspiro, fechou os olhos e teve o mesmo pensamento que já tivera vezes sem fim nesse dia: Maya! Porque é que ela não dava sinal de vida? Santo Deus, então não tinham combinado que telefonaria de vinte e quatro em vinte e quatro horas? Na véspera, fora Todder quem recebera o telefonema de Maya. Tudo bem. Afirmara que estava tudo em ordem. Conforme combinado... E agora? Agora já tinham passado seis horas desde a hora combinada. O que lhe terá acontecido, raios?!»

 

Sentiu a boca seca. Ouviu alguém dizer:

 

-Mas afinal isto é uma sala de treino ou um clube de dorminhocos?

 

Era Armstrong. o seu cabelo loiro e o seu bronze artificial pairavam sobre Rick, tapando as luzes fluorescentes do tecto.

 

- Voltaste a exagerar, homem?

 

Os proeminentes músculos peitorais de Armstrong estavam tapados por uma T-shirt cor-de-rosa, justa. Pousou cuidadosamente a mão direita na cicatriz da coxa direita de Rick. Fora causada há três anos nas ilhas Feroé, quando um pescador dinamarquês completamente louco ou bêbedo se lembrara de enfiar a ponta de um gancho na coxa de Rick em vez de a espetar num bote do Greenpeace. Fora a última vez que Rick trabalhara para o Greenpeace.

 

-A perna está a causar-te problemas?

 

- Porquê? A minha perna está a funcionar muito bem. Mas no sítio onde tu tens os teus bíceps de luxo, eu tenho balões de ar.

 

-E queres que isso mude?

 

- Quero - rosnou Rick. - E o mais rapidamente possível.

 

Walt Armstrong lançou um olhar ao telemóvel que se encontrava ao lado de Rick.

 

- Já não és capaz de viver sem essa coisa horrível. És igual a todos os outros idiotas!

 

- Deixa-me em paz, Walt. Estou à espera de uma chamada importante.

 

- De onde?

 

-De Singapura. - Rick endireitou-se. - Diz-me uma coisa, Walt, tu utilizas o teu telefone aqui no clube?

 

- Achas que o guardo no escritório? Rick mostrou um semblante desapontado.

 

- Pensei que... talvez todos estes instrumentos de ferro tivessem influência na captação de rede.

 

- Deve ser uma chamada mesmo muito importante. Mal Armstrong tinha acabado de dizer aquela frase, o visor iluminou-se e o telefone tocou. Rick Martin pegou de imediato no telefone.

 

- Maya?! - gritou. Em seguida, tapando o bocal, olhou para Armstrong. - Posso ir para o teu escritório?

- Que pergunta mais estúpida - respondeu Armstrong acenando com a cabeça.

 

- Rick? És tu?

 

Era impressionante, a voz de Maya parecia estar tão perto, como se se encontrasse na mesma sala. Rick parou de respirar. Sempre que falava com ela tinha aquela sensação, uma insegurança nervosa, uma vontade de a abraçar.

 

- Maya? - Rick não sabia o que dizer. - o que aconteceu? Porque não fizeste aquilo que tínhamos combinado?

 

Sabes perfeitamente que eu fico preocupado quando não telefonas à hora combinada.

 

-Não pude.

- Porquê?

 

- Não interessa. Houve um problema. Tive dificuldades.

 

- Problema? Que tipo de dificuldades? - Os seus ossos voltaram a doer. Virou a cabeça para escapar ao olhar de Armstrong, que o observava através da parede de vidro do escritório.

 

- Não te preocupes. o único problema é que vou ter dificuldades em sair de Singapura.

 

- Polícia?

- Sim.

 

Rick abanou as mãos diante da cara como se estivesse a afugentar uma mosca. Sentiu as dores a aumentarem nas costas.

 

- Ouve-me, Maya, fica onde estás. Eu vou a Singapura buscar-te. Apanho o avião ainda hoje.

 

-Estás louco.

 

-Eu tenho a morada.

- Não.

 

-Não, o quê?

 

- Não vale a pena ficares tão preocupado, Rick. Acredita em mim. Fica onde estás. Além disso, já não estou a viver no hotel. Nem estou com as pessoas da organização. Isso seria muito arriscado.

 

- Então, onde estás?

 

- Em casa de uma amiga. Devo conseguir sair daqui de barco. A minha amiga tem uns -amigos que possuem um avião. De qualquer maneira hoje à noite ou, o mais tardar, amanhã de manhã, estarei na Malásia.

 

-Isso é perigoso de mais.

 

- Perigoso? Rick, sei que és o líder, mas esta acção está sob a minha responsabilidade.

 

- E como achas que eu vou suportar esta situação, Maya?

 

Ela riu-se.

 

- Não tens nada que suportar. o que é que se passa contigo? De repente ficaste histérico? Tens aguentado este tipo de situações durante dois anos.

 

- É verdade. Mas isso agora acabou. Agora estou a ficar histérico. Por tua culpa. Quando se trata de ti, fico realmente histérico.

 

Ela riu-se de novo. o riso dela irritava-o. Pior, ele conseguia vê-la à sua frente, via-a tão claramente como se estivesse a olhar para uma fotografia.

 

-Falaste com o advogado?

 

-Não tive ocasião. Tratarei disso quando estiver na Malásia. Tenho de desligar, Rick.

 

- Não.

 

-Sim. Dedica-te ao teu trabalho. Ou à tua mulher...

- Não sejas cínica. Além disso, ela pôs-me na rua.

- o quê?

 

- Ouviste muito bem.

 

- Ah, então é por isso - suspirou Maya. -Sim, é por isso.

 

Rick ouviu a respiração de Maya pelo auscultador. Ou, pelo menos, julgou ouvi-la, Pressionou o auscultador com toda a força contra o ouvido.

 

- Isso é um problema teu - declarou Maya. - Só teu e tu sabes disso. E para que fique bem claro: não vou permitir que exerças pressão sobre mim.

 

Ouviu-se um estalido. Maya desligara...

 

Há dez anos, quando Rick Martin ainda era chefe de redacção da Enquire, o redactor desportivo, o jovem Walt Arinstrong, fora motivo de mais dores de cabeças que alegrias: costumava vestir camisas justas, para que nenhuma das secretárias deixasse de reparar nos seus peitorais. Mas o pior eram as reuniões da manhã! Agarrava-se ao tampo da mesa e fazia estalar as articulações, explicando que se tratava de um exercício isométrico muito aconselhável, especialmente para os redactores. Como Rick não suportava aquele tipo de neuróticos que dedicavam o seu tempo livre à musculação e como Armstrong de qualquer maneira não tinha grande talento, ficou aliviado quando este se demitiu espontaneamente.

 

Mais tarde teve de admitir que se enganara acerca de Walt Armstrong. De facto como redactor não era grande coisa, mas burro também não era. Depois de ter saído da redacção, conseguira montar uma cadeia de ginásios, o Clube Armstrong, que entretanto estavam espalhados por toda a cidade de Londres e pelos arredores de gente fina.

 

Fazia publicidade em todos os jornais e até mesmo na televisão. Comprou um Jaguar e tornou-se milionário, e Rick agradecia o facto de Walt existir. Rick entretanto trocara a posição de chefe de redacção da Enquire pela de responsável de imprensa no Greenpeace. Tomara essa decisão não apenas por idealismo, mas sobretudo porque pura e simplesmente já não conseguia suportar o seu chefe editor.

 

Durante os dois anos que se seguiram ao acidente das ilhas Feroé, fora Walt quem o acompanhara nos seus treinos físicos, graças aos quais pudera deixar de andar de bengala, voltando a mexer-se como um ser humano normal, apesar de ter os músculos parcialmente destruidos. Quando se tratara de recolher dinheiro para a fundação da EIA, Walt Armstrong fora o primeiro a disponibilizar dez mil libras, viabilizando desta forma o projecto. Rick Martin teve de admitir que Walt ascendera a uma posição de Robin dos Bosques com um cunho paternalista.

 

- Vais mesmo pedir o divórcio, Rick?

 

Rick assentiu com a cabeça. Estavam sentados no bar do clube. Cada um com o seu copo de sumo de laranja especial. Era um líquido com um sabor horrível.

 

- E porquê?

 

- Porquê, porque. Dez anos com a Liz bastam. E dez anos com a família Randell são mais que suficiente. - Misturou o sumo com a palhinha. - Além disso, o problema são sempre os pequenos pormenores... Ou já alguma vez ouviste falar de um casamento que falhou devido a uma grande tragédia e não por causa de pequenos problemas?

 

- Ouvi, o meu - respondeu Walt Armstrong com um sorriso.                                                            

- Não sabia que tinhas sido casado.

 

- Fui, e bem. Mas nunca tive capacidade de dizer que não. E um dia apareceu-me uma prostituta de Chelsey pela frente, que dizia que queria ir comigo para a cama porque eu parecia um Schwarzenegger inglês. A Anne apanhou-nos na cama. Espetou-me o cabo da pá nas costas e eu fui parar ao hospital.

 

- Ah, foi? - comentou Martin. - No meu caso foram milhares de pás. Mas eu nunca estive com outra mulher. -E os teus filhos?

 

-Os meus filhos? Esses já têm mais de quinze anos. E estão programados à maneira da família Randell até às pontas dos cabelos. Esses não me causam preocupação nenhuma.

 

Walt Armstrong fitou-.o Durante muito tempo.

 

- Podes tentar enganar-te a ti próprio, mas a mim não me enganas. Achas que eu mereço que me tentes enganar?... Enfim, eu sei que não tenho nada a ver com isso, mas cá para mim não é por causa da família Randell... é aquela mulher, aquela mulher exótica, aquela indiana americana ou americana indiana. - Se for, então é indiana malaia. - Rick Martin fitou uma das máquinas de toalhas como se dela esperasse a resposta. - Mesmo assim, eu não te menti, Walt. o meu casamento já se tinha desgastado. o facto de a Maya ter aparecido...

 

... foi apenas o destino.

 

- Era, de facto, isso que eu ia dizer. Mas como sei que

vou corar, não o digo, apenas o penso. As coisas tinham de acabar assim. Acredita em mim... Enfim, a Maya foi a gota de água que fez transbordar o copo.

 

-E onde está ela agora?

 

- Em Singapura. Por enquanto... Parece que teve dificuldades. Se conseguir sair de lá, vai para a Malásia Central. O que é que se passa lá?

 

- Temos um projecto na Malásia. Envolve a protecção de animais, mais especificamente de tigres. Tu costumas receber o nosso material informativo, por isso deves saber que o Sudeste asiático, tal como a índia, estão ameaçados não só pela destruição sem dó das florestas tropicais, como também por essa maldita medicina chinesa que se baseia na mera superstição.

 

- Tigres pulverizados, não é? Uma ideia interessante.

- Sim. Em Taiwan, por exemplo, existem fábricas que produzem vários hectolitros de essência de tigre por ano. Armstrong fez uma careta.

 

O que é isso?

 

- Basta tomares umas colheres de chá da essência e já está.

 

- Impressionante.

 

-Sim, e há pessoas que ganham milhões de dólares com esse negócio. Basta um gole para curares o reumatismo, o cancro, a urticária ou para teres uma erecção. Mas se pensares na quantidade de chineses que existem neste mundo e nos poucos tigres que nos restam... É esse o problema. -E o que faz a Maya?

 

- Bem, o costume. Efectua pesquisas e recolhe material, filma e arranja documentos que eu depois entrego aos órgãos de comunicação. Tu viste como estas coisas funcionam quando houve aquele escândalo do lixo atómico.

 

- Aquilo foi espantoso - comentou Walt, impressionado.

 

- Desta vez a história tem uma variante com um certo interesse: o pai da Maya era biólogo. E era também delegado das Nações Unidas. Há muitos anos atrás um sultão malaio qualquer doou-lhe uma enorme área para a protecção dos tigres na Malásia. E agora o pai da Maya morreu. Ou seja, os direitos sobre essa enorme propriedade passaram para as mãos da Maya. E é exactamente nessa propriedade que estão a destruir a floresta tropical, As empresas querem retirar-lhe os direitos sobre essa área.

 

-E tu vais evitar que isso aconteça?

 

- Não sou só eu. Eu vou fazer os possíveis.

 

-Bem, então, desejo-te boa sorte - disse Walt Armstrong, erguendo o seu copo. - E onde foi que encontraste uma mulher tão exótica? Onde foi que se conheceram?

 

- Aqui - disse Rick, sorrindo. - Aqui em Londres... Há aproximadamente um ano...
Isso não é nada, é o que deve estar a pensar neste momento, ao ouvir que aquilo que resta dos tigres, sim, os últimos tigres existentes neste planeta, são seis mil exemplares. Oitenta por cento dos quais vivem na índia, o continente com a maior taxa de população que conhecemos. o tigre-do-cáspio foi completamente exterminado. o mesmo aconteceu com o tigre-de-bali. o tigre-da-sibéria está quase a desaparecer... Quanto à situação dos tigres na Malásia, é difícil avaliar. Julga-se que sobrevivem cerca de duzentos a trezentos tigres nas florestas tropicais ainda existentes. Mas o Homem necessita de madeira, não é verdade? E quem quiser ver um tigre, que vá ao jardim zoológico. Ou ao circo. Enquanto houver circos...

 

o técnico de som, na cabina de vidro, pôs o dedo indicador no nariz e Rick Martin ficou intrigado e fez uma pequena pausa. Seria um sinal? Teria falado muito alto? E então? Continuou o seu discurso. Não necessitava de manuscrito. Aquilo que tinha a dizer há muito tempo que estava na sua cabeça.

 

- Comparado com o facto assustador de o ser humano nos últimos vinte anos ter exterminado dia após dia uma meia dúzia de espécies biológicas e outros seres aparentados, que a força criadora da evolução ou, se preferirem, Deus levou milhares de anos a criar, o problema dos tigres parece, de facto, relativo. Nesse aspecto podem ter razão... Perante estes factos, os tigres têm apenas um valor simbólico.

 

Mas este valor simbólico é extremamente elevado. Afinal, até mesmo pessoas prosaicas como os cientistas encaram o tigre como um dos animais mais completos... E é justamente no Sudeste asiático, no local onde agora se desenrola o último capítulo da sua existência, que lhe atribuem origens divinas. Pois bem. Não se trata de uma questão religiosa ou sentimental, quanto mais de um romantismo exótico. Esse encontrá-lo-ão nos romances de Kipling, se é que ainda existe alguém que se interesse por Kipling em Inglaterra...

 

Rick falou mais baixo, tentando evitar um tom de voz dramático e utilizando uma entoação o mais objectiva possível.

 

- Para mim, meus senhores, trata-se de duas comprovações fundamentais. A primeira é que o ser humano sacrifica a sua própria mãe à máquina. A sua mãe é a Natureza. o homem não apenas é produto da Natureza, como também depende dela para existir. A segunda é que a actual economia industrial, chamada «econonia livre»... e isto quer dizer legalizada e reconhecida por uma ciência que continua corrupta e por uma política dependente... representa a autodestruição institucionalizada do Homem.

 

Rick meteu no bolso da camisa o lápis com que explicara os painéis pendurados ao lado do púlpito, inclinou-se para a frente e sussurrou para o microfone: - Nesta perspectiva, a luta da nossa organização pelos últimos tigres existentes nesta terra não passa de uma tentativa de erguer um sinal de chamada de atenção à beira do caminho, à beira deste caminho que percorremos a uma velocidade estonteante em direcção ao suicídio colectivo...

 

As frases soavam bem. Tinham impacte. Pelo menos era o que ele esperava... Obteve a confirmação quando reparou no tremer nervoso dos lábios de Andy Cleaver que mais tarde lhe pôs a mão no ombro quando se encontraram na sala dos monitores.

 

- Muito bem, Rick, muito bem! As tuas palavras pareciam retiradas do Antigo Testamento. -É possível, mas já sei que amanhã o Bill Croft vai voltar a pôr o vosso mundo em ordem.

 

Bill Croft era subsecretário de Estado do Ministério da Indústria e defendia o ponto de vista da indústria na série da 1313C o Homem entre a Natureza e a Técnica, que Cleaver apresentava.

 

- Bem, tu conheces o Croft. Ele é aborrecido como uma sola de borracha. Essa tua balada do fim do mundo foi muito mais forte. E digo-te mais: só hoje conseguiste arranjar mais uns cem novos membros para a EIA. No mínimo uns cem...

 

-Mas a ti nunca te conseguirei convencer, pois não?

- Conseguir convencer! - exclamou Cleaver, irritado, Quem sabe, talvez eu já esteja convencido.

 

Rick estava farto de Cleaver e da sua arrogância típica das pessoas da comunicação social, estava farto das câmaras, dos monitores, das pessoas, de todo aquele ambiente. -Vamos beber um uísque? Ou uma cerveja?

 

- Tenho de voltar para o escritório, Andy. Tenho muito trabalho acumulado. Além disso...

 

Não terminou a frase. Além disso... essa noite Liz tinha planeado uma daquelas recepções de artistas terrivelmente aborrecidas.

 

- Mister Martin?

- Sim.

 

Um dos assistentes de Cleaver entregou-lhe a bengala. -Obrigado - agradeceu Rick e sentiu que estava a corar.

 

Se Armstrong continuasse a acompanhá-lo no ginásio, em breve já não precisaria daquele objecto horrível. «E no dia em que te vires livre desta bengala vais atirá-la pela janela de um escritório qualquer, um escritório igual a este... Mas o que é que tu podes fazer? No fundo, tu sabes que precisas deles, dos Cleavers deste mundo... »

 

Coxeou em direcção ao corredor e entrou num dos elevadores. Porém, quando as portas do elevador estavam a fechar-se, ouviu passos rápidos a aproximarem-se.

 

Rick viu um pé enfiar-se entre as duas portas, um pé enérgico com uns sapatos azul-escuros com um salto médio.

 

- Rick! Espera aí, Rick.

 

Rick carregou no botão que abria as portas.

 

- Ah, ainda bem que consegui. - Tinha pequenos caracóis ruivos e um sorriso ligeiramente nervoso. Era Judy Campbell. Originária de uma cidadezinha de Sussex, impusera-se em Londres por conseguir escrever em trinta dias o manuscrito de um livro de bolso sobre qualquer tema, graças ao seu talento de escrita. Costumavam chamar-lhe «Judy, a rápida».

 

-Que miúda mais despachada!

 

o próprio Rick já fornecera temas e material a Judy, com a qual se entendia bem. Ela rolava os olhos como uma boneca e falava tão rapidamente que tinha de controlar a voz para que as palavras não se sobrepusessem.

 

- Rick, nós viemos cá por causa de ti... Mas aqueles estúpidos não nos deixaram entrar. Nem sequer o assistente, o Roger, nos deixou passar, esse incompetente! E eu que ainda antes de ontem lhe...

 

-Está bem, Judy. Então, o que é que se passa? O que se passa? Ficámos à tua espera no átrio, porque precisávamos de falar contigo. E depois, quando nós íamos retocar a maquilhagem... Nesse preciso instante tu tentas escapar-te.

 

Nós? Porquê nós?

 

- Eu e a minha amiga. Ela chegou ontem de Los Angeles. Ficámos a falar a noite inteira, depois eu fui à tua procura e no escritório disseram-me que estavas aqui a fazer uma emissão. Como é, Rick, queres hibernar neste maldito elevador?

 

Rick Martin hesitou e depois saiu do elevador. Virou a cabeça.

 

- É a minha amiga - disse Judy. Oh...

 

- Pois é! Oh! - As sardas no nariz de Judy dançavam. E não eram poucas. - «Oh» é o que os homens todos dizem quando a vêem. Dizem «oh» e abrem muito os olhos, como tu...

 

- Ela é de Los Angeles, Judy? Foi isso que disseste?...

 

Rick habituara-se à ideia de ter de andar de bengala, mas naquele preciso instante odiou-a. Apesar disso, por força de hábito, coxeou pelo átrio em direcção à jovem mulher que se encontrava no centro, sorrindo de forma hesitante e insegura. Ela era, bem, ela era incrível... Usava uma blusa da cor da areia, uma saia da mesma cor, tinha os membros compridos e era alta. o seu cabelo preto brilhava como seda e nos pés calçava apenas umas finas sandálias de pele. Olhando para ela, assim, no meio do átrio, tinha-se a impressão de que tudo girava à sua volta. Um grupo de jovens redactores que ia a passar ficou silencioso, retardando o passo e virando a cabeça. Mas não eram apenas as pessoas à sua volta, eram também os objectos, a luz. Rick viajara muito pelo mundo, mas aquela era seguramente a mulher mais perturbante com a qual se cruzara.

 

Rick parou.

 

- Olá - disse.

 

- Olá. Sou a Maya Nandi. - Ela não lhe estendeu a mão. Aproximou-se um pouco e inclinou ligeiramente a cabeça. Os seus ombros também se inclinaram, insinuando uma vénia. Se era realmente da Califórnia, então não vivera lá durante muito tempo.

 

- Deseja falar comigo?

 

- Mas é claro que sim. Eu acabei de te dizer que sim. Judy! Aproximara-se e estava agora ao lado de Rick. Como sempre, parecia decidida a tomar conta da situação. -Mas não vamos ficar aqui, Rick.

 

-Ouve Judy, tu sabes que faço qualquer coisa por ti. E pela tua amiga...

 

- Maya.

 

-E pela tua amiga Maya também. Mas agora não tenho tempo. Tenho de...

 

-Tu nunca tens tempo, Rick. É esse o teu problema. Por isso é completamente igual se eu tento falar contigo agora, hoje, amanhã, com ou sem marcação, sabes? - «Aqueles olhos», pensou Rick. «Como a Lua!... Tão negros que apetece afundar-se neles, E o sorriso...»

 

- É muito simples, vou dizer-te: a Maya quer trabalhar
contigo. Ela é boa naquilo que faz. Esteve dois anos nos Estados Unidos a trabalhar pelo meio ambiente. E além disso...

 

Rick ergueu o braço e sentiu a sua nuca contrair-se. «Ainda por cima trabalha no âmbito do meio ambiente... », pensou.

 

- Maya, a sua amiga tem muito boa vontade - disse Rick. - Mas infelizmente por vezes ela empenha-se de mais. Sabe, eu nem sequer lhe vou falar na existência de marcações telefónicas ou agendas. Mas acredite que hoje estou mesmo ocupado.

 

Maya voltou a sorrir. Os seus olhos brilhavam. Estavam à mesma altura que os olhos de Rick e para ele não era fácil suportar aquele olhar. Rick media um metro e oitenta, por isso ela deveria ter mais de um metro e setenta e cinco, o que não era muito habitual nas mulheres vindas de onde ela vinha. Mas de onde vinha aquela mulher? o seu nariz era estreito e direito. A pele dourada e luminosa. Seria indiana? Mas as indianas, pelo menos a maioria das indianas, tinham os lábios mais escuros. Ela era do Sul da Ásia, disso não havia dúvida. E reunia todas as características das mulheres do Sul da Ásia que desde sempre tinham fascinado, perturbado e atraído Rick Martin. A sua boca... por mais banal que parecesse a comparação, naquele caso era apropriada: a sua boca parecia um fruto tropical. E essa boca sorria. Rick sentiu uma onda de calor, uma onda que começou pelas pontas dos pés e se espalhou pelo corpo inteiro. Há muito tempo que não experimentava essa sensação.

 

- Bom - disse -, o Fowlers serve um excelente café irlandês.

 

- Eu não gosto de café irlandês - observou Maya com um sorriso.

 

-Eu também não. Mas eles também têm uma óptima lista de vinhos.

 

o Fowlers era um bar que ficava numa esquina da Bond Street e que estava aberto à tarde. No início dos anos oitenta fora conpletamente decorado com todo o tipo de objectos e imitações caras e desde então os preços tinham subido de tal maneira que a maioria dos empregados da BBC não o frequentava. Isso era uma grande vantagem. Quando Rick Martin entrou no bar, coxeando, seguido por Maya Nandi, os homens da publicidade sentados nas mesas viraram a cabeça.

 

Rick apontou com a bengala para a esquerda. Havia quatro mesas em recantos privados, separadas por vidros decorados com bailarinas do estilo arte nova. Os candeeiros tinham a forma de túlipas e nas janelas que davam para a rua estavam desenhadas rosas. A mistura de vidro, madeira e latão que dominava a decoração fazia com que o bar parecesse o interior de um vagão do Expresso do Oriente.

 

Rick pediu um chablis e, quando se lembrou que Maya não gostava de café irlandês, perguntou:

 

-Bebe álcool?

 

- Porque não haveria de beber álcool?

 

- Podia ser que não fizesse parte dos seus hábitos.

- Porquê?

 

- Digamos que por razões religiosas,

 

- Sim - respondeu ela, com um sorriso. - Realmente podia ser o caso. Mas digamos que essas razões não me interessam.

 

- É muçulmana? Maya abanou a cabeça.

 

- Eu não sou nada. o meu pai é hindu e a minha mãe muçulmana.

 

- Isso quererá dizer que é originária da Malásia?

- Certo. Adivinhou.

 

Quando o chablis foi servido, Maya levou o copo aos lábios e Rick voltou a admirar a forma impressionante das suas sobrancelhas.

 

-E eu que sempre imaginei que as mulheres do seu país, para além da crença religiosa...

 

- Quer falar de religião? Pensei que tivesse pouco tempo disponível.

 

-Eu interesso-me pela Malásia.

 

-Claro. Só que devo dizer-lhe, Mister Martin, que a Malásia hoje em dia não é bem o meu assunto preferido. Peço desculpa se estiver a parecer-lhe indelicada, mas... - Maya sorriu. - É que eu gosto de pensar linearmente. Nesse aspecto não sou malaia, nem indiana. Tenho imensa pena de desiludi-lo. Deve achar que sou impaciente ou mesmo mal-educada, mas é que, apesar de ter o aspecto de uma mulher do Oriente, não me comporto como tal. Ou melhor, não quero comportar-me como tal.

 

-Isso torna-a ainda mais interessante.

 

Maya fez uma leve careta. «Não lhe devia fazer elogios», pensou Rick, alarmado. «Ela deve ouvir elogios dos homens todos os dias, deve estar farta de ouvi-los, deve ser alérgica a eles. É compreensível,»

 

Maya olhou para o seu copo, encostou-se para trás e mostrou-se descontraída. Judy, que estava sentada ao seu lado - e isso era o mais espantoso nessa situação -, permaneceu calada.

 

- Sabe, Mister Martin, eu tenho um antepassado irlandês muito, muito longínquo, que deve ter-se envolvido com uma das minhas antepassadas. o meu pai, por exemplo, tem os olhos claros...

 

-Ainda bem que a Maya não os herdou.

 

De novo aquela cara. «Tens de parar com isto, Rick!»

- Mister Martin, pode falar comigo como se estivesse a falar com uma irlandesa. Ou, se preferir, uma escocesa... É que neste momento eu estou a pensar como elas pensam. -E o que é que está a pensar?

 

- Para ser breve, Mister Martin, o senhor não me conhece e por isso não tem a mínima razão para desperdiçar o seu tempo comigo. Nem para me oferecer um chablis.

 

- Deixa isso com ele. - Finalmente Judy decidia meter-se na conversa. Rick quase que ficou aliviado por ouvi-la, Parecia ridículo, mas Maya conseguia confundi-lo.

 

-Mas, Maya, o que é que se está a passar contigo? Maya olhou para as unhas.

 

- Também não sei bem, Judy. - E de repente Maya inclinou-se para a frente, muito para a frente, e os seus olhos pareciam ainda mais negros do que antes. - Talvez não seja assim tão difícil de compreender. Ora bem, Mister Martin, eu estudei jornalismo em Nova Iorque e acabei o curso há três anos. Depois trabalhei em Nova Iorque e de seguida como jornalista de televisão na Califórnia, onde existe uma organização ambiental que montou a sua própria estação de televisão.

 

-A AOE?

 

- Sim, a AOE. Que faz um péssimo trabalho, diga-se de passagem. o que eu quero dizer com isto é que eu tirei o meu curso e iniciei a minha vida profissional sempre com o intuito de trabalhar neste sector. Sempre quis fazer carreira nesta área.

 

- o que não é bem o meu caso - fez notar Rick Martin, com um sorriso.

 

- Exactamente, o que não é bem o seu caso... Mas os Americanos trabalham de forma diletante, caótica e desorganizada e, pior, apenas a nível regional, ou seja, centrando-se nos Estados Unidos. Como lhe disse há pouco, eu ensinei-me a mim própria a pensar de forma linear. o que neste caso significa que na minha perspectiva a sua organização, a Ecology Information Agency, não é apenas a mais eficiente, mas também aquela que encara os problemas da forma mais convincente a nível político. E o mérito é todo seu, Mister Martin. E talvez seja por isso que eu esteja a comportar-me de uma maneira um pouco ridícula. Nunca tive jeito para entrevistas de emprego.

 

Houve um longo silêncio. Judy Campbell pós-se a esfregar o joelho direito com o punho, num gesto nervoso.

 

- Maya - disse Rick, por fim. - Talvez pudesse passar pelo meu escritório amanhã. Trouxe os seus papeis consigo?

 

Maya assentiu com a cabeça.

 

- Ainda bem. É que de momento não lhe posso adiantar nada. Já devia imaginar que assim fosse.

 

Maya voltou a assentir com a cabeça.

 

- Mesmo amanhã será difícil tomar qualquer tipo de decisão. Vou explicar-lhe porquê: nós na agência temos um sistema igualitário. Isto quer dizer que eu e o meu colega Pit O’NEil apenas somos os patrões para o exterior. Constituímos uma organização pequena, mas boa. Pelo menos é o que eu espero. Ao contrário de organizações como o Greenpeace ou a WWF nós não ambicionamos crescer muito, porque gostamos de dedicar-nos a fundo àquilo que fazemos. Nunca temos mais de seis campanhas a decorrer paralelamente. Cada uma das pessoas que gere uma campanha tem o direito à decisão no que se refere à contratação de pessoal.

 

o brilho esperançado nos olhos de Maya desapareceu. Os seus ombros caíram ligeiramente.

 

- E isso quer dizer o quê, concretamente?

 

- Bem, isso na verdade não quer dizer nada. É que existe um pequeno pormenor. Em casos como o seu, a minha opinião e a do Pit contam tanto como as dos outros... Pousou a sua mão no braço de Maya, num gesto fugaz. Está desiludida?

 

- Não. Porquê? E quando é que posso contar com uma...

 

-Digamos no fim da próxima semana. o meu colega O’Neil, por exemplo, neste momento encontra-se em Roma.

- E os outros?

 

-Esses estão todos cá. Pelo menos é o que eu acho. Amanhã descobriremos se é verdade ou não. Onde e como poderei contactá-la?

 

-Através de mim, é claro - disse Judy. - Ela está em minha casa. Onde mais poderia estar?

 

Rick olhou discretamente para o relógio. o relatório da semana podia ficar para o dia seguinte. Mas a recepção de Liz... Iria começar daí a uma hora e meia.

 

- Eu conheço um pequeno restaurante grego muito simpático - disse, sem pensar. - Não fica muito longe daqui. Gosta de peixe?

 

- Gosto - respondeu Maya Nandi.

 

-Nós vamos há o melhor peixe da cidade. Dêem-me só um minuto...

 

A cabina telefónica de vidro encontrava-se ao lado da saída do bar e, enquanto Rick marcava o número, observou o perfil de Maya que sobressaía do cabelo preto: um antepassado irlandês?... Isso até podia ser bom. Que forma costumava ter o queixo das mulheres indianas? o perfil de Maya era encantador. o seu queixo realmente tinha algo de irlandês, Ela era intrigante. Extremamente intrigante... -Quem fala?

 

Não era a voz da empregada, mas sim uma voz de homem. Rick lembrou-se de que Liz costumava contratar empregados de mesa para abrilhantar as festas que organizava de dois em dois meses.

 

- Posso falar com Mistress Martin? -Quem devo anunciar?

 

-Fala Mister Martin.

 

- oh, só um momento, Mister Martin.

 

Ouviu-se a voz de Liz ao fundo. Rick disse o que tinha a dizer. A reacção dela: silêncio, um silêncio tão longo que Rick julgou que ela tivesse desligado. Mas continuava do outro lado da linha. A sua voz tinha um tom ligeiramente agudo quando voltou a falar.

 

-Não podes vir?... Podias repetir isso, por favor? Acho que ouvi mal.

 

Rick repetiu.

 

- Afinal, ouvi bem. E isso, apesar de saberes quanto estas três horas significam para mim.

 

- Eu sei, Liz. Claro que sei, Mas eu ainda tenho tanto que fazer. E há que admitir que eu sou um ignorante em matéria de arte. Sinto-me sempre à margem nessas festas.

 

- Ignorante, sim. E não apenas em matéria de arte. A voz de Liz era clara, calma e controlada. Apenas um pouco aguda. E foi com essa voz clara, calma, controlada e um pouco aguda que Liz prosseguiu: - Tu és um ignorante em tudo o que se refere a respeito, compreensão e tolerância no casamento. E sabes que mais? Vai para o diabo!

 

A ligação foi interrompida.

 

Rick olhou para o auscultador na mão e pousou-o no gancho, muito suavemente. Reparou que estava a sorrir. Não sabia por que razão estava a sorrir e provavelmente era um sorriso bastante ridículo. Pegou na bengala e voltou para a mesa...

 

«Os filhos? Isso resolve-se... »

 

Há muito tempo que já se tinham afastado dele. E isto devido à influência de Liz e dos sogros. Quando Rick ia visitar os filhos ao colégio interno, numa tentativa de se aproximar deles, recusavam-se a falar com ele.

 

Rick saíra da mansão dos Randell em Regence Park. Mudara-se para um apartamento, na Carmon Strect, na periferia do bairro onde ficava a maioria das redacções dos jornais. o apartamento pertencia também à Editora Randell. Para evitar que dissessem que estava a abusar da sua ligação com a família Randell - ligação esta que já nem existia Rick pagava todos os meses a renda astronómica, sem se queixar. Assumira que o seu casamento falhara e desde então trabalhava mais do que nunca. o consequente sentimento de frustração, o arrependimento e a má consciência que por vezes tinha constituíam agora parte da sua vida.

 

Porém, algures no fundo do seu coração, havia uma voz que lhe sussurrava que devia finalmente parar de enganar-se a si próprio, porque sabia que havia outras circunstâncias que impediam que sofresse mais com essa situação.

 

Maya? Não, Maya não tinha nada a ver com toda aquela história; afinal, o seu relacionamento com a mulher atingira o ponto mais baixo muito antes de a ter conhecido. Nessa altura, o seu casamento já se encontrava vazio, como uma bateria que alguém esquecera de recarregar, um objecto oco, no qual apenas restavam resíduos de ácidos perigosos.

 

No entanto, a verdade era que nos últimos meses não passara um dia, nem mesmo algumas horas, sem que pensasse em Maya, sem que a visse à sua frente... Como não tinha contacto pessoal com ela, tentava, pelo menos, ter a sua voz bem perto do ouvido. «Pareces um idiota», dizia-se a si próprio, «até mesmo as secretárias sorriem quando lhes pedes que te passem imediatamente qualquer chamada da Maya. Existem afinal inúmeras razões para que o faças. Razões objectivas e profissionais.

 

A razão de tudo aquilo, porém, era simples: Maya, pura e simplesmente, revelara-se uma mulher incrível! Desde a sua entrada na organização, provara ser altamente profissional e obtivera resultados brilhantes.

 

o seu primeiro caso relacionara-a com uma das filiais da Down, uma poderosa empresa de químicos sediada perto de Winchester. Ocupara-se do caso juntamente com Jim Bright, um dos agentes mais experientes da EIA.

 

Em menos de uma semana, Maya e Bright tinham encontrado provas de que o tratamento e processamento de resíduos eram feitos de forma negligente, para além de a equipa responsável não estar completa e ser constituída por um grupo de incompetentes.

 

Para tal haviam sido fundamentais as brilhantes imagens captadas por Maya e a elegância descontraída com a qual conseguira enganar os homens responsáveis pela segurança que queriam impedir a sua entrada nas instalações.

 

o caso seguinte, o «escândalo Boumemouth», passara-se um mês após a história da Down e aparecera do nada. Em Dorset, havia uma série de pequenas empresas que

 

escapavam à legislação e às regras de segurança para a protecção do meio ambiente, tendo-se unido e em conjunto financiado e instalado um cano de trezentos metros através do qual despejavam os resíduos tóxicos na baía de Poole.

 

Fora a própria Maya, que nessa ocasião provara ser óptima nadadora, quem mergulhara para captar imagens subaquáticas. o homem que originalmente tinham contratado para fazê-lo recusara-se no último instante. Talvez tivesse até sido ele quem depois os denunciara aos inimigos.

 

Quando Maya se encontrava a dez metros de profundidade para filmar as canalizações, surgira um barco a motor, que derrubara o bote de Maya e do colega.

 

Jim Bright conseguira salvar-se por pouco, atirando-se para a água no último segundo.

 

Um pescador que se encontrava nas redondezas tirara Maya e Jim. da água. Nunca se soube quem conduzia e a quem pertencia o barco a motor. o número de identificação do barco era falsificado. Felizmente as cassetes vídeo de Maya tinham permanecido intactas...

 

-Que corpo, que mamas, que cara! - exclamou Pit O’Neil entusiasmado enquanto olhou para as fotografias que Jim Bright tirara de Maya a bordo do barco do pescador. - Qualquer jornal pagaria somas astronómicas por estas fotografias.

 

-Eu não sei porque é que começas pelas mamas.

 

- É a minha imagem de marca. Sou louco por mamas. Tu sabes disso.

 

Pit tinha razão numa coisa: as fotografias eram impressionantes.

 

Mas isso não tinha importância. As fotografias podiam servir de recordação, mas não possuíam utilidade para a agência. o mais importante, a regra fundamental do trabalho de um agente ecológico, era manter a sua identidade secreta.

 

Haviam encomendado ao Técnico para casos especiais» uma pilha de passaportes, cartões de segurança social, documentos de autorizações de trabalho e cartões de crédito falsificados. Assim Maya tinha a possibilidade de escolher entre três identidades diferentes.

 

Quando Maya se deslocara para Nairobi, em Maio, e dali continuara para o Ruanda, não fora necessário recorrer a uma falsa identidade, pois prescindira de qualquer tipo de disfarce. Aquilo que descobrira chamara a atenção de todo o mundo e, sobretudo, reavivara a discussão sobre a protecção das espécies ameaçadas de extinção: Maya descobrira trinta toneladas de marfim em Cartum, desmascarando a maior rede de tráfico de marfim jamais conhecida.

 

As imagens que Maya captara provavam que dois polacos com passaportes sul-africanos tinham subornado os funcionários da brigada contra os caçadores furtivos do Quénia, conhecida pela sua eficácia e temida pela população. Os seus funcionários haviam colaborado no transporte de dentes de elefante em contentores com guias falsificadas, através de metade do continente africano, até ao porto de Cartum, no Sudão.

 

Quando Maya assaltara um dos armazéns, quase que a tinham apanhado. No Sudão era procurada pela Polícia e Nairobi interditara-lhe a entrada no país.

 

Maya, porém, não ficara impressionada com nada disso. Não fizera comentários. A sua única reacção fora um sorriso irónico.

 

Ríck não fora o único a questionar-se sobre o que se passava com aquela mulher.

 

E questionara-se também sobre a sua origem, de onde viria aquela incrível força que lhe permitia superar todas as dificuldades e menosprezar qualquer tipo de ameaça, evitando qualquer referência a tais pormenores. A sua admiração por ela estava constantemente a crescer..

 

o material que Maya fornecera para os casos seguintes também tinha sido de grande utilidade. o seu trabalho trouxera motivação a toda a organização. Os jornais interessados nesse tipo de assuntos não paravam de fazer elogios. Os serviços informativos registaram um aumento de quarenta por cento, o que lhes permitira aumentar o preço da assinatura de duas mil para três mil libras. Os pedidos e as encomendas iam chegando durante o dia e à noite via fax ou telex. E quando Maya descobrira que a Central North fazia experiências ao ar livre com legumes manipulados geneticamente, infringindo todas as normas europeias, e isto justamente no Sul de França, perto de Grasse, aconteceu uma coisa inédita: o escândalo provocou um violento debate no parlamento dando reconhecimento a nível mundial à EIA.

 

Como era hábito, tudo isso deixara Maya completamente indiferente. Um sorriso, no máximo um beijo na face, um simples trocar de informações, mais nada. Qualquer tipo de reconhecimento parecia ser-lhe desagradável. o seu ordenado fora duplicado... mas um contrato fixo na organização?

 

- Para quê, Rick? Porque haveria eu de assinar um papel? Tens de compreender que, se há uma coisa que eu quero preservar, são as minhas ideias pessoais e a minha independência. - E depois acrescentara, com um olhar algo estranho: - Em relação a todos, Rick.

 

Essa conversa passara-se no Restaurante Samos. Entretanto tornara-se um hábito irem jantar ao Samos quando Maya se encontrava em Londres.

 

No dia seguinte, Rick tinha um recado de Maya na sua secretária: uma folha de papel quadriculado, arrancada de um caderno com uma mensagem escrita à pressa: «Desculpa, Rick, mas não consegui apanhar-te. Tenho um assunto urgente para resolver nos Estados Unidos. Vou passar três semanas a Nova lorque. Maya.»

 

Que se vá embora, se quiser!

 

Rick amarrotou o papel e lançou-o para o cesto dos papéis, furioso. «Vai para o inferno, Maya! Que tipo de pessoa és tu?» E havia outra interrogação, secreta: «Que tipo de mulher és tu? o que escondes? o quê?... »

 

Pegou no telefone e ligou para Judy. Uma voz estridente no gravador dizia algo sobre «deixar uma mensagem»... Por outro lado, a ausência de Maya tinha as suas vantagens. Permitia preparar cuidadosamente a sua próxima intervenção.

 

Tratava-se de um caso ligado a redes, redes de pesca. Mas eram redes de pesca especiais. Tinham uma largura de centenas de metros e por vezes o seu comprimento atingia os três a quatro mil metros. Redes monstruosas proibidas há vários anos por acordos de pescas internacionais. Redes que provocavam a morte miserável de o que quer que fosse apanhado.

 

E a história não terminava por aí...

 

o facto era que essas redes mortíferas não existiam apenas num qualquer oceano longínquo, não, eram utilizadas no pequeno e largamente saturado mar Mediterrâneo. Os barcos ultramodernos, equipados com a mais recente tecnologia, que puxavam as redes, vinham de muito longe, do mar da China Meridional ou do oceano Pacífico e trabalhavam para companhias da Formosa, japonesas ou coreanas.

 

Eram inúmeros os barcos. Havia registos de mais de cento e vinte. A polícia costeira espanhola descobrira, apenas na zona das ilhas Baleares e em poucas semanas, mais de vinte desses barcos de pesca piratas. Os barcos visavam sobretudo o atum, um tipo específico de atum, cor-de-rosa. Este atum era difícil de encontrar no Pacífico asiático e vendido a preços exorbitantes. Por isso, os asiáticos tentavam descobrir o percurso dos cardumes no mar Mediterrâneo, entre Valência e a Sardenha, com a ajuda de helicópteros que traziam a bordo,

 

Se este tipo de pesca continuasse, em breve o atum deixaria de existir no mar Mediterrâneo.

 

E como se não bastasse - e esse era o cúmulo - as pescas concentravam-se em Junho e Julho, na época da reprodução...

 

Após o seu regresso dos Estados Unidos, uma Maya Nandi pensativa escutou silenciosamente as intruções de Rick. Três dias depois apanhou o avião para a zona de intervenção. Rick estava preocupado. Maya parecia ter desenvolvido uma ambição competitiva, disposta a correr cada vez mais riscos...

 

Pere Pons sentiu-se aliviado quando a deusa com o cabelo preto saiu do bar. Ela era de mais para ele. Grande de mais...

 

Observou Maya enquanto esta se afastava, olhou para as suas pernas compridas, para o cabelo escuro que esvoaçava e para todo o resto do corpo. Depois voltou a virar-se para a cerveja e abanou a cabeça.

 

Miguel, o dono do bar, a quem em Puerto Colón costumavam chamar «El Conejo», fitou-o.

 

- Como é que um homem como tu consegue arranjar uma mulher destas? Podes explicar-me?

 

- Deixa-me em paz.

 

- É o que eu estou a fazer... Não estou a ser nada curioso, - Pegou numa garrafa e despejou um conhaque claro num copo de vidro grosso. - Toma! Este é oferta da casa.

 

-Não quero.

 

- Talvez não queiras, mas estás a precisar..

 

El Conejo era magro e pequeno e tinha um pescoço fino, enrugado, com uma enorme maçã-de-adão que saltava para cima e para baixo, quando falava. Diziam que em tempos fora o melhor pescador de dorados em Puerto Colón, mas que depois tivera de parar devido à asma. Os seus olhos meio escondidos por baixo de uma franja de cabelos brancos tinham guardado a expressão viva e atenta de sempre. A tasca era o centro de informações do porto.

 

Por vezes, porém, podia ser uma pessoa desagradável. Extremamente desagradável.

 

- Que mulher maravilhosa era aquela? o que é que ela está cá a fazer? É turista?

 

O que mais haveria de ser? -E onde é que ela mora?

 

- Lá em cima, na Punta, num dos hotéis de apartamentos.

- Coionuda! - exclamou El Conejo. Era um dos maiores elogios que podia fazer a uma mulher. - E donde é que ela veio?

 

Pere Pons não respondeu. Olhou por cima das cabeças dos pescadores que se encontravam na tasca, para a rua, através da grande janela do Caracola. Um grupo de mulheres voltava do supermercado. Na estação de serviço reuniam-se os jovens, como era hábito ao início da noite, para decidirem onde iriam. Carros com turistas passavam devagar, à procura de um restaurante.

 

Nove horas. Onde se teria metido Adrover?

 

A encomenda estava quase completa. Apenas faltavam as bebidas e a carne fresca que Adrover traria. Iria transferir a encomenda da sua carrinha para o barco. Depois teria de esperar que as coisas no porto se acalmassem. Isso iria acontecer entre a uma e as duas da manhã. Antes não. Naquela aldeia no cu de Judas todos observavam todos. E além disso havia a Guardia Civil. E um tipo como El Conejo querÍa sempre saber tudo. Nesse instante o dono do bar recomeçou a fazer perguntas. Queria saber de onde ela vinha e o que lhe contara...

 

Pere respondeu-lhe que apenas sabia que o pai dela era filipino. E que de qualquer maneira lhe era indiferente. Acabou por beber o conhaque. Depois pediu mais um e pagou-o.

 

- Indiferente? Claro que sim, é evidente. Atiras-te a uma mulher de sonho, passeias com ela pelo porto, até a levas a almoçar no Clube Naval, porque és um tipo muito fino, rolas os olhos de tal modo que até ameaçam cair. E depois dizes-me que ela te é indiferente.

 

Pere estava farto. Pousou o copo de conhaque na mesa. Nesse instante ouviu o altifalante que se encontrava numa prateleira, ao lado de uma estatueta de Nossa Senhora de Lourdes. Miguel, El Conejo, mantinha o seu rádio permanentemente sintonizado na frequência em que os homens da cooperativa de pescadores comunicavam durante o trabalho. Um dos pescadores fizera uma pergunta sobre bóias e a resposta que obtivera fora uma anedota...

 

-Onde é que eles andam hoje?

 

-Tu é que devias saber. Estão entre Brafi e a Punia Negra. A umas dez milhas de distância.---

 

Essa não era a sua rota.

 

- E então, como está a tua vida? Desististe do emprego e quando pegas no teu barco são uma da manhã... Onde é que costumas ir? Passear ao luar? Com a tua supermulher? -Não tens nada a ver com isso.

 

Bastava. Pere foi-se embora.

 

El Conejo ainda gritou alguma coisa, mas Pere nem sequer virou a cabeça. o que mais o irritava era que no fundo El Conejo tinha razão: portara-se como um idiota, não conseguira nada, pura e simplesmente nada, um beijinho na face e de resto só conversa... e perguntas, Ela parecia muito interessada. Tantas perguntas.... Mas por que diabo é que ela queria saber quanta gasolina é que ele levava a bordo? E por que razão se interessava pelas suas arcas congeladoras? Ou pelo facto de ele, ao contrário dos outros, não regressar ao porto durante dois ou três dias?

 

Ele podia ter respondido: «Querida, para me encontrar com os chineses tenho de percorrer cento e vinte milhas.» Mas certamente que Harry, o chinoca, não teria gostado. Harry era dono de uma tasca em Cala d’Or, que estava sempre vazia, porque a comida era intragável, até mesmo para os turistas. Mas isso não o preocupava. Arranjava o dinheiro noutro sítio. E, além disso, uma Esther Ramirez nunca iria compreender uma resposta dessas.

 

Esther Ramirez? Que nome mais estranho. Se é que esse era o seu verdadeiro nome...

 

Pere Pons atravessou a rua que ia de uma extremidade à outra do porto.

 

A escuridão era total. A Lua estava no quarto minguante e isso convinha-lhe... As luzes indicadoras de posição e as luzes dos botes e barcos ancorados lá fora na baía lançavam manchas de luz na superfície escura da água.

 

Estacionara a sua carrinha Renault Express no cais ao lado do guindaste que servia para tirar os barcos mais pequenos da água, quando era necessário fazer-lhes uma revisão. o cais era mal iluminado, escuro e cinzento, submerso no negrume da noite. Os barcos de pesca grandes andavam todos fora, à excepção dos dois barcos que pertenciam a Bonnet, o Maria I e Maria II, que em breve iriam à hasta pública... Guillermo Bonnet estava a afogar-se em dívidas. «Tal como tu próprio», pensou Pere. «Se não tivesse aparecido o Harry a abanar o cheque em frente ao teu nariz há três semanas, estarias falido como o Guillermo. Não há dúvida de que sem o Harry não terias conseguido. Nem sequer te teriam deixado o carro, bolas... »

 

Mas lá estava o seu carro e ao vê-lo Pere ficou mais tranquilo. Porém, de repente, parou.

 

Que luz era aquela?

 

Sim, havia uma luz, uma fina e pequena faixa de luz branca no interior da carrinha. A luz mexia-se.

 

E agora de novo!

 

Pere Pons começou a correr ao mesmo tempo que reflectia. Olhou à sua volta, para ver se na sombra dos plátanos estaria escondido algum homem. Tirou a navalha do bolso, abriu-a e quando se encontrava a poucos metros da carrinha começou a andar nas pontas dos pés, para não fazer barulho.

 

«Trancaste todas as portas, disso não há dúvida. Mesmo as traseiras. Afinal é lá que se encontra a encomenda. A porta ao lado do condutor está aberta. Será que alguém terá feito uma cópia da chave?» Era a única hipótese. Agachou-se e aproximou-se das traseiras da viatura. Estava trancada.

 

A luz dentro da carrinha apagou-se. O sacana deu pela tua presença. Não faz mal, isso não lhe adianta nada. Ele daqui já não consegue fugir...»

 

Pere Pons agarrou com mais força o punho da navalha e de repente abriu a porta do carro.

 

- Sai daí! Vá, sai já daí! Voy a matarte. Vou-te matar, filho de puta! Sabes o que é que eu vou fazer contigo?...

 

De repente calou-se. Viu um rosto, cabelo preto e olhos escuros e calmos, uma boca grande e sorridente e um decote que deixava adivinhar um peito volumoso, escondido por baixo de uma camisa de homem.

 

-Tu aqui?

 

- Sim... Se não te importas, guarda essa navalha, que estás a assustar-me. E para que não me tenhas de perguntar o que estava a fazer dentro do teu carro, digo-te já: ontem quando fomos para a praia, esqueci-me da minha toalha e pensei...

 

-E é por isso que arrombas o meu carro? -Arrombar? Não foi isso que eu fiz. A porta estava aberta.

 

-Ai, estava? Era mentira.

 

Pere sabia que ela estava a mentir. Tinha a certeza absoluta de ter trancado todas as portas. Mas não pôde evitar um olhar para os seios de Maya. Um dos botões da camisa caíra, o de cima, o botão estratégico. Ela não usava soutien. Porque não? Agarrar agora nos seus seios, amassá-los, quantas vezes ele já sonhara com isso nos últimos dias. Qualquer dia iria fazê-lo. Não, não seria qualquer dia, seria agora já...

 

«Ela é uma mentirosa. Esteve a fazer pouco de ti todo este tempo. Agora chegou a tua vez.»

 

Pere sorriu, deu a volta à carrinha e sentou-se no banco do condutor. Ligou o motor, estendeu o braço para a direita, fechou a porta do lado de Maya e perguntou-se a si próprio o que estava a fazer.

 

«Eu sou generoso contigo, Pere, não é verdade?», dissera Harry. «Provavelmente generoso de mais. Desde o início que simpatizei contigo. Mas se alguém descobrir que tu forneces os nossos barcos, não sei o que é que te faço. Percebeste?»

 

Pere percebera. E era justamente isso que acabara de acontecer. Maya descobrira tudo. Chegara ao ponto de ousar arrombar o seu carro. Mas para quê? Quem é que lhe pagava por isso? De onde é que ela vinha? o que estava a tramar? Pere acelerou.

 

- Para onde estás a ir? - perguntou Maya.

 

A Renault percorreu o piso irregular do cais. A voz de Maya parecia calma; estava sentada de forma descontraída com um pouco de luz a iluminar-lhe o cabelo e a testa.

 

- Vamos ali para baixo. - Pere desceu a rampa ladeada de pinheiros que ia da estrada até à borda do porto. o carro abanava. - Ainda tenho de carregar umas coisas e esperar por um tipo que vai trazer mais mercadoria.

 

- Ah, sim? - Maya não fez mais perguntas.

 

A carrinha saltava sobre as raizes dos pinheiros, que pareciam grossas veias na estrada de terra batida, Pere estacionou atrás de um monte de barcos a pedal enferrujados. Maya olhou à sua volta.

 

Pere desligou o motor, encostou-se para trás. Pôs a mão no bolso, mas não retirou a navalha. Não precisaria dela.

- Então, minha querida, aposto que agora vais querer saber o que eu faço com todo este carregamento. E para onde o levo. É isso que te interessa, não é?

 

Maya virou-se e ele cheirou o seu perfume. Os seus olhos escuros confundiam-se com a sombra e a pele do pescoço tinha um brilho mate.

 

A partir daí tudo se passou muito rapidamente. Talvez a culpa fosse do conhaque, talvez da raiva que ele sentia por ela ter brincado com ele ou talvez apenas do medo - ele próprio não sabia ao certo o que estava a fazer. Agarrou o pescoço de Maya com as duas mãos e apertou-o.

 

Maya gemeu, deitou a cabeça para trás, tentou bater-lhe, mas ele não fraquejou; tinha umas mãos fortes. Maya voltou a tentar defender-se, desta vez com o punho. Mas Pere apenas apertou com mais força.

 

- Puta! Filha da mãe! o que é que tu queres? Vá, diz-me! Quem é que te mandou para cá? Quem? Quem... Sentiu Maya fraquejar. Com a mão esquerda e num único gesto brusco rasgou-lhe a camisa. A boca de Maya estava retorcida e isso excitava-o ainda mais. Claro que o excitava!

 

Os seios de Maya pareciam saltar na sua direcção. Sentou-se em cima dela e segurou-a pelos ombros, tentando enfiar as coxas entre as suas pernas.

 

-Vou dar-te uma lição, sua malvada!

 

Porém, de repente, Pere Pons gritou, gritou sem parar, gritou como um touro, devido à dor insuportável que sentia e que parecia rasgá-lo aos bocados. E quando finalmente levantou a cabeça, gemendo e segurando com ambas as mãos os testículos que ainda lhe doiam, o lugar ao seu lado estava vazio...

 

Era sexta-feira de manhã, dez e meia. Rick encontrava-se por acaso no secretariado, para assinar umas contas, quando Rosi Meyrs, a secretária-chefe atendeu o telefone e depois tapou o auscultador, olhando para Rick.

 

- o que é que foi?

 

-É a Maya. Quer falar com o Jim. Mas o Jim está em Southampton.

 

- E vai ficar lá durante o fim-de-semana - confirmou Rick. - Passe-me a chamada, Rosi.

 

- Está? - ouviu Rick do outro lado da linha. - o que é que se passa com o Jim? - A voz de Maya parecia distante e extremamente impaciente.

 

- E o que é que se passa contigo? - Como acontecia sempre que falava com Maya ao telefone, o seu corpo contraiu-se de forma quase dolorosa.

 

- Rick? -Sim, sou eu.

 

- Ah, Rick, afinal és tu! Bem, não faz mal. Sabes, estou com uns problemas sobre os quais gostaria de falar com o Jim Bright.

 

Rick verificou, irritado, que Maya parecia desiludida por ter sido ele a atender.

 

- Também podes falar comigo, não podes? Que tipo de problemas?

 

Maya hesitou.

 

- É difícil explicar assim, pelo telefone.

 

-Onde é que estás?

 

- Numa taberna. No lugar onde eu moro não há telefone. No lugar onde eu moro? Uma pequena cidade portuária na costa sudeste de Maiorca! Puerto Colón, se não estava enganado.

 

-A coisa está a complicar-se, Rick. Falei com os responsáveis em Palma, a Conselleria de Pesca. Eles mandaram-me falar com a polícia costeira e os responsáveis pelos assuntos marítimos da Guardia Civil que já está a tentar controlar os pescadores piratas com helicópteros. Descobriram que isto aqui é uma espécie de ponto de apoio logístico para os homens da Formosa.

 

O que quer dizer «aqui»?

 

- Aqui é Puerto Colón. Este é o único lugar em que se pode entrar num desses barcos. Mas eu sozinha não sou capaz. É por isso que gostaria que o Jim viesse para cá.

 

- Maya, vê lá se tiras essa ideia da cabeça. Isso é muito perigoso.

 

O que é que poderia acontecer?

 

o que poderia acontecer... Era uma das frases preferidas de Maya.

 

- Vou pensar no assunto, Maya. Podes voltar a telefonar daqui a três horas? - Não era por acaso que Rick dava por terminada e tão de repente a conversa. Acabara de tomar uma decisão.

 

Desligou o telefone e olhou para a secretária.

- Rosí, arranje-me um voo para Palma.

 

- Para quando?

 

- De preferência hoje. E quanto mais rápido, melhor. Tudo correu bem. Quando Maya voltou a telefonar pela segunda vez, Rick Martin já estava sentado num dos voos charter em Boeings, que a Agência de Viagens Thompson alugava para transportar diariamente centenas de ingleses ávidos por um pouco de sol para as ilhas espanholas. E enquanto sobrevoavam a França, Rick rezava para que Rosi não tivesse elucidado Maya sobre quem iria ter a Maiorca para a ajudar. Queria fazer-lhe uma surpresa.

 

No aeroporto de Palma de Maiorca, Rick Martin alugou um Seat Cordoba e seguiu a estrada que ia em direcção à zona sudeste da ilha.

 

Era a terceira vez que vinha a Maiorca, mas guardava poucas recordações. Porém, notou que algumas coisas tinham mudado desde a sua última estada. Havia pouco trânsito. Passou por pequenas povoações, fincas isoladas. A natureza era dominada por terra castanha e à sua direita via o mar profundamente azul.

 

Depois de quarenta minutos de viagem, surgiu uma placa: «Puerto Colóri.» A seta apontava para a direita,

 

A pequena cidade ficava no fim de uma estrada sinuosa e parecia abraçar o mar, Havia um farol, barcos brancos, casas brancas, buganvílias roxas e pinhais verdes - uma vista de sonho, não havia dúvida.

 

Rick, porém, não tinha tempo para contemplar o panorama; acelerou, colina abaixo, parou numa rotunda e voltou a olhar para o papel que Rosi lhe entregara: «Casa Son Vent, Calle Ia Punta, 24.»

 

Havia um velho sentado numa pedra, ao lado de uma enorme âncora de ferro, enferrujada. o homem tirara a alpergata do pé direito e contemplava o buraco no tecido com um ar melancólico, «Calle Ia Punta, 24?» Levantou o braço e apontou para uma estrada à esquerda, ladeada de tamareiras.

 

Rick percorreu essa estrada. Passava por uma colina cheia de casas de pescadores caiadas de branco. Mais tarde perguntou a um rapaz de catorze anos que lhe deu respostas rápidas e exactas num castelhano bem articulado. Depois da playa, subir até à rocha, passando pelo farol. Ao lado de um pinhal...

 

A casa de três andares tinha uma placa com a inscrição «Casa Son Vent», à entrada e era cor-de-rosa berrante. Via-se que fora pintada há relativamente pouco tempo, mas as tempestades de Inverno e o sal do mar tinham deixado as suas marcas no terraço e nas persianas e provocado grandes manchas de um castanho sujo na tinta.

 

Rick desceu do carro.

 

Até então tinha tido a certeza de estar a agir bem. Maya provavelmente contara às pessoas de Puerto Colón que era turista e em Palma talvez repórter. Mesmo assim, a sua aparência exótica dava nas vistas. Sim, mas nas vistas de quem? Rick não via ninguém.

 

Olhou para as três palmeiras meio secas que lutavam pela sobrevivência por trás do muro castanho. Ao lado havia uma pimenteira, igualmente ressequida, de ramos pendentes. Depois olhou para a porta da casa. Estava encostada. Havia um gato sentado em cima de um dos caixotes de lixo.

 

A entrada principal ficava nas traseiras da casa. Do outro lado certamente se desfrutava de uma vista maravilhosa para a baía, mas deste lado apenas se viam os terraços da cozinha. Pareciam nunca terem sido utilizados. Rick entrou no jardim, andou pelas placas de cimento e ia abrir a porta quando ouviu uma voz.

 

- Olá!

 

Virou-se, devagar. Era ela. Usava uns calções, uma camisa de caqui e, evidentemente, umas sandálias. Atara o cabelo e usava um lenço à volta do pescoço. Fitou-o com os olhos muito redondos, como se estivesse a olhar para um ser de outro planeta, enquanto o vento lhe despenteava o cabelo. Ergueu levemente as mãos, com os longos dedos, e depois voltou a baixá-las. Começou a correr. Correu em direcção a Rick, a rir, e para Rick deu-se um pequeno milagre: uma Maya Nandi que o abraçou e se pendurou ao seu pescoço,

 

- Oh, Rick, Rick... Isto é... nem sei o que dizer.. -Que surpresa, era isso que ias dizer.

 

Rick não conseguiu evitar que a emoção transparecesse na sua voz; no entanto, subitamente caiu em si, recordando que, no caso de Maya, seria melhor voltar a largar os seus ombros e baixar os braços rapidamente, em vez de lhe dar um beijo.

 

Maya fitou-o.

 

-Que honra, o chefe em pessoa.

 

-Não foi possível arranjar mais ninguém - respondeu Rick, com um risinho.

 

-Não estarás a exagerar?

 

- No teu caso, é impossível exagerar, Maya. E o pior é que tu sabes disso. - A sua objectividade surpreendeu-o. Então, quais são os problemas?

 

Maya baixou ligeiramente as pálpebras. As suas longas pestanas formavam sombras circulares. o seu sorriso desaparecera. Ajeitou o lenço que usava à volta do pescoço, num gesto nervoso, e mexeu na alça da carteira que trazia ao ombro. Lançou um rápido olhar para trás, em direcção ao pinhal que escondia uma casa em construção.

 

- Maya, o que é que se passa?

 

- Pois, o que é que se passa? Boa pergunta. Mas queres falar disso aqui e agora?

 

- Claro que não. Vamos para dentro.

 

- Eis outro problema, Rick. Além disso, as janelas dão todas para poente e o sol está tão forte que é impossível estar dentro dos quartos. Tenho uma proposta melhor a fazer-te. Lá em baixo há uma praia com um café simpático, com muita sombra. Lá podemos falar com calma. o que é que achas?

 

Rick estava de acordo. Voltou a olhar para a casa. Outro problema? o que é que ela queria dizer com isso? Enfim, já iria descobrir..

 

Desceram para a praia em silêncio. A alegria com a qual Maya o recebera tinha agora desaparecido.

 

Algo estava a correr mal. E Rick teria que descobrir o que era o mais rapidamente possível.

 

Uma faixa branca trespassava o azul do céu, transformando-se num     risco prateado e difuso perto do horizonte. A paisagem era feita de pequenas colinas e, ao longe, via-se a velha cidade   com as suas casinhas brancas e as janelas verdes e azuis. A baía estava cheia de mastros e de barcos pequenos e grandes, brancos, vermelhos, azuis ou castanhos.

 

Ouviam-se gritos e risos vindos da plataforma ancorada em frente à praia. As crianças construíam castelos na areia. Um louco qualquer numa moto de água percorria as pequenas ondas. E havia inúmeras mães com os filhos. Este era um mundo diferente, desejado e libertador. E agradável, extremamente agradável.

 

A dona do café, uma mulher gorda com uma cara redonda, pusera uma mesa e duas cadeiras de plástico ao lado do muro por baixo da estreita estrada que ia dar à praia. Havia tamareiras que cresciam na areia e cujos ramos jogavam com a luz. Pediram um rosado seco e espetaram azeitonas com palitos. Rick Martin esticou as pernas e deitou a bengala na areia. Maya descontraíra-se na cadeira ao lado, igualmente de pernas esticadas, com os pés descalços na areia quente. A sua voz era objectiva e calma, como sempre.

 

Por vezes, algumas das palavras que dizia escapavam a Rick, apesar de este fazer um esforço para se concentrar. Ouviu-se o motor de um barco. Uma velha maiorquina zangou-se com o sobrinho. Rick estava cansado. Ai, como teria mil vezes preferido falar de outro assunto qualquer!

 

Olhou para as marcas brancas das sandálias nos pés bronzeados de Maya e desejou que as redes de pesca, os homens de Taiwan e as zonas de pesca de duzentas milhas desaparecessem. Que tudo, tudo, fosse diferente daquilo que era. Completamente diferente. Muito mais importante do que as redes de pesca era o facto de estar sentado ao lado daquela mulher, a ouvi-la e a apreciar a sua proximidade. o seu desejo por ela doía-lhe; desejava tanto saber mais acerca dela. o que é que lhe interessava a Guardia Civil Central em Palma?...

 

- Os tipos da Guardia não são nada maus. No fundo até são muito simpáticos. E tendo em conta que são polícias, cooperam bastante bem. E alguns deles até são extremamente atraentes. - Riu-se baixinho. Especialmente um deles, um ajudante. Chama-se Romero e é comandante ou algo parecido. Quis saber se eu me interesso por poesia e qual a minha opinião sobre o Carlos Fuentes. E quis combinar tomarmos um café juntos.

 

- Foi?

 

- Sim. Propôs-me darmos uma volta de helicóptero. Para eu poder ver os homens de Taiwan de cima. Até permitiria que eu filmasse. E isso sem sequer ter visto o meu cartão de jornalista.

 

- E então?

 

- E então... não resultou. o chefe não permitiu. Deve estar habituado a estas histórias do Romero. Além disso, qual seria o interesse em ver os homens de Taiwan de cima? De que é que isso me serviria?

 

- Sim, realmente seriam apenas algumas imagens para ilustrar..

 

Na cabeça de Rick os homens de Taiwan encontravam-se extremamente longe. Estava muito mais interessado no movimento das unhas dos pés vermelhas de Maya, nos seus tornozelos finos, o jogo dos músculos na parte inferior das coxas.

 

- o problema é que os pescadores não respeitam a zona delimitada de duzentas milhas. Durante a noite aproximam-se da costa. Aproximam-se mesmo muito. Deste modo não apenas desrespeitam as regras de proibição de pesca durante o período de reprodução, como também pescam em águas espanholas. Os Espanhóis têm duas queixas pendentes na representação de Taiwan em Madrid, que não avançam. Não há provas nenhumas. E sinceramente tenho a impressão de que não se esforçam muito por arranjá-las.

 

- E porque não?

 

- Bem, lembra-te dos problemas que houve entre a Espanha e o Canadá por causa das pescas. Foi um caso parecido em que eram utilizadas redes de pesca ilegais. Os Canadianos acusavam os Espanhóis de pescarem no seu território e os Espanhóis negaram as acusações. Desde então que os Espanhóis têm muito cuidado no que diz respeito a este tipo de assuntos.

 

- Mas os Canadianos capturaram os barcos aos Espanhóis. E além disso tratava-se apenas do tamanho das malhas das redes e não das horríveis redes utilizadas aqui.

 

o que é que lhe interessava a guerra das pescas entre a Espanha e o Canadá?

 

- Cá por mim, mandava umas fragatas atrás deles, ou até mesmo uma frota inteira. Eles são insuportáveis, odeio-os... -Não te enerves.

 

- Para eles o que interessa é o dinheiro. Isto é capitalismo podre de piratas. Na Ásia as companhias de madeira destroem as florestas e aqui atacam no mar Mediterrâneo. E ainda por cima atrevem-se a fazer a matança do atum ao longo da costa!!

 

-Porque dizes ao longo da costa?

 

- Porque chegam mesmo muito perto da costa. -Foi aquele pescador de cá que te disse isso?

 

o Pons? Esse tem medo de abrir a boca. Mas eu vi o barco dele. Com o pouco gasóleo que tinha no depósito, mal conseguiria percorrer cem milhas e teria que voltar.

 

-E o que é que se passou, quando ele te apanhou a vasculhar o carro?

 

- Prefiro não falar nisso... Foi desagradável. Muito desagradável.

 

-Porque é que não queres falar nisso?

 

-- Porque, porque... - A voz de Maya fraquejou, Rick bebeu o resto de rosado que tinha no copo e mais uma vez voltou a questionar-se sobre o que teria acontecido na vida de Maya que a impedia de mostrar qualquer tipo de sentimentos. Ou, pelo menos, de contar uma história tal como realmente se passara, falando também daquilo que sentira. Mas não, sempre aquela frieza, excessivamente objectiva e pouco natural. Maya omitia tudo o que não fizesse parte do trabalho... Seria ela sempre assim ou apenas quando estava com ele?

 

- Rick, estás a ouvir-me?

 

- Vamos só esclarecer uma coisa, Maya: eu perguntei-te uma coisa e tu preferiste não responder..

 

Maya ficou calada. Pouco antes, quando ela correra na sua direcção em frente à casa cor-de-rosa, aliviada e feliz, e Rick a segurara nos braços, ela tinha sido outra pessoa, completamente diferente.

 

Rick vestia umas calças de ganga e sentiu calor nas pernas. Fechou os olhos e viu pequenos círculos redondos e vermelhos, provocados pela luz do Sol, Sentiu o frio de uma sombra e imediatamente abriu os olhos. Era ela.

 

Colocara-se à sua frente e sorria. Usava um pequeno biquini verde que devia ter trazido vestido por baixo da roupa. A sua pele estava bronzeada, num tom de cobre profundo e avermelhado. Mas isso era um efeito provocado pela luz. o pescoço comprido, a curvatura do peito e das ancas, o jogo de sombras nos tornozelos e nos ombros e aquele cabelo brilhante!

 

Era perfeita. Simplesmente perfeita. Uma deusa à luz do Sol mediterrânico. Quase perfeita de mais. De facto, o único sentimento que podia suscitar era admiração.

 

-Não vens tomar banho? Rick abanou a cabeça. -Anda lá! Vá, anda lá!

- É melhor não.

 

- Não me digas que não trouxeste o teu calção de banho?

 

Rick hesitou e depois lembrou-se de que até o trouxera. Mas o problema era a cicatriz. Tinha pelo menos vinte centímetros. Para além de o limitar fisicamente, não era nada bonita. E nesse preciso instante estava a provocar-lhe dores. Não, realmente não seria bonito de se ver.

 

-Vai tu.

 

-É por causa da perna?

- Não faças perguntas...

 

Maya suspirou e depois desatou a correr pela praia, passando pela família maiorquina e pelas crianças que brincavam na areia. Rick observou-a, viu-a saltar para a espuma branca e depois mergulhar no mar turquesa...

 

Atrás dos rochedos havia um pinhal. As rochas formavam uma pequena enseada que, por não ser muito profunda, atraía muitas mães com crianças. A maioria das crianças brincava calmamente na praia.

 

Mais acima, na encosta, estava um homem deitado na sombra. Vestia uns calções entre o azul e o cinzento, sindálias de borracha e uma T-shirt cinzenta com a frase «Why not try?». Na cabeça usava um chapéu de palha, daqueles que se compram nas feiras maiorquinas por algumas pesetas. Tinha a cara escondida atrás de uns enorrnes óculos de sol.

 

Olhou para o relógio. Eram quase dezassete e vinte. Tirou uns binóculos do saco de praia, Uns binóculos pequenos, cinzentos e discretos, do tamanho de uns binóculos de teatro.

 

Olhou pelos binóculos, sem no entanto tirar os óculos de sol. Observou o mar, avistou os braços de Maya, que nadava crowl em direcção à plataforma ancorada no mar e depois fixou o homem, que estava sentado no café perto do muro.

 

Satisfeito, voltou a guardar os binóculos no saco de praia, ergueu-se e subiu a encosta até à estrada, onde se dirigiu para um pequeno Clio azul-escuro. Entrou no carro e ligou o motor. Permaneceu em ponto morto e pegou no saco de praia, que pousara no banco ao   lado. Pô-lo sobre os joelhos, abriu-o, retirou uma pistola   enrolada numa toalha e sem tirar as mãos do saco montou um silenciador no cano. Depois voltou a guardar o saco no banco ao lado, olhou para a frente, acelerou e conduziu o   carro em direcção a um pinhal que existia entre uma casa   cor-de-rosa e uma outra em obras...

 

- Tens de ser muito cuidadoso com a Maya - dissera-lhe Judy uma vez. - Ela teve uma vida muito difícil. o pai morreu, provavelmente assassinado. Pelo menos é o que se diz. Ela não acredita nisso. Mas a horrível história do pai marcou-a profundamente.

 

Marcou-a profundamente? E ela nunca lhe falara nisso, Rick estava perturbado e melancólico: existia uma diferença de idade de dezoito anos entre ele e ela, e além disso não passa de um inválido que coxeava... Redes de pesca. Marés negras. Lixo atómico. Um mundo que estava a desmoronar-se. E ele esperneava e lutava, na tentativa de o salvar. «Como se estivesses a picar com uma agulha fininha o enorme manto que ameaça sufocar-te, Algo tem de mudar. Tudo tem de mudar. Tu próprio, o teu trabalho, tens de... »

 

Sentiu pingos de água fria caírem-lhe na pele, Abriu os olhos. Era Maya a torcer o cabelo em cima do seu corpo. Água. Pérolas de água nas longas coxas de Maya, no ventre e nos ombros e apenas três pedaços de tecido provocador, fino e molhado a cobrirem o seu corpo. Dois deles verdes e um azul, à volta do pescoço. Não tirara o lenço, que na água se enrolara, transformando-se numa faixa estreita.

 

Rick teve dificuldade em afastar o olhar dos mamilos endurecidos de Maya.

 

De repente, porém, exclamou, assustado:

 

- Maya, meu Deus, o que é isso? o que aconteceu ao teu pescoço?

 

Maya levou algum tempo a reagir. Mal se apercebeu do que se tratava, ajustou o lenço como uma criança que tenta esconder qualquer coisa.

 

Rick saltou da cadeira num gesto brusco, pouco habitual devido à sua incapacidade física.

 

- Deixa-me ver! Não sejas infantil. Maya recuou um passo. E depois parou. -Não é grave, Rick, a sério, não é.

 

Rick afastou o lenço. Havia três manchas negras e vermelhas no pescoço de Maya. A da esquerda ia do músculo do pescoço, por baixo da laringe, até ao maxilar. Era a marca de uma mão, disso não havia dúvida, a marca de uma mão que tentara estrangulá-la. E que teria tido a força para fazê-lo.

 

- Quem foi? - sussurrou Rick. Os gritos das crianças na praia pareciam-lhe agora insuportavelmente altos. Quem foi que fez isto?

 

-Não exageres, Rick.

 

-Exagerar, Maya?! Por amor de Deus, mas o que é que se passa contigo? Houve um tipo que tentou matar-te e tu achas que não vale a pena falar disso? Quem é que tu julgas que és? Um Rambo feminino? Olha que isso só existe nos filmes!

 

Rick sentiu a perna a tremer.

 

Maya baixou os braços e fechou os olhos. o seu rosto continuava imóvel como uma máscara.

 

- Fala...

 

- Eu falo, mas só se tu te sentares e parares de gritar. Rick sentou-se.

 

- Foi o Pere Pons. -Aquele pescador? -Sim, aquele pescador.

- E então?

 

- Ele não quis matar-me, Rick. Não quis mesmo. Apenas perdeu o controlo. Eu já estou habituada a loucos, que perdem o controlo... É possível que lhe tenha dado esperanças, que o tenha provocado de mais... Céus, não olhes assim para mim. Quando ele descobriu o que se passava, aconteceu. Mas o que importa é que eu consegui safar-me. E ele agora deve estar cheio de medo.

 

- Aconteceu?! Esse tipo ia-te estrangulando! Mas claro, não, isso para ti não tem importância. Tu pões-me doido! Já fizeste queixa à Polícia? Pelo menos telefonaste ao teu admirador da -Guardia Civil?

 

-Achas que eu sou doida? Isso só complicaria as coisas. Além disso eu estava à espera que... quer dizer, pensei que talvez pudesses falar com o Pere e entender-te com ele e assim poderíamos obter mais informações.

 

- Entender-me com ele?! - repetiu Rick. - Então para ti isso seria natural, afinal o trabalho está em primeiro lugar, não é?

 

- Sim - respondeu Maya. - E aos poucos estou a ficar farta do trabalho.

 

Rick não lhe respondeu. Não lhe disse que há poucos minutos pensara a mesma coisa.

 

-E porque haveria ele de ter medo?

 

- Sei lá. Como eu te dizia, há um chinês, o dono de um restaurante na Cala d’Or, que manda no Pere. Eu sei como eles são, esses chineses que vivem no estrangeiro. Quando se trata de defender os seus interesses, não perdoam.

 

- Ah, sim? - perguntou Rick num tom de voz irónico.

- Não perdoam?

 

- Sim, Rick. Quando há pouco preferi que não fôssemos para dentro de casa, não foi por causa do sol.

 

Rick endireitou-se.

- Então porquê? Maya fitou-o.

 

-Eu não quis entrar... Até estacionei o carro longe de casa.

 

porquê?

 

É que... Perto da casa existe uma obra. Hoje de manhã, não, já ontem, quando ia a entrar em casa vi uns vultos estranhos nessa obra. Não me preocupei muito com isso. A porta de casa estava bem trancada. E os estores tambéní estavam intactos. Mas, lá dentro, parecia que tinha explodido uma bomba. Tinham desarrumado e vasculhado tudo. Eles deviam ter um duplicado da chave.

 

- Eles?

 

- Sim, eles. Esta história deve ter algo a ver com aquele dono do restaurante. Bem, de qualquer maneira o assalto não lhes valeu de nada. Não encontraram nada. Eu levo sempre tudo comigo.

 

- Quer dizer que não roubaram nada?

 

- Não, pelo contrário, deixaram uma coisa.

- E o que era?

 

-Na cama, Rick, na cama havia uma galinha sem cabeça...

 

Chamava-se Don Edwards. Pelo menos era isso que dizia a placa à porta da agência, Puerto Colón Chartering, SA. Devia ter uns quarenta e oito anos, era gordo, com uns ombros largos e estava bronzeado. Vestia uma T-shirt às riscas azuis e brancas com um símbolo náutico qualquer bordado e tinha um bigode de foca, ruivo. Quando Rick entrou, estava a devorar um prato cheio de Kellog Crusties.

 

- É o meu jantar. Tenho de emagrecer. Engordei muito durante o Inverno. Nesta zona engorda-se tão facilmente... Os flocos estalavam na sua boca enquanto estudava os documentos que Rick Martin lhe entregara.

 

- Royal Folkstone? o que mais podia ser? Sabe o que mais aprecio no Folkstone? o facto de ser um clube pequeno com apenas uns seiscentos membros, não é?

 

- Menos.

 

- Menos. Claro. E agora explique-me lá, porque é que todos os dias há um tipo como você que entra por essa porta e me entrega um cartão do Folkstone e um diploma de vela?

 

- Porque está muito frio em Folkstone - respondeu Rick. - E chove sem parar. Isso aumenta a vontade de vir para o mar Mediterrâneo.

 

-Mas para Puerto Colón?

 

- Puerto Colom é uma cidade muito bonita... -Pois é.

 

Rick quis perguntar ao empresário inglês, sediado em Maiorca, se conhecia um pescador chamado Pere Pons, mas, pelo que lhe parecia, Edward não devia ter muito contacto com os habitantes da cidade.

 

A cadeira de verga, na qual Rick estava sentado, estalava. Agarrou-se com mais força à bengala.

 

- Foi um acidente? - perguntou Don Edwards. -Sim, algo como um acidente.

 

-A bordo?

 

Rick anuiu com a cabeça.

 

- Com essa perna não deve ser fácil controlar um barco à vela. Apesar de eu ter conhecido um tipo que... Enfim, fica para outra vez. Queria então apenas pernoitar no barco. Está com sorte, neste momento não há muito movimento. Não há, aliás, movimento nenhum. Se não, ter-lhe-ia de cobrar mais sessenta por cento. E isso saía-lhe muito caro. Mas talvez possamos negociar. Sempre é melhor do que nada....

 

Meteu mais uma colherada de cereais na boca, abriu uma gaveta da sua velha secretária, retirou uma caixa de lenços Kleenex, arrancou um lenço e num gesto desajeitado limpou a boca.

 

- Isto está morto. Os barcos estão parados e os quartos de hotel vazios. É verdade, porque é que não vai para um hotel? Sairia muito mais barato,

 

- Digamos que sempre tive a mania dos barcos. Edwards assentiu com a cabeça.

 

- Eu compreendo-o. Vai sozinho? Rick abanou a cabeça.

 

- Então vai ser uma noite romântica.

 

Rick não respondeu.

 

- Posso-lhe alugar o Estragon. É o maior barco que temos. E o mais confortável. Um Swan. Suponho que saiba o que isso significa. É um barco para oito pessoas com duas

casas de banho, cozinha, um enorme salão e na cabina há uma cama de dois metros por um e sessenta. King size. -

Sorriu. - Isso deve chegar.

 

Maya estacionou o pequeno Panda alugado em frente ao Clube Naval e passou para o Cordoba de Rick Martin.

 

- Tens as cassetes? - perguntou Rick.

 

- Não te preocupes. - Maya apontou para um enorme saco de lona. - Nunca as deixo em apartamentos estranhos. Quando não há lugar seguro para as guardar, ando com elas. São duas.

 

Rick assentiu com a cabeça e acendeu os faróis. Tirara uma pilha forte da sua mala para o caso de ser necessária. Passaram por bares e marisqueiras. Os postes de electricidade pareciam sombras negras que se destacavam do pôr do Sol rosa e turquesa.

 

Não havia ninguém nos iates. Nos dois barcos maiores preparava-se o jantar. Os barcos estavam iluminados e podia-se ver o interior dos salões excessivamente faustosos e os seus proprietários de barriga cheia.

 

Percorreram as ruas estreitas da parte antiga da cidade, que se situava numa colina e passaram pela baía até ao pinhal. Tinham aberto as janelas. o ar cheirava a algas e pinheiros. Rick lembrou-se das inúmeras viagens que fizera pelo mar Mediterrâneo.

 

Maya permanecera silenciosa durante toda a viagem. Estava calada e atenta.

 

Rick Martin, por seu lado, sentia um distanciamento perante a situação que lhe permitia uma curiosidade quase alegre: uns tipos da tríade chinesa naquele cantinho pacífico do Mediterrâneo? Bem, afinal eles estavam em todo o lado. Tanto em Londres, como em Moscovo. Mas uma galinha sem cabeça na cama de Maya? Ela explicara-lhe que isso na China significava um aviso e era sinal de desprezo. Mas queria dizer sobretudo duas coisas, pensou Rick: que eles estavam de olhos postos em Maya e que queriam saber quem ela era. E provavelmente até mesmo dizer: não te metas!

 

Mas, não meter-se em quê? Pensariam eles que Maya iria denunciá-los às autoridades? Era mais provável que quisessem evitar um escândalo na imprensa. Mas ainda havia outra hipótese, bastante simples e provável: tratava-se simplesmente de uns brutos que se sentiam donos daquela zona e que atacavam qualquer pessoa que lhes apontasse o dedo. Isso, porém, parecia pouco provável numa cidadezinha como Puerto Colón....

 

- Eu não sei - disse Maya -, é possível que eu esteja um pouco histérica nos últimos tempos, mas, desde que vi aqueles vultos perto de minha casa, sinto-me mais segura quando alguém me acompanha.

 

- Alguém?

 

- Tu. É isso que queres ouvir? - Virou-se para Rick. Os seus dentes brilhavam.

 

- É.

 

A mão esquerda de Maya tocou levemente no seu joelho. Rick teve vontade de segurá-la.

 

Tinham chegado à curva que passava por uma pequena floresta cheia de arbustos e que conduzia à casa. Rick reduziu os faróis para mínimos.

 

-Anda mais devagar. Ali em frente já fica a entrada para a obra...

 

Passaram pela obra, iluminada pelas luzes da rua. Não havia ninguém. Nem um carro. Nada.

 

- Continua.

 

Pararam em frente à casa cor-de-rosa que parecia um gigantesco bloco sem vida e se destacava contra a última claridade do dia.

 

Maya foi a primeira a sair do carro.

 

Rick entregou-lhe a pilha e pegou na sua bengala. Ela aproximou-se da cancela e ele seguiu-a. Maya debruçou-se sobre uma das colunas de cimento e esticou o braço. Mas a luz não acendeu. Olhou para Rick.

 

-Estranho, não achas? Rick ficou calado.

 

-Bem - prosseguiu Maya -, talvez seja o fusível. Desde que cá estou a luz já faltou duas vezes no jardim e na escadaria.

 

-Vamos - disse Rick.

 

A luz da lanterna dançava nas placas de pedra que formavam o caminho. Maya avançava à frente de Rick. Os seus movimentos eram suaves, elegantes e quase totalmente silenciosos. E Rick... Rick sentiu-se irritado por ter de andar com a maldita bengala e por possuir um músculo que o obrigava a coxear. Acelerou o passo. Chegaram à porta quase ao mesmo tempo. Rick olhou para a madeira estragada e para as três barras de ferro enferrujadas que decoravam a pequena janela de vidro. Maya empurrou a porta e apontou a pilha que segurava na mão esquerda para a tijoleira castanha.

 

Três degraus. Do lado esquerdo as caixas de correio pintadas de azul.

 

De repente, Maya fez um movimento brusco, quase convulsivo, e ficou imóvel.

 

Rick viu uma pequena peça de metal, um cano preto, pressionado contra a nuca de Maya.

 

Era o silenciador de uma pistola.

 

Mais tarde, quando Rick tentava recordar-se da situação, lembrava-se de que sentira apenas um grande vazio e um pânico e medo que impediam qualquer tipo de movimento. Tudo se passara rápido de mais. Na altura, a situação pareceu-lhe absurda. Quase inacreditável. Mas também a tal ponto perigosa, que tinha de ser imediatamente resolvida. o que seria simples. Bastava que levantasse a bengala.

 

E foi o que fez. Fê-lo com toda a força. A madeira bateu no aço da pistola. Ouviu-se uma voz que gritava. Uma voz de mulher. Maya...

 

Depois o barulho da arma a cair e a escorregar pelo chão.

 

E uma pancada...

 

Uma pancada forte que atingiu o estômago de Rick e que o projectou para o canto da escadaria.

 

A sua cabeça bateu contra a parede. Tentou segurar-se, mas a sua perna falhou. Caiu no chão e pôs as mãos no joelho esquerdo. Sentiu uma dor forte e pesada na cabeça, mas ainda foi capaz de pensar: «Esta foi por pouco. Podia ter corrido mal... Que susto! »

 

- Rick?

- Sim.

 

- Estás ferido? Silêncio.

- Claro que não - resmungou Rick. - Tenho um alto na cabeça.

 

- oh, Rick... - Maya estendeu-lhe a mão na escuridão e ajudou-o a levantar-se.

 

Por alguns instantes, Rick teve dificuldades em manter-se de pé, mas acabou por aguentar. Distinguiu o vulto de Maya graças à escassa luz que entrava pela porta: viu uma sombra cinzenta de contornos pouco claros. Sentiu a mão de Maya no seu ombro direito.

 

-Foi por pouco, Rick.

 

- Sim - respondeu Rick devagar. - Mas eu ainda não percebi bem o quê e porque é que foi por pouco. Como é que ele conseguiu escapar?

 

-Fugiu pela porta. Deve ter corrido para a floresta. Rick puxou Maya para junto de si. Sentiu a respiração dela e alguns dos seus cabelos a tocarem-lhe na face.

 

- Ele fugiu pela estrada para os arbustos.

- Tu viste-o? - perguntou Rick.

 

- Se o vi? Vi uma sombra. Não pude reconhecer nada. Nem sequer vi a cara dele. Mas creio que...

 

-Que o quê?

 

- Que era um chinês - disse Maya. - Tenho a certeza que era um chinês.

 

Maya quis retirar a mão do ombro de Rick, mas ele pegou nela e segurou-a. Maya permitiu-o. Os seus dedos e a palma da mão estavam frios e ligeiramente húmidos.

 

- Como é que podes dizer isso se nem sequer o viste?

 

-São coisas que se sentem.--- Não é invenção minha, acredita. Talvez seja um efeito químico. Ou pode ter a ver com a forma como me agarrou e encostou a pistola à minha nuca. Era um chinês. Tenho a certeza absoluta. Porque não haveria de ser um chinês, Rick? Eu cresci numa zona onde todos viviam juntos: malaios, indianos, chineses... E são os chineses que mandam. Compreendes?

 

Não havia nada a compreender.

 

o apartamento no primeiro andar estava trancado. Puseram as poucas coisas que tinham - roupas, lençóis, papéis e livros - numa mala. Lançaram um último olhar ao quarto de dormir. A porta do terraço estava aberta. Rick deixou-a aberta e trancou a porta.

 

Cinco minutos depois estavam a dirigir-se para o porto...

 

Rick Martin franziu o nariz: um cheiro maravilhoso vinha da cozinha e espalhava-se pelo salão, passando pelo banco na popa, no qual Rick se instalara confortavelmente com a ajuda de algumas almofadas, e indo até aos outros barcos ancorados à volta. Mas nesses barcos as pessoas dormiam por baixo das lonas, cinzentas e bem amarradas.

 

«Cheira a peixe temperado com mango chutney», pensou Rick. Devia ter de tudo um pouco. Claro que sim. Havia de tudo no supermercado. Calamares e gambas. Que peixe estaria ela a cozinhar? Provavelmente um...

 

Tentou lembrar-se do nome em espanhol. Era dorado... Maya proibira-o de entrar na cozinha antes de a comida estar pronta.

 

Rick acendeu um cigarrro e pensou: um novo Rick Martin estava prestes a nascer. Podia parecer complicado, mas Rick era agora um homem que, apesar do alto dorido que tinha na cabeça, estava cheio de novas ideias.

 

E Maya, a princesa malaia de origens indianas, ou indiana de origens malaias, essa mulher fantástica? Há duas horas ainda tinha uma pistola colada à nuca. E agora? Agora estava lá em baixo a cozinhar para ele.

 

Maya Nandi, vinte e sete anos, nascida em lpoh, no Oeste da Malásia. Frequentara a escola em Singapura. Depois iniciara um curso de Biologia em Nova lorque, mas nunca o acabara. O que é que podes concluir dessas informações? Nada. Nada, tendo em conta que pura e simplesmente esqueceu o assassino profissional e cozinha para ti... »

 

Fitou a ponta do cigarro, a luzinha vermelha e quente que chocava com o brilho frio dos milhares de estrelas que iluminavam o céu. Um novo Rick Martin? Esperava que fosse um Rick Martin que aceitasse a vida como ela era e soubesse lidar com ela, conseguindo ser feliz. Seria capaz?

- Rick!

 

Rick não respondeu de propósito, a fim de poder ouvir de novo a voz de Maya. Mas havia agora tanto barulho na cozinha que mal a conseguia ouvir. Maya deveria estar a mexer com uma colher de pau numa frigideira.

 

Desceu para o salão e, quando chegou ao fim da escada e avistou Maya, teve de se segurar ao corrimão: enrolara um pano à volta das ancas, um pano cujo padrão era feito de trepadeiras verdes, lindas trepadeiras verdes com enormes folhas estilizadas que faziam lembrar as folhas de cana-da-índia. Lungi era como chamavam àquele traje na índia. Lindo. Maravilhoso. Impressionante! Ficava-lhe tão bem que Rick teve de se concentrar nas trepadeiras e nas folhas, por não conseguir olhar para o rosto dela.

 

-Finalmente - exclamou Maya. «Sim», pensou ele, «finalmente... »

 

o interior do barco fazia prova do bom gosto do dono: na mesa havia copos de pé alto, pratos de porcelana e pequenos candeeiros em estilo arte nova, feitos à mão. Um candeeiro iluminava o arroz branco com grãos bem definidos, as tigelas com diferentes legumes e molhos e uma grande travessa com peixe frito.

 

-Porque é que não te sentas?

 

- Porque estou tão impressionado que não consigo. E porque me pergunto a mim próprio como terás conseguido preparar isto tudo em apenas cinquenta minutos!

 

- Quarenta e cinco - retorquiu Maya, e os seus olhos castanhos em forma de amêndoa encheram-se de um orgulho de dona de casa. Rick imaginou-a numa habitação de madeira exótica, algures num país exótico... Em Ipoh, talvez? Não, ela passara a juventude em Ipoh. Depois mudara-se para Jorak, aquele sultanado... Mas como se chamava a cidade?

 

Rick sentou-se.

 

-Nunca teria imaginado que uma rapariga como tu seria capaz de preparar uma refeição destas.

 

-Tu mal me conheces, Rick.

 

- Pois é - respondeu ele. - Isso é verdade... E agora, devo formar bolinhas com o arroz e metê-las no molho? E comer o peixe com as mãos?

 

- Não, não és obrigado a fazer nada disso. Afinal eu também não o faço. Mas assim saberia melhor, acredita em mim.

 

Rick provou, voltou a provar e o sabor preencheu-lhe o céu da boca: um sabor rico, que ardia na língua e tinha um leve toque doce e picante ao mesmo tempo. Mil e uma noites... Maya até lhe serviu vinho. Parecia obcecada no papel de dona de casa indiana e submissa...

 

- Rick! Porque é que estás a olhar assim para mim?

- Não posso?

 

-Isso não é uma resposta. Rick sorriu:

 

-Estou a olhar assim, porque com esse traje ficas tão bonita que me interrogo sobre o que aconteceria se aparecesses assim no escritório. Porque é que não experimentas?

 

- Um lungi fica bem à maioria das raparigas. Só que os ingleses nunca compreenderão isso. Talvez tenha a ver com o clima. Ou com o facto de as inglesas serem todas muito magras....

 

Maya deu-lhe mais uma tigela de arroz.

 

- Este é de gengibre - informou. - E o gengibre nem é muito velho. Acho admirável encontrar-se gengibre fresco aqui, nos supermercados espanhóis.

 

Rick recostou-se ligeiramente para trás.

 

- Mas eu também estava a olhar para ti por outro motivo.

 

- Qual era?

 

- Há pouco disseste que estavas farta do trabalho. Realmente, uns tentam estrangular-te, outros matar-te a tiro e isso tudo talvez seja de mais para uma rapariga. Não é de admirar que estejas farta do trabalho.

 

- Isso não tem nada a ver, Rick. Além disso vou continuar. Acredita em mim... - Maya hesitou, respirou fundo e depois continuou: - Este trabalho é a única coisa... não, é a coisa mais importante na minha vida. Se não fosse o meu trabalho, provavelmente já teria enlouquecido. Não sei o que seria de mim, sem o meu trabalho. E, por isso, estou-te muito grata.

 

- Estás?

 

-Mas esta não é a minha terra, Rick. Atum no mar Mediterrâneo... Cartum... Elefantes... Lixo atómico em Inglaterra--- No país de onde eu venho existem coisas completamente diferentes.

 

-E é por isso que queres voltar para a Malásia? Maya ficou calada.

 

-Não sei. Ainda não sei. Provavelmente... - disse por fim.

 

- Pelo que eu conheço de ti, Maya, também poderias trabalhar como jornalista. Tens talento para tal. Eu poderia...

- Tu não podes nada - interrompeu Maya, bruscamente. - Não podes, nem deves.

 

A ideia de não saber de Maya, de perder o contacto com ela, de deixar de ouvir a sua voz, pô-lo num estado de pânico que o impediu de falar. Partiu o pedaço de pão que segurava nas mãos. Ela fitou-o fixamente.

 

De repente, Maya levantou-se, foi à cozinha buscar uma tigela com uvas e pousou-a na mesa. Tirou duas e depois uma terceira, pô-las na boca e passou a língua pelo lábio superior. Permaneceu calada, fitando-o o tempo todo.

 

- Vou-me embora, Rick - proferiu por fim. -E o que vai acontecer depois?

 

- Não sei.

 

- Essa decisão tem a ver com teu pai? Maya sentou-se.

 

O que sabes tu sobre ele? -Nada. Apenas sei que está morto. -Morto? Ele não está morto. -Enfim, desaparecido. Há cinco anos. -Foi a Judy quem te contou isso.

 

- Foi.

 

Tirou mais uma uva do cacho e fê-la rolar na palma da mão.

 

-Tudo na minha vida tem a ver com ele - disse Maya. - Tudo o que eu faço e penso. É isso. E tudo o que eu alcanço também. Tal como todos os disparates que faço. Ficou calada.

 

Rick esperou. Pegou no maço de cigarros e acendeu um. Inalou o fumo. Pela escotilha entrava o suave barulho das ondas a baterem contra o pontão. o barco inclinou-se.

 

- Vou levar a minha câmara comigo - disse Maya. Claro que poderia comprar uma nova, mas agora já me habituei a esta.

 

- Da mesma forma que uma pessoa se habitua a uma arma - Maya concordou com a cabeça.

 

- É estranho, Rick, por vezes é exactamente isso o que eu penso. Quando ponho a câmara no ombro, quando sinto o seu peso e carrego nos botões, tenho a sensação de estar a disparar uma arma. E... e isso faz-me sentir bem...

 

Podia-se ver pela sua cara que sentia aquilo que dizia. -No fundo é uma pena ser uma Sony - prosseguiu.

- Devia ser uma Canon. Ou uma Sanyo ou Nikkon... Sabias que essas empresas todas estão envolvidas? Nissan, Canon, Sanyo, Toyota, Fudji, Daihatsu e todas as outras. Grandes grupos poderosos. E por esta razão, tal como pelo facto de a exportação da madeira das florestas tropicais ser tão lucrativa, os Japoneses investem na Malásia, fundam bancos, empresas fantasmas e sociedades comerciais. Quase todos os grandes cartéis japoneses estão envolvidos na destruição das florestas tropicais. Claro que não são os únicos. Mas graças aos seus negócios comerciais, aos capitais e àsjoint ventures são elas que dominam o comércio de madeiras tropicais a nível mundial. Primeiro foi a vez da Indonésia, depois Bornéu, as Filipinas e agora chegou a vez do Oeste da Malásia e de Sarawak. Depois atacarão a América do Sul. Se em vez de uma Sony eu tivesse uma Nikkon, ao menos teria a sensação de estar a atingi-los com as suas próprias armas.

 

Maya falava rapidamente. Dizia frases curtas, sussurradas e rápidas, e o seu sotaque inglês aproximava-se cada vez mais do americano. Encostou-se para trás.

 

Há pouco falaste no meu pai, Rick. Era a tudo isto que ele se opunha. Era por isso que ele lutava. E também...

- E também?

 

- Pelos tigres. Mas no fundo é a mesma coisa. Sem floresta não há tigres.

 

Rick não respondeu. Não sabia o que dizer.

 

Maya estava de braços cruzados. Os seus ombros brilhavam. Voltou a sorrir, com um sorriso que ele nunca vira nela: um sorriso que tremia. Nervoso e agitado e muito distante.

 

- No lugar onde eu vivo - disse Maya, e Rick reparou que era a terceira vez que utilizava aquela expressão: no lugar onde eu vivo. Dizia sempre no lugar onde eu vivo e nunca no meu país. - No lugar onde eu vivo, no sultanado de Jorak, existem as últimas grandes superficies florestais. Aquilo é pura floresta virgem. Há milhares de anos que ali existe a selva. A paisagem é muito bonita, montanhosa e com muitos rios. - Pronunciava cada palavra muito devagar, como se tivesse de pensar antes de proferi-las. - Enfim, nem preciso de te explicar como é, afinal tu conheces esse tipo de vegetação.

 

- Sim, conheço.

 

- Desde pequena, o meu pai levava-me para a floresta. Na Malásia praticamente só resta uma única zona que realmente merece a designação de reserva ecológica: Taman Negara. Fica no Sul do país. Na época dos Ingleses, estes empenharam-se em que a floresta fosse preservada. Mas, actualmente, várias empresas de madeira de Taiwan e do Japão e algumas canadianas já apresentaram planos de reflorestamento. Se conseguirem avançar, apenas restará o sultanado de Jorak. Mas aquilo que era mais importante para o meu pai é que nas montanhas de Jorak vivem os últimos tigres da Malásia. - Maya bebeu um gole de vinho. Vivem? Sobrevivem. E isso, por enquanto.

 

Rick Martin esperou que ela continuasse. Mas Maya mergulhou num silêncio profundo, quase como se estivesse em transe.

 

- Preferes não falar nisso?

 

- Falar? É uma coisa que tem de ser vivida... A floresta era maravilhosa. Tantas vezes lá estivemos. Por vezes ficávamos durante semanas na estação.

 

-Na estação?

 

- Sim. o meu pai tinha uma estação de observação e acompanhamento dos tigres. o Omar Hassan, o sultão, era um cretino. Não, cretino talvez não seja a expressão correcta, ele era infantil... Porém, adorava tigres. o meu pai conseguiu entusiasmá-lo por eles. E foi por isso que o sultão deixou toda a zona à responsabilidade do meu pai. Mais tarde, quando se tornou membro da delegação malaia em Nova lorque, o meu pai iniciou a primeira grande campanha de protecção das florestas tropicais do Sul da Ásia. Fê-lo sobretudo pelos seus tigres. E nessa altura ainda havia muitos. Centenas. Mas hoje em dia... - Maya encolheu os ombros,

- Vamos mudar de assunto. Não adianta falarmos nisso.

 

Hoje em dia? o que significava isso para Maya? Que nada era como antes. o pai e o sultão - ambos mortos. E em breve os tigres provavelmente também... Rick não o sabia. Lera artigos sobre o assunto, transmitira um programa na WC sobre o desaparecimento dos tigres em Bométi e Bali, e sobre a extinção total do tigre em Java. Agora, porém, todo o seu saber lhe parecia superficial.

 

Para Maya, pelo contrário, aquele assunto era a coisa mais importante na vida. Mas apesar disso não gostava de falar nele. Maya - uma mulher com tantas facetas desconhecidas, toda ela um grande mistério...

 

Rick ajudou a levantar a mesa e a lavar a loiça. Quando estava a dobrar a toalha, Maya tirou-lha das mãos.

 

- Há pouco disseste que o meu pai está morto, não foi? perguntou.

 

-Eu apenas...

 

- Ele não pode morrer. -Não pode?

 

-Na floresta que eu conheço vivem os Senoi, uma das últimas tribos originais da Malásia. Segundo os Senoi, todos os homens e todos os animais morrem. Mas dizem também que existem homens e animais... entre os animais são normalmente os tigres... que não podem morrer... Simplesmente não podem... Vivem eternamente.

 

A voz de Maya parecia tão clara e calma como se estivesse a falar de algo que era evidente.

 

-Nesses animais e nesses homens vive o Bali Tana, que exige que permaneçam eternamente na floresta, sempre atentos, para garantir que a vida continue. Compreendes?

- Estou a tentar... E quem é Bali Tana?

 

- Bali Tana? É a alma da terra.

 

Maya abanou a cabeça e sorriu. Parecia-lhe indiferente se Rick compreendia ou não.

 

Bali Tana?...

- Queres?

- Perdão?

 

- Estou a perguntar-te se ainda queres uvas. Rick fitou-a, confuso.

 

Ela pegou na tigela e pousou-a na bancada da cozinha.

 

Rick sentia-se como se estivesse longe, muito longe, numa floresta com tigres, homens e espíritos. o alto na sua cabeça doía-lhe. Fechou os olhos e pôs a mão na cabeça. Sentiu o suave toque das mãos de Maya nos seus ombros. Ela aproximara-se por trás, sem que Rick a tivesse ouvido. As suas mãos repousavam nos seus ombros, leves como penas, ficando depois mais pesadas, quando apertou os músculos de Rick e pressionou as pontas dos dedos por cima das clavículas.

 

Rick não se mexeu. Ficou atento ao toque, àquela energia que parecia fluir da ponta dos dedos de Maya.

 

- Estás muito tenso.

 

- Isso já passa. Passa rapidamente.

- Achas...

 

Sentiu a respiração de Maya perto do seu ouvido. A mão direita dela afastou-se do seu ombro e passou pelo cabelo, procurando o alto na parte de trás da cabeça. Quando o encontrou, parecia difundir uma brisa de frescura.

 

- Está a ficar melhor?

 

Sim, estava a ficar melhor, estava a ficar muito bom. A dor desapareceu, como se nunca tivesse existido, Sentiu um tecido de algodão na face e a pressão quente e suave dos seios de Maya. Fechou os olhos e escutou a respiração dela. Ficou à espera... De quê? Sentiu o seu membro viril erecto, a exercer pressão nas calças. Doía-lhe e Rick pensou que ela iria reparar, tinha de reparar..

 

A pressão ficou mais forte. Inclinou a cabeça para trás, encostou-a aos seios de Maya e julgou ouvir o seu coração. Estendeu o braço para trás, apanhou o nó do traje de Maya. Ela riu-se e tentou fugir. Rick ergueu-se. Os cipós verdes tinham-se deslocado, o lungi escorregara ligeiramente para baixo, destapando uma parte do mamilo direito de Maya, que parecia o semicírculo de um pequeno sol nascente sob uma faixa escura. Os olhos, aqueles olhos, eram uma tentação negra. «Preciso de ti... » A testa de Ríck ardia. «Preciso de ti!»

 

Maya foi à frente e o seu andar parecia diferente. As suas ancas baloiçavam, os seus movimentos eram elegantes e fluidos: tigres que vivem eternamente?... Santo Deus, se havia uma mulher que tinha qualquer coisa de um tigre dentro de si, era Maya!

 

Rick esticou o braço para lhe tocar, mas ela adivinhou o seu gesto e escapou. Maya abriu a porta e Rick segurou-se à ombreira...

 

«Dois metros por um e sessenta», dissera o tipo dos barcos. «King-size.»

 

E lá estava ela, deitada no rectângulo às riscas azuis e douradas, com o joelho direito ligeiramente flectido. Os cipós e as flores deslizaram pelas suas coxas, desnudando as pernas bronzeadas. Dentes brancos na penumbra. Cabelos pretos e brilhantes.

 

Ela era o cúmulo da beleza e da sedução e estava deitada assim, à sua frente. o seu membro viril palpitava. Há meses que não estava na cama com uma mulher.

 

Viu que Maya não vestia nada por baixo do lungi. Ela planeara aquilo...

 

Viu o pequeno alto, a fenda cor-de-rosa e ficou paralisado, como se fosse a primeira vez que olhasse para os órgãos genitais de uma mulher. A língua dela, os olhos, o sorriso, os seus movimentos e depois a gargalhada que soltou, quando Rick abriu o cinto num gesto desajeitado, tirou as calças e se segurou a ela para não cair ao chão.

 

Maya rolou para o lado. Queria brincar.

 

De novo, um riso. Tão agudo e claro como se fosse uma menina. Rolaram para o canto, para o chão da cabina. As unhas de Maya deixaram marcas longas na pele dos seus ombros. Rick permaneceu de olhos fechados. Ouvia a respiração de Maya, as palavras que não compreendia, sentia os seus beijos, as leves mordidelas, os mamilos endurecidos que roçavam o seu membro viril e a mão dela que o guiava, e o agarrava com força, só o soltando já dentro dela, no calor vibrante e suave de Maya.

 

Ela gritou e ele respondeu. Um som selvagem e rouco saiu-lhe da garganta e, enquanto Maya entrava no ritmo, ele sentiu-se como se toda a sua força, toda a sua vida e tudo o que ele era se concentrasse nesse único ponto dentro do corpo agitado de Maya.

 

- Não... não... não... oh não...

 

Rick abriu os olhos. o peito dela saltava. Parecia aquela deusa hindu de cujo nome não se lembrava. Sim, era uma verdadeira deusa que estava sentada em cima dele. o cabelo de Maya voava como asas negras de um corvo, chicoteando-lhe a cara. Numa luz suave e tendo como pano de fundo a madeira escura das paredes, Rick viu o rosto alterado e distorcido de Maya, que nem parecia pertencer-lhe. Dentro da sua boca muito aberta viam-se os dentes fortes e brancos, que captavam toda a luz. A deusa dos tigres...

 

- Não, não, não...

 

oh, não! Rick não queria, não podia. Mas quem é que se consegue manter na ponta da agulha sem cair? Rick não queria cair. Não...

 

Pressionou o braço contra o corpo dela e empurrou-a, libertando-se. Maya gemeu, furiosa. Rick virou-a, agarrou-a pela cintura, ouviu-a arfar e gritar e voltou a penetrá-la. Maya dava murros na almofada. Pingos de suor caíam do peito de Rick para os seios de Maya. o seu coração batia com força. o suor nos ombros de Maya brilhava. As madeixas do cabelo preto enrolavam-se como serpentes.

 

Rick tinha a respiração ofegante. À sua frente via a janela azul do camarote. E lá fora as luzes que dançavam. Saltavam para cima e para baixo.

 

-Rick! Rick, por favor..

 

Ele segurou-a, teve de segurá-la. Nunca vira nada assim... Nunca! Era impossível. Era como afundar-se, não, como pôr o céu em chamas. As chamas ardiam... Rick explodiu como um fogo-de-artifício, debruçou-se sobre ela e depois pousou a face no rosto molhado de Maya. Julgou ouvir algo, ouviu, não, sentiu um risinho dentro dela.

 

-Meu Deus, Rick... Nada mau Para um homem com bengala.

 

Um homem com bengala... A cicatriz doia. Já há algum tempo que doía. Um homem com bengala? Não podia ter dito outra coisa?

 

Rick passou as mãos pelos ombros de Maya e sentiu o suor. Ela tinha os olhos fechados. A sua boca tremia e Rick reparou que estava a chorar.

 

- Rick - sussurrou ela.

- Sim?

 

- Rick, o que é que nós fizemos? Rick, o que foi isto?...

 

Rick beijou-lhe a orelha. Maya tremia. Afundou a cara na almofada...

 

Nessa noite Rick Martin sonhou que andava perdido num enorme edifício subterrâneo. Corria por longos corredores, túneis e passagens, contornando esquinas e só compreendeu que se encontrava numa estação de metro quando viu um comboio aproximar-se. Uma porta abriu-se. Era a porta da cabina do maquinista. Rick entrou. o comboio começou a andar, cada vez mais rápido, com um barulho estrondoso, avançava a uma velocidade estonteante, as luzes passavam rapidamente e ao olhar para os trilhos reconheceu que o comboio estava a acelerar, avançando cada vez mais rapidamente, mais fundo, mais rápido e mais fundo, mais rápido, mais rápido...

 

Rick gritou e acordou.

 

A luz do Sol entrava pela janela.

 

O barco baloiçava suavemente. A luz dourada do Sol iluminava a madeira e o latão. Através da janela, Rick viu um barco à vela aproximar-se do farol. No barco, um homem gordo e de cabelos brancos estava a içar as velas juntamente com uma jovem rapariga.

 

Ao seu lado, a cama estava vazia. Viu os lençóis amarrotados, os sapatos no canto, a sua roupa, o lungi no meio do chão, tentou orientar-se e lembrar-se do que acontecera. Mas como?!

 

- Maya!

 

Lá fora no cais ouviam-se vozes. Dentro do barco reinava o silêncio.

 

Rick levantou-se. A cozinha e o salão estavam muito bem arrumados e iluminados pelos raios de sol. o resto das uvas encontrava-se numa tigela de prata no centro da mesa. Viu a sua mala e o saco de viagem ao lado das escadas, prontos para a partida.

 

Maya também se encontrava no convés.

 

Rick tomou banho, vestiu-se rapidamente, pegou na bengala e percorreu o cais a coxear.

 

Quando chegou à estrada, finalmente descobriu Maya. Sentada num café perto do Clube Naval. Enquanto bebia o seu café escrevia algo num bloco.

 

- E eu que queria tanto tomar o pequeno-almoço contigo no barco...

 

Maya ergueu o olhar e afastou uma madeixa de cabelo da cara.

 

-Não quis acordar-te. Mas olha que aqui também se pode tomar o pequeno-almoço.

 

Rick sentou-se e pediu um café e um croissant ao empregado que se aproximou, solícito. Maya não disse nada, simplesmente continuou a escrever. Ela estava diferente. Ela? Não, tudo.

 

- o que foi, Maya?

 

Maya acabou de escrever a frase, pôs a tampa na caneta e esboçou um ligeiro sorriso. Era um sorriso lento e triste.

- Eu pensei muito nisto, acredita em mim, Rick.

 

- Em quê?

 

- Já fui à agência de viagens. Aqui está. - Entregou-lhe um bilhete de avião. Lufthansa. - Vou-me embora. o coração de Rick deu três batidas fortes, depois voltou ao ritmo normal.

 

- Tem de ser, Rick. Depois do que se passou na noite passada. Sinto-me muito confusa... Tenho de me ir embora, Rick. Não te peço que compreendas, mas tenho mesmo de ir.

 

- Mas porquê? - Rick tentou fixar-lhe os olhos, mas ela evitava-o.

 

- Eu devia ter previsto esta situação. No fundo sabia que isto iria acontecer. - Maya segurou a mão de Rick, mas logo voltou a largá-la. - Gosto muito de ti, Rick. É esse o problema. Mas tem de ser. Acredita em mim... Apontei tudo neste bloco. As moradas, os números de telefone. Os nomes das pessoas importantes. Deixo-te cá as cassetes. Posso levar a câmara comigo?

 

Rick assentiu com a cabeça. Tinha as unhas cravadas na toalha de mesa.

 

- Deixo também todos os outros papéis. E, de qualquer maneira, Rick, tu como chefe da agência tens muito mais hipóteses que eu. Apontei o nome do restaurante chinês em Cala d’Or e o nome do proprietário.

 

Rick voltou a anuir com a cabeça. Um barco ia sair do porto e começou a dar a volta. Rick observou-o.

 

-Uma verdadeira deserção, então?

- Sim, Rick. Creio que é isso.

 

- E quando...?

 

- Quando me vou embora? Agora, já. o voo parte às onze e quarenta. Preciso de uma hora para chegar ao aeroporto.

 

-Vais para... Londres?

 

Não, para Frankfurt. E de lá sigo para Nova lorque.

- Eu levo-te ao aeroporto.

 

Maya voltou a pegar na mão de Rick por alguns instantes.

 

-Não faças isso, por favor, Rick. De qualquer maneira tenho de entregar o carro no aeroporto.

 

o barco dera a volta e agora dirigia-se para a saída do porto.

 

- Por favor, Ríck - disse Maya -, não tornes as coisas mais difíceis do que já o são. Eu sei o que se passa na tua cabeça. Mas não digas nada. Além disso, o trabalho não é assim tão difícil. Tenho a certeza de que conseguirás acabá-lo sozinho...

 

Vinte minutos depois, Maya estava a pôr as bagagens no carro, Ligou o motor, apitou em sinal de despedida e Rick ficou a olhar para o Panda de aluguer que se afastava lentamente, desaparecendo por fim atrás de um grande camião carregado de cascalho...

 

O trabalho não é assim tão difícil... »

 

«Tenho a certeza de que conseguirás acabá-lo sozinho... »

 

Rick pediu um conhaque. Acabou por beber muitos mais, sozinho no barco, e depois deitou-se. Nessa noite, lembrou-se de uma estratégia dos pescadores noruegueses para escaparem aos controlos: tornavam as redes invisíveis ao fixarem-nas a bóias, que as mantinham a uma certa profundidade. Depois dos controlos, bastava voltar a aproximá-las dos barcos.

 

No dia seguinte, Rick Martin foi para Palma, após um breve aviso telefónico à Guardia Civil. Conversou durante uma hora com o comandante Romero - «Essa sua colaboradora era muito empenhada! Que mulher mais fascinante!» -, contou o que acontecera com a «mulher fascinante» e, enquanto ainda se encontrava no escritório de Romero, obteve a autorização do Ministério da Justiça para uma busca ao Restaurante Lotus na Cala d’Or e à mansão particular do seu proprietário.

 

Três dias depois, dois barcos de Taiwan foram apanhados pela Guardia Civil em alto mar numa zona em que era proibido pescar. As redes foram confiscadas. Tudo se passou durante a noite. À mesma hora, às três da manhã, numerosos agentes da polícia cercavam o Restaurante Lotus e ocupavam a mansão de Wong Poon. No cofre da casa, para além de inúmeras provas de que Wong Poon participava nos lucros das pescas, foram encontrados doze quilogramas de cocaína pura.

 

Worig Poon e o pescador Pere Pons, do qual se suspeitava ser responsável pelo transporte da droga, foram presos. Uma segunda inspecção mais cuidadosa das barcaças tailandesas e do barco principal, que se encontrava em águas internacionais, não deram resultados. o caso gerou polémica nos países mediterrânicos. Foi mencionado exaustivamente na televisão e na rádio e o conselho da comissão responsável em Bruxelas decidiu decretar uma nova lei que visava aumentar o controlo desse tipo de redes.

 

Rick Martin, por seu lado, apresentou uma reportagem sobre o tema na sua emissão semanal na BBC. Mostrou as cassetes vídeo de Maya Nandy, apesar de não mostrarem muito mais do que um bonito porto mediterrânico, uma taberna tipicamente maiorquina, na qual se ouvia um rádio que transmitia algumas palavras incompreensíveis em espanhol e um igualmente típico pescador maiorquino que carregava bidões de gasolina no seu barco.

 

o programa de Martin era transmitido duas vezes por mês, às terças-feiras, às onze da manhã, uma hora que estava longe de ser o horário nobre. Mas era visto por muitos reformados e inúmeras escolas. o programa sobre as redes de pesca finalmente foi transmitido, já em meados de Outubro. Era um dia de Outono cinzento e nublado e chovia ligeiramente.

 

Rick acabara de chegar ao escritório quando a secretária lhe pôs um fax na mesa. Vinha de Nova lorque, o remetente era uma tal Sunrise Company sediada em Nova Jérsia. Dizia o seguinte:

 

«Rick, acabei de ver o teu programa e tive má consciência ao lembrar-me do dia em que te deixei pendurado em Espanha. Mas parece que afinal conseguiste resolver bem o caso. Foste brilhante... Como sempre. As imagens, essas são amadoras.

 

Penso muito, mesmo de mais, em ti e tenho esperança na verdade tenho a certeza - de que me tenhas perdoado. Tenciono ir para Singapura em breve e de lá continuar para a Malásia. Deves imaginar de que projecto se trata. Gostaria muito de voltar a trabalhar convosco. o que é que achas?... »

 

Que pergunta!

 

De repente Rick interrogou-se sobre o facto de ter conseguido suportar os últimos meses sem notícias dela. Tinham-lhe dito que Maya telefonara três vezes. Da primeira vez, Rick mandara dizer que estava ausente. o nome de Maya ainda o perturbava. Os outros dois telefonemas tinham sido recebidos por Pit O’Neil, quando Rick estivera realmente ausente.

 

No entanto, durante todo esse tempo, Rick dedicara uma crescente importância àquilo a que Maya costumava chamar de «o meu projecto». Tinha perfeita consciência de que era sobretudo o facto de Maya estar ligada a esse projecto que o levava a tentar convencer, ou antes a obrigar a agência a tornar a destruição das florestas tropicais o ponto forte da próxima campanha. Nem sempre fora fácil avançar com esse projecto.

 

-Tigres, tigres! - exclamara Pit O’Neil, furioso. Tu já transmitiste um programa sobre tigres... Bem, confesso que além das focas, das baleias e dos elefantes, realmente não existe assunto mais interessante no âmbito da protecção das espécies. E poderíamos aproveitar para falar do desaparecimento das florestas tropicais. A Maya estava sempre a falar nisso. Digo-te, essa maldita mulher teria sido ideal para esse projecto. Ela estava bem informada, mesmo muito bem informada... E os projectos ligados à protecção das espécies sempre foram um sucesso. É um assunto que agrada às pessoas. Mas viste o que a Maya nos fez? Deixou-nos pendurados... Se conseguíssemos que ela voltasse a colaborar connosco, eu estaria muito mais confiante no que diz respeito a esta campanha.

 

«Tu?», pensara Rick. «Eu é que ficaria satisfeito!»

 

E pela centésima vez, Rick questionou-se acerca da razão por que Maya fora para Nova lorque. Sabia que lá existia um advogado que era muito importante para ela: o advogado que se ocupava do caso do desaparecimento do pai.

 

«Tudo o que eu faço tem a ver com o meu pai... » Apesar da renitência demonstrada dentro da agência, Rick Martin aproveitara todos os seus conhecimentos para preparar a nova campanha - ou melhor, tentara aproveitá-los. Não fora fácil. Os países da Ásia do Sul, que se apelidavam de «estados do tigre», eram oficialmente democráticos, mas, quando se tratava do rápido crescimento económico e de aspectos relacionados com a industrialização, eram governados exclusivamente por uma camada superior da sociedade, altamente corrupta, a qual agia segundo princípios de direito e ordem extremamente rígidos, que consistiam na exploração implacável dos recursos naturais existentes.

 

Quem quer que se revoltasse contra a destruição da natureza era considerado inimigo do Estado e era combatido com a ajuda das leis marciais que em tempos haviam servido para combater as guerrilhas comunistas.

 

Os poucos ambientalistas que existiam nesses países tinham uma vida difícil e as organizações ambientais eram pouco eficazes.

 

Apesar disso, o trabalho avançava.

 

Rick Martin descobrira que em Singapura existia uma organização chamada Friends of Earth e que intervinha igualmente na Malásia.

 

Após longas negociações, a organização concordara em colaborar. Singapura parecia-lhe um ponto de partida ideal para aquele projecto. Era um país modelo para os países vizinhos. Os bancos, as empresas de comércio, as grandes companhias da indústria, tal como os principais exportadores de madeira estavam sediados em Singapura. o tigre era o símbolo da cidade. Se até mesmo aquela cidade modelo vendia a «medicina do tigre», ignorando as leis devido a uma crença popular absurda, então seria um bom ponto de partida. Primeiro o tigre, depois a exportação de madeira. Era essa a estratégia da agência.

 

Rick pensou se ele próprio não deveria ir para Singapura. Mas na verdade todo o projecto dependia de uma única pessoa: Maya Nandi...
A vida é uma aventura...

 

Houve, por exemplo, tempos em que J. P. vendera todo o tipo de pinturas em pele ou imitações de colares índios feitas à mão, por trás da Gare de Lião em Paris.

 

Os tempos passados em Saigão também tinham sido bastante emocionantes. J. P. fora enviado com o Terceiro Batalhão do Sexto Regimento da Legião Estrangeira para a Indochina, mas rapidamente sofrera um ferimento grave. Seria esse incidente que mudaria radicalmente a sua vida e a sua psique... Quando os Franceses tiveram de entregar o Vietname aos Americanos, J. P. continuara convencido de que encontrara a sua nova pátria. No início trabalhara como dono de um bordel. Depois voltara a dedicar-se ao seu talento artístico e decidira vender desenhos de um extremo mau gosto que mostravam raparigas exóticas completamente nuas, desenhadas por estudantes vietnamitas mal pagos. Vendia-os numa galeria em Saigão e os seus principais clientes eram os GIs.

 

Graças ao seu novo patrão, conseguira finalmente entrar no mundo dos negócios. Mas os negócios por vezes causavam muitas dores de cabeça.

 

Hoje, J. P. estava de mau humor. Conduziu a sua motocicleta Gold Wing por Zaharah Jalan e depois por Ismail, chegando finalmente ao Bazar Islana, onde estava a ser montado o mercado que deveria acolher as massas de turistas que chegariam à noite a Singapura, vindos de Johor, para comer um satu goreng malaio ou consumir uma das raparigas igualmente baratas.

 

Estas encontravam-se nas entradas escuras dos girly-bars, vestidas de calções ou minissaias.

 

  1. P. Bernier parou a sua enorme Gold Wing em frente ao salão de cabeleireiro de Tim, mandou fazer a barba e pôr pó de talco na cara, e pediu que lhe aparassem os escassos mas longos cabelos dourados, já ligeiramente brancos, que deixavam transparecer uma careca queimada pelo sol e que costumava usar atados num rabo-de-cavalo. Tim atendeu-o pessoalmente. o salão de Tim, um malaio homossexual, era muito elegante.

 

-Não queres que te pinte o cabelo? -Estás maluco?

 

- Posso dar uma volta contigo na tua Gold Wing?

- Deves estar doido!

 

Tim suspirou.

 

O teu cabelo está extremamente sujo e maltratado. Sujo e maltratado... Bernier estava furioso. «Às dezanove horas quero-o no meu escritório, J. P.», dissera-lhe o patrão ao telefone. «E não se atrase.» Em sinal de protesto, J. P. decidira não pôr gravata e vestir a roupa mais extravagante que possuía. Se queria um risco ao meio?! Olhou fixamente para a orelha de Tim.

 

-Ouve lá, esse anel que usas na orelha, tens um igual na pilinha?

 

Tim olhou à sua volta, assustado. Apenas havia um tenente da Marinha americana num canto do salão, a quem estavam a aparar a barba.

 

- Ouvi dizer que os maricas adoram isso... - J. P. levantou-se, ergueu a mão, foi-se embora sem pagar e sentou-se na sua moto.

 

Os cheiros típicos da feira envolveram-no. Era um cheiro a marisco e a vegetais e frutos apodrecidos.

 

  1. P. acelerou... passou pela estação de comboios, que era um enorme estaleiro e pelo edifício da Telecom e depois pelo terminal de autocarros. Ao lado dos autocarros para Butterworth e para a Tailândia, longas filas de táxis, Proton, Nissan e Honda novinhos em folha, esperavam por passageiros. o trânsito estava congestionado no acesso a Cause Way, o caminho que se estendia por um estreito e ligava a Malásia a Singapura.

 

Os funcionários da alfândega malaia reconheceram a Gold Wing e deixaram-no passar sem problemas. Bernier usava um capacete extravagante decorado com dragões e vestia calças de tecido estampadas que esvoaçavam ao vento.

 

Do lado de Singapura mandaram-no descer da moto. Em Singapura, tanto os polícias como os funcionários da alfândega usavam botas e lenços de seda à volta do pescoço. Ali os porta-bagagens eram revistados e o mesmo aconteceu com o saco de viagem de Bernier. Naquele país reinava a disciplina e a ordem. A fronteira representava uma passagem radical do Terceiro Mundo para um Estado modelo como não existia outro no mundo inteiro.

 

  1. P. acelerou e o motor uivou.

 

o alcatrão era liso como seda. À beira da estrada havia filas intermináveis de casas em cor pastel. o bairro fora construido há dois anos pela East Coast Constructions de Philip Wang Fu. Incluindo a central hidráulica.

 

Bernier olhou para o relógio: dezassete e vinte. Não iria chegar a horas.

 

Seguiu-se uma pequena descida, Ao fundo, à direita, adivinhava-se, através do nevoeiro húmido, o Kranji War Memorial, branco e fantasmagórico, um monumento em homenagem às vítimas da ocupação japonesa durante a Segunda Guerra Mundial que parecia uma nave fantasma cinzenta que pairava sobre o solo. Ao lado, o azul profundo das barragens. E lá estava ela, reluzente e branca, abraçando a baía de todos os lados, como um polvo: Singapura, a cidade do leão!

 

E apesar de se encontrar a uma grande distância da cidade, J. P. Bernier conseguiu distinguir por entre o mar de arranha-céus aquele em que o esperavam: o Silver Tower, reluzente e prateado...

 

Todos os quarenta e um andares que se encontravam sob os pés de Philip Wang Fu, já tinham sido alugados - pelo menos no papel - a agências, filiais de empresas, organizações estatais e privadas, mas sobretudo a representantes comerciais estrangeiros, provenientes do mundo ocidental.

 

Os cálculos tinham, portanto, batido certo. Felizmente.

 

Afinal, mesmo para um poderoso grupo         como o de Wang Fu, aquele projecto não estivera livre de riscos, o Silver Tower custara quatrocentos e quarenta e quatro milhões de dólares. Os alugueres eram elevados de mais para que pudesse utilizar o edifício como central da sua própria empresa.

 

A administração da East Coast Industries e da East Coast Traders, que eram os pilares da empresa, da qual faziam parte igualmente as escavações de estanho malaias, as cadeias de hotéis, as companhias de navegação e as companhias aéreas regionais da Malásia pertencentes a Wang Fu, continuava instalada numa zona má da cidade, perto do bairro chinês, atrás da New Bridge Road. Quando viera da Malásia para Singapura, Philip instalara o seu primeiro escritório nessa zona e depois fora sucessivamente comprando os terrenos à volta. Instalara um dos mais modernos sistemas electrónicos de comunicação existentes em Singapura para resolver os problemas administrativos e outras tarefas e justíficara-se dizendo: «Não me importo com o suor dos coolies, mas acho a transpiração dos gerentes insuportável.»

 

o Sílver Tower era uma grande obra. Wang Fu tinha muito orgulho nela. E o facto de ser nesse edifício que agora recebia Harry Tsi Feng pareceu-lhe o ponto no «i». Harry era um homem impressionante. Os seus contactos com o mundo das finanças e do poder naquela região eram tão impressionantes como a soma de capitais que movia com um simples carregar de botão. Harry tinha residências em Macau, Hong Kong, Singapura, em Nova lorque, Londres e na Suíça. Além disso possuía um iate, o Sea Queen. E um Boeing particular que estava sempre à sua disposição. Era extremamente difícil conseguir arrancá-lo de um dos seus esconderijos, nos quais preparava minuciosamente a sua próxima intervenção. Wang Fu orgulhava-se de o ter conseguido e de, ainda por cima, poder recebê-lo no Silver Tower!

 

- Bonito, muito bonito. - Harry indicou com a mão, num gesto condescendente, os livros nas estantes, a madeira de teca polida, o verniz reluzente, os tapetes, a chaminé de mármore e as tapeçarias de seda. A sua cara - uma cara que à parte os óculos de massa era extremamente discreta, tão discreta como o fato e a gravata cinzentos que vestia mostrava um ligeiro sorriso: - o teu ponto de apoio em Johor parece estar a tornar-se cada vez mais importante para ti.

 

- Importante? Um quai looh? Diria antes que é útil. Sim, o Bermer é um colaborador útil. Em alguns casos é mesmo extremamente útil.

 

Bernier conduziu a sua moto pelo parque de estacionamento até à garagem subterrânea. o portão automático abriu-se silenciosamente. Tse Ho, o porteiro, apareceu e com o seu uniforme de camisa branca e gravata preta estava tão bem vestido como um empregado da bolsa. o seu casaco era cor-de-rosa e as calças cinzentas - a combinação de cores preferida de Wang. As raparigas no escritório também estavam todas vestidas de cor-de-rosa e cinzento.

 

- Oh, Mister Bernier! Que bom voltar a vê-lo. E à sua máquina também! - o empregado pousou a mão no verniz metálico do farol da Gold Wing, num gesto carinhoso. Ali em frente, no trinta e seis B, há um lugar livre para si, Mister Bernier.

 

Bernier desceu da moto, pousou nela o capacete, e dirigiu-se para o elevador, enquanto Tse Ho fazia uma vénia. Cinzento e cor-de-rosa! «Se há uma coisa que eu detesto nesta cidade é a mania dos uniformes. Os taxistas, os vendedores da McDonalds, os técnicos dos telefones, até mesmo as crianças na escola e os estudantes universitários usam uniformes!» E provavelmente, os professores universitários também possuíam um uniforme em casa.

 

Tse Ho abriu a porta do elevador.

 

- Sabe, Mister Bernier, as motos sempre foram o meu sonho. E o melhor dos sonhos é a Gold Wing. Meu Deus, se eu um dia pudesse dar uma volta numa delas...

 

-Queres a chave? Tse Ho assustou-se.

 

- Por amor de Deus, Mister Bernier, estou de serviço. Além disso sou velho de mais para essas brincadeiras. -Que idade é que tens?

 

- Quarenta e dois anos, Mister Bernier.

 

- E eu tenho sessenta e quatro - disse J. P. com um sorriso.

 

- Sim, Mister Bernier, mas o senhor é uma excepção...

 

Excepção? J. P. Bernier olhou para o espelho, enquanto o elevador do patrão o levava para a central de comandos do grupo Wang. Soava bem. Mas seria verdade? «Basta que o patrão carregue num botão para que tu venhas a correr, como, aliás,, todas as outras pessoas nesta empresa.»

 

Quadragésimo primeiro andar. Pegou no cartão magnético que dava acesso ao escritório do patrão. Sentiu a aragem fresca e seca do ar condicionado, sempre regulado de modo a garantir uma temperatura perfeita. Na sala predominava o mármore. o arquitecto particular de Philip, um canadiano, devia ter a mania dos mármores. Nas vitrinas de vidro havia porcelana chinesa misturada com vasos romanos. «A civilização sempre foi um cântico a várias vozes», era o que Wang Fu costumava dizer. Gostava de transmitir uma imagem cosmopolita da sua empresa...

 

- Ah, eis Mister Bernier!

 

A secretária de Wang Fu era um modelo de beleza curo-asiática. o mandarim dava muita importância ao aspecto exterior. Por motivos de promoção de imagem, evidentemente. Apenas um círculo muito restrito de pessoas sabia o que se passava no «Paraíso. Os quartos particulares tinham um elevador separado.

 

A secretária fez uma ligação e depois com um sorriso disse: «Sinto muito, mas o patrão pede-lhe que aguarde um pouco, Mister Bernier.

 

  1. P. Bernier ajeitou a sua T-shirt berrante com as letras «Kiss me», pensou que talvez fosse boa ideia seguir o conselho de Tim e pintar o cabelo e depois retribuiu o sorriso à secretária.

 

Sentou-se num dos sofás de pele e fechou ligeiramente os olhos. Reparou numa fotografia. Conhecia-a. Há muitos anos, quando Wang Fu acabara de fundar a empresa, ela estivera pendurada no escritório dele, na Spinster Street. Com que então, agora expunha-a como se de uma preciosidade se tratasse?

 

Era a ampliação de uma fotografia muito antiga, do século passado. A prata e o brómio do daguerreótipo tinham contribuído para desfocar a imagem, transformando-a numa mistura de cores pastel, dificilmente reconhecível, mas apesar disso salientavam-se certos pormenores: via-se uma floresta na qual tinham posto os carris para uma linha férrea. Três vagonetas e em primeiro plano um grupo de homens. Usavam grandes chapéus de palha semelhantes a cones que projectavam sombras sobre as caras dos submissos coolies chineses. Dois deles seguravam a picareta e a pá nas mãos. Todos olhavam para um outro homem, que ao lado e num plano mais avançado fitava a câmara de braços cruzados.

 

- É o meu avô - contara Philip Wang Fu a Bernier. Que os deuses lhe acariciem a alma... A culpa foi da maldita trança.

 

- Da trança?

 

- Sim, a trança foi o problema. o meu avô tinha muito orgulho na sua trança. E tinha direito a isso, afinal era o trabalhador mais importante... Ele não era proveniente de Cantão, como toda essa gente esfomeada que os Ingleses tinham atraído para a Malásia, para depois morrerem nas minas de zinco, graças às quais esses diabos dos Ingleses enriqueciam. Não, o meu avô era um homem das montanhas. Philip parecia ter muito orgulho nisso. Sempre desprezara os chineses de Cantão, ou, pior ainda, os de Xangai. - Julgam-se tubarões. Quando na verdade são biqueirões!

 

O meu avô foi o primeiro homem da nossa família a ser chefe dos trabalhadores. o segundo foi o meu pai. Eu fui o primeiro a falar inglês e a mostrar o caminho aos outros.

 

J, P. Bernier assentira com a cabeça, impressionado. -E a trança?

 

- A trança, é verdade. Quando os Ingleses ordenaram que todos os empregados que trabalhavam nas máquinas cortassem as tranças, houve fortes protestos. Enfim, os homens de Cantão não são rebeldes... Mas o meu avô era um rebelde. Era um verdadeiro senhor. Um príncipe... Por isso deixou a trança onde estava. E Mister Hammerworth... repare só no nome! Enfim, Mister Hammerworth permitiu que assim fosse. Esse tal Hammerworth sabia muito bem o que estava a fazer. Sem o velho Wang, o seu negócio não teria hipóteses. Sem ele não haveria comboio de Ipoli até à mina. Bem, tenho de confessar que apesar da morte do meu avô conseguiram acabar de construir a linha.

 

- Porque é que ele morreu?

 

- É essa a questão. É disso que eu estou a falar... Ele não era apenas um homem extremamente corajoso e trabalhador, que com uma simples faca matava um tigre, e tigres havia muitos, não só em lpoh... mas em toda a Malásia, mesmo na ilha de Singapura. Milhares. Milhares de tigres... Um dia o meu pai contou-me que o cozinheiro do acampamento certa noite ouvira um ruído estranho quando estava a preparar a sopa para o dia seguinte. Saiu da tenda e o que é que ele viu, ao luar? Um tigre... o cozinheiro era valente. Tinha um coração de tigre, tal como o meu avô. E o que é que ele fez? Voltou à tenda, pegou na enorme panela com sopa para quarenta pessoas e despejou-a em cima da cabeça do tigre.

 

-E a trança?

 

- A trança? Bem, há uns cem anos o meu avô percebeu determinada coisa, meu caro Bernier, que mais tarde eu tive de descobrir com algum esforço por mim próprio: põe o teu lingam, a tua saúde e a força que tens nas mãos de mulheres jovens. Aí estarão bem guardados. Cuida do yin como do yang.

 

Ah...

 

- Sim, meu caro. o problema é que uma das jovens raparigas que trabalhavam no acampamento tinha despertado a atenção do meu avô, Era ela quem tratava da trança... e não apenas da trança... do meu avô. Penteava-lhe o cabelo, punha-lhe gordura e esse tipo de coisas... Um dia a rapariga estava sentada com o meu avô na floresta por baixo de uma árvore. Tinha acabado de desfazer a trança e estava a pentear-lhe o cabelo e a pôr-lhe gordura... quando o acidente aconteceu. Fora ele próprio quem decidira que aquela árvore devia ser cortada. Mas esquecera-se disso quando estava a namoriscar com a rapariga. Os trabalhadores não o viram... E então... Trás! Catrapus... A rapariga conseguiu salvar-se, mas o meu avô... ficou desfeito... A minha avó mais tarde contou-me que as suas costelas saíram do corpo como as cavernas do casco de um navio naufragado. Mas quem é que o mandou ir para junto de uma árvore com aquela maldita prostituta? Diz-me, J. P!

 

  1. P. lançou um último olhar à fotografia para observar melhor o homem com a trança.

 

Como um verdadeiro senhor, o velho Wang apoiava o pé direito sobre a roda de um carrinho de mão. À sua frente podiam ver-se as estruturas de madeira com os cestos de verga, com a ajuda dos quais os Chineses há milhares de anos alteravam a face da terra, erigindo muros, construindo palácios, fortalezas, estradas e canais com milhares de qui lómetros. E também a pequena estrada que ligava a pequena cidade malaia de lpoh, no sultanado de Perak, à selva, onde posteriormente, no ano de 1884, iria ser descoberto o zinco no vale de Kinta, que levaria ao enriquecimento de Wang Fu...

 

- Queres provar um bolinho de mel? - perguntou Philip Wang ao seu convidado, Harry Feng. - Foram feitos por uma das minhas sobrinhas. São deliciosos.

 

- Não, obrigado. -Chá? Café?

 

- Devíamos começar a trabalhar.

 

Chamavam ao trabalho que faziam engineering. E, de facto, aquilo que faziam era comparável a uma esquematização muito precisa. Harry Tsi Feng propusera o acordo. Graças ao seu capital incalculável, e devido ao facto de o grupo Wang Fu ter feito gastos excessivos em construções nos últimos sete meses, seria ele quem forneceria grande parte do combustível necessário. A realização do plano, porém, era da inteira responsabilidade da East Coast Industries...

 

Em princípio, a situação de partida era ideal para que o negócio corresse bem: a United Wood, Taiwan era considerada uma das empresas mais poderosas no âmbito do corte, do processamento e sobretudo da importação e exportação de madeira. A procura de madeira preciosa, sobretudo de teca, por parte dos Taiwaneses e dos Japoneses para construções era insaciável. E quando se tratava de obter as licenças necessárias para cortar as árvores nas últimas florestas tropicais existentes em Java, Boméu ou na Malásia, os Taiwaneses sempre eram os primeiros entre os rivais coreanos, canadianos ou americanos. Tal como acontecia em outras áreas da economia nessa região, eram os Chineses quem mandava no negócio das madeiras. Eram sempre os mesmos.

 

Ah, a meranti, essa madeira folheada, vermelha e lisa e a poderosa árvore balau, a lauan, a merbau e todas as outras madeiras tropicais! As empresas queriam-nas todas. Os Japoneses, só por si, pareciam insaciáveis. As suas encomendas eram intermináveis, anualmente importavam quarenta e sete milhões de metros cúbicos. Philip apresentara o relatório aos seus empregados, durante uma conferência. Até mesmo as madeiras preciosas eram transformadas em papel pelos Japoneses, esses reis das ratazanas, acrobatas dos pauzinhos e fetichistas das caixinhas.

 

No entanto, eram também os Japoneses que forneciam o capital, o know-how, as joint ventures... e era isso que importava.

 

Graças a eles, as companhias trabalhavam com a técnica mais avançada, permitindo a destruição de vinte e quatro quilómetros quadrados de floresta por dia. Um recorde mundial! A madeira era utilizada em carros, barcos e comboios de alta velocidade. Em compostos de fibras de vidro, em frigoríficos, televisões e até mesmo em aviões, dado que a Malásia também já construía aviões.

 

Um negócio de sonho!

 

E além disso havia a União Europeia...

 

Ainda há poucos anos, só a Suíça importara oitenta mil metros cúbicos de madeiras preciosas...

 

Depois seguira-se uma queda repentina das encomendas, Algo estava a correr mal. Nessa altura até mesmo o Japão reduzira as importações. E de quem era a culpa? Do mundo ocidental, evidentemente, com o seu histerismo ambientalista... «Destruição impiedosa», protestavam os ecologistas. «Destruição do clima e da natureza.»

 

Houve conferências, resoluções das Nações Unidas e sanções. o presidente malaio denunciara a «atitude falsa» dos países industrializados do mundo ocidental, acusara-os de contribuírem para a destruição do clima através do consumo excessivo de energia e de terem por intenção travar o desenvolvimento económico dos povos asiáticos. Mas os seus protestos não adiantaram nada. o lucro diminuiu e a insegurança aumentou. E agora até mesmo a Malásia, que estava coberta de florestas, era ameaçada por protestos ambientalistas contra o logging, apesar de o Governo ter rapidamente concebido um programa de reflorestação.

 

- Leste o último artigo no New Straits Time, Harry?

- Deixo isso ao teu cuidado, Philip. Sabes que não me interesso por esse tipo de coisas. Eu não leio artigos, leio números.

 

- Pois bem, o artigo era positivo. Mencionava o problema da United. E eu digo-te uma coisa: temos de agir rapidamente.

 

o problema da United?! o logging, ou seja, a destruição de florestas virgens requer enormes injecções de capital. Na floresta qualquer tipo de logística transforma-se numa aventura. Implica a construção de estradas e de caminhos não apenas para transportar os troncos, mas também para aproximar as máquinas, os camiões, as empilhadoras e os geradores. Além disso é necessário fornecer alojamento aos trabalhadores e montar as serralharias móveis...

 

A United instalara-se no Bornéu e depois na Malásia na esperança de obter licenças que poderiam permitir lucros de vários milhões... mas falhara, Em Bornéu, a destruição da floresta fora interrompida por um período de um ano. Na Malásia, a United avançava com os preparativos no sultanado de Jorak, sobretudo na área do rio Nenggiri, mas as negociações relativas à licença pareciam arrastar-se sem fim. E isso tinha a sua razão de ser..

 

- Diz-me antes: tens notícias do Khalid? - perguntou Harry Feng.

 

- Porque haveria eu de me preocupar com ele? o caso do Khalid está resolvido. Há anos. E não apenas por causa desta história.

 

-Mas eu ouvi dizer que os homens da United tinham entregue um novo protesto ao Khalid e que tinham o apoio do grupo do Berhad.

 

-E então? o Berhad é influente no sector do aço. E talvez no do óleo de palma... Mas não tem nada a dizer na indústria da madeira. Não te preocupes com isso.

 

Khalid Leng era o funcionário chefe da comissão estatal para a madeira em Kuala Lumpur, a capital da Malásia. E acumulava a função de secretário de Estado do Ministério do Meio Ambiente, o que era muito prático.

 

- Diz aos teus colegas do ministério que a United anda mal e que durará no máximo cinco ou seis meses - aconselhara Harry Feng a Philip Wang Fu há um ano. - Diz-lhes que lhes pagarás pelo menos trinta por cento a mais se tentarem protelar o caso da United durante uns tempos. Basta que sejam um ou dois anos. Depois nós tomamos conta do assunto. Podemos até tentar envolvê-los no negócio... Limitadamente, claro. De qualquer maneira, nessa altura, já eles estarão de joelhos. Nós, porém, estaremos cotados na bolsa e ganharemos o dobro daquilo que investimos.

 

Tudo correra como planeado. Pelo menos até agora... A intervenção concreta? A zona de intervenção em si era uma área de nove mil metros quadrados nas montanhas da Malásia Central, na zona de Tenenga. Por ali passava o rio Nenggiri e até agora não havia estradas nem outros vestígios da civilização. Os poucos índios descendentes de populações indígenas, que arranjavam os alimentos com a ajuda de uma zarabatana, não despertavam o interesse de ninguém. Além disso, a região estava integrada no sultanado menos desenvolvido da federação malaia: Jorak. Enfim, a questão das propriedades fora resolvida a torto e a direito. Em princípio, na Malásia, os sultões tinham precedência sobre os monarcas constitucionais. Mas o sultão Abdulla não causara grandes dificuldades: a construção de um estádio de futebol para a capital e a promessa de uma pequena parte dos lucros tinham resolvido o problema.

 

Era o que eles pensavam.

 

Na verdade, as dificuldades mal tinham começado.

 

A região de Tenenga representava o mais importante refúgio dos últimos tigres existentes na Malásia. E isso implicava muitos problemas: os tigres, em tempos caçados sem piedade, eram agora tratados como animais santificados.

 

E além disso, primeiro um escritório de advogados algo obscuro de Penang e depois a Chancelaria Americana Jolinson and Zweig de Nova lorque, especialista em questões políticas e com grande renome, trataram do caso. Ambos apresentaram documentos que visavam provar que a zona de Tenenga não pertencia ao sultão, mas que se tratava de uma fundação erigida pelo pai de Abdulla que entretanto morrera. Fora legada ao biólogo Rabindra Nandi e após a morte deste passara para as mãos de sua filha Maya Nandi, que tencionava continuar o projecto de protecção dos tigres através da estação de Tenenga.

 

«Maya», pensou Wang Fu...

 

«Tigres?», pensou depois. «Não tenho nada contra os tigres. Até os considero bastante úteis... Vamos lá ver qual a coelhinha que o Bernier me escolheu para hoje. Ai, quem me dera que já estivesse na hora... Agora os tigres prejudicarem os meus negócios? Isso era o que mais faltava. Nem os tigres, nem essa louca da Maya Nandi.

 

Pousou a chávena, apoiou o queixo na mão e, de repente, parecia muito distante. Encontrava-se num daqueles estados que todos temiam, um estado de crescente raiva silenciosa e descontrolada.

 

- o que tens, Philip? - perguntou Harry Feng.

 

De repente, Philip Wang Fu pareceu despertar. Carregou num botão da sua consola de comandos e pensou: O caso Maya tem de ser resolvido. o Bernier vai tratar disso. Ele sabe como fazê-lo de forma rápida, eficiente e definitiva... »

 

Bateram à porta.

 

- Aqui está, respeitável avô...

 

Tsíe, a secretária particular de Wang Fu, entregou-lhe um dossier com uma capa azul plastificada, que continha poucas folhas.

 

Philip Wang Fu assentiu com a cabeça. Tsie, que com o seu enorme corpo volumoso tapado pela farda cinzenta e cor-de-rosa se movia como um grande navio em alto mar, dirigiu-se para a porta, Philip interrompeu-a.

 

-Diz ao Bernier que terá de esperar mais um pouco.

- Sim, respeitável avô.

 

Mais uma das tuas sobrinhas, não é verdade? - perguntou Harry Feng.

 

- Claro que sim. É uma sobrinha em terceiro grau. Se ao menos usasse um desodorizante melhor ou emagrecesse uns trinta quilos...

 

Wang Fu pousou o dossier na mesa de vidro, para que Harry Feng pudesse vê-lo.

 

Na capa estavam coladas duas fotografias.

 

A primeira mostrava uma jovem mulher com um fato de caqui. Parecia enervada ou incomodada pelo fotógrafo; tinha o lábio superior contraído, deixando ver os dentes, e os olhos semicerrados. Nas mãos segurava uma câmara de video. Encontrava-se no molhe de um porto e estava encostada a um Land Rover. o condutor era negro, tal como os trabalhadores que se encontravam em segundo plano, Parecia ser um porto africano.

 

Na segunda fotografia, podia ver-se a mesma pessoa. Nesta imagem, porém, os traços da jovem eram mais suaves e infantis.

 

- Aqui ainda era uma rapariga, estudante. Espantosa, não achas?

 

Feng concordou. Wang, de facto, tinha razão. o termo «espantosa» não bastava para descrever aquilo que via. Quer como rapariga, quer como mulher.. Que rosto! As faces largas, o nariz fino e elegante, a testa arredondada, os olhos negros e uns lábios carnudos e bem desenhados com que qualquer homem sonharia. Harry Feng, que desde sempre se considerara um conhecedor, coleccionador e admirador da beleza feminina, anuiu com a cabeça, cheio de admiração.

- E quem é o homem?

 

- Rabindra Nandi, o pai dela.

 

Pai e filha tinham pousado em frente a um arbusto e aparentemente encontravam-se num clube. A rapariga usava sapatos de ténis, meias brancas e uma saia de ténis curta, e o homem vestia um fato cinzento de algodão com uma camisa branca, cuja gola usava por fora do fato. Tinha uma cara inteligente e delicada com traços indianos e usava uns óculos sem armação. Sorria para a filha e ela retribuía-lhe o olhar.

 

- Esta fotografia foi tirada em Nova lorque, onde ele trabalhou em meados dos anos oitenta como secretário da delegação malaia das Nações Unidas. Fui eu que lhe arranjei esse emprego. Os Nandi são originários da mesma provincia que a minha família, a província de Penang. Quando o meu pai foi para lpoh, Sulei Nandi, o pai de Rabindra, decidiu fazer o mesmo e realmente tomou a decisão certa. Ainda hoje é vivo. É o meu representante em Jorak.

 

Feng olhou para a fotografia e pousou o dedo indicador na cara do homem.

 

-E o que é feito dele?

 

-Por amor de Deus, isso é uma longa história... Nem vale a pena eu tentar explicar. É uma história muito complicada. Basta que te diga que o Rabindra Nandi desapareceu no Outono de mil novecentos e noventa e dois.

 

- Desapareceu assim, sem mais nem menos?

 

- Desapareceu ou escondeu-se, chama-lhe como quiseres. É mais um daqueles casos em que alguém vai até à esquina comprar cigarros e nunca mais volta...

 

-Ele era casado?

 

-Viúvo. A mulher morreu. Não era do tipo de andar metido com mulheres. Tinha outras prioridades. Vivia sozinho num apartamento na Rua Quarenta e Seis, em Manhattan. Nessa noite encontrara-se com alguns amigos das Nações Unidas. Ele era o único malaio, os outros eram todos australianos, ingleses, alemães. Encontraram-se no seu restaurante preferido, um género de bar tailandês, para elaborar uma estratégia ou uma tomada de posição contra a destruição das florestas.

 

- Ali!

 

- Pois é, ele era um ecologista. Um adepto de florestas, natureza e tigres. o nosso adversário modelo. Intelectual e ao mesmo tempo ingénuo...

 

-E depois, o que aconteceu?

 

-Nada. Despediram-se e ele disse que ia dar um pequeno passeio e mais nada. Nunca mais o viram.

 

-E ela? A filha dele?

 

- Nessa altura, a Maya frequentava o New York State College, um daqueles colégios para filhos de diplomatas.

- Ela parecia gostar muito do pai, pela maneira como olha para ele.

 

- Gostar é pouco. Era louca por ele. Mais tarde, eu intervim no caso e ofereci a minha ajuda para o encontrar. Encarreguei a minha equipa de Nova Iorque do caso, contratei advogados e detectives... Nada.

 

-E o que aconteceu à Maya?

 

- À Maya? - Wang Fu contraiu as mãos. Olhou para os seus dedos brancos e sibilou: - Essa transformou-se numa cobra, Não, numa ratazana... numa ratazana perigosa que morde tudo o que lhe aparece à frente. Incluindo antigos amigos da família como eu. Ou o próprio avô e a irmã, Toda a gente... Essa mulher é um veneno.

 

- Não estarás a exagerar?

 

- Não, não. Desde sempre, a Maya teve problemas com a família. A mãe era malaia. Os malaios são todos loucos. Talvez seja por causa desse maldito sangue envenenado dos malaios que lhe corre nas veias que a Maya se revoltou contra o clã dos Nandi. Recusou, por exemplo, casar com o homem que tinham escolhido para ela, apesar do valioso dote que lhe ofereceram... E o seu avô, o Sulei, é um autêntico patriarca indiano, que acha que as mulheres não têm opinião, que são escumalha. Os hindus são assim... De qualquer maneira, a Maya ficou nos Estados Unidos, porque dizia ter encontrado um rasto do pai que a levara à Califórnia, onde viveu durante uns tempos. Foi a última coisa que o Walt Ferguson, o nosso advogado em Nova lorque, me contou. São informações que datam de mil novecentos e noventa e quatro.

 

-E agora?

 

-Actualmente a Maya está a causar-nos sérios problemas. Já não é a pequena Maya amável e divertida com um bonito rabinho de adolescente e uma boca maravilhosa.--- Ela até viveu na minha casa durante alguns anos. Aqui em Singapura, onde frequentava o Raffies College. Sim, fui eu que tratei disso... E agora? Transformou-se num tipo de terrorista feminina. Loucamente fanática. Assalta barcos, rouba bens alheios, dá cabo de homens de oitenta quilos... E ataca o seu benfeitor, morde a mão que lhe estendo,

 

Feng ficou calado.

 

- Mas não te preocupes, nós iremos apanhá-la. E depois ela vai ver o que lhe acontece... - Wang Fu olhou para Harry. - Teremos de tomar as medidas necessárias, Harry. Medidas definitivas. Não podemos permitir que essa mulher ponha em risco as nossas empresas.

 

-Não me metas nisso.

 

Harry Feng falava baixinho e de forma fria, como se quisesse reprimir Wang Fu.

 

- E do ponto de vista legal, Philip9 Ela tem hipóteses de ganhar os direitos sobre Tenenga?

 

Philip Wang Fu não respondeu. o seu olhar bastou para que Harry compreendesse. Apesar disso, acrescentou:

 

- Eu vou impedir que ela possa sequer requerer esses direitos.

 

Pegou no auscultador do telefone. -Mande entrar o Bernier.

 

Feng ergueu a mão para dizer algo.

 

-Um momento - disse Wang Fu à secretária e tapou o auscultador com a mão.

 

- Philip, acho completamente ridículo e prova de muito mau gosto apresentares-me a esse homem.

 

- Porquê? Afinal apreciaste a mulher dele, Harry.

 

- Mas nessa altura eu ainda não sabia que ele era um assassino.

 

- Assassino, Harry, assassino, essa é uma daquelas palavras... Digamos antes que ele é um especialista. Um profissional.

 

- Ainda por cima... - suspirou Harry Feng.

 

Philip Wang acenou com a cabeça para que se acalmasse.

 

- Leve-o para a sala de reuniões - disse pelo telefone.

- E diga-lhe que dentro de cinco minutos estarei lá...

 

- No problem at all - dissera George Andrew e a sua pequena boca vermelha com o lábio superior em forma de um arco de cupido quase perfeito esboçou um sorriso cheio de prazer. - A ideia de transportar para fora do país pessoas procuradas pela Polícia agrada-me. Vamos fazer um passeio inimigo do Estado... Que emocionante!

 

Tinham escondido as cassetes de Maya num saco de plástico, que por seu lado estava escondido na sala de máquinas do Reduit, atrás da máquina de tratamento de água, que George costumava apelidar de «milagre da ciência». Entusiasmado, tentava explicar em porinenor esse milagre.

 

- Esta máquina permite ir até ao Havai sem ser necessário levar água potável.

 

Maya nem sequer ouvira as explicações. o esconderijo das cassetes parecia-lhe seguro.

 

o Reduit alterou o rumo. Cruzou-se com navios carregados de contentores. No horizonte via-se uma fila de petroleiros que navegavam em direcção a Singapura.

 

o vento provocado pela velocidade do barco refrescava a pele. Ouvia-se o barulho da água. Maya desejou poder ficar deitada naquele barco para sempre. o empregado chinês servira bebidas, o motor zumbia e a proa do barco formava uma ampla vaga de espuma branca na superficie da água. Tudo aquilo era fantástico, quase irreal, como num cruzeiro...

 

Julia voltou a guardar o aparelho fotográfico no saco,

- Temos que tirar umas fotografias. Afinal não voltaremos a ver-te tão cedo. E assim tenho fotografias tuas para mostrar às pessoas...

 

-Não te atrevas, Julia...

 

Maya sentou-se. Ao longe ainda se conseguia ver uma faixa de terra clara, Singapura.

 

- Sorri, Maya, pelo menos um pouco, já que estou a fazer este esforço...

 

Julia instalara-se na popa e a câmara fotográfica tapava-lhe a cara. Maya vestia um biquíni e estava deitada numa das cadeiras do convés. o vento brincava com o seu cabelo. Lá em cima, George encontrava-se ao leme do enorme iate.

 

- E mais? - Maya ouviu a voz de Julia. - Conta-me mais coisas. Para além da protecção do meio ambiente deves ter tido uma vida particular nestes anos todos.

 

- Uma vida particular? o que queres dizer com isso?

- Homens... um caso... vários casos... Ou o amor da tua vida. Vá lá, conta isso tudo a esta pobre e monogâmica dona de casa!

 

- Infelizmente não posso.

 

-É só isso o que tens a dizer?

 

Julia tinha razão, realmente não era uma resposta em termos. Mas haveria resposta?

 

A sombra de um enorme avião cobriu-os por alguns instantes. Era um avião da linha aérea Yal, que se preparava para aterrar no aeroporto de Changi. Fazia um barulho ensurdecedor... «Um caso?», pensou Maya.

 

- Tenho imensa pena, Julia, mas não posso dar-te a resposta que desejas ouvir. Não posso mesmo.

 

- Que desperdício... Com essa beleza toda.

 

Aquilo que acontecera com Rick Martin fora um caso?... Ou talvez o «grande amor da sua vida»?... Aquela única noite no barco, em Puerto Colón? Santo Deus, isso já se passara há tanto tempo, há mil anos e noutro mundo...

 

«Posso convencer-me de que foi uma história de amor», pensou Maya, «posso até senti-lo, mas não é verdade. A verdade é diferente: consiste no teu talento para evitar todo o tipo de sentimentos que sejam mais fortes do que tu. Mas não tens outra escolha.»

 

- Tens de compreender, Julia, que neste momento estou demasiado ocupada para pensar nessas coisas. A vida tem fases, não é? E eu neste momento não estou numa dessas fases do «não posso viver sem ti»... Além disso nem sei de que é que me serviria um homem. Estaria sempre a irritar-me e eu... eu seria um peso para ele.

 

- Um peso? - Julia lançou um rápido olhar ao leme e fez uma careta. - Olha para o meu caso. Não fui eu própria que escolhi o George Andrew? Nós estamos bem. Sabes que também é possível dar-se bem com um homem a outros níveis. Pelo menos o que se diz. A nível profissional, por exemplo...

 

Maya ficou calada e sorriu.

 

o barulho do motor alterou-se. Maya olhou para George, que levantou o braço.

 

- Vejam, vamos receber visitas.

 

Maya virou a cabeça na direcção em que George apontava: um barco. Cinzento, plano, muito elegante e algo semelhante a um barco de guerra. Aproximava-se a alta velocidade, Cortava o mar, formando duas ondas na proa que pareciam asas de cisnes. Um barco da marinha? George observava o barco através dos binóculos. Maya não necessitava de binóculos para reconhecer a metralhadora montada na parte da frente. E agora que o barco mudava ligeiramente de rumo, até conseguia ler as letras na parte lateral: POUCIA.

 

Maya deu um salto e correu até à balaustrada. Nas suas costas um músculo contraiu-se. Tentou pensar..

 

- Ei, George! - Era Julia. - Aquilo não é um barco da polícia?

 

- Sim, meu amor, é um barco da polícia. -Então, por que raios não estás a acelerar?

 

- Primeiro porque faria pouco sentido, por eles serem muito mais rápidos do que nós, e depois porque não é necessário.

 

-Não é necessário? Um barco da polícia? Mas será que tu enlouqueceste de vez?

 

-Não te enerves, Julia... E tu, Maya, não te preocupes, é apenas um velho amigo.

 

Apenas um velho amigo...

 

- É o Ernest Khan. Chamou-me pelo rádio para saber se podia visitar o nosso barco, porque ainda não viu o Reduit desde que foi renovado. Foi por isso que o convidei. -Tu fizeste o quê?!

 

- Convidei-o - disse George Andrew, orgulhoso. Que mais querias que eu fizesse, Julia? o Ernest faz parte do júri da regata. Ele é o árbitro e eu sou o presidente...

 

o presidente. E o árbitro da regata... membro da polícia costeira? «E lá em baixo, ao lado da maldita máquina de tratamento de água estão as cassetes, dentro de um saco de plástico... E eu aqui, de biquíni... » Maya sentiu-se como se estivesse no teatro, a assistir a uma peça ridícula com uma péssima encenação.

 

George Andrew, no entanto, mostrava um grande sorriso. Pelos vistos para ele toda aquela viagem não passava realmente de um simples passeio.

 

o músculo nas costas de Maya dançava, sem que ela conseguisse controlá-lo.

 

- George - disse Maya com esforço, enquanto deitava um olhar para trás. o barco cinzento desenhou uma elegante linha branca na água, preparando-se para atracar. - George, esqueceste-te apenas de um pequeno pormenor, Eles com certeza que têm um mandado de busca. E esse mandado tem uma fotografia minha, que esse teu amigo também tem.

- oh, não...

 

George abriu a boca. Não se lembrara desse pormenor, Julia reagiu mais rapidamente que o marido. Tirou os seus enormes óculos de sol e atirou-os a Maya, que os pôs de imediato,

 

-Toma! E enrola este cachecol à volta da cabeça. Maya obedeceu.

 

Fê-lo no instante em que o outro barco atracou. As defesas bateram no barco. Um chinês alto e magro com cabelos brancos passou do barco da polícia para o Reduit. Usava umas calças azul-escuras e na camisa branca tinha galões azul-escuros com estrelas douradas que brilhavam. Fazia um esforço para obedecer às regras de educação inglesa.

 

- What a beautiful day, isn’t it? - Depois, dirigindo-se com uma vénia às mulheres, acrescentou: - And what a beautifúl sight.

 

Mostrou os seus dentes castanhos.

 

Os homens deram apertos de mão, Julía murmurou algo e George Andrew, que pelos vistos compreendera finalmente a gravidade da situação, apressou-se a conduzir o capitão da polícia até ao salão do Reduit.

 

Maya tentou avaliar a distância que separava o barco damargem. Não valia a pena pensar nisso. Iriam tirá-la da água. E, no entanto, aquele risco cinzento que se via ao longe era o cabo Changi... - que já ficava na Malásia... Tão perto. E ao mesmo tempo tão infinitamente longe.

 

Sentiu as mãos a transpirar.

 

«Mas o que é isto? Acalma-te, por amor de Deus!       Ele não te reconheceu. Que vá visitar a cabina das máquinas à vontade. Não vai descobrir as cassetes. o George vai impedir que isso aconteça... Mas... e se George achasse ”emocionante” traí-la?... Que disparate!»

 

Julia aproximou-se:

 

- Mais uma prova de que fazes muito bem em manter-te afastada dos homens. Deveríamos todas ser assim, Eles são estúpidos de mais... - E depois, acenando com a cabeça em direcção ao horizonte, acrescentou: - Não te preocupes. Em breve estarás do outro lado.

 

Tinha razão.

 

Após uma meia hora, uma meia hora que lhes pareceu infinita, o capitão Ernest Khan despediu-se com uma leve continência.

 

- Infelizmente foi uma visita muito curta - proferiu, olhando para Maya. - Espero revê-la em breve, talvez numa regata, Miss... Miss...

 

- Esther Williams - ajudou Julia.

- Miss Williams.

 

- Claro que sim. Teria muito prazer - afirmou Maya. Ligaram os motores. o homem com os cabelos brancos acenou, enquanto se afastavam. A onda branca na popa espumava,

 

- Uff - Julia sentou-se num banco na popa, exausta.

- Santo Deus, imaginem se isto tivesse corrido mal... George, importas-te de me dizer o que te passou pela cabeça ao combinares este encontro?

 

- Nada - respondeu George Andrew, sorrindo. -Como sempre.

 

- Sabes, minha querida, talvez até tenhas razão - retorquiu George. - A experiência ensinou-me que por vezes não pensar resulta em situações muito interessantes. E esta situação que acabámos de viver foi interessante, não achas? Maya engoliu a seco.

 

- Foi, de facto, uma situação muito interessante - insistiu George Andrew. - Imagina os títulos no jornal: Andrew preso por ser cúmplice de fuga... Bem, pelo menos agora já tenho uma história interessante para contar aos meus amigos, não é verdade?

 

Julia limitou-se a olhar para ele. Depois, com uma voz exausta, gritou:

 

- Apetece-me estrangular-te!

 

Duas horas mais tarde, o Reduit passava pelo enorrne delta do rio Johor. George Andrew olhava para o mapa nos joelhos. Apontou para a margem, onde havia um canavial. Por trás, a paisagem era plana. Ao longe via-se uma mancha brilhante.

 

-Aquilo é Pasi Gudang, uma aldeia ou uma pequena cidade, não tenho bem a certeza. Mas segundo o mapa fica apenas a três quilómetros de distância. - Olhou para o saco de viagem de Maya. - Não tens muita bagagem. E as cassetes também não são pesadas.

 

Maya concordou com um aceno de cabeça. A única coisa que queria era que tudo aquilo acabasse o mais rapidamente possível.

 

o empregado chinês lançou um bote à água. o sistema hidráulico zumbia.

 

- Se há coisa que eu detesto - disse Julia - são as despedidas. Mas, como vimos, o George fez tudo para que nunca mais nos esqueçamos desta despedida.

 

Julia e Maya abraçaram-se. Depois Maya quis estender a mão a George Andrew, mas este abraçou-a, entusiasmado. E, por mais incrível que parecesse, proferiu:

 

- Have a nice time.

 

o empregado chinês ajudou Maya a entrar no bote e depois ligou o fora-de-borda. Maya acenou uma última vez, sem, porém, olhar para trás. Preferia olhar para a margem que se aproximava rapidamente.

 

Quando chegaram, Maya saltou do bote e pegou no saco. Sentiu a terra por baixo dos pés: a Malásia. Pela primeira vez depois de seis anos... o que se faz em todo o mundo, quando se regressa ao próprio país? Beija-se o chão.

 

Maya preferiu não fazê-lo. Sentiu um pequeno calafrio, um certo medo, ao pensar naquilo que tinha pela frente... Pasi Gudang não era uma aldeia nem uma pequena cidade. Sobrevivia graças a uma fábrica de conservas de peixe. Quando havia vento para oeste, o mau cheiro da fábrica pairava sobre as casas, o trânsito caótico nas ruas estreitas e a confusão que reinava no mercado.

 

Maya apanhou boleia de um homem numa carrinha Nissan. À chegada, deu-lhe dez dólares de Singapura e ele mostrou-se extremamente grato, com um enorme sorriso na sua cara simpática, que deixava transparecer os seus dentes apodrecidos.

 

-Que Deus a acompanhe durante toda a vida, minha senhora. Que proteja os seus filhos, grande senhora... Depois, soltou um risinho que fez com que Maya se sentisse realmente em casa.

 

Numa das barraquinhas do mercado, comprou um prato de satai e uma cerveja. Há muito tempo que não se sentia tão bem como no momento em que apreciava os pequenos e estaladiços bolinhos de carne com o molho de amendoim bem temperado. Depois chamou um táxi e negociou o preço para Johor Baharu. Era extremamente barato.

 

-E para onde quer ir exactamente?

 

-Para o aeroporto.

 

Passaram por campos de arroz. Carros de bois. Viaturas antigas, Raparigas que vestiam calças de ganga ou sarongs de várias cores e que carregavam pesos na cabeça, raparigas morenas e bonitas. E as palmeiras baloiçavam na brisa do mar. Ali estava a Malásia...

 

Maya sabia que em Kualang, a capital de Jorak, havia um aeroporto novo. Alguém lhe contara isso numa carta ou lhe dissera. Porém, não sabia se o aeroporto tinha voos diários, quanto mais se ainda haveria voos nessa mesma noite.

 

Pediu ao taxista que parasse em frente à estação, pagou e procurou um hotel.

 

Na recepção do hotel apresentou-se com o seu nome e passaporte verdadeiros. o empregado, um chinês gordo, parecia muito satisfeito.

 

Não havia razão para preocupações... Claro que não. Encontrava-se em Johor Baharu, Ali, ninguém andava à sua procura. Por enquanto...

 

Ela sabia que ele ainda lá se encontrava.

 

Estava à espera, lá em baixo, onde a corrente projectara troncos partidos e arbustos contra as pedras, e não se mexia. Esperava. Iria atacar! Perseguira-a durante três dias com a intenção de atacá-la, mas por enquanto ainda era cedo de mais...

 

Sempre que o vento se tornava maisforte, véus de água vindos da cascata espalhavam-se sobre as rochas e o rio. Pareciam bandeiras, bordadas com pérolas, que brilhavam em todas as cores do arco-íris. Nesse preciso instante estava a passar mais um... Por alguns instantes ela não o viu.

 

Rosnou baixinho e com a pata direita empurrou para trás o filhote que saíra de um arbusto e que queria descera encosta.

 

Calma... calma...

 

Ela sentia-se preparada. A ferída no céu da boca sarara, As gengivas já não doíam. E nos últimos dias alimentara-se bem...

 

Ele era grande, lá isso era verdade. Mas gastara muitas energias. Queria apanhar os filhotes. Mais nada. Queria os dois filhotes e depois a mãe...

 

Mas ela iria vencê-lo. Pelo menos iria afugentá-lo. Disso tinha a certeza.

 

Ergueu-se. o véu de água desapareceu... e lá estava ele. Agachado. De olhar erguido para ela.

 

Ela viu os ossos dos seus ombros destacarem-se através do Pêlo molhado. E a sua cabeça, essa grande, séria e imponente cabeça de macho. Os seus olhos procuravam-na... Ela rosnou longamente.

 

o filhote estremeceu e fitou-a, assustado. Ela tentava controlar-se, fazia um grande esforço para não gritar de raiva no meio do badar da água e do silêncio da floresta...

 

Ele quer dar cabo dos pequenos para te ter a ti. É só isso que ele quer.

 

Já estivera perante uma situação semelhante, há muito, muito tempo, quando ainda era muito jovem e não soubera defender-se, por não ser suficientemente experiente. Nessa altura ainda havia muitos tigres na floresta. Guardava a sua segunda ninhada. Três filhotes. Duas fêmeas e um macho. Eram muito pequenos e tudo acontecera tão rapidamente que não tivera tempo de reagir Quando quisera defender-se, já era tarde de mais. o enorme tigre macho partira-lhes o pescoço, como se de macacos se tratasse... Só mais tarde é que ela compreendera que ele ofizera apenas para que ela estivesse de novo disponível. Só quando já não havia filhotes e o seu leite secava é que ela estava de novo pronta para a reprodução.

 

Dessa vez ela saltara e mordera-o. Ele defendera-se quase a brincar e ela refugiara-se na floresta.

 

Agora seria ao contrário. Ela iria atacar

 

o marulhar da cascata parecia agora mais forte. Envolvia-a, penetrava no seu coração, trovejava no seu sangue. Não iria esperar mais. Para quê? Estava sentada na encosta. Encontrava-se na melhor posição.

 

Véus de espuma envolviam as sombras escuras e brilhantes no vale.

 

Ela rosnou e os pequenos agacharam-se, assustados. Ergueu-se ligeiramente e avançou silenciosamente com a barriga perto do chão e as garras encolhidas até à plataforma rochosa que vira lá de cima. Em baixo, ouvia-se o barulho ensurdecedor da água.

 

Encontrava-se agora a uns três metros de distância dele. Muito pouco. Teria apenas de tomar atenção a um aspecto: teria de saltar o mais alto possível, para que aterrasse nas costas dele, aproveitando todo o seu peso.

 

o véu voltou a repartir-se.

 

Havia agora dois véus sobre o rio.

 

E entre esses dois véus que giravam e brilhavam... lá estava ele!

 

Saltou. Viu-o. Viu-o enquanto saltava. Projectou as garras. E acertou... Os seus corpos bateram um contra o outro, ela sentiu o cheiro dele, as suas garras cortaram-lhe o pêlo e a carne. Ele tentou virar-se para se defender. Soltou um som, um rugido, não, um uivar como ela nunca ouvira um tigre uivar.. Voltou a atacar

 

Sentiu a coluna do tigre por baixo do seu corpo. Ele virara-se para o lado e, com a pata esquerda no pescoço dela, tentava afastá-la. Ela não o largou, bateu com os dentes na cabeça grande e pesada do tigre. Sangue, muito sangue escorria-lhe do olho direito!

 

E depois ele desapareceu.

 

Avistou-o dentro de água, arrastado pela corrente, deixando um longo rasto vermelho.

 

Com um salto, ela voltou para a margem e procurou as pedras que, no meio da espuma, poderiam levá-la de volta para junto dos seus filhotes...

 

- Era ela... Acredita em mim, Trilho de Fumo. Era a Branca...

 

Dia Lavai, a quem na tribo chamavam «Trilho de Fumo», desde que há alguns anos salvara a população da aldeia com sinais de fumo durante uma enchente, inclinou-se para a frente. Dia estava sentado em cima de uma estrutura de bambu de dois metros de altura, de pernas cruzadas, e trabalhava um pedaço de madeira dura de Niagang. Eram necessários quatro dias de trabalho para transformar aquele pedaço de madeira numa zarabatana, na qual se poderia inserir uma seta. Olhou para o rapaz, sem parar de trabalhar.

 

- A Branca, Ayat? De que é que estás a falar?... Ouve-me! Fecha os olhos... respira fundo e depois recomeça, desde o início.

 

o rapaz ficou de olhos abertos. Continuou a olhar para Trilho de Fumo.

 

Constituía uma atitude muito indelicada para um rapaz na posição de Ayat. Não se olhava daquela maneira para o avô, nem mesmo quando se vinha da floresta com coisas importantes para contar. Mas Dia não o repreendeu.

 

- Estive muito próximo dela. É verdade... Era ela. Era a alma do tigre branco!

 

Dia fitou o rapaz, que parecia exausto. Devia ter corrido durante muito tempo. Tinha a pele coberta de suor e ferida por espinhos. A sua tanga estava rasgada. Afixara o parang, a catana, nas costas, mas as alças tinham escorregado. Os seus lábios tremiam, o cabelo estava coberto de pólen e pegajoso, devido à transpiração.

 

- o que é que tens, Ayat? Eu mandei-te ir até ao rio para verificares se os homens da company estão na foz. Se estão a trabalhar. Se há barcos. Se estão a pintar os troncos de azul ou até mesmo a construir uma estrada.

 

Talvez fosse por causa da emoção ou apenas porque as suas pernas estavam a fraquejar... mas o rapaz teve de sentar-se. Estava a tremer. Aliviou a comichão no ombro direito e retirou restos de plantas pegajosas do cabelo. Dia teve pena dele.

 

-Ali ao lado do machado há chá - disse num tom conciliador.

 

o rapaz bebeu rapidamente, com a cabeça inclinada para trás.

 

- Mesmo se tivesses visto a Branca, Ayat - continuou Dia -, isso teria sido bom para ti e para a aldeia. Ela é a nossa alma protectora. Protege-nos a todos. A ti também...

 

- E quando tiveres acabado de comer, vai imediatamente falar com o Tara Radan. Conta-lhe tudo o que sabes sobre os homens da company. Esquece a Branca... A company é mais importante. E o Tara tem de estar ao corrente da situação...

 

A setecentos quilómetros da clareira nas Highlands, onde o clã Ipak da tribo dos Senois iria passar a época das monções, J. P. Bernier dobrava um mapa do sultanado de Jorak, com ar desiludido. Pousou o mapa e voltou a pegar na capa de plástico da qual o retirara.

 

o mapa era mau. Talvez pudesse encontrar um melhor em Jorak, Isso, no caso de realmente necessitar de um mapa...

 

  1. P. encontrava-se na cave da sua casa em Johor Baharu, numa grande sala climatizada, a que costumava chamar fitness center, não apenas por causa dos aparelhos de musculação, dos pesos e das outras máquinas, mas também devido à carreira-de-tiro que se encontrava no canto da sala. o mais importante, porém, era um discreto armário de aço no qual guardava as armas. Mas isso ficaria para mais tarde. Agora era importante elaborar um plano concreto. Afinal, nunca o fizera a uma mulher.---

 

E que mulher! Voltou a retirar as fotografias do dossier. Uma mulher fantástica, sem dúvida...

 

As cinco fotografias que lhe tinham entregue encontravam-se no círculo de luz da lâmpada de halogéneo. Todas elas mostravam Maya Nandi. Numa delas vestia um fato tipo safari, num aeroporto, com uma câmara de filmar na mão. Duas delas tinham sido tiradas num barco, E nas outras duas parecia significativamente mais nova: estava vestida para jogar ténis. Santo Deus: que corpo, que mamas e que rabo inacreditáveis. E uma cara lindíssima!

 

Bernier lera as instruções. Não eram muito importantes. Tratava-se de questões técnicas: o local, a hora, o método, a arma utilizada...

 

Cada vez que se dedicava àquele caso, pensava, cheio de pena: «Que grande desperdício!»

 

  1. P. Bernier não tinha nada contra as mulheres, apesar de, por força de circunstâncias, não andar envolvido com elas. Segundo ele, todas elas eram prostitutas, Pois, que o fossem, isso pelo menos permitia fazer bons negócios. Bernier achava que Deus tomara a mulher como modelo para a criação do homem. A mulher com a sua beleza, a fantasia, mas também os seus truques, a esperteza, o seu humor muito especial... e a sua carne sedosa. Sobretudo isso. Deus lembrara-se também da gratidão, da forma como sabiam apreciar o papel protector de J.P.

 

«Se o estúpido do Charly naquela altura não me tivesse disparado contra a pila», pensou, «eu agora não seria obrigado a negociar com uns tipos estranhos e poderia percorrer o país com um bando de mulheres disponíveis até à morte. Pois é.

 

Mas também não é assim tão grave. Afinal há que se contentar com a realidade.»

 

A realidade de J. P. era que acabara de ser feita uma transferência de vinte e cinco mil dólares - a primeira parte do pagamento - para a sua conta em Hong Kong. Já obtivera a confirmação de que o dinheiro chegara. A realidade era também que nesse dia, às quinze e vinte, iria apanhar um avião para a porcaria de uma aldeiazinha de Kualang, perdida algures nos HighIands. Já tinha o bilhete, em nome de Mr. Humbert Crain. Teria de mudar de avião em Kuala Lumpur.

 

A missão iria durar três dias,

 

Porém, se nem sequer havia voos directos para Kualang, era de duvidar que conseguisse cumpri-la no tempo previsto. Ergueu-se e dirigiu-se para o armário com as armas,

 

marcou o código e abriu-o. A pequena mala de alumínio estava preparada. Continha uma arma italiana, uma Bentoni, desmontável e com um aparelho de visão nocturna. Uma arma de alta precisão. Abriu uma gaveta, pegou na HK-765, enfiou-a no coldre e, depois de ter tratado das munições, pensou durante um instante e abriu outra gaveta. Continha um cabo brilhante de aço fino e moldável, ao qual estavam afixados dois punhos de madeira, oriunda do Japão. Treinara tantas vezes a utilização daquele cabo que sabia perfeitamente manejá-lo.

 

Jean-Paul Bermer voltou para a sua secretária, olhou pela última vez as fotografias e abanou a cabeça.

 

Depois arrumou-as cuidadosamente no dossier e desligou a luz...

 

- «Se não avançar imediatamente, eu perco o meu avião», disse eu ao taxista. «Vá pelo passeio, entre naquela rua ali, faça o que quiser.. Prometo-lhe uma boa gorjeta... » Mas o taxista abanou a cabeça. Depois apontou para um polícia e murmurou algo acerca da licença... E assim continuámos parados no trânsito... Algures no centro da cidade. Felizmente o avião vinha atrasado... Bem, eu só lhe digo uma coisa: Kuala Lumpur é uma cidade de loucos! o mundo inteiro é uma casa de loucos e Kuala Lumpur está no topo.»

 

Maya confirmou com a cabeça. Uma hospedeira pequena e bonita aproximou-se para oferecer sumo de papaia. Aliviada pela interrupção, Maya pediu que lhe enchesse o copo. Mas não adiantou. o tipo com o turbante, sentado ao seu lado, retomou o seu discurso.

 

-A cidade inteira está em obras! Quando eu me lembro como era antigamente... Até fico maldisposto. Há dez anos o ponto mais alto de Kuala Lumpur era a haste da bandeira em frente ao edifício do governo. E hoje, pergunto-lhe eu... Ou amanhã? Para além dos malditos prédios haverá as torres de quatrocentos e cinquenta metros de altura. Quatrocentos e cinquenta metros! São os edifícios mais altos do mundo.

 

Maya assentiu com a cabeça sem perder a paciência. -Ainda bem que pelo menos existe Kualang! Todo o resto da costa é composto por fábricas e barulho. Ai, mais vale viver em Chicago. Conhece Chicago?

 

o homem era um sique. Tinha sobrancelhas pretas e horizontais, os olhos de um pássaro e um nariz de abutre a condizer. Usava anéis brilhantes nos dedos. Cada uma das safiras nesses anéis devia valer uma fortuna, pensou Maya.

 

Em Kualang havia quatro grandes famílias siques. Tentou lembrar-se como se chamavam, mas não conseguiu... -Conhece Chicago?

 

Por que razão quereria saber se ela conhecia Chicago? Maya ficou atenta.

 

Continuava com os óculos de sol de Julia postos. Durante todo aquele longo voo, não os tirara uma única vez. Abençoada fosse Julia.

 

-Sim, conheço. -E Kualang?

- Também.

 

Pelos vistos ele não a reconhecera.

 

- É uma cidade maravilhosa. Fico sempre muito contente quando volto para casa.

 

Maya olhou pela janela do avião. «Malásia – Visão 2020» era o slogan que o governo dez mil metros, compreendia-se o sentido dessa frase. Visto do avião, o país parecia, aos olhos de Maya, uma enorme ilustração de propaganda. Estava a aproximar-se da cordilheira central. As montanhas representavam um corte, como se alguém tivesse dividido o país em duas metades: a oeste, a parte civilizada, com as auto-estradas, as estradas, cidades e fábricas, que tinham sido construídas numa fase de euforia: Malásia - o maior exportador de semicondutores do mundo... Malásia - o vencedor do próximo milénio!

 

E do outro lado das montanhas a floresta---

 

Cume por cume, como ondas, o verde profundo das árvores existia ali há milhões de anos. Era bom voltar a ver a floresta, pensou Maya. Era mesmo bom.

 

- Queiram apagar os cigarros e apertar os cintos de segurança. Vamos iniciar a descida para Kualang.

 

No lugar ao lado de Maya, o cinto do sique estalou. -Graças a Deus - disse ele.

 

  1. P. Bernier estava estendido na cama de casal da suite número oito do Hotel Jorak Palace, em Kualang. Segurava o auscultador do telefone na mão.

 

-Ouve, Tong, eu sei que és bom rapaz e tu não vais querer-me convencer do contrário, pois não?... Não? Então, muito bem...

 

- Mas eu não posso - gaguejava o homem do outro lado da linha, que se encontrava em Johor Baharu. J. P. ouvia a sua respiração nervosa tão claramente como se estivessem no mesmo quarto. - Eu trabalho na contabilidade, mas não tenho nada a ver com o sector dos computadores, tuan.

 

- Não me trates por tuan, os tuans estão a desaparecer, Tong... Quer dizer que não és capaz de fazer o que te peço? Claro que és capaz.

 

- Mas...

 

- Quando falas comigo, não vale a pena usares a palavra «mas», caro Tong.

 

A voz de J. P. Bernier estava agora um pouco mais dura, mas apenas um pouco. Não era necessário mais do que isso, afinal aquele tipo insignificante era pago por ele. E além disso ele tinha medo. E tinha razões para isso,

 

- Quero que me forneças imediatamente as informações que te pedi. o número do voo e a hora de chegada.

- Mas...

 

- Tong! - J. P. Bernier apenas pronunciou o nome e desligou.

 

Olhou para o relógio: eram dezoito e vinte.

 

«Bem», pensou, «dou-lhe cinco minutos. No máximo. Pena que não haja aqui ninguém com quem possa apostar que vai ser mais rápido.»

 

Olhou pela janela. Abrira as cortinas para poder ver a estrada e todo o resto da cidade, aquela cidadezinha ridícula na qual se encontrava. Kualang... A residência dos Nandi encontrava-se no topo de uma colina. Isso já conseguira descobrir.

 

Bem, agora era uma questão de ver..

 

Suspirou e olhou para a fachada de mau gosto do prédio do outro lado da rua: um museu Vitoriano. Os peitos das duas raparigas que seguravam o terraço não exprimiam, no entanto, pudor nenhum. Eram grandes e redondos, mas o tempo e as chuvas de monção tinham-nos desgastado. Infelizmente...

 

o telefone tocou. Não demorara cinco, mas sim três minutos e meio. Aposta ganha.

 

- Tong?

- Sim.

 

-Então, quando é que essa Maya Nandi aterra em Kualang? Espera, vou só buscar um lápis...

 

Kualang, a capital do sultanado de Jorak e residência de sua majestade Abdullah Ibraim Ibri Tuancu, situava-se entre duas cordilheiras na nascente do rio Galat. Ao aproximar-se da cidade, a primeira coisa que se via era a enorme cúpula azul, verde e branca com quatro minaretes da mesquita do sultão Rachman, que se erguia como um punho sobre o mar de telhados acastanhados. Por baixo da mesquita havia um mercado, o campo de manobras e o bazar indiano e o chinês.

 

Na colina, escondido atrás das enormes árvores de um jardim, ficava o palácio do sultão com a sua pomposa fachada numa mistura de estilo indiano e vitoriano. Estava mal conservado e os dois enormes repuxos em frente ao palácio encontravam-se completamente enferrujados, mas isso não alterava em nada o estatuto do sultão. Pouco importava se decretavam uma lei na longínqua cidade de Kuala Lumpur, se tinham sido os principais ministros do Governo da província a elaborá-la - apenas a assinatura do sultão Ibraim Ibri Tuancu a validava. Era o poder de Sua Majestade, o seu daulat que decidia se haveria felicidade ou infelicidade, fertilidade, colheitas ricas ou miséria. Os seus súbditos respeitavam essa hierarquia há centenas de anos, numa atitude de eterna e perfeita submissão de carácter infantil. Para os malaios, os bumiputras ou «filhos da terra», desde sempre que ele não era apenas o rei, mas um verdadeiro deus...

 

E foi do daulat que Maya Nandi se lembrou quando se encontrava no pequeno e bonito aeroporto extremamente moderno de Kualang e mostrou o seu passaporte ao funcionário. Quando o homem leu o nome de Maya Nandi, encostou um dedo à testa, num gesto de saudação. Lembrou-se também do daulat quando estava a beber um espresso no café de Wang Seng em frente ao mercado central. o sultão e o seu misterioso daulat?... «Tu, por exemplo, não tens o mínimo direito de fazeres pouco desse daulat. Para ti ainda poderá representar a salvação, dado não ser apenas importante, mas também extremamente prático.»

 

- o seu trunfo, sim, a sua grande jogada, minha querida Miss Nandi - dissera o Dr. Norvavi, o pequeno e inteligente advogado de Kuala Lumpur -, é a sua boa relação com a corte e com a casa do sultão.

 

Bem, era verdade que o sultão Omar Hassan fora muito amigo do seu pai. Ela própria frequentara o palácio com alguma regularidade durante o seu reinado. Mas agora o sultão Omar estava morto- Na altura do seu reinado, Abdullah, o seu irmão, estudava em Inglaterra ou passeava no seu iate pelo mar Mediterrâneo. Maya conhecia melhor o filho mais velho do sultão, o príncipe Vahid: um tipo completamente estúpido, que gostava de fazer o papel de rebelde e de passear no seu velho MG verde pelas redondezas da universidade. Frequentara o Raffies College em Singapura na mesma altura que Maya. As suas manias sempre a tinham irritado e a ideia de que um dia viria a ser o «deus» de toda aquela gente sempre lhe parecera muito estranha. Como estariam as coisas agora?

 

Encostou-se para trás e observou as pessoas que passeavam pelo mercado. o calor estava a aumentar e pesava-lhe. As nuvens empilhavam-se sobre as montanhas. Na praça havia barraquinhas de diferentes cores, carros de mão, velhinhas e jovens raparigas de uniformes escolares... imagens que Maya sempre guardara na memória. o seu vizinho tagarela do avião tinha razão: ali, o mundo ainda parecia estar em ordem.

 

Maya ergueu-se, atravessou a sala escura, iluminada por bonitos candeeiros de latão, e dirigiu-se para a cabina telefónica.

 

Conhecia o número de cor. Esperava que não tivesse mudado. Marcou o número e pegou no auscultador. Uma voz de homem atendeu.

 

- A Geeti está? - perguntou Maya, em inglês.

- Sim, senhora. Quem devo anunciar?

 

- Oh, basta que diga que é a Maya.

- Perdão?

 

- Maya.

 

Silêncio. o empregado que atendera o telefone lá em cima, no alto da colina, devia ter reconhecido o seu nome. Maya escutou a sua respiração mudar de ritmo e depois dizer, atrapalhado:

 

- Um momento, por favor..

 

Três segundos depois ela atendeu. A voz da irmã de Maya tinha aquele timbre claro, infantil e agudo, que adquiria sempre que estava emocionada.

 

- Quem fala?

 

-Já disse que é a Maya.

 

- Maya?... Então, é mesmo verdade? Eu nem quis acreditar. Maya! Mas que... que... De onde é que estás a telefonar-me? Onde é que andas? Em Nova lorque? Ou em Los Angeles?

 

- Estou no café aqui em baixo na praça. Houve uma longa pausa. Silêncio. E depois: -Em qual deles?

 

-No café de Wang Seng, na praça do mercado. -Isso quer dizer que... quer dizer que tu...

 

- Quer dizer que estou cá e que quero ver-te. E à avó também. Todos,

 

- Maya... Mas... -Mas o quê?

 

-Por amor de Deus, Maya, tu sabes perfeitamente que...

 

- Geeti! Não fiques nervosa, mana. Não vou arrombar portas, nem matar ninguém... Acho que é melhor se nos encontrarmos primeiro para falarmos. Ou estarei a pedir de mais?

 

- Meu Deus, Maya, estou tão contente. Estou mesmo contente. E quero imenso ver-te... Imediatamente, Maya. Mas...

 

-Mas o quê?

 

-Nós não podemos encontrar-nos nesse café.

- Como?

 

- Eu não posso ir ao café do Wang Seng! Ainda por cima a esta hora. É completamente impossível.

 

- Porquê? Geeti hesitou.

 

-Maya, tu sabes que eu casei, não sabes?

 

- Sei. Afinal dei-te os parabéns, não te lembras? -Ah, sim, claro... E sabias que tenho um filho?

 

- Não. Fico muito contente. Mas qual é o problema do café?

 

- Vou-te explicar, Maya. Besir, o meu marido, trabalha no ministério. É chefe de departamento. Os seus empregados costumam ir ao Wang Seng. Sobretudo por volta das cinco da tarde. E tu sabes como as coisas funcionam aqui: eu, como mulher do chefe, não posso...

 

- Compreendo... - disse Maya, olhando à sua volta para a sala sombria. A maioria das mesas estava vazia. Num canto dois homens liam o jornal, enquanto o empregado lhes servia um café. Maya pensou: «Tudo está na mesma. Sobretudo a Geeti não mudou nada... »

 

-Onde, então?

- Desculpa?

 

A irmã de Maya riu-se, nervosa.

 

- Maya, falar contigo... é tão... sabes, estou confusa... Porque é que não mandaste um telegrama a avisar? Ou podias ter telefonado.

 

- Onde, Geeti? Onde é que podemos encontrar-nos?

- Digamos no Jorak Palace. Não é longe desse café. Fica na Datuk Ibraim Street... Tu conheces. Renovaram-no completamente. Agora pertence ao Hyatts. Está muito bonito. Podemos encontrar-nos na entrada, Maya, sim? Está bem para ti? Não fiques zangada... Por favor, Maya, tens de compreender..

 

- Eu compreendo tudo - disse Maya, fazendo um último esforço para se controlar. - Daqui a dez minutos, Geeti.

 

-Está bem, daqui a dez minutos. Talvez chegue um pouco atrasada... Ainda tenho de me arranjar.

 

-Então arranja-te rapidamente. Daqui a dez minutos, Geeti.

 

- Sim, Maya...

 

Maya pagou o táxi e lançou um olhar rápido à fachada cinzenta e degradada do museu que ficava do outro lado da rua. Fora dentro desse museu que pela primeira vez na vida vira um tigre. Dois tigres, ambos empalhados. Encontravam-se no átrio que ficava ao lado da sala onde se podiam admirar as cópias das insígnias da coroa do sultão de Jorak. Tinham de estar ali, porque era o «espírito dos tigres» que protegia o poder dos sultões de Jorak.

 

Maya atravessou o átrio do hotel com o seu saco de viagem na mão e perguntou pela casa de banho. Quando a encontrou, entrou e trancou a porta. Olhou para o espelho. Normalmente estava satisfeita com a sua aparência; naquele momento, porém, não era o caso: tinha olheiras e finas rugas que iam do nariz até ao queixo. Não era do cansaço, Nem por ter estado em Singapura ou em Kuala Lumpur. A razão era outra: uma sensação de insegurança e dúvida, que há muito não sentia.

 

Por que razão não fora directamente para a estação nas montanhas?

 

Porque se submetia às intrigas dos Nandi?

 

Despiu os calções de viagem e mudou de roupa interior. Tirou do saco de viagem uma saia clara e uma blusa azul-escura com bolinhas brancas. Felizmente não estavam demasiado amarrotados. Vestiu a blusa e a saia e voltou a olhar para o espelho.

 

Sulei Nandi, o avozinho, o «velho». «Será que ele vai ter um ataque cardíaco quando me vir? Não, não, ele é rijo. Viverá eternamente... »

 

Pegou no estojo de maquilhagem e pintou os olhos para que parecessem maiores. Espalhou a sombra e pôs pó na cara, desenhou o contorno dos lábios e enquanto se pintava sentiu-se ridícula por estar a fazê-lo. Por um lado a razão dizia-lhe que devia fazer as pazes com o avô depois de tudo o que acontecera e que a melhor maneira de fazê-lo seria transmitindo uma imagem ao seu gosto, de mulher de sucesso indiana que batalhou no estrangeiro. Por outro lado, sabia que aquela argumentação racional era apenas uma desculpa. o que queria ela, afinal? Há anos que desejava banir o clã dos Nandi do seu coração, que tentava cortar o cordão umbilical que une todos os indianos à família até ao fim da vida. E falhara sempre de novo.

 

Apeteceu-lhe tirar toda a maquilhagem. Mas o avô Nandi gostava de ver as mulheres da família maquilhadas. Aos doze anos, Maya já aprendera a lidar com hena, óleos perfumados e lápis de carvão.

 

Maya ajeitou o cabelo, arrumou as coisas e pegou no saco. Dirigiu-se para o átrio... e ficou parada.

 

Pela porta do hotel entrara uma mulher jovem. o porteiro fez uma vénia. A mulher olhou à sua volta e depois dirigiu-se para a cafetaria.

 

Geeti! Sim, era a sua irmã... Mas tinha mudado muito. Maya esperara vê-la com um sari ou um curta, o traje longo e ondulante que as indianas costumam usar, mas a irmã vestia um conjunto cor-de-rosa, justo, extremamente elegante. Não calçava sandálias, não, calçava uns sapatos de salto alto. o seu andar parecia ligeiramente inseguro, com a cabeça inclinada para trás. o facto de ter tido um filho não deixara vestígios no seu corpo: continuava a ter a cintura de uma jovem. Maya sentiu uma onda de calor no corpo. Seria o amor fraternal ou a alegria de ver Geeti assim? Não o sabia.

 

Entregou o saco a um empregado e atravessou o átrio, onde se desfrutava de uma temperatura agradável devido ao ar condicionado. Entrou na cafetaria, uma sala forrada de mármore preto e branco, a imitar o estilo italiano.

 

Lá estava Geeti, sentada numa das pequenas cadeiras a folhear a ementa dos gelados. Maya aproximou-se por trás e pousou as mãos nos seus ombros.

 

Geeti assustou-se, como se um escorpião a tivesse mordido. Pelos vistos continuava uma medrosa... Devagar, muito devagar, virou a cabeça, saltou da cadeira e abraçaram-se...

 

Havia fotografias espalhadas na pequena mesa de mármore. Inúmeras fotografias. A maioria mostrava Ashok, o filho de Geeti, que tinha dois anos. Havia também fotografias da «casa azul», do casamento de Geeti - e mais fotografias de Ashok, desta vez enquanto bebé, sentado ao colo do avô, nos braços da avó ou nos braços de um homem novo, forte e com uma cara redonda com dentes brancos, que o segurava bem alto.

 

-É ele? Este é o teu marido?

- Sim, este é o Besir.

 

Já na altura em que Maya recebera o anúncio do casamento em Los Angeles, reparara no nome malaio: Besir Otim. Imaginara um homem que fosse uma mistura de indiano e malaio, tal como ela própria e Geeti o eram. Mas o homem na fotografia era malaio. Um bumiputra de raça pura.

 

Maya lembrou-se do problema que tinha com o seu avô, Apesar de ter negócios com pessoas de todo o mundo, Suleí Nandi defendia vigorosamente a tradição hindu. Escolhia a dedo os novos membros da família, permitindo apenas pessoas provenientes das mais importantes famílias hindus.

 

Nunca perdoara ao filho Rabindra o facto de ter casado com uma mulher malaia.

 

- o avozinho não ficou furioso?

 

- Porquê? Por amor de Deus, o Besir é proveniente de uma família muito importante. Ele é presidente do Tigre, sabes, a organização dos jovens da UNINO que neste momento está no poder.. Além disso o pai dele já foi ministro. E o Besir provavelmente em breve será secretário de Estado.

 

Maya escutou, olhou para aquela Geeti empreendedora com o seu conjunto cor-de-rosa e tentou pensar.

 

Porém, não chegou a nenhuma conclusão, para além da verificação banal de que a vida em Kualang mudara... Juntou as fotografias numa pilha.

 

-Como é, Geeti? Vamos embora? Trouxeste o carro? Geeti estava a desembrulhar um dos pequenos chocolates que naquela cafetaria eram servidos juntamente com o chá. Voltou a pô-lo na tigela de prata.

 

-Não queríamos falar um pouco? -Mas nós já falámos.

 

- Falámos? - Geeti tinha um nariz curto, a boca grande dos Nandi e uns olhos escuros com um ar inocente. o que eu quero dizer.. Maya... acho que nós não podemos aparecer assim de repente em casa do avozinho.

 

- Nós? Estás a falar de mim.

 

- Sim. Devíamos falar disso antes. - Geeti mexia no papel de prata.

 

-Então, fala, Geeti. o que é que se passa?

 

Talvez o tom de voz de Maya tivesse sido muito duro ou impaciente: a testa de Geeti escureceu e ela inclinou a cabeça sobre a chávena.

 

- Sim, falar... Talvez tivéssemos de falar muito, muito mesmo, Maya... - Geeti voltou a erguer a cabeça e olhou para a irmã: - Eu não quero criticar-te, Maya, tens de compreender. Não tenho razão para isso. Tu organizaste a tua vida à tua maneira. Sempre o fizeste, desde que éramos pequenas. Eu... eu nunca fui capaz disso. Também, nunca tive oportunidade, afinal tu eras sempre a melhor, a mais esperta, eras mais rápida em tudo. E... - Hesitou. - E sempre foste mais bonita.

 

- Geeti! o que é que isso tem a ver com o facto de irmos para casa?

 

-Tu sabes.

 

- Eu? Não, não sei nada.

 

-Sabes, sabes... Já deves ter percebido que depois de tudo o que aconteceu, não podes aparecer assim, simplesmente, em nossa casa.

 

o que dissera ela? Aparecer em nossa casa...? Por amor de Deus: «nossa casa»?! Aquela expressão incluía todos, até mesmo o seu novo marido malaio...

 

-Falaste com o avô? Foi ele quem disse isso?

 

- Com o avô?... Maya, eu nunca ousaria tal coisa. Pelo menos enquanto as coisas estiverem assim... Ou melhor, nunca antes de... digamos, estar tudo resolvido,

 

-E a avó?

 

- Ela também não sabe. Está muito velha... Eu achei melhor ver-te antes. Tu sabes tão pouco sobre nós. Quando a mãe morreu, foste logo para o chalé com o pai. E eu fiquei com os avós.

 

- Tu estavas doente, Geeti. o avô dizia que os animais que o pai lá tinha iriam contagiar-te. E o pai cedeu. Infelizmente...

 

- Pois bem. Depois foste para Singapura. E depois aconteceu aquela história...

 

Aquela história.

 

Era estranho: em todos aqueles anos Maya pensara muito raramente nessa história. Era uma questão que para ela estava encerrada. o «caso Sharma», como Rabindra Nandi costumava chamar à tentativa do avô de casar Maya com Shankar Sharma, o herdeiro de uma das mais grandes fortunas hindus do sultanado, Mas ali em Kualang, aparentemente, aquela história não fora esquecida.

 

- Compreendo - disse Maya.

 

- Então, vais para um hotel? - perguntou Geeti, esperançosa. - Podes ficar neste aqui.

 

- Não, Geeti. Não vou ficar num hotel. Quero que me leves para a «casa azul». Vou falar com o velho. Quer dizer, vou tentar...

 

- Mas tu não podes...

 

- Posso, posso, - Maya sorriu e Geeti parecia horrorizada. - Tinhas toda a razão quando há pouco disseste que eu sempre fiz aquilo que queria...

 

A estrada subia a encosta com as suaves curvas e contracurvas. Através das folhas dos eucaliptos podia-se ver a cúpula brilhante da mesquita do sultão Rachman.

 

Geeti conduzia o Mercedes, sem tirar os olhos da estrada, apesar de não haver outros carros nem pessoas por ali. Mais uma curva. Depois apareceu o enorme muro de pedra que rodeava todo o terreno da família Nandi, transformando-o numa espécie de ilha ou até mesmo fortaleza. Nos quatro cantos do muro havia pequenas torres de vigia.

 

Num certo dia - Maya tinha então dezassete anos bandeiras das cores do sultanado de Jorak flutuavam naquelas torres. Bandeiras amarelas, brancas e pretas. Polícias controlavam o trânsito e davam indicações aos carros, Bentleys, Cadillacs e Mercedes, que não encontravam lugar no parque de estacionamento da Casa Azul. Ouvia-se música vinda de altifalantes escondidos no parque, música para trezentos hóspedes, entre os quais Sua Majestade, o sultão Omar Hassan. Como a sala de banquetes da Casa Azul não era suficientemente grande, tinham montado uma enorme tenda no jardim, em cujo interior o chão estava todo forrado com um tapete.

 

Nessa altura, exactamente naquele lugar por onde agora passava, perto da primeira torre de vigia, Maya dissera ao pai:

 

- Não sou capaz.

 

- Não és capaz de quê?

 

- Não sou capaz de casar com ele.

 

Estavam sozinhos no carro. Nessa altura, Maya já vivia com o pai e os seus animais no chalé ou na estação de tigres nos Highlands.

 

Encontrava-se sentada ao seu lado, deslumbrante no seu vestido de noiva colorido. Parecia uma deusa... não, uma boneca preciosa, mas sentia-se como um bezerro a caminho do matadouro.

 

- Isso não pode ser. -Talvez, mas eu não posso.

 

- Os Sharma nunca nos perdoarão. E eles são... -Sim, eu sei, são a família mais rica do sultanado. Maya olhara para o relógio no tablier do carro. -São dez para as quatro, pai. o Shankar chegará às quatro em ponto. Não te preocupes. Eu trato de tudo sozinha.

 

-Tens consciência do que estás a fazer ao avô? Maya olhara para o pai: o seu rosto estreito tinha uma expressão consternada e preocupada, e os seus bonitos olhos, que normalmente exibiam uma expressão bondosa, pareciam agora assustados.

 

Maya tinha dezassete anos. Uma idade em que se chora com facilidade. Sentiu as lágrimas nos olhos. Não tanto devido a ela própria ou aos outros familiares, mas sim devido ao pai. Sabia que ele estava a sofrer.

 

- Tu amaste a minha mãe, não amaste? o carro avançava agora muito devagar.

- Sim.

 

- Muito?

- Muito.

 

-E lutaste por esse amor, apesar de ela ser malaia. Ele ficara calado. Era verdade...

 

Parara o carro e olhara para Maya. Ela percebera pelo seu olhar que ele adivinhava o que a filha iria dizer e que tentava lutar contra a ideia por a considerar absurda e demasiado assustadora.

 

- Eu sei - dissera Maya, e agora lembrava-se de cada uma das palavras que utilizara.

 

- Eu sei que as filhas devem obedecer aos pais da mesma forma que mais tarde obedecerão aos maridos. E que deve ser esse o conteúdo da nossa vida; o nosso conceito de felicidade gira à volta de uma única questão: como garantir que o marido esteja satisfeito?

 

- Ouve-me...

 

- Não, ouve-me tu. Eu não aceito essas regras. Não posso. Os tempos mudaram, pai. Tu sabes isso. E, com os tempos, mudaram também os sentimentos...

 

- Maya, por amor de Deus, pára!

- Não.

 

- Tu não podes...

 

-Posso e vou fazê-lo. É a decisão certa, pai. Tenta compreender que eu um dia quero amar o meu marido da mesma forma que tu amaste a minha mãe. é o meu direito, Mesmo que corra mal, é o meu direito.

 

-Mas tu já foste prometida.

 

-Foi o avô quem me prometeu, não fui eu.

 

- Por favor, Maya... - Falava num murmúrio e parecia desesperado. - Imagina o escândalo. Os convidados estão à espera. Ele gastou uma fortuna. Tu sabes isso.

 

-Claro que sei. O que vais fazer? -Vou descer do carro.

 

- Maya! Não podes desaparecer assim, não podes fugir!

 

- Não vou fugir. Vou descer do carro e percorrer o resto do caminho a pé.

 

Com essa roupa?

 

- Com o meu vestido de noiva. Quando chegar vou falar com o avô e dizer que não posso casar.

 

Maya percorrera o caminho. Fora um longo caminho... No pátio encontravam-se as suas amigas e os convidados, todos conhecidos. Aproximaram-se dela. De repente pararam. Deviam ter-se apercebido de algo de estranho, muito estranho.

 

No terraço, o avô, Sulei Nandi, levantara-se e erguera a bengala para a cumprimentar.

 

Maya dirigira-se-lhe e dissera o que tinha a dizer. Depois correra, correra pelo portão, vira o carro do pai aproximar-se, enfeitado com crisântemos. Aporta do carro abrira-se e o pai chamara:

 

- Entra.

 

E era por esse mesmo portão que agora passava com Geeti...

 

A sua capacidade auditiva estava cada vez pior; por isso, ligara o altifalante ao telefone. Além do mais, permitia-lhe continuar a beber o seu chá calmamente. De qualquer forma, Sicíli apontava tudo. E porque não haveria Sidh de ouvir aquela conversa? Ele era tão calado, tão prestável e de confiança como a velha secretária de madeira de teca à qual estava sentado.

 

Porém, Sulei Nandi não necessitava dos apontamentos de Sidh, A conversa durou exactamente sete minutos e dez segundos. Controlara o tempo com o relógio. As frases que Wang Fu dizia em voz baixa, sentado no seu pomposo Silver Tower na longínqua Singapura, gravaram-se-lhe na memória. Cada uma delas.

 

Sobretudo a última.

 

Maya estivera em Singapura? Cometera delitos? Era membro de uma daquelas organizações secretas, comunistas ou ecologistas...? Era tudo a mesma coisa. Maya, um membro da sua família era agora um inimigo do Estado...!

 

- Que escândalo... Ela devia ser morta - proferiu com uma voz rouca.

 

- Essa é uma decisão tua e só tua, meu caro amigo. É a tua família e ela é a tua neta.

 

-Já a expulsei uma vez.

 

-Eu, como teu velho sócio e companheiro, só posso dizer-te uma coisa: o ramo de uma árvore que morre tem de ser cortado, tal como a erva daninha tem de ser arrancada... Isso dói, meu caro amigo... Dói muito, eu sei. A nossa família é como o nosso próprio corpo...

 

Como o nosso próprio corpo.

 

Sulei Nandi suspirou. As asas da ventoinha no tecto giravam silenciosamente sobre a sua cabeça branca e estreita. Lá fora as palmeiras sussurravam na brisa quente da tarde, mas ele, ele tinha frio.

 

Pousou ambas as mãos nos braços do cadeirão, ergueu-se com dificuldade, pegou no frasco com as moscas que apanhara de manhã e levou-o para o terrário, no qual esperavam as lagartixas e os sapos. Tirou a tampa, introduziu o frasco e depois voltou a fechar a tampa e sentou-se no tamborete de elefante cuidadosamente talhado, que se encontrava ao lado...

 

Uma das moscas percorreu a borda de vidro e depois voou o percurso restante até à pedra na qual estava sentado Shiva, o sapo preferido de Sulei Nandi.

 

Observou a garganta de Shiva a começar a tremer, enquanto permanecia imóvel. Nem sequer mexia a cabeça. Mas de repente... como era hábito, o ataque deu-se tão repentinamente que Sulei Nandi não conseguiu segui-lo. Shiva engoliu. A mosca desaparecera...

 

-Vossa Excelência!

 

Sulei Nandi virou a cabeça. Sidh estava à porta e parecia extremamente nervoso. Em vez de manter os braços caídos, encostados ao corpo estreito e pequeno, em sinal de respeito, coçava a parte de trás da cabeça.

 

- Vossa Excelência perdoe-me, mas ela está cá.

- Quem está cá?

 

- Ela.

 

Sulei Nandi compreendeu... e, apesar disso, não quis acreditar.

 

- Maya?

 

- Sim, Vossa Excelência, a sua neta.

 

- E onde, em nome de todos os deuses, está ela?

- Nesta casa...

 

Geeti acompanhara Maya ao quarto da avó e com a sua voz exaltada e irrequieta explicara à velha senhora que Maya apenas estava de passagem. Racharia Nandi erguera-se e beijara a neta. o véu que usava escorregara ligeiramente para o lado, descobrindo o seu cabelo fino e branco que emoldurava o seu rosto delicado, de traços suaves.

 

Maya mal conseguira conter a emoção.

 

-Tantas vezes que eu sonhei com este momento disse.

 

Era verdade.

 

Racharia, porém, voltara a sentar-se sem nada dizer, pusera a bengala entre os joelhos e cruzara as mãos sobre o punho. Maya olhara para ela, sentada em frente às estatuetas imóveis das divindades, tal como as vira em sonhos e, de repente, a sua avó pareceu-lhe estranha e distanciada e Maya perguntou a si própria se Racharia ainda saberia quem ela era e se compreendia o que se passava à sua volta. -Ela veio dos Estados Unidos, avó.

 

Na penumbra que reinava dentro do quarto, a face de Racharia Nandi assemelhava-se a uma máscara de barro, velha e quebradiça. Apenas os dentes artificiais pareciam vivos. Estava sempre a sorrir.

 

Sorria, mas não dizia uma palavra.

 

-A Maya estudou nos Estados Unidos - insistira Geeti. A sua voz parecia a voz de uma criança a pedinchar.

- Ela é bióloga, como o nosso pai. Quer visitar a estação. Provavelmente ficará lá em cima, não é verdade?

 

Maya anuíra com a cabeça. Que mais podia fazer?

 

o calor no pequeno quarto tornava o cheiro a madeira de sândalo das velas aromáticas ainda mais insuportável. Maya tinha apenas um único desejo: ir-se embora, não, fugir. Tentara pensar em algo que pudesse dizer, palavras que a velha senhora de qualquer maneira não iria compreender. Mas não fora necessário dizer nada.

 

A porta abrira-se.

 

Era uma porta grande talhada minuciosamente, como todas as portas naquela casa, e no rectângulo de luz Maya reconhecera os contornos da sombra: alto, mais magro do que se recordava. Vira o braço de Sulei Nandi erguer-se e fizera a vénia que o avô exigia de todos os membros daquela casa e, enquanto baixava a cabeça, num gesto de submissão, ouvira a sua voz.

 

- Vai! Vai-te embora imediatamente... Sai desta casa. Há dez anos ouvira exactamente a mesma frase...
- Por amor de Deus, Maya! Tínhamos combinado que telefonarias todos os dias, se fosse possível.

 

- Exactamente. Se fosse possível. E não foi.

 

- Desde ontem que estás em Kualang. Não há telefones nessa cidade? o que é que aconteceu?

 

Ansiara tanto por ouvir a voz de Rick Martin... desejara tanto escutá-la... e agora? Agora ele falava como um verdadeiro patrão, o chefe de campanha da EIA, que dirigia tudo a partir da central, para que os seus empregados agissem conforme planeado.

 

Sim, associara emoções completamente diferentes ao nome de Rick. Agora já nem se lembrava bem de quais... -Estás com a tua família?

 

- A minha família? - Maya fez um esforço para pronunciar aquelas palavras e tentou relatar resumidamente o que acontecera. Não podia explicar exactamente a situação. Ele nunca a compreenderia.

 

- Então, onde estás?

 

-Porque é que queres saber? Sabes quanto é que me custa esta chamada?

 

É uma chamada a pagar no destinatário.

 

Está bem. Mesmo assim. - Maya não sabia a razão por que a voz de Rick, as suas palavras, a irritavam tanto. Provavelmente porque procurava ajuda e esperara ouvir uma palavra reconfortante da parte de Rick... Mas ele estava sentado no seu maldito gabinete, rodeado de pessoas.

 

No entanto, o que deveria ele dizer? Alguma vez lhe dera a entender, desde Puerto Colón, que associava o seu nome a alguma emoção positiva? Ou que - o que ele nunca imaginaria - precisava dele? E todavia ele amava-a e ela sabia isso...

 

De novo a voz objectiva e fria de patrão, parecendo estar perto, incrivelmente perto, e ao mesmo tempo estranha e longínqua.

 

- Eu perguntei-te uma coisa.

 

- Sim - respondeu Maya, furiosa -, perguntaste onde eu estou.

 

- Exactamente.

 

Maya olhou à sua volta. Nas paredes estavam penduradas peças artesanais de cobre, latão e madeira e tapetes de sisal, para além de três máscaras de espíritos que os Senoi utilizavam para os rituais de iniciação: enormes caretas assustadoras, vermelhas como o sangue.

 

-No bazar - disse Maya. -No bazar?

 

-No bazar malaio. Qual é o problema?

- Mas um bazar será o lugar apropriado...

 

- Tu pões-me doida, Rick. Quantas vezes queres que eu repita que não admito que a minha profissão me dite regras? Deixa-me fazer as coisas à minha maneira. Aqui e agora. Acho o teu tom de voz completamente desapropriado.

 

- Desculpa... Tu sabes bem que eu sou um cretino, Maya. Sobretudo quando se trata de ti.

 

De repente Rick falou mais baixo e a sua voz adquiriu um tom apaziguador. Pronunciava as palavras muito devagar, como se de um jovem inseguro se tratasse.

 

- Tens toda a razão. Mas o facto de estar aqui sentado à espera de notícias tuas, sempre preocupado, põe-me neste estado. Quase não passa um minuto sem que eu pense em ti, Assim já estava melhor.

 

- o que tencionas fazer agora?

 

- Vou subir até à estação. Vou para Tãong.

- Isso fica muito longe de Kualang?

 

- Não muito, mas é uma viagem cansativa.

 

- Não poderias esperar até ao fim da semana?

- Esperar? Porquê?

 

- Porque, porque... - Rick hesitou.

- Porquê?

 

- Porque marquei um voo para sexta-feira.

 

Maya adivinhara e até desejara que isso acontecesse e agora nem queria acreditar.

 

-Para onde?

 

-Para Kualang - disse Rick Martin. Ainda bem.

 

Achmed Kani estava sentado no seu banquinho atrás da caixa e empurrava o song kok, o tradicional chapéu malaio, preto e redondo, de um lado para o outro. Redonda era também a cabeça de Achmed: redonda e brilhante como uma bola de madeira. Era um homem com um sorriso simpático. Maya lembrava-se do tio como sendo uma pessoa sempre bem-disposta, que por vezes parecia um pequeno diabrete bondoso, sempre sorridente.

 

E agora encontrava-se de novo à sua frente.

 

- Os Nandi? - dissera, abanando a cabeça e rindo-se.

- Ah, pois, os Nandi! Só havia um entre eles que era um ser humano, o teu pai, e esse agora está morto. Mas os outros... A altivez deles sufoca-os. Tal como o dinheiro que têm...

 

- Poderias arranjar-me um hotel para eu ficar esta noite, tio Achmed? Um hotel em que não me conheçam. -Um hotel? Podes ficar em minha casa o tempo que quiseres, minha pombinha. o nosso sangue é que conta e não o sangue dos indianos que aparecem por aí. Oh, minha pequena, que sorte a tua mãe não ter de assistir a esta situação. Que Deus me perdoe, mas se ela visse o que aconteceu a esta família... Bem, tu fazes parte da nossa família. Podes sempre contar comigo.

 

Maya sabia que era verdade. Apesar disso não iria ficar na pequena casa do tio, que se situava em Jalang Teluk, logo atrás da mesquita.

 

Porém, o seu tio Achmed conhecia a floresta. Desde que o número de turistas que visitavam o principado de Jorak começara a crescer de ano para ano, ele passara a dedicar-se à comercialização de arte popular. Os seus principais fornecedores eram as duas tribos senoi que viviam a leste, perto de Moong, num planalto na margem da floresta, onde se tinham instalado definitivamente com a ajuda do governo. o tio conhecia também as tribos nómadas. E as cascatas. E Taong, a estação fundada por Rabindra Nandi, ficava em caminho.

 

- Tenho de ir para Taong, tio Achmed.

- Para Tãong? Assim? Sozinha?

 

- Já estou habituada - respondeu Maya com um sorriso.

 

-Posso imaginar que sim... Vê-se. E como queres ir para lá?

 

- Era sobre isso que queria falar contigo.

 

-Porque sabes que eu tenho um Land Rover, não é? Maya confirmou com um aceno de cabeça.

 

- Em princípio queria perguntar-te onde é que se pode alugar um jipe. Um carro normal não basta para chegar a Taong.

 

-Quando é que queres ir para lá?

 

- o mais rapidamente possível. - Maya olhou para fora e observou o movimento nos corredores do bazar onde ficava a loja de Achmed.

 

- Amanhã.

 

- Amanhã? - Achmed riu-se. - Talvez até seja uma boa ideia... Tenho alguns assuntos para resolver em Moong. Se me pedires muito, talvez consigas convencer-me a levar-te lá para cima. Vou buscar café...

 

Maya seguiu-o com o olhar.

 

Primeiro a visita à Casa Azul, depois a conversa com Ríck. Sentía-se exausta e sobrecarregada. Fora de mais para ela... Pior, fora uma desilusão tão grande que sentia que aquilo em que se apoiava, as suas certezas, começavam a desaparecer.

 

O meu voo é na sexta», dissera Rick. No sábado, chegaria a Kualang. Daí a cinco dias!

 

Não iria alterar os seus planos por causa dele. Dan Carpenter, que era ainda o responsável pela estação, possuía um jipe Toyota. Mesmo se a ideia de ter de voltar a percorrer o caminho, no sentido inverso, no próximo fim-de-semana, lhe pesava, não lhe restava outra hipótese. Depois do episódio com o avô, tinha de sair da cidade o mais rapidamente possível. Maya conhecia-o bem. Ele era capaz de tudo. Seria capaz de fazer tudo para tornar a sua estada em Kualang insuportável.

 

Porém, antes de partir, ainda tinha um assunto importante a tratar em Kualang...

 

- Sabes se o Wahid está cá? - perguntou a Achmed, enquanto este lhe estendia uma chávena de café.

 

O Wahid? o teu amigo, o príncipe?

- Sim.

 

- Porque é que queres saber, minha pombinha?

 

- oh, é uma longa história. Um dia conto-te... Mas então... ele está aqui em Kualang?

 

-Como é que queres que eu saiba? - perguntou Achmed, e os seus olhos pareciam ainda mais redondos do que já eram...

 

Nesse preciso instante, J. P. Bernier, que se encontrava na sua suite no Palace, observava, pensativo, o espelho, olhando para o chinó de cabelos brancos que lhe dava um ar sério.

 

Praguejou baixinho e ajustou o elástico do chinó com as pontas dos dedos. Para quê? Arrancou-o da cabeça: as cabeleiras postiças eram perigosas, pois quem as usasse durante muito tempo facilmente se habituava a elas. E o chinó nem lhe ficava assim tão mal. Mas naqueles países tropicais as pequenas células cinzentas ferviam por baixo das cabeleiras postiças.

 

Dirigiu-se ao frigorífico, retirou uma Coca-Cola e depois acendeu um cigarro; logo a seguir, apagou-o. Era um hábito estúpido que nem sequer perdera desde que deixara de fumar há três anos: antes de entrar em acção fumava sempre um cigarro....

 

Nervoso? Nem pensar.

 

  1. P. despiu as calças de popelina azul e pendurou-as cuidadosamente num cabide. Ainda iria precisar delas, dada a categoria do hotel. No entanto, não apreciava aquele género. Por princípio preferia hotéis pequenos, onde se ficava a saber mais sobre as pessoas e o lugar em que se estava. Por outro lado, os hotéis grandes permitiam manter o anonimato.

 

Foi para o duche, abriu a torneira e verificou a temperatura da água. Por último despiu os calções de algodão. Cada vez que o fazia, hesitava por alguns instantes, sentindo um embaraço que, apesar de ridículo, era inevitável. Desta vez, decidiu fixar o espelho, tentando não olhar para aquele sítio entre as pernas. Olhar não ajudava. E olhar e ainda por cima mexer era... o cúmulo do ridículo. Afinal, não havia nada a fazer..

 

Porém, não resistiu a olhar e sentiu o mesmo arrepio de sempre, que começava nas ancas e percorria a espinha até à cabeça.

 

Sim, pensou, não havia mesmo nada a fazer. E no fundo tratava-se de uma questão de perspectiva. o que dissera aquela pequena prostituta russa? Como era o seu nome? Ludmila, exacto... Fora há sete meses, em Johor. Nessa altura, aviões cheios de prostitutas russas aterravam em Singapura. J. P. escolhera uma das raparigas para o mandarim. Fora com ela para o quarto, a fim de negociar. Claro que ela levara a mal. No entanto, também ele tinha curiosidade em saber do que as russas eram capazes...

 

A tal Ludinila despira-se e afinal provara ser capaz de alguma coisa: o seu corpo era fantástico. Ele permanecera sentado na cama, de calções, e antes que pudesse reagir ela pusera as mãos entre as suas pernas. Mas voltara a retirá-las imediatamente, como se tivesse tocado num cabo eléctrico, O que é isso?

 

Como se responde a uma pergunta destas?

 

O que é que tens entre as pernas? Uma pedrinha? Ele dera-lhe um estalo que a fizera cair no chão. Depois, oferecera-lhe um copo de uísque, porque se arrependera. Não tinha o hábito de bater nas mulheres. E quando a viu agachada, a chorar e a olhar para ele, aterrorizada, com um enorme olho negro, até sentira pena dela.

 

Contara-lhe o que se passara no Víetname. Ludinila fitara-o.

 

- Então o teu inimigo acertou em cheio? - perguntara ela.

 

- Não acertou nada - respondera ele enquanto observava a cicatriz, tal como o fazia agora. Um trabalho péssimo que os médicos americanos tinham feito no hospital de Saigão. - É como se te empurrassem para um buraco. Um buraco negro, sem fundo...

 

Seis quilómetros atrás do aeroporto, a «Malásia – Visão 2000» acabava: havia três placas vermelhas, uma barreira... e a auto-estrada de quatro pistas transformava-se numa estrada estreita e sinuosa, cheia de buracos.

 

Maya conhecia aquele caminho. Percorrera-o inúmeras vezes. Era a estrada que subia até Tãong e constituía a única ligação entre Kualang e a floresta e a estação.

 

o velho Land Rover avançava calmamente. o tio Achmed conduzia e cantava alto uma cantiga sobre a rapariga do café que se metia com todos os homens mas não beijava nenhum deles. As árvores ainda projectavam longas sombras e o fino nevoeiro vindo das montanhas envolvia os campos e o horizonte num brilho misterioso de cor opalina.

 

Maya espreguiçou-se. o vento húmido acariciou-lhe a face. Estava cansada; dormira numa pequena pensão malaia atrás do bazar e os jogadores de majong não a tinham deixado dormir até às três da manhã, devido aos seus gritos. Pelo menos, tinha a certeza de que nesse lugar ninguém a conhecia e era isso que importava...

 

- A terra do sultão! - exclamou Achmed apontando para os campos.

 

Maya olhou pela janela. Os longos e delgados troncos das palmeiras brilhavam, avermelhados e húmidos, no nevoeiro azulado. Plantações de óleo de palma. Depois as planícies. Arados e carros puxados por búfalos. E mulheres e raparigas que vestiam roupas coloridas e sarongs e caminhavam como seres de outro planeta.

 

Duas horas depois saíram do vale e atravessaram o rio por uma velha ponte suspensa, que fora construída pelos colonizadores ingleses, e subiram uma encosta. Entretanto o Sol aparecera entre as nuvens e estava cada vez mais calor. À beira da estrada havia vendedores de chá e de melões. De vez em quando cruzavam-se com um autocarro ou um camião e eram obrigados a fazer manobras complicadas para se desviarem. Havia poucos carros ligeiros. Os habitantes das diminutas aldeias ou das pequenas quintas com palmeiras, eram pobres de mais para possuírem um carro.

 

- Telefonaste ao Tuan Dan? - perguntou Acluned, por entre o barulho do motor a gasóleo. A subida era íngreme e o jipe avançava devagar.

 

- Ao Dan? Para quê? Nem sequer podia. Afinal ele não tem... - Telefone, era o que ia dizer, mas foi interrompida. Achmed metera a segunda mudança. o motor roncou, exalando fumo branco.

 

-Não é capaz, não consegue... Está a falhar de novo gritou Achmed, furioso.

 

O que é que se passa?

 

O que se passa?! o costume, é o radiador. Aquele mecânico é um aldrabão! o carro ainda esteve na oficina na semana passada. Há sempre problemas com o radiador. E eu tenho de estar em Moong antes do meio-dia... É melhor fazermos uma pausa.

 

Encostou o carro e desligou o motor. Algumas finas camadas de nevoeiro ainda pairavam sobre os muros húmidos das plantações de chá. A água da chuva que caíra durante a noite formava pequenos riachos que reluziam à luz do Sol. Com o nevoeiro branco como pano de fundo, as árvores pareciam sombras recortadas. A época das chuvas da monção estava a aproximar-se.

 

- Não te preocupes, minha querida--- - Achmed estava de novo sorridente. - Moong fica perto da floresta. E lá não há montanhas, é sempre a descer.

 

- Diz-me lá, como poderia eu ter telefonado em Tãong? -Ele tem um aparelho de rádio.

 

o coração de Maya bateu com mais força.

 

-A sério?

 

- Eu gosto de brincar, querida, mas agora estou a falar a sério.

 

Fantástico, pensou Maya. Em Moong também havia telefones. «Posso telefonar ao Dan e pedir que venha buscar-me.» Desceu do carro e sentiu dores nas costas, Mexeu as pernas enquanto percorria com os olhos a estrada que descia o vale como uma serpente entre os degraus da plantação, De repente, vislumbrou uma pequena mancha preta que se mexia. Desapareceu e depois voltou a aparecer na recta que conduzia até à próxima curva: uma moto.

 

Agora até já conseguia ouvir o seu motor. Achmed virou a cabeça.

 

-Vem aí alguém.

 

- Sim - disse Maya -, há mais pessoas a quererem ir para Moong esta manhã.

 

A moto surgiu de trás da última curva e abrandou, ouvindo-se o motor abafado e potente enquanto subia a encosta. Quando finalmente se aproximou deles, o condutor lançou-lhes um rápido olhar e ergueu a mão. Não se podia reconhecer a cara, escondida por baixo do capacete com a viseira descida. o casaco leve, verde-claro, era insuflado pelo vento e nos pés viam-se umas simples sandálias de plástico transparente. Aquele capacete e o casaco verde?, pensou Maya. Muito estranho...

 

- Não era um dos nossos - disse Achmed.

- Quem era então?

 

- Orang Asing. Um desses estrangeiros. Parecem pulgas, são uma verdadeira praga. Saltam dos aviões, alugam carros e motos e poluem o ar. Mas trazem dinheiro. Achmed soltou um risinho. - Se isto continuar assim, qualquer dia irei abrir uma filial em Moong...

 

Maya olhou para a moto que se afastava. Um estrangeiro? Certamente. Ombros largos, alto, forte... Não era malaio.

- E depois construo um hotel em Moong, nessa aldeiazinha perdida - acrescentou Achmed, rindo-se. - Com piscina, pista de aterragem para helicópteros e essas coisas todas, Ninguém sabe o dia de amanhã! Quem sabe o que o Todo-Poderoso ainda tenciona fazer connosco... Mas em Kuala Lumpur estão todos loucos. A prostituição confundiu-lhes a cabeça. Têm prostitutas e bordéis a mais. Deve ser por isso... - Aclimed estava entusiasmado com a conversa. Bem, as raparigas também têm de viver. Muitas delas deixaram Kualang e foram para Kuala Lumpur ou para o Ocidente. Trabalham como secretárias ou empregadas para os estrangeiros. Constroem televisões ou aqueles tais semicondutores. Talvez um dia aqui, na nossa terra, também chegue a haver arranha-céus, como o Presidente deseja... Ou até mesmo em Moong, onde por enquanto ainda há floresta. Mas essas, de qualquer maneira, em breve deixarão de existir.. É verdade, minha querida?

 

Aclimed fez uma pausa.

 

- É verdade? - insistiu. - É verdade que a floresta de Tenenga te pertence? Até às cascatas de Panan? -Quem te disse isso?

 

- o Ibraim. Tu sabes quem é o Ibraim. É o homem que trata da iluminação da mesquita. É um homem importante que está sempre muito bem informado.

 

-E o que foi que disse esse Ibraim?

 

- Disse que o sultão Omar Hassan legara toda a área de Tenenga ao teu pai, para que este garantisse que não só as tribos que vivem na floresta, mas também os tigres e todos os outros animais ainda existentes pudessem continuar a viver em paz, como sempre o fizeram. E que agora, que o Todo-poderoso levou o teu pai para perto dele, ficou tudo para ti.

 

-Como é que ele sabe que o meu pai está morto? -Todos o dizem.

 

Maya acenou com a cabeça.

 

-Mas ninguém o sabe - declarou e entrou no Land Rover.

 

Achmed fechou o capot e sentou-se ao lado dela. Fitou-a durante muito tempo, depois suspirou e ligou o motor. Não acelerou muito, para poupar o carro. Quando chegaram ao planalto, o nevoeiro finalmente desaparecera, dando lugar ao sol. À beira da estrada havia árvores e enormes fetos. De vez em quando viam-se pequenas aldeias nas clareiras da floresta. As casas, construídas em cima de estruturas de madeira húmidas que brilhavam, estavam tão próximas umas das outras que pareciam proteger-se entre si.

 

Achmed já não cantava. Estava calado. Passaram por uma lomba e do lado esquerdo viram a floresta verde-escura.

 

- Estiveram cá uns chineses da Formosa - disse Achmed. - Homens da company. Estão a planear construir grandes estradas. Aqui não. Ainda não. Mas lá em baixo na zona do Sadak.

 

Lá em baixo na zona do Sadak? A área à volta do monte Sadak era o coração de Tenenga! Maya não conseguia acreditar naquilo que ouvia.

 

-Como é que soubeste isso?

 

- Nada mais fácil. Nos últimos tempos até tenho vindo pouco a Moong, mas conheço as pessoas de cá. Tenho aqui um representante. é ele quem me leva a mercadoria...

 

Achmed sorriu, orgulhoso.

 

- o nome dele é Tinu. Um dos seus filhos é meio ipak. Fala fluentemente a linguagem da floresta. Os outros filhos também a falam, São eles que vão às tribos buscar a mercadoria. À tribo panan, por exemplo.

 

o pai de Maya contara-lhe muitas histórias sobre os ipak. Juntamente com essa tribo percorrera a floresta durante meses a fio. Fora ele quem aconselhara os ipak a construírem uma casa perto da estação, sem desistirem da caça. Adoravam-no. Tinham-no baptizado de «Grande Grito de Tigre» e ele ficara muito orgulhoso: «Imagina, Maya, algures na floresta chamam-me ”Grande Grito de Tigre” e falam dos meus feitos heróicos», contara-lhe várias vezes, mais tarde em Nova lorque.

 

-E que história é essa da company?

 

- Que história? É o costume. Estão a construir um enorme acampamento, lá em baixo, onde os rios se juntam. Utilizam helicópteros para trazer os troncos de meranti da floresta, levam-nos para os acampamentos e depois transportam-nos o mais longe possível rio abaixo. Na zona de Nati, perto do monte Sadak, há uma barreira. Já construíram estradas até lá. Diz-se que querem destruir a barreira para que o transporte seja mais barato.

 

Estava tanto calor que nem sequer o vento conseguia secar o suor na cabeça de Maya. Sentiu a camisa colada ao corpo, mas, no entanto, havia algo dentro dela que tremia de frio.

 

Não respondeu. Para quê? Era sempre a mesma história: desflorestamento. Logging. Destruição sem piedade da floresta tropical... Já tinham discutido esse assunto milhares de vezes. Agora, porém, havia uma diferença fundamental: tudo aquilo se passava na área de Tenenga. E a estrada já estava construída até ao rochedo de Nati...

 

Perto dos rochedos de Nati havia uma ilha. Há muitos anos, os habitantes da floresta, homens da tribo dos ipak haviam conduzido Maya e o pai até lá. Eram seis e tinham ido em três barcos. A viagem durara vários dias, até que finalmente, num fim de tarde, avistaram a ilha. A água castanha estava coberta por uma camada de nevoeiro avermelhado.

 

De repente, os homens haviam retirado os remos da água, deixando os barcos flutuarem silenciosamente. Todos estavam calados, apenas se ouvia o murmurar da água.

 

Foi aí que Maya o viu: um tigre! Um tigre que nadava na água. Nadava devagar e os seus movimentos eram perfeitos e fortes. Dirigia-se para a margem. Apenas a sua cabeça era visível e Maya achara-a muito clara.

 

Quando finalmente desaparecera entre as folhas da outra margem, os ipak trocaram algumas palavras, agitados. O que estão eles a dizer?

 

- Era a Branca - respondeu-lhe o pai. - o tigre que acabámos de ver era a Branca.

 

-Quem é a Branca?

 

-É um tigre branco - explicara-lhe o pai. - Penso que se trata de uma variante genética, de um tipo de sangue, que produz tigres muito claros e fortes. Já tinha ouvido falar várias vezes da Branca e de outros tigres brancos e seus filhotes. Os tigres são animais muito importantes para os ipak. São os seus espíritos protectores. Enquanto animistas, acreditam que, além dos animais, tudo o que é vivo tem uma alma. o tigre branco representa para eles o espírito bom da tribo.

 

Maya nunca mais se esquecera daquela imagem: a cabeça branca do tigre, as suaves ondas no rio castanho e os contornos da ilha na penumbra... Imaginar que aquele lugar estava ameaçado pelo barulho dos camiões e das máquinas, pelos guinchos das serras eléctricas e o estrondo das árvores a caírem para o chão... Impossível!...

 

-A tua floresta - dissera Achmed.

 

«Que expressão! A Natureza não é ”minha”, nem ”tua”. Na Natureza o conceito de pertença é absurdo. Cada uma destas árvores verá os bisnetos dos teus netos. Os habitantes da floresta sabem-no: a propriedade é apenas uma ilusão, enquanto o espírito da Branca dá segurança... »

 

Nesse instante, Maya sentiu que o espírito era tão real como o ar que respirava, como o calor que sentia quando o jipe saía da sombra das árvores, como os montes cobertos de florestas, lá ao fundo.

 

-Que company é essa?

- São estrangeiros.

 

-Sim, Achmed, mas quem?

 

- Chineses, quem mais poderia ser? Diabos vindos da Formosa, Dizem que eles ainda estão a lutar para obter a licença.

 

- E apesar de ainda não a terem, já estão a construir estradas e a cortar árvores...

 

- Pois é - retorquiu Achmed, assentindo com a cabeça. - Pois é.

 

  1. P. Bernier estacionara a Yamaha por baixo de uma grande árvore. Comprara uma lata de Sprite na bomba de gasolina - uma verdadeira espelunca - e agora estava sentado à sombra da árvore, de pernas estendidas, com um lenço atado à volta do chinó, e pensava na sua missão. Havia tipos que avançavam silenciosamente com solas de borracha, com luvas de pele e silenciadores, que arranjavam cópias de chaves e que esperavam nos apartamentos e depois resolviam o assunto com um único tiro limpo na cabeça... Para J. P., isso apenas acontecia nos filmes. Nos filmes ou naqueles miseráveis canais de televisão de segunda categoria e era uma visão tão irreal que nem sequer valia a pena pensar nisso.

 

o seu estilo era diferente.

 

Tinha os seus próprios métodos, com a ajuda dos quais, aliás, também despachara o paizinho da pequena... Como era o nome indiano tão esquisito que ele tinha?

 

Rabindra. Rabindra Nandi, exactamente... Mas por que razão o mandarim teria mandado matar primeiro o pai e depois a filha?

 

«Enfim, de qualquer maneira nunca apreciaste muito esses indianos de raça ”café com leite”», pensou. Por isso, não interessava. Mas aquela rapariga não era bem da mesma categoria. Devia ser uma mistura. Poderia ganhar todos os concursos de beleza. E ele devia matá-la? Mas porquê? Que desperdício...

 

  1. P. ergueu-se, tirou a arma da bolsa da moto e acariciou-a suavemente com os dedos, antes de metê-la no coldre que usava a tiracolo.

 

Apesar de saber que não iria necessitar da espingarda e de o coldre ser desagradável de usar com o calor, preferia actuar pelo seguro.

 

Espreguiçou-se, fez três flexões de pernas e olhou para a estrada. Onde estaria ela? Nos documentos lera que o tal Rabindra tinha uma estação na floresta. Devia ser para lá que ela iria.

 

Aproximou-se um autocarro colorido, vindo de Kualang, depois seguiram-se um camião e três ligeiros.

 

Mas nenhum Land Rover.

 

«Tens de ir com calma», pensou e voltou a sentar-se. Como sempre. o pai dela também fora um desses tipos doidinhos pela floresta e pela Natureza... Ah sim, Rabindra adorava a Natureza! Nunca era de mais para ele. Andara sempre de um lado para o outro nos Estados Unidos. Da Califórnia para o Texas ou para o Oregon. Sobretudo o Oregon.

 

Visitava todos os lugares possíveis. Ia para os institutos, encontrava-se com outros intelectuais ou simplesmente percorria o país no seu velho Volkswagen verde. E J. P. sempre atrás dele. Sem que ele reparasse nisso. Era aquele género de pessoas que nunca dava por nada.

 

E era justamente por isso que aquele caso dera tanto prazer a J. P. A sensação de ser caçador, a constante perseguição tornara aquela missão deveras interessante. E ao mesmo tempo ficara a conhecer os Estados Unidos.

 

  1. P. alugara uma carrinha. Bastava-lhe para conseguir seguir o carocha de Rabindra, que nunca andava a mais de setenta à hora. Apesar disso, Rabindra conseguira despistá-lo duas ou três vezes, naturalmente sem dar por isso, mas J. P. voltara sempre a encontrá-lo...

 

  1. P. olhou de novo para a estrada. A viagem da pequena já estava a demorar muito tempo. E quem era o seu acompanhante? Um velho malaio?... o Land Rover estava registado em Kualang. Tudo muito estranho...

 

Pois, aquilo fora um verdadeiro circuito do género «Percorrer a América em três semanas». Muito engraçado. Dera a Rabindra a alcunha de Rabbit, porque ele andava sempre aos ziguezagues como um coelho. Teria sido fácil liquidar Rabbit no seu apartamento nova-iorquino, que ficava um pouco fora da cidade, na Village. Mas isso teria sido contra um dos seus princípios fundamentais que dizia: nunca faças o trabalho dentro da cidade. As cidades estão cheias de testemunhas. Nas cidades existem comissões de inquérito com intelectuais que utilizam o mais pequeno macaquinho do nariz ou pêlo púbico como prova. Além disso, existe a imprensa que está constantemente a tentar lixar os polícias e neste caso ainda por cima tratava-se de um membro da comissão da ONU.

 

E tentar fazer desaparecer um cadáver numa grande cidade, então...

 

Por isso: vai para a Natureza!

 

  1. P. liquidara o Dr. Nandi no Oregon, numa área de serviço da auto-estrada, completamente isolada. Eram nove da manhã. A vista sobre a floresta iluminada pelos primeiros raios de sol era magnífica, Primeiro Rabindra Nandi urinara. Depois descascara uma laranja que comprara numa cidadezinha chamada Greenville. Nunca chegara a acabar de comê-la.

 

  1. P. resolvera o assunto com ajuda do nó de arame. De forma rápida, silenciosa e provavelmente sem causar muitas dores a Rabbit.

 

A quatro quilómetros da área de serviço, encontrara um desfiladeiro de uns duzentos metros de profundidade e que em baixo era tão estreito que as folhas das poucas árvores existentes tocavam nas rochas. Lançara Nandi lá para baixo, para o meio das raposas, vermes, ratos, bichinhos e formigas...

 

Agora estava perante mais uma dessas missões «verdes»...

 

Passaram pela placa azul e branca com o nome da cidade. o «g» de Moong fora riscado com pedras. Agora a placa dizia apenas «Moon... », ou seja, «lua». Mas aquela não era nenhuma cidade na lua, era uma cidade bem terrestre e agitada...

 

Maya tentou relembrar-se dos lugares e das impressões da cidade, não só com base naquilo que via, mas sobretudo recorrendo ao subconsciente: estava a reconhecer tanta coisa... Até se lembrava da enorme árvora ali à direita, perto da bomba de gasolina... Havia um homem sentado à sombra... «Antigamente», pensou, «quando vínhamos aqui, o gasóleo ainda era bombeado manualmente.»

 

E lá em cima, no monte, aquele bloco de cimento azul e quadrado era o hospital. Também já lá estivera

 

Tal como nas aldeias, as casas à volta de Moong eram construídas em cima de sólidos troncos de madeira, e os telhados estavam cobertos de ramos de palmeiras ou esteiras de sisal. As galinhas corriam entre os troncos e as crianças brincavam no meio da sujidade. Havia também construções sólidas, verdadeiros palácios, cujas paredes exteriores ásperas tinham sido pintadas com cores berrantes.

 

A única estrada alcatroada existente seguia até à praça onde havia o mercado e o bazar, a simples mesquita de madeira e um edifício que parecia uma mistura de escola e esquadra de polícia. Daí dirigia-se para o hospital.

 

o hospital? Houvera um caso de emergência qualquer... Ah, sim: um homem da tribo dos ipak trouxera a mulher para o hospital. Ela perdera o filho e não parava de sangrar, apesar de todos os esforços de Rabindra Nandi, que tentara tratá-la na floresta com o material de que dispunha e que reunira enquanto estudara nos Estados Unidos. Mas não fora suficiente. Por isso haviam trazido a mulher pálida e moribunda e o marido... lembrava-se agora do nome dela, Tara... para o hospital. Porém, sem sucesso. A mulher morrera... Pararam no bazar.

 

- Não queres meter gasóleo antes?

 

- Gasóleo? Ali, na bomba daquele aldrabão? Eu arranjo o gasóleo muito mais barato.

 

Óptimo. Maya acenou com a cabeça, impressionada. Dois jovens malaios, descalços e com sarongs e T-shirts, aproximaram-se a correr, Segundo parecia, tinham esperado ansiosamente pela chegada de Achmed, pois não se dispunham a largar as suas mãos.

 

- Esta é a minha sobrinha Maya - disse Achmed, orgulhoso. Os dois rapazes fizeram uma vénia.

 

-Tu és bela como uma flor - disse o mais alto e olhou para ela, radiante, mostrando os dentes castanhos de tanto mascar areca. - Pareces uma estrela de cinema.

 

- Nunca imaginaste que eu pudesse ter uma sobrinha assim, pois não? - perguntou Achmed com um risinho.

- Não, confesso que não. Vais desculpar-me, mas tu próprio sabes que és feio.

 

- Lá está ele a exagerar... - observou Achmed, dando uma cotovelada amigável ao rapaz. - Ele conhece os ipak. Vai lá frequentemente.

 

Maya quis imediatamente perguntar o que sabia ele sobre a destruição da floresta, lá em baixo, perto da ilha, mas depois pensou que Dan Carpenter poderia informá-la melhor.

 

-Aqui há um telefone?

 

- Sim, há. Em Moong há tudo - respondeu o rapaz e riu-se. - Os correios ficam logo ali em cima.

 

Vinho de arroz? J. P. Bernier abanou a cabeça, num gesto depreciativo. Miseráveis campónios... Nem sequer tinham cerveja... Em Johor arranjava qualquer tipo de álcool que lhe apetecesse. Aquilo ali era mesmo a selva.

 

Dentro do café estava um calor insuportável.

 

No balcão, uma ventoinha enferrujada avançava devagar. Dois velhos jogavam um qualquer jogo de tabuleiro. Magros, com uns trapos enrolados nas pernas, pareciam mais mortos do que vivos.

 

  1. P. provou o chá.

 

Depois ergueu o olhar e fixou o Land Rover que se encontrava a menos de trinta metros de distância. A distância certa para disparar. Mas agora não valia a pena pensar nisso...

 

E ei-la a atravessar a praça do bazar em direcção aos correios. Realmente era uma mulher muito excitante! Mil vezes mais bonita ao vivo do que nas fotografias... A maneira como andava, com o cabelo apanhado a esvoaçar, as ancas a baloiçar e aquele maravilhoso peito erguido...

 

«Miúda, acredita em mim, não me dá prazer nenhum fazer o que tenho a fazer. Preferia alvejar-te com outra coisa... mas não funciona!

 

Por isso tanto faz.

 

Mas não deixa de ser um desperdício... »

 

Maya ouviu um forte assobio na linha, depois um estalido, o sinal de chamada e finalmente a voz dele.

 

- Está?

- Dan?

 

-Right, this is Dan Carpenter speaking - respondeu ele, num tom formal.

 

- E eu sou a Maya Nandi - anunciou ela, rindo-se. o que é que dizes a isto?

 

Primeiro, ele não disse nada, hesitou. E durante esse silêncio, as memórias voltaram: aquela noite no terraço, quando Dan lhe fizera uma declaração de amor.. Na altura ela tinha dezanove anos e ele uns vinte e oito. Dan afirmara, com um ar sério, que era a diferença de idade ideal, que as estatísticas provavam que naquela situação havia o menor índice de divórcios. Ela rira-se às gargalhadas.

 

Quando Dan finalmente falou, a sua voz parecia nervosa e emocionada.

 

-Maya?! That is erazy! Não posso acreditar. -Mas vais ter de acreditar.

 

-Tantas vezes que eu penso em ti e pergunto a mim próprio onde poderei encontrar-te.

 

-É por isso que estou aqui.

- Onde, aqui?

 

- Em Moong.

 

- Não é possível!

 

-É sim. E quero ver-te.

 

- E eu, então, quero tanto ver-te! É absolutamente necessário que eu te veja, é até mesmo urgente.

 

Maya ficou séria.

 

- o que é que se passa?

 

- A situação está a descontrolar-se - respondeu Dan.

- Tens de vir imediatamente para cá.

 

- o meu tio ainda tem coisas a tratar aqui. E o carro dele está a dar problemas.

 

-Não faz mal. Daqui a uma hora e meia estou aí. Não saias de onde estás!

Dan Carpenter, o rapaz de Stanford, estava bem presente na memória de Maya. Era um rapaz alto, cujas orelhas ligeiramente afastadas tinham tendência para ficarem vermelhas em qualquer ocasião. Cabelo curto. óculos à piloto. Uma cara magra. Quando se lembrava do equipamento com que se apresentara no chalé de Kualang! Máquinas fotográficas, tripés, gravadores, um caixote cheio de livros... o mais impressionante era o seu equipamento de primeiros socorros. Até continha polainas contra as mordeduras de cobras e as sanguessugas que havia na floresta tropical.

 

Com o passar do tempo, o cabelo curto de Dan transformara-se numa juba e Maya, que na altura tinha quinze anos, encarava aquele homem de Stanford como um irmão mais velho, com o qual se divertia e fazia brincadeiras.

 

E agora?... Enquanto esperava que ele chegasse, Maya notou que não estava apenas nervosa, mas também muito curiosa. o seu tio Achmed dissera-lhe que Dan casara com uma jovem senoi. Maya nem queria acreditar...

 

Entretanto já eram quatro horas. Um calor pesado pairava sobre a cidade no meio da selva. As nuvens começavam a ficar escuras. Absorviam a humidade para as chuvas nocturnas.

 

-Lá vem ele - disse Achmed. Sim, devia ser ele...

 

Um jipe Toyota verde, enferrujado e amolgado com o letreiro ESTAÇÃO DE TIGRES DE TAONG aproximou-se. Parou na praça.

 

Maya avançou alguns passos e quando viu Dan parou. Como haveria de descobrir o velho Dan naquele homem magro e bronzeado, que agora descia do jipe e acenava? E a roupa que vestia! Uns ténis Puma com buracos pelos quais se viam os dedos dos pés, uns calções sujos e rasgados, uma T-shirt castanha e rota da tropa e um lenço vermelho no cabelo.

 

Agora não apenas acenava, como se aproximava a correr. Quando chegou perto de Maya segurou-a pelos ombros com as suas mãos magras e só quando tirou os óculos de sol é que Maya reconheceu os seus olhos: uns olhos cinzentos com pequenas manchas castanhas, à volta dos quais ao longo de todos aqueles anos se tinham formado pequenas rugas. Maya viu as cicatrizes na sua cara bronzeada. E viu a boca, que Dan ia abrir para se rir, mas que voltou a fechar imediatamente.

 

«Três dentes!», pensou assustada. «Por amor de Deus, apenas lhe restam três dentes... » Ficou sem palavras. Fantástica - exclamou Dan, tentando não abrir a boca   estás fantástica! Maya, eu nunca te teria reconhecido! Eu é que nunca te teria reconhecido! o que aconteceu aos teus dentes?

 

- Oh... - Dan abriu a boca e soltou um gorgolejo. É uma longa história... Importas-te muito com isso? -Eu? Não, nada. Se tu não te importares... -Então dá-me um beijo!

 

Foi o que Maya fez. Não se importou com o olhar espantado de Achmed, que abriu os olhos e abanou a cabeça num gesto reprovador.

 

Meia hora depois, o tio Achmed voltou a abanar a cabeça, quando Maya se despediu e entrou no jipe com Dan Carpenter.

 

Após algumas tentativas, o motor finalmente pegou.

- Vamos embora, pequena! - Dan Carpenter mostrou o seu sorriso desdentado.

 

-A tua mulher tem comida para nós?

 

Dan ficou surpreendido. -Como é que tu sabes...?

 

- Como, como! No meu emprego é vital estar bem informada.

 

- Emprego? Continuas ligada a esses movimentos ambientalistas?

 

Maya anuiu com a cabeça.

 

-E é por isso que vieste para cá? Então ainda bem... -Tens alguma coisa importante para me contar?

 

- Mais tarde - disse ele. - Aquela estrada que começa ali não permite grandes conversas...

 

Tinham saído de Moong. A estrada descrevia uma ligeira curva para a direita e entrava numa zona de várzeas que se estendiam nos aterros verdes e brilhantes das colinas. No início dessa curva havia uma bifurcação. o caminho para a direita entrava na floresta e ia dar à estação. Em breve teriam de atravessar uma ponte, lembrou-se Maya. Passava por cima de um pequeno rio que alimentava o sistema de rega das várzeas.

 

Dan Carpenter metera a primeira mudança.

 

- Olha para isto! - gritou, devido ao barulho do motor a gasóleo.

 

Maya olhou: da ponte apenas restavam os pilares de cimento onde tinham estado apoiadas as tábuas de madeira. A madeira estava agora apodrecida e estragada.

 

-Vai devagar, Dan.

 

- Claro que sim? - Parou o carro. - Sai do carro, pequena.

 

- Podes parar de chamar-me pequena. Eu não saio deste carro.

 

- Sais, sais ou eu tiro-te à força.

- Ouve-me, Dan...

 

- Tu é que tens de ouvir-me! Precisamos de ti viva. Se tu deixares de existir, Tenenga também desaparece, percebes?! Estamos a falar de nove mil metros quadrados de floresta tropical, mais a estação. Isto para não falarmos nos tigres e em todos os outros animais.

 

- Dan!

 

- Não. - Abriu a Porta do carro e empurrou-a para fora. Ela conteve a respiração enquanto observava os grossos pneus do jipe a avançarem centímetro a centímetro na fina faixa de betão cinzento; sentiu o corpo a transpirar.

 

Maya deu a volta ao carro. Um ligeiro véu de nevoeiro cinzento aproximava-se.

 

o jipe avançava lentamente. Pôs a mão na traseira do carro, envolvida pelo fumo do escape, como se quisesse empurrá-lo e ao mesmo tempo protegê-lo.

 

Nesse instante ouviu um ruído. Um plop baixinho, vindo de uma ruína na outra margem do rio.

 

Voltou a ouvi-lo, duas vezes: plop-plop... Talvez fosse um ramo que estivesse a partir-se? Mas ali não havia árvores.

 

«Pouco importa», pensou. O Dan conseguiu! Estamos na outra margem!»

 

Ali crescia relva. E começava a estrada...

 

Maya soltou um grito de alegria, deu a volta ao carro e atirou-se para o banco...

 

o muro feito de tijolos de lama, agora a desfazerem-se, devia ter servido em tempos para delimitar um campo de bananeiras. Os subarbustos de bananeiras eram visíveis por entre os montes de folhas mortas e amarelas.

 

Serviam muito bem de protecção...

 

  1. P. Bernier, porém, estava mais interessado naquilo que lhe serviria de esconderijo: uma barraca abandonada, feita de grossas canas de bambu, algumas vigas de madeira, inúmeros ramos de palmeiras velhos e cinzentos e grandes quantidades de esterco, esterco de búfalo. Devia tratar-se de um antigo estábulo...

 

  1. P. construíra uma espécie de apoio para a arma com a ajuda de dois tijolos em relativamente bom estado. A visão para o lado esquerdo era má, apesar de poder ver um pedaço da estrada que ia da floresta até Moong, através do bambu. A estrada encontrava-se indicada no mapa por uma grossa linha castanha. Parecia portanto tratar-se de uma verdadeira estrada, mas na realidade não passava de uma amostra, coberta de relva, a qual, só metendo o nariz, podia ser descoberta.

 

Enfim, pelo menos conseguira chegar até aqui. E em breve eles iriam aparecer...

 

o Sol já estava baixo, mas a luminosidade era boa. E melhor ainda lhe parecia a pequena vala com os dois estranhos pilares de betão...

 

A ponte já não existia.

 

«Vamos lá ver como é que o nosso amiguinho do ambiente, ou lá o que ele é, vai fazer para levar a carripana para o outro lado», pensou. «Que emoção!... Infelizmente não vais poder desfrutar dessa cena! Antes de mais vai parar o carro, direccionar as rodas e depois arrancar. Se for um cavalheiro, deixa a rapariga sair do carro primeiro. De qualquer das formas terá de o fazer, senão quem lhe indicará o caminho? E será então», pensou J. P. Bernier, «nesse preciso instante, que... »

 

Gesticulou e praguejou. Estava habituado a picadas de insectos, mas logo quatro num segundo e todos no mesmo lugar...

 

Bateu com a mão na sua pele molhada. Não eram mosquitos. Eram uns malditos insectos quaisquer com ferrões minúsculos.

 

Dezasseis e cinquenta.

 

A Yamaha estava escondida nos arbustos entre as bananeiras. Não iriam vê-la pelo menos do lado de que vinham. «A seguir vai ser diferente», pensou. «E é esse o problema... É lógico que também vais ter de tratar dele porque uma testemunha que te vê arrancar numa moto poderia ser fatal. Os cento e cinquenta metros que te separam deles são a distância ideal para disparar.. »

 

Tirou um lenço do bolso, dobrou-o cuidadosamente e pô-lo por baixo do cano da arma. Ajustou a distância com a ajuda da mira. Era a terceira vez que fazia aquilo na vida... E, de repente, sim, de repente ouviu o motor.

 

  1. P. Bernier permaneceu imóvel. Os mosquitos tornaram-se irrelevantes. Virou a cabeça rapidamente, para verificar o que de qualquer maneira já sabia: era o Toyota!... Quem mais se lembraria de passar por duas vigas de cimento para ir para a selva?

 

Olhou pela ocular. A visão era nítida. Conseguia ver cada uma das folhas e das palhinhas e os ferros enferrujados que saíam do cimento da estrutura da ponte.

 

o barulho do motor aproximou-se e, de súbito, parou. A situação era exactamente como Bernier a desejara: o carro estava parado. Conseguia ver a porta do lado oposto do condutor. Porém, em frente à porta algo esvoaçava ao vento, um pedaço de pano... talvez a pequena tivesse pendurado um lenço ou uma camisa? Onde estava ela?

 

«Bem, veremos. Calma, rapaz, ninguém nesta profissão tem tanta paciência como tu! Esse é o teu ponto forte, o estilo paciente à maneira de J. P. Bernier...

 

Ora bem, lá vem ela! Não desce do carro como uma jovem normal, não, dá um pequeno salto e flecte os joelhos ao aterrar no chão. Que miúda desportiva, é impressionante. Mas o que é isto? Ela desapareceu!»

 

o cano da arma virou-se para a esquerda, a borracha da ocular colou-se-lhe à pele, mas tudo o que viu foi um pouco de cabelo. Um braço. A maldita mulher desaparecera por trás do jipe.

 

E parecia gostar de lá estar,

 

«Onde é que ela se meteu, santo Deus? Onde? Deve estar a falar com o condutor.»

 

Agora, finalmente o maldito carro começava a avançar pela ponte. Ponte? Eram duas simples vigas... Nas quais não havia lugar para um Toyota e uma gaja. A gaja tinha de ir atrás.

 

«Vês, minha querida, é assim que são as coisas... Devagar, devagar... - Já te apanhei! Estou mesmo a ver o teu perfil. Que sensação à Lee-Oswald! Mas aqui não haverá nenhuma Jacqueline Kennedy a segurar-te nos braços. Tenta mexer-te mais devagar... Mas porque é que estás a agachar-te?... Tens de andar direita, miúda, peito para fora, tal como fizeste há pouco na praça do bazar... Impressionante, eles já atravessaram metade da ponte. A luz está má. Porquê?... É do nevoeiro. Mas de onde vem este nevoeiro? Da terra húmida. Aqui há sempre nevoeiro. São os Highlands. A terra da porcaria dos nevoeiros! Mas porquê justamente agora? Quando de lado, não passas de um traço... »

 

  1. P. Bernier apontou para o centro desse traço e disparou.

 

Mal a próxima bala estava preparada, voltou a disparar. «Pam! Quase que não se ouviu. Graças ao silenciador. Onde estás, pequena? Onde? Vá lá... »

 

Ali! Bernier não quis acreditar. Sentiu um grande vazio e raiva... o nevoeiro dissolvera-se... e ali estava o jipe!

 

Ela... ela contornou o carro por trás e entrou. «última hipótese. Vais apanhá-la... Não! Ele já está a acelerar, avança, de facto avança, está a pirar-se assim, por baixo do teu nariz, esse sacana!»

 

  1. P. Bernier empunhou rapidamente a outra arma e apontou para os pneus. Mas havia uma nuvem de poeira vermelha causada pelos pneus que lhe dificultava a visão. Apesar disso, tentou. Sem sucesso...

 

A espingarda estalou. Nove disparos. Nove possibilidades...

 

Agachou-se e pousou a testa molhada nas mãos. Não era possível!

 

Ergueu-se e sacudiu os braços e as pernas para se descontrair. «Porque é que não disparaste logo? Por causa do nevoeiro? Ou porque qualquer coisa te impediu de matá-la, assim, de repente?

 

E agora? Tu conheces a selva, estás mesmo contente por estares aqui, não estás? Então óptimo, Maya Nandi, esta missão não se passará no meio das ervas e da floresta como foi o caso do teu pai, esta missão vai ser muito mais interessante... »

 

o vento quente secava a cara de Maya e, agora que surgiam as primeiras árvores à direita e à esquerda, apercebia-se do cheiro da floresta: o odor adocicado das flores e subarbustos e o aroma pesado dos frutos e das folhas apodrecidos que cobriam o solo.

 

olhou para o relógio: já passava das cinco. Quando chegassem à estação já seria noite.

 

Por enquanto, porém, o Sol ainda estava alto, lançando um brilho avermelhado na nebulosidade transparente da qual se aproximavam.

 

o brilho desapareceu...

 

o jipe verde penetrou num túnel de folhas verdes. Tinham entrado na floresta tropical. Ali existiam árvores enormes e entre elas cresciam arbustos e fetos imponentes. Alguns raios de luz conseguiam ainda projectar-se no solo, desenhando o contorno das plantas entrançadas e enroladas. Depois as formas tornaram-se menos nítidas, envoltas numa escuridão refrescante, trespassadas por cipós e troncos, ramos, galhos, flores, trepadeiras e fetos que pareciam impenetráveis. A floresta... Era essa a imagem da floresta que ela guardara na memória. Reconheceu o cheiro... o que surpreendeu Maya foi a sensação que a floresta lhe provocou: parecia impenetrável e escondia segredos, levando-a a sentir-se mais vulnerável. Por outro lado, os seus nervos tornavam-se agitados e os seus sentidos despertos, apercebendo-se subitamente do seu estado de alerta.

 

A área de Tenenga pareceu-lhe um enorme oceano, de que não existia mapa e no qual ela nadava sem saber como seria a sua profundidade infinita.

 

Endireitou-se. Dan Carpenter sorriu e logo depois praguejou:

 

- Raios! Outra vez a mesma coisa. A porcaria do buraco não secou.

 

-De que estás a falar?

 

- Já vais ver. E desta vez não vais ter oportunidade de te queixar. Podes ajudar.

 

Tinham percorrido cerca de vinte e cinco quilómetros de estrada através da selva. Um todo-o-terreno com tracção às quatro rodas como o Toyota levava mais de uma hora a percorrer esse trajecto. o solo estava tão amolecido que o jipe por vezes se enterrara até aos eixos das rodas. Mas Dan conseguira mantê-lo em movimento dando curvas e fazendo manobras. Era como se a selva tivesse posto ali a lama de propósito, misturada com folhas, ramos partidos, rebentos e galhos, a fim de dificultar a ligação entre a estação e o mundo exterior.

 

- Isto antigamente era diferente! - Maya teve de gritar devido ao barulho do motor.

 

- Por amor de Deus - exclamou Dan -, o que queres que eu faça, Maya? o teu pai tinha uma dúzia de empregados. Eu, no início, também, mas agora só me resta um. Tu vais conhecê-lo. E o Poli-Pan. Quando o vires, vais compreender a situação... Eu sou responsável por tudo. Não me resta tempo para tratar de coisas como a estrada. Eu aqui sou o faz-tudo... Queres saber quem é que paga o ordenado do Poh-Pan?

 

- A tesouraria do sultão? Como antigamente?

 

- É o que tu pensas. o ordenado é pago pelos Americanos. o dinheiro para Taong é proveniente da Faculdade de Biologia da Universidade de Stanford.

 

Maya fitou-o. -A sério?

 

- Sim, a sério... Eu também não compreendo esta situação. Anda, ajuda-me aqui.

 

Parou e desceu do carro.

 

Entregou um trapo a Maya e pediu-lhe que limpasse os faróis do jipe e os ligasse. Quando o fez, Maya compreendeu aquilo que Dan dissera: não havia como escapar: à direita e à esquerda da enorme poça de lama, erguiam-se árvores de uns sessenta metros de altura.

 

Dan abriu o porta-bagagens e tirou algumas peças de metal amoladas. Eram trilhos de alumínio, com buracos.

- Arranjei-os no aeroporto militar de Kualang - explicou, orgulhoso.

 

Cortou alguns ramos com a ajuda do seu palang, uma espécie de catana, e pô-los na lama. Por cima pousou os trilhos. Dan sentou-se ao volante.

 

- Agora reza para que resulte! - gritou; em seguida, começou a acelerar.

 

À terceira tentativa resultou. E enquanto ouvia os gritos dos macacos lá em cima nas árvores, Maya pensava: «Nunca conseguiremos passar por esta maldita poça!... »

 

Porém, de súbito, as rodas aderiram ao solo e Dan esticou o braço pela janela, apontando com o polegar para cima, visivelmente orgulhoso,

 

- Nada mau, Dan - arfou Maya, admirada -, desenvolveste umas qualidades espantosas!

 

- Não tive outra escolha...

 

o aldrabão do stand de aluguer de motocicletas em Kualang, cobrara-lhe um preço abusivo, mas Pelo menos a Yamaha andava bem. o mais importante eram os pneus. E esses estavam como novos e deixavam marcas bem visíveis na lama.

 

«Vai com calma. Deixa-os avançar. Podes apanhar a pequena quando quiseres... »

 

A barriga da perna esquerda de Bernier doia. Após ter falhado o tiro perto da ponte, tivera um ataque de raiva. Sentara-se na moto, arrancara, mas logo de seguida caíra: uma pequena poça de lama coberta de folhagem fora o suficiente para fazer deslizar a roda traseira. Bernier caíra e batera contra o escape...

 

Enfim, não era nada de grave, ainda por cima desinfectara de imediato a ferida. Coisas daquelas aconteciam quando uma pessoa se enervava. E, na verdade, não havia motivo para tal.

 

Tinha tempo. Tempo para avançar lentamente... sempre em frente, pela selva...

 

A visibilidade era má. E como era hábito ao cair da noite, os animais nas árvores emitiam ruídos desconhecidos. Como se não bastasse a confusão de plantas, havia agora aqueles ruídos desconhecidos... E ambos em abundância... Por enquanto ainda conseguia ver alguma coisa. De qualquer maneira, eles não poderiam escapar-lhe, visto a estrada acabar em Taong.

 

E aí... Sim, aí...

 

«É melhor tratares disso antes.»

 

Pela primeira vez desde que chegara à selva, a estrada era bem visível. Parecia o corte de uma faca. Desviou-se de um grande ramo atravessado na estrada. «Isto está a correr bem», pensou, satisfeito. «Podias aparecer num daqueles espectáculos de cross... »

 

«Não há faróis no espelho retrovisor.. Podes acelerar à vontade. Depois então... »

 

Não houve «depois».

 

  1. P. Bernier nem sequer sentiu a pancada dos pneus que projectou o seu corpo. Não teve tempo para se dar conta de que estava a voar pelos ares. Caiu em cima do ombro direito, escorregou dez metros, deu voltas como um pião e finalmente parou. Sentou-se e pôs a mão nas costas, que lhe doiam, Não praguejou. Não conseguia pensar. Ficou à espera que a sensação estranha nos ombros desaparecesse. Depois esticou os braços, mexeu as mãos, as pernas e os pés... estava tudo em ordem!

 

Levantou-se, olhou para trás e aproximou-se da moto, para descobrir a causa do acidente.

 

À esquerda e à direita erguiam-se árvores enormes. E no meio uma maldita cova, coberta de água e ramagens. Como é que eles tinham conseguido passar por ali com o jipe? Bernier avistou pirilampos por entre as sombras. A noite caíra e já não se conseguia ver nada. Primeiro a ponte e depois aquilo... Era impossível contornar a poça pelos lados. Aquilo era a selva. Sisal. Arbustos. Espinhos. E tudo tão espesso e denso que nem se podia enfiar o braço.

 

E agora? Deveria voltar para trás? Deu um pontapé na Yamaha, mas logo depois agachou-se, arrependido, e levantou a moto, Independentemente daquilo que decidisse fazer, iria precisar dela. Teria de encontrar uma solução... Se ao menos tivesse com ele a maldita catana de Moong! Trouxera o mosquiteiro e a rede para dormir, para além da película de plástico contra a chuva. Afinal não era a primeira vez que passava uma noite na selva, pois não?

 

«Pois bem», pensou J. P., «não desistirei... »

 

Maya sentiu-se quase em transe quando finalmente avístou, à luz dos faróis do jipe, o portão de ferro com o brasão do sultanado de Jorak: três elefantes. Estavam um pouco enferrujados, tal como a cerca à volta da estação.

 

- Bem-vinda a casa! - exclamou Dan.

 

Maya sentiu-se grata e acenou com a cabeça. Dan estacionou, e ela saltou do carro e sacudiu as pernas.

 

- Meu Deus, estou exausta... -Ou tens fome.

 

-Isso também.

 

Maya olhou à sua volta. Aquilo que via parecia-lhe conhecido, como as imagens de um sonho que se repete: a encosta até ao rio.--- a clareira... as árvores, a Lua no céu e a floresta com os ruídos característicos da noite. Olhou para acasa principal com a empena triangular, ao lado o laboratório e as restantes salas de trabalho, as duas casas dos caseiros, a casinha que servia de despensa, ao lado a cozinha e o pequeno hospital para animais.

 

E tudo aquilo iluminado pelo suave luar. Tal como noutros tempos, quando regressava a casa com o pai, havia um leve nevoeiro, vindo do rio. Porém, antigamente havia o barulho do gerador que servia para iluminar os edifícios. Agora estava tudo escuro... Apenas as janelas da casa principal estavam iluminadas.

 

- Mudei para um sistema de energia solar - explicou Dan. - o maldito gerador deu o berro há três anos. Eu fiz todos os possíveis... mas ninguém quis enviar-me um novo ou pelo menos as peças necessárias... Anda! Mais tarde descarregamos o carro.

 

Maya seguiu-o.

 

- Dan! - chamou uma voz pela escuridão. Era a voz de uma mulher, de uma rapariga.

 

- É ela - disse Dan. - E qeres saber como é que se chama? Tan. Não estou a brincar. É esse o nome dela. Dan e Tan. o que é que achas?

 

Tan usava um vestido longo, uma espécie de cafetã. Hesitou em aproximar-se; porém, quando Maya lhe estendeu ambas as mãos e lhe beijou as faces, riu-se como uma criança. E, de facto, parecia uma criança: Tan, a «mulher-criança». Tinha um pescoço que se assemelhava ao caule de uma flor, um bonito rosto triangular, o cabelo apanhado e uns olhos tão escuros e profundos como um veado.

 

-Anda! Tu fome... anda, tu comer..

 

Mais tarde, quando estavam sentados à mesa e comiam peixe com bolinhas de arroz fortemente temperadas, Tan tocou na cabeça de Maya:

 

- Que cabelo tão bonito... Tanto cabelo bonito... Tu és a filha do grande tuan... Todos sabem quem ele é. Todos falam dele... Amanhã mostrar-te-ei os animais. Agora dormir..

 

- Tu também?

 

- Sim. - Desapareceu silenciosamente como uma sombra.

 

Dan e Maya sentaram-se no terraço. o rio reflectia o luar. Dan Carpenter fumava um cigarro.

 

- Então, Dan, afinal o que é que se passa? - perguntou Maya depois de algum tempo.

 

-Nem sei por onde começar. É uma longa história. E é uma história bastante triste... Ou melhor: são várias histórias tristes. Mas comecemos então pela mais recente, que permite compreender todo o resto. Eu estou em contacto com um dos ipak. Ele chama-se Tara.

 

- Tara? - perguntou Maya, surpresa. - Eu conheço esse nome... É um homem muito bonito, de cerca de trinta anos. Alto, muito mais alto do que todos os outros... E tem uma pequena cicatriz por cima da sobrancelha direita, não tem?

 

- Exactamente. É o homem com a pequena cicatriz por cima da sobrancelha direita. Porque é que te lembras dele? -É muito simples. Quando eu tinha quinze anos, o meu pai levou-o juntamente com a mulher para o hospital de Moong. A mulher tivera um parto prematuro. Fizeram tudo para salvá-la, o meu pai ajudou, mas não conseguiram.

 

- Ela chamava-se Nia e dizem que era muito bonita. Era uma irmã da Tan.

 

o cigarro de Dan iluminou-se. De repente, Maya viu várias pequenas luzinhas nos arbustos, uma autêntica dança de pontinhos brilhantes, que agora formavam uma grinalda...

 

Eram pirilampos e estavam em todo o lado. Maya esquecera-se da existência deles...

 

Do outro lado do rio também se ouviam os ruídos da selva. Ouvia-se o tof-tof-tof do uru, que nem parecia o cantar de um pássaro... Depois vários urus começaram a cantar ao mesmo tempo, como um autêntico coro.

 

- Bem, continuando... o Tara é o mais inteligente dos ipak. Até fala inglês. Já trabalhou para uma das companies, em Ungung, a United. Que, aliás, é a mesma empresa que agora está a causar-nos problemas...

 

O que queres dizer com isso?

 

Dan atirou o cigarro por cima do peitoril. A sua cara era apenas uma sombra na penumbra.

 

-A United é uma empresa muito poderosa, que também está a dar cabo das florestas em Bornéu e Saravak. -Eu sei, eu sei, tenho material informativo sobre eles.

- Ainda bem. Podemos então passar à questão central: dizem que os taiwaneses compraram o nosso district officer, um tal Pa Ulay. Há alguns meses que ele está a viajar de tribo em tribo. Já esteve várias vezes com os ipak e os Panan e até já visitou os Kerit que vivem lá em cima, na montanha, apesar de esse não ser de todo um lugar de logging... Pelos vistos, a United não quer abranger toda a área. Está a avançar como um cortador de relva, compreendes?

 

- Não estou a perceber nada. Porque é que eles vão visitar as tribos?

 

- Propõem-lhes contratos, fazem promessas impossíveis, até lhes pagam dinheiro e oferecem presentes. E olha que os presentes não são poucos.

 

-E o que é que dizem esses contratos?

 

- Que cada uma das tribos se declara grata pela ajuda que obtém da United e que por isso se compromete a dar total apoio à empresa. Contém ainda outras expressões fantásticas como «logging selectivo» ou «protecção das partes vitais da floresta»... Todas essas coisas que eles sempre prometem e depois não cumprem.

 

Os macacos do outro lado do rio gritavam agora mais alto... - ou seria apenas impressão dela? Sentiu um tendão contrair-se-lhe na nuca. Afugentou um mosquito, passou a mão pelo cabelo, não sabendo que fazer, para a aliviar a tensão que de repente sentia dentro de si. Começava a compreender. Meu Deus! Tudo o que conseguia pensar nesse momento: «Meu Deus!»

 

- E tu achas que esse tal district officer tem um pacto com o governo?

 

- o que eu acho não tem importância, Maya. Este assunto gira à volta de factos. E o que é facto é que esses tipos da província são todos da mesma laia.

 

-Mas as tribos, Dan! Para quê este ataque às tribos? o que é que achas?

 

- É muito simples: eles estão a tentar impor uma nova forma de legitimidade. Pretendem anular os privilégios de que Tenenga usufrui por ser uma fundação e para tal têm de opor a voz do povo à do sultão. Deste modo, irão provocar uma discussão sobre a constituição e obter licenças através de subornos. É algo assim que eles pretendem...

 

- Mas isso é impossível. As tribos nunca irão na conversa deles.

 

- Tens a certeza? Ontem o D. O. Pa Ulay foi de novo visitar os ipak. Já lá estivera há três meses. Na altura aparecera com alguns representantes da United e com um contrato na mão. Como a tribo se recusou a ouvi-lo, desta vez decidiu mudar a estratégia: não levou taiwaneses, mas sim um helicóptero cheio de presentes. E não eram as coisas de plástico habituais, não. Eram palangs, ganchos e até mesmo duas armas.

 

- E então?

 

- Então... Eles continuam a recusar-se a assinar. Foi o Tara quem os impediu de assinar. Mas deves imaginar como ficaram fascinados com as coisas que lhes ofereceram. E o pior é que o homem deixou os presentes, apesar de o Tara e os outros quase o terem expulsado. Pergunta-lhe!